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Wilhelm Reich

Wilhelm Reich

Pessoas
em
Dificuldade

Traduzido de:

* People in Trouble, vol. two of The Emotional Plague


of Mankind. Transl. Philip Schmitz, Farrar, Straus
and Giroux, New York, 1976.
Caro leitor

(Entender os escritos de Reich não é tão fácil quonto pode


parecer. São inúmeros livros e artigos escritos em olemõo e
traduzidos para diversas outras línguas.
Infelizmente ainda são poucos os livros traduzidos para o
português, o que limita consideravelmente o aprendizado e
consequentemente a divulgação do Orgonomia em nosso Pois.
No intuito de auxiliar nossos alunos, acreditando que o
conhecimento deve ser compartilhado e não retido ou restrito a um
pequeno grupo de interessados foi que, contando com a
colaboração de colegas e alunos aventuramo-nos a traduzir
algumas dessas obras.
Não somos tradutores especializados e portanto, pedimos a
sua compreensão para possíveis erros que venha a encontrar.
Também tivemos o cuidado de encadernar esse trabalho em forma
de livreto facilitando assim a sua leitura e armazenagem mas o
mesmo não deve ser mencionado como referência bibliográfica
visto não possuir os direitos autorais para comercialização nem
inscrição no ISBN.
Nosso objetivo não vai além da divulgação dos trabalhos
reichianos.
€speramos que você tenho umo boa leitura e possa adquirir e
compartilhar novos conhecimentos reichianos.

Um forte abraço.

José Henrique Volpi


Sandra Mara Volpi
r

índice

O observador silencioso............................................................3

Introdução................................................................................ 5

1. Direções equivocadas.......................................................... 16

2. Curso prático de Sociologia Marxista.................................... 23

3. A Força Produtiva Viva......................................................... 52

4. isto é Política........................................................................83

5. A Invasão da Moralidade-Sexual na Sociedade

Primitiva Gongenitamente Livre............................................. 129

6. Todos Estamos Estasiados.................................................147

7. Irracionalismo na Política e na Sociedade........................... 172

8 .0 Congresso Psicanalítico de Lucerna............................... 243

9. Em direção à Biogenia....................................................... 275


O Observador Silencioso

O Observador Silencioso (OS), neste volume autobiográ­


fico, vê os fatos em retrospectiva (1950-52) - isto é, enquanto a
experiência Oranur seguia seu curso. Esta experiência da ener­
gia orgônica cósmica primordial, de uma maneira prática e até
socialmente penetrante, demoliu toda crítica, dúvida e distorção
apregoadas pelos inimigos da orgonomia durante a campanha
norueguesa (1934-37). O Observador Silencioso não apenas
vê esses inimigos de forma objetiva; ele inclui também o des­
cobridor da energia orgônica, Wilhelm Reich (WR), em cruel
criticismo. Tantos os erros e os enganos estúpidos quanto os
grandes avanços e experiências de 1927 a 1937 constituem
uma lição importante para quem quer que sente, no futuro, ocu­
par-se da natureza humana de modo mais político que científi­
co. Somente o caminho fatual, não o político, finalmente levará
a revolução sexual de nossos tempos e subjugará a praga
emocional (PE).
O Observador Silencioso sabe muito bem que a desco­
berta da energia cósmica primordial tornou ineficazes e ultra­
passadas todas as insignificantes evasivas políticas e todo pen­
samento em termos de classe ou de inconsciente. É certo que,
no seu devido tempo, tal descoberta fornecerá valiosos instru­
mentos de pensar e agir para a humanidade em sua batalha
contra a praga emocional, que corroe seus esforços mais

3
talentosos e laboriosos. No entanto, parece tragicamente verda­
deiro que, por muitas décadas, talvez séculos, ainda, o político e
o mero ideólogo dominarão o cenário público e tentarão transfor­
mar a natureza humana por meio das idéias, programas, plata­
formas, discursos, promessas, ilusões, manobras, politicagens
de todos os tipos, sem dar um único passo concreto para mudar
as condições e restabelecer as leis naturais da vida.
Este relato das experiências de WR nos movimentos Socialista e
psicanalítico está sendo apresentado num esforço de ajudar a
eliminar o erro e o engano desnecessário no futuro. Espera-se
que mesmo o difamador oculto e talentoso, dentro ou fora do
Partido Comunista, sentirá respeito pelo sofrimento e pela busca
humana, o suficiente para sair de seu esconderijo nas “moitas” e
desistir de atos de abuso e de maltrato da honestidade, enquan­
to este material histórico vem sendo exposto nas “campinas".

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INTRODUÇÃO

Este livro inclui vários escritos do período de 1927-1945.

Não se trata de um compêndio de sociologia sexo-econô-


mica; nem foi escrito em conexão com um fato específico. Ele
ilustra o amadurecimento gradual de discernimentos durante o
decurso de aproximadamente duas décadas, discernimentos
que afinal se fundiram em uma visão global. Quem já trabalhou
em regiões inexploradas se dará conta de que o que se reflete
no resultado final não constitui um alvo predeterminado, mas é
o verdadeiro caminho da busca em si mesma.*
O leitor se perguntará porque eu dou ênfase a isto. A
razão é simples: O pensamento natural-científico presta teste­
munho à sua própria imparcialidade, quando descreve os even­
tos sociais ocorridos em várias épocas que revelam tanto os
caminhos do erro quanto do remédio. Eu não escrevi este livro
à salvo de emoção ou de teoria preconcebida. Não o escrevi
como resultado de um processo arbitrário de pensamento nem
porter prefigurado um estado de organização social aperfeiço­
ado. Reuni os discernimentos que aqui vão condensados ape-
nas como um colono em uma vastidão desabitada deve reunir
* 1952: “1945”aqui se refere apenas a um plano, concebido em 1945, de publicar todo
material histórico até aquele ano. Devido a outros compromissos, somente o período
de 1927 a 1939 foi realmente descrito de modo extenso e consistente. Outros perío­
dos foram tratados em artigos separados.

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impressões e experiências se desejar sobreviver.
Originariamente, eu era um clínico interessado estritamen­
te em ciência natural e filosofia, não em sociologia ou mesmo em
política. Foi o desenvolvimento espontâneo da ciência da
orgonomia que me levou, inicialmente por volta de 1919, a intro-
duzir-me na área da economia sexual individual e social. A eco­
nomia sexual, por sua vez, foi a precursora da descoberta do
orgone, isto é, energia da vida cósmica.
Olhando para trás, a partir de 1945, devo confessar que
minha descoberta do orgone não teria ocorrido sem as experiên­
cias que aqui vão descritas. Ela, na verdade, só ocorreu devido
aos obstáculos colocados em seu caminho pela estrutura irracio­
nal da sociedade humana e pela estrutura de caráter do animal
humano no século vinte. Ser compelido a reconhecer tais obstá­
culos como manifestações biopáticas da vida de não como sim­
ples coincidências do destino e ser constrangido a descobrir os
meios de superá-las, equiparam-me com os métodos da pesqui­
sa orgônica. Eu suspeitava da existências do orgone tão pouco
quanto qualquer psicanalista envolvido com psicologia dirigida
ou qualquer médico ou biólogo envolvido com magnetismo da
Terra ou com a divisão da célula. Como tenho procurado sempre
enfatizar, o que foi notável não foi a descoberta do orgone, mas,
ao contrário, sua não descoberta em um período de aproximada­
mente 2.500 anos, o que foi uma façanha da repressão. Duas
décadas de trabalho clínico com a tendência humana parta repri­
mir os processos vitais, estimularam a investigação da causa do
irracionalismo humano. Por que, foi o que me perguntei, o ho­
mem não resiste a outras coisas como ele resiste à realização de
sua própria natureza, de sua origem e constituição biológica? Eu
não sabia nada da degeneração biológica do animal humano, a
qual pôs em perigo, por milhares de anos, sua existência pessoal
e social, cronicamente e em catástrofes periódicas.
Com essa pergunta, dúvidas surgiram em minha mente
quanto à racionalidade do processo de pensamento humano,
dúvidas que jamais seriam aplacadas. Enquanto prevalecia a paz,
minhas dúvidas receberam pouco alimento. As neuroses que

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Freud aprendera a interpretar de uma maneira científico-natu-
ral, embora apenas psicologicamente, pareciam a mim, e a
qualquer outro, como doenças em organismos sadios sob ou­
tros aspectos. Tivessem alguém proposto, antes de 1927, que
tantas instituições humanas tinham sido essencialmente irraci­
onais, isto é, biopáticas, por milhares de anos, eu teria figurado
entre os mais ferrenhos opositores. Entretanto, os desenvolvi­
mentos sociais em todo o mundo, emanados da Europa, torna­
ram lugar-comum o fato de que o homem e sua sociedade es­
tão mentalmente enfermos no mais estrito sentido psiquiátrico
do termo.
Tive a sorte, ou poderia dizer o infortúnio de descobrir
esse não em 1942, como a maioria, mas já em 1927, quando
iniciei minhas pesquisas. O primeiro encontro com a
irracionalidade humana foi um choque imenso. Nem posso ima­
ginar como consegui suportá-lo sem enlouquecer. Considere
que quando me submeti a essa experiência eu estava conforta­
velmente ajustado aos moldes convencionais de pensamento.
Desconhecendo aquilo com que estava lidando, desembarquei
no “moedor de carne", uma situação com que todo sexo-eco-
nomista ou vegetoterapeuta que tenha entrado nesse campo
nos últimos dez anos está bem familiarizado. A melhor maneira
de descrevê-lo é a seguinte: Como se atingido por um soco, a
gente de repente reconhece a futuridade científica, o sem-sen-
tido biológico, e nocividade social de conceitos e instituições
que até aquele momento pareciam totalmente naturais e cla­
ros.
Trata-se de um tipo de experiência escatológica tão
freqüentemente encontrada de uma forma patológica na
esquizofrenia. Devo até expressar a crença de que a forma
esquizofrênica da doença psíquica é regularmente acompanha­
da pela visão reveladora do irracionalismo das convenções so­
cial e política, primordialmente no que se refere à educação
das crianças. O que chamamos de “progresso cultural” genuí­
no nada é além dessa visão. Pestalozzi, Rousseau, Voltaire,
Nictzsche e muitos outros são seus representantes. A diferen­

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ças entre a experiência de um esquizofrênico e o discernimento
de uma forte mente criativa reside no fato de que a visão revolu­
cionária se desenvolve, na prática, ao longo de largo espaço de
tempo, não raro ao longo dos séculos. Tal lampejo racional inun­
da a perspectiva geral das massas em revoluções sociais como
a Revolução Americana de 1776, a francesa em 1789 e a russa
em 1917.
Com o tempo, as “verdades radicais” se tornam tão eviden­
tes quanto foram, anteriormente, as visões irracionais e as insti­
tuições. Se o discernimento racional levará ou não à insanidade
mental do indivíduo ou à transformação racional da situação so­
cial dependerá de inúmeros fatores. No plano individual, está
envolvida, acima de tudo, a capacidade de satisfação genital e a
organização racional do pensamento. Na escala geral das mas­
sas, dependerá da integração do conhecimento científico-natural
com a necessidade social. Entretanto, é um fato bem conhecido
que o correto discernimento pode surgir prematuramente em um
indivíduo, isto é, antes que os processos sociais tenham atingido
o mesmo nível de compreensão. A história das ciências naturais
e do desenvolvimento cultural está cheia de exemplos para pro­
var esta alegação.
O eixo sobre o qual gravita este livro é a perturbação das
funções dos processos vitais simples e naturais pelo irracionalismo
social, o qual, uma vez engendrado pelo biopático animal huma­
no, torna-se biofisicamente ancorado no caráter das massas e,
assim, assume relevância social. O que é digno de nota é que o
irracionalismo político tem sido perpetuado em vez de uma orga­
nização racional da vida social. ( é verdadeiramente um proble­
ma diabólico). A energia biológica expendida irracionalmente no
espaço de uma vida de funcionalismo biopático resolveria os in­
tensos mistérios da existência humana se fosse racionalmente
canalizada.
Ninguém que atue em biopsiquiatria pode negar tal
assertiva. O sonho de uma melhor existência social permanece
sendo um sonho somente porque os pensamentos e os senti­
mentos do animal humano são bloqueados e não chegam ao

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simples e ao óbvio. Este fato tornou-se espontaneamente cla­
ro. Ao longo dos acontecimentos.
Eu mesmo participei do irracionalismo social na Europa
Central durante muitos anos. Mais tarde, fui seu alvo no meu
trabalho como médico e cientista pesquisador. Durante anos
fui tanto um político ( isto é, vitalmente interessado nas ocupa­
ções sociais) quanto um trabalhador, sem jamais me dar conta
da incompatibilidade do trabalho e da política. O político pere­
ceu em mim, mas o médico batalhador, o cientista pesquisador
e o sociólogo não apenas se fortaleceram, mas, por enquanto,
sobreviveram de fato ao caos social. Tive oportunidade de acom­
panhar inúmeras catástrofes políticas bem de perto e experi­
mentei várias delas pessoalmente: o colapso da monarquia
austríaca, a ditadura na Hungria e em Munique, a queda da
democracia social austríaca e da República austríaca, o nasci­
mento e a queda da República alemã.
Experimentei as emigrações húngaras, austríacas e ale­
mãs. A seguir, acompanhei as quedas sucessivas da
Tchecolosváquia, Polônia, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Noru­
ega e França. Interesses pessoais e profissionais me ligavam a
todos esses países. Um fato permaneceu proeminentemente
em todas essas ruínas políticas: uma vez que um político cru­
zava as fronteiras de seu próprio país, ele se tornava inútil e
incapaz para se estabelecer socialmente. Se, por outro lado,
um trabalhador cruzava as fronteiras de sua nação, ele era,
mais tarde ou mais cedo, capaz de se estabelecer financeira e
vocacionalmente em um outro país, na medida em que não era
perturbado pelos políticos. Este único fato compreende uma
enorme verdade. A política é restringida basicamente pelas fron­
teiras nacionais. O trabalho é essencialmente internacional e
livre das restrições de quaisquer fronteiras. Somente podere­
mos avaliar este fato, em todas as sua implicações sociais, no
final deste livro.
No momento, há vários grupos na Europa e em outros
lugares que têm baseado sua nova orientação social nos meus
escritos sociológicos do período 1927-38. Torna-se, porconse-

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guinte, imperativo aclarar desde logo qual seja minha atual posi­
ção: Eu ainda assumo total responsabilidade por todas as
assertivas científico-natural, médica ou sócio-pedagógica feita
durante aquele período, a medida em que não se fizeram corre­
ções em trabalhos posteriores e que poderão ser feitas no futuro.
A estrutura teórica da economia sexual permanece, essencial­
mente inalterada, sobre terreno sólido; ela tem resistido ao teste
de decisivos eventos sociais. A partir de 1934, a pesquisa orgone
lançou a fundação experimental para esta estrutura, embora não
esteja completada ainda. Hoje, a economia sexual é ramo reco­
nhecido da pesquisa científico-natural. Entretanto, nenhum dos
antigos conceitos políticos encontrados em meus primeiros es­
critos sociológicos permanecem justificados. Eles foram descar­
tados juntamente com as organizações sob cuja influência eles
surgiram em meus escritos. Uma extensa revisão dos conceitos
sociais da minha psicologia política pode ser encontrada no pre­
fácio da terceira edição de “A Psicologia de Massa do Facismo”.
A exclusão do conceito de partidos políticos não represen­
ta um regresso à ciência natural acadêmica, socialmente desin­
teressada. Muito ao contrário, é um grande passo para frente -
abandonando o tempo do irracionalismo político e na direção do
sistema de pensamento racional da democracia do trabalho na­
tural. Não sei nem posso saber quais dos meus velhos amigos e
colegas seguiram por este mesmo processo e quais deles estão
ainda operando com conceitos políticos ultrapassados. Quem
estiver familiarizado com meus ensaios mais curtos sobre a de­
mocracia do trabalho - pela maior parte publicados ilegalmente
entre 1936 e 1940 - estará também informado sobre o processo
do meu desengajamento da política.
Queria, daqui, rejeitar quaisquer tentativas feitas para ex­
plorar meus compromissos de partido de mais de quatorze anos
atrás chamando-os de política de partido. Eu me sentiria compe­
lido a protestar imediata e publicamente se alguém se aventuras­
se a explorar meu nome ou meus escritos para apoiar o socialis­
mo, o comunismo, o parlamentarismo ou qualquer outro tipo de
força política. O perigo de tal exploração, no entanto, é pequeno;

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isto só seria possível através da distorção de minhas descober­
tas. A experiência demonstra que a política partidária ordinária
e a biofísica orgônica reagem uma á outra como o fogo á água.
Não estou nem nunca estive envolvido com forças políti­
cas. Filiei-me às organizações médica e cultural Socialistas e
Comunistas, em 1927, com o fim de suplementar, com a psico­
logia de massa, a visão puramente econômica da sociedade
contida na teoria socialista. Tecnicamente, fui socialista e co­
munista entre 1927 e 1932. De fato, funcionalmente, jamais fui
socialista ou comunista e jamais fui admitido como tal pelos
burocratas do partido. Jamais acreditei na habilidade dos soci­
alistas e comunistas para resolver os problemas emocionais
humanos. Desta maneira, jamais ocupei qualquer posição do
partido. Eu conhecia bem a insípida orientação econômica de­
les e quis ajudá-los quando assumiram o papel de “progressis­
tas” na Europa a partir dos anos 20. Nunca fui iludido pela polí­
tica, mas era lerdo para distinguir os processos “sociais” dos
“políticos”. Guardava um alto conceito de Karl Marx como um
pensador em Economia de século XIX. Hoje, julgo sua teoria
muito antiquada e ultrapassada pela descoberta da energia da
vida cósmica.
Do ensinamento de Marx, creio que permanece somente
o caráter “vivo" da produtividade humana. Este é um aspecto
de seu trabalho que é completamente negligenciada e foi há
muito esquecida nos movimentos socialista e comunista, os
quais caíram vítimas do mecanismo econômico e psicologia de
massa mística - um erro que não se comete tão consistente-
mente sem ser privado de seu lugar no livro da história.
E, finalmente, não se fez qualquer traço de distinção en­
tre a visão científica da sociedade e as crueldades bestiais,
ignorantes e indignas perpetradas sobre as massas trabalha­
doras pelos biopatas que sabiam como alcançar o poder atra­
vés da intriga. Confundir um Duncker, um Kautsky ou um Engels
com assassinos criminosos do tipo Modju Moscou é o mais
convincente sinal de uma mente confusa, degenerada e cienti­
ficamente incompetente. Se alguém proclamar, hoje em dia,

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que combate o comunismo, ele deverá provar que além de dece-
par cabeças ele sabe realmente o que isto significa.
1952: É impossível dominar as funções da vida se não se
as vive completamente. Nenhum mineiro pode minerar carvão
enquanto evitar a mina. Nenhum engenheiro pode construir uma
ponte sobre um abismo sem o risco real de precipitar-se nele.
Nenhum médico pode curar uma doença infecciosa sem o risco
de contraí-la ele mesmo. Quem nunca se casou não sabe o que
é ser casado, e quem jamais deu à luz uma criança ou menos
assistiu um parto não pode saber o que seja o mesmo. Isto é o
sentido da democracia do trabalho. Quando Malinowski decidiu
estudar as culturas antigas, foi para as Ilhas Tobriand, onde vi­
veu com o povo em suas choupanas, compartilhando suas vidas
e amores. Deste modo, ele descobriu o funcionalismo em
Etnologia. “Para pensar funcionalmente, há que se viver funcio­
nalmente”.
Do mesmo modo, quando decidi trabalhar com higiene
mental preventiva (hoje chamada “psiquiatria social” ), tive - e o
fiz alegremente, se não entusiasticamente, - que juntar-me com
as pessoas na raiz da sociedade onde quer e como quer que
elas vivessem, amassem, odiassem, sofressem e sonhassem com
um futuro incerto. Naquela época, na Europa, as chamadas clas­
ses mais baixas eram organizadas sob liderança socialista ou
comunista. Havia quatro a cinco milhões de eleitores comunistas
e sete milhões socialistas somente na Alemanha, e esses doze
milhões de votos esquerdistas eram sumamente decisivos entre
os aproximadamente trinta milhões de eleitores na Alemanha. É
preciso Ter vivido esses fatos para saber o que são os esquerdis­
tas; não se pode julgar com propriedade a Europa, estando no
continente americano, sem Ter vivido esses fatos. É também es­
sencial saber que na Segunda metade dos anos 20 a orientação
do Partido Comunista na Áustria e na Alemanha era ainda predo­
minantemente democrática. Ele não tinha ainda caído vítima do
Fascismo Vermelho, como veio a ocorrer nos anos 30.
Tal foi, então, meu campo de trabalho em psiquiatria social,
e meus primeiros passos logo se depararam com a tremenda

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força maligna da praga emocional do homem. Não foi muito
antes de eu começar a perceber que “era o primeiro médico e
psiquiatra a descobrir a praga emocional no cenário social e a
descobrir-se envolvido em luta de morte com a pior moléstia
epidêmica que jamais devastara a humanidade”, uma luta que
persiste até os dias de hoje. Esta percepção foi um pré-requisi­
to essencial para dominar o talento e a vontade de aprender, o
que era indispensável se quisesse sobreviver.
O conceito de um processo natural de vida trabalhista -
democrática impossibilita a atividade política no sentido antigo.
“Advogamos os processos fatuais, não as ideologias”. O traba­
lhador sério persiste em seu trabalho sob tais circunstâncias e
advoga sua causa tão corajosamente quanto possível. Tal se
mantém verdadeiro para todo processo de trabalho vitalmente
necessário. Informamos ao mundo como o nosso trabalho está
organizado. Os participantes em todos os outros processos de
trabalho são apenas tão responsáveis quanto nós pelas conse­
qüências desta sociedade humana. Não podemos ditar às in­
dústrias mineiras ou alimentícias como elas devem organizar
suas tarefas específicas em um modelo democrático-trabalhis-
ta. Nosso trabalho é prevenir o câncer e outras biopatias e,
desta maneira, fomentar o princípio da economia sexual na
educação das criancinhas e administrar a utilização da energia
da vida cósmica (orgone). Estamos realizando um trabalho pio­
neiro com nosso conhecimento psiquiátrico e biofísico e reve­
lando os princípios básicos do processo vital.
Inúmeras experiências revelam que para cada passo de­
cisivo rumo a higiene social haverá sempre um poderoso politi­
queiro para obstruir nosso caminho. Devo, no entanto, mencio­
nar que ao longo dos muitos anos de paciente esforço, e supor­
tado pelo sucesso prático de nossos empenhos científicos, te­
mos tentado cooperar com políticos responsáveis de toda es­
tampa. Temos, entretanto, encontrado só dificuldades e tido que
superar obstáculos e calúnias pelos quais eles quase sempre
são responsáveis. Todas as catástrofes que a economia sexual
teve que superar foram provocadas por políticos: políticos co­

13
munistas e socialistas, políticos nas organizações médicas e psi-
canalíticas, políticos de governos cristãos, políticos de estados
fascistas, políticos nas políticas ditadoras e muitos outros. Os
representantes da economia sexual provaram que querem coo­
perar. Os políticos provaram ser inimigos, não tanto por motivos
pessoais, mas por causa dos motivos fundamentais de suas exis­
tências. Portanto cabe a eles a culpa se os representantes da
economia sexual, da psicologia política e da biofísica orgonótica
não tomam mais conhecimento deles. Pelo fato de estarmos tra­
balhando para a execução de nossas tarefas sociais não temos
outra alternativa senão a oposição automática a qualquer tipo de
política.
Nossa posição social está clara e inequivocamente descri­
ta neste livro, assim como em outros escritos. Queremos que o
mundo dos partidos políticos estejam cientes desta posição, para
que depois não venham dizer que “não sabiam”. As experiências
dos últimos terríveis doze anos ensinaram-nos que os políticos
gostam de usar os frutos do trabalho honesto de outras pessoas
para pedir votos. Uma vez assegurado um bom número de votos
e, consequentemente, garantida a influência social, atiram pela
janela os instrumentos pelos quais subiram o poder, sem quais­
quer princípios e escrúpulos. A característica deles e dispor dos
trabalhadores através da calúnia ou do pelotão de fuzilamento
depois de terem se apropriado do fruto de seu trabalho. Não é
necessário aprofundar a análise para ver que um Lênin ou um
Engels não sobreviveriam à Rússia de 1930. Um Freud america­
no teria as mesmas poucas chances de sobrevivência que teria
um Hitler americano se subir ao poder com suas idéias. Hoje em
dia esses assuntos são banalidades.
Não sabemos quem serão os políticos da Europa, América
ou Ásia em 1960 ou 1984. Nossa atitude tem sido determinada
pelas maquinações políticas que experimentamos entre 1914 e
1944. Está na natureza de todo tipo de política prejudicar a ciên­
cia natural quando ela põe as promessas dos políticos em ação
Os que se encontram no poder não estão interessados em elimi­
nar o trabalhador individual, mas sim eliminar o princípio que re­

14
gulamente o trabalho. Eles querem explorar o trabalho, mas
não querem deixar-lhe o direito de controlar a direção da soci­
edade.
As afirmações que aqui vão não têm implicações pesso­
ais, assim como não conhecemos os políticos das décadas fu­
turas. No entanto, não hesito em me prevenir contra eles: a
inimizade aberta é preferível à amizade traiçoeira.
Encontramo-nos hoje melhor armados contra os ataques
irracionais dos políticos do que estávamos anos atrás. O tempo
hoje está mais do nosso lado do que contra nós. Realmente, os
ataques da praga emocional sobre a economia sexual costu­
mavam ter um efeito de bumerangue, mas ainda requeriam um
grande esforço e capital e freqüentemente ameaçavam nossas
vidas. Portanto, é essencial expor continuamente a natureza
irracional da política, de como, estando ela bem definida e
publicada, um indivíduo sofrendo da praga emocional não de­
veria sentir-se novamente provocado pela apresentação dos
fatos. E claro, ninguém pode se defender de um tiro pelas cos­
tas. Mas talvez os políticos fiquem bem contentes para abste-
rem-se de matar, se nós lhes garantirmos que não temos a
intenção de competir com eles pelo poder, e que lhes cedere­
mos o campo da demagogia, limitando-nos ao nosso trabalho
com as infelizes vítimas humanas. Incidentalmente, os assas­
sinatos seriam em vão; apenas criariam mártires. A pesquisa, a
ajuda, a luta pela verdade e felicidade reapareceriam mil ve­
zes, espero ter sido suficientemente claro.

15
I
DIREÇÕES EQUIVOCADAS

Depois da Primeira Guerra Mundial (1918-27), não houve


qualquer menção a uma interpretação psicológica dos proces­
sos sociológicos. Os economistas sociais ou estavam estritamente
orientados para uma economia Marxista ou baseavam suas dis­
cussões, na luta contra a teoria de valor marxista, num tipo de
psicologismo econômico tido como avançado, por exemplo, por
Max Weber ou escolas similares. No século XIX, Marx tinha tra­
çado os processos sociológicos e ideológicos da sociedade para
o desenvolvimento das forças produtivas técnico-econômicas.
Tanto seus sucessores quanto seus opositores, durante e após
sua época, estavam certos em buscar os fatores psicológicos
subjacentes a essas forças. Mas o conceito científico-natural
freudiano de psicologia profunda estava, na essência, orientada
individualisticamente. Ela fez um progresso sociológico e mes­
mo assim na direção errada. (Conforme minha crítica sociológica
das tentativas psicanalíticas em sociologia em A Invasão da
Moralidade Sexual Compulsória)
A psicologia não freudiana cuidava das manifestações su­
perficiais e era apenas um novo ramo da filosofia ou das chama­
das ciências éticas. Não podia ainda ser designada uma ciência
natural. Nada sabia da vida instintiva inconsciente do organismo
humano e permanecia focada sobre os fenômenos de superfície
até o ponto em não degenerou-se para a ética. Devido a tais

16
desenvolvimentos históricos, as escolas “psicológicas” da eco­
nomia e da sociologia moveram-se em direções equivocadas.
Elas não foram capazes de penetrar até ao âmago econômico
da sociologia nem ao âmago biológico (bioenergético) da es­
trutura humana. Obviamente, o resultado foi que não há qual­
quer vestígio de um relacionamento entre os processos biológi-
co-sexuais e os sócio-econômicos. A convicção ética, um subs­
tituto para uma explicação científico-natural do esforço huma­
no pela liberdade, era também mencionada nos círculos
marxcistas; a brecha na teoria econômica de Marx já tinha sido
sentida naquela época, mas não podia ser preenchida. Levan­
taram-se questões sobre o papel do homem no processo soci­
al, sua “essência” ou “natureza”(estrutura de caráter humano).
Neste contexto, devemos citar o socialista belga Hendrik de
Man, que contrastava o “socialismo materialista” de Marx com
seu próprio “socialismo ético”. Assim, o hiato psicológico na
sociologia marxista foi vivamente sentido, mas ninguém foi ca­
paz de apontar o fator perdido na compreensão dos processos
sociais. Era óbvio para todo mundo que, além dos processos
sociais. Era óbvio para todo mundo que, além dos processos
sócio-econômicos, independente do homem, também havia, de
algum modo, a intervenção decisiva do próprio homem através
de pensamentos e sentimentos. As visões e demandas éticas
intervieram somente onde o conhecimento concreto sobre a
natureza humana faltava. Estritamente falando, o conceito de
classes era sociológico, não psicológico, mesmo se toda “clas­
se” tivesse seus próprios interesses, desejos, necessidades,
etc.
Como se tornou aparente mais tarde, o hiato
(biopsicológico) na ciência social era, de fato, a ausência de
uma teoria científico-natural da sexualidade bem fundamenta­
da. Uma sociologia do sexo só gradualmente poder-se-ia de­
senvolver a partir de tal teoria. Este discernimento não estava
apenas intelectualmente distante, mas, se alguém tivesse de­
senvolvido a teoria, apenas se teria deparado com o vazio. Não
havia nem escritos nem a experiência que pudesse ter clama­

17
do construir uma teoria da sexualidade que fosse adequada para
preencher a lacuna na compreensão deixada aberta pela econo­
mia social de Marx. Na verdade, havia inúmeros estudos cabais
da “história da família”, mas neles a família, que é a simples for­
ma em que ocorre a vida sexual humana era erroneamente con­
siderada como sendo a base do processo sexual biológico por si.
A questão da “família” é, em si mesma, cheia de elementos
emocionais e irracionais e conduz de volta à ética em vez de à
ciência natural. Assim, nem “problemas da família” nem a “ques­
tão da procriação” (como a “eugenia” ou “política da população”)
foi integrada na economia social. Hoje, após a experiência do
fascismo, sabemos que a velha versão mística e não-científica
da eugenia e da política da população formou a base para o de­
senvolvimento das teorias Hitlerianas do Lebensraum e da raça.
Sabemos agora que a teoria da raça de Hitler desenvolveu-se
precisamente dentro da lacuna da sociologia que não pôde ser
preenchida pela sociologia orientada puramente para economia.
Tentei consubstanciar este fato de modo total em meus li­
vros "A Psicologia de Massa do Fascismo” e “A Revolução Sexu­
al”. Hoje, minha interpretação de tal hiato é geralmente aceita, na
medida em que ela é conhecida: O problema não era a forma da
família ou a questão da procriação, mas sim que a família e a
procriação tinham obscurecido desde o início, isto é, a função do
prazer biológico no animal humano e as instituições sociais em
que tal função tem que ocorrer.
Entretanto, àquela época, por volta da Primeira Grande
Guerra e por muitos anos a seguir, o processo biosexual esteve
envolto em escuridão. A sexologia, representada por grades no­
mes como Bloch, Forel, Ellis, Krafft-Ebing, Hirschfeld e outros,
cuidou (e só podia cuidar) sexualidade biopática da época, o que
eqüivale a dizer, as perversões e a procriação do animal humano
biologicamente degenerado. A potência orgástica, o cerne da
posterior sociologia sexo-econômica só foi descoberta e descrita
entre 1920 e 1927. Eu tinha tão pouco quanto qualquer outro
para contribuir para preencher o vazio biopsicológico na sociolo­
gia. Apenas uma coisa se tornou clara para mim no início dos

18
meus estudos da sociologia Marxista e não-Marxcista: a falta
de um discernimento concreto da estrutura humana tinha sido
preenchida e obscurecida, no campo observador, pelas deman­
das éticas e, na sociologia marxista, por uma visão
“economistística", isto é, rigidamente mecanicista, do processo
social que, como só muito mais tarde eu aprendi, tinha já sofri­
do veemente oposição de Lenin, na época da preparação da
Revolução Russa. No economismo, os únicos fatores decisi­
vos são as máquinas mortas e a tecnologia. O homem, como
representante e objeto deste processo social mecanicista, dei­
xa de pertencer ao quadro. Isto será demonstrado mais adiante
com exemplos concretos.
Em suma, “todos os esforços para compreender e reor­
ganizar a sociedade operaram-se sem nenhum conhecimento
do problema biosexual central do animal humano” . O
irracionalismo fascista tem desde então nos impingido a ques­
tão da estrutura humana irracional. Na época, entretanto, ela
jazia inteiramente fora do domínio da sociologia. Envolvi-me
com esses problemas através de uma concatenação invulgar
de minhas atividades de sexólogo com importantes eventos
sociais.
Quando escrevi meu livro "A Função do Orgasmo”* entre
1925 e 1927, tentava já utilizar a questão da genitalidade de
modo sócio-político.** Tal se processou de modo ruim. Todo o
capítulo sobre ‘a significância social das lutas genitais” foi ais
tarde suprimido.*** Sob a influência da teoria psicanalítica da
cultura, tentei usar teorias inaplicáveis.
Também produzi minhas “Contribuições para a Compre­
ensão de ...”, ninharias inofensivas que só pela sua acumula­
ção se tornaram perigosas. Continham a mistura costumeira
de meias verdades com falsidades completas. Por exemplo:
“A guerra significou um levante coletivo das repressões,
particularmente dos impulsos cruéis, com a permissão de uma
^Reich refere-se ao livro Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual.
1952: Os termos “social” e “político”, que hoje considero popostos, eram, naquele
tempo, ainda unidos no meu pensamento.
Ao mesmo tempo, ele foi entusiasticamente publicado pelos socialistas suecos.

19
imagem idealizada de pai, o Kaiser...”.
Deste modo, segui as reflexões de Freud sobre a guerra e
a morte: a guerra como expressão do sadismo das massas! Em
1805, foi um cabo em 1933 novamente um cabo foi feito “kaiser”
pelas multidões. Hoje sabemos que não se trata de “sadismo das
massas” mas de sadismo de pequenos grupos para os quais as
massas, que se tornaram biologicamente rígidas, indefesas e
ansiosas de autoridade, se tornam vítima.

“Os interesses econômicos trouxeram limitações externas


que foram somadas às inibições genitais individualmente condi-
cionadas(í). O proletariado não é onerado com tais limitações
econômicas da genitalidade(l), e desde que a pressão das de­
mandas culturais é também mais baixa do que nas classes dos
proprietários, as neuroses aparecem relativamente com menos
freqüência. A genitalidade é mais livre quanto piores as condi­
ções materiais da vida”.

Eu era um acadêmico ingênuo e inofensivo. Há inibições


genitais “individualmente condicionadas”; o proletariado não é
onerado pelos encargos econômicos sobre a genitalidade; ele
tem menos necessidades culturais; quanto mais pobres as con­
dições materiais da vida mais livre a genitalidade.
Nem os marxcistas nem os freudianos me criticavam. Eles
estavam de acordo. Mais tarde, em sua guerra contra mim, os
marxista atribuíram a “sexualidade livre do proletariado” às po­
bres condições de vida. Os psicanalistas ficaram satisfeitos por­
que não removi as fronteiras da moralidade entre os seres huma­
nos com e sem necessidades culturais. Um analista húngaro de
primeira linha me disse certa vez que o proletariado correspondia
ao inconsciente desde que era destituído de inibições instintiva,
ao passo que a burguesia correspondia ao ego e ao superego,
pois tinha que manter o id reprimido. Tal assertiva estava de com­
pleto acordo com a teoria psicanalítica da cultura que sustentava
que a sociedade era estruturada, do ponto de vista psicológico,
exatamente igual a um indivíduo. Tudo se encontrava em perfei­

20
ta ordem!
Havia também sentenças obscuras que tinham um cerne
de verdade falsamente expresso:

“Qualquer um que tenha aprendido a conhecer a íntima


boa vontade para aceitar o crescimento da necessidade eco­
nômica como uma fuga de conflitos internos, não pode crer em
uma solução radical dos problemas sociais com os métodos
comuns”.

A neurose era um conflito psíquico “individual”. Não tinha


nada a ver com a ordem social, exceto por “umas poucas priva­
ções e injustiças.
A psicologia de Freud começou a penetrar nos círculos
socialistas por meio da influência de pessoas como o consulto
e pediatra vienense Dr. Karl Friedjung. Ele explicou aos médi­
cos Democrata-Sociais encarregados da saúde pública em Vi­
ena que a criança possui uma sexualidade. O famoso Freud
havia descoberto isto; tratava-se de um grande achado. Com
tal conhecimento, era-se capaz de uma posterior “sublimação
dos instintos” .Os social-democratas apoiaram Freud. No seu
70° aniversário, eles o fizeram “cidadão”(nota: não um cidadão
honorário) da cidade de Viena. Antes da descoberta de Freud,
não se sabia onde o demônio, a sexualidade, tinha moradia e,
por conseguinte não se podia ser adequadamente combatida.
Agora, sabia-se e regozijava-se de que ele pudesse ser com­
batido melhor, mais cientificamente e com mais sucesso.
Slogans do tipo “Esclarecimento Sexual em bases científicas”
e “saudável educação sexual” surgiram, representando a de­
manda pela sublimação instintiva e a prevenção científica do
“viver”.
Os psicanalistas começaram a escrever livros sobre higi­
ene sexual. Advogavam a "educação dos instintos”, expressão
que qualquer um podia interpretar como lhe aprouvesse. Feder
e Meng, ambos membros de partidos socialistas, escreveram:
“Sob nossas condições sociais e econômicas de vida, a absti­

21
nência sexual pode ser necessária tanto por razões gerais como
pessoais”. Para a maioria dos seres humanos, a abstinência não
é injuriosa à saúde”. (Das psychoanalytische Volksbuch, 1927, p.
237). Consequentemente, a extrema evitação de estímulos ex­
ternos (!) é necessária à realização da abstinência... A excitação
sexual pode ser reduzida com banhos frios e com natação...As
ereções espontâneas que dão origem à masturbação e causam
insônia podem ser paradas prendendo-se a respiração tanto quan­
to a pessoa agüentar, repetindo o processo várias vezes..."(ibidem,
p. 240) (os itálicos são meus, WR). Quando, em 1929, escrevi
minha crítica de reforma sexual da burguesia ( A Revolução Se­
xual, parte 1), abstive-me de criticar sem ser capaz de fazer, é
melhor, é muito fácil. Eu ainda escrevia em nome da psicanálise.
Por que o “mundo”, a “cultura” e a “sociedade” não permi­
tem aos jovens a satisfação natural da genitalidade? Por que
existem tais massas de gente psiquicamente doentes? Por que
Freud sofreu tão piedosa oposição? Por que os estudantes de
medicina não ouvem nada do tão importante processo da sexua­
lidade? No tratamento analítico, a barreira social contra a sexua­
lidade natural emerge clara e distintamente. Onde está o sentido
nesta insensatez? Eu não conheço respostas e a literatura sobre
o assunto só oferece informações estereotipadas: A cultura exi­
ge moralidade - castidade das moças, ascetismo sexual até o
casamento, e abstinência durante a puberdade. De outro modo,
não haveria trabalho sistemático e, em conseqüência, haveria o
caos.
Comecei a estudar etinologia e sociologia: De onde pro­
vém a supressão e a repressão sexual? Qual sua função?*

* Cf. minha análise de tal questão em A Revolução Sexual e a Invasão da Moralidade


Sexual Compulsória.
li
c u r s o p r á t ic o de s o c io l o g ia
MARXISTA
(Viena, 15 e 16 de julho de 1927)

Recém tinha dado os primeiros passos para me orientar


no estudo da literatura etinológica e sociológica (Cunow,
Mehring, Kautsky, Engels, etc.) quando certos fatos me apa­
nharam “teoricamente despreparado” e me ensinaram sociolo­
gia prática.
Schattondorf, uma vila da província austríaca de
Burgenland, tinha dois terços de maioria Social Democrata. Em
30 de janeiro de 1927, o Partido Socialista convocou uma reu­
nião para às 4 horas da tarde. Ainda antes que a reunião come­
çasse, indivíduos de tendência monarquista atiraram na multi­
dão, sem que houvesse provocação, de uma taverna freqüen­
tada por veteranos. Um inválido de guerra, um ex-companheiro
de armas, teve o crânio espatifado. Uma criança de oito anos
foi baleada, outra de seis anos gravemente ferida, quatro mem­
bros do Schutzbund (Guardas de segurança) receberam
ferimentos leves. Os agressores escaparam ilesos.
Por que a multidão ameaçada não reagiu naquela justifi­
cável situação de autodefesa? Como puderam os matadores
reacionários escapar em uma vila composta de uma maioria
socialista de dois terços? A população entregou a questão Aos
tribunais de modo disciplinado. No dia seguinte, vária das gran­
des fábricas ficaram fechadas como protesto. Em 1 de feverei­
ro de 1927, o presidente do Partido Socialista da Áustria e do

23
sindicato trabalhista austríaco convocou uma greve de protesto
de quinze minutos. Todos aderiram unanimemente à greve. Ape­
sar de os social democratas disporem de condições para demons­
trar de modo impressivo o protesto contra a ação criminosa dos
monarquistas, não se registraram quaisquer demonstrações po­
pulares nas ruas. “Não se queria provocar os cidadãos e excitar
os trabalhadores”. O resultado final foi a queda da social demo­
cracia em 14 de fevereiro de 1934, provocada pela mesma orga­
nização monarquista que, em 1927, tentou justamente descobrir
até onde ela poderia ir.
Em 3 de fevereiro, houve uma interpelação parlamentar na
Assembléia Nacional. Os sociais democratas, muito polidamen­
te, perguntaram ao governo socialista cristão, sediado em
Hapsburg, se ele estava preparado:

1. “Para processar, com todo rigor, os indivíduos responsá­


veis pelos assassinatos em Schattendorf”;
2. Para dissolver as organizações locais de veteranos na
província de Burgenland.

O debate terminou sem uma decisão. O julgamento - creio


que ocorreu em 14 de julho de 1927, em Krems - terminou na
absolvição dos matadores, aparentemente pelos jurados reacio­
nários de tendência monarquista.
Às dez da manhã do dia 15 de julho de 1927, recebi em
meu consultório um médico que veio para sua sessão normal de
análise. Ele me contou que uma greve do sindicato dos trabalha­
dores de Viena tinha sido estourada; várias pessoas tinham já
sido mortas; a polícia estava armada; e os trabalhadores tinham
já ocupado a parte mais interna da cidade. Diante disto, interrom­
pi a sessão e desci até o Schottenring, que ficava perto da minha
casa. Em uma das ruas por onde passei ficava a Central de Po­
lícia. Vários policiais se encontravam lá, eles descarregavam fu­
zis de um caminhão. No Schottering, extensas linhas de traba­
lhadores marchavam na direção da Universidade. Trajavam suas
roupas de trabalho e caminhavam em grupos, alguns guarda­

24
vam os outros, mas estavam desarmados. Reparei principal­
mente na expressão de seus rostos e a séria determinação de
seu comportamento. Não cantavam nem gritavam, mas cami­
nhavam em silêncio. Vindo da Universidade, as colunas da
Schutzbund marchava em direção oposta, rumo às barrancas
do Danúbio. Espectadores perguntavam aonde eles iam. A res­
posta foi: "Aos quartéis”. Ninguém entendeu. Neste ponto,
irrompia um tumulto entre a polícia pesadamente armada e os
trabalhadores das fábricas, e as tropas do sindicato dos traba­
lhadores, que tinham sido organizadas durante anos justamen­
te para uma ocasião como aquela, voltaram para os quartéis.
Uma semana mais tarde, o consenso geral era que a queda da
segurança (Schutzbund) social democrata podia ter impedido o
banho de sangue que ocorreu subseqüentemente se pusesse
barreiras diante dos policiais. No tempo de duração do Conse­
lho Municipal Social Democrata, Viena teve à sua disposição
uma guarda de Segurança de cinqüenta mil membros militar-
mente treinados. Para que se evitasse confronto, os trabalha­
dores precisariam da proteção da polícia. Ninguém sabia o que
se passava dentro do Comitê Executivo do Partido Social De­
mocrata. O primeiro sumário dos ocorridos, por parte do Parti­
do Socialista da Áustria, só apareceu vinte e quatro horas mais
tarde, em 16 de julho.
Estou relatando aqui do ponto de vista de um mero ob­
servador. Eu estava entre as dezenas der milhares presentes à
ocasião e que eram tanto espectadores quanto alvo dos polici­
ais. A realidade dos dias e das horas que durou a “guerra de
classes” é diferente das descrições oficiais sobre as batalhas
civis e de classe. Segundo a versão oficial, os conflitos, teorica­
mente, ocorreram entre “capitalistas” e “trabalhadores”. Nas
ruas, entretanto, as pessoas realmente corriam, gritavam, eram
baleadas e morriam! Não vi sequer um capitalista na rua, ape­
nas milhares de trabalhadores com e sem uniformes, mulhe­
res, crianças, médicos e espectadores. Ficou a imagem indelé­
vel de que “as pessoas aqui faziam a guerra contra sua própria
espécie”. Os policiais que balearam centenas de pessoas na­

25
queles dias eram Social Democratas. Os trabalhadores eram
Social Democratas. A guarda de segurança era Social Democra­
ta. A multidão era predominantemente Social Democrata. Trata­
va-se de conflito de classes? Dentro da mesma classe? Em uma
cidade administrada por socialistas? Aqui, pela primeira vez, sur­
giram as dúvidas com relação ao irracionalismo da política em
geral, apreensões que foram respondidas aos doze anos depois
na formulação da democracia natural do trabalho. Este foi um
exemplo prático do vazio biopsicológico do Marxismo!
Segui com a multidão até o Schottentor. Um contingente
policial marchava rumo ao Palácio da Justiça, que se achava
agitado. As tropas, Na maioria Social Democratas, estavam olhan­
do para o chão, os oficiais de polícia marchavam constrangidos,
como se tivessem algo a esconder. Havia grupos de pessoas de
todas as idades e atividades por toda parte; não apenas jovens,
mas também mulheres mais idosas e escriturários - enfim, pes­
soas que podem ser encontradas nos centros de quaisquer cida­
des num dia normal. Muitos gritavam para os policiais: - “Não
atirem! Não sejam idiotas! Quem vocês querem balear?” Um gru­
po, que se encontrava na Associação dos Bancos de Viena, gri­
tava furiosamente: - “Assassinos de Trabalhadores! Vocês tam­
bém são trabalhadores!”. Os policiais abaixavam ainda mais a
cabeça. Seus rostos denunciavam ainda mais confusão. Ocorre­
ram os primeiros incidentes. Era tremenda a excitação. Porém,
muitos milhares de pessoas não passavam de espectadores.
Dirigi-me ao Rathaus Park. De repente, ouviram-se tiros
por perto. A multidão se dispersou e se escondeu nas ruas late­
rais. Vários minutos depois, começaram a surgir novamente, como
crianças curiosas cujo medo era menor que a audácia e o desa­
fio. Quando uma multidão corre, sente-se uma necessidade
irresistível de se correr com ela. Várias pessoas gritavam: “Pa­
rem! Se vocês correrem a polícia vai atirar ainda mais”. Os tiros
continuavam no parque. Policiais a cavalo meteram-se entre a
multidão. Chegaram ambulâncias com bandeiras vermelhas e
carregaram os mortos e feridos. Não se tratava de uma querela
por si, com duas facções antagônicas, mas simplesmente deze­

26
nas de milhares de pessoas, e grupos de policiais atirando na
multidão indefesa. Somente no Palácio da Justiça havia uma
batalha regular. Logo viram-se bandeiras subirem. Corria o ru­
mor de que diversas delegacias tinham sido tomadas de assal­
to. Quatro policiais tinham sido mortos no Palácio da Justiça,
em comparação com as centenas de vítimas entre a multidão.
A turba era tão compacta que não permitia acesso ao edifício,
nem mesmo para a polícia.
Muitos policiais tiveram seus uniformes arrancados e fo­
ram forçados a fugir rastejando com a vergonha da nudez. Os
uniformes foram simbolicamente hasteados. Fiquei maravilha­
do com a clemência do povo. Havia gente suficiente para redu­
zir os policiais a frangalhos e ainda assim eram pacíficos e com­
placentes. Os policiais passavam por eles sem serem molesta­
dos, embora nas vizinhanças as pessoas estivessem sendo
abatidas feito coelhos. Não pude entender isto. Como podiam
as pessoas ficarem olhando sem fazer nada, absolutamente
nada, para impedir o banho de sangue? “Sadismo das mas­
sas?" A notícia de que o Palácio da Justiça estava em chamas
foi entusiasticamente aplaudida por todos. “Aquela choupana
estava merecendo!” De qualquer modo , a justiça só existia
para os príncipes e para os ricos. Havia um murmúrio, para ser
exato, e lamento pelos mortos; mas não houve atos que pudes­
sem ser chamados de “resulutos”.
O Palácio da Justiça estava ocupado por trabalhadores
jovens. Tinham expulsado os policiais e passaram a lançar os
autos pelas janelas para a rua embaixo, onde caíam em cha­
mas. A Schutzbund não eram vista em lugar nenhum. O Prefei­
to Social Democrata de Viena, Karl Sietz, dirigiu um caminhão
de bombeiro para o Palácio da Justiça, mas não conseguiu en­
trar. A multidão se recusou a sair do lugar e simplesmente dei­
xaram que o edifício ardesse até o fim. Mortes ocorriam aqui e
ali de modo automático. Onde e quando um policial ou um gru­
po de policiais cismava em atirar, faziam-no às cegas no meio
da massa.
Durante horas as pessoas continuaram a ser baleadas.

27
Corri para casa a fim de contar à minha esposa, que não podia
crer e achava totalmente impossível, assim como, tenho certeza,
centenas de milhares de pessoas em Viena, aquele dia, também
achavam. Chamei-a para que testemunhasse com seus próprios
olhos e fui à Universidade com ela. ficamos entre o prédio da
Universidade e o Café Arcaden, com uma multidão de trezentas
ou quatrocentas pessoas, assistindo ao incêndio. Todos Acha­
vam que a fogueira era resposta justa à absolvição dos dois
Heimwehr (guardas) fascistas que tinham baleadq, “sem razão”
um operário e um jovem e tinham sido deixado livtes. Isto não
era justiça objetiva, mas apenas um “pacto com assassinos”. A
mais ou menos duzentos metros do Town Hall estava uma falange
de policiais com os fuzis abaixados. Vimos quando eles começa­
ram gradualmente a moverem-se. Aproximaram-se devagar, bem
devagar! Quando estava apenas cinqüenta passos dos incautos
circunstantes, o oficial no comando pôs-se ao lado e deu a or­
dem para atirar. Vi vários policiais erguerem o cano das aras e
disparar acima das cabeças das pessoas. Muitos, no entanto,
atiraram diretamente na multidão, que se dispersou. Dúzias de
pessoas ficaram no chão. Era difícil dizer se estavam mortas,
feridas ou apenas tentando se proteger. Saltei para trás de uma
árvore e puxei minha esposa comigo.
A falange policial posicionara-se paralelamente ao
Schottenring. Pararam de atirar e apenas ficaram parados lá, a
uns duzentos metros, como antes. Tive novamente a sensação
de contemplar uma “máquina insensível”, nada além disso. Um
autônomo estúpido, idiota, sem razão ou julgamento, que ora
punha-se em ação, ora ficava quieto. E era aquilo que nos gover­
nava e que era denominada "ordem civil”. Era aquilo que dirigia e
determinava quando e quem eu tinha permissão ou não para
amar. “Homem máquina!” Este raciocínio era claro e irrefutável;
desde então tal pensamento não mais me abandonou, tornou-se
o núcleo de minhas investigações posteriores sobre o homem
como um ser político. Eu fora parte de tal máquina durante a
guerra e tinha feito fogo exatamente como um cego entre os co­
mandos, sem pensar. “Lacaios da burguesia?” “Mercenários pa­

28
gos?” Nada disso! Apenas máquinas!
Alguns de tais homens máquinas guardavam ainda vida
suficiente, para, ao menos, sentirem-se envergonhados. Des­
viavam os olhos ou atiravam acima das cabeças das pessoas.
Um ser vivo não é capaz de fazer fogo cegamente, sem saber
em que e por que razão ele está atirando. É preciso que tenha
extinguido a vida em alguém para ele agir daquela maneira. Tal
não se modificava pelo fato de as máquinas se moverem es­
pontaneamente, mecanicamente. Se não existissem tais ho­
mens mecânicos, não haveria guerra. Mas, como eles funcio­
navam? O quê controlava suas ações? Quem os criou e por
quê? Como podiam seres humanos degenerarem de tal modo?
O problema não se resolveria atribuindo-o à “corrupção” ou à
“burguesia”. Isto estava óbvio. Estarem uniformizados também
não era a causa, embora, sem dúvida nenhuma, a “organiza­
ção” tivesse algo a ver com a mecanização dos humanos. O
psicólogo Le Bon tinha estudado os mecanismos de massa
desse tipo, e Freud baseou sua “Psicologia de Grupo e Análise
do Ego” nas afirmações de Le Bom.
Utilizando a organização hierárquica do Exército, da Igre­
ja e de Grupos Políticos como exemplos, ele tentou provar que,
ar regimentado, o homem se despe de sua individualidade e se
identifica com o líder ou com a idéia; deixa de ser ele mesmo e
retorna às fases infantis para realizar a identificação Além do
mais, a situação de “horda primitiva” volta a funcionar. Os filhos
se submetem ao pai todo poderoso e, devido a seus sentimen­
tos de culpa, identificam-se com ele “para que se dê a cultura e
a civilização”. Acrescento tranqüilamente: “e para que haja paz
e tranqüilidade”. (“Os: Testemunha a “tranqüilidade e a ordem”,
em pleno século vinte, trazidas por tal cultura e civilização!)
As assertivas de Freud estavam corretas. A identificação
servil com o líder podia ser diferente observada, assim como
também a perda do ego individual e o efeito de uma idéia abs­
trata. Mas ... eu não estava satisfeito ainda. Tais explicações
etemalizavam os fatos e encouraçava-os na legalidade biológi­
ca. A família, apesar de tudo, era uma instituição biológica e,

29
assim, também o era tudo que a constelação familiar engendras­
se. Por conseguinte, não pode haver possibilidade de mudança.
Portanto, a polícia, por toda a eternidade, atirará, dessa maneira
irresponsável, nas pessoas que observam um incêndio. Por con­
seguinte, essas pessoas, por toda a eternidade, incendiarão os
Palácios da Justiça e permitirão serem abatidas feito coelhos e
reagirão complascentemente. E isto é tido como progresso no
desenvolvimento da cultura! Será isto cultura? Diz-se que cultura
requer “a renúncia dos instintos”. Portanto, essa multidão, ape­
sar de sua vantagem numérica, absteve-se de linchar aqueles
poucos policiais por causa da ‘renúncia dos instintos”; a fim de
qualificarem-se como civilizados, a fim de não darem vazão ao
instinto destrutivo de morte, a fim de sublimarem suas tendênci­
as, a fim de garantirem a civilização. Sim... mas... a polícia, os
“representantes da civilização”, fez fogo indiscriminadamente na
massa inofensiva.
Onde estava a sublimação das tendências “deles”? E os
juizes “objetivos” tinha, resolutamente, absolvido completos as­
sassinos! Estaria “isto” garantindo a cultura? Impossível! Em al­
gum lugar ocultava-se uma enorme decepção. Freud foi hipócri­
ta aí. Mas Freud era um homem honesto e íntegro. Por que seria
ele hipócrita? Ele sabia? Certamente que não. Mas, então, por­
que seus argumentos firmes e confiáveis no que tange à
moralidade cultural e à necessidade de repressão dos instintos?
Eu senti uma premência real e honesta de atacar os policiais e
simplesmente distribuir pancadas em todas as direções exata­
mente como eles tinham fuzilado cegamente a multidão. Só a
idéia de que eu o faria sozinho é que me conteve. Tive a estra­
nha sensação de que minha ação parecia ridícula mesmo para
aqueles que recém tinham sido alvejados. Minha mais forte rea­
ção foi: A própria massa maltratada não teria compreendido! Do
contrário, eles mesmo teriam reagido espontaneamente! Não
precisavam de que eu lhes desse o exemplo. Pensei que talvez a
covardia me estivesse influenciando e que um verdadeiro comu­
nista teria certamente saltado nas gargantas dos policiais em tal
circunstância. Entretanto, os líderes comunistas e os social de­

30
mocratas não eram vistos em lugar nenhum. Os últimos tinham
tentado em vão persuadir a multidão que se encontrava no
Palácio da Justiça para que deixassem apagar o incêndio. Senti
que quem estava incontestavelmente certo era a multidão e
não os seus líderes. Os juizes, que se supunha fossem defen­
sores e executantes da justiça, tinham pronunciado inocentes
a assassinos.
Encontrei, na Rua Alser, em frente à clínica da Universi­
dade, uma operária que recém tinha visitado seu filho no hospi­
tal. Ela estava gritando desesperada: “Onde estão os comunis­
tas? Eles deviam bater nesses policiais até fazer deles uma
pasta! Eles balearam meu filho”. Mas não havia comunistas por
perto. Um ou outro talvez estivesse por ali, mas não como “líde­
res de proletariado”. Somente no dia seguinte é que os comu­
nistas distribuíram panfletos. (OS: O “Comunista” aqui já apa­
rece como aquele que conserta a injustiça por simples procla­
mação. Fazendo isso, ele fisga o anseio popular por justiça, e o
povo se torna, então, fantoches otários para os fascistas ver­
melhos).
Após inúmeras reuniões ilegais, compreendi que em tais
ocasiões o partido tinha que “consolidar, dirigir as lutas como
um líder, e garantir os melhores resultados possíveis”. Em ses­
sões isoladas, a portas fechadas, os comunistas sonhavam com
revoltas das massas que levariam ao triunfo da revolução. En­
tão, a revolta contra as ofensas sociais tinham irrompido es­
pontaneamente. O panfleto chegara tarde demais por um dia.
Do mesmo modo, quando o Banco da Alemanha quebrou em
julho de 1931 e todos esperavam pelos comunistas, o panfleto
chegou a Berlim com oito dias de atraso, depois que o “mo­
mento” já tinha passado. O mesmo se deu quando A Rússia
veio em auxílio da Espanha com atraso de vários meses com:
Nós não sabíamos como mobilizar as massas”, “Estávamos
ainda muito fracos”, etc. No entanto, quando se está “ainda
muito fraco”, ou “não se sabe ainda como mobilizar as mas­
sas”, constitui um crime proclamar-se o “único líder do proleta-
riado”, quedar-se inofensivo em tais catástrofes, não fazer nada

31
em defesa das massas, e depois de tudo, continuar a agitar a
revolta com toda força, dependendo da ocasião - contra ou a
favor da greve, contra ou a favor da democracia burguesa, con­
tra ou a favor de um pacto com Hitler ou de uma guerra com a
Alemanha, contra ou a favor do controle da natalidade, a favor da
abolição da economia de mercado, e a favor de negociar petró­
leo com a Itália, na guerra da Abissínia - em resumo, não Ter
previdência nem convicção.
Eu não sabia de nada disso na época. Eu também espera­
va pelos comunistas. Não tinham eles realizado a revolução a
revolução russa? Eles cuidariam de tudo. Sem dúvida, eles esta­
vam ainda deliberando. No mesmo dia, consegui que um médico
comunista me registrasse no corpo médico do Arbeiterhilfe, um
dos afiliados do Partido Comunista Austríaco.
1952: O Arbeiterhilfe (ajuda dos trabalhadores) consistia
principalmente de pessoas que não eram membros do partido,
mas que simpatizavam abertamente com a revolução russa. Tanto
essa como a Rote Hilfe (Ajuda Vermelha) eram organizações si­
milares à Cruz Vermelha. No início da década de 1930, no entan­
to, houve muitos exemplos em que elas foram usadas para fins
políticos, sem o consentimento ou mesmo sem o conhecimento
de seus membros, que eram apolíticos. Meu posterior conflito
com a liderança do Partido Comunista Alemão sobre a Sexpol
Organization que eu construí foi caracterizado basicamente pelo
mesmo padrão. Sempre sustentei que as clínicas de higiene bu-
cal tinham que ser orientadas socialmente, mas serem
suprapolíticas. Entretanto, a liderança do Partido Comunista, a
serviço de Moscou, já estava profundamente comprometida com
a política do poder e tencionava distorcer os propósitos originais
para os quais essas organizações tinham sido fundadas. Dá-se o
mesmo hoje - em todos os lugares. Nesse conflito, que teve iní­
cio por volta de 1930, opus-me cabalmente aos políticos comu­
nistas que tinham começado obviamente a desenvolver e organi­
zar todas as correntes, as quais, alguns anos mais tarde (1934-
35) conduziram-nos ao Fascismo plenamente desenvolvido.
A consciência da aguda contradição entre a abordagem

32
fatual (social) e a política (de força) para os problemas huma­
nos jamais esteve ausente de novo de meu trabalho sociológi­
co. A abordagem fatual sustenta que as organizações sociais,
inclusive as econômicas, deviam ser determinadas pelas ne­
cessidades da população. Foi assim que interpretei a teoria
econômica Marxista. Entretanto, ficou claro em nossos primei­
ros conflitos que os ideólogos do partido tinham uma interpre­
tação totalmente diferente da economia Marxista. Para eles,
toda ação e pensamento tinham que ser orientadas para a “for­
ça produtiva”, isto é, para nada além de máquinas. É óbvio que
o ponto de vista industrial-mecanicista e o meu ponto de vista
funcional jamais podiam ser concordantes, desde que divergi­
am para direções opostas e mutuamente exclusivas do desen­
volvimento social. Hoje essas duas visões caracterizam dois
campos inimigos. Em 1927, tinha muito pouco conhecimento
disso tudo. Logo me dei conta de quão espinhoso é conseguir
discernir com profundidade entre uma sociedade determinada
pelas necessidades do povo e outra baseada em máquinas do
poder. A pobreza na Rússia e a marcante tendência para a
pobreza na Inglaterra Socialista são claras expressões da com­
pleta desatenção pelas necessidades humanas como base da
estrutura social.
Se somarmos à interpretação economística do marxismo
a confusão do estado com a sociedade e a má interpretação da
relação entre o indivíduo e a sociedade (que significava o esta­
do), começamos então a compreender a agonia em que o povo
foi ficando, involuntária e relutantemente. Podemos também
avaliar a importância do pensamento claro e da correta mani­
pulação das idéias científicas para o benefício da comunidade
humana. Sugeriria ao leitor que observasse todos os eventos à
medida que passam por nós nas páginas seguintes do ponto
de vista desta aguda contradição na abordagem da existência
humana.
Não desejava censurar nem criticar, mas simplesmente
ajudar da melhor maneira que podia. Quando ouvi de membros
do Schutzbund que Otto Bauer (líder do Partido Socialista Aus­

33
tríaco) tinha convocado representantes dos trabalhadores do gás
e da eletricidade para “fazerem o que quisessem” e tinha em
seguida ido embora abruptamente, senti profundamente a enor­
midade da situação. Entretanto, não abandonei o Partido Socia­
lista da Áustria. Decidi trabalhar socialmente como médico em
qualquer lugar onde pudesse. Quero enfatizar isto: eu era
apolítico, um trabalhador científico, um médico com uma prática
particular altamente bem sucedida e com pupilos americanos
muito saudáveis. Eu era um membro da burguesia.
O Palácio da Justiça queimou até os alicerces. Todas as
pessoas ponderadas compreenderam o motivo do incêndio. (OS:
foi uma verdadeira emoção das massa, uma genuína tentativa
para alcançar a justiça. Vinte anos depois, traidores e espiões
bem escondidos, manipulando tais emoções para liquidar com a
justiça em todos os lugares, permitiram aos fascistas vermelhos
o seu avanço. Mas por quê?)
O centro da cidade esvaziou-se gradualmente. Aproxima­
damente mil pessoas criticamente feridas estavam internadas nos
hospitais já superlotados. O conflito tinha sido responsável por
mais de uma centena de vítima, pois o Schutzbund dera-lhe as
costas. Ninguém podia Ter previsto o reverso, isto é, que em
1934 o Schutzbund sangraria até a morte e que as massas, sua
custódia atraiçoada em 1927, manter-se-ia ao largo.
Nos subúrbios, especialmente em Ottakring e em Hernals,
houve nova luta em 15 de julho Na noite daquele dia, minha es­
posa e eu caminhamos pelas ruas desoladas. A luta tinha esmo­
recido. Encontramos várias pessoas agitadas, mulheres em pran­
tos, e homens que perguntavam em desespero o que poderia
ser feito para evitar novos derramamentos de sangue. Não havia
ainda qualquer sinal do “único líder do proletariado”. Decidimos
visitar um amigo que morava nas vizinhanças: seu pai estava
numa organização social democrata e um de seus irmãos era até
funcionário social democrata. Ao chegarmos, ficamos surpresos
de ver a mesa da sala de jantar posta e decorada com flores;
esperavam visitas. Eu estava sem paletó e gravata. Os sangren­
tos acontecimentos pareciam não Ter penetrado naquele apo­

34
sento. No meu agitado estado mental, senti-me de repente des­
locado e ridículo naquela atmosfera fria e reservada. Desejei ir
embora, mas pediram-me que ficasse. Chegaram então os con­
vidados. Iniciou-se então uma conversa muito inteligente sobre
os acontecimentos do dia à moda verdadeiramente culta de
Viena. Era óbvio que ninguém sabia o que realmente se passa­
va. Falaram do rio de sangue como teriam normalmente falado
sobre Goeth. Despedimo-nos e demos o fora. Tínhamos sido
polidos. Teria desejado, pelo menos, Ter derrubado a mesa,
mas fui suficientemente educado para conter-me. Eu era um
assistente de renome no Hospital Policlínico e o superior des­
ses colegas social democratas.
0 1 6 de julho passou com conflitos no subúrbio nordeste
de Ottakring, mas somente grupos isolados se envolveram e a
multidão manteve-se à parte. Muitos foram mortos e vários sa­
íram feridos. A polícia, ou patrulhava as ruas com caminhões
de comando carregados de carabinas apontadas para cima, ou
rodavam brutal e autoconfiantemente pelas ruas laterais. Era
horrível. Na manhã do terceiro dia, bem cedo, os bondes co­
meçaram a circulare os jornais reassumiram as publicações. O
dia a dia de uma cidade grande parecia ter sido restaurado
como se nada tivesse acontecido. Entretanto, muita coisa acon­
teceu a partir daquele dia. Em 15 de julho, a Democracia Social
Austríaca reacendeu as forças de sua própria queda em 1934.
Ninguém tinha ciência disso; as pessoas simplesmente debati­
am e discutiam sobre as táticas e as estratégias da “batalha da
classe proletariada”. Embora não fosse verdade, os social de­
mocratas acusaram os comunistas de incitarem o povo a acen­
der o fogo que Seitz tentara extinguir. Esta discussão não ter­
minou até que ambos sucumbisse em 1933 e 1934. O partido
governante, liderado pelo padre católico Ignaz Seipel, e vários
representantes da sadia burguesia condenaram a “revolta”. Nin­
guém pronunciou ou escreveu uma única palavra de explica­
ção ou de pacificação a fim de que tais conflitos fossem evita­
dos para sempre. Os partidos políticos, que Socialistas Cristão,
Liberal ou Comunista, acusavam-se mutuamente, lidavam, ne­

35
gociavam e manipulavam politicamente, mas nenhum chegou a
atingir a raiz da questão. Chegas à raiz da questão requeria des-i
cobrir e declarar que a política, em si mesma, é inteiramente irra­
cional e u mal social. Isto exigiria dissolver todos os partidos po-;
líticos. Teria sido um sentido lamentar-se ou apelar para a consn
ciência dos políticos. A atitude deles era parte de sua disfunçãos
social. Pode-se ter reconhecimento por eles, ou alijá-los de sua'
função, mas lamentar-se de nada adianta.
Os sociais democratas negaram qualquer responsabilida-i
de pela revolta, embora sua organização tivesse participado do
massacre. Se se fizesse uma retrospectiva de sua liquidação
organizacional e, parcialmente, de sua liquidação pessoal pelos
monarquista em fevereiro de 1934, muitos dos problemas levan­
tados pela revolta de julho se tornariam bastante claros. Naquela
época, não conheci ninguém que pudesse ter discernido ou in­
terpretado tais problemas. É muito mais fácil reconhecê-los hoje
depois que a história já deu sua lição cruel. A percepção tardia é
fácil. Uma pessoa só altera a história quando reconhece imedia­
tamente os processos e os problemas que são obscuros para o
público em geral. As catástrofes sociais resultam da grande obs­
curidade e da intransponibilidade daquilo que se queria evitar.
Hoje em dia, as energias dos reformadores do mundo se exau­
rem na observação de que o que aconteceu “tinha” que aconte­
cer. Mas, para suplementar uma expressão de Marx, o importan­
te não é apenas observar o mundo, mas “mudá-lo” também! Nos­
sos políticos têm permanecido intérpretes e registradores, ou ainda
ladrões de estrada. Transformar radicalmente o mundo requer
honestidade, coragem, uma abordagem científica e previsão, tra­
ços de caráter que nenhum político possui.
Os verdadeiros problemas da revolta de julho foram:
Por que as massas de pessoas massacradas foram de tal
modo indefesas?*
Por que os filhos “reacionários” de trabalhadores e fazen­
deiros abateram trabalhadores e fazendeiros?
Tratava-se realmente de uma luta de trabalhadores contra
capitalistas naquelas ruas? Ou tratava-se de oprimidos contra

36
A classe média realmente vacilou entre as duas classes?
Por que, em face de sua própria situação econômica miserá­
vel ela não tomou espontânea e naturalmente o lado dos tra­
balhadores na indústria?

Era impossível propor tais questões naquela época. Isto


requeria a completa exposição do irracionalismo político, como
ocorreu nos quinze anos subseqüentes. Em contraste, o movi­
mento dos trabalhadores tinha somente os seguintes fatos:
A Democracia Social Austríaca era numericamente forte.
Após ganhar três mandatos na eleição de 24 de abril de 1927,
ela reunia 71 cadeiras como oposição às 85 do bloco do Parti­
do Socialista Cristão. Notemos que essas 85 cadeiras Socialis­
ta Cristãs e Nacionalistas Alemães não tinham sido eleitas pe­
los capitalistas, mas por muitas centenas de milhares de traba­
lhadores. Também no Parlamento, não era uma questão de
capitalista versus a classe trabalhadora, mas de representan­
tes de trabalhadores de inclinação socialista versus os de incli­
nação cristã, monarquista e nacionalista alemão. Estou consci­
ente que isto é um exemplo da claridade da percepção tardia.
O número de votos social democrata tinha crescido, mas
a força e a coragem declinado. Em 1926, quando a população
nacional era de 6 milhões, o Partido Socialista da Áustria rece­
beu 1.535.000 votos, contra 1.312.000 votos em 1923. E em
Viena, com uma população de 1,8 milhões, ele recebeu 694.000
votos em 1926, contra 571.000 em 1923. Quando a convenção
do partido em Linz declarou que nada poderia evitar uma toma­
da do poder uma vez que a maioria cabal fosse atingida, houve
muitos membros do partido que sentiam que no dia em que
51% fosse atingida seria um dia de uma catástrofe medonha,
porque, então, eles seriam compelidos a assumir o poder. Mas,
o que fazer do poder?
(Não existia qualquer tipo de ponte entre o que os socia-
Por que em 40 anos de miséria social, nâo surgiu do meio dos milhões de trabalha-
ores um único pensamento que fosse consistente e que calasse fundo? Por que
en uma ação, nenhum passo no sentido de uma vida pacífica?

37
listas prometiam - paz, fraternidade, “pão e liberdade”, um go­
verno socialista, etc., etc. - e a verdade, profundamente enraizada
na estrutura do caráter do povo que reproduzia diariamente suas
próprias misérias sobre as quais nada sabia e nada queria ouvir).
Minha opinião - contrária à de muitos políticos - é de que
não se tratava de timidez ou malícia pessoal que norteava a po­
lítica perigosamente irresoluta de Otto Bauer. Sinto que foi sua
completa insegurança sobre o que fazer com a massa após a
tomada o que repetidamente o tornava indeciso. A impotência
das pessoas era mais assustadora do que sua servilidade. Ainda
que tanto a impotência quanto a servilidade das massas huma­
nas não fossem reconhecidas nem sequer percebidas. Não sei
de Otto Bauer jamais as considerou. Tal seria sido uma “heresta”
contra as opiniões socialistas, até que questões absolutamente
necessária. Os numerosos e elevados argumentos políticos con­
tra e a favor da democracia obscurecia o problema central, isto é,
se os trabalhadores são capazes de construir uma sociedade
livre. Eles são capazes, certamente, de destruir as velhas insti­
tuições sociais autoritárias, como ficou demonstrado pela revolu­
ção russa.* A bem sucedida propaganda das organizações rea­
cionárias baseava-se em objetar que não se pode destruir o ve­
lho a menos que se seja capaz de substituí-lo pelo novo. Não
havia resposta para isso, nem havia experiência histórica rele­
vante - nem mesmo na Rússia soviética.
Em geral, temia-se romper com a regra do povo. Poucas
pessoas admitiam isso abertamente: muitos o encobriam com
slogans políticos. Ninguém estava familiarizado com a profundi­
dade abismai do problema da estrutura de caráter humano.
Encontrávamo-nos muito distantes da dimensão organizacional
teórica ou prática para resolver tal problema. A presteza das
massas para a liberdade era considerada como óbvia. Não se
podia duvidar dela sem ser taxado de reacionário. (Como se
demonstrou mais tarde, existia um medo definido da natureza

* Hoje, os socialistas e os comunistas não conseguiram provar serem capazes de cons­


truir uma sociedade nova e livre. Não conseguiram sequer estabelecer este simples fato
como primeiro passo para o progresso.

38
basicamente conservadora das massas, que ninguém ousava
enfrentar.* Enfrentá-lo teria minado toda a base da propagan­
da política que, segundo o método Coué, empregava fantasias
de uma sociedade futura ideal e ilusões de liberdade humana.
Eu como muitos outros, passei por essa fase. Era-se socialista
por inclinação, mas rejeitava-se, especialmente em áreas vi­
tais, os fundamentos de um desenvolvimento livre. Teria pare­
cido insensato falar da incapacidade do povo para a liberdade
e do a seu medo da liberdade como foi feito mais tarde, em
1935.
Em 1927, não havia base sobre a qual se pudesse fazer
uma avaliação fatual da atitude conservadora dos líderes de­
mocratas e do povo em cada passo da vida. Tal somente se
tornou possível depois que o colapso dos movimentos demo­
cráticos austríacos e ale mão levantaram a questão da incapa­
cidade do povo para a liberdade. De início, é mais fácil para os
políticos reacionários lidar com o povo, porque eles não tentam
resolver os problemas sociais básicos. A ação deles é determi­
nada por sentimentos nacionalista e seu sucesso baseado na
total indiferença e na negação das necessidades vitais das clas­
ses trabalhadores. Os movimentos pela liberdade, por outro
lado, sejam Socialismo, Comunismo, Liberalismo, ou qualquer
outro, tem uma tarefa imensamente difícil; o número de ques­
tões e problemas a serem resolvidos são ilimitados. Os socia­
listas e os comunistas certamente conhecem as leis da econo­
mia capitalista e os esquemas de uma “sociedade socialista”
tais como foram concebidos pelos pioneiros socialistas. Os de­
mocratas de outras convicções acreditavam na possibilidade
de reformas graduais e pacíficas, sem levarem em considera­
ção a atividade dos reacionários políticos. Cada lapso no corpo
de doutrina socialista constituía uma vantagem para os reacio­
nários. O liberalismo hesitante e indiferente da facção demo-
crático-burguesa no que se refere às lutas por liberdade e seu
liberalismo freqüentemente menos hesitante para os reacioná­
rios pavimentaram o caminho para a catástrofe iminente.* Para
Ainda é assim nos dias de hoje, 1952.

39
todas as organizações democráticas, o reconhecimento da ansi­
edade e da incapacidade humanas com respeito à liberdade per­
deria em importância somente para a direção das tarefas diárias
e para o controle dos processos sociais internacionais. Durante
sete anos (1927-34) combati no meio do movimento dos trabai
lhadores e em organizações liberais a fim de avaliar o papel das
pessoas no processo social e para determinar como manipular
suas visões subjetivas e suas ações de modo correto. Tratava-se
de esclarecer o papel que os fenômenos biofísicos desempe­
nham no desenvolvimento da sociedade e de compreender os
processos fundamentais da vida acima e além de suas bases
econômicas. Não havia qualquer informação disponível que ti­
vesse sido de uso prático. Neste ponto, todo mundo percebia um
vazio que ninguém era capaz de preencher. Todas as facções
levantaram argumentos em oposição às tendências libertadoras,
e cada qual estava correto em alguns respeitos: os conservado­
res querendo planos concretos e temendo o caos social; os soci­
al democratas em sua crença de que a revolução social exigida
pelos comunistas era uma impossibilidade; os comunistas em
sua afirmação de que a política social democrata constituía uma
“traição” da causa da liberdade e que se constituía num prolon­
gamento da posição política reacionária e conduziria finalmente
à ruína. Por outro lado, os socialistas cristãos não conseguiam
manter uma única promessa da campanha, os social-democra-
tas estavam levando o povo à destruição e os comunistas esta­
vam certos na teoria (que é muito fácil), mas não na prática. Em
1927, eles atuaram como uma espécie de consciência alertadora.
Dez anos mais tarde, em Espanha e na França, adotaram a mes­
ma prática que tinham, acusaram os social-democratas de usar
em 1927 na Alemanha e na Áustria. E entre 1926 e 1942, escor­
regaram no pacto que fizeram com Hitler e mais tarde caíram em
confusão e traíram seus pontos de vista. Eles guerrearam contra
Hitler na Rússia como uma nação autoritária e ditadora, não como
quem possui a solução para as contradições que estavam cau­

* O mesmo fenômeno surgiu na Segunda Grande Guerra, 1936-44, na atitude das demo­
cracias inglesa e americana.

40
sa n d oo caos mundial.
A base de todos os erros cometidos por todos os partidos
e de todas as catástrofes que eles causaram - não importa
quão bem intencionados ou honestos possam ter sido - foi a
confusão ideológica da classe trabalhadora, sua exclusão do
controle prático do processo de trabalho, e sua incapacidade
para a liberdade, que não foi reconhecido na ocasião devido ao
medo que os partidos sentiam pelo povo. O ponto de partida
deles não era a vida nem o sofrimento do povo, mas uma “ide­
ologia praticada no interesse do povo” e usada para sua lava­
gem cerebral. Os bizarros e mesmos ridículos debates no Par­
lamento que seguiram à revolta de julho em 1927, só podem
ser avaliados e compreendidos a partir de tal perspectiva. Cita­
rei apenas alguns exemplos. Uma crônica sistemática desses
eventos não é nossa intenção aqui.
As táticas dos governos democratas burgueses eram as
mesmas em qualquer lugar; elas eram inflexíveis e implacavel­
mente contrárias aos partidos socialistas. Eles tiraram grande
vantagem dos sérios hiatos na visão do mundo socialista que
revelavam a fraqueza e a falta de princípio político dos socialis­
ta, assim como os sentimentos de culpa de seus líderes. Eles
não perdiam nenhuma oportunidade de aumentar a inseguran­
ça dos socialistas ou apelar para sua consciência política bur­
guesa. O prelado católico e Chanceler Federal socialista cris­
tão Ignaz Seiperl, um homem inteligente, duro e versado em
psicologia, reconheceu imediatamente a fraqueza dos socialis­
ta. Ele apoiou a absolvição dos matadores no julgamento de
Schattendorf. Disse que os jurados não tiveram outra alternati­
va, depois da campanha da imprensa pelos socialistas. Eles
tiveram que encarar a matança como um “caso político” e não
um ato particular. Foi uma atitude astuta; os social-democratas
tinham pintado o tiroteio como um ato individual de matadores
e tinbam apelado para a consciência do governo. Entretanto,
esse governo não considerava questões de consciência, mas
somente os interesses econômicos da grande indústria, dos
latifundiários e da Igreja, e isto eles não negavam. Os social-

41
democratas ficaram embaraçados de vez que os tumultos reco
nheceram corretamente o caráter político da questão. A partir daí
trataram primeiramente de traçar uma linha acentuada entre eles
mesmos e a revolta. Em seu discurso de réplica diante da As
sembléia Nacional, em 26 de julho de 1927, Otto Bauer disse
que, considerando os incidentes, era uma questão moral para
todo mundo examinar, em primeiro lugar, sua própria consciên
cia. “Não tenho aqui a intenção de proferir qualquer palavra de
acusação antes de confessar abertamente qualquer falta de nos
sa arte, que possam ser reveladas por um exame de nossas cons
ciências”. Em seguida continuou, expondo ingenuamente o medo
que os social-democratas sentem de seu próprio apoio popular
e disse que o partido devia ter promovido uma demonstração
“com toda segurança possível, de modo que a ordem não fosse
perturbada”. Isto teria dado à demonstração “um cunho político
e justificado. Bauer deplorou a conduta dos socialistas cristãos
“Atirar está na moda hoje em dia, e atirar nos cidadãos parece
despertar sentimentos de gratidão”.
Bauer tentou mexer emocionalmente com os membros do
partido governista. Disse que compreendia quando os guardas
atiraram em autodefesa, as que a maioria dos incidentes tinhál
sido causada por um método desumano de limpar as ruas. Por
que Bauer, um homem forte, com milhares escutando-o, não blo­
queou as ruas imediatamente? O exército e a força policial ainda
eram predominantemente social-democratas. Eles não teriam
aberto fogo se a organização irmão, o Schutzbund, não se tives­
se retraído. Bauer não tinha sido confrontado com a questão de
tomar o poder, mas apenas com a tarefa de atingir uma meta
realista de evitar um massacre, apoia do por sua própria força
autêntica. Ele não teria que implorar no Parlamento se tivesse
usado racionalmente sua força em Viena para manter a paz. Pof
causa de sua insegurança com o povo e com o governo socialis­
ta cristão, ele tentou evitar uma guerra civil a qualquer custo. A
guerra civil ocorreu, não obstante, e Bauer foi incapaz de evitá-la
em 27 ou em 1934: ele apenas a perdeu.
O povo vai onde ele vê força, coragem e determinação

42
Onde eles se sentem seguros. Toda ação clara e decisiva au­
menta a confiança do povo e a coragem de sua organização. É
melhor liderar uma guerra civil “com” o povo do que comandar
a política contra ele. (Considerem as decisões de Lincoln na
Guerra Civil Americana).
Bauer exigiu um posicionamento do governo a favor dos
socialistas presos e sacrificou uma luta geral por ele. No entan­
to, o governo não deu nenhuma explicação, ‘nós’ fizemos o
sacrifício, eu permanecerei fiel ao que eu fiz, eu aconselhei
meus amigos a lutarem e me orgulho disso. O início do movi­
mento foi algo que tem, necessariamente, que despertar as
reservas de todo mundo, que tenha consciência, mas sua con­
clusão foi um triunfo da organização e da disciplina". Mas só
até 1934! Bauer apelou para a razão do governo socialista cris­
tão e para sua visão de estadista. “Tenham-me de volta, senão
terei que atirar contra minha vontade”. Era assim que Bauer
funcionava. Finalmente, em 1934, ele teve que “atirar” muito
tempo depois que a guerra tinha sido perdida. Mas Bauer não
podia Ter agido de outra maneira. Ele realmente não sabia o
que fazer. (OS: O apaziguamento é sempre a expressão da
falta de conhecimento sobre como agir) Ele teria certamente
levado a cabo corajosamente visto o problema em sua totalida­
de. Mais tarde, ele provou que, pessoalmente, não era um co­
varde.
Ele fez as exigências certas, mas elas nem sempre podi­
am ser satisfeitas. Em 1927, não havia ninguém com compe­
tência bastante para dizer como Otto Bauer devia Ter conduzi­
do a situação. A maioria das pessoas sabia ou sentia que sua
ações estavam erradas; alguns até pensaram que ele estives­
se lançando os fundamentos para uma catástrofe. Mas, teriam
esses críticos feito melhor em seu lugar? Eu digo que não! Nin-
9uém tinha tal habilidade. Há fases no desenvolvimento social
de um movimento que correspondem às demandas das urgen­
tes forças da vida. Também há fases que correspondem so­
mente parcialmente a tais demandas e nas quais já podem
Perceber os erros sem que seja capaz de evitá-los. É possível

43
explicar quais são os erros que conduzem a resultados negati­
vos, mas não como o processo desenvolvimental poderia ser
desviado para a direção positiva. Em tais fases, um líder respon­
sável ( diz-se que mil cabeças pensam melhor do que uma;
infortunamente, elas freqüentemente vêem e sabem muito me­
nos do que uma só), deve ser capaz de: (1) ver que fizeram-se
erros, (2) procurar as possíveis conseqüências negativas, (3) tor­
nar o movimento ciente de ambos, e (4) mobilizar todas as forças
dentro do movimento que sejam capazes de trabalhar jutas para
modificar a tendência.
Estes são apenas os pré-requisitos indispensáveis para
evitar uma catástrofe iminente. Eles não a evitam por si mesmo,
mas apenas preparam o terreno para futuras possibilidade. Quan­
do os fatos reais conduzem ao sucesso e ao fracasso, a percep­
ção e a compreensão são aguçadas. Somente no transcurso da
batalha para o novo é que forjam suas armas mais importantes..
No início, só são operativas num anseio de liberdade (destituído
de força) e uma teoria a cerca do objetivo (também destituída de
força). Eles não ganham força sobre as pessoas e,
consequentemente, sobre a realidade, até que estejam em har­
monia com o desenvolvimento histórico, e somente na medida
em que solucionam os problemas da existência humana, passo
a passo, e se autocorrigem em relação à realidade.
Ninguém ou nenhum movimento pode antecipar, controlar
ou conduzir com sucesso todos os problemas que o futuro levan­
tará. Além do mais, o espírito da oposição também está conspi­
rando ativamente e sua astúcia cresce na proporção direta do
número de anseios por liberdade. As vezes, o movimento é sacu­
dido por uma catástrofe. Aconteceu com os socialistas russos
em 1905 quando sua revolta foi esmagada. Entretanto, um fra­
casso de tal natureza, trágico como possa ser, é ainda próprio do
caminho para o sucesso, se não se cometerem erros clamorosos
por precipitação. A inabilidade para entender e para resolver de
imediato todas as coisas, não pode ser considerada um erro. No
entanto, constitui erro imperdoável não se dar conta disso e im­
pedir, às vezes até punido, as iniciativas para suprir esses hiatos.

44
No seu transcurso, nenhum movimento consegue escapar das
conseqüências dessa maneira inferior de operação. Se se está
preparado para as conseqüências do conhecimento incomple­
to, em outras palavras, para o possível sucesso do oponente,
um revés, então, não significa necessariamente um fracasso
completo. O movimento dos trabalhadores alemães e austría­
cos provocou sua própria queda recusando-se a reconhecer os
hiatos no seu corpo de conhecimento, sendo arrogante quanto
aos sucessos atingidos, deixando os pioneiros do movimento
no ostracismo, subestimando a oposição e, espiritual e fisica­
mente, minando o povo que o apoiava. Contudo, ainda que tais
erros e ações autodestrutivas não sejam uma expressão de
malícia ou covardia, elas estavam profundamente enraizadas.
O vazio a ser preenchido requeria um conhecimento e uma
ação contrárias à toda a estrutura do socialismo tal como se
encontrava em 1934 e à ideologia total como era mantida
organizacionalmente até então. Todo conceito de Socialismo,
enquanto em relação à transformação do homem, não raro fal­
so basicamente, estava incorreto, e era, muito freqüentemente
anti-socialista. Explicar e provar isso, era ainda que em poucas
palavras, preencheria centenas de páginas. Há coisas demais
para serem esclarecidas.
Quando um movimento que possui um objetivo específi­
co, uma ideologia circunscrita, contradiz-se na essência, ele
será esmagado pelo oponente. Ele se esmaga a si mesmo, por
assim dizer, porque rejeita seu próprio objetivo, que é então
tomado por outras forças sociais. Quando os objetivos de um
movimento são amplos, mas perdem em claridade, enquanto
que a vontade coletiva por um objetivo comum é indomável,
então a sociedade como um todo fica ameaçada de ruína. Tal
situação materializou-se com a vitória do Fascismo em 1933.
Embora trinta e cinco milhões de alemães desejassem o Soci­
alismo naquele ano, Hitler foi o vitorioso, por grotesco que pos­
sa soar, com suas táticas reacionárias e limitadas, mas corajo­
sas e astutas. O anseio socialista de uma população de seten­
ta milhões de pessoas viveu sob o espectro do barbarismo,

45
truques indignos e da guerra como o centro de suas vidas. Nin­
guém foi capaz de compreender isto, de percebê-lo a tempo e de
evitá-lo. O movimento dos trabalhadores entrou em colapso por­
que não compreendeu o milenar problema que o movimento fas­
cista tinha trazido à luz. Tratava-se de um problema básico da
sociedade humana, e aí - mas somente aí - o Fascismo alemão
era progressista. Estou convencido de que a questão que ele
levantou não será resolvida pelo Fascismo, mas sim pelo avan­
çar agressivo da ciência. Tratava-se da questão do papel dos
seres humanos no processo técnico evolucionário da sociedade,
um problema mal entendido e até maltratado. O trabalho de uma
vida de inúmeros talentos seculares, o sacrifício de milhões de
pessoas e todo o sofrimento de milhares de anos da história hu­
mana seriam necessários para formulá-lo, para percebê-lo e para
atingir os primórdios de uma solução.
Para introduzir a exposição desse problema, devo retroce­
der a Otto Bauer e aos mal tratos que ele recebeu de seus opo­
nentes em 1917.
Bauer tinha clareado sua consciência antes da oposição.
Ele, então apelou para a razão, para o “julgamento" do governo.
Tinha que tentar, disse, “para sossegar o povo agitado com um
gesto indicativo de que isto não pode continuar e de que o gover­
no não deseja que se entreguem ao ódio cego”. Que medo da
indignação do povo! Certamente, Bauer sentia a complexidade
da estrutura humana. Ele só não sabia que tal estrutura tinha
sido criada pelos opressores. Ele acreditava na sua natureza bi­
ológica, isto é, imutável, desde que Freud, o maior psicólogo do
século, provara cientificamente que existiam tendências
destrutivas biologicamente imutáveis no homem. Desencadear
essas tendências conduziria, inquestionavelmente, ao caos. Os
oponentes socialistas cristãos de Bauer, entretanto, não esta-,
vam teorizando sobre tendências destrutivas, introvertidas ou
extrovertidas. Nem estavam considerando encarregarem-se com
o problema de como “tornar boa a pessoa ruim". Sua máxima
era: As feras devem ser enjauladas; não se ocupe delas; ponha-
as a ferros. Hitler foi o produto final dessa atitude. (OS: Os soci­

46
alistas e os comunistas também não têm resposta nem nada
para oferecer, exceto novamente, a força bruta contra o povo,
como usaram os fascistas vermelhos na Rússia).
Depois de Bauer, falou Kunschak, o líder do partido go-
vernista socialista cristão. Ele recusou uma investigação. Ele
não estava interessado em saber se os agentes de polícia ti­
nham abusado da autoridade, mas tão somente em saber que
fora o responsável pela tragédia. “Os socialistas cristãos trans­
mitirão sua gratidão ao Chanceler”.
O Vice-Chanceler socialista cristão, Harteb, declarou as­
sumir total responsabilidade pela intervenção da polícia. Gürtler,
dos socialistas cristãos, respondeu a Bauer: “Nós lhe concede­
ríamos alegremente este sucesso moral ( a pacificação e a dis­
tração do povo), mas simplesmente não podemos passar por
cima do fato de que o senhor não se encontrava mais em posi­
ção de lográ-lo. Uma revolução é uma calamidade, tanto para o
senhor como para nós".(Quão verdadeiro!) E Otto Bauer, o ini-
ciador do programa revolucionário em Linz, teve que ouvir a
isto sem poder dar uma resposta. Gürtler estava certo. Uma
revolução popular teria sido um desastre para Bauer e seu par­
tido, que não teria sabido como conduzi-la. O povo teria sabi­
do? Ou os comunistas? Esperemos por uma resposta.
O socialista cristão Aigner reconheceu as profundas emo­
ções de Bauer como “honestas e sinceras”. “Entretanto”, disse,
“durante seu discurso, tive a impressão de que aqui estava o
homem responsável daquele partido que durante anos condu­
ziu essas vítimas infelizes diante das armas do poder executivo
do estado através da agitação incontida da imprensa e da pala­
vra escrita”. Grailer acentuou, “no futuro, quando levantar os
braços para a greve, podem esperar pelo pesado golpe que
cairá sobre vocês”.
Quão medonhamente certos estavam esses reacionári­
os em sua análise final! Como podiam eles serem tão harmôni­
cos em sua opinião quando não tinham nada absolutamente
Para oferecer às massas humanas, sejam seus apoiadores,
sejam seus oponentes?

47
Que teria a dizer sobre isso o Partido Comunista da Áustria
que, em função de suas convicções se considerava o verdadeiro
“líder dos trabalhadores”? (OS: O que teriam a oferecer os políti­
cos da “liberdade”? WR, naquela época, estava completamente
envolvido nesses problemas, mas ele estava longe de saber que
nenhum político tinha nada, fosse o que fosse, para oferecer, e
que os acontecimentos de 1927 foram somente um elo na cor­
rente do assassinato massivo que ocorreu nas décadas seguin­
tes).
A massa dos trabalhadores manuais pertenciam às organi­
zações não-comunistas, socialistas cristãos e social-democratas,
organizações de trabalhadores. Em todas as ocasiões possíveis,
os comunistas exigiam o armamento dos trabalhadores, a disso­
lução das organizações antagonistas, greve geral, etc. etc. Quan­
do os trabalhadores se envolviam com lutas de verdade, os co­
munistas ou chegavam tarde demais (Espanha, julho de 1936),
ou não tinham qualquer contato nem com a liderança nem com
as pessoas do movimento (Áustria, fevereiro de 1934), ou freava
o movimento popular (Alemanha, outubro de 1933). Entretanto,
eles sempre reivindicavam a liderança por causa de suas “con­
vicções”.
Isto nos traz a seguinte indagação: por que, supondo que
seu programa seja válido, o movimento comunista não tem con­
tato com o movimento popular? A resposta não será encontrada
em qualquer dos escritos polêmicos, mas na evidência de que,
após 1918, o povo tem um conceito do socialismo diferente do
conceito do socialismo diferente do conceito comunista, que seus
desejos estão cheios de contradições e, finalmente, que embora
os comunistas conhecessem, teoricamente, os princípios da eco­
nomia socialista, (os quais abandonaram mais tarde), eles ja­
mais tiveram menor idéia de qual fosse a vida real do povo.
Os comunistas tinham encorajado, durante anos, o que fi­
nalmente ocorreu espontaneamente mo 15 de julho. Na noite de
14 de julho, eles convocaram uma reunião dos seus represen­
tantes de fábricas, mais ou menos oitenta pessoas, “os quais
disseram que estavam fazendo uma tentativa para afastar os tra­

48
balhadores de seus locais de trabalho, mas não estavam con­
vencidos de que seus esforços seriam bem sucedidos. Se con­
seguissem persuadir os trabalhadores a saírem, haveria uma
manifestação tranqüila. (“Viena está vermelha - com o sangue
dos trabalhadores”. - Carta a Imprekkorr, 19 de julho de 1927).
Eles “analisaram” as causas do movimento espontâneo
com todos os subtítulos mais recentes de seu método “Marxis-
ta-Leninista”, o único adequado para a liderança. Em um pan­
fleto anônimo lançado pela Associação de Editoras Internacio­
nais, Berlim, 1929, eles chegaram a certas conclusões. As cau­
sas da revolta de julho foram atribuídas a:

1. As táticas de evasão e persuasão social democratas para


a burguesia. (Isto significaria que os trabalhadores social de­
mocratas se levantariam em 15 de julho de 1927 porque se
enfureceram contra seus hesitantes líderes, os mesmos que,
subseqüentemente acompanharam por um período completo
de sete anos, até 34).
2. O hábito austro-marxista de “acompanhar todos os com­
promissos com os gestos e discursos radicais..."Porfavor, note
com todo cuidado: Os trabalhadores foram para as ruas por
causa da linguagem radical utilizada pelos social democratas.
As pessoas do governo socialista cristão fizeram o mesmo.
3. A “pobre situação econômica do povo trabalhador”. Na
Áustria, a economia estava crescendo em 1927 - e duas tragé­
dias tinham mobilizado os trabalhadores. Em 1932, havia ne­
cessidades calamitosas e crise; havia contínuos assassinatos
por todos os lados - e nem um único trabalhador foi para as
ruas. O caso era mais complicado do que o “único líder do pro­
letariado” havia indicado em suas premissas.
4- "A razão principal para esta súbida erupção é a falta de
um partido popular revolucionário com uma liderança revoluci­
onária reconhecida pelo povo”. Por favor, leia esta frase cuida­
dosamente várias vezes: A razão principal para “a revolta” foi a
alta de um partido popular revolucionário. Se, entretanto, tal
Partido tivesse existido, não teria ocorrido qualquer revolta. Entre

49
1930 e 1933, com a subida de Hitler ao poder havia um partidc
popular revolucionário. Naquela ocasião não ocorreu qualquei
revolta repentina. A afirmativa, assim, parece correta, mas elsi
não passa de uma tolice desconcertante, uma expressão da com*
pleta perda de direção factual e teórica de parte dos sucessores!
de Lenin. Onde estavam as unidades treinadas pelos russos so­
viéticos na ‘estratégia e táticas de lutas de classes?” E por que o
povo, que desejava uma revolução, não queria reconhecer está
liderança, quer na ocasião, quer posteriormente? (OS: Porque
os fascistas vermelhos tiveram que matar e “roubar” a ascensão
ao poder, mesmo após a Segunda Guerra Mundial?) Por que
então, todas as exigências por uma greve geral e pelas nomea-*
ções de representantes de fábrica tais como nas demonstrações
do “Heimwehr “em Pottendorf? Por que, então as proclamações’
do tipo Coué e as agitações por uma greve geral? Não tenho a
intenção de recapitular a história do movimento comunista. Ten­
tei apenas indicar o nível em que operava a política e a ideologia
em que estava colocada a luta pelo reconhecimento da psicolo­
gia de massa.

No final do mês de julho de 1927, tive uma discussão com


Freud no Semmering. Pareceu-me que ele perdera toda compre­
ensão da revolta e que a via como uma catástrofe similar às marés.
Gostaria de enfatizar que, outros que não a erupção de raiva do
povo a cerca do injusto veredito em Shattendorf, não teve res­
posta, quer nos círculos intelectuais quer nos políticos, que lan­
çasse uma luz sobre os fatos. Tanto antes quanto depois de 15
de julho, não houve qualquer inclinação na classe trabalhadora
para situar a revolta num contexto social inteligível. A reação de­
les para o veredito de Shattendorf foi o incênio do Palácio da
Justiça em Viena, pelo que pagaram com minhares de mortos e
feridos. Absolutamente, não houve resposta para o abuso muito
mais sério e perigoso de seus direitos civis pelas forças políticas
reacionárias nos anos seguintes até a queda de suas organiza­
ções em fevereiro de 34. (Esse é um bom exemplo do
irracionalismo psicológico da massa).

50
Èu teria dado rédeas livres a meus pensamentos se sou­
besse as respostas para muitas das questões que corriam pela
minha mente incessantemente. Para ter certeza, todo mundo
falava de tudo ao acaso. Ouvindo essas conversas, o senti­
mento da insensates da política, pela primeira vez, deve ter
tomado posse de minha mente. Jamais tivera qualquer relacio­
namento na política para a vida real dos seres vivos, mas o
trabalho clínico me convenceu de que é necessário ter-se ex­
perimentado uma coisa para julgá-la corretamente, Assim, dei
início a uma atividade prática político-sociológica.

51
3
A FORÇA PRODUTIVA VIVA,
“FORÇA-TRABALHO”, de Karl Marx

Um comentários sucinto para evitar qualquer possível mal


entendido. Retratei as figuras dos capitalistas e dos latifundiários
em cores brilhantes. No presente contexto, entretanto, tais indiví­
duos só aparecem em referência na medida em que personifi­
cam categorias econômicas ou propugnam por certos interesses
ou condições classistas. Visualizo o desenvolvimento de uma
forma de sociedade baseada na economia como um processo
histórico natural, e minha teoria considera o indivíduo menos res­
ponsável por condições prevalecentes do que qualquer outra
coisa. O homem será sempre o produto de seu ambiente social,
não importando qual acima ele possa estar dele em um sentido
subjetivo.
Karl Marx, Capital, prefácio da primeira edição (1867).

PREÂMBULO

O presente artigo foi escrito em 1936, quando as ilusões


sociológicas na União Soviética assumiam o caráter de estatutos
constitucionais (“Introdução da Democracia Soviética”). O artigo
não foi publicado na ocasião. Há duas razões para sua publica­
ção agora.

1. Científica, isto é, realista, o pensar é mais necessário


que o nunca nessa miserável sociedade humana. O conflito ar-

52
mado não modificará um único jota da miséria. Embora o fas­
cismo alemão tenha sido derrotado pela força militar, a estrutu­
ra humana fascista continua a prosperar na Alemanha, na
Rússia, na América e em toda parte. Ela se desenvolverá sub-
terraneamente, buscando novas formas de organização políti­
ca, e fatalmente conduzirá a uma nova catástrofe, a menos
que grupos responsáveis em todo o mundo decidam rápida e
energicamente proteger e fazer avançar a verdade. Somente
as mentiras políticas são protegidas e incentivas hoje em dia.
Pode-se fazer tal previsão com toda garantia.
Do ponto de vista científico, que é a única perspectiva
possível, a explicação seguinte é absolutamente permissível.
Karl Marx descobriu fatos vitais que têm conseqüências sociais
de longo alcance, mas a realização de tais conseqüências é
possível porque o conhecimento e a técnica não são ainda ade­
quados para produzirem uma transformação suficientemente
rápida na estrutura emocional humana. Não pode haver obje­
ção a tal ponto de vista, que contém esperança para o futuro.
Pode-se aplaudi-lo ou condená-lo. É uma questão de escolha.
Mas não se pode, sob qualquer circunstância, se se leva em
conta a decência, referir-se a Marx e em seguida distorcer seus
achados científicos com fins de manobras políticas. É impossí­
vel distorcer uma verdade estabelecida sem se tornar, mais cedo
ou mais tarde cúmplice do Fascismo, que é perito em falácias.
Mesmo que seja impossível mudar a situação humana para
que corresponda com as verdadeiras assertivas científicas, a
miséria da vida quotidiana não nos pode tentar, sob quaisquer
circunstâncias, a também esmagar a única esperança da hu­
manidade, a verdade.
(A praga emocional afetou a teoria de valores de Marx da
seguinte maneira: na tentativa de fazer surgirem as emoções
do povo e para conquistá-las, os políticos do partido se esque­
ceram da explicação sem emoções dos valores do trabalho-
f°rça. Eles atribuíram ao conceito factual de “valor extra” senti­
mentos de ressentimento, ódio, inveja, e a necessidade de en­
golir os valores extras. Assim, os promissórios e frutificantes

53
achados de Marx perderam-se num monte de emoções irracio»
nais que não apenas não levaram a nenhuma conquista prática
mas trouxeram a ruína para o movimento dos trabalhadores como
um todo.
Na verdade, a praga emocional é capaz de conquistar o
povo, conquistar nações e destruir populações, mas é incapaz
de fornecer um único meio para melhorar a miséria econômica.
Verdadeiramente, a praga emocional pode destroçar, queimai*
ou destruir milhões de árvores. Mas não pode haver qualquer
ditadura que faça a árvore crescer; ninguém pode determinar a
uma árvore quanto e quão rápido ela deve crescer. Por outro
lado, a pesquisa científica sobre as leis do crescimento das árvo­
res pode fornecer os meios para evitar danos às árvores, para
descrever as condições sob as quais as árvores crescem melhor
e mais rapidamente. A descoberta do fato científico corresponde
à vitória sobre os obstáculos no caminho desenvolvimental da
vida.
Este exemplo mostra claramente a função biológica da ci­
ência natural em contraste com a função destrutiva de toda ma­
nifestação da praga emocional. O que grupos políticos na Euro­
pa e na América combatem como sendo “Marxismo” não tem:
nada a ver com os ensinamentos econômicos de Marx. Do mes­
mo modo, os vários partidos “Marxistas” de hoje não têm nada
em comum com a ciência de Marx.
Há dez ou mais anos atrás, era-se severamente reprimido
se se tentasse alterar uma única linha dos escritos de Karl Marx
e era-se lançado ao ostracismo por declarar cientificamente que
a economia Marxista tinha grande necessidade de ser
suplementada por uma psicologia de massa científica. Todavia, o
Marxismo foi “revisado” recentemente na União Soviética. Eco­
nomistas oficiais do estado “descobriram” que Marx esta incorre­
to ao declarar que, no Socialismo, nenhum valor extra seria pro­
duzido e acumulado, que isto seria uma especialidade do capita­
lismo.
Aqui está a distorção: Em lugar nenhum da teoria econômi­
ca de Marx existe qualquer menção de que, no Socialismo, a

54
orodução de valores extras deixaria de existir. Tal “revisão” não
tem sentido; na verdade, é idiotice, porque o que se está corri­
gindo nunca foi proposto.
O problema básico de Karl Marx não era se os valores extras
são ou não produzidos no Socialismo. O problema envolve a
natureza do valor extra e sua origem, e a questão de quem o
manipula. O valor extra é produzido por causa do caráter parti­
cular da força produtiva viva. A diferença fundamental entre a
força produtiva viva e a morta forma o cerne da teoria econômi­
ca de Marx.
A determinação da natureza da força produtiva viva e,
através dela, da origem do valor extra, conduz, então à ques­
tão sociológica de quem adquire o valor extra. Ele é sempre
toado pelos detentores dos meios sociais de produção: no ca­
pitalismo privado, pelos capitalistas individual; no capitalismo
de estado, pelo estado; e na democracia do trabalho livre,* pela
sociedade dos trabalhadores sociedade dos trabalhadores (tal
como é visto historicamente nas sociedades primitivas e
prefigurado por Karl Marx na sociedade genuinamente demo­
crática no futuro).
A pessoa pode formar sua própria opinião dessa assertiva,
aceitáOla entusiasticamente ou detestá-la e rejeitá-la, mas não
pode distorcê-la. Modificar o problema da produção do valor
extra de sua natureza, origem e apropriação para a questão de
“se ele existe” é uma distorção ilegítima das descobertas cien­
tíficas. As correções que se seguem não têm absolutamente
nada a ver com os sentimentos políticos, mas somente com um
interesse vital em proteger o corpo do conhecimento científico.
Em nossos dias, não é supérfluo enfatizar que as questões ci­
entíficas como essas não são para serem descartadas por meio
de fuzilamento, que é o instrumento mais moderno para resol­
ver querelas humanas.

A democracia do trabalho é baseada essencialmente em dois fatos:


jO Um trabalhador é aquele que executa um trabalho socialmente necessário;
b) A responsabilidade social repousa na sociedade dos trabalhadores, e não no indivi-
duo Privado ou nos funcionários públicos.

55
2. A Segunda razão para a publicação deste artigo no m
mento é a consonância da análise de Marx da força produtiva
viva no valor extra com a investigação físico-orgonótica da ativi
dade biológica do animal humano. Desde aproximadamente 1928
a economia sexual tem estado ciente do fato de que a força proi-
dutiva viva de Marx é idêntica ao que a biofísica orgonótica refere
como sendo a “função do trabalho da energia biológica”. Gosta­
ria, aqui e agora, de expressar minha profunda satisfação huma­
na e científica pelo fato de que um pensador e pesquisador de
estatura de Karl Marx elevou uma função vital específica ao mais
íntimo de suas “secas” teorias econômicas. A humanidade traba
lhadora lhe deve gratidão, pois ele foi o primeiro a atingir isto
Deixar que ele praticamente morresse de fome, defamar conti*
nuamente seu nome, atribuir-lhe falsamente assertivas que ela
nunca fez e apropriar-se de suas conquistas científicas práticas
sem atribuir-lhe nenhum crédito - tudo se soma ao já pensado
débito da humanidade para com Marx. Não é Marx que está errt
débito. Foi meu dever, como cientista, tornar claro o que umâ
mentalidade social impensável está tentando manchar.
* Wilhelm Reich
Orgonon, Julho de 1944

No verão de 1927, quando vivia com minha família na cida­


de de Lans, perto de Innsbruck, estudei o Capital de Karl Marx,
Após meditar cuidadosamente sobre as cem primeiras páginaâ
de argumentação referente ao valor extra, me dei conta de eu
Marx considerava como economia o que Freud tinha considera­
do como psiquiatria. Suas opiniões básicas eram simples, crista­
linas e contradiziam todos os conceitos tradicionais. Por outrd
lado, os economistas Pré-Marxistas e não-Marxistas tentaram ti­
rar lucros do “valor natural” do material inanimado e do capital
investido e à disposição, etc. Antes de Marx, os economistas ti­
nham afirmado que a valor dos bens era determinado pela razão
da oferta e da procura. Marx provou que isto só causa uma pe­
quena flutuação do preço e que o preço dos bens é determinado
pela “força de trabalho” humana expendida sobre eles. Marx di­

56
zia que uma árvore, em si mesma, não tem nenhum “valor” já
que um esforço humano não está “somado” a ela. Só quando a
árvore tiver sido derrubada, serrada em pedaços, processada
em pranchas ou ripas, é que ela adquirirá “valor” para a huma­
nidade. Isto é verdadeiro para todas as coisas que têm “valor".
O ar não têm “valor”; ele é gratuito porque pode ser consumido
sem esforço humano adicional. O couro de um boi também não
tem valor até que as mãos humanas o processem em sapatos.
Marx estabelece uma diferença entre capital constante e variá­
vel. O capital constante é composto de material bruto inanima­
do e máquinas animadas. Eles não apresentam qualquer lucro
por si sós, até que o trabalho humano produtivo, isto é, o capital
variável, os transforme em bens, em valor útil. Desde que o
dinheiro pode ser emprestado visando o lucro, o valor do capi­
tal reside em que ele produz mais dinheiro, seja através de
investimentos em negócios (capital industrial), seja através de
empréstimos (capital bancário).
O dinheiro, segundo Marx, não passa de papel, emitido
para facilitar as transações baseadas em uma convenção soci­
al. Ele não possui valor próprio, além do esforço expedido para
produzir as células e as moedas. Ele recebe seu valor real so­
mente através do que ele representa, pelo que ele pode ser
trocado, tal como bens. Entretanto, não se compra somente
bens inanimados, mas também os vivos. O empreiteiro para
aos trabalhadores pelo uso do bem representado pela “força
do trabalho”. A força de trabalho pode ser comprada e vendida
como qualquer outro produto. Se eu sou um sapateiro e vendo
um par de sapatos que fiz, ele não me pertence mais. Do mes­
mo modo, o trabalho que um maquinista vende a um capitalista
não lhe pertence mais. Assim como o comprador dos sapatos
Pode utilizar 0 valor intrínseco dos sapatos como lhe aprouver,
assim como o empreiteiro pode fazer como lhe aprouver com a
força de trabalho que comprou, e pode explorá-la como lhe
aprouver. Isto não é “errado”, mas inteiramente legal segundo
as leis da economia de mercado.
Marx definiu cientificamente o conceito de “capitalista”.

57
Não se trata, como se considera comumente, um indivíduo que
possui um monte de dinheiro, mas uma pessoa que é capaz de
comprar e utilizar a força de trabalho de outros nas bases das
leis da economia de mercado. Se, sendo um médico, eu sou com­
petente na minha área, curo inúmeros pacientes e descubro
métodos eficazes de curar muitas doenças, as pessoas me pro­
curarão. Elas pagam pelo meu tempo e, ao lado dele, pelo valor
da minha força de trabalho. A fim de realizar meu trabalho, devo
renovar incessantemente minha força de trabalho, isto é, preciso
comer, Ter casa para morar, comprar roupas, etc. Isto constitui
uma parte do valor da minha força de trabalho. No entanto, isto
sozinho não é suficiente para que eu realize meu trabalho espe­
cífico. Eu preciso, também, de certo treinamento que requer tra­
balho e dinheiro, um contínuo consumo de esforço para desen­
volvimento ulterior, instrumentos etc., sobre os quais outras pes­
soas consumiram sua força de trabalho. Eu pago por isso com
porções da minha própria força de trabalho. Deste modo, o paci­
ente deve pagar não apenas pela minha força de trabalho, mas
por todas as forças de trabalho expendidas sobre ele através do
meu trabalho. Tal se faz através do “dinheiro”, valor substituto
convencional por meio do qual eu posso, por minha vez, comprar
os resultados do esforço de outras pessoas, casa, comida, rou­
pa, etc., isto é, valores úteis. Já que eu trabalho não sou capita­
lista, não importa o volume de dinheiro que ganho. Entretanto, se
fosse empregar, digamos, quatro médicos, pagar-lhes um salá­
rio fixo de duzentas coroas por mês e usar suas oito horas de
força de trabalho para tratarem dos pacientes para mim, “aí sim”,
eu seria um capitalista. Neste caso estaria “explorando” a força
de trabalho de outros e me apropriando do valor de suas forças
de trabalho sob a forma de dinheiro. Em oito horas, eu poderia
mesmo tratar de oito pacientes e ganhar oitocentas coroas em
vinte e cinco dias de trabalho. Quatro médicos, porém podiam
ganhar quatro vezes mais, isto é, três mil e duzentas coroas.
Enquanto teria que pagar aos quatro médicos um total de oito­
centas coroas, poderia ficar com o que sobra das três mil duzen­
tas coroas que eles proporcionaram e, deste modo, adquirir duas

58
mil e quatrocentas coroas através da exploração da força de
trabalho de outros “sem Ter, realmente trabalhado por elas”.
Segundo as leis da economia de mercado, eu não seria consi­
derado um ladrão, mas estaria atuando inteiramente dentro da
lei. Ninguém me poderia processar nem me acusar de mau
procedimento.
A grande realização de Karl Marx reside em Ter desven­
dado o segredo dos bens vivos, da força de trabalho, seu cará­
ter dicotômico e da diferença entre a troca de valores e de valo­
res úteis Se uma pessoa produz um par de sapatos que não
têm intenção de usar, os sapatos não terão valor útil, mas sim
valor de troca. Ele pode trocá-los por ervilha, carne ou dinheiro.
A título de reposição de valor, ele recebe o valor, ele recebe o
valor aproximado da força de trabalho necessária para produzi-
los. A força de trabalho, como foi colocada, é medida em traba­
lho/horas consumidas. O comprador, no entanto, não compra
os sapatos pelo valor de troca, mas pelo seu valor de uso (valor
útil). Ele precisa dos sapatos para satisfazer uma necessidade,
neste caso, proteger a sola dos pés enquanto caminha. Deno­
mina-se a tal possuir o valor de troca “completo” dos sapatos, o
que ele pagou em forma de dinheiro ou de carne retorna a ele
sob a forma de utilidade dos sapatos. O valor de troca e o valor
de uso de um determinado bem em que a força de trabalho
humano é materializada são idênticos”. Por outro lado, o único
bem vivo, a força de trabalho, funciona de modo diferente pre­
cisamente por ser uma força “viva”. Nela, o valor de troca e o
valor de uso não são idênticos. O valor de uso é muitíssimo
maior do que o valor de troca.
Qualquer tipo de trabalhador, isto é, a pessoa que cria o
valor de uso, vende seu bem, a força de trabalho, para o em­
preiteiro, exatamente como o sapateiro vende um par de sapa­
tos, segundo as mesmíssimas leis da economia de mercado.
Porém o trabalhador tem que produzir seu próprio bem comen­
do, comprando roupas e encontrando moradia. Para tanto ele
Precisa trabalhar, digamos, três horas por dia se tomarmos como
medida novamente o valor da comida, da moradia e das roupas

59
em termos de trabalho médio para a reprodução da força de tra­
balho. Essas três horas constituem, segundo as leis da econo­
mia de mercado, o valor de troca de sua força de trabalho. O
capitalista, portanto, não está ludibriando o trabalhador ao pa­
gar-lhe pelo valor de troca de seu bem, sua força de trabalho, o
valor de três horas de trabalho por dia. Pelo menos ele não o
ludibria nos termos das leis da economia de mercado, onde a;
força de trabalho humano é tão negociável quanto qualquer ou­
tro bem. Porém o comprador deste bem, por exemplo, o dono de
uma fábrica, utiliza a força de trabalho do operário não três ho­
ras/dia (de acordo com seu valor de reprodução, medido em tra­
balho/hora), mas sim por oito ou mesmo dez horas. Isto significa:
que o valor de uso do trabalho expendido pelo trabalhador (oito
horas de trabalho) é muito maior do que o valor de troca pelo
qual ele é pago (três horas de trabalho). O lucro da economia de
mercado surge da diferença entre valor de troca mais baixo e o
valor de uso muito maior da força de trabalho. Se um rico com­
prador deste bem compra a força de trabalho de mil ou de dez mil
operários sob a forma de valor de uso, ele as utilizará em um
correspondente múltiplo de seu valor de troca. Isto porque os mil
ou dez mil operários, então, transformam material inanimado,
capital morto, em bens, somando suas forças de trabalho mil ou
dez mil vezes. O trabalho deles é coletivo, mas a apropriação do
valor do bem é individual (“capitalistico”). Se um sapateiro pro­
duz dois pares de sapatos por dia em sua sapataria, ele recebe o !
valor de dois pares de sapatos. Se, com maquinária melhorada,
ele produz dez pares de sapatos por dia, em vez de dois, ele,
poderá retirar o valor de troca de dez pares de sapatos. Se, no >
entanto, ele for um operário numa fábrica de sapatos que moder- j
niza continuamente sua maquinária, ele não receberá, não
obstante, um aumento de salário correspondente ao valor de tro -1
ca pelo seu trabalho, a despeito do aumento do valor de uso. A
utilização de sua força de trabalho pelo capitalista permaneceu
aproximadamente a mesma embora a “exploração” tenha aumen­
tado, porque os valores de troca (uso) que ele agora produz au­
mentou muito. Porém o produto não está a sua disposição. Ele

60
tão simplesmente continua a vender seu bem, sua força de tra­
balho, de acordo com as leis da economia de mercado e ao
preço de mercado pelas três horas de trabalho. Quem quer
que se mantenha vendendo sua força de trabalho é um traba­
lhador. Quem quer que compre o valor de troca de tal bem e
explore seu valor de uso - devido à diferença entre os valores
de troca e de uso da força de trabalho viva - será um capitalista
no sentido marxista da expressão.
Segundo os princípios científicos estritamente marxista
constitui um erro atribuir responsabilidade ao capitalista por
explorar as pessoas que produzem esses bens. Ao contrário
da visão estreitados socialistas, nem o capitalista individual nem
a classe capitalista está “em culpa”. A essência da exploração
está na natureza da sociedade de classe economicamente
estruturada, baseada na economia de mercado. É isto que tor­
na possível para um indivíduo - seja como for - adquirir capital
suficiente para capitalizá-lo a comprar a força de trabalho de
outras pessoas e utilizar-se da diferença entre o valor de troca
e o valor de uso da força de trabalho. A trapaça econômica do
trabalhador se baseia nas condições da produção capitalista e
não na intenção humana.
A compreensão do seguinte paradoxo no raciocínio e na
propaganda dos partidos marxistas é indispensável para uma
compreensão da democracia natural do trabalho. Por um lado,
eles eram orientados de maneira estritamente economística; a
estrutura de caráter dos seres humanos tão como eles são na
realidade era excluída completamente de seu pensamento.
Como se tornou evidente mais tarde, qualquer consideração
da estrutura de caráter humano na luta pela genuína democra­
cia recebia dura oposição. Por outro lado, a propaganda mar­
xista não operava com os fatos “materiais” da existência bioló­
gica e social do homem, mas essencialmente com tendências
neuróticas e secundárias, tais como ódio ciúme, mania de po­
der, etc. Tenho certeza de que os seguidores de Marx tomarão
minhas afirmações como um grave insulto. Entretanto, não te-
nbo intenção de insultar ninguém, mas simplesmente de reve­

61
lar os fatos que ajudaram a desencadear a catástrofe. Para utili­
zar um exemplo simples tirado de minha prática médica, gostaria
de ilustrar a diferença de atitude entre os políticos do partido mar­
xista e aqueles que fazem um esforço de democracia do trabalho
pela liberdade. Quando se é confrontado com uma criança neu­
rótica que sofre de insônia e tem problemas de aprendizado, qual­
quer conversa superficial vai revelar a neurose da criança como
um resultado educação errônea por parte de uma mãe neurótica.
Neste ponto, de nada adiantará quer condenar a mãe neurótica
que provocar o ódio da criança contra ela. Estabelecer a influên­
cia danosa da mãe na educação da criança tem o único propósi­
to de curar a neurose da criança. A consciência deste fato me
capacita a intervir e a assistir. Sem o conhecimento deste fato, a
indignação moral revolucionária ou a simpatia pelo ódio da crian­
ça não ajudará nem a ela nem à mãe. A mãe enferma que provo­
cou a neurose da criança não é “má” ou “diabólica”; ela não “opri­
miu" a criança nem “explorou a impotência da criança”. Ela é o
instrumento e, juntamente com sua criança, a vítima de uma situ­
ação sexo-social desafortunada.
Dá-se exatamente o mesmo com o “capitalista explorador”,
e um “trabalhador explorado”. A benevolência para com o ódio
no íntimo do trabalhador contra o capitalista, o incitamento à in­
veja, o uso da difamação, a instigação ao assassinato, etc., não
modificará as leis dos bens nas sociedades baseadas na econo­
mia privada ou no capitalismo estatal. As leis dizem: “Eu, o pos­
suidor do capital, pagarei a você, operário, fazendeiro, técnico,«
cientista, etc., trinta ou cinqüenta dólares por semana, de modo
que você possa pela comida, moradia e roupa para você e para
sua família, em outras palavras, reproduzir o valor de troca de ;
seu bem, força de trabalho. Você me venderá sua força de traba- >
lho por oito horas diárias, não importa quão grande seja o valor
de troca (valor de uso) do produto que você produzir nessas oito
horas, mesmo que este valor seja três ou cinco vezes maior que
o valor que você possa produzir e usar em um dia para prover-se
e à sua família”. O dono do capital e trabalhador não entram em
relações um com o outro como seres humanos, um relaciona­

62
mento determinado pela livre vontade, a qual eles possam mo­
dificar quando lhes aprouver. Ambos são objetos de um certo
relacionamento social que funciona na base do desenvolvimento
histórico e os domina a ambos, independentemente de suas
vontades.
A compreensão do leitor do desenvolvimento da sociolo­
gia sexo-econômica e da psicologia de massa que conduziu à
descoberta da democracia natural do trabalho em 1939 depen­
de absolutamente de uma maneira factual, natural-científica,
sem rancor ou amor, sem julgamento ético ou moral. Temos
que considerar em primeiro lugar os “fatos” e as “leis funcio­
nais”, não os ideais e as aspirações. As aspirações reais só se
podem basear nos estabelecimentos reais do fato.
Uma das causas principais para a caótica miséria em que
a sociedade humana cai repetidamente é o fato de que os polí­
ticos costumam basear suas idealizações e seus esforços -
sejam bem intencionadas ou não - em julgamentos de valores
emocionais e irracionais, em vez de baseá-los nos fatos. Os
que estão familiarizados com meus inscritos sabem que sem­
pre fui consciente da importância das emoções, mas somente
aquelas emoções e aspirações que se baseiam firmemente na
realidade. Sempre me opus aos ideais e anseios infundados,
ilusórios ou irracionais.
A descoberta da lei da economia de mercado acima des­
crita e do paradoxo peculiar ao bem vivo, força de trabalho (va­
lor de troca menor do que o valor de uso, em oposição aos
bens vivos, cujo valor de troca iguala o valor de uso), é uma
descoberta científica, nem boa nem má, mas simplesmente “ver­
dadeira”. Não tem nada a ver com a ética ou com a moral. O
capitalista que paga pelo valor de troca do bem do operário, a
força de trabalho, e em seguida utiliza seu valor de uso muito
maior, não é motivado por uma intenção má. Pessoalmente,
ele tanto pode ser um crápula quanto um sujeito bem intencio­
nado. Comumente, ele não têm ciência sequer do mecanismo
a° qual ele deve sua riqueza. Ele é envolvido no processo e
SuJeitado a todas as conseqüências das leis da economia de

63
mercado, tais como a competição com outras firmas e fábricas,
as costumeiras crises econômicas, etc.
Ao colocar estas coisas, não ataco nem defendo o capita­
lista. Não desejo obscurecer o fato de que eu, pessoalmente,
não dou atenção ao caráter do capitalista típico, que devota to­
dos os seus pensamentos, suas ações e suas emoções exclusi­
vamente a ganhar dinheiro, que substitui pelo poder do dinheiro
o amor natural e é um artista em tomar, mas um amador a dar,
sem o menor entendimento do emprego que possa trazer. Que
isto, entretanto, não me possa impedir de fazer a distinção entre
os tratos humanos de certos capitalistas e as leis da economia
de mercado cujo agente eles podem se tornar, às vezes, por meio
de herança ou de enormes esforços.
Também não quero encobrir o fato de que considero a des­
coberta desta lei econômica, por Karl Marx, uma das maiores
realizações jamais realizadas pelo pensamento humano. Embo­
ra Marx tenha descoberto que a lei de mercado tinha existido
durante os último trezentos anos da máquina capitalista da civili­
zação, ela se estende muito além desse período até a mais anti­
ga história da sociedade humana, chegando até aquele ponto do
passado obscuro em que a sociedade cessou gradualmente de
produzir valores de uso e começaram a produzir valores de tro­
ca, isto é, bens. Este processo ocorreu paralelo ao desenvolvi­
mento de uma economia natural para uma monetária. Paralelo a
isto, por sua vez, ocorreu o reverso, da afirmação sexual, que
garantia a auto regulação natural da energia sexual, para a ne­
gação sexual e para a praga emocional. A descoberta de Karl
Marx transformou todo o semblante da sociedade sobre este pla­
neta. Ela fez despertar em milhares de economistas e sociólogos
uma opinião sobre aquilo que vemos hoje diante de nós como
sendo economia social moderna. Há um número incontável de
economistas e de sociólogos que jamais leram Marx, ou mesmo
têm rejeitado, mas que, não obstante, demonstram a influência e
carregam a marca da teoria econômica e social dele em suas
atividades práticas. Não foi Ricardo nem Smith, mas Karl Marx
quem trouxe as leis que governam desenvolvimento técnico mo-

64
demo ao nível da consciência humana geral. As numerosas
organizações liberais e socialistas não teria nunca acompanhado
este desenvolvimento se não tivessem, seja consciente ou in­
conscientemente, sob o feitiço da sociologia marxista. Sei por
experiência que há muitos capitalistas responsáveis que tem
Marx em alta conta e que compreendem muito melhor do que
muitos políticos do partido socialista.
Estes aspectos positivos das realizações de Marx não mo­
dificam o fato de que sua sociologia, compreensivelmente, con­
tém sérias omissões, sobre tudo uma falta de percepção das
raízes biológicas do homem e do fato de que ele é governado
pelos seus instintos. Os políticos do partido substituíram esses
fatores por éticas não científicas, alguns de liberdade sem fun­
damentos e “organizações da liberdade” formais e burocráti­
cas. Não se pode substituir a percepção científica por lemas,
ideologias, ilusões e esses “sem perder o seu caminho e sem
desviar-se do alvo”. Não sei quantos economistas na União
Soviética estão realmente cientes de que, segundo os estritos
critérios da teoria de valores de Marx, lá ainda existe uma eco­
nomia de mercado com todas as suas peculiaridades, inclusive
com o paradoxo do valor de troca e uso da força de trabalho, e
com ele a exploração do trabalho humano. É irrelevante saber
se o eu explora é o “capitalista privado” ou se é o “estado”. O
problema essencial é saber se a sociedade é determinada pe­
los indivíduos que criam o valor extra que surge a partir da
diferença entre os valores de troca e de uso, ou se por aqueles
que simplesmente usam os valores extra, seja o estado, seja o
capitalista privado.* Ao longo de vinte anos, não ouvi nenhum
economista social soviético mencionar este fato. Segundo os
Princípios marxistas, o Socialismo, isto é, a abolição da econo­
mia de mercado, não prevalece na União Soviética, - mas, sim,

Estado" e “Sociedade" representam dois fatos sociais basicamente diferentes. Hà


Um estado que se encontra acima ou contra a sociedade, cujo melhor exemplo é o
estado totalitário Fascista. Há uma sociedade sem estado, como nas sociedades de­
mocráticas primitivas. Hà organizações estatais que trabalham essencialmente pelos
,n esses sociais, e há outras que não. O que se deve lembrar é que “estado" não
Sl9nifica "sociedade".

65
o capitalismo, para ser mais preciso, capitalismo estatal, sem a
presença do capitalista privado.
O responsável pelo capitalismo é o funcionamento da eco­
nomia de mercado e não o capitalista privado nem o estado. So­
mente quando esta perspectiva tiver sido clara e inequivocamen­
te compreendida é que se poderá avaliarmos efeitos sociais da
economia de mercado sobre a vida humana e passar-se à ques­
tão de saber se e como poderia ser abolida uma economia de
mercado milenar, substituindo-a por uma economia baseada nos
valores de uso. A economia planejada, para a qual se encami­
nha, de maneira crescente, a economia em toda a parte, deter­
mina automaticamente, a transição da economia de mercado para
uma economia de uso. Os bens são produzidos para que se sa­
tisfaçam as necessidades, não simplesmente para serem vendi­
dos visando o lucro. Desde que a União Soviética possuía uma
economia planejada, esta se desenvolveu para uma economia
de uso, mas onde quer que ela se comprometa com o comércio
exterior, tem, necessariamente, que aderir à economia de mer­
cado. Esses fatos não são bons nem ruins, mas processos reais.
Por conseguinte, não serão os partidos políticos, mas sim o tra­
balho sócio-científico marxista, quem restabelecerá a sociologia
e a economia, capacitando-as a se locomoverem em uma dire­
ção sempre para a frente. Devo enfatizar uma vez mais que o
elemento básico da descoberta de Marx da teoria dos valores e,
com ela, da essência do trabalho humano em geral, é, em sua
natureza, biológica ou bio-social. Esse fato central escapa aos
políticos do partido. A força de trabalho, sozinha, (capital variá­
vel) é quem cria os valores, e não o capital inanimado (constan­
te).
O leitor perguntará por que eu concordo em ser um advo­
gado tão ferrenho da teoria de valor marxista. Não está fora de
sentimentos políticos ou do reconhecimento da miséria social,
mas simplesmente porque não sei de nenhuma outra sociologia
que não a de Marx, que corresponda mais intimamente ou seja
mais relevante para minha própria descoberta das leis da ener­
gia biológica. Tanto a organização natural do trabalho como um

66
fato biológico ( e não como um postulado moral ou político),
quanto as descobertas da biofísica orgonótica requerem o re­
conhecimento da atualidade e das características do bem vivo,
a “força de trabalho”. Fatos como esses tem uma pesada e
singularmente decisiva influência quando sustentados cientifi­
camente a partir de suas perspectivas, não importando se eles
representam as idéias de um místico, de um capitalista ou de
um socialista não científico que se considera um libertador. Re-
capitulando: A produção de bens para a sociedade é coletiva; a
apropriação desses bens, no capitalismo, é individual, não so­
cial. O que produz os bens, ou seja, o trabalhador, não tem
resultado de seu trabalho à sua disposição. Ele é um trabalha­
dor assalariado, isto é, recebe o valor de troca de seus bens, a
força de trabalho, pago de acordo com a lei. O capital enquanto
força social e simbolizado pela propriedade quer privada quer
estatal, dos meios de produção, da terra e das construções, e
está em oposição ao trabalho assalariado. Esses dois, os do­
nos do capital e os trabalhadores assalariados, representam as
duas classes econômicas. Seus interesses são antitéticos. De­
sejar a realização do lucro quando realiza juros, o que só é
possível quando adquire “valor extra” a partir da diferença en­
tre o valor de troca e o de uso da força de trabalho. O trabalha­
dor, por um lado, deseja naturalmente, aumentar seu salário; o
capitalista tem o desejo igualmente natural de mantê-los bai­
xos ou mesmo de reduzi-los. A partir daqui duas classes se
confrontam hostilmente. As leis sócio econômicas da econo­
mia de mercado são a causa desta situação a qual é mantida,
então, pelas instituições específicas.
A economia marxista tem, inquestionavelmente, o mes­
mo significado, para a economia, que a teoria freudiana da vida
Psíquica inconsciente tem para a psicologia. Ambas pressu­
põem uma certa visão factualmente baseada das leis que go­
vernam a vida humana contemporânea. A teoria funcional da
V|da não pode ser apreendida se não se está familiarizado com
tais pré-requisitos.
A teoria de Marx manifesta as indicações de uma

67
imperturbável vastidão, como ocorre com todo grande pensamen­
to humano. O fato de que esta vastidão conduziu ao estreitamen­
te político quando o próprio Marx não pode mais conter seu tem­
peramento fogoso e em si mesmo, um problema da sociologia
marxista. Mesmo antes disso, ele tinha guardado uma certa dis­
tância de seus seguidores dizendo: “Eu não sou um Marxista!”.
Tampouco sou Marxista, mas na verdade creio que compreendo
a grandeza e as fraquezas insignificantes de Marx. Retornemos
às suas grandes idéias e descobertas. Ele foi muito coerente e
teve que pagar por isso com um exílio voluntário, com a pobreza
e com a perseguição.
Anteriormente se acreditava que o homem, o líder, o gênio,
“faz a história”; Marx extinguiu absolutamente com o lampejo de>
tal ilusão. É claro que o homem faz a história, se não, quem a1
faria? De certo que não seriam as máquinas! No entanto, o ho-5
mem só pode fazer a sua própria história sob certas circunstânci­
as que o controlam. A vontade humana e a luta para atingir as
metas estão na dependência do nível a que a sociedade atingiu e'
do estado vigente do domínio tecnológico sobre a natureza.
Dédalus e ícaro desejaram voar, mas não conseguiram. Eles sim­
plesmente careciam do conhecimento e da tecnologia para pro­
duzir gasolina e para construir motores capazes de carregar um
certo peso pelo ar. Na verdade, a imaginação e a atividade huJ
manas são as fontes de todos os impulsos sociais, mas estes
são determinados e limitados pelas suas épocas. Copérnico e
Galileu não foram capazes de eliminar no homem o sentimento
de que a terra era preeminente e única. Eles foram severamente,
punidos porque sua época não sabia o que fazer com suas des­
cobertas. Não havia astrônomos nem astronautas que necessi­
tassem do conhecimento da revolução da terra em redor do sol.
“Para quem dá valor à vida, é melhor não ir muito adiante de sua
própria época”. Veremos que somente através do próprio Marx
poderemos compreender as razões da sua incapacidade para
atingir o sucesso durante o período de sua vida e para a esmaga­
dora derrota de seu movimento, devida à completa irracionalidade,
cinqüenta anos depois de sua morte. Sem Marx não se pode

68
nem Marx nem o Marxismo e, consequentemente,
c o m p re e n d e r
nem a extrema reação da metafísica, o Fascismo.
Todos os seres efetivamente humanos estão interessa­
dos em melhorar a vida. Se, portanto, os repetidos protestos
dos metafísicos estiverem corretos ao afirmarem que o homem
faz a história “por seu próprio livre arbítrio”, nós devíamos estar
vivendo em um paraíso há muito tempo. O fato de que nos
encontramos longe de'um paraíso e, ao contrário, sufocamos
nos lados oposto, confirma a exatidão da sociologia científica.
Os humanos criaram entre si relacionamentos e condições “in­
conscientes” que agora controlam. Construíram máquinas para
produzirem coisas em grande quantidade mais facilmente, e
agora estão sendo dizimados, levados à fome e destruídos pelas
mesmas máquinas.
O homem descobriu a tecnologia do desenho animado e
bandos de atores ficam sem emprego. Os filmes mudos deram
lugar aos filmes sonoros e milhares de músicos ficaram de­
sempregados. Quanto mais rápido e mais fácil se torna cons­
truir casa, mais as pessoas tem que se espremerem seus apar­
tamentos. Quanto mais se colhem trigo e café, mais são atira­
dos no oceano e milhares de pessoas tem menos o que comer.
Isto é o tipo de estupidez que, certamente, requer uma averi­
guação científica mais intensa. A economia capitalista é uma
economia de lucro. Ela produz bens, mas não primordialmente
bens necessários. A economia não serve à satisfação das ne­
cessidades; mas sim, as necessidades são criadas, suprimidas
ou modificadas de acordo com as leis da economia do lucro. A
economia mundial não pergunta quantos chineses ou africa­
nos andam descalços, mas realiza conferências anuais para
efetuar pequenas mudanças nos calçados masculinos e femi­
ninos, e em seguida fazem propaganda da “última moda em
sapato” como sendo uma necessidade vital e indispensável. A
'ndústria cinematográfica não considera quais problemas edu­
cacionais, médicos ou tecnológicos da humanidade devem ser
mostrados para que “surjam padrões culturais”. Em vez disso,
e'a cria sentimentos sádicos e perversos nas pessoas para fa­

69
zer seus produtos mais vendáveis. Não há um único filme que
realmente tenha solucionado um problema humano. Muito pou­
cos às vezes tocam em problemas vitais, e a maioria simples­
mente provoca desejos patológicos. Os filmes não atendem ao
homem, mas à realização do lucro.
A economia do lucro prospera subjugando a concorrência.
A competição, chamada iniciativa privada livre, destrói as peque­
nas empresas e consolida as grandes, criando os conglomera­
dos que crescem continuamente. Deste modo, o “capital se con­
centra nas mãos da minoria” e o empobrecimento das massas
aumenta. A s fábricas de sapatos arruinaram com os sapateiros
artesãos, assim como as máquinas agrícolas arruinaram o pe­
queno fazendeiro com seu arado. O capitalista mais poderoso
destrói o mais fraco, que, por sua vez, já massacrou o artesão. A
antiga classe dos negociantes livres transformou-se numa multi­
dão de empregados tecnologicamente especializados e em mão
de obra predominantemente não especializada.
A racionalização da economia, então, produz o desempre­
go, em vez de reduzir as horas de trabalho. Se o negócio está
bom e a demanda é alta, produz-se muito mais, sem limite. Todo
capitalista do mundo funciona assim, para ganhar mais dinheiro,
para progredir e não perder o passo na concorrência. Quando a
demanda se esgota, a procura afrouxa e os capitalistas ficam
com seus estoques abarrotados, e se torna cada vez mais difícil
se descartar deles. Isto, por sua vez, produz uma recessão eco­
nômica e todo o processo entra num circulo vicioso. Os emprei­
teiros ficam sem trabalho, provocando que o poder de compra da
população se evapora. Os bancos falem, porque o mercado de
capitais e de produtos quebram. Isto destrói o pequeno capital e
mais uma vez reduz o poder de compra. O já reduzido poder de
compra da população aumenta a estagnação da distribuição, o
que requer novas dispensas de trabalhadores, e assim por dian­
te. Os salários são cortados, as horas de trabalho podem até ser
aumentadas sem compensação monetária, ou diminuir, com a
proporcional redução de salário, e nem o trabalhador nem a in­
dústria compreende este processo. Tal era o estado da situação

70
econômica em 1930.
A sociedade não é uma mera agregação de indivíduos
vivendo e trabalhando lado a lado. A vida em sociedade é de­
terminada pela atividade resultante de todas forcas dentro e
dentre os homens, e a interdependência mútua é o fator decisi­
vo. O “estado legal e bem ordenado" não é uma realidade, mas
um sonho, uma ilusão, exatamente igual a “harmonia da perso­
nalidade consumada” na antiquada psicologia ética. Desde que
os homens estejam consciente de um único minuto de sua inter-
relação, ele será capaz de governá-lo ou de modificá-lo. Assim,
os relacionamentos interpessoais assumem o caráter de desti­
no irremediável. O indivíduo médio visualiza a sua posição so­
cial como tal. Os que vêem através dessa rede de dependênci­
as sociais e de mecanismos de exploração se tornam “classe-
consciente”, o burguês com seu capital e o operário igualmente
com sua força de trabalho.
O primeiro pode explorar melhor e mais sutilmente, ao
passo que o último está melhor preparado para resistir com
sucesso à exploração. Assim funciona a teoria dos partidos mar­
xistas. Esta contradição não pode ser resolvida no âmbito do
sistema capitalista. Ou os produtores controlam os meios de
produção, ou os donos do capital controlam. Um controle si­
multâneo é impensável. O desejo de explorar a força de traba­
lho dos outros não se reconcilia em hipótese alguma com o
desejo de não se submeter à exploração. Qualquer tentativa
para unir esses conceitos resultaria em consciência do proces­
so da exploração. O capital e o trabalho só podem coexistir
“pacificamente” quando a exploração for cancelada pela cons­
ciência do partido explorado. Qualquer pessoa que não admita
isto, mas luta contra, é rotulado de “Agitador Comunista”. Marx
foi o maior comunista agitador da época, porque nenhum outro
demonstrou tão claramente quanto ele a maneira pela qual é
criado o bem chamado força de trabalho.
Mas Marx propôs a questão de como aqueles que eram
e*plorados e oprimidos reagiriam à exposição de sua própria
condição. Os marxistas nunca duvidaram de que os oprimidos

71
saudariam a consciência e a mensagem da liberação; e tal modo
de pensar era racional e inteiramente correto. Infortunadamente,
no entanto, os pensamentos e as ações humanas nem sempre
são racionalmente determinadas. O pensamento e ação irracio­
nal, impraticável e distorcida também ocorrem. Freud já tinha pro­
vado isso, mas, na época, ninguém podia prever que o movimen­
to dos trabalhadores seria um dia confrontado com esta questão
como ponto de pressão. Formaram-se dois campos antagônicos
ao redor de Marx e de Freud, que competiam entre si pelo reco­
nhecimento de suas interpretações da vida em sociedade. Neste
ponto, começou minha tentativa, - que mais tarde, naturalmente,
se frustrou, - de combinar aquelas teorias.
A sociologia marxista apontava o processo econômico que
determina o relacionamento interpessoal, isto é, social. A psico­
logia freudiana, em contraste, demonstrava que as forças incons­
cientes que controlam o pensamento e a ação humana são, em
última análise, forças biológicas instintivas. O resultado foi a co­
existência ou, mais corretamente, o confronto entre as interpre­
tações da existência humana natural-científica-sociológica e na-
tural-científica-psicológica.
Karl Marx afirmou: “As condições e os processos sócio eco­
nômicos objetivos, independentes da vontade humana conscien­
te, determinam seus pensamentos e sua existência”.
Sigmund Freud afirmou: “Há forças psíquicas instintivas,
que em última análise, se originam nas ainda desconhecidas fon­
tes biológicas de energia e que independem da vontade humana
consciente determinam seus pensamentos e sua existência”.
As condições sócio econômicas, a saber, as forças produ­
tivas marxistas, são ativas fora do aparatos biofísico do homem e
coisas tais como desenvolvimento tecnológico, condições de tra­
balho, condições familiares, ideologias, organizações. As forças
físicas instintivas de Freud, por outro lado, são ativas dentro das
profundezas do aparatos biofísico e são removidas da esfera da
volição humana consciente, assim como as forças produtivas sócio
econômicas de Marx.
As duas interpretações científicas da existência humana

72
aparecem para contradizerem-se e excluírem-se mutuamente.
Consequentemente, as escolas de pensamento sociológico e
psicanalítico estavam em agudo conflito. Os economistas soci­
ais marxistas que tinham exercido uma profunda influência so­
bre a vida pública na Alemanha e na Áustria viam a psicanálise,
assim como os psicanalistas viam o marxismo, como uma com­
petição indesejável e “perigosa” na interpretação da existência
social e individual.
Ambas escolas, porém tinham em comum sua pesquisa
e sua descrição de um processo objetivo, desconhecido para o
homem, que era ativo sob os fenômenos de superfície da ideo­
logia, do julgamento de valores, da ética, das demandas soci­
ais, etc. Nisto, ambas empregaram um método natural-científi-
co genuíno, similar á Física, que procurar por trás do fenômeno
do movimento, a lei deste movimento, ou por trás da centelha
de uma bateria, a lei funcional da energia elétrica invisível.
Ambas removeram os psicologismos e os eticismos que se gru­
dam aos fenômenos superficiais tanto na psicologia quanto na
Economia.
Constituiu-se numa enorme conquista do intelecto huma­
no progredir das demandas e dos julgamentos morais vazios,
factualmente sem fundamentos, embora bem intencionados,
para a essência dos processos reais. Somente a partir destes
fatos, e não a partir de demandas vazias, foi possível que se
desenvolvessem uma experiência prática, ajustada à realidade
e não utópica, na melhoria da existência social e individual.
Os economistas, os filósofos e os psicologistas do tempo
de Marx impunham a teoria metafísica de que o homem deter­
minava seu destino através de seu “livre arbítrio”. Eles eram
incapazes de se libertarem porque esta visão oferece um con­
forto ilusório dentro do caos dos fatos naturais. Como se sabe,
as ilusões sempre atraíram as sensibilidades humanas muito
mais do que a realidade tangível. A ilusão da determinação pelo
livre arbítrio do homem ou pelo sobrenatural a saber, a fatalida­
de ou a providência, atende a dois propósitos irracionais: pri­
meiro: essas ilusões colocam o homem acima de sua impotên­

73
cia em relação ã natureza (inclusive suas próprias inclinações),
segundo: eles dissimulam seus sentimentos de impotência e sua
ansiedade fazendo-se sentir semelhante a Deus. Essa Segunda
ilusão encontrou sua mais alta expressão na catástrofe Hitleriarla
da praga emocional. Como sabemos hoje, mas não sabíamô
em 1928, isto foi a conquista do irracionalismo nas massas e não
a conquista de um indivíduo que falhara redondamente em qua
quer tentativa para funcionar racionalmente.
A Segunda função da teorias do livre arbítrio tem um ni|
cleo racional, embora seja essencialmente mentirosa. Esta é |
função do homem inspirado, quando se sente impotente, peque»
no e desamparado, com coragem suficiente para continuar suí
existência mesmo que lhe falte o conhecimento dos processos 4
dos procedimentos. O homem tem que existir com ou sem co*
nhecimento; para tanto, ele necessita da força emocional da ilu*
são. As ilusões não são meras impressões irracionais, mas tam-*
bém atitudes fortificantes. Aqui se origina a fé proverbial clara-?
mente que o misticismo, cuja base está nas emoções humanas,
é capaz de produzir um efeito social maior do que o conhecimen­
to científico.
Aqui, reconhecemos a ilusão como justificada e necessá­
ria, mas só onde o homem não progrediu para o conhecimento
real. Se condenamos automaticamente e absolutamente a ilusão
como tal, facilmente cair em uma atitude intolerante e improduti­
va na direção da realização baseada na ilusão. As realizações na
União Soviética, por exemplo, no que se refere à reconstrução
econômica e à remoção das mais crassas injustiças sociais, re­
sultaram da ilusão de “Construir o Socialismo”. A ilusão da ciên­
cia natural mecanicista em sua luta contra os esforços da religião
e do misticismo para “descobrir a essência da alma”, levou a gran­
des realizações nos campos da fisiologia e da química coloidal.
Mas o perigo e a nocividade da ilusão são muito maiores
do que os ganhos reais que ela proporciona. A realização prove­
niente da ilusão jamais se iguala à realização gerada pelo real
conhecimento dos processos e procedimentos Desde o início dos
tempos, as visões ilusórias do mundo apareceram repetidamen­

74
te em oposição à luta racional do homem para limitar o campo
do desconhecido e expandir o campo de conhecimento. As ilu­
sões conduziram, com inevitável regularidade, instituições rea­
cionária e regressivas. Tal ficou demonstrado pelos desenvolvi­
mentos na União Soviética, bem como pela influência inibidora
exercida pela ciência mecanicista natural sobre os esforços para
entender as funções vivas. Portanto, se demonstrei aqui uma
função irracional da ilusão, tal não implica em que a árdua ba­
talha pela expansão científica da esfera da força humana não
vá incessantemente atingindo progressos .Se eu não posso
andar com uma perna usarei uma muleta se for necessário para
movimentar-me. Mas além disso, eu me descartarei, certamente,
da muleta tão logo readquira o uso natural da minha perna.
Então, os metafísicos e os místicos de todos os tipos,
devido à gratificação emocional de sua auto-estima conseguida
através das ilusões, opuseram-me veementemente ao marxis­
mo e ao freudianismo. Protestos do tipo “sou tão livre, superior,
tão semelhante a Deus, e senhor de mim e da natureza” não
alteravam em absolutamente nada sua dependência do
irracionalismo psíquico, por um lado, e dos processos sócio
econômicos de outro. Esta dependência trágica encontrou cla­
ra e inequívoca expressão na catástrofe mundial da última dé­
cada Marx e Freud foram precursores indispensáveis de sérios
progressos no domínio desses dois tipos de dependência hu­
mana. Eles também estiveram paralelos, já que ambos erigiram
seus edifícios científicos sobre os ainda não descobertos prin­
cípios biológicos ou biosociais.
Todo o conceito de Marx da socioeconomia estava base­
ado na natureza viva da força do trabalho humana como sendo
uma atividade biológica básica peculiar até aos primitivos orga­
nismos vivos. O homem não difere, em sua função de trabalho,
dos outros animais, pelo fato de ele trabalhar; todas as criatu­
ras vivas fazem isto, do contrário eles não existiriam. Ele difere
dos outros animais em sua tentativa de melhorar sua função de
trabalho inventando ferramentas. Já sabemos, através de Karl
Marx, que o infortúnio do homem reside em sua diferenciação

75
dos outros animais, que ele se torna escravo das ferramentas
que ele mesmo inventou. A maioria dos marxistas, a julgar pelas
suas publicações, têm ignorado o fato de que é a força de traba­
lho, “viva” que, através da diferença entre seu valor de troca e
seu valor de uso, tem determinado os mecanismos sociais da
civilização patriarcal. Em seus escritos filosóficos, Marx acentuou
repetidamente que o homem com sua “organização biológica” é
o ‘pré-requisito final de toda a história’. Marx, muito certamente,
não sabia nada da natureza concreta desta “organização biológi­
ca”, nem podia saber, já que a própria ciência da biologia não a
conhecia e a energia biológica específica, o orgone cósmico, só
foi descoberto entre 1936 e 1939.
As duas funções básicas, biológicas e objetivas da matéria
viva, “trabalho” e “sexualidade”, ou o “processos do prazer”, eram
tratados, cada qual, no início do século vinte, em sistemas cien­
tífico separados, isto é, na sociologia marxista e na psicologia
freudiana. O processo sexual teve uma existência deplorável no
sistema marxista sob o equivocado tópico de “desenvolvimento
familiar”. O processo de trabalho, por sua vez, foi relegada a uma
posição igualmente deplorável na psicologia freudiana, sob igual­
mente equivocado tópico de “sublimação” e “tendências da fome”
ou “instintos do ego”. Longe de se contradizerem em princípio,
os dois sistemas científicos realmente se encontraram
(complemente ignorado pelos fundadores) na “base biológica de
toda matéria viva, a energia biológica de todos os seres vivos”,
cuja atividade se divide, de acordo com nosso método energético-
funcional de pensamento, em trabalho de um lado e sexualidade
do outro.

Trabalho Sexualidade
manifestação social oscilação da manifestação social:
condições de trabalho bioenergia condições familiares e
e produção educação
leis da energia
biológica da
matéria viva

76
O trabalho sobre este caráter funcional, simultaneamen­
te idêntico e antitético da energia biológica estava reservado
para a pesquisa sexo-econômica. Eu não tinha a menor idéia
disso na ocasião. Minhas tentativas, entre 1928 e 1930 para
reconciliar dois sistemas científicos me levaram, por meio da
lógica da pesquisa factual, ao método que finalmente triunfou
na descoberta do orgone, a energia biofísica específica, em
1939.Duvido que eu tivesse tido sucesso em descobrir o orgone
se eu não tivesse aplicado a crítica sociológica à psicologia de
Freud, em um trabalho árduo, diuturno e prático que levou vári­
os anos para ser realizado, e se eu não tivesse descoberto o
hiato na sócio-economia marxista e não o tivesse preenchido
com o conceito da “estrutura do caráter”.
As leis da energia biológica, do orgone, compreendem os
mecanismos básicos tanto do trabalho quanto da sexualidade,
e, desta maneira, também as forças internas, externas e as
que permeiam os seres humanos. Estas leis fundamentam tan­
to o esforço racional quanto o irracional, tanto a necessidade
premente da pesquisa científica sobre o inexplicado quanto a
crença mística na existência de um ser desconhecido todo po­
deroso.
Os mecanismos biológicos básicos da vida não são sim­
plesmente uma soma mecânica das funções sexual e laborai.
Eles constituem, isto sim, um terceiro fator simultaneamente
idêntico e antitético, bem como mais fundamental. A economia
sexual e a biofísica orgonótica são, por conseguinte, não a soma
dos conceitos marxistas e freudianos, mas novas disciplinas
baseadas nos discernimentos sociológicos e profundamente
psicológicos, os quais levaram, a partir da incompatibilidade
desses conceitos, à descoberta de um terceiro conceito comum
a ambos.
Embora tal seja claro hoje, estava longe de sê-lo em 1928.
Mas retornaremos às experiências que constituíram o marco
milionário no curso deste desenvolvimento.
Em seguida àquele 15 de julho que tão tragicamente de­
monstrou os mecanismos básicos da sociedade de classe, co­

77
mecei a estudar Engels em acréscimo a Marx. Era apenas natu­
ral que um psicanalista devesse achar seu livro "A origem da
Família” extremamente interessante. A contradição entre as ex­
plicações marxistas e freudianas da família era dolorosamente
óbvia. Embora parecessem estar corretos sobre problemas deci­
sivos, ambos não podiam ser simultaneamente válidos. Engels
me levou a Bachofen e a Morgan; li cuidadosamente “Das
Mutterrecht” e “Urgesellschaft”. Desde que estas obras achavam-
se em aguda contradição à visão de Freud, senti-me constrangi­
do de aprofundar menos escritos etnológicos mais importantes.
Durante quatro anos encontrei-me num caos. Então fez-se a luz
sobre um dos enigmas centrais da história humana primitiva.
Descrevo isto no contexto de um outro livro, “Der Einbruch der
Sexualmoral”( r ed. 1932 e 2' ed. 1936).
Os verdadeiros segredos da função social da supressão
sexual foram revelados nas experiências práticas que me pro­
porcionou meu trabalho sexológico entre os adolescentes
vienenses. Os anos entre 1927 e 1930, quando me mudei para
Berlim, foram anos de grande dúvida. Durante esse período reu­
ni material para “Der Einbruch der Sexualmoral”. Em 1929, o bre­
ve trabalho : Sexualerregung und Sexualbefriedigung” foi publi­
cado e em 1930, “Geschlechtsreife, Enthaltsamkeit, Ehemoral”.
Também durante esses três anos formulei crítica sociológica da
psicanálise. Foi publicada uma versão russa de meu documento
“Dialektischer Materialismus und Psychoanalyse” em 1929no “Jor­
nal da Academia de Ciência” em Moscou. Esta versão apareceu
em alemão no periódico “Unter dem Banner des Marxismus”, e
subseqüentemente na edição austríaca do periódico “Imago” em
1930.
Em 1929, fundei a Sociedade Socialista para
Aconselhamento e Pesquisa Sexual, com diversos médicos
vienenses. Baseado nos princípios sexo-econômicos, ela esta­
beleceu os primeiros centros de aconselhamento sexual para tra­
balhadores e comerciários em Viena. Ao longo desses anos, tor­
nei-me familiarizado com o funcionamento interno do movimento
revolucionário daquela época. (“Revolucionário” não deve ser con­

78
siderado idêntico a “Comunista”). Não se pode conceber uma
única linha do que escrevi mais tarde sem essa experiência. As
bases para minha ruptura com Freud foram também lançadas
durante este período em conexão com a formulação dos
discernimentos sexo-econômicos mais importantes, inclusive a
“análise do caráter” (sob a forma de vários artigos clínicos), e a
clarificação da questão do masoquismo, com que fui capaz de
refutar sua teoria do instinto de morte. Até aquela época, eu me
opusera a ela sem uma contra-teoria. Também ocorreram di­
versas experiências sociais decisivas durante esses anos, o
que mais tarde formou a base do meu livro “A Psicologia de
Massa do Fascismo”. Desde que exerceram uma influência mais
profunda sobre minha obra sócio-psicológica, começarei por
descrevê-la.
Tomei a decisão de começar o trabalho sociológico em
seguida a uma conversa com Freud. Expliquei meus planos e
perguntei-lhe por sua opinião. Os centros de aconselhamento
sexual estavam para serem abertos, e o discernimento psica-
nalítico para ser aplicado em escala máxima na forma de sexo-
economia social. Desta maneira, ela tinha sido projetada para
servir ao público em geral. Freud concordou entusiasticamen­
te. Ele sabia tão pouco quanto eu aonde isto nos conduziria.
Quando expliquei a necessidade de tratar o problema da famí­
lia rigorosamente, ele respondeu: “Você vai mexer em casa de
marimbondo”. ( “Hier greifen Sie in ein Wespennest”).Sua atitu­
de em relação à experiência russa era crítica mas simpática.
Visões sociológicas corretas já tinham começado a propor a
questão da interpretação psicoanalítica da história primitiva.
Enquanto o etnólogo psicanalítico Roheim interpretava sem crí­
tica e sem escrúpulo isto e aquilo, ouviam-se, em Londres, as
admoestações de Malinowski. Em 1926, apareceu o documen­
to de Malinowski sobre o complexo de Édipo nas sociedades
matriarcais. Ele e Jones estavam engajados numa disputa so­
bre a questão de saber se a família era uma instituição biológi­
ca ou sócio-histórica. Jones sustentava que o complexo de Édipo
biológico era a “fons et Origo”, a fonte e a origem de tudo -

79
sociedade, lei, direitos, etc. Malinowski asseverava que o com­
plexo de Édipo assumiu uma forma diferente nas sociedades
matriarcais devido às variações na estrutura social. Freud per­
maneceu neutro aí. Todo mundo percebia que essas questões
não eram um mero passatempo acadêmico. Eles mencionavam
a grande revolução russa de uma forma bem definida, mas ainda
não muito tangível Freud mencionou em conversa que era tangí­
vel que a “luz viesse do oriente”. Quase uma afirmação, partindo
de um professor! Freud me perguntou se eu seria capaz de con­
duzir o vasto trabalho no seminário técnico, na Policlínica, nas
consultas particulares e nos centros de aconselhamento sexual,
tudo ao mesmo tempo. Concordei em que se devia esperar e ver
se seria possível. Ele impediu uma tentativa feita pelos principais
funcionários da associação psicanalítica (Paul Federn, em parti­
cular) de utilizar esta oportunidade para me destituir de minha
posição de líder do seminário. A liderança não devia ser tirada de
minhas mãos se eu desejasse continuar como líder (carta datada
de 22 de novembro de 1928). Durante muito tempo não me dei
conta desta preocupação pela minha sobrecarga de trabalho. O
conflito interno da psicanálise no que se refere à sua função so­
cial era imensa muito antes que os envolvidos nela o percebes­
sem.
Visto à luz de hoje, a queda do Partido Social Democrata
Austríaco não significa apenas a queda de um partido político;
seu declínio foi mais o sintoma de um processo social que foi
drasticamente revelado na ascensão do Partido Nacional SociaJ
lista de Hitler e, ao longo dos dez anos subsequentes , produziu
o extraordinário discernimento de que a política é completamen­
te infundada, não-científica, irracional e uma expressão da estru­
tura do pensamento humano biopáticos. Na sua essência, a po­
lítica é a gratificação organizada das emoções biopáticas dos
seguidores do partido, formulada sobre uma plataforma política
Não existe tal coisa de política boa em um lugar e ruim em outro.^
Essencialmente, a política sempre prova que certas situações
sociais, devido à falta de conhecimento concreto, não pode ser
dominada cientificamente. Com a atenção fixada sobre a dife­

80
renciação entre política boa e política ruim, não se pode abor­
dar a questão da política em si mesma e do que fica oculto à
nossa percepção. Foram necessárias três décadas de derra­
mamento de sangue (1914-45) para que se descobrisse o pro­
cesso tranqüilo e racional do trabalho e da democracia natural
do trabalho por trás do tumulto e da turbulência da política.
De 1927 a 1934 eu próprio estive no epicentro dessa tur­
bulência. Desde que as ciências não eram socialmente orienta­
das e que o caos social, não obstante, jorrasse para dentro das
menores fissuras da vida diária, toda a esperança estava depo­
sitada na “política boa” e não na ciência natural. Os relatos que
se seguem servem para provar que eu - juntamente com mi­
lhões de outras pessoas - depositei minhas esperanças nas
atividades políticas em vez de ancorá-las no meu trabalho so­
bre os seres humanos.
Não é certo acusar os democratas sociais austríacos de
perseguirem a “política ruim”. Eles foram capturados pelo
irracionalismo da política, exatamente como aconteceu com os
conservadores ingleses sob Chamberlain, que assinou um pacto
com os fascistas alemães para “salvar a paz”. Os reacionários
políticos sempre admitiam abertamente a natureza geral da
política, realística e inequivocamente - a mentira, a fraudulência,
o irracionalismo e a violência nua. A prática da concessão e do
apaziguamento é, no sentido estrito, nem “boa” nem “má” polí­
tica, mas uma admissão da insegurança fatual em face da forte
reação política à qual a estrutura de caráter irracional das mas­
sas serve de firme suporte.
A verdade não pode prevalecer através da política. A po­
lítica e a verdade se contradizem. Se os advogados da verdade
tentarem competir com a política, estarão inquestionavelmente
condenados a perecerem. Tal era o destino dos democratas
sociais austríacos em 1927 e 1934 e também dos ingleses. As
Políticas democráticas genuínas são e não poderão jamais dei­
xar de ser uma exposição impiedosa e radical de todo tipo de
Política.
Aqui deparamos enormes dificuldades. A existência hu­

81
manas do dia a dia requer uma miríade de soluções práticas.
Constitui a essência da ciência natural que ela só pode fazer um
vagaroso progresso no fornecimento de respostas e questões da
existência. O misticismo e a política preenchem os hiatos com
ilusões e com promessas de satisfação. Isto significa que a
regulação científico-natural da vida social não pode se descartar
da liderança de massa política e visionária da noite para o dia. Eu
pessoalmente não disponho de solução para o dilema entre a
liderança realística e a ilusional. Mas é minha responsabilidade
expor tais dificuldades e não ocultá-las. Isto, a princípio, desper­
ta a crença de que se pode preencher rapidamente os hiatos da
compreensão. Entretanto, creio de verdade que seja possível
substituir a política por uma forma diferença de liderança. A es­
trada que conduziu a essas conclusões decisivas era tortuosa e
cheia de ciladas.

82
4
ISTO É POLÍTICA

Após a esmagadora derrota moral em 15 de julho, a po­


derosa Democracia Social Austríaca perdeu terreno vagarosa,
mas fatalmente. O ex-ministro do Exterior social democrata,
Renner, proferiu palavras proféticas: “A classe trabalhadora
austríaca é tão forte que não pode ser derrotada: ela só poderá
cair através de seus próprios erros”. O prefeito de Viena, Seitz,
disse em seu conclusivo discurso na convenção do partido que
se seguiu ao 15 de julho, “Estamos tão convencidos de que os
desenvolvimentos democratas conduzirão aos nossos objeti­
vos que não precisamos de apoiá-los com a violência”. Farei
uma breve crônica dos eventos subsequentes.
Em 1ode novembro de 1927, a convenção do partido so­
cial democrata aceitou animosamente uma “resolução”. Os re­
acionários políticos tinham armado os grupos fascistas, mas o
partido socialista tinha salvado a Áustria da guerra civil. A partir
de 1923, ele tinha enfatizado que estava “pronto a qualquer
momento para negociações sobre desarmamento”. Disseram
que o Programa Linz tinha reconhecido a cooperação de clas­
se sob a forma de um governo de coalizão, mas uma coalizão
não seria possível já que a burguesia católica e nacionalista
desejava dissolver o partido socialista. Os democratas sociais,
entretanto, queriam evitar uma guerra civil e estavam, prontos
Para cooperarem com qualquer um que quisesse ajudar. Dis-

83
seram que somente empregariam a força em um caos, a saber,
se os reacionários políticos tentassem derrubar a república de­
mocrática ou usurpar os direitos das classes trabalhadoras os
quais a república tinha garantido. Uma disciplina mais estrita era
necessária: “Nenhuma demonstração sem o concurso de todos
os envolvidos. Nenhuma demonstração sem o concurso de to­
dos os envolvidos. Nenhuma greve em indústrias vitais sem o
consentimento da totalidade da associação dos sindicatos!” A
república seria transformada em uma “verdadeira república de
trabalhadores na cidade e no campo”.

Eis o que aconteceu no processo de apaziguamento:

Em 27 de agosto a Assembléia Nacional controlada pelos


socialistas cristãos aprovou inúmeras leis educacionais reacio­
nárias “sem debate prévio”.
No mesmo mês, o líder do Schultzbund social democrata e o
clube atlético dos trabalhadores cancelaram sua reunião de 7 de
agosto em Graz, a qual tinha sido preparada durante meses.
No início de agosto, Seitz ordenou a dissolução da Guarda
Municipal social democrata, organizada após o massacre de 15
de julho.
No fim de agosto, a eleição do estado-maior dos represen­
tantes da força policial de Viena resultou em cinco socialistas
cristãos e um sindicalista independente, em contraste com a situ­
ação anterior que era de cinco sindicalistas independentes e um
socialista cristão.
Em setembro de 1927, a Assembléias Nacional resolveu
reduzir o seguro desemprego dos trabalhadores mais velhos. Uma
proposta de anistia para os acusados de 15 de julho foi derrotada
pelo governo socialista cristão.
Em outubro de 1927, Otto Bauer confirmou publicamente
um enfraquecimento da Democracia Social diante de uma con­
venção do sindicato dos metalúrgicos. Ele sugeriu o “desenvolvi­
mento democrático pacífico”. O líder sindicalista, Domes, advo­
gou a racionalização tecnológica. Pitzl, o representante da Asso­

84
ciação Internacional dos Sindicatos, foi excluído.
No mesmo mês, o Dr. Renner solicitou um governo de
coalizão com os socialistas cristãos, que o rejeitaram, entre­
tanto, através do Dr. Schmitz.
Em 16 de outubro de 1927, a eleição dos porta-vozes dos
soldados resultou em 9.000 votos socialistas que produziram
118 mandatos e 6.000 votos cristãos e nacionalistas alemães
que produziram 220(!) mandatos. O partido socialista perdeu
2.000 votos e os conservadores ganharam 3.000 através da
falsificação interna. A comissão do estado maior do exército
era agora composta de dois representantes do Partido Socia­
lista em vez de nove, e de sete conservadores em vez de ne­
nhum.
Em 21 de novembro de 1927, a assembléia de Styrian
anulou a imunidade do parlamentar Wallish, um homem cora­
joso, honesto e franco. Ele foi executado em 1934 pelo gover­
no socialista cristão de Dollfus.
Em 11 de dezembro, os social democratas foram severa­
mente derrotados nas eleições da polícia federal.
Em 18 de janeiro de 1928, nas eleições oficiais da as­
sembléia legislativa tirolesa, os sociais democratas foram ex­
cluídos.
Em 20 de fevereiro, os proprietários marcaram uma vitó­
ria parlamentar ao apresentarem um decreto para reduzir o
controle do aluguel, o que foi grandemente apreciado pelo
populacho. Mais tarde, eles conseguiram que o decreto pas­
sasse e os social democratas proclamaram a “vitória”, já que o
resultado não foi pior!
Em 3 de março, os social democratas foram completa­
mente derrotados em uma eleição dos representantes do esta­
do maior da polícia.
Em 16 de março, a eleição dos representantes de fábrica
nas usinas siderúrgicas Donawitz resultou em um ganho dos
votos socialistas de 1.991 para 2.404, uma perda dos votos
comunistas de 706 para 227 e um ganho nos votos governistas
de 131 ara 951! A aciaria Donawitz se tornou, mais tarde, uma

85
bastião da organização semi-fascista Heimwehr.
Em 18 de março, representantes dos quadros de trabalha­
dores, junto com os representantes das câmaras de comércio e
agricultura fundaram uma “Comissão de Economia” para realizar
uma racionalização mútua da liderança industrial. Um ano de­
pois essa racionalização agravou a crise econômica o que teve
horríveis efeitos na Áustria.
Entre 5 e 10 de abril, houve demissões em massa nas mi­
nas de propriedade da Alpine Montangesellschaft (uma
corporação mineira austríaca) em Seegraben, que fora planeja­
da para purgar a companhia dos socialistas. Embora os empre­
gados exigissem uma greve, o conselho dos representantes dos
empregados rejeitou as exigências como resultado das pressões
dos oficiais do partido. (Em 14 de fevereiro de 1934, nenhuma
das maiores firmas teve greve, enquanto que o Schtzbund social
democrata sangrava até morrer).
Em 11 de maio, o Ministro Cristão das Forças Armadas,
Vougoin, anunciava que qualquer soldado que tivesse participa­
do nas comemorações do Primeiro de Maio seria dispensado.
Em 12 de maio, houve uma greve espontânea nas minas
Huttenberg contra o terror político nas operações da Alpine
Montangesellschaft. Os líderes sindicalistas foram contrários à
greve.
Entre 16 e 22 de maio, ocorreram inúmeras greves parciais
nas indústrias mineiras e siderúrgicas Styrian e Carinthian. O mo­
vimento foi tão poderoso que os diretores do sindicato se senti­
am obrigados a “liberá-lo”(Conversa de fascista vermelho). Hou­
ve ameaças brandas, negociações diversos mais tarde, e pediu-
se o fim do movimento, mas os trabalhadores entraram em greve
de novo.
Em 3 de junho, começou uma greve entre as trabalhadoras
da juta em uma grande fábrica perto de Viena. Elas trabalhavam
dez horas por dia pelo miserável salário de sessenta Schillings
mensais. Elas gastavam três horas diárias para irem e virem do
trabalho. As crianças estavam já morrendo de fome. Junto com
vários dos meus amigos, apanhei e ajudei algumas das crianças.

86
A greve foi por terra, porque não havia nem força nem coragem
por trás dela.
Steidle, o fundador da Heimwehr, anunciou que a primei­
ra grande demonstração da Heimwehr ocorreria em 7 de outu­
bro em Winer-Neustadt, uma cidade com população composta
estritamente de trabalhadores na indústria, que tinha maioria
de social democratas. Em seguida aos eventos de 15 de julho
de 1927, ele tinha começado, muito tranqüilamente e sob a
proteção da administração socialista cristã, a organizar sua
Heimwehr no Tirol. Naqueles dias, se um membro da Heimwehr
se tivesse aventurado a entrar em um distrito de operários de
Viena, teria sido severamente surrado. O partido socialista dis­
sera que não havia porque preocupar-se com eles, que eles
não eram perigosos, mas simplesmente exibicionistas e que a
melhor maneira de evitar que eles se fortalecessem era ignorá-
los. (Em 14 de fevereiro de 1934, nos mesmos distritos operá­
rios, a Heimwehr demoliu as casas dos trabalhadores com ca­
nhões).
Um ano de derrotas tinha amargurado tanto os membros
do Partido Social Democrata que seus líderes não podiam mais
simplesmente suportar a extrema provocação dos reacionários
políticos. Aquilo selou seu destino dentro de suas próprias filei­
ras. Por conseguinte, eles convocaram uma demonstração para
por-se a Steidle, no mesmo dia e na mesma cidade, Wiener-
Neustadt. Eles tinham lutado por uma confrontação, mas tinham
enfraquecido continuamente suas próprias posições apenas
para serem forçados a procederem, desvitalizados, contra toda
a plataforma - até 14 de fevereiro de 1934, quando foram der­
rotados.
O governo socialista cristão estava tão seguro de uma
vitória e ainda tão temeroso da competição da Heimwehr que,
como medida de segurança, ordenou ao exército à polícia lo­
cal, e à polícia federal que fossem para Winer-Neustadt naque-
*a mesma data.
Os comunistas também não quiseram tolerar a situação.
(Em 21 de dezembro de 1927, os comunistas tinham organiza­

87
do sua Rotfrontkampferbund (Liga dos Veteranos Vermelhos),
baseando-se no modelo alemão. Thalmann, posterior cabeça do
Partido Comunista Alemão, viera à Áustria para a ocasião.* Eles
“mobilizaram” sua Arbeiterwehr para 7 de outubro, com o objeti­
vo expresso de perturbar as manifestações dos outros três gru­
pos antagônicos em Wiener-Neustadt. Assim, uma organização
de aproximadamente 250 homens desarmados mobilizou-se, com
a mais sincera das coragens revolucionárias (digo-o sem sarcas­
mo), para “perturbar” as tropas organizadas, em número aproxi­
mado de quarenta mil, ou, para ser mais exato, para evitar sua
demonstração; e isto com a máxima seriedade, profunda convic­
ção e absoluta determinação de vencer. Posso testemunhar isto,
porque eu fui um desses 250 homens. Naquele dia, tomei cons­
ciência do poder da ideologia, independente de suas bases eco­
nômicas, e aprendi a avaliá-la corretamente. Naquele dia come­
cei pela primeira vez o uso equivocado dessa força: como o mo­
vimento operário de massa psicologicamente inepto e, por con­
seguinte , fútil, desperdiçava a correta sinceridade e desejo de
liberdade dos trabalhadores. Naquele dia, vi claramente que o
indivíduo socialmente oprimido é inteiramente diferente, psicolo­
gicamente, da maneira como a rígida sociologia ao antagonismo
de classe o descreve, ou desejaria que ele fosse. Vi que a estru­
tura sócio-econômica de uma dada sociedade não coincide de
modo algum com a estrutura psicológica de massa de seus vári­
os estratos sociais; que as pessoas na mesma situação sócio-
econômica encontram-se em campos opostos, agrupadas por
ideologias irracionais que têm a mínima relação com os aspectos
práticos de suas vidas. Os problemas decisivos da vida, que reu­
niam esses campos antagônicos dos iguais sócio-econômicos
em uma grande comunidade não são sequer mencionados na
política, muito menos tratados com justiça. Vi, em resumo, que a
vida real das massas trabalhadoras é vivida em um nível comple­

* Este grupo foi subseqüentemente proscrito em 27 de abril de 1928, mas realmente


continuou a existir sob o título de Abreiterwehr. Ele continha 250 membros, mais ou
menos 150 dops quais viviam em Viena. Em todo o país, o Partido comunista tinha
aproximadamente 3000 membros, a maioria dos quais desempregados.

88
tamente diferente daquele sobre o qual o tumulto dos políticos
e da política partidária se desenvolve. A posição atual da psico­
logia política nasceu naqueles dias: A baixo com “todas” as po­
líticas! Partamos para as exigências práticas da vida! Não
obstante, dez anos se passaram até que essa posição amadu­
recesse conscientemente no da democracia do trabalho.
A excitação acerca das demonstrações das organizações
armadas em Wiener- Neustadt ficou limitada aos círculos polí­
ticos que constituíam apenas uma fração insignificante de toda
a população trabalhadora. O Partido Comunista da Áustria pu­
blicou uma “ordem” para que o Arbeiterwehr seguisse para
Wieiner-Neustadt em pequenos grupos sem “chamar atenção".
Os três médicos do Arbeiterwehr deviam juntar-se ao
Kampftruppe (tropa de combate) com mochilas cheias de ma­
teriais de primeiros socorros. Preparei minha mochila, despedi-
me de minha mulher e de meus filhos (tinha dúvida se retornaria),
e parti para juntar-me a uma médica muito corajosa com a qual
estava já familiarizado.
Era um Sábado e eu estava convencido de que uma mo­
chila e roupas de turistas não chamariam atenção. Tudo devia
ser altamente “ilegal”. Estávamos de tal modo transbordantes
de fúria contra a “provocação fascista” e contra a “iminente trai­
ção dos líderes do Schtzbund social democratas” que não tive­
mos dificuldade para reprimiar a questão de o que e efetiva­
mente estávamos indo fazer. Tudo o que sabíamos era que “é
um dever do comunista dar o bom exemplo na luta de classe" e
“levantar-se como líder do proletariado no caso de uma guerra
civil”. E, na verdade, havia um Wierner-Neustadt, naquele Do­
mingo, aproximadamente 15.000 membros armados do
Schtzbund, os campeões do trabalho. Não nos detivemos em
pensar como faríamos para “liderá-los”. Tinha que haver uma
maneira, se nós apenas mostrássemos coragem suficiente.
Devo enfatizar que nós não éramos tolos, mas médicos respei­
táveis com atividades lucrativas e inúmeras conexões; éramos
trabalhadores talentosos. Um médico que eu estava tratando
naquela época, estava para “conquistar” Wiener-Neustadt com

89
uma tropa diferente.
Encontrei minha colega no saguão da Estação Sul. Ambos
parecíamos “inofensivos” e nossas mochilas não “chamavam aten­
ção”. O amplo saguão parecia um campo militar. Centenas de
membros do Schutzbund aguardavam para serem revistados
pelos policiais para ver se estavam armados. Vários policiais à
paisana, chamados “touros” por suas expressões faciais típicas,
misturavam-se “discretamente” com a multidão , vigiando os ele­
mentos “que ameaçavam a segurança nacional”. Nós os reco­
nhecemos imediatamente e eles nos reconheceram também.
Éramos todos tão discretos que não podíamos ser ignorados.
Aproximadamente cinqüenta membros igualmente discretos do
Arbeiterwehr estavam ao nosso redor, mas, estudadamente, evi­
tamos de trocar olhares. Por conseguinte, todos os detetives sa­
biam que estávamos juntos. A polícia e a gendarmaria eram
embarcados nos trens às centenas. Eles partiram primeiro, se­
guidos pela Schutzbund. Nós, os líderes revolucionários do pro­
letariado, dispostos a controlar o entusiasmo dos 1.500
Schutzbunders no dia seguinte, discretamente compramos bilhe­
tes de terceira classe para o trem local que partia para Pottendorf,
uma pequena vila próxima a Wierner-Neustadt. Dali, esperáva­
mos chegar a Wierner-Neustadt sem chamar a atenção. Fomos
inteligentes bastante para não irmos diretamente para a cidade,
após termos ouvido que civis não tinham permissão para entrar
lá. Sentimo-nos reanimados ao sentarmo-nos no trem com dúzi­
as de companheiros. Falamos de banalidades; ninguém tocou
em assunto suspeitos. A polícia secreta estava entre nós e nós a
reconhecíamos. Vários deles foram encarados por tanto tempo
que desistiram de levar qualquer notícia para os gendarmes.
Os amigos nos tinham disto que alguém muito bem disfar­
çado estaria esperando por nós em Pottendorf, e, quando che­
gamos, havia realmente alguém esperando na plataforma, um
trabalhador, que se reconhecia de longe ser um funcionários. Sem
precisar de palavras, houve reconhecimento instantâneo. Ele mur­
murou discretamente que o devíamos seguir até uma certa casa.
O prefeito social democratas da cidade estava tão furioso quanto

90
os comunistas e tinha oferecido sua hospedaria como quartel
para a noite. Quando chegamos lá, centenas de membros do
Schutzbund estavam sentados por todo lado. Bebemos um pou­
co de cerveja e em seguida o estalajadeiro levou-nos a um gran­
de salão de baile, onde deveríamos passar a noite. Com o cor­
rer do tempo, pequenos grupos de membros do Arbeiterwehr
chegavam de todos os lados. Alguns não tinham podido pagar
a passagem e tinham saído de Viena no dia anterior para cami­
nhar os quarenta quilômetros atém Pottendorf. Comemos leve­
mente e pusemo-nos a antecipar os acontecimentos do dia
seguinte. Qual seria o resultado? Nenhum de nós sabia o que
deveria acontecer, mas tínhamos aprendido que em épocas de
guerra civil cada líder comunista deve avançar para ser um lí­
der de milhares; os resultados contariam a história. Deitamo-
nos no chão, utilizando as mochilas como travesseiros. Era
impossível dormir.
Durante a noite, um pequeno grupo chegou de Viena.
Um deles, um jovem trabalhador desempregado, deitou-se ao
meu lado e imediatamente entabulamos uma conversação. Ele
vivia com sua velha mãe e queria lutar “por causa dela”. A situ­
ação, disse ele, não podia continuar dessa maneira; aquela
quadrilha tinha que ser surrada até virar massa; junto com a
Schutzbund a gente pode fazer isso; o dia do acerto de contas
tinha finalmente chegado. Ele estava desempregado há dois
anos e vivia precariamente com sua mãe só com o seguro de­
semprego. Esporadicamente, ele encontrava trabalho avulso e
se fosse apanhado, sua pensão seria cortada. E agora eles
estavam justamente começando a reduzir a pensão. Em pou­
co, cortariam de vez, e isto significaria fome e fila de mendigos
à espera de contribuição de pão. Até seus sapatos tinham se
acabado com a longa caminhada, mas isso não o aborreceu.
No dia seguinte tudo estaria consumado Tornamo-nos bons
amigos e dividimos o pão e o bacon. Varias horas se passaram.
Aproximadamente cem pessoas dormiam ou conversavam tran­
qüilamente no saguão. Todos esperavam pelo grande dia. Ama­
nheceu.

91
Por volta das sete da manhã, alguém olhou pela janela. O edifí­
cio estava cercado pelos gendarmes, com baionetas fixas. Es­
tourou a confusão. E agora? Alguém gritou: “Vamos dar uma surra
neles!” Outros disseram “Vamos esperar e saber o que está se
passando”. Nisto, um gendarme entrou na sala acompanhado de
dois homens e disse num dialeto vienense bem cordial, “Crian­
ças, embrulhem suas coisas, o trem para Viena está esperando
vocês”. Ouviram-se gritos de protestos: “Eu vou para onde eu
quero”, e coisas deste tipo. O funcionário disse que só sabia que
ordens eram ordens e que ele tinha sido mandado para transpor­
tar o grupo todo daqueles cômodos para a estação. Fui mandado
para parlamentar com ele. Disse ao funcionários que primeiro
queríamos discutir o assunto entre nós Ele consentiu e tivemos
uma pequena conferência. Alguns eram a favor de cederem;
outros sustentavam que isto seria submeter-se covardemente a
ser presos com tanta facilidade. Se fosse esse o caso, melhor
seria então lutar. Alguém gritou, “Lutar com quê?”
Decidimos que cada posição devia ser “sustentada” por um
porta voz e então proceder-se a uma votação. E assim foi feito. O
porta-voz “moderado” disse que era sem sentido tentar qualquer
coisa sob tais condições. Nós tínhamos que ganhar tempo. Ele
disse que nós deveríamos fingir que íamos embora e então ten­
tar forçar a volta. Os outros disseram que revolucionários sim­
plesmente não faziam as coisas dessa maneira. Isto era um fra­
casso para o espírito revolucionário. O que o povo diria? Eles na
certa iriam rir. E ele não estava totalmente errado. Ninguém sa­
bia como terminaria a votação. Pensei com horror no iminente
banho de sangue. A lembrança de 15 de julho estava ainda fres­
ca, e nós estávamos desarmados. Defender-nos-íamos de mãos
limpas, cercados por gendarmes pesadamente armados? Senti
a fúria borbulhar dentro de mim com a derrota que se avizinhava.
Não notei. A situação era desesperadora; a maioria votou pela
rendição. Era realmente degradante.
Mais tarde, descobrimos que o estalajadeiro social demo­
crata tinha discutido com os gendarmes na noite anterior. Ele nos
tinha conduzido a uma armadilha.

92
Alguém saiu e os informou. Recolhemos nossas mochilas e
saímos para o jardim. Fomos dispostos em fileiras de quatro,
com gendarmes de ambos os lados, e marchamos. Alguém
gritou: “ Devíamos pelo menos cantar” . Cantamos a
“Internationale” em voz alta. Viam-se rostos “indiferentes”, so­
nolentos, nas janelas daquele subúrbio proletário. Quase os
podíamos ouvir dizendo: “Estão apenas conduzindo alguns co­
munistas”. Os comunistas não estavam em posição cômoda
com a maioria dos trabalhadores. Comunistas apenas pertur­
bavam o pacífico e bem assentado desenvolvimentos do socia­
lismo.
Na estação ferroviária, entramos na fileira de vagões va­
zios que nos esperavam. Dois guardas inexpressivos estavam
postados em cada plataforma, com baionetas postas nos rifles
carregados. O trem se pôs em movimento. Após alguns minu­
tos, parou abruptamente; alguém tinha puxado os freios de
emergência. Os freios foram soltos de novo e reiniciamos a
viagem. Novamente o trem parou e depois finalmente se foi.
Todos estavam em um estado mental deplorável Um homem
sugeriu que pegássemos os guardas nas plataformas, mas a
maioria se opôs. Súbito ocorreu-nos que a política nos estaria
esperando em Viena. Ser posta na sua “lista” significava para
muitos a perda do emprego. “Não podíamos” deixar que isto
acontecesse. Mas como? Alguém teve uma idéia maravilhosa;
ao nos aproximarmos de Viena, simplesmente saltaríamos na
primeira parada que o trem fizesse. E os guardas, atirariam?
Não se podia Ter certeza! Quando o trem parou na estação
indicada, a ordem passou de um por um: “Todo mundo fora".
Pegamos nossas mochilas e saltamos. Os guardas ficaram atô­
nitos “Aonde vocês pensam que vão?” Perguntaram. “Para Vi­
ena”, gritamos todos. Dirigimo-nos para a saída e eles ficaram
assistindo, perplexos. Eles não sabiam o que fazer. O enge­
nheiro apenas assistiu. Um operário fez uma espécie de dis­
curso dizendo que tínhamos sido presos “ilegalmente”, que tí­
nhamos querido ir a Wiener-Neustadt, que isto era a regra da
burguesia. E era isto! Não obstante, o engenheiro social demo­

93
crata apenas nos encarou secamente. Os operários da ferrovia,
que tinham sido grupo mais revolucionário dos trabalhadores
austríacos em 1918, não estavam interessados a dar apoio. Ca­
minhamos o resto do percurso. O terceiro médico, com sua tro­
pa, foi realmente esperado pela política quando seu trem chegou
em Viena, mas nós passamos pela polícia como um grupo de
inofensivos turistas , o que realmente éramos.
Muito poucos dos membros do Arbeiterwehr chegou a
Wiener-Neustadt. Quando tentaram passar panfletos entre os
Schutzbund social democrata, receberam uma terrível surra. Em
Wiener-Neustadt não aconteceu absolutamente nada. Quinze mil
filhos de fazendeiros e de operários, trajando uniformes estatais,
com artilharia de campo e metralhadoras, mantiveram distantes
um igual número de filhos de fazendeiros e de operários, em
igual número, que trajavam uniforme cinza. Tudo se passou com
o título pomposo de alta política e operação de guerra de clas­
ses, defesa do país e defesa das classes trabalhadoras. Na oca­
sião, ninguém viu a coisa sob esse aspecto, mas todos devem
Ter sentido de algum modo quão ridículo era tudo aquilo; do con­
trário, milhões de trabalhadores de língua alemã não se teriam
podido tornar vítimas das fantasias Volksgemeinsschaft (comu­
nidade nacional) hitlerianas vários anos mais tarde. Quantas víti­
mas foram necessárias para uma simples demonstração de que,
em realidade, a “guerra das classes” não é travada entre capita­
listas e trabalhadores, mas entre oprimidos e oprimidos. A remo­
ção da inibição mental que empata tal insanidade de ser reco­
nhecida imediatamente seria em si mesma uma recompensa dez
vezes maior para a luta contra elal A partir daquela época, mi­
nha compreensão desta insan9idade permaneceu um dos fato­
res mais substanciais na minha batalha para descobrir o signifi­
cado da “liberdade”.
Aprendi também outras lições, que levaram muitos anos
para amadurecerem. Duzentas pessoas desarmadas, genuina­
mente revolucionárias, provocaram uma tempestade para 40.000
pessoas armadas e uniformizadas, não-revolucionárias, da mes­
ma sociedade. Isto é o absurdo elevado à vigésima potência.

94
Mão obstante, como foi isto possível? Já mencionei que não
éramos idiotas. Nós supúnhamos saber mais do que as mas­
sas, e realmente sabíamos mais, mas não os fatos indispensá­
veis para uma vitória para a liberdade humana em vez de sim­
plesmente nos expormos ao ridículo. Essas duzentas pessoas
(inclusive eu) acreditavam honestamente que se fossem subje­
tivamente pela liberdade e pensassem logicamente, os outros
teriam também que “ver a luz” logo. Além do mais, de acordo
com a teoria do “partido” “os outros” já tinham visto a luz. So­
mente a força é que s impediu de transformar seu conhecimen­
to em ação. Esses 200 comunistas estavam convencidos de
que se a economia quebrasse objetivamente, se os salários
fossem reduzidos objetivamente, e as mais básicas lutas por
liberdade suprimidas objetivamente, a população seria
automotiva e naturalmente levada à indignação. Essa linha de
pensamento foi a base de toda política revolucionária na Ale­
manha e na Áustria até 33. Mas as conclusões foram erradas e
levaram o movimento dos trabalhadores ao colapso, onde quer
que tal ocorreu, não voltou atrás para a instituição que atacara
anteriormente. Fez-se todo compromisso possível, e sacrificou-
se todo princípio correto do movimento socialista, todos mes­
mos. E tudo por esta única razão: a completa incapacidade, no
meio da confusão das tarefas cotidianas, para manter a cabe­
ça livre para o discernimento da realidade viva. Esta realidade,
esta vida em suas infinitas variações, que ansiava por liberda­
de, jaz na sarjeta e foi pisoteada sob o pé até se decompor. Os
representantes dos conceitos da liberdade não eram eles mes­
mos livres; a repressão social contra a qual eles lutavam existi-
as neles mesmos. Eles tinham medo de pensar, de enfrentar
as realidades da vida. Eu posso falar da maneira como falo. Eu
fui um dos poucos que, ano após ano, em completa devoção à
causa da liberdade humana, apontou as realidades práticas.
Mas nós também não éramos livres, embora escrevêssemos
sobre ela, e formulássemos e tentássemos fazer com que s
responsáveis compreendessem. Nós também estávamos amar­
rados por conceitos antiquados e não éramos capazes de com­

95
preender muito do que sentíamos. Somente com sentimentos,
entretanto, indispensáveis como possam ser, em uma luta, não
se pode transformar um mundo de costumes enrijecidos. A vida
parece Ter grande dificuldade em toar consciência de si mesmo.
Consciência significa refletir sobre sua própria origem, estrutura
e desolação. A vontade humana, que se comprometeu a ordenar
a vida segundo as leis racionais, era em si mesma um conglome­
rado de sentimentos irracionais. O movimento psicanalítico, com
centenas de especialistas em todo mundo, rejeitou a tese de que
a saúde psíquica só é possível se o amor for preenchido. O mar­
xismo rejeitou o fato de que a função psíquica constitui a força
realmente dinâmica da história mesmo se pré condicionada pela
estrutura histórica e econômica. Ambas teorias eram reflexões
sobre a vida, com o propósito de melhorar nosso domínio das
exigências da vida. Mas elas ocorreram simultaneamente e esta­
vam atadas à sua época. Os tempos eram contra a vida. O mun­
do só existia por devastar a vida. Mas ninguém sabia o que era a
vida.
O completo triunfo do irracionalismo político organizado, o
colapso do racionalismo econômico e a ameaça à existência na­
cional das vastas massas humanas pela praga emocional foram
catástrofes necessárias, mais tarde, antes que o intelecto pudes­
se aplicar-se ao problema da liberdade. Até 1934, ele ficou sufo­
cado nos “dispositivos da Liberdade”, formais, burocráticos e me­
cânicos. (OS: Aquelas formas de “libertação” jamais atingiram a
verdadeira liberdade. Vinte anos mais tarde, uma Rússia imperi­
alista, liderada por um filho da classe operária, ameaçaria con­
quistar o mundo sob a bandeira da liberação. Em lugar de gover­
no pelos homens e mulheres mais diligentes em todas as profis­
sões, uma minoria de velhacos e espiões políticos e de gangsters
armados quis destruir até a última possibilidade de liberdade - a
liberdade de falar sobre a liberdade).
Parte da trágica sai do animal humano é que ele não apren­
de a pensar logicamente em tempos de paz e que ele precisa ser
provocado e ameaçado com a extinção antes de se dar conta de
seus perigosos erros em pensamentos e em ação e de parar de

96
sufocar o próprio pensar vital e racional. O triunfo do pensa­
mento científico reside no fato de que ele permanece correto
durante um longo período de tempo, apesar de sua falta de
força e de influência sociais em meio ao tumulto e à confusão
da política quotidiana. Ela e a genuína orientação e a única
perspectiva que garante praticamente o progresso social.
Posso formular minhas próprias experiências como segue: Du­
rante os confusos anos entre 1927 e 1937, meus escritos sobre
psicologia social e higiene mental eram uma mistura entre a
descoberta do fato natural-científico e as noções políticas que
tomei emprestadas das organizações em que trabalhei profis­
sionalmente. Se eu não tivesse harmonizado os fatos natural-
científicos que descobri com os lemas do partido ideológico, eu
não s teria podido apresentar em nenhuma das organizações
políticas. Não obstante, os fatos e os processos reais vêm à
tona inevitavelmente, mas cedo ou mais tarde.

1. A condensação dos fatos natural-científicos com a


fraseologia política foi em vão. Quando os duros fatos
começaram a efetuar mudanças sociais, os políticos do
partido intervieram agudamente.
2. Hoje, nenhum lema político tem mais valor. Eles se per­
deram ara sempre no meio do caos social.
3. Minhas descobertas natural-científicas de 1928 ainda
estão corretas; mais ainda, elas atingiram grande signi­
ficado. Por outro lado, todas as expressões relaciona­
das com o partido em meus escritos naquela época re-
velaram-se falsas e inúteis e tiveram que ser banidas
de meu trabalho sobre psicologia de massa. Tudo se
deu não por minha escolha ou de quem quer que seja,
mas exclusivamente como resultado da permanência
da ciência atual e da transitoriedade dos slogans políti­
cos.

Infortunadamente, o pensamento natural-científco, quer


nas áreas físicas quer nas sociais, não conseguiu fornecer uma

97
organização internacional capaz de poupar às classes trabalha­
doras ingênuas e desamparadas, o banho de sangue do sofri­
mento e do erro no tumulto cotidiano da política - uma organiza­
ção capaz não apenas de reconhecer a ação irracional no tempo,
mas também de eliminá-la. Um dos maiores mistérios da estrutu­
ra irracional do homem é porque o funcionamento vital, inclusive
o pensamento racional, é tão temido.

A Psicologia de Massa como é vista de “Baixo”

Lendo as notícias de jornal das comissões parlamentares,


ou comunicados do governo sobre as condições sociais, tem-se
freqüentemente a impressão de que a existência social do ani­
mal humano se desenrola e é regulada exclusivamente nas con­
ferências diplomáticas, nas reuniões sobre o orçamento federal,
nos discursos para eleições parlamentares e no planejamento da
dívida externa. Quando periodicamente ocorrem catástrofes so­
ciais, o conseqüente caos social traz à superfície problemas con­
cretos da vida. Fica-se então pasmado ao observar-se que não
havia menção desses processos sociais nos jornais, nos deba­
tes, as conferências e nas resoluções. “Política nacional” e “exis­
tência social”, de repente, parecem vir de dois mundos diferentes
os quais não têm quaisquer concecções um com o outro.
Gostaria de pôr em contraste os debates parlamentares
austríacos posteriores ao 15 de julho, que foram descritos anteri­
ormente, com o segmento da realidade social como eu o presen­
ciei “de baixo”!
Um dos dogmas da economia sexual é que o caos da soci­
edade humana resulta dos mecanismos irracionais, o qual surge
da estrutura biopática do animal humano. Se eu não tivesse par­
ticipado ingenuamente desse irracionalismo social, teria perma­
necido aprisionado nos sociologismos econômicos ou nas inter­
pretações acadêmicas do “inconsciente social”. O processo eco­
nômico é a base, mas não o conteúdo vital da existência social;
além do mais, a sociedade não tem nem um inconsciente, nem
um instinto de morte nem um superego. Eis aqui um exemplo da

98
realidade:*
O partido comunista em Viena organizada, em certas oca­
siões, demonstrações de desempregados. Com um esforço in­
cansável os funcionários do partido anunciavam as demonstra­
ções no jornal Rote Fahne os organizava tanto quanto possível
através de distribuições de panfletos nos escritórios de ajuda a
desempregados e nos bairros proletários da cidade. Desde que
eu era um médico muito conhecido, em Viena, minha colabora­
ção sob a forma de apoio moral era muito requerida e justificá­
vel. Eu era conhecido de várias comissões de desempregados,
falava sobre problemas de higiene nas reuniões e participava
de quase todas demonstrações, embora não tivesse uma fun­
ção política específica. Ofereceram-me uma cadeira na Comis­
são Executiva e fui nomeado para o posto de paramentar na
assembléia nacional, mas declinei, pois não tinha nem tempo
nem inclinação. As demonstrações, no entanto, impressiona­
ram-me por serem extremamente instrutivas; elas eram, por
assim dizer, uma escola sociológica sobre vida prática. Eu não
participara com o intuito de “estudar” a partir de uma posição
elevada, mas porque, como médico, estava acostumado a não
fazer qualquer afirmação ou formular qualquer opinião sem estar
capacitado para “ver o problema de uma posição estratégica”.
Era o verdadeiro trabalho clínico na patologia social.
Nossa sociedade podia ser grandemente melhorada se
os principais economistas sociais quisessem formular suas
opiniões, não nos salões das universidades , mas no leito de
doente da sociedade, nas ruas, nas favelas, entre os desem­
pregados e os batidos pela pobreza. Os etnólogos sempre
aprenderam a avaliar os resultados científicos do “trabalho de
campo” em graus mais elevados do que as investigações aca­
* Em 1943, quando li o livro “Um Mundo” de Wendell Willkie, um best seller americano,
a contradição tornou-se clara de novo. Inquestionavelmente, Wendell Willkie é um dos
exPoentes da liberdade humana mais honesto, mais “democratizado”, e é posso con­
cordar com sua visão e intensões. No entanto, a fraqueza de seu livro está em seu
retrato dos problemas da democracia “do alto”, a partir de conversas com estadistas e
•'deres militares, a partir de conferências e ações sociais quotidianos “não oficiais”,
Particulares” e “pequenos" das pessoas que ele encontrou, em acréscimo aos aspec-
s oficiais. Na realidade, a vida social não ocorre “de cima”, mas “de baixo”.

99
dêmicas. Mas a sociologia oficial ainda está compilando estatís­
tica morta. Assim, gostaria de sugerir que os economistas soci­
ais adquirissem seu conhecimento através de seis anos de expe­
riência prática como “trabalhador social”, assim como os médi­
cos adquirem o seu conhecimento através de seis anos de traba­
lho duro e clínico e em laboratórios. Muita gente “inteligente” e
“superior” resumiu o meu curso prático de economia social e psi­
cologia de massa como “pura loucura”.
Eu marchava entre os bandos de desempregados, mas não
sem uma terrível dor de consciência por viver em um apartamen­
to de seis cômodos com dois empregados. Através da minha
culpa, familiarizei-me com a má consciência social dos intelectu­
ais economicamente seguros, e da qual provém seu ativo
“companheirismo de partido”. Eu compensava meus sentimen­
tos de culpa para com as maltratadas vítimas da sociedade cruel
e desordenada fazendo doações pecuniárias reguläres e às ve­
zes bem grandes. Essa gente tinha simplesmente o direito de
exigir dinheiro. Teria que se ter conhecido o desemprego em Vi­
ena naquela época particular para entender isto: teria que se ter
uma experiência pessoal das maravilhosas características hu­
manas deles em face da enorme miséria, suas esperanças in­
fantis, sua brutalidade primitiva, o humor que eles demonstra­
vam no sofrimento, sua negligência física, sua paciência e impa­
ciência, mas, acima de tudo, sua decência uns para com os ou­
tros. Isto não modifica o fato de que eles manifestavam todas as
características do povo na necessidade material. Roubo, brigas
de bêbados e brutalidade sexual eram freqüentes. Em relação a
miséria em que viviam, entretanto, eles eram muito mais decen­
tes, morais, desejosos de assistência, mais honestos e perceptivos
do que os conceituados, obesos, esnobes e imprestáveis glutões
e traficantes que não apresentam qualquer traço de humanidade
e são, sexualmente, muito mais patológicos, mas menos hones­
tos a respeito. Um desses parasitas reacionários tinha que se
colocar no lugar de alguém que esteve desempregado durante
anos e tentar suportar uma família inteira com seis Schillings (
mais ou menos 20 dólares) por mês, sem assaltar ou roubar “re­

100
gularmente”; sem nunca, literalmente nunca, poder ficar a sós
com sua mulher; sem nunca Ter dinheiro para gastar com ne­
cessidade s sexuais; apesar do vigor sexual, ser obrigado a
passar anos de abstinência ou a masturbar-se; sendo forçado
a passar horas em pé num burocrático escritório de ajuda a
desempregados, no frio, sem casaco, para receber cinco
Schillings; deixar-se ser empurrado por qualquer sujeito unifor­
mizado e ainda Ter que dizer “muito obrigado”. Os belos carros,
com mulheres bem vestidas e caras gordas passam tranqüila­
mente e espera-se que o desempregado apenas assista, sem
despedaçar as janelas não ligando para as conseqüências. Eles
têm que viver de batatas e pão duro e em seguida olhar pelas
vitrines iluminadas das lojas, sem roubar o que vêem, simples­
mente para levar comida, haja o que houver? ( Observar o
autocontrole do povo realmente pobre foi uma das minhas ex­
periências mais profundas como médico. Mais tarde compre­
endi que era a armadura do caráter que tornava possível o
autocontrole). Assim, compreendi as “compras sem pagamen­
tos” nos mercados abarrotados quando o inverno da fome, 1929-
30, com seu enorme sofrimento abateu-se sobre essa gente.
Havia 100.000 desempregados literalmente morrendo de fome
em Viena. Em toda a Áustria eles contavam 400.000 em 1930 -
dentro de uma população total de seis milhões. Raramente se
via um casaco nas demonstrações. Muitos tinham buracos nos
sapatos e não tinham luvas nem roupas de lã. Teria sido ridícu­
lo e provocativo aparecer em uma demonstração vestido de
casaco de frio e luvas, por isso eu sempre marchava com eles
vestindo casaco e calças de couro.
No início, eu esperava que os desempregados expres­
sassem suas reivindicações vigorosamente e que as pessoas
na rua parassem e se sentissem compelidas a alguma reação
social. Afinal de contas, esse era o propósito de tais demons­
trações. A primeira demonstração esteve deplorável. Havia a
esperança de que a segunda ou terceira produzisse resulta­
dos. Nada.
É difícil colocar de maneira clara a futilidade dessas de­

101
monstrações pelos pobres. Quem marchava nas ruas eram pes­
soas famintas em roupas esfarrapadas, e não os “fatores econô­
micos” dos políticos do estado. Quem fazia demonstrações eram
três ou quatro mil desempregados em uma cidade de dois mi­
lhões de habitantes, e não “forças produtivas rebeldes” dos eco­
nomistas sociais. A “conquista” da cidade dependia da “impres­
são” que as demonstrações fizessem e isto, por sua vez, visto do
ponto de vista marxista, determinava o “curso imutável da histó­
ria" dos dialéticos. Gostaria de descrever, tanto quanto sou ca­
paz, essas demonstrações tais como foram experimentadas pe­
los próprios desempregados.
As demonstrações eram autorizadas e registradas com a
polícia. Havia lugares estabelecidos para as reuniões. Às vezes,
havia “demonstrações ilegais” também, em que um partido de
desempregados, por exemplo, costumava convocar “comício-
monstro poderoso contra os fascistas e fascistas sociais às 3 da
tarde em frente à Prefeitura”. Mas a polícia costumava já estar lá
às 2:30 e mandava os manifestantes para casa um por um. Tra­
tava-se de idiotice? Não, era o excesso de fé no “inevitável co­
lapso do capitalismo” e no “imutável curso da história”, bem como
o sentimento de ser os “líderes do proletariado”. (OS: Este movi­
mento era ilusório, uma compensação para o vazio que costu­
mava levar ao imperialismo sangrento, que ultrapassava o de
Peter, o Grande). As “demonstrações ilegais” seguiam sempre o
mesmo modelo: marchavam pelo Lastenstrasse para Wollsseile
e esperavam até os grupos todos chegarem; em seguida cami­
nhavam pelo Ring até a Igreja Votive, onde os grupos se disper­
savam. Ocasionalmente, ouviam-se gritos de “Abaixo o capitalis­
mo!” ou “Liberdade e Pão!”. Os populares se acostumavam com
isso e em pouco já sequer olhavam para eles. Todos tinham suas
próprias preocupações. Absolutamente todos temiam os distúr­
bios, inclusive os manifestantes. Os “cabeça quentes” eram acal­
mados pelos circunstantes.
Essas pessoas tinham sido mal tratadas e excluídas pela
sociedade. Embora eles clamassem pela liderança da socieda­
de, durante as manifestações “contra a fome e contra o sistema"

102
eles se sentiam como os párias que eles realmente eram. As
pessoas que passavam eram indiferentes ou sentiam pena de­
les. Alguns viravam o rosto em sentimento de culpa. Outros,
em reuniões secretas, apertavam as defesas contra um possí­
vel domínio dos pobres. Os operários empregados não partici­
pavam dessas demonstrações. Os que tinham trabalho temi­
am ser identificados com os já desempregados. Isto ficou óbvio
nas demonstrações do Primeiro de Maio. Centenas de milha­
res de industriários marchavam pelo Ring. Os operários de­
sempregados saudaram seus “camaradas social democratas”
com “três urras para o ‘front’ vermelho”, mas os sociais demo­
cratas nem sequer os olharam. Foi uma tragédia. Os membros
social democratas do Parlamento ficaram às janelas assistindo
a demonstração. Os desempregados gritavam “Abaixo com os
fascistas sociais!” ou “Abaixo com os Seitz!” ou “Abaixo com
Otto Bauer!” ou “Queremos nosso seguro desemprego”. Eles
agitavam os punhos ameaçadoramente, cantam a
“Internationale” ou “Wedding Vermelho”. Senti sua paixão e sim­
patizei com eles. A minúcia e o enxerto parlamentar durante
aquela época ficavam absolutamente exasperados. Tinham sido
erguidas barricadas policiais entre os representantes do socia­
lismo democrata e os desempregados. Centenas de estudan­
tes fascistas ficavam na Universidade e cantavam incômodas
canções nacionalistas durante cada manifestação dos pobres.
Eles cantavam melhor, vestiam-se melhor e não eram tão ro­
xos de frio. Tinham também ocupado a Universidade, a fonte
do poder do conhecimento. Os operários consideravam a Uni­
versidade o bastão reacionários políticos; os estudantes zom­
bavam dos operários. Não havia traços dos estudantes demo­
cratas rebeldes de 1848. Em uma demonstração desse tipo, os
manifestantes romperam com o cordão policial quando os na­
cionalistas começaram a incomodar, e destruíram com a plata­
forma. O cordão policial se rompeu, diversos estudantes foram
espancados severamente. Mas o grosso da coluna continuou a
marcha imperturbáveis. Os policiais começaram a espancar os
manifestantes a torto e à direito. Muitos bateram em retirada, o

103
que encorajou os policiais.
Um incidente trivial forneceu-me material para um futuro
discernimento. Aconteceu de eu ser apanhado no meio de um
grupo de homens que promoviam um burburinho. Um enorme
policial caiu de cacetete e outros o carregaram. O policial, então,
veio atrás de mim. Permaneci imóvel, pois nada havia que eu
pudesse fazer, e olhei-o diretamente nos olhos. O animal huma­
no uniformizado ficou embaraçado e não me fez nenhum mal! A
força oriunda de uma identificação com o estado, através de um
uniforme, de repente rompeu-se. Eu testemunhei inúmeros com­
bates, mas nunca fui espancado. Os valentões só se sentem bru­
tos e fortes contra os fracos. Se se demonstra um mínimo de
coragem, sem os provocar, eles se tornam humanos e até
monstram simpatia. Tanto o tirano quanto o humano residem
dentro deles e aparecem segundo as circunstâncias.
Isto fez com que eu me desse conta de que incentivar as
pessoas ao ódio contra a polícia só intensificava a autoridade
policial e a reveste de um poder místico aos olhos dos pobres e
dos indefesos. Os fortes são odiados, mas também são temidos,
invejados e seguidos. Este medo e esta inveja sentidos pelos
“desvalidos, são responsáveis pela porção da força dos reacio­
nários políticos. Um dos principais objetivos da luta racional pela
liberdade é desarmar os reacionários expondo o caráter ilusório
de seu poder. Isto pressupõe que, como um lutador pela liberda­
de, tem-se que sufocar todas as tendências para a violência e
para a ganância do poder dentro de si e não desenvolver qual­
quer ódio das pessoas ou das classes sociais, mas somente a
hostilidade em relação às condições reacionárias que geram a
miséria social.
Como resultado dessas experiências as demonstrações,
tentei, nas reuniões de higiene social, apresentar um quadro tão
vivo quanto possível dos policiais como sendo seres humanos,
pais e maridos em casa, sem serem diferentes, nas mais simples
funções corporais, de nós mesmos. Fazendo isso, eu tentava
contra-atacar o medo das massas incorretas de propaganda dos
comunistas tinham somente intensificado. Descrevendo o Chefe

104
de Polícia ou um líder do governo como um tirano brutal, auto­
crata e desprezível, que so mereciam serem odiados, eles in-
culcavam simultaneamente, horror e sentimentos de inferiori­
dade e de fraqueza entre as pessoas.
Um dos segredos do sucesso dos nacional socialistas na
Alemanha reside no fato de que o ódio pelos oponentes políti­
cos não advinha da superioridade deles, mas de sua fraqueza
e burrice. Este ódio era, subseqüentemente, implantado nas
mentes dos seguidores dos oponentes; ser governados por
fracotes burros e corruptos é um insulto à dignidade humana e
ao auto-respeito natural. Isto, aliado a um senso de “grandeza
nacional”, destinava-se a se tornar uma força invencível. Em
contraste, atrai a atenção para a pobreza e para a necessidade
sozinhos, não podia criar a auto-estima e gerar a força. O ho­
mem tem vergonha da pobreza; ele se sente menos seguro em
roupas surradas do que quando está decentemente vestido - e
um uniforme desperta seu orgulho em si mesmo. A situação
tinha que ser remediada, mas ninguém sabia como. Sentia-se
a insignificância do poder estabelecido em comparação com os
altos objetivos da revolução social e ainda assim nada podia
ser feito. Daí, os comunistas e os socialistas vociferaram entre
si, desenvolvendo um “falso” senso de poder, um “falso”
heroísmo e um ascetismo demolidor. Mas não atraíram ninguém.
Resolver os problemas reais, sejam grandes ou pequenos, é
muito mais radical e convincente do que “tiradas” revolucionári­
as as quais dão origem a sentimentos de inferioridade e geram
somente o desprezo, o ódio e a brutalidade entre as fileiras já
socialmente desmoralizadas dos melhor situados.
No trabalho social prático, não é necessário abrir mão de
nenhum princípio científico. Ao contrário, a essência de todo
trabalho prático é seus princípios básicos; somente os slogans
políticos e as ideologias podem ser falsos e verdadeiros ao
mesmo tempo. Nas reuniões de higiene social, todos viam cla­
ramente quais condições sociais geram o bem estar humano e
quais são socialmente patogênicas; e se tornava evidente, au­
tomaticamente, - com pouco diálogo radical - quais condições

105
necessitavam ser remediadas.
Muitos anos mais tarde, este tipo de abordagem foi tão al­
tamente desenvolvido na Alemanha que até policias, governantes
e outros mantenedores da ordem vieram aos nossos centro de
aconselhamento aos bandos e assistiram os desempregados, a
quem tinham considerado, anteriormente, como rebeldes inúteis.
Ao mesmo tempo, não se fez segredo do fato de que existiam
classes tanto privilegiadas quanto desamparadas, e que a injus­
tiça e o assassínio social eram desenfreados. Entretanto, coloca­
va-se a ênfase sobre a necessidade de desprezar as condições
patológicas e não os representantes de tais condições.
O curso de nosso trabalho simplesmente nos compeliu a
mim e a meus colegas a pôr em oposição as qualidades huma­
nas que todas as pessoas têm em comum com as divisórias po­
sições oficiais. Este princípio básico não apenas provocou uma
corrida de pessoas de todos os níveis à organização, que eu
dirigia sem presidentes, vice-presidentes, secretárias, presiden­
tes honorários, etc., mas deu também origem a um dos dogmas
essenciais do que mais tarde foi denominado “democracia do
trabalho”: “Ajude-se a si mesmo e lute pelos meios que o capaci­
tem a ajudar-se a si mesmo. Não implore por liberdade e pelo
pão; não os aceite de opressores econômicos nem de piratas
políticos. Atinja-os através do trabalho resoluto e racional, sobre
si mesmo, sobre seu meio ambiente e sobre as pessoas de seu
relacionamento. E, sobre tudo, não coloque a responsabilidade
sobre os outros, mas aprenda a assumi-la você mesmo”. A dis­
tração sistemática do ódio das pessoas oprimidas desviando-o
dos representantes das desoladas condições para as próprias
condições revelou-se um meio racionalmente efetivo. Este ódio
por parte dos pobres e dos neuróticos toda classe, perdeu seu
caráter desnorteado e irracional e transformou-se em processos
de pensamento lógico e em esforços realísticos. Isto por sua vez,
despertou a simpatia de muitos que antes tinham sido indiferen­
tes ou inimigos desdenhosos. A gritaria sem sentido e a comple­
ta falta de responsabilidade foram substituídos por trabalho obje­
tivo, responsável e, cooperativo. Os jovens, por exemplo, não

106
submetiam petições às comissões parlamentares de higiene,
as se assistiam mutuamente e organizavam suas próprias ne­
cessidades vitais de maneira racional. O sucesso prático que
obtiveram fez com que muitos higienistas seguissem de acor­
do com eles. Pode soar inacreditável, mas é verdade que na
Alemanha não era o aparelho estatal, mas os ‘partidos livres” a
que os jovens pertenciam quem passou a agir contra esse tipo
de auto-ajuda. Foi uma lição impressionante: Os próprios parti­
dos da liberdade prosperaram com a impotência de seus mem­
bros.
Freqüentemente, mesmo oficiais da política - que anteri­
ormente tinham sido agredidos fisicamente e, justa ou injusta­
mente, foram considerados executores homicidas - na verda­
de defendiam a causa dos párias sociais. Em inúmeras reuni­
ões de higiene social oficiais de polícia compareciam com or­
dens para interromper as reuniões tão logo “o poder do estado”
fosse verbalmente atacado. Isto eram um procedimento de ro­
tina em concentrações políticas. Mas suas faces rígidas e
antagonísticas se suavizaram e eles demonstraram ativo inte­
resse quando eu nem ao menos mencionei o problemas da
opressão pela lei e pelo poder executivo, mas delineei os pro­
blemas que os desempregados, os trabalhadores das fábricas,
os jovens, as mulheres, etc., tinham que resolver por si mes­
mos. (Por exemplo, estava inteiramente dentro do campo da
possibilidade para o próprio povo organizar clínicas infantis para
os pobres, ou estabelecer postos de aconselhamento sexual,
ou tomar medidas práticas no que se refere a problemas do­
mésticos). Então, o “ser humano” que residia nos “guardiões
da lei e da ordem” emergiu. E quando comecei a falar na misé­
ria na vida das crianças, em casamentos e em famílias, esque­
ci completamente da presença dos “protetores da classe domi­
nante”. Ficou por demais óbvio para todos os presentes que
esses oficiais e os próprios policiais eram eles mesmos empre­
gados, apesar de seus uniformes. Eles tinham filhos, esposas,
Problemas matrimoniais e dificuldades domésticas e de educa­
ção dos filhos. Vistos desse ângulo, partir de uma perspectiva

107
prática e psicológica, as fronteiras de classes parecia inteiramente
diferentes da maneira como eram mostradas pelos programas
inteiramente economísticos do partido. (OS: Só muito mais tar­
de, na América, percebi que a polícia também pode ser demo­
crata. Naturalmente, dizendo isto, não estou ignorando o fato de
que a praga emocional também prevalece na América).
Após estabelecer os centros de aconselhamento sexual,
testemunhei o massacrante papel desempenhado pelos meca­
nismos irracionais que obstam os alvos conscientes nas massas.
Esses centros formavam um ponto focal para um grupo de traba­
lhadores que, por um breve espaço de tempo, foram importantes
para o movimento. Eu sabia que as demonstrações e os gritos
de “viva isto!” ou “abaixo aquilo” não podiam, em si mesmos,
realizar nada. Havia uma necessidade de um trabalho construti­
vo que desse um exemplo. O movimento dos trabalhadores não
podia reclamar para si a liderança da sociedade se não compre­
endesse e tentasse resolver, o início, e passo a passo, todos os
problemas criados pelo estilhaçamento da sociedade burguesa.
Inicialmente, após a sublevação de julho de 1927, eu não estava
satisfeito com minhas atividades. Diferentes organizações -
Arbeiterhilfe, Pensadores Livres, grupos ginasianos, colégios e
universidades e fabricas - me convidam para palestras. Falava
aqui e ali sobre psicanálise, o complexo de Édipo, o complexo da
castração, etc. Entretanto, logo se tornou evidente que meus
ouvinte4s não podiam colocar essas idéias em uso na vida quo­
tidiana ou para mudanças sociais, nem precisavam de aprender
quaisquer teorias.
Eles necessitavam era de discernimento e de conhecimen­
to para assisti-los em suas árduas tarefas. Eu já estava ciente de
algumas conecções teóricas entre a psicanálise e o Marxismo,
mas que não tinham qualquer significado prático. Eram mais úteis
entre estudantes, especialmente os de medicina. Fiz minha pri­
meira palestra para um grupo de estudantes socialistas, sobre “a
miséria sexual das massas sob o capitalismo”. Ela foi muito bem
recebida. Já que eu sabia que a teoria psicanalítica, como tinha
sido formulada, não era adequada diante de grupos socialistas

108
ativos, limitei o meu tema a problemas da vida secual entre as
massas. Minhas experiências na Policlínica Psicanalítica, en­
tão, me foram de grande valia. Embora a psicologia da repres­
são e do inconsciente não despertasse interesse, os distúrbios
sexuais, a educação das crianças e os problemas da família
revelaram-se assuntos inflamáveis. Logo percebi que o com­
plexo de Édipo era aplicável no contexto da “família”. Após a
primeira de minhas palestras, durante o período das pergun­
tas, vi-me confrontado com a tarefa de explicar por que a famí­
lia tão consistentemente reprime a atividade sexual das crian­
ças. Tal foi a mesma pergunta que enfrentei em minha ativida­
de médica. Ninguém, até agora, tinha a resposta. Os revolucio­
nários socialistas rejeitaram a família por considerarem-na um
instrumento de repressão. Mas o conceito de repressão que
tinham era, de acordo com as idéias vigentes, meramente eco­
nômicos - isto é, o pai, o que é economicamente mais forte,
subjuga a mulher e os filhos. Assim eles exigiam a “abolição da
família” e não deu a ela mais nenhuma consideração. (Eles,
possivelmente, não poderiam ter resolvido um único problema
da vida familiar).
A teoria socialista confirmara a origem sociológica da fa­
mília e esperava o colapso do domínio particular da proprieda­
de para que o problema se resolvesse espontaneamente. Mi­
nha experiência era a psicanálise, onde a família por si não
colocava um problema, mas onde os relacionamentos emocio­
nais dentro de uma família já existente constituía o problema
central. A ponte que uniria os dois pontos de vista estava ainda
por ser construída.
Em uma segunda grande concentração de estudantes
(1928), falei sobre “a relação da psicanálise para com o marxis­
mo”, e tentei esclarecer o papel sociológico de Édipo. Os estu­
dantes comunistas tinham convidado um “professor vermelho”
de M o sc ou para a ocasião. Durante a discussão, ele declarou
inequivocamente (de um modo que demonstrava tratar-se de
uma resolução do partido) que o complexo de Édipo era anti-
marxista, um disparate, e simplesmente não existia. Tais foram

109
suas palavras! A maioria dos estudantes se posicionaram a meu
lado, mas a autoridade de Moscou era enorme, devido à revolu­
ção social de 1917, e eu não tinha uma resposta satisfatória para
a questão de onde e como a função da família é estabelecida
sociologicamente. (OS: Desde então, os comunistas nunca dei­
xaram de lutar com minhas idéias, obviamente temendo o con­
fronto entre o economismo de Marx e a psicologia).
Minhas atividades médicas e científicas não foram de modo
algum interrompida por minhas atividades políticas, embora eu
logo percebesse a aguda contradição entre ciência e política, uma
contradição que se manteve presente e inevitável durante aque­
les tempos e que eu, mais tarde, tentei resolver com conceitos
da política científica e da ciência política. Devo descrever o cami­
nho que me conduziu dentro de meu próprio campo de luta para
a reconciliação entre esses agudos contrastes. Eu não fazia a
menor idéia, em 1928, de que viria um dia a reconhecer o
irracionalismo social nos partidos políticos. Encontrava-me ainda
distante de dar-me conta da aguda diferença que estabeleci mais
tarde entre o que é social e o que e político.
A Sexpol de 1927-37 está morta. Junto com todos os esfor­
ços humanos baseados no pensamento político, ela não tinha
futuro, morreu junto com os velhos modelos de vida da Segunda
Guerra Mundial. Tinha sido bem planejada, mas executada erro­
neamente, como foram todas as outras esperanças humanas nos
anos 20. Ninguém o sabia então. Hoje, aprendemos com tais
erros que:

- Nenhuma arrumação política ara os problemas humanos ja­


mais realizará coisa alguma.
- O político se posiciona, e tem que se posicionar, contra todos os
esforços humanos positivos, já que sua existência depende de
problemas não resolvidos.
- No futuro, o político explorará as necessidades sexuais não sa­
tisfeitas do povo, assim como, no passado, explorou outras ne­
cessidades.
- A sociedade tem que ser reconstruída de acordo com as neces­

110
sidades humana, a começar com as necessidades dos bebês.
Considerava-se insano para um médico e cientista res­
peitável participar de demonstrações de desempregados, dis­
tribuir panfletos sobre higiene social nas áreas das casses tra­
balhadores e envolver-se em distúrbios com a polícia. Os inte­
lectuais não conseguiam entender porque eu costumava arris­
car minha posição social fazendo tais coisas. Como sociologista,
escreviam livros sobre os problemas da sociedade, mas ao fazê-
lo, comportavam-se como um médico que escreve um erudito
livro sobre febre tifóide sem ter presenciado um único caso.
Por esta razão, a maioria dos livros de sociologia, até agora,
não têm influenciado o desenvolvimento da sociedade. O mes­
mo pode ser dito para a sexologia e para as reformas sexuais.
Os sexologistas da época baseavam seus escritos em suas
experiências em atividades particulares. Os problemas sexuais
e as neuroses das massas, no entanto, são completamente
diferentes e propõem problemas essencialmente desiguais dos
que são encontrados na prática particular e, especialmente, na
prática psicanalítica. Os anos imediatamente anteriores e pos­
teriores a 15 de julho de 1927, caracterizaram-se, para o movi­
mento psicanalítico, por um influxo de americanos que vieram
estudar em Viena. Enquanto que um paciente ou um aluno de
Viena podiam pagar de cinco a dez Shillings por hora (somente
casos excepcionais podiam pagar vinte Schillings por hora), os
americanos tinham que pagar pelo menos cinco dólares (trinta
e cinco Schillings) por hora. Muitos pagavam dez ou quinze
dólares e mesmo mais. Mas não era preciso Ter pena deles.
Ou eles eram muito ricos ou estavam aprendendo psicanálise
para mais tarde receberem pagamentos milhares de vezes
maiores por seus próprios serviços. Ainda, a mania pelos ame­
ricanos tinha uma influência basicamente corruptora.
Em 1928, um jovem médico de Nova York procurou-me
para treinamento. Ele hoje é um respeitado psiquiatra e psica­
nalista. Certo dia ele me viu em uma passeata de desemprega­
do - uma que terminou em pancadaria na Universidade. No dia
seguinte ele se apresentou em meu consultório usando grava­

111
ta vermelha. Percebi logo o detalhe, embora ele mesmo parecia
não se dar conta da conexão. Quando chamei sua atenção para
o fato, entretanto, ele se lembrou de que me tinha visto no dia
anterior. Ele não era socialista, mas minha passeata não o tinha
embaraçado especialmente; ao contrário, pude demonstrar-lhe
que ele não estava bastante capacitado para reprimir completa­
mente sua admiração por mim.
Eu vivia com um medo constante por causa das minhas
atividades, já que qualquer mudança poderia me destruir.
Estranhamente, no entanto, ambas atividades prosperavam, a
médica e a política. Eu não o compreendia, pois era visível como,
em meu círculo profissional, o medo de perder a prática podia
inibir qualquer envolvimento sincero com os problemas sociais.
Havia, entre os trabalhadores em uma sede local do Parti­
do, no vigésimo distrito , um jovem torneiro recém-casado de
quem me tornei amigo. Ele se chamava Zadniker e era uma ex­
celente pessoa. Foi através dele que aprendi a conhecer e a apre­
ciar a maneira única de pensar dos trabalhadores. Foi precisa­
mente por isso que nunca me deixei apanhar pela idolatrização
cega dos trabalhadores que se vê em muitos intelectuais
hiperradicais que se juntam precipitadamente aos movimentos
trabalhistas (como fantoches dos imperialistas vermelhos) e de­
pois desapareciam tão rapidamente quanto apareciam. Zadniker
era simples, franco, sem manias e sem malícia. Quando ele dizia
alguma coisa, era aquilo mesmo que ele queria dizer; quando se
zangava, demonstrava-o abertamente e logo éramos amigos no­
vamente. Possuía uma grande dignidade natural que não era de
modo algum afetada. Tinha um apertar de mão firme. Era capaz
de falar factualmente sobre os problemas sexuais da humanida­
de em geral - não apenas dos problemas dos trabalhadores -
sem qualquer traço de cinismo ou lascívia. Embora ele nunca
tivesse lido nenhum livro de Freud, era óbvio para ele que as
crianças têm desejos sexuais para com seus pais e que o ódio
pode se desenvolver daí. Não havia problema em meu ponto de
vista sexo-econômico que ele não compreendesse automatica­
mente, isto é, intuitivamente, sem conhecimento literário. Ele es­

112
tava tendo problemas com sua esposa histérica, falou disso
com razão e claridade, entendeu a etinologia sexual da neuro­
se, e sabia que as pessoas não são neuróticas quando sexual­
mente satisfeitas. Através dele descobri detalhes excepcional­
mente importantes sobre a vida entre os operários: o sórdido e
o sublime, a imoralidade e a sujeira, bem como a beleza no
comportamento desses indivíduos. Cada vez mais ele me in­
troduzia nos círculos dos despretensiosos trabalhadores que
me convenciam de que o conhecimento dos processos das leis
sexo-econômicas está presente “espontaneamente”, e “de modo
geral”, nesses extratos silenciosos, laboriosos e de pés no chão
da sociedade.
Ele se espantava que um intelectual burguês pudesse
entender tão cabalmente a situação. Falei-lhe então de Freud e
das minhas experiências na Policlínica Psicanalítica. Sua com­
preensão foi direta e automática. Com uma apreciável naturali­
dade humana ele entendia fatos que décadas de discussão e
milhares de artigos não foram capazes de ensinar a psiquiatras
e “culturati".
Eu tinha tentado, na época, tornar-me útil nas diferentes
organizações dos trabalhadores, Pronunciei palestras sobre os
complexos de Édipo e de castração e a partir desta perspectiva
cheguei automaticamente à questão da família e da higiene
sexual. Certa vez, Zadniker observou, “Sabe, este tal complexo
de Édipo me parece certo quando se está discutindo sobre ele,
mas como vamos usá-lo na nossa luta por uma vida melhor?
Afinal, não podemos analisar todas as pessoas para torná-las
mais saudáveis. Temos primeiro que modificar as condições
sociais. Precisamos Ter algo para dizer antes que as pessoas
venham nos ouvir e par que possamos pôr um fim à miséria.
Nós trabalhadores aprenderíamos alegremente mesmo que
muitos de nós sejam preguiçosos e desanimados. Mas vocês
intelectuais têm também que aprender a se expressarem de
maneira mais simples e apresentarem os assuntos científicos
de uma maneira que todos possam compreender. Hoje, só as
questões que todos podem entender são importantes”. Ele fa-

113
lou com o coração. Nas minhas primeiras cautelosas tentativas
com a psicologia no movimento dos trabalhadores, tinha percebi­
do que pouco podia ser feito com os conceitos psicanalíticos. Os
tópicos eram compreendidos, mas não podiam ser postos em
práticas. As teorias de que a família é uma instituição biológica,,
de que civilização está baseada na repressão sexual, de que
saúde mental só pode ser atingida pela renúncia dos instintos e
pela sublimação, tudo soava ridículo nesses círculos, realmente,
soavam completamente ridículo. Eu me sentia um bossal tentan­
do dizer a um maquinista grandalhão ou a um sen/ente de obra
que ele tinha que sublimar sua sexualidade para poder tornar-se
“capaz de cultura”. Se ele estivesse com saúde, abraçava sua
garota com ternura, sem complicações. Se estivesse doente,
comportava-se como qualquer outra pessoa comum o faria em
idênticas condições. Não se diz que o trabalho está baseado na
sublimação dos impulsos pregenitais? Aprendi a observar um
alvanel. Entra ano e sai ano e ele quebrava pedras grandes em
outras menores e as colocava lado a lado ara pavimentar as ruas.
Será que isto significava sublimação dos instintos? Se é, que tipo
de sublimação? Anal? Sádica? Ridículo! Logo me dei conta do
caráter mecânico desse trabalho que não tinha nada a ver com a
“elevação narcisista do ego”. O problema parecia, mais, como
podia um trabalhador manual ou um contabilista agüentar seu
trabalho sem qualquer proveito físico por um período de tempo
tão longo. Eu, pessoalmente, não seria capaz de fazê-lo ou tal­
vez o fizesse, mas somente se extinguisse toda a vida dentro de
mim e eu me tornasse uma máquina. Então, subitamente, o elo
perdido apareceu: a armadura do caráter capacita o trabalhador
a suportar o tédio físico deste tipo de atividade. Rapidamente,
compreendi ainda mais: A teoria de Freud da sublimação estava
correta para cientistas de pesquisas ou engenheiros; ela se adap­
tava pouco para o médico e para o técnico médico, e estava com­
pletamente inadequada para o trabalho feito pelas massas.
Zadniker me disse que as condições do desempregado
estava especialmente ruim. Mais cedo ou mais tarde, eles estari-
am arruinados psiquicamente. Ele não aderira à teoria oposta do

114
Comintern - a saber, que somente a fome, e não a repressão
sexual, era a causa da neurose. Disse que os desempregados
estavam inativos há meses e mesmo anos, e que se encontra­
vam debilitados. Pensando nisto, cheguei à conclusão de tal se
dá porque a energia biológica sem escape ativo causa primeiro
o nervosismo e depois gradualmente devitaliza o organismo.
Zadniker explicou, também, que era virtualmente impossível para
o desempregado permanecer fisicamente sadio e que isto le­
vava à destruição da família e do relacionamento entre o ho­
mem e a mulher. O homem se tornava pedinte. Quando uma
família da classe operária é exposta à fome por um período
longo, todas as fontes inconscientes de ódio começam a fluir.
Ordinariamente, sob condições econômicas mais propícias, tais
fontes são cobertas pelas atitudes convencionais. Zadniker tam­
bém me revelou o mais profundo segredo da função do casa­
mento e da família. Ele era um trabalhador de mente aberta e
politicamente consciente; sua mulher precisava dele e ele pre­
cisava dela também. Entretanto, desde que ele era são e ela
sexualmente perturbada, ele sofria. Ele procurou uma outra
mulher mais saudável. Ela ficou enciumada, embora não pu­
desse dar a ele o que ele precisava, e tentasse evitar que ele
fosse a reuniões onde pudesse ter facilidades de fazer amiza­
de com outras mulheres. Tal era, indubitavelmente, o raciocínio
dela. Ele o sabia e expressou-o em termos simples. E os ho­
mens, observou, inclusive os comunistas, carregam bandeiras
do tipo “consciência de classe para o proletariado” e
“companheirismo entre marido e mulher” ao passo que
acorrentam suas esposas ao fogão. Temem, por outro lado,
que suas esposas possam conhecer outros homens. Contou-
me muito mais ainda e aprendi a ver muito do que não é descri­
to nos livros políticos ou científicos. Comecei a sentir aguda­
mente a falta de valor da ciência acadêmica. Muito do que an­
tes tinha grande valor para mim começou a entrar em colapso.
Ser este tipo de cientista significava praticar um subterfúgio.
Como eu poderia continuar cientista, isto é, trabalhar
honradamente na ciência, e ainda ignorar essas realidades?

115
Parecia ser uma das principais funções de muitos cientistas ne­
gar tais realidades, ignorando-as.
Os acontecimentos na Áustria, naquela época, foram tão
desconcertantes que a ciência acadêmica parecia estar insupor­
tavelmente distante da vida enquanto vida. Os prognósticos co­
munistas pareciam corretos; o economista soviético Varga alertou
para uma crise econômica séria e renovada no capitalismo. Isto
certamente causaria uma revolução mundial, a qual por sua vez,
traria a racionalidade para as vidas dos homens. Embora eu
mergulhasse ainda mais profundamente na política (que para mim
significava trabalho social), uma espécie de pressentimento me
impediu de seguir o caminho convencional para uma carreira de
um funcionário de partido político. Eu teria sido obrigado a desis­
tir daquilo que para outros poderia parecer uma profissão sem
sentido e de voltar-me inteiramente às atividades do partido. Mas
eu estava com o coração e com a alma no meu trabalho científi­
co. Eu tinha a sensação do princípio de uma crítica produtiva da
psicologia burguesa sem, até então, ser capaz de formulá-la.
Deixar para trás uma existência na burguesia superior seria um
significante passo a ser dado, mas mesmo a ameaça de sérias
conseqüências até então não me tinham impedido de assumir
riscos.
Durante esse período, entrei em uma fase pela qual todo
indivíduo que desperta tem que passar: comecei a sentir a este­
rilidade dos passatempos e das conversas sociais. Tinha deixa­
do para trás o estágio de “dançar e discutir Goethe”. Ainda era
convidado freqüentemente para noitadas em residências de meus
colegas, mas aceitava tais convites cada vez mais raramente.
Tudo parecia uma farsa e eu tinha perdido a habilidade para con­
versar banalidades. Por outro lado, meu amigo Zadniker me ti­
nha inspirado uma idéia da qual não conseguia me libertar. Eu
era um psiquiatra e um médico e podia exercer muito menos
influência como político do que como médico. Eu tinha, então,
me devotado a todos os tipos de assistência médica e educacio­
nal que pudesse dar aos jovens e às trabalhadoras. Em janeiro
de 1929, os jornais esquerdistas trouxeram as primeiras e bre­

116
ves notícias sobre a Sociedade Socialista para o
Aconselhamento e a Pesquisa Sexual, que tinha aberto diver­
sos centros de aconselhamento sexual para os operários e fun­
cionários. Após vários meses de preparativos e de considerá­
veis despesas pessoais, eu tinha fundado essa organização
com vários psicanalistas mais jovens que tinham sido meus
alunos, e com três ginecologistas. O título era bem pomposo,
mas era de costume naquela época, as organizações se equi­
param com carimbos e papéis timbrados.
Espalhamos a notícia de que sexólogos especialistas ti­
nham formado uma organização para dar, em vários bairros de
Viena, conselhos gratuitos sobre problemas sexuais, educação
de crianças, e higiene mental em geral para aqueles que esti­
vessem buscando orientação. Foram dadas palestras para in­
formar sobre higiene sexual, as causas e os possíveis remédi­
os para as dificuldades emocionais. A sociedade assumiu a
posição de que a miséria sexual era causada essencialmente
pelas condições sociais enraizada na ordem social burguesa e
de que ela não poderia ser removida inteiramente, mas que
podia ao menos ser aliviada através de ajuda às pessoas. Além
disso, informações sobre problemas sexuais eram para circu­
lar largamente entre as casses trabalhadoras. O conhecimento
subjacente nesta informação se expandiria pela atividade soci­
al e pela pesquisa nos indivíduos. Reservei-me a posição de
diretor científico. Seis centros de aconselhamento foram aber­
tos imediatamente, cada um dirigido por um médico. Três obs­
tetras puseram-se à nossa disposição para assistirem em gra­
videz problemáticas. Um advogado também estava participan­
do.
(A novidade em nossos centros de aconselhamento - clí­
nicas de higiene sexual - consistia em que nós integrávamos
os problemas das neuroses, dos distúrbios sexuais e dos con­
flitos do dia-a-dia. Também era novidade atacar a neurose pela
“prevenção” e não pelo tratamento. Tal dependia basicamente
como conduzir a sexualidade nas crianças e nos jovens. Neste
ponto, “desejo reivindicar prioridade e total responsabilidade para

117
a introdução da teoria da economia sexual da genitalidade natu­
ral”. Até então, nenhuma atenção tinha sido dada a esta esfera
central da higiene mental e, quaisquer consideração que se fize­
ram posteriormente, na Alemanha, na Escandinávia e finalmente
na América, passaram por cima do problema da genitalidade da
criança e do adolescente com idéias moralizantes. Aqui, não se
trata apenas de minha reivindicação por prioridade, trata-se de
advogar uma questão social tão proibida quanto básica, uma ques­
tão que levou à fonte da praga emocional).
Os centros se tornaram imediatamente tão superlotados
que qualquer dúvida quanto à significância de nosso trabalho era
prontamente removida. Durante minha hora de aconselhamento,
havia sempre dez pessoas, aproximadamente, esperando, de
modo que eu tinha de arranjar uma Segunda hora. Meus colegas
encontravam-se em situação semelhante e quando começaram
as palestras a situação se intensificou. Considerar cada caso com
cuidado adequado requeria mais ou menos meia hora. A princí­
pio, a maioria dos que nos procuravam eram mulheres jovens e
adultas que tinham engravidado por inabilidade ou ignorância.
Nós as enviávamos à clínicas de controle de nascimento da cida­
de, mas nós mesmos as introduzíamos no uso de contraceptivos
e na função psicológica do abraço genital. Entre elas, não havia
um único caso em que advogar uma continuidade da gravidez
não teria sido desumano, anti-ético, vil e covarde. Literalmente,
nenhuma dessas mulheres e meninas podiam Ter “permissão”
para trazer uma criança ao mundo. Comparadas com essa reali­
dade, toda a conversa oca sobre as indicações médicas e
eugênicas para o aborto (as indicações sociais nunca eram men­
cionadas) logo pareceram extrema insanidade e para grande
vergonha daquelas pessoas que durante décadas debateram se,
e até que ponto, uma avaliação médica podia ser considerada
válida e permissível em acréscimo à considerações dos eugênicos.
Nenhum médico decente - nem qualquer pessoa decente - te­
ria, por si mesmo, sancionado um único iota do que ele exigia
para “o povo” para assegurar “a salvaguarda da moral” e um “au­
mento na população”. Esses problemas foram tratados tão ex­

118
tensamente em meu livro “A Revolução Sexual” que posso ser
breve aqui. O problema não era mais as indicações para inter­
rupção da gravidez, mas o tipo de pensamento que criou as
cruéis leis anti-aborto e as executava impiedosamente. O pro­
blema imediato, entretanto, era a opinião e o pensamento dos
reformadores que não captaram o que eu vira e seguira des­
crevendo, mas sim negociaram sobre vários assuntos com os
representantes da lei. (OS: As mães não contavam. A miséria
infantil também não. O que contava era um moralismo doentio
que seria rompido apenas alguns anos mais tarde quando “a
paternidade planejada” tornou-se matéria de fato. Quantas vi­
das se perderam...) Eu estava, na época, desacostumado com
suas verdadeiras convicções, mas logo sentiria o impacto de­
las. Eles debatiam se a tuberculose, o retardamento mental ou
pés chatos em uma família constituíam ou não indicações para
aborto. Somente os radicais extremos advogaram “o direito da
mulher sobre o seu próprio corpo”. Eles defendiam sua posição
com os apaziguadores argumentos de que só assim as mulhe­
res poderiam parir seus filhos com felicidade, de que a popula­
ção cresceria apesar disso, como na União Soviética, e que a
introdução do socialismo provaria que as mulheres gostam de
ter filhos, mas necessitam, primeiro, de serem libertadas das
necessidades materiais. Isto, sem dúvida, era verdade, mas
constituía apenas uma pequena parte do problema. Alguma
coisa muito mais importante e abrangente determinou minha
posição, a saber: mesmo se se fizessem provisões materiais, e
estas estivessem à mão para algumas mulheres, aquelas mu­
lheres que eu estava observando simplesmente não podia ter
filhos. Ao lado de todas as outras questões médicas e sócio
econômicas, eu começava a ver o problemas sob uma nova
!uz, a do estado emocional das gestantes. Encontrar uma ra­
zão sobre a qual basear uma diagnose médica, no contexto
dos mores correntes, era, na verdade, raro. Mas tomar isso
como um precedente, usá-lo como desculpa para não ser o
Problemas principal, era real estupidez e um crime contra as
mulheres. Essas mães, sejam jovens ou adultas, eram capa-

119
zes de gerar e parir uma criança, mas incapazes de educá-las,
cuidar delas ou mantê-las vivas. Todas elas, sem exceção, eram
seriamente neuróticas e tinham um relacionamento muito pobre
com seus maridos, ou mesmo não se relacionavam. Eram frígi­
das, ansiosas, secretamente sádicas ou abertamente masoquis­
tas. Eram esquizofrênicas latentes ou depressivas mórbidas;
mulherezinhas fúteis, ou animais de carga, miseráveis e desinte­
ressadas. Se casadas, odiavam os maridos, ou dormiam com
qualquer um indiscriminadamente, sem sentimento. Muitas vivi­
am com cinco a oito outras pessoas com as quais dividiam o
mesmo quarto e a mesma cozinha. Trabalhavam por tarefas, em
casa, feito escravas, do amanhecer ao anoitecer, para ganharem
vinte e cinco Schillings ou menos por semana. Tinha de três a
seis filhos legítimos e às vezes criavam outros também. Os mari­
dos bêbados batiam nelas e as desmoralizavam. Como as crian­
ças que já tinham tido só lhes causavam tormento e penúria,
abrigavam ódio mortal contra elas e contra as que ainda não
tinham nascido A conversa inútil do “sagrado amor eterno”, dian­
te desta miséria subumana, podia Ter quase provocado alguém
a puxar uma arma contra o conferencista. Mesmo se o pior da
miséria tivesse sido removido, ali ficaria ainda o bastante para
recriá-la se tivesse havido um desejo genuíno de realizar um cen­
tésimo de toda a falação sobre crianças e cultura. Todas essas
mães eram histéricas ou compulsivas; os filhos ou eram
bonequinhos mimosos ou filhotes rebeldes. Não se devia permi­
tir que mulheres como aquelas tivessem filhos! - E isso sem falar
na subumana condição material da maioria.
Por essas razões foi que advoguei, desde o começo , o
inquestionável direito de toda mulher grávida contra sua vontade
de abortar, com ou sem todas as várias indicações. Na ocasião
estávamos em condições de fazer referência às leis passadas na
Rússia, embora eu já soubesse (desde 1929) que as intenções
delas não fossem tão genuínas: de fato, cinco anos mais tarde
elas foram repelidas. Enviei todas as mulheres que tinham
engravidado por ignorância ou contra vontade para médicos que
realizaram os abortos. Eu sabia o que estava fazendo e conside­

120
rava rotineiro assumir tal risco. Revia sempre a aversão já bem
conhecida de tais mães por seus filhos e não me incomodava
com as preocupações dos políticos da população. Eu já estava
acostumado com seus equívocos, bem como as formulações
sociológicas das atitudes deles. Naquele tempo, eu já me tinha
envolvido num debate silencioso com os comunistas que eram
contra o Malthusianismo, pois Marx não tinha entendido inteira­
mente Malthus, o qual sustentava que a miséria desapareceria
se se reduzisse a taxa de natalidade. Malthus não percebera a
origem do dilema social. Marx, por outro lado, divisara essa
origem e rejeitara a teoria Malthusiana porque ela podia facil­
mente se desviar dos objetivos reais da luta de classes e con­
duzir a ilusões. Mas, desde que Marx não elucidou isso com­
pletamente, a teoria da necessidade de restrição da taxa de
natalidade levou a uma existência miserável e logo desapare­
ceu completamente na União Soviética. A solução era: luta de
classes para eliminar a miséria das massas e um controle de
natalidade seletivo!
Durante dois anos, estive tão maravilhado pela miséria
sexual das pessoas que o conflito entre o cientista e o político
dentro de mim se tornou ainda mais intenso. Tal conflito cres­
ceu especialmente quando entrei em contato, através do
aconselhamento sexual, com o trabalhador adolescente médio
de Viena. Embora eu me tivesse familiarizado com as necessi­
dades da puberdade muito mais cedo, os casos vistos na Poli-
clínica e em minha prática particular pareciam exceções pato­
lógicas da regra, à luz do pensamento psicanalítico contempo­
râneo, tal regra sendo baseada no “adolescente normalmente
ajustado que ultrapassou seu complexo de Édipo e agia de
acordo com as demandas da realidade”. Quase ninguém desa­
creditava do conceito de um “adolescente normal e saudável”,
e menos ainda do agir “segundo as demandas da realidade”. O
status era simplesmente admitido e aceito como imutável. Não
se o questionava nos livros nem em lugar nenhum. Mas, nos
centros de aconselhamento sexual e, especialmente nos pos­
teriores encontros da juventude sexo-política, o quadro se mo­

121
dificou completamente. Aqui eu me deparei com adolescente que
eram considerados saudáveis; a maioria deles - na média, entre
os quatorze e os vinte - vinham somente para se aconselharem
sobre contraceptivos. Imediatamente, surgiu a questão de saber
se se podia dar contraceptivos a adolescentes de quatorze ou
quinze anos. Tal questão, por sua vez, conduzia consistente e
inexoravelmente a todo o problema da adolescência. O procedi­
mento de costume era não se preocupar de modo algum com
essa faixa etária,* ou então descartá-los com o confortante con­
selho para que esperassem até que amadurecessem mais. Isto,
naturalmente, era impossível se se deseja prevenir a neurose.
Antes de formular uma resposta para a questão, analisei
todos os fatores psíquicos, físicos e sociais. Esses adolescentes
eram na verdade indivíduos adultos. Eram empregados como
aprendizes nas fábricas, office-boys ou domésticas. Muitos dos
rapazes eram membros da Guarda Jovem dos Trabalhadores e
a grande maioria desses jovens eram membros da Associação
da Juventude Social Democrata. Ou já tinham namorado ou na­
morada, ou me procuravam buscando “escapar da solidão”. Mi­
nha primeira resposta despretensiosa era: “Você não pertence a
um grupo de jovens?” “Sim, mas isto... não é isso o que eu quis
dizer”, era sempre a resposta. Não havia necessidade de interro­
gar mais. O assunto era perfeitamente claro. Aos poucos, conse­
gui entender, afirmar e remover a desconfiança profundamente
instalada e plenamente justificada que a juventude deposita em
tudo o que se refere à autoridade e aos adultos. Eu simplesmen­
te lhes dizia que estavam corretos. Não havia nenhum que não
se tornasse imediatamente mais confidente depois disso. Eles
conheciam os fatos e queriam “uma vida amorosa feliz”. Eles não
acreditavam em uma palavra sequer da doutrinação. Muitos ti­
nham simplesmente fugido de casa. Havia uma profunda repulsa
por seus pais por reprimir-lhes a vida amorosa. Os que tinham
parceiros pareciam considerar o sexo, freqüentemente praticado
nos portais ou esquinas escuras, perfeitamente natural; também

* Nas organizações de juventude, a questão não era sequer tolerada; estava-se por
demais ocupados com “alta política”.

122
aceitos como natural o fato de estarem vestidos, de terem que
ser rápidos e de terem medo de uma surpresa desagradável ou
da gravidez. Não tinham idéia da relação entre seus distúrbios
nen/osos e o comportamento miserável de sua sexualidade ado­
lescente “ordeira”. A conexão entre uma vida amorosa genital
“desordenada” e a saúde psíquica arruinada era desconhecida
nas organizações políticas, bloqueada por evasivas e por fal­
sos conceitos. Não havia olhos para reconhecer a palidez, a
depressão, o nervosismo, os distúrbios no trabalho, as discus­
sões, as tendências criminosas e as perversões nesses jovens
elementos. A homossexualidade florescia, normalmente sob a
forma de masturbação mútua. A correta compreensão existia
lado a lado com os mais idiotas subterfúgios dos jargões cultu­
rais da burguesia ou com slogans do partido. No entanto, uma
rápida explicação das conexões era tudo de que se necessita­
va para capacitar os adolescentes para perceberem os fatos
imediatamente. As falsas morais e os conceitos hipócritas se
desintegravam como matéria apodrecida. No início, custou-me
acreditar que fosse possível, especialmente porque o escrupu­
loso superego está tão profundamente enraizado no id biológi­
co”.
Transformar as atitudes sexuais básicas de negativas em
positivas não tem, naturalmente, nenhum efeito significativo
sobre a estrutura psíquica. Se o medo da castração ou
defloração estivesse profundamente incrustado, a situação per­
maneceria basicamente imutável. Não obstante, quanto mais
jovem fossem os adolescentes, moça ou rapaz, mais rápida e
mais completamente seu direcionamento se invertia após ape­
nas algumas observações. Era como se eles estivessem des­
de há muito esperando pela informação, como se tivessem es­
tado marchando letargicamente sob um jugo sem compreen­
der seu significado. Eles sabiam tudo sobre sua sexualidade;
sabiam que necessitavam de amor e que, sem ele, estagna­
vam. Mas não tinham qualquer noção dos obstáculos que im­
pediam sua realização. Levavam vida dupla sem terem idéia da
contradição ou dos pré-requisitos e condições sociais para uma

123
vida amorosa satisfatória. Todas as moças, não importa quão
firmemente exigissem seus direitos sexuais, estavam encharcadas
de ansiedade sexual consciente ou inconsciente. Os rapazes so-
friam principalmente por sentimentos de culpa quanto a
masturbação, ansiedade hipocondríaca ou ejaculação precoce.
Em uns poucos meses, aprendi mais de sexologia e de
sociologia do que em dez anos de prática analítica. Foi uma fase
de transição para mim. Tinham-me ensinado, e eu me tinha con­
vencido, que a ejaculação precoce se baseia na fixação uretro-
erótica e no complexo de Édipo. Isso é correto, mas, em acrésci­
mo, me dei conta então de que se o intercurso sexual é tentado,
ou realizado, às pressas, com os parceiros totalmente vestidos,
a ejaculação também é prematura e ocorre antes de que uma
suficiente excitação tenha sido atingida, o que conduz a sinto­
mas neuróticos devido à êxtase sexual. Pesquisei a gênesis do
distúrbio e descobri que esses jovens tinham sido mais ou me­
nos neuróticos na eclosão da puberdade, mas que a verdadeira
neurose somente se desenvolveu após vários anos de conflito de
puberdade. As fixações criadas pelos tabus sexuais da infância
ocorriam sempre como fator retardante, as era a obstrução drás­
tica do derradeiro passo para uma vida amorosa saudável duran­
te os anos de masturbação que causava uma completa regres­
são aos conflitos infantis. Aqui me senti forçado a fazer uma im­
portante correção da teoria psicanalítica. Por um lado, é verdade
que a revivificação do complexo de Édipo durante a puberdade
gera conflito, mas os conflitos são agora muito mais o resultado
da negação social das necessidades sexuais naquela época.
Quando o acesso ao amor saudável normal é bloqueado, o ado­
lescente retroage a uma neurose infantil que se intensifica atra­
vés do desejo genital aumentado e simultaneamente negado. A
psicanálise ignorou completamente isso, ou melhor, “preferiu “ig­
norar, como mais tarde ficou demonstrado. Outras escolas de
psiquiatria nem sequer se atreveram a mencionar o problema.
Como aconselhador de jovens, não era capaz de tagarelar sobre
“puberdade cultural” nem era capaz de confortar os jovens com
posterior recompensa. Tal me acometeu como um crime médico

124
que só se comete por ignorância ou estreitamento mental, ou
por medo acerca da vida do próximo. Tive que escolher entre
três respostas possíveis para suas perguntas: podia aconse­
lhar abstinência, recomendar a masturbação, ou simplesmente
reafirmar o desejo adolescente pelo intercurso sexual. Parecia
não haver uma Quarta possibilidade, embora eu confesse Ter
buscado por uma, em meu predicamento, durante bom tempo.
O medo da opinião pública, que era inexorável e implacavel­
mente cruel a esse respeito, foi o que incitou essa busca.
Gostaria agora de relatar como esse enorme perigo para
todo eu esforço foi superado. Se eu estivesse sozinho nesse
meu trabalho científico, certamente teria sido derrotado. Aprendi
sobre perseverança e sobre firmeza de convicção com jovens
trabalhadores que lutavam por liberdade e por uma luz sobre
suas próprias existências. Fui procurado por jovens membros
do Schutzbund do Arbeiterjugendwehr (Guarda Jovem dos Tra­
balhadores) que vieram ao centro de aconselhamento com vá­
rias dificuldades relativas a suas namoradas, distúrbios sexu­
ais, etc. Houve uma afinidade imediata, tornando desnecessá­
rio que eu apresentasse razões para meus conselhos. Eles
perceberam estruturalmente. Eu não desejava evitar o assunto
da situação política extremamente tensa, nem podia. Pelo con­
trário, era o entrelaçamento da vida política, em larga escala,
com as minúcias da vida pessoal o que me interessava. Quantas
vezes tinha visto um funcionário tornar-se politicamente inativo
pelo emaranhamento nos conflitos pessoais! De tais casos, o
movimento político tirou a falsa conclusão de que os trabalha­
dores politicamente ativos não podiam Ter conflitos pessoais.
Eu só podia considerar isso um pensamento piedoso e ansioso
comparável, politicamente falando, a uma avestruz que escon­
de a cabeça para seus semelhantes. As pessoas envolvidas
compartilhavam de minha opinião. Muitos me procuravam com
um expresso desejo de ajuda para resolver seus problemas
Pessoais a fim de melhor se equiparem para a batalha política.
Dentre esses membros do Arbeiterjugendwehr havia dois indi­
víduos especialmente importantes. Um tinha dezesseis anos e

125
o outro vinte e um. Falaram da inquietação entre a juventude
social democrata. A essa altura, uma legislação de emergência
tinha começado a desmantelar todas as realizações sociais dâ
República, e alguma coisa tinha que ser feita. Schober, o presi­
dente recém eleito, que era ao mesmo tempo o chefe de polícia,
estivera tomando atitudes rigorosas. A crise começou a se ex­
pandir em círculos sempre crescentes. Os jovens me contaram
que o Schutzbund em Ottakring estava preparado para fazer qual­
quer coisa, e pediram-me para assistir uma reunião com eles.
Acompanhei-os e falei com o líder do Schutzbund do bairro, um
antigo soldado e funcionário trabalhista. Nenhum trabalhador ra­
zoável estava de acordo com a plataforma do partido. Não
obstante, ela ainda representava a unidade do movimento socia­
lista austríaco, em oposição ao alemão, e ninguém queria sacri­
ficar isto a nenhum preço. Na maioria dos assuntos os comunis­
tas estavam corretos, mas os trabalhadores não queriam Ter nada
com eles. Eles gritavam alto demais em comparação com a lide­
rança que demonstravam e com os resultados que produziam.
(Eles não eram bastante práticos, e eles difamavam profusamente
o povo).
Um jovem maquinista casado tinha organizado uma divi­
são secreta de metralhadoras. Quando veio o último avanço da
legislação de emergência, ele e seus homens planejaram ocupar
o interior da cidade e metralhar todo mundo em todos os lados.
Essas pessoas não tinham nada a perder, viviam apenas para
um amanhã melhor, esperando pela grande chance de fazer con­
tato com o movimento da vida social novamente. A sociedade os
havia excluído e eles agora estavam prontos para puni-la. Eu
entendia seus argumentos tão bem que não me ocorreu qual­
quer objeção ao plano deles, nem eu queria me opor. Tivesse eu
sido mal tratado como eles, e meus pensamentos e desejos de
ação teriam sido parecido com os deles. Era simples e inteira­
mente racional. Os próprios trabalhadores proclamaram as cor­
retas restrições: as massas não os apoiariam, porque seus líde­
res tinham optado pela infiltração pacífica, que realmente resul­
taram em compromissos fatais. Não obstante, eles desejavam

126
reunir os líderes do partido.
Através de meus esforços, o Schutzbund conferenciou
com os comunistas sem realmente se unir a eles. O salão de
convenções do Stahlehner em Hernals, que tinha uma capaci­
dade aproximada de duas mil pessoas, foi alugado para a oca­
sião. Eu contribuí com o dinheiro e, atendendo a convites, fiz o
discurso principal para um auditório transbordante. A maior parte
da audiência era composta de membros ativistas do Schultzund
e de trabalhadores empregados. Enumerei os erros do passa­
do e demonstrei o fato de que o caminho que se trilhâva condu­
ziria infalivelmente ao desastre. (Os fatos de 1934 confirmaram
este ponto de vista. A organização social democrata não foi
destruída por Hitler em 1938, mas pelo Partido Socialista Cris­
tão, dirigido por Dolfluss, em 1934). Havia muita gritaria; a at­
mosfera era explosiva. A platéia estava esperando uma res­
posta positiva e produtiva para a questão de o que podia ser
feito. Eu não tinha outra resposta, a não ser aquela proposta
pelo Partido Comunista: a classe trabalhadora deve lutar pela
liderança na sociedade. Era o que eu podia oferecer, e estava
longe de satisfazer. Hoje, fazendo uma retrospectiva, é com­
preensível que o povo não quisesse concordar com esta fór­
mula geral. Todos sabiam que os comunistas estavam corretos
em princípio, a partir de um ponto de vista Marxista- científico.
Mas, na vida quotidiana, os Social Democratas pareciam estar
corretos. E todos estavam temerosos da guerra civil que os
comunistas estavam fomentando. Hoje eu dou conta de que
eles também tinham medo da responsabilidade do poder soci­
al. Os social democratas eram capazes repetidamente de pre­
valecerem com suas teorias parlamentares. Eles simplesmen­
te contavam com o medo de revolução dos revolucionários.
Naquela reunião tornei-me vivamente consciente, pela pri­
meira vez, do conteúdo emocional do quadro de membros do
partido. Os membros concordavam comigo, mas assim que a
situação começou a soar ameaçadora para o Partido Socialis­
ta, alguém, que aparentemente tinha sido contratado para tal,
gritou: “Os comunistas só estão tentando nos dividir e espalhar

127
a discórdia. Todos os Social Democratas deixarão a sala agora”.
E, com isso, os socialistas em oposição saíram em um bloco
compacto. Mais ou menos quatrocentos comunistas que recém
tinha chegado a termos com o Schutzbund, bem como vários
corajosos funcionários social democratas e liberais de diferentes
organizações, permaneceram atrás. Embora a reunião tenha pros­
seguido, nossa causa estava perdida. Na época nós pensáva­
mos que os social democratas tinham uma vez mais “traído a
causa em serviços da burguesia”. Eu estava ainda longe de ver o
princípio comum de todas estas questões emaranhadas: o
desvalimento da gente comum em face da praga política. Entre­
tanto, devo primeiro preparar o caminho para tal de maneira com­
preensível.

128
5
A in va sã o da m o r a l id a d e -s e x u a l
NA SOCIEDADE PRIMITIVA
CONGENITAMENTE LIVRE

Em Berlim, meu trabalho combinou-se imediatamente com


o grande movimento da liberdade. Quando se está conduzindo
sozinho o pesado fardo de solucionar um problema social crucial,
uma oportunidade de se ligar a um movimento como aquele é
muito importante. Sobre tudo, protege o aparato físico que,
devido às especiais experiências na vida, apreendeu, formulou
e descobriu uma solução para o problema. Quanto mais largo o
alcance de um conceito, mais intrincadamente ela se entrelaça
com a história da vida privada de seu defensor e maior sua
responsabilidade em não permitir que sua estrutura contenha
erros exageradamente irracionais. O mais significativo sinal para
o conteúdo de realidade de um conceito é a reação que ele
produz em seu ambiente social, seja positivo ou negativo. Se
uma idéia válida não consegue encontrar uma forma adequada
de expressão, é uma indicação de insanidade, ou pode induzi-
la. Neste contexto, estou aplicando o termo “insanidade" no sen­
tido correto, isto é, a percepção de um problema vital básico da
vida, enquanto que falta a habilidade para se retrair dele, resolvê-
lo ou, pelo menos, encouraçá-lo na realidade (ancorá-lo). Eu
estava bem consciente da minha equação pessoal que amea­
çava de dentro. A suspeita de doença mental não me alarma­
va, mas eu estava cônscio de que se eu não atingisse um grau
adequado de sucesso eu podia me tornar vítima de uma velha

129
insegurança adquirida na infância, a saber, os sentimentos de
culpa sexual que estão destruindo o mundo.
Desde que me senti firmemente convencido de que minhas
teses estavam corretas e meus pensamentos eram lógicos, em­
bora não estivesse “ajustado” ao modo de pensar vigente, senti a
necessidade de buscar a confirmação da exatidão de minhas te­
orias no meu ambiente mais imediato. No princípio, a psicanálise
parecia fornecer a confirmação que eu buscava. Tornou-se evi­
dente que assim era, pelo menos parcialmente, mas também que
a psicanálise estava relutante em assumir qualquer responsabili­
dade por meus pontos de vistas. Não havia nada que pudesse
ser feito, a não ser aceitar isto. Tive esperança, então, de que o
Partido Comunista aceitaria minha posição. A plataforma dele
Continha todos os pré-requisitos, e, ainda, alguns elementos que
eu extraíra através de uma abordagem diferente. Isto explica
porque eu não expus minhas teses independentemente desde o
início, livre de filiação organizacional, mas sim advoguei minha
causa em nome da psicanálise ou do marxismo. Quando a situa­
ção ficou séria, os marxistas se juntaram aos reacionários sobre
essa questão. Para fins de agitação, o mundo reacionário atribui
tanto ao marxismo quanto a psicanálise, as idéias que eles não
aceitam factualm ente nem advogam em nível político-
organizacional.
A incorporação da sexo-economia aos movimentos psica-
nalítico e marxista tinha sido um primeiro passo muito importan­
te. Já que, entre 1934 e 1938, o segundo, e mais decisivo, passo
fora dado, a saber, a completa dissolução das ligações com am­
bos movimentos. Tal resultou em um novo conceito de relaciona­
mento entre o povo e o estado. Incluiu os melhores elementos
dos dois movimentos matrizes e também introduziu uma visão
adicional que continha a solução para o problema do Fascismo.
O problema de “o povo e o estado” pode ser subdivido segundo
seu desenvolvimento:

1. Prova etnológica de que a economia sexual é correta,


demonstrada pela sociedade Trobriand, assim investiga­

130
do por Malinowski.
2. O desenvolvimento do movimento sexo-político (em opo­
sição ao sexo-reformista) na Alemanha, para o inde­
pendente Sexpol.
3. Confirmação de minhas teses sociológicas e sexo-polí-
ticas, através de novos problemas levantados pelo fas­
cismo alemão e pela Stalinização da Rússia, enquanto
que os velhos movimentos não foram capazes de des­
cobrir uma explicação para tais fenômenos. E, finalmen­
te,
4. O reconhecimento da organização natural do trabalho
como base de um movimento cultural focado na afirma­
ção prática e socialmente segura da felicidade sexual
para as massas.

Em acréscimo às descobertas e argumentos sexo-eco-


nômico, que poderiam falar por si sós, a maneira pela qual eles
evoluíram é também muito importante, pois prova que nada
poderia ter sido “pensado” ou “bolado”, e que não se trata de
um “novo sistema de psicologia política” que se originava den­
tro de meu próprio cérebro. Minhas teorias só ganharam vida
quando idéias vagas ou pensamentos confusos foram subita­
mente confirmados por fatos. Tal os fez amadurecerem, reve­
lando novos aspectos que, por sua vez, encontravam confirma­
ção. Por exemplo: o etnologista Malinowski, sem que ninguém
esperasse e sem saber nada de minhas teses, contribuiu com
material que pôde ser inteiramente assimilado em meu traba­
lho; eu senti, em 1929, que a revolução sexual russa não pas­
sava de uma fadada primeira tentativa, e tive a confirmação em
1935 pelo total retrocesso legislativo e ideológico da União So­
viética; num primeiro relance das formações das AS(Sturm
Abteilung: tropa de assalto na Alemanha Nazista) alemãs, senti
que elas representavam a revolução alemã usurpada em ter­
mos reacionários; eu estava convencido, em 1930, de que a
batalha pelos movimentos operários alemães e austríacos es­
tava definitivamente perdida, porque ela não podia competir com

131
os métodos de psicologia de massa da oposição. A reação polí­
tica domina as massas trabalhadoras e os indivíduos que são
educados para a subserviência por meio da negação da vida. O
movimento socialista não advogava uma afirmativa atitude de vida
para as massas, mas simplesmente diversos pré-requisitos eco­
nômicos básicos. Não havia organização que se atrevesse a for­
mular o cerne sexual da afirmação da vida e, desde que as mas­
sas humanas mais simples só conheciam seus próprios anseios
de felicidade, mas não estavam interessadas nas pré-condições,
os reacionários políticos estavam fadados por toda parte a se­
rem vitoriosos.
O sucesso deles se baseava em uma ideologia que torna­
va a estabilidade da sociedade, a civilização e a cultura direta­
mente dependentes do desinteresse pela felicidade sexual. Há
muito tempo que eu já tinha estabelecido prova clínica do opos­
to. O material etnológico de Malinowski significou um maior triun­
fo para minha posição científica, porque os reacionários políticos
fundamentavam sua linha de raciocínio sobre a opinião de povos
primitivos em estado bárbaro e caótico. A incontestável conclu­
são a ser tirada da pesquisa de Malinowski era de que a cultura
com que sonham os filisteus não só está de acordo com a liber­
dade sexual, mas efetivamente depende dela.
Em novembro de 1930, recebi para revisão uma edição in­
glesa do libro de Malinowski “A Vida Sexual dos Selvagens”. Tra­
tava-se de uma continuação lógica de seus trabalhos mais anti­
gos “Crime e Costume na Sociedade Selvagem” e “Sexo e Re­
pressão”. Bachofen já tinha descoberto a “vida sexual livre” e o
matriarcado nos mitos clássicos. Morgan deduzira, através do
relacionamento de classes na “sociedade primitiva” dos Iroquois
(entre os quais ele vivera décadas), que os irmãos e irmãs eram
originariamente cônjuges naturais. Assim, o incesto, longe de ser
anti-natural, era a verdadeira base das primeiras organizações
naturais humanas. Era óbvio que o matriarcado era o estado na­
tural da sociedade humana após a primeira época primitiva. Engels
tinha baseado nisso suas teorias políticas em seu renovado “Der
Urspring der Familie"(“A Origem da Família”). Se se consolidas­

132
se o percurso teórico desde Bachofen, através de Morgan e de
Engels, até Malinowski, ver-se-ia emergir um quadro unitário
do desenvolvimento humano. Malinowski tivera sucesso em in­
vestigar efetivamente os relacionamentos das sociedades que
eram primariamente matriarcais e, através disso, logrou confir­
mar as conclusões de seus predecessores. O fato de que ele
mesmo não tinha ciência dessa confirmação aumentou o valor
de sua documentação que demonstra irrefutavelmente que a
propriedade comum, o matriarcado, a falta de organização fa­
miliar rígida, a liberdade sexual para as crianças e os adoles­
centes, abertura e generosidade na estrutura do caráter, estão
tão interrelacionados quanto a propriedade privada, o patriar-
cado, o ascetismo nas crianças e nos adolescentes, a escravi­
dão das mulheres, a rigidez na família e doença mental, todos
os quais constituindo os constantemente presentes sintomas
da repressão sexual.
Após estudar a edição inglesa, obtive o livro em alemão e
li-o atentamente duas vezes. A maioria de suas descrições não
constituíam novidades para mim. Devido à minha experiência
com inúmeros grupos de jovens, eu estava bem familiarizado
com a atmosfera que Malinowski estava descrevendo. Não
obstante todas as condenações morais declaradas nos relató­
rios dos missionários e nos pronunciamentos etnológicos
culturamente orientados, eu tinha há muito sentido a naturali­
dade simples da sexualidade, sua moralidade inerente, e a pro­
fundidade da experiência sexual natural que torna impossível o
verdadeiro pensamento de lascívia. E no entanto, eu sentia uma
inconsistência no quadro de Malinowski que eu não conseguia
explicar no início. No meio da sociedade Trobriand, com sua
obediência à lei natural, jazia de permeio a demanda por
ascetismo moral. Até o ponto em que esta demanda era satis­
feita, prevalecia a miséria moral e sexual e não era diferente
das condições no nosso próprio sistema capitalista. Este setor
da sociedade Trobriand era governado por diferentes leis e ide­
ologias. Podia, ser grupadas sob o título de “regulação
moralística” em oposição à “auto-regulação sexo-econômica”.

133
Devia haver uma razão extremamente importante para esses dois
princípios opostos coexistirem “na mesma organização social".
O cuidadoso exame das descobertas revelou gradualmente o de­
senvolvimento histórico da compulsão moralística contemporâ-1
nea a partir da organização sexual natural. Eu tinha descoberto
traços disso profundamente enterrados nas estruturas neuróti­
cas dos indivíduos modernos. A estrutura do “caráter genital”, tal
como foi revelada em bem sucedidas análises de caráter, provou
ser idêntica à estrutura média de um ilhéu Trobriand no setor da
sociedade que ainda era livre. Os paralelos eram tão notáveis
que estive cético por muito tempo, temendo ter sido vítima de
uma desilusão. Minhas dúvidas só foram finalmente superadas
quando Roheim, forte oponente meu e de Malinowski, inadverti­
da e involuntariamente, por meio de uma abordagem etnológica
diferente, confirmou minhas teses de que a origem de que a ori­
gem da supressão sexual da juventude é sócio econômica. Ela
foi estabelecida através do desenvolvimento histórico; não foi dada
biologicamente. Assim, é possível criar uma cultura com sexuali­
dade livre para crianças e adolescentes.
Três elementos diferentes me impressionaram nas desco­
bertas de Malinowski: a demanda por abstinência sexual em um
certo grupo de crianças e adolescentes, o intricado e aparente­
mente sem propósito sistema marital entre os clãs tribais, e o rito
do dote.
As crianças que tinham sido prometidas para um certo re­
lacionamento conjugal, eram estritamente proibidas de se
engajarem em atividade sexual. O ascetismo da infância as tor­
nariam capazes para o casamento. Crianças sem restrição sexu­
al são incapazes de encontrar as exigências estritas de uma vida
monogâmica em sua forma patriarcal. Os mesmos fatos me fo­
ram revelados pelos levantamentos estatísticos de Barash a União
Soviética: quanto mais prematuro o engajamento dos adolescen­
tes no intercurso sexual, ais curto serão seus relacionamentos
maritais no futuro.
A conexão entre a exigência do ascetismo sexual e a insti­
tuição do casamento permanente e monogâmico foi verificada

134
clínica, estatística e etnológicamente. Restava agora conduzir
a investigação no sentido da função econômica do assunto como
um todo. A partir das atitudes da ideologia burguesa quanto à
sexualidade natural, poder-se-ia inferir facilmente que ela visa
salvaguardar interesses econômicos. A paralisia da vontade e
da resolução nas grandes massas da população, por meio de
contínua supressão da excitação física, já era conhecida por
mim desde muito tempo. Entretanto, a relação entre esta para­
lisia física e os interesses econômicos dos que se beneficiam
dela era ainda obscura. Nenhum capitalista faz a menor idéia
de porque ele advoga “moralidade para as massas”, assim como
também não fazem a delegacia de costumes, o clero ou o pro­
motor público. A ideologia sexual assumiu sua própria legisla­
ção e se tornou uma força material independente separada de
sua origem. Em acréscimo, os próprios seres humanos se agar­
ram a ela e reconstruem-na continuamente devido à ansiedade
de prazer orgânico. Em poucas palavras, a função econômica
da exigência de ascetismo não pode ser apreendida diretamente
em nosso mecanismo social contemporâneo. Assim, se torna
mais gratificante que as condições em desenvolvimento da ex­
ploração econômica nas comunidades primitivas, os ilhéus de
Trobriand, demonstrou essa conecção diretamente.
Os Trobriandenses diferenciavam entre casamentos
“bons” e “maus". O casamento entre as filhas das irmãs e os
filhos dos irmãos - os chamados casamentos de primos cruza­
dos - eram considerados “bons” . Todos os outros casamentos
eram considerados ‘maus”, em maior ou menor grau. Mas, onde
se originaram tais valores? Eles estavam em uma desarmonia
tão grosseira com o comportamento físico geral dos
Trobriandenses que formavam parte da “cunha” estrangeira
(descrita acima). Tal pode ser ilustrado pelo seguinte diagra­
ma:

135
Chefe Irmã do Chefe

Figura 1: O casamento “legal”(l) e o casamento “ilegal”(ll).


Segundo Malinowski: I = casamento de primos cruzados

Resultaram três mecanismos econômicos básicos. A figu­


ra 2 mostra o curso do dote mandatário em um “bom” casamen­
to. Era obrigação do irmão fornecer o dote para o marido de sua
irmã. Se a irmã dele vier mais tarde a se casar com o filho do
irmão a família da moça e, particularmente, seu irmão, a saber, o
sobrinho do irmão da mãe, deverá providenciar novamente um
dote. Nesse caso o dote ( originariamente concedido) “retorna ao
irmão da mãe”, o qual - se for simultaneamente um chefe e go­
zar do direito da poligamia - pode, consequentemente, acumular
riqueza, pois todos os irmão de todas as suas esposas têm que
lhe dar um dote. À essa luz, a razão pela qual os casamentos são
considerados “bons” se torna compreensível, posto que apresenta
vantagens materiais para o homem. As crianças escolhidas para
assegurarem tais vantagens, através do casamento futuro, são
obrigadas a viver asceticamente. Elas não têm permissão de se
envolverem em jogos sexuais como as demais crianças. Pela
primeira vez na história, a moralidade sexual negativa invade a
sociedade humana. Pela primeira vez, os interesses econômicos
começam a formar a ideologia social e a moralidade criada nes­
se processo começa a influenciar a estrutura das crianças. Atra­
vés do bloqueio da energia sexual, elas são escravizadas interna
e externamente.

136
Esposas do Chefe Chefe Irmã Marido da
do chefe irmã
Casamento _ £

Irmãos das esposas

^C asam enU »
F° do Sobrinha Sobrinho
Chefe do Chefe do Chefe

Figura 2: Como o casamento de primos cruzados beneficia o


chefe, fazendo retornar a ele o dote que ele dá à sua cunhada,
tornando possível, assim, a acumulação de riqueza.

Os dois diagramas demonstram as desvantagens dos


outros tipos de casamento.
Um “mau” casamento traz as maiores desvantagens eco­
nômicas. Nesse, o irmão da mãe perde riquezas em três ocasi­
ões: primeiro, ele tem que dar a seu filho um dote para atender
sua filha tirada de um clã não aparentado. Segundo: ele tem
que dar o dote de sua própria irmã que casar com um homem
de um clã diferente. E finalmente, ele perde a herança, que
passa para o filho de sua irmã.
Somente o casamento “bom” de primos cruzados evita
as três desvantagens. A herança retorna ao sobrinho e a rique­
za dada a outro clã é temporária e retorna incólume.
A instituição do tributo de casamento, do clã da esposa e
sua família para seu marido, demonstrou logo a chave para a
compreensão das questões mais importantes da sociedade abo­
rígene. Só estou relatando os resultados. Para maiores infor­
mações, o leitor deve reportar-se às explicações em “A Inva­
são da Moralidade Sexual Compulsória”.
Um exame da literatura etnológica demonstrou ser o dote,

137
bem como o casamento de primos cruzados, um fenômeno ge­
ralmente aceito nas sociedades primitivas. Após árduos cálcu­
los, consegui construir um diagrama baseado nas pesquisas de
Lewis Morgan. Neste, o intrincado sistema marital dos Iroquoi^
foi analisado de maneira lógica como sendo nada mais que um'
complexo de “casamento de primos cruzados”.

Esposas do Chefe Chefe Irmã Marido da


do chefe irmã
A Casamento ^

Irmãos das esposas Presentes


durante a vida Casamento
do chefe
ê
F°do -
Sobrinho t-
Sobrinhcr 1* Marido
Chefe do Chefe do Chefe Estranho

Figura 3: Desvantagens econ6omicas para o chefe se sua sobri­


nha se casar com quem ela quiser. (As setas indicam o fluxo dos
dotes de casamento).

Esposas do Chefe Chefe Irmã Marido da


do chefe irmã *
Casamento A

Irmãos das esposas

Casamento
— è
F08do F^do Sobrinho Sobrinha Marido
Chefe do Chefe do Chefe do Chefe Estranho

Figura 4: O “mau” casamento (entre a filho do chefe e o sobrinho


do chefe). As fortunas dos filhos do chefe deixam, também, a
linha do chefe.

138
A organização dos iroquesesjá era completamente patri­
arcal. Quando retornou da Austrália, contei a Roheim sobre mi­
nha pequena descoberta. Ele me disse que não era “nada de
novo”, pois esse tipo de casamento tinha existido na Austrália
também Mas o meritório Roheim não se dava conta de que
fazia uma afirmação imprudente: ele não percebeu a
significância de tais fatos. Se, na verdade, um dote pago pelo
irmão ao marido da irmã fosse um fenômeno geralmente acei­
to, então eu estaria correto em admitir que este foi ‘^"mecanis­
mo social responsável pela transformação do matriarcado em
patriarcado. Vários fatos foram revelados simultaneamente:

1.0 dote pago pela irmã é uma expressão da “obrigação


de prover sua subsistência”. Tal corresponde ao fato de que
nas naturalmente organizadas hordas primitivas o irmão e a
irmã eram parceiros e tinham filhos. Logicamente, o filho da
irmã ( isto é, o sobrinho) era o herdeiro legal de seu irmão. Não
havia, certamente, quem pudesse competir com ele.

2. A subdivisão das tribos matriarcais em clãs, com casa­


mento entre os clãs e a proibição de casamentos dentro do
mesmo clã, é um fenômeno universal da sociedade primitiva.
Sob tais circunstâncias, o dote flui de um clã para outro dentro
da tribo. A divisão em clãs (cada um com sua própria história
de rituais e heranças) só podia ser interpretado como uma
manifestação de uma fusão anterior, em uma única tribo, de
diversas hordas naturalmente organizadas com um sistema de
incesto (não podia ser de outra maneira).
Os últimos clãs são as hordas originais, cada qual po­
dendo ter sua origem traçada até uma mãe primitiva. Tal con­
duziu à inevitável hipótese de que a proibição o intercurso se­
xual entre irmãos e a instituição do casamento interclãs ( isto é,
entre as hordas primitivas) ocorreu com a unificação das dife­
rentes hordas que eram primariamente hostis e que mais tarde
se tornaram amigas. Por conseguinte, a origem do tabu do in­
cesto foi “social”, e um problema da sociedade primitiva encon­

139
trou uma solução sociológica que, até então, tinha sido interpre­
tada biológica ou psicologicamente. Fizeram-se tentativas para
explicar a origem do tabu do incesto como sendo um instinto para
a “seleção natural” (Engels), ou como sendo uma culpa que se
seguiu ao primitivo patricídio (Freud). Após a fusão das hordas, o
irmão teve ainda que sustentar sua irmã, mas teve que renunciar
ao relacionamento sexual com ela.
3.0 dote não era produzido como uma necessidade, ma
já tinha o caráter de um “bem”. Era o excedente que o irmão e
sua família tinha que produzir além de suas necessidades vitais.
Desta maneira, o tributo matrimonial fazia o irmão e seu clã eco­
nomicamente dependentes do clã do marido de sua irmã. Desde
que o primeiro clã para subjugar a outro retinha para si a vanta­
gem em forma de uma “chefia”, e desde que este chefe, por sua
vez, podia “desposar” várias mulheres, criou-se uma preponde­
rância material, primeiro no clã e subseqüentemente na família
do chefe, com contraste com o resto da tribo. Isso forçou s clãs
inferiores, através dos séculos, a serem submetidos aos superio­
res, especialmente à família do chefe. O chefe tinha simples­
mente que nomear seu filho como seu herdeiro, no lugar de seu
sobrinho, a um certo nível de seu domínio material, e a organiza­
ção como um todo mudou automaticamente de um sistema
matriarcal para outro patriarcal. Tornou-se, então, menos atrati­
vo, e menos um ônus, cuidar do sobrinho (filho da irmã) se ele
passava a riqueza para um outro clã. O casamento de primos
cruzados levou ao estabelecimento legal de uma condição que
durou muito temo nas práticas do dote nas tribos subdivididas
em clãs. “O filho tornou-se então o herdeiro!”. O caminho que vai
do chefe de uma tribo matriarcal - que não era revestido de quais­
quer poderes particulares - a um patriarca em uma tribo - e o
caminho que vai daí para um “príncipe” ou um “rei” de uma tribo
ou de uma “nação”, é apenas uma seqüência dos passos
evolucionários claramente descritos por Engels em seu livro so­
bre a origem da família.
Uma sociedade naturalmente organizada, ou matriarcal, é
ainda livre da negação sexual. Durante a transição para o patriar-

140
cado, surgiu na sociedade um setor sexualmente moralista que
começou a incorporar tudo na sociedade quando o patriarcado
estabeleceu-se completamente. Enquanto que a família era,
anteriormente, uma unidade econômica dentro do clã, e sujeita
a ele, este setor adquire então superioridade sobre o relaciona­
mento sangüíneo no clã, o que finalmente leva ao desapareci­
mento do clã como um todo. Desenvolve-se então o casamen­
to monogâmico permanente a partir do casamento temporário
para fins de acasalamento, que caracteriza o matriarcado. Tal
está firmemente ancorado nas leis econômicas, no mecanismo
social e nos preceitos morais.
A transição da sociedade de clã livre para a servidão da
sociedade de família também modifica o caráter humano. Uma
sociedade situada a apenas alguns quilômetros das Ilhas
Trobriand já tinha estrita organização de família. Em contraste
com a cândida e sincera sociedade Trobriandense, essa gente
era tímida, retraída e atormentada pela neurose e pela perver­
são. Tal não existia entre os Trobriandenses, que menospreza­
vam a masturbação e não podiam entender a homossexualida­
de.
Desse modo, os comerciantes europeus ocidentais e os
missionários que invadiram as sociedades primitivas encontra­
ram processos naturais que puderam colocar a seu próprio ser­
viço. Era então muito fácil trocar colares de vidro sem valor por
valiosos produtos naturais, pois os aborígenes genitalmente
estruturados atuam de boa fé e são ingenuamente decentes;
eles não possuem palavra para designar o roubo, enquanto a
hospitalidade, literalmente, flui em suas veias. Esse tipo de es­
trutura do caráter não pôde evitar de ser uma provocação para
o comerciante branco corrupto, degenerado e impotente. Logo
iniciou-se a exploração, enquanto os missionários concluíam o
trabalho de debulhar as crianças para seus inócuos jogos se­
xuais e lançar as sementes da angústia psíquica e da compulsão
até que o solo estivesse preparado para a colonização. Existe
boa razão para os missionários sempre constituírem o esqua­
drão avançado dos exércitos coloniais. Em nenhum outro lugar

141
a função da moralidade sexual compulsória é tão clara como
nesses exemplos. Os povos aborígenes estão se tornando extin­
tos. Nos dias primitivos. Ele inspiram grandes sentimentos ro­
mânticos nos brancos, mas hoje registramos o serviço que pres­
taram à humanidade através da demonstração das leis da
moralidade natural e da dignidade. Não há lugar aqui para ro­
mantismo barato. Devemos substituí-lo pela luta pela organiza­
ção humana em um nível tecnológico mais alto, pela estrutura
que nunca se permita esquecer o processo da humanização,.
Esta nova organização retificará o desenvolvimento inadequado
de vários milhares de anos e nos permitirá ver o quadro de um
colonialista lascivo, obeso e brutal, ele próprio vítima de nossa
fracassada cultura, como o pesadelo que ela é.
A prova etnológica da regulação sexo-econômica da vida
sexual me deu tanta confiança nas conclusões que tirara da ex­
periência clínica quanto o trabalho sexo-político com jovens. Clí­
nica, sociológica e também etnológicamente, atrevi-me então a
formar, em larga escala, um quadro da gênesi das formas sexu­
ais da existência.
Primeiramente, era necessário diferenciar claramente en­
tre economia sexual “individual” e “social”. Sabemos agora que a
regulação da energia sexual no organismo de um indivíduo de­
pende do seu grau de potôencia orgástica. Esta, entretanto, é,
determinada, a seu turno, pela organização social da vida sexu­
al. Originariamente, a organização sexual individual e social não
conflitam; ao contrário, a sociedade dos povos primitivos cuida­
vam grandemente de assegurar a felicidade sexual. Prevalecia a
afirmação da sexualidade e não a mera tolerância. Com a inva­
são da moralidade sexual compulsória, no entanto, essa afirma­
ção mudou rapidamente para negação sexual, e, desse modo, a
cultura sexual natural criou todos os fenômenos correntemente
denominados “sexualidade”- neurose, perversão, escravização
das mulheres e das crianças e atitudes sexuais antisociais - e
tais só podem ser considerados dignos de condenação. O pro­
cesso da repressão sexual, que era social e não biologicamente
fundado, introduziu o segundo processo social, que já examina-

142
mos, isto é, a divisão da sociedade unida e homogênea em
duas classes: os donos dos meios de produção e os donos da
força de trabalho. Tal indicação na concentração progressiva
do poder social nas mãos de pouco, tal como encontramos nos
príncipes da antigüidade e da Idade Média. A divisão de clas­
ses manteve e fortaleceu uma vez mais a repressão sexual.
Com a era Cristã, a repressão sexual foi “organizada” de uma
forma especial.
Na primeira revolução social do século XX, na Rússia,
pôde pela primeira vez ser observada uma mudança de nega­
ção para afirmação sexual. Embora o processo fosse
descontínuo após vários anos, isso não modifica o fato de que
um movimento social foi começado, o qual representou o opos­
to exato da mudança em outra direção que ocorreu no começo
do sistema patriarcal.
Os princípios da economia, a saber, o sistema de satisfa­
ção das necessidades materiais vitais, tinham sido investigadas
por Marx. Não existia, no entanto, uma economia da energia
sexual, pois nenhum movimento social tinha ainda levantado
tal questão. A Revolução Russa foi o primeiro cataclismo social
a abordar a questão da social sexo-economia. Primeiramente,
tomou a forma de legislação, inúmeros problemas permanece­
ram obscuros. A mim me pareceu que o problema se dividiu
em três partes:

1. Qual o metabolismo natural da energia sexual?


2. Qual a específica estrutura da sociedade? Tal
corresponde ou contradiz um sistema sexo-econômico
da sexualidade?
3. Quais obstáculos as ideologias conservadoras e as difi­
culdades econômicas colocam no caminho de uma mu­
dança de desordem para ordem sexual?

A questão da sexualidade surgiu então da esfera da pri­


vacidade, onde tinha levado uma lastimosa existência a des­
peito dos esforços de vários sexólogos, e mudou-se para o cam­

143
po dos emplumados problemas da política social, assumindo uma
posição de primeira importância ao lado das questões econômi­
cas. Não pertencia nem à “superestrutura”, como os Marxistas
argumentavam em consistentes má interpretações, nem às “con­
dições de produção”, isto é, “produção de progênie”, como Engels
formulara a partir da perspectiva econômica. Quando a energia
sexual foi diferenciada das formas em que funcionava e essas,
por sua vez, foram separadas da estrutura humana e das ideolo­
gias concernentes a sexo, os fatos seguintes se tornaram evi­
dentes: “A estrutura humana é determinada pelo modo como as
várias manifestações de uma organização social, em dado tem­
po, influencia a energia sexual biologicamente determinada”. As
estruturas assim formadas, produzidas pelo processo social, “re­
produzem” por si mesmas teorias moralísticas da sexualidade,
de onde brotam todos os conceitos de “bom” e de “mau”. Todas
as éticas são basicamente anti-sexuais. Tal assertiva não tem
nada a ver com anarquismo. A estrutura humana sexo-economi-
camente organizada desenvolverá necessariamente teorias es­
sencialmente diferentes sobre o sexo do que a estrutura humana
arruinada, que é completamente ignorante de sua energia sexu­
al. Para demonstrar sua existência justificada, a reproduzida, a
moralidade anti-Osexual se refere a fatores que são responsá­
veis por sua origem, a saber, as expressões sexuais antinaturais
e patologicamente educados. A repressão sexual precedeu a
moralidade sexual compulsória, chamando-a à existência. Da
mesma forma, a moralidade sexual precedeu aquilo que tenta
reprimir, o secundário que projeta e conduz à desordem sexual.
Por essa razão, a remoção do regulamento moralístico da sexu­
alidade, e sua gradual substituição pelo regulamento natural, é
também o primeiro pré-requisito para atingir o objetivo que a
moralidade sexual compulsória justificavelmente busca atingir, a
saber, a remoção da perversão e da sexualidade antisocial, vio­
lência sexual e degradação. Logo descobri que, para mim, “se­
xualidade” significava algo diferente do que ara o clero com quem
eu tinha que debater. Para eles, era aquilo que é visível e ativo
hoje, isto é, a sexualidade doentia, enquanto que para mim era

144
aquilo que jaz obscuro nas profundezas do organismo huma­
no. Eu concordava com o clero quando condenavam as mani­
festações sexuais correntes, mas não acreditava, nem por um
momento, que eles concordariam comigo ao afirmar as natu­
rais manifestações da sexualidade. (Isso começou a se modifi­
car nos Estados Unidos por volta de 1950).
Neste ponto, eu estava apto a integrar o modelo capitalis-
ta-patriarcal do regulamento sexual no processo social como
um todo. Permitam-me resumir o que já é conhecido:
A repressão sexual apoia o poder da Igreja, o qual fincou
profundas raízes nas massas exploradas por meio da ansieda­
de sexual e da culpa. É também o mais importante pré-requisi-
to para as estruturas conjugais e familiares contemporâneas,
as quais exigem a atrofia da sexualidade para seguirem exis­
tindo. Ao esmo tempo, entretanto, cria-se um anseio pela satis­
fação sexual que se reflete naqueles distúrbios sexuais e nas
perversões que, por sua vez, minam os casamentos e as famí­
lias.
A repressão sexual engendra o medo à autoridade e liga
as crianças aos seus pais. Tal resulta na subserviência do adul­
to à autoridade do estado e à exploração capitalista. (A Rússia
Soviética é um estado capitalista e monopolizador).
Ela paralisa as forças críticas intelectuais da massa opri­
mida, pois consome a maior parte da energia biológica.
Finalmente, paralisa o desenvolvimento resoluto de to­
das as forças criativas e torna impossível que se atinja todas as
aspirações para a liberdade humana.
“Desse modo, o sistema econômico prevalecente (no qual
uma única pessoa pode facilmente dirigir as massas) torna-se
enraizado na estrutura física dos próprios oprimidos”. Quando
me tornei cônscio disso, não fazia idéia de quão completamen­
te a ditadura de Hitler ( e os desenvolvimentos na Rússia) con­
firmaria minhas afirmações.
Todos esses inter-relacionamentos levaram naturalmen­
te as atividades sexo-políticas que eu tinha posto então para
funcionar na Alemanha. Tal tinha que ser estritamente diferen­

145
ciado dos velhos movimentos de reforma sexual, que eram
apolíticos. O objetivo era integrar a luta pela emancipação sexual
na luta geral pela liberdade. Além do mais, era para reunir as
experiências da luta vital nos vários esforços práticos da época e
readaptá-los constantemente à situação. E, finalmente, era para
combater todas as facções, seja de esquerda seja de direita, que
faziam oposição à orientação consciente do processo de libera­
ção sexual. (Meu trabalho dirigia-se sempre para “a frente”).
Entretanto, a fundação científica estava ainda por demais
inadequada, apesar do grande número de conhecimentos já ad­
quiridos. Não estava ainda claro quão profundamente, e sobretu­
do de que maneira, a ansiedade do prazer humano estava
, enraizada. Tal estorvaria, necessariamente, o trabalho sobre a
solução, não importando o intenso e positivo anseio que eu en­
contrava em toda parte. O caminho que vai do anseio à realiza­
ção é longo e árduo. Eu também sentia fortemente não possuir
resposta apropriada para os argumentos e malefícios daquela
“escola” que clamava ser a “ciência da genética”. A besteira raci­
al de Hitler ainda estava no ar, e embora os argumentos socialis­
tas contra ela fossem lógicos, o problema não tinha qualquer
conexão com a lógica e muito menos com a frenologia. No en­
tanto, eu podia aquietar minha consciência política; pelo momen­
to, havia suficiente e bem fundada experiência para assentar o
movimento em uma base científica sólida. Teria sido um erro es­
forçar-se demais de uma só vez.
O trabalho na Alemanha não se processava de acordo com
planos e objetivos calculados com cuidado. O campo era vasto
demais para tal, e muito poucas experiências práticas tinha sido
atingida. Eu podia contar com o fato de que a sexo-política seria
recebida como antes, a cada passo do caminho, de modo que
não havia necessidade de “agitar” por isso nem recorrer à doutri­
nação. Logo se tornou evidente que as condições sociais e os
próprios erros do Partido Socialista omitiam a resposta correta.
Será a função dos próximos capítulos elucidar isso.

146
6
to d o s estam os extasiados
(1930-33)

Em 1933 fui denunciado pelo Partido Comunista, e em


1934 fui expulso da Associação Internacional de Psicanálise.
(Deve-se notar que ambas organizações já não existem na Ale­
manha). Eram catástrofes que ameaçavam minha existência
pessoal, profissional, social e além disso colocava-se em ques­
tão o posterior desenvolvimento da economia sexual. De re­
pente encontrei-me num vácuo, afastado da vida do povo. A
atitude difamadora dos socialistas, comunistas e psicanalistas
determinadamente dirigida para destruir meu trabalho e exis­
tência, contradisse numa maneira peculiar o reconhecimento
que os mesmos indivíduos e organizações tinha previamente
dado às minhas teorias e realizações. Quando vim à Berlim
pela primeira vez em 1930 eu ainda não estava atento para o
que estava guardado para mim, apesar de más experiências
anteriores em Viena. Só após os laços constituídos terem sido
todos cortados eu tive tempo livre suficiente para permitir que
as atitudes das pessoas me afetassem. Através disto eu apren­
di minhas melhores lições sobre política. Muitas coisas teriam
sido desenvolvidas de maneira diferente se eu possuísse a pre­
visão necessária na época. Cada mudança na minha posição
científica exigiu inevitáveis e custosos sacrifícios. Eles repre­
sentavam dores indispensáveis ao nascimento do conhecimento
crucial sobre psicologia de massa, também produziram a fir-

147
meza necessária para continuar: nunca submeter-se a pressão
errônea da opinião pública.
Em Berlim minha primeira afiliação mais chegada aos psi­
canalistas alemães foi estabelecida. Eles era muito mais progres­
sistas em questões sociais do que os vienenses.
Os psicanalistas jovens respiravam mais livremente e mi­
nha teoria do orgasmo foi melhor recebida. A sociologia marxista
era sistematicamente pouco discutida. Entre os analistas Fromm
era o único considerado um sociólogo marxista. Na época ele
estava publicando sua Análise do Dogma de Cristo, um trabalho
excepcionalmente valioso, apesar de não estar relacionado nem
com os problemas de economia sexual nem com a atual política.
Numa conversa longa que tivemos logo que cheguei, Fromm ouviu
minha interpretação da economia sexual e disse que compreen­
deu que apenas o conceito de energia sexual era adequado para
explicar a dinâmica da psicologia de massa. Por exemplo, é ver­
dade que a concepção mental de pai e mãe era o conteúdo cen­
tral de cada religião. Realmente, o caráter sociológico de uma
religião poderia ser visto apenas no contexto de seu próprio tem­
po. Entretanto o fato que as pessoas produzem e necessitam do
misticismo religioso de qualquer modo, permaneceria um enig­
ma sem o conhecimento da economia sexual.
Acima de tudo o conteúdo emocional da experiência religi­
osa bem como de doutrinas do pecado original e ascetismo era
necessário ser interpretado sob o ponto de vista da energia se­
xual.
No meu apartamento na Schwäbische Strass expus minha
opinião básica à três jovens analistas, Erich Fromm, Barbara
Lantos e Otto Ferichel, enfatizando especialmente a integração
da teoria psicanalística na sociologia marxista. Freqüentemente
gastava horas discutindo os princípios psicológicos básicos do
movimento social com Ferrichel, com quem havia encontrado an­
tes em Viena. Ele não era membro de nenhum partido, tinha lido
pouca literatura sociológica e nunca havia participado numa de­
monstração de rua ou num campo de trabalho social. Eu entendi
seu desejo de se manter afastado disto e ele compreendeu e

148
aceitou minha crítica dialético-materialista da psicanálise. Ele
satisfeito concordou com a proposta de ajudar-me organizar os
psicanalistas mais jovens para a prática do trabalho social. Ele
fez isto por 2 anos aproximadamente, e logo que tive uma car­
ga de trabalho grande fora da organização profissional fiquei
contente em deixar isto em suas mãos.
Eu ainda não estava desperto para a armadilha que ha­
via arranjado para mim mesmo fazendo isto. Tudo parecia es­
tar em ordem. Apenas duas coisas me desagradaram um pou­
co: primeiro sua falta de inclinação em participar na prática do
trabalho social, que é essencial para o verdadeiro entendimen­
to do povo, e segundo sua completa falta de compreensão da
contradição irreconciliável entre dialética materialista (meu fun­
cionalismo embrionário)* e lógica abstrata. Siegfried Bernfeld
que era socialista e se considerava um marxista teórico, ocasi­
onalmente tomava parte em nossas discussões. Ele também
não compreendeu a realidade do processo dialético. Ele sentiu
que o materialismo dialético era apenas um modo de pensar, e
que a lógica abstrata era outra. Eu logo desisti de convencê-
los.
Então na Alemanha naquela época, marxismo mantinha
uma posição acadêmica semelhante ao Deweyimo nos Esta­
dos Unidos. Marxismo não era manchado por sua confusão
com simples assassínio do tipo Dahugashvili. O assassínio em
massa no processo da coletivização agrícola russa estava à
nossa frente. Eram então os infames julgamentos, a revocação
da legislação sexual e os marechais fardados e cheios de me­
dalhas da USSR. A luta contra a praga política fascista verme­
lha nos EEUU nos anos 50 sofreu gravemente lacunas no en­
tendimento do desenvolvimento do fascismo vermelho e do fas­
cismo em geral, das organizações democráticas livres nas ca­
madas mais baixas da população. Até cerca de 1932, pelo

* Nesta época, eu atribui meu funcionalismo a Engels como havia atribuido minha
economia sexual à psicanálise de Freud. Minhas próprias idéias e pensamentos fluiam
^emente num ambiente estranho o qual não as absorveu e não as absorveria.

149
menos na Europa Central e países europeus ocidentais, nenhum
membro do partido comunista mesmo extremamente radical te-"
ria pensado seriamente em pegar o governo de um país à força
contra o desejo da maioria de seus cidadãos. Tais tendências ou
ações não eram aclamadas em nenhum círculo socialista ou co­
munista, como “Putsch”. Sempre que tais Putsch tentativas eram
feitas por pequenos e insignificantes grupos políticos, os socia­
listas e comunistas se dissociavam completamente deles. A polí­
tica sempre estava para obter poder na sociedade pela maioria
dos votos no Parlamento. Esta era a idéia original do movimento
democrático comunista.
A distribuição de terras de Lenin para os camponeses rus­
sos a qual diferiu tão violentamente da posterior coletivização
stalinista e a nacionalização das empresas agrícolas pela força
foi uma manifestação nítida desta política.
Em contradição violenta a este comunismo democrático com
seu sistema vindo de baixo, ex: suas eleições em vez de desig­
nação de funcionários, etc., permanece o fascismo vermelho, que
tornou cada característica democrática do comunismo sua
opositora.
Entrando sorrateiramente no poder através de conspiração
e manobras desleais ao invés da escolha pública aberta.
Usando força, o poder do Partido Comunista e confiança
no poder militar da Rússia o qual em 1936 era um nítido estado
imperialista tendo apenas uma coisa em comum com o comunis­
mo democrático: a confiança na esperança do povo para uma
existência melhor. Os fascistas vermelhos exploravam esta es­
perança ao máximo e abusaram disto como nunca na história.
Estas distinções são severas bem como indispensáveis para a
conquista bem sucedida com um mínimo possível de vítimas da
praga política do fascismo vermelho.
A dinâmica interna desta mudança do comunismo demo­
crático para o Fascismo Vermelho é a relutância e a inabilidade
do povo de governar suas próprias vidas.
A associação dos físicos socialistas considerou-me para
fazer uma conferência do meu campo especial a profilaxia da

150
neurose. Na presença de 200 físicos e estudantes fui capaz de
explicar com sucesso os objetivos sociais do trabalho sério psi­
canalista. Eles responderam com grande compreensão e mes­
mo entusiasmo.
Os grupos de estudantes socialistas e comunistas pro­
moveram um encontro sob o tema “O fiasco da moralidade bur­
guesa”, a organização estudantil fascista foi também represen­
tada bem como a companhia da associação de veteranos da
frente vermelha. Após a conferência eu respondi a numerosas
questões dos estudantes nacionalistas-orientados, especialmen­
te sobre autocontrole, dignidade, lealdade, caráter, etc. A at­
mosfera era boa e a discussão continuou até as 5 da manhã.
Comunistas, socialistas e fascistas discutiram os pontos acalo­
radamente mas nunca violentamente. Os participantes proletá­
rios pareciam bem satisfeitos porque quando eu saí à 1:00 hora
da manhã eles gritaram alto “Poder da frente vermelha”, 3 ve­
zes. Isto não era comum especialmente após conferências ori­
entadas intelectualmente.
A universidade marxista dos trabalhadores mantinha cur­
sos sobre “Marxismo e psicologia” e “sexologia”. No semestre
da primavera de 1931 eu dei um curso na escola da
Gartnesstrass e novamente no outono. A assistência cresceu
com cada conferência, chegando ao máximo no curso de
sexologia com 250 pessoas de todos os níveis da sociedade. O
primeiro curso que era mais difícil foi assistido aproximadamente
por 50 a 100 funcionários políticos, estudantes, professores,
etc. Meus escritos foram distribuídos através do país pela orga­
nização da Universidade dos Trabalhadores Marxistas.
Algumas semanas depois eu estava fazendo palestras
numa média de 2 vezes por semana. Estas palestras eram al­
tamente instrutivas para mim porque eu me sentia obrigado,
não apenas em apresentar meu material em termos simples,
como também tinha que aprender como responder corretamente
a inúmeras e diversas questões e objeções. A juventude alemã
exigia muita clareza e simplicidade acima de tudo. Nesses en­
contros os aspectos político-cultural do assunto começava a

151
dominar cada vez mais a discussão. Política econômica como é
comumente discutida precisava apenas retornar numa forma nova
e diferente. Estatísticas eram usadas para ilustração apenas e
questões eram colocadas numa maneira mais pessoal, por exem­
plo: os planos do projeto de moradia são suficientemente avan­
çados de modo a satisfazer as necessidades higiênicas das mas­
sas tão rapidamente e facilmente quanto possível? O fato que o
sistema da casa própria nunca permitiria condições higiênicas
era tão evidente que não exigia uma ênfase especial. “As estru­
turas já prejudicadas da maioria dos professores de hoje e da­
queles encarregados de crianças pequenas não se oporão aos
objetivos da sexualidade afirmativa da educação infantil?” “Como
poderia a distribuição de posses ser organizada para assegurar
uma base firme para um crescimento regular do nível cultural
das massas trabalhadoras?” Nós não estávamos falando dos
“princípios de socialização”. Esses princípios significavam o pre­
enchimento de um propósito definido sem o qual eram sem valor.
Eles representavam os meios de assegurar a felicidade para to­
dos que criassem valores sociais. Nós abordamos conseqüênci­
as econômicas do ponto de vista das necessidades humanas e
não, como fizeram os economistas marxistas da teoria histórica
ou econômica, a qual não era de interesse para as massas. Tais
combates requerem honestidade e escrúpulo pessoais. Qualquer
limitação ou autoritarismo pomposo trouxe uma relutação rápida
e cega. Um jovem operário uma vez, perguntou-me porque esta­
va devotando-me a este trabalho social em primeiro plano, quan­
do eu ocupava uma posição social boa, ganhava bem e tinha
sucesso profissional.
Alguma coisa tinha que estar errada neste quadro. Ele acu­
sou-me de tentar assegurar um lugar para mim mesmo depois
da revolução social. Eu só pude dizer-lhe o que eu sentia: pesso­
almente eu realmente não preciso fazer isto, mas estou apren­
dendo muito sobre o valor para o meu trabalho científico. “Então
nós somos apenas seus porquinhos da índia”, zombou ele. Para
ser bastante franco disse que quando eu estava comendo san­
duíche de presunto com manteiga, estragava a minha fome, pes­

152
soas horrivelmente invejosas me observando. Desde que a eco­
nomia seja rica suficiente para todos, ou poderia ser se não
servisse a propósitos de destruição da vida como a guerra, eu
trabalho alegremente para tornar possível que cada um tenha
o seu sanduíche de presunto. Alguém disse: “Essa idéia primi­
tiva da consciência de classe do socialismo”. Então de algum
lugar da platéia veio a resposta “Você sabe onde pode colocar
seu socialismo histórico”. “Primeiro vamos cuidar de nós mes­
mos. Depois é mais provável que venha seu socialismo, mais
do que esta disparada de palavras que você. mantém todo o
tempo”. Esse era o tom e gradualmente, a partir disso, minhas
convicções profundas apareceram em relação a atitudes corre­
tas sobre problemas sociais. Foi somente após o colapso em
1933 que eu pude consolidá-las num quadro mais amplo. Ne­
cessidades primeiro, teorias econômicas mais tarde. Desen­
volver pontos de vista sociais a partir do preenchimento prático
das necessidades humanas ao invés de abusar das necessida­
des humanas com propósitos a poder político.
No trabalho prático entre os incultos e normalmente poli­
ticamente desinteressados membros dessas organizações
usando apenas um tipo de abordagem possivelmente poderi­
am ter sucesso, isto é, ganhar a confiança humana através do
calor pessoal, evitando toda teorização e despertando a aten­
ção para maiores ou menores necessidades pessoais. Uma vez
feito isso, os objetivos socialistas tornavam-se uma decisão
antecipada. Desde o princípio eu reconheci a inutilidade das
publicações políticas das organizações do partido. Eu me con­
fortei, assim como os outros, com a esperança que através da
abordagem pessoal nós gradualmente teríamos sucesso em
trazer os membros mais humildes do partido para os níveis al­
tos políticos, nos quais os próprios partidos estavam operando.
A ilusão foi partida completamente pela catástrofe que ocorreu
2 anos mais tarde. Vistos nos dias de hoje os esforços sociais
desse período parecem completamente ridículos. O partido dos
funcionários realmente tentaram educar o povo através de dis­
cursos altamente políticos e relatórios econômicos. Eu não me

153
lembro de uma única reunião de grupo onde os membros não
tivessem que lutar contra a sonolência. E estes eram
confirmadamente comunistas. Quão afastadas desse tipo de vida
e pensamento deviam estar as massas.
Eu me lembro de um encontro enorme num estádio onde
Thälmann se dirigiu a 20 mil industriais e empregados de escritó­
rio. Pouco antes, houve fatalidades na demonstração. A atmosi
fera estava altamente carregada. A abertura pelos portadores dé
bandeiras foi impressionante. Tensamente esperamos pelo dis-j
curso. Thälmann esvaziou nossos altos espíritos dentro de meia
hora, ele os tornou nulos esboçando o complicado budget da
burguesia alemã. Foi horrível. O efeito dessa pseudo-científica
“educação para a consciência de classe” com a ajuda de políti­
cos pretensiosos foi catastrófica nas organizações da juventude.
(Foi sempre surpreendente testemunhar o respeito dado por in­
telectuais e pela burguesia a essas fracas e vazias, fraudulentas
decepções da massa).
Eu me concentrei em visitar a mais típica das reuniões de
juventude, apenas para ouvir e pegar o sentimento deles. Nas
unidades comunistas da juventude havia uma estrita formalidade
organizacional. Entre os grupos Ficlite de esporte era melhor.
Os jovens acostumados a disciplina, agüentavam brava­
mente o relatório longo para mostrar sua boa-vontade. Os líde­
res dos jovens tinham algum contato com a juventude trabalha­
dora numa escala mais ampla, mas apenas nos dias de grande
demonstrações. Esses líderes se atormentavam constantemen­
te com questões como “abordar” a juventude. Distribuíam panfle­
tos e publicações de casa em casa, pintavam slogans em verme­
lho nos muros, nas ruas pavimentadas, correndo o risco de se­
rem presos. Tudo em vão; a juventude ficava afastada e nos pró­
prios grupos de jovens havia uma perpétua rotatividade de mem­
bros e funcionários. Por muito tempo eu participei nos esforços
de recrutamento. A falta de sucesso com essa maneira de recru­
tar e mesmo sua forma nociva me deitaram uma impressão inde­
lével. O recrutamento era feito aos domingos, mesmo com um
tempo maravilhoso. Isso refletia a ideologia da heróica abnega­

154
ção. Um funcionário comunista não poderia ter vida privada.
Oficialmente não havia a questão sexual. Na intimidade uma
atitude de camaradagem prevalecia sem presunção bitolada.
Entretanto, atitudes estritamente ascéticas eram também co­
mum e desde que a plataforma político-sexual da juventude
comunista não era oficialmente representada, os ascetas da
“classe lutadora” podiam dominar o campo das discussões so­
bre moralidade socialista, havia muita conversa sobre novas
atitudes morais mas não se mencionava as milhares de situa­
ções concretas que se encontrava diariamente. Não havia pu­
blicações sobre política sexual para propaganda de massa,
apenas algumas caprichosas sobre política econômica e teoria
por exemplo: a “posição do trabalhador sob o capitalismo”, “es­
tabelecimento da socialização na União Soviética”, “mulheres
na indústria”, etc. Com um monte de tais publicações eles iam
de porta em porta, distribuíam- nas e tentavam, se possível,
uma conversa e prover informações sobre o sofrimento das
massas. Os eleitores comunistas que eram conhecidos dentro
dos grupos compravam as publicações. Os social democratas
batiam sua portas furiosamente quando viam as publicações
comunistas e os indiferentes recusavam bruscamente. As ven­
das eram ruins e deprimentes; nas áreas rurais tiveram não
menos resultados deploráveis. Panfletos para aquelas áreas
eram providos de cifras e sugestões para coletivização basea­
da no modelo russo. Uma vez fui escolhido para falar numa
reunião de trabalhadores rurais e fazendeiros fora de Berlim.
Eu estava bem familiarizado com o coletivismo russo e o siste­
ma agrícola soviético. Apresentei o tema com sucesso. Quan­
do acabou não havia uma única questão pertinente ao tema,
nenhuma contribuição positiva. Alguns fazendeiros pergunta­
ram entretanto, o que aconteceria para a Igreja em caso de
revolução.
Minha primeira profunda impressão da distância entre
política e conhecimento prático foi ganha enquanto as vanta­
gens da coletivização agrícola soviética muito bem, mas rece­
beu uma embaraçosa resposta negativa. Um fazendeiro que

155
estava ouvindo tranqüilamente, tirou do bolso uma mão cheia de
grãos, segurou-os debaixo do nariz do funcionário e perguntou-
lhe “Que é isto?”, o funcionário não tinha idéia. O recrutamento
estava terminado por aquele dia. Para o recrutamento rural divi­
sões da “Rotirontkampferbund” eram também mandados e fica­
vam freqüentemente impressionados com o canto e a aparência
militar deles. Eles provocavam curiosidade, as a frágil curiosida­
de era dominada pelo medo profundo do exército. Os nacional-
socialistas tinham mais sucesso nisso porque tinham seus gru­
pos locais nas pequenas cidades, também eram mais brutais e
além disso claramente representados pela ideologia reacionária
rural, especialmente a ideologia Nacional Socialista ‘pátria e fa­
mília”. A última era tão conspícua que eu me admirava da pouca
atenção dada a isso pelo povo.
Nos encontros políticos rurais viu-se que os oradores co­
munistas, social democratas e nacional socialistas, todos perten­
ciam a mesma classe social e eram freqüentemente do mesmo
negócio. Eu gostaria de saber como isso pode ser possível. Não
se notava que os fazendeiros fossem chamados “reformistas’,
quando falavam para os social-democratas e reacionários, quan­
do se inclinavam para o nacional socialismo. Nenhuma opinião
(e a maioria deles mudava de opinião rapidamente) foi suficiente
para classificar a pessoa defendendo isso. Mas como era possí­
vel para indivíduos do mesmo nível social se partir em facções
políticas tão diferentes e todas elas defendidas com igual zê-lo?
As demonstrações em Berlim eram muito mais rigidamen­
te organizadas que em Viena. Marchava-se em formação militar
e cantava-se canções revolucionárias vigorosamente. Tentativas
para atrair a atenção do povo eram feitas gritando “Rotfront” ou
algum outro slogan. Entretanto o populacho cresceu acostuma­
do a isso. Desde que eu participava de todas as grandes de­
monstrações era capaz de ver que eles sen/iam ao propósito de
encorajar as demonstrações mais do que ganhar a predileção do
povo. Todos mostravam sua coragem e mesmo sua resolução
honesta de morrer pela causa, mas as massas eram indiferen­
tes. Alguns milhares de demonstradores não causavam particu­

156
lar impressão numa cidade como Berlim. Também tinha seu
efeito a difamação através da expressão “comunista”. As gran­
des demonstrações do dia d trabalho eram melhores. O partido
comunista da Alemanha era capaz de passar em revista de 80
a 100 mil em Lustgarten e o partido socialista alguma coisa a
mais. Os itinerários permitidos para a marcha da demonstra­
ção eram estritamente marcados. A polícia ficava tensa. No 1°
de maio de 1931, fiquei como monitor de plantão, voluntário.
Os monitores usavam faixas de identificação vermelhas no braço
e eram designados a flanquear as colunas e protegê-las dos
ataques da polícia. Minha tropa e eu acompanhamos a coluna
das crianças. As crianças cantavam alegre e vivamente sem
considerar se era permitido ou não. Algumas canções eram
proibidas como o “casamento vermelho” de Erich Weinert. Quan­
do começaram esta música dezena de soldados imediatamen­
te pularam para fora de seus carros e atacaram cegamente
contra o grupo das crianças. No último minuto conseguimos
fechar os braços tão apertadamente que a polícia não foi capaz
de passar. Tentamos conversas com eles. Estava surpreso com
a maneira automática desses ataques policiais. Em tais ocasi­
ões eu repetidamente tinha a impressão que uma reação auto­
mática funcionava, em lugar de pensamentos vivos e sentimen­
tos: canção proibida - pegue o cassetete.
O revólver de cada policial pendia o seu coldre. Rara­
mente havia um encontro em que não houvesse disparos. Nun­
ca vi os participantes nos encontros atacar a polícia, apesar de
que isto aconteceu quando jovens socialistas lhe disseram pa­
lavrões.
Eu achava que a policia tornava-se mais nervosa quando
chamada de “lacaios do capitalismo”. Houve pequenos choques
quando um típico lugar-tenente da policia Prussiana começou
a ordenar seus homens em volta apenas para ostentar seu
poder. A policia montada tinha particular prazer em demonstrar
sua autoridade oficial andando a cavalo através da multidão e
ordenando que o povo movesse para o lado. Mais a mais isso
enfatiza a autoridade oficial e o treino de seus subordinados.

157
Eram ações provocantes e os participantes dos encontros não
eram conscientes delas de forma alguma.
Tenentes arrogantes era desprezados e o ódio por suas
tropas não era menos intenso. Nenhum pensava no fato de que
eles eram filhos de trabalhadores e fazendeiros. Eles atiravam e
usavam seus cassetetes, em conseqüência eram odiados. De
novo, não eram capitalistas contra operários mas muito mais ope­
rários uniformizados contra o operário sem uniforme.
Considerando que o trabalho social prático em Viena já havia
provido a fundação para uma psicologia de massas empírica,
Berlim agora me oferecia oportunidades esplêndidas, não ape­
nas para definir meus conceitos com mais precisão, mas tam­
bém para completar a reestruturação deles de acordo com meus
pensamentos e sentimentos. A atmosfera do conhecimento es­
téril de livros acadêmicos tornou-se finalmente insuportável. Era
ainda mais dolorosa quando encontrada no meio de organiza­
ções cuja meta era estabelecer nova fundação para a sociedade
alemã. Fui chamado a participar do círculo responsável pela or­
ganização científica do partido, dirigido nessa época por Karl
August Wittfoget, um homem inteligente e academicamente mui­
to produtivo. Haviam muitos economistas e muitos filósofos. Nas
discussões um certo medo de expressar os próprios pensamen­
tos era evidente. Haviam desentendimentos mas sempre dentro
de uma estrutura intelectual exigida pelo partido. Era perigos ul­
trapassar a linha do partido. O partido era realmente capaz de
indicar a tendência geral do pensamento, mas não podia fazer
mais que isto. Não havia uma resposta para questões
especializadas de forma alguma. Isso dependia totalmente do
funcionário que estivesse presidindo. Se ele não se opusesse a
psicologia então os problemas de psicologia no movimento soci­
alista podiam ser discutidos em seu mandato. Um outro funcio­
nário poderia ficar desinform ado neste campo e
consequentemente hostial a isso como se a psicologia não tives­
se nenhum papel na política. Logo entendi que essa atitude não
era meramente teimosa ou estreiteza mental.
Se o partido do povo fosse confrontado com problemas tais

158
como aqueles que agitaram a Alemanha na época e não hou­
vesse mentes científicas suficientemente independentes e os
livres pensadores à seu dispor e se os poucos indivíduos inte­
lectualmente treinados gastassem seus poderes mentais em
questões acadêmicas triviais enquanto as massas estivessem
clamando por respostas que ninguém pudesse suprir, seria com­
preensível que um pequeno grupo de pioneiros, lutando por
uma causa difícil se agarrasse a linha do partido como eles
faziam. Entretanto, ninguém pode aprender a nadar livremente
dessa maneira. Portanto parecia melhor resolver um pequeno
número de problemas razoavelmente bem do que permitir tor-
nar-se vítima de acrobacias intelectuais. Eu uso consciente­
mente a palavra “parecer” porque sem seriedade e sem esta­
rem extensamente organizados, radicalmente inclinados a pes­
quisa científica, os milhares de problemas os quais são coloca­
dos pelo movimento do povo não podem ser administrados apro­
priadamente. Apesar de que se possa admitir a maneira na
qual o partido tentava ultrapassar suas dificuldades, só poderia
conduzi-lo à ruína.
Não havia escolha entre a linha e acrobacias intelectuais,
mas tinha a tarefa de permitir as próprias massas perguntar as
questões. As respostas corretas seriam então achadas, por­
que as mentes jovens honestas cientificamente treinadas apa­
reciam, juntariam-se ao movimento e talvez salvassem-no da
destruição. O grupo não permitia as massas falar e esta foi a
razão da desintegração. Sabia por experiência de sua queda e
a razão disso, asso a passo num curso de dois anos e meio.
Durante a luta contra esse medo das massas, eu desenvolvi,
não apenas meu subsequente “Psicologia de massas do fas­
cismo”, mas também muitos princípios de prática organizacional
os quais estou apresentando ao mundo só agora, isto é, muitos
anos depois.
Na seção acadêmica do partido encontrei novamente as
piores qualidades de academismo, apenas nessa época glorifi-
cado como revolucionário. Havia um filósofo, Kurt Sanerland,
que mais tarde publicou um livro sobre “materialismo dialético”.

159
Nele representou Stalim como o maior filósofo contemporâneo.
Esse indivíduo contaminou e dominou toda a inteligência do par­
tido com dogmas que clamava serem filosofia dialético-
materialistica. Na sua ignorância realmente confundia os slogans
da época com os resultados da pesquisa científica. Muitos eco­
nomistas jovens rebateram sobre a idéia de retratar visualmente
a teoria marxista do valor, fazendo-a acessível aos incultos. Eu
estava entre aqueles que assistiram a pré-estréia do filme: acha­
mos esplendido. Mas os filósofos de alto nível não permitiriam
que isso fosse mostrado em público (apesar do louvor dos solda­
dos rasos) porque isso supostamente contradizia alguma pala­
vra aqui e ali na teoria de Marx. Nas tais discussões de alto nível
poderia-se observar todo o irracionalismo que distorce o povo.
Indivíduos desarraizado calorosamente deram abertura total a
seus conceitos mas sempre dentro dos limites da linha do partido
a qual nunca ultrapassavam. Freqüentemente isso era seriamente
discutido entre meus amigos. Com horror assistimos todas as
iniciativas sendo sufocadas.
Meu amigo Nengebauer, o delegado parlamentar da fac­
ção comunista, sociólogo cientificamente treinado e um camara­
da decente, uma vez observou: Que podemos fazer? Realmente
eles poderiam ser jogados para fora, mas aqueles que os substi­
tuíssem seriam melhores? O que nos falta é a “inteligência” trei­
nada. No momento podemos apenas ranger os dentes e supor­
tar isso.
Eu poderia ainda trabalhar sem empecilhos ao lado dos
filósofos. Foi somente quando meu livro sobre a juventude “Der
sexuelle kampf der jugend” apareceu para discussão que o con­
flito aconteceu.
Nenhum dos membros notáveis do partido tinha lido o “Mein
Kampf” de Hitler. Apenas uns poucos Wittfogel e Duncker entre
outros estavam interessados em analisar os trabalhos dos opo­
nentes. O S .A . já estava marchando nas ruas em grupos omino-
sos. Ninguém notou que esses eram os mesmos tipos que ti­
nham formado nossa própria tropa militante de trabalhadores e
empregados que nós agora considerávamos mercenários reaci­

160
onários.
Em julho de 1931 a quebra gigantesca bancária ocorreu
na Alemanha. Todos esperavam os comunistas dizerem a pa­
lavra decisiva. Os primeiros comentários vieram oito dias mais
tarde. Dessa época em diante os operários sérios no partido
sabiam que a causa estava perdida. Somente agora tornaram-
se mais ativos os nacional socialistas cujo número tinha au­
mentado em 1930 de oitocentos mil para aproximadamente oito
milhões de votantes. As marchas em Berlim tornaram muito
mais freqüentes. Nos núcleos, formaram-se grupos de guar­
das de proteção junto com os membros da Arbeiterwehr. Fui
designado para o então chamado Red Housing Block na
Wilmersdorferstrasse.
Raiva sobre as perdas sofridas e bem assentada convic­
ção sobre a causa boa que estávamos pleiteando, junto com
nossa inabilidade em refrear o momento do desabamento re­
volucionário, freqüentemente nos conduziram a um grotesco
porém corajoso comportamento. O S.A. tinha anunciado outra
marcha em julho de 1931. Depois disso houve rumores de que
Berlim estava ser ocupada. O partido mobilizou-se. Nosso gru­
po, cerca de 30 pessoas, entre os quais mulheres e moças
permaneceram nos núcleos. Supunha-se afastar um possível
ataque nos apartamentos. Havia 3 pistolas no grupo e apenas
3 homens com experiência em combate. Os outros eram valen­
tes, distribuíam panfletos, passando-os por sobre muros e pa­
redes, corajosos em espirito. Mas agora a questão era tratar
com a violência. Enchemos garrafas com água e as colocamos
em pé centenas delas ao longo das janelas e dos batentes da
portas, prontas para serem atiradas sobre as cabeças dos S A
Isso mostra apenas um quadro entre muitos outros das situa­
ções em torno da luta de classes. Felizmente nada aconteceu
naquela noite. Se os S.A. tivessem realmente atacado o resul­
tado teria sido uma matança estúpida entre pessoas vivendo
sob as mesmas condições de trabalho, nas mesmas condições
materiais e mesmo dividindo a mesma determinação de liqui­
dar com a máquina capitalista.

161
Jornais e revistas estavam cheias de fatos sobre grupos
políticos inimigos, programas, interesses capitalistas e anti-capi­
talistas. Nos núcleos nas ruas, demonstrando ou pregando car­
tazes a noite, era um outro caso. A luta de casses estava toman­
do lugar entre membros da mesma classe. Quando discuti isso
com amigos das organizações da juventude eles compreende­
ram. Com isso é possível, perguntei, “que trabalhadores, empre­
gados, pequenos comerciante, donas de casa, empregadas, se
partiam em grupos diversos e desenvolviam tal desarmonia polí­
tica, apesar de compartilharem do mesmo estatus econômico?”
A resposta veio, “Ainda não os convencemos da precisão da pers­
pectiva da classe. Nós ainda não os conquistamos, eles ainda
estão presos na ignorância pelo capitalismo”. No meu núcleo havia
um mecânico que também trabalhava como motorista. Ele parti­
cipava rigorosamente nas discussões, era inquisitivo e queria au­
mentar nossas atividades, mas não estava satisfeito com res­
postas teóricas difíceis que recebia e subseqüentemente juntou-
se aos Nazis. Durante a eleição presidencial em 1932 seus anti­
gos camaradas de núcleo cuspiram em sua casa. Ele era um
traidor. Mas como? Porque? Ele não era diferente dos outros.
Não era possível apresentar nos círculos do partido a resposta
sobre qual experiência em trabalho prático tinham me dado. Mui­
tas tentativas hesitantes para realizar isso tinham me convencido
que eu apenas iria ficar desgostoso. Não me refiro entre amigos
particulares, mas no núcleo das reuniões oficiais. Finalmente
desisti de tentar persuadir as pessoas e concentrei-me no traba­
lho de política-sexual com as massas. Isso desenvolveu-se rapi­
damente desde os primeiros meses de 1931. Eu me convenci de
que a psicologia de massas e política sexual continham a res­
posta para a questão que os fascistas fizeram a sociedade ale­
mã.

ORGANIZANDO A POLÍTICA SEXUAL NA ALEMANHA

Desenvolvimentos no trabalho de política sexual entre 1931


e 1932 exigiram uma análise da ideologia fascista. Não procurei

162
a conecção entre as duas, nem comecei um movimento com
objetivo direto de destruir ou dominar ideologicamente o Fas­
cismo. Os problemas que encontrei na Alemanha e antes na
Áustria foram os mesmos que aqueles nos quais estavam
centrados a manipulações das massas fascistas, chamados
casamento, família, raça, moralidade, honra.
Desde o início numerosos membros da classe média,
semi-intelectuais e estudantes secundários, se juntaram aos
meus grupos, trazendo com eles o grande interesse das clas­
ses médias mais precisamente àqueles problemas. Isso em
contrapartida alargou a oportunidade de meus esforços os quais
então cercados pela juventude, as organizações existentes de
reforma sexual, livres pensadores e organizadores naturais, or­
ganizações infantis e grupos femininos.
Por muitos meses visitei grupos de jovens em vários bair­
ros de Berlim para absorver o ambiente em geral. Recusava
conferências, dizendo que eu conhecia aqueles jovens muito
pouco e que eles nada conheciam das minhas teorias.
Baseado em experiências ganhas em Viena, Rascunhei
uma plataforma sobre política sexual contendo essencialmente
os temas da minha conferência para a convenção da liga mun­
dial para reforma sexual em 1930. O conselheiro cultural do
comitê central do partido comunista aprovou e eu então apre­
sentei a plataforma para aprovação da comissão da liga mundi­
al em Berlim. J.H. Lembach, que foi mais tarde o condutor pio­
neiro da política sexual, estava também presente no encontro
onde a decisão foi tomada. Todos os presentes, o presidente
da associação de controle de natalidade, o secretário da liga
mundial e Lembach, vetaram a plataforma. Eles sentiram que
era comunista e que as organizações de política sexual não
queriam nada com os pontos de vista comunistas. Apesar de
admitirem que meus pontos de vista eram corretos, eles não
queriam provocar ninguém.
As organizações, diziam eles, tinham que permanecerem
apolíticas e não poderiam se incorporar num partido específi­
co. Mais tarde revelou-se que isto estava errado em princípio,

163
mas correto na prática. Depois disso fui obrigado a assumir um
partidarismo (apesar de não apodíctico) porque a aflição da cau?
sa com interesses partidários tinha terminado num fiasco. Infeliz­
mente naquela época eu não tinha distinguido entre “social” ç
“político”
Em 130 existiam aproximadamente oitenta organizações
de política sexual na Alemanha, cada uma estava estruturada de
maneira diferente, sob liderança independentes e havia antago­
nismo freqüentes entre elas. Seu total de membros era de
35O.O0O, número maior que de qualquer partido grande. A maior
parte dos funcionários dessas organizações eram membros si­
multaneamente dos partidos Cristão, Social Democrata e Comu­
nista. Entretanto não havia conexão entre suas funções como
funcionários dos grupos de política sexual e membros de seus
partidos políticos.
Muitos daqueles que eram entusiasmados com seus pró­
prios partidos opunham-se a incorporação dos partidos. Os par­
tidos não davam nenhuma atenção às organizações político se­
xuais, apesar de anunciarem nos jornais os seus encontros. Cada
organização político-sexual tinha seu boletim de informações pró­
prias e muitos desses eram ilustrados, para atrair o público, man­
tendo a tendência geral. Não eram pornográficos, mas não eram
claros suficientemente quanto a distância da pornografia. Não
continham pontos de vista básicos sobre sexualidade e mesmo
menos ainda sobre orientação político-social. Mesmo assim, ad­
vogavam controle irrestrito de natalidade, aborto legalizado, eram
contra a situação da criança por obrigação, e contra a penalização
por desvios sexuais especificamente homossexualismo.
Tentavam proteger o casamento mais do que o fazia a pró­
pria burguesia. Não mencionavam os problemas da juventude,
estes os eram evitados instintivamente. Os pontos de vista incor­
retos de Magnus Hinchfeld dominavam a teoria e a prática. Mui­
tos detalhes de valor eram elaborados, mas todas as medidas
para assegurar a consolidação e realização das metas eram es­
crupulosamente evitadas.
No curso de décadas, graças ao próprio sacrifício e esfor­

164
ço de pessoas como Helene Stock (que dirigiu o “Bund für
Mutterschutz”, “Associação para proteção às mães”, e também
publicou o jornal “Nova Geração”), a Alemanha foi coberta por
uma rede de centros de controle de natalidade. Apesar de não
atingirem mesmo um décimo da população, constituíram uma
voz poderosa para a higiene social.
Deu-se apoio legal e moral aos que foram acusados por
aborto. Conferências reguläres informavam membros que ti­
nham implicações sociais relativos a sexualidade, apesar de
que as informações fornecidas eram freqüentemente incorre­
tas e sobrecarregadas de questões sobre política populacional
e eugênica.
Os comerciantes que se infiltraram nos grupos e tiraram
seus lucros da demanda de anticoncepcionais constituíram um
dos grandes males. Havia muito mau-caráteres entre eles; isto
entretanto não podia ser considerado contra as organizações.
Eles dependiam delas porque agências oficiais do governo não
tiveram nenhum interesse relativo a essa faceta do problema e
apenas causaram dificuldades.
Meu plano era formar uma associação unida a partir des­
sas organizações descritas. Através da introdução de esforço
conscientemente dirigido e afiliação ao partido comunista, as
facções individuais da reforma sexual estariam unidas para for­
mar uma associação de política-sexual unificada. Segundo con­
sulta na divisão de física, o programa médico foi mudado para
o IFA como estratégia preliminar. O IFA era uma organização
que compreendia todos os subgrupos culturais do partido. Três
doutores (entre eles eu) um delegado parlamentar e dois líde­
res do IFA foram eleitos para liderar o programa nacional de
política sexual. Os dois últimos foram designados para a lide­
rança organizacional e político-partidária, e eu fui designado
para o programa de política sexual à nível nacional. A opinião
sobre a utilidade da minha plataforma foi unanimemente favo­
rável e todos esperavam resultados positivos. O grupo de re­
forma sexual de Düsseldorf publicou a plataforma que foi ime­
diatamente trazida à atenção pública. Assim o trabalho na Ale­

165
manha Ocidental começou bastante espontaneamente.
Em 1931 o primeiro congresso da Alemanha Ocidental foj
realizado em Düsseldorf. Surpreendentemente imobilizou vinte
mil membros de aproximadamente oito grupos diferentes. Pro-*
nunciei o discurso principal, apenas elaborando um breve con­
teúdo da plataforma. Nenhum grupo presente não-político dis­
cordou. Em Berlim e nas circunvizinhanças, vários grupos locais
foram fundados onde nenhum havia previamente existido ou or­
ganizações existente foram consolidadas. Aqui a unificação era
mais difícil. Até aquela época o partido comunista não tinha tido
organizações para reforma sexual e também não tinha toado po­
sição sobre política-sexual, exceto em relação a legislação sovi­
ética. Portanto eu desfrutei grande reconhecimento da liderança
do partido. No curso de um ano foram encontradas organizações
unificadas em Leijizig, Dresden, Stettin, etc.
O movimento espalhou-se rapidamente. Dentro de poucos
meses dobrou em tamanho compreendendo quarenta mil mem­
bros. Como o movimento cresceu as questões que nos eram fei­
tas também cresceram. Três problemas claramente delineados
estreitamente difíceis apareceram. Não pude negligenciá-los por­
que foram desenvolvidos logicamente no curso do trabalho. Por
outro lado, também era incapaz de resolvê-los, qualquer solução
prática pedida iria contra a liderança do partido e isso era impos­
sível. Os três problemas eram:

1. Treino prático dos líderes do movimento. No partido não


existia nenhuma teoria da sexualidade, opiniões incorretas. Os
grupos e massas que agora estavam incluídos não tinham ne­
nhum pessoal treinado para contribuir. Por mais simples que fos­
sem os princípios da economia sexual, não havia esperança de
serem mesmo apressadamente um número suficiente de funcio­
nários. Hoje a situação melhorou, mas na época o problema per­
maneceu sem solução.
2. A inclusão da juventude. Os grupos de reforma sexual ti­
nham evitado a questão da sexualidade do adolescente tão me­
ticulosamente que eles não tinham contato com a juventude da

166
classe média ou da classe operária. Os grupos consistiam pre­
dominantemente de pessoas de meia-idade. Em 1931 a juven­
tude comunista era de aproximadamente quarenta mil, a juven­
tude social democrata de cinqüenta mil e a do nacional socialis­
ta de cinqüenta mil. O partido Centro Cristão tinha quase dois
milhões de jovens em suas organizações. Esse partido em con­
traste com os outros tinha prosseguido com a política-sexual e
como resultado era maior em número, indicando que apenas
juventude podia continuar o movimento político-sexual.
3. A inescapável transformação das opiniões sobre todas
as políticas que resultaram da inclusão da psicologia nos
procedimentos sexuais. Apesar de ter visto o começo da trans­
formação em toda parte, deliberadamente evitei colocá-la em
movimento. Primeiramente podia-se apenas ter em conta que
a política sexual tinha que ser incluída em todos os esforços do
socialismo revolucionário. Nenhum funcionário do partido po­
dia se opor a isso, apesar do fato de que os efeitos do trabalho
da política sexual entre as pessoas eram tão fortes que a lide­
rança do partido apenas podia vê-las im potentes e
incompreendidas. Minha formulação cautelosa foi inútil. Instin­
tivamente os funcionários perceberam “perigo” para os parti­
dos políticos e teimosamente reclamaram que eu estava ten­
tando substituir política econômica por política sexual.

Tentarei ilustrar os três problemas básicos do movimento


político-sexual com exemplos separados típicos, que são váli­
dos ainda hoje e que permaneceram válidos por muito tempo
ainda.
A falta de treino foi manifestada como segue: conquanto
estivesse eu presente no distrito de Ruhr as reuniões eram cal­
mas. Muitos meses após minha partida, entretanto, os funcio­
nários começaram a reclamar que só o sexo estava sendo dis­
cutido e que o interesse nas questões sobre luta de classes
estava diminuindo. Algumas mulheres tinham falado contra essa
tendência.
As frentes unidas políticas não podiam ser mantidas em

167
algumas organizações. Que tinha acontecido?
A plataforma e os relatórios apresentados no primeiros con­
gresso tinham despertado o povo e tinha estimulado milhares de
questões que necessitavam de respostas. Os funcionários dq.
partido que até essa época tinham trabalhado com slogans e que
estavam muito longe da atual luta de classe estavam impotentes
em face das questões. Além disso as mulheres do partido nacio­
nal socialista e do partido cristão tinham se juntado às organiza­
ções aos milhares e os funcionários nunca tinham aprendido como
manejá-las, como fazer um contato humano e como tratar com
as complicadas reações emocionais delas. A “política
populacional” que foi exposta até então tinha se tornado ainda
menos interessante. O povo simplesmente queria conselhos prá­
ticos e ajuda para seus problemas maritais e do crescimento do
número de crianças, seus distúrbios sexuais e suas dores de
consciência. Então o clero voltou a aparecer as seus velhos ar­
gumentos eram inúteis agora quando confrontados cara a cara.
Os funcionários interpretavam as manifestações de ansiedade
sexual como nocivo ao trabalho de política sexual. Eram incapa­
zes de entender o fato de que as massas tinham finalmente tido
sucesso em incitar. Eles ficaram com medo.
Era impossível explicar isto a todos os membros do partido
psicologicamente destreinados. Tentei o melhor que pude man­
ter minha posição: por exemplo, pegando funcionários mais no­
vos da juventude e professores ao longo da minha seção noturna
da juventude demonstrando de forma prática quão irresistivel­
mente estavam os jovens interessados e quão fácil era abordar
os grandes problemas sociais. Espalhou-se em Berlim o medo
do movimento e as reivindicações do povo. Quando os líderes do
IFA Bischoff e Schneider, começaram a sabotar nossos esfor­
ços, tranqüilamente me demiti do conselho nacional de controle
e arranjei cursos de treinamento em vários bairros da cidade. E
com grande sucesso! Em Charlottenbur concentrei meus esfor­
ços a fim de formar um grupo modelo e informe o líder do partido
sobre isso. Todos os outros grupos estavam aproveitando as ex­
periências daquele que estava sob minha direção. Estava certo

168
de que gradualmente os descomplicados princípios do movi­
mento, juntamente com a aplicação prática deles, iriam ganhar
terreno. Mas a urgência das reivindicações estava dominante e
simplesmente não havia tempo para um trabalho completo e
calmo. Entretanto, a nervosia dos funcionários destreinados au­
mentou com a força crescente do movimento. Ao invés de se
prepararem e estudarem uma base a longo prazo, começaram
a arranjar convenções de unificação e queriam rapidamente
consolidar todos os grupos de reforma sexual da Alemanha.
Isso foi tomado como provocação pelos oponentes desses gru­
pos e resultou num total fiasco. O movimento para um grupo
unificado tornou-se um ponto morto nas discussões sobre polí­
tica e organização fundamentais. Além disso, a polícia come­
çou a intervir. Em 23 de maio de 1932 eles dispersaram o con­
gresso cultural operário e em 24 de maio a convenção da unifi­
cação de nossa organização. Eu simplesmente deixei que os
assuntos tomassem seus rumos e não tomei parte posterior­
mente nas negociações. Em vez disso continuei meu trabalho
nas organizações em níveis mais baixos, particularmente atra­
vés do treinamento. Selecionei os melhores estudantes do meu
curso na MASCH e distribui-os entre as organizações. Isso pos-
sibilitou-me manter minha posição quando a burocracia do par­
tido me censurou severamente.
Acredito que experimentei em pequena escala o posteri­
or curso geral de eventos na União Soviética. "A contradição
entre as reivindicações emergentes do povo e a incapacidade
das organizações de resolver os problemas, causa a máquina
hierarquicamente organizada a recorrer os problemas, causa a
máquina hierarquicamente organizada a recorrer a atos de ter­
rorismo contra as pessoas que tinham encorajado as massas
as questionar”.
Entretanto, através de minhas atividades médicas encon­
trei numerosos jovens de vários círculos, todos me encoraja­
ram a escrever um livro sobre a juventude. Preparei um ma­
nuscrito em algumas semanas e distribuí cópias disso. Foram-
me retornadas cheias de comentários e sugestões as quais

169
incorporei na versão final que foi apresentada ao comitê da ju­
ventude de Moscou. Os editores da juventude de lá iriam publicá-
lo. De Moscou veio a resposta de que o livro era realmente bom,
mas que “seria melhor não assumir responsabilidade por ele”.
Ficou para ser publicado pela imprensa cultural dos trabalhado­
res, que era menos oficial. Entretanto, os direitos dessa editora
sabotou o livro por um ano. Eu tinha apresentado o livro “A luta
sexual da juventude” no verão de 1931, e em março de 32 ainda
não tinha sido publicado. Então fundei minha própria editora para
a política sexual, Verlag für Sexualpolitik, que publicou esse livro
subseqüentemente e “A invasão da moralidade sexual compul­
sória”. (Era crucial estar completamente independente desses
políticos mesquinhos).
Seguindo minha sugestão, um grupo pedagógico de políti­
ca sexual redigiu um livro para crianças pequenas “O triângulo
de giz”, bem como um livreto para as mães entitulado “Quando
sua criança faz perguntas”. Financiei a publicação de ambos.
E stes dois pequenos trabalhos tinham sido estudados e dis­
cutidos antes nos grupos de crianças e de mulheres, o primeiro
principalmente, no grupo Fitche de crianças em Charlottenburg.
Foi lido por minha mulher para uma audiência de crianças entre 8
e 12 anos. Apesar dos encontros de grupos serem comumente
assistidos por mais ou menos 30 crianças, desta vez aproxima­
damente oitenta jovenzinhos sentaram-se lá radiantes. E que
perguntas e reivindicações foram ouvidas! “Você têm que escre­
ver mais sobre pais”. “Deixe nossos professores terem isso tam­
bém”. “Porque você não disse nada sobre as prostitutas que ve­
mos andando em nossas ruas?”. O líder do grupo Fitche estava
satisfeito e perplexo. Nunca tinha visto crianças como estas ate e
observou: “Levaremos isto ao partido cristão. Sempre falam so­
bre besteiras. Deveriam realmente ouvir alguma coisa para mu­
dar”. Minha filha estudava numa escola na parte norte de Berlim.
Depois de algumas semanas a escola estava alvoroçada, crian­
ças que comumente discutiam sexo entre elas e mantinham isso
em segredo por medo dos adultos, agora sentiam-se ligadas aos
adultos. Não era mais um tabú e tinha tomado novas direções.

170
Tivemos um enorme sucesso com funcionários que estavam
em contato com as crianças. Tivemos um enorme sucesso com
funcionários que estavam em contato com as crianças. Agora
eram capazes de compartilhares em confiança, os segredos
mais bem guardados das crianças. O livro para mães trabalha­
doras com explicações sobre crianças foi igualmente um su­
cesso. Minha faxineira distribuiu dezenas de cópias para mu­
lheres do seu relacionamento. Milhares de cópias foram literal­
mente arrancadas das minhas mãos.
O livro da juventude foi publicado numa edição de dez mil cópi­
as e quatro mil foram vendidas em seis semanas. Isso clareou
o caminho para nossa juventude alcançar a juventude de todos
os círculos de estudantes do 2° grau; social-democratas, cris­
tãos e nacional socialista inclusive. Dessas experiências tirei a
força para continuar mais tarde, e ara resistir a retórica
comovente do partido socialista.

171
IRRACIONALISMO NA POLÍTICA
E NA SOCIEDADE
A inconsistência do Nacional Socialismo.

Muito do qe atualmente parece lugar comum constitui novo


território e difícil de entender em 1930, por exemplo, o caráter
socialista subjetivo do SA e a cisão resultante do Nacional Soci­
alismo; isto resultou em força da latente determinação das mas­
sas; a novidade dessa determinação e o poder de uma devoção
mística ao líder. O político comum não poderia entender o poder
do Führer sobre a vontade manifesta de seus seguidores. A pro­
funda fenda separando as esperanças do povo alemão da reali­
dade do barbarismo de Hitler confundiu o pensamento do povo.
O colapso da democracia burguesa estilhaçou idéias liberalistas.
As medidas que Hitler sem dúvida pretendia “socialmente” des­
nortearam os anti-fascistas. Eles não compreenderam a ligação
dessas medidas com uma igualdade imperialista; também não
entenderam as similaridades entre a ideologia russo-soviética, a
nacional socialista e a liderança de massa. Em dezembro de 1932
os nacional-socialistas alemães juntamente com os comunistas
e social-democratas convocaram uma greve dos trabalhadores
do sistema viário de Berlim, tendo o movimento sido rotulado de
“manobra".
Em 1930 eu vi colunas do Berlin SA marchando nas ruas,
seu porte, suas expressões faciais, seu cantar não eram diferen­
tes das divisões comunistas de Rotfrontkämpfer. Representan­
tes da liderança do partido comunista declararam isto contra re­

172
volucionário alegando que os SA eram uma tropa composta
por trabalhadores e empregados de colarinho branco. O fascis­
mo alemão era considerado uma reação política como a dita­
dura húngara de Horthy e aquela de Dollfuss, mais tarde na
Áustria. Mesmo depois de 1933 era impossível convencer um
membro do partido comunista ou socialista de que o fascismo
alemão era essencialmente diferente de todas as outras rea­
ções políticas por causa do apoio da massa que o agüentou no
poder. Todos sabem que as condições na Alemanha eram into­
leráveis. Todos queriam mudar mas ninguém sabia o que pre­
cisava mudança. Os nacional-socialistas sozinhos tinham um
programa que todos podiam entender facilmente, a saber, revi­
são do tratado de Versalhes à qualquer preço e por qualquer
meio disponível. As metas reacionárias e imperialistas de Hitler
foram inequivocamente publicadas no “Mein Kampf” e ainda
cada nova eleição trouxe para ele o apoio adicional de milhões.
Quando os comunistas notaram que seus slogans revo­
lucionários estavam perdendo a atração, começaram a compe­
tir com Hitler defendendo a libertação nacional e social. (Mais
tarde eles ultrapassaram Hitler). Em 1932, juntos com os naci­
onal-socialistas eles processaram o governo de Braun na
Prússia. Mas em julho de 1931 depois da grade quebra dos
bancos, muitas pessoas do partido sabiam que a causa estava
perdida.
Aqueles que tinham maior discernimento compreende­
ram que as massas revolucionárias subjetivamente levantadas
estavam em sua maior parte seguindo Hitler porque seriam um
motim mas, ao mesmo tempo temiam uma revolução genuína.
Hitler libertou-os da responsabilidade de seu próprio destino,
cuja carga havia sido colocada sobre seus ombros pelo movi­
mento alemão revolucionário.
“Hitler pode e fará tudo por nós” diziam eles. Ele era ca­
paz de fazer tudo e realizar proezas inacreditáveis, porque era
ajudado pelo medo que a massa tinha da revolução. Ao mes­
mo tempo ele fornecia uma satisfação ilusória aos anseios re­
volucionários, anti-capitalistas e socialistas do povo. Era im­

173
possível para os socialistas alemães vertais condições. Eles acre»
ditavam que se somente uma exigência econômica motivava o$
desejos e ações da classe operária, então o povo não podia aju4
dar, mas desejavam revolução social e não podiam ao mesma
tempo temê-la. Neste caso a atração de Hitler poderia apenas
ser atribuída a mistificação e demagogia.
Nos acontecimentos precipitados entre 1930 e 1933 era
inconcebível que o povo pudesse imaginar como líderes de uma
Alemanha melhor, sem por um momento se inquietar com o fato
de que mera mistificação e demagogia pudesse ter tal efeito.
Apesar de estarem à beira do abismo não queiram pensar nisto,
e logo entenderemos porque.
Mesmo em 1938 me deparei com representantes de sindi­
cato que ainda estavam falando sobre mistificação e demagogia
como em 1930. O conforto deles, como antes, era o fato de que
o preço da manteiga tinha aumentando e que aqui e ali a crítica
já estava considerando os acontecimentos presentes deve-se ad­
mirar o tipo de mentalidade em que milhões de pessoas pôs sua
confiança. Esta mentalidade altamente ingênua e extremamente
dignificada tentou reduzir os enormes problemas da sociedade
alemã do aumento do preço da manteiga e os comentários de
uns poucos descontentes nas fábricas. Não apenas isto mas
queriam atribuir os problemas a estes fenômenos e além disso
recusavam a tolerar qualquer outra explicação. Nenhum dos lí­
deres dos trabalhadores que conheci tinha estudado seriamente
o “Mein Kampf de Hitler e outros escritos sobre as massas. Ne­
nhum tinha se perguntado como esse arquireacionário embuste
perpetrado por um grupo de bandidos pode agarrar e envenenar
milhões de corações alemães honestos e calorosos. A teoria da
raça diziam eles, era um disparate meramente um palavrório im­
perialista, ada novo em princípio. O ataque contra os judeus era
apenas uma velha técnica para desviar a atenção da luta de clas­
se. Uma vez o socialismo tinha se orgulhado de ser o primeiro
movimento social a funcionar numa base cientifica séria. Mas
ninguém parecia capaz de se perguntar a simples questão do
porque milhões de indivíduos se permitiam sertão influenciados

174
pelo disparate e vão palavrório. Eles até mesmo se enraiveci­
am quando tais questões eram colocadas. Afim de vencer o
forte oponente deve-se examinar seus métodos e motivos mais
cuidadosamente. Reconhecê-los como fatos está muito longe
de concordar com eles. Entretanto, era considerado ilógico le­
var a sério a influência da psicologia de massa de Hitler. Mem­
bros do partido socialista na Alemanha tomaram isso como
afronta pessoal, se alguém argumentasse que processos es­
senciais incompreendidos pelas massas tinham que existir para
que Hitler fosse tão vigoroso.
Antes de 1933 não teria havido uma luta séria em relação
ao fascismo. Mesmo as mais básicas indagações eram rejeita­
das e consequentemente nenhuma resposta as questões pode
ser encontrada. Como foi demonstrado mais tarde essas res­
postas foram tão horripilantes, de tão amplas conseqüências e
revolucionárias, que a princípio elas aumentavam a fraqueza
das pessoas em face da investida dos acontecimentos. É mais
simples colocar a fé de alguém nos poderes de cura de um
medicamento do que admitir que se está cuidando de um paci­
ente à morte, que está além de qualquer ajuda, mesmo que
esse alguém começa a entender as razoes de sua morte.
As principais declarações dos oponentes do fascismo
eram corretas em princípio. Fascismo ameaçava a liberdade
democrática do discurso, mas milhões endossavam essa ame­
aça como livre expressão de suas opiniões. O fascismo falava
candidamente da guerra, esmo revestindo indiscriminadamente
o assassínio com palavras portentosas tais como: dever, sacri­
fício e obediência, já milhões incitavam o dever, obediência e
sacrifício com vida. Isso dividiu os seres humanos em líderes
naturais e aqueles nascidos para dirigir, e novamente milhões
se mobilizaram ara a classe dos “subumanos”.
O fascismo prometa aos capitalistas que asseguraria seu
controle das indústrias e prometia aos operários que comparti­
lhariam esse controle - ambos aceitaram. Uma completa
mobilização militar do povo foi anunciada e o povo ratificava
isso.

175
Em resumo, cada atitude política no fascismo, deveria ter causa*
do rebelião violenta, as teve efeito contrário. Muitos socialista»
escaparam da insanidade da situação, renunciando sua crença
no valor do desejo da massa e na amabilidade da humanidade
para pensar. Muitos estavam desejosos de proclamar a antiga
idéia básica do movimento livre sem efeito, conquanto que não
fosse partido dos empregados que estavam literalmente força­
dos pelas circunstâncias a professar a “liberdade”. Sua defesa
da liberdade em face a irrestrita brutalidade do fascismo, o qual
simultaneamente prometia a ambicionada independência nacio­
nal era extremamente triste, nociva e degradante. O inimigo da
liberdade golpeava sempre que podia, e os defensores da liber­
dade reclamavam sobre suas pancadas à polícia. Mas a função
do inimigo era golpear, e a reclamação não tinha sentido.
Então imitavam seus slogans enquanto pregavam simulta­
neamente uma democracia do povo há muito tempo inoperante
devido ao mau uso. A força de Hitler baseia-se na decepção do
povo no “socialismo científico” e na futilidade da ideologia demo-
crático-parlamentare socialista-reformista. Nem a liberdade ofe­
recida pelo socialismo nem a liberdade que eles haviam experi­
mentado sob a democracia burguesa era tentadora e devemos
ter em mente que nessas massas trabalhadoras se incluíam quase
sete milhões de desempregados. Como demonstrou o ano de
1933 não apenas eram pessoas indesejosas de defender sua
liberdade estabelecida mas, ao contrário, eram assar que
propensamente e entusiasticamente se submetia ao jogo autori­
tário do fascismo o qual negou toda a liberdade.
Aceito como verdadeiro, o conceito de liberdade oferecido pelos
oponentes de Hitler foi improdutivo, mas essa reação da massa
perguntou se o povo não desejava liberdade ou se simplesmente
preferiam trocar liberdade pessoal por liberdade da responsabili­
dade.
A confiança do povo na liderança democrática e socialista
foi a zero se realmente isso alguma vez existiu. Os comunistas
arranjavam “demonstrações espontâneas de massa” na qual seus
próprios grupos de partido se compraziam em participar.

176
No dia da eleição decisiva (5 de março de 1933) quarenta
mil operários, alguns armados, esperavam nos bairros operári­
os de Berlim pelas “demonstrações espontâneas da massa”
esperando assim evitar a tomada do poder de Hitler Ninguém
de mexia, ninguém parecia ambicionar defender sua própria
liberdade.
Na Alemanha, com sua forte tradição de socialismo e sin­
dicatos, isso era incompreensível ao pensamento racionalista
da época. A crise econômica está empobrecendo a população,
em conseqüência esta deseja o socialismo e a socialização dos
meios de produção. Hitler é um representante dos grandes ne­
gócios, consequentemente o povo se oporá a ele. Exatamente
o contrário ocorreu.
Todo o corpo da teoria socialista, o trabalho de gerações
de brilhantes intelectos e pioneiros, pareceu entrar em colapso
com um golpe. Expressado em termos mais concisos: a teorias
marxista que dirigiu o movimento dos trabalhadores alemães
demandou como resultado de uma profunda e sofrida crise eco­
nômica, revolucionando os sentimentos do povo.
Na realidade a crise já tinha causado não apenas paralisia da
massa, mas também um claro giro popular para a direita. As­
sim, uma divisão ocorreu entre os desenvolvimentos econômi­
co e ideológico, ou melhor dizendo, esse último foi em contradi­
ção direta ao primeiro. Não se pôde lamentar isso, teve-se que
compreender. Então uma solução prática pôde ser encontrada.
Uma vez mais o pensamento científico sem sentimento provou
sua inconsistência. Enquanto partidos representantes do mar­
xismo escondiam-se atrás de espessas nuvens de ilusão, a psi­
cologia política logicamente combinou fatos vacilantes para for­
mar uma visão composta.
Senti mais como o transmissor de uma certa lógica do
que como conclusões científicas sábias de forma superior de
pensador. A consolidação de todos os problemas dentro de uma
questão básica teve lugar para mim através da experiência do
oposto da reação da massa à propaganda de “liberdade”, ape­
sar de que estava preparado para isso pelos longos anos de

177
prática em lidar com o problema da liberdade e testemunhar o
homem pego na máquina política. Estava bem relacionado com
os mecanismos das emoções irracionais inconscientes desco­
berto por Freud. Minha própria experiência em questões correta­
mente integrando psicologia de massa dentro dos processos so­
ciais e permitiram dar mais atenção a uma decisiva questão bási­
ca: se os acontecimentos na Alemanha durante aqueles anos
eram possíveis, então, dentro da vida emocional das massas deve
ter havido importantes processos no trabalho os quais não foram
reconhecidos ou mal interpretados pelos participantes.
O que está ocorrendo no meio das massas? Como é
experienciado o processo social ao qual estão sujeitos e ao qual
eles mesmos determinam pelas suas reações? Perguntas como
estas repentinamente se tornaram tão crucial que eu fiquei cada
vez mais espantado com a inacessibilidade destas junto aos líde­
res das massas. “Minha luta" de Hitler mostrou que o movimento
Nacional Socialista tinha chegado perto do entendimento (mes­
mo inconsciente) das reações psíquicas do povo em 1930. Os
marxistas presumiram um completo desenvolvimento da consci­
ência de classe das massas trabalhadoras, a qual necessitaria
apenas de ser organizada.
No dia a dia da vida política vi o povo sob outro ângulo. Seu
sentimento por justiça pelas contradições capitalistas e pela vida
em geral era infinitamente mais diversa e rica e acima de tudo
diferente, que aquele abraçados pelos conceitos marxistas.
Daí dois tipos de consciência de classe existiam, ou seja,
“consciência” da exigência social e “consciência” do que é reque­
rido para mudança. Um apoiado pelos líderes incluindo conheci­
mento intelectual de largas perspectivas históricas processos eco­
nômicos; o outro, aquele povo, não entendeu nada estas ques­
tões e não quis entender mas estava cheio de detalhes da vida
diária, principalmente preocupações sexuais e culturais, onde a
real fome não sufocou o tudo mais. Na Alemanha estimou-se em
2 milhões de pessoas que estavam realmente famintos.
Aproximadamente 60 milhões sofriam com a pressão geral
da desordem social. Um jovem grupo líder do Neukõllin me im­

178
pressionou de modo efetivo no seguinte: logo que o adolescen­
te mediano tenha de alguma maneira satisfeito sua fome, ime­
diatamente começava a pensar na sua namorada se tivesse
uma e a quantidade de dinheiro que necessitavam a fim de sair
e distraírem-se. Se ele não tivesse namorada, ele queria inde­
pendência pessoal e os meios de encontrar uma moça e fazê-
la feliz. Cinema, teatro, livros, roupas decentes e quarto para sí
mesmo são desejos elementares de cada ser humano da ado­
lescência à meia-idade. O fator propulsor aqui é a aspiração à
felicidade sexual, tanto no sentido restrito sensual quanto no
sentido cultural lato.
Futuros historiadores vasculharão a literatura do partido socia­
lista dessas décadas em vão atrás de referências relativas a
este fato obviamente superior conquanto que não fosse cor­
rompido ou desmoralizado o povo desejava um sistema social
no qual as necessidades de todos determinaria a produção eco­
nômica. Contrário a isso um alto representante do partido me
disso que tais pontos de vista eram reacionários e que o de­
senvolvimento dos meios de produção era a única coisa que
contava.
O indivíduo mediano estava sofrendo com a contradição:
ele queria o mundo mudado mas a mudança era para ser im­
posta a ele de repente vinda de cima, exatamente com a explo­
ração e supressão tinham sido impostas sobre ele. Com a ex­
ceção de operários muito informados, as massas não podiam
conceber uma mudança de suas vidas diferente daquela a qual
eles tinham experimentado antes, como por exemplo, pela for-
ça.
Nenhum líder entretinha-se com a idéia de dizer a eles a
verdade, isto é, que eles tinham que pensar e agir de modo
responsável para sua liberdade. Ao contrário, os comunistas,
por exemplo fizeram tudo para tornar as massas subservien­
tes. Os acontecimentos que ocorreram mais tarde na União
Soviética e na Espanha provaram a verdade desta declaração.
Ele devolveu a nebulosa inconcebível liberdade para determi­
nar a vida social aos velhos, ilusão facilmente concebível de

179
liberdade nacional. Ele não pediu nenhuma responsabilidade, pelo
contrário, prometeu que tudo viria de cima e que ele alteraria o
sistema sozinho.
E a sublevação teve lugar, induzida quase sozinha por um
ignorante como Hitler. Quanto maior a extensão do problema,
tanto maior era o sucesso da exploração das massas.
Não foi o programa econômico de Hitler que lhe deu a con­
quista das massas. Foi sua propaganda diária e reforço a auto-
estima alemã através da intensa propaganda racista, a procla­
mação da guerra contra o mundo judeu e a vigorosa defesa da
família autoritária que trouxeram vitória a ele. A primeira vista
isto era incompreensível e mesmo hoje os marxistas não enten­
dem isso. As massas operárias não são anti-semitas e contudo o
ódio as judeus era efetivo.
As massas nunca são orgulhosas de sua raça, ao contrá­
rio, são decididamente cosmopolitanos e inclinados a um
humanismo internacional. Contudo a propaganda racista era efe­
tiva. A propaganda da família vigorosa e do clã não era essenci­
al, porque o povo já era pela família autoritária, contudo isto tam­
bém era extremamente efetivo. Cada um dos tais pilares da pro­
paganda de massa do nacional socialismo tiveram seus próprios
e especiais mecanismos. Começando em 1930 eu segui cada
passo importante que o racional socialismo teve e por volta de
1932 pude pretender um entendimento completo de seus méto­
dos.
No meu livro “Psicologia de massas do Fascismo” escrito
entre 1931 e 1933 coloquei fatos importantes detalhados aos quais
deverei me referir de forma breve aqui.
O conceito de raça influenciou a vida inconsciente emocional dos
seres humanos através de sua similitude com a palavra “rassig”
isto é: poderoso, forte, único. Este conceito foi brilhantemente
compensado pela sexualidade deflorável e a auto-imagem em
geral originária da crise mundial.
Considerando que todos sem exceção forem mais ou me­
nos conscientemente de um medo hipocondríaco da sífilis impli­
ca envenenamento do sangue a promessa de proteger a “pureza

180
do sangue” tocou num sentimento profundo. A descrição de
Hitler no seu livro “Minha luta” é bastante explícita. O conceito
de “intermensali” está inseparavelmente conectado com o
“underworld”(submundo) e isto, por sua vez, com o “proletaria­
do”, “camponês andrajoso” e o “criminoso”. A inconsciência en­
tretanto, deve igualar crime com crime sexual.
Ninguém entretanto, deseja ser um “untermensali(sub-ho-
mem) proletário, criminoso, criminoso sexual ou negro, nesse
sentido da palavra ou mesmo um “francês” em relação a esse
tipo de assunto.
O medo da “dourça francesa” está profundamente enrai­
zado em fantasias vulgares mesmo entre proletários. Por essa
razão o trabalhador mediano não gosta de ser chamado “prolet”.
Apesar de todas as bem pretendidas interpretações e explica­
ções, isto simplesmente conota “depravado”, isto é, “sifilítico”.
Se considerarmos além disso a crescente auto-estima a qual,
através da ilusão, assiste a superação da miséria real, o círculo
das reações emocionais necessárias está fechado. Hitler reve­
lou o impacto social da fantasia.
O problema racial conecta logicamente com o problema
judeu. Os judeus eram vistos em geral e especialmente sob
pressão de uma propaganda inetorável de um pervertido como
Streicleer como “açougueiros Kosher” isto é, pessoas com fa­
cas grandes que mataram crianças cristãs e alemãs em
Passover. Devido a prática da circuncisão, o medo dos judeus
intensificou-se através da castração dos idosos, medo que é
universalmente presente. Apenas a pessoa desejosa de roubar
todo o seu prazer (especialmente sexual) poderia se engajar
em tais práticas. Assim os judeus tendo castrado os homens
procederam ao roubo dos arianos de suas mulheres.
Os judeus estão sempre afastando alguma coisa. Desde
então, sofreram o infortúnio de ter de praticar comércio, devido
a perseguições anteriores, são ladrões de dinheiro. Alcançan­
do apenas um passo à frente, tornaram-se o protótipo do capi­
talista. Assim, através do uso altamente habilidoso do medo
sexual do “açougueiro Kosher” todo o ódio emocional da mas­

181
sa pelos usuários, em outras palavras “capitalistas” pode ser trans­
ferido para os judeus. Assim os judeus tornaram-se o objeto do
ódio socialista dos capitalistas e da inveterada ansiedade sexual.
Marxistas bem como judeus marxistas, freqüentemente se opõem
a essa seqüência lógica de conclusões inconscientes, mas em
vão. Isto explica todo o fenômeno irracional o qual deixou sua
arca na Alemanha desde o começo do domínio fascista. O fato
de que isto desvia todas as energias do domínio real dos proble­
mas difíceis da vida apenas completa o quadro e o efeito da pra­
ga emocional na Alemanha. A degeneração milenar da estrutura
do caráter humano serve como sua explicação.
O problema da família é de alguma forma diferente. Aqui a
formação da massa burguesa e marxista não apenas perderam
as características completamente como também realmente pavi­
mentaram a estrada para o fascismo. Num contexto diferente no
livro “A revolução sexual” já descrevi o problema da família bem
detalhado e me limitarei aqui a estabelecer o relacionamento do
problema da família para o fascismo.
O problema de raça e de judeus não foi nada mais que
uma reação humana tempestuosa, incompreensível à uma pes­
soa mediana. Isto foi determinado pelo irracionalismo e ansieda­
de sexual e resultou de uma perversidade sexual na estrutura
humana. A economia sexual primitiva, sua transformação em for­
ma patriarcal, e seu desenvolvimento posterior na forma de um
estado absoluto, primeiramente explicou a base social sobre a
qual manifestações grotescas de irracionalismo podiam prospe­
rar. A família, como já sabemos, constitui o elemento central da
economia sexual social. Mesmo o período pré-fascista não dei­
xou dúvidas quanto a sua função, fontes sociais e conseqüênci­
as estruturais. A ideologia estrita do clã que foi introduzida pela
política fascista da família não era em si mesma uma inovação,
mas apenas a culminação de fatores antigos intensificados no
mais alto grau.
O estado patriarcal reproduz a família patriarcal. Por isso o
estado absoluto ou a total ditadura devem afirmar a ideologia da
família e defendê-la rigorosamente. É a mais importante correia

182
de transmissão entre as demandas da ditadura e as fontes da
formação da estrutura. É verdade que sempre que encontra­
mos uma ditadura apesar do terror que se usa, é apoiada por
poderosas forças emocionais do povo. A economia sexual bur­
guesa e antes disso a economia sexual patriarcal, transforma­
ram impulsos sexuais normais em força secundária distorcida
e intolerável socialmente.
Sexualidade tornou-se uma aparição horripilante conteú­
do real do caos social. A revolução social considera ter ganho
de novo a liberdade sexual dentro da moldura de uma nova
ordem geral da existência mas nem os defensores da revolu­
ção nem o povo propriamente são capazes de imaginar a ver­
dadeira natureza dessa liberdade.
Eles temem isto, irracionalmente e intensamente. Como
resultado, a preservação fascista da família e estado do “caos
cultural bolchevique" golpeia a corda correspondente das mas­
sas e mata-se dois coelhos com uma cajadada: primeiro, o pen­
samento revolucionário é destruído, e segundo a própria tirania
do fascismo recebe um apoio maciço. “Poluição e contamina­
ção da vida emocional” são realidades não fantasias. Nenhu­
ma organização se opôs a eles antes dessa época. As portas
estavam largamente abertas para excessiva pornografia, per­
versão e prostituição sexual. Ninguém tentou esmagar a praga
sexual, e ninguém concebeu a precisa distinção entre a sexua­
lidade natural e patológica como uma solução positiva ara o
problema.
A ciência evitou a questão e os partidos não tinham idéia
do que estava acontecendo Fora de um círculo social limitado o
programa de controle de natalidade dos comunistas e os gru­
pos de reforma sexual foram considerados dentro do contexto
da praga geral e podia servir apenas como uma brilhante des­
culpa para a “purificação". Assim o movimento da praga sexual
bolchevista juntou-se ao entusiasmo sexualmente enfatizado
por Hitler, uniformes, marchas, libertação das moças e mulhe­
res alemãs do judeu sensual porco.
Nos círculos jovens do nacional socialismo os pontos de

183
vista emergiram para o que não teria objeção nem mesmo do
mais estrito ponto de vista da economia sexual.
Mesmo assim essas concepções foram amortizadas den­
tro de uma atitude mística velada de saúde sexual, estimularam
o interesse dos líderes governamentais e ocasionalmente leva­
ram à conflitos e a proibição das saídas de grupos mistos de
jovens. O feitiço virava contra o feiticeiro quando os nacional so­
cialistas que tinham começado a eliminar a praga sexual inventa­
ram as expressão “abrace-me meu bem” para a organização na­
cional socialista de moças. Os social democratas, os comunis­
tas, os democrata-cristãos juntaram-se acusando o nacional so­
cialista de imoralidade.
Em 1935 os comunistas franceses conclamaram que podi­
am salvar a família muito mais efetivamente do que os nacional
socialistas. Em resumo, existiu aí, um entrelaçamento caótico de
acontecimentos e ideologias. O fascismo construiu para si mes­
mo uma base firme através da ideologia rígida da família en­
quanto que incitava simultaneamente os jovens nas suas exigên­
cias sobre a geração mais velha, retirando assim as jovens mas­
sas de casa e coletivizando suas vidas, consequentemente sua
sexualidade Tudo isto foi feito sem o menor conhecimento dos
processos que começam o movimento e sem nenhum conceito
das medidas de precaução positivas necessárias ao controle do
desenvolvimento de tal tumultuoso movimento. Eu afirmo que as
mesmas forças que elevaram o fascismo à seu poder sobre o
povo tiveram que levá-lo à queda. Fascismo é antisexual, mas
media nos anseios sexuais mascarados da população. Sua ideo­
logia autoritária de família e seu encorajamento de expressões
pronunciados de afirmação de vida são incompatíveis.
Nisto, o fascismo involuntariamente deu contribuições va­
lorosas aos desenvolvimentos futuros, contribuições que seriam
sentidas muito tempo depois de sua própria queda. Destruiu ilu­
sões democráticas o estímulo vital, desejo vegetativo pela vida,
emancipação da juventude, e subverteu os exploradores da mi­
séria sexual. Entretanto faltava os meios de colher mesmo uma
única fruta das sementes que ele semeou, porque isto estava

184
minado pela sua própria estrutura política social e psíquica. Seria
impossível intensificar a organização da vida humana em volta
da família fora do presente nível fascista, porque as contradi­
ções vitais contidas dentro da família já alcançaram o seu pico.
A suspensão de manifestações espontâneas da vida al­
cançou um ponto onde podia apenas voltar contra si e precisa­
mente com a ajuda do mesmo desejo cósmico, anti-capitalista,
sexual, o qual levou o fascismo ao poder e o qual o fascismo
não pode nunca entender ou satisfazer.
Muitas pessoas se agarraram a essas grotescas contra­
dições em 1938. Os oponentes de Hitler entretanto os despre­
zaram dirigindo propaganda às massas. Eles não somente con­
sideraram aquelas contradições irrelevantes, mas defendiam
os mesmos princípios numa forma menos estimulante. Visto de
forma não sentimental esses indivíduos não eram os oponen­
tes de Hitler mas os precursores que pavimentaram o seu ca­
minho.
Teorias sobre raça e genética já eram pensamentos rei­
nantes antes de Hitler mesmo entre comunistas, inclusive os
da União Soviética. Os geneticistas alemães ficaram mais tar­
de enraivecidos com as práticas raciais de Hitler porque essas
arruinaram seus próprios conceitos de raça e provocaram ódio
justificado pela expressão hereditariedade. Tudo isso ajustou-
se logicamente no corrente curso dos acontecimentos.
Entre 1930 e 1933 nem todos os aspectos desses pro­
cessos eram ainda visíveis. Eu não tive nenhuma previsão de
que meus pontos de vista político-psicológicos seriam confir­
mados como foram nos anos subseqüentes. Contudo, o traba­
lho político-sexual entre várias classes da população, permitiu
um discernimento ocasional nos relacionamentos o qual ape­
sar de toda a miséria ofereceu um vislumbre de liberdade. Até
a época de Hitler o socialismo tratava de um problema de apro­
ximadamente trezentos anos chamado de fase capitalista do
patriarcalismo na sua tão somente função econômica. Hitler
forçou uma consideração geral do problema - de milhares de
anos - da supressão da vida humana através do patriarcado.

185
Isso não pode mais ser evitado e Hitler representou o grotesco
clímax desse desenvolvimento. Ele forçou o relacionamento en­
tre a psique e os processos sócio-políticos a serem considera­
dos. Nuca mais poderiam os pensamentos e as emoções das
massas serem negligenciadas e desprezadas como tinham sido
até então. Até a época de Hitler o povo em geral tinha sempre
simplesmente tolerado a tirania. Durante seu tempo eles avança­
ram de forma irracional num apoio ativo à tirania contra seus
próprios interesses vitais. Pela primeira vez na história o até en­
tão desconhecido significado do irracionalismo no processo soci­
al foi revelado.
A fim de obter apoio da danificada estrutura humana o na­
cional socialismo tinha que imbuir as massas com tanta vitalida­
de e tirar tantas energias que o conteúdo reacionário do movi­
mento chocou-se com seu próprio espírito revolucionário num
conflito que desafiou soluções, todos os desenvolvimentos pos­
teriores dependeriam de que forças que iriam emergir para com­
preender esse processo gigantesco, dirigi-lo e clareá-lo para per-
miti-lo seguir a trilha que urgia perseguir, desconhecida comple­
tamente. Estava claro em 1932 que qualquer movimento para
derrotar Hitler poderia brotar apenas das fileiras do próprio naci­
onal socialismo através de solução fatual daquelas questões ini­
ciais que Hitler tinha desavisadamente levantado. Tal percepção
defendeu as pessoas da ilusão de que Chamberlain e Daladier
pudessem salvar a Alemanha.
Observações da propaganda fascista de massa, assim con­
firmava as afirmações da jovem disciplina da psicologia política a
cada passo. Breve sumário:
1. Processos sociais objetivos e a experiência subjetiva desses
processos devem ser cuidadosamente diferenciados. Cada um
segue suas próprias leis e têm fontes separadas de energia.
2. Os líderes são sempre uma expressão do desejo popular, isto
é, o reflexo da média da estrutura humana. Seus pensamentos e
ações são auto-contraditórios e correspondem exatamente as con­
tradições da média do ser humano cuja estrutura é simultanea­
mente progressiva e reacionária. Esta estrutura é preparada den­

186
tro da família e continua seu efeito na estrutura do estado. Ade­
mais o problema da família, isto é, das condições sexuais, é
mais antigo e mais significativo do que o problema da tecnologia.
Isto ainda é verdade apesar do fato de que a mudança na orga­
nização da família é completamente independente da mudan­
ça do domínio tecnológico do mundo pelo homem.
3. Economia e ideologia não agüentam uma relação simples e
direta uma em relação a outra. Em princípio a primeira pode
determinar a última ou vice-versa. Além disso podem cair em
contradição de uma para a outra em seu desenvolvimento.
4. Considerando tecnicamente que a força propulsora da histó­
ria é a energia vegetativa a qual é expressada como sensação
sexual e como um desejo de felicidade. Essas expressões são
sujeitas as limitações das condições políticas, social e econô­
mica. 5. Se as expressões bio-energéticas da comunidade ex­
ceder os limites estabelecidos por essas condições, então a
regressão, como vista na Rússia é inevitável. No fascismo a
energia vital das massas regrediram à objeta miséria espiritual
e material, porque não estava atenta às suas próprias inten­
ções e objetivos. Assim uma afirmação antiga é confirmada:
uma sociedade somente pode cumprir aquelas tarefas que ela
estabeleceu para si mesma e aquelas que ela seja capaz de
completar dentro da estrutura dos recursos disponíveis de sua
própria organização social.
6. Apesar da falta de atenção em relação aos processos pro­
gressivos dentro da sociedade alemã , a reação tanto conser­
vadora quanto política estavam brilhantemente atentas em como
aproveitar a energia das massas e dirigi-la para seus próprios
interesses. Isto e apenas isto constitui “Fascismo". Portanto o
“Fascismo” só pode ser ultrapassado através da direção cons­
ciente dos mesmos processos que ele colocou em movimento.

TODOS OS POLÍTICOS UNIDOS


CONTRA A PSIQUIATRIA SOCIAL

Posso apenas esperar que tenha tido sucesso sua de­

187
monstração da importância da vida sexual da s massas. É uma
saída humana geral e consequentemente social.
A sexualização da vida política do nosso tempo deve ser
substituída pela politização da vida sexual baseada sobre o do­
mínio científico da deteriorização da vida privada. Comunistas,
social democratas, nacional socialistas, psicanalistas e a polícia,
todos, por sua vez clamavam serem capazes de trazer uma nova
ordem social.
Observamos as experiências encontradas em nosso traba­
lho quando não mais foi aplicado meramente em círculos acadê­
micos e privados mas usado com propósito e significado, entre o
povo que em última análise determina o posterior desenvolvi­
mento da sociedade. Estas experiências fizeram-me pensar num
palco com o fascismo segurando sua marcha da vitória. Este palco
continha não apenas as magníficas armadilhas do poder ideoló­
gicos do fascismo mas também a confusão e o lixo o qual o brilho
do palco obscurecia. E no meio do lixo havia o povo simples não
complicado com desejos naturais simples.
Por exemplo, havia uma moça de quatorze anos que tinha
vindo da juventude hitlerista para se unir ao grupo de jovens sob
supervisão. Ela estava grávida e ouviu dizer que “os vermelhos”
tinham doutres razoáveis que entediam desses assuntos. Ela veio
procurar ajuda e eu lhe dei. Naquela noite eu tinha explicado aos
jovens as condições sociais que ameaçavam aquela moça imergir
na miséria.
Tivesse ela por acaso ido procurar o tipo comum de médi­
co, ela teria sido enviada a uma instituição que a teria destruído.
Nunca vou me esquecer da expressão ardente de seus olhos.
Seus pensamentos e emoções eram aqueles de milhões de ou­
tras como ela.
Depois do encontro, uma menina de dez anos se aproxi­
mou de mim. Ela ficou lá de pé durante algum tempo, pensando,
depois com lágrimas nos olhos ela acariciou meu braço em silên­
cio. Nenhuma palavra foi dita mas ambos sabíamos o que querí­
amos. Entendemos quão perto e quão desesperadamente e pre­
cariamente perto nossos sentimentos e trabalho estavam do imun­

188
do e abjeto reino das experiências humanas contemporâneas.
Mas também ambos entendemos que não se pode remover o
esterco se o contato com ele for medrosamente evitado.
Durante esses anos, entre os jovens e adultos de vários
partidos e persuasões políticas ficou claro que meu trabalho
nas “regiões mais baixas” da sociedade era de prover gradual­
mente uma resposta à ideologia nacional socialista numa res­
posta à “humanidade, cultura e natureza”.
Zelosamente evitei ceder ao pensamento filosófico sobre
o assunto. Isto requereu dez vezes a graça hitleriana dos deve-
res para que eu pudesse colocar aquilo para fora.
O que aconteceu comigo e com o meu trabalho poderia
ter nascido apenas pela colocação diante de mim do quadro
mental daquele povo sempre que numa situação surgida pare­
cesse indicar derrota. Não sou matreiro por natureza, muito pelo
contrário. Mas o quadro daquele povo ensinou-me a sagacida­
de. Poderia ter me retirado da política como muitos fizeram,
mas os crimes cometidos em toda parte contra crianças e ado­
lescentes me refrearam e tornaram impossível qualquer outro
caminho.
Em 1937 enquanto estava no exílio num país estrangei­
ro, vieram me visitar alguns jovens membros do Hitlerjugend
que tinham vindo buscar algumas cópias expurgadas do meu
livro da juventude para seus camaradas.
Foi necessário apagar apenas aquelas partes do livro as
quais os membros do partido burocrático tinham me influencia­
do inserir. Logicamente após um período de cinco anos tudo
que a linha desumanizada do partido tinha considerado correta
tinha sido falsificada e tornou-se inútil. Tudo que era capaz de
oferecer aos adolescentes numa resposta a sua questões exis­
tenciais permaneceu válida.
É audacioso reivindicar respostas ao problema todo da
ideologia nacional socialista. Assim terei que descrever como
os eventos entre 1932 e 1938 confirmaram minhas opiniões e
como as objeções de meus oponentes na época foram sem
validade e as opiniões às quais eles se opuseram tiveram su­

189
cesso, independente de mim. É necessário fazer isto, porque esta
confirmação foi possível apenas sob a pressão do fascismo o
qual estava deponderando o mundo e ao qual aqueles opositores
não entenderam, não quiseram entender e carregavam com eles
como uma atitude básica. O fascismo colocou três grandes ques­
tões diante do mundo às quais dei as seguintes respostas:

1. Como eliminar a miséria sexual?


A resposta foi em princípio através da vida sexual material e dife­
renciação entre esta e as manifestações de distorções sexuais
do presente que todos opunham.
2. Com a falsa, emprestada e iludida auto-estima do homem é
substituída pela autoconfiança natural originada pela satisfação
da vida?
A resposta foi fornecida pela experiência clínica e psicológica
das massas. Seria necessário criar estruturas do caráter
desencouraçadas, irrestritas, produtivas e sexualmente afirmati­
vas.
3. Como um indivíduo pode evitar a ditadura das massas?
Estabelecendo a capacidade do homem em determinar e gover­
nar sua própria vida, isto é, através de uma democracia social
genuína. Socialistas, social democratas e comunistas por outro
lado ofereceram estas respostas.

Em 5 de dezembro de 1932, dois meses antes da grande


quebra bancária o jornal “Red sport” patrocinado pela organiza­
ção Fichte publicou uma nota proibindo severamente distribuição
e venda posterior das minhas publicações.
Entre eles estavam: A invasão da moral sexual compulsó­
ria, Luta sexual dos jovens Quando seu filho faz perguntas e O
triângulo de giz.
Pare a distribuição!
Todas as publicações do Reich distribuídas pela divisão de
literatura do KG para a “Verlag für Sexualpolitik” devem ser apre­
endidas e posteriores distribuições devem parar.
Isto se deveu à maneira contraditória como o Reich em

190
suas publicações tratou das questões da educação das crian­
ças e jovens, em relação à educação revolucionária dos mes­
mos (comentários detalhados seguem na próxima edição). (Nun­
ca houve seguimento).
Logo depois minha organização político-sexual esponta­
neamente convocaram uma reunião de funcionários de Berlim
Maior. Esta e todas as ações posteriores que eram empreendi­
das sob circunstâncias difíceis no interesse do meu trabalho
eram sempre espontâneas.
Fiz disso um princípio, nunca conduzir ou começar cam­
panhas. Se a questão fosse válida, primeiro tinha que provar
que era independentemente do suporte verbal e ações
concernentes.
Este foi o único meio deles terem experiências amargas
dirigindo seu próprio curso apesar de seu pobre ou inexistente
treino. Uma carta do grupo de Charlottenburg à liderança do
partido proclamava: Os diretores da divisão cultural sabotaram,
por meio de intrigas, a distribuição da literatura necessária para
nosso movimento e ainda estão tentando suprimir esta literatu­
ra. Contrário as resoluções da facção da organização Berlim
Maior. A organização propôs uma mudança para remover os
líderes da divisão cultural alemã do partido comunista.
Em dezembro de 1932, logo depois do banimento dos
meus escritos, o representante Grube, diretor da organização
de esportes Berlim Brandeburgo Fichte convocou a conferên­
cia de funcionários. Ele justificou e defendeu o banimento com
o pior tipo de distorções e ameaças dizendo que era simples­
mente contra revolucionário expor à juventude tal lixo e que
isso enfraqueceria seu espírito de luta e era irrelevante a
moralidade da classe proletária. Declarou posteriormente que
adolescentes tinham feito propostas aos líderes da organiza­
ção de esportes Fichte exigindo que a organização suprisse
quartos limpos para que eles pudessem ter relações sexuais
sem perturbações.
Supostamente ele tinha reclamado que tais deficiências
eram danosas a organização e tinha se referido a Reich.

191
Reich, continuou ele, tinha escrito aos diretores do Fichte
quando ouviu falar do “escândalo” e alegou que os jovens esta­
vam absolutamente corretos mas tinha simplesmente escrito para
o endereço errado: a sociedade era responsável e não uma or­
ganização de esportes. Sem precedentes!
Depois disso um amigo de trabalho visitou-me e me disse
que 80% de todos os funcionários, ao contrário, obedientes, se­
guidores do partido, se opuseram ao diretor da organização e
houve uma grande comoção. No dia seguinte alguns operários
jovens que vieram me visitar me informaram que minhas publica­
ções continuariam a ser distribuídas apesar do banimento. E as­
sim continuaram.
Uma vez houve uma grande excitação na facção comunis­
ta do parlamento. Em Dresden uma resolução das organizações
socialista jovens, datada de 16 de outubro de 1932 estava circu­
lando entre adolescentes de cada filiação política. Esta resolu­
ção era na opinião deles um escândalo gigante que colocava em
risco a imagem do partido e violava seus maiores objetivos polí­
ticos. Era vergonha: os opositores poderiam capitalizar em cima
disto politicamente a qualquer momento.
Sentiram que o slogan “Um quarto próprio para cada ado­
lescente” era inacreditável e que estavam perdendo toda a opor­
tunidade de conquistar os democrata cristãos. ( Em 1936 alia­
ram-se aos democrata-cristãos) Os instigados da resolução era
para ser expulso imediatamente do partido. Quando descobri­
ram que a resolução tinha sido retirada seguindo a conferência
da juventude para a qual fui convidado houve um grande emba­
raço. Não podiam me expulsar na época. As organizações da
juventude comunista, social democrata e burguesa já tinha distri­
buído milhares de cópias dos meus escritos.
Teria havido uma total rebelião. Pouco antes disso a orga­
nização da juventude comunista de Berlim tivera êxito em reali­
zar um encontro junto com a juventude socialista, pela primeira
vez desde o princípio da unificação do movimento.
O objetivo disso era discutir o estado pessoal da juventude
e subseqüentemente o estado social. Falei neste encontro e fui

192
recebido com entusiasmo. Finalmente ultrapassaram suas di­
ferenças e acharam um terreno comum para trabalhar. Além
disto a organização tinha originariamente me requisitado para
escrever meu livro ( A luta sexual da juventude) e tinha oficial­
mente aceito isto. Não era um quadro bonito. Um opositor ex­
tremado do meu trabalho havia se reunido com jovens na sua
participação ativa na discussão, e com o fato de que mesmo
questões altamente políticas foram trazidas. O trabalho falava
por si. O antigo opositor transformou-se num amigo. O texto da
resolução de Dresden da revolucionária combinada e outros
grupos jovens é a seguinte:

Resolução

Passada na conferência dos representantes das organi­


zações da juventude proletária, revolucionária de U.B. Dresden,
16 de outubro de 1932.
Os representantes unidos das organizações da juventu­
de proletária (KJV, IAH, SJV) resolveram juntar todos os esfor­
ços no campo da política sexual, num esforço geral para derro­
tar o capitalismo com o propósito de alargar uma mobilização
possível da juventude operária.
Chegaram a um reconhecimento claro e são unanimes
em dizer que a negligência quanto aos problemas sexuais da
juventude até então têm tido um efeito extremamente adverso
sobre o trabalho revolucionário das organizações da juventu­
de. A dissolução dos grupos, a grande flutuação dos membros,
passividade política, etc., estão intimamente ligadas a contur­
bada e obscura vida sexual. Esta confusão e obscuridade na
questão da atividade sexual do adolescente é em si mesmo,
um resultado do tipo de sexualidade que existe no sistema ca­
pitalista. Isto serve ao propósito da Igreja e das classes domi­
nantes através da subjugação intelectual de toda a juventude.
O trabalho sexual-político como elemento essencial de todos
os esforços revolucionários, deve primeiro se concentrar nas
seguintes questões:

193
1. Tornar clara questão do próprio partido e dentro de suas orga­
nizações; correlação e não separação das questões pessoais e
políticas, isto é, politização completa de toda a atividade sexual.
2. A abolição da trégua unilateral entre burguesia e proletariado
ainda predominante neste domínio (apenas a burguesia luta pe­
los seus próprios interesses em todas as áreas da sexualidade.
Isto impõe declaração de guerra à burguesia por meio de estra­
tégia proletária nesta área. (Por exemplo: ação contra as leis que
governam a moralidade como a proposta por Bracht, etc.).
3. A mobilização de juventude de todas convicções políticas na
base de um a atitude clara e afirmativa relativa a sexualidade
juvenil, enquanto se prove a impossibilidade de se criar os pré-
requisitos para a sexualidade saudável sob o capitalismo. A pe­
netração das organizações cristã, nacional socialista e social de­
mocrata através de completa exposição das contradições entre
os membros dessas organizações e de seus líderes.
4. A pré-condição para o acima mencionado é o esclarecimento
ideológico das dificuldades nas organizações da juventude (pro­
porção de meninos para meninas). Atrair adolescentes indiferen­
tes para salão de dança com a ajuda de meios sexuais, etc.

A conferência está a par das enormes dificuldades que


devem ser superadas neste campo, mas está igualmente
convencida de que a questão da sexualidade juvenil é uma das
mais significantes questões da luta de classe concernente a
mobilização da juventude para derrotar o capitalismo.
A juventude está não apenas submetida à privações mas é
também oprimida através da destituição do seu direito a vida se­
xual, por meio da legislação, perseguição e educação. Burgue­
ses político-sexuais revolucionários de todas colorações, pelos
quais a juventude operária está escravizada ao capitalismo (por
exemplo o partido centro com seus 1 milhão e meio de jovens)
devem ser combatidos através de uma clara afirmativa sexual e
política sexual revolucionária para reforçar poderosamente a luta
proletária contra a burguesia. Sua derrota e a instituição de um
conselho governamental operário resolverá subseqüentemente

194
as questões mais inflamadas da sexualidade do adolescente
dentro do quadro geral da revolução social.

Vida longa à Revolução Proletária!

Amigos moderados sempre me aconselharam agir com


tato e menos agressividade. Na região de Dresden, as opera­
ções eram dirigidas por um amigo de 21 anos que mal me co­
nheceu. Alguns excertos dos relatos de suas cartas estão cita­
dos abaixo:
Gostaria de relatar algumas das minhas experiências e
apontar as dificuldades que poderiam surgir em se tratando
dessas questões em grupos de jovens... Em todos os lugares
dos grupos de jovens, a secretaria está me causando proble­
mas sobre a discussão daquelas questões e pretende me proi­
bir de falar. Eu tratei das questões claramente e concretamente
e fui entendido mesmo pelos meninos com exceção de uns
poucos, especialmente aqueles que estão na posição de co­
mando da organização os quais deveriam ter sido capazes de
pegar o que estava acontecendo na organização; era especial­
mente estes meus opositores.
Apenas posso lhe dizer que foi uma alegria para mim ver
a juventude defendendo seus direitos. Tive a impressão que
aqueles jovens estavam lutando contra a supressão de seus
próprios corpos. 38 dos 40 presentes concordaram comigo...
apenas aqueles dois, o diretor da juventude política e um outro
diretor, divergiram... Eu quis me retirar as os jovens recusaram
ter qualquer outro para discutir essas questões e insistiram na
minha volta. Agora tenho que enfrentar a questão: ou luto a
minha maneira pelas saídas válidas e desacredito dos líderes
políticos ou me submeto. É uma decisão muito difícil.
A moral é: é impossível para o ser humano de hoje, mes­
mo adolescentes portar uma política sem ser sexualmente inti­
midado. Organizações contemporâneas pedem “dignidade" à
seus líderes. Dignidade rígida e saúde sexual são incompatí­
veis. Além do mais as questões existenciais do homem não

195
podem ser resolvidas com esses líderes.
Burocracia e vida são inimigas mortais. Encontraremos o
significado profundo desta questão repetidamente, pois isto cons­
titui o problema essencial em todos os impulsos sérios para ino­
vação. Isto é sustentado pela necessidade de autoridade das
massas. Eles desejam uma vida sexual simples para si mesmos
enquanto exigem que seus líderes sejam autoritários, isto é, bu­
rocráticos, o que implica “castos”. Os líderes que são forçados a
castidade, por sua vez, se vingam sobre as massas pela mesma
exigência de castidade, moralidade e boa conduta delas ao invés
de achar uma resposta positiva para a questão sexual. Isto está
errado! Um líder sincero dirá ao povo: Eu sou um ser humano e
como tal devo também amar e abraçar mulheres ( ou homens
respectivamente) como qualquer pessoa.
Qualquer que seja incapaz de entender isto é igualmente
incapaz de entender revolução em nossas vidas. Como posso eu
entender a vida se eu estou imobilizado ou forçado a satisfazer
meu desejo de amor clandestinamente? Este é o modo como
líderes sinceros dos grupos sociais falam. Tudo o mais é
Hitlerismo, isto é, divina impotência!
Desse modo Hitlerismo foi engastado na liderança do par­
tido a qual esforçou-se para assegurar “um novo, melhor e mais
livre futuro para a Alemanha”.
Em 29 de janeiro de 1933, quatro semanas antes da catás­
trofe iminente, uma conferência da Associação Nacional Alemã
teve lugar em Berlim. Isso provou que Hitler não estava certo em
acusar os comunistas de “bolchevismo cultural”.
Um clínico, Dr. Friendländer, que tinha calorosamente re­
comendado meu livro sobre a juventude quando todos estavam
a favor, conduziu uma discussão insípida sobre o assunto. “A
situação política e nossos objetivos". Os excertos que seguem
foram tirados das minhas estenografadas:
O prazer sexual não é, como Reich conclama, a força mo­
triz na história... A teoria de Reich é uma concessão a burguesia
mesquinha (que estava no momento seguindo Hitler com ban­
deiras desfraldadas e corações radiantes).

196
O líder da organização cultura comunista da Alemanha:
Porque então apenas forme e sexualidade são consideradas
forças que mudam a história?
Poder-se-ia também dizer que a necessidade de respirar
é um fator histórico decisivo. Toda essa insensatez apenas dis­
trai as massas da luta contra as bases econômicas. (O bom
amigo que foi impedido de tornar-se o futuro protetor da cultu­
ra, não poderia ter tido nenhuma idéias do que estava dizendo
quando mencionou as massas necessitam respirar. Eu mesmo
fui apenas capaz de confirmar esta frase clinicamente três anos
mais tarde).
A argumentação de Reich de que a repressão sexual in­
clui ambas as classes é igualmente ultrajante. Isto nega a exis­
tência do antagonismo de classe. Pior de tudo entretanto, é
sua alegação na “Luta sexual da juventude” de que há antago­
nismo entre as gerações. Isto implica que a luta de classe e
seja deslocada para a esfera familiar em vez de concentrar to­
das as forças sobre a luta política contra a exploração e a misé­
ria.
E., o diretor da associação político-sexual da Alemanha:
A grande maioria de nossos associados não nos procuram por
problemas sexuais. Nossas estatísticas provam que maior par­
te deles está desempregada (lógico!).
Um funcionário da Essen: Observamos que pode-se atrair
o interesse de maneira diferente de indivíduos inacessíveis com
problemas sexuais não apenas pelo partido democrata cristão
ou partido feminino, mas pelo nacional socialista também. Te­
mos tido sucesso em pegá-los para participar nas demonstra­
ções.
D., d iretora da Organização da Alemanha Ocidental: Es­
tabelecemos que pode abordar de modo diferente camadas ina­
cessíveis da população através de tópicos sexuais. Um primei­
ro encontro (sobre política sexual) numa usina estratégica de
defesa a qual não tínhamos ainda nos infiltrado houve uma par­
ticipação de sessenta mulheres. Agora temos grupos nesta usina
defendendo “exigências especiais de higiene social”. (Mas que

197
importância tinha isto para aquelas organizações!).
Um clínico comunista:
Reich está tentando transformar nossas organizações em
“clubes para transas!”. Isto é um crime contra a juventude e o
futuro está em sua mão! (Protestos da maioria dos que assistiam
a conferência). Nunca em dez anos tive dificuldades com traba­
lho político-sexual. (Como invejei esse alegre lutador de classes).
A situação não podia ser suavizada. Uma eleição entre os
funcionários nacionais sobre a revolução contra meu trabalho,
resultou em trinta e nove votos para o partido representativo e
trinta e dois votos para mim. (Devo acrescentar que a liderança
do partido preparou-se durante semanas, enquanto que eu não
levantei um dedo para solicitar votos para mim devido a minha
contínua convicção que medidas sugestivas são insensatas).
Apenas indivíduos que defendem seus próprios pontos de vistas
framúteis nesta luta. Procedimentos continuaram em 18 e 19 de
fevereiro de 1933. Nesta época “o partido” propriamente falou
através do seu representante cultural, B., no “Relato político e
nossos objetivos).
As publicações de Reich são intencionalmente ou não in­
tencionalmente - no momento devo assumir a última - contra
revolucionárias... O comitê central do partido comunista confir­
mou nossos pontos de vista completamente. Um exame detalha­
do da falsificação Marxista de Reich seguirá. (Isto nunca apare­
ceu). A decisão da facção de Berlim para distribuir os trabalhos
de Reich correu contrariamente à decisão dos diretores nacio­
nais... As publicações de Reich são uma tentativa do descredito
do Marxismo. Aquele que acredita que ele pode adotar política
sexual em nossas organizações (Note bem: organizações políti-
co-sexuais) está enganada. Estamos seguindo polícia não políti-
ca-sexual!
Nisto, a mesma funcionária que havia anteriormente se
factado de suas experiências positivas no trabalho de política
sexual, de repente reverteu sua posição: não se deveria relatar
detalhes aat6omicos e “trivialidades anti estéticas”. Errou-se em
dar prioridade a problemas sexuais no treinamento de funcioná­

198
rios. (Então porque ter grupos de política sexual?) Nossos mem­
bros mostram grandes interesse na estratégia e fato da luta de
classes.

O partido representativo do Marxismo, B.;

Reich alega na “Invasão da moral sexual compulsória”


que a força produtiva, a força do trabalho é energia sexual su­
blimada, é monstruoso. Isto é uma alegação de que o materia-
lismo dialético é falso. Segundo isto o capital de Marx é tam­
bém energia sexual sublimada. (Que vergonha para os “Comu­
nistas”). A médica comunista Marta Ruben-Wolff declarou que
não havia nenhuma perturbação orgástica no proletariado. Tais
fenômenos eram vistos apenas na burguesia. Além disso era
falta da facção do partido comunista tanta influência obtida por
Reich. Ele fez um trabalho sério, enquanto que os médicos da
facção comunista não fizeram nenhum esforço nesta direção.
Ela declarou que mudanças substanciais no trabalho prático
eram necessárias, contudo as bases teóricas de Reich tinham
que ser descartadas. Assim era admissível roubar os corações
do povo mas pérfido garantir sua independência de tais repre­
sentantes da teoria dialético-materialista e liberdade revolucio­
nária.
Um jovem médico que durante anos era entusiasmado
com meu trabalho declarou que minha teoria era para ser des­
cartada, já que as questões tinham que ser feitas dentro de um
referência política. A psicologia na Rússia, disse ele, era mate­
rialista, em oposição a minha.
Seguindo uma observação enfatizada pelo partido repre­
sentativo uma divisão poderia advir se a resolução não fosse
aceita unanimemente, 15 votos ara a liderança do partido , 7
para mim e 3 abstenções. Isto era uma vitória enorme conside­
rando que eu não tinha poder de nenhuma organização por
trás. (Minha única arma era a verdade sobre a vida).
Nesta época, críticas sobre meu livro “Juventude” come­
çaram a ser recebidas na organização. Jornal dos professores,

199
Berlim, fevereiro de 1933.
O livro, de um autor bem conhecido, através de seus nu­
merosos trabalhos psicanalíticos e psicopatológicos, foi escrito
partindo de um especial ponto de vista, se comparado com ou­
tros trabalhos similares, o livro em questão trata de problemas
sobre a sexualidade a partir da perspectiva do caráter de classe
na opinião contemporânea predominante.
Hodam, por exemplo, apesar de explicações claras em suas
publicações demonstra uma distinta fraqueza em relação aos
modos demonstrados para resolver problemas sexuais. Reich,
entretanto oferece uma análise completa da origem social e mi­
séria sexual e demonstra que nós podemos esperar por emanci­
pação sexual apenas através de uma mudança nas bases eco­
nômicas e políticas da sociedade. O livro foi escrito num estilo
popular, funcionando como um guia, especialmente para a ju­
ventude proletária, para a qual foi pretendido. É também reco­
mendado à todos os professores e educadores que desejarem
uma introdução sobre a questão sexual do ponto de vista Marxis­
ta.

Opinião de uma estenógrafa:

Nada pode ser dito contra isto. O livro foi escrito de manei­
ra clara e compreensível. Todos deveriam tê-lo. O formato tam­
bém é excelente.

Estandarte vermelho. Viena, 14 de dezembro de 1932.

Este livro foi escrito em 1931. Entretanto ainda é de grande


interesse porque o camarada Reich demonstra claramente e sem
reservas o relacionamento inseparável entre a desgraça sexual
e o sistema dominante. Mas o autor também esforça-se para dar
aos adolescentes proletários tantos conselhos, sobre sua misé­
ria sexual, quanto possível dentro do sistema. Destaca-se este
fino conselho para eles: “Lute contra o sistema; assim você esta­
rá lutando para sua liberdade sexual e dignidade. Por essas ra­

200
zoes este livro informativo deve ser recomendado à juventude
proletária e lutadora”. (Isso foi embaraçoso para a liderança do
partido).

Crítica de um jovem numa fábrica de Charlottenburg:

Li o livro junto com outros companheiros. Ficaram entusi­


asmados e disseram que alguma coisa com isto estava faltan­
do até agora. Os tópicos eram muito bons. Você entra dentro
de tudo que estava na nossa mente. Apenas lendo o livro já
obtivemos muitos esclarecimentos sobre nós mesmos.

De um líder de um grupo jovem de Neuköllin:

Li seu livro “Luta sexual da juventude” com grande inte­


resse e notei que longe ultrapassa o livro “Excitação sexual e
satisfação”, tanto no conteúdo quanto no estilo. Deve-se res­
saltar que em quase todo os capítulos são apresentados de
maneiras Marxistas (aqui tem o sentido de maneira verdadeira)
e fornece um campo brilhante de discussão para as organiza­
ções da juventude proletária, especialmente porque exemplos
práticos foram selecionados dos grupos KJV e Fichte. Estes
exemplos também refletem as necessidades sexuais dos jo­
vens nas organizações da juventude.
Apesar de não ter objeções de modo geral, entretanto
gostaria de exercitar o direito de comentar ou suplementar al­
gumas questões tocadas no livro. Esperamos que o livro apa­
reça nas nossas organizações da juventude logo. É a primeira
publicação que responde a pergunta “Quando estão os adoles­
centes suficientemente maduros para começar a ter relações
sexuais?”
O problema sexual é tão claram ente e
compreensívelmente resolvido que isto ajudaria não apenas os
adolescentes proletários, mas muitos outros também. Na mi­
nha opinião as seções finais parecem muito com propaganda

201
comunista. Se se selecionasse uma abordagem mais geral des­
ses capítulos, seriam certamente lidos por círculos por círculos
maiores, já que nem todos os jovens são comunistas.
Entretanto sinto que é mais importante para o livro atingir a
maior quantidade de adolescentes possível, a fim de conquistar
a juventude para a causa da emancipação sexual, (assinado)
Zeltlager.
Vamos fazer uma pausa para rever as questões levanta­
das por tais conferências, resoluções, enganos, etc. Não locali­
zaram apenas questões pertinentes ao campo político-sexual.
São as questões básicas de todas as organizações humanas, e
se permaneceram sem resposta não pode ter mudança real mas
apenas ilusão das liberdade. As dificuldades infinitas da vida hu­
mana minaram até agora qualquer tentativa para resolver os pro­
blemas básicos de nossa sociedade, especialmente a divisão dos
seus membros em classes.
O fiasco da revolução russa deixa-nos em dúvida neste
aspecto. Nas conferências e discussões que descrevi pode-se
observar os seguintes fenômenos:
O medo do povo em sair fora da linha, em deixar as fileiras
sólidas das massas, desconsiderando seu comportamento revo­
lucionário. Isto acontece em todos os círculos e reinos da vida.
As mesquinharias do povo que surgem da consciência de culpa
são praticadas inconscientemente, sua auto-imagem não lhes
permite nenhuma alternativa. A espionagem russo-soviética e a
sabotagem dos julgam entos que preencheram os anos
subsequentes eram cheios desses mecanismos e
consequentemente incompreensível.
O povo é atraído por idéias sobre liberdade humana mas
entram em colapso quando as primeiras dificuldades sérias apa­
recem. Uma vez mais a contradição entre a aspiração à liberda­
de e a capacidade de ser livre vem primeiro.
O domínio das funções políticas oficiais por atitudes e dis­
posições privadas altamente pessoais e consequentemente o
pronunciamento sem sentido de toda política. A expectativa in­
fantil da massa logo que a influência autoritária é exercida, sem

202
considerar a natureza dessa influência.
A manha irresponsável de antigas organizações socialis­
tas em dar apoio à idéias corretas contanto que não as enten­
dessem, e sua igual presteza em destruir idéias corretas uma
vez que seus efeitos eram percebidos.
O abismo profundo separando a vida das massas e seus
representantes que eles mesmos organizaram e deram poder.
A burocratização forçada de cada líder de massa uma vez que
crescesse acimado nível da massa; a essência sexual de cada
burocracia, a contradição irreconciliável da burocracia e ativi­
dade sexual natural.
A aparente fé das massas que vem dos problemas reais
insuperáveis; o desdém pelas massas por parte de indivíduos
que nuca tomou o trabalho de investigar um problema social
em suas raízes.
Freqüentemente estava a beira de desistir totalmente do
esforço da psicologia de massas e dedicar-me estritamente ao
trabalho médico e clínico. Poderia ultrapassar os sentimentos
sociais de culpa, pois as realizações fundadas na consciência
social são de pouca duração. Minha convicção profunda sobre
a correção da sociologia Marxista também não teria me refrea­
do, ao contrário os método anti-científicos do partido Marxista
teria efetuado uma rápida divisão.
Era meu interesse ardente no modo peculiar das reações
humanas que me amarraram numa pesquisa urgente dependia
de entretê-las e por esta razão eu não pedi demissão de ne­
nhuma organização ou grupo de trabalho com os quais tinha
terminado, mas simplesmente deixei que acontecimentos
subsequentes tomassem seu curso necessário. Isto forneceu
inestimáveis introspecções e força também.
Primeiro ultrapassou minha sensibilidade pessoal, depois
reuni experiência para o futuro e finalmente ganhei o
discernimento psicológico da massa. Se alguém quiser comba­
ter a praga deve se expor a isto. Fora de dúvida, neurose e
política constituem a praga da humanidade, mas tudo isso apa­
rece como não proletário ou aventura não-científica para políti-

203
cos estabelecidos e meus colegas de profissão.
Havia situações precárias. Em alguns bairros o estandarte
nacional da juventude socialista tinha se reunido com a juventu­
de comunista. Os líderes do partido estavam engajados em lutas
ignominiosas. Por exemplo em dezembro de 1932 o partido co­
munista deu ordens para os membros não marcharem com os
sociais democratas numa grande demonstração, mas meramen­
te formar filas ao longo da calçada. Contra o desejo do partido as
massas se misturaram. Pessoas de todas as classes e profis­
sões queriam combater o fascismo. Coloquei-me bem como meu
carro à disposição de uma formação armada que consistia do
estandarte nacional e do Arbeiterwehr.
Esbocei um livreto para as formações de combate no qual
aconselhei a separação dos partidos e ação comum contra o ata­
que fascista planejado nas marchas das eleições em Berlim. Umas
cem mil cópias foram distribuídas. Os encontros realizados em
Leipzig, Stettin, Dresden, etc., estavam lotados. Em 24 de feve­
reiro de 1933 fui a Copenhagen onde a organização de estudan­
tes dinamarqueses me convidou para uma conferência sobre os
problemas do fascismo e raça. No navio fui entrevistado pelo
Politiken, o maior jornal do governo dinamarquês. Falei na confe­
rência que o Politiken quis aderir. Depois da primeira noite com
os estudantes houve um grande entusiasmo, mas depois da se­
gunda, quando falei sobre fascismo e Alemanha diante do en­
contro operário, o Politiken retirou-se. Foi muito para um jornal
do governo. Em 28 de fevereiro retornei a Berlim. Nessa noite o
Reichstag ficou muito empolgado e na manhã seguinte 150 fun­
cionários e intelectuais foram presos.
Escapei da prisão apenas porque as listas dos fascistas
tinham sido feitas de acordo com posições oficiais como as da­
queles que foram presos e eu nunca tinha tido uma posição ofici­
al.
Os seis dias que se seguiram foram horríveis para a massa
que foi presa. As organizações estavam paralisadas. Ninguém
podia ser achado. Em 1ode março de 1933 acidentalmente en­
contrei o deputado comunista do Reichstag na casa de um cole­

204
ga. Discutimos o que fazer no dia 5 de março, o dia da eleição
marcada por Hitler, como chanceler designado pelo Hindenburg.
O representante comunista medisse que os líderes do partido
remanescentes tinham mandado os operários viver em abrigos
para estarem protegidos e acabar com as colunas fascistas.
Um operário da formação de defesa informou-me que quaren­
ta mil operários armados à nossa disposição teriam apenas fi­
cado muito contentes em intervir se as demonstrações da mas­
sa ocorressem. Mas não houve demonstração da massa. A úl­
tima aconteceu na metade de fevereiro, quando cem mil pes­
soas, num frio bastante forte, silenciosamente e seriamente mar­
charam passando em frente da casa de Karl Liebknecht, onde
Thälmann e o comitê central estavam de pé para inspeção. O
povo esperava que o partido começasse a luta. O partido sabia
que as massas eram passivas. Contudo deu ordens para as
formações da defesa quebrar as colunas fascistas. Nesse meio
tempo as formações esperavam pelas massas, fazendo inter­
venções de acordo com os seus atos.
Três amigos meus, operários que tinham conduzido as
fileiras de defesa, estavam entre os presos. Dois deles foram
assassinados nas barracas dos SA na rua Pape. Punia-se com
a morte o porte ilegal de armas ou distribuição de panfletos.
Quatro dias antes da eleição vieram me visitar alguns jovens
que precisavam do meu carro para transportar armas e panfle­
tos para um subúrbio de Berlim. Combinamos que, em caso de
prisão, o motorista deveria dizer que o carro tinha sido rouba­
do. Quando partiram, me ocorreu de repente que não tínhamos
dito o local onde o carro pudesse supostamente ter sido rouba­
do. Se fossem pegos, tudo estaria perdido. Tinham que trazer
o carro para um certo lugar dentro da cidade por volta de 1 hora
da manhã o mais tardar. Se não estivessem lá na hora combi­
nada indicaria que as coisas não tinham dado certo e que eu
teria que dar parte do roubo de meu carro.
Passaram-se seis horas de pesadelo. As pessoas que
partiram eram homens de valor e teriam perdido suas vidas
caso os panfletos fossem achados. Esperei no lugar marcado.

205
O tempo passou; era uma hora e o carro não aparecia. Presumi
que tivessem sido presos. Que poderia fazer? Não podia dar parte
do roubo porque as primeiras perguntas certamente seriam so­
bre o local onde estava estacionado, e teria exposto toda a tra­
ma. Não havia escape. Poderia ter fugido, mas não tinha dinhei­
ro nem documentos comigo. Não podia ir para casa porque meu
apartamento estava sendo vigiado. A SA Já tinha estado lá. Nes­
ta época estava morando em diversos hotéis, onde me registra­
va com nome falso. Dois dias antes meus filhos foram para Viena
para a casa dos avós. Minha mulher estava morando com ami­
gos. Por outro lado, não relatar o roubo do carro também signifi­
cava uma catástrofe certa. Estava com muito medo e logo adveio
um arrepio frio. Decidi esperar um pouco mais. Passou-se outra
meia hora e nada do carro. Senti-me numa situação miserável e
estava a ponto de partir quando de repente vi o carro. Tudo ocor­
reu bem exceto um pneu furado no caminho de volta. Fomos a
um bar beber alguns drinques para celebrar. Também eles ti­
nham pensado no nosso esquecimento estúpido.
No dia seguinte um artigo sobre meu livro sobre a juventu­
de apareceu na Völkischer Beobachter.
Era evidente que não podia permanecer mais em Berlim.
Dois amigos da organização político-sexual me disseram para
fugir imediatamente. Mas onde iria eu? Não tinha dinheiro. Deci­
dimos que deveria primeiro viajar para o Sul com minha mulher e
atravessar a fronteira como turista usando roupas para esquiar.
Partimos a noite. Havia alguns amigos no trem, mas nenhum
cumprimentou ninguém. Numa pequena cidade da Bavária pou­
co antes de chegar à fronteira, descemos sem saber se a frontei­
ra estava aberta ou não. Mostramos passaportes austríacos mas
ninguém sabia se as listas das pessoas as serem presas tinham
sido feitas. Até que se constatasse, ficamos lá dois dias com um
casal mais velho que era entusiasmado com os nazistas. Apesar
da Bavária não ter ainda sido dominada e ainda ser dirigida por
Held, os SAeram vistos em toda parte. Os jornais aconselhavam
não ir para Berlim. Com dificuldades atravessamos a fronteira.
Foi tudo bem com os nossos passaportes austríacos e desce-

206
mos do trem do outro lado.
Minha mulher devia voltar para Berlim e me avisar se era
seguro para mim retornar também. Logo chegou uma carta di­
zendo-me para não retornar sob nenhuma circunstância. Ape­
sar disto atravessei a fronteira e voltei para Berlim. Não tinha
roupas ou mesmo 0 essencial para uma eventual emigração
permanente. Em Berlim meus amigos acharam que eu estava
mentalmente doente (não foi a primeira vez). Dei meu nome
completo num hotel para pessoas em trânsito. Isto pareceu a
coisa mais segura a fazer. Um austríaco corretamente registra­
do sob seu nome completo, com seu passaporte depositado na
recepção não poderia ser outra coisa a não ser um estrangeiro
inofensivo que não sabia nem andar pela cidade. Enviei uma
pessoa com jeito de inofensiva ao meu apartamento para veri­
ficar se ainda poderia ir lá para buscar minhas roupas. Ouvi
dizer que os SA tinham estado lá de novo, levaram um relógio
e alguns livros dentre eles o Kamasutra (o manual de técnicas
indianas de amar) e um com gravuras japonesas em madeira.
Este estava precisamente na mesma prateleira junto com o di­
agnóstico das raízes psíquicas do entusiasmo engendrado pelo
Nacional Socialismo. A empregada ingenuamente deu parte do
roubo à polícia e algumas coisas foram devolvidas. Numa noite
entrei em meu apartamento e peguei algumas roupas. Os mó­
veis, biblioteca e o carro tinham que ficar para trás. Um catálo­
go de fichas de valor inestimável e arquivos com números ma­
nuscritos tinham sido levados por segurança à diversos luga­
res da Alemanha, por amigos, antes da minha primeira fuga.
Conhecidos enviaram minha biblioteca para Copenhagen al­
guns meses mais tarde. Fiquei lá por alguns dias mas não pude
localizar ninguém. Conhecidos não políticos demonstraram cla­
ramente, de forma amigável contudo, que não queriam nenhu­
ma complicação. Assim parti para Viena com apenas alguns
marcos no bolso.
Lá recomecei a praticar medicina sem dificuldades. Para
ser sincero eu não era um imigrante.
Em Viena a situação não era promissora. Depois de três

207
anos de ausência não tinha mais contatos e precisei me estabe­
lecer mas uma vez. Vivi com amigos que eram excepcionalmen­
te prestativos mas que obviamente não tinha visão dos aconteci­
mentos na Alemanha.
“Algo que nunca aconteceria na Áustria”. “Seria uma ver­
gonha partir sem lutar". “Na Áustria as coisas estão progredido”.
“Uma divisão revolucionária do Schutzbund tinha acabado de ser
organizada dentro do partido Social-Democrata”. “Os austríacos
derrotarão o fascismo”. Ninguém anteviu fevereiro de 1934 e
menos ainda março de 1938. Já que não queria desencorajá-los
permaneci calado, apesar que não ter visto previsto vitória num
futuro próximo. A organização estudantil do partido Social Demo­
crata me convidou para fazer uma conferência sobre o fascismo.
Expliquei tudo que sabia sobre isto o melhor que pude mas não
inferi qualquer conseqüência para a política; isto não serviria a
nenhum propósito. Era um assunto profundo para ser entendido
e dominado em pouco tempo, apesar de todos entenderem a
contradição dentro do desenvolvimento social.
Quando alguns amigos que estavam atentos à conseqüên­
cias políticas me pediram para explicá-las eu rejeitei, não porque
a polícia estivesse presente, mas porque recusava ficar tagare­
lando, sentindo que não estava realizando nada em fazer isto.
Muitas ilusões sobre política, a natureza do partido e a luta de
classes teria sido eliminadas antes que a política sexual e a psi­
cologia de massa pudessem ter sido levadas à sério. (Estas ilu­
sões ainda estão largamente espalhadas na América).
No princípio do verão de 1938 Freud teve seus bens confis­
cados pela SA, teve que deixar Viena e fugir para Londres. Mai­
oria dos outros psicanalistas também se tornaram emigrantes.
Tinham sido cientistas apolíticos que não queriam misturar ciên­
cia com política.
Em janeiro de 1932 Freud como editor do “Psychoanalytic
journal” tinha colocado uma nota introdutória para meu jornal sobre
masoquismo, o qual clinicamente desaprovava a teoria sobre o
instinto de morte. Graças aos esforços dos psicanalistas socia­
listas alemães estas nota não foi publicada. Lia-se: “circunstânci­

208
as especiais obrigam o editor lembrar ao leitor fatos evidentes,
a saber que este jornal permite a todo escritor que confia à ele
seus manuscritos para ser publicado, toda a liberdade para ex­
pressar suas opiniões, dentro do contexto da psicanálise e não
assume nenhuma responsabilidade pelo seu conteúdo. No caso
de Dr. Reich, entretanto o leitor deve saber que o dito autor é
membro do partido bolchevista.
Agora é sabido que o Bolchevismo coloca restrições na
liberdade da pesquisa científica, similares àquelas da igreja.
Obediência às ordens do partido, rejeitando tudo o que contra­
diz os pré-requisitos de sua própria doutrina de salvação. É
opção de nossos leitores tirar do autor desse jornal tais suspei­
tas. O editor teria sido movido a fazer o mesmo comentário se
tivesse sido apresentado um manuscrito escrito por um mem­
bro da “Sociedade de Jesus".
Sabia que os comentários de Freud sobre o partido co­
munista eram corretos; mas também sabia que ele estava evi­
tando a mesma questão como os comunistas e estava além
disto, não estava tentando nada contra a burocratização da
Associação Psicanalítica Internacional.
Para tomar tal atitude deve-se primeiro sofrer debaixo de
uma burocracia que se queira superar. Também não quis tor­
nar obscuro o fato de que aprendi muito entre os comunistas,
bem como em todas as organizações sobre avaliação da exis­
tência social. Consequentemente recusei anular meu artigo ou
mesmo modificá-lo para evitar embaraços. Finalmente decidiu-
se que Bernfeld escrevesse uma réplica a qual foi publicada no
jornal junto com meu artigo sobre masoquismo. O prefácio de
Freud foi omitido. Bernfeld se queimou bastante com sua répli­
ca, mas meu artigo foi universalmente bem aceito.
Entretanto, vínculos efetivos e organizacionais são duas
coisas diferentes. Isto também é uma parte da psiquiatria soci­
al: os vínculos organizacionais de um indivíduo são ofensivos
às suas reais convicções quando a organização começa a con­
tradizer os fatos. Na minha resposta aos editores do jornal, sus­
tentei que:

209
1. Minha crítica ao instinto de morte não tem nenhum a relevân­
cia para qualquer partido e tem base clínica.
2. Tinha completa liberdade para dar cursos sobre psicologia psi-
canalítica dentro do partido. Ao contrário, tinha recebido ordens
do presidente da Associação Psicanalítica de Berlim de refrear a
introdução de tópicos sociológicos na organização profissional.
3. A direção da minha pesquisa analítica envolveu certas conse­
qüências sociais. A teoria do instinto de morte tinha sido formula­
da para evitar estas mesmas conseqüências. Já havia criticado
essa teoria na época em que não era politicamente ativo.
4. Restrições tais como esta nunca tinham sido colocadas em
artigos filosoficamente embaraçosos do Rer. Pfister ou do
metafísico Folnai. Consequentemente o julgamento contra meu
artigo era preconceituoso.
5. Minha reputação da teoria do instinto de morte nunca tinha
sido realmente tratada. A questão ainda está aberta. Existingon,
presidente da Associação, já tinha me pedido em outubro de 1932
não admitir nenhum candidato em meu seminário técnico no qual
participavam aproximadamente vinte psicanalistas praticantes de
Berlim. Rejeitei este pedido injustificável e ele vetou minha elei­
ção à membro do Instituto de Treinamento de Berlim. Contudo fiz
conferências no Instituto que foram bem assistidas.

Em janeiro de 1933 fiz um contato com a Psychoanalytischer


Verlag para publicar meu livro Análise do Caráter. Quando che­
guei em Viena o diretor da casa me disse que foi necessário
cancelar o contrato devido à situação política. Apesar do meu
protesto a decisão permaneceu imutável.
Desde a extinção das provas de galés o livro só poderia ser
publicado pelo autor e então tornado sob comissão pela editora
IPA. Paguei adiantadamente o custo da impressão. A ação teve
como intenção diminuirá influência do meu livro. Não queria ne­
nhum problema com o uso do meu nome e esta organização da
qual eu ainda era membro de bom nível não demonstrou qual­
quer consideração pelo meu trabalho, meus gastos ou minha si­
tuação. Só pude manter os princípios expressos em minha carta

210
de 17 de março de 1933:
1. A reação política disfarça a psicanálise com o termo
Bolchevismo Cultural e justamente porque a ciência da análise
expõe a existência da ideologia sociológico e político-cultural
da psicanálise não pode ser nem negado nem escondido. Isto
só poderia ferir o trabalho científico, mas nunca poderia impe­
dir poderes políticos reacionários de reconhecer o perigo sem­
pre que aparecer.
2. O caráter cultural político da psicanálise além de seu valor
médico tem sido admitido por qualquer organização profissio­
nal. Qualquer dissimulação desse fato é um auto-sacrifício in­
sensato. Existe um grupo forte de psicanalistas que deseja con­
tinuar a luta político-cultural. A existência desse grupo perma­
necerá politicamente embaraçosa sendo ou não ativo dentro
ou for do IPA.
3. Nesta luta a psicanálise pode apenas tomar o partido do tra­
balhador. Não é a existência pessoal do analista que deve ser
assegurada a qualquer preço, mas a própria psicanálise, como
método de pesquisa. Esse reconhece apenas um critério, a sa­
ber, movimento progressivo social, o qual, na Alemanha está
pagando por suas lições com sangue. O processo histórico não
terminará de nenhuma maneira com Hitler. Se a prova da justi­
ficação histórica da existência da psicanálise e de sua função
sociológica sempre foi necessária, a fase presente de desen­
volvimento deve fornecer isto.

Sabia que a carta não mudaria nada, mas desejava toda­


via me separar de toda maneira do comportamento da profis­
são. Ninguém poderia saber o que o destino traria. Prejudiquei-
me fazendo isto. Minha carta não poderia ajudar, mas criar cons­
ciência de culpa e assim causar irritação. Mas isso não poderia
ser evitado.
A carta não falhou em produzir resultado. De acordo com
a conferência para estudantes socialistas recebi uma carta do
presidente da Associação P sicanalítica de Viena.
Educadamente, mas laconicamente pediu que não fizesse pos­

211
teriores conferências para organizações socialistas ou comunis­
tas. Este senhor era um membro do partido social democrata
austríaco. Sempre aconteceu dessa maneira. Por muito tempo
os social democratas retardaram o progresso do trabalho decen­
te até que o avanço do fascismo terminasse a tarefa. Respondi
que era incapaz de aceitar este pedido incondicionalmente mas
iria de qualquer modo consultar o quadro de diretores. Soube
depois por telefone que minha promessa de consulta ao quadro
de diretores não era suficiente e que era meu dever concordar.
Em resposta a minha solicitação de confirmação por escri­
to o presidente explicou que ele tinha feito o pedido por sugestão
de Freud. Repeti que não poderia aceitar essa restrição, em con­
seqüência ele me proibiu participar das reuniões da Associação.
Ele disse à minha mulher que se estivesse em minha posição já
teria deixado à Associação há muito tempo. Sugeri consultar o
comitê executivo de Viena do IPA, o que aconteceu em 21 de
abril de 1933. Neste encontro propus deter todas as atividades
de publicação e palestras até que o IPA tivesse oficialmente à
uma decisão se meu ponto de vista era ou não compatível com
minha qualidade de membro. Até então não foi tomada uma po­
sição oficial e trabalhos contra mim somente por trás dos basti­
dores.
Assim esperei pelo menos esclarecer minha posição antes
da profissão. Esta mudança não pode ser evitada e cinco anos
mais tarde ficou demonstrado ter sido correta.
Por muito tempo fiquei atento ao fato de que minhas opini­
ões eram próprias, apesar dos psicanalistas sustentarem-nas
como teoria analítica omitindo os aspectos mais significantes. Se
minha opinião foi correta, de que a psicanálise, em virtude de
sua natureza estivesse necessariamente antagônica à reação
política, então eu tinha que me permitir uma completa liberdade
de expressão. Entretanto se a organização não quis se identifi­
car, com minha opinião, eu quis agüentar toda a responsabilida­
de da questão completamente sozinho. Freud observou durante
o encontro que a maré estava contra mim mas ninguém sabia se
isto um dia iria virar. No momento nada pôde ser feito.

212
A secretária tinha que me informar sobre a posição da
organização. A informação nunca chegou e a situação perma­
neceu a mesma até o término da minha condição de membro.
Não obtive um único comentário oficial. Não quiseram acabar
com a possibilidade de ganhar laureis como resultado deste
conflito filosófico, e estava determinado a não os dar a nin­
guém se o peso da responsabilidade prática e sacrifício recaís­
sem sobre meus ombros.
Acontecimentos embaraçosos se acumularam. Um jovem
médico de Copenhagen veio para Viena para ter treinamento
comigo, como de praxe visitou diversos colegas proeminentes.
Aconselharam-no a não trabalhar comigo.
Eu era Marxista e meus alunos não seriam reconhecidos
sob certas condições. Bernfeld, um marxista, enfatizou isto par­
ticularmente. Mas o médico ficou comigo apesar disto e está
praticando vegetoterapia atualmente. Foi idéia dele minha ida
a Copenhagen. Disse que havia alguns candidatos para treina­
mento analítico lá.
Isto me deu a impressão de ser uma boa solução, então
pedi informação de Copenhagen sobre a permissão de traba­
lho e pedi Eitingon o diretor do comitê de treinamento se meu
curso seria reconhecido em Copenhagen. Respondeu que de­
vido às diferenças de opinião, meus candidatos tinham que se
submeter a um exame muito rígido. Lembach escreveu que eles
não estavam querendo dar permissão para o meu trabalho por
causa das minhas conferências. Entretanto poderia permane­
cer lá por seis meses, já que a agitação sobre minha pessoa
em Viena estava tornando a situação desgostosa, decidi ir para
Copenhagen de qualquer modo.
Assim, não foi a polícia ou uma falta de trabalho que cau­
sou minha emigração da Áustria, mas meus colegas de profis­
são. Sabia que Ana Freud, secretária do IPA, secretamente fi­
cou do meu lado porque ela valorizava meus esforços. Escrevi
para ela algumas vezes, mas não quis me envolver nem envol­
ver ninguém mais naquela época. Lá fiquei sem recursos ou
um lar, e numa posição profissional altamente precária. Além

213
disto foi necessário pedir dinheiro emprestado para cobrir os cus­
tos de impressão da Análise do Caráter. Quase tomei a decisão
de segurar o livro, mas os editores me convenceram que este
deveria indubitavelmente aparecer. Durante anos subsequente
isto salvaguardou minha existência.
Pedi dinheiro emprestado para a viagem à Copenhagen e
saí de Viena em 30 de abril. Meus documentos estavam em or­
dem, não houve dificuldades. Viajei via Polônia num cargueiro.
Cheguei a Copenhagen em 1o de maio onde me registrei num
hotel. Lá já havia inúmeras indagações e no dia seguinte pesso­
as pediram para marcar horário para tratamento.
Não era possível manter essa situação num hotel e dois
dias depois aluguei um apartamento e comecei a trabalhar. Par­
ticularmente queria publicar a Psicologia de Massa do Fascismo.
O manuscrito necessitava apenas ser preparado para a impres­
são, mas fui forçado a esperar até que tivesse ganho dinheiro
suficiente para financiar a impressão. Alguns emigrantes alemães
me ajudaram a transferir meu Varlag für Sexualpolitik para
Copenhagen. Nesse ínterim a Análise do Caráter foi publicado
em Viena.
O livro sobre o fascismo foi publicado em agosto. Dois alu­
nos de Berlim se juntaram a mim e alguns outros se registraram
em Copenhagen. Consegui providências para um aluno que mais
tarde me decepcionou profundamente.
Contratei o partido comunista dinamarquês porque emigrantes
juntamente com suas mulheres e crianças estavam passando
fome nas ruas.
Organizei contribuições de amigos mas eram muitos os ne­
cessitados. O Hilfe vermelho dava apoio apenas àqueles que ti­
nham sido recomendados pelo partido na Alemanha e não deu
nenhuma ajuda aos outros. Comecei a encontrar um número cres­
cente de pessoas desesperadamente andrajosas. Um dia enquan­
to caminhava na Lange Limie, vi um jovem destituído de tudo,
sentado num banco, meio faminto, sem dinheiro, lugar para mo­
rar ou esperança. Se considerava naufragado. Levei-o para casa
e amparei-o por algum tempo.

214
Algum tempo depois ele escreveu um romance muito bo­
nito sobre vagabundo, o qual eu publiquei.
Fui ao partido dinamarquês e pedi para ver o represen­
tante alemão, mas o funcionário do partido dinamarquês recu­
sou-se em me por em contato com ele. Declarei que não sairia
de lá enquanto não fosse atendido. Ele queria me por para fora,
mas protestei de modo tão resoluto que um segundo funcioná­
rio teve que vir para acalmar as coisas. Disseram que eu rece­
beria informação no dia seguinte, de fato recebi.
Encontrei o representante do partido alemão da seguinte
maneira: secretamente me conduziram a uma sala, lá sentado
estava um homem pesadão com um rosto rígido que me disse
para me sentar. Perguntou-me se tinha permissão do partido
para sair da Alemanha e porque tinha feito tal cena com os
dinamarqueses. Foi uma quebra da disciplina e merecia uma
suspensão. Falava de maneira severa e arrogante. De repente
gritei com ele para parar de ser um burocrata e então conver­
saria com ele. Disse-lhe para se comportar decentemente. Ime­
diatamente ele mudou o tom (covardes é o que são os burocra­
tas) e tornou-se cordial.
Não confiei neles e mais tarde descobri que era um dos
tipos mais baixos.
Não têm nada a dizer, tinham dirigido mal o partido e de­
pois reivindicaram impertinentes serem os futuros líderes da
Alemanha. O homem explicou que a informação do partido di­
namarquês era correta e que o partido alemão tinha escritórios
por todos os lados para emitir salvo condutos para o partido.
Isso era ridículo. Disse que era mentira e que os emigrantes
tinham que ser tratados imediatamente, fossem reconhecidos
ou não pelo partido. Não podiam ficar famintos. Ele não estava
propenso a aceitar, então ameacei fazer o diabo se isto não
fosse feito. Ele prometeu fazer o que pudesse já que escânda­
los deveriam ser evitados nessa época.
Conhecia a mentalidade deles. Os resultados do meu pro­
testo não eram particularmente profundos mas ouvi que estava
sendo feito mais pelos refugiados. Entretanto meus atos fize­

215
ram com que ganhasse um ódio profundo dos burocratas do par­
tido dinamarquês. (Desde então o fascismo vermelho difamou
meu trabalho o mais que pode, na Noruega, Inglaterra, nos Esta­
dos Unidos., etc.)
Logo experimentei o irracionalismo dos políticos. O repre­
sentante do “emigrante alemão” pediu o manuscrito da “Psicolo­
gia de massa do fascismo”. Na primeira sentença do livro lia-se:
"A classe operária alemã sofreu uma dura derrota”. Fui chamado
para relatar sobre esta única frase de abertura. As resoluções do
Comintern durante aqueles meses declararam que a casse ope­
rária alemã não tinha sofrido derrota. A catástrofe na Alemanha
era meramente uma derrota transitória no curso de um progres­
so revolucionário. Um ajudante de mecânico de 18 anos que ti­
nha acabado de deixar a Alemanha me disse que os comunistas
ainda permaneciam por trás, disse ele que os comunistas ainda
permaneciam por trás, disse ele que tudo isso era apenas uma
interrupção e que a era de Hitler não duraria seis meses. Com­
pletamente convencido ele esperava retornar em poucas sema­
nas.
Minha expulsão do Comitern ocorreu como segue: Antes
da minha chegada à Copenhagen o jornal comunista dos intelec­
tuais dinamarqueses “Plan” publicou meu ensaio “Onde conduzi­
rá a tendência para a nudez na educação?" o qual originalmente
apareceu em 1927 no jornal “Psychoanalystische Pädagogische
Zeitschrift” tinha sido traduzido e publicado com minha permis­
são. O ministro da justiça dinamarquesa, senhor Zahle, era um
cavalheiro asceta cujas filhas eram um tanto menos abstêmias.
Por esta razão ele desprezava veementemente qualquer coisa
que tivesse aparência de “esclarecimento sexual” e “psicanálise”
etc. Teve grandes dificuldades com os filhos e consequentemente
acusou de pornográfico o editor do jornal.
Como sempre a acusação foi baseada em palavras que não fo­
ram corretam ente usadas. Neste caso foi a palavra
“Wipfi”(diminutivo de pênis, termo usado para crianças).
O tradutor não levou em consideração que para o leigo,
sexologia está perigosamente perto da pornografia e traduzia uma

216
ou duas passagens descuidadamente.
Em resposta a uma indagação do Extrabladet, declarei
que apesar da tradução não ter correspondido precisamente
ao meu original, não poderia ser questionada e pornográfica e
que a acusação era um grave erro! A revista “Fulturkampf pu­
blicou um artigo detalhado meu intitulado “Era isto pornogra­
fia?”
No segundo artigo eu tomei partido do editor acusado.
Foi condenado a quarenta dias de prisão. Depois disso o parti­
do comunista dinamarquês declarou que eu tinha traído o edi­
tor e o abandonou. Um pequeno julgamento do tipo Moscou se
movimentou. Ninguém podia comentar sobre a questão em si
porque ninguém estava habituado a advogar nenhum assunto.
Em 21 de novembro de 1933 o seguinte artigo foi publicado pelo
jornal operário em letras garrafais:

Partido Comunista
Secretaria do Comitê Central

- Exclusão do partido comunista da Dinamarca -

De acordo com o comitê central do partido comunista da


Alemanha (o qual não existia mais desde março) anunciamos
que o doutor Wilhelm Reich foi excluído do partido comunista
da Dinamarca (do qual eu nunca fui membro). As razões para
isto incluem seu comportamento não comunista e contra o par­
tido numa sucessão de casos: Sua publicação de um livro con-
tra-revolucionário; o estabelecimento de uma editora sem a san­
ção do partido, além disso, sua declaração, publicada pela im­
prensa do governo dinamarquês onde ele renuncia seu próprio
artigo publicado no “Plan”, facilitando assim a ação oficial e
policial contra o editor do dito “Plan”.
Dr. Reich mora na Dinamarca, como mostra o jornal, ten­
do ganho um visto de imigração. (O visto tinha acabado de ser
cancelado nesta época).
Secretaria do Partido

217
Em 1ode dezembro de 1933 uma longa crítica da Psicolo­
gia de massa do fascismo foi publicada no Arbeiterblad, esta con­
tinha as mesmas declarações que eu já havia ouvido em Berlim,
palavra por palavra. Entre outras foram acrescentas as seguin­
tes:
Com a covardia que parece ser o traço predominante do
autor (chamamos atenção para seu comportamento no caso
“Plan”) ele tenta obscurecer a orientação desse livro que na rea­
lidade constitui um ataque à política revolucionária. Apenas algu­
mas passagens revelam os fatos e se referem aos “partidos co­
munistas” pelo nome, caso contrário Reich prefere dirigir seus
golpes para um conceito que ele mesmo criou, a saber: “Marxis­
tas vulgares”.
Sexualidade é a força motriz da psique humana e no capi­
talismo não existe vida sexual normal absolutamente...
Reich e seus seguidores irão negar, é claro, que eles estão
tentando quebrar com as antigas bases da propaganda marxis­
ta. Entretanto o livro representa de modo objetivo, tão sérias
solapagens das doutrinas da propaganda comunista que deve
ser chamada de contra revolucionário.
E é duplamente perigoso porque não há traço de prova de
que a idéia de Reich reforçaria, na realidade, a luta comunista,
mesmo como um suplemento. Quando ele cita como provar o
interesse com o qual seus conceitos eram aclamados pelas mu­
lheres, crianças e pela burguesia, a isto pode-se chamar de inge­
nuidade. Toda forma de discussão e esclarecimento pertinente a
sexo desperta o interesse de elementos politicamente ignoran­
tes precisamente por causa da educação capitalista.
Não entendi como pude pertencer à este partido por tanto
tempo; mas entendi que a posição brusca reacionária em dire­
ção a sexualidade foi movida pela necessidade de uma resposta
clara pedida pela época, uma resposta que o partido não foi ca­
paz de dar. Se o exposto acima for lido com cuidado a questão
procede de qual função este partido assumiu no mundo, consi­
derando que este esqueceu-se completamente à quem ele deve
sua existência.

218 /
(Então: a maneira pela qual WR cometeu graves erros
na quebra oficial com os fascistas em 1933 deve ser cuidado­
samente observada:

1. Ele não disse que nunca pertenceu ao partido comunista


dinamarquês e consequentemente não poderia ser excluído de
lá. (O partido comunista alemão parou de existir em março de
1933).
2. Ele não declarou publicamente que:
a) os fascistas vermelhos não tinham direito de controlar a edi­
tora de seu instituto:
b) os fascistas vermelhos mentiram quando reclamaram que
ele tinha renunciado seu artigo no “Plan”;
c) mentiram novamente quando escreveram que foi dado a ele
permissão para ficar na Dinamarca, insinuando que esta foi a
recompensa pela sua traição ao editor do “Plan”. Seu visto ti­
nha sido retirado precisamente nessa ocasião.

Aqui, como já tinha ele feito antes e faria novamente, WR


manifestou uma de suas mais sérias fraquezas vistas por um
ponto de vista militante. Ele deixou a praga falar e age sem
contradizê-la, apesar da existência de uma clara evidência de
que um caráter pestilento estava mantendo enganado o públi­
co, falsificando registros, virando de cabeça para baixo e
distorcendo da direita para a esquerda o que era realmente a
verdade. Ele não negou tais declarações públicas porque sim­
plesmente se sentiu acima de tal sujeira. Não as negou porque
estava convencido de que a verdade mais cedo ou mais tarde
venceria espontaneamente, exatamente como tantos america­
nos liberais acreditam hoje, permitindo assim que a politica­
gem salafrária prossiga fazendo sua maldade sem obstáculo.
WR tinha também muito trabalho prático para fazer, enquanto
a política salafrária não fazia nada além da politicagem pesti-
lenta. É o mesmo patife que atacou na Coréia em 1950, e de­
pois acusou o ingênuo americano de ser o atacante).
Em 13 de abril de 1935, as seguintes notas foram

219
publicadas na folha oficial de informação do Estado.

Número 213 - 13 de abril de 1935

De acordo com a “Ordem do Povo” de 4 de fevereiro de


1933 as publicações “O que é consciência de classe” de Ernest
Parell (pseudônimo de W. Reich) “Materialismo dialético e psica­
nálise” de Wilhelm Reich, volumes 1 e 2 da série “Psicologia po­
lítica”, que foi publicada pela Verlag für Sexualpolitik (Copenhagen,
Praga e Zurique) bem como todas as subsequentes publicações
dessa mesma série, devem com isto serem confiscadas pela
polícia e tiradas de circulação, pois o conteúdo é passível de co­
locar em perigo a ordem e a segurança públicas. 412300/35 II
2B1, Berlim.

9 de abril de 1935
Gestapo

Número 2146 - 7 de maio de 1935

De acordo com “Ordem do Povo” da Presidência da Repú­


blica de 28 de fevereiro de 1933, a distribuição de todas publica­
ções estrangeiras da série psicologia política da Sexpol (Verlag
für Sexualpolitik, Copenhagen, Dinamarca; Praga,
Checoslováquia; Zurique, Suíça) foi proibida dentro da Alema­
nha até segunda ordem. III P 3952/ p.53. 6 de maio de 1935
RMdj

Em 7 de janeiro de 1934, o seguinte artigo apareceu no


órgão do Comintern de Praga, Der Gegenangrift:

Os resultados da Associação de Comerciantes

Além dos esmerados slogans freudianos que estão


exemplificando no Nacional Socialismo mas que também pode

220
ser igualmente aplicados à todas as formas de reação cultural
encontramos reiteradas confirmações de dois fatos que já são
bem conhecidos para nós: primeiro que o sucesso transitório
de Hitler tem engolido numerosos membros da insignificante
burguesia, entre os quais há também indivíduos que se consi­
deram comunistas como Reich, por exemplo; segundo que há
certas meias verdades científicas natural que têm sido
dogmatizadas dentro da ciência na direção do misticismo. Quan­
do estas são aplicadas às contradições sociais assumem um
caráter sectário típico da propagação do fenômeno da burgue­
sia decadente dentro do movimento operário desde os dias do
falecido Eugen Dühring. Nisto eles caem nas proximidades do
fascismo...

(De acordo com Reich)

O movimento operário pecou em colocar o material em


dificuldades do explorado no centro de sua propaganda, en­
quanto negligencia-se o problema central sobre a frente cultu­
ral a saber a questão da sexualidade. Mas novamente de acor­
do com Reich somente uma coisa vence o proletariado indus­
trial já esquerdista, soluções econômicas e políticas. As mas­
sas indiferentes serão conquistadas através da demonstração
de sua necessidade sexual e através da descrição do estado
cultural bolchevista de liberdade irrestrita. Entendemos muito
bem que esta desintegração burguesa é a fonte psicológica
disto, mas sua propagação por Reich um “comunista” age per­
feitamente na mão da propaganda de Hitler.
Com toda sinceridade disseram-nos que os operários cris­
tão es são melhores conquistados como ilustra um exemplo
detalhado através da prova de que a igreja é uma organização
fundada com o propósito de bloquear sua sexualidade.

Pouco antes disso o jornal Weltbühne publicou um artigo


muito favorável sobre o livro. Foi constrangedor! Esse jornal
publicado por intelectuais subordinados ao Comitern, mais tar­

221
de reverteram sua posição completamente.
Nesse meio tempo a primeira edição do livro esgotou-se e
a segunda tinha que ser impressa. Ouvi dizer que estava circu­
lando largamente na Alemanha e altamente considerada. Tinha ■
cartas de operários nas quais expressavam seu total entendi­
mento e apreciação. O livro ainda é vendido hoje, seis anos após
a catástrofe. Mas quem ainda lê as resoluções do Comintern da­
quela época?
Esse era dirigido contra aqueles indivíduos que eram inca­
pazes de ver além do presente e do seu meio e que estavam
sempre atados aos cordões de sua organização. Organizações
vem e vão, conceitos válidos tem um desenvolvimento e um futu­
ro.
Hoje a “Psicologia de massa do fascismo” e um livro reco­
nhecido na luta contra todas as formas de ditadura.
Contra meu melhor julgamento, eu mesmo me apeguei rápido a
minha organização a qual pertenci e pela qual lutei. O partido
tornou-se a segunda casa para todos aqueles que renunciaram
a segurança burguesa em favor da luta por um futuro melhor.
Para muitos a organização tornou-se o único lar porque
eles perderam a visão de um objetivo futuro. Isto destrói a orga­
nização e a transforma em um aparelho. Tornei mais claro esses
assuntos da seguinte maneira.
Não tinha dúvida nem por um momento de que os grandes
pensamentos e façanhas dos fundadores do movimento socialis­
ta estavam certos. Cada fase do meu trabalho, cada experi6encia
havia confirmado suas teorias. E ainda os eventos de quase uma
década mostraram a profunda contradição que eu não pude re­
solver, a saber a contradição entre o objetivo e a realidade do
movimento conduzindo-se para o objetivo. Ainda era totalmente
válido o objetivo? Se era, porque isto foi usado para justificar
cada ação dos seus representantes?
Brandler, antigo líder do partido comunista alemão, me vi­
sitou em Copenhagen. Discutimos o desastre por horas. Tudo o
que ele disse estava certo em princípiÒHnas então porque era
Hitler o déspota da Alemanha e não este homem humano, inteli­

222
gente, cujas opiniões seriam tão bem aplicáveis aos problemas
da sociedade?
Trotsky sempre esteve certo, em princípio; mas porque
estava Stalin no poder na União Soviética e não ele?
Estava eu também para tornar-me um furioso antagonis­
ta do partido comunista?
Em princípio, eu também estava certo e não os burocra­
tas desumanos e problemáticos. Porque eram eles capazes de
se encostarem no poderoso suporte organizacional e não eu?
Qual é a essência da organização humana? Nenhuma mante­
ve suas promessas até o presente nem a comunidade cristã
mundial nem a primeira, nem a segunda internacional socialis­
ta e a gora nem a terceira. Todos eles traíram seus objetivos e
tornaram-se instrumentos de opressão. Era óbvio que não ha­
via sentido em fundar uma nova organização para remover a
miséria do antigo. A quarta internacional de Trotsky me pare­
ceu natimorta e sem sentido. A natureza da organização em si
parecia enigmática.
Logo eu seria capaz de incluir a organização da psicanálise
também. Alguns anos tinham que passar antes que eu me sen­
tisse pronto para decifrar esse enigma.

(1950: Princípios básicos de fascismo vermelho):

1. Comunismo na sua presente forma como fascismo vermelho


não é um partido político como outros partidos políticos. Este é
a praga emocional organizada.
2. Esta praga emocional politicamente organizada e militarmente
armada usa conspiração e espionagem de todas as formas, de
modo a destruir a felicidade humana e o bem-estar. Não é, como
normalmente assume, uma conspiração política para alcançar
certos fins sociais racionais como em 1918.
3. Se você perguntar a um liberal ou um socialista ou um repu­
blicano quais são suas crenças sociais, eles lhe dirão de ma­
neira franca. O fascista vermelho não lhe dirá o que ele é, que
ele é e o que ele quer. Isto prova que esconder é sua caraterística

223
básica. Apenas pessoas que não se mostram por causa da es­
trutura de seu caráter operam dentro ou fora do partido comunis­
ta. Conspiram e se escondem para o bem deles mesmos e não
como instrumento para alçar fins racionais. Acreditar por outro
lado conduzirá apenas ao desastre.
4. Como forma especial da praga emocional o fascismo verme­
lho usa o instrumento básico caracterológico (cortina de ferro)
para explorar as atitudes patológicas idênticas nas pessoas co­
muns. Assim a praga emocional politicamente organizada usa a
não organizada praga emocional para gratificar suas necessida­
des mórbidas. As metas políticas são secundárias e são primei­
ramente subterfúgios para atividades biopáticas. Prova: os fins
políticos são mudados de acordo com o que é político, por exem­
plo, a praga emocional necessita se esconder e de repente ela
causa problema, como se fosse uma emboscada.
5. A dissimulação, a conspiração, a convivência são concebíveis
de serem camufladas diante de qualquer meta política.
6. O único objetivo da conspiração é o poder sem fins sociais
particulares. Subjugação da vida do povo não é pretendida mas
é o resultado necessário e automático da falta de racionalidade
na organização e da existência da praga emocional.
7. A praga emocional organizada confia e usa consistentemente
o que há de pior na natureza humana, mata e destrói tudo que
ameaça sua existência. Um fato para a praga é apenas uma ques­
tão de conveniência; o fato em si não conta. Consequentemente
não há respeito pelos fatos. A verdade é usada apenas para ser­
vir uma certa linha de procedimento ou para manter a existência
da torpeza emocional. Será descartada logo que ameace ou
mesmo contradiga tais fins. Esta atitude em relação ao fato e a
verdade, história e bem estar humano, não é especificamente
uma característica do fascismo vermelho. É típico de toda políti­
ca. O fascismo vermelho difere das outras formas de política, ele
elimina toda verificação e controle sobre o abuso do poder, por
isso permite que políticos incômodos alcancem o mais alto po­
der. Acreditar que as negociações de paz possuem esse signifi­
cado seria desastroso; podem não ser, de acordo com o expedi­

224 (
ente do momento. O fascismo vermelho é uma máquina pode­
rosa que usa o princípio da mentira ou da verdade, o fato ou o
fato distorcido, honestamente ou desonestamente, sempre com
o fim de conspiração e abuso.
8. Ninguém pode esperar uma superação do caráter pestilento
pela mentira e por táticas desleais. Espionagem e contra-espi­
onagem podem ter seu lugar na presente administração social.
Nunca resolverão o problema da patologia social. Usando a
verdade nos negócios humanos sen/irá para superar o aparen­
temente insolúvel emaranhado criado pela espionagem e con­
tra-espionagem. Será também construtivo estabelecer uma fun­
dação para vida positiva e ações humanas.

Apesar de estar bastante versado sobre o poder das or­


ganizações do estado na Dinamarca vi uma com princípios bá­
sicos claros pela primeira vez: representantes de vários inte­
resses públicos que eram supostamente eleitos pelo povo co­
mum, desfrutavam de poder excessivo dentro de sua capaci­
dade como agentes do estado ilusório mas efetivo poder. Os
mesmos indivíduos que elegeram os oficiais para representa­
rem suas causas, taticamente investem nesses oficiais um po­
der contra eles mesmos. Pode-se citar como exemplo o minis­
tro da justiça e dois psiquiatras.
O ministro é um indivíduo em quem a sociedade investiu
a tarefa de salvaguardar a justiça. Psiquiatras são indivíduos
que a sociedade seleciona para proteger a saúde mental da
população. Este é o meio pela qual a justiça é assegurada e a
saúde protegida.
Fui chamado ara praticar psicanálise na Dinamarca. Uma
das primeiras pessoas que vi foi uma menina que sofria de
histeria. Já havia tentado suicídio diversas vezes e agora dese­
java tratar-se comigo porque ninguém mais poderia ajudá-la.
Não a aceitei como paciente. Entretanto ela visitou-me nova­
mente e ameaçou de se suicidar, então prometi mantê-la sob
observação por quatro semanas e depois dar-lhe minha opi­
nião.

225
Depois de quatro semanas, período no qual ela progrediu
bem, parei de vê-la e avisei-lhe para esperar até que um dos meus
alunos dinamarqueses estivesse avançado bastante para tratar
dela. Ela pareceu concordar com isso. Alguns dias mais tarde ouvi
dizer que ela havia sido colocada numa enfermaria psiquiátrica
por tentar suicídio. Ela fez isso porque queria tratamento e não foi
capaz de conseguir. Como de costume em tais casos os psiquia­
tras alegam que isto era o “resultado do tratamento” e comunicam
ocaso à polícia, à quem escrevi uma carta detalhada com explica­
ções. Esses psiquiatras estavam para decidir sobre minhas ativi­
dades posteriores. O departamento de saúde declarou oficialmen­
te que meu pedido de prorrogação da minha permissão de resi­
dência foi negado,. Personagens importantes se recusaram a as­
sinar essa insensatez, mas o ministro da justiça ligou o assunto
com o caso pornográfico.
Uma reunião de doutores e educadores realizou-se e ne­
nhum queria que eu me rendesse, pois estavam interessados em
meu trabalho. Entretanto a máquina burocrática venceu a batalha.
Desde que meu visto não foi prorrogado fui compelido a deixar a
Dinamarca. Mesmo o chefe de polícia que estava pessoalmente
interessado, declarou que nada poderia ser feito. Isso é o sistema!
Escrevi a seguinte carta aos psiquiatras Clemeusen e Schröder:

20 de outubro de 1933
Dr. Wilhelm Reich
Stockholm, Vanadisvägen 42

Professor Schröeder e Dr. Clemeusen


Copenhagen
Clínica Psiquiátrica
Hospital Commune

Foi sua clínica que relatou a polícia minha suposta prática da


medicina em Copenhagen. Esclareci o caso e o seu engano sobre
isto bem como sua falta de conhecimento psicanalítico provando
que era incapaz de lutar de qualquer maneira com uma mulher

226
histérica que estava me pressionando.
A despeito disso, o senhor foi capaz de impedir a prorro­
gação da minha permanência na Dinamarca. Por essa ocasião
o senhor certamente terá percebido que suas ações foram con­
trárias aos princípios éticos os quais unem a profissão da medi­
cina em todo o mundo, e essas ações vêm do ódio á psicanáli­
se a qual o senhor desconhece completamente, e por outros
motivos óbvios que não podem ser mencionados aqui.
O senhor não ofendeu nem a mim nem a psicanálise. O
senhor promoveu, entretanto charlatanismo na Dinamarca e rou­
bou a oportunidade à um grande número de indivíduos que es­
tavam seriamente interessados nisto e dedicados à ciência, a
oportunidade de adquirir conhecimento e técnica científica que
podem abrigar um raio de luz na escuridão que circunda a psi­
quiatria, meu campo profissional.
O senhor deve se orgulhar de ter sido o primeiro a em­
preender tal ação contra a psicanálise.
A história da ciência e suas lutas registrarão isto como um mo­
mento curioso e por outro lado silenciosamente passa por so­
bre isso.
Não vale a pena protelarmo-nos sobre este assunto quan­
do mesmo psiquiatras como Blenler, Pötzl e Schilder acham
difícil se conformarem com suas táticas.
Normalmente um psiquiatra médico cauteloso é simplesmente
um policial que deve vigiar os doentes mentais e também se
assegurar de que um psiquiatra-sexólogo razoável chegue muito
perto deles. As ações desses indivíduos se estendem além dos
confins da Dinamarca, seus efeitos são mantidos pela lei da
inércia.
Assim me deram um exemplo sentido na própria carne,
do que ocorre quando se é pego nas malhas da burocracia
formal.
No momento, tinha que me despedir de meus alunos,
porém fiquei com eles até depois do ano novo (quatro sema­
nas) em Malmõ, Suécia do outro lado do som de Copenhagen.
Eles queriam alugar um barco e deixá-lo fora do limite das três

227
milhas em águas neutras para continuar seus estudos. E isto
apesar do fato de que Freud em resposta a indação tinha expres­
samente declarado que ele não havia me enviado a Dinamarca
como um professor, por causa da minha crença comunista. As­
sim “argumentos lógicos” se acumularam. Para Freud eu era um
comunista, para os comunistas eu era um freudiano. Em outras
palavras eu era “perigoso”. Viajei para Londres não sem causar
suspeita na fronteira (um alemão!). Queriam dificultar, mas quando
expliquei que tinha intenção de enviar meu carro depois para que
pudesse dar um giro pela Europa na primavera, eles tornaram-se
mais simpáticos.
Meu carro foi de valor inestimável no futuro também.
Os analistas que mais temiam meu trabalho viviam em Lon­
dres, assim era impossível me fixar lá. Ainda assim eu queria
falar com Jones, o presidente do IPA. Em Copenhagen - onde fui
forçado a partir - ficaram lá, como um dos mais altos represen­
tantes da disciplina analítica o filósofo Neesgard, um estranho e
então chamado “analista selvagem”, e um psicólogo de grande
profundidade, reverenciado especialmente entre os doutores, um
cavalheiro que tinha estado quatorze dias com Groddeck.
Em Londres encontrei alunos de Berlim e também travei
conhecimentos com Malinowski, tivemos um bom relacionamen­
to logo de imediato. Ele havia recomendado meus livros “A inva­
são da moral sexual compulsória” na América e tinha esse livro
em alto conceito dizendo que eu era o único cujo entendimento
do meu livro “A vida sexual dos selvagens” tinha sido produtivo.
Me senti bem entre o seu grupo de alunos, havia uma camarada­
gem. Senti-me menos a vontade numa palestra de um etinologista
onde a conferência vergou sobre algumas coisas concernentes
a idade média. Nessa ocasião sem aviso prévio Malinowski, após
ter falado, anunciou que seu amigo Reich tinha agora alguma
coisa a dizer. (Nós tínhamos realmente nos tornado amigos, mas
queria esmurrá-lo por ter me chamado inesperadamente).
Já que tinha caído na armadilha não tive outra alternativa e
tive que falar em inglês. Declarei o que tinha achado sobre o
tema discutido no momento e para minha surpresa fui bem.
\
228
Não posso me lembrar o que foi que disse mas Malinowski
estava satisfeito.
O grupo psicanalítico inglês era estranho. Assisti à uma
reunião conduzida dentro de uma formalidade rígida. Na casa
do Jones houve uma reunião com os membros do quadro de
diretores onde expliquei meus pontos de vista. Em princípio hou­
ve uma aceitação geral, especialmente em relação a origem
social da neurose, mas realmente eles não queriam fazer nada
com isto. Política e ciência, disseram eles não se pertencem.
Entretanto, apesar de todo meu “insight” não tinha com­
preendido porque minha pesquisa sobre as origens sociais da
neurose deveria ser considerada “política”. Jones foi cordial
como sempre, mas sempre cavalheiro em outras palavras -
não se envolver a qualquer preço. Ainda assim, ele declarou
que iria se opor veementemente à minha exclusão do IPA. Es­
tava desavisado naquela época de que minha exclusão era um
negócio já estabelecido do qual Jones devia estar ciente. Ele
também sabia do meu relacionamento com Malinowski que foi
o primeiro a rejeitar a natureza biológica dos conflitos criança-
pais e substituir isso por uma interpretação baseada na sua
investigação sobre tribos matriarcas. Em oposição a isto Jones
declarou anos antes em suas polêmicas cáusticas contra
Malinowski que o não complexo de Édipo não tinha conexão
com sociologia e era o universal “fons et origo”.
Foi também o grupo inglês do IPA que lutou pelo fato de
que ansiedade neurótica na criança era biologicamente basea­
da na fraqueza do ego da criança, já que lutava contra os ins­
tintos. Era um pensamento correto para uma sociedade que
produz crianças doentes e "apto a cultura” na idade de seis
meses através de um treinamento rígido da toilete.
Nessa época estava ocupado com planos para trabalho
experimental. Pretendi ou confirmar ou refutar minha antiga idéia
da natureza elétrica do orgasmo. Em Copenhagen com base
no conhecimento de fatos psicológicos tinha formulado uma
hipótese por escrito, que o orgasmo era uma descarga elétrica.
Agora gostaria de ouvir a opinião de um fisiologista. Visitei

229
Wright, diretor de um instituto da Universidade de Londres. Quan­
do lhe perguntei sobre as possibilidades técnicas disponíveis para
conduzir cargas elétricas na pele e medi-las ele respondeu: “você
está maluco! Isto é impossível”. Ele não sabia como eu, do fato
de que havia pilhas de jornais de pesquisa sobre o fenômeno
Tarchanoff nos arquivos científicos. Entendi suas experiências
pertencentes apenas às contrações musculares.
Com exceção de Malinowski, todos que encontrei me im­
pressionaram como sendo impotentes em face dos eventos. Este
clima tornou-se universal apenas após a “Paz de Munique” em
1938. O povo percebeu a base, a injustiça, o fiasco político e a
insanidade humana em que tinha sido enganado.
Uma passividade paralizante imobilizava mesmo os jovens co­
munistas que tinham emigrado para Londres. De tudo isso (gran­
des gesticulações e retórica) ficou a falta de compreensão dos
fatos.
Fui a Paris, onde alguns funcionários chefes visitaram-me
no meu hotel. Eram membros do partido Trotskista e do SAP
(partido socialista da Alemanha) os quais ainda eram associados
nessa época. Todos tinham lido meu livro “Psicologia de massa
do fascismo”, concordavam com minhas idéias - teoricamente!
Umas poucas perguntas foram suficientes para me mos­
trar que eles queriam admitir o papel do irracionalismo na políti­
ca, mas se recusavam a formular a pergunta em termos práticos.
Concordaram que a repressão sexual social escraviza e entorpe­
ce as pessoas e assim contraria a rebelião contra a repressão
em geral, mas a resposta prática oferecida pela política sexual
foi estranha para eles. Como seres humanos eram entusiasma­
dos mas como políticos eram completamente destituídos.
Pela primeira vez experimentei a contradição distinta entre
o ser humano e o funcionário na política. Era evidente que queri­
am me alistar na organização do partido, mas nessa ocasião es­
tava indeciso sobre o valor de uma nova ligação com partido e
um sentimento vago me reteve de me comprometer.
Assisti diversas reuniões dos emigrantes alemães. Nada parecia
ter mudado. As discussões ter mudado. As discussões sobre as

230
“categorias da consciência de classe” e o “papel da vanguarda”
continuavam jovialmente.
Estremecia quando me perguntei que tipo de estrutura
psíquica podia Hitler experimentar em 1933 e não sentir que
estas discussões escolásticas eram impensáveis.
Em uma dessas conversas coloquei uma pergunta ino­
fensiva: poderia alguém dizer cinco elementos concretos de
consciência de classe? Um jovem mencionou “fome” e foi essa
a extensão da resposta. Depois de retornar a meu hotel, rascu­
nhei um esboço de um artigo intitulado “O que é consciência de
classe?”
Duas semanas mais tarde no tirol terminei e foi publicado logo
depois com o pseudônimo de Ernest Parell.
Tratava da contradição estrutural dentro do homem mas­
sa, a necessidade da política de massa a ser orientada em di­
reção às necessidades em vez de categorias e experiências
relatadas do trabalho de política-sexual na Alemanha. Nesta
brochura assumi uma posição em favor do movimento comu­
nista, mas por hora eu já era contra o sistema comunista. Senti
que pertencia ao partido, mas minha posição era aquela de
membro mal compreendido e maltratado em oposição.
A conseqüência das críticas ao partido e à política em
geral ainda não tinham sido sentidas. Assim procurei uma nova
organização social revolucionária que estava querendo apren­
der lições produtivas da catástrofe. Muitos dos meus ensaios
político-psicológicos dessa época eram baseados nisto.
Foram necessárias experiências posteriores para me li­
vrar completamente dessas ilusões e me fazer perceber o pro­
blema da organização ideológica mas de há muito havia para­
do de ser realidade. Desfrutei do ambiente de Paris por alguns
dias mais e depois parti para Basel. Max Hodann havia chega­
do lá, tendo tido a sorte de escapar depois de passar seis me­
ses num campo de concentração. Notei que ele não quisesse
comprometer e estava mesmo mais distante de estar atento à
presente catástrofe que eu. Eu lhe disse que pretendia publicar
um jornal que tratasse de psicologia política e que sua colabo­

231
ração organizacional parecia possível, mas disso não se concre­
tizou.
Em Zurique visitei Fritz Brupbacher. Esse sexólogo
desgastado pela experiência nunca deixou de me fascinar. Por
décadas tinha vivido através de todas as alegrias e tristezas dos
movimentos operários e seu livro “Quarenta anos de heresia” que
foi publicado dois anos mais tarde, é um relato brilhante da mes­
quinhez nesse movimento. A conclusão entretanto, significa re­
signação. Brupbacher perdeu toda esperança. Reagi contra, ex­
plicando que a ciência não tinha de modo algum dito sua última
palavra e que especialmente um desenvolvimento retrógrado era
impossível. Apesar de concordar com sua crítica a questão per­
manecia vivêssemos nós ou não para ver o resultado.
No Tirol, visitei meus filhos e minha ex-esposa após sete
meses de separação. Não havia nenhum sinal dos acontecimen­
tos miseráveis e reações humanas que devastaria nossas vidas
menos que seis meses mais tarde.
Em Viena, seis semanas antes da catástrofe em fevereiro
tudo corria no seu curso normal. Os comunistas estavam prepa­
rando a revolução, os social-democratas estavam fazendo con­
cessões adicionais no interesse da democracia e a reação políti­
ca fez um progresso tranqüilo enquanto o povo não teve posteri­
ores notícias dos “poderes históricos” e o “conflito das forças pro­
dutivas”. Estavam simplesmente deprimidos e famintos, tinham
tribulações em suas famílias e ocasionalmente discutiam políti­
ca. Queria viajar para Suécia via Praga onde esperava encontrar
amigos. Estava interessado na reação dos meus conhecidos
quanto aos acontecimentos da época. Em nenhum lugar encon­
trei um traço de vontade ou determinação para compreender.
Não havia nada além de ilusão sobre o apoio esperado da
Igreja, os poderes do Ocidente, o exército alemão, e naturalmen­
te acrescente consciência dos operários de fábrica. Esforços atra­
sados para a unificação da fronteira entre comunistas e social
democratas ocupara o pensamento corrente.
O conceito de fronteira, o povo socialista, juntamente com
a burguesia não tinham nascido ainda. Em conversa, cautelosa­

232
mente tentei dirigir a atenção para as reações irracionais da
massa. A psicologia de massa tinha sido bem recebida, nenhu­
ma sugestão de entendimento pode ser descoberta.
Palestras sobre política em si parece ser parte do
irracionalismo da sociedade. Essa questão veio à mente pela
primeira vez. Não estava disposto a reconhecer como válida a
resposta confortável de que política não era interesse dos cien­
tistas. Política era um fato sobre o qual tudo dependia; mas o
que era isso realmente? Como isso funcionava? Assim procu­
rei o núcleo racional dos políticos de esquerda, usado como
critério a compreensão da reação adversa da massa na Alema­
nha.
Não havia compreensão e mais que isso a questão era
rejeitada com sucesso. Fiquei muito surpreso com o fato de
que um anteriormente entusiasta do meu trabalho na Alema­
nha que mesmo tinha sido um opositor à liderança do partido
tinha virado completamente. Mais tarde entendi que seguindo
um problema continuamente torna-se um strain mental grave e
que uma ida ao partido alivia momentaneamente esse strain.
Para me ocupar da longa volta através da Polônia, quis
viajar pela Alemanha. As pessoas disseram que isso era uma
loucura, mas senti que se não houvesse listas mantidas na fron­
teira poderia me arriscar. Realmente não era justificável devido
a possibilidade de ser preso, o que existia em todo lugar. Quan­
do fui informado de que não havia listas decidi tentar. Senti-me
pouco a vontade na fronteira, mas nada aconteceu.
Em Berlim tive uma parada de três horas. A cena nas
ruas eram desalentadoras. Havia soldados por todos os lados;
as pessoas pareciam deprimidas, seus movimentos eram le­
tárgicos, havia um vagar nervoso.
Uma a miga foi notificada da minha chegada e ficamos
algum tempo num restaurante de primeira classe na estação.
Quando estava embarcando no trem para Dinamarca, um ho­
mem que passava olhou para mim muito espantado. Pensei
que havia reconhecido o rosto mas não sabia de onde e não
sabia se deveria cumprimentá-lo.

233
Muitos comunistas tinham se tornado fascistas. Todos os
pelotões da “Arbeiterwehr” tinham se alistado no SA. Nenhum
camarada tinha ficado. Para que serve convicção? Como é pos­
sível arriscar uma vida por uma idéias durante anos e de repente
arriscá-la da mesma forma entusiástica por uma outra?
Alusões a corrupção, falta de convicção, etc., eram sem
sentido. Não era a natureza dos partidos em geral a sistematiza­
ção de vários sentimentos contraditórios? Não era meramente
um caso de ponto de vista mundial sobre a guerra com cada um,
aparentemente, interessados em coisas materiais? Mas cente­
nas de milhares mudaram sua posição em defesa de uma idéia
advogando o oposto. Tudo estava num estado flutuante, nada
parecia constante e neste meio tempo, velhos amigos e conheci­
dos inocentemente continuavam a se agarrarem às organizações
nomeio do caos. Como explicar tudo isso? Impossível! Talvez eu
estivesse apenas imaginando isso. A existência de classe e a
luta de classes estavam acima de qualquer dúvida! Mas as pes­
soas cujo bem estar foi envolvido jogado de um lado para outro,
sem direção como se estivessem inconscientes. Conheci isso
nos dois lados da fronteira da Alemanha, haviam operários em
diversos campos que mantinham ligações ilegais com os grupos
do partido e arriscavam suas vidas por isso. Entretanto, quando li
seus relatórios em publicações oficiais, fiquei convencido que
aquilo não era a realidade apenas fantasia, ou super valorização
da realidade por indivíduos famintos por liberdade social.
Há uma profunda divisão entre aqueles indivíduos e as gran­
des massas, os dois são incompatíveis. Por um lado há a lealda­
de que desafia a morte e o entusiasmo, por outro lado apatia e a
capacidade de ser influenciado por conceitos confortáveis de ide­
ologia medieval. Como esta distância poderia encurtar e quan­
do? Isso dependeria unicamente do próprio sacrifício da ativida­
de política de um grupo de revolucionários entusiastas? As dúvi­
das da própria satisfação dos intelectuais em relação a esta cor­
rida nervosa para a luta são justificáveis? Certamente que não!
Eles não têm o que colocar no lugar disso. Onde está a respos­
ta? Somente o curso dos acontecimentos mostrará e apenas

234
àqueles que estiverem livres de ilusões serão capazes de per­
ceber. Para aqueles que duvidam por causa do medo, o misté­
rio permanecerá.
O trem passava através dos conhecidos campos alemães.
Externamente nada parecia ter mudado, todavia um continente
estava estremecendo.
Em Trälleborg alcancei o solo sueco acompanhado por
Elsa Linderberg que me encontrou em Berlim. Planejei primei­
ramente me fixar em Malmö e depois decidir onde ir.
Malmö não era atrativa. Poderia ter ficado em Londres
mas meu aluno alemão Dr. Käthe Misch me disse que Jones
usurpou o trabalho de todos os colegas famosos. Além disso,
Londres era puritana e eu estava vivendo com minha compa­
nheira sem os benefícios de uma certidão de casamento.
Nós não queríamos nos casar. Estávamos felizes juntos
sem a certidão de casamento porque sabíamos que isto era
mais que uma formalidade, conferia o direito de explorar e sub­
jugar um outro ser humano. Não queríamos isto. Além do mais
haviam alunos dinamarqueses esperando por mim entre os
quais me sentia muito bem. Haviam começado gradualmente a
entender meu trabalho e eram extremamente leais.
Chegaram cartas de colegas e antigos alunos de Berlim
que Malmö era mais perto portanto melhor que Londres, que
ficava mais distante. Em resumo: eu preferiria a situação de um
asilo desagradável do que uma nova carreira numa cidade me­
tropolitana. Nem estava eu para arrepender-me de minha deci­
são apesar de mais uma vez parecesse a mente convencional
uma reação maluca.
Um aluno de Copenhagen esperou-me em Malmö. Re­
servou quartos separados para mim e para Elsa Linderberg num
hotel pequeno na raça do mercado. Assim que entrei na cida­
de, fiquei temeroso. Era comum, todos os dias, um medo infun­
dado. Malmö é uma dessas pequenas cidades na qual o tédio
cria o fascismo. Devia ficar lá por seis meses, pelo menos era
melhor do que um campo de concentração. O hotel era horrí­
vel, abafado, frio, e cheio de mulheres velhas sozinhas que nos

235
espreitavam.
Alguns senhores velhos bem vestidos, usando monóculos
e bengalas conversavam polidamente sobre assuntos civilizados
com as senhoras que tricotavam. Jantamos rapidamente, cada
um de nós dissimulando nosso medo da cidade e do hotel. Era
exatamente o ambiente oposto que tivemos quando estávamos
sozinhos e podíamos respirar livremente.
Em outubro de 1933 (dois meses antes) o editor da
Weltbühne escreveu uma carta cheia de confidências inabalá­
veis e sem o mínimo “insight” em relação ao futuro.
Dois anos mais tarde estava mentalmente e politicamente
destruído. Alguns médicos de Copenhagen estavam interessa­
dos no meu trabalho mas a associação de neurologia cancelou
um convite que me foi feito para fazer uma conferência quando
se soube que o Ministro da Justiça era contra mim.
O jornal de pesquisa social de Frankfurt foi forçado a se
refugiar em Paris e eu re-estabeleci contato com ele lá. O diretor
do instituto de psicologia da Universidade da Noruega escreveu-
me uma carta se referindo a uma aluna para tratamento. Meu
livro “Análise do caráter” estava começando a exercer alguma
influência. Quatro anos mais tarde quando a “Análise do caráter
tinha se desenvolvido dentro da vegetoterapia, esse mesmo di­
retor tornou-se um inimigo. Uma analista em Oslo tinha me reco­
mendado um homem bem conhecido para estudar e estava para
me visitar em Malmö, com ele. Recebi uma carta de reconheci­
mento de Friedrich Kraus, um famoso internist de Berlim. Havia
muito a ser feito. Transformei meu quarto em consultório e como
minha biblioteca estava em Copenhagen meus amigos concor­
daram em me trazer tudo que precisava.
Minha companheira à qual estava muito agradecido pela
atitude que teve durante aquela época, tive receio que ela não
pudesse continuar o trabalho que tinha começado em
Copenhagen. Ocorreu a um amigo que meus alunos pudessem
levá-la como se fosse dinamarquesa. Isto funcionou durante seis
meses, período em que ela não era aceita legalmente na Dina­
marca. Estava sempre sozinho, quatro dias por semana tinha

236
tempo para 0 trabalho científico. Meus alunos me visitavam cada
dia sim dia não por uma hora e meia. A viagem através do
estreito e a volta levaram três horas. A tripulação do navio, a
polícia de ambos os lados, professores e higienistas sabiam
exatamente o que estava acontecendo. Notícias de nossas ati­
vidades tinham se espalhado rapidamente. O povo estava es­
pantado mas não entendia.
Leunbach trouxe meu carro para Copenhagen. Nos nos­
sos dias de folga fazíamos excursões no campo no sul da Sué­
cia. Um domingo já tarde da noite vimos duas moças descendo
a estrada exaustas. Parei o carro e as ofereci uma carona. Logo
a conversa versou sobre o valor do casamento. Elas eram sol­
teiras mas esperavam ter seus próprios lares logo. Viver com
os pais era difícil porque pouco era permitido a elas fazer.
Por outro lado era agradável ter suas mães cuidando de
todo o trabalho doméstico. Perguntei se era possível nos ver­
mos novamente e elas disseram que seria um prazer. Já que
estava sempre sozinho, minha mulher sugeriu que telefonasse
para elas. Talvez isso ajudasse a ultrapassar minha solidão.
Um dia eu as chamei, e apesar de uma delas estar ocu­
pada a outra disse que gostaria de me encontrar na estação.
Nos encontramos e vagamos juntos pelas ruas, conversando
em inglês. De repente ela se sentiu incomodada. “Alguém está
nos seguindo”, disse ela. Eu virei para olhar. Ela tinha razão,
um senhor alto com uma bengala e dergy estava nos seguindo
à uma distância de dez passos.
Ela o reconheceu, era seu tio. Logo depois eu parei e
pedi-lhe que me apresentasse a ele. Nossa conversa acabou
então, mas o tio se interessou em mim. Quando foi pego ficou
bastante desconcertado. Nos o convidamos para se juntar a
nos. Depois de uns dez minutos de gracejos convencionais ele
pediu desculpas e nos deixou. Então ela começou a reclamar:
sempre era assim, ela não podia nem mesmo andar sozinha;
sem dúvida sua mão tinha pedido a ela para protegê-la, ele
estava presente quando eu chamei-a; mas ela não era mais
criança, ela estava com vinte e três anos e estava na Universi­

237
dade. Começou a chorar e pedir desculpas. Tentei saber se ha­
veria desavença em casa. Ela seria capaz de agüentar isso, ape­
sar da situação não ser mais tolerável. (Essa não era uma
bolchevista, era uma mulher apolitica). Ela teria gostado de con­
versar comigo por mais tempo, porque nunca tinha encontrado
alguém diferente daqueles que já conhecia até o ponto máximo
do tédio. Mandou lembranças para minha mulher e disse que me
chamaria a qualquer momento. Toda cidade pequena é como
Malmö, e dessa época em diante desisti de fazer amizades. Era
mais perigoso que atividades criminosas.
Minhas publicações eram conhecidas na pequena cidade
universitária de Lund. A organização estudantil Clarté tinha até
mesmo traduzido algumas. Grupos de discussões sobre meus
trabalhos aconteciam regularmente. Quando a esposa de um
professor de história soube que eu estava morando em Malmö
em exílio, ela me convidou para visitá-los em casa. Logo tive um
bom relacionamento com seu marido; professores universitários
são bastante amáveis em suas casas. Eles tinham uma filha de
dezoito anos, cheia de idéias modernas, mas a mãe a encarava
e as idéias eram logo apagadas. Tinha lido a “Invasão da moral
sexual compulsória" e a “Análise do caráter”, etc., e estavam ex­
tremamente interessados. Fizemos muitos passeios pelo campo
e então de repente percebi as primeiras indicações de um pro­
blemas em nosso relacionamento.
Então deixei o relacionamento se esfriar, dizendo que esta­
va cheio de trabalho. Nunca havia agido com tanta previsão. A
polícia não podia suportar a situação. Aqueles dois estrangeiros
vivendo num hotel por seis semanas não eram casados. Todos
os dias visitantes vinham pelo “ferry boat” da Dinamarca. Agora
em Malmö a polícia tinha pouco a fazer. Era uma cidade calma,
faltando mesmo prostituição, uma cidade na qual a civilização
podia dormitar em paz. Não havia crimes.
As dez da noite os jovens andavam pelas ruas em grupos
separados do mesmo sexo e alegremente sorriam uns para os
outros sentindo-se arrojados mas de maneira envergonhada. Ho­
mens nos seus vinte anos ficavam de pé nas esquinas e faziam

238
comentários sobre as moças. Assim a polida não tinha nada
para fazer e tinham que prestar atenção em dois alemães que
estavam vivendo num hotel por algumas semanas e que rece­
biam visitas reguläres, que possuíam passaportes válidos mas
estavam vivendo em Malmö, apesar de que não causavam ne­
nhum problemas e estavam registrados apropriadamente na
polícia. Isto era muito conspícuo, o casal tinha que ficar sob
vigilância. Um detetive contratado para observá-los portrás das
cortinas de um escritório no lado da rua, o qual foi notado por
mim.
Depois, um espião facilmente reconhecido como tal foi
colocado em frente à entrada do hotel. Passei por ele e olhei-o
inocentemente nos olhos. Ele reagiu como se não soubesse
quem ele era e o que estava fazendo lá; reagiu até mesmo
como se não soubesse que eu sabia o que ele estava fazendo
lá. Isso atraiu ainda mais atenção e suspeita. Esse alemão passa
em frente de nosso detetive de maneira como se nada tivesse
acontecido, tomaram medidas mais severas. Começaram a in­
terceptar meus alunos na entrada, os levaram ao chefe de po­
lícia e lhes perguntaram o que estavam fazendo (“Democra­
cia”!) O que aquele alemão estava fazendo em Malmö; vivendo
“lá em cima com aquela senhora” fora do casamento, e as vis­
tas deitadas no sofá? Treinamento psicanalítico? Que coisa
estranha é esta? Um daqueles negócios de bolchevistas? Meus
alunos calmamente responderam às perguntas. Finalmente me
chamaram também e me fizeram as mesmas perguntas. Pude
apenas reagir perguntando: “Do que sou acusado?” “De nada!”
“Então porque as perguntas?” Desconcerto! Sim, porque esta­
vam eles me questionando realmente? Perguntas posteriores.
Minha resposta: “Queria declarar expressamente, minha von­
tade de fornecer qualquer informação que pudessem desejar.
Mas primeiro devo saber quais são suas acusações ou suspei­
tas?” Quem está sendo inquirido aqui, você ou eu? O policial
retrucou. “O senhor está fazendo perguntas! Do que sou acu­
sado? Grande desconcerto! Então se tornaram mais simpáti­
cos. “Bem não é nada sério” ou algo parecido. Eu disse a eles

239
“Façam o que quiserem, podem ver meus papéis quando quise­
rem” e saí. I s s o causou mais suspeitas; um camarada peculiar
esse alemão. Uma vez estava andando pelo porto e me pararam
“Seu passaporte, por favor".
Em maio meu prazo expirou; não pude mais permanecer
na Suécia sem uma permissão especial. Pedi uma prorrogação.
O pedido de permissão para voltar quatro semanas antes do fim
do período de seis meses de afastamento mandatário já tinha
sido submetido ao ministro da justiça da Dinamarca e já tinha
sido negado sem qualquer explicação.
Nesse meio tempo, nem a polícia nem os psiquiatras ti­
nham sido negligentes. Não pude entender do que estava sendo
acusado de acordo com suas leis. Em abril a polícia de Malmö
tentou dar uma busca em meu quarto.
Aconteceu desse modo. Meu colega Philipson estava co­
migo para uma seção analítica. De repente houve uma forte ba­
tida à porta “polícia, abra”. Dois típicos detetives entraram rapi­
damente no quarto. “Temos que dar uma busca. E quem é este
homem?” Controlei minha raiva a essa manifestação de poder
anônimo e convidei o cavalheiro a inspecionar minha escrivani­
nha. O manuscrito sobre a “Antítese básica da vida vegetativa”
estava na máquina de escrever. Eles não deram importância a
isso e com um incrível gesto ingênuo de curiosidade leram umas
poucas linhas, pareceram desapontados e estavam para conti­
nuar a busca quando eu me levantei e me pus em seu caminho e
pedi a permissão para busca. Já que não tinham nenhuma fica­
ram constrangidos e desapareceram resmungando qualquer coisa
que supus ser uma desculpa.
No dia seguinte ouvi dizer que o apartamento do Philipson
tinha também sido revistado mas, inutilmente. Nossas atividades
criminosas eram de um tipo que não lhes era ainda familiar. A
polícia dinamarquesa e sueca tinham coordenado suas ações. E
todo esse esforço era devido a não entenderem o significado da
palavra psicanálise.
Meu pedido de prorrogação do visto foi negado pela polí­
cia. Foi desagradável. É difícil interromper um trabalho analítico

240
sem complicações. Protestei junto ao ministério de imigração,
mas ninguém realmente sabia porque eu não tinha recebido
uma prorrogação. As decisões burocráticas são regidas pelas
suas próprias leis. Tão logo escritório tem sua decisão o curso
que o assunto tomar não está mais relacionado com a questão
envolvida, mas é manipulado de acordo com artigos, parágra­
fos e arquivos em ordem alfabética.
Tornou-se necessário agora imobilizar um conjunto dife­
rente de formalidade para neutralizar isso. O chefe de polícia
intimou Elza Lindenberg e eu para comparecer. Houve uma
grande encenação. O todo poderoso sentado sobre um pódio
parecido com uma cadeira de juiz, obviamente consciente de si
mesmo mas assumindo uma pose napoleônica.
À sua direita e à esquerda havia estenógrafos e dois fun­
cionários como testemunhas. Tivemos que ficar de pé em luga­
res determinados. Então ele leu a interdição: eu tinha quer sair
da Suécia em 24 de maio. Eu não disse nada e saí.
Nosso amigo Sigurd Hoel, que estava em Malmö contra­
tou imediatamente um advogado, mas como o advogado esta­
va com mais medo da policia e da lei que o próprio criminoso,
nós o dispensamos. Hoel então enviou telegramas a Ström um
parlamentar sueco, bem como para Freud e Malinowski e para
nossos amigos em Oslo. Dois jornalistas de Copenhagen bem
conhecidos vieram a Malmö e visitaram o chefe de polícia jun­
tamente com Hoe. Eles perguntaram se ele não sabia que es­
tava com o futuro ganhador do prêmio Nobel em suas mãos. O
oficial ficou profundamente alarmado e foi enganado pela peça
- como acreditei que fosse - apesar de que meus amigos esta­
vam realmente convencidos de que era um prêmio Nobel em
potencial.
Ele disse calmamente que eu deveria fazer um novo pe­
dido que certamente seria concedido. Nesse meio tempo che­
garam e saíram montes de telegramas para e de Ström. O as­
sunto chegou do Ministro da Justiça e ele quis se manter infor­
mado. Em caso de extradição, eu tinha que apelar ao seu mi­
nistério.

241
Não entendi porque simplesmente não deu ordens para pror­
rogação do meu viso, mas esses são segredos de estado e in­
compreensível aos simples mortais. Ström informou Hoel por carta
que a recusa ao meu pedido de prorrogação foi devida a “infor­
mação” fornecida por um inimigo pessoal meu.
Negócios de estado! Mais tarde fui informado de que os
psiquiatras de Copenhagen tinham contatado o ministro da saú­
de da Suécia. Assim um completo anti-sexual pode influenciar o
funcionamento do governo.
Malinowski escreveu uma carta cordial. Freud, entretanto
escreveu apenas “Não estou capaz para expressar apoio a seu
protesto no caso do Dr. Wilhelm Reich”. Todo o caso foi ridículo.
Fez com que eu parecesse perigoso quando eu não era. Des­
truiu a fachada das mais altas e respeitadas instituições e foi
asqueroso. Para escapar de uma humilhação o chefe de policia
postergou minha residência até que uma decisão oficial chegas­
se sobre o apelo que eu teria que submeter ao Ministro da Imi­
gração. Eu rejeitei. Sem negociações futuras, permaneci sem
ser molestrado no hotel até que meu caso tivesse sido estabele­
cido. Hoel e eu conseguimos uma viagem ilegal para Copenhagen
durante as férias de verão e de lá para uma casa no interior.
No dia 4 de junho de 1934 fui de carro para Helsingör onde
eu não era conhecido. Foi num domingo, meu carro estava com
chapa da Dinamarca e um dinamarquês e um norueguês esta­
vam comigo no carro. Começamos a falar bem alto em dinamar­
quês. Tudo foi bem e rimos bastante no outro lado da fronteira.
Em Sletten vivi com o pseudônimo de Peter Stein. Todos os fun­
cionários oficiais da policia estavam atentos para o fato, mas pa­
reciam que secretamente estavam me desejando boa sorte. Es­
tava esperando a visita de meus filhos que não via há muitos
meses.

242
8
O Congresso Psicanalítico de Lucerna
Agosto de 1934

Então: Há poucas coisas mais trágicas do que o fracasso


de um homem devido a ignorância em agir racionalmente, quan­
do a resposta certa está tão perto, e a dita ignorância causada
por medo de ver a verdade a tempo.
No congresso de psicanalistas em Lucerna o desenvolvi­
mento dos conflitos dentro da Associação Psicanalítica Inter­
nacional alcançaram seu clímax na eliminação de Wilhelm Reich
da organização pela profundidade da psicologia nas circuns­
tâncias em que foi realizado, e o fato de que com Wilhelm Reich
a teoria da libido de Sigmund Freud tornou-se desabrigada.
Seguimos W. Reich espantados em seu torturado cami­
nho em 1934. Ele parece não saber o que está afetando, por
que, e como. Ele é crédulo e confiante como uma criança a um
grau inacreditável num homem que está a frente de um famoso
psiquiatra. Ele se recusa desistir da organização de Sigmund
Freud. Ele quer ser expulso. Na época isso parecia estúpido,
danoso e incompreensível. As coisas não são usualmente fei­
tas desse modo. Para se livrar de alguém de quem não se gos­
ta, deve-se convencê-lo que seria melhor para ele pedir demis­
são “por vontade própria” do que ter uma saída aborrecida, que
ele declare sua lealdade e deixe tudo seguir seu curso em paz
sem tumultos desnecessários. W. Reich de qualquer forma
percebe que o escândalo estaria associado ao movimento psi-

243
canalítico todo o tempo. Ele sabe que é o único representante da
teoria psicanalítica científicas natural. Ele ainda não sabe que
isso o levará a descoberta da energia da vida.
Ele também possivelmente não deve saber que, como con­
seqüência dessa luta, a situação na psiquiatria refletira sua posi­
ção nos Estados Unidos dezesseis anos mais tarde.
A teoria do instinto de morte que foi estabelecida como uma eva­
são das graves conseqüências sociais da psicanálise totalmente
assentida em 1934, está morta em 1950, exceto para uns pou­
cos fracos aderentes.
A posição Marxista se foi: todos seus participantes sobrevi­
ventes estão em silêncio.
Otto Fenichel que a conduzia de uma maneira mais política
do que científica abandonou o barco perturbado de w. Reich em
1934. Mas as conseqüências sociais da teoria da libido psicana­
lítica de 1920 está viva e de fato enraizada na sociedade ameri­
cana no manejo prático da genitalidade das crianças em sua pri­
meira puberdade.
O livro de W. Reich sobre a análise do caráter o qual o IPA
se recusou a publicar por medo dos nazistas e por causa das
contínuas maquinações de Paul Federn; de 1924 até 1934, tor­
nou-se o mais importante manual sobre técnica médica psicana­
lítica, reconhecido em todo o mundo como um clássico. Todo
psiquiatra quer assegurar a todos que está praticando a análise
do caráter. Entretanto, o mundo psiquiátrico ainda tem medo de
mencionar as palavras “orgasmo” e “Wilhelm Reich”.
A orgonomia de W. Reich floresceu nos Estados Unidos. A
descoberta da energia da vida efetuada através de uma busca
consistente da muito polêmica teoria da libido de S. Freud, está a
beira do total reconhecimento público. Elatem salvado muitas vi­
das e salvará milhares de outras.
O livro de W. Reich “A psicologia de massa do Fascismo",
o qual não era permitido ser exposto em Lucerna em 1934 e que
foi condenado como “contra revolucionário” pelo fascismo ver­
melho em 1933, em Moscou apareceu em três edições e milha­
res de exemplares foram vendidos na Europa e Estados Unidos.

244
Foi mencionado em 1949 pelo jornal PM. De Nova York, como
o livro mais solicitado na biblioteca pública de Nova York. Con­
tribuiu significativamente no sentido de estabelecer o uso da
psicologia em sociologia.
Isso era inconcebível em 1927, quando seguindo aque­
las conversas cruciais com Freud, W. Reich começou sua jor­
nada através do reino da sociologia.
A análise do caráter e a psicologia de massa do fascis­
mo, ambos firmemente baseados na teoria da libido de Freud,
percorreram um longo caminho impedindo vitórias das tendên­
cias ascéticas e monásticas da Igreja Católica e do Fascismo
Vermelho nos Estados Unidos. Igrejas diversas foram induzidas
a reconhecer e a acusar a existência da função genital na in­
fância. Puberdade ainda é um dilema manejado por policiais
ignorantes e por um séquilo antivida de psiquiatras orientados
pela hereditariedade à maneira de Schaffenberg da Noruega.
Mas as portas estão totalmente abertas para futuros edu­
cadores e médicos assegurarem a felicidade no amor para ge­
rações vindouras “ crianças do futuro” de W. Reich.
Por último, o pensamento de Freud Verdadeiramente na­
tural científico em psiquiatria, representado por sua adoção ao
conceito de “energia psíquica veio a ser uma aquisição dura­
doura da ciência do homem. A medição das correntes sexuais
no oscilógrafo feitas por W. Reich forneceram a prova da natu­
reza bioelétrica das emoções humanas ( estudos posteriores
que incluíram o uso do contador G.M. estabeleceram que essa
energia não era eletromagnética, mas uma nova forma de ener­
gia física.
Esses são passos largos na luta para o esclarecimento e
proteção da vida humana. Comparados com eles, os aconteci­
mentos em Lucerna dramáticos e trágicos como foram na épo­
ca, pareceram ser uma luz um tanto peculiar.
Houve uma surpresa geral em relação a exclusão de W.
Reich. Anna Freud considerou isso uma “grande injustiça”,
Federn e Jones tinham finalmente triunfado após muitos anos
de tentativa. Nunca teriam sido sucesso sob condições nor­

245
mais. S. Freud tinha se iludido cometendo um grave erro, corren­
do em sentido contrário aos seus “insights” e esperanças nos
anos vinte.
Como um grande cientista pioneiro que foi S. Freud logo
sentiu os desenvolvimentos que W. Reich iria tomar realidade
depois de 1934; o enraizamento da penetração da psicologia na
ciência natural.
A fim de tornar compreensível minha exclusão do IPA eu
devo primeiro voltar para meus esforços em Malmö. Três linhas
significantes emergiram no desenvolvimento do meu trabalho; a
fundação do jornal de psicologia política e economia sexual, pre­
liminares do meu conflito com o IPA do qual ainda era membro, e
finalmente os primeiros começos concretos da economia sexual
biofisiológica.
Não se podia mais tolerar a situação sem um periódico para
disseminar meu pensamento. Muitos escritos estavam esperan­
do ser publicados e as discussões sobre problemas de psicolo­
gia política eram prementes, sabia que nenhum jornal publicaria
artigos meus, além do mais queria ser independente.
Abriu-se uma editora para econom ia-sexual em
Copenhagen dirigida por um imigrante alemão, um professor que
havia colaborado comigo em Berlim que tinha perdido seu em­
prego em 1933.
Nessa época ainda existia um grupo de psicanalistas
dialético-materialistas. Em Berlim deixei com Otto Fenichel a res­
ponsabilidade para unir esse grupo. Eu mesmo o tinha introduzi­
do na sociologia marxista e ele parecia pronto para assumir a
tarefa. Ele mudou-se ara Oslo em 1933. Propus um encontro
com os psicanalistas escandinavos para a Páscoa de 1934. A
proposta foi aceita e Scheldemp psicanalista e diretor do instituto
de psicologia da universidade de Oslo, arranjou para que o en­
contro se desse na universidade. Nossa amiga Dra. Judith
Jacabson, uma participante diligente do movimento veio de Berlim.
(Sua infelicidade posterior em ter passado dois anos numa ca­
deia alemã, pesou muito na minha consciência). Possuía uma
inteligência excepcional e era profundamente humana. Lutas de

246
organizações nos anos subsequentes não foram capazes de
alterar nosso bom relacionamento (infelizmente mais tarde ela
sucumbiu às práticas malignas de uns poucos psicanalistas do
círculo vienense que continuaram com o notável prazer da me­
lhor maneira de difamar o bom nome de W. Reich).
Ela veio a Malmö e viajamos juntos para o encontro em
Oslo, dois dias e meio dirigindo através do interior nórdico. To­
dos nós tínhamos muitas perguntas e preocupações porque
sabíamos que a psicanálise como um movimento não resiste
aos testes do tempo. Sentíamo-nos também responsáveis por
seu destino desde que tínhamos formado uma ala científica
radical - se realmente possa ser esta a expressão apropriada e
como oposição aos filósofos éticos e estéticos das associações
de Berlim.
Nosso grupo era tecido pela amizade e pela causa co­
mum. Percebemos que a psicanálise era uma ciência e não
uma Weltanschauung - e para isso estávamos firmemente se­
guros. Sofríamos oposição como uma Weltanschauung, parti­
cularmente dos Nacional Socialistas porque tudo poderia ter
poderosas conseqüências sociológicas. O fato de que não as
teve foi devido a inibição exercida pela teoria do instinto de morte,
que pareceu ser o caminho ideal para a evasão de questões
sociais. Além disso desconsolou o trabalho clínico atraindo as­
sim os melhores analistas jovens para meu campo.
Isso provou a não existência do instinto de morte, mas
esse não tinha sido ainda substituído por uma teoria melhor.
Qualquer um que entre numa oficina científica completamente
equipada cujos frutos sejam colhidos sem esforço pode rara­
mente entender o que implica a lealdade da oposição. Essa
oposição atuava com a firme convicção de que não estava ad­
vogando uma nova direção de um puro “insight” mas ao contrá­
rio uma aderência a um caminho estritamente científico natu­
ral.
Todos acreditávamos que a causa poderia ainda ser sal­
va dentro de uma associação internacional. O trabalho clínico
válido e diligente tinha que provar sua superioridade; o resto,

247
sentimos que cairia dentro do lugar. Mas tínhamos calculado sem
levarem conta os desenvolvimentos políticos da época. Os acon­
tecimentos que vieram confirmaram nosso princípio, a saber a
ciência nunca é inteiramente objetiva e certamente nunca inde­
pendente das correntes políticas. Assim mesmo tínhamos ilusões
e ainda não tínhamos experiência no papel da organização. A
comédia encenada pelo chefe de polícia de Malmö estava para
se repetir apesar de que ninguém teria ousado predizer os acon­
tecimentos de agosto de 1934. Hoje percebo que nós todos está-
vamos com a doença que chamo “sentimento de pertencer” nin­
guém realmente queria deixar a organização. Tentar perseguir
uma causa oposicional sem risco significava ser um social demo­
crata isto é agir como se fosse. Tudo que eu tinha previamente
sentido sobre o papel das então chamadas táticas e que mais
tarde experimentei pessoalmente devo a liderança de Fenichel
na oposição psicanalítica. Mas sou incapaz de me poupar da acu­
sação de ter sido estúpido e de confiar sem criticismo.
Durante esse tempo estava dominado por uma fraqueza
caracterológica. Entendi ser evidente a todos que se juntavam
ao movimento exibir independência pessoal e desejo de correr
riscos os quais eu tinha desenvolvido através de numerosas ex­
periências dolorosas.
Minha profissão e natureza tinham me equipado para sen­
tir atitudes ofensivas muito antes que elas se tornassem obvias
mesmo para o próprio indivíduo. Reagia a isto de duas maneiras:
se me sentisse pessoalmente perto do indivíduo envolvido diria a
mim mesmo que o que eu tinha percebido não era verdade isto
é, reprimia o conhecimento. Entretanto ou o curso dos aconteci­
mentos iria confirmar regularmente meus sentimentos ou seria
incapaz de afastá-los e romperia o relacionamento na convicção
correta de que o indivíduo era “um traidor da causa".
Meu único erro foi acreditar que o colaborador já estava
traindo a causa na hora sem esperar até que sua mudança de
inclinação revelasse isso claramente a todos. Assim,
freqüentemente eu quebrava um relacionamento numa hora em
que ninguém entendia a razão de minha ação. No caso de Otto

248
Fenichel tive um vago pressentim ento que ele era
carateriologicamente e estruturalmente incapaz de lutar por uma
causa a qual pedia franqueza, um desejo de se arriscar e ex­
cepcional liberdade de compromissos tanto pessoal quando de
organizações. Essas são questões geralmente válidas e regu­
lamentam o curso do desenvolvimento de todas organizações.
Uma organização é formada em torno de uma causa com
o intuito de assegurar-lhe proteção, oportunidade de propaga­
ção e além disso um lar. Simultaneamente, entretanto isto cria
uma contradição. Uma nova causa é vital e esta continua a se
desenvolver contanto que permaneça independente. Esta in­
clui independência dos envolvimentos pessoais de seus defen­
sores. Se ela tem uma grande quantidade de defensores au­
menta a interferência de inibições pessoais o que em
contraposição inibe o livre curso do desenvolvimento. No prin­
cípio isto começa com um atraso e progride para uma exclusão
gentil dos elementos radicais e finalmente acaba com a rever­
são de sua direção e numa adaptação às questões contra as
quais a organização foi originalmente criada.
Se a organização ocorrer muito tarde, perdem-se colabo­
radores valiosos, cuja única falta está em ser incapaz de traba­
lhar sem dependência de um lar e de se manter de pé sozinho.
Se a organização ocorrer muito cedo o atraso e o reverso tam­
bém começa muito cedo, isto é, antes que a causa tenha tido
tempo bastante para ultrapassar sua fase pioneira. Na posição,
todas as forças que criticam a ordem estabelecida devem pri­
meiro consolidar suas teorias dentro de novos conceitos produ­
tivos ante que numa inovação esteja pronta para arriscar um
ensaio como substituição do velho. Assim, o velho é primeiro
negado onde é falso.
Simultaneamente numa oposição honesta saberá exata­
mente o que deseja ( ou se sente compelida a ) apropriar o
antigo desenvolvendo isto posteriormente. Não há valores que
possam ser inequivocamente errados ou inequivocamente cer­
tos: o tempo muda muito em relação a certo ou errado. Certo
atualmente pode se tornar errado amanhã e vice versa. Por

249
outro lado um novo conceito não pode na sua função de crítico
responder a todas as questões imediatamente por causa da difi­
culdade das questões que o confronta.
Não se poderia nem mesmo tentar responder todas as ques­
tões porque isto iria paralizá-lo desde o início. Assim, é impossí­
vel para uma pessoa que deseja derrotar o fascismo ter em seus
dedos todas as medidas positivas que pudessem substituir o fas­
cismo. A questão principal de que a crítica deve corresponder
aos fatos e que o positivo constrói, não dever ser utópico. Mas a
crítica não deve apenas corresponder aos processos reais do
mundo, esta não deve apenas ficar no desenvolvimento avança­
do. Um movimento de oposição de um grupo dentro de uma or­
ganização estagnada ou obsoleta deve fazer mais, deve procu­
rar, encontrar, e saber exatamente quais outras forças no mundo
estão lutando independentemente pelos mesmos objetivos. Só
então há esperança de unificação segura do movimento do gru­
po dentro do processo social.
Neste estágio o objetivo mais importante é elaborar o pon­
to de vista em oposição aquele da organização estagnada. Já
que toda inovação não é meramente a negação do velho mas a
continuação do velho em certa áreas, deve-se considerar apro­
priadamente um terreno comum. Qualquer um que se oponha a
uma causa e reclame que ele apenas deseja defender o terreno
comum de uma maneira mais eficiente, é um idiota, porque ele
não pode defender isto melhor do que a organização precedente
o fez.
Se ele não vir não mais do que o terreno em comum dentro
do movimento que ele critica faria melhor permanecer calado,
porque este é mais forte que ele.
A arte está em formular e defender a oposição deforma a
assegurar era concordância das melhores forças da organiza­
ção. Isto não pode ser substituído por táticas as está fundado na
honestidade absoluta e na consistência apesar da ameaça do
fracasso temporário. Em outras palavras, deve-se ter a força para
se manter sozinho, nunca se esquecendo que membro de orga­
nizações obsoletas vivem em sério conflito.

250
Eles amam a organização a qual pertence e se identifi­
cam com ela; a organização em troca, oferece-lhes proteção e
segurança.
Eles mesmos são mais ou menos opositores em graus
variados. Assim eles automaticamente se simpatizam com uma
pessoa que conhece a organização deles e que aponte onde
ela é ineficaz e quais pontos podem ser melhor manejados. Se
esse indivíduo demonstra qualquer fraqueza, são demonstra­
dos jogos de oposição sem se criar um movimento sério que
transcenda a organização. Os membros de uma organização
tem simpatia cara ou camuflada apenas por um líder da oposi­
ção que dê sinais de que ele está também pronto para uma
inimizada absoluta. Por exemplo numerosos membros proemi­
nentes do partido social democrático simpatizavam com os co­
munistas contanto que os comunistas pudessem ser tomados
como oposição séria.
Um dos pontos fortes do movimento fascista foi o fato de
que não tinha tais dificuldades em superar a oposição, porque
ele não defendia o progresso mas o conforto e a regressão.
Não levantava nenhum problema novo apenas revivia modos
de vida da época de outro. O que era novo no fascismo era a
forma revolucionária que ele deu a questões antigas. Através
disto aproveitou todas as vantagens em primeiro lugar.
No caso da psicanálise a situação era particularmente
complexa. Fenichel não entendeu que não era um problema de
uns poucos amigos que criaram um movimento de oposição
juntos e que o objetivo não foi mostrar consideração às pesso­
as, mas estabelecer claramente alguns princípios decisivos.
Assim ele conduziu a oposição de tal forma que ninguém
nem mesmo soubesse de sua existência. O grupo era para per­
manecer “secreto” e seus membros eram para ser chamados
“analistas marxistas". O nome entretanto não era importante.
As questões é que eram importantes, a crítica dos julgamentos
e o desenvolvimento do insight. Eu devo dar de qualquer forma
uma descrição mais detalhada das situações que hoje são sem
importância em si mesmas mas que são típicas e poderiam ser

251
repetidas à qualquer hora dentro do nosso movimento. Além dis­
so ser historicamente significantes pela avaliação das pessoas
que uma vez desempenharam o papel ou que poderiam outra
vez tornarem-se ativas no futuro. Essas descrições serão tam­
bém úteis para processos similares recorrentes.
Para fazer minha exclusão da organização internacional de
psicanalistas compreensível, eu devo demonstrar minha posição
científica em 1934. Até então fatores políticos pareceram ter sido
fatores essenciais. Em parte alguma havia uma exposição real
apresentada contra meu trabalho. Os princípios da minha teoria
de psicologia política foram aqui e ali mesclados com opiniões de
outras pessoas, e ainda faltavam importantes princípios que fo­
ram elaboradas somente nos anos seguintes. O período entre
1930, o ano do meu primeiro conflito com Freud, e 1934, o ano
do congresso de Lucerna, efetuou grandes mudanças. Não mais
me senti comprometido coma organização e fui forçado a soli­
dão.
Estar só é benefício para a maturação de pensamentos
sérios os quais a gente não procura mas eles vêm como uma
imposição. A dissolução dos laços com um lar ilusório oferecidos
pela organização profissional surge da procura de novos cami­
nhos não apenas quanto a existência material mas também em
relação a existência espiritual. A descrição de alguns problemas
de economia sexual que me fascinaram na época ilustrou a ra­
zão por que em 1934 perdi literalmente todos os meus amigos
dos círculos profissionais. Isso demonstrou que não foi uma falta
de afabilidade, mas coerção interna, motivada tanto pela clareza
quanto pela imprecisão de minhas atitudes no trabalho. Os cinco
anos subsequentes me justificaram completamente.
Meu trabalho social na Alemanha me mostrou que política
sexual baseada em conhecimento científico claro e simplesmen­
te apresentado, constitui numa arma afiada contra o irracionalismo
do nazismo. A prática da psicologia de massa fascista emprega
as forças instintivas inconscientes especialmente o desejo sexu­
al. Sabia da técnica da psicologia de massa em suprir os meios
de dar uma aspiração real em vez da expressão mística. Os me­

252
canismos que os fascistas usavam como meios diabólicos para
escravizar o povo eram os mesmos que dirigiam o povo para
os encontros. O que o fascismo desviou para a mística nega­
ção da vida eu direcionei para o objetivo da felicidade na vida,
com a felicidade sexual em sua essência.
É prejudicial trabalhar com as massas em problemas com­
plicados e super enfatizar as dificuldades envolvidas na sua
solução. Isto paralisa o indivíduo da massa que já tenha se
tornado medroso em face do poder social. Entretanto nos bas­
tidores do trabalho social, cada dificuldade deve ser pega, for­
mulada, e resolvida de acordo com o corpo existente de conhe­
cimento. O marxismo que era economia e não sexologia ou
psicologia nunca pegou o problema ou resolveu-o. A psicanáli­
se forneceu todos os meios para compreensão da atividade
mental do consciente. Mas primeiramente ela se afundou em
teorias falsas; segundo, rejeitou a organização do trabalho so­
cial, e terceiro não entendia os problemas econômicos. Assim,
manter a longa classificação estabelecida da psicologia dentro
da psicologia e libertar a psicologia profunda de conceitos in­
corretos a fim de usá-la de modo mais eficiente, tornou-se o
objetivo. O grupo de então chamado psicanalistas marxistas
viveu sob a ilusão de que a psicanálise e marxismo, psicologia
e sociologia eram para estar unidos.
Eu não estava totalmente isento de culpa nisto. Tinha des­
crito esses relacionamentos previamente em vários jornais mas
não tinha colocado o assunto num quadro organizado. Os psi­
canalistas marxistas viviam e trabalhavam em mundos de or­
ganizações tanto de psicanalistas quanto de movimento de tra­
balhadores marxistas. Não havia nenhuma organização para o
meu trabalho. Consequentemente a atitude dos analistas mar­
xistas permaneceu mecanística, síntese eclética de Freud e
Marx. Eu já havia me livrado disto, mas para executar a ques­
tão corretamente significava perder ótimos colaboradores que
não estavam preparados para dar suporte ao início de um ter­
ceiro movimento. Ao contrário meu trabalho durante esses anos
agüentou a marca das dificuldades criadas pelos compromis­

253
sos da organização de meus colaboradores. A palavra “sexpol"
foi introduzida muito antes e significava organização de política
sexual, apesar de não ter presidentes ou secretários.
Podia ter sugerido tais cargos mas um vago sentimento me
impediu de me comprometer. A estrutura das antigas organiza­
ções parecia impraticável para meu trabalho e planejar uma for­
ma de organização diferente parecia impossível e infrutífero. Isso
não teria sido consistente em relação às questões pois a política
sexual requeria alguma coisa completamente nova, apesar de
que eu não sabia o que. O problema ainda permanece sem solu­
ção hoje. Entretanto aplicar o conceito do auto-governo para for­
mar uma organização foi compensador e a consideração do pro­
blema conduziu a formulações sobre o problema de organização
que descrerei posteriormente. Senti que as formas correntes de
organização bem como as reações do povo dentro delas, eram
irracionais e além disso a economia sexual que era para um dia
se tornar um importante instrumento na luta contra o irracionalismo
não pode ser sufocada antes do nascimento. Todas as organiza­
ções tinham metas, mas nossas metas estavam no próprio tra­
balho.
As conseqüências sociais que derivassem do insight cien­
tífico eram nossa primeira meta; a segunda era a defesa dessas
conseqüências; a terceira e mais importante era estabelecer a
ciência e o insight científico como o único princípio válido na dire­
ção da sociedade. Nem a organização marxista nem a psicanalí­
tica foram uma estrutura adequada, pois ambas rejeitaram mi­
nhas teorias sobre economia sexual. Nem quiseram se associar
às minhas metas. Concordaram teoricamente que “política deve
ser científica” mas não aquelas conseqüências enfadonhas do
insight da economia sexual. Por essa razão o tom de todas as
objeções feitas a mim eram concernentes a atração das conse­
qüências políticas, isto é, sociais da minha ciência. Minha exclu­
são de ambos grupos foi baseada nisto. Em outras palavras eles
rejeitaram a disposição da economia sexual da vida da criança e
do adolescente, e assim mantiveram tudo que tinha sua fonte a
desordem desta vida - entre outras coisas o fascismo. (1952: a

254
análise racional trágica dessa rejeição foi tratada no Assassi­
nato de Cristo de forma razoável. A experiência Oramur reve­
lou o núcleo do problema, a estrutura humana bioenergética
que tem medo e resiste a expansão).
A aprovação do meu trabalho e dos objetivos teriam im­
plicado, para o marxismo, a inclusão da psicologia do inconsci­
ente e sexologia, e consequentemente uma remodelação da
filosofia marxista de acordo ais com as condições do século 20
do que com as do século 19.
A aceitação do meu trabalho pelos psicanalistas teria im­
plicado no seguinte; compatibilidade com a perspectiva social
e ciência, renúncia da doutrina da natureza biológica das per­
versões e conflitos criança-pais, aceitação de um plano para o
sistema econômico no qual política cultural correspondente
pudesse se desenvolver, isto é, democracia no trabalho, renún­
cia da teoria do instinto de morte e sua substituição pela minha
teoria das origens sociais da ansiedade e do sofrimento. Além
disso aceitação da minha teoria do orgasmo clinicamente fun­
damentada, iria requerer uma transformação radical da técnica
psicanalítica dentro da análise do caráter e mais tarde dentro
da vegetoterapia.
Isto teria levado inevitavelm ente a pesquisa na
biofisiologia. Os analistas não estavam preparados para isto.
Em resumo, a economia sexual tinha se transformado numa
nova disciplina e tinha se purificado de teorias que quando tri­
lhadas para suas origens não estavam agora mais de acordo
com ela. As inovações específicas da economia sexual germi­
naram durante o período do congresso de Lucerna. Menciona­
rei apenas as essenciais; a fórmula do orgasmo, que podia ser
considerada a própria fórmula da vida; a bioelétrica (mais tarde
orgonótica) natureza da sexualidade e ansiedade; a compreen­
são das doenças orgânicas tais como o reumatismo (couraça
muscular) e câncer. Nessa época eu ainda não tinha conheci­
mentos dos bions.
É compreensível que meu desejo íntimo de independên­
cia intelectual era forte. Meus amigos e auxiliares não entendi-

255
am nada dos desenvolvimentos da minha pesquisa. Qualquer
coisa que soubessem e afirmassem categorizava se fazerem uma
crítica como ou marxista ou psicanalítica. Não consideravam ou
não queriam considerar que essas organizações não mais se
importavam com meu trabalho, e realmente se opuseram a ele.
Ligando meu trabalho a essas organizações parecia estar ten­
tando criar um álibi que eles pretendiam apenas “melhorar”, não
uma rebelião certamente. O curso dos eventos, entretanto, se­
guiu as leis de todo desenvolvimento. O novo germinando o ve­
lho, primeiro se opões ao velho com hostilidade. Seguindo a re­
solução do conflito, o novo então se torna independente e come­
ça a determinar sua própria direção. Se for sábio e prudente rete­
rá elementos vitais do velho. Se se sentir inseguro, nega suas
origens e pátria intelectual. Tentei resolver este problema de modo
correto na minha publicação “sincope do campo de pesquisa da
economia sexual”.
Esta era minha posição interior. Externamente eu ainda me
agarrava nas organizações através de numerosos amigos e de­
pendia deles. A separação completa da teoria da economia se­
xual só ocorreu quatro anos mais tarde, seguindo a monstruosa
campanha de seus adversários em Oslo.
Gostaria de relatar outra parte da história dos movimentos
de oposição. Esperamos que algum dia, quando a fase pioneira
da economia sexual e da psicologia política tiver passado surja
uma oposição e facções. É útil fornecê-los com um entendimen­
to prévio de suas ações e demonstrar seus desejos bem intenci­
onados fraquezas práticas. Se essa oposição estiver objetiva­
mente correta então ela ganharia mais facilmente a vitória do
que nós. Se por outro lado a defesa e questões reais forem fra­
cas e incapazes de estenderem as linhas da pesquisa científica
estrita melhor do que nós, então ela merece falhar. Nesse caso
alguma coisa menos ofensiva deverá ser feita.
Tentaremos ilustrar isso no quadro apresentado pelos psi­
canalistas da oposição entre 1932 e 1934 e as conseqüências
que poderiam resultar e que teriam sucesso.
O problema básico de cada movimento de oposição sério é

256
de manter um equilíbrio entre prática e princípio. O primeiro é
determinado pela grande quantidade de acontecimentos diári­
os e compromissos humanos e o último pelo curso natural do
desenvolvimento da causa.
Freqüentemente eles se contradizem. Como fundador da
oposição fui incapaz de resolver esse conflito. No final tornei o
partido da causa em si. Os analistas de oposição estagnaram
em assuntos práticos e pessoais. Mais tarde foram substituí­
dos por outros trabalhadores científicos. A situação produziu
grande excitação, lágrimas e freqüentemente era dolorosa.
Vamos retornar a convenção de Oslo em 1934 por oca­
sião da Páscoa. Foram feitos apenas dois pronunciamentos,
um por Fenichel e outro por mim. Fenichel falou primeiro e limi-
tou-se a criticar as condições organizacionais bem como cien­
tíficas do IPA. Posteriormente compilou-as em uma das cartas
circulares que enviou como líder da oposição à seus membros.
Selecionei alguns exemplos típicos dessas cartas. Fazendo isto
estou revelando uma confidência porque Fenichel queria que
seu trabalho de oposição fosse do conhecimento apenas da­
queles a quem as cartas foram enviadas.
Eram para ser queimadas depois de lidas. Uma vez per­
guntei-lhe: “você acha realmente que pode manterem segredo
a existência da nossa facção?” sua resposta a isso (numa carta
circular de abril de 1934) foi:
“Sinto que é impossível manter nossa correspondência
mútua e trocar opiniões em segredo, mas isto é - e deve ser -
possível manter em segredo a identidade dos participantes e
os pontos de vista expressos bem como o modo de trocar opi­
niões, o que é natural na ciência burguesa”.
Isso implica ilegalmente do tipo comunista. Entretanto éra­
mos políticos brigando com a polícia, mas trabalhadores cientí­
ficos defendendo pontos de vista definidos que sempre senti
que eram bem conhecidos.
Nenhum membro do IPA estava desavisado sobre minhas
opiniões. Ingenuamente acreditei que Fenichel tencionava man­
ter a promessa feita quando assumiu a liderança. Não apenas

257
havia declarado sua solidariedade ao meu pensamento mas tam­
bém tinha escrito uma crítica positiva sobre minhas publicações
no jornal. Não havia plataforma de oposição no IPA que não a
minha. Poderia ele estar interessado apenas na liderança da opo­
sição e não nas opiniões?
Devagar esse pensamento pegou até que não pude me
livrar dele. Fenichel estava tentando com a ajuda de meus cole­
gas, ganhar simpatia para a minha pesquisa clínica e sociológica
com a qual eles se identificavam e que mostrava a eles o futuro.
Com essa ajuda ele queria o que? Ser o líder da oposição? In­
sensatez! Oposição sem uma plataforma real é suicídio! Mas isso
existe e não apenas no movimento psicanalítico. Descobri que a
maioria dos movimentos de oposição dentro dos partidos e soci­
edades não estão fundamentados em fatos.
Não tem nenhuma contribuição a fazer e não tem nada melhor
para substituir os objetos de sua crítica. Eles simplesmente que­
rem ser os líderes, os meios e a maneira não importa. Qual es­
trutura foi capaz desse tipo de injúria? Poderia logo descobrir.
A crítica de Fenichel à psicanálise em 1934 estava correta.
Ressaltei repetidamente entre 1924 e 1934 que as condições
sociais eram refletidas nos conflitos da psicanálise. Uma existên­
cia insegura e medo dos perigos produzidos pelas conseqüênci­
as revolucionárias da teoria reanima antigas resistências nos ana­
listas, o que os faz esquecer seu conhecimento analítico. Goring,
líder dos especialistas em Psicoterapia alemães esperava que
seus membros tivessem lido o trabalho básico de Adolf Hitler
“Mein Kampf, dentro de sua seriedade científica. Kündel (psicó­
logo, caracteriologista) Schultz-Hencke (psicólogo, filosofo e éti­
co) e Weizsäcker se tornaram membros da organização profissi­
onal alemã e todos os analistas juntos foram removidos de suas
posições de liderança.
Durante um encontro um psicanalista alemão propôs que
todos os membros judeus apresentassem suas demissões.
Schultz-Hencke tornou-se o comissário nacional. (Ele sempre de­
fendeu com firmeza os valores éticos). Bôhn, um analista ale­
mão, foi para a Inglaterra para ver Jones, o presidente da IPA, e

258
explicou que apenas através de uma manobra hábil teve su­
cesso em impedir a completa destruição da organização e a
detenção de analistas em campos de concentração.
De acordo com Fenichel, Böhn teria ficado especialmen­
te orgulhoso em tornar-se o líder dos psicanalistas alemães.
Entre outras observações declarou que “a psicanálise serve ao
propósito de educar o indivíduo heróico”. Sob tais circunstânci­
as os membros emigrantes da associação alemã eram a favor
de sua dissolução. A maior parte pediu demissão e o Nacional
Socialismo comprometeu-se a procurar posterior desenvolvi­
mento da psicanálise.
O que segue é uma descrição de uma organização cien­
tífica que foi uma vez o centro da procura da verdade e que
permaneceu apolítica: na Áustria que ainda não era fascista os
editores judeus de um jornal deram preferência à alguns escri­
tos do fascista Weizsäcker, relegando publicações saídas do
grupo radical. Em 1938 muitos desses editores foram compeli­
dos a fugir, mas não havia nenhum Weizsäcker para salvá-los,
apesar de que eles tinham de uma forma altamente acadêmi­
ca, considerando correto “construir pontes para opositores pre­
cipitados”.
De acordo com o relatório de Fenichel, Weizsäcker tinha decla­
rado numa publicação de cem páginas que o complexo de Édipo
existe, mas enfatizou também que havia nisso mais do que ape­
nas ciência natural. Ciência natural disse ele, deveria praticara
modéstia porque nem tudo sob o sol é acessível aos métodos
natural-científicos.
Devemos acrescentar por exemplo, o misticismo nacio­
nal socialista. Fenichel quis criticar Federn severamente porter
aconselhado a crianças a respirarem profundamente para evi­
tar ereções. Sua crítica não foi permitida a ser publicada. Os
editores do Imago rejeitaram o parecer de Roheim sobre minha
pesquisa etnológica porque estava entrelaçada com deprecia­
ções pessoais. Entretanto os grandes acontecimentos no mun­
do determinaram que o parecer seria publicado posteriormen­
te.

259
Continua a sentença famosa na qual ele declarava que não
era verdade (como eu tinha dito) que a empresa privada criava
neurose; ao contrário, dizia ele, a neurose criou o capitalismo.
Publicações de membros da oposição não foram aceitas.
Escolhidos entre muitos possam esses exemplos serem sufici­
entes. Foram tirados de cartas circulares e são uma evidência da
então chamada fofoca analítica.
Esperamos pelo próximo congresso para ouvirmos propos­
tas para medidas concretas. Membros da oposição criticavam
Fenichel porque ele enfatizava questões pessoais, e negligenci­
ava o real. Não houve nenhuma palavra sobre minha crítica
etnológica, a descoberta da origem social da neurose ou da psi­
cologia de massa do fascismo.
Ele até escreveu, “Nada de novo no campo da sexologia
tem sido publicado desde Freud” nesse instante eu de repente
compreendi: Fenichel estava determinado a usurpar minhas rei­
vindicações e sufocar minha teoria através do silêncio, (um pro­
grama que ele posteriormente executou extensivamente na Amé­
rica). Em conseqüência, eu defini claramente ante meus colegas
as omissões das quais Fenichel era culpado e apresentei uma
sinopse da minha crítica construtiva: acima de tudo profilaxia da
neurose não terapia da neurose; a dinâmica da neurose requer
um estudo da energia, isto é a teoria do orgasmo; a técnica pa­
drão é inadequada porque não considera a êxtase sexual, etc.
Na época da discussão Fenichel ficou embaraçado e se
desculpou, dizendo que havia se esquecido de mencionar a teo­
ria do orgasmo. Desse ponto em diante eu me tornei atento ao
processo que havia anteriormente me escapado. Posteriormente
detectei este mesmo processo em muitos indivíduos, isto é revo­
lucionando, devido a ambições insatisfeitas e falta de originalida­
de, que facilmente atrai as pessoas para a oposição. A inveja
ostenta a usurpar as idéias dos outros e a covardia os faz prome­
ter mais do que podem manter. A conseqüência inevitável é a
traição. Traição inconsciente, obscurecida pelas teorias práticas
designadas a encobrir motivos pessoais.
Percebendo o problema escrevi uma carta ao grupo, a qual

260
Fenichel publicou num boletim. Nela declarei que a luta entre
facções científicas e místicas em psicanálise era uma antiga
questão que havia começado em 1925 quando a teoria do or­
gasmo foi formulada. Senti que o conflito iria transformar-se
numa crise com a aproximação do congresso devido a pressão
dos acontecimentos políticos.
A língua da ciência objetiva normalmente evita que confli­
tos filosóficos seja discutidos abertamente em círculos científi­
cos. Necessita-se muita experiência para se distinguir entre di­
ferenças científicas que vêm de uma falta real de conhecimen­
to daquelas baseadas em pontos de vista filosóficos. Dentro de
uma organização científica a luta não pode prosseguir com as
armas políticas usuais. Provar que uma facção era Hitlerista
reacionária ou a outra Marxista revolucionária não era impor­
tante; era importante provar que conhecimento científico esta­
va sendo inibido por adesão inconsciente à uma posição filosó­
fica. De novo não era a filosofia, mas a atitude em relação a
achar a verdade que era significante, aqui somente neste pon­
to há uma divisão dos caminhos em direção à direita ou à es­
querda.
Neste contexto não teria importância se o grupo maltra­
tou ou não os emigrantes, mas extremamente importante que
suas afirmações incorretas tivessem sido preferidas para publi­
cação em detrimento de afirmações corretas. Deve-se ser fran­
co. Meu próprio ponto de vista crítico tinha clinicamente e teori­
camente firme desde 1924. Todos os outros membros da opo­
sição deveriam também assumir uma posição estável real. Era
impossível ser oposição sem saber a que se estava opondo ou
simplesmente opor a incidentes puramente formais da organi­
zação. Só quatro anos mais tarde que fui capaz de formular
isso claramente: sentimentos e organização não são importan­
tes, apenas a defesa da causa.
Além disso declarei que as ações de Fenichel eram inqui-
etantes. Ele sempre tentou manter Freud fora do conflito. Era
evidente que nós não honrássemos ou defendêssemos menos
Freud só porque ultimamente ele estava defendendo pontos de

261
vista inaceitáveis.
Todos os erros científicos de Roheim Laforque etc., esta­
vam atrelados à Freud. Se seu trabalho for salvo pela posterida­
de, então a honestidade em relação a Freud mesmo será indis­
pensável. Somente quando tiver sido provado como e onde Freud
o cientista e Freud o filósofo conservador contradizes um ao ou­
tro, pode-se pretender oferecer o resultado. Minha experiência
pessoal com Freud convenceu-me que ele preferiria também esta
atitude.
Também mencionei que assumi inteira responsabilidade
pelo conflito. As diferenças já estavam claras quando ainda se
acreditavam que a situação estava sob controle e que apenas na
agressão era a culpada. Era meu dever proteger meu trabalho
sob quaisquer circunstâncias. Numerosos elementos da teoria
do orgasmo tinham aceito sem compreender, a fim de destruí-la.
O trabalho desenvolveu-se dentro da economia sexual e psicolo­
gia política, que continha realmente as melhores características
científicas e tradições da psicanálise, mas as tinha superado.
Assim estava disposta minha trilha. Já que poucos analis­
tas oposicionistas partilhavam do meu ponto de vista científico,
minha posição deveria levantar um conflito, no congresso diferi­
ria de algum modo da dos outros. Minha sugestão para o com­
portamento quando nos reuníssemos era: não fazer crítica insig­
nificante ou trivial a política da organização; defender as mais
estritas ordens de pesquisa em conjunto com uma crítica
descomprometedora e impessoal de opositores; unificação de
todos analistas de oposição da organização formando um grupo
extremamente unido dentro do IPA. Quesitos adicionais para ana­
listas praticantes eram: economia sexual, em ordem (devido a
influência catastrófica de analistas sexualmente doentes) treina­
mento para a aplicação correta da psicanálise na sociologia e
vice versa; treinamento extensivo sexológico (o qual poucos ana­
listas tinham). Padres, médicos educadores, com atitudes sexu­
ais reacionárias não eram permitidos praticar psicanálise porque
essas atitudes seriam contrárias ao trabalho.
Depois deu ma longa discussão houve um acordo sobre

262
todos os pontos essenciais que eu tinha feito. (Carta Circular
de abril de 1934 p. 6) vamos agora examinar os eventos do
congresso.
Desapercebidamente o líder da oposição fez uma revi­
são num pronunciamento simples: “com relação a carta de Reich
um acordo no qual deve-se firmar esteja claro, que é absoluta­
mente necessário esboçar uma plataforma na qual possamos
seguir nossas metas. Nós ( isto é Otto Fenichel) sentimos en­
tretanto que isto deva ser postergado a fim de não sobrecarre­
gar a larga discussão necessária das questões práticas.
Tal plataforma não deve conter teorias, por exemplo: a
posição de Reich sobre o instinto de morte e ansiedade, o que
poderia compelir alguém a acreditar de maneira dogmática, mais
propriamente nossas opiniões sobre o significado histórico-ci-
entífico da psicanálise, seus métodos de pesquisa e princípios
científicos naturais”. Mas ele não mencionou quais princípios
ele estava se referindo, apenas “opiniões sobre o significado
histórico-científico... métodos de pesquisa... opiniões científi­
cas naturais”.
Frases vazias! Palavras em vez de convicções científi­
cas. Alta retórica em vez de pronunciamentos simples de opo­
sição! Faltava convicção real à Fenichel e isto envolveu alguns
analistas muito inteligentes e decentes numa situação sem sen­
tido para eles. Quando li as linhas acima que estão entre aspas
sabia o que estava pela frente. Depois disso, nada que a oposi­
ção fez no congresso me surpreendeu. Apesar de que a oposi­
ção brotou em volta da minha pesquisa eu era o único a defendê-
la no congresso, a deserção ocorreu com os sentimentos mais
ingênuos.
Decidi registrar a maior quantidade de pronunciamentos
possível da oposição a fim de enfatizar claramente “nossas opi­
niões” e os desvios delas da teoria estabelecida. No caso de
sabotagem da minha conferência, o grupo inteiro podia protes­
tar.
No encontro de trabalhos uma resolução foi colocada di­
ante dos diretores expressando a apreensão da oposição com

263
relação ao futuro da psicanálise. Além disso uma explicação de­
via ser pedida sobre o comportamento do IPA durante o caso
pornográfico de Copenhagen.
Em junho Fenichel fez uma conferência ante nosso grupo
de Copenhagen a qual revelou a todos sua completa falta de
entendimento do problema do orgasmo. Ele estava certo; mais
tarde ganhou o apoio em Praga, onde ninguém o contradisse. No
fim de junho escrevi mais uma carta de advertência ao grupo
mas não coloquei no correio. Não foi necessário. Sabia que to­
dos esperavam pelo melhor, mas que não estavam realmente
querendo fazer nada sobre isso. Eu ainda não tinha suspeitado.
Em 1o de agosto, pouco antes do congresso recebi uma
carta de Müller-Brannscheweig. O secretário da Associação Ale­
mã. A editora queria imprimir uma lista para o congresso e não
era para ficar surpreso se seu nome não constasse da lista dos
membros alemães.
“Ficaria muito satisfeito se você compreendesse a situação
abandonando qualquer sensibilidade pessoal possível no inte­
resse da causa da psicanálise na Alemanha e consentisse essa
medida. Seu renome como cientista capaz e autor é tão grande
no mundo da academia internacional psicanalítica que esse pro­
cedimento não poderia feri-lo de modo algum”. Além disso, ele
continuava o reconhecimento do grupo escandinavo no congres­
so e o futuro aparecimento do meu nome na lista de membros
escandinavos tornaria a questão sem sentido. Tudo isso me im­
pressionou como uma medida de emergência que era compre­
ensível.
Ser membro na Escandinávia parecia certo. Posteriormen­
te me espantei da minha própria experiência e ingenuidade e
psicologia política que não me permitiu interpretar corretamente
a manobra.
Quando cheguei em Lucerna no dia 25 de agosto e assisti
a recepção em 26 de agosto, a situação pareceu estar em perfei­
ta ordem. Cumprimentos de colegas de perto e de longe foram
cordiais, como sempre ninguém sentiu diferenças de opinião. A
noite antes do congresso o secretário alemão me puxou para o

264
lado e me informou constrangido que o comitê executivo ale­
mão tinha resolvido excluir-me da sociedade. Isto cancelava
automaticamente minha participação na organização internaci­
onal e significava que não poderia mais participar do encontro
de trabalhos.
Perguntei porque não tinha sido informado e as razões
para minha exclusão. O secretário meramente levantou os
ombros imediatamente soube o que estava se passando.
Nesta noite, no jantar, contei o ocorrido a alguns colegas.
Não puderam acreditar. Devia ser um engano. E, de qualquer
modo, outro grupo naturalmente me aceitaria como membro. O
diretório da organização internacional certamente não perdoa­
ria isso.
Mas fizeram! Mais e mais colegas ouviram sobre a situa­
ção. Müller Branscheweig foi assolado com perguntas, quando
mandei para ele aqueles que não tinha acreditado.
A “oposição” reuniu-se para uma consulta, o que poderia
ser feito nessa nova situação?
Sem dúvida o modo de ação mais fértil e prático seria
defender a causa na conferência. Uma colega falou sobre “os
princípios biológicos da teoria da ansiedade de Freud”. Ela já
havia me contado em 1931, em Berlim, e compreendeu nessa
época, que a minha ansiedade do êxtase era uma extensão
correta da teoria da ansiedade de Freud dentro do reino bioló­
gico. Ela estava interessada em experiência fisiológica e já ti­
nha alguns resultados. Estes confirmaram completamente a
minha teoria, de que a ansiedade corresponde a um estado de
excitação do sistema vegetativo e é a antítese dieta da sexua­
lidade. Lembramos que Freud rejeitou essa teoria.
No congresso, a mesma colega que relacionou esse pro­
blema à minha pesquisa deu uma clara e precisa descrição
disso, mas não mencionou meu nome, nem os temas dos meus
trabalhos. Depois da confer6encia ela se dirigiu a mim e se
desculpou dizendo que planejou mencionar meu nome, mas
que havia escapado de sua mente. Eu acalmei-a com algumas
palavras reservadas.

265
Outra analista da oposição, que era minha amiga, falou
sobre “o problema da terapia na análise da criança”, já que falta
às crianças meios sociais para gratificar seus instintos, são inca­
pazes de alcançarem a meta do tratamento do adulto, a saber:
ter capacidade e estar pronto para experimentar o prazer genital.
Bastante corretol Mas essa teoria era o núcleo das diferenças
entre o IPA e eu, e nem meu nome, nem meu trabalho foram
mencionados. Quando perguntei por que ela não tinha mencio­
nado meu nome, ela me perguntou surpresa, onde ela poderia
ter mencionado isso. Eu não disse mais nada. A causa tinha,
afinal, sido defendida com sucesso. Mas este confronto foi uma
própria decepção.
Fenichel falou sobre os problemas da ansiedade, sabemos
da importância que o papel da questão da ansiedade neurótica
representou no pensamento dos membros da oposição. Fenichel
não fez referência às minhas teorias.
Um certo analista Gero, que me seguiu quando eu emigrei,
a fim de estudar a análise do caráter e testar isto em si mesmo,
falou sobre “a teoria e técnica da análise do caráter”. O seguinte
excerto de sua tese publicada contém o único lugar onde minha
prioridade em toda a questão foi mencionada.
“Estes elementos formais foram ressaltados por Ferencz,
Fenichel e Reich”. Mais tarde ele se tornou um inimigo, quando
minha publicação sobre o reflexo do orgasmo apareceu, de cujo
conteúdo a tese dele (anteriormente me foi pedido emprestado),
foi totalmente elaborada, ele declarou que eu tinha “saído pela
tangente”.
Parece mesquinho mencionar esses incidentes. No seu con­
texto, apenas exemplificam a peculiaridade da estrutura huma­
na, que toma sempre o que pode e dá apenas quando deve. Este
é um processo inconsciente e, se um procedimento justo for men­
cionado, é tomado como um insulto. Acima de tudo, a estrutura
humana recusa agüentar a responsabilidade daquilo que lhe é
apresentado.
Entretanto, eu descobri que tinha sido excluído há um ano
antes, numa reunião secreta do comitê executivo alemão. O

266
diretório da organização internacional, conduzido por Jones, en­
tusiasticamente pegou a oportunidade de seguir o caso.
Sinto-me compelido a penetrar nestes detalhes, já que
indivíduos responsáveis, mais tarde tentaram colocar a culpa
sobre meus ombros. Espalharam boatos que eu mesmo tinha
pedido minha exclusão. Possa isso iluminar as atividades por
trás dos bastidores numa organização “democrática-parlamen-
tar”!
Ditadores simplesmente excluem ou matam as pessoas,
mas ditadores democráticos assassinam furtivamente com me­
nos coragem e vontade de assumir a responsabilidade. Lem­
bremos que Jones me disse expressamente, em Londres, que
ele se oporia a minha exclusão quaisquer que fossem as cir­
cunstâncias. Pedi para perguntarem a Jones se eu ainda podia
fazer minha conferência e participar na reunião de trabalhos,
ele respondeu que podia fazer a conferência, mas não podia
participar dos encontros de trabalho. Jones parecia bastante
preocupado. Disseram-me que ele tinha procurado conselho
sobre o que fazer se eu fosse lá de qualquer modo e expulsas­
se o presidente.
Eles realmente pensavam que eu era capaz disto. Devo
confessar que mais tarde me arrependi de não tê-lo feito. Falei
com Bibring, Hartmann e Kris sobre o ocorrido. O que aconte­
ceria se o tivesse feito? Pedi que não mencionassem nada so­
bre a observação do Jones. Eles estavam espantados e paci­
entemente me persuadiram a manter minha dignidade. Desse
modo percebi o propósito de preceitos como dignidade, mo­
déstia, educação, a saber: camuflar melhor a impertinência de
pessoas cultas. Finalmente, acalmei-os dizendo que isto não
valia o esforço. A situação no comitê executivo estava confusa.
Todos tinham sentimento desculpa, mas Federn sentiu-se o mais
culpado. Ele, Jones e Eitingon, falaram sarcasticamente e inju­
riosamente de mim, dizendo que eu seduzi todas as minhas
pacientes, que eu era um psicopata, etc. Os noruegueses fica­
ram furiosos, minha pergunta era; “Por que então esses ho­
mens me permitiram viver e trabalhar por doze anos como

267
membro proeminente do IPA?”. Era feio e vil.
Apenas os analistas noruegueses, Raknes, Nie Hoel e
Schjeldemp se comportaram decentemente. Disseram que eu
poderia me tornar um membro da associação norueguesa quan­
do quisesse. Eu os adverti que não tinham conhecimento do sig­
nificado dessa questão e de suas qualidades explosivas. O que
sabiam eram apenas uma fração do todo. Assim mesmo, eles
não voltaram atrás.
Schjeldemp tinha estudado a técnica da análise do caráter
comigo no verão, antes do congresso e queria que eu continuas­
se meu trabalho na Noruega. Nessa época, já tinha feito planos
para conduzir minhas experiências bioelétricas e disse que se
ele pudesse me oferecer a possibilidade de executá-las em seu
instituto eu iria. Ainda o adverti uma vez mais.
Nenhum de nós poderia imaginar que três anos mais tarde,
uma campanha iria surgir na Noruega, por causa dessas experi­
ências e que Schjeldemp emergiria como um antagonista.
O leitor perguntará se a falta não seria minha, já que tantos
indivíduos proeminentes se juntavam a mim apenas para me dei­
xar mais tarde. Possam os fatos falar por eles mesmos. Eles
revelam o problema real da psiquiatria social.
Quando minha exclusão já estava fora de dúvida, um pro­
fundo abismo, cheio de um respeito peculiar e precipitado for­
mou-se em volta de minha pessoa. Era quase fisicamente per­
ceptível. Todos os outros estavam do outro lado. Meus amigos
derramaram lágrimas, mas logo encontraram conforto.
Apenas uns poucos acharam seu caminho devolta para mim,
por exemplo Ellen Siersted , uma pessoa incansável e honesta.
Dr. Nie Hoel também visitou-me em meu quarto e me trouxe flo­
res. Fiquei muito grato a ela.
O curso formal da minha exclusão correu como segue:
Para evitar que eu participasse do encontro de trabalho, o
comitê executivo decidiu marcar uma comissão internacional para
se reunir comigo particularmente. Isso aconteceu no dia que pre­
cedeu o encontro real de trabalho, como aconteceu anteriormen­
te em Viena, o objetivo do comitê era persuadir-me de renunciar

268
a rninha participação voluntariamente, isto iria ser mais conve­
niente para eles.
Expliquei minha posição. Do ponto de vista dos teóricos
do instinto de morte, compreendia perfeitamente minha exclu­
são do IPA, o que já tinha acontecido de fato. Meus pontos de
vista diferiam tanto daqueles da psicanálise em 1934, que a
comunicação não era mais possível. Entretanto, enfatizei que
eu me via como um legítimo representante do pensamento psi-
canalítico científico natural e desse ponto de vista não aceitava
minha exclusão. Desde que providências estritamente formais
e oficiais não poderiam mais serem tomadas, eu exigia que as
razões da minha exclusão fossem publicadas no jornal. (O pre­
sidente do comitê prometeu-me fazê-lo, mas a promessa nun­
ca foi realizada).
Minha teoria do orgasmo e as teorias dela derivadas não
contradiziam a psicanálise clínica de modo algum (hoje perce­
bo que elas contradisseram-na nas questões essenciais), por­
que eram incompatíveis com a teoria do instinto de morte.
Repressão compulsória da sexualidade podia apenas ori­
ginar num instinto biológico ou num processo social. Era incon­
cebível para ambos serem responsáveis simultaneamente, a
menos que fosse assumida a transmissão altamente imprová­
vel da antiga hereditariedade das influências sociais.
Desde que o diretório do IPA não quis apoiar minhas teo­
rias e já havia me excluído secretamente, declarei que preferia
continuar sozinho e chamar minha teoria de economia sexual.
Houve silêncio notável no ambiente. Depois, Anna Freud disse
que “uma grande injustiça tinha sido cometida lá”. Mas como
secretária do IPA, não fez nada que tivesse de acordo com
essa declaração.
No encontro de trabalhos no dia seguinte, não aconteceu
nada. Minha situação não foi mencionada A fraca resolução de
Fenichel não valeu nada. O único conflito foi entre Nie Hoel e
Jones.
Desde então, decidi manter a seguinte posição:
1. Sempre enfatizar os elementos históricos e reais comuns a

269
psicanálise e a economia sexual.
2. Acentuar rigidamente as diferenças existentes na teoria sexu­
al e no conceito de ansiedade.
3. Reivindicar o que pode evoluir no futuro como meu, com a
mesma fidelidade que eu reconheço o que devemos dividir em
comum.
No quarto dia do congresso, fiz minha palestra que foi
publicada mais tarde, pela Sexpol Verlag sob o título de “Contato
Psíquico e Corrente Vegetativa”. Comecei com as palavras: “Após
quatorze anos de sociedade deverei me dirigir ao Congresso como
um convidado pela primeira vez...".
Deram-me muito mais atenção que antes. O clima que pe­
netrou no auditório foi o mesmo da seção do comitê. Um partici­
pante fez uma observação dizendo que este congresso estava
de pé “sob minha estrela”. Ele estava correto; uma organização
carregada de problemas, estabelecendo-se para influenciar o fu­
turo, não perdoa a farsa como da minha exclusão sem conseqü­
ências graves.
Emergiram uma por uma. Tinha a impressão de que o IPA
havia excluído a teoria sexual, o nervo vital da psicanálise. E,
agora uma teoria sexual estritamente científica natural estava sen­
do apresentada numa palestra feita por um convidado em sua
própria terra natal, para uma audiência ininteligível. Minha pales­
tra tratou de problemas que surgiram da prática médica durante
a transição da pesquisa sobre o caráter da neurose para o meca­
nismo somático básico da doença psíquica.
O tema da palestra tornou-se o ponto de partida para estabele­
cer a natureza bioelétrica da sexualidade experimentalmente.
Nesse congresso e nessa palestra as providências iniciais foram
tomadas no sentido de satisfazer as esperanças de Freud, de
que a psicologia analítica seria algum dia colocada num princípio
orgânico. Devo acrescentar que foi esta a primeira vez que uma
grande platéia científica ouviu reflexões e fatos que mais tarde
combinaram funções psíquicas e somáticas dentro de uma uni­
dade científica natural.
Não estava completamente ciente disto na época, percebi

270
problemas de falta de contato, bem como aqueles de corrente
vegetativa; também tocou-se sobre o núcleo da esquizofrenia
e o câncer num novo caminho (bioenergética). Ao final do tem­
po concedido para a palestra, eu ainda não tinha terminado e
pedi permissão para continuar. A resposta foi um aplauso entu­
siástico. Não houve crítica negativa durante minha palestra. Fui
informado depois, que pelo menos metade da platéia não havia
me entendido, mas a outra metade percebeu qual caminho eu
estava seguindo.
Um dos meus antigos estudantes de Viena, Dr. Bergler,
falou sobre “tanatos” nos sonhos. Após a palestra perguntei se
ele alguma vez tinha visto evidência no instinto de morte. “No,
certamente, não!, respondeu. “É apenas uma teoria”, “Bem, en­
tão por que está falando sobre isto?, perguntei.
A organização não havia tomado como base para minha
exclusão minha visão científica ou simpatias políticas. Havia
muitos no IPA com pontos de vista científicos diversos e muitos
comunistas também.
A incompatibilidade com a sociedade do IPA estava nas
conseqüências sociais derivadas das descobertas científicas,
isto é, o desenvolvimento da política sexual a partir da econo­
mia sexual (doze anos mais tarde minhas teorias sócio-sexuais
foram reconhecidas no geral e parcialmente aplicados na Amé­
rica). Não entendi porque minhas teorias político sexuais eram
mais perigosas ou ofensivas que o comunismo, ou falsa teoria
científica. Não pude entender isto. Nunca favorecer atividades
políticas no sentido comum da palavra. Eu tinha feito trabalho
de higiene social como um médico estava longe de querer lide­
rança política ou tentar ganhar o poder. O respeito pela política
estava ainda profundamente embutido em mim. Meu organis­
mo não tinha ainda compreendido que, ciência é mais decisiva
que política, que é a ciência e não política que coloca a ameaça
real à misérias nas mãos, que ciência até ameaça a política,
que esses respeitáveis cientistas apolíticos executaram mano­
bras políticas radicais excluindo uma séria, honesta busca da
verdade, que estava realmente dando apoio a depravação es­

271
piritual que havia começado recentemente a minar na Europa.
Nem tinha percebido que eles constituíam parte da grande
politicamente ativa e ainda então inconsciente massa, que en­
quanto afogada num oceano de fraseologia sem sentido, tornou
os ombros largos sobre os quais a política e a diplomacia esta­
vam conduzindo o mundo para a ruína.
Apenas durante os anos subsequentes, fui capaz de pro­
fessar o caráter revolucionário da ciência e muito gradualmente
comecei a pegar o significado da conexão entre as sensações
vegetativas dos seres humanos, sua falta de contato e desejo
por um resgatador e o impacto político dos slogans, tais como: “a
onda do sangue puro ariano” ou “a chamada da pátria e solo
nativo”. E isto, apesar do fato de que eu tinha escrito um livro de
trezentas páginas sobre a psicologia de massa do fascismo.
Devagar, entretanto, preenchi com minha experiência os
acontecimentos insanos do congresso de Lucerna. Eu compre­
endi isso, medo de agüentar a responsabilidade por um insight
tão grande me impediu de assumir a carga imediatamente.
Deixei meus filhos e viajei com minha companheira para a
Dinamarca via França. Ela sofreu muito com a situação e me
apoiou de uma maneira humana, sem muitos comentários, fi­
quei-lhe muito grato por isto.
Chegamos em Copenhagen tarde da noite. Estava choven­
do e não tínhamos nosso próprio lugar. Por muitos dias ficamos
com amigos a quem relatamos os acontecimentos. Gradualmen­
te sentimos que eles estavam se tornando frios. Coincidência e
não necessidade real os havia dirigido para mim e poderia tam­
bém dirigi-los para longe novamente.
Mais tarde, isto aconteceu de fato. Empacotamos as rou­
pas e livros e partimos para Noruega. Fui detido na fronteira da
Suécia. Alegaram que tinha sido extraditado da Suécia e não me
era permitido viajar por lá. Telegrafei para Oslo e Estocolmo ime­
diatamente. O guarda da fronteira ficou surpreso por que eu ha­
via mencionado um professor universitário e um representante
parlamentar. O que um maquinista exilado, um empregado entre
milhões numa fábrica alemã faria diante de tais circunstâncias?

272
Finalmente atravessamos a fronteira sem complicações
posteriores. Em Oslo nos alojamos em outro desses pequenos
hotéis horríveis, o qual parecia equipado especialmente para
esmagar mesmo o mais forte espírito. Estávamos no fim de
outubro de 1934.
A sociedade norueguesa de psicanálise me convidou para
seus encontros, mas não assisti-os com freqüência porque es­
tava muito ocupado preparando experiências biofísicas. Depois
de aproximadamente dois meses Schjeldemp convidou-me para
dar conferências na faculdade, no departamento de Psicologia.
Depois de algumas conferências, um artigo fustigante foi
publicado num jornal fascista norueguês, ABC. (Eles até publi­
caram uma pretensa foto minha, com o rosto realmente de um
idiota). Apesar de ser apenas um jornal local, o artigo reapare­
ceu quatro anos mais tarde no arquivo que a polícia tinha junta­
do contra mim.
Entretanto, os analistas noruegueses foram leais. Duran­
te esse tempo, uma conversa com Schjeldemp levantou a ques­
tão se eu deveria me candidatar como membro. Os noruegue­
ses estavam desejosos disse ele, apesar de terem encontrado
grades dificuldades no congresso e de terem sido avisados que
eles seriam reconhecidos como membros da organização in­
ternacional somente sob a condição de que não me aceitas­
sem. Os noruegueses rejeitaram isto e responderam que não
aceitariam condições, ou eles aceitariam incondicionalmente,
ou recusariam.
Aqui, pela primeira vez, tonei-me familiarizado com a men­
talidade geral norueguesa, apesar de que recentemente tinham
começado a fazer concessões ao fascismo Europeu. Rascu­
nhei uma carta formal para o grupo norueguês com a sugestão
de que eles primeiro discutissem a questão da minha participa­
ção, a fim de assegurar uma total advertência de todas as con­
seqüências possíveis. Eu estava na melhor posição para forne­
cer as informações necessárias. Havia um homem, entretanto,
que circulava por entre os sócios e agitava contra minha acei­
tação. Para um dos sócios ele disse que eu tinha vindo para a

273
Noruega para roubar todos seus pacientes; para outro dizia que
eu tinha ficado louco.
Este rumor começou pelo líder dos psicanalistas marxis­
tas, o próprio Otto Fenichel. Seu comportamento custou-lhe caro,
causava repugnância onde quer que fosse.
Finalmente, no verão de 1935, ele foi obrigado a sair de
Oslo porque não conseguia mais ganhar a lida lá.
Devo ressaltar, que não tomei nenhuma providência para
contrariar seu comportamento. Quando soube que os membros
da sociedade psicanalítica da Noruega estavam hesitantes, su­
geri que deveriam desistir da minha admissão. Poderia existir
sem isso e talvez fosse melhor não provocar conflito.
Nunca me arrependi dessa decisão. Eles assistiram às au­
las noturnas quedei sobre o trabalho clínico e permanecemos
como bons amigos. Apesar de quase todos estarem estudando
técnicas bem avançadas da análise do caráter e de estarem nes­
sa época, lutando com o problema de dominar a rigidez física.
A pesquisa biofisiológica experimental, tão altamente
significante para o desenvolvimento psiquiátrico social começou
nessa época. Desatei todos os meus laços em relação a psica­
nálise, enquanto que simultaneamente providenciava uma fun­
dação sólida para seus insights clínicos corretos.
Minha ingenuidade em relação às pessoas, entretanto, ainda
não tinha acabado. Isso contribuiu para perturbar e para por em
perigo, acontecimentos que começaram na sociedade psiquiátri­
ca de Oslo em outubro de 1937 e, que manteve noruegueses
num estado de suspense por quase um ano.
Como resultado, tornou-se difícil para mim aparecer nas
reuniões da sociedade ou mesmo em público, mas quase de um
dia para outro meu trabalho avançou uma década. Para assegu­
rar uma avaliação total dos mecanismos político-psicológicos da
campanha de Oslo contra minha pesquisa será necessário pri­
meiro entregar-se a descrição do meu trabalho biológico.

274
9
EM DIREÇÃO À BIOGENIA
A Campanha da Imprensa Norueguesa

Depois de me mudar de Malmö, Suécia, para Oslo, Norue­


ga, no fim do outono de 1934, minha pesquisa ficou entre o céu e
o inferno, falando de forma figurativa. De um lado, amigos e ad­
miradores do meu trabalho que defendia pelo menos dois prêmi­
os Nobel e por outro lado, meus inimigos que defendiam com
igual intensidade a necessidade de extradição, investigação poli­
cial e, controle. Havia inimigos por toda parte: neurologistas que
odiavam o sexo, psicanalistas que acreditavam na natureza he­
reditária da “relação criminal na puberdade”, oficiais da polícia
que odiavam “estrangeiros”, etc.
Visto pelo presente, o irracionalismo na vida social durante
o século vinte, século de “cultura e civilização”, assumiu dimen­
sões gigantescas na luta da vida encouraçada contra a desco­
berta da energia biológica (e biogenia). Amigos e observadores
antigos louvaram a descoberta dos “bions” com a maior realiza­
ção científica do século. O chefe de polícia norueguês, Konstand
( um fascista que mais tarde enfrentou a pena de morte por cola­
borar com os nazistas), me considerou o inimigo mais perigoso
contra a lei e a ordem. A descoberta dos bions e o processo do
câncer ocorreu na perseguição, por assim dizer, em pequenos
intervalos entre emigrações. Meus próprios impulsos de vida de­
vem ter desenvolvido enormes poderes para capacitar-me a so-

275
breviver entre 1934 e 1944. Por algumas razões é imperativo
descrever esse período.
A luta sobre a questão da biogenia expõe o enigma do por­
que a ciência tem tido insucessos até essa época em descobrir o
próprio processo de vida. Foi também demonstrado o efeito hor­
rível da praga emocional na existência humana e isso servirá de
propósito para desativar numerosos rumores falsos sobre mim
que circulavam durante esse período e, que eram ativamente
espalhados e utilizados pelos inimigos da vida desencouraçada.
Finalmente, isto ilustra a posição da vida desencouraçada na nos­
sa ordem social. Gastei anos compilando detalhes e descreven­
do a infame “campanha da imprensa norueguesa” contra minha
pesquisa.
Sempre que estava trabalhando com a preparação do bion,
observando a energia do orgone, descobrindo ponderá-lo e sis­
tematizando a inter-relação das funções da vida ou o lugar da
matéria viva e natureza não viva, o clamor da campanha parecia
totalmente ridículo. Esta tinha sido respondida claramente nos
acontecimentos que seguem, por exemplo a descoberta do se­
gredo da célula do câncer (1938-1939), a descoberta do orgone
atmosférico, a diferença da temperatura no acumulador de orgone
(1940), os efeitos da cura do sangue e tecido no acumulador, etc.
As pessoas que irracionalmente se opuseram à minha pesquisa
nessa campanha não podem ser vistas não mais de forma herói­
ca. Ter entrado num debate com elas em 1937 teria significado
tentar matar um pardal com um canhão. Eu não estava particu­
larmente interessado em carregar a história da ciência com no­
mes de pessoas insignificantes. A luta furiosa contra mim foi do­
lorosa, realmente todas as formas de insulto, suspeitas e calúni­
as foram usadas, mas era inútil aparar o golpe dos violentos ata­
ques de palavras com semelhantes ataques.
Apesar de que em 1937 não ter podido antecipar os acon­
tecimentos importantes que iriam acontecer em minha futura pes­
quisa, eu já estava cônscio da enorme responsabilidade. Não
sou daquelas pessoas que hipocritamente professa as virtudes
da clemência e da submissão. Posso usar guerra de palavras tão

276
bem quanto qualquer outro e devo admitir que freqüentemente
sentia vontade de castigar alguns dos defensores da pseudo-
ciência, quando iam longe demais.
Não sou de modo algum um santo indulgente, mas um
sentimento inexplicável me impedia de interferir neste tipo de
debate científico, um sentimento que reconheci com surpresa
apenas muitos anos mais tarde, como a atitude básica da vida
desencouraçada - depois de centenas de observações e expe­
riências, tive confirmadas minhas primeiras vagas noções.
A atitude da vida desencouraçada em relação a aberra­
ção da vida, em relação às ações maliciosas do ser humano
encouraçado é de indiferença ou incompreensão, de alienação
e ocasionalmente pena. Observei essa atitude básica em cri­
anças pequenas saudáveis face às distorções da vida e mons­
truosidades, por exemplo, um menino de quatro anos estava
alegremente brincando na rua, quando algumas crianças agres­
sivas e aproximaram dele e lhe pediram que lhes trouxesse um
copo d’âgua. Ele o fez de boa vontade, mas quando ele lhes
deu o copo eles gritaram e jogaram a água em seu rosto, sem
que tivesse havido qualquer provocação. Algumas crianças ri­
ram maliciosamente; outras ficaram embaraçadas sem dizer
nada, ninguém que havia assistido ao incidente interferiu. O
menino ficou parado e depois se foi, com lágrimas nos olhos,
sem compreender. No dia seguinte vi o mesmo menino sendo
atormentado sem motivo, por um menino obviamente nervoso
e sádico. Desta vez, ele voltou-se contra seu agressor, jogou-o
no chão e lhe deu uma surra e então se foi devagar ( a vida
gentil tinha finalmente abandonado sua tolerância e boa vonta­
de mal empregada; assim começou a briga).
Mais cedo ou mais tarde todos os meninos bons e afá­
veis irão começar a atacar os maliciosos e covardes meninos
grandes e fazê-los correr gritando.
Durante a campanha era hóspede num país estrangeiro,
tinha sido convidado para lecionar numa universidade lá, mas a
falsa simpatia se misturou com inveja e medo da competição,
sempre espreitada por trás da palavra “refugiado”- o estigma

277
de todo estrangeiro.
A campanha agravou esta situação penosa. Eu tinha real­
mente escapado dos fascistas alemães na Escandinávia, mas
tentei incomodar o mínimo possível o país que me hospedava.
Durante minha estada de cinco anos na Noruega, lecionei para
estudantes da universidade em apenas duas ocasiões. Não es­
crevi para jornais, apesar de ter sido requisitado para fazê-lo.
Não encontrei jornal de língua norueguesa, mas voluntariamente
me limitei à uma publicação em alemão que não era quase lido
na Escandinávia, porque a maior parte das pessoas não liam em
alemão. Trabalhei calmamente em meu laboratório, mas não podia
me permitir negar o direito de convidar estudantes para seminá­
rios e pequenas palestras realizados particularmente. Além do
mais estava vivendo num país democrático regido por um gover­
no do partido trabalhista socialista.
Todo o tempo da campanha da imprensa discuti meu afas­
tamento com meus amigos. Um deles o poeta Arnulf Overland
observou, “Nunca ouvi um silêncio tão clamoroso”. Esse comen­
tário golpeou o coração do problema. Se eu tivesse simplesmen­
te me misturado em público, atrás de tarefas inocentes ou da
vida rotineira, nada teria acontecido. Foi minha quietude que pro­
vocou meus oponentes a fazerem o máximo possível de barulho.
Sempre que a vida encouraçada esteja presente na cena
da relação social, toda atividade está essencialmente traçada para:

1. Um excesso de palavras e conceitos que servem apenas


para desviar dos princípios simples básicos da vida.
2. Entusiasmo tenso sempre que seres encouraçados en­
contram as leis simples da vida desencouraçada.
3. Completa inabilidade da utilização de maneira prática
dessas leis simples por pessoas encouraçadas, resultan­
do num desaponto e perseguição odiosa de tudo, mesmo
que seja vagamente reminescente da vida
desencouraçada.
Estes três típicos modos de comportamento exemplifica
todos os sintomas da praga emocional. Será demonstrado que

278
para as leis verdadeiramente simples e naturais da existência
faltam reconhecimento social e proteção, que a verdade pode
ser furtada por cada tipo de ideologia biopática e que a legisla­
ção do século vinte não tem nem interesse nem compreensão
do funcionamento desencouraçado. Não inventei esses meca­
nismos patológicos da vida humana, primeiro os experimentei,
como uma de suas muitas atônitas vítimas. Foi a responsabili­
dade de minha grande descoberta que me forçou encontrar os
caminhos tortuosos, secretos ao longo dos quais o ser humano
biopático caminha com arrogância, tentando destruir sua pró­
pria existência e bem-estar maldizendo o doador da vida.
Eu já havia descrito o efeito da luta contra meu trabalho
sobre o processo da vida na Alemanha, Dinamarca e Suécia.
Entre os oponentes da vida desencouraçada, a luta era sempre
travada sob disfarces de slogans políticos, porque infelizmente
meu trabalho aconteceu durante uma época na qual o “fugitivo
político” era localizado por qualquer força policial no mundo.
Era pedir muito ou mesmo esperar muito que um funcionário
do governo mantivesse a questão do fugitivo político separada
da questão da biogenia, quando mesmo um professor da pato­
logia do câncer era incapaz de fazer a distinção.
Entre o outono de 1934 e o começo de 1937, por aproxi­
madamente três anos, minha pesquisa teve a paz necessária
para se desenvolver. A grande campanha contra a teoria do
bion começou em maio de 1937. Foi precedida de um modo
geral por discussões insignificantes das quais poderia ter de­
duzido o perigo eminente, não tivesse eu sido excessivamente
ingênuo em apoiar a objetividade dos círculos científicos. Esta­
va teoricamente cônscio do fato de que a ciência mecanista é
em si mesma um produto da civilização mecânica em relação a
sua metodologia, mas eu ainda não estava familiarizado com
suas práticas.
Crianças sadias nas quais as funções da vida são livres,
descobrem e utilizam o processo da vida como se fosse um
jogo. Colocando em movimento seus órgãos da fala de forma
totalmente lúdica, a criança aprende a formar palavras, pala­

279
vras que no começo não tem sentido, palavras erradas, palavras
não no sentido lingüístico estritamente acadêmico, mas que ape­
sar disso soam como de onde palavras corretas procedem sob
influência do ambiente. Até as idade de três anos, as crianças
são as maiores descobridoras científicas. Sua única ferramenta
é a bioenergia viva, segurar uma colher ou uma cadeira, abrir e
fechar portas, escolher comida, acariciar, abraços e brincar não
são devidos a hereditariedade. As mesmas crianças crescidas
num meio cultural diferente derivariam de suas atividades outros
significados. As crianças são as maiores pesquisadoras natu­
rais, e os maiores pesquisadores naturais são, primeiramente
crianças brincalhonas conquistando novos campos do conheci­
mento como meninos dominando seus novos ambientes (consi­
derar Leeuwenhoek, Faraday, Edison, entre outros).
A natureza do bion de qualquer matéria que se dilata foi
também descoberta de forma lúdica.
Qualquer pessoa que me olhasse nas noites solitárias, quan­
do eu descobri os bions teria simplesmente abanado a cabeça
negativamente. Nenhum cientista sério, teria me dado a mínima
atenção, os efeitos práticos da energia do orgone cósmico nos
tecidos, em desenvolvimento nas plantas e animais na deteriora­
ção biopática do câncer, etc., são os resultados dessa brincadei­
ra em 1935. Brinquei dessa forma.
Após o decorrer do anos de 1935, confirmei por meio do
oscilográfico, a hipótese que tinha formulado baseado na minha
pesquisa da economia sexual, a saber: o processo de vida é de­
terminado por quatro ritmos na seqüência: tensão mecânica, carga
- descarga, relaxamento mecânico. Esse sistema de funções
mecânicas e bioenergéticas não existiam no reino não ativo.
A aproximação do problema da biogenia era pretendida em
conexão com esse preceito de vida - pretendendo-se que o pre­
ceito estivesse correto. Encontrando tal aproximação para a
biogenia, confirmaria naturalmente a validade do meu preceito
para a sexualidade e o processo da vida. No caso em que tal
aproximação não fosse encontrada, o preceito poderia ainda es­
tar correto, mas iria permanecer estéril por um tempo pelo me-

280
nos.
Em 1935 possuía apenas um oscilográfico que eu colo­
quei no centro do meu pequeno estúdio no meio de uma pilha
de livros e manuscritos. Não estou mencionando esses deta­
lhes com fins sensacionalistas, mas para contrastar nitidamen­
te o início de grandes desenvolvimentos científicos com o es­
plendor dos palácios oficiais e dos monumentos aos políticos.
Não fui o primeiro descobridor forçado a trabalhar sob
tais condições enquanto os zangões da vida social tinham mi­
lhões à sua disposição. Eu sou dedicado ao processo da vida e
ao trabalho honesto, mas depois de trinta anos de pesquisa
difícil e perigosa sobre o organismo humano, não me sinto obri­
gado a me curvar diante de absurdos sociais.
Durante o inverno de 1934-35, gastei quase três mil coro­
as norueguesas do meu ganho como professor de biopsiquiatria
para a construção do oscilógrafo. Isto, entretanto, não estava
me perturbando, porque eu amava meu trabalho e exigia pou­
co da minha vida pessoal. Na minha proeminente posição ga­
nhava suficiente para sustentar meus filhos e a mim e além
disso me permitir ao luxo de um oscilógrafo. Mas agora eu pre­
cisava de um microscópio. Um aluno, Dr. Lotte Liebeck que
veio para Oslo para estudar comigo e que tinha participado como
cobaia numa experiência bioelétrica, estava muito interessado
no trabalho e se ofereceu para me dar o microscópio.
Assim, no fim de 1935, obtive um magnífico microscópio
binocular Leitz para pesquisa, com equipamento básico para
microfotografia. Antes de usá-lo tive que me lembrar do conhe­
cimento sobre microscópio, que tinha adquirido dezesseis anos
antes como estudante de medicina em Viena, e que já havia
esquecido há muito. O instrumento satisfazia os requisitos de
ampliação para 1.500 vezes. O dia em que chegou comecei a
verificar minha hipótese.
Posso ainda recordar da noite, em que me sentei sozinho
no meu apartamento meditando profundamente sobre como
arranjar a experiência. Enquanto estava brincando com o mi­
croscópio, sem idéia do que fazer e colocando tudo dentro do

281
alcance sob as lentes objetivas, repentinamente me ocorreu que
organismos vivos subsistem em substâncias orgânicas, isto é,
substâncias que foram uma vez vivas, se organismos vivos con­
tinuam obter a energia da vida do alimento o qual foi matéria
viva, então senti com certeza que havia uma conexão. Alimentos
contém “substâncias químicas) que o organismo assimila e in­
corpora nos fluídos do corpo. Isto é, uma substância, um proces­
so químico que já tem sido totalmente investigado pela ciência.
Sabia que a química dos alimentos não seria observada
através de um microscópio, mas eu perguntei a mim mesmo como
era possível para o alimento passar através das paredes dos in­
testinos, nos fluídos circulando num organismo vivo. Como isto
ocorre? Ainda não foi considerado o enigmada osmose dos con­
teúdos dos intestinos através da parede do intestino, que a fisio-
logia ainda não resolveu. Se o intelecto humano pudesse sem­
pre estar ciente de todos os problemas da ciência natural duran­
te sua experiência lúdica, uma boa parte das questões seria mais
facilmente respondida.
O procedimento mais simples, a meu ver, seria observar
diversos alimentos no microscópio. Felizmente, não possuía ne­
nhum equipamento bioquímico que me permitisse estudar os ali­
mentos nitidamente transformados em gordura, carbohidratos e
proteínas. Eu disse felizmente, porque se eu tivesse procedido
de maneira estritamente científica em vez de ingenuamente e de
maneira brincalhona nunca teria descoberto a natureza dos bions
de todas as substâncias que são capazes de inchar. As gorduras
não teriam revelado nada, porque são compostos exclusivamen­
te de glóbulos gordurosos; açúcar teria dissolvido em moléculas
e nem um tecido muscular ou uma clara de ovo teria revelado os
bions.
Minhas ações não eram particularmente consideradas, mas
eu estava atormentado pela questão básica da relação entre ali­
mentos e organismo. Era uma “loucura”, joguei carne, batatas,
todos os tipos de vegetais, leite e ovos num pote, enchi com água,
fervi-os por meia hora, pequei uma amostra e corri para o mi­
croscópio. O que eu vi parecia tão louco quanto a aventura toda.

282
Esperava ser capaz de diferenciar claramente entre as várias
substâncias, mas por pura oportunidade - o que chamamos
normalmente de destino - permitiu que meu esforço desse um
passo de gigante. A amostra só continha bolhas. Tudo era do
mesmo tipo, apesar de diferentes no tamanho. Havia também
bolhas grandes e formas que reconheci como amido. A mistura
que eu tinha fermentado era assim, uma massa essencialmen­
te homogênea. As bolhas individualmente brilhavam num
nuance que ia do azul ao azul esverdeado.
A princípio descartei isto com a “explicação” de que era
devido a refração da luz, exatamente da maneira estritamente
natural como cientistas ainda “explicam sempre”, o azul ou o
vislumbre azul-verde dos colóides biológicos. Minha primeira
conclusão física-orgânica estava correta, mais precisamente que
substâncias orgânicas, quando fervidas, se desintegram, isto
é, incham em forma de bolhas. Eu estava no caminho dos
“bions”.
Ajustei o microscópio para uma ampliação de 1.500 ve­
zes, as mudanças dentro dos conteúdos das bolhas eram ago­
ra claramente visíveis, mas não claramente suficientes para me
permitir tirar conclusões. Perguntei a firma Leitz sobre a ampli­
ação da sua mais potente objetiva e fui informado de que era
150 vezes, então fiz um pedido dessa objetiva junto com um
ocular de dezesseis vezes, ou talvez de vinte e cinco vezes,
poderia alcançar um aumento de mais ou menos 5.000 vezes.
Apesar de estar cônscio de que nenhuma estrutura seja
claramente solucionada num aumento de 2.000 vezes, não era
ver as estruturas mais finas que me interessavam, mas ver o
movimento dentro dos bions. Apesar de ter freqüentemente
enfatizado essa diferenciação entre estrutura e movimento na
avaliação dos objetos microscópicos, a objeção ainda pode ser
ouvida de que eu não sabia usar um microscópio, porque eu
não estava ciente de há um limite para a observação microscó­
pica usando luz.
Os preconceitos estão tão profundamente enterrados
como piolhos no pelo de um animal, e quanto maior a ignorân­

283
cia, maior a arrogância. Já que pesquisadores do mecanismo
focalizam de maneira total e exclusiva a estrutura morta dos teci­
dos coloridos, eles não entendem que há movimento e que o
movimento delicado numa partícula que ainda não foi notada num
aumento de 2.000 vezes seria visível num aumento de 3.000 ve­
zes.
Eu devo a descoberta da energia biológica e com ela a
energia cósmica do orgone a essa diferença entre estrutura e
movimento, uma diferença que parece estranha e não científica
aos pensadores mecanicistas. O movimento interno que desco­
bri nos meus bions também resolveram a questão do “movimen­
to Browniano”. No século dezenove Brown observou que partícu­
las bem pequenas de tinta moviam-se de lugar para lugar. Esta­
va inteiramente certo, vendo nesses movimentos uma indicação
das forças da vida. Logo, entretanto, os físicos do mecanicismo
agarraram a questão, destruíram a teoria muito fértil de Brown e
transformaram suas qualidades vivas em mecânica morta. Eles
argumentaram que o momento das pequeninas partículas são
causadas pelo 'bombardeamento das moléculas no líquido”. As­
sim uma descoberta importante foi abafada por décadas; seus
cálculos frágeis das distâncias viajados pelas partículas
Brownianas não poderiam mudar isto. Apenas na década de qua­
renta percebi que os mecanismos destrutivos da vida encouraçada
tinham participado nos procedimentos dos físicos e que a atitude
deles era devida a evasão geral de tudo que meramente lem­
brasse a alguém da energia orgone.
Nos meus bions não era o movimento externo, mas o inter­
no que era significativo. O “bombardeamento das moléculas” não
bastariam para explicar a motilidade interna tal como vibração,
expansão, contração, convulsão, etc. Apenas preocupação com
a matéria tinha limitado o mecanismo à observação microscópi­
ca abaixo de 1.500 vezes, a teoria do bombardeamento mecâni­
co, também o acesso bloqueado às origens da motilidade interna
de substância expandida e também o acesso à bioenergia.
Em outro trabalho descrevi mais detalhadamente o desen­
volvimento do protozoário proveniente dos bions, da matéria e

284
da energia da massa livre do orgone, portanto posso me limi­
tar a um breve sumário nessa parte. Era lógico que eu conti­
nuasse a adicionar mais e bem diversas substâncias à minha
mistura e depois cozinhá-las. Finalmente, havia só azul,
luzente, as bolhas se agitavam internamente. Depois comecei
a expandir várias substâncias na água devagar, na tempera­
tura ambiente. O aparecimento dos bions agora ocorreu muito
mais devagar, no curso de dias ou semanas, dependendo da
dureza das substâncias. Entretanto, desintegração em bions,
sempre ocorria, independente do material que experimentei,
inchar gradualmente tornou-se evidente que a motilidade in­
terna era atribuída a uma energia livre da matéria formada
durante o aquecimento ou expansão.
Por essa razão também designei os bions de “bolhas de ener-
gia”( o termo orgone não existia ainda). A motilidade interna
era um efeito do trabalho e trabalho é inconcebível sem ener­
gia. Evitei intencionalmente determinar qual tipo de energia
eu tinha encontrado. Havia bastante tempo para isso. Obser­
vação meticulosa sozinha iria produzir esclarecimentos poste­
riores.
A expansão do musgo e lâminas de grama revelaram o
desenvolvimento do protozoário originário dos bions, isto é,
organização natural em biogenia. Minhas observações e
microfotografias não deixaram dúvidas quanto a isto; mas para
estar absolutamente certo, pedi culturas de ameba ao Institu­
to de Botânica de Oslo. Um assistente lá, foi muito amável e
disse que o método mais simples de obter amebas era fazen­
do infusões de grama. Então lhe perguntei, de forma total­
mente ingênua e desavisada, sem outras intenções - como o
protozoário veio para dentro da infusão. “Do ar, claro”, respon­
deu espantado. E como ele chega no ar?, perguntei. “Não
sabemos”, foi a resposta. Ele me disse que até agora nin­
guém tinha tido sucesso em cultivar protozoários originados
do ar.
Confrontei-me com a tarefa de preparar numerosas cul­
turas de contaminação do ar para me convencer que não ha­

285
via nenhum germe protozoário no ar. (Durante anos subseqüen­
tes tentei centenas de vezes obter protozoários do ar, sem su­
cesso). Esse fato sobrecarrega os teóricos da “infeção no ar”,
com a tarefa de suprir seu objeto de controvérsia de que
protozoários se desenvolvem dos “germes do ar”.
Hoje, diante de qualquer estudante de orgonobiofísica e
biogenia, admite-se um trabalho biogenético avançado no Insti­
tuto Orgone, ele deve tentar provar que protozoários, células can­
cerosas, camadas plasmáticas, bions T-Bacilos, cistos, etc., po­
dem ser obtidos através da “infecção do ar’. Somente quando ele
estiver convencido por amplas experiências de culturas do ar que
não a tal coisa como protozoários do ar, será capaz de resistir às
muitas influências exercidas sobre ele por seu ambiente social,
abandonando suas ansiedades sobre “impurezas” e estudar como
a natureza funciona. Somente então, será ele capaz de julgar
inteligentemente onde a infecção do ar é realmente válida.
Em tais casos, ele irá aderir a esterilização pura. Mas ele
não vai mais mal interpretar cada observação microscópica que
demostre biogenia como “apenas infecção aérea”. A extensão e
o trincamento dos subterfúgios torna possível, omitindo a prova,
que as possibilidades da real infecção aérea não são verdadei­
ras. Essa omissão deve ser completamente removida do estu­
dante e do professor de biologia, se se pretende sair do atoleiro
das crenças da infecção do ar.
O problema é mais complicado no caso de bactéria deteri­
orada (fusiformes, subfilis, etc.). É possível obter tal bactéria do
ar. Entretanto, não é fácil fazer isso. E mesmo se isso fosse rea­
lizável, a próxima questão lógica seria “como a bactéria vem para
o ar?” Essa pergunta inescapável provoca uma resposta irracio­
nal, ao invés de uma resposta real. Ninguém nem mesmo tem
tentado respondê-la.
A orgonomia oferece a seguinte explicação: as partículas
de poeira no ar surgem de todos os tipos de matéria orgânica
decomposta. Obtemos bactéria decomposta do ar através de
hidratação e decomposição da poeira dos bions justamente como
fazemos em qualquer preparação de bion decomposto.

286
O teórico do germe aéreo simplesmente recusa-se a con­
siderar esse argumento e às vezes se oculta em vez de difa­
mar. Entretanto, de agora em diante, essa questão perturbará
qualquer biólogo sério. Ela não pode mais ser enganada.
Tudo isto não tem nada que haver com “a geração es­
pontânea”, nem a teoria de que a vida se origina de natureza
não viva ter sido alguma vez refutada. Nem Pasteur, nem qual­
quer outro tem reclamado isso. O que Pasteur fez na sua dis­
cussão com Bastian foi se comportar como um homem que
defende em determinado e vigoroso cavalo móvel não é vivo,
contrariamente a todas as aparências. Quando o dono do ca­
valo insiste que ele está vivo, o homem pega um machado e
esmaga a cabeça do cavalo e então diz triunfantemente: “ago­
ra é obvio para qualquer pessoa que o cavalo está morto”.
Esta história é análoga à função da esterilização das ma­
térias vivas na pesquisa biogenética. Felizmente a biologia
orgonômica quebrou o encanto. Bions surgem de material com­
pletamente esterilizado através da expansão como na experi­
ência XX depois do congelamento da água do bion amarelo;
isto pode levar meses ou anos até que o protozoário apareça
em preparações infecundas, mas eles estão lá. A decomposi­
ção espontânea do tecido vivo em bions e depois em bactéria
decomposta pode ser observada no microscópio e reduzida ex­
perimentalmente. Este processo continua constantemente em
toda natureza e em muitas doenças. O desamparo de teorias
bacteriológicas errôneas diante de doenças, tais como câncer
trará mais cedo ou mais tarde a derrota dos adeptos da teoria
da infeção do ar. Germes do ar invisíveis não podem possivel­
mente prevalecer contra processos dos bions claramente visí­
veis.
Gostaria de saber quantas vidas serão perdidas antes
que seja colocado um fim nesse incrível desgoverno de matéri­
as científicas.
Na época eu respeitava a ciência natural mecanicista e
seus representantes. Eles eram sérios, mulheres e homens di­
ligentes que executavam seus trabalhos experimental com cui­

287
dado. Somente nos anos seguintes me livrei de um erro perigoso
ao qual havia me prendido, não totalmente sem motivos irracio­
nais. Sabia que tinha encontrado o problema da biogenia e que
este problema era a questão central, não apenas de todas as
ciências biológicas, mas da própria ciência natural. Era óbvio que
não estava suficientemente equipado para esse problema, ape­
sar de uma década e meia de treinamento científico - natural e
filosófico. Era muito, era demasiado para uma pessoa, mesmo
considerando minha capacidade para o trabalho e minha experi­
ência.
Estava todavia, inconsciente de que tivesse receio do pro­
blema. Senti que tinha que ganhar a cooperação das instituições
científicas estabelecidas se tivesse sucesso. Fenômenos que eu
não podia compreender estavam aparecendo com freqüência,
mas eu não sabia que pesquisadores mecanistas também não
tinham explicação para aqueles fenômenos, nem mesmo tinham
percebido que eles existiam. Eu ainda estava para me tornar côns­
cio disto de forma perigosa.
Da quantidade desses fatos importantes, selecionei ape­
nas um para orientar o leitor. O fenômeno que escolhi conduziu
mais tarde à descoberta da origem do câncer. Como os estudan­
tes de orgonobiofísica sabem, os tumores cancerosos são deter­
minados por uma biopatia do encolhimento geral canceroso, o
qual em contra partida é determinado pela tendência para de­
composição no sangue e tecidos. Um esmero no exame clínico
indicou que esta tendência para a decomposição estava em si
mesma fixada num declínio pronunciado da função pulsatória e
com isto a energia do metabolismo do organismo. Assim a chave
do problema do câncer era o problema da degeneração ou ex­
presso de modo mais científico: a natureza da degeneração do
corpo e putrefação do tecido vivo.
Quando encontrei meus bions não tinha idéia que degene­
ração é “lugar muito comum” e incientífico para ser investigado
pela medicina, bacteriologia, biologia e biofísica.
Decomposição é um processo natural universal, toda substância
viva se eleva a uma altura maior ou menor e depois gradualmen­

288
te declina, conduzindo-se finalmente para a morte e desinte­
gração do tecido através da decomposição.
Não há esterilização na natureza ou “infecção no ar", mas
biólogos do mecanicismo e bacteriologistas não se consideram
cientistas enquanto não tiverem tudo cuidadosamente esterili­
zado. Por causa do fato de que esses cientistas naturais esme-
radamente, apropriadamente e meticulosamente excluem toda
possibilidade de putrefação ou “infecção no ar” de suas prepa­
rações com a precisão estrita da era do mecanicismo, a maior
descoberta em biologia escapou de seus dedos, a saber a sim­
ples explanação de que o processo do câncer está fixado na
degeneração prematura do sangue e dos tecidos, assim, em
outras palavras, o organismo canceroso sofre a “morte viva”.
Foi a teoria do “Germe no ar”, rigidamente e mecanicamente
aplicada e o teorema “omnis cellula ex cellula”, que causou a
pesquisa do câncer e todas as outras pesquisas biogenéticas,
tornarem-se infecundas no sentido estrito da palavra.
Logo veremos o enorme papel representado pela “bacté­
ria pode banal”, não apenas na pesquisa do câncer, mas tam­
bém na campanha da vida encouraçada da ciência do
mecanicismo contra o funcionalismo orgonômico.
Primeiro trabalhei sob condições completamente não es­
téreis. Observei tecidos no seu estado natural, cozinhei e não
cozinhei, sem usar esterilização. Hoje percebi que nunca teria
me confrontado com o problema do câncer se eu tivesse aderi­
do exclusivamente à observação de preparações estéreis como
a lei da biologia estrita requer. Observei bactéria podre apare­
cer em minhas preparações. Sob uma grande ampliação pode-
se distintamente seguir a desintegração do tecido em bolhas e
depois diretamente em formatos de hastes longas. (Este pro­
cesso foi filmado. Se meus oponentes apenas tivessem tido o
cuidado de olhar dentro do microscópio, teriam visto a forma­
ção da bactéria podre, claramente e inequivocamente). A ob­
servação não deixou dúvida, com um sopro destrui uma mon­
tagem de conceitos mecanistas e biológicos falsos.
Para me convencer experimentalmente que estava cor­

289
reto, esterilizei uma preparação de clara de ovo, mantive-a esté­
ril e descobri que mesmo as mais estritas medidas de precaução
não puderam impedir a autodesintegração da proteína sob cer­
tas condições internas e o aparecimento da bactéria podre.
Pintei ovos frescos com laca e alcatrão, mas eles se de­
compuseram, todas as substâncias que esterilizei se degenera­
ram mais cedo ou mais tarde, por razões internas e não exter­
nas. Preparei uma mistura estéril de substâncias que já se trans­
formaram na famosa preparação 6c. A bactéria decomposta apa­
receu em poucos minutos. Esquentei can/ão até a incandescência
e juntei-o à solução em expansão. Cinco minutos mais tarde ob­
servei organismos pequenos móveis degram colorido, que mais
tarde foram chamados de T-Bacilos. Assim, não havia dúvida da
origem interna da decomposição, apesar de que ainda estivesse
completamente obscuro qual energia devia isto ser atribuído.
Agora fiz meu primeiro erro tático entregando ao Dr. Odd
Havrevold uma sugestão urgente na qual eu pedia ao Instituto
Bacteriológico de Oslo para identificar os microorganismos. Peço
a compreensão dos leitores para o que considero isto como um
erro grave.
Apesar de um conhecimento básico sobre bacteriologia, eu
não era um especialista. O aparecimento de microorganismos,
biologicamente coloríveis, logo depois da preparação do bion ti­
nha excluído naturalmente a probabilidade da então chamada
infecção do ar, porque o último requereria pelo menos vinte e
quatro horas para a bactéria aparecer. Estava cônscio desse fato,
mas não podia decidir sozinho, foi que se os microorganismos
resultantes da minha experiência eram idênticos às formas co­
nhecidas ou representavam essencialmente novas formas. Ti­
vesse eu um laboratório bem equipado e, acima de tudo fundos
suficientes ao meu dispor, teria empregado um bacteriologista
para conduzir os testes necessários. Entretanto, não tinha dinheiro
e preferi esperar e evitar contato com a ciência oficial devido às
experiências infelizes, que gostaria de descrever rapidamente.
Quando fui bem sucedido em produzir bions do preparado
6c, nos últimos meses de 1936, pedi a amigos em Copenhagen

290
para pedir ao Instituto biológico, dirigido pelo Dr. Albert Fischer
me permitir usar seu equipamento microfotográfico, a fim de
estudar num filme de movimento rápido o desenvolvimento dos
bions de matérias que se expandiam. A resposta do Fischer foi
amável e fui a Copenhagen para demonstrar a experiência 6c.
Pouco antes de começar, Fischer fez uma pergunta cínica so­
bre qual tipo de pasta planejava fermentar. Isso era típico de
uma atitude básica da biologia clássica. Quase me retirei, mas
depois aceitei sua desculpa acalmando e continuei.
As mudanças eram misturadas e a preparação cozida,
então dificuldades surgiram porque 0 microscópio de Fischer
aumentava apenas até 1.500 vezes e assim revelou as formas,
mas não sua motilidade interna. Isto requereria uma ampliação
de pelo menos 2.OOO vezes. Fischer ficou nervoso e levantou a
questão nos limites da ampliação usual. Respondi que meu
objetivo era observar a motilidade e não identificar estrutura.
(Essa falta de distinção entre o funcional (movimento) e o me­
canismo estático (estrutura), protelaram por anos em todas as
discussões da potência do microscópio).
Um dos cientistas de Fischer sugeriu a Giemsa colorida
que era feita imediatamente, revelando formas que reagiam
positivamente. Essa demonstração causou uma profunda im­
pressão, mas acontecimentos subsequentes que predispunham
em favor da teoria do “germe do ar” estavam dominando.
Voltei para Oslo e pedi ao Dr. Leunbach, um médico dina­
marquês e antigo amigo da orgonomia, para manter os canais
abertos para Fischer. Logo chegou uma carta de Leunbach me
informando que a reação de Fischer foi muito peculiar. Ele me
acusou de “falta de julgamento crítico” e de “fantasiar” dizendo
que eu tinha requisitado uma ampliação ridiculamente alta, su­
postamente eu tinha descrito observações deformações
alongadas e divisões de células toda motilidade, disse ele, o
momento do líquido e meus argumentos eram os antigos so­
nhos de fada da época anterior a Pasteur - indefensáveis mis­
turas de psicologia e biologia.
Para evitar falsos rumores refutei todas as reclamações

291
de Fischer numa carta para Leunbach em 9 de janeiro de 1937,
apesar de que continuava a acreditar na objetividade dos cientis­
tas naturais. Teria sido melhor reagir defensivamente, Fischer
tinha simplesmente tentado explicar fatos óbvios. Ele negou o
Giemsa colorido, não considerou o aparecimento das hastes e
coccos, poucos minutos depois que a preparação tinha sido feita
e dirigida para retratar toda a experiência sob aparência ridícula.
Infelizmente não sonhei com o quanto minha experiência era nova,
revolucionária e compreensível.
Tinha encontrado também o medo dos cientistas do
mecanicismo natural, do movimento da vida durante uma experi­
ência com bions de carvão na presença do patologista norue­
guês de câncer Leif Kreyberg. Essa demonstração era a causa
direta de sua revogação na cooperação para a animosidade cheia
de ódio. Ele me trouxe uma preparação de câncer ( como havia
feito freqüentemente antes), e perguntei-lhe se queria ver as cé­
lulas cancerosas sob alta ampliação, a qual não estivera disponí­
vel para ele anteriormente.
Focalizei sobre uma formação alongada movendo-se atra­
vés do campo, vagarosamente e convulsivamente. Ele olhou atra­
vés do microscópio numa ampliação de 400 vezes e não reco­
nheceu as formas como células cancerosas.
Pediu-me para ver os bions de carvão, esquentei uma pre­
paração fresca de pó de carvão até a íncandescência e juntei-a à
solução expandida. Alguns minutos mais tarde peguei uma pe­
quena amostra e ajustei-a ao microscópio para uma ampliação
de 300 vezes. Os bions estavam extremamente móveis,
contractáveis e manifestamente azulados. ( Essas característi­
cas são familiares hoje aqueles que têm observado bions de car­
vão).
Kreyberg olhou através do microscópio e ficou nervoso. Gos­
taria de ver seu caldo, disse ele, significando que ele achava que
isso era uma solução contaminada. Isso me surpreendeu porque
ele tinha visto a solução clara. Além do mais, é impossível con­
fundir um bion de carvão com qualquer matéria ou partícula co­
nhecida, obtida do ar.

292
Ainda assim, eu atendi ao seu pedido e coloquei uma
gota da solução sob o microscópio na mesma ampliação. Natu­
ralmente não havia nada para ver. Kreyberg se foi obviamente
abalado. Ele havia me pedido previamente uma cultura de bion
de carvão para examinar em casa. Hesitei um pouco, sabendo
que ele não teria idéia do que fazer com aquilo. Dei-lhe, entre­
tanto, uma amostra da cultura desenvolvida no ágar.
Sua avaliação dessa cultura pura demonstrou claramen­
te a expressão verbal da bacteriologia. Em sua campanha con­
tra mim, mais tarde, ele disse que a cultura do bion continha
apenas estafilococo.
Apenas estafilococo! Desse modo Kreyberg rejeitou a no­
vidade das células móveis do câncer na ampliação de 400 ve­
zes, bem como o incidente com os bions do can/ão. Não fez
nenhuma menção deles - um crime ultrajante para um indiví­
duo que se considera “objetivo” e “científico”. Posteriormente
ele omitiu reatar que “estafilococo” representava a “cultura pura”
se bem que a infecção do ar usualmente produz culturas mistu­
radas.
Nem estava ele ciente de que durante os processos de
matar, secar e coloração dos bions, todas as diferenças desa­
parecem, deixando atrás apenas formas redondas e azuis, que
são realmente similares a estafilococos. Kreyberg demonstrou
sua ignorância - que de modo típico ele atribuiu a mim - acre­
ditando que ele tinha entendido o fenômeno quando ele ape­
nas sabia seu nome. ( Ele não entendeu que a palavra
“estafilococo” não diz nada sobre a origem da forma).
Ele dividiu seu erro básico com todos s pesquisadores
mecaniscistas. Ele negou ao público o fato de que é possível
observar bolhas se formando de uma matéria no microscópio,
apesar de que eu tinha publicado essas descobertas. Em resu­
mo, esse homem se revelou como um neurótico insolente que
ocultava sua própria ignorância e sua inclinação para intriga
me acusando de charlatão. Ele estava desesperadamente re­
ceoso de que eu estivesse de fato correto. ( Posteriormente em
seus esforços para me desacreditar, ele até recorreu a menti-

293
ras grossas).
O que me intrigava não era seu comportamento, mas o
que o público incluindo alguns dos meus amigos mais chegados,
que deram a esse homem uma autoridade, simplesmente por­
que ele era um funcionário de um hospital público de câncer. (
Em tais mãos, fica o destino de milhares de sofredores de cân­
cer).
Apesar dessas duas experiências no fim de 1936, concor­
dei com a sugestão de Havrevold de mandar ao bacteriologista
Thfötta, preparações de bion para identificação das formas. ( Em
vez de restringir-se a uma simples identificação dos organismos,
na preparação, ele usou mal esta oportunidade no interesse da
teoria do germe do ar. Sem que tenha sido pedido e sem autori­
zação, ele lançou uma declaração pública com o propósito de
que ele tinha controlado as experiências de Reich e que não se
encontrou nada mais que simples bacilos. Estas declarações nada
tem a ver com nosso pedido de identificação dos organismos).
Enviei a ele uma preparação de bion 6 c, não cozida, na
qual as hastes tinham aparecido poucos minutos após a mistura
ter sido feita. Em seu relato verbal á Havrevold, declarou que isto
continha simples hastes, isto é, ubfílis e prteus, encontrados em
matéria decomposta.
Nessa época, como mencionei acima, eu não tinha a me­
nor idéia de enorme significado dessas simples hastes para todo
o problema do câncer, simplesmente segui o desenvolvimento
do fenômeno e procurei a ajuda de especialistas de uma maneira
imperdoavelmente inocente. Contudo, nada se sabia da energia
do orgone e eu não estava também consciente do medo mortal
da vida desencouraçada, do orgone, da energia da vida em si
mesma.
A então chamada infecção do ar de uma preparação 6 de
um bion estéril, provou ser a chave do problema do câncer. Va­
mos sumarizar os argumentos os quais tornam a posição teórica
dos meus oponentes inválida; estão elaboradas no segundo vo­
lume da “Descoberta do orgone: A biopatia do câncer”.
1. O processo do câncer é um prolongado processo de decom­

294
posição dentro do organismo, devido a diminuição bioenergética
do sistema da vida. No curso de sua degeneração e decompo­
sição da proteína viva, a bactéria decomposta se desenvolve, a
qual vagarosamente se degenera, posteriormente em T-bacilo,
que pode ser observado e cultivado a partir dos tecidos, incluin­
do o sangue de cada paciente canceroso. A célula do câncer
em si mesma é um protozoário formada em tecidos animais do
mesmo modo como protozoários são organizados dos tecidos
em decomposição das plantas.
2. Nenhuma célula cancerosa ou protozoário de qualquer tipo
pode ou será alguma vez “encontrada no ar”. Todo esforço para
obter protozoários do ar falhou em meu laboratório, e não há
prova na literatura da biologia clássica que protozoários foram
realmente achados no ar. Esta pretensão é pura invenção da
parte de cientistas preconceituosos. Isto serve para manter um
ponto de vista extinto da vida que distingue nitidamente o orgâ­
nico do inorgânico, em origem, bem como função.

Orgonomia tem provado pela observação microscópica e


experiências estéreis que a vida primordial se desenvolve atra­
vés de muitas fases dos bions, isto é, energia das bolhas. Ne­
nhuma prova ao contrário tem sido citada. Nenhum protozoário
nascido no ar ou células cancerosas foi alguma vez demons­
trada. Agora a carga da contra prova enfrenta o destino dos
teóricos do Germe do ar.
Se eles querem manter sua posição, devem provar que
as células cancerosas e protozoários existem no ar. Se eles
não podem provar isto, é lógico assumir que as células cance­
rosas surgem em alguma outra parte no organismo. É exata­
mente neste ponto que o irracionalismo maligno entra em cena
com debates sobre observações orgonômicas. Enquanto os
oponentes da orgonomia se recusarem a olhar dentro dos mi­
croscópios, suas objeções não podem ser levadas a sério.
Esses oponentes deveriam se lembrar que não estamos
mais vivendo no começo da era da bacteriologia; estamos vi­
vendo no seu declínio. A teoria da infecção do ar tem exaurido

295
sua utilidade. Isso tornou-se uma barreira que obstrui a compre­
ensão e cura de doenças como o câncer, pressão alta, febre reu­
mática, etc.
Estamos agora enfrentando um conjunto inteiramente novo
de problemas agrupados ao redor da função natural de infecção
endógena e decomposição. Essas aflições não mais são
parasíticas na origem; elas são bioenergéticas e emocionais, isto
é, funcionais.
Assim, estamos entrando numa nova era a medicina e na
biologia. A linha condutora desses novos desenvolvimentos se­
rão as funções (ainda a serem elaboradas) do concreto,
mensurável, dirigível, energia da vida visível, energia do orgone.
A descoberta em 1940, da energia na atmosfera com as qualida­
des específicas da vida ( pulsação potencial orgonal, mais alta
constância potencial de calor, etc.), não apenas confirmou o fe­
nômeno dos bions no microscópio, mas pôs fim às mentes es­
treitas, miopias, conversas infantis sobre “germes do ar”, não visto
e não provados, como fonte primordial da vida, tais como ameba,
triconomas, colpidiae, etc.
Isto eliminou um slogan vazio que tinha confundido fatos
definidos por décadas e bloqueou qualquer avanço para um en­
tendimento da biogenia. Em 1945, quando a experiência XX re­
velou a formação da matéria plasmática de água de bion estéril,
autoclavada e congelada, tornou-se clara que toda vida orgânica
emerge da energia do orgone a qual tinha absorvido água, con­
centrada em bions e, continua pulsar dentro das membranas fle­
xíveis.
A vida vem “do ar e do solo” não como germes não vistos,
mas como energia cósmica da vida.
“Eu não sei o que posso parecer ao mundo; mas para mim mes­
mo eu pareço ter sido apenas um menino brincando na praia e
me divertindo em encontrar de vez em quando um cristal de ro­
cha polido ou uma concha mais bonita do que a comum, enquan­
to o grande oceano da verdade se estende oculto diante de mim”.
* Isaac Newton -

296
Pessoas em Dificuldades

Este livro inclui vários escritos de Reich


que compreendem o período de 1927 a 1945.
Ilustra o amadurecimento gradual de
discernimentos que contribuíram para a
descoberta da energia orgone que segundo
Reich, não teria acontecido sem as experiências
que aqui vão descritas.

Centro Reichiano de Psicoterapia Corpora


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