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MATHIEU MARION

Mathieu Marion é, desde 2003, Wittgenstein é, com Frege e Russell, um dos fundadores da filosofia Neste pequeno ensaio, o leitor
professor da Universidade do analítica. Única obra publicada em vida, o Tractatus é o ponto de encontrará uma exposição
Québec em Montréal. Doutorou-se partida de sua filosofia. Como ele rapidamente rejeitou a maior parte tão completa e clara quanto
pela Universidade de Oxford em das teses dessa obra, costuma-se ignorá-la ou julgá-la a partir de sua possível do Tractatus logico-
1991, com uma tese (orientada “segunda filosofia”. Mas algumas delas, como aquelas relativas à philosophicus. As ideias centrais
por Michael Dummett) sobre dessa obra são apresentadas,
a filosofia da matemática de
matemática e à natureza da filosofia, ou a importante distinção entre MATHIEU MARION como de costume, por referência
Wittgenstein, publicada como o que se diz e o que se mostra, não foram abandonadas, enquanto LUDWIG WITTGENSTEIN ao pano de fundo incontornável
“Wittgenstein, Finitism, and the outras, como a definição da tautologia, foram adotadas de modo das reflexões de Frege e de
Foundations of Mathematics” definitivo na lógica matemática. Russell, mas sem perder de
(1998), e foi pesquisador nas Por outro lado, cabe ler essa primeira filosofia em seus próprios termos, INTRODUÇÃO AO vista sua unidade profunda,
universidades de St. Andrews antes de passar aos textos posteriores. Este ensaio apresenta os TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS fornecida pelo fio condutor da
(onde trabalhou com Crispin temas abordados por aquela obra não sob a ótica da segunda filosofia, distinção entre proposições
Wright) e de Boston (onde mas a partir de seu contexto, especialmente a partir dos trabalhos de dotadas de sentido e
trabalhou com Jaakko Hintikka) Frege e de Russell. Serão tratadas questões de ontologia, de análise contrassensos. Evitando a leitura
antes de ensinar na Universidade da linguagem, de lógica matemática e ética, bem como do estatuto “retrospectiva”que consiste
de Ottawa de 1994 a 2003. da metafísica. em ler o Tractatus a partir do
Organizou a publicação de “segundo Wittgenstein”, o
diversas coletâneas de artigos, autor situa o leitor no debate
números especiais de revistas, entre os comentadores, não
publicou dezenas de artigos apenas expondo as leituras
sobre filosofia da matemática e alternativas das diversas seções

LUDWIG WITTGENSTEIN
da lógica, dos quais boa parte da obra, mas também tomando
sobre Wittgenstein. claramente posição nesse
debate.

Bento Prado Neto


LUDWIG WITTGENSTEIN

INTRODUÇÃO AO
TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS
COLEÇÃO FILOSOFIA E LINGUAGEM
Direção: Marcelo Carvalho, Bento Prado Neto e João Vergílio G. Cuter
Conselho Editorial: André Porto, Arley Moreno, Danilo Marcondes, David Stern, João
Carlos Salles, Luiz Carlos Pereira, Luiz Henrique Lopes dos Santos, Mathieu Marion,
Mauro Engelmann, Philippe Narboux, Silvia Altmann

A Coleção Filosofia e Linguagem publica textos contemporâneos situados em meio ao


debate sobre filosofia e linguagem, em particular no âmbito da filosofia analítica e de
sua crítica, mas, também, se estendendo para a relação entre as tradições analítica e
continental, em meio às quais se dividia a filosofia ao longo de boa parte do século XX.
Nesse contexto se situam obras de L. Wittgenstein, B. Russell, G. Frege, P. F. Strawson,
S. Cavell, M. Dummett, R. Rorty, entre outros. Em diálogo com essa tradição, são também
consideradas na coleção diversas ramificações do debate sobre linguagem, dentre as quais
os trabalhos de M. Heidegger, M. Merleau-Ponty, E. Husserl.
Conheça os títulos desta coleção no final do livro.
MATHIEU MARION
LUDWIG WITTGENSTEIN

INTRODUÇÃO AO
TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP

M571 Marion, Mathieu.


Ludwig Wittgenstein: introdução ao Tractatus logico-philosophicus. /
Mathieu Marion. Tradução de Bento Prado Neto. – São Paulo, 2012.
(Coleção Filosofia e Linguagem).
130 p. ; 16 x 23 cm.

Título Original: Ludwig Wittgenstein. Introduction au «Tractatus logico-


philosophicus», Paris: Presses Universitaires de France, 2004, 128 pages,
(Collection Philosophies)

ISBN 978-85-391-0462-8

1. Filosofia. 2. Lógica. 3. Linguagem. 4. Ontologia. 5. Tractatus Logico-


Philosophicus. 6. Wittgenstein, Ludwig (1889 – 1951). I. Título. II. Série.
III. Prado Neto, Bento, Tradutor.

CDU 101
CDD 100

Catalogação elaborada por Ruth Simão Paulino

LUDWIG WITTGENSTEIN:
INTRODUÇÃO AO TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS

Projeto, Produção e Capa


Coletivo Gráfico Annablume
Tradução
Bento Prado Neto

Conselho Editorial
Eduardo Peñuela Cañizal
Norval Baitello junior
Maria Odila Leite da Silva Dias
Celia Maria Marinho de Azevedo
Gustavo Bernardo Krause
Maria de Lourdes Sekeff (in memoriam)
Pedro Roberto Jacobi
Lucrécia D’Alessio Ferrara

1ª edição: novembro de 2012

© Mathieu Marion

ANNABLUME editora . comunicação


Rua M.M.D.C., 217 . Butantã
05510-021 . São Paulo . SP . Brasil
Tel. e Fax. (5511) 3539-0226 – Televendas 3539-0225
www.annablume.com.br
Para François e Céline

Gostaria de agradecer Ali Benmakhlouf, David Hyder, François


Latraverse, Jimmy Plourde e Paul Rusnock por seus comentários de
uma versão preliminar deste texto.
ÍNDICE

Introdução 11

O campo de problemas:
da análise lógica da linguagem aos “problemas da vida” 15

Significação, figuração e juízo 25

Linguagem, mundo e pensamento 43

A análise da proposição 55

Problemas ontológicos 69

A operação: lógica e aritmética 85

O mundo sub specie aeternitatis 107

Bibliografia 123
Ao lado de coisas boas e originais, meu livro,
o trat. log.-phil., tem também seu lado kitsch.
L. Wittgenstein
INTRODUÇÃO

E
ste estudo tem a ambição de introduzir o leitor ao Trac-
tatus Logico-Philosophicus1, único livro que Ludwig Wittgen-
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stein�������������������������������������������������������
tenha publicado em vida. Engenheiro de formação, �����
Witt-
genstein inscreveu-se em Cambridge em 1912 para estudar filosofia
sob a orientação de Bertrand Russell. Em 1913, ele se isola às margens
de um fiorde norueguês para ali dar continuidade a suas reflexões. G.
E. Moore irá visitá-lo na primavera de 1914; Wittgenstein então lhe
dita notas destinadas a Russell (NL). Quando a guerra é declarada, em
1914, Wittgenstein alista-se no exército austríaco. Durante o período
que vai de sua estadia na Noruega até o final da guerra, Wittgenstein
preenche seis cadernos de notas, dos quais três foram conservados
(NB). Uma versão preliminar de seu livro, o Prototractatus (PT), será

1 L. Wittgenstein, Logisch-Philosophische Abhandlung / Tractatus Logico-


Philosophicus. Kritische Edition, B. F. McGuinness e J. Schulte, Francoforte,
Suhrkamp, 1989; trad. inglesa, Tractatus Logico-Philosophicus, trad. de D. F.
Pears e B. F. McGuinness, Londres, Routledge & Kegan Paul, 2 ed., 1971. Há
em francês duas traduções, a de Pierre Klossowski (Paris, Gallimard, 1961) e
aquela, que recomendamos, de Gilles-Gaston Granger (Paris, Gallimard, 1993).
(As citações em português são extraídas da tradução de L. H. Lopes dos Santos,
Tractatus Logico-Philosophicus, São Paulo, EDUSP, 2 ed., 1994 – nota do trad.)
publicada em 19712. Seu Logisch-Philosophische Abhandlung é publi-
cado em 1921 no último número da revista Annalen der Naturphi-
losophie. Uma tradução inglesa é publicada no ano seguinte sob o
título de Tractatus Logico-Philosophicus. Wittgenstein então se desin-
teressa da filosofia: só voltará a ela em 1928-1929, quando encontra
os membros do Círculo de Viena. O conteúdo de alguns textos dessa
época (SRLF, LE, WWK, D) permanece próximo ao do Tractatus, mas
Wittgenstein rapidamente repudia seu livro. O que acontece depois
escapa ao âmbito desta obra introdutória.
O Tractatus soma menos de cem páginas e pode ser lido de uma
tirada, sob a condição de resignar-se a não compreender quase
nada dessa obra. O próprio Wittgenstein, aliás, não traria qua-
se nenhum socorro ao leitor desamparado, ele que escrevia a um
possível editor: “Você não irá compreendê-lo” (PT, p. 15), e que
também confessava a Frank Ramsey, apenas alguns anos após a
publicação do livro, “ter esquecido o que ele tinha em vista” ao
escrever certos trechos (M, p. 47-48). O Tractatus é uma obra se-
lada com sete selos e nem é preciso dizer que levanta inúmeros
problemas de interpretação, dos quais não poderei tratar nesta
obra introdutória, na medida em que para tanto eu precisaria o
mais das vezes resolver outros tantos tacitamente. Contentar-me-
ei, pois, em apresentar, numa atitude livre de preconceitos, o que
me parece ser a trama da obra, concentrando-me em seu núcleo
duro e, ao mesmo tempo, cobrindo o maior número possível de
aspectos, com o máximo de coerência possível.
Para não tornar meu texto excessivamente pesado, optei por
não fazer nenhuma referência às críticas ao Tractatus que en-
contramos na “segunda” filosofia de Wittgenstein. Isso também
permite evitar uma leitura enviesada. De fato, Anthony Kenny
mostrou, em “The Ghost of the Tractatus”, que Wittgenstein
tendia a exagerar as diferenças entre sua “segunda” filosofia e a

2 Esse texto é retomado em L. Wittgenstein, Logisch-Philosophische Abhandlung


/ Tractatus Logico-Philosophicus. Kritische Edition, op. cit., p. 181-255.

12
do Tractatus, e, portanto, a apresentar uma imagem deformada
de sua primeira filosofia3.
Procurarei expor as ideias centrais do Tractatus nos termos mais
claros possíveis e também pressupor o mínimo possível por parte do
leitor. No entanto, a obra de Wittgenstein participa da renovação
que as questões e conceitos fundamentais da filosofia receberam sob
o impacto da lógica moderna – esquece-se com excessiva frequência
que a tradição metafísica desdobrou seu discurso sobre a base da
silogística, concebida como propedêutica; não é, portanto, possível
expor suas ideias a um leitor que não se armou previamente de algu-
mas noções elementares de lógica formal4.
Segundo a única nota de rodapé da obra, que acompanha a primeira
proposição, os números decimais associados a cada proposição indicam
seu “peso lógico”, isto é, sua importância na exposição. Wittgenstein
escreveu mais tarde que “a clareza e a nitidez do livro em seu conjunto”
repousam sobre essa numeração, sem a qual “ele só poderia aparecer
como uma barafunda ininteligível” 5. Infelizmente, Wittgenstein não
a respeita: de que proposições, por exemplo, o 2.01 ou ainda o 3.001
podem ser o comentário, uma vez que o 2.0 e o 3.00 não existem?
Além disso, o “peso lógico” de certas proposições não parece de modo
algum ser refletido por sua posição. Para nos atermos a um só exemplo,
aquilo que Wittgenstein chama seu “pensamento fundamental” vem
enunciado no 4.0312 ! Embora não devamos conceder muita atenção
a essa numeração, é preciso guardar no espírito a regra que quer que as
proposições 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7 ocupem uma posição privilegiada.

3 A. Kenny, “The Ghost of the Tractatus”, in The Legacy of Wittgenstein, Oxford,


Blackwell, 1984, p. 10-23.
4 Wittgenstein usava, em seus escritos, a notação dos Principia Mathematica
de Whitehead e Russell; quando necessário, modifiquei sua notação sem
mencioná-lo, para aproximá-la de uma notação mais usual, a saber: “&” para
a conjunção, “V” para a disjunção, “¬” para a negação, “→” ou “⊃” para a
implicação, “≡” para a equivalência, “∃xFx” para o quantificador existencial e
“∀xFx” para o quantificador universal.
5 C. G. Luckhardt (org.), Wittgenstein. Sources and Perspectives, Hassock, The
Harvester Press, 1979, p. 118.

13
O CAMPO DE PROBLEMAS: DA ANÁLISE
LÓGICA DA LINGUAGEM AOS
“PROBLEMAS DA VIDA”

N
o prefácio do Tractatus, Wittgenstein anuncia de maneira
aparentemente imodesta ter “resolvido” os problemas da
filosofia “de vez”. Segundo ele, a formulação destes “re-
pousa sobre uma má compreensão da lógica de nossa linguagem”.
Essa ideia será retomada no texto em 4.003: “A maioria das questões
e proposições dos filósofos provém de não entendermos a lógica de
nossa linguagem”. Ainda no prefácio, Wittgenstein resume seu livro
nos seguintes termos: “Tudo o que se pode em geral dizer, pode-se
dizer claramente; e sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se
calar. O livro pretende, pois, traçar um limite para o pensar, ou me-
lhor – não para o pensar, mas para a expressão dos pensamentos”.
Com efeito, traçar um limite implica a existência de um além desse
limite, mas isso não pode se dar no caso do “pensável”, uma vez que
“deveríamos poder pensar os dois lados desse limite (deveríamos,
portanto, poder pensar o que não pode ser pensado)”. Em 4.114,
Wittgenstein diz também que a filosofia “deve limitar o pensável
e, com isso, o impensável” e que ela “deve limitar o impensável de
dentro, através do pensável”. Em suma, uma vez que não se pode
pensar o impensável, não se poderá traçar o limite senão no interior
da linguagem, delimitando o que pode ser dito (claramente, com
sentido); conseguir-se-á assim, portanto, delimitar o impensável a
partir de dentro, isto é, a partir do pensável, ou, o que dá no mes-
mo, por meio do que pode ser expresso. O objetivo principal da
obra é, portanto, o de traçar um “limite” para a “expressão dos pen-
samentos”, e o traçado desse limite só poderá ser realizado quando
a lógica de nossa linguagem tiver sido bem compreendida. É então
que os problemas da filosofia se revelarão não ser mais que o fruto
de uma “incompreensão da lógica da linguagem”.
Essas observações encerram duas ideias fundamentais. A primeira
encontra sua origem nos trabalhos de Frege e de Russell. É a ideia se-
gundo a qual uma boa compreensão da “lógica de nossa linguagem”
nos permite abordar de modo palpável os problemas filosóficos, e
também resolvê-los. Frege foi o primeiro a adotar essa abordagem,
que se costuma chamar de “virada linguística”, nos Fundamentos da
aritmética (1884). Após ter criticado, entre outras coisas, o uso da
noção de intuição a priori na análise da aritmética por Kant e a ten-
tativa de Mill de fundar as verdades aritméticas sobre generalizações
empíricas, Frege recorre a seu “princípio do contexto”: “Como nos
pode pois ser dado um número, se não podemos ter dele nenhuma
representação ou intuição? Apenas no contexto de uma proposição
as palavras significam algo. Importará portanto definir o sentido de
uma proposição onde ocorra um termo numérico”1. Uma vez que a
significação de uma expressão não pode ser determinada senão por
intermédio da significação dos enunciados nos quais ela comparece,
é da determinação da significação destes que provirá o esclarecimen-
to filosófico. Uma curta explicação do uso que Frege faz de sua má-
xima mostrará seu interesse. Segundo Frege, um enunciado do tipo
“Júpiter tem quatro luas”, no qual intervém um termo numérico,
versa sobre um conceito, o de “lua de Júpiter”, ao qual se atribui o
número quatro. Frege, no entanto, teve a preocupação de mostrar
que, na verdade, os termos numéricos agem no interior dos enun-
ciados não como uma espécie de predicado de predicado, mas como

1 G. Frege, Os fundamentos da aritmética, in col. Os Pensadores, vol. XXXVI,


Peirce/Frege, São Paulo, Abril, 1974, p. 253-254.

16
termos singulares da forma “o número que pertence ao conceito ‘lua
de Júpiter’”. Uma vez que, na linguagem ordinária, os termos sin-
gulares (entre os quais os nomes próprios) denotam objetos, Frege
rejeita a ideia, sustentada por inúmeros filósofos antes dele, segundo
a qual os números são propriedades; trata-se antes de objetos abstra-
tos. Não é necessário discutir mais profundamente essa tese contro-
versa2, o que cabe guardar desse exemplo é a ideia de que um “ex-
curso” semântico pode fazer progredir a reflexão filosófica sobre um
dado problema. Embora não concordasse em muitos pontos com
Frege, Wittgenstein inseriu-se na esteira de sua “virada linguística”,
dizendo no prefácio que o limite será traçado “na linguagem” e, no
4.0031, que “Toda filosofia é ‘crítica da linguagem’”. Nesse trecho,
ele precisa o sentido de sua “crítica” negando todo parentesco entre
seu projeto e o do vienense Fritz Mauthner3 e fazendo, ao contrário,
alusão à teoria das descrições definidas de Russell: “O mérito de
Russell é ter mostrado que a forma lógica aparente da proposição
pode não ser sua forma lógica real” (4.0031).
O próprio Russell irá adotar sensivelmente a mesma atitude que
Frege, mas irá rejeitar, assim como Wittgenstein, seu platonismo da
significação e irá procurar conciliar essa “virada” com uma episte-
mologia empirista, no que ele não será seguido por Wittgenstein.
Voltarei a essa importante questão. Por enquanto, cabe assinalar a
teoria das descrições definidas (desenvolvida por Russell precisa-
mente por ocasião de sua crítica de Frege, no importante artigo
“On denoting”4) como um exemplo marcante do que Wittgenstein
entende por uma melhor “compreensão da lógica de nossa lingua-
gem”. Para Wittgenstein, essa teoria é o que há de “mais importante

2 Sobre Frege, cf. A. Benmakhlouf, Gottlob Frege, Logicien philosophe, Paris,


PUF, 1997; M. Marion e A. Voizard (org.), Frege. Logique et philosophie, Paris,
L’Harmattan, 1997.
3 Sobre a influência de Mauthner, cf. G. Weiler, Mauthner’s Critique of Language,
Cambridge, Cambridge University Press, 1970, p. 298-306.
4 B. Russell, “On denoting”, in Logic and Knowledge, Londres e Nova Iorque,
Routledge, 1988, p. 39-56.

17
na obra de Russell”5. Mais uma vez, uma curta explicação se
impõe.
O ponto de partida de Russell é outra tese de Frege, que diz
respeito aos enunciados como “Ulisses profundamente adormeci-
do foi desembarcado em Ítaca”6. Segundo um princípio semântico
sustentado por Frege, se uma expressão contém outra que não tem
denotação, então ela é, ela própria, desprovida de denotação7. Por-
tanto, se a expressão “Ulisses” não tem denotação, então o enun-
ciado “Ulisses profundamente adormecido foi desembarcado em
Ítaca” não tem denotação. Além disso, Frege sustentava a tese, à
primeira vista estranha, de que os enunciados, a exemplo dos no-
mes, têm uma denotação, e que esta não é um estado de coisas,
mas o valor de verdade mesmo do enunciado; em outros termos, os
enunciados denotam um objeto (necessariamente “abstrato”): ou o
Verdadeiro ou o Falso. (Nesse sentido, os enunciados são análogos
aos nomes próprios). Isso equivale a dizer que o enunciado “Ulisses
profundamente adormecido foi desembarcado em Ítaca”, por não
ter denotação, não é nem verdadeiro nem falso. Essa última tese
corresponde, decerto, à intuição que alguns podem ter acerca de
enunciados desse tipo. Mas Russell partilhava a opinião segundo
a qual a ausência de denotação da expressão “Ulisses” torna falso o
enunciado “Ulisses profundamente adormecido foi desembarcado
em Ítaca”. Em seu artigo “On denoting”, ele mostra que a concepção
de Frege põe inúmeros problemas. O que dizer, para tomar um só
exemplo, do enunciado “Ulisses não existe”? Segundo Frege, este
não seria nem verdadeiro nem falso, o que realmente não é satisfa-
tório. Russell propõe então sua teoria das descrições definidas. Estas
se apresentam como sendo termos singulares, ao mesmo título que
os nomes próprios; o célebre exemplo de Russell sendo “O atual rei
da França”. Toda a teoria de Russell repousa sobre uma paráfrase dos

5 N. Malcolm, Ludwig Wittgenstein – A Memoir, 2ª ed., Oxford, Clarendon,


2001, p. 57.
6 G. Frege, Lógica e filosofia da linguagem, São Paulo, Edusp, 2009, p.137 e segs.
7 D. Laurier, Introduction à la philosophie du langage, Liège, Mardaga, 1993, p. 200.

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enunciados como “O atual rei da França é careca”, que deve ser lida:
“Há um e um único x que é o atual rei da França e esse x é careca”,
ou, em símbolos lógicos:

∃x(Rx & ∀y (Ry → x=y) & Cx)

onde Rx: “x é o atual rei da França”; Cx: “x é careca”. O enuncia-


do afirma então três coisas: que existe ao menos um indivíduo que
é o atual rei da França, que existe no máximo um indivíduo que é o
atual rei da França e que esse indivíduo possui a propriedade de ser
careca. Uma vez que não há indivíduo que seja o atual rei da França,
isto é, que não há x tal que “Há um e um único x que é o atual rei da
França e esse x é careca”, então o enunciado “O atual rei da França
é careca” é, segundo a análise de Russell, muito simplesmente falso,
e não desprovido de valor de verdade. Notar-se-á que a paráfrase
mostra que as descrições definidas só aparentemente são termos sin-
gulares. A gramática superficial de nossa linguagem mascara portan-
to o fato de que as descrições definidas não são mais que “símbolos
incompletos”; estes não remetem a nada por si mesmos, pois não
podem denotar algo senão no interior de um enunciado completo.
Mais uma vez, não é necessário discutir mais profundamente essa
teoria das descrições definidas8, ainda que muitas de suas consequên-
cias sejam importantes para o que segue. O que se deve guardar, por
enquanto, é a ideia de Russell segundo a qual a forma gramatical das
linguagens naturais mascara a forma lógica da proposição9. (Frege irá
falar, em um de seus últimos manuscritos, do trabalho do filósofo
como um “combate com a língua”.10) Essa ideia é retomada por Witt-
�����
genstein, para quem a “desconfiança” para com a gramática é uma
exigência necessária para todo trabalho em filosofia (NL, p. 106) :

8 Ibid., cap. 9.
9 Utilizo, daqui para frente, quase que indiferentemente “proposição”
e “enunciado”. Utilizarei no entanto “proposição” quando for falar
especificamente das teses do Tractatus.
10 G. Frege, Kleine Schriften, Hildesheim, Georg Olms, p. 350.

19
4.002 – A linguagem usual é parte do organismo
humano, e não menos complicada que ele.
É humanamente impossível extrair dela, de modo
imediato, a lógica da linguagem.
A linguagem é um traje que disfarça o pensamento.
E, na verdade, de um modo tal que não se pode in-
ferir, da forma exterior do traje, a forma do pensa-
mento trajado; isso porque a forma exterior do traje
foi constituída segundo fins inteiramente diferentes
de tornar reconhecível a forma do corpo.

Mas Wittgenstein não irá adotar a teoria de Russell, e irá pro-


por sua própria “análise”, como veremos na seção sobre a análise da
proposição. De outro lado, cumpre compreender corretamente o
modo pelo qual Wittgenstein entrevê a relação entre a linguagem
ordinária e as linguagens formais que os lógicos podem construir.
Russell havia escrito, em sua “Introdução” ao Tractatus, que Witt-
genstein se interessava pelas “condições que teria que cumprir uma
linguagem logicamente perfeita”, mas, como o notou Ramsey na
época, não é de modo algum o que ocorre11. Se Frege e Russell
desconfiavam da linguagem ordinária e propunham construir uma
linguagem ideal, Wittgenstein de seu lado acreditava que as propo-
sições da linguagem corrente “estão logicamente, assim como estão,
em perfeita ordem” (5.5563) e que “não podemos pensar nada de
ilógico” (3.03). Não apenas “se pode exprimir todo sentido” em
uma linguagem ordinária (4.002), mas não se pode “representar na
linguagem algo que ‘contradiga as leis lógicas’” (3.032). De fato,
Wittgenstein acreditava que a linguagem ordinária só é falha na me-
dida em que mascara uma forma lógica que, ela, nada tem de im-
perfeito. E, como veremos, ele acreditava que a forma lógica é uma
condição necessária para toda linguagem possível.

11 B. Russell, “Introdução”, in L. Wittgenstein, Tractatus, op. cit., p. 113; F. P.


Ramsey, “Critical Notice of Wittgenstein’s Tractatus Logico-Philosophicus”, in The
Foundations of Mathematics, Londres, Routledge and Kegan Paul, 1931, p. 270.

20
A segunda ideia fundamental contida nas observações citadas no iní-
cio dessa seção já se encontra nos Prinzipien der Mechanik do físico Hein-
rich Hertz, obra cuja Introdução, em particular, influenciou fortemente
Wittgenstein ao longo de toda sua carreira12. Ele a menciona duas vezes
no Tractatus (e várias vezes nos Notebooks), em especial no 4.04, onde
retoma de Hertz uma noção central de sua obra, a de “modelo”. Pode-
se resumir assim o empreendimento de Hertz: no século XIX, surgiram
alguns problemas no interior do quadro da mecânica newtoniana, pro-
blemas que estavam ligados ao uso do conceito de “força”; o que Hertz
propôs foi uma nova formalização da mecânica, livre de toda contradição
e com um poder de expressão que rivaliza com o das formulações prece-
dentes, mas que não recorria a essa noção problemática de “força”. Assim,
segundo Hertz, os problemas ligados a essa noção se “dissipam”, uma vez
que ele mostrou que podemos nos passar desse conceito graças a uma
formulação alternativa que não recorre a ele.
O Tractatus traz um exemplo desse método. Nas proposições
6.02-6.03 e 6.241, Wittgenstein define os números naturais e as ope-
rações aritméticas elementares que se efetuam sobre estes (a adição e a
multiplicação) em termos de “operações”. No 6.031, ele anuncia que
a teoria das classes é “inteiramente supérflua” na matemática. Voltarei
a essas questões na seção sobre a lógica e a aritmética. Por enquanto,
notemos que a noção de “classe” desempenha um papel central no
projeto “logicista” de Frege e de Russell de fundar a matemática em
um sistema axiomático de lógica. Infelizmente, a axiomática proposta
por Frege permitia a formulação de um paradoxo, descoberto por
Russell. Nos Principia Mathematica13, para evitar esse paradoxo, Rus-
sell empregou uma teoria dos tipos que engendra, por sua vez, proble-
mas de outra ordem. A observação de Wittgenstein no 6.031 só tem
sentido porque ele acaba de oferecer, nas proposições precedentes,

12 H. Hertz, Die Prinzipien der Mechanik in neuerem Zusammenhange dargestellt,


Leipzig, J. A. Barth, 1894; cf. J. Leroux, “La philosophie des sciences de Hertz
et le Tractatus”, Lekton, vol. 1, n.1, 1990, p. 187-195.
13 A. N. Whitehead e B. Russell, Principia Mathematica, Cambridge, Cambridge
University Press, 3 vols., 1910-1913, 2 ed., 1926

21
o que se poderia a rigor descrever como um “modelo” da aritmética
que não recorre à noção de classe. Mostrando que se pode oferecer
tal “modelo”, Wittgenstein produziu uma peça de filosofia da ciência
à la Hertz, e se pode afirmar sem hesitação que ele acreditava que as
dificuldades ligadas à noção de classe seriam assim “dissolvidas”.
Esses problemas de filosofia da matemática não podem ser consi-
derados como a totalidade daqueles que Wittgenstein, no prefácio,
havia dito que havia resolvido “de vez” e acerca dos quais ele anun-
cia que se deve, todas as contas feitas, guardar silêncio. Sobre o que,
então, se deve guardar o silêncio?
Pode-se dizer que Russell, excessivamente ocupado em desenvol-
ver a lógica – a teoria dos tipos – como utensílio para os fundamen-
tos da matemática, não havia prestado atenção suficiente à essência
mesma da lógica; Wittgenstein não se preocupará muito com as
questões mais técnicas, e seu livro versa antes sobre a essência da
lógica. Mas Wittgenstein também tratou ali de questões existenciais
no interior do quadro lógico e filosófico que ele desenvolveu na es-
teira dos trabalhos de Frege e de Russell. O próprio Wittgenstein irá
escrever em 1916: “Meu trabalho na verdade se desenvolveu a partir
dos fundamentos da lógica até a essência do mundo” (NB, p. 79).
Vale evocar aqui uma carta a Ludwig von Ficker, na qual Witt-
genstein diz, acerca do prefácio de sua obra, que

...eu queria escrever o seguinte: meu trabalho con-


siste em duas partes; uma que é aqui apresentada, e
à qual deve ser acrescentado tudo o que eu não es-
crevi. E é precisamente essa parte que é importante.
Com efeito, meu livro traça os limites da Ética, por
assim dizer do interior... Enfim, creio que no que
concerne tudo aquilo de que muitos hoje falam para
não dizer nada, eu o repeti ao calá-lo (PT, p. 15)14.

14 Sobre as questões dos limites e do silêncio, cf. F. Latraverse, “Ce que se taire
veut dire. Remarques sur la question du silence dans le Tractatus”, in Corps
écrit, n. 12, Paris, PUF, 1984, p. 39-54.

22
Como essa observação o indica, os verdadeiros problemas, para
Wittgenstein, são os da ética e ele pode afirmar, por outro lado, no
finalzinho do prefácio do Tractatus que, uma vez resolvidos todos
os problemas filosóficos, percebemos “como isso importa pouco”;
de fato, não se tocou nos verdadeiros problemas – os “problemas
da vida” (6.52) –, mas apenas se mostrou que eles não foram atin-
gidos. Seria portanto equivocado associar de forma rápida demais
o Tractatus com a cruzada antimetafísica do Círculo de Viena. De-
certo, as últimas proposições do Tractatus constituem uma crítica
da metafísica que será retomada pelos “positivistas” (dentre os quais
Carnap, sob as espécies de sua distinção entre o modo material e o
modo formal de expressão), mas essa crítica se aplica aos físicos tan-
to quanto aos filósofos profissionais que falam “para não dizer nada”
– Wittgenstein falará mais tarde em “tagarelice sobre a ética” – e ela
não toca o que Wittgenstein percebe como “o essencial do que está
em jogo” na ética (WWK, p. 69).
Pode-se evocar aqui uma carta de Wittgenstein a Engelmann (9 de
abril de 1917) para sustentar essa observação. Wittgenstein dizia ali,
acerca de um poema de Uhland do qual gostava, que “se somente não
tentamos exprimir o que é inexprimível, então nada se perde. Muito
pelo contrário, o inexprimível está – inexprimivelmente – contido no
que é expresso” (L, 209). O inexprimível é portanto indiretamente
comunicado naquilo que é expresso. (A ideia de uma comunicação
indireta é retomada de Kierkegaard.) Vê-se então que Wittgenstein
não queria rejeitar a ética como equivalente à metafísica, isto é, como
um discurso desprovido de sentido, mas antes traçar um limite para
a expressão dos pensamentos que mostrará que todo discurso filo-
sófico sobre a ética não é mais que “tagarelice”. Rejeitar o Tractatus
como uma obra “positivista” é não ver a admirável conjunção que
Wittgenstein opera entre uma crítica da metafísica pela via da análise
da linguagem e uma ética essencialmente estoica da renúncia, que ele
herda muito provavelmente pelo intermédio de Schopenhauer e que
lhe permite trazer uma solução para os “problemas da vida”.
O campo de problemas fundamentais do Tractatus está portanto
ligado ao traçado do limite para a expressão dos pensamentos. De

23
um lado, muitas questões de filosofia da linguagem, da lógica e da
matemática são resolvidas enquanto se traça esse limite. Esse traça-
do sustenta as críticas endereçadas, por exemplo, à teoria dos tipos
de Russell, mas o benefício desse limite é também, de outro lado,
a possibilidade de resolver problemas de ordem ética ou religiosa,
graças a uma hábil utilização da ética estoica. Em suma, Wittgen-
��������
stein procurou resolver de um só golpe todos os problemas que o
preocupavam.
A resolução dos problemas da filosofia passa portanto por uma
correta compreensão da lógica de nossa linguagem ou, o que parece
dar no mesmo, pelo traçado do limite para a “expressão dos pen-
samentos”, acerca do qual Wittgenstein nos diz que ele “só poderá
ser traçado na linguagem, e o que estiver além do limite será sim-
plesmente um contrassenso”. O limite servirá portanto de linha de
demarcação entre as proposições “dotadas de sentido” (sinnvoll) e o
“contrassenso” (Unsinn). Tal será nosso fio condutor. Assim, nem é
preciso dizer que cabe começar por explicitar as condições necessá-
rias para que uma proposição tenha um “sentido”. Para consegui-lo,
será preciso no entanto primeiro compreender a herança de Frege
e de Russell, cujas ideias constituem o ponto de partida da refle-
xão de Wittgenstein. Fato significativo, são os únicos autores que
ele menciona em seu prefácio. Após a publicação, nos anos 70, do
livro A Viena de Wittgenstein15, de Alan Janik e Stephen Toulmin,
muito se falou da importância do meio cultural vienense para o
desenvolvimento do pensamento de Wittgenstein. A chave da obra,
no entanto, encontra-se no traçado do limite para a expressão dos
pensamentos e é a herança de Frege e de Russell, e não a de Kraus,
Weininger, Schopenhauer e Kierkegaard que nos permite compre-
ender esse traçado. O papel deste últimos decerto não é negligenci-
ável, mas se situa em outro patamar da obra.

15 A. S. Janik e S. E. Toulmin, A Viena de Wittgenstein, Rio de Janeiro, Campus, 1991.

24
SIGNIFICAÇÃO, FIGURAÇÃO E JUÍZO

É
com Russell que Wittgenstein começou a terçar lanças em
filosofia, entre 1912 e 1914, antes de partir para a guerra e
escrever seu Tractatus. A reputação de Russell veio a se des-
vanecer no meio do século XX, de modo que não percebemos mais
hoje em dia a imensa importância de suas inovações e de seu papel
no desenvolvimento da filosofia nesse século. É preciso libertar-se
desses preconceitos ridículos; sua influência sobre a obra do jovem
Wittgenstein – que se referirá frequentemente a “nossos problemas”
(CL, p. 19, 110 e 111) ou a “nossa teoria” (CL., p. 21) – é sem igual,
a ponto de o Tractatus muitas vezes só se esclarecer como reação,
positiva ou negativa, às ideias de Russell1. Já mencionei a teoria das

1 Minha leitura opõe-se portanto por princípio às leituras “fregianas” do


Tractatus, como, por exemplo, a de Peter Carruthers, Tractarian Semantics.
Finding Sense in Wittgenstein’s Tractatus, Oxford, Blackwell, 1989. Também
se opõe às recentes leituras americanas do Tractatus, cujo único objetivo é
o de mostrar que Wittgenstein não tinha por objetivo propor uma nova
teoria da lógica na linhagem daquelas de Frege e de Russell, mas sim mostrar,
numa abordagem visceralmente destrutiva, que toda tentativa desse tipo só
pode desembocar na produção de contrassensos. (Tal seria o sentido das
descrições definidas, à qual voltarei na próxima seção. Gostaria ago-
ra de apresentar dois outros aspectos do pensamento de Russell que
irão desempenhar um papel crucial naquilo que segue, quais sejam,
o “atomismo lógico” e sua teoria do juízo como “relação múltipla”.
Apresentarei o “logicismo” de Russell quando for abordar as ques-
tões de filosofia da matemática.
É assim bastante interessante esboçar as ideias centrais do ato-
mismo lógico nos servindo da rejeição, por Russell e por Wittgen-
��������
stein, da distinção que Frege estabelece entre “sentido” (Sinn) e
“denotação” (Bedeutung), em seu célebre artigo de 18922. O ponto
de partida de Frege é o fato de que não se pode explicar, sem essa
distinção, a diferença de valor cognitivo entre enunciados do tipo
“a = b”, tal como “Héspero é Fósforo”, e “a=a”, tal como “Héspero
é Héspero”. Segundo Frege, os nomes “Héspero” e “Fósforo” deno-
tam realmente o mesmo objeto, mas têm “sentidos” distintos, e é aí
que reside o valor cognitivo do enunciado “Héspero é Fósforo”. Na
verdade, Russell e Wittgenstein não rejeitavam a distinção como tal,
mas antes o uso que dela faz Frege, ao estendê-la a todas as categorias
da linguagem: nomes, conceitos, enunciados, etc. Para simplificar,
podemos dizer que, para Russell e Wittgenstein, nenhuma dessas
categorias tem simultaneamente um sentido e uma denotação.
Segundo Frege, o enunciado “Bismarck calça 43” não deve ser
analisado no modo tradicional sujeito/predicado, mas em termos de
função e argumento. Ele poderia portanto ser analisado na forma
C(b), com “b” para o argumento “Bismarck” e “C” para a função
“__ calça 43”. (Ele também poderia ser analisado de outro modo,
digamos: B(c); para Wittgenstein, no entanto, “há uma e uma só

últimas frases do Tractatus). A origem dessa abordagem encontra-se em C.


Diamond, “Throwing Away the Ladder”, em The Realistic Spirit, Cambridge,
Mass., MIT Press, 1991, p. 179-204; para uma exposição detalhada, cf. M.
B. Ostrow, Wittgenstein’s Tractatus. A Dialectical Interpretation, Cambridge,
Cambridge University Press, 2002.
2 G. Frege, “Sobre o Sentido e a Referência”, in Lógica e filosofia da linguagem,
op. cit., p. 129-158.

26
análise completa da proposição” (3.25).) Um nome próprio tal
como “Bismarck” possui uma denotação (no caso, o objeto que foi a
pessoa de Bismarck) e um sentido, que Frege descreve sumariamen-
te como o “modo de apresentação” ou de “doação” da denotação. O
predicado “calça 43”, por sua vez, exprime um sentido, que não é
nada além da propriedade de calçar 43, e denota uma função, que é
definida da seguinte maneira. Toda função, segundo Frege, tem por
domínio o universo – ou seja, o conjunto de todos os objetos, con-
cretos ou abstratos – e cada função é definida pelo conjunto dos va-
lores que ela associa aos objetos do domínio. No caso de “___ calça
43”, o valor é sempre um valor de verdade, o Verdadeiro ou o Falso
(o que faz dessa função, segundo Frege, um conceito). Suponhamos
que Bismarck calçasse de fato 43, então a função “___ calça 43” tem
por valor “Verdadeiro” quando toma como argumento “Bismarck”.
Em último lugar, Frege considerava que o enunciado “Bismarck cal-
ça 43” exprime um sentido, que ele chama muito simplesmente o
“pensamento” (Gedanke) de que Bismarck calça 43, e denota seu
valor de verdade; este último, segundo Frege, é um dois seguintes
objetos: o Verdadeiro ou o Falso. O nome próprio e o enunciado
têm portanto o mesmo modo de significação, a denotação. A objeção
de Wittgenstein a essa tese é um dos fundamentos do Tractatus.
Russel consignou suas críticas às concepções de Frege em seu
artigo “On denotation”, no qual sua teoria das descrições (apresenta-
da na seção precedente) desempenha um papel muito importante.
Os termos singulares são descrições definidas ou nomes próprios e,
para Russell, que nisso segue a teoria de John Stuart Mill, os nomes
próprios não têm “sentido” que lhes seja associado: eles denotam
diretamente um objeto, um pouco como uma etiqueta. Se assim é,
então o problema de Frege, isto é, o da distinção entre “Héspero é
Fósforo” e “Héspero é Héspero”, permanece intocado, uma vez que
a solução de Frege é rejeitada. Com sua teoria das descrições defini-
das, Russell conseguia parafrasear os usos contextuais das descrições
definidas de tal modo que a expressão denotativa desaparecia, e sua
resposta ao problema de Frege consiste portanto em dizer que ao
menos um dos termos, “Héspero” ou “Fósforo”, deve na verdade

27
ser uma descrição definida disfarçada. Haveria então “nomes logi-
camente próprios” (logically proper names) que não são descrições
disfarçadas, mas não os conhecemos antes da análise. Como vere-
mos, essa ideia é particularmente importante em Wittgenstein, para
quem as noções de “nome” e de “objeto simples” são aparentadas
à de “nome logicamente próprio”. Reencontramos, por exemplo,
o “isto” (this), que é um dos egocentric particulars de Russell, nos
Notebooks: “O que parece nos ser dado a priori é o conceito do isto.
Idêntico ao conceito de objeto” (NB, p. 61).
Segundo Russell, os “nomes logicamente próprios” denotam de
modo imediato “particulares”. Constituem de certa forma as unida-
des fundamentais, os “átomos” da significação, de onde a expressão
“atomismo lógico”, que Russell irá utilizar para descrever sua filo-
sofia:

A razão pela qual chamo minha teoria de atomis-


mo lógico é que os átomos aos quais quero chegar
enquanto resíduos últimos da análise são átomos ló-
gicos, e não átomos físicos. Alguns são o que chama-
rei de “particulares” – tal como pequenas manchas
de cor ou sons, coisas momentâneas – e outros são
predicados ou relações, etc. O que importa é que o
átomo ao qual quero chegar é o átomo da análise
lógica, não o da análise física3.

Não se deve assimilar inteiramente o projeto de Wittgenstein ao


atomismo lógico de Russell; uma boa parte deste livro é consagrada
a detalhar suas diferenças. No entanto, não é possível compreender
o Tractatus sem pôr em relevo essas diferenças sobre um pano de
fundo comum. A analogia com a física e a química, é claro, era
também partilhada por Wittgenstein, que irá escrever nos anos 30:

3 B. Russell, The Philosophy of Logical Atomism, Londres e Nova Iorque,


Routledge, 2010, p. 3.

28
Minha concepção no Tractatus Logico-Philosophicus
era falsa [...] pois eu pensava também que a análise
lógica deveria trazer à luz coisas escondidas (como a
análise química e a análise física) (PG, p. 210).

A oposição com relação a Frege não se limita aos nomes pró-


prios. Como eu disse, Frege considerava que um enunciado exprime
um sentido, chamado por ele de “pensamento” (Gedanke), e denota
seu valor de verdade, isto é, o Verdadeiro ou o Falso. Essa tese é, para
Russell, inaceitável, mas os argumentos que ele desdobra contra a
teoria fregiana em “On denotation” são particularmente obscuros e
ainda hoje em dia tema de controvérsia4. É Wittgenstein quem tra-
rá a chave de abóbada do edifício do atomismo lógico, com uma das
teses mais célebres de seu livro, segundo a qual “a proposição é uma
figuração da realidade” (4.021). Essa tese será apresentada em deta-
lhe no começo da próxima seção5. Por enquanto, cumpre perceber
que a proposição não tem “denotação” no sentido em que os nomes
simples “denotam” objetos – seu modo de significação é diferente.
Ela “afigura” (abbildet) a realidade. Para descrever essas proposições,
Wittgenstein usa sempre no Tractatus a expressão “ter sentido” (Sinn
haben), mas não se trata do “sentido” de que fala Frege, isto é, do
“modo de apresentação”: segundo o 2.221, as proposições, sendo
a figuração de uma situação (Sachlage), “representam” (darstellen)
seu sentido. E, contrariamente ao que dizia Frege, as proposições
não denotam seu valor de verdade: quando um estado de coisas
(Sachverhalt) existe que corresponde à proposição, então esta é ver-
dadeira, senão, ela é falsa. (A distinção entre “estado de coisas” e “si-
tuação” será apresentada na seção sobre os problemas ontológicos.)
Eis, portanto, nos termos mais simples possíveis, a oposição de
Russell e de Wittgenstein às concepções de Frege. Os detalhes des-

4 Cf. D. Laurier, Introduction à la philosophie du langage, op. cit., p. 210-212


5 Para uma introdução concisa à teoria da figuração no conjunto da obra de
Wittgenstein, cf. J. Bouveresse, “‘Le tableau me dit soi-même...’ La théorie de
l’image dans la philosophie de Wittgenstein”, Macula, 5/6, p. 150-164.

29
sa oposição (assim como daquela entre as concepções de Russell
e as de Wittgenstein) serão tema das seções seguintes. Talvez seja
útil mencionar aqui uma das consequências mais importantes da
oposição de Wittgenstein a Frege. Para este último, os conectivos
lógicos tais como “e” ou “ou” são termos que denotam funções cujo
domínio é constituído por pares de valores de verdade e o contra-
domínio pelos valores Verdadeiro e Falso. Para Frege, portanto, os
conectivos lógicos são tão somente funções como quaisquer outras.
Mas Wittgenstein, em 5.44, irá rejeitar a tese segundo a qual as
funções de verdade são “funções materiais”. Na verdade, segundo
ele, os conectivos lógicos não são sequer funções; são “operações”
– as “operações de verdade” (Warheitsoperationen) –, ao passo que
as funções de verdade são o resultado da aplicação de operações
de verdade às proposições elementares (5.3-5.32). Wittgenstein irá
opor então à semântica “funcional” e conjuntista de Frege uma Ars
combinatoria leibniziana, uma combinatória6 de inspiração nitida-
mente mais construtivista, que será apresentada na seção sobre a
lógica e a aritmética.
Quando Wittgenstein encontra Russell em 1911, este acaba de
terminar a redação de um pequeno livro, Problemas de filosofia7, que
constitui sua primeira investida no campo da teoria do conheci-
mento. Esta, tal como a podemos reconstituir a partir dos diversos
textos da época, está essencialmente fundada em duas teses sobre
estas relações cognitivas que são o “conhecimento direto” ou “co-
nhecimento por familiaridade” (knowledge by acquaintance) e o ju-
ízo. Nos dois casos, um “ato” está implicado. A rigor, pode-se falar,
como Russell o faz por vezes, de “sujeito”, mas sob a condição de
lembrar que Russell compartilhava a tese de Hume (A Treatise on
Human Nature, book I, part IV, sec. VI) segundo a qual a intros-
pecção não nos oferece nunca uma apreensão de um “eu” isolado,

6 Cf. P. Simons, “Wittgenstein and the Semantics of Combination”, in R.


Chisholm, J. C. Marek, J. T. Blackmore, A. Hübner (orgs.), Philosophy of Mind/
Philosophy of Psychology, Viena, Hölder-Pichler-Tempsky, 1985, p. 446-449.
7 B. Russell, The Problems of Philosophy, Londres, Williams and Norgate. 1912.

30
independente de seus atos. No caso do conhecimento por familia-
ridade, esse sujeito está em relação com um único objeto, e assim
a relação se dá entre dois termos, ao passo que no caso do juízo ele
está em relação com vários objetos, e a relação é dita “múltipla”8. O
objeto do conhecimento por familiaridade é o “sense-datum”, ex-
pressão introduzida por Moore, mas que Russell irá popularizar nos
Problemas de filosofia9. O sujeito está portanto em relação direta,
imediata com esses objetos, cujo estatuto permanecerá aliás obscuro
tanto para Moore quanto para Russell. (Estão eles na mente ou no
cérebro? Ou na superfície dos objetos?, etc.) Isso implica que não há
conhecimento direto (conhecimento por familiaridade) dos objetos
físicos, mas apenas um conhecimento indireto: eles estão de certa
forma por trás dos sense-data, com os quais estariam em relação cau-
sal. É o que Russell irá exprimir ao dizer: “A mesa real, se ela existe,
não é imediatamente conhecida por nós, mas deve ser o resultado de
uma inferência a partir daquilo que é imediatamente conhecido.”10
A teoria do conhecimento deve portanto mostrar como chegamos a
um conhecimento (knowledge) dos objetos que povoam o “mundo
exterior” – e das outras mentes (other minds) – com base naquilo
que conhecemos diretamente, isto é, com base nos sense-data, que
são particulares, e nos universais (propriedades e relações), que Rus-
sell irá também admitir como objetos do conhecimento por familia-
ridade. O princípio que Russell irá seguir a partir de 1913 será o de
substituir, sempre que possível, “construções lógicas” às entidades
das quais só se pode inferir a existência11.
A teoria do conhecimento de Russell, que pode ser considerada
um dos florões do empirismo britânico, está intimamente ligada
à sua filosofia da linguagem. Com efeito, ele já havia enunciado
nos Problemas de filosofia o “princípio fundamental” da análise da

8 B. Russell, Philosophical Essays, Londres, Routledge, 1994, p. 155.


9 B. Russell, The Problems of Philosophy, op. cit., p. 17.
10 Ibid.p. 16-17.
11 B. Russell, “The relation of Sense-Data to Physics ”, in Mysticism and Logic,
Londres, Allen & Unwin, 1986, p. 149.

31
proposição, segundo o qual: “Toda proposição que podemos com-
preender deve ser composta unicamente de constituintes dos quais
temos um conhecimento por familiaridade.”12 A palavra “análise”
deve ser aqui tomada no sentido tradicional da decomposição de
um todo em suas partes. É o programa da redução ao conhecimento
por familiaridade, que na verdade não é mais que a contraparte do
programa de “construção lógica” dos objetos do mundo exterior13.
Russel havia avançado uma distinção entre conhecimento “ por fa-
miliaridade” e conhecimento “por descrição”. Nenhum de nós tem
um conhecimento por familiaridade de Júlio César, só temos dele
um conhecimento por descrição do tipo “o homem que foi assassi-
nado por ocasião dos Idos de Março”, etc. Mas este conhecimento
se baseia em última instância em elementos dos quais temos um
conhecimento por familiaridade (o livro que eu li, etc.). O conhe-
cimento por descrição nos permite “ultrapassar os limites de nossa
experiência privada”14, mas ele deve desaparecer com a análise que
explicitará sua significação:

É preciso que atribuamos alguma significação às


palavras que usamos para que possamos falar com
sentido, ao invés de emitir simples sons; e a signi-
ficação que atribuímos às nossas palavras deve ser
algo de que nós temos [o conhecimento por familia-
ridade]. Se, por exemplo, formulamos uma afirma-
ção acerca de Júlio César, claro está que o próprio
Júlio César não está diante de nossa mente, uma vez
que não temos dele um [conhecimento por familia-

12 Ibid., p. 80-81. Esse princípio já está estabelecido desde 1905, no artigo “On
denoting”, op. cit., p. 55-56.
13 O que não deixa de lembrar a dualidade redução/constituição em Husserl.
Sobre os numerosos paralelos entre o programa de Russell e de Husserl, cf. J.
Hintikka, “The Phenomenological Dimension”, in B. Smith e D. Woodruff
Smith (org.), The Cambridge Companion to Husserl, Cambridge, Cambridge
University Press, 1995, p. 78-105.
14 B. Russell, The Problems of Philosophy, op. cit., p. 92.

32
ridade]. É uma descrição que temos na mente [...]
nossa afirmação não tem exatamente a significação
que parece ter, mas sim uma que envolve, em vez de
Júlio César, alguma descrição dele que é composta
unicamente de particulares e de universais dos quais
temos [conhecimento por familiaridade]15.

Mostrarei, na seção sobre a análise, que a concepção que �����


Witt-
genstein tem da “análise” da proposição difere de modo essencial
daquela de Russell, uma vez que Wittgenstein vai procurar livrar-se
dos “complexos”, tais como “a-faca-está-a-esquerda-do-prato” ou,
mais formalmente, “a-está-em-relação-R-com-b”, os quais, segundo
Russell, podemos tanto perceber quanto nomear. Por outro lado,
a “análise” de Wittgenstein não pode em circunstância alguma ser
compreendida de outro modo do que como uma variante do projeto
de Russell. Como não ver a semelhança entre o princípio da redução
ao conhecimento por familiaridade de Russell e a ideia de Wittgen-
��������
stein (que será apresentada na seção sobre a análise) segundo a qual
uma proposição complexa deve ser “completamente analisada” em
“proposições elementares” que consistem em um “encadeamento”
de nomes, os quais “estão por” (ou “substituem”) objetos (3.22)?
Sem dúvida alguma, essa semelhança não deve mascarar importan-
tes diferenças; além disso, mostrarei, na seção sobre os problemas
ontológicos, que os “objetos” que constituem o terminus da análise
segundo Wittgenstein não são os sense-data de Russell; no entanto,
não faz absolutamente sentido algum não os conceber, nesse quadro
russelliano, como objetos da “experiência imediata” – uma expres-
são que Wittgenstein usará a partir de 1929.
Uma vez que a relação entre o sujeito ou ato e o “sense-datum”
é simples (isto é, com dois termos) e imediata, não há, segundo
Russell, possibilidade de erro. No entanto, ao julgar, podemos nos
enganar. Assim, quando Otelo crê ou julga que “Desdêmona ama
Cássio”, ele se engana. O que ocorre, nesse caso? É preciso começar

15 Ibid., p. 91-92

33
por notar que o objeto da crença de Otelo é uma proposição, “Des-
dêmona ama Cássio”, mas é também um “complexo” (na época, a
distinção entre proposição e complexo não estava clara para Rus-
sell), que podemos nomear “Desdêmona-está-em-relação-de-amor-
com-Cássio”, e simbolizar, a partir da forma “xRy” das relações bi-
nárias, do seguinte modo: “dAc” (com “d” para Desdêmona, “c”
para Cássio e “A” para o universal ou relação “amor”). Em 1904,
Russell publicou um longo artigo na revista Mind sobre a teoria
de Meinong16. Segundo Meinong, a todo juízo corresponde um
complexo, um “objetivo” (Objektiv)17: a um juízo verdadeiro corres-
ponde um objetivo subsistente, a um juízo falso, um objetivo que
não subsiste18. Russell ainda estava próximo do ponto de vista de
Meinong e concluía seu artigo dizendo que a verdade e a falsidade
são propriedades (de proposições) que não podem ser analisadas e
que não podemos fazer mais que apreender (apprehend), exatamen-
te como há rosas que são brancas e rosas que são vermelhas19. Mas
muito rapidamente ele veio a julgar tal posição “intolerável”20, em
particular porque ela não respeita o princípio de não-contradição,
e ele irá abandoná-la já no ano seguinte, em “On denoting”. Mais
tarde, ele irá escrever em “On the Nature of Truth and Falsehood”:

[...] essa hipótese tem igualmente o inconveniente


de tornar inteiramente inexplicável a diferença entre

16 B. Russell, “Meinong’s Theory of Complexes and Assumptions”, Mind, vol 13,


1904, p. 204-217, 336-354 e 509-524. Para os textos de Meinong discutidos
por Russell, cf. A. Meinong, Théorie de l’objet et présentation personnelle, Paris,
Vrin, 1999.
17 Sobre a definição de “objetivo”, cf. A. Meinong, Théorie de l’objet et présentation
personnelle, op. cit., p. 69-70.
18 O alemão bestehen, aqui traduzido por “subsistir”, será retomado por
Wittgenstein no Tractatus logico-philosophicus. Não é possível saber se
Wittgenstein leu Meinong, mas parece evidente que ele conhecia os textos de
Russell em que este discute os trabalhos de Meinong.
19 Ibid., p. 524.
20 B. Russell, , “On denoting”, op. cit., p. 45.

34
o verdadeiro e o falso. Sentimos que, quando nosso
juízo é verdadeiro, deve haver fora de nosso juízo uma
entidade que lhe “corresponde” de um modo ou de
outro, ao passo que quando nosso juízo é falso, ne-
nhuma entidade semelhante lhe corresponde21.

A solução que Russell irá preconizar consiste em rejeitar a pre-


missa segundo a qual o juízo é uma relação binária entre um sujei-
to, digamos Otelo, e uma proposição, tal como “Desdêmona ama
Cássio”. Portanto, nos enunciados que versam sobre as “atitudes
proposicionais” tais como a crença (a compreensão, o juízo, etc.),
dos quais “Otelo crê que Desdêmona ama Cássio” constitui um
exemplo, é preciso “analisar” a parte proposicional. Russel irá por-
tanto defender uma teoria do juízo como “relação múltipla”22 en-
tre um sujeito e os objetos que constituem a parte proposicional,
no caso, d, c e A. (Muito evidentemente, Desdêmona e Cássio não
são “nomes logicamente próprios”, mas essa complicação pode ser
deixada de lado no que segue). É a relação de crença que liga os
elementos entre si. O sujeito tem portanto um conhecimento por
familiaridade desses elementos, mas é possível que, ao recompor os
elementos em seu juízo, o sujeito se engane, pois nenhuma entidade
na realidade corresponde ao enunciado “Desdêmona ama Cássio”,
o qual é, portanto, falso.
Essa teoria do juízo como relação múltipla não era de interesse
marginal para o projeto de Russell, pois fora concebida com vistas
a dar uma base epistemológica para a teoria dos tipos dos Principia
Mathematica23. Ela foi portanto muito naturalmente um dos pontos
de partida das reflexões de Wittgenstein e é muito importante para
a compreensão do Tractatus. Ali encontramos, em poucas linhas,

21 B. Russell, “On the Nature of Truth and Falsehood”, in Philosophical Essays,


Londres, Routledge, p. 152.
22 Ibid, p. 155.
23 Cf. S. Sommerville, Types, Categories and Significance, tese de doutorado,
Universidade MCMaster, seção C, apêndice A.

35
em 5.541-5.542, uma teoria do juízo que está longe de ser vaga e
incompleta, uma vez que ela pode até mesmo ser formalizada24� e
que se opõe de modo essencial à de Russell. O leitor desatento pode
não notar a alusão à “teoria de Russell” no 5.5422. Cumpre dizer
que se trata de uma alusão a um manuscrito de Russell, Theory of
Knowledge, de 1913, que só foi publicado em... 198425 – Russell
abandonou seu projeto sob o golpe de uma crítica de Wittgenstein
que o havia “paralisado” (CL, p. 29 e 33). Portanto, só a partir dessa
época foi possível compreender o sentido dessa alusão (assim como
as numerosas alusões nos Notebooks) e a importância das críticas
de Wittgenstein para a compreensão de seu próprio “pensamento
fundamental” (4.0312).
A análise de Russell tal como a apresentei defronta-se com obje-
ções elementares. Com efeito, deve-se poder explicar a diferença en-
tre “Otelo crê que Desdêmona ama Cássio” e “Otelo crê que Cássio
ama Desdêmona”, ou seja, entre dAc e cAd. Quando a crença é con-
cebida como uma atitude proposicional, isto é, como uma relação
entre um sujeito e uma proposição, essa diferença não é problemá-
tica, mas no caso da teoria da relação múltipla, os elementos são os
mesmos e não estão em relação entre si mas em relação com Otelo.
Pior, nada na teoria permite evitar o contrassenso Adc ou “Otelo
crê que ama Desdêmona Cássio”, uma vez que o universal “amor”
já não comparece ali como uma relação que liga os elementos, mas
simplesmente como um objeto ligado pela relação de crença. Essa
questão irá preocupar no mais alto grau Wittgenstein – por aqui
voltamos à questão da limitação do contrassenso –, como o atesta
sua carta a Russell de 16 de janeiro de 1913:

24 Cf. G.-J. Lokhorst, “Ontology, Semantics and Philosophy of Mind in


Wittgenstein’s Tractatus: A Formal Reconstruction”, Erkenntnis, vol. 29,
1988, p. 53-64.
25 B. Russell, Theory of Knowledge. The 1913 Manuscript, Londres, Allen &
Unwin, 1984; trad. franc.: Théorie de la connaissance. Le manuscript de 1913,
Paris, Vrin, 2002.

36
Toda teoria dos tipos deve ser tornada supérflua por
uma teoria adequada do simbolismo. Se eu analiso
a proposição Sócrates é mortal em Sócrates, mor-
talidade e (∃x, y)ε1(x,y), preciso de uma teoria dos
tipos que me diga que “Mortalidade é Sócrates” é
um contrassenso porque se eu trato “Mortalidade”
como um nome próprio (o que acabo de fazer) não
há nada que me impeça de fazer a substituição ao
contrário... (CL, p. 24-25).

(Voltarei logo adiante à crítica da teoria dos tipos). Essa ideia é


retomada em 5.5422:

5.5422 – A explicação correta da forma da proposi-


ção “A julga p” deve mostrar que é impossível julgar
um contrassenso. (A teoria de Russell não satisfaz
essa condição).

A natureza exata da objeção de Wittgenstein à teoria de Russell é


muito difícil de apreender e é impossível explicá-la detalhadamente no
quadro desta introdução26. Russell irá retrabalhar sua teoria em 1913,
por ocasião da redação de sua Theory of Knowledge. A objeção com a
qual Russell se defronta é, como vimos, dupla. No que diz respeito à
possibilidade de julgar um contrassenso tal como Adc, Russell modifi-
ca sua teoria adotando uma terceira categoria de objetos (ao lado dos
“particulares”, que são os sense-data, e dos universais) dos quais teríamos
um conhecimento por familiaridade, a saber, a “forma lógica”. No caso

26 Cf. S. Sommerville, Types, Categories and Significance, op. cit., e “Wittgenstein


to Russell (July 1913). ‘I am very sorry to hear: my objection paralyses you’”,
in R. Haller e W. Grassl (org.), Language, Logic and Philosophy, Viena, Hölder-
Pichler-Tempsky, 1980, p. 182-188; N. Griffin, “Wittgenstein’s Criticism of
Russell’s Theory of Judgement”, Russell: The Journal of the Bertrand Russell
Archives, vol. 5, 1985-1986, p. 132-145; D. J. Hyder, The Mechanics of
Meaning. Propositional Content and the Logical Space of Wittgenstein’s Tractatus,
Berlin, de Gruyter, 2002.

37
de “Otelo crê que Desdêmona ama Cássio”, a forma lógica seria a das
relações binárias xRy, da qual dAc seria uma instanciação. Em suma, a
análise desse enunciado teria aproximadamente a forma:

C = {O, d, A, c, xRy}

(com “C” para a relação de crença e “O” para Otelo). A ideia


de um conhecimento por familiaridade das formas lógicas, que não
deixa de lembrar a intuição categorial de Husserl, não é nenhuma
novidade em Russell, que já dizia em The Principles of Mathematics
acerca dos “indefiníveis”:

O exame dos indefiníveis – que constitui a parte


principal da lógica filosófica – é um esforço para ver
– e fazer ver aos outros – claramente essas entidades,
de modo que a mente possa ter delas esse tipo de
conhecimento por familiaridade que temos do ver-
melho ou do gosto do abacaxi27.

Essa alternativa não era decerto do gosto de Wittgenstein, o


qual, quando Russell lhe mostra o capítulo que acabara de escrever,
lhe endereça uma objeção decisiva:

Posso agora expressar minha objeção à tua teoria em


termos exatos: creio que é evidente que, da proposi-
ção “A julga que (digamos) a está em relação R com
b”, se ela estiver corretamente analisada, a proposi-
ção “aRbV¬aRb” deve se seguir imediatamente, sem
auxílio de nenhuma outra premissa. Essa condição
não é preenchida por tua teoria (CL, p. 29).

A objeção é a seguinte: a análise de “Otelo crê que Desdêmona


ama Cássio” em C = {O, d, A, c, xRy} não garante que dAc enquanto

27 B. Russell, Principles of Mathematics, Londres e Nova Iorque, Norton, 1996, p. xv.

38
não estiver estipulado que (na terminologia dos Principia Mathema-
tica) d e c são indivíduos, que A é uma relação de primeira ordem
e que xRy é a forma das relações binárias de primeira ordem. Por
que não aceitar tais premissas? É que o juízo asserindo que d e c são
argumentos possíveis de uma relação binária de primeira ordem é
ele próprio um juízo de ordem superior, o que vai de encontro ao
espírito mesmo dos Principia Mathematica, cuja teoria só funciona
se os juízos de uma ordem dada estiverem fundados na obtenção
prévia dos juízos de ordem inferior28.
Uma das principais motivações do Tractatus, como vimos na
seção precedente, era a crítica da teoria dos tipos de Russell e, por-
tanto, de todo o projeto dos Principia Mathematica. Isso sobressai
claramente de uma carta de Ramsey, escrita por ocasião de sua visita
a Wittgenstein na Áustria em 1923, na qual ele narra que Wittgen-
��������
stein estava “um pouquinho irritado pelo fato de Russell preparar
uma nova edição dos Principia, pois ele acreditava ter mostrado a
Russell que [o próprio projeto dos Principia] estava de tal modo
equivocado que uma nova edição seria fútil”29. A principal crítica
aos Principia Mathematica, em 3.331-3.333, articula-se em torno
daquela que acabamos de ver: o erro de Russell “revela-se no fato de
ter precisado falar do significado dos sinais ao estabelecer as regras
notacionais” (3.331). Wittgenstein faz aqui uso da distinção a mais
original e a mais “fundamental” (NB, p. 130) de seu livro e talvez
mesmo de sua obra, entre “o que se diz” e “o que se mostra” (4.12-
4.1212): não se pode falar dos tipos, e os símbolos “mostram” (NL,
p. 108) aquilo que a teoria dos tipos procura mas não consegue
“dizer”. Voltarei a essa distinção na próxima seção.
Em sua Autobiography, Russell reproduz uma carta na qual ad-
mite que essa crítica foi de primeiríssima importância: “Vi que ele
tinha razão e vi que já não podia esperar realizar algum trabalho

28 A. N. Whitehead e B. Russell, Principa Mathematica, op. cit., vol. 1. A objeção de


Wittgenstein articula-se em torno de uma variante da proposição *13.3 (p. 172).
29 “Letters by F. P. Ramsey”, in, L. Wittgenstein, Letters to C. K. Ogden, Oxford/
Londres, Blackwell/Routledge & Kegan Paul, 1973, p. 78.

39
fundamental em filosofia”30. Isto é evidentemente um exagero, mas
Russell abandonou sua teoria do juízo como relação múltipla e, des-
se modo, a esperança de dar um fundamento epistemológico a sua
teoria dos tipos. Em sua Philosophy of Logical Atomism de 1918, o
conhecimento por familiaridade das constantes lógicas terá também
desaparecido.
Wittgenstein precisará portanto livrar-se da teoria de Russell e
propor a sua, nos § 5.541-5.542:

5.541 – À primeira vista, parece que uma proposição


poderia ocorrer em outra também de outra maneira.
Particularmente em certas formas proposicionais da
psicologia, como “A acredita que p é o caso” ou “A
pensa p”, etc.
Superficialmente, parece que nesse caso a proposição
p manteria com um objeto A uma espécie de relação.
(E na moderna teoria do conhecimento (Russell,
Moore, etc.), tais proposições foram mesmo enten-
didas assim.)
5.542 – É claro, porém, que “A acredita que p”, “A
pensa p”, são da forma “‘p’ diz p”. E não se trata aqui
de uma coordenação de um fato e um objeto, mas
da coordenação de fatos por meio da coordenação
de seus objetos.

Wittgenstein opõe-se aqui à ideia de que uma atitude proposicional


seja uma relação entre um objeto simples, o sujeito “A”, e um fato com-
plexo “p”. Quando “A pensa que p”, então um dos pensamentos de A
é um fato ‘p’, que é uma figuração do fato p no mundo. É o que Witt-
genstein exprime ao dizer “ ‘p’ diz p “, onde a primeira ocorrência de p
é um pensamento. Em uma carta a Russell datada de 19 de agosto de
1919, Wittgenstein descreve o “pensamento” (Gedanke) como não sendo
composto por palavras mas sim por “constituintes psíquicos que têm com

30 B. Russell, Autobiography, Londres, Routledge, 1998, p. 282.

40
a realidade o mesmo tipo de relação que as palavras” (NB, p. 130). São
portanto esses elementos do pensamento que formam um fato ‘p’, que é
coordenado com um fato p no mundo “por meio da coordenação de seus
objetos”. Voltarei à noção de “pensamento” na seção seguinte.
O que é do papel das “constantes lógicas”, “indefiníveis”, etc? Um
dos textos mais antigos que conheçamos de Wittgenstein, a saber,
uma das primeiras cartas de Wittgenstein a Russell, datada de 22 de
junho de 1912, já menciona a ideia-mestra segundo a qual “NÃO
há constantes lógicas” (CL, p. 14). De fato, os “simples” de Russell
são desprovidos de toda forma, portanto desprovidos de toda indi-
cação quanto à sua possibilidade de combinação com outros simples
para formar complexos, etc. Russell via-se portanto obrigado a fazer
intervir a forma como uma entidade distinta, cujo papel metafísico
seria, de certo modo, o de “colar” de modo apropriado os simples.
Russell era profundamente realista, tendo rejeitado as doutrinas de
Kant e de Green, e nunca teria aceitado que fosse o “sujeito” o res-
ponsável por essa atividade estruturante. Essas formas tornavam-se
portanto automaticamente entidades “platônicas”, com relação às
quais ele se viu obrigado (como Husserl) a postular que as percebe-
mos de um modo ou de outro. O último capítulo da primeira parte
da Theory of Knowledge contém um argumento revelador: ainda que
confessando que seria difícil dizer o que é um conhecimento por
familiaridade de formas abstratas tais como a forma xRy das relações
binárias, Russell considera que um tal conhecimento por familiari-
dade deve a despeito de tudo ocorrer, pois ele é pressuposto em toda
compreensão de enunciados tais como “Desdêmona ama Cássio”.
Tudo isso era inaceitável para Wittgenstein, cuja solução, como
mostrou David Pears31, consistiu, de certa forma, em deslocar as for-

31 David Pears apresentou suas análises em diversos artigos, dentre os quais


“The Relation between Wittgenstein’s Picture Theory of Propositions and
Russell’s Theories of Judgement”, in C. G. Luckhardt, Wittgenstein. Sources
and Perspectives, op. cit., p. 190-212. As grandes linhas de sua interpretação
são retomadas em D. Pears, The False Prison: A Study of the Development of
Wittgenstein’s Philosophy. 2 Vol. Oxford: Oxford University Press 1987/1988.

41
mas abstratas de Russell de sua espécie de topos hyperouranos platônico
a fim de torná-las, ao modo aristotélico, imanentes. Esse deslocamen-
to tem duas consequências. Primeiro, os objetos devem possuir sua
própria forma, isto é, sua própria possibilidade de combinação:

2.0123 – Se conheço o objeto, conheço também


todas as possibilidades de seu aparecimento em es-
tados de coisas.
(Cada uma dessas possibilidades deve estar na natu-
reza do objeto)
2.0141 – A possibilidade de seu aparecimento em
estados de coisas é a forma do objeto.

Os objetos possuem portanto sua própria forma, mas sem por


causa disso possuir alguma complexidade, uma vez que “o objeto é
simples” (2.02). Além disso, os elementos do simbolismo acerca dos
quais se poderia pensar que eles “estão por” ou “substituem” (vertre-
ten) as formas não o fazem:

4.0312 – A possibilidade da proposição repousa so-


bre o princípio da substituição de objetos por sinais.
Minha ideia básica é que as “constantes lógicas”
não substituem: que a lógica dos fatos não se deixa
substituir.

Wittgenstein inscreve-se aqui na linhagem dos gramáticos da idade


média que distinguem entre elementos categoremáticos e sincatego-
remáticos da proposição; as constantes lógicas são portanto de algum
modo sincategoremas. Esse pensamento é inteiramente “fundamental”,
trata-se de uma etapa essencial não apenas na história do conceito de
constante lógica – uma vez que essa concepção se faz necessária para
toda definição recursiva da verdade – mas também na teoria da signi-
ficação, onde as concepções de Wittgenstein estão na contramão, por
exemplo, da doutrina do ser como “excedente” (Überschuß) em Hus-
serl e Heidegger. Russell acabará por reconhecer a correção dessa ideia e,
na sua esteira, o mesmo acontecerá com toda a tradição analítica.

42
LINGUAGEM, MUNDO E PENSAMENTO

O
limite que Wittgenstein se propõe traçar no prefácio do
Tractatus irá servir, como eu indiquei, de linha de demar-
cação entre as proposições dotadas de sentido e o “contras-
senso”. Cabe portanto procurar elucidar as condições necessárias à
posse do “sentido”. Pode-se dizer sem excessiva simplificação que o
Tractatus tem sua raiz na explicação do fato de que, para que uma
coisa – uma proposição, um desenho, uma fotografia, hieróglifos,
etc. – possa “estar por” algo na realidade, digamos uma situação,
essa coisa deve ter algum ponto comum com essa situação.

2.13 – Aos objetos correspondem, na figuração, os


elementos da figuração.
2.15 – Que os elementos da figuração estejam uns
para os outros de uma determinada maneira repre-
senta que as coisas assim estão umas para as outras.
Esta vinculação dos elementos da figuração chama-
se sua estrutura: a possibilidade desta, sua forma de
afiguração (Form der Abbildung).
2.1511 – É assim que a figuração se enlaça com a
realidade: ela vai até a realidade.
Portanto, uma proposição só pode ser uma figuração da reali-
dade na medida em que partilhar algo com esta última: “O fato,
para ser uma figuração, deve ter algo em comum com o afigurado”
(2.16). Esse “algo em comum” é a “forma de afiguração” (2.17).
Wittgenstein introduz em seguida a categoria mais geral de “forma
lógica”: uma figuração pode possuir ou não uma forma de represen-
tação espacial, mas toda figuração deve possuir uma forma lógica
(2.18-2.181) e, desse modo, deve ser “também uma figuração lógi-
ca” (2.182). A figuração lógica será definida em 3.5 como o “pen-
samento”.
Podemos nos perguntar desde já se existe alguma relação de prio-
ridade entre linguagem e mundo: seria a linguagem que ajustaria
sua forma sobre a forma, independente e preexistente, do mundo
ou, ao contrário, seríamos nós que atribuiríamos ao mundo uma
forma que reconhecemos primeiro como sendo a da linguagem1?
Não é necessário esboçar uma resposta por enquanto, pois podemos
nos ater ao fato, recentemente demonstrado por François Latraver-
se, de que existe uma terceira possibilidade, que faz entrar em jogo,

1 Acerca dessa questão, os comentadores dividem-se em dois blocos: de um


lado, Max Black, Erik Stenius e David Pears subscrevem a primazia do
mundo. Cf. Max Black, A Companion to Wittgenstein’s Tractatus, Ithaca,
Cornell University Press, 1964; E. Stenius, Wittgenstein’s Tractatus. A Critical
Exposition of the Main Lines of Thought, Oxford, Blackwell, 1960; D. Pears,
The False Prison, op. cit. De outro, Hidé Ishiguro, Brian McGuinness e Peter
Winch subscrevem uma espécie de autonomia da linguagem com relação ao
mundo. Cf. H. Ishiguro, “Use and Reference of Names”, in P. Winch (org.),
Studies in the Philosophy of Wittgenstein, Londres, Routledge & Kegan Paul,
1969, p. 20-50, e “Can the World Impose Logical Structure to Language?”,
in R. Haller e J. Brandl (org.), Wittgenstein – Towards a Re-Evaluation.
Proceedings of the 14º International Wittgenstein – Symposium, vol. 1, Viena,
Hölder-Pichler-Tempsky, 1990, p. 21-34; B. F. McGuinness, “The So-Called
Realism of Wittgenstein’s Tractatus”, in I. Block (org.), Perspectives on the
Philosophy of Wittgenstein, Oxford, Blackwell, 1981, p. 60-73, e “Language
and Reality in the Tractatus”, Teoria, vol. 5, 1985, p. 135-144; P. Winch,
“Language, Thought and World in Wittgenstein’s Tractatus”, in Trying to
Make Sense, Oxford, Blackwell, 1987, p. 3-17.

44
além da linguagem e do mundo, o “pensamento” (Gedanke)2. O
Tractatus não se reduz a uma reflexão sobre as relações entre a lin-
guagem e o mundo. Seria, com efeito, esquecer o “pensamento”,
que aparece em duas das proposições principais: “A figuração lógica
dos fatos é o pensamento” (3); “O pensamento é a proposição com
sentido” (4). Quando vejo, por exemplo, que um desenho represen-
ta um fato que eu observo, é porque ele possui elementos, digamos,
uma mesa, um vaso, maçãs vermelhas, e porque estes estão arruma-
dos do mesmo modo que os verdadeiros objetos da cena diante de
mim. Nos Notebooks, Wittgenstein irá dizer (o grifo é meu): “É pela
correspondência que estabeleço entre os componentes da figuração e
os objetos, e apenas por ela, que a figuração representa então um
estado de coisas e que ela é correta ou não” (NB, p. 33-34). O papel
do pensamento parece essencial e incontornável. Com efeito, se o
pensamento não tivesse nenhum papel a desempenhar, então uma
figuração deveria estar em condições de representar sua própria for-
ma de representação, mas isso não se dá (2.171-2.174). Do mesmo
modo, uma proposição não pode por si mesma enunciar o fato de
que ela partilha sua forma lógica com um estado de coisas. O que
leva Wittgenstein a enunciar a mais importante distinção de seu
livro3:

4.12 – A proposição pode representar toda a reali-


dade, mas não pode representar o que deve ter em
comum com a realidade para poder representá-la – a
forma lógica.

2 F. Latraverse, “Signe, proposition, situation: éléments pour une lecture


du Tractatus logico-philosophicus”, Revue internationale de philosophie, nº 219, 2002,
p. 125-140.
3 Cf. J. Bouveresse, “Les origines fregéennes de la distinction entre ce qui ‘se
dit’ e ce qui ‘se voit’ dans le Tractatus logico-philosophicus de Wittgenstein”, in
Recherches sur la philosophie et le langage, Université de Grenoble, 1981, p. 17-
54; P. Geach, “Saying and Showing in Frege and Wittgenstein”, in J. Hintikka
(org.), Essays in Honour of G. H. Von Wrioght. Acta Philosophica Fennica, vol.
28, 1976, n. 1-3, p. 54-70.

45
Para podermos representar a forma lógica, devería-
mos poder-nos instalar, com a proposição, fora da
lógica, quer dizer, fora do mundo.
4.121 – A proposição não pode representar a forma
lógica, esta forma se espelha na proposição.
[...]
A proposição mostra a forma lógica da realidade.
[...]
4.1212 – O que pode ser mostrado não pode ser dito.

Já cruzamos essa distinção na seção precedente, e vamos reen-


contrá-la adiante. É preciso notar de imediato uma categoria daqui-
lo que se mostra mas não pode ser dito, a saber, as propriedades “in-
ternas”. Uma propriedade “interna” é uma propriedade com relação
à qual é “impensável que seu objeto não a possua” (4.123):

4.122 – [...] A presença de tais propriedades e re-


lações internas não pode, todavia, ser asserida por
proposições; mostra-se, sim, nas proposições que
representam aqueles estados de coisas e tratam da-
queles objetos [cf. 4.124].

(As relações internas serão discutidas na seção sobre a lógica e


a aritmética.) Talvez seja útil fazer aqui uma breve digressão sobre
a distinção entre conceitos “materiais” e “formais” (4.122, 4.124,
4.126-4.12721), pois a noção de propriedade “formal” está intima-
mente ligada à de propriedade “interna” (4.122). Para Wittgenstein,
os conceitos “formais” são denotados pelas “variáveis proposicio-
nais” (4.126-4.1271). Trata-se de conceitos tais como os de “obje-
to”, “coisa”, “complexo”, “fato”, “número”, etc. (4.1272), em opo-
sição aos conceitos materiais tais como “elefante”, “rosa”, etc. De
um conceito formal, é importante notar que ele “já é dado com um
objeto que cai sob ele” (4.12721), mas que:

4.126 – [...] Que algo caia sob um conceito formal


como seu objeto não pode ser expresso por uma pro-

46
posição. Isso se mostra, sim, no próprio sinal desse
objeto. (O nome mostra que designa um objeto; o
numeral, que designa um número, etc.)

Portanto, cada vez que um conceito formal é utilizado de outro


modo, isto é, como se se tratasse de um conceito material, seguem-
se “pseudoproposições sem sentido” (4.1272). Assim, não se pode
dizer “Há objetos” como se diz “Há livros”, e muito menos “Há 100
objetos” ou “Há ℵ0 objetos” (4.1272). (Esse último exemplo não
deixa de lembrar o axioma do infinito dos Principia Mathematica,
que Wittgenstein rejeita exatamente por essa razão. Notar-se-á, por
outro lado, que, em oposição a Frege, os conceitos formais não são
representados por meio de funções (4.16).)
Por enquanto, cumpre insistir no fato de que o que se mostra
mas não se pode dizer pode ser visto e deve ser “pensado”. O pensa-
mento é definido no §3 como a “figuração lógica dos fatos” e no 3.5
como “sinal proposicional empregado, pensado”. Em 3.11, 3.12 e
3. 2, lemos:

3.11 – Utilizamos o sinal sensível e perceptível (sinal


escrito ou sonoro, etc.) da proposição como proje-
ção da situação possível.
O método de projeção é pensar (das Denken) o sen-
tido da proposição.
3.12 – O sinal por meio do que exprimimos o pen-
samento, chamo de sinal proposicional. E a propo-
sição é o sinal proposicional em sua relação projetiva
com o mundo.
3.2 – Na proposição, o pensamento pode ser expres-
so de modo que aos objetos do pensamento corres-
pondam elementos do sinal proposicional.

Três elementos estão aqui em jogo: o sinal proposicional, a pro-


posição e a situação, unidos na “relação projetiva com o mundo”.
Cumpre compreender corretamente sua natureza. De um lado,
Wittgenstein diz em 3.11 que “utilizamos o sinal sensível e per-

47
ceptível (sinal escrito ou sonoro, etc.) como projeção da situação
possível” e, um pouco adiante, em 3.14, ele acrescenta: “O sinal
proposicional é um fato.” Wittgenstein distingue também entre “si-
nal” e “símbolo” da seguinte maneira: “O sinal é aquilo que é sensi-
velmente perceptível no símbolo” (3.32). Para reconhecer o símbolo
no sinal, é preciso “atentar para seu uso significativo” (3.326) e dois
símbolos podem portanto compartilhar o mesmo sinal (3.321). As-
sim, quando fala de “sinal proposicional”, Wittgenstein refere-se ao
aspecto físico do sinal, quer as marcas de tinta no papel, quer os sons
da linguagem falada. De outro lado, ele enuncia também no 3.11
que “o método de projeção é pensar o sentido da proposição”. As
observações 3.1 a 3.13 do Prototractatus mostram à saciedade que o
“método de projeção” é efetivamente “o modo de empregar o sinal
proposicional”:

3.1 – A expressão sensível do pensamento é o sinal


proposicional.
3.11 – O sinal proposicional é uma projeção do
pensamento.
3.111 – Ele é uma projeção da possibilidade de uma
situação.
3.12 – O método de projeção é o modo de aplicar o
sinal proposicional.
3.13 – A aplicação do sinal proposicional é pensar
o seu sentido.

Uma vez que uma proposição é dotada de sentido na medida em


que ela é a figuração de uma situação, “pensar o sentido” quer dizer
então: tomar a proposição enquanto fato, isto é, sob seu aspecto
físico de marcas ou de sons, e aplicá-lo como figuração, isto é, de
modo quase literal pensar um fato como uma figuração de outro
fato (possível ou real) no mundo, um pouco como quando vemos
que um desenho representa um fato diante de nossos olhos. O uso
que faço de um sinal proposicional “p” como representação de uma
situação mostra portanto o que eu compreendo por “p”: é “o uso
significativo” (sinnvollen Gebrauch) (3.326).

48
Uma rápida observação terminológica impõe-se. Na escola de
Brentano, fala-se de bom grado de “intencionalidade” em vez de
“pensar o sentido da proposição”. De fato, não é inútil notar o pa-
ralelo com a noção de “intenção de significação” (Bedeutungsinten-
tion) na primeira das Investigações lógicas4. Não se trata obviamente
de instaurar uma leitura “fenomenológica” do Tractatus: cabe sim-
plesmente ver que Wittgenstein fala realmente de “intenção”5. Aliás,
ele irá utilizar esse vocábulo a partir de 1929, por exemplo nestes
trechos das Philosophische Bemerkungen:

Elimine da linguagem o elemento da intenção, é sua


função inteira que desaba (PB, §20).
Como entendemos uma figuração? A intenção não
reside nunca na própria figuração, pois, qualquer
que seja o modo pelo qual a figuração é produzida,
ela sempre pode ser entendida de diferentes modos
[...] a intenção já se exprime no modo pelo qual eu
comparo atualmente a figuração com a realidade
(PB, §24).

É preciso ressaltar uma diferença fundamental. Se Husserl con-


fessava nas Investigações lógicas “não conseguir descobrir esse eu
primitivo, enquanto centro de referência necessária”6, ele mudará
posteriormente de posição e irá introduzir o “ego transcendental”7,
mudança cujas consequências são bem conhecidas. Como mostrarei
adiante, não há nenhum vestígio de tal “sujeito” no Tractatus e a
análise da intencionalidade francamente nada tem de “husserliana”.
Independentemente dessas questões terminológicas, é evidente
que as observações do início da seção precedente vão de encontro

4 E. Husserl, Logische Untersuchungen, t. 2, Tübingen, Max Niemeyer, 1968, p. 38.


5 P. M. S. Hacker, “Naming, Thinking and Meaning in the Tractatus”,
Philosophical Investigations, vol. 22, 1999, p. 131.
6 E. Husserl, Logische Untersuchungen, op. cit., t. 2., p. 361.
7 É o que indica uma nota de rodapé acrescentada à segunda edição, na qual
Husserl anuncia: “Desde então, aprendi a encontrá-lo!”

49
a uma leitura “diádica” do Tractatus, onde apenas importa a relação
linguagem-mundo – o “grande espelho” do 5.511 –; estamos antes
diante de uma “tríade”: o sinal proposicional, a proposição e a si-
tuação. Essa “tríade” permite lançar um novo olhar sobre a questão
da prioridade; ela sugere antes, como o mostrou François Latraverse,
que não há nenhuma assimetria e, portanto, nenhuma primazia de
um elemento sobre o outro, uma vez que nenhum de seus elementos
desempenha um papel privilegiado8. Pelo contrário, esses três elementos
são inseparáveis uns dos outros e não podem ser pensados separadamente.
De modo inverso, Norman Malcolm sustenta em Nothing is
Hidden a tese de uma prioridade do pensamento9, fazendo uma
leitura dos Notebooks e do Tractatus que coloca Wittgenstein numa
tradição “ideacionista” que vai de John Locke (An Essay Concerning
Human Understanding, livro III, cap. 2, seção 1) até Jerry Fodor e
sua tese de um “sistema interno de representação” ou “linguagem
do pensamento”10. E é fato que Wittgenstein nos diz nos Notebooks:

O pensamento, com efeito, é uma espécie de lingua-


gem. Pois o pensamento é naturalmente também uma
figuração lógica da proposição e, por conseguinte,
justamente uma espécie de proposição (NB., p. 82).

A tese da prioridade do pensamento implica no entanto que po-


deria haver um pensamento fora da linguagem, que permitiria o
aprendizado da linguagem, que seria fonte do sentido, etc. Essa tese
casa mal com as diversas observações ( por exemplo, no prefácio, em

8 F. Latraverse, “Signe, proposition, situation: éléments pour une lecture du


Tractatus logico-philosophicus ”, op. cit., p. 130.
9 N. Malcolm, Nothing is Hidden. Wittgenstein’s Criticisms of his Early Thought,
Oxford, Blackwell, 1986, p. 67. Esse tipo de posição é criticado em S.
Gandon, Logique et langage. Études sur le premier Wittgenstein, Paris, Vrin,
2002, cap. III.
10 J. Fodor, The Language of Thought, Hassocks, Harvester Press, 1976, p. 79.
Sobre as teorias ideacionistas, cf. D. Laurier, Introduction à la philosophie du
langage, op. cit., p. 17-25.

50
3.03-3.32, ou em 5.61 ) no sentido de que não há “pensamento” ali
onde não há expressão clara na “linguagem”; isto é, observações que
estabelecem uma espécie de identidade entre o que é pensável e o
que podemos dizer. É realmente o sentido da última observação do
5.61: “O que não podemos pensar, não podemos pensar; tampouco
podemos dizer o que não podemos pensar.” Limitar-se a interpretar
o Tractatus procurando ver nele uma teoria da “linguagem do pen-
samento”, é procurar ler o Tractatus contra a “segunda” filosofia e
correr o risco de uma leitura parcial11. É verdade que a distinção en-
tre o aspecto físico e o aspecto intencional está presente no Tracta-
tus, sob a forma da distinção entre os dois elementos da proposição
que são o sinal proposicional e o método de projeção. Mas é preciso
guardar-se de ver ali mais do que isso: Wittgenstein não desenvolve
uma concepção “substancial” do pensamento no Tractatus: ali, o
pensamento é coextensivo à proposição dotada de sentido e não tem
propriedades separadas12. A intencionalidade não pode portanto
ser “reduzida” a um processo do “pensar” que seria independente13.
O pensamento também não pode ser concebido como a fonte do
sentido, na medida em que Wittgenstein nega categoricamente a
existência de um “sujeito” no sentido forte do termo: “O sujeito que
pensa, representa, não existe” (5.631). É por isso que Wittgenstein
cuidará de distinguir seu projeto daquele da psicologia:

4.1121 – [...] Meu estudo da linguagem por sinais


não corresponderia ao estudo dos processos de pen-
sar, estudo que os filósofos sustentaram ser tão es-

11 Com efeito, Malcolm e Hacker assimilam a concepção do Tractatus àquela


criticada num trecho bastante conhecido do Caderno azul. Cf. L. Wittgenstein,
The Blue and Brown Books. New York: Harper&Row Publishers, 1997, p. 3 ;
N. Malcolm, Nothing is Hidden, op. cit., p. 76. P.M.S. Hacker, “Naming,
Thinking and Meaning in the Tractatus”, op. cit., p. 132.
12 F. Latraverse, “Signe, proposition, situation: éléments pour une lecture du
Tractatus logico-philosophicus ”, op. cit., p. 136.
13 Para uma posição contrária, cf. P. M. S. Hacker, Mind and Will, Oxford,
Blackwell, 1996, p. 25.

51
sencial para a filosofia da lógica? No mais das vezes,
eles só se emaranharam em investigações psicológi-
cas irrelevantes, e um perigo análogo existe também
no caso do meu método.

Numa conversa com Schlick e Waismann, Wittgenstein irá dizer:

[...] não paro de voltar à questão: o que quer di-


zer compreender uma frase? Isso se vincula à questão
mais geral: o que é que chamamos de intenção, que-
rer dizer, significar? O modo de ver dominante hoje
em dia é o de que a compreensão é um processo
psicológico, que se desdobra “em mim”. Diante do
que, eu pergunto: a compreensão seria um processo
que corre paralelamente à frase (seja esta pronuncia-
da ou escrita)? Se sim, qual é a estrutura de tal pro-
cesso? Seria a mesma estrutura que a da frase? Ou
esse processo seria algo amorfo, aproximadamente
como quando, ao ler uma frase, eu experimento ao
mesmo tempo uma dor de dente? Creio, de meu
lado, que a compreensão não é de modo algum um
processo psicológico particular que teria uma exis-
tência separada e viria acrescentar-se à percepção
da frase. Decerto, quando escuto ou leio uma fra-
se, há de fato diversos processos que ocorrem em
mim: aqui uma imagem surge, ali associações são
feitas, etc. Mas todos os processos desse tipo não são
nesse caso o que me interessa. Compreendo a frase
na medida em que a aplico. A compreensão não é
portanto de modo algum um processo particular, é
o fato de operar com uma frase. A frase está aí para
que nós operemos com ela (O que eu faço é também
uma operação) (WWK, p. 167).

Wittgenstein indica aqui claramente que a “intenção” não deve ser


concebida como um processo mental qualquer, mas sim como uma ope-
ração sobre sinais. É o que ele confirma um pouco adiante na conversa:

52
O que eu faço com as palavras da linguagem (na me-
dida em que as compreendo) é exatamente a mesma
coisa que eu faço com os sinais de um cálculo: eu
opero com elas (WWK, p. 169).

Podemos nos perguntar se essa concepção “operatória” do as-


pecto “intencional” da linguagem, que guarda apenas o mínimo
necessário de manipulação ou de combinatória dos sinais, está de
fato no Tractatus ou se ela reflete uma nova posição, assumida após
1929. A meu ver, essas observações confirmam o antipsicologis-
mo do Tractatus e esclarecem e completam as observações sobre a
noção de “operação”, noção que, como mostrarei na seção sobre
a lógica e a aritmética, está no fundamento mesmo da teoria de
Wittgenstein14. Como indiquei na seção precedente, nosso filóso-
fo concebia os conectivos lógicos não como funções, mas como
“operações de verdade” (5.234); as funções de verdade são defini-
das em 5.32 em termos de “operações”. Segundo 5.234 e 5.2341,
as funções de verdade registram o “resultado de operações” que
têm proposições como base e, segundo o 5.3, toda proposição é “o
resultado de operações de verdade sobre proposições elementares”
e uma operação de verdade é definida como “a maneira pela qual a
função de verdade resulta das proposições elementares”. Uma ope-
ração é definida como “o que deve acontecer com uma proposição
para que dela se faça outra” (5.23), o que significa que se trata,
em termos não wittgensteinianos, do ato pelo qual uma proposi-
ção é engendrada a partir de outra proposição. Essas operações de
verdade são a negação, a adição lógica (isto é, a conjunção), etc.
(5.2341).

14 Ressaltei o papel central da noção de operação no capítulo 2 de meu livro,


Wittgenstein, Finitism and the Foundations of Mathematics, Oxford, Clarendon
Press, 1998, e em meus artigos “Operations and Numbers in the Tractatus”,
Wittgenstein Studien, vol. 2, 2000, p. 105-123: “Qu’est-ce que l’inférence?
Une relecture du Tractatus logico-philosophicus”, Archives de philosophie, vol.
64, 2001, p. 545-567.

53
Uma das dimensões menos bem compreendidas do Tractatus é a
da distinção entre o que se poderia chamar o estático e o dinâmico.
Como mostrarei na seção sobre a ontologia, a do Tractatus é uma
ontologia dos “objetos simples” e dos “estados de coisas”, das “situ-
ações” e dos “fatos”; é uma ontologia do estático. Há decerto fatos
que são “pensamentos”; no entanto, vimos que há um “pensar” o
sentido da proposição, uma “projeção” do sinal proposicional, etc.
Em outros termos, há “atos”, manipulações ou “operações”, que não
são capturados na ontologia formal do Tractatus; o “pensar o senti-
do da proposição” é um ato cujo resultado é visto de modo estático
como um “pensamento”, um fato15.

15 A ideia de que os “pensamentos” podem ser compreendidos tanto como atos


quanto como fatos se deve a H. Kannisto, Thoughts and their Subject. A Study
of Wittgenstein’s Tractatus. Acta Philosophica Fennica, vol. 40, 1986, p. 99.

54
A ANÁLISE DA PROPOSIÇÃO

E
m que consiste afinal esse “pensar o sentido da proposição”?
É a “análise” da proposição que nos fornecerá a resposta1.
Mais uma vez, a palavra “análise” deve ser tomada aqui no
sentido tradicional de decomposição de um todo em suas partes,
que Wittgenstein retoma dos Principles of Mathematics de Russell:

Toda complexidade é conceitual no sentido de que


ela se deve a um todo passível de análise lógica, mas
é real no sentido de que ela não depende de modo
algum da mente, mas apenas da natureza dos obje-
tos. Ali onde a mente pode distinguir objetos, deve
haver objetos para serem distinguidos. [...] Em todo
caso de análise, há um todo formado de partes e de
relações; é apenas a natureza das partes e das relações
que distinguem os diferentes casos2.

1 Sobre a “análise” no Tractatus, cf. J. Griffin, Wittgenstein’s Logical Atomism,


Oxford, Oxford University Press, 1964, cap. VI; P. Simons, “The Old Problem
of Complex and Fact”, reed. em Philosophy and Logic in Central Europe from
Bolzano to Tarski, Dordrecht, Kluwer, 1992, p. 319-338.
2 B. Russell, Principles of Mathematics, op. cit., §439. Nesse trecho, Russell
Russell é “realista”, uma vez que, segundo ele, toda comple-
xidade é “real”. Mas, como esse trecho o indica, Russell também
considera essa complexidade como uma complexidade lógica, que
pode, portanto, ser analisada não apenas em decorrência de uma
investigação empírica, mas também logicamente. Talvez esteja aí o
erro cardinal do atomismo lógico. Ele irá forçar Russell e, por sua
vez, Wittgenstein a postular, na linhagem da Monadologia de Lei-
bniz, “substâncias simples”, que são os elementos dos complexos
ou “compostos”3. Contrariamente ao que pretendem comentadores
como Maslow e Stenius, a distinção entre simples e complexos deve
ser absoluta, e não simplesmente relativa4. Notar-se-á, por outro
lado, que os “simples” de Wittgenstein não são substâncias aristoté-
licas, pois não são portadores das propriedades, mas sim aquilo que
forma as propriedades materiais:

2.0231 – A substância do mundo só pode determi-


nar uma forma, e não propriedades materiais. Pois
estas são representadas apenas pelas proposições –
são constituídas apenas pela configuração dos ob-
jetos.
2.0232 – [...] os objetos são incolores.

As proposições 3.2 a 3.22 nos dizem que tipo de coisa deve ser
uma proposição “completamente analisada” segundo Wittgenstein:
podemos conceber uma proposição na qual “o pensamento pode

toma como exemplo a análise do espaço em pontos, o que será criticado por
Wittgenstein, cf. (NL, p. 93).
3 Para Leibniz, no entanto, o complexo ou composto não é mais que um
“amontoado ou aggregatum de simples”. Cf. G. W. Leibniz, La monadologie,
Ed. De E. Boutroux, Paris, Delagrave, 1978, p. 141-142. Para Wittgenstein,
os complexos não podem ser apenas um “amontoado”, mas devem ser
estruturados.
4 A. Maslow, A Study of Wittgenstein’s Tractatus, Los Angeles, University of
California Press, 1961, p. 38-40; E. Stenius, Wittgenstein’s Tractatus, op. cit.,
p. 84-85.

56
ser expresso de tal modo que os objetos do pensamento correspon-
dam aos elementos do sinal proposicional” (3.2). Esses elementos
do sinal proposicional são chamados “sinais simples” (3.201) e são
“nomes” (3.202) que significam (bedeuten) (3.203) ou “substituem”
(vertreten) (3.22) o objeto, ao passo que a configuração dos sinais
simples na proposição corresponde à configuração dos objetos na
situação (Sachlage) (3.21). A proposição deverá possuir o mesmo
número de elementos, isto é, a mesma “multiplicidade lógica” (a
expressão é de Hertz) que a situação que ela representa (4.04). Tal
proposição é dita “completamente analisada” (3.201).
Infelizmente, Wittgenstein não fornece, em seus textos, ne-
nhum exemplo. Na verdade, seus Notebooks mostram à sacieda-
de que ele não tem nenhum caso particular em mente. A falta
de clareza nesse assunto está na origem de diversos problemas
de interpretação. Wittgenstein só reflete sobre as condições de
possibilidade da análise da proposição; essa reflexão dá assim
ao projeto de Wittgenstein uma coloração kantiana 5. Os se-

5 Desde o livro de Stenius (Wittgenstein’s Tractatus, op. cit., cap. XI), muito se
falou dos paralelos entre Wittgenstein e Kant. Na verdade, estes se resumem
essencialmente ao fato de que esses dois filósofos querem limitar as esferas
da ciência (4.113) e da filosofia, esta última sendo concebida como uma
“atividade” que tem por objetivo limitar os excessos da metafísica (4.112,
6.53). Não se deve no entanto esquecer que a crítica da metafísica em
Wittgenstein pode ser vista como procedendo em linhagem direta da tradição
vienense de filosofia da ciência, de Carl Menger a Ludwig Boltzmann, que
não é muito “kantiana”, e não se deve exagerar tais paralelos em detrimento
dos aspectos francamente antikantianos do pensamento de Wittgenstein – de
sua ontologia realista à sua ética estoica. Cf. H. Visser, “Wittgenstein as a
Non-Kantian Philosopher”, in E. Morscher e R. Stranzinger (org.), Ethics,
Foundations, Problems, and Applications, Viena, Hölder-Pichler-Tempsky,
1981, p. 399-405. Jaako Hintikka também notou um aspecto kantiano
em Wittgenstein, vinculado à sua concepção da linguagem como meio
universal, segundo a qual não se pode “sair” da linguagem para dela falar “de
fora”. Wittgenstein dizia, ele próprio: “O limite da linguagem mostra-se na
impossibilidade de descrever o fato que corresponde a uma proposição (que
é sua tradução) sem, justamente, repetir a proposição. (Defrontamo-nos aqui

57
guintes trechos dos Notebooks dão uma ideia das reflexões de
Wittgenstein:

Manifestamente são possíveis proposições que não


contêm sinais simples, isto é que não contêm sinais
que possuem uma significação imediata. E são real-
mente proposições dotadas de sentido, que não têm
sequer necessidade de que lhes sejam acrescentadas
as definições de suas partes constituintes.
No entanto é claro que as partes constituintes de
nossas proposições podem e devem ser analisadas
por meio de definições, se quisermos nos aproximar
da estrutura real da proposição. Há portanto em todo
caso um processo de análise. E não se pode então per-
guntar se esse processo tem realmente um término e,
nesse caso, qual é esse término? (NB, p. 46)
[...] nós não deduzimos a existência de objetos sim-
ples a partir de objetos simples determinados: nós os
conhecemos pelo contrário como resultados finais
da análise [...] por meio de um processo que nos
conduz a eles (NB, p. 50).

Admitindo que haja um processo de análise, Wittgenstein per-


gunta se este chega a bom termo ou não, isto é, se é possível que
uma análise seja infinita:

Seria a priori claro que devemos chegar pela análise


a partes constituintes simples, isto já estaria contido
no conceito de análise – ou uma análise ad infinitum
é possível? (NB, p. 62).

com a solução kantiana do problema da filosofia)” (L. Wittgenstein, Culture


and Value, Chicago, University of Chicago Press, 1980, p. 10). O raciocínio
que leva Wittgenstein a tal conclusão, a bem dizer mais neokantiana do que
kantiana, não repousa no entanto sobre premissas kantianas e não parece
portanto adequado falar de “kantismo”.

58
Algumas linhas adiante, Wittgenstein irá responder pela negati-
va, uma vez que, a seu ver, “o mundo deve ser justamente o que ele
é, ele deve ser determinado” (NB, p. 62). Essa intuição metafísica –
pois só pode se tratar disso – vai se revelar muito importante, uma
vez que ela implica que o sentido seja “determinado”: “a exigência
das coisas simples é a exigência da determinação do sentido” (NB.,
p. 63) e (3.23). Que o mundo seja “determinado”, Wittgenstein irá
exprimi-lo desde as primeiras frases do Tractatus:

1.11 – O mundo é determinado pelos fatos, e por


serem todos os fatos.
1.12 – Pois a totalidade dos fatos determina o que é
o caso e também tudo que não é o caso.

Cumpre notar de passagem que a exigência da determinação do


sentido tem em Wittgenstein uma origem inteiramente diferente
do que em Frege, que também exige essa determinação para sua
linguagem formal no § 32 dos Grundgesetze der Arithmetik, quan-
do, para assegurar a coerência de seu sistema formal, pede que cada
sinal tenha uma denotação. Cabe portanto se guardar de aproximar
Wittgenstein de Frege a esse respeito, como o faz, por exemplo,
Hacker6.
A análise deve portanto ter um fim, o que implica, segundo
Wittgenstein�����������������������������������������������������
, que as proposições elementares devem ser logicamen-
te independentes umas das outras (5.134). Com efeito, o contrário
indicaria que a análise não está terminada. Essa condição de inde-
pendência lógica vai se revelar ser o calcanhar de Aquiles da concep-
ção da análise do Tractatus, quando Wittgenstein for reexaminar em
1929 o problema da exclusão das cores em Some Remarks on Logical
Form. Com efeito, uma parte do campo visual não pode ter duas
cores ao mesmo tempo e Wittgenstein, que acreditava ter resolvido
o problema em 6.3751 – onde ele queria mostrar que toda neces-

6 P. M. S. Hacker, Insight and Illusion. Themes in the Philosophy of Wittgenstein,


2ª ed., Oxford, Clarendon Press, 1986, p. 58

59
sidade é lógica –, percebe que as proposições versando sobre graus
de qualidades (cores) devem fazer intervir números já no nível das
proposições elementares e que isso quer dizer que essas proposições
se excluem mutuamente, que elas não são independentes (SRLF, p.
33)7. Uma vez repudiada a independência lógica das proposições ele-
mentares, é toda a concepção da análise do Tractatus que irá desabar.
A análise deve assim terminar em um nível no qual os elementos
são apenas os simples. Estes últimos são portanto postulados como
condição de possibilidade da análise, que assumirá as seguintes fei-
ções: uma proposição complexa deve ser decomposta em “propo-
sições elementares, que consistem em nomes em ligação imediata”
(4.221, 5.5562); uma proposição elementar é um “encadeamento”
de nomes (4.22, 5.55). (Várias proposições elementares serão com-
postas numa proposição complexa, por vezes chamada “molecular”,
com a ajuda dos conectivos lógicos).
Os nomes “estão por” objetos (3.22), substituem-nos, mas po-
deriam os objetos em questão ser complexos, ou devem eles ser
“simples”? Wittgenstein irá se opor a Russell acerca dessa questão
aparentemente anódina ao desenvolver um argumento do qual já
se disse ser o mais importante do Tractatus8. Ambos utilizam como
exemplo de objeto complexo um objeto com três partes, a, R e b, tal
que a mantém a relação R com b. Como vimos, Russell chama um
complexo desse tipo “a-mantém-a-relação-R-com-b”9.
Em 2.0201, Wittgenstein escreve:

2.0201 – Todo enunciado sobre complexos pode-se


decompor em um enunciado sobre as partes cons-
tituintes desses complexos e nas proposições que os
descrevem completamente.

7 Há no entanto uma solução simples para esse problema, cf. M. B. Hintikka


e J. Hintikka, Uma investigação sobre Wittgenstein, Campinas, Papirus, 1994,
cap. 5, §3.
8 J. Griffin, Wittgenstein’s Logical Atomism, op. cit., p. 41-42.
9 A. N. Whitehead e B. Russell, Principia Mathematica, vol. 1, op. cit., p. 44.

60
(cf. NL, 93 e 101). Nos Notebooks, Wittgenstein havia proposto
a seguinte definição:

φ(a) & φ(b) & aRb ≡ φ[aRb]

que analisa a proposição acerca do complexo [aRb] em propo-


sições acerca dos constituintes e mais uma descrição, aRb, do com-
plexo (NB, p. 4). (Irei empregar essa notação.) Essa definição não
é retomada no Tractatus, mas Wittgenstein diz ali no 3.24 que “a
síntese do símbolo de um complexo num símbolo simples pode ser
expressa por meio de uma definição”. Retomando o exemplo de
Wittgenstein no § 60 das Investigações filosóficas, podemos dizer que
“A vassoura encontra-se no canto” significa, segundo essa análise,
algo como “A escova encontra-se no canto e o cabo encontra-se no
canto e o cabo está parafusado à escova”. É claro, “escova” e “cabo”
não são simples, essa análise deve portanto ser reiterada até o mo-
mento em que se atingir o nível dos simples.
Wittgenstein opõe-se vigorosamente à ideia de que se possa nomear
um complexo, como o faz Russell, ou ainda à identificação, operada
por Frege, entre o modo de significação da proposição e o do nome:

Frege dizia que “as proposições são nomes”; Russell


dizia que “as proposições correspondem a comple-
xos”. Esses dois enunciados são falsos e o enunciado
“as proposições são nomes de complexos” é muito
especialmente falso (NL, p. 97).

Wittgenstein não poderia portanto aceitar que os objetos com-


plexos pudessem ter nomes simples. Tudo que é um nome de objeto
complexo deve poder ser analisado. A esse respeito, Wittgenstein
leva a análise mais longe do que Russell; sua concepção da análise
não remete mais à teoria das descrições de Russell, ainda que as duas
“análises” tenham um ponto em comum de grande importância.
Como o indiquei na seção sobre a significação, Russell e Witt-
genstein não aceitavam a tese de Frege segundo a qual a proposição

61
“Ulisses profundamente adormecido foi desembarcado em Ítaca”
não tem valor de verdade. Para Wittgenstein, o fato de que ela pode
ser verdadeira ou falsa é uma propriedade essencial da proposição.
Eis por que ele apreciava a teoria das descrições definidas de Russell,
que permitia dar conta de proposições contendo expressões não de-
notativas como sendo falsas. A análise dos complexos de Wittgen-
��������
stein tem consequências inteiramente similares: se [aRb] não existe,
então a descrição “aRb” na definição que reproduzimos acima não
afigura nada. Portanto, segundo essa definição, φ[aRb] é falso. É o
que ele indica em 3.24: “A proposição em que se fala de um com-
plexo será, caso ele não exista, não um contrassenso (unsinnig), mas
simplesmente falsa”. Wittgenstein irá confessar ele próprio poste-
riormente que ele tinha em mente “algo do mesmo tipo que a de-
finição oferecida por Russell para o artigo definido” (PG., p. 211).
No entanto, essa concepção da análise já não é a de Russell. Com
efeito, as descrições definidas de Russell são símbolos incompletos,
que não podem ser inexatos como em 3.24. Em “A vassoura encon-
tra-se no canto”, a análise de Russell consiste em deslocar “vassoura”
da posição de sujeito para a de predicado, o que daria algo como :

∃x(Bx & Cx)

(com “B” para “vassoura” e “C” para “encontra-se no canto”).


Isso não ocorre em Wittgenstein, para quem um “complexo só pode
ser dado por meio de sua descrição” (3.24); “vassoura” não é portan-
to um nome, mas uma descrição de um complexo, complexo que
deve ser decomposto por meio de um procedimento que será ite-
rado tantas vezes quantas forem necessárias a fim de atingir o nível
dos simples. Portanto, em vez de deslocar o sujeito para a posição de
predicado, Wittgenstein o substitui por outros sujeitos.
Dentre as inúmeras consequências dessa concepção da análise,
só mencionarei uma. É claro por si mesmo que a significação das
frases da linguagem ordinária não corresponde à sua versão “com-
pletamente analisada”; se digo “Esse relógio não está na gaveta”,
pode ser que eu não saiba nada de seu mecanismo e, portanto, que

62
eu não queira dizer que “relógio” é um complexo que contém engre-
nagens, etc. Wittgenstein abordou essa questão nos seus Notebooks:

Se eu digo que esse relógio é brilhante e o que eu


quero dizer com “esse relógio” altera, um pouco que
seja, sua composição, então não apenas o sentido da
proposição se vê assim alterado em seu conteúdo,
mas o enunciado acerca desse relógio altera também
imediatamente seu sentido, a forma inteira da pro-
posição se vê alterada (NB, p. 61).
Se eu digo, por exemplo, que esse relógio não está
na gaveta, não é de modo algum necessário que se
siga logicamente que uma determinada engrenagem
não está na gaveta, pois eu talvez não soubesse de modo
algum que essa engrenagem está no relógio e não po-
deria, então, querer dizer com “esse relógio” um com-
plexo que inclui essa engrenagem (NB, p. 64-65).

Essa observação parece contradizer a própria ideia da análise


como processo de decomposição dos complexos em seus respectivos
simples. Já não se trata de uma tal análise, mas antes de representar
fielmente aquilo que é dito. Na verdade, Wittgenstein procurar dar
lugar ao fenômeno do “vago” e da indeterminação do sentido. Sua
solução vem expressa no mesmo trecho dos Notebooks:

Se a complexidade de um objeto é determinante


para o sentido da proposição, então é preciso que ela
seja representada na proposição na medida em que
ela determina o sentido. E na medida em que sua
composição não é determinante para este sentido,
nessa medida os objetos da proposição são simples.
Eles não podem ser mais decompostos.
A exigência dos objetos simples é a exigência da de-
terminação do sentido.
Pois se eu falo, por exemplo, desse relógio signifi-
cando através disso algo complexo, e o modo pelo
qual ele é composto não desempenha nenhum pa-

63
pel, então entrará em jogo na proposição uma gene-
ralização, cujas formas fundamentais, na medida em
que elas nos são dadas, serão completamente determi-
nadas (NB, p. 63-64).

Quando há um sentido definitivo e uma proposição o exprime


completamente, há também nomes para os objetos simples; mas se
o sentido não é definitivo, então uma “generalização” aparecerá na
análise. É isso que Wittgenstein quer dizer no 3.24:

3.24 – Que um elemento proposicional designe um


complexo, pode-se percebê-lo por uma indetermi-
nação nas proposições em que aparece. Sabemos que,
por meio dessa proposição, ainda não fica tudo de-
terminado. (A designação de generalidade contém,
na verdade, um protótipo de figuração (Urbild)).

Poderíamos descrever o que Wittgenstein quer dizer de modo


quase paradoxal dizendo que, para ele, a indeterminação do sentido
é determinada em sua indeterminação10. Vê-se assim que, na maior
parte dos casos, o sentido de um enunciado da linguagem ordinária
será corretamente vertido, segundo Wittgenstein, por meio de uma
análise que termina em um enunciado com quantificadores da for-
ma ∃xFx. Como veremos na seção sobre a lógica e a aritmética, tais
enunciados são redutíveis a uma disjunção de casos: ∃xFx≡Fa V Fb
V Fc... É assim que as formas da generalidade são “completamente
determinadas”, ao passo que uma parte do sentido do enunciado da
linguagem ordinária permanece “indeterminada”.
Estamos doravante de posse de elementos suficientes para for-
mular algumas observações sobre a questão fundamental da relação
de prioridade entre linguagem e mundo, pois esta questão gira em
torno da sintaxe dos nomes simples: trata-se de saber se esta última
provém dos próprios objetos ou não. Sustentei, na seção precedente,

10 Cf. P. M. S. Hacker, Insight and Illusion, op. cit., p. 58.

64
a tese segundo a qual se trata na verdade de uma “tríade” e que não
há nenhuma prioridade de um dos elementos sobre os outros. A tese
“realista” segundo a qual o mundo impõe sua estrutura, sustentada,
por exemplo, por Pears e por Malcolm, não deixa de ter bases textu-
ais – pode-se pensar, por exemplo, nas observações de Wittgenstein
em Some remarks on logical form sobre a necessidade de “uma inves-
tigação lógica versando sobre os próprios fenômenos” (SRLF, 30) –,
mas permanece por si mesma difícil de compreender, pois podemos
nos perguntar em que consistiria uma investigação de verdades ló-
gicas no mundo. E, quando Malcolm afirma que “a sintaxe de um
nome é derivada do objeto”11, temos o direito de perguntar o que
ele entende por “ser derivada do objeto”. Além disso, essa tese vai de
encontro ao fato inegável de que Wittgenstein insiste na autonomia
da lógica: “A lógica deve cuidar de si mesma” (5.473).
Mais difícil de ser refutada é a ideia de que somos nós que, por
meio da linguagem, atribuímos uma forma ao mundo. Essa inter-
pretação, por vezes qualificada de “antirealista”, foi defendida por
Hidé Ishiguro12. A seu ver, há prioridade da sintaxe no sentido de
que um símbolo não pode denotar um objeto estável sem ter um
uso estável13 e de que a identidade do objeto só pode ser deter-
minada por meio da determinação do sentido das proposições nas
quais ele comparece; os nomes não são portanto mais que dummy
names14. Apoiando-se na retomada do princípio de contexto de Fre-
ge em 3.3, onde vem dito que “é só no contexto da proposição que
um nome tem significado”, Ishiguro considera, na contramão da
tese realista, que não se pode sair em busca de um objeto, isto é, da
denotação de um nome simples, independentemente do uso deste
último em proposições. Essa crítica no entanto erra seu alvo, uma
vez que os nomes simples só aparecem no momento em que a pro-

11 N. Malcolm, Nothing is Hidden, op. cit., p. 27.


12 Especialmente no importante artigo: H. Ishiguro, “Use and Reference of
Names”, op. cit.
13 Ibid., p. 20.
14 Ibid., p. 34-35 e 41.

65
posição é “completamente analisada” (2.021 e 3.2) : portanto, está
fora de questão de partir da proposição não analisada para, depois,
procurar a denotação dos nomes simples. Por outro lado, não se
deve subestimar o fato de que a sintaxe da linguagem deve refle-
tir as possibilidades combinatórias dos objetos; do mesmo modo,
essa leitura não dá conta do fato de que os objetos são a substância
do mundo (2.021), eles são o que subsiste (2.024): a substância é
“forma e conteúdo” (2.025). Brian McGuinness, que subscreve a in-
terpretação de Ishiguro15, chega mesmo a dizer que os objetos estão
“para além da existência” (beyond being) e que é um engano acredi-
tar que Wittgenstein foi realista a seu respeito16. Decerto, Wittgen-
��������
stein não pode “dizer” que um objeto “existe”, pois isso equivaleria
a transgredir a distinção entre “o que se mostra” e “o que se diz”,
mas sua existência vem a ser implicitamente reconhecida pelo fato
de que “só havendo objetos pode haver uma forma fixa do mundo”
(2.026; cf. 2.023): uma vez que o mundo tem uma forma fixa, os
objetos devem portanto existir! Aliás, se não existissem, então não
seria possível formar qualquer figuração, seja verdadeira ou falsa, do
mundo (2.0212).
É preciso que os significados dos sinais simples “nos sejam expli-
cados para que os entendamos” (4.026), e isso só pode ser feito por
“elucidações”:

3.263 – Os significados dos sinais primitivos podem


ser explicados por meio de elucidações. Elas são pro-
posições que contêm os sinais primitivos. Portanto,
só podem ser entendidas quando já se conhecem os
significados desses sinais.

As elucidações não podem ser definições ostensivas do tipo: “Isto


é um A”. Os nomes simples seriam assim correlacionados aos obje-

15 B. McGuinness, “The So-Called Realism of Wittgenstein’s Tractatus”, op. cit.,


p. 66-67.
16 Ibid., p. 73.

66
tos simples e as correlações seriam “como que as antenas [...] com
as quais [a figuração] toca a realidade” (2.1515). Isso implicaria no
entanto que possamos antes obter a significação dos nomes para
depois compreender as proposições nas quais eles comparecem17. A
noção de elucidação é um tanto aparentada à de Russell, no *1 dos
Principia Mathematica:

Uma vez que todas as definições dos termos se fazem


por meio de outros termos, todo sistema de defini-
ções que não é circular deve começar por um de-
terminado aparato de termos não definidos. [...] As
ideias primitivas são explicadas com a ajuda de des-
crições concebidas para apontar com o dedo diante
do leitor o que se quer dizer, mas as explicações não
constituem definições, pois supõem as ideias que
elas explicam18.

17 A esse respeito, Ishiguro tem razão, as elucidações não podem ser definições
ostensivas; cf. H. Ishiguro, “Use and Reference of Names”, op. cit., p. 33.
No entanto, ela considera as elucidações como proposições que especificam
as propriedades internas dos objetos, o que não pode ser o caso, pois isso
implicaria o uso de um conceito formal como se se tratasse de um conceito
material. Além do mais, isso implicaria que toda proposição fosse uma
elucidação de seus constituintes.
18 A. N. Whitehead e B. Russell, Principia Mathematica, op. cit., vol. 1, p. 91.

67
PROBLEMAS ONTOLÓGICOS

R
aciocinar na ausência de exemplos é um defeito infelizmente
muito disseminado na filosofia, do qual Wittgenstein não
escapa: ele não avança nenhum exemplo de análise “com-
pleta”. O resultado disso é uma falta de clareza em suas teses e em
sua terminologia – encontram-se mesmo algumas incoerências me-
nores1. Essa obscuridade está na origem de diversos problemas de
interpretação, tanto acerca dos complexos quanto dos simples; exa-
minarei alguns desses problemas na presente seção.
Norman Malcolm relata a seguinte conversa, de 1949:

Eu havia perguntado a Wittgenstein se ele, no mo-


mento em que escrevia o Tractatus, não havia deci-
dido o que seria um exemplo de “objeto simples”.
Ele me respondeu que, nessa época, pensava ser um

1 Cf., por exemplo, a incoerência encontrada por Fogelin em 2.04, 2.06 e 2.063.
Tomadas conjuntamente, essas observações implicam que a totalidade dos
estados de coisas existentes é equivalente ao conjunto formado pela existência
e pela inexistência de estados de coisas. Cf. R. Fogelin, Wittgenstein, 2ª ed.,
Londres, Routledge, 1987, p.13.
lógico e que não era tarefa do lógico decidir se essa
coisa é uma coisa simples ou um complexo, isso sen-
do uma questão puramente empírica2!

Essa anedota confirma que Wittgenstein acreditava, na época


em que escrevia o Tractatus, numa distinção firme entre o trabalho,
a priori, do lógico e o trabalho, empírico, do psicólogo. Segundo a
carta a Russell de 19 de agosto de 1919, a relação entre os consti-
tuintes de um pensamento e os de um fato é do âmbito da psicologia
(CL, p. 125). Wittgenstein apresentou no Tractatus uma concepção
da filosofia purificada de todo ingrediente empírico ou psicológico,
concepção na qual a teoria do conhecimento é assimilada à “filosofia
da psicologia” (4.1121). Algumas questões são portanto da alçada
da “aplicação da lógica” (5.557) e não da própria lógica3.
A análise da proposição apresentada na seção precedente defron-
ta-se com sérias dificuldades. O quase desaparecimento dos comple-
xos força Wittgenstein a introduzir em sua ontologia entidades que
desempenharão seu papel. Com efeito, a proposição descreve um
“fato” (Tatsache) (4.023). Mas um “fato” é algo positivo, e falar na
existência de um “não-fato” parece ser da ordem do contrassenso.
Wittgenstein defronta-se portanto com o problema sobre o qual ti-
veram de se deter aqueles que, como Meinong ou Russell, refletiam
sobre as proposições falsas. Na verdade, Wittgenstein situa-se clara-

2 N. Malcolm, “Ludwig Wittgenstein”, op. cit., p. 411.


3 Não se deve esquecer nesse contexto que, quando aluno de Russell em
Cambridge, antes da guerra, Wittgenstein também fazia estudos de psicologia;
chegou mesmo a fazer um relatório de seus trabalhos sobre a percepção do
ritmo na British Psychological Society em 1912. Infelizmente, quase nenhum
vestígio de seus trabalhos chegou até nós. (A reflexão de Wittgenstein sobre a
música nunca estava longe de suas preocupações em lógica, como o atesta esta
observação de 1915: “Os temas musicais são, em certo sentido, proposições. O
conhecimento da natureza da lógica conduzirá desse modo ao conhecimento
da natureza da música” (NB., p. 40)). O interesse de Wittgenstein pela
percepção dos sons poderia levar a crer que quando ele fala da aplicação da
lógica, ele tem em vista investigações empíricas análogas às suas.

70
mente entre Russell e Meinong. Ele guarda da crítica de Meinong
por Russell a ideia de que a tese segundo a qual a uma proposição
verdadeira corresponde um objetivo subsistente e a uma proposição
falsa corresponde um objetivo não subsistente é indefensável, pois o
princípio de não-contradição não é então mais respeitado, uma vez
que algo corresponde a toda proposição; para Wittgenstein, assim
como para Russell, é preciso poder dizer que a uma proposição ver-
dadeira corresponde algo e que nada corresponde a uma proposição
falsa. Mas Wittgenstein não pode seguir Russell na via em que este
se engajou, a via da teoria do conhecimento: vimos que ele rejeita a
teoria do juízo como relação múltipla e a necessidade de um conhe-
cimento por familiaridade da forma lógica. A indecisão de Wittgen-
��������
stein é palpável em seus Notebooks, no outono de 1914:

“Não p” e “p” se contradizem, não podem ser ambas


verdadeiras. No entanto, posso formulá-las ambas, as
duas figurações existem. Elas estão lado a lado (NB, p. 28).

Na primeira frase, Wittgenstein retoma quase literalmente a


crítica que Russell endereça a Meinong. Não pode portanto haver
objetivo, complexo, ou fato falso. Mas ele tem simultaneamente que
se equilibrar sobre outro problema, que ele exprime em sua segunda
frase: a proposição dotada de sentido deve representar seu sentido,
mesmo se a proposição é falsa. Wittgenstein irá portanto se opor
em última instância a Russell, o que ele irá exprimir ao escrever
nas “Notes on Logic”: “Há fatos positivos e negativos, mas não fatos
verdadeiros ou falsos” (NL, p. 97).
Uma vez que Wittgenstein não quer recorrer aos complexos,
pelas razões que vimos, ele introduz novas entidades, de certa
forma espremidas entre os complexos e os fatos, que são os Sa-
chverhalte e os Sachlage4. Quando Russel lhe perguntou qual é a

4 A tradução desses termos em inglês fez correr muita tinta. Cf. a discussão
detalhada por Max Black já em 1964, em A Companion to Wittgenstein’s
Tractatus, op. cit., p. 39-45. As opiniões, mais uma vez, estão divididas;

71
diferença entre Tatsache e Sachverhalt, Wittgenstein respondeu:

Sachverhalt é o que corresponde a uma [proposição


elementar] se ela é verdadeira. Tatsache é o que cor-
responde a um produto lógico de proposições ele-
mentares quando este é verdadeiro (NB, p. 129).

Essa interpretação, que encontra respaldo (dentre outros aforis-


mos) nos 2.034 e 4.2211, foi usada por Russell em sua introdução.
Ela concorda com a tradução de “Sachverhalt” por “fato atômico”,
que restitui a ideia de uma correspondência entre o Sachverhalt e
uma proposição elementar. No entanto, há razões para acreditar que
os Sachverhalte não são de modo algum fatos e que a tradução por
“fatos atômicos” é enganosa. Parece que a tradução por “estados de
coisas” seja a mais apropriada. Se é verdade que Wittgenstein usa fre-
quentemente, no início da seção 2, “Sachverhalt” no sentido de um
encadeamento existente de objetos (bestehende Sachverhalt), ele fala
também da não-existência (das Nichtbestehen)5 de um Sachverhalt
em 2.06, 2.062, 2.11, 4.1, 4.25, 4.27 e 4.3. Além disso, segundo o
2.06, os fatos são positivos ou negativos, mas os Sachverhalte, de seu
lado, são todos eles positivos: não há proposição elementar negativa
(NB, p. 130).
Pode-se resumir o que precede explorando o 2.06 da seguinte
maneira: se uma proposição elementar é verdadeira, então existe
(besteht) um Sachverhalt, o que é em si um fato positivo, do qual não

de um lado os partidários da tradução Ramsey-Ogden por atomic fact ou


“fato atômico” (cf. G. E. M. Anscombe, An Introduction to Wittgenstein’s
Tractatus, 4ª ed., Londres, Hutchinson, 1971, p. 30) e, de outro, os
partidários da tradução de McGuinness-Pears por state of affairs ou
“estados de coisas” (cf., em particular, E. Stenius, Wittgenstein’s Tractatus,
op. cit., p. 29-37; P. Simons, “The Old Problem of Complex and Fact”, op.
cit., p. 331-335).
5 Traduzo aqui o alemão “bestehen” por “existir”, mas se poderia também fazer
a terminologia concordar com a de Meinong e traduzir a expressão nesse
trecho por “subsistir”.

72
se deve esquecer que ele é atômico, uma vez que ele não é o produto
de fatos mais simples. Se uma proposição elementar é falsa, então a
não-existência (nichtbestehen) de um Sachverhalt é um fato negativo
(atômico). Mas as proposições elementares não podem afigurar ape-
nas fatos positivos (atômicos), pois seriam então todas verdadeiras.
É preciso portanto introduzir uma outra classe de entidades que
possam ser representadas pelas proposições elementares indepen-
dentemente de seu valor de verdade: é esse o papel desempenhado
pelas situações (Sachlagen). Estas devem portanto ser identificadas
com a possibilidade da existência ou da não-existência dos estados
de coisas, isto é, com a possibilidade de fatos positivos ou negativos.
(Wittgenstein se aproxima portanto em última instância dos “obje-
tivos” de Meinong...)
Muitos se perguntarão por que Wittgenstein introduziu as situ-
ações, se ele já tinha os fatos positivos e negativos como “verifica-
dores” (truth-makers)6. É preciso notar de início que ele distingue
“afigurar” (abbilden) e “representar” (darstellen): uma proposição
“afigura” um fato ou a realidade, mas “representa” uma situação.
Essa diferença é particularmente visível no 2.201: “A figuração afi-
gura (abbildet) a realidade ao representar (darstellt) uma possibilida-
de de existência ou inexistência de estados de coisas.” Ao introduzir
assim as “situações”, Wittgenstein resolve o outro problema que ele
tinha em vista: as proposições, sendo a figuração de uma situação,
“representam” seu sentido (2.221) independentemente de seu va-
lor de verdade (2.22). Retomando a metáfora dos Notebooks, eis
aí a “sombra” que a figuração projeta sobre o mundo (NB, p. 27 e
30)7. A projeção dessa “sombra” é também o “pensar o sentido da

6 A expressão não é de Wittgenstein, ela é extraída de K. Mulligan, P. Simons,


B. Smith, “Truth Makers”, Philosophy and Phenomenological Research, vol. 44,
1984, 287-321.
7 Essa interpretação não pode ser discutida mais profundamente, por falta de
espaço. Ela se opõe, entre outras, à de P. Carruthers, Tractarian Semantics, op. cit.
E ela só tem dois antecedentes, P. Simons, “Tractatus Logico-Philosophicus”, in
J.-P. Leyvraz e K. Mulligan, Wittgenstein analysé, Nîmes, Jacqueline Chambron,

73
proposição” do 3.11, que vimos na seção sobre linguagem, mundo
e pensamento.
De outro lado, as situações permitem introduzir a noção de “es-
paço lógico”: “A figuração representa (vorstellt) a situação no espaço
lógico, a existência e inexistência de estados de coisas” (2.11). É o
espaço lógico que irá permitir por sua vez a elaboração da combina-
tória das tabelas de verdade8.
Outro problema espinhoso é o do estatuto “categorial” dos
“objetos simples”. A escolástica distingue entre os particulares e os
universais (que são as propriedades e as relações). Podemos por-
tanto nos colocar a pergunta: seriam os “objetos simples” tão so-
mente particulares ou Wittgenstein admite também os universais
como “simples”? Em outros termos, o Tractatus é de inspiração
nominalista ou realista9? Os Notebooks e as inúmeras observações

1993, p. 16-32; p. 21-22 e, sobretudo, J. Plourde, Nécessité, possibilité et


contingence dans le Tractatus logico-philosophicus. Essai d’une reconstruction de
la théorie wittgensteinienne des modalités, tese de doutorado, Universidade de
Genebra. A este último devo as ideias centrais desse trecho.
8 D. Hyder e T. Lampert mostraram a origem dessa noção nos trabalhos
de Helmholtz. Cf. D. J. Hyder, The Mechanics of Meaning. Propositional
Content and the Logical Space of Wittgenstein’s Tractatus, op. cit.; T. Lampert,
Wittgenstein Physikalismus: Die Sinnesdatenanalyse des Tractatus Logico-
Philosophicus in ihrem historischen Kontext, Paderborn, Mentis, 2000.
9 Segundo Copi e Anscombe, os simples do Tractatus não podem ser senão
particulares. Cf. I. M. Copi, “Objects, Properties and Relations in the Tractatus”,
Mind, vol. 67, 1958, p. 145-165; G. E. M. Anscombe, An Introduction to
Wittgenstein’s Tractatus, op. cit., p. 98 e segs. Seus argumentos foram refutados, a
meu ver de modo convincente, por Allaire, Stenius, Maury e os Hintikka. Cf. E.
B Allaire, “The Tractatus: Nominalistic or Realistic?”, reimpresso em I. M. Copi
e R. W. Beard, Essays on Wittgenstein’s Tractatus, Nova Iorque, MacMillan, 1966,
p. 325-341; E. Stenius, Wittgenstein’s Tractatus, op. cit.; A. Maury, The Concepts
of Sinn and Gegenstand in Wittgenstein’s Tractatus, Acta Philosophica Fennica,
vol. 29, n. 4, 1977, parte II; M. B. Hintikka e J. Hintikka, Uma investigação
sobre Wittgenstein, op. cit., cap. 2. Sébastien Gandon propõe no entanto uma
interpretação mais próxima da de Copi, que ele interpreta como insistindo
sobretudo na inerência da forma aos objetos. CF. S. Gandon, Logique et langage.
Études sur le premier Wittgenstein, op. cit., p. 65-66.

74
sobre essa questão em 1929 mostram que Wittgenstein admitia
propriedades e relações como objetos. Nos Notebooks, encontra-
mos inúmeros trechos em que Wittgenstein diz explicitamente
que “Relações, propriedades, etc, são também objetos” (NB, p. 61).
Por exemplo:

Segue-se disso que poderíamos nos passar dos no-


mes? Certamente não.
Os nomes são necessários para enunciar que esta coi-
sa possui esta propriedade, etc.
Eles ligam a forma proposicional a objetos comple-
tamente determinados (NB, p. 53).

Dentre os diversos trechos que podem ser invocados e que da-


tam da volta a Cambridge em 1929, o mais marcante é a explicação
do aforismo 2.01 para Desmond Lee em 1930-1931:

2.01 – “Um fato atômico é uma combinação de


objetos (entidades, coisas)”. Objetos, etc., é em-
pregado aqui para coisas tais como uma cor, um
ponto no espaço visual, etc. [...] “Objetos” inclui
também as relações; uma proposição não é duas
coisas ligadas por uma relação. “Coisa” e “relação”
são do mesmo tipo. Os objetos são vinculados uns
aos outros, exatamente como os elos de uma cor-
rente (WL, p. 120).

Essa última frase alude ao 2.03: “No estado de coisas, os objetos


se concatenam, como os elos de uma corrente.”
Poder-se-ia pensar que Wittgenstein teria mudado de posição
duas vezes, abandonando o realismo dos Notebooks ao escrever o
Tractatus, para depois voltar a ser realista em sua volta à filosofia em
1929, de modo que as afirmações dos Notebooks e os textos poste-
riores a 1929 seriam enganadores. Esse tipo de proposta nada tem
de convincente. Em 1929, Wittgenstein escrevia, em Some Remarks
on Logical Form:

75
Poder-se-ia pensar – e eu mesmo pensava outrora
– que um enunciado que exprime o grau de uma
qualidade seria analisável em um produto lógico de
enunciados quantitativos simples e em um enuncia-
do suplementar que os completasse (SRLF, p. 32).

Sem entrar nos detalhes desse trecho, cabe reconhecer que �����
Witt-
genstein ali enuncia claramente que uma propriedade – a saber, a
“qualidade” da qual falam os “enunciados quantitativos simples” –
entra na composição das proposições elementares. Além disso, ao
dizer: “Eu mesmo pensava outrora”, Wittgenstein só pode estar se
referindo ao Tractatus!
No interior do Tractatus, há vários trechos que se prestam a dis-
cussão. Só examinarei alguns. Em primeiro lugar, o 3.1432, no qual
Copi se apoia10:

3.1432 – Não: “O sinal complexo ‘aRb’ diz que a


mantém a relação R com b”, mas que “a” mantenha
uma certa relação com “b” diz que aRb.

Para Copi, esse trecho mostra que, para Wittgenstein, não há


senão dois ingredientes no fato de que aRb, e ele sugere tornar isso
patente escrevendo aRb do seguinte modo: ab. Mas a proposição
elementar deve ter a mesma “multiplicidade” que aquilo que ela
representa (4.04) e a situação aRb não é certamente determinada
apenas pelos objetos a e b. É o que mostra o exemplo da percepção
de um complexo tal como um cubo, do qual só foram desenhadas
as arestas (o célebre cubo de Necker) e que podemos perceber de
dois modos diferentes. Wittgenstein é claríssimo a esse respeito: “o
que realmente vemos são dois fatos distintos” (5.5423). Deve haver
portanto um terceiro elemento na proposição, que é determinado
por R.

10 I. M. Copi, “Objects, Properties, and Relations in the Tractatus”, op. cit., p.


155-156.

76
Seja como for, nada proíbe à análise de terminar em três objetos
a, R, b que se mantêm juntos como os elos de uma corrente (2.03).
Por outro lado, outros trechos fornecem um apoio sem reserva para
a tese realista, tais como 5.5261, onde Wittgenstein, ao usar a ex-
pressão “(∃x,φ)( φx)”, admite como variáveis ligadas pelos quantifi-
cadores, que mantêm “relações designativas com o mundo, como na
proposição não generalizada”, além das variáveis de indivíduos, tais
como x, as de propriedades, tais como φ.
Por outro lado, duas doutrinas fundamentais do Tractatus mili-
tam contra a abordagem nominalista. Em primeiro lugar, Wittgens-
tein opõe-se mais uma vez a Frege em 2.0121-2.0122. Para Frege,
uma função distingue-se de um objeto pelo fato de que este é “satu-
rado” e aquela é “insaturada”, o que significa que ela exige um obje-
to como argumento a fim de ser “saturada”. É o que Frege exprime
ao escrever a função com uma lacuna: “F( )”11. Para Wittgenstein,
“Não podemos pensar nenhum objeto fora de sua ligação com ou-
tros objetos” (2.0121); em termos fregianos, os objetos do Tracta-
tus são todos “insaturados”. A identificação destes com indivíduos
(saturados) é portanto impossível. Em segundo lugar, Wittgenstein
assevera em 1.1 que “o mundo é a totalidade dos fatos” e em 1.11
que “o mundo é determinado pelos fatos, e por serem todos os fa-
tos”. Como observa Maury, é estranhíssimo que os partidários da
interpretação nominalista não observem que um nominalista que
rejeita os universais não deveria no entanto ter simpatia particular
pelos fatos12.
Será que, como pensa Griffin13, a análise dos complexos em seus
simples proíbe nomes tais como [aRb] e, portanto, a possibilidade
de que relações sejam objetos? Wittgenstein não via as coisas desse
modo:

11 Cf. G. Frege, Lógica e filosofia da linguagem, op. cit., p. 85-86.


12 A. Maury, The Concepts of Sinn and Gegenstand in Wittgenstein’s Tractatus, op.
cit., p. 96.
13 J. Griffin, Wittgenstein’s Logical Atomism, op. cit., p. 60.

77
Minha dificuldade consiste certamente nisto: em to-
das as proposições que me ocorrem, nomes se apre-
sentam, mas que devem desaparecer sob o efeito de
uma análise ulterior. Sei que tal análise é possível,
mas não estou em condições de levá-la a cabo. A
despeito disso, aparentemente sei que, se a análi-
se fosse levada a cabo, o resultado deveria ser uma
proposição que ainda conteria nomes, relações, etc.
(NB, p. 61)

Aliás, em 4.24, Wittgenstein diz escrever a proposição elementar


“como função de nomes”, sob a forma: “fx”, “φ(x,y)”.
O Tractatus é portanto “realista” no sentido que se confere a esse
termo na querela dos universais. No entanto, cumpre precisar, com
Hacker, que é o único sentido da palavra “realismo” que pode ser
aplicado ao Tractatus: sobretudo, não se deve entender por aí que
Wittgenstein teria ali exposto uma semântica “realista” no sentido
em que se entende essa expressão no quadro do debate instaura-
do em torno da obra de Michael Dummett, acerca da questão do
“realismo” na teoria da significação14. A esse respeito, já se disse do
Tractatus que ele contém uma concepção realista da semântica das
condições de verdade. Citando como prova o aforismo 4.024, no
qual Wittgenstein escreve que “Entender uma proposição significa
saber o que é o caso se ela for verdadeira”, já se disse dele que ele
adotava uma versão da tese da extensionalidade de Carnap15. Essa

14 P. M. S. Hacker, Insight and Illusion, op. cit., p. 65.


15 Em sua versão original, em Carnap, essa tese versa sobre os conceitos: em toda
proposição que versa sobre um conceito, este pode ser representado por sua extensão,
quer seja uma classe, quer uma relação. Cf. R. Carnap, Der Logische Aufbau der Welt,
Berlin, Weltkreis Verlag, 1928, p. 57. A expressão “tese da extensionalidade” veio
depois a designar a tese segundo a qual toda proposição é uma função de verdade de
proposições elementares que são funções de verdade de si mesmas. Para a atribuição
dessa tese a Wittgenstein, cf. D. Favrholdt, An Interpretation and Critique of
Wittgenstein’s Tractatus, Copenhague, Munksgaard, 1967, p. 11. Para uma exposição
do aspecto “extensional” do Tractatus, cf. P. Frascolla, Tractatus Logico-Philosophicus.
Introduzione alla lettura, Roma Carocci, 2000, cap. 4.

78
leitura “extensionalista” do Tractatus foi criticada de modo convin-
cente por André Maury e, na sua esteira, por G. H. von Wright16,
em um artigo aliás muito importante para o desenvolvimento das
leituras “ontológicas” do Tractatus17. Maury mostrou que a essência
da proposição “dotada de sentido” é de poder ser verdadeira e de
poder ser falsa, o que exprimimos, na esteira dos Notebooks, falando
de “bipolaridade” da proposição. A própria noção de significação
proposicional é portanto modal.
O único trecho do Tractatus no qual Wittgenstein oferece, de
passagem, exemplos de “objetos” acerca dos quais se pode concluir,
com base nos Notebooks, que se trata de “simples”, é o 2.0131:

2.0131 – [...] Não é preciso, por certo, que a man-


cha no campo visual seja vermelha, mas uma cor ela
deve ter: tem à sua volta, por assim dizer, o espaço
das cores. O som deve ter uma altura, o objeto do
tato, uma dureza, etc.

Nesse trecho, encontramos novamente propriedades: “cor”, “altu-


ra”, “dureza”, mas também objetos fenomenais como uma “mancha
no espaço visual”, um “som”, um “objeto do tato”. Anscombe, que
rejeita a ideia de que as propriedades possam ser objetos simples tam-
bém criticou a ideia de que os particulares ou indivíduos possam ser
sense-data russellianos18; na sua esteira, Griffin assimilou os “objetos”
do Tractatus a “pontos materiais” de Hertz19, ou seja, entidades bem
mais teóricas do que fenomenais, uma vez que os pontos materiais

16 Cf. A. Maury, The Concepts of Sinn and Gegenstand in Wittgenstein’s Tractatus,


op. cit., parte 1; G. H. von Wright, “La logique modale et le Tractatus”, in
Wittgenstein, Mauvezin, TER, 1986, p. 195-214.
17 Cf. R. Bradley, The Nature of All Being. A Study of Wittgenstein’s Modal
Atomism, Oxford, Oxford University Press, 1992; L. Goddard e B. Judge,
The Metaphysics of Wittgenstein’s Tractatus. Australasian Journal of Philosophy.
Monograph Series, vol. 1, 1982.
18 G. E. M. Anscombe, An Introduction to Wittgenstein’s Tractatus, op. cit., cap. 1.
19 J. Griffin, Wittgenstein’s Logical Atomism, op. cit., p. 101.

79
de Hertz não são nem mesmo minima sensibilia20. É evidente que os
objetos do Tractatus não podem ser sense-data. Já mostrei, na seção
sobre a significação e o juízo, que Wittgenstein havia rejeitado a teoria
do juízo de Russell e que isso o havia de certo modo forçado a conce-
ber seus simples como possuindo sua forma, isto é, sua “possibilidade
combinatória”. Os sense-data de Russell não possuíam tais formas.
Por outro lado, Russell e Moore descreviam os sense-data como os
“objetos” da percepção e não os objetos reais que são as mesas, cadei-
ras, etc., dos quais Russell dizia, como vimos, que cumpre dar uma
“construção lógica”. Não há tal metafísica no Tractatus, onde não en-
contramos distinção entre conhecimento “direto” dos sense-data e co-
nhecimento “indireto” dos objetos físicos. Os objetos simples “cons-
tituem a substância do mundo” (2.021) e, ao contrário dos sense-data,
que são objetos efêmeros, são “fixos” e “subsistentes” (2.027-2.0271).
Mas os objetos simples não são dados na experiência imedia-
ta? Mais uma vez, o texto do Tractatus não nos ajuda em quase
nada. Os paralelos que eu explicitei entre o princípio da redu-
ção ao conhecimento por familiaridade de Russell e a análise, em
Wittgenstein�������������������������������������������������
, da proposição complexa em proposições elementa-
res, que consistem em um encadeamento de nomes que “estão
por” objetos, militam antes em favor de uma resposta positiva21:
ambos procuravam saber o que deve me ser dado para que eu possa
compreender a minha linguagem. Que os objetos devam me ser da-
dos em minha experiência imediata não implica necessariamente,
no entanto, que eles tenham uma existência subjetiva ou relativa
ao sujeito, como os objetos dos quais falam as diversas formas de
fenomenalismo.

20 Cf. H. Herz, Prinzipien der Mechanik, op. cit., cap. 1.


21 Para outras análises que vão no mesmo sentido, cf. M. B. Hintikka e J.
Hintikka, Uma investigação sobre Wittgenstein, op. cit.; D. J. Hyder, The
Mechanics of Meaning. Propositional Content and the Logical Space of
Wittgenstein’s Tractatus, op. cit.; T. Lampert, Wittgenstein’s Phisikalismus: Die
Sinnesdatenanalyse des Tractatus Logico-Philosophicus in ihrem historischen
Kontext, op. cit

80
Se Wittgenstein menciona ocasionalmente nos Notebooks os
pontos materiais de Hertz (NB, p. 67), sem por isso confundi-los
com seus objetos simples, ele não se priva de dizer:

Como exemplo de simples, penso sempre nos


pontos do campo visual. (Assim como são sempre
as partes do campo visual que me vêm ao espírito
como tipos de “objetos compostos”) (NB, p. 45).

Ele acrescentará mais tarde que lhe parece “perfeitamente pos-


sível que manchas de nosso campo visual sejam objetos simples,
na medida em que não percebemos separadamente nenhum ponto
dessas manchas” (NB, p. 64) – o exemplo que ele tem em vista nesse
trecho é “a imagem visual das estrelas”. Do mesmo modo, após sua
volta à filosofia, Wittgenstein não deixa lá muitas dúvidas. O texto
Algumas Observações sobre a Forma Lógica contém uma discussão
do problema da exclusão das cores que versa explicitamente sobre
proposições elementares acerca de “toda mancha de cor em nosso
campo de visão” (SRLF, p. 31). As Observações filosóficas abrem-se
com um enunciado surpreendente: “A linguagem fenomenológica,
ou ‘linguagem primária’ como eu a chamei, não é mais o objetivo
que persigo, já não a tomo como indispensável” (PB, §1) Essa lin-
guagem “fenomenológica” ou “primária” (a expressão encontra-se
em Hertz) é constituída por proposições “que tratam do imediato”
(PB, §11). Waismann escrevia em suas “Teses”: “As proposições que
tratam imediatamente da realidade são chamadas proposições elemen-
tares” (WWK, p. 2), acrescentando, algumas linhas abaixo: “O que
as proposições elementares descrevem são os fenômenos” (WWK, p.
249). Mais uma vez, é sempre possível pensar que Wittgenstein te-
nha mudado de posição e tenha rejeitado esse ponto de vista quan-
do da redação do Tractatus; o que não é muito convincente, pois
isso implicaria que as observações que precedem fariam referência
a uma hipotética posição que Wittgenstein teria sustentado entre a
publicação do Tractatus e 1929-30. Tal suposição não se funda em
nenhuma evidência textual.

81
Gostaria de acrescentar a isso três razões internas ao Tractatus para
acreditar que os objetos devem ser aproximados dos objetos do conheci-
mento por familiaridade de Russell. Em primeiro lugar, pode-se “conhe-
cer” (kennen) um objeto, o que só é possível se estes são fenomenais e não
hertzianos (os “pontos materiais” de Hertz não são minima sensibilia).
Com efeito, em 2.0123, Wittgenstein diz: “Se eu conheço (kenne) o
objeto, conheço também o conjunto de suas possibilidades de ocorrência
nos estados de coisas”. Quando ele se corresponde com C. K. Ogden
acerca da tradução inglesa de sua obra, Wittgenstein precisa o sentido de
seu emprego da palavra “kennen” dizendo “quero dizer apenas isso: eu o
conheço, mas não estou na obrigação de saber o que quer que seja acerca
dele”22; o que corresponde perfeitamente à definição do conhecimento
por familiaridade por Russell, como o mostrou Malcolm23.
Em segundo lugar, é decerto verdade que Wittgenstein descreve
seus objetos como “fixos”, mas não é por oposição a Russell, pois
a dimensão de variação não é temporal, mas lógica24. Com efeito,
não há para Wittgenstein “decurso do tempo” (6.3611) e a “exis-
tência” da qual ele fala é portanto “atemporal”25; os objetos simples
são, ao invés, concebidos como os constituintes a partir dos quais se
pode conceber outros mundos possíveis:

2.022 – É óbvio que um mundo imaginário, por


mais que difira do mundo real, deve ter algo – uma
forma – em comum com ele.
2.03 – Essa forma fixa consiste precisamente nos
objetos.

Deve-se portanto falar de uma dimensão de variação lógica, que


não exclui de modo algum que os objetos sejam dados na experiên-
cia imediata.

22 L. Wittgenstein, Letters to C. K. Ogden, op. cit., p. 59.


23 N. Malcolm, Nothing is Hidden, op. cit., p. 8-9.
24 P. Frascolla, Tractatus Logico-Philosophicus. Introduzione alla lettura, op. cit., p. 107.
25 M. B. Hintikka e J. Hintikka, Uma investigação sobre Wittgenstein, op. cit., cap.
3, § 13.

82
Em terceiro lugar, a identificação do mundo com “meu mundo”
no 5.62 é impossível se os objetos que constituem a substância do
mundo são concebidos como objetos físicos do tipo dos pontos ma-
teriais de Hertz. Com efeito, os aforismos 5.6, 5.62 e 5.63 enunciam:

5.6 – Os limites de minha linguagem significam os


limites de meu mundo.
5.62 – [...] Que o mundo seja meu mundo, é o que
se mostra nisso: os limites da linguagem [...] signifi-
cam os limites de meu mundo.
5.63 – Eu sou meu mundo. (O microcosmos).

Como o mundo, do qual os objetos simples formam a substância


(2.021), poderia ele ser meu mundo se esses objetos fossem apenas
objetos físicos e públicos ? Os objetos do Tractatus devem portanto
ser-me pessoais, o que significa que eles me são dados na experiên-
cia, assim como os objetos do conhecimento por familiaridade de
Russell26. Ocorre o mesmo com as observações sobre a morte ali
pelo fim da obra. Se o mundo e a vida “são um só” (5.621), o mun-
do deixa portanto de existir quando da morte:

6.431 – Como também o mundo, com a morte, não


se altera, mas acaba.
6.4311 – A morte não é um evento da vida. A morte
não se vive.

Mais uma vez, essas observações só têm sentido se a substância


do mundo é composta por objetos que me são dados. Com essas
últimas observações, pode-se medir a importância do longo traba-
lho de exegese nessa seção e nas precedentes: uma compreensão dos
mecanismos do Tractatus é essencial para a compreensão das obser-
vações sobre o mundo sub specie aeternitatis, que a interpretação de
Anscombe e Griffin torna inteiramente opacas.

26 Ibid., cap. 3, especialmente §7.

83
A OPERAÇÃO: LÓGICA E ARITMÉTICA

A
“semântica” de Wittgenstein é uma combinatória1. Uma
proposição elementar só tem duas “possibilidades de verda-
de”, o acordo ou o desacordo com o mundo, o que depende
de que ocorra ou não um estado de coisas. Para n proposições ele-
mentares, há 2n combinações possíveis (4.27). Podemos representar
as “possibilidades de verdade” por um esquema como o seguinte:

p p q p q r
V V V V V V
F F V F V V
V F V F V
F F V V F
F F V
F V F
V F F
F F F

1 Por razões que Sébastien Gandon viu muito bem, não se pode falar de “semântica” em
Wittgenstein no sentido em que se a compreende hoje em dia. Cf. S. Gandon, Logique
et Langage. Études sur le premier Wittgenstein, op. cit., p. 35 e segs. Tais simplificações são
inevitáveis quando se considera a brevidade do presente comentário.
Há possibilidades de acordo ou desacordo entre uma pro-
posição complexa e as possibilidades de verdade das n proposições
elementares das quais ela é composta (4.42); para duas proposições
elementares, haverá portanto 16 proposições complexas (elas são
apresentadas em 5.101). Com base nessas combinações, pode-se
determinar as funções de verdade e, portanto, as tabelas de ver-
dade, que são uma das inovações técnicas do livro. Wittgenstein
certamente não “inventou” as tabelas de verdade: pode-se fazê-las
remontar aos estoicos2 e o próprio Wittgenstein reconhecia que a
ideia já se encontrava em Frege3. Deve-se a ele, ao mesmo tempo
(1921) que a Post4, a ideia de um procedimento de decisão; dever-
se-ia mesmo falar, no caso de Wittgenstein, de um “procedimento
de construção”5. Sobretudo, deve-se a Wittgenstein a análise filo-
sófica dos dois “casos extremos” das condições de verdade, que são
as “tautologias” e as “contradições”. Estas são definidas, respectiva-
mente, como verdadeiras ou como falsas “para todas as possibilida-
des de verdade das proposições elementares” (4.46). A noção de tau-
tologia é uma das mais célebres da obra, uma vez que Wittgenstein
explicita por meio dela a essência das verdades lógicas (6.1):

4.461 – A proposição mostra o que diz: a tautologia


e a contradição, que não dizem nada.
A tautologia não tem condições de verdade, pois é
verdadeira incondicionalmente; e a contradição, sob
nenhuma condição.
Tautologia e contradição não têm sentido (sind
sinnlos).[...]

2 B. Mates, Stoic Logic, Los Angeles, University of California Press, 1961, p. 44.
3 G. Frege, “Begriffschrift, a formula language, modeled upon that of arithmetic,
for pure thought”, in From Frege to Gödel – A Source Book in Mathematical
Logic 1879-1931, J. van Heijenoort org., Cambridge, Harvard University
Press, 1967, p. 1-82; §5, p. 13-15.
4 E. Post, “Introduction to a general theory of elementary propositions”, in
From Frege to Gödel – A Source Book…, op. cit. , p 264-283.
5 S. Gandon, Logique et langage. Études sur le premier Wittgenstein, op. cit., p. 42.

86
(Nada sei, p. ex., a respeito do tempo, quando sei
que chove ou não chove.)
4.462 – Tautologia e contradição não são figurações
da realidade. Não representam nenhuma situação
possível. Pois aquela admite toda situação possível,
esta não admite nenhuma. [...]
4. 463 – [...] A tautologia deixa à realidade todo
o – infinito – espaço lógico; a contradição preenche
todo o espaço lógico e não deixa nenhum ponto à
realidade. Por isso, nenhuma delas pode, de maneira
alguma, determinar a realidade.

As proposições da lógica são portanto tautologias e “não dizem


nada” (4.461, 6.11). Essa concepção das verdades lógicas é hoje
adotada universalmente. Ela será retomada naquela época, por
exemplo, pelos membros do Círculo de Viena, em seu projeto de
renovação do empirismo. Mas estes fizeram dela então um uso que
já não respeita as intenções de Wittgenstein. Autores como Hans
Hahn e Rudolf Carnap retomaram a tese de Frege e de Russell se-
gundo a qual a matemática não é mais que um ramo da lógica6. E
a tese de Wittgenstein, segundo a qual as verdades lógicas são pro-
posições analíticas (6.11), que nada dizem do mundo, permitia-
lhes então eliminar o principal obstáculo para o empirismo puro
de um John Stuart Mill, que sustentava que as verdades matemá-
ticas não são mais que generalidades empíricas, isto é, proposições
sintéticas a posteriori7. Mas, como mostrarei adiante, Wittgenstein
nunca partilhou a tese “logicista” de Frege e de Russell8.
As combinações de possibilidades de verdade reaparecem (para

6 Cf., por exemplo, R. Carnap, Der logische Aufbau der Welt, Hamburgo, Felix
Meiner, 1961, p. 149.
7 Cf. H. Han, Empirismus, Logik, Mathematik, Francoforte, Suhrkamp, 1988, p. 57.
8 Acerca dessa questão e das relações entre Carnap e Wittgenstein, cf. M.
Marion, “Carnap, lecteur de Wittgenstein; Wittgenstein, lecteur de Carnap”,
in F. Lepage, M. Paquette e F. Rivenc (org.), Carnap aujourd’hui, Montréal/
Paris, Bellarmin/Vrin, 2002, p. 87-113.

87
citar alguns exemplos) na teoria da inferência, que abordarei um
pouco adiante, e na definição das probabilidades9:

5.15 – Sejam Vr o número dos fundamentos de ver-


dade da proposição “r”, Vrs o número dos funda-
mentos de verdade da proposição “s” que são tam-
bém fundamentos de verdade de “r”; chamamos,
nesse caso, a razão Vrs: Vr de medida da probabilidade
que a proposição “r” confere à proposição “s”.
5.151 – Num esquema como o do nº 5.101 acima,
seja Vr o número dos “V” da proposição r; Vrs, o
número dos “V” da proposição s que estão na mes-
ma coluna que “V” da proposição r. Nesse caso, a
proposição r confere à proposição s a probabilidade
Vrs:Vr.

Em outros termos, seja um conjunto S de n proposições elemen-


tares (portanto, logicamente independentes), e r e s duas proposições
que são funções de verdade dessas n proposições elementares – estas
últimas são chamadas em 5.01 de “argumentos de verdade”. Os fun-
damentos de verdade (Wahrheitsgründe) de r e de s são as combinações
de valores de verdade de seus argumentos de verdade para as quais r e
s tomam o valor verdadeiro. Seja ν o número de fundamentos de ver-
dade de r e µ o número de fundamentos de verdade de s que são tam-
bém fundamentos de verdade de r. Para ν < 0, µ ≤ ν e 0 ≤ ν ≤ 2n, µ/ν
mede a probabilidade que a proposição r confere à proposição s. Para
tomar um exemplo simples10, sejam p e q duas proposições elementa-
res. Uma vez que “p V q” tem três possibilidades de combinação dos
valores de verdade de p e de q que a tornam verdadeira, e uma única
combinação em comum com “p & q”, a medida da probabilidade que
a proposição “p V q” confere a “p & q” é 1/3.

9 Para uma discussão detalhada desta última, cf. G. H. von Wright,


“Wittgenstein et les probabilités”, in Wittgenstein, op. cit., p. 147-174.
10 G. E. M. Anscombe, An Introduction to the Tractatus, op. cit., p. 156.

88
Essa definição situa-se na linhagem dos trabalhos de Bernouilli,
de Laplace e de Bolzano, e frequentemente se censurou Wittgen-
��������
stein���������������������������������������������������������������
por ter-se apoiado sobre um “princípio de indiferença” disfar-
çado, com sua tese da independência lógicas das proposições ele-
mentares (5.134)11:

5.152 – Proposições que não tenham em comum


nenhum argumento de verdade, chamamos de mu-
tuamente independentes.
Duas proposições elementares se conferem mutua-
mente a probabilidade 1/212.

Wittgenstein não escaparia portanto às críticas endereçadas


à concepção “clássica” das probabilidades desenvolvidas pelos
partidários da concepção frequencial e por J. M. Keynes13. Para
evitar esses escolhos, Friedrich Waismann irá propor em 1930
uma variante da teoria de Wittgenstein14, na qual a escolha da
métrica é em parte convencional e em parte vinculada às frequên-
cias empíricas, ao passo que para Wittgenstein o número dos “V”
que aparecem na última coluna constituía a medida absoluta do
âmbito (Spielraum) da proposição. A medida de um âmbito é
assim definida:

11 Cf., por exemplo, M. Black, A Companion to Wittgenstein’s Tractatus, op. cit.,


p. 247-248.
12 Essa condição torna impossível toda predição com base no conhecimento
do passado de probabilidade mais elevada do que na ausência de um tal
conhecimento. Mas, para Wittgenstein, para quem a crença em um vínculo
causal é uma “superstição”, “Os eventos do futuro, não podemos derivá-los dos
presentes” (5.1361).
13 J. M. Keynes, A Treatise on Probability, Cambridge, Cambridge University
Press, 1921.
14 F. Waismann, “Logische Analyse der Warscheinlichkeit”, Erkenntnis, vol. 1,
1930, p. 228-248.

89
1 / Se p é um enunciado e µ(p) sua medida, então
µ(p) é um número real, que nunca é negativo.
2 / Uma contradição tem medida 0.
3/ Se p e q são dois enunciados que são incompatí-
veis, então µ(p V q) = µ(p) + µ(q).

No simbolismo de Waismann:

pprobq = µ(p&q)/ µ(q).

A probabilidade de q dado p é portanto a medida do âmbito


comum de p e q proporcionalmente à medida do âmbito de q. A
probabilidade assim definida é, segundo a expressão de Waismann,
a medida da proximidade lógica (logische Nähe) das duas proposi-
ções. Os dois limites são o grau 1, quando p implica q, e o grau 0,
quando p contradiz q. Essa teoria é conforme à axiomatização, hoje
standard, de Kolmogorov15, e servirá de base à de Carnap16.
A combinatória de Wittgenstein está intimamente vinculada à
noção de operação. As relações “internas” ordenam ou engendram
as “séries formais” (Formenreihe) (4.1252), que estão no fundamen-
to do simbolismo do Tractatus. Elas são definidas como segue (o
grifo é meu): “A relação interna que ordena uma série equivale à ope-
ração por meio da qual um termo resulta de outro” (5.232). (Uma
definição alternativa é oferecida em 4.1252.) As relações internas
são portanto equivalentes a operações. Vimos na seção intitulada
Linguagem, mundo e pensamento que uma operação é definida como
o ato pelo qual uma proposição é engendrada a partir de outra pro-
posição; mais precisamente como aquilo por meio do que uma for-
ma de proposições é engendrada a partir de outra forma de propo-
sições (5.23). Deve-se acrescentar a isso que, segundo Wittgenstein,

15 A. Kolmogorov, Grundbegriffe der Wahrscheinlichkeitsrechnung, Berlim,


Springer, 1933.
16 Cf. R. Carnap, Logical Foundations of Probability, Chicago, University of
Chicago Press, 1950, p. 294 e 299.

90
“Só assim é possível a progressão de termo a termo em uma série
formal” (5.252), uma vez que, contrariamente àquilo que ocorre
com uma função, o resultado de uma aplicação da operação pode se
tornar a base de uma nova aplicação da operação.
Poderemos ver isso se examinarmos um exemplo como o da ope-
ração simbolizada por “O’ ξ” em 5.2521. O símbolo “O” é a variável
da operação como tal e, associado ao apóstrofo, indica o resultado da
aplicação da operação, ao passo que o símbolo “ξ” representa a base
à qual a operação é aplicada. O símbolo “O’ ξ” representa portanto o
resultado da aplicação da operação O a ξ. Se, por exemplo, escolher-
mos a como ponto de partida absoluto (o que significa que a não é
o resultado de nenhuma aplicação anterior da operação), então O’a
representa o resultado de uma primeira aplicação da operação. Esse
resultado pode servir, por sua vez, de base para uma segunda aplicação
da operação, cujo resultado será simbolizado “O’O’a”; o resultado de
“três aplicações sucessivas de «O’ ξ» será «O’O’O’a»” (5.2521). É assim
que a operação O engendra ou ordena por iteração a série formal:

a, O’a, O’O’a, O’O’O’a, O’O’O’O’a...

Ainda segundo as concepções de Wittgenstein, a operação, que


“mostra como se pode passar de uma forma de proposições para ou-
tra”, mostra-se a si mesma em uma “variável” (5.24). Essa “variável”
é apresentada em 5.2522:

[a, x, O’x]

onde “a” representa o primeiro termo da série formal, “x” é


um termo qualquer desta e “O’x” a forma que assumirá o suces-
sor imediato de “x” na série, isto é, o resultado de uma aplicação
da operação O ao termo qualquer x17. Indiquei, na seção sobre a

17 O uso que Wittgenstein faz aqui do conceito de “variável” não corresponde àquele
de hoje em dia, pois é a expressão “[a, x, O’x]” como um todo que ele considera
como uma variável e não alguns de seus constituintes, tais como “a” ou “x”.

91
linguagem, mundo e pensamento, que a noção de operação estava
no fundamento tanto da lógica quanto da aritmética. Essa “variá-
vel” desempenha aqui um papel fundamental, uma vez que permite
estabelecer definições por indução, dentre as quais a forma geral da
proposição (6) que, entre outras coisas, revela como a proposição
pode “nos comunicar um novo sentido” (4.027). Esse simbolismo é
muito importante e merece ser esclarecido.
Como indiquei, para Wittgenstein as funções de verdade “são
resultados de operações que têm as proposições elementares como
bases” (5.234), essas operações (de verdade) sendo a negação, a adi-
ção lógica, a multiplicação lógica, etc. (5.2341) Wittgenstein intro-
duz em 5.5 a operação N de negação conjunta, isto é, o conectivo
cujo valor é o verdadeiro unicamente quando os dois membros são
falsos. A operação N é frequentemente comparada à barra de Sheffer
“|” da qual ela é uma generalização18:

p q p|q
V V F
F V F
V F F
F F V

O que Wittgenstein simboliza a seu modo, transformando a úl-


tima coluna em uma linha: (FFFV) (p, q) (5.51). A operação N não
opera apenas sobre pares de proposições, mas também sobre cole-
ções de tamanho arbitrário, ou mesmo infinitas. Ele escreve tam-
bém N( ) em 5.502; aqui, o símbolo “ ” designa o conjunto19 dos

18 H. M. Sheffer, “A Set of Five Independent Postulates for boolean Algebras,


with Applications to Logical Constants”, Transactions of the American
Mathematical Society, vol. 14, 1913, p. 481-488. Na verdade, a barra de
Sheffer não é exatamente a mesma que a negação conjunta, e esta se deve a
Jean Nicod, “A Reduction in the Number of Primitive Propositions of Logic”,
Proceedings of the Cambridge Philosophical Society, vol. 19, 1917, p. 32-41.
19 Não pode se tratar, propriamente falando, de um conjunto tal como este

92
valores que a variável ξ pode assumir e “N” a operação que consiste
em negá-los conjuntamente. Portanto, segundo 5.51, se:

= {p, q, r, s}

Então

N( ) = ¬p & ¬q & ¬r & ¬s.

A expressão “N( )” comparece em 6.01, onde Wittgenstein in-


troduz a forma geral da operação, simbolizada por “Ω’ ( )”. Witt-
genstein escreve ali:

Esse simbolismo um tanto árido é no entanto simples20. À es-


querda, Wittgenstein substitui o “Ω” em “Ω’ ( )” por “| , N( )|” o
que dá “| , N( )|’ ( )”; trata-se apenas de uma expressão mais de-
talhada da forma da operação. À direita, encontramos apenas uma
transformação, na qual o “( )”do “Ω’ ( )” é deslocado para o inte-
rior dos colchetes de “| , N( )|” para dar “ ”.
Se tomamos, por sua vez, a expressão geral “ ”e nela
substituímos o “( )” pela expressão particular “ ”, que designa o
conjunto das proposições elementares, obtemos a forma geral da
proposição, ou seja, uma definição indutiva que é uma das chaves
do Tractatus, em 6:

é compreendido hoje em dia na teoria dos conjuntos, pois a concepção de


Wittgenstein é mais construtiva e se aproxima conceitualmente do cálculo
lambda. Podemos ignorar, no que segue, esse tipo de complicação.
20 Sobre essas questões, cf. G. Sundholm, “The General Form of the Operation in
Wittgenstein’s Tractatus”, Grazer philosophische Studien, vol. 42, 1992, p. 57-76.

93
Vê-se portanto que a forma geral da proposição é apenas um
caso particular da forma geral da operação e também, claro, que nos
dois casos se trata de variantes da “variável” [a, x, O’x] do 5.2522.
Essa forma geral da proposição deve portanto ser lida como segue:
a partir da base , que é o conjunto das proposições elementares,
obtemos, por aplicações sucessivas da operação N, todas as propo-
sições complexas. Após um número qualquer de aplicações da ope-
ração N, obtém-se o conjunto , a partir do qual se obtém, por
uma nova aplicação da operação N( ), etc. É o que Wittgenstein
exprimia em 5.3: “Todas as proposições são resultados de operações
de verdade com proposições elementares”, frase que devemos nos
guardar, como mostrei, de interpretar de forma excessivamente es-
trita como uma “tese de extensionalidade”.
Graças à forma geral da proposição 6, Wittgenstein completa o
argumento que sustenta sua tese sobre a essência da proposição. Com
efeito, tendo mostrado que as proposições elementares são figurações,
Wittgenstein só usa dois conectivos na definição da operação N, a
partir da qual, como ele demonstra, podemos obter todas as propo-
sições complexas21. Basta portanto definir as operações de negação e
de conjunção em termos de “sentido” e de “figuração”. A conjunção
é um caso simples, trata-se simplesmente de juntar duas figurações. A
negação como operação é definida em 5.2341: “A negação inverte o
sentido (Sinn) da proposição.” Nos Notebooks, Wittgenstein dizia da
proposição que ela é “bipolar”, isto é, que ela tem dois polos, o verda-
deiro e o falso. A inversão do sentido consistiria portanto na mudança
de polaridade, ao passo que a figuração permanece inalterada.
Cabe acessoriamente mostrar como eliminar as “constantes” que
não são definidas pela operação N, ou seja, o quantificador existen-
cial “∃xFx”, o quantificador universal “∀xFx” e a identidade “=”.
Como o indicam as notas de curso tomadas por Moore (M, p. 89 e

21 J. Hintikka, “An Anatomy of Wittgenstein’s Picture Theory”, in Ludwig


Wittgenstein: Half-Truths and One-and-a-Half-Truth, Dordrecht, Kluwer,
1996, p. 21-54, p. 38-41.

94
segs.) e uma observação feita a von Wright em 193922, os quantifi-
cadores são considerados equivalentes a conjunções ou disjunções
finitas ou infinitas23:

∀xF(x) ≡ F(a) & F(b) & F(c) &...


∃xF(x) ≡ F(a) V F(b) V F(c) V...

Essa leitura dos quantificadores ajusta-se perfeitamente à da ope-


ração N em 5.51. Em compensação, Wittgenstein vincula a essência
da generalidade à variável, e não aos quantificadores (5.521)24.
Nos Principia Mathematica, a identidade é definida em *13.01
de acordo com a identidade dos indiscerníveis de Leibniz, o que
significa que x = y se e somente se x e y satisfazem exatamente as
mesmas funções (predicativas):

x = y ≡ ∀F(F(x)→F(y)).

Para Wittgenstein, é perfeitamente possível que dois objetos dis-


tintos partilhem as mesmas propriedades (5.5302). E mais: “dizer
de duas coisas que elas são idênticas é um contrassenso e dizer de
uma coisa que ela é idêntica a si mesma é não dizer rigorosamente
nada” (5.5303). Wittgenstein propõe portanto eliminar o sinal de
igualdade, que ele não considera como um “constituinte essencial
da ideografia” (5.533). Um exemplo extraído de 5.532 bastará para
ver como ele procede. O enunciado “Há dois objetos que têm a
propriedade F” é normalmente traduzido pela fórmula:

∃x∃y(F(x) & F(y) & (x≠y)).

22 G. H. von Wright, Wittgenstein, op. cit., p. 162, n.


23 Segundo Ramsey, trata-se aí de uma “inovação de primeira importância”. F. P.
Ramsey, The Foundations of Mathematics, op. cit., p.7.
24 M. Black, A Companion to Wittgenstein’s Tractatus, op. cit., p. 282.

95
Wittgenstein a reescreve:

∃x,yF(x,y).

Essa fórmula será verdadeira se e somente se F(x,y) for verda-


deiro para uma substituição de x e para uma substituição diferente
de y. A eliminação da identidade está portanto vinculada a uma
convenção para a interpretação dos quantificadores: a coincidência dos
valores de diferentes variáveis fica excluída. É o que Jaako Hinti-
kka chamou de interpretação “exclusiva” das variáveis; ele também
mostrou que se pode traduzir desse modo todas as proposições do
cálculo de predicados25.
O simbolismo do Tractatus não vai sem dificuldades técnicas.
Assim, por exemplo, Robert Fogelin mostrou que a notação de
Wittgenstein não permite obter os enunciados que exprimem uma
dependência entre quantificadores de um tipo tão simples, mas tão
fundamental quanto:

∀x∃yFxy;

Peter Geach e Scott Soames propuseram ambos modificações


para a notação do Tractatus que aumentam sua capacidade de ex-
pressão, mas não é certo que essas modificações respeitem a letra
dessa notação26. Por outro lado, não se deve esquecer que, para
Wittgenstein, uma vez que as constantes lógicas não “estão por” coi-
sa alguma (4.0312), as verdades da lógica devem ser determinadas
“a partir apenas do símbolo” (am Symbol allein). Wittgenstein pa-

25 J. Hintikka, “Identity, Variables and Impredicative Definitions”, Journal of


Symbolic Logic, vol. 21, 1956, p. 225-245.
26 R. Fogelin, Wittgenstein, op. cit., p. 78-83; P. T. Geach, “Wittgenstein’s
Operator N”, Analysis, vol. 41, 1981, p. 168-171; S. Soames, “Generality,
Truth Functions, and Expressive Capacity in the Tractatus”, Philosophical
Review, vol. 92, 1983, p. 573-589.

96
rece portanto reclamar implicitamente um procedimento de decisão
para o cálculo de predicados27:

5.551 – Nosso princípio básico é que toda questão


que se possa decidir por meio da lógica deve poder-
se decidir de imediato. [...]
6.113 – É a marca característica particular das pro-
posições lógicas que sua verdade se possa reconhecer
no símbolo tão-somente, e esse fato contém em si
toda a filosofia da lógica. Assim, é também um dos
fatos mais importantes que a verdade ou falsidade
das proposições não lógicas não possa ser reconheci-
da na proposição tão-somente.
6.126 – Pode-se calcular se uma proposição perten-
ce à lógica calculando-se as propriedades lógicas do
símbolo. [...]

Infelizmente, a operação N e o simbolismo do Tractatus não po-


dem cumprir essa tarefa, mesmo quando corrigidos por Geach ou
Soames28.
Por outro lado, a concepção da lógica de Wittgenstein difere
radicalmente da de Frege e de Russell. Estes concebiam a lógica no
modelo de uma teoria axiomática, com termos de base (variáveis,
constantes) e regras de boa formação dos enunciados, que formam
uma linguagem, à qual se acrescentam axiomas que definem o uso
dos conectivos lógicos e uma regra de inferência, o Modus Ponens.
Para Frege, a lógica é a ciência do verdadeiro. Wittgenstein opõe-se
a essa concepção, pois, em consonância com a tradição, ele conside-

27 O que vários comentadores negam, no entanto; cf. P. M. S. Hacker, Insight


and Illusion, op. cit., p. 55.
28 Alonso Church irá dar em 1936 um resultado de indecidibilidade
fundamental em “A Note on the Entscheidungsproblem”, Journal of Symbolic
Logic, vol. 1, 1936, 40-41, “correção”, ibid., p. 101-102. Deve-se no entanto
tomar o cuidado de não atribuir a Wittgenstein a noção de “completude” que
possuímos hoje.

97
ra a lógica como teoria da inferência (6.1224). Ele rejeita portanto
a ideia de que haja axiomas em lógica: “Todas as proposições da
lógicas têm os mesmos direitos. Não há, entre elas, o que seja es-
sencialmente lei básica ou proposição derivada” (6.127), e ele ataca
um aspecto crucial da concepção axiomática, a saber, a evidência
como único critério de reconhecimento da verdade dos axiomas: “é
notável que um pensador tão exato quanto Frege tenha recorrido
ao grau de evidência como critério da proposição lógica” (6.1271).
Já mostrei que, para Wittgenstein, as constantes lógicas não “estão
por” coisa alguma (4.0312); muito simplesmente, “não há ‘objetos
lógicos’, ‘constantes lógicas’ (no sentido de Frege e Russell)” (5.4)29.
Os sinais para as operações de verdade, que são capturadas pelas
tabelas de verdade, “&”, “V”, “¬”, etc., não são portanto senão
“pontuações” (5.4611). Nos fragmentos das Dictées de Wittgenstein
à Waismann et pour Schlick intitulados “A lógica de Russell” e “A in-
ferência”, Wittgenstein apresenta uma concepção da lógica segundo
a qual “os axiomas devem ser hipóteses” (D, p. 96) e segundo a qual
“em uma inferência, nunca se trata da verdade ou da falsidade dos
axiomas, mas, pelo contrário, os axiomas devem ser supostos” (D, p.
106). Todos esses elementos mostram que a concepção da lógica de
Wittgenstein na verdade está muito próxima, como o havia visto
G.-G. Granger30, da de G. Gentzen, isto é dos sistemas de dedução
natural, onde os conectivos lógicos são definidos em termos de atos
de prova31.
Wittgenstein também atacava, em 5.132, as regras de inferência:
“‘Leis da inferência’, às quais – como em Frege e Russell – cumpra

29 Sobre a noção de constante lógica, cf. M. Bourdeau, “La nature des constantes
logiques dans le Tractatus ”, Dialogue, vol. 32, 1993, p. 703-719.
30 G.-G. Granger, “Wittgenstein et la métalangue”, in Invitation à la lecture
de Wittgenstein, Aix-en-Provence, Alinéa, 1990, p. 159-171  ; p. 163.
Infelizmente, sustentei essa aproximação sem conhecer o texto de
Granger em M. Marion, “Qu’est-ce que l’inférence? Une relecture du
Tractatus logico-philosophicus”, op. cit.
31 G. Gentzen, Recherches sur la déduction logique, Paris PUF, 1955.

98
justificar as inferências, não têm sentido, e seriam supérfluas.” O
que ele critica aqui, não são propriamente falando as regras de infe-
rência, mas antes a mistura linguagem objeto/metalinguagem que
encontramos na concepção axiomática: para explicar a passagem de
um enunciado para outro em uma prova, devemos inscrever em
alguma parte da folha uma indicação da regra de inferência em con-
formidade com a qual essa passagem foi efetuada. Essas inscrições
estão no limbo, uma vez que a metalinguagem não é formalizada.
No Tractatus, a distinção dizer/mostrar permite evitar a postulação
de uma metalinguagem. (Notar-se-á, por outro lado, que a distin-
ção linguagem objeto/metalinguagem era desconhecida na época
em que Wittgenstein escreveu seu livro: ela aparece pela primeira
vez na introdução redigida por Russell!32) Para Wittgenstein, a infe-
rência deve ser literalmente feita diante de nossos olhos – a relação
interna entre as proposições mostra-se – e não há necessidade de
recorrer para tanto a um enunciado da regra de que teríamos de
seguir mentalmente o rastro. É a concepção da inferência dos Prin-
cipia Mathematica que é visada. Segundo Russell, “uma proposição
‘p’ é afirmada, e uma proposição ‘p implica q’ também, e daí se segue
que a proposição ‘q’ é afirmada.” Ele verte isso simbolicamente numa
mistura linguagem objeto/metalinguagem que lhe é própria, dizendo
que somos justificados por “ ” e por “ ” a escrever “ ”,
ao que ele acrescenta que é preferível escrever “ ”33. O sinal
de asserção “ ”, que Russell retoma aqui de Frege, é, para ����� Witt-
genstein, “logicamente desprovido de qualquer significado; apenas
indica, no caso de Frege (e Russell), que esses autores tomam como
verdadeiras as proposições por ele assinaladas” (4.442).
Gentzen mostrou como era possível formalizar a lógica sem
postular verdades lógicas, isto é, tão somente pela especificação das
regras de inferência. Apenas estas são consideradas primitivas, e o
reconhecimento de enunciados como sendo logicamente verdadei-

32 B. Russell, “Introdução”, in Tractatus, op. cit., p. 127-128.


33 B. Russell, Principia Mathematica, op. cit., volume 1, p. 8-9.

99
ros já não ocupa uma posição central. Wittgenstein também havia
visto muito claramente que, segundo sua concepção, o conjunto das
verdades lógicas não é mais que um subproduto da adoção das regras
de inferência:

6.1221 – Se duas proposições “p” e “q”, p. ex., na


ligação “ ” resultam numa tautologia, fica claro
que q se segue de p.
Que “q” se siga de “ ”, p. ex., vemos nessas
próprias proposições, mas podemos também mos-
trá-lo assim: ligando-as em “ ” e mos-
trando então que isso é uma tautologia.
6.1223 – Agora fica claro por que frequentemente
nos sentimos como se a nós coubesse “postular” as
“verdades lógicas”: com efeito, podemos postulá-las
na exata medida em que podemos postular uma no-
tação satisfatória.
6.1224 – Também fica claro agora por que a lógica
foi chamada a teoria das formas e da inferência.34

Eis por que devemos nos guardar, quando Wittgenstein caracteri-


za as verdades lógicas como tautologias (6.1) e estas como “analíticas”
(6.11), de ver nisso uma concepção das verdades analíticas, eternas
ou “válidas a priori”, análoga às de Frege e de Russell, derivadas da
concepção axiomática da lógica que lhes é própria. Além disso, as
Dictées de Wittgenstein à Waismann et pour Schlick contêm uma ex-
plicação por parte de Wittgenstein de sua descrição das tautologias
como sendo “incondicionalmente verdadeiras” (4.461) que exclui
que se as conceba como formando uma classe de “verdades eternas”
ou “analíticas”. Não são proposições “autênticas” (D, p. 101 e 108).
Se a inferência lógica possui tais elementos “dinâmicos”, a on-
tologia dos resultados dos atos de inferência permanece “estática”. A

34 Sobre a pertinência da teoria do “subproduto” de Wittgenstein, cf. I. Hacking,


“What is Logic?”, Jounal of Philosophy, vol. 76, 1979, p. 285-319; p. 288-289.

100
definição da consequência lógica que Wittgenstein oferece em 5.12-
5.122 é um tanto vizinha daquela da teoria dos modelos:

5.12 – Em particular, a verdade de uma proposição


“p” segue-se da verdade de uma outra “q” se todos
os fundamentos de verdade da segunda são funda-
mentos da primeira.
5.121 – Os fundamentos de verdade de uma estão
contidos nos da outra: p segue-se de q.

Esse esboço de definição é prefigurada pela de Bolzano e se situa


na linhagem das definições posteriores de Carnap35 e de Tarski, esta
última afirmando que uma proposição X “se segue logicamente” de
uma classe K de proposições “se e somente se todo modelo da classe
K é também um modelo da proposição X”36. A sequencia não deixa
de lembrar Leibniz:

5.122 – Se p se segue de q, o sentido de “p” está


contido no sentido de “q”.
5.123 – Se um Deus cria um mundo em que certas
proposições são verdadeiras, com isso já está tam-
bém criando um mundo em que todas as suas con-
sequências procedem. [...]

Em 6.02, Wittgenstein usa sua noção de operação a fim de com-


pletar outro argumento seu, na contramão dos Principia Mathe-
matica e do “logicismo” como programa para os fundamentos da
matemática. Este último tem sua origem nos trabalhos de Frege,
que lançou suas bases desde a Conceitografia de 187937. Esse li-
vro contém algumas inovações fundamentais na história da lógica,

35 Cf. R. Carnap, Logische Syntax der Sprache, Viena, Springer, 1934, p. 88 e segs.
36 A. Tarski, “Sobre o conceito de consequência lógica ”, in A concepção semântica
da verdade, C.A. Mortari e L.H.A. Dutra (orgs.), São Paulo, Unesp, 2007, p.
235-246; p. 243 .
37 G. Frege, Begriffschrift, op. cit.

101
a saber, a substituição da distinção sujeito/predicado pela distinção
função/argumento, que permite introduzir o instrumental da teoria
das funções na lógica, a invenção dos quantificadores e a introdução
da ideia de “sistema formal”. Esta última ideia é muito importan-
te: Frege concebe a lógica pelo modelo da axiomática, como acabo
de indicar. Desde a Conceitografia, Frege propõe desenvolver um
sistema de lógica formal a partir do qual poderemos deduzir todos
os teoremas da teoria elementar dos números. Isso é feito em duas
etapas. Em primeiro lugar, trata-se de desenvolver um sistema de
axiomas para os conectivos e os quantificadores. São os sistemas cuja
expressão completa será fornecida por Frege em seu Grundgesetze
der Arithmetik (1892-1902) e por Whitehead e Russell nos Principia
Mathematica (1910-1913). Trata-se, em seguida, de tomar uma teo-
ria axiomática da aritmética, tal como a aritmética de Peano (1881),
e de mostrar que se pode dar uma interpretação de seus conceitos
de base (e portanto de seus axiomas) no sistema de lógica formal.
Cabe depois mostrar que a todo teorema da aritmética corresponde
um teorema no interior do sistema formal e vice versa. Seria assim
efetuada uma redução da aritmética à lógica. Essa redução possui
algumas consequências filosóficas dignas de interesse. Ela mostra,
entre outras coisas, que a aritmética é tão “analítica” quanto a lógica
e não “sintética a priori”; podemos portanto nos passar dessa noção
tipicamente filosófica – pois que no fundo perfeitamente vazia –
que é a intuição a priori kantiana. Da forma mais breve possível, tal
é a essência do programa “logicista”.
Wittgenstein discordava dessa abordagem e suas críticas são inú-
meras. Elas parecem provir na maior parte de sua rejeição da noção
de “classe”, essencial para os sistemas de Frege e de Russell (não obs-
tante a no-class theory dos Principia Mathematica). Com efeito, estes
definiam, por exemplo, os números naturais com base nesse mode-
lo: o número dois é a classe de todas as classes de dois membros. O
sistema dos Grundgesetze der Arithmetik era no entanto falho, pois
continha, além do cálculo de predicados, axiomas que permitiam a
introdução da classe:

102
isto é, da classe de todas as classes x que não são membros de
si mesmas. (A classe dos cavalos, por exemplo, não é um cavalo
e, portanto, pertence a R). É a fonte do paradoxo de Russell: essa
classe R seria ela por sua vez membro de si mesma ou não? Ela só é
membro de si mesma se ela não é membro de si mesma, e se ela não
é membro de si mesma, então ela é membro de si mesma. Russell
havia desenvolvido sua teoria dos tipos com vistas a resolver esse
problema e levar a cabo o projeto logicista de Frege. Para Wittgen-
��������
stein, a teoria dos tipos não funciona, como vimos: o erro de Russell
“revela-se no fato de ter precisado falar do significado dos sinais ao
estabelecer as regras notacionais” (3.331). Por outro lado, ele acredi-
ta poder resolver do seguinte modo o paradoxo de Russell (mas ele
só o faz em sua versão “funcional”), evitando o recurso à teoria dos
tipos: “Uma função não pode ser seu próprio argumento, porque o
sinal de função já contém o protótipo (Urbild) de seu argumento
e ele não pode conter a si próprio” (3.333). Em suma, não pode
haver, para uma função proposicional F(x), a proposição F(F(x)), na
qual a função se tomaria como seu próprio argumento, pois F(x) é
da forma φ(x) e F(F(x)) é da forma ψ(φ(x)).
Wittgenstein fará diversas críticas mais pontuais, que não posso
discutir em detalhe, pois elas exigem um conhecimento mais apro-
fundado da lógica matemática. Retomando uma crítica de Poincaré,
ele acusa Frege e Russell, em 4.1273, de terem dado uma definição
circular da noção de relação “ancestral”; essa noção é fundamental
para a redução logicista da sequência dos números naturais38. Ele
rejeita o axioma do infinito dos Principia Mathematica, que enuncia

38 Essa crítica irá forçar Russell a acrescentar um apêndice à segunda edição


dos Principia Mathematica, op. cit., p. 650-658. Cf. G. E. M. Anscombe,
Introduction to the Tractatus, op. cit., p. 128: acerca dessas questões, cf. J.
Sackur, Opération et description. La critique par Wittgenstein des théories de la
proposition de Russell, tese de doutorado, Université de Paris I – Panthéon –
Sorbonne, 2000, cap. 3.

103
que há uma infinidade de objetos (indivíduos) de nível 1 na teoria
dos tipos39, porque se trata de uma tentativa de dizer o que não se
poderia senão mostrar pelo uso de uma “infinidade de nomes com
significados diferentes” (5.535). O axioma da redutibilidade enun-
cia que a toda função de ordem superior corresponde exatamente
uma função de primeira ordem, que é satisfeita por exatamente os
mesmos argumentos. Para Wittgenstein, esse axioma não é lógico,
mas empírico (6.1232-6.1233). Essa objeção revelou-se decisiva.
Todos os problemas provêm, segundo Wittgenstein, da própria
noção de classe, da qual precisamos nos livrar. Para fazê-lo, bas-
ta, como indiquei na seção sobre o campo de problemas, oferecer
uma “redução” da aritmética que não recorra à noção de classe, o
que Wittgenstein faz ao dar, em 6.02, uma definição da sequência
dos números naturais em termos de operações. O número dois, por
exemplo, é definido do modo mais geral possível em termos da du-
pla aplicação sucessiva de qualquer operação a qualquer base. Essa
definição, que não posso apresentar aqui, foi claramente exposta por
Lello Frascolla40. Essa definição justifica a denominação, em 6.021,
de “expoentes” de uma operação. Na verdade, a definição dos nú-
meros naturais por Wittgenstein prefigura a definição no cálculo λ
fornecida por Alonzo Church em 193241. Wittgenstein propõe em
seguida uma definição indutiva dos números naturais, com base no
modelo da “variável” de 5.2522:

[0, ξ, ξ+1].

Não tendo recorrido à noção de classe, ele pode portanto anun-

39 A. N. Whitehead e B. Russell, Principia Mathematica, op. cit., vol. 2, p. 183.


40 P. Frascolla, Wittgenstein’s Philosophy of Mathematics, Londres, Routledge,
1994, cap. 1; P. Frascolla, Tractatus Logico-Philosophicus. Introduzione alla
lettura, op. cit., §5.4; M. Marion, “Operations and Numbers in the Tractatus
Logico-Philosophicus”, op. cit.
41 A. Church, “A Set of Postulates for the Foundations of Logic”, Annals of
Mathematics, vol. 33, 1932, p. 346-366 e vol 34, 1933, p. 839-864.

104
ciar em 6.031: “A teoria das classes é, na matemática, inteiramente
supérflua”. Wittgenstein completa sua “redução” mostrando, em
6.421, como provar, em sua teoria das operações, teoremas arit-
méticos como 2X2=442. Contrariamente ao que dizia Max Black,
essa prova não é “excêntrica”43. Notar-se-á, no entanto, que o argu-
mento de Wittgenstein só funciona se houver “redução” das verdades
aritméticas às equações na “teoria” das operações. Lello Frascolla pro-
vou que esta só captura um fragmento do cálculo equacional44. Essa
concepção “equacional” da matemática é de um alcance fundacional
limitado; Russell e Ramsey farão esta censura a Wittgenstein45.
Uma das consequências da abordagem construtivista de ��������
Wittgen-
stein é sua rejeição da ideia de que possa haver estritamente falando
“enunciados” ou “proposições” na matemática. As proposições da ma-
temática não exprimem, portanto, nenhum pensamento (6.21), são
“pseudoproposições” (Scheinsätze) (6.2). A matemática só é composta
de algoritmos46, um pouco como um ábaco extremamente complexo:

6.211 – Na vida a proposição matemática nunca é


aquilo de que precisamos, mas utilizamos a propo-
sição matemática apenas para inferir, de proposições
que não pertencem à matemática, outras que igual-
mente não pertencem à matemática. [...]

42 P. Frascolla, Wittgenstein’s Philosophy of Mathematics, op. cit., p. 15-17.


43 M. Black, A Companion to Wittgenstein’s Tractatus, op. cit., p. 343. Cf. G.
E. M. Anscombe, An Introduction to the Tractatus, op. cit., p. 124-126, para
uma crítica análoga.
44 P. Frascolla, “The Tractatus System of Arithmetic”, Synthese, vol. 112,
1997, p. 353-378. Cabe notar, além disso, que o cálculo equacional
foi inventado por Louis Goodstein, que foi aluno de Wittgenstein nos
anos 1930. Goodstein nunca escondeu ter encontrado suas ideias
fundamentais em Wittgenstein. Cf., por exemplo, R. L. Goodstein,
Constructive Formalism, Leicester, University College, 1951.
45 B. Russell, “Introdução”, op. cit., p. 126; F. P. Ramsey, The Foundations of
Mathematics, op. cit., p.13.
46 O mesmo vale para a probabilidade, que é apenas um cálculo, e não
descreve nenhum “objeto” (5.1511).

105
A matemática é portanto constituída por equações, as provas
procedendo pelo método de substituição (6.2341-6.24) e o “essen-
cial, no caso da equação, é que ela não é necessária para mostrar
que as duas expressões ligadas pelo sinal de igualdade têm o mes-
mo significado (Bedeutung), já que isso se pode ver (ersehen) nessas
próprias duas expressões” (6.232); “sua correção é algo a ser visto
(einzusehen), sem que deva o que exprimem ser comparado com os
fatos quanto à sua correção” (6.2321).
Essa visão filosófica da matemática opõe-se à de um Frege, para
quem os enunciados aritméticos versam sobre objetos abstratos do
mesmo modo que enunciados sobre cadeiras e mesas versam sobre
objetos concretos. Cabe no entanto notar que, mais uma vez, Witt-
�����
genstein fala de “ver” a relação (interna) entre os termos ligados
pelo sinal de identidade (matemática, e não lógica47). A prova na
matemática, como a inferência lógica, é justificada por uma rela-
ção interna, que se mostra e que nós vemos. Mas, mais uma vez,
Wittgenstein não recorre a um “sujeito pensante”, pois ele recusa
todo papel à intuição (6.233), para conservar apenas o “processo de
calcular” (6.2331).

47 Como viu muito bem Sébastien Gandon, para Wittgenstein, os logicistas


estão equivocados ao acreditarem que a quantificação pode “dar conta
identicamente tanto da estrutura das proposições numéricas ordinárias
quanto das equações aritméticas” (Logique et langage. Études sur le premier
Wittgenstein, op. cit., p. 224).

106
O MUNDO SUB SPECIE AETERNITATIS

A
s últimas seções do Tractatus têm por objetivo mostrar que
as proposições da lógica são vazias de sentido (sinnlos) (6.1-
6.13), que as proposições matemáticas não são proposições
(6.2-6.241), e que as proposições das ciências da natureza são de
dois tipos: proposições dotadas de sentido (sinnvoll) e “princípios”
que não são tautologias (6.3-6.3751), e que as proposições da éti-
ca e da metafísica são unsinnig, contrassensos (6.4-6.54). Os dois
primeiros casos foram discutidos na seção precedente, e só me falta
examinar os dois seguintes.
A ciência é o sistema ideal de todas as proposições dotadas de
sentido que são verdadeiras1. Obviamente, esse sistema é compos-
to de abreviações, que são as leis da natureza ou hipóteses, tais como
a “lei da indução” (6.31) ou as leis causais (6.321). Essas leis são
também proposições dotadas de sentido, pois são funções de verda-
de de proposições elementares; os quantificadores sendo redutíveis a
conjunções ou disjunções. No entanto, as leis causais são “leis com a

1 Sobre a filosofia da ciência do Tractatus, cf. B. F. McGuinness, “Philosophy


of Science in the Tractatus”, in Wittgenstein et le problème d’une philosophie des
sciences, Paris, CNRS, 1970, p. 9-18.
forma da causalidade” (6.321) e a ciência contém além disso “prin-
cípios” como o princípio de razão suficiente (Satz vom Grunde), que
não são proposições dotadas de sentido, mas “iluminações a priori
sobre a conformação possível das proposições da ciência” (6.34). Es-
ses “princípios” portanto não dizem nada, mas são adotados a priori.
Segundo a analogia de Wittgenstein em 6.341, a decisão de adotar
tal ou qual princípio para nossa descrição do mundo corresponde à
escolha de uma “rede de malhas triangulares ou hexagonais”. Pode-
ríamos falar aqui da parte convencional das teorias científicas. Uma
vez adotados esses princípios, cabe descobrir as leis particulares da
forma escolhida, que se adaptarão aos fatos.
Segundo Wittgenstein,

6.53 – O método da filosofia seria propriamente


este: nada dizer, senão o que se pode dizer, portanto,
proposições da ciência natural – portanto, algo que
nada tem a ver com filosofia; e então, sempre que
alguém pretendesse dizer algo de metafísico, mos-
trar-lhe que não conferiu significado a certos sinais
em suas proposições. Esse método seria, para ele,
insatisfatório – não teria a sensação de que lhe esti-
véssemos ensinando filosofia; mas esse seria o único
rigorosamente correto.

O erro cometido pelo metafísico seria de não conferir sempre


uma significação às suas palavras. Mas em que isso consiste? Em
5.4733, Wittgenstein havia precisado o que ele entende com isso:

5.4733 – Frege diz: toda proposição legitimamente


constituída deve ter sentido; e eu digo: toda proposi-
ção possível é legitimamente constituída, e se não tem
sentido, isso se deve apenas a não termos atribuído
significado a algumas de suas partes constituintes.
(Ainda que acreditemos tê-lo feito.)
Assim, “Sócrates é idêntico” não diz nada porque
não atribuímos nenhum significado à palavra “idên-

108
tico” como adjetivo. Pois, quando ela intervém
como sinal de igualdade, simboliza de uma maneira
inteiramente outra – a relação designativa é outra
– e, portanto, também o símbolo é inteiramente di-
ferente nos dois casos; em comum, os dois símbolos
só têm, por acaso, o sinal.

Cabe lembrar que, para Wittgenstein, a linguagem mascara a


forma lógica (4.002). Mesmo se somos capazes de falar uma lín-
gua, não estamos protegidos de todo tipo de ilusão e de confusão
(4.0015) e é assim que nasce o tipo de confusão que caracteriza a
filosofia (3.324); a clareza irá provir do uso de uma linguagem sim-
bólica “que obedeça à gramática lógica – à sintaxe lógica” (3.325). O
erro do metafísico é o de não respeitar a sintaxe lógica. A linguagem
que eu entendo (5.62), eu a entendo porque posso sempre analisar
suas proposições em proposições elementares que conterão sinais
simples em relação com objetos de minha experiência imediata. O
erro do metafísico não é portanto o de usar no interior de uma pro-
posição um nome que não denotaria nada que possa ser encontra-
do no círculo de minha experiência, pois “toda proposição possível
é legitimamente construída”. Uma proposição é um contrassenso
(unsinnig) na medida em que um de seus constituintes não simbo-
liza, porque a sintaxe lógica não foi respeitada (como é o caso com
“Sócrates é idêntico”).
Em outubro de 1916, Wittgenstein escrevia em seus Notebooks:

No modo de ver comum, consideramos os objetos


por assim dizer nos colocando em meio a eles; no
modo de ver sub specie aeternitatis, nós os considera-
mos do exterior (NB, p. 83).

Essa observação encontra um eco em 6.45: “A visão (Anschau-


ung) do mundo sub specie aeterni é a sua visão como totalidade –
limitada”. A visão sub specie aeternitatis de uma coisa (a obra de
arte, o mundo, a vida) é portanto uma visão externa dessa coisa
como um todo limitado. As últimas observações do Tractatus são

109
tributárias de tal visão, e versam sobre o “sujeito” metafísico e o so-
lipsismo, a ética, a felicidade, Deus, a morte e o “místico”. Pelo seu
lado sugestivo, estão na origem da popularidade do Tractatus junto
aos filósofos da tradição existencialista, mas não são, propriamente
falando, senão contrassensos, pois não respeitam a sintaxe lógica. As
observações sobre a morte (6.431-6.4311), já citadas, nos oferecem
uma outra razão para ver a impossibilidade de um tal discurso. Se
a determinação da “boa vida” – a expressão “das gute Leben” deve
ser tomada em seu sentido socrático – consiste na possibilidade de
ver a vida como um todo limitado, então isso simplesmente não é
possível, pois a morte “não é um evento da vida. A morte não se
vive.” (6.4311). Um “sujeito” não pode portanto nunca se colocar
sub specie aeternitatis a fim de determinar a conduta de sua vida, de
onde a impossibilidade de uma ética substancial.
Mas de qual “sujeito” falamos? Não é inútil ver como a noção de
“sujeito metafísico” (5.641), que desempenha um papel de articula-
ção entre a análise da proposição e as considerações éticas, se vincula
à teoria do juízo apresentada na terceira seção. A alma é simples,
pois “uma alma composta não seria mais uma alma” (5.5421). No
entanto, quando “A crê que p”, não se trata de uma relação múltipla
entre um sujeito simples e os objetos que formam um fato, mas de
uma relação entre dois fatos compostos de objetos, o que é expresso
por “ ‘p’diz p”. Nesse caso, a alma seria composta, e já não seria uma
alma. Esse argumento mostra que, na verdade, “a alma – o sujeito,
etc. -, tal como entendida na psicologia superficial de hoje, é uma
não-coisa (Unding)” (5.5421). Haveria portanto dois conceitos dis-
tintos: o “sujeito” da psicologia, que é um composto de todos os
pensamentos, que são eles próprios compostos, e um “eu filosófico”
ou “sujeito metafísico”, que é simples e não deve, por conseguinte,
ser identificado ao “sujeito” da psicologia – o que vem expressamen-
te dito em 5.6412. Essa distinção é retomada em 6.423, onde ����� Witt-

2 Sobre essas questões, não há nenhum consenso entre os comentadores. Cf. G.-
J. Lokhorst, “Wittgenstein on the Structure of the Soul: A New Interpretation
of Tractatus 5.5421”, Philosophical Investigations, vol. 14, 1991, p. 324-341.

110
genstein usa a expressão “vontade”, que ele toma de Schopenhauer:
“Da vontade (Willen) enquanto portadora do que é ético, não se
pode falar. E a vontade enquanto fenômeno só interessa à psicolo-
gia.” O sujeito metafísico não pode, por conseguinte, fazer parte do
mundo, ele “não pertence ao mundo, mas é um limite do mundo”
(NB, p. 79 & 5.632).
Esse sujeito metafísico é solipsista3:

5.62 – O que o solipsismo quer significar é inteira-


mente correto; apenas é algo que não se pode dizer,
mas que se mostra.
Que o mundo seja meu mundo, é o que se mostra nis-
so: os limites da linguagem (a linguagem que, só ela,
eu entendo) significam os limites de meu mundo4.

Retomando portanto sua distinção entre “dizer” e “mostrar”,


Wittgenstein reconhece que o solipsismo é correto, mas que isso
não pode ser dito, pois exprimir o que o solipsismo quer dizer equi-
valeria stricto sensu a enunciar proposições metafísicas do tipo da-
quelas que ele critica em 6.53. Mas em que a correção do solipsismo
pode ela se mostrar? No seguinte, que “os limites de minha linguagem
significam os limites de meu mundo” (5.6); o que é estabelecido um
pouco acima, em 5.5561: “A realidade empírica é limitada pela to-
talidade dos objetos. O limite volta a evidenciar-se na totalidade das

3 Sobre a questão do solipsismo, cf. entre outros, R. W. Miller, “Solipsism in


the Tractatus”, Journal of the History of Philosophy, vol. 18, 1980, p. 57-74. D.
Pears, The False Prison, op. cit., cap. 7.
4 Jaako Hintikka propôs (“On Wittgenstein’s Solipsism”, Mind, vol. 64,
1958, p. 88-91) traduzir a expressão entre parênteses “der Sprache, die allein
ich verstehe“ por “a única linguagem que eu compreenda”. Essa tradução é
confirmada por uma nota marginal feita por Wittgenstein que é relatada por
C. Lewy (“A Note on the Text of the Tractatus”, Mind, vol. 76, 1967, p. 416-
423). A tradução por “a linguagem que apenas eu compreendo”, mais próxima
do alemão, faria dessa observação a fonte da linguagem privada criticada nas
Investigações filosóficas. Outra tradução em francês é possível, que é quase
neutra entre essas duas possibilidades: “Le langage que seul je comprends” .

111
proposições elementares.” Como vimos nas seções sobre a análise e
a ontologia, a análise das proposições requer a existência de objetos
(simples) que devem me ser dados em minha experiência imediata.
Wittgenstein dizia compartilhar em sua juventude uma forma
de “idealismo epistemológico” derivado de sua leitura de Schopen-
��������
hauer5. Essa defesa tractariana do solipsismo, embora seja apenas
parcial, parece ir na contramão de muitos outros aspectos “realistas”
da obra, mas Wittgenstein não vê as coisas assim, uma vez que ele
apresenta, algumas observações depois, um dos argumentos mais
desnorteantes de seu livro: o solipsismo rigorosamente pensado
“coincide com o realismo puro”. Esse argumento aparece nos Note-
books em dezembro de 1916:

O caminho que percorri é o seguinte: o idealismo


isola do mundo os homens como únicos, o solip-
sismo me isola apenas a mim, e eu vejo no final
das contas que pertenço eu também ao resto do
mundo; de um lado, não resta portanto nada, do
outro, o mundo que é único. Assim, o idealismo,
rigorosamente desenvolvido, conduz ao realismo.
(NB, p. 85).

Essa ideia é retomada em 5.64:

5.64 – Aqui se vê que o solipsismo, levado às últi-


mas consequências, coincide com o puro realismo.
O eu do solipsismo reduz-se a um ponto sem exten-
são e resta a realidade coordenada a ele.

Wittgenstein poderia ter acrescentado uma etapa em seu trajeto,


qual seja, a passagem do solipsismo ao “solipsismo do tempo pre-
sente”. A expressão foi inventada por Santayana, mas Wittgenstein

5 G. H. von Wright, “A Biographical Sketch”, in N. Malcolm, Ludwig


Wittgenstein – a Memoir, Oxford, Clarendon, 2001, p. 1-20 ; p. 6.

112
muito certamente retomou essa ideia da Theory of Knowledge de
1913 de Russell, na qual encontramos um questionamento parale-
lo: não posso nunca apontar com o dedo um objeto fora de minha
experiência do momento presente; perdemos então de vista a noção
de um escoamento objetivo do tempo para nos reencontrar prisio-
neiros da experiência do momento presente. Nas notas de cursos de
Wittgenstein, encontramos a seguinte confissão:

Acerca do solipsismo e do idealismo, disse ter sido


ele próprio frequentemente tentado a dizer “A expe-
riência do momento presente é a única coisa real” ou
“A experiência do momento presente é a única coisa
certa”, ao que ele acrescentou que quem quer que
seja tentado a subscrever ao idealismo ou ao solipsis-
mo tem a tentação de dizer “A experiência presente
é a única realidade” ou “Minha experiência presente
é a única realidade” (M, p. 102)6.

Essa concepção do “solipsismo do tempo presente” não deixa de


ter relação com as considerações sobre o mundo sub specie aeternita-
tis, uma vez que as duas observações seguintes só se esclarecem por
referência a esse solipsismo: “Aquele que não vive no tempo, mas no
presente, é feliz” (NB., p. 74); “Se entendemos por eternidade não
a duração infinita, mas a atemporalidade, então tem a vida eterna
quem vive no presente” (6.4311)7.
O sujeito metafísico é “portador do ético” no sentido de que
ele é a fonte dos valores, pois nenhum fato no mundo tem em si
mesmo valor:

6 Para uma discussão mais detida desse argumento, cf. D. Pears, The False Prison,
op. cit. A ideia do sujeito como ponto sem extensão é tomada de Schopenhauer,
cf. A. Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação. São Paulo :
UNESP, 2005, p. 566.
7 Sobre a questão do tempo no Tractatus, cf. J. Hintikka, “Wittgenstein on
Being and Time”, in Ludwig Wittgenstein: Half-Truths and One-and-a-Half-
Truths, op. cit., p. 240-274.

113
6.41 – O sentido do mundo deve estar fora dele.
No mundo, tudo é como é e tudo acontece como
acontece; não há nele nenhum valor – e, se houvesse,
não teria nenhum valor.
Se há um valor que tenha valor, deve estar fora de
todo acontecer e ser-assim. Pois todo acontecer e
ser-assim é casual.

A ética deve, portanto, ser, a exemplo da lógica, uma “condição


do mundo” (NB, p. 77); ela é transcendental (6.421). Se não há
nenhum valor nos fatos, então as proposições que os afiguram “têm
igual valor” (6.4) e, o que dá no mesmo, “não pode haver propo-
sições na ética” (6.42). Como o indicará a Conferência sobre a ética
de 1929 (LE), pode decerto haver proposições dotadas de sentido
sobre os “valores relativos”, tais como “Mathieu Marion é mau pa-
tinador ainda que bom remador”, mas não pode haver proposições
sobre “valores absolutos”, como o “bem” ou o “mal absoluto”, que
sejam dotadas de sentido.
Nessas condições, não é possível reconstituir uma “ética witt-
gensteiniana”. Pode-se apenas, a partir dos poucos fiapos enuncia-
dos, chegar a uma ou outra certeza. Em primeiro lugar, é claro que
Wittgenstein se opõe tanto às éticas formais do tipo kantiano quan-
to às éticas consequencialistas:

6.422 – O primeiro pensamento que nos vem


quando se formula uma lei ética da forma “você
deve...” é: e daí, se eu não o fizer? É claro, porém,
que a ética nada tem a ver com punição e recom-
pensa, no sentido usual. Portanto, essa questão
de quais sejam as consequências de uma ação não
deve ter importância. – Pelo menos, essas conse-
quências não podem ser eventos. Pois há decerto
algo de correto nesse modo de formular a questão.
Deve haver, na verdade, uma espécie de recom-
pensa ética e punição ética, mas elas devem estar
na própria ação.

114
Esse trecho mostra bem, mais uma vez, a importância da dimen-
são do ato no Tractatus: encontrarei castigo ou recompensa no pró-
prio ato e não em suas consequências. Não se trata portanto de um
cálculo de tipo utilitarista a partir das consequências de meus atos.
A distinção entre fato e valor tem como corolário que o “querer”
não pode mudar os fatos, apenas o limite do mundo:

6.43 – Se a boa ou má volição altera o mundo, só


pode alterar os limites do mundo, não os fatos; não
o que pode ser expresso pela linguagem.
Em suma, o mundo deve então, com isso, tornar-
se a rigor um outro mundo. Deve, por assim dizer,
minguar ou crescer como um todo.
O mundo do feliz é um mundo diferente do mundo
do infeliz8.

A felicidade exige que eu reconheça que o mundo é o que ele é


independentemente do querer, isto é, de mim mesmo. Então, se sou
infeliz, não pode ser por culpa do mundo, ao qual devo portanto
adequar-me para chegar à felicidade. A posição de Wittgenstein,
que se aparenta ao estoicismo, foi muito bem resumida por seu ami-
go Paul Engelmann:

Se eu sou infeliz e sei que essa infelicidade reflete


um descompasso acentuado entre eu mesmo e a vida
tal como ela é, não resolvi nada: estarei desnorteado
e não reencontrarei nunca meu caminho para fora
do caos de minhas emoções e de meus pensamentos
enquanto não tiver atingido a visão suprema desse
descompasso como não sendo a culpa da vida tal
como ela é, mas de mim mesmo tal como sou9.

8 Essas últimas observações são particularmente difíceis de interpretar, cf. J. Schulte,


“The Happy Man”, Grazer philosophische Studien, vol. 42, 1992, p. 3-21.
9 P. Engelmann, Letters from Ludwig Wittgenstein with a Memoir, Oxford,
Blackwell, 1967, p. 76-77.

115
Wittgenstein falará frequentemente do erlösende Wort, isto é, da
palavra que traz esse estado de paz interior. Essa posição não deixa
de lembrar a discussão do estoicismo por Schopenhauer ali pelo
final do primeiro livro do Mundo como vontade e representação, que
Wittgenstein conhecia bem:

[...] pois a ética estoica não é originária e essencial-


mente uma doutrina da virtude, mas mera instrução
para uma vida racional, cujo fim e objetivo é a felici-
dade mediante a tranquilidade de ânimo. A conduta
virtuosa encontra-se ali como que per accidens, como
meio, não como fim. Eis por que a ética estoica, se-
gundo toda sua essência e ponto de vista, é funda-
mentalmente diferente dos sistemas éticos orientados
imediatamente para a virtude, como o são as doutri-
nas dos Vedas, de Platão, do cristianismo e de Kant. O
objetivo da ética estoica é a felicidade10.

Na Conferência sobre a ética de 1929, Wittgenstein menciona alguns


exemplos de experiências religiosas que ele julga impossível exprimir na
linguagem, tal como o “espanto diante da existência do mundo” (LE,
p. 41). Este é equivalente ao que Wittgenstein chama em 6.45 o “mís-
tico”, isto é “O sentimento do mundo como totalidade limitada”. Esse
espanto não pode, segundo Wittgenstein, ser expresso na linguagem, a
menos que se produza um contrassenso, pois “não posso imaginar que
ele não exista” (LE, p. 41-41). Se não posso conceber o que seria o caso
para que uma proposição seja falsa, então esta perde sua propriedade es-
sencial que é de ser “bipolar”; ela não pode portanto ser uma proposição
dotada de sentido (sinnvoll). Wittgenstein prossegue então seu raciocí-
nio da seguinte forma: não se pode portanto responder, de nenhuma
maneira, a uma questão ou “enigma” do tipo “por que há o ser ao invés
de nada?” por meio de uma proposição dotada de sentido; se não há
resposta possível, é que a questão ela própria não pode verdadeiramente

10 A. Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação, op. cit., p. 142.

116
ser formulada. Não há portanto “enigma” e o problema da vida não
pode ser resolvido senão tomando consciência disso, isto é, fazendo “de-
saparecer” a própria questão, uma vez que ela é inexprimível:

6.5 – Para uma resposta que não se pode formular,


tampouco se pode formular a questão.
O enigma não existe.
Se uma questão se pode em geral levantar, a ela tam-
bém se pode responder.
6.521 – Percebe-se a solução do problema da vida
no desaparecimento desse problema.
(Não é por essa razão que as pessoas para as quais, após
longas dúvidas, o sentido da vida se fez claro não se tor-
naram capazes de dizer em que consiste esse sentido?)

Para Wittgenstein, querer exprimir algo sobre o “mundo como to-


talidade limitada” é querer per impossibile se colocar sub specie aeterni-
tatis, isto é, fora do mundo (de meu mundo) e fora da linguagem (de
minha linguagem): o que ele por vezes exprime falando de querer “se
jogar contra os limites da linguagem”. Wittgenstein viu a ligação en-
tre suas concepções e a ideia do “paradoxo absoluto” de Kierkegaard:

Pense, por exemplo, no espanto diante do fato de que


algo existe. Espanto que não se pode exprimir sob a
forma de uma questão e que tampouco comporta res-
posta. Tudo o que gostaríamos de dizer aqui só pode
ser a priori um contrassenso. Nem por isso deixamos
de correr contra os limites da linguagem. Tendência
que Kierkegaard também percebeu, e que ele descreve
mesmo de um modo inteiramente semelhante (como
uma corrida ao paradoxos). Esse modo de se lançar
contra o limite da linguagem é a ética (WWK, p. 68)11.

11 Cf. S. Kierkegaard, Migalhas Filosóficas ou Um bocadinho de Filosofia de João


Climacus. Petrópolis: Vozes, 1995, Cap. III, p. 61-82. Sobre as relações entre
Wittgenstein e Kierkegaard, cf. J. Bouveresse, La rime et la raison¸ Paris,

117
O Tractatus fecha-se portanto com uma injunção ao silêncio:
Wittgenstein espera que o leitor esteja em condições, após ter com-
preendido sua obra, de “ver corretamente o mundo” e, portanto, de
ver que não se pode trazer à expressão linguística alguns sentimen-
tos, sobre os quais é portanto preferível manter silêncio:

6.54 – Minhas proposições elucidam dessa manei-


ra: quem me entende acaba por reconhecê-las como
contrassensos, após ter escalado através delas – por
elas – para além delas. (Deve, por assim dizer, jogar
fora a escada após ter subido por ela.)
Deve sobrepujar essas proposições, e então verá o
mundo corretamente.
7 – Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

Aquele que compreendeu o Tractatus compreenderá também


que, paradoxalmente, a maior parte das proposições do Tractatus
não respeitam a sintaxe lógica. As transgressões da sintaxe lógica
são de tipos diversos: proposições enunciadas acerca de conceitos
formais como se fossem conceitos materiais, proposições que pro-
curam dizer o que só pode ser mostrado e proposições enunciadas
acerca da totalidade do mundo ou do inexprimível. Essas propo-
sições transgridem o limite que elas se empenham em traçar... O
leitor deverá portanto derrubar a escada após ter subido por ela.
Uma interpretação do Tractatus derivada da obra de Cora Dia-
mond12 tornou-se muito popular nos Estados Unidos, onde se fala
doravante de um “novo”13 Wittgenstein. Essa interpretação funda-se

Éditions de Minuit, 1973, cap. 2 ; F. Nef, “Logique et mistique : à propos


de l’atomisme logique de Russell et Wittgenstein”, in. F. Gil (org.), Acta du
Colloque Wittgenstein, op. cit., p. 35-46.
12 A maior parte dos artigos importantes estão reunidos em C. Diamond, The
Realistic Spirit. Wittgenstein, Philosophy and the Mind, Cambridge Mass., MIT
Press, 1991. Para uma leitura do Tractatus na linhagem de Diamond, cf. M.
Ostrow, Wittgenstein’s Tractatus. A Dialectical Interpretation, op. cit.
13 A. Creary e R. Read (org.), the New Wittgenstein, Londres, Routledge, 2000.

118
em sua quase totalidade em uma casuística daquilo que Diamond
chama de “proposições-quadro” do livro, ou seja, o prefácio e as úl-
timas proposições: 6.53, 6.54 e 7. A posição de Diamond pode ser
enunciada rapidamente, dizendo que, a seu ver, pretender, como o
faz a maior parte dos comentadores, que haveria outra coisa além do
contrassenso absoluto no Tractatus é “amarelar” (to chicken out)14.
Assim, à ideia de que haveria proposições que são desprovidas de
sentido mas que poderiam ter um sentido caso conseguissem veicu-
lá-lo15, e, portanto, a toda distinção entre o contrassenso puro, do
tipo “Sócrates é idêntico” e um contrassenso “substancial” que não
se poderia exprimir por proposições dotadas de sentido, mas que no
limite poderíamos tentar assoviar, Diamond irá contrapor a ideia de
que só há uma única forma de contrassenso, o contrassenso puro.
Não há portanto nada que se mostre mas que não se possa dizer, não
há nenhuma verdade inefável que seria apontada pelo Tractatus e não
há portanto nada de semelhante a “simples”, “fatos”, etc. E todos os
enunciados a respeito destes últimos são tão somente puros contras-
sensos. O que Wittgenstein queria, nos diz ela, não é corrigir alguns
erros cometidos por Frege ou Russell, mas mostrar que seu projeto
teórico é nulo e sem efeito e que estamos imersos no contrassenso
desde o início. Wittgenstein teria desconstruído seu próprio projeto
e mostrado (?), ao fazê-lo, que o projeto de Frege e a de Russell – e,
na esteira destes, acrescentaríamos: toda a filosofia analítica16 – está
fadado a não produzir mais do que esse tipo de contrassenso.
No entanto, Wittgenstein retoma, no meio da obra, suas
observações do prefácio, escrevendo, em 4.114, que a filosofia

14 C. Diamond, “Throwing Away the Ladder”, op. cit., p. 180.


15 Cf., por exemplo, G. E. M. Anscombe, Introduction to the Tractatus, op. cit.,
p. 161.
16 Essa refutação não terá de modo algum como resultado legitimar as formas
de discurso filosófico criticadas pelos filósofos analíticos; apesar do respeito
que Wittgenstein consagra aos grandes metafísicos como Kierkegaard, ele
considera também seu discurso como desprovido de sentido. Sua crítica da
metafísica, seja lá de que forma que se a leia, visa sempre esse tipo de discurso.

119
“deve traçar os limites do pensável e, desse modo, do impensá-
vel” e “limitar o impensável de dentro, através do pensável”, ao
que ele acrescenta que ela “significará o indizível (das Unsagbare)
ao representar claramente o dizível” (4.115). Ele também escreve
em 6.522: “Há certamente o inefável (Unausprechliches). Isso se
mostra, é o Místico”. Wittgenstein diz portanto claramente que
há o indizível (Unsagbare) e não se pode simplesmente colocar
essas observações na conta da ironia ou algo do tipo. O inexpri-
mível decerto não é da ordem do sentido que se pode dizer cla-
ramente na linguagem, pois senão poderíamos dizê-lo, mas ele
existe de fato; tal é a natureza, por exemplo, do espanto diante da
existência do mundo.
A acreditar em Diamond, não haveria nenhuma diferença entre
uma frase do Tractatus como, digamos, 3.23, “O postulado da pos-
sibilidade dos sinais simples é o postulado do caráter determinado
do sentido” e uma frase como “Sócrates é idêntico” ou ainda o pri-
meiro verso do poema Jabberwocky, que eu cito no original: “’Twas
brillig, and the slithy toves did gyre and gimble in the wabe”. As
aparências seriam enganosas. No entanto, não há dúvida alguma
de que esse verso nunca enganou ninguém, diferentemente do que
ocorre com, digamos, um fragmento de Heráclito ou uma frase da
Metafísica de Aristóteles, mas Diamond não parece estar nunca em
condições de nos explicar essa diferença. Assim sendo, não há a
fortiori nenhum sentido em falar de um processo pelo qual sería-
mos levados a reconhecer que as frases do Tractatus são totalmente
vazias de sentido, isto é, que haja uma escada a ser galgada. A isso,
Diamond respondeu insistindo sobre a importância do 6.54 (grifo
meu): “Minhas proposições elucidam dessa maneira: quem me en-
tende acaba por reconhecê-las como contrassensos.” Wittgenstein
nos pediria não para compreender as proposições do Tractatus, mas
para compreender a ele enquanto enunciador de contrassensos; es-
taríamos assim engajados, na leitura do Tractatus, em uma atividade
particular, a de imaginar o que seria para alguém confundir sentido

120
e contrassenso17. A meu ver, essa última réplica mostra que a leitura
de Diamond não é defensável. Hacker, por outro lado, mostrou
toda a fraqueza hermenêutica dessa leitura18, que se limita a alguns
trechos do Tractatus (ainda que se acabe por reconhecer que alguns
trechos no centro da obra são dotados de sentido o quanto bas-
ta para sustentar essa interpretação), mas que literalmente ignora a
considerável quantidade de indicações contrárias que encontramos
em outras partes de sua obra.
A inovação de Wittgenstein não foi portanto a de mostrar que
além da linguagem só encontramos o contrassenso absoluto, ali
onde outros teriam acreditado equivocadamente ver verdades ine-
fáveis. Através dois mil anos de história da filosofia, encontramos
muito poucos filósofos que acreditaram nessas verdades inefáveis, e
não é dessa doença que ele queria nos curar por sua terapia. A his-
tória da filosofia abunda no entanto de filósofos, Frege e Russell in-
clusive, que acreditaram que essas verdades que se mostram mas não
podem ser ditas podem de fato ser enunciadas com sentido e são eles
que são muito certamente visados pelo Tractatus. Que Wittgenstein
tenha conseguido ou não solapar os fundamentos de todo projeto
do tipo dos de Frege ou de Russel ao sabotar o seu próprio projeto
é uma outra questão, que não pode ser considerada como resolvida
implicitamente pela simples repetição das últimas frases do Tracta-
tus, pois a possibilidade mesma de solapar os fundamentos de seu
projeto é tributária de teses – sobre o “sentido”, entre outras coisas
– que eu me preocupei em explicitar nesta obra, e que temos todo o
direito de recolocar em questão, exatamente como Wittgenstein ele
próprio veio a fazê-lo a partir de seu retorno à filosofia, em 1929.

17 C. Diamond, “Ethics, Imagination and the Tractatus”, in A. Creary e R. Read,


The New Wittgenstein, op. cit., p. 149-173; p. 155 e 157-158.
18 P. M. S. Hacker, “Was He Trying to Whistle it?”, in A. Creary e R. Read, The
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COLEÇÃO FILOSOFIA E LINGUAGEM
Direção: Marcelo Carvalho, Bento Prado Neto e João Vergílio G. Cuter
Conselho Editorial: André Porto, Arley Moreno, Danilo Marcondes, David Stern, João
Carlos Salles, Luiz Carlos Pereira, Luiz Henrique Lopes dos Santos, Mathieu Marion,
Mauro Engelmann, Philippe Narboux, Silvia Altmann

Títulos Publicados:

Ludwig Wittgenstein: introdução ao Tractatus logico-philosophicus


Mathieu Marion

As investigações filosóficas de Wittgenstein: uma introdução


David G. Stern
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