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Rolando Boldrin capa.

pmd 1 7/12/2009, 15:29


Rolando Boldrin

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Palco Brasil
Governador Geraldo Alckmin
Secretário Chefe da Casa Civil Arnaldo Madeira

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo


Diretor-presidente Hubert Alquéres
Diretor Vice-presidente Luiz Carlos Frigerio
Diretor Industrial Teiji Tomioka
Diretora Financeira e
Administrativa Nodette Mameri Peano
Núcleo de Projetos
Institucionais Vera Lucia Wey
2

Fundação Padre Anchieta


Presidente Marcos Mendonça
Projetos Especiais Adélia Lombardi
Diretor de Programação Rita Okamura

Coleção Aplauso Perfil


Coordenador Geral Rubens Ewald Filho
Coordenador Operacional
e Pesquisa Iconográfica Marcelo Pestana
Projeto Gráfico
e Editoração Carlos Cirne
Assistente Operacional Andressa Veronesi
Revisão Rodrigo C. Andrade
Revisão Ortográfica Dante Pascoal Corradini
Tratamento de Imagens José Carlos da Silva
Rolando Boldrin
Palco Brasil

por Ieda de Abreu

São Paulo - 2005


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Biblioteca da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
Abreu, Ieda de
Rolando Boldrin : palco Brasil / Ieda de Abreu. – São Paulo : Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo : Cultura – Fundação Padre Anchieta, 2005.
176p.: il. - (Coleção aplauso. Série perfil / coordenador geral Rubens Ewald
Filho)

ISBN 85-7060-233-2 (obra completa) (Imprensa Oficial)


ISBN 85-7060-349-5 (Imprensa Oficial)

1. Atores e atrizes cinematográficos – Brasil 2. Atores e atrizes de televi-


são – Brasil 3. Atores e Atrizes de teatro – Brasil 4. Boldrin, Rolando I. Ewald
Filho, Rubens. II. Título. III. Série.

CDD 791.092 81

4
Índices para catálogo sistemático:
1. Atores brasileiros : Biografia e obra:
Representações públicas 791.092 81

Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1.825, de 20/12/1907).

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Rua da Mooca, 1921 - Mooca


03103-902 - São Paulo - SP - Brasil
Tel.: (0xx11) 6099-9800
Fax: (0xx11) 6099-9674
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e-mail: livros@imprensaoficial.com.br
SAC 0800-123401
Introdução

É alguma coisa que chama a atenção, marca


presença. Não só a voz grave, o sorriso franco,
sempre pronto para uma boa risada, o charme
grisalho dos 68 anos. É também o indefinido.
Rolando Boldrin emenda uma conversa na ou-
tra e segura o ouvinte com espontaneidade,
humor e extensa memória. A uma pergunta, é
se preparar que vem coisa muita. Os olhos azuis
que lembram bolinhas de gude viajam nas his-
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tórias e lembranças, nos projetos presentemen-
te cultivados. Misto de ator, cantor, composi-
tor, filantropo e contador de histórias
(“causos”), garante que o ator está por trás de
tudo e que “nunca ninguém cochilou na cadei-
ra enquanto me ouve falar, contar”. Histórias
de bichos, compadres e mentirosos, de padre,
valentão e borra-botas, “otoridades”,
muquiranas. Ou de um mineiro ou gaúcho,
nordestino ou paulista, catarinense ou
paranaense. Histórias do rádio, do começo da
televisão, do teatro e do cinema, da música
“purinha, purinha”. Dezenas que ele armazena
na memória e no coração, como gosta de dizer.

Caipira sim, do interior de São Paulo, mas bem


urbano. Nunca morou na roça nem em fazenda,
sempre em cidades, nas pequenas do interior e na
grandona São Paulo. Já viveu Shakespeare e Gorki
no palco, ganhou prêmio de melhor ator de cinema
em 1979, conhece a fundo as raízes brasileiras.
Nem por isso é acadêmico ou erudito, mas sim um
artista sensível e reverente à cultura cabocla.

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É casado com a cantora e produtora de discos
Lurdinha Pereira, hoje aposentada, pai da única
filha Vera e avô de Marcus, Bruno e Henrique.
Diz ser um homem tranqüilo. Como seu pai –
sempre se entusiasma ao falar dele –, não tem
grandes vaidades, grandes necessidades, nem
problemas de auto-afirmação. Não tenho
vontade nenhuma de ficar rico, se tivesse teria
explorado tudo o que tinha direito na televisão.
Não me envaideço ao ser reconhecido na rua. O
reconhecimento vai pro meu trabalho,
importante é ele, não eu.
Este livro é o resultado de sete encontros reali-
zados semanalmente com Rolando Boldrin,
sempre marcados com antecedência por tele-
fone e confirmados no dia. Todos no seu escri-
tório localizado numa galeria do centro comer-
cial da Granja Viana, condomínio chique da
grande São Paulo: uma sala térrea com telefo-
ne, computador, sofá e almofadas, um peque-
no banheiro, algumas peças que lembram o ce-
nário dos seus musicais. Uma mesa comprida
na qual pude ouvi-lo com o gravador ligado sem
nenhum problema ou tensão, uma hora, uma
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hora e meia por vez. Na larga porta de vidro, o
rosto inteiro impresso em azul, aberto num sor-
riso, é convite para uma boa prosa. Ele conta
que nunca teve um escritório, era tudo em casa,
meio disperso. De um ano pra cá montei este
espaço pra fazer meus projetos, tenho uma as-
sessora, a Patrícia Maia. Como moro na Granja,
dá pra vir de casa a pé. Enquanto circulo os
olhos por algumas imagens nas paredes, ele vai
guiando: Esses são uns diplomas, prêmios e ar-
tigos que resolvi pôr na moldura: diplomas de
Cidadão Paulistano e de Cidadão Carioca que
recebi das duas Câmaras dos Deputados, em
1981; Prêmio APCA1981/ 82 de Melhor Progra-
ma Musical; Prêmio Jeca Tatu (1989) de Melhor
Profissional do Ano, pela campanha ins-
titucional “Credite no Brasil”, para o
Bamerindus, com textos de poetas brasileiros.
Um artigo que publiquei no Jornal da Tarde,
indignado por ter sido proibido de me apre-
sentar na campanha do então candidato a go-
vernador do Paraná, Jaime Lerner.

No currículo, ou nas costas, como gosta de dizer,


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vinte e cinco novelas, duas dezenas de peças
teatrais, dois filmes, vinte discos, quatro
musicais, dois livros e uma vitoriosa estada na
publicidade. Há três anos criou a Associação
Rolando Boldrin, que ajuda 37 famílias carentes
da região. Faço isso como um trabalho de
cidadão, de ser social. Cerca de duzentas crianças
são beneficiadas com assistência médica,
odontológica e alimentação. A associação conta
com a ajuda desses profissionais, doadores de
medicamentos e doadores sociais, e também
recebe ajuda financeira por meio de boletos ban-
cários. Deus foi generoso comigo, quando co-
mecei a me interessar pelas artes, não tinha ne-
nhuma cultura pra isso. Agora tento ser gene-
roso com as pessoas como posso.

Ieda de Abreu

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Capítulo I

Sou fundamentalmente um ator, esse tem sido


meu trabalho a vida inteira: radioator, ator de
novela, de teatro, de cinema, um ator que canta,
declama poesias, conta histórias. Como nasceu o
ator Rolando Boldrin? Dentro do circo. Com sete,
oito, nove anos de idade eu ia aos circos-teatro
da minha cidade, todo moleque de interior ado-
ra o circo, eu era apaixonado pelo teatro que
acontecia nele, ficava na primeira fila das arqui-
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bancadas, decorava peças inteiras: O Mundo Não
me Quis, O Ébrio, E o Céu Uniu Dois Corações e
tantas outras. Ajudava um pouco também, me
enturmava, fiquei amigo dos donos dos circos e
cheguei a viajar com eles, meu pai autorizava.
Aprendi muita coisa ruim e muita coisa boa, não
esqueci nada, ator nunca esquece.

Esse lado ator é muito forte, nunca estudei pra


ser, mas interpretar, pra mim, sempre foi a coisa
mais natural do mundo, sou daquele tipo que
nasceu do nada e dá tudo.
Aprendi vivendo, uma experiência natural, as
coisas foram acontecendo, sendo encaminhadas
para mim, encaminhei outras e assim foi.
Quando entro no palco pra fazer meus shows,
é o ator que está ali, não o músico, não pego
num violão, sento num banquinho e canto, eu
converso, conto histórias, declamo um verso
triste, o pessoal chora, conto o caso engraçado
de um tipo humano, o público se diverte.

Como não estou sempre atuando, a impressão que


dá é que não faço parte do universo. É possível
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até que citem alguma peça em que atuei e pulem
meu nome, não tem importância, não ligo pra isso.
Posso mesmo não ser considerado um ator que
representa o teatro brasileiro, embora tenha
atuado durante anos, e participado de espetáculos
importantes do nosso teatro, onde sempre pude
escolher meus papéis.

Por ter feito grande sucesso com o programa


Som Brasil, na televisão, me vêem mais como
um contador de “causos”. Acho bom, sou isso
também, mas por trás de tudo que faço até hoje,
está o ator. Se não fosse esse meu lado, nada
teria expressão, seria apenas uma coisa didática,
intelectualizada. Tenho em casa numa moldura
um pôster com um texto do Plínio Marcos
chamado O Ator, que ele fez pra Caixa
Econômica. A Eva Wilma fala um trecho nessa
peça, Primeira Pessoa, que está em cartaz. No
texto, ele coloca o ator em primeiro plano, aci-
ma de tudo. E é isso mesmo, sem ator não existe
teatro, cinema, televisão.

Como sempre tive uma atividade musical para-


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lela, misturei um pouco e consegui sobreviver
muito bem. Hoje faço shows pelo Brasil afora,
entro no palco com um monólogo de uma hora
e meia, duas horas, canto, declamo, conto
causos e não tenho dúvida de que esse é um
trabalho de ator.
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Capítulo II

Menino precoce

Quando eu nasci já tinha seis irmãos no mundo.


Fui o sétimo da vez, entre 12 machos e fêmeas.
Sou do ano de 36. Meu pai era mecânico de
fordinho e minha mãe dava comida e banho na
gente, além de arrumar a casa simples. A cidade
era São Joaquim da Barra, perto de Ribeirão
Preto, no caminho de Brasília, via Anhangüera.
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Sou paulista da velha Mogiana. Com dois
aninhos e minha mãe carregando mais um no
colo, a gente se arranchou na cidade de Guaíra,
ali pertinho. Ficamos por aquelas bandas de
poeira até o final da guerra.

De Guaíra lembro o gasogênio, racionamento


de açúcar, de pão e o fim da guerra, com a ban-
da de música tocando de madrugada. Lembro a
casa de quarto e cozinha de chão batido, sem
guarda-roupa, sem fogão a gás, sem geladeira
nem rádio.
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Toda a família (Rolando é o último à direita)


Os irmãos espalhados nos colchões de palha de
milho. Boiadeiros, catireiros, peões e poeira, o
vento, o rodamoinho, o sorvete de groselha no
Kamoya, os valentes, as mulheres da noite na
cama. As cantigas em dueto com meu irmão,
modas de viola, toadas e canções.

Em Guaíra ouvia João Pacífico, Raul Torres,


Serrinha, Mariano e Alvarenga no alto-falante
do locutor Lacativa. Ia à matinê no cine-teatro.
Depois da guerra, arribamos de novo, voltando
à região, até fincar pé em São Joaquim. Com 16
18
anos, resolvi arribá sozinho, dessa vez pra
capital. São Paulo da garoa.

Não vim de uma vez só, num prazo de três meses


fiz duas viagens, uma de trem com dois amigos,
mas logo voltei e vim de novo, peguei carona num
caminhão. Foi nesse período que arranjei um tra-
balho de frentista na beira da estrada. Cheguei
em São Paulo com a mala vazia, só a gravata
jogada lá dentro, porque meu pai, seu Amadeo,
garantiu que sem gravata ninguém vence na
capital. Lembro até da cor da gravata.
Foi cabeçada pra cá, trombada pra lá, alguns
servicinhos de sapateiro, garçom, ajudante de
farmacêutico e por aí vai. O que um menino de
16 anos podia esperar na grande capital cheia
de bonde, jardineiras e fumaça, já naquela épo-
ca? Vinha de uma cidadezinha tranqüila, de
trânsito leve, onde não existia nem semáforo.

Desci na Estação da Luz e fiquei tonto. Reven-


do isso, não consigo ver diferença entre aquela
sensação de grandiosidade que tive diante do
movimento de gente passando, bonde, o
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barulhão, e hoje. Pra mim, parece que São Pau-
lo há 52 anos atrás e agora sempre foi uma lou-
cura, uma coisa espantosa.

Com 18 anos fui servir à pátria amada em


Quitaúna, Barueri. Lá, aquartelado, fiquei o que
mandava a lei, o suficiente para tomar pé na
morte do presidente Getúlio. Aliás, o suicídio
desse velho gaúcho só serviu mesmo pra adiar a
minha baixa no Exército que já tava programa-
da, além de bagunçar o coreto da nação. Saí com
19 anos e meio e voltei pra minha terra.
20 Em São Joaquim da Barra, com o locutor Melquior de Lima

Esse tempo me marcou no sentido histórico,


nada profundamente, eu nem sabia o que esta-
va acontecendo. Falo sempre que o soldado
morre sem nunca saber o que se passou. O bata-
lhão foi todo desviado pra Santos, eram vários
caminhões lotados de soldados, fomos de ma-
drugada sem saber por que estávamos indo. Fi-
camos nas docas acampados, dormindo no chão
com as mochilas, e prontos pra uma guerra,
como se estivéssemos esperando o inimigo. Mas
ninguém nos dizia contra quem era a guerra
nem pra que. Essa desinformação me marcou e
acho que a todos os soldados, não sei como está
hoje. Marcou a ignorância, o soldado pau-man-
dado. E como brasileiro sempre leva tudo na
brincadeira, enchia um cantil de água e outro
de cachaça e estava tudo certo. De manhã cedo
íamos todos pras docas ver as mulheres, fingía-
mos que estávamos dormindo, e se tivesse uma
guerra íamos perder brincando. Depois disso
minha vida começou a tomar um rumo profissi-
onal que era o que eu queria. Até então, conta-
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va minhas histórias no interior, nos coretos de
jardim.

Tudo que me aconteceu e aprendi foi na vivência.


Meu professor de viola foi um caboclo que eu
descobri que tocava, e como eu queria apren-
der, ele me ensinou a dar os primeiros pontea-
dos, uma afinação chamada rio abaixo. E só. Dali
toquei o barco sozinho. Com o tempo me inte-
ressei pelo violão, mas sempre sozinho, numa
procura de vivência.
Fui um garoto meio precoce, sempre gostei de
fazer graça. Com sete a oito anos meu pai me
levava numa oficina de Guaíra e mandava eu
fazer uma brincadeira que eu gostava, que era
pegar uma vassoura de piaçava e fingir que es-
tava tocando, e cantava em inglês pra imitar os
caubóis americanos dos filmes de faroeste. O
primeiro que imitei foi o Roy Rogers, depois o
Bob Nelson, que era o nosso cowboy do disco e
do rádio. Eu era o tal no tiro-o-leíií.
Em São Joaquim da Barra, com amigos, 1956

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Meu pai tinha paixão pelo faroeste americano,
por isso os nomes dos meus irmãos: Jack, o pri-
meiro; Harold, o segundo e foram registrados
ou apelidados lembrando os cowboys. Quando
menino meu cabelo era quase branco de tão
louro, seu Amadeo dizia sempre que eu lembra-
va o William Boyd e começou a me chamar de
Boy, e pegou.

O velho tinha tanta fixação nos heróis daquele


tempo, que um belo dia deixou a barba crescer,
se vestiu de John Wayne com lenço no pescoço,
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dois revólveres de cabos de madrepérola e foi
no melhor fotógrafo da cidade, o Deieno. E in-
timou o fotógrafo a tirar uma foto dele de cha-
péu e tudo, como se fosse um mocinho dos fil-
mes. Pra completar a façanha, enviou uma foto
e uma carta para os Estados Unidos, praqueles
estúdios da RKO, onde ficavam os grandes as-
tros do gatilho daquela época: o Buck Jones,
Tom Mix e outros famosos. Na carta, meu pai
perguntava se os diretores de lá não gostariam
de fazer um teste com ele para, eventualmen-
te, se transformar num mocinho das fitas ame-
ricanas. Passado uns dias, vem um telegrama
como resposta, mensagem curta e grossa: Só ser-
ve pra bandido. Todo mundo na cidade riu com
o fato, e ficou confirmado que, pelo menos na
idéia dos gringos, o brasileiro só serve pra isso
mesmo.

Eu cantava enrolando a língua. Daquele


tamanhinho fingindo que a vassoura era uma
viola, era motivo de risada dos mecânicos e meu
pai se divertia. Logo comecei a cantar com meu
irmão, fizemos uma duplinha caipira chamada
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Boy e Formiga, eram nossos apelidos.

E fui travando conhecimento com a música cai-


pira e ao mesmo tempo com a música de alto-
falante. Na época se ouvia muito Orlando Silva,
Chico Alves, o Rei da Voz, Carmem Miranda, Sil-
vio Caldas, Noel Rosa, umas músicas dele faziam
muito sucesso, Vicente Celestino. Mesmo crian-
ça me interessava pela coisa musical, cultural.
Com nove, dez anos, já lia Catulo da Paixão
Cearense, alguma coisa de Guimarães Rosa, Zé
da Luz, um poeta paraibano.
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Com o irmão (Rolando à esquerda)


Na parte caipiresca ouvia Alvarenga e Ranchinho
(com quem fiz dupla na Globo em 1981), Jararaca
e Ratinho, Xerém e Bentinho.

Eu gostava dos versos, também de contar


“causos”, sempre gostei de observar tipos hu-
manos brasileiros, as coisas engraçadas ou tris-
tes que acontecem com eles. Muita gente diz
que minha cabeça é privilegiada, parece um com-
putador. A memória, graças a Deus, é muito boa.
Registro coisas incríveis, de criança, tipos huma-
nos com os quais convivi e falo deles até hoje
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no palco, alguns ainda existem, outros já viaja-
ram fora do combinado, morreram. Sempre fui
assim. Meu pai não era músico, não cantava,
minha mãe só cantava no batedor de roupa. Não
tenho irmão músico, nem artista. Meus avós
eram imigrantes italianos. Conheci meu avô, o
Marião, Mário Boldrin, natural de Padova,
pertinho de Veneza. Lá tem Boldrin como pra-
ga, é como Silva aqui. Era um homem alegre,
mas não tinha nada de artista, esse meu lado
veio desabrochando naturalmente, de uma for-
ma até emocional.
Sempre tive muito amor pelo Brasil, acho que
descobri esse amor ainda garoto, quando come-
cei a pensar melhor, a conhecer aqueles
boiadeiros que passavam dentro da cidade,
aquele poeirão, o dono do boteco, a vida, o cri-
me, presenciei um crime, uma pessoa que ma-
tou o delegado da cidade, como se fosse um fil-
me de faroeste. Tudo que me chamava a aten-
ção, eu registrava. Isso foi caminhando comigo,
essa forma de ir registrando o que acontecia, os
tipos, o jeito dos brasileiros, principalmente.
Digo que era o ator que já existia em mim e que
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acabou desabrochando por meio da televisão em
1958, depois no teatro e no cinema.

Quando saí do Exército já cantava, contava


causos, misturava de samba a roda de viola,
conheço toda a obra de Noel Rosa, Sinhô, do
Almirante. Gravei a segunda música do Noel,
Minha Viola. Além de observador, sempre tive
paixão por essa obra musical brasileira que acho
pouca valorizada.
Aos 20, 21 anos resolvi topar de frente com a
minha carreira de artista. Com a experiência de
cantador inato e contador de causos, era justo
que eu tentasse essa vida.

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Capítulo III

No começo, era o rádio

E garrei a fazer teste em rádios da capital. Rá-


dio São Paulo, Rádio Record, até chegar na ve-
lha Rádio Tupi que engatinhava com uns anos
de televisão. Fiquei por ali mostrando os dentes
e as gengivas pelos corredores, fazendo um
pouquinho de tudo, até assinar o primeiro con-
trato. O primeiro teste que eu fiz foi pra can-
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tor, imitando o Gregório Barrios. Não foi um
teste profissional, fui levado por um amigo de
um diretor para ver se tinha uma chance. Fui
reprovado e tentei o teste para ator de rádio,
com 300 candidatos. Nesse só eu passei. E fui
contratado.

Entrei na Tupi em 1958. Quando comecei não


existia novela, havia o teatro. Qualquer artista
que entrava na emissora já assinava contrato
pra rádio e televisão. O Lima Duarte que nasceu
no rádio conta isso, ele era sonoplasta, obriga-
do a fazer rádio, eu também, a Laura Cardoso.
Fazíamos um, dois, três, cinco, seis programas
de rádio por dia e um, dois, três de televisão.
Era um deus-nos-acuda. Trabalhei durante um
ano no rádio, sem ganhar nada. Na televisão
tinha um cachê pequeno pra figurante. Saía do
rádio correndo, ia pra televisão, cheguei a fazer
três programas por dia, e tudo ao vivo. Participei
do Sítio do Pica-pau Amarelo, fazendo pontinha,
do Capitão Estrela, Falcão Negro. E fui tocando
o barco.

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O rádio tinha muita importância, era outra vida,
hoje está bem descaracterizado, não se entende
o que é o rádio hoje. Havia o Grande Teatro Tupi,
fizemos Guimarães Rosa pelo rádio, Grande
Sertão Veredas inteiro. Eram espetáculos
adaptados pelo saudoso Walter Jorge Dust. O
rádio hoje em dia virou notícia só, antigamente
era entretenimento, como a Rádio Nacional, a
Mairink Veiga, tantos artistas do rádio que
faziam história. Estão revivendo a Rádio
Nacional do Rio de Janeiro, fiquei muito
contente em saber disso, há pouco tempo, to-
mara que reinaugurem também o sentido da Rá-
dio Nacional como nas décadas de 40, 50 e 60. O
rádio vai ser sempre mais importante que a te-
levisão, ele é muito mais abrangente, porque
não é preciso ficar parado na frente dele pra
ouvir, você ouve no carro, trabalhando,
pescando, uma empregada doméstica ouve rá-
dio o dia inteiro, ele chega mais direto às pesso-
as, é um meio de comunicação muito forte. O
rádio é apaixonante.

Travei contato com ele muito cedo, com dez,


31
onze anos lotava auditório. Fora os alto-falantes
que eu fazia no interior e que era uma delícia.
Tive o prazer de inaugurar a Rádio São Joaquim
da Barra, que existe ainda.

Era uma novidade, eu menininho, lá, cantando


e contando já os “causinhos” com a vozinha fina,
ardida. Cheguei a gravar, compraram na rádio
um gravador de acetato, tenho quatro ou cinco
acetatos gravados dessa época de garoto, até
pouco tempo um rapaz deu uma limpada nos
acetatos.
No rádio se fazia de tudo, radioteatro, progra-
mas humorísticos. Está vivo, ainda, graças a Deus,
o Max Nunes, escreve até hoje. Trabalhei nos
programas dele, o Balança Mas Não Cai, Vai da
Valsa, Marmelândia, O País das Maravilhas. Ti-
nha programas humorísticos de auditório, de es-
túdio, muitos musicais. Pra se ter uma idéia, a Tupi
tinha sob contrato um quadro de cinco a seis maes-
tros, uma base de duas a três orquestras. Fiz nar-
ração de radionovela, narrei o programa caipira
Alma da Terra, sempre às 15 pra 7 da noite.
Hoje ouço pouco rádio, só programas com os
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quais me identifico, como os da Rádio USP, uma
ou outra coisa da Rádio Cultura e Rádio
Eldorado, alguns informativos, mas música é
difícil. A programação das outras rádios está
voltada pro lado do sucesso e aí fica tudo muito
igual: ou é aquela batida de samba, pagode, que
todo mundo faz igual, ou é o sertanejo, desse aí
famoso. Giro o rádio inteiro e é difícil achar algo
legal. E até gosto de música estrangeira, gosto
de algumas músicas dos Beatles, da italiana, sou
apaixonado, gosto de ouvir Joan Manuel Serrat,
o Chico Buarque da Espanha.
Nesse primeiro ano conheci o Mazzaropi. Ele ti-
nha feito o primeiro filme, acho que Sai da Fren-
te, produção dele. A história do Mazzaropi é
muito bonita. Ele não é capira, é de São Paulo,
nasceu no bairro de Santa Cecília, no centro, mas
foi criado no Itaim Bibi. Pegou como gancho essa
coisa de caipira e ficou imortalizado como o Jeca
Tatu e fez todo esse sucesso. Ele fez uma
experiência que teve ligação comigo nessa
época. Hipotecou a casa, o único bem que
possuía, e botou todo o dinheiro na produção
do primeiro filme, na sua produtora, Amacio
33
Mazzaropi. Procurou-me na Tupi e me convidou
pra viajar com ele, fazer shows no interior apre-
sentando o filme. Para chamar o público, fazía-
mos um show de meia hora, isso em mais de 30
cidades, sempre com casa cheia. Quando voltou
pra São Paulo, fez um segundo filme, viajamos de
novo fazendo propaganda, shows, até prefaciei
um livro sobre ele. Nessa época me ausentei da
Tupi porque a graninha que ele me ofereceu foi
boa. Aí resolveram me contratar pra que eu não
me ausentasse. Foi meu primeiro contrato e daí
pra frente não parei mais.
Passei a fazer novelas, especiais e, paralelamen-
te, música.

Esse começo foi bem pitoresco, com rádio,


televisão, sempre no espírito de mostrar a cara
e a coragem. Foi também um período difícil, de
muito sacrifício. Cheguei a morar em fundos de
casas do Sumaré, em quartinhos alugados de
meia. Ganhava pouco no rádio e na televisão,
era magrinho, não comia direito. Quando assinei
contrato, em 1959, coincidiu de inaugurarem o
prédio da Sumaré, com um restaurante para os
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funcionários, e tinha o bandejão. Em duas
semanas engordei dez quilos. Eu dizia que tinha
começado a comer, estava contratado. E virei
artista comedor. Não posso me esquecer que
ainda devo 50 mil réis pro humorista Cazarré,
mais uns 20 pro palhaço Fuzarca, repartido de
prato de comida no restaurante do Jordão, lá
mesmo na Tupi.

Curtia muito a cidade. São Paulo é um grande


interior, um grande celeiro, estou aqui a mais
tempo do que vivi na minha terra, mas não per-
di as raízes. Passei dificuldades, dureza mesmo,
mas foi São Paulo que me projetou para o Bra-
sil. Ela é a paixão de todo mundo, a mãe caridosa
que dá oportunidade a quem quer trabalhar. Eu
venci como tanta gente e sou muito grato à ci-
dade. Em 1991, fiz uma carta pra São Paulo que
dizia mais ou menos assim:
Ah, minha querida cidade de São Paulo. Sinto
seu cheiro faz só uns 37 anos. Em meio a bondes
barulhentos, na frente da Estação da Luz foi
onde apeei de madrugada, confuso e
atarantado. Acotovelei-me daqui e dacolá, entre
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os milhares de migrantes que apearam também
como eu, no “seu quintal” gigante em busca da
tal de oportunidade. E assim foi que aceitei ser
sapateiro em Santana, na Liberdade, carregador
de sacarias nas bandas do mercado e tantas
coisas que nem sei. Aí... Você um dia deixou que
eu fosse artista. Você me fez radioator dos
tempos da Tupi em 1958, depois ator de teatro,
cinema, o compositor de fatos vividos por aí.
Você me fez cantar a minha terra inteira, o meu
Brasil sem fronteiras. Você tem de tudo, basta a
gente procurar. Agora que melhorei nuns
trocados, posso até me dar ao luxo de bebericar
uns tragos nos jardins da sua zona mais chic.
Conto causos no Pandoro, traço um sabor
diferente e gostoso no meu amigo Massimo, ou
jogo uma conversa fora com o Bob do
Esplanada, que é caboclo como eu, e de quebra,
às vezes, como de pauzinho no japonês e bebo
um chá da China. Corro também para os campos
de futebol num domingo ensolarado, fazendo
dupla com meu neto e quando a vista e o corpo
estão cansados, me estico pra berada da Raposo
Tavares, numa granja, e fico lá ponteando a viola
36
ou o violão...

A cada três meses ia pra São Joaquim da Barra ver


meus pais, meus irmãos, os amigos. Passava dois,
três dias em beira de rio pescando, tomando
cachaça, contando causos, rindo muito, cantando,
fazendo serenata, tudo que um jovem da minha
idade fazia. Mas sempre voltava pra briga em São
Paulo, onde tinha meu trabalho que eu gostava.
São Joaquim não me dava futuro como radialista,
não tinha TV nem nada, mas nunca esqueci da
minha terra, sempre que estou no palco falo dela.
37

Com o neto Marcus (que hoje tem 30 anos)


Durante um bom tempo freqüentei muito o li-
toral norte, São Sebastião, Ilhabela, Maranduba.
Ia com um grupo que também estava começan-
do na carreira artística: Walter Negrão, Adriano
Stuart, Cláudio Marzo e Ademir Rocha. Depois,
com a Lurdinha minha mulher. Uma vez, em
Maranduba, num passeio de barco, vi uns pés
de caju bonitos numa ilha. A gente ancorou e
fui lá pegar umas frutas pra fazer batida de caju
com saquê. O capataz que tomava conta da ilha
disse que era proibido roubar a fruta, eu res-
pondi que não era roubo, pois a ilha não tem
38
dono, é do governo, do povo, e eu era do povo.
Discute dali, discute de lá, perguntei se ele assis-
tia televisão. Ele disse que tinha TV alimentada
por bateria e que só assistia ao Chacrinha. Quan-
do falei que era o Rolando Boldrin, que apre-
sentava um programa caipira na Globo, o capa-
taz acabou se convencendo e falou: “Você é fa-
moso, então pode roubar caju à vontade,
confidenciou”.

Estou em São Paulo há 56 anos. Tive vários


endereços. Depois, de uns tempos pra cá, esco-
lhi a Granja Viana por ser um lugar muito gos-
toso, tem tudo de uma cidade pequena, é perto
de São Paulo e ao mesmo tempo tem o ar puro,
o verde. Há três anos morava num condomínio
chamado Fazendinha. A gente cruzava com tu-
cano comendo abacate, às vezes, um veadinho,
de repente, uma cobra. Mudei para um condo-
mínio fechado, mais perto do centro, estou só
eu e a Lurdinha, meu escritório fica perto de casa,
dá pra trabalhar com calma e fazer nossos
projetos.

39
Tenho uma única filha que é mais dedicada à
família. Ela canta, toca violão, mas nada
profissional. Deu-me três netos, dois deles
gostam de música, um virou comandante de
aviação da TAM, o outro toca violão também,
canta, mas nenhum pensa em seguir a carreira
artística. Na família, o artista sou eu mesmo e a
minha mulher, a Lurdinha, que já foi cantora
especialista em jingles e se aposentou.

Meu lazer é trabalhar, seja fazendo shows ou


no escritório. Tem fins-de-semana que tomo uns
drinques com os amigos, o mais é trabalhar, prin-
cipalmente agora. Já trabalhei menos, viajei
bastante, fui pro exterior, agora, vivo os meus
projetos 24 horas por dia, do escritório vou pra
casa onde também fico por conta disso, ouço
música, os discos antigos, vejo filmes, muito
filme, faço anotações. Isso pra mim é lazer.

Como tenho essa atividade com música caipira


tradicional, as pessoas pensam que eu vim da
roça, fiquei rico e logo de cara comprei uma
fazenda. Sou do interior, mas nunca morei na
40
roça nem em fazenda, convivi muito nesse meio.
Meus padrinhos de crisma e de batismo eram
fazendeiros. Eu ia à fazenda deles de charrete,
gostava de andar a cavalo. Um deles
administrava uma fazenda perto de São
Joaquim. Uma vez fugi de casa porque meu pai
me deu uma surra e fui pra fazenda dele, fiquei
lá uns três dias, andava a cavalo em pêlo, de pé
no chão. Convivi muito com o povo da roça,
gostava de ouvir as histórias. Mas me considero
um caipira urbano. Tinha um sítio em Porto Feliz
para fins-de-semana, de repente ficou longe,
então vendi. Já conhecia a Granja Viana do tem-
po em que o irmão do Boni (Bonifácio Sobrinho)
morava aqui. Aí achei uma casa, pré-fabricada,
simples, e comprei. Gosto da Granja. Fico baten-
do papo com o Edgar lá no posto, conto uns
causos, vou até a doceira, conto mais umas his-
tórias, tomo um café, volto pro batente no es-
critório. E por aí vai.

41
42

Com Susana Vieira, no Grande Teatro Tupi


Capítulo IV

O naturalista

Naquele tempo existia um padrão de interpre-


tação e impostação teatral radiofônica. Acredi-
to que eu, assim como o Lima Duarte e outros
quebramos esse padrão. O Lima mesmo declara
que não tem esse padrão. Tem até uma história
na televisão, onde um diretor disse que ele nun-
ca seria ator porque tinha voz de sovaco. É ver- 43
dade, ele não seguia aquela regra, de que o ator
tinha de ter um vozeirão, falar impostado, eu
também não, o jeito que eu falo no cinema, no
teatro é o jeito que eu falo com qualquer pes-
soa, o mais natural possível, mesmo fazendo o
personagem.

Nas minhas interpretações, sempre adotei uma


regra naturalista. Quando trabalhava uma cena
de novela com o Fernando Torres, ele ria e di-
zia: “Boldrin, não conheço um ator mais natural
que você”.
44

Com Tonia Carrero e Mariza Sanches,


no Grande Teatro Tupi, 1959
Porque sempre prezei a naturalidade, falar de
verdade. A mesma reação teve o Eugenio
Kusnet, no teatro, quando fui passar uma cena
com ele: Oh, não tenho que falar nada, você
está perfeito, passa tudo direitinho.

Eu costumava contar muito “causo” na hora do


recreio, do café com os atores, era aquela cam-
bada: Mauro Medonça, Etty Fraser, Renato
Borghi, Ítala Nandi, Zé Celso, a saudosa Célia
Helena, o próprio Kusnet, que numa dessas me
fez outro elogio: Quando você conta uma his-
45
tória é fascinante porque a gente viaja junto,
‘vê’ o que você conta. Considero isso um traba-
lho de ator. Alguns atores contemporâneos
meus, não digo que imitaram, mas seguiram esse
jeito, o próprio Plínio Marcos, que não era con-
siderado ator, quando atuava em cena tinha essa
naturalidade, ele quebrava o padrão. O Tatá
(Luiz Gustavo) também, e vários outros segui-
ram esse gancho. Morro de rir quando vejo em
cena o Otávio Augusto, grande amigo dos tem-
pos do Oficina e que está nessa novela Cabocla.
Rio vendo a naturalidade com que ele faz aque-
las brincadeiras, ele segue uma escola, não uma
escola minha, mas de interpretação naturalista
que me agrada muito.

O ator não é um imitador, ele é mais profundo,


vivencia e passa isso para o espectador. Muitos
humoristas nossos fazem a caricatura de um
personagem, não gosto de caricatura. Pra ilus-
trar essa conversa cito o Cornélio Pires, grande
estudioso da linguagem caipira paulista, e que
eu tenho assim como um guru, conheci pessoal-
mente. Eu tinha 10 anos quando ouvi o Cornélio
46
Pires falar pra centenas de pessoas na pracinha
de São Joaquim da Barra. Ele matava a gente de
rir, mas não tinha a preocupação de imitar o
caipira. Um exemplo:
O caboclo foi no dentista com uma dor de den-
te, o dentista viu que tava inflamado e pergun-
tou: Você quer extrair ou quer fazer um trata-
mento? Ele disse: Não, quero arrancar mesmo.
Ele contava essa piadinha e era engraçado. O
dentista continuou: Então vou arrancar o seu
dente, mas como tá muito inflamado, vou dar
uma injeção, e você vai dormir uns cinco minu-
tos, depois vai acordar e não tem mais o dente,
nem dor de dente nem nada. O caboclo pergun-
tou: E quanto é que o Sr. cobra? Ah, uns mil
reais, disse o dentista. O caipira tira do bolso
um monte de notas e começa a folhear molhan-
do o dedo. O dentista diz que ele não precisa
pagar adiantado, que não cobra antes. E o ca-
boclo: Mas quem falou que eu vou pagar adian-
tado? Tô contando pra ver se quando eu acor-
dar tá certo.
Ele imitava o caipira não imitando, mas contan-
do o “causo”. Eu sigo isso, não imito o caipira,
47
faço um tipo brasileiro.
48

Com Maria Isabel de Lizandra, no Teleteatro Tupi


Capítulo V

Jeito de interpretar

Sempre que vejo o Antonio Fagundes no teatro


e na televisão lembro que temos em comum a
facilidade de decorar os textos. Eu decorava com
muita facilidade e não tinha método. Nos últi-
mos anos, pegava o script na hora do ensaio.
Ainda hoje é assim. No Som Brasil, não, era tudo
decorado, todo domingo falava um poema de
49
três a cinco minutos, textos difíceis, aí decorava.
Sou dos poucos artistas brasileiros que nunca
usou o ponto eletrônico, pois tenho facilidade
pra decorar. Quando fiz um padre na novela As
Pupilas do Sr. Reitor, da Record, todo mundo
usava o ponto. Eu me recusei. Não ia ficar ou-
vindo, repetindo como papagaio o meu texto.
Eu decorava.

Meu jeito de atuar continua o mesmo em todos


esses anos. No último filme que fiz, O Tronco,
meu personagem era um coronelzão vaidoso.
Usei como referência meus padrinhos que eram
fazendeiros, me inspirei no jeito deles falarem.
Para fazer o maquinista Pereira, de Doramundo,
que tratava de um triângulo amoroso, tive meu
pai como referência.

O que mudou no meu trabalho de ator é que


hoje represento a mim mesmo, só conto
histórias, uso muito o improviso e sempre me
saio bem. As histórias não mudaram, o brasileiro
não muda seu jeito de ser, mesmo com o
progresso da tecnologia e os modismos. Conto
50
causos, histórias de 50 anos atrás que até hoje
provocam a mesma reação. Como essa história
que está no livro do Cornélio Pires e sempre
provoca a mesma reação:
Um caboclo estava acocorado na beira de um
ranchinho e passa um carro com uma pessoa da
cidade que desce e resolve conversar ou brincar
com ele.
- Ô caboclo, nessa terra aqui dá algodão?
- Algodão? Algodão não dá.
- Dá arroz?
- Arroz num dá.
Cenas de Doramundo, com Armando Bogus e o maquinis-
ta Pereira
51
- E feijão?
- Feijão também num dá. Nessa terra num dá
feijão, não.
- E amendoim?
- Amendom num dá, amendoim é que num dá
mesmo.
- Mas o Sr. já plantou pra ver se dá?
- Plantando dá, claro!”.

Quando conto hoje essa história num show, as


pessoas riem, porque o brasileiro é isso mesmo.
E tem aquele outro “causinho” dum caboclo
52
amigo meu que vendia cavalo. O jeito de ele
responder vai ser sempre igual, teria essa reação
de repente, numa brincadeira.
Perguntaram pra ele:
- Escuta, Adãozinho (era esse o nome do meu
amigo), o que você deu pro seu cavalo quando
ele tava doente?
Adãozinho falou:
- Dei terebintina.
O caboclo foi à farmácia, comprou terebintina,
deu pro cavalo, o bicho morreu na hora. Ele en-
tão voltou a falar com o Adãozinho:
- Perguntei o que você deu pro seu cavalo quan-
do estava doente, você falou que deu
terebintina, eu dei pro meu, o meu morreu.
- O meu também, disse o Adãozinho.

Costumo contar histórias, façanhas de tipos, não


de raças. Não conto causo de crioulo, por
exemplo, só se for enaltecendo, porque o que
importa é o personagem, não a cor dele. Não
gosto de piada de judeu, de negro, de
homossexual, posso até contar, mas só se tiver
algo que enalteça, nunca de forma pejorativa,
53
que achincalhe. Conto histórias de reações de
pessoas. O Cornélio Pires tinha uma seleção de
piadas de ingleses, alemães, de judeus, de russos,
mas era sempre de uma forma pura, livre,
bonita, até, nunca criticando a raça. O herói das
histórias geralmente é homem do povo, algum
caipira esperto. Existe sempre um desfecho,
inevitavelmente engraçado. Gosto de partir de
fatos reais, florear e encher a história de
detalhes. Os segredos estão nas pausas, e princi-
palmente, na visualização de cada parte da nar-
rativa.
Esse “caboco” que eu uso pode ser urbano, é o
jeito de tratar a pessoa, meu pai chamava todo
mundo de “caboco”.

54
Capítulo VI

O impacto da televisão

Agora, todo mundo está acostumado com a te-


levisão, mas quando ela surgiu, a grande
indagação era como a imagem passa através do
fio, a coisa era recente e causava sempre
espanto. Quando entrei no meio, a Tupi era a
Meca da televisão, a pioneira, havia muita gente,
muito artista, muito movimento lá dentro, eu
55
fiquei tonto.

Ao ver aqueles artistas fantasiados passarem


por mim, vestidos a caráter para fazer o tea-
tro, pensava: é nesse mundo que eu vou en-
trar. Lembro de ter visto uma pessoa ao telefo-
ne e percebi que era um artista que eu conhe-
cia, um locutor da rádio de São Joaquim da
Barra, Astrogildo Filho, amigo meu que canta-
va muito bem e que já viajou fora do combina-
do. Quando ele acabou de telefonar, me apro-
ximei e disse: “O Sr. não é o Astrogildo Filho?”.
E ele, com aquele vozeirão: Exatamente, per-
feitamente. Depois ficamos amigos aqui e eu
brincava com ele lembrando desse encontro.
Então, era um mundo estranho pra mim. Mas
comecei a me envolver, a conhecer as pessoas,
os diretores, travar amizade com todos eles,
grandes figuras como o Túlio de Lemos, Walter
Jorge Dust, Geraldo Vietri, Silas Roberg,
Fernando Baleroni, falecido, marido da nossa
querida Laura Cardoso. Sempre fui comunica-
tivo, falador, brincalhão, e consegui fazer um
círculo de amizade bem profundo com vários
56
deles até hoje. Fui me familiarizando com esse
meio e vendo que não era uma coisa do outro
mundo, era tudo muito natural.

E de repente me transformei num deles. Era uma


emoção, um impacto enorme saber que estavam
pegando minha imagem, eu contracenando
diante das câmeras. E depois que veio o
videotape, quando me vi a primeira vez na tele-
visão levei um susto.
57

Com Cláudio Marzo e Percy Aires,


em A Severa, Teleteatro Tupi - 1963
Participei dos primeiros tapes da Tupi. Se não
me engano, um dos primeiros grandes
espetáculos que a Tupi fez em tape foi o Hamlet,
com Luís Gustavo no papel principal, o Lima
Duarte fazia o Horácio e eu fazia um soldado,
com direção do Dionísio Azevedo, que também
era ator de cinema. O Dionísio foi o cara que
inventou a novela em capítulos na televisão e
um dos primeiros a dirigir também. Demoramos
três dias pra gravar o Hamlet.

Quando entrei foi esse impacto, sempre havia o


58
nervosismo pra entrar em cena, se hoje for fazer
televisão vou ficar nervoso, quando entro no
palco pra fazer meus shows fico um pouco
nervoso também, mas o nervosismo da primeira
vez é marcante, guardo a sensação até hoje. Vivi
o começo da televisão feita à mão, a época da
enxurrada de novelas. Era muito gostoso

Fui o primeiro ator a fazer o personagem


Odorico Paraguassu, de O Bem Amado, na tele-
visão. Foi a primeira externa, usamos uma cida-
de colonial que os Diários Associados deram de
59

Com Benjamin Cattan, recebendo o busto de Odorico Paraguassu,


O Bem-Amado (TV Tupi, 1963)
presente pra São Paulo. Foi feita num pátio imen-
so onde hoje é o Ginásio do Ibirapuera. Ali cons-
truíram uma cidade e um estúdio, idéia do Ben-
jamin Catan, um dos diretores de teatro da Tupi.
Esse foi o grande espetáculo que fiz como per-
sonagem principal, mas já tinha feito pontas em
outras peças: Capital Federal, O Cordão, de
Arthur Azevedo. Um dia faltou o Dionísio Aze-
vedo, que trabalhava nessa peça, e disseram pra
decorar o texto dele, gigantesco. Era uma sexta-
feira e o programa ia ao ar no domingo, ao vivo.
Como eu estava começando, queria aparecer,
60
mostrar que sabia fazer, disse que dava tranqüi-
lamente pra decorar. Fiquei dois dias, até 5 da
manhã lendo. Eram grandes obras, eu tinha pai-
xão por elas.

Fiz também a primeira peça do Valter Negrão,


para o Grande Teatro da Tupi, Máquina de
Costura, só lembro do nome, esqueci o papel.
Encontrei ele há pouco tempo, fico tantos anos
sem vê-lo. É amigão meu, a gente começou
junto, dividiu ovo e conhaque no bar da Tupi.
Teleteatro Tupi, com David Neto

Segundos Fatais, com Silvio Rocha

61

Fim de Jornada, com Henrique Martins


Quando falei da peça, ele disse: Você ainda lem-
bra? Tenho uma memória excelente, guardo
nome de pessoas, personagens, histórias de
tipos humanos que conheci, por isso que eu
gosto de contar causos, marco muito as emoções
vividas, sempre vou ter uma história pra contar.
Quando veio a fase da novela, mudou o esque-
ma, entrou o folhetim e perdi, todos nós perde-
mos aquela perspectiva do teatro, do grande
teatro Tupi feito por atores como Cacilda Becker,
Jardel Filho, Sérgio Brito, Paulo Autran, Maria
Fernanda. Todos iam para a televisão.
62

Meu primeiro papel foi de um figurante, um frei,


na peça O Processo de Joana D’Arc, a Joana era
a Maria Fernanda. Eu apenas passava e ninguém
me reconheceu porque estava todo encapu-
zado. Era gostoso tentar a carreira dentro do
que se gostava.

A primeira novela foi Alma Cigana, depois fiz O


Direito de Nascer, o papel de Don Ricardo de
Monteverde, o pai da heroína, que não queria
o casamento com o Albertinho Limonta.
Eu tinha 25 anos e no papel usava costeleta, ca-
belo branqueado pra envelhecer. Eu não gosto
de maquiagem e sobre isso tem uma historinha
engraçada. O diretor da novela, José Parisi, que
também fazia um personagem, mandou o
maquiador me envelhecer. E envelheci o rosto,
com rugas, e o cabelo. Gravávamos todo dia. No
segundo mês, eu estava sem maquiagem. O
diretor me olhou e perguntou se eu não ia me
maquiar, eu disse que não usava maquiagem.
Como não? Você não fazia um velho? É, mas fui
tirando as tintas devagarinho, acabei ficando
63
moço, sou o único personagem que em vez de
envelhecer fiquei novo.

Nessa época em que era contratado da Tupi eu


fazia o que aparecia, não podia escolher papel,
tinha que engolir aqueles dramalhões mexica-
nos, cubanos na marra. Depois que me libertei
e fiquei freelancer, só fazia o que eu gostava.
Foi assim com a novela do Lauro Cesar Muniz,
na Record, Os Deuses Estão Mortos; a primeira
versão dos Imigrantes, do Benedito Ruy Barbo-
sa; A Viagem, da Ivani Ribeiro, um tema
espiritualista. O Profeta. Cavalo Amarelo.
Contracenei com a Cleyde Yaconis, em Ovelha
Negra, do Chico de Assis e Valter Negrão. Com
a Irene Ravache. A Irene é muito brincalhona,
muito inteligente, tem umas respostas engra-
çadas, somos amigos e trabalhamos muito jun-
tos. Fiz três novelas da Ivani Ribeiro com ela, a
Ivani achava que a gente fazia um par perfeito.
Em Doramundo, no cinema, eu era o marido
dela. Fizemos juntos a peça onde ela se revelou
como a grande atriz que é, Roda Cor de Roda,
da Leilah Assunção, que no Rio teve o nome de
64
Amélia, Amélia. Era eu, ela e a Lilian Lemmertz,
com direção do Abujamra. Fiz a primeira nove-
la do Silvio Santos, O Espantalho, que não deu
certo. Era uma novela da Ivani Ribeiro, boa, mas
o Silvio ainda não tinha infra-estrutura, era sua
primeira experiência. Como não deve ter dado
muito ibope, ele não quis fazer mais.
65

O elenco de Mulheres de Areia no Almoço com as Estrelas,


1973
66

O Barão Leôncio de Os Deuses Estão Mortos


Capítulo VII

Reconhecimento e massificação

Para todo artista que consegue chegar onde


queria, o primeiro reconhecimento do público é
sempre muito bom. Quando eu fazia o grande
teatro da Tupi gostava de elogios e telefonemas.
Na fase da novela, confesso que não me deu
grande prazer ser reconhecido na rua, chegava a
ser até mal-educado. As pessoas confundiam o
67
personagem com o ator e eu não achava isso certo,
via como falta de cultura do povo. E ficava meio
irritado. Respeito o público que vê novela e
mistura personagem com artista, mas acho errado.

Quando fazia um barão na novela Os Deuses


Estão Mortos, recebi um dia, nos estúdios da
Tupi, a visita de um senhor, emocionado, que
me convidou pra ser padrinho de casamento de
sua filha, no Mato Grosso. Aceitei, também emo-
cionado, e disse que nem cobraria cachê. Minu-
tos depois, o fazendeiro disse que queria que
eu fosse vestido como o personagem da novela.
Aí fiquei atravessado, fiquei com o cara, pedi
uma nota preta pra ver se ele desistia, ele pa-
gou. E fui obrigado a ir vestido de barão para o
casamento para cumprir o contrato. Depois da
igreja, frustrei o velho e a filha: arranquei o dis-
farce e virei eu mesmo.

Ainda sobre novela, lembro que cheguei a


inventar uma úlcera supurada pra não fazer O
Direito de Nascer. O Cassiano Gabus Mendes,
que era o diretor, falou que eu tinha que entrar,
68
e se tivesse que ser operado, ele matava o
personagem.

Fiz vários comerciais, ainda hoje me convidam.


O primeiro que gravei foi para o Bio-Presto, uma
marca de sabão em pó. Fiquei três dias
mergulhado em uma tina d’água tomando
conhaque pra agüentar. Depois os caras me viam
na rua e falavam: “Olha o Bio-Presto. Acabei vi-
rando sabão!”.

Às vezes, um autor mata 50, 100 personagens


de uma vez porque o orçamento da produção
está estourando, muda toda a estória. Persona-
gens são criados e destruídos de uma hora pra
outra.

Mesmo assim respeito mais o público hoje do


que naquele tempo. Me emociona alguém me
reconhecer, vir falar comigo, do meu trabalho
como ator e com a música. É comum virem me
abordar, lembrando principalmente do papel do
barão que fiz nos Deuses Estão Mortos, que
marcou muito meu trabalho. Lembram também
69
da minha atuação na Ovelha Negra.

Fiz a última novela em 80, já se passou um bom


tempo. Os que me reconhecem, vão logo
perguntando quando volto pra telinha, por que
não atuei mais, tem os que me confundem com
o Juca de Oliveira. Um rapaz de 16 anos pode
nunca ter ouvido falar de mim, mas o pai co-
nhece. Mesmo assim, tem jovem que me encon-
tra e comenta que assistia ao programa Som Bra-
sil com três, quatro anos de idade, porque o pai
assistia e queria que o filho acompanhasse, e isso
marcou a vida deles de alguma forma. Essas coi-
sas me emocionam.

Sou convidado quase que diariamente pra voltar


às novelas como ator. Em 1996, o Benedito Ruy
Barbosa me convidou pra entrar no elenco da
novela do Rei do Gado, dizendo que tinha um
personagem que cairia como uma luva pra mim:
um senador da República, honesto, sério,
atuante, meio ingênuo e ainda por cima, amigo
do mocinho. Mas por causa dos meus projetos
culturais tive que recusar e escrevi uma carta
70
aberta pro grande amigo Ruy. No meio da carta
dizia que tinha largado de viver barões, padres,
médicos, fazendeiros e outros personagens
novelísticos pra criar, dirigir e apresentar o Som
Brasil nas manhãs sonolentas de domingo da
Globo. A carta foi até publicada no Jornal da
Tarde, de São Paulo.

Ele me convidou a pouco tempo para fazer Ca-


bocla, essa novela das seis, e acabei cantando
uma musiquinha de tema. O Jayme Monjardim
também queria que eu atuasse numa novela
nova. Sou sempre convidado para fazer televi-
são, seja como ator, em casos especiais, um pa-
pel especial, ou para estrear uma novela, mas
como ator não quero no momento, já matei toda
a fome com o trabalho de novelas, nem teria
tempo, pois essa atividade que estou
desenvolvendo me ocupa muito e é mais
importante do que fazer um personagem
simplesmente. Não dá pra voltar a fazer com
esse trabalho cultural que considero da maior
importância.

71
A novela, além de tomar muito tempo, ela
promove o personagem, a gente vira um
personagem, no Brasil infelizmente é mais ou
menos isso. O Lima Duarte é um dos poucos
artistas do País que consegue não ser só o Zeca
Diabo. Quando ele fez esse papel, as pessoas
pediam autógrafo pro Zeca Diabo. Ele fez 32
filmes e ninguém considera ele um ator de cine-
ma, por causa da televisão ficou aquela coisa
estigmatizada. E ele é um ator que faz televisão,
cinema, teatro. É uma massificação muito
grande através da mídia, só se fala em novela,
novela, fora delas não se vê um programa de
peso, um bom musical, tem muita coisa, mas é
difícil.

72
Capítulo VIII

Teatro, questão de consciência

Em teatro, sempre escolhi, fiz espetáculos im-


portantes, não faria nada que não me agradas-
se. Saí da televisão pra fazer teatro por uma
questão de consciência. Sempre ouvia dizer e
concordo até hoje, que o ator precisa fazer tea-
tro. Eu queria continuar fazendo as duas coisas,
mas naquela época, a televisão não deixava seus
73
contratados fazerem outra coisa e como tive que
escolher, optei pelo teatro. Fiquei vários anos
sem fazer tv, era teatro direto, teve o período
no Arena, depois retornei à televisão, eram cin-
co novelas num canal, três em outro, trabalhei
na Excelsior, voltei pra Tupi.

Minha estréia no teatro foi com a peça Os Inimi-


gos, do russo Máximo Gorki, com o Grupo Ofici-
na. Ela veio depois do sucesso do Oficina com
Os Pequenos Burgueses, também do Gorki. O
José Celso Martinez Correa me convidou para
fazer um personagem central muito bom, Mikail
Vassilevich, um industrial que gerava toda a tra-
ma do espetáculo. Ele seria o protagonista, mas
morria no final do primeiro ato – eram três atos
– e toda a história girava em torno do levante
provocado pela sua morte. O sócio desse indus-
trial era o Lineu Dias, na época ex-marido da
Lilian Lemmertz, pai da Julia Lemmertz.

Por coincidência ou não, nessa mesma época


tinha estourado a “Revolução”, com que a gente
não concordava e até apanhou por ela.
74
Acompanhei todo aquele processo. Eram
debates todas as noites, muita reunião. A Cacilda
Becker era viva, lembro o dia em que ela morreu,
foi um baque, era sempre muito participativa.
Foi um período conturbado no teatro, na nação,
e como nós atores, artistas, temos uma função
política, de demonstrar o que está acontecendo
no País, acompanhei tudo.

Em 68, até 70, a época mais pesada, fiz a Feira


Paulista de Opinião. Foi uma loucura. Os atores
apanhavam em cena. A Feira era no Teatro Ruth
Escobar e na sala vizinha estava sendo encena-
da a peça Roda Viva, a primeira experiência do
Chico Buarque como autor teatral. Ele até me
convidou pra fazer um personagem, mas não
pude.

O pessoal do Roda Viva sofreu um ataque do


famoso CCC (Comando de Caça aos Comunistas),
os artistas apanharam, lembro bem da Marília
Pêra. Avançaram no nosso teatro também. Era
comum a gente trabalhar com um revólver na
cinta, cheio de bala, pois a qualquer momento
75
eles podiam pular no palco e bater em todo
mundo. Tinha estudante que ficava atrás da
cortina com um pau na mão nos protegendo,
garantindo o espetáculo. Foi um período difícil,
mas que considero também muito rico.

Fui convidado, junto com Renato Consorte e


Humberto Magnani, pra fazer uma palestra em
novembro sobre essa participação no Arena,
quando serão comemorados os 50 anos do
grupo.
Dessa estréia no teatro com o pessoal do Ofici-
na, vale a pena registrar um caso que tem a ver
com a “Revolução”. Estávamos todos sentados
na porta do antigo Teatro Oficina, quando apa-
receu na nossa frente um mendigo, um
andarilho barbudo, sujo e com aquele famoso
saco nas costas, sabe lá com o quê dentro. Parou
bem na nossa frente, fez uma panorâmica com
os olhos na gente e foi parar exatamente nos
meus olhos. Oh, alemão, disse a figura, Me dá
um cigarro aí. Alemão era eu. Fiz uma pequena
pausa, pra depois tirar um Beverly sem filtro e
76
entregar a ele. Outra panorâmica e, dessa vez,
o olhos nos olhos foi com o amigo Flávio Porto.
Oh, barbudo, me dá fogo. Falou já colocando o
Beverly na boca e se chegando pra receber a
chama do fósforo. O Flávio acendeu o cigarro
que ele tragou como quem traga a vida, baforou
devagar, pro alto, saboreando o Beverly e ficou
assim, nas nossas vistas. E olhamos a figura ali
parada, suja, um andarilho do Brasil em plena
revolução. E como gosto de angariar figuras, ti-
pos e tratados do nosso povo, perguntei:”... A
propósito, companheiro, me diga uma coisa, o
Sr. não trabalha, não?”. Ele voltou a me olhar,
fez uma pausa e disse: “Eu não trabalho”. Ou-
tra pergunta, a óbvia: “E por que o Sr. não tra-
balha?”. Aí ele surpreendeu a todos, entre eles
o Zé Celso. “Não trabalho porque eu...sou va-
ga-bun-do”. Riso geral. Daí pensei: isto sim é que
assumir a condição em plena revolução.

O que eu percebia no meio artístico nesse


período, era uma grande briga. Ou você se
vendia fazendo o que o regime e a censura que-
riam, ou brigava, e brigar com o regime era co-
77
vardia, derrota na certa, como aconteceu de su-
mirem com artistas. Houve uma resistência da
classe teatral brasileira, uma extrema coragem.
Os artistas se davam as mãos e enfrentavam até
tiros. A peça Feira Paulista de Opinião foi
proibida e chegamos a ludibriar censura,
fazíamos os espetáculos em pontos diferentes,
estratégicos, fizemos no teatro de Santo André.
Isso gerava uma animosidade do governo. O
Plínio Marcos era achincalhado, observado,
proibido de participar de qualquer coisa,
chamado no Dops. E assim com muitos outros,
como o Augusto Boal, o Geraldo Vandré. Eu
nunca fui no Dops, mas participei de tudo,
estava sempre junto do pessoal. Eu via uma
extrema coragem e uma coerência incrível da
classe teatral indo contra o regime e sozinha,
pois o povo não podia fazer nada, a não ser que
se armasse. Quem podia fazer alguma coisa,
fazia, como foi o caso do Mariguella, do
Lamarca.

A censura era extremamente ridícula, proibia


tudo, fosse na música, no teatro, na literatura.
78
E os atores resistindo, o pessoal do Arena, do
Oficina. Fazíamos reuniões em teatros lotados,
até cinco da manhã, discutindo os problemas,
como levar essa ou aquela peça. Essa resistência
do teatro brasileiro marcou muito a época.
79

Com a canção classificada no Festival Internacional da


Canção, 1968
80
Capítulo IX

Os amigos Plínio e Chico

O Plínio brincava comigo, dizia que eu era o


segurança dele. Num comício pelas Diretas, na
Praça da Sé, quando o governador Sodré foi
apedrejado, os artistas estavam todos lá. Eu via
que a coisa estava esquisita, percebia que não
havia policiamento, isso me chamou a atenção
e abri o olho do Plínio. O pessoal tinha acabado
81
de tomar o palanque, ele com megafone, o
governador e a comitiva saíram pelos fundos da
igreja. Disse que o melhor era ir embora. Ele
resolveu me ouvir e saímos pela Praça Clóvis
Bevilaqua, pegamos um táxi. O motorista ligou
o rádio e ouvimos que a polícia estava toda
disfarçada, tinha cercado a praça e desceram o
cacete. Por isso o Plínio dizia que eu tinha sido o
guru, o segurança dele. Só sei que escapamos
de uma boa. Fomos muito amigos, tínhamos
coisas em comum. Começamos juntos, fomos fi-
gurantes na mesma época.
Eu vindo do interior, ele também, teve experiên-
cia de circo como eu. Éramos da mesma turma
da Tupi, junto com o Valter Negrão, Adriano
Studart, Chico de Assis, mais pra frente o Otávio
Augusto, aquela turminha de farra que estava
começando na carreira.

Atuei como personagem principal da primeira


peça dele pra televisão, Réquiem para um
Tamborim. Era uma peça de malandragem
passada no morro, com o Hamilton Fernandes,
o Albertinho Limonta do Direito de Nascer.
82
Sempre que encontrava com ele, lembrava desse
tempo. O Plínio fazia shows, dava palestras, e
insistia muito pra eu fazer um espetáculo solo,
dizia que eu devia explorar meu lado ator com
mais garra. Eu não tinha coragem e de certa
forma foi ele que me incentivou.

Um dia pedi que escrevesse um texto pra eu


encenar. Tinha acabado de lançar um disco cai-
pira bonito chamado Longe de Casa, que a críti-
ca elogiou muito, foi o disco que me colocou
como intérprete e conhecedor de música caipi-
ra tradicional. Peguei um material, músicas que
ouvia quando criança e no disco quis reviver isso,
mostrar o que para mim era a música caipira de
verdade. O efeito foi fantástico, todo mundo
elogiou de forma muito positiva. Na época do
lançamento, pedi ao Plínio pra escrever um texto
contando um pouco da minha vida. Lembro que
fui na casa dele perto da Av. Nove de Julho pra
gente conversar. E ele escreveu Longe de Casa,
na Aldeia do Desconsolo, em três atos. Seria o
caipira longe de casa e a aldeia era São Paulo.
Nunca encenei, tenho o texto guardado até hoje.
83
Outro dia me deram a idéia de fazer um DVD
com ele, seria interessante, uma coisa inédita do
Plínio. Não posso esquecer das histórias que ele
contava no Som Brasil.

Junto com a “revolução” e minha iniciação no


teatro, quando me joguei de cabeça na arte de
representar, outro fato marcante foi o encon-
tro e a amizade com o Chico Buarque de
Holanda. Nos conhecemos em 1966, ele também
começando na música, e em 67, começo do na-
moro com a Marieta Severo.
Eles iam assistir a meus espetáculos. Em 67 eu
fazia a peça Oh, que Delícia de Guerra, no Tea-
tro Bela Vista, onde hoje é o Teatro Sergio Car-
doso. Ele ficava brincando comigo da platéia,
umas brincadeiras que só a gente conhecia, uma
espécie de códigos engraçados. Lembro dele
com muito carinho, muita saudade. Existe uma
ligação forte entre nós. Perdi o contato com o
Chico faz uns anos. Fomos muito próximos.
Ouvi em primeira audição A Banda, no violão, o
Chico cantou pra mim na casa dele. Quando foi
levar a partitura original pra inscrever no
84
festival da TV Record e fui junto, ele esqueceu
no meu carro e guardei. Por curiosidade,
publiquei no meu livro.

O Chico também foi a platéia dos meus


primeiros sambas. Quando fiz meu primeiro
long-play, disco grandão, como prefiro chamar,
O Cantadô, pedi a ele uma apresentação e ele
escreveu atrás. Regravei várias músicas suas: Ca-
çada, Minha História, versão primorosa dele de
Jesu Bambino, do compositor italiano Dalla
Pallotino. Fiz uma versão caipira. A peça Os
Inimigos, que foi a minha estréia no teatro, foi
musicada pelo Chico. E aí ficamos amigos, en-
saiávamos, era todo dia junto. Quando a peça
estreou, saíamos diariamente, era difícil uma
noite não irmos para a Galeria Metrópole
encontrar outros amigos, como o Gilberto Gil.
Levei Gil ao Som Brasil, a gente vivia brincando.
Até hoje canto Procissão nos meus shows, sou
fã dele, tem composições primorosas, cheias de
imagens. Domingo no Parque daria um filme, a
meu ver, com aquele arranjo do Rogério Duprat.
Com Gilberto Gil, no Som Brasil
85
No Festival da Viola, que o Fernando Faro fez
na Tupi, coloquei uma música chamada A Mi-
nha Moda, com um arranjo do Duprat, eu e mi-
nha mulher Lurdinha ganhamos o festival com
ela. O Rogério estava na moda, revolucionou a
forma de fazer arranjos musicais, e eu tive a
felicidade de contar com ele. Cantávamos muito
naquelas noitadas, o Chico e eu, ficávamos até
cinco da manhã, um fazendo umas musiquinhas,
uns versinhos pro outro. Lembro que a gente
apostava pra saber quem conhecia mais os
sambas do Noel Rosa. Pra quem perdesse, uma
86
rodada de conhaque Dreher. Das brincadeiras
musicais com o Chico lembro dessa:

Eu Você ganhou
no jogo do riso
mas saiu perdendo
Chico A sua hora certa
o seu amor preciso
Eu fiquei devendo
Eu Quem deve e não paga
a um amor que se ganha
chorando e sofrendo.
Chico Tem a qualidade
de sentir saudade,
Sem estar morrendo.

Foi uma época e tanto. Participei do Festival


Internacional da Canção com um samba, Onde
Anda Iolanda. No FIC de 1969 apresentei a
música Porta 33. Eu cantava samba. Nunca
pensei que fosse fazer tantos discos como tenho
hoje. O Chico também era assim, nunca
imaginaria se tornar o grande intérprete. Ele
tinha uma voz pequena, se inspirou no Noel
87
Rosa, João Gilberto, mas gostava muito de com-
por, tanto que quem defendeu A Banda no fes-
tival foi a Nara Leão. Mas ele começou a cantar,
a ser aceito, não sei se estudou canto, mas hoje
é um excelente intérprete. Eu também não pen-
sava em ser cantor, gostava de compor, mostra-
va umas musiquinhas meio acanhado.
E vejo que hoje tenho umas 200 obras gravadas,
desde moda de viola até partido-alto, samba de
breque, marcha-rancho, baião, canções.
88
Capítulo X

Experiência e prazer

O teatro sempre pagou pouco, a televisão mui-


to mais. Se você ganhasse, na época, por exem-
plo, 2 mil reais, o teatro oferecia 300, por aí. A
gente sempre faz por amor, idealismo, sonho.
Tem os que, além de atuar, produzem a própria
peça, então ganham um pouco mais, mas como
ator é difícil ganhar muito. Dá pra sobreviver,
89
ainda mais no Brasil. Fiz teatro, principalmente,
pela experiência e pelo prazer.

Gostei de tudo que fiz em teatro. O que Vamos


Fazer esta Noite? uma peça argentina do Carlos
Gorostiza, cujo nome original era Os Próximos,
foi um trabalho muito bom, de integração en-
tre os atores, eu, a Lilian Lemmertz, Antonio
Petrin, Telma Reston. Foi apresentada no Tea-
tro de Arena e tratava da omissão. Uma família
dentro de um apartamento presenciando a vio-
lência de um homem matando a mulher, a aman-
te, embaixo do prédio. Todo mundo assistindo
e ninguém fazendo nada. Então a peça tratava
dessa omissão do ser humano, as pessoas fica-
vam comentando: Olha lá, parece que agora ele
tá batendo nela mais, o cara é louco, tem que
chamar a polícia!, mas ninguém decide. Isso
acontece muito no Brasil, às vezes, atropelamen-
to, o cara cai na rua e ficam dez pessoas olhan-
do e ninguém faz nada. Briga, um cara queren-
do bater no outro, ninguém toma as dores de
ninguém. Existe uma omissão mesmo, clara,
olham o que é, mas ninguém toma atitude.
90

Uma vez briguei com uma mulher na rua, “bri-


guei” é força de expressão. Vi essa mulher ba-
tendo numa criança, filho dela, mas com tanta
violência, que não pude deixar de me meter. Ela
disse: Mas ele é meu filho, e eu respondi: A se-
nhora é uma covarde, é seu filho mas isso não
lhe dá o direito de bater numa criança que não
pode se defender, pare de bater nele, senão vou
bater na senhora. Ela parou de bater, juntou
gente, fiquei nervoso. Isso existe no Brasil.
Antigamente, achavam natural um pai dando
uns tapas no filho; eu não acho, um marmanjo
pegar uma criança e dar tapa na cara, uns
pescoções, não pode. Já apanhei muito do meu
pai, mas eu também era contra, nunca achei cer-
to ele bater porque não adiantava nada, o que
ele não queria que eu fizesse e me batia pra não
fazer, acabei fazendo do mesmo jeito, que era
fumar; apanhava porque ele me pegava fuman-
do escondido. Uma vez ele fez um irmão meu
engolir um maço de cigarro, mastigar e engolir,
depois ele vomitou, passou mal, e meu irmão
91
fumou até o fim da vida, morreu com úlcera.
Quer dizer, não é por aí, sou contra a violência.
E essa peça era sobre a omissão. Como tudo se
passava dentro do apartamento, uma morosi-
dade, só se olhava, não se via a mulher, não ti-
nha muita ação presente, a peça não despertou
interesse, não era comédia.

Tenho uma posição bem minha sobre isso: o


público de teatro ou quer rir muito ou quer cho-
rar, pensar não quer. Infelizmente. Se você faz
uma peça pra pensar, está fadada ao fracasso.
Está aí a prova do sucesso do Juca de Oliveira, que
faz peça com motivo político, mas sempre carre-
gando no humor, pois através do humor se passa
a mensagem, se não fizer o pessoal rir, ele não
assiste, o brasileiro não tem muito o hábito de
pensar, de ler, é preciso estimular para ele ler. Te-
mos uma literatura maravilhosa, mas se pergun-
tar a um jovem se conhece Jorge Amado, por
exemplo, ele não sabe quem é. Muitos só foram
conhecer o Jorge Amado depois das novelas da
Globo. E essa peça argentina foi um fracasso.

92
Como o filme Doramundo, o qual, embora te-
nha sido premiado, não despertou interesse do
grande público, porque é um filme político, sem
nenhum ingrediente fantasioso ou humorístico,
um filme feito só pra pensar, uma denúncia da
polícia violenta que o João Batista de Andrade
sempre procurou mostrar nos seus filmes. Mas
isso não tinha um apelo. Vendo os filmes do Cacá
Diegues, a gente observa como ele bota uma
embalagem até internacional, ele joga com ou-
tros elementos, porque se joga só pra pensar,
não acontece.
A Feira Paulista de Opinião considero um dos
trabalhos mais marcantes. Uma excelente idéia
do Boal de apresentar um painel dos autores
mais importantes de São Paulo na época: Bráulio
Pedroso, Lauro César Muniz, Guarnieri, Jorge
Andrade. O Boal pegou esses dramaturgos, e
também compositores que representavam o
Brasil nesse momento, como Chico Buarque,
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sergio Ricardo, e
alinhavou com música o espetáculo.

Os atores se revezavam, participavam de quase


93
todas as peças. Tinha uma do Guarniei em que
todo mundo fazia o Guevara. Um ator colocava
a boina, dizia um trecho do discurso dele, tirava
a boina, colocava em outro ator que passava a
ser o Guevara e assim ia, era uma brincadeira
de coringa, um exercício muito interessante. A
peça tinha uma linha política forte, foi proibida
pela censura, fizemos à revelia. Foi uma expe-
riência muito boa.
94
Capítulo XI

Diretores e diretores

Nunca sofri influência de diretores, sempre se-


gui uma diretriz própria, uma linha espontânea.
Não digo que é algo inexplicável, sou kardecista
e acho que pra tudo tem explicação, mas era
uma coisa estranha, muito minha, eu recusava
fazer um papel se percebesse que não batia com
minha cabeça, nunca fazia nada contra minha
95
vontade.

Tenho saudosas lembranças de diretores mara-


vilhosos de novela e teatro. O José Celso
Martinez Corrêa sempre foi uma figura elétri-
ca, agitada. Incrível como diretor, mas sempre
agitado, eufórico nas explicações. Foi meu pri-
meiro contato com um diretor de teatro. Lem-
bro desse meu trabalho, cenário do Flávio Im-
pério. O método dele era stanilavsquiano, usa-
do até pelo Marlon Brando, Montgomery Clift,
e o assessor era o Eugênio Kusnet.
O Eugênio costumava levar cada ator para uma
sala e fazê-lo dizer o texto, dialogava com ele
pra ver se estava entendendo o método. Comi-
go não teve dificuldade. Quando ele me cha-
mou pra fazer esse exercício e eu falei o texto,
ele disse com aquele sotaque: Non, non tenho
nada que falar, tá perfeito, perfeito. E achei que
estava perfeito mesmo.

O Boal era diferente do Zé Celso. Embora os dois


fizessem um teatro revolucionário, cada um tinha
um jeito de dirigir. O Boal, mais naturalista, o Zé
96
Celso mais dramático, meio anárquico. Me
identifiquei mais com o Boal, fiz várias peças com
ele. Não trabalhei com o Antunes Filho, assisti
umas duas peças, conhecia o estilo dele, é
completamente diferente desses outros diretores.
Quando falo nele lembro de uma brincadeira. Ele
já me conhecia e me procurou, acho que queria
me convidar pra uma comédia. Falou assim: Você
sabe fazer graça também? Eu respondi: Não, eu
sou meio sem graça. Ele levou na brincadeira
também e ficou por isso mesmo. Chegamos a bater
papo outras vezes, mas nunca recebi convite.
Tive uma experiência interessante com o Flávio
Rangel. Em 1973 estava na Record fazendo nove-
la e fui convidado pelo Perry Sales para substituir
um ator na peça Abelardo e Heloísa, que estava
no Teatro Paiol, um sucesso, espetáculo de três
horas de duração. Eu tinha uma semana de en-
saio para substituir o personagem. Teatro brasi-
leiro é sempre assim, os ensaios normais, pra peça
estrear, levam um mês e meio, dois, pra substitui-
ção era no grito, não sei se ainda é assim.

Entrei nessa, era um dinheirinho a mais e sem-


97
pre uma experiência legal. Assisti ao espetácu-
lo, vi o papel, o Perry disse que o Flavio Rangel
ia ensaiar comigo sempre depois da peça, da
meia-noite às duas da manhã. Então eu ia toda
noite no horário combinado e o Flávio não ia,
eu ensaiava com o Perry, que era o ator princi-
pal e produtor, com a Miriam Mehler – eram ca-
sados na época – e conhecia bem o persona-
gem. Mas o diretor não aparecia. No dia da es-
tréia, aparece o Flávio dizendo que vinha pra
ensaiar. Eu disse que não ia ensaiar com ele, o
Perry também me apoiou dizendo que eu iria
estrear assim mesmo, sem a direção dele. E as-
sim foi, estreei sem ser dirigido. Mas o Flávio
assistiu à peça, gostou, e depois veio me cum-
primentar dizendo que eu tinha me saído mui-
to bem sem ele e tal. Conto isso hoje como uma
passagem pitoresca, engraçada, aliás, tudo na
vida devia ser encarado dessa maneira, como um
causo pitoresco, porque levar a vida a sério é
bobagem, ela não é pra ser levada a sério.

Crimes Delicados, a última peça que fiz, teve


direção do Antonio Abujamra, estranhíssima na
98
época. Já tinha sido dirigido por ele em Roda
Cor de Roda, também com a Lilian e com a Irene
Ravache, foi uma comédia excelente, ficou um
bom tempo em cartaz e fez um sucessão. É a
história de um casal que arquiteta matar a empre-
gada. Achei que ele fez uma direção audaciosa,
pegou o Laerte Morroni para fazer a emprega-
da. Ficou uma comédia muito engraçada, uma
direção meio surrealista, achei legal.

Com Adhemar Guerra tive uma experiência


muito boa no musical Oh, Que Delícia de Guer-
ra, um musical inglês, uma crítica sobre a guerra
muito bem-humorada, com músicas protestan-
tes, toda feita em cima de músicas sacras mistu-
radas com sacanagens, brincadeiras, tudo pra
gozar a guerra. Tinha um verso assim: Acabada
essa guerra, não carrego mais fuzil/vou mandar
o general/para a puta que o pariu.

O Adhemar também fazia uma direção diferen-


te, estranhei um pouco porque vinha da televi-
são, onde a gente pegava um capítulo de nove-
la, decorava e fazia. No teatro não, e com essa
99
peça o Adhemar começou fazendo um relaxa-
mento com os atores. A gente tinha que deitar
no chão, ele ficava fazendo um relaxamento cor-
poral, mental, meu negócio era tomar um co-
nhaque e dar risada.

Nunca vi rivalidade entre o Arena e o Oficina,


os dois grupos tinham linhas diferentes de tra-
balho. Trabalhei com o Boal e com o Zé Celso,
eram grandes contestadores, pude perceber isso
na vivência. Estreei no Oficina com o Zé Celso e
em 68 fui fazer o Arena com o Boal e já notava
as diferenças entre os dois, cada um querendo
mostrar a realidade brasileira de um jeito parti-
cular. O Oficina com o Zé Celso, o Renato Borghi,
Etty Fraser, o Kusnet, o método Stanislavski, e o
Arena já na linha do Guarnieri, depois fizeram
shows.

O Boal dirigiu um show com o Ary Toledo, que só


existe hoje como humorista por causa disso. Ele
era ator do grupo. Inclusive, pouca gente sabe que
a música O Comedor de Gilete, que foi feita para
esse show com o Ary Toledo, é do Vinicius de
100
Morais e do Carlinhos Lira. É uma música gozativa,
o Ary gravou, fez sucesso, e como ele contava
piadas, o Boal montou o espetáculo com ele, que
estourou, ficou três, quatro anos em cartaz no
Arena. A gente brincava dizendo que ficou esse
tempo todo porque o Arena é pequenininho,
lotava todo dia.

Chiclete com Banana, por exemplo, foi um


espetáculo que o Boal fez em cima de uma idéia
minha. Existe uma música do Gordurinha com
esse nome, gravação do Jackson do Pandeiro:
Só boto bi-bop no meu samba quando o Tio Sam
pegar o tamborim... Falei da música pro Boal,
de que ele poderia mostrar a grande influência
da música americana na nossa. Ele gostou da
idéia e fez o Chiclete com Banana no Arena, com
Beto Rushel; um sambista, acho que o Arnaldo
Batista; mais uns cinco atores, não lembro o
nome dos outros. Ainda tenho o long-play do
espetáculo. O Arena fazia essas experiências, já
o Oficina fazia montagens arrojadas, com
aqueles cenários do Flávio Império. Então, eram
linhas diferentes, não havia rivalidade. No final
101
das contas, é como disse uma vez o Chico Xavier,
quando perguntaram o que ele achava do
comunismo, socialismo, dos países democratas,
da guerra fria da Rússia com o mundo ociden-
tal, os EUA. Ele dizia que eles estavam indo num
túnel, um entrou de um lado, outro de outro,
vão se encontrar no meio.

Tanto no teatro como na televisão, entrei com


a cara e a coragem, com o que tinha de intuitivo.
Acho que o ator gosta de fazer teatro porque
se sente vivo, o contato com o público é direto,
já com a televisão é máquina. Tenho muita von-
tade de voltar a fazer teatro, um personagem
bom, tenho até idéias sobre isso. Há pouco tem-
po falei com o Lauro César Muniz sobre a hipó-
tese de uma adaptação pra teatro de um livro
do Catulo da Paixão Cearense, Um Boêmio no
Céu. É uma peça rimada, conta a história de um
boêmio que morre, vai pro céu e dialoga com
São Pedro em versos, muito bonito.

Gostaria também de fazer uma comédia, gosto


muito do gênero. Seria legal uma temporada de
102
quinta a domingo ou de segunda a quinta, aí
poderia conciliar com meus shows. O Juca de
Oliveira, que sempre tem idéias boas, uma vez
disse que o sonho dele era escrever uma peça
envolvendo nós dois nesse universo caipira. Até
me animei, vamos ver ano que vem, se eu estiver
com gás. A vontade de atuar novamente é gran-
de, me emociona estar no palco, o ritual me fas-
cina desde criança. Tenho vontade até de esti-
mular o pessoal da Granja Viana a trazer peças,
tem um teatrinho legal aqui, precisa movimen-
tar. O pessoal fica por aqui, não vai a São Paulo
porque é longe, tem o trânsito, é difícil estacio-
nar, sei lá. Precisa ser um programa, que geral-
mente sai caro.

Mas eu costumo ir ao teatro. Vi essa peça


Primeira Pessoa com a Vivinha (Eva Wilma). Foi
uma grande alegria ver ela de novo, com toda a
corda, fazendo um espetáculo bonito sobre o
Zara (Carlos Zara), que foi meu amigo, irmão,
devo muito a ele, vi o começo do namoro dos
dois, durante a novela Mulheres de Areia.

103
104
Capítulo XII

Cinema, o melhor prêmio.

O cinema pra mim foi uma coisa inesperada e


que me deu muita alegria, porque vivia
praticamente de teatro e televisão. Mas não
estranhei fazer, fiz com a maior tranquilidade,
como se fosse uma externa de televisão, o
processo na minha cabeça era quase o mesmo.
105
O personagem Pereira, que fiz em Doramundo,
cresceu e virou o protagonista, de acordo com o
diretor João Batista de Andrade, que teve de
botar meu nome em primeiro lugar nos crédi-
tos. Era um triângulo amoroso, eu um ferroviá-
rio, a Irene Ravache fazia a minha esposa e o
Antonio Fagundes o amante. Foi uma experiên-
cia muito positiva, teve muita repercussão e o
papel me deu o prêmio de melhor ator da APCA.

Doramundo não foi um filme popularesco, não


fez sucesso de público, foi considerado filme de
arte. Era uma história de cunho político, passa-
da em 1938, quando tinha aquela ferrovia San-
tos-Jundiaí, que levava o café para o porto de
Santos. Se passa numa vila onde só moravam
ferroviários, Paranapiacaba, perto de Ribeirão
Pires, na descida da serra. É uma cidade estranha,
tem um nevoeiro constante, uma torre, lembra
aquelas cidadezinhas da Europa, fria, nebulosa.

E começaram a acontecer uns crimes misterio-


sos. Participavam muitos casais. O Raimundo, o
Fagundes, era solteiro, e as investigações da
106
polícia apontavam a possibilidade de aqueles
crimes serem políticos ou por rivalidade entre
os casados e os solteiros. O filme era pesado, mas
muito bonito. A fotografia também ganhou prê-
mio. Idem a direção. Foi premiado fora do Bra-
sil, na Espanha, e aqui concorreu no Festival de
Gramado.

Foi uma experiência maravilhosa porque estreei


no cinema e já fui ganhando o prêmio de melhor
ator, a surpresa foi grande.
Gosto de ir fundo nas coisas que faço, e quando
vi que estava diante da oportunidade de fazer
cinema, resolvi entrar de cabeça. Passei uma
semana convivendo com os ferroviários,
observando, sentindo o jeito deles viverem. É
trabalho de ator mesmo, se tivesse que viver um
débil mental, ia passar uma semana no hospício
pra ver como funciona. Recebi um figurino para
o personagem, roupa nova, coturnos, a calça
nova, de brim, um paletó. Uma semana antes
fui trocando com as roupas usadas dos ferroviá-
rios, troquei a botina, as calças, jogava bilhar e
107
tomava pinga com cambuci, a ponto de não sa-
berem quem eu era.

Quando começaram as filmagens, eu já estava


com a roupa toda de um deles, até as marcas de
suor. Deixei a barba por fazer uma semana,
duas, ficou um personagem sujo, barbudo, co-
mia o bife com a mão, que era muito comum no
interior. Peguei um pouco o jeito do meu pai,
mecânico de oficina. Senti bem o ferroviário, um
personagem humano, legal de fazer. Quando
descobre que está sendo traído pela mulher é
um choque, toma um fogo num bar, chora e
desabafa com o dono, papel feito pelo Felipe
Danovan. A cena é uma coisa bem do interior, o
sujeito fica sozinho bebendo até três horas da
manhã, falando e chorando. Aí foi preso,
apanhou, o delegado da investigação era
Armando Bogus, que me batia de verdade na
cara. Eu até escrevi na foto dessa cena: Um dia
você me paga!.

Na televisão, tinha uns atores que judiavam da


gente de verdade. No começo de carreira, na
108
Tupi, fiz muita figuração em programas de
aventura. Tinha um, Falcão Negro, estrelado
pelo José Parisi. Era ao vivo, não tinha ainda o
videotape. E o Parisi batia de verdade, todo dia
tinha um, dois indo pro hospital de ambulância.
Ele era meio grosso, violento, marcava uma
briga e era pra valer. Teve fatos curiosíssimos.
Uma vez ele pegou um cara meio louco, machu-
cou feio, e, em cena, o cara revidou, partiu pro
pau e começou a ganhar do mocinho. E no chão,
o cara em cima dando porrada, o Falcão Negro
falou: “Sai daí, rapaz, eu sou o mocinho. Você é
o mocinho?”, disse o figurante, então quero ver
você sair daí agora. Precisaram de uns dez pra
tirar o cara de cima, a estação saiu do ar, coloca-
ram só uma musiquinha.

O Doramundo foi uma atuação com muito


realismo: o Bogus, o Fagundes, a Irene, todos
estavam excelentes. Curioso é que depois não
recebi mais convites pra fazer outros papéis
como esse, recebi para umas bobagens que nem
considerei. Fui convidado pra fazer um papel
pequeno em Marvada Carne e outros parecidos,
109
não fiz, não ficava bem ter ganho prêmio de
melhor ator em Doramundo e logo depois fazer
uma pontinha, não interessava. Vinte anos
depois, o João Batista me convidou pra fazer O
Tronco. Pra brincar com ele, fazer gozação,
contei uma piada que é assim:
- Dois compadres moravam há 20 anos de pare-
de-e-meia (casas em que a mesma parede serve
pras duas), as duas portas bem pertinho uma da
outra. Mesmo morando um grudado no outro,
só se cumprimentavam na rua, nenhum nunca
tinha visitado o outro, eram dois caboclos esqui-
sitos. Um dia, um deles resolve visitar o compa-
dre, era só virar o corpo, e bateu na porta, o
outro atendeu.
- Vim fazer uma visita pro senhor.
O homem ficou contentíssimo.
- Vamo entrar, compadre. Maria, olha quem tá
aqui, o compadre veio visitar nóis.
Aí já fizeram bolinho, tocaram violão e
cantaram, botaram a conversa em dia. Depois
de umas quatro, cinco horas de prosa e cantoria,
o compadre resolveu se despedir e foi embora.
Virou de novo o corpo e entrou em casa. Ficou
110
mais 20 anos sem visitar o vizinho. Depois de 20
anos, resolveu visitar o compadre outra vez.
Virou o corpo, bateu na porta; o outro, quando
abriu a porta e viu quem era, perguntou:
- O compadre esqueceu alguma coisa?

Com o João Batista foi mais ou menos parecido.


Quando ele me convidou pra fazer O Tronco,
perguntei: “João, depois de 20 anos, você me
convida pra fazer outro filme, esqueceu alguma
coisa?”.
Mas valeu porque fiz, nesse filme, outro perso-
nagem completamente diferente, um
coronelzão. Era história de época também,
passada nas terras dos coronéis de Goiás,
aquelas brigas por terra, com política no meio,
que o João gosta de fazer, baseada no texto de
um escritor goiano. Eu fiz um coronelzão
barbudo, dono de fazenda e na história tudo
gira em torno dele. Aí ganhei o prêmio de
melhor ator coadjuvante do Festival de Brasília,
o Candango. Então, essas duas experiências no
cinema no intervalo de 20 anos foram muito
111
importantes. Espero que daqui a mais 20 anos
me convidem pra fazer um velhinho, aí ganho
outro prêmio.

Há pouco tempo uma produtora da Globo me


consultou se eu queria fazer uma novela dirigida
pelo Jayme Monjardim, eu respondi que não
queria mais fazer novela. Ela disse em seguida
que o Jaime vai fazer um longa e perguntou se
um longa eu faria, eu disse que um longa, sim.

Cinema é fascinante.
Na época em que a Tupi fazia uns especiais, eu
fiz um do Chico de Assis em preto-e-branco cha-
mado Billiziquidi, de duas horas; tenho esse tape
e estou querendo passar pra DVD, como se fos-
se cinema, o original está na Cinemateca e te-
nho uma cópia.

Quando a televisão fazia teatro, era puro cine-


ma. Teve uma época em que o cinema brasileiro
ficou banal, primeiro teve o tempo das chan-
chadas, o Oscarito, Grande Otelo, depois veio o
cinema apelativo, muita gente achava que o
112
negócio era fazer muitos filmes, mesmo que
fossem de má qualidade. Acho que não. Acom-
panhei outro dia pelos jornais uma discussão
sobre leis de incentivo e uns cineastas falavam
sobre isso, que hoje os filmes são feitos com se-
riedade, com mais tecnologia, mais empenho e
com qualidade até de exportação. A gente vê
que o cinema brasileiro caminhou muito, do tem-
po da Atlântida pra cá. Aquilo era brincadeira,
virou clássico, mas era uma coisa bem primária,
enquanto o americano já fazia grandes produ-
ções.
Capítulo XIII

Finas misturas

Sempre tive esse lado musical aflorado, e ele foi


desabrochando com a televisão, mas esperei a
época. Só nos anos 60 é que consegui alguma
repercussão no meio musical. Em 60, 61, gravei
o primeiro disco como compositor. Tinha casa-
do com a cantora Lurdinha Pereira, somos casa-
dos até hoje, era o primeiro disco dela, e tinha
113
uma música minha e do Geraldo Vietri, um sam-
ba, Papéis Velhos. Ela gravou outra música mi-
nha, um maxixe, o diretor pediu pra eu cantar
um verso, cantei, ele gostou e fui lançado como
cantor. Aí fui mostrando outras coisas, e o pes-
soal foi me conhecendo aos poucos. Participei
do Festival Internacional da Canção, o FIC, com
Os Titulares do Ritmo, em 1968, com um samba,
Onde Anda Iolanda.

Só cantava samba. Nessa época surgiu o Chico


Buarque, ficamos amigos, fazíamos espetáculos
de teatro juntos, umas músicas de violão que
botávamos nos festivais da vida. E fui gravando
meus compactos, até aparecer o primeiro long-
play, O Cantador, em 1970, a contracapa assi-
nada pelo Chico. A partir dele desenvolvi um
trabalho musical grande. No quarto disco, quis
fazer um trabalho de reminiscência, de retina,
lá de Guaíra da minha infância. E gravei os clás-
sicos caipiras, no long-play Longe de Casa. O dis-
co recebeu elogios dos melhores críticos musi-
cais do Brasil, até o Pasquim falou bem dele e
me vi colocado de fato no mercado fonográfico.
114
Daí pra frente o público me via mais como cai-
pira e fui desenvolvendo outros trabalhos nes-
sa linha. Acabei gravando umas 250 obras.

Na temporada da peça Crimes Delicados, com a


Cacilda Lanusa, o Laerte Morrone e direção do
Abujamra, viajamos pra Santa Maria da Boca do
Monte, no Rio Grande do Sul. Como eu canta-
va, quando propuseram levar a peça, eu disse
que só ia se comprassem meu show também. E
compraram para um clube, depois do espetácu-
lo. Quando terminou, lá pras 11 da noite, fui
fazer o show, e foi ótimo, ganhei mais uns tro-
cados, o Abujamra gravou o show inteiro, te-
nho as fitas até hoje, aqueles rolos antigos.

Sempre associava meu trabalho musical com o


teatro, a televisão. Na temporada dessa peça em
São Paulo, gravei o disco mais importante e belo
da minha carreira, uma antologia da música
caipira tradicional das décadas de 40 e 50, tempo
em que vivia em Guaíra. Saía do Teatro Augusta
à meia-noite, cansado, a garganta a mil, e ia pro
estúdio da Gravodisc.
115

A idéia do programa Som Brasil me acom-


panhava há muito tempo. Desde menino tinha
fascínio e curiosidade pelas coisas do Brasil. Lia
Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Jorge Ama-
do, Câmara Cascudo, ouvia Noel Rosa, Almiran-
te, Lupicínio Rodrigues, Ari Barroso, Assis Va-
lente.

O programa era o maior ibope do horário. Foi


uma experiência muito boa, de auditório. Em
Bauru teve padre que mudou a hora da missa
pra não sofrer a concorrência. Deixei a Globo
porque ela não quis que o programa entrasse
também no horário noturno, eles só me viam
como um preenchedor daquele espaço, uma
espécie de caipira de luxo. Talvez até por
preconceito contra a música brasileira.

Eu levava o teatro pro palco. Levei Na Carreira


do Divino, do Soffredini, com a Eliane Giardini,
um sucesso danado. A Eliane fez uma cena que
foi pro ar. Levei a Walderez de Barros, mulher
do Plínio Marcos, pra interpretar um texto,
116
convidei o Otávio Augusto pra declamar comigo
um poema caipira. Eu usava o conhecimento de
ator, a dinâmica do teatro e envolvia os artistas
no programa. Levava repentista, fazia ele cantar
no meio do povo.

Foi um musical completamente diferente na te-


levisão, quase uma ópera, ele veio teatralizar
a música, a cultura popular. Era diferenciado, e
só fez sucesso por causa disso. Nos três anos na
Globo, tive autonomia total, nunca houve em-
pecilho ou alguém dizendo que devia ser as-
No Som Brasil, com Massin Filho e Brioso (acima) e Fafá de 117
Belém (abaixo)
sim ou assado, foi do jeito que eu imaginei. Foi
bonito ver que o que eu fazia estava dando cer-
to, dava ibope. Faz 20 anos que saiu do ar e até
hoje está na história da televisão.

Eu sempre dirigi meus shows. Sem querer ser


centralizador, acabo sendo o diretor, faço as
marcações, tenho o conceito das cenas, o roteiro,
tudo na cabeça. Mas dou sempre ênfase para o
convidado.

A direção da Globo achava que eu devia cantar


118
mais, eu dizia que não era o Moacir Franco. Me
considero um meio para que os artistas se
apresentem, eles é que são importantes no
programa. Nunca fui de entrevistar, nem sei, não
sou um Jô Soares. Eu fazia um gancho pro artista
sobre o que ele ia cantar, mas deixava ele à von-
tade pra falar o que quisesse. Fiz assim com o
Herivelto Martins. Não sabia o que fazer com
ele, e de repente descobri que ele declamava
poesia caipira. Disse pra abrirem a câmera no
rosto do Herivelto, e como ele tinha um nome
que usava no circo, Zé Catinga, coloquei esse
No Som Brasil, com Colé (acima) e Umberto Magnani (abaixo) 119
nome na legenda abaixo do rosto, a data e a
referência ao circo. E ele declamou o poema
como esse personagem, depois cantava. Eu cria-
va algo sem que fosse esse tipo de entrevista
mais comum. Abri meu primeiro programa di-
zendo que não era um apresentador, era sim-
plesmente um contador de causos, de histórias
de tipos brasileiros.

O Som Brasil foi inspirado num programa de


rádio da Tupi onde se apresentava o poeta e
também ator Lulu Benencase, da cidade de
120
Americana. Lulu foi um dos primeiros a
promover a poesia caipira falada, declamada. Ele
fazia um personagem chamado Juca, o poeta
do sertão. O Homero Silva, radialista, deputado,
apresentava o Lulu que declamava um poema
caipira de fazer o público em casa chorar. Inspi-
rado no Lulu, eu abria o programa sempre com
um poema caipira bem apelativo. Mas declama-
va poemas de autores do Brasil inteiro, de caipi-
ras paulistas, nordestinos, gaúchos, goianos.
Adaptava contos. Por exemplo, criei um poema
caipira em cima de um conto do Rubem Braga,
No Som Brasil, com Moreira da Silva (acima) 121
grande cronista e contista, que se chamava Eu e
Bebu (de Belzebu). É a história de um caboclo
que fica um dia e uma noite com o demônio e
os dois se tornam amigos. Acho que o Rubem
escreveu isso pra mostrar esse lado obscuro que
todos nós temos, que é um demônio dentro da
gente. Carinhosamente ele me chamava de Zé
Capiau e eu chamava ele de Bebu. O Lulu que
me inspirou a fazer isso no programa. Morreu
moço, como eu costumo dizer, viajou fora do
combinado. Quando viajava, pedia pra eu de-
clamar no lugar dele.
122

Naquele tempo descobria nomes através de


fitinhas cassete que me enviavam de todo o
Brasil, ouvia tudo com o maior cuidado, escolhia
uma música e mandava chamar o artista.
Descobri gente que está aí no mercado e já tem
cinco, seis CDs gravados. Em Goiás, Goiânia,
Tocantins existiam grupos ligados a essa música
purinha, não sertaneja, música nossa mesmo. Eu
mandava gente minha buscar material, conhe-
cer quem cantava. Tinha um festival em Goiânia.
Uma dupla chamada Genésio Sampaio e
Juraildes da Cruz ganhava todos os concursos,
trouxe eles pro programa. Um deles mudou o
nome pra Genésio Tocantins. São dois excelen-
tes intérpretes da nossa música do interior, sem
ser sertaneja nem caipira, mas muito brasileira.

O que impera na nossa música é uma influência


descarada da música americana, mexicana,
paraguaia, agora, mais americana ainda. Vê-se
duplas sertanejas cantando uma miscelânea que
nem se entende. E a nossa música é tão rica...
Essa música aí que eu chamo de alto consumo,
123
as duplas famosas, isso não passa de uma música
romântica apelativa. Qualquer um desses que
canta na primeira voz pode ser comparado com
Roberto Carlos, que não é cantor sertanejo. Essas
duplas usam a denominação sertaneja pra
vender disco, não que enganem o público, mas
este pensa que é música sertaneja e consome.
Se gravar qualquer um deles sozinho, o que
sobra é um cantor romântico. Música brasileira
regionalista, do Sul, de Goiás, do Norte não tem
nada a ver com isso, tem características próprias
sem influência da música americana, mexicana,
é uma cantilena diferente. A gente ouve um
Elomar, é um clássico. E para retomar com gen-
te assim, teria que descobrir de novo, pesquisar
e ver esse pessoal se interessar e aparecer, deve
ter muitos por aí. Dos novos que eu conheço,
tem o Zeca Baleiro, o Chico César, posso citar
também o Lenine, que esteve no Som Brasil,
fazia dupla, era Lenine e Suzano. O Gil cantou
no meu programa, levei muita gente boa.
No Som Brasil, com Gilberto Gil

124
Uma vez comentaram que eu levava muito nor-
destino. Eu respondi que se formos ver na histó-
ria da nossa música, o que sobressai muito é a
nordestina. Grande parte dela é baiana. Come-
ça com Caymmi, João Gilberto e todos esses que
a gente conhece. Se formos falar de música bra-
sileira genuína, vai surgir sempre o Norte e o
Nordeste.

Não conheço uma música do Luiz Gonzaga que


não tenha sido sucesso. Convivi bastante com
ele. Nosso último contato foi num show em
125
Brasília pra arrecadar fundos pra casa que ele
tinha em Exu. Estava todo mundo, Chico,
Gonzaguinha, Dominguinhos e depois fomos
jantar num lugar bem simples, tomar uma
pinguinha. Já cantamos juntos, ele de alpercatas,
camisa floreada pra fora da calça e aquele cha-
péu de vaqueiro, sempre à vontade. Levei o
Jackson do Pandeiro numa das últimas apresen-
tações dele, em 1982. O Gordurinha, composi-
tor e intérprete nordestino, é maravilhoso.

Tem muita gente esquecida e é preciso fazer o


povo lembrar que existiram. A dupla Venâncio
e Corumba cantou no meu primeiro programa.
Fiz os dois reatarem amizade no palco, depois
de 12 anos separados. Colocava embaixo da
imagem: Venâncio e Corumba, juntos de novo.
Com Alvarenga e Ranchinho botava: Criação
imortal de Alvarenga e Ranchinho. É não deixar
morrer essas coisas da cultura, os nomes
esquecidos. Renovar é bom e precisa, mas
também não podemos esquecer os valores. O
Ranchinho, um grande talento, depois da morte
do parceiro, estava jogado fora.
126

Outro dia ouvi no rádio, por acaso, uma


entrevista do Orlando Dias. Ele pedindo pra ser
convidado pra cantar porque ainda está
cantando bem. E cantou um pedacinho. Pensei
comigo: se tivesse meu programa era um cara
que levaria pra fazer uma brincadeira. Orlando
Dias começou imitando Orlando Silva, por isso
o nome. Depois falaram pra ele que imitando
não ia adiantar, não iria fazer sucesso, não tinha
como imitar o maravilhoso Orlando Silva. Ele
então criou um jeito de cantar, de fazer uma
voltinha na voz e marcou o estilo. Ele se apre-
sentava se ajoelhando no chão, com um lenço,
e gritava: Minhas fãs! Minhas fãs! O Nelson Gon-
çalves também começou imitando Orlando Sil-
va, as primeiras gravações dele enganam qual-
quer um. Mas depois foi saindo fora, cantando
de outro jeito, senão não faria sucesso. O
Roberto Luna tinha um jeito de cantar jogando
o cabelo pra frente, agora não tem mais cabelo
pra jogar.

Costumo dizer que a única música que não se


127
deixa influenciar pelo estrangeiro é a
nordestina. A Elba Ramalho, por exemplo,
consegue ser uma cantora de sucesso cantando
baião. Ela não se vende e não se rende a
influências da música americana, inglesa, canta
música nordestina, tanto leve ou agitada, ven-
de muito.

No Brasil é muito forte a influência do que vem


de fora. A festa de Barretos, por exemplo, virou
internacional, é Nashville, basta observar as
vestimentas, cinturões, chapéus, toda a estrutu-
ra da festa. Antigamente havia influência da
música mexicana, o bolero, o tango, vendia mui-
to. Quando surgiu a guarânia paraguaia da fron-
teira, era uma febre. A música Índia é uma ver-
são do Zé Fortuna, Primeiro Amor. Tem uma que
chama Che Picazumi (Meu Pássaro, em tupi-
guarani), que virou Solidão, também na versão
do Zé Fortuna. O musical Som Brasil sempre es-
teve longe dessas influências, foi sempre pro
coração, pro miolo do Brasil, por isso trouxe essa
música do Norte, Nordeste, Sul, mesmo que fos-
se considerada cansativa. Lancei a dupla Caju e
128
Castanha, eram dois menininhos e foi sugestão
do Dominguinhos, disse que eu devia mostrar
uma dupla de garotos que cantavam nas feiras
de Pernambuco. Foi um sucesso, eles cantaram
meia hora sem parar, era um xingando o outro,
tive que cortar. Depois trouxe duas mulheres,
Lindalva e Terezinha, que cantavam na feira de
São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Eram bem feias,
mas tinham um talento, uma versatilidade pra
fazer repente de arrepiar. Também ficaram meia
hora cantando, uma xingando a outra, e todo
mundo rindo sem parar. Prevalecia muito o Nor-
te, o Nordeste, porque o Brasil é isso e temos
que mostrar.

Música sertaneja não existe, foi inventada. Como


o termo caipira tinha um significado pejorativo
para muitos, então criou-se novo termo. A mú-
sica caipira é a música do caboclo, purinha, sem
influência nenhuma. Essa música sertaneja de
alto consumo eu não considero música brasilei-
ra porque é produto de importação. As duplas
usam o rótulo sertanejo porque é muito popu-
lar: tiraram a denominação caipira, talvez, tam-
129
bém, por causa daquele retrato do Jeca Tatu,
aquela imagem de que caipira é analfabeto.

Então rotularam e vendem esse produto como


sertanejo, como se fosse uma coisa regionalista,
lá da roça, e isso é mentira. É música superin-
fluenciada pela de vários países, e rotularam de
sertanejo para vender discos e ficarem ricos.
Autêntico mesmo, só o João Pacífico, fazia mú-
sica com temas puros, cada obra-prima.
Não tenho muito contato com as duplas de su-
cesso porque fico afastado desse gênero. Mas
quando a gente se encontra, o tratamento é res-
peitoso, de admiração. Já fui assistir um show
do Chitãozinho e Xororó, esses dois meninos me
foram apresentados quando ainda eram garo-
tos para que eu os avaliasse. Há mais de 30 anos,
quando estava fazendo um trabalho de rádio
voltado para o caipira, o Geraldo Meireles me
pediu para avaliar os dois. Subi com eles para o
estúdio, eles cantaram, até dei uma música pra
que aprendessem, mas nunca cantaram. Quan-
do fui assistir ao show deles, a gente lembrou
disso, brincou, riu e tal.
130

Apresentei a dupla Milionário e Zé Rico no Som


Brasil. Nunca tive preconceito contra artista,
faço crítica ao trabalho que desempenham.
Acredito nesse pessoal como artista, todos têm
um potencial maravilhoso, são grandes intérpre-
tes. Só que pra faturar trabalham um produto
ruim, de péssimo gosto, e a mídia trabalha em
cima disso, a rádio trabalha, então eles vendem.
Geralmente, nessas duplas, quem faz a primei-
ra voz é bom cantor ou cantora, só que eles apro-
veitam a onda de dupla e dizem que cantam
sertanejo pra vender disco. Quando morre um,
ou a dupla se separa, o que faz a primeira voz
continua, como um Roberto Carlos, que canta
exatamente a música que eles cantam. Música
romântica.

Não estou em festivais nem na mídia, tenho um


grande trabalho fonográfico, mas não sou colo-
cado na música brasileira. Tenho verbete em
enciclopédia, mas não se ouve falar. A música
que divulgo é marginalizada, parece que não
faz parte da música popular brasileira porque
131
não é samba, e é samba também, faço samba,
gravei. Quando lançar o projeto Gavetas é que
o público vai perceber, tenho dois discos primo-
rosos de samba, pouca gente conhece. É que fi-
cou aquela coisa caipiresca, a mídia só explorou
isso e limitou meu universo. Mas sei que sou
único no que faço, essa coisa de misturar tudo.
Sempre fui ator, cantador, compositor, plantei
árvore... É que não estou aí na mídia, não sei
plantar notícia.
132

São Joaquim, bodas de ouro dos pais Amadeu e Alzira, 1972


Capítulo XIV

Acredita quem quer

De alguns anos para cá me tornei kardecista.


Antes eu era bem materialista. Falando nisso,
quero lembrar que meu pai seu Amadeo era
herege, ateu descrente de Deus. Diferente da
minha mãe dona Alzira, que era até rezadeira.
Rezava pros 12 filhos, bisnetos, parentes,
vizinhos, amigos. Fiquei sabendo que ela andava
133
rezando até pro Cid Moreira, repórter da Globo.
Aí, perguntei por que ela rezava pra ele, se nem
conhecia pessoalmente. E ela emendou naquela
bondade e compreensão filosófica que só quem
é puro sabe: Se ele trabalha na televisão, deve
de precisar de muita reza. Concordei no ato.

Comecei a ler os livros do Kardec como quem


não quer nada e passei a aceitar essa filosofia
espírita, mas não freqüento centros, gosto
mesmo é de ler. Tornei-me uma pessoa
interessada em conhecer esse outro lado através
de várias filosofias, sou curioso, e fiquei muito
voltado ao kardecismo. Acredito na outra vida,
no lado místico, mas sempre com o pé no chão,
e vejo que isso faz parte do meu caminho, da
minha vida. De certa forma explica a razão de
eu estar aqui.

Por conta do espiritismo e do kardecismo, tive


umas experiências que envolveram o nome do
Cornélio Pires, de quem já falei no começo.
Estava fazendo o espetáculo Paia Assada, no
Teatro Paiol, e um dia uma senhora me esperou
134
no final, disse que era vidente e me falou uma
coisa muito bonita. Acredite quem quiser, quem
não acredita, paciência, eu acredito. Ela disse
que viu sentado no palco, me assistindo, me
apoiando, o Cornélio Pires. Outra vez foi quando
fui homenageado na cidade de Tietê, terra natal
dele. Recebi um troféu da Semana Cornélio Pi-
res, por promover seu trabalho e sempre me re-
ferir a ele e tal. Quando acabou a solenidade,
uma pessoa que estava no auditório me abordou
e falou que viu o Cornélio do meu lado.
A outra história é que foi incrível. Estava indo
pra São Joaquim da Barra visitar minha mãe,
dirigindo um Landau hidramático, sozinho. Na
volta, saindo da Rodovia Anhangüera, peguei
uma estradinha pra Piracicaba, cortando por
dentro, pra sair no sítio que eu tinha em Porto
Feliz, perto de Tietê. Era mais ou menos meia-
noite, eu tinha tomado umas pingas, umas
bebidinhas com meus parentes e vinha todo
alegre, mas acho que correndo muito. De
repente, todas as luzes do carro se apagaram,
pifou tudo. Me apavorei. E comecei a procurar
135
o breque, fui brecando, brecando, quando bre-
quei de vez, os faróis voltaram a funcionar.

Bem na minha frente tinha uma tabuleta onde


se lia Rodovia Cornélio Pires. Tomei aquilo como
um aviso para não correr tanto. Mas como
também não sou nenhum bobão de achar que
tudo é espiritual – podia ser uma baita coinci-
dência – e como a luz tinha voltado, disse que se
fosse mesmo um aviso, que a luz se apagasse
naquele instante. E ela apagou e acendeu.
Aí fui embora a 20 km por hora, o rádio ligado e
agradecendo a proteção. Achei que podia ter
sido mesmo o espírito do queridíssimo Cornélio
Pires, ou de alguém, de um anjo da guarda, me
alertando pra maneirar mais na direção. Gosto
de contar isso, é uma coisa bonita e ligada ao
meu trabalho, sinal de que tenho uma grande
proteção dentro desse universo. Tanto que eu
andava parado, querendo só fazer um show aqui
e ali, e o ano passado me veio um estímulo
danado, montei o escritório e retomei os
projetos. Enquanto tiver gás, tenho mais é que
136
fazer as coisas que gosto. E como estou ainda
muito mocinho, só 68 anos, tenho bastante
estrada pra percorrer.
Capítulo XV

Abrindo gavetas

O Brasil é a mistura mais maravilhosa da Terra.


Estou lançando no mercado agora uma
“gaveta” com 100 obras. São dois CDs de sambas
antológicos que eu canto, e quatro ou cinco de
músicas caipiras clássicas, um CD de poemas que
eu declamava nos programas de televisão, um
DVD onde conto a história dos musicais que eu
137
fiz na televisão, mas com tudo já gravado, tirado
da gaveta. A Globo cedeu os tapes do Som Brasil,
a SBT, a Bandeirantes, a CNT também. Estou
fazendo um alinhavo, como se fosse o contador,
o narrador da história, pra não deixar perder
essa idéia, a imagem desses programas.

Tem a gaveta com oito CDs, um livro chamado


Causos de Gaveta e uma idéia de um
programinha de rádio. Todo esse trabalho
fonográfico e o de vídeo resumo como um tra-
balho de ator.
Estou fazendo um DVD contando a história dos
meus programas de televisão, dessa minha vi-
são da cultura popular através da música, poe-
sia, literatura, expressões culturais brasileiras as
mais puras possíveis. Isso que eu persigo desde
garoto. É um alinhavo dos programas Som Bra-
sil (TV Globo –1981/ 82/ 83), Empório Brasileiro
(TV Bandeirantes – 1984), Empório Brasil (SBT–
1989), Estação Brasil (CNT–1994).

Esses quatro programas eram sempre dentro da


mesma idéia, só mudava o título, porque este
138
fica sendo propriedade da emissora. Percebo
que um dia fui encarregado de tomar conta de
um certo tipo de cultura, de expressões culturais
do nosso País. Esse tomar conta é em relação à
natureza, Deus me encarregou de fazer isso,
porque sempre me preocupei com a nossa
cultura. Esse trabalho que divulgo há anos não
está na mídia tanto televisiva, como em jornais
ou revistas. Dificilmente se encontra uma
abordagem mais profunda e minuciosa como
essa. Por isso costumo dizer que fui encarregado,
e o DVD vem confirmar isso.
Acima, com Bentinho e abaixo, com Carmen Costa 139
O projeto Gavetas tem um slogan: Vamos tirar o
Brasil da Gaveta, que também faz parte desse
meu projeto de vida.

Tem coisas marcantes da nossa cultura que não


se pode deixar na gaveta, e geralmente ficam;
quanta coisa importante se perdeu, quantos
artistas estão aí desconhecidos do público jovem
que não acompanhou sua vida e obra nem tem
como participar porque ninguém resgata isso.
Então esse projeto não deixa de ser uma tarefa
mesmo. Por isso digo que sou encarregado, que
140
acabei ficando um pouco responsável por esse
tipo de cultura. Tenho certeza, infelizmente,
que sou um dos poucos que fazem isso no Brasil,
devia ter mais. Antigamente tinha muito escritor
brasileiro preocupado com nossa cultura. Tinha
Waldomiro Silveira, Amadeu Amaral, Cornélio
Pires, que escreveu vários livros sobre a cultura
caipira paulista. Tivemos o Jorge Amado, que
fez uma obra belíssima, mas mais direcionada
para o povo da Bahia. Eu me preocupo muito
com o Brasil de forma global. Não gosto de fatiar
o País em pedaços de um bolo, acho que o Brasil
é um só. Tem um texto do escritor gaúcho Érico
Veríssimo que eu gosto muito de citar que é as-
sim: Vendo e ouvindo este canteiro tão íntimo
da terra e da vida, iluminado pela sabedoria do
coração, você compreenderá que o homem bra-
sileiro é milagrosamente um só, de Norte a Sul,
de Leste a Oeste, a despeito de suas distâncias
geográficas. Um só no que possui de essencial:
a cordialidade, o horror à violência, a
capacidade de dar-se, de rir da vida, dos outros
e de si mesmo. Uso isso como ponto de partida
do que eu faço. Esse texto tem a ver com minha
141
cabeça, o Brasil é um só. É a mistura mais
maravilhosa da Terra.

O projeto Gavetas é uma miscelânea. Juntei


quatro programas diferentes. Uma gaveta tem
oito CDs com 100 obras que gravei nesses 40 anos
de cantoria. Músicas de todo gênero, da roda
de viola ao samba de breque. São dois CDs só de
sambas, um só de canções, quatro de música
caipira tradicional, não essa sertaneja de alto
consumo, o CD de poemas caipiras – nordesti-
no, gaúcho, caipira paulista.
É uma obra representando o Brasil, por isso o
slogan. Estou produzindo o projeto com minha
assessora Patrícia Maia em parceria com algu-
mas empresas, os CDs com uma, os DVDs com
outra e já está tudo encaminhado. Tem um livro
de “causos” que não foram contados, não são
coisas velhas, de baú, não, estavam na gaveta, a
gente pode ter coisas, idéias novas na gaveta.
Tem rádio, vou fazer um especial de rádio por
semana, cinco minutos de Brasil em doses
homeopáticas diárias.

142
Esquentai vossos pandeiros é uma frase de um
samba de Assis Valente, Brasil Pandeiro, que virou
quase que um hino nosso. É uma gravação do
Bando da Lua, que foi com a Carmen Miranda pros
Estados Unidos na década de 40, e eles cantavam
essa música. Usei a frase porque o disco é uma
homenagem aos grupos vocais que hoje quase
estão em extinção, como Anjos do Inferno, Qua-
tro Ases e Um Coringa, Vocalistas Tropicais. Gra-
vei coisas antológicas desses grupos, de 1940, 44,
e esse disco é inédito, fiquei com os direitos dele,
vou lançar nesse projeto Gavetas.
Com Adauto Santos (acima) e Ana de Hollanda e Paulinho 143
Nogueira (abaixo)
Peguei esses quatro como base, tinha mais, o
Vagalumes do Luar. Selecionei três, quatro mú-
sicas de cada um e fiz o seguinte: arranjo de Theo
de Barros, autor de Disparada, excelente músi-
co e maestro, e pedi pra ele manter a forma de
arranjo do original. Gravei numa fitinha todas
as músicas com os próprios próprios grupos
cantando, pedi que o Theo reproduzisse para
eu cantar, como eles faziam.

Foi difícil achar o violão dinâmico, não existe


mais, é um violão de quatro cordas que os
144
grupos usavam muito, fazia um barulho meio
de banjo. Mas o Theo descobriu um grande
violonista que tocava isso e botou. Colocamos
o pandeiro, o baixo de pau, e para passar toda a
idéia, fiz o Tasso Bangel, do grupo Farroupilha,
grande vocalista e maestro, cuidar da parte
vocal. Ele reuniu quatro vocalistas homens e
ensaiou, dando o vocal que os originais faziam.
Não foi imitação, procuramos reproduzir com
a máxima fidelidade, a Lurdinha me dirigiu em
tudo. Eu simplesmente era o crooner, como se
dizia naquele tempo, o vocalista, o solo.
A maior parte dos integrantes desses grupos
vocais já viajou fora do combinado. Há pouco
tempo morreu um vocalista do Bando da Lua
que inspirou Walt Disney a fazer o Zé Carioca,
por causa do andar dele. Pra fazer média com o
Brasil, a Disney criou o personagem. Levei o Zé
no Som Brasil pra contar essa história e lembro
que antes dele entrar comecei a folhear a revis-
tinha.

A idéia é tirar o Brasil, coisas brasileiras da


gaveta. Pra quê gravar música nova se temos
145
tanta coisa que vão ser modernas sempre?
Porque a mídia não trabalhou muito nisso,
quantas obras estão aí na gaveta. Sou sempre
cobrado, agora através de e-mails, sobre onde
encontrar tal música, onde achar tal disco, é uma
loucura o que o povo cobra.

Antes só gravava coisas minhas, depois passei a


gravar músicas de outros, de compositores
antigos, e acabei sendo intérprete também. E
fiquei mais como defensor dessa cultura mais
tradicional nossa, seja na música ou na literatu-
ra. Meu trabalho é baseado nisso: sou um ator
que canta, compõe e interpreta.

Não freqüento os lugares dos artistas, o meio,


como se costuma dizer. Sou arredio e já fui bem
mais com relação a me expor na mídia. Não por
frescura, uma inibição natural mesmo. Quando
fazia novelas, havia aqueles jantares e
comemorações de lançamentos, hoje ainda é
assim. Eu sempre arranjava um jeito de me safar
e não ia. Não queria aparecer. Quando fazia
Mulheres de Areia, com o Carlos Zara, que era
146
diretor da Tupi, e a Eva Wilma, o Zara disse que
ia haver um coquetel no restaurante do edifício
Itália e me intimou a ir. Fui com o Guarnieri, mas
antes tomamos umas fogueiras na padaria da
Tupi pra criar coragem.

Na verdade, não me preocupo em aparecer, de


dar motivo pra estar na mídia. Se aparecer, pode
ter certeza que é de uma forma bem natural,
ou estou fazendo algo importante que acontece
e alguém me procura, dificilmente vou forçar
uma barra, dar noticiazinha no jornal.
Capítulo XVI

Dificuldades do artista brasileiro

No Brasil, a gente percebe e experimenta na pele,


que de modo geral o artista é mal pago, diferente
do que acontece em outros países, onde os artis-
tas ganham bem melhor, os direitos autorais são
feitos de maneira diferente. Existe muita queixa
de artistas que vivem de direitos autorais, que não
temos como fiscalizar direito, como acompanhar.
147
Existe esse grande problema da pirataria. O artis-
ta sobrevive com dificuldade, luta muito pra con-
tinuar artista.

Antes era comum fazermos outros trabalhos


paralelos, quase todos tinham uma
ocupaçãozinha extra. Uns saiam pra vender li-
vros, outros pra vender carro, outro vendia qual-
quer coisa. Quando comecei, logo depois os fil-
mes americanos foram sendo dublados. Saí da
Tupi pra fazer teatro e precisei de outra
atividade pra sobreviver, pois teatro pagava mal
mesmo. Então fui dublar, vivi de dublagem vários
anos. Dublei Humphrey Bogart na televisão,
Sherlock Holmes, dublei seriados, O Patrulheiro
do Oeste. Era uma coisa paralela que até dava
um dinheirinho bom, conseguia ter uma conti-
nha no banco.

Tem histórias engraçadas desse tempo. Quando


tinha que pedir aumento, então... Passei por três
incêndios no canal 7, TV Record. Cada vez que
ia lá reclamar, acontecia um incêndio. Uma vez
cheguei lá e disse: Olha, toda vez que vim pedir
148
aumento, aconteceu um incêndio e eu ficava
sem jeito. Só que agora, onde está pegando fogo
é na minha casa...

Dificuldades sempre existiram. Quando o artista


tem uma oportunidade, como eu e outros atores
tiveram, uma peça faz sucesso, aí as coisas melho-
ram. O Antonio Fagundes, o Juca de Oliveira, por
exemplo, além de atores, conseguiram produzir
teatro. Eu consegui montar meus shows, divulgar
pelo País inteiro, ganhar algum dinheiro e aí as
coisas melhoraram.
Quando se tem uma oportunidade dessas, dá pra
ir levando, mas viver exclusivamente da profis-
são de ator no Brasil, é difícil, sacrificante. Tem
muitos artistas aí, até com mais talento que eu,
que não têm outras oportunidades. Quantos
cantores excelentes nós temos que estão
tentando fazer um trabalho independente e vão
sobrevivendo bem mal. A classe artística
brasileira não pode se nivelar pelos que fazem
sucesso, ganham dinheiro ou o estrelato,
infelizmente. É como no futebol, uns têm sorte,
assinam um contrato milionário, mas quantos
149
bons jogadores são boicotados, não entram na
seleção porque politicamente não interessa pro
técnico ou sei lá o quê.

Não depender de um emprego na televisão, por


exemplo, é fundamental, e isso é muito difícil.
São muitos os artistas que dependem de uma
escalação numa novela pra sobreviver com suas
famílias. Conheço atores famosos, estrelas de
cinema, televisão, muitos já falecidos, que
morreram sem emprego. De repente, não eram
mais escalados, colocados em segundo plano.
O grande Mario Lago, contam que depois que
morreu, fizeram um show no Rio de Janeiro para
pagar as contas dele no hospital. Com o João do
Vale aconteceu a mesma coisa, fizeram um show
e a renda foi pra viúva dele. E isso é muito triste,
o artista brasileiro não tem segurança. Essa situa-
ção a gente tem que denunciar, não pode se
omitir, fingir que está tudo bem, que no Brasil a
vida do artista é maravilhosa, ganha muito di-
nheiro, fama, estréia numa novela, acontece, sai
nas revistinhas e tal. A verdade é que se ele for
ignorado na próxima, não for escalado e não
150
tiver emprego fixo na Globo ou em qualquer
outro canal, vai passar necessidade.

Não existe um campo vasto pro artista trabalhar,


o cinema é pouco, o teatro é pouco, tem que
ter mais teatro, o incentivo à cultura ainda é
meio acanhado. Para os atores, espetáculos, pa-
trocínios, para os cantores, shows. É preciso in-
centivar o artista a levar o espetáculo, o show
a mais lugares. Como o interiorano vai conhecer,
assistir a Fernanda Montenegro se ela está em
São Paulo? As peças precisam viajar mais por
esse Brasilzão afora. Como deslocar elencos, ce-
nários é muito caro, tem que ter quem patroci-
ne, pague. Tem que ter uma conscientização no
Brasil de que a arte é importante pra todo mun-
do. É importante pras empresas. Se eu fosse um
grande empresário, criaria um núcleo de teatro
dentro da minha empresa, montaria um
teatrinho para os funcionários fazerem
espetáculos populares ali dentro mesmo, se-
ria uma forma da cultura sobreviver nesses
ambientes.

151
Sou convidado, às vezes, para cantar em fábri-
cas; é pouco, deviam levar espetáculos, como se
leva nas universidades para os estudantes. O
Plínio Marcos ia muito nas faculdades fazer de-
bates, leitura de peças – tem que fazer para os
operários de qualquer empresa, indústria. Por-
que nossa cultura é muito rica, mas está coloca-
da em décimo plano, não está na consciência do
empresariado a importância da cultura no nos-
so País.
152
Capítulo XVII

Fazendo o que dá prazer

Só trabalho no que gosto. Não faço show em


rodeio, em grandes feiras de agropecuária, com
grande público. Meu show é intimista, faço em
clubes. Sou muito procurado por empresas para
shows de final de ano, convenções, perdi a conta
de para quantas empresas já representei,
trabalhando em final de ano e outras datas
153
especiais. Fiz um show nos Estados Unidos
(Phoenix, no Arizona), no lançamento de um
carro rural da GM só para brasileiros, tinha mil e
duzentos convidados. Me apresento também em
inaugurações de teatro.

Em São Paulo costumo me apresentar em hotéis


fazenda famosos, na região litorânea, Guarujá,
Campinas. Mas sempre de forma bem tranqüila,
nada de um show atrás do outro, no máximo
um, dois por semana. Porque sempre é algo es-
pecial. E está dando pra viver, é gostoso.
Cobram muito a minha volta, participação na te-
levisão, estou vendo isso, pode ser que volte, mas
continuo fazendo meus shows pelo Brasil, conven-
ções, estou gravando um CD com o Renato
Teixeira, um disco novo. Mas existe essa cobrança
e acho que chegou a hora de atender esse apelo,
essa vontade sincera, honesta e bonita do público.

Tem aí muitos convites para voltar pra televisão.


Estou estudando, existe a possibilidade de voltar
talvez ano que vem com um programa mensal
bem-feito. Uma vez pensei em montar um ce-
154
nário em cima de um caminhão e fazer um pro-
grama viajando. Seria uma coisa no espírito do
Som Brasil, mas itinerante. Entrar numa cidade
pequena do Amazonas, em São Luiz do
Maranhão, procurar lugarejos e levar isso para
a televisão, mas acharam meio dispendioso. Hoje
sou meio reticente, quero fazer de outra ma-
neira, mas existe uma predisposição em estudar
uma forma de voltar. Talvez com outro cenário,
poderia ser até uma coisa bem moderna, mas
dentro do mesmo enfoque: a cultura popular
brasileira.
Sei que não gostaria de fazer um programa se-
manal, entrar naquela rotina de novo. O maior
apelo é pra voltar a fazer o que fiz com o Som
Brasil, é possível, quem sabe no próximo ano e
aí, possivelmente, farei mais shows. Mas não sou
de sair pelo mundo e ir fazendo muita coisa não,
não sou muito de mambembar.

Com Francisco Petrônio

155
Cronologia de Trabalhos

156

Com Maria Izabel de Lizandra, no Teleteatro Tupi


TV Tupi - Teleteatro
1963
A Severa

TV Tupi - Novelas
1961
O Direito de Nascer, de Félix Caignet, Teixeira
Filho
Direção: Régis Cardoso, Lima Duarte
Elenco: Isaura Bruno, Verinha Campos, Maria
Luíza Castelli, Elísio de Albuquerque, Genésio
de Carvalho, Vininha de Moraes, Hamilton
157
Fernandes, Luiz Gustavo, Guy Loup, Oswaldo
Loureiro, Aída Mar, Henrique Martins, Clenira
Michel, Meire Nogueira, José Parisi, Marcos
Plonka, Leo Romano, Nathalia Timberg.

1962
A Estranha Clementine, de Geraldo Vietri
Direção: Geraldo Vietri
Elenco: Vida Alves, Amilton Fernandes, Norah
Fontes, Xisto Guzzi, Henrique Martins, Patrícia
Mayo, Glória Menezes, Mariza Sanches, Néa
Simões.
1963
Moulin Rouge, A vida de Tolouse Lautrec, de
Geraldo Vietri (Van Gogh)
Direção: Geraldo Vietri
Elenco: Percy Aires, Vida Alves, Amilton
Fernandes, Geórgia Gomide, Cláudio Marzo, Lisa
Negri, Marcos Plonka, Marisa Sanches.

1964
Alma Cigana, de Ivani Ribeiro
Direção: Geraldo Vietri
Elenco: Ana Rosa, Hamilton Fernandes, Rildo
158
Gonçalves, Percy Ayres, Mariza Sanches, Elísio
de Albuquerque, David José, Aída Mar, Néa
Simões.

Quem Casa com Maria, Lúcia Lambertini


Direção: Henrique Martins
Elenco: Elk Alves, Verinha Campos, Rita Cléos,
Oswaldo de Barros, Débora Duarte, Irenita
Duarte, Hamilton Fernandes, Sérgio Galvão,
Geórgia Gomide, João Inocêncio, Lúcia
Lambertini, Cecília Marcondes, Lisa Negri, Pau-
lo Pereira, Ana Rosa, Néa Simões, Arnaldo Weiss.
Se o Mar Contasse, de Ivani Ribeiro (padre Juca)
Direção: Geraldo Vietri
Elenco: Elísio de Albuquerque, Maria Izabel de
Lizandra, Elias Gleizer, Luiz Gustavo, Wanda
Kosmo, Henrique Martins, Ana Rosa, Marisa
Sanches.

Gutierritos, o Drama dos Humildes, de Estela


Calderón
Direção: Wanda Kosmo, Henrique Martins
Elenco: Laura Cardoso, Juca de Oliveira, Lima
Duarte, Glória Menezes, Débora Duarte,
159
Geórgia Gomide, Wanda Kosmo, Clenira Michel,
João Monteiro, Meiri Nogueira, Araken
Saldanha.

1965
Olhos que Amei, de Walter George Dust
(Alexandre)
Direção: Wanda Kosmo
Elenco: Laura Cardoso, Lima Duarte, Elias
Gleizer, Rildo Gonçalves, Cacilda Lanuza, Mar-
cos Plonka, Ana Rosa, Hélio Souto.
1968
Ana, de Sylvan Paezzo (César)
Direção: Fernando Torres
Elenco: Walter Avancioni, Haroldo Botta, Aracy
Cardoso, Edy Cerri, Maria Estela, Sérgio
Mamberti, Mirima Mehler, Antonio Pitanga,
Sônia Oiticica, Marcos Paulo, Célia Rodrigues,
Beatriz Segall.

1971
Quarenta Anos Depois, de Lauro César Muniz
Elenco: Roberto Bolant, Paulo Goulart, Sérgio
160
Mamberti, Márcia Maria, Célia Helena, Carminha
Brandão, Kadu Moliterno, Mauro Mendonça,
Fúlvio Stefanini, Nathália Timberg.

1972
Quero Viver Mais, de Amaral Gurgel (Alfredo)
Direção: Waldemar de Moraes
Elenco: Sebastião Campos, Laura Cardoso, Edy
Cerri, Wilma de Aguiar, Ney Latorraca, Lilian
Lemmertz, Rui Luiz, Renato Master, Rodolfo
Mayer, Lolita Rodrigues, Carmem Silva, Carlos
Silveira, Irene Tereza, Nathália Timberg.
O Tempo Não Apaga, de Amaral Gurgel
(Bernardo)
Elenco: Roberto Bolant, Ivete Bonfá, Luiz Carlos
Braga, Manoel da Nóbrega, Wilma de Aguiar,
Ewerton de Castro, Eugênia de Domênico, Ney
Latorraca, Lilian Lemmertz, Jonas Mello, Márcia
Real, Lolita Rodrigues, Hélio Souto, Nathália
Timberg.

1974
Mulheres de Areia, de Ivani Ribeiro (César)
Direção: Edison Braga
161
Elenco: Irene Ravache, Eva Wilma, Carlos Zara,
Gianfrancesco Guarnieri, Maria Isabel de
Lizandra, Antonio Fagundes, Kleber Afonso,
Adoniran Barbosa, Othon Bastos, Carminha
Brandão, Léa Camargo, Cláudio Corrêa e Castro,
Maria Estela, Abrahão Farc, Edgard Franco,
Sergio Galvão, Serafim Gonzalez, Anali Graci,
Umberto Magnani, Márcia Maria, Carmen
Marinho, Lucy Meireles, Ivan Mesquita, Riva
Nimitz, Carlos Nunes, João José Pompeo, Newton
Prado, Silvio Rocha, Ana Rosa, Liza Vieira, Cleyde
Yaconis.
1975
Ovelha Negra, de Walter Negrão e Chico de Assis
Elenco: Cleyde Yaconis, Geórgia Gomide, Edney
Giovenazzi, Wanda Estefânia, Ewerton de
Castro, Kate Hansen, Joana Fomm, Laura
Cardoso, Francisco Di Franco, Carlos Augusto
Strazzer

1976
A Viagem, de Ivani Ribeiro
Elenco: Irene Ravache, Eva Wilma, Altair Lima,
Ewerton de Castro, Caio Blat, Neuza Borges,
162
Carminha Brandão, Haroldo Botta, Iolanda
Cardoso, Suzy Camacho, Oswaldo Campozana,
Cláudio Corrêa e Castro, Ewerton de Castro,
Elaine Cristina, Francisco Di Franco, Joana
Fomm, Elisa D’Agostinho, Wilma de Aguiar,
Arlete Montenegro, Cuberos Neto, Carmem
Marinho, Régis Monteiro, Altair Lima, Márcia
Maria, Abrahão Farc, Serafim Gonzalez, Lúcia
Lambertini, Leonor Lambertini, Tony Ramos,
Irene Ravache, Carlos Alberto Ricelli, Adriano
Reys, Ana Rosa, Silvio Rocha, Carmem Silva,
Teresa Sodré, Arnaldo Weiss, Terry Winter.
O Profeta, de Ivani Ribeiro
Direção: Edison Braga
Elenco: Irene Ravache, Carlos Augusto Strazzer,
João Acaiabe, Eudósia Acuña, Carminha Brandão,
Suzy Camacho, Léa Camargo, Yolanda Cardoso,
Aldo César, Cláudio Corrêa e Castro, Elaine Cristina,
Wilma de Aguiar, Luiz Carlos de Moraes, Márcia
de Windsor, Débora Duarte, Abrahão Farc, Paulo
Figueiredo, Rildo Gonçalves, Glauce Graieb, John
Herbert, David José, Jacques Lagôa, Ana Lúcia
Lancaster, Assunta Mantelli, Roberto Maya, Regis
Monteiro, Walter Prado, Ana Rosa, Rosamaria
163
Seabra.

1977
O Espantalho, de Ivani Ribeiro (Juca)
Direção: David Grinsberg e José Miziara
Elenco: Percy Aires, Theresa Amayo, Suzy
Camacho, Léa Camargo, Fábio Cardoso,
Guilherme Corrêa, Lídia Costa, Reny de Oliveira,
Jardel Filho, Ester Góes, Wanda Kosmo, Carmen
Monegal, Antonio Pitanga, Augusto Pompeo,
Riva Nimitz, Carlos Alberto Riccelli, Nathália
Timberg, Hélio Souto.
1978
Roda de Fogo (João Luiz)
Autores: Sérgio Jockyman e Walter Negrão
Direção: Henrique Martins e Atílio Riccó
Elenco: Fúlvio Stefanini, Othon Bastos, Renato
Borghi, Sadi Cabral, Marcos Caruso, Geraldo Del
Rey, Anamaria Dias, Maria Estela, Indianara Go-
mes, Beth Goulart, Gianfrancesco Guarnieri, Kate
Hansen, Cláudio Marzo, Francisco Milani, Karim
Rodrigues, Fúlvio Stefanini, Eva Wilma.

TV Record - Novelas
164 1966
Algemas de Ouro, de Benedito Ruy Barbosa e
Dulce Santucci
Direção: Dionísio Azevedo e Régis Cardoso
Elenco: Lolita Rodrigues, Fúlvio Stefanini, Ivan
Mesquita, Susana Vieira, Maria Estela, Márcia
Maria, Reny de Oliveira, Adriano Stuart, David
Neto, Célia Rodrigues, Linda Gay, Ademir Rocha,
Teresa Campos, Sérgio Mamberti.

1971
Os Deuses estão Mortos, de Lauro César Muniz
Elenco: Cláudio Marzo, Perry Sales, Roberto
Bolant, Laura Cardoso, Lia de Aguiar, Reny de
Oliveira, Linda Gay, Oscar Thiede, Sérgio
Mamberti, Márcia Maria, Jonas Mello, Amália
Rodrigues, Lolita Rodrigues, Carlos Augusto
Strazzer.

As Pupilas do Sr. Reitor, de Júlio Diniz e Lauro


César Muniz
Direção: Dionísio Azevedo
Elenco: Dionísio Azevedo, Geórgia Gomide,
Carlos Augusto Strazzer, Reny de Oliveira, Már-
cia Maria, Maria Estela, Agnaldo Rayol, Fúlvio
165
Stefanini, Laura Cardoso, Yolanda Cardoso, An-
tonio Carlos, Edy Cerri, Manoel da Nóbrega,
Antonio Ghigonetto, Nádia Lippi, Sérgio
Mamberti, Rogério Márcico, Miriam Mayo, Kadu
Moliterno, Hebe Camargo, Ivanice Sena, Lolita
Rodrigues.

TV Globo - Novelas
1973
O Bem Amado, de Dias Gomes
Direção: Benjamin Catan
Elenco: Paulo Gracindo, Lima Duarte, Emiliano
Queiroz, Ida Gomes, Dirce Migliaccio, Milton
Gonçalves, Jardel Filho, Zilka Salaberry, Maria
Claudia, Dorinha Duval, Ruth de Souza, Ana
Ariel, Carlos Eduardo Dolabella, Sandra Bréa.

TV Bandeirantes - Novelas
1979
Cara a Cara, de Vicente Sesso (Orestes)
Direção: Jardel Mello, Arlindo Pereira
Elenco: Fernanda Montenegro, Irene
Ravache, Baby Garrouch, Joselita Avarenga,
Dimas Antonio, Arlindo Barreto, Roberto
166
Bolant, Sebastião Campos, David Cardoso,
Tônia Carrero, Célia Coutinho, Maria Izabel
de Lizandra, Osmar de Mattos, Ruthinéia de
Moraes, Raymundo de Souza, Márcia de
Windsor, Débora Duarte, Valdir Fernandes,
Lupe Ferreira, Taumaturgo Ferreira, Edson
França, Luís Gustavo, João Kléber, Wanda
Kosmo, Ricardo Leite, André Loureiro, An-
tonio Marcos, Ana Maria Nascimento,
Roberto Pirillo, Fausto Rocha, Betty Saade,
Carmem Silva, Fúlvio Stefanini, Nathália
Timberg, Álvaro Villas.
1980
Os Imigrantes, de Benedito Ruy Barbosa
Elenco: Virgínia Adele, Claudia Alencar, Gésio
Amadeu, David Arcanjo, Luiz Carlos Arutin,
Paulo Autran, Dionísio Azevedo, Tacus
Azevedo, Arlindo Barreto, Sandra Barsotti,
Othon Bastos, Maria Aparecida Baxter, Norma
Benguel, Paulo Betti, Lília Cabral, Leonardo
Camilo, Herson Capri, Mateus Carrieri, Paulo
Castelli, Hélio Cícero, Manfredo Colassanti,
Rubens de Falco, Solange Couto, Emílio di Biasi,
Taumaturgo Ferreira, Altair Lima, Cristina
167
Mullins.

Pé de Vento, de Benedito Ruy Barbosa


Direção: Paulo Plínio Fernandes e Arlindo Pereira
Elenco: Nuno Leal Maia, Dionísio Azevedo,
Suzy Camacho, Canarinho, Maria Luíza Castelli,
Henrique César, Maurício do Valle,
Taumaturgo Ferreira, Patrícia Figueiredo, Baby
Garroux, Flora Geny, Ester Góes, Felipe Levy,
Bete Mendes, Cristina Mullins, Riva Nimitz,
Fausto Rocha, Carmem Silva, Lilian Vizzchero,
Arnaldo Weiss.
Cavalo Amarelo, de Ivani Ribeiro (Alberto)
Direção: Henrique Martins
Elenco: Dercy Gonçalves, Yoná Magalhães,
Eduardo Abbas, Maria Alcina, Alzira Andrade,
Carminha Brandão, Hebe Camargo, Oswaldo
Campozana, Aldo César, Guilherme Corrêa,
Rafael de Carvalho, Márcia de Windson, Jorge
Dória, Regina Dourado, Lupe Ferreira, Maximira
Figueiredo, Moacyr Franco, Virgínia Adele, Etty
Fraser, Kito Junqueira, Jacques Lagoa, Rodolfo
Maia, Douglas Mazolla, Regina Dourado,
Carmem Monegal, Celso Perdigão, Cristina
168
Prado, Newton Prado, Walter Prado, Wanda
Stefânia, Fúlvio Stefanini, Marta Valpiani.

TV Excelsior - Novela
1968
O Direito dos Filhos, de Teixeira Filho (Ernesto)
Elenco: Leila Diniz, Davi José, Henrique Martins,
Flora Geny, Araci Cardoso, Patrícia Alves, Maria
Aparecida Alves, Alé Andié, Antonio Carlos, Lídia
Costa, Edson França, Maria Estela, Hemílcio
Fróes, Castro Gonzaga, Atílio Iório, Ivanice Sena,
Carlos Zara, Geny Prado.
Teatro
1966
Os Inimigos, de Máximo Gorki – Grupo Oficina
Direção: José Celso Martinez Correa
Elenco: Mauro Mendonça, Célia Helena, Otávio
Augusto, Etty Fraser, Edney Giovenasi, Ítala
Nandi, Renato Borghi.

1967
Oh, Que Delícia de Guerra
Direção: Adhemar Guerra

169
1968
Os Próximos, de Carlos Gorostiza
Elenco: Lilian Lemmertz, Antonio Petrin, Telma
Reston.

Feira Paulista de Opinião, de Augusto Boal, José


Celso Martinez Correa, Bráulio Pedroso, Lauro
César Muniz, Gianfrancesco Guarnieri, Jorge
Andrade, Antunes Filho.
Elenco: Grupo Arena
1971
Abelardo e Heloísa

1972
Roda Cor de Roda, de Leilah Assumpção
Direção: Antonio Abujamra
Elenco: Irene Ravache, Laerte Moroni

1974
Biliziquidi, de Chico de Assis

1975
170
Crimes Delicados, de João Antonio
Direção: Antonio Abujamra
Elenco: Cacilda Lanuza, Laerte Morrone

1978
Fábrica de Chocolate, de Mário Prata
Elenco: Ruth Escobar
Cinema
1976
Doramundo (Pereira - Prêmio de Melhor Ator
da Associação Paulista de Críticos de Arte -
APCA1980 )
Direção e roteiro: João Batista de Andrade –
Adaptação do romance de Bernardo Elis
Elenco: Irene Ravache, Antônio Fagundes,
Armando Bogus, Rodrigo Santiago, Sergio
Hingst, Aldo Bueno

1999
171
O Tronco (Pedro Melo - Prêmios de Melhor Ator
Coadjuvante do 32º Festival de Brasília do Cine-
ma Brasileiro e do 10º Festival de Cinema de
Natal 1999)
Direção: João Batista de Andrade
Elenco: Antônio Fagundes, Ângelo Antônio,
Letícia Sabatella, Rolando Boldrin, Chico Diaz,
Cida Moreira, Mariane Vicentini, Henrique
Rovira, Paulo Vespúcio Garcia, Mauri de Castro,
Júlio Vann, Guido Campos Correia, André Pimenta.
1987
Ele, o Boto (narrador)
Direção: Walter Lima Jr.
Elenco: Carlos Alberto Riccelli, Cássia Kiss, Ney
Latorraca, Dira Paes, Paulo Vinicius, Ruy
Polanah, Maria Silvia, Bebeto Bahia, Lutero Luiz,
Vanja Orico, Marcos Palmeira, Tonico Pereira,
Sandro Solviatti, Ayrton Vieira.

Programas Musicais
Som Brasil (TV Globo, 1981/82/83)
Empório Brasileiro (TV Bandeirantes,1984)
172
Empório Brasil (SBT,1984)
Estação Brasil (CNT,1997)

Discografia - Discos de carreira


Esquentai Vossos Pandeiros (1998) CD
Disco da Moda (1993) CD/vinil
Terno de Missa (1990) vinil
Resposta do Jeca Tatu - Poemas (1989) vinil
Clássicos do Poema Caipira (1985)
Empório Brasileiro (1984) vinil
Poemas do Som Brasil (1982) vinil
Inventando Moda (1982) vinil
Caipira (1981) CD/vinil
Giro-o-Giro - Rolando Boldrin e Lurdinha
Pereira (1980) vinil
Rio-abaixo (1979) vinil
Longe de Casa (1978) vinil
Êta Mundo (1976) vinil
O Cantadô (1974) vinil

Discos - Coletâneas
Rolando Boldrin (1996) CD
173

Participações em discos
Notícias do Brasil (Quinteto Violado)
Programa Estação
Brasil, homenagem
a Mazzaropi

174
Show beneficente
para a Fundação
Rolando Boldrin,
em Itapecerica da
Serra, 2001

175

Créditos das fotografias

pág. 22 - Iwata
pág. 65 - Paulo Salomão - Ed. Abril
pág. 66 - TV Record
pág. 94 - Alte Zeiten
pág. 117/119/121/124 - Iolanda Huzak
pág. 139 - Moacyr dos Santos - SBT
pág. 174 - CNT
pág. 175 - Marco Aurélio Olímpio
Demais fotografias: Acervo Rolando Boldrin
176
Rolando Boldrin capa.pmd 1 7/12/2009, 15:29