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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA PUC-RIO

O EVANGELHO SEGUNDO A CEGUEIRA DOS HOMENS: UMA ANÁLISE DO DISCURSO


LITERÁRIO DE JOSÉ SARAMAGO SOB A PERSPECTIVA DA LINGUÍSTICA SISTÊMICO-
FUNCIONAL E DA ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO

ODETE FIRMINO A. SALGADO

ANTEPROJETO DE TESE DE DOUTORADO


DEPARTAMENTO DE LETRAS
Programa de Pós-graduação em Letras
Estudos da Linguagem
Linha de pesquisa 4
Discurso, práticas cotidianas e profissionais
Edital Seleção 2016.1

Rio de Janeiro
Novembro de 2015

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Sumário
1. TEMA, JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA DO ESTUDO ........................................................................................................... 1
2. OBJETIVOS E PERGUNTAS DE PESQUISA ................................................................................................................................ 5
3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ...................................................................................................................................................... 5
4. METODOLOGIA .............................................................................................................................................................................. 12
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................................................................................ 13
6. CRONOGRAMA ............................................................................................................................................................................... 14
7. BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................................................................................... 14

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1. TEMA, JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA DO ESTUDO

O presente trabalho tem como foco a análise do discurso literário1 a partir de uma perspectiva
sociossemiótica de linguagem, ou seja, observando a interação desses textos com seu contexto social para criação
de significados. Mais especificamente, proponho, neste anteprojeto, a análise do discurso de José Saramago
(1922-2010), um dos maiores escritores da Língua Portuguesa, em duas de suas obras, a saber, “O Evangelho
Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio Sobre a Cegueira” para que esses textos possam ser trabalhados de forma crítica
e reflexiva no ensino de literatura. Desse modo, esse trabalho se insere na área da Linguística Aplicada, doravante
LA, pois propõe uma investigação de cunho interdisciplinar (MOITA LOPES, 2011).
Segundo Krause (2013, p. 108), “nos ensinos fundamental e médio, a ênfase no ensino de literatura deve
se dar na leitura, buscando-se quantidade e diversidade de gêneros, autores e nacionalidades”, o que justifica a
escolha por José Saramago que é de nacionalidade portuguesa. Por que (de)limitar o estudo da literatura a uma
determinada linha do tempo e não trabalhar com autores variados, com temas de interesse da turma e com gêneros
requeridos pelo contexto social dos alunos? Saramago foi um autor politicamente engajado, envolvido em
polêmicas ainda contemporâneas e premiado como escritor de destaque, contudo pouco aparece em programas
escolares e livros didáticos. Desse modo, apesar da aparente complexidade das obras do autor, acredito que a
teoria linguística pode subsidiar a entrada desses textos na escola para um ensino crítico e reflexivo.
José Saramago foi vencedor do Prêmio Camões em 1995, considerada a premiação mais importante em
Língua Portuguesa. O autor também foi o primeiro (e até então o único) escritor de Língua Portuguesa a vencer
o Prêmio Nobel de literatura em 1998. Saramago foi contemporâneo de outros grandes escritores, contudo seu
destaque o fez ser escolhido para a homenagem. Segundo Pereira (2011, p. 19), o autor não só realizou um projeto
literário extremamente bem arquitetado, como também, esse projeto de escrita se articulava fundamentalmente
com um projeto de vida. Saramago não só refletia sobre o seu país, mas sobre toda a civilização ocidental, pensava
sobre suas bases de pensamento judaico-cristãs e questiona o próprio homem. Toda a relevância da obra do autor
está, em meu entendimento, na ampla reflexão crítica que fez sobre todos os temas que se propôs a escrever.
Desse modo, a reflexão crítica sobre sua obra, em um contexto escolar, se faz necessária, observando a construção
de sentidos produzida pelo autor.
Este anteprojeto também visa contribuir para as reflexões acerca do ensino de literatura, que, atualmente,
se pauta em um ensino histórico e cronológico de escolas literárias. Uma das práticas mais comuns no trabalho
com literatura, segundo Rezende (2013, p. 101), é solicitar “seminários sobre autores e obras cujo cronograma
igualmente segue a linha do tempo da história da literatura nacional e a do antigo colonizador etc”. Cosson (2014)

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Compreendo discurso literário aqui não como a designação do fenômeno literário, mas como a produção de significados que abrange
questões ideológicas, contextuais e a própria materialidade do texto literário do autor, ou seja, o discurso literário é uma prática social
que constrói representações e relações em uma mensagem textualmente organizada.
1
corrobora essa afirmação, mostrando que “no ensino médio o ensino da literatura limita-se à literatura brasileira,
ou melhor, à história da literatura brasileira, quase como apenas uma cronologia literária”.
Em minha opinião, a disciplina que é responsável pelo ensino de literatura acaba por distanciar o aluno do
contato com a materialidade do texto e com o estudo dos gêneros para, muitas vezes, ensinar estilos de época,
características de um autor e a história. Em geral, a análise crítica do texto é posta de lado e os alunos leem as
obras em casa, como livros paradidáticos. Uma proposta de que enfatize a leitura dos textos em sala de aula
recupera o contato do aluno com a obra de ficção (ZILBERMAN, 2013, p. 226). De acordo com Dalvi (2012, p.
37-38), em termos metodológicos, isso se traduz, por exemplo, na diversificação dos gêneros a serem trabalhados,
na incorporação de contribuições teóricas, no banimento da descontextualização das obras, na construção de
análises comparativas em um olhar intertextual, dentre outras estratégias.
Meu interesse em trabalhar com a obra de José Saramago também advém de uma motivação pessoal, que
foi meu encontro com seus textos ainda na graduação. Lendo-os pela primeira vez, eu questionava o motivo de a
escola não apresentar essas e tantas outras obras, de autores variados, na época do Ensino Médio, em que o contato
com a literatura é obrigatório. Esse encontro com a obra de Saramago motivou minha pesquisa sobre as
representações de Deus em “Caim” sob a perspectiva da Linguística Sistêmico-Funcional, desenvolvida no
Mestrado na área de Linguística na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) (SALGADO, 2014), que
proponho ampliar neste anteprojeto, observando não apenas as representações de Deus, mas também a
representação do homem e como o autor constrói significados em seu discurso a partir de recursos avaliativos em
“O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio Sobre a Cegueira”. Tal análise é importante para o ensino, pois
permite aos alunos uma reflexão crítica sobre obras contemporâneas.
Escolher os livros em questão também se justifica, pois os dois marcam períodos bem distintos da obra de
José Saramago. Em romances anteriores o escritor já mostrava que Deus era um de seus grandes temas, mas foi
com a publicação de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, em 1991, que Saramago ratificou sua crítica
antirreligiosa. Em 1992, a obra foi impedida de representar Portugal no Prêmio Literário Português, marcando
ainda mais a polêmica em torno do autor, que decide deixar o país e se exilar em Lanzarote, na Espanha. Segundo
Krause (2014, p. 250), toda obra de Saramago “volta-se contra Deus, portanto, depende de Deus”. Isso corrobora
a afirmação de Ferraz (2012, p. 23) que indica que Deus é um tema estruturador da obra de Saramago. O próprio
autor, em entrevista concedida a Eduardo Mazo em 2002, disse que “sem Deus sua obra ficaria incompleta”
(AGUILERA, 2010, p.126), reconhecendo a importância desse tema para sua escrita. Saramago se coloca como
um ateu combatente e utiliza seus textos para refutar a ideia de Deus. Segundo Ferraz (2012, p. 18), o escritor
português dedicará boa parte de sua obra a questionar o caráter de Deus, em um paralelo constante com o humano.
Sendo assim, me interessa contrastar como o autor constrói sentidos para representar o divino e o humano, suas
avaliações e as possíveis ideologias que permeiam esse discurso.

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Para fazer uma análise contrastiva com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, trago a obra “Ensaio Sobre
a Cegueira”, de 1995, em que, segundo Ferraz (2012, p. 21), a temática sobre Deus não é privilegiada. Também,
de acordo com a autora (2012, p. 21-22), com este livro Saramago começa um novo momento em sua escrita
literária, voltado para a construção de romances que tentam compreender o que significa ser humano, explorando
a relação do homem com o absurdo, com o desconhecido, com o próprio isolamento do mundo moderno. Contudo,
já que a temática do divino é um tema estruturador da obra de Saramago, é pertinente observar também se a
cegueira dos homens, a cegueira da razão – mote do livro mais recente – não seria uma metáfora para atacar a
crença em um Deus. Sendo assim, por meio da análise textual, pretendo observar, em “Ensaio Sobre a Cegueira”,
como Deus é possivelmente representado e avaliado, além de como o autor constrói sentidos para representar e
avaliar o homem.
É interessante observar que a relação homem/Deus também aparece em “O Evangelho Segundo Jesus
Cristo”, visto que Saramago constrói o relacionamento entre um Jesus humanizado e o próprio Deus, o que torna
mais produtiva uma análise contrastiva das obras. Em suma, ao analisar o discurso de Saramago, pretendo
observar como o autor representa Deus e o homem, por meio de suas escolhas lexicogramaticais e recursos
atitudinais/avaliativos utilizados nas duas obras em questão, uma tendo como foco o divino e seu relacionamento
com o ser humano, e a outra tendo como foco o ser humano e seu possível relacionamento com o divino.
Entendo que a análise do discurso literário de Saramago deve assumir uma perspectiva sociossemiótica
de linguagem, pois o texto é a própria linguagem em uso. Sendo assim, os significados construídos pelo autor em
seu discurso literário estão intimamente ligados ao contexto de produção e circulação da obra, ou seja, o texto só
acontece em seu ambiente social. Em resumo, compreendo o discurso literário como uma instanciação das
possibilidades de representação e de troca organizadas na materialidade do texto. Por isso, proponho como suporte
teórico para minha pesquisa a Linguística Sistêmico-Funcional, doravante LSF, (HALLIDAY, M. &
MATTHIESSEN, C., 2004; EGGINS, 2004; THOMPSON, 1996), visto que essa teoria concebe a linguagem
como um sistema de construção de significados (HALLIDAY, 1994).
Para analisar as representações, proponho o embasamento teórico da rede do sistema da Representação
dos Atores Sociais (VAN LEEUWEN, 1996; 1997), que tem como ponto de partida categorias sociológicas com
o objetivo de mapear a linguagem enquanto utilizada com o propósito de representar, ligando-se, portanto, à
Metafunção Ideacional da LSF (HALLIDAY, 1994; HALLIDAY, M. & MATTHIESSEN, C., 2004) que é
responsável pela representação das experiências sobre o mundo. Além de observar como os atores sociais são
representados no texto de Saramago, me interesso pela relação homem/Deus nas obras, que pode ser observada
por meio do posicionamento tomado por cada ator social. Sendo assim, faz-se necessário uma análise dos recursos
avaliativos que expressam as emoções, afetos, opiniões e engajamentos, portanto, o Sistema de Avaliatividade
(MARTIN & WHITE, 2005) oferece o suporte junto à LSF (HALLIDAY, M. & MATTHIESSEN, C., 2004;

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HALLIDAY, 1994; EGGINS, 2004; THOMPSON, 1996) e ao Sistema de Representação dos Atores Sociais
(VAN LEEUWEN, 1996; 1997) para que a análise seja empreendida.
Também considero, nas obras supracitadas, as possíveis ideologias que as permeiam, pois, segundo
Saramago, em entrevista a Carlos Reis em 1998, “a literatura pode viver até de uma forma conflituosa com a
ideologia. O que não pode é viver fora da ideologia.” (AGUILERA, 2010, p. 184). Se a literatura não vive fora
da ideologia, ou seja, se toda literatura é engajada, é possível concluir que Saramago era, talvez, influenciado por
suas próprias ideologias ao produzir seus textos. O autor utilizava sua escrita “para se pôr a serviço da investigação
nas zonas obscuras da História, do ser humano e dos mecanismos de poder, de controle ideológico e de injustiça
que condicionam nosso entorno, determinando o sentido da nossa vida.” (AGUILERA, 2010, p. 13). Segundo o
próprio Saramago, em entrevista a Juremir Machado da Silva em 1989, sua literatura refletia suas posturas
ideologias, mas não era um panfleto. (AGUILERA, 2010, p. 344). Sendo assim, a Análise Crítica do Discurso,
doravante ACD, (CHOULIARAKI & FAIRCLOUGH, 1999; FAIRCLOUGH, 1989, 1992; 2003) se mostra como
mais um suporte teórico para realizar uma leitura crítica dos textos e desconstruir as possíveis ideologias que
estejam presentes no texto.
Este estudo se alinha ao projeto de pesquisa “(Inter)ações discursivas e construção de significados em
contextos pedagógicos e profissionais”, coordenado pela professora Adriana Nóbrega, por realizar uma
problematização do discurso pedagógico sobre o ensino-aprendizagem de literatura, e mostra sua relevância ao
se basear na ideia de um letramento literário crítico, ou seja, em um olhar mais aprofundado para o texto. Creio
que a análise textual que pretendo realizar possa fornecer subsídios teóricos para a discussão de metodologias
para o ensino de literatura, que deve ir além do ensino de escolas literárias e do ensino de história
descontextualizado, mas levar em consideração o texto e as possíveis construções de significado interpretados de
forma crítica. Este projeto também se vincula ao Grupo de Pesquisa Análise Sistêmico-Funcional e Avaliatividade
no Discurso, também coordenado pela professora Adriana Nóbrega e do qual faço parte, propondo uma
articulação teórica e analítica da LSF, do sistema de Representação dos Atores Sociais, do Sistema de
Avaliatividade e da ACD ao estudo do discurso literário para uma contribuição pedagógica.
Este trabalho pode se mostrar relevante, ainda, pela falta de estudos na área de LA que se debrucem na
análise de discursos literários. Penso que a condução desta pesquisa possa fomentar novos trabalhos na área de
ensino de literatura, que ainda é pouco explorada pela LA, e que acredito serem fundamentais para o
desenvolvimento de novas metodologias para um letramento literário crítico. É necessário, portanto, que a LA
também trabalhe de forma interdisciplinar com a literatura, estabelecendo um diálogo profícuo e duradouro.

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2. OBJETIVOS E PERGUNTAS DE PESQUISA

Buscando um olhar crítico sobre o discurso literário de José Saramago, em uma perspectiva
sociossemiótica de linguagem, surgiram algumas perguntas iniciais para a elaboração do anteprojeto2:
(1) Podemos encontrar nas obras “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio Sobre a Cegueira”, sob
diferentes perspectivas, uma representação da relação homem/Deus?
(2) Como os recursos avaliativos auxiliam a construção de sentidos no discurso literário do autor?
(3) Considerando o contexto, que mostra José Saramago como um autor engajado em uma crítica
antirreligiosa, podemos encontrar marcas ideológicas em seu discurso literário?
(4) Como Saramago constrói sentidos para combater, em seu discurso, uma possível ideologia religiosa?
(5) Como a análise textual pode auxiliar uma metodologia de ensino-aprendizagem crítico de literatura?

Desse modo, o presente anteprojeto possui os seguintes objetivos iniciais para o seu desenvolvimento:
 Identificar e contrastar nas obras “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio Sobre a
Cegueira” as representações de divino e do humano sob diferentes perspectivas;
 Observar e analisar como os elementos avaliativos constroem significados no discurso literário do
autor, auxiliando na construção das representações;
 Investigar a presença de marcas ideológicas no discurso literário do autor;
 Analisar e (des)contruir as possíveis ideologias encontradas nas obras, observar as relações de
poder entre os atores sociais e construir uma leitura crítica;
 Discutir metodologias de ensino-aprendizagem de literatura que promovam um letramento literário
crítico.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Este trabalho se insere na área de LA, pois proponho uma análise de cunho interdisciplinar entre áreas da
linguística de base social e literatura. O campo da LA começou enfocando a área de ensino-aprendizagem de
línguas e, na década de 40, preconizava o desenvolvimento de materiais. Nessa época, a LA era compreendida
como aplicação da linguística. O entendimento da LA como área autônoma de investigação só veio na década de
70 e tomou força no Brasil nas décadas seguintes, ganhando um caráter interdisciplinar como campo das Ciências
Sociais (MOITA LOPES, 2011).
Segundo Vian Jr. (2013), há um diálogo promissor entre a LA e a LSF, que permite a adoção de um
posicionamento mais realista para as pesquisas em linguagem, ensino de línguas, formação de professores e outras

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Durante a análise dos dados, as questões aqui apresentadas podem sofrer alterações.
5
áreas afins no campo dos estudos da linguagem (2013, p. 125). Essa interface pode ser estabelecida, visto que a
LSF é uma teoria eminentemente interdisciplinar e está em constante diálogo com outras áreas, não ficando
restrita apenas à descrição linguística ou a aspectos gramaticais da língua. Também, assim como a LA, a LSF se
preocupa com questões sociais e como a compreensão dos aspectos linguísticos pode oferecer pistas para se
compreender a realidade (VIAN Jr., 2013, p. 127).
Sendo assim, proponho como base teórica para a análise do discurso literário de José Saramago o aporte
teórico da LSF. Segundo este arcabouço, a língua é um sistema semiótico, ou seja, um sistema de escolhas à
disposição dos usuários na criação de significados em suas interações. Segundo Eggins (2004, p. 3), um interesse
comum dos linguistas sistêmicos é a linguagem como um elemento sociossemiótico, ou seja, "como as pessoas
usam a linguagem umas com as outras, objetivando realizar sua vida social cotidiana". Partindo desse pressuposto,
do uso da linguagem em interações e em contextos sociais específicos, quatro pontos teóricos são sugeridos em
relação à linguagem pela LSF: (1) o uso da linguagem é funcional; (2) a função da linguagem é criar significados;
(3) estes significados são influenciados pelo contexto social e cultural nos quais são trocados; e (4) o processo de
uso da linguagem é semiótico, sendo um processo de significados por meio da possibilidade de diferentes
escolhas.
O texto, por seu caráter interativo, precisa ser analisado a partir de seu propósito e de seu processo de
criação, pois ele é produto do seu entorno e funciona nele. Desse modo, o contexto, como ativador das escolhas
semânticas, é o ambiente em que o texto ganha significado. Segundo Eggins (2004), se conhecermos o contexto
podemos prever probabilisticamente como o texto representará o contexto linguisticamente, e se conhecermos a
materialização linguística, i.e., o próprio texto, poderemos deduzir o seu contexto de produção. O sistema
linguístico oferece um elenco variado de significados e esse potencial da língua é o meio no qual o falante/escritor
realiza suas escolhas linguísticas, sejam elas conscientes ou não. Sendo assim, por meio de sua base
paradigmática3, centrada das possibilidades que a língua oferece, a LSF enfatiza a importância do contexto no
uso da linguagem, pois ele possui influência direta sobre as estruturas linguísticas observadas em qualquer
discurso.
Na LSF, o contexto se dá em dois níveis extralinguísticos: o contexto de cultura e o contexto de situação4.
O contexto de cultura pode ser considerado o ambiente sociocultural mais amplo, no qual se inclui a ideologia,
as convenções sociais e as instituições. Inseridos no contexto de cultura, temos o contexto de situação, que

3
Halliday e Matthiessen (2004:22) contrastam as noções de estrutura – ordem sintagmática –, que realiza “o que combina com o quê”,
e sistema – ordem paradigmática –, que exprime “o que poderia estar no lugar de”. Desse modo, os autores recusam as descrições
meramente estruturais, que desvinculam a linguagem de seu contexto, elegendo o uso como marca fundamental de caracterização de
uma língua.
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Os termos contexto de cultura e contexto de situação foram inicialmente propostos pelo antropólogo Malinowski (Halliday & Hasan,
1989), com o objetivo de fornecer uma descrição mais completa e adequada do contexto em que se desenvolvem as interações em sua
pesquisa. Os conceitos foram desenvolvidos pelo linguista Firth e, posteriormente, reestruturados por Halliday para um entendimento
do texto dentro do modelo holístico da LSF.
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consiste nas variações de linguagem mais particulares dentro de cada cultura, conforme o momento em que
ocorrem e que são descritas por Halliday por meio de três variáveis: campo, modo e relações. O campo diz respeito
à natureza da prática social, ao que é dito ou escrito sobre algo e está ligado a significados ideacionais. O aspecto
chamado de relações diz respeito à natureza da ligação entre os participantes da interação e se relaciona aos
significados interpessoais. O modo refere-se à como a comunicação ocorre e determina os significados textuais.
Cada um dos significados, ligados às variáveis, são negociados na interação e realizados, léxico-
gramaticalmente, por meio das Metafunções que ocorrem de forma simultânea na língua: o significado ideacional
(representação da experiência sobre o mundo) se realiza por meio da Metafunção Ideacional e do seu sistema de
Transitividade; o significado interpessoal (estabelecimento e manutenção das relações sociais), na Metafunção
Interpessoal e no seu sistema de Modo; e o significado textual (organização das mensagens), por meio da
Metafunção Textual e do seu Sistema de Tema e Rema.
Um dos objetivos da pesquisa é investigar as escolhas linguísticas de José Saramago ao criar significados
ideacionais e interpessoais de acordo com o contexto de circulação e produção em que as obras estão inseridas;
desse modo a LSF parece ser o suporte teórico adequado. Partindo da proposta de Halliday, outros estudos foram
elaborados e, então, criados sistemas que utilizam o arcabouço teórico da LSF como ponto de partida. Esse é o
caso da Representação dos Atores Sociais (VAN LEEUWEN, 1996; 1997) e do Sistema de Avaliatividade
(MARTIN & WHITE, 2005), que proponho utilizar como ferramentas de análise do discurso literário de
Saramago. Sendo assim, a seguir faço uma breve revisão sobre cada um desses sistemas.

3.1. REPRESENTAÇÃO DOS ATORES SOCIAIS

Quando falamos sobre representação, é possível fazer uma rápida remissão à Metafunção Ideacional, pois
é por meio desses significados que damos sentido à nossa experiência, expressamos aquilo que somos,
construímos nosso mundo interior e exterior. Sendo assim, é possível dizer que a rede de sistemas da
Representação dos Atores Sociais está ligada a esse significado. Van Leeuwen (1996, 1997) propõe um inventário
dos diferentes modos pelos quais os atores sociais podem ser representados no discurso, em termos
sóciossemânticos, além das diferentes possibilidades de realização linguística dessas representações. Assim como
Halliday, Van Leeuwen encara a gramática como sendo um potencial de significados (o que pode ser dito), em
vez de um conjunto de regras (o que deve ser dito). Desse modo, seu ponto de partida não são as categorias
gramaticais, mas sim categorias sociológicas que têm como objetivo o mapeamento da linguagem enquanto
utilizada com o propósito de representar.
Em uma primeira instância, os atores sociais podem ser incluídos ou excluídos do discurso. Segundo Van
Leeuwen (1997, p. 180), as representações incluem ou excluem atores sociais para servir aos seus interesses em
relação aos leitores a quem se dirigem. A exclusão do ator social pode ser total (supressão) ou parcial

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(encobrimento). A exclusão por supressão, de acordo com o autor, não deixa marcas na representação, só sendo
possível desempenhar o seu papel pela comparação crítica de diferentes representações da mesma prática social,
mas não na análise de um único texto (VAN LEEUWEN, idem.). A exclusão parcial se dá quando os atores
sociais são colocados em segundo plano, mas são mencionados em alguma parte do texto e conseguimos inferir,
nem sempre com total certeza quem eles são – a isso o autor chama de representação em segundo plano. Em
nosso contexto, ao realizar a análise do discurso literário de José Saramago é necessário indagar por que
determinados atores sociais são excluídos ou incluídos e qual o efeito obtido com a utilização dessas categorias.
Os atores sociais podem ser incluídos, por sua vez, por diversos mecanismos que formam uma rede
bastante complexa5. Por exemplo, os atores podem ser incluídos por meio da personalização, em que os atores
são representados como seres humanos, e impersonalização, em que traços não incluem aspectos humanos.
Dentre os tipos de personalização, destaco outro exemplo, a determinação, que por vez, é dividida em nomeação
e categorização. A nomeação, cujo foco está no que o ator tem de singular e único, se dá tipicamente pelo uso
de nomes próprios, seguidos ou não de sobrenomes. Na categorização o foco da representação está nas identidades
ou funções compartilhadas com outros atores sociais. Ela se divide em funcionalização, identificação e
valoração.
É necessário observar, ao analisar o discurso literário, o efeito de determinados atores serem nomeados e
outros aparecem apenas por meio da categorização, qual o efeito dessa valorização de uns atores em detrimento
de outros. De um modo geral, podemos dizer que ser nomeado é mais valorizado do que ser categorizado, pois,
nas narrativas, às personagens sem nome cabem apenas papeis passageiros e funcionais, e não se tornam pontos
de identificação para o leitor ou ouvinte (VAN LEEUWEN, 1997, p. 200.). Sendo assim, proponho observar
como esses atores são representados no discurso literário selecionado para análise neste anteprojeto, suas
avaliações e as relações de poder que se estabelecem entre eles.

3.2. SISTEMA DE AVALIATIVIDADE

Todos os momentos expressamos nossos pensamentos, opiniões, sentimentos e atitudes em relação a


alguém, a algo que acontece ou a algum objeto, ou seja, o tempo todo, estamos avaliando e também sendo
avaliados. Segundo Vian Jr. (2010, p. 19), a linguagem oferece mecanismos diversos para que façamos essas
avaliações em nossos textos. Tais mecanismos, assim, formam um sistema que fornece aos usuários da língua
alternativas de empregar recursos avaliativos nas interações cotidianas (VIAN Jr., 2010, p. 11).

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Por uma questão de espaço, não irei explicitar todo o inventário proposto por Van Leeuwen (1996, 1997) para inclusão dos atores
sociais. Durante o estudo que pretendo empreender, poderei analisar os atores sociais nas obras “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e
“Ensaio Segundo a Cegueira” de Saramago e verificar como se dá o processo de inclusão/exclusão e seus efeitos para a construção de
sentidos no discurso literário do autor.
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Levando a análise para além do nível da oração, o Sistema de Avaliatividade se localiza no nível da
semântica do discurso (MARTIN & WHITE, 2005, p. 12 e 33) e dá conta dos significados interpessoais, na
medida em que essas avaliações criam relações entre escritor/leitor ou falante/ouvinte. Desse modo, podemos
dizer que o Sistema de Avaliatividade liga-se à Metafunção Interpessoal, assim como o sistema de Representação
dos Atores Sociais remete à Metafunção Ideacional. Segundo Martin & White (2005, p. 07), os recursos
interpessoais estão preocupados com a negociação de relações sociais, ou seja, como as pessoas estão interagindo,
incluindo os sentimentos que tentam compartilhar. Na análise que pretendo desenvolver, o Sistema de
Avaliatividade será importante ferramenta de análise dos recursos avaliativos utilizados pelos atores sociais para
criação de sentidos na obra de José Saramago.
O Sistema de Avaliatividade está dividido em três subsistemas presentes simultaneamente no texto: a
atitude, a gradação e o engajamento. O subsistema da atitude é responsável pela expressão das avaliações
positivas e negativas, explícitas ou implícitas, segundo a categorização de Martin & White (2005). Esse
subsistema abrange três campos semânticos, que são as atitudes de afeto (quando são utilizados recursos para
expressar emoção), julgamento (quando são utilizados recursos para julgar o caráter) e apreciação (quando são
utilizados recursos para atribuir valor às coisas). Paralelamente a estes três recursos, incluem-se, simultaneamente,
à atitude, a gradação (grau de amplificação da avaliação) e o engajamento (indicação das fontes da avaliação)
(VIAN Jr., 2010, p. 20).
Segundo Martin & White (2005, p. 45), quando expressarmos nossas atitudes, por meio do julgamento e
da apreciação, podemos vislumbrá-las como sentimentos institucionalizados. O julgamento refere-se ao universo
das propostas sobre o comportamento, sobre como devemos nos comportar ou não, e a apreciação ao universo
das proposições sobre o valor das coisas, se elas valem a pena ou não. O afeto, dessa forma, é o centro das atitudes
que expressamos (VIAN Jr., 2010, p. 20) e pode ser classificado em três categorias felicidade/infelicidade,
segurança/insegurança e satisfação/insatisfação.
O julgamento é a categoria semântica que constrói linguisticamente as avaliações das pessoas de forma
positiva ou negativa. Segundo Martin & White (2005:42), o julgamento diz respeito às atitudes de comportamento
que admiramos ou criticamos, aprovamos ou condenamos, ou seja, por meio dessa categoria fazemos avaliações
de moralidade, legalidade, capacidade e normalidade sempre determinadas pela cultura na qual estamos inseridos
e pelas experiências e expectativas particulares, crenças individuais, que são também moldados por uma
determinada ideologia e cultura específica. Sendo assim, o julgamento está relacionado à questão da ética por
fazer uma análise normativa do comportamento baseado em regras ou convenções de comportamento
(ALMEIDA, 2010, p. 106) e está dividido, basicamente, em dois tipos: de estima social e de sanção social.

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O subsistema da apreciação refere-se às avaliações no âmbito da estética e da forma e por meio dessa
categoria são construídas avaliações sobre coisas, objetos e fenômenos. Ela se divide em três subtipos: reação,
composição e valoração.
O engajamento indica os mecanismos utilizados para trazer outras vozes para o discurso, abarcando as
estratégias que falante/escritor utilizam para negociar seus argumentos (MARTIN &WHITE, 2005, p. 92-93), por
meio da expansão dialógica (quando há vozes dialogando, ou seja, um texto que permite negociação de
significados) ou da contração dialógica (quando não há o diálogo com outras vozes e o texto não permite
negociação). Portanto, ao analisar esse recurso, é possível observar se a voz autoral se compromete ou não com
o que se escreve/diz.
A gradação diz respeito aos recursos que o falante/escritor utiliza para realçar ou suavizar suas avaliações,
isto é, é possível modificar a força e o foco dos significados criados. Falante/escritor pode construir diferentes
graus de positividade e negatividade para suas avaliações de afeto, julgamento e apreciação ou elevar e diminuir
a intensidade utilizada em seus argumentos (MARTIN & WHITE, 2005, p. 136).
Sendo assim, ao analisar o discurso literário de Saramago, em uma proposta pedagógica de inserção dos
textos em sala de aula, acredito que observar que tipos de avaliações aparecem nas obras, qual a intencionalidade
dessas escolhas linguísticas (sejam elas conscientes ou não) e como elas interagem na construção de sentidos do
texto é uma ferramenta para formar uma leitura crítica e reflexiva das obras. Esse olhar crítico que a análise dos
recursos atitudinais poderá gerar se conecta com a ACD, que propõe uma reflexão crítica sobre os modos como
o discurso se realiza na prática social, como veremos a seguir.

3.3 ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO

A ACD (CHOULIARAKI & FAIRCLOUGH, 1999; FAIRCLOUGH, 1989, 1992; 2003) se apresenta
como aporte teórico aliado à LSF para análise e (des)construção das possíveis ideologias que estejam presentes
no texto de José Saramago e que apareçam na análise das representações dos atores sociais. Segundo Meurer
(2005, p. 81), a ACD é ao mesmo tempo uma teoria e um método de análise com uma forte preocupação social,
que deriva de abordagens multidisciplinares ao estudo da linguagem. De acordo com Resende e Ramalho (2011,
p. 9), ainda, a ACD é social e linguisticamente orientada, pois seu objetivo de análise é mapear as conexões entre
as relações de poder e os recursos linguísticos utilizados nos textos.
Em um primeiro momento, Fairclough (1989; 1992) apresenta uma concepção tridimensional em que os
níveis linguístico, discursivo e ideológico-cultural se articulam e o discurso pode ser considerado, ao mesmo
tempo, texto, prática discursiva e prática social. O texto (primeira dimensão) privilegia a descrição dos elementos
linguísticos, contudo requer a interpretação, que é a base para a segunda dimensão (prática discursiva), e a
explicação, base para terceira dimensão (prática social). A prática discursiva busca interpretar o texto em termos

10
de sua produção, distribuição e consumo. Por fim, a dimensão da prática social procura explicar como o texto é
investido de aspectos sociais ligados a formações ideológicas e formas de hegemonia. Desse modo, o modelo
tridimensional é ao mesmo tempo descritivo, interpretativo e explicativo. (MEURER, 2005, p. 94-95). No
enquadre de Chouliaraki & Fairclough (1999), o modelo tridimensional é mantido, contudo há um fortalecimento
da análise da prática social que compreende a ideologia e hegemonia. Segundo Resende e Ramalho (2011, p. 29),
“entre esses dois modelos houve um movimento do discurso para a prática social, ou seja, a centralidade do
discurso como foco dominante da análise passou a ser questionada, e discurso passou a ser visto como um
momento das práticas sociais”.
Segundo Chouliaraki & Fairclough (1999), a teoria linguística que mais se alinha em potencial analítico
para a ACD é a LSF. No modelo mais recente, Fairclough (2003) recontextualiza a gramática sistêmico-funcional
de acordo com seus propósitos analíticos. Já em 1992, na obra Discourse em Social Change, Fairclough sugeriu
a cisão da função interpessoal de Halliday em duas: a função identitária (que se relaciona aos modos pelos quais
as identidades sociais são estabelecidas no discurso) e a função relacional (que se refere ao modo como as relações
sociais são representadas e negociadas). Segundo Fairclough, a função da identidade é marginalizada no modelo
da LSF, se tornando um aspecto menor da função interpessoal (RESENDE & RAMANHO, 2011, p.58-59).
Em 2003, o autor amplia, de fato, o diálogo teórico entre a ACD e a LSF, propondo uma articulação entre
as Metafunções de Halliday e os três tipos de significados do discurso: o representacional que enfatiza a
representação de aspectos do mundo – físico, mental, social – em textos, aproximando se da função ideacional de
Fairclough (1992); o identificacional que se refere à construção e à negociação de identidades no discurso e está
ligado à função identitária de Fairclough (1992); e o acional que focaliza o texto como modo de (inter)ação em
eventos sociais e está ligado à função relacional e à função textual6 de Fairclough (1992). É importante lembrar
que Fairclough operou essa articulação tendo como ponto de partida não as funções de Halliday, mas a sua própria
modificação anterior da teoria (RESENDE & RAMALHO, 2011, p. 59-60). Esses três significados postulados
por Fairclough (2003) mantém a noção de multifuncionalidade proposta anteriormente por Halliday, uma vez que
os significados atuam simultaneamente em todo o enunciado. Segundo Resende e Ramalho (2011, p. 60), o
discurso figura como modos de agir, modos de representar e modos de ser na prática social e a cada um desses
modos de interação entre discurso e prática social corresponde um tipo de significado.
De acordo com a ACD, os textos são perpassados por relações de poder e hegemonia e uma das suas
preocupações é investigar como a linguagem é utilizada para manter ou desafiar essas relações no mundo
contemporâneo (MEURER, 2005, p. 82). Para Fairclough (2003), as ideologias são, a princípio, representações
que podem ser legitimadas na ação social e inculcadas nas identidades de agentes sociais. O conceito de ideologia,

6
Segundo Resende e Ramalho (2011, p. 60), embora Halliday faça a distinção de uma função textual, Fairclough (2003) rejeita a ideia
desse significado separado dos demais e prefere incorporá-lo ao significado acional.
11
na ACD, nasce dos estudos de Thompson (1995), que postula que a ideologia é, por natureza, hegemônica, no
sentido de que ela necessariamente serve para estabelecer e sustentar relações de dominação e, por isso, serve
para reproduzir a ordem social que favorece indivíduos e grupos dominantes. Desse modo, para o autor, o conceito
de ideologia é, inerentemente, negativo (RESENDE & RAMALHO, 2011, p.49).
Na obra de José Saramago, acredito que seja oportuno observar como as ideologias permeiam o discurso,
caso elas apareçam, visto que o próprio autor declarou não estar isento delas. Contudo, ainda é preciso observar
se essas ideologias estariam reforçando as forças hegemônicas ou se o autor utiliza os recursos ideológicos para,
de certa forma, ir contra a corrente, ou seja desafiar as relações de poder contra às quais lutava em vida.

4. METODOLOGIA

Minha proposta é a análise do discurso literário de José Saramago para promover um letramento literário
crítico. A pesquisa enfocará duas obras do autor, já sabemos, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio
Sobre a Cegueira”. Por trazer longos textos para a análise, o corpus selecionado para o estudo contará com o
auxílio tecnológico para sua compilação e delimitação de trechos de dados. Dessa forma, pretendo adotar
procedimentos baseados na Linguística de Corpus, doravante LC 7, apenas para a organização dos dados a serem
analisados.
O termo LC é usado para referência a estudos da língua em uso com o auxílio de ferramentas
computacionais (programas de computadores usados para identificar padrões e regularidades na linguagem). Para
este fim, procede-se à compilação de textos reais, ou seja, textos que foram efetivamente usados em um
determinado contexto, com objetivos específicos (MEURER & BALOCCO, 2009). Sendo assim, baseados em
procedimentos metodológicos da LC, pretendo utilizar o programa computacional de análise lexical denominado
WORDSMITH TOOLS (SCOTT, 1999) para facilitar o levantamento dos dados8.
Como este anteprojeto está situado em teorias de bases sociais e propõe um olhar crítico em relação ao
discurso literário selecionado para a análise, meu alinhamento metodológico se dá com a pesquisa qualitativa,
pois ela preocupa-se com o contexto de geração dos dados e com seus aspectos sociais. Segundo Denzin e Lincoln
(2006, p. 17), os pesquisadores, em geral, estudam as coisas em seus contextos, tentando interpretar os fenômenos
em termos dos sentidos que as pessoas lhes atribuem. A pesquisa qualitativa implica uma ênfase nas qualidades

7 Há um esforço para delimitar a identidade da LC, definindo-a como um ramo da Linguística ou apenas uma metodologia. Segundo
Shepherd (2009), o papel da LC é fornecer meios de lidar com grandes quantidades de dados provenientes do uso, além de,
simultaneamente, acompanhar as variáveis contextuais. De acordo com a autora, ainda, o status de metodologia da LC pode ser
confirmado, pois uma abordagem que parte do corpus pode ser aplicada a praticamente qualquer área de investigação linguística.
8
É importante enfatizar que a LC será utilizada apenas para facilitar a compilação dos dados e destaque das escolhas lexicogramaticais
e avaliativas e, portanto, seleção de trechos de análise, visto que pretendo trabalhar com grande volume de texto. Contudo, como não há
um alinhamento desta pesquisa com a área em sua base teórica não serão feitas quantificações de ocorrências ou analises estatísticas.
12
das entidades e nos processos e significados que não são examinados ou medidos experimentalmente quanto à
quantidade, volume, intensidade ou frequência (DENZIN & LINCOLN, 2006).
Sendo assim, para realizar a análise, pretendo adotar alguns passos baseados em uma metodologia
qualitativa de trabalho com o texto:

1. Identificação, por meio de leitura dos romances, dos itens lexicais que representam os atores sociais
(homem/Deus) ao longo das duas obras. Nesse momento também procurarei identificar possíveis
exclusões;
2. Seleção dos atores sociais que representam a relação homem/Deus nas obras para a análise de trechos
relativos a cada um deles;
3. Geração de uma lista de concordância por meio do WORDSMITH TOOLS (SCOTT, 1999) para
visualização dos cotextos relativos a cada ator social selecionado;
4. Análise das representações dos atores sociais relativos à relação homem/Deus nas obras com base nas
categorias propostas por Van Leeuwen (1996, 1997);
5. Classificação das ocorrências de avaliatividade (MARTIN & WHITE, 2005) e interpretação do
posicionamento de cada ator social representado;
6. Analisar as obras de forma contrastiva em relação ao paralelo homem/Deus;
7. Análise das ideologias presentes nos discursos de cada ator social analisado e suas possíveis
(des)construções;
8. Discussão de metodologias de ensino-aprendizagem de literatura, baseadas no letramento literário crítico.

Em relação aos direitos autorais, o artigo 46 da Lei de Direitos Autorais9 permite a reprodução de trechos
dos livros para fins de estudo, crítica ou polêmica sempre que o nome do autor e a origem das obras sejam citados,
desde que a reprodução em si não seja o objetivo principal da nova produção ou que a exploração normal dos
detentores dos direitos não seja prejudicada. Sendo assim, trabalhei apenas com trechos10, não reproduzindo o
texto por completo.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Minha proposta de pesquisa neste anteprojeto de Doutorado tem como objetivo investigar o discurso
literário de José Saramago e, por meio da análise crítica desses textos, discutir metodologias de ensino-
aprendizagem de literatura. O desenvolvimento do anteprojeto só foi possível devido ao meu amadurecimento

9
A Lei de Direitos Autorais está disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/leis/L9610.htm
10
Poderão ser considerados os cotextos da oração, que é a unidade básica de análise da LSF, para a construção dos sentidos.
13
gerado pelos estudos como aluna extraordinária na PUC-Rio, onde cursei, no primeiro semestre de 2015, a
disciplina Linguística Sistêmico Funcional e, atualmente, no segundo semestre, Gêneros Discursivos e
Multimodalidade, ambas com a professora Adriana Nóbrega. Além disso, os encontros constantes do grupo de
pesquisa ASFAD, do qual faço parte, sempre criaram oportunidades para discussão e reflexão sobre a área de
pesquisa e caminhos possíveis.
Entendendo a importância que o ensino de literatura exerce atualmente e a relevância do texto de José
Saramago em um contexto pedagógico, ao ampliar os horizontes de leitura dos alunos para autores com
nacionalidades e gêneros diversos, vejo a necessidade desse estudo para a criação de uma consciência crítica em
relação a essas obras, o que é uma das competências a serem desenvolvidas pelos alunos. Sendo assim, acredito
que a condução desta pesquisa pode contribuir não só para a análise crítica do discurso literário, campo ainda
pouco explorado pela LA, mas também para o ensino crítico de literatura.

6. CRONOGRAMA

SEMESTRES
ATIVIDADES 2016.1 2016.2 2017.1 2017.2 2018.1 2018.2 2019.1 2019.2 2020.1
1. Cumprimento de créditos    
2. Revisão de literatura      
3. Geração e organização de lista
de dados no WORDSMITH

4. Análise dos dados     
5. Redação do projeto de Tese  
6. Exame de qualificação 
7. Redação da Tese de Doutorado     
8. Preparação das cópias da Tese
para defesa

9. Defesa da Tese 
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