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As narrativas políticas e a ascensão


evangélica
A ascensão evangélica não é, em si mesma, uma ameaça à democracia, a despeito do que as
narrativas da “guerra cultural” possam fazer crer.

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05 Dezembro 2017 | 18h00

ARBX – 15/06/2017 – São Paulo- METROPOLE-MARCHA PARA JESUS 2017 – Marcha para Jesus percorre a Av.
Tiradentes até a Praça Campos de Bagatela zona Norte da Cidade. Foto Rafael Arbex / Estadão

Por Fábio Lacerda

Nos últimos anos, o Brasil viveu um processo de radicalização e acirramento políticos. De modo talvez
inédito desde a redemocratização, a própria democracia brasileira está sendo questionada. Afirmações
de que “as instituições estão funcionando” soam irônicas. A busca pela compreensão rigorosa das causas
do processo político em curso é, muitas vezes, ofuscada pela disputa entre narrativas conflitantes. Se é
verdade que a construção dessas narrativas é por vezes parte de um esforço sincero para compreender a
realidade, é também verdade que, com frequência, elas se assemelham mais a esforços ideológicos para
alimentar a atual “guerra cultural”.

Um elemento marcante nessas narrativas é o da ascensão evangélica no Brasil. O ativismo político


evangélico se tornou objeto de grande interesse e, talvez, de grande preocupação por parte da opinião
pública brasileira. Essa preocupação se baseia em certas suposições encontradas na mídia e na academia.
Segundo elas, o ativismo político evangélico seria uma potencial ameaça para uma democracia liberal
secular. Líderes evangélicos atuariam como “coronéis”, controlando “currais” eleitorais que seguiriam a
orientação política dos seus pastores. Esses líderes ofereceriam o apoio eleitoral de seus “rebanhos” a
políticos, que, em troca, beneficiariam as igrejas. De modo semelhante, pastores se candidatariam a
cargos legislativos com o apoio de suas congregações, e, uma vez eleitos, produziriam políticas para
benefício de seus fiéis, minando o Estado laico. Seriam essas suposições verdadeiras? Seria a ascensão
evangélica uma ameaça à democracia? Não exatamente. Este artigo oferece breves considerações
empíricas e teóricas sobre a mobilização política evangélica. O argumento é que ela não é, em si mesma,
uma ameaça, a despeito do que as narrativas da “guerra cultural” possam fazer crer.

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O “mercado religioso” brasileiro vem passando por transformações profundas, que se acentuaram a
partir da década de 1970. Entre os aspectos mais importantes dessa transformação estão o crescimento
acentuado do percentual de evangélicos (sobretudo pentecostais), o declínio do percentual de católicos e
o crescimento do percentual dos que se declaram “sem religião”. Segundo pesquisa amostral recente do
Datafolha, 52% dos brasileiros adultos hoje se declarariam católicos, 32% evangélicos (20% pentecostais e
neopentecostais) e 8% “sem religião”[1].

Desde a década de 1960, cientistas sociais passaram a se interessar pelas consequências políticas do
crescimento pentecostal na América Latina. No entanto, foi apenas a partir dos anos 1990 que o número
de trabalhos sobre o caso brasileiro começou a crescer. Há várias razões para isso, mas uma em especial
merece atenção: a partir dos anos 1980, algumas igrejas pentecostais brasileiras passaram a adotar um
modelo de representação corporativa, engajando-se na disputa eleitoral com “candidatos oficiais”. O caso
mais conhecido é o da Igreja Universal, que já elegeu dezenas de representantes para a Câmara dos
Deputados, Assembleias estaduais e Câmaras municipais. Graças à adoção desse modelo, o número de
políticos evangélicos vem gradativamente crescendo no país, fazendo com que a ascensão evangélica na
política brasileira ganhe destaque como elemento marcante das narrativas da “guerra cultural” em curso
no país.

A adoção do modelo corporativo por parte de igrejas pentecostais, aliada ao perfil dinâmico e assíduo ao
culto dos fiéis pentecostais contribuiu para a suposição de que igrejas pentecostais teriam considerável
“força” política, detendo “rebanhos” eleitorais prontos para votar em seus pastores. A atual presença
“força” política, detendo “rebanhos” eleitorais prontos para votar em seus pastores. A atual presença
pentecostal na política e no debate público reforçaria tal leitura. Tome-se, como exemplos recentes, o
crescimento do número de deputados pentecostais; a eleição em 2015 do então deputado Eduardo Cunha,
ligado à Assembleia de Deus, para a presidência da Câmara; as inúmeras menções a “Deus” na votação
sobre a admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff; e a eleição do senador e bispo
licenciado Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio de Janeiro em 2016.

Esses fatos atestam que algo mudou. Políticos evangélicos, sobretudo pentecostais, fazem parte do atual
panorama político brasileiro. Porém, isso não significa que a ideia de líderes religiosos controlando
“rebanhos” eleitorais e suposições semelhantes sejam inteiramente verdadeiras. Segundo pesquisa
supracitada do Datafolha, apenas 26% dos evangélicos seguiriam a orientação do seu pastor na hora de
votar. Entre neopentecostais, esse percentual chegaria a 31%. É verdade que esses percentuais são
provavelmente subestimados, dada a existência de um viés de desejabilidade nas respostas. É possível
que alguns respondentes não se sintam confortáveis em responder ao pesquisador que votam no
candidato apoiado por sua igreja. Ainda assim, são percentuais muito inferiores ao que o senso comum
faria crer sobre a obediência dos fiéis a seus líderes religiosos.

Na verdade, a literatura recente das ciências sociais vem colocando em questão a maior parte das
suposições pessimistas sobre o ativismo político evangélico. A ideia de que políticos evangélicos atuam
em bloco ou que possuem um “projeto pentecostal” de poder tem sido rechaçada. A suposição de que
esses políticos são mais clientelistas do que os outros pode, talvez, servir a certas narrativas, mas não foi
demonstrada empiricamente. O fenômeno de igrejas apoiando candidatos, como dito, é circunscrito a
poucas igrejas pentecostais. Apesar do apoio, e embora o número de candidatos evangélicos eleitos para
a Câmara seja maior hoje do que era há 20 anos, o crescimento não foi constante, e, mais importante, não
espelha o da população evangélica brasileira. Pode-se defender ou não a ideia de uma representação
política descritiva, isto é, de que o parlamento deve ser um espelho fiel da composição da sociedade.
Porém, se a ideia for defendida, parece difícil argumentar que ela deve valer apenas para alguns grupos
minoritários, e não para outros. E o fato é que, embora sejam hoje quase um terço da população
brasileira, os evangélicos eleitos em 2014 não chegaram a 14% da Câmara (não se deve confundir o
número de deputados evangélicos com o de deputados integrantes da Frente Parlamentar Evangélica;
muitos integrantes da Frente não são evangélicos).

É verdade que algumas igrejas pentecostais têm, sim, um desempenho eleitoral notável. De fato, se o
percentual de evangélicos eleitos para a Câmara chegou perto dos 14%, foi em larga medida devido ao
sucesso de algumas poucas igrejas. Em pesquisa recente[2], apresentei dados sobre a taxa de sucesso de
algumas das igrejas que adotaram o modelo de representação corporativa. Em 2014, a Igreja Universal
lançou 19 candidatos a deputado federal e elegeu 13; a Assembleia de Deus lançou 48 e elegeu 23; a Igreja
do Evangelho Quadrangular lançou oito e elegeu cinco. Se, por um lado, esses números não representam
um sucesso absoluto, por outro atestam um sucesso notável. A lei que proíbe a propaganda política em
bens de uso público (Lei 9.504/97, Art. 37) é vaga e deveria ser melhor definida para garantir que igrejas
não façam propaganda eleitoral em seus templos. Ainda assim, é necessário enfatizar que o fenômeno se
refere a poucas igrejas pentecostais.

As preocupações sobre a mobilização política pentecostal são normais e legítimas. Elas estão
relacionadas a uma discussão maior sobre o papel das religiões nas democracias liberais. Se as religiões
manterão sua vitalidade no futuro próximo (e tudo indica que o farão), é necessário refletir sobre qual
deve ser seu papel num sistema político democrático. Essa reflexão, porém, supõe também uma
compreensão sobre qual é, atualmente, tal papel. E o que as pesquisas recentes das ciências sociais vêm
mostrando é um cenário mais complexo do que o senso comum faria supor. Em termos empíricos,
precisamos entender as consequências do crescimento político pentecostal, não nos limitando apenas ao
que gostaríamos que tais consequências fossem. Do contrário, corremos o risco de fazer “sociologia
normativa”, definida jocosamente por Robert Nozick como “the study of what the causes of problems
ought to be” (o estudo do que as causas dos problemas deveriam ser). Em termos teóricos, precisamos
distinguir, como diz Paul Weithman, aqueles que violam as obrigações de cidadania de uma democracia
liberal daqueles que simplesmente defendem políticas das quais discordamos. É possível que muitos dos
liberal daqueles que simplesmente defendem políticas das quais discordamos. É possível que muitos dos
que se opõem às bandeiras políticas defendidas por grupos evangélicos justifiquem sua oposição
acusando os evangélicos de violarem as regras democráticas. Isso seria, obviamente, uma injustiça.

Fábio Lacerda é doutor em Ciência Política pela USP e professor da FEI.

[1] “Na hora do voto, 19% dos brasileiros com religião seguem líder da igreja”, Datafolha, 26/10/17.
[2] Fábio Lacerda (2017). “Evangelicals, Pentecostals and Political Representation in Brazilian Legislative
Elections (1998-2010)”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 32, no. 93.

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