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AS MULHERES

MÉDIU S
Carlos Bernardo loureiro

S MULHERES
"
EDIU S

FEDERAÇÃO ESP[RITA BRASILEIRA


DEPARTAMENTO EDITORIAL
Rua Souza Valente, 17
20941·040 - Rio-RJ - Brasil
ISBN 85-7328-089-1

2~edição

Do 6Q ao 1(/2 milheiro SUMÁRIO


Capa de MARCELO LOUREIRO

B.N. 128.794 Apresentação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11


Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 15
5,27-AA; 000.5-0; 3/1998 Elisabeth Eslinger '. . . . . . . . . . . . . 21
Copyright1996 by linda Gazzera. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
Experiência com o Or. Enrico Imoda 30
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASIU:,]Kt\
(Casa-Máter do Espiritismo) Experiências com o prof. Charles Richet . . . . . . . 32
Av. L-2Norte -Q. 603 -Conjunto F Gladys Osborne Leonard . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
70830-030 - Brasília-DF - Brasil Eusápia Palladino 39
Movimento de Objetos (Levitação) 42
Composição, fotolitos e impressão offset das Experiências em Gênova 44
Oficinas do Departamento Gráfico da FEB Pasqualina Pezzola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
Rua Souza Valente, 17 Georgette Bussat . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
20941-040 -Rio, RJ -Brasil Laura Edmonds 59
Teresa Neurnann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
C. G. C. nº 33.644.857/0002-84 1.E. nº 81.600.503
Sra. John H. Curran .............•........... 66
Impresso no Brasil Alcina '. . . . . . . . . . . . . . . . . .. 74
PRESITA EN BRAZILO lay Fonvielle e a Sra. Bullock. . . . . . . . . . . . . . . . .. 77
Grace Rosher ' . . . . . . 83
As irmãs Uzzie e a May Sangs 87
lole Catera ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
Pedidos de Uvros à FEB -Departamento
Ivy Beaumont . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
Editorial, via Correio' ou, em grandes enco- Helen Smith ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
mendas, via rodoviário: por carta, telefone Ada Bessenet . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
(021) 589-6020, ou FAX (021) 589-6838.
AS MULHERES MÉDiUNS
Cora L V. Richmond 111
Mary Hollis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .' . . .. 195
Ada Emma Deane 113
Emily S. French . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196
As Irmãs Fox 117
Marcia M. Swain 196
Ann NovaI< . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 126
Mick Micheyl . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 Eliz.abeith Blake. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . 196
Harriet Elizabeth Beecher-Stowe . . . . . . . . . . . . . . 132 Marshall. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199
Geraldine Cummins . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 Dirlorélh Azevedo de Simas Enéas. . . . . . . . . . . . . 202
Elizabeth d'Espérance 141 fatos que merecem registro . . . . . . . . . . . . 205
René Boulet . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . 150 Hayden (Sra.) 207
Desmaterialização da médium 154 de Girardin 211
Madame Fraya . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156 Ai;, meninas médiuns 219
Joy Snell . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159 Warner 224
Stanislawa Tomczyk 229
MÉDIUNS CATÓLICAS
Marthe Béraud (Eva Carriêre) , 234
Teresa de Jesus (1515-1582) 164 Ai;, pesquisas da Ora. Juliette Alexandre Bisson. 237
Maria de Jesus (1787-1862) 168 Ai;, pesquisas do Dr. Albert Scherenck-
Maria de Jesus d'Agreda (1602-1665) . . . . . . . . 169 -Notzing . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241
Marie de Moer! (1812-1863). . . . . . . . . . . . . . . . 169 Ai;, pesquisas de Gustave Geley . . . . . . . . . . . . 243
Catarina de Siena (1347-1380) 170 Hilda Negrão 247
Maria da Paixão (1866-1912) 170 Laura Pereira 251
Anne-Catherine Emmerich (1674-7) 170 Ana Prado. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255
Teoria sobre o mecanismo da levitação 171 Primeiras manifestações . . . . . . . . . . . . . . . . . . 256
Joana d'Arc (1412-1431) 173 Moldagens em parafina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 256
Ermance Dufaux . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177 Ai;, Materializações de Raquel 257
Kathleen Goligher . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 181 Primeira Materialização de Raquel. . . . . . . . . . . 257
CINCO MULHERES E AS CORRESPONDÊNCIAS Segunda Materialização 259
CRUZADAS Terceira Materialização 261
A Despedida de Raquel 262
A. W. Verrall, Leonore Piper, Alice Fleming Helen Elisabeth J. Compton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 265
Fleming e a Sra. Willett : . . . 187
Cora L. V. Richmond e Emma Hardinge Britten. . . 271
MÉDIUNS PARA VOZES DIRETAS DHlia Dlogo 275
Adelaide Câmara (Aura Celeste) 288
Sra. Wriedt . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
Helena Petrovna Blavatsky 292
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDiUNS "I
Dolores Bacelar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .•.. . . .
I
298
Ophelia Corrales. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 305
Frederica Hauffe 308
Yvonne do Amaral Pereira 311
Helena Vieira Costa (Mãe Helena) . . . . . . . . . . . . . 322
Eileen Garrett . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 330
Angélique Cottin 339
Blanche Cooper . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 342
Leonore Piper . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 346
Agnes Nichol 363
Marie Mahé 368
Henriette Weisz-Roos 372
Mary Craig Sinclair ..........•............... 374
Fathma Ben Rorndane . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 379
Joana Thereza Vieira de Uma (Abigail Uma). . . . . 387
Este trabalho é dedicado às meninas médiuns
que, ao lado do mestre Allan Kardec, contribuíram,
Benedita Fernandes. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 390
decisiva e abnegadamente, para o advento do Conso-
Joana Pedro Pereira 393
lador predito por Jesus.
Argemira de Oliveira Costa (Ceci Costa) 396
Aurora A. de los Santos de Silveira . . . . . . . . . . . . 398 CARLOS BERNARDO LOUREIRO
Adele Marginot 401
Emilie Collignon (nascida Bréard) 405
Florence Cook. . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . 410
Edith Hawthorne 421
Adela Albertelli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 430
O caráter de Xantipa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 432
São Luís de Tolosa 433
Zilda Gama .........................•...... 435
lngeborg Dahl . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 441
Mina (Margery) Crandon 447

índice Alfabético das médiuns . . . . . . . . . . . . . . . . 455


Sugestão de leituras adicionais . . . . . . . . . . . . . . . 459

AS MULHERES MÉDIUNS
APRESENTAÇÃO

Dispenso-me da apresentação do autor desta obra.


Carfos Bernardo Loureiro é sobejamente conhecido no
Movimento Espfrita brasileiro, pela sua contribuição valio-
sa à literatura espfrita deste Pafs, como escritor e jornalis-
ta.
Mas cumpre-me dizer algo a respeito deste livro que
o Departamento Editorial e Gráfico da Federação Espfrita
Brasileira lança a público, com muita satisfação.
Em meados do ano de 1995, Carlos f)ernardo Lou-
reiro remeteu-nos dois ou três trabalhos destinados à re-
vista REFORMADOR, acompanhados de carta explican-
seu propósito de elaborar uma série de biografias de
médiuns do sexo feminino.
Vislumbrei nesses artigos excelente matéria para
ser explorada, não como trabalhos esparsos, mas para a
composição de um livro de interesse geral, pela sua pró-
natureza.
Mulheres médiuns! Sim, ali estava o tftulo ideal para
uma obra de fôlego, englobando biografias de muitas mu-
lheres que contribufram, de múltiplas formas, para evi-
denciar esse extraordinário dom que permaneceu incom-
preendido, por séculos e milênios, no mundo em que vi-
vemos - a mediunidade.

AS MULHERES MÉDIUNS
A literatura espfrita, tão rica na bibliografia sobre os
o Cristo de Deus, em sua Mensagem de ensinos e
exemplos, e o Consolador, em sua Doutrina de escla-
mais diversos assuntos de que se tem ocupado, não pos- recimentos e de consolações, mostraram o grande enga-
sufa, ainda, senão esparsamente, uma obra séria que cui- no do desprezo e da desqualificação da mulher, como se
dasse especificamente das personalidades femininas por- fosse um ser inferior ao seu companheiro de jornada
tadoras da mediunidade ostensiva. evolutiva.
Era a oportunidade, inclusive, de se reconhecer que Os tempos novos estão restabelecendo a verdade
as mulheres nada ficam a dever aos homens no que con- igualdade de valores entre os sexos, embora as fun-
cerne ao dom e ao exercfcio da mediunidade. sejam diferentes.
Feita a ponderação ao autor dos artigos, concordou O exercfcio e o dom da mediunkJade estão demons-
ele de imediato com a idéia, lançando-se às pesquisas e trando que, também nesse terreno, como nas demais ati-
à elaboração deste livro, baseado em vasta fonte de con- vidades humanas, não há superioridade masculina.
sultas. O livro de Carlos Bernardo Loureiro é mais uma
Ao lado de cerca de uma centena de traços biográfi- comprovação irretorqufvel de que a discriminação da mu-
cos de médiuns femininos de várias nacionalidades estão lher tem sido um grande equfvoco do homem, imposto
a análise e a apreciação. do fenômeno mediúnico apre- através de suas instituições e de suas leis, de usos e cos-
sentado pela personalidade focalizada. tumes consagra.dos pelas tradições. A evolução da Hu-
O leitor vai constatar, no decorrer da leitura, alguns manidade vai permitindo retificar esse lamentável erro.
fatos interessantes, como, por exemplo, (aJ o grande nú- Os leitores de '~s mulheres médiuns" vão enrique-
mero de médiuns praticamente desconhecidos no nosso cer seus cabedais de conhecimentos sobre fatos, perso-
nalidades e experiências relacionadas com os mais ex-
Movimento; (b) o extraordinário trabalho da mulher mé-
traordinários fenômenos de natureza mediúnica constata-
dium na fase de lançamento e de consolidação da Nova
dos por muitos cientistas e pesquisadores.
Revelação, esforço que Allan Kardec procurou preservar O estilo do autor torna a leitura muito agradável.
e defender de certas influências, através do anonimato; Soube ele sintetizar o que há de mais atraente e
(c) o uso de- pseudônimos, os quais apagaram a verda- importante em cada personalidade focalizada e ainda in-
deira identidade de diversas personalidades de médiuns. formar e apreciar, resumidamente, os mais variados fenô-
Há ainda a assinalar a manifestação da mediunida- menos espfritas, documentando-os com citações precisas.
de em personalidades ligadas à Igreja Católica, com to-
das as caracterfsticas do fenômeno estudada e reconhe- Rio de Janeiro, março de 1996
cido pela Doutrina Espfrita, embora a fidelidade à Igreja
tenha levado tais personalidades à utilização de lingua- Juvanir Borges de Souza
gem apropriada ao meio e à doutrina dos quais recebe- Presidente da Federação Espfrita Brasileira
ram direta e poderosa influência.
A história humana assinala profunda injustiça prati-
cada pelo homem contra a mulher, sua companheira, no
decorrer das civilizações e dos milênios.
AS MlJlHEREs MÉDIUNS 13
12 AS UUlHERES U~DIUNS
INTRODUÇÃO

Admiráveis são as realizações da Mulher nos diver-


sos setores da humanidade.
É sabido, entre os estudiosos da Codificação Karde-
quiana, que o Espírito não tem sexo; porém, ainda se en-
contra encoberta, por mistérios insondáveis, a verdadeira
função da Mulher no processo criador.
Por que a dicotomia HOMEM-MULHER, MASCULI-
NO-FEMININO? Só Deus pode responder.
Na faixa evolutiva em que nos encontramos, ainda
não nos é dada a condição de entender os meandros da
Lei Natural.
O que não se pode negar é que há profundas dife-
renças entre os dois sexos em termos de temperamento,
níveis de sensibilidade, aptidão, preferências, conforme
esteja o Espírito encarnado em corpo feminino ou mascu-
lino. Poderíamos dizer que a Mulher tem sido profunda-
mente incompreendida no transcorrer da História das Ci-
vilizações. Embora caiba ao sexo feminino o papel mais
importante na preservação e continuidade da vida no pla-
neta Terra, desenvolveu-se, contra a mulher, através dos
tempos, por parte do sexo masculino, uma agressividade
tão despropositada que se estabeleceu uma espécie de
rivalidade altamente prejudicial ao próprio relacionamento
entre os Espíritos e ao evolver desses dois seres, em que

AS MULHERES MÉDIUNS 15
os conflitos dão margem ao surgimento de terrfveis ob- toda. certeza, que o Cristo valorizou a Mulher em todos os
sessões. instantes da sua pregação.
Os representantes do sexo chamado forte, possuin- Se se analisar bem a questão, chega-se à conclu-
do mais força ffsica, colocam-se, na maioria das vezes, são de que o Homem, na verdade, sempre temeu a Mu-
como detentores do poder, relegando a Mulher a um nfvel lher, sem que se apercebesse deste sentimento. Para
inferior aos animais, esquecidos de que safram do ventre ele, o sexo oposto era um enigma e tinha o domfnio de
do ser que tanto menosprezam. algo que lhe causava profunda inveja: a percepção além
Mau grado as incompreensões, sofrimentos e des- do mundo material e o halo do mistério que o envolvia. A
prezo de que foi vItima, não se pode negar que, com refe- Igreja Católica, através dos seus sacerdotes, ambiciona-
rência à mediunidade e ao psiquismo, a Mulher sempre va ter as mesmas prerrogativas junto ao povo. Assim,
esteve na vanguarda. E isso efetivamente era reconheci- sem ter as qualidades inerentes ao sexo feminino, adotou
do pelo Homem, mesmo a contragosto. uma aparência feminil - a batina - querendo, com isso,
Estabeleceu-se, então, nesse campo, uma situação
conquistar os privilégios de que a Mulher desfrutava nos
esdrúxula: a Mulher era desprezada como ser humano e,
campos religioso e mfstico. Restava apagar as faculda-
em contrapartida, venerada como maga, consultada, em
des mediúnicas das suas rivais, o que foi feito através de
todos momentos, por homens vaidosos de suas posições
anátemas, da perseguição e da morte.
de mando. Percebiam eles que a Mulher tinha uma sensi-
Transcorreu o tempo e a Mulher, através de muitas
bilidade muito mais aguçada e que, no tra~o com o mundo
lutas, vem conquistando seu espaço na sociedade dos
invisfvel, ela apresentava, ao contrário do Homem, maio-
res possibilidades de desvendar mistérios, sondar o cha- homens. As perspectivas se ampliaram; apagaram-se as
mado· "Sobrenatural e provocar fenômenos fantásticos. fogueiras da Inquisição e, hoje, não se queimam mais
Através das chamadas profetisas, Apolo se manifestava. bruxas como antigamente. A Mulher, apesar da resistên-
Após defumações com ervas odorosas, bocas espumo- cia da ala masculina, conquistou o pleno direito de ir e vir,
sas, cabelos eriçados, gritos e grunhidos, prostravam-se de votar e ser votada e de exercitar as suas faculdades,
por dois meses, sobrevindo-lhes, em alguns casos, a sejam quais forem, livre da opressão.
morte. Fato curioso é que, mesmo entre os hebreus, onde Assim, temos notfcias, no transcorrer da história dos
a Mulher era desprezada e não tomava parte nas funções fenômenos psfquicos, de médiuns notáveis, em que as
sacerdotais, houve profetisas, como Maria, irmã de Moi- representantes do sexo feminino superam, em grande nú-
sés, Débora, Holda, enquanto que o "Novo Testamento" mero, os do sexo masculino.
registra Ana Maria eas quatro filhas de Felip6'iqo Evange- E esta obra de Carlos Bernardo Loureiro vem resga-
lista. tar, historicamente, o trabalho abnegado de mulheres mé-
desvalorização da Mulher no Mundo Ocidental diuns que muitocontribufram, até mesmo com o sacriffcio
atingiu o seu clfmax com o Catolicismo. A Igreja Católica da saúde, do conforte do lar e do lazer, para provar à Hu-
chegou ao cúmulo de pregar que a Mulher não possufa manidade que o Espfrito existe e é imortal.
alma e a realizar concl1ios para que seus representantes Em benefIcio da Ciência, mulheres entraram nos la-
decidissem sobre. tão ridfcula questão, ignorando, com boratórios e se submeteram aos maiores sacriffcios e hu-
AS IllRllHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
milhações, a fim de serem experimentadas por pesquisa- nesta obra, que foi conclufda (não por acaso, porque este
dores idôneos e competentes. não existe) no Ano Internacional da Mulher.
São tantas as personalidades femininas que coloca-
ram suas faculdades maravilhosas à mercê das vontades
de encarnados e desencarnados, que se torna diffcil, se- Salvador, Bahia, 3 de outubro de 1995.
não impossfvel, registrar a trajetória de todas elas em
urna só obra. Constituir-se-ia em uma enciclopédia, assim
mesmo incompleta, devido a determinados fatores. Lúcia Loureiro
Devemos lembrar que, infelizmente, no campo da
mediunidade, muitas médiuns se conservaram no anoni-
mato e desconhecidas suas realizações, ou porque não
foram pesquisadas ou porque os fatos extraordinários
que produziram não vieram ao conhecimento do público.
Existe, ainda, o problema da manutenção da privacidade.
Por exemplo, as meninas que colaboraram na Codifica-
ção da Doutrina Espfrita, lamentavelmente, não tiveram
divulgados os-seus dados pessoais, em prejufzo da pes-
quisa histórica do Movimento Espfrita Mundial. São, ape-
nas, citadas en passant na REVUE SPIRITE. Por que AI-
lan Kardec teria agido dessa forma? Por preservação da
pessoa diante da sociedade? Uma delas, Celina Bequet,
adotou o pseudônimo Japhet por pressão de sua própria
famma. Outras, também por questões pessoais, adotaram
nomes fictfcios, como Eva Carriere, Margery Crandon e
Elizabeth d'Espérance.
Talvez, por todos esses motivos, os relatos vão des-
de pequenas referências completamente lacunosas a re-
latórios pormenorizados, principalmente sobre as mé-
diuns do nosso Pafs, em que a pesquisa sobre os fenô-
menos mediúnicos e psfquicos não têm recebido o mere-
cido valor. Das poucas médiuns dedicadas à psicografia a
maioria dos dados biográficos é registrada por elas pró-
prias, enquanto das médiuns de efeitos ffsicos, que nem
sempre se apercebem do que se passa com a sua mediu-
nidade, conhecemos pouco ou nellJ sabemos de suas
existências. Daí, as lacunas, possivelmente encontradas
18 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 19
ELlSABETH ESLlNGER

Elisabeth Eslinger é uma médium que se inclui


entre as mais notáveis sensitivas e cujo caso, clássi-
co nos Anais das Pesquisas Espíritas, aconteceu na
prisão de Weinsberg, Alemanha, em 1835, tendo
sido examinado pelo célebre Or. Justinus Kemer, o
ilustre pesquisador de Frederica Hauffe, liA vidente
de Prevorst", quando este era médico daquela uni-
dade prisional. Sobre o momentoso episódio o Or.
Kemer escreveu uma brochura, onde reproduziu os
interrogatórios a que submeteu os prisioneiros, que
introduzia na cela da vidente, a fim de vigiá-Ia. Essa
vidente, que fora detida por infrações às reis, era, na
realidade, uma grande médium, pois antes de sua
prisão já houvera demonstrado a força de sua inusi-
tada faculdade mediúnica.
De ordem do diretor da prisão, o Juiz Mayer,
comprometeu-se a recompensar com liberdade ime-
diata, o prisioneiro que conseguisse levar a médium
a fraudar. Compreende-se, porém, que na cela de
uma prisão, cometer fraudes e artimanhas era im-
possível, tanto assim que todos tiveram que reco-
nhecer a autenticidade dos fatos. Além dos testemu-
nhos dos prisioneiros, a brochura cO,ntém as narra-
AS MULHERES MÉDIUNS 21
ções de vários sábios e artistas que o Dr. ~em~~, a redor que dava para a cela. Quando entrava pela ja-
pedido dos magistrados encarreg~dos do ~nquento, nela, que se achava num lugar alto e era fechada
convidou para passar algumas nOites no carcere da por sólidas barras de ferro, sacudia-a violentamente.
"mulher assombrada por um Espírito". Destacam-se, Alguns magistrados, querendo certificar-se a
entre os observadores que fiscalizaram a médium que ponto podiam ser sacudidas essas grades, or-
em sua cela (improvisado gabine.te mediúnico), 9s denaram a vários homens robustos que o fizessem
doutores Seyffer e Sicherer, do JUIZ Heyd, do Barao e verificaram, então, que eram precisos seis ho-
von Hugel, do Prof. Kapfp, do jurista Fraas, do pintor mens para sacudi-Ias fracamente, ao passo que o
Wagner e do gravador Dettenhoff. Espírito as sacudia com violência. Quando a entida-
"No caso em questão" - informa o Prof. Er- de se aproximava de uma pessoa, esta sentia, inva-
nesto Bozzano - "houve numerosos incidentes de riavelmente, "golpes de vento gelado" acompanha-
impressão de mãos de fogo, das. quais a última é a dos de uma espécie de crepitar elétrico e de ruídos
mais importante, porquanto os cmco dedos de uma análogos a tiros de pistola.
mão do Espírito ficaram gravados no lenço em que Além disso, o Espírito exalava um odor cadavé-
Efisabeth Esfinger envolvera a mão antes de esten- rico insuportável, que chegou a causar desmaios
dê-Ia ao Espírito". em alguns assistentes. Sua cabeça estava cercada
Além do fenômeno das impressões, verifica- de uma luminosidade fosforescente, e, ao passo
ram-se manifestações de toda a espécie, a seguir que alguns não a percebiam, outros viam uma som-
relatadas, extraídas da obra da Sra. E. Crow - bra vaporosa de forma humana, distinguindo os
"The Nighsides of Nature': que, na verdade, repro- sensitivos o aspecto moral do Espírito, tal qual o
duz o opúsculo do Dr. Justinus Kemer. descrevia a vidente.
Quase todas as Aoites Elisabeth Eslinger, que Quando o fantasma tocava uma pessoa, essa
era uma mulher sadia e robusta, com cerca de 38 sentia no lugar tocado uma queimadura e aí se for-
anos era visitada em sua cela por um Espírito que mava logo uma mancha avermelhada ou uma bolha.
dizia 'ser um padre, que vivera em.Wimmenthal (Ale- Falava com uma voz penosa e profunda, que vários
manha) e que se achava, há muito, no mundoespi- assistentes percebiam ao mesmo tempo que a vi-
ritual em condições inferiores de existência, em con- dente. Todos, indistintamente, ouviam os ruídos di-
seqüência de graves faltas que cometera quando versos que se produziam e sentiam os golpes de
vivo na Terra. Ele era, evidentemente, obsidiado por vento fresco e o terrível mau cheiro cadavérico que
um "monodeísmo post mortem" que consistia em dele exalava. A propósito da objetividade indubitável
pedir à vidente e a todo o mundo que orasse por dos fenômenos, pode-se salientar esta circunstân-
sua alma. cia. ,
Manifestava-se entrando pela porta ou pela ja- Alguns membros da comissão encarregada do
nela. Quando entrava pela porta, abria-a e fechava-a inquérito tiveram a idéia de pôr na cela da médium
de modo muito visível, pois que os assistentes o um gato pertencente aos guardas da prisão. Logo
percebiam, durante um momento, no interior do cor- que o fantasma apareceu, o gato se mostrou terri-
22 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 23
velmente impressionado e, em suas tentativas para porém, despertado cerca de meia-noite por
fugir, se atirou cegamente contra as paredes da algo que me tocava no cotovelo esquerdo.
cela. Meteu-se a seguir debaixo das cobertas do lei- Senti depois uma dor e, de manhã, quando
to e não se mexeu mais. Outra experiência se fez; olhei para essa parte do braço, vi várias man-
esta porém, com resultados deploráveis para o po- chas azuis. Disse, todavia, à Elisabeth que isto
bre felino que, desde então, recusou toda a alimen- não bastava e que era preciso dizer ao fantas-
tação e não tardou a morrer. ma para me tocar no outro cotovelo. Isto se
O Espírito se manifestou, também, nas casas deu na noite seguinte, quando senti o horrível
dos membros da comissão e na do Or. Justinus Ker- odor putrefato. As manchas azuis apareceram.
ner, anunciando-se aos presentes com seus sinais Percebi, também, os jatos de vento frio e os
habituais, consistentes em jatos de ar frio ou crepita- ruídos habituais do fantasma; mas não conse-
ções elétricas, em tiros semelhantes aos que são gui vislumbrar a sua forma: Minha esposa, ao
produzidos com uma pistola, tudo acompanhado do contrário, viu o fantasma e orou todo o tempo
terrível fedor cadavérico e dos contatos que deixa- em que ele permaneceu no nosso quarto. "
vam estigmas... Como se aproximava o dia em que Elisabeth
Elisabeth Eslinger dizia muitas vezes ao Espíri- EslinQer deveria ser solta, o Espírito a exortara, com
to que as preces de uma pecadora como ela não insistencia, para ir a Wimmenthal, a fim de orar por
podiam servir para libértá-Io ido sofrimento; que ele ele no lugar em que nascera e vivera. Ela partiu
devia, ao contrário, dirigir-se ao Redentor, ele po- para esse lugar, a conselho de pessoas amigas,
rém, continuava com suas súplicas. Quando ela lhe que a acompanharam em sua piedosa peregrina-
falava assim, ele se entristecia e se chegava para ção.
junto dela, de modo tli' que sua cabeça ficava muito Logo que a médium se ajoelhou ao ar livre e
perto do rosto de Elisabeth. Parecia ter fome de pre- começou suas orações, os presentes viram o fan-
ce. Ela sentia que lágrimas do fantasma lhe caíam tasma perto dela; mas nem todos o perceberam
sobre a face e o pescoço; eram geladas e, no en- com a mesma nitidez, sendo que uma das testemu-
tanto a médium experimentava uma sensação de nhas só enxergou, nesse lugar, uma nuvem branca.
queimadura no lugar em que elas caíam e uma mar- Elisabeth Eslinger hesitara, por muito •tempo,
ca azul e vermelha aí se formava. antes de partir para Wimmenthal como se temesse
O Juiz Mayer, diretor da prisão, não quis acre- que alguma desgraça lhe sucedesse; por isto, antes
ditar que os fatos tinham origem espírita e assim é de sua volta quis orar pelos fill1os.. Em dado momen-
que disse a Elisabeth que, se ela quisesse conven- to, os presentes notaram que não orava mais, e,
cê-lo nesse ponto, pedisse então ao Espírito que aproximando-se dela, encontraram-na desmaiada.
fosse à sua ·casa. Voltando asi, Elisabeth contou que o fantasma, an-
O Juiz Mayer narra, a seguir, o que aconteceu: tes de deixá-Ia definitivamente, lhe pedira para aper-
"Na noite seguinte ao dia em que disse isto, tar-lhe a mão. Após tê-Ia enrolado num lenço, ela
deitei-me e dormi, não esperando tal visita; fui, lha estendeu. Ao contato da mão do fantasma, uma
24 AS MUlHEFU:cS MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
Quanto à sensação de calor e frio, registrada
chamazinha se desprendeu do lenço e af se encon- pelos encarnados ao contato dos fantasmas, tem-se
traram as marcas dos dedos do Espfrito sob a forma uma explicação baseada nas hipóteses expendidas
de queimadura. . . ,. _ pelo Dr. Jorge B. Kline na revista espfrita norte-ame-
Depois desse Incidente, o Espmto nao reapare- ricana The Progressive Thinker, de Chicago, em seu
ceu mais, nem na prisão, nem na casa dos mem- número de 7 de abril de 1923:
bros da Comissão de Inquérito!
Este inusitadfssimo caso, produzido no interior "Quando um Espírito toca um dos assistentes e
de uma prisão, constitui, por si só, u.~a inquestion~­ esse experimenta uma sensação de frio, isto
vel garantia em favor da sua autenticidade. Uma SI- significa que as moléculas fluídicas que o tor-
mulação seria impossfvel. Ademais, .a~ m~smas ma- naram substancial, vibram com uma intensida-
nifestações se processaram nas resldenclas de qua- de muito inferior à das moléculas que consti-
se todos os investigadores dos .fenômenos, mesm? tuem o corpo do experimentador. Ao contrário,
no quarto de dormir do Dr. Justmus Kerner e do di- como sucede na maior parte das vezes, quan-
retor da prisão. do ao contato de uma mão de Espírito, o expe-
"Os jatos de ar frio" - comenta o ~rof. B.ozza- rimentador sente uma impressão de calor caus-
no - "que precediam constantemente a mamfesta- ticante, isto significa que as moléculas fluídicas,
m.
ção do Espírito, se produzem com f! esma cC:,}5.-
que constituem essa mão, vibram com uma in-
tensidade extraordinária. Essas variações são
tância em nossos dias, nas expenenclas medlUm- invisíveis para os vivos... "
caso Essa concordância contribui para demonstrar a
autenticidade dos fatos". Com efeito, na época em
que estes se produziram.. 1835, o movi~~Anto. espfri-
ta ainda não tinha nascido; por consequencla, nin-
guém poderia pensar. que manife~tações de ~!Tl~
entidade espiritual assim como fenomenos medlunl-
cos de natureza ffsica fossem antecedidos de "gol-
pes de ar frio". ,.
Quanto ao fenômeno estranho dos odores fetl-
dos especfficos da putrefação de cadáveres, deve-se
observar que tal fenômeno, anos mais tarde, foi ob-
servado nas sessões dirigidas pela pesquisadora
Florence Marryat, referidos e analisados em seu li-
vro 'There is no Oeath" (Não há Morte). A aut~ra
chega à conclusão que, "dissociações de su?s.tan-
cias orgânicas se produzem no corpo do medlum,
com uma emissão de azoto e outros gases que en-
gendram o terrfvel odor cadavérico".
AS MULHERES MÉDIUNS
26 AS MULHERES MÉDIUNS
mem por demais distraído e a tal ponto que fre-
qüentemente saía de casa sem levar um níquel
para suas despesas de bonde. Por isso, sua espo-
sa tinha, diariamente, o trabalho de colocar em to-
dos os bolsos do marido várias moedas trocadas
para que ele não se visse na contingência de des-
cer do veículo por falta de dinheiro, como muitas
vezes lhe aconteceu.
Ao se realizar a sessão, os assistentes foram,
LINDA GAZZERA a princípio, tocados por mãos invisíveis. Depois,
um grande ruído metálico foi ouvido na sala. Ter-
minada a sessão, verificou-se que grande quanti-
dade de moedas tinha sido retirada dos bolsos do
Prof. Lombroso pelas Entidades e jogadas em to-
Linda Gazzera nasceu em Turim, Itália. Tinha a dosos cantos da sala. O Prot. Lombroso já se
idade de 17 anos quando assistiu, em companhia achava profundamente abalado nas suas concep-
de uma de suas primas, em casa do Prof. Cesare ções materialistas, com as célebres sessões de
Lombroso (criador da Antropologia Criminal) à pri- Eusápia Paliadino. As manifestações mediúnicas
meira sessão, na sua vida, de fenômenos supranor- de Linda Gazzera, rigorosamente controladas e
mais, com a célebre médium Eusápia Palladino. Foi estudadas por ele num pequeno círculo fechado,
isso, justamente na época em que o ilustre psiquia- em sua própria residência, vieram dar o tiro de mi-
tra italiano começava a se preocupar com esses as- sericórdia nos seus arraigados preconceitos aca-
suntos tão especiosos. Ficou deveras impressiona- dêmicos. E assim, tomado de coragem, um dia de-
da com os fenômenos de materialização. A princípio clara publicamente:
não acreditou no que viu. Pensou tratar-se de frau-
de. Pouco depois, com a prima, experimentou reali- - . "Depois de ter negado os fenômenos antes
zar, na intimidade, sessões de efeitos .físicos. Logo de os observar, foi-me necessário aceitá-los
percebeu que, com a sua presença, se produziam quando, apesar disso, as provas mais manifes-
fenômenos extraordinários de tiptologia. Continuan- tas e mais palpáveis caíram sob os meus
do essas experiências com a prima e operando na olhos."
semi-escuridão, observaram-se fenômenos curiosos Essa declaração, para muitos descabida, fora
de levitação. Já nesse ponto, sendo vizinha e co- de todo propósito em relação ao espírito da época,
nhecida do Prof. Lombroso, passou a fazer demons- constitui, por si só, belíssima prova de lealdade,
trações em sua casa. A sua natural faculdade me- de honestidade, de um verdadeiro homem de
diúnica, a partir daí, progrediu sensivelmente. Numa Ciência.
das sessões, em casa do Prof. Lombroso, houve um
incidente bastante singular. O Professor era um ho-
28 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
amontoadas sobrancelhas; um tanto pálida;
Experiência com· o· DI'• Enrico Imoda olhos grandes, escuros, vivos, escrutadores; se
se deixa encarar com fixidez, apresenta desfa-
lecimentos característicos como os de uma
Foi em maio de 1908 que Linda Gazzera pas- pe~oa facilmente hipnotizável.
sou a trabalhar com o Dr. Imoda, acontecimento "E de caráter impulsivo, habitualmente ale-
este notável na vida desse experimentador. Assim gre; ri à vontade, mas passa com facilidade de
se exprime ele na apresentação do seu livro "Foto- um para outro estado de ânimo; facilmente se
grafie di Fantasmi", (impresso em 1912, após a sua entristece, Tem tendência à infantilidade; gosta
morte, pela Editorial Fratelli Bocca). muito de brincar com crianças. E singular nos
"La mia buona sorte me aveva finalmente, seus hábitos; aprecia dormir durante o dia e ve-
dopo parechi anni di ricerche infrultuose, dato lar à noite.
ne/le masci una media accezionalmente poten- "Durante a noite lê, costura suas roupas. Es-
te nelfa materializzazione; e, fortuna ancor piú creve novelas e historietas e as envia aos jor-
accezionale, aI primissimo esordire della sua nais populares. Tem discreta cultura literária;
medianita. " aprecia o estudo das línguas estrangeiras e
mostra tendência para o desenho. "
O único objetivo do Prof. Imoda em seus estu- Falando das características no transe de Linda
dos era o de conseguir fotografar as produções ma- Gazzera, afirma o Prof. Imoda:
terializadas. Com paciência beneditina, esse pesqui-
sador extraordinário. levou dois. anos sem esmorecer "O seu transe ou seu sono mediúnico, apre-
sequer um sÓ instante, entre os mais desanimado- senta duas prerrogativas preciosas: a médium
res fracassos, para poder ver coroadas de êxito as adormece com uma extraordinária facilidade e
suas provas reais da objetividade dos fenômenos de rapidez; em poucos minutos passa à fase de
efeitos físicos e de materialização de Espíritos. lúcido sonambulismo mediúnico, e, no fim da
Diz ele, ainda, em sua obra supracitada: sessão, com a mesma rapidez, com um sim-
"Ivano durante molti mesi colfocai la machine ples e ligeiro sopro nos olhos e uma chamada
ad atteni iI fenomeno.· AI lampo deI magnesio pelo nome à voz baixa, desperta repentinamen-
esequito aI segnale dato media non altro si re- te em completa lucidez. 1J
fletteva sulfa lastra che I'emagine della nostre Uma terceira característica do transe de Linda
persone". - Gazzera é uma excepcional fotofobia: não suporta
Linda Gazzera, nessa época tinha 22 anos de nenhuma luz. Durante o transe, a médium apresen-
idade. O Prot. Imoda, descrevendo a constituição e ta, na sua condição fisiológica e psíquica, um com-
a personalidade de sua médium, diz o seguinte: portamento muito diferente.
"É de estatura normal, é bem feita de corpo. "Na sua melhor condição o transe é tranqüilo:
Cabelos negros e abundantes, negríssimas e a médium é contente, alegre sem exagero, cor-
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 31
tês amável. Mas, se na hora precedente â ses- apreciar a intensidade dos fenômenos produzidos
são ela se aborrece, se encoleriza ou se ame- na "cidade luz", pela faculdade mediúnica de Lindà
dronta; ou se ainda na sessão se apresenta a Gazzera.
pessoa a ela antipática; ou finalmente se no As sessões se realizaram na residência do Dr.
seu sono o subconseiente é tomado de alguma Richet, com a assistência de Mme. Richet Charles
paixão; se seu estômago se encontra em ativi- R!chet Fil~o e o Sr. Fon!enay. Já na segu'nda ses-
dade digestiva, então o caráter da médium e a sao (domingo, 17 de abn! de 1903) escrevia Dr. Ri-
fisionomia da sessão mudam completamente. chet ao Prof. Imoda:
Nesse caso, a força mediúnica é ainda mais "Caro amigo:
enérgica fisicamente. Golpes tremendos que
espatifam os· móveis são dados, assemelhan- qomo você já de,ve s?ber pelo meu telef/rama,
do-se aos de um malho. A médium transpira, tIvemos ontem a nOite uma experiêncIa com
agita-se, debate-se, contorce-se; a personali- admirável sucesso. Graças a Fontenay, que é
dade mediúnica muda o seu caráter e assume um excelente fotógrafo e tem ótimos aparelhos
conduta violenta, brutal!" obtivemos três boas chapas que mostram um
antebraço e uma mão."
O Prof. Imoda descreve duas personalidades
mediúnicas que orientavam os trabalhos nas sessões Linda Gazzera, pela sua extraordinária contri-
de Linda Gazzera. Uma se dizia chamar "Vicenzo", buição à Causado Espírito, inscreve-se no rol das
ex-oficial de cavalaria. O caráter fundamental dessa mais destacadas medianeiras que, cumprindo de-
personalidade era o de conservar absoluta autonomia. sígnio_ superior tentaram (e ainda tentam) chamar a
A segunda personalidade dizia-se chamar "Canota". atençao do Homem para a realidade espiritual.
Apresentava-se à sessão com uma fISionomia físico-psí-
quica muito diferente da de ''Vicenzo''.

Experiências com o Professor Charles Richet


Tendo sido apresentada ao Dr. Richet pelo
ProL Imoda, Linda Gazzera, em fins de 1909, vai a
Paris trabalhar com o criador da. Metapsíguica.
Grande número de sessões foi realizado no Circulo
de Pesquisas do mestre francês.
O sucesso que as sessões de Linda Gazzera
provocaram em Paris, no Círculo do Dr. Richet,
pode ser avaliado pelas inúmeras cartas-relatos que
este endereçou ao Prof. imoda. Transcreveremos
apenas trechos de uma delas para se poder bem
32 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 33
de ~Iadys Leonard. Feda afirmava ser indiana de
nascimento. O Espírito-guia tinha uma voz aguda "e
man!3irismos. i~fantis" que e~am ao mesmo tempo
gracIosos e Irntantes .Todavla, assumiria uma séria
e frutuosa missão. Com a aproximação da Primeira
Guerra Mundial, Feda previu a catástrofe e informou
a GI~dys Leonard que prestaria assistência espiri-
tual, Juntamente com falanges de Espíritos socorris-
tas, .aos parentes e amigos dos soldados mortos.
Partlcula~ente, Gladys Leonard atendia pessoas
GLADYS OSBORNE LEONARD que desejavam contatar, mediunicamente com seus
~ntes queridos vítimas da Guerra. Certo diá, bateu-lhe
a porta Lady Lodge, esposa do célebre Sir Olivier
Lodge que realizou memoráveis sessões com a mé-
dium, onde se manifestou Raymond Lodge morto
Na mesma época em que florescia, exuberan- na Primeira Guerra Mundial. '
temente a faculdade mediúnica de Leonore Piper, Em .1916, Lod~e .publica o seu relatório, cir-
em Boston (EUA), Gladys Osbome começava a vida cunstanclando os tramites das sessões experimen-
em Lytham, em Lancashire (Inglaterra). Quando
tais realizadas com Gladys Leonard, que obtinham o
criança tivera lindas visões de paisagens a que cha-
mava de "Vales Felizes". A família, abastada, sofreu mesmo status das de Leonore Piper. Assim como a
sérios revezes financeiros, quando Gladys Leonard famosa médiu~ de Boston (EUA), Gladys Leonard
atingia a adolescência. Viu-se obrigada a trabalhar. prestou-st;, pacientemente, às pesquisas da Society
Entrou para o teatro itinerante, onde cantava e dan- for Psychlcal Research, de Londres, que tiveram im-
çava. Tomou-se uma .bela mulher - ~Ita, loura e cio com Sir Oliver Lodge e se prolongaram até a dé-
majestosa, com maravilhosos olhos azUis! Casou-se cada de 40. Nas sessões de Gladys Leonard era co-
com um companheiro de profissão, chamado Frede- mum o fenômeno de voz direta. Feda transmitindo
rik Leonard, dando prosseguimento a sua carreira ~ensagens de além-túmulo, era, não raro, interrom-
artística. Os bastidores teatrais foram o berço de p~da por um sussurro gU!3 parecia vir do espaço va-
sua mediunidade. Esta, por sinal, começou da ma- ZIO, . b.em perto da medlum. Essa voz, masculina,
neira (à época) habitual dos médiuns de efeitos físi- corngla ou melhorava as afirmações de Feda. Os
cos - com as mesas girantes! Gladys Leonard e testes acústicos determinaram que a voz não provi-
duas atrizes tentaram realizar experiencias com a nha da médium.
mesa pé-de-galo, sem lograr êxito. Um dia, contudo, Outras duas notáveis facetas da mediunidade
a mesa começou a se mover, por meio de batida~ de Gladys Leonard foram chamadas de "TESTES
rápidas transmitindo mensagens de pessoas falecI- DO~ LIVROS" e "SESSÕES INDIRETAS", ambas
das, em que se destacava a da mãe da ~édiu~. destinadas a estabelecer a separação entre os fenô-
Logo em seguida, comunicou-se Feda, o Espmto-gUla
AS MULHERES MÉDIUNS 35
34 AS MULHERES MÉDIUNS
menos mediúnicos daqueles consideradosparanor-
mais (anímicos). Afirmava-se que os testes dos li- mitir que a médium possuía poderes telepáticos e
vros foram sugeridos pela própria Feda. Em um des- clarividentes incomparáveis.
Quanto às "SESSÕES INDIRETAS" suscita-
ses testes, Gladys Leonard descrevia uma casa
vam implicações semelhantes. Em tais e~perimen­
onde nunca tinha. estado, depois especificava uma tos, um substituto assistia à sessão em lugar de ou-
estante dentro dessa casa, uma prateleira na estan- tra pessoa, sobre quem o participante e a médium
te, a localização de um determinado livro e página. sabiam o mínimo possível. Esse processo destina-
Em um teste bem-sucedido, o texto assim especifi- v~-se a evitar que o médium conseguisse informa-
cado revelava uma mensagem pertinente a um par- çoes lendo os pensameDtos dos participantes. Um
ticipante da sessão. Um dos mais famosos testes desses casos de "SESSAO INDIRETA" envolve um
dos livros foi registrado por Lady Pamela Glencon~ menino de 1.0 al!0s, chamado Bobbie Newlove, que
ner, cujo filho Edward Wyndham Tennant, conheci- morreu de dlftena. Sobre ele Feda transmitiu dados
do na famma como Bin, morrera em 1916, na bata- em profusão. Descreveu um saleiro que pertencera
lha de Somme. Uma famosa piada dafamma Glen- ao garoto, uma fantasia para baile de masc§ua que
conner se refere à paixão de Lord Glenconner pelas ele ~erta vez usara, egu!pamentos de exercIcio que
florestas. O maior inimigo de Lord Glenconner era havia em seu quarto, vIsitas a um laboratório de quí-
um besouro que atacava as árvores. Quando Lord mica com seu avô, uma menininha de quem o meni-
Glenconner participou de uma sessão com Gladys no ~ostava, um ,ferimento que sofrera no nariz (...) O
Leonard em dezembro de 1917, Feda transmitiu-lhe mais estranho e que o Espírito de Bobbie informou
a seguinte mensagem: que algumas semanas antes de morrer o contato
"Bin agora deseja mandar uma mensagem com o encanamento venenoso minara sua resistên-
para seu pai. Este livro é para, ele em particu- cia à difteria. Sua família não reconheceu essa refe-
lar. 'Sublinhe isso', disse Bin. E o nono livro da rência; mas investigações posteriores descobriram a
terceira prateleira, contando da. esquerda para t:xistêpcia d~ tubos no local. eSl?ecificado pelo Espí-
a direita, na estante à direita de quem entra na nto. E provavel que Bobble tivesse bebido água
sala;. veja o título e olhe a página 37". contaminada desses encanamentos.
Gladys Leonard faleceu em 1968, aos 86 anos.
, O título do livro a que o Espírito se referia era Entre os pesquisadores que estudaram a sua faculda-
"Arvores". Nas páginas 36 e 37 estavam as palavras de mediúnica figuram Eleanor SidgwIck (1845-1936)
'~s vezes podem ser vistas curiosas marcas na que presidira a "Society for Psychical Research" ....:.
floresta; são causadas por um besouro" (...) SPR, além do Primeiro-Ministro britânico Arthur Sal-
four (admirado por Ruy Barbosa), e Sir Conan Doy-
Os investigadores damediunidade de Gladys le, que a considerava liA maior médium de transe
Leonard chegaram à conclusão, diante de tais e fan- com a qual já teve contato".
tásticos testes, que, se fosse excluída a possibilida-
de da comunicação espiritual, seria necessário.ad- "O grande valor de seu dom", acrescenta o au-
tor da série Sherlock Holmes - Ué que, em re-
36 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 31
gra, ele é contínuo. Não é interrompido por lon-
gas pausas ou por intervalos improdutivos, mas
flui exatamente como se a pessoa que se su-
põe falar estivesse presente. "

EUSÁPIA PALLADINO

Eusápia Palladino Signora Raphael Deldaiz nas-


ceu em Minervino (Itália) a 31 de março de 1854 e
desencamou em Nápoles no dia 16 de maio de
1918.
Era mulher de grande simplicidade de alma,
simplicidade que não excluía certa finura. Entretan-
to, não possuía nenhuma cultura intelectual. Não sa-
bia ler e no princípio de sua vida científica falava
apenas o napolitano e pouco o italiano. Mas, sendo
muito inteligente, aprendeu a compreender e mes-
mo a falar um pouco de francês. Era de pequena
estatura, mais gorda do que magra, com mãos mui-
to pequenas.
Foi sempre muito infeliz. Seu pai, um campo-
nês napolitano, morreu assassinado por malfeitores.
Seu marido explorou-a e maltratou-a. Como era
muito generosa e dava aos pobres, gastava desas-
tradamente tudo o que ganhava, pelo que acabou
morrendo no abandono e na miséria.
Eis como a própria Eusápia conta o início de
sua carreira:
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
no.u-se c~locar, a alguma distância, uma lâmpada
"Na época em que comecei a participar de ses- cUJa luz filtrasse por uma porta ou por uma venezia-
sões espíritas, estava em Nápoles uma senho- na entreaberta.
ra de origem inglesa que havia desposado um Er'!l suas ex~eriências Eusápia era ajudada por
napolitano, um Sr. Damiani. Um dia em que ela seu gUia, John Klng, que teria sido irmão de Katie
participava de uma sessão, foi-lhe dirigida uma King, e pai.da médium italiana em uma vida pregres-
mensagem escrita, dizendo que havia chegado sa. A .re.ahdade dessa personalidade mediúnica é
há pouco a Nápoles uma pessoa, que estava verOSSimilmente flagrante. Esse Espírito surgiu quan-
na rua tal, número tal e se chamava Eusápia, e dI? d~ suas primeiras experiências com o Sr. E. Da-
que era médium poderosa, e o Espírito comuni- miam que, em Nápoles, começou a dirigi-Ia, e sobre-
cante, John King, dizia-se disposto a manifes- tu~o com o Prof. Ercole Chiaia, que foi o protetor co-
tar-se, através dela, com fenômenos maravilho- raJoso e perseverante de Eusápia.
sos. O Espírito não falou a um surdo, porque a . No mo~ento da experiência que deveria deter-
senhora quis verificar imediatamente a veraci- ~lnar o mC;>VImento de objetos, sem contato,Eusá-
dade da mensagem e se dirigiu para a rua tal, pia p~evenla que um fenomeno se iria produzir. A
subiu ao terceiro andar, bateu em uma porta e atençao dos observadores aumentava e todas as
perguntou se ali morava certa Eusápia; e me precauções, nesse momento, eram tomadas para
encontrou, a mim, que jamais havia imaginado que nenhuma fraude fosse possível.
que um tal John King houvesse vivido neste ou
no outro mundo. E eis que, mal me colocaram ':Cada movimento de objeto a distância"- as-
a uma mesa com esta senhora, John King se smala o Dr. Charles Richet - "parece provoca-
manifestou e não me largou mais. " do por um esforço muscular energico de Eusá-
pia. Contrai os braços, as pernas e o corpo.
A maioria dos sábios contemporâneos estudou Tudo se passa como se sua contração muscu-
a portentosa faculdade mediúnica de Eusápia Pal- lar devesse agir a distância. Não está em esta-
ladino, entre os quais destacam-se Ercole Chiaia, do de transe, de início, mas pouco a pouco no
Alexandre Aksakof, Schiaparelli, Cesare Lombroso, correr da sessão, se estabelece o transe éada
Charles Richet, E. Morselli, Brofferio, Emesto Boz- vez mais profundo, por uma passager1J gra-
zano, A. de Gramont, Julien Ochorowicz, Albert dua/" ("Tratado de Metapsíquica'').
Scherenk-Notzing, Albert de Rochas, J. Maxwell,
Camille Flammarion, Frederico Myers, Sir Oliver Lodge Era. difícil hip~otizar Eusápia. O Dr. Julien
Sr. e Sra. Sidgw1ck, Feilding, Carrington etc. ' Ochorowlcz magnetlzava-a após cada sessão para
As sessões com Eusápia, de início eram feitas lhe dar um so~o reparador. De fato, depois de cada
em plena luz, depois, aos poucos, porque os fenô- trabalho e~penmental (que às vezes se estendia por
menos se tomavam intensos, ela pedia que a luz duas ou tres horas) ela se sentia visivelmente esgo-
fosse diminuída - meno luce!. Finalmente, a obs- t~da. 0$ fenômenos que provocava eram bastante
curidade era completa; mas, como na obscuridade diversos. Foram, sempre, fenômenos objetivos so-
completa, o controle se tomava muito difícil, imagi- bretudo movimentos de objetos sem nenhum conta-

AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 41


to e materializações, s~rpreendentes e inequíyocas
materializações de Espmtos, seres de outra dImen- estavam sobre os joelhos do Dr. Charles Richet; en-
são. quanto ele segurava as duas mãos da médium, um
tambor foi levantado acima das cabeças dos obser-
vadores "e a membrana do tambor era batida como
se fosse uma mão."
Movimento de Objetos (levitação) As experiências de Roma (1893-1894) realiza-
das por Henrique Siemiradzki e Julien Ochorowicz,
foram notáveis:
o primeiro relato detalhado a respeito é ofere:- As mãos de Eusápia estavam bem seguras, na
cido por Cesare Lombroso, b!l~eando-se ~os expe~­ obscuridade; um órgão da Bavária volteou acima da
mentos realizados com a medlum em Napoles (Ita- mesa, fazendo-se ouvir sons que não podiam ser
lia) no ano de 1891. produzidos senão quando se vira a manivela. Em
"Os pés e as mãos de Eusápia estavam segu- outra oportunidade, o piano colocado atrás de Eusá-
ros pelo Prof. Tamburini e por Lombroso. Uma pia mudou de lugar: a tampa foi levantada. Como
campainha colocada sobre .uf1}a f!1esa redp,!da, Siemiradzki exprimira o desejo de ouvir notas altas e
a mais de um metro de distancia da medlum, notas baixas, ao mesmo tempo, seu desejo foi satis-
pôs-se a tocar, no ar, ac~ma das cabeças dos feito, o que pareceu provar a ação de duas mãos,
experimentadores, depoIs desçeu sobre é! invisíveis e distintas, sobre as teclas do instrumento.
mesa, para ir se colocar a .dols metros dali, Em Varsóvia (Polônia), Ochorowicz, segurando
num leito. Enquanto a ca'!1pamha t~cava acen- as mãos e os pés de Eusápia, tomou o cuidado de
deu-se rapidamente um fosforo e vIU-se a cam- impedir mesmo o contato da roupa de Eusápia com
painha suspensa no ar. a mesa. Na luz diminuída, porém, permitindo aos
Um pesado móvel, colocado é! doi~ me~ros, assistentes distinguir as formas, a mesa, sem oscila-
aproximou-se lentamfjJnte de nos; l!lr-se-I8" a ções preambulares, levantou-se nos quatro pés de
aproximação de um gigantesco paqUIderme. uma vez - completamente na horizontal e isto por
Na obscuridade relatam os pesquisadores da três vezes.
faculdade' mediúnica' de Eusápia, os fenômenos f~­ O Dr. Charles Richet resolveu levar Eusápia
ram muito mais intensos. Houve golpes (raps) se~sl­ Palladino para a ilha ~ibaud, onde possuía uma pe-
velmentemais fortes do que aqueles que se ouviam quena propriedade. E uma ilhota mediterrânea, de-
em plena luz sob a mesa e nela. ~~oques ~ golpes serta, habitada, à época, apenas pelo guarda do fa-
batidos contra as cadeiras dos vIzinhos, tao fort~s rol e sua mulher. Passamos a palavra ao ilustre me-
que as cadeiras viravam com as pes.soas. Ocorn~, tapsiquista:
paralelamente, transporte, no ar (levitando), de. di- "Mandei trazer Eusápia. Depois pedi a J. OChora-
versos objetos, algumas vezes afas,tados mU,lt<?s wicz para que viesse ter comigo, a fim de seguir
metros e pesando muitos quilos. Os pes de Eusapla de perto as experimentações. De fato, durante três
AS MULHERES MÉDIUNS meses, em perfeita intimidade, Ochorowicz e eu,
42
AS MULHERES MÉDIUNS 43
desmas~rar. qualquer fraude ou truque, mas no fim
da expenencla estava convencido da realidade dos
três vezes por semana, a experimentamos e
um grande número de vezes constatamos, com fenômenos. A médium tinha sido inteiramente visto-
toda a evidência, movimentos de objetos sem riada a!lte~dos trabalhos. Nestas condições, o Dr.
contato como muitos outros fenômenos." Morselll • • afirma que houve movimentos de mesa
pancadas batidas sobre o móvel, sons emitidos:
Após o sucesso das experiências, o Dr. Char- sem contato, por instrumentos de música, levitações
les Richetsolicitou a presença de Frederic Myers, completas de objetos, apports, vozes humanas es-
Oliver Lodge e Albert Scherenck-Notzing bem como tranhas aos· assistentes, impressões de mãos e pés
do Prof. Henri Sidgw1ck e sua esposa, a Ora. MiI- e de rostos em substância plástica, aparições de
dred Sidgw'ck. prolongamentos sombrios procedentes do corpo da
Essa plêiade de sábios, todos integrantes da médium e fOrmas bem delineadas de rostos, de ca-
"Societyfor Psychical Research", de Londres (fun-
dada em 1882), examinaram, detida e meticulosa- beças e de bustos.
O Dr. Morsellitenta explicar tais fenômenos por
mente, a extraordinária faculdade mediúnica de Eu-
sápia Palladino. Eis alguns trâmites de uma das aqu,i,l0 aIlqye .c~aIToJa ~ ~ipót~se das "forças psíqui-
sessões, relatadas por Sir Oliver Lodge: cas ou blodlnamlcas, IstO e, que ele atribuía a um
poder especial proveniente da médium. É a teoria
"Uma cadeira. colocada junto da janela, a muitos que nos primeiros tempos adotaram muitos investi-
centímetros de distância da médium, escorregou, gadores ingleses. Pouco depois das sessões dirigi-
levantou-se e bateu no soalho. A médium estava das.pelo Dr. Morse!li, novasérie de experiências se
segura e ninguém se achava junto de sua cadeira. reall~aram .em .TUrim, . . sob a direção dos doutores
Uma caixinha de música passeou no ar e subiu aci- Hertllza, PIO Foa e Agzzotti, assistentes do Prof.
ma das cabeças dos obseNadores. Uma pesada Morso fisiologista célebre. O Dr. Pio Foa, professor
mesa de 22 quilos, foi levantada no ar a 20 centí- de anatomia patológica, assistiu às mais interessan-
metros do solo, quando a médium estava de pé e tes. Estas sessões deram resultados positivos se-
suas mãos levemente se apoiavam na mesa." melhantes aos que os Professores Morsellie Lom-
broso obtiveram, incluindo-se a estonteante e plena
Experiências em Gênova ~_ate~alização da Q,enitora do ilustre autor de "Expe-
nenclas sobre fenomenos hipnóticos e espiríticos"
OOr. Enrico Morselli, professor de neurologia e
psiquiatria da Universidade de Gênova, presidiu às
(1909).
Outra testemunha foi o Dr. Giuseppe Venzano.
sessões dadas por Eusápia nesta cidade e fornece
Nos Annales des Sciences Psychiques, de agosto e
valioso testemunho, veiculado nos Annales des
setemb!? de 1~07, fez ele o relatório pormenorizado
Sciences Psychiques. e a analise cntlca de suas experiências com Eusá-
A médium era rigorosamente controlada. O DL
pia em condições de rigoroso controle e à luz de
Morselli e o Sr. Barzini, diretor do célebre jornal Cor- .
uma lâmpada elétrica de 16 velas. Com iluminação
riere della Sera, seguravam-lhe as mãos e os pés.
Este último declara ter participado da sessão para AS MULHERES MÉDIUNS 45
44 AS MULHERES MÉDIUNS
suficiente para distinguir nitidamente a médium e os
assistentes, o Dr. Venzano viu a seu lado uma for-
ma feminina, foi tocado por ela, ouviu-a falar, entre- O livro que o consagrou mostra como ele co-
tendo-o com pormenores de assuntos familiares que nhecia os embustes praticados por certas pessoas
apenas ele conhecia Ele teve a certeza de que se que se diziam médiuns e as precauções que é ne-
tratava de uma sua irmã falecida há alguns anos, e cessário tomar nas sessões. Baggalli também era
que lhe fora muito querida. Este incidente extraordi- prestidigitador de larga experiência e não acreditava
nário levou o Dr. Venzano a afirmar, enfaticamente, nos fenômenos. Feilding pensava da mesma forma,
a impossibilidade de.fraude ou alucinação. tanto mais que já tinha feito investigações análogas.
O Prol. Filipe Bottizi, Diretor do Instituto de Fi- Pois estes três homens, experts em desmasca-
sioloQia de Nápoles, leu o relatório das experiências rar pretensos médiuns, convenceram-se da realida-
de Genova e tentou verificar os fenômenos por meio de absoluta dos fenômenos supranormais que obti-
de complicado mecanismo, que permitia re!)istrar a veram em Nápoles. Eis, o que, textualmente, relatou
força psíquica exercida' pela médium.Tal registro de- Hereward Carrington:
veria afastar qualquer hipótese de alucinação ou de "Entre setembro e outubro de 1908 tivemos,
má observação. Estas importantes experiências fei- com os Srs. Ewehard Feilding e W Baggalli
tas de colaboração com diversos professores emi- uma dezena de sessões, com Eusápia Palladi-
nentes da Universidade de Nápoles foram bem-su- no, em nossos quartos, no hotel, em perfeitas
cedidas e o Professor Bottizi conclui com as seguin- condições de controle, e ficamos convencidos
tes palavras:
de que se produzem autênticos fenômenos (es-
"Destruía-se, até, a mais leve suspeita ou in- piríticos) que nenhuma trapaça pode explicar:
certeza, no tocante à realidade dos fenômenos. minha conversão foi contrária à que de início
Obtivemos a certeza tão exata, como o que havia presumido (...) Todos os que estudam
nos dão os fenômenos físicos, químicos ou fi- esses problemas (sobre Eusápia) com tempo
siológicos. Os céticos já não podem. negar os suficiente e cuidado, ficarão convencidos de
fatos, a não ser que nos acusem de fraude e que, dentre os fenômenos que ela apresenta,
de charlatanismo" (vide Annales des Sciences existem os que nenhuma lei conhecida pode
Psychiques, de setembro de 1907). explicar. Os fatos estão fora de dúvida. "
Em 1908, três membros da Sociedade de In- Ainda nos finais de 1909 (novembro). Eusápia
vestigações Psíquicas foram encarregados de exa-
Palladino desembarca em Nova Iorque. Os jornais
minar, a fundo, Eusápia. Eram eles o honorable
Ewerard Feilding, W. W. Baggalli e Hereward Car- anunciam a sua chegada e proclamam as maravi-
rington, escolhidos em atenção às suas respectivas lhas operadas pela médium no navio que trazia à
especialidades. Carrington era hábil prestidigita- América. A primeira sessão, dirigida por Hereward
dor-amador e fez investigações nos Estados Unidos Carrington. (vide: The American Sean.ces. with Elfsá-
durante dez anos. pia Palladmo, New York, Garret PublicatlOns), fOi re-
servada aos jornalistas, que ficaram assombrados
AS MULHERES MÉDIUNS diante da versatilidade mediúnica de Eusápia.
AS MULHERES MÉDIUNS 41
As atas das trinta e quatro sessões americanas talidade, e parafraseando Geley, tudo se esclarece:
de Eusápia ficaram durante muito tempo inéditas. O as tumbas deixam de ser tumbas; são asilos passa-
controle dessas sessões era. exercido com rigorosa geiros para o fim da jornada das ilusões!...
cautela e severa fiscalização, especialmente os que Segundo Paola Lombroso, diante das incom-
foram levados a efeito na Universidade de Colum- preensões, das calúnias e da descrença, Eusápia
bia, no mês de janeiro de 1910. J. Fraser Nicol em dado momento, exclamou:
(vide: "Eusápia Palladino in retrospect", obra publi- "Isto tudo, sim, eu o juro, é a pura verdade! Di-
cada pela American Society for Psychical Research) zem que eu trabalho por dinheiro - quem o
desencorajou os prestidigitadores que, a todo custo, diz não me conhece. Por que deveria ter avidez
desejavam observar o desenrolar das sessões. En- de ganhar? Sou sozinha, sem filhos, sou uma
tretanto, •Joseph F. Rinn, aluno do famoso mágico mulher que tem poucas necessidades: mil liras
Houdini e autor do livro "Sixty Years of Psychical por ano, e até mais, me dava a quitanda que
Research", conseguiu vencer todos os obstáculos e eu tive de fechar. E outra coisa: que tenho ga-
Carrington o introduziu na sala de sessões. Rinn nho com isso? Ser considerada 'digna' de me
contou pessoalmente que, durante uma hora, exer- tornar conhecida por uma Sociedade ilustre
ceu, sobre Eusápia, um controle sistemático, quan- que eu nunca teria sonhado que existisse, se
do se obtiveram extraordinários fenômenos de efei- continuasse a ser a modesta vendedora, po-
tos físicos e de materialização. rém, digna; digna, que quer dizer digna? Digna
Joseph F. Rinn "descobriu", também, um se- me julgo eu por possuir o dom da mediunidade;
gredo do mais misterioso fenômeno que todos os mas digna sempre terei sido, porque, quando
observadores tinham encontrado em Eusápia: o so- uma filha nasce de pai e mãe honestos e se
pro gelado emanava, ao que parece, de uma cicatriz comporta sempre corretamente, é digna de
que ela tinha na testa. Para realizar esse prodígio, tudo! Eu não me sinto inferior a nenhum rei, e
Eusápia expirava suavemente para o teto e dirigia a sempre tive prazer de viver no meio da gente
corrente de ar na direção que lhe era conveniente... do meu bairro e da minha terra, vestida com
No final de umapercuciente e cautelosa análi- uma simples saia e a comer macarrão. Não me
se, J. Fraser Nicol concluiu que as sessões america- causa propriamente nenhum prazer o haver-me
nas de Eusápia Palladino foram perfeitamente satis- tornado. a famosa Eusápia e ser o assunto de
fatórias ao espírito crítico dos doutos assistentes e todo o mundo; ganhei, sim, muitos bons ami-
pesquisadores que as dirigiram. gos, como Richet, como Lombroso, como Rus-
A 18 de junho, Eusápia Palladino, demonstrou poli...e isto foi o único lucro que tirei disso... "
aos americanos céticos (contraditoriamente freqüen.. Conclui Paola Lombroso, na revista La Lettura,
tadores de cultos dominicais), a sobrevivência do maio 001907, "que no meio dos esplendores de
Ser, que se comunica, "ao vivo" com os que ainda sua nova vida, Eusápia conserva, de sua origem hu-
vivem neste orbe, por meio de criaturas dotadas de milde, aquela generosidade espontânea, aquele pra-
faculdades extraordinárias. Com a certeza da Imor- zer de ajudar e de agradar".
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 49
va a clarividência havia mais de vinte anos e realiza-
ra mais de quarenta mil visitas em transe!
Em 1934, quando a Igreja se ocupou dela, foi
chamada pelo bispo de Firmo e realizou várias ex-
periências, caindo em transe diversas vezes, efe-
tuando inúmeras visitas, fora do corpo, entre elas
uma ao Papa, de quem diagnosticou um mal-estar
viscera!. Em Roma, em 1936, atendendo a um cha-
mado do general Nulli, Pasqualina Pezzola realizou
diversas visitas. Até o então Príncipe herdeiro Hum-
berto se valeu dela, levando-a a seu pai, Vitor Ma-
PASQUAliNA PEZZOlA nuellll. O êxito dessa visita revelou uma leve enfer-
midade ignorada pela famllia real. O Príncipe inter-
rogou o pai a respeito, o qual, irritado, queria apurar
quem havia revelado o inocente e tão bem guarda-
Em meados de julho de 1948, um jovem de do segredo...
Pasqualina Pezzola nada mais era que uma
18 anos, Hermínio 8., natural de Cinesello Balsa, na
mulher do campo, de pequena estatura e de formas
Itália, considerado doente de osteossarcoma, uma arredondadas, normalíssima em tudo: na memória,
doença que a ciência é incapaz de curar, fora des- na inteligência, na afetividade, no modo de ser reli-
pedido do Hospital Civil de Milão. Os médicos disse- gioso, sem afetação. Tal teria sido sempre, se uma
ram que nada poderia impedir a sua morte; por isso noite, no ano de 1932, quando apenas completava
melhor era que exalasse o último suspiro em sua 25 anos, seu marido não tivesse demorado em re-
casa. gressar ao lar. Preocupada, improvisadamente caiu
Os parentes levaram para casa o doente, mas em transe. Ao acordar, disse muito tranqüila: "Não
não se deram por vencidos. Ainda que com poucas nos preocupemos. Eu o vi. Está são e salvo e daqui
esperanças, procuraram Pasqualina Pezzola, uma a pouco minutos chegará. " Decorridos poucos minu-
camponesa que vê à distância mesmo de centenas tos, o marido batia à porta. Posteriormente, o fenô-
ou milhares de quilômetros. Escreveram em um pa- meno se repetiu, e seus familiares, recear'!d~ que
pei o endereço do doente e Pasqualina caiu em ela estivesse doente, levaram-na a um mediCO, o
transe, tal qual Edgar Cayce, o "profeta adormeci- Prof. Ciriberti, de Santo Elpídio. O médico viu que
do". Quando acordou disse, tranqüilamente, que os ela possuía faculdades psíquicas anormais e convi-
médicos haviam errado e que não se tratava de um dou Pasqualina a tentar ver as pessoas que naquele
tumor; o rapaz recobraria a saúde, desde que cura- momento transitavam pela rua, naturalmente estan-
do da sua verdadeira doença. O diagnóstico resul- do afastada da janela. Pasqualina viu tudo. Realiza-
tou exato: o jovem sarou.. _ .
A •
das outras experiências o médico deu a resposta:
Eis o caso que atraiu a atençao da clencla so-
bre a médium, que, àquela época (1948), já pratica- AS MULHERES MÉDIUNS S1

AS MULHERES MÉDIUNS
"Pasqualina não é louca nem endemoniada: é mé-
dium e 'vê' aquilo que quase todos os seres huma- era transparente para Pasqualina Pezzola, qual ne-
nos não vêem." gativo fotográfico. Quando acordava, o que fazia
Os excepcionais poderes psíquicos de Pas- sem teatrais turbações, recordava tudo perfeitamen-
qualina Pezzola, naquele tempo ainda não maduros, te; descrevia, com exatidão, opiniões, o estado de
desenvolveram-se gradualmente. A princípio conse- ânimo, o estado físico. Em razão de ter feito somen-
guia ver somente gente próxima, depois, podia ver
te o terceiro ano primário e de nunca ter lido um livro
pessoas· a grande distância; enfim, pôde "visitar'
pessoas até na América do Norte, como um italiano sobre medicina, as suas descrições anatômicas pre-
no Brooklin (N.Y.), que desde muitos meses não cisavam ser interpretadas, embora fossem sempre
dava notícias aos parentes em S. Benedetto dei rigorosamente exatas.
Fronto, permanecendo no "sono" mediúnico por Normalmente, os pacientes não percebiam a
mais de uma hora e um quarto. presença da sensitiva; mas Pasqualina cita pelo me-
Com o passar do tempo, Pasqualina podia en- nos dois casos em que a sua presença fora "senti-
trar em transe, quando assim o desejasse. Antes de da" pela pessoa que visitava. Por exemplo, em
iniciar o trabalho ela orava, com fervor, solicitando a 1935, o caixa de um banco, cuja esposa estava mui-
proteção do Alto. Em seguida, lia em voz pausada o to doente em Tronto (Itália), fora pedir-lhe orienta-
nome e o endereço da pessoa que devia procurar, e ção e ajuda. Pasqualina caiu, como sempre, em
após fechar os olhos, reclinava a cabeça sobre o transe e soube identificar a moléstia. Dias após, o
peito, enquanto os braços eram sacudidos por um caixa, extremamente emocionado, foi informá-Ia de
tremor. Decorridos poucos minutos, os braços e as que sua mulher, no momento da experiência, havia
pernas se estendiam para a frente, em estado de sentido um mal-estar estranho e perguntara à mãe,
tensão, e o corpo começava a oscilar. Quando nes- que se encontrava à sua cabeceira: " - Mãe, quem
sa atitude, Pasqualina estava a caminho da perso- é que me está visitando? Sinto-me elevar... "
nagem a quem queria visitar. Chegada ao destino, Também um jovem de S. Benedetto dei Tronto,
sua fisionomia adquiria uma estranha luminosidade, que no momento se encontrava na adega, referiu ter
acenava e sorria, parecendo que estava pedindo ouvido uma voz que do alto da escada o chamava,
aos transeuntes informações sobre o caminho a quando não havia ninguém em casa...
percorrer. Uma vez alcançada a personagem procu- O Dr. PieroCassoli, neuropsiquiatra de Bolo-
rada, Pasqualina levantava-se, andava e a sua mí- nha (Itália) escreveu um trabalho sobre a faculdade
mica exprimia com extraordinária eficácia as fases psíquica de Pasqualina Pezzola, a que deu o título
de um diálogo. Não raro, com uma ponta de humo- de: Fenômenos de Bilocação, lido no Congresso da
rismo caricatural imitava as atitudes do entrevistado. Associação Italiana de Metapsíquica (1954) de que
Após a consulta, ela visitava o paciente, repetindo participou, entre outros estudiosos da fenomenolo-
os gestos de um médico: a percussão, a ausculta- gia supranormal, o Dr. Hubert J. Urban, diretor da
ção, a apalpação. Naquele momento, um homem cadeira,de Neuropsiquiatria da Universidade de Ins-
52 AS MULHERES MÉDIUNS bruck (Austria).
AS MULHERES MÉDIUNS 53
nos nas mãos, pareciam .caixa~, ponqo em cima de
uma mesa. Havia uma cnança., DepOIS des~reveu ~
Os congressistas ouviram com especial aten- Or. Buscaroli: "Agradou-me. E bom, usa oculos, e
ção o relatório do Or. P. Cassoli, que apresentou, calvo e magro. "
também, um filme sobre a sensitiva, com o que de- Numa carta oficial, o Or. Buscaroli descreveu,
monstrou a ausência de qualquer sensibilidade depois, o que estava fazendo às 16 ~oras e 30 ~i­
(analgesia) da mesma, quando em transe. O Or. nutos. Tendo de examinar uma menina que sofna
Cassoli espetou-lhe com um alfinetão na coxa es- de epilepsia, para convencer a criança a submeter-se
querda durante o sono; nem uma gota de sangue ao exame havia decidido idealizar um brinquedo,
saiu do furo; única reação obtida - um colorido tomando caixas de medicamentos, tiradas de vários
avermelhado na pele. Pasqualina, durante essas ex- armários dispondo-as sobre uma m.esa... .
periências, jamais demonstrou qualquer atitude ou Pasqualina Pezzola, mulher Simples e Ignoraf)-
gesto de dor ou de defesa. te se inscreve sem dúvida, entre as mulheres me-
O Or. Cassoli levou a efeito uma longa série de di~ns que enriqueceram, sem .quaisquer vantagens
experiências, controlando, uma por uma, todas as materiais o acervo das pesquisas que demonstram
reações da sensitiva. Mandou Pasqualina "visitar' a a imortalidade e a reencarnação!
Sra. Maria M., de 78 anos, de Bolonha. Quando
acordou do seu misterioso sono, disse textualmente:
"Encontrei a pessoa no leito, doente. Tem confusão
na cabeça, respira mal, o coração funciona mal.
Vejo nozes, como pequenas castanhas no ventre.
Não sara. Há muitos anos que está doente. Estava
presente uma senhora bastante moça." O relato de
Pasqualina era absolutamente exato. As "pequenas
castanhas" assinaladas pela sensitiva correspon-
diam ao seguinte: a paciente tinha sido operada an-
teriormente de anexiectomia e de histerectomia;
esta cirurgia deixa aderências e cicatrizes - as "pe-
quenas castanhas" vistas por Pasqualina.
Uma experiência particularmente interessante
foi efetuada a 2 de maio de 1953. O Or. Cassoli ha-
via combinado com o Or. Buscaroli, neuropsiquiatra
de Bolonha, que ele faria, em seu consultório, às 16
horas e 30 minutos, algo não habitual. Caída em
transe à hora aprazada, Pasqualina executou estra-
nhos movimentos; pela sua mímica, parecia dizer:
"Mas que estais fazendo? Não compreendo!" Ao
acordar, disse: "Ele ia e voltava com objetos peque- AS MULHERES MÉDIUNS 55

AS MULHERES MÉDIUNS
De onde provinha esta estranha força? Que
queria dizer essa agitação frenética de um móvel
sob seus dedos? Não estava preparada para obter
respostas a tais e inquietantes perguntas. Um dia, a
pedido do seu pai, juntou-se a um grupo de amigos
que em vão tentavam fazer girar uma mesa. Ela
simplesmente impôs as mãos e, contra todas as ex-
pectativas, a mesa como que adquiriu "vida", girou,
em princípio suavemente, depois, porém, como que
GEORGETTE BUSSAT possuída de inusitado frenesi.
A Doutrina Espírita para Georgette Bussat era
tão estranha como a mecânica ondulatória ou o pro-
cesso de desintegração do átomo. Quando chegou
Georgette Bussat era uma simples operária de ao fim de suas experiências ela ainda não tinha ou-
3D anos de idade, em 1951, mãe de três filhos, de vido falar em Allan Kardec. Praticava, porém, a mo-
boa saúde e aparência agradável. Além dessas rai das pessoas honestas e nunca lhe passara pela
qualidades originais, Georgette Bussat era médium. cabeça o problema da imortalidade e comunicabili-
Se punha as mãos levemente sobre uma mesa dade dos Espíritos. Os Espíritos ignorando, como
(mesa pé-de-galo), o móvel animava-se, estalava, sempre, as crenças ou descrenças dos médiuns, em
ondulava, parecendo derrogar as leis físicas conhe- qualquer latitude terrena, sentiram-se, naturalmente,
cidas. Coisa notável, o fenômeno se produzia em atraídos pela faculdade mediúnica de Georgette.
qualquer parte e em qualquer momento, na obscuri- Primeiramente, foi sua avó, depois sua mãe e, afi-
dade ou em plena luz. Bastava que impusesse as nai, um ex-jomalista que desencamou em França,
mãos e concentrasse a vontade. Tudo se passava, chamado Banabera. A conversação estabelecia-se
então, como se uma alavanca invisível levantasse o segundo as normas espíritas. O número de panca-
móvel. das corresponde às letras do alfabeto e algumas
Logo que teve a revelação fortuita de sua facul- abreviaturas convencionais aceleram a elaboração
dade mediúnica, Georgette não ficou positivamente das respostas.
encantada. A força misteriosa que fazia dela um ser Graças aos seus guias, Georgette pôde dar
especial, diferente, causava-lhe até um certo receio certas informações que seria impossível a qualquer
e teria abandonado todo o gênero de experiências, vivente no plano corpóreo: objetos perdidos, previ-
se o pai não a tivesse gradualmente incitado a tor- sões diversas, localização de pessoas desapareci-
nar-se uma espécie de traço de união entre o plano das, numa palavra, tudo que é causa de sofrimento,
físico e o transfísico. Contudo a ligação entre as pe- à exceção de perguntas relativas à vida sentimental
ripécias da mesa e o seu significado específico não dos consulentes. Em assuntos desse gênero Geor-
se estabeleceu, de imediato, no espírito da médium. gette não fazia intervir os seus guias, já porque não
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 57
acreditava na infalibilidade deles (não se tratava, em
verdade, de entidades superiores), já porque com-
preendeu, por intuição, que a natureza das respos-
tas era sempre em função do teor moral da pergun-
ta formulada. Os seres invisíveis que se comunica-
vam com Georgette, se não eram superiores, eram,
pelo menos, orientados pelo bom senso, recusando-se,
firmemente, em satisfazer os simples curiosos de
atender os que sofriam dos males decorrentes de
amores frustrados ou os que iam em busca de palpi-
tes lotéricos. Em troca, aqueles que realmente esta- LAURA EDMONDS
vam sob o guante da dor e do desespero morais (ri-
cos ou pobres) podiam contar com seu apoio e a
sua generosidade. Não foi sem razão que Pierre
Neuville incluiu Georgette Bussat em sua obra "Os Em seu "Tratado de Metapsíquica", Charles Ri-
Melhores Curadores de França". chet (prêmio Nobel de Medicina de 1913) reporta-se
Georgette Bussat não se limitava a perguntar ao célebre episódio, "incontestavelmente autêntico"
aos Espíritos a natureza de uma doença ou lesão. ocorrido com Laura Edmonds, filha do Juiz John Ed-
Mais do que isso: punha o seu potencial fluídico a monds.
serviço dos doentes, ministrando-lhes passes de al- "Laura era católica fervorosa. Falava exclusiva-
tíssimo teor curativo. Georgette curou reumatismos, mente o inglês e aprendera na escola um pou-
doenças hepáticas, úlceras varicosas, bem como tu- co de francês. A isto se limitavam seus conhe-
morações pertinazes, que se iam desfazendo sob cimentos de línguas estrangeiras. Um dia
os efeitos da passeterapia. Sem jamais ter entrado (1859) o Juiz Edmonds recebeu a visita de um
numa sala de anatomia, punha no seu lugar nervos grego notável, o Sr. Evangelides, que pôde
e músculos deslocados, com impre~sionante perí- conversar em grego moderno com sua filha
cia. Quem lho ensinou? Ninguém! E um conheci- Laura. No curso dessa conversação a que as-
mento inato, associado à abençoada assistência es- sistiram diversas pessoas, o Sr. Evangelides
piritual, sempre presente quando se trata de traba- chorou, por lhe ter a médium participado a mor-
lho sério, desinteressado, altruísta. te do filho (ocorrida por aquele meio tempo na
Grécia). Ao que parece, Laura incorporava ?
Espírito de um amigo íntimo do Sr. Evangell-
des, o Sr. Botzzari, morto na Grécia. Segundo
o Juiz Edmonds, se sua filha conversou em
grego moderno co,!! Ev.angelkjes e s.e Ih.e part~­
cipou a morte do filho, ISSO so se potlefl~ explI-
car admitindo-se que o defunto Bottzan fosse
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 59
não compreender, quando em vigl1ía, o signifi-
realmente o outro interlocutor na conversação. cado das palavras que seus lábios auto-
E acrescenta: "Negar isto, de que fui testemu- maticamente proferiam, fato que demon~.!ra
nha, é impossível; o fato é de tal modo claro e positivamente achar-se ela, nessas ocaslOes
eloqüente que, negá-lo, equivaleria, logicamen- em fase parcial de incorporação durante a qual
te, a negar que o sol nos ilumina. Nem poderei, uma entidade espiritual extrínseca se servia de
certamente, considerar o fato de uma simples seus órgãos vocais, para exprimir-se. Esta é a
ilusão, visto que ele em nada difere de todas as única solução racional do enigma, visto que a
outras realidades com que deparamos em hipótese das 'personi!icações. ~on..scien~es',
qualquer período da nossa existência. Acresce combinada com a de 'cnptomnesla nao reSiste,
que tudo se passou na presença de oito ou dez de frente à circunstância de a· médium não
pessoas cultas e inteligentes. Nenhuma delas J. ... .. .... .
compreender a língua em que conversava.
"

vira jamais o Sr. Evangelides, que me fora


Resultará oportuno comparar-se o caso de
apresentado por um amigo naquela mesma
noite. Como, pois, há podido Laura participar-lhe Laura Edmonds com outros análogos narrados por
a morte do filho? Como se explica que haja fa- antigos pesquisadores, que não sabiam explicar o
lado e compreendido o grego moderno, língua tato extraordinário de que os sonâmbulos .em tran-
que nunca ouvira falar?" se, interrogados em latim, grego e hebraico, tudo
compreendem e respondem corretamente, ao passo
Deve-se completar, entretanto, o resumo do que além de não se mostrarem aptos a formular
Prof. Charles Richet, ponderando que, se o inciden- um~ resposta nas línguas em questão, também não
te de Evangelides é o mais notável de quantos se conheciam o significado dos vocábulos empregados
deram com a mesma médium, em grande conta pre- nas perguntas a que tinham respondido.
cisa levar-se que esta, noutras circunstâncias, con- "Essa aparente contradição" - esclare~~ .0
versou em oito ou dez línguas. Prot. Bozzano - "que tanto embaraçava o cnteno
"Minha filha apenas conhece o inglês e um do magnetólogo, hoje se explica, considerando-se
pouco de francês. Tem, no entanto, conversa- que, se os sonâmbulos eram capazes ,de responder
do em francês, grego, latim, italiano, português, corretamente, se bem ignorassem a Imgua em que
polonês, húngaro, assim como em vários diale- se lhes faziam as perguntas, isso se dava quando
tos indianos. Freqüentemente, não compreen- liam o conteúdo da interrogação na mente do con-
de o que diz, mas o consulente lhe compreen- sulente."
de sempre as palavras." ("Letters and Tracts", "Entretanto no caso de Laura Edmonds', con-
de autoria do Juiz Edmonds.) clui o Prof. Boz~ano - "sucedia fenômeno oposto:
Em "Xenoglossia" (FEB), o Prot. Bozzano co- ela era apta a falar automaticamente em dez línguas
menta: diversas, que totalmente ignorava, sem compreen:
der, ao demais, o significado do que ela mesma di:
"A ninguém escapará o alto significado que se zia. Daí resulta claramente a diferença que ha
encontra implícito no fato de Laura Edmonds
AS ~ULHERES MÉDIUNS 61
60 AS MULHERES MÉDIUNS
entre os estados sonambúlicos e as condições de
possessão mediúnica (incorporação)".
Significa dizer que, no pnmeiro caso, a faculda-
de supranormal da leitura do pensamento tomava
apto o sonâmbulo a compreender perguntas formu-
ladas em línguas que desconhecia, mas não existia
na sua subconsciencia nenhuma faculdade capaz
de fazê-lo conhecer o que nunca aprendera, decor-
rendo daí que nã~ podia exprimir-se em línguas que
Ignorava. Contranamente, no caso de Laura Ed-
monds, o fenômeno se produziu por ser ela médium TERESA NEUMANN
em condições de incorporar Espíritos, o que signifi-
ca, na realidade, que um Espírito falava por seu in-
termédio.
Teresa Neumann (a estigmatizada de Konners-
reuth) era filha de um alfaiate de Konnersreuth. No
estado normal, Teresa Neumann era uma mulher
simples, de gênio alegre, de ardente fé religiosa.
Durante a cnse dos estigmas (que lhe apareceram,
pela primeira vez, na Semana Santa de 1926) revive
a paixão do Cristo e emite frases e palavras em lín-
gua Araméia, inclusive as que o Mestre pronunciou
na cruz. O aramaico era o idioma que Jesus habi-
tualmente falava e não o hebraico ou o grego.
Eis uma amostra das frases ou palavras que a
estigmatizada pronunciava durante as crises que
sofria:
- Salabu (crucificado)
- Jebudaje (Judeu)
- Schlama raboni (Eu te saúdo mestre). Estas
palavras Judas as proferiu no jardim das Oliveiras.}
- Magera baisebua jannaba; Jannaba magera
baisebua (segundo Teresa Neumann, tenam sido
estas palavras que os Apóstolos proferiram quando
Jesus foi traído.)
- Abba Shabock lá hon (Pai, perdoa-lhes -
palavras ditas pelo Cnsto, na cruz.)
62 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 63
- Amen Amama lach bjani alte esmi b'parde- o Mun~? Espir!tual, quem era a entidade 9ue lhe
sa. (~m verdade te digo que hoje estarás comigo no transmitia, em Ii~gua aramaica, as frases da ' Paixão
paralso - palavras que Jesus teria dirigido ao bom de Je~us?'> A Vidente ~ercebia junto dela Santa Te-
ladrão.) resa, Isto e, a santa cUJo nome lhe fora dado' mas
Certa ocasião, em que diversos orientalistas as p~lavras e".l aramaico, que eram, de sua'parte:
r~petl.das f0!:letlcamente, ela as aprendia por clariau-
eminentes a cercavam, a estigmatizada ouviu de
novo as palavras pronunciadas pelo Mestre na cruz, dlencla, ~ nao se sabe se declarou, alguma vez, que
era a entidade que lhas transmitia.
entre elas a exclamação: As-che! (Tenho sede!).
O certo é que muitos dos que estudaram de
Concordes, todos aqueles orientalistas declararam
que teria enunciado esse pensamento por meio da
pe~o, o fenômeno retiram-se convencidos de q~e a
estigmatizada se achava em comunicação com uma
palavra SACNENA. "Ora, do ponto de vista teórico" persona~em que não só viveu ao tempo de Jesus
- elucida o Prol. Ernesto Bozzano - "é altamenté como fOi testemunha de sua Paixão. '
sugestiva esta substituição de palavras, uma vez
que ninguém a tinha em mente. "
Mas, de onde teria Teresa Neumann tirado a
inesperada e correta palavra: AS-CHE? Os orienta-
listas não chegaram, a respeito, a nenhuma conclu-
são.
De outra feita, estando a seu lado o Dr. Wutz
notável orientalista, a registrar. as palavras que iá
proferindo, ouviu-a pronunciar uma frase araméia
que não lhe pareceu correta. Observou, então, à es-
tigmatizada: 'Teresa isto não é possível. As pala-
vras que disseste não são aramaico." Respondeu
ela: "ryepeti as palavras que me disseram. "Perplexo
e ~uvldoso, regressando a casa, aquele erudito pes-
qUisador apressou-se em consultar documentos
ararn.aicos; e, num dos mais antigos dicionários des-
se Idioma deparou com uma frase idêntica à que a
jovem pronunciara. Teresa Neumann, na verdade,
fal~va o. ~ais puro e autêntico aramaico, fato que
sena ratificado por esse Prof. de Teologia semítica
na Universidade de Vale.
Finalmente, o Prof. Ernesto Bozzano levanta a
seguinte questão: admitindo-se que Teresa Neu-
mann se achasse realmente em comunicação com
AS MULHERES MÉDIUNS 65
AS MULHERES MÉDIUNS
com relação à médium, visto que ninguém, no mun-
do inteiro, seria capaz de ditar um poema inteiro no
idioma anglo-saxônico de quase três séculos e,
além do mais, sem nunca se deixar arrastar ao em-
prego de qualquer vocábulo posto em uso depois
daquela época.
"Pelo que toca ao poema TELKA" - esclarece
o Prol. Bozzano - "adiantarei que, na época em
que foi transmitido, Patíence Worth deixara de em-
SRA. JOHN H. CURRAN pregar o instrumento mediúnico denominado OUl-
JA e ditava romances e poesias pela boca da mé-
dium, o que significa que esta última, conquanto
conservasse plena consciêncía de si mesma, perce-
Na monografia "Literatura de Além-Túmulo", o bia uma voz subjetiva que lhe ia ditando palavra por
Prol. Ernesto Bonano refere-se, minuciosamente, à palavra, de modo que ela não fazia mais do que re-
portentosa faculdade mediúnica da Sra. Curran. Por petir, em voz alta, as que ouvia e que um secretário
seu intermédio comunicava-se o famoso Espírito ia escrevendo".
Patience Worth, que ditou uma série de maravilho- Muitas vezes era tal a rapidez do ditado, que o
sos romances e poesias líricas impecáveis. Entre secretário não conseguia acompanhá-lo, o que obri-
sua produção poética figura o poema idílico, em ver- gava Patience Worth a repetir a última frase e a mo-
sos soltos, intitulado TELKA, caracterizado como um derar o seu ímpeto. Ao mesmo tempo, a mentalida-
fenômeno de xenoglossia, porquanto fora escrito em de da médium se mostrava a tal ponto independente
língua anglo-saxônica do século XVII, combinada, de quanto se exteriorizava por seu intermédio, que
harmoniosamente, com inúmeros dizeres e locuções conservava a liberdade de interromper o que repe-
dialetais da época. tia, para tomar parte na conversação em que se en-
Patience Worth informou que nascera na Ingla- volviam os presentes, de levantar-se e ir à sala ao
terra no ano de 1646; que viveu na aldeia em que lado responder a uma chamada telefônica, sem que
nascera trabalhando no campo até chegar à maiori- tais interrupções influíssem, ainda que de maneira
dade, época em que emigrou para a América, onde mais insignificante, no ditado mediúnico, que pros-
algum tempo depois caiu vítima de uma incursão de seguia do ponto exato em que fora interrompido. O
índios. mesmo acontecia de uma sessão para outra, isto é,
As primeiras obras literárias de Patience Worth o Espírito retomava o ditado precisamente no ponto
foram ditadas em inglês modemo; porém, logo ela em que parara, ainda quando entre uma e outra
se decidiu a ditar algumas em língua inglesa e nos sessão houvessem transcorrido meses. Certa oca-
dialetos do século XVII, declarando fazê-lo com o sião, tendo-se perdido um dos primeiros capítulos
objetivo de provar a sua independência espiritual de um romance cujo ditado já avançara muito, Pa-
66 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 61
tience Worth o ditou de novo. Encontradas mais tar- "Não posso deixar de observar que, quando
ó
d~, as folhas perdidas, constatou-se que segundo raiar o dia em que se dissipe completamente a
ditado era a reprodução literal do anterior. repulsão que ainda inspira as produções me-
Sobre o poema TELKA, manifestou-se o diúnicas, desagradáveis, sobretudo, aos se-
Dr. Walter Franklin Prince, Presidente da SPR ame- nhores críticos de arte, então se verificará que
ricana (período 1931-1932) em seu livro ''The Case 'Patience Worth', a julgar-se pelo seu poema
Patience Worth", nos seguintes termos: TELKA, é superior de muitíssimo a Maeterlinck"
"p'a!a mim, trata-se de uma produção extraordi- (escritor belga, prêmio Nobel de Literatura de
nana, que merece ser qualificada de obra-pri- 1911).
ma. Tente quem a leia desembaraçar-se de Por sua vez, Gaspar Vost, que publicou um li-
todo preconceito concernente à idéia que faça vro sobre suas experiências com a médium Sra.
dos autorfls de ultratumba e, se o conseguir, Curran, afirma:
achar:se-a nas melhores disposições para "(...) Patience Worth, como Shakespeare, em-
aprecIar o poema em todo o seu calor. Além prega, às vezes, um advérbio por um verbo,
disso, qu~"! C! ler dever~fes.ignar-se a empre- por um substantivo, ou por um adjetivo... A ra-
gar u"! vlgeslmo dapaclencla e da fadiga que zão disto reside no estado de transição em que
I~e haja custado a Interpretação da antiquada se achava a língua inglesa naquele período;
It'!.gua de um. Chaucer, em interpretar as locu- mas, essa particularidade redunda em mais
çoes e a linguagem antiquada do poema. uma prova de que Patience Worth está de ple-
Quancfo., em relação a este, se publicar um no acordo com a sua época, até mesmo nas
glossam! dos termos menos compreensíveis, anomalias gramaticais... Não pode haver dúvi-
ver-se-a que certos vocábulos curiosos são ge- da sobre o fato de que essa linguagem de Pa-
nuínas palavras de uso corrente naqueles tem- tience Worth se deve considerar absolutamente
pos, ou vocábulos arcaicos e raros, porém que espontânea. Prova-o, exuberantemente, a cir-
cunstância de não a ter usado apenas em algu-
sempre existiram e que, muitos deles, sobrevi- mas de suas obras, mas de servir-se constan-
veram nos dialetos. Como quer que seja mes- temente da mesma linguagem, quando conver-
mo se,!, glC?ssário, quem o ler segurame~te se sa com os experimentadores... "
m.aravllhara de topar com alguns vocábulos
Singulares, como se admirará da significação Deve-se observar que o poema TELKA, de se-
dada a tal ou qual palavra; mas, ao cabo de tenta mil palavras (270 páginas), em versos soltos,
breve prática, reconhecerá que em todo o poe- considerado pelos especialistas, uma obra-prima, foi
ditado em 35 horas! Além desse extraordinário poe-
m~ bem poucas expressões há que realmente
ma idílico, Patience Worth ditou um inteligentíssimo
nao o possa compreender... "
romance satírico, intitulado "The MerryTale" (Conto
E concluiu: Alegre), também em língua anglo-saxonica.
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 69
o Professor Ernesto Bozzano, em "Literatura
d~ AI~m-Túmulo", desAtaca quatro hipóteses que se do magnífico de Patience Worth, através da mediu-
discutiram sobre o fenomeno Patience Worth: nidade da Sra. Curran:
a) a da PERSONALIDADE SEGUNDA,SUB- "Há filósofos que, tendo enve~edado pela cô.-
C0!'J~CIENTE, tomada no sentido estritamente psi- moda via da hipotética extensao da personalt-
cologlco de uma fração sistematizada da dissocia- dade humana, mal dispostos se mostram a pa-
ção psíquica do pacieflte; rar, enquanto não cheguem ao absoluto. Deve:
b) a da CONSCIENCIA SUBUMINAL de Frede- mos, pois, estar prontos é!' aRrfJnder de .Qual
rico Myers (um ~?S fundadores da "Society for Psy- quer crítico que a arte Itterana df} F!atlence
chlcal Research , 1882), tomada no sentido da exis- Worth nada mais é do que uma autentIca rev~­
tência, n? homem.. de ~ma personalidade integral lação do Absoluto, enquanto que f?utro, maIs
subco.nsclente, m~lto mais ampla e perfeita do que a moderado, falará de uma arte gotejada de um
conSCIente, e munida de faculdades supranormais e 'reservatório cósmico', onde foram senqo rf!C?o-
de capacidades intelectuais cuja emergência espo- Ihidos e guardados todos os esforços Itteranos
rádica daria lugar às "inspirações" do gênio; dos séculos. Observarei que esta_segunda ver-
são da hipótese de que se trata nao feva na de-
, c) a da existência de uma CONSCIÊNCIA vida conta o problema qa 'seleção dos fatos' nf?
COSMICA, tomada no sentido em que a considerou reservatório em questao; ao passÇJ ,Que é! 'pn-
von Hartmann, para quem se trataria de um atributo meira daria, de chofre, noutra forr:mdavel dlflcu~­
verdadeiro e próprio do absoluto, isto é, de Deus, dade, a de que, em tal caso~ Patlence Worth VI-
caso em que se viria a admitir que a subconsciência ria a ser uma revelação, aCIma de tudo, .hL!"l0-
dos médiuns se põe em relação direta com o Ente rística e excêntrica daquele A~spluto mflnlta-
Supremo, pelo nobre if]tento de ludibriar o próximo; mente perfeito de que falam os fllosofos. Se me
d) a da CONSCIENCIA COSMICA, considera- ponderarem que uma personalid~de FINITA
da no sentido que lhe atribui o Prof. William James, não pode deixar de ser uma 'seleçao do .Absq-
segundo cuja opinião poder-se-ia inferir, metapsiqui- luto' responderei que semelhante exp!,caçao
camente falando, a existência de um "reservatório expÍica demais, visto que se, nesse ,sentld.9 Pa-
cósmico das memórias individuais" (uma espécie de tience Worth não passa de uma seleçao do
"consciente coletivo" de Jung), ao qual teriam livre Absoluto', todos nós, então, ,somos, do "lesmo
acesso os médiuns, para dele extraírem tudo o de modo, 'seleção .do. Absoluto, o que egUlvale a
que' necessitassem a fim de mistificarem os míseros dizer que, nos lImites da argumen,té}Ç8o expos-
mortais. ta, Patience Worth seria um Esptrl~? corno to-
Além das arrasadoras refutações do Prof. Er- dos os outros." (Procedings of lhe Soclety for
nesto Bozzano ~s.absurdas hipóteses supracitadas, Psychical Research.) , . , .
despontam as lucldas ponderações do Professor e No tocante à hipótese do "reservatono ~o~ml-
filósofo alemão Friedrich von Schiller, sobre o trata- co" acrescenta o Prof. Bozzano, se toma forrmdavel
10
no 'caso especial de Patience Worth, dado que, se
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 11
ou de poucas páginas ditadas a um médium em lín-
houvéssemos de presumir que no "reservatório" em gua por ele ignorada, mas de d,oi~ grossos volun:;S
questão se recolheram e guardaram todos os vocá- ue formam um total de 600 paginas, sem consl e-
bulos arcaicos da língua inglesa, desusados desde ~ar ue a mesma entidade espiritual, q/fanc/.0 co!'-
1600, também teríamos· de reconhecer que tudo
isso representa um material grosseiro, somente utili-
vers~ com os experimentaflo.res, se ,exf?rtmf! Inva~~~­
velmente no seu dialeto patrto, de ha tres seculos.
zável por quem. se achasse. plenamente a par do
significado de cada vocábulo, de per si, assim como
da conjugação dos verbos, das declinações dos no-
mes, das construções gramaticais, das locuções
dialéticas e das inúmeras elisões inerentes ao idio-
ma a que pertenciam os aludidos vocábulos. Acres-
ce que seria indispensável, igualmente, que quem
deles se servisse estivesse apto a discernir os vocá-
bulos arcaicos em uso antes de 1600 dos que co-
meçaram a ser usados depois dessa época, empre-
sa que a "personalidade subliminal" da médium não
houvera podido realizar, desde.que a sua personali-
dade normal jamais possuiria tais conhecimentos e
que estes não poderiam existir latentes em parte al-
guma, porqué;lnto A ESTRUTUF1A ORGANICA DE
UM IDIOMA E PURA ABSTRAÇAO. Daí resulta que
a hipótese fantástica do "reservatório cósmico" não
resiste, de frente, à prova dos fatos e deve, a seu
tempo, ser excluída do rol das capazes de dar com-
pleta solução ao problema.
Quanto à hipótese da "memória ancestral", ela
não se concilia com o fato de médiuns falarem vá-
rios idiomas que desconhecem, ou escreverem em
línguas orientais, extintas há milhares de anos, se-
gue-se que seria inútil discutir-se uma hipótese tão
absurda, anulada pelos próprios fatos.
Finalizando, cumpre admitir que o caso de Pa-
tience Worth é o dos mais importantes, dos mais in-
contestáveis, dos mais concludentes da categoria
respectiva, "tendo-se em vista"- enfatiza o Prof.
Bozzano - "que não se trata, aí, de simples frases,
13
AS MULHERES MÉDIUNS
12 AS MULHERES MÉDIUNS
Os professores Pannás, Grego, e Mathias Duval,
francês ambos membros da Academia e professo-
res universitários, se adiantam e ditam orações
completas em grego antigo e moderno respectiva-
mente.
Alcina, com letra clara e bonita, escreve com a
maior desenvoltura os caracteres gregos perfeita-
mente formados, segundo o dizer de ambos os sá-
ALCINA bios interrogantes. Depois dessa prova, C~arcot,
como que inspirado e profundamente emOCionado
disse: "Voilá le c/ou de la joumée. Vamos evocar
Espíritos; porém, não Espíritos vulgares; busque-
mos na história da Humanidade, os mais luminosos
Ainda no terr~no da xen~Qlossia, registramos, e os interroguemos sobre a obra que projetaram,
em resumo, uma celebre expenencia levada a efeito deixando interrompida por haverem falecido."
pelo médico francês Jean Martin Charcot (1825-1893) Labarde, prol. de Fisiologia, pede a palavra e,
co~ a sensinva (con~iderada histérica) ALCINA, no após cinco minutos de meditação, diz: "Evoquemos
aSilo Salpetnere, na cidade de Paris (França). o Espírito de Galeno e lhe perguntemo? qLfe o~ser­
~Eis aqui uma histérica" - apresentou Char- vação importante fez depoIs de sua pnmetra dIsse-
~out a sel~ta e d?uta ~as~emblé~a de psiquiatras _ cação. E Galeno respondeu pela mão da médium:
que debaIxo da mfluencla do hIpnotismo, obedece-
ra cegamente a quanto se lhe ordenar. Ides presen- "O corpo humano não chegou à sua perfeita
fiar. um fenômeno. muito surpreendente. E ordena: conformação. Os sistemas da circulação e da
'Alcma, marchez a droite'. Alcina obedece e cami- enervação estão bastante unidos e relaciona-
nha para a direita. 'Alcina, chantez un conplet'. Alci- dos na obra da economia; porém, o sistema lin-
na canta. 'A~cina, allez au ba~':.. AI?ina dança". fático sofrerá uma evolução de grande proveito,
C.onclulda essa expenencla, disse Charcot: sobretudo para a longevidade da espécie hu-
"HaveIs observado a sua obediência; passemos, mana. Em alguns animais inferiores, de vida
agora, a uma ordem de experiências superiores." muito longa, já se poderiam fazer experiências
~a~dou que trouxessem um quadro de giz, e disse: comprobatórias desta asserção. "
'Alcma, allez au tableau noir: ecrivez". Toda essa luminosa comunicação de Galeno
Dirigindo-se, então, aos professores assisten- foi escrita por Alcina no quadro de giz, em caracte-
te?, disse-lhes: "Se,!hores, ordenai a esta jovem que res gregos e no idioma antigo, do tempo .do pai da
va. ao quadro de gIz escrever em qualquer idioma, Medicina. Depois de Labarde, falou Mathlas Duval,
seja europeu ou exótico, antigo ou vivo, sobre as. austero sábio, de grande inteligência que disse:
suntos científicos, literários, ou quaisquer outros." "Evoquemos o Espírito de Platão, que nos dirá algo
14
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 15
sobre a semelhança que existe entre Alexandre, Cé-
sar e Napoleão. "
Platão, em grego, escreveu, através da analfa-
beta Alcina:
"ObselVei que, fisicamente, esses três homens
se parecem: estatura mediana, temperamento
nelVoso e exagerado, paixões inferiores, vivaci-
dade, soberba, talento extraordinário, tez more-
na, cabelos negros, mãos finas, expressão fá- LAY FONVIEllE e a SRA. BUllOCK
cil, sem verbosidade, eloqüência claríssima, re-
soluções firmes, atividade inesgotável etc. To-
das estas condições lhes foram comuns; suas
obras de guerreiros e conquistadores, idênti- Lay Fonvielle e a Sra. Bullock des!acam:se
cas; a ambição, única e igualmente arrebatado- como duas das maiores médiuns de transflguraçao,
ra: a dominação do mundo. Essa trindade teve fenômeno que se processa da seguinte forma:
uma única e mesma alma: foi Alexandre, foi Estando o médium em estado de transe, o se~
César, foi Napoleão!" perispírito exterioriza-se e o corp~ a~~mdonado e,
Profunda e estarrecedora impressão provocava por assim dizer, ocupado pelo penspmto do morto,
Alcina nos espíritos cultos e descrentes daquela que gradualmente vai amoldando e !acetando a m?--
plêiade de eruditos. téria orgânica do médium .d~ maneira a reprodu,zl~,
O professor de Freud, encerrando as experiên- com mais ou menos perfelçao, os seus caractenstl-
cias, assim se expressou: "Senhores, não preten- cos traços fisionômicos.
dais avançar além da nossa época; não busqueis "Os médiuns que, inconscientemente ou não,
raciocínio algum, para explicação clara e verdadeira produzem as transfigurações", - escreve p~­
destas experiências; contentai-vos com a obselVa- dro Granja ("Afinal, Quem Somos?) - sao
ção experimental que acabais de fazer... 11 aqueles que a natureza dotou d~ e,s.tranha fa-
Sem comentários... culdade de exteriorizar o seu penspmto com fa-
cilidade extrema.
11

Por sua vez, o mestre Gabriel Delanne admite


que a tr~nsfiguraç~o ~~ médium é possível pela s~~
perposiçao do penspmto d~~encarnad?,. e ~ prov~
vel que a transfiguração do fantasma odlco do me-
dium deve se produzir algumas ve:~es, sobretudo
quando o Espírito, ainda pouco habilitado a se ma-
AS MULHERES MÉDIUNS 77
76 AS MULHERES MÉDIUNS
terializar, quer tomar-se visível. É possivelmente ração quando apresentava a aparência do irmão,
nessas circunstâncias que se verifica, às vezes, que contava ao morrer, vinte e poucos anos, e era
uma parecença entre a aparição e o médium. ("Les mais alto d~ que ela e de compleição mais forte.
Apparitions Materialisées'') Pois bem! Verificou que, no segundo estado, o peso
Eis, finalmente, como Allan Kardec definiu os da jovem era quase o duplo do ~~u peso normal. .In-
fenômenos de transfiguração, destacando-se, a pro- questionável se mostra a expe~en~la, toman~o Im-
pó~i.to, o seu pioneirismo na apreciação desse enig- possível atribuir-se aquela aparencla a uma Simples
matlco processo: ilusão de ótica. . -
"Os fenômenos.de transfiguração consistem na Deve-se ressaltar que essas transflguraço,e~ se
mudança de aspecto do corpo de um vivo" ("O Livro produziam sem que para isso a vontade ~a medlum
dos Médiuns"). E oferece o seguinte exemplo, en- contribuísse em coisa nenhuma. Quanto a. mU,d~nça
volvendo uma menina médium: de peso, ocorrida no caS? da jovem. de Salnt-Etlene,
O fenômeno aconteceu durante os anos de dever-se-ia pesar, tambem, os as~~stentes, antes_e
1858 e 1859, nos arredores de Saint-Étienne, em depois da manifestação para verificar se el~s nao
Paris: contribuíram com matéria suplementar, ou seja, ma-
Uma jovem de mais ou menos quinze anos de téria citoplásmica, porque o Espíri,t~, quan~o se ma-
idade, gozava da singular faculdade de se transfigu- nifesta por uma dessas forma~ f.lslcas, so os toma
rar, isto é, de tomar, em dados momentos, todas as ponderáveis à custa de seu medlum e das pessoas
aparências de certas pessoas mortas. Tão completa presentes.
era a ilusão, que os assistentes julgavam ter diante O Dr. A. Martins Velho, em uma de suas obr~s
de si a própria pessoa cujo semblante ela reprodu- conta que assistiu, em Pari? (França), a u~a sessao
zia, tal a semelhança dos traços fisionômicos, do de transfiguração com a medlum Lay Fonvlelle..
olhar, do som da voz e, até, da maneira peculiar de Numa sessão realizada em plena I~z do dia, ~e­
falar. Este fenômeno renovou-se por centenas de lata ele, "Vimos esta senhora, que deVia tE!r.. entaC!,
vezes, sem que para isso a vontade da jovem contri- os seus cinqüenta anos, transformar-se, fiSIOnomia
buísse em coisa nenhuma. e voz, em uma bonita jovem de dezoito a,,!os, e pou-
Tomou, em várias oportunidades, a aparência co depois numa pessoa de nossa faml7la, homem
de seu irmão, morto alguns anos antes. Reproduziu-lhe velho e doente. E a semelhança era tal, que a co-
não somente o aspecto, mas também o porte e a moção que sentimos foi profundíssima e penosa ao
corpulência. Um médico do lugar, que muitas vezes extremo!"
testemunhou esses extraordinários efeitos, queren- Notáveis casos de transfiguração vêm destaca-
do certificar-se de que não havia naquilo ilusionismo dos na magnífica obra de autoria d<;> ~rof. Er~esto
ou qu.~ n~o era joguete de uma mistificação, fez a Bozzano, sob o título: "Dei Fenomem. di Tra'!sflgura-
expenencla que se segue: zione", traduzida pelo s~udoso FranCISco ~lors ~e~­
Teve a idéia de pesar a jovem no seu estado neck, com o título "Fenomenos de Tr~msflguraçao ..
normal e de fazer-lhe o mesmo durante a transfigu- Nesta obra, dada a lume em 1934, o Ilustre pesqUl-
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18 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
sador it~li~no e~cla!ece que. a mudança de asp"~Gto dez, por um exímio mestre na arte, o qual, cof1J
fervor inesgotável, passava de uma a outra efl-
~o.<a) ~m~dlum nao e somente circunscrita a09/traços
gie. No decurso dessa admirável sessão apare-
flslonomlcos da pessoa falecida, mas que, em vários ceram todas as espécies de rosto e, entre eles,
casos, o fenômeno é integral, pois transfigura.total- fisionomias de orientais e indús, calmos, graves
mente o corpo do(a) médium, acrescentando que
por ~ão se ter ainda fixado numa chapa fotográfica: e.espirituais".
infelizmente suscitam dúvidas e ceticismo. "Um dos episódios mais impressionan,t~s foi a
Na supracitada obra o Prol. Bozzano faz alu- personificação de uma menina paralltlca, c:o:
são aos surpreendentes fenômenos, dessa nature- nhecída por mim nos Estados Umdos da Ameo-
za, obtidos através da mediunidade da Sra. Bulock. ca. Todo o corpo da médium, juntamente com
Apesar de s~r a médium ainda muito inexperiente, o seu rosto, se haviam contraído e transforma-
porquanto so se desenvolveu a partir de 1934, não do em aspecto radicalmente distinto da aparên-
teve oPro~.~ozzano, posteriormente, oportunidade cia normal da mesma, representando, com to-
de. se refe~lr as fotografia~ de transfiguração conse- da a exatidão, as lamentáveis condições em
gUidas mUito tempo depOIS da publicação de seu li- que se encontrara aquela pobre vítima da para-
vro. lisia. "
Eis, porém, dois casos relatados pelo Prol. Um ano depois das experiências do Reveren-
Bozzano, na antecitada obra, datada de 1931 e do Erwood (1932) a revista 7-.ight,. noticiava que u~
1932, também divulgados na revista Ught, de Lon- grupo de pesquisadores da Socledad~ de ~esqUl­
dres (Inglaterra). sas Psíquicas" de Belfast (Irlanda), realizara Interes-
O Reverendo WiII J. Erwood publica na revista santes pesquisas com a Sra. Bullock:
The National Spiritualist, de Chicago, o relatório de
uma sessão feita por ele, em Hale, Manchester com "Os estudiosos das investigações psíquicas de
a médium de transfiguração Sra. Bullock. ' Belfast, ainda há pouco, muito se interessam
A médium sentava-se de maneira que se fa- pelas experiências da Sra. Bullock, que se rea-
lizaram na sede da 'Sociedade de Pesquisas
zem visíveis, em plena luz, os menores detalhes das Psíquicas'. Essas manifestações foram de ca-
":lanifestações; e, no espaço de hora e meia, apare- ráter incomum. A médium sentou-se defronte
ciam nada menos de cinqüenta rostos diferentes, de uma lâmpada vermelha, e, depois que se
sobrepostos ao rosto da médium, isto é, transfigu- manifestou seu Espírito-guia, começaram a
rando-o. produzir-se as assombrosas transfigurações de
Em seguida, o Reverendo WiII J. Erwood tece seu rosto que ia tomando os semblantes C/os
os seguintes comentários sobre o singular fe~ôme­ Espíritos que, sucessivamente, se comumca-
no:
vam em voz direta. "
"Era como se o rosto da médium fosse uma
massa plástica modelável à vontade e modela- Por detrás da médium fora estendido um longo
da, ademais, com assombrosa perícia e rapi- pedaço de veludo negro, e, como a médium se ves-
81
80 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
tira igualmente de preto, os rostos que apareciam se
destacavam de forma notável.
.O.prof. Bozzano observa, em 1934, que, lia
medlUnldade da Sra. Bullock é realmente assombro-
sa e, posto que se trate de médium muito nova é
dado esperar posterior desenvolvimento de suas ta-
cul<;lades medianímicas, uma vez que a estudem ex-
p~nmentadores que se proponham a observar os fe-
r"!,?menos sob um ponto de vista rigorosamente cien-
tIfIco". GRACE ROSHER
Ulteriorm.ente a~s fatos referidos pelo Prof.
Bozza~o, mUitos fenomenos de transfiguração se
produziram com a Sra. Bullock e esses felizmente
foram fotografados! "
William Crookes, o notável físico inglês, um dos
mais talentosos investigadores da fenomenologia
espírita do século XIX, saiu de seu mutismo no mun-
do dos Espíritos e se comunicou com esta nossa es-
fera de provas e expiações. Grace Rosher, a inter-
mediária das manifestações de Crookes, não gosta-
va de ser chamada de médium. Todavia, não há ou-
tro termo para configurar a sua faculdade de escrita
automática, testada e confirmada por experts em
grafologia na Grã-Bretanha. A maioria dessas men-
sagens lhe é dirigida por seu ex-noivo Gordon Bur-
dick, falecido há alguns anos.
. Ainda que o fenômeno demonstrasse a Grace a
sobrevivência do ser, que no plano incorpóreo preser-
va os seus caracteres morais e intelectuais, ela conti-
nuou a freqüentar, regularmente, a igreja anglicana.
Quando, em 1957, sua mão começou, inespe-
radamente, a escrever uma mensagem de Gordon
Burdick, desencarnado pouco antes de se casarem,
ninguém sentiu mais surpresa do que a própria Gra-
ce. Ao Reverendo G. Maurice Elliot, autor de vários

°
livros de exegese bíblica, ela submeteu seus primei-
ros escritos. Reverendo, por sua vez, levou-os à
82 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 83
an~lise d.e F.T.Hilliger, técnico em grafologia, o qual,
apos detidos exames, não foi capaz de distinguir os Deve-se observar que Grace Rosher era total-
textos o~ginais dos psicografados por Grace, embo- mente ignorante a respeito da grande reputação de Wil-
ra ele nao soubesse que tinha em mãos uma men- liam Crookes e apenas pensava nele nos termos de um
sagem ~o Além. Quando, entretanto, foi informado químico responsável por algumas invenções. Vaga-
quanto a estranha origem desses escritos insistiu mente, uma vez que ela pouco conhecia a respeito da
F.
~m assistir ao fenômeno. Em pouco tempo, T. HiI- história do Espiritismo, tinha a idéia de que, de certa fei-
IIger se convenceu da sobrevivência da alma e da ta, ele se interessara por assuntos psíquicos.
possibilidade da comunicação com os mortos. Com sua curiosidade aguçada, Grace Rosher
A mediunidade de Grace Rosher assumiu um procurou se informar a respeito de Florence Cook, a
sing~l?r desenvolvimento. A caneta-tinteiro de que ela médium com a qual Crookes trabalhara. Certa noite,
se utilizava passou a escrever sozinha, apenas apoia- depois de ter lido os artigos de um certo jomalista
da suavem~n!~ entre o seu polegar e o indicador. E chamado Trevor Hall, que difamavam o sábio des-
as extraordlnanas comunicações de William Crookes cobridor do "Ta/Hum", perguntou ao Espírito Gordon
foram tr~nsmitidas desse modo surpreendente. Burdick se ele sabia que Crookes estava sendo difa-
EXiste ~a Inglaterra um grupo de Espíritas que mado. E porque ela desejava saber algo a respeito,
trabal~a na Cidade de Aldermaston, o maior centro de Gordon prometeu-lhe que iria tomar informes no
pesquisas nucleares do Reino Unido. Esses cientis- Mundo Espiritual.
tas, !?':lando conhecimento das inusitadas faculdades " - Tentarei falar a Crookes" - Gordon escre-
medlunlcas de Gra~ Rosh,~r, solicitaram-lhe que pro- veu, "e pedirei a e/e as explicações que você dese-
movesse u~':. sessao espmta especial, a fim de que ja': Gordon escreveu mais: Que Crookes era reve-
trocas:>em Idelas com personalidades espirituais. Os renciado no mundo invisível como um mestre, pos-
p~sqUlsadores de Aldermaston tinham perguntas téc- suidor de um caráter inatacável. Esse diálogo foi in-
nicas a. fazer, e o Espírito Gordon (que se tomou um terrompido porque uma visita precisou falar a Grace.
d?s ~Ulas de Grace) disse que iria tentar trazer um Entretanto, duas horas depois, quando a visita se
clentl~ta par? atender-lhes às especiosas indagações. foi, Gordon voltou. Contou-lhe que Crookes sabia do
Dez dias mais tarde, o grupo se reuniu e o Espírito-cien- que se passava. Ele se entristecia com tudo aquilo,
tist~ convidado começou a escrever com a caneta mas não era aprimeira vez que se levantavam con-
apOiada nos dedos da médium. Durante todo o tempo tra ele calúnias e difamações, por causa das pesqui-
esperavam a pr~sen9a de Sir Oliver Lodge, que for~ sas que realizou, sob rigoroso critério científico, re-
pr?fessor ~~ Unlyersldade de Liverpool. Em seu lugar sultando na maravilhosa materialização do Espírito
veio o Espl nto .\A:'I.lliam Crookes. O fato punha por terra Katie King por três longos anos. E mais, informou
q.ualquer ~osslbllldade de telepatia, autenticando, as- Gordon: Crookes ia escrever alguma coisa a respei-
Sim, o fenomeno que atendia, sem dúvida às expec- to do assunto, através de sua mão. No dia seguinte,
tativas dos cientistas nucleares. ' Crookes escreveu um longo comunicado relembran-
do as sessões realizadas com Florence Cook e a
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 85
caligrafia era a mesma das mensagens transmitidas
ao seleto grupo de Aldermaston.
Três dias mais tarde, o grande físico voltava a
se comunicar e já agora o seu impacto era de tal or-
dem, que a caneta escrevia sozinha: - "Sou-lhe
muito grato" - escreveu Crookes- "porque você
permite que eu use a sua faculdade mediúnica para
relembrar aos homens de seu tempo a minha histó-
ria. Tudo quanto se diz são calúnias e eu me sinto
feliz em poder refutá-Ias pessoalmente". O relatório AS IRMÃS UZZIE e MAY BANGS
foi longo e prosseguiu no dia 5 de setembro de
1957. Crookes dizia:
uÉ muito importante que eu estabeleça minha
própria identidade e isso procuro fazer o melhor que No acampamento Espírita de Chesterfield, de
posso. Sinto-me ansioso por estabelecer a verdade Indiana (EUA), existe a "Helt Memorial Gal.lery", que
dos fatos, tão erroneamente interpretados. Se eu for abriga uma coleção. de retratos que, pra:tlcamente,
capaz de me identificar corretamente por estes escri- pintaram-se por si mesmos. Entre eles figura o de
tos, ao mesmo tempo oferecendo a real versão dos Audrey Alford que foi "precipitado" na tela em 22
fatos, isso ajudará meu opositor a ver claro e a perce- minutos, pera~te numerosa assistência e, imediata-
ber que está errado em suas presunções de que hou- mente identificado pelos pais, que estavam presen-
ve fraude nas sessões. Eu mantenho a certeza de tes Aiémdo tempo exíguo em que fora pintado o
que havia extraordinárias faculdades psíquicas em quàdro, menos de meia-hora - e v~rdadeiramente
Florence Cook. " extraordinário o fato de que nem o artista nem o mo-
Disso tudo resultou que o Reverendo J. D. Pear- delo eram visíveis aos olhos humanos.
ce-Higgins, Vice-Presidente da "Church's Fellowship Os médiuns deste extraordinário fenômeno
for Psychical Study", decidiu-se a escrever uma exten- eram as irmãs Lizzie e May Bangs, de C~icago, que
sa introdução ao livro "Beyond the Horizon" (Além do alcançaram notáveis resultados atraves de sua
Horizonte), de autoria de Grace Rosher, onde ela re- mediunidade de escrita automática, durante dezes-
lata, com detalhes, os trâmites pertinentes ao exercí- sete anos. Depois surgiu a fa9uldad~ qu~ possibilit~­
cio de sua mediunidade escrevente. va a pintura de retratos colondos, feitos a luz do dia
A principal característica da escrita automática e à vista de observadores assombrados. O fenôme-
de Grace Rosher é a perfeita reprodução caligráfica no é considerado, pelos pesquisadores, um do?
dos comunicantes. Particular atenção merecem os mais fantásticos da história da mediunidade. Os Crl-
autógrafos de Sir William Crookes, especialmente a ticos de arte mostram-se impotentes em descrever a
curvatura do C, que se observa em seu sobrenome. técnica empregada. Nos temP9s atu.ais e:'a po.de~a
Era hábito do grande físico, quando encamado. ser comparada à pintura a revolver, Isto e, projeçao
AS MULHERES MÉDIUNS 81
AS MULHERES MÉDIUNS
por pressão de ar, através de um orifício.
aparelho tem de ser muito bem limpo a cada tistas costumam fazer,.ao iniciarem u'!1.qL!adro.
aplicação. Observe-se que o processo da pintura Os espaços depois eram cheios, primeiro de
por pressão só foi inventado cinco anos depois des- um lado, depois do outro, tomando-se a tela
tes retratos terem sido pintados. cada vez mais opaca, enquanto o trabalho
O método empregado pelos Espíritos é fasci- prosseguia. Pude, assim, observar tl?da a ope,-
nante. Colocavam-se os chassises de madeira, com ração, ao mesmo tempo que eJfam~nava. e VI-
a tela, dois de cada vez, face a face, sobre uma giava as médiuns. Não er~ posslvel inserir nem
mesa e as laterais eram seguras com a mão, por mesmo a ponta de um lapls entre as duas te-
cada uma das irmãs, de modo que as telas se toca- Ias."
vam. Desciam-se as cortinas sobre a janela até a al- As médiuns costumavam pedir aos· assiste!1tes
tura do alto dos chassises e duas cortinas penden- que trouxessem fotografias de parentes,ou a!mgos
tes, faziam um pequeno gabinete em torno das mé- desencamados, que pudessem s~r atraidos a ses-
diuns. A luz que atravessava as telas permitia aos são e retratados. Mas as foto.s so eram apresenta-
assistentes o exame durante todo o tempo. Come- das depois das sessões termlna~as, quando se fa-
çavam então a aparecer contornos, como se o artis- zia a comparação. Os retratos plntad,?s. g~ardavam
ta espiritual estivesse desenhando um esboço preli- flagrante semelhança com as f~tos o~g!nals,. ~mb_o­
minar. Depois o processo ganhava intensidade e ra em poses diferentes. Procedla-s~ a Identlflcaçao
quando as telas eram separadas, os retratos sur- em m,eio à surpresa e inte~s.a em~ç~o.
giam aos olhos espantados dos assistentes. Os pin- As vezes as duas medlUns hmltavam-s~ a sen-
tores invisíveis retratavam os parentes e amigos tar-se e a segurar as telas enquanto os ~sslstent~s
mortos dos que se encontravam na platéia. Embora esperavam. Com o transcorrer das sessoes; as Ir-
a pintura se apresentasse ainda gordurosa eaderis- mãs Bangs não mais to~avam nas telas. Delx~v~m
se ao dedo quando tocada, não se .observavam a sala e iam para a cozinha prepararA un:'a refelçao,
manchas na.outra tela que lhe ficava justaposta. Na mas a pintura prosseguia em sua au~encla.
sala não se encontravam tintas nem acessórios de Freqüentemente as cores aVivavam-se n~s
pintura! dias que se seguiam à pintura, ganhando tons mais
Os técnicos em.arte, ao examinarem essas pin- fortes e profundos. Algumas d~s pe~soas que rece-
turas, esbarravam em um obstáculo intransponlvel: beram quadro~ afirf!lavam a?sJomall~tas que certos
elas não apresentavam, absolutamente, nenhum si- pormenores so haViam surgido depOIS que os retra-
nal de pincel. Uma testemunha do estranho e único tos estavam dependurados em suas casas. .
fenômeno na história das pesquisas espíritas, decla- O vice-almiranteW. Osbome Mo?re, 'pesqUisa-
rou: dor inglês, investigou demora~a e minuciosamente
- ':Através da face posterior da moldura, vi co- a faculdade mediúnica de Uzzle e May Bangs..Ele
meçarem a surgir, na outra tela, traços muito próprio preparava as telas ~ m.arcava-~s. Examina-
rápidos, semelhando um esboço, como os ar- va a casa e vistoriava os moveis, segUindo de perto
todos os movimentos das médiuns. Ele se declarou
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 89
A faculdade mediúnica das irmãs Uzzie. e ~ay
de público plenamente· convencido da autenticidade Bangs parece ter sido ~~ic~ no contexto hlstonco
dos fenômenos, provocados com extrema lisura, in- das manifestações espmtuals n~st~ no~so . o,
dependentes da participação consciente das mé- atribuindo-se-Ihe, assim, peculiansslma slngu anda-
diuns.
"Certa feita" - esclarece W. Osbome - "du- de.
rante os trabalhos de 'precipitação' de um retrato,
sugeri, mentalmente, que um broche de ouro, que já
tinha aparecido, fosse aumentado e decorado com
um monograma. O artista espiritual atendeu silen-
ciosamente à sugestão, proporcionando esse deta-
lhe adicional e irrefutável que prova a origem pura-
mente espiritual do fenômeno". Alguns desses retra-
tos, o pesquisador os apresentou, por volta de 1909,
na instituição espírita de Portsmonth Southea, Hants
(EUA), onde estiveram expostos por vários anos.
Outro espantoso e absolutamente exclusivo fe-
nômeno consistia em que, freqüentemente, os retra-
tos eram terminados mostrando os olhos fechados.
Quando se comentava essa circunstância, o toque
final do invisível· artista era fazer surgirem as pupilas
numa "pincelada" de baixo para cima. Parecia que
as pálpebras se abriam. Finalmente os olhos, a mais
individual e significativa.parte da fisionomia, asses-
tavam-se, como se vida realmente tivesse, sobre o
emocionado e admiradíssimo parente ou amigo.
Outro importante detalhe: os retratos sofriam,
depois de concluídos e retirados do local das sessões,
leves ou drásticas mudanças. Em tomo, por exem-
plo, do retrato da entidade espiritual laia, mentora
do vice-almirante W. Osbome Moore, pintado em 22
de janeiro de 1909, sob rigorosa condição de teste,
aconteceu um fenômeno considerado espetacular e
incompreensível pelas testemunhas: ao ser termina-
do, o belo perfil do jovem Espírito estava voltado
para a esquerda. Inesperadamente, surgiu ao con-
trário, olhando para a direita...
91
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
maticais, todas as regras de ~intaxe pró~rias dess~
língua ignorada. Os dois fenomenos senam, mani-
festamente, de ordem diversa, e não teriam nenhu-
ma analogia um com o outro.
lole Catera contava, em meados de 1942, 26
anos. Toda a família, ainda segundo o articulista da
Revue Métapsychique, gozava de excelente saúde;
em nenhum dos seus membros, nem nos ascenden-
tes nem nos colaterais, se notaram anomalias so-
IOLE CATERA máticas ou psíquicas. Era uma família saudável e
temente a Deus.
Até o fim de março de 1934, ninguém dessa fa-
mília se ocupara de fenômenos supranormais ou es-
A revista Ricerca Psichica, de Milão Itália e a píritas. Foi, por essa época, que pessoas amigas
Revue Metapsychique, de Paris, França, publicaram propuseram que se interrogasse a "mesa pé-de-galo".
extensos artigos sobre a "médium musical" lole Ca- Como o resultado não fosse brilhante, experi-
tera. Ela escrevia composições musicais para piano mentaram a escrita automática: entre as pes-
paTa; canto, para orquestra, o que evidentemente soas presentes foi lole Catera quem, com muita
eXigia um conhecimento das leis da harmonia e do surpresa sua, começou a escrever. Não tinha a
contraponto que o automatismo não pode dar e que menor idéia do que escrevia e só veio a sabê-lo
leva tempo a adquirir. E isso consegue lole Catera depois de o ler.
se!TI. ter ,~bsolutamente nenhum conhecimento de Algum tempo depois lole Catera começou a
mUSlca. Tra~a-se, em suma" - afirma o articulista "ver' e a "ouvir' pessoas desencamadas ou viven-
da .Revue Metapsychique - "de um fenômeno que tes ainda na Terra, mas ausentes. No mês de agos-
deixa a perder de vista as maravilhas da execução to de 1934, revelou-se-Ihe faculdade mediúnica
picturié!.! e musical autqmáticas, mesr:no nos 'sujets' mais rara e interessante.
qu~ nao. ~studaram pmtura nem musica. Pode-se, Depois de ter assistido, no cinema, à exibição
a~e, admitI( que se trata de um gênero inteiramente do filme "Angeli Senza Paradiso", cujo entrecho
diferente".
descreve a vida sentimental de Schubert e que na
A diferença é, aproximadamente, a que se dá tradução francesa tem o título de "Sinfonia Inacaba-
e!1 tre um analfabeto que, no estado de transe, faz da" - cerca de meia-noite - lole Catera viu, na
discursos, .nu.ma língua que mostra lhe ser familiar sua frente, uma folha de papel na qual estava músi-
- que sena Incapaz de fazer no seu estado normal ca escrita. Não obstante nada conhecer de música,
- e u,ma pess0i!l que pronuncie esses discursos sentiu-se impelida a pegar uma folha de papel em
numa hngua que Ignora completamente, empregan- branco, a traçar nela as cinco linhas da pauta musi-
do as palavras adequadas e todas as inflexões gra- cai e a copiar os sinais que viu. E, assim, copiou cin-
92
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 93
co pequenas p~gin~s:. No dia seguinte, ouviu repeti-
rem-Ih~ ao ouvido; 'tres por quatro, três por quatro", A escrita da música, ou antes, a cópia, fá-Ia, or-
dinariamente durante amanhã: de tarde e, sobretu-
mas. n~<? consegUl~ compreender o que isto pudes-
~e Significar. Na nOite desse mesmo dia, enquanto a do, à noite,' nada consegue. ou dificilmente logra
jovem ~ostrava a? Or. Salvador Guéli, pesquisador bom êxito. lole sente-se imeelld~ a pegar o p~el de
de Gatanea (que ja estava pesquisando a mediuni- música e numa caneta; entao, ve diante de SI a pau-
dade de lole) as cinco pequenas páginas e lhe rela- ta musical com os símbolos próprios. Logo que co-
tava o episódio, manifestando a sua surpresa e per- pia uma linha, outra linha lhe aparece - c0f!l0 po-
~u!1tando o que p~deria significar aquela expressão deria acontecer se a música estivesse escnta em
tres por quatro, tres por quatro",- o Or. Guéli ob- um cilindro que se moves~e d~ baixo para ~im~ - e
~eryou~he que nas cinco páginas escritas faltava a assim sucessivamente ate o fim. A produçao e qua-
Indlcaçao da clave e a do compasso (os "três por se sempre na clave de "Sol", com indicação do tom
quatro" que ela ouvira), bem como faltava a divisão e do compasso.. • . A

dos compassos e dos acidentes. A médium copia a ~USlca qu.e ve.na sua frente
Estas cinco folhas de música foram observadas em um pentagrama, delxan.do a Ir~edlata em br~m­
~or peS::>0a competente, a qual declarou ao Dr. Gué- co. Depois, geralmente no dia segUl~t~, sente-se Im-
li que; ~ parte as lacunas mencionadas, o bocado pelida a completar o bocado de muslca que escre-
d~ m.uSlca que continha podia pertencer ao gênero veu na clave de "Sol", registrando no pentagrama,
por debaixo da primeira, os compassos correspon-
classlco. O compasso era três por quatro.
. .Em setembro de 1934, lole Gatera copiou, me- dentes à clave de "Fá". Se a música tem letra, qua-
dlunlcamente, uma espécie de "fantasia" para piano se sempre antes, às vezes depois de escrever o tre-
bem como ~ música e a letra de uma canção (ber~ cho musical, a médium ouve cantar 0l! tocar a,pro-
ceuse), c:onsl~er.ada como tendo sido composta por dução que lhe foi transmitida e chega ate a. trautea-~a.
um musICO distinto - . uma. senhora pouco tempo Nas composições de. canto, a letra e percebida
antes de morrer. Isto fOI confirmado pela irmã da au- pela médium. por cla~i~udiência, e escreve-a quase
tor~ da canção, Eva MiJano, de Gatânea. Desde sempre depOIS da muslca. Entretanto, acontecel!-~he
entao, as faculdades musicais supranormais de lole pedir à misteriosa personalidade que faça a muslca
. qatera pro~uziram manifestações sempre mais va- para o poemeto que indica ou que lhe propuseram;
nadas e mais numerosas. e isto se realiza.
Os !e!'lômenos. dav~m-se" sempre, em plena Foi o que acontece~, ~~r. exemplo,. com a letra
I~z. A medlu~ mantinha Inalteravel a sua consciên- de uma canção em patoa SICIliano, e~cnta pe~o Pro-
CI~ --:- quer dizer: não se lhe notava, no momento de fessor Pedro Guido Gesano, de Gatanea, Intitulada
objetivar sua faculdade mediúnica, nenhuma mu- "Sicilia", e cuja música, .obtida por .este processo,
dança nas. suas manifestações sensoriais e psíqui- proveio de uma personalidade que disse chamar-se
cas; e maiS, apenas acusa a percepção supranor- Giovanni Dele'Ora.
mal auditiva, ou visual, ou ambas ao mesmo tempo. Enquanto escreve a música, '?'e ouve,a con-
versação das pessoas que a rodeiam e ate toma
94
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 95
lole Catera foi considerada um ~os fenômenos
parte nela. De resto, é o que podem fazer, com mais maiores da supranormalidade nas decadas de 30 e
ou menos facilidade, todas as pessoas que copiam
música. Contudo, o trabalho é-lhe mais fácil se tiver 40.
um pouco mais de tranqüilidade. que lhe permita
concentrar melhor a atenção nas linhas de música
que vê e de onde copia; por isso, prefere estar só. A
duração da cópia varia entre dez e quinze minutos,
até meia hora; raramente se prolonga por uma hora,
porque isso a fatiga, sobretudo a vista. No que res-
peita a quantidade, em cada sessão, vai de apenas
alguns compas~os (o que é muito raro) até cerca de
duas páginas. As vezes,. a composição fica incom-
pleta para prosseguir, no dia seguinte, partindo exa-
tamente do último compasso escrito. A clave de "fá"
é, gerplmente, escrita de um jato.
E importante salientar que o estilo das compo-
sições varia, consideravelmente, segundo as entida-
des que as ditam, ao passo que é sempre idêntico
para cada composição. Entre os nomes dessas enti-
dades, figuram alguns completamente desconheci-
dos na literatura musical, como, por exemplo, o de
Giovanni Bruchi, especializado em gênero ligeiro;
outros nomes são muito conhecidos. O estilo das
entidades, que se atribuem nomes célebres, corres-
ponde ao que se conhece deles, embora - confor-
me o juízo unânime de especialistas - a produção
de lole seja absolutamente original.
A música ditada por Vicente Bellini foi julgada
por experts, aos quais fora mostrada sem lhes dize-
rem a origem. Reconheceram como composição do
começo do último século, atribuindo-a ao gênio belli-
niano. Bellini, por sinal, prometeu ditar uma ópera a
que deu o título de liA Dama dos Fariseus" e da qual
ditou um belíssimo coro: "O Coro dos Anjos".
97
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
dendo que poderia ser indício de mediunidade es-
crevente, propôs que ambos dedicassem, em cada
semana, algumas horas a sessões regulares, na
tentativa de se obter algum satisfatório resultado. A
jovem concordou. A partir daí, a faculdade mediúni-
ca de Rosemary desenvolveu-se rapidamente. A pri-
meira entidade que se apresentou, por meio da psi-
cografia, deu o nome de "Mariel", o Or: Y"0od sou-
be, mais tarde, que se tratava do Espmto de uma
IVY BEAUMONT mulher "quaker", que vivera na cidade de Liverpool
(Inglaterra). Esse Espírito, após inteligentes diálogos
com o pesquisador, declarou:
"Estamos preparando a médium para uma mis-
Após a desencamação de seu irmão, J. O. são importante. Quando tivermos concluído os
Wood em acidente numa rua de Londres, o doutor preparativos, virá substituir-me algl:Jém que po-
em música e notável cientista inglês Frederic H. derá dar mensagens de maior valor do. que as
Wood, autor do Livro "After Thirty Centuries" (Após minhas."
Trinta Séculos), voltou-se para as pesquisas espíri-
tas. Manteve contato com alguns médiuns britâni- Em outubro de 1928, escreveu:
cos, através dos quais estabeleceu fidedignas co- "Está aqui um Espírito que, de agora em dian-
municações com o seu querido irmão. O Or. Wood te, guiará a médium. O seu nome. entre os Es-
confessa que essas comunicações lhe for~m ~e píritos é Lady N,ona. Viveu no Egito, em tempo
muita utilidade durante os tristes anos da pnmelra muito remoto. E um Espírito elevado e podero-
guerra mundial (1914-1918). so; parece de natureza estranha e fria. como a
Relata o Prof. Francisco Valdomiro Lorenz, um
água fresca de uma fonte clara e perfeitamente
dos maiores divulgadores do Esperanto no Brasil,
em sua obra, "A Voz do Antigo Egito" (FEB), que pura."
dedica a outro vulto do esperantismo no Brasil, o Então começaram as comunicações de Nona,
Prol. Ismael Gomes Braga, que anos depois de sua psicografadas por Rosemary. Duas semanas de-
militância no movimento espírita inglês, o Or. Wood pois, Lady Nona, em manifestação psicofônica, re-
encontrou a jovem Ivy Beaumont, que adotara o comendava ao Or. Wood: pedia calma e concentra-
pseudônimo de ROSE MARY. Ela, à época, não es- ção física e espiritual,. e Fxplicou .que vinha de~e.m­
tava nem um pouco interessada pelos fenômenos penhar importante mlssao; depOIS falou de vanos
espiríticos, mas pela músiGa. Um dia, entretanto, assuntos ligados, pessoalmente, ao Or. Wood, e
nos finais de 1927, sentiu um forte tremor no braço
direito, na presença do Or. Wood, o qual, compreen- passou a dizer:
AS MULHERES MÉDIUNS 99
98 AS MULHERES MÉDIUNS
o Or. Wood, certa ocasião, perguntou ao Espí-
"Deus atinge as Suas próprias decisões por rito: "Como é que escreves e falas o inglês com tan-
meios puramente espirituais. Os seus cami- ta perfeição, apesar de teres passado a vida terres-
nhos são os do Espírito. Se viveis honestamen- tre no Egito?"
te e orais a Ele de todo o coração, não vos fal- Lady Nona respondeu:
tará o Seu auxílio... Nós teremos que passar "Tenho estado em contato com o teu país por
juntos por muitos caminhos. Eu cuidarei desta tempo suficiente para falar a tua língua. Ao
filha (Rosemary). Vós e ela tendes o tempera- mesmo tempo eu podia, por meio de um forte
mento necessário para esta espécie de traba- médium, escrever na língua dele, até mesmo
lho. Não percais a coragem.. !' se eu não compreendesse essa língua; mas,
neste caso eu imprimiria no seu cérebro uma
Em outra oportunidade Lady Nona esclarece: ima9':Jm das minhas,idéias, e o médiLJm a tra-
"Eu faço uso da mente d{1 médium, mas sou eu duzma em suas proprias palavras. As vezes
mesma quem vos fala. As vezes a médium re- acontece assim, porém isso pode produzir con-
cebe minha impressão, e sua própria mente se cepções errôneas, porque um médium descre-
expressa por palavras suas e de sua própria ve sempre o que ve, a seu próprio modo e com
maneira. Em tais casos facilmente ocorrem er- palavras que lhe sUflerem suas próprias expe-
ros na comunicação; e por isso é necessário riências. Por isso e preferível que o Espírito
escolher com cuidado a palavra que deve ser que se comunica, dê as 'palavras', e não ape-
escrita.. .Eu coloco a minha mão esquerda na nas os símbolos, através do cérebro do mé-
dium. Na escrita 'psicográfica' vencemos a difi-
testa da médium, e com a direita guio o lápis. culdade, porque simplesmente tomamos da
Em todas as sessões aglomeram-se muitas en- mão do médium e fazemos com ela o que fa-
tidades espirituais em redor do respectivo mé- ríamos com a nossa própria. "
dium e desejam escrever pela mão deste; mas
é claro que não se podem admiti-Ias todas. Te- Interrogada sobre as impressões que sentia
mos de tomar precauções contra abusos; se antes de entrar em transe, durante o mesmo e de-
fossem admitidas todas as entidades que dese- pois de recuperar o seu estado normal, explicou
jam comunicar-se, perder-se-ia muito tempo que, em princípio, sentia, durante dois até cinco mi-
nutos, entregando-se a completo silêncio, uma cres-
sem utilidade. As que compreendem quando se
cente relaxação da mente, do corpo e das faculda-
lhes explica o motivo de não serem admitidas a des volitivas; depois sucedia a escrita ou a fala do
dar comunicações, retiram-se; mas há algumas Espírito:
obstinadas. Os vossos guias formam, por isso,
em vosso redor uma corrente de força e assim "Quando eu mesma falo, penso antes de pro-
conseguem impedir qualquer rompimento por nunciar as palavras. E depois de falar lembro-me,
parte de estranhos e intrusos. " ao menos por algum tempo, do que falei; po-
AS MULHERES MÉDIUNS 101
100 AS MULHERES MÉDIUNS
rém, quando fala Nona pela minha boca, eu foi permitido que o meu corpo fosse dignamen-
não penso; os meus lábios se movem e pro- te sepultado. Mais tarde, o Faraó descobriu
nunciam as palavras sem que eu possa dizer que eu tivera razão e então sentiu fortes remor-
como; e depois, quando o Espírito me deixa re- sos. Eu, entretanto, no Mundo Espiritual, dormi
tomar o meu estado normal, não posso repetir por muito tempo e, quando acordei e reconheci
as palavras, ditas durante meu. transe, nem di- que estava viva, os meus sofrimentos aumen-
zer de que tratam elas. 11 taram pela separação daquele que ainda me
A 28 de junho de 1930, estava o Or. Wood no era caro. Não me queixava dele, mas dos mali-
gabinete mediúnico da clarividente Sra. Mason, sen- ciosos conselheiros que, ciumentos por causa
do ele desconhecido da médium, quando esta co- do grande amor que ele me votava, o engana-
meçou a descrever o Espírito-guia de Rosemary: ram para conseguirem que me abandonasse.
Ele sofreu muito devido a esse erro, em sua
"É uma senhora que foi princesa egípcia; ouço vida terrestre, e ainda no Mundo Espiritual.. .. 11
o nome ana, Mona ou Nona. Ela é de bela for-
ma corporal, esguia; tem a face delgada, a tes- Pesquisas posteriores desenvolvidas pelo Or.
ta alté!; traja um vestido folgado e sem mangas; Frederic H. Wood, no Museu Britânico e em outros
um cmto de ouro. a vestido e as sandálias são lugares, chegaram à conclusão que o Faraó, ao
de cor azul; um capuz comprido cai-lhe sobre qual Lady Nona se referia, era Am~nhotep III! q~e
os ombros. 11 reinara nos anos 1406-1370 a.C. Alem do maiS, In-
formações outras prestadas pelo Espírito confirma-
Após dois meses de trabalhos com a médium ram o resultado das pesquisas. Disse Lady Nona
Rosemary, Lady Nona, narrou, através da psicogra- que o Faraó construíra muitos monumentos, orde-
fia, a história de sua vida na Terra: nando que pusesse suas estátuas às portas desses
"Há muito tempo, vivia no Egito um certo Fa- edifícios. E é verdade histórica que, dentre os Fa-
raó, e eu era sua rainha. Naqueles dias estava raós que obtiveram a fama de construtores de s~n­
o. Egito cheio de astrólogos e sábios que predi- tuários, Amenhotep 111 foi o que ma~dou construir o
zIam o futuro. Um deles era mau conselheiro, e maior número deles, de uma extremidade a outra do
eu avisei a~ Faraó que desconfiasse dele, por- Egito destacando-se os de Luxor, Kamak, Sakka-
que eu sabia que aquele homem estava cons- rah, EI-Kah. Nona declarou que o seu nome babilô-
pirando secretamente, não só contra a minha nico era Telika, e que no Egito lhe fora acrescentado
vida, como também contra sua vida. a Faraó, o apelido Ventiú, isto é "Asiático". A veracidade des-
porém, não acreditou nas minhas palavras, e ta comunicação é confirmada pelas tábuas de argila,
declarou que aquele homem era honesto. Em achadas nas escavações em Tel-EI-Amama, no Egi-
desespero, encarreguei meus criados de matar to em 1887. Essas tábuas contém uma carta que o
esse meu inimigo; mas tudo foi descoberto, e o rei da Babilônia, Kadaxman Bel, dirigiu ao Faraó
meu Faraó ordenou que eu fosse afogada no Amenhotep 111, em que se referia a uma irmã que
Nilo. Foi um trágico fim de uma vida feliz; nem fora dada por esposa ao Faraó e que desaparecera.
102 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 103
Essa princesa teria sido Telika ou Lady Nona, elimi-
nada por força das intrigas palacianas...
A partir de 8 de agosto de 1931, iniciam-se as
comunicações de Lady Nona em Egípcio faraônico.
Quatro anos decorridos (1935), Lady Nona já havia
falado em egípcio rápida e corretamente por algum
tempo. No dia 4 de maio de 1936, o Dr. Wood apre-
sentou-se, com a médium, no Internacional Institute
for Psychical Research, em South Kemington, Lon-
dres, e Lady Nona pronunciou aí, por Rosemary, em HElENSMITH
egípcio faraônico, um interessante discurso (fenô-
meno de xenoglossia), que foi gravado em disco,
destinado ao estudo e à análise dos egiptólogos.
Uma segunda prova fonográfica ocorreu no mesmo
instituto, no dia 14 de julho de 1938. Entre os fenômenos espíritas que sempre têm
despertado a atenção e os cuidados dos pesquisa-
dores está o da xenoglossia. Têm-se levantado, a
respeito, uma série de hipóteses que tentam, infruti-
feramente, explicar tal fenômeno, assim como acon-
teceu com René Sudre, da França, em sua "Introdu-
ção à Metapsíquica Hum,ana"; com Flournoy, da
Suíça, em sua obra "Das Indias ao Planeta Marte",
e com Hartmann, da Alemanha, em seu livro "O Es-
piritismo", todos refutados, respectivamente, por Er-
nesto Bozzano em sua obra "Metapsíquica Huma-
na", por Chevreuil, no livro "Não se Morre" e por
Alexandre Aksakoff, em sua obra "Animismo e Espi-
ritismo".
René Sudre, com a sua "prosopopéia-metag-
nomia" (com a qual pretende tudo explicar e nada
explica) tratando dos fenômenos de xenoglossia
que se deram com a médium Helen Smith, pesqui-
sada pelo Dr. Theodor Flournoy, Professor de Psico-
logia da Universidade de Genebra (Suíça), assim se
expressa:
AS MULHERES MÉDIUNS 105
104 AS MULHERES MÉDIUNS
"O caso em que o médium em transe se põe a traimente refutada por Aksakoff, oferece a seguinte
falar em língua que diz não conhecer deve e insustentável hipotese sobre XENOGLOSSIA:
sempre ser examinado com a presunção de se "Os sonâmbulos podem pronunciar e escrever
estar diante de um caso de criptomnesia (me- palavras e frases em línguas que não com-
mória oculta)." preendem, se o magnetizador ou uma outra
Helen Smith teria, segundo Sudre, assimilado o pessoa qualquer, posta em relação com eles,
que manifestava do ~ânscrito (antiqüíssima língua pronunciam essas palavras e essas frases,
sagrada e literária da India) folheando uma gramáti- mentalmente, com o intuito de sugerir... "
ca ou outro qualquer documento escrito (!). E quando os sonâmbulos falam de assuntos e
Entretanto, é o próprio Floumoy, autor das ex- se expressam em línguas desconhecidas de todos,
periências com Helen Smith, que declara: até mesmo do magnetizador? ..
'~ Srta. é verdadeiramente muito surpreenden-
te em seus sonambulismos hindus. Pergunta-se,
com assombro, de onde vem a esta filha das
margens do Lémano, sem educação artística,
sem conhecimento especial do Oriente, uma
perfeição de jogo, que nenhuma atriz alcança-
ria, sem dúvida, senão à custa de estudos pro-
longados qu uma estada nas margens do Gan-
ges ("Das Indias ao Planeta Marte")."
Helen Smith, em estado de transe, afirmava ter
sido a princesa Samandini, filha de um Sheique ára-
be e mulher de um príncipe indiano chamado Si-
vrouka Nayaca. Esse príncipe residia em Kanara e
ali construiu, em 1401, a fortaleza de Tchandragh.
Floumoy teria confirmadas as informações da
médium Helen Smith quando lhe caiu às mãos uma
9bra raríssima de François Marlis "Historia Geral da
India Antiga", editada em 1828, que veio demons-
trar, de maneira mais do que evidente, a verdade
sobre a existência da princesa Samandini e de sua
saga!
Por sua vez Eduard von Hartmann, em sua
obra "O Espiritismo", dada a lume em 1885, magis-
106 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 107
a fisionomia da genitora da Sra. Fletcher, que lhe
apareceu em forma de camafeu. Um dos seus ami-
gos já falecido, materializou-se tão perfeitamente
bem que deu para perceber, na sua face direita, um
grande sinal natural que o caracterizara.
Os fenômenos que mais surpreenderam a to-
dos foi a materialização de uma figurinha com a al-
tura de 14 polegadas (cada polegada equivale a
25,40 mm), cercada de longo manto flutuante, a
ADA BESSENET qual se pôs a dançar na mesa, entre a Sra. Fletcher
e o Or. Carrington. (Estavam sentados um em frente
do outro.)
Como explicar este fenômeno? 'Talvez",
Anne Louise Fletcher, em sua obra "Oeath Un- lembra a Sra. Fletcher, - "tenhamos percebido pela
veiled", citada pelo Prof. Ernesto Bozzano, relata os visão inversa (como quando se olha em um binóculo
trâmites das experiências a que se submeteu a mé- ao contrário) esta pequena figura que dançava ao
dium norte-americana Ada Bessenet, das quais par- ritmo da música, iluminada por sua própria luz". O
ticipou o conhecido metapsiquista Or. Hereward certo é que era uma mulherzinha viva, perfeitamente
Carrington, autor do livro "The History of Psychic normal, salvo no que concerne as suas proporções
Science". minúsculas. A pesquisadora admitiu, por outro lado
Relata a Sra. Fletcher: (ante, provavelmente, o surpreendente e inacreditá-
"Em Washington, O. C., tive a oportunidade de vel fenômeno), que poderia se tratar da projeção de
assistir, em casa de um amigo, a uma sessão uma "imagem psíquica", graças às ondas elétricas,
com a conhecida médium Ada Bessenet, de assim como se faz pela "televisão". Por último, con-
Toledo, Ohio (EUA). A sessão realizou-se em siderou a possibilidade de que o Espírito em ques-
completa obscuridade, mas o Or. Hereward tão, por um ato de sua vontade, tenha querido mate-
Carrington estava sentado à direita da médium rializar-se, em proporções diminutas. A verdade é
e lhe vigiava atentamente todos os movimen- que, nos fenômenos de materialização, os Espíritos
tos. Não tardamos em ver aparecer as habi- se manifestam, mais ou menos bem, segundo o
tuais luzes que iam e vinham à altura do teto; grau de intensidade com o qual chega a concentrar
em seguida, vozes diretas masculinas e femini- o pensamento sobre o fenômeno que se propõe a
nas se fizeram ouvir no alto, cantando 'solos' e produzir. Isto parece explicar porque várias vezes as
'duos'." materializações·· de desencarnados não correspon-
Quando as primeiras formas materializadas dem, no que diz respeito a sua altura e compleição,
apareceram, iluminando a si mesmas, identificou-se à expectativa dos experimentadores.
108 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 109
o episódio registrado pela Sra. Annie Louise
Fle.tcher ~uarda analogia com o relatado pela Ora.
Juhette BI~?0!1, ao investigar .~ extraordinaria facul-
dade medlumca d~ .Eva_Carnere, investigação que
contou com a partlclpaçao da Doutora Marie Curie
notável cientista, ganhadora do prêmio Nobel de Fí~
sica e de Química.

CORA l. V. RICHMOND

Também chamada Cora Scott, Cora L. V.Tappan


e Cora L. V. Tappan Richmond. Conhecida médium
americana, famosa por sua oratória sob inspiração
dos Espíritos.
Em 1851, passou alguns meses em uma comu-
nidade chamada Adin Ballou's, na cidade de Flope-
dale. Cora estava com onze anos de idade. Nessa
ocasião, entrou em transe, e um Espírito que desen-
carnara, ainda jovem, na mesma comunidade, co-
municou-se através dela.
Dois anos depois, Cora foi vista pregando
numa tribuna públic"a. Suas palestras agradaram
tanto que aos 16 anos já viajava pelos Estados Uni-
dos fazendo conferências.
Em 1873, cientistas a contrataram para proferir
conferências pagas na Inglaterra. Aí permaneceu
por vários anos, onde proferiu uma média de 3.000
palestras.
As palavras nunca lhe faltaram, escreveu o crí-
tico de ponta, Frank Podmore, na revista Modem
Spirítualism:
110 AS MULHERES MÉDIUNS 111
AS MULHERES MÉDIUNS
"O estado de transe de Mrs. Tappan ultrapas-
sava os limites do simples automatismo. A ora-
dora jamais se perdia no curso de suas brilhan-
tes preleções. O estilo era claro, conciso, sem
muitas figuras de estilo ou quaisquer artifícios:
nenhuma antítese, nenhum clímax, nenhuma
ironia ou humor de qualquer espécie. Freqüen-
temente, ela recitava e improvisava poemas,
utilizando assuntos escolhidos pela própria au- ADA EMMA DEANE
diência. Os poemas tratavam do problema da
morte, dos sentimentos e da dor humana, dos
mistérios cósmicos etc. "
Posteriormente, Cora Richmond se tornou pre- Era uma conhecida fotógrafa inglesa e, tam-
gadora da primeira "Sociedade Espiritualista de Chi- bém, médium de fotografia.
cago". Após a Primeira Grande Guerra, ela fundou e A primeira vez em que se observou o rosto de
passou a dirigir a "Associação Espiritualista Nacio- um Espírito ao longo das sessões realizadas com
nal", tornando-se a vice-presidente e conferencista Ada Emma Deane, foi numa fotografia tirada por ela
até a sua desencarnação. própria em junho de 1920.
Ela ficou conhecida pelo seu marcante poder Entretanto, suas faculdades psíquicas sofreram
de oratória quando estava em transe. muitos ataques por parte da crítica. Suspeitavam d~
Desenvolveu, da mesma forma, a capacidade sua idoneidade, devido ao hábito de guardar, consI-
de desdobramento. Fez várias excursões ao mundo go, as chapas para, segundo dizia, fazer a "magneti-
espiritual e de lá trouxe conhecimentos fascinantes zação".
e de interesse absorvente. Com o transcorrer dos anos, as suspeitas dimi-
Como escritora, tornou-se famosa e popular, nuíram e Ada passou a gozar de certa credibilidade,
particularmente com o seu livro "Minhas Experiên- que se consolidaria com o passar do tempo.
cias Fora do Meu Corpo". Em uma reunião realizada em novembro de
Seu discurso pronunciado em Londres, no ano 1924 no escritório "Júlia", de William Thomas
de 1878, foi transformado em livro, sob o título "Es- Stead Ada não forneceu, desta vez, a chapa a ser
pírito e Natureza, Relações e Expressões", saiu a impressionada pelos Espírito;s, nem ~esmo a t~cou
público em 1887, considerado o seu mais importan- por um instante sequer. E, ainda aSSim, os fenome-
te trabalho. nos das fotografias dos Espíritos ocorreram como
Sua biografia foi escrita por H. B. Barret no livro sempre. . .,
"A Vida e Trabalho de Cora L. V. Richmond" publi- O jornal da Sociedade para Pe~qulsas. PSlqul-
cado em 1895. cas registrou, em 1921, outra reunlao notavel em
AS MULHERES MÉDIUNS 113
112 AS MULHERES MÉDIUNS
Sobre a faculdade de Ada Deane, Estelle
que Ada foi experimentada pelo Dr. Allerton Cus- Stead dá o seguinte testemunho em seu livro "Fa-
hman, diretor dos Laboratórios Nacionais de ces of the Líving Oead" (Faces dos Mortos Vivos):
Washington. Ele obteve, com uma chapa que ele
mesmo levara consigo, um retrato surpreendente de "Eu conheço a Sra. Oeane, tenho trabalhado
sua filha que desencarnara no ano anterior. com ela durante os últimos quatro anos e acre-
No ano seguinte (1922), o Comitê Oculto do dito totalmente em sua honestidade e na sua
Círculo Mágico publicou uma reportagem sobre as integridade de propósito. Conheço bem suas
experiências que realizara com Ada Deane. Ampla câmaras, por dentro e por fora, as tenho exami-
publicidade foi dada pela imprensa diária sobre essa nado sempre, assim como as chapas escuras
sessão, realizada sob a assistência da Srta. Estelle usadas nas suas sessões. Tanto as câmaras
Stead. como os "slides" escuros são freqüentemente
Foi tirada uma fotografia em 11 de novembro deixados no meu gabinete por dias seguidos, e
de 1922, com uma chapa exposta durante dois mi- eu, como outras pessoas, tenho bastante opor-
nutos de silêncio por parte da assistência no Ceno- tunidade de as examinar à vontade. As chapas
taph, em Whitehall. Ao ser revelada, apareceram vá- são sempre reveladas na minha câmara escura
rios rostos de Espíritos na fotografia. e posso assegurara estes valentes campeões
Por três anos consecutivos, Ada Deane se sub- que afirmam a falsidade das fotos com bastan-
meteu a experiências de fotos psíquicas e, em mui- te convicção que não existem placas de revela-
tos casos, com sucesso. ção com bases em si/onda transparente deixa-
Em 1923, aconteceu um caso notável. H. Den- das na mesa da sala escura, como, também,
nis Bradley, autor da obra "Toward the Stars" (Rumo nenhuma luz elétrica escondida aí. Nós usa-
às Estrelas), foi surpreendido com a foto de seu cu- mos discos de porcelana que desaparecem ao
nhado W. A. entre os retratos. Foi o próprio Espírito lavar, após cada sessão. "
W. A. que comunicou, através do fenômeno de "voz O Dr. Hereward Carrington relatou, através do
direta", que se encontrava entre os demais, no lado jornal da S.P.R., de maio de 1925, a experiência
direito da fotografia, não muito abaixo. No dia se- que tinha realizado com Ada Deane no dia 5 de se-
guinte, Bradley solicitou uma cópia da fotografia e tembro de 1921:
ao examiná-Ia com o microscópio verificou que, en-
"Sobre seis de minhas placas, apareceram
tre 50 pequenos rostos, visíveis na mesma, lá se en-
marcas curiosas; sobre duas delas essas mar-
contrava o do seu cunhado, exatamente na posição cas são meros borrões, que nada evidenciam,
por ele descrita. Bradley relata esse fato na obra ci-
mas que julgo curiosas. Na placa seguinte,
tada. Todavia, como sempre ocorre, contestações
contudo, o resultado foi deveras impressionan-
surgiram a respeito do fenômeno. A Tropical Press te. Eu tinha silenciado sobre um facho de luz
Agency chegou a declarar, em um artigo, que os Es-
branca que parecia emergir do meu ombro di-
píritos visíveis na foto nada mais eram que as páli- reito e ela apareceu na placa. Seguramente,
das reproduções copiadas de suas publicações.
AS MULHERES MÉDIUNS 115
114 AS MULHERES MÉDIUNS
após a revelação, uma coluna de luz branca se
sobrepôs a uma espécie de, 'repolho psíquico'
que era claramente visível. E bom lembrar que
ela caía sobre minha própria placa, colocada
na câmara e, posteriormente, retirada e revelada
por 'mim'.
11

Carrington informa que um resultado seme-


lhante foi obtido por uma sua amiga em uma sessão
com Ada Deane realizada posteriormente.
Ada Emma Deane foi pesquisada pelos mais AS IRMÃS FOX
expressivos investigadores ingleses. A princípio,
poucos acreditavam em sua especial faculdade me-
diúnica. Mas, no transcorrer das sessões de que Catherine (Kate) (1841-1892) e Margaret (Maggie)
participava, sob rigorosos critérios científicos, Ada Fox, são consideradas as pioneiras do Espiritualis-
Deane foi conquistando a confiança dos severos in- mo Moderno. Havia uma terceira irmã -. Leah, que
vestigadores, que passaram a depor, a seu favor, após o casamento ficou conhecida como Sra. Fish.
quando ela era injustamente atacada. Em "The Missing Link in Modem Spiritualism", publi-
cado em Nova Iorque, em 1885, afirma Leah que a
família Fox "herdara" poderes psíquicos de seus an-
tepassados. A família Fox resultara de uma miscige-
nação de sangue alemão, francês, holandês e in-
glês. Do lado materno, sua bisavó era sonâmbula e
vidente. Descrevia cenas minuciosas, quanto espan-
tosas, da esfera espiritual.
Segundo Robert Dale Owen, em sua obra
"Footfals on the Boundary of Another World" (Pega-
das na Fronteira do Outro Mundo), uma das tias da
família Fox previu sua própria morte, vindo a desen-
carnar no dia registrado.
Entretanto, os eventos que vieram a colocar o
nome da família Fox na História do Espiritualismo
Moderno têm início em 11 de dezembro de 1847.
Neste dia John D. Fox tomava posse da casa de Hy-
desville.
Essa casa já possuía a fama de "mal assom-
brada". O inquilino anterior, Michael Weakman, que
AS MULHERES MÉDIUNS 111
116 AS MULHERES MÉDIUNS
aí residira nos dois anos anteriores, mudou-se por rior, e as batidas atingiram a porta que nos se-
causa dos barulhos misteriosos que não lhe deram parava. Ouvimos passos na copa e caminha-
sossego. das no andar térreo. Nós não podíamos des-
Todavia, a família Fox não foi perturbada logo cansar e, então, eu concluí que a casa devia
que se mudou para a casa. Os desconfortos come- ser freqüentada por Espíritos agitados e infeli-
ç~ram em març~ de 1848. Primeiro, houve a explo- zes. Eu já tinha ouvido falar várias vezes sobre
sao de s.~ns mUito altos e contínuos. Depois, em ou- tais coisas mas nunca testemunhara antes
tra ocaslao, algo semelhante ao trepidar das vidra- nada que não pudesse ter explicação.
ças que a Sra. Fox atribui à noite tempestuosa. Tan- "Na noite de sexta, 31 de março de 1848, deci-
to que o ~r. ~?x se levantou durante a madrugada dimos ir para a cama mais cedo e não nos dei-
para se cientificar de que as vidraças das janelas xarmos ser perturbados por barulhos, a fim de
estavam f?lgadas. Kate, a filha mais moça acompa- tentar descansar uma noite. Meu marido estava
nhou. o.pal e obseryou que, ao balançar as vidraças, aqui em todas as ocasiões. Ele ouvia os baru-
e~as Imitavam o rUldo parecendo responder às sacu- lhos e ajudava a localizá-los.
didelas dadas pelo Sr. Fox.
Então ela teve a idéia de solicitar uma resposta "Era muito cedo quando fomos para a cama
par~ o estalo dos seus dedos, no que foi atendida. nesta noite. Não tinha ainda escurecido. Eu es-
ASSim ocorreu a primeira comunicação do invisível. tava tão quebrada de cansaço que quase
Conforme documentos, assinados pelo Sr. e a Sra. adoecera. Meu marido não tinha ainda ido para
Fox, dando seu testemunho, aconteceu o seguinte: a cama e já escutávamos o barulho. Nós tínha-
mos apenas nos deitado. E logo começou
"Na noite da primeira perturbação, nós todos como era habitual. Eu o reconhecia pelos cos-
nos levantamos, acendemos uma vela e verifi- tumeiros barulhos que já tinha ouvido antes. As
camos a casa toda. Os barulhos continuavam crianças que dormiam em outra cama, no outro
sem parar e eram ouvidos sempre no mesmo quarto, ouviam as pancadas e tentavam reali-
lugar. Embora não _muito alto, reproduziam o zar sons semelhantes estalando os dedos.
barulh.o de arru"!açao de cama e cadeiras que
podena ser s.entldo quando estávamos no leito. "Minha filha mais nova, Kate, disse: "Senhor Pé
Era L!m movlmf!Jnto trflpidanJe, mais do que um Rachado" faça o que eu faço, batendo palmas.
rangIdo repentino. Nos podlamos sentir a trepi- O som imediatamente a acompanhou com o
dação ao ficar de pé no assoalho. Continuou mesmo numero de pancadas. Quando ela pa-
pela noite adentro até adormecermos." Disse a rou, o som parou por um tempo certo. Em se-
Sra. Fox: "Eu não dormi até por volta das 12 ~uida, Margaret disse em tom de brincadeira:
ho~as. Em 30 de março fomos perturbados a Não, faça exatamente como eu faço! Conte um
nOIte toda. Os barulhos foram ouvidos pela dois, três, quatro', batendo uma mão contra a
casa inteira. Meu marido colocou-se do lado de outra ao mesmo tempo. E as batidas acontece-
fora da porta, enquanto eu permanecia no inte- ram como antes. Ela ficou com medo de repeti-Ias.
118 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 119
"Em sef/,uida, Kate disse na sua simplicidade sam ouvir também?' A resposta foi afirmativa
infantil: Oh, mamãe, eu sei o que é. Amanhã é atravês de pancadas fortes.
primeiro de abril. Alguém está tentando brincar "Meu marido foi chamar a Sra. Redfield, nossa
conosco'. vizinha mais próxima. Ela era uma mulher mui-
to calma. As garotas estavam sentadas na
"Então, achei que eu poderia testar de maneira cama, agarradas umas nas outcas e tremendo
que ninguém pudesse responder. Pedi ao 'ba- de terror. Eu acho que estava tao calma como
rulho' que batesse as diferentes idades dos estou agora. A Sra. Redfield veio imediatamen-
meus filhos, sucessivamente. Imediatamente, te (era por volta das sete e meia). Achei qu.e
cada idade deles era dada corretamente com ela ia rir das crianças. Mas quando ela as VIU
uma pausa suficiente entre elas para individua-
pálidas, assombradas e quase sem fala, ficpu
lizá-Ias até a idade do meu sétimo filho, quando
surpresa e acreditou que havia alguma cOisa
uma pausa maior foi dada e, em seguida, três mais séria do que supunha. Fiz afgumas per-
batidas mais fortes foram registradas, o que guntas a ele e as respostas me foram dadas
correspondia à idade do que tinha falecido e como antes. Ele me disse a idade dela exata.
que era o meu filho mais novo. " Então ela chamou seu marido e as mesmas
"Logo eu perguntei: 'É um ser humano que res- perguntas foram feitas, obtendo-se as mesmas
ponde tão corretamente às minhas pergun- respostas.
tas?' Não houve batidas. Eu perguntei: 'E um "Posteriormente, o Sr. Redfield chamou o Sr.
Espírito? Se for, dê duas batidas!' Assim que Duesler, sua esposa e várias outras pessoas.
o pedido foi feito dois sons foram ouvidos. O Sr. Duesler, em seguida, chamou o Sr. e a
Então eu disse: 'Se for um Esptrito ferido, dê Sra. Hyde e, também, o Sr. e Sra. Jewell. O
duas pancadas, que foram imediatamente Sr. Duesler fez muitas perguntas e obteve to-
realizadas, fazendo tremer a casa!' Eu per- das as respostas. Eu logo citei todos os vizi-
guntei: 'Você foi ferido nesta casa? A respos- nhos de que me lembrava e perguntei se algum
ta foi dada como antes. ~ pessoa que o feriu deles o havia ferido, mas não recebi nenhuma
ainda está viva?' As mesmas pancadas foram resposta. O Sr. Duesler, então, fez perguntas e
repetidas. Eu me certifiquei através do mes- elas foram respondidas. Ele perguntou: 'Você
mo método que era um homem de 31 anos foi assassinado?' Pancadas afirmativas. 'Seu
de idade que tinha sido assassinado. ali e en- assassino pode ser julgado?' Nenhum som.
terrado no porão. Sua família consistia de es- 'Ele pode ser puniçJo pela lei?' Nenhuf!1a re~­
posa e cinco filhos, dois homens e três mu- posta. Então ele disse: .'Se st::u assflssmo n~o
lheres, todos vivos por ocasião de sua morte, pode ser punido pela lei, mamfeste IstO atraves
com exceção de sua mulher que já tinha mor- de pancadas. E as pancadas foram dadas de
rido. Eu perguntei: 'Você continuará a bater maneira clara e distinta. Da mesma forma o Sr.
se eu chamar os vizinhos para que eles pos- Duesler se certificou que ele tinha sido assassi-
120 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 121
nado no quarto que dava para o leste, cerca de "Eu não acredito em casas mal-assombradas
cinco anos atrás, e que o crime tinha sido co- ou em seres sobrenaturais. Eu lamento que
metido por um Sr. (...) numa noite de terça-fei- haja tanta curiosidade sobre este assunto. Isto
ra, às 12 horas. Outras informações foram tem nos causado muito problema. Foi uma falta
acrescentadas. Ele foi assassinado com uma de sorte morar aqui, mas espero, ansiosamen-
faca de açougueiro que cortou a sua garganta. te, que a verdade seja revelada e uma J}osição
Seu corpo foi arrastado pela despensa, escada seja tomada. Eu não posso ser responsavel por
abaixo, e foi enterrado 15 pés abaixo da super- estes barulhos. Tudo que eu sei é que eles tê,,!
fície da terra. Ficou confirmado, através de sido ouvidos repetidamente conformE!. d~clarel.
pancadas afirmativas, que ele fora assassinado Eu ouvi mais batidas hoje pela manha, dia 4 de
por causa de dinheiro. abril (terça-feira), meus filhos também ouviram.
"Quanto foi? Cem? Nenhuma batida. Duzen- "Eu afirmo que li as declarações anteriores e
tos? Quando ele mencionou quinhentos deram dou fé; e que posso fazer um juramento se se
pancadas afirmativas. fizer necessário. "
"Muitas pessoas que estavam pescando no rio 11 de abril de 1848.
foram chamadas e ouviram as mesmas per-
guntas e respostas. Muitas delas ficaram a noi- Ass. Margareth Fax
te inteira em nossa casa. Eu e meus filhos dei- John Fox deu o seu testemunho, assinando a
xamos a casa. Meu marido ficou por toda a noi- seguinte declaração:
te acompanhado do Sr. Redfield. No sábado "Eu também tomei conhecimento das declara-
seguinte, a casa ficou super/atada de gente. ções de minha espos?-, Margareth F0x.: Li-as e,
Durante o dia não houve ruído, mas à noite por meio desta, confirmo que elas sao verda-
eles começaram de novo. Contaram que havia deiras em todas as suas particularidades. Eu
mais de 300 pessoas presentes na ocasião. No ouvi as mesmas batidas que ela mencionou em
domingo inteiro os sons foram ouvidos pelos resposta às perguntas por ela elaboradas.
que ali vieram. Deve ter havido muito mais perguntas e res-
"No sábado à noite, 1fl de abril, começaram a postas além das citadas. Algumas tinham sido
cavar na despensa. Cavaram até encontrar feitas muitas vezes e sempre obtendo as mes·
água e logo desistiram. Não foram ouvidos ba- mas respostas. Nunca ocorreu qualquer contra-
rulhos durante a noite e na madrugada do do- dição. Eu não sei se posso atribuir a responsa-
mingo. bilidade por aqueles barulhos a circunstâncias
naturais. Nós procuramos em cada canto C!?
"Stephen B. Smith e a esposa (minha filha Ma- casa em ocasiões diferentes para nos certifi-
rie) e meu filho DavidS. Fax e sua esposa dor- carmos se havia qualquer coisa ou pessoa es-
miram nesta noite na sala. condida que pudesse provocar tais ruídos, mas
122 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDiUNS 123
não C}o'!s.eguimos nada que pudesse explicar
tal mlsteno. Isto causou muitos problemas e an- Uma empregada, Lucreda Pulver, que traba-
siedades. lhara na casa muitos anos antes, quando eram in-
quilinos o Sr. e a Sra. Bell, apareceu e contou a his-
"Centenas de pessoas visitavam a nossa casa tória da visita de um vendedor ambulante. Ele pas-
de maneira que era impossível realizarmos as sou a noite na casa, enquanto ela fora mandada
tarefas normais; e eu espero que cheguemos a para casa de seus pais. Pela manhã disseram-lhe
uma conclusão logo, quer sejam por causas que o vendedor ambulante tinha ido embora. Um
naturais ou sobrenaturais. homem foi acusado, mas conseguiu provar bons an-
'~ escavação na despensa será retomada tão tecedentes e quarenta e quatro pessoas atestaram
'c:r;o a água, a,ba(xe e, então, podemos nos cer- sua honestidade.
tificar se ha mdlcação da possibilidade de um O esqueleto perdido foi achado 56 ~nos de-
cprpo ter ~ido enterrado lá alguma vez. Se isto pois. De acordo com uma reportagem publicada no
fIcar conftrmado, não mais existirão dúvidas Boston Joumal de 23 de novembro de 1904, parte
quanto à atribuição dos fenômenos a causas da parede da despensa desmoronou. O proprietário
supematurais. " fez novas escavações e encontrou um esqueleto
quase inteiro e, ao lado deste, uma caixa do tipo
11 de abril de 1848. usado pelos caixeiros viajantes. Tudo que foi encon-
Ass. John D. Fox trado, está guardado em Lily Dale, o quartel do,s es-
piritualistas americanos para onde fOI transfenda a
Eis aí os importantíssimos depoimentos de casa de Hydesville.
duas testemunhas idôneas e insuspeitas da época Concluindo, é possível que o assassino após
em gu~ fenômenos de Hydesville, provocados pela matar Charles Rosma queimou seu corpo. Assusta-
m~dlunldade _das meninas Fox, estavam ocorrendo. do, cavou um buraco e o enterrou entre duas pare-
Sao declaraçoes dadas com tal convicção que as fu- des da despensa.
tUlas contradições das irmãs Fox quando adultas Os cabelos da Sra. Fox tornaram-se brancos
nao conseguem suplantar. por causa das perturbações que presenci~u, pois os
~ Prosseguin9 0 coIJ1 o re!ato, a escavação não fenômenos se intensificaram de tal maneira que as-
pode ser conclUida ate o verao. Quando foi retoma- sumiram um caráter assustador. Som de luta, ester-
da, a 5 pés de profundidade, foi encontrada uma tores, ruídos de um corpo forçando a parede se re-
prancha e, mais abaixo, carvão e cal. Finalmente petiam através das noites. Sabe-se que os fenôme-
cabelos e ossos humanos que foram identificados nos continuaram a ser percebidos na casa mesmo
pelos médicos como parte de um esqueleto huma- depois que a famma Fox partiu.
no. Entretanto, nunca foi descoberta a identidade do
vendedor ambulante.
Segundo informação do próprio Espírito bate-
dor, chamava-se Charles B. Rosma.
124
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 125
manhã por uma mulher envolvida em luz· azulada
que iluminava o quarto todo. Esta aparição se identi-
ficou, informando que "morrera" 26 anos antes, fa-
lou a respeito de seu marido, que vivia ali perto e lhe
prometeu auxílio nos trabalhos mediúnicos.
Ann Novak contatou com o marido da desen-
camada, que confirmou a descrição que a médium
lhe fez da ex-esposa. Esta experiência notável in-
centivou a médium a levar a efeito sessões públicas
ANNNOVAK em que aquele Espírito, de "luz azulada", reapare-
ceu, desta feita completamente materializado, à
frente de seleta assembléia.
Aos 30 anos de idade, era presidente e mé-
Em 24 de abril de 1966, desencarnava em Lon- dium da Sociedade Espírita Israelita, de Londres.
dres (Inglaterra), a médium russa Ann Novak, cujas Em 1943, foi perseguida nos termos da chamada
faculdades eram conhecidas em diferentes regiões. "Lei da Vadiagem", votada pela Câmara Baixa ingle-
Nasceu na Ucrânia e passou a viver na Inglaterra sa, contra, especificamente, os que exercitavam a
com a idade de seis anos, tendo ali passado verda- mediunidade. Duas mulheres-policiais visitaram-na
deiras privações. e afirmaram no Tribunal que a tinham visto prever o
Chegou a ser condenada como "ladra e vaga- futuro, o que era, àquela época, absolutamente proi-
bunda", quando o exercício da mediunidade era bido.
simplesmente considerado ilegal. Mesmo assim, Ann Novak fez muitas demonstrações públicas
afrontando a lei, em nome da Caridade confortou da sobrevivência da alma, não apenas na Inglaterra,
inú~eras p~ssoas que, tendo perdido seus entes mas nos diversos países que visitou, ,a convite de
quen,do.s, naC? se co~formavam com a perspectiva sociedades de pesquisa, sediadas na India, Austrá-
nostalglca e Irreverslvel do fim-de-tudo, provocado lia e na Nova Zelândia, onde realizou memoráveis
pela morte. sessões de materialização e de efeitos físicos, sob
Neta de uma conhecida médium russa, cedo severo controle científico. Esses fatos eram peri-
com~çou a ouvir vozes de Espíritos e a ver formas odicamente relatados nas páginas da gloriosa revis-
precl~as de fantasm~s. que dariam, nas primeiras ta portuguesa Estudos Psíquicos, então dirigida pelo
sessoes de que participoU, provas cabais de sua jomalista Isidoro Duarte dos Santos.
existência. Um desses invisíveis predisse que ela Ann Novak emigrou para a Austrália, onde se
seria visitada por um Espírito de alto porte moral. A consorciou e voltou à Inglaterra em 1958, ali reini-
predição, segundo a qual veria, durante 14 dias, um ciando suas sessões públicas e particulares, seguin-
~er materializado em sua própria casa, cumpriu-se do depois para a Austrália. Pouco depois o marido
Integralmente, pois foi despertada às três horas da faleceu e Ann veio sozinha para Londres, onde se
126 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 127
hospitalizou, vindo a desencamar em meio ao cari-
nho e à efetiva assistência de seus familiares e de
um sem-número de pessoas agradecidas àquela
bondosa criatura que enfrentara, com determinação
e coragem, a sisuda justiça inglesa, sabendo. que
estava certa. Se infringia a lei do homem, estava
perfeitamente de acordo com a Lei Maior, a Lei de
Deus, preconizada por Jesus quando esteve neste
Orbe.
MICK MICHEYL

Em 13 de janeiro de 1965, um jomal parisiense


noticiava o seguinte: "A cantora Mick Micheyl acaba
de ser contratada para atuar na próxima revista do
Cassino de Paris. Agora, porém, é acusada de exer-
cer ilegalmente a medicina."
Em geral Mick escreve os versos e compõe as
músicas das canções que interpreta. Além de can-
tar, possui o dom de curar por meio da imposição
das mãos:
- "Eu tenho eletricidade benéfica nos dedos"
- afirma Mick - "Não vejo por que não hei de fa-
zer com que os meus semelhantes aproveitem esse
meu dom."
Há anos, o famoso médium francês Henri
Fromberg, também perseguido, por suas curas, pela
justiça francesa, revelou a Mick que ela possuía o
dom de curar. Logo esta começou a impor as mãos
nos seus colegas, no mundo dos espetáculos. Afir-
ma-se que curou a locutora da televisão francesa
Jacqueline Joubert, que há muito sofria de descalci-
ficação óssea, e os atores Michel Simon, Jeanne
Souza e Jeanne Fusier-Gir. Todos lhe eram reco-
nhecidos e lhe pediam que auxiliasse, cada vez

AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 129


128
mais, as pessoas atormentadas pelas doenças. Por
isso, a cantora começou a curar as pessoas pobres São estes e outros conceitos que hão de fazer
do bairro em que vivia. Contam que se juntavam pa~sar a sociedade deste século (XX) por uma
enormes multidões na escada do prédio onde mora- cr:Jt1Ga mo!daz aos olhos da sociedade esclare-
va. c~da do s.eculo que se aproxima (XXI). Muito te-
Tão grande foi o êxito, que Mick alugou uma r:ao df! dl:~er os homens de amanhã sobre tanta
sala de reuniões, à feitura do "Escritório Júlia", de Ignorancla dos pseudo-sábios de hoje. "
William Stead, para receber os enfermos que busca-
vam alívio para os seus males, além de realizar, de
permeio, algumas expressivas experiências psíqui-
cas. A Ordem dos Médicos de França impressionou-se
com as curas alcançadas pela jovem médium. Pe-
diu, então, a intervenção da Justiça, e a cantora viu-se,
de uma hora para outra, acusada de exercício ilegal
da medicina e de organização de sessões de cura
por meio do magnetismo. Compareceu ao Tribunal,
que a interpelou pelas vias judiciárias, onde decla-
rou perante o Juiz e numerosa assistência: - Nun-
ca pedi dinheiro nenhum, pois sequer preciso dele"
- acrescentando: " - Agi por caridade, para aliviar
os meus semelhantes, desenganados pela medici-
na. Não compreendo por que me acusam agora. "
Tantos foram os que se ofereceram como tes-
temunhas de defesa que o Tribunal, levando-as em
consideração, terminou por isentar Mick Micheyl das
imputações que lhe fazia a Ordem dos Médicos de
França.
A revista Fraternidade, que se edita em Lisboa,
expendeu os seguintes comentários sobre o rumo-
roso caso da médium francesa:
"Há efetivamente faculdades fundamentadas
no Magnetismo vital de certas pessoas que cu-
ram por atuação normalizadora nos distúrbios
dos órgãos do corpo humano. E será crime tais
criaturas curarem?
130 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 131
ções espirituais. A propósito o Prof. James Robert-
son, em artigo publicado na célebre revista Ught,
afirma que o marido da médium, o Prof. Stowe, era vi-
dente. Ele via, muitas vezes, ao seu redor, fantas-
mas de maneira tão nítida e natural que, por vezes,
lhe era difícil discenir os encarnados dos desencar-
nados.
E relativamente ao seu grande romance, eis o
que a referida revista publica em 1898:
'~ Sra. Howard, amiga íntima da Sra. Beecher-Sto-
HARRIET EUZABETH BEECHER-STOWE
we, forneceu essas curiosas indicações perti-
nentes às modalidades nas quais o famoso ro-
mance foi escrito. As duas amigas estavam em
viagem e pararam em Hartford para passarem
Harriet Elizabeth Beecher-Stowe, filha do casal a noite em casa da Sra. Perkins, irmã da Sra.
Lyman Beecher e Roxana Foot, nasceu em Utch- Stowe. Elas dormiram no mesmo quarto. A Sra.
field, Estados Unidos, em 14 de junho ~e 18.11, e fa- Howard deitou-se imediatamente e ficou, do
leceu em Hartford, Connecticut, a 1- de Julho de seu leito, observando sua amiga ocupada em
1896. pentear, automaticamente, seus cabelos anela-
Seus pais eram descendentes dos fund,?dores dos, deixando transparecer em seu rosto inten-
de New Haven. Depois da morte de sua mae, er:n sa concentração mental. Neste ponto, a narra-
1815, estudou num colégio de Hartford. onde mais dora continua assim: "Finalmente Harriet pare-
tarde viria a lecionar. Em 1832, seu pai mudou-s~ ceu sair desse estado e disse-me: 'recebi, nes-
para Cincinnati, Ohio, leval1do consigo toda a faml- ta manhã, carta do meu irmão Henry que se
lia. Ali seria o berço do prirlileiro livro da autora, que mostra bastante preocupado a meu respeito.
ela começou a "ver" e! l:~~vir". Era u!TI_ romanc~ Ele teme que todos esses elogios, que toda
emocionante sobre escravlCiao, e suas vlsoes ela fOi esta notoriedade que se criou em tomo de meu
passando para? pa8el. Assim surgiu. o fa~o~o ro- nome, produzam o efeito de provocar em mim
mance abolicionista, A Cabana do Pai !omas , que uma chama de orgulho que possa prejudicar
alcançou incrível repercussão e determinou? Guer- minha alma de cristã'. Isto dizendo, pousou o
ra de Secessão, a qual se prolongou p.o~ tr~s anos pente, exclamando: 'meu irmão é, incon-
(1861-1864) e em que os Estados abolicIonistas do testavelmente, uma bela alma; porém, ele não
Norte lutando contra os escravagistas dos Estados se preocuparia tanto com este caso se sou-
do S~I, venceram e aboliram a escravidão nos Esta- besse que este livro não foi escrito por mim'
dos Unidos da América do Norte. - Como, perguntei eu, estupefata, não foi
O meio familiar em que viveu Harri~t Bee~her-Sto­ você quem escreveu 'A Cabana do Pai Tomás'?
we pode ser considerado como favoravel a Interven-
AS MULHERES MÉDIUNS 133
132 AS MULHERES MÉDIUNS
_ 'Não respondeu ela, não fiz outra coisa se- respondeu: 'Deus o escreveu. Foi Ele quem mo
não tomar nota do que vi' -'Que está dizen- ditou'.
do? Então você nunca foi aos Estados do Sul?'
_ É verdade todas as cenas do romance, As visões de· Harriet Beecher-Stowe guardam
certa analogia com as que ocorriam com os ro-
uma após outra, se me desenro.'a,ram diante.
dos olhos e eu descrevi o que via - Pe~[J,!ntf!1 mancistas Charles Dickens e Honoré de Bal-
ainda: 'Pelo menos você regulou a sequencla zac. Eles viam desfilar, subjetivamente, cenas
dos acontecimentos?' - 'De modo nenhum, e personagens que tinham imaginado. 'j/\ dife-
respondeu-me ela. Annie me censura por ter rença entre as de ambos os gênios da literatura
feito morrer Evangelina (perso.nagem do r9- e as da Sra. Beecher-Stowe" - observa, opor-
mance). Ora, isto não foi por mmha culpa; nao tunamente, o Prol. Ernesto Bozzano - "pare-
podia impedi-lo. Senti-o mais do que todos os ce, então, consistir nesta última circunstância:
leitores de minha história. Foi como se a morte eles assistiam ao desenvolvimento dos aconte-
tivesse atingido uma pess0é! de minha fan: ília .. cimentos que sua imaginação consciente tinha
Quando a morte de Evangelma se deu eu fiquei criado, ao passo que a Sra. Beecher-Stowe as-
tão abatida que não pude retomar à pena.. por sistia, passivamente, ao desenrolar de eventos
mais de duas semanas.' Perguntei-lhe entao: E que não tinha criado e que estavam, muitas ve-
sabia que o pobre Pai Tomás devia, por ~ua zes, em oposição absoluta à sua vontade, pois
vez morrer? - 'Sim, respondeu-me ela,dlsto que, por ela, não teria feito morrer duas santas
eu o sabia desde o princípio; porém ignora,va
de que morte iria morrer. Quando cheguei a
personagens do romance". O que prova que a
célebre escritora era médium escrevente, cir-
este ponto da história, não tive mais visões du- cunstância que se acha confirmada por fatos
rante algum tempo'. " assinalados na sua biografia, segundo os quais
Na mesma e prestigiosa revista, relata-se o se- ela era sujeita a "fases de ausência psíquica"
guinte episódio: que eram, com toda verossimilhança, estados
"Certa tarde, a Sra. Beecher-Stowe pas~e!1va
evidentes de transe.
sozinha como de hábito, no parque. O capltao X "Por outro lado" - observa o Prof. Ernesto
viu-a, aproximou-se dela t:;, desc.obrindo-sf3 res- Bozzano - "notarei que a exclamação da Sra. Bee-
peitosamente, disse-lhe: Na f!lm~a mOCidade, cher-Stowe: 'Deus o escreveu!', subentende que o
li também com intensa emoçao A Cabana do ditado mediúnico se realizou sob forma anônima,
Pai Tomás'. Permita-me apertar a mão da auto- isto é, que o agente espiritual, que operava, oculta-
ra do célebre romance. A escritora, septuage- va a própria identidade, limitando-se, ao que parece,
nária, estendeu-lhe a mão, notando, entretanto, a cumprir na Terra a Missão de que se encarregara:
vivamente: 'Não fui eu quem o escreveu' a de contribuir, eficazmente, graças a uma narrativa
-'Como não foi a Sra. 7', perguntou o capitão, emocionante e pungente, para a obra humanitária
surpreso.' 'Quem o escreveu então?' - Ela da redenção de uma raça oprimida".
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 135
134
o que aconteceu com a Sra. Beecher-Stowe
aconteceria, guardadas as devidas proporções, com
Antônio de Castro Alves. Assim como a médium
norte-americana jamais esteve nos Estados do Sul,
onde se consolidou a escravidão, também o poeta
baiano, segundo consta, jamais pôs os pés em um
navio negreiro. Ambos, contemporâneos, descreve-
ram, em prosa e versos, o drama fantástico e absur-
do de seres humanos que eram tratados como ani- GERALDINE CUMMINS
mais. A obra psicografada pela Sra. Beecher-Stowe
comoveu toda a grande nação americana, conse-
guindo despertar o sentimento de solidariedade e
respeito à pessoa, assim como a poesia cand~nte Geraldine Cummins, citada pelo Prof. Ernesto
de "Navio Negreiro", "Os Escravos" e "Vozes d'Afri- Bozzano, era filha do Prof. Ashley Curnmins, de
ca", sensibilizou o povo brasileiro, levando-o a assu- Cork, Irlanda, Doutor em medicina.
mir franca posição favorável à abolição da escrava- Em 1923, ela começou a exercitar-se na escrita
tura. Teria sido Castro Alves médium? Acreditamos automática com sua amiga Srta. Gibbes, e em 1925
que sim. obtiveram, repentinamente, os primeiros ditados re-
O ser espiritual que o inspirou, e não se identifi- lativos à história do primeiro século do Cristianismo.
cou, contribuiu, competentemente (assim como a A entidade responsável pelos ditados, assinava-se:
entidade anônima da Sra. Beecher-Stowe), para a "O Mensageiro", e sua escrita se processava com a
erradicação de uma das mais aberrantes e terríveis médium em estado de meio-transe. "O lápis corria
"chagas da Humanidade". Os planos espirituais su- muito rapidamente sobre o papel" - informa o
periores "agem onde querem", isto é, em qualquer Prol. Bozzano - "1.500 palavras eram ditadas,
sem interrupção, numa hora. Uma vez terminado, o
lugar, em todas as latitudes terrenas, universalizan- ditado, ele era imediatamente retirado, na ignorân-
do, de forma silenciosa, a mediunidade, segundo já cia do seu conteúdo, com o fim de se evitarem inter-
preconizou o Prol. Humberto Mariotti. Deduz-se, daí, ferências possíveis de sua subconsciência." Esta
que o processo mediúnico é, realmente, como afir- precaução não impedia que o escrito continuasse
mou o Mestre Allan Kardec, um atributo eminente- na sessão seguinte, do ponto exato em que fora in-
mente humano, que se projeta, sob os auspícios terrompido. A sensação experimentada pela mé-
dos seres invisíveis, em meio às sociedades terre- dium, durante os trabalhos, era a de alguém que so-
nas, contribuindo para o seu crescimento ético e es- nha "sem ter qualquer influência sobre o desenvolvi-
piritual, a despeito de certas e acacianas "disposições mento das fantasias sonhadas". Ela ainda vivencia-
em contrário". va a impressão de que seu cérebro era utilizado por

136 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 131


obtidas dessa maneira são 'inspiradas' por um
outra individualidade, que dele se servia de modo autor invisível... "
idêntico ao telegrafista com seu aparelho ou ao dati-
lógrafo com uma máquina de escrever. '~ narrativa cresce em interesse à medida que
Sobre esse "Evangelho Suplementar" ou "The progride, e, quando ficar terminada dentro de
Scripts of Cleophas" o Reverendo John Lamond, pouco tempo, verificar-se-á que vários aconte-
que estava entre os que assistiram ao seu processo cimentos, nos quais se toca muito rapidamente
de transmissão, emite as seguintes opiniões: nos 'Atos dos Apóstolos', estão aclaradas por
nova luz. A visita dos discípulos de Jesus a
"Quem quer que seja o autor destas 'Crônicas Emaús está amplamente descrita nas 'Crônicas',
Sacras', elas não são, certamente, o produto assim como nos outros acontecimentos de inte-
da mentalidade subconsciente da Srta. Cum- resse vital, relativamente ao retomo do Cristo
mins. Foi, de fato, ela que as escreveu, mediu- após a crucificação. Com efeito, em 'Os Escri-
nicamente, assistida por sua amiga e provável tos de Cleophas' expõe-se nova concepção da
auxiliar Srta. Gibbes; mas o material de que se Ressurreição do Mestre de Nazaré. O trabalho
compõe as 'Crônicéjs' não podia, em absoluto, devotado da Srta. Cummins, nesta ordem de
provir da médium. E lícito escriturar a seu crédi- manifestações, lhe granjeou o reconhecimento
to a beleza literária da forma, mas as crônicas de grande número de leitores, entre os quais
'The Scripts of Cleophas' não são obra sua. vários teólogos, pondo-os profundamente ao
Nota-se nelas uma surpreendente familiaridade corrente, de maneira singular, da história dos
com os vocábulos em uso no período apostóli- tempos apostólicos e da literatura dos Evange-
co da Era Cristã, um conhecimento perfeito das lhos da época. O juízo unânime dessas pes-
cidades e dos países dessa recuada época. soas competentes, a respeito do grande valor
Quanto aos acontecimentos históricos, são de 'Os Escritos de Cleophas', merece a mais
descritos com tal vivacidade de cor local que só séria consideração." (Psychic Scíence, 1929)
se poderia atribuir a narração delas a uma tes.- Transcrevem-se, a seguir, os pontos de vista
temunha ocular. Tudo, em suma, nesses escrI- de autoria do teólogo católico, Cônego H. Bickeretett
tos, contribuí para demonstrar que seu autor, Ottley, sobre "Os Escritos de Cleophas":
ou autores, quaisquer que sejam, estão inteira-
mente ao corrente dos acontecimentos que aí "Tive a oportunidade de assistir, pessoalmente,
se descrevem e em uma harmonia perfeita de por duas vezes, à produção da 'mensagem'
sentimentos com os autores do drama narrado. confiada ao instrumento inconsciente que era,
É necessário acrescentar que a Srta. Cum- nessa ocasião, a Srta. Cummins... Consagrei
mins, quando produz a escrita mediúnica, se vários meses ao estudo e à análise a que esta-
encontra em condições de meio-transe, e a im- va apto a empreender em virtude dos meus tí-
pressão experimentada por todos que assisti- tulos acadêmicos. Além disso, faço notar que ti-
ram a essas experiências é que as 'Crônicas' nha começado essa pesquisa com um precon-
AS MULHERES MÉDIUNS 139
138 AS MULHERES MÉDIUNS
ceifo apriorístico bem firme, que me tomava cé-
tico em face dessas pesquisas, visto que, des-
de a infância, tinha aprendido a considerar
como 'vedado' o dommio das comunicações
espíritas com a vida que sucede à morte. Ora,
tenho o dever de reconhecer que 'Os Escritos
de Cleophas' trazem à Apologética Cristã de
nossos tempos uma contribuição de importân-
cía suprema que se produz no momento justo
em que se sentia mais vivamente a sua neces- EUZABETH D'ESPÉRANCE
sidade" (Joumal of the Socíety for Psychical Re-
searGh-SPR).
A psicografia, pois, desafiando todos os percal-
ços, através do tempo, ainda é o meio mais utilizado Nascida em 1855 e desencamada em 1919.
pelos Espíritos para ditar, à Terra, as suas idéias, Notável médium não profissional cujas faculda-
valores e concepções, testemunhando, assim, a so- des mediúnicas foram apreciadas por William Oxley
brevivência do Ser, que preserva, após a morte, os na obra "Angelic Revelations' (Revelações Angéli-
seus caracteres morais e intelectuais. Inúteis, deve-se cas) e por ela própria no seu livro "Shadow Land"
destacar, têm sido os esforços despendidos pelos (No País das Sombras). Neste último, muito impor-
descrentes, que, embora se internem em laborató- tante, e que foi editado pela Federação Espírita Bra-
rios de pesquisas psíquicas, teimam em negar a sileira, estão relatadas suas experiências pessoais.
realidade da vida espiritual! D'Espérance é um pseudônimo do nome de fa-
mília "Hope".
Entre os pesquisadores que experimentaram
Elizabeth d'Espérance, encontra-se Alexandre Ak-
sakof. Homem de brilhante posição social, consa-
grou-se, durante 25 anos, a serviço do Estado Rus-
so, alcançando vários e importantes títulos: Conse-
lheiro Secreto do Czar, Conselheiro da Corte, Con-
selheiro Efetivo do Estado e outros. Era descendente
de antiga e nobre família russa. O seu trabalho de
propaganda do Espiritismo começou por volta de
1855. Traduziu, para o russo, todas as obras de AI-
lan Kardec, as de Robert Hare e as de William Croo-
kes entre outros, além de fundar periódicos como o
Psychiche Studien, de Leipzig. Entretanto, a sua

AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 141


140
principal obra CO~AO ~scritor foi "An.imi.sm.o e ~~piri­ O resultado das memoráveis sessões está rela-
tismo". Fez expenenclas com os pnnclpals medluns taQ() por Aksakof na obra já citada.
de sua época, entre eles Home, Slade, FI?rence "Na sessão de 5 de junho eu estava sentado,
Cook Eusápia Palladino e Elizabeth d'Esperance, como de costume, muito. perto do recanto do
chegàndo a conversar com Espírito materializad<:, gabinete onde se achava a Sra. d'Espérance,
Katie King, em Londres. Uma de suas obras mais sentada ao meu lado; só nos separava a corti-
importantes tem como título "Um caso de Desmate- na, cuja abertura lateral se achava muito perto
rialização parcial do corpo de um médium". Na pri- do meu ombro direito; eu não tinha mais que
meira parte deste livro, estão os resultados das ex- puxar a cortina um pouco de lado, para poder
periências que realizou com Madame d'Espéra~ce. ver a médium. A forma materializada que apa-
Elizabeth d'Espérance, apesar de produzir fie- receu então sob o nome de Yolanda já se havia
nômenos notáveis, não caía em transe em nenhum mostrado várias vezes, e mesmo, apoiando-se
momento da sessão e podia observar e descrever ao meu braço, tinha feito a volta ao círculo.
tudo o que se passava a sua yolta e consigo m~s­ Uma lâmpada ao fundo, coberta com várias fo-
ma, mesmo que estivesse parcIalmente desmatena- lhas de papel vermelho, espalhava uma frouxa
lizada. claridade, mas, assim que eu me achava com
Eram obtidas, através de sua mediunidade, Yolanda, mesmo por baixo da lâmpada, esta
aparições de mãos, cabeças, b~sto;s, entreta!1to não alumiava bastante para que eu pudesse reco-
muito nítidos e com pouca luminosidade. FOI obser- nhecer indubitavelmente os traços da médium.
vado que às materializações correspondiam, tam- Assim que voltamos ao gabinete, retomei o
bém desmaterializações parciais do seu corpo. En- meu lugar, e Yolanda se conservou metade do
qua~to ela se achava sob à luz fraca diante d~ corti- lado de fora, na abertura central da cortina. En-
na as materializações se produziam por detras des- tão, não cessando de observá-Ia, passei caute-
ta.' Nessas ocasiões, a assistência verificava que os
losamente o braço direito pela abertura lateral
pés e as pernas da médium desapareciam.
O Espírito controle da médium dizia chamar-se da cortina, perto de mim. Não tinha mais que
"Walter". Ele costumava comunicar-se através da estender um pouco o braço para me certificar
psicografia, dando as explicações necessárias e se a médium se achava no lugar. A médium
desfazendo dúvidas. estava sentada (a princípio) numa cadeira de
Em 1890, Aksakof foi a Gotemburgo (Suécia) braços muito baixa. Levantei a mão até a altura
para realizar com Eli~a~eth _d'Esp~rance uma sé~e do encosto da cadeira, e, em seguida, deslizei-a
de sessões de matenahzaçao. FOI uma concessao do encosto até o assento; a médium não esta-
especial ao pesquisador para gue ele a submet~~se va lá. Mas, no exato momento em que minha
a todas as provas que conslder~sse necessanas mão se achava já sobre o braço da cadeira,
para que se co~ve~cesse ~o~ ,f~nomenos: nenhum Yolanda entrou no gabinete (teria sido reabsor-
pesquisador havia tido tal priVilegiO. vida?) e uma mão caiu sobre a minha e repeliu-a.

AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 143


142
Imediatamente depois, a médium pediu-me de seus ombros; que isso a amedrontara tanto,
beber; dei-lhe um copo de á{}ua pela mesma que ela, involuntariamente, havia deixado cair a
abertura da cortina por onde ja tinha passado o mão em que apoiava a cabeça, e que nesse
braço; a médium estava no seu lugar com o momento encontrara outra mão, o que ainda
vestido vermelho de mangas apertadas. Yolan- mais a havia assustado. "
da, um instante antes, era visível com um vesti- A trajetória mediúnica de Elizabeth d"Espéran-
do branco, tendo os braços nus até as espá- ce se inicia na infância. Quando criança residiu em
duas, os pés também nus, com um véu branco uma velha casa com sua família. Aí ela começou a
que lhe caía pelo corpo, desde a cabeça, entre- ter contato com seus primeiros amigos do mundo in-
tanto, desaparecia. visível. Eram semelhantes a sombras que ela, na
Este caso deu-me que pensar. Como é que Yo- época, não associou a fantasmas de mortos. Para
landa, que estava com metade do corpo fora ela nada havia de sobrenatural neles.
do gabinete, podia notar os movimentos do Sua mãe era muito rígida quanto às estórias
meu braço no interior do gabinete? Era-lhe po- que contava de seus visitantes invisíveis. O médico
sitivamente impossível, pois a obscuridade da família encheu a sua cabeça dizendo que era
quase completa não lhe permitia ver o movi- muito perigoso alguém que dizia ver coisas que não
mento do meu braço sobre a cadeira ou se eu existia, poderia ficar louco.
o introduzia atrás da cortina. Um longo cruzeiro marítimo em 1867 em um
navio que seu pai capitaneava, foi a mais gratifican-
Se fosse realmente a médium em pessoa que, te lembrança que Elizabeth conservou de sua ado-
de modo consciente ou inconsciente, repre- lescência. Ficou curada do sonambulismo, as "som-
sentava Yolanda, e se a cadeira estava real- bras" desapareceram. A sua felicidade só foi que-
mente vazia, a médium não podia ver e sentir o brada, muitas semanas depois, com uma terrível vi-
movimento da minha mão; ela deveria conti- são de um navio que passou bem próximo ao que
nuar a fazer o seu papel de Espírito, permane- ela viajava.
ceria no seu lugar ou entraria no gabinete, ou Uma outra estranha experiência aconteceu
então sairia de novo, como se nada tivesse mais tarde, no final de um ano escolar. Ela teria de
acontecido. Mas houve um desarranjo. Yolanda preparar uma redação sobre o tema "Natureza",
não se mostrou mais e foi preciso terminar a mas nada lhe vinha à mente, nem uma só idéia a
sessão. respeito do assunto. Era véspera de apresentar o
Quando ouvi dizer, no dia seguinte, que algu- trabalho e, já noite, ela se movimentava na cama
ma coisa atemorizara a médium, fui interrogar em desespero, chorando, até adormecer. Tinha dei-
a própria Senhora d'Espérance, sem contudo xado sobre a carteira lápis e papel. Pela manhã, ela
lhe transmitir as minhas observações. Ela res- encontrou os papéis totalmente escritos com a sua
pondeu que, no fim da sessão, alguma coisa letra. Era uma redação sobre o tema que teria de
remexia em volta de si, da sua cabeça, dos apresentar para conclusão do curso. A professora fi-
144 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 145
cou muito surpresa pela qualidade do conteúdo do desistiu desta tarefa, pois lhe causava terríveis do-
trabalho. Elizabeth contou o ocorrido na noite ante- res de cabeça.
rior. A professora falou para o reitor que, no dia do Entretanto, o período em que se submeteu de
exame, leu o ensaio e justificou o fenômeno como forma científica aos experimentos começou com a
se fosse uma resposta direta às orações de Eliza- participação, no Círculo, de T. P. Barnas, um proe-
beth. minente intelectual de Newcastle. Ele estava errado
Logo depois desse fato, Elizabeth se casou, a respeito de vários assuntos, o que fez com que o
com a idade de 19 anos, e passou a se chamar Sra. Espírito Humnur Stafford desse início a uma série
Reed e a residir em Newcastle-on-Tyne. Com o ca- de sessões que se estenderam por vários meses.
samento as "sombras" voltaram à sua vida. Elizabeth ficou com a saúde abalada, pôs fim
Acidentalmente, ela ouviu falar sobre o Espiri- às reuniões científicas, e foi para o Sul da França
tismo e as mesas girantes. Convidada por um ami- para se recuperar.
go, ela participou de uma sessão com seis pessoas, Mais tarde, com o retomo aos trabalhos, apare-
embora considerasse o fenômeno completamente ceu Yolanda, uma jovem árabe aparentando 15
ridículo. A mesa logo começou a vibrar e a respon- anos e que se tomou uma visitante regular. Era uma
der perguntas. A seguir, um fenômeno mais extraor- entidade muito curiosa e interessante. Especializou-se
dinário aconteceu. Um par de abotoaduras desapa- em transportar flores e plantas para o ambiente das
receu diante dos seus olhos e, conforme informou a sessões, além de provocar fenômenos sem ser visí-
mesa, foi encontrado em outro cômodo da casa, en-
terrado sob a terra compacta de um vaso de flores.
Esse fato causou enorme espanto no círculo de ex-
°
vel aos presentes. Para se materializar ela levava
de 1 a 15 minutos formando seu corpo. No trans-
porte de flores, ela usava um processo muito inte-
periências. . ressante. Usualmente, pedia, antes, água, areia e
Elizabeth contou para seus amigos as expe- uma jarra. Depois que a água e a areia estavam
riências por que tinha passado, sobre as "sombras" misturadas dentro da jarra, ela a cobria com uma
e, embora lhe repugnasse a idéia d~ ser m~dium, parte do seu vestido. Foi numa dessas experiências,
aceitou participar das sessões. A partir de entao, fo- na sessão do dia 4 de agosto de 1880, que ela
ram chegando, pela psicografia, os Espíritos comu- transportou uma Ixora Crocata de 22 pés de altura,
nicantes: Walter Tracy, um brilhante e jovial ameri- com um talo tão grosso que encheu o gargalo da
cano, Humnur Stafford, um guia filósofo, e Nínia, garrafa, tendo as raízes firmemente plantadas no
uma criança de 7 anos. fundo do recjpiente. Vale dizer que tal espécime é
originário da India.
Após essa fase, Elizabeth começou a se sub-
O último e maior trabalho do Espírito Yólanda
meter a experiências na escuridão, seguidas por ou-
aconteceu em 28 de junho de 1890, quando ela
tras na luz do dia. Em seguida, desenvolveu a pintu- transportou um Lírio Dourado de 17 pés de altura
ra mediúnica em que pintava quadros de pessoas com 11 botões intactos. O fenômeno foi testemu-
falecidas, parentes e amigos dos assistentes. Logo nhado pelos Professores Boutlerof, Tiedler, Aksakof
146 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 147
e outros. A energia não foi suficiente para sua des- Sua pior experiência ocorreu em 1893, em Hel-
materialização (Yolanda disse que a planta foi em- singfors. Uma tentativa de agarrar o Espírito Yolan-
prestada e ela teria de retomar para o lugar de onde da materializado causou-lhe, aproximadamente, dois
viera), e instruiu para que a conservassem por 8 anos de indisposições e problemas de saúde, o que
dias na casa e então, desapareceu num instante, tomou seus cabelos grisalhos.
deixando o ambiente impregnado de um forte perfu- Ao eclodir a Primeira Grande Guerra, Elizabeth
me. d'Espérance foi feita prisioneira na Alemanha, onde
Em 1893, na casa do prof. E. de Christiana, residia. Todos os seus papéis foram confiscados,
uma linda egípcia, que se disse chamar Nepenthes, entre eles o mal1uscrito do segundo volume de
materializou-se no meio do círculo. Ela e Elizabeth "Shadow Land". E provável que tudo tenha sido
foram vistas simultaneamente. A pedido dos partici- destruído, e, lamentavelmente, os relatórios das
pantes da sessão, ela enfiou sua mão na parafina sessões ainda manuscritos.
fervente, lá deixando um molde perfeito da sua linda
mão.
Nepenthes desapareceu da sessão exatamen-
te como surgiu. Inclinou a cabeça na qual brilhava
um diadema, foi pouco a pouco tomando-se uma
nuvem luminosa e, gradualmente, desapareceu. An-
tes, porém, de desaparecer de todo, escreveu, do
próprio punho, uma mensagem em grego antigo na
caderneta de um dos participantes da sessão. Nin-
guém no grupo sabia grego, principalmente o anti-
go. Traduzida mais tarde, dizia o seguinte: "Eu sou
Nepenthes, sua amiga; quando sua mente. estiver
oprimida por excessiva dor, chame-me, a mim, Ne-
penthes, e eu virei imediatamente para aliviar suas
preocupações. "
E realmente, Elizabeth d'Espérance teve mui-
tos aborrecimentos devidos às suas faculdades me-
diúnicas. As religiões ortodoxas, com suas hipóte-
ses sobre as manifestações demoníacas, perturba-
ram-na em diversas ocasiões. Entretanto, ela não
cedeu às pressões e continuou em sua missão ab-
negada. Nem mesmo as injúrias, que atribuíam à
fraude os fenômenos que provocava, fizeram-na de-
sistir.
148 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 149
tos físicos, e especialmente aos apports ". Começou
por escr~ver; no começo, captava algumas mensa-
gens .mals ou menos claras. Depois vieram, ao fim
de seis meses e em {amt7ia, os primeiros fenômenos
de apports. O primeiro foi uma aliança que pertencia
ao Sr. Boulet e desaparecida havia três anos' de-
pois, certa manhã, ao acordar, os esposos Bouiet ti-
veram a surpresa de encontrar a cama cheia de flo-
res.
RENÉ BOULET
René possuía mediunidade muito variada: não
era ex.clusivame~te d~ apports, era também de psi-
cografia, de escnta direta, de efeitos telecinéticos e
d.e materialização: Era assistida em suas experiên-
René Boulet, natural de Amiens, França, onde cias por uma entidade superior que a princípio se
nasceu em 1904, casou-se com Alfred Boulet e resi- deu a conhecer pelo número 1823.
diu, por muitos anos, em Auchel, pequeno rincão do Depois veio a saber-se que, sob este número
Distrito de Pas-de-Calais, célebre pelas suas minas, s~ escondia o prestigioso compositor húngaro Franz
ignorando, por completo, as maravilhosas faculda- Llszt, que nasceu em Raiding, em 1811, e desencar-
des mediúnicas que possuía. Foi ao Sr. Pascal, de nou em Bayrenth, Austria, em 1886. Não foi por
Nice, que coube a honra de ter descoberto, em obra do acaso que a entidade escolheu a Sra. Bou-
1947, esta médium notável, numa exposição de pin- let, poi~ uma comunhão de gostos, de disposições
tura fediúnica de Agustin Lassage or~anizada em musl~als e so~ret~do uma certa afinidade psíquica
Ulle( . Designou-a nos seguintes termos: 'Encontra-se, os unia e atraia. Llszt teve algumas vezes de prodi-
nesta sala, uma professora de música que será mé- galizar à aluna Boulet conselhos de ordem técnica
dium de efeitos físicos", notícia que, a princípio, sur- sobre a ~o~posição ~u. interpretação de certas pe-
preendeu muito a interessada, mas que se revelou ças mUSicaiS. Que felicidade ter um mestre assim!
completamente verdadeira. Quem não desejaria aprender piano com um virtuo-
A Sra. Boulet çlesenvolveu-se sozinha, sem au- se daquele nível?
xílio de ninguém. "E uma médium sensitiva - infor- O próprio autor do incomparável "Rêve d'A-
ma G. Belani, de Lille (França), de sistema nervoso mou.r' das "Rapsódias Hún~aras" interpretou ao pia-
excitável, dotada de lima grande faculdade de ex- no, In promptum, algumas linhas melódicas de músi-
pansão e penetrabilidade que a predispõe aos efei- cas escolhidas pelos assistentes. Além disso era
uma. entidade das mais benevolentes que se inclina-
(*) Cidade da França - sede da região Nord-Pas-de-Calais, às margens va piedosamente sobre as misérias de seus irmãos
do rio DeOle. terreno~ ~ procurava aliviá-los com preciosos conse-
lhos medlcos e algumas curas maravilhosas. Final-
150 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 151
mente, e acima de tudo, era um Espírito dos mais embora a obscuridade seja a melhor condição para
elevados que prossegue no Além no mesmo empe- . a produção deste gênero de fenômenos, mas não
nho com que, na Terra, se aplicou à Arte: o aperfei- absolutamente necessária nem indispensável, cer-
çoamento moral. Eis o texto inédito (traduzido do tos apports têm sido obtidos, excepcional e esponta-
alemão, língua desconhecida da médium) de uma neamente, em plena luz.
das suas últimas mensagens, recebida em 3 de de- Victor Simon, diretor do jornal Forces Spirituel-
zembro de 1950: les, de Arras (França), afirmou, em artigo no referido
"Fazer todo o bem que se possa. jornal, haver presenciado, em uma das sessões ex-
Amar a liberdade acima de tudo perimentais com a Sra. Boulet, apports de avelãs
E mesmo diante de um trono frescas e orvalhadas, em pleno dia. "Nesse caso",
Nunca trair a Verdade."
As condições a que obedeciam as experiências admitiu, "parece difícil, senão impossível, duvidar da
eram as seguintes: realidade do fenômeno".
1º) Local: não se realizavam na casa da mé- 6º) Características essenciais: A Sra. Boulet, à
dium, mas num salão particular, posto à disposição semelhança do médium de apports italiano Carlo
pela Sra. A. L., sócia do Centro de Estudos Parapsi- Vergani, atuava no estado de vigília (acordada) e
cológicos de Lille (França). não no estado de transe. Mantinha toda a sua cons-
2º) Tempo: variável, de 3 a 4 horas, segundo o ciência, toda a sua lucidez durante o tempo das ex-
estado da médium, ambiente e condições atmosféri- periências. Ouvia tudo o que se dizia, dava conse-
cas. lhos, recomendações, pedia silêncio e indicava o lu-
3º) . Número de assistentes: variável, de 30 a gar exato da entidade ou entidades manifestantes.
50. Verificou-se que os resultados obtidos eram mui- 70) Controle: em abono da Verdade, deve-se
to melhores com assistência reduzida. A produção dizer que a médium não era fiscalizada (revista pré-
de apports requer maior concentração de fluidos. A via) nem equipada com sinais luminosos que permi-
intensidade e a qualidade dos fenômenos estavam· tiam seguir no escuro, os seus movimentos. Ficava
em função do ambiente, da elevação e da harmonia isolada atrás da mesa sem qualquer contato com
de pensamentos. os assistentes. O diretor das sessões,.Victor Simon,
4º) Condições de afinidade: uma corrente psí- depositava nela inteira e bem merecida confiança,
quica entre a médium e o seu guia espiritual, que levando-se em consideração os fatos seguintes:
permite a combinação dos fluidos. a) concomitância de certos fenômenos - duas
5º) Trabalho em completa escuridão: àqueles ou mais pessoas colocadas em lugares diferentes e
que achem isto anormal ou suspeito, deve-se argu- opostos eram "tocadas" no mesmo instante;
mentar que um contato luminoso em pleno trabalho b) os fenômenos se produziam a grande dis-
de feitos físicos e de materialização produz uma tância da médium (4 a 5 metros). Por exemplo: levi-
descarga capaz de prejudicar sensivelmente o mé- tação de quadros, móveis ou cadeiras que atingiam
dium, podendo, até, levá-lo à morte. No entanto, e o teto.
152 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 153
c) controle mútuo dos assistentes que ligavam chada, ? Esp!ri~o-guia deçlarou que ia fazer "desa-
as mãos ou se encontravam na proximidade imedia- parece~ .a medlUm!... e da, para ISSO, as instruções
ta da médium. necessanas. A sra. Boulet senta-se numa cadeira a
d) acresce, ainda, que o Espírito-guia também qual, a pedido de um dos assistentes, é solidamente
exercia controle bastante racional. Por exemplo: a amarrada de pés e mãos, ficando materialmente im-
levitação de uma cadeira tomada visível pela aplica- possibilitada de sair e de libertar as mãos.
ção de substância luminosa, a aparição de uma par- Apagou-se .a luz ,9urante 9uatro minutos, de
te do corpo da entidade manifestante ou ainda por acordo com as Instruçoes que tinham sido dadas.
apports luminosos tomados fosforescentes por pro- Acendeu-se a luz. A Sra. Boulet tinha desaparecido!
cesso desconhecido, para que pudessem ser visto O lugar que ela ocupava na cadeira estava absolu-
pelos assistentes. tamen~e vazio. O Sr. Boulet confessou, mais tarde,
Por vezes o Espírito-guia divertia-se com os que nao pudera controlar o medo. Via-se já a pres-
assistentes, a tirar os óculos de um para os colocar tar contas aos jurados em Tribunal, respondendo
noutro que se encontrava no extremo oposto da pelo "desaparecimento inexplicável de sua mulher!"
sala. Uns viam de repente, o "apêndice nasal" equi- .Novamente a luz é apagada e cada um nota,
pado com três pares de óculos. Criava-se uma at- adm!r~do, e o Sr. Boulet com satisfação e alívio, que
mosfera de saudável convivência entre os seres cor- a medlum s~ ~ncontra no seu lugar, exatamente na
póreos e os invisíveis. A seguir o Espírito-guia reve- mesma PÇlslçao qu~ oc~pava ~ntes da experiência,
lava a intenção de se mostrar. A emoção atingia o com os pes e as mél;0s ligados a c':l-deira e as ligadu-
auge! Para o fazer, pegava em duas telas luminosas ras absolutal1}.ente Intactas! O gUia explicou que a
e as dispunha em forma de V com a. ponta para bai- Sra. Bou!et nao chegou a sair da cadeira' simples-
xo para melhor iluminar o ambiente. A aparição era r:n ente fOi ~o~n~da invisível aos olhos dos presentes
muito rápida. Apesar de tudo, os assistentes tiveram a .~xtraordll1ar~':l- sessão. Qual o processo de que se
a oportunidade de reconhecer a figura de um ho- utlli.zou ~ Espmto? Ninguém jamais o soube. O fato
mem enquadrado nas duas telas. Era Uszt. Segun- se l!lcIUl, sem e~bargo, no rol dos mais expressivos
do os espectadores, foi um espetáculo estonteante, feno.~enos registrados nos Anais das Pesquisas
o aparecimento do notável compositor, uma das gló- Espmtas.
rias do gênio humano! Deve-se admitir que a Sra. Boulet, embora não
t~nha alcanç~çJo a notoriedade de outras mulheres mé-
Desmaterialização da médium diuns europelas e americanas, contribuiu inequivo-
ca~ente, p~ra o e~riquecimento do acervo das pes-
Para terminar, citamos o caso excepcional de qUisas que se realizaram e se realizam sobre a fe-
desmaterialização da Sra. Boulet, que se pôde nomenologia espirítica. '
transportar de um compartimento para outro. Este
fenômeno que aconteceu na residência da médium.
Um dia em que o casal Boulet e alguns amigos se
encontravam reunidos numa sala absolutamente fe-
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 155
com suas tropas. A verdade dessas profecias é hoje
um fato histórico.
Entre as pessoas famosas que freqüentemente
buscavam a sua opinião contam-se o ex-rei Afonso
de Espanha, a rainha Amélia de Portugal, a rainha
Maria da Romênia, o rei Alexandre da Iugoslávia,
Edmund Rostand, autor de UCyrano de Bergerac" e
de "Aiglon", Anatole France, Pierre Loti e pratica-
mente todos os imortais da Academia Francesa. O
MADAME FRAYA Dr. Léon Binet, decano da Faculdade de Medicina
de Paris, que fazia experiências de influência mag-
nética à distância, claramente metafísicas, em opo-
sição à atitude materialista da maioria dos médicos,
Jean Jaurés, famoso líder socialista francês do sabedor das extraordinárias faculdades psíquicas
princípio do século XX, foi avisado por uma médium de Madame Fraya, pediu-lhe que se sujeitasse a al-
de que morreria de morte violenta. gumas experiências. Sem lhe dizer nada, levou-a a
Ao que Jaurés, que também era médium, res- diferentes escolas onde lhe pediu que examinasse
pondeu: as mãos de algumas crianças escondidas atrás de
- "Será na véspera de uma declaração de uma cortina. Em todas ela fez a análise correta do
guerra." caráter e aptidão das crianças. Ler na palma da
Realmente, assim aconteceu. Foi assassinado mão é simplesmente um meio de que a médium se
na véspera da Qu~rra de 1914, que ele se~pre ten- servia para estabelecer contato com as pessoas,
tou evitar. A medium que fez esta profecia desen- mas a sua faculdade era verdadeira e exclusiva-
camou nos idos de 1954. Era a célebre vidente fran- mente psíquica. Ela costumava dizer:
cesa Madame Fraya. A sua verdadeira idade er~ um u _ Cada uma das pessoas que me consultam,
mistério. Depois de passar os 80 costumava dizer: traz-me, na verdade, o seu estado d'alma e as suas
u _ A idade não interessa. Para mim deixou de exis-
realizações pessoais e eu sinto e capto as suas per-
tir. " turbações. E quando alguém está para morrer de
Quando o govemo francês se preparava para modo violento é uma verdadeira e indescritível an-
abandonar Paris em agosto de 1914, Madame Fraya gústia que se apodera de mim. " Esse fenômeno que
recusou partir, dizend~ a Georges Clemence~u,. no- ocorria freqüentemente com madame Fraya, seria
tável estadista frances (1841-1929) e a Anstldes pesquisado, com profundidade, pelo Dr. Joseph Banks
Briand (1862-1932), Prêmio Nobel da Paz de 1926: Rhine e sua esposa Louise Rhine na Universidade
"- Os alemães não entram em Paris." de Duke, na Carolina do Norte (EUA).
Em março do mesmo ano, profetizou à rainha Entre as profecias mais singulares de madame
Sofia, irmã do Kaiser, que ela não entraria em Paris Fraya conta-se a de um jovem chamado Henri Gans,
156 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 157
mobilizado com as primeiras tropas enviadas contra
o exército alemão. A poetisa Ana de Noailles consul-
tou Madame Fraya sobre o seu paradeiro e a res-
posta foi: "Vejo-o ferido numa perna e a perder tanto
sangue que morrerá. "
Gans fez a guerra toda sem sofrer um arranhão
sequer e todo mundo pensou que a médium tinh.a
falhado em sua previsão. Porém, dez ?-~os depoIs
Gans foi ferido numa coxa por um desajeitado atira-
dor durante uma caçada e morreu de hemorragia JOV SNELL
por falta de socorro imediato.
Educada para ser pianista de concerto, chegou
a obter êxito considerável; mas aos dezenove anos
casou com um professor de filosofia e veio para Pa- Joy Snell, órfã de mãe desde a mais tenra ida-
ris, onde os amigos tiveraf!! ~onhecimento de sua~ de, nasceu no meio da abastança e se revelou vi-
admiráveis faculdades pSlqUlcas. No entanto, fOi dente já aos 12 anos de idade. Ela atingira apenas a
uma pioneira do feminismo francês, Madame Seve- idade de 20 anos, quando teve a visão premonitória
rine, quem a fez acertar com a verdeira vocaçã<\ i~­ da morte iminente de seu pai, acontecimento que se
duzindo-a a admitir e praticar os seus dons medlunl- realizou exatamente como ela o havia visualizado.
coso Nos últimos anos de sua vida, Madame Fraya Com o falecimento do seu genitor o infortúnio aba-
esteve de cama, entrevada pelo artritismo,. mas o teu-se sobre ela, pois não tardaram a compreender
seu espírito continuava brilhante e a recebe!: Imp~e~­ que o defunto confiara os seus interesses a pessoas
sões psíquicas, embora em menor extensao. DIZia indignas que o haviam enganado, de modo que a
que as melhores horas para receber era das? ?s 9 pobre órfã e o seu irmão se achavam reduzido~ à
da manhã e sobretudo quando estava em Jejum. mais completa indigência. O irmão partiu para a Afri-
Pode-se dizer sem receio de desmentido, que Ma- ca a fim de ganhar a vida para si próprio e para sua
dame Fraya foi a melhor continuadora da célebre irmã; porém, o navio que o levava para lá naufragou
clarividente Madame de Hebes, afilhada e protegida e o jovem pereceu com os demaís passageiros. Fi-
do famoso escritor Alexandre Dumas autor de "Os cando só no mundo a infeliz Joy foi acolhida por um
Três Mosqueteiros" e 'Vinte Anos Depois", clássicos tio que, não conseguindo tirá-Ia da prostração moral
romances de capa e espada. em que caíra, com perigo de morte, tentou distraí-Ia,
entregando-a aos cuidados de sua irmã, diretora de
um sanatório. Assim fazendo, ele esperava que a
pobre sobrinha talvez encontrasse alguma distração
na prática do bem a tantos outros infelizes, do que
lhe adviria proveito tanto do ponto de vista moral

158 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 159


como físico. Foi isso que efetivamente aconteceu, e
Joy Snell obteve o seu diploma de enfermeira, con- "Antes de estar suficientemente refeita do susto
sagrando-se, com amor, à sua missão de caridade. e da surpresa experimentados à vista do fan-
"Ora" - observa o Prof. Ernesto Banana que tasma, vi este desaparecer e, pouco a pouco,
nos revela este caso em ('O Espiritismo e as Mani- extinguir-se a claridade.
festações Psíquicas' - Ed. Eco) "foi exatamente "Uma semana após fui chamada pela faml1ia
devido à sua profissão de enfermeira que os seus de minha amiga. Encontrei Maggie sofrendo de
casos de videncia se revestiram de grande valor um resfriado, acompanhado de febre; todavia,
teórico". De fato não tardou ela a verificar grande as suas condições gerais não inspiravam preo-
número de caso~ de 'Desdobramento Fluídico', q~e cupações e a própria enferma estava bem lon-
se apresentavam à sua visão supranormal, no leito ge de experimentar pressentimento. de morte.
dos moribundos assim como numerosos casos de Era evidente que ela não tinha a menor lem;
'Aparições de Defuntos', com caráter premonitório brança da visita que me fizera em Espírito. E
(por vezes de morte e outras .vezes de cura) ! para esse um mistério que não.consigo explicar-me,
os enfermos em cuja cabeceira eles se manifesta- tanto mais que, durante a minha vida, tive nu-
vam. 'd' , merosas experiências de aparições de vivos
Os fenômenos de 'Desdobramento FlUI ICO no que me dirigiram a palavra e com as quais, por
leito de moribundos não eram, todavia, novos para a minha vez, falei, verificando sempre que elas
vidente, que ainda bem criança, assistira a um deles não guardavam recordação alguma de se te-
no leito mortuário de uma sua amiga. O Prof. Bozza- rem comunicado comigo...
no destaca esse caso, que apresenta um interess~
especial por ter sido o primeiro no gênero que a VI- "Encontrava-me, pois, junto de Maggie, há uns
dente pÔde constatar e que foi precedido pela visão três ou quatro dias, quando, certa noite, foi ela
do fantasma da menina que ia morrer, fantasm~ que assaltada por terrível e súbita crise e faleceu
anunciou à sua amiga a iminência do seu faleCimen- nos meus braços antes que o médico tivesse
to. Escreve a vidente: tempo de acudir ao chamado. Logo que o cora-
"Certa noite despertei sobressaltada, de pro- ção de Maggie deixou de bater, vi distintamen-
fundo sono: encontrando iluminado o meu te algo semelhante ao vapor, que se desprende
quarto, apesar de estarem apagadas todas a? de uma chaleira em ebulição, elevar-se do seu
luzes percebi, ao meu lado, o fantasma de mI- corpo físico, pairar a alguma distância dele,
nha ámiga Maggie, que me disse: 'Quero con- condensar-se em forma idêntica à de minha
amiga. Essa forma, muito vaga a princípio, to-
fiar-lhe um segredo. Sei que dent~o de algun.s mou gradualmente contorno mais definido até
dias deverei ir para o .Mund,o Espmtu?1I.. DesejO tornar-se perfeitamente distinta. Ela estava en-
que fique junto de mIm ate o !'leu uft~mo mo.- volta numa espécie de· véu branco, de reflexos
mento e que console minha mae depOIS de mI-
aljofrados, sob o qual apareciam claramente
nha partida. ' suas formas. . O· rosto era o de minha amiga,
160 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 161
mais glorificado e sem qualquer traço de es-
pasmos que o haviam contraído na agonia da mais brilhante. Esse cordão reunia o corpo nebuloso
morte. e flut~ante ao çorpo .inerte sobre a cama. Somente
as maos pareciam ainda vivas e procuravam roçar
"Mais tarde, quando me tomei enfermeira, voca- de leve o lençol na altura do plexo, como que ten-
ção na qual perseverei por vinte anos, tive a tando afastar o cordão chamado "fio de prata" e
oportunidade de assistir a numerosos casos de gue, em caso ,de. desdobramento de um ser vivo,
morte e, logo após o falecimento, constantemen- liga o corpo p~lqUICO ao corpo material, sem jamais
te eu observava essa condensação da forma se quebrar.. So se rompe no momento da morte.
etérica acima do corpo físico, forma sempre idên- . Maravilhado com o esforço que a moribunda
tica àquelas donde se destacava e que, uma vez f~zla para afastar este vínculo do seu corpo mate-
condensada, desaparecia de minha vista." nal, o Dr. Baraduc mandou aquecer um tubo cilíndri-
Em seus comentários sobre o fenômeno de co de ferro e, no momento em que estava vermelho
"Desdobramento Fluídico no Leito de Morte", o Prof. colocou-o no fio de prata. O ruído provocado pelo
Bozzano esclarece que a sua autenticidade está de- contato semelhou-se ao de centelha elétrica como
monstrada pela existência de numerosos casos se houvesse um curto-circuito. O longo fio ag'itou-se
análogos visualizados por sensitivos pertencentes a e se desfez na nuvem que se tornava sempre mais
todos os povos do mundo. condensada e luminosa,
E dentre as experiências mais decisivas, que O corpo psíquico pairou no espaço algumas ho-
ratificam as informações dos videntes, destaca-se a ras e, em seguida, se elevou e atravessou lentamente
que fora realizada pelo Dr. Hippolyte Baraduc. No a parede que nem pareceu oferecer resistência.
intuito de observar o "corpo psíquico" (perispírito) O Dr. Baraduc vira seu primeiro fantasma: o de
quando abandonasse o corpo de sua esposa, o su~ esposa gue abandonava o corpo que não podia
Dr. Baraduc colocara-se em estado de auto-hipnose mais bastar as necessidades da vida.
a fim de aguçar a sua percepção visual. Depois de A chapa fotográfica que foi utilizada pelo Dr.
se tornar "sensitivo", ficou aguardando... Baraduc durant~ o trespasse de sua esposa revelou
De repente, do lado esquerdo do corpo de sua um~ esfera luminosa com proporções um pouco su-
esposa agonizante, ele viu elevar-se uma leve né- penores a uma cabeça humana.
voa luminosa. A mesma coisa aconteceu no plexo e ~odemamente, têm sido realizadas notáveis
também na cabeça. Deste lado, na nuvem que se pesquisas em tomo do desprendimento da alma no
erguia lentamente, podia ver a formação de pontos momento. ~a morte, ra!ificando, destarte, os relatos
de condensação brilhantes. Pouco a pouco, estas dps ~ensltJvos que registram tais e inusitadas ocar-
manchas vaporosas não muito distintas condensa- renclas.
ram-se e salientaram-se, e por fim se reuniram.
Pôde ver como se desenhava a cabeça, o perfil do
corpo, dos braços e dos membros inferiores, depois
se formou um cordão que foi se tornando cada vez
162 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
163
pensavam os profetas escriturísticos), como tam-
bém imaginava a também médium Joana D'Arc;
igualmente, tudo de mau que se sente ou que se
ouve, é atribuído exclusivamente ao diabo.
"Há, nesta 'harpa viva'," - afirma o Dr. Sér-
gio Valle- "a floração de todas as mediunidades;
quem lê a vida de Teresa de Jesus, sem a chave
do Espiritismo, não a entende ou, como os 'sábios'
materialístas, explicam tudo pelo histerismo."
MÉDIUNS CATÓLICAS A verdade é que os fatos supranormais ocor-
ridos nas vidas dos santos enchem os anais das
manifestações espíritas. Podemos explicá-los en-
TERESA DE JESUS tre os fenômenos naturais, deixando de lado tanto
a teoria extrema das "Graças" gratuitas, como a
A vida de Tereza de Jesus (1515-1582) escrita das desgraças patológicas (histerismo etc). Esta-
por ela roesma, fielmente traduzida por Rache.1 d~ mos justamente no meio, e com a verdade.
QueirósrJ , é o relato das vicissitudes de uma sensI- Na vida de Teresa de Jesus assiste-se, atra-
bilidade mediúnica prodigiosa, que demorou a pro- vés da sua faculdade mediúnica, a luta entre as
duzir os seus frutos, porque os confessores d~ qu~ sugestões dos Espíritos maus, invejosos, que lhe
se servia para esclarecer e pa!~ buscar aux~o Vi- querem impedir o crescimento espiritual, e as bên-
viam emparedados entre o angellcoe o demonlaco. çãos e os conselhos das boas visões, oriundos
Os conselhos que lhe davam para afugentar as dos Espíritos Superiores. Sua religiosidade sadia
visões, as penitências ab,?urdas gue Ih_e prescre- preferia o Deus de Bondade ao Deus vingativo:
viam (proibiam-lhe as oraçoes), ,as .lnt~nço~s ocultas
que lhe atribuíam, chegando a tirania, fizeram-na "Há almas que aproveitam mais com a graça
por merecer lia condenação do Alto", segundo a segura de que tratam com Deus do que com
própria religiosa: todos os temores que se lhes possam infun-
"Quando me tiraram a oração," - lamentou dir; a alma que de si é amorosa e agradecida,
Teresa de Jesus - "pare.ceu-me enfadad,o o Se.- mais a volta para Deus a memória da mercê
nhor. Disse-me que lhes dissesse que aqUilo era ti- que lhe fez do que os castigos do inferno que
rania". representem; ao menos com a minha, embora
A médium confundia as vozes dos Espíritoses- tão má, isso acontecia."
clarecidos com a voz do próprio Deus (assim como Teresa de Jesus tinha a concepção democrá-
tica da graça: sustentava que a perfeição é alcan-
(*) Rachei de Queirós conserva a linguagem e estilo arrevesados da notá- çável por quem quer que verdadeiramente se es-
vel sensitiva. force para obtê-Ia.
164 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 165
o auxmo do Alto, ela o pressente nas seguintes da terra! Muitas vezes deixaram-me o corpo
palavras:
tão leve, que todo o seu peso o abandonava.
"Quando o Senhor dá Espírito, tudo se faz com Sofreu, amargamente, em conseqüência da
facilidade e melhor; parece que se tem um mo- ignorância e radicalismo dos seus confessores:
delo adiante, do qual se copia o lavor; mas se o
Espírito falta não se conserta a linguagem, é "... Dá lástima o que se padece com os con-
como se fosse a bem dizer uma algaravia, ain- fessores sem experiências, segundo o direi
da que se tenham empregado muitos anos em depois.
oração. "Grande é, não há dúvida, a aflição que se
Aprendeu a discernir o merecimento das inspi- passa e é mister tento, em especial com mu-
rações: lheres, porque é muita a nossa fraqueza; há
risco de se lhes fazer grande mal, dizendo-lhes
"Sofri muito e perdi muito tempo por não saber com clareza que aquilo é obra do demônio.
o que fazer. Muita dó me causam as almas que "Estando num oratório muito aflita, sem saber
se vêem sós, quando chegam a este ponto; te- o que seria feito de mim, li num livro que pa-
nho lido muitos livros espirituais e vejo que em- rece ter sido o Senhor que me pôs estes dize-
bora toquem no que importa, bem pouco o ex- res de S. Paulo: 'Que é Deus muito fiel, e que
plicam. nunca aos que o amaram consentiu serem
Contra a sua vontade, é objeto de espetacula- pelo demônio enganados' . "
res levitações, que ingenuamente atribuía ao Se- Teresa de Jesus consegue, depois de doloro-
nhor: sa experiência, discenir, por si mesma, os bons
dos maus Espíritos:
"Como agora exerço o ofício de priora, determi-
nei às monjas que nada dissessem. Mas em "... Enorme é a diferença quando o Espírito é
outras vezes, quando começava a ver que o bom ou quando é mau; quando o Espírito é
Senhor ia fazer o mesmo, estendia-me no de Deus, tenho tido provas ao se realizarem
chão; as irmãs rodeavam-me, chegavam a se- muitas coisas que me foram ditas 2 ou 3 anos
gurar-me o corpo, e contudo a elevação era in- antes; todas se cumpriram e até agora ne-
controlável. nhuma resultou em mentira".
E acrescenta: Entra, afinal, em comunicação pacífica com
um Espírito afim e iluminado, quando a mediunida-
'íl\o querer resisitir, parecia-me que debaixo de depurada deixa de ser apenas uma porta aber-
dos pés me levantavam forças tão grandes que ta, para se transformar num filtro:
não sei como as comparar... Confesso que
grande temor me causou - grandíssimo ao "Parece-me que quem quiser enganar os ou-
princípio. Ver-se assim levantar-se um corpo tros dizendo ser de Deus o que é de si, que
pouco lhe resta afirmar que ouve com os
166 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 161
ouvi dos corporais; é certo que jamais pensei ra, e que por isso mantinha-se no ar, de joelhos,
que haveria outra maneira de ouvir nem de sentada e em pé.
entender, até qu.e por mim mesma '! testE!"!..u-
nhei; e, como disse, custou-me mUita afltçao. MARIA DE JESUS D'AGREDA (1602-1665)
Depois tem sido o Senhor servido que eu tra-
te mais com esse Espírito do que durante a O padre J. Ximenes Samaniego, descreve os
sua vida, recebendo-lhe os conselhos em seus êxtases, por ele observados:
muitas coisas. Várias vezes o vi com imensa "O corpo estava privado do uso dos senti-
glória. Na primeira vez em que me apare,cpu dos, como se estivesse morto e insensível
disse-me que bem-aventurada era a pemten- a toda espécie de tratos dolorosos; estava
cia que tanto prêmio merecia, e muitas outras um pouco afastado do solo e era tão leve
coisas. Um ano antes de morrer, apareceu-me que um sopro se podia deslocar para rela-
em estado ausente (fora do corpo físico); ,ei.! tivamente longe, como se fosse uma leve
soube, então, que a sua morte estava proXI- pena.
ma e o avisei. Quando morreu, apareceu-me "Como as irmãs do convento de que era
e disse que ia para o seu descanso. Oito dias superiora tinham ganho o hábito de a mos-
depois, veio a notícia de que estava morto- trar ao público enquanto estava naquele es-
ou para melhor dizer, que começara a viver!" tado, ela fechava-se no quarto; mas as irmãs
A hagiografia católica é riquíssima em fenô- afastavam uma mesa das paredes de madei-
menos transcendentais. A levitação, assume, sem ra do quarto, prendiam a extática e a trans-
embargo, papel de destaque. portavam para diante da grade do coro. As
irmãs que a sustentavam sentiam-na leve
MARIA DE JESUS (1787-1862) como uma pena".
Conhecida por "Mêre du Bourg", fora, segun- MARIE DE MOERl (1812-1863)
do o Dr. Imbert-Goubeye, que a observou direta-
mente, uma das mais notáveis médiuns de levita- A estigmatizada do Tirol (Áustria). Diz-se
ção. que, quando estava doente, se elevava de uma
U(.. .) Ela procurava defender-se da _'Atração maneira estranha do leito. E. de Moy, Professor
Divina', depois de ter tentado, em 'lia o, agar- de Direito na Universidade de Mônaco, descre-
rar-se iA cadeira ou ao genuflexório, cruzava ve, numa carta a L. Boré, a posição da extáti-
os braços sobre o peito, ou os estendia, ligei- ca:
ramente virada para o céu, e se abandonava "Com as mãos postas, a cabeça e os olhos le-
iA força que a elevava rapidamente." vantados para o céu, de joelhos, o corpo incli-
As testemunhas revelam que ela conservava nado para a frente, parecia que era levada por
sempre a posição em que o êxtase a surpreende- seres invisíveis. "
168 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES II.IAÉrnuNS 169
CATARINA DE SIENA (1347-1380) TEORIA SOBRE O MECANISMO DA lEVarAÇÃO
Sentiu, desde pequena, uma forte tendência Na obra "O Espiritismo Contemporâneo", o Dr.
para se isolar. Numa g~!a ,:os arredores de .Sie~a, A A Martins Velho, sugeriu a teoria seguinte, que
na Itália, teve uma expenencla precoce de levltaçao. elucidaria, segundo ele, o fenômeno da levitação:
Acabou por bater com a cabeça no teto da gruta e
desse modo saiu do êxtase. "Um corpo pesado pode variar de peso, sem
alterar a sua densidade. Basta, para o conse-
MARIA DA PAIXÃO (1866-1912) guir, aplicar ao corpo pesado uma outra força,
que atua no mesmo sentido da gravidade (e
Das "Adoradoras do Crucifixo", levitava à vista em tal caso o corpo aumenta de peso). Se a
de todos. "... Eu era ainda noviça" - conta a irmã força aplicada for igual à da gravidade, o corpo
Maria Prassede, numa carta datada de 3 de junho flutuará. Pode demonstrar-se praticamente
de 1913, "e a Madre Superiora, nos últimos dias de essa teoria por meio de um pesa-cartas e de
vida em que a irmã Maria da Paixão subiu ao coro, um ímã.
disse-me que ela devia voltar imediatamente para a
cama. Pois bem, mal saímos juntas do coro, obser- "Coloca-se no prato do pesa-cartas um pedaço
va-se que a serva de Deus, embora doentíssima, de ferro qualquer, e veja-se qual o peso que
subia as escadas num instante, como se voasse, e acusa. Se por cima do pedaço de ferro coloca-
eu, de boa saúde, não conseguia segui-Ia, de ma- mos o ímã, e o formos aproximando até que o
neira que me parecia que não tocava no solo, que ferro fique dentro de sua esfera de atração,
voava de fato pelas escadas, que conduziam à cela, ver-se-à que o pedaço de ferro pesará tanto
acima... " menos quanto mais próximo estiver o ímã.
"Se colocarmos este por baixo do prato do
ANNE-CATHERINE EMMERICH (1674-1) pesa-cartas, verificar-se-á que o ferro 'aumen-
tou de peso', e todavia a densidade do ferro
"Enquanto cumpria as minhas tarefas de sa-
'não mudou', porque a sua massa 'não se alte-
cristã", contava ao seu amigo Clemens Brentano, rou'.
"era muitas vezes levantada repentinamente ao ar,
sustendo-me de pé nos pontos mais altos da Igreja, 'J!\s leis que regulam a gravidade não se altera-
nas janelas, nos ornatos, nas saliências; limpava e ram, nem se destruíram; simplesmente à força
arrumava tudo em lugares onde isso era humana- da gravidade opôs-se uma outra força 'que a
mente impossível. ajudou' num caso e a 'contrariou' ou 'recom-
Sentia-me ser levantada e sustentada no ar e pensou' no outro".
isso não me perturbava, porque desde a minha in- É, ao que parece, o que se dá com a levitação
fância estava habituada a ser elevada pelo meu do corpo humano. Ao peso do corpo humano resul-
anjo bom". tante da gravidade opos-se uma outra força aproxi-
170 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 111
madamente igual que permitiu ao corpo flutuar ou tado magnético", essa médium não podia tomar ba-
elevar-se na atmosfera. nho, porque ficava flutuando como uma rolha de
"Mas, que força é essa que assim neutraliza a çortiça na superfície da água, pesando menos que a
gravidade?" - indaga o DI'. Martins Velho. agua...
"Nós", responde ele, "entendendo. que a fevita- Atualmente, no Ocidente como no Oriente
ção só se dá no estado de transe ou de êxtase, em ci~ntistas estão tentando criar efeitos antigravitacio~
que o médium não está no pleno gozo das suas fa- nalsde modo artificial, isto é, técnico. Nessecampo
culdades, antes está dominado pela força psíquica de pesquisas destacam-se os nomes do DI'. Henry
de outrem. Inclinamo-nos ante a hipótese de ser um W~lIace (norte-americano), do Professor Eric Laith-
Espírito a causa determinante da levitação. W~.It~, do.Real College de Londres, do Professor
Wllliam Llttle, da Universidade de Stanford e o
"Desta sorte, fica este 'milagre' antigo reduzido DI'. Malcolm Skove, professor de física da Universi-
à sua expressão mais simples - um mero proble- dade de Clenson (EUA). A chave da neutralização
ma de equilíbrio de forças concorrentes, que em ~a.gravidade é a geração de fortes campos magné-
nada destrói as leis fundamentais da gravidade, an- tiCOS que eles querem criar através de supercondu-
tes a corrobora." tores ~ondutor~s que, !eito de zero absoluto -
Outras teorias tentaram, por seus respectivos 273,15 C negativos - nao oferecem mais resistên-
turnos, elucidar os trâmites enigmáticos da levita- cia à corrente elétrica.
ção. Eis uma dessas teorias: Permitimo-nos concluir com estas sentenciosas
"Parece lógico que, durante a levitação os mé- palavras de Epes Sargent, insertas em "Bases Cien-
diuns constroem por baixo do corpo ou ao re- tíficas do Espiritismo", FEB.
dor, um campo de transporte (uma espécie de . "(...) A levi~ação, fato que tenho testemunhado
bolha bioplásmica). Esse campo, então, deve ~wtas ve,zes, e c9nsiderada um absurdo porque
liberar efeitos antigravitacionais, misturando-se VIOla é! lei da gravidade. Não, aí não há violação,
com o campo gravitacional da terra e neutrali- mas sim a obra de uma potência invisível e impalpá-
zando-o desta forma. vel produzindo suspensão"...
Com a ajuda do consciente ou subconsciente, JOANA D'ARC (1412-1431)
pode-se regular a velocidade da levitação e
sua duração no ar. Entretanto, as leis gravita- Numa aldeia ignorada e pequenina, Domrémy,
cionais não perdem seu valorperante essa hi- n~ an~ de 1412, nasceu uma criança do sexofemi-
pótese; elas funcionam na realidade para cá de nino, filha de I.a,:,radores muito pobres. Ocupou-se,
nosso contínuo espaço-tempo. 11 <!u~ante a meninice e a adolescencia, ou em tecer a
Os defensores dessas concepções citam o mé- la, Junto de sua mãe, ou em guardar o rebanho nas
dico Justinus Kerner, que notou, na médium Frederi- varzea...s do Mosa, ou no acompanhar o pai na char-
ca Hauffe (a vidente de Prevost), tratada e pesqui- rua., Nao aprendeu a ler, nem a escrever. Caridosa,
sada por ele, perdas de peso paranormais. No "es- cedia a cama aos peregrinos velhos e cansados,
AS MULHERES MÉDIUNS 173
112 AS MULHERES MÉDIUNS
passando a noite sobre um feixe de palha. Sua divi-
sa é a de sua família: "Viva o trabalho!" O seu maior e estas visões não foram nem fingidas, nem
forjadas. "
enlevo - o toque dos sinos! Vozes estranhas lhe
falavam aos ouvidos e ao coração, diri~indo-Ihe os Não era neurótica, nem histérica. Gozava de
passos. Pura como o lírio do campo. So conhece Q saúde perfeita; era sóbria, infatigável, destemida,
amor dos seus pais. E ouviu as vozes dizerem: "E sempre consciente e senhora de si, como o de-
preciso que vás em socorro do Delfin, para que, por monstrou nos lances mais dolorosos e mais trágicos
teu intermédio, ele recobre o reino". Ou, então: "Fi- de sua vida. G. Dumas, Professor da Sorbonne, de-
lha de Deus, tu conduzirás o Delfin a Reims a fim de clara não ter conseguido, pelos testemunhos, des-
que receba aí a sua digna sagração". - "Sou moça cobrir em Joana qualquer dos estigmas clássicos da
pobre", responde ela, "que não sabe cavalgar, nem histeria. Todas as suas premonições se realizaram:
guerrear". o levantamento do cerco de Orleans, a tomada da
Aos dezessete anos, parte sozinha para dirigir cidade fortificada de Troyes, a marcha vitoriosa so-
batalhas contra os ingleses invasores de sua pátria, bre Reims, a sagração do rei Carlos VI. Dos seus
protetores espirituais ela afirmava: "Eles estão aqui,
numa época de barbárie em que os soldados eram sem que os vejais."
bandidos, vítimas do todos os vícios, prontos sem-
Impassível e indiferente diante da glória, o seu
pre a debandar. Teve que transformá-los em criatu- pensamento estava sempre nas suas ocupações
ras tementes a Deus, em combates dispostos a sa- campestres e no seio da família distante. Nas ruas,
crifícios pela Pátria, mergulhada no caos, nadesor- no meio das aclamações populares, acolhia com
dem, nas traições e na venalidade. Suas predições modéstia os humildes e os mendigos, "nada temo
numerosas começam a realizar-se. Infundem res- senão a traição".
peito nos adversários e remove~ ?s dificuld?des Encontrou o seu Judas na pessoa de João de
morais. Doutores, chefes dos exercltos desunidos, Luxemburgo, que a vendeu aos ingleses por dez mil
casuístas, são vencidos pela analfabeta de Domré- libras em ouro, "O martírio era necessário': diz Léon
my, pelas réplicas luminosas e emudecedoras. De Denis, "para dar àquela santa figura toda a sublime
onde lhe vêm a sabedoria e as luzes? radiosidade".
"Há nas suas palavras", diz o seu biógrafo "Automatismo psicológico!" "Auto-sugestão!"
Léon Denis, "tal de verdade e de convicção, que "alucinação!" E por que tudo isso não se manifestou
ninguém, mesmo dentre os seus detratores mais ar- num La Tremoille ou num Regnault de Chartres,
dentes, ousou acusá-Ia de impostora. " seus comandados e rivais? Quem acreditaria na
Anatole France, prêmio Nobel de literatura vida de Joana d'Are, se não estivesse gravada em
(1921), que, certo, não a poupa, admite: páginas imperecíveis do testemunho histórico e irre-
"O que sobretudo ressalta dos textos é que ela tocável dos seus próprios inimigos?
foi uma santa. Foi uma santa com todos os atri- '~ superfetação incrível de contrastes entre
butos da santidade do século xv. Teve visões sua figura humana e os acidentes de sua vida santi-
ficada" - afirma o Dr. Sérgio Valle - "culmina na
114 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 115
contradição final: a guerreira invencfvel, diante de
cujo estandarte fugiam espavoridos os inimigos de
sua Pátria, depois de ter feito coroar seu rei e trans-
formado a França numa nação, é vendida aos inr;'e-
ses, para ser julgada e queimada como 'feiticeira. "
"A única explicação, a racional," - prossegue
o Or. Sérgio Valle - "a naturalística", está encerra-
da naquelaspalavras de Léon Denis:
"Se Deus, aquilatando da fraqueza dos fortes e
da prudência dos avisados, preferiu salvar a França ERMANCE DUFAUX
por intermédio de uma mulher, de uma menina, qua-
se criança, foi sobretudo para que, comparando a
fragilidade do instrumento com a grandeza do resul-
tado, o homem não mais duvidasse; foi para que
visse claramente nessa obra de salvação, o efeito Joana d'Arc, em meados do século XIX, retor-
de uma. vontade superior, a intervenção da potência na aos planos terrenos e transmite à menina mé-
externa... " dium ~rma~c~ Oufaux, uma obra autobiográfica,
Joana d'Arc inspirou numerosas obras literá- sob o titulo Vida de Joana d'Arc ditada por ela mes-
rias, principalmente o poema de Christiane de Pison ma", que fez sua aparição, em Paris (França), em
"Poema de Joana d'Arc" (1429), "A tragédia de 1858, por Oentu. O fato se reveste, para os incrédu-
Schiller" liA donzela de Orléans" (1801), a trilogia los, desd~ o po~to de vista psicológico, um proble-
dramática "Joana d'Arc", de Charles Pé~uy (1897), ma do mais alto Interesse.
'Santa Joana", de G. B. Shaw (1923), 'A cotovia", Como uma menina com a idade de 14 anos
de J. Anouilh (1953) e "Joana na Fogueira", oratório pôde ter adquirido conhecimentos de tão diversa na-
de P. Claudel, música de A. Honegger(1935). t~re~a que.são neceS?ários para escrever uma estó-
na tao vanada, sem Incorrer em omissões nem er-
ros?
A!lan Kardec, 9~e a conheceu bem de perto,
~arantlndo a autenticidade do fenômeno, referiu-se
a obra, nos termos seguintes, insertos na Revue
Spirite de janeiro de 1858:
"História de·Joana d'Arcditada por ela mesma
à senhorita Ermance Dufaux. "
uÉ uma pergunta que nos tem sido feita muitas
vezes, esta de sE}ber se os Espíritos que res-
pondem com maIOr ou menor precisão às per-
176 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 177
guntas que lhe são dirigidas poderiam fazer um um láp!S na mão e de fingir que escreve. É ne-
trabalho de fôlego. A prova está na obra a que cessano uma outra pessoa para registrar suas
nos referimos, pois aqui já não se trata de uma sé- palavras, como as da Sibila. E conclui o Codifi-
rie de perguntas e respostas, mas de uma cador do Espiritismo: "Como todas as médiuns
narrativa completa e seguida, como o faria um favorecicjas pelos bons Espíritos, a senhorita
historiador, e contendo uma infinidade de deta- Dufaux Jamais recebeu comunicações que não
lhes pouco ou nada conhecidos sobre a vida da fossem de ordem elevada. "
heroína. Aos que poderiam crer que a senhori- O testemunho de Allan Kardec é de grande va-
ta Dufaux inspirou-se em conhecimentos pes- lor, porque todos os que o conheceram estão de
soais, respondemos que ela escreveu o livro na acordo, até mesmo seus adversários em reconhe-
idade de catorze anos; que sua instrução era a cer-lhe a perfeita boa-fé e honestid~de acima de
das meninas de família decente, educadas com qualquer suspeita. A autenticidade do ditado da
cuidado, mas, ainda quando tivesse uma me- "donzela de Orleans" é, pois, fato consumado. En-
mória fenomenal, não seria nos livros clássicos tretanto, certos críticos, menos avisados verão nele
que iria colher documentos e informações ínti- um possível desarranjo anormal da subconsciência
mas, dificilmente encontrados nos arquivos da levantando a fantasiosa hipótese de que a "memóriá
época. Sabemos que os incrédulos farão como Ia.te'!t~ houvera elaborado os trâmites íntimos da
sempre, mil e uma objeções à autenticidade da hlstona, com o desconhecimento prévio da escre-
obra; mas, para nós, que vimos a médium ope- vente".
rar, a origem do livro não pode ser posta em O jornal La Verité, de tendência nitidamente es-
dúvida. pírita, publicou, em fascículos, a obra psicografada
"Posto que a faculdade da senhorita Dufaux se por Erm~nce Ou!aux, sobre Luís XI, em apenas
preste à evocação de qualquer Espírito, de que qUln~e C!las, suscitando, em seus leitores profunda
nós mesmos fizemos prova em comunicações a.dmlraç~o, demonstrad~. por vasta correspondên-
pessoais que nos foram transmitidas, sua es- cia. Registre-se, a propOSltO: de onde a menina Ou-
pecialidade é a história. Ela escreve do mesmo faux teria extraído dados inéditos sobre a sombria
modo a vida de Luís XI e a de Carlos VIII que, p~lítica do rei mais dis~imulado ~.c0ntrovertido que
como a de Joana d'Arc, serão publicadas. Pas- remara n~ França? Seria necessano que essa meni-
sou-se com ela um curioso fenômeno (esclare- na possUlsse a faculdade de um beneditino para le-
ce Kardec): a princípio era boa médium psicó- var a bo~ termo uma tarefa tão difícil, que sem dúvi-
grafa e escrevia com grande facilidade; pouco ~a c~~pnu, comq ~e fqss~ ,não '!lais que a secretá-
a pouco tomou-se médium falante (psicofonia) na docll de um habll e Invlslvel historiador. Essa é a
e, à medida que esta nova faculdade se desen- expressão inequívoca do processo mediúnico, larga
volveu, a primeira se atenua; hoje escreve pou- e profundamente estudado porAllan Kardec de-
co e com dificuldade; mas o que é original é monstrado por uma pré-adolescente que, por outro
que, falando, sente a necessidade de estar com lado, colaborou com o mestre de Lyon, ao lado de
178 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 179
outras extraordinárias meninas, na feitura da Codifi-
cação do Espiritismo.

KATHlEEN GOllGHER

o círculo que, voluntariamente, permitiu ao


Prof. William J. Crawford (Doutor em Ciências) reali-
zar suas notáveis experiências no campo vasto,
quanto complexo, da ectoplasmia, era composto de
sete membros: o Sr. Morrison, Sra. Morrison, Srta.
Kathieen Goligher, Srta. Lily Goligher, Srta. Ana Go-
ligher, o Sr. Goligher e o jovem Samuel Goligher,
enfim, uma família constituída de pai, quatro filhas,
um filho e um genro, todos médiuns em diferentes
graus capazes de produzir extraordinários fenôme-
nos de efeitos físicos. Entretanto, a Srta. Kathleen
Goligher de 16 anos, é o mais notável entre todos.
Nesta adolescente, nascida a 27 de junho de 1898,
a mediunidade, segundo Dr. Crawford, ué provavel-
mente hereditária, pois as tradições de família regis-
tram faculdades psíquicas do lado materno". Essa
mediunidade foi descoberta acidentalmente, "há
mais ou menos três anos", relata o professor de me-
cânica aplicada do Instituto Técnico da Universidade
de Belfast, "os Goligher tentaram obter fenômenos
psíquicos e formaram um grupo familiar de pesqui-
sas. Os raps se fizeram ouvir quase que imediata-
mente e, por eliminação, os dons de Kathleen se re-
180 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 1IH
velaram" ("The Reality of Psychic Phenomena; Ex- "Presentemente" - esclarece o Or. Crawford -
periments in Psychical Science; The Structures at "grande número de pessoas assistiram a esses fe-
Goligher Circle'). nômenos e não há ninguém que não haja ficado
Os fenômenos obtidos, pelo Or. Crawford no bastante impressionado. Os operadores invisíveis
Círculo Goligher, especialmente às expensas da parecem ter prazer em convencer crentes e céticos
menina Kathleen, se dividiram em duas categorias: da realidade da força psíquica. O visitante inicial é
impactos e movimento de corpos materiais sujeitos habitualmente convidado a entrar no círculo, a segu-
à fricção e à gravidade. Os impactos consistem em rar a mesa, tentando mantê-Ia quieta. Começa, en-
pancadas (raps) aplicadas com suas variações e tão, a luta. Se o executante é dotado de músculos
não são causadas pela ação da matéria sobre a ma- sólidos e firmar todo seu peso exatamente no centro
téria. Assim, um pé de mesa que se ergue e bate no da mesa, poderá consegui-lo por um instante. Mas,
solo, fenômeno muitas vezes observado pelo Or. logo (mais cedo que tarde) a mesa se lhe escapa,
Crawford, não é um impacto. O impacto é um ruído
que resulta da aplicação súbita da força psíquica a salta, inclina-se, vira-se e, se a pressão muscular se
um corpo material. relaxa, ergue-se acima do solo. Então poucas pes-
O Círculo Goligher ofereceu, à pesquisa, vários soas conseguirão fazê-Ia descer, não obstante os
exemplos desse gênero. Eis alguns dos mais fre- esforços empregados. Após essa luta, volta tranqüi-
qüentes: 1º) raps em todos os graus de energia, dos lamente ao chão e o visitante é convidado a sentar-se
mais leves aos de um martelo de forja; 2º) combina- sobre ela. Não se demora muito tempo. Ao cabo de
ções das pancadas soltas, pancadas duplas, panca- um momento, ergue-se vagarosamente sobre dois
das triplas (duas rápidas e uma lenta), pancadas em pés e o faz escorregar para o chão. Enfim, é ele 're-
série, imitação de árias de música ou árias de dança conduzido' para fora do círculo por um empurrão
(compreendendo, as últimas, a dança da areia, ba- violento que o obriga a retirar-se".
seada numa espécie de fricção percebida); 3º) es- Em seguida, o Or. Crawford expõe alguns fatos
pecialidades: ruído de uma mesa que salta muitas que demonstram que os fenômenos do Círculo Go-
vezes (imitação de rara perfeição), fricção de fósfo- Iigher foram autênticos e não foram devidos, de for-
ros, homem caminhando, cavalo trotando, pé de ma nenhuma, a trapaça consciente ou ao incons-
mesa.. ao ser serrado, lixa no assoalho etc. ciente do médium e dos assistentes:
A segunda categoria, pertencem os desloca-
mentos de corpos materiais, causados pela ação da 12) O médium e os seus, são pessoas íntegras,
força psíquica. A levitação da mesa é o que há de religiosas, de ideais elevados. São incapazes
mais visível e mais freqüente, sendo executados de praticar uma ação má, nas coisas mínimas
pela mesa toda a sorte de movimentos laterais e de da vida. Vêem os fenômenos como determina-
rotação, ou combinados. Uma corneta de metal é dos a provar que a vida continua depois da
agitada no ar, uma campainha começa a tocar e os morte, o que hoje é uma realidade absoluta
assistentes sentem contatos e apalpadelas. para eles.
182 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 183
2º) As sessões são consideradas como atos re- A contribuição que o Dr. William J. Crawford
ligiosos. Começam e terminam com uma prece. trouxe à Metapsíquica - observa Renê Sudre -
Não é tolerada a falta de decoro. pode levar a três direções principais: uma teoria sa-
bre a levitação das mesas, uma teoria sobre os raps
3º) Todos os membros do Círculo são meus e uma teoria sobre o ectoplasma. Começou por es-
amigos pessoais e os freqüento, intimamente, tabelecer que, numa levitação total, o peso da mesa
há três anos. Conheço, a fundo, sua concep- passa integralmente para o médium (esse fato foi ri-
ção da vida, suas particularidades de caráter, gorosamente verificado nas experiências do Dr. AI-
integridade perfeita e sua opinião sobre os fe- bert Schrenck - Notzing). Somente uma pequena
nômenos. parte da reação é sofrida pelos presentes (3%). Via-se
4º) A médium é o membro menos entusiasta do que a médium formava um todo com a mesa, como
Círculo. A Srta. Kathleen é a única a não dar se a sustentasse com as mãos. Por conseguinte,
importância aos fenôm.enos em si~ nãt;J obsta'!-
A
não é necessário ser muito entendido em mecânica
te interessar-se por mmhas expenenclas. CreIo para imaginar que, nesse caso, a médium estava
que se presta a ser médium, mais por obriga;- presa à mesa por um liame rígido, não obstante invi-
ção para com os outros do que para sua pro- sível: é o "cantilever", o "Ievier encastre" de Craw-
pria satisfação. ford. Não seria de admirar que, depois disto, dedi-
casse tantas sessões a averiguar se havia um ponto
5º) Sendo a médium pessoa íntegra, nada de apoio no solo.
pede. Nunca paguei um vintém pelas sessões "A teoria dos raps é uma conseqüência da teo-
que me concedeu. A Srta. Kathleen não é incli- ria sobre a alavanca. Desde que os operadores invi-
nada a atribuir à sua mediunidade qualquer va- síveis criam hastes para erguer a mesa, criou, igual-
lorcomercial (de 1914 a 1918, Kathleen Goligher mente, outro modelo para produzir ruídos vários,
não recebeu nenhuma remuneração). desde o choque do martelo até à fricção da lixa na
6º) Durante minhas pesquisas, a médium este- madeira. A extremidade destas hastes ou estruturas
ve sempre consciente; qualquer espécie de materializa-se mais ou menos para esse fim. Chega-
fraude seria então um ato deliberativo. Divertia-me, mos, assim, à teoria do ectoplasma calcada em fa-
muitas vezes a observar o ardor com que se- tos. Essa teoria é mais ou menos semelhante à teo-
guia os fenômenos, visivelmente esquecida, ria das "duas diástases". A hipótese sobre as subs-
nesse momento, de ser ela própria a causa. tâncias psíquicas X e Y, não tem outra finalidade se-
não explicar a saída e a entrada do ectoplasma em
7º) Grande número de pessoas foi convidada um corpo: é uma hipótese de trabalho. Mais contes-
para tomar parte nas sessões. Creio poder afir- tável é a afirmação de que seja o médium aquele
mar que ninguém dentre elas, céticos ou indife- que fornece a matéria e os assistentes a energia.
rentes, partiu sem estar seguro de ser a força Na ciência moderna não existe a diferença da natu-
psíquica uma realidade. reza entre a matéria e energia e em parte nenhuma
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
esta verdade aparece tão claramente quanto na Me- ..
tapsíquica.
A verdade é que as experiências realizadas
pelo Dr.William J. Crawford não discrepam em nada
com as levadas a efeito com Eusápia Palladino, Sta-
nislawa Tomczyk, Eva Carriere e outros notáveis
médiuns que escreveram os seus nomes, indelevel-
mente, no grande livro dos Fenômenos Espíritas.
Em junho de 1923, a Revue Métapsychique no-
ticiava: CINCO MULHERES E AS
"O Círculo Goligher, de Belfast (Irlanda), o das
experiências de Crawford, retomou os seus traba- CORRESPONDÊNCIAS CRUZADAS
lhos depois de longa vacância c0f1r)@cutíva à publi-
cação da obra de Foumier d'Albe . E prosseguia
informando: A. W. Verrall, Leonore Piper, Alice Fleming,
"Desde as primeiras sessões, viram-se à luz Helen Fleming e a Sra. WiUett
vermelha, bem intensa, movimentos completos
de levitação, movimentos da mesa, assim Separadas por milhares de quilômetros, CIN-
como a produção da alavanca ectoplásmica CO MULHERES que não se conheciam entre si dis-
provocadora dos movimentos. " puseram-se a se comunicar com os mortos. O méto-
do que utilizaram foi a escrita automática, mediante
a qual a médium, em transe, é capaz de escrever
mensagens do além, sem ter noção imediata de seu
conteúdo.
A princípio as mensagens que cada uma rece-
bia pareciam mutiladas, por vezes desprovidas de
qualquer sentido. Quando, porém, mais tarde, foram
comparadas, apresentavam relação com três ho-
mens mortos. Todos tinham sido fundadores, em
1882, da Socíety for Psychica! Research: Hemy
Sidgwick (1838-1900), Frederic Myers (1843-1901)
e Edmund Gumey (1847-1887).
1. o experimentador Fournier d' Albe teve com Kathleen Goligher umas Na Inglaterra a Sra. A. W. Verrall, uma estu-
quinze sessões cujos resultados não o satisfizeram. Publicou uma brochura sobre
estes experimentos que serviram de base para os detratores das extraordinárias dante de Literatura Clássica na Universidade de
pesquisas do DI'. Crawford. Cambridge, que conhecera pessoalmente esses
186 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 181
três sábios ingleses, recebeu fragmentos de mensa- possuía sobre o erudito assunto ou de qualquer ou-
gens expressamente de Frederic Myers. tro tema que versasse sobre um tipo de cultura com
Mais tarde, na América, a Sra. Leonore Piper a qual ela não tivera, pelo menos nesta existência
começou a receber, mensagens semelhantes assi- qualquer contato intelectual. '
nadas "Myers". Na India, a Sra. Alice Fleming, irmã .. Algum tempo d,epois, !la Inglaterra, o físico Sir
do escritor Rudyard Kipling, começou a receber Ollvler Lodge, tambem notavele conhecidíssimo in-
mensagem, tal como sua filha Helen. Ainda na In- vestig a90r psíquico... formulou a mesma pergunta a
glaterra, a Sra. Willett, natural da Comualha, come- Sra. Wlllett, que nao tinha conhecimento da expe-
çou um dia a rabiscar mensagens de homens de riência idealizada por G. B. Dorr, nos Estados Uni-
quem nunca ouvira falar. dos. Além de responder, corretamente com as mes-
Das diferentes médiuns, surgiu um mosaico mas alusões clássicas, a sua escrita automática
complexo de mensagens fragmentadas, ~m grande mencionou, com absoluta precisão, o trabalho de
parte baseadas na Literatura Clássica. A exceção Dorr, confirmando, assim, e de modo irrefutável a
da Sra. Verrall, nenhuma das outras possuía vastos autenticidade da manifestação espiritual. '
conhecimentos dos autores clássicos nem por eles Os escritos da Sra.• Alice Fleming na índia
revelava qualquer interesse. continham freqüentemente, passagensq~e refletiam
Os mortos, por outro lado, tinham sido todos, e uma pro.funda. frustração e angústia, conseqüentes
sem exceção, eruditos em cultura clássica. do desejO desesperado de comunicação por parte
Cientistas, estudiosos e homens de negócio do Espírito emissor. Através dela, Myers escreveu:
examinaram os escritos e detectaram, nestes, um '~ imager:n. mais ?proximada que me surge
sentido intencional. Foi considerado impossível que para expnml! as dificuldades para enviar uma
as protagonistas desse caso tivessem colaborado mf}nsagem ~ que pareço encontrar-me por de-
em tão completa mistificação. Se se tivesse verifica- tras de um Vidro fosco - que esfuma a visão e
do qualquer comunicação telepática inconsciente, amortece o. som, ditando em voz fraca a uma
esta continha uma série de tal modo complexa de secretári? relutante ~ pouco inteligente. Pesa
referências clássicas que apenas a Sra. Verrail seria sobre mim uma temvel sensação de impotên-
capaz de as compreender. cia. "
Finalmente, um investigador americano, G. B.
Dorr, idealizou uma experiência: perguntou a Frede- Mais tarde o autor·de "Human Personality and
ric Myers, Espírito, através da Sra. Leonore Piper, o its Survival of Bodily Death", escreveu:
que significava para ela a palavra LETHE. A respos- "Mais uma tentativa que faço, deste mundo
ta foi tão pormenorizada e incluía referências tão denso, para atré!ve~ar o bloqueio.imposto por
pouco conhecidas que apenas o mais consagrado forças, m.dlmensICJn.avels. Como poderei tomá-Ia
c1assicista poderia conhecer o seu profundo e filosó- (a medJUm) sufiCientemente dócil e perfeita-
fico significado, o qual ultrapassava, muitíssimo de mente receptível? '" Como, através desses es-
longe, os escassos e notórios conhecimentos que critos, que escapam à compreensão da perd-
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 189
piente, poderei convencer os meus antigos pela Correspondência Cruzada" (Londres, 1938).
companheiros de lides experimentais?" Saltmarsh distingue as correspondências cruzadas
A Sra. Piper, na América do Norte, e a Sra. Wil- em: simples, complexas e ideais. As simples são as
lett, na Inglaterra, receberam mensagens irrepreen- que aparecem nos escritos de dois ou mais médiuns
sivelmente semelhantes. (independentes) com uma mesma palavra ou frase,
Os escritos da Sra. Willett sugeriram-lhe, final- ou duas frases tão semelhantes que estejam clara-
mente, que tentasse travar uma conversação mental mente interconectadas. As complexas, são casos
com os três ilustres desencamados. Ela conseguiu, onde o tópico ou tópicos não são mencionados dire-
após uma série interminável de tentativas, estabele- tamente mas referidos de maneira indireta e alusiva.
cer esse contato, psicofônico, com os protagonistas Uma correspondência cruzada ideal seria aquela
das "correspondências cruzadas", possibilitando, as- em que dois médiuns independentes escreveram
sim, que uma segunda pessoa participasse do pro- mensagens aparentemente sem sentido.
cesso de comunicação, dirigindo percucientes per- "Ora': elucida Saltmarsh, "se um terceiro mé-
guntas aos Espíritos Frederic Myers, Edmund Gur- dium (independente) apresentasse um escrito que,
ney e Henry Sidgwick. Os temas dessa inusitada embora sem sentido, e tomado por si só, agisse
discussão ultrapassaram, em muito, os interesses como chave para os outros dois, de modo que a ta-
normais e a capacidade intelectual da Sra. Willett. talidade pudesse ser reunida em bloco, e mostrasse
Henry Sidgwick falou a Lord Balfour, um dos um só propósito e significado, teríamos boa evidên-
pesquisadores envolvidos na conversação, sobre cia de que todos se originariam de uma só fonte':
três teorias em conflito sobre a relação entre Espíri- Falou-se, na ocasião, de uma possível "conspi-
to e corpo, demonstrando, na oportunidade, um co- ração fraudulenta" entre as médiuns. Acrescenta a
nhecimento profundo sobre o assunto, que, antes, propósito, Alan Gauld: "Eram todas as pessoas de
por sinal, quando encamado, fora objeto de suas excelente reputação, e nenhuma indicação de frau-
eruditas cogitações. Por sua vez Edmund Gumey, o de jamais veio à luz; além do mais, em p~ríodos im-
consagrado autor de "Fantasmas de Vivos" (traba- portantes, uma das médiuns estava na India; uma
lho sobre aparições de Espíritos), abordou singula- outra nos Estados Unidos ao passo que as demais
res aspectos sobre a alma humana, sob uma visão estavam na Inglaterra." Descartou-se, por outro
muito mais ampliada e profunda do que aquela por lado, a explicação baseada na coincidência. Ade-
ele próprio firmada, quando encamado, em sua mais, várias tentativas de gerar correspondências
obra. cruzadas artificiais, coligindo pseudo-inscrições de
A discussão das mensagens dos ilustres de- estranhos, resultaram em notório fracasso.
sencamados prosseguiu· por muitos anos, e nin- Numa última tentativa de explicar o fenômeno
guém foi ainda capaz de explicar, satisfatoriamente, Alice Johnson levantou a hipótese de uma "assem~
os seus aspectos essenciais, embora se destaque a bléia de egos subliminares" - espécie de conspira-
teoria formulada pelo pesquisador H. F. Saltmarsh, ção telepática organizada. Essa hipótese foi relega-
autor do livro "Evidências da Sobrevivência Humana da ao ostracismo pela própria pesquisadora, che-
190 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 191
gando, sensatamente, a admitir que Frederic My~~,
Henry Sidgwick e Edmund Gumey eram os genl,?ls nho da sobrevivência ~a al!T'a e da preservação de
autores do inusitado processo das corresponden- seus car~:lCtere.s morais e !nt~lectuals, não apenas
cias cruzadas. A sua tese, contudo, seria, posterior- para os Investigadores pSlqUlCOS de suas épocas,
mente aproveitada para justificar a origem do fenô- mas para todos aqueles que, segundo o Mestre Je-
meno. sus, "têm ouvidos de ouvir e olhos de ver'...
A Society for Psychical Research - SPR, atra-
vés do pesquisador J. G. Diddigton, c~ncl~iu o mo-
mentoslssimo assunto das correspondenclas cruza-
das em termos plenos de dubiedade:
agora atingimos um ponto em que,. na su-
11 ( ••• )

posição de que todas as correspondenclas cru-


zadas são elaboradas exclusivamente pelos
automatistas (médiuns), precisaríamos presu-
mir que vários deles são capazes da ta~e!a ou
então teríamos de presumtr uma especle de
lIassembléia telepática dos egos subliminares
dos automatistas (I?), onde conspiram juntos e
determinam o papel de cada um."
Seria vexatório para a. colenda Sociedade ad-
mitir a sobrevivência da alma após a morte. Assim,
e conquanto tenha se defrontado com tantas e
constrangedoras evidências, preferiu assumir uma
posição que não a comprometesse no contexto da
comunidade científica. Não tiveram os dirigentes da
SPR a coragem de um William Crookes, de um Paul
Gibier, de um Gustave Geley, que, afrontando, com
serenidade e confiança, a opinião pública, anuncia-
ram aos quatro ventos a sobrevivência ea comuni-
cabilidade da alma, após triunfais pesquisas realiza-
das sob rigorosíssimos critérios científicos.
Quando as abnegadas e corajosa,? "!1édiuns
envolvidas no processo das correspondenclas cru-
zadas desencamaram, os sábios Espíritos Myers,
Sidgwick e G.umey deixaram de se; comunicar com a
Terra. Silenciaram. Entretanto, deixaram o testemu-
192 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
193
Outro assistente recebeu a visita de alguém
que se dizia sua tia-avó! O parentesco foi negado;
entretanto, consultas posteriores à família compro-
varam que ~q~el~ tia realmente existira, mas desen-
camara na Infancla.
Jamais a Sra. Wriedt caía em transe. Conver-
sava livremente com os assistentes, enquanto os
Espíritos davam mensagens em francês, alemão,
italiano, espanhol, norueguês, holandês, árabe e ou-
MÉDIUNS PARA VOZES DIRETAS tras línguas completamente desconhecidas da mé-
dium. Uma senhora norueguesa, muito conhecida
no mundo das letras e da política, foi abordada em
Sra. Wriedt norueguês, por uma voz masculina, dizendo-se seu
irmão e dando o nome de P.. Ela conversou com ele
e deu mostras de satisfação ante as provas dadas
A Sra. Wriedt nasceu na cidade de Detroit de sua identidade. De outra vez, uma voz falou em
(EUA). A autenticidade de seus poderes mediúnicos espanhol fluente, dirigindo-se determinadamente a
pôde ser testada por Sir Arthur Conan Doyle. Certa uma senhora no grupo, que ninguém sabia tivesse
vez (1911), em visita à casa de campo do a~tor de ligações com essa língua. Então a senhora estabe-
Sherlock Holmes, na Inglaterra, ela se reuniu com leceu uma conversa fluente com o Espírito, em es-
ele, sua esposa e seu se~retário numa sala ~em ilu- panhol, com evidente satisfação para este.
minada. Foi cantado um hino e antes de terminada a
primeira estrofe, juntou-se uma quinta voz de exce- Mary Hollis
lente qualidade e continuou até o fim. Os três obser- Mary Hollis, depois Mary Hollis-Billings, era
vadores estavam para dizer que a própria Sra. uma notavel médium. Esta americana visitou a In-
Wriedt estava cantando todo o tempo. "Na sessão glaterra em 1874 e também em 1880, quando foi
da noite", relata Conan Doyle, "vieram muitos ami- apresentada à sociedade de Londres por destaca-
gos, com todas as possíveis prov~s de identid?1de. dos espíritas. Um expressivo relato de sua variada
Um assistente sentiu a aproxlmaçao de seu pai, re- mediunidade é feito pelo Dr. N. B. Wolfe em seu li-
centemente falecido, que começou pela tc!sse seqa vro "Starling Facts in Modem Spiritualism" ( Fatos
e forte características da doença que o vitimou. DIS- Admiráveis no Espiritismo Moderno), Mary Hollis era
cutiu á questão de um legado, de maneira perfeita- uma senhora educada, possuidora de expressivos
mente racional." Um amigo de Conan Doyle,. um dotes cristãos. Seus dois guias James Nolan e um
irascível anglo-indiano, manifestou-se, reprodUZindo índio chamado Ski falavam livremente em voz dire-
exatamente a sua maneira de falar, dando o seu ta. Numa de suas sessões, realizada em casa da
nome, e referindo-se a fatos de sua vida terrena. Sra. Macdougall Gregory, em Grosvenor Square,·a
194 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 195
21 de janeiro de 1880, um clérigo da igreja da Ingla-
terra sustentou uma conversa com um Espírito, o regularidade em plena luz do dia". Ela era pobre,
qual havia sido interrompida há sete anos e se con- analfabeta; vivia na pequena aldeia de Bradrick à
margem do rio Ohio, do outro lado da cidade 'de
fessou convicto da autenticidade da voz, que era
Hurntingdon, em West Virgínia. Era médium desde
muito peculiar e perfeitamente audível para todos os criança. Era muito religiosa e pertencia à Igreja Me-
assistentes, de ambos os lados do religioso, a quem todista, da qual, como alguns outros, foi expulsa de-
o Espírito se dirigia. vido à sua mediunidade.
Emily S. French Há poucas referências à faculdade mediúnica
de Elizabeth Blake, destacando-se as que se inse-
Eduard C. Randall refere-se, no livro "The rem numa monografia do Prot. James Hyslop. A mé-
Dead have Never Died" ("Os Mortos Nunca Morre- dium foi sucessivamente submetida a rigorosos tes-
ram"), à médium americana para vozes diretas, Emi- tes a cargo de vários pesquisadores. Todavia, mere-
Iy S. French. Ela faleceu em casa, em Rochester, ce ~ealmente atenção as criteriosas investigações
Nova Iorque, a 24 de junho de 1912. Randall investi- realizadas pelo Prof. Hyslop, em 1906, na cidadezi-
gou as suas faculdades durante vinte anos e se nha de Bradrick. Eis um trecho de suas conclusões
convenceu de que sua mediunidade era de altíssi- sobre os resultados que obteve nas sessões com a
mo padrão. jovem médium norte-americana:
'~ altura dos sons, em alguns casos, exclui a
Mercia M. Swain suposição de que as vozes sejam conduzidas
Mercia M. Swain, que faleceu em 1900, era das cordas vocais à trombeta. Ouvi sons a seis
médium de voz direta cujas faculdades foram apro- metros de distância e os poderia ter ouvido a
veitadas por um grupo da Califórnia, o Rescue Cir- doze ou quinze metros - e os lábios da Sra.
ele, para ajudar os Espíritos atrasados. Um relato Blake não se moviam.
dessas extraordinárias sessões, que eram dirigidas "Resta estabelecer uma hipótese plausível
por Leander Fisher, de Búffalo, Nova Iorque, e que para explicar este aspecto dos fenômenos.
se estenderam de 1875 a 1900, se acha no livro do Mesmo que chamemos a isto 'Espíritos', a ex-
Almirante Usborne Moore, "Glimpses of The New plicação não satisfaz ao homem comum de
State" ("Relances sobre o Novo Estado"). ciência. Ele quer saber do processo mecânico
Elizabeth Blake que o envolve, assim como nós explicamos o
falar comum.
Elizabeth Blake, de Ohio (EUA), que faleceu "Talvez sejam os Espíritos a causa primeira no
em 1920, "era", segundo Conan Doyle, "um dos caso; mas há degraus no processo que, vão
mais maravilhosos médiuns de voz direta de que se desde a iniciativa até o último resultado. E isto
tem notícía e, talvez, o de maior valor probante, por- que cria a perplexidade muito mais que a supo-
que em sua presença as vozes se produziam com sição de que, de certo modo, estejam Espíritos
196 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 191
por detrás de tudo isto... e ~ t'omem de ~ên.ci~
não pode ver como os Espmtos podem mstltUlr avô lhe disse que não havia, ca/do da po.nte
um fato mecânico sem o emprego de aparelhos quando embriagado, como. a epoca h~vlam
mecânicos. " pensado. Tinha sido assassmado por dOIS ho-
mens que o 'laviam en~qntrado e tinham con-
"Também ninguém o pode" - admite Co- seguido pega-lo, despoja-lo de ~~us valores e
nan Doyle. - "Mas neste caso" - acrescenta atirá-lo de cima da ponte. O Espmto descreveu.
- "a explicação tem sido dada uma ou outra minuciosamente os dois latrocldas pelo que fOI
vez pelo Outro Lado. O desejo do Prof. Hyslop possível prendê-los e obter a confissão de am-
de conhecer o elo que existe entre os sons _e bos. "
sua fonte seria menos surpreendente se nao
fosse um fato que os própriOS Espíritos reitera- Numerosos assistentes notavam que enqua~t~
damente responderam à pergunta que ele ~az. a Sra. Blake falava ouviam-se as vozes dos Espm-
Através de muitos médiuns deram eles explica- tos e ainda, que os mesmos Espíritos apresenta-
ções mais ou menos idênticas". varrt a mesma inflexão de voz durante anos. O Prof. .
Conan Doyle invoca o test~munho do Dr.~ V. .. Hyslop oferece detalhes de um caso com e~sa ex-
traordinária médium, no qual as vozes comumcantes
Guthrie, superintendente do ASilo de West Vlrglnla,
em Humtingdon, conselheiro-médico da Sra. Blake, deram a solução correta para abrir um cadeado de
convicto de seus dons. segredo, a qual era desconhecida do assistente.
"Fiz sessões com ela" - declara o Dr. Guthrie
- "em meu próprio consultório e no alpendre, ao ar Mary MarshaU
livre, e, numa ocasião, dentro de uma carruagem
numa estrada. Constantemente me oferecia para fa- A Sra. Mary Marshall, ~~senca!n~da ~m 1875,
zer sessões e usar uma manga de candeeiro em e que foi a primeira dos medluns publlcos Ingleses,
vez de uma pequena corneta e muitas v.ezes a vi era canal para vozes vindas de John King e outros.
produzir vozes tendo-a numa das extremidades da Em 1869 em Londres, o Sr. W. Harrisson, redator
trombeta". do The Spiritualist fez exaustivos ensaios cC?m ela.
O Dr. Guthrie, relata o caso seguinte que au- Como os espíritas eram tidos como gente faCilmente
tentica, sem embargo, a poderosa faculdade mediú- impressionável imaginava ele, "é interessante notar'
nica da Sra. Blake: - observa Conan Doyle - "a sua cuidadosa in-
vestigação". .
"Uma parenta minha, de import(lnte. famí/~a Em The Spiritualist, escreveu o Sr. W. t-:l~r~ls­
nesta região do Estado (West V/rgmla), ,cuJo son, referindo-se à portentosa faculdade medlunlca
·avô tinha sido encontrado morto ao pe de de Mary Marshall:
uma grande ponte, com o crânio esmagado,
visitou, há poucos anos, a Sra. Blake, a 9ua~, "Mesas e cadeiras moviam-se à luz do dia e
na ocasião, não estava pensando no avo. FI- por vezes se erguiam do chão, enquanto que
cou muito surpreendida porque o Espírito do nas sessões às escuras ouviam-se vozes e
viam-se manifestações luminosas. Todas es-
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
/1//
,/
sas coisas pareciam vir dos Espíritos. Então rel Assim, o Sr. W. Harrisson se convenceu que
solvi ser um visitante constante das sessõesie nenhuma criatura humana presente produzia as vo-
permanecer fiscalizando até verificar se as/co- zes. Entretanto, talvez preocupado em demasia em au-
municações eram verdadeiras ou descobrir a tenticar o fenômeno, esqueceu de divulgar, em seus
impostura com bastante precisão e segurança artigos no The Spiritualist, que as vozes freqüente-
para a denunciar, em presença de testemu- mente davam provas tais de identidade, que nem a
nhas, e poder publicar os fatos com desenhos médium nem um comparsa poderiam fazê-lo.
completos dos aparelhos usados. " Um dos comitês que integravam a célebre co-
O Sr. Harrisson prossegue em seu relato: missão criada pela Sociedade Dialética de Londres,
em janeiro de 1869, para investigar os fenômenos
.~ voz de John King é inspirada por uma inteli-
provocados pelos Espíritos, chegou à seguinte con-
gência ao que parece inteiramente diferente da clusão, quanto ao mecanismo e veracidade das ma-
maneira do Sr. Marsha// e de sua esposa Mary. nifestações dos Espíritos nas sessões com a mé-
Entretanto, admiti que o Sr. Marsha// produziu a
dium Mary Marshall: "Que as vozes tinham falado
voz e, assistindo a algumas sessões, verifiquei
em presença de médiuns não estipendiados; depois
que era comum que o Sr. Marsha// e John King
haviam conversado, com os membros do Comitê,
falassem ao mesmo tempo. Assim fui obrigado
em sessões particulares com a médium Mary Mars-
a abandonar minha teoria.
ha// e aí "haviam demonstrado as mesmas peculiari-
"Então admiti que era a Sra. Marsha// quem fa- dades quanto ao tom, a expressão, o andamento, o
lava, até que uma noite fiquei junto dela; ela volume, a pronúncia, que nas. vezes anteriores. " Es-
estava à minha direita e eu lhe segurava a mão tas vozes falavam sobre assuntos de natureza tão
e o braço e John King veio e falou ao meu ouvi- particular que ninguém, além dos integrantes do Co-
do esquerdo, quando a Sra. Marsha// estava mitê, podia ter conhecimento. As vozes, em mani-
absolutamente imóvel. Assim se foi minha nova festações premonitórias, prediziam acontecimentos
teoria. que, mais tarde, aconteceram conforme anunciaram
"Por fim, imaginei que um parceiro escondido os invisíveis.
produzia a voz de John King. Então fiz duas Deve-se esclarecer que depois desta e outras
sessões nas quais a Sra. Marsha/l se achava declarações dos Comitês que constituíram a Comis-
entre estranhos, numa casa estranha, e nova- são criada pela Sociedade Dialética, a maioria dos
mente John King estava mais vivo do que nun- seus componentes, entre os quais figuravam SirWiI-
ca! Finalmente, na noite de quinta-feira, 30 de liam Crookes e Sir Oliver Lodge, acabou por aceitar
dezembro de 1869, John King veio e falou a os fenômenos espíritas como reais e irrefutáveis,
onze pessoas, no grupo do Sr. C. Berry, na au- consolidando assim, na velha Albion, o trabalho pio-
sência da Sra. Marsha//, servindo de médium a neiro do Mestre Allan Kardec e dos Espíritos Supe-
Sra. Perrin." riores, encarregados de codificar a Doutrina Espírita!
200 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 201
anos desse curso, obtido sempre os primeiros luga-
res. No quarto ano, em 1910, estudou Anatomia e
Fisiologia Artística, conquistando, finalmente, Meda-
lha de Prata. Ao terminar o Curso Geral, decidiu fa-
zer o Curso de Gravura de Medalhas e Pedras Pre-
ciosas, a cargo de outro emérito mestre, o Prof. Au-
gusto Girardet. Em fevereiro de 1914, casou-se Di-
norah com o então aspirante a Oficial, Alfredo de Si-
mas Enéas Júnior, tendo embarcado para a Itália
DINORAH AZEVEDO DE SIMAS ENÉAS em abril desse ano. Sua estada na Europa foi muito
proveitosa. Regressou ao Brasil, sendo nomeada li-
vre docente. Em 1934, aposentado o Prof. Augusto
Girardet, D. Dinorah foi nomeada Catedrática Interi-
Indalício Mendes traça, em REFORMADOR na da Cadeira de Gravura de Medalhas e de Pedras
üaneiro, fevereiro e março de 1977), detalhado perfil Preciosas, na Escola Nacional de Belas-Artes, por
de Dinorah Azevedo de Simas Enéas, "distinta e ser o único livre docente e o único aluno com o cur-
acatada médium desenhista". Era filha de José so completo dessa cadeira. Permaneceu nessa fun-
Monteiro Pinto de Azevedo e de D. Carolina Mar- ção durante 22 anos e, antes de deixá-Ia, inaugu-
ques Azevedo. Nasceu no dia 21 de dezembro de rou, na sala, um Medalhão de bronze com o retrato
1888, na cidade do Rio de Janeiro (antiga Capital do seu velho e querido mestre Professor Girardet.
Federal), aí desencarnando em 15 de janeiro de Estimada e respeitada por todos, por suas qua-
1973. Fez o curso primário em Niterói (RJ), no Gru- lidades morais e virtudes pessoais, sentiu-se ela
po Escolar Barão de Macaúbas, prosseguindo em atraída pela Doutrina Codificada por Allan Kardec.
seus estudos secundários, quando seus pais se Aprimorando suas faculdades mediúnicas, conse-
transferiram para o Rio, no tradicional Colégio Pedro 11. guiu, pelas afinidades espirituais reveladas, a assis-
Demonstrando vocação para as Artes Plásti- tência de Espíritos bondosos, alguns deles interes-
cas, fez concurso na Escola Nacional de Belas-Ar- sados na arte mediúnica da pintura. Fez esboços,
tes, em 1905, alcançando o primeiro lugar. Matricu- desenhos coloridos a giz, carvão, lápis e tinta a
lou-se, então, como aluna de livre freqüência, na óleo. Essas entidades se compraziam em poder tra-
aula de Pintura, dirigida pelo Prot. Henrique Bemar- balhar com um médium já possuidor da técnica pic-
delli; e, na de Modelo VIVO, a cargo do igualmente tórica, pronto, portanto, para ser utilizado sem difi-
ilustre Prof. Zeterino da Costa. culdades.
Durante os dois anos de freqüência como alu- ,Dinorah era católica praticante. Nunca tivera
na livre, terminou os preparatórios no Colégio Pedro 11 qualquer contato com o Espiritismo até o ano de
e se matriculou, em 1907, no 1º ano do Curso Geral, 1923.
dirigido pelo Professor Bérard, havendo, nos três
AS MULHERES MÉDIUNS
202 AS MULHERES MÉDIUNS
geral, quando desenho mediunicamente, faço-o no
Certo dia, sentiu-se indisposta, adoentada, com máximoem vinte minutos, tempo de uma sessão.
muitas dores de cabeça e um mal-estar permanen- Ante a pergunta: A que atribui esse mododife-
te. Consultou todos os especialistas de sua cidade e rente de pintar quando recebe um Espírito? Dinorah
nenhum descobriu a causa do mal. Passou, então, a respondeu sem vacilar:
freqüentar o Centro Espírita Soledade, dirigido por - Acho que deve ser uma manifestação do
D. Marcília de Alencar, esposa do Comandante Espírito para deixar bem clara a sua intervenção.
Gentil de Alencar. Os problemas de saúde passa- Como sabe, há muitas pessoas incrédulas.
ram como por encanto. E ela passou a receber - Outro detalhe curioso: não sou vidente e,
mensagens psicográficas e, em seguida, as mensa- entretanto, reproduzo a fisionomia de pessoas que
gens dos pintores. não conheço, a quem nunca vi, mas que realmente
Geralmente, Dinorah sabia, com antecedência, existíramo
que os fenômenos se iriam produzir. Logo pela ma- - E como sabe que existiram? Questionou o
nhã, ao levantar, ficava sabendo que iria desenhar; seu interlocutor.
só não definia exatamente o quê. Quanto à autoria - Isto é comprovado por videntes que obser-
dos quadros, percebia que o Espírito artista que se vam a absoluta fidelidade do desenho.
manifestava nos desenhos não era sempre o mes- O fato de ela não ter sido vidente e reproduzir a
mo. Eram diversos pintores, cada um com seu estilo fisionomia de pessoas desconhecidas - esclarece
e, conforme explicou, de influência fluídica distinta. o escritor Indalício Mendes - reafirma a sua condi-
Constatava isso facilmente pelo peso em suas ção de médium inconsciente mecânico. Prova que
mãos, que executavam o trabalho através de traços os desenhos e pinturas feitos por sua mão repre-
fortes ou mais leves. sentam o trabalho de um Espírito que apenas se uti-
Afirmou, certa ocasião - sou o "que se chama lizava das suas excepcionais condições técnicas,
em Espiritismo "mecânica". Sinto, apenas, umas vi- isto é, da maleabílidade do seu comportamento em
brações esquisitas no braço e na mão que desenha. face da ação espiritual exercida sobre ela. Os dese-
O resto do corpo, inclusive a cabeça, permanece in- nhos e pinturas poderiam perfeitamente ser feitos
teiramente alheio ao trabalho. Outra coisa: o proces- com um médium que não soubesse pintar e dese-
so de executar a obra mediunicamente é muito dife- nhar, e não são poucos os casos dessa natureza,
rente do normal. Costumo desenhar, normalmente, abrangendo diversos setores da mediunidade.
pelas regras clássicas: primeiro, o esboço e, depois,
os detalhes e aperfeiçoamentos. Uso borracha, reto- Dois Fatos que Merecem Registro
co, modifico. Quando o desenho é mediúnico, come-
ço indiferentemente por qualquer parte. Não uso Dinorah disse ao interlocutor que, algumas ve-
zes, fizera retratos de pessoas identificadas por pa-
borracha. Como recebo, fica. Meus quadros mediú- rentes ou conhecidos ainda vivos. E passa a contar
nicos são feitos a carvão, giz ou com espátula. E o
dois fatos interessantes e que podem ser comprova-
mais interessante é que normalmente não sei dese- dos. O primeiro, ocorrido na primeira fase das mani-
nhar com espátula. Nunca aprendi nem tentei... Em
AS MULHERES MÉDIUNS 20S
204 AS MULHERES MÉDIUNS
festaçães mediúnicas, teve como protagonistas duas
senhoras portuguesas. Elas desejavam ter um retra.-
t~ mediúnico de urT) irmão falecido em Portugal, há
tnnta anos, sem deixar uma fotografia sequer. Dino-
rah nada prometeu, pois não tinha certeza de que
poderia satisfazê-Ias.
Chegando a casa, recebeu um retrato a carvão
de um belo rapaz que lhe era completamente des-
conhecido. Ele trajava uma farda. Hesitou em mos-
trar a obra às senhoras. Estimulada pelo marido, SRA.M.B.HAYDEN
mostrou o quadro que, na verdade, era a reprodu-
ção fiel do irmão desencamado.
O outro caso, não menos interessante aconte-
ceu na cidade de Dom Pedrito, no Rio G~ande do Em fins de 1852, informa Zêus Wantuil em sua
Sul. Uma. jovem, pertencente a famma bastante co- magnífica obra "As Mesas Girantes", desembarca-
nhecida no lugar, afogara-se num rio. Dinorah não a
ram no norte da Escócia alguns médiuns norte-ame-
co,"!hecera pess~alment~,. pois chegou à cidade ricanos. Os fenômenos, especialmente com as me-
mUitos anos depoIs do traglco acidente.
Certa feita, a famma pediu a médium que rece- sas girantes, expandiam-se pela Escócia, alcançan-
besse o retrato da moça. E não apenas os parentes do Londres, e em pouco ten)po se generalizaram
como diversos conhecidos comprovaram a seme- por quase toda a Inglaterra. "E bem verdade" - es-
lhança. clarece Wantuil - "quase antes dessa 'invasão' os
Dinorah Azevedo de Simas Enéas inscreve-se ingleses já possuíam algumas informações acerca
no conteX!0 histórico da fenomenologia espirítica em dos fatos estranhos que se verificavam nos Estados
nosso PaiS, como uma das mais dignas e versáteis Unidos e isso através da obra de Adin Bailou: '~n
médiuns que tanto enriqueceram, ao longo dos Exposition of Views respecting the Principal Facts,
anos, o acervo ético e doutrinário da doutrina codifi- Causes and Peculiarities Involved in Spirit Manifes-
cada pelo ilustre mestre de Lyon. tations", dada a público em 1852, em Londres, pelo
Editor G. W. Stone. Entretanto, aos médiuns e às
experiências realizadas é que se deveram a divulga-
ção e a aceitação dos fenômenos. Ressalte-se que,
entre os médiuns responsáveis por esse desenvolvi-
mento, desponta a norte-americana Sra. M. B. Hay-
den, 'verdadeira missionária encarregada pelo Alto
de despertar a intelectualidade anglo-saxônica para
a nova revelação'."

206
AS MULHERES MÉDIUNS 201
AS MULHERES MÉDIUNS
A Sra. Hayden chegara à Inglaterra no final de "entre os quais o célebre estadista inglês
1852, com seu marido, respeitável proprietário e di- Henri Brougham, obteve, por meio de pancadas
retor de um jornal de Boston (EUA). Eis alguns tra- tidas pela mesa, várias e interessantíssimas comu-
ços do caráter da médium: "Desvanecia toda sus- nicações de extintas personalidades ilustres, entre
peita com a natural ingenuidade de suas palavras; e elas aquele que lhe foi grande amigo, em vida, o
muitos, que vinham divertir-se à sua custa, ficavam Duque de Kent, pai da célebre Rainha Vitória, o que
envergonhados ante a brandura e o excelente cará- o levou a publicar, em 1854, um curioso livro com o
ter de que ela dava mostras, e acabavam por tratá-Ia título: "O futuro da Raça Humana, ou Grande, Glo-
com respeito e cordialidade. riosa e Pacífica Revolução, anunciada e cumprida
"Invariavelmente deixava naqueles que a expe- por intermédio das almas de uma sociedade de mu-
rimentavam, a impressão de que, se os fenômenos lheres e de homens notáveis pelo saber e pela pro-
manifestados por sua intervenção pudessem ser bidade".
atribuídos à fraude, ela seria então - segundo a A Sra. Hayden converteu à teoria espírita ou-
observação de Oickens - a mais perfeita artista tras importantes personalidades inglesas, como o
que se possa imaginar. "
Or. Ashbumer, famoso médico da Real Academia,
Sir Arthur Conan Ooyle, em sua obra "The His-
tory of Spiritualism", refere-se à Sra. Hayden nestes Sir Charles Isham, o Prof. Augusto de Morgan, reno-
termos: "Merecia um monumento, ainda que fosse mado matemático e filósofo, a escritora Catarina
só por ter conseguido a conversão de Robert Stevens Crowe, o Or. John Elliotson, membro das
Owen. " Este célebre reformador social inglês, cujas mais importantes associações médicas de Londres,
idéias afrontavam os espíritos religiosos de sua épo- presidente da Real Sociedade de Medicina e Cirur-
ca, proclamou, em um histórico manifesto: "O Espíri- gia, e que foi intimorato defensor do emprego do
to do homem, em lugar de morrer com o corpo, magnetismo animal no tratamento de certas afecções
como eu acreditava, passa, ao separar-se dele, a tidas por incuráveis e como poderoso anestésico
uma outra existência mais luminosa, mais pura e nas operações cirúrgicas.
mais feliz." Em uma carta do Sr. M. Goupy, datada Assistiram às sessões mediúnicas com a
de Londres (20 de maio de 1853), Robert Owen ex- Sra. Hayden, convencendo-se da veracidade dos
plicava que "o objetivo das manifestações observa- fenômenos obtidos, Lady Combermere; o Or. John
das por toda parte era preparar a reforma do mun- Malcom; Sir Henri Thompson; o escritor Colley Grattan;
do, convencer todos os homens da realidade de o Reverendo A. W. Hobson, do St. John's College,
uma existência imortal após a que vivemos; inspirar-lhe de Cambridge (que se acredita ter sido o primeiro
a caridade, a benevolência e a mansidão sem limi- sacerdote britânico a ocupar-se dos fenômenos es-
tes". E, reportando-se às mesas glrantes, estava píritas); o grande físico Sir David Brewster; o Conde
certo de que o movimento delas, sob a cadeia de d'Eglinton, então Governador da Irlanda e outros
mãos, se deviam à ação de seres espirituais. "Reu- não menos ilustres representantes da Sociedade de
nindo-se com alguns amigos" - narra Z. Wantuil --- Londres.
208 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
Em um longo artigo publicado no jomallondrino
Critic, 1853, o Reverendo A. W. Hobson chamava a
atenção dos religiosos sobre os fenômenos espiri-
tualistas que tomavam conta da Inglaterra, conver-
tendo "muitos homens cultos e inteligentes". Enfati-
zava estar plenamente convencido de não ter havi-
do nenhuma farsa nas sessões com a Sra. Hayden,
cuja honestidade assegurou.
Entretanto (e como sempre), levantaram-se
contra a médium norte-americana, a imprensa, os
púlpitos e instituições de classe, sendo tratada como ÉMllE DE GIRARDIN
vulgar aventureira. Tudo isso sofreu essa intérprete
dos Espíritos, que por seu intermédio tentavam (e
ainda tentam) demonstrar aos homens a realidade
da sobrevivência do ser e de sua manifestação no o poeta e romancista Victor Hugo, desterrado
plano corpóreo. depois do golpe de Estado de Napoleão 111 (sobrinho
Sir Conan Doyle informou que. enquanto a Sra. de Napoleão Bonaparte), em 2 de dezembro de
Hayden semeava as suas primeiras sementes. em 1851, fixara residência na ilha de Jersey, onde che-
Londres, aconteciam, no Yorkshire, na cidade de gara, com a família, em 5 de agosto de 1852.
Keighley, manifestações espirituais por meio das Foi naquela ilha inglesa que o autor de "Os Mi-
mesas, sob o controle de um americano e do inglês seráveis" realizou memoráveis sessões com as me-
David Wealherhead, que fundou o primeiro periódi- sas girantes, onde despontou a fantástica "Sombra
co espírita inglês, o Yorkshire Spiritual Telegraph. do Sepulcro", enigmática entidade espiritual que ter-
Em fins de 1853, a Sra. Hayden retoma aos çou armas, armas de alto nível intelectual, com Victor
Estados Unidos da América, certa de ter escrito, em Hugo.
letras indeléveis, mais um capítulo do Grande Livro No final do verão de 1853, aos 6 de setembro,
das pesquisas sobre "o problema do ser' neste pIa- a Sra. Émile Girardin chegou à ilha de Jersey, a fim
no de provas e expiações. de passar breve temporada junto à família Hugo.
Poetisa e romancista, a Sra. de Girardin granjeara
celebridade desde a adolescência, com o cognome
de "Musa da Pátria", privilégio, segundo Edmond
Texier, cronista de L'lIlustration, até então usufruído
por Victor Hugo e Alfred de Musset.
Em Marine-Terrace, na Ilha de Jersey, a Sra.
de Girardin, nos dez dias que passou com Victor
Hugo e família, conheceu de perto o dedicado e fiel
amigo do ilustre exilado, o poeta e dramaturgo Au-
<210 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 211
gusto Vacquerie, "homem que morreu sem ter dese-
jado ser nem senador, nem deputado, nem acadê- pria foi comprar, numa loja de brinquedos, uma
mico, nem condecorado". mesinha redonda, com um único pé terminado
"Foi esse literato francês, cujo irmão Carlos por três garras. Colocando-a sobre a mesa
morrera tragicamente" - informa Zêus Wantuil (in: grande igualmente não a conseguiu animar. A
"Mesas Girantes", FEB) - "com a esposa Leopoldi- Sra. de Girardin não esmoreceu, e disse que
na, filha de Victor Hugo, ambos afogados no rio os Espíritos não eram cavalos de tipóia, que
Sena, entre Candebac e Víflequier, quem primeiro esperam pacíentemente, mas sim seres livres e
relatou publicamente as experiências com as mesas de vontade própria que só vinham quando lhes
girantes, introduzidas no lar hugoano pela Sra. de aprazia.
Girardin, a cujo espírito de perseverança e fé se de- "No dia seguinte, renovada a experiência, ape-
veu o descortino de novos e mais largos horizontes nas o sífêncio respondeu. Ela perseverou, mas
para os proscritos de Jerse;('. a mesa embirrou.
Em "Les Miettes de I Histoire"(1863), escreveu "Era talo ardor de propaganda da parte da Sra.
Augusto Vacquerie: de Girardin, que esta, certo dia, jantando em
"(...) No momento em que todos a invejavam, a uma casa da ilha, fez a família interrogar em
Sra. de Girardin sabia-se doente, e morreu no vão, uma mesa redonda, de pé central. Os re-
ano seguinte (em 29 de junho de 1855, com 51 petidos resultados infelizes não a abalaram; ela
anos de idade) permaneceu calma, confiante, risonha, indul-
"Seria sua morte próxima que a levara a inte- gente diante da incredulidade.
ressar-se pela vida extraterrestre? Ela andava Na antevéspera véspera de sua partida, ela
preocupadíssima com as mesas falantes, e nos pediu que lhe concedêssemos, como des-
logo me perguntou se eu acreditava nisso. Ela pedida, uma última tentativa. Eu não havia as-
cria firmemente nessas coisas, e passava as sistido às tentativas precedentes; não sou dos
noites evocando os mortos. Sua preocupação que fazem cara feia às novidades, mas aquela
refletia-se, sem o saber, até em seu trabalho; o experiência escolhera má ocasião, por desviar-me
tema de 'La Joie fait peur não se refere a um de pensamentos que eu, pelo menos, supunha
morto que volta? Queria porque queria que mais urgentes. A minha rejeição fora até então
acreditassem no que ela acreditava e, no dia o meu protesto. Desta vez, porém, não pude
mesmo de sua chegada a Jersey, foi difícíf recusar assistir à última prova, mas fui com a
fazê-Ia aguardar o fim do jantar! Após a sobre- firme resolução de só crer no que fosse bem
mesa levantou-se e levou comigo um dos con- evidente.
vivas ao 'parloir, onde atormentaram uma
'~ Sra. de Girardin e um dos assistentes, con-
mesa, que permaneceu muda. Ela imputou o
juntamente, colocaram as mãos sobre a mesi-
mau resultado à mesa, cuja forma quadrada
contrariava o fluido. No dia seguinte, ela pró- nha. Durante um quarto de hora, nada! Mas ha-
víamos prometido ter paciência. Cinco minutos
212 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 213
depois ouvimos leve estalido na madeira; isto
poderia ser o efeito de uma pressão involuntá- "Após ter sido apenas testemunha, tive por mi-
ria produzida por mãos fatigadas, mas, sem de- nha vez que ser ator; estava tão pouco conven,-
mora, o estalido se repetiu, seguindo-se febril cido, que tratei o milagre como a um asno sa-
agitação. De repente, uma das garras do pé da bio a quem se manda adivinhar qual a 'donzela
mesa se ergueu, e a Sra. de Girardin disse: mais casta da sociedade'; disse eu à mesa:
"- Está aí alguém? Se há alguém e se deseja 'adivinha a palavra que penso'. Para fiscalizar
falar-nos, bata uma pancada. mais de perto a resposta, tomei lugar à mesa
"- A garra caiu, produzindo ruído seco. com a Sra. de Girardin. A mesa forneceu uma
palavra, e era exato! Minha tenacidade res,ístiu.
"- Há alguém! - exclamou a Sra. de Girardin Pensei comigo rnesmo que o acaso podIa ter
- Fazei perguntas. inspirado a palavra à Sra. de Girardin e que
"Fizeram-se perguntas e a mesa a elas respon- esta podia tê-Ia comunicadp à mesa. Já me
deu. A resposta era breve, uma ou duas pala- acontecera, num baile da Opera, dizer a uma
vras quando muito, bastante indecisa, às vezes mulher de dominó que eu a conhecia, e, per-
ininteligível. Defeito, talvez, de nossa interpre- guntando-me ela seu nome de batismo, proferi
tação? O modo de traduzir as respostas presta- ao acaso um nome que ela reconheceu ser o
va-se ao erro? Eis como se procedia: enuncia- verdadeiro. Sem mesmo invocar o acaso, eu
va-se uma letra do alfabeto: a, b, c, etc, a cada poderia muito bem, à passagem das letras da
batimento do pé da mesa. Quando esta se deti- palavra, ter tido, inconscientemente nos olhos
nha, anotava-se a última letra pronunciada. ou nos dedos, um estremecimento que as de-
Mas, muitas vezes, a mesa não parava nitida- nunciasse. Recomecei a prova; mas, para estar
mente numa letra, enganava-se, sendo consig- seguro de não me trair quando da passagem
nada a precedente ou a seguinte; por efeito da
nossa experiência e porque a Sra. de Girardin das letras, nem por uma pressão maquinal nem
quase não intervinha, a fim de que o resultado por olhar involuntário, deixei a mesa e lhe_per-
fosse menos suspeito, tudo se atrapalhava. guntei, não a palavra, mas a sua traduçao. A
mesa respondeu: 'Queres dizer sofrimento' . Eu
"Em Paris, empregava, disse-nos ela, um pro- pensara em amor!...
cesso mais seguro e mais rápido; mandara ex-
pressamente fabricar uma mesa com um alfa- "Ainda assim não fiquei persuadido. Supus que
beto em quadrante, no qual um ponteiro desig- a mesa teria sido favorecida, pois, sendo o so-
nava por si mesmo a letra. frimento de tal forma o fundo de tudo, achei
"Apesar da imperfeição do meio, a mesa forne- que a tradução podia aplicar-se a qualquer pa-
ceu, entre respostas equívocas, algumas que lavra em que houvesse pensado. Sofrimento
me impressionaram. teria traduzido grandeza, maternidade, poesia,
patriotismo etc, tão bem quanto amor.
214 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 215
"Ademais, eu poderia estar sendo vítima de um sentia claramente a presença daquela que duro
logro, mas isso seria admitir que a Sra. de Gi- golpe de vento arrebatara. Onde estava? Ama-
rardin, tão nobre, tão amiga, com os pés na se- va-nos ainda? Era feliz? Satisfazia ela a todas
pultura, tivesse transposto o mar para ludibriar as perguntas quando não declarava ser-lhe ve-
os proscritos. dado responder. A noite corria, e ficamos ali,
com a alma presa à invisível aparição. Final-
"Outros interrogaram a mesa e esta adivinhou mente, ela nos disse:'Adeus'; e a mesa não
os pensamentos ou incidentes só deles conhe- mais se moveu.
cidos; de repente, ela pareceu impacientar-se
com as perguntas pueris; recusou responder, "Rompia a madrugada. Subi para o meu quarto
continuando, porém, a agitar-se, como se tives- e, antes de me deitar, escrevi o que acabara de
se alguma coisa a dizer. Seu movimento tor- ocorrer, como se aquelas coisas pudessem ser
nou-se brusco e voluntário como uma ordem. esquecidas! No dia seguinte, não mais foi ne-
cessário a Sra. de Girardin convidar-me; fui eu
"- É ainda o mesmo Espírito que está aí? - quem a levou à mesa, junto da qual passamos
perguntou a Sra. de Girardin. a noite...
'~ mesa bateu duas pancadas, o que, na lin-
'~ Sra. de Girardin partiu no dia imediato.
guagem convencionada, significa 'não'.
Acompanhei-a até a bordo, e, quando largaram
"- Quemés? as amarras, ela me gritou: 'Até a vista'! Não
'~ mesa deu o nome de uma morta, presente mais a revi. Mas tornarei a vê-Ia...
na memória de todos. Leopoldina, filha de Victor "Ela voltou à França, onde aguardou o fim de
Hugo, desencarnada em 4 de setembro de
sua vida terrena. Seu salão era bem diferente
1843, e que segundo o escritor Jules Bois, cita-
do que era alguns anos antes. Não mais esta-
do por Zêus Wantuil, "inaugurou as revelações vam lá seus verdadeiros amigos. Uns se acha-
dos Espíritos, em Jersey, e foi anunciadora de- vam fora da França, como Victor Hugo; outros
les". mais longe, como Honoré de Balzac; outros
"Aqui não havia lugar para desconfiança"; - mais longe ainda, como Lamartine... Ela substi-
admitiu AUfJusto Vacquerie· - "ninguém teria tuía os ausentes, pondo-se à mesa pé-de-galo
tido a audacia, o atrevimento de, à nossa fren- com um ou dois amigos. Os mortos acudiam à
te, fazer do túmulo um teatro de saltimbancos. sua evocação; ela, desse modo, tinha reuniões
Já era bem difícil aceitar a mistificação, e muito que se equivaliam às melhores de outrora, e
menos uma infâmia! A suspeita seria despreza- onde os gênios eram substituídos pelos Espíri-
da por si mesma. O irmão (Charles Hugo) inter- tos. Seus convidados de então eram: Sedaine,
rogou a irmã que saía da região da morte para a Sra. de Sévigné, Moliere, Shakespeare... Foi
consolar os exilados; a mãe chorava; inexprimí- entre eles que ela morreu. Partiu sem resistên-
vel emoção constrangia todos os peitos; eu cia e sem tristeza; essa imortalidade tinha-a fei-
216 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 217
to perder toda a inquietação. Coisa tocante:
para ~u...avizarem a esta nobre mulher a penosa
translçao, esses grandes mortos vieram procu-
rá-Ia!...
'~ partida da Sra. de Girardin, de Jersey, não
me arrefeceu o entusiasmo pelas mesas. Preci-
p!te~-me de corpo e alma para essa grande cu-
nos/dade que a morte entreabriu!".
AS MENINAS MÉDIUNS

Alexandre Aksakof, que fora Conselheiro de


Estado da Rússia Imperial, escreveu uma notável
obra - "Animismo e Espiritismo" ('~nimismus und
Spiritismus") editada, no Brasil, pela Federação Es-
pírita Brasileira, traduzida pelo Dr. C. S.
No Capítulo 11I, Aksakof trata de um assunto
eminentemente singular - Mediunidade das crian-
ças de peito e das crianças muito novas.
"O Sr. Hartmann (Eduard von Hartmann, que
escrpveu uma brochura, em 1855, contra o Espiritis-
mo) diz-nos: 'Só um médium que sabe escrever
pode obter escrita automática ou escrita a distân-
cia"'. (~em o auxmo da mão).
"E evidente" - observa Aksakof - "que as
crianças de peito não sabem escrever, e que, se es-

1. A primeira edição de "Animismus und Spiritismus" (Leipzig, 1890)


provocou, de parte do Dr. Von Hartmann, uma réplica intitulada "A Hipótese
dos Espíritas e seus Fantasmas" (Berlim, 1891), na qual ele volta, com insistên-
cia, aos argumentos de que já se tinha servido em sua brochura. Desta vez foi o
sábio alemão Carl Du Prel quem se encarregou de continuar, contra adversário
tão terrível, a polêmica que Aksakof infelizmente não pôde continuar, devido ao
seu estado de saúde.

218 AS MULHERES MÉDIUNS


AS MULHERES MÉDIUNS
crevem, é uma prova concludente de que nos acha- "Minha filha, atualmente com vinte e um anos,
mos em presença de uma ação inteligente que está escrevia, automaticamente, quando tinha nove
acima e fora do organismo da criança. Nos anais dias apenas. Conservei as comunicações escri-
das pesquisas espíritas há muitos exemplos desse tas por ela, e mandei-lhe uma fotografia dessa
gênero; escrita.
"E de lamentar-se", prossegue Aksakof, "que "Sua mãe deu-a à luz no sétimo mês, e a crian-
não se tenha prestado mais atenção a esses fenô- ça era muito pequena. A mãe segurava-a com
menos, e que não se tenham feito, nesse sentido, a mão, em cima do travesseiro, tendo na outra
experiências seguidas e bem organizadas. Não te- mão um livro sobre o qual tinha. colocado uma
mos que recolher senão observações feitas ocasio- folha de papel; não se sabe porque meio, o lá-
nalmente, simples menções; porém, por mais bre- pis foi ter à mão da menininha. O certo é que
ves que sejam, não deixam de oferecer-nos um inte- Valentina (este é o nome da criança) conserva-o
resse capital". firme em seu pequeno punho.
O primeiro caso desse gênero é citado no livro
de Capron, "Modem Spiritualism", e ocorreu em '~ princípio, ela escreveu as iniciais de seus
1850. Vem assim relatado: quatro guias: R. A. D. J., depois do que o lápis
caiu. Eu estava persuadido de que ela tinha
"Em nosso círculo íntimo, informa o Sr. Leroy acabado, mas minha outra filha Imoges excla-
Sunder!and, nunca qualquer das perguntas mou: 'Ela tem o lápis de novo!' Então a criança
apresentadas ficou sem resposta. Essas res- traçou as palavras seguintes, com a escrita in-
postas se obtinham, ordinariamente, por inter- e
certa: 'Nom mutare questa buona prova, fai
médio de minha filha, a Sra. Margarida Cooper, cosa ti abbiano deito: addio' (Não alteres coisa
e algumas vezes por intermédio de sua filha, nenhuma, é uma boa prova, faze o que te dis-
minha neta, que tinha apenas dois meses! semos: adeus).
Enquanto eu conservava a criança nos braços, "Redigi, igualmente, uma minuta que lhe man-
não havendo ao lado nenhuma outra pessoa, do. De acordo com o conselho dado pelos
obtínhamos respostas (por meio de pancadas) guias invisíveis, mandamos a criança com a
que os nossos correspondentes invisíveis di- ama para o campo; mas, pouco tempo depois,
ziam produzirem-se por intervenção da peque- mandamo-Ia vir de novo, com o fim de ver se
na médium." podíamos obter uma fotografia espírita, pois eu
A neta do Barão Seymour Kirkup escreveu, na conhecia um fotógrafo médium. Dirigimo-nos a
idade de nove dias! Eis a carta que o barão escre- sua casa, e tentei fazer fotografar a criança
veu ao Sr. J. Jencken (casado com Kate Fax), cujo com o lápis na mão; ela, porém, lançou-o fora.
filho, Freddy, produzia extraordinárias manifestações Envio-lhe a foto tal qual pôde ser obtida; nota-se
espíritas aos dois anos de idade. nela o retrato da avó Regina (minha mãe), fale-
AS MULHERES MÉDIUNS 221
AS .MULHERES MÉDIUNS
_ que durante as perseguições dos protestantes
cida havia vinte anos. A fotografia é perfeita- na França, eram "possuídas" PC?r Espíritos. EI~s fa-
mente fiel. " lavam e profetizavam em frances correto e nao no
O Sr. J. Jencken acrescenta de seu lado: ':.4 dialeto de seu país, as regiões remotas das Ceve-
carta que recebi do Barão Seymour Kirkup era nas. .
acompanhada por uma fotografia da escnta da Uma testemunha ocular desses acontecimen-
criança, por uma ata com sete assinaturas de teste- tos, João Vemet, afirma que viu uma ~riança de tre-
munhas e por um excelente retrato espírita da avó, ze meses falar distintamente o fran.g es e com uf!1a
a célebre Regina" (Spiritualist, 1875). voz muito forte para a sua idade, nao podendo .aln-
Essa narrativa foi reproduzida no Spiritualist, da andar absolutamente e nunca tendo pro~unclado
de 1876. " uma única palavra; ela se co~servava deitada em
seu berço, bem envolta em faixa, e pregava obras
"O Espírito de Essie Mo{f filha de J. H. Mott, de humildade em um estado de arrebatamento, do
em Mênfis (Missouri, EUA) deixou seu invólu- mesmo modo' que ~ut~as ~ri~nç~s, que João.Vem~t
cro mortal a 18 de outubro de 1876, na idade tinha visto (vide: Flguler, 'Hlstona do Maravilhoso ,
de cinco anos e onze meses, depois de longa
moléstia. Essie tinha um desenvolvimento inte- 1860).
lectual acima de sua idade, e por sua mediuni-
dade deram-se numerosos fatos maravilhosa-
mente convincentes. Com a idade de dois anos
apenas, sucedia-lhe, segurando em uma ardó-
sia colocada debaixo da mesa, obter comunica-
ções e respostas escritas, quando ninguém se
conservava ao seu lado e quando ainda não
conhecia a primeira letra do alfabeto.
"Durante os dois últimos anos de sua vida,
seus pais não consentiam que a utilizassem
como médium, persuadidos de que sua saúde,
já muito delicada, sofreria muito com isso. Fui
convidado por telegrama de lowa para assistir
ao seu enterro - Warren Chase".
"O testemunho do respeitável Sr. Warren Cha-
se" - afirma A. Aksakof - basta para garantir a
autenticidade desse fato. Ele foi publicado no Psy-
chische Studien, de 1877, dirigido por Aksakof.
O autor de "Animismo e Espiritismo"menciona
ainda crianças - entre as quais "crianças de peito"
AS MULHERES MÉDIUNS
222 AS MULHERES MÉDIUNS
processo que se transformou na melhor das propa-
gandas a favor das novas pesquisas.
Informa o Prof. Emesto Bozzano que uma se-
nhora de sobrenome Kellog teve compaixão da jo-
vem e a recolheu em sua casa, destinando-a a afa-
zeres domésticos que não produzissem cansaço,
sendo essa senhora a primeira a verificar que, em
tomo da moça, se faziam ouvir golpezinhos curio-
sos, dificilmente localizáveis. A Sra. Kellog se havia
ABBYWARNER interessado pelos "golpes de Hydesville" e, em con-
seqüência, procurou obtê-los experimentalmente
com Abby, conseguindo, de pronto, o seu objetivo,
depois do que obteve com a médium a escrita auto-
matica, que nela se desenvolveu rápida e maravi-
Emma Hardinge-Britten, em sua obra "Modem lhosamente.
American Spiritualism'~Londres, 1870) refere-se ao Escreve, ainda, a Sra. Emma Hardinge-Britten:
caso de Abby Wamer, ocorrido três anos após o '~ educação de Abby fora de tal modo negli-
episódio de Hydesville, em 1848, nos seguintes ter- genciada que na ocasião do seu desenvolvi-
mos:
mento mediúnico, apesar de já ter 18 anos,
"Abby Wamer era uma jovem órfã que depen- com grande dificuldade conseguia ler os carac-
dia da caridade pública para o próprio sustento, teres impressos; era incapaz de ler e escrever
como também era objeto de compaixão para correntemente. Contudo, em estado de transe,
quem a observava e isso devido a uma conca- a jovem analfabeta escrevia escorreitamente,
tenação de graves enfermidades que a impos- com ambas as mãos, em tomo de assuntos di-
sibilitavam de ganhar a vida e enfeiavam seu versos, enquanto um terceiro Espírito se mani-
aspecto. Pois foi por intermédio dessa infeliz e festava por meios de golpes (tiptologia) trans-
humilde criatura que a Causa do Espiritismo mitindo uma mensagem radicalmente diferente
ganhou um impulso irresistível no Estado de das que estavam sendo escritas. "
Ohio (USA), visto que Abby Wamer não só se O Dr. Abel Underhill, que havia posto a jovem
revelou uma médium maravilhosa, mas invo- sob seus cuidados para tentar-lhe a cura, confirma
luntariamente deu causa a que os fenômenos esses detalhes, acrescentando que as mensagens
ocorridos em sua presença fossem revelados não só eram escritas corretamente, mas continham
ao público de modo tão imprevisto que nem se admiráveis provas de identificação pessoal dos Es-
pode imaginar. .. " píritos comunicantes. Foi no período de tempo que
Com a última observação, a Sra. Hardinge-Britten Abby Wamer ficou na casa de Underhill que se pro-
referiu-se ao processo civil movido contra a médium, duziu o incidente que a levou ao banco dos réus.
224 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 225
A Sra. Emma Hardinge-Britten relata o seguin- A notícia do "ato sacrílego", unida a outra da
te: imediata citação da culpada para comparecer a Juí-
"Na véspera do·Natal de 1851, o Or. Underhill, zo, pôs em alvoroço toda a cidade e, no dia em que
com a família, alguns amigos e a jovem Abby, foi iniciado o processo, a multidão de curiosos se
foram à Igreja de São Timóteo, na cidade de comprimia na sala do Tribunal. Comenta o Prof.
Massilon. Uma vez aí chegados, tomaram as- Bouano que o desenvolvimento do processo durou
sento junto dos demais membros da congrega- três dias e constituiu uma prova edificante de igno-
ção, que não tardaram a observar, com surpre- rância, de superstição e de insidiosa malícia para ar-
sa e inquietação, que golpes espontâneos se rancar da inocente vítima a confissão de sua culpa
produziam em tomo da médium, desta vez com de ser perturbadora voluntária de um ato religioso e
intensidade· e freqüência insólitas e isso com o isso em contradição com quanto depunham os seus
fim de atrair a atenção da congregação. O mi- defensores, entre os quais o Dr. Underhill, que sus-
nistro evangélico que, no momento, pregava o tentavam a pura verdade, dizendo que a jovem era
seu sermão, deteve-se e sem se dirigir a nin- médium e que os golpes ouvidos não dependiam,
guém em particular, pediu que se deixasse de em absoluto, de sua vontade. Por sorte, as numero-
bater. A esse pedido o Espírito golpeador res- sas testemunhas que foram depor contra ela se
pondeu com formidável golpe que os iniciados mostraram pessoas sérias e honestas e assim de-
interpretaram como uma resposta negativa. E, clararam que os golpes ressoavam em tomo de
na verdade, em lugar de cessarem, os golpes Abby Wamer, mas que não era possível localizá-los
cresceram em freqüência e força, e assim con- e, sobretudo, que embora houvessem vigiado a jo-
tinuaram até o fim do serviço religioso, quando vem por mais de uma hora não lhe notaram nenhum
Abby saiu da igreja junto da família do médico. movimento nos braços nem nos pés. Duas senho-
"No dia seguinte os jornais locais estavam ras, que se haviam sentado ao seu lado, embora in-
cheios de cartas de protestos, enviadas às re- dignadas com o "sacrilégio consumado", foram mui-
dações, pelos membros da congregação, nos to explícitas em tal sentido, declarando que a jovem,
quais denunciavam, com indignação, o sacrilé- tanto quando estava sentada como quando se acha-
gio e o ultraje cometido durante o serviço reli- va de pé, não fizera nenhum movimento suspeito,
gioso, por uma ímpia jovem, ultraje que não se nem quando os golpes se mostraram formidáveis.
devia deixar impune. E a tempestade jornalísti- Resultou daí que o juiz, Sr. Folger, foi levado hones-
ca terminou com uma citação legal dirigida a tamente a pronunciar um veredito de absolvição, por
Abby Warner para comparecer perante o juiz insuficiência de provas.
do Tribunal Civil, a fim de responder pela acu- Esse honesto julgamento não foi contestado
sação de haver intencional e sacrilegamente por ninguém; porém, o acontecimento e o mistério
perturbado uma irmandade cristã, no momento que o cercavam assombraram todos os habitantes
solene em que eram cumpridos os deveres reli- do lugar e de tal estado de ânimo se aproveitou o
giosos." Dr. Underhill para convidar seus concidadãos para
226 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 227
nomear uma comissão de inquérito a fim de inv~~ti­
9ar os fatos, pedindo que Abby Wamer fosse sUjeita
as suas rigorosas medidas de fiscalização e assegu-
rando que em tais c?ndiç~~s os expe~mentad~re~
obteriam uma prova Indubitavel da realidade objeti-
va dos golpes, assim como da natureza supranor-
mal da escrita automática, das manifestações das
entidades de defuntos, do tilintar de campainhas a
distância, do soar de instrumentos musicais, do des-
locar de móveis pesados, fenômenos em que a vo~­ STANISlAWA TOMCZYK
tade da médium não participava, porquanto se real!-
zavam.por intervenção de entidades espirituais.
A Comissão de Inquérito se reuniu, experimen-
tou-a longamente, adotando métodos de controle ri-
gorosíssimos que seria desnecessário. enumerar, o Prof. Julien Ochorowicz estudou, a fundo, a
acabando por se convencer da legitimidade das ma- faculdade mediúnica da jovem polonesa Stanisiawa
nifestações supranormais. Publicou-se, em conse- Tomczyk.
qüência, um minucioso relatório dos fenômenos, Charles Richet assistiu a algumas sessões pro-
plenamente favoráveis a Abby Wamer. Essa jovem movidas por Ochorowicz, parecendo-lhe muito con-
de apenas 18 anos se inscreve à frente de tantos tundentes. Pequenos objetos, uma bola, uma cam-
outros médiuns que sofreram a incompreensão e a painha, uma agulha, são projetados pela médium e
injustiça de seus contemporâneos, movidos ou pela ficam no ar durante um tempo suficiente para que,
superstição ou pela ignorância ou, simplesmente, mesmo com uma luz mediana, fotografias sejam ti-
porque tinham (e têm) medo de vere,!!. ru,ir as suas radas.
concepções fundamentadas em fraglhsslmas con- "Não se pode supor - pois é a única hipótese
cepções teológicas. possível" - adverte Richet - "que haja um fio que
sustente esses objetos, pois um fio não pode manter
uma bola no ar e, entretanto, o fio apareceria nas
tografias. E além disso, Stanislawa levanta as man-
gas até os cotovelos, lava as mãos com sabão e
água quente, e a partir desse momento suas mãos
estão sempre à vista".
Em Varsóvia, uma Comissão composta des-
tacados fisiologistas, escrupulosamente verificaram
essas fotos, e, apesar da oposição desesperada do
Prof. Cybulski, que os negara sem ter desejado exa-
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
miná-los, concluiu pela autenticidade absoluta dos deira levanta-se de lado e bate uma pancada. De-
fenômenos. pois avança alguns centímetros. Apoio a mão contra
Na telecinesia de pequenos objetos, mesmo o-assento e sinto uma força muito potente que puxa
em plena luz, a fraude é sempre possível, se a aten- a cadeira. .. foi um fenômeno obtido com intensa
ção dos observadores não é vigilante; pois pode ha- luz".
ver mudança do objeto por um fio. Ochorowicz estu- "Tais fatos", adverte Richet, "não se podem ex-
dou admiravelmente este problema nas suas ex- plicar senão pela telecinesia, a menos que se supo-
traordinárias experiências com Stanislawa Tomczyk. nha que Ochorowicz foi vítima de um embuste".
Existem casos em que o objeto é movido sem fio, e Charles Richet, respaldando as pesquisas do
outros onde I,Jm fio aparece, .mas esse fio não é o fio Prof. Julien Ochorowicz, oferece substanciais exem-
da trapaça, E UM FIO FLUIDICO!... "Senti", afirma plos resultantes da experimentação supranormal
Ochorowicz, "esse fio sobre minha mão, sobre meu com outros médiuns. .
rosto, sobre meus cabelos. Quando a médium afas- Uma menina de 12 anos, Emile Saboureau,
ta suas mãos, o fio diminui e desaparece; é a sensa- pesquisada pelo Dr. Pierre Comeille, produziu movi-
ção tátil de uma teia de aranha. Se o cortam com te- mento de objetos e raps de uma violência excepcio-
soura, reconstitui-se imediatamente. Parece ser for- nal, a uma distância de três metros, em plena luz do
mado por pontos: pode-se fotografá-lo e vê-se então dia. Se pousava a mão sobre uma mesinha redon-
que é muito fino como não seria um fio comum. Par- da, cujo pé fora segurada fortemente, essa mesa le-
te dos dedos. Bem entendido, antes da experiência, vitava através do apartamento apesar de todos os
os dedos e as mãos cuidadosamente revistados. esforços empregados em mantê-Ia com os pés no
Ochorowicz cita, a esse propósito, uma obser- chão. Na obscuridade, houve fenômenos de teleci-
vação curiosa feito pelo cavaleiro Peretti, em Gêno- nesia muito notáveis que pareceram completamente
va (Itália), com Eusápia Paladino. Tendo sido um autênticos, impossíveis de serem explicados pela
copo levantado, a distância, por Eusápia, esta logo fraude. Mesmo após a partida da menina Sabou-
exclama: "o fio! Olhem o fio!", Peretti segurou o fio, reau, o Dr. Corneille pôde ainda ouvir os raps. Uma
puxou-o; o fio partiu-se e desapareceu de repente. vez, quando estava sozinho, em seu quarto, um
Há quem estabeleça analogia entre esse fio fluídico soco de extrema violência sacudiu o criado-mudo e
com as formações fluídicas que saíam do corpo de fez tudo estremecer.
Eva Carriere. O Dr. Willian J. Crawford, professor do Techni-
Ochorowicz testemunhou ainda um belo caso cal Institute de Belfast (Irlanda), publicou um livro,
de telecinesia em plena luz, com Stanislawa Tomc- "Experiments in Psychical Scíence", um clássico da
zyk: "Uma cadeira, atrás de mim, de repente moveu-se, bibliografia dos fenômenos supranormais, onde in-
afastou-se um metro mais ou menos e era uma ca- cluiu os frutos de suas experiências sobre telecine-
deira de jardim, vermelha, leve, absolutamente sia, entre os anos de 1916-1917, em um círculo ínti-
transparente para a vista. Caminhava sempre com mo, com uma jovem médium, Kathleen Goligher.Os
pequenos passos em plena luz... Interrogo-a. A ca- movimentos da mesa produziam-se sem que hou-
230 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
/
vesse contato da médium ou de quem quer que fo~-/ ele denomina RAIOS RíGIDOS, podem curvar-se,
se com a mesa. i/i deslocar-se para obter (segundo a vontade do mé-
"Vi", afirma o Dr. Crawford, "centenas dessas dium) tal ou qual efeito mecânico. Esse fio fluídico
levitações da mesa. Algumas vezes, uma cadeira/le- não é sempre visível e fotografável. Mas é bem pro-
vantava-se nos quatro pés, balançava-se no afdu- vável que numa primeira fase de sua formação, seja
rante alguns minutos". O Dr. Crawford, por meio de invisível, e no entanto capaz de mover os objetos!
diversos aparelhos, mediu a força mediúnica produ- Voltando às experiências do Dr. Crawford,
zida pela menina Kathleen Goligher. Ao longo de mostram, melhor do que tudo que fora escrito até o
suas pesquisas, chegou à conclusão que, durante a momento, a estreita relação entre a telecinesia e a
levitação de objetos leves, o peso dos objetos levita- ectoplasmia.
dos é igual ao aumento de peso da médium. Dir-se-ia "Tudo se passa", diz Crawford, "como se fosse
que a própria médium (o que não era o caso) sus- estabelecida uma conexão mecânica entre a mé-
pendesse os objetos. Ao contrário, quando a mesa dium e a mesa." É impossível não relacionar essas
estava como fixa no solo, bem solidamente para que importantes observações ao que foi constatado com
um homem vigoroso tenha muito trabalho para le- Daniel D. Home, Eusápia Paladino e Stanislawa
vantá-Ia, o peso da médium diminuía (em um caso, Tomczyk.
de 17,5 kg; em outro caso, de 27 kg).
O Dr. Crawford, buscando uma explicação para
esses fenômenos, foi levado a admitir (assim como
o fez Richet, pesquisando a faculdade mediúnica de
Eusápia Paladin9) que uma haste rígida sai do cor-
po da médium. E por esse processo que os corpos
pesadqs podem ser levantados.
"E preciso conceder um valor decisivo às expe-
riências do Dr. Crawford, as mais belas que foram
feitas, depois das de Eusápia e de Daniel D. Home".
O Professor William Barret, em sua obra "Re-
port of Psychical Phenomena", registra que assistiu
a uma das sessões com a médium Kathleen. Viu
que a mesa se movia sem contato e que havia raps
inexplicáveis por causas mecânicas.
As lúcidas observações do Dr. Julien Ochoro-
wic~, emprestam, às investigações sobre a telecine-
sia, singular autenticidade. Ele pôde fotografar uma
espécie de fio f1uídico pelo qual se davam as teleci-
nesias de Stanislawa Tomczyk. Essas forças, que
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
ca" que essa forma possuía todos os atributos de
vida:
"Anda, fala, move-se e respira como um ser
humano. O corpo é resistente e tem uma certa
força muscular. Nem é uma figura de gesso,
nem uma boneca ou uma imagem refletida
num espelho; é um ser vivo; é um homem vivo!
E há razões para resolutamente pôr de lado
MARTHE BÉRAUD qualquer outra suposição do que uma ou outra
dessas hipóteses- de que seja uma fantasma
com atributos de vida; ou de que seja uma pes-
soa viva, fazendo o papel de um fantasma. "Ele
(EVA CARRIERE) discute minuciosamente as suas razões" - es-
clarece Arthur Conan Doyle - "para afastar a
possibilidade de ser um caso de desdobramen-
to da personalidade".
o primeiro médium ~e '!1ateri~:dização de q~em Acrescenta, ainda, Richet
se pode afirmar tenha sido Investigado com cUida-
dos científicos foi a jovem Marthe Béraud (Eva Car- "Bien Boa procura, segundo me parece, vir ao
riere). Em 1903 foi examinada, numa série de ses- nosso meio, mas anda coxeando e hesitante.
sões na Vila Carmen, em Argel (possessão france- Não poderia dizer se ele anda ou desliza. Em
sa), na residênc.ia do general Nõ~l, pelo Prol.. Char- certa ocasião escorrega e quase cai, mancan-
les Richet. E fOi a sua observaçao do matenal es- do como se a perna não pudesse suportá-lo
branquiçado que saía da médium que o levou a criar (Dou a minha própria impressão). Então se en-
o vocábulo ECTOPLASMA. Eva tinha, então, deze- caminha para a abertura da cortina e subita-
nove anos e estava no auge de suas forças, que fo- mente mergulha, desaparecendo no chão; ao
ram gradativamente minadas por longos anos de in- mesmo tempo ouve-se um 'clac! c/acl' como o
vestigação sob severo constrangimento. Tent.aram ruído de um corpo atirado ao chão. "
pôr em dúvida os resultados constatados por Rlchet,
pretendendo que as figuras materializadas eram, na Uma curiosa experiência com Bien Boa foi
verdade, um disfarce doméstico. fazê-lo soprar um frasco contendo uma solução de
Em seu primeiro relatório, publicado nos Anais barita, para ver se a respiração mostrava óxido de
da Ciência Psíquica, Richet descreve, detalhada- carbono. Com dificuldade o Espírito fez o que lhe
mente, o ser materializado às expensas da faculda- pediam e o líquido mostrou a reação esperada. Du-
de mediúnica de Eva Carriere, que disse chamar-se rante essa experiência a forma da médium era vista
Bien Boa. Afirma o autor do "Tratado de Metapsíqui- sentada no gabinete mediúnico.
234 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 235
')1 rainha egípcia" - narra o fundador da MEil-
Richet e Gabriel Oelanne fotografaram, à von- tapsíquica - "voltou mas só mostrou a coroa. ele
tade, o Espírito Bien Boa. Estas fotografias são des- sua cabeça com cabelos muito bonitos e abundan-
critas por Sir Oli~er Lodge como as me!hore~ que tes; •estava ansiosa por saber se eu tinha trazido.a
ele tivera oportunidade d~ v~r. Uma partlculandad,e tesoura. Então tomei uma mão-cheia de seus lon-
interessante a esse respeito e que um braço da me- gos cabelos, mas dificilmente lhe poderia ver o ros-
dium se apresenta achatado, indicando um proces- to, que ela escondia por detrás da cort!na.. Quando
so de desmaterializayão parcial tão bem observado eu ia cortar uma longa mecha, uma mao f"me, por
com as médiuns Ehzabeth Compton e Madame detrás da cortina, baixou a minha, de modo que
d'Espérance. O próprio Richet emite a se~uinte e apenas cortei uma ponta de quinze centímetros.
oportuna observação sobre o fenômeno: 'Não re- Mas como eu demorasse para fazer isso, ela disse
ceio dizer que o vazio da manga, longe de demons- em voz baixa: 'Depressa, depressa!' e desapareceu.
trar a presença de uma fraude, ao contrário estabe- Eu havia tomado a mecha; o cabelo é muito fino, se-
lece que não houve fraude; também que isto parece doso e vivo. O exame microscópico mostrou que era
depor em favor de uma espécie de desagregação cabelo autêntico; e me informaram que um postiço
material da médium, que ela própria era incapaz de daqueles custaria mil francos. O cabelo de Eva é
suspeitar. " muito escuro e ela os corta bem curtos.
Em sua obra "Thirty Years of Psychical Re- ')1s materializações produzidas por Eva Carrie-
search" (Trinta Anos de Pesquisas Psíquicas), o ga- re" - conclui Charles Richet- "têm a mais alta im-
nhador do prêmio Nobel de Medicina de 1913 conta portância. Apresentam numerosos fatos que ilus-
a história de uma notável materialização a que ele tram o processo geral das materializações, e forne-
assistiu na Vila Carmen, através da poderosa facul- ceram à ciência metapsíquica dados inteiramente
dade mediúnica de Eva Carriere: novos e imprevistos".
"Quase no mesmo momento em que as corti-
nas foram baixadas, foram reabertas e entre As Pesquisas da Ora. Juiiette Alexandre
elas apareceu o rosto de uma mulher jove'!1 .e Bisson
bonita, completamente nua, com uma especle
de fita dourada ou diadema, cobrindo seu lindo A Ora. Juliette Alexandre Bisson, exerceu notá-
cabelo e o alto da cabeça. Ria gostosamente e vel influência sobre Eva Carriere, que, após as ex-
parecia muito satisfeita; ainda me recordo per- periências na casa do general Noel, na Argélia, so-
feitamente de seu riso e das pérolas que eram freu duras críticas e injustas perseguições. Ao che-
os seus dentes. Apareceu duas ou três vezes, gar em Paris, a Ora. Bisson tomou-a a seus cuida-
mostrando a cabeça e escondendo-a, como dos, provendo-a de tudo. Iniciou-se, a partir daí,
uma criança brincando de esconde-esconde. " uma série de notáveis experiências. Em 1922, a
Ora. Bisson apresentou um relatório à apreciação
Pediram a Richet que trouxesse uma tesoura do Congresso Metapsíquico de Copenhag~n, em
no dia seguinte, quando lhe permitiriam cortar uma que resume seus expenmentos supranormals com
mecha de cabelos dessa rainha egípcia.
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
Eva Carriere, quando obteve materializações lilipu- sucessivamente, a cintura, as coxas, as per-
tianas (com altura de 20 centímetros). nas e os pés!
Eis a síntese do histórico relatório, elaborado à Da substância primitiva só restam alguns cor-
base da ata feita pelo Sr. Maurice Jeanson, um dos dões cinzentos e negros, enrolados no baixo
assistentes da Ora. Bisson, da sessão realizada a ventre e dos quais. não vemos pontos de liga-
25 de maio de 1921: ção. A pequena aparição é de admirável delica-
"Os assistentes são em número de seis. A fis- deza; cabelos longos, louros; seios descober-
calização da médium é feita antes e depois da tos; a parte inferior é de uma brancura singular.
sessão. A Ora. Bisson adormece a médium.
Esperamos três quartos de hora. No fim desse A materialização tem vinte centímetros de
tempo, a respiração da médium se acelera, faz altura, é perfeitamente iluminada pela luz que
ouvir sons guturais, e em suas mãos que, se- jorra através dos vidros de uma larga janela; é
gundo o costume, não deixavam de se segurar visível a todos! No fim de dois minutos, desapa-
por nós, a Ora. Bisson à direita e eu (o Sr. rece, depois se mostra. Os cabelos estão dis-
Maurice Jeanson) à esquerda, aparece, subita- postos de outra maneira, pondo-lhe o rosto à
mente, um pouco de substância cinza e bran- mostra. Verificamos que as pernas têm movi-
ca, cujo volume aumenta, atinge o de uma tan- mentos próprios; uma delas se dobra, fazendo
gerina, depois alonga-se de tal modo que seu movimentar as articulações do quadril e do joe-
comprimento pode ter uns vinte centímetros e lho. A aparição some bruscamente. Logo de-
seu diâmetro seis. Nesse momento, e em ple- pois a substância ressurge nas mãos da mé-
na luz diurna, a materialização se desprende dium, aí se mostrando, muito rapidamente, um
das mãos da médium e dos fiscalizadores e delicado rosto de mulher, parece[ldo iluminado
se mostra um pouco acima. Cada um de nós por uma luz que lhe é própria. E em tamanho
verifica que a extremidade esquerda da mate- cinco vezes maior do que a materialização pre-
rialização se transforma em cabelos muito finos cedente. Admiramos-lhe o azul dos olhos e o
e que a parte central se toma branca e muito carmim dos lábios. A aparição desaparece. De
clara. Ela se modela muito rapidamente e po- repente, reaparece a forma minúscula, subindo
demos todos reconhecer, admiravelmente mo- e descendo verticalmente pelo peito da mé-
delada, a ç;urva da. cintura. de uma mulher, dium. Nesse momento, a médium retira as
vista de costas, como que engastada em suas mãos das nossas e, segurando esse
uma ganga sem forma. A parte branca se diri- corpinho, deposita-o em nossas mão onde
ge rapidamente para a direita, depois para a fica por dez segundos e cada um pôde verifi-
esquerda e a substância se transforma, pro- car-lhe a perfeição das formas. Esse pequeno
gressivamente, em uma mulherzinha nua, corpo é pesado. Assim como surgiu, ele desa-
de forma impecável, na qual vemos surgir, parece.
238 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 239
df!clarar que essa força é inteligente. Éirnp()s-
Essa sessão é inesquecível, quer pelo interes- slvel, no momento, afirmar que talouqualhipó-
se dos fenômenos, quer pela admirável fiscali- tese corresponde à realidade dos fatos. O que
zação. é inefiável ~ é! ex!stência de uma força X, de
Lida e achada absolutamente exata: Juliette uma energia mteltgente', que preside a certas
Bisson, Maurice Jeanson, Anne Barlein, Reneé experiências, parecendo dirigi-Ias. J1
Duval, Jean Lefebvre, J. de la Beaumelle. J1 Segundo o Prot. Bozzano, o ideal dos metapsi-
A Ora. Bisson emite o seguinte parecer sobre q~istas foi sempre obter fenômenos em plena luz do
essa Ata, cheio de dúvidas e de surpreendente ex- dl~ e que, dessa .vez, chegou-se a atingir o fim de-
pectativa ante o inusitado do fenômeno: seJado. 9s expen~entadores tiveram oportunidade
de seguir a evoluçao de uma materialização minús-
"Que significam essas manifestações? De onde cula em todas as fases do seu desenvolvimento,
saem? Que são? Muitas hipóteses se levanta-
desde o aparecimento de uma bola de ectoplasma
ram, todas interessantes, embora nem uma só que, alongando-se e condensando-se, modelou-se
possa pretender ser a verdadeira. Se, como su- como por encanto, debaixo dos olhos, de atentos e
põem os espíritas, são Espíritos de desencar- espant~dos pesquisadores, começando suas trans-
nados que nos vêm visitar, de que esfera des- for~açoe~ por uma. das extremidades. Viram surgir
ce essa mulher em miniatura, de que acabo de dai uma fina cabeleira loura, que chegava até a cin-
falar? De onde provêm essas manifestações in- tura da forma feminina em miniatura, a qual, depois
sólitas? Se a teoria da ideoplastia, que ensina
de toda formada, se moveu, levantando-se, deitan-
que a idéia em ação provem sempre do mé-
do-se, subindo na médium e colocando-se na palma
dium ou dos expectadores, para fazer uso de
um termo já antigo, é a verdadeira, como expli- da ~ão dos expectadores, para desaparecer, em
car o papel quase negativo que representam os segUida, b':Uscamente, e depois reaparecer não me-
nos repentinamente, e menor! Estas circunstâncias
experimentadores do ponto de vista da produ-
ção do fenômeno? Como explicar, igualmente, eliminam, de modo absoluto toda possibilidade de
fraude sendo pois absurdo duvidar-se da autentici-
- sempre dentro da hipótese ideoplástica - o dade dos fatos.
transe total da médium em horas imprevistas?
Como explicar, por exemplo, que às 8 horas da
manhã Eva, ocupada em seu toucador ou no As Pesquisas do Dr. Albert Schrenck-
seu apartamento, caía bruscamente adormeci- -Notzing
da? Só tenho tempo de transportá-Ia para a
sala das sessões onde me dá uma materializa- _ O Or. Schrenck-Notzing, um pesquisador ale-
ção... Enfim, precisamos todos continuar nos- mao, realizou, com Eva Carriere, entre 1908 a 1913
sas verificações e experiências sem buscar dar interessantes e~periências, registradas na obra "O~
um nome à força X, que utilizamos durante Chamados Fenomenos de Materialização". Seu mé-
nossos estudos. Todavia, somos obrigados a todo consistia em fazer Eva Carriere mudar toda a

240 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 241


roupa, sob severo controle, e vestir uma espécie de nem pela violência dos malévolos ou por qual-
camisola sem botões, e fechada pelas costas. Ape- quer espécie de intimidação; Avançai sempre
nas as mãos e os pés ficavam livres. Assim era le- pelo caminho que abristes, tendo em mente
vada para a sala de experiências, onde não entrava aquelas palavras de Faraday: 'Nada é dema-
senão nessa ocasião. Numa das extremidades da siado maravilhoso para ser verdadeiro'. "
sala havia um recanto fechado por cortinas, por de- Conforme Sir Conan Doyle, Schrenck-Notzing
trás, pelos lados e por cima, mas aberto pela frente. foi mais fundo que a Ora. Juliette Bisson. Obteve ca-
Isto era chamado a cabine e a sua finalidade era belos de uma forma materializada e os comparou
concentrar os vapores de ectoplasma. microscopicamente com os cabelos de Eva Carriêre,
Passamos, agora, a palavra ao ilustre cientista: mostrando que não poderiam ser da mesma pes-
soa. Também deu os resultados do exame químico
"Muitas vezes fomos capazes de verificar que, de uma certa porção de ectoplasma, que foi reduzi-
por um processo biológico desconhecido, vem da a cinzas, com o cheiro de chifre queimado. Entre
do corpo da médium um material, a princípio
os seus elementos constitutivos foram encontrados
semífluídico, que possui algumas das proprie- cloreto de sódio (sal de cozinha) e fosfato de cálcio.
dades da substância viva, principalmente a do Finalmente obteve a filmagem do ectoplasma fluindo
poder de transformação, de movimento e de da boca da médium.
aquisição de formas definidas." E acrescenta:
"Poderia duvidar-se da verdade desses fatos,
se os mesmos não tivessem sido verificados As Pesquisas de Gustave Geley
centenas de vezes no curso de laboriosos en-
saios sob variadas e estritas condições." Ante O Dr. Gustave Geley realizou uma série de
as citações do Dr. Schrenck-Notzing, Sir Arthur sessões com Eva Carriêre, convidando cem ho-
Conan Doyle pergunta, irônico: "Poderia haver, mens de ciência para que testemunhassem uma ou
no que diz respeito a essa substância, mais outra sessão. Tão riQorosos eram seus testes que
completa vingança para os espíritas que, du- ele pôde proclamar: 'Não direi apenas que não há
rante duas gerações suportaram o ridículo do fraudes. Direi que não há possibilidade de fraude."
mundo?". Após tantas e exaustivas investigações, em
que os Espíritos se manifestavam com assombrosa
Em seguida, Schrenck-Notzing, na obra supra- desenvoltura, Geley declarou: "Aquilo que vimos
citada convida os seus companheiros de pesquisa a mata o materialismo. Já não há mais lugar para ele
adotarem corajosa postura ante o desestímulo no mundo."
oriundo da sociedade: Quanto ao ectoplasma, "que é a mais protéica
"Não permitais o desencorajamento nos vossos das substâncias", segundo Sir Conan Doyle, Gusta-
esforços para abrir um novo domínio à ciência, ve Geley emitiu a seguinte opinião, fruto de suas
nem pelos ataques malucos, nem pelas calú- pesquisas, especialmente com Eva Carriêre e
nias covardes, nem pela falsificação dos fatos, Franck Kluski:

AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS


242
"Durante todo o fenômeno de materialização, o quico§ df} orderp física. Sem ele, até certo pon-,
produto formado está em óbvia conexão·fisioló- to, nao e posslvel qualquer fenômeno físico. E
gica e psíquica com os médiuns. A conexão fi- ele que dá consistência às estruturas de toda
siológica por vezes é perceptível sob a forma sorte erigidas pelos operadores nas câmaras
de um fino cordão, ligando a estrutura aos mé- de sessões. E ele que, quando conveniente-
diuns, o que pode ser comparado ao cordão mente manipulado e aplicado, permite que as
umbilical, que liga o feto à mãe. Mesmo quan- estruturas se ponham em contato com as for-
do esse cordão não é visível, a relação fisioló- mas ordinárias da matéria que nos são familia-
gica é sempre estreita. Cada impressão recebi- res, ainda que tais estruturas sejam semelhan-
da através do ectoplasma reage sobre os mé- tes àquelas a que me refiro particularmente, ou
diuns e vice-versa. A sensação reflexa da es- quando sejam materializações de formas cor-
trutura coexiste com os dos médiuns. Numa póreas, como mãos ou rostos. Além disso, pa-
palavra, tudo prova que o ectoplasma é parte rece-me que essa matéria será, eventualmen-
essencial exteriorizada dos médiuns. " te, ,a base de estruturas aparentemente cons-
trUldas para a manifestação daquela particulari-
Por sua vez, o Dr. William Crawford, autor de dade de fenômeno, conhecida como Voz Dire-
três obras clássicas na área complexa da fenome- ta, enquanto os fenômenos ditos Fotografias de
nologia espirítica ("The Reality of Psychic Phenome- Espíritos também parecem ter a mesma base."
na" (1917), "Experiments in Psychical Science"
(1910) e "The Psychic Structures at the Goligher Cir- p:-o ~empo em qu~ VYilliam Crawford pesquisava
ele" (1921) ), estabeleceu uma interessante (e insti- a projeçao, com a medlum Kathleen Goligher das
gante) comparação entre as manifestações psíqui- alavancas ectoplasmáticas, Gustave Geley controlava
cas, ao tempo em que sugere uma audaciosa mas os resultados conseguidos à custa da portentosa fa-
compreensível teoria para todos os fenômenos psí- culdade mediúnica de Eva Carriêre, mediante uma
s~rie de m.eticulosas .experiências, as quais ele pró-
quicos: pno resumiu do seguinte modo:
"Comparei aquela matéria esbranquiçada (ec-
"Uma. si!bstânc~a emana do corpo da médium;
toplasma) semelhante a uma nuvem, quanto à e>,denonza-se; e amorfa ou polimorfa à primeira
estrutura, com fotografias de fenômenos de vista. Essa substância toma várias formas, mas
materialização em vários estágios e obtidos em geral mostra órgãos mais ou menos com-
com muitos médiuns diferentes em todo o mun- pósitos. Podemos distinguir: 1 - a substância
do. Cheguei à conclusão de que esse material como um Efubstrato da materialização; 2 - seu
é muito semelhante, senão idêntico, ao mate- desenvolvimento organizado. Seu aparecimen-
rial usado em tais fenômenos de materializa- to em geral,é anunciado pela presença do flui-
ção. De fato, não é fora de propósito considerar do, co!!,o ffoculos esbranqUiçados e luminosos,
esse material esbranquiçado, translúcido e ne- que vao desde o tamanho de uma ervilha até o
buloso como base de todos os fenômenos psí- de uma moeda de cinco francos e distribuídos
244 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
aqui e ali, sobre o vestido da médium, principal-
mente do lado direito... A própria substância
emana de todo o corpo de Eva Carriere, mas
especialmente dos orifícios naturais e das ex-
tremidades, do topo da cabeça, do peito e das
pontas dos dedos. A origem mais comum, a
mais facilmente observada, é a boca... A subs-
tância aparece de várias formas, por vezes
como uma pasta dúctil outras vezes como ver-
dadeira massa protoplásmica ou em forma de HllDA NEGRÃO
numerosos fios muito finos ou de cordas de vá-
rias grossuras, ou, ainda, como raios estreitos
e rígidos, como faixas largas, como uma mem-
brana, como um material de lã, de linhas indefi-
nidas e irregulares. A mais curiosa aparência é . A me~iunidade ~e H!lda Negrão (esposa do jor-
nalista Odilon Negrao) e, segundo o pesquisador
apresentada por uma membrana muito espi- Osório César, "uma das mais raras na história da fe-
chada, com franjas e dobras e com a aparência nome!10logia supranç>f!T1al". Ela consequia provocar
de um alçapão. voz direta e efeitos fISICOS, sem transe1 Esses fenô-
'~ quantidade de matéria exteriorizada varia menos ocorriam espontaneamente ou eram provo-
dentro de largos limites. Nalguns casos envolve cados em sessões sob rigoroso controle, realizadas
completamente a médium num manto. Pode ter nas décadas de 30 e 40, em São Paulo.
três cores diferentes: branco, preto e cinza. A Durante a produção provocada dos fenômenos
cor branca é mais freqüente, talvez por ser a ~édium não caía em transe e conservava perfeita
mais facilmente observável. Por vezes as três lUCidez. Nenhuma mudança no seu estado fisiológi-
cores aparecem simultaneamente. Por vezes é co ou mental é observada durante todo o desenrolar
fria e úmida; outras vezes viscosa e consisten- da sessão. Os trabalhos provocados de efeitos físi-
te; mais raramente seca e dura... A substância cos e de voz direta se realizavam na obscuridade e
é móvel, aparece e desaparece como relâmpa- com vibração sonora. As trombetas eram levitadas
go e é extraordinariamente sensitiva... E sensi- sem contato visível e as entidades falavam com o
tiva à luz." a~xmo do megafone de alumínio enquanto a mé-
dium, nesse tempo, conversava com os assistentes
A médium Eva Carriere se ofereceu às mais ou cantava, acompanhando a música da vitrola. Por
notáveis pesquisas por parte dos mais renomados vezes as vozes eram sibiladas e pouco audíveis.
cientistas de sua época, todos admitindo, após rigo- Não raro, porém, quando as condições ambientais
rosas investigações, a veracidade dos fenômenos eram f~voráveis aos fenômenos, as comunicações
observados. das entidades se apresentavam claras, com sonori-
246 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 241
dade e articulação dos vocábulos muito bem perce- aconselhando a filha a prosseguir com coragem e
bidas por todos os assistentes. perseverança em sua missão de médium. Com a re-
Uma vez por semana o grupo de pesquisado- tirada desse Espírito, todos ficaram em silêncio ou-
res se reunia na residência do jornalista Odilon Ne- vindo apenas o som harmonioso da vitrola..: Em
grão, em S. Paulo, para investigação do especialís- dado momento, porém, caía sobre os presentes al-
simo fenômeno de voz direta. Essas sessões eram guma coisa. Lembraram-se do presente prometido
feitas em caráter particular, porquanto a médium, pelo Bororo. Verificaram, em meio das expressões
D. Hilda Negrão, esposa do anfitrião, ainda não se naturais de alegria, que o presente eram flores mui-
achava completamente desenvolvida. Na noite de 1Q tas flores, pois que o fenômeno teve longa du~ação.
de agosto de 1939, o grupo estava, como de hábito, Os ramos de fl?res Quardavam um suave perfume,
reunido na residência do pesquisador, dele fazendo urJ'l perfu~e s~tII, razao por que não~ se pôde identifi-
parte, além do casal Negrão, Antônio de Castilho, ca-los de Imediato. DepOIS desse fenomeno, ouviu-se,
Urbano de Assis Xavier, Isabel de Castilho, Maria de novo, a voz de Bororo. Ao lado do jornalista Odi-
Jannoni, Adelaide Bremcow e Rosa Teresinha Ne- lon Negrão, bem junto ao ouvido esquerdo, ele per-
grão. guntou:
Logo no início dos trabalhos, a corneta lumino- - "Gostou?"...
sa foi levitada e, em seguida, ainda com a corneta Estavam os presentes comentando entre si o
no espaço, ouviu-se a voz amiga e conhecida de um i~esperado da manifest~ção, quando ecoou, no a~­
dos guias da sessão: o bugre Bororo. Saudou os blente, outra voz. A entidade logo se identificou. Era
presentes e disse que tudo ia bem, prometendo pre- o Dr. Ademar de Assis Xavier, irmão de Urbano.
sentear o grupo. Essa promessa do Bororo já esta- Ademar conversou com seu mano sobre assuntos
va ficando velha. Logo depois que o índio se retirou, íntimos e, quando se retirou, saudou a todos.
ouviu-se outra voz que disse: Acesa a luz elétrica constatou-se que o chão
"Que a paz de Jesus esteja com todos. Sou estava coalhado de flores. Flores de cor branca.
Caírbar Schutel. Agradeço ao Urbano ter levado o Contaram-se os ramos: eram 47 de flores de ervilha
pessoal a Matão. Todos de lá ficaram satisfeitos. de cheiro, com caules cuidadosamente aparados
Um abraço." de 25 centímetros de comprimento cada um. Julgou~
Schutel referia-se à sessão de voz direta que se qu~ as flores! pel? cuidado com que foram corta-
fora realizada, pelo grupo do jornalista Odilon Ne- ~as, tlve~sen:' Sido tiradas de alguma floricultura. E
grão, na cidade de Matão, na noite de 24 de junho ISSO quena dizer que os Espíritos as transportaram
de 1939, a qual foi assistida pelos amigos e compa- de muito longe, pois que as casas de flores de São
nheiros que o "Bandeirante do Espiritismo" soube Paulo ficavam localizadas, à época, no centro da ci-
fazer naquele município. dade e.o local da reunião era no bairro do Ipiranga.
Em seguida comunicou-se o Espírito de D. Eli- Afirma o pesquisador Osório César vide Reve-
sa Maria da Silva, mãe da médium. D. Elisa pales- lador, agosto/setembro 1942 (órgão do Departa-
trou longamente com os assistentes, encorajando e mento de Propaganda da União Federativa Paulista)
248 AS MULHERES M~DIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 249
que amediunidade de ~il9~ Negrão é umada~ mais
curiosas e raras na Hlstona da fenomenologia su-
pranormai.

LAURA PEREIRA

Às vinte horas de 16 de maio de 1943 reuni-


ram-se na residência de Francisco Vera Cruz, em
São Paulo, as seguintes pessoas: João Câncio Pe-
reira, Gabriel Padilha, Edgard Sampaio, Dr. José de
Paula Dias, Capitão Francisco do Carmo e Regina
do Carmo, pais da médium. Formavam o grupo que
há muito tempo, pesquisava a faculdade mediúnica
de Laura Pereira.
Abertos os trabalhos pelo Capitão Francisco do
Carmo, ouviram-se, em seguida, estalidos de dedos,
fortes batidas na mesa, batidas essas que diferiam
umas das outras, caracterizando as diversas entida-
des guias da sessão. As duas cometas luminosas
que se achavam sobre a mesa, começaram, então,
a levitar no espaço, "cumprimentando" os presen-
tes, um a um, revoluteando no ar. Depois o Espírito
da entidade "Francisca" abriu a vitrola, deu-lhe cor-
da, colocou-lhe o disco da "Ave Maria", de Gounot,
enquanto as cometas, movimentadas pela entidade
"Reverendo", marcavam o compasso da música.
Após a mudança de vários discos, feita pelos Espíri-
tos, ouviu-se a "Marcha Nupcial", anunciando a che-
gada do Espírito "Noiva", Esta chega, e iniciando,
250 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 251
diz boa-noite aos assistentes que sentem indefinível cabelos longos, a médium os tem curtos. A médium
sensação de bem-estar. "Noiva fala com todos, usa anel, procurou-se senti-lo nas mã()s de "1'.1 ...,,,·,,,"
aperta as mãos de cada assistente e, com seu véu, e nã.? o ~ncontraram, Os braços e o corpo do t:S[1111-
espalha pela sala uma brisa impregnada de suave to nao tem a robustez dos da médium, que, durante
perfume abraça os presentes; atende aos que a o desenrolar da sessão, se conserva .em estado
chamam; responde a tudo com uma ternura e mei- sono profundo, amarrada de pés e mãos e tronco à
guice que enche a todos de alegria e encanto. A uns pesada cadeira de jacarandá!
dá conselhos, a outros diz uma graça, mas sempre Nessa classe de fenômenos, que aconteciam
com grande afabilidade. Tem-se a impressão de se (e acontecem), já não se trata de fantasmas de con-
estar, como de fato pensavam os assistentes, diante to"!o~ v8;gos e imprecisos que deambulam em triste
de um ser elevado. " solldao, a luz da lua, pelos cemitérios e casas as-
O desembaraço da entidade é perfeito e com- sombradas; já não se cuidam de aparições que fo-
pleto. "Noiva" beija as senhoras no rosto e os ho- gem ao tato e se desvanecem com a luz mas de
mens na testa, deixando de bom grado, que se lhe seres reais, tangíveis, corpóreos, que se movem e
toquem os amplos cabelos. Em dado momento, falam, que pod~m ser f!ledido~, pesados, fotografa-
"Noiva" apresenta-se trazendo nas mãos um foco do~ etc... , e cUJo coraçao palpita sob a mão do ex-
de luz envolto em véu. Essa concentração luminosa penm~n~ador. Do grau de consistência das formas
é apresentada a cada um dos assistentes. A luz matenallzadas podem nos dar uma idéia nítida os
sobe e desce, aparece, às vezes, mais clara, outras, seguintes fatos: "Noiva" beijou e apertou as mãos
mais difusa, mudando, não raro, para a cor azulada. ~o~ que a assistiam, plena e inequivocamente mate-
"Noiva"de ninguém se esquece, distribuindo a todos n~lIzada, na mesma medida em que o Dr. Paul Gi-
muita ternura. Depois presenteia os assistentes com bler, uma das glórias da medicina ocidental apertou
flores. De repente, pára a vitrola. E "Noiva" canta, emocionado, as mãos quentes do fantasma "Ellan"
com timbre afinado e agudo, ora em português, ora e esse lhe retribui o aperto amigo e investigador
em inglês. Quando "Noiva" se despede uma grande com grande efusão; Crookes deslizou os dedos pe-
saudade toma conta de todos. I~s tranças espessas ~o Espírito "~~tie King" e sen-
Diante desses fenômenos extraordinários (que tl~ a mesma sensaçao que sentiria se estivesse
nada ficam a dever aos mais importantes obtidos no diante de uma pessoa viva, isto é, de uma criatura
primeiro mundo), que mais será necessário para encarnada. Os corpos desses seres materializados
que o Espírito humano se convença da vida no assim como ocorreu aos Espíritos que se apresenta~
Além e da Mediunidade? Alegar ser a materializa- ~a':l a J;sus no ~ont~ Tabor, não se formam por
ção o duplo do médium, seria, de qualquer sorte, um milagre, mas, Sim, as expensas dos médiuns e
fantástico fenômeno, que, a bem da verdade, é pos- dos e~p~riment~dores. Entre o corpo fantasmal e
sível. Mas, no caso presente, os dirigentes da ses- se~ medlum eXiste uma !elação tão íntima, tão es-
são adotaram uma severa observação, tendo a mé- treita, que qualquer molestia causada ao primeiro
dium sob rígida fiscalização. Ademais, "Noiva" tinha redunda, em geral, em prejuízo do segundo. Ainda
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 253
assim ,. são duas entidades
. perfeitamente
. , .dissocia-
das, com suas respectivas estruturas pSlqUlcas, seu
patrimônio intelectual e moral. . . . _
Os ensinamentos que se tiram da ·Investlgaçao
psíquica - produto de verdades obtidas mediante
laborioso processo científico - vêm para iluminar
nosso caminho, para nos guiar em no~sa jorna~a
cósmica e para nos traçar um novo s~ntldo de eXI~­
tência. Um sentido mais elevado, mais nobre, mais
digno do que o que socialmente nos rege no pre- ANA PRADO
sente.

Entre 1918 e 1921 aconteceram os extraordi-


nários fenômenos de Belém do Pará, sob as expen-
sas da faculdade mediúnica de Ana Prado e contro-
lados pelo Dr. Nogueira de Faria, Elton Bósio e Eurí-
pedes Prado, mando da médium.
Em princípio tais fenômenos aparecem como
simples comunicações tiptológicas, revestindo-se, de-
pois, nas mais variadas formas. Seguem-se, então,
as moldagens em parafina, efeitos físicos diversos,
incluindo notáveis apports e, finalmente, materializa-
ções de Espíritos. As formações se realizavam de
maneira a não deixarem dúvidas, iniciando-se por
núcleos brancos, ou nuvens, ou fosforescência, que
se alongavam até tomar a forma humana. Punha-se
a médium em uma gaiola de ferro, sob rigoroso con-
trole dos dirigentes encarnados das sessões. Tais
procedimentos deixavam a médium profundamente
constrangida, chegando a declarar que não era uma
fera para que a enjaulassem!
As materializações foram várias. Aos Espíritos
familiares "João" e "Anita" e aparições de crianças,
juntaram-se Espíritos estranhos à família Prado, tais
como Hilda, filha do Dr. Melo César, Sita, filha de
254 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 255
Teixeira Marques e Raquel, filha de Frederico Flg- baldes: o de parafina, posta ali fervente,. vazio, e no
OO~ . outro, onde continha a água fria, um molde perfeito
As atas eram assinadas pelos nomes mais ex- de mão humana com os dedos curvados. Acompa-
pressivos da sociedade paraense,. que s~ co.ntavaf!l nhava a mão em parafina, um lindo ramalhete de ro-
entre políticos, magistrados, estadistas, cientistas, li- sas.
teratos e artistas.
As Materializações de Raquel
Primeiras Manifestações
Sessão realizada em 1º de maio de 1921.
Sessão realizada em 12 de il;lnho d~ 1918. . O Espírito João se tomou nitidamente visível.
Uma noite recebeu-se pela tlptologla, o segUin- Caminhou com os braços estendidos para a Sr. Eu-
te ditado: .. f. rípedes Prado e lhe ministrou passes. Ajoelhou-se,
_ '~ médium deve se concentrar pOIS vou a- ergueu as mãos ao céu e levantando-se, foi à câma-
zer uma surpresa. Não tenhas receio. A médium ra ver a médium. Em seguida se dirigiu a D. Esther
dormirá - mas bastará tocar-lhe, ~ fr~nte com u'!' Figner, mãe de Raquel e se pôs de pé à sua frente.
pano molhado que logo despertara. Feita a obscun- D. Esther falou ao Espírito de toda a sua dor e sau-
dade a médium adormeceu e sem demora uma dade da filha. querida. João a ouviu atentamente.
pancàda anunciava a realização da surpresa. Dan-. Depois, estendeu os braços num gesto de abençoar
do-se luz, encontraram uma flor sobre a p~quena e os levantou para o .céu. Ela, então, ofereceu um
mesa que servia para receber as ,m.anlfestaçpes, flor ramalhete de rosas ao Espírito...
transportada do jardim. E~ta especlE::. de fenomenos,
denominada apport, repetiu-se, frequentemente, er:n Primeira Materialização de Raquel
crescente intensidade, chegando a aparecer mais
de vinte flores na sala cuidadosamente fechada. Sessão realizada em 2 de maio de 1921.
...$urgiu, junto à cortina, uma jovem, com todas
Moldagens em Parafina as aparências e gestos de Raql,lel a tal ponto que
D. Esther, sua mãe, exclamou: "E Raquel!". Os ges-
Sessão realizada em 28 de setembro_de 191 ~'. tos eram todos absolutamente os da filha dos Fig-
O Espírito-auxiliar anunciou que Joao, EsplrI- ner, e mesmo o corpo, a forma, "o vestidinhoacima
to-guia, iria coordenar os trabalhos. ~ma c~mpaln~a do tornozelo, de mangas curtas e um pouco decota-
ficava próxima dos baldes ge paraflna.e agua fna, do". Apresentou-se, assim, diante dos assistentes
mas fora da grade. Cinco minutos depOIS, o som da na reunião de Ana Prado, e, muito especialmente,
campainha tiniu diversas vezes, alegremente, como face a face com os seus pais!
anunciando a vitória absoluta. . Depois, o Espírito da jovem entrou na câmara
_ "João está satisfeito, disse o Espírito-auxI- (gabinete mediúnico) e de novo saiu, trazendo sobre
liar". Cobriu-se o rosto da médium e abriram-se ~s a cabeça um capuz branco, que lhe cobria os cabe-
luzes: dentro da gaiola, pregada ao solo, os dOIS los e os ombros. Caminhou em direção à Sra. Fig"
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
256
ner, dizendo, com uma voz fraquinha e como que gem". E, prosseguindo em seu depoimento,obser-
chorosa: "Mamãe, mamãe!..." vou:
Eis como a Sra. Figner descreve o emociona- 'Também o referir-se ela à roupa preta· foi uma
díssimo reencontro: misericórdia e uma prova, pois sempre eu dizia que
"Veio até bem perto de mim e aí parou. Não ti- só tiraria o luto se minha filha viesse em pessoa fa-
nha as formas tão perfeitas. Reconheci-lhe, porém, lar-me a esse respeito. E, como tenho certeza de
a fronte, as sobrancelhas; verifiquei, em suma, que que foi ela quem. me falou, fiz-lhe a vontade; desde
era minha filha." aquele instante tirei o vestido preto e nunca mais em
É provável que, por ser a primeira vez, e em minha vida, morra quem morrer, o usarei! Sei hoje
face da extrema curiosidade dos assistentes, não com toda a segurança, que isso desagrada aos nos:
houvesse podido materializar-se bem. Tanto assim sos entes queridos que partem para o Além. "
que, voltando à câmara, fez a médium dizer: "Afas- Leontina lhe entregou uma rosa. Ela acariciou
tem-se os que estão atrás de mamãe, pois que há aí a mão da irmã e se retirou para a câmara escura
uma corrente contrária, que me impede de· aproxi- onde fez que a médium dissesse: "Vou levar a rosá
mar." Imediatamente, todos se afastaram e ela pôde que me deste para o espaço"...
com facilidade ir até muito perto daSra. Figner e fa-
lar. "Ouvi e vi perfeitamente" - declarou mais tarde Segunda Materialização
- "que a voz partia da boca da minha filha., pois me Sessão realizada em 4 de maio de 1921
achava de joelhos diante dela, a contemplá-Ia e a ...De repente, Leontina soltou um grito e disse
ouvi-Ia". que alguém lhe havia tocado na perna. Quase ao
Disse, em voz baixa, à mãe, mas todos a ouvi- mesmo ao tempo, a Sra. Figner sentiu e disse alto
ram: que alguém colocava a mão sobre o seu ombro es-
"Para que essa roupa preta? Sou muito feliz." E querdo. Julgara,m. que fosse o Eseírito J?ão. Logo,
moveu os braços para cima numa expressão de entretanto, a medlum falou: - "Joao esta afirmando
contentamento. Todos experimentaram forte e in- que não foi ele e sim a irmã de Leontina que a to-
contida emoção, e as lágrimas rolaram pela face do cou, as,sim como em D. Esther". Sabendo, então,
casal Figner... que a filha estava presente, a Sra. Figner dirigiu-se
Depois de proferir aquelas palavras, pegou a a ela. Imediatamente, Raquel se fez sentir atrás
mão da Sra. Figner e beijou-a, coisa que não fizera dela, tocou-lhe o rosto e passou a mão sobre sua
quando encamada, porque os pais não gostavam cabeça, acariciando-a.
que os filhos lhes beijassem as mãos. "Entretanto:' - "Vem minha filha, beija-me; abraça-me; vem
- afirmou a Sra. Figner - "isso foi uma prova. E junto de mim, bem sabes que não tenho receio.
que durante toda a sua enfermidade, ela, o meu Vem minha adorada Raquel, vem bem junto de sua
anjo adorado, beijava-me a mão e me cobria de ca- mãezinha".
rícias. Vivíamos acariciando-nos as duas, como se À medida que a Sra. Figner falava, mais Ra-
estivéssemos a despedir-nos para uma grande via- quel se fazia sentir. Beijou-a muito, fortemente, dan-
258 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
do-lhes beijos estalados que a assistência ouvia. "que notoriamente partia de sua boca":
Apertava o rosto da mãe contra seus lábios, .tal rem!"...
como se estivesse encarnada. A Sra. Figner beijou-lhe Como trouxesse os cabelos presos, a Sra. Fig-
as mãos, tocou-Ihe.as unhas, verificando .que·esta- ner solicitou-lhe: "Minha filha, .ainda •não vi ·os teus
vam como as usava, pontudas e polidas, e pergun- cabelos. Mostra-nos a tua linda cabeleira". Raquel
tou: "Minha filhinha,és feliz?" Ela a envolveu de tal foi à câmara e logo voltou, trazendo os cabelos alhe
forma, com seus braços, que a Sra. Figner não mais caírem soltos sobre os ombros, quais eram quando
sentiu o espaldar da cadeira em que estava senta- encarnada. Punha-se de frente e de costas, a fim de
da. "Sentia" - disse ela - "unicamente o contato que bem a pudessem apreciar.
muito vivO de seu corpinho, seu calor, sua respira- Depois, foi à câmara escura e de lá veio tra-
ção, seu hálito. Era perfeitamente minha filha a me zendo um pano branco, com o qual se pôs a acenar
dizer no·ouvido: sim!... " em sinal de adeus. A emoção dominou a todos, que
Sempre·a conversar com a filha, disse-lhe: .f'Mi- exclamavam: "Adeus, Raquelzinha! Deus a aben-
nha filhinha, vai beijar. e. acariciar. teu paizinho".• No çoe!"
mesmo instante ela se fez sentir atrás do pai e se Terceira Materialização
pôs a beijá-lo e. acariciá-lo.· da m.esma •forma que fi-
zera com a mãe. Por fim deu-lhe um beijo estalado Sessão realizada em 6 de maio de 1921.
no ouvido. Apagaram-se as luzes e instantes depois ob-
"Ante tanto poder" - exclamou a Sra. Figner servou-se que a materialização começava. Era Ra-
- "a criatura de carne desaparece"... quel que retomava do mundo dos Espíritos, eviden-
Terminada mais uma intrigante sessão de mol- ciando a sobrevivência do ser. Depois de mostrar-se
dagem em parafina fervente, sob a orientação do bem a todos, Raquel foi aos baldes de parafina fer-
Espírito João, o grupo se preparou para o processo vente e água fria, e iniciou o trabalho de moldaQem.
de materialização. Começaram a condensar-se os Metia a mão na parafina fervente, depois na agua
fluidos e daí a pouco aparecia um vulto no qual, à fria, examinava o molde e de quando em quando ia
medida que· se formava,. ia-se reconhecendo Ra- à câmara consultar o Espírito João que se conserva-
quel. E de fato era. Raquel apareceu em toda a per- va dentro desta e que, ao que se supunha, lhe dava
feição de suas formas, tal qual fora, absolutamente instruções. Durou tanto tempo esse trabalho que a
reconhecível. Ali estava viva e palpitante! parafina esfriou. João, pela médium, deu ordem
Quando diante da assistência atenta e dafamí- - para que aquecessem a parafina. Como demoras-
sem para apanhar as vasilhas, disse ele pela mé-
lia, Raquel virava-se de um lado para o outro, a fim dium: "Deixem, vou materializar-me para entregar
de que bem a reconhecessem e nenhuma dúvida fi- as vasilhas". Em seguida, saiu da câmara, tomou· a
casse nos seus espíritos. Fred Figner e Leontina vasilha de água e a colocou diante dos assistentes.
choravam .convulsivamente. Ela, então, parando Pegou depois o balde de parafina, que é bastante
diante dos seus familiares disse, com voz firme, pesado, e, suspendendo-o com o braço estendido e
260 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
firme, o foi colocar junto da vasilha de água. Provou, nham sido entregues antes, por haver João dito que
assim, a sua completa materialização exibindo a for- só o fizesse após os trabalhos de parafina.)
ça de sua musculatura perfeitamente materializada. Raquel voltou-se para o interior da câmara,
Em seguida entrou na câmara e logo surgiu Raquel, como que a pedir instruções ou a transmitir o. pedi-
que ainda por muito tempo continuou o trabalho que do. Logo, porém, voltou, recebeu as flores, distri-
começara. Ouviu-se o mergulhar de sua mão na pa- buiu-as tom os seus familiares e com os demais as-
rafina e na água fria (se fosse um ser humano, teria sistentes. Como costumava fazer quando encama-
a sua mão inteiramente consumida pelo alto grau de da, nos dias de aniversário da mãe e do pai,desfo-
ebulição da parafina). De espaço a espaço, pegava Ihou algumas rosas e aspargiu-as sobre as cabeças
uma ponta do vestido e passava no molde, como de seus entes queridos, dando uma impressão viva
que para secar ou alisar. Por mais de uma vez, no e inequívoca de sua personalidade terrena. Foi uma
curso do trabalho, João, pela médium, pedia que os cena emocionante. Todos choraram! Depois, er-
assistentes tivessem paciência, porque aqueles tra- guendo as mãos para o alto, disse, de sua própria
balhos são demorados. Depois de muito trabalhar, boca: "Graças a Deus. Sinto-me contente por ter
Raquel deixou o molde da mão dentro do balde de
vencido a dor de mamãe"! Tomou, de novo, o lenço
água fria e entr9u na 9âmara. , . ,. e acenou com ele durante muito tempo, a despedir-se...
Disse, entao, Joao pela medlum, que o Espmto
iria fazer umas flores de parafina na presença de to- Comovidíssimos, os pais diziam:
dos, para que Raquel a entregasse juntamente com "Adeus, adeus, filha adorada. Deus te aben-
o molde. Efetivamente, algum tempo depois apare- çoe!"
ceu Raquel e tirou com muito cuidado o molde e a Todos que assistiram aos fenômenos, inclusive
flor de dentro d'água. Trouxe o primeiro e o deposi- o Sr. Eurípedes Prado, esposo da médium, ficaram
tou nas mãos da Sra. Figner, entregando a flor ao maravilhados, afirmando nunca terem visto tamanha
pai. Ambos, emocionadíssimos, agradeceram e lhe perfeição.
beijaram as mãos... Após a despedida de Raquel, materializou-se
João, e, puxando um dos bancos em que estiveram
os baldes de água e de parafina, pôs-se a escrever.
A Despedida de Raquel Quando começou a escrever, debruçado sobre o
banquinho, a ponta do lápis quebrou. Então, ele se
Tendo tirado o lenço que trazia no decote do levantou e pediu um outro lápis. Fred Figner pas-
vestido e depois de se ter mostrado muito claramen- sou-lhe um outro, como o faria a uma criatura da
te sob o maximo de luz que os aparelhos prepara- Terra. João o tomou e visando o papel do outro lado
dôs podiam dar, ela se retirou para a câmara e, escreveu à vista de todos o seguinte:
saindo de novo, ia, com aquele lenço, começar os - "Saudades, vou assistir à fotografia no Gi-
acenos da despedida, quando a Sra. Figner pediu: rard."
"Minha filha, espera um pouco. Temos aqui umas A afirmativa de João significava que ele iria ver
flores que trouxemos para te dar." (As flores não ti- o andamento da revelação das chapas que foram
262 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
/
,
tomadas, no atelier do Girard, durante as sessões,
por Ettore Bósio.
Depois, acenando com o lenço em sinal de
despedida, entrou no gabinete e se desmaterializou,
como o fizera das outras vezes. /
Os fenômenos que ocorreram em Belém, Pará,
através da fantástica faculdade, mediúnica. de Ana
Prado, ombreiam-se aos mais notáveis já obtidos
em várias partes do mundo. Ana Prado, sem ne-
nhum favor, integra a galeria dos grandes médiuns EUSABETH J. COMPTON
que contribuíram, com sofrimento e profundos des-
gostos, para o engrandecimento e consolidação da
causa do Espírito, Senhor do Tempo e dos Elos Per-
didos... O coronel norte-americano Henry Steel· Olcott
(1832-1907) iniciou suas pesquisas sobre fenôme-
nos mediúnicos em 1847, estudando a faculdade
ectoplasmática dos irmãos Eddy, de que resultou
uma série de históricos artigos, sobre o moment~so
assunto, no jornal The New York Dai/y Telegraph
Em sua obra "People from lhe Olher World', o
coronel registra os resultados obtidos com a mé-
dium Elisabeth J. Compton, em trabalhos de mate-
rialização de Espíritos e da desmaterialização da
médium.
A sua primeira sessão com a médium se reali-
zou na noite de 20 de janeiro de 1874. Os especta-
dores, em número de seis, estavam sentados à vol-
ta da sala, um pouco distantes do gabinete mediúni-
co. A Sra. Compton tomou lugar no interior deste,

1. Por volta de 1847, o coronel Henry Steel Olcott conheceu Helena Pe-
trovna Blavatsky. Identificando-se com seus ideais, fundou com ela, em 1875,
The Theosophical Society. Em 1878 viajou com a Sra. B1avatsky ãíndia,'insta-
lando-se primeiro em Bombaim (1879) e depois em Adyar (1882). De 1879 a
1907 foi editor da revista The Theosophist juntamente com Annie Besant.Fundou
em Benáres, índia, o "Central Hindu ColJege".

AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS


em uma cadeira; abaixou-se muito a luz da lâmpa- no da sessão, ao afastarem-se as cortinas do gabi-
da, e durante algum tempo nada se passou de inte- nete Q1ediúnico, lá estava a médium, inteirinha!
ressante. Enfim, a porta abriu-se e a figura de um A tarde do dia imediato depois de ter obtido o
índio apareceu; dirigiu-se aos presentes e ao Coro- assentimento da Sra. Compton, para que ela se
nel Olcott, saudando-os cordialmente, mas não se submetesse mais uma vez, às suas investigações, o
afastou do gabinete, declarando que a médium es- Coronel Olcott retirou os seus brincos, colocando-a
tava muito fraca e abatida. numa cadeira, no gabinete, à qual prendeu-a pas-
Realizou-se na tarde seguinte outra sessão, sando um fio de linha número cinqüenta, através
materializando-se a menina Brink, que andou à volta dos orifícios da orelha da médium, lavando e secan-
da sala, tocou em diversas pessoas e acariciou-lhe do as pontas no espaldar da cadeira, sob a qual im-
as mãos e as faces. Envergava um vestido de mus- primiu seu sinete particular. Depois fixou a cadeira
selina branca com pontas de crepe, na cabeça um no chão por meio de cordões cujas pontas lavou e
véu que lhe caía até os joelhos, deslizava como se secou de modo completamente seguro.
estivesse com sapatos de veludo, e, visível na semi-obs- Assim que a luz diminuiu, como é habitual nes-
curidade, ela se assemelhava à noiva de Corintio, sas sessões, e fechou-se a porta do gabinete,con-
de Goethe... taram-se alguns minutos; logo após, através da
Depois de ter cumprimentado os assistentes, abertura praticada no lado superior da porta, duas
ela se dirigiu ao Coronel Olcott, que estava com mãos flutuaram da direita para a esquerda, desapa-
uma das mãos apoiada no tabique do gabinete, e, recendo em seguida. Tomaram a aparecer ainda
acariciando-lhe docemente a fronte, sentou-se-Ihe duas r,nãos maiores, e então uma voz dirigiu-se ao
nos joelhos, colocou um braço sobre seus ombros. pesqUisador (pareceu-lhe a voz de Daniel Webster)
"Os lábios que me beijaram" - afirmou o Coronel dando-lhe instruções completas e sugerindo medi-
Olcott - "eram tão naturais como os lábios de uma das de prudência sobre o modo pelo qual ele devia
continuar suas investigações.
pessoa viva... "
Após combinar com os assistentes, o Coronel Quando o coronel penetrasse no gabinete,
Olcott penetrou no gabinete, enquanto a menina aconselhou o Espírito, enquanto o Espírito materiali-
zado ficava na parte de fora, poderia tatear e tocar
Brink ficava do lado de fora. "Não achei ar a mé-
livremente por toda a parte para convencer-se de
dium" - declarou, assombrado, o. coronel, apesar que a médium não estava aí, mas devia ter todo o
de ter examinado todos os recantos do gabinete cuidado em não tocar de modo mais efetivo na ca-
mediúnico. Elisabeth Compton havia sumido! deira. Entretanto, era permitido ao coronel aproxi-
O pesquisador aventou então, as seguintes hi- mar as mãos tão perto quanto o desejasse, porém
póteses: ou o Espírito não era um Espírito, e sim a de modo a evitar o contato direto.
médium, ou o médium tinha-se transfigurado à Em seguida devia colocar sobre o estrado da
moda dos taumaturgos orientais. O certo é que a balança uma coberta, não importava de que espé-
médium desapareceu, desmaterializou-se! Ao térmi- cie, para que o Espírito materializado não ficasse
266 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
alguns anos entre os indígenas do Oesteamerica-
em contato com a madeira ou o metal. O.pesquisador no, na. região. em qu.e vivera o Espí~to il1dígenª, ofe-
concordou plenamente com a entidade-controle. Em recendo, aSSim, valioso testemunhoôlil autenticida-
breve, reapareceu a menina Brink. Ela avançou, per- de da língua falada pelo Espírito-guia:
correu o círculo, tocou em várias pessoas e. aproxi- Encerrado os trabalhos, o CoronelOlcoU, muni-
mou-se da balança. O coronel estava sentado, pronto do de uma lâmpada, entrou no interiordo gabin~te e
a agir, com uma das mãos no peso e a outra no mar- encontrou a médium exatamente tal como a havia
cador, e, assim que ela subiu, tomou-lhe o peso, sem deixado antes de começar a sessão;. todos os fios
perder um segundo. Ela se retirou para o gabinete; e de linha e selos dosin~te estavam intatos. Elizabeth
então leu a marcação à luz de um pequeno fósforo: Compton conservava-se sentada, com a clilbeça
pesava, apenas, setenta e sete libras inglesas. apoiada contra a parede, o rosto pálido e frio COmo
O Espírito tomou a sair, e imediatamente o co- mármore, visíveis as pupilas sob as pálpebras en-
ronel penetrou no gabinete, examinou tudo com o treabertas,sem respiração esem pulsação.
maior cuidado: como antes, não encontrou vestígio Verificados os fios de linha e osselos do§inete
da médium. A cadeira aí permanecia, mas nenhum pelos presentes, o coronel cortou com uma tesoura
corpo nela se apresentava! O coronel pediu à crian- e levou, segurando a cadeira pelo assento e espal-
ça-Espírito que, sendo possível, se tomasse mais dar, a médium em estado cataléptico para o ar livre.
leve, e ela subiu na balança. Tão depressa como da Ela permaneceu assim dezoito minutos sem movi-
primeira vez, colocou a balança em equihbrio, e, as- mento; av~dá yoltou-Ihe. lentamente ao corpo, até
sim que ela se retirou, leu no marcador o peso de que a resplraçao, o pulso e a temperatura atingis-
cinqüenta e nove libras. sem o seu estado normal...
A menina Brinck reapareceu ainda uma vez, e, Dois anos depois, no início de 1876, .0. Dr.E
então, percorrendo toda a sala, acariciou a cabeça Newbrough fez idênticas experiências com Elizabeth
de um, a mão de outro, sentou-se nos joelhos da Compton. O fato é contado pelo Dr. Sinamons, em
Sra. Hardy, pôs suavemente a mão sobre a testa do um dos Congressos da Associação Nacional. dos
coronel, acariciou-lhe as faces e subiu no estrado da Espiritualistas (EUA), realizado em dezembro da-
balança para permitir a última prova. Desta vez não quele ano e publicado na revista The Spiritualist.
Eis o relato ôo Dr. Sinamons:
pesava mais de cinqüenta e duas libras, apesar de
não se notar, do começo ao fim, nenhuma diferença, "O Dr. E. Newbrough lhe contara como ele
quer no vestuário, quer na aparência corporal... amarrou a Sra. Compton com cordas encera-
Terminado o teste, a menina Brink não apare- das, e como fixou no soalho seu vestido de al-
ceu mais. Depois de se terem escoado alguns minu- paca escura. Depois de prendê-Ia desse modo,
tos, o grupo foi interpelado pela voz baixa, profunda tomou lugar no círculo de assistentes, que se
e gutural do chefe índio que se mostrou à porta. achava do lado de fora. Em seguida, o Oro
Uma conversação, em idioma desconhecido da Newbrough viu sair do gabinete mediúnico um
maioria dos assistentes, estabeleceu-se entre o sil- ser materializado que era menor que a Sra.
vícola e o Sr. Hardy, um dos presentes, que habitara
AS MULHERES MÉDIUNS
268 AS MULHERES MÉDIUNS
Compton e todo vestido de branco; seria preci-
so, disse ele, trinta ou quarenta metros de pano
para confeccionar a vestimenta. "
<? pesquis~dor foi C9nvidado pelo Espírito a
examinar o gabinete, e ai entrando nada mais en-
controu a não ser a cadeira vazia da médium. Tor-
nou a sair, falou com o Espírito e pediu-lhe um pe-
daço do seu vestuário. Este lhe respondeu:
- "Se cortardes algum pedaço, ele faltará na
roupa da médium" - e acrescentou: "Em tal caso CORA L V. RICHMOND e EMMA HARDINGE
seria preciso presenteá-Ia com um novo vestuário." ,
A!nda assim,.o Dr. Newbrough cortou um pedaço BRITIEN
do tecido da vestimenta branca do Espírito, mais ou
menos do tamanho de sua mão. O Espírito entrou no
gabinete, e, instantes depois, o pesquisador foi convi-
dado a entrar, encontrando a médium presa pelas cor-
das enceradas e a sua roupa fixada no soalho. No seu Essas médiuns despontaram numa época mar-
vestido de alpaca escura havia um buraco exatamen- cada por arraigados preconceitos. Vivia-se a Era Vi-
te igual ao pedaço de tecido branco cortádo pelo Df. toriana, quando a Inglaterra desfrutou de imenso
Newbrough! Deve-se observar que idêntico fato várias prestígio internacional. A "Victorian Age", nome pelo
vezes fora constatado nas sessões realizadas com a qual é conhecido o reinado da rainha Vitória, consti-
extraordinária Elizabeth d'Espérance. tui um dos momentos de maior fastígio na história
Posteriormente, o Dr. Newbrough verificou que do império britânico. Entretanto, e a despeito do alto
o pedaço de tecido cortado do vestido branco do nfvel que ating~u a ~<:onomia inglesa, prevaleciam rí-
Espírito se ajustava perfeitamente ao espaço exis- gidas concepçoes etlcas, sustentadas na ancestrali-
tente no vestuário de alpaca escura da médium. De- dade dos valores patriarcais, em que as mulheres
pois, fez examinar e analisar esses tecidos con- não usufruíam de nenhum poder, quer fosse políti-
cluindo que em tudo eles eram semelhantes. Embo- co, social ou financeiro. Admitem, alguns autores,
ra tenha acontecido, tal fato, com as médiuns Eliza- que o exercício da mediunidade apresentava uma
beth Compton e Elizabeth d'Espérance, este jamais atividade na qual os sexos se igualavam. Havia
mais médiuns mulheres do que homens, constituin-
o~orreu com ~. médium .FI?rence Cook, pois Katie
do-se "um passaporte para a riqueza, a fama, •a
Kmg, o Espmto materializado nas sessões do
aventura!".
Prof. William Crookes, imediatamente recompunha A inglesa Emma Hardinge Britten e a norte-
os pedaços cortados em suas vestes e de modo es-
-americana Cora L. V. Richmond, ambas "conferen-
pecial, nunca se notou no vestido de veludo preto
da médium qualquer falha. cistas de transe", cuja atuação incluía magníficos
discursos proferidos sob inspiração de inteligentes e
270 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 211
hábeis Espíritos, acabam por conquistar o hostil pú- niais. Cora Richmond, v. g., casou-se edivorci()lH5.S
blico masculino, provavelmente não tão impressio- pelo menos três vezes, o que se constituía numa im-
nado pelos Espíritos, mas pelo talento e versatilida- perdoável afronta aos valores. sociais vigentes, ab-
de das sensitivas que falam, por mais de uma hora, solutamente refratários à liberdade e ao direito de
de "improviso". escolha.
Para Cora Richmond, a oratória era um dos No que diz respeito a Emma Harding Brittsn
seus triunfos; todavia, a sua suave e fascinante be- (1823-1899), além de oradora inspirada, merecendo
leza cativava a todos, especialmente os repre- o título de primeira oradora da época, atribuído pelo
sentantes do "sexo forte". jornal Daily Telegraph, investiu, com inusitada ênfa-
Ela, em meio à onda avassaladora dos precon- se, na divulgação dos postulados espíritas, fundan-
ceitos vitorianos, discorria, com tranqüila convicção, do o semanário Two Worlds e a "Federação Nacio-
sobre os direitos da mulher, um assunto realmente nal do Espiritismo", que, onze anos mais tarde, tor-
palpitante e, sobretudo, revolucionário. Henry James nar-se-ia a "União Nacional do Espiritismo".
(1843-1916), que teve a oportunidade de ouvir a jo- Nascida em 1823, a leste de Londres, filha de
vem Cora Richmond, fê-Ia uma de suas persona- um capitão marítimo, percorreu vários países, entre
gens, na obra "The Bostonians" (1886), na figura da os quais, América do Norte, Canadá e Austrália. De
heroína Verena Tarront. Neste livro, o autor de "A volta de uma viagem, fixou residência em Manches-
Taça de Ouro"(1904) associava, injustamente, o Es- ter, casando-se, em 1870, com o Dr. Britten, tão es-
piritismo ao então nascente movimento feminista pírita quanto ela.
(condenando a ambos), que espoucava, por assim Certa feita, quando estava de passagem por
dizer, sob a égide das faculdades mediúnicas de Nova Iorque, foi conduzida, a convite, a uma sessão
Emma HardingeBritten, Cora Richmond e de outras espírita, quando, em estado de transe, ouviu a voz
notáveis medianeiras, em várias partes da Europa e de seu irmão falecido, Tom, que lhe disse: "Volte
do "Novo Mundo". para mamãe, ela lhe contará que achou algo no ve-
HenryJames (1843-1916), com seu prestígio, lho baú, que vale seu peso em ouro." De volta à In-
tomou-se um dos mais ferrenhos detratores do Es- glaterra, ela encontrou, no mencionado móvel, um
piritismo (enquanto seu irmão WiIliam pesquisava a desaparecido retrato de Tom. Isso a levou a desen-
portentosa faculdade mediúnica da Sra. Piper), vis- volver seus dons mediúnicos, que surpreenderiam a
to, por ele, como uma séria ameaça à família e à or- ela própria, assim como aos pesquisadores. Numa
dem natural. A verdade, porém, é queo movimento das sessões experimentais, em que estavam pre-
espírita surgiu, não apenas na Inglaterra, mas na sentes importantes pesquisadores, os assistentes vi-
Europa, a partir do lançamento de "O Livro dos Es- ram uma pesada mesa de madeira saltitar, afastar-se
píritos", veiculando idéias e valores jamais cogitados de Emma, elevar-se suavemente, à maneira de um
nas sociedades européias, onde pontificava o divór- pássaro e atingir o teto da sala. Todos descobriram
cio, verdadeiro libelo·ao atávico e dogmático concei- que estavam em presença de potente médium. Em
to teológico da indissolubilidade dos laços matrimo- rápida sucessão, Emma acrescentou, aos seus
272 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 213
dons oratórios, a levitação, a clarividência, a escrita
automática, a psicometria e a cura espiritual.
Escreveu as seguintes obras: "Modem Ameri-
can Spiritualism" (obra constantemente citada pelos
grandes pesquisadores); "Nineteenth Century Mira-
eles" e "Faith, Fact and Fraud of Religions History".
Afirma Sir Conan Doyle em sua obra "The His-
tory of Spiritualism" que nenhuma história do espiri-
tualismo seria completa sem referências a essa no- OTfuA DIOGO
tável senhora, que foi chamada o Paulo de Tarso fe-
minino do Movimento Espírita!

A Editora Cultural Espírita Uda. então com


sede na Cidade de São Paulo, lançou na década de
60, o livro sob o título "Otília Diogo e a Materializa-
ção de Uberab,a", de autoria do jornalista e escritor
Jorge Rizzini. E um trabalho sobre a médium minei-
ra da cidade de Andrada (MG), inicialmente publica-
do pelo jornalista Salomão SGhartzman, repórter da
revista Fatos e Fotos, edição de 3 de agosto de
1963.
Eis o relato do referido repórter, transcrito por
Rizzini na obra supracitada:
"Quero relatar de maneira minuciosa tudo que
eu vi na sessão espírita do Centro Paz e Amor,
na cidade de Andrada, no interior de Minas Ge-
rais, no dia 17 de julho último (1963). Eu e Ge-
raldo Mósi, dois descrentes em matéria de Es-
piritismo, viajamos mais de 400 quilômetros
para comprovar a materialização de um Espíri-
to e trazer aos leitores de Fatos e Fotos o rela-
to honesto dos 120 minutos que passamos no
interior da casa número 138 da Rua do Merca-
do.
AS MULHERES MÉDIUNS 275
274 AS MULHERES MÉDIUNS
"Em toda a minha vida, eu jamais havia assisti- "Éramos, numa sala de uns vinte· ecinfP
do a qualquer trabalho dessa natureza. Movia-me tros quadrados, 34 pessoas, entre. hOfTJens e
o desejo da reportagem, tão-somente, imbuído mulheres. O silêncio era total. A voz de Antenor
de um respeito simples que todos guardamos era forte mas simpática. Durante 30 fTJinutos,
dentro de nós quando nos defrontamos com ele falou' na bem-aventurança da vida extrater-
algo desconhecido. Confesso que, de início, rena. Também um capítulo do Evangelho foi
antes que começasse a sessão, alimentei a lido. Quando se deu por satisfeito e antes que
vontade de descobrir. ufTJé3. possível fraude. todos passássemos a uma outra sala, três pas-
Meus olhos bailaram de cá para lá, de baixo sistas percorreram um por um dos assistentes
para cima, procurando um teto falso, um túnel, - nós dois inclusive - fazendo gestos sobre
um buraco, uma porta secreta, qualquer coisa, as nossas 'cabeças, tirando os maus fluidos
enfim, que me levasse a pôr em dúvida a serie- que porventura tivéssemos trazido. Benzidos,
dade daquele espetáculo. Nada encontrei. A penetramos na sala onde se daria a materiali-
médium, uma. mulher baixa, magra, aparentan- zação.
do 30 anos, naquela quarta-feira, .com 38 graus
de febre, voz fina de mulher do interior, usando "Homens, de um lado, mulheres de outro, Ante-
um vestido largo em um suéter grosso e sapa- nor conduziu a médium OtJ7ia até um tablado
tos baixos, dava-me a idéia de qualquer coisa de madeira, onde uma cadeira especial a espe-
incomum. Seu nome: Otília Diogo. Casada, rava. Foi amarrada com duas correIas que se
mãe de duas filhas. fechavam por um cadeado. A chave ficou em
poder de Antenor.
'~té aquele momento - quando o presidente do '~ minha expectativa aumentava. Subi até o ta-
Centro, Antenor Risso, preparava a. assistência, blado e examinei o local onde OtJ7ia já estava,
discorrendo sobre a necessidade que temos de pois, assim que a sessão c0f!1eças~e uma cor:
expulsar de nossas mentes e corações a. vaidade, tina a separaria de todos nos, a fIm de que la
o orgulho e a grandeza mesquinhos, a fim de não penetrasse a mínima réstia de luz. O t~to
que possamos nos aproximar mais e mais de Je- era de cimento, como as paredes, que tambem
sus - eu não imaginava o que para miÇ?, estava não tinham o menor defeito, rachadura ou por-
reservado, para alguns instantes depois " ta. Algumas garrafas com água ficavam ao seu
lado. colocadas pelos crentes esp~r~nços~~ de
que o Espírito ali pusesse remedlos diVinOS
1. Esclarece o jornalista Jorge Rizzini que foi Antenor Risso. quem de-
senvolveu a mediunidade de Otília Diogo. dentro dos princípios kardequianos.
para os seus males físicos. Uma vitrola e al-
Antes esteve obsidiada durante anos. só encontrando a cura quando seu Espírito guns discos também se, ~ncontravam'pf!rto da
Guia. Irmã Josefa. se manifestou. (Nota do Autor.) médium: era para o Espmto tocar a muslca que
desejasse.
276 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 217
"Geraldo Mósi tomou posição com a máquina e "Eu continuava na cadeira, enquanto Mósi
eu me sentei no lugar que me fora reservado. manecia agarrado à. máquina e ao flash.
Antenor suplicou que todos rezassem com fer- dens severas haviam sido dadas no sentido
vor, a fim de que o fenômeno pudesse ocorrer, que somente tirasse fotografias depois da auto-
fortalecendo a mediunidade de OtJ1ia. rização do próprio Espírito. Do contrário, a luz
'jt\ luz foi desligada. A escuridão era absoluta, e do flash cegaria para sempre a médium. Obe-
eu não enxergava a minha própria. mão. Cânti- decemos para evitar qualquer tragédia.
CX?s, preces e invocações começaram a ser ou- "De repente, em meio à. escuridão,· vislumbrei
vidos. Todos rezavam em voz alta. Da médium, um vulto branco. Era o Espírito que aparecia e
comecei a ouvir sons guturais, típicos de ânsia que se anunciava como Irmã Josefa. Todos
de vômito. Alguns dos assistentes tinham tam- renderam graças a Deus. Fiquei extático. A
bém espasmos. Senti que vomitaria e a custo preocupação de descobrir qualquer indício de
consegui me dominar. Os segundos se passa- embuste tirou-me o medo. Mas não vi nenhu-
vam e eu esperava a qualquer momento a ma- ma mistificação. E a Irmã Josefa lá estava com
terialização de Irmã Josefa. uma pequeníssima parte de seu rosto e a larin-
"Eu sabia que essa Irmã Josefa tinha vindo da ge iluminadas por uma luz fosforescente. Não
Alemanha, com 17 anos, entrando para um se lhe viam os olhos, a boca e o nariz. A lumi-
convento na cidade de Itu, no interior de São nosidade diminuta de uma parte de sua laringe
Paulo, lá conheceu um padre. Dessa ligação ilí- - repito - era o que se enxergava. E Josefa
cita nasceu Otília. Irmã Josefa morreu há nove falou.
anos. Tempos depois de sua morte, seu Espíri-
to passou a se manifestar na filha. Otília come- "Josefa falou com um sotaque alemão que me
çou a desenvolver a mediunidade. E a primeira surpreendeu. Abençoou a todos e disse estar
materialização de sua mãe foi conseguida há satisfeita com a presença de dois homens de
quatro anos, quando Josefa apareceu, dizendo, imprensa que ali tinham vindo conhecê-Ia. Para
entre outras coisas: cada frase, ela repetia: 'Viva Jesus, viva Je-
sus!'.
' - Quando passei para o lado de cá, a única
virtude que trouxe foi a de ter tido uma filha. ' 'jt\ntenor destacou-se da assistência e pergun-
'jt\ materialização é conseguida pelo ectoplas- tou se o fotógrafo poderia tirar umas chapas.
ma que escorre da boca e do nariz da médium Irmã Josefa, numa voz muito meiga, envolven-
- daí as ânsias de vômito. Com o plasma da te, disse:
médium, o Espírito molda seu corpo e aparece. ' - Sim, e por que não?'
'Se a flor exala um perfume, por que nós, mor-
tais, não teremos qualquer coisa que emane "O flash explodiu pela primeira vez dentro da-
sem que percebamos?'- argumenta Antenor. quela colossal escuridão. Na claridade momen-
218 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 219
tânea, vi o Espírito materializado numa vesti- '-- Antenor entregou a cruz. A
menta branca, comprida, tocando o chão. se o pai estava bem.
"'Graças a Deus', repetia a assistência. 'Viva
Jesus', repetia sempre Irmã Josefa. Eu não ' - Está bem e agora estará melhor, porq[JfJ
queria acreditar no que via. Mas via! Não podia andará comigo' - disse irmã Josefa, enquanto
deixar passar aquela chance de entrevistar um sua testa se movia para cima e algumas vez~s
Espírito. Tateei na escuridão a mão de Antenor para0 lado.
Rossi, que sentava próximo de mim, e pergun- "Novamente o flash espocou e, a todo instan-
tei-lhe se poderia conversar com a Irmã Josefa. te, Irmã Josefa repetia: 'Viva Jesus'. Aspreces
ele transmitiu minha pergunta e obtive a autori- eram continuadas. De. repente, a música·. do
zação. Levantei-me e falei: disco: voz de Inesita Barroso cantando uma
" - Vim de longe para falar com a senhora... modinha típica em que falava de Deus. Assis-
tência em silêncio, desta vez. Irmã Josefa
"'- Viva Jesus!' abençoa a reportagem de Fatos e Fotos e diz
"- ...e quero saber se tenho bons fluidos para que gostou muito do fotógrafo. Pergunta-lhe. o
isso. nome. Mósi, do fundo da sala, ensaia um 'Ge-
raldo'. Antenor repete: 'Irmão Geraldo'.
"'- Ótimo'
"O Espírito materializado avisa que vai embora.
"'- A senhora nasceu onde? O plasma está acabando. Todos renderam gra-
"'- Na Alemanha' ças a Deus e a luz é ligada novamente. No
ac/arar-se a sala, já não se vê mais a Irmã Jo-
"'- E onde morreu? sefa. Desapareceu.
"'- Em Campinas' "Meus olhos ardem. A cortina é aberta e a mé-
"'- Qual o número do seu túmulo? dium é libertada, sob a minha vista. Nenhum
buraco no chão, nenhum sinal de vestimenta
'Número dez' branca, nenhum teto falso, naçJa, nada. OtJ7ia
"Nesse instante, minhas pernas tremeram. Va- ainda se debate. Estrebucha. E acalmada. Um
cilei e me sentei. Mas meu espanto foi ainda líquido branco - o plasma - escorre de sua
maior quando a Irmã Josefa se dirigiu a uma boca. Mósi fotografa sobre o tablado.
moça que me acompanhava (e que ninguém
"Eu acabara de assistir a um espetáculo raro,
dali conhecia, absolutamente). Eu sabia que ti-
nha perdido seu pai, há sete meses. E Irmã Jo- como jamais sonhei ver! Durou noventa minu-
sefa lhe disse, estendendo-lhe uma cruz: tos - noventa minutos de escuridão total. Saí
da sala perguntando-me se tudo era mesmo
' - Entregue esta cruz à mocinha que perdeu o verdade. Não sabia responder. Vi, ouvi, senti. E
pai há pouco tempo. ' agora?
280 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 281
'~ reportagem de Salomão Schuartzman (re- rio cinematográfico o encontro da médium com
pórter, insisto, que não é espírita) - esclarece o jor- os médicos, com Chico e Waldo etc. E,asslm.
nalista e escritor Jorge Rizzini - "além de esplêndi- ampliar a 'Filmoteca Allan Kardec', criada
da divulgação doutrinária teve outro mérito: chamou nós. "
a atenção de dezenove médicos para a pesquisa E prossegue o autor de "Kardec, IrmãsFox e
dos fenômenos ectoplasmáticos. Essa equipe médi- Outros":
ca, que se vem reunindo na cidade de Uberaba, no
consultório de Waldo Vieira (o conhecido psicólogo "Nessas sessões de Uberaba, que meses de-
que.é também odontólogo e doutor em medicina) já pois se transformariam em escândalo nacional
examinou diversos médiuns de vários Estados e já e, por fim, em formidável publicidade em bene-
comprovou, exaustivamente, a fenomenologia apre- fício do Espiritismo, estariam presentes os de-
sentada pela sensitiva Otma Oiogo. O resultado des- zenove médicos. Além de D. OtJ1ia Diogo, tam-
sa pesquisa será, em breve, apresentado ao público bém seria experimentado o médium Antonio Al-
em uma obra revolucionária (Jorge Rizzini estava se ves Feitosa, de São Paulo.
referindo à obra "Otília Diogo e a Materialização de "No dia marcado, em companhia do psiquiatra
Uberaba", de sua autoria) que podemos considerar, Alberto Calvo, dirigi-me a Uberaba, levando co-
desde já, clássica dentro da bibliografia fenomenoló- migo a aparelhagem de filmar."
gica espírita - não obstante os ataques que lhe E o jornalista e escritor Jorge Rizzini descreve
promoveram repórteres. da revista O Cruzeiro quer os trâmites da sessão de que participou:
pela imprensa, quer pela televisão".
Em seguida, o jornalista e escritor Jorge Rizzi- '~ sessão a que assisti, foi realizada no peque-
ni, refere-se aos trâmites da sessão de materializa- no consultório médico de Waldo Vieira. E em
ção de que fora testemunha ocular, realizada sob as condições capazes de evitar possibilidade de
expensas da faculdade mediúnica de OlOia Diogo. fraude. Rigorismo absoluto, inclusive entre os
Conta ele: próprios médicos. Basta recordar que a nin-
guém foi permitido entrar na sala dos trabalhos
"Dias após fazer publicar em um semanário de trazendo lenço e nem relógio de pulso... Quan-
São Paulo uma reportagem sobre D. Otma Oio- to à médium Otma Oiogo, devia trocar de rou-
go e as materializações através de sua mediu- pa; ao invés do vestido colorido, que usava, de-
nidade (éramos, então, chefe de reportagem da via ela vestir uma camisola negra, exclusiva-
revista Edição Extra) foi o autor deste livro con- mente.
vidado por Francisco Cândido Xavier e Waldo
Vieira para assistir, em Uberaba (MG), sessões ..............................................................................
com a referida médium de efeitos físicos. Era o
primeiro contato que teríamos com O. OtJ1ia "Penalizou-me ver O. Otma Oiogo naquela si-
Diogo e ansiávamos por ele. Minha incumbên- tuação humilhante: vestida com roupa preta,
cia específica era registrar em um documentá- dentro de uma jaula e algemada, como uma
2112 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
criminosa. Mas, ela mesma pedira aos médicos "'- Viva Jesusf'disse
rigor excessivo na fiscalização de sua pessoa, com timbre brilhante e,
e esse pedido ela o fez com espontaneidade (oposto ao da médium)
admirável, pois, médium autêntica que é, sujei- "'- Viva! responderam
ta-se a tudo, sem nada temer. com o fenômeno'.
'Tudo pronto, os médicos sentaram-se em "E Irmã Josefa tomou a repetir, seu sotaque
seus lugares. Waldo Vieira leu um trecho do alemão:
Evangelho, abrindo, em nome de Deus, a reu-
'''- VivaJesus!'
nião e, em seguida, foi apagada a lâmpada do . :.' .
consultório.
'~ sala ficou em escuridão total. "E esparziu sobre todos gotas de perfume...
'~ pedido, Francisco Cândido Xavier, ao nosso "'- Sabem por que estou aqui entre vocês,
lado, fez uma lindíssima prece, citando várias meus filhos? Para dar provas de que a morte
vezes o nome de Jesus... não existe. Provas verdadeiras de que todos
vocês são imortais'.
"Mas, para grande espanto nosso, de súbito
ouvimos no lado esquerdo da jaula, onde se "E irmã Josefa,. mostrando-se muito feliz, deu
encontrava D. Otl1ia Diogo, ruídos estranhos... em verdade provas magníficas. Permitiu deze-
Ruídos guturais. Deram-me a impressão de al- nas de fotografias; entre elas, várias curiosas,
guém a extrair algo da boca da médium. D. Otí- como por exemplo, uma que mostra seu cor-
lia gemia. Era o transe que se iniciara. Segun- po ectoplasmatico sendo interpenetrado pe-
dos depois começou a liberação do ectoplas- las grades da jaula (grifos nossos). Outro fe-
ma; não apenas pela boca, mas também pelos nômeno curioso, foi o transporte de três fitas
ouvidos e nariz. Agora o ruído que chegava até coloridas para o consultório. Essas fitas. de
nós modificou-se: palavras ininteligíveis passa- pano foram colocadas na palma da mão de
ram a ser proferidas. Palavras gritadas. Eviden- Chico Xavier e, entre Chico Xavier e Irmã Jose-
temente, o Espírito manifestante estava a ex- ta havia uma distância de pelo. menos três me-
perimentar a garganta recém-formada com o tros; o Espírito, no entanto, para colocaras fitas
ectoplasma fornecido pela médium. na mão de Chico Xavier, não caminhou um
passo! Seu braço ectoplasmático é que se
............................................................................ alongou (grifas nossos).
"Nessa noite memorável, também se materiali-
"(...) diante dos dezenove médiuns surgiu a zou, através de D. Otília. o Espírito de Alberto
materialização total do Espírito Irmã Josefa; Veloso, ex-médico da Marinha. Materialização
magnífica, toda vestida de branco, com roupa total. Antes, fez-se anunciar nQ recinto espar-
de freira. Trazia uma luz na fronte e no tórax.
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
zindo gotas de éter. Foi inúmeras vezes foto- mas fui convidado e compareci com
grafaáo. Também um Espírito de uma criança, zero Foi para mim um conforto muito ar1milre
sem se deixar ver, conversou com os presen- poder abraçar a nossa Irmã Josefa materia-
tes. Em seguida, materializou uma gaita e ta- lizada em nossa reunião. Tive a felicidade
cou-a, permitindo que nós outros (inclusive eu) de conseguir sair numa foto em que eu esta-
a examinássemos. A gaita teria uns quinze va (para muita alegria minha) ao lado dela
centímetros de comprimento e cinco de altura. (grifos nossos).
Por tudo que nos foi dado ver, podemos afir-
mar. O. Otl1ia Oiogo nos faz lembrar os mé-
diuns do passado, Eusápia Palladino, que tam- "Eu tenho muita confiança na mediunidade de
bém era analfabeta, e Mme. d'Espérance nos nossa O. Otília, que é realmente uma senhora
seus grandes momentos de mediunidade. Prin- digna de maior respeito pela honestidade, pela
cipalmente, d'Espérance, inclusive, pela sua bondade, vamos dizer, pela espontaneidade
comovedora simplicidade fora do normal. com que se entrega aos controles, pelo respei-
to aos cientistas. Ela se entrega de coração às
Dias depois, Otnia Diogo era submetida a rigo- exigências que foram feitas para que se verifi-
rosa experimentação na residência do jornalista e casse a comprovação científica do fenômeno.
escritor Jorge Rizzini, em São Paulo. Informa o pes- De modo que eu respeito nela imensamente a
quisador que não fora necessário o uso intermitente bondade e esse amor à verdade. O. Otl1ia sub-
da lâmpada vermelha. As materializações do médi- meteu-se a todas as exigências que nós fize-
co Alberto Veloso e Irmã Josefa verficaram-se sob a mos, porque eu, de minha parte, entrei na ses-
luz branca, indireta e contínua. "Iluminação excessi- são sem um lenço no bolso. 11
va; e, no entanto. Alberto Veloso. nessa noite. apre-
sentou-se diante de nós sem véus. Com uma nitidez E o depoimento do extraordinário e bondoso
espantosa." médium de Uberaba se alonga em lúcidas e escla-
O testemunho de Francisco Cândido Xavier. recedoras considerações sobre a imortalidade e a
No final do livro. o autor oferece, à reflexão dos sobrevivência do ser, demonstradas por Jesus - o
leitores, o depoimento de Francisco Cândido Xavier mestre do Espírito, quando de sua luminosa estada
sobre as sessões de OWia Diogo, que fora gravado neste plano de provas e expiações!
em fita magnética. Ei-Io, em síntese:
................................................................................

"Eu tive o prazer de assistir experiências, havi-


das por deferência dos nosso amig,os da medi-
cina; experiências de caráter cientifico. Eu creio
mesmo que seria dispensável minha presença;
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
cial brasileiro aprenderam com ela as primeiras
tras.
Foi nesse período de sua vida, no ano de 1898,
que começou a sentir as primeiras manifestações de
suas faculdades mediúnicas. Nessa época, o gran-
de Bezerra de Menezes dirigia os destinos da Fede-
ração Espírita Brasileira.
Sob a sábia orientação de Bezerra de Menezes
c9meçou sua notável c?~reira mediúnica como psi-
ADElAIDE CÂMARA cografa, no Centro Espmta Ismael. O grande após-
tolo do Espiritismo brasileiro, pela sua conhecida
clarividência, prognosticou, certa vez, que Adelaide
(Aura Celeste) Câmara, com as prodigiosas faculdades de que era
dotada, um dia assombraria crentes e descrentes. E
essa profecia de Bezerra de Menezes não se fez
esperar, porque em breve Adelaide Câmara, como
Zêus Wantuil, o consa~rado autor de "As Me- m_édium audi~iva, começou a trô:.bal~ar na propaga-
sasGirantes e o Espiritismo' (FEB), dedica um capí- çao da Doutnna, fazendo conferenCias e receitando,
tulo da obra "Grandes Espíritas do Brasil" (FEB), à com tal acerto e exatidão, que o seu nome ficou co-
vida e obra da Sra. Adelaide. Câmara, "uma das
nhecido em todo o País.
mais. devotadas figuras femininas do Espiritismo no
Brasíl, bem conhecida pelo seu pseudônimo Aura Com a desencarnação de Bezerra de Mene-
Celeste". zes, em 1900, Adelaide Câmara aproximou-se do
Nasceu na cidade de Natal (RN), em 11 de ja- grande seareiro que foi Inácio Bittencourt e, nas
neiro de 1874, e desencarnou na cidade do Rio de sessões do Círculo Espírita "Cáritas", passou a tra-
Janeiro, em 24 de outubro de 1944, em plena Se- balhar como médium e excelente propagandista.
gunda Guerra Mundial. Era filha do De Henrique Casou-se,. em 31 de março de 1906, com o
Leopoldo Soares· Câmara e de D. Maria Balbina Dr. ~maro AbOlo Soares Câmara, seu parente pelo
Soares da Câmara. Espmto e pelo sangue. Os afazeres do lar e a cria-
Aura Celeste veio para a antiga Capital federal ção dos filhos levaram-na a se afastar compulsoria-
em janeiro de 1896, graças ao aUXilio de alguns mili- mente da propaganda ativa nos Centros Espíritas;
tantes do Protestantismo que também ela professa- mas, mesmo assim, não ficou inativa. Nas horas va-
va, os quais lhe propiciaram a oportunidade de le- ga~, mantinha conversação com os guias espiri-
cionar no Colégio Ram Williams, o que fez com mui- tuaiS, deles recebendo páginas admiráveis, dadas a
ta proficiência, durante algum tempo, até que orga- lume na obra "Do Além", em 21 fascículos, e no livro
nizou, em sua própria residência, um curso primário, "Orvalho do Céu". A partir daí, adotou o pseudônimo
onde muitos homens ilustres do meio político e so- de Aura Celeste.

288 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS


Em 1920, retoma à tribuna e aos trabalhos me- Ramiro Gama conta, em "Seareiros da Primei-
diúnicos, com renovada ênfase. O Dr. Joaquim Mur- ra Hora", os trâmites da desencamação de Adelaide
tinha era o médico espiritual que, por seu intermé- Câmara - "Via-a em seus últimos momentos; posei
dio, começou a trabalhar na cura dos enfermos e a minha mão em sua fronte alta e, mediunicamente,
necessitados, diagnosticando e curando as todos pressenti que o seu total desprendimento não tarda-
quantos lhe batiam à porta, desenvolvendo-se-Ihe, ria. O seu corpo ainda com pulsação ritmada, resis-
espontaneamente, diversas faculdades mediúnicas tia mais ou menos; mas, o seu Espírito já livre, an-
nesse período. sioso para alar-se às regiões siderais, como todos
Além das mediunidades de incorporação, audi- os justos, cuja consciência limpa não teme o mundo
ção, vidência, psicografia, curadora, intuitiva, pos- da Verdade e para quem a morte não é o aniquila-
suía Adelaide Câmara, ainda, a extraordinária facul- mento, mas a vida... 11

dade de bilocação. Muitas curas operou em várias


partes do Brasil, a elas se transportando em "desdo-
bramento f1uídico", sendo visível o seu corpo peris-
piritual, como aconteceu em Juiz de Fora e Corum-
bá, provadamente constatado por enfermos que,
sob os seus cuidados, a viram aplicar-lhes passes.
Poetisa, conferencista, contista e educadora,
deixou excelentes obras em prosa e verso, que assi-
nava com o seu pseudônimo, destacando-se "Vozes
D'Alma", "Sentimentais", "Palavras Espíritas", "Rumo
à Verdade" e "Luz do Alto".
Em 1924, volta-se para a assistência às crian-
ças órfãs e à velhice desamparada, conseguindo,
após muitas lutas, instalar, no bairro de Botafogo, no
Rio de Janeiro, no dia 13 de março de 1927, o Asilo
Espírita "João Evangelista", sendo ela a sua primei-
ra diretora. Dedicou, daí em diante, todo o seu tem-
po a esse grandioso empreendimento, até a sua de-
sencamação.
Médium sem vaidades, sincera ªhonesta, pra-
ticava a mediunidade como verdadeiro sacerdócio.
O Asilo Espírita "João Evangelista", pelo menos até
à época da edição da obra de Zêus Wantuil, ainda
existia (1969), dando continuidade ao trabalho aben-
çoado de Adelaide Augusta Câmara.
290 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 291
de; mas, jamais perdeu sua característica suavf3,fe-
minina e cativante. Viajou pelo México, Texas, India,
Canadá e Tibete.
"Não há dúvida" - informa Colin Wilson em
"The Occult"- "de que tinha adquirido alguma no-
toriedade como médium na Rússia." Em 1873 foi
para os Estados? Unidos, e encontrou o País volta-
do para as pesquisas espíritas, que eclodiram inso-
pitáveis, com as irmãs Fox, na cidadezinha novaior-
HELENA PETROVNA BLAVATSKY quina de Hydesville. Agora, os Espíritos viravam
mesas, faziam voar pela sala algumas peças do mo-
biliário, tocavam instrumentos musicais e se mate-
rializavam em sessões dirigidas por ilustres pesqui-
Helena Petrovna Halin Fadéef Blavatsky, (nas- sadores. Por essa época, Helena Blavatsky conhe-
ceu em Ekaterinoslav, Rússia, 1831 e desencamou ceu o Coronel Henry Steel Olcott, um americano
em Londres, em 1891). Era filha do Coronel Pedro simples, de gênio suave. Encantou-se com Helena
Halin, da famnia nobre germânica Machlemburg, e Blavatsky, cuja personalidade era, de fato, fascinan-
de Helena Fadéef, prince?a Dolg<?ronki, d~ no~reza te. OlcoU escreveu sobre a médium russa no jornal
imperial russa. Desde cnança fOI de carater Inde- de que era correspondente, conhecendo-a mais de
pendente, grande inteligência e inata capacidade perto depois que ela retornou a New York. Não hou-
psíquica. Teve educação esnyer~da, c~e:gando a ser ve, segundo se propalou na ocasião, envolvimento
hábil lingüista e excelente pianista. VISitou a Ingla- amoroso entre ambos. Ela se casou com um jovem
terra e a França (1845) e em 1848, aos 17 anos ca- da Georgia (USA), Michael Bettanelly, sete anos
sou-se com o General Nicephore V. Blavatsky, go- mais moço que ela, tendo ele prometido não se
vernador de Etivá, que tinha três vezes a sua idade. aproximar sexualmente dela. Quando Bettanelly ten-
Deixou-o após algum tempo, e deu início as .sué!-s tou romper o estranho compromisso, separaram-se.
viagens pelo mundo. Segundo o Conde Sergel ~It­ Ela, conforme enunciara, achava que o sexo "é um
te, e seu primo, Helena Blavatsky tomou-se artista desejo animalesco a ser controlado sem que se o
de circo, ensinou piano em Paris e Londres, foi as- sacie."
sistente do célebre médium Daniel Dunglas Home Afirma o pesquisador Colin Wilson, que Mada-
por algum tempo, dirigiu uma fábrica de fI~)res artifi- me Blavatsky possuía poderes mediúnicos defini-
ciais em Tífilis e , periodicamente, aparecia em sua dos. Durante toda a sua vida, afirmam os seus ami-
casa em Ekaterinoslav, mais gorda e estranha. gos mais íntimos, ruídos e batidas estranhas ocor-
Quando menina fora bonita, lábios sensuais, olhos riam em sua presença. O coronel Olcott costumava
azuis e grandes. Em pouco tempo, começou a en- solicitar sua ajuda quando se tratava de. investigar a
gordar, chegando a pesar 105 quilos, na meia-ida- atuação de médium sob suspeita de fraude. Um dos
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
casos mais famosos, daqueles examinados pelo Co- te um curioso sistema de misticismo oriental e oci-
ronel Olcott e Madame Blavatsky, destaca-se o da déntal 'doutrina secreta' e espiritualismo. Constituí-
médium Elisa White, que teria suscitado, em várias da a Sociedade Madame Blavatsky, com inusitado
ocasiões, a materialização de um Espírito chamado vigor, começou à escrev~~ sua 'bíblia'. Escrevia sem
Katie King. Os trâmites dessas sessões vêm relata- parar em escrita automatlca, ao que parece, paran-
dos na obra "People (rom the Other World". do pàra proceder a alguma pesquisa bibliográfica
O coronel Olcott acreditava, indiscutivelmente, sugerida pelos Espíritos que a assessoraram na ta-
nos poderes de Madame Blavatsky, chegando a refa O fruto desse trabalho mediúnico (embora se
fundar uma instituição - o "Clube dos Milagres", lhe façam algumas restrições em nível espírita), "Isis
que na realidade funcionava como uma espécie de Unveiled" - afirma Colins Wilson - "ainda pode
Centro Espírita, onde ocorriam memoráveis sessões ser lido com bastante proveito, nem que seja ape-
mediúnicas. Nessas sessões eram transportados (e nas pela extraordinária ousadia de suas idéias". ..
caíam do teto) encantadores textos musicais e cer- Ao tempo em que Daniel Dunglas Home emitia
tas instruções que provinham, segundo a médium, alguns comentários desdenhosos sobre Madame
de certos "Mahatmas" ("a grande alma") secretas Blavatsky e sua Sociedade, ela ~ecidi~ que ~o "pér-
que conhecera no Tibet. O coronel sempre seguia, à fido e materialista Ocidente" nao havia mais lugar
risca, as instruções dos papéis transportados (ou para quem cultua os yalores do Espírito. E partiu
materializados) pelos Espíritos. para a velha e mística India dos Mahatmas. Os seus
A partir 1875, Madame Blavatsky, juntamente poderes ocultos recrudesceram. Certa ocasião, pro-
com o Coronel Olcott, começou a deslanchar na car- vocou uma chuva de rosas sobre um grupo de eru-
reira que a tomaria célebre. "Um certo Sr. Felt" - ditos e pânditas; fez que uma chama se elevasse e
relata Colin Wilson - "fizera uma palestra para um baixasse de novo apenas apontando para ela e ma-
pequeno grupo de estudo a respeito dos segredos terializou uma xícara e um pires num convescote...
herméticos incorporados nas medidas das pirâmi- Helena Petrovna Blavatsky desencamou em 8
des. Explicou que essas secretas 'Leis de Proporção' de maio de 1891, aos 60 anos. Estivera gravemente
também podiam invocar Espíritos". enferma ao longo de seis anos, e apesar das seqüe-
O coronel imediatamente sugeriu que se deve- las de um mal cardíaco, da nefrite e da gota, sua
ria constituir uma Sociedade para estudar esses fa- vontade férrea manteve-a com vida como também
tos, com o que Madame Blavatsky concordou sem "lançando centelhas por toda a parte". Seu maior
pestanejar. Assim, surgiu a "Sociedade Teosófica". biógrafo John Symonds, não exagera ao afirm~r
este vocábulo, esclareça-se, não foi cunhado nem que madame Blavatsky foi "uma das mulheres mais
pelo Coronel Olcott nem tampouco por Madame notáveis que já existiu".
Blavatsky, mas pelo Bispo Martensen, quando se re- Aleister Crowley acreditava-se u"!a ree.ncama-
feriu ao sistema de Jacob Boehme, como teosofia, ção de Eliphas Levi", - especula Cohns W!'son -
em seu clássico sobre Boehme (1882). Com a ma- "nesse caso Madame Blavatsky deve ter sido uma
dame Blavatsky, todavia, teosofia "era, basicamen- reencarnação de Cagliostro. Possuía o mesmo ca-
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
risma, o mesmo espírito de aventura, a mesma mis- duções poéticas, amigo de Madame Blavatsky afir-
tura de humor e verdadeira capacidade espiritual. " ma que um.dia viu uma luz a vagar pelo retrato de
E mais: Kc:>ot H~oml (qu,e Madame Blavatsky pintara por
onentaçao do gUia). Quando ele se aproximou, a luz
"Era médium no mesmo sentido em que foi Oa-/
desapareceu, e Madame Blavatsky comentou: "Re-
niel Ounglas Home; ocorriam fenômenos quan"(
do ela estava por perto. A mulher que lhe fez ceava que fosse mediunidade, mas foi apenas clari-
vidênci~". ~ explicou qu~ a di!erença era que se fos-
companhia nos últimos anos conta o que OCOIr-
se medlunldade a luz nao teria desaparecido ante a
reu numa noite em que entrou no quarto de aproximação do poeta.
Madame Blavatsky para apagar uma vela. Ao
voltar para a cama - o aposento era dividido Helena Petrovna Blavatsky é figura importante
por um biombo - , a vela acendeu novamente. na galeria d?s g~and~s méd,iuns, que, de qualquer
sorte, cumpnu ate o fim da Vida a sua missão neste
Apagou de novo, e desta vez ficou observando plano em que o livre-arbítrio é a semeadura e o so-
o pavio até que desapareceu o último vestígio frimento é a obrigatória colheita...
da brasa; de repente, a vela acendeu sozinha.
Na terceira vez que repetiu a operação, viu
uma mão cor de pele escura, descamada,
acendendo o pavio. Quando finalmente conse-
guiu despertar Madame Blavatsky, esta lhe ex-
pl[cou que tinha estado em seu corpo astral,
éonversando com o "Mestre", e que acordar
subitamente era perigoso - quase lhe fez pa-
rar o coração. "
Na primeira vez em que ela esteve com A. P.
Sinnet (autor da obra "Esoteric Buddhism") ele co-
mentou que havia tentado o espiritualismo, mas não
conseguira sequer uma batida, um ruído; ao ~ue ela
respondeu: - "Mas isso é a coisa mais faci/". E
imediatamente ouviram-se batidas (raps) por toda a
sala. O coronel Olcott e outros discípulos de Mada-
me Blavatsky viram Koot Hoomi Lal Singh, um dos
Espíritos que assessoraram a médium russa, com-
pletamente materializado, bem como outros mes-
tres, que deixaram, como prova de suas visitas ob-
jetos de várias naturezas. '
.WiHiam Butler Yeats (1865-1939), prêmio Nobel
de Literatura de 1923, autor de extraordinárias pro-
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
do, porque demonstra quanto o Espiritismo inde-
pende do homem para triunfar. 11
Relata, ainda, o notável esperantista que ne-
nhum conhecimento da Doutrina nem inclinação
para estudá-ia existia na pequena famma de Luiz e
Dolores Bacelar. Nem por simples curiosidade, ja-
mais haviam tratado de Espiritismo. Falece de re-
pente a mãe dele, muito amiga da nora, e ela pas-
sou a ter síncopes inexplicáveis para a medicina ofi-
OOLORES BACELAR ciaI. Foi-lhe então sugerido procurarem um Centro
Espírita para tratamento da jovem senhora. Na sede
do Centro, a dirigente dos trabalhos percebeu logo a
situação e fê-Ia assentar-se à mesa dos médiuns
em desenvolvimento.
"Quando conhecemos pessoalmente o médium Os Espíritos não se fizeram esperar: começa-
Francisco Cândido Xavier", relata Ismael Gomes ram a manifestar-se por incorporação. Dado um lá-
Braga (1891-1969) na revista Internacional de Espi- pis à senhora, começaram a escrever mensagens.
ritismo (1952), 'Já a sua mediunidade se achava ple- Comunicaram-lhe que só poderia praticar a mediuni-
namente desenvolvida, com grandes livros publica- dade nas reuniões do grupo, em sessões, porque os
dos. E justamente impressionado com esses livros, adversários espirituais procurariam, a todo o custo,
fizemos nossa primeira viagem a Pedro Leopoldo criar sérios obstáculos ao processo de desenvolvi-
(MG), a fim de assistir a sessões com o médium. mento; nas sessões do grupo, os Espíritos-Guia im-
Depois voltamos mais 14 vezes àquela cidade, onde pediriam tais e nefastas tentativas.
não nos fartamos de admirar as maravilhosas facul- A título de exercício da mediunidade, foi inicia-
dades do médium. Não lhe assistimos, portanto, às do um longo romance de mais de trezentas páginas,
primeiras produções. escrito numa rapidez vertiginosa e com grafia pouco
''Agora estamos assistindo ao desenvolvimento legível. Ao passar a limpo esse romance, foram co-
de faculdades muito semelhantes às de Francisco metidos muitos erros de pontuação, engano e troca
Cândido Xavier, mas ainda no começo do desenvol- de palavras etc.
vimento, o que nos permite acompanhar o processo De qualquer sorte é um romance reencamacio-
evolutivo das faculdades, constituindo, as falhas, in- nista com o título "Mansão Renoir". Apenas termina-
teressante objeto de estudo. do o primeiro romance, foi iniciado outro, ainda
"Trata-se de uma senhora jovem, casada, mãe maior, com o título "Nas Margens do Eufrates". Os
de três filhos, de educação católica, tanto ela como romances são escritos pelo Espírito encarregado do
o esposo inteiramente alheios ao movimento eSf?írita desenvolvimento das faculdades mediúnicas de 00-
até há pouco tempo. Este fato merece ser sublmha- lares Bacelar.
298. AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
Primavera em flor sente ele a vida!
Nos intervalos da psicografia dos romances, Mas quando sofre, a sua alma desiludida
começaram a aparecer os poetas, convidados pelo Veste de sombrias cores toda a Natureza!
Guia: Carmen Cinira, João de Deus, Casimiro Cu- As manhãs de Sol já não vê...
nha, José Duro, Olavo Bilac, Rodrigues de Abreu, De mágoas presa
Guerra Junqueira, Raymundo Correia, Bittencourt A sua alma nublada, pela dor vencida,
Sampaio, Castro Alves, Thomaz Ribeiro, Emílio de Perde a fé, perde a crença, e tomba
Menezes, Abel Gomes e outros, que contribuíram, [enfraquecida,
com suas produções poéticas, para a propagação Apenas vendo luto em tudo, só tristeza...
dos princípios espiritistas, sempre escrevendo na- mas ao retomar ele às regiões Infinitas,
quela rapidez vertiginosa, com grafias diferentes das Onde as dores transmudam-se em graças
outras e todas elas diferentes da letra normal da [benditas.
médium, que é muito lenta. Qual alma, arrependida, lamenta-se e chora:
Certa feita, José Duro começou um soneto, - Por que na sua noite não viu as estrelas?
mas não pôde acabar: todas as tentativas de escrita Cega, passando pelas belezas sem vê-Ias...
mecânica lhe falhavam no primeiro terceto. A mé- Por que no Ocaso não esperou pela Aurora?
dium despertou do êxtase sonambúlico de que é
completamente inconsciente, e o Espírito passou a "Todas as ingênuas alegações dos opositores
ditar-lhe o imenso soneto. Dolores Bacelar tomou o do Espiritismo" - acrescenta Ismael Gomes Braga
ditado, mas percebendo mal as palavras. O soneto - "que atribuem a psicografia ao pastiche, esbor-
ficou defeituoso. roam-se diante da rapidez com que foram escritos
Na sessão seguinte, José Duro voltou a escre- estes versos, sob os nossos olhos, por uma pessoa
ver as correções, indicando onde aplicá-Ias, e deu cuja cultura literária não dá nem para escrever uma
então por terminado o soneto. Fato semelhante carta, e muito menos para escrever versos, por mais
ocorreu com Olavo Bilac e depois com Castro Alves: simples que fossem. "
as poesias saíram com defeitos e só na sessão se- Ademais, Dolores Bacelar, conseguiu escrever
guinte escreveram eles as emendas. dois grandes romances, romances psicografados
Mesmo com imperfeições, os versos são sem- em sessões públicas, nuns vinte minutos por sema-
pre em estilo que identifica bem os poetas. Outras na, sob os olhos atentos de numerosa assistência,
vezes, o poema sai com defeitos e o poeta não o sem um minuto de reflexão, numa corrida frenética
corrige. Quase sempre os defeitos são pequenos: do lápis sobre o papel, coisa que nenhum romancis-
dois ou três versos errados num poema longo. Eis ta seria capaz de fazer, e muito menos uma jovem
um soneto psicografado por Dolores Bacelar atribuí- mãe de família, de instrução elementar incompleta.
do a Abel Gomes (1877-1934): Parece que o processo de harmonia, ou casa-
mento de fluidos, para que o Espírito possa movi-
"O homem, quando feliz, traz a sua alma mentar livremente o braço e a mão do médium, está
[acesa de alegrias.
AS MULHERES MÉDIUNS 301
300 AS MULHERES MÉDIUNS
sujeito a certas leis de simpatia ou afinidade espiri- do Gonçalves Crespo. São estas as que mais
tual do Espírito com o médium: um Espírito encon- pressionam, porque ninguém seria capaz de fazer
trou mais dificuldades que outros. No caso de 0010- versos assim: o lápis corre freneticamente sobre o
res Bacelar, parece que o máximo de dificuldades, papel, sob os olhos, de umas dezenas ou centenas
até agora, encontrou-o José Duro para transmitir so- de assistentes, de olhar fito na mão da médium.
netos; e que o máximo de facilidade está com Guer- Nenhuma hesitação, nenhuma parada para ler
ra Junqueira. o que foi escrito, nenhuma emenda, nenhuma mu-
A médium sofreu um pequeno acidente em ser- dança do lugar de uma vírgula: tudo já veio feito e
viços domésticos e ficou impossibilitada de compa- apenas agora é passado para o papel numa agita-
recer, como tencionava, à sessão pública de Evan- ção febril da mão direita da médium, enquanto a es-
gelho na Federação Espíritia Brasileira. No dia se- querda ampara a cabeça e impede que os cabelos
guinte, achava-se ela sobre o leito, lendo a Bíblia, lhe caiam sobre o rosto. Quando se detém, a obra
quando lhe apareceu, muito bem materializada, a fi- está acabada. A médium desperta daquele estado
gura luminosa de Guerra Junqueira. O visitante es- de transe e fica um tanto assombrada diante da pi-
tava sereno, sorridente, irradiando muita luz; mas râmide de papel escrito: diversas comunicações de
não lhe disse nada. Depois de uma breve perma- interesse de assistentes, um longo capítulo do ro-
nência, desapareceu. mance "Às Margens do Eufrates" e duas poesias.
Na seguinte sessão do Centro Espírita "Caba- São realmente de Antonio Cândido Gonçalves
na de Canagé", a médium compareceu e psicogra- Crespo estes versos? Não se sabe, mas, o que se
fou oitenta e tantas folhas de papel sobre diversos sabe muito bem é que não são de Dolores Bacelar,
assuntos. Uma das mensagens era um belíssimo porque mesmo em semanas de esforços, em plena
poemeto de autoria de Abnio Manuel Guerra Jun- calma, não seria ela capaz de fazer esses poeme-
queiro (1850-1923), que termina assim: tos; e com toda esta rapidez, nenhum gênio da poe-
sia seria capaz de escrevê-los.
"A alma, hoje sei, irmão, é qual brilhante Deve-se esclarecer ao prezado leitor que Anto-
[bruto, nio Cândido Gonça~ves Crespo viveu de 1846 a
Nublado pela jaça negra, pelo luto 1883. Nasceu nas proximidades do Rio de Janeiro e
Das paixões. Burilada, ela em rápido instante formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra
Transforma-se em esplêndido brilhante! e logo depois de formado casou-se com a escritora
E a veremos, estrela cadente, cair D. Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921).
Aos pés de D~us e, lá engastada, fulgir!" Aferia um dos biógrafos do poeta fluminense:
"Os seus versos delicados, sonhadores, precisa-
Na sessão de 28 de agosto de 1952, além de mente cinzelados, têm um encanto particular indefi-
diversas mensagens em prosa a médium Dolores nível", e outro: Dotado de notável delicadeza de
Bacelar recebeu duas produções em versos, ambas sentimentos, a que aliava um perfeito lavor de for-
assinadas pelo poeta luso-brasileiro Antonio Cândi- ma, sua poesia exerceu grande influência em Portu-
302 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
gal, quer no Brasil, e é considerada como das me-
lhores que a língua portuguesa já produziu". Tinha
ele 37 anos quando desencarnou e já possuía um
nome imortal como poeta. E volta, porque os tem-
pos são chegados, a colaborar na profunda transfor-
mação do mundo. O poemeto de Gonçalves Crespo
termina naquele peculiar estilo de quando vivia nes-
te "mundo de escarcéus":
"Chovam bênçãos de Deus ao que um dia, OPHELIA CORRALES
Por entre abrolhos, soube colher rosas,
E ofertá-Ias depois com alegria,
A todas as criaturas inditosas!"
Dolores Bacelar é uma das mais importantes fi- Ophelia Corrales é uma médium de San José,
guras no contexto das letras mediúnicas em nosso Costa Rica. Os Anais da Ciência Psíquica, Vol. Ix,
País. Suas obras, pela profundidade ética e doutri- De 1910, EI Siglo Espirita, da Federação Espírita
nária, inscrevem-se entre as mais expressivas pro- Mexicana e La Voz de La Verdad de Barcelona con-
duções transmitidas, à Terra, pelos abençoados têm relatos estarrecedores dos seus poderes me-
prepostos da causa do Espírito. diúnicos.
As sessões que Ophelia Corrales realizou fo-
ram dirigidas pelo Dr. Alberto Brenes, professor da
Academia de Direito, que, antes de presenciar os fe-
nômenos, era completamente cético.
Participaram da reunião, como assistentes, Ro-
berto Brenes Mesên, subsecretário do Ministério de
Instrução Pública e Ramiro Aguilar, diretor da Esco-
la de Segundo Grau de San José.
Quando se iniciou nos trabalhos mediúnicos,
Ophelia tinha 18 anos de idade.
Uma entidade se materializava com o nome de
Miguel Ruiz, e, quando isso ocorria, ela se mantinha
completamente consciente. Ele podia ser tocado,
seu coração podia ser sentido. Esse Espírito tinha a
capacidade de aumentar ou diminuir de tamanho.
Ora parecia de estatura alta, ora parecia de baixa
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
304
estatura. Entretanto, se se acendesse um fósforo, Realmente, muitas outras maravilhas foram
ele desaparecia imediatamente. . .. realizadas pelos Espíritos às expensas da mediuni-
O Espírito Miguel Ruiz se to~ou o g~la espm- dade de Ophelia Corrales. .
tual da sessões e geralmente, trazia consigo outros O Espírito Mary Brown começou se comunicar
Espíritos, entre os' quais um chamado "Mary Brown". através da psicografia. Em alguns momentos, ela
Este era o mais notável. .. _ colocava sua mão no ombro de alguém que se en-
Houve quem presenciasse a matenahzaçao de contrava presente e a escrita continuava ex~tamen­
até cinco Espíritos ao mesmo tempo, cada qual fa- te a mesma não se observando qualquer Interrup-
lando a sua língua natal. ção. Da mesma forma, se ela ou o Espírito Miguel
Ophelia Corrales conseguia projetar o seu du- Ruiz tocasse em alguma pessoa presente, esta co-
plo para fora da sala onde se realizavam as sessões, meçava a apresentar o fenômeno da xenoglossia,
permanecendo do lado de fora por um tempo longo. ou seja, a falar em línguas que lhes eram totalmente
O interessante desse fenômeno é que o duplo ves- estranhas.
tia uma roupa diferente da que usav~ ~ médium, Em ambiente iluminado por uma pequena lâm-
mas reproduzia sua voz e sua aparencla exat~s. pada, o Espírito Mary Brown levitava e ficava flu-
tuando no ar.
Quando foi pedido à médium, cuja voz era ouvida
Enfim, a mediunidade de Ophelia Corrales pos-
do lado de fora a conversar com o duplo, que trans- sibilitava aos Espíritos realizar fatos verdadeiramen-
mitisse a este um pente que estava em seu cabelo e te notáveis. Haja vista a sua multiplicação simultâ-
um lenço, os dois objetos vieram, imediatament~, nea em quatro personalidades espirituais diferentes,
através da parede. Além disso, atend,en~o a ,p~dl­ o que aconteceu em uma das reuniões. Três dessas
dos dos participantes da sessão, a propna me~~um personalidades incorporaram em uma pessoa e fa-
foi subitamente transportada para a sala ~e reu.nloes. laram assuntos diversos ao mesmo tempo, agindo
De forma similar, as crianças da famnla levitaram como se fossem independentes uma das outras, en-
várias vezes e foram trazidas do jardim para a sala quanto a quarta, a uma certa distância, cantava.
de sessões que se encontrava com as portas tran- Para decepção de seus amigos, Ophelia Corra-
cadas. les decidiu interromper suas sessões em 1914, o
Enquanto na médium estava incorporado um que causou uma irreparável perda no contexto das
Espírito o seu duplo sempre podia ser visto andan- pesquisas supranormais.
do pela'sala e, sob comando, a médium falava com
sua própria voz. ._
Fato notável foi observado em certas ocasloes
em que a médium. não estava incorporada. Ouvia-se,
claramente, o duplo acompanhando a canção que o
Espírito Mary Brown cantarolava. A voz emanav,a
distante do local onde se encontrava o corpo da me-
dium.
306 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 307
Frederica Hauffe possuía grande sensibilidade
para adivinhar, e fazia extraordinárias e impresssio-
nantes revelações do mundo espiritual. Os Espíritos
desencamados sempre estavam a sua volta, tanto
durante a noite como durante o dia, e muitas pes-
soas os viam no ambiente. O próprio Or. Justino
Kemer, quando certa vez se encontrava no quarto
da médium, presenciou a formação de uma espécie
FREDERICA HAUFFE de coluna cinzenta que aparentava ter uma cabeça.
O curioso é que Espíritos atormentados vinham
a ela solicitar ajuda para seus males, revelavam
seus segredos mais íntimos sobre atos que pratica-
ram na Terra quando encamados e que, agora, os
Mais conhecida como a Vidente de Prevorst, atormentavam.
através do livro publicado em 1828, pelo Or. Justi- Esses Espíritos faziam ruídos, davam panca-
nus Kemer, um médico e filósofo de Weinsberg. das, atiravam objetos pelo quarto. Chegavam ao ab-
Ela nasceu em 1801 e se casou em 1819. A surdo de tirar as botas de Frederica com toda vio-
partir de então conservou-se acamada. Por dez lência, nem mesmo respeitando a presença do Or.
anos contraiu quase todos os tipos de enfermidades Kemer. Por várias vezes, apagavam a luz ou faziam
até a morte. tremeluzir a chama da vela.
Frederica Hauffe tinha ataques convulsivos, Conforme revelou, os Espíritos lhe ensinavam
seu corpo ficava rígido como um cadáver. Neste es- a respeito da tríade corpo, alma e espírito. Diziam
tado, exercitava a mediunidade de incorporação, ti- que a alma era revestida de um corpo etéreo (ner-
nha vidências, fazia predições e manifestava uma vengeist) que mantém os processos vitais quando o
grande variedade de curiosos fenômenos espíritas e corpo está em transe e a alma vagueia. Após a mor-
anímicos. te, ele se retira com a alma, mas, posteriormente,
Era uma mediunidade altamente tumultuada e decompõe-se e deixa a alma livre.
obsessiva. Certa feita, ela falou, por três dias segui- A parte das revelações da Vidente de Prevorst,
dos, apenas em versos. considerada única, consiste na descrição de sistema
Em certas ocasiões, ela via, enquanto se en- de círculos, círculos solares e círculos da vida que
contrava acamada, o seu duplo, trajando um vestido correspondem às condições espirituais e à passa-
branco, sentado numa cadeira. gem de tempo. Elas são ilustradas por diagramas
Podia desenhar, com velocidade impressionan- surpreendentes. A interpretação é parcialmente for-
te, formas geométricas perfeitas com o ambiente em necida por cifras e parte por palavras de uma língua
completa escuridão. primeva escrita em ideogramas primitivos. Com
base em suas revelações, foi criado um círculo mís-
308 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
tico, sob a alegação de que os ensinamentos pos-
suíam profundas analogias com as idéias filosóficas
de Pitágoras, Platão e outros.
Esse círculo publicou um jornal próprio entre os
anos 1832 e 1839, cujos exemplares foram enfeixa-
dos, posteriormente, em 12 volumes.
Observou-se que o idioma utilizado pela Viden-
te de Prevorst, por ela denominado Língua Univer-
sal, é comparável, se~undo o Dr. Dee, ao hebraico.
Outro filólogo descobnu nesse idioma várias afinida- YVONNE DO AMARAL PEREIRA
des com o copta e o árabe. Tais caracteres escritos,
preservados pelo Dr. Kemer, estavam sempre co-
nectados a números. AI~uns são tão complicados
quanto os hieróglifos eglpcios. A própria Frederica
explicou que as palavras com números tinham um Yvonne , ~ereira nasceu a 24 de dezembro de
significado muito mais profundo que sem eles. Os 1906, num Sitio nos arredores da Vila de Santa Te-
nomes de objetos nessa língua expressavam as resa, município de Valença, Estado do Rio de Janei-
propriedades e qualidades das coisas. Ela a falava ro, hoje Cidade de Rio das Flores.
de forma razoavelmente fluente e, com o tempo, os . S~u. nascimento, segundo informações do pró-
que a ouviam podiam. entendê-Ia ainda que vaga- P~IO r:nedlco, aco~teceu depois de um baile na resi-
mente. O Dr. Kerner cita algumas palavras da estra- dencla de sua avo materna.
nha língua em seu livro, e elas foram traduzidas E.ram seus pais Manoel José Pereira, pequeno
numa forma abreviada para o inglês pela Sra. neg,?clante, e Ehzabeth de Amaral Pereira. Seus te-
C. Crowe, em 1845. tr~vo~, ~ortuguese~ de nascimento, assim como seu
blsavo, ,Judeus batizados e cristianizados em Portu-
g~I, emlg~ara"!1'para o Brasil, fugindo das persegui-
çoe~ d?s InqUlsl~ores. Também descendia de índios
brasileiros da tnbo Goitacás, por parte da bisavó
matema, encontrada perdida nas matas do Norte do
Est~do do Rio, com aproximadamente cinco anos
de Idé!de z durante u~a caçada promovida por seu
~etr~vo, nco faze~delro português no Brasil. Teve 5
Irmaos, todos mais moços, e um mais velho filho do
primeiro matrimônio da sua mãe. '
Manoel José Pereira, pai de Yvonne não foi
bom, c.omerciante: Por três vezes, tentou mànter um
negocIo e se arruinou, uma vez que favorecia os fre-
310 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
311
gueses em prejuízo próprio. Por isso, desistiu do co-
mércio e foi ser funcionário público, situação em que Aos 8 anos li o primeiro romance: era "Marieta
desencamou em janeiro de 1935. Devido à situação e Estrela", romance espírita, clássico, com um
financeira de sua família, Yvonne foi criada em um trf!cho desenrolado na Espanha. (...). Daí em
ambiente pobre, lutando com inúmeras dificuldades. diante pus-me a ler outros, profanos, tais como
.~ Escrava Isaura", de Bernardo Guimarães'
Com isso, ela aprendeu a viver modestamente,
"Iracema" e ''Ubirajara'', de José de Alenca/-
numa condição social humilde. Mesmo assim, seu
"Elzira", de cujo autor já não me lembro' "Paulô
pai, de coração muito generoso, hospedava, em sua e Virgínia", de Bernardin de Saint-Pierr~' etc e
casa, pessoas necessitadas, destituídas de recur- mais ~~rde livrc;s espíritas e outros prófanós,
sos, e, até mesmo, mendigos, alguns dos quais fo- como Werther', de Goethe, que li aos 14 anos
ram sustentados por longo período. e "Eurico, o Presbítero", de Alexandre Hercula:
Tais experiências de vida, Yvonne considerou no, na mesma época. Porque fossem livros
benéficas, pois a ajudaram a compreender as ne- e"!.prestados de outrem, eu os copiava todos, a
cessidades do próximo. mao, em cadernos de papel manilha que eu
Até os 10 anos de idade, ela viveu sob os cui- m~sma fazia, e os lia de vez em quando. Mintza
dados da avó paterna, devido às possíveis anorma- mae fechava os olhos a essa mania. Meu pai
lidades que se lhe apresentaram na infância e que, nunca soube, pois tudo isso eu ocultava dele
soube posteriormente, vieram de outras vidas. Após visto que ele não concordava em que eu lessá
os 10 anos, passou a habitar com os pais, vivendo romances, devido a minha pouca idade. Mas
em várias localidades do Estado de Minas Gerais. ess.e exercíc:io foi excelente para mim, aprendi
Com a desencarnação dos pais, Yvonne Pereira mUito, tomei gosto pela literatura (...)."
voltou ao Estado do Rio de Janeiro, passando a vi- (REFORMADOR, fevereiro, 1982.)
ver com a irmã casada Amália Pereira Lourenço.
Yvonne Pereira possuía o grau de instrução Aos doz~ anos de idade, já escrevia f1uente-
primário, o que lhe causou sérios problemas. Seu me~te sobre h~eratu.ra, e. ~e forma tão rápida que,
pai, funcionário público, não ganhava o suficiente m~ls tar~e, veio a Identificar como fenômenos de
para dar um curso completo à filha, além de, naque- ps!c?gra!la. O que conseguiu aprender além do pri-
le tempo, serem raras as escolas secundárias no in- mano. fOI um pouco de música com um professor,
terior do Brasil. Ela sentia que tinha vocação para o por Sinal excelente! chegando a dedilhar o piano.
magistério e a Literatura. Por isso tomou-se uma au- Pelos mesmos motivos, entretanto teve de renun-
todidata. Estudava sozinha até altas horas da ma- ~iar a esse ideal. Daí dedicar-se às'prendas domés-
drugada. Eis o que ela mesma relata a respeito de ticas, , como a~ontecia com a maioria da jovens da
uma fase de sua infância: sua epoca: pinturas, bordados, costuras, crochês
flores etc. '
"Lia tudo que me viesse à mão, geralmente lei- Sua educação foi severa, afastada do convívio
turas aproveitáveis. E assim muito aprendi. social, o que a fez viver em recolhimento. Se por IJrTl
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
312
d,o aos meus variados desempenhos na seara
lado esse tipo de vida lhe favoreceu os dotes mediú- nta. "
nicos, por outro lado causou-lhe uma excessiva timi- . A mf!d~ni,!ade apresentou-se em minha vida
dez, dificultando-lhe as tomadas de decisão quando, amda na mfancla, conforme relato em o livro "Recor-
mais tarde, teve de viver sozinha. dações da Mediunidade". Com um mês de idade ia
Yvonne Pereira nasceu em ambiente espírita. sendo. enterrada viva devido a um fenômeno de ~a­
Seu pai se tomou espírita, embora não militante, talepsla, "morte ap,arente':. q!!e ~ofri, fenômeno que
bem antes do seu nascimento. Dele recebeu as pri- no decorrer de mmha eXlstencla repetiu-se muitas
meiras lições de doutrina e prática de Espiritismo e 5.
vezes. Aos anos eu já via Espíritos e com eles fa-
do Evangelho, em reuniões semanais de estudo, lava, e assIm co'!tinuei até os dias presentes.
nas quais se reunia com todos os filhos. Conta ela (REFOR~AD.OR, janeiro, 1982.)
que, logo após seu nascimento, seu pai, irreverente- , . Na pnmelra yez que participou de uma reunião
mente, fez, a um médium seu conhecido, uma per- pratica sentada a mesa, Yvonne Pereira recebeu
gunta que, ainda hoje, muitas pessoas fazem: uma mensagem do Espírito que se identificou pelo
_ "Perguntai aos Espíritos quem foi esta meni- nome d~ ,R?berto de Canalejas, tratando sobre o
na em outra existência... " te~a .sw~/d~o. ~ste Espírito já lhe aparecia desde a
O médium, atendendo ao pedido, concentrou-se pnmelra Infancla e com ela falava. A faculdade de
por alguns minutos e deu a seguinte resposta: desdobramento já se apresentava, também nessa
_ "Ela teve uma existência em que foi campo- fase. '
nesa na Bélgica... Seu passado foi tumultuoso... " psicowafia vem surgir mais tarde e, com ela,
Tal revelação foi confirmada mais tarde. Yvonne Pereira trabalhou a vida inteira, ou seja de
Ao completar 12 anos de idade, recebeu de 1926 a 1980, como receitista homeopata assess~ra­
seu pai um exemplar de "O Evangelho segundo o da pel~s Espíritos Bezerra de Menezes, Bittencourt
Espiritismo" e outro de "O Livro dos Espíritos", am- ~ampalo, Augu.sto Silva, Carlos Roberto de Canale-
bos de Allan Kardec, e que se tomaram no decorrer jas, e outros cUJos nomes nunca foram identificados.
da vida, seus livros preferidos, de toda a bibliografia De ~cordo com a classificação de Allan Kardec
espírita. e.m ,"O LIVro ~os Médiuns", Yvonne Pereira perten-
Aos 13 anos de idade, conforme ela própria de- c~a as catego~las d~: .conselheiro, psicoanalista, pas-
clara, Yvonne Pereira começou a participar de reu- Sista, ,d~ efeitos flSICOS e incorporação (falante).
niões práticas de Espiritismo. Assistia a tudo, encan- Esta _ultima fa~u~dade, dedicada aos casos de ob-
tada com o que via e ouvia dos Espíritos, principal- sessao e de SUICidas.
mente das mensagens do Espírito Bezerra de Me- Como médium de materialização luminosa, di-
nezes. Ela mesma assim se expressa a respeito da vers~s fenomeno~ foram provocados, mesmo a sua
A

sua experiência ainda na adolescência: revelia, em ~essoes de que participou como assis-
"Fiz, assim, um grande aprendizado de prática tente. Este tipO de mediunidade não lhe interessou
espírita desde a adolescência, o qual muito tem vali-
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
314
Evangelho e a Doutrina Espírita que não há hora
muito, não participando das mesmas em cabine ou nem dia para se exercer o bem.
com outra qualquer formalidade. (REFORMADOR, janeiro, 1982.)
Yvonne Pereira sempre seguiu as orientações Em certa época de sua vida, no Rio de Janeiro
dos livros básicos da Codificação e, também, os Yvonne Pereira morou apenas com uma amiga e~
conselhos de seus guias espirituais. Entre os orien- um pequeno apartamento no bairro Uns de Vascon-
tadores encarnados, ela destaca o eminente espírita celos. Por esse tempo, ofereceu sua colaboração
de Barra Mansa, Zico Horta, que a instruiu no início como espírita e médium a algumas instituições espí-
de sua mediunidade. E foi através dessa tarefa, ritas. Mas não foi aceita por nenhuma delas. Então,
exercida sem interrupção, que ela, durante 54 anos organizou o que denominou Posto Mediúnico em
e meio, exerceu o receituário e os passes de cura. sua própria residência, provendo-o de remédio~ ho-
Praticou a cura de obsidiados, não s6 em recintos meopatas a sua própria custa. Passou a trabalhar
espíritas em sessões preparadas, como, auxiliada sozinha. Fazia o culto do Evangelho do Lar diaria-
por outros médiuns, na pr6pria casa dos doentes. mente, acompanhada de seus guias espirituais,
Amava os obsessores e era por eles respeitada. uma vez que a companheira de apartamento abomi-
Sempre orou muito por eles. A respeito de sua for- nava o Espiritismo. Além disso, aplicava injeções em
ma de encarar o Espiritismo e a sua mediunidade, doentes pobres, costurava para eles. e fornecia-lhes
ela declara: medicamentos, tudo gratuitamente. Durante 8 anos
Conservei-me sempre espírita e médium muito desenvolveu este trabalho assistencial, principal-
independente, jamais consenti que a direção dos mente com os moradores de uma favela próxima do
núcleos onde trabalhei bitolasse e burocratizesse as bairro em que residia.
minhas faculdades mediúnicas. Consagrei-as aos Yvonne Pereira trabalhou como médium em
serviços de Jesus e apenas obedecia, irrestritamen- vários centros: .ainda bem jovem no Centro Espírita
te, à Igreja do Alto, e com elas exercia a caridade a de Lavr8;s (mais tarde Centro Espírita Augusto Sil-
qualquer dia e hora em que fosse procurada pelos va), da Cidade de Lavras, em Minas Gerais' no Grê-
sofredores. Para isso aprofundei-me no estudo se- mio Espírita de Beneficência, de Barra do Piraí Es-
vero da Doutrina, a fim de conhecer o terreno em tado do ~i~ de Jan~iro; durante longo tempo na
que caminhava e conservar com razão a minha in- Casa Espmta, de JUIZ de Fora, em Minas Gerais'
durante dois anos no Centro Espírita Luiz Gonzaga;
dependência. No entanto, observei a rigor o critério
de Pedro Leopoldo; na União Espírita Suburbana
e os horários fixados pelos poucos centros onde
servi, mas jamais me submeti à burocracia mantida
do Rio de Janeiro, antigo Estado da Guanabara. No
ambulat6rio, ~nexo desta última instituição, dirigido
por alguns. Se não me permitiam atender necessita- pelo Dr. OtavIo Fernandes, serviu, ainda como mé-
dos no centro, por isso ou por aquilo, em determina- dium de atração de obsessores de indi~íduos com
dos dias, eu os atendia em qualquer outra parte, perturbação psíquica caracterizada por assédio de
fosse em minha residência ou na deles, e assim Espíritos.
consegui curas significativas, pois aprendi com o
AS MULHERES MÉDIUNS 311
316 AS MULHERES MÉDIUNS
Yvonne Pereira desenvolveu, igualmente, a diunicamente, ao Espírito Camilo Castelo Branco
mediunidade oratória. Como tal, esteve presente na que queria dar uma importante mensagem sobre o
tribuna espírita no local onde residia do ano de 1927 suicídio e os suicidas. Segundo declaração da pró-
até o ano de 1971, afastando-se deste setor, segun- pria Yvonne Pereira, ela trouxera a incumbência de
do ela mesma declara mas não explica a razão, por se prestar a esse trabalho, antes de reencarnar
ordem dos mentores espirituais. Dedicou-se à pro- pois se afinava com o problema por ter praticadô
dução de obras mediúnicas em livros, através de esse ato tresloucado em vidas anteriores. Seria,
crônicas, contos, crônicas, novelas e romances. portanto, uma forma de resgatar suas faltas.
Além de reproduzir textos enviados pelos Espí- Camilo Castelo Branco escreveu, então, atra-
ritos, Yvonne Pereira produzia de sua própria lavra. vés da psicografia, o livro "Memórias de um Suici-
Como jornalista, colaborou em vários jornais leigos da", em 1926, mas só publicado, em ª edição, 30
e espíritas brasileiros, nesta última categoria com o anos depois, ou seja, em princípios de 956. Atual-
pseudônimo de Frederico Francisco, numa homena- mente, essa obra é considerada um monumento da
gem ao seu amigo espiritual Frederico Francisco bibliografia mediúnica no Brasil. Pode ser considera-
Chopin. Este Espírito, segundo ela mesma declara, da um tratado sobre suicídio na visão espírita.
já a visitava, mesmo antes de se aproximar da mé- Além desse, recebeu, também: "Nas Telas do
dium musical inglesa Rosemary Brown. Assim, ela Infinito", dos Espíritos Bez~rra de Menezes e Camilo
colaborou em O Clarim, de Matão, São Paulo, no Castelo Branco; "Amor e adio", do Espírito Charles,
tempo de Cairbar Schutel, de quem foi grande ami- que ~firmou ter sido seu pai em vida anterior; "A
ga; em Luz e Verdade, de Lavras, este fundado por Tragedla de Santa Maria", romance brasileiro do Es-
ela mesma e mais três amigos espíritas (Eduardo pírito Bezerra de Menezes; "Nas Voragens do Peca-
Gomes Teixeira Coelho, Antenor Barbosa, João do", de Chartes; "Devassando o Invisível", sob a as-
Barbosa) e que os adversários do Espiritismo cha- sistência do Espírito Chartes e a supervisão do Es-
mavam de Trevas e Mentiras, em REFORMADOR, pírito B~zerr~ de Menezes; "Ressurreição e Vida",
órgão de divulgação da Federação Espírita Brasilei- do Espmto Leon Tolstol; "Dramas da Obsessão" do
ra. Infelizmente, muitos artigos seus publicados na Espírito Bezerra de Menezes; "Recordações da Me-
imprensa leiga se perderam. Ainda muito jovem, ~iunidade", sob a assistência e supervisão do Espí-
Yvonne Pereira não teve o devido cuidado de os co- ~to Bezerra de .Menezes; "A Família Espírita",
lecionar. E em muitos jornais profanos ela colabo- Evangelho aos Simples", "A Lei de Deus", "Contos
rou, como: A Tribuna, da cidade de Lavras; O Cru- Ami~?s" e "O Livro de Eneida", sob a supervisão do
zeiro, da cidade de Cruzeiro, Estado de São Paulo; Espmto Bezerra de Menezes e assistência dos Es-
A Coluna, de Campo Belo, Estado de Minas Gerais; píritos Charles e Léon Tolstoi; "O Drama da Breta-
Brasil Jornal e Jornal do Povo, de Barra do Piraí, nha" e "O Cavaleiro de Numiers", do Espírito Char.;
Estado do Rio de Janeiro. les; "Sublimação", dos Espíritos Léon Tolstoi e
Ainda em sua juventude, Yvonne Pereira rece- Chartes, e ainda, "Pontos Doutrinários", uma coletâ-
beu sugestão dos Espíritos para se submeter, me- nea de crônicas publicadas em REFORMADOR.
318 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDiUNS
Sobre o processo de como se realizou a recep- como se eu fora também desencamada, ou quase
ção das obras mediúnicas, explica Yvonne Pereira: isso, e revi muitos trechos do passado histórico eita-
A fim de receber esses livros, os romances dos em meus livros, como se se tratasse do presen-
principalmente, e também "Memórias de um Suici- te. pepois. de todas essas visões os autores espiri-
da", seus autores espirituais retiravam meu espírito tU8lS dos livros mostrados voltavam e os escreviam,
do corpo material. Levavam-me com eles para o e eu o~ transmitia com grande facilidade, porque já
Além ou para o país em que se desenrolaria a ação: conheCIa o enredo e os detalhes." (Anotações feitas
Portugal, Espanha, França, Alemanha, Rússia e pela médium em 30 de julho de 1973, e publicadas
também alguns ambientes do Mundo Invisível. Co- no REF9RMADOR de fevereiro. de 1982.)
nheci, assim, algumas paisagens do Mundo Espiri- Enfim, por tudo o que realizou em sua vida de
tual e países estrangeiros terrenos, onde a ação ro~ médium espírita, Yvonne Amaral Pereira pode ser
mântica se desenrolava, em diferentes épocas e sé.. considerada como uma das maiores médiuns sob
culos. Nesses locais, eu assistia à peça a ser escrita todos os aspectos, dotada de valiosas faculdades
pelos autores espirituais, com todos os detalhes, sempre postas a serviço do Bem e dentro do bom
sentia as emoções de todas as personagens, con- senso. Exigente e desconfiada quando o fato se re-
templava colorações belíssimas, via-me em todas lacionava com o mundo espiritual, nunca aceitou
as cenas, mas nada fazia ou dizia, e ouvia uma voz nada à primeira vista, sem um exame dentro da lógi-
desconhecida a narrar o drama com uma precisão e
ca conforme preceitua a Doutrina Espírita. O matri~
um encanto indescritíveis, mas sem ver o narrador,
e ouvia ainda tudo quanto diziam as suas persona- mônio não fez parte de sua última programação ter-
rena.
gens. Assisti, dessa forma, à célebre "Matança dos
Huguenotes", na França, no ano de 1572, com deta- No dia 9 de março de 1984, às 22 horas aproxi-
lhes inimagináveis por todos nós. Assisti a cenas da madamente, dese~carnou Yvonne Pereira no Hospi~
Inquisição de Portugual, no século XVI. Visitei caste- tal da Lagoa, no RIO de Janeiro, onde havia sido in~
los medievais e da Renascença. Penetrei o Palácio temada poucas horas antes.
do Louvre, em Paris, como ele devia ser ao tempo O sepultamento de seu corpo ocorreu no dia
de Catarina de Médicis. Perlustrei os· gelos da Rús- seguinte, 10 de março de 1984, às 16 horas, no Ce-
sia, conheci a vida de seus camponeses e o esplen- mitério de.lnhaúma. Ao ato, compareceram diversos
dor da nobreza ali existentes durante o Império. Co- confrades e ~migos, .entre os quais Juvanir Borges
nheci antros de miséria e dor de toda a parte. Pene- de ~o~za, vice-presidente da Federação Espírita
trei regiões sombrias do astral inferior e ambiências Brasileira, representando esta instituição e o seu
consoladoras do astral intermediário etc., etc. Posso presidente Francisco, Thiesen. Na oportunidade,
dizer que o Além-Túmulo se assemelha à nossa usaram ~apalavra Cesar Augusto Lourenço Filho,
Terra, porém, mais belo nas regiões intermediárias ~eu sobn.n~o, e o r~presentante da Federação Espí-
e boas. Nestas, tudo é agradável e belo, e artístico. nta Brasileira. Apos, uma prece foi proferida pelo
Convivi, finalmente, com meus Guias Espirituais, confrade Lauro de OliveiraSãoThiago.
320 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 321
através de sua mediunidade. Além disso, Helena
com sua bondade, auxiliou muitas pessoas. '
Aos vint~ anos de idade, foi informada de que,
e~ sua localidade chamada Alagoinhas Velha, resi-
dia uma mulher que já abortara seis crianças e esta-
va pretendendo abortar a sétima. Pediu a uma ami-
g.a que a levasse à infe.liz criatura. Lá chegando, ini-
CIOU uma conversa amistosa com a mulher, tentan-
do convencê-Ia de desistir da prática de ato tão he-
HELENA VIEIRA COSTA ~iondo .. A tar~f~!oi dificmma, Rois a mulher não que-
na aceitar a Idela de levar adiante a gravidez inde-
sejada.
Enfim, Helena comprometeu-se em adotar a
Helena Vieira Costa, mais conhecida pelos criança, assumindo toda a responsabilidade até
baianos como "Mãe Helena", nasceu na cidade de mesmo pelo seu futuro. E a mulher aceitou a pro-
Alagoinhas, Bahia, em 31 de outubro de 1918. Sua posta.
mãe, D. Adélia, que era viúva ao casar-se com seu Em 3 de junho de 1938, nasceu a criança que
pai, Mário Nascimento Vieira, tinha uma filha do pri- lhe foi entregue imediatamente. Recebeu o nome de
meiro casamento. Deste segundo consórcio, nasce- Heloísa, apelidada, mais tarde, de Lóis. Esta criança
ram quatr~ filhos, sendo Hele~a a Rrimo~ênita. ... vem lhe dar, posteriormente, uma prova incon-
A infancia de Helena nao fOi mUito tranqUlla, testável da reencarnação.
em virtude dos problemas de saúde e, já àquela No dia 1Q de janeiro de 1943, Helena se prepa-
época, associados a problemas espirituais. Aos sete rava para. passar o dia .?om uma amiga que morava
anos de idade ficou, temporariamente, cega e para- ~m Alagol~ha Velha. LOI.s demonstrou o desejo de ir
lítica. Na adolescência, os problemas de ordem es- junto, porem Helena disse que chovia torrencial-
piritual se intensificaram. Daí, resolveram levá-Ia a m~nte e não era bom para sair com aquela frieza.
um centro espírita, onde foi adquirindo o equilíbrio e LOls se zangou com a negativa da mãe adotiva e
desenvolvendo a sua mediunidade, apesar dos con- disse:
flitos com o pai. Este odiava o Espiritismo e não - Quero ver a outra mãe!
gostava que a filha freqüentasse o centro espírita. Helena ficou bastante surpresa, pois jamais lhe
Com o decorrer do tempo, Helena foi demons- houvera falado da existência da mãe verdadeira e
trando as diversas faculdades mediúnicas que pos- muito menos, que morava em Alagoinha Velha. En~
suía: de cura, incorporação, vidência, audiência e ~~ fim, resolveu levar Lóis.
efeitos físicos. Tornou-se conhecida, entre os esptn- . Lá chegando, ao atingirem determinado local,a
tas, por provocar perfumes e transportar flores, obje- cnança se desprende da mão de Helena e corre em
tos e remédios. Diversas pessoas foram curadas direção a um casebre. Sempre seguida pela mãe
322 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
adotiva, Lóis empurra a porta e diz para alguém que Em certa ocasião, Maria Augusta pega Helena
se encontrava no interior da casa: pela mão e a leva até o quarto dos fundos da casa
- Só vim olhar sua cara, mãe feia! em que moravam. Para surpresa de Helena, a crian-
Realmente, lá se encontrava sua verdadeira ça diz, apontando para um baú velho, onde estavam
mãe. A infeliz mulher, apontando para Helena diz: as coisas que foram de Lóis, como vestidos, brin-
- Não tenho filhos. Sua mãe é esta aí. quedos etc.:
Após este fato, Helena se dirigiu com Lóis à - Eu quero as minhas coisas que estão guar-
casa da amiga que pretendia visitar. dadas aí.
No dia seguinte, Lóis teve um ataque repentino E Helena não teve dúvidas. Comprovou emo-
de congestão. Apesar de medicada conveniente- cionada que Lóis tinha voltado na pessoa de Maria
mente, a crise se repete, paralisando o funciona- Augusta.
mento dos intestinos e dos rins. Embora tivesse a A partir de então, não era mais Maria Augusta.
assistência de dois médicos competentes, Lóis não Outras crianças foram chegando, Josefa, Maria Cé-
apresentou nenhuma melhora. Pela madrugada, se- lia, Maria de Lourdes...
gurando a mão de Helena, Lóis diz quase murmu- Foi quando um grupo de senhoras, formado
por Germínia A. Batista, Alderina Magalhães, Eduar-
rando:
- Vou dizer uma coisa: não quero que chore. da S. Novais e Maria dos A. Nogueira, resolveu fun-
Eu vou embora amanhã. Quero um vestido branco dar uma instituição beneficente para albergar crian-
bem bonito. Você "fazeu" mainha? ças órfãs. O ideal foi concretizado em 8 de maio de
E Helena responde: 1945, em homenagem ao aniversário de Maria Au-
- Sim, minha filha, mas para onde você vai? gusta e ao Dia das Mães.
Lóis responde, num fio de voz: A instituição recebeu, inicialmente, o nome de
- Não sei, sei que vou embora. Não chore Casa Mãe Helena. Ao se fazer o seu estatuto e le-
que em maio eu volto. galizar a sua situação como pessoa jurídica, rece-
Lóis desencama no dia imediato, aos quatro beu o nome lar Espírita Mãe Helena.
anos e alguns meses de idade. Em 8 de dezembro de 1945, Helena se casa
Passados vinte meses da desencarnação de com Osmar Ferreira Costa, conservando consigo as
Lóis, criam uma feira livre no centro da cidade de crianças e continuando a profissão de parteira que
Alagoinha. Certo dia, aí aparece uma mulher com já exercia desde os dezessete anos de idade. Até
uma criança de seis meses, oferecendo-a a quem a desencarnar fizera mais de 10.000 partos, a maior
quisesse criar. Sabendo disso, Helena toma a crian- parte deles registrados em um livro da Maternidade
ça, que se chamava, na certidão de batismo, de Ma- de Alagoinhas. Este livro foi queimado, dolosamen-
ria Augusta, nascida a 8 de maio de 1944. te, por uma funcionária da maternidade. Helena a
Fato notável acontece quando Maria Augusta partir desse acontecimento, deixou de registrar 'os
está com dois anos de idade. partos que realizava.

AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS


324
Em 1946, nasceu seu primeiro filho Ie:gítimo,
não tirava os olhos de Helena. A certa altura, ele
que recebeu o nome de Edson; um ano depoIs, nas-
pede que ela se aproxime. E exclama para Helena:
ceu o segundo: Eliomar e, em 1949, nasceu Odea-
- "Sei que não veio pedir nada, mas eu vou
ra. Três meses depois, seu marido a abandona. ,. passar um remédio para essa gastrite, para, mais
Decorridos dez anos, sem dar nenhuma noticia tarde, não se transformar em coisa pior. "
nem mesmo do seu paradeiro, Helena recebe u~a Fez uma pausa e continuou:
carta de Osmar dizendo que se encontrava no RIo - "Quanto ao seu coração, é problema seu
de Janeiro e pedindo-lhe para voltar ao lar. Helena com o Alto. Não posso fazer nada, mas quem man-
dá sua permissão, porém o reenco~tro não se con- dou pedir para pagar tudo de uma só vez!? Agora
cretiza porque ele desencama subitamente no am- agüente firme e vá até o fim. "
biente de trabalho, antes do dia da viagem de retor- Anos mais tarde, na cidade de Alagoinhas, o
no. Espírito Dr. Fritz atendia centenas de pessoas, atra-
As tarefas beneficentes de Helena crescem a vés do médium Edvaldo de Oliveira Silva. Em um
cada dia. A casa se toma pequena para albergar as dos dias de atendimento, quando Helena estava
crianças que vão chegando. Em 1958, ela pas~a ,a presente, trouxeram uma criancinha doente. Depois
se responsabilizar, também, por uma escola prima- de examiná-Ia, Dr. Fritz disse que precisaria de uma
ria em virtude de seu fundador transferir residência sonda e gostaria de saber se havia algum hospital
para Salvador. próximo. Após alguns segundos de silêncio, Dr. Fritz
Em 1970, a situação do orfanato melhora um volta a perguntar:
pouco. O Lar Fabiano de Cristo compra uma casa - "Há aqui algum médium de efeitos físicos?"
maior para o Lar Mãe Helena e aumenta a cota Todos se conservaram calados. Então ele se
mensal para alimentação das crianças. Entretanto, aproxima de Helena visivelmente irritado e ordena:
os problemas de saúde de He~ena se agrava~am, - "Vá buscar a sonda!"
pois ela sofria de diabetes, angina .e artro~e. Ainda Helena obedece e se concentra. Em poucos
assim, continua na sua luta no auxOlo da cnança ca- minutos a sonda aparece em suas mãos.
rente e na campanha contra o aborto. A sonda é introduzida na criança para ser reti-
Porém, nem tudo na vida de Helena foi tristeza. rada com o prazo de três dias.
Como médium e espírita, ela teve momentos memo- No dia marcado para o retomo da criança, He-
ráveis e emocionantes. lena também se encontrava presente. Dr. Fritz retira
Na década de 50, Helena esteve em Congo- a sonda e a coloca nas mãos de Helena, pedindo
nhas visitando o médium José Arigó, que recebia o que ela a devolvesse ao local de onde a retirara. A
Espírito Dr. Fritz. Acompanhava uma amiga. Est~ le- expectativa de pessoas presentes era enorme. E
vava sua filha para tratar de um problema de saude: diante dos olhos de todos, a sonda desapareceu.
Incorporado em Arigó, Dr. Fritz realizava as CI- Atendendo ao convite da amiga Olga Guanais
rurgias diante de uma multidão, mas, curiosamente, para um passeio ao Rio de Janeiro, Helena aceitou.
Além de passear, faria umas compras.
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
Ao chegar ao Rio de Janeiro, Olga a levou para sito, A médium desta vez reagiu com se tivesse to-
conhecer Oolores Bacelar, uma l1)édium muito con- mado uma forte descarga elétrica. Seu corpo foi ati-
ceituada no movimento espírita. A noite, ambas se rado ~ dJst~ncia, ficando como morta. Se não fosse
dirigiram ao centro espírita em que Oolores trabalha- a ~sslstencla dos membros espirituais, Helena po-
va. Ficava em Copacabana. Lá chegando, Olga per- dena ter desencamado naquele momento.
gunta a Helena: Entretanto, Helena não se acovardou. Conti-
- "Pra você quem é D%res?" nuou a P!ovoça.r efeitos físicos onde quer que esti-
E Helena responde prontamente: vesse. Sao vanas as testemunhas que presencia-
- "E aquela ali." ram fat.os surpreendentes da sua mediunidade e fo-
Olga pergunta, surpresa: ram bnndado~ com deliciosos perfumes e presen-
- "Se você nunca a viu, como sabe que é e/a?" tead,~s com lindas rosas vermelhas trazidas pelos
Helena responde: Esplntos.
- Eujá a vi menta/mente. Helena Vieira Costa desencamou em 20 de
A seguir, Helena é convidada a se aproximar março de 1995,. vitimada por um derrame.
de Oolores. Foi durante essa visita que ela confir-
mou que o seu guia espiritual - Alfredo - era o
mesmo que trabalhava com Oolores no Rio de Ja-
neiro e que o Espírito Sheila estava sempre presen-
te em suas sessões. Ela é que provocava os perfu-
mes através da mediunidade de Helena.
Como acontece com a maioria dos médiuns de
efeitos físicos, Helena passou por dissabores por
parte daqueles que duvidavam das suas faculdades.
Uma jovem, filha do dirigente de um centro es-
pírita da cidade de Alagoinhas, resolveu fazer testes
com Helena. O primeiro para verificar se esta era in-
consciente.
Certa feita, estando Helena incorporada com
um dos seus guias espirituais, a citada jovem intro-
duziu um alfinete em uma das suas coxas. Helena
não esboçou qualquer reação; entretanto, o Espírito
comunicante repreendeu a moça por seu gesto ir-
responsável. Mesmo assim, ela não se emendou.
Passado algum tempo, a mesma jovem, no
exato momento em que uma flor se materializa nas
mãos de Helena, deu-lhe uma cotovelada de propó-
AS MULHERES M~DIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
George Aldoux Huxley, Robert Graves e H.
Wells.
Seu primeiro contato com as pesquisas ocorreu
na época das experiências de Stella C., no National
Laboratory of Psychical Research (Laboratório Na-
cional de Pesquisas Psíquicas) em 1913, apenas
como participante. Stella C. foi também uma jovem
médium inglesa que provocava movimentos de ob-
jetos colocados em estojo fechado a chave e sela-
EILEEN GARRElT do.
Ela já tivera manifestações espíritas espontâ-
neas anteriormente, porém não as levou em consi-
deração. Entretanto, o fascínio que passou a sentir,
Eileen Garrett nasceu na Irlanda em 1893. Seu posteriormente, pelo misterioso superou a indiferen-
nome de solteira era Eileen Jen~ette Vancho..pas- ça. Ela observou o vudu, no Haiti e na Jamaica. Sua
sou toda a sua infância envolvl~a pelo ~U'~blente curiosidade pelo sobrenatural aumentou tanto que,
místico de seu país, numa localidade prox~ma ao ainda bem jovem, investigou as práticas de adora-
monte Tara. Na Irlanda, "as fadas eram unlve~a!,­ ção ao demônio, mas apenas, como observadora,
mente aceitas como parte trivial de todos os dias , sem se envolver.
além de haver uma aceitação qua~e natural da mc;>r- Não temeu em nenhum momento se submeter
te. Daí ela acreditava, conforme afirmou.. qu~ podia, a experiências com neurologistas, psicólogos, psi-
perfeitamente, ser um veículo de comunlcaçao ~ntre quiatras e parapsicólogos, como, entre outros, Jo-
os Espíritos dos vivos e dos mortos. A essa .a~tu~e seph Banks Rhine e J. G. Pratt, da Duke University.
diante do ser, deve-se atribuir ~ sua conVlvenCla Uma senhora de nome Kelway Bamber fOI a
com a morte dos seus entes quendos sem se tomar primeira a notar suas faculdades supranormais e a
uma pessoa amarga. . , . convencê-Ia a colocá-Ias em exercício sistematiza-
Seu pai e sua mãe cometeram o suacldlO qua!1- do.
do ela ainda era bem pequena. Um dos seus tre~ Entretanto, quem a levou para um local ade-
maridos morrera na Primeira Grande Guerra e so· quado a seu desenvolvimento foi James Hewat
um dos quatro filhos atingi.u a idad~ adulta. . McKenzie (1870-1929). Através dele, ela foi admiti-
Ainda bem jovem, Elleen deixou a Irlanda. V.I- da na BritishColfege of Psychic Scíence (Faculdade
veu, algum tempo, em Londres (Inglaterra), del?ols Britânica de Ciência Psíquica). Aí Eileen ficou por 4
no sul da França e, finalmente em New York., AI se anos, no fim dos quais havia alcançado um nível
tomou uma cidadã americana. Desde essa epoca, surpreendente de desenvolvimento.
Eileen manteve relações de amizade com pessoas Seu guia espiritual era um árabe chamado
ilustres, como: D. H. Laurence, William Butler Yeats, Uvani. Havia outros, mas era este árabe o prinCipal,
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
dades poderosas. E Eileen fora convocada· por
o chamado controle. Era ele que selecionava os Es- ry Price para tal empresa.
píritos que deveriam dar. as mensagens. durante a Encerraram-se as conversas e todos se. queda-
sessão, evitando que entidades .....zombeteiras
. pertur- ram calados e em expectativa. Olhavam fixamente
bassem o andamento das expenen<?las. . para a médium que se conservava calma. e, aparen-
Uma das suas sessões consideradas a mais temente, desinteressada de tudo, chegando aboce-
notável foi realizada em Londres, no Laboratório de jar de tédio várias vezes. De repente, ela se acomo-
Pesquisas Psíquicas, exatamente no dia 7 de out~­ dou na. poltrona onde se encontrava refestelada e
bro de 1930. Neste dia, ocorreu um dos seus mais entrou em transe profundo. Para supresa de todos,
importantes feitos como médium no que diz respeito seus olhos claros começaram a •lacrimejar abundan-
à prova da imortalidade da alma. Estavam pres.en- temente. Uvani deu um rápido intróito antes que
tes, na ocasião, as seguintes pessoas: Harry Pnce, uma voz alarmada começasse a gritar: "O volume
lan D. Coster, um jornalista, e Ethel Bee:nh~m que, total do dirigível era (...) demasiado para a capacida-
como secretária, tomaria notas das ocorrencl~s. de de seu motor." Não era a voz da médium, nem a
A sessão fora organizada pelo eng~~helro .Har- de Conan Doyle; todos tinham certeza disso. Ti-
ry Price, diretor e fundador do Laboratono Naclo~al nham lido os amplos noticiários sobre o sinistro e
de Investigações Psíquicas de Londres. Como nao deduziram imediatamente que alguém que estivera
podia deixar de ser, os comentários iniciais antes d~ no zepelin estava se manifestando através da me-
início dos trabalhos, ficaram em tomo do acontecI- diunidade de Eileen Garrett. Sem dúvida nenhuma,
mento em evidência no momento, ou seja, o aciden- o Espírito H. Carmichael Irwin, tenente-aviador co-
te com o dirigível R. 101, ocorrido ~ois di?S antes mandante da nave sinistrada, retomara e estava
daquela. sessão. Era a aeronave maior, mais cara e dando seu testemunho, após se identificar. H. Car-
sofisticada construída até aquela época e que se es- michael Irwin incorporou inesperadamente em Ei-
patifara em Somme! no S~I da França, no dia do leen. Primeiro anunciou sua presença. A seguir,
vôO inaugural, ou seja, no dia 5 de outubro de 1930. deu, aos presentes, um relato altamente técnico so-
Tal empreendimento fazia parte de um programa bre a ocorrência da tragédia e sobre a. causa da ex-
ambicioso do Ministério do Ar.Britânico. ,. plosão do dirigível. Continuou com o mesmo tom de
Assim três meses depoIs da morte do espmta voz e em pânico:" A carga útil é muito pequena! A
convicto, Sir Arthur Conan Doyle, e dois dias depois carga bruta foi mal calculada! O elevador enguiçou!
do terrível acidente em que pereceram, entre o fogo As tubulações de óleo entupiram!" Parecia que o
e as explosões, 48 das 54 pessoas que estav~m a Espírito Carmichaellrwin, em desespero, procurava
alertar os responsáveis pelo empreendimento para
bordo, realizava-se mais uma sessão com Elleen
as falhas técnicas que causaram o desastre, caso
Garrett. O objetivo desse encontro, de acordo com a pretendessem construir outro· zepelin. Acrescentou,
proposta de lan O. Coster, que es.tavaà cata de um ainda, as seguintes circunstâncias para que ocor-
furo jornalístico, era evocar o cnador de Sherlock resse a catástrofe: perda da velocidade eimpossibi-
Holmes, utilizando uma médium honesta e de facul-
AS MULHERES MÉDIUNS 333
AS MULHERES MÉDIUNS
lidade de endireitar o aparelho que embicava para
os telhados de Achy. A seguir, entrou na análise ~e O Ministério do Ar Britânico agradeceu ao La-
detalhes altamente técnicos, informando que, depoIs boratório Psíquico aquele auxílio extremamente efi-
caz no inquérito que já se tinha iniciado.
de ter introduzido o novo tubo transversal, a massa
e o peso já não estavam em proporção com a capa- O que se considerou mais interessante foi ter
um técnico oficial, numa conferência pública dada
cidade motriz. em 6 de maio de 1931, ou seja, sete meses depois,
O jornalista lan D. Coster deu a público a men- concordado com as minúcias da mensagem enviada
sagem recebida por Eileen Garrett, o que chamou a por um Espírito. E. F. Spanner, o bem conhecido ar-
atenção dos meios oficiais. Estes solicitaram, ime- quiteto naval e engenheiro da marinha, chegou exa-
diatamente, uma cópia da mensagem do aviador re- tamente, às mesmas conclusões contidas na men-
cebida 48 horas depois do sinistro. O relato foi este- sagem do Espírito H. Carmichaellrwin. Todos esses
nografado e submetido à apreciação do setor com- fatos ele narra em sua obra "The Tragedy of the R.
petente do Ministério do Ar Britânico. 101" (A tragédia do R. 101). Eis alguns dos fatos
Harry Price, para maior confirmação do conteú- que so eram conhecidos por raros peritos:
do da mensagem, enviou cópia da mesma aos "(...) os motores eram defeituosos, muito pesa-
construtores do R. 101, da Royal Airships Works, dos, que as experiências tinham sido muito cur-
em Cardington. Esta transcrição chegou às mãos de tas, que ninguém conhecia suficientemente o
um especialista em zepelins chamad.?Charlton e,~le aparelho, que a carga era muito grande, que o
ficou estarrecido com as declaraçoes do Esplrlto aparelho se tinha inclinado demasiadamente e
Carmichael hwin. Entretanto, por motivos políticos e já não podia retomar altura, que razara quase
empresariais, as revelações da mensagem foram os telhados de Achy e que a explosão ao pou-
rotuladas de falsas pelos burocratas que haviam sar foi 'devida à fricção numa atmosfera carre-
apostado muito no empreendimento, inclusive com gada de eletricidade'. "
afastamento de concorrentes. Mas, na verdade, de Disse o perito que, embora Achy não figurasse
acordo com a. opinião dos peritos que examinaram o nos mapas vulgares, era indicado em grandes ma-
conteúdo da mensagem, muitos dados fomecidos pas especiais de navegação aérea, como o que
pelo Espírito H. Carmichael Irwin corresponderam, possuía o tenente Irwin, e que se encontrava, efeti-
em cada detalhe, ao relatório oficial apresentado vamente, na rota do dirigível.
posteriormente. O mais surpreendente é que Eileen Segundo declarações do engenheiro Spanner,
nada sabia de aerodinâmica e de mecânica de aero- o dirigível rompeu a carcaça em pleno vôo devido à
naves, muito menos de dirigíveis, pois era um pro- fraqueza da estrutura e foi apanhado bruscamente
grama secreto. Por conseguinte, não poderia ela pela tempestade, viajando 60 milhas por hora no
mesma fazer uma descrição técnica tão fundamen- momento em que embicava para frente, o que acen-
tada sobre o pior desastre da aviação britânica já tuou o mergulho. Disse ele que o estabilizador fora
ocorrido até aquela época. acionado para endireitar o dirigível e este começou
a endireitar-se, mas, enquanto decorria essa opera-
334 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
ção cederam as longarinas inferiores situadas no Durante os anos de 1932 e 1933, Eileen Gar.
centro do aparelho, com enfraquecimento produzido rett excursionou pelos Estados Unidos, submeten-
no novo tubo aí introduzido. do-s~ a várias experiências na John Hopkins Uni-
Na mesma sessão do dia 7 de outubro, Sir Arthur verslty e no New Vork Psychiatric Institute. Estas se
Conan Doyle, Espírito que se pretendeu evocar, prolongaram até provar a personalidade inde-
realmente se comunicou, entretanto nenhum dos pendente de seus guias espirituais. Ela se estabele-
participantes se interessou por sua mensagem. Ele ceu depois em New Vork, onde criou a American
ficou em segundo plano, diante da notável e inusita- Parapsychology Fundation (Fundação Parapsicoló-
da ocorrência. gica Americana).
Em 1931, Eileen Garrett se submeteu a uma Eileen Garrett foi sempre considerada uma mé-
série de experiências de desdobramento em que, dium honestíssima e muito respeitada pelos pesqui-
em transe, saía do corpo, ia a luga~es distante~ ~ fa- sadores. Nos cinqüenta anos que se dedicou ao
zia descrições do que vira no ambiente que vIsitara exercício da r:!1ediunidade, jamais aceitou pagamen-
em Espírito. to pelas sessoes que realizava. Ao contrário, ela dis-
Certa feita, ela se transportou de um aparta- R~nd.eu altas soma~, ~ !im de subvencionar expe-
mento em New Vork até o consultório médico em n~~clas com outros Indlvlduos que apresentavam in-
Reykjavik, na Islândia. Enquanto o pesquisador, um dlCIOS de alguma faculdade mediúnica ou psíquica.
psiquiatra, e sua secretária a ob~ervavam aten~a­ Financiou expedições a diversos lugares do mundo,
mente Eileen entrou em transe, fOi ao endereço In- com o objetivo de explicar os fenômenos extra-sen-
dicad~ e retornando, enumerou os objetos arruma- soriais.
dos momentos antes pelo médico e, ainda, repetiu Seu amigo Eric Dingwall, pesquisador da para-
um trecho do livro que este lia na ocasião. Além ?is- normalidade e antropólogo conceituado, chegou a
so, informou que o médico tin~a a cabeça enf?l~a­ se ~xasperar com a facilidade da amiga em dar di-
da. Tudo foi confirmado postenormente pelo mediCO nheiro a qualquer um que se dissesse interessado
que confessou ter sentido a presença d~ Eileen no em pesquisa. Dizia ele: "Muito raramente eu conse-
consultório no momento em que se realizava a ex- guia convecê-Ia a recusar uma subvenção a qual-
periência. qu~r vigarista. Ela costumava dizer: Como é que se
Eileen Garrett não se satisfez, apenas, em par- vai saber? Talvez haja alguma coisa, não podemos
ticipar de experiências dirig!da~ pelos outros. Ela .t~m­ perder a oportunidade!"
bémdesenvolveu as propnas pesqUisas. Viajou De Eileen dizia sua filha Eileen Coley: "Era
bastante observou e visitou vários lugares e deu uma personalidade tão fascinante - interessava-se
aulas sobre fenômenos paranormais. Nessas oca- por t~ntas coisas, tantas pessoas (...). Eu me levan-
siões realizou sessões com pequenos grupos na tava as sete da manhã só para ouvir as histórias
SUíç~,na Espanha, na Áustria, '!.a Itália, na. ~récia, que ela contava."
na India, na Alemanha, no Japao, na Amenca do Eileen Garrett proporcionou, durante dois me-
Sul e nos países escandinavos. ses, notáveis sessões ao pesquisador Dr. Andrija
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
Puharich. Ela o fez convencer-se de que o ESP
(percepção extra-sensorial) é uma ~ealidade. p~ha­
rich esteve no Brasil observando e filmando as cirur-
gias realizadas pelo médium Zé Arigó.

ANGÉliQUE COTTIN

Foi uma jovem camponesa de origem francesa.


Ela habitava em um povoado próximo a Montagne,
na Normandia.
Em 1846, Angélique, por um período de dez
semanas, manifestou fenômenos de natureza apa-
rentemente elétrica. Isso se passou quando ela es-
tava entre 13 e 16 anos de idade. Sua primeira ma-
nifestação aconteceu na noite de 15 de janeiro de
1846, enquanto ela estava tecendo luvas com ou-
tras três jovens. A armação do tear em que estavam
trabalhando começou a pular sem controle.
O padre do lugarejo foi o primeiro a tentar in-
vestigar o fenômeno com a suposição de que se tra-
tava de manifestações provocadas por feiticeiras.
Os fenômenos continuaram, e, antevendo a pos-
sibilidade de auferir muito dinheiro com a demonstra-
ção dos fenômenos pela jovem Angélique, seus pais
se apressaram em levá-Ia a Paris acreditando que lu-
crariam com os misteriosos poderes da filha.
O doutor Tanchou, acidentalmente, ouviu falar
dos curiosos poderes da moça e procurou investigá-
la, chegando à conclusão de que eram de nature-
za elétrica. Seu corpo possuía uma força que
atraía os objetos. Colocavam-se, por exemplo, bo-
AS MULHERES MÉDIUNS 339
338 AS MULHERES MÉDIUNS
las de piche ou de penas penduradas por um fio de Os poderes da jovem Angélique eram muito
seda que eram, alternadamente, atraídas ou repeli- mais poderosos na parte da manhã, particular-
das, pela força que emanava de seu corpo. mente das sete às nove horas.
Angélique podia distinguir, com os olhos ven- A força energética emanava pela frente do
dados, apenas pelo tato, os pólos de um magneto. seu corpo, irradiando-se, principalmente, pelo pu-
Uma bússola se agitava freneticamente apenas nho e cotovelo e somente do lado esquerdo. Este
com a sua presença. Ao seu toque as cadeiras e
braço apresentava sempre uma temperatura mais
mesas pulavam emanando uma brilhante luz no
momento que nelas encostava as mãos, ao tempo alta que o outro. Outro aspecto interessante de
em que lhe dava forte repulsão. A cama, em que se sua faculdade se dava quando ela estava sentada
deitava, sacudia e tremia debaixo dela. numa cadeira sem que seus pés tocassem o chão;
O doutor Tanchou observou que, algumas ve- se a fizessem sentar sobre as mãos ou a colocas-
zes, os fenômenos eram acompanhados de umas sem em pé sobre um soalho encerado, sobre um
correntes de vento frio. pedaço de seda ou prato de vidro, nada ocorria.
Ele, então, informou ao sábio Arago que levara Durante a manifestação dos fenômenos, Angéli-
a jovem a seu laboratório, apresentando um relatório que ficava alterada emocionalmente, inquieta, aterrori-
à Academia de Ciências. Criou-se uma comissão zada e extremamente hiperestática. A cada produção
composta de seis delegados: do próprio Arago, do da força misteriosa, ela buscava um local para se es-
grande físico Becquerel, dos naturalistas Geoffroy, conder como se nada tivesse a ver com o que estava
Isidore Saint Hilaire e de Babinet, a fim de dar um acontecendo. Seus músculos ficavam tensos e os ba-
parecer definitivo a respeito dos fenômenos provoca- timentos cardíacos subiam para 120 por minuto.
dos por Angélique Cottin. Era tamanha a força emanada de Angélique
Três semanas mais tarde, apresentaram suas que uma mesa de 60 quilos se levantaria apenas
conclusões. Apenas admitiram os movimentos re- com o roçar de seu avental. Foi observado que as
pentinos e violentos da cadeira na qual a moça es- roupas que vestia tinham grande importância, che-
teve sentada durante as experiências. Apesar das gando o seu contato com o objeto a serimprescin-
evidências, eles não souberam interpretar o que dível para sua produção.
observaram e apenas ficaram convencidos de que Como Eusápia Paladino, ela produzia fenô-
aqueles movimentos eram produzidos por uma for- menos de telecinesia.
ça muscular. Entretanto, doutor Tanchou e muitos A história detalhada de Angélique Cottin se
outros se convenceram de que o fenômeno provi- encontra relatada na monografia do doutor Tan-
nha de uma nova força desconhecida. chou intitulada :'Enquête sur L'authenticité des
De acordo com Lafontaine, quando ela colocava Ph~nomenes Electriques D'Angélique Cottin",
seu punho esquerdo perto de uma vela acesa, a Paris, 1846. E um longo relatório sobre ela foi publi-
chama se inclinava horizontalmente, como se esti- cado pelo Coronel De Rochas em "L'extériorisation
vesse continuamente soprada. de la motricité".
340 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
murmúrio pára quando a voz entra em ação. Du-
rante todo o tempo de meus experimentos, a mé--
dium parecia incapaz de sustentar a voz por
mais de um ou dois minutos de cada vez, e a in-
formação era dada, em sua maior parte, em bre-
ves períodos de tempo, intercalados por perío-
dos de silêncio que duravam de um minuto a um
quarto de hora. Além disso, parecia que a voz só
podia ser emitida quando a música estava tocan-
BLANCHE COOPER do e, em apenas uma ou duas ocasiões, foram di-
tas palavras um ou dois segundos após cessada
a música. Focos de luz eram vistos em todo o
Médium inglesa, de voz direta. Con~ta, nos Pro- decorrer da sessão, embora elas aparecessem
ceedings, vol. XXXV, da S. P. R. (S9~ledade par~ nos intervalos de silêncio e nunca simultanea-
Pesquisas Psíquicas, Londres), uma sene de expen- mente às vozes. Essas luzes variavam em apa-
mentos e observações realizados por S. G. Soai, nos rência; desde manchas obscuras e amorfas até
anos de 1921 e 1922. Ele era professor da Facu~d~de discos azulados e brilhantes, aproximadamente
de Ciências da Universidade de Londres. O mais Im- do tamanho de uma moeda de meia coroaJ~
portante fenômeno por ~Ie ~el~t~do foram as mensa- Algumas vezes, formas escuras, a forma de uma
gens recebidas de um Irmao ja ~ese~camado e ~e mão humana, de uma orelha ou a silhueta de uma ca-
outros Espíritos cuja identidade nao pod~ ser conflr~ beça eram vistos contornados por uma bola de luz.
mada. S. G. Soai, após suas observaçoes, concluI Observou Soai que, no que dizia respeito às
que Blanche Coope~, durante.as experimentações, se perguntas que os participantes dirigiam à médium
comportava da segUinte maneira: em transe, nem sempre ela respondia de imediato.
Pedia um tempo, e depois dava a resposta correta.
(...) "não entra em transe e, nos intervalos em Achava ele, então, que havia um processo de cap-
que a voz não está falando, é aparentemente tação da idéia do participante que, de alguma forma,
normal mostrando-se capaz de conversar com deveria passar pelo inconsciente da médium. Assim,
as pessoas presentes e, às vezes, até mesmo., quando lhe. era pedido uma resposta ela dizia: Não
de repetir as palavras que a voz acab0i.!. de di: posso responder agora, mas tentarei responder de-
zero Entretanto, no decorrer das ses?o.es, ha pois. E realmente a resposta era dada algum tempo
um certo grau de distração e a medlUm se depois, quando nem mesmo a pessoa que pergun-
mostra, às vezes, lenta para responder a per- tara se lembrava do assunto.
guntas que lhe são dirigidas pelos present~s. Caso interessante nas pesquisas de Soai com
Enquanto a voz não está falando" ela mantem Blanche Cooper ocorreu, justamente, com a mani-
um murmúrio contínuo com os lablos e esse festação de um amigo, Gordon Davis, que se mani-
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
festou como se estivesse morto. Mais tarde, verifi- Os v~lumes da. ~Psychic Science" contêm rela~
cou-se que ele estava vivo. to~ <;ie mUl~as. expenenclas interessantes com essa
A manifestação de Gordon se deu através do medlum, pnnclpalmente entre 1923 e 1925.
fenômeno da voz direta. O timbre e o sotaque de
sua voz, bem como seu estilo característico de fa-
lar, eram reproduzidos de forma inconfundível. As-
sim ele descreveu incidentes da sua infãncia só co-
nhecidos de Soai, além de falar de outros assuntos
estranhos. Chegou a descrever seu último encontro
com Soai e o conteúdo da conversa. Manifestou o
desejo de enviar uma mensagem de conforto para
sua esposa e seu filho. Agia exatamente como um
Espírito desencamado, mas, curiosamente, não
deu informação de como ocorreu sua morte, entre-
tanto descreveu minuciosamente o interior de uma
casa que Soai só ocuparia um ano depois, bem
como deu uma descrição precisa do ambiente onde
a mesma estava localizada.
Passou o tempo e Soai só veio a saber que
Gordon Davis estava vivo em fevereiro de 1925.
Soai, através do diário de Gordon, pesquisou as
suas atividades no dia em que a mensagem fora re-
cebida e chegou à conclusão que, usando o incons-
ciente do amigo, Blanche Cooper, previu aconteci-
mentos da vida do próprio Soai, isto é, a visita que
fizera mais tarde à casa descrita, em abril de 1925.
Por outro lado, Soai coloca a seguinte questão: se
foi uma premonição, também deveria envolver a
sua conversa com Gordon, pois, durante o contato
que tiveram, ele não teve oportunidade de ver o fi-
lho do amigo, mas a informação dada pela voz fora
correta.
A médium Blanche Cooper era controlada por
dois Espíritos-guias: Nada e Afid. Nada tinha uma
voz aguda, bem juvenil, -enquanto a de Afid era gra-
ve, quase sepulcral.
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
c~iança. Pouco depois da premonição da morte da
Tia Sara, leonore gritou no meio da noite. dizendo
qu~ uma forte .luz ~ várias faces brilhantes não a
deixavam dormir, alem da cama que não parava de
balançar. Afora esses acontecimentos inusitados
sua infância foi perfeitamente normal. '
Aos 22 anos de idade, leonore casou-se com
um r~paz de Boston, chamado William Piper. logo
dt:POI?, ela foi fazer uma consulta com aquele que
lEONORE PIPER pnmelro testemunhou os fenômenos psíquicos pro-
vocados pela Sra. Piper. Tratava-se de Dr. J. R. Coc-
ke, um Vidente norte-americano, cego, residente em
B.ostol), ~ que ~e .tomou famoso pelas suas curas e
leonore Piper nasceu em ~875, na cidade de d2a9f\ostlcos r:nedlco? Ela decidiu visi!á-Iopor insis-
Boston, nos Estados Unidos. E considerada uma tencla do mando, a fim de que, como ultimo recurso
das mais notáveis médiuns de transe de todos os tentass~ se. livrar d?s incômodos que sentia como
A

tempos. Por quarenta anos, dos 75 que viveu, dedi- consequencla do aCidente com o trenó ou segundo
cou-se à mediunidade e a ser pesquisada pelos o.utras i~~ormações, por causa de um tumor. Ele fa-
mais famosos cientistas de sua época. Atribui-se a z~a. reunloes sempre aos domingos. No dia em que
ela a conversão de Sir Oliver lodge, Dr. Richard VISitava o doutor C~cke, ela entrou, inesperadamen-
Hodgson, Prof. James Hyslop e muitos outros inte- te, em tran?e: S~ntlu, como ela própria descreve, o
lectuais à crença na sobrevivência dos Espíritos e s~u r?sto diminUindo de tamanho até perder a cons-
na comunicação com os mortos. ClenCla do que estava a seu redor. Mais tarde com
Tem-se notícia de que sua mediunidade foi o repetir das reuniões, tinha convulsões e, a seguir,
despertada de forma curiosa; tudo começou a acon- estupor e estertores, antes de cair em transe profun-
tecer depois que sofreu um acidente de trenó, em do. Em estado aparente de inconsciência total ela
1884, que lhe causou um ferimento na cabeça. Con- rt:.vel~u possuir diversas faculdades, como: clárivi-
ta-se, entretanto, que quando tinha oito anos de ida- dencla~ t~lepatia, xenoglo~ia, emissão de diagnósti-
de, sentiu um sopro agudo no ouvido direito e, logo co~ me.dl~os corretos, alem de psicografia com as
a seguir, a formação da letra S acompanhada da maos direita e esquerda simultaneamente.
frase: Tia Sara não morreu, ela ainda está com Charles Richet observou a Sra. Piper, da pas-
você. leonore ficou muito assustada. Sua mãe ano- sag~m do estado normal para o estado de transe, e
tou o dia do acontecimento e, muitos dias mais tar- assim se expressou:
de, chegou a notícia que Tia Sara houvera desen- "E~a precisa, l~ara entrar em transe, segurar a
camado exatamente naquele dia e naquela hora. mao de alguem. Então, aperta-a durante al-
Outros fenômenos continuaram a ocorrer com a guns minutos ficando silenciosa. Ao fim de cin-
AS MUUIERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 341
co ou quinze minuto~, .é tomada de p~quenas assistiram a uma sessão e ficaram surpresas com
convulsões espasmodlcas, que se vao aa::n- as revelações de fatos íntimos quesõ elas conhe..
tuando, terminando por uma peque~a. cnse ciam e das mensagens de amigos mortos provando
epileptiforme, muito demorada. Ao salf de~a sua identidade, e que a· médium desconhecia total-
crise, cai em estado de estupor, com respIra- mente. E, quando a Sra. Gibbins, sogra do Prof. Ja-
ção um tanto estert0rosa, que dur~ cerca de mes, a convidou, ela, por razões inexplicáveis, acei-
dois minutos; depoIs, de repente, sal desse en- tou de bom grado.
torpecimento com um clamor. A sua ,voz muda; De inícIo, WilIiam James se mostrara incrédulo,
já não é mais a Sra. Piper quem esta presente, chegando a sorrir e a afirmar que a Sra. Piper era
mas outra personagem, o Or. PhJnuit, que fala, uma embusteira e que todos os fatos que revelava
com voz grossa, com acentuaçao em que.. ha tinham sido coletados em cemitérios e livros de en-
uma mistura de língua de negro, de frances e
dereços. Declarou, até, que estava decidido a pro-
de dialeto americano."
var a sua afirmativa. Assim pensando, realizou 12
Na segunda visita ao Dr. Cocke, Leonore co- sessões com a Sra. Piper, no outono de 1885. Nes-
meçou a desenvolver sua mediunidade que se en- sa época, apenas o Dr. Phinuitcontrolava os traba-
contrava em estado latente. Induzida ao transe pelo lhos espirituais. Eis as impressões pessoais de
Dr. Cocke, ela voltou a ter a visão que teve ~a infân- William James a respeito das faculdades da Sra. Pi-
cia a da luz que envolvia pequenas faces. Ainda em per:
tra~se levantou da cadeira, foi até a mesa, pegou
papel 'e lápis e escreveu em poucos minutos uma "Minha impressão, após a primeira visita, foi de
mensagem que ela mostrou para um membro do que a Sra. Piper era portadora de poderes su-
círculo e voltou para seu lugar. Este membro era o pranormais ou conhecia os membros· da faml1ia
Juiz Frost, de Cambridge, um notável juri;st?, par? de minha esposa pela visão e tinha, por algu-
quem seu filho já desencamado em um traglco a~l­ ma coincidência, conhecido com eles uma va-
dente enviara uma mensagem. Este deu provas tao riedade de suas circunstâncias domésticas
minuciosas que não deixaram dúvidas quanto a ~ua para·produzir O impacto.da impressão que ela
identidade. A notícia desse fato se espalhou rapida- fazia. Meu último conhecimento sobre suas
mente e a Sra. Piper passou a ser requisitada para reuniões e contatos pessoais com ela levam-me
sessões. Entretanto, tal notoriedade a des.agra?ou e absolutamente a rejeitar a última hipótese e a
ela passou algum tempo sem querer ver OIngue~. crer que ela tem poderes supranormais."
Entretanto, o primeiro a conse9uir pesqUisar, O resultado das pesquisas de William James
criteriosamente, a Sra. Piper, atraves de metodos está contido no relatório que ele apresentou à So-
científicos foi o célebre psicólogo e filósofo William ciety for Psychical Research (Sociedade para Pes-
James (1842-1910), professor da Universidade de quisas Psíquicas), de Londres. Aí, ele narra como
Harvard. Ele tomou conhecimento das faculdades procedeu desde o início de seu trabalho. Referindo-se,
da Sra. Piper através de umas parentas suas que principalmente, ao primeiro período de experiências,
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
William James escreveu, em 1890, no seu Procee- à perplexidade e ao espanto. Um dos fatos que ele
dings, no volume VI: narra é o do talão de cheques que sua sogra houve-
"E eu repito novamente o que disse antes, que, ra perdido, tendo Phinuit indicado o lugar exato em
tomando tudo o que eu conheço da Sra. Piper que o mesmo se encontrava. Em outra reunião, Phi-
no relatório, o resultado é me sentir tão absolu- nuit repreende William James em razão de um ato
tamente certo, como eu estou de qualquer fato praticado contra um animal. Visivelmente aborreci-
pessoal no mundo, que ela sabe de coisas du- do, Phinuit disse: O Senhor acaba de matar um gato
rante seus transes que ela não poderia em ne- com éter. Ele tinha o pêlo cinzento e branco. O infe-
nhuma hipótese ter ouvido em seu estado de liz animal andou à volta longo tempo antes de mor-
vigl1ia, e que a filosofia definitiva de seus tran- rer, fato recente que a médium desconhecia. Outra
ses está ainda por ser encontrada. " importante revelação foi a referente à morte de uma
Consta em seu relatório como ele procedeu em tia da Sra. James, chamada Kate. Disse Phinuit que
seu contato inicial com a Sra. Piper. Fora incógnito, a dita senhora morreria dentro de duas horas. Sobre
acompanhado da esposa, conhecer a médium como o fato, testemunha William James em seu relatório:
qualquer curioso comum. Logo que a Sra. Piper caiu '~O chegar em casa, encontramos um telegra-
~m t~~nse sonambúlico, apre~entou-se um Espírito ma que continha a seguinte notícia: 'Tia Kate
Identificando-se como tendo sido em vida Dr. Jean faleceu alguns minutos depois da meia-noite'. "
Phinuit Scliville, um médico francês que era orienta- O mais notável dessa revelação é que Phinuit
dor do Dr. Cocke e que agora orientava os trabalhos dissera ainda, à esposa de William James que ela
mediúnicos daquela médium. Era o chamado con- receberia uma carta de despedida de sua tia, pre-
trole. Este Espírito tinha uma voz grave e profunda,
vendo também o seu conteúdo. Tudo isso foi com-
m~ito. diferente da voz da !TIédi~m. Antes, porém, o
pn~elro controle da Sra. Plper tinha sido uma jovem
provado posteriormente.
mdla com o estranho nome de Chlorine. Outros Es- Como ocorre com todo aquele que se dedica a
píritos desencarnados já se tinham comunicado comprovar a veracidade dos fenômenos espíritas,
através da sua mediunidade, entre outros: Commo- William James também não ficou a salvo das calú-
dore Vanderbilt, Longfellow, Lorette Penchini, J. Se- nias e dos deboches. Após a apresentação do seu
bastian Bach e a Sra. Siddons, a atriz. relatório à Sociedade para Pesquisas Psíquicas de
Ainda bastante incrédulo e para ter certeza de Londres, não faltou quem declarasse que ele fora
que não se constituía numa farsa, chegou ao absur- ludibriado e que tudo o que presenciara não passou
do, mas com o consentimento dePhinuit, de dar um de embuste arquitetado pela Sra. Piper. Seu relató-
Re:queno corte no pulso esquerdo da Sra. Piper, ve- rio foi muito discutido pelo conselho da Instituição,
nflcando que o transe era autêntico, uma vez que constituída por homens considerados sábios, mas,
ela não sentiu nenhuma dor. que, infelizmente, não admitiam a existência do Es-
A partir desse dia, as provas da idoneidade da pírito e, muito menos, que eles pudessem se comu-
Sra. Piper se multiplicaram, levando William James nicar com os vivos e atuar no plano terrestre.
350 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 351
Não satisfeitos, portanto,. com o trabalho de sarnento, ele colocou, abruptamente um frasco
William James, procuraram outro cientista, a fim de aberto que continha amoníaco, sob aS narinas da
atingir os objetivos propostos, ou seja: desmascarar Sra. P~p.er. Ela nem piscou. os olhos. A seguir, foi
Leonore Piper. Para isso, o mesmo conselho enviou uma sene de revelaçoes. Phlnuit se manifestou com
a Boston o Dr. Richard Hodgson (1855-1905), um sua voz característica e desmascarou o cientista re-
australiano que conhecia, profundamente, a técnica velando o seu verdadeiro nome. Depois foi citado o
utilizada pelos mágicos profissionais em seus tru- nome da mãe de um seu primo chamado Fred com
ques. Ele era formado pela Universidade de Cam- guem Ho~gson estudara em um colégio da Austrá-
bridge e veio para continuar as pesquisas de William lia, a. ~egUlr os de seu pai e do irmão mais jovem, to-
James. Ele era o mais cético dos caçadores de frau- dos, Ja desenC8:rn~dos. Este foi o mais importante
dulentos. penodo da me~lunldade de Leonore Piper.
Iniciando seu trabalho na primavera de 1887, Entre as diversas faculdades mediúnicas e aní-
Hodgson logo colocou um detetive para seguir os micas a Sra. Piper possuía a aloscopia, que é uma
passos da Sra. Piper, a fim de obter dados sobre a faculdade paranormal ou psíquica. Consiste em
sua vida pessoal e de que maneira ela obtinha os conseguir ver os órgãos internos das pessoas sa-
dados íntimos sobre as pessoas. Nos primeiros três b~r q~al. deles se ençontra lesionado e estabeiecer
dias da semana em que se realizaram as sessões, o dla~nostlcos e prognosticos de doenças, e, o que é
Dr. Hodgson proibiu Leonore de ler os jornais matu-
tinos. Os membros da reunião eram desconhecidos
da Sra. Piper e seus nomes não eram mencionados.
se encontram a distância. °
mais surpreendente, muitas vezes de pessoas que
Dr. Richard Hodgson
teste~unhou, durante doze anos, a manifestação da
Enfim, os membros das sessões eram, geralmente, Sra. Plper nesse campo.
improvisados e, se alguma vez o nome de alguém .0 próprio Hodgson relata vários fatos que pre-
era citado, utilizava-se um pseudônimo. Eram reali- sencIou durante suas investigações com essa mé-
zadas duas reuniões por dia, com pessoas prove- dium extraordinária e que demostram a sua mediu-
nientes de diversas partes do mundo convidadas nid~de polimorl~. Encontram-se em "Anna/es des
pelo Dr. Hodgson. Sc/ences Psych/ques" (Anais das Ciências Psíqui-
Chegando a Boston, o Dr. Hodgson procurou cas), do ano de 1906, dois casos narrados por
Hodgson:
William James e solicitou que o apresentasse à Sra.
Piper, mas o apresentasse com o nome fictício de "Primeiro
Mr. Smith. Tal pedido mostra que o Dr. Hodgson Na primavera de 1888, uma pessoa do nosso
nem mesmo acreditava na faculdade telepática. A conhecimento, M. S., sofria de uma doença do-
sessão foi realizada, entretanto Mr. Smith não con- /o!osa, sem probabilidade de cura; tinha-se, po-
seguiu realizar a sua missão. Curiosamente, elees- rem, esperanças de que suas torturas diminuís-
tava seguindo as mesmas etapas do processo em- sem.. Uma consLf/ta a9s médicos havia diag-
pregado por William James. Para ele tudo não pas- nosticado a contmuaçao dos seus sofrimentos
saria de uma farsa desde o transe. Com esse pen- durante muitos anos ainda e com probabilidade
352 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
353
de decadência mental. A filha de M. S., presa
de inquietação e de vigílias, estaya a pont~ d.e Marguerite Brown, e lhe dei como endereço o
cair doente. Eu perguntei,. en,tao, a PhmUlt: dos meus amigos... Antes de entrar na cabine
'Como deverei fazer para ajuda-Ia a encontrar escura, peguei três envelopes lacrados, cada
um pouco de repouso?' E/~ me resfondeu: 'Ela um contendo um maço de cabelos, e os colo-
não abandonara a cabecetra do paI, mas os s~­ quei num livro; um, no começo do livro, outro
frimentos não durarão por muito tempo. Os me- no meio e o terceiro no fim. Eu sabia que aque-
dicos se enganaram. Ele dentro em pouco ~o­ le do meio pertencia à minha mãe; era uma
frerá uma mudança; morrerá antes que tecmme mecha que eu lhe havia tirado de surpresa,
o verão.' Com efeito, M. S. faleceu no mes de porque ela não daria jamais seu consentimen-
junho de 1888. to. No que conceme aos outros, 'eu ignorava
Segundo tudo'. Eles me haviam sido enviados por Fred
Day, um amigo, em envelopes lacrados. Depo-
Uma profecia foi feita, a da mf?rtfJ de um dos sitei em suas mãos o maço de cabelos que eu
meus irmãos, o qual nunca a?slstlU a uma_ses-
A
havia posto no começo do livro. Imediatamen-
são Ele sofria de asma cromca. Na sessao de te, Phinuit exclamou:
10 de maio de 1892, Phinuit disse qUf! seus ' - Fred! Oh! Sim, Fredl Um jovem muito ma-
rins estavam atingidos e que ele morreria den- gro; ele usa óculos, tem pouca barba. É vosso
tro de seis meses ou um ano, e, ,em respo?t? a grande amigo. Eu nunca tive cabelos desde
um nosso pedido, acrescentou; Ele dormtra, e Fred, contudo sua 'influência' não me é nova.
quando acordar se ~ncontrara no '!',undo dos
espíritos' seu coraçao descansara. ~ 22 de 'Eu vim em seguida a saber que Fred havia,
maio, a data da morte foi fixada p~a, 'seIs mesf!s anteriormente, assistido a sessões com a Sra.
ou pouco antes ou um pouco maIs. Com e!elto Piper e Hodgson.
ele morreu durante o sono, de parada cardlaca, ' - Quem é Imogene?
no dia 3 de setembro. " ' - Eu não sei - respondi-lhe.
No mesmo Annales, do ano de 1906, encontra-se '-Sim, Imogene; uma jovem senhora, amiga
relatado outro fato extraordinário por demonstrar de Fred .. Influência muito forte. Quem é?
não somente que as informações dadas pela Sra.
Piper não eram produto do seu in~<?nscien~e, com~ ' - Eu não sei nada - repliquei.
envolvia, em um único caso, v~n.?s fenomeno~. ' - Ele nunca me disse que tinha uma amiga
diagnóstico, clarividência, pre~ogmçao e retrocogm- com esse nome. Creio mesmo que ele nem a
ção. Quem dá o testemunho e Hodgson, e Gertrude tenha.
Savage é quem relata: "- Sim, ele a tem: não me contradiga! Este
"Eu marquei uma sessão com a Sra. Piper F,red é filho único; a mãe tem ótima disposição.
apresentando-me sob um nome falso, o de E uma bela senhora, porém, não permanecerá
por muito tempo neste mundo. Este senhor
AS MULHERES MÉDIUNS
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-se a um regime de duchas quentes; lem-
Fred partirá para uma longa l(iagem atrav~~ do bre-se. Ao que me parece ela e sua parenta.
oceano dentro de um ou dOIs anos. Ele)a fez Espere... é sua mãe... eu creio. Sim, sim, é sua
duas grandes; uma sobre o mflr e outra sobre a mãe; e ela tem uma, duas, três, quatro crian-
terra. Não é verdade? E posslvel? ças, dois meninos e duas meninas.
' - Eu não tenho certeza - respondi. O Or. Richard Hodgson, o mais materialista e
,_ Não importa, ele a ff!~; pergunte-lhe. Eu sei desconfiado dos pesquisadores, propôs um plano
o que digo. E-me permitido ler no futuro e e~­ para testar as faculdades paranormais da Sra. Piper.
pus os fatos. Você poderá se assegurar se sao Ele já estava meio inseguro das suas convicções ma-
exatos. terialistas e arquitetou uma forma de experimentar a
médium, submetendo-a a experimentações na Ingla-
Eu peguei, então, do fim do livro, o 0i!tro maço terra, País com que ela não mantivera nenhum con-
de cabelos que me eram desconhecidos e lhe tato antes. Para surpresa de Or. Hodgson, a Sra. Piper
dei. Logo em seguida exclamou: aceitou o pedido. Na oportunidade, declarou aos
,_ Ufha! Dentro deste aqui há u'!1a doença. Eu amigos: Para provar que sou uma pessoa honesta
me sinto mal! Eu nada posso d/~er porque as preciso ir à Inglaterra.
influências estão misturadas. MUitas pessoas o No dia 9 de novembro de 1889, a Sra. Piper,
tocaram' ele não foi cortado perto da testa, de acompanhada de suas duas filhas pequenas, Alta e
sorte qJe o magnetismo do c.orpo pudesse pe- Minerva, embarcaram, em Boston, no navio Scythia,
netrá-Ia. Eu nada posso lhe dizer. da Companhia Cunard. Assim que desembarcaram
'Ora eu soube de maneira certa que os cabe- em Liverpool, foram encaminhadas à residência do
los pertenceram a uma t~a de F~ed, uma certa Prof. Frederick Myers, em Cambridge (1843-1901),
senhora Marie, que havia momdo no ,,!esmo e recepcionadas por Sir Oliver Lodge. Frederick
ano que os cabelos passaram pelas maos de Myers pedia desculpas pela ausência, em virtude de
divérsas pessoas e que haviam sido cortados estar realizando conferência em Edinburgh. Já se ti-
nham tomado os devidos cuidados, desde a véspe-
da ponta. ra da chegada das visitantes, para que não perma-
Eu peguei por último, do [11e~o do liv.!0' o maço necesse à vista nenhum dado sobre os habitantes
de cabelos pertencentes a mmha mae e lhe en- da casa: foram escondidos os álbuns de família, os
treguei. livros com nomes de pessoas e até a criadagem ti-
,_ Ela ela (exclamou Phinuit) me parece mui- nha sido substituída.
to avara de seus cabelos. Ela tem um d9 ce Frederick Myers, um dos fundadores da Socie-
temperamento, mas não goza de boa sai!df!. ty for Psychical Research, relatou suas experiências
Seus males estão na cabeça; sofre de temvels posteriormente:
dores de cabeça. Pqssui uma fraqueza m:;rvosa "Estou convencido de que a Sra. Piper, ao che-
no estômago; seu flgado funcIOna mal. Diga-lhe gar à Inglaterra, não conhecia o nosso País nem
que fui médico e a aconselho a submeter-
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os seus habitantes. A criada que devia servi-Ia
fora escolhida por mim. Era rapariga boçal, po- Assim prometeu, assim cumpriu. George
rém muito fiel, e eu tinha todos os meios de jul- Iham desencamou a 17 de fevereiro de 1892 e, a
gar sua honestidade. E para maior segurança de março, transmitiu, através da Sra. Piper, a pri-
tive o cuidado de não revelar, de antemão, os meira mensagem escrita, enquanto Phinuit dava ou-
nomes das pessoas que eu convidaria. Os as- tra mensagem psicofonada, usando a voz da mé-
sistentes foram escolhidos por mim, muitos não dium. Tais fenômenos derrubaram a teoria da tele-
residiam em Cambridge, e, quando não os patia na explicação da recepção de mensagens es-
apresentava com falsos nomes, eram introduzi- pirituais. Realmente, George Pelham provocou
dos depois de iniciado o transe. " grande alvoroço conforme prometera. Em uma úni-
ca sessão, compareceram 150 pessoas, entre as
Nessa primeira viagem à Inglaterra, a Sra. Pi- quais 30 foram reconhecidas pelo Espírito como
per permaneceu dois meses. Durante este período, suas amigas. Na ocasião, ele citou seus nomes e se
ela se submeteu a 88 sessões, observada por vá- referiu a fatos íntimos de suas vidas. Ao Dr. Richard
rios cientistas e convidados. As informações dadas Hodgson deu uma declaração que ficou célebre:
aos participantes a respeito de parentes longínquos
foram confirmadas posteriormente. "Eu não acreditava na sobrevivência da alma.
Ao retomar a Boston, houve significativas mu- Esta crença estava fora daquilo que a minha in-
danças no teor das comunicações recebidas pela teligência podia conceber. Hoje pergunto a mim
Sra. Piper. Uma delas foi a mudança do controle. mesmo como me foi possível duvidar dela. Te-
Dr. Phinuit, que permaneceu até março de 1892, ,,?os um duplo etérico do corpo físico, que per-
deixou de ser exclusivo, dividindo o controle com o Siste, sem qualquer alteração, depois da disso-
Espírito George Pelham, enriquecendo os fenôme- lução do corpo. 11
nos. Leonore Piper fez uma segunda viagem à In-
George Pelham morrera aos 32 anos, em virtu- glaterra em 1906. Ao retomar, passou a ser pesqui-
de de uma queda de cavalo. Era natural de Boston sada por James Harvey Hyslop (1854-1920), profes-
e descendia de famOia tradicional dos Estados Uni- sor de Etica e Lógica da Universidade de Colúmbia
dos, da qual fazia parte o inventor Benjamin Franklin. (Nova. Iorque). Era membro da American Society for
George Pelham era autor de duas obras filosóficas. Psychlcal Research. Com ele, a Sra. Piper realizou
Ele houvera assistido, quando encarnado, a uma 16 sessões, cujos resultados foram registrados em
sessão com a Sra. Piper, mas não se convenceu da at~s que constitueJ'!l um volume de 650 páginas.
veracidade dos fenômenos. Entretanto, quatro anos FOI, nessa mesma epoca, na manhã do dia i7 de
antes de morrer, prometeu ao Dr. Richard Hodgson: dezembro de 1906, que começaram os experimen-
"Se eu morrer antes de você e se me achar tos das correspondências cruzadas, também conhe-
ainda no gozo da existência, farei tamanhos cidas como mensagem lataina, em que três médiuns
esforços para revelá-Ia que a coisa há de fazer tomaram parte: a Sra. Verrall, a Srta. Verrall, resi-
barulho." dentes em Cambridge, e a Sra. Piper. Nessas mani-
festações, o Espírito comunicante se utilizava das
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mensagens de dois ou três médiuns para compor convencido da idoneidade da médium. Com ele con-
uma única mensagem. A interligação entre elas só corda Sir Oliver Lodge, que estudou demoradamen-
se verificava quando eram reunidas; separadas, não te a Sra. Piper e diz:
possuíam nenhuma correlação. Estas correspon- "",!o estado de transe, a personalidade da Sra.
dências foram criticadas por vários pesquisadores, Plper conhece, sem dúvida (emprego o termo
mas Sir Oliver Lodge, Sir William Barrett, Prof. Wil- em toda a sua força), muitas coisas que não
liam James, além de diversos membros da socieda-
de para Pesquisas Psíquicas de Londres, opinaram pode saber normalmente e que ignora por
favoravelmente. Sir William Barrett chegou a deda-. completo no estado de vigl1ia. Como chega ela
rar que certamente nenhuma inteligência encarnada a tal conhecimento?"
teria planejado, coordenado e dirigido-as. Sir. Oliver L?dge p~e em relevo a questão de
O Prot. Hyslop era um pesquisador severo, cri- que as Informaçoes ob!ldas pela Sra. Piper perten-
terioso e desconfiado ao extremo. Chegava ao cem, realmente, a alguem do mundo extrafísico e se
cúmulo de ir para a sessão em carruagem com as originam de personalidades invisíveis dotadas de in-
cortinas fechadas, usava uma máscara para não ser teligê~c~a e caráter próprios perfeitamente distintos
reconhecido por ninguém e, entrando sorrateira- da medium. Declara, entretanto, o ilustre pesquisa-
mente no local das sessões, sentava-se às costas dor em 1894 que:
da médium e, assim sendo, quando esta já se en-
contrava em transe profundo. "Ela própria (referindo-se a Sra. Piper), no es-
Mais tarde, a hipótese de fraude foi discutida, tado de transe, isto é, o seu 'controle' ou a par-
em seus diversos aspectos, pelo Dr. Hodgson, Prol. te dela qu~ se chama Or. Phinuit, afirma que
William James, Prol. Nelbold, da Universidade da ela as obtem falando com os amigos ou paren-
Pensilvânia, Dr. Walter Leaf e Sir Oliver Lodge. Em tes falecidos das pessoas presentes...; mas se
1898, o Prof. William James escreveu na Psycholo- a ~oz: muda e as mf!nsagens parecem vir dos
gical Review: propnos defuntos, nao quer dizer que eles sai-
"O Or. Hodgson considera que a hipótese de bam,o que se passa e o seu espírito consciente
fraude não pode ser mantida seriamente. Eu (se e que o tem) pode ser inteiramente alheio a
concordo com ele absolutamente. A médium este 'processus'."
tem estado sob observação, na maior parte do . Mas, a experiência adquirida nos anos poste-
tempo sob estrita observação, na maioria das n~re~, sobretudo nas experiências das correspon-
condições de sua vida, por um grande número df}'!clas cruzadas, persuadiram os investigadores
de pessoas, ansiosas, muitas delas, em sur- senos como ele de que há esforço consciente e deli-
preender qualquer circunstância suspeita, por berado da parte dos comunicantes invisíveis para
(aproximadamente) quinze anos. " nos convencer da sua sobrevivência.
O Professor James teve ocasiões únicas com a . A respeito da sua mediunidade, declara a Sra.
Sra. Piper. Em carta a Frederick Myers, ele diz estar Plper:
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
"Quando descobri que possuía um dom, poder,
ou o que desejarem, no qual o melhqr do meu.
conhecimento não toma parte, entao resolvI
que daria minha vida, se necessário for, para
descobrir sua verdadeira natureza. "
Quase 40 anos após essa declaração, ela de-
sabafou:
"Mas eu me surpreendo pelo fato de que, ago-
ra após todo esse tempo, não estamos sequer AGNES NICHOL
próximos da real solução como estávamos no
começo."
O Prof. William James conclui que nada eo:' .de- Nome de solteira da Sra. Samuel Guppy, céle-
sabono da mediunidade da Sra. Piper fora venf!ca- bre médium inglesa, especializada em aportes. Era
do pelos cientista~ qu~ a inv~s~igaram. A honestida- médium de efeitos físicos luminosos, desenhos me-
de e reputação, nao so da medlu~ como da pessoa, cânicos e transporte. Foi a primeira médium inglesa
estavam acima de qualquer suspeita. a produzir materializações de corpo inteiro, mesmo
antes de Florence Cook. Os relatos de trabalhos de-
senvolvidos pela Sra. Guppy são encontrados na
obra Mary Jane ou O Espiritismo explicado quimica-
mente através de Desenhos Espirituais, um livro pu-
blicado por autor anônimo, em 1863. Atribui-se a
Samuel Guppy, marido da médium, a autoria desta
obra.
o A Srta. Nichol casou-se com Samuel Guppy em
1867. Viveram por algum tempo no continente e,
quando voltaram, foram presenciados muitos fenô-
menos maravilhosos provocados pela sua mediuni-
dade.
Essa poderosa médium foi descoberta pelo Or.
Alfred Russel Wallace, êmulo de OalWin, que se tor-
nou convicto da imortalidade da alma depois que
testemunhou os fenômenos por ela provocados. Ele
não se preocupou com as materializações, que co-
meçaram a ser produzidas em 1872; o que desper-
tou o seu interesse foram os fenômenos de apports,
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que já ocorriam desde.a déc?da de 1860. E~té!va tração do péssimo caráter da Sra. Guppy fez com
ele visitando sua irmã, a Sra. Shm, e soube da eXl5ten- que os espíritas da época, horrorizados, a repudias-
cia da Sra. Guppy. Havia um ano, ·ou seja, desqe 1865, sem de seu meio. Foi nesse período que se iniciou a
que ele se iniciara nas· investigações dos fenomenos ascensão de Florence Cook.
psíquicos e espíritas. ., . ., As reuniões com a Sra. Guppy eram realizadas
Ainda jovem, a garota, hlpnotlca profissional, no escuro. A médium segurava as mãos das suas ir-
produzia movimentos de objetos sem contato. O~ fe.: mãs; entretanto, ela era levantada várias vezes de sua
nômenos eram mais intensos quando ela e sua Irma cadeira para cima da mesa. Logo após, sons de
estavam sozinhas. música eram ouvidos por todos e fenômenos de trans-
O mais curioso de sua faculdade é que os fe- porte aconteciam.
nômenos mais notáveis ocorriam quando a sala Por vezes incontáveis, grande quantidade de
onde antes se reuniram se encontrava vazia. flores e frutos, cuja origem se desconhecia total-
Investigando sobre sua inf~ncia, o ilustre r:'atu- mente, era lançada em cima da mesa de reuniões.
ralista fica sabendo que, em criança, a Srta. Nlchol Além da abundância, ela atendia a pedidos específi-
via Espíritos. Também outros fatos singulares pas- cos. As irmãs das médiuns solicitavam o fenômeno
saram a acontecer, como batidas, movimentos de e eram atendidas quase sempre.
mesa seguidos de levitação. A Sra. Guppy era uma Quando um amigo do Dr. Wallace pediu um gi-
mulher de compleição física avantajada, de propor- rassol, um espécime de 72 centímetros de caule,
ções elefantinas, como diziam. Entretanto, seu peso com terra ao redor das suas raízes, caiu sobre a
não impedia que ela levitasse como uma pluma, fre- mesa.
qüentemente. Certa vez, na casa de Sargeant Cox, uma
Segundo informações dos que a conheceram grande quantidade de flores de estufas foram lança-
pessoalmente, Sra. Guppy era de um temperamenjo das. Estava presente, na ocasião, a Princesa Mar-
rancoroso e vingativo. Havia pesquisadores que nao garida de Nápoles que desejou receber amostras de
queriam saber dela de jeito nenhum, c~mo, por cactos espinhentos. Seu estranho pedido foi atendi-
exemplo, John William Strutt (Lord Raylelgh), ga- do prontamente e vários cactos caíram sobre a
nhador do Prêmio Nobel de Física. Ele chegou a de- mesa. Os espinhos tiveram de ser colhidos com pin-
clarar, em 1874: ças. Acompanharam a solicitação urtigas picantes e
"Creio que não conseguiria suportá-Ia, nem flores alvas bastante malcheirosas que tiveram que
mesmo pela causa da ciência." ser queimadas posteriormente. A Duquesa de Apri-
Tais eram a sua virulência e ciúme descontro- no, que também estava presente, desejou receber
lado, devidos, talvez, a seu aspecto grotesco, .que areia de praia. Imediatamente, espalhou-se pelo
nutria um ódio mortal contra a esbelta e graciosa ambiente, não só a areia solicitada, como água sal-
Florence Cook, chegando a demonstrar seus ~enti­ gada e estrelas do mar ainda vivas. O espantoso
mentos com o solicitár a seus aliados que arruinas- desses fenômenos é que o mar estava a cerca de
sem aquela cara de boneca com ácido. Tal demons- 3.600 metros do local da casa onde se realizavam
364 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
as sessões. Tais fenômenos, porém, não eram ra- Sra. Guppy se encontrava em sua casa em londres
ros. Freqüentemente, enguias vivas e lagostas eram organizando a contabilidade doméstica e, ao escre~
trazidas para a câmara escura das sessões. ver a palavra cebola, foi transportada, subitamente,
Caso curioso no caso das folhagens aportadas em estado de transe profundo, meio despida e sem
é que elas chegavam queimadas e tostadas. Expli- sapatos, e colocada sobre a mesa da sala de reu-
cou o dirigente espiritual da médium que tudo isso niões. Estavam presentes, além dos seus protegi-
era devido a Eletrícity was the potent nipper (A po- dos, Frank Heme e Charles William, oito participan-
tente tesoura usada fora a eletricidade). tes. E ela apareceu segurando o livro-caixa e de ca-
Mas tarde, com o decorrer das experiências, a misola.
Sra. Guppy foi capaz de produzir os mesmos f~nô­ O que mais fazia os pesquisadores crer na ido-
menos à luz. Era indispensável, entretanto, deixar neidade da Sra. Guppy era o total desinteresse por
um local separado, na obscuridade, daquele em que retribuições financeiras. O Sr. Samuel Guppy era
se encontravam as pessoas, onde seriam deposita- um homem muito rico. Isso desorientou completa-
dos os objetos transportados pelos Espíritos. mente Frank Podmore, autor da obra "Espiritualismo
Catherine Berry, em sua obra "Experiências so- Moderno". Ele considerava todo médium fraudulento
bre Espiritualismo", fala de muitos acontecimentos e interesseiro. A Sra. Guppy se lhe apresentava
surpreendentes proporcionados pelas faculdades da como uma exceção. E ele escreve:
Sra. Guppy.._ _ '~ Sra. Guppy, mesmo durante os poucos me-
Em certa ocaslao, durante uma sessao com a ses em que prat~cara hipnotismo profissional,
Sra. Guppy, na casa da Sra. ~erry~ um,g~to branco
A
enquanto Srta. Nlchol, raramente pôde ter en-
e um cão maltes, que pertenciam a medlum, foram contrado incentivo na esperança do lucro finan-
transportados para a sala de reuniões. Além des- ceiro. Supondo-se que seja fraude, o mero cus-
ses, três patos já preparados para entra~em no for- to das flores esbanjadas sobre os participantes
no foram trazidos para o grupo. A segUir, uma en- deve ter consumido qualquer lucro que ela ti-
xurrada de borboletas caíram do teto sobre os pre- vesse obtido. E, portanto, tais estímulos teriam
sentes. acabado após o casamento. "
Numa outra sessão, uma chuva de penas de Depois da morte de Samuel Guppy, sua viúva
pato caiu, formando um monte de vários centíme- casou-se pela terceira vez e logo ficou conhecida
tros. ~omo Sra. Guppy-Volckman. Era seu marido, Wil-
Todavia, o acontecimento mais impressionante liam Volckman, o mesmo que agarrara o Espírito
da sua carreira de médium foi o seu próprio trans- Katie King materializado. Apesar de todas as com-
porte da sua casa em Highbury para a rua Lamb's provações que testemunhou, ele continuou a afirmar
Candui, nº 61. Encontravam-se a uma distância, que Katie King e Florence Cook eram a mesma pes-
uma da outra, de mais de 4.800 metros. Tal fato soa.
ocorreu devido a um pedido inconseqüente e quase Agnes Michol desencamou em dezembro de
por brincadeira de um senhor chamado Harrison. A 1917.
366 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 361
Para Marie Mahé tratava-se de um pergaminho
muito velho, manchado de sangue, e não teve difi-
culdade em revelar a origem dele, indicando, com
datas, que o sangue era de uma pessoa falecida
num barco devido a um duelo. Depois da verifica-
ção, viu-se que os prognósticos da médium corres-
pondiam à verdade dos fatos. Depois, os seus triun-
fos se repetiram. Eis alguns exemplos: um senhor
fora consultá-Ia a respeito de sua mulher gravemen-
MARtE MAHÉ te doente ( o médico pretendia realizar uma delicada
cirurgia no ventre). Ela, de imediato, recomendou ao
consul~nte: " - Não permita que operem a sua es-
Marie Mahé sócia influente do Instituto Metap- posa. E um erro de diagnóstico. "
síquico de P?!is.(Françé!i), era médium de nascença. O visitante ficou impressionado e contou esta
Pequenina, ja tinha cnses surpreendentes de s~­ conversa ao médico, que encolheu os ombros...
nambulismo. Lembrava-se perfeitamente de sua p~­ . Passados alguns dias, o médico telefonou-lhe
meira vidência, durante a guerra de 1914. Uma nOi- a pedir a morada da vidente, para cumprimentá-Ia,
te, quando ajudava a pôr a "lesa em su~ casa, de- porque, afinal, ela tinha razão.
clarou inesperadamente: - Ponho I!!als um talher As suas vidências, ora são longínquas, ora são
para o tio que vai chegar'. Este familiar estava en- próximas. Em sessão pública, anunciou a certa pes-
tão servindo ao exército e nada f~zia supor .que pu: soa uma grande aflição causada pelo falecimento
desse sair de licença, o que a mae de Mane Mahe de um ente querido. Os fatos se deram conforme,
lhe fez notar, repreendendo-a: Entretan~o" alguns detalhadamente, previra Marie Mahé. A outro con-
minutos mais tarde, o tio, já de licença, batia a porta. sulente, que a interrogou, avisou-o, com insistência,
De outra feita, tinham-na levado ao teatro a ver que tivesse o maior cuidado com as pernas, dizen-
"A Boneca de Nurembergue", e ela, durante uma do-lhe textualmente: " - Veja bem onde põe os
crise de sonambulismo noturno, des~r~veu toda. a pés... "
peça, com os nomes dos atores, as replicas e os jO- Mal saiu à rua, o homem sofreu um grave aci-
gos de cena! dente, com dolorosas fraturas nas pernas. Os céti-
Como tantos outros, Marie Mahé de~envolveu-se cos chamarão a isto coincidência. Mas, que poderão
com o famoso Dr. Eugene Osty, do Ins!l~uto de M~­ eles opor às visões que Marie Mahé fazia a distân-
tapsíquica de Paris, que formou uma plelade de me- cia, a lugares onde nunca esteve, chegando até a
diuns célebres. De início, o Dr. Osty entregava aos
precisar o número de degraus, o estado de uso da
pesquisados um sobrescrito com um documento
cuja origem ignoravam. Esta. era a base da expe- escada de entrada, descrevendo a desordem do in-
terior de uma casa e até o pormenor de um buraco
riência.
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 369
368
numa camisola de malha que a sua interlocutora só Marie Mahé não se envaidecia de suas extraor-
usava em casa?! ~inárias e polivalentes faculdades mediúnicas. Con-
Marie Mahé, para quem a vidência era uma ra- tinuou, por largo tempo, na sua modesta residência
zão de ser, considerava a sua atividade verdadeira- na velha rua Pierre-Lescot, em Paris, a desempe-
mente missionária e não profissional. O desinteres- nhar a abençoada tarefa de consolar os aflitos evi-
se que ela demonstrava por estas coisas é, sem dú- denciando-lhes as realidades da sobrevivência da
vida, a compensação do seu êxito. alma, que, no plano imponderável, preserva os seus
Profundamente crente, era sempre inspirada cara,cteres. r:norais e intelectuais, e aspira, quando
espiritualmente, razão pela qual dispensava o auxí- lhe e permitido, exortar aos seus entes queridos en-
lio de qualquer artifício material. camados, a que vivam, amem, sofram, e se prepa-
A médium possuía, também, faculdades pre- rem para outras e fecundas experiências no campo
monitórias. Assim, em 1937, predisse com impres- imenso da evolução!
sionantes detalhes, a eclosão da Segunda Guerra
Mundial e enunciou o pacto germano-russo quinze
dias antes de sua conclusão, apesar dos sarcasmos
de que era alvo por parte dos descrentes.
Outras vezes, Marie Mahé entrava em comuni-
cação com os mortos, de quem transmitia os conse-
lhos. A uma senhora que a veio consultar, disse,
simplesmente, mostrando o medalhão que trazia no
pescoço:
" - A pessoa que a senhora perdeu era sua
mãe, e el'a diz-lhe que não se aflija e que vá ver o
João."
Os fatos são exatos, a pessoa existiu e a con-
sulente contou que só teve que abençoar o conse-
lho.
Nenhuma das manifestações que nos podem
provar a realidade imortalista escaparam a Marie
Mahé. Foi assim que, há algum tempo, ela, que nun-
ca escreveu um verso sequer em sua vida, compôs,
subitamente, espantosos e belos poemas mediúni-
cos que os especialistas (dentre os quais se destaca
o portentoso pesquisador Eugene Osty) em questões
supranormais admitiram como inquestionavelmente
verdadeiros.
370 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 371
A experiência não podia ser mais estranha.
Para obter esclarecimento, levou um dia essa pintu-
ra a uma mulher que passara por ter poderes me-
diúnicos, bem como conhecimentos extra-sensoriais
a respeito dos objetos que contemplava ou em que
tocava. Essa mulher lhe disse que Goya, o grande
pintor espanhol falecido em 1828, falara com ela:
'Ele me disse que, em tempos idos, você o recebeu
em sua casa, numa grande cidade do Sul da França
HENRIETTE WEISZaROOS e, então, você o ajudou a fugir do seu país e dos
seus inimigos. Goya ainda lhe era grato e queria
dar-lhe ajuda, mas sentia que você resistia. "Era a
Em fevereiro de 1972, a revista REFORMA- sua educação acadêmica, disse a médium, a razão
DOR noticiava a existência, na cidade de Nova Ior- da atitude rígida com que não aceitava a orientação
que, de uma senhora de 69 anos, "holandesa, baixi- do artista espanhol. "Foi por isso que ele a obrigou a
nha e morena, que se chamava outrora Henriette pintar no escuro, a fim de que você não percebesse
Roos". Ela mudou de nome, por se ter casado com
o que estava fazendo."
Até então, embora sendo pintora, a senhora
um homem chamado Weisz. Mais tarde, divorciou-se Weisz-Roos confessa que nada lera a respeito de
e, embora na Holanda as divorciadas voltem a ter o Goya. Nessa mesma noite, foi à casa de uma amiga
nome de solteira, preferiu não proceder dessa for- que possuía um exemplar de uma detalhada biogra-
ma. Sua mãe uma vez a repreendeu por causa dis- fia do artista. Lendo-a, com grande assombro des-
so, mas a filha respondeu-lhe: "Sinto-me mais à cobriu nesse livro a história de Rosário Weisz, em
vontade com esse nome". Acabou, porém, por assi- cuja casa, em Bordéus (Sul da França), Goya se
nar-se Henriette Weisz-Roos e ir viver em Paris, hospedara, durante o período em que esteve exila-
custeando a subsistência com sua pintura. Pintava, do, já ao fim de sua vida. A senhora Weisz-Roos
principalmente, retratos. Uma noite, no verão de acredita que sua experiência demonstra (através do
1963, fora se deitar muito cedo, esperando dormir processo mediúnico) a reencarnação, isto é, prova
logo. Mas alguns pensamentos insistentes a impedi- que ela é uma pessoa que, aparentemente, viveu
ram de conciliar o sono. Por isso, levantou-se e foi em época anterior, isto é, no século XIX!
pintar. Singularmente, pintou no escuro, por algum
tempo, de forma automática, sem ter a menor idéia
do que estava acontecendo. Depois, tranqüilamen-
te, foi deitar-se e dormiu. Pela manhã, um belo re-
trato de uma mulher jovem se encontrava em seu
cavalete.
312 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 313
contudo, encontrado qualquer objeto desse tipo no
leito, quando despertou. Mas, ao contar o caso a
sua mãe, esta profundamente admirada, disse-lhe
que tivera o mesmo sonho, mas que de fato, encon-
trara espetada nos lençóis uma agulha de que se
esquecera, quando costurava. No entanto, Mary, im-
buída de ideais materialistas, pouca importância
dava aos assuntos espíritas, até que por volta dos
40 anos de idade um colapso da sua saúde a levou
MARY CRAIG SINClAIR a estudar livros de psicologia e psicanálise e de in-
fluência, ação e efeito, que o Espírito pode ter sobre
a matéria. Esta curiosidade acabou por inteirá-Ia dos
Upton Sinclair, o grande escritor norte-america- fenômenos psíquicos e, em breve, concludentes ex-
no, ganhador do Prêmio Pulitzer, depois de um pe- periências foram efetuadas por ela e por seu cunha-
ríodo de intenso trabalho resolveu instalar-se na Ca- do Robert Irwin, casado com sua irmã mais nova.
lifórnia com sua esposa, Mary, mentalmente muito Assim, em hora certa de cada dia, Irwin, na sua
cansada e deprimida, a fim de recuperar forças, sob
C!i~a em Passadena (EUA), pegava no papel e np
o sol generoso e reconfortante do litoral. lapls e sentava-se com a mente concentrada. A
Mas, alguns 'dias depois que a Sra. Sinclair co-
meçou a dar mostras de grande nervosismo, afir- mesma hora, Mary Sinclair, sentada no seu lar de
mando que Jack London, o grande plumitivo da fic- Long Beach (EUA) e em estado de concentração
ção, se encontrava sob uma terrível pressão mental. tentava adivinhar o que Robert escrevia, pensava
Em vão Sinclair quis dissuadi-Ia de seus maus pres- ou desenhava. O primeiro desenho do cunhado foi
sentimentos, acabando por se oferecer para condu- uma cadeira e é a própria Mary Sinclair que nos
zi-Ia ao rancho de London para que ela relaxasse a conta o sucedido:
tensão sensorial a que estava submetida. Por ques-
tões supervenientes, desistiram da visita ao ficcio- 'í4s dez horas da noite ou um pouco antes, en-
nista. Dois dias depois ambos liam nos jornais a quanto costurava, foi-me dado ver Robert pe-
morte de Jack London, sabendo mais tarde que se gar no julgo ser um candelabro. Às 11:15 (ago-
suicidara. A influência deste episódio foi enorme so- ra já plenamente concentrada) voltei a ver meu
bre a mente do escritor que conta o ocorrido no seu cunhado (desta vez sentado na sala de estar
livro "Rádio Mental", um dos mais notáveis trabalhos com um prato ou qualquer outro pequeno obje-
publicados no domínio da telepatia. to defronte dele). Tentei então divisar bem o
Já na sua infância, Mary Craig Sinclair dava utensílio, sem o conseguir. Concentrei-me a
mostra desse alto sentido psíquico. Um dia sonhou seguir sobre o desenho que Robert fizera no
que se esquecera de uma agulha na cama, sem ter, papel e, por fim, vi claramente uma cadeira. ff

AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 315


Mary Sindair soube mais tarde que lrwin se Tal é a opinião de quem ganhou o Prêmio Pulit--
sentara, hesitando no que iria desenhar, até que es- zero A telepatia pertence ao domínio da Parapsicolo-
colheu a cadeira, exatamente igual à que Mary "viu". gia e demonstra que o Espírito é ubíquo e intemporal.
Noutra ocasião, Mary procedia ao seu desenho ha- Para o pai da Parapsicologia, o DI'. Joseph
bituai, quando algo se passou que a deixou em um Banks Rhine, a telepatia é ocorrência comum na
estado de ansiedade indescritível. Chamando seu vida diária.
marido, disse-lhe que vira uma pena, depois uma Observam-se vários tipos. Escolhe, então, a tí-
flor vermelha e logo ouvira um grito. Voltou a se tulo de exemplo, um registro que sua esposa (Loui-
concentrar e a desenhar vários círculos concêntricos se) fez relativo às experiências com os filhos do ca-
com um ponto preto ao centro, que foi aumentando, saI. Verificou que ate atingirem as crianças a idade
aumentando, até cobrir a folha de papel. Sem poder de entrar para a escola, houve freqüentes casos
continuar, deixou-se cair na cadeira, possuída de não aparatosos do que se assemelhara à telepatia
um sentimento de grande angústia, porque para ela entre ela e os filhos. Por exemplo: um dia em que
o ponto negro era sangue e significava que Robert estava passando roupa a ferro, pôs-se a pensar,
tinha tido uma hemorragia. Alguns dias depois, a es- com certo pesar, que há muito não visitava a Sra.
posa de Robert veio de automóvel à casa de Sin- Mcdougall, esposa do pesquisador WilHam Mcdou-
dair, trazendo consigo o marido doente. Então Ro- gall. Uma das meninas, cuja idade regulava de 2 a 3
bert mostrou-lhes o desenho que fizera naquela noi- anos, estava brincando com dados, sentada no
te por meio de um compasso: um círculo com um chão. Levantou os olhos e disse: "Mamãe, por que
buraco no centro. Não continuara, porque acabara não vamos visitar a Sra. McdougaJJ?"
de saber que tinha hemorróidas, a juntar tantos pa- A telepatia, afirma, ainda, o autor de "The
decimentos: "meus rins, meus pulmões e agora isto! Reach of the Mind" manifesta-se mais comumente
foram meus pensamentos obsidentes que nesta noi- entre os que sonham. E se refere, mais uma vez, à
te sentí"- afirmou ele. singular faculdade psíquica da Sra. Louise: umanoi-
Observou Upton Sinclair: "Uma hemorróida te acordou-a o chamado de uma filha de três anos
tende, na verdade, a ser acompanhada de uma he- de idade, que estava em um quarto ao lado, inter-
morragia e parece, portanto, claro que minha mulher rompendo-lhe um sonho de pesadelo. A Sra. Louise
não só apreendeu o desenho do meu cunhado, tinha ficado aterrorizada por perseguição vaga, in-
como os seus pensamentos derrotistas e a sua idéia definida e quando perguntou à filha do que se trata-
de sangue." O comentário da esposa fora: "tudo va, ela respondeu: " - "Estou assustada". " - Que
está negro como a noite; sinto o cheiro de sangue. é que te assustou?" A criança teve de pensar. -
80b está mais doente que de costume". "Acho que foi um urso." Também não tinha certeza
Foi assim, através das experiências comprova- do que a assustara. O DI'. Rhine, tentando encontrar
das de sua esposa, que o grande escritor afirmou: uma explicação objetiva para o fenômeno, pergun-
" - A telepatia é real, verifica-se, pode cultivar-se tou-se: -"Teria minha mulher gritado enquanto dor-
deliberadamente. " mia, assustando a filha? Em trinta e três anos" -
376 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 317
justifica o próprio Dr. Rhine - "nunca a ouvi gritar
ao dormir".
Em um dos tipos mais impressionantes de tele-
patia uma pessoa experimenta o sofrimento de ou-
tra (éomo no caso de Mary Craig Sinclair) como se
os dois Espíritos fossem um só. A.c0nteceu .o se-
guinte, conforme o relato do Dr. Rhlne: Um dia um
pai vinha de automóvel para casa por uma estrada
de New Jersey (EUA), De repente, sentiu uma dor FATHMA BEN ROMDANE
esmagadora no peito, tão forte que pensou fo~e
morrer. Procurou parar o carro de qualquer m~nelra.
Depois de algum tempo restabeleceu-se. Nao lhe
parecendo que houvesse qualquer novidade, dirigiu-se O Dr. E,ugene Vitry de Villegrande pesq~iso~,
para casa. Quando estava contando à mu.lher o que na Tunísia, Africa do Norte, na -costa do Medlterra-
lhe havia acontecido, como nunca antes tinha expe- neo, Fathma Ben Romdane, uma muçulmana de de-
rimentado e discutindo a necessidade de exame zessete anos, saudável e robusta. Falava correta-
médico o'telefone tocou. Queriam comunicar que o mente a língua árabe e compreendia algumas pa~a­
filho e~tão no Colorado, tinha morrido em um de- vras de francês. Nunca estudou e, desta forma, nao
sasúe quando o carro que dirigia se chocara com percebia o interesse que se encontrava na leitura ou
outro. A hora da morte do filho fora exatamente em escrever.
àquela em que o pai sofrera a dor violenta no peito. Os pais pediram ao Dr. Vitry que a curasse ~a~
O filho esmagara o peito contra o volante. manifestações de sonambulis.mo a qu.e e~tava sULel-
Quando o Prof. Frederic W. H. Myers cunhou a ta havia algum tempo. DepOIS da primeira sessa~,
palavra TELEPATIA, no século XIX, tem-se encara- caiu logo em sonolência profunda e passou SUceSSI-
do em geral, o fenômeno como contato direto de vamente por todos os estados de ~enom~nologia
Espírito para Espírito. "Na situação atua!", admite J. hipnótica. Visto não conhecer bem a lingua arabe, o
Dr. Vitry optou por impor à médium a sua vontade
B. Rhine, '~ó se podem explicar as provas ,dl! que
dispomos a favor da telepatia com uma especle ge- somente pela transmiss.~o de pensamento e, ~o
fazê-lo não tardou a verificar, com espanto e satis-
rai de troca extra-sensorial de pessoa para pessoa".
Entretanto muitos psicólogos, a exemplo dos beha- fação, que a jovem paciente o apreendia com notá-
vel precisão.
vioristas ~êm tentando, por meio de magia verbal,
fazer desaparecer o conceito de Espírito, como o fi- Ao cabo de dez sessões, o pesquisador conse-
zeram com o de alma. Todavia, enfatiza Rhine -"o guiu libertá-Ia por completo do .sonambulis~o es-
pontâneo. Os pais de Fathma tiveram ocaslao de
conceito de Espírito não se desvanece. Esta mesma
verificar que o sono da filha voltara a ser normal,
dificuldade com relação ao Espírito contribui para
mas sempre que a jovem declarava que no dia se-
manter a importância do problema da telepatia".
AS MULHERES MÉDIUNS 379
318 AS MULHERES MÉDIUNS
guinte se levantaria a determinada hora acordava
. .- '
co~ ngorosa precisa0 no momento indicado. A se-
cas de pormenores, como só poderia fazer alguém
q~e se encontrasse junto dela ou conhecesse per-
gUI~ com~çou a espantar .os pais com manifestações feitamente o local e as pessoas... E mesmo neste
mUito cunosas. Adormecia quando queria e a qual- caso não APoderia explicar-se, por exemplo, como
quer hora. Nessas condições, revelava o que acon- Fathma pode, no decur~o de uma experiência, sa-
tecia em. casa dos amigos distantes que, interroga- ber que uma senhora cliente do Dr. Vitry, de quem,
dos confirmavam os fatos e se admiravam por ter por acaso, guardara um bilhete no bolso, tinha pin-
havido pessoas curiosas que surpreendessem as tado os cabelos ~e louro veneziano, quando uma
suas conversas e contassem a outros o que ocorria semana antes a tinha deixado com os cabelos cas-
em suas casas. tanhos-claros, sua cor natural... Não podia tratar-se
Essas manifestações de clarividência espontâ-
de uma suge~tão transmitida inconscientemente!
nea eram rl)antidas em ;>egredo pelos pais de Fath- O Dr. Vltry foi forçado a admitir os fatos em
ma, o que e compreenslvel, levando-se em conside-
ração que a sua divulgação despertaria curiosidade !ace dô:s prov~s, ~ealizad~s. ~ posta de parte, como
Imp<?sslvel, a I~ela de mistificação, apesar da des-
e pertu maria a tranqüilidade daquele lar. confiança profissional, que o caracterizava e do
O Dr. Vitry teve conhecimento dessas novas controle rigoroso que sempre exerceu, sabendo que
manifestações de Fathma em 1948 durante a sua
.... • . J .
se encontrava em presença de um caso de clarivi-
permanencla no Sul da Tunísia, onde teve ocasião dência e d~ psicometria ~~so.lutamente excepcional!
de encontrar o pai da jovem que veio ter com ele DepOIS desta expenencla, Fathma foi conduzi-
para lhe pedir conselho e pô-lo a par das suas preo- da a Túnis pelos pais e manteve-se seis meses na
cupações, quanto à saúde da filha. O Reitor do Insti- re;>idê~cia do Dr. Vitry, para que este pudesse estu-
tU!O Nor~e-afficano de E~tudos Metapsíquicos exa- d~-Ia a vonta~e e submetê-Ia a todas as experiên-
minOu W!'1~uclosarl)~nte a jo~em viqente e, depois de cias que conSiderasse necessárias.
ter assistido a vanas mamfestaçoes espontâneas , .Evitando ex~rcer qualquer sugestão sobre a
procurou dirigir a sua dupla vista para pontos que ~edluJ.!l' ? pe~qulsador pôde realizar trabalhos cuja
ela desconhecia: a casa do pesquisador ou a de Imp<?rta~?la nao qeixou de causar espanto ao mun-
seus amigos. Os primeiros resultados foram nulos' ~o clentlflc? Supoe-se notar que a fiscalização mais
mas, e~ seguida,. ao ,contato da mão do Dr. Vitry: ngor~sa fOi constantemente exercida pela família do
consegUiu ver o Intenor da casa do pesquisador Dr. Vltry e algumas pessoas escolhidas entre médi-
descrevendo a sua esposa, seu filho e o seu gabi~ cos, professores de filosofia, magistrados e mem-
nete de trabalho etc. Não aconteceu o mesmo br?s do Instituto Norte-africano de Estudos Metapsí-
quando se tratou. de ver e reco~hecer uma pessoà qUlcos. Todos foram unânimes em reconhecer a au-
em quem o Dr. Vltry pensava. So o conseguiu esta- tenticidade indiscutível dos casos de clarividência e
belecendo o contato por meio de uma fotografia dos fenômenos de psicometria realizados com os
carta ou objeto pertencente a essa pessoa. Nesse objetos mais estranhos, como, por exemplo frag-
caso as respostas eram precisas, nítidas, claras, ri- mentos de pedra tirados das ruínas de Cartago, ob-
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 381
jetos da época pré-romana, encontrados nas esca- extraordinário do século XVIII que, se encontrando
vações do golfo de Mahdia. em pleno Mar Báltico, num navio, viu um incêndio
O que mais impressiona nos fenômenos apre- em Estocolmo (Suécia), no exato momento em que
sentados por Fathma Ben Romdane é o fato de ela ocorria.
ver diretamente, isto é, sem que seja necessário di- Pode ainda pensar-se, reporta-se o Or. Vitry,
rigi-la, acontecimentos muito distantes e cuja com- em Apolônio de Tiana, célebre filósofo pitagórico,
plexidade contrasta com a sua ignorância. Com contemporâneo de Jesus que (na revelação de seus
Fathma não se trata de uma simples manifestação biógrafos)" enquanto fazia uma palestra em Éfeso,
semelhante àquelas que apresentara o célebre Pas- na então Asia Menor, parou bruscamente, concen-
cal Fortuny que, depois de ser posto em contato trando-se por instantes, fixou um ponto no espaço e,
com uma pessoa, conseguia captar o curso dos de repente, gritou: "Matem o Tirano, matem!". De-
seus pensamentos, descobrir uma idéia dominante pois, caindo em si e voltando-se para os seus assis-
o seu estado de ânimo e as preocupações que lhe tidos, dominado pelo espanto, declarou: Domiciano
li

perturbavam o espírito. Nada disto acontecia com já não vive. O mundo está livre do opressor!". Pouco
Fathma Ben Romdane, que se concentrava e caía depois sabia-se qlJe, no momento em que Apolônio
num estado especial de transe que lhe permitia, ao tinha a visão em Efeso, o último dos doze Césares
cabo de alguns instantes, sem que lhe fizessem per- caía morto pelo punhal de um conspirador.
guntas, dizer, de repente: "Numa terra distante, que Fathma Ramdane, na opinião do pesquisador,
s~ en...contra de~telado - e com a mão designava a é um dos médiuns mais interessantes de sua época,
dlreçao - estao todos consternados pelo assassf- porque ao contrário de muitos outros, cujos poderes
nio de uma alta personalidade", ou ainda: "Numa foram reconhecidos pelos maiores cientistas, todas
grande cidade, com casas baixas e brancas, vejo as manifestações obtidas por seu intermédio foram
soldados que disparam sobre a multidão... Mas nin- espontâneas e sem a menor sugestão que influen-
guém faz caso defes." Fatos que se reconheceu se- ciasse a sua personalidade psíquica. Ao tomar con-
rem exatos, ao serem lidos nos jornais do dia se- tato com qualquer objeto, Fathma descreve toda a
guinte. sua história e origem por forma surpreendente. Faz
O que caracteriza estas experiências é o fato ressaltar, com pormenores particulares, fatos curio-
de Fathma captar a alma das multidões e ver o que sos e, mais ainda, nestas ocasiões a sua erudição
acont~ce nas regiões mais longínquas, contando deixa todos espantados. As suas qualidades psico-
que ai se encontre uma aglomeração considerável. métricas surpreendem e obriga o pesquisador a
:rudo p~r~ce de~onstrar que o d~plo (perispírito) da conduzir as experiências de modo especial. Por vá-
Jovem e InconSCientemente atraldo para os pontos rias vezes, o Or. Vitry pôs nas mãos de Fathma um
onde a multidão cria atmosfera de temor, de angús- sobrescrito selado, estava contendo um papel em
tia, de terror ou de alegria. Algumas de suas mani- que uma pessoa estranha à sessão havia escrito
festações ,podem ser comparadas, segundo o uma palavra, ou desenhado uma figura geométrica.
Or. Vltry, as de Emmanuel Swedenborg, o vidente Este procedimento demonstrava que nenhum dos
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
presentes conhecia o seu conteúdo. Fathma com os do sul da Tunísia, quando, de súbito, com voz forte
olhos bem abertos, fixando o espaço, apalpava fe- e decidida gritou: "Quero voltar a 'Sfax para ver me-
brilmente e com nervosismo o envelope e, depois, lhor!", contraindo ao mesmo tempo os músculos do
como não sabia ler, traçava com o lápis o que via. rosto e dando impressão de despender enorme es-
Os seus erros eram mínimos. Nunca se enganara, forço para se libertar dos laços materiais que a pren-
quando se tratava de fi!;juras geométricas ou de. ob- diam. No mesmo instante, todos notaram que os
jetos que conhecia, tais como garrafas, ~adelras, pés de Fathma haviam desaparecido... A princípio
uma flor um cacho de uvas, uma campainha, um pensou-se que os tivesse dobrado para se sentar
gato etc:.. Neste caso, so~ria r?diante ,e diz!a logo: neles, à moda árabe, mas em vão lhe ergueram
"Koursi, debbouza, quhanene, aneb, naquanes, qat-
tous" etc. A impressão era quase imediata e as visões bastante a saia bastante larga: Viram, apenas, os
colocavam-se sempre no presente, sem ter conta o joelhos. Ao tocar-lhes, o pesquisador verificou que
espaço. Nunca Fathma previu um fato que.. devesse mantinham a temperatura normal; mas, em compen-
acontecer em futuro próximo ou distante. As vezes, sação, desprendia-se deles fraca corrente elétrica,
exprimia-se de forma simbólica que devia ser inter- enquanto na sala se espalhava tênue cheiro de ozô-
pretada, tendo em vista a sua falta de instrução e a nio. O pai de Fathma, assustou-se e, temendo tal-
sua inteligência média. vez que o fato a prejudicasse, deixou-se cair numa
Mas o fenômeno que, mais do que nenhum ou- poltrona, ocultando o rosto nas mãos. O fenômeno,
tro, não deixará de chamar a atenção do mundo no entanto, durou apenas alguns instantes, porque,
científico era a desmaterialização visível dos mem- quase de súbito, circundados por uma espécie de
bros inferiores, à qual Fathma estava sujeita, quan- matéria vaporosa, os participantes da reunião viram
do se esforçava por conseguir ~ clarivi~ê~cia. as extremidades de Fathma reaparecerem gradual-
A primeira vez que ? D~. Vltry aS~lstlu a este,fe- mente. Tocando-lhe os pés, o pesquisador verificou
nômeno estranho que so fo! consegUido pelas cele- que estavam frios, quase gelados e que transmitiam
bres médiuns Elisabeth d'Espérance, Elisabeth
Compton e Carmine Mirabelli, foi no seu gabinete, uma espécie de frêmito elétrico de intensidade va-
em 1949. Estavam presentes muitas pessoas. Entre riável que todos constataram.
outros o pai de Fathma, um notável muçulmano, um Este fenômeno, seguido de muitos outros se-
professor de medicina e o jo~em .fotógrafo que:, ~ão melhantes de maior ou menor duração, não pode-
impressionado, não conseguIu disparar a objetiva riam deixar indiferentes os que tiveram a oportunida-
do seu aparelho, no instante preciso. de de testemunhá-lo, de visu.
Havia alguns instantes que Fathma se encon- As teorias mais estranhas, conclui o Or. Euge-
trava naquele estado concentrado e particular de ne de VilIegrande, têm sido apresentados para ex-
êxtase, com os grandes olhos árabes bem abertos, plicar as causas determinantes da clarividência. Alu-
fixos no espaço. O ~r. Vitry tinha ?uvido falar ge fa- cinação hipnótica? Alteração psíquico-sensorial? Fo-
tos singulares OCOrridos em Sfax, Importante Cidade tismo? Na realidade, nada se sabe.
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
No caso das experiências realizadas com Fath-
ma Ben Romdane, o controle mais rigoroso confir-
mou o seguinte pela forma mais positiva:
1) Que as visões foram sempre controladas e
confinnadas como verdadeiras. Portanto, não houve
alucinação.
2) Nunca foi exercida qualquer ação hipnótica
para provocar as manifestações de clarividência ou
psicometria.
3) Se houver alteração psicosensorial - o que
é provável, porque no estado normal não se verifica- JOANA THEREZA VIEIRA DE LIMA
ram tais fenômenos- essa alteração é inconscien-
te. O coração, a respiração e os reflexos são nor-
mais, enquanto a medium se encontrava nesse es- (ABIGAil LIMA)
tado especial. Do ponto de vista fisiológico, não se
trata do sono propriamente dito, mas de um estado
que se aproxima do êxtase, pois existe sempre a
tendência para manter leve rigidez plástica, conser- Joana Theresa Vieira de Lima, mais conhecida
vando a percepção sensorial, confonne ficou de- por Abigail Lima, nasceu a 21 de dezembro de
monstrado, às reações ténnicas e dolorosas. 1883, no Rio de Janeiro, desencamando na mesma
O fotismo explica-se pelo subconsciente que cidade no dia 21 de julho de 1969. De familia católi-
percebe as imagens reais das visões longínquas, ca, foi educada em colégio de religiosos, no bairro
que sobem à superfície do consciente para um me- de Lara!1jeiras. Apesar de obediente à religião de
canismo psicosensorial em que a inteligência instru- ~eus pais, er~ ~vessa aos dogmas do confessioná-
tiva desempenha papel fundamental. no e d~ eucanstla, tendo por isso recebido sérias re-
preensoes dos educadores. Sua aversão era tal
qu~, quando obrigada a se confessar, adoecia, e
mUitas vezes a comunhão era dada no leito. Tanto
que seus pais, sabedores do problema, foram obri-
gados a transferi-Ia de colégio, onde não houvesse
tal obrigatoriedade.
Conta ela em entrevista, datada de 1952 a
~mérico C~uvalho,. diretor do Jornal Espírita, já ex-
tmto, que fiCOU nOiva de Manoel da Mota Lima aos
17 anos de idade. Sendo seu noivo de faml1ia católi-
ca, ele fazia questão do casamento religioso. Depois
de tudo pronto, marcado o casamento, ela se recu-
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 381
sou a casar na igreja, para decepção geral, inclusive o Dr. Levindo Mello, Uns de Vasconcelos João Car-
do próprio noivo, que afinal cedeu à sua vontade. Ic:s .Moreira Guimarães e o~tros. '~bigail,' afirma An-
Abigail Uma tomou conhecimento dos fenôme- tonio de Souza Lucena, fOI uma verdadeira heroína,
nos mediúnicos através de sua própria mãe, que, exemplo de educadora, uma das mais abnegadas
sem qualquer conhecimento do Espiritismo, era "to- mulheres espíritas de sua época no Rio de Janeiro."
mada" por uma Entidade Espiritual, revelando uma
personalidade inteiramente diversa da sua. Porém,
por preconceito religioso, a família jamais procurou
contato com o Espiritismo.
Dias depois de casada, visitando uma amiga
enferma, foi envolvida por um Espírito e, inteiramen-
te inconsciente de tudo que se passava, aplicou-lhe
um passe e a amiga recuperou-se de imediato. O
marido, ao tomar conhecimento do ato, proibiu-a de
procurar uma Casa Espírita. Meses depois ela foi
acometida de uma crise nervosa, sendo tratada pelo
Dr. Filgueiras Uma, médico homeopata famoso, que
lhe aconselhou freqüentar a Federação Espírita Bra-
sileira e procurar o médium Manuel Quintão. Com
apenas uma receita, recuperou-se. Na FEB, conhe-
ceu Ignácio Bittencourt e passou a freqüentar o
Centro Espírita dirigido por ele, em Botafogo (RJ),
no qual desenvolveu a sua mediunidade e tomou
conhecimento total da Doutrina Espírita. A partir daí,
o marido rendeu-se à evidência dos fatos e passou
a colaborar com ela, na grande tarefa que lhe esta- ,
va destinada.
Fundou e dirigiu inúmeras casas espíritas. De-
dicou-se com muito amor à criança órfã e abando-
nada, fundando a instituição Pátria do Evangelho,
no bairro de Madureira (RJ), com um efetivo de 65
meninas, que criou e educou com muito amor. Mais
tarde juntou-se a ela D. Constança Carvalho, senho-
ra de muitas posses, dona da fazenda Madureira,
que se transformou numa comunidade espírita, com
a colaboração dos maiores nomes da época, como
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
levantou um barracão de madeira, destinado a abri-
gar todos os necessitados, desde crianças órfãs e
abandonadas até o doente mental e obsidiado.
Benedita Fernandes era possuidora de diver-
sas faculdades mediúnicas, aplicadas unicamente
em favor dos doentes e necessitados. A sua fama
cresceu, atravessou fronteiras, projetando-se em
decorrência do número de curas realizadas. Nesse
BENEDITA FERNANDES afã, enfrentou toda a sorte de tropeços; porém, com
fibra e decisão de ajudar os sofredores, soube con-
duzir a obra, ultrapassando as naturais dificuldades.
"A vida de Benedita Fernandes é a demonst~a.­ Procurada para resolver problemas corriqueiros, apro-
ção da grandeza e da redenção humana pelo Espm- veitava a ocasião para esclarecer e iluminar cons-
tismo - Divaldo Francd' ciências ignorantes de que os Espíritos bons não se
envolvem com coisas que cabe ao próprio homem
Benedita Fernandes nasceu a 27 de junho de resolver.
1883, em Campos Novos do Cunha, SP, e desen- Por sua atividade, era chamada a "Dama da
carnou em 9 de outubro de 1947, em Araçatuba, Caridade", em reconhecimento pelos trabalhos ár-
duos em prol dos sofredores. Posteriormente, foi er-
SP. b I guido o Sanatório Benedita Fernandes, na cidade
Vítima de pertinaz obsessão, per~m u ~~a, na
década de 20, pela cidade de Penapolas, reglao no- de Araçatuba, e em sua memória a Prefeitura deu o
roeste do Estado de São Paulo, ate que um ~rupo seu nome à rua onde estava situado o Nosocômio,
de espíritas, condoídos do seu estado, encam~nhou destinado a doentes mentais e obsidiados.
seu nome para uma reunião de desobsessao, e, O Prof. Leopoldo Machado, em O Clarim de
surpreendentemente, o socorro não se fez es~erar. 8-11-1947, referindo-se a uma visita que havia feito
Apresentou, de imediato, grande melhora, ate que a Benedita Fernandes, assim se expressou:
se restabeleceu completamente.
Após a sua recuperação, decidiu dedicar-se à "Quando voltávamos de Mato Grosso, estava
tarefa de auxOio às criaturas, que, como ela, esta- na estação, à nossa espera, a fim de insistir
vam presas da obsessão ou da loucur~. ~esse pro- para ficarmos um diazinho mais em Araçatuba.
pósito, fundou em Araçatuba a Assoclaçao de Se- Se cedêssemos, iria à Semana Espírita de Cru-
nhoras Cristãs, ajudada por um grupo de senhora~ zeiro. Não pudemos aceitar-lhe o convite, mas
da melhor sociedade local, evento que se concretI- ela foi a Cruzeiro, com aquele entusiasmo jo-
zou em 1932. Foi um trabalho pioneiro de obras ~o­ vem que a animava. E foi, merecidamente, alvo
ciais naquela região. Com o auxílio da populaçao, de todo o carinho dos irmãos semaneiros, que
a cercavam, ouvindo-lhe as experiências e rin-
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
do-se com suas observações. Muito sorriso
quando ela contou: "hou,ve um ~e,!!po em que
meus passes e minha agua flwdlflcada ançta-
ram curando muita gente. Quase me paf}omza.-
ram por isso. Minha santidade cresCia a medi-
da que as curas se operavam. E eu, embora .
passando por santa, já não tif!ha a~ mesmas
horas livres para tratar de mwta~ crianças, de
meus obsidiados. Acontece, amda, qu.e. os
doentes, só pensando na.. sua c,ura, egolstlpa- JOANA PEDRO PEREIRA
mente, em si mesmos, nao aceitavam explica-
ções não respeitavam horas de consultas.
Acabei com a santidade e com ~ passes e a
água fluidificada, vendo meus amigos que ser Joana Pedro Pereira, ou D. Joana Pedro,
santo é o diabo... " como era conhecida nos meios familiares e espíri-
tas, nasceu na cidade de Araçá, São Paulo, em 7
de janeiro de 1906 e aí desencarnou em 29 de ja-
neiro de 1991. Convertera-se ao Espiritismo nos
idos de 1931, quando da manifestação de notá-
veis faculdades mediúnicas, oportunidade em que
teve o privilégio de ser orientada e apoiada nesta
árdua e nobilitante missão por Caírbar Schutel, o
"bandeirante do Espiritismo".
Assim integrou o círculo íntimo e fraterno do
fundador da Revista Internacional de Espiritismo,
AlE, de Matão, SP, tendo participado dos traba-
lhos desenvolvidos no Centro Espírita Amantes da
Pobreza, e, sob a dileta direção de Caírbar Schu-
tel, desincumbiu-se de tarefas por ele designadas,
sempre em auxílio irrestrito ao próximo; punha, as-
sim, seus dons mediúnicos a serviço do Bem.
"O. Joana Pedro dignificou com sua presença
e atos" - informa o necrológio da AI E edição de
julho de 1991 - "os preceitos da Doutrina Espíri-
ta, seja no sinf/elo âmbito doméstico, promovendo
reuniões familiares de prática e estudo, como na
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
infatigável militância, na qualidade de cooperado- Rei~eran~o sua reta conduta espírita, aceitou
ra de instituições espíritas, sem esmorecimento, com reslgf!açao e coragem a breve, porém doloro-
com bom ânimo, desinteressada e resolutamente". sa, enfermidade que a levou à desencarnação.
Exemplificando sua atuação em prol do Espi- O necrológio finaliza com a sentença do
ritismo, cita-se o seu valioso empenho como uma Dr. Charles Richet - "Mors Janua Vitaf" - A morte
das fundadoras do Centro Espírita Ivan Santos de é a porta da vida!
Albuquerque, na cidade de Murutinga do Sul, Alta
Noroeste, São Paulo, em 1948, depois colabora-
dora do Lar Espírita Caírbar Schutel, além de ter
composto a equipe de médiuns de várias entida-
des espíritas, como o Centro Espírita Doze Após-
tolos, no Bairro da Penha de França, SP.
Uma de suas características era o permanen-
te auxílio que prestava anonimamente aos neces-
sitados, tanto de natureza espiritual e moral, como
material, sendo atitude típica de D. Joana oferecer
livros doutrinários, pois foi uma assídua leitora,
tendo dado preferência às obras básicas, aos li-
vros de Caírbar Schutel e os psicografados por
Francisco Cândido Xavier.
De forma intensa, prestou serviços no campo
mediúnico até a avançada idade de 84 anos, ten-
do, com o imprescindível concurso dos Espíritos
Protetores, alcançado êxito em delicadas tarefas
de cura e de testemunho dos princípios da Imorta-
biiidade.
'j/\ serenidade e a convicção espírita de D.
Joana Pedro" - acrescenta o necrológio da RIE
- "quais sementes promissoras, germinaram no
seio de sua numerosa faml1ía (sete filhos, vinte e
três netos e vinte bisnetos), sempre apontando o
"Caminho, a Verdade e a Vida "(Jesus), comple-
mentado e elucidado pelos ensinamentos espíri-
tas".

AS MULHERES MÉDiUNS AS MULHERES MÉDIUNS


tabelecendo, para esse fim, dia e horário determina-
dos, uma vez por semana. Dizendo mais: que Ceci
Costa teria uma grande missão como médium.
Levou-se a sério o aviso espiritual e procedeu-se
como o Espírito aconselhou. Ceci relutou muito, em
virtude do combate ostensivo da Igreja ao Espiritis-
mo.
Não demorou muito e foi convidada a fazer par-
te do corpo mediúnico do Centro Espírita Regenera-
ARGEMIRA DE OLIVEIRA COSTA ção. Seu cunhado Euclides, o mais entusiasmado,
levou a famma para o Centro, que logo em seguida
tomou a denominação de Federação Espírita Per-
nambucana, da qual ele foi eleito Vice-Presidente
(CECI COSTA) da primeira Diretoria.
Argemira de Oliveira Costa nasceu em 12 de Ali, Ceci Costa iniciou sua atividade mediúnica,
novembro de 1890, na cidade de São João dos desabrochando-se diversas faculdades mediúnicas,
Pombos, Pemambuco, e desencamou em Recife como psicografia, psicofonia, audição, vidência, pre-
em 14 de novembro de 1928. monição e curas.
Mais conhecida por Ceci Costa, foram seus "O espírito de sacrifício dessa mulher admirá-
pais Ostênio ,Orlando de Oliveira e ~. Maria. M~ttos vel" - sentencia Antônio de Souza Lucena - e de
de Oliveira. Orfã dos pais em tenra Idade, fOi cnada suas curas, transpôs as fronteiras de Pernambuco,
pelos avós matemos na cidade de Olinda, Pernam- para todo o nordeste. Pessoas necessitadas acor-
buco. , . riam de toda a parte em busca de uma consulta. 11

Casou-se, em 1910, com Agripino Th~ophllo da Ceci Costa retomou ao plano espiritual ainda
Costa e dessa união nasceram quatorze filhos. muito jovem, dois dias após completar 38 anos de
Pouco depois de casada, em reunião fa~mar, idade, em conseqüência de uma hemorragia inter-
começou uma brincadeira para ver quem ficava na, no parto do décimo-quarto filho.
mais tempo sem pestanejar. Em dado momento, ela
entrou em transe sob o olhar de seu cunhado Eucli-
des Pereira da Costa. Ninguém con~ecia_o Espiritis~
mo, Hipnotismo. Acharam aquela ~Ituaçao ~e Ce<;:1
anômala, mas interessante, e repetiram a brincadei-
ra várias vezes. Numa dessas vezes, apresentou-se
uma entidade com o nome de Bittencourt Sampaio,
dizendo-se seu guia espiritual e aconselhando a to-
dos que estudassem os livros de Allan Kardec e es-
AS MULHERES MÉDiUNS 397
AS MULHERES M~DIUNS
publicações atuou como verdadeiro bálsamo, !Jf"B'f'JH.
chendo uma grande lacuna naquele Espírito DOjrIO!)-
so e. abnegado".
Aurora começou, então, a levar seus filhos a
pequenos Centros Espíritas que existiam nas cida-
des de Rivera e Livramento, na fronteira entre o Bra-
sil e Uruguai. No dia 5 de julho de 1955, transferiu
seu domicilio para Montevidéu, na busca de melho-
res dias. Certa ocasião, cansada de tanta luta e se
AURORA A. DE lOS SANTOS DE SILVEIRA sentindo deprimida, pediu ao seu filho Baltazar que
abrisse "O Evangelho segundo o Espiritismo" lesse
uma de suas luminosas mensagens, quando ~e ma-
nifestou um ESf?írito q~e!. diante ~o assombro do jo-
Aurora A. de los Santos de Silveira, pioneira vem, a~~nas. 9lsse: Nao temals, venho para aju-
espírita uruguaia, nasceu no dia 28 de agosto de dar-vos, solicitou que procurassem reunir três ou
1890 e desencamou no dia 10 de agosto de 1969, quatro pessoas, quando, então, voltaria.
em Montevidéu, república Uruguaia. . . Ao retomar do transe, aurora tomou conheci-
Filha de José Fabrício das Santos, brasileiro, e mento do Q.'::!e aconteceu, e, no dia seguinte, promo-
Petrona Tejera, espanhola, Auro!a. morav~ no de- veu a reumao, segundo a recomendação do Espíri-
partamento de Rivera, na Republlca Onental do to, que se deu o nome de "Bon Ajou". Após a reali-
Uruguai, motivo que a levou a cu~ar apenas ~f!l zaçao dessa sessão, a faculdade mediúnica de Au-
ano da escola primária. Sua vida fOI repl.~ta de difi- rora desabrochou insopitavelmente, passando a fa-
culdades e sacrifícios junto a seus familiares, nos zer curas .no.táveis de cegos, paralíticos, cancero-
afazeres da agricultura. Desde pequena revel~­ sos, a malona desenganada pela medicina oficial
ram-se-lhe fenômenos de vidência, que seus pais que teima, diga-se de passagem, em se eSpirituali~
procuravam reprimir, por desconhecerem sua verda- zar, conforme preconizava o Dr. Alexis Carrel. Auro-
deira causa e temerem que ela enveredasse pelo ra começou a ser procurada por multidões de de-
caminho da loucura. sesperados, em busca do alívio de seus males físi-
Em 1933 desencamou o seu segundo esposo, cos.
Gervásio Silveira, deixando-a na m~lior penúria, o Por esse tempo, o Espiritismo no Uruguai era
que a levou, juntamente com seus filhos, a passar desconhecido e Aurora foi acusada de exercício ile-
por angustiosa fase. g~1 da Medicina, sendo presa e recolhida a uma pri-
"Nesses momentos de grande aflição" - infor- sao de mulheres, onde permaneceu por seis meses.
ma o seu biógrafo Paulo Alves Godoy - "conheceu Seus filhos, desamparados, sofreram horrores.
uma senhora de nome Valentina, que lhe deu al- Cumprida a sentença, Aurora saiu da prisão
guns folhetos e revistas espíritas. A leitura dessas debilitada e triste; entretanto, e por se tratar de umà
398 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 399
atividade verdadeiramente abençoada pelo Alto, .f'u-
rora reinicia seu mediunato, socorrendo, através tios
Espíritos bondosos, os seus semelhantes e, simulta-
neamente, divulgando os postulados espiritistas.
Depois de tantas lutas, a médium conseguiu
fundar, em 31 de maio de 1944, o Centro Evangéli-
co Espiritual Hacia la Verdad, sociedade beneficen-
te, com sede na Avenida Flores, 4.689, em Montevi-
déu. ADElE MARGINOT
Eis o que o escritor e orador espírita Newton
Boechat escreveu, em outubro de 1966, quando Au-
rora ainda se encontrava no plano material:
"O. Aurora de los Santos de Silveira, pioneira
no Movimento Espírita Uruguaio, médium notá- o nome, de Adele Marginot, jovem médium
vel e destemida, hoje repousando das lutas de francesa, esta fundamentalmente ligado a Louis
antanho, quando era vigoroso seu orf}anismo Alphonse Cahagnet, notável magnetizador nascido
físico. Enfrentou, vezes inúmeras, o carcere, a em 1809, em Caen, na França,
perseguição, os ataques de adversários terrí- .Anos ante~ ~e surgirem os fenômenos de Hy-
veis, para evidenciar a Mensagem Espírita: o desvllle, na Amenca do Norte, já Louis Alphonse Ca-
'Hacia la Verdad' é o fruto de seus labores em hagnet mantinha relações com os seres de além-tú-
função do Bem, obtendo, finalmente, personali- Tulo. Desse inte~câmbio resultou a publicação de
'Arcan~s de la vle Future Oévoilés", cujo primeiro
dade jurídica desde 1944."
tomo fOi dado a lume em 1847,
"O. Aurora" - sentencia Paulo Alves Godoy '~ 27 de nc:vembro de 1848"- informam Zêus
- "quando mais tarde for escrita a História do Espi- Wantull e F,~anclsco Thiesen, em "Allan Kardec" vo-
ritismo Uruguaio, em seus pródromos, aparecerá lume 11 - Cahagnet reunia em Argentevil (arredo-
como inesquecível pioneira que, quase só, não pou- res de Versalles) um grupo de dezesseis a dezoito
pou esforços na hora do testemunho." home'}s que hayiam testemunhado os fatos obtidos
a!raves da sonambuJé! AdeJe Marginot. Propôs, en-
ta~! fundar umé3; Sociedade Espiritualista, sugerida,
alias, pelo Esplrito Emmanuel Swedenborg. Todos
concorqara,m, e a, 27 de dezembro de 1848 foi cria-
da é3; primeira Sociedade dos Magnetizadores Espiri-
tualistas. Quatro anos mais tarde, exatamente há 29
de março de 1852, essa Sociedade continuava seus
estudos sob uma outra denominação: "Sociedade
AS MULHERES MÉDIUNS 401
400 AS MULHERES MÉDIUNS
dos Estudantes Swedenborguianos", aproximando--se, e Francisco Thiesen _. "que afirmaram reconhecer
mais tarde, do Espiritismo codificado por AllanKar- os Espíritos que a médium descreveu". O abade AI-
dec." .
Por volta de 1852, Cahagnet publicou "Santuai- mignana, doutor em Direito Canônico, assistiu, com
re du Spiritualisme", ou o estudo da alma humana e entusiasmo, às sessões de Alphonse Cahagnet, tor-
de suas relações com o Universo segundo o sonam- nando-se adepto do Magnetismo e desenvolvendo,
bulismo e o, êxtase. Em 1851, surgia "Lumiere des até, as suas possibilidades mediúnicas.
Morts ou Etudes Magnétiques, Philosophiques et No tomo 111 de "Arcanes de la Vie Future Dévoi-
Spiritualistes", e "Traitement des Ma/adies", obra lés', Alphonse Cahagnet, mediante diálogos-refuta-
que expressa um estudo notável das propriedades ções, responde, com ênfase e muito talento aos
de 150 plantas que a médium Adele Marginot trans- seus opositores, que se contavam entre homens de
mitira a Alphonse Cahagnet ciência, religiosos, materialistas etc., evidenciando o
Ao tomo I de "Arcanes de la Vie Future Dévoi- processo de comunicação entre as dimensões cor-
/és", seguiram-se os tomos I e 111. 'Tudo o que a ig- póreas e incorpóreas, a ponto de o barão du Potet,
norância, o fanatismo, a tolice reeditaram posterior- em uma carta a ele dirigida, afirmar: "Tratais dessas
mente contra nossa Doutrina foi então despejado questões com o avanço de 20 anos; o homem ainda
sobre o pobre magnetizador" - afirma Gabriel De- não está preparado para compreendê-Ias". Ao que
lanne, referindo-se ao trabalho pioneiro de Alphonse Alphonse Cahagnet, antecipando-se às concepções
Cahagnet, através da portentosa faculdade mediúni- espíritas, replicou no volume 111 de "Arcanes'~ ''Ah!
ca de Adele Marginot. Por esse tempo, Cahagnet respondemos então por que o vemos banhar com
funda, juntamente com um grupo de idealistas, a suas lágrimas as cinzas daqueles que julga haver
Sociedade dos Magnetizadores Espiritualistas, onde perdido para sempre? Em que momento da existên-
seriam veiculados os resultados decorrentes, atra- cia podemos chegar mais a propósito para dizer a
vés da mediunidade, do intercâmbio entre o plano esse homem: - 'consola-te, irmão, aquele que pre-
corpóreo e.incorpóreo, além de acolher colaborações sumes separado de ti para sempre, acha-se ao teu
oriundas de várias partes do mundo relativas ao lado, a te asseverar, por meu intermédio, que ele,
Magnetismo. vive, que é mais feliz do que na terra, e que aguarda
Os dois primeiros volumes de "Arcanes de la nas esferas próximas para continuar o convívio con-
Vie Future Dévoi/és", divulgam os relatos das expe- tigo'."
riências desenvolvidas com oito médiuns que pos- ''A leitura de 'Arcanes de la Vie Future Dévoilés
suíam a faculdade de ver e conversar com os Espíri- - informam Zêus Wantuil e Francisco Thiesen -
tos. Adele Marginat destacou-se dentre todos os "foi proibida em todos os países católicos, por deci-
sensitivos rigorosamente selecionados pelo ilustre e são do Tribunal Supremo, chamado 'Sagrada Con-
pioneiro pesquisador da fenomenologia espiritual. gregação', tribunal cristícola e não cristão, diz Ca-
"Mais de 150 (cento e cinqüenta) fatos foram ratifi- hagnet, tribunal que - informa ainda o autor - 'JUl-
cados por testemunhos" - informam Zêus Wantuil gou sem nos ouvir e condenou sem outro motivo
402 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS 403
que o de prazerosamente arremessar três de nos-
sas obras, num só dia, no fogo... "
Em 1856, um ano antes de aparecer "O Livro
dos Espíritos", Alphonse Cahagnet dava lume às
"Révélations d'outre-tombe", pelos Espíritos de Gali-
leu, Hipócrates e Franklin, tendo como médium
Adeje Marginot, obra que redimensiona o conceito
de Deus e trata de problemas ligados à Física, Botâ-
nica, Medicina e Metafísica, o mundo espiritual, ana-
lisando, ainda, o processo relativo às aparições e EMIUE COlUGNON (NASCIDA BRÉARD)1
manifestações de Espíritos na primeira metade do
século XIX.
Esse gênio, contemporâneo de Allan Kardec,
publica, ainda: "Encyclopédie Magnétique Spiritua- Emilie Collignon desencamou aos 25-12-1902
liste (1854-1861); "Etude ~ur le Matérialisme et sur em Quimper,Finistere, França. Foi mãe de um dos
le Spiritualisme" (1869); "Etude sur f'âme et le libre p.refeitos de Paris. Médium mecânica. A partir da vi-
arbítre" (1880); e, por último: "Thérapeutique du sita qu~ lhe fez Jea~-.Ba~tiste Roustaing, iniciou a
Magnétisme et du Sonnambulisme", publicada em recepçao da obra, onglnarlamente em três volumes
1883. "Os Quatro Evangelhos" ou "Revelação da Revela~
O papel exercido por Adele Marginot, no âmbi- ção", ditada pelos próprios evangelistas (Espíritos).
to das pesquisas desenvolvidas por Alphonse Ca- Os escritos mecanicamente obtidos foram coorde-
hagnet, é preponderante, despontando, então, como nados pelo advogado Roustaing (REFORMADOR
uma das mais autênticas medianeiras da sua era, 1974, p. 32~) .. "Reformador" de 1903, p. 172, co~
ao nível de Ermance Dufaux, Celina Bequet (nome menta a lacoOlca notícia de Revue Spirite sobre a
verdadeiro de Srta. Japhet); Aline Carlotti, Caroline sua desencamação.
Baudin, extraordinárias meninas que os espíritas, de Em Bordéus, o Sr. Sabô realizava sessões me-
todos os tempos, reverenciam. diúnicas a que compareciam, entre outros, pelo me-
nos desde 1862, o Sr. Ch. Collignon e sua esposa
Sra. Emilie Collignon. O casal vivia de suas rendas:

L Por sugestão da FEB. o autor gentilmente aquiesceu em que fosse in-


cluída no corpo de sua obra uma notícia sobre a médium de "Os Quatro Evange-
lhos", a qual, naturalmente e com justiça, se alinha junto a todas as mulheres
que, pelo exercício da mediunidade têm contribuído para o consolo e o esclareci-
mento dos humanos. Para esse fim, transcrevemos o texto contido no item 11, ca-
pítulo I1, volume 11 da obra "AlIan Kardec", de Zêus Wantuil e Francisco Thie-
seno - A Editora.

404 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS


As mensagens eram enviadas para publicação na ment" - recebida, em Bordéus, pela Sra. Emílie
Revue Spirite. (Revue Spirite, 1862, p. 84.) Collignon. Em 1863 (outubro, pp. 314/316), o Codifi-
As advertências de um padre, em carta de 8-1-1862 cador da pout~i~a_ dos es~íritos estampa um artigo
à mãe de Emilie Collignon, muito idosa e doente, referente a prOlblçao mosaica da evocação dos mor-
prevenindo-a das "superstiçõ~s diabólicas" que lhe tos, de sua autoria. Só depois, no entanto, ele teve
haviam penetrado a casa, a filha responde, dizendo con~ecimento de uma comunicação assinada: Si-
ao padre que ela e o marido tinham sido os únicos, meao, por Mateus, que a médium Collignon recebe-
em toda a famnia, a ter a felicidade de estudar o Es- ra num grupo espírita de Bordéus, em resposta à
piritismo, carta que Allan Kardec registrou na Revue pergunta: "Tendo Moisés proibido evocar os mortos
Spirite de maio de 1862, pp. 1481150. é permitido fazê-lo?" Precisamente por causa dá
Emilie Collignon escreve a Allan Kardec (Re- concordância das idéias, Kardec reproduziu essa
vue Spirite, 1862 p. 186), assinalando o trecho de c~",!unicação mediúnica logo após o seu artigo, nas
uma mensagem publicada na sua Revue, do qual paginas da Revue.
discorda devido aos seus termos aparentemente Em "Notícias bibliográficas" (Revue Spirite,
descaridosos. Kardec dá-lhe extensa e ponderada 1864, pp. 223/224), Allan Kardec faz largos elogios
explicação e, logo a seguir: lhe d~~~reve a. dis~~rt~­ à brochura "Conseils aux meres de famílle", formada
ção mediúnica intitulada ',o Espmtlsmo fllo~oflco , de instruções mediúnicas ditaçfas à Sra. Collignon
por ela recebida em Bordeus, aos 4 de abnl, e na pelo Espírito que se assinara "Etienne", desconheci-
qual, sob outra linguagem, se encontra.~ fundo do do da médium. Essas instruções haviam sido ante-
pensamento expresso na mensagem cntlcada. Pa- riorm~nt~ publicadas pelo jornal Le Sauveur. Eis a
rece que a comunicação transmitida à Sra. Collig- apreclaçao de Kardec: "Estamos felizes em poder
non, do Espírito de Bemardin, é a prime!r~ que se aprovar, sem reservas, esse trabalho tão recomen-
refere ao Espiritismo do ponto de vista religiOSO, pu- dável pela forma quanto pelo fundo. 'Estilo simples
blicada na Revue Spirite, se bem que hajayutr~, an- claro, conciso, não enfático, sem palavras inúteis o~
terior, sobre o mesmo assunto, mas que nao saiu na vazias de sentido, pensamentos profundos, de irre-
Revue do Codificador. prochávellógica, é bem a linguagem de um Espírito
Após a transcrição de "O Espi(itismc;> filosófico", eleyado, e não esse estilo verboso dos Espíritos que
Kardec apõe sua observação, que assl,",! começa: creem compensar o vazio das idéias com a abun-
"Esta comunicação faz parte de uma sene de dIta- dância de palavras. Não temos receio em fazer es-
dos, sob o título: "O Espiritismo para todos", assina- s~s elogios, P9rque sa,bemos que a Sra. Collignon
lados todos eles por um mesmo cunho de profunde- nao os tomara para SI e que seu amor-próprio de
za e de simplicidade paternal. Como nem todos po- forma alguma será sobreexcitado, do mesmo modo
dem ser publicados na Revue, farão parte das cole- que não se formalizaria com a mais severa crítica.
ções especiais que preparamos. " Nesse escrito, a educação é encarada no seu ver-
Ainda no ano de 1862 (pp. 337/339), Kardec dadeiro ponto de vista em relação ao desenvolvi-
transcreve a longa poesia mediúnica - "Mon Testa- mento físico, moral e intelectual da criança, conside-
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
rada desde o berço até a sua formação no mundo. I,~t~: ."Nossa intelige[1te e Infatigável irmã espírita",
As mães espíritas, melhor que as demais, aprecia-, pagmas (de seus lIVros) mteressantes, instrutivas
rão a sabedoria dos conselhos que ele encerra, daI cheias de belas idéias, ditadas pelo coração e de fá:
por que lhes recomendamos como obra digna de cil aplicação. "
toda a sua atenção. A brochura é completada com . ~ão obst~~t~ sua firmeza e perseverança. de-
um pequeno poema intitulado "Corpo e .Espírito", dlcaçao e sacnflclos, nem todas as suas idéias pu-
produção igualmente ,!,ediúnica, que maIs qe"um der~f!l ser co~cretizadas,,por falta de apoio do meio
autor de renome podena su.bscreve~?em receIo. .. espmta em nlvel compatlvel com as exigências de
A propósito de "Entretlens famillers sur le Spm- recursos dos empreendimentos idealizados.
tisme", pela Sra. Emilie Collignon, de Bordéus, Allan A escola para a juventude, nos moldes da So-
Kardec faz o seguinte comentário: "Temos a satisfa- ciété de Tutelle, por exemplo, por ela classificada de
ção e o dever de chamar a atenção dos nossqs lei- ouvrier-école, constitui-se em frustrada tentativa. Os
tores para esta brochura, que apenas anuncIamo? ~spíritos animayam-na .muito, como um que se as-
em nosso último número, inscrevendo-a entre os li- sln~va Jean, dlt Bahutler, mas a realidade é que
vros recomendados. É uma exposição completa, mais tarde é! Revue Spirite divulgara carta sua, la-
ainda que sumária, dos verdadeiros princípios do n:entando nao ter conseguido levar avante a funda-
Espiritismo, em linguagem familiar, ao alcance de çao da escola, como dissemos, por ausência de
todos e sob forma atraente. Fazer a análise dessa apoio. Uma bela carta, reveladora do seu entranha-
produção seria fazer a de "O livro dos Espíritos" e do amor pelos pequeninos necessitados.
de "O Livro dos Médiuns". Não é, pois, como con- fato curioso, também narrado na Revue Spiri-
tendo idéias novas que recomendamos esse opús- te, fOi o de uma Creche maçônica ter declinado da
culo, mas como meio de propagar a Doutrina. "(Re- aceitação da oferta pela Sra. Colignon em nome
vue Spirite, 1865, p. 288) dos espíritas, <;Je um_berço e uma 9a~a' da campa-
Revue Spirite, nos anos seguintes, prossegue nha. Os donatiVos sao colocados a disposição dos
informando o Movimento Espírita sobre a~ ativida- ofe~antes,.mas, posteriormente, a quantia arrecada-
des da Sra. Emilie Collignon, sempre infatigável e da e recebida pela Creche, por ter sido omitido o de-
generosa. Vejam-se as edições de 1871 (p. 63), talhe da "origem espírita" do donativo.
1872 (pp. 212 a 215,235/236), 1873 (p. 164), 1876 A Sra. Emilie Colli~non residia em Bordéus (Gi-
ronde), à rua Sausse n- 12.
(pp. 127, 232 e 264), 1877 (p. 231) etc. Noticiando
ou aprecianqo suas brochuras "Esquisses, contem-
porains", "Education matemelle" e "L'EducatlOn
dans la Famille", ou divulgando seus apelos a favor
da escola para meninas pobres, que ela criou no
princípio de 1870, dos cursos de instrução para mu-
lheres adultas, etc., as expressões da revista funda-
da por Allan Kardec eram invariavelmente deste qui-
408 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
tretanto, logo desistiu porque as manifestações se
tomaram .~emas!a~amente fortes,e embaraçosas
para reullloes publicas. Fatos notaveis ocorreram:
ela era carregada sobre as cabeças dos assisten-
tes, mãos invisíveis arrancavam suas roupas e as
recolocavam. Por isso, a senhora Cook, mãe de Flo-
rence, decidiu permitir que esta fizesse reuniões em
casa e somente as duas.
A partir de determinada época, Florence come-
çou a entrar em transe e a transmitir a comunicação
FLORENCE COOK de um Espírito que se dizia chamar Katie King filha
de John King, aliás Henry Owen Morgan, o buéanei-
1'0. .
O Espírito Katie King declarou, então, que sua
Florence Cook (1856-1904), a mais famosa tarefa deveria prolongar-se por três anos, durante
médium de materialização, começou a desenvolver os quais revelaria fenômenos notáveis. E, na reali-
suas faculdades em 1871. Desde a infância, ela via dade, a promessa foi cumprida além do esperado.
Espíritos e ouvia suas vozes. No entanto, tudo foi le- . Assim, o .Cír9ulo Hackney, formado pelos seus
vado à conta da imaginação de criança. paiS, as duas Irmas de Florence, que eram também
Quando contava 15 anos de idade, em uma médiuns, e Mary, a empregada, logo se tomou fa-
festinha com amigos, propuseram realizar o jogo moso. O senhor Charles Backbum, um abastado ci-
das mesas girantes. Dessa vez, Florence se recu- dadão de Manchester, ofereceu-se como mantene-
sou a participar, mas, na segunda vez, ela consentiu dor ~e .F~orence Cook, garantindo-lhe uma gorda
em se submeter à experiência com a permissão da contnbUlçao anual, para que ela se conservasse li-
mãe. E fatos extraordinários aconteceram. A mesa vre e pudesse prestar seus serviços de médium a
se tomou incontrolável e Florence Cook levitou. qualquer momento em gue fossem requisitados.
A partir daí, ela e sua mãe passaram a realizar A primeira materialização de Katie King ocorreu
experiências sozinhas, em sua própria casa. em 1A87~. Foi de ~orma parcial em que um rosto com
Florence passou a psicografar. As mensagens aparencla sem Vida apareceu entre as cortinas da
chegavam através da escrita especular, ou seja, de cabine.
trás para frente, só podendo ser lida com aUXilio de Flo,rence Cook, em uma carta enviada para0
um espelho. uma delas, os Espíritos disseram Sr. Harnson, houvera escrito umas instruções dadas
que ela deveria ir a um certo livreiro e lá perguntar pelo Espírito Katie King:
sobre Dalston Association e propor um encontro que U(...) nos disse que nós devemos dar a ela uma
ela deveria ter com o editor de The Spiritualist. garrafa de óleo fosforescente porque ela não
Por algum tempo, ela fez sessões na Dalston poderia obter o fósforo de que necessita do
Association, sendo algumas de materialização. En-
AS MULHERES MÉDIUNS
410 AS MULHERES MÉDIUNS
meu corpo, uma vez que minha. mediunidade atraiu para o ilustre sábio uma torrente de sarcas·
ainda não estava suficientemente desenvolvi- mo, protestos e ridículo. Antes, porém, de publicar
da". seu relatório, WiIliam Crookes houvera ido a público
Era como uma substituição da chamada "luz em defesa de Florence Cook por causa de um curio-
psíquica" e que Katie King usou para iluminar o ros- so incidente.
to que apareceu entre as cortinas da cabine. No dia 9 de dezembro de 1873, o Conde ea
Nessa fase, Florence Cook ainda se mantinha Condessa de Caithnesse o Conde de Medina Po-
consciente. Só m,ais tarde ela passou a entrar em mar eram convidados do Sr. Cook, pai de Florence,
transe profundo. A proporção que Florence se exer- como participante da sessão, ente as quais se en-
citava no trabalho de efeitos físicos, o Espírito Katie contrava o Sr. W. Volckman, que, incrédulo, descon-
King se ia mostrando mais claramente. fiou da veracidade dos fenômenos, promovendo um
A princípio seu rosto adquiriu luz própria e con- verdadeiro tumulto na sessão. Quando o Espírito
trastava com a escuridão do ambiente. Posterior- Katie King se encontrava totalmente materializado,
mente, as vestimentas se tomaram mais abundan- ele partiu rapidamente em sua direção, segurou-lhe,
tes, até que, no espaço de um ano, ela já andava fortemente, a mão e, a seguir, o pulso. Ocorreu uma
pela cabine com desenvoltura. verdadeira luta no ambiente, na qual dois amigos da
Com o progresso da materialização, a primeira médium foram em socorro do Espírito Katie King. E,
fotografia com flash foi tirada. Sua semelhança com então, um extraordinário fenômeno aconteceu.
a médium ainda era notada, pois, como acontece Conforme testemunho do Sr. Henry Dumphy,
nesse fenômeno, não é fácil ao Espírito lembrar-se um advogado, pareceu-lhe que o Espírito Katie King
do próprio rosto. Entretanto, para mostrar que ela perdeu, de repente, os pés e as pernas fazendo, a
era uma pessoa distinta da médium, mudou a cor da seguir, um movimento semelhante ao que a foca
tez de sua face para um tom meio chocolate e aze- realiza na água. Apenas sua cabeça permaneceu
vichado. Além disso, ambas se diferenciavam pela materializada por algum tempo.
estatura e personalidade. De acordo com sua versão, o Espírito Katie
Como segurança para as pesquisas, a médium King derreteu entre as garras do agressor, não dei-
era marrada na.cabine pelas irmãs e, algumas ve- xando o mínimo traço da sua existência corporal ou
zes, pelos próprios Esplritos controladores dos tra- de sUSiS roupas.
balhos. E interessante observar que, após a diminuição
Foi reservado a William Crookes o privilégio de do excitamento dos presentes e quando abriram a
pesquisar Florence Cook e apresentar as provas de- cabine para verificar a situação da médium, esta se
cisivas de sua mediunidade e da existência da per- encontrava com seu vestido preto, suas botas e com
sonalidade distinta do Espírito Katie King. a fita colante que lhe envolvia fortemente os pulsos
O relatório da sua longa série de experimenta- desde antes do início da sessão, e mais, selado
ções, realizadas na residência de Florence Cook e com o sinal do anel do Conde de Caithness e devi-
em seu próprio laboratório, foi publicado em 1874 e damente lacrado. Nenhum traço do Espírito foi en-
412 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 413
contrado nem mesmo do seu abundante vestido Para se proteger da agressão das
branco. infelizmente, tal desordem ocorrida nessa flash, Florence Cook cobria sua face com
sessão, abalou a saúde de Florence Cook. mas ela foi a primeira médium inglesa a produzir
William Crookes defendeu Florence Cook atra- materializações sob a luz.
vés de três cartas publicadas na imprensa espiritua- Em seu relatório, William Crookes declara:
lista. "Eu freqüentemente puxava um lado da cortina
Na primeira carta, ele declarou que quando o quando Katie estava perto; e era uma coisa co-
Espírito Katie King se colocou diante dele na sala da mum, 7 ou 8 de nós, que estávamos no labora-
casa do Sr. lux Moore, ele ouviu distintamente, vin- tório, ver a Srta. Cook e Katie ao mesmo tempo
dos detrás das cortinas, os suspiros e murmúrios de sob a forte claridade da luz elétrica. Nós não
Florence Cook, provenientes das "agonias" do tran- víamos, realmente, nessas ocasiões, a face da
se. médium, por causa do seu xale, mas a víamos
Nas segunda e terceira cartas, ele continua o mover-se facilmente sob a influência de intensa
seu relato sobre as sessões com Florence Cook que luz e ouvíamos seu ressonar ocasionalmente.
dirigiu na sua própria casa e na de Hackney. Eu tenho uma fotografia das duas juntas, mas
Descrevendo como o Espírito Katie King pe- Katie está sentada na frente da cabeça da Srta.
gou-o, em seus braços, e o fez caminhar a seu lado, Cook."
William Crookes confessa:
"(...) a tentação de repetir uma recente e céle- Um relatório da sessão de 29 de março fornece
uma evidência muito melhor da presença simultâ-
bre experiência tomou-se quase iEres~stível. nea de duas personalidades no ambiente das expe-
Sentindo, entretanto, que, se eu nao tivesse rimentações.
um Espírito, eu tinha, acima de tudo, uma se-
nhora perto de mim, eu pedi permissão para O Espírito Katie King, atendendo ao pedido de
abraçá-Ia, a fim de que fosse capaz de verificar William Crookes, permitiu a sua entrada na cabine.
as observações interessantes que recentemen- E, em seus manuscritos, o ilustre pesquisador diz:
te uma pesquisadora houvera recordado ver- "Eu fui cautelosamente até o interior do cômo-
balmente em algum lugar. JJ do; estava escuro e às apalpadelas senti a
Em 12 de março de 1874, o Espírito Ka!ie: Kin~ Srta. Cook. Encontrei-a encolhida no soalho.
veio até à cortina e, abrindo-a, mostrou a medlUm Çl Ajoelhando-me, deixei entrar o ar na lâmpada
assistência. As duas personalidades, Espírito e mé- de fósforo e com a sua claridade vi a jovem tra-
dium, foram vistas simultaneamente. O Espírito es- jando um vestido de veludo preto, como estava
tava com o vestido branco. William Crookes foi, ime- desde o início da noite, e com aparência com-
diatamente ao interior da cabine e encontrou a mé- pletamente imóvel. Ela não se moveu quando
dium com seu habitual vestido de veludo preto, esti- peguei sua mão e aproximei a luz bem junto a
rada no sofá O espírito Katie King já tinha desapa- seu rosto, mas continuou a respirar calmamen-
recido. te. Levantando a lâmpada e olhando em volta,

414 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 415


vi Katie em pé ao lado da Srta. Cook. Ela esta-
va usando um esvoaçante vestido branco. Se- balançasse seus braços, sacudisse as mãos dos
gurando uma das mãos da Srta. Cook entre as p~esentes e escrevesse uma mensagem. O galva-
minhas, e ainda ajoelhado, passei a lâmpada nometro permaneceu completamente imóvel ne-
do alto a baixo para que iluminasse toda a figu- n~u.ma deflexão foi notada. Como medida ext;ema
ra de Katie, e satisfez-me bastante saber que Wllham Crookes_ solicitou ao Espírito Katie King qu~
estava realmente vendo uma verdadeira Katie colocasse a? maos numa solução química, pois, no
que tinha segurado em meus braços minutos caso de Katle ser Florence, teria os fios molhados e
antes e não um fantasma de um cérebro dis- a solução química teria, infalivelmente, modificado a
traído. Ela não falou, mas moveu a cabeça e corrente do aparelho. E nada disto ocorreu.
sorriu em reconhecimento. Por três vezes, em Florence Marryat, outra pesquisadora de reno-
diferentes ocasiões, examinei, cuidadosamen- me, atestou ter visto o Espírito Katie King junto a
te, a Srta. Cook para estar seguro de que a Florence Cook. Sobre este fato ela escreve em sua
mão que eu segurava era de uma mulher viva obra "There is no Death" (Não há Morte): "ela me
e por três diferentes vezes, levei a luz até Katie cha.mou para qUf! fosse até ela no interior da cabine
e a examinei criteriosamente até não ter ne- e tiroU, seu vestido branco, ficando completamente
nhuma dúvida sobre sua objetiva realidade." nua diante de mim. Então ela disse - você pode
Outras minúcias notadas por William Crookes ver que sou uma mulher".
provavam a distinção entre a médium e o Espírito. O E Florence Marryat acrescentou: "Sim, ela era
sinal que Florence Cook possuía no pescoço não se realmente. uma mulher, e belíssima também."
apresentava no pescoço do Espírito Katie King. Flo- No dia 21 de maio de 1874 WiIliam Crookes
rence Cook tinha as orelhas furadas para argolas, testemunhou o último encontro entre Florence Cook
enquanto as do Espírito Katie King, não o eram. e o Es~írito de Katie King. Ambas estavam por trás
William Crookes era extremamente cuidadoso da cortina. Do lado de fora da cabine se ouviam
na realização das experiências. Para prevenir a suas voz~s. Ka!ieacordou Florence do seu transe e
fraude ele chegou a utilizar o teste elétrico aconse- a despedida fOI bem movimentada. Elas conversa-
lhado por Cromwell Varley. Consistia em colocar a ra~ afetuo.same~te e Florence derramou muitas lá-
médium em um círculo eletrico conectado com uma gn~as,. pOIS sabia que nunca mais veria o Espírito
bobina de resistência e um galvanômetro. Os movi- Katle Klng.
mentos do galvanômetro eram mostrados em outro " .~~is tarde, um Espírito que disse se chamar
recinto para as irmãs de Florence Cook. Se a mé- Mane tomou o lugar de Katie King. Ela cantava e
dium fizesse qualquer movimento, o mais leve que dançava como uma bailarina profissional.
fosse, o galvanômetro apresentaria violentas oscila-
ções. ~m .9 de janei~o de 1880, algo semelhante ao
Entretanto, nada ocorreu de suspeito, embora 9ue .J~, tinha ocornd~ c?m Katie, aconteceu com
o Espírito de Katie King, durante a materialização, Ma~~e . ~~sta vez, fOi Slr George Sitwell que agar-
rou Mane para ter certeza que estava diante de
416 AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
411
um Espírito d~sencamado., ~ntret~nto ela não se em frente do reposteiro, formando cadeia com
dissolveu e felizmente, a medlum nao adoeceu. mãos. Apenas por uma luz que incidia sobre as cor-
Florence Marryat, depois deste fato, foi a pri~ tinas, se permitia que os assistentes vissem uns aos
meira a ser escolhida para permanecer na cabine outros.
junto com Florence Cook. Nessa sessão, "Marie" Passados uns quinze minutos, ouviu-se dentro
apareceu, cantou e dançou como fizera anterior- da cabine, uma voz de homem, rude e bruta'l falan-
men~. . . do inglês e travando diálogo com a médium. 'Pouco
Florence Cook, que desde 1874 ficou conhecI- depois, apareceu pela porta superior dos repostei-
da pelo casamento como Sra. Elgie Comer, afastou-se, ros um braço, nu até o ombro, de um homem muito
por algum tempo, das sessões mediúnica.s públi~s. forte. Era o Espírito-guia da médium conhecido pelo
Em 1899 porém, a convite da Sphmx Soclety, título de Capitão.
ela se prestou' a ser testada em B~rlim. '~Marie" ma~ Houve, nessa sessão, fenômenos variados.
terializou-se várias vezes e produzIu fenomenos no- Bolas luminosas eram vistas nitidamente descre-
táveis. . vendo sinuosas curvas em todos os sentidbs. Mate-
A célebre médium também realiza, em Paris, rializações diversas. Vozes de três a quatro pessoas
memoráveis sessões, dentre as quais destaca-se a falando ao mesmo tempo em inglês. Feito absoluto
que ocorreu numa terça-feira de julho do ano de silêncio, distinguiram, os presentes, uma voz extre-
1910 às 21 horas, na residência do casal mamente simpática e juvenil, expressando-se em
Pierr~-Gaêtan Leymarie e Marina (Duelos) Leyma- puríssimo francês. Era a voz de Mary, uma menina
nascida _de pais ingleses na Algéria, à época dá
rie. 'd'
Estiveram presente à memorável sessão: me I~ possessao ,~ran~esa. Pouco d~pois, a pequena e
cos jurisconsultos e homens de letras. A Sra. Cor- atenta platela fOi tomada de subita emoção com a
ner'(Florence Cook), com 45 anos de idade, cabelos saída, dos reposteiros, de uma mulher vestida de
ainda pretos, entrou na sala de sessões, onde já se ~ranco, que P?UCO se demorou. Em seguida, as cor-
encontrava a seleta assistência, cumprimentando a tinas entreabnram-se e surgiu a figura esbelta e deli-
todos em um francês marcado por forte sotaque bri- cada de Mary. Trajava vestido de noiva, de longa
tânico. cauda, decotado em cima de ombro a ombro e os
O local da sessão ficava no segundo andar da br~ços int~iramente nus. liA sua pele, de brancura
residência e constituía como que um pavilhão isola- cetlnosa, tinha todo o frescor da juventude e uma
do. Num dos ângulos da sala estava o gabinete es- abundante cabeleira loura caía-lhe sobre os'ombros
curo formado por dois pesados reposteiros de fa- e braços". A aparição ficou certo tempo entre os as-
zenda escura, aberto ao meio. Dentro desse gabine- sistentes, depois pediu caneta e papel para escre-
te havia apenas uma cade~a de co;stura bast~nte ver. Indicou,-se-Ihe u~a pequena mesa que ficava
sólida e aparafusada no 9h~0. DepoIs de b~m Ins- encostada a parede, Junto aos reposteiros. Escre-
pecionada a sala, foi a medlum atada pela clnt!Jra e veu apressada e febrilmente algumas palavras de
manietada. Os assistentes sentaram-se em cIrculo despedida, que assinou, e se retirou para a cabine
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 419
418
de onde não tornou a sair. Clareou-se a sala ~ todo~
verificaram que a médium estava sentada e ligada a
cadeira. _
Os notáveis acontecimentos dessa sessao ex-
perimentai foram publicados na Revue Spirite de
1900.

EDITH HAWTHORNE

Edith Hawthome desencarnou em Londres (In-


glaterra), aos 39 anos de idade.
"Criatura bexigosa e enfermiça" - informa o
ProL Ernesto Bozzano - "o seu precário estado de
saúde não a impedia de se dedicar a obras de cari-
dade e filantropia" ("Os Enigmas da Psicometria" -
FEB,1949).
Animada de uma compassividade extrema para
com as crianças abandonadas, tinha ela fundado
um instituto: The Tiny Tim Guild, destinado a crian-
ças atrofiadas e raquíticas, ao qual consagrava todo
o tempo disponível nos últimos anos de sua existên-
cia. Sobre seu admirável espírito de sacrifício, eis
como depõe uma testemunha:
"Era genial a sua intuição nos cuidados para
verificar uma laringe ou uma língua atrofiadas.
Nesses trabalhos, era de uma paciência sem li-
mites, a fim de conseguir um tratamento eficaz,
e tão suave, e tão carinhoso, a ponto de o
transformar em distração alegre para os peque-
ninos enfermos.
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
420
"E a Srta. Hawthome estava firmemente con- "Pedi a esse senhor que me enviasse amostras
vencida de que os Espíritos Superiores assis- diversas, de qualquer natureza, das quais eu
tiam-na em sua tarefa. A seu ver, os processos tudo devia ignorar, exceto o número de ordem
engenhosos que imaginava, e mediante os que me habilitasse a distingui-Ias. Ao receber
quais cada utensílio se adaptava expressamen- essas amostras, impunha-me anotar imediata-
te a cada paciente, eram-lhe sugeridos pelos mente as impressões que cada uma me provo-
Invisíveis. " cava, à proporção que as ia segurando entre
as mãos, a fim de expedir, em seguida, essas
"Esta presunção" - admite o Prof. Bozzano - expressões escritas ao Sr. Jones, que lhes adi-
"não é inverossímil, tendo-se em vista as faculdades taria o respectivo comentário, atinentes à au-
mediúnicas notáveis que ela revelou nesse período tenticidade das minhas notas psicométricas.
de sua vida."
Em suas experiências psicométricas, Edith No Memorial a seguir, as observações do Sr.
Hawthome deu provas de uma capacidade de in- Jones vão registradas entre parênteses:
vestigação realmente científica. No intuito de elimi- "Colocando a mão sobre a amostra embrulha-
nar toda a possibilidade de sugestão involuntária ou da em papel grosso e constituído de uma subs-
de leitura do pensamento, procurava obter, de luga- tância dura e resistente, percebo imediatamen-
res longínquos, objetos desconhecidos para os psi- te dois ou três homens a examinarem uma pa-
cometrar, registrando logo em seguida a impressão rede negra.
que lhe dava cada objeto e comunicando-se com o "Um desses homens tem à mão uma lantema;
seu remetente, a fim de consignar este as próprias outro pesquisa, insistente, aqui e ali, mostran-
observações, de confronto com o documento psico- do-se muito prudente antes de dar a sua opi-
métrico. nião.
A maior parte da série de experiências realiza-
das às expensas da faculdade mediúnica de Edith - (Eis uma descrição fiel dos inspetores de
Hawthome, foi publicada na revista inglesa Light, de minas, que descem pela manhã aos poços,
1904. munidos da lâmpada de segurança, a fim de
A própria Edith Hawthome escreve: verificarem se tudo está em ordem, antes da
chegada dos trabalhadores. - Samuel Jones) .
'jIi experiência a seguir foi feita com o Sr. Sa-
muel Jones. Dei-lhe preferência porque todas "Pressinto que neste embrplho está um pedaço
as pessoas da minha intimidade sabem que eu de carvão, nada xistoso. E uma bela qualidade
e o Sr. Jones nunca nos vimos, e que jamais de hulha.
pisei no condado em que ele reside (Samuel - (Perfeitamente: hulha 'Heathen' - Samuel
Jones residia em Dudley, Worcestershire, Jones).
Askew Brigda, Gomal Woode e a sensitiva em
Londres, 3 Upperstreet Islington). "Foi arrancado de grande profundidade.
422 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
//
- (Efetivamente: da camada mais profunda/~a - (Não há cemitério nem igrejas nos arredo-
mina - Samuel Jones). / res. O cemitério mais próximo está li distância
."Os homens que trabalham nessa espécie de de uma milha. - Samuel Jones).
túnel estão muito abaixo de um ponto de onde '7enho diante de mim uma parede negra, im-
me chegam ruídos de rodas e vagões em movi- penetrável e inexplorada; percebo água a pe-
mento. quena distância... Experimento vibrações tão
-(A superfície do solo, uma via férrea de bito- fortes, tão vivas, que sou forçada a passar
la estreita passa muito perto do local em que foi adiante. Agora, é como se o caminho se abris-
extraída essa pedra. O túnel escuro é um dos se li minha frente, a levar-me para a direita. Es-
ramais da mina. - Samuel Jones). tou perturbada; é preciso vedar ou desviar esta
fonte, sob pena de ver os operários afogados
"Vejo grupos de homens em atividade para quais ratos em suas luras.
abrir passagem através de um paredão negro.
Um de pé, outros agachados; todos, porém, em - (Exatíssimo! Pura verdade! Há grande
posições forçadas e contrafeitas. quantidade de água nas minas, precisamente
na direção apontada pela psicômetra. Essa
- (Os mineiros trabalham, realmente, em gru- água é tanta que, numa galeria perfurada, li di-
pos isolados. Quanto ao mais, é observação reita, houve necessidade de abandonar-se o
exata do penoso trabalho de mineração. - Sa- trabalho antes de atingir o filão carbonífero,
muel Jones). porque a pressão da água impossibilitava os
"Agora, meu olhar se fixa num homem que tra- trabalhos de aproximação. Presentemente, o
balha sozinho, em uma galeria tão baixa e tão perigo está quase conjurado e os operários
estreita que o força a deitar-se. Ao contemplá-lo, presumem que a fonte estaria seca, se não
assalta-me um como sentimento de tristeza e houvesse sempre água no subsolo - Samuel
ansiedade; sou levada a orar e a desejar que Jones).
se não verifique um desmoronamento capaz de "Oh! que visão horrível! Vejo o homem, antes
esmagar... referido (vide a sexta impressão de Edith Hawt-
- (Não. Há muito tempo que nesse ponto não home), estertorando-se no chão, lívido, a san-
ocorrem desastres. - Samuel Jones). grar pela boca, pelo nariz, pelos ouvidos!
"Coisa singular! Os pensamentos desse ho- - (Eureca! Estupenda revelação! Agora me
mem não se prendem li sua tarefa. Ele está lembro de que há vinte anos um operario ficou
pensando na esposa e no filho de tenra idade. mortalmente ferido nessa galeria, quando ten-
Percebo, agora, um cemitério da aldeia, no tava atingir o filão carbonífero, e isso justamen-
qual repousam criaturas de condição humilde, te por efeito de uma inesperada inundação.
em grande escala, e leio as inscrições ingê- Esse homem •faleceu quatro semanas após o
nuas apostas em suas respectivas campas. acidente e sua mulher deu-lhe um filho horas
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
antes de ele morrer. Ora, essa criança, hoje ra- considerá-Ia à parte, distinguindo a psicometria, as-
paz de vinte anos, é o próprio, que nos entre- sim, das outras formas de clarividência.
gou a amostra psicometradal E daí que veio a Na clarividência, por exemplo, utilizada por qui-
impressão de tristeza assinalada pela sensitiva. romancia, cartomancia etc os diversos objetos ou
- Samuel Jones). processos empregados podem considerar-se como
simples "estimulantes", próprios para suscitar o es-
"Nesse momento desço abaixo desta camada tado psicológico favorável ao desembaraço das fa-
de hulha. Meu pensamento se prende a cente- culdades subconscientes.
nas de séculos anteriores ao Cristo! Estou a Na psicometria, muito pelo contrário, parece
ver uma floresta cujas árvores têm uma folha- evidente que os objetos apresentados ao sensitivo,
gem tão espessa que me impedem de ver o longe de atuarem como simples "estimulantes",
céu. Diviso ursos de um pardo-escuro, quase constituem verdadeiros intermediários adequados,
negros, procurando as suas cavernas. Um ani- que, à falta de condições experimentais favoráveis,
maI monstro, de pé, sobre uma rocha da qual servem para estabelecer a relação entre a pessoa
jorra uma coluna d'água, semelhando um len- ou meio distantes, mercê de uma "influência"reai,
çol. De modo vago, ligo esta fonte à que existe impregnada no objeto, pelo seu possuidor.
atualmente na mina e de que me proveio tão "Esta influência"- conclui o Prof. Bonano -
grande angústia. "de conformidade com a hipótese psicométrica, con-
- (Veríssimo! Informaram-me que a água que sistiria em tal ou qual propriedade da matéria inani-
inundava a nossa mina jorrava de baixo para mada para receber e reter, potencialmente, toda es-
pécie de vibrações e emanações físicas, psíquicas e
cima! Que belas observações verídicas neste
vitais, assim como se dá com a substância cerebral,
vosso ensaio psicométrico! - Samuel Jones).
que tem a propriedade de receber e conservar em
Com referência às manifestações psicométri- latência as vibrações do pensamento".
cas de Edith Hawthorne, o Prof. Ernesto Bozzano, O vocábulo foi criado pelo médico norte-ameri-
na obra antecitada, admite que "os enigmas a resol- cano Dr. J. Rhodes Buchanan, em 1849, sendo pu-
ver se enredam de modo inextriéável". E prossegue: blicado pela primeira vez, no Journal of Man. Mais
"De todas as hipóteses que nos ocupam, nenhuma tarde, em 1886, o Dr. Buchanan dava a lume a obra:
se afigura menos indicada para explicar os fatos, do 4~ Manual of Psycometry: The Dawn of a New Civili-
que essa mediante a qual um objeto viesse a revelar zation. "
a sua própria história. " No curso de suas pesquisas constatou que, ao
4~ psicometr{a", esclarece o· Prof. Bozzano, colocar na fronte de alguns de seus pacientes um
"não passa de uma das modalidades de clarividên- objeto qualquer, oriundo do passado ou do presen-
cia, •ea esta pertencem, também, os seus enigmas". te, ou de alguém, eles dissertavam, com espantosa
Entretanto, as suas específicas peculiaridades fidelidade, sobre a história desses objetos ou os ca-
lhe conferem um caráter especial, que permitem racteres de seu(s) possuidor(es).
426 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 427
Há quem admita a impropriedade do termo, passado que iJ]noramos. A fauna e a flora da Terra
aceitando-se em seu lugar, o que fora sugerido por durante o penodo cretáceo nos são desconhecidas.
Joseph B. Rhine: "Percepção Extra-sensorial". Que sabemos do começo da vida?"
O pesquisador João Teixeira de Paula, em seu A Psicometria poderia, realmente, constituir-se
Dicionário "Espiritismo, Metapsíquica, Parapsicolo- num .dos trunfos inestimáveis para o conhecimento
gia", informa que a psicometria é conhecida, tam- da ongem do Ser e das coisas.
bém, pelas seguintes expressões: Afria, Criptestesia
Pragmatica, Lucidez Indireta, Metagnomia Tátil,
Pragmância, Psicognição, Psicometria Retrospecti-
va, Telefrontista e Telegnomia.
Entre os pioneiros da investigação da Psicome-
tria, ressalta-se o nome do geólogo William Danton,
que publicou o resultado do seu trabalho em três vo-
lumes, a que deu o sugestivo título: "A Alma das
Coisas".
A própria irmã do pesquisador fez o papel de
psicômetra. Puseram-lhe sobre a fronte cartas lacra-
das, e ela descreveu os autores das mesmas, até a
cor dos cabelos e dos olhos. Diante da veracidade
dos fatos revelados pela sensitiva, William Danton
concluiu que se a imagem da pessoa que escreve a
carta pode gravar-se nela, psiquicamente, seria viá-
veios rochedos "assimilarem" as impressões de
tudo quanto os havia circundado. Assim, procedeu
as experiências com fósseis, minerais, espécimes
arqueológicos etc. Ele acondicionava, cuidadosa e
hermeticamente os objetos (assim como procedeu
Samuel Jones, com relação a Edith Hawthorne), e
sem saber do que se tratava, a psicômetra ia lhe
desvendando a história. A sensitiva informou que as
visões psicométricas transcorriam, às vezes, lenta-
mente, com imagens nítidas, sendo-lhe possível
descrevê-Ias como uma vista panorâmica.
liA psicometria" - argumenta Alfred Emy em
sua obra 'O Psiquismo Experimental' - "oferece à
ciência um aUXilio imenso. Há períodos inteiros no
AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS 429
secutivas: abrir os braços e dizer mentalmente a
oração.
Depois de proferir três vezes a oração na forma
indicada, sentava-se no escritório, fechava os olhos,
e, passados alguns segundos, mediante o exercício
da vidência, sentia que se encontrava em frente a
uma grande porta fechada. Advertiram-na de que,
se alguma vez essa porta astral não se abrisse, é
porque, em tal circunstância, nada poderia fazer e
ADElA AlBERTElll que, portanto, deveria regressar ao seu lugar. Se,
pelo contrário, se abrisse, queria dizer que poderia
entrar e continuar a atuação.
Uma vez atuada, não tardava em se encontrar
perante grande quantidade de pedras em forma de
A Associação de Jomalistas, Publicistas, E~cri­ lápide, com inscrições em diferentes línguas (he-
tores Espíritas e Metapsiquistas d~ Buenos Aires, breu, inglês, latim, francês etc). Quando se detinha
República Argentina, divulgou, na decada de 50, os para ler o que dizia uma lápide, observava que o re-
resultados das pesquisas realizadas pelo Dr. José lato não terminava nela, mas continuava noutras
Martin, com a médium argentina Adela Albertelli. . que apareciam sucessivamente com rapidez variá-
Nas sessões realizadas com Adela, produzI- vel. Via-as desfilar, como se contemplasse a passa-
ram-se vários casos de vidência xenográfica, quer gem de um trem.
dizer, vidências de textos escritos em línguas es- Frente a esses textos, afirmava, sem poder ex-
trangeiras. Esses fenômenos começaram a ocorrer plicar a razão, que poderia lê-los e traduzi-los, ao
a partir de janeiro de 1954. Estava a médium tran- passo que, em estado normal, tais idiomas lhe eram
qüilamente sentada, quando ouviu (por dariaudiên- totalmente desconhecidos. As mensagens eram di-
cia) que lhe diziam que pegasse um lápis e papel, tadas a outras pessoas, pois, se tentava copiá-Ias,
pois lhe iam ditar uma oração em latim. Quando ter- imediatamente cessava a vidência. Pelo contrário,
minou de escrevê-Ia, disseram-lhe que devia empre- nas experiências clariaudientes, podiam ser escritas
gá-Ia numa nova clas?e de eÀperiência: cujas instru- por ela sem impedimento nenhum.
ções lhe deram tambem nessa oportunidade. Ao ser-lhe perguntado por que tinha a certeza
Como lhe disseram que não divulgasse a ora- de estar vendo determinado idioma e por que sabia
ção pois era exclusivamente para ser empregada que as palavras usadas não eram semelhantes às
por 'ela, depressa a decorou e destruiu o escrito. Se- dos vocábulos reais, disse que, embora nessas oca-
gundo as indicações recebidas, antes de cada uma siões permanecesse em estado consciente, opera-
dessas sessões especiais, devia descalçar-se. De- va-se nela uma mudança, durante a qual lhe parecia
pois, de pé, devia fazer o seguinte, três vezes con- adquirir uma compreensão quase ilimitada das coi-
430 AS MULHERES MÉDIUNS AS MULHERES MÉDIUNS
sas. Por isso, em face de uma língua que normal- 'Diz-se na Palestina que a mulher de Sócrates,
mente não era capaz de distinguir de outras, sabia de nome Xantipa, era tão má, tão perversa, que
de qual se tratava e, além disso, nesses instantes até batia no marido.
não tinha a menor dúvida sobre a sua natureza. 'Um dia, porém, esta mulher mordeu-se de raiva.
.Atribuía tal segurança e bem assim a existên- O pobre marido queria sair de casa para ir visitar
cia das suas faculdades paranormais ao profundo uns amigos, mas opôs-se a que ele saísse nesse
amor que sente por Jesus e que aumentava, quan- dia.
do se dispunha a realizar qualquer trabalho com os
Espíritos. A seguir, vão alguns exemplos desse pe- 'Começou a atirar-lhe tudo o que encontrava à
culiar e inusitado processo de vidência. Quando se mão (cadeiras, mesas, pratos etc.) e pegou
produziram estavam presentes apenas três pes- numa jarra com água e deu um banho no mari-
soas: a médium, seu filho e o pesquisador argentino do.
José Martin. Então o pobre Sócrates disse:
O leitor deve saber que a vidente só tinha exa- 'Ah! Já sabia que hoje se passaria alguma coisa.
me de instrução primária, e que nestas traduções Pobres daqueles que estão casados com uma
muito há da sua linguagem habitual, pelo que se perversa que se chama Xantipaf"
deve prescindir de exigências gramaticais ou literá-
rias. Também não se deve interpretar o seu conteú- Rosário, 20 de janeiro de 1954.
do de acordo com o que se conhece, pois é possível
que haja erros ou falta de concordância com a reali- São Luís de 1010sa
dade. (Vidência de um texto em inglês)
O fato importante é que, até esse momento, a
médium, no seu estado inconsciente, ignorava o tex- Iniciada a sessão, disse a médium:
to das comunicações. Além disso, depois da capta- ''Já tenho diante de mim uma lápide. Assenta
ção, não podia reter integralmente na memória nor- sobre outra pedra. As inscrições são em inglês
maio que havia ditado, principalmente nomes e da- e estão assinadas por Bacon. Lê-se no princí-
tas. pio:
Eis alguns dos textos captados por Adela AI-
'Maria - Princesa da Hungria, filha do rei da
bertelli: Hungria.
o caráter de Xantipa 'Carfos - Rei de Nápoles e Sicl1ia, Conde de
Provença.
(Vidência de um texto hebreu) "Depois Lê-se: 'Um dia Carfos fi, no ano de
''Já se abre a porta. Já passei. Há uma lápide 1270, conheceu a princesa Maria da Hungria
gravada em hebreu. Contém o seguinte: numa festa realizada em França.
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"Os dois jovens enamoraram-se e casaram no
mesmo ano.
"Maria era de religião ortodoxa e para casar com
Carlos /I teve de batizar-se na religião católi-
ca-apostólica-romana.
"Festejaram-se as bodas em Paris, no ano de
1274. Deste casamento real nasceu um príncipe
chamado Luís. Era formosíssimo. Foi educado
num convento chamado... de São Francisco e ZllDA GAMA
depois de São Domingos.
(Nota: a médium não pôde transmitir o nome. Pos-
sivelmente referia-se ao convento de Aracoelij.
"Quanto mais crescia, maior era o seu saber e Procedente de uma das mais ilustres famllias
em muitos casos superior ao dos livros. Era do Brasil, que teve origem no então tenente da ca-
como se lho transmitisse o céu. valaria Leonel da Gama Bellens, natural de Campo
Maior, província de Alentejo, Portugal, o qual, em
"Este humilde príncipe tomou hábito e foi enviado 3-5-1690, se casou com D. Maria Josefa Corrêa,
a Roma, onde teve a ordem de subdiácono e sa- com grande geração, principalmente no Estado de
cerdote. Minas Gerais, como os Almeida da Gama, ramo de
"O ilustre príncipe dava de comer a todos os po- que saiu José Basilio da Gama (autor de "Uruguai"o
bres que iam a sua casa. Até dava leite a quem poema mais notável do Brasil-Colônia), nasceu Zilda
não o tivesse. Gama, em 11 de março de 1878, em Três Ilhas, no
município de Juiz de Fora, filha de Augusto Cristiano
"Quanto aos doentes, mesmo contagiosos,
curava-os e ajudava-os. da Gama, escrivão de paz, e de Elisa Emília Klõrs
da Gama, nascida em Vassouras, RJ, de pai alemão
"Andava de casa em casa, ajudando os doentes e de mãe mineira de São João del-Rei.
até que se deixou contagiar e faleceu aos 23 Era, como sua mãe, professora pública, diplo-
anos, em 1297. mada pela Escola Nacional de São João del-Rei,
"Eis a história verídica de São Luís, príncipe, bis- MG. Exerceu o magistério no município de Além-Pa-
po de Brignoles, Provença." raíba, tendo assumido, por várias vezes,.a direção
dos Grupos Escolares Castelo Branco e Sales Mar-
Rosário, 18 de setembro de 1954. ques, na mesma cidade, após ter obtido duas pro-
o.
caso de Adela Albertelli parece ter sido o úni- moções. Em 1929, tendo a Secretaria de Educação
co no contexto das pesquisas sobre o fenômeno de de Minas Gerais posto em concurso aulas-modelos,
xenoglossia. obteve o primeiro lugar na classificação oficial e foi
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inscrita na Escola de Aperfeiçoamento de Belo Hori- timos dissabores, sentiu que alguma entidade do
zonte, onde concluiu o curso, a 6 de dezembro de mundo invisível desejava corresponde:r-se com ~Ia.
1929. Pegou do lápis, e pro.ntamente lhe veiO, p~la PSICO-
Em 1927 tomou parte no Congresso de Instru- grafia salutar conselho, dado por seu pai, e outro
ção, como membro permanente; e em 19S1, ~o por súa adorada irmã, poetisa e violinista, Maria An-
Congresso Feminino presidido pela Doutora Elvira tonieta Gama.
Komel, apresentou uma tese sobre o direito do voto Pouco depois, passava ela a psicogr~far ~en­
feminino, que, pouco tempo depois, teve a aprova- sagens de "Mercedes" entidade que lhe 101 de If!ex-
ção oficial. cedível dedicação, consórcia de todos os seus inS-
Passando a residir em Belo Horizonte, conti- tantes de dor e de raras alegrias, enfim, um dos
nuou a exercer o magistério primário, agora no Gru- seus mais desvelados guias espirituais e que lhe re-
po Escolar Afonso Pena, daquela cidade, até 19S8, velara a importante missão que o Alto lhe reservava
ano em que se apos~ntou. Era culta, e, j9~em.aind?, no Espiritismo. .
colaborou, com poesias e contos, em vanos Jornais Com surpresa, ainda no ano de 1912, .Zllda
de Juiz de Fora, Ouro Preto, São Paulo e Rio de Ja- Gama psicografava a primeira mensagem assinada
neiro . dentre eles o "Jornal do Brasil", a "Gazeta de por Allan Kardec. Eis como ela relata o fato:
Notíe'ias" e a Revista da Semana, periódicos da en-
tão capital da República. "Intensa foi a minha emoção, que me sensibili-
Zilda Gama foi, porém, grande sofredora, tendo zou até às lágrimas, e, mentalmente, disse-lhe
sido duramente provada com os testemunhos que que não me considerava na altura de desem-
foi chamada a apresentar às leis de Deus. No espa- penhar a contento a excelsa quão arri~cada in-
ço de cinco meses, pelo ano de 1905, desencama- cumbência de que me dera conhecimento a
ram os pais, e como a sua irmã primogênita desen- piedosa 'Mercedes'. Ele pt?nder0l.! .sobre a res-
camara em 1901, ela foi, por isso mesmo, chamada ponsabilidade dessa missao espmtua/; prome-
a assumir o governo da famnia, contando, apenas, teu coadjuvar-me pa~a que eu a execut~sse sa-
vinte e quatro anos de idade. Criou e educou os 5 ir- tisfatoriamente, termmando, com austeridade, a
mãos menores, tomados órfãos qual ela própria, e sua inolvidável mensagem datac!~ ~e de qe:
mais tarde, 1920, cinco sobrinhos, filhos de sua irmã zembro de 1912, inserta em "Diano dos Invlsi-
Adélia, também tomados órfãos, sem jamais esmo- veis", 1929:
recer na sua coragem e na sua fé em Deus e na de- "Sobre tua fronte está suspenso um raio lumi-
dicação àqueles que, de todas as formas, depen- noso que te guiará através de todas as dificul-
diam dela. dadés de todos os obstáculos, e será a tua
Por volta de 1912, Zilda Gama já era adepta da glória'ou tua condenação - conforme o, de.-
Doutrina Espírita, "embora não ostensivamente", sempenho que deres aos teus f!ncargos p~/qL!l­
como ela própria declara no prefácio de "Na Sombra cos Cinge-te de coragem, fe, benevolencla,
e na Luz". Em fins do referido ano, combalida por ín- cumpre sem desfalecimento, e sem deslizes,
AS MULHERES MÉDIUNS
AS MULHERES MÉDIUNS
todos os teus deveres sociais e divinos, e con- Outros livros psicografados foram impressos
seguirás ser triunfante. " por editoras diferentes, a exemplo do "Diário dos In-
visíveis", permanecendo inéditos algu~~ poucos me-
Durante quinze anos, conforme declara a pró-
diúnicos, bem como várias obras poetlcas e peda-
pria Zilda Gama, o Espírito AlIan Kardec assumiu a
gógicas de sua aut9ria. . .. ,.
direção dos seus labores espirituais, orientando, lilda Gama fOI, no Brasil, a pnmelra medlum a
aconselhando, esclarecendo, tendo sido várias as obter no mundo espiritual uma vasta e substancial Ii-
provas que vieram confirmar a sua supremacia espi- teratura espírita, tendo causado sensação as suas
ritual sobre as demais entidades comunicantes. As- obras mediúnicas quando apareceram, quer no am-
sinadas por ele, há algumas comunicações no livro biente espírita, quer entre os leitores leigos.
"Diário dos Invisíveis", publicado pela Editora Pen- Em junho de 1940, lilda Gama se transferiu
samento. para a cidade do Rio de Janeiro; em março de 1955
Em 1916 ou 1917, os Espíritos informaram à mudou-se para Mesquit~,. RJ, e, em 1957,. ~etornou
médium que ela iria psicografar uma novela, fato ao Rio de Janeiro. Nos ultimas dez anos, VIVia numa
que a deixou perplexa e meio descrente. Mas, no cadeira de rodas, ou presa ao leito, após o dramáti-
dia e hora aprazados, lilda Gama, sentindo-se co derrame cerebral que lhe embotou o raciocínio,
como que impelida, passou a transportar para o pa- "antes iluminado pelos fachos da inspiração espiri-
pei, rapidamente, tudo quanto constituía o início de tual" (REFORMADOR, abril de .1969), res~dindo, ~~­
um romance. Não menos foi sua surpresa quando o tão, em companhia de seu dedicado sobnnh~ Mano
Espírito comunicante se assinou - Victor Hugo! Angelo de Pinho, cercada pelo afeto dos familiares e
Sob o impulso vibratório desse genial escritor a admiração e o respeito de quantos a c~nheceram,
pois integralmente consagrada ao serviço do Se-
francês do século XIX, um dos maiores expoentes
nhor lilda Gama não contraiu matrimônio.
da literatura moderna, dentro de pouco tempo a 'No dia 10 de janeiro de 1969, com 91 anos, li!-
obra estava concluída, recebendo o seguinte título: da Gama retoma à Pátria Espiritual, desligando-se
"Na Sombra e na Luz". No "In Limine" a essa nove- dos despojos camais alquebrados pela doença e
la, a médium reporta-se a curiosos e interessantes pelo tempo. O seu corpo foi sepultado no dia se-
pormenores sobre o rece