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376\ LABORATÓRIO E PESQUISA

IAZZETTA, Fernando. “A Imagem que se ouve”. In:


P r a d o ,   G i l b e r t t o ; Ta v a r e s , M o n i c a ; A r a n t e s , P r i s c i l a
(org.). Diálogos transdisciplinares: arte e pesquisa. São Paulo :
ECA/USP, 2016. 504 p. ISBN 978-85-7205-154-5 (versão
impressa) e ISBN 978-85-7205-155-2 (e-book), pp. 376-395

Fernando Iazzetta

A IMAGEM
QUE
SE
OUVE
DIÁLOGOSTRANSDISCIPLINARES:ARTEEPESQUISA /377

1.

Não há, de fato, o que contestar: o domínio da imagem é o domínio do visual.


Essa relação está menos na essência do que é imagem, do que na preponderância do
visual como forma direta e imediata de representação. A apropriação desse sentido pe-
las artes visuais e pelos meios de comunicação ajudou a selar a relação entre imagem e
visualidade de maneira inequívoca. Mas imagem é tudo aquilo que representa algo, por
analogia ou semelhança, por figuração. Portanto, não seria um ato irregular, nem mesmo
um mero artifício de metáfora, usá-la na representação de um outro campo que não fos-
se visual. Por que não pensar que os odores que remetem a tanta memória, ou o toque
da mão que reconhece uma superfície, e mesmo o nosso sentido de equilíbrio que nos
mantém no prumo e regula nossa relação espacial com o mundo, por que não pensar
que todas estas são formas imagéticas com as quais criamos vínculos de representa-
ção com as coisas que conhecemos? Pode-se argumentar que há aí uma diferença em
relação à pintura do quadro, à fotografia impressa no papel, ou aos desenhos na tela
do computador: enquanto estes exercem suas formas de representação por meio de
suportes que estão fora de nós, a memória, o tato ou o equilíbrio criam imagens dentro
de nós e merecem, por isso, o apelido de imagens mentais.
Interessa-me aqui pensar em como as imagens operam no campo da arte e,
neste caso, a conexão da imagem com o domínio do visual é ainda mais nítida. Mas o
que dizer do som enquanto formador de imagens? Se é o olho que conduz o entendi-
mento de imagem dentro da arte, o som se coloca como um outro, criando um contra-
ponto entre o olho e o ouvido, entre a visão e a escuta. Mas o que são os sons senão
uma representação acústica de algo? Assim como acontece com aquilo que vemos,
o que ouvimos é a impressão criada pelo nosso aparelho sensório-mental a partir de
estímulos externos: ondas acústicas de natureza mecânica no caso dos sons e ondas
luminosas de natureza eletromagnética no caso das luzes que compõem o que vemos.
Som e luz não são opostos, mas parentes em suas capacidades de impressionarem
nossos sentidos. Ambos originam-se de uma fonte e são refletidos nos objetos que
fisicamente ocupam o ambiente. Ao mesmo tempo em que há uma diferença em suas
naturezas - mecânica e eletromagnética -, há também uma semelhança em seus modos
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de operação na forma de ondas que se propagam no ambiente. Assim, não me parece


um problema tomar ambos, o som e a luz, como geradores de imagem.
Mas deve-se notar antes uma discrepância entre suas estratégias de
representação imagética. Nós vemos os objetos, por meio de suas imagens. Estas
são geradas pela reflexão da luz emitida por uma fonte luminosa, que na maior parte
das vezes não faz parte do próprio objeto. Assim, é a luz de uma lâmpada que
ilumina o cômodo onde estou que é refletida pelos objetos e permite que eu os
veja. Em casos particulares, fonte e objeto se confundem, como na chama do fogo,
na combustão do sol, e nas cada vez mais presentes telas de TVs, computadores,
celulares etc. Quando vejo, dou-me mais conta daquilo que reflete a luz, do que
da fonte luminosa. O som produz um efeito um pouco diverso. Uma fonte - minha
voz, um instrumento musical, um altofalante - coloca o meio em vibração e essas
vibrações chegam a mim por dois caminhos que se somam: diretamente carregadas
pelo meio, e também refletidas por todas as superfícies e objetos que estejam
nas proximidades. Diferente da luz, o som depende de um meio material para se
propagar. Ele não existiria, portanto, no vácuo, como muitos filmes de ficção científica
querem mostrar com explosões e diálogos de astronautas soltos no espaço sideral.
A diferença é que a luz tende a ressaltar a imagem daquilo que reflete, enquanto que
a fonte luminosa assume geralmente um papel coadjuvante em nossa percepção
das coisas. O som, por outro lado, indica muito mais a fonte - um violino, a voz de um
conhecido - e menos os objetos e meios que o conduzem ou o refletem. É claro que
temos uma impressão sonora dos ambientes a partir da maneira como as reflexões
sonoras interagem com objetos e superfícies. Essa impressão, tão cara ao deficiente
visual, passa quase despercebida pela maioria das pessoas. Somente em situações
extremas, como no ambiente de longuíssimas reverberações de uma catedral, ou
diante do eco gerado por um edifício próximo, é que o espaço se apresenta pelo som
antes mesmo de ser operado pela visão. É essa situação extrema que é provocada,
por exemplo, por Joseph Beuys em Plight (1985) em que a sala forrada por densas
camadas de feltro absorve todos os sons criando uma situação inusitada de escuta.
O contraste entre a informação visual da ampla sala contrasta com impressão sonora
causada pela ausência incomum de reflexões sonoras, chamando a atenção do
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espectador para a escuta do espaço, provocada por essa relação de estranhamento


entre o que se vê e o que se escuta.
Quando olho um quadro, não penso nele em termos de ondas luminosas ou
de intensidades e matizes de luz. O que percebo são linhas, formas, cores, padrões e,
quem sabe, texturas que me aparecem como imagens. Não é a luz, mas os materiais
que a refletem que me impressionam, que despertam meu interesse, aguçam minha
curiosidade, ativam minhas memórias. Por acaso não se passa o mesmo com o som?
Quando escuto algo que me interessa, não é o objeto que produz o som que me
chama a atenção? O motor que ronca, o vento que chia na janela, o vendedor que
grita seu pregão, chegam até mim por meio do som, o som os apresenta, os referencia.
O som é a sua imagem.

2.

É claro, então, que a imagem não se reduz ao domínio visual. Há imagens


mentais, há imagens sonoras e, porque não, há imagens espaciais. E se o espaço
pode ser percebido visualmente, ele não é essencialmente visual, já que podemos
senti-lo também de maneira tátil ou auditiva, por exemplo. Ou seja, podemos criar
diversas imagens de algo, que por serem sempre representações, são sempre
imagens parciais daquilo que é representado. Assim, é possível também embaralhar
os campos perceptivos, criar imagens sonoras a partir da pintura, criar imagens
estáticas no cinema, dar a impressão de movimento em esculturas fixas.
A literatura é o campo em que esses domínios todos se entrelaçam com mais
permeabilidade, pois a literatura, não pertencendo a um domínio sensorial específico,
é generosa ao provocar imagens em campos diferentes. É assim que escutamos o
carro-de-boi nas palavras entrecortadas de consoantes repetidas de um Guimarães
Rosa, que não precisa colocar com todas as letras o ‘carro-de-boi’, nem referenciar
explicitamente seu movimento gingado, nem o som rangido das suas rodas para que o
leitor tenha uma nítida imagem sonora, e a partir dela, talvez, a imagem visual, não de
um carro-de-boi qualquer, mas do carro-de-boi exato que o autor quis representar. E o
que dizer então da literatura fantástica de um Alejo Carpentier que é capaz de fazer tocar
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sinfonias, um carnaval veneziano ou um son cubano usando letras e papel. O novelista,


também reconhecido musicólogo das tradições cubanas, usou recorrentemente o
artifício das imagens musicais em seus romances. No seu Concerto Barroco, romance de
1974, Carpentier cria uma narrativa que transita entre o cômico e o surreal ao referenciar
a não menos fantasiosa ópera Montezuma (1733) de Antonio Vivaldi. O texto é recheado
de referências sonoras, mas a própria narrativa mimetiza uma condução musical, com
seus ritmos, polifonias e contracantos. No quinto capítulo, o texto transforma-se numa
sinfonia bárbara e ruidosa em que não se sabe mais se são as vozes dos personagens
ou os sons que eles produzem que estão conduzindo a narrativa:

Antonio Vivaldi arremetió en la sinfonía con fabuloso ímpetu, en juego


concertante, mientras Doménico Scarlatti --pues era él-- se largó a hacer
vertiginosos escalas en el clavicémbalo, en tanto que Jorge Federico
Handel se entregaba a deslumbrantes variaciones que atropellaban todas
las normas del bajo continuo. -”¡Dale, sajón de carajo!” -gritaba Antonio.
“¡Ahora vas a ver, fraile putañero!” --respondía el otro, entregado a su
prodigiosa inventiva (CARPENTIER, 1987, p. 65).

O improvável pagode protagonizado por Vivaldi, Haendel e Scarlatti, em suma os


representantes máximos da dignidade musical do Barroco, mostra uma disputa sonora
entre os três compositores que se carnavaliza quando o criado Filomeno, negro nativo,
retorna da cozinha com novos instrumentos para impor sua própria dinâmica ao concerto:

-”¡El sajón nos está jodiendo a todos!” --gritó Antonio, exasperando el


fortissimo. -”A mí ni se me oye” --gritó Doménico, arreciando sus acordes.
Pero, entre tanto, Filomeno había corrido a las cocinas, trayendo una batería
de calderos de cobre, de todos tamaños, a los que empezó a golpear
con cucharas, espumaderas, batidoras, rollos de amasar, tizones, palos
de plumeros, con tales ocurrencias de ritmos, de síncopas, de acentos
encontrados, que, por espacio de treinta y dos compases lo dejaron solo
para que improvisara. -”¡Magnífico! ¡Magnífico! -gritaba Jorge Federico.
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“¡Magnífico! ¡Magnífico! -gritaba Doménico, dando entusiasmados codazos


al teclado del clavicémbalo (CARPENTIER, 1987, p. 66).

A compreensão da imagem é uma construção cultural e histórica porque a


existência da imagem depende de, pelo menos, um tríplice acordo que envolve
representação, percepção e meio. Estes três elementos só podem ser entendidos
em uma perspectiva cultural específica. Se isso é mais evidente para os modos de
representação contemporâneos intensamente mediados por dispositivos de todo o
tipo, vale a pena notar que nossa percepção, apesar de uma relativa estabilidade em
termos fisiológicos, é fortemente moldada pelo ambiente a que está exposta. Assim,
é plausível considerar que a paleta de cores escuras de tons marrons, ocres e verdes
opacos que um espectador contemporâneo de Manet percebeu em seu quadro Le
Déjeuner sur l’herbe (1862-63) não seja percebida do mesmo modo pelo público que a
visita hoje no Musée d’Orsay, simplesmente porque os apreciadores de arte naquela
época não haviam sido expostos ao contraste das cores luminosas e brilhantes das
telas dos aparelhos onipresentes hoje em dia.
Há muito que os campos da psicologia e da antropologia investigam
objetivamente a influência da experiência sensível e da cultura na formação dos
processos de percepção. Pelo menos no campo da percepção visual esse aspecto
tem sido abordado de modo sistemático. Em “The Influence of Culture on Visual
Perception” (1966), texto referencial do antropólogo Meville Herskovitz e dos psicólogos
Donald Campbell e Marshall H. Segall, é apontada uma dupla caracterização de forças
na produção da percepção que os autores chamam de “absolutismo fenomênico” e
“relativismo cultural”. O primeiro diz respeito ao atributo trazido por uma experiência
ingenuamente consciente de que “o mundo é como aparenta ser” (SEGALL et al.,
1966, p. 4). Neste caso, “[o] observador normal assume ingenuamente que o mundo é
exatamente como ele o vê. [...] Ele não reconhece que sua percepção visual é mediada
por sistemas de inferência indiretos” (SEGALL et al., 1966, p. 5).
Uma decorrência importante do absolutismo fenomênico estaria no fato de cada
observador acreditar que todos veem exatamente do mesmo modo que ele e que se isso
não ocorrer, é em razão de alguma “anomalia perversa”, e não porque cada um de nós
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lida de um modo particular com o aquilo que percebemos. De fato, há uma tendência a
se imaginar que o ato de ver é uma ação não mediada, que não é de percepção, mas
de conhecimento direto do objeto visto. Para a antropologia, o absolutismo fenomênico
estaria também na base de sustentação de um etnocentrismo, já que a crença no
caráter absoluto e universal da maneira como uma certa cultura percebe o mundo seria
introjetada a ponto de servir de parâmetro para valorar uma outra cultura.
O relativismo cultural, por outro lado, iria na direção contrária de um
etnocentrismo (SEGALL et al., 1966, p. 17), que embora reconheça certos aspectos
comuns à natureza humana, ressalta que

em nossos esforços iniciais para delinear as especificidades culturalmente


aprendidas a partir do biológico e do universal, adotamos um viés
sistemático etnocêntrico na compreensão das contribuições culturais.
Prontamente assumimos que o que é verdade para nós é verdade para
toda a humanidade. Não temos consciência da influência pervasiva do
nosso condicionamento enculturativo, pois ele esconde-se no absolutismo
fenomenal, essa aparente forma direta de nossas percepções e cognições
(SEGALL et al., 1966, p.17).

Fazendo uma aproximação com o objeto artístico, em seu instigante trabalho


sobre a história das cores, Michel Pastoreau indica a mesma direção. Em Noir:
Histoire d’une couleur (1988), o historiador mostra como o preto pode ser entendido
historicamente quase como um conceito, mais do que uma cor definida já que a
maneira como era usado e percebido em diferentes contextos vai se modificando
sensivelmente a ponto de indicar que “a cor se define [...] como um fato de sociedade.
É a sociedade que ‘faz’ a cor, que lhe confere suas definições e suas significações,
que constrói seus códigos e seus valores, que organiza suas práticas e determina suas
questões” (PASTOREAU, 1988, p. 20-21). Assim, Pastoreau empreende um trabalho

1. Processo por meio do qual as pessoas adquirem ou cultura na qual elas nasceram (Segall et
al., 1966, p.10)
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de historiador que não é apenas historicista, mas que observa a cor a partir de seu
contexto cultural e de seu papel social, advertindo para resultado vazio a que essa
história levaria se fosse calcada num “neurobiologismo redutor” ou num “cientificismo
perigoso” (PASTOREAU, 1988, p. 21).
Da mesma maneira que aprendemos a ver e a interpretar as imagens visuais,
também aprendemos a escutar e a interpretar as imagens sonoras. Os sons são, antes
de tudo, signos que remetem a algo: a uma fonte sonora, a ambiente sonoro, a um
evento sonoro, mas também a todas as coisas, contextos e situações que podem estar
associadas a esses sons. Um mecânico é capaz de perceber o mal funcionamento de
um carro simplesmente ouvindo sutis flutuações sonoras produzidas pelo motor, as
quais podem ser imperceptíveis para o motorista. E o médico realiza um claro exercício
semiótico ao dar seu diagnostico a partir da auscultação pelo estetoscópio.
Aliás, como bem ressalta Friederich Kittler (1999), a auscultação é uma das
primeiras formas de mediação da escuta, bem antes do surgimento de fonógrafos e
gramofones. O estetoscópio, ao criar uma separação moralmente segura entre o toque
do médico e o corpo do paciente, adicionou a essa motivação ética, uma consciência
de que o som era algo que podia ser manipulado e instrumentalizado. Ainda que a
mediação se desse apenas no processo de transmissão sonora, sem ainda permitir o
seu registro ou a sua reprodução, o estetoscópio tornou-se um dos tantos dispositivos
que ajudaram a modificar a natureza inapreensível e efêmera do som como um evento
objetivo, concreto. Quero dizer, os dispositivos sonoros - do estetoscópio ao rádio, do
altofalante aos tocadores portáteis de música - instrumentalizaram a escuta e permitiram
que ela ‘observasse’ o som, assim como o olho podia observar uma imagem visual.
Um som gravado pode ser reproduzido, cortado, manipulado, invertido, dissecado em
seus componentes acústicos e morfológicos. Essas operações só passam a ocorrer,
de fato, com a possibilidade de fixação e reprodução sonora e o som fixado num
suporte passou a ser o som que se refere a outro som, a um som original. O som fixado
é a imagem de um outro som anterior.
É claro que essa questão se torna mais interessante quando estamos no domínio
da arte pois a imagem na arte apresenta uma potência e complexidade que estão além
das imagens do cotidiano. Além disso, o regime de representação das imagens na
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arte não segue necessariamente os mesmos contornos das imagens comuns. Como
diz Jacques Rancière, as imagens da arte são “dessemelhanças”, quer dizer, são uma
alteração da semelhança (RANCIÈRE, 2012, p. 15). A arte brinca com a figuração, com
as relações de semelhança e reconhecimento da imagens estabelecendo um jogo
em que a representação ocorre performaticamente, induzindo à descoberta daquilo
que é aventado pela imagem, mas não necessariamente mostrado por ela. Ora, isso
é verdade para a imagem pictórica, para a escultura, para fotografia, mas ocorre
de maneira idêntica nas artes sonoras em geral, incluindo aí a música. Mantendo-
se no limite mais seguro das artes pictóricas, do cinema e das palavras, Rancière
parece não chega ao ponto de relacionar som e imagem, mas anuncia claramente
que “a imagem não é uma exclusividade do visível”. Quase de modo didático aponta
a complexidade que se instaura no cinema entre o domínio verbal e o imagético, e
continua: “Há um visível que não produz imagem, há imagens que estão em todas
as palavras” (RANCIÈRE, 2012, p. 16). Na arte haveria uma tensão entre o dizível e o
visível que novamente estaria implicada na produção de relações de semelhança e
dessemelhança, permitindo que tanto o visível se manifeste “em tropos significativos”
quanto a palavra exiba “uma visibilidade que pode cegar”.
Essa relação de des-representação, de representar sem apontar o representado,
e que se enfatiza nas produções artísticas de todo o século XX, faz-se em parte pela
progressiva confusão entre a imagem e o objeto da imagem. Essa questão de repre-
sentação imagética foi bem discutida no campo das artes visuais. No caso da música,
aparece apenas de forma velada, abordada por dois prismas. O primeiro diz respeito à
questão da referencialidade musical, ou à competência da música para representar coi-
sas não-musicais. Se essa questão gerou posicionamentos diferentes ao longo da histó-
ria da música, pelo menos desde o final do século XIX há uma tendência a se considerar
que são as referências intra-musicais, aquelas que mais importam musicalmente. Que
dizer, se a música pode representar algo, esse algo é de natureza musical: suas formas,
estruturas, hierarquias, movimentos. A ideia de uma música programática, que pode-
ria referenciar um programa, uma história, uma cena, acabou perdendo o brilho para
a concepção de uma música pura ou absoluta, constituída de formas em movimento,
como diria Eduard Hanslik num texto de 1854 que tornou-se emblemático dessa querela
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representacional. Hanslik preferiu Brahms a Wagner, cuja queda pela dramaticidade e


construções imagéticas iria contra a vocação da música para expressar-se exclusiva-
mente por suas formas musicais, sem referências extra-musicais.
Embora Hanslik tenha sido associado a uma atitude mais conservadora porque
tentava retornar as formas clássicas de Mozart e Beethoven por um lado, e por outro
ver com ressalvas as musicas “do futuro” de Wagner e Liszt, ele acertou o caminho
que boa parte da produção musical do século XX iria escolher. Ainda que qualquer
generalização nesse sentido seja de alcance limitado, é notável que a música de
concerto durante o século XX (especialmente até a década de 1960) tenha se apoiado
numa perspectiva de auto-referencialidade. De Varèse a Boulez, de Bartok a Xenakis,
é a música a partir da própria música que valida o processo composicional.
O outro prisma é representado pelo adágio do som em si, de um projeto
de liberação do som, como diria o compositor Edgard Varèse. Um dos elementos
mais proeminentes da música de concerto durante o século XX foi a mudança de
perspectiva em relação ao som. Se é claro que a música é o território dos sons, é claro
também, que, ao menos no ocidente, o som musical esteve fortemente associado à
uma forma e representação simbólica, a nota. A nota é uma convenção arbitrária, uma
representação simplificada de uma possibilidade sonora muito definida. Uma nota não
representa qualquer som, mas um som de altura determinada, virtualmente classificado
dentro de uma escala que permite que ela seja categorizada e hierarquizada em
relação a outras notas. Ou seja, a nota é um recorte estreito dentro do largo espectro
dos sons audíveis. Sua existência reduziu o conceito de som ao conceito muito mais
estrito de som musical, eliminando tudo que pudesse ser considerado ruído para a
música. Por outro lado, foi essa regulação sonora que permitiu que se constituísse a
maior parte do repertório musical que conhecemos no Ocidente. Permitiu ainda que
se criasse um sistema eficiente de notação, o qual por sua vez legitimou o papel da
nota enquanto representação suficiente do som musical. Em certa medida, a música
do século XX se propôs a alargar esse espectro, incorporando o que anteriormente
seria considerado ruído e, mais do que isso, implicando uma atenção para aspectos
qualitativos do som que transcendiam a noção de nota musical. Com isso surge uma
estética da sonoridade, a possibilidade de se estruturar um pensamento musical, não
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mais a partir da abstração sonora, mas do concretude dos sons em sua diversidade.
O ápice desse processo se apresenta com o projeto da música eletroacústica a partir
do início dos anos de 1950. Na eletroacústica a matéria composicional é o som e as
noções de nota e de notação praticamente perdem o sentido. Esse processo estende-
se de certa forma até hoje. A ideia de tomar o som em si, expressa mais uma reação
à abstração imposta pela nota, do que uma visão reducionista do fenômeno sonoro.
Ela reflete a incorporação de uma abertura no processo composicional alinhada com o
projeto das vanguardas de busca pelo novo. Reflete também a tentativa de afastamento
de uma poética dominada pela sensibilidade subjetiva em direção a um formalismo
controlado. Há uma coincidência entre o projeto da música em torno do som com
a atenção projetada por outras artes em relação aos seus elementos essenciais. O
crítico Harold Rosenberg, comenta que, na esteira das rupturas trazidas por certos
movimentos artísticos nas décadas de 1950 e 60, o artista de vanguarda, “desdenha”
de tudo que não seja essencial: “Ao invés da pintura, ele lida com espaço, ao invés
de dança, poesia, cinema, ele lida com movimento, ao invés de música, ele lida com
sons” (ROSENBERG, 1983, p. 12-13). Mas se nas artes visuais esse essencialismo
se alternou e coabitou outras perspectivas representacionais, na música a ênfase
colocada sobre a matéria sonora funcionou como uma via dominante.

3.

A possibilidade de se pensar o som como imagem está fortemente vinculada ao


surgimento dos meios de registro e reprodução sonora. Antes disso, o som era percebido
como algo de natureza volátil, abstrata e efêmera. Sua intangibilidade criava uma dependência
estrita com a memória, já que o som deixava de existir assim que acabava de soar. Diferente
das representações do visível, em que sempre foi comum a inscrição de traços sobre todo
tipo de material para representar objetos, não havia até às últimas décadas do século XIX
um meio que pudesse reter o fenômeno sonoro. O fonógrafo permitiu pela primeira vez
que se instaurasse um elemento de mediação entre a produção do som e a sua escuta.
Antes disso, produção e recepção eram na verdade faces de um mesmo processo e não
era possível separar a escuta da geração do som, não era possível subverter essa ordem
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em que um instrumento colocava o ar em movimento e o ouvido reagia as vibrações do ar.


Mas os sistemas de mediação explodiram a escuta rompendo os vínculos de espaço e de
tempo com os sons escutados. O fonógrafo e toda a linhagem de aparelhos sucessores
até os tocadores de música em nossos computadores e celulares, desconectaram a escuta
do processo mecânico de geração do som, abrindo a possibilidade de colocar entre eles
um novo espaço e um novo tempo, arbitrariamente escolhidos pelo ouvinte. O som passou
então a operar da mesma maneira que outras formas modernas de reprodução imagética,
como o cinema e a fotografia.
É certo que a nossa percepção da presença dessa mediação, daquilo que chamo
de fonografia, foi se dissolvendo ao longo da primeira metade do século XX à medida
que se formava uma indústria fonográfica, que o rádio se tornava onipresente e que o
cinema incorporava definitivamente o áudio como parte de sua linguagem. Mas coube
a Pierre Schaeffer fazer a conexão entre o som e as novas formas de escuta mediada.
Schaeffer foi o criador da musique concrète, primeira forma do que chamamos de música
eletroacústica. Engenheiro de rádio, intelectual de formação ampla, comunicador e
músico amador, Schaeffer se debatia desde o início dos anos de 1940 com a questão do
som mediado, o som produzido e reproduzido por meios tecnológicos. Em outubro de
1948, quando difundiu os seus Cinq Études de Bruits em um programa da Radiodiffusion
Française (agora chamada Radiodiffusion-Télévision Française), não apenas inventava
uma nova maneira de fazer música, mas dava início a um longa reflexão acerca das
relações entre produção, registro e reprodução sonora. No centro dessa cadeia, Schaeffer
colocou a escuta, esse elemento que tornou-se vital para falarmos de som e de música.
Aparentemente a música foi, entre as artes, a que mais levou longe o preceito de um
território autônomo. Instituiu um campo de estudo próprio já no século XVIII, a musicologia,
que permitia falar de música em termos de formas, estruturas, progressões e hierarquias.
Com ajuda parceira da crítica, a musicologia instaurou um discurso próprio não apenas para
se desvendar a música, mas também para prover - ainda que indiretamente - critérios de
valoração para obras musicais. Não parece ser algo banal que uma arte possa ter o respaldo
de uma ciência que lhe é própria. Daí, para se proclamar como autônoma, definir seus
próprios critérios, olhar-se pelo próprio espelho, é um passo relativamente simples. Não quero
aqui fazer uma nenhuma crítica à musicologia, mas apenas apontar, talvez de maneira quase
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irresponsavelmente simplificada, que a musicologia ajudou a música a construir sua própria


régua musical e que aquilo que não fosse mensurável por essa régua quase sempre tornou-
se indesejável ou secundário para a música, e mais ainda para o discurso sobre ela.
Uma dessas questões historicamente renegadas foi a escuta. Dizer que a
música é autônoma significa dizer que ela não precisa reportar-se a quais construções
complexas e tramas enviesadas precisamos construir para nos relacionarmos com
ela. Quase como se fosse possível imaginar que se uma música nos soa interessante
é simplesmente porque há algo inerentemente interessante dentro dela, algo que a
expertise do compositor genial soube registrar em notas, ritmos e agógicas. A escuta
seria apenas um receptáculo, como os buraquinhos daqueles brinquedos de criança
recortados para receber passivamente peças de madeira com seus bem desenhados
contornos quadrados, triangulares ou redondos. Deixada para segundo plano, a escuta
não mereceu até meados do século XX nenhuma atenção, mas essa situação começa a
mudar com o trabalho experimental de compositores como Pierre Schaeffer e John Cage.
Além disso, a fonografia foi tornando insustentável que a escuta se mantivesse
nessa posição desprestigiada. O simples acesso a discos e a difusões radiofônicas
desmascarou a escuta, mostrou o seu poder, expôs os seus limites. Com a fonografia a
escuta pode livrar-se das limitações da memória, já que a gravação podia ser repetida
indefinidamente. Ele pôde criar seus próprios rigores de valoração uma vez que cada
gravação podia ser confrontada com uma outra e um compositor comparado a outro
com muita facilidade. A possibilidade da escuta distrair-se com outros sons, cada vez
mais presentes, colocou-a na agenda do processo de composição musical.
A musique concrète, e de certa forma toda a música eletroacústica, não é nada mais
que uma música da escuta. Contrastando com o rigor formal do serialismo integral - estética
vigente e quase norteadora da música de concerto da vanguarda logo após o final da Segunda
Guerra - a música concreta vai recolher gravações de sons do mundo e levá-los ao estúdio
para que sejam manipulados segundo a experiência da escuta. O ouvido é a nova régua da
composição e é do som “concreto” que vão emergir qualidades musicais. Com ajuda da
fonografia, o compositor vai montar esses sons de maneira a torná-los música. Assim como
no cinema a câmera e montagem constituíram novos modos de ver, a gravação sonora e a
montagem no estúdio eletroacústico vão criar novos modos de escutar.
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Em termos musicais isso representou uma mudança significativa. O próprio


Schaeffer percebeu o tamanho da empreitada e elaborou uma espécie de ciência da
escuta com seu admirável Tratado dos Objetos Musicais (SCHAEFFER, 1966). Em
primeiro lugar foi preciso desconstruir nosso entendimento de escuta, observar suas
facetas e mesmo prover um plano de diferenciação em que Schaeffer estabeleceu seus
quatro modos de escuta: ouïr, écouter, entendre e comprendre. Depois, foi necessário
remeter-se ao próprio som. Sua característica inefável fez com que o som sempre
estivesse associado a algo além dele: o som do violino, o som que traz uma lembrança,
o som daquela música. O som sempre remeteu ao outro. Nunca soubemos descrever
um som sem nos reportarmos à sua fonte ou sem indicar uma situação em que ele
poderia ocorrer. Quando tentamos ser um pouco mais precisos somos obrigados a
recorrer a metáforas táteis e visuais: um som áspero, um som cheio, um som escuro
Schaeffer entendeu que para falarmos do som, para descreve-lo, era preciso aprender
primeiro aprender a escutá-lo e percebe-lo como uma unidade. Surge daí o conceito
de “objeto sonoro” para evidenciar o som em suas características qualitativas e
perceptíveis. Um objeto sonoro é um evento sonoro delimitado que se mostra ao ouvinte
com características audíveis específicas. Se na música tradicional era possível fazer um
solfejo, ou seja, criar uma imagem mental do que soariam as notas abstratas da partitura,
Schaeffer propôs um solfejo dos objetos sonoros. Para isso criou uma tipomorfologia
desses objetos que permitiria uma descrição tão precisa e objetiva quanto possível de
cada som. Ao contrário da música tradicional de concerto, a música concreta não seria
mais composta por elementos ‘abstratos’ (as notas escritas, as pequenas bolinhas e
hastes desenhadas num pentagrama), mas por objetos sonoros ‘concretos’, gravados e
manipulados no estúdio eletroacústico. Para essa nova música tornou-se necessária uma
nova escuta, não mais focada nas relações estruturais da música de concerto tradicional,
mas nos objetos sonoros. Mas para que esses objetos revelassem suas qualidades
intrínsecas eles precisavam despir-se de suas referenciais, de suas simbologias, de
seus significados. Para que a escuta se concentrasse nas qualidades do objeto sonoro,
Schaeffer cria um exercício, o da escuta reduzida. Inspirado na redução fenomenológica
de Edmund Husserl, Schaeffer propôs uma escuta reduzida ao fenômeno sonoro que
apagaria todas as conexões externas às próprias qualidades perceptivas do som. Essa
390\ LABORATÓRIO E PESQUISA

escuta reduzida, por sua vez seria ajudada pelo fato de que, na música concreta, a
difusão dos sons era mediada pelos alto-falantes. Ou seja, durante a audição, as fontes
dos sons não são visíveis ao ouvinte. A esta ausência das fontes, ou seja, à situação
em que os altofalantes funcionavam como uma cortina que esconderia dos ouvintes a
origem dos sons, Schaeffer chamou de situação acusmática. Fecha-se aí um grande
loop: a música concreta coloca a escuta como balizadora do processo composicional
a partir da seleção e manipulação dos objetos sonoros. Para garantir que a escuta se
concentre nas qualidades desses objetos, Schaeffer propõe uma escuta despida de
referencias externas, a escuta reduzida, a qual é facilitada pela situação acusmática,
que por sua vez é a situação em que se estabelece a música concreta. Não é de se
estranhar que depois de certo tempo, os termos música concreta e música acusmática
se tornaram intercambiáveis para se referir a um mesmo repertório musical.

4.

Ao estenderem a cadeia de mediação entre a produção e a escuta do som,


as músicas eletroacústicas ajudaram a evidenciar o caráter do som como imagem. O
som gravado de uma voz é tão somente uma referência, uma figuração da voz original,
do cantor que a cantou, do momento e do lugar do canto, assim como uma fotografia
de um rosto, não é a pessoa, mas a sua imagem.
O compositor François Bale, colaborador de Schaeffer, esteve atento à
mudança nos modos de representação do som e talvez tenha sido um dos primeiros
autores a estabelecer claramente uma relação do som como imagem. Para Bayle essa
relação estava ligada à questão da mediação, justamente àquilo que se interpunha
entre produção e recepção, criando um estagio intermediário de representação:

Alongando o presente da escuta, introduzindo tanto a representação


quanto a repetição, a imagem sonora obtém um status de um signo, pelo
fato (significativo) que entre a causa (física) e o efeito (fenomenológico) se
interpõe uma forma (BAYLE, 1993, p. 50).
DIÁLOGOSTRANSDISCIPLINARES:ARTEEPESQUISA /391

Esse som mediado, que representa de maneira isomórfica um som original,


foi chamado por Bayle de i-son ou imagem de som, traçando um paralelo entre a
imagem visível e a imagem sonora. Bayle condiciona a ideia de imagem sonora ao
som mediado, ao som gravado e reproduzido e que se coloca como representação
de um outro som original. Mas podemos extrapolar essa ideia e pensar que o som,
qualquer som, é sempre uma imagem porque é sempre capaz de remeter a uma
qualidade figurativa, seja dele mesmo enquanto som, seja daquilo que pode estar
relacionado a esse som. Essa relação foi enfatizada mais de uma vez pelo compositor
Rodolfo Caesar. Para ele, a dimensão imagética do som prescinde da mediação, pois
o som é sempre capaz de gerar uma imagem. Diz Caesar:

O i-son proposto por François Bayle implica nessa dependência de um


suporte (ou dispositivo da ordem das arts-relais). O resgate que proponho,
não. Gostaria apenas de restituir ao som sua imagética, independentemente
de sua mediação por registro em suporte ou por dispositivo de amplificação
extra-corporal. O som é imagem mesmo quando o único suporte disponível
é o cérebro, e quando se transmite de boca à orelha, ou das coisas soantes
para a orelha. Falo da imagem mental como imagem primordial, como
algo que produzimos mentalmente a partir de nosso aprendizado frente às
transformações operadas a partir das primeiras mudanças nos paradigmas
tecnológicos. A imagem depende do suporte, sim, e devemos lembrar que,
antes do suporte ser o ‘suporte tecnológico’ de meios extra-corporais... era
corporal... [...] A única diferença entre os suportes técnicos e o cérebro está
na exterioridade deles relativa ao corpo (CAESAR, 2012).

Por outro lado, Caesar ressalta também que até o surgimento dos meios de gra-
vação a ausência de suportes impossibilitou que se admitisse o status imagético do som.
De fato, posso dizer que a fonografia trouxe entre os seus efeitos colaterais, a percepção
de que, se o som gravado está no lugar de outro som, e que, se a relação entre o som
gravado e o som original se dá por uma figuração, então o som estaria apto a operar
como imagem. Caesar propõe que “todo som na verdade gera ou é imagem, e que a
392\ LABORATÓRIO E PESQUISA

disparidade de status entre ‘imagem’ e ‘som’ deveu-se principalmente à falta de suporte


físico onde se pudesse fixar o som - até a invenção do fonógrafo” (CAESAR, 2012).
A inferência de Caesar a respeito da ação do som como imagem acompanha
também uma reação das artes do som em relação a uma espécie de primazia dada ao
som como elemento condutor da composição musical durante o século XX. A expansão
das sonoridades na música da modernidade mostra-se clara desde o início do século:
é evidente já a partir de Debussy, mas percorre nitidamente os trabalhos de Varèse e
Messiaen; é emblemática na música dos grandes nomes da vanguarda do pós-guerra
como Stockhausen, Boulez, Xenakis, Nono, Scelci, Berio; torna-se explícita com as
músicas eletroacústicas a partir da década de 1950; é explorada nas diversas práticas
experimentais que se associam, mas não se restringem, ao trabalho e pensamento de
Cage; e reascende ainda com a música espectral francesa nos anos de 1970. Mas
parece que a consequência de toda essa atenção auricular em torno do fenômeno
sonoro, de suas qualidades acústicas, de sua potencialidade dramática, foi gerar um
esgotamento, uma pequena crise representacional sonora. Na década de 1960, a música
experimental, ajudada por movimentos em sinergia com outras artes, como Fluxus, deu
os primeiros sinais de um resgate do poder figurativo do som para além do próprio som.
É assim que surge uma música conceitual, em que o som se coloca como imagem, não
mais por estar fixo sobre um suporte, mas porque ele mesmo torna-se um suporte para
representar outras coisas de natureza não-sonora: lugares, espaços, objetos.
Tomo um exemplo entre as tantas partituras verbais escritas na década de
1960. A partitura de Piano Piece for David Tudor #1 (1960) de La Monte Young não tem
notas nem som, mas dialoga com a abundante cultura musical do ocidente ao sugerir
que o piano seja alimentado por um fardo de feno:

Piano Piece for David Tudor #1


Bring a bale of hay and a bucket of water onto stage for the piano eat and
drink. The performer may then feed the piano or leave it to eat by itself. If the
former, the piece is over after the piano has been feed. If the later, it is over
after the piano eats or decides not to.
October 1960
DIÁLOGOSTRANSDISCIPLINARES:ARTEEPESQUISA /393

E Christian Marclay vai embaralhar o sonoro com o visual, o audível com o visível,
em diversas de suas peças sonoras, como por exemplo em Chorus (1988), uma coleção
de fotografias em closeup de bocas de cantoras e cantores de jazz. Emolduradas e
dispostas em conjunto na parede de exposição, torna-se impossível não escutar a voz
muda, mas potente que elas representam.
A partir da década de 1970, uma profusão de artistas que trabalhavam com o som
passou a adotar nomes diferentes para demarcar seus territórios, não sem indicar um certo
confronto com a música. Sound art, sonic art, soundscapes são alguns dos termos que
apontaram para uma poética cujos elementos se contrapõem aos das poéticas musicais,
seja nos modos em que se estabelecem narrativas, seja nas distensões temporais e
na inclusão do espaço como elemento forte na construção da obra. Mas entendo que
há especialmente uma mudança no campo da representação que, talvez em razão da
miscigenação das artes sonoras com outras artes visuais, passa a operar pela geração
de imagens sonoras. É o que Seth Kim-Cohen (2009) vai chamar de arte não-coclear e
Rodolfo Caesar (2008) vai se referir como arte não-timpânica, ambos fazendo referência à
arte não-retiniana colocada por Marcel Duchamp. Em suas particularidades, Kim-Koehn e
Caesar ressaltam a existência de uma produção que traz à tona a exploração do potencial
imagético dos sons para mostrar o que está fora deles. Essa produção contrasta com a
intra-referencialidade musical, ou seja, a tendência da música em manter seu discurso
sonoro voltado para as relações criadas no âmbito da própria construção musical.

5.

Ao trazer a ideia do som como imagem, ou como gerador de imagem, não tenho a
intenção de rivalizar o campo auditivo com relação ao visual, nem mesmo elaborar alguma
nova forma representacional dos elementos sonoros no campo das artes. Penso apenas
que isso reflete uma mudança em que a profusão de sons, de dispositivos sonoras, dos
clics e blips que nos rodeiam, dos altofalantes que miram nossas orelhas e dos fones-de-
ouvido que vestimos, tudo isso ilumina (para usar, mais uma vez, uma metáfora visual) o
som de modo que passamos a prestar atenção nele com uma intensidade inesperada.
O surgimento da fonografia, teve um papel fundamental nesse sentido ao tornar possível
394\ LABORATÓRIO E PESQUISA

recortar o som do ambiente e acondicioná-lo no suporte de gravação. Essa separação


entre figura (som) e fundo (ambiente) objetificou o som: a partir de então pode-se
manipular o fenômeno acústico como se manipula um objeto. A música no século XX
ofereceu sua contribuição ao trazer o elemento qualitativo do som para a composição,
rivalizando o domínio da nota no processo criativo. O som virou imagem, por meio de sua
performance, ou seja, passou a atuar no proposito de querer dizer algo por ele mesmo.
Com isso, o som passou a mostrar tudo aquilo que a música quis disfarçar com a ideia
de nota: o ruído, as suas pequenas flutuações, rugosidades e imprecisões. O ouvido
exercitou uma nova escuta fazendo um zoom-in nas qualidades sonoras. E isso não se
restringe às músicas mais experimentais e radicadas num pensamento de vanguarda.
A indústria fonográfica de maneira geral promoveu um afiamento da escuta com suas
técnicas sofisticadas de estúdio e aparelhos cada vez mais sensíveis. Note-se mesmo o
surgimento de uma ampla gama de músicas ‘de entretenimento’ plenamente fundadas
numa estrutura rítmico-sonora, como as músicas eletrônicas de dança que se contrapõem
às estruturas rítmico-melódico-harmônica das formas tradicionais de canção. Por outro
lado, tanto dentro quanto fora da arte, fazemos um zoom-out na profusão elementos
que buscam criar sentido entre tantas telas, tantos dispositivos, tantos aplicativos. Nesse
caso o som exerce plenamente seu potencial para referenciar coisas, para figurar aquilo
que quer indicar. Se isso tornou-se prática comum nas artes do som, tornou-se também
moeda corrente em qualquer outro campo fora do meio artístico, como no design (que
há algum tempo incluiu o sound-design), na publicidade (em que o som delimitou um
território próprio, o sound-branding), na comunicação (basta pensar na infinidade de sons
que acompanham os aplicativos dos nossos smartphone), na ciência (em que o conceito
de sonificação vem ganhando espaço como estratégia complementar para compreensão
de dados complexos, num domínio que sempre foi exclusivamente visual). Entre estes
zoom-in e zoom-out, o som mostra a si mesmo e naquilo que ele pode representar, como
imagem. Entendo, portanto, que as imagens formam um processo de representação
muito particular e que vamos aprendendo a ler e escutar essas imagens à medida em que
elas vão se tornando significativas. Nesse sentido, concordo com Hans Belting quando
diz que as “imagens não existem por si mesmas, mas elas acontecem” (BELTING, 2005,
p. 302). Portanto, produzimos imagens, não apenas no sentido de que criamos objetos
DIÁLOGOSTRANSDISCIPLINARES:ARTEEPESQUISA /395

imagéticos, mas também porque, fabricamos a conexão em nossas cabeças entre as


coisas e as figuras, sonoras ou visuais, dessas coisas. Portanto, para que exista uma
imagem é necessário um ato de performance de quem escuta ou de quem vê.

Referências

BAYLE, F. Musique Acousmatique - Propositions... ...positions. Bibliotèque de Recherche


Musicale. Paris: INA-GRM / Éditions Buchet/Chastel, 1993.
BELTING, H. Image, Medium, Body, A new approach to iconology. Critical Inquiry. Winter
2005, v.31, n.2, p. 302-319.
CAESAR, R. O som como imagem. Anais do IV Seminário Música Ciência Tecnologia:
Fronteiras e Rupturas. São Paulo: 2012, p. 255-262.
_______________. O tímpano é uma tela! Texto para apresentação da obra Tristão
& Isolda, no catálogo da exposição Arte & Música, na Caixa Cultural, Rio de
Janeiro, novembro e dezembro de 2008. Disponivel em: <https://www.academia.
edu/1489464/O_Tímpano_é_Uma_Tela_terceira_versão>.
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SEGALL, M. H.; CAMPBELL, D. T; HERSKOVITS, M. J. The Influence of Culture on Visual
Perception. Indianapolis / New York: The Bobbs-Merrill Company, 1966.