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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇAO EM FILOSOFIA

NÍVEL MESTRADO

HÚDSON KLÉBER PALMEIRA CANUTO

LEIBNIZ: A ORIGEM DOS FRANCESES


TRADUÇÃO, APRESENTAÇÃO E COMENTÁRIOS

SÃO CRISTÓVÃO – SE
2016
HÚDSON KLÉBER PALMEIRA CANUTO

LEIBNIZ: A ORIGEM DOS FRANCESES


TRADUÇÃO, APRESENTAÇÃO E COMENTÁRIOS

Dissertação apresentada como requisito parcial para a


obtenção do título de Mestre em Filosofia, no Programa
de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal
de Sergipe.

Área de concentração: Filosofia da História e Moderni-


dade.

Orientador: Prof. Dr. William de Siqueira Piauí.

SÃO CRISTÓVÃO – SE
2016
ii
iii

HÚDSON KLÉBER PALMEIRA CANUTO

LEIBNIZ: A ORIGEM DOS FRANCESES


TRADUÇÃO, APRESENTAÇÃO E COMENTÁRIOS

Dissertação apresentada como requisito parcial para a


obtenção do título de Mestre em Filosofia, no Programa
de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal
de Sergipe. Área de concentração: Filosofia da História
e Modernidade.

BANCA EXAMINADORA

São Cristóvão - SE, 18 de janeiro de 2016


iv

Este exemplar corresponde à versão final da Dissertação de Mestrado em Filosofia do aluno


Húdson Kléber Palmeira Canuto

____________________________________
Prof. Dr. William de Siqueira Piauí – Orientador
(Universidade Federal de Sergipe)
v

Concede-se ao Núcleo responsável pelo Mestrado em Filosofia da Universidade Federal de


Sergipe permissão para disponibilizar, reproduzir cópias desta dissertação e emprestar ou
vender tais cópias.

__________________________________
Húdson Kléber Palmeira Canuto – Autor
(Universidade Federal de Sergipe – Instituto Federal de Alagoas)

_____________________________________________
Prof. Dr. William de Siqueira Piauí – Orientador
(Universidade Federal de Sergipe)
vi

AGRADECIMENTOS

.1‫ שנתן לי נרות רבות ובינה לדעת את האמת ואת החים‬,‫ בונא הגדול העולם‬,‫ליי‬

A minha esposa Deizielle pela paciência e compreensão durante as ausência e afastamentos


para cumprir os créditos e na confecção e revisão desta Dissertação.

A minha família.

À prof.ª Irene Maria Diestsch, pelas ajudas nas traduções de textos em alemão.

Ao Prof. Dr. William de Siqueira Piauí que me orientou neste trabalho, sem seu paternal e
fraternal empenho esta Dissertação não teria sido produzida.

Aos professores doutores Aldo Lopes Dinucci (UFS) e Adilson Alciomar Koslowski (UFS),
pelas contribuições dadas na construção deste trabalho, quando do Exame de Qualificação.

Aos professores doutores Aldo Dinucci e Oliver Tolle por terem aceitado nosso convite para
compor a Banca de Examinadora de Defesa e, com isso, contribuir para a versão final desta
Dissertação.

À secretaria e ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFS nas pessoas de Alam Fa-


biano e Adriano Barreto, secretários, e do Prof. Dr. Antônio Carlos dos Santos, coordenador
do Mestrado em Filosofia.

Aos professores do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Ser-


gipe, que com suas aulas contribuíram muito para meu enriquecimento acadêmico.

1
Tradução: Ao Eterno, Grande Arquiteto do Universo, Que me deu grandes luzes e ciência para conhecer a
verdade e a vida. (Transliteração: L’Adonay, Bonê´ ha-Gadôl ha-`olam, chenatan li nerôt rabôt uviná lada`at
ha-´emet we´et ha-ĥayim.)
vii

CANUTO, Húdson K. P., Leibniz: A origem dos franceses. Tradução, apresentação e comentários.
2016, 100 páginas. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Programa de Pós-Graduação em Filosofia,
Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão - SE, 2016.

RESUMO

O livro de Leibniz De origine francorum disquisitio (Dissertação sobre a origem dos france-
ses) de 1715 foi escrito um ano antes da morte do filósofo de Leipzig. É uma obra de dimen-
sões reduzidas. Consta de 44 páginas e 38 capítulos. Defendemos a hipótese de que o livro
deve ser divido, a nosso ver, em quatro partes. Nele Leibniz vai apresentando a temática da
origem dos franceses, remontando-a a uma origem germânica. A primeira parte (capítulos I-
IX) é a origem da discussão do tema. Na segunda parte (capítulos X-XXIX) Leibniz dá a des-
crição da migração dos francos na Alemanha, desde a Lei sálica. A terceira parte (capítulos
XXX-XXXVII) tratará dos franceses propriamente ditos. A quarta parte (capítulo XXXVIII)
traz uma espécie de conclusão. O objetivo de Leibniz, do nosso ponto de vista, é fazer os
franceses herdeiros dos antigos francos, o uso do termo latino francus dá-lhe azo a isso; pois,
com essa palavra ele engloba tanto uns quanto outros. Daí deriva a escolha proposital de es-
crever em latim. Essa nossa tradução relaciona-se com outras traduções produzidas no Brasil
sobre a questão da língua e das origens das nações para Leibniz.

Palavras-chave: Leibniz, francos, filosofia da linguagem, etimologia.


viii

CANUTO, Húdson K. P., Leibniz: The origin of the French. Translation, presentation and com-
ments. 100 pages. MSc Dissertation. Brazil - Sergipe: Federal University of Sergipe, 2016.

ABSTRACT

The book of Leibniz De origine francorum disquisitio (Dissertation on the origin of the
French) of 1715 was written a year before the death of the Leipzig philosopher. It is a work of
reduced dimensions. It consists of 44 pages and 38 chapters. We defend the hypothesis that
this book must be divided, about us, into four parts. Leibniz it will presenting the theme of the
origin of the French, going back to a Germanic origin. The first part (chapters I-IX) is the
source of discussion of the topic. In the second part (chapters X-XXIX) Leibniz gives the des-
cription of the migration of the Franks in Germany since the Salic Law. The third part (XXX-
XXXVII chapters) will discuss the proper French. The fourth part (chapter XXXVIII) brings a
sort of conclusion. The goal of Leibniz, about us, is to the French heirs of the old franks,
using the Latin term Francus allows him to make the resemblance; because with that word it
encompasses for both groups. Hence the deliberate choice to write in Latin. That our transla-
tion relates to other translations produced in Brazil on the issue of language and the origins of
nations to Leibniz.

Keywords: Leibniz, Franks, philosophy of language, etymology.


ix

CANUTO, Húdson K. P., Leibniz: L’origine des françois. Traduction, présentation et commentai-
res. 100 pages. Dissertation. Brésil - Sergipe: Université Fédérale de Sergipe, 2016.

RÉSUMÉ

Le livre de Leibniz De origine francorum Disquisitio (Dissertation sur l’origine des françois)
de 1715, a été rédigé un an avant la mort du philosophe de Leipzig. Il est un travail de dimen-
sions réduites. Il se compose de 44 pages et 38 chapitres. Nous defendons l’hypothèse de que
le livre doit être divisé, selon nous, en quatre parties. Leibniz en présentant le thème de
l’origine des François, remontant à une origine germanique. La première partie (chapitres I-
IX) est la source de la discussion du sujet. Dans la deuxième partie (chapitres X-XXIX) Leib-
niz donne la description de la migration des Francs en Allemagne depuis la Loi Salique. La
troisième partie (chapitres XXX-XXXVII) va discuter les françois même. La quatrième partie
(chapitre XXXVIII) apporte une sorte de conclusion. Le but de Leibniz, par nous, est faire les
françois héritiers des anciens francs, en utilisant le terme latin Francus lui permet de faire la
ressemblance; car avec ce mot qu’elle englobe les deux groupes. D’où le choix délibéré
d’écrire en latin. Cette notre traduction se rapporte à d’autres traductions produites au Brésil
sur la question de la langue et les origines des nations à Leibniz.

Mots-clés: Leibniz, Francs, philosophie de la langage, etymologie.


x

CANUTO, Húdson K. P., Leibnitius: De origine francorum disquisitio. Traductio, praesentatio et


commentaria. XCVIII paginae. Dissertatio. Brasilia - Sergipe: Universitas Foederalis Sergipensis,
MMXVI.

SUMMA

Liber Leibnitii De origine francorum disquisitio anni MDCCXV scriptus est anno anteriore
morti philosophi Lipsiensis. Opus est hoc parvis misuris, habens XLIV paginas et XXXVIII
capita. Defendimus librum dividendum esse quatuor partibus. In eo Leibnitius praesentat om-
nibus thema de origine francorum, ab origine germanica. Prima pars (capita I-IX) habet ini-
tium quaestionis super thema hoc. In secunda parte (capita X-XXIX) Leibnitius dat descripti-
onem migrationis francorum intra Germaniam, a Lege Salica. Tertia pars (capita XXX-
XXXVII) tractabit de francis proprie dictis. Quarta pars (capta XXXVIII) fert modum conclu-
sionis. Propositum Leibnitii, iuxta nos, est facere francos hodiernos heredes francorum anti-
quorum, usus vocabuli latini francus donat ei occasionem ut id faciat; nam, vocabulo uno et
uni et alii complectuntur. Unde venit electio consulto ad opus latine conscribendum. Haec
nostra versio coniungitur una cum multis versionibus factis in Brasilia de linguae et originis
nationum apud Leibnitium quaestione.

Vocabula: Leibnitius, francus, philosophia linguae, etymologia.


xi

SUMÁRIO
1. Introdução ............................................................................................................................................1
1.1. O livro e sua divisão ..................................................................................................................... 1
1.2. O título do livro e a questão das escolhas .................................................................................... 7
1.3. O porquê da tradução para o português ........................................................................................ 8
1.4. Limites da pesquisa .................................................................................................................... 13
1.5. Metodologia ............................................................................................................................... 13
2. Primeira parte: Origem da discussão..................................................................................................15
2.1. Motivação ................................................................................................................................... 15
2.2. Origem troiana ........................................................................................................................... 17
2.3. Origens em Alexandre Magno ................................................................................................... 18
2.4. Passagem pela Panônia............................................................................................................... 20
2.5. Origem germânica ou gaulesa .................................................................................................... 21
3. Segunda Parte: A migração dos francos na Germânia .......................................................................25
3.1. Considerações iniciais ................................................................................................................ 25
3.2. O mar Báltico e o rio Elba (a primeira sede dos francos) .......................................................... 26
3.3. A guerra de Marco Aurélio ........................................................................................................ 27
3.4. Parentela com os dinamarqueses e a origem do nome ............................................................... 28
3.5. A Lei sálica e a segunda sede dos francos.................................................................................. 30
3.5.1. A Lei sálica.......................................................................................................................... 30
3.5.1.1. A Lei sálica na França .................................................................................................. 31
3.5.1.2. A Lei sálica no Reino Unido ........................................................................................ 32
3.5.1.3. A Lei sálica em Portugal .............................................................................................. 32
3.5.1.4. A Lei sálica na Espanha ............................................................................................... 32
3.5.2. Segunda sede dos francos e a Lei sálica .............................................................................. 33
3.6. A Bélgica.................................................................................................................................... 34
3.7. A ilha batava .............................................................................................................................. 35
4. Terceira e quarta partes: os francos na Gália .....................................................................................37
4.1. Chegada à Gália ......................................................................................................................... 37
4.2. Vestígios..................................................................................................................................... 38
4.3. O nome França .......................................................................................................................... 39
4.4. Os Merovíngios e Carlos Magno ............................................................................................... 41
4.5. Conclusão de Leibniz ................................................................................................................. 43
5. Considerações finais...........................................................................................................................45
6. A origem dos franceses (tradução) .....................................................................................................50
1.ª PARTE ......................................................................................................................................... 50
2.ª PARTE ......................................................................................................................................... 57
3.ª parte.............................................................................................................................................. 73
4.ª PARTE ......................................................................................................................................... 79
glossário de pessoas e lugares ........................................................................................................... 80
Lista dos Monarcas merovíngios....................................................................................................... 85
Referências bibliográficas ......................................................................................................................87
I. Obras primárias .............................................................................................................................. 87
II. Obras secundárias ......................................................................................................................... 88

Índice de figuras

Mapa do Império Romana e da Magna Germânia .................................................................................24


1

1. INTRODUÇÃO

Quia veteribus monumentis caruere.

Leibniz, De origine francorum disquisitio.

1.1. O LIVRO E SUA DIVISÃO

O livro de Leibniz De origine francorum disquisitio (literalmente: Dissertação so-


bre a origem dos franceses2) de 1715, escrito um ano antes da morte do filósofo de Leipzig, é
uma obra de dimensões muito reduzidas. O texto original latino, na edição fac-simile, consta
de 44 páginas e de 38 capítulos de tamanhos variados. Sobre esse texto, De Buzon afirma que
seria a continuação daquilo que Leibniz propusera no fim da Brevis designatio, dizendo:
«Nesse sentido, as observações finais da Brevis designatio são um convite para continuar o
debate sobre o terreno habitual do historiador. O que Leibniz fará em 1715»3, com a publica-
ção do livro De origine francorum, de que ora apresentamos a tradução.

Entretanto, De Buzon comete um erro quando supõe que a questão da língua e de


sua importância para o estudo das origens das nações, nos textos leibnizianos, encete somente
com a Brevis. Na verdade, inicia-se já bem antes da publicação dos Novos ensaios. Fica isso
especialmente evidente na tradução que Piauí e Cecci Silva fizeram de cartas que Leibniz
mantém com Sparvenfeld, em que afirmam os tradutores: «o principal motivo da troca de car-
tas entre Leibniz e Sparvenfeld se associa à defesa da hipóteses [sic] geral segundo a qual a
conexão das línguas permitiria compreender a connexion des nations»4. Daí decorre que o

2
Facilmente se poderá perceber que no corpo do texto muitas vezes usaremos diversos nomes para nos referir a
o texto da De origine francorum disquisitio, tais como De origine, De origine francorum, A origem dos france-
ses, Dissertação. O título formal da tradução, entretanto, ficará sendo A origem dos franceses.
3
DE BUZON, 2012, p. 384: «En ce sens là, les remarques finales de la Brevis designatio sont une invitation à
poursuivre le débat sur le terrain habituel de l’historien. Ce que Leibniz fera en 1715.» Todas as traduções de
textos originalmente noutra língua são da lavra do autor deste trabalho, salvo indicação em contrário.
4
PIAUÍ & CECCI SILVA, carta de 29 de janeiro de 1697, nota 13. Segundo Marc Crépon (L’harmonie des
langues, 2000 p. 151, nota 1), a partir de 1695 Leibniz trocou várias cartas com Sparvenfeld; essas trocas devem
ter se intensificado após ter terminado a redação dos N.E., já que lá (especialmente no livro III, cap. I e II) o
sueco não é mencionado. Sparvenfeld escreveu um Lexicon Slavonicum e fez um famoso mapa da Sibéria; de
1709 a 1712, justamente por seu vasto conhecimento de várias línguas, ele passa a trabalhar para a Academia de
Ciências de Berlim na elaboração de um alfabeto universal, talvez a partir de seu Vocabularium Germanico-
Turcico-Arabico-Persicum.

1
2

pensamento de nosso filósofo sobre esse tema da linguagem era já muito anterior ao que suge-
re De Buzon, que o localiza no ano de 1710, quando da publicação da Brevis designatio.

Podemos ainda considerar, no que diz respeito à conexão entre as nações, que as
línguas não são estranhas umas às outras (die Sprachen einander nicht fremd), mas sim mutu-
amente e ainda umas com as outras aparentadas (verwandt) (Cf. PIAUÍ, 2013, p. 186). Dessa
parentela entre as línguas é que decorreria essa conexão que parece haver entre as nações. E é
isso que afirma Leibniz nos Novos ensaios, quando diz: «as línguas em geral sendo os mais
antigos monumentos5 dos povos, antes da escrita e das artes, melhor testemunham a origem
de seus parentescos (cognations) e migrações dessas»6. O principal objetivo de apresentar
essas parentelas era poder sanar a deficiência de documentação com que se depararam os pri-
mevos estudiosos das origens dos povos, conforme atesta na De origine, retomamos, destarte,
a epígrafe deste capítulo, escolhida adrede para significar a importância das línguas na perqui-
rição sobre as origens dos povos, «pois que careciam de vetustos monumentos»7. Em total
consonância com o que está dito nos Novos ensaios,

tem um número tão grande delas [de raízes comuns] e de uma concordância tão ma-
nifesta com as nossas que não se poderia atribuí-la meramente ao acaso, nem mesmo
ao mero comércio, mas de preferência às migrações dos povos. De modo que não há
nada nisso que combata e que não favoreça preferivelmente a opinião da origem
comum de todas as nações, e de uma língua radical e primitiva.8

Leibniz propõe9 que seja um fato certo que a língua e as antiguidades teutônicas fo-
ram sempre levadas em consideração na maior parte das pesquisas que se fizeram concernen-
tes às origens, aos costumes e às antiguidades europeias; destarte, seria de esperar, segundo
ele mesmo diz, que homens sábios fizessem também uma pesquisa mais acurada quanto a
outras línguas, intentando buscar-lhes as origens mais remotas. Parece que ele tinha como
certo que tudo convergiria para o céltico, que segundo ele seria o alemão. Na carta a Sparven-
feld de 29 de novembro de 169710, o filósofo alemão, comentando sobre o livro de Schriekius

5
«Os monumentos e os documentos, porém, providos de inscrição, diferem entre si pela matéria: os primeiros –
em metais, pedras ou madeira (materiais duros); os segundos – em papiros, peles de animais ou papel (materiais
moles).» (SPINA, 1977, p.17)
6
CECCI SILVA, 2014, p.132 (Novos ensaios III, 2, § 1): «Et les langues en général, étant les plus anciens mo-
numents des peuples avant l’écriture et les arts, en mar-quent le mieux l’origine, les cognations et migrations.»
(LEIBNIZ, 1846, pp. 293-4)
7
LEIBNIZ, 1715, p. 3: «quia veteribus monumentis caruere».
8
CECCI SILVA, 2014, pp. 119-20 (Novos ensaios III, 2, § 1): «a d’un si grand nombre et d’une convenance si
manifeste avec les nôtres, qu’on le saurait attribuer au seul hasard, ni même au seul commerce, mais plutôt aux
migrations des peuples. De sorte qu’il n’y a rien en cela qui combatte et qui ne favorise plutôt le sentiment de
l’origine commune de toutes les nations, et d’une langue radicale primitive.» (LEIBNIZ, 1846, p. 290)
9
cf. Novos ensaios III, 2, §1.
10
PIAUÍ & CECCI SILVA, Cartas a Sparvenfeld de 29 de novembro de 1697 (Cf. Referências bibliográficas).

2
3

Rodornius, diz que nesse livro «há muita leitura, mas não um julgamento adequado; e ele é
extravagante, sobretudo quando explica os nomes próprios das pessoas e lugares a partir do
teutão». Leibniz queria demonstrar que o alemão era uma língua superior, mas não o queria
fazer de qualquer modo, fato é que na sequência do comentário sobre Rodornius assevera: «é
bem verdade [que a língua] teutônica com frequência expressa muito bem a natureza das coi-
sas e pode ser melhor que a própria hebraica». Sobre a “pesquisa mais acurada” a que se refe-
re, ela teria por fito aquilo que Leibniz nos dirá na Brevis designatio: «deveria ser feito um
estudo diligente das línguas isoladas e das separadas da comunhão das restantes, pois que aí
se escondem as origens mais profundas [dos povos]»11. O motivo de se fazerem, pois, estudos
mais detalhados e mais bem cuidados sobre as línguas reside exatamente nisto: em descobrir e
tornar patentes as origens dos povos.

No início do segundo parágrafo do capítulo segundo da terceira parte dos Novos en-
saios, Leibniz faz seu opositor (Filaleto, que representa a filosofia de Locke nos Ensaios so-
bre o entendimento humano) dizer algo muito interessante. Filaleto refere-se a um plano, ou
como está no original francês, dessein, isto é, um projeto; qual? É no primeiro parágrafo do
mesmo capítulo segundo está expresso o projeto leibniziano. Tratará ali de fonética e fonolo-
gia, etnologias e topologias linguísticas e etimologias bem cuidadas 12; afinal de contas, «uma
análise exata da significação das palavras ajudaria, melhor que qualquer outra coisa, a conhe-
cer as operações do entendimento»13. O plano de como conhecer as operações do entendimen-
to, que Leibniz vislumbra, estará expresso no último capítulo da última parte dos Novos en-
saios, lá onde ele diz: «a ciência de raciocinar, de julgar e de inventar parece muito diferente
do conhecimento das etimologias das palavras e do uso das línguas»14.

Vale lembrar, como já o afirmamos, o que Leibniz diz-nos ainda, nos Novos ensai-
os, isto é, que «não há nada […] que combata e que não favoreça preferivelmente a opinião da
origem comum de todas as nações, e de uma língua radical e primitiva»15, e ainda pode dizer-
-se que «Leibniz admite a existência de um língua primitiva que […] não só não é o Hebreu,
como, quase completamente perdida, pode ser reencontrada a partir das línguas vulgares, em

11
LEIBNIZ, 2012, p. 131: «in linguis illis seiunctis et a caeterarum communione abscissis diligentius studium
ponendum esset, ibi enim origines altius latent.» (LEIBNIZ, 1768, p. 189)
12
Para maiores detalhes vejam-se Novos ensaios III, 2, §1 e toda a Brevis designatio.
13
LEIBNIZ, 2004, p. 324 (Novos ensaios III, 7, §6): «une analyse exacte de la signification des mots ferait mi-
eux connaître que toute autre chose les opérations de l’entendement.» (LEIBNIZ, 1846, p. 345)
14
LEIBNIZ, 2004, p. 534 (Novos ensaios IV, 21, §2): «la science de raisonner, de juger, d’inventer, paraîte
bien différente de la connaissance des étymologies des mots e de l’usage des langues» (LEIBNIZ, 1846, p. 542).
15
CECCI SILVA, 2014, p. 120 (Novos ensaios III, 2, §1): «n’y a rien […] qui combatte et qui ne favorise plutôt
le sentiment de l’origine commune de toutes les nations, et d’une langue radicale primitive.» (LEIBNIZ, 1846, p.
290)

3
4

especial o alemão» (POMBO, 1997, 54). Frédéric Nef nos adverte que «Leibniz funda uma
parte da sua obra filológica não sobre a procura de uma linguagem original perdida» (NEF,
1995, p. 113), mas na divisão delas segundo os filhos de Noé (Sem, Cam e Jafé). Rejeita, de-
finitivamente, «a idéia tão difundida de uma monogênese hebraica» (NEF, 1995, p. 113).
Quiçá para ele, no alemão encontrava-se o ponto de partida para as variações das línguas, se
nos fosse lícito pensar numa língua primitiva na obra de Leibniz. De fato, ainda nos Novos
ensaios, diz: «parece que o teutão tem mais preservado do natural, e […] da adâmica»16 e
ainda mais adiante, parece ser mais ousado, afirmando que «pode-se julgar que […] a língua
germânica pode passar por primitiva»17.

Para Leibniz, ainda nos Novos ensaios, a linguagem precisa ser estudada seguindo
um plano muito preciso, de que ora apresentamos a seguinte esquematização18:

História natural

Etimologia História fabulosa

Usos das línguas (pragmática)

Enciclopédia
Lexicografia
Dicionário

Raciocinar

Lógica Julgar

Inventar

Esta tradução à De origine está na esteira de outras traduções das obras de Leibniz
para o português. Especialmente das obras que se referem à problemática das línguas. Faz
parte do projeto de tradução de obras como a Brevis designatio, cuja primeira versão lusitana
foi levada a cabo pelos professores Piauí & Cecci Silva, dada a público pela Kairós em 2012;
segue também a tradução dos Ensaios de Teodiceia, da lavra dos mesmos tradutores, publica-
dos pela Estação Liberdade; e, ainda, a versão dos capítulos 1, 2 e 3 da terceira parte dos No-
vos ensaios, da pena de Cecci Silva, que está no prelo.

16
CECCI SILVA, 2014, p. 120 (Novos ensaios III, 2, § 1): «il semble que le teuton a plus gardé du naturel, et
[…] de l’adamique» (LEIBNIZ, 1846, p. 290).
17
CECCI SILVA, 2014, pp. 122-3 (Novos ensaios III, 2, § 1): «on peut juger [que] […] la langue germanique
peut passer pour primitive» (LEIBNIZ, 1846, pp. 290-1).
18
Pensamos esta esquematização a partir dos que Leibniz deixa dito nos Novos ensaios e na Teodiceia.

4
5

A De origine não apresenta nenhuma divisão em partes ou títulos para os capítulos.


Os que ora se apresentam são da lavra do tradutor e autor deste trabalho. Apesar de De Buzon
haver proposto outra divisão, conforme as palavras dele mesmo: «O ensaio articula-se em
duas partes: os parágrafos de 1 a 1619 fornecem as provas da origem báltica dos francos, en-
quanto os parágrafos de 17 a 38 descrevem a migração dos francos na Alemanha, a partir do
prefácio da Lei sálica»20. Conforme pode ser visto no esquema abaixo apresentado, a opção
de De Buzon não nos pareceu ser a mais reveladora das partes desse texto leibniziano já que
para ele o livro está dividido em duas partes, a primeira do capítulo 1 ao 16 e a segunda do
capítulo 17 ao 38.

O livro pode ser divido, conforme entendemos, muito mais claramente em quatro
partes desiguais segundo aquilo que dá unidade temática ao conjunto de capítulos. Essa nos
pareceu a melhor forma de fazer sua divisão. Nele Leibniz vai paulatina, gradual e conscien-
temente apresentando o tema da origem dos franceses, remontando-a, como sói fazê-lo, a uma
origem germânica, baseando-se no testemunho, que fora dado por autores quer contemporâ-
neos seus quer mais antigos.

A primeira parte, que se estende do capítulo primeiro ao nono, pode ser considerada
como sendo a origem da discussão do tema que ora trazemos à baila. Cada capítulo ou grupo
de capítulos pode ser assim intitulado:

I. Motivo da investigação.

II - V. Fictícia origem troiana.

VI - VII. Origem em Alexandre Magno (exército e filhos).

VIII. Passagem pela Panônia.

IX. Origem germânica ou gaulesa.

Na segunda parte, que vai do capítulo décimo ao vigésimo, Leibniz dá a descrição


da migração dos francos na Germânia, a partir do prefácio da Lei sálica. É, principalmente,

19
Com o intuito de deixar claro o desacordo quanto à divisão do livro A origem dos franceses, optamos por mos-
trar isso na forma como os capítulos são expressos. Doravante, sempre que se faça referência à proposta de De
Buzon, usaremos a numeração arábica para designar os capítulos; ao passo que optamos por conservar a numera-
ção romana, como está no opúsculo, na edição de 1715, para demonstrar a nossa divisão.
20
2012, p. 396: «L’essais s’articule en deux grandes parties: les paragraphes 1 à 16 apportent les preuves de
l’origine baltique des Francs, tandis que les paragraphes 17 à 38 décrivent les migrations des Francs en Ger-
manie, à partir de la préface de la Loi salique.» De Buzon chama de parágrafo aquilo que nós aqui temos cha-
mado de capítulo.

5
6

aqui que discordamos da proposta de De Buzon quanto à divisão do livro. Não nos parece
certo que a parte que ele chama de primeira seja tão uniforme que constitua um bloco único e
unívoco. Para ele a primeira parte vai dos capítulos 1 ao 16. Para nós, há muito mais coisas do
que simplesmente a questão da origem báltica21.

X - XII. Mar Báltico e rio Elba (primeira sede).

XIII. Guerra de Marco Aurélio.

XIV. Parentela com os dinamarqueses.

XV. Origem do nome dano (dinamarquês)

XVI - XVII. Ainda o mar Báltico e o Elba.

XVIII. A Lei sálica.

XIX - XXII. A Bélgica (ainda algo de localização)

XXIII. A ilha batava.

XXIV - XXIX. Segunda sede dos francos e origem da Lei sálica.

Na terceira parte, que se estende desde o trigésimo capítulo até o trigésimo sétimo,
tratará dos franceses como se conheciam então.

XXX. Chegada à Gália.

XXXI - XXXIII. Vestígios.

XXXIV. O nome França.

XXXV - XXXVII. Os Merovíngios e Carlos Magno.

E, por fim, a quarta e última parte, que abrange o trigésimo oitavo capítulo, e que
traz uma espécie de conclusão da Dissertação de nosso filósofo.

XXXVIII. Conclusão de Leibniz.

21
Disso poderemos tratar nalgum outro trabalho.

6
7

1.2. O TÍTULO DO LIVRO E A QUESTÃO DAS ESCOLHAS

Algo que deveras nos chamara a atenção neste texto de Leibniz foi o título que de-
ra à dissertação (prescindindo do fato de estar em latim, e das escolhas vocabulares que faz
para intitular seu opúsculo), chamando-o De origine francorum disquisitio, isto é, Disserta-
ção22 sobre a origem dos franceses. Dizia-se que essa escolha era algo muito interessante,
mas é também reveladora das pretensões de nosso filósofo. A razão disso, e é sobre isso que
se fundamenta nosso comentário, reside na escolha do verbete francus. Essa é uma palavra
cuja interpretação dependerá da inserção do termo, ou do povo, numa determinada época.
Talvez por isso se decorra a exigência de ter que escrevê-la em latim23; que seria a única lín-
gua ocidental que, a nosso juízo, poderia causar essa precisa ambiguidade intencional sobre a
origem que quer provar.

Dependendo de em que era coloquemos o verbete, sua tradução será muito varia-
da. Se pusermos essa palavra em período do Império Romano, teremos como versão franco,
relativamente à tribo germânica dos francos. Se, contudo, a pusermos em tempos menos re-
motos, seremos compungidos a pensar em outras possibilidades de tradução. Leibniz quer
dar-lhe o sentido de francês, designando com ela os habitantes da França contemporânea a
ele24, como podemos designar o país que Leibniz conhecera e onde vivera durante longos
anos. Entretanto, como parece querer vincular os franceses aos francos, escolhe adrede e
conscientemente um vocábulo latino que torne latente a ambiguidade que quer demonstrar.

Apesar de Leibniz ventilar que uma língua universal, como se pensava em sua
época, não devesse conter quaisquer ambiguidades, ele se vale desse artifício no texto original
da De origine, pois que a escolha do termo francus, como já aduzido acima, é objeto de tradu-
ção variada. Contudo, para o objetivo que tem Leibniz de fazer os franceses de seu tempo
22
O termo latino disquisitio significa mais bem inquirição, investigação, exame. (SANTOS, 1927, p. 384).
Leibniz mesmo, porém, prefere o termo dissertação (dissertation), conforme podemos saber de seus escritos (v.
LEIBNIZ, 1768 [2], p. 167 e 174). Entretanto, ele mesmo também a trata como um pequeno tratado (petit traité)
(id. p. 174). De Buzon lhe chama de ensaio, como se pôde ver acima.
23
Não é nosso objetivo aqui tratar aprofundadamente das motivações que levaram Leibniz a fazer a escolha de
escrever a Dissertação inteiramente em latim. Sobre isso basta tão somente o que ali fica dito.
24
Antes de a França existir o que havia era a nomenclatura dada pelos romanos: Gália, cujos habitantes chama-
vam-se galos ou gauleses. Mesmo em tempos mais remotos não se poderia dar à Gália qualquer unidade. Basta
ver o que Júlio César escreve nos Commentarii de Bello Gallico: «Gallia est omnis divisa in partes tres: quarum
unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua, Celtae, notra Galli appellantur» (I,1) - Toda
a Gália está dividida em três partes. Numa delas vivem os belgas, noutra os aquitanos e na terceira os que, na
própria língua, se chamam celtas e na nossa [em latim] se chamam galos [ou gauleses]. César indica aqui somen-
te a Gália ainda independente. Porque enumera somente partes, usa a palavra omnis que indica um todo, mesmo
faltando alguma parte. Não fala da região dos Alóbroges, já submetidos por Domício, da Cisalpina nem da Pro-
víncia (Provence).

7
8

herdeiros dos antigos francos germânicos, o uso do termo latino francus dá-lhe o perfeito azo;
porquanto, com uma mesma palavra ele consegue englobar tanto uns, os francos, quanto ou-
tros, os franceses. Daí deriva, a nosso ver, a escolha, a que chamamos proposital, de escrever
sua dissertação sobre as origens francas dos franceses em latim.

1.3. O PORQUÊ DA TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS

Muitos autores, em considerando a obra de Leibniz quanto ao estudo que desen-


volveu sobre as línguas, mormente as naturais, soem apresentar alguns títulos em que serão
tratados os aspectos concernentes a isso. Desse grupo faz parte Olga Pombo, que, escrevendo
um Dossier como apresentação para a Brevis designatio, afirma textualmente: «este texto [a
Brevis designatio] faz parte de um conjunto de estudos que Leibniz dedicou às línguas natu-
rais» (LEIBNIZ, 2012, p. 119). Em sequência, a autora apresenta um rol de algumas obras
leibnizianas dedicadas ao estudo sobre a questão das línguas naturais. Elenca, destarte, ela:

a Dissertatio de Stylo Philosophico Nizolii de 1670, a Exhoration aux Allemands


d’avoir à perfectionner leur Entendement et leur Langue, accompagnée de la propo-
sition d’une Société en faveur de l’identité Allemande (1679), as Considérations Ina-
ttendues sur l’Usage et l’Amélioration de la Langue Allemande (1679), o livro III de
os Nouveaus Essais sur l’Entendement Humain (1703-4), e três textos tardios: a
Brevis designatio, de 1710, a Epistolaris de Historica Etymologia Dissertatio (1711-
1712), e as Unvorgreiffliche Gedancken, betreffend die Ausubung und Verbesserung
der Teutschen Sprache, publicadas por Eccard em 1717, logo depois da morte de
Leibniz. (LEIBNIZ, 2012, p. 119)

Encontra-se, no prefácio à coletânea de obras sobre a harmonia das línguas que


fez Marc Crépon (LEIBNIZ, 2000, p. 10), uma consideração sobre o trabalho de pesquisa de
Leibniz sobre a dupla problemática da língua, a saber, a questão da identidade de uma língua
e da defesa dela para manter-se pura, ali o compilador assevera que

O conjunto das pesquisas resulta em dois textos maiores, que dão como uma revisão
dessas diferentes investigações: o capítulo dos Nouveaux Essais sur l’entendement
humain [Novos ensaios sobre o Entendimento Humano] (1703), em que Leibniz ex-
plica sua teoria da origem e do significado das palavras, 25 mas também as suas hipó-
teses comparativas e a Brevis designatio meditationum de originibus gentium ductis
potissimum ex indicio linguarum [Breve plano das reflexões sobre as origens dos
povos traçado principalmente a partir das indicações {contidas} nas línguas 26]
(1710), que lhe é mais especificamente dedicado27. (LEIBNIZ, 2000. p. 10.)28

25
Livro III, capítulo 2, intitulado Da significação das palavras.
26
Título da tradução da Brevis designatio levada a cabo ao português por PIAUÍ & CECCI SILVA. (N. do T.)
27
A esses dois textos, pode-se ainda ajuntar a Epistolaris de Historica Etymologica Dissertatio (1711-1712).

8
9

Marc Crépon reconhece como obras maiores de Leibniz sobre a questão linguísti-
ca tanto os Novos ensaios quanto a Brevis designatio; localizando o filósofo de Lípsia numa
«encruzilhada de várias heranças»29. Ele estabelece que a filiação da primeira obra, isto é, os
Novos ensaios, encontra-se no Crátilo de Platão, dizendo, pois, que esse «primeiro [texto] é
filosófico»30, por fazer um questionamento sobre se a origem das palavras seja natural ou
convencional. No que concerne ao segundo texto, a saber, a Brevis designatio, Marc Crépon o
considera «mais científico31», fazendo ver que esse texto está mais envolvido com o compara-
tismo linguístico32, em que formulara a hipótese da origem cita e, mais tarde, celto-cita dos
diferentes povos europeus33. Como já ficou demonstrado no esquema apresentado na página 4
deste trabalho, Leibniz desenvolve as pesquisas etimológicas sobre as línguas partindo da
história natural e fabulosa; sobre isso podemos encontrar confirmação nos parágrafos 136-143
da Teodiceia e na Brevis designatio, e também nos Novos ensaios.

O melhor registro para discutir isso é um que seja bem mais geral e essa é a difi-
culdade. Há linguagens por convenção, mas não línguas naturais por convenção, visto que as
naturais são uma mistura do que se pode considerar como sendo natural e daquilo que é con-
vencional. Entretanto, para Crépon seriam esses dois os textos leibnizianos em que se poderia
estudar o entendimento linguístico de nosso autor. Crépon não leva em consideração que a De
origine fancorum faz também parte do conjunto de pesquisas linguísticas de Leibniz, mesmo
sendo um texto, poderíamos dizê-lo assim, seguindo o que percebera De Buzon34, mais histó-
rico.

Entanto nossa visão segue muito de perto o que teorizam William de Siqueira Pi-
auí e Juliana Cecci Silva, que propõem um elenco de obras de Leibniz em que este tema é

28
«L’ensemble de ces recherches aboutit à deux textes majeurs qui donnent comme un bilan de ces différents
enquêtes: le chapitre des Nouveaux Essais sur l’entendement humain (1703), dans lequel Leibniz expose sa
théorie de l’origine et de la signification des mots, mais aussi ses hypothèses comparatistes, et la Brevis Desig-
natio meditationum de originibus gentium ductis potissimum ex indicio linguarum [Bref essai sur l’origine des
peuples déduite principalement des indications fournies par les langues] (1710), qui leur est plus explicitement
consacrée.»
29
«croisement de plusieurs héritages» (LEIBNIZ, 2000, p. 10).
30
«Le premier est philosophique» (LEIBNIZ, 2000, p. 10).
31
«Plus scientifique» (LEIBNIZ, 2000, p. 10).
32
LEIBNIZ, 2000, p. 11: «Ses textes témoignent d’une information étendue sur les principales théories qui des-
sinent le paysage du comparatisme linguistique, à la fin du XVIIe siècle». (Grifos nossos.)
33
Cf. LEIBNIZ, 2000, p. 11: «En même temps, ils contribuent à orienter la recherche dans une direction déter-
minée, ils rassemblent des matériaux au service d’une hypothèse: l’origine scythe (puis celto-scythe) des diffé-
rents peuples européens». (Grifos nossos.)
34
DE BUZON, 2012, p. 384: «En ce sens là, les remarques finales de la Brevis designatio sont une invitation à
poursuivre le débat sur le terrain habituel de l’historien. Ce que Leibniz fera en 1715.»

9
10

tratado, incluindo ali textos não considerados por Olga Pombo e tampouco por Marc Crépon,
como, por exemplo, os Ensaios de Teodiceia, cuja primeira tradução em português é obra
deles mesmos; e a De origine francorum35.

O conjunto de estudos, a que Olga Pombo e Marc Crépon36 se referiam, do nosso


ponto de vista, engloba uma divisão que o próprio Leibniz já teria vislumbrado e que deixara
claramente expressa no último capítulo da última parte dos Novos ensaios. É uma tríplice di-
visão que abarca etimologia, como já o esquematizamos na página 4 deste trabalho, onde se
insere o texto da De origine e este nosso trabalho; para Leibniz a parte etimológica teria tam-
bém uma tríplice divisão: i) a história natural, ii) a história fabulosa, e iii) os usos das lín-
guas (isto é, a pragmática).

O texto d’A origem dos franceses (De origine francorum disquisitio) está inserido
tanto na parte de história natural como naquela que trata de história fabulosa. A primeira parte
de nossa divisão, que vai do capítulo I ao IX, está de alguma forma fixando o olhar sobre as-
pectos de história fabulosa, quando quer dar aos francos/franceses origens míticas ou quase
míticas. As demais partes estão mais focadas na história natural, a partir de vestígios que os
francos deixaram como testemunhas de sua passagem ou assentamento por muitos lugares,
onde estanciaram até à divisão que Leibniz propõe ter acontecido na migração, parte dos fran-
cos indo para o sul e outra parte deles indo para o oeste, conforme podemos ler na Brevis de-
signatio, onde deixou escrito:

Se é verdade que os homens da Europa vieram do Oriente seguindo, por assim dizer,
o movimento do Sol, […]; uma parte [chegou] ao Ocidente, isto é, à Ilíria, à Panô-
nia, penetrou na Germânia, e progrediu finalmente na Itália, na Gália e na Espanha
que são avanços posteriores; uma [outra] parte dirigiu-se para o Sul, desviando-se
para a Trácia, Macedônia e Grécia; para onde, tempos depois, foram as colónias da
Fenícia e do Egipto; daí que os escritos dos Gregos sejam devedores dos Fenícios e
dos cultos dos Egípcios.37

A divisão dos escritos de Leibniz conforme apresentados na página 4 deste nosso


estudo está corroborada pela forma como foram coligidos os textos leibnizianos nas obras
35
PIAUÍ & CECCI SILVA, Duas cartas… [1695], nota 1: «os capítulos I e II, do livro III (Des Mots) dos Nou-
veuax essais sur l’entendement humain […], de 1704, os §§ 136-143 dos Essais de Teodicée […], o Brevis de-
signatio meditationum de originibus gentium ductis potissimum ex indicio linguarum (Breve plano das reflexões
sobre as origens dos povos traçado principalmente a partir das indicações [contidas] nas línguas…) ambos de
1710, o De origine francorum (Sobre a origem dos francos …), de 1715, dentre outros.»
36
LEIBNIZ, 2000, p. 10: «ensemble de ses recherches».
37
LEIBNIZ, 2012, p. 131: «Sane si ratum eset homines Europae ex Oriente quasi solis motum secutos venisse;
[…] partim Occidentem, id est Illyricum, Pannoniam, Germaniamque penetrasse, unde trantem in Italiam, Gal-
liam, Hispaniam progressi sunt posteri; partim ad meridiem flexos in Thraciam, Macedoniam Graeciamque
vertisse: ubi serius ex Phoenicia et Aegypto Coloniae supervenere; unde literae Graecorum Phoeniciis, sacra
etiam Aegyptiis debentur (LEIBNIZ, 1768, p. 189). Grifos do tradutor.

10
11

completas de Leibniz, como aparecem na edição de 1864, que seguem o proposto pelo filóso-
fo de Lípsia.

Parece-nos que tanto Olga Pombo quanto Marc Crépon se equivocam na apresen-
tação dum elenco dos textos etimológicos de Leibniz, não dando um rol mais completo desses
textos e deixando alguns de fora injustificavelmente. Quiçá não lhes pareçam etimológicos os
textos em que Leibniz atua, mormente, como historiador. Apesar de não concordarmos ple-
namente com De Buzon, é ele quem terá o mérito de perceber mui claramente esse papel de
historiador que Leibniz desempenha n’A origem dos franceses, consoante já fora aduzido em
seu artigo sobre a etimologia e a origem das nações38. Posto que Leibniz acreditasse firme-
mente que nas línguas fosse possível rastrear inequivocamente a origem das nações39.

Visto que a parte etimológica das obras leibnizianas versa sobre história dupla-
mente considerada, seja a história natural, seja aquela fabulosa, não se pode negar a importân-
cia de algumas obras vindas a lume em versão lusitana, quais sejam: algumas partes dos En-
saios de Teodiceia (parágrafos 136-143), sobre a história fabulosa; conquanto nunca se tivesse
antes aventado a possibilidade de que nesse texto houvesse alguma forma de estudo dedicado
às questões da linguagem, mas que Piauí & Cecci Silva vislumbraram na divulgação que de-
ram dos parágrafos referentes à história fabulosa e sua interpretação desde a linguagem usa-
da40. A Brevis designatio está incluída entre aquelas que discorrem sobre história natural, sem
descurar tampouco a leitura das mitologias como forma de chegar às origens dos povos pelas
línguas. O linguista Mattoso Câmara Jr. havia vislumbrado a importância linguística históri-
co-comparatista da Brevis designatio em seu livro Princípios de linguística geral. Afirmara
ele

No começo do século XVIII, esta corrente comparativa e histórica ganhou mais con-
sistência e segurança. [...] A este respeito, vale citar o famoso filósofo Leibniz. No
seu Brevis designatio meditationum de originibus gentium ductis potissimum ex in-
diciis linguarum, publicado nas atas da Academia de Berlim em 1710, afirma que
nenhuma língua histórica é a fonte das línguas do mundo, uma vez que devem ser
derivadas de uma Protolíngua41. É esta ideia segura que se encontra na base da lin-

38
«En ce sens là, les remarques finales de la Brevis designatio sont une invitation à poursuivre le débat sur le
terrain habituel de l’historien. Ce que Leibniz fera en 1715.» (DE BUZON, 2012, p. 384)
39
Isso fica patente na Brevis designatio, onde lemos: «in linguis illis seiunctis et a caeterarum communione
abscissis diligentius studium ponendum esset, ibi enim origines altius latent.» (LEIBNIZ, 1768, p. 189) - «deve-
ria ser feito um estudo diligente das línguas isoladas e das separadas da comunhão das restantes, pois que aí se
escondem as origens mais profundas [dos povos]» (LEIBNIZ, 2012, p. 131).
40
Esse estudo largamente anotado e que não consta da edição impressa pode ser consultado em PIAUÍ & CECCI
SILVA, História e linguagem nos Ensaios de Teodiceia (texto da internet – Cf. Referências bibliográficas).
41
Uma protolíngua é uma língua que foi o ancestral comum de diversas outras línguas que formam uma família
de línguas. Na maioria dos casos, a protolíngua ancestral não é conhecida diretamente, e tem de ser reconstruída
através da comparação de diferentes membros da família de idiomas, por uma técnica chamada de método com-
parativo. Através deste processo apenas uma parte da estrutura e do vocabulário da protolíngua pode ser recons-

11
12

guística histórico-comparativa, como veremos mais tarde. Esboçou ele ainda, em seu
livro, uma classificação das línguas com um grupo jafético 42 que dividiu em cítico
(aproximadamente as línguas indo-europeias) e céltico (aproximadamente as línguas
uralo-altaicas). (MATTOSO CÂMARA JR., 1979, p. 26)

Desde há muito nos intrigava a questão do objeto e do porquê de Leibniz ter es-
crito a De origine. O fato de esse texto não aparecer nos elencos feitos e apresentados pelos
estudiosos e especialistas no assunto da língua e da linguagem para o nosso filósofo causava
certo receio e mesmo temor de embrenhar-nos nesse estudo. Mesmo assim, a partir das con-
versas nos grupos de estudos (Leibniz Brasil e GE2C) ousamos e decidimos apresentar a ver-
são portuguesa desse texto, que até onde pudemos saber trata-se da primeira tradução. Se-
guindo como já se disse acima (1.1) a esteira das versões de obras leibnizianas para o portu-
guês, acompanhada dum texto introdutório, explicativo e de apresentação sobre a visão de
Leibniz a respeito da questão da linguagem, localizando o texto da De origine francorum em
um lugar de destaque, porquanto é nesse texto que se desenrolará na prática o que fora outrora
teoricamente esquematizado por ele nos textos que sobre esse tema versaram, seja apenas só
levemente abordando a questão seja imiscuindo-se com profundidade e desenvoltura no estu-
do da questão das línguas e das origens das nações43.

Qual não foi a surpresa, quando se procedia a uma revisão bibliográfica, o ter en-
contrado um artigo em que esse texto é apresentado como uma continuação da obra anterior
de Leibniz sobre a questão das línguas, das origens das nações e da história delas «as observa-
ções finais da Brevis designatio são um convite para continuar o debate sobre o terreno habi-
tual do historiador. O que Leibniz fará em 1715»44. Então temos definido que a De origine é a
continuação do debate de Leibniz na Dissertatio de stylo philosophico Nizolii, nas Cartas a
Sparvenfeld, nos Novos ensaios, no Ensaio de Teodiceia, na Brevis designatio. Nisso estamos
em clara contradição com a suposição de De Buzon, pois que a De origine não é uma mera

truído, e, quanto mais antiga for a protolíngua em questão, em relação a seus descendentes, mais fragmentária
será a sua reconstrução.
42
Jafético: diz-se dos povos e raças que descendem de Jafete ou Jafet, terceiro filho de Noé, e que se teriam es-
tendido da Ásia Central à Europa; por isso se dá por vezes esse nome às línguas e raças arianas e indo-euro-
peias. Disponível em: http://www.aulete.com.br/jaf%C3%A9tico#ixzz3t4sVQSjT, consultado em 01/12/2015.
43
Aqui convém repetir o que já acima dissemos da observação que fizeram CECCI SILVA & PIAUÍ, S/D, nota
13 que «o principal motivo da troca de correspondência entre Leibniz e Sparvenfeld se associa à defesa da hipó-
tese geral segundo a qual a conexão da [sic] línguas permitirá compreender a connexion des nations». Entretanto,
merece nota ainda que esta tradução está em continuidade com um trabalho que vem sendo realizado no Brasil
pelo meu orientador e pela pesquisadora e tradutora Juliana Cecci, em Portugal pela Olga, na França por Crépon,
Neff, Buzon, Dascal etc., não podendo ser considerado disjungido desses esforços de compreensão do pensa-
mento de Leibniz.
44
DE BUZON, 2012, p. 384: «les remarques finales de la Brevis designatio sont une invitation à poursuivre le
débat sur le terrain habituel de l’historien. Ce que Leibniz fera en 1715.»

12
13

conclusão do trabalho feito na Brevis designatio, mas sim está inserida, como apontado aci-
ma, numa obra maior sobre as questões linguísticas, especialmente na que trata das questões
etimológicas, como apontado acima (vide p. 4).

Acreditamos que o fato de haver tantas discussões sobre que textos fazem parte do
conjunto de estudos etimológicos de Leibniz e, ainda, o fato de não haver uma precisa defini-
ção de que textos, de fato, constituiriam esse conjunto dá motivo para que a De origine fran-
corum possa ser legitimamente inserida nele, integrando, como já se afirmou acima, a chama-
da parte histórica da parte etimológica leibniziana. O que justificaria a tradução e a pesquisa
que temos feito sobre o livro A origem dos franceses.

1.4. LIMITES DA PESQUISA

Limita-se este trabalho em primeiro lugar tornar pública a tradução que fizemos
do texto De origine francorum disquisitio de Leibniz, texto, que como se viu acima, não tinha
ainda uma tradução integral; em segundo lugar, pretende-se preparar-lhe uma introdução que
apresentasse o texto, contextualizando-o com o pensamento de Leibniz sobre as questões pre-
sentes nele e conforme o entendimento de alguns comentadores de Leibniz que assumiram
notadamente a vertente da linguagem na obra leibniziana.

Entretanto, é preciso ter muito claro que para Leibniz não é possível disjungir a
questão da linguagem da questão da política, bem como das origens das nações dentre outras
questões pertinentes.

1.5. METODOLOGIA

A metodologia, que, principalmente, será usada para a elaboração deste trabalho,


será a que se desenvolve por meio da pesquisa bibliográfica, para, assim, então, fazer a com-
posição da parte em que se terá como pretensão efetivar a análise e a explicação do texto leib-
niziano, cuja tradução e apresentação se fará neste trabalho.

Far-se-á o cotejo de autores e também de obras que direta ou indiretamente te-


nham contemplado o legado de Leibniz visto, entendido e estudado sob a óptica da linguagem

13
14

com o intuito de descobrir onde se encontram as origens das nações, senão também para pes-
quisar algum aspecto político presente neste texto.

14
15

2. PRIMEIRA PARTE: ORIGEM DA DISCUSSÃO

Linguae nobis praestant veterum


monumentorum vicem.
Leibniz, Brevis designatio

2.1. MOTIVAÇÃO

A motivação de Leibniz para ter escrito A origem dos franceses é apresentada no


primeiro capítulo do livro. Leibniz observa que as Miscelâneas Berlinenses45 trataram da ori-
gem dos franceses de uma forma muito rápida, no momento em que pretendia tratar das ori-
gens dos povos. Afirmando, sobre isso, que as origens «francesas […] devem ser buscadas a
partir do Mar Báltico»46. Nessa indicação das Miscelâneas, há uma referência a origens bálti-
cas dos franceses.

Leibniz faz referência a autores como João Pontano, Adriano Valésio e outros que
versaram de forma erudita sobre «os antigos assuntos dos franceses»47. Entretanto, sobre eles
recai uma severa crítica porque, segundo Leibniz, eles «careciam de vetustos monumentos»48,
que lhes dessem a certeza peremptória e cabal daquilo que deveriam tratar e com o que deve-
riam trabalhar. É importante ter presente que quando Leibniz se refere a monumentos [monu-
menta] ele quer referir-se a algum tipo de documentação que testemunhe sobre aquilo que está
defendendo.

É algo bem difundido pelo filósofo de Leipzig que, quando não é possível encon-
trar documentação escrita sobre um determinado povo, «as considerações linguísticas podem
intervir à falta de documentação propriamente histórica»49. Pois que as línguas fazem as vezes

45
Em latim, Miscellanea Berolinensia. Publicada em sete volumes entre 1710 e 1746, Miscellanea Berolinensia
foi o principal jornal da Academia de Berlim (então chamada de Societas Regia Scientiarum), cuja fundação se
deve ao próprio Leibniz, em 1690, até a dissolução da Societas em 1744. A nova instituição, a Académie Royale
des Sciences et Belles-Lettres de Prusse (Royal Academy of Sciences), conseguiu a Societas, e a Miscellanea
Berolinensia foi sucedida pelo Berlim Histoire e Mémoires em 1745/46.
46
LEIBNIZ, 1715, p. 2: «Francicas […] a Balthico mari repetendas esse.»
47
Id. ibid.: «qui de rebus Francorum vetustis erudite scripserunt».
48
id. ibid.: «quia veteribus monumentis caruere».
49
DE BUZON, 2012, p. 385: «les considérations linguistiques peuvent intervenir au défaut de la documentation
proprement historique».

15
16

dos monumentos históricos quando estes nos faltam50. Que é a mesma doutrina que podemos
encontrar nos Novos ensaios: «Por sua vez as línguas, pelo fato de representarem os mais an-
tigos monumentos dos povos, anteriores à escrita e às artes, são as que melhor assinalam a
origem dos parentescos e das migrações dos povos»51. E ainda Leibniz em sua Brevis desig-
natio afirma: «Visto que as origens dos povos [mais] remotos estão para além da História, as
línguas, em seu lugar, são os monumentos dos [povos] antigos»52. Pari passu estamos com o
que tem sido estudado sobre a questão das línguas nas origens dos povos, com o que afirmou
Piauí & Cecci Silva:

Nos N.E., parte do fundamento da unidade das línguas que nos permitiria compre-
ender a origem comum das nações é expresso do seguinte modo: “não há nada nisto
que vá contra ou não favoreça preferivelmente a opinião da origem comum de todas
as nações, e de uma língua radical e primitiva. (…) se tivéssemos a língua primitiva
em sua pureza, ou conservado o suficiente para ser reconhecível, seria preciso que aí
aparecessem os motivos das conexões, sejam físicas, sejam de uma instituição arbi-
trária, sábia e digna do primeiro autor [Deus]” (N.E. livro III, cap. II, § 1). O que
significa que as línguas em geral e que, até certo ponto, permitiria pensar que mes-
mo a diversidade das línguas não foge ao “princípio de razão suficiente” […] e à
“harmonia preestabelecida” que parecem estar expressos em uma infinidade de
onomatopeias, […] conservadas nas línguas; trata-se de evidências históricas daque-
la origem, perdida para a História, das nações e da existência de uma única língua. 53

Voltando ao que dizíamos, nessa primeira parte, Leibniz esboça o status quaestio-
nis sobre o tema da origem dos franceses. Aqui estão apresentadas noções quase míticas sobre
a origem desse povo. Leibniz não deixa claro desde o início o que ele entenda por francus,
mas, à medida que se avança na leitura do texto, pode-se perceber que há, de fato, duas com-
preensões semânticas do termo em pauta. Conforme delineamos nas considerações sobre O
título do livro e sua tradução (vide 1.2), a nosso ver, teria sido esse o motivo de ter ele es-
crito o texto em latim, visando, com essa ambiguidade, conservar a herança franca nos france-
ses.

Quer ele, com essa parte inicial, apresentar algo que parecia ser já corrente entre
os eruditos de sua época. A saber, que os franci descendiam de origens famosas, já dos troia-
nos (capítulo I e III), já de estirpe de Alexandre Magno (capítulo IV). Leibniz diz suspeitar

50
Vide DE BUZON, 2012, pp. 390 passim.
51
LEIBNIZ, 2004, p. 274 (NE, III, 2, §1): «Et les langues en général, étant les plus anciens monuments des
peuples avant l’écriture et les arts, en marquent le mieux l’origine, les cognations et migrations.» (LEIBNIZ,
1846, pp. 293-4).
52
LEIBNIZ, 2012, p. 125 [tradução de Piauí & CECCI SILVA]. Vide LEIBNIZ, 1768 [2], p. 186: «Cum remo-
tae Gentium Origines Historiam transcendant, Línguae nobis praestant veterum monumentorum vicem.»
53
PIAUÍ & CECCI SILVA, Cartas… [1697] na nota 13 (Cf. Referências bibliográficas).

16
17

que a «origem troiana tenha sido criada por [Tritêmio]»54 (vide início do capítulo IV), con-
quanto já antes tivesse afirmado que as conexões apresentadas «são muito mal contadas»55
(capítulo II), por causa justamente da falta que há de documentação (que Leibniz chama de
monumenta) comprobatória.

Por outra parte, busca fundamentar a veracidade de sua dissertação na autoridade


de vários autores. É bem verdade que após a publicação, alguns textos56 foram trazidos à luz
contra a De origine, mas resumidamente os opositores ao texto leibniziano atacavam a autori-
dade e a importância dos autores que nosso filósofo aduzia para justificar tal origem. A nosso
ver, esses opositores não perceberam ou não entenderam mesmo o fulcro central da disserta-
ção e ativeram-se a detalhes de somenos importância. Apesar disso, Leibniz apresenta as refu-
tações às acusações (Cf. LEIBNIZ, 1768 [2], pp. 167-85). Ficando só na questão da autorida-
de dos autores apontados por Leibniz, os refutadores não chegaram nem sequer perto do que
está contido em profundidade neste texto e que só poderia ser percebido, segundo pensamos, à
luz de outros textos leibnizianos e que são todos complementares, como se Leibniz houvera
escrito uma tese dividida em vários tomos, em que cada uma delas versaria sobre um aspecto
particular, ora mais teórico, ora mais empírico, ora mais prático.

2.2. ORIGEM TROIANA

Leibniz, em seu projeto de estudar as origens das nações e mais particularmente a


origem dos franceses, não deixa de considerar as hipóteses correntes. Uma delas é a teoria
duma origem troiana para os franceses, disso tratará nos capítulos de II a V. Ele considera-a
como ridícula. Afirma, destarte, no início do capítulo II da De origine: «Outrora se estabele-
cera a ridícula opinião de que os francos, expulsos de Troia, chegaram até à Lagoa Meóti-
da»57.

Apresenta o começo dos assentamentos dos francos, nos capítulos do II ao V, a


partir de Troia; da Lagoa Meótida; do Danúbio; da Panônia; até chegarem à Germânia, con-
forme se vê na segunda parte, que vai do capítulo X até ao XXIX; e à França, consoante trata-
rá na terceira parte, disposta entre os capítulos XXX e XXXVII.
54
LEIBNIZ, 1715, p. 5: «Fabulam Troianae originis suspicor ex eo [Trithemio] natam.».
55
LEIBNIZ, 1715, p. 4: «Talia satis male cohaerentia habentur».
56
Os refutadores são Pe. Tournemine, SJ, e o autor dum livro intitulado N. H. Gundlingii Monita ad librum De
origine francorum spectantia etc., traduzido do alemão para o latim.
57
LEIBNIZ, 1715, p. 4: «Ridicula olim invaluerat opinio, Francos Troia pulsos ad Maeotidem paludem».

17
18

Parecia ser um recurso comum recorrer a algum evento, considerado histórico, pa-
ra dar legitimidade à determinada hipótese sobre a origem nacional ou justificar alguma as-
cendência nobiliárquica. Muitos antigos quiseram dar uma origem mítica a suas nações. Nos
Ensaios de Teodiceia, Leibniz discorre longamente sobre a relação entre mitologia e as ori-
gens das nações58. Os romanos, ao encetarem a escritura de sua história, fazem-na partindo do
mitológico Eneias, que Virgílio apresenta como sendo antepassado do imperador Augusto,
«se não deslumbra por feitos heroicos dignos de memória, ao menos edifica por sua rara vir-
tude: sempre o “piedoso Eneias”» (VERGILIUS, 1948, p. XXXI). O que precisamente Virgí-
lio queria mostrar a seus contemporâneos era a honestidade de viver dos antepassados do po-
vo romano. Já no primeiro poema, «o poeta manifesta a intenção de cantar o herói que salvou
os Penates do incêndio de Troia e lhe vai restabelecer o culto no Lácio, lançando assim os
fundamentos da futura Roma» (VERBILIUS, 1948, p. 3). Os portugueses deram a Portugal
uma origem fabulosa, conforme podemos ler n’Os Lusíadas de Camões «Esta foi Lusitânia,
derivada / De Luso ou Lisa, que de Baco antigo / Filhos foram» (CAMÕES, 2010, p. 103 [III,
21: 5-7]), e mais à frente: «Este que vês, é Luso, donde a Fama / O nosso Reino Lusitânia
chama» (CAMÕES, 2010, p. 301 [VIII, 2: 7-8]). Os autores da Antiguidade explicavam atra-
vés de uma lenda, fundando em personagens míticas, a origem da fundação de Olisipo que
atribuíam ao herói grego Ulisses59.

A falta de monumenta que lhes comprovassem tais origens caracteriza-os como


não sendo dignos de crédito. A falta de historicidade dos heróis ali decantados é a razão de
pôr-se-lhes a pecha de ridículos. É, portanto, por causa disso que Leibniz afirmou que esse
erro se dera, exatamente, por causa de um orgulho desmedido: «velha ambição de muitos po-
vos era presumirem-se de origem troiana»60. Assim como podemos ver tanto dos romanos
quanto dos portugueses, pois que essa velha ambição de também presumirem-se de origem
troiana os seduzira.

2.3. ORIGENS EM ALEXANDRE MAGNO

58
Para maiores detalhes sobre como isso se dá, veja-se a tradução de Piauí & CECCI SILVA: LEIBNIZ, 2013,
§§ 136-143.
59
Encyclopaedia Britannica: a dictionary of arts, sciences, and miscellaneous literature (em inglês). 3.ª ed. En-
diburg: Bell and Macfarquhar, 1797. 799 p. 18 vol. vol. 13.
60
LEIBNIZ, 1715, pp. 5-6: «multorum populorum vetus ambitio fuit Troianas origines iactare.»

18
19

Os capítulos VI e VII tratam duma possível origem macedônica dos francos, mais
particularmente essa origem adviria de Alexandre Magno. Lemos no início do capítulo VI que
«Fredegário citara os francos egressos de Troia numa dupla divisão, em parte como chegados
à Macedônia»61.

Parece que essa origem tenha sido arquitetada para que a fama dos francos se
acrescesse, tal como podemos ler no capítulo VI: «Nem parece que Troia fosse suficiente,
quando Alexandre Magno buscara cuidadosamente aumentar a fama da nação»62.

Alexandre morreu depois de doze anos de constante campanha militar, sem com-
pletar os trinta e três anos, no dia 13 de junho de 323 a.e.c. Ele teve dois filhos: Heracles da
Macedônia, nascido em 327 a.e.c. de Barsina (filha de um sátrapa da Frígia) e Alexandre IV
da Macedônia, nascido em 323 a.e.c. de Roxana (filha de um sátrapa da Bactriana).

Filipe Arrideu, um meio-irmão de Alexandre, que sofria de problemas mentais, e


Alexandre IV, filho de Alexandre e de Roxana, nascido já depois da morte do pai, em Agosto
de 323 a.e.c., foram proclamados reis, mas não passaram de figuras efêmeras que acabaram
assassinadas. Perdicas foi nomeado regente do império, mas foi assassinado em 321 a.e.c. O
exército elegeu então Antípatro, como novo regente; ele tinha sido nomeado por Alexandre
administrador da Macedônia e da Grécia, Antípatro faleceu em 319 a.e.c., tendo nomeado
como sucessor não o seu filho Cassandro, mas Poliperconte, que acabaria derrubado por Cas-
sandro.

Cassandro, Ptolemeu e Lisímaco decidiram formar uma aliança para derrotar An-
tígono, lutando contra este durante quatro anos, entre 315 e 311 a.e.c., mas sem resultados
práticos. Em 311 a.e.c. estes líderes decidiram dividir o império: Cassandro tornou-se estrate-
go da Europa, Lisímaco governador da Trácia e Antígono tornou-se senhor de toda a Ásia; no
acordo não participou Seleuco, que já governava uma parte da Ásia.

Por volta de 270 a.e.c., a tríplice divisão do império foi aceita de forma definitiva:
os Ptolomeus governavam o Egito (dinastia dos Lágidas), Antíoco ficou com a Síria e a Pérsia
(dinastia dos Selêucidas) e Antígono Gônatas dominou as regiões europeias (dinastia dos An-
tígonas).

61
LEIBNIZ, 1715, p. 8: «Fredegarius; Troia egressos Francos bifaria divisione partim in Macedoniam venis-
se».
62
LEIBNIZ, 1715, pp. 7-8: «Nec Troia sufficere videbatur, Alexander Magnus cum Macedonibus accersendus
erat ad augendam claritatem gentis.».

19
20

Dessa digressão histórica sobre Alexandre Magno se deduz que ele não deixou
descendência donde pudessem os franceses, ou quem quer que fosse, arvorarem-se herdeiros.
Leibniz, entretanto, não rejeita a possibilidade de que pudesse haver francos no exército ale-
xandrino. Aqui novamente a tradução não será condizente com a ambiguidade que o autor de
Leipzig quis estabelecer. Pois que não podemos introduzir o termo francês no exército de
Alexandre Magno como fica expresso no texto latino quando diz: «iam et Magno Alexandro
militasse Francos aequum ac dignum videbatur» (LEIBNIZ, 1715, pp. 8-9), que traduzimos
assim: «a Alexandre Magno, parecia-lhe justo e honesto que os francos servissem no exérci-
to». O verbete francês não pode ter entrada legítima na tradução, porquanto não havia ainda
franceses enquanto Alexandre Magno travava suas batalhas de conquista pelo mundo.

2.4. PASSAGEM PELA PANÔNIA

No capítulo VIII, Leibniz, discordando do que se propalava em sua época, isto é,


que os franceses teriam sua origem em Troia ou em Alexandre Magno, estabeleceu como
primeiro assentamento dos francos a Panônia, valendo-se da autoridade de S. Gregório de
Tours, bispo da Gália, considerado a principal fonte da história merovíngia, segundo afirma o
nosso filósofo, «Gregório, bispo de Tours, sem fazer qualquer menção das origens troianas ou
macedônicas, estabelece como primeira moradia dos francos a Panônia»63.

A Panônia, no tempo das migrações francas, fora o nome de uma antiga província
do Império Romano, que estava delimitada ao norte e ao leste pelo rio Danúbio, a oeste fazia
fronteira com a Nórica e o norte da Itália, e para o sul, com a Dalmácia e o norte da Mésia.

Em seu território estão hoje a Hungria, a porção oriental da Áustria, o norte da


Croácia, o noroeste da Sérvia, a Eslovênia, a porção ocidental da Eslováquia e o norte da
Bósnia e Herzegovina.

Como sói fazer, Leibniz explicita a afirmação de suas fontes. Buscando dar-lhe
uma escritura o mais clara ou o mais inteligível que lhe fosse possível, ainda que fosse neces-
sário apresentar tão somente uma paráfrase. E como Leibniz tivesse apresentado tão somente

63
LEIBNIZ, 1715, p. 10: «Gregorius Turonensis Episcopus, nulla facta mentione Troianarum originum aut
Macedoniae, primam Francorum sedem Pannoniam tradit».

20
21

uma paráfrase do texto de Gregório de Tours, Ekhart, em nota ao texto de Leibniz64, traz o
texto original:

Estas são as palavras de Gregório: Muitos dizem que eles saíram da Panônia, e que
primeiramente, na verdade habitaram as margens do rio Reno, daí, tendo atraves-
sado o Reno, foram para a Turíngia, aí, ao pé de aldeias ou cidades, criaram reis
com penachos, da primeira e, como direi isso, da mais nobre família.

Leibniz termina este capítulo já localizando os francos quase em território germâ-


nico, pois que «não há dúvida que moraram junto ao rio Siga, defronte de Colônia Agripina
ou um pouco mais adiante»65.

2.5. ORIGEM GERMÂNICA OU GAULESA

O que Leibniz apresentou nessa primeira parte de seu texto é que os fran-
cos/franceses fizeram diversas paradas e nesses assentamentos eles se iam difundindo pela
Europa toda, assentando tradições, reinos e nações por onde quer que tivessem passado. Não
deveria parecer isso absurdo a Leibniz, porquanto sua pretensão é tornar patente que a origem
dos povos é comum.

Contudo, quer ele fazer originarem-se os povos dum tronco comum que seria o
tronco germânico. Pois, como podemos aprender da lição de Olga Pombo, segundo quem,
Leibniz

estuda com detalhe as raízes históricas e as movimentações geográficas dos povos


europeus com o objectivo de compreender as filiações das suas numerosas línguas e,
inversamente, procura determinar a história antiga dos povos a partir do estudo das
origens e transformações lexicais das suas línguas. (LEIBNIZ, 2012, p. 121)

Afirma ela ainda que

“… os homens da Europa vieram do Oriente seguindo, por assim dizer, o movimen-


to do Sol, é evidente que avançaram a partir da Cítia”. Mas – acrescenta Leibniz
mais adiante – “a partir dos Cíticos, eu chego aos Celtas”. Ora, os Celtas são os an-
tepassados diretos dos Germanos. Leibniz acaba assim por atribuir à língua alemã
um lugar central no quadro das línguas europeias. A Brevis Designatio tem como re-
sultado a identificação de um conjunto de razões históricas e filológicas [ou etimo-

64
LEIBNIZ, 1768, p. 148: «Verba Gregorii sunt: Tradunt multi eosdem de Pannonia fuisse digressos: et primum
quidem litora Rheni amnis incoluisse, dehinc transacto Rheno Thoringiam transmeasse; ibique iuxta pagos vel
civitates Reges crinitos super se creavisse de prima, et, ut ita dicam, nobiliori familia».
65
LEIBNIZ, 1715, p. 11: «quos ad Sigam amnem ex adverso Coloniae Agrippinae aut paulo post superius habi-
tasse dubium non est.»

21
22

lógicas66] nas quais Leibniz fundamenta a tese da superioridade da língua alemã.


(LEIBNIZ, 2012, p. 122)

O que Leibniz quer, no capítulo IX, é localizar os franceses na região da Germâ-


nia, sabendo que a Germânia, na época romana, era uma vasta região identificada pelos roma-
nos como o território que se estendia desde o rio Reno até às florestas e estepes do que hoje é
a Rússia.

A Magna Germania era, segundo a etnologia geográfica da Antiga Roma, uma


vasta área da Europa central não sujeita ao domínio romano (a não ser parcialmente e por bre-
ves períodos), que se extendia a leste do rio Reno e na qual estava estanciada a maior parte
das tribos germânicas. No tempo de Augusto, os romanos tentaram conquistá-la a partir de 12
a.e.c. No ano 6 e.c., toda a Germânia até ao rio Elba estava ocupada e pacificada. A consoli-
dação da conquista da Magna Germania não ocorreu após a derrota romana na batalha da
floresta de Teutoburgo, em 9 e.c., Augusto intuiu, assim, já então, que os confins do Império
Romano deveriam ser estabelecidos no rios Reno e Danúbio. Segundo esta política de desmo-
bilização da fronteira através do rio Reno, vão operar todos os imperadores subsequentes, de
Tibério (que mostrou indiferença para com a revolta dos frísios), a Cláudio e Nero, que para-
ram as iniciativas de Córbulo nesses territórios, a Domiciano, quando ele criou uma zona mi-
litarizada (limes) entre Roma e Alemanha.

A Germânia era habitada por diferentes tribos, dentre as quais também celtas, bál-
ticas e citas. A conformação étnica era complexa e alterou-se com o tempo devido às migra-
ções. Os povos germânicos falavam línguas protogermânicas. Leibniz se refere a uma «língua
germânica antiga»67 certamente como referência ao que hoje se chama protogermânico. O
protogermânico, ou germânico comum (como é às vezes denominado), é a protolíngua ances-
tral comum hipotética de todas as línguas germânicas, tais como o moderno inglês, holandês,
alemão, dinamarquês, norueguês, islandês, feroês e sueco68. O protogermânico descende do
protoindo-europeu69. A língua protoindo-europeia seria o ancestral comum hipotético das lín-
guas indo-europeias, tal como era falada há cerca de 5.000 anos, pelos arianos, provavelmente

66
Acréscimo nosso.
67
LEIBNIZ, 2012, p.142: «lingua Germanica antiqua» (LEIBNIZ, 1768, p. 195).
68
Outro nome menos comum utilizado na literatura de língua inglesa por alguns poucos estudiosos é (Primitive)
Germanic Parent Language (Língua Germânica Mãe [Pimitiva]). Por exemplo, veja BLOOMFIELD, 1984, pp
298-299.
69
Não há textos sobreviventes na língua protogermânica, mas a língua foi reconstruída usando o método compa-
rativo. Entretanto, algumas poucas inscrições sobreviventes na escrita rúnica da Escandinávia datadas de ca. 200
parecem mostrar um estágio da língua protonórdica ou, segundo Bernard Comrie, germânico comum tardio se-
guindo imediatamente o estágio do “protogermânico”. Cf. COMRIE, 1987, pp. 69-70.

22
23

nas proximidades do mar Negro, cuja denominação original era Ponto Euxino. A postulação
de uma descrição plausível dos contornos desta protolíngua, através da observação das simila-
ridades e diferenças sistemáticas das línguas indo-europeias entre si, foi uma das grandes rea-
lizações dos linguistas a partir do início do século XIX.

Roma conhecia a “Germânia interior”, a oeste e sul do rio Reno, ocupada pelos
romanos, e a “Germânia livre”, a leste do rio Reno. A Germânia ocupada dividia-se em duas
províncias romanas: a Germânia Inferior e a Germânia Superior.

A Germânia Inferior estava localizada na margem ocidental do Reno, no território


da moderna Alemanha. De acordo com Ptolemeu (Geographia II,9), a província abrangia a
bacia do rio Reno desde a foz até a foz do Obringa, um rio que tem sido identificado como
sendo ou o Aar ou o Mosela. Este território inclui a área da atual Luxemburgo, o sul dos Paí-
ses Baixos, parte da Bélgica e parte da Renânia do Norte-Vestfália.

A Germânia Superior estava localizada na região da Germânia e chamada assim


por estar no “alto” curso do rio Reno em relação à Germânia Inferior, mas próxima da foz. Ela
abrangia a região oriental da moderna Suíça, os montes Jura e a Alsácia, na França, e o sul da
Alemanha. As cidades mais importantes eram Vesôncio (Besançon), Argentorato (Estrasbur-
go), Águas dos Matíacos (Wiesbaden) e a capital da província, Moguntíaco (Mogúncia). A
região do médio Reno junto da fronteira da Germânia estava na Germânia Superior e a pro-
víncia fazia fronteira com a Récia para o sudeste. O mais completo relato, preservado dos
tempos romanos, sobre a Germânia é o texto homônimo escrito por Tácito70.

70
O texto referido é o De origine et situ Germanorum 1-2. Públio (Caio) Cornélio Tácito ou simplesmente Táci-
to, (55-120) foi um historiador, orador e político romano. Ocupou os cargos de questor, pretor (88), cônsul (97) e
pró-cônsul da Ásia (aproximadamente 110-113).

23
24

Mapa do Império Romano e da Magna Germânia

24
25

3. SEGUNDA PARTE: A MIGRAÇÃO DOS FRANCOS NA GERMÂNIA

Les noms propres ont été originairement appellatifs,


c’est-à-dire géréraux dans leur origine
Leibniz, Nouveaux Essais sur l’entendement humain.71

3.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Sobre o tema das migrações dos francos na Germânia, nosso filósofo tratará nos
capítulos X-XII. De Buzon (2012, p. 396) propõe outra divisão para este texto de Leibniz,
fazendo-o articular-se, como já se viu acima, em duas grandes partes, sendo a primeira posta
entre os capítulos 1 e 16 e a segunda contendo os demais capítulos, isto é, do 17 até ao 3872.
Se se pensar numa divisão temática, a proposta de De Buzon não se sustentará, pois, a nosso
ver, a primeira parte, objeto da discussão do capítulo anterior, não se estende até ao capítulo
16, mas sim até ao capítulo nono, visto que até ali são tratadas as origens dos francos, partin-
do de suposições mitológicas ou não historicamente comprováveis. Entretanto, Leibniz fecha
a primeira parte de sua dissertação, propondo algo mais palpável e comprovável, localizando
os francos às margens do Reno, na região que está diante de Colônia Agripina.

A segunda parte tem por fito mostrar os francos históricos. Dando-lhes assenta-
mentos que possam ser historicamente comprováveis. Quanto a isso estava parcialmente certo
De Buzon quando disse que o texto da De origine é a conclusão do debate contido na Brevis
designatio, em que Leibniz entra de fato no «terreno habitual do historiador» (DE BUZON,
2012, p. 384). De Buzon acerta, mas só em parte, posto que o tema das origens das nações,
tendo por base as línguas, é discutido não só na Brevis designatio, senão também nos Novos
ensaios, nos Ensaios de Teodiceia, e em várias cartas. Antes Leibniz não tratava de história,
mas partia das lendas para chegar à verdade latente nas entranhas das palavras. Disso dá pro-
vas de como se devem buscar esses indícios nos Ensaios de Teodiceia nos parágrafos de 136 a
143.

71
LEIBNIZ, 1846, p. 297.
72
Como já se dissera antes: Com o intuito de expressar o desacordo quanto à divisão do livro A origem dos fran-
ceses, optamos por mostrar isso na forma como os capítulos são expressos. Doravante, sempre que se faça refe-
rência à proposta de De Buzon, usaremos a numeração arábica para designar os capítulos; ao passo que optamos
por conservar a numeração romana, como está no opúsculo, na edição de 1715, para demonstrar a nossa divisão.

25
26

É aqui também que começa a querela com os que se puseram a criticar esse escrito
de Leibniz, pois que para eles a questão residia, mormente, na autoridade de algumas fontes,
que são citadas por Leibniz, como o geógrafo de Ravena, por exemplo. Os contendores de
Leibniz limitaram-se tão somente ao problema da autoridade das fontes empregadas e não
perceberam qual fosse o objetivo maior da dissertação. Leibniz, nas respostas publicadas, li-
mitou-se também a somente tratar do que fora já de antemão limitado por seus críticos73. Não
busca esclarecer qual o motivo da pesquisa, seu objetivo e importância. Legou isso à posteri-
dade.

3.2. O MAR BÁLTICO E O RIO ELBA (A PRIMEIRA SEDE DOS FRANCOS)

Sob este título colocamos um grupo de capítulos que se encontram separados no


texto. São os capítulos X, XI e XII e ainda os capítulos XVI e XVII.

As localizações, portanto, a partir de agora serão reais. Os assentamentos ou mo-


radias dos francos serão rastreáveis. Seria possível até mesmo traçar em um mapa o percurso
que eles desenharam no curso de suas migrações. Para essa parte interessam as migrações,
que fizeram dentro do território germânico. Tomando sempre em consideração o mapa cons-
tante do fim do item 2.5 acima.

O mar Báltico, também outrora conhecido como mar Germânico ou Alemão, é,


segundo as fontes usadas por Leibniz, junto com o rio Elba, o ponto de partida dos francos.
Esse mar Báltico era frequentemente confundido pelos escritores antigos com a Lagoa Meóti-
da, conforme Leibniz nos faz notar no início do capítulo XVI, dando-nos referências para
provar seu ponto de vista.

É, pois, entre o mar Báltico e o rio Elba que se deve colocar a primeira sede ou as-
sentamento dos francos (capítulo XVII), também aqui Leibniz dá como fontes o geógrafo de
Ravena e Ermoldo Nigelo. E abre espaço para referir a segunda sede dos francos, de que trata-
rá somente nos capítulos XXIV-XXIX, de que somente trataremos um pouco mais adiante no
item 3.5.2.

73
Para maiores detalhes leiam-se as respostas de Leibniz em LEIBNIZ, 1768, pp. 167-185.

26
27

3.3. A GUERRA DE MARCO AURÉLIO

Nesse capítulo (XIII), Leibniz começa a expor alguns motivos pelos quais as na-
ções ou povos se lançam a empreender uma migração. Sabemos, a partir de outros textos leib-
nizianos, que as migrações e também o comércio, como está expresso no parágrafo primeiro
do segundo capítulo dos Novos ensaios, têm importância fundamental para o processo de de-
senvolvimento das línguas, conforme lemos na reflexão de Leibniz:

todas estas línguas da Cítia têm muitas raízes comuns entre elas e com as nossas, e
acontece que mesmo a arábica (sob a qual devem estar compreendidas a hebraica, a
antiga púnica, a caldeia [sic], a siríaca e a etíope dos abissínios) tem um número tão
grande delas e de uma concordância tão manifesta com as nossas que não se poderia
atribui-la meramente ao acaso, nem mesmo ao mero comércio, mas de preferência às
migrações dos povos74.

E aqui se nos apresenta a motivação da migração dos povos germânicos. Todo o


capítulo XIII tratará exclusivamente dessa questão. Leibniz se refere às guerras marcomâni-
cas, ou guerras marcomanas, chamadas pelos romanos em latim de bellum Germanicum,
“guerra dos germanos”, ou expeditio Germanica, “expedição germânica”, que foram uma
série de conflitos militares que duraram mais de doze anos, de por volta de 166 e.c. até 180
e.c., nos quais o Império Romano enfrentou os marcomanos, os quados e outros povos ger-
mânicos, ao longo de ambas as margens do alto e do baixo Danúbio. A luta contra as invasões
germânicas ocupou a principal parte do reinado do imperador romano Marco Aurélio75; assim,
durante esse período, os povos que habitavam naquela região, se sentiram compungidos a
terem que migrar. Diz Leibniz que «por esse tempo os godos e os burgundiões migraram na
direção leste, e os francos na direção sul»76.

É também a essa migração a que se refere Olga Pombo, quando afirma que Leib-
niz

estuda com detalhe as raízes históricas e as movimentações geográficas dos povos


europeus com o objectivo de compreender as filiações das suas numerosas línguas e,

74
CECCI SILVA, 2014, pp. 119-20: «toutes ces langues de la Scythie ont beaucoup de racines communes entre
elles et avec les nôtres; et il se trouve que même l’arabique (sous laquelle l’hébraïque, l’ancienne punique, la
chaldéenne, la syriaque et l’éthiopique des Abyssins doivent ètre comprises) en a d’un si grand nombre et d’une
convenance si manifeste avec les nôtres, qu’on ne le saurait attribuer au seul hasard, ni même au seul commer-
ce, mais plutôt aux migrations des peuples.» (LEIBNIZ, 1768, pp. 289-90)
75
No texto latino, Leibniz chama-o de Marcus Antoninus, pois ao ser designado imperador, mudou o nome para
Marco Aurélio Antonino, acrescentando-lhe os títulos de imperador, césar e augusto.
76
LEIBNIZ, 1715, p. 16: «quo tempore Gothi et Burgundiones versus orientem, Franci versus meridiem migra-
vere».

27
28

inversamente, procura determinar a história antiga dos povos a partir do estudo das
origens e transformações lexicais das suas línguas (LEIBNIZ, 2012, p. 121).

Dessa pesquisa histórica, Leibniz busca, então, encontrar as origens comuns, con-
forme lemos na Brevis designatio: «redescobrimos o vestígio comum das línguas antigas»
(LEIBNIZ, 2012, p. 127), pretendendo como já ficou dito alhures mostrar a superioridade da
língua alemã, pois que «acrescenta Leibniz, “é na antiguidade alemã e sobretudo na antiga
língua teutónica (…) que é necessário procurar a origem dos povos e línguas da Europa”»
(POMBO, 1997, p. 193).

3.4. PARENTELA COM OS DINAMARQUESES E A ORIGEM DO NOME

Nos capítulos XIV e XV da dissertação, Leibniz tratará da relação que existia en-
tre os francos e os dinamarqueses e qual seja a significação do nome dinamarquês ou dano.

No capítulo XIV, nosso filósofo tenta conciliar as opiniões do geógrafo de Ravena


e do poeta Ermoldo Nigelo. Sobre esse geógrafo muito pouco se sabe. Mas de Ermoldo Nige-
lo sabemos que era um poeta de cerca de 790 a cerca de 835 e.c. É esse Nigelo que faz uma
alusão a que os francos fossem aparentados com os dinamarqueses, corroborando o que, se-
gundo Leibniz, dizia o Ravênate. Como podemos ler no início do capítulo XIV: «Ermoldo
Nigelo, um autor franco, endossa o testemunho do geógrafo de Ravena»77.

O capítulo XV é o maior capítulo do livro. Nele Leibniz demonstrará etimologi-


camente qual seja a origem do nome danês, gentílico equivalente a dinamarquês, ambos em
voga em língua portuguesa, conquanto o uso seja diverso para um e outro. Posto ser um adje-
tivo de origem erudita entra na composição de adjetivos pátrios compostos78.

Conserva-nos uma anedota propalada pelos romanos sobre os dinamarqueses na


qual os «dinamarqueses parecem ser antepostos aos godos»79. Mas Leibniz dá-lhes um lugar
entre os saxões, novamente, fazendo essa origem ser notada a partir duma análise linguística,

77
LEIBNIZ, 1715, p. 16: «Geographi Ravennatis testimonium adiuvat Ermoldus Nigellus Francus autor.»
78
Cf. ALMEIDA, 1981, pp. 13-14, no verbete: Adjetivo pátrio composto.
79
LEIBNIZ, 1715, p. 19: «Dani Gothis praeferri videntur».

28
29

quando afirma que «os saxões são terríveis por causa da agilidade […] mas os dinamarqueses
são tidos como os mais velozes dentre todas as nações»80.

O que nosso filósofo tenta provar é a partir dos nomes e suas significações, pois
para ele, como sugere Olga Pombo:

Uma primeira tese resulta do facto de as línguas serem os “monumentos dos povos
antigos”. Embora obscurecidas pelo tempo e confundidas pelas deslocações dos po-
vos, as línguas antigas subsistem ainda hoje “nos nomes dos rios e das florestas”, os
seus vestígios são reconhecíveis nas “denominações dos lugares fundados pelos ho-
mens” e, em geral, em todos os nomes dos homens. De tal modo que Leibniz não
hesita em assumir como axioma que “todos os nomes os quais chamamos de pró-
prios foram, algum dia, denominações” (LEIBNIZ, 2012, p. 121).

É nos nomes que devemos buscar a verdade sobre as denominações dos lugares
que os homens fundaram.

Ademais, para Leibniz, «os nomes próprios foram ordinariamente apelativos, isto
é, gerais, na sua origem»81; eis, pois, aqui a importância de rastrearem-se os nomes para poder
através deles descobrir-se o que não há documentação disponível, porquanto

o que pede Leibniz não é buscar a partir da mera semelhança das sonoridades um
sentido oculto (por exemplo, o que faz Goropius), mas formar conjuntos de fenôme-
nos linguísticos, que permitam passar seja pelo som seja pelo sentido, de uma língua
para outra e descrever então, quando os documentos faltem, o parentesco e as mu-
danças de residência dos povos identificados, como os indivíduos, por características
gerais, cujo significado às vezes é perdido: assim os Scritti-finlandeses nomeados
assim por causa de sua capacidade especial para andar, deslanchar-se, Schreiten82.

O nome danês Leibniz faz advir do nome do rio Daena ou Dina, conforme afirma
no início do capítulo XV, dizendo: «Chama daenos ou denos, não danos, como fazemos hoje
os alemães, seguramente por causa do rio Daena ou Dina, cujo antigo nome era Êidora»83,
ficando, pois, estabelecido que a denominação (appellatio) dos dinamarqueses tenha vindo do
rio Dena ou Dina, como ainda se pode ver no nome do país Dina-marca (português e espa-

80
LEIBNIZ, 1715, p. 20: «Saxones agilitate terribiles […] sed Danos supra omnes nationes velocissimos habi-
tos».
81
CECCI SILVA, 2014, p. 142: «les noms propres ont été originairement appellatifs, c’est-à-dire géréraux dans
leur origine» (LEIBNIZ, 1846, p. 297).
82
DE BUZON, 2012, p. 393: «Ainsi, ce que demande Leibniz est non de chercher à partir de la simple ressem-
blance des sonorités un sens caché (c’est par exemple ce que fait Goropius), mais de constituer des ensembles de
phénomènes linguistiques, permettant de passer soit par le son, soit par le sens, d’une langue à l’autre et de
décrire ainsi, lorsque les documents manquent, les parentés et changements de résidence des peuples identifiés,
comme les individus, par des caractéristiques générales dont le sens est parfois perdu: ainsi les Scritti-Finnois
sont nommés tels par leur aptitude particulière à marcher, à s’élancer, Schreiten.» (p. 393)
83
LEIBNIZ, 1715, p. 18: «Daenos vel Denos appellat, ut hodieque Germani facimus, non Danos; nempe a fluvio
Daena vel Dina, quod vetus fuit Eidorae nomen».

29
30

nhol). Mas Leibniz por algum motivo parece rejeitar que a forma dano seja lícita, ainda que
essa forma entre na composição do nome do país conforme podemos perceber em outras lín-
guas Dani-marca (italiano), Dan-mark (dinamarquês) e Dane-mark (francês); Däne-mark
(alemão) e Den-mark (inglês), nas línguas anglossaxônicas a raiz é, como Leibniz refere, da-
en- (dän-) ou den-, ao passo que o mundo latino preferiu dan- ou din-. De qualquer forma,
independente disso, a denominação lhe parece vir do nome do rio de que estavam geografi-
camente próximos. E é, destarte, isso que Leibniz nos quer mostrar.

3.5. A LEI SÁLICA E A SEGUNDA SEDE DOS FRANCOS

3.5.1. A Lei sálica

Leibniz dedicará os capítulos XVIII, XXIV-XXIX de sua dissertação à Lei sálica


(Lex Salica). Importa-nos aqui saber o que seria essa Lei sálica e qual sua importância para a
Europa. Ela é o código legal datado do reinado de Clóvis I (ou Clodoveu I) no século V utili-
zado nas reformas legais introduzidas por Carlos Magno. As Leis sálicas regulavam todos os
aspectos da vida em sociedade desde crime, impostos, calúnia, estabelecendo indenizações e
punições. O sentido da expressão «Lei sálica», porém, modificou-se desde sua criação.

Na Alta Idade Média, o termo referia-se ao código legal elaborado entre o início
do século IV e do século V para os francos sálios - que constituíam uma das duas confedera-
ções francas e que habitavam as margens do rio Issel, originalmente chamado Isala - dos quais
Clóvis foi o primeiro rei. Esse código, redigido em latim, com importantes empréstimos do
direito romano (DUMÉZIL, 2009, pp. 80-5), estabelecia, entre outras, as regras a serem se-
guidas por aqueles povos em matéria de herança.

Muitos séculos depois de Clóvis, já no século XIV, um artigo do código sálico foi
desenterrado, isolado do seu contexto e usado pelos juristas a serviço da dinastia capetiana
dos Valois para justificar a exclusão das mulheres da sucessão ao trono francês, conforme se
pode ler no título LIX,5: «De terra uero salica in muliere nulla pertinet portio, sed qui fratres
fuerint, et ad virile sexu tota terra pertineat. - Mas no que diz respeito à terra sálica, nenhuma

30
31

porção será para uma mulher, mas toda a terra pertencerá ao masculino, quanto ao sexo, que
forem irmãos»84.

Para a evicção das mulheres do poder com base nessa lei, também teriam contri-
buído certos erros de grafia, algumas mentiras e também omissões da história, que foram es-
tudados pela historiadora Éliane Viennot85. Viennot mostra também que essa exclusão femi-
nina suscita resistências e conflitos desde o século XIII.

De todo modo, no fim do Medievo e na Idade Moderna, a expressão Lei sálica


passa a designar as regras de sucessão do trono da França - regras que posteriormente foram
imitadas por outras monarquias europeias.

Assim, é preciso não confundir Lei sálica e sucessão agnatícia ou primogenitura


masculina, embora a Lei sálica tenha sido utilizada para consagrar a primogenitura masculina,
excluindo assim as mulheres (inclusive as filhas dos soberanos) da ordem de sucessão.

3.5.1.1. A Lei sálica na França

No século XIV, as Leis sálicas estavam já em desuso por centenas de anos de re-
formas legais e a evolução da sociedade europeia. No entanto, a crise de sucessão que surgiu
na França após a morte de Carlos IV, fez ressuscitar uma disposição da Lei sálica, que não era
a mais importante na época em que fora publicada, nomeadamente o papel das mulheres no
direito sucessório.

A Lei sálica estipulava que nenhuma mulher poderia herdar propriedades imóveis
e que todas as terras deveriam ser transmitidas aos membros masculinos de sua família. Mes-
mo quando estava em vigor, essa norma raramente fora aplicada de forma consistente, e hou-
ve casos, durante o reinado de Chilperico I, em que foram feitas exceções. A razão para o
purismo adoptado em França em 1328 estava relacionada com a luta pelo trono, que implica-
ria uma mudança dinástica. Eduardo III da Inglaterra era o parente mais próximo de Carlos
IV, mas por linhagem feminina e, se subisse ao trono, a França perderia a independência. As-
sim, a aplicação rigorosa da Lei sálica fez de Filipe de Valois rei da França e salvaguardou a

84
A Lei sálica possui várias versões e correções, quanto a esse título alguns manuscritos acrescentam a palavra
hereditas afirmando que quanto à terra nenhuma mulher a terá por porção ou herança, mantendo o texto se-
guinte inalterado quanto ao sentido, ainda que se mudem os casos de uma ou outra palavra. HESSELS, 1880,
colunas 379-83.
85
Cf. VIENNOT, 2006.

31
32

independência do país. A partir de então, ficou definitivamente excluída a possibilidade de o


trono francês ser ocupado por uma mulher ou por um descendente do rei pela linha feminina.

3.5.1.2. A Lei sálica no Reino Unido

Um caso em que a Lei sálica foi aplicada foi na sucessão do rei Guilherme IV do
Reino Unido, também rei de Hanôver. A sua sobrinha Vitória sucedeu-o no Reino Unido, mas
não pôde ser rainha de Hanôver porque a Lei sálica vigorava naquele Estado europeu.

Em outubro de 2011, a Commonwealth revogou a discriminação na linha de su-


cessão ao trono britânico. Foi igualmente levantada a proibição de o monarca se casar com
uma pessoa pertencente à Igreja Católica Apostólica Romana86.

3.5.1.3. A Lei sálica em Portugal

Essa lei foi contrariada pela primeira vez com sucesso no Reino de Portugal, pelo
jurista José Ricalde Pereira de Castro, em 1777, na eleição de D. Maria I para rainha com di-
reito de governar o seu país com plenos poderes.

3.5.1.4. A Lei sálica na Espanha

Na Espanha, o rei Filipe V, ao subir ao trono após a Guerra de Sucessão Espanho-


la, fez promulgar a Lei sálica às Cortes de Castela, em 1713: segundo as condições da nova
lei, as mulheres somente poderiam herdar o trono no caso de não haver herdeiros varões na
linha principal (filhos) nem na linha lateral (irmãos e sobrinhos).

O rei Carlos IV da Espanha fez aprovar às Cortes em 1789 uma disposição para
derrogar a Lei sálica, restaurando as normas estabelecidas pelo código das Siete Partidas.
Contudo, a Pragmática Sanção real não chegou a ser publicada até que o seu filho Fernando
VII da Espanha a tivesse promulgado em 1830, desencadeando o conflito dinástico do Car-
lismo.

86
Ver: http://www.publico.pt/mundo/noticia/reino-unido-mulheres-e-homens-em-pe-de-igualdade-sucessao-ao-
trono-1518665, consultado em 31/8/2015.

32
33

3.5.2. Segunda sede dos francos e a Lei sálica

Leibniz evoca novamente a Lei sálica, de que já tratamos suficientemente no item


3.5.1. Agora, nesta parte que se extende do capítulo XXIV até ao XXIX, Leibniz pretende
mostrar que a Lei sálica não seria uma invenção, como suspeitara Valésio, visto que, confor-
me nosso filósofo, este autor cometera um grave equívoco ao confundir nomes de aldeias (pa-
gi) com nomes de pessoas. Pois que as três aldeias francas que aparecem elencadas no prefá-
cio dessa Lei, a saber, Salageve, Bodogeve e Vindogeve, ajungindo ainda depois uma quarta
outra aldeia, Visogeve, e que houve quem pensasse tratar-se de nomes de pessoas, causando,
destarte, suspeita da originalidade de tal texto legislativo. Leibniz explica que não poderiam
ser esses nomes interpretados como nomes de pessoas, porquanto o sufixo usado para compo-
sição das palavras -gast designa, conforme explica no capítulo XXIV, «denominações de re-
giões, donde vieram como embaixadores»87. Dá para isso uma erudita explanação etimológica
sobre o sufixo, fazendo a hipótese de nomes próprios de pessoas não ter sustentação.

No capítulo XXV, dá brevemente o motivo de a lei ter sido chamada de sálica,


visto ter sido estabelecida na aldeia de Salageve. Isso, diz-nos Leibniz, não ter aprendido «por
conjecturas, mas de monumentos antiquíssimos, anteriores e contemporâneos a Carlos Mag-
no»88. Para corroborar o argumento favorável à aldeia já mencionada aduz ainda argumentos
de cunho histórico, comprobatórios de sua ideia.

A aldeia de Salageve toma, segundo diz, seu nome do rio Sala, tentando descons-
truir a teoria de que seria a Turíngia. No capítulo XXVI, mostra a importância do rio Sala para
a região, referindo o fato de Carlos Magno a ele se ter dirigido várias vezes e às suas margens
ter erigido um palácio. Refere ainda o fato de muitos terem considerado que as margens do rio
Sala seriam do Sala turíngio, como se pode ler: «Ainda que alguns retivessem que fora ocu-
pado o Sala turíngio em lugar do salafelda»89. Nota ainda que os francos e os saxões estariam
ligados, conforme um antiquíssimo poeta saxão, por uma «aliança perpétua para uma repúbli-
ca comum»90.

Esmera-se em dar às demais aldeias referência histórica veraz e fidedigna no capí-


tulo XXVII, fazendo Bodogeve e Wisogeve derivarem do rio Boda, que corre no sopé do mon-

87
LEIBNIZ, 1715, p. 29: «appellativa a regionibus, unde missi venere.»
88
LEIBNIZ, 1715, p. 30: «ex coniectura, sed antiquissimis monumentis Carolo Magno anterioribus aequalibus-
que didici.»
89
LEIBNIZ, 1715, p. 31: «Etsi quidam Sala Thuringico praeoccupati por Salafelda habuerint.»
90
LEIBNIZ, 1715, p. 31: «foedere perpetuo […] in communem Rempublicam».

33
34

te Visorge. No capítulo XXVIII, Leibniz apresenta algumas migrações dos francos. No capí-
tulo XXIX, entretanto, Leibniz dá o motivo por que os francos pensaram em instituir um cor-
po legal, dizendo: «Parece que os francos, pensando em atravessar o Vissurge, rumo a sítios
mais longínquos, direcionaram o ânimo para construir leis, que, escritas na língua pátria, pu-
dessem compreender»91. Mas acrescenta que a Lei sálica de que se dispunha em seu tempo,
era tão somente a versão latina, presumindo-se que os francos haviam já entrado e se estabe-
lecido em solo romano. Mas adverte para a possibilidade de que essa lei, traduzida em latim,
já se encontrava «muito modificada e interpolada»92, sem dar provas que pudessem indicar
essa modificação e interpolação.

Sendo, pois, o objetivo de Leibniz nesses capítulos mostrar que os nomes citados
no prefácio da Lei sálica referem-se a embaixadores daquelas aldeias, mostrando também o
porquê de terem sido justamente estas aldeias as escolhidas, por serem importantes dentro do
contexto franco.

3.6. A BÉLGICA

Os capítulos do XIX até ao XXII pretendem mostrar a estância dos francos na


Bélgica. É interessante que Leibniz abra essa secção, no capítulo XIX, em tom de especula-
ção, quando diz: «Muitos acreditam que os francos habitavam além do Reno, na Bélgica»93.
Apesar dessa crença de muitos, quiçá, historiadores, Leibniz segue, no capítulo XX, mudando
o tom especulativo da secção, pois diz: «Mas consta que os francos fixaram tardiamente a
sede na Gália Bélgica»94. Assim como dissera dos argumentos sobre a origem troiana dos
francos, chamando-os de ridículos95, da mesma forma afirma que os argumentos apresentados
por Godofrido Wendelino, um historiador do século XVI que escreveu estudos sobre a Lei
sálica, são pífios e que «alguns são até ridículos»96.

No capítulo XXI, apresenta um problema causado pelos intérpretes de Gregório


de Tours que leram erradamente, conforme Ruinart afirma: «Todos os manuscritos têm Tu-

91
LEIBNIZ, 1715, p. 34: «Videntur Franci de migratione in loca ulteriora, Visurgique transmittendo cogitantes,
ad Leges condendas animum adiecisse; quas scripto comprehenderant patrio sermone».
92
LEIBNIZ, 1715, p. 35: «plurimumque mutatam et interpolatam».
93
LEBNIZ, 1715, pp. 24-5: «Multi credunt, Francos tunc iam trans Rhenum in Belgica egisse».
94
LEIBNIZ, 1715, p. 25: «Sed Francos serius in Gallia Belgica sedes fixisse constat».
95
Veja-se o item 2.3 desta dissertação.
96
LEIBNIZ, 1715, p. 25: «nonnulla etiam ridicula.»

34
35

ríngia»97, mas os intérpretes viram Tôngria. A Turíngia toma o nome dos turíngios, uma po-
pulação de origem germânica que ocupou a área por volta do século V. A Turíngia, depois de
cerca de um século de reinado autônomo, no século VI cai sob a dominação franca: Gregório
di Tours narra que os reis francos, Teodorico I e o meio irmão, Clotário I, em 531, invadiram
o reino da Turíngia, depuseram o rei Hermanfredo e o reino foi anexado ao reino dos francos.

No século VII, segundo o cronista Fredegário*, o rei dos francos, Dagoberto I,


nomeou um duque, Radulfo, para governar a Turíngia, e que ele tentou rebelar-se, mas foi
subjugado pelo rei Sigeberto III, que fez governarem a Turíngia os duques de Würzburg.

Do período sucessivo, em que a Turíngia continuou a ser governada por duques


merovíngios e depois carolíngios, há escassas notícias.

O nome “Bélgica” é derivado de Gália Belga, uma província romana na parte se-
tentrional da Gália, que era habitada pelos belgas, uma mistura de povos Celtas e Germânicos
(Cf. BUNSON, 1994, p. 169). De fato, Leibniz na sua Brevis designatio, fazendo uma análise
mais filologicamente heurística, afirma que «[Júlio] César distinguiu três Gálias, a Aquitânia,
a Céltica e a Belga, donde o nome de Celtas parece ser uma redução, e acredito ser apropria-
damente conveniente aos habitantes da Gália Céltica»98.

A Gália Bélgica, uma província do Império Romano na parte setentrional da Gália


que, antes de invasão romana em 100 a.e.c. A imigração gradual de francos, uma tribo germâ-
nica, durante o século V levou a área ao domínio dos reis merovíngios. Uma mudança gradual
de poder durante o século VIII levou o reino dos francos a evoluir para o Império Carolíngio
(Cf. COOK, 2002, p. 3).

3.7. A ILHA BATAVA

Leibniz, no capítulo XXIII, rejeita a possibilidade aventada por alguns historiado-


res de que a Lei sálica tivesse sido estabelecida nas circunvizinhaças do rio Ísala ou Íssela.
Para ele isso não seria condizente com os dados que se tinham. Por exemplo, não se poderia

97
LEIBNIZ, 1768, p. 160: «Thoringiam habent omnes Manuscripti, quos videre licuit».
98
LEIBNIZ, 1768, p. 194: «Tres Gallias, Aquitaniam, Celticam Belgicam Caesar distinxit: Ubi Celtarum nomen
arctissime sumi apparet: et crediderim proprie Galliae Celticae habitatoribus convenisse».

35
36

dizer que o rio Íssela fosse o mesmo rio Sala, pois, conforme Leibniz «esta afirmação não
encontra sustentáculo em nenhum indício»99.

Quanto aos indícios, Leibniz poderia muito bem pensar em documentos como os
Commentarii de bello Gallico100 de Caio Júlio César, pois que lá se diz que tinham estanciado
numa ilha formada pelo encontro do Mosa e do Waal. Aliados do povo romano, em seguida,
começaram a fazer parte do Império romano, com isenção, porém, do pagamento dos tributos.
A única obrigação era a de servir no exército romano. Eram, de fato, tão famosos no combate
a cavalo a ponto de constituir, no tempo de Calígula, um importante contingente de tropas
auxiliares.

Os batavos eram uma tribo germânica, originalmente parte dos catos, que segundo
Públio Cornélio Tácito habitavam a região do delta do rio Reno e as ilhas vizinhas101.

99
LEIBNIZ, 1715, p. 28: «nec alio ullo indicio haec sententia iuvatur».
100
Caio Júlio César, 2003, p. 26, IV,10: «Mosa profluit ex monte Vosego, qui est in finibus Lingonum, et parte
quadam ex Rheno recepta, quae appellatur Vacalus, insulam efficit Batavorum, neque longius ab Oceano mili-
bus passuum LXXX in Rhenum influit.»
101
Segundo Tácito: uma área quase erma na extremidade da costa da Gália, e as ilhas vizinhas, rodeada pelo
oceano em frente e pelo rio Reno na retaguarda e nos lados (cf. TACITUS, Historiae, Livro IV).

36
37

4. TERCEIRA E QUARTA PARTES: OS FRANCOS NA GÁLIA

A conexão das línguas permitiria


compreender a connexion des nations102

A terceira parte está constituída pelos capítulos do XXX ao XXXVII. É nesta par-
te que Leibniz localizará os francos como já chegados e assentados na região da Gália, após
sua derradeira migração, conforme lemos no início do capítulo XXX.

A quarta parte, que é a menor dentre todas as demais, consta de tão somente um
único capítulo, o trigésimo oitavo, onde Leibniz dará por encerrado o estudo das origens dos
franceses, mostrando os limites da pesquisa e justificando por que algumas coisas tiveram que
ficar de fora do texto, sendo matéria para outro estudo, se a morte não o tivesse vencido.

4.1. CHEGADA À GÁLIA

Da chegada dos francos à Gália tratará o capítulo XXX. Segundo Leibniz no


avançado do século III a.e.c. os francos fizeram sua última viagem. Diz ele: «que se fizera a
última migração»103. Evoca o testemunho de Flávio Vopisco que diz que o imperador «Aure-
liano repeliu os francos que atacavam a Gália»104. Como se isso não fosse suficiente, Leibniz
apresenta ainda mais outros assentamentos dos francos que, a seu ver, serviriam para corrobo-
rar sua hipótese a respeito da origem dos franceses e, como já se disse frequentemente, da
conexão entre as nações. Localizando, por fim, os francos, que teriam tomado outras regiões
pertencentes a outros povos e que tinham igualmente assumido outros nomes após esses as-
sentamentos.

Com o testemunho de que os francos chegaram à Gália, Leibniz encerra o trigési-


mo capítulo, pois essa chegada era o que queria dar por certo e que justificaria os capítulos
seguintes. Considerando que os francos seriam militarmente superiores aos demais povos de
origem germâncias.

102
PIAUÍ & CECCI SILVA, carta de 29 de janeiro de 1697, nota 13.
103
LEIBNIZ, 1715, p. 36: «Migrationem novam […] factam fuisse».
104
LEIBNIZ, 1715, p. 37: «Aurelianum […] Francos Galliam tentantes repulisse.»

37
38

4.2. VESTÍGIOS

Dos capítulos XXXI ao XXXIII, Leibniz busca apresentar aos leitores os vestígios
que deixaram alguns autores no concernente aos povos francos. Isso seria suficiente para
comprovar a ascendência franca dos franceses.

No capítulo XXXI, Leibniz evoca novamente a autoridade de Gregório de Tours


(538-594), que foi um historiador galo-romano e bispo de Tours, principal prelado da Gália.
Ele é a principal fonte contemporânea sobre a história merovíngia. Seu mais notável trabalho
foi seu Decem Libri Historiarum (“Dez Livros de História”), mais conhecido como Historia
Francorum (“História dos Francos”), um título dado por cronistas posteriores. Segundo o
testemunho desse historiador, Clodoveu, primeiro rei franco, também chamado de Clóvis I,
afirmara que os toringos, um povo germânico, assim como os francos, se teriam imposto so-
bre uns parentes. Leibniz não tem certeza de qual teria sido o significado dessa palavra para
Clodoveu, pois que o verbete latino parens pode significar os pais, mas também avós e outros
mais parentes consanguíneos. Podendo, destarte, indicar um domínio bélico sobre outros po-
vos germânicos aparentados, que se tinham assentado na região dos hermúnduros, sempre na
região da Germânia.

Referindo-se também a um poema de Venâncio Fortunato105 (ca. 530-ca.


600/609), parece que ele nasceu no norte da Itália. Cresceu durante a reconquista bizantina da
Itália e foi educado em Ravena. Seus trabalhos mostram familiaridade não apenas com poetas
clássicos como Virgílio, Horácio, Ovídio, Públio Estácio, e Martial, mas também com poetas
cristãos, incluindo Arátor106, Claudiano107, e Sedúlio108.

Fortunato eventualmente migrou pela Alemanha até à Gália em meados de 560,


provavelmente com intenções específicas de se tornar poeta na corte Merovíngia. Após cir-
cunstâncias políticas, que impediram sua carreira na corte, Fortunato recebeu patrocínio de
várias figuras religiosas, incluindo São Gregório de Tours. Tornou-se bispo de Poitiers pouco
depois do ano 600.
105
Para saber mais sobre Venâncio Fortunato, veja-se: GEORGE, J. Venantius Fortunatus: A Latin Poet in Me-
rovingian Gaul. Oxford: Clarendon Press, 1992.
106
Arátor (Arator) foi um poeta cristão, da Ligúria, no noroeste da Itália, que viveu no século V. Sua obra mais
conhecida, De Actibus Apostolorum, é uma história em versos sobre os Apóstolos.
107
Claudiano (Claudius Claudianus; ca. 370-404) foi um poeta romano, que glorificou o Imperador Honório e o
general Estilicão.
108
Célio (Coelius ou Caelius, ambos prenomes de duvidosa autenticidade) Sedúlio foi um poeta cristão da pri-
meira metade do século V e foi chamado de presbítero por Isidoro de Sevilha e no Decreto Gelasiano, que é um
texto atribuído ao Papa Gelásio I (492-496).

38
39

No capítulo XXXII, encontramos os francos frequentando as Gálias e a Bélgica e


tendo invadido também a Hispânia Tarraconense, na região da Catalunha, entrando pelo es-
treito de Gibraltar.

Lemos no capítulo XXXIII que os francos travaram guerra com outros povos
germânicos e prevaleceram sobre eles. Através dessas batalhas os francos se iam impondo e
também povoando as diversas regiões das Gálias, encetando esse domínio pelas regiões limí-
trofes e fronteiriças.

Leibniz tem por certo que a Germânia forneceu os habitantes mais antigos para a
Gália e para a Itália assim como para a Escandinávia um pouco depois; considerando que cer-
tamente as nações germânicas teriam ocupado a margem báltica109. Com isso se conclui a
parte sobre os vestígios francos pelas Gálias.

4.3. O NOME FRANÇA

Leibniz abre o capítulo apresentando os francos seduzidos e inclinados pelas «ro-


manidades»110. Dá-se essa sedução pelo fato de que «os francos desenvolveram-se novamen-
te, sobretudo por isso, quase toda a nação começou a obedecer a um único rei»111. A sedução
pelas coisas romanas fez com que os francos se desenvolvessem.

Parece que Leibniz recolhe a mais antiga aparição do nome França, tal como se
pode conhecer hoje. Entretanto, a referência que dá não pode ser encontrada, porquanto a fra-
se que cita dando verdade a sua sentença refere-se a um livro de Próspero Tiro, os Fastos, que
não consta das obras desse escritor112. Há uma obra de Ovídio chamada Fastos, mas refere-se
ao calendário romano e suas inúmeras festividades. Havia vários livros chamados Fastos du-
rante o Império Romano, os Fasti Magistrales, os Annales ou os Historici que tratavam de
festividades, e de qualquer outro aspecto que tivesse a que ver com as divindades e as magis-

109
Cf. LEIBNIZ, 2012, p. 142: «Germania ut Galliae Italiaeque antiquissimos habitatores, ita Scandinaviae
paulo posteriores dedit: neque enim dubium arbitror, Germanicas gentes […] Balthico litore […] insedisse.»
(LEIBNIZ, 1768, p. 194).
110
LEIBNIZ, 1715, p. 39: «Sed Romanis rebus in dies magis magisque inclinantibus», que traduzimos assim:
«Mas estando mais e mais inclinados às romanidades a cada dia».
111
LEIBNIZ, 1715, pp. 39-40: «Franci, praesertim ex quo toda pene gente uni Regi parere coepit, rursus inva-
luerunt.»
112
Para uma consulta sobre as obras completas de Próspero Tito, veja-se:
http://www.documentacatholicaomnia.eu/30_10_0390-0463-_Prosperus_Aquitanus.html, consultado em
24/9/2015.

39
40

traturas romanas; ocupavam-se esses Fastos dos imperadores, de seus aniversários, de seus
cargos, dos dias que lhes eram consagrados, das festas e das celebrações estabelecidas em
honra deles ou para a prosperidade deles. Com o tempo foram chamados magni, para distin-
gui-los dos mais simples fastos diurnos. Por isso, com o tempo, a palavra assumiu o significa-
do de crônicas ou anais.

Entretanto, não se pode avançar muito em precisar quem, de fato, tenha sido o au-
tor da frase que Leibniz refere no texto como sendo de Próspero Tiro, qual seja, «Próspero
Tiro escreveu, nos Fastos, que Príamo (isto é, o velho Faramundo) tinha reinado na Fran-
ça»113. A autoria dessa frase ficará ainda envolta em algum mistério porquanto, por ora, nada
se poderá aduzir para comprová-la, ou corrigi-la, ou dar-lhe o verdadeiro autor.

Mais adiante cita a Tábula Peutingeriana, que é uma cópia do XII ou XIII século
de um antigo mapa romano que mostrava as estradas militares do Império.

Leva o nome do humanista Konrad Peutinger que a herdou de seu amigo Konrad
Celtes, bibliotecário do imperator Maximiliano I; Peutinger quis publicar o mapa, mas morreu
antes de conseguir fazê-lo. Em 2007, foi inscrita pela UNESCO no Elenco das Memórias do
mundo.

Nessa Tábula, segundo Leibniz, a França aparece na região «da Magna Germânia,
próxima ao Reno, desde a Mongúncia até os batavos»114. É aqui que Leibniz apresenta uma
discrepância entre o suposto texto de Próspero Tiro e a Tábula Peutingeriana. Visto que em
Próspero seria na própria França, ao passo que na Tábula seria numa região bem maior, onde,
entrementes, também se encontra a França mesma.

Nas linhas seguintes começa a apresentar nomes de alguns dos filhos que são atri-
buídos a Faramundo por alguns autores. Dando lugar à passagem para a parte seguinte em que
quer apresentar os Merovíngios. Como estirpe que suplantaria o reino francês à descendência
de Faramundo.

113
LEIBNIZ, 1715, p. 40: «Prosper Tiro in Fastis scripsit, Priamum (id est, seniorem Pharamundum) regnasse
in Francia».
114
LEIBNIZ, 1715, p. 40: «Germaniae magnae […] Rheno vicina, a Moguntia usque ad Batavos».

40
41

4.4. OS MEROVÍNGIOS E CARLOS MAGNO

Meroveu (ca. 411 - ca. 458) é o lendário fundador da dinastia merovíngia de reis
francos. Ele foi rei dos francos sálios nos anos depois de 450. Sobre ele não existem registros
contemporâneos e há pouca informação nas histórias posteriores dos francos. Gregório de
Tours registra que possivelmente ele tenha sido filho de Clódio. Ele supostamente liderou os
francos na Batalha de Chalons (ou Batalha dos Campos Cataláunicos) em 451.

De acordo com uma lenda, Meroveu foi concebido quando a esposa de Clódio en-
controu um Quinotauro, um monstro marítimo que podia mudar de forma enquanto nadava.
Apesar de nunca declarar, ela foi engravidada por esse ser fabuloso. Essa lenda foi relatada
pelo cronista Fredegar no século VII, mas deve ter sido conhecida antes. A lenda é, prova-
velmente, de origem folclórica e usada para explicar a origem dos francos sálios como um
povo residente próximo ao litoral. O elemento “Mero-” ou “Mer-”, no nome, sugere alusão a
“mar” ou “oceano” (inglês antigo: mere; latim: mare). O termo “sálio” ou “sálico” pode tam-
bém ser uma referência ao sal, uma lembrança de seu lar pré-migração nas praias do mar do
Norte, ou, como sugere Leibniz, pode ser uma referência ao rio Sala, conforme afirma: «do
rio Sala francônico, donde recebem o nome»115. O elemento “-wig/weg/veus” poderia ser vis-
to como uma referência a “viajante”, “rota, caminho” ou “transporte, veículo” (em alemão:
weg; em latim: via). Por essa interpretação, Meroveu significaria simplesmente “do mar”.
Uma pequena variação dessa interpretação derivaria da palavra do alto-alemão antigo/saxão
antigo wiht (“coisa” ou “demônio”), relacionada com a - agora obsoleta - palavra inglesa
wight (que significa “humano” ou “criatura semelhante a um humano”). Então, Meroveu e
suas formas variantes de grafia poderiam facilmente ter levado os cronistas dos francos à refe-
rência a uma criatura marítima de algum tipo e, através disso, gerado a lenda da origem marí-
tima. Qualquer que seja o significado do nome, Meroveu foi o pai de Childerico I, que o su-
cedeu.

No capítulo XXXVI, Leibniz faz referência novamente a Carlos Magno (742-


814), que foi rei dos francos entre 768 e imperador do ocidente (Imperator Romanorum) entre
800 até a sua morte em 814. Pertence à dinastia Carolíngia, à qual ele deu o seu nome. Foi
filho de Pepino*, o Breve, (714-768) e neto de Carlos Martelo (690-741). Este último foi pre-
feito do palácio (ou seja, responsável pela administração sob o Rei) do Reino Franco do Ori-

115
LEIBNIZ, 1715, p. 28: «a Sala amne Franconico, unde venerant, nomen habuere».

41
42

ente, a partir de 717. Em 731 tomou as rédeas da totalidade do Reino. Recebeu do Papa Gre-
gório III o título de Herói da Cristandade por ter contido o avanço dos muçulmanos na batalha
de Poitiers (ou batalha de Tours), em 732. Depois passou o reinado a seu filho Pepino*, o
Breve, e este a Carlos Magno. Que foi rei dos francos a partir de 768. Tornou-se, por conquis-
ta, rei dos lombardos em 774 e foi coroado Imperator Augustus em Roma pelo papa Leão III
em 25 de dezembro de 800, restaurando um cargo em desuso desde a queda do Império Ro-
mano do Ocidente em 476.

Com Carlos Magno a dinastia Merovíngia é substituída por uma nova que toma o
nome de Carolíngio, tomando dele mesmo o nome. Contudo, mesmo que as dinastias sejam
trocadas, não se troca sua origem franca.

O termo Gália, também no plural Gálias, foi também o nome com o qual os Ro-
manos, desde a República, designavam coletivamente uma vastíssima porção da Europa situ-
ada a ocidente do Reno e que compreendia as províncias da Gália, da Bélgica, da Alemanha e
da Bretanha (Gália cisalpina, Gália narbonense, Gália Bélgica, Aquitânia, Gália lugdunense,
Germânia Inferior e superior, Bretanha) habitadas por povos celtas. Baseando-se na convicção
de uma homogeneidade dessa macrorregião, nasceu no tardo Império a Diocese da Gália (ex-
cluída a Bretanha), depois Prefeitura do pretório das Gálias, uma das grandes divisões admi-
nistrativas do Império, cujo território compreendia ainda a Península ibérica e o Norte da
África ocidental.

Na Gália (transalpina), César individuava três regiões principais: a Gália Bélgica,


a Aquitânia e a Gália propriamente dita ou Gália Celta, ou também a área depois constituída
na província da Gália Lugdunense. A essas regiões acrescentou-se depois a Gália Narbonense,
que incluía a costa mediterrânea e o curso médio e baixo do Ródano e que, no tempo de Cé-
sar, já era uma província romana.

A etnografia romana tinha subdividido a Gália em cinco partes: a Gallia Belgica,


a Gallia Celtica (quase exatamente correspondente à província da Gallia Lugdunensis), a Gal-
lia Cisalpina, a Gallia Narbonensis e a Gallia Aquitania. Como se viu mais acima.

Júlio César escreve nos Commentarii de Bello Gallico: «Gallia est omnis divisa in
partes tres: quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua, Cel-
tae, notra Galli appellantur» (I,1) - Toda a Gália está dividida em três partes. Numa delas
vivem os belgas, noutra os aquitanos e na terceira os que, na própria língua, se chamam celtas
e na nossa [em latim] se chamam galos [ou gauleses]. - César indica aqui somente a Gália

42
43

ainda independente. Porque enumera partes sua, a palavra omnis que indica um todo, mesmo
lhe faltando alguma parte. Não fala da região dos Alóbroges, já submetidos por Domício, da
Cisalpina nem da Província (Provence).

Leibniz encerra a terceira parte no capítulo XXXVII, trazendo mais testemunhos


históricos de autores antigos que asseveram e corroboram o fato de os francos se terem fixado
na região que posteriormente será chamada Francia, ou seja, França, em referência direta aos
habitantes francos que a povoaram, suplantando o nome mais genérico de Gália, posto que
este nome abrangesse um conjunto muito maior de povos, compreendia o atual território da
França, algumas partes da Bélgica e da Alemanha e o norte de Itália. Dividia-se em duas regi-
ões: (i) Gália Cisalpina (aquém dos Alpes, relativamente aos romanos), que compreendia a
Itália setentrional e foi, por muito tempo, ocupada por tribos gaulesas; e a (ii) Gália Transal-
pina (além dos Alpes), vasta região (a costa sul da atual França e seu interior), situada entre os
Alpes, os Pireneus, o Atlântico e o Rio Reno.

4.5. CONCLUSÃO DE LEIBNIZ

Consideramos que este capítulo se consititua como uma parte separada e não uma
sequência da parte anterior, pelo fato de que nele Leibniz tecerá algumas considerações finais,
dando por encerrado o tema sobre o estudo das origens dos franceses e das migrações dos
francos que lhe deram origem, deixando patentes os limites de sua pesquisa e apresentando as
justificativas de por que algumas coisas tiveram que ficar ausentes do texto, sendo matéria
para outro estudo, se a morte não o tivesse vencido.

Abre este capítulo XXXVIII levando em conta que os escritores romanos durante
muito tempo sempre consideraram os francos como um povo que vivia além do rio Reno. Mas
Leibniz atribui a certo Daniel, cuja obra e vida não se pôde encontrar, o mérito de ter louvado
Clodoveu pelo fato de ele «ter levado o império dos francos para além do Reno»116.

Trata de apresentar mais uma querela sobre os povos que se submeteram aos fran-
cos, com o intuito de fazer que os francos estivessem de fato dentro do território da Galia, ou
da França, como faz notar no capítulo XXXIV. Para isso retoma textos e os compara para
justificar sua assertiva. E julga que discutir mais profundamente sobre isso não seja o objetivo

116
LEIBNIZ, 1715, p. 44: «prolati trans Rhenum Francorum imperii».

43
44

específico desse trabalho117, quiçá julgando que haveria ocasião de escrever mais um trabalho
sobre essa questão mais adiante, não tivesse a morte se adiantado em ceifar-lhe a vida pouco
depois da conclusão e edição do livro que ora se dá ao público.

A conclusão de Leibniz é, pois, a de que o que se propusera fazer fê-lo que foi
«ter disposto as origens e as migrações dos francos até ao Reno»118.

117
Cf. LEIBNIZ, 1715, p. 44: «Sed talia discutere non est huius loci.»
118
LEIBNIZ, 1715, p. 44: «Francorum origines et migrationes ad Rhenum usque constituisse».

44
45

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ego Francorum initia a Balthico litore


repetenda comperi.
Leibniz, Brevis designatio.119

Considerando que a importância do livro de Leibniz A origem dos franceses [De


origine francorum disquisitio], publicado em 1715, fora só recentemente levada em conside-
ração no que tange às questões que estamos aqui discutindo, a saber, quanto ao papel prepon-
derante das línguas para estabelecerem-se as origens dos povos e tornar patentes as conexões
que há entre as nações, convinha tecer um estudo sem qualquer pretensão de exaustão do te-
ma, com o fito, entretanto, de propor que fosse um estudo inicial, conquanto seja o mais com-
pleto que se tenha podido fazer nesse momento, e também estabelecer o texto latino, transcre-
vendo-o da edição de 1715, comparando-a com a de 1768, curada por João Jorge Eckard (sem
levar em consideração alguns acréscimos ali contidos, quiçá objeto para um estudo posterior
de estabelecimento duma edição crítica, após análise da fortuna crítica desse texto, recolhi-
mento do que seja possível de edições posteriores dele), além de apresentar a tradução integral
em língua portuguesa dessa obra leibniziana, que encerra os trabalhos daquela parte chamada
Etimológica, que Leibniz propusera no último capítulo dos Novos ensaios, quando estabelece-
ra ali a tríplice partição dos estudos sobre a linguagem, conforme apresentamos no item 1.1
(vide p. 4).

O objetivo precípuo de nosso filósofo é, indubitavelmente, o de demonstrar a su-


perioridade da língua alemã, conforme ele assevera na Dissertatio de styllo philosophico Ni-
zolii: «Atrever-me-ia a asserir que nenhuma língua europeia é mais apta do que o alemão para
testar e examinar as doutrinas filosóficas através de uma língua viva»120. Porquanto o alemão
fosse uma língua repleta de definições reais, o que causaria a inveja das demais línguas121.
Sobre esse mesmo tema, isto é, o da superioridade da língua alemã, Leibniz retornará diversas
vezes. A Brevis Designatio tem como resultado a identificação de um conjunto de razões his-
tóricas e filológicas nas quais Leibniz fundamenta a tese da superioridade da língua alemã.

119
LEIBNIZ, 1768, p. 197: «Quanto a mim descobri que as origens dos francos remontam ao litoral báltico…»
(LEIBNIZ, 2012, p. 147).
120
LEIBNIZ, 1840, p. 62: «Illud tamen asserere ausim, huic tentamento probatorio atque examine philosophe-
matum per linguam aliquam vivam, nullam esse in Europa linguam Germanicam aptiorem».
121
Cf. LEIBNIZ, 1840, p. 62: «quia Germanica [lingua] in realibus plenissima est et perfectissima, ad invidiam
omnium caeterarum».

45
46

Como podemos depreender também daquilo que está dito no Dossiê, preparado por Olga
Pombo para a publicação da Brevis:

a língua alemã é invariavelmente louvada pelos dispositivos de sentido que a habi-


tam, isto é, pela riqueza dos vestígios (adâmicos) que nela subsistem e pela naturali-
dade, clareza, profundidade, motivação do seu vocabulário presente.
São essas características que fazem da língua alemã um instrumento particularmente
adequado ao exercício da razão. São essas características que garantem, pela sua
presença, o acordo fundamental entre a Natureza e o Verbo que nas línguas naturais
se opera. Características que, em última analise, decorrem da antiguidade que a Bre-
vis Designatio estabelece à língua alemã. (LEIBNIZ, 2012, p. 123)

Três razões por que o alemão é superior às outras línguas: 1.ª riqueza de termos
reais; 2.ª pobreza de expressão de ficções; 3.ª incapacidade de assimilar o latim [bárbaro] (Cf.
POMBO, 1997, pp. 178-9).

Nos Novos ensaios, o filósofo de Lípsia afirmou ainda que «os antigos chamavam
de celtas tanto os germanos quanto os gauleses»122. Mantendo a tese original que o motivava
na busca das origens dos povos pelos vestígios das línguas.

De modo geral, Leibniz haverá de manter a tese de que a língua alemã é superior
às línguas europeias, apresentada pela primeira vez «na Dissertatio, de 1670» (POMBO,
2010, p. 183). Aqui se pode pensar que haja uma contradição, visto que Leibniz apresenta a
defesa da superioridade da língua alemã em trabalhos, majoritariamente escritos em latim
(como é o caso da própria Dissertatio) ou em francês (como é o caso dos Novos ensaios). Es-
sa contradição é somente aparente.

Nos Novos ensaios, «após ter estabelecido a origem comum de todas as nações e a
correspondente existência de uma língua primitiva comum, Leibniz defende a superioridade
da língua alemã, na perspectiva da sua antiguidade» (POMBO, 2010, p. 183). Nos Novos en-
saios, portanto, o «carácter primordial do alemão é reforçado […] pela demonstração de sua
naturalidade» (POMBO, 2010, pp. 183-4).

Depreendemos de Cecci Silva (2014, p. 12) que

essa defesa de Leibniz quanto à natureza ambivalente da linguagem, somada à im-


portância que ele confere à investigação das origens, das conexões, das harmonias e
das corrupções das línguas para se compreender as origens, as conexões e as migra-
ções das nações, bem como para se compreender como se dá a produção e a circula-
ção dos significados e sentidos entre essas nações, interessam bastante às teorias
humanísticas contemporâneas que envolvem a linguagem e a história e, com elas,

122
CECCI SILVA, 2014, p. 117. «les anciens appelaient-ils Celte tant les Germains que les Gaulois» (LEIB-
NIZ, 1846, p. 289).

46
47

em um corpo bem amalgamado, como não poderia deixar de ser, se somam questões
políticas, éticas, culturais, de tradução etc.

Por natureza ambivalente da linguagem devemos entender o fato de que Leibniz


considerava a língua como sendo um híbrido convencional (ex instituto) e natural. Anteci-
pando assim uma ideia que só tomará corpo mais tarde com os linguistas modernos. Especi-
almente, Leibniz se distancia da teoria da linguagem, defendida pela personagem Crátilo, no
diálogo homônimo de Platão (427-347 a.e.c.), segundo quem a língua era um produto da natu-
reza, através dos sons adequados, «o ideal seria que todas as palavras, ou a maioria delas, fos-
sem semelhantes, isto é, apropriadas às coisas designadas; o pior seria o contrário disso»123.
Como podemos constatar do texto a seguir:

O naturalismo de Crátilo é claramente afirmado por Amônio, in Int. 34,24-30: «Crá-


tilo, o heracliteano, que disse que para cada coisa um nome apropriado foi determi-
nado pela agência da natureza ... e que aqueles que dizem que tal nome realmente
nomeia [ὀνομάζειν μὲν ὄντως124], enquanto que aqueles que não o fazem dizem que
este não nomeiam absolutamente, mas apenas fazem barulho [μηδὲ ὀνομάζειν ἀλλὰ
ψοφεῖν μόνον].125

Distanciando-se Leibniz também de Aristóteles (385-322 a.e.c.), que, no Peri


hermeneias, propusera que a língua seja por convenção, como diz no início do capítulo II: «o
nome é um som articulado e significativo, conforme convenção»126.

No entanto, Leibniz acha um meio termo entre ambas as teorias. É essa a mesma
direção do que diz Cecci Silva quando assevera que Leibniz

em sua investigação sobre a natureza das línguas um estudo sobre sua mutável mate-
rialidade e seu devir, que se dá tanto “por natureza” como “por convenção”, e sua ín-
tima relação com a origem dos povos, suas conexões, sua [sic] migrações no curso
da história, paralelamente ele chama a atenção para o aspecto “por natureza” comum
a todas as línguas histórico-naturais (CECCI SILVA, 2014, p. 76).

123
Crátilo 435ca.: «Ἐπει ἴσως κατά γε τὸ δυνατὸν κάλλιστ’ ἂν λέγοιτο ὅταν ἢ πᾶσιν ἢ ὡς πλείστοις ὁμοίος λέγηται,
τοῦτο δ’ ἐστὶ προσήκουσιν, αἴσχιστα δὲ τοὐναντίον.»
124
Na opinião do autor desta dissertação essa expressão grega ficaria melhor se traduzida literalmente: nomear
ontologicamente. Conforme já tratamos noutro trabalho.
125
ADEMOLLO, 2011, p. 31: «Cratylus’ naturalism is clearly asserted by Ammonius, in Int. 34.24-30:
«Cratylus the Heraclitean, who said that for each thing an appropriate name has been determined by the agency
of nature … and that those who say such a name do really name [ὀνομἀζειν μὲν ὄντως], while those who do not
say this do not name at all but merely make noise [μηδὲ ὀνομάζειν ἀλλὰ ψοφεῖν μόνον].» [Tradução do inglês da
lavra do autor deste trabalho.]
126
ARISTÓTELES, 2013, p. 3: «Ὄνομα μὲν οὖν ἐστὶ φωνὴ σημαντικὴ κατὰ συνθήκην» [Da Interpretação,
16a,19].

47
48

Tanto na Brevis designatio quanto na De origine Leibniz apresenta as migrações


do povo franco. Isso para ele era extremamente relevante, porquanto daí é que surgiriam as
diversidades das línguas, posto que todas tivessem uma origem comum. De fato, sobre isso
lemos nos Novos ensaios que há uma quantidade tão grande de semelhanças nas diversas lín-
guas «que não se poderia atribui-la meramente ao acaso, nem mesmo ao mero comércio, mas
de preferência às migrações dos povos»127.

É, pois na De origine que Leibniz dará a fortuna das diversas migrações dos po-
vos dos francos germânicos, corroborando a teoria da origem comum dos povos a partir dos
germanos, que vem sustentando desde as cartas a Sparvenfeld, como também nos Novos en-
saios, e também na Brevis.

Na migração dos povos, por conseguinte, Leibniz fará ver a importância que tinha
a língua dos germanos (ou dos alemães) na formação da cultura europeia. Dessa importância o
filósofo alemão terá como objetivo fazer decorrer que é no povo alemão e na língua dos ger-
manos que se deverá fazer a busca pela língua originária. Conquanto Leibniz deixasse claro
que encontrar a língua primeva não seria uma tarefa fácil e cômoda, mas que, através da lín-
gua que mais se aproximasse dessa língua primitiva, o alemão naturalmente, seria possível
reconstruir por aproximação a língua adâmica, que seria «a cifra de toda língua vernacu-
lar»128. Como faz nos Novos ensaios Leibniz, pelo testemunho dos antigos, equipara os ger-
mânicos e os gauleses com os celtas. E dá o passo seguinte quando afirma: «E ao reconstruir
ainda mais para compreender aí as origens tanto do céltico e do latim quanto do grego, que
possui muitas raízes comuns com as línguas germânicas ou célticas»129. E é daí que Leibniz
estabelece que se possa conjecturar que isso resulte de uma origem comum de todos estes
povos descendentes dos citas130. E, assim, nosso filósofo quererá vincular a língua germânica
ao céltico, pois sendo esta última a base para as demais línguas europeias, como ele acredita-
va, duas coisas ficam patentes: primeiramente, que os povos têm uma origem comum; por
fim, que essa origem comum reside nos povos germânicos.

Ancorado nisso, decorre naturalmente que para fortalecer ainda mais sua teoria
das origens germânicas comuns de todos os povos e, por isso mesmo, da conexão das nações,

127
CECCI SILVA, 2014, pp. 119-20: «qu’on le saurait attribuer au seul hasard, ni même au seul commerce,
mais plutôt aux migrations des peuples» (LEIBNIZ, 1846. p. 290).
128
NEF, 1995, p. 114.
129
CECCI SILVA, 2014, pp. 117-8: «et en remontant davantage pour y comprendre les origines tant du celtique
et du latin que du grec, qui ont beaucoup de racines communes avec les langues germanique ou celtiques»
(LEIBNIZ, 1846, p. 289).
130
Cf. CECCI SILVA, 2014, p. 118 (LEIBNIZ, 1846, p. 289).

48
49

Leibniz buscará provar que os franceses eram povos germânicos em sua origem. Todas as
migrações dos francos que ele propõe no livro A origem dos franceses servem a ostentar o
processo de evolução desse povo germânico até quando se assentam definitivamente na Fran-
ça, onde prosperaram e estabeleceram reinos e dinastias.

Para corroborar suas ideias e teorias nosso filósofo costuma ser muito cuidadoso
no que tange a admitir qualquer dito que se tenha propalado nos tempos mais antigos. Como,
por exemplo, as fictícias origens que se atribuíam aos francos, como Leibniz apresenta criti-
cando na primeira parte de sua dissertação, A origem dos franceses. Conquanto fosse uma
ideia bem difusa, como deixa transparecer sua pretensão é científica. Seu compromisso é com
a verdade. Para manter-se fiel a isso ele não hesitará em rejeitar esse expediente e buscará um
princípio que melhor explique as conexões, conforme Leibniz aponta nos Novos ensaios, isso
se fará buscando diligentemente o encadeamento das palavras131.

Conquanto lhe fosse muito tentador valer-se de origens advindas de Alexandre


Magno ou de Troia para assentar aí a origem dos francos. Sua vinculação com a verdade era
maior que a busca dessa fama fugidia.

Seu intento é dar bases sólidas a sua teoria para que não fosse facilmente derruba-
da. E é por causa disso que ele vai tentar fundamentar com afinco seu texto em bases mais
firmes e estáveis. Tentará, pois, fazer isso, a partir da segunda parte do livro A origem dos
franceses, como ficou já dito e fora já suficientemente visto, em que buscará essa origem num
povo determinado, os francos-germânicos, tentando fazer remontar tudo à migração deles das
margens do mar Báltico até à chegada à França.

As dimensões reduzidas do livro a que nos referimos na Introdução deste trabalho,


referiam-se tão só e exclusivamente à materialidade do livro. Se, no entanto, considerássemos
o texto quanto ao conteúdo, seremos compugidos a considerá-lo como um texto dotado de
profundidade e perspicuidade muito grandes. Que é o que se tentou demonstrar neste trabalho
de apresentação da tradução desse texto ao português. A origem dos franceses figura entre os
textos leibnizianos em que se busca provar a origem comum das línguas, a conexão das na-
ções e o parentesco que há entre os povos.

131
Cf. CECCI SILVA, 2014, pp. 128-33 - LEIBNIZ, 1846, pp. 292-4.

49
50

6. A ORIGEM DOS FRANCESES (TRADUÇÃO)

G. G. LEIBNITII G. W. LEIBNIZ
DE ORIGINE FRANCORUM DISSERTAÇÃO SOBRE
DISQUISITIO A ORIGEM DOS FRANCESES
Tradução: Húdson Kléber Palmeira Canuto

1.ª PARTE

I I
Cum in Miscellaneis Berolinensibus de po- Visto que as Miscelâneas Berlinenses132 dis-
pulorum Originibus disserens, Francicas obi- correram sobre a origem dos povos e toca-
ter attigissem, et paucis indicassem, a Balthi- ram, só de passagem, nas origens francesas, e
co mari repetendas esse; eius meae sententiae indicaram, sucintamente, que [estas] deveri-
rationes nunc in medium proferre placet. am ser buscadas a partir do Mar Báltico. Pa-
receu bem dizer, agora, as suas razões.
Iohannem Isaacium Pontanum, Hadrianum Não é de admirar que se combata a João
Valesium aliosque viros insignes, qui de re- Isaac Pontano*, Adriano Valésio* e outros
bus Francorum vetustis erudite scripserunt, varões insignes, que eruditamente escreve-
in citerioribus temporibus locisque substitis- ram sobre os antigos assuntos dos franceses,
se mirum non est; quia veteribus monumentis em tempos e lugares mais próximos, pois que
caruere, quae mihi versare datum est; partim careciam de vetustos monumentos, que me
iam prolata in medium, sed post ipsos, par- foi dado versar; publicamente já tratados em
tim latentia adhuc in Manuscriptis. parte, mas depois desses varões, em parte
latentes ainda nos manuscritos.

II II
Outrora se estabelecera a ridícula opinião de
Ridicula olim invaluerat opinio, Francos
que os francos, expulsos de Troia, chegaram
Troia pulsos ad Maeotidem paludem, mox in
até à Lagoa Meótida*, logo depois chegaram
Danubium et Pannoniam navibus venisse, et
ao Danúbio e à Panônia, e dali convocados

* Ver Glossário de pessoas e lugares ao final do texto.


132
Em latim, Miscellanea Berolinensia. Publicada em sete volumes entre 1710 e 1746, Miscellanea Berolinensia
foi o principal jornal da Academia de Berlim (então chamada de Societas Regia Scientiarum), cuja fundação se
deve ao próprio Leibniz, em 1690, até a dissolução da Societas em 1744. A nova instituição, a Académie Royale
des Sciences et Belles-Lettres de Prusse (Royal Academy of Sciences), conseguiu a Societas, e a Miscellanea
Berolinensia foi sucedida pelo Berlim Histoire e Mémoires em 1745/46.

50
51

inde a Valentiniano evocatos Romanis contra por Valentiniano* para lutarem com os ro-
Alanos militasse, eosque ex Maeoticarum manos contra os alanos*; tendo sido expulsos
paludum litibulis expulisse, tandem in Ger- das margens da Lagoa Meótida*, tendo, fi-
maniam Galliasque penetrasse. nalmente, penetrado na Alemanha e na Fran-
Talia satis male cohaerentia habentur in Ges- ça. Tais conexões são muito mal contadas
tis Regum Francorum a Frehero editis. Et nos Feitos dos Reis dos Franceses133, edita-
quod de Valentiniano scribitur, qui Francos dos por Freero, pois que se escreveu sobre
ex Scythia vel a Danubio exciverit, plane Valentiniano* que chamara os francos da
ineptum est, cum Francos multo ante iam ad Cítia* ou do Danúbio, quando se sabe que os
Rhenum consedisse constet. francos já há muito tempo se tinham estabe-
lecido nas cercanias do Reno.

III
III
Trithemius Principes Francorum inde a Troi- Tritêmio* faz o recenseamento dos príncipes
anis ex Hunibaldo quodam recensuit, sed franceses desde os troianos, a partir de certo
quem ipse confinxisse videtur. Hunibaldo (aparentemente inventado por
Tritêmio*).
Et memini, me litteras ineditas legere Fride- E lembrou-me ter lido umas cartas inéditas
rici Principis Electoris ac Ducis Saxoniae ad de Frederico*, príncipe eleitor e Duque da
Trithemium, quibus petebat Codicem Huni- Saxônia, a Tritêmio*, nas quais pedia que
baldi sibi communicari. Sed Trithemius res- compartilhasse com ele o Códex de Hunibal-
pondit mutata sede (nam Hirsaugia Herbipo- do. Mas Tritêmio* respondeu, mudando o
lin translatus fuerat) Codices non amplius in lugar (pois fora transferido de Hirsau* para
manu sua esse. Wurtzburgo*), que os Códices não estavam
mais em seu poder.

IV
IV
Fabulam Troianae originis suspicor ex eo Suspeito que a história da origem troiana
[Trithemio] natam, quod in Fastis Prosperi tenha sido criada por ele [Tritêmio*], pois
Tironisi quidam legissent ad annum Gratiani nos Fastos de Próspero Tiro*, alguns leram
quartum: Priamus quidam regnat in Francia que pelo quarto ano de Graciano*: Um tal
quantum altius colligere potuimus. Príamo* reinava na França, é o que de con-

133
O Liber Historiae Francorum (Livro da história do Francos) é uma crônica anônima escrita por volta de 727.
Primeiramente chamado Gesta regum Francorum antes de Bruno Krusch republicá-lo em 1888 e renomeá-lo
Liber Historiae Francorum. Conforme depreendemos de KURTH, 1919, pp. 31-65.

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52

Ita facile gratus error obrepsit; ea enim mul- siderável pudemos apurar. Um erro fácil
torum populorum vetus ambitio fuit Troianas conveniente e furtivamente foi introduzido;
origines iactare, com efeito, uma velha ambição de muitos
povos era presumirem-se de origem troiana,
Avernique ausi Latio se fingere fratres Os Arvernos ousaram definir-se irmãos
dos Latinos
Sanguine ab Iliaco como gente do mesmo sangue Troiano...134
apud Lucanum lib. I. conforme Lucano* liv. I.
Et Galfridus Monumethensis alios fabulato- E Galfrido Monumentense* seguindo a ou-
res secutus, Britannos a Bruto filio Ascanii, tros historiadores, deduziu que britânicos
nepote Aeneae decucit. viria de Bruto, filho de Ascânio*, neto de
Eneias*.
Talia et Francis placuisse apparet, ubi pri- É claro que tais coisas agradaram aos france-
mum ad studia Historiarum animum applicu- ses, tanto que se aproximaram do estudo da
ere. história.

V V
Et mox non defuere aliqui, (quos secutus est E, em pouco tempo, não faltaram os que (se-
autor ille, qui Gesta Regum Francorum guindo o autor dos Feitos dos Reis franceses)
scripsit) qui et Sunnonem Francorum Princi- introduziram também a Suno135, príncipe
pem Antenore natum adderent, ut fictio ve- francês, filho de Antenor, a fim de tornarem
rissimilior redderetur. o engodo ainda mais verossímil.
Sed ego Priamum ex Pharamundo in Phara- Mas eu suspeito que Príamo* seja uma cor-
mum contracto corruptum suspicor, cum ruptela de Fáramo a partir de Faramundo*,
idem Priamus in vita Sigeberti Regis dicatur visto que o mesmo Príamo*, na vida do rei
pater Marcomeris (quod etiam autor Gesto- Sigiberto, foi chamado pai de Marcomer*
rum habet) avus Pharamundi, nempe nomen (como também o sustenta o autor dos Fei-
avi, ut saepe fit, renovantis. tos), avô de Faramundo, isto é, o nome do
avô remoçado, como frequentemente se faz.
Caeterum Paulus etiam Warnefridi, vulgo Ademais, Paulo de Warnefred*, vulgo Paulo
Paulus Diaconus, fabulae vel potius fabulam Diácono*, protegendo a história, ou melhor,

134
Versos de Lucano: Pharsalia I, 1, 427-428.
135
Suno aparece no livro Reges Francorum Merovigici de 1737, p. 20.

52
53

amantibus favens, Ansegisum Arnulfi Me- os amantes da história136, remonta Ansegi-


tensis Episcopi filium Carolinae stirpis pro- so*, filho de Arnulfo, bispo de Metz, proge-
genitorem ad Anchisam Troianum refert, non nitor da estirpe Carolíngia, ao troiano Anqui-
tantum in Epitaphio Rothaidis filiae Pipini ses*, não somente para os bispos de Metz,
Regis: mas também no Epitáfio de Rotaide137 da
filha do rei Pepino*:
Ast abavus Anchise potens qui ducit ab il- O poderoso Anchises é meu bisavô,
lo aquele que,
Troiano Anchisa longo post tempore no- muito tempo depois, herda seu nome do
mem. famoso Anquises de Troia.

VI VI
Nec Troia sufficere videbatur, Alexander Não parece que Troia bastasse [a essa ambi-
Magnus cum Macedonibus accersendus erat ção], quando Alexandre Magno buscara cui-
ad augendam claritatem gentis. dadosamente aumentar a fama da nação.
Itaque Fredegarius; Troia egressos Francos Assim mesmo Fredegário* citara os francos
bifaria divisione partim in Macedoniam ve- egressos de Troia numa dupla divisão, em
nisse, alios cum Friga Rege vocatos Frigios parte tendo chegado à Macedônia; outros,
Asiam pervagantes in litore Danubii fluminis chamados frígios, a partir do rei Friga, va-
et maris Oceani consedisse; quae quam bene gando pela Ásia, moraram na orla do rio Da-
scilicet cohaereant, quis non videt? núbio e do mar Oceano138. Essa divisão, na-
turalmente, fazem dela uma excelente cone-
xão, quem é que não o percebe?
Tum partem gentis in Europam venientem Assim, uma parte da nação, tendo vindo para

136
É preciso ter muito claro que em latim a palavra fabula designou originariamente a história oral; sendo para
os puristas o equivalente ao vocábulo grego ἱστορία, que também significa uma «relação verbal de algo que se
investiga» vide PEREIRA, 1984, p. 282. Assim, traduzimos sempre a palavra fabula por história.
137
Rotaide, irmã de Carlos Magno. No livro Le origine dell’epopea francese de Pio Rajna de 1884 se lê: « Ce ne
dà ottimo indizio Paolo Diacono, con quelle parole dell'epitaffio di Rotaide sorella di Carlo Magno – Dá-nos um
ótimo indício Paulo Diácono, com aquelas palavras do epitáfio de Rotaide, irmã de Carlos Magno» disponível
em https://archive.org/stream/leoriginidellepo00rajnuoft/leoriginidellepo00rajnuoft_djvu.txt, consultado em
6/12/2015.
138
Os antigos apelidavam o Oceano Atlântico de mar Tenebroso ou mar Oceano, conheciam apenas as costas
situadas entre o norte das ilhas britânicas e as Canárias. Dos séculos VIII a XI, os Normandos frequentaram as
praias da Noruega, da Islândia, da Groelândia, de Spitsbergen e da Nova Escócia, no atual Canadá. Até o final da
Idade Média, só se faziam navegações costeiras, indo até ao cabo Bojador. No século XV, os portugueses inten-
sificaram a exploração da costa africana. Nos primeiros 20 anos do século XVI, toda a costa atlântica do conti-
nente americano (encontrado em 1492 por Colombo) fora visitada por navegadores portugueses, espanhóis ou
italianos. Preferimos deixar o nome como no latim.

53
54

(quasi scilicet Danubius extra Europam fluat) a Europa (como se o Danúbio corresse por
Francione Duce, (unde nomen Francorum) fora da Europa), sob a liderança de Francião
Rheni ripam occupasse. (donde vem o nome dos francos) ocuparam a
margem do Reno.
D. Hieronymum citat nempe confundens Cita são Jerônimo, isto é, confundindo Prós-
continuatorem Hieronimi Prosperum, qui pero*, o continuador de Jerônimo, que no-
Priamum nominat, cum D. Hieronymo Euse- meia Príamo, como são Jerônimo que deu
bii Chronicon continuante. continuidade às Crônicas de Eusébio.

VII VII
Sed ubi semel Macedonia placuit, iam et Mas, uma vez que a Macedônia pareceu bem
Magno Alexandro militasse Francos aequum a Alexandre Magno, parecia-lhe [igualmen-
ac dignum videbatur. Otfridus Monachus te] justo e honesto que os francos servissem
Weissenburgensis lib. I, cap. I in Evangelio- no exército. O monge Otfrido de Weissem-
rum Teutonicis versibus scriptorum prooe- burgo*, livro I, cap. 1, nos versos dos escri-
mio ad Ludovicum Germanicum Alexandro tos dos evangelhos aos teutões, no proêmio a
cognatos facit. Ludovico Germânico fá-los progênie de Ale-
xandre.
In einen buachon ih weiz war, Outrora li num livro
Sie in sibbu joh in ahtu, Em estirpe e em honra
Sin Alexanderes slahtu. Da mesma linhagem de Alexandre.139
Ex libro quodam didici, cognatione et exis- Aprendi dum certo livro que eram da estirpe
timatione de gerene Alexandri fuisse. Subdit de Alexandre. Supôs, enfim, que saíram da
deinde Macedonia egressos, et aliarum gen- Macedônia e que desprezaram as leis das
tium imperia dedignatos. demais nações.
At Aimoinus lib. I de Gestis Francorum Au- Mas Aimoino*, no livro I dos Feitos dos
toris Gestorum supra citati et Fredegarii di- Franceses, do autor dos Feitos supracitados,
versas opiniones recenset, sed addit quod tomou conhecimento das diversas opiniões
Fredegarius non dixerat, viribus Francorum de Fredegário*; mas acrescentou coisa que
auctos Macedonas sub Philippo et Alexandro Fredegário* não tinha dito, que os altivos
prospere bella gessisse. macedônios, apoiados pelas forças francas,
venturosamente guerrearam sob o comando

139
Esse trecho está escrito em Althochdeutsch. Agradecimentos a prof.ª Irene Maria Dietschi pela ajuda em sua
tradução. Eis o texto aduzido por Leibniz: «In einen buachon ih weiz war, / Sie in sibbu joh in ahtu, / Sin Ale-
xanderes slahtu».

54
55

de Filipe e Alexandre.
Hoc exemplo etiam Saxones, ubi scriptores Como fica claro desse exemplo de Witikin-
proprios habere coeperunt, Alexandrinae do140 Corbeiense que também os saxões,
militiae gloriam affectarunt, ut ex Witikindo quando começaram a ter seus próprios escri-
Corbeiensi patet. tores, imitaram mal a glória do exército ale-
xandrino.
Aimoinum secuti sunt Sigebertus Gembla- Sigeberto Gemblacense* e muitos depois
censis, et multi posteriores, quos referre nihil dele seguiram os passos de Aimoino*, dos
attinet. quais nada há para dizer.

VIII VIII
Gregorius Turonensis Episcopus, nulla facta Gregório, bispo de Tours*, sem fazer qual-
mentione Troianarum originum aut Macedo- quer menção das origens troianas ou mace-
niae, primam Francorum sedem Pannoniam dônicas, estabelece como primeira moradia
tradit, ibique urbem Sicambriam ab iis condi- dos francos a Panônia, e que ali fundaram a
tam, quam quidam pro Buda habent. cidade de Sicâmbria141, que alguns acham
que era Buda*.
Sed contraria omnia dicenda ex vetustioribus Mas consta, de tudo o que se disse contrari-
constat, a quibus aliae longe Francis sedes, amente às antiguidades, das quais umas dão
alii Pannoniae habitatores tribuuntur. aos franceses desde há muito tempo outras
moradas; já outros os disseram moradores da
Panônia.
Franci subinde Sicambri dicti sunt, quod in Logo depois, os franceses são chamados de
loca Sicambrorum successissent, quos ad sicambros*, pois ocuparam o lugar do si-
Sigam amnem ex adverso Coloniae Agrippi- cambros*, e não há dúvida que moraram
nae aut paulo superius habitasse dubium non junto ao rio Siga, defronte de Colônia Agri-
est. pina ou um pouco mais adiante.
Itaque nihil cum Sicambria commune habue- Assim, pois, nada tiveram de comum com
re, antequam ad Rhenum sunt progressi. Sicâmbria, antes disso foram para perto do
Reno.

140
Foi um duque saxão do século VIII.
141
Segundo João Jorge Ekhart, nos comentários a esta dissertação no tomo quarto da parte segunda das Obras
completas de Leibniz, editadas em 1768, traz algo sobre a Sicâmbria. Diz que pode ser a própria Tours ou relaci-
onar-se com Schambry. Mas aduz que onde se trata da Sicambrorum legio, refere-se a algo fictício. Para maiores
detalhes v. LEIBNIZ, 1768, p. 149.

55
56

IX IX
Lacartius, qui de coloniis Gallicae gentis Lacárcio142 publicou um livro sobre as colô-
librum edidit, et alii quidam Viri docti ex nias da nação gaulesa, e outros homens dou-
Gallia, cum origines Germanicas Francorum tos da Gália, não puderam negar as origens
a Cluverio, Pontano, Valesio aliisque de- germânicas dos franceses demonstradas por
monstratas negare non possent; studio tamen Cluvério*, Pontano*, Valésio* e outros. Os
praepostero honoris Gallici accensi, eos ex gauleses inflamados por um desejo às aves-
Gallicis in Germania coloniis; et ita ex regi- sas de consideração deduziram que os da
one quidem, non tamen gente Germanica Germânia [vieram] das colônias gaulesas;
deduxere. assim, na verdade, da região, não, contudo,
da nação germânica.
Cum enim in Iulii Caesaris Commentariis Como tivessem lido nos Comentários de
legissent, Gallos olim coloniam in Hercyni- Júlio César que os gauleses levaram a colô-
am sylvam duxisse; statim, etsi sine autore nia para a Floresta Negra143, imediatamente
aut argumento, decreverunt, ex his Gallis decidiram, mesmo sem autor nem argumen-
Francos ortos, in maiorum patriam redisse. to, que os francos, originados desses gaule-
ses, retornaram à pátria dos antepassados.
Sed haec optantis sunt, non ratiocinantis, et Mas essas coisas são próprias de quem quer,
cum iis, quae proferemus, non consistunt, não de quem pensa, e como por essas coisas
nec dubium est, Fracorum linguam fuisse que transmitimos, indubitavelmente, não
Teutonicam. sustentam que tenha sido a língua teutônica a
língua dos franceses.
Gallis colonis Boiorum regio a veteribus A região dos Boios foi atribuída às vetustas
ascripta est, et credi potest, cum in Asiam colônias gaulesas, e é de crer-se, como se
tenderent, (quanquam Germanis ut apparet dirigissem para a Ásia (apesar de, convém
societatem ascitis) nonnullos suorum in regi- saber, mostrarem-se os germânicos unidos
onibus non admodum a Danubio remotis em confederação), que deixaram alguns dos
reliquisse. seus nas regiões não muito distantes do Da-

142
Na edição de 1768, Ekhart faz uma correção no nome, apresentando-o como Lacarrius. Mas sobre nem um
nem outro encontramos quem fosse.
143
Commentarii de bello Gallico, livro VI, cap. XXIV: «Galli […] propter hominum multitudinem agrique ino-
piam trans Rhenum colonias mitterent. Itaque ea, quae fertilissima Germaniae sunt, loca circum Hercyniam
silvam […] occupaverunt atque ibi consederunt - os gauleses […] por causa da quantidade de homens e da po-
breza dos campos enviaram colônias para além do Reno. Assim ocuparam aqueles lugares, que são os mais fér-
teis da Germânia, ao redor da floresta Negra (ou selva Hercínia) e ali se estabeleceram. (Tradução do autor deste
trabalho.)

56
57

núbio.
Sed eos longissime ab itinere deflexisse, quo Embora seja estranho, por qualquer motivo,
nihil invitabat, ad mare scilicet Balthicum, et que se tenham apartado para tão longe do
intermedias Svevorum gentes consedisse, caminho, para o qual nada os atraía, para
ibique se tueri potuisse; ab omni rationis [irem para] perto do Mar Báltico; e que te-
specie alienum est. nham estabelecido morada no meio dos sue-
vos, e que ali se tenham podido proteger.

2.ª PARTE

X X
Antiquas Francorum sedes, antequam Roma- O geógrafo de Ravenas*, um escritor nasci-
nis noscerent, ad mare Balthicum quaeren- do, como se sabe, dentre os godos (como
das, primus me docuit Geographus Raven- Jornandes*, que também trabalhou em Rave-
nas, scriptor ortus, ut apparet, ex Gothis (ut na) ou doutra estirpe germânica, ensinou-me
Iornandes, qui etiam Ravennae egit) vel ex que as antigas moradias dos francos, antes de
alia aliqua Germanica gente; horum enim serem conhecidas dos romanos, devem ser
scriptores, sive ut loquitur, Philosophos, aliis procuradas nos arrabaldes do mar Báltico;
ignotos citat. Ravenas*, com efeito, cita ainda outros escri-
tores desconhecidos, ou, como ele mesmo
diz, filósofos.
Hunc primus edidit Porcheronus ex Benedic- O primeiro a editá-lo foi Porquerono144 dos
tinis Sangermanensibus vir doctissimus: Pos- beneditinos de Saint-Germain, homem dou-
tea ex Leidensi codice, quem Grotius olim tíssimo; depois do Códex de Leiden, que
indicaverat, recensitum incudi reddidit Iaco- Grócio* outrora indicara; Tiago [Jacob]
bus Gronovius, qui paternam claritatem sua Gronóvio* aperfeiçoou a narrativa, igualan-
aequavit. do a fama do pai.
Anonymus ille haec habet lib I. cap. XI. Um famoso [escrito] anônimo traz no livro I,
quarta ut hora noctis Normannorum est pa- cap. XI: como na quarta hora da noite, a
tria, quae est Dania ab antiquis, cuius ad pátria dos normandos, que é a Dinamarca,
frontem Albes vel patria Albis, Maurungania segundo os antigos, dá que, de modo certís-

144
O livro Commentarii de Rebvs Franciae Orientalis et Episcopatvs Vvircebvrgensis (Comentários das coisas
da França Oriental e do Episcopado de Virceburgo) de João Jorge Ekhart de 1729, traz os nomes dum An-
nonymus geographus Ravennatis (Geógrafo anônimo de Ravena) e o de Placidus Porcheronus (Plácido Porque-
rono), prefeito da biblioteca de S. Germano no Prado, localizando-o pelo ano de 1688. (vide p. 902.)

57
58

certissime antiquis dicebatur, in qua patria simo, Maurungânia145, diante do Albes ou a


Albis per multos annos Francorum linea pátria do Elba, era chamado pelos antigos;
remorata est. nesta pátria do Elba assentaram-se por mui-
tos anos os parentes dos francos.

XI XI
Maurunganiam vel potius Mauringaviam Consta dos escritos de Paulo de Wanfrido,
sive Mauringiam fuisse sitam ad mare Bal- popularmente conhecido como o Diácono,
thicum, constat ex Paulo Warnefridi vulgo quando estava descrevendo a viagem dos
Diacono, iter Longobardorum (etiam ficti- longobardos (apesar de fantasiosa) que a
tium) describente; praeterquam quod ipso Mauritânia, ou melhor, Maurigávia ou Mau-
vocabulo indicatur. ríngia, estava localizada perto do mar Bálti-
co; com a exceção do que se indica com essa
mesma palavra.
Est enim Mauringia regio maritima, ut Mori- É, de fato, a Mauríngia uma região marítima,
ni, ut Aremorica; et hodieque eadem fere como Morinos, como Aremórica; e hoje é
regio Pomerania appellatur, sunt enim Po- quase a mesma região da Pomerânia, em
merani Slavico Sermone siti ad mare, ut Po- língua eslava pomeranos significa: os que
labi siti ad Albim, Labe enim Albis est Sla- estão situados nos arrabaldes do mar, como
vis. pólabos significa: os que moram nas cercani-
as do Elba, porquanto Labe é o Elba para os
eslavos.

XII XII
Itaque ex Geographo Ravennate apparet, Assim fica claro, a partir, das informações do
Francorum lineam seu maiores regionem geógrafo de Ravenas*, que os parentes dos
incoluisse intra mare Balthicum et Albim. francos ou os antepassados deles povoaram a
região entre o mar Báltico e o Elba.
Quae regio videtur fere contineri intra Eido- Essa região parece estar quase toda contida
ram et Panim amnes; et forte ultra Oderam entre os rios Êidora e o Pane, e talvez se es-
seu Viadrum usque protendi. tenda para além do Odera ou do Viadro.
Et secundum hodierna nomina continebit E depois, conservará os modernos nomes de

145
Maurungânia, segundo Ekhart, já citado, é a pátria do Elba.

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59

Holsatiam, Ducatum Lauenburgicum, Duca- Holsácia, o ducado lavemburguês, o ducado


tum Meclenburgicum et Pomeraniae partem: meclemburguês e parte da Pomerânia; e den-
et ex gentibus eas regiones olim incolentibus, tre as nações que outrora habitavam aquelas
Reudignis (an cum Cluverio Deuringis?) regiões, os reudignos* (ou com Cluvério
Avionibus (an qui postea Caviones vel Chai- Deuringos?), os aviões* (ou que depois cavi-
bones?) Anglis, Werinis (seu Varnis) Eudo- ões ou caibões), ingleses, werinos (ou var-
sibus, et quos alios illic Tacitus memorat; nos), os eudosos, e ainda outros lembra aqui
globum acerrimae iuventutis et velut ver sa- Tácito146: o turbilhão da vigorosíssima tropa,
crum, ad novas sedes quaerendas fortu- e como uma oferenda de primavera147, lem-
namque; tentandam exivisse. bra que saíram à procura de uma nova terra e
de uma nova sorte a ser experimentada.
Nec dubitem addere Herulos et Rugios et Nem se duvide acrescentar [a eles] os héru-
eos, qui antiquioribus Cimbri, et Saxones et los*, os rúgios* e os que, para os mais anti-
trans Eidoram Danos ac Iutas, etsi Tacito non gos [eram] cimbros*, os saxões, os danos* e
memoratos; Nigelli secutus testimonium, os jutas, seguindo o testemunho de Nigelo*,
quod mox afferetur. de que, mais adiante, se tratará.

XIII XIII
Id autem factum verisimile est, cum bello Isto é algo verossímil, quando uma parte das
Marcomannico sub Marco Antonino comota nações mais próximas deu possibilidade de
barbarie pars gentium citeriorum in Romanas avançar para as terras mais distantes, ou
regiones irrumpens ulterioribus succedendi quando deu exemplo148: por esse tempo os
locum fecisset, aut dedisset exemplum: quo godos e os burgundiões migraram na direção
tempore Gothi et Burgundiones versus orien- do leste, e os francos na direção do sul, aque-
tem, Franci versus meridiem migravere; illi les voltaram-se algo para o sul e estes um
nonnihil in meridiem, hi paulum in occiden- pouco para o oeste; aqueles das regiões tran-
tem flexi; illi ex regionibus trans-Oderanis, soderanas, estes desde as cisoderanas, essa
hi ex cis-Oderanis. parte invadiu as regiões romanas na guerra

146
Na verdade o texto é de Marco Juniano Justino nos Historiarum Philippicarum T. Pompeii Trogi libri XLIV,
no livro XXIV, capítulo IV,I: Namque Galli abundante multitudine, cum eos non caperent terrae, quae genue-
rant, CCC milia hominum ad sedes novas quaerendas velut ver sacrum miserunt. Porquanto os gauleses, em
abundante multidão, visto que as terras não os contivesse e lhes desse cem mil homens para buscar novas para-
gens do mesmo modo que abandonaram a primavera sacra.
147
No texto latino se usa ver sacrum, isto é, a primavera sacra: é uma cerimônia propiciatória celebrada em
tempos calamitosos que consistia no sacrifício de todos os animais nascidos na primavera precedente.
148
Os godos e os burgudiões, como se lerá a seguir, deram o exemplo empreendendo a migração para o leste.

59
60

Marcomânica149 sob Marco Aurélio*, com


feroz barbárie.

XIV XIV
Geographi Ravennatis testimonium adiuvat Ermoldo Nigelo*, um autor franco, endossa
Ermoldus Nigellus Francus autor. Eius car- o testemunho do geógrafo de Ravenas*. O
men habetur nondum editum ad Ludovicum poema dele, ainda não publicado, dedicado
Pium Augustum. Ubi de Haraldo Dano ao augusto Luís, o Piedoso*, em que trata de
agens, qui in Aula Caesaris fidem Christi Haroldo, o dinamarquês*, que, no palácio de
receperat, diserte ait, Francos fuisse Danis César, acolhera a fé cristã, fala claramente
cognatos, imo ex iis ortos, nempe por parte, que os francos eram aparentados com os di-
ad de caetero (quemadmodum iudicare namarqueses, originados destes, certamente
aequum est,) ex regione Danis vicina, cuius por um lado e, ademais, (como é certo julgar)
incolae eiudem cum Danis essent originis; ut da região próxima à Dinamarca, cujos ínco-
autor hic Ravennati concilietur. Verba ita las são da mesma raça dos dinamarqueses;
habent libro quarto: quiçá o autor se reconcilie com o Ravênate*.
Hic populus porro veteri cognomine Deni Este povo chamado por antiga alcunha
Ante vocabantur, et vocitantur adhuc. E chama-se ainda de Dinamarqueses.
Nort quoque Francisco dicuntur nomine Os Manos são chamados também por
manni, Francisco pelo nome de “Nort”,
Veloces, agiles armigerique nimis. Velozes, ágeis, e belicosos demasiada-
mente.
Ipse quidem populus late pernotus habetur Este mesmo povo largamente conhecido,
Lintre dapes quaerit, incolit atque mare. Vivem no mar, vão de barco levar a pro-
dução [da terra]
Pulcher adest facie, cultuque statuque deco- Esta gente tem uma bela face, Formosos
rus, pelo trato e pela estatura,
Unde genus Francis adfore fama refert E que ela se refere à origem dos francos.
Victus amore Dei, generisque misertus aviti César, vencido pelo amor de Deus, teve
Temptat et hos Caesar lucrificare Deo. compaixão desta raça desgarrada,
E tenta vencer a estes, ganhando-os para
Deus.150

149
Marcomânico ou marcomano, adjetivo que diz respeito aos marcomanos, antigo povo germano, entre o Elba e
o Óder.

60
61

XV XV
Daenos vel Denos appellat, ut hodieque Chama daenos ou denos, não danos, como
Germani facimus, non Danos; nempe a flu- fazemos hoje os alemães, seguramente por
vio Daena vel Dina, quod vetus fuit Eidorae causa do rio Daena ou Dina, cujo antigo
nomen, in Deninga (ad fluminis exitum) vul- nome era Êidora, em Deninga (próximo à
go Toeninga, relicto appellationis antiquae foz do rio) vulgarmente Teringa, deixados de
vestigio, nam Eidoram dictam constat ab lado os vestígios do antigo nome, pois consta
Heggedor, (ut Ditmarus a me restitutus vo- que se chame Êidora de Hegedor, (como
cat) vallo scilicet, in quo ad aditum porta chama Ditmaro - por mim retomado), isto é,
relicta erat, quo Dani eius ripam antiquitus um vale, no qual, próximo à entrada, fora
munierant; quae pag. 29. Tomi I. Scriptorum deixado um portão, neste vale os daneses151,
Brunsuicensia illustrantium iam a me notata, desde tempos antigos, fortificaram seus limi-
primus erui ex Ravennate Geographo, Dano- tes; esses brunsviquenses152, na página 29 do
rumque ut Francorum originibus lucem, ni Tomo I dos Escritores Ilustres, conforme
fallor, aliquam attuli, Danosque loco supra aduzidos por mim, [que] fui o primeiro a
dicto iam antiquitus, Romanis fuisse laudatos extrair do geógrafo de Ravenas* e lancei
notavi. nova luz, se não me engano, às origens tanto
dos dinamarqueses quanto dos franceses,
[como] acenei já mais acima aos dinamar-
queses, que foram elogiados pelos romanos.
Laudabatur Parsus Marco, dum non noverat Parso foi elogiado por Marco, enquanto não
Gothos, sed ô ubi est Danos? quod Romano- conhecia os godos, mas ó onde está o dinar-
rum dicterium Geographus Ravennas nobis maquês? Essa anedota dos romanos, o geó-
servavit, quo Gothi Parthis seu Persis, Dani grafo de Ravenas* conservou-a para nós,
Gothis praeferri vedentur, et credibile est pela qual os godos parecem ser antepostos
MARCUM intelligi Antoninum. Sed haec aos partos ou persas, e os dinamarqueses aos
obiter, quia aliis haud observata, et ab hoc godos, e é de acreditar-se que MARCO deva
loco non aliena pertinentque etiam ad Fran- ser entendido como Antônio. Mas, ademais,
corum et Saxonum cognatarum Danis gen- posto que não foi observado por outros, e

150
Ermold le Noir ou Ermoldus Nigellus, Liber IV, Facta Ludovici Pii.
151
Dinamarqueses.
152
Brunsvique (em alemão: Braunschweig/Brunswick, baixo alemão Brunswiek), é uma cidade do centro-norte
da Alemanha localizada no estado da Baixa Saxônia, às margens do rio Oker.

61
62

tium decus. daqui nada toca ao decoro dos povos francos


e saxões aparentados com os dinamarqueses.
Saxones agilitate terribiles Orosius dixit, sed Os saxões são terríveis por causa da agilida-
Danos supra omnes nationes velocissimos de, diria Orósio*, mas os dinamarqueses são
habitos, ait scriptor ille Ravennas. Sub Saxo- tidos [como] os mais velozes dentre todas as
nibus a caeteris scriptoribus nobis notis Ior- nações, assim dizia o famoso escritor de Ra-
nande prioribus [Danos] comprehensos alias venas*. Já notei, aliás, que os dinamarqueses
notavi. estão compreendidos sob os saxões, segundo
Jordane* escritor mais antigo dentre os ou-
tros que nós conhecemos.
Doniam Urbem (id est Toningiam) iam A Cidade Dônia (isto é, Toníngia*) já Etel-
Ethelwerdus nominat, autor ex Anglorum verdo153, autor anglo-saxão de estirpe real,
Saxonum Regia stirpe in libro ad Mathildem nomeia, no livro sobre Matilde, filha de Oto
Filiam Ottonis M. scripto; cum ait: Saxonum M.154; quando diz: O povo saxão fixou-se em
gentem fuisse in tota ora maritima a Rheno todo o litoral desde o Reno até à Cidade
fluvio usque ad Doniam urbem, id este, us- Dônia, quer dizer, até Êidora. E Cambdeno
que ad Eidoram. Et putat Cambdenus in Bri- pensa, [no livro] Bretânia, [no capítulo] so-
tannia cap. de Danis, Ethelwerdum Danos ab bre os dinamarqueses, que Etelverdo acredi-
hac urbe dictos credidisse: sed a flumine tava que os chamados dinamarqueses saíram
dicti sunt, cuius accolae erant, et unde etiam desta cidade: mas diz-se que tiraram o nome
urbs sub nomen habuit: et translata est appel- do rio, em cujas margens moravam, e donde
latio, ut fit, in populos ulteriores, ut Hermun- também tira o nome a mesma cidade; e o
duri et postea Allemanni, toti Germaniae nome traduzido, como se fez, para os povos
apud Gallos veteres et recentiores nomen que vieram depois, como os hermúnduros* e
fecere. depois os alemães, para nomear à Germânia
inteira com os galeses antigos e recentes.

XVI XVI
Tertium argumentum accedit ex ipsis veteri- O terceiro argumento aproxima-se das opini-
bus contrariae sententiae patronis praesertim ões contrárias, conforme os mesmos antigos

153
Parece tratar-se de Etelberto ou Adalberto (morto em 8 de novembro de 780) foi um acadêmico, professor e
clérigo da antiga Inglaterra, arcebispo de Iorque. Mas não há muita certeza quanto a isso.
154
Essa letra M. pode ser a abreviatura do sobrenome Magno, o grande. Otão, o grande, também Oto I (912-973
e.c.), que sucedeu o pai, Henrique I, Passarinheiro, como rei dos alemães em 936 e.c. Do segundo casamento
com Adelaide de Suábia teve quatro filhos, dentre os quais Matilde da Germânia (955-999 e.c.).

62
63

Gestis Regum Francorum et sequacibus, dum patronos, principalmente os Feitos dos reis
Francos a Maeotide palude accersunt. francos quando convocaram os francos desde
Sciendum enim est, scriptores locis tempori- a Lagoa Meótida*. Sabe-se, com efeito, que
busque remotos Maeotidem paludem cum os escritores longínquos, em tempos e luga-
mari Balthico non raro confudisse, quod et- res, não raro, confundiam a Lagoa Meótida*
iam notavit Adamus Bremensis, lib. 4. For- com o Mar Báltico, que também Adão de
tasse (inquit) motatis nominibus arbitror Brêmen* percebera, no livro IV155, e diz:
illud fretum (mare Balthicum) ab antiquis Talvez, tendo mudado os nomes, cuido que
Romanis appellari paludes Scythicas vel aquele estreito (o Mar Báltico) foi chamado
Maeoticas. de Lagoa Cita ou Meótida*.
Exemplum manifestissimum habemus in Temos um exemplo claríssimo em Procó-
Procopio, qui lib. I. belli Vandalici Vandalos pio156, que, no livro I da Guerra dos Vânda-
primum circa Maeotidem consedisse narrat, los, conta que o povo vândalo primeiramente
quos a mari Balthico venisse ex Tacito aliis- assentou-se às margens [da lagoa] Meótida*,
que constat. que tinha vindo desde o Mar Báltico, segun-
do consta em Tácito e outros.
Ne iam addam (quod amicus non inepte sus- E tampouco acrescentarei (pois de um amigo
picatur) regionem circa Panim fluvium per não se suspeita inoportunamente) que a regi-
errorem Pannoniam appellari potuisse, et ão próxima ao Rio Panim foi erroneamente
Frigam Regem apud Fredegarium, (si quid in chamada Panônia157 e Friga pôde ser chama-
hac re veri) Fricconem fortasse dictum, cuius do de rei, consoante Fredegário* (se há algo
nominis Principes apud Septentrionales inter de verdadeiro nisso), talvez chamado Fri-
Deos relati sunt, quemadmodum apparet ex cão158, de cujo nome uns príncipes nortistas
Pauli Diaconi Longobardicis. foram contados entre os deuses, como fica
claro dentre os longobardos de Paulo, o diá-
cono.
Fredegarius etiam, etsi perturbatissima narra- Também Fredegário*, se bem que por uma

155
Provavelmente do livro Gesta Hammaburgensis Ecclesiae Pontificum (Feitos dos bispos da Diocese de Ham-
burgo), escrito por volta de 1075.
156
Procópio de Cesareia (em grego: Προκόπιος ὁ Καισαρεύς; em latim: Procopius) foi um destacado historiador
bizantino do século VI.
157
Panônia é o nome de uma antiga província do Império Romano delimitada no norte e no leste pelo Danúbio, a
oeste faz fronteira com a Nórica e o norte da Itália, e para o sul, com a Dalmácia e o norte da Mésia. Em seu
território estão hoje a Hungria, a porção oriental da Áustria, o norte da Croácia, o noroeste da Sérvia, a Eslovê-
nia, a porção ocidental da Eslováquia e o norte da Bósnia e Herzegovina.
158
Fricão ou Frico não há uma etimologia muito clara quanto a esse nome, mas parece que Frico refere-se à
mitologia germânica, sendo um deus equivalente a Príapo, segundo Adão de Brêmen (cf. Hist. Eccl. c 233);
outros acham que se refere a Freyer, conforme o Edda Sæmudar hins Fróda, pars III, Copenhagen, 1828.

63
64

tione, parti antiquorum Francorum ad Ocea- narração confusíssima, assinala a sede dos
num sedes assignat. antigos francos numa parte junto ao Ocea-
no159.

XVII XVII
Prima ergo Francorum sedes inter Albim et A primeira sede, pois, dos francos foi apre-
mare Balthicum ex Geographo Ravennate et sentada pelo geógrafo de Ravenas* e tam-
Ermoldo Nigello ostensa est; alteram inter bém por Ermoldo Nigelo* entre o Elba e o
albim et Visurgim amnes quaerendam ex Mar Báltico. Fazemos notar que a segunda
Legis Salicae praefatione hactenus parum sede deve ser encontrada entre o Elba e o Rio
intellecta ostedemus. Vissuge, segundo o prefácio da Lei sálica;
fazemos ver que até hoje foi muito pouco
entendida [a afirmação sobre a segunda se-
Tertiam inter Visurgim et Rhenum collocan- de]. A terceira, conforme consta dos escrito-
dam ex Romanis scriptoribus constat, unde res romanos, deve ser localizada entre o Vis-
tandem transmisso Rheno in Romanas regio- suge e o Reno, donde, entretanto, cruzando o
nes progressi florentissimum regnum victis Reno, avança-se para as regiões romanas,
Allemannis, Burgundionibus et Wisigothis in dos vencidos alemães160, burgundiões e visi-
Gallia parteque Germaniae condidere. godos, na parte galesa, para fundar o reino
florentíssimo da Germânia.

XVIII XVIII
Legem Salicam, quae cum aliis Germanica- Consta que a Lei sálica, que, com outras leis
rum gentium antiquis legibus dudum edita antigas das nações germânicas, há muito
extat; a Francis fuisse latam constat, cum tempo promulgada, ainda subsiste, foi exara-
nondum Christum recepissent. da pelos francos, quando ainda não tinham
recebido o Cristo.
Manifestum etiam est, tunc nondum Reges É óbvio também que não tinham ainda reis,
habuisse, sed ut postea Saxones in hac nostra mas só depois dos saxões nesta nossa Ger-
Germania, mânia.
Quot pagos, Quantas forem as aldeias,

159
Normalmente refere-se ao Oceano Atlântico.
160
Em português há um problema com o termo alemão, pois que este serve para designar tanto a o povo da Ger-
mania quanto a tribo dos allamanos.

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65

tot pene Duces, tantos serão os líderes,


ut ait antiquissimus poeta Saxo. Nam in ipsa como diz um antiquíssimo poeta saxão. Pois
praefatione Legis refertur ex diversis pagis como se diz no próprio prefácio da Lei que
Legatos convenisse ad condendam Legem; de várias aldeias confluíram legados para
Regis aut Principis ibi mentio nulla est. instituir a Lei, não há ali qualquer menção a
rei ou príncipe.
Et Otfridus loco supra citato dicere videtur, E Otfrido, acima referido, parece dizer que
antiquos Francos Regem non tulisse. Nam os antigos francos não tinham um rei.
quod nunc in Lege Salica de Rege, de legi- Posto que hoje, na Lei sálica, foi inserido
bus Dominicis, de Ambascia, Dominica et algo sobre rei, leis cristãs, sobre Ambáscia,
similibus legitur, manifeste a posterioribus domingo e leis semelhantes, claramente pos-
insertum est; cum legem hanc iam antea teriores. Quando tal lei já anteriormente es-
scriptam, sub Clodovaeo, Theoderico, Chil- crita, contada e interpolada como consta do
deberto, Chlotario, Dagoberto recensitam et mesmo prefácio, sob Clodoveu*, Teodori-
interpolatam constet ex ipsa illa praefatione. co*, Childeberto*, Clotário*, Dagoberto*.

XIX XIX
Multi credunt, Francos tunc iam trans Rhe- Muitos acreditam que os francos habitavam
num in Belgica egisse, nempe in regione além do Reno, na Bélgica, certamente na
Tungrorum et Aduaticorum, circa Mosam, região dos tungos e dos aduatucos, nas vizi-
Scaldim et vicinos amnes; ubi nunc Leodien- nhaças do Mos, do Scaldis e dos rios próxi-
sis ditio et Ducatus Brabantinus, et Flandriae mos; onde agora é o domínio leodiense, o
Comitatus, quae sententia Iohannis Iacobi ducado brabantino e o condado da Flândria,
Chisletii fuit, quam et Godefridus Wendeli- este era o parecer de João Jacó Cislécio*,
nus peculiari libro de nativo Legis Salicae que também Godofrido Wendelino* esfor-
loco firmare conatus est. çou-se para dar um lugar sólido no livro par-
ticular sobre o nascimento da Lei sálica.

XX XX
Sed Francos serius in Gallia Belgica sedes Mas consta que os francos fixaram tardia-
fixisse constat, et infra pluribus dicetur. mente sede na Gália Bélgica, e mais abaixo
ainda mais se dirá.
Et caeteroqui debilissima sunt Wendelini E, além disso, são muito pífios os argumen-

65
66

argumenta, nonnulla etiam ridicula. tos de Wendelino*, alguns são até ridículos.
Verba Germanica in Editione Heroldina in- As palavras germânicas, esparsas na edição
terspersa, et in Malbergis usitata, quibus ple- heroldina, e usadas na [edição] de Malberge,
rumque summa rei capita indicantur, ab ami- com as quais, geralmente, se indicam os ca-
co doctissimo Iohanne Georgio Eccardo (cui pítulos mais importantes da obra, e foram tão
multum debet lingua Germanica) multis in bem explicadas em muitas passagens pelo
locis egregie explicantur, qui novam tanti amigo João Jorge Ecardo* (a quem muito
Teutonicae vetustatis monumenti editionem deverá a língua alemã), ele também preparou
parat, multa praeclara daturam. uma nova edição de tão grande recordação
da antiguidade teutônica, e que trará à luz
muitas coisas importantes.
Wendelinus autem, cum nihil in illis intelli- Wendelino, entretanto, sem nada entender
geret, nomina inde villarum Brabantinarum nelas, dali organizou os nomes das vilas bar-
fecit, in quibus habiti fuissent malli vel placi- bantinas, nas quais tinham morado os ma-
ta condendarum Salicarum legum causa; ut los*, causa provável das instituições das Leis
alia taceam non minus vana. sálicas; omiti outras coisas por serem inúteis.

XXI XXI
Caeterum iuvit deceptionem prava lectio Além do mais, uma leitura mal feita de Gre-
Gregorii Turonensis, in quo Tongriam lege- gório de Tours* levou ao erro, no qual se leu
runt, unde creditum est Francos ex Pannonia Tôngria, a partir disso, acreditou-se que os
digressos mature transmisso Rheno in Ton- francos egressos da Panônia, oportunamente
gris egisse; cum Ruinartus novissimus dili- atravessaram o Reno, em Tongres*; estabe-
gentissimusque editor Gregorii, optime notet, leceram-se, como Ruinart*, o mais recente e
in omnibus fere Codicibus, Manuscriptis legi mais empenhado editor de Gregório, percebe
Toringiam, quemadmodum et legerunt om- muito bem, em quase todos os códices e ma-
nes veteres Gregorii ex scriptores. nuscritos, é Turíngia que se lê, como também
o leram todos os vetustos copistas de Gregó-
rio.

XXII XXII
Gregorius ipse ita scripsit: Tradunt multi O próprio Gregório assim escreveu: Muitos
eosdem de Pannonia fuisse digressos, et dizem que eles saíram da Panônia, e que, na

66
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primum quidem littora Rheni amnis incluis- verdade, habitaram, primeiramente, às mar-
se, de hinc transacto Rheno Thuringiam gens do rio Reno, e dali, tendo atravessado o
transmeasse, ibique iuxta pagos vel civitates Reno, passaram além na direção de Turín-
Reges crinitos super se creavisse. gia, e que ali próximo a povoados e cidades
criaram sobre si reis com penachos. Mas
Sed Thuringia Pannoniae propior est quam Turíngia é mais próxima da Panônia do que o
Rhenus; nec a ripa Rheni in Thuringiam ten- Reno; e a partir da margem do Reno que vai
denti transmittendus est hic fluvius. para a Turíngia não é preciso atravessar este
mesmo rio.
Ita Valesius pro Rheno Moeno accipit vel E, por isso, Valésio* interpreta Meno, em
legit. vez de Reno.
Ita quidem Gregorio, Pannonicas Francorum Assim também para Gregório, que acreditava
origines credenti, ratio dictorum constabit; nas origens panônicas dos francos, ainda o
Sed res ipsa se longe aliter habet, Francique registro das palavras permanecerá. Mas a
non a Danubio: sed ab Albi in Thuringiam própria realidade está de mui diferente for-
(ut nunc dicitur regio) devenere. ma, e os francos não vieram do Danúbio,
mas do Elba dirigiram-se para a Turíngia
(como agora se chama a região).

XXIII XXIII
Alii quidam Viri Docti Legem Salicam ad Outros homens doutos acreditavam que a Lei
Isalam vel potius Isselam amnem conditam sálica fora estabelecida nos arredores do rio
credidere. Ísala, ou melhor, Íssela.
Sed Isselam unquam Salam dictum non ap- Mas não apareceu jamais que Íssela fosse
paret, nec alio ullo indicio haec sententia dito Sala, esta afirmação não encontra sus-
iuvatur; etsi serius Francos Salios in Batavo- tentáculo em nenhum indício; apesar de
rum insula sedem posuisse constet. constar que mais tarde os francos sálios esta-
vam estabelecidos na ilha batava.
At illi non ab Issela, sed a Sala amne Fran- Entretanto, eles não vieram do rio Íssela, mas
conico, unde venerant, nomen habuere, ut do rio Sala francônico, donde recebem o no-
iam patebit. me, como já está bem claro.

67
68

XXIV XXIV
Secunda ergo sedes Francorum et origo Le- A segunda sede dos francos e a origem da
gis Salicae optime habetur ex ipsius Legis Lei sálica estão otimamente demonstradas no
Salicae praefatione. prefácio daquela mesma lei.
Memorantur ibi tres Francorum pagi Salage- São, ali, lembradas três aldeias francas: Sa-
ve, Bodogeve et Windogeve, secundum editi- lageve, Bodogeve e Vindogeve, conforme a
onem Heroldi (vel ut quidam veteres lege- edição de Heroldo (ou como alguns antigos
runt, quod eodem redit, Salaheim, Bodoheim interpretam que traduziu pelo mesmo [no-
et Windoheim) ubi in tribus mallis uno post me]: Salaheim, Bodoheim e Windoheim),
alium convenere ex quatuor primariis pagis onde em três malos* a um depois do outro
(Wisogeve, Bodogeve, Windogeve et Salage- reuniram-se a partir das quatro aldeias primá-
ve,) Legati seu Deputati: Wisogast, Bodo- rias (Visogeve, Bodogeve, Vindogeve e Sa-
gast, Windogast et Salagast; quae non nomi- lageve) os legados ou deputados: Wisogast,
na virorum propria sunt, (ut accepit Valesius, Bodogast, Windogast e Salagast; que não são
cui ideo suspecta fuere) sed appellativa a nomes próprios de pessoas (como pensou
regionibus, unde missi venere. Valésio*, que, por isso, suspeitou delas), mas
sim denominações de regiões, donde vieram
Gast enim significat hospitem seu advenam, como embaixadores. Gast, com efeito, signi-
et fortasse vi ipsius Etymologiae relativum fica hóspede ou estrangeiro e, quiçá, por for-
est ad Goam, Gau vel Geve, γαίαν, regionem ça de etimologia relativo a Goam, Gau ou
cuius est incola. Geee, γαίαν, região da qual é morador.
Itaque Salagast est vir ex goa seu pago Sali- Assim também Salagast é um homem que
co veniens, idemque est in caeteris. vem de goa ou da aldeia sálica e igualmente
para as demais.
Nomina a scriptoribus Adone, Sigeberto, Os nomes enunciados viciosamente pelos
Ivone aliisque corrupte enuntiata ex ipso escritores Adônis, Sigeberto, Ivo e outros são
Legum Germanicarum vetustissimo Codice corrigidos a partir do antiquíssimo Códex de
Fuldensi, quem Heroldus editor secutus est, leis germânicas de Fulda, o qual Heroldo
merito emendantur, eaque ratione optime segue, e pela mesma razão são muito bem
intelliguntur. entendidos.

XXV XXV
Porro situm pagi Salageve, qui videtur habi- Ademais, o lugar da aldeia Salageve deu o

68
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tus potissimus, et toti Legi, etsi pro parte nome também à Lei inteira, que parece [ser]
tantum in eo conditae, nomen dedit; non ex a expressão melhor, apesar de ter sido só em
coniectura, sed antiquissimis monumentis parte ali estabelecida; não aprendi por con-
Carolo Magno anterioribus aequalibusque jecturas, mas de monumentos antiquíssimos,
didici. anteriores e contemporâneos a Carlos Mag-
no.
Extant scilicet Traditiones Fuldensi Coeno- Restam, naturalmente, os relatórios feitos no
bio factae, quas partim Iohannes Pistorius mosteiro de Fulda, que, em parte João Pistó-
edidit, partim ipse Fuldā obtinuit; ubi in rio* publicou e, em parte, eu mesmo conse-
scripturis circa Pipini primi Regis tempora et gui em Fulda, onde em textos a respeito dos
paulo post datis saepissime pagus Salageve tempos de Pepino*, o primeiro rei, e depois
occurrit, iacens ad Salam fluvium, non Thu- de uns poucos dados frequentemente se en-
ringicum, ut credidere plerique, sed Franco- contra uma aldeia Salageve, firmada junto ao
nicum, qui in dextrum Moeni latus prope rio Sala, não turíngico, como muitos criam,
Gemindam hinc dictam, influit; ut ex locis in mas francônico, que flui mais ou menos pelo
pago sitis, quorum ibi mentio fit, nunc quo- lado direito do Meno donde se diz Geminda.
que extantibus, manifestum est. Como é notório dos lugares situados na al-
deia, cuja menção se faz ali, e que hoje se
sobressaem.

XXVI XXVI
Atque hic est Sala fluvius, ad quem Carolus Este é ainda o rio Sala, para o qual Carlos
M. aliquoties egit, ibique palatium regium Magno algumas vezes se dirigiu, e onde eri-
habuit, cuius nomen hodieque superest in giu um palácio, cujo nome ainda hoje sobre-
Konigs-hofa villa seu aula Regia: quae fuit, vive em Konigs-hofa, um vilarejo ou mesmo
ut antiquissimus Poēta Saxo scripsit: um palácio, que existiu como o atesta um
antiquíssimo poeta saxão:
Nascenti vicina Salae. Nascida às margens do Sala.
Etsi quidam Sala Thuringico praeoccupati Ainda que alguns retivessem que fora ocupa-
pro Salafelda habuerint. Notat Poeta, foedere do o Sala turíngio em lugar do Salafelda.
perpetuo Saxones illic Francis aequatos, et in Nota o poeta que os saxões foram recebidos
communem Rempublicam receptos fuisse. ali e igualados aos francos por uma aliança
perpétua para uma república comum.

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XXVII XXVII
Bodogevam et Wisogevam pagos a fluviis Diz-se que Bodogeve e Wisogeve têm sua
Boda ad radicem Harzicorum montium flu- origem do rio Boda, que corre no sopé dos
ente; et Wisera (quem Latini Visurgium montes Harzicores e Wisera (que os latinos
dixere) denominatos quam maxime convenit. chamam Vissurge).
Et Bodogevee pagi partem fecit, qui postea Também fez parte da aldeia Bodogeve, que
pagus Hartegau est dictus. depois se chamou aldeia Hartegau.
Saepe enim manentibus nominibus pagorum Frequentemente, com efeito, mantidos os
minorum amissa sunt vocabula pagorum nomes das aldeias menores, são desprezados
maiorum provincias designantium. os vocábulos das aldeias maiores, que desig-
nam províncias.
Saepe etiam fit, ut pagi maioris nomen, quod Frequentemente também acontece que um
olim totum fluvii tractum complectebatur, nome duma aldeia maior, antes tomado dum
exiguae parti manserit. rio, manteve-se exiguamente.
Ita pagus Leingau a Leina nostra dictus, pos- Desse modo, a aldeia Leingau diz-se de nos-
tea soli parti superioris Leinae circa Gottin- sa Leina, depois só se manteve o nome da
gam mansit. parte superior de Leina nas proximidades de
Gotinga.
Windogevam non ita bene designare possum. Já Windogeve não posso descrever assim tão
Fortasse Unstruta fluvius Thuringiam secan- bem. Talvez o rio Unstruta, que passa por
tium primarius olim Windrista (quo fere no- Turinga, tenha sido antes Windrista (quase
mine fluvius alius Hildesiam alluit, nam lite- com este mesmo nome outro rio alimenta o
ram W initialem saepe omitti constat) omissa Hildésia, pois a letra W inicial sói ser omiti-
terminatione Winda dicta est. da), omitida a terminação se chama Winda.

XXVIII XXVIII
Ex his primariis seu maioribus Francorum Inclina-se a ajuntar os francos dentre estas
pagis (multi enim minores in maioribus con- principais ou maiores cidades francas a partir
tinebantur) colligere pronum est, Francos ab dos montes Harzicos, donde o Boda deságua
Harzicis montibus, unde Boda in Albim (li- no Elba (claro que não diretamente); há ain-
cet non immediate) defluit, usque ad Moe- da a tendência de que se difundiram até ao
num, in quem Sala ille exoneratur, sese Meno, no qual o famoso Sala deságua; então,

70
71

diffudisse; et proinde partem regionis Bruns- que tiveram, por conseguinte, uma parte da
vicensis et Halberstadensis, Hassiaeque, to- região bunsviquense e halberstadense e parte
tam fere Thuringiam, et partem Franconiae da Hássia, quase toda a Turíngia e parte da
hodiernae tunc tenuisse, et ita in partem regi- moderna Francônia; e de que depois vieram à
onis Longobardorum, Cheruscorum et Catto- região dos longobardos, dos queruscos e dos
rum, sed maxime Hermundurorum successis- catos, mas principalmente dos hermúndu-
se; vel potius cum iis, qui nondum per ante- ros*; ou antes, com aqueles que ainda não
riores migrationes excesserant, in unum cor- tinham vindo161 por migrações anteriores,
pus coivisse. constituíram um só corpo.
Nam credibile est, globum hominum a Bal- É então crível que aumentaram a esfera de
thico mare venientium, instar pilae nivis in homens vindos do Mar Báltico, à guisa de
itinere, aliis sive per vim, sive sponte acce- bolas de neve pelo caminho, a uns que se
dentibus crevisse. aproximaram já à força já de bom grado.
Itaque limites habuerint, a meridie, Moenum, Tinham estas fronteiras: ao sul, o Meno; ao
a septentrione, Harzicos montes, ab occiden- norte, os montes Harzicos; ao oeste, o Vis-
te, Visurgim cum Fulda influente continua- surge, reunido ao afluente Fulda; ao leste, o
tum, ab oriente, Salam Thuringum Albi in- Sala [na região da] Toringa, afluente do El-
fluentem, ad deinde ipsum Albim. ba, e depois o próprio Elba.
Et quia maxime Hermundurorum regionem E como alhures já mostrei, eles capturam
tenuere, quibus proprie Germanorum nomen principalmente a região dos hermúnduros*, a
conveniebat, ut alibi ostendi; hinc factum quem propriamente convinha o nome de
puto, ut D. Hieronymus et alii annotarint, qui germanos; disso penso, como s. Jerônimo e
tunc Franci olim dictos fuisse Germanos. outros notaram, que os francos, outrora, fo-
ram chamados germanos.

XXIX XXIX
Videntur Franci de migratione in loca ulteri- Parece que os francos, pensando em atraves-
ora, Visurgique trasmittendo cogitantes, ad sar o Vissurge, rumo a sítios mais longín-
Leges condendas animum adiecisse; quas quos, direcionaram o ânimo para construir
scripto comprehenderant patrio sermone, leis, que, escritas na língua pátria, pudessem
unde reliquiae summa rei capita designantes compreender, de onde as relíquias comuns,
in placitis seu Malbergis usitatae, (ut vox que delimitando os direitos civis mais eleva-

161
Lit.: subido.

71
72

Malb iis praemissa indicat) Versioni Latinae, dos da ação prática nos preceitos ou Malber-
quam solam habemus, insertae supersunt, qui ges (como a palavra Malb indica-lhes as
tamen in Lindebrogiana editione desideran- premissas) para versão latina, a única que
tur, et in plerisque codicibus Manuscriptis temos, sobreviveram inserções, que, entre-
omissae sunt. Leguntur tamen in nonnullis tanto, faltam na edição lindebrogiana, e que
perantiquis: Heroldus edidit ex Codice Ful- foram omitidas em muitos códices manuscri-
densi. tos. Leem-se, contudo, em alguns antiquís-
simos: Heroldo editou a partir do Códex de
Ex his intelligitur, Legem, ut nunc habemus, Fulda. Disto se entende que a Lei, como hoje
Versionem esse, Francis iam in solum Ro- a temos, é versão, composta pelos francos,
manum progressis compositam, pluri- entrados já no solo romano, muito modifica-
mumque mutatam et interpolatam; sed eorum da e interpolada. Mas seus antepassados de-
maiores iam aliquam literarum notitiam et ram alguma notícia da literatura e assumiram
scribendi usum accepisse, ex quo transmisso o costume de escrever, dali tendo passado o
Albi propiores Romanis facti fuerant. Elba, aproximaram-se dos romanos.
Itaque, quod ibi extat Germanici sermonis Assim que aí existe ainda [e] é o mais antigo
(praeter glossemata quaedam posteriora cae- de todos da língua alemã (salvo alguns glos-
teris, ut apparet admista) omnium antiquis- semas posteriores a outros, como aparecem
simum est, anteriusque ipsis Ulfilae Evange- misturadas); ainda bem antes aos Evangelhos
liis Gothicis, post magnum Constantinum Góticos de Úlfila, após o grande Constanti-
demum compositis, et in Codice Argenteo no, finalmente compostos, e no Códex Ar-
(invento in vetusto apud Werdenses Westfa- gênteo162 (encontrado no vetusto monastério
liae S. Ludgeri monasterio in Sveciam trans- de S. Ludugero nas vizinhanças dos werden-
lato) pro parte conservatis. ses de Weslfália e levado para a Suécia) e em
parte conservados.
Quamquam is caeteroqui vetustissimus sit Ademais, apesar de ser o livro mais antigo da
Europae, et fortasse Orbis liber, quia alia, Europa e quiçá do mundo, mais do que qual-
quam eruditis familiari, id est, Hebraea, quer outro, hoje existente, escritos em uma
Graeca Romanave lingua sit consciptus, ho- língua familiar aos eruditos, isto é, a hebrai-
dieque superstes. ca, a grega ou a latina.

162
Este manuscrito, escrito em letras prateadas, contém a tradução da Bíblia em língua gótica, composta no sécu-
lo IV pelo bispo Úlfila. Leibniz tratará disso nos Novos ensaios III, 2, § 1.

72
73

3.ª PARTE

XXX XXX
Migrationem novam saeculo tertio post De acordo com escritores antigos, a partir
Christum natum, iam adulto factam fuisse; dos quais se relembram os combates dos
scriptoribus veteribus consentaneum est, a francos sob Valeriano Augusto e que se fize-
quibus sub Valeriano Augusto primum Fran- ra a última migração no século terceiro de-
corum memorata sunt arma. pois de Cristo, estando já este bem avançado.
Flavius Vopiscus refert Aurelianum, qui pos- Flávio Vopisco163 refere que Aureliano, que
tea imperavit, Moguntiaco praefectum, Fran- depois fora imperador, era governador em
cos Galliam tentantes repulisse. Moguncíaco164, repeliu os francos que ataca-
vam a Gália.
Venerunt ergo tunc Franci in regionem Cato- Vieram, então, os francos para a região dos
rum, Sigambrorum, Bructerorum, Chamavo- catos, dos sicambros*165, dos brúcteros166,
rum, Amsibariorum aliorumque vicinorum dos camavos167, dos ansibários168 e doutros
populorum, quorum sedes hodie Weteravo- povos vizinhos, cujos assentamentos hoje
rum, Hassorum, Westfalorum nominibus chamam-se pelos nomes de weteranvenses,
appellantur, disignantur. hassenses, westfalenses.
Sigambri ad Sigam, Amsibarii ad Amisium Os sicambros* invadiram as vizinhanças do
amnes, Chamavi in ea regione, ubi hodie Siga; os ansibários, as vizinhanças do rio
superest oppidum Ham, sedes olim habuere Amísio; os camavos, naquela região, onde
ex his locis Franci, Romanam Rheni ripam hoje permanece a cidade Ham, outrora os

163
Flávio Vopisco (Flavius Vopiscus) foi um historiador romano do século III, natural de Siracusa. São de sua
autoria poucos documentos conhecidos escritos em latim: sobre Aureliano, sobre Tácito e sobre Probo.
164
Cidade da Germânia, hoje Mainz.
165
Os sicambros ou sugambros (Sicambri ou Sugambri) formavam uma tribo germânica ocidental que aparece
na história em 55 a.e.c., durante o período de conquista da Gália por Júlio César e início do Império Romano, à
margem direita do Reno entre os rios Ruhr e Sieg, na região que atualmente faz parte do estado alemão da Renâ-
nia do Norte-Vestfália (Nordrhein-Westfalen). O rio Sieg, assim como a cidade de Siegen, são assim chamados
por causa dessa tribo. Em 16 a.e.c., eles derrotaram um exército romano liderado por Marco Lólio, o que ocasio-
nou uma reação de Roma e ajudou a iniciar a série de guerras contra as tribos germânicas que duraram até o ano
de 16. Em 11 a.e.c., eles foram forçados por Nero Cláudio Druso a se deslocar para a margem esquerda do Reno,
onde eles claramente formaram o componente central da confederação dos francos. Sua nova pátria estava loca-
lizada no que agora é a região de Guéldria (Gelderland) na Holanda, no baixo Reno. Os reis merovíngios reivin-
dicavam sua descendência dos sicambros, que eles acreditavam ser originalmente uma tribo cita ou ciméria que
antes habitou a foz do Danúbio, que mudou seu nome para “francos” em 11 a.e.c. sob a liderança de um certo
chefe tribal chamado “Franko”. Os merovíngios traçam suas origens sicambrianas a partir de Marcomir I (supos-
tamente morto em 412 a.e.c.), último rei de Troia, mas essa lista de governantes não é aceita como histórica. De
acordo com alguns registros, um líder tribal Marcomero precedeu a dinastia merovíngia em torno de 400.
166
Brúcteros, povo germânico, habitante do território da moderna Vestfália.
167
Camavos, povo das margens do Reno.
168
Ansários, povo da Germânia.

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74

subinde infestarunt. francos assentaram-se às margens romanas


do Reno

XXXI XXXI
Reliquias quae in regione Hermundurorum Entretanto, os toringos169, chegados inespe-
aliisque vicinis locis remanserant, Thuringi radamente, expulsaram os outros assenta-
tandem supervenientes expulerunt, et novum mentos, que sobraram na região dos her-
regnum condiderunt. múnduros170, e ali fundaram um novo reino.
Id discimus ex memorabili loco Gregorii Isso aprendemos da memorável citação de
Turonensis, lib. 3 apud quem Theodericus, Gregório de Tours (liv. 3), segundo ele, Teo-
Rex Francorum, Clodovaei filius, ait; Thu- dorico, rei dos francos, filho de Clodoveu,
ringos olim super parentes (maiores an cog- disse que os toringos outrora de forma muito
natos?) Francorum violenter advenisse, et violenta impuseram-se sobre os parentes
multa eis intulisse mala; quod memorat ad (avoengos ou parentes?)171, e inferira-lhes
suos in hostem animandos, secutaque est ainda muitas coisas cruéis, que recorda aos
tunc regni Thuringorum eversio, de qua Ve- seus, a fim de animá-los contra o inimigo, e
nantii Fortunati poema extat. seguiu-se, então, a destruição do reino dos
toringos, sobre isso resta ainda um poema de
Venâncio Fortunato*.

XXXII XXXII
Franci autem Rheno iam vicini saepe flumen Os francos, contudo, já próximos ao Reno,
transmiserunt, et Belgiam Galliasque depo- muitas vezes atravessaram o rio, assolaram a
pulati sunt; quin etiam ad Oceanum usque Bélgica e as Gálias172. Mas avançaram na
Germanicum progressi, (ascitis haud dubie in direção do Oceano Germânico173, (acolhidos

169
Toringos, povo germânico.
170
Hermúnduros, povo da Germânia, classificado entre os suevos.
171
Leibniz propõe a dúvida quanto à significação dessa palavra, pois que a palavra latina “parentes” é passível
de uma dupla interpretação, a saber, pais, avós ou parentes consanguíneos. (N. do T.)
172
É interessante o uso que Leibniz faz aqui do termo Gálias no plural. Para fazer eco ao que Júlio César refere
nos Commentaria de Bello Gallico, no início: «Gallia est omnis divisa e partes tres: quarum unam incolunt
Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum linguā, Celtae, nostrā Galli appellantur» (I,1) César indica só a
Gália ainda independente. Porque enumera partes, não emprega a palavra tōta. Não fala da região dos Alóbroges,
já submetidos por Domício, da Cisalpina nem da Provincia. (vide CÉSAR, 1944, p. 1). No capítulo XX, Leibniz
se refere à Gália Bélgica.
173
«O oceano Germânico em uma grande parte de seu leito não tem de profundidade mais de 93 pés, e mesmo
proximo da costa escarpada da Noruega mais de 5,46 pés.» (CASTILHO & CORDEIRO, 1865, p. 199). Esse
Oceano Germânico é o Mar Báltico (vide:<http://goo.gl/pDQYtP>, consultado em 30/4/2015).

74
75

societatem Frisiis, Marsiacis et Batavis) late sem dúvida na sociedade os frísios174, os


piraticam exercuerunt, et fretum Herculeum marsíacos175 e os batavos) exerceram larga-
ingressi, ipsam Hispaniam Tarraconensem mente a pirataria, e entraram pelo estreito de
invaserunt. Gibraltar176, e invadiram até a Hispânia Tar-
Sed ad Rhenum a Probo Augusto magna raconense177, mas foram obrigados a retroce-
clade illata nonnihil repressi fuerunt. der para junto do Reno por Probo Augusto*,
tendo-lhes sido infligida uma grande derrota.

XXXIII XXXIII
Postea Saxonibus supervenientibus mari sunt Depois foram expulsos pelos saxões que per-
exclusi, qui Frisios, Chaucos, Cheruscos, valeceram [sobre eles] (que associaram a seu
Warinos, Danos in suum nomen asciscentes, próprio nome os frísios, os caúchos178, os
Gallicum Britannicumque litus diu infestum queruscos179, os varinos, [e] os dinamarque-
habuerunt, ut etiam ab eorum nomine Saxo- ses), possuíram o litoral galês e o britânico
nicum appellaretur, et Francos Salios (a Sa- infestado, por muito tempo, para também ser
lageva regione antea haud dubie dictos seu chamado saxão pelo mesmo nome deles, e
salagastos) ex Batavorum insula expulerunt, expulsaram os francos sálios (que por causa
quod Zosimus memoriae prodidit. da região salageve [eram] antes chamados
sem sombra de dúvida de salagastos) da ilha
batava, como Zósimo aduz de memória.

XXXIV XXXIV
Sed Romanis rebus in dies magis magisque Mas estando mais e mais inclinados às ro-
inclinantibus; Franci, praesertim ex quo tota manidades a cada dia, os francos desenvolve-
pene gens uni Regi parere coepit, rursus in- ram-se novamente, sobretudo por isso, quase
valuerunt. toda a nação começou a obedecer a um único
rei.

174
Frísios, habitantes da Frísia, ao norte da Germânia, entre o Reno e o Oceano (Países Baixos).
175
Não há qualquer referência a que povo fosse esse dos marsíacos.
176
Chamado de hercúleo, por estar posto entre as chamadas colunas de Hércules, entre a Espanha e a África.
177
A Hispânia Tarraconense (Hispania Citerior Tarraconensis) foi uma província romana da Hispânia, na pe-
nínsula Ibérica, que suplantou a anterior Hispânia Citerior. A sua capital era a Colônia Júlia Cidade Triunfal
Tarraco (Colonia Iulia Urbs Triumphalis Tarraco), a atual Tarragona, (Catalunha, Espanha). Fazia fronteira a
sudoeste com a Lusitânia e Bética e a nordeste com a Gália Aquitânia e Gália Narbonense. Depois da queda do
Império Romano do Ocidente, a província seria dominada pelos visigodos e mais tarde parcialmente tomada
durante a Invasão muçulmana da Península Ibérica.
178
Caúchos, povo da Germânia, habitantes entre o Elba e o Ems.
179
Queruscos, povo germânico.

75
76

Id factum puto sub initia Theodosii Magni, Acho que esse fato um pouco antes do nas-
tunc Prosper Tiro in Fastis scripsit, Priamum cimento de Teodósio Magno*, então Próspe-
(id est, seniorem Pharamundum) regnasse in ro Tiro* escreveu nos Fastos180 que Príamo
Francia, sive in Germaniae magnae parte (isto é, o velho Faramundo) tinha reinado na
Rheno vicina, a Moguntia usque ad Batavos, França, ou na parte da Magna Germânia,
ubi Tabula Peutingeriana (quae illis tempori- próxima ao Reno, desde a Mogúncia181 até os
bus composita videtur) Franciam collocat. batavos, onde a Tábula Peutingeriana (que
parece ter sido composta por aqueles tem-
pos)182 coloca a França.
Ea enim verba Prosperi, et quod altius ali- Com efeito, essas palavras de Próspero* pa-
quid a se investigari potuisse negat; indicare recem indicar que a França, por isso, não
videntur, Franciam ex eo, non ut ante multis como antes obedecia a muitos reis menores,
regulis paruisse, sed in unius potestatem mas pagou tributo ao poder de um só rei; o
concessisse. que nega que algo mais elevado do que elas
Marcomirum ei filium tribuit, qui Gesta Re- pudesse ser investigado. Aquele que escre-
gum Francorum scripsit; quidam addunt Ge- veu os Feitos dos Reis franceses dá-lhe um
nebaudem et Sunnonem; filho chamado Marcomiro183; alguns acres-
licet enim hunc postremum Autor Gestorum centam Genebaudo e Suno184; se bem que,
Antenore natum velit; com efeito, o autor dos Feitos queira que este
Claudianus tamen, Marcomirum et Sunno- último filho tivesse nascido de Antenor; en-
nem posteriores memorans, frates fuisse in- tretanto, Claudiano, lembrando os posteriores
dicat Valesii iudicio, lib. 1. de laudibus Stili- Marcomiro e Suno, indica que eram irmãos,
conis, vocans: ingenio scelerumque cupidine conforme o juízo de Valésio*, no livro 1, dos
frates, non minus scilicet, quam natura. Louvores de Estilicão*, chamando: irmãos
por engenho e por amor ao crime, não me-

180
Apesar de o livro Fasti não aparecer entre as obras de s. Própero, Eusébio Pamfílio o cita no livro Thesaurus
temporum (edição de 1658, p. 49).
181
Mogúncia, hoje Mainz.
182
Tabula Peutingeriana é um mapa viário do Império Romano, hoje mantido na Biblioteca Nacional de Viena.
O índice de rotas mostra Roma no centro de um círculo do qual partem radialmente as grandes estradas da Itália.
183
Esse Marcomiro, parece ser Marcomero ou Marcomer* (ca. 346 - 404) foi um duque franco do final do século
IV. Gregório de Tours o menciona na sua Historia Francorum, junto com os duques Genobaldo e Suno. Gregó-
rio duvida que eles fossem chamados de reis. Eles cruzaram o Reno, assaltaram a província romana da Germânia
e ameaçaram Colônia nos últimos anos do reinado do imperador romano do Ocidente Magno Máximo (383-
388). Eles supostamente também lideraram os catos e os ampsivarianos. Marcomero deve ter sido um antepassa-
do de Faramundo, um ancestral da dinastia real dos merovíngios.
184
Há referências a um Suno, duque franco que invadiu junto com Marcomero a Germânia e devastou alguns
distritos férteis, durante o reino de Teodósio I (347-395). (Vide: GREGORIO DI TOURS, Historia Francorum,
II,9.)

76
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nos, naturalmente, do que por natureza.

XXXV XXXV
Porro Pharamundum hactenus notum (nostra Mas o mesmo autor dos Feitos de Clódio*
nempe sententia secundum) Marcomiro na- refere que Faramundo até aqui conhecido
tum, et Clodionem Marcomiro; tradit idem (segundo nosso parecer) como nascido de
autor Gestorum Clodionis, qui Clogio Sido- Marcomiro e Clódio* [como nascido tam-
nio, fortasse idem est nomen, quod Clodo- bém de] Marcomiro; e que seja talvez o
vaei aut Hludovici, qui vulgo Clovis. mesmo nome de Clógio Sidônio, vulgarmen-
te Clóvis, o qual [seria filho] de Clodoveu ou
Clodio autem Belgicam invasit, et Atrebatum Hludovico. Clódio*, contudo, invadiu a Bél-
usque processit, sed ab Aëtio repulsus est. gica e avançou até Atura*, mas foi expulso
Huius inter filios duos contentionem in regno por Aécio*. Prisco apurou que dois dentre os
fuisse, uni Romanos, alteri Attilam favisse, filhos dele combateram contra o reino, um
ex Prisco colligitur. Merovaeum, qui mox favoreceu os romanos e outro favoreceu Áti-
regnavit, et ut videtur ambos exclusit, alte- la*. Meroveu*, que pouco depois começou a
rius stirpis fuisse verisimile est, quia sequen- reinar, e como parece excluiu aos dois [filhos
tium Regum familiae nomen dedit. de Clódio*], parece verdadeiro que era de
outra estirpe, pois deu nome à família dos
Et potuit tamen de genere esse Clodionis, ut reis que o seguiram. E poderia, entanto, ser
ait autor Gestorum, per foeminas scilicet, da descendência de Clódio*, como diz o au-
filius fortasse sororis, aliterve cognatus. tor dos Feitos, naturalmente pelas mulheres,
filho talvez da irmã ou [mesmo] algum outro
parente.

XXXVI XXXVI
Unum exclusorum Romanas scilicet partes Sidônio* relembra que ele seja um dos ex-
foventem, eum esse, credibile est, cuius nup- cluídos que protegeu as regiões, isto é, as
tias cum Romana virgine Senatoriae gentis, romanas, é isso crível, e cujas núpcias [foi]
Sidonius memorat. com uma virgem de ascendência senatorial.
Unde malim Caroli Magni stirpem duci, Donde eu preferiria fazer conduzir a ascen-
quam cum Buccetio et eum secutis ex familia dência de Carlos Magno* de uma família
Romana per mares. romana através dos mares, ao contrário do

77
78

que o afirma Bucécio e os que o seguem.


Ita Arnulfus senatoriae originis fuerit, sed Assim, Arnulfo* seria de origem senatorial,
tantum per huius matrimonii insertionem. Ex mas somente por meio da inserção de seu
Merovaeo Childericum patrem Clodovaei matrimônio. Ninguém duvida que de Mero-
natum, nemo dubitat. veu* nasceu Childerico, pai de Clodoveu185.

XXXVII XXXVII
Clodionem iam in Belgio sedem fixisse, ple- Muitos estabeleceram que Clódio* fixou
rique statuunt, eoque etiam Valesius inclinat, assentamento na Bélgica, e Valésio* também
adducitque in eam rem locum Salviani, ex inclina-se a isso, e aduz em prova a citação
lib. 5. de Gubern. Dei, ubi Franci inter gentes de Salviano*, do livro 5 do De Gubern.
nominantur, sub quibus melius sit Romanis, Dei186, em que os francos são nomeados en-
quam sub ipsis Romanis; et Sidonii lib. 1 Ep. tre as nações, seria melhor entre as [nações]
1. ubi ait: romanas do que entre os próprios romanos; e
Sicambrorum, Alanorum et Gelonorum, qui Sidônio* no livro 1 Ep. 1 diz que [são as
in Gallia Honorii principatu consederant, a nações] dos sicambros*, dos alanos e dos
Gallis rideri stultitiam, timeri ferociam, et gelonos*, que se assentaram na Gália, [du-
Ep. 17. ubi Ius Romanum in terris Belgicis rante] o principado de Honório*, eram zom-
dudum abolitum ait, ut sermonem Latinum. bados pelos gauleses por causa da estultícia e
temidos por causa do carácter violento, e na
Ep. 17, onde o Direito Romano diz que [fora]
recentemente abolido nas terras belgas, como
Sed et Childerici sepulcrum prope Tornacum a língua latina. Mas o sepulcro de Childeri-
inventum huic sententiae favet. co*, encontrado nas vizinhanças de Tórna-
co*, sustenta essa opinião.

185
Veja-se a Lista dos Monarcas Merovíngios ao fim do texto.
186
De gubernatione Dei (O Governo de Deus), a obra magna de Salviano, foi publicada depois de 439, mas antes
de 451, pois Salviano fala dos hunos, mas não como inimigos do império, mas como soldados nos exércitos
romanos (vii.9). Na obra, que se apresenta uma valiosa, ainda que preconceituosa, descrição da vida na Gália
romana no século V, Salviano lida com o mesmo problema que estimulou a eloquência de santo Agostinho e
Paulo Orósio: 1.ª por que estas misérias estavam acontecendo o império? 2.ª Poderia ser, como diziam os pagãos,
por que sua época havia abandonado os deuses antigos? 3.ª Ou era, como ensinava a doutrina semi-pagã de al-
guns cristãos, que Deus não interferia constantemente no mundo que criara (i.1)? 4.ª Com os primeiros, Salviano
não discutia (iii. 1) e aos últimos, respondia afirmando que “assim como um navegador jamais deixa o leme,
assim também Deus jamais remove seus cuidados do mundo”. Daí o nome do tratado.

78
79

4.ª PARTE

XXXVIII XXXVIII
Sed fatendum est, Sidonium aliosque scripto- Mas há de reconhecer que Sidônio* e outros
res Romanos diu adhuc de Francis, ut Trans- escritores romanos por muito tempo ainda
-Rhenanis loqui. Itaque Danielius, ingenii falavam a respeito dos francos como transre-
doctrinaeque non vulgaris scriptor, hanc lau- nanos. E deste modo Daniel, escritor de in-
dem prolati trans Rhenum Francorum imperii gênio e doutrina não vulgares, guarda para
Clodovaeo servat. Clodoveu* o louvor de ter levado o império
dos francos para além do Reno.
Arboricos Procopio dictos, qui se Francis Concordo com Procópio que não foram po-
submisere, non peculiares fuisse populos, ut vos peculiares, chamados arbóricos, que se
Vir iste celeberrimus cum multis arbitratur, submeteram aos francos, como julga este
sed Aremoricos, (Gallos nempe cis Ligerim homem celebérrimo com muitos [outros];
mari vicinos, Romanis antea parentes) Vale- mas concordo [também] com Valésio* [que
sio assentior. se tratava dos] aremoricos (gauleses, isto é,
aquém do Loire próximo ao mar, antes apa-
Et rem conficit Zosimus, qui lib. 6. Armori- rentados com os romanos). E Zósimo* fabri-
chos vocat. cou o assunto, que no livro 6187 chama de
Ut suspicer Procopium ex ipsos suos Arbori- armóricos. Segundo suspeito Procópio tomou
chos corrupto paulum vocabulo hausisse. Sed arbóricos de um vocábulo um pouco corrom-
talia discutere non est huius loci. pido. Mas discutir tais coisas não é o objeti-
vo deste trabalho.
Nobis Francorum origines et migrationes ad Basta-nos aqui ter disposto as origens e as
Rhenum usque constituisse hic suffecerit. migrações dos francos até ao Reno.

187
Trata-se da História Nova, escrita em grego, em seis livros, cobre o reinado do imperador romano Augusto (r.
27 a.CA.-14 d.CA.) até o ano de 410, e é uma das mais importantes fontes para o conhecimento dos eventos do
século IV e do início do século V. Sua atitude frequentemente pró-pagã e anticristã de Zósimo lhe dá um colori-
do especial, podendo ser utilizada como balizadora para as obras de historiadores cristãos da época.

79
80

GLOSSÁRIO DE PESSOAS E LUGARES

Adão de Brêmen (provavelmente antes de 1050-1081 ou 1085), clérigo e teólogo, foi um dos
mais importantes cronistas e historiadores alemães da Idade Média.
Adrien Valois ou Adrien de Valois, senhor de La Mare, em latim Hadrianus Valesius,
(1607-1692) foi um historiador francês.
Aécio ou Flávio Aécio, em latim Flavius Aëtius (396-454), às vezes chamado simplesmente
de Aécio, foi duque, patrício e general romano, cognominado “o último dos Romanos” por
causa de seu destemor e bravura em campo de batalha. Figura influente em todo o Império
Romano do Ocidente durante o governo de Valentiniano III, defendeu a prefeitura pretoriana
da Gália contra os francos e burgúndios, depois contribuiu para a derrota de Átila nos Campos
Cataláunicos. Foi assassinado por ordem do imperador Valentiniano III.
Aimoin (ca. 960-ca. 1010 e.c.) foi um cronista francês.
Alanos, povo da Sarmácia europeia.
Anquises Na mitologia grega, Anchises ou Anquises foi um príncipe troiano, primo do rei
Príamo. Em sua época, Anquises era conhecido por possuir seis excelentes cavalos (algo valo-
rizado na época, uma vez que os troianos eram exímios cavaleiros) e por ter sido amante mor-
tal da deusa Afrodite, com quem teve o filho Eneias - que conduziu os sobreviventes da des-
truição de Troia ao final da Guerra de Troia para fundar uma nova cidade (cf. Homero, Ilíada,
Livro XIII, 424-444).
Ansegisel (ca. 615-ca. 679 e.c.).
Arnulfo da Caríntia (850-899) foi rei francês e imperador Romano-Germânico. Foi coroado
pelo Papa Formoso em 22 de fevereiro de 896 e seria o último imperador carolíngio. Partiu
para Espoleto para ali estabelecer sua autoridade, mas no caminho ficou paralitico como seu
pai, e retornou à Baviera, onde morreu. Casara-se com Oda ou Ota da Baviera. Deixou três
filhos.
Ascânio Ascânio, ou Iulo, foi filho dos lendários Eneias e Creúsa e neto de Anquises. Depois
da queda da cidade de Troia, destruída pelos gregos, chegou à Itália com seu pai Eneias, que
se casou com Lavínia, filha do rei do Lácio, Latino, e fundou uma cidade que chamou Laví-
nio, em homenagem à sua esposa.
Átila, o Huno (406-453), também conhecido como Praga de Deus ou Flagelo de Deus, foi o
último e mais poderoso rei dos hunos. Governou o maior império europeu de seu tempo desde
434 até sua morte. Suas possessões se estendiam da Europa Central até o mar Negro, e desde
o Danúbio até o Báltico. Durante seu reinado foi um dos maiores inimigos dos impérios ro-
manos Oriental e Ocidental: invadiu duas vezes os Bálcãs, esteve a ponto de tomar a cidade
de Roma e chegou a sitiar Constantinopla na segunda ocasião. Marchou através da França até
chegar a Orleãs, antes que o obrigassem a retroceder na batalha dos Campos Cataláunicos
(Châlons-sur-Marne) e, em 452, conseguiu fazer o imperador Valentiniano III fugir de sua
capital, Ravena.
Atura ou Aire-sur-l’Adour é uma comuna francesa na região administrativa da Aquitânia, no
departamento Landes. Estende-se por uma área de 57,99 km². Era conhecida como Atura ou
Civitas Aturensium durante o período romano. Atura é indicada com vários nomes por vários
autores: Adura, Aturum, Aeria, Aena, Aria, Atrebatum, Heria. Antigamente se chamava Vicus
Iulii.
Aviões: povo da Germânia.

80
81

Buda é a antiga capital do Reino da Hungria e da parte ocidental da atual capital húngara Bu-
dapeste, na margem oeste do Danúbio. Buda compreende cerca de um terço do território
completo de Budapeste e é principalmente arborizado e montanhoso. Marcos notáveis inclu-
em o Castelo de Buda e a Cidadela. A residência do presidente húngaro, o Palácio de Sándor,
também está em Buda.
Burgundião: habitante da Borgonha (em francês: Bourgogne) é uma região administrativa da
França, habitada em ordem cronológica por Celtas da tribo dos Gauleses, Romanos e Galo-
Romanos, e vários povos Germânicos, dentre os quais os mais importantes foram os Burgún-
dios (donde deriva o seu nome atual, através de uma forma medieval Burgúndia) e os Francos.
Carlos Magno (742-814) foi rei dos francos entre 768 e imperador do ocidente (Imperator
Romanorum) entre 800 até a sua morte em 814. Pertence à dinastia Carolíngia, à qual ele deu
o seu nome.
Childeberto I (ca. 497 - 558) foi o rei franco de Paris, da dinastia merovíngia, um dos quatro
filhos de Clóvis I que dividiram o reino herdado após a morte de seu pai em 511.
Cimbros: (cimbri: ladrões em língua gálica): povo céltico das margens do mar Báltico, habi-
tantes do território que forma os modernos Holstein, Schlesvig e Jutland.
Cítia foi uma região na Eurásia habitada na antiguidade por um grupo de povos iranianos,
conhecidos como citas. A localização e extensão da Cítia varia com o tempo, da região dos
Montes Altai onde as fronteiras de Mongólia, China, Rússia e Cazaquistão se encontram com
a região do baixo Danúbio na Bulgária.
Clódio (ca. 392-447 ou 449) (Chlodio, Chlodion, Clodion, Clodius, Chlogio, Clodian), Cabe-
los Longos ou O Cabeludo, foi um rei semi-lendário dos francos salianos da dinastia mero-
víngia (426-447), um dos povos germânicos que constituem a liga dos Francos. O seu suces-
sor foi Meroveu, de quem a dinastia herdou o nome. A parte lendária diz que seu pai foi o
duque Faramundo e sua mãe Argota, da Turíngia. Seu avô deve ter sido Marcomero*, um
duque dos francos.
Clodoveu: Clóvis I, (ou Clodoveu I) (ca. 466 - 511) foi o primeiro rei dos francos a unir to-
talmente a nação bárbara.
Clotário I (498 - 561), um dos quatro filhos de Clóvis I, foi rei dos francos. Nasceu em Sois-
sons.
Dagoberto I (604 - 639) foi rei da Austrásia (623 - 634) e rei da Nêustria e da Borgonha (629
- 639). Foi o último monarca merovíngio a exercer algum poder real.
Danos: povo da Quersonesa címbrica, por neologismo os dinamarqueses.
Eneias (do latim Aeneas, por sua vez do grego antigo Αἰνείας) é uma personagem da mitolo-
gia greco-romana cuja história é contada na Ilíada, de Homero, e, sobretudo, na Eneida, de
Virgílio. Segundo a lenda, Eneias foi o mais famoso dos chefes troianos, filho da deusa Afro-
dite (a romana Vênus) e de Anquises, filho de Cápis, filho de Assáraco, rei da Dardânia. Era
casado com Creúsa, filha do rei Príamo e de Hécuba. Tinha um filho, Iulo (na literatura roma-
na Ascânio).
Ermoldo Nigelo (lat. Ermoldus Nigellus). - Poeta franco-latino (ca. 790 - ca. 835).
Estilicão ou Flávio Estilicão (Flavius Stilicho; 350/360 - 408) foi um mestre de soldados
(magister militum), romano de origem bárbara, patrício do Império Romano do Ocidente e
cônsul.

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Faramundo (370-426 e.c.) considerado o primeiro rei dos francos salianos e ancestral dos
Merovíngios, embora ele seja possivelmente uma figura mais lendária que histórica. Segundo
a obra anônima Liber Historiæ Francorum, ele era filho de Marcomer, e o primeiro rei dos
francos.
Flávio Graciano Augusto (Flavius Gratianus Augustus, 359-383) foi um Imperador Romano
do Ocidente de 375 a 383. Em 378, com a morte de Valente do Império Romano do Oriente,
que concedeu em 379 a Teodósio I.
Fredegário ou Fredegar (morto ca. 660) foi um cronista, conhecido pela sua obra Crônica de
Fredegar, a principal fonte primária dos eventos da Europa Ocidental do século VII.
Frederico I da Prússia (em alemão: Friedrich I) (1657-1713) da dinastia Hohenzollern foi
(como Frederico III; Friedrich III) Eleitor de Brandemburgo (1688-1713) e o primeiro Rei na
Prússia (1701-1713).
Gelonos, povo da Cítia.
Genebaudo I (ca. 245 - 289), rei dos francos.
Godofredo de Monmouth ou Geoffrey de Monmouth (ca. 1100-ca. 1155) foi um clérigo
galês, um dos mais significantes autores no desenvolvimento das lendas arturianas. Foi Geo-
ffrey que, na sua obra latina Historia Regum Britanniae (completada em 1138) alocou Arthur
na linha dos reis britânicos. Numa edição de sua Historia Regum Britanniae a que tive acesso,
seu nome em latim era Galfridus Monemutensis.
Godofrido Wendelino era um historiador do século XVI, como Cislécio também escreveu
estudos sobre a Lei sálica.
Grócio [Hugo], Hugo Grotius, Huig de Groot ou Hugo de Groot; (Delft, 10 de abril de 1583 -
Rostock, 28 de outubro de 1645) foi um jurista a serviço da República dos Países Baixos. É
considerado o precursor, junto com Francisco de Vitória, do Direito internacional, baseando-
se no Direito natural. Foi também filósofo, dramaturgo, poeta e um grande nome da apologé-
tica cristã.
Gronovius [Jacobus] (James Gronovius, Jacob Gronow) (1645-1716 e.c.), foi um erudito e
filólogo clássico holandês. Era pai do botânico Johannes Fredericus Gronovius e filho do
filólogo clássico Johann Friedrich Gronovius. Sua obra mais importante foi a Thesaurus an-
tiquitatum Graecarum (1697–1702, em 13 volumes).
Haroldo I da Dinamarca, também designado por Haroldo Dente-Azul ou Harald Dente-Azul
(Dinamarquês: Harald Blåtand; ca. 935-985/986) era filho do rei Gormo, o Velho, senhor da
Jutlândia, e de Thyra. Faleceu combatendo uma rebelião liderada por seu filho Sueno, após
reinar como rei da Dinamarca a partir de 958 e como rei da Noruega durante dez anos.
Hérmundoros: Hermunduri, Hermanduri, Hermunduli, Hermonduri, ou Hermonduli eram
uma antiga tribo germânica, atestada pelo historiador romano Tácito e que, segundo o qual,
ocuparam a área em torno do que agora corresponde à Turíngia, Saxônia, e o Norte da Bavie-
ra, no período compreendido entre o primeiro e terceiro século e.c. (cf. De origine et situ
Germanorum, 41-2).
Hérulos: povo cita dos arredores da Lagoa Meótida*.
Hirsau [lat. Hirsaugia]: uma aldeia no norte da Floresta Negra, hoje um subúrbio de Calw.
Honório ou Flávio Honório (Flavius Honorius; depois Imperator Caesar Flavius Honorius
Pius Felix Augustus) foi um imperador romano do ocidente já nos anos finais do império,

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além de ter sido uma peça chave no declínio de Roma. Seu reinado foi marcado pelo saque de
Roma em 410, entre outros eventos trágicos.
Iohannes Trithemius (Johannes Heidenberg ou Johannes Zeller; também Johannes von Trit-
tenheim, Johannes Tritheim 1462-1516), abade do mosteiro Sponheim, foi um erudito e hu-
manista. Em 1514, escreveu um De origine gentis Francorum compendium.
João [Johann] Pistorius, o jovem, (1546-1608) foi um historiador alemão e polemista. Filho
do pastor protestante Johann Pistorius, o velho (1504-1583).
João Isaac Pontano*: foi um filólogo e historiador dinamarquês (1571-1639).
João Jacó Cislécio foi um historiador belga do século XVI. Cf. BERGER, A. F. Felix Fürst
zu Shwarzenberg. Leipzig: Berlag von Otto Spamer, 1853, p. 16.
João Jorge de Ekhart/Ecardo (1664-1730) secretário de Leibniz, bibliotecário e historiador
da Casa de Hanôver. Igualmente a Cislécio e Wendelino escreveu estudos sobre a Lei sálica.
Quem na edição de 1768 das Opera omnia Leibnitii faz vários comentários ao texto do De
origine francorum.
Jordane: Veja Jornandes.
Jornandes (também conhecido como Jordane) foi um funcionário e historiador do Império
Romano do Oriente, que viveu no século VI. Embora tenha escrito uma obra chamada Roma-
na, sobre a história de Roma, sua obra de maior interesse é De origine actibusque Getarum (A
origem e as façanhas dos Godos [MOLLER, D. W. & METZGER, J. E., 1690, p. 3]), ou Gé-
tica, escrito em latim (provavelmente a terceira língua de Jordanes), em Constantinopla, por
volta de 551.
Lagoa Meótida*: Atual Mar de Azov, conhecido na Antiguidade Clássica como Lago Maeo-
tis (Μαιώτις em grego antigo) é uma pequena região ao norte do Mar Negro, ligado a ele pelo
Estreito de Kerch. Tem ao norte a Ucrânia, a leste a Rússia (incluindo a península de Taman)
e ao oeste a península da Crimeia. Na Grécia Antiga era conhecido como Lagoa Meótida*. O
mar tem 340 km de comprimento e 135 km de largura, com uma área de 37.555 km².
Luís I (778-840), também conhecido como Luís, o Piedoso, ou Luís, o Justo, foi o Rei dos
francos e Sacro Imperador Romano-Germânico de 814 até sua morte. Como único filho adul-
to sobrevivente de Carlos Magno e de Hildegarda de Vinzgouw, tornou-se o único governante
dos francos após a morte de seu pai em 814, uma posição que ocupou até à sua morte, salvo
pelo período de 833-34, durante o qual ele foi deposto.
Malos, habitantes de Malo, cidade da Cilícia.
Marco Aneu Lucano (Marcus Annaeus Lucanus; 39 e.c.-65), poeta romano. Apesar de sua
vida curta, é tido como uma das figuras de maior destaque do período dito clássico do latim.
Sobrinho de Sêneca, fez parte da malograda conspiração de Pisão contra a vida do imperador
Nero, e ao ser preso foi obrigado a se suicidar. Restou de sua extensa obra apenas uma epo-
peia inacabada, a Farsália.
Marco Aurélio: César Marco Aurélio Antonino Augusto (Caesar Marcus Aurelius Antoninus
Augustus), conhecido como Marco Aurélio (121 - 180 e.c.), foi imperador romano desde 161
até sua morte. Nascido Marco Ânio Catílio Severo (Marcus Annius Catilius Severus), tomou
o nome de Marco Ânio Vero (Marcus Annius Verus) pelo casamento. Ao ser designado impe-
rador, mudou o nome para Marco Aurélio Antonino, acrescentando-lhe os títulos de impera-
dor, césar e augusto. Aurelius significa “dourado”, e a referência a Antoninus deve-se ao fato
de ter sido adotado pelo imperador Antonino Pio.

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Marco Aurélio Probo (Marcus Aurelius Probus) (232-282) foi um imperador romano (276-
282), nascido em Sirmio (atual Sremska Mitrovica, na província sérvia da Voivodina), que
como vários imperadores do século III, chegou ao poder através de carreira militar.
Marcomer (ca. 346-404) foi um duque (dux, líder) franco do final do século IV.
Meroveu (ca. 411-ca. 458) é o lendário fundador da dinastia merovíngia de reis francos. Ele
foi rei dos francos sálios nos anos depois de 450. Sobre ele não existem registros contemporâ-
neos e há pouca informação nas histórias posteriores dos francos. Gregório de Tours registra
que possivelmente ele tenha sido filho de Clódio. Ele supostamente liderou os francos na Ba-
talha de Châlons (ou Batalha dos Campos Cataláunicos) em 451. De acordo com uma lenda,
Meroveu foi concebido quando a esposa de Clódio encontrou um Quinotauro, um monstro
marítimo que podia mudar de forma enquanto nadava.
Orósio, Paulo Orósio (ca. 385-ca. 420), historiador, teólogo, sacerdote e apologista cristão,
natural da Hispânia Romana, possivelmente natural de Bracara Augusta (atual Braga), então
cabeça da província da Galécia.
Otfrid ou Otfried von Weißenburg (ca. 790-ca. 875 e.c.) é considerado o primeiro poeta,
cujo nome nos foi transmitido, a escrever em alto alemão antigo.
Paulo, o Diácono (Paulus Diaconus; ca. 720 - provavelmente de 799), também conhecido
como Warnefred e Cassinensis (“de Monte Cassino”), foi um monge beneditino e historiador
dos lombardos.
Pepino III, também conhecido como Pepino, o Breve ou Pepino, o Moço (ca. 714-768) foi o
rei dos francos de 751 a 768 e é mais conhecido por ter sido o pai de Carlos Magno e filho de
Carlos Martel.
Philipp Clüver (também Klüwer, Cluwer, ou Cluvier, Latinizado como Philippus Cluverius)
(1580-1622) foi um geógrafo e historiador alemão.
Príamo (em grego antigo: Πρίαμος, transl.: Príamos), na mitologia grega, foi rei de Troia
durante a Guerra de Troia, e era filho de Laomedonte.
Probo Augusto, ver Marco Aurélio Probo.
Próspero Tiro ou São Próspero da Aquitânia (ca. 390-ca. 465) foi um escritor cristão e
discípulo de Santo Agostinho de Hipona. Apesar de o livro Fasti não aparecer entre as obras
de s. Própero, Eusébio Pamfílio cita essa frase sua no livro Thesaurus temporum (edição de
1658, p. 49).
Ravênate: trata-se de um geógrafo anônimo da cidade de Ravena.
Reudignos: povo da Germânia setentrional.
Rúgios: povo germânico das margens do Báltico, próximo à ilha chamada hoje Rügen.
Ruinart: Dom Thierri Ruinart (1657-1709) foi um sábio beneditino, historiador eclesiástico
francês, monge beneditino de São Mauro. Na edição cuidada por Eccard, o nome aparece Ru-
inardus.
Salviano (Salvianus) foi um escritor cristão do século V, nascido provavelmente em Colônia
Agripa (moderna Colônia) entre 400 e 405. Morreu em Massília (moderna Marselha) na dé-
cada de 490 e é conhecido também como Salviano de Massília (Salvianus Massiliensis).
São Gregório de Tours ou Gregório Turonense (Gregorius Turonensis; ca. 538 - 594) foi
um historiador galo-romano e bispo de Tours, o que o tornava o principal prelado da Gália.
Ele é a principal fonte contemporânea da história merovíngia. Seu mais notável trabalho foi

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seu Decem Libri Historiarum (“Dez Livros de História”), mais conhecido como Historia
Francorum (“História dos Francos”), um título dado por cronistas posteriores.
Sicambros, povo da Germânia, habitantes das margens do Reno. Existem relatos mitológicos
sobre a relação dos sicambros com os francos. No Liber Historiae Francorum (trabalho anô-
nimo de 727) afirma-se que, após a queda de Troia, 12.000 troianos liderados por Príamo e
Antenor estabeleceram-se, primeiro na Panônia, próximo ao mar de Azov, onde fundaram
uma cidade chamada Sicâmbria; em seguida, teriam chegado à região do Reno, onde, com
outros povos germânicos, deram origem aos francos. Os sicambros, tribo germânica ocidental,
apareceram na história em 55 a.e.c., durante o período de conquista da Gália por Júlio César;
estabeleceram-se na margem direita do Reno entre os rios Ruhr e Sieg.
Sidônio ou Caio Sólio Apolinário Sidônio (Gaius Sollius Sidonius Apollinaris; 430- ca.
486), poeta, alto funcionário do Império Romano, bispo e santo da Igreja Católica, foi o autor
individual sobrevivente mais importante da Gália do quinto século. A amplitude de seus co-
nhecimentos o tornaram centro da vida pública de sua época.
Sigeberto de Gemblours ou Sigeberto Gemblacense, monge beneditino (1030-1113), cro-
nista.
Teodorico I (ca. 485 - 533 ou 534) foi o rei merovíngio de Metz e Reims, ou Austrásia de
511 a 533 ou 534. Ele era filho de Clóvis I, rei único dos francos.
Teodósio Magno ou Teodósio I, dito o Grande (347-395), foi um imperador romano desde
379 até sua morte. Promovido à dignidade imperial após o Desastre de Adrianópolis, primeiro
compartilhou o poder com Graciano e Valentiniano II. Em 392 Teodósio reuniu as porções
oriental e ocidental do Império, sendo o último imperador a governar todo o mundo romano.
Após a sua morte, as duas partes do Império separaram-se definitivamente.
Tongres: Tongeren (em francês Tongres) é uma cidade e um município da Bélgica localizado
no distrito de Tongeren, província de Limburgo, região de Flandres. Está situada perto de Lie-
ja. Era conhecida pelos romanos como Aduatuca/Atuatuca Tungroro (Aduatuca/Atuatuca
Tungrorum).
Toníngia: Tönning é uma cidade da Alemanha, distrito de Nordfriesland, estado de Sch-
leswig-Holstein.
Tórnaco, cidade da Gália Bélgica, hoje Tournai.
Valentiniano I (Flavius Valentinianus, 321 - 375), foi imperador romano de 364 a 375.
Venâncio Fortunato (Venantius Honorius Clementianus Fortunatus; ca. 530 – ca. 600/609),
bispo de Poitiers, foi um poeta e compositor de hinos latinos.
Wurtzburgo (em alemão: Würzburg) é uma cidade francônia no ao norte do estado da Bavie-
ra, Alemanha e está localizada na região administrativa de Baixa Francônia. É uma cidade
independente (Kreisfreie Stadt) ou um distrito urbano (Stadtkreis), ou seja, possui estatuto de
distrito (Kreis).
Zósimo (Ζώσιμος) foi um historiador de língua grega atuante em Constantinopla e ativo entre
o final do século V e o início do século VI.

LISTA DOS MONARCAS MEROVÍNGIOS

Faramundo (lendário, 410-426) Meroveu (lendário, 447-458)


Clódio (lendário, 426-447) Childerico I (457-481)

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Clóvis I (481-511) Cariberto II (629-632)


Childeberto I (511-558) Chilperico da Aquitânia (632)
Clodomiro (511-524) Sigeberto III (634-656)
Teodorico I (511-533) Childeberto, o Adotado (656-661)
Teodeberto I (533-548) Clóvis II (639-657)
Teodebaldo (548-555) Clotário III (657-673)
Clotário I (511-561) Childerico II (662-675)
Cariberto I (561-567) Teodorico III (675-691)
Gontrão de Borgonha (561-592) Dagoberto II (675-679)
Sigeberto I (561-575) Clóvis IV (691-695)
Childeberto II (575-595) Childeberto III (695-711)
Teodeberto II (595-612) Dagoberto III (711-715)
Teodorico II (612-613) Chilperico II (715-721)
Sigeberto II (613) Clotário IV (717-720)
Chilperico I (561-584) Teodorico IV (721-737)
Clotário II (584-623) Childerico III (743-751)
Dagoberto I (623-634)

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