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33 TESES PARA UMA REFORMA DA ECONOMIA

(Iniciativa do New Weather Institute e do Rethinking Economics propõem 33 teses para revolucionar o pensamento
econômico)

O mundo enfrenta pobreza, desigualdade, crise ecológica e instabilidade


financeira.

Tememos que a economia faça muito menos do que poderia para oferecer
ideias que ajudariam a solucionar esses problemas. Isto ocorre por três
motivos:

Primeiro, na economia se desenvolveu um monopólio intelectual insalubre.


A perspectiva neoclássica domina avassaladoramente o ensino, a pesquisa, os
conselhos de políticas e o debate público. Muitas outras perspectivas que
poderiam oferecer ideias valiosas são marginalizadas e excluídas. Isto não
se refere a uma teoria ser melhor que outra, mas à ideia de que o progresso
científico só avança com um debate. Na economia, esse debate morreu.

Segundo, enquanto a economia neoclássica fez uma contribuição histórica e


ainda é útil, há amplas oportunidades de melhora, discussão e aprendizado a
partir de outras disciplinas e perspectivas.

Terceiro, a economia da corrente dominante parece ter se tornado incapaz de


autocorreção, desenvolvendo-se mais como uma religião do que como uma
ciência. Com demasiada frequência, quando teorias e evidências entraram em
conflito, as teorias foram mantidas e as evidências, descartadas.

Propomos estas teses como um desafio ao monopólio intelectual insalubre da


economia da corrente dominante.

Estes são exemplos das falhas nas teorias da corrente dominante, das ideias
que as perspectivas alternativas têm a oferecer e das maneiras como uma
abordagem mais pluralista pode ajudar a economia a se tornar ao mesmo
tempo mais eficaz e mais democrática. Esta é a afirmação de que uma
economia
melhor é possível, e um convite ao debate.

O OBJETIVO DA ECONOMIA

1. O objetivo da economia deve ser decidido pela sociedade. Nenhuma meta


econômica pode ser separada da política. Os indicadores de sucesso
representam opções políticas.

2. A distribuição da riqueza e da renda são fundamentais para a realidade


econômica e também o devem ser na teoria econômica.

3. A economia não é isenta de valor, e os economistas devem ser


transparentes sobre os julgamentos de valor que fazem. Isto se aplica
especialmente àqueles julgamentos de valor que podem não ser visíveis ao
olhar destreinado.

4. A política não "nivela" o campo de jogo, mas o inclina em uma direção.


Precisamos de uma discussão mais explícita de que tipo de economia
queremos, e como chegar lá.

O MUNDO NATURAL

5. A natureza da economia é que ela é um subconjunto da natureza, e das


sociedades em que ela surge. Ela não existe como identidade independente.
As instituições sociais e os sistemas ecológicos são, portanto, centrais, e
não externos, ao seu funcionamento.

6. A economia não pode sobreviver ou prosperar sem insumos do mundo


natural, ou sem os muitos sistemas de suporte à vida que o mundo natural
oferece. Ela depende de um contínuo fluxo de energia e matéria, e opera em
uma biosfera de equilíbrio delicado. Uma teoria econômica que trate o mundo
natural como externo a seu modelo não pode compreender plenamente como a
degradação do mundo natural pode prejudicar suas próprias perspectivas.

7. A economia deve reconhecer que a disponibilidade de energia e recursos


não renováveis não é infinita, e o uso desses bens para acessar a energia
que eles contêm modifica os equilíbrios de energia agregada do planeta,
gerando consequências como catástrofes climáticas.

8. A retroalimentação entre a economia e a ecologia não pode ser ignorada.


Ignorá-la até hoje levou a uma economia global que opera muito fora dos
limites viáveis da ecologia que a contém, no entanto exige maior
crescimento para funcionar. Mas a economia deve se basear nas restrições
objetivas da ecologia planetária.

INSTITUIÇÕES E MERCADOS

9. Todos os mercados são criados e moldados por leis, costumes e cultura, e


são influenciados pelo que os governos fazem e pelo que eles não fazem.

10. Os mercados resultam das interações entre diferentes tipos de público e


organizações privadas (assim como as do setor voluntário e da sociedade
civil). Mais estudos deveriam ser feitos sobre como essas organizações são
organizadas de fato, e como as interrelações entre elas funcionam e
poderiam funcionar.

11. Os mercados também são mais complexos e menos previsíveis do que


pode
estar implícito em simples relações de oferta e demanda. A economia precisa
de uma compreensão mais profunda sobre como os mercados se comportam,
e
poderia aprender com a ciência de sistemas complexos, como é usada na
física, na biologia e na computação.

12. As instituições moldam os mercados e influenciam o comportamento de


todos os agentes econômicos. A economia deve, portanto, considerar as
instituições como uma parte central de seu modelo.

13. Já que economias diferentes têm instituições diferentes, uma política


que funcione bem em uma economia pode funcionar mal em outra. Por esse
motivo, dentre muitos outros, é improvável que seja útil propor um conjunto
universalmente aplicável de políticas econômicas baseadas somente na teoria
econômica abstrata.

MÃO DE OBRA E CAPITAL

14. Salários, lucros e retornos sobre ativos podem ser atribuídos a um


amplo leque de fatores, incluindo o poder relativo de trabalhadores,
empresas e proprietários de ativos, não apenas a suas contribuições
relativas à produção. A economia precisa de uma compreensão mais ampla
desses fatores, de modo a melhor informar as opções que afetam a parcela de
renda recebida pelos diferentes grupos na sociedade.

A NATUREZA DA TOMADA DE DECISÕES

15. Erro, preconceito, reconhecimento de padrões, aprendizado, interação


social e contexto são influências importantes no comportamento que não são
reconhecidas pela teoria econômica. A economia da corrente dominante
precisa, portanto, de uma compreensão mais ampla do comportamento
humano, e
pode aprender com a sociologia, a psicologia, a filosofia e outras escolas
de pensamento.

16. Os indivíduos não são perfeitos, e a tomada de decisões econômicas


"perfeitamente racional" não é possível. Qualquer decisão econômica que
tenha algo a ver com o futuro envolve um grau de incerteza inquantificável,
e portanto exige julgamento. A teoria e prática econômica da corrente
dominante devem reconhecer o papel da incerteza.

DESIGUALDADE

17. Em uma economia de mercado, os indivíduos com as mesmas


capacidades,
preferências e dotes não tendem a acabar com o mesmo nível de riqueza,
sujeita apenas a certa variação aleatória. Os efeitos de pequenas
diferenças de sorte ou de circunstâncias podem conduzir a resultados
enormemente diferentes para cidadãos semelhantes.

18. Os mercados muitas vezes mostram uma tendência a aumentar a


desigualdade. Por sua vez, as sociedades desiguais se saem pior em uma
série de indicadores de bem estar social. A teoria econômica da corrente
dominante poderia fazer muito mais para compreender como e por que isso
acontece, e como pode ser evitado.

19. A proposição de que conforme um país enriquece a desigualdade deve


inevitavelmente aumentar antes de diminuir é falsa, como foi demonstrado.
Qualquer combinação de crescimento do PIB e desigualdade é possível.

CRESCIMENTO DO PIB, INOVAÇÃO E DÍVIDA

20. O crescimento é uma opção tão política quanto econômica. Se


escolhermos
buscar o "crescimento", as perguntas ("crescimento do quê, por quê, para
quem, por quanto tempo e o quanto é suficiente?") devem ser respondidas de
forma explícita ou implícita.

21. A inovação não é externa à economia. É uma parte inerente da atividade


econômica. Nossa compreensão do crescimento do PIB pode ser melhorada se
virmos a inovação como parte de um ecossistema de desequilíbrio, em
constante evolução, moldado pelo desígnio dos mercados e pelas interações
entre todos os agentes no interior deles.

22. A inovação tem um ritmo e uma direção. Uma discussão da "direção" da


inovação exige uma compreensão do "objetivo" na elaboração de políticas.

23. A dívida privada também influencia profundamente o ritmo de crescimento


econômico, no entanto é excluída da teoria econômica. A geração de dívida
aumenta a demanda financiada por dívida e afeta os mercados de bens e de
ativos. As finanças e a economia não podem ser separadas.

DINHEIRO, BANCOS E CRISES

24. A maior parte do dinheiro novo que circula na economia é criada pelos
bancos comerciais, a cada vez que concedem um novo empréstimo.

25. O modo como o dinheiro é criado afeta a distribuição da riqueza na


sociedade. Consequentemente, o método de geração de dinheiro deveria ser
entendido como uma questão política, e não meramente técnica.

26. Como os bancos geram dinheiro e dívida, eles são agentes importantes na
economia, e deveriam ser incluídos nos modelos macroeconômicos. Os
modelos
econômicos que não incluem os bancos não serão capazes de prever as crises
bancárias.
27. A economia precisa de uma melhor compreensão de como a instabilidade e
as crises podem ser criadas internamente nos mercados, em vez de tratá-las
como "choques" que afetam os mercados a partir de fora.

28. A financeirização tem duas dimensões: finanças em curto prazo e


especulativas, e uma economia real financeirizadas. Os dois problemas devem
ser estudados juntos.

O ENSINO DE ECONOMIA

29. Uma boa educação em economia deve oferecer uma pluralidade de


abordagens teóricas aos estudantes. Isto deve incluir não apenas a história
e a filosofia do pensamento econômico, mas também um amplo leque de
perspectivas atuais, como institucional, austríaca, marxista,
pós-keynesiana, feminista, ecológica e complexidade.

30. A economia em si não deve ser um monopólio. Cursos interdisciplinares


são chaves para a compreensão das realidades econômicas das crises
financeiras, pobreza e mudança climática. Política, sociologia, psicologia
e ciências ambientais devem, portanto, ser integradas ao currículo, sem ser
tratadas como acréscimos inferiores à teoria econômica existente.

31. A economia não deve ser ensinada como um estudo de valor neutro de
modelos e indivíduos. Os economistas devem ser versados em ética e
política, assim como capazes de se envolver de maneira significativa com o
público.

32. Um enfoque predominante em estatísticas e modelos quantitativos pode


deixar os economistas cegos para outras abordagens metodológicas, incluindo
pesquisa qualitativa, entrevistas, trabalho em campo e argumentação
teórica.

33. Acima de tudo, a economia deve fazer mais para incentivar o pensamento
crítico, e não simplesmente recompensar a memorização de teorias e a
implementação de modelos. Os estudantes devem ser incentivados a
comparar,
contrastar e combinar teorias, e aplicá-las criticamente a estudos de caso
em profundidade do mundo real.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves