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Ludwig Binswanger

TRES FORMAS
DA EXISTÊNCIA
MALOGRADA

Extravagância
Excentricidade
Amaneiramento

ZAHAR

m
EDITORES
PSYCHE

Para referência bibliográfica adicional.


Ver lista no final do Volume
LUDWIG BINSWANGER

TRÊS FORMAS
DA EXISTÊNCIA
MALOGRADA
Extravagância
Excentricidade
Am aneiram ento

Tradução de
G UID O A . DE A L M E ID A
Professor de Filosofia da
Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro

ZAHAR EDITORES
RIO DE JANEIRO
Título original;
D rei Formen Missglückten Daseins — Verstiegenheit,
Verschrobenheit, M anieriertheit

Traduzido da primeira edição alemã, publicada em 1956


por MAx NIEMEYER VERLAG, de Tübingen, Alemanha

Copyright © 1956 by Max Niem eyer Verlag

capa de
ÉRIco

1977

Direitos para a língua portuguesa adquiridos por


Z A H A R E D I T O R E S
Caixa Postal 207, ZC-00, Rio
que se reservam a propriedade desta versão

Impresso no Brasil
A M A R T IN HEIDEGGER

i sinal de gratidão
N o ta P re lim in a r d o T ra d u to r

A escolha dos termos extravagância, excentricidade e amaneira­


mento para traduzir Verstiegenheit, Verschrobenheit e Manieriert­
heit encontra-se justificada em notas separadas do tradutor no co­
meço de cada um dos capítulos. O termo malogrado foi escolhido
de preferência a frustrado para traduzir missglückt ou mislungen,
porquanto Binswanger tem em Vista não o simples desapontamento
ou a não-satisfação de um desejo, tendência ou projeto do ser
humano, mas o malogro ou fracasso da existência em sua totali­
dade "como ser-aí" ou "ser-no-mundo”.
ÍNDICE

Prefácio .......................................... ..................................................................... 9

I. A Extravagância ................................................................................... 13
II. A Excentricidade .................................................................................. 22

A. Clínica e Psicopatologia ............................................................ 24


1. Os Psicopatas Excêntricos .............................................. 24
2. Excentricidade e Esquizofrenia ..................................... 26

B. A Expressão "Excentricidade" e Suas Perífrases ........... 37

C. A Significação Antropológica da Expressão “Excentrici-


dade" e de Suas Perífrases ................................................ 41

D. A Significação Ontológica da Expressão "Excentricidade"


e de Suas Perífrases .............................................................. 45

E. Análise Existencial da Excentricidade .................................. 49


Primeiro Exemplo ....................................................................... 51
Segundo Exemplo ....................................................................... 57
Terceiro Exemplo ....................................................................... 61
Quarto Exemplo ......................................................................... 65
Quinto Exemplo ......................................................................... 71

F. A Essência da Excentricidade ............................................... 80

G. Tomada de Posição Quanto às ConcepçõesClínicas da


Excentricidade

Excentricidade, Amaneiramento, Fanatismo ...................... 92

III. O Amaneiramento ................................................................................ 106

A. As Perífrases do Amaneiramento na Linguagem Colo­


quial e na Linguagem da Psicopatologia ................ 107

B. Para uma Compreensão e Descrição Clínicas dosJeitos


Amaneirados Esquizofrênicos ............................................. 11I
8 ÍNDICE

C. A Propósito do Amaneiramento como Forma Existencial

Esquizofrênica ............................................................... 125

O Caso Jürg Zünd como Paradigma ....................... 125

D . O Maneirismo como Estilo Artístico ...................... 132

1. Nas Artes Plásticas ......................................................... 132


2. N a Arte Literária ........................................................... 147
Excurso sobre a Desagregação ..................................... 161

E. Para uma Análise Existencial ............................................ 169

1. A Partir da Linguagem Coloquial ........................... 169


2. A Partir do Maneirismo Artístico e do Amaneira­
mento como Forma Existencial ............................ 178
3. Colocações Iniciais para uma Análise Existencial do
Amaneiramento ............................................................ 187

F . Extravagância, Excentricidade, Amaneiramento e Esqui­


zofrenia ....................................................... ....................... 203
PREFÁCIO

Os três tratados aqui publicados constituem uma etapa do ca­


minho que leva à compreensão existencial-analítica do decurso e
das formas da existência (Dasein) esquizofrênica. Nessa medida,
constituem uma contrapartida de meus "Estudos sobre o Proble­
ma da Esquizofrenia", publicados no Schweizer Archiv für Psy­
chiatrie und Neurologie de 1945 e 1952. Esses estudos tinham por
ponto de partida a descrição clínico-psiquiátrica da sintomatolo­
gia e da evolução de "casos" particulares da esquizofrenia. Seu
objetivo, porém, era a compreensão existencial-analítica desses
''casos'', no sentido das transformações dos modos da existência
humana em geral. Da mesma maneira, os tratados aqui reunidos
têm por ponto de partida as denominações e descrições clínico-
psiquiátricas de determinados sintomas esquizóide-psicopáticos e
esquizofrênicos no sentido de características diagnósticas. Mas seu
objetivo é, mais uma vez, a exibição e a compreensão das transfor­
mações e formas existenciais, nas quais temos que ver as incon-
tornáveis condições de possibilidade para que o psiquiatra extraia
esses ''sintomas", a titulo de características diagnósticas, do curso
da existência humana e os reduza ao nível do conhecimento psi­
quiátrico.
Por essa razão, tanto nos trabalhos mencionados, quanto nos
presentes estudos, a primeira coisa a fazer foi, mais uma vez, re­
tirar a psicopatia esquizóide e a esquizofrenia do quadro estreito
do juizo de valor biológico — como deve ser considerado o juízo
médico — e do estado-de-coisas médico-psiquiátrico da doença e
da morbidez, a fim de transportá-las para o quadro mais amplo
da estrutura existencial ou do ser-no-mundo humano, cujo a priori
foi ''trazido à luz'' por Heidegger em sua analítica existencial.
Para evitar equívocos, observemos desde logo, porém, que a ana­
lítica existencial constitui tão-somente o (indispensável, é verda­
de) solo e fundamento ontológico para as nossas próprias inves­
10 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

tigações. Elas próprias ocupam-se apenas da estrutura fáctica ou


ôntica de determinadas formas e transformações existenciais. Pos­
to que também podemos designar as múltiplas estruturas das
possibilidades existenciais através da expressão francesa condition
humaine, até mesmo o leitor sem formação filosófica poderá per­
ceber que, aqui, estaremos sempre tratando de temas e pesquisas
concernentes ao homem puramente enquanto homem. Assim, a
extravagância, a excentricidade, o amaneiramento1 revelam-se,
como mostraremos, como ameaças humanas universais, isto é,
irnanentes a existência humana. Por conseguinte, a extravagância,
a excentricidade e o amaneiramento — voltamos a ressaltar —
não são mais considerados aqui num sentido médico-psiquiátrico
como "inferioridades", "desacertos" ou ''sintomas" doentios. Tudo
aquilo que designarmos como psicopatia ou doença mental será
uma forma determinada de semelhante frustração ou malogro,
restrita ao quadro da psiquiatria enquanto ciência médica e redu­
zida ao nível do conhecimento psiquiátrico.
Como mostrou W. Szilasi em sua obra profunda e, aliás, in­
dispensável para nossas investigações, Macht und Ohnmacht des
Geistes (Potência e Impotência do Espírito), o sentido das ex­
pressões que, a propósito do ser-aí, se referem ao êxito ou ao su­
cesso, à frustração ou ao malogro remonta essencialmente a Pla­
tão e Aristóteles (e, mesmo, a Heráclito), mas domina também
a doutrina de Kierkegaard sobre a "possibilidade'' como "a mais
difícil de todas as categorias" e, sobretudo, o conjunto da analíti­
ca existencial de Heidegger. Pois o ser-aí é aquí considerado e
compreendido como "a possibilidade de ser livre para seu mais
próprio saber-e-poder-ser". Em vez de frustração ou malogro (do
ser-aí), trata-se aqui do fato de que o ser-aí continuamente ''abdica
das possibilidades de seu ser", "agarra-as" ou "equivoca-se" ao
tentar agarrá-las, ou do fato de que ele pode ''extraviar-se e equi­
vocar-se a respeito de si mesmo"2. Aproveitemo-nos disso para de
novo apontar para o fundo existencial-ontológico de nossas inves­
tigações ônticas.
A mesma distinção vale para o traço comum aos três modos
de frustração do ser-aí, a saber, os três modos pelos quais sua
autêntica movimentação ( Bewegtheit) histórica pode vir a se ''pa­
ralisar" ou ''chegar ao fim". Muito embora, para nós, ''a movi­
mentação do ser-aí" não signifique, é claro, a ''movimentação
de um objeto simplesmente subsistente", deixaremos, aqui também,
1 Para a justificação da escolha desses termos como tradução de Ver-
stiegeneit, Verschrobenheit e Manieriertheit, v. as notas preliminares de
cada capítulo (N. do T . ) .
2 Cf. Heidegger, Sein und Zeit, p. 144.
PREFÁCIO 11

num segundo plano, o esclarecimento apriorístico ou, como diz Hei­


degger, o "esclarecimento ontológico do 'contexto vital', isto é, da
extensão, da movimentação e da persistência específicas do ser-aí”
e, juntamente com ísso, "o horizonte da constituição temporal
desse ser-aí'',3 limitando-nos à exibição das diferentes estruturas
da transformação fáctica dessa movimentação no sentido da extra­
vagância, da excentricidade e do amaneiramento.
Disso tudo resulta que nosso propósito é destacar as diferen­
ças que ressaltam sobre a base desse traço comum, para saber
afinal o que tanto a linguagem coloquial quanto a Psicopatologia,
bem como em parte também a teoria da arte, realmente querem
dizer com essas palavras. Com semelhante saber, a teoria da ex­
travagância, da excentricidade e do amaneiramento deixa de ser
a mera descrição das impressões que tais formas da existência pro­
duzem no parceiro existencial, abandonando a esfera vaga das
significações verbais usadas comumente para designar tais im­
pressões, para se colocar no terreno da experiência analítico-feno-
menológica. Naturalmente, isso não deixará de ter um efeito re­
troativo sobre a compreensão clínico-psiquiátrica desses modos da
existência frustrada como dados para um diagnóstico ou ''sinto­
mas patológicos".
Para terminar, é oportuno lembrar que nosso trabalho, ao
destacar as três estruturas distintas do ser-aí frustrado, de modo
nenhum pretende ser exaustivo. Semelhante exaustividade só seria
alcançada se cada uma dessas estruturas constituísse o tema pró­
prio de uma investigação sistemática com relação ao Quem da
existência, do ser-em e da mundanidade, do ser-com, do convívio
{Miteinandersein) e do ser-se-si-a-si-mesmo (Selbstsein), do de­
caimento ( Verfallen) da facticidade e do estar-jogado do ser-aí.
Mas, com isso, nossas investigações teriam pretendido uma exten­
são excessiva. O que nos importava era mostrar quais as peculia­
ridades que se mostram essenciais para cada uma das diferentes
estruturas.
Para facilitar a compreensão, observe-se de antemão que res­
saltamos como essencial para a extravagância a desproporção entre
a "amplidão da experiência"4 e a "elevação da problemática" da
existência humana, ou, para falar com Ibsen, a desproporção entre

3 Ibid., pp. 374 ss.


4 Er-fahrung; ao separar desse modo a palavra alemã correspondente à
nossa "experiência", Binswanger chama a atenção para sua derivação do
verho "fahren", que significa “andar" ou “viajar em um veículo". Segun­
do os dicionários, o verho “erfahren" (fazer a experiência de) significa
etimologicamente; "atravessar (um país, uma região), reconhecer, encon­
trar, conhecer" (N . do T .).
12 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

a elevação da capacidade de construir e a da própria capacidade


de subir. Para a excentricidade, porém, consideramos essencial a
desproporção dos contextos referenciais mundanos no sentido do
''través" ("Q uere"). O que se mostrou essencial para o amaneira­
mento foi, por sua vez, o sentimento desesperado e medroso de não
poder ou não saber, ser-se-a-si-mesmo, juntamente com a busca
de apoio numa imagem ( Vor-Bild) e tomada ao domínio público
da "Gente" (Man) e a hiperenfatização dessa imagem modelar
com o fim de ocultar o desenraizamento, o mundo inseguro e a si­
tuação ameaçada da existência. Para terminar, observemos mais
uma vez expressamente que o decaimento no sentido de Heidegger
desempenha um papel decisivo em todas as nossas formas de exis­
tência frustrada.
O pequeno ensaio sobre a extravagância, entitulado "Vom
anthropologischen Sinne der Verstiegenheit" ("Do sentido antro­
pológico da extravagância"), foi publicado pela primeira vez em
Nervenarzt (20.° a n o , 1.° cad., 1949) em homenagem a meu pri­
meiro e venerado professor de psiquiatria, o professor Karl
Bonhoeffer, por ocasião de seu 80.° aniversário. O ensaio encontra-
se também no segundo volume de meus Ausgmiählte Vorträge
und Aufsätze ( Conferências e Ensaios Escolhidos, A. Francke-
Verlag, Berna 1955).
O tratado sobre a excentricidade foi publicado pela primeira
vez na Monatschrift für Psychiatrie und Neurologie (Verlag
Karger, Basiléia), vol. 124 (1952), vol. 125 (1953), vol. 127
(1954) e vol. 128 (1954). Omitimos aqui os resumos trilíngües
de cada parte.
O tratado sobre o amaneiramento é publicado aqui pela pri­
meira vez.

L U D W IG B IN S W A N G E R
Dr. med. Dr. Phil. h, c.

Kreuzlingen, outubro de 1955.


A E X T R A V A G Â N C IA *

Não somente como ser que projeta a amplidão e nela cami­


nha, mas também como ser que projeta e sobe à altura,5 a exis­
tência humana está essencialmente envolvida pela possibilidade de
ir longe demais e extraviar-se ao subir. Se indagarmos pelo sen­
* N ota preliminar do tradutor; Traduzimos a palavra alemã Verstiegen­
heit apenas aproximativamente por extravagância. Para compreendê-la em
seu pleno sentido é preciso ter em mente as conotações que conserva de
sua derivação do verho (sich) versteigen. Sich versteigert (que deriva por
sua vez de steigen = subir) significa, em seu sentido próprio, extravagar
ou extraviar-se, ir longe demais e perder-se ao subir, como por exemplo
o alpinista que, ao se atrever a escalar uma passagem difícil, vê-se perdi­
do, "encalacrado" numa posição sem saída e sem retorno possível, e da
qual só pode ser salvo mediante a ajuda de terceiros. Em sentido figurado,
sich versteigen significa exceder-se (com atrevimento), demasiar-se, exor­
bitar, ultrapassar os limites do razoável, ir longe demais e além do razoá­
vel em suas idéias, opiniões, comportamento, etc. Por exemplo; "er vers­
tieß sich zu einer übertriebenen Forderung, zu einer überraschenden
Behauptung, zu der Hoffnung, d a s s ...” = "ele foi longe demais com
uma exigência exagerada, com uma afirmação surpreendente, com a espe­
rança d e ..." .
O particípio passado desse verho é verstiegen que, usado como adje­
tivo, podemos traduzir como "extravagante, exagerado, exaltado, excessivo,
atrevido, excêntrico, maluco, maníaco". O adjetivo tanto pode qualificar
as opiniões, idéias, planos, propostas, estilo, etc. de uma pessoa, como
a própria pessoa. Por exemplo; "er hat recht verstiegene Ansichten über
die Ehe" = "ele tem opiniões hastante extravagantes sohre o casamento",
"er hat einen verstiegenen Stil" = "ele tem um estilo extravagante, exa­
gerado, arrevezado", "er ist ein verstiegener Mensch, ein verstiegener Dich­
ter" = "ele é um homem extravagante, esquisito, maníaco, um poeta
extravagante, exagerado, etc." Verstiegenheit (o substantivo abstrato for­
mado a partir de verstiegen) significa, em suma, o estado mental de quem,
por seu comportamento ou por suas idéias, ultrapassa os limites do razoá­
vel e se vê perdido numa situação sem saída e da qual só pode ser salvo
com a ajuda de terceiros.
5 Binswanger, L.; "Traum und Existenz", Neuer Schweizer Rundschau
1930; reproduzido em Ausgewählte Vorträge und A ufsätze, t. I, Berna
14 TRÊS FORMAs DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

tido antropológico dessa possibilidade de ir longe demais e extra-


viar-se ao subir, numa palavra, da "extravagância", estaremos por
Isso mesmo indagando pelas condições de possibilidade da con­
versão do subir no modo de ser da extravagância. Desse modo,
limitamo-nos a seguir o sentido lingüístico das expressões alemãs
compostas com o prefixo ver-, cujos significados, como nos ensi­
na a etimologia, via de regra servem para denotar algo que se
alterou, deteriorou e, até mesmo, se converteu em seu contrário.
A indagação antropológica, porém, não pode jamais se limitar a
uma única direção existencial, mas, ao contrário, e precisamente
enquanto antropológica, tem sempre em vista a estrutura inteira
do ser-homem. Assim, desde o início, estaremos preparados para
a necessidade de compreender as condições de possibilidade da
conversão do subir em extravagar — tanto mais que o subir in­
transitivo parece converter-se aqui numa ação que reflete sobrt
aquele que sobe — não a partir da direção do movimento ascen-
sional tão-somente, mas a partir de sua koinonidP ou comunidade
com outras possibilidades fundamentais do ser humano. Na ver­
dade, a extravagância deriva, como procurei mostrar em outro lu­
gar,7 de uma determinada desproporção entre o subir à altura e
o caminhar na amplidão adentro. Se designarmos sua proporção
"bem lograda"8 como a ''proporção antropológica", teremos que
designar a extravagância como uma forma de desproporção an­
tropológica, como uma proporção "malograda" entre altura e am-
plidão no sentido antropológico. Mas o ser-homem não se absorve
totalmente no ser-no-mundo9 e, desse modo, na espacialização e
temporalização do ''mundo". Muito ao contrário, ele deve ser com­
preendido, além disso, como ser-além-do-mundo no sentido do
berço (Heimat) e da eternidade do amor,10 onde não há nem em
cima nem embaixo, nem perto nem longe, nem antes nem depois.

1947. — Schweiz. Arch. Psychiatr. 27-30 (1931/32). — Z. Neur. 145, 61S


(1933). — Bachelard, Gaston; L'mr et les Songes. Essai sur l'imagination
du mouvement. Paris: Corti 1943. — Como introdução à cosrnologia feno-
menológica em geral; E. Minkowski Vers une Cosmologie. Paris 1936. —
Para a teoria do espaço vivido, cf. tamhém Erwin Straus; Nervenarzt 1930,
cad. 11. — Dürckheim; “Untersuchungen zum gelebten Raum", N eue
psychologische Studien, t. 6, cad. 4. Munique, 1932.
6 Szilasi, W.; M acht und Ohnmacht des Geistes, p. 46. Berna 1946.
7 Binswanger, L.; Heinrik Ibsen und das Problem der Selbstrealization
in der Kunst. Heidelberg; Lambert Schneider, 1949.
8 Szilasi; M acht und Ohnmacht des Geistes, p. 19.
9 Heidegger, Martin; Sein und Zeit, 4.a ed. Halle, 1935. — Vom Wesen
des Grundes (Husserl-Festschrift, Halle 1929).
10 Binswanger, L.; Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins.
Primeiro capítulo. Zurique 1942.
EXTRAVAGÂNCIA 15

Se, apesar disso, o ser-homem enquanto ser finito permanece sem­


pre — para usar uma expressão de Goethe — “angewiesen auf",
isto é, referido a e na dependência de altura e amplidão, então ele
só pode extravagar quando houver se evadido do berço e da eter­
nidade do amor para se absorver inteiramente no "espaço e no
tempo". Pois só quando a communio do amor e a cornmunicatio
da amizade já abdicaram, e o simples trato e comércio com ''o
outro" e consigo mesmo assumiram a condução exclusiva de nosso
ser, é que a altura e a profundeza, a proximidade e a distância, o
ter-sido e o estar-por-vir (Gewesenheit und Zukünftigkeit) alcan­
çam uma significação tão decisiva que o subir pode chegar a um
fim e a um agora que não admitem mais nem retrocesso nem
avanço, vale dizer, onde o subir já se converteu em extravagân­
cia. Quer se trate de uma ''idéia" extravagante, de um ideal ou
de um "sentimento" extravagante, de um desejo ou plano extra­
vagante, de uma afirmação, modo de ver ou atitude extravagante,
de uma mera ''mania'' ou de uma ação ou de um crime extrava­
gante, aquilo que aqui desiguamos com a expressão "extravagan­
te" está condicionado pelo fato de o ser-aí ter se ''atolado" (fest-
gefahren) numa determinada "ex-periência" ( “Er-fahrung"11) ,
pelo fato de não conseguir mais, para usar uma imagem de Hof-
mannsthal,13 ''levantar tenda", pelo fato de não conseguir mais se
''abalar". Privado da communio e da communicatio, o ser-aí não
consegue mais, agora, ampliar, rever ou examinar seu "horizonte
de experiências" e fica parado num ponto de vista "tacanho", isto
é, estreitamente limitado. Assim, o ser-aí "empacou", é verdade,
ou obstinou-se, mas ainda não extravagou.13 Pois, a condição de
possibilidade da extravagância implica, além disso, que o ser-aí
suba mais alto do que convém à sua amplidão, ao seu horizonte
de experiências e de compreensão, ou por outras, que extensão e
altura não se encontrem numa relação proporcional. O exemplo
clínico-psiquiátrico clássico disso é o conceito bleuleriano da oligo-
frenia dos ''pretensiosos", entendida como "desproporção entre as­

11 V. Prefácio, nota 4 (N. do T . ) .


12 Binswanger, L.; "Über das Wort von Hofmannsthal; Was Geist ist,
erfasst nur der Bedrängte". Homenagem a R. A. Schröder. Schweizer Stu­
dio philosophica. Vol. VIrt, 1943.
13 Das línguas que conheço, o alemão é a única que faz, de maneira
mais ou menos conseqüente, essa distinção, enquanto as línguas latinas e
o inglês utilizam quase que exclusivamente expressões provenientes da
esfera do mundo (aller trop loin, andar troppo lontano ou troppo oltre,
to go too far ou so far as [to maintain] ). Uma exceção é o espanhol,
que não somente conhece um irse demasiado lejos, mas também um tom ar
su vuelo demasiado alto.
16 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

piração e compreensão". O exemplo clássico da poesia dramática


é o construtor Solness14 de Ibsen, que "constrói mais alto do que
consegue subir".16 Contudo, não devemos de modo algum enten­
der a desproporção entre altura e extensão como uma despropor­
ção entre determinadas "capacidades" ou qualidades e, sobretudo,
não devemos entendê-la como uma desproporção entre ''a inteligên­
cia e a necessidade de ser admirado". Ao contrário, temos que
investigá-la, como é o caso aqui, quanto às condições antropológi­
cas de sua possibilidade. Não entendemos aqui a extravagância
como uma desproporção de qualidades constatável numa determi­
nada pessoa ou num determinado grupo de pessoas (massa, parti­
do, ''clique", seita, etc.), no sentido de uma "característica" a eles
inerente. Não a entendemos, pois, nem como uma qualidade do ca­
ráter nem como uma ocorrência ou ''sintoma" psicológico, psico-
patológico ou sociológico constatável aqui ou ali, mas, sim, como
uma possibilidade existencial passível de ser compreendida "exis-
tencial-analiticamente",16 isto é, a partir da estrutura inteira da
existência humana, em suma, como uma possibilidade existencial
antropológica. Só quando esta houver sido compreendida, conse­
guiremos chegar a uma autêntica compreensão da "sintomatolo­
gia" extremamente rica da extravagância. Só então conseguiremos,
por exemplo, entender como e em que medida podemos distinguir
antropologicamente a "idéia extravagante" (como é chamada er­
roneamente) que ocorre a uma maníaco,17 o gesto, modo de falar
ou ação "extravagante" (''excêntrico", ''bizarro") de um esqui­
zofrênico18 e a fobia de um neurótico — muito embora designe­
mos todos eles, na psicopatologia ou na vida quotidiana, com a
única expressão: ''extravagante". Na verdade, acredito que até
mesmo a demência (W ahn) esquizofrênica só se deixa compreen­

14 Binswanger, L.; Henrik Ibsen.


15 Com que nitidez Ibsen viu (ver é sua própria expressão para a cria­
ção poética!) a significação da proporção de altura e amplidão para o
malogro e o sucesso da existência humana, mostra-o o fato deter contra­
posto ao construtor Solness em O Pequeno E yolf uma figura que não
quer suhir, que não quer "construir mais alto" do que sahe efetivamente
subir, o construtor de estradas Bergheim. Este, como mostra sua profis­
são, não constrói como o construtor Solness torres que se erguem até o
céu e em cujas alturas vertiginosas é tomado de vertigens até que um dia
se vê esmagado sohre o solo, mas vai hravamente construindo sobre a
terra. N ão persegue nenhuma "felicidade" inatingível, não quer mais do
que sahe (aprendeu a) fazer, mas, em compensação, tamhém alcança tudo
o que quer e, ao mesmo tempo, cresce a olhos vistos.
16 Binswanger, L.; Schweiz. A rch. 57, 209 (1946).
17 Binswanger, L.; Über Ideenflucht, Zurique 1933.
18 Binswanger, L.; Mschr. Psychiatr. 110, 3 /4 (1945).
EXTRAVAGÂNCIA 17

der a partir do modo existencial da extravagância.19 A mesma


coisa vale para os "fenômenos de massa" da extravagância.
Mas voltemos à extravagância considerada como um desloca­
mento estrutural da proporção antropológica. A "atração da am­
plidão'', na direção horizontal da significação, corresponde mais à
"discursividade", ao experimentar (Er-fahrenm ) , a travessia e to­
mada de posse do ''mundo", ao ''alargamento do horizonte", ao
alargamento do discernimento, da visão de conjunto e da circun-
visão organizadora dos meios (Einsicht, Übersicht und Umsicht)
com relação ao "burburinho" do ''mundo" exterior e interior. Já
a atração da altura, o subir na direção vertical da significação,
corresponde mais à aspiração de superar a "gravidade da terra”,
de se elevar acima da pressão e da "angústia das coisas terre­
nas", mas ao mesmo tempo também ''a aspiração de conquistar um
ponto de vista ''superior", uma "visão superior das coisas", como
diz Ibsen, a partir da qual o homem possa moldar, dominar, numa
palavra, apropriar-se de tudo o que "experimentou". Ora, esse
apropriar-se do mundo no sentido de vir-a-ser e realizar-se a si
mesmo é o que chamamos decidir-se. Quer afete uma ação parti­
cular, quer afete a "vida inteira", a decisão pressupõe um subir ou
elevar-se acima da situação humana particular, logo, acima do
âmbito das coisas experimentadas e examinadas. Mas o que sig­
nifica esse ''acima"?211 Corno já o viu e tão eloqüentemente o des­
creveu Nietzsche, no prefácio a Humano — Demasiado Humano
(vol. 1), ele não significa mais a aventurosa "circunavegação" no
sentido da experiência do mundo, mas, sirn, a penosa e dolorosa
escalada dos "degraus" do problema da hierarquização22
Na ascensão não se trata mais, por conseguinte, do mero
aprender, conhecer, saber no sentido da experiência, mas da "to­
mada de posição" que se efetua no decidir-se, no sentido da auto-
realização ou do amadurecimento. Nem por isso, porém, devemos
confundir o subir com um mero querer no sentido da distinção
psicológica entre entendimento, sentimento e vontade.23 Ao con­
19 Binswanger, L.; Schweiz. Arch. 1939, t. 63.
20 V. Prefácio, nota 4 (N. do T .) .
21 Esse elevar-se e ficar acima de urna situação mundana não deve ser
confundido com o estar acima do rnundo-em-geral no sentido do amor!
52 Em harmonia com isso, Gaston Bachelard (cf. L ’A ir et les Songes)
designa o subir na vertical também como valorisation, como apreensão
e atribuição de valor. — Lembre-se a esse propósito, por exemplo, a deci­
são de Antígona.
23 Marchamos juntos com E. Minkowski quando este (cf. "La tríade
psychoolgiqeu" em Vers une Cosmologie, pp. 57 ss.) contesta e comhate
essa classificação “triádica” dos fenômenos psicológicos, c mesmo a pos­
sibilidade de semelhante classificação em geral.
18 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

trário, precisamos compreender — como já o insinua a expressão


"aspiração" de Bleuler — que, no subir, o fato de ser arrebatado
(sobre as "asas" dos estados de ânimo, desejos, paixões, pela ''fan­
tasia" ou imaginação) transforma-se imperceptivelmente na "de­
cisão envolvendo uma tomada de posição".24 Apesar disso, temos
que proceder a uma distinção antropológica nítida entre o emocio­
nal deixar-se-arrebatar por desejos, idéias, ideais e a penosa, e a
fatigante escalada dos “degraus" da escala que possibilita a esses
desejos, idéias, ideais uma mútua ponderação na vida, na arte, na
filosofia e na ciência, e sua tradução em palavras e atos.
Isso esclarece aquela forma da desproporção entre amplidão
e altura que subjaz à possibilidade da "ideação maníaca". Veremos
daqui a pouco que essa desproporção distingue-se de tal maneira
da desproporção da extravagância que de maneira nenhuma de­
vemos falar de uma ideação ''extravagante", mas antes de uma
"fuga de idéias", como aliás costumamos fazer na psicopatologia.
A desproporção entre altura e amplidão, própria do ser-no-mundo
caracterizado pela fuga de idéias, é em tudo diferente da despro­
porção no sentido da extravagância. Na primeira, a desproporção
consiste em que o caminhar na amplidão adentro é substituído por
um saltar e por um saltar por cima "ao infinito", razão por que o
horizonte ou âmbito de visão se "alarga infinitamente". Já o subir
à altura permanece um mero “vol imaginaire", um arrebatar-se
sobre as asas de meros desejos e "fantasias", de tal forma que não
se consegue chegar nem a uma visão de conjunto no sentido da
experiência, nem a um aprofundamento da problemática de cada
situação particular (a elevação é, por essência, ao mesmo tempo
aprofundamento, a altitude é, por essência, ao mesmo tempo altura
e profundidade), tornando-se assim impossível chegar a uma de­
cisão envolvendo uma tomada de posição. Essa desproporção entre
amplidão e altura baseia-se numa ampliação "desproporcional"
desse mundo extremamente volátil do maníaco. "Desproporcio­
nal" a saber, em relação ao "nivelamento"25 da altura (ou pro­
fundidade) autêntica da existência, ou seja, da altura que so se
pode atingir após árduos esforços, no sentido da decisão e do
amadurecimento. A desproporção no sentido da forma maníaca de
vida26 ou, para falar existencial-analiticamente, da volatibilida-
de significa por isso mesmo a impossibilidade de se tomar pé de
maneira autêntica na "escala" da problemática humana e, nessa
24 Por essa razao, temos que concordar plenamente com Bachelard quan­
do declara; "II est impossihle de faire la psychologie de la volonté sans
aller à la racine même du vol imaginaire".
25 Binswanger, L.; Über Ideenflucht. Em especial o segundo Estudo.
26 Binswanger, L.; Schweiz. Med. Zschr. 1945, n .° 3.
EXTRAVAGÂNCIA 19

medida, também a impossibilidade de decidir, a g i r e amadurecer


de maneira autêntica. Desligada da communio amorosa e da au­
têntica communicatio, longe demais e demasiado rapidamente em­
purrada para frente, bem como elevada demasiado alto, a forma
de Vida maníaca alça-se a uma altura Vertiginosa, onde é impossí­
vel se chegar a toda e qualquer posição (Standpunkt), a toda e
qualquer decisão ''capaz de se manter de pé por si mesma" (selb­
ständige). Nessas alturas rarefeitas, o amor e a amizade perderam
seu poder e o trato ou relacionamento humano reduziu-se à forma
do tratamento psiquiátrico.
A extravagância dos Psicopatas esquizóides e das incontáveis
formas do ser-no-mundo esquizofrênico é muito diferente.27 Aqui,
a desproporção antropológica não deriva mais de uma preponde­
rância desproporcional da amplidão (do "saltar'') e da altura do
mero “vol imaginaire" com relação à altura (autêntica) da ''de­
cisão'', mas, sim, de uma preponderância desproporcional da altu­
ra da decisão sobre a amplidão da ''experiência". Deixando de
lado, aqui, as diferenças essenciais entre o psicopata esquizóide e
o esquizofrênico, podemos dizer que ambos extravagam, por opo­
sição ao maníaco, na medida precisamente em que não se deixam
elevar às ''alturas rarefeitas" dos estados de ânimo otimistas,
mas, ao contrário, solitários e "sem nenhuma consideração
da experiência", escalam e se deixam ficar sobre um deter­
minado degrau da "escala da problemática humana". A altu­
ra dessa escalada não está em proporção com a estreiteza e a imo­
bilidade do horizonte de experiência (entendendo-se sempre a pa­
lavra ''experiência" no sentido mais amplo do ex-perienciar,28 da
em si interminável "discursividade"29). Aqui a extravagância
significa mais do que a mera obstinação, precisamente na medida
em que não se trata apenas de uma impossibilidade de progredir
no sentido da experiência, mas de um entalamento ou de um apri-
sionamento num determinado nível ou degrau da problemática hu­
mana. A ''hierarquização" tão flexível da problemática humana é,
aqui, ignorada em sua essência e reduzida a ou absolutizada em
um determinado ''problema", em um determinado ideal, em uma
determinada ideologia. Na medida em que aqui ainda se fazem
"experiências" de um modo qualquer, elas não são mais avaliadas
e aproveitadas como tais. Pois ''o valor" está aqui fixado de uma
vez por todas. A extravagância significa, por conseguinte, absolu-

27 Binswanger, L.; Schweiz. Arch. 53-55, 56-59, terceiro estudo.


28 V. Prefácio, nota 4 (N. do T .) .
29 Binswanger, L.; Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins.
Primeiro capítulo. Zurique 1942.
20 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

tização de uma decisão singular. Semelhante absolutização, por sua


vez, só é possível depois que o ser-aí se exilou "desesperado" do
berço e da eternidade do amor e da amizade. Ela só é possível,
portanto, quando nada mais sabe ou pressente da ''relatividade" de
todo abaixo e acima vistos contra o fundo de uma confiança no
ser isenta de dúvidas, de uma certeza ontológica imune a toda
problematização. Mais ainda, semelhante absolutização só é possí­
vel depois que o ser-aí se isolou do trato e do comércio com os
outros e da possibilidade de aí encontrar promoção e lições con­
tínuas. Tendo-se retraído para o mero trato e comércio consigo
mesmo, também isso "vai morrendo" até se imobilizar no olhar
fixado no problema, ideal ou ''nada da angústia",30 como que pe­
trificado em uma cabeça de Medusa, em demência. Em virtude
disso, uma pessoa só pode ser resgatada da posição extravagante
através da ''ajuda alheia", exatamente como no resgate do alpi­
nista que acaba por se enrascar na escalada (sich verstiegen hat)
de um despenhadeiro.31 É verdade que o neurótico também só pode
ser "resgatado" da extravagância e do entalamento de sua existên­
cia — numa fobia, por exemplo — mediante ajuda alheia, mas
esta ainda tem o sentido da colaboração e da comunicação. Exa­
tamente por isso, porém, o exemplo da extravagância neurótica
talvez mostre mais nitidamente do qualquer outro que a extrava­
gância — não importa que ela se dê sob a forma física ou psíquica
do perder-se ao subir — se baseia sempre numa carência de dis­
cernimento (Einsicht), de visão de conjunto (Übersicht) ou da
circuncisão organizadora dos meios (Umsicht) no domínio daque­
la totalidade finalizada (Bewandtnisganzheit) ou "região do mun­
do", na qual a existência extravaga. Só pode extravagar e enras­
car-se (sich v erst eigen) o alpinista que não tem uma visão de
conjunto da estrutura do despenhadeiro que está escalando. Assim

30 Binswanger, L.; Estudos 1 a 4 sobre o problema da esquizofrenia,


Schweiz. Archiv /. Psychiatr. u. Neur., t. 53-7Í.
31 Talvez não seja supérfluo ressaltar que, como já o formulou Hein­
rich W ölfflin em sua dissertação tão importante; Prolegomena zu einer
Psychologie der A rchitektur (Kleine Schriften, p. 23, Basiléia 1946), "a
imagem de nossa existência física" se apresenta sempre como o "tipo"
segundo o qual julgamos todo o outro fenômeno. Isso já é válido antes de
mais nada do "tipo" segundo o qual a linguagem apreende e denomina
"todas as outras manifestações” de nossa existência. Mas a linguagem só
consegue fazê-lo porque ao contrário do entendimento que analisa e sepa­
ra ela vê nossa existência em sua unidade e indivisa. Por isso não deve­
mos dizer que a linguagem "materializa" os "modos de manifestação"
imateriais de nossa existência. Muito antes ela já vê nas manifestações
materiais as psíquicas e espirituais, assim como vê ainda nas últimas as
manifestações materiais.
EXTRAVAGÂNCIA 21

também, só pode extravagar e enrascar-se psíquica e espiritual­


mente a pessoa que não tem nenhum discernimento da estrutura
da ''hierarquia" das possibilidades da existência humana em geral
e que, na ignorância delas, se põe a subir cada vez mais alto. Por­
tanto, a extravagância jamais pode ser compreendida a partir da
subjetividade apenas, mas somente na conjunção da subjetividade
(transcendental) com a objetividade (transcendental). O que cha­
mamos de terapia, no fundo, consiste tão-somente em levar o
doente até um ponto onde ele consiga "ver" como está constituída
a estrutura total da existência humana ou do ''ser-no-mundo" e
em que ponto dela extravagou. Ou seja; resgatá-lo da extravagân­
cia, trazendo-o de novo "à terra", que é o único ponto a partir do
qual se pode tentar uma nova partida e uma nova escalada.
O que aqui tentamos foi apenas indicar algumas diretrizes
para a compreensão do sentido antropológico da extravagân­
cia. Para não nos estendermos demais, limitamo-nos predominan­
temente à sua interpretação espacial, deixando em segundo plano
a interpretação temporal, que, no fundo, é muito mais importante.
É óbvio, porém, que ela está sempre implicada justamente em ex­
pressões como amadurecimento, decisão, discursividade, saltar por
cima, ser elevado, ''subir os degraus da escala", estar atolado e,
finalmente, nas expressões ''proporção" e ''desproporção antropo­
lógica''. Afinal, altura e amplidão da existência significam tão-so­
mente dois esquemas ''especiais" para um único vetor de tempo-
ralização da existência humana finita, razão por que só "concep-
tualmente" se deixam separar.
A E X C E N T R IC ID A D E *

A clínica psiquiátrica e a Psicopatologia continuam hoje ainda,


em larga medida, a se mover dentro dos horizontes de compreen­
são ainda obscuros da linguagem coloquial e dos modos de inter­
pretação e formas de enunciação nela pré-formados. Mas o que
basta para a "prática" ordinária, a expressão e a comunicação lin­
* N ota preliminar do tradutor; A palavra alemã que traduzimos por
excentricidade é Verschrobenheit. Assinalemos, porém, antes de mais nada,
que o alemão também conhece a expressão sinônima Exzentrizität. Ora,
como costuma acontecer com os sinônimos, não se pode dizer que suas
significações sejam perfeitamente idênticas, dado que podem, conforme o
contexto de seu uso, ativar conotações, produzir "efeitos de sentido" dife­
rentes devido ao modo figurado ou metafórico pelo qual cada uma, em
virtude de sua etimologia, "designa" ou “significa" a "mesma coisa". Por
isso mesmo é com reservas e na falta de melhor que traduzimos Versch­
robenheit por excentricidade. Mas por isso mesmo tamhém nos sentimos
obrigados a chamar a atenção do leitor para a etimologia desses termos,
a fim de esclarecer o modo — figurado — como cada um designa a
"coisa", isto é, o comportamento humano em questão. E xcêntrico/exzen­
trisch descreve, corno é fácil de se ver, o caráter estranho, incornum,
esquisito, anormal do comportamento em questão em termos de um desvio
ou afastamento de um centro, de um ponto em torno do qual normal­
mente gira o comportamento das pessoas. Já verschroben, que é o parti-
cípio passado do verho (arcaico) verschrauben = aparafusar, enroscar
mal, errado ou ao contrário, descreve o comportamento estranho, esqui­
sito, em termos de um desajuste do “mecanismo" psíquico humano. Assim,
verschroben aproxima-se mais de expressões como “ter um parafuso frou­
xo, ou a menos", aliás também existentes em alemão (cf.; "Bei ihm ist
eine Schraube los, oder locker" = ele tem um parafuso solto, ou frouxo).
Notemos, para terminar, que o alemão também pode designar uma pes­
soa que, em português, diríamos “maluca”, “gira", “pancada” como “eine
verdrehte Schraube” (isto é, um parafuso girado, torcido ou enroscado
mal, errado, ao contrário), ou pura e simplesmente como “die Schraube"
(por exemplo; “Was hat die alte Schraube gesagt?” = O que é que a ve­
lha maluca disse?).
EXCENTRICIDADE 23

güísticas de nossas "impressões" através de palavras, maneiras de


dizer, metáforas, símbolos usuais, isto é, provenientes da lingua­
gem da vida quotidiana, não é bastante para a compreensão on-
tológica da ciência. É bem verdade que a compreensão científica
do ser, a tematização científica (Heidegger), se apóia e se cons­
trói sobre os projetos de compreensão pré-científicos da lingua­
gem coloquial, sobre o respectivo domínio objetivo por eles expli­
citado e sobre a linguagem conceptual neles pré-formada. Não é
menos certo, porém, que só podemos falar de semelhante constru­
ção, logo, de uma tematização científica, quando podemos exami­
nar e aclarar os horizontes de compreensão e interpretação "in­
gênuos", isto é, ainda obscuros, da linguagem coloquial, sua con-
ceptualidade e seu "vocabulário", quanto a sua origem antropo­
lógica e ontológica e, assim, quanto a seu alcance científico (sua
"legitimidade") e sua conformidade ao domínio temático respecti­
vo (sua "adequação''). Muito longe de constituir tão-somente uma
questão filosófica, só um semelhante exame, aclaramento e refle­
xão sobre o sentido Vem abrir caminho para o progresso de cada
investigação científica especializada.
Assim desaparece a confiança ingênua nas palavras, signifi­
cações e conceitos correntes da linguagem ordinária e sua com­
preensão ontológica em geral. Nos limites da clínica e da psico-
patologia psiquiátrica, o ponto onde isso se deixa melhor compro­
var é assinalado pela tríade; extravagância, excentricidade, ama-
neiramento. Muito embora essas palavras pareçam remeter a uma
conexão objetiva — a tal ponto que freqüentemente as usamos
indistintamente até mesmo na prática científica —, a coisa mesma
significada por elas ainda não está clara para nós, assim como
tampouco o estão as diferentes nuanças nas quais a coisa mesma
Vem a se expressar nas três significações Verbais mencionadas. O
■"sentido antropológico da extravagância" veio várias vezes à baila
em nossos estudos sobre a esquizofrenia publicados no Schweizer
Archiv für Psychiatrie und Neurologie, tendo sido submetido a
uma discussão especial em um pequeno tratado publicado na re­
vista Nervenarzt (20.° ano, 1949, 1.° cad.). No que concerne ao
amaneiramento, reservamos sua investigação para um momento
posterior e, enquanto isso, propomo-nos examinar neste estudo a
excentricidade.
Lancemos primeiramente um olhar sobre a maneira pela qual
a clínica psiquiátrica e a Psicopatologia procuram fazer da neces­
sidade da limitação à linguagem coloquial uma virtude científica;
a clínica, mediante o acúmulo de expressões e Perífrases sempre
renovadas com o objetivo de caracterizar os Psicopatas excêntri­
cos; a Psicopatologia, pela busca de uma ''fórmula'' ou ''figura
24 TrÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

fundamental", de uma "postura total" ou de um "humor funda­


mental" (Gruhle) com o objetivo de explicar a excentricidade
esquizofrênica. Numa segunda parte, nosso objetivo é avançar até
uma compreensão existencial-analítica da excentricidade enquanto
fenômeno antropológico.

A. C lín ica e P sic o p a to lo g ia

1. Os Psicopatas Excêntricos

Vamos primeiramente passar em revista as expressões com


que se costuma designar na literatura clínico-psiquiátrica de lín­
gua alemã os ''psícopatas excêntricos" (''excêntricos originais" ou
"degenerativos", ''fanáticos excêntricos"), seus modos de expres­
são e comportamento, suas maneiras de pensar, bem como suas
peculiaridades de sentimentos e da vontade. Limitamo-nos, para
isso, aos tratados e conferênc/as de Koch,32 Dickhoff,33 Birn­
baum,34 Sterz,35 Eugen Kahn,36 Kurt Schneider,37 bem como aos
manuais de Kraepelin,38 Bleuler39 e Bumke.40 41 Encontramos

32 Koch J. L. A.; D ie psychopathischen Mindewertigkeiten. Ravensburg


1891/93.
33 Dickhoff Chr.; Allg. Z. Psychiat. 55, 215, 1898.
34 Birhaum, K.; Mschr. Psychiat. Neurol. 21, 308, 1907.
35 Stertz, G.; Verschrobene Fanatiker, Berliner Klin. Wschr. 1919.
36 Kahn, E.; Die psychopathischen Persönlichkeiten. Handbuch der Geis­
teskrankheiten, org. por Bumke, t. 5, parte 1, pp. 448 ss.» 1928. (Os psico-
patas excêntricos.)
37 Schneider C.; Die psychopathischen Persönlichkeiten, Fanatische Psy­
chopathen. 4.® ed., p p . 76 s s ., 1940.
38 Kraepelin, E.: Psychiatrie, t. IV, parte 3, pp. 2039 ss., 8.a ed. (Oa
excêntricos). J. A. Barth, Leipzig 1915.
39 Bleuler, E.: Lehrbuch der Psychiatrie. 4.a ed., pp. 369 ss. Springer-
Verlag, Berlim 1937; 8.a ed., p. 397. (A excentricidade.)
40 Bumke O.; Lehrbuch der Geisteskrankheiten, l . a ed., Bergmann,
Munique 1924; 7.a ed., 1948.
41 Na edição mais recente de 1948, os excêntricos desaparecem na gran­
de massa dos "psicopatas associais", que é "tão multiforme e variegada,
que não é possível classificá-la em diferentes formas" (p. 130). Os excên­
tricos fazem parte aqui dos esquizoides "próximos à família hereditária
esquizofrênica", entre os quais, porém, encontram-se "muitos esquizofrê­
nicos dissimulados". Os esquizóides são comumente "formais, comedidos
e, até mesmo, às vezes, solenes e algo apavonados, mas sempre de tal
maneira que toda familiaridade é cortada pela raiz. De todo modo fre­
qüentemente retraem-se autisticamente para dentro de si mesmos" (p. 13l i .
EXCENTRICIDADE 25

aqui expressões como torto ou distorcido (schief) (''compreen­


são distorcida da situação", ''operações lógicas distorcidas"),
como, por exemplo, em Bleuler, que aí segue Birnbaum e Kraepe-
lin. Além disso, expressões como ''unilateral, exagerado, exaltado,
excêntrico, estudado, sem naturalidade, extravagante, obstinado,
mal-humorado, maluco, fechado, autista, alheio ao mundo, cheio de
manias, formal-cerimonioso, contraditório, fantasioso, fanático, in­
transigente, contraído, forçado, frío, cheio de arestas, desgracioso,
atravessado, meticuloso, sistemático, incapaz de discutir, intratá­
vel, arredio, teimoso, inflexível, difícil de tratar, egocêntrico, com
planos de coisas fora da norma ou muito remotas, demonstrando
compreensão e elaboração errôneas das impressões externas", e
outras semelhantes. Em seguida encontramos expressões que,
como se mostrará em outro lugar, pertencem ao domínio do ama­
neiramento, tais como "rebuscado, afetado, apavonado, arrevezado,
empolado". Muitas vezes também é só a impressão do desvio en­
quanto tal que é ressaltada, como ocorre em expressões tais como
"difícil de compreender, estranho, esdrúxulo, singular, esquisito,
imprevisível, surpreendente". Birnbaum fala (loc. cit., p. 308) da
"composição desigual e desarmonica", que a imagem total da ex­
centricidade exibe em razão do caráter distorcido, unilateral,
exagerado das ''exteriorizações espirituais fortemente marcadas".
Kraepelin e Bleuler falam da ''falta de unidade e conseqüência
internas" na vida psíquica dos excêntricos.
É particularmente interessante que Bleuler sublinhe expressa»
mente, na sucinta menção que faz da excentricidade em seu ma­
nual, que os excêntricos são "os únicos entre aqueles que sofrem
de aberração constitucional nos quais a afetividade não está mani­
festamente perturbada de maneira exclusiva ou p r i n c i p a l Por
isso, também não nos admiramos de que a excentricidade aparen­
temente não tenha por base nenhum estado de ânimo unitário.
Assim, Kraepelin refere-se ao humor dos excêntricos como "em
geral alegre, mas às vezes também deprimido, desconfiado, ir­
ritado" (loc. cit., p. 2039). Mas o mesmo vale também para o
temperamento. Pois, como vimos, os autores constatam nos ex­
cêntricos tanto um temperamento estênico, expansivo, ativo, com­
bativo, quanto um temperamento astênico, desanimado, passivo.42
Por conseguinte, se nem a afetividade, nem o humor, nem o tem-

42 Falar de fanáticos desanimados (m att) ou passivos não nos parece a


nós mesmos, é verdade, muito recomendável, posto que se afasta muito
da maneira usual de sentir a língua. Pois a linguagem coloquial liga à
expressão fanático algo de ativo, ou mesmo combativo, e, em todo caso,
um apego tenaz e uma vontade enérgica de se impor.
26 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

peramento — essas três bases essenciais da "personalidade" no


sentido da Psicopatologia — são decisivas para as personalidades
excêntricas, então é natural por isso mesmo compreender a essên­
cia da excentricidade, não a partir do conceito da personalidade
(mesmo porque se trata de um conceito tão impreciso e ambíguo),
mas, sim, a partir de sua maneira peculiar de ser-aí ou ser-no-
mundo.

2. Excentricidade e Esquizofrenia

O fenótipo da excentricidade no sentido de uma constituição


psicopática e o da excentricidade, no sentido de um processo es-
quizofrênico, exibem tamanha semelhança que a maioria dos au­
tores enxerga esquizofrênicos nos excêntricos. Assim, Kraepelin
constata que há "de fato um sem número de personalidades excên­
tricas; contudo a maioria delas revela-se como etapas preliminares,
casos leves ou estados finais da dementia praecox”. Parece-lhe,
porém, "não estar excluído" que a excentricidade tenha "eventual­
mente também" uma outra significação clínica. No entanto, o
grupo de psicopatas excêntricos que ele tentou delimitar e que
abrangia apenas um pequeno número de casos não trouxe apoio
à suposição de um fundamento esquizofrênico, e isso por duas ra­
zões : primeiro, por causa da "manutenção satisfatória de uma
abordagem descontraída'', depois por causa da ''tara psicopática
imediata extraordinariamente pesada" em comparação com a de-
mentia praecox. Talvez, acha Kraepelin, com o progresso da ex­
periência, venha a ser possível ''distinguir com maior precisão as
peculiaridades da excentricidade esquizofrênica e da excentricidade
psicopática (loc. cit., p. 2048). Quanto a isso, porém, deve-se
observar que a manutenção satisfatória de uma abordagem des­
contraída pode também se encontrar entre os esquizofrênicos leves,
principalmente no caso da schizophrenia simplex. No entanto, os
esquizóides são considerados pela maioria dos autores (cf. também
Bumke, p. 196) como pertencentes à família hereditária esquizo­
frênica. Mas, sobretudo, observemos que a consideração biogené-
tica, tão importante para a clínica, naturalmente em nada nos pode
adiantar para a compreensão da essência antropológica da excen­
tricidade. Se e em que medida a compreensão existencial-analítica
da excentricidade pode nos colocar em condição de confirmar ou
não a esperança de Kraepelin é algo que só depois poderemos ver.
Também Bleuler explica que ''modos distorcidos de apreensão
das relações, operações lógicas distorcidas, modos de ver e, fre­
EXCEntRICIDADe 21

qüentemente também, modos de se expressar esdrúxulos aproxi­


mam exteriormente'' os excêntricos ''dos esquizofrênicos latentes,
dos quais não são ainda facilmente separáveis, muito embora seja
certo que semelhantes tipos também possam se fundar sobre uma
anomalia inata'' (loc. cit., pp. 386 ss.).
Kahn chama a atenção para o fato de que a maioria dos psi-
copatas excêntricos não têm formas físicas pícnicas, principalmen­
te leptosômicas ou astênicas. Eis aí, certamente, uma das mais
fundamentais razões explicativas de sua "motricidade, que não raro
chama a atenção, grosseira, contraída, desgraciosa". Encontramos
aqui mais uma característica que os Psicopatas excêntricos têm
em comum com muitos esquizofrênicos.
Contudo, por mais que os clínicos enfatizem a proximidade
entre a excentricidade psicopática e o processo esquizofrênico, por
um lado, e a dificuldade freqüentemente insuperável de sua deli­
mitação, por outro lado, é muito raro, estranhamente, que encon­
tremos as expressões excêntrico ou excentricidade nas descrições
da esquizofrenia. Essas expressões têm, portanto, que estar aqui
substituídas por outras. Bleuler não usa, se não me engano, nem
em sua monografia, nem na descrição da esquizofrenia no tratado,
as expressões excêntrico e excentricidade. Kraepelin emprega-a
aqui apenas esporadicamente, e o faz para caracterizar certas "al­
terações estranhas" dos movimentos expressivos. Ele fala, por
exemplo, de "uma entonação bem excêntrica, ora cantante ora im­
perativa, ora aos arrancos ora de maneira desconexa" (loc. cit.,
III, 2, p. 817), de locuções e neologismos excêntricos (ibid.,
p. 819) e de excentricidades nos escritos dos doentes (ibid.,
p. 845). Se nos perguntarmos que expressões são usadas aqui ao
lado de e em lugar de "excêntrico", encontraremos as seguintes
expressões, que já conhecemos da descrição dos psicopatas excên­
tricos; "esquisitões maníacos" (ibid., p. 765, para a caracterização
dos que sofrem de schizophrenia simplex), as expressões rude,
tosco, grosseiro, afetado, desconcertante (pp. 816 e 819 para a ca­
racterização de movimentos, gestos ou saltos repentinos do pen­
samento catatônico), as expressões "arrevezado, muito estranho,
complicado, amaneirado" (p. 844 para a caracterização de mani­
festações lingüísticas dos paranóides). Na monografia de Bleuler,
encontramos sob a rubrica da schizophrenia simplex e da esquizo­
frenia latente as expressões intratável, irritadiço, caprichoso, es­
tranho, dando na vista, "tomando desajeitadamente entre as mãos",
solitário, "exageradamente pontual", etc. (p. 195). Na descrição
de estados catatônicos, encontramos para os "movimentos" as ex­
pressões "de maneira estranha", "como em geral não se faz", para
a expressão de sentimentos e gestos palavras como ‘caricatural,
caretas, trejeitos. Na descrição da linguagem dos esquizofrênicos,
28 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

fala-se de anormalidades de estilo, linguagem empolada, etc.


(pp. 129 ss.). Como no caso dos Psicopatas excêntricos, encontra­
mos aqui, naturalmente, "a incapacidade de levar em conta a reali­
dade", o autismo (p. 55) e, sobretudo, o artificial e apavonado,
inadequado, insuficientemente modulado, reunidos sob a rubrica:
''Os jeitos amaneirados" (p. 157). A incapacidade de modulação
é enfatizada mais uma vez e de modo particular no domínio da
afetividade (p. 34). Ao mesmo tempo, ressalta-se a falta de unida­
de da exteriorização emocional (p. 33). No tratado, onde no es­
sencial encontramos as mesmas expressões que já encontramos na
monografia, é usada a expressão, também já conhecida nossa, da
rigidez afetiva (6.a ed., p. 285).
Na apresentação da esquizofrenia do tratado de Bumke ( l.a
ed.), também é raro encontrarmos a expressão excêntrico, por mais
que Bumke acentue aqui também (cf. de novo acima, p. 196), que
a excentricidade é ''aquela forma da psicopatia que talvez seja a
mais difícil de se distinguir da esquizofrenia'' (p. 930). Muitas
"psicopatias", nas quais "o quadro é caracterizado predominante­
mente pela teimosia, pela excessiva meticulosidade, pela rigidez dos
modos de ver, frieza de sentimentos, hábitos excêntricos e ações
imprevisíveis", pertencem ''na verdade", com toda probabilidade, à
esquizofrenia. Aqui encontramos a excentricidade sob as rubricas
"bizarria e rigidez do pensamento" (no sentido de Bleuler), sob
a rubrica "falta peculiar de elasticidade" (pp. 870 ss.), bem como
na discussão da "linguagem guindada" (" Stelzensprache”), uma
linguagem "que exprime grandes pretensões sob forma bizarra"
e pode se desenvolver até se transformar numa linguagem parti­
cular que acaba por substituir a língua materna (p. 878). Na 7.a
edição também, a excentricidade dos esquizofrênicos está abonada
com expressões que em larga medida serviram para a caracteriza­
ção da bizarria, do arrevezamento e da afetação — no fundo, por­
tanto, para o amaneiramento — dos Psicopatas "esquizóides".
Entre os trabalhos de língua francesa, temos que citar também
a monografia de nosso amigo Eugen Minkowski, entitulada; La
Schizophrenie e trazendo o subtítulo; Psychopathologie des schi­
zoides et des schizophrenes 43 Vemos aqui a excentricidade, como
mostram de maneira evidente os exemplos apresentados, tratada
sob a rubrica "L'Autisme", e tratada em primeira linha sob o tí­
tulo da "activité autiste", da "démence" ou melhor ainda; ''déficit
pragmatique” (pp. 101 ss.). Ao pensar e sentir autistas opõe-se
aqui com toda razão o agir autista, sem o qual não se esgota o

43 Minkowski, E.; La Schizophrénie, Psychopathologie des Schizoides et


des Schizophrènes. Payot, Paris 1927,
EXCENTRICIDADE 29

conceito do autismo. E é a esse agir, enquanto "activité primitive-


ment autiste", que se atribui de novo, com toda razão, o papel
possivelmente decisivo na vida anímica esquizofrênica; “C’est
peut-être elle qui constitue la clef de voute de toute la Schizophre­
nie" (p. 157). Foi somente por se ter desprezado essa “activité
autiste” que se pôde identificar o autismo e a interiorização ( =
devaneio ''passivo", absorção da personalidade pela vida interior,
por complexos e fantasias) (ibid.). Minkowski, porém, recusa-se
expressamente a dizer que, na ''activité autiste", se trata de atos de
vontade isolados ou da vontade em geral (cf. em oposição a isso,
mais abaixo, a concepção de Gruhle) ; "Ce qui importe ici avant
tout c’est la façon dont les buts et les actes s’enchmnent et se
rattachent les uns aux autres, la façon dont i/s s’extériorisent et
s’adaptent an mouvment ambiant, leur opportunité, le degré de lear
rnalléabilité au moment de Vexecution, etc. En un mot, nous de-
vrons prendre pour objet de nos etudes la personnalité humaine
toute entiere dans son dynamisme vivant” (p. 161). Em outras
ocasiões, Minkowski fala também muito acertadamente de atos
sans lendemain (p. 155, p. 165), logo, de atos que não têm con­
seqüências, mas que, ao contrário, ''vão morrendo" apesar da ener­
gia despendida. No resultado do agir, Minkowski mostra de ma­
neira particularmente clara o caráter inadequado, contraditório, es­
tranho da excentricidade — "activité autiste”. Assim, diz o se­
guinte do piano novo, bonito, caro, que a esposa de um funcioná­
rio adquiriu para os filhos, apesar dos conselhos em contrário do
marido; “Le piano est la. Il jure avec le restant du mobilier, avec
toute la vie du ménage, il est là comme un étranger, comme chose
morte sans lendemain” (pp. 154 ss.). Aqui o autor sai, mais uma
vez com razão, da esfera noética para a esfera noemática; a con­
tradição dos atos converte-se na contradição, no “jurer-avec" das
coisas, o “acte sans lendemain” em “la chose sans lendemain”, e
com toda razão, porquanto as duas esferas são inseparáveis e por­
que a exposição só ganha em clareza e justificação ao se ater à
coisa, ao "mundo". De resto, Minkowski recorre sabidamente ao
"élan vital" de Bergson e à perda do "contact vital avec la réalité"
no sentido de Pierre Janet.
Ao contrário das exposições clínicas representativas em lín*
gua alemã da esquizofrenia, mas em consonância com a exposição
da Psicopatologia da esquizofrenia e da esquizoidia por E. Min­
kowski, o fenômeno da excentricidade enquanto tal passa para o
primeiro plano na Psicologia da Esquizofrenia de Gruhle.44 À con­

44 Berze, J. e H. W. Gruhle; Psychologie der Schizophrenie. J. Springer,


Berlim 1929.
30 TRÊS FORMAS DA EXistênCiA MALOGRADA

cepção puramente "orgânica" — e seguramente insustentável — da


linguagem esquizofrênica, tal como defendida sobretudo por Kleist,
Gruhle opõe uma concepção psicológica. Gruhle não vê nas
peculiaridades lingüísticas esquizofrênicas nenhuma incapacidade
(orgânica) à maneira das perturbações afásicas ou apráticas, mas,
sim, um “outro querer". Se, por exemplo, um esquizofrênico diz
que "a mariposa bruxeia" ("der Schmettering faltre”), não há
aqui traço algum de afasia, mas, sim, ''um trocadilho divertida­
mente excêntrico entre a palavra 'mariposa' e a palavra 'bruxa',
que ''a mariposa bruveia" ( “der Schmetterling faltre”), não ha
estão no limite do amaneiramento, como por exemplo: "escada =
intermediário necessário da abóbada da casa") pertencem segun­
do Gruhle ao domínio das excentricidades, do gracejar. ''Não um
defeito, mas, sim, um 'outro querer'" (p. 118).
As explanações de Gruhle adquirem um particular interesse
para nós quando ele se esforça por exibir uma espécie de ''fórmu­
la" ou ''figura fundamental", um ''humor fundamental" ou uma
''postura total" esquizofrênica, logo uma estrutura específica do
ser-aí esquizofrênico (pp. 149 ss.). Em conseqüência, ele não se
contenta de modo algum com a constatação da "impressão imedia­
ta, que muitas vezes permite à pessoa experimentada fazer o diag­
nóstico de um esquizofrênico à primeira vista''. Não se contenta,
pois, com a constatação do "sentimento da praecox” (Rümke),
mas passa, além disso, a exibir ''fatores objetivamente caracterís­
ticos da postura total" (do esquizofrênico). Assim, ao se mencio­
nar pela primeira vez a palavra excentricidade, o que se tem em
mente não é tanto um sintoma individual quanto uma ''caracterís­
tica da postura total em todos os domínios da atividade", no do­
mínio dos hábitos quotidianos, da esfera expressiva total, das re­
lações com a técnica de vida, com a ciência e a arte. Topamos aqui
com expressões já conhecidas: tudo é aqui ''singularmente ama-
lucado, amaneirado, estudado, sem liberdade, dez vezes sobredeter-
minado". Já ao designarmos alguém na vida quotidiana como ex­
cêntrico, por exemplo uma solteirona, o que temos em mente com
isso é algo de "estudado, incompreensível, não natural'', algo de
"exagerado, inadequado, não usual", ao que acresce ainda o pro­
posital, intencional. (Vê-se que Gruhle quer deixar de lado o "fator
pejorativo" [axiológico] inerente à palavra excêntrico, o qual,
como ele próprio diz, gostaria de ver substituído por "o outro''.) A
componente maís importante da excentricidade é, para ele, o "deli­
beradamente invulgar", e é aqui que se encontra, a seu ver, "a
chave para sua compreensão". "O esquizofrênico quer opor-se,
toma sempre uma posição esquerda. Muito embora não seja total­
mente anti-social, é, no entanto, contrário às tradições, anticonven-
EXCeNTRICIDADe 31

cional. Mesmo nos processos hebefrênicos improdutivos, encontra­


mos sinais disso; o inculto passa a empregar a escrita latina, escre­
ve sempre sobre as linhas, fala sempre em alto alemão — o culto
orna de arabescos sua escrita, usa locuções incompreensivelmente
complicadas. Não se pode negar que essa atitude tem semelhanças
com o espírito de contradição" (p. 151). Mas Gruhle vê também,
e com razão, no ''comportamento contrário" do esquizofrênico, no
negativismo, ''apenas um caso especial de sua excentricidade e des­
vio geral". E isso resulta certamente ''do sentimento fundamental
alterado", "do humor esquizofrênico fundamental". Gruhle enten­
de manifestamente as últimas expressões num sentido muito am­
plo, mais existencial do que descritiVo-psicológico, e isso mais uma
vez com razão. Pois, como já se observou, parece estar de antemão
desprovida de toda perspectiva de sucesso a tentativa de derivar a
"postura fundamental" esquizofrênica, modulada em um número
infinito de humores, a partir de um determinado sentimento ou
humor. Assim, continua ele em conformidade ainda com sua in­
tenção; "Assim, entendo sua excentricidade (do esquizofrênico)
como um fator expressivo, a saber, da completa alteridade, do
isolamento, da solidão — de certo não somente como expressão
involuntária, mas como um desvio deliberado. É como se o esqui­
zofrênico fizesse aqui da necessidade uma virtude, não para se
vingar da sociedade, mas apenas a fim de, por assim dizer, rega-
lar-se, dar largas a suas energias em sua maneira peculiar de ser.
Muitas obras de arte esquizofrênicas oferecem um exemplo disso.''
"Do mesmo modo como muitas formas do negativismo podem ser
entendidas como casos especiais da excentricidade, o mesmo, a meu
ver, vale para o autismo" (ibid.). Gruhle menciona ainda, porém,
uma outra possibilidade da "proveniência" das "excentricidades",
a saber, o distúrbio intelectual. É verdade que ele não teria nada
aqui a objetar contra a hipótese de uma ''interação", a saber, con­
tra a tentativa de também derivar da excentricidade o transtorno
intelectual, por conseguinte, contra a tentativa de ver no pensa­
mento esquizofrenicamente perturbado nada mais que um pensa­
mento excêntrico. Todavia, enquanto, segundo ele, o doente padece
o distúrbio ("elementar") do pensamento, não conseguindo elimi­
ná-lo e tendo que suportar um grave sofrimento por causa dele,
todas as formas da excentricidade seriam, antes, algo a que ele dá
seu assentimento como adequado, mas que também poderia deixar
de lado. "Justamente o fato de a excentricidade provir de diferen­
tes distúrbios e, assim, do novo retroagir sobre eles, parece-me
falar me favor da concepção segundo a qual devemos analisar uma
situação esquizofrênica total, sem imaginar, porém, que uma psiquê
32 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

normal se veria em face de diversos sintomas esquizofrênicos pro­


curando de alguma maneira dominá-los" (p. 152).
A partir de tudo isso, vemos como é importante descrever e
compreender a essência antropológica da excentricidade, a fim de
não nos deixarmos prender na descrição e ''explicação" de seus
múltiplos modos de efetuação. Gruhle já se aproxima da concep­
ção existencial-analítica ao empreender exibir algo como uma es­
trutura da excentricidade. Contudo, sua distinção entre o ''outro
querer" intencional no sentido da excentricidade e o ter que, pade­
cer ou "não/>oder-fazer-outra-coisa" não deve desempenhar ne­
nhum papel decisivo para a concepção antropológica. Pois a con­
sideração antropológica tem precisamente que compreender o que
significa existencial-analiticamente aquele ''outro querer", ou por
outras, precisa compreender como deve estar ''constituído" um
ser-aí que ''quer de outra maneira", de maneira diferente dos ou­
tros. Esse querer também é algo que o ser-aí esquizofrênico padece,
que se ''impõe" a ele, mesmo que o esquizofrênico não tenha sem­
pre, de modo algum, que querer isso. O importante para a concep­
ção e descrição psicopatológica, a saber, a alternativa; intenção ou
distúrbio primário (''elementar") do pensamento desaparece na
concepção existencial-analítica. Esta tem em vista a existência in­
teira, tendo-a em vista, por conseguinte, também em seu estar-jo-
gado (Geworfensein), e não pergunta o que é primário e o que
é secundário e nada quer explicar. Para ela, a excentricidade é
uma maneira de ser na qual o ser-aí está jogado sem sua interven­
ção, não importando se essa situação se anuncia em intenções ou
numa necessidade não-intencional.
No mais, também Gruhle acentua a tendência geral a ver es­
quizofrênicos latentes em muitos dos excêntricos originais. O es­
quizofrênico mostrar-se-ia, porém, a partir do mundo comum
(Mitwelt) — mesmo se faltasse todos os outros sintomas grossei­
ros e ao contrário dos psicopatas — como "estranhamente afas­
tado, frio, impenetrável, contraído, amarrado", de tal maneira que
não conseguiríamos "jamais vir a compreendê-lo adequadamente''
(p. 154). O que há em comum entre o pubescente normal e o es­
quizofrênico é, segundo ele "a inversão (Umwertung) de todos
os valores e a estranha maneira de ser que daí decorre". Mas, en­
quanto podemos penetrar por empatia no pubescente — um crité­
rio ao qual Jaspers atribui sabidamente um valor tão alto, a nossos
olhos demasiado alto —, ao fator subjetivo da "cosmovisão" do
esquizofrênico e ao fator objetivo de sua excentricidade acresce
ainda, como terceiro fator, a impossibilidade da compreensão em-
patica a título de característica do estado esquizofrênico total
(ibid.). Nós próprios somos da opinião de que esse terceiro fator
EXCENTRICIDADE 33

muitas Vezes falha ao fazermos um diagnóstico diferencial, e isso


justamente no caso da esquizofrenia latente e da schizophrenia
simplex.
As coisas se passam de maneira muito diferente do exposto
por Gruhle, quando Carl Schneider expõe a psicologia da esquizo­
frenia.4'5 Schneider aproxima-se, é Verdade, das concepções de
Gruhle quanto à excentricidade como um ''outro querer" em suas
análises perspicazes, às Vezes até mesmo excessivamente minucio­
sas (p. 199). No mais, porém, trilha caminhos bem diferentes.
Entre as "características configuracionais do falar esquizofrênico",
menciona as paralogias, os neologismos e, em terceiro lugar, o "jei­
to bizarro e excêntrico" (p. 37). Acresce a isso ainda, em terceiro
lugar, a "linguagem quindada", o "retorcimento da expressão"
(Bumke), o que, porém, assim como o jeito bizarro em geral, já
se encontra a nosso Ver nas Vizinhanças do amaneiramento. A isso
liga-se, então, uma série de estereotipias e jeitos arnaneirados no
domínio da linguagem esquizofrênica, bem como as características
não-específicas relativas ao modo de colher impressões ocasionais,
de ir e vir em torno dos mesmos estados-de-coisas, de abordar um
tema, e as relativas ao estilo telegráfico. Por mais minuciosas que
sejam essas distinções, nem por isso se pode ignorar que elassão,
em parte, exageradas, artificiais e não convincentes. Em todo caso,
encontramos, na maioria dos "documentos lingüísticos" esquizofrê­
nicos pormenorizados, todas as transições entre uma e outra ca­
racterística.
Em Schneider, voltamos a encontrar a excentricidade entre
as ''características configuracionais do pensamento esquizofrênico,
mais precisamente, ao lado da rigidez (Bleuler), da solturae l
berdade do mesmo (p. 56). Quanto às características formais,es
pensamento remete a coisas como o lapso, a substituição, a fusão,
o palavreado delirante, sendo que para Schneider o palavreado vem
em primeiro plano. Essas últimas características seriam desprovi­
das de sentido, não seriam determinadas pelos contextos-de-senti-
do e teriam uma natureza independente dos estados-de-coisas do
pensamento. Também essa oposição entre o dotado e o destituído
de sentido — importante, é verdade, para a psicologia, mas difícil
de se decidir tanto em geral quanto no caso particular — torna-se,
tal como a oposição gruhleana entre intencional e não-intencional,
irrelevante para a análise existencial. O que importa para ela está
além ou aquém dessa distinção.

45 Schneider C.; Die Psychologie der Schizophrenen. G. Thieme, Leip­


zig, 1930.
34 TRÊS FORMAS Da EXIstÊnCIa MaLOGRaDa

Além disso, encontramos a excentricidade mencionada no ca­


pítulo "Da expressão na esquizofrenia", mais precisamente entre
as características configuracionais da expressão. Schneider separa
aqui o bizarro e o excêntrico. Para a excentricidade, apresenta um
único exemplo, que só artificialmente se pode separar da bizarria,
mas que é muito impressionante, a saber; um texto no qual uma
doente, aliás muito ponderada em outras situações, coloca sempre,
sem dar nenhuma justificação, um r em Vez do u (assim Wrnsch
em vez de Wunsch [desejo], Zergnisse em vez de Zeugnisse [tes­
temunhos], arch em vez de auch [também], Arshändigung em
vez de Aushändigung [entrega], Frndgegenstände em vez de
Fundgegenstände [objetos achados]). Em semelhante excentrici­
dade, poderíamos observar o concurso das seguintes característi­
cas ; seqüências de pensamentos difusas, fixação em determinados
comportamentos e substituições compulsivas. Está claro, porém,
que, neste exemplo precisamente, não se pode chegar sem uma
exploração pacientíssima a urn juízo e, assim, a uma "explicação".
Os pontos de vista a partir dos quais Carl Schneider analisa
as vivências e o processo esquizofrênicos são, de fato, abrangen­
tes. Estão dirigidos para o contexto dos conteúdos vivenciais, para
os modos de apresentação, o processo expressivo, o contexto psí­
quico e o quadro das performances. É a partir desses pontos de
vista que os "sintomas" esquizofrênicos são agrupados, analisados
e compreendidos clinicamente. Uma quantidade enorme de finíssi­
mas distinções clínicas e fenomenológicas e um gigantesco aparato
conceptual surgem aos nossos olhos. Esse todo não pode, segundo
C. Schneider, de modo algum ser "intuído", mas tão-somente in­
ferido a partir das formas e variedades de expressão existentes. A
esse todo ele chama "estado imediatamente vivenciado da vida psí­
quica'' ; ''Chamamos esquizofrênico a um estado das vivências psí­
quicas imediatas, quando ele pode ser caracterizado pela impene-
trabilidade, volatilidade e indelimitabilidade, com o predomínio da
impenetrabilidade" (pp. 279 ss.). A esse estado "correspondem",
então, os sintomas esquizofrênicos individuais classificados segun­
do os pontos de vista acima mencionados. Mas por trás desse sis­
tema total da esquizofrenia enquanto doença — sistema esse erigi­
do com grande energia construtiva — desaparece, de fato, o es­
pecificamente esquizofrênico no sentido de um todo intuitivo. Mas
será que podemos falar aqui em todo intuitivo?
Em seu estudo sobre Strindberg e van Gogh,46 47 de 1922,
onde podemos ver até hoje uma obra-prima sem igual em toda a
46 Jaspers, K.; Strindberg und van Gogh. E. Bircher-Verlag, Bem a, 1922.
47 N o índice da Psicopatologia Geral de Jaspers não se encontra a pala­
vra excentricidade (iVerschrobenheit). Ela aparece aí substituída pela pala-
EXCENTRICIDADE 35

literatura psiquiátrica, explica Karl Jaspers; " 'Esquizofrenia' não


é um conceito preciso, mas, em compensação, é um conceito infi­
nitamente rico, que assume em diferentes contextos diferentes
significações. Ora designa todos os processos que são irreversíveis
e que não são processos cerebrais orgânicos conhecidos do cérebro
ou epilepsia, ora designa um modo de vivenciar a ser apreendido
psicológico-fenomenologicamente, um mundo inteiro de estranha
existência psíquica, para cujos detalhes já se encontraram nume­
rosos conceitos mais precisos, sem que se consiga caracterizá-lo
satisfatoriamente como um todo. Trata-se de uma realidade enor­
me, que não identificamos mediante 'características' simples, tan­
gíveis, objetivas, mas, sim, como uma totalidade psíquica individual
(cuja existência, em todo caso, o conhecedor deduz às vezes a
partir de diferentes 'sintomas' por ele conhecidos, muito embora
essa inferência permaneça incerta enquanto esse todo não se torna
intuitivo para ele)" (pp. 123 ss.).
É desse ponto que parte, agora, Jakob Wyrsch numa confe­
rência muito importante, intitulada "Sobre a Intuição na Identifi­
cação do Esquizofrênico"48. Para Wyrsch, a soma dos diferentes
sintomas não constitui ainda o todo da esquizofrenia. Ao contrá­
rio, há sempre algo que vem se acrescentar ou que vai além dela,
e, sem dúvida, é esse algo que nos ''permite" fazer intuitivamente
o "diagnóstico". Esse diagnóstico não precisa consistir na percep­
ção e constatação de ''características particulares''. Mesmo que es­
tas existam, a pessoa experimentada não precisa de modo algum le­
vá-las em conta, e, apesar disso, ela ''enxerga" na pessoa à sua
frente e em diálogo com ela "algo de caracteristicamente esquizo­
frênico". Esse enxergar não se funda em conclusões feitas a par­
tir de fenômenos expressivos, nem é tampouco um adivinhar e
presumir, mas, sim, um verdadeiro reconhecimento (p. 1.173). —
Isso é mostrado intuitivamente em dois exemplos e um contra-
exemplo. Embora a expressão "excêntrico" não ocorra aqui, trata-
se, no entanto, do ponto de vista da coisa mesma, justamente da
excentricidade. A observação de que o esquizofrênico seria uma
figura que se ''soltou" ou, mais exatamente, que foi "arrancada"

vra "doidice", "maluquice" (V errücktheit). A o mesmo tempo, a expressão


esquizofrenia vale para os doidos no sentido mais estrito". Jaspers distin­
gue dois tipos de comportamento associal desses "doidos". O segundo tipo
corresponde em ampla medida ao dos excêntricos. D e uma tal pessoa diz-se
o seguinte; "Por sua maneira de ser alternativamente esquerda, tímida e
exagerada, grosseira, sempre informal, desmedida, ele é chocante para
todos, de tal modo que, ao sentir a reação, só pode se fechar ainda mais"
(cf. 4.a ed., p. 607).
48 Wyrsch, J.; Schweiz, med. Wschr. 46, pp. 1173 ss., 1946.
36 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

de seu fundo já cai dentro do tema da excentricidade. Isso torna-se


mais claro ainda quando se diz em seguida; ‘'Ele parece torto e
desajustado em seu mundo ambiente" (p. 1176). O torto e o de-
sadaptado — que expressão é mais intuitiva e adequada do que
"inadaptado" ? —, nós o conhecemos bem a partir das expressões
que caracterizam a excentricidade. Mas o elemento excêntrico ma­
nifesta-se também muito claramente no símile — pois só os símiles
conseguem tornar intuitivos os fatos antropológicos — das ''ma­
rionetes", cujos cordões estão, em parte, muitos esticados e, em
parte, muito frouxos. Eles não estão em seu inundo, inas, antes,
como que junto a49 seu mundo, sem encontrar apoio nas obras
impessoais que a tradição, os antepassados, os costumes, a condi­
ção social criaram e nas quais cresceram, razão por que nos dão
uma impressão de serem tão estranhos e diferentes. Enquanto no
sadio e no anormal não-esquizofrênico a palavra e a ação e o que
elas significam partem de um ponto central, e as exteriorizações e
realizações podem ser referidas a um centro de gravidade, de tal
modo que a unidade da pessoa pode ser reconhecida até mesmo
por trás de fenômenos contraditórios, o mesmo não acontece com
o esquizofrênico; ''Falta ao seu comportamento uma seqüência
coerente". Mas, do mesmo modo que não chamamos "desagregada''
à sucessão no teste de Rorschach, quando ela é completamente
desordenada, mas, sim, quando se alternam sucessão ordenada e
sucessão desordenada, assim também observa Wyrsch, muito cor­
retamente, a falta dessa "seqüência" não significa a constância do
imprevisível, mas o curso paralelo e o entrecruzamento do previ­
sível e do imprevisível. Isso lembra perfeitamente as constatações
de Kraepelin e Bleuler relativamente aos Psicopatas excêntricos, a
saber, sobre a falta de um caráter unitário e conseqüente em sua
vida psíquica! Mas quando isso ocorre, não há mais nenhuma
''unidade viva da pessoa", como diz Wyrsch do esquizofrênico. A
história da vida do indivíduo não permite mais falar em "autofor-
mação" ou "desenvolvimento" de sua pessoa, mas apenas em algo
como "pisar no mesmo lugar". As exteriorizações de tais doentes
parecem-nos como que "esvaziadas", como "meras formas e gestos
inculcados", muito embora, entre semelhantes ''fenômenos expres­
sivos vazios, ocos, venham também às vezes irromper de novo com
violência elementar outras manifestações cheias de vida". Wyrsch
lembra aqui o estreitamento, a perda de poder e a mundanização
que descrevemos no caso Ellen West, bem como o caso já publi­
cado de R. Kuhn.50 Ao mesmo tempo, remete às descrições relati-
4® Grifo meu.
50 Kuhn, R.; Mschr. Psychiat. Neurol. 112, 233, 1946.
EXCEntrICIDaDe 37

vas à ''vivência da falta de contacto íntimo e da paralisação do de­


senvolvimento". O que aprendemos com tudo isso, por conseguinte,
não são sintomas, mas algo que se aproxima da postura total, fi­
gura ou humor fundamental de Gruhle e que hoje tentamos com­
preender e interpretar existencial-analiticamente como modo esqui­
zofrênico do ser-aí ou ser-no-mundo.51 Esse modo existencial não
poderia, assim explica Wyrsch nessa passagem, "ser decomposto
analiticamente, mas só pode ser enxergado intuitivamente''. Se essa
"maneira-de-ser inconfundível" do ser-aí esquizofrênico "é tão-so-
mente uma conseqüência de perdas ou alterações psicológicas, logo
dos sintomas,"52 ou se nelas ''atua um distúrbio psicopatológico
fundamental, impalpável, da pessoa, são questões que ainda estão,
segundo Wyrsch, por se investigar. Essa investigação, como se
sabe, ele a levou a cabo com sucesso três anos mais tarde em sua
extensa obra sobre a pessoa do esquizofrênico (Berna, 1949).

B. A E x p r e ssã o “ E x c e n tr ic id a d e ”
e S u a s P e r ífr a se s

Enquanto o sentido antropológico da extravagância (Verstie­


genheit) podia ainda ser interpretado sem mais a partir de uma
direção semântica fundamental da existência humana, o subir
(Steigen), o mesmo não ocorre com a excentricidade (Verschro­
benheit). De fato, as palavras alemãs que significam extravagân­
cia e excentricidade têm em comum o sentido veiculado pelo pre­
fixo “ver-”, ou seja, o sentido de algo alterado, invertido, deterio­
rado e, mesmo, de algo transformado em seu contrário. Mas, ao
contrário do extravagar, não vemos sem mais onde possa estar o
sentido antropológico do alterado ou invertido na excentricidade.
Além disso, uma coisa que de antemão se impõe à atenção é a
constatação de que podemos falar de um Sich-Versteigen [que tra­
duzimos por extravagar, mas que também podemos traduzir, como
vimos, por extraviar-se, exceder-se, etc. de modo a pôr em relevo
51 Binswanger L.; "Über die daseinsanalytische Forschungseinrichtung
in der Psychiatrie." Schweiz. Arch. Neurol. Psychiat. 57, 2, 1946; Ausge­
wählte Vorträge und A ufsätze I, Francke A G ., Berna 1947.
52 A rigor, não se pode fazer semelhante indagação, posto que os con­
ceitos sintoma e pessoa por um lado, modo existencial, por outro lado,
pertencem a duas perspectivas científicas muito diversas. Um modo exis­
tencial não pode ser a conseqüência de um sintoma, embora se possa
construir conceptualmente os sintomas a partir de um modo existencial
através de uma análise clínica, isto é, por redução ao conceito da doença.
38 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

sua forma reflexiva — N. do T .], mas não de um Sich-Versch-


rauben [algo como "excentrificar-se" — N. do T.] dispondo tão-
somente das expressões verschroben (excêntrico), Verschroben-
sein e Verschrobenheit (excentricidade). Mais precisamente, po­
demos designar como excêntrico tanto a própria pessoa, a pessoa
inteira, quanto seus atos, planos, empreendimentos, idéias, etc. Em
compensação, designamos como verstiegen (extravagante, exorbi­
tante) tão-somente algo na pessoa, um ideal, uma idéia, um plano,
um "amor", no e com o qual ele extravagou, extraviou-se, exce­
deu-se. A expressão: “Er ist ein verstiegner Mensch” ("ele é uma
pessoa extravagante") não é corrente na linguagem ordinária
alemã. Uma posição lingüística intermediária entre Sichversteigen
(extravagar, extraviar-se) e Verschrobensein (excentricidade) é
ocupada pela expressão verbohrt [obstinado, cabeçudo, doido —
derivado de bohren; furar, verrumar — N. do T .], que já encon­
tramos na primeira parte deste trabalho como sinônimo de excên­
trico. Podemos dizer que uma pessoa se obstinou numa coisa, bem
como que e obstinada. O homem excêntrico, ao contrário, não se
"excentrificou" (hat sich verschraubt), nem com um determinado
domínio, nem em um determinado domínio. Ao contrário, a lingua­
gem coloquial limita-se, como dissemos, à expressão verschroben
= excêntrico, seja relativamente à própria pessoa, seja relativa­
mente a algo nela. Correlativamente, o substantivo Verschro­
benheit ■= excentricidade designa também tanto o modo de ser
inteiro de uma determinada pessoa, quanto um comportamento
determinado dessa pessoa. Mas de que natureza é o ser e o com­
portar-se ao qual a linguagem ordinária conferiu o nome de ex­
centricidade ?
Se, ao praticar a análise existencial, buscamos nosso ponto de
partida (!) na linguagem coloquial e por ela nos deixamos guiar
ao longo de um largo trajeto, é porque ela já explicitou, articulou
e enunciou, como diz Goethe, ''desde o paraíso até hoje" em ''mi­
lhares de traços da linguagem e da fala"53 aquilo que nós próprios
somos e em cujo meio vivemos e somos. E também porque ela o
fez de modo tão profundo e preciso que seus projetos mundanos
constituem nossa morada espiritual originária, nosso berço espi­
63 Cf. a mascarada de 18 de dezembro de 1818 V. 341/36 com relação
a Herder. Cf. além disso o poema de Goethe, Etimologia, onde se lê*

“So wird erst nach und nach die Sprache festgerramelt,


Und was ein W olk zusammen sich gestammelt,
Muss ewiges G esetz für Herz und Seele sein.”
["Assim se vai a língua fixando,
E o que um povo veio tartamudeando
Tem que ser lei eterna para a alma e o coração."]
EXCENTRICIDADE 39

r itu a l o u ''a r m a te r n o " ( G o e th e ) , sem o q u a l nossos p r ó p r io s p a s ­


sos perderiam seu solo e nosso próprio alento seu elemento vital.
Mas lembro também Baudelaire; "Profondeur immense de pensée
dans les locutions vulgaires, trous creusés par des générations de
fourmis".54 As "locutions vulgaires” mostram-nos que a linguagem
ordinária vê na excentricidade um modo concreto, especialmente
intuitivo da Verdrehtheit [doidice ou maluquice, estado de q u e m ,
literalmente, ficou "verdreht”, isto é, girado ao contrário, ou, como
dizemos vulgarmente, de quem ficou ''gira" — N. do T.].

Assim os alemães do Norte usam para designar os excên­


tricos a expressão "durchgedreht" (“girado"). Falam, não
de uma pessoa excêntrica, mas de uma pessoa “girada". O
prefixo "durch" [equivalente ao português "per"] significa
aqui “totalmente" (girado) = gira. Os significados das
expressões; Ver-dreht-sein [doidice, maluquice, lit. estar mal
girado] e Ver-schroben-sein [excentricidade, lit. estar mal
aparafusado] encontram-se ligados na frase; "Er ist eine
verdrehte Schraube" [ele é um maluco, lit.; é um parafuso
mal girado ou mal enroscado], por conseguinte, um parafuso
que não foi aparafusado corretamente, adequadamente, com
perícia, em suma, um parafuso que foi aparafusado “ao
contrário" ou “invertido" ("verkehrt"). A perversão (das
V erkehrte) desse aparafusar tem, por sua vez uma dupla
significação. Ela refere-se tanto à configuração inadequada
ou incorreta do próprio parafuso quanto a seu manuseio
inadequado ou “sem perícia".
A perversão do girar manifesta-se ademais de maneira
drástica na expressão; “er ist schief gewickelt" [literalmente;
ele está enrolado torto, isto é, está muito enganado ou ilu­
dido] . Essa expressão é particularmente intuitiva, não somen­
te por evocar um elemento muito intuitivo do girar ou virar,
o enrolar, mas também o torto (do rolo), uma direção
semântica que já encontramos tantas vezes no vocabulário
clínico para designar a excentricidade. Acresce a isso que
a palavra “torto" de modo algum quer dizer aqui tão-somente
o torcimento ou o enviesamento espacial, ou seja, a super
ou justaposição torta ou enviesada das circunvoluções do
rolo, mas, sim, tal como o estar mal girado do parafuso, ao
mesmo tempo o malogro ou fracasso do rolo. Se enrolar sig­
nifica o mesmo que “dar a forma de rolo" (Kluge), então a
expressão alemã; "schief gewickelter Mensch" [lit.; “pessoa
enrolada torto"] — tal como o significado da expressão ante­
rior; "verdrehte Schraube" [lit.; “parafuso mal girado”]
indica que a formação, o modelamento, a configuração ou
“construção" da pessoa em questão foi mal sucedida (ou
ainda, ficou torta, tortuosa, saiu ao contrário, deu errado),

54 Baudelaire, Ch.; Ecrits intimes (Fusés), p. 8, Les Editions du Point


du Jour, Paris 1946.
40 TRÊS FORMAS DA EXIStÊnCIa MALOGRADA

em suma, que sua forma exibe "erros” em sua estrutura e


está desfigurada em seu aspecto.
O sueco diz também, para excêntrico, vriden = verdreht
(no sentido de "doido, maluco”) , derivado de vrída — girar,
enroscar, aparafusar e, ao mesmo tempo, girar ao contrário,
etc. N o holandês,55 excêntrico se diz verschroeft, verdraaid,
gewrongen, opgeschroeft, verward. Os verbos correlativos
são; draaien (girar), wringen (torcer), schroeven. O verbo
de verward era outrora warren, que significava; confundir,
perturbar e brigar, querelar. Onde o alemão fala em "ver­
schrobener Stil” (“estilo arrevezado, retorcido”), o holandês
fala em “gewrongen stijl”. "Excentricidade” ( Verschroben­
heit) se diz em holandês; gewrongenheid.
N o italiano, também, usa-se storto = torcido, torto,
curvo, tortuoso no sentido de excêntrico, assim como o
latim distortus, pode ter o significado de excêntrico tanto no
sentido retórico de Cícero quanto no sentido moral de San­
to Agostinho. O mesmo vale do inglês distorted, sobretudo
no sentido de desfigurado, do desfiguramento dos traços
fisiognômicos e do desfiguramento do sentido de um enun­
ciado.
N o francês, não encontramos nenhuma relação lingüís­
tica direta entre excêntrico e girado (coníourné, tourné).
Uma pessoa excêntrica é, em francês, "un homme qui a
l’esprit de travers”, onde, é verdade ainda vem se expressar,
como no latim transversus, a “vira-volta” ("Um-wendung”) ,
mas agora tão-somente no sentido do obstacle, do atravessado,
torto, enviesado, do “desviado” de seu espírito.56 Do mesmo
modo, a designação inglesa; a queer fellow — esquisitão ou
excêntrico remete para o torto, enviesado de sua índole espi­
ritual, que também vem a se exprimir na palavra alemã apa­
rentada quer (ou verquer) = atravessado, de través e no
prefixo zwerch ( = quer) (cf. também Querkopf = cahe-
çudo, teimoso, do contra, literalmente; cabeça atravessada).57
A linguagem nos ensina também que, ao contrário do uso
lingüístico da Psicopatologia (v. seção A ), deve-se fazer uma
nítida distinção entre verschroben (excêntrico, lit.: mal apa-
rafusado) e geschraubt (arrevesado, lit.; aparafusado). Pois
fazemos, por exemplo, uma distinção entre “einem gesch­
raubten = gewundenen Stil" (um estilo arrevesado, retorci­
do) e "einem verschrobenen Stil” (um estilo excêntrico).
Mas só nos ocuparemos dessa distinção quando da análise
do amaneiramento.

65 Devo essas indicações a meu colega van den Berg, de Utrecht.


56 Assim diz La Rochefoucauld em suas máximas: "Un esprit droit a
ntoins de peine de se soum ettre aux esprits de travers que de les condui-
re .” Ou; "Peu d'esprit avec de la droiture ennuie moins à la longue, que
beaucoup d ’esprit avec du travers" (La Rochefoucauld, F. Oeuvres; A
la Cité des Livres, t. 2, p. 101 e 110, Paris 1929). A oposição entre a
retidão e a tortuosidade encontra aqui uma expressão muito feliz.
57 N ão deixa de ser interessante que o latim torqueo (torço) seja deri­
vado de uma raiz indogermânica twerk (Kluge),
EXCENTRICIDADE 41

Tampouco encontramos na língua grega, tanto quanto


posso ver, uma relação entre girar, girar ao contrário
(iGTQÉcpeiv) e a excentricidade e a maluquice em geral.
Todavia, ela conhece um modo de se expressar no qual se
exprime muito bem o invertido (das Verkehrte) o louco das
Ver-riickte, ou seja, des-locado) da ex-centricidade (V er­
schrobenheit). Nas Troianas de Eurípides, o arauto Talthy-
bios repreende da seguinte maneira a figura extática da pro-
fetisa Cassandra; o v y à g a g n a ç £%eiç (pgévaç, que pode­
mos traduzir quase literalmente em alemão com nossa fra­
se; “du hast die Sinne nicht beieinander" [ “não estás em teu
juízo perfeito", ou ainda “estás a disparatar”, literalmente;
“não tens juntos, ou reunidos, os teus sentidos”] . Pois o
â g rio ç aqui negado significa além de “inteiro, completo,
incólume”, sobretudo "coerente, adequado, correspondente,
conveniente”, mas também par (também no sentido de
“número par"). Essa locução grega coaduna-se, pois, lingüís-
ticamente, tanto com a expressão alemã; "verdrehte Schrau­
be" [ = maluco, literalmente; parafuso mal girado], quanto
com a locução que diz que alguém tem um parafuso solto,
ou seja, de que algo não está certo com ela, de que algo
não se coaduna muito corretamente com algo, não se adap­
ta mais direito a outra coisa. Encontramos expressões lin-
güisticamente positivas para esse não-combinar, não-corres-
ponder, não-ajustar-se corretamente, expressões aliás muito
enérgicas, na língua francesa com a locução jurer avec58 —
contrastar com, e na língua alemã com o símile do "assentar
como o punho ao olho" (“Passen wie die Faust aufs A uge”).

C. A S ig n ific a ç ã o A n tr o p o ló g ic a
d a E x p r e ss ã o “ E x c e n tr ic id a d e ”
e d e S u a s P e r ífr a se s

Consideremos agora a significação antropológica das expres­


sões descritivas que encontramos até aqui, deixando a linguagem
da teoria científica, por enquanto, fora de consideração. Um olhar
superficial já permite ver que quase todas provêm da oficina do
homo faber, a saber, de certas possibilidades de sua lida com seu
''material" e, ao mesmo tempo, da natureza desse ''material". Aliás,
vê-se logo que essa oficina não é a do alfaiate, do sapateiro ou do
padeiro, mas a do serralheiro, a do encanador ou do pedreiro, do
marceneiro ou do carpinteiro. Pois, com poucas exceções, nossas
58 Já encontramos também essa expressão. Cf. acima vol. 124, p. 201 E.
Minkowski; "ll (le piano) jure avec le restant du rnobilier, avec toute la
vie du ménage”.
42 T rês FORMAS Da EXIstêNCIa MaLOGRaDa

expressões não remetem a um material macio, mole, elástico, que


se possa sovar, amassar ou amoldar, como, por exemplo a massa,
a lã, o pano, a seda, o couro macio, a borracha, etc., mas a um
material "inelástico” (Bleuler), sem flexibilidade, rijo, teso, duro,
frio e, em todo caso, resistente, corno o ferro, a pedra, a madei­
ra.59 Mas é preciso ficar claro que tais expressões devem sua
origem à manipulação, ao trato manual e artesanal do ''material".
Pois a "práxis" precede sempre a constatação "teórica" das pro-
priedades de um objeto. Isso mostra-se de maneira particularmen­
te clara quando a ocupação prática não somente ''encontra resis­
tência", mas também sempre que se mostra perturbada ou malo­
grada, logo, quando se fala em estar mal aparafusado ou mal gi­
rado (o parafuso) (" Verschroben ou Verdrehtsein der Schrau­
be”), em estar mal verrumado ["Verbohrtsein" = obstinação —
cf. em port. o uso de "verrumar uma idéia, um plano" — N. do
T .], em ser ou estar invertido ou pelo avesso ["Verkehrtsein" =
estar mal-humorado, irritadiço, ou ser errado, absurdo — tr.], em
estar mal fechado ["VerscA/ossensein" = ser fechado, pouco co­
municativo, reservado — de sehliessen — fechar — tr.], em estar
entortado ou torcido [Verbogen, de biegen = curvar — tr], ou
então de um excesso [Über, lit.; sobre, super — tr.], quando se
fala da tensão excessiva (do arco; Bogen) [Überspanntsein =
exagero, exaltação, extravagância, derivado de spannen = (es)-
tender, esticar — tr.], de um impulso excessivo do mecanismo
[Übertriebensein des Getriebes, Übertriebensein significando em
seu sentido próprio: exagero, e derivando de treiben = impelir,
impulsionar — tr., etc. Em todas essas expressões da perturbação
ou do malogro trata-se, como se vê facilmente, de um não conse­
guir continuar com o aparafusar, o verrumar, esticar, impelir, etc.,
logo, de um fim ou de um limite além do qual o parafuso só pode
ficar pior aparafusado, o arco ainda mais excessivamente tendido,
o mecanismo ainda mais excessivamente impulsionado, etc.
Esse chegar a um fim ou a um limite torna-se depois parti­
cularmente claro nas expressões que remete a um "pôr-se de tra­
vés" [in die Quere kommen: pôr-se de través, contrariar os pro­
jetos de alguém], logo, a algo que se ''põe de través em nosso ca­
minho" quando trabalhamos, andamos, etc. A isso se ligam as ex­
pressões quer [transversal, de través], verquer [de través, p.ex. na

59 A única exceção é, a meu ver, Carl Schneider, quando este fala, além
da impenetrabilidade, logo da dureza, também da "volatilidade" e da “'li­
mitação”. A expressão alemã Schiefgewickeltsein [estar iludido muito
enganado, inteiramente equivocado, literalmente; estar enrolado torto]
indica também uma exceção, relativa ao material e ao local de trabalho.
Essa expressão remete-nos à sala de fiação e ao novelo de linho.
EXCEntRiCiDADe 43

expressão "das ist mir verquer gelungen”: isso me saiu de través,


errado — N. do T .], Querkopf [lit.; cabeça atravessada, isto é,
cabeçudo, teimoso], que er fellow, esprit de travers, etc.
Há ainda outras expressões que não remetem ao chegar ao
fim de um ''movimento", mas a relações puramente espaciais, tais
como o não-estar-disponível da ferramenta ou do material "em seu
lugar", ao excêntrico, desviado, distante relativamente a sua situa­
ção no lugar de trabalho. Outras remetem a desvios da direção ou
da linha, logo ao torto, tortuoso, ou a desvios da simetria e da
correspondência espaciais em geral, ou em outras palavras, ao uni­
lateral. Mas a falta de correspondência vai muito além — como,
aliás, convém ao conceito grego da simetria e de suas perturba­
ções60 — da correspondência espacial e também abrange o desar-
mônico, o discordante, o que não combina de modo geral, em
suma o que não corresponde, o que contradiz, o não estar bem dis­
posto [Nicht-recht-Beieinandersein, lit.; não estar bem ajuntado,
ou estar meio desconjuntado, usado no sentido de não estar muito
bem de saúde, bem disposto, etc. — N. do T .], o estar rompido ou
arrancado (Abgerissensein, Kraepelin),'"tal como também encon­
tramos na locução relativa ao estar solto do parafuso e, sobretudo,
na negação grega; ovx aonoç, cujo correspondente em alemão é
o "Nichtbeieinanderhaben der Sinne” [ = não estar em seu per­
feito juízo, disparatar].
Muitas expressões têm origem, porém, em propriedades ma­
teriais ou formais ''perturbadoras" do próprio ''material", em sua
falta de unidade ou desigualdade, em suas arestas ou em seu ca­
ráter tosco ou grosseiro, etc. Semelhante material revela-se àquele
que lida com ele como não familiar, estranho, surpreendente, es­
quisito, imprevisível, numa palavra, como difícil de tratar. Por isso,
é recusado pelo artesão, posto de lado como imprestável, repelido
(abgestossen) como "chocante" (anstossend) (Jaspers).
O que se pode dizer da origem antropológica da palavra Vers­
chrobenheit (excentricidade) e de suas paráfrases originadas na
oficina do homo faber, na ocupação manual e artesanal com um
determinado material do mundo ambiente (umweltlich), vale tam­
bém das paráfrases puramente psicológicas. Também elas provêm
da esfera do trato ou ocupação (Umgang) quotidiana ou médico-
artesanal com um determinado material — não mais, certamente,
um material físico, mas um ''material humano''. Aqui se trata da
esfera da personalidade no sentido do trato ou comércio com o
mundo-comum, ou do tomar-alguém-por-um-lado, característico do

60 Binswanger, L.; Z. Kinderpsychiat. 14, cad. 1/2, 1947.


44 TRÊS FOrMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

mundo comum {"des mitweltlichen Nehmens-bei-etwas”)fix É


apenas a partir dessa homogeneidade da significação antropológica
que se torna compreensível a possibilidade e, mesmo, a obviedade
da transposição, para o ser humano enquanto uma pessoa viva, de
todas as expressões próprias à ''matéria morta". Por outro lado,
compreendemos agora também por que jamais encontramos no vo­
cabulário clínico da excentricidade expressões provenientes da es­
fera da existência ou da comunicação e, naturalmente, antes de
mais nada, da liberdade, da consciência moral, do amor, etc. O
próximo é, de fato, compreendido aqui unicamente a partir do tra­
to com ele, mais precisamente, a partir da perturbação, dificuldade
ou impossibilidade desse trato, e de sua redução diagnóstica a de­
terminadas peculiaridades e propriedades da pessoa com que se
trata; à sua inaptidão para o trato ou dificuldade no trato, à sua
resistência, impenetrabilidade (''dureza", "rigídez", "frieza"), suas
contradições, seu caráter arredio, sua imprevisibilidade. Daí ori­
ginam-se expressões como ininfluenciável, incorrigível, estuda­
do, sem naturalidade, sem espontaneidade, meticuloso, intransigen­
te, fanático, incapaz de discutir, caprichoso, irritável, fantasioso,
associai e, sobretudo, autista. Essas expressões remetem também a
uma incapacidade de continuar a lidar com alguém em razão de se
ter chegado ao fim com alguma coisa, por exemplo, com a discus­
são, a correção, a influência, com o diálogo objetivo, com o trato
em geral. Aqui também alguma coisa ''atravessa-nos'' sempre, em
cada caso, o ''caminho", damos de encontro com um obstáculo, com
uma dificuldade ou perturbação. Em lugar da dificuldade, pertur­
bação ou malogro da atividade de lidar com ou trabalhar manual­
mente o mundo ambiente, surge a dificuldade ou impossibilidade
de lidar lingüisticarnente com o mundo comum, bem como a de
sua elaboração lingüística ou "pessoal”, em suma, a dificuldade ou
impossibilidade do entendimento mutuo. Em ambos os casos, po­
rém, permanecemos na esfera do tomar-alguém-por-um-lado (des
Nehmens bei etwas) dos manipulanda, dos utilisanda e dos discri-
minmda, para nos servirmos dos conceitos básicos (behavioris-
tas) de Tolman.62
O que aprendemos ao lançar um olhar sobre a origem an­
tropológica da expressão Verschrobenheit (excentricidade) e de
suas paráfrases é pois, em primeira linha, o conteúdo semântico
do malogrado, do defeituoso ou desfigurado, em sum a; da impres­
tabilidade. A imprestabilidade é aquilo que nos atrapalha ou
61 Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins. l . a parte, 2.° cap.,
pp. 266-382, Verlag Niehans, Zurique, 1942.
62 Ricoeur, P.; Philosophie de la Volonté, t. I, pp. 196 ss., Ed. Montaig­
ne, Paris, 1949.
EXCENtRICIDaDE 45

estorva, ao lidarmos com alguma coisa ou alguém, e, ao estorvar,


nos surpreende, na surpresa, nos detém ("fim", "limite") e, ao
nos deteV, nos põe "mal-humorados". A mera atividade de lidar
ou tratarrcom não está cheia de amar, mas de desamor. Ela
mede e juiga (''discrimina") aquilo com que lida, o "manipulan-
dum", única e exclusivamente quanto a seu fim e proveito (en­
quanto utilisandum). Seu estado de ânimo ''depende" do mero
conseguir ou fracassar. Nessa medida, a atividade de lidar per­
manece sempre na ''superfície" das coisas e das pessoas. ''Não vai
até o fundo delas."Aqui também, e com maior razão ainda, vale
a frase de Valéry; "Toutes les fois que nous accusons ou que
nous jugeons — le fond n’est pas atteint."63
Mas aqui, e aqui com maior razão ainda, podemos mostrar
por que isso não ocorre. Não ocorre, não somente porque todas
as nossas expressões provêm do trato humano, e só dele, mas
porque as peculidaridades ("negativas") do trato por elas visadas
são transformadas em propriedades da pessoa com que se trata.
O trato "atemático" com a pessoa em questão ''converte-se"64
num juízo sobre essa pessoa. Nesse juízo, a pessoa recebe o pre­
dicado ''excêntrico" como uma ''sentença condenatória" proferida
a partir da irritação ou mau-humor provocado pelo malogro (do
trato). Assim, é verdade, abre-se caminho para uma descrição,
classificação e diagnóstico psicopatológicos, embora se feche o
acesso à compreensão da excentricidade como possibilidade da
existência humana. "Pois o ser homem", diz com toda razão
Szilasi,65 ''não está pronto e acabado de modo a persistir como
algo idêntico; a única coisa idêntica do ser-aí é o fato de que ele
é desprovido de predicados em todo presente. . . "66

D . A S ig n ific a ç ã o O n to lo g ic a
d a E x p r e ssã o “ E xcen tlricid ad e,’
e d e S u a s P e r ífr a se s

Depois de tudo o que vimos até agora, não pode subsistir


mais dúvidas quanto a essa significação. A compreensão ontoló-
gica subjacente a todas essas expressões é a compreensão do ser,
63 Valéry, P.; Varieté II, p. 135, Gallimard, Paris 1930.
64 Heidegger, M.; Sein und Zeit, § 69 b, Verlag Niemeyer, Halle 1927.
65 Szilasi, W.; M acht und Ohnmacht des Geites, p. 299. Francke, Ber­
na, 1949.
«6 Grifo meu.
46 TRÊS FORMAs DA EXistêNCiA MALOGRADA

mas não do ser entendido em primeira linha como subsistência


(Vorhandenheit), nem, sobretudo, entendido como ger-aí e
ser-com, mas sim como disponibilidade (Zuhandenheit) no sen­
tido das investigações clássicas de Heidegger. Remeto à sua obra
Ser e Tempo, que veio à luz há mais de um quarto de século
e que se tornou indispensável, entre outras coisas, também para
a psiquiatria enquanto ciência. Praticamente, nenhuma das ex­
pressões dessa última — e, sobretudo, a da própria excentrici­
dade — remetem em primeira linha a uma coisa percebida ou
a uma pessoa subsistente hic et nunc, mas a um "instrumento"67
já envolvido na lida do homem com as coisas. Tampouco a "ma-
luquice" ou a excentricidade da pessoa designada em alemão como
um "parafuso mal enroscado" [isto é, ''maluca", tendo um ''pa­
rafuso frouxo"] é constatada perceptivamente. mas é, sim, des­
coberta através de certas perturbações ou dificuldades do trato
com ela na própria maneira de tratar-com, isto é, na própria ma­
neira de “pegar" alguém tomando-a por um lado qualquer [pelo
braço ou pela mão, por seus pontos fortes ou fracos, etc. — N.
do T.]. Mas a investigação só se torna ontológica quando se per­
gunta, como Heidegger o fez, ó que torna um instrumento um
instrumento, numa única palavra, quando se pergunta pelo ser
como instrumentalídade. A resposta a essa questão e, como se
sabe, a estrutura do "ser-para", do remetimento de algo para
algo, tal como a serventia, a capacidade de contribuir para al­
guma coisa ou de se empregar para algum fim, a manejabilidade,
em suma a capacidade de se prestar para alguma coisa ou a
algum fim. Ao instrumento se relaciona sempre, em decorrência
disso, um todo instrumental (que não se deve confundir com uma
soma de coisas), no qual ele pode ser o instrumento que é. Assim
como é somente no martelar que se descobre a "manejabilidade''
específica do martelo, assim também é somente no trato lingüís­
tico (que se expressa na pergunta, no pedido, no comando, na
sugestão, na discussão, etc.) que se descobre a possibilidade de
se tratar com a pessoa. Esse modo de ser do instrumento, no
qual ele se ''manifesta a partir de si mesmo", é aquilo que Hei­
degger denomina disponibilidade. Em razão disso, a disponibili­
dade não pode, como dissemos, ser descoberta ''teoricamente'',
mas apenas ''na prática", isto é, na utilização. Também essa ma­

67 A inclusão da personalidade na instrumentalidade ou na disponibili­


dade não se encontra em Heidegger. Ela é efetuada pela primeira vez
nas Grundformen do autor deste livro. Cf. aí também a personalidade ou
o tomar-por-algum-lado [pelo braço ou pela mão, "pela palavra", isto é,
ao pé da letra, ou "pelo ponto fraco", etc. — N. do T.] próprio do mun­
do comum.
EXCEntRiCiDADE 47

neira de lidar tem a sua visão (Sicht). É a circunvisão organi­


zadora dos meios (Um-sicht) relativa ao contexto de remetimen-
tos do 'ser-para", por conseguinte, a visão que discerne a maneira
pela qual o objeto disponível se encaixa na multiplicidade de re-
metimentös e, dessa maneira, no para-que de sua possibilidade de
emprego. Ora, também o portador ou utilizador da obra está in­
serido nessa multiplicidade de remetimentos e, assim, o mundo
também onde vivem portadores e utilizadores como nós mesmos
(loc. cit., p. 68 ss.). Uma coisa que já aqui há de chamar nossa
atenção é o fato de que a expressão Verschrobenheit (excentri­
cidade) e suas paráfrases não levam em conta esse remetimento
(ao mundo comum). Ao contrário, levam-nos a encontrar o pró­
ximo, ele próprio como um instrumento, como um ''parafuso mal
enroscado", como um ''rolo enrolado torto", a saber — em con­
formidade com o significado alemão dessas expressões — como
uma pessoa excêntrica, isto é, no interior de um determinado con­
texto de remetimentos, como uma pessoa inacessível, difícil de se
manejar e de tratar, atravessada (ver quere), excêntrica
(exzentrisch), sem unidade, malograda.
Ora, cada remetimento é algo que, a rigor, não se impõe à
atenção, não nos solicita ou importuna, não se rebela (unauffällig,
unaufdringlich, unaufsässig). É só numa perturbação do remeti-
mento — na impossibilidade de se empregar p ara. . . — que elas
nos silicitam ou se tornam "temáticas" (loc. cit., p. 74), como
mostraram suficientemente nossas expressões.68
A disponibilidade não está ''no mundo", o objeto disponível
não é nenhum ente intramundano. Ao contrário, a disponibilida­
de é para Heidegger — e é nisso que se mostra sua relevância
ontológica — por assim dizer constitutiva do mundo em geral, da
mundanidade do mundo. Conseqüentemente, "ser-no-mundo" sig­
nifica também o "absorver-se atemático — caracterizado pela cir­
cunvisão organizadora dos meios — nos remetimentos constituti­
vos da disponibilidade do todo instrumental". ''Pois o providen­
ciar (Besorgen) já é o que é em virtude de uma familiaridade
com o mundo" (p. 76).
O ser da disponibilidade, o remetimento é caracterizado além
disso e com precisão como a finalidade (Bewandtnis). O fato de
que um ente está remetido a outro ente significa ''que ele encon­
tra consigo mesmo em alguma coisa sua destinação" ("dass es
mit ihm bei etwas sein Bewenden hatf’). Por conseguinte, Hei­
degger pode também dizer; "O caráter ontológico da disponibi­
68 Cf. em particular as expressões alemãs que começam com os prefixos
Ver ou Über, bem como as que dizem respeito ao "través" {die Q uere),
corno Querkopf (caheçudo), esprit de travers, transversus.
48 TrêS FORMAS Da EXISTÊNCIA MALOGRADA

lidade é a finalidade". E aqui é imprescindível acentuar também


— e isso em vista precisamente do ser-no-mundo chamado esqui­
zofrênico — que toda totalidade finalizada69 ''remonta enl última
análise a um para-quê no qual ele não tem nenhuma finalidade
mais, algo que não é mais ele próprio um ente à maneira do ob­
jeto disponível no interior de um mundo, mas, sim, um ente cujo
ser é determinado como um ser-no-mundo e a cuja constituição
ontológica pertence a mundanidade ela própria. Esse para-quê pri­
mário não é nenhum para-isto como um possível em-quê (Wobei)
de uma finalidade. O "para-quê" primário é um em-vista-de-quê
(W orum-willen). Mas, o 'em-vista-de' (das ‘Um-willerí) concer­
ne sempre ao ser do ser-aí para o qual, em seu ser, se trata
sempre essencialmente desse ser" (p. 84).
Tudo isso vale também, como dissemos, do trato ou comércio
pessoal ou social (mitweltlich). Também o para-quê do cumpri­
mentar, discutir, perguntar no ''mercado", da experimentação no
laboratório psicológico, do exame no consultório médico, remon­
ta a um em-vista-de-quê, que concerne ao ser do ser-aí, para o
qual se trata sempre em seu ser essencialmente desse ser. Aliás,
trata-se aqui do ser-aí enquanto pertencente a uma sociedade,
isto é, enquanto sociável ou “social”, enquanto se ocupa de expe­
riências científicas, ou de um exame e tratamento médicos, de um
ser-aí portanto que é o em-vista-de-quê do trato ou do comércio
quotidiano, da investigação cientifica, da arte terapêutica, etc.
Nas expressões pré-científicas "verschroben" ou "verdrehte
Schraube" [ = excêntrico, maluco, pancada, de parafuso frouxo
— N. do T.], mas também em suas paráfrases e explanações clí-
nico-descritivas, o próximo (Mitmensch) não é, justamente, com­
preendido como um ser-aí próximo a nós (Mit-dasein), para o
qual se trata, assim como para mim também, desse ser, mas, sim,
precisamente como uma pessoa de que se pode dispor ou tratar.
"Nós" não nos encontramos aqui, por conseguinte, no mesmo ní­
vel ontológico, mas na diferença ontológica interpretada e expressa
através das expressões ser-aí e ser enquanto disponível (e ser
subsistente). Ora, o próximo não é de modo algum à maneira
de um ''instrumento" a se manejar (no sentido mais amplo da
palavra). Ao contrário, enquanto ser humano meu próximo, ele
tem no fundo de seu ser, como eu próprio, o caráter ontológico
69 Por exemplo, o todo finalizado que "constitui" em sua disponibilidade
os objetos disponíveis numa oficina ou na fazenda mas também, podemos
acrescentar, por exemplo, o todo finalizado que "constitui" em sua dispo­
nibilidade o com-o-quê humano disponível no "mercado" (na ágora), no
laboratório psicológico, no consultório médico ou na sala de plantão d«
clínica.
EXCeNtRICIDADe 49

do ser-aí, para o qual se trata em seu ser desse ser ele próprio.
Isso posto, fica claro agora que só podemos chegar a uma com­
preensão existencial-analítica da excentricidade, se voltarmos as
costas à sua concepção e interpretação como disponibilidade, como
o ser de um [indivíduo de] ''parafuso frouxo", de um ''gira", ou
seja, de urna pessoa com que não se pode lidar e inaccessível, vol­
tando-nos ao mesmo tempo para sua compreensão e interpretação
no sentido do ser do ser-aí.7°

E. A n a lis e E x iste n c ia l da
E x cen tr ic id a d e

Não devemos mais, portanto, encarar os excêntricos como


pessoas "inaccessíveis", ''difíceis de tratar", mais ou menos sem
serventia na sociedade, ''associais", exaltadas, excêntricas (exzen-
trisch), autistas e, sobretudo, não devemos mais formular em
palavras as impressões que provocam em nós que lidamos com
eles. Mas trata-se agora de compreender e descrever os excêntri­
cos a partir de seu ser mais próprio, como co-existentes (Mitda•
seiende). Em suma; em vez do ser-disponível, o ser-no-mundo.
Na medida, porém, em que ser-no-mundo significa o ''absorver-se,
guiado pela circunvisão organizadora, nos remetimentos constitu­
tivos da disponibilidade do todo instrumental", teremos que bus­
car a essência da excentricidade na maneira pela qual a pessoa de
que se pode dispor como tendo um ''parafuso frouxo", isto é, a
pessoa excêntrica, se absorve por sua vez nos respectivos remeti­
mentos ou todos finalizados.
Nessa busca, a análise existencial de modo nenhum se afasta
das tentativas feitas pela linguagem coloquial e pelas descrições e
Perífrases clínicas no sentido de uma melhor abordagem da essên-
TO Lembremos ainda que é sobretudo na segunda seção da obra citada
e, em particular, no quarto capítulo intitulado Temporalidade e Quoti-
dianidade (§§ 67-71) que Heidegger vem a se ocupar "a fundo” com a
constituição existencial do ser-aí, examinando-a a partir de sua inter­
pretação temporal. (Posteriormente o tema foi ainda mais elaborado no
tratado sobre a essência do fundamento, publicado na obra comemorativa
do 70.° aniversário de Husserl; Husserl-Festschrift 1929.) Lembremos tam­
bém que é justamente aqui que encontramos ontologicamente interpreta­
dos os fenômenos particularmente interessantes em nosso contexto da
perturbação do trato-com. . . , tais como os fenômenos do impor-se à aten­
ção (A uffälligkeit), da importunidade (Aufdringlichkeit), da rebeldia
(A ufsässigkeit), da resistência da falta de serventia, da dificuldade de
manejo, da impossibilidade de se superar, mas também do surpreender-
se, etc.
50 TRÊS FORMAS Da EXistÊNCia MaLOGRaDA

cia da excentricidade. A tarefa da análise existencial cônsis-


te, assim, tão-somente em procurar em seu núcleo essencial, isto
é, na essência de seu modo-de-ser-ai, aquilo que a linguagem
ordinária e a clínica circunscreveram em imagens, metáforas
e expressões psicológicas. Apesar de irmos muito além das im­
pressões do excêntrico, não abandonamos, pois, de modo algum
o caminho pré-traçado por elas. Conseqüentemente, não se deve
esperar nenhuma descoberta revolucionária. Mas tampouco se trata
aqui unicamente de uma tradução ''de uma para outra língua". Ao
contrário, trata-se da conversão de uma mera opinião (doxa) num
saber seguro de seu método e de seu tema.
Sobretudo, é preciso que tenha ficado claro que a linguagem
coloquial e a clínica já se deixavam guiar em suas locuções, me­
táforas, descrições e perífrases pelas impressões e experiências que
"nós” temos ou fazemos no trato com os excêntricos relativamente
ao seu trato com os objetos disponíveis (no sentido mais amplo
da palavra). Uma pessoa de ''parafuso solto (eine verdrehte
Schraube), uma pessoa ''enrolada torto" (schief gewickelt) [i. e.,
iludida, muito enganada], exaltada (überspannt), excêntrica
(exzentrisch), etc. é, na verdade, no ''modo de ver" das "locutions
vulgaires” e da terminologia clínica, uma pessoa que, por sua vez,
desparafusa ou enrosca ao contrário, que estica excessivamente
(überspannt) ou exagera tudo aquilo que ''cai em suas mãos", ou
que ela ''agarra" ou ''toma entre as mãos", chegando assim por
sua vez a um limite ou a um fim. Pode-se ver isso de maneira
muito clara nas locuções clínicas. Lembro apenas a expressão;
''uma compreensão distorcida da situação" e ''operações lógicas
distorcidas" (Bleuler) num excêntrico, bem como as expressões;
planos situados num futuro remoto, ações imprevisíveis, pen­
samentos fantasiosos, comportamento contraditório, caprichoso,
incompreensível, impenetrável por empatia, etc. Aqui também a
linguagem e, mesmo, a teoria clínica (Gruhle), valem-se do modo
de ver ou "ponto de vista" segundo o qual a pessoa a se designar
como excêntrica é uma pessoa que /ida com a atividade de con­
ceber, planejar, pensar, agir, comportar-se, etc. de uma maneira
diferente da "nossa" — ou seja, distorcida, girada ao contrário,
mal aparafusada, excessivamente esticada —, e não se cansa de
descrever nos menores detalhes essa diferença ou, mesmo, de "ex-
plicá-la" teoricamente. Ao mesmo tempo, porém, a relação do "eu
e mundo" e, com maior razão ainda, a relação do ser-aí e da mun-
danidade ( = conjunto dos contextos de remetimentos ou dos to­
dos finalizados), continuam obscuras e opacas.
Com isso, chegamos a um ponto em que podemos nos atrever
a uma interpretação existencial-analítica de diferentes exemplos.
EXCENtrICIDaDe 51

Primeiro exemplo

U m Pai P õe Debaixo da Á rvo re de N atal um Caixão


para Sua Filha Cancerosa 71

A impressãoque ''nós", na atitude natural, temos do compor­


tamento desse pai é a de ''um soco na cara". Pois o caixão como
presente de Natal para um familiar canceroso ''assenta", como diz
a expressão alemã, "como o punho sobre o olho", quer dizer, como
o soco do punho no olho. Ficamos "horrorizados" com o modo
como esse pai lida com o caixão e com a filha. Ao mesmo tempo,
deve ter ficado claro imediatamente que não faz a menor diferença
para essa impressão, se lidamos ou tratamos com o pai em contato
imediato com ele, presenciando assim a situação em questão, ou
se apenas ouvimos falar dela ou dela temos notícia. Em vez do
olhar temos a "imagem" que nos é comunicada. Mas o que vale
para a impressãoque essa ''imagem'' faz sobre nós, a impressão
de uma pessoa em alto grau excêntrica (verschroben) ou que está
muito enganada, "enrolada torto" (schie gewickelt), vale também
para nossa ''reação" a ela, para nossa ''tomada de posição" em
face do pai com base nessa impressão, numa palavra, para a ma­
neira de lidarmos com ele. Para "descrever'' nossa impressão e
reação a ele, poderíamos recorrer a quase todo o arsenal de nossas
anteriores expressões e perífrases da excentricidade. Mas deixa­
remos de fazê-lo, para não cansar excessivamente o leitor, vol-
tando-nos imediatamente para a interpretação existencial-analítica
desse exemplo.
À frente de nossa análise do estado de coisas enunciado na
frase acima, colocaremos, mais uma vez, a caracterização original
feita por Heidegger do ''ser-no-mundo" como um "absorver-se ate-
mático, guiado pela circunvisão organizadora, nos remetimentos

71 Esse exemplo é tomado à 7.a edição (1948) do compêndio de Bumke


(Bumke, O.; Lehrbuch der Geisteskrankheiten, 7.a ed., Springer, Berlim
1948), onde se encontra citado sob a rubrica; excentricidade. O prof.
Bumke aquiesceu muito amavelmente ao meu pedido de indicações mais
pormenorizadas sobre esse pai, todavia com a solicitação de não fazer
uso delas, uma vez que se trata de uma pessoa que tem uma posição na
vida pública e muito fácil de se identificar a partir de certas estereotipias.
Só posso mencionar o fato de que a pessoa em questão mostra traços de
excentricidade não somente nessa ação, mas também em seu comporta­
mento total. Todavia, jamais teria sido internada em qualquer sanatório.
Com toda certeza, deve ter considerado o caixão como um presente "ade­
quado". N ão se sabe como a filha reagiu ao "presente".
52 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

constitutivos da disponibilidade do todo instrumental. Mas /é de


particular significação para nossa análise, agora, o que s(/ deve
compreender por "circunvisão organizadora" {Umsicht). /Ela é,
como já sabemos, "a visão que discerne a maneira pela qual o
objeto disponível (aqui o caixão) se ajusta na multiplicidade de
remetimentos (aqui a multiplicidade de remetimentos7chamada
‘festa de N atal'), discernindo assim o para-quê de sua utilidade”.
Ressaltamos mais uma vez que a essa multiplicidade de remeti-
rnentos pertence também o portador ou utilizador da ''obra"72
(aqui a filha presenteada com o caixão) !
Eis aí o único instrumental de que precisamos para a solução
de nossa tarefa. Mas é preciso ter sempre em mente que não se
trata mais de nossa impressão do e de nossa reação ao compor­
tamento desse pai, logo de nossa surpresa, perplexidade e, mesmo,
indignação, nem tampouco de nosso juízo (objetivante) sobre o
pai como uma pessoa excêntrica, sem consideração e, até, brutal,
e menos ainda, finalmente, de nosso juízo se o objeto disponível,
aqui o caixão, se ajusta ou não nessa multiplicidade de remeti-
mentos chamada ''festa de Natal". Segundo o nosso juízo, dificil­
mente haverá algo "no mundo"73 que se ajuste menos nesse con­
texto de remetimentos ou todo finalizado do que um caixão para
um familiar canceroso. O pai, todavia, achava o caixão, como nos
contaram, ''adequado". Mas, ainda que não nos houvessem con­
tado isso, teríamos que partir do modo como o caixão se ajusta,
"aos olhos" ou na visão do pai, na festa de Natal. Ou melhor,
teríamos que partir do modo como deve ser compreendido um
ser-aí ou ser-no-mundo para o qual o caixão e a festa de Natal
não significam nenhuma ruptura ou contradição, para o qual,
muito ao contrário, o caixão''se ajusta" na festa de Natal!
Não obstante, é preciso que desde o início fique claro para
nós que a excentricidade é apenas uma possibilidade existencial

72 Em vez de obra (W erk) e justamente com relação a esse exemplo,


seria mais adequada a expressão pragma (cf. o grego prattein = agir,
práxis = a lida para se providenciar alguma coisa), visto que ela desig­
na não somente coisas, mas também o desempenho e, mesmo, de modo
geral, o que ó feito na ação ou o providenciado no providenciar. É nessa
perspectiva, já indicada por Heidegger (Heidegger, M ; loc. cit., p. 68),
que as expressões pragma e práxis são empregadas por Szilasi (Szilasi,
W.; loc. cit., pp. 120 ss. 126, 246), hem como, mais recentemente, ainda
que num sentido puramente intencionalista, por Ricoeur; “Le 'Pragma*
ou corrélat intentionnel de l’Agir”; “L e pragma est le corrélat complet
du faire" (Ricoeur, P., Philosophie de la volonté, Paris 1949, p. 195 ss.,
e W. Keller; Psychologie und Philosophie des Wollens, Basiléia 1954,
p. 234).
73 Cf. a esse propósito, em todo caso, n, 49!
EXCENtRICIDaDE 53

entre muitas, quando um objeto disponível se ajusta para cada


ser-aí numa multiplicidade de remetimentos, enquanto uma pessoa
de fora, ao julgar a situação, diz que não se ajusta. Uma dentre
essas possibilidades é a necessidade, a necessidade na qual, como
diz a expressão alemã, "o diabo devora moscas" ou a gente "se
agarra a uma palha", outra são as paixões como, por exemplo, a
raiva, na qual não somente fazemos coisas que assentam como o
punho no olho, mas literalmente damos um soco no olho de al­
guém, uma quarta possibilidade é a oligofrenia e a demência,
quando se juntam coisas que a pessoa normal tem que separar de
novo devido à impossibilidade de utilização da ''obra". Em todos
esses casos, como se sabe, não falamos em excentricidade. A ex­
centricidade tem que ter por base — em conformidade com a im­
pressão inequívoca que só dela emana — uma possibilidade ine­
quívoca74 da existência. Que possibilidade será essa? Eis aí a
questão que temos que responder.
Essa questão não e, pois, de natureza psicológica ou psico-
patológica, mas de natureza fenomenológico-existencial-analítíca.
Não perguntamos, portanto, nem pelos motivos que podem ter
levado o pai a sua ação e por seu relacionamento com a filha ou
por sua atitude em face da morte, nem tampouco pela natureza
de seu tipo constitutivo. Por mais naturais e justificadas que sejam
essas questões do ponto de vista da psicologia e da Psicopatologia,
riem por isso podemos esperar conseguir discernir com essas ques­
tões a essência da excentricidade como um modo determinado da
existência humana ou do ser-no-mundo. Isso, aliás, já o mostra­
ram todas as análises que fizemos até aqui. Por outro lado, elas
mostraram também onde devemos buscar o ponto de partida de
nossas questões; a saber, na multiplicidade de remetimentos ou
todo finalizado "em questão". Em nosso caso, por conseguinte, no
todo finalizado que se formula nas seguintes palavras; ''presente
de Natal para minha filha cancerosa''. É preciso ter em vista aí
que um todo finalizado jamais significa uma ''realidade" estabe­
lecida de uma vez por todas, mas ''o todo categorial de uma
possibilidade de ligar num contexto os objetos disponíveis".75 Em
nosso caso, a condição dessa possibilidade é o ser-para inerente

74 O caráter inequívoco dessa impressão refere-se, portanto, à excentri­


cidade enquanto fenômeno existencial, mas de modo nenhum ao juízo que
se faz de um determinado comportamento, modo de agir, plano, etc.
enquanto excêntricos. Muito ao contrário, minha experiência ao apresen­
tar meus exemplos mostrou-me que dificilmente se poderá alcançar um
consensus omnium. Tanto maior é a necessidade de pôr em marcha a
"discussão" sohre a excentricidade enquanto fenômeno existencial.
75 Heidegger, M.; loc. cit., p. 144, p. 152, p. 359.
54 TRÊS FORMAS Da EXistÊNCia MaLOGRaDa

à intenção de dar-uma-alegria com o presente exatamente na festa


de Natal, aliás, uma festa de Natal que será previsivelmente a
última da presentada. Esse ser-para parece estar frustrado de an­
temão, com o que se "desconjunta" o todo finalizado enquanto tal.
Voltaremos a isso depois. O lugar desse ser-para "fundamenta-
dor" e, mesmo, instituidor é tomado pelo presentear de algo de
que a presenteada precisa ou que pode se utilizar. Também esse
ser-para é um fator — embora de modo algum indispensável —
que possibilita o nosso contexto de remetimentos. Em todo caso,
fenomenologicamente, ele passa para o segundo plano, atrás do
ser-para inerente à intenção de dar uma alegria. O pai, porém,
faz deste ser-para justamente o elemento fundamental ou institui-
dor do todo finalizado em questão, com o que este, é verdade, não
se desconjunta de todo, embora não se conserve em sua estrutura,
mas se veja restringido de maneira essencial. Na verdade, o caixão
ajusta-se tão pouco nesse todo finalizado que ele é, como o pai
parece se dizer, de fato ''a única coisa que ainda pode ser útil à
filha", mas que ela só pode ''utilizar" depois de morta.
Nesse "parece se dizer", o lugar do absorver-se atematico,
guiado pela circunvisão organizadora, nos remetimentos constitu­
tivos do todo finalizado; ''presente de Natal para minha filha can­
cerosa" é tomado pela reflexão a título de uma abordagem expli-
citadora, igualmente guiada pela circunvisão organizadora, da coisa
providenciada,76 numa palavra, pelo terna: "presente de Natal para
minha filha cancerosa". O ''esquema" da reflexão é o "se. . . en­
t ã o ..." ou " s e ... p o rta n to ...". Tematicamente desenvolvido e
aplicado a nosso exemplo; ''Se minha filha doente ainda precisa
de alguma coisa, então é de um caixão que ela precisa, portanto
vou lhe dar um de presente".
Desse modo, já efetuamos, na análise de nosso exemplo, a
volta que nos leva da mundanidade — entendida como o conjunto
dos contextos de remetimentos em questão aqui no sentido do ser-
para — em direção ao para-quê, ao em-vista-de do ser-aí ou da
"existência". Posto que, ''em toda compreensão do mundo, a exis­
tência (está) também compreendida e vice-versa",77 a compreensão
existencial-analítica tem sempre que levar em conta "os dois as­
pectos". É só levando em conta esses "aspectos" que conseguimos
nos aproximar da essência da excentricidade enquanto fenômeno
existencial.
Apesar de tudo o que explicamos até aqui, o ser-aí continua
a existir em-vista do convívio (Miteinander) e o presente ofere­

76 Heidegger, M.; loc. cit., p. 359.


77 Heidegger, M.; loc. cit., p. 152.
EXCENtriCiDaDE 55

cido permanece de pé como um dado fenomenológico. O que signi­


fica isso? Ao dar seu presente de Natal, o pai abre a comunicação
com a filha, ''vem ao seu encontro" num convívio. Pois o presente
é, em princípio, um abrir-se em comum que envolve uma partici­
pação recíproca. Mas aqui — e é isso que é decisivo para a excen­
tricidade — o passo que se dá para o espaço aberto do convívio é
de novo anulado pela própria escolha do presente, mais ainda,
não somente anulado, mas convertido em seu oposto. Quer dizer;
a participação em comum no presente (no sentido em que este
implica um presentear e um ser presenteado) converte-se numa
total falta de participação da parte da pessoa presenteada. Mais
ainda; o ser-presenteado converte-se num ser-ofendido. O ''com"
do convívio que estava à vista, de repente desaparece de novo78
Tocamos assim a particularidade essencial da excentricidade, sua
verdadeira essência; o tema ''presente de Natal" vai aqui muito
além de um ponto compatível com sua própria conseqüência, o
querer dar uma alegria com o presente, ou seja, vai além do con­
vívio, ou melhor, passa por cima dele. Quando isso ocorre, como
em nosso exemplo, a conseqüência do tema deixa de ser con­
seqüência! Aqui, ao passar por cima do convívio, por cima
da participação em comum em algo comum,79 a conseqüência
do tema transmuta-se em seu contrário, em inconseqüência.
Eis aqui o verdadeiro ponto de ruptura, o ponto em que
a "tensão'' {"Cespanntheit,,) do tema se converte em "exagero,
exaltação" ( " Überspanntheit") e o tema ''se rompe em pedaços",
o ponto em que a direção retilínea da ''abordagem explicitadora,
guiada pela circunvisão organizadora, da coisa providenciada" de
repente se torna uma linha torta ou subitamente se põe de través.
Ou, para lembrar a perífrase da excentricidade ( Verschrobenheit)
com a maluquice do "gira" ( Verdrehtheit) : aqui, ao colocar o
caixão sob a árvore de Natal, a conseqüência do tema ''presente
de Natal para a filha cancerosa" é girada além do limite até o
qual ainda se podia preservar o convívio; ele é forçado ou girado,
torcido errado (überdreht oder verdreht). Como o parafuso tor­
cido errado, ele não pode mais ser torcido, mas fica cada vez mais
"entalado'' quanto mais forçamos. Com esse excesso ou erro no
78 Lemhro aqui com gratidão o impulso e o estímulo que recehi de meu
amigo Wilhelm Szilasi.
79 Cf. tamhém minhas G rundform en. A forma do "Nós” (die JVirheit)
no participar; o partilhar-com, o participar algo, o participar-em, etc. A
expressão "convívio" (Miteinander) que, nas Grundformen, é reservada
exclusivamente para a vida em comum amorosa e amistosa, é usada aqui
no sentido usual em Heidegger e Szilasi que ahrange tanto o ser-com no
sentido da lida e do trato quanto o cuidado assistencial (Fürsorge) dos
outros (Heidegger, M.; loc. cit., p. 144, p. 152).
56 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

girar ou torcer ( Über- oder Ver-drehtheit) da conseqüência atra­


vés da anulação do convívio, a conseqüência do tema converte-se
numa penosa conseqüência (Szilasi), penosa em duplo sentido; no
sentido da pertinácia com que é perseguida pelo pai, por um lado,
da afronta feita ou anulação do convívio, por outro lado. Há
meios para preservar a participação comum na coisa comum —
nós os denominamos consideração, cortesia, tato — e há meios
para dificultar ou obstar a mesma — nós os denominamos negli­
gência, falta de tato, falta de consideração, afronta, insulto.
Percebemos, então, o seguinte; se dizemos que o caixão en­
quanto objeto disponível não se ajusta na multiplicidade de reme-
timentos ''presente de Natal", que ele assenta nela tão bem ''como
o punho sobre o olho" ("il jure avec l'arbre de Noël"), e se
dizemos que o excêntrico carece da circunvisão organizadora, a
saber: da visão desse ajustar-se, estamos, nós outros, a julgar a
partir do todo finalizado que se chama festa de Natal. Na visão
do pai, porém, o caixão ajusta-se nessa multiplicidade de remeti-
mentos, porque esta visão resulta não do todo finalizado ou, como
se pode também dizer, da totalidade da situação, mas sim de um
estreitamento ''específico" da mesma, ''específico" com relação à
peculiar privação de seu fundamento comunicativo. Mas podemos
agora expressar de maneira positiva também esse estreitamento
que caracteriza negativamente a excentricidade. Isto é, podemos
encará-lo enquanto fenômeno existencial; a excentricidade revela-
se com uma conseqüência penosa na perseguição de um tema além
dos limites nos quais ainda se preserva o convívio, em outras pa­
lavras, como o forçamento (Überdrehtheit) de um tema além do
''centro de rotação" ( “Drehpunkt”) da possibilidade de participa­
ção em comum em algo comum.
Nosso primeiro exemplo é tão expressivo porque, mesmo que
o agente não se exprima acerca de sua ação, ele mostra da maneira
mais zlara possível que a conseqüência penosa na perseguição de
um tema vem justamente destruir aquilo que ele queria criar:
queria criar comunicação — através do presentear — e destrói a
comunicação — através da escolha do presente. Mais ainda, priva
a existência do fundamento comunicativo enquanto tal.80
80 De resto, nosso exemplo do caixão é uma maneira drástica de chamar
a atenção para aquilo que há muito se chama de relatividade cultural dos
sintomas psiquiátricos. Para os chineses, por exemplo, como me informa
uma fonte digna de crédito, um helo caixão é uma coisa da mais extrema
importância, de tal modo que não raro, por exemplo, um filho presenteia
sua velha mãe com um belo caixão, para tranqüilizá-la quanto a esse
ponto. O caixão fica então na sala de estar e as pessoas convivem ale­
gremente com ele. Neste mesmo contexto insere-se um relato, cuja fonte
não mais na memória, muito embora o fato relatado enquanto tal seja,
EXCENTRICIDADE 57

Disso tudo resulta que o problema da excentricidade gira em


torno do problema da abertura e do fechamento. O ser-aí existe
aqui em vista do presentear, aberto portanto para o convívio. Mas,
quando ''se engana em sua visão" (indem es sich "versieht”)
quanto a esse em-vista-de ou quando ''se engana ao agarrar" (in­
dem es sich "vergreift”) a possibilidade ontológica desse em-vista-
de, ele se fecha para a possibilidade do convívio e se encerra em
si mesmo.

Segundo Exemplo

Ao visitar, numa noite de domingo, o doente sexagenário


Hae., um esquizofrênico crônico (hebefrênico-paranóide), mas
ainda muito bem conservado intelectualmente, encontro-o sentado
calmamente à mesa, com uma fatia de língua fria (de seu jantar)
posto de través sobre a calva. Surpreso e divertido, pergunto que
diabo está fazendo ali. No mais sério dos tons, mostrando apenas
um brilho ''astuto" no canto dos olhos, ele retorque dizendo, que
a fatia de língua é excelente para refrescar cabeça quente.

Portanto, o doente vem ao nosso encontro precisamente


enquanto doente, não numa experiência natural, mas, ini­
cialmente, numa experiência medical, neste contexto deter­
minado de remetimentos mundanos que é a medicina e nesta
área de especialização médica que é a psiquiatria. Ele vem
ao nosso encontro — ainda que a título de paciente, pelo
menos num cenário "natural” — por ocasião da visita mé­
dica num sanatório. Por isso, julgamos seu comportamento
“de antemão”, isto é, a partir do a priori do contexto-de-reme-
timentos paciente-psiquiatra, como o comportamento de um
doente. N ão lhe fazemos nenhuma censura, não lhe arreba­
tamos de cima do crânio a fatia de língua fria, mas con­
servamos a distância do juízo e a paciência da observação
médica. Mas, posto que o médico é “um ser humano tam­
bém” e posto que também “vê no doente o homem”, ele
não pode e não quer se furtar à impressão (pessoal) do
divertido ou ridículo. Todavia, permanece cônscio de que
essa impressão é puramente “humana”, não constituindo,
portanto, nem uma observação “médica” nem, muito menos,

de acordo com a pessoa mencionada acima, perfeitamente possível na


China pré-revolucionária. Um médico pediu a um pai que não contasse
ao filho que este não viveria mais por muito tempo. Na visita seguinte,
o médico v êpai e filho a fabricarem juntos o caixão do filho. — A pro­
pósito da relatividade cultural dos sintomas psiquiátricos, cf. sobretudo
A dolf Hopp (Zeitsch. f. d. ges. Neurol, u. Psychiatr. 51, 415, 1919). Óti­
mos exemplos encontram-se também em Jakob Frostig: Das schizophrene
D enken, Leipzig 1929.
58 TRês FORMAS Da EXIStÊNCIa MaLOGRaDa

teórico-científica. Mas, em vez de nos colocarmos no Nos


do contexto de remetimentos médico-paciente e no Nós da
"humanidade", nós nos colocamos mais uma vez no Nós
da “experiência natural”, tão logo enxergamos no contexto-
de-remetimentos médico apenas um "caso especial”, um setor
determinado da mundanidade em geral, na medida em que
esta é o conjunto das relações de significância ou dos con­
textos de remetimentos. Desse modo o a priori de nossa po­
sição, determinada naturalmente, transforma-se na evidência
comum da morada natural comum81 do Nós, logo da “expe­
riência natural”. Em lugar da objetivação científica de uma
pessoa dada como um objeto disponível e a ser tratado,
surge aqui, pois, a compreensão e a explicitação de uma
possibilidade de modificação de algo compartilhado em
comum, o ser-aí como nosso ser-aí, como ser-homem ou
ser-no-mundo.

Enquanto, no primeiro exemplo, deparávamos com uma forma


brutal de excentricidade, encontramos no segundo uma forma di­
vertida, engraçada. Isso já bastaria para nos advertir a não con­
fiar em nossas impressões e sua formulação lingüística, ao pro­
curarmos a essência da excentricidade.82
Também aqui conseguimos ''acompanhar até certo ponto" o
ocorrido, o pragrna. A fatia de língua encaixa-se perfeitamente no
contexto-de-remetimentos a que chamamos refrescarnento, do mes­
mo modo como o caixão do primeiro exemplo se ajustava dentro
do contexto do presente como objeto útil. Mas quando, pergun-
tar-se-á, poderemos dizer que a conseqüência da ação é perseguida
além de um ponto compatível com ela própria, a saber, indo além
ou passando por cima do convívio ? Ou por outras; até que ponto
se passa aqui por cima do convívio, da possibilidade de participar
em comum em algo comum? Onde é que nos defrontamos aqui com
um "ponto de ruptura" no qual a retidão da conseqüência se torna
distorção, se põe de través, sofre uma tensão excessiva (uma exal­
tação) ou um giro errado? Parece que o convívio não desempenha
(spielt) nenhum papel aqui, pois em parte alguma se encontra ''em

S1 Cf. W. Szilasi, loc. cit. Schweiz. Arch. Neurol. Psychiai. 67, cad.
l, p. 77.
s2 Não devemos passar em silêncio o fato de que um ou outro dos ouvin­
tes sentiu vontade de rir ao ouvir nosso primeiro exemplo. Isso já mostra
que a excentricidade e o humor (W itz) estão de algum modo inter-rela-
cionados. Essa relação reside na introdução de um traço individual estra­
nho, inesperado, na estrutura familiar de um contexto de remetimentos e
na surpresa que isso provoca. Basta lembrar a concepção freudiana do
dito humorístico! O tema “humor e excentricidade” necessitaria de uma
investigação própria.
EXCENTRICIDADE 59

jogo" ("im Spiel") uma segunda pessoa à qual o pragma pudesse


remeter, à qual pudesse se referir, à qual pudesse estar destinado!
Essa maneira de indagar esquece de perguntar pelo essencial,
pelo ser-no-mundo enquanto tal. A questão pela maneira de ser-
no-mundo que ''se nos antolha" aqui diz respeito não somente ao
convívio como presença, mas também, exatamente da mesma ma­
neira, como ausência. "Faltar é algo que só pode ocorrer num e
a um ser-com", diz Heidegger (loc. cit., p. 120) com muito acerto.
Mesmo caindo no esquecimento, o convívio não é pura e simples­
mente eliminado. Ao contrário, o esquecimento, como nos ensinou
Heidegger, confere ''ao desaparecimento aparente do esquecer
uma presença própria". Ou por outras: o "sem os outros" (das
" Ohne die ändern”) é também uma maneira do convívio (Mitei­
nander, lit.; um com o outro — N. do T .), não, é verdade, no
sentido psicológico, embora certamente no sentido existencial-
analítico. Se olharmos mais detalhadamente, veremos logo que o
contexto em que se insere a fatia de língua constitui um compli­
cado contexto de remetimentos, no qual não somente uma, mas,
sim, muitas pessoas estão envolvidas. Pois a língua remete não
somente ao animal, não somente à pecuária e aos pecuaristas, não
somente ao ofício do açougueiro e ao próprio açougueiro, não so­
mente ao ofício da conservação da carne e aos fornecedores, mas
também à culinária e a cozinheiro, ao ofício do empregado domés­
tico, dos enfermeiros, e até mesmo ao do médico como guardião
da "ordem na desordem". Não levaremos "em consideração'' aqui
essa multiplicidade altamente complexa de remetimentos. É isso
que, aqui também, faz da conseqüência da ação uma conseqüência
penosa, isto é, exclui a participação em comum em algo comum.
Se passamos aqui tão facilmente por cima da perturbação do fun­
damento comunicativo, é porque, como já mencionamos no início,
partimos de antemão do a priori da psiquiatria, ou por outras, por­
que vemos, julgamos e toleramos na ação excêntrica a ação de um
doente mental. Mas, com esse diagnóstico, barramos justamente,
como é fácil de se ver, o caminho que leva à compreensão existen­
cial-analítica do nosso tema. Mas essa compreensão mostra-nos
ainda por que podemos falar clinicamente, em semelhante caso
também, em autismo, porquanto o ser-aí não somente se retira aqui
do determinado contexto-de-remetimentos ''cultural" onde se in­
sere nossa ação, mas também do contexto do recebimento quoti­
diano da refeição servida por outrem, e faz de sua própria neces­
sidade momentânea o critério exclusivo de seu agir. Desse modo,
o contexto-de-remetimentos enquanto tal é rompido. A fatia de lín­
gua não se encontra mais no todo finalizado da alimentação em
geral, onde vinha dar sua ''história" inteira, e do jantar em parti-
60 TRÊS FORMAS Da EXISTÊNCIA MaLOGRaDa

cular, em que redundava sua significação atual, mas, sim, no todo


finalizado do refrescamento. Dito de outra maneira; a língua fria
não é mais, agora, considerada e utilizada enquanto coisa para se
comer, mas enquanto coisa para refrescar o calor. A estrutura-do-
enquanto83 mostra aqui uma "labilidade" que salta aos olhos. A
razão dessa labilidade não é, em primeira linha, de modo algum
a falta de conseqüência na perseguição de um tema, logo da re-
flexão, mas já é a maneira do ser-no-mundo enquanto um absor-
ver-se atemático na disponibilidade como um todo instrumental,
passando, aliás, do ponto onde ainda é possível uma participação
em comum.
Semelhante ser-aí existe em vista de sua necessidade e age
consoante sua necessidade, como é próprio da essência do ser-aí
como corporeidade. Se descrevemos esse agir como excêntrico, é
porque, na conseqüência desse agir, o ser-aí se fecha em face da
convivência no ''esquecimento" e se encerra consigo mesmo nesse
esquecimento.
A fim de fazer aparecer mais claramente ainda o fenômeno
da excentricidade que se revela nesse exmplo, convém indagar por
que não falaríamos em excentricidade, se o doente houvesse enfiado
um lenço ou um guardanapo dentro da água fria, colocando-o
sobre a cabeça, a fim de refrescá-la. Também esses prágmata têm
sua "história", baseada em seu ser-para e seu em-vista-de. Mas,
abstração feita do fato que essa história concerne em primeira
linha, à história de sua produção ou ''fabricação", o doente não
sairia de modo algum do ser-para desses prágmata, como ocorre
relativamente a um pedaço de carne, portanto a algo de animal.
Pois, do ser-para no sentido da alimentação e, com maior razão,
da alimentação animal, para o ser-para no sentido do refresca-
mento é um ''salto" muito maior, um salto muito mais claro por
cima do convívio, do que o salto do ser-para do ato de enxugar as
mãos molhadas, de assoar o nariz e proteger a roupa contra a su­
jeira para o ser-para do refrescamento. Nos últimos casos, o ser-aí
fica, por assim dizer, na superfície ou na exteríoridade do corpo,
existindo em vista do mero manejo ou manipulação, do mesmo
modo como no refrescamento. A ingestão de alimentos, ao contrá­
rio, não é um simples manejo de alguma coisa num plano super­
ficial ou externo, mas a incorporação de alguma coisa para a con­
servação da vida. É em torno desse ser-para e em-vista-de que
gira a "história" da língua fria. O convívio está aqui excluído do
''acompanhamento", da participação em comum em algo comum,
porque o que acontece aqui é, nada mais nada menos, a interrup­
83 Cf. Sein und Zeit, pp. 148 ss.
EXCENTRICIDADE 61

ção arbitrária da estrutura ''hierárquica", da ordem relativa dos


projetos de compreensão "ingênuos". Quando isso ocorre, o ser-aí
torna-se indisciplinado, ou por outras, fere a disciplina à qual está
sujeito de uma vez por todas pela conseqüência do compreender.®4
Neste sentido podemos dizer que a excentricidade é indisciplina.

Terceiro Exemplo

Um professor desaconselha a seus alunos a leitura do poema


Noite de Lua, de Eichendorff, porque começa com os seguintes
versos;

Es war als hätt der Himmel


Die Erde still geküsst.
[Era como se houvesse o céu
beijado a terra em silêncio.]

Pois estaria claro como o dia que o céu não pode beijar a
terra.
O que chama a nossa atenção ou nos surpreende aqui, a tal
ponto que não podemos ''acompanhar" ou ''seguir'' sem mais, é —
como nos dois primeiros exemplos — a maneira pela qual o ser-aí
trata (umgeht mit) ou, mesmo, maltrata (umspringt mit) algo.
Enquanto esse ''algo" era no primeiro exemplo o todo finalizado
''presente de Natal", no segundo o todo finalizado "gênero alimen­
tício", aqui é o todo finalizado ''poema". Se o pai tratava o pre­
sente de Natal como se fosse um simples objeto de uso, "sem con­
sideração" pelo outro ser-aí para o qual era destinado, e se o doen­
te tratava o alimento como se fosse um meio de refrescar a cabeça,
sem consideração pelas pessoas que prepararam e serviram o ali­
mento, assim também o professor trata o poema, corno se este pre­
tendesse ser prosa (isto é, um relato factual objetivo em prosa),
sem consideração pelo poeta e pelas possibilidades ontológicas
poéticas ou líricas do ser-aí em geral, que também incluem os ou­
tros existentes tornados felizes e comovidos por esse poema. Além
disso, deve-se observar ainda que o poeta nem sequer diz que o
céu beijou a terra, mas apenas; ''era como se houvesse o céu
beijado a terra em silêncio". Como nos exemplos anteriores,
aqui também o todo finalizado ou multiplicidade-de-remetimentos
em questão é diminuído ou restringido em um de seus remetimen-
tos essenciais, o remetirnento ao portador, ao utilizador, ao desti-
84 Cf. W. Szilasi; Wissenschaft als Philosophie. Zurique/Nova Y ork
1945, p. 25.
62 TRÊS FORMAS Da EXIStêNCIa MaLOGRaDa

natário, ao desfrutador da "obra". É essa restrição que explica o


fato de que um determinado traço, "aos olhos" ou no modo de ver
do ser-aí descrito como excêntrico, se encaixa no ''todo", o que
não acontece no modo de ver do ser-aí que se absorve no todo
finalizado irrestrito, íntegro, realizado em todas as direções.
Mas só essa oposição não basta de modo algum, como já
observamos anteriormente, para a compreensão da excentricidade
enquanto tal. O fato de que o modo existencial da poesia lírica e
uma possibilidade fechada para o professor, ou de que ele se fecha
a ela, remete tão-somente a uma falta de compreensão da essência
do lirismo, ou se se quiser, a uma carência de dons líricos, do
mesmo modo aproximadamente como o fato de uma pessoa decla­
rar que a música é para ela um ruído desagradável indica uma
carência de dons musicais. Dizemos ''aproximadamente", pois a
carência de receptividade para o lirismo como modo existencial é,
de um panto de vista puramente existencial, muito mais grave do
que uma carência de receptividade para um determinado gênero
artístico. Não obstante, a carência de compreensão pela poesia lí­
rica só se avizinha dos limites da excentricidade quando o ser-aí
não se contenta com a constatação; "Os poemas não me dizem
nada", ou simplesmente; ''Esse poema não me diz nada", mas,
além disso, rejeita o poema enquanto poema. O tratamento atemá-
tico do poema "converte-se" na interpretação do poema como coisa
sem sentido. Essa interpretação é, agora, o terna da reflexão. E é
só com a perseguição pertinaz e conseqüente desse tema que surge
a excentricidade, como no exemplo do pai. Pois aqui também o
tema é perseguido além dos limites onde ainda é possível uma
participação em comum em algo comum, a comunicação, por con­
seguinte. Expliquemos isso mais uma vez, resumidamente.
Quando um ser-aí, insistindo na conseqüência de seu tema e,
mesmo, obstinando-se teimosamente nela, contesta, por assim dizer,
ao modo existencial lírico-poético seu ''direito de existir", ele rom­
pe a comunicação com o outro ser-aí enquanto ser-aí poético, tanto
no sentido do próprio poeta como no sentido daquele que participa
intensamente do poema. Visto que o professor não ''participa in­
tensamente", "ele se põe a exigir razões"85 e, por não encontrar
nenhuma, rejeita o poema inteiro e até mesmo a poesia em geral.
Essa rejeição demonstra sua excentricidade — para repetir mais
uma vez — porque, juntamente com o poeta ele próprio, são tam­
bém ''rejeitados" todos aqueles para quem a poesia lírica não é
um assunto do entendimento, mas, um "assunto do coração", algo

85 Cf. Emil Staiger, Grundbegriffe der Poetik (Zurique 1946); "Só aque­
le que não participa intensamente exige razões" (p. 50).
EXCENtRiCiDaDE 63

que merece ''o nome mais íntimo do amor''. São ''rejeitados", isto
é, excluídos da comunicação, todos aqueles que não se fecham à
verdade de que toda poesia se funda no insondável, "onde não é
mais preciso nenhuma explicação" (loc. cit., p. 54). Finalmente,
são rejeitados aqueles para quem a poesia lírica é aquela fala im­
possível da alma, ''que não quer ser 'tomada ao pé da letra' e na
qual a própria linguagem ainda evita a sua própria insólita reali­
dade, preferindo furtar-se a toda abordagem lógica e gramatical"1
(loc. cit. p. 83).
Aqui, também, a conseqüência do tema ou da reflexão é, pois,
torcida (gedreht) além dos limites, ou dis-torcida (ver-dreht)
além dos limites onde ainda é possível uma participação em co­
mum numa (determinada) coisa em comum. Aqui também, a re­
tidão da reflexão torna-se distorção ou enviesamento ("cabeçudi­
ce", ser do contra) [Schiefheit oder Quere ( " Querköpfigkeit")]..
Se dissermos que semelhante "argumentação" (como a do profes­
sor) não pode ser enfrentada com nenhum contra-argumento, se
lembrarmos aqui as expressões ''incapacidade de discutir" ou "in­
transigência'', não diremos nada mais além do que se exprime nas
locuções alemãs do "parafuso mal torcido" [ = maluco] ou do "es­
tar enrolado torto" [ = estar muito enganado], a saber, que uma
vez mal torcido o parafuso e enrolado torto o rolo, não é mais
possível continuar a torcê-lo ou a enrolá-lo. Ao contrário, eles fi­
cam cada vez mais agarrados, cada vez mais entalados ou presos,
quanto mais forçamos ou enrolamos. O mesmo vale naturalmente
de todas as Perífrases clínicas da excentricidade, e isso não somen­
te das paráfrases que, em alemão, começam com o prefixo ver ou
über [que indicam uma distorção ou um excesso — N. do T.],
mas também das Perífrases que significam uma falta de adequação
especial, tais como unilateral, desviante, utópico, excêntrico, etc.
Quanto mais semelhante reflexão se aproximar da adequação ou
da retidão ao seguir o caminho ''reto" da participação em comum
em algo comum, da opinião comum ou do entendimento mútuo,,
tanto mais ela se afastará da mesma na perseguição ''penosa" de
sua "conseqüência".
Tudo isso é válido independentemente da advertência expres­
sa, dirigida aos alunos, contra o poema. Com essa advertência ex­
plícita e sua justificação, tem-se em vista, é verdade, o convívio
(precisamente no sentido de uma "advertência" e como o autênti­
co convívio do professor e seus pupilos). Do mesmo modo, no
exemplo do caixão, era o convívio que se tinha em vista com o
presentear enquanto tal. Mas, tanto neste como naquele exemplo,
o convívio não é preservado, mas, antes, destruído. A advertência
significa também, como o presente, um estar aberto em comum
64 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

do qual participamos mutuamente enquanto advertentes e adver­


tidos. Mais aqui também, o passo que se dá no espaço aberto do
convívio é de novo anulado pela advertência tal como formulada.
Assim como, na experiência natural, o caixão não se ajusta no
todo finalizado "festa de Natal", assim tampouco essa advertência
se encaixa no todo finalizado a que chamamos ''educação". Tanto
faz se falamos ou não, aqui, em falta de tacto ou de sabedoria
(pedagógicas). De qualquer modo, é justamente num caso como
esse que o ser-aí encerra seus coexistentes, os alunos, em seu
fechamento. A tentativa de ''inclusão" na rejeição comum do
poema revela-se justamente como exclusão do convívio através da
oclusão ''arbitrária'' da via comum em direção ao espaço aberto
dos entes em seu todo. Assim, é justamente aí que o ser-aí se en-
rosca (verschraubt sich) mais na coexistência, revelando-se então
como um ''parafuso mal enroscado" [isto é, como uma pessoa ex­
cêntrica — N. do T.]. De semelhante pessoa pode-se dizer o que
Heidegger diz do enrijecimento [Sichversteifen, no sentido de in­
transigências — N. do T.] ou da insistência em geral; semelhan­
te pessoa "se desmede temerariamente" quanto mais exclusivamen­
te, como sujeito de tudo aquilo que é, se toma a si mesma por
medida. "O esquecimento desmedidamente temerário da huma­
nidade insiste em garantir a própria segurança mediante aquilo
que lhe é em cada caso acessível e viável.'' Pode-se adivinhar fa­
cilmente o que significa aqui ''acessível e viável"; é a via a todos
acessível, facilmente transitável, cômoda, que não faz nenhuma
exigência de conteúdo e adequação, portanto, a via da penosa
conseqüência do pensamento puramente formal. Pois seria possí-
Vel reduzir a reflexão do professor ao seguinte silogismo; ''Só as
pessoas podem se beijar. Ora, o céu e a terra não são pessoas.
Logo, o céu e a terra não se podem beijar e aquele 'como' (-se)
é sem sentido."
A propósito desse exemplo, meu amigo Emil Staiger cornuni-
cou-me um outro que pode figurar como seu “pendanf’ ; o pai
do poeta Ludwig Tieck teria negado as qualidades do poeta pe­
rante Paul Gerhardt, porque seu Abendlied ( Canção do Anoite­
cer) — um dos mais belos e mais comoventes poemas da língua
alemã —• contém os seguintes versos; "Agora descansam todos os
bosques" e "o mundo inteiro está dormindo". Pois não podería­
mos dizer "todos os bosques" e ''o mundo inteiro", visto que os
bosques e o mundo do outro hemisfério não descansariam ao
mesmo tempo que os nossos bosques, e o mundo inteiro jamais
dormiria ao mesmo tempo!
A voz popular classificaria essa objeção — e com toda razão
— de estranha e "descabida" ( “ausgefallen" ) , isto e, sem cabi­
EXCENTRICIDADE 65

mento no ''quadro" que encerra "todos" e ''inteiro", que é o qua­


dro não somente da poesia, mas também do sentimento lírico. O
''todos" em ''todos os bosques" significa aqui não a soma ou tota­
lidade, mas as florestas da terra natal ou, ainda, apenas os bos­
ques nas "cercanias" deste preciso anoitecer abençoado por Deus.
O mesmo vale para o "inteiro" de "o mundo inteiro". Á propósi­
to de todas essas excentricidades, devem-se lembrar as palavras
muito citadas, mas jamais bastante citadas, de Pascal; "Le coeur
a ses raisons que la raison ne connmt pas''. Em nosso terceiro
exemplo, assim como neste, que lhe faz “pendant”, é la raison, de
fato, que fala, o entendimento, mas exatamente onde "nada tem a
fazer", onde, de fato, o coração ou a alma fala a linguagem dele,
isto é, do entendimento, mas tornando-se “penoso'' no sentido do
caráter penoso da conseqüência.

Quarto Exemplo
Em uma de nossas histórias de doentes da época que prece­
deu a I Guerra Mundial encontra-se o cupom de subscrição de
uma editora então muito conhecida, mas não científica, de uma
obra em dois volumes a ser lançada em breve e que trazia um
pomposo título histórico. O sumário anunciado no cupom de
subscrição continha as seguintes indicações:

"Primeira parte;
Psicologia individual. Apresenta pela primeira vez a pro­
va da validade da lei da conservação da energia para a
vida espiritual inclusive e, pela primeira vez, aplica a
esta as leis naturais (física, biologia, mecânica, etc.).
Segunda parte;
Ética. Postula uma síntese da moral de Cristo com a de
Nietzsche, entendida como a moral da humanidade do
futuro, e aplica a lei da conservação à esfera religiosa.
Terceira parte;
Filosofia da Historia. Leva ao resultado de que o futuro
pode ser calculado e apresenta provas disso. Pois as leis
naturais tamhém têm validade para a história da huma­
nidade.
Quarta parte;
Política. Tira aplicações úteis para a legislação, para a
administração e a política interna e externa das nações
civilizadas."

O autor, que então contava 37 anos de idade e que já escre­


vera um livro sobre a Tele-visão Temporal, era um discípulo do
66 TRÊS FORMAS Da EXIStÊNCIa MaLOGRaDa

historiador Lamprecht (1856-1915), muito famoso em sua época,


que se baseava em Wundt e procurava tipificar e periodizar a
história a partir da sociologia comparativa, ou seja, de acordo com
uma ''lei" de hierarquização da evolução social.86 Além disso, era
um admirador do filósofo da natureza Ostwald. Naturalmente
muito inteligente, quis desde sempre ''fazer tudo perfeito" e ''pro­
duzir algo de imortal". Já tendo relatado anteriormente sobre vi­
vências telepáticas, sofria agora de um surto esquizofrênico de as­
pecto maníaco. Após um semestre, esse surto provocou sua inter­
nação, para então extinguir-se após o decurso de um mês.
O quadro — abstração feita de uma grande compulsão a falar,
fuga de idéias e agressividade — era dominado por idéias de gran­
deza (''Nietzsche não é nada em comparação comigo", ''já per­
corri toda a evolução até o gênio") e por idéias e sentimentos de
influenciamento de natureza ativa e passiva, hipnótica e elétrica.
Infelizmente, perdi de vista o paciente durante a guerra. O livro,
que foi em parte escrito, ainda durante o surto, em "estados de
transe", como o próprio paciente dizia, foi realmente publicado.
Um famoso cientista, como depois nos relatou sua mãe, compa­
rou-o, frente ao paciente, ás Confissões de Santo Agostinho e de
Rousseau. Já tive o livro à minha frente. Contudo, lembro-me
apenas de que seu conteúdo correspondia plenamente ao ''estilo"
do programa. Quanto ao titulo, que hoje nos parece muito pre­
sunçoso, ao pretender "explicar" a história universal a partir de
uma categoria da ciência natural, lembremos que o mais importan­
te dos discípulos de Lamprecht, Kurt Breysig, há oito anos es­
creveu um livro com o título; A Estruturação Hierárquica e as
Leis da História Universal. Lembremos ainda que o próprio Lam­
precht pretendia analisar ou explicar causalmente o "núcleo do
indivíduo" dado empiricamente. Vê-se assim que o nosso paciente
apenas se orienta de acordo com a moda científica da época e,
por isso, não deve, naturalmente, ser chamado de excêntrico por
subsumir a história sob categorias da ciência natural e por não
compreender, como costumamos fazer hoje em dia, que todo pro­
jeto de um horizonte temático "não somente é um projeto de de­
limitação de um domínio" mas, ao mesmo tempo, um ''projeto
fundamentador, sobre o qual repousa o trabalho conceptual muito
concreto e a problemática de cada ciência", ou por outras, que
''toda ciência tem seu próprio horizonte de compreensão que ela
não consegue projetar sozinha, que ela aprofunda e alarga, care­
cendo, porém, de toda possibilidade própria para ultrapassá-lo".87
86 E. Trõltsch, D er Historismus und seine Probleme. Ges. Schriften, 3
vols., pp. 459 ss.
87 W. Szilasi; W issenschaft als Philosophie, p. 94 s.
EXCENTRICIDADE 67

A excentricidade vem se mostrar pela primeira vez na maneira


pela qual o autor trata ou, mesmo, "mal-trata" os métodos e dou­
trinas científicas de sua época, a saber, ao exagerá-los, estendê-
los, forçá-los, torcê-los além dos limites nos quais ainda é possí­
vel o convívio, a participação em comum em algo comum.
Nesse exemplo, os traços maníacos e esquizofrênicos ainda
têm uma função, tanto mais que temos que falar de um "otimismo
cognitivo"88 e de uma "ilusão de grandeza" maníacos, mas, ao
mesmo tempo, também de uma falta de compromisso e de respon­
sabilidade do pensamento que chega ao ponto de exibir um pala­
vreado vazio. Apesar disso e, mesmo, com maior razão ainda, esse
exemplo é apropriado para o confronto do método científico com
o método do pensamento privado, excêntrico. O primeiro cria, o
segundo destrói a coletividade.
Para a compreensão do que significa o método científico não
basta ver nele tão-somente um "método do pensamento”, para
cujo aclaramento e determinação basta uma mera "metodologia”,
como era o caso, por exemplo, no neo-kantismo. Pois a compreen­
são intelectual não deve, como o mostrou tão claramente nosso
exemplo do professor, ser separada da coisa por ela pensada. Mais
precisamente; a compreensão científica é projetada relativamente
ao conteúdo temático (''realidade” ) e à adequação ao tema ("obje­
tividade"), assim como o mostraram tão claramente Heidegger e
Szilasi

"A ciência”, diz Szilasi,8» "precisa estar certa dos ele­


mentos objetivos de sua realidade objetiva e tem que efetuar
em conformidade com isso o deslindamento dos limites,
sempre numa determinada oposição às solicitações diretas,^®
à trivialização emocional e à valoração ou revaloração arbi­
trária ou teimosa. Muito embora tenha em vista, em todas
as formações apresentadas por seu campo temático, a exis­
tência humana na plenitude de suas manifestações, sua tare­
fa imediata é fixar o que há de real na existência como aqui­
lo que se conserva ao longo das mudanças e a elas se liga
numa relação real determinável."

A tarefa de fixar o que se conserva nas mudanças e a elas se


liga numa relação real determinável é a tarefa que tinham em vista

88 L. Binswanger; Über Ideenflucht, p. 180.


89 W. Szilasi; Machtu. Ohnmacht d. Gesites, pp. 204 ss.
90 AJjás, são a essas solicitações diretas que tamhém nos "opomos" neste
trabalho, na medida em que vamos além da maneira pela qual somos
“solicitados" pelos excêntricos, ou por outras, além das meras "impressões”
que deles recebemos.
68 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

historiadores como Tönnies, Taine, Lamprecht, Breysig e, de uma


maneira notoriamente unilateral, também Karl Marx e, mais re­
centemente, Toynbee. Todavia, é preciso ressaltar, com Ernst
Tröltsch,91 que aqui de modo algum se trata de leis, e muito me­
nos de leis naturais, mas de determinados esquemas, ''que devem
ser corrigidos em cada caso pelas circunstâncias particulares". No
caso desses pesquisadores, esses esquemas são em menor grau, ou
não o são pura e simplesmente, tomados à ciência exata da natu­
reza, mas à história, às formas do decurso histórico enquanto tais,
com o que, naturalmente, a ''natureza do homem", bem como a bio­
logia, a psicologia e a sociologia também aparecem em primeiro
plano. Contudo, embora não se possa chegar aqui a um consenso de
todos, a um acordo "necessário'' — como pode ocorre em alto
grau, por exemplo, na matemática e na física —, o método cientí­
fico produz aqui também, graças à sua possibilidade específica da
repetição, o encontro e a comunidade, e isso já pelo simples fato
de conclamar ''os espíritos" para a disputa científica. Lembremos
a polêmica de Lamprecht, a polêmica do materialismo e as con­
trovérsias em torno de Toynbee. Com o nosso autor — e é aí,
como facilmente se pode perceber, que desejamos chegar — nem
sequer a disputa é possível! Que a lei da conservação da energia
também tenha validez para a vida do espírito e também possa se
aplicar na esfera religiosa, que se exija uma síntese da moral de
Cristo com a de Nietzsche, que o futuro se deixe "calcular" e que
as ''leis naturais também tenham validez para a história da huma­
nidade", sobre tudo isso nem sequer uma disputa é possível. As­
sim, nosso autor leva o método da ciência natural de maneira
conseqüente até o ponto em que ele se converte em imconseqüên-
cia e assim destrói a possibilidade da participação em comum em
algo comum, logo a possibilidade da opinião partilhada em co­
mum, porque perde de vista a coisa que é objeto de sua reflexão,
porque outra coisa não faz se não continuar a desenvolver esque­
mas de pensamentos tradicionais, esquecendo-se de que a única
coisa que pode nos prender e obrigar no âmbito da compreensão
e do discernimento partilhados em comum é a própria coisa92
Essa conseqüência ''excêntrica" do ''método", isto é, esta con­
seqüência levada até a inconseqüência, é ressaltada ainda mais por
afirmações como; apresenta a prova ou provas, leva ao resultado,.
etc. Não devemos também nos contentar com a constatação clíni-
co-psiquiátrica de que se trata de "fanfarronices" de uma pessoa

91 E. Tröltsch, loc. cit., p. 65.


92 W. Szilasi; loc. cit.
E xcentricidade 69

''caracterizada pela fuga ordenada de idéias",93 mas temos que re­


meter para o que é esse provar:

"Provar" (aqui de novo seguimos Szilasi94) "é um ato


mais universal do que a demonstração matemática ou a
dedução silogística. É o proporcionamento da possibilidade
de todos poderem se manter na mesma compreensão, na mes­
ma maneira de perceber, na mesma correção e retidão que
resultam do fato de se seguir na mesma direção.”

Nosso autor nada deixa transparecer de semelhante correção


e retidão. Ele renuncia expressamente a todas as possibilidades de
ativar o convívio. Mais ainda, como ele próprio declara, ele se or­
gulha de que seus contemporâneos, talvez mesmo a posteridade,
não são nem serão capazes de "compreendê-lo". Assim, o que ele
faz é tão-somente exagerar mais excentricamente ainda a conse­
qüência de seu pensamento. Pois um pensamento que não possi­
bilita mais uma participação em comum em algo comum, ainda
que na contradição e na disputa, não é mais por isso mesmo um
pensamento.95
Pelo que sei, nosso autor desde então não publicou mais ne­
nhum outro livro, pelo menos nunca mais dei com seu nome.
Infelizmente, tampouco tive notícias dele, com exceção de uma
breve nota bibliográfica numa revista literária mensal do ano de
sua alta. O número em questão trazia o seguinte título; "X (ci­
dade onde vivia) espiritual e artística em autobiografias". Aqui
também ele afirma ter conseguido a prova da existência de tele­
visão temporal. Lemos, além disso, bem no estilo de Nietzsche, o
seguinte;
I

"Em novembro de 1900 encontrei a formulação da lei


há muito procurada (na história universal). Assim, encon-
tro-me interiormente no zênite de minha vida.” E mais;
"Aprendi a venerar Shakespeare, e Wilhelm Ostwald ('Gran­
des Homens') influenciou desde o início o meu pensamento".

93 L. Binswanger; Über Ideenflucht, p. 40 ss.


94 W. Szilasi; Wissenschaft als Philosophie, p. 19.
95 Para evitar equívocos, ressaltemos expressamente que, aqui hem como»
em toda análise existencial, se trata de compreender e interpretar possibi­
lidades, logo, que aqui se trata da possibilidade de opinar, compreender e
perceber em comum. O fato tão freqüentemente constatado de que um
pensador, inventor, artista não é compreendido por seus contemporâneos
nãp prova por isso rigorosamente nada contra a nossa exposição. Aqui
trata-se apenas do fato de que as condições de possibilidade da compreen­
são permanecem preservadas, não importa qual seja o "curso efetivo da
história".
70 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

Sobre sua última escolha profissional — anteriormente


exercera uma profissão não acadêmica e concluíra um outro
curso universitário — escreve o seguinte;
"A escolha da profissão teve lugar durante uma tarde;
anotei em ficnas todas as espécies de profissão que entra­
vam em questão, rasguei o que me desagradava e sohraram
três; História, Filosofia e Economia Política. Foram as que
estudei."

Se voltarmos a considerar esse exemplo, veremos que aquilo


que nos três primeiros exemplos, em sua maior parte, estava con­
tido apenas implicitamente, precisando ser explicitado existencial-
analiticamente, ou seja, justamente, analisado, é por ele mostrado,
por assim dizer, em toda sua pureza. E isso justamente porque o
ser-aí assume expressamente e formula em palavras o modo de ser
que denominamos excentricidade em seu traço fundamental; sua
relação específica com o outro ser-aí.
Se não enveredamos pelo caminho contrário e não começamos
nossa investigação com esse exemplo, foi porque não queríamos
nos expor à censura de pura e simplesmente "transferir" as cir­
cunstâncias desse (e do próximo) exemplo para os demais. De
fato, começamos nossa investigação com a análise do exemplo do
caixão, para depois vê-la confirmada nos últimos exemplos. Essa
confirmação, nós a encontramos no quarto exemplo porque o
autor, justamente como autor de uma obra impressa, trilha de
modo conseqüente o caminho que leva ao horizonte aberto do con­
vívio, para não somente perder novamente de vista a convivência,
mas também para afastá-la expressamente da participação em co­
mum em algo comum, do entendimento mútuo. Ele escreve de
maneira conseqüente uma obra que, de maneira igualmente con­
seqüente, acredita que não poderá ser compreendida não só pelos
contemporâneos como também pela posteridade. Mais ainda, chega
mesmo a folgar prazerosamente com essa impossibilidade de ser
compreendido. Evidencia-se aqui de maneira particularmente clara
que, e como, a conseqüência obstinada com que alguém se fixa
num "tema" se converte em inconseqüência ou se transforma em
uma conseqüência penosa. Para enfrentar a objeção óbvia de aqui
se tratar do ''quadro de um estado apresentando um aspecto ma­
níaco" e, em primeira linha, de um amor-próprio maniacamente
intensificado e de um pensamento maníaco caracterizado pela fuga
de idéias, ressalte-se que tudo isso ilumina a excentricidade de
maneira especialmente clara, mas de modo nenhum pode constituir
uma condição de sua possibilidade. Pois, mesmo após o desapa­
recimento do estado apresentando um aspecto maníaco, as coisas
ficaram no mesmo pé. O que nos importava aqui era também mos­
EXCENtRICIDaDE 71

trar o fenômeno da excentricidade no decurso de uma psico­


se aguda, em outras palavras, mostrar que, no caso da excentrici­
dade, se trata de um fenômeno existencial unitário peculiar, inde­
pendentemente do fundo psicológico ou psicopatológico contra o
qual ele se destaque.
Todavia, abstração feita da ''conseqüência inconseqüente" do
modo de comunicação no sentido do ser-aí enquanto excêntrico,
surge aqui de modo particularmente claro um outro traço essencial
da excentricidade, relacionado com isso, a saber, a maneira pela
qual o ser-aí (m al-)trata um determinado todo finalizado. A falta
de consideração pelos coexistentes, a privação, mesmo, do fun­
damento comunicativo em geral, acarreta aqui também o fato de
que o todo finalizado em questão não abrange em sua plenitude o
todo das doutrinas e métodos históricos da época, mas se estreita
e trivializa num esquema de pensamento puramente formal. É pre­
ciso ver nisso também a razão por que, no modo de ver de nosso
autor, ''a esfera religiosa'', a "moral do futuro", etc. se encaixam
no conjunto da multiplicidade-de-remetimentos em questão, ou
seja, o método, ao passo que, no modo de ver da experiência ''na­
tural", não se encaixam, mas se "colocam de través'', e represen­
tam mesmo uma "ruptura". De resto, este exemplo precisamente
(bem como, com maior razão ainda, o que vem a seguir) devia
mostrar que — para partirmos da frase acima de Szilasi — a ver­
dadeira objetividade não só é possível dentro do compreender em
comum, mas — inversamente — que a verdadeira objetividade é
também a condição fundamental da compreensão ou da opinião em
comum. A excentricidade revela-se desse modo como a possibili­
dade imanente à essência da existência humana de chegar, por
causa de sua unicidade e de sua singularidade, a um limite ou a um
fim tanto com respeito ao ''objeto" quanto com respeito à comu­
nidade, limite esse além do qual não é mais possível perseguir o
objeto (exagerá-lo), nem preservar ou cuidar da comunidade.

Quinto Exemplo

Tomamos esse exemplo à monografia já citada de nosso ami­


go E. Minkowski sobre a esquizofrenia96 Muito embora todo psi­
quiatra disponha de exemplos semelhantes, escolhemos este, por­

96 E. Minkowski; La Schizophrénie. Psychopathologie des Schizoides et


des Schizophrènes. Paris 1927. — O caso já havia sido publicado anterior­
mente em colaboração com Rogues de Fursac em Encéphale 1923, como
exmeplo para o "rationalisme morbide".
72 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

que pode ser designado como clássico. Neste exemplo, o Ser-aí


também formula em palavras e assume expressamente o modo de
ser que chamamos de excentricidade. Mas, enquanto o todo fina­
lizado de que se tratava no exemplo precedente constituía uma
multiplicidade-de-remetimentos no sentido de métodos, doutrinas,
convicções científicas levadas ao absurdo, trata-se agora também,
como logo veremos, de um semelhante todo finalizado, contudo o
mesmo se revela como sendo apenas um elemento de uma multi-
plicidade-de-remetimentos ainda mais abrangente. Podemos desig­
nar a última como conduta de vida ou, para empregarmos a expres­
são de Gruhle, particularmente pertinente aqui, como técnica de
vida. Visto que a excentricidade se revela aqui sob a figura de uma
técnica de vida excêntrica afetando quase toda a conduta de vida,
ela surgirá diante de nós de maneira ainda mais nítida.
Trata-se de um instituteur97 (p. 104-116) de 32 anos, esqui­
zofrênico há já bastante tempo e agora adoentado. O doente tinha
tomado por dever nada ler "pour ne pas deformer ma pensée”.
Evita o contacto humano para não ser perturbado em suas refle­
xões e para encontrar a fonte de seus pensamentos filosóficos
apenas em si mesmo. Uma das "descobertas" a que chegou por
esse caminho consiste "a faire découler Vesprit de l’acüon des
acides sur les terminaisons nerveuses". O doente declarou além
disso que adquiriu o costume de passar primeiro tudo o que faz
"pelo crivo de seus princípios” ("passer tous seus actes au crible
de ses principes"). Sob a influência da idéia do aperfeiçoamento
moral, evita todo trabalho prático. Basta seus pais falarem em
dinheiro com ele para que ressinta isso como um ataque a seu
ideal. O simples fato de ir ao médico para consultá-lo é descrito
por ele como "suicídio moral". Pois o homem só deve agir so­
zinho com a sua própria vontade. Desenvolve gradativamente um
“sistema" que consiste em seguir cada semana um determinado
principio, hoje o da justiça, depois o da moderação e, sobretudo, o
do silêncio. Só falava quando seus princípios permitiam. Atual­
mente está completamente absorvido em submeter suas ações a
seus princípios e em sua regulação acertada minuto por minuto.
Data seus distúrbios atuais do momento em que, de repente, es­
pontaneamente, por assim dizer "impulsivamente", começou a falar,
infringindo assim seu princípio de silêncio. Outras infrações não
menos catastrofais consistiram em ter, um dia, prestado serviços
a seus pais, ''subordinando assim o amor universal ao próximo ao

97 Para evitar confusões com o professor de nosso terceiro exemplo,


conservaremos para esse caso a expressão francesa; "instituteur” [ = pro­
fessor primário].
EXCENTRICIDADE 73

amor aos pais", e, além disso, no fato de ter-se "deixado influen­


ciar" por seus pais no sentido de fazer violência a sua voz e ex­
pressar pensamentos que não corespondiam a seus princípios. Des­
se modo, perdera "o controle sobre si mesmo'' e tivera o sentimen­
to de obedecer a si mesmo ''como a uma pessoa sadia". Sentiu-se
arrastado (entraíné) por sua voz e observou também que seu olhar
se dirigia "contra sua vontade" para seus alunos. Finalmente, sen­
tiu repugnância pelo ensino porque suas tarefas e princípios
Pareciam-lhe outorgados por seu diretor, por quem, no fundo,
tinha uma grande estima. Com a constatação da "falta de unidade
e conseqüência na vida psíquica do excêntrico'' (Kraepelin,
Bleuler), da "falta de uma seqüência coerente do comportamento"
(W yrsch), coaduna-se muito bem o fato de que o doente não so­
mente, como já sabemos, muda os princípios de seu próprio com­
portamento, mas também os princípios de seus métodos de educa­
ção, na medida em que troca o princípio de absoluta indulgência
um dia pelo princípio de estrita disciplina militar, para outra Vez
substituí-lo pelo princípio da suavidade e amabilidade ''liberais".
O próprio Minkowski já observa que a "racionalização" ou
''a lógica" é levada aqui ao "extremo limite", o que, de um ponto
de vista intelectual, conduz ao doutrinarismo e, mesmo, ao erro e,
de um ponto de vista prático, ao absurdo. Observa ademais que a
riqueza da vida é substituída por uma ''fórmula abstrata” e que
princípios a rigor corretos acarretavam conseqüências "monstruo­
sas'', em razão de sua universalização. Tudo isso está de acordo
com nossa tese da absolutização do tema, ou, para exprimi-lo de
outro modo, de sua excessiva extensão até a "conseqüência peno­
sa", ou inconseqüência. Do mesmo modo, Minkowski admoesta-
nos a evitar ver nesse "ultrapassamento dos limites" meramente
"un trouble du jugement”. Pois o que está perturbado ou turvado
aqui seria um fator irracional.98 Seguindo as pegadas de Bergson,
descreve esse ''fator" (aqui perturbado ou ausente) como um
"facteur régulateur de la vie”, como um "sentiment d'/í armo nie
avec la vie”, "sentiment dJetre d’accord avec la vie et avec soi-
-même”, como "contact avec la réalité”, mas também, finalmente,
como "contact vital avec Vambiance”. O doente estaria “prive des
affinités normales”, encontrar-se-ia continuamente "en contradict-
ion avec la vie”. Pois ''a vida" não consistiria apenas em princí­
pios rígidos e universais, mas seria sempre um fator irracional a
determinar cada limite.
88 Ele cita posteriormente a excelente exposição de Divry, que culmina
nas seguintes formulações; “La conscience a en quelque sorte perdu son
instinct" (p. 130). “C est la logique de l instinct. . . , que ces malades oni
perdue” (p. 131).
74 TRÊS FORMAS Da EXIStênCia MaLOGraDa

Em consonância com a concepção "espacial" do intelecto à


maneira de Bergson e seu excessivo contrastamento com a "vida",
Minkowski fala, a partir deste e de um outro caso, da pensée
spatiale des schizophrenes, e mesmo de um geométrisme morbide.
Ele liga essa concepção à exagerada attitude antithetique desses
doentes, à conduta de sua vida segundo ''idéias" que se excluetn
mutuamente, o que levaria a um extremo doutrinarismo, que não
conhece mais "na vida'' nenhuma medida e nenhum limite. Tal
doutrinarismo teria por conseqüência, como observa Minkow­
ski muito corretamente, o sentimento do subjugamento da existên­
cia pelo mundo-comum (M itwelt), sentimento esse que já havía­
mos tomado, em nosso próprios estudos da esquizofrenia, por fio
condutor de nossa investigação existencial-analítica e que havía­
mos designado como mundanização. Minkowski fala, a propósito
disso e seguindo Mignard, em "le sentiment d'emprise ou d'en-
trainement". Se alguém se opusesse aos princípios ou idéias do
doente (os pais, seu diretor), ou mesmo lhe desse tão-somente um
conselho, isso seria ressentido como um ataque, sugestionamento ou
subjugamento. Já fica claro aí, com se vê, que a pertinácia e a in­
flexibilidade, em suma, o caráter penoso da conseqüência do excên­
trico, de modo nenhum são sinais de força ou superioridade, mas
de seu Contrário.
Voltamo-nos agora para a concepção existencial-analítica.
Esta distingue-se da concepção de Bergson — sem prejuízo do
fato que em Bergson já se encontram certas colocações existen-
ciais-analíticas — pelo fato de não tomar por ponto de partida ou
fundamento da investigação os conceitos obscuros do irracional, da
vida, do "sentimento", da "harmonia com a vida e consigo pró­
prio", do ''sentimento do contacto vivo com a realidade" ou do
"meio ambiente", etc., mas, sim, como tantas vezes já se mostrou,
o ser-no-mundo ou o ser-aí, a cuja constituição ontológica per­
tence a própria mundanidade e cuja estrutura foi objeto de um
esclarecimento tão extenso e profundo por parte de Heidegger. A
isso acresce algo que tem uma importância central para a análise
da excentricidade, a saber; o fato de que Heidegger não somente
não parte da separação sujeito-objeto, com também não parte da
separação sujeito-sujeito, da separação do ser homem em diferen­
tes "sujeitos". Ao contrário, baseando-se num modo de indagar
muito mais "originário'' ou ''primordial", chegou ao discernimento
de que o ser-aí é "de modo essencial e em si mesmo" um ser-
com, em outras palavras, "que o ser-no-mundo do ser-aí (sic!)
é, de um modo essencial, constituído pelo ser-com".99 Por isso, o

©9 Sein und Zeit, p. 120.


EXCENTRICIDADE 75

ser-com, precisamente enquanto constituens essencial do ser-aí,


não pode ''desaparecer" nem mesmo no modo de ser-aí da excen-
tricidade e, assim, tampouco no caso do instituteur de Minkowski.
Desse modo, o isolamento excêntrico do mundo-comum e a oposi­
ção a ele, ou seja, o autismo esquizofrênico, são também, conside­
rados existencial-analiticamente, um modo do ser-com.
No exemplo do instituteur de Minkowski encontramos os tra­
ços essenciais da excentricidade — que os três primeiros exem­
plos e, por fim, o quarto nos mostraram de maneira cada vez mais
clara — não somente confirmados, mas se manifestando de uma
maneira particularmente crassa. Pois a esquizofrenia, como mos­
trou a primeira parte deste escrito, é o terreno no qual a excen­
tricidade por assim dizer viceja em toda sua pureza, em outras,
palavras, em sua forma mais pura e ''mais perfeita". Isso vale tan­
to com relação à sua maneira peculiar de convívio, quanto com
relação a maneira de lidar com cada todo finalizado em questão,
bem como, com maior razão ainda, com relação à solidariedade
essencial de ambas. No que concerne à maneira do convívio, con­
seguimos aqui também "acompanhar" o doente até certo ponto.
Pois o dever de nos "aperfeiçoarmos espiritualmente", o dever
de formarmos nossos próprios pensamentos sem derivá-los da sim­
ples leitura de escritos alheios, e de encontrar suas fontes tanto
quanto possível em nós mesmos, a obrigação de nos guiarmos por
certas máximas nas questões pedagógicas e em nossa conduta de
vida, nada disso é de modo algum excêntrico. Portanto, aqui
também se mostra — e em toda sua pureza — que só se pode falar
em excentricidade quando algo que "no fundo" nos é comum, que
nós todos visamos em comum, no qual pois é possível uma parti­
cipação em comum, se converte por sua perseguição pertinazmente
conseqüente em conseqüência penosa ou inconseqüência. Em ou­
tras palavras, o que se atinge aqui é precisamente o contrário da­
quilo que "no fundo" era visado. Em vez da comunicação com o
mundo comum através de pensamentos próprios, do aperfeiçoa­
mento e conseqüência próprios, seja na educação, seja na própria
conduta de vida, em vez disso temos uma extensa destruição do
fundamento comunicativo enquanto tal. É na oposição e no auto-
isolamento explícitos — colocados no primeiro plano pela clínica
e, assim, por Gruhle também, na concepção da excentricidade,
muito embora representem apenas urna, ainda que extrema, moda­
lidade da excentricidade — é nessa oposição, logo no negativismo,
e no auto-isolamento que culminam as possibilidades de prejudicar
o convívio, como já pudemos comprovar em todos os exemplos
anteriores. Se o prejudicamento da convivência no primeiro exem­
plo se revelou como uma brutal falta de consideração, no segundo
76 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRaDa

como esquecimento, no terceiro como fechamento, no quarto como


arrogância, aqui ele se revela como a oposição explícita do ser-aí
ao convívio e como o isolamento explícito em face do convívio.
Essa maneira de prejudicar o convívio, a que se chama "oposição",
representa tão-somente a tentativa do ser-aí — já exibida em
todos os exemplos anteriores, mas que aqui se mostra explicita­
mente — de existir em vista de sua unicidade e de sua particula­
ridade, logo de seu modo singular.10° Com isso quer se dizer tão-
somente que o todo finalizado no qual o ser-aí se "enrosca"
("verschraubt") aqui é a conduta de vida total e, até mesmo, o
ser-no-mundo como um todo. Se Minkowski fala aqui em um "ra-
tionalisme morbide'', isso significa para nós que o ser-aí não está
mais aqui aberto ( erschlossen) para o seu aí no ato decidido
( entschlossen) de assumir a respectiva situação, não é mais "livre"
para arrumar o espaço (in der Einräumung) de cada margem-de-
ação (Spielraum) de seu poder- e saber-ser fáctico, mas está de
uma vez por todas "preso" a regras, fórmulas ou princípios rígi­
dos, igualmente decisivos para todas as situações. Em vez do
absorver-se a-temático, guiado pela circunvisão organizadora, nos
remetimentos constitutivos de cada todo finalizado, surge, então, o
absorver-se penosamente conseqüente na explicitação de algo a ser
providenciado segundo temas fixos. Se, porém, indagarmos o que
subjaz a essa falta auto-escolhida de liberdade, a experiência clíni­
ca mostrará tanto aqui como em outros lugares que, ''por trás" de
semelhante tematização "técnica" do próprio ser-aí, ou expresso
mais vulgarmente, por trás de semelhante ''mania de princípios",
espreita o medo de deixar-se decididamente chamar à situação no
sentido do autêntico poder- e saber-se, do querer-ter-uma-cons-
ciência-moral.1101 Quer dizer; em vez de assumir na decisão a res­
pectiva situação e de se afirmar nela na confiança recíproca, na
confiança no autêntico convívio, o ser-aí perde-se no tempo "va­
zio" ou na intemporalidade de rígidos princípios, regras, idéias ou
ideais ''impessoais" .1012 É nisso que consiste a morbidez desse "ra-
cionalismo", ou seja, a excentricidade em uma de suas formas mais
extremas.
100 Cf. a esse propósito L. Binswanger, G ru n d fo rm en ..., l . a parte, 3.°
cap., p. 382 ss.
101Cf. Sein und Z eit, § 60, pp. 295 ss.
102 Podemos acrescentar tamhém; definições. Assim, para citar apenas
um exemplo, o esquizofrênico crônico Franz Weher (citado por Roland
Kuhn) rejeita expressamente "uma vida que não se pode nunca definir".
Cf. R. Kuhn; "Daseinsanalytische Studie über de Bedeutung von Grenzen
im Wahn". Mschr. Psychiat. Neur. 124, 367, 1952. Esse caso serviria para
que se mostrassem facilmente as relações entre excentricidade e insônia
(W ahn).
EXCeNtRICIDADe 77

Não esqueçamos, de resto, que em todos os exemplos anterior-


res bem como neste também, o ser-aí coexistente não é de modo
algum encontrado apenas no modo da excentricidade. Em todos os
nossos exemplos pode-se falar também de uma participação em
comum dos excêntricos em algo comum. A excentricidade do ser-aí
— e isso pertence justamente à sua determinação essencial — re-
vela-se sempre tão-somente como uma possibilidade ontológica res­
trita a determinados modos do ser-com. Assim, por exemplo, o pai
no primeiro exemplo atua na vida pública, o esquizofrênico do
segundo exemplo chegou a se casar, o professor do terceiro de-
sincumbe-se de suas funções sem, pelo que sei, dar na vista, e o
historiador trata corretamente de seus negócios com o seu editor.
Mas também o doente do último exemplo não vive apenas em opo­
sição ao mundo-comum e em seu isolamento — sem falar nos ser­
viços eventualmente prestados a seus pais —, ao contrário, ele Vive
também na comunidade do residir, do comer, do tráfego na rua,
da ocupação (magistério), do relacionamento médico-paciente,
etc. Tudo isso deve ser conservado em mente, para que se possa
contrastar a maneira de ser que chamamos de excentricidade com
outras maneiras de ser do ser-aí, por exemplo a desagregação, a
confusão mental ou a “maluquice" ( Verrücktheit) em geral.
Enquanto Minkowski, para terminar, menciona com Mignard
o sentiment d’emprise ou d’entramement, que se observa também
tantas vezes em semelhantes casos, nós, ao contrário, não falamos
aqui do sentimento como um fato psicológico, mas, como já disse­
mos, de um subjugamento do ser-aí pelo mundo-comum no sentido
do estar-entregue ao mundo-comum. Justamente o quinto exemplo
mostra, mais uma vez em toda sua ''pureza", que as possibilidades
de prejudicar o convívio -— quer à maneira da afronta, quer do
esquecimento, do fechamento, da arrogância e, sobretudo, da opo­
sição direta — não enfraquecem o poder do ser-aí coexistente,
mas, ao contrário, justamente aumentam o seu poderio e transfor­
mam-no, mesmo, em prepotência. A afirmação feita acima de que
a excentricidade não é nenhum sinal de força, mas de fraqueza,
dava — do ponto de vista de cada ser-aí — no mesmo. Nenhum
traço básico essencial do ser-aí deixa-se "passar por cima", "su­
perar", "suprimir", sem reaparecer fortalecido, sob uma for­
ma qualquer, dessa supressão. Esse "fortalecimento'' do poder do
ser-aí coexistente mostra-se, por conseguinte, nao somente, como
no quinto exemplo, como uma pretensa tirania e, até mesmo, como
uma tirania desvairada, como repressão, sujeição, sugestionamen-
to por parte dos outros, mas já como mera alteridade, estranheza,
"resistência'' dos mesmos. A isso se liga tanto o endurecimento
dos excêntricos em face do mundo-comum, como também sua sen­
78 TRÊS FORMAs DA EXistÊnciA MALOGRADA

sibilidade, tantas Vezes desmedida, em face dele. Os dois casos


ocorrem do mesmo modo, sempre que o ser-aí se dispõe a existir
em Vista de sua particularidade e unicidade, logo de sua singula­
ridade, um em-vista-de onde o ''sucesso" da existência humana tem
necessariamente que fracassar. Não recordaremos aqui onde se ba­
seia o modo de experiência ''por nós" qualificado de excêntrico,
tanto mais que teremos que voltar a ele com maiores detalhes, na
próxima seção. Se o designamos acima, do ponto de vista do
em-vista-de-quê do ser-aí, como um modo de existir em vista de
sua particularidade e unicidade, então o nosso quinto exemplo, o
do instituteur, expressou com toda clareza e assim tornou patente
o que só a interpretação existencial-analítica foi capaz de patentear
nos exemplos anteriores — abstração feita, como dissemos, até
certo ponto, do exemplo do historiador. De fato, através desse em-
vista-de elevado a princípio, "máxima de vida", o ser-aí põe-se a
solapar o fundamento sobre o qual ele existe. Ele, justamente,
não o assume como o seu fundamento — como conviria à indivi-
duação no sentido do Si (Selbst) autêntico103 — e assim dele
também se isola num modo de ser essencial, o ser-com. Enquanto
a existência humana só pode ''ter sucesso" no jogo livre onde se
enfrentam a auto-afirmação e o auto-abandono, a insistência em
agir segundo a própria opinião (Eigen-Sinn) e o abandonar-se à
opinião comum (Cemein-Sinn) , ao koinós losmos, e ao ''sentido
do amor", ao "Tu", o ser-aí agarra-se aqui convulsivamente à sua
particularidade. Sob essa ''convulsão", esse agarrar-se excessiva­
mente intenso, ou seja, excessivamente conseqüente, a um princí­
pio "gasto”, isto é, incapaz de oferecer ao ser-aí qualquer ponto de
apoio, espreita, como já dissemos, a angústia existencial. Esta sur­
ge sempre que semelhante princípio é infringido e o ser-aí se vê
"convocado” à situação. Em nosso caso, ela surge, pois, quando
o princípio do amor universal aos homens é posto de lado "impul­
sivamente" pela manifestação de amor aos pais.
De resto, nosso exemplo mostra que o problema da excentri­
cidade também tem relações com a problemática mais ampla da
relação entre o pensamento do particular e o pensamento do uni­
versal, tal como determinado de modo tão claro por Heráclito e
tão energicamente elaborado por Hegel. Naturalmente, nosso in­
teresse não é interpretar o instituteur a partir de Heráclito e de
Hegel, o que também nos tornaria, de nossa parte, "excêntricos”.
Cumpre apenas mostrar que é precisamente o princípio diametral­
mente oposto ao princípio do instituteur que precisa ser defendi­
do, e isso, aliás, com a mais profunda fundamentação filosófica.
103 Cf. Sein und Zeit, p. 339.
EXCENTRICIDADE 79

Seu ponto culminante é a proposição de Hegel: "Os homens cos­


tumam achar, quando devem pensar alguma coisa, que precisa ser
algo de especial; mas isso é um engano.''104 Segundo Hegel, o
espírito, enquanto mera particularidade individual, perde a objeti­
vidade. Na particularidade, ele não é universal. "Só a consciência
enquanto consciência do universal é consciência da verdade.
A consciência, porém, da particularidade e do agir enquanto par­
ticular — uma originalidade que se converte numa peculiaridade
do conteúdo ou da forma — é a inverdade (das Unwahre) e o
ruim (das Schlechte). O erro consiste, pois, tão-somente na in-
dividuação do pensamento — o mal e o erro, em segregar-se do
universal."
Se lançarmos aqui um olhar retrospectivo sobre a tese de
nosso instituteur, segundo a qual é preciso encontrar a fonte de
seus pensamentos filosóficos dentro de si mesmo, percebere­
mos aqui também uma falta de confiança, a saber, de confiança na
"razão universal", ou, para exprimi-lo positivamente, o medo do
ser-aí de se perder na razão universal.
O círculo de nossa existência move-se, no pensar e no agir,
entre a Cila do universal e a Caribde do particular. A excentrici­
dade é apenas uma forma de escapar a esse estreito, justamente
mediante uma afirmação penosamente conseqüente e, desse modo,
estéril da mera particularidade enquanto tal. Pois nem toda auto-
afirmação e auto-acabamento são "excêntricos". As palavras de
Ibsen — ''Pois é justamente isso que é preciso fazer: viver por si
mesmo, entregar-se todo à sua obra'' —, essas palavras não devem,
naturalmente — em virtude da enfatização da obra, que se move
sempre no elemento do universal — ser consideradas como excên­
tricas, uma vez que só o estilo rigoroso e penoso de sua conse­
qüência leva à excentricidade. Mas há ainda um outro gênero de
auto-afirmação que tem a ver com a excentricidade e, ao mesmo
tempo, até mesmo preserva a convivência em alto grau, a auto-
afirmação prometeica. Pois a ela pertence justamente aquilo de
que sentimos falta na excentricidade, o ''coração que arde numa
chama sagrada". É assim o Prometeu de Goethe:

“Hast doch alles selbst vollendet,


Heilig glühend' H erz.”
["Pois realizaste tudo, tu mesmo,
coração a arder numa chama sagrada."]

104 Cf. a esse respeito e a propósito do que se segue, meus ensaios sohre
"Traum und Existenz" ("Sonho e Existência") e "Heraklits Auffassung
des Menschen" ("A concepção heraclitena do homem "), Ges. Vortrage
und A ufsätze, Berna 1947.
80 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

Quando o coração arde e, sobretudo, quando arde numa cha­


ma sagrada, como faz aqui para a criação dos homens, aí, então,
o ser-aí existe em vista de sua unicidade e particularidade, não na
perseguição penosamente conseqüente de um ou de vários temas
e princípios, para afinal atingir o contrário, a saber, a perda de
sua unicidade e particularidade na insânia, mas numa ardente au­
to-afirmação e revolta contra toda prepotência, penetrado do ca­
ráter sagrado do coração e da inadiável necessidade da oOra.

F. A E ssê n c ia d a E x cen tr ic id a d e

Acreditamos que podemos contentar-nos com esses exemplos


— tão poucos que se podem contar nos dedos de uma mão —
tomados ao domínio imenso e inesgotável da excentricidade hu­
mana. Pois, na apreensão fenomenológica da essência, o que im­
porta — ao contrário do que ocorre na ciência natural — não é
um acúmulo tão grande quanto possível de exemplos ou fatos,
mas a apresentação ou rememoração "exemplar" de fatos huma­
nos singulares e a apreensão e fixação das "essências puras''
sobre semelhante "base", ou ponto de partida, exemplar.105 De
qualquer modo, não somente estamos muito longe de uma pura
apreensão essencial do fato existencial da excentricidade numa
"ideação" ou "intuição adequada", mas nem sequer devemos es­
perar atingir esse alvo. Pois, na pesquisa existencial-analítica,
temos que nos contentar com a possibilidade de ressaltar fenome-
nologicamente, numa compreensão existencial-analítica, a essência
de uma maneira fáctica de existir ou de um determinado proces­
so existencial fáctico, destacando-a contra o fundo do ser-aí ou do
ser-no-mundo em geral, a fim de descrevê-la na peculiaridade de
seus traços fundamentais. A questão onde é lícito ou necessário
nos deter nessa compreensão e nessa descrição compete ao tacto
fenomenológico e à experiência existencial-analítica. Em todo
caso, porém, a essência — quer se trate de um modo, quer de um
processo existencial — só estará compreendida em sua peculiari­
dade quando esta houver sido compreendida tanto com relação à
mundanidade de cada mundo — por conseguinte, com relação à
estrutura do ser-para do remetimento, da finalidade ou significân-
cia — quanto com relação àquilo que está em questão para cada
ser-aí em seu poder- e saber-ser. Sob o título; A essência da
105 Cf, Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomeno­
logischen Philosophie, Jb. Philosoph, phän. Forsch, t. I, p. 60, Halle 1913,
bem como Log. Untersuchungen II, 1, 2.® ed., p. 439 s., Halle 1913.
EXCENTRICIDADE 8Í

excentricidade temos em vista um resumo, bem como uma am­


pliação e um aprofundamento das investigações a que procedemos
até aqui.
Em nossa investigação da excentricidade, demos mais ênfase,
e isso já por motivos didáticos, à compreensão da mundanidade do
ser-aí enquanto excêntrico, ou por outras, à natureza peculiar da
articulação das relações de remetimento (à peculiaridade do
"ajustamento'' ou da "adequação"). Mas também penetramos cada
vez mais profundamente na compreensão da peculiaridade do que
está em questão para o ser-aí enquanto excêntrico (a particula­
ridade e a unicidade). Indicamos também a peculiaridade do pro­
cesso existencial enquanto excêntrico, compreensível a partir da­
quela modalidade de ser-para e desta modalidade do em-vista-de-
quê, com a constatação da chegada a um fim, do malogro ou fra­
casso do ser-aí. E, de fato, esse malogro ou fracasso do ser-aí foi
observado em todos os cinco exemplos; no primeiro exemplo como
fracasso do poder — e saber-ser pai, no segundo como fracasso
do poder- e saber-ser são, no terceiro como fracasso do poder- e
saber-ser um educador, no qiiarto e quinto como fracasso tanto do
poder- e saber-ser são quanto do poder- e saber-ser um pesqui­
sador. As "descobertas'' do historiador e do instituteur eram, para
falar com Minkowski, apenas as "mais monstruosas" de todas as
conseqüências "penosas" ou ''malogradas", no sentido da excen­
tricidade. Mas, a rigor, não escapavam ao quadro dos exemplos
precedentes. Assim o caixão, no modo de ver do pai, ajustava-
se no todo finalizado "festa de Natal", ou era adequado para ele.
A fatia de língua fria, no modo de ver do doente, era adequada
para o todo finalizado ou contexto-de-remetimentos "refrescamen-
to", e a recusa do poema encaixava-se, no modo de ver ou "no
espírito" do professor, na multiplicidade de remetimentos "razão"'
ou "educação racional''. Do mesmo modo, "no espírito" do histo­
riador, a história e a "esfera "religiosa" encaixavam-se no contex­
to de remetimentos da natureza e da lei da conservação da energia,
e "no espírito" do instituteur os ácidos e as terminações nervosa?
encaixavam-se na multiplicidade-de-remetimentos das relações
entre o corpo e a alma, a matéria e o espírito. Do mesmo modo,
princípios pedagógicos diametralmente opostos encaixavam-se no
todo finalizado "educação racional", e os diversos princípios da
conduta de vida encaixavam-se no todo finalizado "técnica de vida
racional". Todos esses encaixes ou adequações ("excêntricas")
mostravam, pois, não somente a maneira particular da mundani-
dade do ser-aí enquanto excêntrico, mas também a maneira par­
ticular do em-vista-de do ser do ser-aí, em suma, a maneira pela
82 TRês FORMAS DA EXiStêNciA MALOGRADA

•qual o ser-aí — enquanto excêntrico — possibilita o encontro do


ente enquanto disponível.106
Para retomarmos a última formulação, podemos dizer, em re­
sumo, que a maneira pela qual o ser-aí enquanto excêntrico pos­
sibilita o encontro do ente enquanto disponível é a maneira do
través e da distorção. A partir daí, é possível descrever a mun-
danidade da excentricidade como uni mundo do través e da dis­
torção e o ''espírito", no qual temos que compreender o ser-aí
como excêntrico, como um espírito do través ou da distorção.107
Tudo o que fizemos com isso foi tão-somente interpretar existen-
cial-analiticamente o que a linguagem ordinária já discerniu com
tanta nitidez e, em consonância com sua própria preferência das
expressões espaciais, expressou com tanta clareza.
Todavia, em oposição ao ponto de vista da linguagem ordi­
nária, bem como à linguagem a ela ligada da clínica, não nos de-
tivemos nas impressões que temos no trato com o excêntrico como
um instrumento humano disponível, nem nas propriedades que
‘'nós", ao tomarmos uma distância "teórica", constatamos neles
como sujeitos subsistentes à maneira de coisas, isto é, como sujei­
tos reificados. Muito ao contrário, deixamos, tanto quanto possível,
não só que os excêntricos tomem a palavra, mas também procura­
mos compreendê-los a partir de seu próprio sér-ai e de seu pró­
prio mundo. Ao fazer isso, percebemos — como acabamos de
recapitular — que à excentricidade também de modo algum falace
a visão do ajustamento do objeto disponível na multiplicidade de
remetimentos e, assim, no para-quê de sua utilidade, muito em­
bora essa visão e esse ajustamento estejam de tal modo modifi­
cados na excentricidade que ''nós", que lidamos com os excêntricos
e os julgamos, podemos falar sem mais em falta da circunvisão
organizadora e em um não-ajustar-se.
106 Cf. Heidegger, Sein und Zeit, § 18, pp. 83 ss. (Finalidade e signifi-
cância; a mundanidade do mundo.)
107 A língua francesa também conhece esse espírito do través ou da dis­
torção, pois a expressão esprit de travers não somente pode significar,
com o por exemplo em La Rochefoucauld, uma pessoa excêntrica, "un
esprit de travers"y mas tamhém a atitude de espírito excêntrica enquanto
tal, “l'esprit de travers". Cf, por exemplo Voltaire no 21.° Canto de sua
Pucelle: “Connaissons-nous quels atomes divers font l'esprit just ou l'esprit
d e travers?" — Aqui, o contrário do travers e juste. Em La Rochefou­
cauld era droit. O través no sentido da excentricidade significa, pois, como
vemos aqui tamhém, o oposto "espacial" da retidão, bem como o oposto
lógico da correção (just) , mais ainda: "a retidão" revela-se tão-somente
com o uma expressão tomada à espacialidade para o correto (das R ichtige).
Cf. a esse propósito, mais abaixo, as palavras de Fontane sobre a liber­
dade risonha, que faz hoje isso, amanhã aquilo, “mas sempre a coisa
certa" (das R ichtige)”.
EXCENTRICIDADE 83

Com o discernimento existencial-analítico da maneira pela


qual os excêntricos tornam possível o encontro do ente enquanto
disponível, bem como com o discernimento do fato de que o ente
disponível, no modo de ver deles, se ajusta perfeitamente na res­
pectiva multiplicidade de remetimentos ou todo finalizado, a com­
preensão existencial-analítica já deixou muito para trás o contacto
impressionista com os excêntricos e nossa ''reação" a esse contacto
no juízo que deles fazemos e que é, ao mesmo tempo, uma sentença
condenatória. Por sua vez, a compreensão existencial-analítica já
atingiu um fundo sólido, a saber, o modo peculiar do ser-no-mundo
dos excêntricos. Mas, nem por isso, o círculo de nossa investigação
já se fechou! Ao indagar pela essência da excentricidade, não po­
demos nos contentar com o contraste peculiar entre o ser-no-mundo
enquanto excêntrico e a mundanidade enquanto excêntrica, por um
lado, e o ser-no-mundo e a mundanidade em geral, por outro lado.
Precisamos investigar ainda de que gênero — do ponto de vista
do caráter público do Nós — é o encaixar-se no sentido da excen­
tricidade ou enquanto excêntrico. Nessa indagação, pois, o lugar
do Nós — tomado no sentido das ''pessoas" que lidam com os
excêntricos e as julgam e condenam — é tomado pelo Nós da
experiência natural, que é o "local" da abertura para o ente em
sua totalidade.
Visto deste ponto de vista, o ajustamento (Fügung), por
exemplo, do caixão ila festa de Natal não é absolutamente um ajus­
tamento no sentido de um ajustar-se ‘'natural", isto é, adequado
à "natureza da coisa", mas apenas no sentido de um ajuntar
(Anfügung) que "a nada ob-liga" (unverbindlich). A linguagem
ordinária também sabe disso. Quero apenas mencionar expressões
como "sem naturalidade", "desarmônico" ( = ''sem sintonia"),
"desajustados", desadaptado", "contraditório", mas também ex­
pressões como "desgracioso", "grosseiro", "cheio de arestas", etc.
Pois, como vimos, o mundo do través é, em todo sentido, um
mundo sem encanto e, assim (cf. Schiller: Sobre o Encanto e a
Dignidade), um mundo sem ''leveza", um mundo das coisas ''for­
çadas", do trato difícil, um mundo onde nada se desenvolve "sua­
vemente", mas tudo sai torto e de través, dando errado.
Apesar de o ser-aí mostrar enquanto ser-no-mundo uma estru­
tura na qual tudo está em conexão com tudo, parece estar de an­
temão excluída a possibilidade de compreender a peculiaridade do
encaixe "excêntrico" tão-somente a partir da peculiaridade da arti-
culação das relações de remetimento. A articulação das mesmas no
sentido do "ajuntar" tem que ser compreendida a partir da estru­
tura total do ser-aí enquanto excêntrico, primeiro justamente
a partir da "visão" dos excêntricos, depois a partir do modo da
84 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

circunvisão organizadora que orienta o seu ''providenciar". À


circunvisão do providenciar pertence, como sabemos, não somente
a visão da ''natureza da coisa", logo da coisa a se providenciar, mas
também o respeito pelos outros, a possibilidade de preservação do
convívio, da participação em comum em algo comum. (As duas
coisas acabam, aliás, por dar no mesmo!) Aquele ajuntar ou acres­
centar não deveria, por conseguinte, ser designado como um pro­
videnciar guiado pela circunvisão organizadora no pleno sentido
da palavra, mas como um providenciar míope, de vista curta. De
vista curta, é verdade, não com respeito à disponibilidade e à coisa
disponível enquanto tal — pois a excentricidade consegue "ligar"
as coisas mais remotas com as mais próximas —, mas, sim, com
relação àquilo em favor de que (wofür) o providenciamento
(Besorgen) caracterizado pela circunvisão organizadora ''tem que
tomar cuidados (Sorge)'' e ao modo como tem que ''tomar
cuidados".
Mais ainda; embora o em-vista-de do ser do ser-aí, em con­
formidade com a estrutura do ser-no-mundo em geral, esteja re­
metido a e na dependência do ser-para, logo na mundanidade, o
ser-aí excêntrico exibe, mais uma vez, uma peculiaridade na me­
dida em que está remetido a e na inteira dependência do ser-para,
compreendendo-se, assim, inteiramente a partir do mundo e, nessa
medida, inautenticamente. Ou por outras, ele não se compreende
na individuação da existência ou do Si (Selbst) autêntico. (E
muito menos, naturalmente, se compreende como parte integrante
do Nós do amor!) Já aludimos a esse fato ao falarmos (cf. o quin­
to exemplo) do fato de que o ser-aí enquanto excêntrico não se
deixa chamar decididamente a situação, ou, dito de outro modo,
não abre a situação. Na medida em que "a situação'' permanece
fechada para o excêntrico, aqui também não se pode chegar a uma
articulação das relações de remetimentos no sentido da experiência
natural, mas apenas a um ''ajuntar" ''que a nada ob-liga" e que não
atinge a situação. Em vez de se deixar decididamente chamar à
situação (em questão) num providenciamento atemático, guiado
pela circunvisão organizadora, o ser-aí excêntrico decai, entregan-
do-se (cf. de novo o quinto exemplo) à "tematização", isto é, ao
ocultamento da situação em questão sob um tema universal, sob um
conceito universal, um princípio, um ideal, uma regra, fórmula ou,
mesmo, definição. Desse modo, porém, a individuação do ser-aí no
sentído da existência ou do Si autêntico, logo o ato de tomar sobre
si na existência adentro o fundamento do ser-aí, é substituído pela
particularidade e pela unicidade arbitrariamente afirmadas. Isso
vale sem exceção para todos os nossos exemplos, a começar pela
tematização do presente de Natal como ''um objeto útil após a
EXCENTRICIDADE 85

morte", logo, por sua inclusão nesse ''conceito", e terminando com


os ''princípios" do instituteur. Em lugar do agir (conforme à si­
tuação), que já segundo Schelling constitui "a essência do ho­
mem", surge afinal a "mera reflexão", essa "doença do espírito
humano", como também já dizia Schelliiig.108
Mas, para dar a palavra não somente à filosofia, mas também
ao "senso comum", lembremos as palavras de Fontane, que aqui,
como em outros lugares, acerta em cheio: "T, de novo aprontou
uma boa quantidade de excentricidades e teimosias que se chamam
Direito ou princípio ou conseqüência. Como são ínfimas todas essas
coisas! E a que altura está, ao lado delas, a liberdade risonha, que
faz hoje isso amanhã aquilo, mas sempre a coisa certa.''109 É ver­
dade que Fontane ressalta também que ele tem um pendor para
a liberdade e a mudança, "mas eu o tenho sob o cntrole de meu
juízo e entendimento, que são os reguladores de minha maneira
de viver e agir.''1110 Vê-se, portanto, que, a rigor, o ato livre, de­
cidido, de abrir a situação e a sua tematização de modo algum se
-excluem. Ao contrário, se a vida humana deve ser bem-sucedida,
o que importa é a ''medida certa", a harmonia entre ambos. Essa
harmonia mostra-se no fato de que a articulação das relações de
remetimentos nasce e cresce como um ajustamento natural e não
simplesmente ocorre como o ajuntamento (excêntrico, atravessado,
torto) de um pedaço. Designamos semelhante nascer e crescer de
bom grado como "vida". A esse respeito também, Fontane acerta
em cheio, colocando-se numa posição diametralmente oposta aos
excêntricos, quando, por exemplo, escreve que se esforça por "dei­
x ar tudo nas proporções e percentuais que a própria vida dá a

108 Cf. Schelling, Introdução às Idéias para uma Filosofia da N atureza


com o Introdução ao Estudo dessa Ciência. Ohras Escolhidas em três volu­
mes, editadas por Otto Weiss, Fritz Eckardt Verlag, Leipzig 1907 1.° vol.,
p. 109; "Pois a essência do homem é o agir. Quanto menos ele reflete
sohre si mesmo, tanto mais ativo ele é. Sua mais nohre atividade é aquela
que não se conhece a si mesma. Quando ele se toma a si mesmo por
objeto, não é mais o homem inteiro que age. Ele suprimiu uma parte de
sua atividade a fim de poder refletir sobre a outra." E mais; "A mera
reflexão pois, é uma doença do espírito humano, principalmente quando
se transforma em dominação do homem inteiro, aquela que mata no
germe sua existência superior, que corta pela raiz ( . . . ) sua vida espi­
ritual. Ele é um mal que acompanha oshomens pela vida adentro e nele
destrói toda intuição até mesmo para os objetos maiscomuns”. — Cf.
também Erich Heintel; "Epikur und die Angst vor dem Tode", W iener
Z. Philos., Psychol., Pädagogik, 4, 9, 1952.
109 Theodor Fontane, Briefe an seine Familie. S. Fischer-Verlag, Ber­
lim 1924, t. I, pp. 291 ss. Grifo meu.
110 Ibid. I, p. 194.
86 TRÊS FORMAs DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

seus fenômenos".111 Roça, assim, um tema que filosoficamente se


designa como o da relação entre a transcendência subjetiva e a
transcendência objetiva e que é o único tema a partir do qual a
excentricidade pode vir a ser compreendida transcendental-filoso-
ficamente. Pois ela representa, enquanto malogro ou fracasso ne­
cessário do ser-aí inteiro, um caso especial do deslocamento dessa
relação em favor da transcendência subjetiva e em prejuízo da
transcendência objetiva.
Se demos a palavra a um não-filósofo, foi porque não quería­
mos sobrecarregar excessivamente os leitores de uma revista psi­
quiátrica com explanações filosóficas. Basta ter mostrado que e
em que medida a excentricidade representa uma forma particular
e particularmente clara do malogro112 do ser-aí em geral, que
abrange desde a articulação das relações de remetimentos, passan­
do pela práxis e pelo pragma, pela teoria e pela ciência, até a
conduta de vida e a comunidade da vida em geral. Como vimos
em nossos exemplos, os excêntricos vêm ao nosso encontro, até
certo ponto, a partir de um modo de ser-no-mundo que nos é fa­
miliar, para se retirarem imediatamente de novo para um domínio
com que não temos nenhuma familiaridade. Por isso, foi preciso
que a compreensão existencial-analítica da excentricidade visasse
desde o início a compreensão da excentricidade a partir desse vir-
ao-encontro e desse retirar-se. O que designamos como conseqüên­
cia penosa da excentricidade outra coisa não é senão esse limite
entre os dois. Mas, dado que esse limite é, em ampla medida, des-
locável, a excentricidade não "começa" num "ponto" determinado
da estrutura total do ser-no-mundo. Muito antes, ela representa
uma ameaça à possibilidade de ser bem-sucedido, ameaça essa que
é própria de e peculiar ao ser-homem em seu todo, que lhe é
"imanente".
Naturalmente, isso deve ser levado em conta com respeito
também à interpretação temporal da excentricidade, para a qual
queremos agora nos voltar (se bem que tão-somente no sentido
de uma tentativa tateante e a largos traços). Depois de tudo o que
sabemos, não nos é lícito esperar poder compreender a excentri­

111 Ibid. II, p. 27.


112 O leitor interessado em filosofia fica remetida a W. Szilasi, M acht
und Ohnmacht des Geistes, Berna 1946, em particular II, "Considerações
sobre a Existência". Aristóteles; Ética a Nicômaco. Cito apenas a seguinte
passagem (p. 149); "Quando alguém considera apenas as leis e as regras
da natureza, da alma, dos fatos sociais e outras coisas semelhantes, mas
não tem nenhum intuição do ser-hem-sucedido do ser-homem, todos os
seus esforços malogram, porquanto não têm nenhuma utilidade para
a liberdade da decisão".
EXcENTRIclDADE 87

cidade a partir de uma determinada "ecstase" temporal, portanto


nem a partir da temporalidade do sentimento da situação (Befin­
dlichkeit) apenas, ou da temporalidade do compreender, nem a
partir do providenciar guiado pela circunvisão organizadora e do
decaimento ( Verfallen). Se a excentricidade não atinge jamais
"a coisa certa", mas sempre ''a coisa errada", esse ''erro'' no sen­
tido da ''excentricidade", esse ''errar", ''não acertar" — por opo­
sição, por exemplo, ao ''erro" no sentido da falta de habilidade,
de "'inteligência", de prudência, etc. — só se deixa compreender
a partir de uma modificação da temporalização (Zeitigung) do
ser-aí em geral. O ponto que se deixa mostrar mais facilmente é
que a temporalidade do sentimento da situação ou do estado de
de ânimo (Cestimmtheit), ou seja, o ter-sido ( Cewesenheit), não
pode desempenhar na excentricidade o papel principal. Pois já vi­
mos, com base em nossos poucos exemplos, que a excentricidade
pode ''medrar'' sobre o solo dos mais diferentes estados de ânimo
ou humores — tanto dos eufóricos quanto dos deprimidos, tanto
dos humorísticos quanto dos sarcárticos, tanto dos apaixonados
quanto dos característicos da ''constatação objetiva" —, de tal
modo que podemos nos lembrar da constatação de Bleuler segundo
a qual os excêntricos são os "únicos, entre aqueles que sofrem de
uma aberração constitucional, nos quais a afetividade não está ma­
nifestamente perturbada de maneira exclusiva ou principal".
No que diz respeito à “écstase" temporal do presente, uma
constatação negativa impõe-se a princípio a nós: em nenhum ponto
foi possível falar do presente no sentido do presente autêntico do
instante, logo da compreensão autêntica113 (e, com maior razão
ainda, em nenhum ponto, do instante do amor!). Pois ao instante
no sentido do presente autêntico da existência pertence o ato de­
cidido de abrir a situação, de tal modo que, nessa decisão, "o pre­
sente não somente é tirado de novo da distração nos objetos mais
próximos que estamos a providenciar, mas também é mantido no
futuro e no ter-sido'' (ibid.). Nem mesmo no exemplo do institu-
teur pode-se falar de uma semelhante "retirada", de um semelhan­
te retorno ao próprio ser-aí. Poís aqui, justamente, a situação em
questão não é aberta de maneira decidida como situação, mas é
encoberta por um princípio ou por uma idéia. Aqui, justamente,
não se assume decididamente e não se mantém nessa decisão
"aquilo que vem ao encontro na situação em termos de possibili­
dades, circunstâncias que se podem providenciar" (ibid.), como
convém ao instante autentico no sentido da existência. Ao con­

113 Cf. Sein und Zeit, p. 338.


88 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

trário, essas possibilidades ou circunstâncias (por exemplo, ajudar


os pais) são justamente "ignoradas", excluídas ou postas de lado
e, isso, em favor do "princípio do amor universal aos homens".
Poderíamos mostrar a mesma coisa nos outros exemplos. De fato,
em todos eles, não somente se restringem as possibilidades dos
remetimentos do ser-para em favor de uma determinada idéia, de
um determinado conceito, mas também — e mesmo principalmen­
te — as possibilidades do convívio e de sua preservação. Isso vale
sobretudo para o convívio no sentido do amor autêntico, do modo
dual de ser-no-mundo, tema esse, porém, que não podemos desen­
volver aqui mais pormenorizadamente.114
Por toda parte, a perseguição penosamente conseqüente de
uma reflexão universal — aquilo a que Fontane chamou ''Direito",
"plano", ''conseqüência" — impede a ''liberdade de atingir o
certo". Em todos os exemplos, não é nem na temporalidade do
compreender, nem na temporalidade do providenciamento guiado
pela circunvisão organizadora, nem tampouco apenas na tempora­
lidade no decaimento, que o ser-aí se temporaliza aqui, mas numa
modificação particular da temporalização em geral, na qual a tem-
nizadora, mas não de sua temporalização, e sim da temporalização
e historização do ser-aí como um todo.Aqui também ainda se
trata, é verdade, de um providenciar guiado pela circunvisão orga­
nizadora, mas não de sua temporalização, e sim da temporalização
no sentido da total ordenação e subordinação do ser-aí e do ser-com
a um tema, uma idéia, um conceito ou plano "intemporais". O
Aonde da evolução ou écstase temporal, no sentido do esquema
horizontal da temporalização, não é aqui, pois, o em-vista-de do
remetimento enquanto tal, mas o tempo "vazio” — isto é, nem
"havendo sido" (gewesen), nem presente, nem por-vir — da
abstração ou absolutização de um conceito, uma idéia ou um prin­
cípio. Mas, visto que o ser-aí, mesmo no decaimento nessa abstra­
ção, "é aí'', é enquanto ser-no-mundo e, nessa medida, "provi­
dencia algo", temos que indagar o quê, no fundo, ele providencia
aqui. A resposta só pode ser a seguinte: ele providencia uma "or­
denação" da situação, não em conformidade com suas possibili­
dades e circunstâncias, mas em conformidade com ou segundo o
critério de seu próprio "parecer”, em conformidade com aquilo
que o ser-aí "tem em mãos" ou em mente e no qual ele, de fato,
decaiu; o conceito, plano ou propósito "voluntarioso".
Nessa medida, naturalmente, aqui também o ser-aí existe em
vista de si mesmo e, assim, em vista do compreender e da tempo-
114 Em vez disso remetemos às secções sobre "o amor e o mundo, em
minhas Grundformen.
EXCENTRICIDADE 89

ralização no sentido do futuro. Mas ele não faz livremente com


que o futuro advenha, ele não se antecipa, pois, livremente, mas,
em seu decaimento precisamente, capta por antecipação o futuro
com aquilo que tem em mãos ou em mente de maneira volunta­
riosa, isto é, unicamente em vista de sua unicidade e particulari­
dade. Por isso, não pode haver aqui um autêntico futuro, do
mesmo modo que não pode haver um autêntico presente. Dado,
porém, que a inautenticidade não precisa ser, a rigor, uma excen­
tricidade, mas pode significar muitas outras coisas, é preciso con­
siderar a inautenticidade da excentricidade de acordo com sua pró­
pria modificação da temporalização em geral. Se o futuro inautên-
tico significa um mero aguardar ( Gewärtigen),115 então o aguar­
dar no sentido da excentricidade significa a confiança em que "o
futuro" se deixe captar por antecipação, que ele se deixe ordenar
segundo determinados princípios ou conceitos. Só agora podemos
compreender por que justamente o cálculo do futuro — tal como
no exemplo do historiador — desempenha também em outros casos
um papel de tamanha importância na excentricidade! Basta lembrar
a grande difusão das profecias astrológicas do futuro, das profe­
cias que se "lêem" nas cartas de baralho, nas linhas da mão, etc.
Em tudo isso, o ser-aí ''esquiva-se" de seu mais próprio, de seu
autêntico poder- e saber-ser, e enleva-se num futuro ''vazio", isto
é, não projetado a partir do próprio ser-aí, mas "simulado". Entre­
gue, em seu decaimento, a semelhante simulação, ele "esquiva-se",
como costumamos dizer, à sua própria responsabilidade. Mas isso
também é apenas um caso limite da excentricidade. A excentrici­
dade em si não é absolutamente a falta de responsabilidade em si.
Pois o excêntrico se responsabiliza, via de regra, como vimos, por
aquilo que diz e faz — às vezes, inclusive, de modo "fanático".
Também isso mostra, mais uma vez, como é peculiar a essência da
excentricidade. Todavia, o excêntrico ''responsabiliza-se" por suas
palavras e atos, não a partir do ser-aí como um todo, como con­
vém á plena responsabilidade, logo: nem a partir da situação, nem
a partir do convívio, nem a partir da história, e, nessa medida, não
se responsabiliza nem pela situação, nem pelo convívio, nem pela
história. Mas ele responde pelo que diz e faz, baseado unicamente
em seu decaimento, que o deixa entregue a um conceito, idéia ou
"princípio" que o subjuga. Conseqüentemente, à essência da excen­
tricidade não somente é estranha a essência da discussão e, com
maior razão ainda, a essência do dialogo autêntico, mas também
a essência da historicidade enquanto essência da temporalização
115 Cf. Sein und Zeit, § 68 a ("A temporalidade do compreender"),
pp. 336 ss.
90 TRÊS FORMAS DA EXIStêNcIA MALOGRADa

autêntica em geral. Essa estranheza outra coisa não significa senão


o que temos repetidamente procurado compreender existencial-ana-
liticamente na excentricidade e que a linguagem ordinária já per­
cebeu tão claramente; o fato de chegar-a-um-fim, não-conseguir-
continuar ou ficar preso, o espírito do traves ou da distorção, da
"maluquice" de quem está "mal-girado" (isto é, "gira") e do erro
e ilusão de quem está "enrolado torto", da exaltação e do exagero
da conseqüência, da falta de medida ou de forma, da "desgraciosa"
rudeza, dureza, rigidez, frieza, do contraditório, desarmônico, de­
sigual. Enquanto a-historieidade, a excentricidade é o contrário da
maturidade, da existência e da autêntica convivência.
Tudo o que aqui foi dito da interpretação temporal da excen­
tricidade vale naturalmente, com maior razão ainda, para a inter­
pretação espacial.116 Portanto, aqui também, não devemos esperar
conseguir chegar a uma caracterização inequívoca. A espacialidade
da excentricidade é uma espacialidade bem diferente, conforme a
consideremos a partir do ser-para do remetimento ou a partir do
em-vista-de do ser-aí. Do primeiro ponto de vista, o ''espaço" da
excentricidade é, no sentido da aproximação, praticamente sem li­
mites, visto que o "mais remoto", "mais desviado", o ''excêntrico"
pode perfeitamente se deslocar para as proximidades do ser-dis-
ponível, e, até mesmo, para o "ponto central". Nenhuma distância
oferece ''dificuldades'' para os excêntricos. Pois, na excentricidade,
como vimos, tudo pode entrar em ''contacto" com tudo, um caixão
com a árvore de Natal, uma fatia de carne com uma calva, etc.
Nessa medida, pode-se dizer que a espacialidade do ser-para do
ser-aí enquanto excêntrico não tem limites.
Visto a partir do em-vista-de do ser-aí, essa amplidão sem
limites da abertura (Ersehlossenheit) da excentricidade revela-se,
porém, como uma enorme perda de profundidade, desde que quei­
ramos entender como profundidade a determinação dccísória
( Entschlossenheit) do ser-aí, o ato decidido de agarrar as possi­
bilidades da situação, a total mobilização do ser-aí em seu ser. Mas
isso quer dizer que a excentricidade tem em comum com a extra­
vagância a deslocação estrutural da proporção antropológica, da
proporção entre a amplidão e a profundidade (ou altura) .117 A
''total mobilização" do ser-aí, sua intervenção em e mobilização
para ( Sich-einsetzen in und für) a situação — a qual envolve
sempre a convivência — é, como sabemos, impossibilitada na
excentricidade pela perseguição obstinada, "tacanha", penosamente

116 Cf. Sein und Z eit, §§ 22-24, pp. 102 ss.


117 Cf. "Extravagância" e Henrik Ibsen und das Problem der Selbst-
realisation in der Kunst, Heidelberg 1949.
EXCENTRICIDADE 91

conseqüente, de um tema, ideal, princípio. A estreiteza dessa men­


talidade tacanha mostra-se no fato de que a pessoa ''não vê um
palmo além do nariz", mas só ''tem em vista" seu conceito, seu
princípio ou sua idéia. Desse modo, ela perde, como Fontane viu
tão bem, a liberdade de "atingir a coisa certa" na situação. Po­
demos, pois, dizer sem medo de nos envolver em contradições, que,
no ser-aí enquanto excêntrico, à amplidão praticamente ilimitada
do ser-para corresponderia um ''horizonte estreito" (e vice-versa).
Estreito, a saber, com relação ao discernimento e à visão de con­
junto da situação, devido ao fato de o ser-aí em geral restringir-se
a rígidos conceitos, regras, princípios, definições.
Desse modo, porém, é alterada a estrutura espacial enquanto
tal do ser-aí. Em vez do espaço paisagístico, da região e de
sua fisionomia, surge, para falarmos com Erwin Strauss,118 o
espaço geográfico, nivelado a um plano. O espaço geográfico
é um espaço infinitamente amplo, mas sem nenhuma profundidade,
um espaço por assim dizer de segunda mão, um espaço sem fisio­
nomia, região e paisagem, mas em compensação um espaço no qual
"a gente" pode se orientar e no qual há um aqui, um em cima e
um embaixo, um perto e um longe calculáveis.119 "A coisa certa"
é ''atingida" aqui (na verdade, é "errada") através da mera re­
flexão ou do cálculo, através dos meios de abordagem do provi­
denciar guiado pela circunvisão organizadora, que justamente não
acertam com a abordagem no sentido da decisão, da abertura de­
cidida da situação.
Tal é também a razão por que não somente os próprios ex­
cêntricos, mas ''nós" também ao lidarmos com eles tão depressa
atingimos um limite ou ficamos entalados. Essa "razão" é a estrei­
teza ou o limite (''existencial") de todo conceito, princípio ou
''ideal", e, sobretudo, de toda ideologia. No que diz respeito à úl­
tima, a possibilidade da participação em comum em algo comum,
como convém à liberdade, é impossibilitada pela força, pela coerção
ou pela sedução à participação.

118 Vom Sinn der Sinne. Berlim 1936.


119 Apontemos aqui de passagem para as relações com a análise das
interpretações geográficas no texto de Rorschach. Cf. tamhém L. Bins­
wanger, "Das Raumprohlem in der Psychopathologie", Z. Neurol. Psich.
145, cad. 3/4, 1935 e Ausgew. Vorträge u. Aufsätze II, Berna 1955.
92 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

G. T o m a d a d e P o s iç ã o Q u a n to a s C o n c e p ç õ e s
C lín ic a s d a E x cen tr ic id a d e.

E x cen tr ic id a d e, A m a n e ir a m e n to , F a n a tism o

A Questão da Possibilidade de uma Experiência


da Excentricidade e da Esquizofrenia

Com as investigações feitas até agora, atingimos um ponto de


vista a partir do qual torna-se possível um debate com as concep­
ções clínico-psicopatológicas da excentricidade.
No que diz respeito à doutrina de Minkowski, já nos
familiarizamos com um dos aspectos da mesma na secção A
deste livro sob o título Automatisme Pragmatique. Minkowski
achava que se podia ver nesse ''agir autista" "la clef de voute de
la Schizophrenie" . Como exemplo paradigmático, figurava a com­
pra de um piano dispendioso, que a mulher de um simples
funcionário conseguiu com obstinação impor a seu empobrecido
marido, apesar de seus rogos insistentes. Desse piano dizia-se então
que "il jurait afuec le restant du mobilier”. Já encontrávamos aqui
as três características principais da excentricidade; a preservação
deficiente do convívio, a saber, o desprezo dos pedidos instantes
do marido, o nao-encaixar-se de um "utensílio" num contexto ins­
trumental ou de remetimentos, e, finalmente, o "acte sans lende-
main", o ter-chegado-a-um-fim do programa, o "mal-enroscamento"
que encontramos nas ações daqueles que chamamos de ''malucos''
nas expressões alemãs correspondentes (sein Ver-dreht- oder Ver­
schraubt Sein). (Tudo isso é válido para nossos exemplos.)
Encontramos o outro aspecto da doutrina de Minkowski sobre
a excentricidade na discussão do quinto exemplo sob o título do
rationalisme morbide, muíto embora o próprio Minkowski tenha
apresentado esses dois "distúrbios" separadamente, sem considerá-
1os como os dois lados de um único e mesmo fenômeno existencial,
ou seja, da excentricidade. O exemplo paradigmático da rationa-
lisme morbide era o instituteur de nosso último exemplo, sua
''mania de princípios". Aqui também encontramos reunidos todos
os traços essenciais da excentricidade, de tal modo que não é lícito
separar o automatisme pragmatique de Minkowski de seu rationa-
lisme morbide. Muito ao contrário, é preciso reconhecê-los como
traços essenciais de um unico fenômeno; a "excentricidade". O que
EXcENTRIcIDADE 93

é tratado sob os dois títulos é o que já descrevemos existencial-


analiticamente como a indecisão do ser-aí para o seu aí no sentido
da respectiva situação, ou por outras; como a falta de liberdade
do ser-aí para arrumar o espaço de cada margem-de-ação de seu
poder- e saber-ser fáctíco, e como fechamento ( Verschliessung) da
situação mediante seu encerramento (Einschliessung) num deter-
minado tema (no tema compra-do-piano, "objeto útil para depois,
da morte", refrescamento, "razão") ou em determinados princípios
pedagógicos (dureza, liberalismo) e da própria conduta de vida
(silêncio, reconhecimento do amor universal pelos homens como
supremo e único princípio, etc.). Em todos esses casos, trata-se
tanto de um autisme pragmatique — visto que também a educação
e a subordinação da vida a princípios são prágmata, "ações” —
como também daquilo que Minkowski chama de rationalisme mor­
bide. Pois a perseguição obstinadamente conseqüente do tema
"compra-do-piano” (apesar de uma situação financeira totalmente
alterada) ou do tema ''objeto útil para depois da morte” (apesar
da situação natalina) pode ser designada no sentido existencial-
analítico (!) como racionalismo "mórbido" (a saber, como per­
seguição malograda, fracassada ou "mórbida" de um "pensa­
mento").
Em ligação com isso, lembremos mais uma vez o fato de que
tiramos propositalmente os nossos casos exemplares não somente
da esquizofrenia (o paciente Hae., o historiador, o instituteur),
mas também do domínio da esquizoidia (exemplo do caixão e do
piano) e do ''normal" de um ponto de vista psic opatológico (!)
(exemplo do professor). Dever-se-ia mostrar assim que a essência
da excentricidade precisa ser procurada e encontrada além da sepa­
ração da psicoce, da psicopatia e da normalidade, a saber, no fun­
damento do ser humano em geral.
Com essa constatação, podemos agora também responder a
questão se a análise existencial poderia contribuir para realizar
a esperança de Kraepelin (cf. mais uma vez a 1.a parte) de que
seria possível, com o progresso da experiência, "distinguir com
maior precisão as peculiaridades da excentricidade esquizofrênica
e da excentricidade psicopática", uma questão que havíamos inten­
cionalmente deixado em aberto nessa passagem. Naturalmente, com
a constatação que acabamos de fazer, ela tem que ser respondida
negativamente. O que a análise existencial almeja não é, justamen­
te, diferenciar a excentricidade segundo suas formas de manifes­
tação clínicas, mas, repetimos, exibir a excentricidade como um
inequívoco fenômeno existencial além, ou melhor, aquém, de suas
formas fenomenais clínicas e "normais".
94 TRÊS FORMAs DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

Se a excentricidade ''normal", a esquizóide e a esquizofrênica


mostram a mesma ''essência", um modo existencial ineqüivocamente
determinável, é preciso, então, levar em consideração outros cri­
térios, diferentes dos existenciais-analíticos e, comparados a esses,
perfeitamente "secundários", a fim de possibilitar aquela distinção.
Assim, por exemplo, se pensamos no caso do instituteur, só as
peculiaridades psicopatológicas podem decidir se se trata em seu
caso de uma excentricidade ligada à esquizofrenia ou a um psico-
pata esquizóide. É o quadro clínico total que decide se o diaguós-
tico clínico deve ou não dizer aqui: esquizofrenia. De qualquer
modo, a excentricidade enquanto tal mostra aqui também "traços
esquizofrênicos", relativamente às suas "proporções", isto é, rela­
tivamente à sua extensão, à conduta de vida e à profissão inteiras,
relativamente ao "grau" de sua pertinácia e ao surgimento de uma
angústia grave e uma ''ameaça vital" no caso de infração dos prin­
cípios excêntricos, etc. Além disso, é preciso ressaltar que uma
unica ação ou expressão excêntrica enquanto tal não permite, em
princípio, nenhuma decisão quanto ao diagnóstico. Basta pensar no
pai, em nosso exemplo do caixão, que estaríamos inclinados a tomar
muito facilmente por um esquizofrênico manifesto em razão do
pragma excêntrico.
Quanto à teoria gruhleana da excentricidade esquizofrênica,
a redução psicológica da mesma a um "outro querer", a um
■"desvio deliberado", a "algo de deliberadamente incomum" no
sentido de um sentimento fundamental alterado, de uma pos­
tura, estrutura ou humor fundamentais alterados, é preciso re­
conhecer que nossos exemplos mostraram certamente um des­
vio e um querer e agir diferentes do que convém ao nosso
querer e agir "naturais". Contudo, vimos que o ser-aí excên­
trico não acentua em seu querer e agir a alteridade em face dos
outros, mas sobretudo a sua particularidade, aquilo que a ele preci­
samente convém. O ser-aí excêntrico absolutamente não visa, ''pro­
posital" ou ''intencionalmente", como quer a hipótese de Gruhle, a
Malteridade do querer, de modo algum está dirigido intencionalmente
em primeira linha para a oposição de seu querer ao nosso. Tal não
acontecia nem sequer no caso do instituteur. Abstração feita de que
uma postura ou estrutura humana fundamental não pode ser redu­
zida a uma capacidade psicológica ou a uma determinada "facul­
dade" e, muito menos, a um modo particular de semelhante coisa,
uma teoria ou hipótese psicológica exigiria que o querer "contrá-
Tio" não somente ocorresse aqui ou ali, como de fato ocorre, mas
pudesse ser comprovado sem exceções. O mesmo é válido para a
suposição de Gruhle de que os esquizofrênicos parecem, por assim
dizer, "regalar-se", ''dar largas a suas energias" em seu "jeito
EXCENTRICIDADE 95

peculiar''. O próprio historiador hipomaníaco-esquizofrênico não


se regala (em face de nós) em seu outro querer, mas em sua ''ge­
nialidade". Ele está certamente consciente de seu "jeito peculiar''
("genial") e nele se regala, dando largas às suas energias, mas
justamente não parque seu "jeito" é diferente do nosso, mas por­
que é o seu jeito, sem precedentes, justamente; ''genial". Ele não
quer, pois, ser diferente dos outros, mas ele é — por si mesmo
— diferente, e porque as coisas são assim, os outros — os contem­
porâneos e os pósteros — não poderão "compreendê-lo". O
mesmo vale para o instituteur que se coloca expressamente em
oposição aos seus contemporâneos; ele não se opõe, de modo al­
gum, por amor da oposição, mas em vista da auto-afirmação, para
permanecer fiel aos "princípios" seus enquanto seus, para haurir
tudo de si mesmo, etc. Em ambos os casos, a oposição aos outros
emana da excentricidade, não, inversamente, a excentricidade da
vontade de alteridade, do "outro querer".
Se, apesar disso, precisamos continuar a nos ocupar com a
teoria gruhleana da excentricidade, é porque, por um lado, ela ti­
nha em vista um alvo semelhante ao nosso relativamente à solu­
ção do problema da excentricidade. Por outro lado, porque nela
se pode mostrar com tanta nitidez a diferença entre a teoria psico-
patológica e a investigação existencial-analítico-fenomenológica. E ,
em terceiro lugar, por um motivo muito "objetivo", a saber; a
necessidade objetiva de fazer a distinção (não levada a cabo por
Gruhle) entre excentricidade e amaneiramento.
A meta de Gruhle era também a de ir além da "impressão
imediata”, ''que muitas vezes possibilita à pessoa experimentada
o diagnóstico à primeira vista de um esquizofrênico (— excên­
trico)". Ele vê o caminho que conduz a essa meta na exibição dos
''fatores objetivamente característicos da postura total" do esqui­
zofrênico. Quando se pronuncia aí, pela primeira vez, a palavra
"excentricidade", o que se tem em mente não é tanto uma caracte­
rística isolada, quanto uma característica da postura total em
todas as ''esferas de atividade". Se a consideração existencial-
analítica também não tem em mira "fatores objetivamente caracte­
rísticos" ou ''sinais", mas traços passíveis de uma exibição ou ex­
periência fenomenológica, de uma estrutura total, a saber: do ser-
homem, então ela se encontra próxima à concepção fundamental’
de Gruhle — mas só a ela — na medida em que o que importa
para ela também é destacar a excentricidade como um traço hu­
mano fundamental, que se pode comprovar "em todas as esferas
de atividade". Gruhle fala, a esse propósito, da esfera dos hábitos
(cf. a esse respeito nosso exemplo da fatia de língua fria que o
doente, como se descobriu, costumava colocar "habitualmente"'
96 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

sobre a calva), da relação com a técnica de vida (cf. o instituteur


de Minkowski), das relações com a ciência (cf. o historiador) e
com a arte (cf. nosso professor). Essa ''lista" não é, porém, com­
pleta, na medida em que seria também preciso mencionar as rela­
ções ("excêntricas") com a tecnica enquanto tal (pensemos no
“ inventor" do perpetuum mobile, e, sobretudo, nas excentricidades
nas esferas do amor e da religião). Com relação a essa última,
Iembremos a figura grandioso, criada por Ibsen, do pastor Brand
— também há excêntricos ''grandiosos" — com seu princípio "fa­
nático"120 do tudo-ou-nada. No que concerne, porém, às excentri­
cidades na esfera do amor lembremos em primeiro a figura de
Viggi Stoteler, de Gottgried Keller, e os Exercícios intelectuais
(Denkübungen) de Kleist, para sua primeira noiva, Wilhelmine
Von Zenge. Os dois exemplos mostram como a perseguição con­
seqüente de um tema ou princípio pode ser, não somente penosa,
mas também mortal para o amor. Aqui também, e aqui sobretudo,
são válidas as palavras do ''convertido'' pastor Brand ao final do
drama de Ibsen;
“Im G esetz erfriert die Seele —

Ohne Lieht kein Blühen auf der E rd en ”


["Na lei congela-se a alma,
Sem luz nada floresce sohre a terra."]

Essas palavras poderiam ser aplicadas à excentricidade em geral.


De sua verdade, já dá testemunho a linguagem ordinária na me­
dida em que ela, com vimos, não dispõe de uma única expressão
para caracterizar a excentricidade que de longe ao menos lembras­
se a luz, o florescimento, ou mesmo a vegetação em geral. A
linguagem ordinária já sabe que, sobre o solo da excentricidade,
''nenhuma erva cresce".
Mas nós conhecemos ainda uma outra possibilidade da ex­
centricidade ''na esfera" do amor. Lembro nossa doente Ilse,121
que enfiou o braço no forno aceso a fim de mostrar ao pai "o que
é o amor". Aqui também, foi apenas o tema de uma reflexão que
levou a esse "sacrifício"; "Se o pai vir a que dores me exponho
por amor a ele, então, em agradecimento, ele terá que, em troca,
tratar melhor minha mãe." Trata-se aqui de uma intensificação ex­
cêntrica da manifestação do próprio amor, excêntrica já pelo sim­
ples fato de que se baseava na confiança na conseqüência dessa re­
flexão, sem contudo ''contar" com a "natureza" deste pai e com
120 Cf. a esse propósito mais adiante.
121 Cf. "Wahnsinn als lehensgeschichtliches Phänomen und als Geistes­
krankheit", Mschr. Psychiat. Neurol. 110, n.° 3 /4 , 1945.
EXCENTRICIDADE 97

a impossibilidade de forçar uma mudança do mesmo. Aqui tam­


bém o ser-aí não conseguia abrir a situação. Em Vez disso, obede­
cia à "lei" da pura reflexão racional e a um plano dela resultante.
Se podemos falar de uma oposição mortal da excentricidade
e do amor é porque, onde há amor, ou bem a excentricidade não
pode "Viver", ou bem, caso "Viva", tem por sua vez que morrer.
Na verdade^ a última possibilidade raramente ocorre, pois a ex­
centricidade "tem uma vida tenaz."122 A única "maneira" de ''su­
perá-la" é, de fato, o amor enquanto diametralmente oposto à es­
trutura do cuidado do ser-aí em geral e, assim, também enquanto
liberdade em face da situação em geral. Enquanto ser-além-do-
mundo, o amor está também, como já mostramos de maneira su­
ficiente,123 além da situação. Disso também encontramos em Ibsen
um exemplo maravilhoso. É a espera, de toda uma vida e cheia
de amor, de Solvejg pela volta de seu Peer Gynt, que passa a vida
inteira a oscilar de uma excentricidade para a outra. Mas, se é
preciso ver no amor a única salvação contra a excentricidade,
isso por sua vez remete ao fato de que a excentricidade significa
a maneira de um ser-aí na qual não somente a convivência plural,
no sentido do trato e comércio humanos, logo do mero ser-com,
mas também no sentido da convivência autêntica, amorosa ou dual,
foi sempre prejudicada, ou por outras, "diminuída'' em sua estru­
tura total.
Todavia, não mencionamos ainda uma “esfera de atividade"
que Gruhle colocou irrefletidamente ao lado das outras, o domínio
da "esfera expressiva total". Em decorrência disso, ao lado de seus
"sinais objetivos" da excentricidade, encontram-se outros do ama­
neiramento, como "amaneirado" pura e simplesmente, "floreado",
''intrincado'' (com relação a expressões lingüísticas), "estudado",
"sem naturalidade", etc. Já em seu exemplo da descrição perifrás-
tica da escada como um ''intermediário necessário da abóbada da
casa", podemos nos perguntar se se trata aqui de excentricidade
ou de amaneiramento. Naturalmente, é preciso ter em mente aí
que, ao perguntarmos se um determinado fato ''pertence" a uma
essência, muitas vezes se trata de uma questão puramente "de
tato", ou seja, de uma questão do domínio da experiência feno-
menológica, que não é diferente da questão se determinada obra
de arte lingüística pertence à essência artística da poesia lírica,
épica ou dramática, não importando a nitidez com que essas es­

122 Aqui também Fontane acerta novamente em cheio; "Mas endireitar


ortopedicamente os pensamentos tortos e aleijados de uma outra pessoa
é um verdadeiro trabalho de cao" (loc. cit., p. 274).
123 cf. Grundformen..., 1.° cap.
98 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

sências possam ser contrastadas enquanto tais. Semelhante ques­


tão repousa justamente sobre algo mais do que simples definições,
que permitam julgar "segundo sinais objetivos" se um determi­
nado fato realmente exibe ou não os sinais contidos na definição.
Assim como no domínio da arte, também na análise existencial,
as definições rígidas devem ser consideradas como obstáculos para
a pesquisa, porque a lógica pura desfigura, oculta e mesmo ignora
aquilo que realmente importa, a verdadeira essência.
Quando Gruhle vê no exemplo lingüístico; a mariposa
bruveia "um jogo de palavras divertidamente excêntrico com a
palavra mariposa e a palavra bruxa, convertida em verbo", tam­
bém esse exemplo mostra, precisamente enquanto jogo de pala­
vras, um certo jeito amaneirado (Manier). Aliás, isso fica ainda
mais claro com o exemplo dado por Carl Schneider da substituição
do u pelo r (Wrnsch em vez de Wunsch [desejo], Frnd em vez
de Fund [achado], etc.). Nesses exemplos, o jeito amaneirado e
o amaneiramento são, por assim dizer, palpáveis. Muito mais do
que a excentricidade, o amaneiramento parece pressupor um des­
vio intencional ou deliberado, uma vontade de ser diferente, muito
embora não se deixe de modo algum ''explicar'' e, muito menos,
compreender existencial-analiticamente a partir disso. Como vere­
mos no estudo sobre o amaneiramento, as coisas aqui são incom­
paravelmente mais complicadas do que pode sonhar qualquer
teoria. Todavia, pode-se atribuir precisamente à falta de contras-
tamento do amaneiramento com a excentricidade o fato de Gruhle
ter feito do fator voluntário a coluna de sustentação de sua teoria
da excentricidade.
O leitor talvez tenha reparado que não apresentamos, entre
os nossos cinco exemplos, nenhum do domínio da chamada esfera
expressiva no sentido de Gruhle (logo, do domínio da linguagem,
dos gestos, da mímica, da postura, das produções plásticas, etc.).
A explicação disso, ele a encontrou no texto acima. Não que as
coisas sejam tão simples que pudéssemos dizer que o amaneira­
mento significa a ''excentricidade no domínio da esfera expressi­
va". A diferença não está só nisso absolutamente! Visto que re­
servamos a análise do amaneiramento para um outro traba­
lho, observemos, apenas, por enquanto, que, em nosso caso Jürg
Zünd,124 topamos com um total amaneiramento quanto ao andar,
à postura, aos gestos e, aqui e ali, até mesmo quanto à expressão
lingüística, e que esse amaneiramento do procedimento total do
doente revelou-se muito nitidamente como ''expressão" de sua ex­

124 Cf. Schweitz. Arch. Psychiat. Neurol. 56, 58, 59.


EXcENtRIcIDADE 99

centricidade existencial, de seu ser-no-mundo excêntrico. Isso já


pode nos servir como uma indicação de que os termos ''expressão"
e ''esfera expressiva" não devem ser usados aqui no sentido psi­
cológico, mas, sobretudo, no sentido existencial-analítico.
Mas é aqui também o lugar da questão quanto às relações en­
tre excentricidade e fanatismo, que ainda não havíamos tocado na
parte clínica. Aqui também não poderíamos dar-lhe uma resposta
exaustiva. Vimos ai que a clínica usa correntemente a expressão
complexa ''fanáticos excêntricos'', o que constitui uma indicação
de que os fanáticos excêntricos representam um grupo especial e
que, conseqüentemente, nem todos os fanáticos têm que ser excên­
tricos. O ser humano pode também mobilizar-se em defesa de idéias
e empreendimentos não-excêntricos de uma maneira ''fanática",
isto é, "encarniçadamente", com extrema energia e conseqüência.
Semelhante fanatismo pode se apoderar, por exemplo, como o
mostra tão claramente o pastor Brand de Ibsen, de uma genuína
idéia religiosa. Mas quando, como no caso da mesma "figura", não
só não se preserva, mas se mata a convivência — e isso precisa­
mente na figura do ''próximo" — nem por isso a idéia, o propó­
sito ou plano enquanto tais tornam-se excêntricos, embora se pos­
sa afirmar isso da maneira pela qual o ser-aí os leva a cabo, a sa­
ber, como a mais penosa e extrema conseqüência. Não muda nada
aí o fato de que justamente os fanáticos excêntricos têm uma par­
ticular facilidade para se reunirem em seitas (religiosas, políti­
cas, ideológicas, pseudocientíficas). Pois a participação em comum
em algo comum, de que se trata neste ensaio, não concerne, como
já acentuamos com base no quarto exemplo, à realidade factual de
uma maioria ou grande número de participantes, mas, sim, à pos­
sibilidade de uma participação em comum, do compartilhamento de
uma opinião ou de um entendimento mútuo em geral. Essa possi­
bilidade, porém, está e permanece fechada mesmo para a seita —
que, aliás, deve ser considerada tão-somente como uma in­
dividualidade coletiva.
Se, inversamente, perguntarmos se também podemos falar em
excêntricos fanáticos e não-fanáticos, cumpre do mesmo modo res­
ponder pela afirmativa. Assim, por exemplo, nosso segundo caso,
o doente Hae., certamente não se mostrou fanático. Por outro
lado, à excentricidade é inerente pelo menos uma tendência à con­
seqüência fanática, como mostraram sobretudo o quinto, mas tam­
bém o quarto caso. Isso tudo quer dizer, mais uma vez, que o fa­
natismo diz respeito, em primeiro lugar, a uma questão de inten­
sidade, energia e duração (psicológicas) da excentricidade, mas
não à sua autêntica essência. O traço essencial, imarierite a essa
essência, da conseqüência ''obstinada'', isto é, indo além do limite
100 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

da possibilidade da convivência, na perseguição de um tema, e até


mesmo de uma simples ''idéia" ocasional, não deve ser confundido
com o fato psicológico ou com a propriedade caracteriológica do
fanatismo.
Excentricidade e fanatismo só devem ser separados quando a
essência da excentricidade é determinada pela natureza peculiar de
seu ser-para e de seu em-vista-de, logo, existencial-analiticamente.
Eis aí uma coísa que se pode mostrar, entre outras coisas, por um
retrospecto de minhas Formas Fundamentais, onde o fanatismo
(cf. pp. 556 ss.) foi concebido como o oposto gnoseológico do
amor e, a partir daí, como quase idêntico à excentricidade. Pode­
mos vê-lo, por exemplo, quando aí se explica que o fanático se
tranqüilizaria "na névoa impenetrável da mera contingência da
particularidade ou então na luz ofuscante do mero fato de ser pen­
sado da universalidade (ideologia)", ou, que, no fanatismo o
ser-aí teria ''se obstinado, se aferrado ou encarniçado em vista da
individuação ou da massificação, da paixão (''ruim "), não corri­
gida ou que não quer ser corrigida, do idios kosmos. Pois tampou­
co a massa (inarticulada, nivelada) — em oposição ao povo, que
representa a unidade de uma multiplicidade hierarquizada — é
koinós kosmos ou comunidade (de destino ou Idéia), mas, sim,
idios kosmos." Como se vê, essa caracterização aplica-se perfeita­
mente à excentricidade.
Para terminar, resumamos mais uma vez o que nossa interpre­
tação existencial-analítica do excêntrico descrito pela expressão
alemã ''parafuso mal-esroscado" contribuiu para a compreensão
dínico-psicopatológica da excentricidade. Podemos dizer que a ex­
centricidade significa uma determinada maneira de lidar com algo,
não importa se esse algo é de natureza material, animal, anímica
ou espiritual. O que importa é perceber que, do ponto de vista da
experiência natural, o horizonte do projeto-do-mundo da excen­
tricidade está restrito a um mundo cuja significância se resume no
objeto disponível como um ''utensílio" atravessado, enviesado,
torto. Isso significa que, em semelhante mundo, não há absoluta­
mente "espaço" para um verdadeiro ''progresso", para a evolução,
para o ato de criar ou modelar. Pois tudo isso — não importa se
se trata de um ato de modelar ou criar existencial, ou de um ato
artístico, ou científico, ou filosófico — pressupõe que o modo de
lidar com a "coisa" seja apropriado e adequado á coisa e tenha um
conteúdo real. Ou por outras, pressupõe que a pessoa que lida
com ela não somente leve em consideração sua objetividade e rea­
lidade, mas obedeça-lhe e, nessa obediência, realize-se a si mesma.
Não há criação ou modelamento a partir do vazio, isto e, a partir
da transcendência subjetiva apenas, mas apenas a partir do con­
EXCENTRICIDADE 101

curso ''adequado" da transcendência subjetiva e objetiva.125 É


aqui, justamente, que podemos tocar a essência, o sentido antro­
pológico da excentricidade: o excêntrico não escuta a "natureza da
coisa", ele só quer aquilo que ele, este indivíduo determinado,
"meteu na cabeça", sem consideração não somente pela própria
coisa, mas também pelas outras pessoas que lidam com a mesma
"coisa" ("Zeug"). Mas não importa de que espécie seja a ''coisa"
("Sache'’) , uma coisa material, uma idéia, uma ação, ou mesmo a
conduta de vida em geral; quem não tem consideração por ela,
quem não a toma corretamente em mão, quem não lida adequada­
mente com ela — o que pressupõe sempre um aprendizado prévio
com os outros, a participação no convívio, inclusive no sentido da
" tradição" —, torce ou dis-torce a ''coisa", e também se equivoca
a respeito dela ao manipulá-la ou ao olhar para ela. De tal modo
que ela vem se pôr de través, ''dá errado'', ''sai torta'', em suma,
de tal modo que ela não pode mais ser "girada e torcida", mas
quanto mais a sacudimos ou a golpeamos, mais entalada ela fica,
não ''sai do lugar", não avança mais, não cresce nem viceja mais.
Quando o ser-aí se absorve totalmente na mera atividade de lidar
com algo, com alguém ou consigo mesmo; logo, quando se absorve
totalmente na simples atividade de tomar alguém por algum lado
[pelo braço, pela mão, pelo ''ponto fraco", etc. — N. do T.] ;
quando não há mais lugar nem para o "amor pela coisa'', nem,
sobretudo, para o amor por um " tu " ; quando falta, por conseguin­
te, toda obediência à coisa e toda ''consideração" pelos outros; aí,
então, ele não toca mais a coisa, nem comove mais os outros, mas
sacode e golpeia (stösst) a coisa, provocando assim um choque ou
escândalo (Anstoss) nos outros. Reduzido a essa maneira de lidar
com os outros e com as coisas, o ser-aí fica remetido e na depen­
dência de (angewiesen auf) uma relação "inadequada" e, por isso,
recíproca, de pressão e choque (Stoss) ,126 Isso vale de maneira
especial para a maneira de lidar ou tratar com os outros, logo para
a atividade social (mitweltlich) de tornar por um lado, visto que é
esta a esfera mais sensível de toda lida ou trato. Ao lidarmos com
as coisas, podemos chamar "dureza" ao choque ou pressão exerci­
da sobre elas, ou à contrapressão ou contrachoque por ela exerci­
dos. Quando é o caso, porém, do trato com os outros, ''dureza'*

125 Cf. mais uma vez W. Szilasi, M acht und Ohnmacht des Geistes.
126 Cf. nosso caso Jurg Jünd, loc. cit., hem corno o delírio de perseguição
de Rousseau, em quem a redução do projeto do mundo foi mais longe
ainda^ a saber —- segundo as próprias expressões de Rousseau — até a
redução ao movimento de meras forças mecânicas. Cf. "Der Fall Su-
zanne Urban", Schweiz. Neurol. Psychiat. 69, cad. 1/2.
102 TrÊS FORMAS Da EXIStÊNcla MaLOGraDa

pode ser tomado como falta de consideração, afronta, coação, tira­


nia, seja no sentido da opressão e do ataque desferidos contra os
outros, seja no sentido da recusa, repulsa ou rejeição por parte dos
outros. Pode-se também dizer o mesmo do modo como lidamos
com um plano, um empreendimento ou uma idéia. Aqui também
a dureza "antinatural", o caráter chocante (stossend), coercitivo,
"tacanho" que pode ter o modo de proceder, refletir e pensar,
encontra também uma desforra. Aqui também o empreendimento,
o plano, o pensamento ''não saem do lugar", aqui também "a
coisa'' torna-se resistente e dura. Conforme prevaleça a energia
brutal e o impulso agressivo ou a reação suave, sensível, "que leva
tudo a mal'', facilmente magoada ou ofendida, com que os excên­
tricos enfrentam o contrachoque, a recusa ou rejeição por parte
dos outros, Eugen Kahn fala de excêntricos mais ativos ou mais
passivos, Kretschmer e Kurt Schneider de fanáticos expansivos
ou estênicos e desanimados ou astênicos. Quando estão em jogo os
dois lados do ser-no-mundo excêntrico, a energia [Stossfcraft, lit.;
força de choque — N. do T.] dura, por um lado, a reação suave e
sensível à recusa e à rejeição por outro lado, temos sabidamente
diante de nós aquela forma de excentricidade que costumamos de­
signar como querulatória e que abrange o domínio inteiro que se
estende dos psicopatas querulantes à paranóia querulatória e dos
esquizofrênicos querulantes latentes aos esquizofrênicos querulan-
tes manifestos.
Aqui, o ser-aí se vê sempre decaído e entregue àquilo com
que lida, ao objeto e ao fim de seu providenciar, quer se trate de
um utensílio disponível, quer de uma pessoa ou de uma idéia. Estar
decaído e entregue significa ser incapaz de se desprender, deixar-
se dominar ou possuir por algo ou alguém, não se encontrar mais
acima da coisa, pessoa ou idéia, mas ser avassalado por ela. O lu­
gar da liberdade da decisão e tomado pela escravidão do decaimen­
to e da entrega e quanto mais a pessoa assim decaída e entregue
força e dá pancadas no ''parafuso", o empreendimento ou idéia
enrascados, menos ele se deixa ''girar e torcer", cada vez mais
errado ele se enrosca e cada vez mais excentricamente enroscado
nisso fica o ser-aí. Isso também vale para a excentricidade no sen­
tido da "idéia supervalorizada" de Wernicke.
Ao chegar ao fim de nossa investigação, lancemos rapidamen­
te um olhar retrospectivo sobie a questão quanto ao modo intuiti-
■vo de se dar ou de se ter acesso a existência esquizofrênica e à
•excentricidade.127 A resposta dessa questão pressupõe a questão

127 Cf. na primeira seção deste ensaio (pp. 34-40), a controvérsia entre
EXCENTRICIDADE 103

quanto ao trato com o excêntrico concebido metaforicamente como


o "parafuso torto" ("verdrehte Schraube") e quanto ao modo dos
excêntricos lidarem com os objetos ''disponíveis". Sabemos agora
que tanto a nossa lida com os excêntricos quanto a lida destes com
o objeto disponível podem ser determinadas mais exatamente
como a lida, não no sentido do reto, do "correto", da adequação,
do avanço, mas, sim, no sentido do torto ou do través, do "erra­
do", da inadequação. Quando falamos em excentricidade, falamos
por conseguinte de um mundo ou de um "espírito" de tra­
vés ( esprit de travers), de um mundo ou de um "espírito", por
conseguinte, contra o qual nos chocamos e com que ficamos cho­
cados. Isso quer dizer que a excentricidade já é experimentada no
trato com as pesoas, ou seja, que é experimentada "através de
impressões", Essa experiência, que se obtém da impressão deixada
pelas pessoas excêntricas enquanto objetos disponíveis, e que já ê
possível no trato, melhor dito, enquanto trato, é o que vem pos­
sibilitar por sua vez uma experiência intuitiva "demorada" (''ver­
weilende") ou seja, uma "percepção" das pessoas excêntricas
como objetos subsistentes e das propriedades nelas subsistentes.
Poderemos observar o grande progresso científico realizado
pela pesquisa graças ás investigações de Heidegger em Ser e
Tempo, se nos lembrarmos da maneira como havíamos tentado do­
minar, antes da publicação dessa obra, o problema que agora nos
ocupa. Quero mencionar aqui minhas próprias formulações data­
das de 1924.128 Ainda que essas formulações possam pretender
ainda hoje alguma validez, está claro que não podemos mais par­
tir dos "atos da percepção psíquica de outrem" e da pessoa alheia
neles captada. Ao contrário, temos que retroceder "atrás" desses
atos até o ser-aí enquanto ser-com, ou por outras, até a lida ou
trato com os outros. Aliás, isso já está implícito em expressões
como "impressionar" ("frappieren") ou "recuar de espanto"
("zurückprallen v o r")129 — em consonância, aliás, com nossa
atual doutrina a respeito do ser repelido e ficar chocado. Todavia,
não era ainda possível considerar o caráter peculiar da mundani­
dade — aqui, por conseguinte, o mundo do través ou, mais cor­
Jaspers, Gruhle, Wyrsch, por um lado, e Carl Schneider, por outro lado,,
relativamente à doação intuitiva ou à possibilidade de acesso à esqui­
zofrenia.
128 Cf. "Welche Aufgaben ergeben sich für die Psychiatrie aus den
Fortschritten der neuren Psychologie?", Z. Neurol. 91, 1924 e Ausgew.
Vortr. u. Aufs. II, 1955.
129 Cf. a citação que se segue mais ahaixo. [Frappieren; impressionar,
surpreender, desconcertar — do francês; frapper = em sentido próprio;
bater, acertar, atingir, em sentido figurado; como seu derivado alemão.
Zurückprallen = em sentido próprio; recochetear.]
104 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

retamente, o mundo enquanto través —, a partir da qual apenas


aquele ficar-chocado, recuar, aquele "relacionamento" ou "empatia
deficientes" podiam tornar-se acessíveis à compreensão existencial-
analítica. Nossas formulações de então eram as seguintes;

"Nos atos da percepção psíquica de outrem, como já


dissemos, a pessoa alheia enquanto tal está sempre presente
a nós de algum modo e não apenas, por exemplo, uma
determinada vivência alheia, uma 'parte' da pessoa, no sen­
tido do conceito de parte tal como usado nas ciências da natu­
reza. Isso quer dizer que percebemos, com hase na percep­
ção de um aspecto esquizofrênico na pessoa, a própria pessoa
como esquizofrênica, ou inversamente, percebemos primaria­
mente a pessoa inteira como um esquizofrênico e só poste­
riormente atentamos para o traço esquizofrênico individual.
Podemos, por exemplo, perceber a pessoa esquizofrênica
com base em algo de muito peculiar a animar o seu olhar,
sem que nada chame necessariamente a nossa atenção ao
considerarmos cientificamente tanto o olho quanto o olhar.
Ou então, já convivemos há mais tempo com semelhante
pessoa e, de repente, descobrimos que estamos às voltas com
uma esquizofrenia, o que não significa outra coisa senão que
agora conseguimos 'vê-la' como uma pessoa esquizofrênica em
razão, por exemplo, do deficiente relacionamento psíquico,
da deficiente empatia com ela. O que chamamos de relacio­
namento deficiente pode, eventualmente, ser a única percep­
ção que tenho de uma pessoa estranha, de tal modo, no
entanto, que ela me 'impressiona' a um ponto tal que eu,
por assim dizer, recuo de espanto dentro de mim mesmo
quando a porta se ahre e ela entra. Naturalmente, devo estar
em condições de distinguir, desse recuo interior e seus fun­
damentos, a atração ou repulsão que experimento mera­
mente em razão da simpatia ou antipatia, mas é para isso
justamente que sou psiquiatra. Um esquizofrênico pode me
ser muito simpático enquanto pessoa e, apesar disso, recuo
intimamente, experimento sempre uma barreira a vedar uma
íntima união com ele, ao perceber sua pessoa como esqui­
zofrênico. A o nos adestrarmos na percepção de outrem, ao
registrarmos e utilizarmos a mesma para posteriores juízos e
inferências, podemos proceder tão exata e criticamente como
o fazemos no tocante à percepção dos objetos físicos. E é
óbvio que aqui também há graus de certeza, desde a mera
e vaga presunção até a evidência hem como toda sorte de
ilusões perceptivas!"130

Se podemos falar, nos últimos tempos, de um companheiro no


tocante à fenomenologia desse "recuo íntimo", "chocar e ficar cho­
cado em face" dos excêntricos e dos esquizofrênicos em geral, é,
mais uma vez, nosso amigo E. Minkowski que lembramos.
130 Loc. cit,, p. 427.
EXCENTRICIDADE 105

Minkowski também parte por seu lado, do fato que “le diagnostic
par pénétration" (ou seja, o diagnóstico por penetração ou "em-
patia") nos possibilita falar, em face dos esquizofrênicos e dos e s -
quizóides, de uma falta de ressonância, de ''cordas" que vibrem em
uníssono, e, desse modo, de um "sentiment de vide'' ou de um vide
(vazío) pura e simplesmente. Ao fazê-lo, ele logra de passagem
uma formulação fenomenológica muito feliz; "nous nous heurtons
ainsi au vide".131 Com esse fato fenomenológico do chocar-se e
ficar-chocado — que, baseados na linguagem ordinária, pouco a
pouco destacamos — ficou caracterizado um traço fundamental de
nossa maneira de lidar não somente com os excêntricos, mas tam­
bém com os esquizofrênicos e esquizóides em geral. Todavia, no
que tange aos excêntricos, não nos chocamos absolutamente com o
vazío, mas, como mostramos, com o través! Temos que ver no
(mundo ou ''espírito" do) través uma espécie de ''forma prelimi­
nar'' (“Vorform") do vazio. A excentricidade (ainda) não é u m
vazio ou o girar no vazio da existência humana, mas tampouco é,
como vimos, plenitude e pleno desenvolvimento ou ''movimento"
(''lograr") do mesmo; ela é uma forma intermediária entre o s
dois. Desse modo, nossa investigação não somente ofereceu uma
contribuição à análise fenomenológica de uma forma determinada
da existência humana em geral, mas também ao esclarecimento do
fundamento fenomenológico de sua "diagnosticabilidade".

131 Cf. Evolution psychiatrique. Le Confus et le Vogue. N.o IV, 1952,


p. 62o.
O AMANEIRAMENTO *

Entre as muitas ameaças ''intrínsecas" do ser-homem e que


põem em perigo o seu êxito, logo entre as muitas formas de seu
malogro,132 a extravagância, a excentricidade e o amaneiramento
constituem um grupo bastante peculiar. O simples fato de que as
expressões extravagante, excêntrico, amaneirado são, em larga
medida, usadas indistintamente, tanto na linguagem coloquial e na
iinguagem da psicopatologia e da clínica psiquiátrica, quanto na
ciência da arte, já demonstra que aqui se trata do caráter peculiar
de um grupo.1®3 A s tentativas de uma interpretação existencial-
analítica tanto da extravagância134 quanto da excentricidade,1*5
mostraram, todavia, que os três elementos desse grupo podem, por
sua vez, ser contrastados entre si e que a omissão desse contras-
tamento tem conduzido a juízos errôneos na psicopatologia.
Se designamos a extravagância, a excentricidade e o amanei­
ramento como ameaças intrínsecas do ser-homem e que põem em
* N ota preliminar do tradutor; em português, é costume usar-se a pala­
vra maneirismo para designar tanto o estilo artístico, quanto o traço
psicológico ou o gesto, movimento ou expressão de um indivíduo. Todavia,
visto que Binswanger procura distinguir rigorosamente esses três concei­
tos, traduzindo-os terminologicamente pelas expressões Manierismus, Ma­
nieriertheit e Manier, procuraremos fazer o mesmo em português. Assim,
traduziremos Manierismus por "maneirismo", M anieriertheit por "ama­
neiramento" e Manier por "jeito, ou costume amaneirado" (ou, quando
o contexto o permitir, por "maneira" pura e simplesmente). Em con­
seqüência, traduziremos os adjetivos manieriert por "amaneirado" e ma-
nieristisch por "maneirista".
132 Cf. W. Szilasi, M acht und Ohnmacht des Geistes.
133 A mim também, isso passara despercebido na curta exposição "Vom
anthropologischen Sinne der Verstiegenheit", ern Der Nervenarzt, ano 20.
cad. l, 1949, e no presente livro.
134 ib.
135 Excentricidade, cf. acima, hem como Mschr. f. Psychiatr. vol. 124,
195-210, 1952; vol. 125, 281-299, 1953; vol. 127, 127-151, 1954; vol. 128.
281-314. 1954.
AMANEIRAMENTO 107

perigo o seu êxito, e até mesmo como formas de seu malogro, isso
já mostra que nós as retiramos do quadro da Psicopatologia e da
clínica psiquiátrica em geral e da esquizoidia e da esquizofrenia em
particular, para colocá-las sobre o terreno da existência humana
como ser-no-mundo. É só a partir da existência humana assim
compreendida que se pode, a nosso ver, compreender, não somente
aqui, mas por toda parte, a "sintomatologia'' esquizofrênica em
sua mais íntima essência. Pois, tão logo a extravagância, a excen­
tricidade e o amaneiramento deixam de ser rotulados e diagnosti­
cados como simples "sintomas" esquizóides e esquizofrênicos e
passam a ser compreendidos como peculiaridades humanas univer­
sais, a esquizoidia e a esquizofrenia também se tornam "mais pró­
ximas humanamente" de nós. Em outras palavras, elas não esca­
pam mais à estrutura fundamental do ser-homem como algo de
alheio a ele ou dele alienado (alienus, aliéné), mas constituem tão-
somente modos particulares de seu malogro. Para evitar eqüívo-
cos, queremos ressaltar aqui também que, ao falarmos em compre­
ender, não se trata nem de um compreender psicológico, nem de
um compreender psicopatológico, mas de um compreender exis-
tencial-analítico. A extravagância e a excentricidade já foram,
dessa maneira, compreendidas como modos determinados de che-
gar-a-um-fim ou de ficar ''enrascado" que afetam a autêntica mo­
vimentação (Bewegetheit) histórica da existência.

A. A s P e r ífr a se s
d o A m a n e ir a m e n to n a L in g u a g e m
C o lo q u ia l e n a L in g u a g e m d a
P s ic o p a to lo g ia

Em conformidade com o objetivo e o método de nossa pesqui­


sa, partiremos aqui também da linguagem coloquial. Derivamos as
expressões alemãs equivalentes a maneira, maneiras (boas, más,
esquizofrênicas), amaneirado, amaneiramento, maneirista, maneiris-
mo (Manier, Manieren, manieriert, Manieriertheit, manieristisch,
Manierismus), do verbo francês manier — manejar, tomar nas ou
entre as mãos, pois manier por sua vez é derivado de w tn .136 Por­
tanto, a linguagem coloquial entende originariamente por maneira
136 Para mim, é incompreensível que Max Scheffler, em seu ensaio
"Über die Entstehung des Manierismus" (Das W erk, ano 31, cad. 6, p. 170,
1944) tenha acreditado poder derivar essa palavra de "Manie" (mania)
levado a isso manifestamente pelo fato de compreender mania no sentido
de vício ou háhito prejudicial (Süchtig K eit) e por acreditar reencontrar
108 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

o ato de lidar manualmente com alguma coisa ou aquilo que des­


crevi como a ''operação manual de tomar-por-um-lado" (das "grei­
fende N ehmen-bei-etwas") O plural maneiras designa o modo
de se lidar ou tratar em geral no contexto do mundo ambiente, do
mundo social ou do mundo privado, tanto sob um ponto de vista
sociológico quanto psicopatológico. Com as expressões amaneirado
e amaneiramento, a linguagem coloquial designa, por sua vez, uma
maneira esquematicamente exagerada. Em contraposição, as ex­
pressões Manierismus e manieristisch (maneirismo e maneirista),
mas também a expressão Manier138 (maneira, jeito amaneirado)
pertencem sabidamente à história da arte. A última refere-se ao
modo de compreender e representar artístico em geral, as primeiras
referem-se a determinadas peculiaridades do estilo artístico e dos
períodos marcados por um estilo artístico.
Mas voltemos à linguagem coloquial (alemã) e perguntemo-
nos que outras expressões estão a seu dispor para significar o que
se entende pelas palavras manieriert e Manieriertheit (amaneirado
e amaneiramento). Ao fazer isso, ignoramos completamente aque­
las expressões que, analogamente às palavras que servem para
no maneirismo algo de semi-patológico, justamente o vicioso (das Süchtige).
— Em alemão, ainda dizemos no maneirismo algo de semipatológico, jus­
tamente o vicioso (das Süchtige). — Em alemão, ainda dizemos em vez
de "die Manier" (a maneira, o jeito ou estilo) muitas vezes "die Hand"
( = a m ã o ). Por exemplo; "ich finde die Hand darin (auch in einem
sprachlichen Kunstwerk) bewundernswert" (lit.; "acho a mão aí (inclu­
sive numa obra de arte lingüística) admirável"). Tanto "Hand" quanto
"Manier" suprem, em tais locuções, não apenas por uma forma artística,
mas também por sua qualidade artística. Cf. a carta de Hofmannsthal a
Bodenhausen (1 6 .2 .1 4 ); "Apesar de tudo, acho a qualidade puramente
artística, a mão aí, não posso dizer de outro modo, admirável" (Briefe
der Freudschaft, Eugen-Diederichs-Verlag 1953, p. 159).
137 Cf. Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins, 2.a ed. 1953,
pp. 275 ss.
138 Usamos aqui a palavra “M anier” ("maneira" ou "jeito") — em opo­
sição ao amaneiramento e, em certo sentido, ao maneirismo, e seguindo
nisso Goethe — “num alto e respeitável sentido". Cf. o pequeno tratado
de Goethe, hoje ainda, ou sobretudo hoje, muito instrutivo e importante;
Einfache Nachahmung der Natur. Manier Stil (Simples imitação da natu­
reza. Maneira, Estilo) Jubiläum-Ausgabe, t. 33. Cf. para a história das
expressões "estilo" e "maneira" tamhém Werner H off mann: " ‘Manier’ und
'Stil’ in der Kunst des 20. Jahrhunderts", Stud. Generale, ano 8, cad. 1,
jan. 1955. Aprendemos aqui que a maniera é uma das palavras que o
renascimento italiano pôs em circulação (aliás, inicialmente, como um
conceito axiologicamente neutro). É só no classicismo que tem lugar aqui
uma mudança, na medida em que a maniera já é compreendida como um
difetto, bem como a palavra ammanierato (artificial, amaneirado) (v. l b).
D o italiano, a designação maniera emigrou para o francês e só daí para
o alemão.
AMANEIRAMENTO 109

significar a extravagância e a excentricidade, se referem meramen­


te ao efeito exercido sobre o espectador, ouvinte ou leitor (no sen­
tido do pasmar), ou por outras, as que se referem às impressões
suscitadas pelo que chama a atenção, surpreende, torna perplexo
ou desconcerta, pelo estranho, esquisito, fora do comum, excêntri­
co, etc. As expressões de raiz germânica que significam amanei­
rado e amaneiramento são geschraubt e Geschraubtheit139 [literal­
mente ; aparafusado, enroscado, isto é, retorcido, alambicado, ar-
revesado, de Schraube — parafuso, e retorcimento, arrevesamento
— N. do T.]. Vemos então que a linguagem coloquial alemã já
faz uma distinção entre geschraubt (retorcido) e verschroben
[excêntrico, igualmente derivado de Schraube — N. do T .], entre
retorcimento e excentricidade. Veremos mais claramente onde é
que ela enxerga essa distinção ao compararmos a palavra alemã
geschraubt com as expressões correspondentes em outras línguas.
Assim, o termo holandês equivalente a geschraubt e opgeschroefd
= aufgeschraubt [que significa literalmente desaparafusado, desa-
tarraxado, o prefixo auf- significando isoladamente ''para cima" —
N, do T.]. O sentido do prefixo auf- ficará mais claro ainda numa
expressão francesa equivalente a retorcido ou amaneirado. O fran­
cês não fala, por exemplo, de um style maniéré, mas de um style
guindé, bem como de um aír guindé e de gestes guindés (em vez
de gestes maniéres). Na palavra guinder (aparentada ao alemão
winden = torcer, enroscar; guindar, içar), o significado de auf-,
tomado no sentido de para cima, encontra uma expressão tão clara,
porque ela significa originariamente içar (as velas, por exemplo)
ou levantar, guindar por meio de um guindaste ou de uma rolda­
na (W inde). Mas o francês não conhece apenas a expressão
guindé — guindado, retorcido, amaneirado ou afetado, mas tam­
bém, ao lado de guinder, se guinder, a saber, em primeiro lugar,
guindar-se, elevar-se, em segundo lugar, alambicar-se, expressar-
se de maneira empolada, amaneirada ou afetada.140 Já sob esse
ponto de vista puramente lingüístico, se guinder está mais próximo
do alemão sich verst eigen (exceder-se, exorbitar, demasiar-se, ex­
traviar-se, extravagar) e da extravagância (Verstiegenheit), do
que da excentricidade. Pois a língua alemã desconhece, como sa­
bemos, um ''sieh-verschrauben" [que corresponderia, em senti­
do próprio, na língua portuguesa, a expressões perfeitamente le­
gítimas como: enroscar-se ou aparafusar-se mal, e, em sentido fi­
gurado, a um "excentricizar-se" — N. do T.]. Mas, continuando

139 Cf. tamhém Excentricidade.


140 A o lado de “se guinder”, encontramos em francês a expressão "se
tnaniérer”,
110 TRÊS FORMAS DA EXIstêNCIA MALOGRADA

a seguir o mesmo eixo semântico, o retorcimento amaneirado e o


ato de se guindar [Empor-Geschraubtheit e sich empor-schrauben
— o prefixo empor significando; "para cima" — N. do T.] apro­
ximam-se mais da extravagância, na medida em que os dois modos
de ser-no-mundo se fundam em uma tração para cima, lá num
guindar-se torcendo e retorcendo, aqui numa ascensão (malogra­
da). Em contraposição, a excentricidade conota, como vimos,
aquilo que se coloca de través, torto e enviesado, como se mostra
de maneira particularmente clara nas expressões Querkopf [cabe-
çudo, do contra — lit. cabeça atravessada] e schiefgewickelter
Mensch [pessoa iludida ou que está muito enganada, lit.; pessoa
enrolada torto].
A maioria das expresões italianas e espanholas para ges­
chraubt correspondem ao francês maniére. Uma exceção, tanto
quanto sei, é o espanhol; um estilo amaneirado chama-se em es­
panhol “un estilo crespo", isto e, um estilo ornado ou floreado,
cheio de arabescos.
Encontramos outras maneiras de parafrasear o amaneiramen­
to, comuns na linguagem coloquial, quando nos voltamos para as
expressões empregadas na psicopatologia e na clínica. Pois elas
praticamente jamais vão além da linguagem coloquial.
Já destacamos dentre as expressões relativas à excentricida­
de e encontradiças na bibliografia psicopatológica e clínico-psi-
quiátrica, algumas que são de alguma maneira específicas para o
amaneiramento. Ou seja, além de retorcido, as expressões rebus­
cado, falso, estudado, afetado, alambicado, arrevesado, empolado,
artificial, bizarro, caricatural, pretensioso. Com relação à lingua­
gem, encontramos também a expressão; ''linguagem guindada''
(Stelzensprache, lit.; linguagem sobre pernas-de-pau) de Bleuler,
uma linguagem ''que exprime grandes pretensões sob uma forma
bizarra" (Bumke).141 Em Gruhle,142 encontramos as expressões
''floreado", "complicado", ''estudado", "sem-naturalidade", “delibe­
radamente desviado", usadas indistintamente para a excentricidade
e para o amaneiramento.
Todas essas expressões lançam luz sobre aquilo que se tem
em mente com a expressão alemã; “(empor-) geschraubt", ou
seja, retorcido (guindado). A altura para a qual as coisas são re­
torcidas ou à qual são guindadas (guinde), ou para a qual a pes­
soa se retorce ou se guinda é uma altura antinatural, estudada,
uma altura rebuscada, falsa, arbitrária. Não se trata, pois, de um
modo de ser homem que tenha crescido naturalmente até essa al­
141 Cf. texto.
142 Ibid.
AMaNEIRaMENTO 111

tura o* que tenha raízes naturais, mas de um modo artificial ou


mesmo artificioso. A desproporção entre uma autêntica altura e
essa deformidade ou transgressão da forma encontra-se expressa
de excelente maneira na palavra pretensioso = presunçoso, arro-
gatne, atrevido descabido (cujo equivalente francês, por sinal, é
também — afetado). Temos que nos ocupar mais pormenorizada­
mente de tudo isso na interpretação existencial-analítica do ama­
neiramento.

B. P ara u m a C o m p reen sã o e D e sc r iç ã o
C lín ic a s d o s J e ito s A m a n eir a d o s
E sq u iz o fr ê n ic o s

Indagar pela essência do amaneiramento esquizofrênico é uma


tarefa que a clínica psiquiátrica até hoje ainda não enfrentou.
Como veremos, ela contentou-se, via de regra, com hipóteses de
natureza psicopatológica e construtiva — para explicar a gênese
ou as causas dos jeitos amaneirados esquizofrênicos e, em parti­
cular, catatonicos — e, sobretudo, com a descrição impressionista
das mesmas. Nisso, aliás, procedeu de modo semelhante à descri­
ção que já nos é familiar das excentricidades esquizofrênicas.
Assim, Kraepelin, por exemplo, vê uma possível explicação da
"forma morbidamente alterada" da qual decorrem as ações desses
doentes, por um lado, na "insegurança e debilidade das vo-
lições conscientes de seu objeto'', por outro lado, na facili­
dade de se influenciarem os atos de vontade através de "toda
sorte de estímulos"143 Em conseqüência de ''um dispêndio ex­
cessivamente forte de energia" (cf. o ato de guindar), envol­
vendo a participação de "grupos de músculos desnecessários ou de
partes excessivamente grandes dos membros", essas ações morbi­
damente alteradas recebem freqüentemente "a marca daquilo a que
chamamos desgracioso e pesadão", ou então ''carecem de acaba­
mento, começam e terminam abruptamente, parecendo por isso
contraídos, desajeitados, abruptos".144 A semelhantes "esquisitices"
chamamos jeitos amaneirados. Através deles, "as atividades de res­
pirar, falar e escrever, a postura e o andar, o modo de vestir e
de trocar de roupa, de dar a mão e comer, de fumar, os gestos, o
jeito de agarrar ou manejar as ferramentas, podem ser influencia­
143 Lehrbuch, 8* ed. 1913, t. III, p. 715.
144 Tudo é em larga medida pertinente para nosso caso Jürg Zünd, que
trataremos na próxima secção. — Os grifos são meus.
112 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

dos e mudados da mais variada maneira". Kraepelin acentua além


disso a tendência manifesta dos jeitos amaneirados a persistirem
décadas a fio, logo à estereotipação. É disso que resultain "as im­
pressões meio repulsivas, meio ridículas'',145 com as qnais costu-
ma-se compor a imagem popular do "louco" (ibid., pp. 716 ss.).
No tomo I da sexta edição de seu tratado sobre a Psiquiatria
Geral de 1909, Kraepelin ainda arrolava os jeitos amaneirados
sob a rubrica Excentricidade e Estereotipia (pp. 388 ss.) ; ''Justa-
mente a transformação de movimentos e ações quotidianas e cos­
tumeiras por estímulos secundários mostra, tanto na vida sã quan­
to na vida doente, uma grande tendência a se tornar estereotipada.
A linguagem particularmente costuma exibi-la. Os doentes ci-
ciam, grunhem, falam um alto-alemão afetado ou um dialeto exa­
gerado, em falsete, com uma determinada entonação, com uma ar­
ticulação rítmica, com a boca fechada, deturpam e trocam determi­
nados sons, fazem um uso maciço de diminutivos e adjetivos pe­
culiares, repetem oralmente e por escrito inúmeras vezes as mes­
mas palavras e locuções, assobiam ou gorjeiam determinadas fra­
ses, choram em melodias. Designamos as manias como jeitos ama-
neirados, que afetam o modo de falar, comer, andar, saudar, e as­
sim por diante. Embora infinitamente variadas, costumam reapa­
recer nos mais diferentes doentes, muitas vezes de um modo es­
pantosamente semelhante. Por outro lado, sua origem num distúr­
bio fundamental [!] comum é inconfundível. Constituem, na gran­
de massa dos casos já decorridos, os últimos restos ostensivos dos
antigos sintomas da doença e muitas vezes permitem, sem mais,
que se infiram os estados do passado."
A última observação, o ''sem mais", deve ser corrigida pelo
menos a partir da obra fundamental de Klasi sobre a significação
e a gênese das estereotipias (Berlim, 1922). Pois Klasi mostrou
quanto esforço e quanta argúcia é preciso para se poder ''inferir
os estados passados". De resto, Kraepelin já trata aqui os jeitos
amaneirados na secção sobre os "Distúrbios do querer e do agir"
(pp. 366 ss.), entendendo por isso a diminuição, a intensificação,
o estorvamento, a facilitação dos estímulos (Antriebe) da vontade
ou dos atos da vontade, bem como a possibilidade aumentada ou
diminuída de se influenciar a vontade, que é algo que pertence a
um domínio inteiramente diverso. A isso acrescem ainda os "dis­
túrbios no decurso dos atos de vontade", tais como os conhecemos
a partir da distração, do sonho, das ''perturbações mentais deli­
rantes'', mas, sobretudo, tais como as encontramos também nas ca-
145 Os grifos são meus. Também voltaremos a encontrar as manias no
caso Jürg Zünd.
AMANEIRaMENTO 113

tatonias graves, na arterioesclerose e na paralisia. Aqui, elas já se


incluem no domínio da "apraxia ideatória" de Liepmann.
Bleuler menciona os jeitos amaneirados em seu "grupo das
esquizofrenias" sob a rubrica "Linguagem e escrita" (pp. 121 ss.),
sob a rubrica dos "jeitos amaneirados" (pp. 157 ss.), sob a rubrica
dos "estados catatonicos" (pp. 174 ss.) e na secção X (A Teoria)
sob a rubrica dos "sintomas complexos catatonicos" (pp. 366 ss.
— cf., em oposição ao texto, o índice!). Valendo-se de excelentes
exemplos, descreve a "linguagem artificial" e as múltiplas formas
dos ''absurdos estilísticos". A expressão seria aqui muito facil­
mente empolada, os doentes diriam trivialidades ''expressando-se
de maneira retorcida"146 ''como se estivessem em jogo os mais;
altos interesses da humanidade" (p. 129). Entre os demais absur­
dos estilísticos, que em parte já conhecemos, Bleuler menciona o
estilo telegráfico, a preferência por locuções estereotipadas, o es­
tilo excessivamente amplo, rebuscadamente elegante, humilde,
pueril, exibindo um uso maciço de diminutivos, os ''caprichos pa­
tológicos" que não devem ser, ''provisoriamente, relacionados aos
complexos", por exemplo, os caprichos que consistem em usar, em
vez de outras formas verbais, quase que exclusivamente os parti-
cípios com um verbo auxiliar. Menciona além disso a persevera-
ção, as contrações (por exemplo, "icht" em vez de "ich nicht" ==
"eu não"), as interrupções no meio da frase, etc. Bleuler vê a
"origem" ou a "causa" de semelhantes anormalidades, em parte,
na insensibilidade ou impossibilidade desses doentes (p. 130), em
parte, na "mudança do complexo no curso das idéias" (p. 132),
e, em parte, não haveria razão nenhuma para isso (p. 157). —
Por jeitos amaneirados, Bleuler entende as "alterações ostensivas
das ações costumeiras" (p. 157), seja no sentido de uma pose
determinada (poses de Bismarck, de Napoleão), seja no esforço
de "imitar algo de especial na postura, na mímica e no vestuário,
na linguagem e na escrita" (p. 157). A maioria dos jeitos ama­
neirados teria se tornado totalmente incompreensível para nós.
"Tudo o que em geral se faz pode ser modificado no sentido de
jeitos amaneirados esquizofrênicos" (ibid.). Retomando a deno­
minação, que Ziehen dá aos jeitos amaneirados, de "estereotipias
variantes" ( “Abänderungsstereotypien”) , Bleuler acentua com ra­
zão o fato de que nem todos os jeitos amaneirados precisam se es-
tereotipar. Lembre-se, contudo, a constatação feita por Kraepelin
de que os jeitos amaneirados tendem a se estereotipar. Assim,
Bleuler distingue os doentes que, nas poses por eles assumidas,
''saem constantemente de seu papel" e aqueles que ''se mantêm de
14e Grifo meu.
114 T R ês FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

maneira conseqüente e décadas a fio" nele (p. 157). Além do ato


de comer, é a linguagem que proporciona as "melhores ocasiões
para a adoção de jeitos amaneirados" (entonação afetada de pala­
vras estrangeiras, acréscimo estereotipado de determinadas termi­
nações como — ismo, fala escandida, rítmica, rimas, etc.). Entre
os movimentos expressivos mencionam-se os gestos exagerados,
entre os quais as caretas. O "início súbito" (dos movimentos) fez
com que se falasse erroneamente, a propósito da catatonia, em
movimentos coréicos ou semelhantes aos do tétano. Em compen­
sação, muitos desses movimentos não se deixariam distinguir ni­
tidamente dos tiques (p. 158).
Entre os ''estados catatônicos", menciona-se como síndrome
particular da forma hipercinética da catatonia (p. 177), a "psico­
se de momices” (execução de gestos desconexos, caricaturais e
caretas), com o que, porém, deve-se entender algo de muito dife­
rente das "formas da hebefrenia maliciosa" que apresentam "ape­
nas um sintoma isolado entre muitos semelhantes". Parece, por
conseguinte, que Bleuler compreende os trejeitos dos catatônicos
como sinais de hipercinese catatônica, compreendendo porém as de
muitos hebefrênicos como expressão de um modo existencial uni­
tário, de uma disposição de humor existencial no sentido da ma­
lícia. Tais distinções são muito importantes para nosso tema! —
No mais, segundo Bleuler, encontram-se nos estados catatônicos,
além da anormalidade dos movimentos em geral (''fazer de um
modo especial, como não se faz"), todos os outros sinais da cata­
tonia, tais como: ''repetições estereotipadas, verbigeração, expres­
são caricatural dos sentimentos, páthos oco, etc." (p. 176). Bleuler
coloca a verbigeração entre as estereotipias, do mesmo modo como,
por exemplo, a intercalação de um "hem" entre cada duas pala­
vras (assim, o pai que presenteou a filha com caixão por ocasião
do Natal exibia uma característica semelhante). Quanto à síndro­
me de momices, ele tem ''sem sombra de dúvida'' uma origem se­
melhante à da síndrome de Ganser. "Trata-se de pessoas que, por
uma razão qualquer (inconsciente), fingem-se de doentes mentais"
(p. 178).
Kraepelin vê, pois, a origem ou a causa dos jeitos amaneira­
dos em distúrbios na esfera das volições e na "motricidade", Bleu­
ler — na medida em que é de todo possível constatar uma ''razão"
para isso — em distúrbios da afetividade e do pensamento, os
últimos (ou ambos?) ''causados" por sua vez pela ''mudança" e
pela ''maior tirania" dos ''complexos".
Na parte da "Teoria" intitulada os "sintomas complexos ca­
tatônicos" (Os Jeitos Amaneirados, pp. 366 ss.), Bleuler empre­
ende mais pormenorizadamente a "explicação'' dos jeitos amanei-
AMANEIRAMENTO 115

rados, bem como do amaneiramento esquizofrênico. Eles ''se expli­


cam" não pela separação, mas ''pela ação duradoura dos comple­
xos".
Já o homem normal tem a tendência ''a exagerar, ou, pelo
menos, acentuar fortemente as exteriorizações que correspondem
aos seus desejos". Uma vez que a mestria demonstrada por Bleu­
ler na compreensão de modos existenciais de caráter humano uni­
versal e de suas transformações e reproduções esquizofrênicas fica
aqui particularmente patente, citemos em sua totalidade a seguinte
passagem;

"O vaidoso vai se fazer notar em suas roupas e em


todos os seus gestos, o orgulhoso de sua força física no
andar e em todos os seus movimentos. Todavia, não apenas
aqueles que são alguma coisa chamam a nossa atenção, mas
ainda mais aqueles que querem ser o que não são. Na
pessoa que é realmente distinta, o porte distinto, a distinção,
mostra-se por si mesma em todo movimento. Ela é uma par­
te de seu ser, por isso não chama a atenção. Mas na pessoa
que afeta a distinção ohserva-se a oposição entre a natureza e
a afetação. Os mesmos movimentos são, em um, algo que lhe
pertence, no outro, algo de estranho a ele. Quem imita
a forma sem compreender o conteúdo não consegue, jus­
tamente, adequar a forma ao conteúdo. Ele dará, por exem­
plo, um peso indevido a coisas secundárias que chamam a
atenção. A pessoa que possui uma cultura espiritual natural
manifesta a maior independência de seus dedos uns dos
outros em todos os movimentos da mão. A pessoa que gostaria
de mostrar mais cultura do que tem vê apenas como o
dedinho é levantado, e faz isso de maneira exagerada em
toda oportunidade, hoa ou má, etc. Assim tamhém os esqui­
zofrênicos. Só que aí, quando falta o controle e os com­
plexos desenvolvem em geral uma tirania muito maior do
que no normal a exageração se tornará muito mais forte
ainda. Daí a afetação catatônica, o comportamento mal­
criado dos hebefrênicos, a ridícula majestadei dos megalo­
maníacos. Assim também se explica que parte dos jeitos
amaneirados seja bem consciente" (loc. cit., p. 366 sq.).

Como é importante, a fim de delimitar os jeitos amaneirados


em face das estereotipias, a investigação a fundo da história da
vida do doente, mostra-o o exemplo da quadrilha de Bleuler, para
o qual só atentei após a leitura de uma obra de Benedetti.147

Uma catatônica que vivia a se balançar havia conhe­


cido seu namorado por ocasião de uma quadrilha. Ela era

147 "Die Welt der Schizophrenen und deren psychotherapeutische Zu­


gänglichkeit", Med. Wochenschrift, ano 84, n.° 36, 1954.
116 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

"extremamente contraída, caladona e ausente, até que se


fizesse com ela os movimentos de balançar, como na dança.
De repente, ficava como que metarnorfoseada. Mal se podia
reconhecer nela a doente. Começava a falar de seu namoro
e da história de sua vida, tudo o que se quisesse saher, e
com inteira clareza, como uma pessoa sadia. A experiência
pôde ser repetida algumas vezes, até que os progressos da
catatonia grave tornaram-na impossível" (op. cit., p. 368).

Esse exemplo é tanto mais importante que Reboul-Lachaux


(v. abaixo), sem mais e de modo puramente dogmático, isto é,
sem uma investigação detalhada da história da vida e baseando-se
numa mera construção psicopatológica da esquizofrenia, conside­
ra todos os jeitos amaneirados dos esquizofrênicos (em oposição
a Bleuler) como jeitos amaneirados apenas aparentes, como de
fato o mostra o exemplo da quadrilha, se bem que num único caso
determinado. De resto, Bleuler, assim como posteriormente Re­
boul-Lachaux, diz que não se deve falar em estereotipias nem em
jeitos amaneirados quando estão ligados a vozes ou idéias deliran­
tes (p. 370). As pretensas estereotipias têm, então, a mesma signi­
ficação que têm ''as ações, por boas razões muitas vezes repetidas,
do homem são (por exemplo, os trabalhadores de fábrica!)". Cita,
então, a expressão muito característica; "pensamentos delusórios
expressos plasticamente", com que Schuele designa certas estereo­
tipias da postura (p. 371).
Finalmente, temos que levar em conta o trabalho francês já
mencionado sobre o maniérisme, que tem para nós um duplo in­
teresse. Primeiro, porque descreve muito mais pormenorizadamen­
te do que Bleuler o maniérisme hors l*asile, portanto entre os sãos.
Segundo, porque mostra como, de um ponto de vista clínico, pre­
cisamente não se deve agir. Pois, sob esse ponto de vista, ele fica
muito aquém de Bleuler. Trata-se da dissertação de Reboul-La-
chaux, impressa em Montpellier no ano de 1921, intitulada Du
Maniérisme dans la démence precoce et dans les autres psychoses.
A palavra francesa maniérisme abrange, como se sabe, tanto
o amaneiramento, quanto os jeitos amaneirados (esquizofrênicos),
bem como o maneirismo artístico. No mencionado trabalho, tem-se
em vista apenas o amaneiramento (inclusive na arte) e os ''jeitos
amaneirados". Como mostra esse trabalho, a língua francesa é par­
ticularmente rica de designações para o amaneiramento e os jeitos
amaneirados. Além das expressões rnaniéré e guindé, bem como se
rnaniérer e se guinder, encontramos uma multidão de perífrases,
como inaccoutumé, singulier, factice, artificiei, calculé, étudié, pa­
radoxal, choisi, recherché, prétentieux, alambíqué, além disso os
substantivos Vaffectation, la recherche, Vexagération, le manque de
AMANEIRAMENTO 117

naturel, l’afféterie, la pré ciosit é (cf. Les précieuses redicules), la


minauderie (minauder — afetar-se, fazer trejeitos com o objetivo
de agradar), la pédanterie, la mignardise (melindre, afetação), la
rnievrerie (un style mievre tem o significado de style guindé, pré-
tentieux, effemine). O alvo e a meta dessas ''variedades" da aff ec-
tation são, segundo nosso autor, simples e claros; "on est maniéré
pour paraitre1*8 gracieux, pour paraitre délicat, pour paraitre
galant, pour paraitre savant" (p. 30). Encontramos o "maniéns-
me'' ''dans tous les modes de l'activité". Assim como em todas as
■"poses", trata-se daquelas que afiguram uma auto-satisfação, uma
superioridade (se plastronner — ufanar-se, vangloriar-se, se cam~
br er = empertigar-se) ou daquelas que querem expressar "des
Sentiments d’humilité". Tudo isso acontece "pour attirer l’attent­
ion" Com respeito à escrita amaneirada existem ainda expressões
particulares, como complique, entortillement gourmé (com rígidas
sinuosidades), fignolé ( — cuidadosamente executado), fioritures
inutiles (cf. a palavra alemã "Floskeln", flores de retórica). Aqui
também — trata-se ainda de "le maniérisme hors Vasile” — tudo
serve à expressão da ânsia ou da necessidade de se singulariser, de
se faire remarquer. Visto que o ''maniérisme" pode mostrar-se em
todas as esferas da ''atividade humana", há também ''um maniéris-
me uniquement intellectuel, un maniérisme de conception ou idéo-
logique". O autor faz notar além disso que houve, na antiguidade e
no estrangeiro, períodos que teriam sido particularmente ricos em
amaneiramentos. Limita-se porém à história francesa e suas "épo-
ques d’affectation", como a época das précieuses e o tempo do Di-
rectoire. — Quanto à literatura e à arte, nosso autor permanece,
como dissemos, dentro da esfera do amaneiramento. Isso mostra-se
em sua descrição do "style Marivaux" ou da "marivaudage”. Mas
quando o autor menciona o "style rococo", entre outras coisas por
causa da "profusion des ornements insignifiants" e da ''maneira
afetada" do entrelaçamento das guirlandas de flores, etc., fica ma­
nifesta aqui justamente a falta da distinção entre o amaneiramento
e o maneirismo artístico.
Finalmente, o autor fala também de um maniérisme entre as
crianças e os animais, com o que chega a uma distinção importante
para ele, aliás justamente com respeito ao amaneiramento esquizo­
frênico. Independentemente do maniérisme das crianças", "impli-
quant une idée de re eher ehe, d’aff ec tation, un désir de paraitre ‘des
hommes’ ”, observavam-se nelas, muitas vezes, caretas e maneiras
bizarras. Mas isso significaria para elas algo de perfeitamente
normal". Pois esses modos (façons) corresponderiam à sua evo-
148 Grifo meu.
118 TRÊS FORMAs DA EXistêNciA MALOGRADA

lução e à activíté infantil (p. 37). O que o autor entende por ma-
niérisme entre os animais, por exemplo, o andar em roda do pavão,
é atualmente classificado como ''ritos sexuais dos animais" (Port-
mann). Em ambos os casos, tanto nas crianças quanto nos animais,
não se trata de modo algum de verdadeiros maneirismos (Manie­
rismen), mas apenas de Vapparence de Faffectation. Estaríamos a
passar dedutivamente de uma analogia das manifestações externas
para uma completa analogia. Os comportamentos em questão das
crianças e dos animais despertariam em nós uma "idée d’affectat-
ion". Todavia, nós acrescentaríamos a essa idéia um elemento sub­
jetivo — uma interpretação que tem origem em nosso campo.
Como mostrou o capítulo sobre a excentricidade, a constatação de
todos esses comportamentos repousa em "impressões subjetivas",
inclusive a dos ''verdadeiros" amaneiramentos e excentricidades.
Para o nosso autor, a distinção mencionada é, porém, diretriz tan­
to para sua definição do amaneiramento, como para sua compre­
ensão dos jeitos amaneirados esquizofrênicos, cuja compreensão
está assim de antemão fixada numa determinada direção. Sua de­
finição diz o seguinte; “Nous comprenons par conséquent sous le
nom de maniérisme les manifestations motrices traduisant l’affecta­
tion ainsi que celles qui n’en donnent que Vimpression".
Ao fazer isso, o autor faz apelo tanto ao observador comum
como ao clínico, que costumariam, ambos, julgar os fenômenos se­
gundo suas manifestações motoras e ''palpáveis", não importa se o
fenômeno julgado como affectation é real, isto é, uma verdadeira
affectation, ou se apenas evoca a aparência de semelhante fenôme­
no, com o que passa, tanto para o observador comum como em
particular para o clínico, um atestado bem ruim!
O autor apresenta 15 observações clínicas de casos de de-
mentia praecox (deixaremos aqui de lado as outras formas
mórbidas) com jeitos amaneirados ou maneiras bizarras e care­
tas, com o que tenta delimitar descritiva e patogenicamente as
duas últimas em face das primeiras, embora todos os três grupos
de sintomas sejam resultantes de um certo grau de excitação
psíquica em conexão com o automatismo (p. 76). Muito embora
nosso autor ressalte que, em semelhante investigação, se ela quiser
ser analítica, seria preciso observar o indivíduo inteiro, ou seja,
seu comportamento geral, levando em consideração suas relações
com o passado, a educação, a formação, a profissão, ele se con­
tenta com perguntas e respostas muito superficiais, muito ao con­
trário das mencionadas investigações pioneiras de Bleuler sobre
os jeitos amaneirados e as estereotipias e as de Kläsi sobre o sig-
AMANEIRAMENTO 119

nificado e o «urgimento das estereotipias.149 Assim, Reboul-


Lachaux limita-se à informação negativa dos doentes de que de
modo algum querem se fazer interessantes, de que de modo algum
fazem ''isso" intencionalmente. Ele se limita ao fato de negarem
um jeito amaneirado e de que o consideram "natural" (57), de
que não podem dar nenhuma razão que o explique (59, 62 ss.)
ou ao fato de se esquivarem à pergunta enquanto tal (54, 75), etc.
De tudo isso o autor conclui (79) que o amaneiramento na de-
mentia praecox seria "quase sempre" uma afetação aparente (une
apparence d’affectation) e não um sinal da afetação enquanto tal
(et non de Vaffectation). De resto, encontrar-se-iam aqui — com
essa distinção (dogmática) naturalmente! — todos os sinais do
amaneiramento que se encontrariam no homem são, todavia jamais
estendidos a todos os comportamentos, como por exemplo entre
os "preciosos". O substrato dos jeitos amaneirados seria consti­
tuído aquí, no caso da dementia praecox, na maioria dos casos
pelos gestos e pelo andar (80). O (aparente) amaneiramento po­
deria ocorrer em todas as formas da doença, mas não ocorre em
todos os doentes. Ele seria antes raro, o que em nós dificilmente
ocorrerá. No mais das vezes, ele surgiria no começo da doença
(84), o que tampouco podemos corroborar.
No que tange à "psicogênese", ao surgimento do mécanisme
psychique du maniérisme entre os sãos, nosso autor acredita poder
apresentar aqui um fator intelectual e um fator afetivo, a saber
“un trouble — passager ou durable — léger ou profond du
jugement 150 et une modification des sentiments affectifs, plus
souvent en excés qii’en défaut" (130 ss.). Além disso, seria ainda
preciso distinguir entre um maniérisme episódico, dirigido para
um determinado objetivo (entre as crianças por exemplo) e um
maniérisme habitual. Encontramos aqui uma repetição precisa da
definição do maniérisme (tanto aparente quanto real) por nosso
149 O que Klasi diz das estereotipias, vale perfeitamente também para
os "jeitos amaneirados"; " . . . a possibilidade de aprendermos ou não algo
sobre uma particular motivação psicológica não depende somente da capa­
cidade de empatia e da compreensão do psiquiatra em questão, mas,
em primeira linha, da hoa vontade e da capacidade do doente de dar
informações. Conforme os métodos de investigação de uma clínica e da na­
tureza do relacionamento de um médico com o doente, o mesmo movi­
mento de resistência poderia ser ora identificado como tal e excluído
das estereotipias, ora considerado como não-motivado e incluído entre
elas" (loc. cit., pp. 105 ss.). A comprovação feita por Kläsi de que "os
doentes, mesmo quando entram no jogo das perguntas, continuam a
se esquivar e a tentar enganar com explicações superficiais" deve nos
servir de advertência.
150 Grifo meu.
1 20 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

autor; "affectation, recherche, manque de naturel" (131). Vemos


que essa definição não se distingue das definições da linguagem
coloquial. Como forma particular do amaneiramento normal, o
autor menciona “le maniérisme de gêne", cuja sutil descrição ci­
tamos aqui por extenso, dado que se ajusta perfeitamente ao
amaneiramento de nosso caso Jürg Zünd, mostrando, porém, ao
mesmo tempo, que, sem uma investigação existencial analítica, não
se pode chegar a nenhum resultado seguro. Pois o amaneiramen­
to de Jürg Zünd, que passa toda sua vida "dans Vasile", nem é
apenas aparente, nem tampouco episódico, como deve ocorrer,
como logo veremos, no maniérisme de gêne; "La timidíté, le fait
pour qualqu’un de se trouver dans une Situation ou il ne se sent
ni à sa place, ni dans son milieu peuvent provoquer chez liii une
absence de naturel, de la gaucherie, un aspect emprunté, ensemble
donnant Vimpression d’affectation. Ce maniérisme apparent est
tout a fait épisodique, il disparait avec les circonstances qui Vont
provoqué, de se fait il rentre dans le cadre du maniérisme normal"
(132).151
No maneirismo (Manierismus) normal, além da timidez, a
vaidade também, como é o caso para Bleuler, teria um papel, bem
como a necessidade de "exteriorizá-la": "Sans galérie, sans public,
sans admirateurs le manérisme tendrait à disparaitre” (133).15a
Pois o alto conceito de si mesmo já seria na definição do ama­
neiramento ; " . . . pour vouloir être recherche, pour s’efforcer
dJêtre remarque, pour parmtre, il faut qu’existe un désir de supe-
riorité, supériorité intellectuelle ou prétentions morales, dédain
plus ou moins de ceux qui vous entourent” (132). Veremos, con­
tudo, no caso de Jürg Zünd, que o universo também pode ocorrer,
na medida em que Jürg Zünd tende justamente — a fim de escon­
der sua inferioridade — a permanecer tanto quanto possível des­
percebido, a se comportar tanto quanto possível de modo a não
chamar a atenção e, até mesmo, "a sumir no anonimato da massa".
Por conseguinte, só com restrições podemos aceitar a declaração

151 Quanto a nós, não falaríamos absolutamente em "amaneiramento do


constrangimento", convencidos que estamos de que é possível distinguir
do amaneiramento as manifestações do constrangimento enquanto tal, e
isso já de uma maneira puramente externa, isto é, em seu fenótipo, mas
sobretudo em seu fundamento existencial (cf. abaixo; Para uma análise
existencial do amaneiramento).
152 Grifo meu. A superestimação, que se evidencia aqui, do fator rela­
tivo ao mundo-comum no fenômeno do amaneiramento será no que se
segue, como veremos, de novo algo restringida. A importância desse
"fator" só pode ser corretamente focalizada na investigação existencial-
analítica.
AMANEIRAMENTO 121

do autor de que o primeiro elemento psicológico do amaneira­


mento (dos sãos) seria: "satisfaction de soi, sentiment d’auto-
appréciation, hypertonie affective, besoin de se singulariser, besoin
en partie volontaire et conscient, au moins a Vorigine" (133). A
isso, porém, acrescem ainda, com respeito ao amaneiramento "hors
Vasile”, como já mencionamos, "une erreur de jugement, un man­
que de bon sens, de sens critique” ; "un esprit qui mérite le quali-
tatif de sain n’est pos maniére” (ibid.). (Essa observação mostra
que tampouco deveríamos designar o "maniérisme hors Vasile”
como amaneiramento do são!). Não amaneirado, porém, não bas­
taria o jogo natural de suas "facultés supérieures, de son potentiel
psychique”, para expô-lo (imposer) à atenção dos outros; ''il a
recours à d’autres moyens: il adopte un masque,153 il compose avec
préméditation et étudie ses façons de penser, de se tenir, d’agir,
de parier ou d’écrire; aussi le plus souvent choque-t-il car il ne
sent pas la grâce du naturel, il n’a pas le sens du redicule; dénué
d'autocritique, il est pris le Premier aux appâts quil tend” (133).
Essa descrição perfeitamente justa é turvada apenas pelo fato de
que o autor enxerga nisso tudo, como dissemos, um sinal de debi­
lidade, assim como também pretende ter encontrado o verdadeiro
amaneiramento muitas vezes entre os débeis (mas não, em com­
pensação, entre os idiotas e os imbecis). "Le manque, le défaut ou
la faiblesse du jugement” parecem também estabelecidos para o
autor, no tocante ao amaneiramento, porque esses se encontrariam
de preferência entre os jovens e — o que nos lembra a obra de
Möbius sobre o "atraso mental da mulher" — entre as mulheres!
Ao contrário do amaneiramento episódico, o amaneiramento dura­
douro representa, pois, o primeiro grau, embora leve, do patológico
e, nessa medida, a transição entre o "maniérisme hors Vasile” e o
" maniérisme des internes". Enquanto a carência intelectual e afe­
tiva acarretaria, entre os primeiros, "desmanifestations motrices",
aqui o <Crapport" entre aqueles diferentes elementos permaneceria
preservado, havendo portanto uma "cohérence logique entre Vaffec-
tivité et Vintelligence, entre Vaffectivité et les manifestations mo-
trices” bem como "concordance entre le sentiment ou Vidée
éprovée et le sentiment ou Vidée exprim e’ (135). No alemão,
falaríamos antes, em vez de conexão lógica, numa conexão com­
preensível (verständlich). Do mesmo modo, também podemos falar,
em alemão, numa concordância ou discordância entre a vivência
(Erlebnis, eprouvé) e a expressão (exprimé). Mas veremos pos­
teriormente que tampouco essa distinção é suficiente para a com­
preensão do amaneiramento.
153 Grifo meu.
122 TRÊS FORMAS DA EXIStêNCIA MALOGRADA

Quando o nosso autor passa de novo para o domínio do ama­


neiramento na dementia praecox, ele facilita as coisas, preconce­
bido que está pela teoria clinica dessa doença, ao declarar de ante­
mão que aqui se trataria de uma "psicogênese" totalmente dife­
rente daquela que tem lugar entre os (real ou pretensamente) nor­
mais. Pois o maniérisme desses doentes via de regra (le plus
souvent) não é um verdadeiro, mas um aparente (apparent)
maniérisme, que dá apenas a impressão da afetação. Aqui se tra­
taria de "un mécanisme plus complex’\
Após uma discussão com Kraepelin, que teria reduzido o ama­
neiramento dos esquizofrênicos (1904) a um determinado estado
de embaraço, o autor explica, com Mignard e outros, que, no (apa­
rente) maniérisme da dementia praecox, de fato encontraríamos
todos os mencionados distúrbios do juízo, da atenção, da afetivi­
dade, todavia a esses distúrbios das capacidades intelectuais acres­
ceria ainda "un désordre dans leurs rapports reciproques". Haveria
uma "incohérence" entre afetividade e inteligência, entre inteligên­
cia e ação (action), explicação essa que lembra a conhecida teoria
de Stransky. A essa teoria da "perturbation dans les éléments
psychiques" e da discordância entre vivência e expressão acresce
ainda que o esquizofrênico, "indiferente" que é, não faz o menor
esforço para dirigir seu automatismo ou para lutar contra ele; "il
s’en desinteresse" (p. 139).
Reboul-Lachaux passa, então, a procurar um "élément physio-
logique supplémentaire" que permita distinguir os fenômenos mo­
tores, designados como amaneirados, de outros fenômenos prove­
nientes das mesmas causas. Todavia, considera prematuro oferecer
a ''verdadeira teoria do amaneiramento" (p. 142). O que se pode
considerar como estabelecido, com respeito ao amaneiramento dos
esquizofrênicos, seria o fato de que ele nos dá apenas a impressão
(errônea) do amaneiramento, da falta de naturalidade, da afetação.
Apesar disso, não se trataria aqui de algo produzido por ''nosso
espírito" apenas. O distúrbio mórbido deve existir realmente —
aliás, sobretudo — como um distúrbio motor (141). Pois a maioria
das "manifestations motrices" — e com muito mais razão as ama-
neiradas — seria freqüentemente destituída de todo conteúdo psi­
cológico e, em particular, afetivo! (141). A "motricidade" das
manifestações amaneiradas passa a ser analisada mais detalhada­
mente, visando-se então principalmente o grau, o andamento,
o ritmo, o tônus da "excitation motrice". Secundariamente, porém,
também apontam-se casos em que certas manifestações amanei­
radas, exageradas e afetadas já eram anteriormente características
do doente e correntes em seu meio social, embora persistindo numa
repetição independente e dando apenas a impressão de jeitos ama*
AMANEIRAMENTO 123

neirados, posto que agora careceriam de todo teor afetivo e idea-


tório (142). Isso nos lembra, mais uma vez, a análise feita por
Klasi das estereotipias no sentido de desempenhos residuais ou
relíquias. Nosso autor também fala ocasionalmente de "vestiges
du maniérisme".
O autor não se cansa de constatar, apesar disso, a diferença
de princípio entre o amaneiramento extra muros e o amaneira­
mento intra muros. Pois o último seria justamente apenas uma
conseqüência do automatismo, seria involuntário e inconsciente e
de modo algum corresponderia a um "désir d'affectation". Ele
lembraria apenas exteriormente as "modalidades” através das quais
a afetação normalmente se manifesta. Relativamente ao amaneira­
mento dentro e fora do sanatório, só o "tableau visuel" seria
idêntico. Mas é preciso lembrar-se de que, mesmo as manifestações
psíquicas designadas como normais têm por base "une forte Pro­
portion d'automatisme subconscient" (143). Finalmente, chama-se
a atenção para o condicionamento dos jeitos amaneirados com
relação às idéias delirantes, ao mesmo tempo que — e isso em
perfeita consonância com Bleuler e Kläsi no tocante à relação entre
estereotipias e idéias delirantes (e alucinações) — se faz notar que
as coisas estão aqui muito mais claras, posto que se trataria de uma
''relação de causa e efeito" entre determinadas idéias delirantes e
os fenômenos motores (144).
Enquanto, pois, Kraeplin vê a ''causa" dos jeitos amaneirados
num distúrbio dos "estímulos da vontade" e da motricidade, ao
passo que Bleuler prefere vê-la num distúrbio mórbido da afeti-
vidade e do pensamento, em Reboul-Lachaux acrescentam-se ainda
a superexcitabilidade psíquica, o automatismo, um distúrbio mór­
bido do juízo (jugement, autocritique) e da afetividade, bem como
um distúrbio das relações recíprocas entre ambos. Embora essas
investigações deixem uma impressão pouco satisfatória, a razão
disso não está na diversidade dos pontos de vista sobre o "distúr­
bio" fundamental" em questão no amaneiramento e nos jeitos
amaneirados, mas na busca pura e simplesmente de um "distúrbio
fundamental" psicopatológico, em outras palavras, na busca de uma
explicação dos jeitos amaneirados baseada na construção de uma
teoria psicopatológica. Essa teoria já está esboçada quando divi­
dimos o ser humano nas funções do querer, sentir e pensar e o
investigamos quanto aos "distúrbios" dessas funções. Em vez do
homem esquizofrênico, surge aqui a construção psicopatológica da
esquizofrenia! Assim, o fato de que o "verdadeiro tema" da psi­
quiatria é ''o homem", no sentido da existência humana e suas
modificações, permanece aqui em larga medida ignorado. Uma
exceção, como dissemos, é Bleuler, na medida em que ele também
124 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

vê nos jeitos amaneirados dos esquizofrênicos, do mesmo modo


como nos dos sãos, algo de "humano"; o desejar, imitar, posar,,
afetar, mimara caricaturar, exagerar, o "pathos" frio, o caráter es-
tranho, etc., e só recorre à ''teoria dos complexos", bem como à
carência de sentimentos e de ''controle", para ''explicar" essas
peculiaridades "humanas", uma "tentativa de explicação" que
convém perfeitamente à Psicopatologia, enquanto ciência explica­
tiva ou teorética. As coisas são muito diferentes em Reboul-
Lachaux. Por excelente que seja sua descrição do amaneiramento
dos "sãos'', em particular a ênfase que dá à adoção de uma más­
cara, à premeditação, ao ensaio, à preparação de todas as exterio­
rizações, numa palavra, ao caráter intencional, e por mais justa
que seja sua observação sobre a falta da "grâce du naturel”, ele
ainda está em busca, mesmo no caso das pessoas sãs, de "expli­
cações" a partir da teoria das funções ou faculdades psíquicas, para
em seguida dar de antemão o salto para a teoria e assim perder
inteiramente de vista ''o homem". Ele consegue fazê-lo com faci­
lidade tanto maior porque concebe, como vimos, os jeitos amanei­
rados do homem "dans l’asile" não mais como amaneiramentos,
mas como algo que exteriormente a eles se assemelham e são erro­
neamente interpretados como jeitos amaneirados pelo investigador.
Mas o autor continua a nos dever a demonstração dessa afirmação,
tanto mais que seu método de investigação, ao contrário do de
Klãsi no caso das estereotipias, permanece a um nível bem super­
ficial. Do mesmo modo como seria errado compreender tudo aquilo
que nos esquizofrênicos se assemelha a um jeito amaneirado como
expressão do amaneiramento, do mesmo modo também seria errado
recusar liminarmente o caráter de amaneiramento dos jeitos ama­
neirados esquizofrênicos, sem falar no fato que ainda seria preciso
comprovar no detalhe em que se funda a semelhança dos jeitos
amaneirados esquizofrênicos ''aparentes" com os jeitos amaneirados
do homem são.
O ganho verdadeiro desta secção — abstração feita da ela­
boração de determinados traços essenciais do amaneiramento em
geral — consiste precisamente em mostrar que a salvação da Psi­
copatologia só pode ser vislumbrada na interpenetração da reflexão
existencial-analítica ou ''humana" e da pesquisa teórica discursiva.
Se a Psicopatologia deixa fora de consideração ''o homem" no sen­
tido do ser-no-mundo humano, suas construções ficarão pairando
no ar, porque ela terá que se satisfazer então, como cansamos de
ver, com meros rótulos verbais e não verá nem saberá mais o que
de fato é preciso explicar. Se, por outro lado, ela se contentasse
com a reflexão e investigação puramente existencial-analítica, es­
taria abandonando seu mais próprio projeto de compreensão, o
AMANEIRAMENTO 12 5

projeto do homem em direção a uma "pessoa'' e a um organismo


biológico-psicológico a serviço dela, o único processo a partir do
qual é possível distinguir o são do doente. Ao mesmo tempo, é
preciso frisar sempre que "são" e "doente" não constituem o
objeto de nenhuma constatação puramente biológica, mas repre­
sentam juízos de valor biológicos.
Devemos ver também um juízo de valor — se bem que não
um juízo de valor biológico, mas psicológico — na constatação
excelente e psicologicamene tão justa de Bleuler de que, na pessoa
"verdadeiramente distinta", a distinção é "uma parte'' de seu ''ser",
algo "que lhe pertence", ao passo que, naquele que "afeta dis­
tinção'', se observaria a ''oposição" entre natureza e "afetação",
entre "forma e conteúdo" e, assim, ''algo de estranho". "Não so­
mente aqueles que são alguma coisa chamam nossa atenção, mas
muito mais ainda aqueles que querem ser o que não são". Em
face disso, a análise existencial deve frisar que também o querer-
ser o que não se é (o vouloir-parmtre de Reboul-Lachaux) ou
seja, que também aquilo "que não pertence a alguém" ou que lhe
é "estranho'' "pertence" ao ser do ser-aí, e é a partir dele que
precisa ser compreendido. Aqui, encontramo-nos sobre a linha de-
marcatória entre a psicologia e a análise existencial.
Para terminar, é preciso chamar a atenção para uma carência
sensível das análises clínico-psicopatológicas do amaneiramento e
dos jeitos amaneirados esquizofrênicos (e que certamente está li­
gada ao fato de até hoje não se ter empreendido nenhuma inves­
tigação extensa da história de vida do amaneiramento), a saber,
a ausência da enorme significação da angustia e do desespero na
"história da gênese" do amaneiramento. A próxima secção, bem
como as investigações histórico-artísticas da essência do maneirismo
artístico colocarão em relevo essa significação e suprirão aquilo que
a Psicopatologia até hoje deixou de fazer.

C. A P r o p ó sito d o A m a n e ir a m e n to c o m o
F o rm a E x iste n c ia l E sq u iz o fr ê n ic a

O Caso Jürg Zünd como Paradigma1Si

O acadêmico Jürg Zünd era uma criança muito viva, tão sen­
sível quanto impetuosa, agressiva mesmo, e que sofria de estados.
154 c f "Studien zum Scliizophrenieprohlem. Dritte Studie; Der Fall Jürg
Zünd". Schweiz. Archiv f. Psychiatr. u. Neurol. 56, cad. 2, 58, cad. 1 e 59,.
cad. 1, 1946/47.
126 TRÊS FOrMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

de angústia e de sensações físicas anormais. Desde cedo, movia-se


em três ''mundos" que se encontravam em crassa contradição uns
com os outros, contradição essa que não conseguiu durante toda
sua vida superar. Em nenhum desses mundos conseguiu lançar
raízes, pois estava continuamente a ver cada um deles no ''espelho"
dos outros dois. Havia, em primeiro lugar, o mundo "proleta",
solto, desregrado da rua, onde gostava de agir como um menino
brigão e arrojado (Draufgänger), mas onde não conseguia sen-
tir-se em casa, por um lado, porque se sentia expostoxm por suas
roupas mais finas, por outro lado, porque seus pais procuravam
mantê-lo tanto quanto possível afastado da rua e de suas brigas e
molecagens. Quando o pai vinha buscá-lo depois da aula na praça
da escola, por não ter voltado imediatamente para casa, sentia-se
ridículo diante dos colegas. Além disso, censurava-se pelo fato de
sentir-se melhor na rua do que junto aos pais, no andar superior
da casa que habitavam. Pois, aqui, sentia-se sempre como que
debaixo de uma espada de Dâmocles, amedrontado por uma mãe
irascível e imprevisível. Além disso sofria com o fato de que seus
pais aparecessem no espelho da opinião pública como não normais,
agitados e orgulhosos. Visto que havia atraído o escárnio e a zom­
baria da rua em razão do tratamento que recebia dos pais, total­
mente diferente dos demais, já se sentia, menino ainda, como que
inteiramente despido, como que exposto em trajes íntimos, como
que descoberto pelo olhar dos outros. Em conseqüência disso, sem­
pre teve o sentimento de que tinha que se esconder dos demais.
Ao lado dos mundos contraditórios da rua e da residência dos
pais, havia, porém, para Jürg Zünd, ainda um terceiro "mundo
parcial", particularmente importante para seu desenvolvimento; o
mundo do andar de baixo, onde moravam o pai e dos irmãos da
mãe. Aqui, sentia-se muito mais livre do que em casa dos pais,
visto que esses parentes estavam mais bem de vida, comporta-
vam-se como grandes senhores e desfrutavam, no lugar, de um
grande respeito.156 Sentia-se particularmente a salvo junto ao avô.
Os habitantes do andar inferior muitas vezes levavam-no, aos do­
mingos, a passear, pois os pais, estes ninguém conseguia tirar de
dentro de casa. O tio elogiava-o por seu arrojo (Draufgängertum)
tia rua, mas, em compensação, seu pai lhe infernizava a vida quando
ouvia semelhante elogio. Por causa desse "desenraizamento", muito
cedo já se instalara em Jürg Zünd o medo de ter que morrer.
155 Tanto aqui, como no que se segue, trata-se, sem exceções, das pró­
prias palavras do doente.
156 Percehe-se aí o papel importante que tamhém desempenha em Jürg
■Zünd a "opinião púhlica" e a imagem refletida por ela. Se se quiser,
podemos designá-la como um quarto "mundo".
AMANEIRaMENTO 127

(draufgehen) .157 (Todas essas informações são citações literais da


boca do paciente.)
Vemos assim que a existência, no caso de Jürg Zünd, desde
sua meninice, estava ameaçada por uma profunda, dupla e mesmo
tríplice divisão interna. Em nenhum dos três mundos conseguir-se
arrumar espacialmente (sich einraumen), temporalizar-se (sich
zeitigen), ipseificar-se (sich selbstigen). Ele era arrastado para
um lado e para o outro pelos três mundos. Em conseqüência disso,
Jürg Zünd não conseguiu formar um "estilo de vida" próprio. Ao
contrário, ora seguia este, ora aquele modelo tomado ao mundo-
comum, ou por outras, assumia os ares ou as maneiras (Manieren)
ora deste, ora daquele "mundo". A autêntica ipseificação (Selbsti-
gung), ou para nos exprimirmos de maneira popular, o desenvol­
vimento natural e espontâneo de sua personalidade era substituído
pela preocupação em auto-espelhar-se (Selb stSpiegelung) no espe­
lho de um ou de outro “mundo”. O modelo de distinção fidalga
do primeiro andar tornou-se o modelo dominante. Contradizia-o,
porém, o modelo irascível, assustador, angustiante do andar supe­
rior e, sobretudo, naturalmente, o do mundo proleta, indiscipli­
nado, agressivo da rua. Desse mundo também Jürg Zünd jamais
conseguiu escapar, por mais que se envergonhasse dele no espelho
do mundo do andar inferior, mais ainda, por mais que procurasse
apagá-lo mesmo.
A imitação intencional do mundo do primeiro andar tornou-se •
para Jürg Zünd o que costumamos chamar de "ideal extravagan­
te".158 Extravagante, por um lado, porque a ele subordinava tudo
mais, por outro, porque a todo instante temia precipitar-se
dessas alturas que se "arrogara com tanto atrevimento". O próprio
Jürg Zünd fala de seu medo do ridículo social, do medo de uma
súbita desclassificação social. Aliás, esse medo revestiu-se, durante
muito tempo, do medo de um "sintoma" particularmene proleta, a
saber, de uma ereção, ou ainda, revestiu-se do medo de que outras
pessoas, de uma posição social superior, tanto senhoras quanto
cavalheiros, viessem a observar ou acreditassem que ele tinha uma
ereção, ou por outras, que ele era um vulgar proleta. Em face
dessa avaliação como proleta, Jürg Zünd precisava antes de mais
nada abrigar-se. Não devia ficar exposto, descoberto pelo olhar dos
outros ou exibido, tinha agora que se esconder. O sentimento de
se encontrar sob a mira da crítica encontrava, porém, no medo*
157 Binswanger joga com a raiz comum das palavras draufgehen (morrer,
perder-se, ir emhora) e Draufgänger (ousado, arrojado, temerário), para
aproximar seus diferentes sentidos. (N. do T.)
158 Cf. nota preliminar ao capítulo sohre a extravagância para a com­
preensão do significado de "extravagante".
128 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

da ereção apenas o seu auge. No fundo estendia-se ao comporta­


mento total de Jürg Zünd. Temia chamar a atenção do colega, ao
despir o sobretudo, por um movimento que pudesse ter uma
nuança de degenerescência, mas ao mesmo tempo temia também
chamar a atenção na rua através de seu andar e de todo o seu
modo de se portar. Mas aqui também cumpria esconder seu inte­
resse proletário pelas demais pessoas — pois isso mostraria que não
passava de uma ovelha negra e sem classe. Ou por outras, era pre­
ciso dar a impressão de que defrontava os outros numa distância
aristocrática e cheia de distinção. Mas essa intenção também estava
continuamente ameaçada pelo inferno do medo. Em conseqüência,
sentia-se tão inibido diante das demais pessoas que não conseguia
fazer mais nenhum movimento ao menos passavelmente natural.
(Essas expressões também são, todas elas, mais uma vez citações
literais do paciente.) A cada passo que dá, empurra vigorosamente
para frente primeiro um, depois o outro ombro. Ao mesmo tempo,
meneia tão ostensivamente os braços que a impressão inofensiva
por ele tencionada converte-se exatamente em seu contrário, dando
a impressão de amaneirado, afetado, fingindo. Em razão de seu
andar e proceder estranhos, sua suposição de que chamava a aten­
ção na rua não era objetivamenteinjustificada. Visto que ele, como
soubemos, tem grande interesse pelas demais pessoas, mas fica
constrangido159 por causa desse interesse proletário, o resultado é,
como ele próprio diz, uma mascara, uma postura estereotipada,
4contraída, ou seja, o contrário da desenvoltura. Pois teria que cor­

rigir de antemão toda impressão desfavorável sobre os outros. De


puro medo, continua a explicar, de que as pessoas pudessem perce­
ber seu constrangimento (tão pouco aristocrático), acaba por ma­
nifestar um modo de proceder esquisito, esquerdo, a ponto de de­
sejar que a terra se abrisse sob os seus pés e o tragasse. Uma ou­
tra vez, falou do nojo por sua existência sensaborona. Segundo
suas próprias palavras, procura esconder essa angústia e esse nojo
•através de reações bruscas, para dissimular a penosa debilidade
psíquica, o que só faz devolvê-lo a si mesmo e colocá-lo cada vez
mais em oposição ao mundo ambiente. Ligado a isso está o já
mencionado medo do ridículo, o medo da súbita desclassificação
(de aristocrata em proleta), de uma catástrofe irreparável, medo
esse que o coloca num continuo estado de alarme. Em conseqüên­
cia disso, sente-se sempre acossado e solapado e preferiria desa-

159 Esse "constranger-se" ( = envergonhar-se) é — quase não seria pre-


preciso dizê-lo — algo de hem diferente do "emharaço" episódico ligado
a uma determinada situação, sem falar que significa mais um envergo-
nhar-se em face de si mesmo, do que em face dos outros.
AMANEIRAMENTO 12 9

parecer no anonimato da massa (loc. cit,, t. 56, p. 197 e p. 201).


Já havíamos então chegado à conclusão de que a vergonha mostra
justamente o que gostaria de ocultar (cf. a parte sobre Scham
und Schande, vergonha-pejo e vergonha-desonra, loc. cit., t. 58,
pp. 37 ss.).
Vemos aqui também que jamais se deve, na psicopatologia,
considerar um sintoma isolado por si só. Muito ao contrário, é
preciso compreendê-lo a partir do contexto da história toda da Vida
e do decurso inteiro da existência. O amaneiramento, o deliberado,
artificial, afetado, estudado e carente de naturalidade, está aqui,
pois, a serviço da dissimulação ou ocultamento de uma fraqueza
Vital, de um medo da Vida e da morte, mas também de uma agres­
sividade de proletaim só com muito esforço contida. Trata-se de
tentativas intencionais, resultantes da miséria dessa dupla e mesmo
tríplice divisão interna, de esconder ou ocultar a insegurança e o
constrangimento em face do mundo-comum das classes mais ele­
vadas, logo de tentativas a serviço do "ideal extravagante" de uma
inatingível e impenetrável irrepreensibilidade social, mais ainda, de
uma distinçao aristocrática. (Cf. a este propósito e a propósito do
tema seguinte a secção: 0 Autismo.) As tentativas de encobri­
mento revelam-se inequivocamente como tentativas de ajustameno
a esse "ideal extravagante", caracterizadas por sua intensidade e,
por isso mesmo, exageradas (retorcidas) e condenadas de antemão
ao fracasso. Mas também a formação de semelhante ideal não é
nada de último. Seu papel consiste aqui, tal como em nossos outros
casos de esquizofrenia, em opor ao medo de existir um dique, em
garantir o ser-aí contra o medo e o nojo de existir. Aqui como
alhures o que há é o medo da duvida e, mesmo, do desespero (cf.
mais uma vez a secção 0 Autismo; ibid. t. 59, pp. 29 ss.). Aliás,
originariamente não se trata nem do medo kierkegaardiano, de
querer desesperado ser a si mesmo, nem do medo de não querer
desesperado ser a si mesmo,161 mas do medo de não chegar a ne­
nhum "si mesmo" e, sob a prepotência em particular do mundo dos
pais e sua oposição aos dois outros mundos, de ter que "morrer"
(draufgehen). É só no Jürg Zünd adulto que encontramos o medo
de ter que ser ele mesmo e o desejo de desaparecer no anonimato
da massa.
Se, nas descrições do maneirismo artístico, encontramos
sempre ressaltados a máscara, a couraça, o espartilho e o cerimo­
nial, devemos ter sempre presente que todas essas designações já
160 Pois, certa feita, o doente deu uma bofetada num professor de sua
escola.
161 Cf. Ges. W erke 8. D ie K ram kheit zum Tode, p. 50.
130 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

se aplicam ao amaneiramento como forma existencial. Pois o


próprio Jürg Zünd já utiliza as expressões "máscara", "postura
estereotipada", "contraída", "o contrário da desenvoltura'', etc. e
está consciente de que tudo isso serve para esconder sua debilidade
vital e seu modo de viver, ou por outras, é um produto da intenção
ou da reflexão. Esta tem que substituir o que falta em "vitalidade"
a "Jürg Zünd, até que esse sucedâneo também deixa de agüentar e
Jürg se retira para sempre do mundo e se refugia num sanatório.
Já Vemos aqui como é enganosa a distinção entre pessoas "hors
rasile" e "dans l’asile".
Para concluir, mencionemos ainda que, em Jürg Zünd, encon­
tramos também, ao lado dos amaneiramentos mencionados no do­
mínio do andar, da postura e dos gestos, outros amaneiramentos
no domínio da linguagem e como substituto da linguagem, bem
como um bem caracterizado cerimonial. Uma leVe emoção já basta
para que ele tenha que se esforçar para formular em palavras
aquilo que o comove. Substitui então as palavras por movimentos
expressivos com as mãos e os braços, passa a mão sobre a testa e
a cabeça, torce a boca, esbugalha os olhos (loc. cit., 56, p. 197).
Como cerimonial propriamente dito podemos considerar o seguinte
comportamento que tem lugar ocasionalmente por ensejo de uma
emoção mais forte: Jürg Zünd ergue-se subitamente da cadeira,
curvando-se tanto para trás e para o lado que achamos que vai
cair, os pés voltados para dentro. Em seguida, deixa-se cair na
cadeira como que sucumbindo sob o próprio peso. — Como arre-
vesamentos no domínio da linguagem mencionamos: "Desvia­
ram-me do trampolim da Vida normal", "sobrevivi à minha pró­
pria morte”, "tomei sobre mim mesmo o medo do mundo inteiro",
"não poderiam mais então me impor (como voluntário de guerra)
nenhuma cotação oficial do mercado", etc. (t. 56, pp. 202 ss.). Não
é preciso frisar que todos esses dizeres são formulados de um
modo agudamente conceituoso (pentiert), ou por outras, exibem
o estilo agudo ou conceituoso (Pointestil) que desempenha, como
Veremos, um papel tão importante na retórica e na prosa artística.
A respeito da evolução clinica e do diagnóstico do caso Jürg
Zünd, observemos ainda, para concluir, que o paciente se encontra
desde os seus 37 anos até hoje, com uma curta interrupção, dans
Vasile. Está agora com 52 anos, tendo pois cerca de 15 anos de
sanatório nas costas. Aos 34 anos, esse paciente muito inteligente,
passou, ainda que com a ajuda de um repetidor, no exame oral
do doutorado e, um semestre após — aliás em circunstâncias muito
mais difíceis (cf. loc. cit., t. 56-7) — redigiu um trabalho doutorai
muito bom. Desde então, sua capacidade de trabalho começou a
declinar cada Vez mais. Nos últimos tempos antes de sua entrada
AMANEIRAMENTO 131

num sanatório, tinha dores de cabeça continuas, deixou-se dominar


pêlo abuso de Optalidon, passou a se levantar tarde, ficava o dia
inteiro deitado e só saía ao escurecer, a fim de evitar todo o con­
tacto com as pessoas. Após sua passagem pelo primeiro sanatono,
trabalhou durante um ano num escritório, mas desde então não de­
sempenhou mais nenhum trabalho prático de qualquer natureza. Um
tratamento de eletrochoques teVe, a primeira vez, um certo sucesso
temporário, que deixou de ter em tratamentos posteriores. Jürg
Zünd sente-se, até certo ponto, bem no sanatorio, tem saída livre,
tendo conseguido, com o tempo, voltar a dar aulas particulares aos
filhos do médico do sanatório.
Enquanto um médico anterior relatava que, "devido a sua ma­
neira introvertida, extravagante, hipersensível e cheia de manias",
deveria "sem sombra de dúvida ser considerado como esquizofrê­
nico”, um outro médico classificou-o como "no máximo esquizói-
de”. Para nós outros, após o curso inteiro da doença do começo
até hoje, depois de nossas próprias observações e dos testes de
Rorschach, não há dúvida alguma de que, em Jürg Zünd, se
trata de uma forma da schizophrenia simplex, a saber, a forma a
que chamo polimorfa. Essa forma merece o nome de polimorfa,
porque se trata de um conjunto de sintomas "semelhantes à neu­
rose" (Mayer-Gross), ou seja, sintomas de fobia, semelhantes à
neurose obsessiva e à histeria, e mais: depressivos, hipocondría­
cos, de dependência e levemente paranóides, muitas vezes combi­
nados com perversões sexuais, os únicos aliás a não apresentar
nenhum indicio claro em Jürg Zünd. Mas as características prin­
cipais da schizophrenia simplex, a irresistível, sorrateira diminui­
ção da atividade mental e da capacidade de trabalho são incon­
fundíveis também em Jürg Zünd. Ao mesmo tempo, os sintomas
agudos dos primeiros anos de doença e o amaneiramento diminuí­
ram fortemente. Visto que se tratava de uma pessoa de grande
mteligência, não é de espantar que ainda hoje mostre restos dela.
, diguo de nota ainda que haja, na família do doente, além de
varios psicopatas gravemente esquizóides, um tio que, aos 17-18
anos, sucumbiu à catatonia, que em poucos anos o levou a uma
completa demência.
• ? e janÇarmos aqui um olhar retrospectivo sobre o decurso da
existência de Jürg Zünd, veremos que uma relativa tranqüilidade
tomou o lugar da torturante dupla e mesmo múltipla divisão dos
anos da infância e da impossibilidade de se orientar em um de
seus mundos (para não falar na impossibilidade de "ipseificar-
se / bem como o lugar das tentativas desesperadas de superar ao
menos sofrivelmente a diversidade desses mundos e seus mútuos
1 32 T rês F o rm as da E xist ên cia MALOGRADA

reflexos pela anteposição ( Vorlage) de uma "máscara" de “dis-j


tinção" (amaneiramento). Mas isso só foi possível pela renúncia
a uma autêntica autonomia (Selbstand), que só pode se conquis­
tar pelo trabalho no mundo e pela superação de sua "surda resis­
tência", Jurg Zünd deixou em larga medida escapar a possibilida­
de dessa superação ao retirar-se "dans l’asile”, ao buscar refúgio
na segurança e nos cuidados do sanatório. Se, apesar da longa du­
ração da doença do amaneiramento, não subsistiram "jeitos ama­
neirados" esquizofrênicos, isso significa tão-somente que, em Jürg
Zünd, não se chegou até a uma "dementação catatônica''.

D. O M a n eirism o c o m o E s tilo
A r tís tic o

1. Nas Artes Plásticas

As expressões "amaneirado" e "amaneiramento" designam


estados-de-coisas psicológicos, psicopatológicos, caracteriológicos.
"Maneirista" e "maneirismo" são, ao contrário, como já dissemos»
expressões da teoria da arte designando determinados estilos ar­
tísticos e épocas por eles caracterizados da história da arte, tanto
das artes plásticas quanto da literatura e da música.162 O mérito
da escola vienense da História da Arte e, sobretudo, de Max
Dvorák,163 foi o de "fazer saltar a massa visual, absurda e exces­
sivamente estendida, do barroco, de pôr a descoberto a oposição
entre maneirista e barroco no interior do anticlássico" (Pinder).
A mestria de Dvorák consistiu em destacar as peculiaridades do
estilo maneirista, dando ênfase, segundo seu próprio testemunho,
à descrição dos homens e das situações vitais ‘'segundo os princí­
pios e os meios de operar efeitos de uma engenhosa composição
artística e invenção poética", bem como à ligação indissolúvel da
intuição da natureza com a composição artística (Kunstgeschichte
als Geistesgeschichte, pp. 256 ss.). No maneirismo, “as emoções e
Vivências psíquicas" seriam colocadas acima “da consonância com
a percepção sensível" (p. 266 a propósito do “maneirismo" do

162 Deixaremos de lado, aqui, a última.


163 Cf. os capítulos — muito instrutivos para sua caracterização e con­
cepção do maneirismo, — Pieter Brueghel, o Velho, e sobre o manei-
xismo em; Kunstgeschichte ais Geistesgeschichte, Verlag R, Piper & Co.*
Munique 1928.
AMANEIRAMENTO 133

últimô Miguel Ângelo), de tal modo que, em Vez do retrato de


uma, paisagem ( Toledo sob a Tempestade, de El Greco), surge
“a revelação fulminante de uma alma arrebatada pelas forças de-
moniacas da natureza” (p. 275).
Enquanto que aqui não encontramos nenhum juízo de vaíor,
mas apenas juizos de estilo e constatações estéticas, Pinder164 está
consciente de que não se pode dispensar nesse domínio nem o
"Valor” nem a "profissão de fé”. Para a compreensão do maneiris-
mo tem particular relevância a indicação de Pinder de que efeti­
vamente "todos os estilos realmente fortes?’1™ pressupõem sempre
um outro estiío, embora, como eíe diz com muita propriedade,
“como raiz, não como imagem; como esfera vital (ainda que sob
protesto), não corno coisa a se imitar ou, mesmo, evitada”. "O
maneirismo, porém — taíVez, desde os tempos carolíngeos, o pri­
meiro estilo profundamente estudado —> pressupõe o saber de um
estilo que se crê seguir e que sem saber se evita!'1 "Ele significa
alteridade, cisão, obrigação de se medir e se comparar.” Seu pri­
meiro pressuposto é o de transpor algo que evoluiu naturalmente,
ou seja, o clássico, "para a atmosfera paralisante da intenção con-
templativa” (loc. cit., p. 149). O classicismo tem em comum com
ò maneirismo apenas o fato de não elaborar a impressão da "na­
tureza” (no sentido mais lato), mas a impressão das obras de arte.
Nessa niedida, ambos começam com uma "concepção formal pre-
concebida” (p. 150). Enquanto que, para o barroco, tudo o que
viVe é diguo de forma, o maneirismo é "estritamente antropocên-?
trico”, isto é, gira "como que sob a força de um encanto que o
aprisiona” em torno da figura do homem, "enquanto o mundo or­
gânico em torno dele recua, a paisagem que o acompanha sendo a
preferência substituída pela arquitetura (portanto pela obra dos
homens), o espaço pelo plano.” mas o autor dá mais um passo.
Ele explica que essa arte pensa no homem para, por assim dizer,
aplicar a ele, portanto a si mesmo, no lugar mais doloroso, a
forma, a forma no sentido de um ser-diferente, que se introduz
justamente aonde a gente se esforça por ser parecido ou mesmo
V7M<M. Parece que é Zürg Zünd que está a falar aqui. Assim,
inder continua da seguinte maneira: "É como se um doente fi­
casse a remexer uma f e r i d a sua.” Desse modo, fica enunciada "a
suspexta b io ló g ic a Pois aqui seria "um mundo da dúvida” que

Pfader, “Zur Physiognomik des Manierismus”, na Festschrift


» .! « ! t . zum Geburtstag, org. por Hans Prinzhorn, Joh. Amhros.
IW 1932.
Srifos aqui são meus, bem como no que se segue, quando nfio
so fizer outra observação.
134 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

estaria a falar, dúvida de si mesmo bem como dúvida da figura,


da estática e, até mesmo, dos acordes fundamentais da cor. As­
sim, nosso autor acaba por caracterizar o mundo do maneirismo,
com seu jeito peculiar da "decomposição cromática" e da "bran­
cura cadavérica", como "um mundo da duvida e do secreto medo
da vida", "que exatamente por causa disso'' precisaria "da cou-
raça em vez do corpo, da mascara em vez da face" (p. 152). ("A
fachada maneirista também não é a face do espaço, mas, sim, sua
máscara".) De um retrato de Bronzino diz Pinder que a face
seria ''uma máscara exibindo um maravilhoso, comovente recobri-
mento do vivo pela rigidez da couraça''. "O maneirismo está es­
condido" (p. 152). As vestes também são rígidas como as fa­
chadas. Preferem-se todas as coisas frias ao tacto, seda ou metal.
Quanto à postura total, chega-se aqui, em oposição à arte clássi­
ca e ao classicismo, antes a um apoiar-se ( Gehaltenwerden) do
que a uma postura ( Haltung) feita de "força vital", "plenitude
domada", ''liberdade refreada de movimentos". Certamente, aqui
também se trata de uma ''realização de alto nível" (o que já
basta para distinguir o maneirismo como uma elevada realização
artística, da produção plástica [Bildnerei, v. p. 236] esquizofrê­
nica!), caracterizada por um ‘'rigor cultivado”, por um "espírito
do espartilho", "da etiqueta", “do cerimonial de que se reveste a
"corte espanhola", do ''jardim geométrico", etc. (p. 152). "Um
tipo ideal assenta como uma película de vapor sobre tudo o que
é individual'', de tal modo que daí "resulta uma impressão de
inquietante, fantasmagórica distinção”. Aqui, tudo parece fórmu­
la de proteção — "essa seriedade fantástica quer se trancar diante
de nós" ou "se encouraçar". Por que razão, é algo que só se pode
trair por manifestações involuntárias. Nessa medida, o espectador
converte-se aqui em interrogador, em "praticante da psicologia
profunda" (p. 153). "Um diagnóstico que raramente engana"
seria que "no retrato maneirista a cabeça é deslocada para
o terço superior do quadro ou mais alto ainda".166 "Ela se enleva
e se fecha numa glacialidade conquistada a duras penas". Além
disso, nosso autor vê na "compulsão da proporção estreita" (pen­
semos em El Greco) o ideal do tipo astênico. Enquanto o barroco
é plenamente afirmativo com relação ao humor, sinal de um ex­
cesso de energia, o maneirismo está longe de toda possibilidade
de humor. "No maneirismo. . . a profunda seriedade da anemia,
a melancolia da secura, toma conta de nós num calafrio admoni-
tório" (p. 153), mas às Vezes somos também invadidos pelo nojo
como "uma forma inconsciente do medo da morte". É a insegu­
166 um paralelo a observações no teste de Rorschach.
AMANEIRAMENTO 135

rança da força Vital abalada que está sempre a falar de dentro do


.«onPiVkrno” (v. 155). Seria difícil "imaginar semelhante forma
™ Z Z n d im im l de morbider (ib.).
De um ponto de Vista puramente artístico, a primeira Vaga
do maneirismo nas artes plásticas, segundo Pinder, está caracte-
rizada por exemplo através de nomes como Pontorno, Rosso,
Parmigiano e Bronzino, a segunda através de Tintoretto, Vero­
nese, Jean de Boulogne, Pieter Breughel. Essa época já nos fala
mais imediatamente. Ela mostra uma componente barroca, uma
mentalidade mais plástica e espacialmente mais vigorosa. "A ter­
ceira e última fase está inteiramente tomada por um profundís­
sima Vontade de expressão. A religiosidade latente da época toda,
que já se destacava vigorosamente em Miguel Ângelo como uma
vivência pessoal, torna-se de agora em diante patente e cria uma
trama de formas da mais alta finura espiritualista. "Encontra­
mo-nos diante de El Greco e de sua "espiritualização expressiva".
Ao mesmo tempo que seus mais enigmáticos e mais belos quadros,
"pouco antes de o alto barroco deitar abaixo todo esse mundo so­
lapado por uma ameaça interna”, no início do séc. X V II, “lo­
graram-se também as mais altas visões literárias do maneirismo",
o Dom Quixote de Cervantes e o Hamlet de Shakespeare! Em
ambos, porém, o maneirismo já seria mais objeto do que forma
estilística. Hamlet já representa “ contra o fundo enorme de um
amplo sentimento vital", e o Dom Quixote, “uma figura maneiris­
ta ‘exemplar’, é — visto com a profunda simpatia do salvo167
— ao mesmo tempo não uma figura plana, mas que enche o es­
paço. O maneirismo convertera-se, de estilo, em material, de uma
mórbida atmosfera d e v id a num objeto. Ele foi superado tão logo
pôde ser visto — por um olhar que o transpassava — a partir de
uma vida que de novo se sanava" (p. 156).
O que Karl Scheffler escreve 12 anos mais tarde em seu
ja mencionado ensaio sobre o surgimento do maneirismo não
oferece praticamente nada de novo em face do olhar pene­
trante de^ Pinder. Em compensação, tem um particular inte­
resse histórico-artistico. O próprio vocabulário desse ensaio é ins­
trutivo. Assim, chamou-se maneirista à forma, certamente domi-
nada, todavia não mais sentida, que acumulava os acentos e dava
a lmPressão de supercultivada, “porque um modelo significativo
parecia como que interpretado por netos". Fala-se em obras de
arte cujas formas eram forcadas/68 cujo idealismo era narcisista,

188 est® e 08 ^Ue se seguem são grifos meus.


th«»* exPressão lembra lingüística e tematicamente o esboço de Goe-
• ß Poche der forcierten Talente", Jub.-A usg. 37, pp. 334 ss.
136 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

que manifestavam um ambicioso impulso de originalidade, re­


petindo servilmente, porém, modelos estranhos, "obras que ao es­
pectador pareciam ao mesmo tempo calorosas e frias, naturalis­
tas e especulativas: produtos nascidos de uma irritante divisão in­
terna" (p. 169).
Vê-se que aqui também encontramos, como já o fizemos em
Pinder, caracterizações contraditórias semelhantes às que também
encontráramos em Jürg Zünd e com que estamos familiarizados
nas criações plásticas dos esquizofrênicos. Mas, para que não se
incorra no erro de acreditar que os maneiristas seriam esquizo­
frênicos e que seria por essa razão que as expressões e juízos dos
historiadores da arte e dos psiquiatras são concordantes, frise­
mos — coisa a que Pinder já aludia, Scheffler, porém, destacava
muito mais nitidamente — que o maneirismo "de modo algum se
origina de uma má índole subjetiva" e, como temos que acrescen­
tar, tampouco de uma perturbação ou doença mental. Ao contrá­
rio, "em toda metamorfose estilística de longo alcance há certos
períodos nos quais gerações inteiras trabalharam maneiristica-
mente. Desse modo, o conceito 'maneirismo' elevou-se ao sigui-
ficado de uma característica estilística" (ib.). — Essa distinção
entre o amaneiramento enquanto "má índole subjetiva" e expres­
são de uma doença mental, por um lado, e maneirismo enquanto
característica estilística de determinadas épocas da história da arte,
por outro lado, deve ser rigorosamente respeitada!
Se o maneirismo aparece em toda evolução estilística orgâ-
nica,169 ou seja, se ele é uma forma coletiva que necessariamente
aparece tão pronto estejam dadas as condições para isso, então
pergunta-se de novo de que gênero são essas condições. A pri­
meira coisa a se fixar é a seguinte: ''O maneirismo tem origem
sempre entre um classicismo em declínio e um barroco que des­
ponta" (p. 170). O surgimento do maneirismo é um sinal de que
as forças espirituais criadoras já ultrapassaram o zênite. Chamam-
se agora as forças auxiliares da vontade, ''sem, no entanto, que
já se ouse uma ruptura com a tradição ou o abandono a formas
barrocas". Por isso, Scheffler fala também da divisão interna ou
do caráter forçado da forma maneirista. No lugar do classicismo
que já vai se esvaindo, o maneirismo coloca o acadêmico,
na opinião de que "o clássico poderia ser agarrado e fixado ou
mesmo intensificado". Scheffler relaciona erroneamente, como já
mencionamos, o “semipatológico” do maneirismo à palavra mania
168 Já é assim na arte arcaica dos gregos. Cf. o impressionante e con­
vincente capítulo sobre o maneirismo em D ie K unst der Griechen, do
Arnold v. Salis, 2.a ed., p. 82 ss, Zurique 1953.
AMANEIRAMENTO 137

(Manie) no sentido de vício ou hábito prejudicial (Süchtigkeit).


O Vício apareceria porque a forma ficaria a balançar incessante-
mente ''entre dois mundos estilísticos, entre a crença no ser e a
crença na aparência” Nessa forma haveria "algo de sobressaltado
e, por essa razão, também algo de sem ímpeto, esquelético, que
pode dar a impressão de algo sem alma". É preciso conservar sem­
pre em mente que o maneirismo, depois de tudo que ouvimos, não
precisa constituir nenhuma fase final, nenhum "declínio", mas pode
representar, num povo capaz "de fazer a experiência da transfor­
mação da forma em todas as suas conseqüências", uma transição.
Assim, a pintura nacional francesa originou-se imediatamente do
maneirismo do séc. XVI. O mesmo vale para a grande pintura
holandesa e espanhola. O "transcurso normal" é o da passagem
do maneirismo para o barroco. É a atitude dos italianos que mais
se aproxima dele, ao passo que a arte alemã evoluiu de maneira
muito voluntariosa.
Encontramos uma boa exposição, embora de conteúdo agora
familiar para nós, sobre o maneirismo, no livro de Hans Sedl-
mayer: Verlust der M itte: Die bildende Kunst des 19. und 20,
Jahrhunderts als Symbol der Zeit.170 Trata-se de uma obra apai­
xonada, mas por isso a se acolher com muita prudência, que aliás
apresenta o maneirismo como um precursor da arte moderna. A
inrodução traz como epígrafe uma frase de Pinder que designa
da mais incisiva maneira o motivo que nos guia em nossa própria
investigação: "A História da Arte não pertence apenas a si mes­
ma: ela está a serviço do conhecimento do homem" (p. 7). Na
secção: "Maneirismo e proximidade da morte" (pp. 187 ss.),
encontramos a seguinte caracterização histórica do maneiris-
mo, que acolhemos de muito bom grado: "Outros traços par­
ticulares da arte moderna mostram-se nessa orientação artística
que se volta contra a ‘arte clássica’ do alto renascimeno (1470
a ;520). E1a só vem a ser superada por volta de 1590 nos pri-
mordios do barroco, que de novo se 1iga ao alto renascimento e
conduz ao alto barroco e ao barroco tardio. A arte anticlássica
de 1520 a 1590 (ao lado da qual também se desenvolve um re­
nascimento tradio) é hoje em dia chamada por um nome que,
como gótico e barroco, tinha originariamente um sentido depre­
ciativo, o sentido do amaneirado, a saber: ‘maneirismo’ " (p. 187).
e drnayer acha que o maneirismo ainda não está elucidado do
ponto de vista (ja historia do espírito. "Seria da maior impor-
ancia discernir a zona onde se encontra mais profundamente
arraigado, por que surge precisamente por Volta de 1520 e atra-
Otto Müller Verlag, Salzburg 1948.
138 T rês F orm as da E xistên cia M aiö g ë a b a

vés de quê foi superado tão rapidamente, e quase sem deixar mar­
cas, por volta de 1500” (p. 189). Para Seldmayer, o sentimento
vital do maneirismo é a “dúvida,171 a cisão interna, o Medo e
uma profunda relação com a morte”. O maneirismo agarra-se “a
todo o acorvo de formas da arte clássica”, apenas colocando-o
sob um outro sinal. É só nessa medida que pode ser designado
como anticlássico. É precisamente a partir desse traço fun­
damental da divisão interna que se deveria compreender o sen­
timento vital peculiar do maneirismo e sua relação com a arte
moderna — mas, como dissemos, nós próprios não seguimos aqui
o autor. “Aos seus traços característicos pertencem a alienação,
o enrije cimento, o esfriamento e o amortecímeno da forma clás­
sica. O maneirismo procura o liso, o rígido e morto, não a forma
emanada organicamente, mas a forma (imposta\ em suma o 'for­
mal* o cerimonial. Tudo se torna antivital e. apegado a fórmu­
las, fantástico e cheio de espírito”, Na arquitetura, o maneirismo
procuraria “o frágil e artificial, o esguio, alongado e estirado e, em
particular, também a forma ‘perturbada? inorganicamenteff. “Pela
primeira vez no maneirismo um pintor retrata-se no espelho dé-
formante” (careta!). Além disso, o maneirismo “gosta de brico-
w imagens ã pâftir de elementos de natureza diversa, a partir
de figuras de tamanhos diferentes, ou ainda de mesclar fragmen­
tos de forma estranha, por exemplo, de forma gótica, entre os
clássicos”, peculiaridades que já conhecemos suficientemente a
partir da produção plástica esquizofrênica. Ao fim da época, um
pintor compõe a imagem de cabeças humanas a partir de simples
conchas ou de pedaços de legumes, “o que produz uma perfeita
impressão surrealista” (p. 188). Sobretudo, a natureza orgânica
está eliminada para o maneirismo, ele se retraiu para um mundo
artificial. Na instabilização do contexto imagístico e na exagera-
çao das dimensões espaciais da profundidade, exprimir-se-ia o
“profundo medo da vida e do mundo” do maneirismo, que já
vimos tantas vezes ressaltado. É significativo que o maneirismo
se tenha difundido muito rapidamente, muito mais rapidamente
do que o Renascimento, pela Europa inteira. Sociologicamente,
seria “essencialmente uma arte das cortes dos príncipes, a arte
de um mundo altamente cultivado, invulgarmente refinado, mas
também mórbido” (p. 189). “Todavia, o maneirismo ê uma arte
de alta espiritualidade” Mas, como Pinder, Seldmayer tam­
bém lhe recusa a verdadeira genialidade.
A seleção que até aqui fizemos na bibliografia histórico-artís-
tica sobre o maneirismo nas artes plásticas já deve ter mostrado
171 Grifos meus.
AMANEIRAMENTO 139

que è em que medida a História da Arte, para falar com Pinder,


não pertence apenas a si mesma, mas serve ao conhecimento do
homeni. Achamos mesmo que as exposições de nossos auto­
res com exceção de DVorák, nos proporcionarão um conhecimen-
to mais pormenorizado do artista e do homem que cultiva
ou mesmo se entrega ao maneirismo na arte, do que do manei-
Tismo como arte e época estilística da arte, assim como tampouco
da obra de arte maneirista. Nessa medida, o esforço da Teoria
pura da Arte passa para o segundo plano aqui e nós nos encon­
tramos na mais próxima Vizinhança da psicologia e da psicopato-
logia como as ciências que estão ou que deveriam estar o mais à
frente a serviço do "conhecimento dos homens". Pois o próprio
Pinder diz que o historiador da arte troca aqui o seu ofício pelo
ofício do psicólogo que se dedica à "psicologia profunda".
E x is te , p o ré m , u m liv ro so b re a o b ra d e a r te m a n e iris ta q u e
d e s lin d a a s r e la ç õ e s c o m o hom em d e m a n e ira m u ito " m a is p u r a "
d o q u e o c o rre n o s o u tr o s liv ro s , se m d e s c u id a r in te ira m e n te — ? o
q u e , c o m o V im o s , é i m p o s s í v e l — a p e c u lia rid a d e do hom em que
c ria a a rte . M a is d o q u e o fiz e ra m o s l i v r o s m e n c io n a d o s a t é a q u i*
e le d e s lo c a a ê n f a s e — n a m e d id a e m q u e se tr a ta d e a rq u ite tu ra ,
p in tu ra e e s c u ltu ra — do c ria d o r de a rte c a ra c te rís tic o d essa
época p a ra o hom em representado a rtis tic a m e n te : "C om o um in ­
d iv íd u o c o n tr a íd o , f o rm a l, e n c o u r a ç a d o o u m a s c a r a d o " , é m e n o s o
a r tis ta m a n e ir is ta q u e s u r g e a q u i a n o s s o s o lh o s d o q u e o h o m e m :
p o r e le r e p r e s e n t a d o , o u p o r o u t r a s , o r e t r a t o . O liv ro q u e te m o s
em v is ta aqui é o liv ro de H ans H o ffm a n n Hochrenaissancel
Manierismus, Frühbarock, com o su b títu lo Die italienische Kunst
des 16. Jahrhunderts.172
É só a q u i que e n c o n tra m o s um a a u tê n tic a fenomenologia da
o b r a d e a r te m a n e ir is ta , p e lo m e n o s n a s a r te s p lá s tic a s ; u m a fe ­
n o m e n o lo g ia , p o r é m , q u e d e m o d o a lg u m se lim ita à a p r e e n s ã o e
d e s c riç ã o da lin g u a g e m fo rm a l m a n e iris ta , m as ta m b é m in v e s tig a
a s p e c u lia rid a d e s d o e s p a ç o , d a e s tr u tu r a e d a lu z n a o b r a d e a r te
n i a n e i r i s t a . O m a n e i r i s m o n ã o é m a i s , p o i s , julgado e condenada
c o m o u m a a r t e d e c a d e n te o u m ó r b id a , m a s é in v e s tig a d o e c o m p r e ­
e n d id o em SUa essência artística. N ã o é d e se a d m i r a r , p o r is s o , q u e
ju s ta m e n te a q u i se p o n h a o dedo so b re a d ife re n ç a e n tre o ama­
neiramento e o maneirismo. Isso o c o rre em c o n tin u a ç ã o d o s tra -
a b o s d e W e r n e r W e is b a c h , q u e d a ta m d e 1 9 1 9 e Í9 2 8 e o n d e
P o r m a n e iris m o " p o d e se e n te n d e r u m a p r o p rie d a d e u n iv e rs a l
r a v e s d a q u a l a s f o r m a s a r t í s t i c a s o r i g i n á r i a s s ã o desenvolvidas
e retorcidas ao extremo, d e ta l m o d o q u e a p a re ç a m afetadas, a rti-

Zurique/LeipZjgj 1938 D livro, infelizménte, está há muito esgotado.


140 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

ficiais, ocas, usadas, degeneradas" .llz Mas, desse modo, explica,


Hàns Hoffmann, "atinge-se, e verdade, apenas o amaneirado que
deu originalmente ocasião para a designação maneirismo" (loc. cit.,
p. 13). O que, naturalmente, nos torna muito mais curiosos de
saber em que o maneirismo enquanto arte — e, mais precisamente,
enquanto arte plástica174 — tem que ser tão diferente do amanei­
ramento, assim como o estético em geral do psicológico e psico-
patológico, ou o estilo artístico da conduta quotidiana. Hoffmann
realiza nossas expectativas ao conseguir constatar em todas as três
artes (plásticas) da época (do Cinquecento) "características co­
muns" que permitem falar de uma época estilística unitária, coesa.
Ao começar, retorna a Pinder que, numa obra maior,175 teria
atingido "um conhecimento mais profundo dos fundamentos" do
estilo barroco e maneirista com a explicação de que, ao barroco,
se liga a "impressão de uma força a crescer com exuberância, uma
força positiva, ativa, irradiante, um caminho para o "infinito" atra-
Vês da intensificação positiva da figura, enquanto que ao manei­
rismo se liga um sentimento de um dobrar-se, oprimir-se, irnpren-
sar-se passivo178 de toda figura segundo linhas predeterminadas,
o sentimento de uma pressão exercida do ‘infinito’ — logo, em
direção contrária — sobre a figura, de tal modo que ela não se
prolonga naquele, mas parece comprimida dentro de si a partir
dele"* Temos aqui uma caracterização do maneirismo que, de qual­
quer modo, pode, mais uma vez, reclamar validade tanto para ó
maneirismo quanto para o amaneiramento. Basta lembrar nosso
paradigma Jürg Zünd!
No que diz respeito à fenomenologia do espaço maneirista,
nosso autor fala da enfatização da fuga do espaço, da divisão, da
fuga sem objetivo. Não é o homem, mas o espaço que se mostra
aqui como que “cindido em dois": “A autocracia do renascimento
parece perdida para sempre. Ainda não se alcançou a inserção em
contextos mais amplos (p. 24). Hoffmann chama o “lento fluir"
do espaço (maneirista), “como que antes de um leve represamen-
to"j de “represamento do espaço". Deve-se designar assim o
movimento e os contramovimentos, “a intranqüilidade do espaço”
(p. 33). Outras “características" espaciais da arquitetura manei­
rista referem-se à “cisão" da imagem e da configuração espacial,
173 Todos os grífos são meus.
174 Veremos posteriormente que o maneirismo na arte literária distin­
gue-se, exteriormente pelo menos, muito menos do amaneiramento do que
o maneirismo nas artes plásticas.
175 Wilhelm Pinder, Die deutsche Plastik vom ausgehenden M ittelalter
bis zum Ende der Renaissance, Berlim 1914-1929,
17« Este e os seguintes são grifos meus.
AMANEIRAMENTO 141
trando-se aí que o profundo e o plano-ornamental se enfrentam.
Ouanto às proporções espaciais na pintura, a ênfase dada ao espaço
a ênfase dada ao evento não coincidem mais aqui, como num
nuadro do renascimento (p. 52). Em oposição à proximidade tan-
aíVel do primeiro barroco, muitos retratos do maneirismo querem
distância, uma distância caracterizada, por exemplo, pelo fato de
que um objeto qualquer, por exemplo uma mesa, se afasta do
primeiro plano do quadro (p. 58), enquanto outros, por sua Vez,
são separados do fundo mais distante e, ao mesmo tempo também,;
empurrados, espremidos para frente (p. 60). Na medida em que
a pintura encerra dentro de si figura e espaço — diz Hoffmann
da pintura maneirista em geral — ela retrata o homem ''como que
expulso na fuga do espaço, impelido por caminhos que não são
determinados por este mundo" (p. 61). ■
As contradições com que deparamos no maneirismo — como,
de resto, no amaneiramento também e, com muito mais razão,
na produção plástica esquizofrênica — mostram-se quando, ao lado
das formas rígidas, contraídas, rebuscadas da figura humana —
como tantas vezes já se frisou — surgem também formas finíssi­
mas de "flexibilidade e elegância maneiristas" (por exemplo, em
Parmigianino) (p. 135), ou quando se considera como um dos mé­
ritos da história maneirista o fato de conservar, "no meio do
formigueiro" "de corpos em posições rebuscadas", a ''concepção
simples do núcleo figurativo" (p. 138).
Mas, com isso, já chegamos ao critério da estruturação (ma-
neirista).177 Naturalmente, não podemos mais seguir O aütor aqui
nos detalhes e temos que nos contentar com algumas indicações
sobre a estruturação na pintura maneirista. Esta é caracterizada,
entre outras coisas, pelo fato de uma figura ser "entrelaçada eni
relações de amplo alcance" (p. 127) (em oposição a muitas obras
esquizofrênicas, a figura principal parece estar inteiramente iso­
lada de tal modo que ela, nesse isolamento, nos impressiona, repele,
atormenta), Mas essas "relaçoes de amplo alcance*' têm, no mais
. vezes> mais uma vez o caráter particular do cerimoniai, da
distinção à espanhola. Assim, Bronzino retrata todas as pessoas
em seus excelentes retratos corno “rígidas, frias, fechadas”. “O
intimo não transparece através dessa máscara" (p. 159), Mas
177 y>
,a ,Uma compreensão mais pormenorizada, cf. por exemplo; “As
características, observadas na arquitetura maneirista, do alongamento e
Qa *ensã° — do alongamento simultaneamente horizontal e vertical, que
Produz a tensão — podem tamhém ser identificados na escultura como
ongamento do corpo humano, como o estiramento da figura ha traje-
T1y ,^e um traço vertical ou em profundidade, como a fixação sobre
linhas fundamentais da direção paralela" (pp, 165 ss.).
142 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

Hoffmann indica também com a máscara se trai (cf. Pinder). Em


face do mesmo retrato de Bronzino considerado acima, ele repara
que, "ao lado" da rigidez da face, "as mãos são nervosas, inquie­
tas, espiritualizadas'', nervosia essa que a mascara deve, por con­
seguinte, ocultar. Aqui, o retrato da época estilística maneirista
e o homem amaneirado de novo se tocam da maneira mais íntima.
Resumindo, Hoffmann conclui o seguinte: quando, na pintura do
maneirismo, ''desaparece a formação espontânea da figura humana
segundo a lei de seu próprio crescimento, quando sua estruturação,
sua posição, seu movimento são determinados por leis que vêm
de fora'' -— até mesmo em Tintoretto — então, essa pintura co-
loca-se ao lado do gótico e do romano, logo ao lado da pintura da
Idade Média e, até mesmo, poderia ser considerado como uma
última vaga da Idade Média (p. 166).
Finalmente, Hoffmann investiga a arquitetura, a escultura e a
pintura maneirista do ponto de vista da luz. Constata então que
aqui se tratar sempre de uma luz a pairar, a deslizar, a flutuar,
mais uma vez em oposição à maioria das "pinturas'' esquizofrênicas.
Para ficar mais uma vez na pintura, observe-se apenas que, no
maneirismo, a luminosidade foi enormemente intensificada, e que
assim também o contraste com a sombra — como, sobretudo, em
Tintoretto — se mostra da maneira mais conseqüente; "Cada man­
cha de luz coloca-se ao lado de uma mancha de sombra" (p. 172) .
A propósito das ''visões da luz", que são a criação do maneirismo,
pode se afirmar o mesmo que se disse do espaço maneirista e de
suas figuras; ''Do mesmo modo como o maneirismo faz o espaço
fugir para o infinito, do mesmo modo como insere as figuras nessa
fuga e em trajetórias verticais, desprendendo-as assim do real-ter-
reno, assim também ele conduz, com as visões da luz que são sua
criação, em direção a um outro mundo" (p. 173).
Para Hoffmann também, o maneirismo constitui um fenômeno
"no processo estilístico recorrente'', na medida em que, por exem-.
pio, na Antiguidade romana, "os bustos da época dos Flávios e
mesmo de Trajano, .. .mostram não somente o caráter precioso
no gesto e na postura, mas também, no puramente formal, o esti-
ramento horizontal e vertical que caracteriza o maneirismo"“
(p. 177).
Já no prefácio, Hoffmann observara que sua ocupação de tan­
tos anos com o maneirismo se fundaria tão-somente em ''expe­
riências (relativas à "restratificação") de nossa própria época",
na medida em que, nela também, o individual teria perdido sua
validez suprema e o coletivo teria tomado seu lugar. "A organiza-'
ção do Estado, a estruturação da sociedade, da economia, a rèva-
AMANEIRAMENTO 143

loração dos valores espirituais, tudo segue o mesmo caminho"


( 8)
Se Hoffmann inclui o alto renascimento e o primeiro barroco
nn suas investigações, é para ''tornar claros o começo e o fim do
novo estilo — isto é, os seus limites" (ibid.)’, o que é igualmente
importante para nossa própria investigação. De resto, menciona a
predileção do maneirismo, por um lado, pelo precioso e pelo lúdico-
jocoso, assim, por exemplo, quando as náiades esguicham finos
jactos dágua de seus seios (p. 36) — mas, por outro lado tam­
bém, pela rigidez (p. 56) (ambas, mais uma vez, características
análogas às das obras esquizofrênicas!), com o que aqui também
se acentua a cisão interna desse estilo. A propósito da ''profundeza
estranhamente dissimulada" de muitos quadros, sobretudo de Bron-
zino, observa que ela, juntamente com a expressão do homem
(representado) "anuncia o caráter problemático e incerto da exis­
tência humana em geral" (p. 60). E quanto à mencionada "fuga
espacial" do homem, observa que ela — visto que a arquitetura
criaria o, espaço "seguiido a relação proporcional do homem com
o todo'' — manifesta a insegurança e a angústia que se apossou
do homem, por ter pressentido nexos a que ainda não pode dar
seu assentimento" (p. 61 ).178 (Isso soa como uma frase da des­
crição, psiquiátrica de um esquizofrênico caracterizado 'p o r um
"sentimento de fim de mundo", mas é preciso levar em conta,aqui
também que, no maneirismo, se trata de uma alteração artística e
"coletiva" do ''sentimento vital", ao passo que na esquizofrenia se
trata em primeira linha de uma alteração individual.) Acresce a
isso tudo que, na pintura maneirista, vemos o homem, como já
sabemos, "forçado a seguir caminhos" ''que não são determinados
por este mundo" (ibid.) : " 0 modelo da realidade é abandonado,
a fim de deixar atuar mais vigorosamente a ligação anímiça, a
relação simbólica" (p. 100) ; mais ainda, encontramos na pintura
maneirista figuras "que estão quase que liberadas da realidade ter­
rena" (p. 175). Em todo caso o homem aqui "não é mais autô­
nomo, ele sente-se dependente de poderes maiores, que se encon-
trant fora dele. Ele não é nada, enquanto os poderes são desme­
didos", ao passo que, no primeiro barroco, ele se insere no todo,
fazendo-se de bom grado uma parte sua" (p. 180). O maneirismo
mostra "a cisão que divide o celeste e o terreno", ele é ''um estilo
<1ue vira as costas à realidade da existência" (ibid.). Não podemos
discutir aqui as relações com os conceitos fundamentais de Wollflin
e os pormenores estilísticos do papel, revelado de maneira tão clara
e compreensível, desempenhado pelo maneirismo como um elo in-
178 Grifo meu.
144 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

termediário entre o renascimento e o barroco. Em compensação,


queremos, «para terminar, reproduzir nas próprias palavras, tao
acertadas, de Hoffmann a maneira de considerar o homem e seu
papel nas três épocas estilísticas: "No renascimento, o que impor­
tava era a essência do homem, o caráter. No maneirismo maduro,
a condição, a posição social, atrás da qual se retrai o indivíduo hu­
mano, como que inseguro, como que cativo. A existência torna-se
estreita, sombria, opressa, sem liberdade179 O primeiro barroco
não permite, apesar de reconhecer os laços coletivos, que o indi­
víduo desapareça totalmente'' (p. 180). Vemos como o " estilo exis­
tencial" de nosso Jürg Zünd também poderia, segundo essa
exposição, ser perfeitamente designado como maneirista! Apesar
disso, preferimos falar para evitar eqüívocos, do amaneiramento
como uma forma existencial.
Para dar afinal a palavra a uma voz contemporânea, mencio­
nemos o ensaio já citado de W erner Hoffmann, publicado no
Studium Generale de janeiro deste ano (ano 8, cad. 1), para
o qual dirigiu-me amavelmente a atenção o proí. Friedrich de
Freiburg i. Br., após o término deste trabalho. Intitula-se:
"Manier und Stil in der Kunst des 20. Jahrhunderts". Hans
Hoffmann vê nas exposições de Dvorák "os fundamentos vá­
lidos ainda hoje para a interpretação do maneirismo” (p. 5). (Cf.
as citações de Kunstgeschichte als Geistesgeschichte.) Também ele
fala de uma "postura consciente, estudada'', ao mesmo tempo que
"se preferem as coisas originais às reguladas por leis” (p. 3), mas
também fala sobretudo da "radicalidade oscilante dessa consciên­
cia''. É isso que faz parecer compreensível o fato de ela "ter to­
mado forma em relações expressivas muitas vezes opostas: no
êxtase expressivo de El Greco, no theatrum mundi de Brueghef
o Velho e no belo formalismo cortesão de Bronzino ou Prima-
ticcio”. Ao mesmo tempo, cita as palavras de Riegl segundo as quais
a arte mostrava-se outrora aos contemporâneos, tal como era,
sempre como o absolutamente necessário, sendo agora, porém,
"objeto de escolha estética" (p. 7).
É neste ponto que se prepara a passagem para a arte moderna,
cuja caracterização muito clara e compreensível deve, porém, ser
lida no original. Para nós, é importante sobretudo a referência a
Bellori como o primeiro crítico do maneirismo, que já havia cen­
surado o fato de que "os maneiristas tomavam o espírito empres­
tado a outros e plagiavam servilmente idéias alheias”.1*0 De qual­
quer modo — e isso, mais uma vez, é de grande importância para
179 Todos os grifos meus.
180 Grifo meu.
AMANEIRAMENTO 145

n£s _ isso "circunscreve tão-somente um aspecto da problemá­


tica maneirista, ao passo que o outro, que culmina na invenção
livre, subjetiva, de imagens (no ‘Capriccio'), é ignorado” (p. 7).
Com isso, podemos ver os limites da teoria da adoção )“de repre­
s e n t a ç õ e s formais já formuladas em outras obras de arte” e de
sua utilização como puras “citações formais’>. A “liberdade de esco­
lha”, que existe tanto no maneirismo artístico quanto no amanei­
ramento, a liberdade na escolha de cada modelo, não deve, de fato,
ser iguorada. Além disso, W erner Hoffmann frisa também que,
"através da utilização de formas tomadas a outras obras, a estru­
tura do quadro divide-se em diferentes planos”, “os qUais muitaa
vezes são acoplados de um modo que chama a atenção: o delicado
aparece ao lado do grotesco, o comum ao lado do sublime” (p. 7).
Sobre isso também, convém ler os detalhes no original, pois facilita
tanto a compreensão da arte moderna quanto o estudo, ainda em
seus começos, da produção plástica esquizofrênica.
Já ouvimos dizer várias vezes que “o maneirismo” era pos­
sível em todas as épocas, embora só venha a se tornar dominante
em épocas bem determinadas para logo em seguida perder nova­
mente o seu domínio, tão subitamente quanto o conquistara. Isso
mostra-nos não somente que a “vida” da coletividade ou da socie­
dade está submetida às mesmas oscilações a que está submetida a
vida do indivíduo, mas também que essas oscilações devem remeter
de volta à relação da coletividade e da individualidade. Disso já se
falou. Aqui interessa-nos, em primeiro lugar, tão-somente a ma­
neira pela qual semelhantes mudanças “coletivas” são concebidas e
descritas. Pois disso só podemos tirar proveito para a compreensão-
de uma mudança individual — no caso dos esquizofrênicos —
concebida de um modo por demais unilateralmente biológico.
Assim, por exemplo, Goethe fala a propósito de semelhantes mu­
danças “epocais” que ''o círculo vivo de sentimentos e destinos
humanos foi exaustivamente elaborado” e "o conteúdo temporat
de uma época esgotado" 181 Essa elaboração exaustiva e esse “es­
gotamento do conteúdo temporal de uma época” são a expressão
da historicidade da existência humana em geral. Analogamente a
Goethe, diz Fr. Th. Vischer que haverá sempre manifestações tem­
porais que devem ser “postas de parte junto às figuras wwrtas
da consciência”,182 Vemos assim que e em que medida não so­
mente os sentimentos, destinos e “conteúdos temporais'' do “indi­
víduo" são exaustivamente “elaborados”, podem “esgotar-se” e

IS P u ts c h e S p rü h e (1817). Jub.-Ausg. t. 37, p. 93. — Grifo meu.


Eduard Mörike, K rit, Gänge, 2.a ed., p. 26. — grifo meu.
146 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

‘'morrer", mas também os da coletividade. Naturalmente não de-


Vemos mais, hoje em dia, tanto em face da coletividade quanto em
fáce da individualidade, proceder a uma separação rigorosa entre o
biológico e o espiritual, visto que já compreendemos quje ''vitali­
dade" e "espiritualidade" não são conceitos mutuamente eccclusivos!
De resto, essas mudanças "epocais" encontram seu enunciado mais
claro e pormenorizado no livro de Paul Tillich publicado sob o
título A Coragem de Ser :183

• Nem sempre é uma dúvida pessoal que vem solapar


e esvaziar um sistema de idéias e valores. Pode ser o fato de
que estes não são mais compreendidos em seu poder original
de exprimir a situação humana e dar resposta às questões
existenciais do homem. (Isso vale em larga medida para os
dogmas do cristianismo.) Ou então perdem o seu sentido
porque as condições reais da época atual são muito diversas
das condições soh as quais esses conteúdos espirituais foram
criados, de tal modo que se tornam necessárias novas cria­
ções. (Isso vale em larga medida para a expressão artística
anterior à revolução industrial do século X IX ). Em tais
situações, tem lugar um longo processo de desgaste dos
conteúdos espirituais, a princípio imperceptivelmente, para
depois, com o progresso desse processo, vir a ser reconhe­
cido com um choque que acaba por produzir o medo da
falta de sentido.

Que o conteúdo temporal de uma época se esgote, que as fi­


guras da consciência venham a morrer, que se desenvolva um longo
processo de desgaste dos conteúdos temporais, o qual acaba por pro­
duzir o medo da falta de sentido, tudo isso pode, mutatis mutandis,
ser transposto para as "mudanças epocais" na história do indivíduo.
Basta pensar nas ''mudanças epocais" da puberdade e no manei-
rismo (Manierismus) da puberdade e nas mudanças da velhice e
rio maneirismo da velhice, tal como o apresenta por exemplo o ma­
ravilhoso estilo da velhice de Goethe. Mas pensemos também ria/
“ mudanças epocais" que designamos como transformações existen­
ciais esquizofrênicas, nas quais tantas ''figuras da consciência''
"morrem", nas quais aparece um "processo de desgaste" tão radi­
cal das figuras espirituais e o medo da "falta de sentido" se mani­
festa. Mas pensemos também nos ''novos produtos" tão peculiares
acarretados pelo medo da falta de sentido, desde a "ideologia" da
extravagância, o sem-sentido da excentricidade, a "glacialidade du-

183 D er M u t zum Sein (trad. alemã de “The courage to he"), Stuttgart


1955, pp. 40 ss.
AMANEIRAMENTO 147

ramônte conquistada" do amaneiramento até o sucumbir sob o po­


der mais forte do terror. Aqui também, a questão do destino, para
falar com Pinder (cf. p. 121), é a questão se conseguimos conver­
ter em "objeto" a "esfera Vital doente", ou por outras, se consegui­
mos levar o indivíduo doente a "discernir'' "a esfera vital doente''.,
Na psiquiatria falamos, então, em ''compreensão interna" da doen­
ça, e, quando esta irrompe, consideramos "salvo" o doente.

2. Na Arte Literária

Enquanto o maneirismo nas artes plásticas cai no séc. XVI,,


o maneirismo literário, isto é, o maneirismo na prosa artística, na,
retórica e na poesia, só no séc. X V II vem a se tornar uma "moda
européia". Nós a encontramos entre as preciosas na França, no ma-
rinismo (designação derivada do nome do poeta Marini) na Itália,,
no eufuismo na Inglaterra, na segunda escola silesiana na Alema­
nha, mas em seu auge mais florescente no gongorismo espanhol
originado pelo poeta Góngora e seus seguidores.
Assim como no maneirismo nas artes plásticas, assim tam­
bém no maneirismo na arte poética, o que está em primeiro plano,
é o fato da imitação, a saber: da imitação de grandes modelos poé­
ticos, que de modo algum podem ser designados, sem mais, como.
maneiristas. Assim, por exemplo, Marini foi sem dúvida um autên­
tico e grande poeta. O mesmo vale com maior razão ainda para
Góngora. Como prova da última afirmação e para a demarcação da
grande e autêntica poesia em face do maneirismo, não podemos;
deixar de mencionar o "Hino" a Góngora, a ele dedicado por um
outro grande poeta espanhol: Garcia Lorca.184 García Lorca dá ên­
fase ao impulso de Góngora, derivado de uma necessidade natu-
ra/,1*5 que o impele a buscar uma nova beleza, e que vem unido a
uma sede de elegância metódica. Se García Lorca também fala de
uma "caça de imagens" em Góngora, não se pode ver, nisso ape­
nas, um sinal de maneirismo, visto que o poeta — assim como O
melhor discípulo de Góngora; Mallarmé — nada mais tem em vista
senão conferir alma e vida à natureza, e nada mais ama senão a
"pura beleza objetiva", a "beleza e qualidade do verso em si''. Mas.
nada diferencia melhor, a nossos olhos, o verdadeiro poeta e suaa

184 Cf. La imagen poética en Don Luis de Góngora (vol. 7 da 2.a ed. d a i
obras de García Lorca, ed. Losada, Buenos Aires, 1944). Devo a indicai
ção à amahilidade do prof. Friedrich de Freihurg i. Br.
185 Grifo meu.
148 T rês F orm as da E xistên cia M alograda

“imagens” do poeta maneirista e suas imagens ( = metáforas) do


que a possibilidade de dizer dele que sua imaginação é “de tafl mo­
do perfeita” que cada imagem é um mito criado e criador (um mito
creado). Pois isso só pode significar que não se trata de compara­
ções, símiles, metáforas puramente exteriores, por assim dizer ar­
rancadas pelos cabelos, mas de comparações, símiles e metáforas
que, como os símiles e imagens homéricos, de modo nenhum se li­
mitam a esclarecer, transfigurar, embelezar, aprofundar “o mundo”,
mas “criam” um novo mundo autônomo e que está além da distin­
ção entre mundo real e mundo da fantasia: o mundo sem par do
mito. Quando enxergamos a criação de um mito numa única ima­
gem, então podemos, de fato, falar em perfeição da imaginação
(poética).
Para evitar repetições excessivas, vamos proceder nesta secção
dé maneira diferente da precedente. Não indagaremos, portanto,
pelos elementos estruturais do maneirismo poético, que são da
alçada da estética e da teoria literária, e pela interpretação que a
ele se dispensou, mas vamos, em primeira linha, destacar os modos
de expressão, formas e fórmulas lingüísticas “típicas” do manei­
rismo na arte literária. Assim, para tomar exemplos fáceis de se
lembrar, não vamos considerar, por exemplo, a arte de Rilke, T.
S. Elliot ou Francis Ponge e perguntar até que ponto elas também
devem ser designadas como maneiristas, ou, por exemplo, inves­
tigar a essência do maneirismo na arte literária, considerando o
estilo da velhice de Goethe ou de Thomas Mann. Em vez disso
vamos dirigir nossa atuação imediatamente para a “moda” literá­
ria do maneirismo e seus “sintomas”.
As caracterizações dessa “doença da moda” literária asseme­
lham-se mais ainda às caracterizações feitas pela linguagem colo­
quial e pela clínica relativamente ao amaneiramento, do que as en­
contramos na história da arte plástica. Aqui também encontramos
as expressões: retorcido, rebuscado, estranho, empolado, artificioso,
sobrecarregado, alheio à realidade, etc. Mas, enquanto na Teoria
da Arte, tomada no sentido mais estreito da Teoria das Artes Plás­
ticas, nós buscávamos antes de mais nada uma compreensão do ma­
neirismo sob o ponto de vista histórico-estilístico antropológico,
psicológico e psicopatológico, deixando mais no fundo as diversas
formas, deformações e fórmulas artísticas, nós nos apoiamos aqui
numa obra científica na qual os diversos sinais característicos do ma­
neirismo literário estão por assim dizer catalogados, de tal modo
que podemos sem mais colocá-los ao lado ainda que, inicialmente
de maneira puramente exterior — das formas correspondentes do
A m a n eir a m en t o 149

amaneiramento no domínio da esquizofrenia. Essa obra é o livro,


que honra a Teoria Literária e a História da Cultura européias,
de Ernst Robert Curtius: A Literatura Européia e a Idade Média
Latina.18®
Nosso horizonte mais uma vez experimenta um alargamento
aqui; na medida em que Curtius mostra que também o maneirismo
literário não pertence somente ao século XV II, mas pode se encon­
trar desde sempre. Assim, o autor conta-nos que um professor de
Píndaro já compunha poemas nos quais nem um só aparecia, e
que na antiguidade tardia escreveram-se uma Ilíada e uma Odisséia,
síngularizadas pelo fato de que, em cada um dos cantos de que
essas obras se compunham, estava ausente uma determinada letra,
diferente em cada caso. Essa “brincádeirâ lipogramatica” (de
X£t7roYpá[Ji[i.a =*= omissão de uma letra) foi também utilizada pelo
autor de uma História Universal. Foi assim introduzida na tradi­
ção do ocidente latino para de novo emergir na Idade Média tardia
è na Espanha durante o século XVII, onde é erroneamente com*
preeíídida como sintoma do estilo barroco. Na verdade, trata-se
aqui de um “artifício maneirista”, cuja genealogia pode ser segui­
da ao longo de 2 mil anos {loc. c i t p. 284).
Sem querer incidir no erro que se cometeu ao se “descobrir*
a concordância de manifestações esquizofrênicas com fenômenos ar-
caicô-primitivos — e que consistia na construção de uma teoria para
a explicação dos primeiros a partir de uma regressão a estratos ar-
caico-primitivos na vida psíquica do homem moderno —, conside­
ramos indispensável para a compreensão existencial-analítica do
amaneiramento esquizofrênico remeter também a essa concordân­
cia. Já tomamos a Carl Schneider um exernplo de semelhante brin­
cadeira com letras, que se pode chamar de excêntrica,i87 deixando
em stispenso por enquanto a questão se a expressão “brincadeira”
(Spielerei) é a expressão indicada aqui e, neste caso, em que me­
dida a “brincadeira” esquizofrênica se distingue materialmente da
maneirista enquanto artifício ou enquanto uma brincadeira artís­
ticai188 A brincadeira esquizofrênica com letras «— para usar essa

106 Ernst Robert Curtius: Europäische Literatur und lateinisches Mitte­


lalter, Bern, Francke, 1948. Trad. port.: Literatura Européia e Idade
Média Latina, trad. T. Cabral, Inst. Nac. do Livro, 1957.
187 Substituição do u por um r, assim por exemplo, Wrnsch em Vez de
Wunsch ( = desejo), Zergnisse em Vez de Zeugnisse (testemunhos, cer­
tificados), Frndgegenstände em Vez de Fundgegenstände em Vez de Fund­
gegenstände (objetos achados), etc. Cf. Mon.-Schr. f. Psych. 124, p. 206.
188 Como é difícil e, às vezes, até mesmo impossível, essa distinção,
mostram-no alguns exemplos de Bumke, que já notara a semelhança entre
150 T r ês F o rm as da E xistên cia M alograda

expressão de uma maneira a princípio ainda obscura — não se


mostra, porém, unicamente na substituição arbitrária de uma de­
terminada letra por uma outra, mas assume também, como sabe
todo psiquiatra, uma forma lipogramática. Assim, por exemplo,
uma de minhas pacientes (Su.) às vezes omitia intencionalmente a
primeira letra: em vez de warmes Bad (banho morno), por exem­
plo, ela dizia armes Bad (banho pobre).
Nos esquizofrênicos, como se sabe, as omissões de sílabas são
mais freqüentes do que semelhantes omissões de letras. Uma outra
doente (Po.) omitia por vezes as sílabas finais. Exemplo: “Sou
muito temp(eramental) e gosto dessas flo(res).” Ao se indagar
por que falava assim, explicou: “Porque isso já agradou muito a
alguém”. Nesse caso podemos, de fato, falar de uma “brincadeira
divertida” e, com toda certeza, de uma intenção no sentido do “ou­
tro querer” de Gruhle. Encontramos também esse “corte artificial”
das sílabas finais na história da Literatura, por exemplo, nos arre-
biques verbais do escritor latino tardio Ausônio: por exemplo gan
em vez de gandium, tau em vez de taurus, min em vez de Minimum,
e depois, mais uma vez, nos versos cortados ou “de cabo roto”
da gíria de ladrões, um exemplo dos quais nos é dado por Cervan­
tes logo depois do prefácio do Dom Quixote. Aqui, o corte da sí­
laba final serve para a obtenção de rimas.
Os amaneiramentos esquizofrênicos são também evocados pela
tmesis,189 que se pode observar entre os espanhóis, ou seja, o des-
pedaçamento das palavras em sílabas e o preenchimento das síla­
bas separadas através de outras palavras ou frases no verso. Exem­
plo : O JO — versículos nexos quia despicis — A N N E S .1*0
Também têm relação com isso os chamados poemas de figuras,,
conhecidas desde a antiguidade, ou seja, poemas cuja imagem escri­
ta ou impressa imita a figura de um objeto (asa, ovo, machado, al­
tar, o globo imperial, a charamela). Todas essas analogias teriam
que ser mencionadas para a compreensão não somente dos “poe-
a “linguagem guindada” catatônica e a linguagem “amaneirada” dos livros
de cavalaria, que Dom Quixote tanto apreciava. Ele cita ( Tratado, l . a ed.v
p. £791; 7.a ed., p. 5352) as seguintes frases: “O sentido profundo do
sem-sentido que se oferece aos meus sentidos, abala, pois, de tal maneira
o meu senso, que devo em muitos sentidos me queixar de Vossa BeleZa”.
Ou: “Os altos céus que Vossa Divindade com os astros divinamente
habita vos levaram a honrar a honra, com o que fica honrado Vossa
AlteZa”.
I8í) N o grego t s ^lvco = corto.
19° “Ó João, por desprezares os versinhos c o n e x o s . . . ”, exemplo de
tmesis — divisão da palavra Joannes nas sílabas JO e annes — encontrado
em Eugênio de Toledo e referido por E. R. Curtius, loc, cit., p. 286; trad.
port.: p. 295, n.° 65. (N . do T.)
A m an eir a m en t o 151

mas de figuras” esquizofrênicos, mas também das criações plásticas


esquizofrênicas. Também o “assíndeto destinado a encher versos”,
a omissão da conjunção “e” tendo por fim o “acúmulo de palavras”
é algo que conhecemos a partir dos “poemas” (mas também da pro­
sa) dos esquizofrênicos. Essa “degenerescência maneirista do verso”
encontra-se desde Lucrécio e Horácio, passando pela Idade Média
e indo até Gryphius e Brokes. Essa longa seqüência já mostra, do
mesmo modo como as “degenerescências maneiristas” que acabamos
de nomear, que as semelhanças e concordâncias dos modos de ex­
pressão lingüísticos com as formas de expressão esquizofrênicas de
modo algum permitem que se infira, sem mais, a existência de uma
esquizofrenia nos autores em questão. Isso seria tão míope como a
pretensão de designar Picasso, Klee ou os modernos “primitivos”
ou surrealistas franceses como esquizofrênicos em razão da seme­
lhança de muitos de seus quadros, desenhos ou talhas com obras
plásticas esquizofrênicas. De um lado, modos de representação ar­
tísticos, que têm sua história, suas condições e aspirações artísticas,
do outro, produções puramente “pessoais”, a-históricas, que não
provêm de nenhuma tradição e, portanto, tampouco de uma “rup­
tura com a tradição”.
Até aqui, nos ocupamos com os maneirismos puramente for­
mais. Deles diz Curtius (loc. cit., p. 284; trad. bras.: p. 292), em
surpreendente consonância com a caracterização feita por Gruhle191
da excentricidade esquizofrênica: “O maneirista não quer dizer as
coisas de uma maneira normal, mas sim anormal. Prefere ao natu­
ral o artificial e artificializado. Quer surpreender, causar espanto,
ofuscar. Enquanto que só há uma maneira de dizer naturalmente as
coisas, o antinatural tem mil modos de se expressar.” Alguns des­
ses mil modos de se expressar são modos dos esquizofrênicos.
Lançando um olhar retrospectivo sobre o “outro querer” de Gruh­
le rio sentido do amaneiramento ou da excentricidade, temos mais
uma vez que dizer que o mesmo teria que ser designado mais cor­
retamente como um querer da alteridade. Mas ainda não está deci­
dido se aqui se trata realmente, em cada caso, de um querer da al­
teridade, como no caso de nossa paciente Po., ou de um não-poder
ou não -saber fazer de outro modo. A experiência psiquiátrica
quotidiana já mostra que aqui se pode tratar dos mais diversos ca-
sos-limite, transições, interferências.
Ao contrário dos maneirismos puramente formais, que se re­
ferem unicamente à forma lingüística, a História da Literatura co­
nhece uma enorme massa de maneirismos que se referem ao con­
teúdo intelectual. Tem a ver com isso, por exemplo, o já mencionado
191 Mon. Sehr. /. Psych. 124, fase. 4 /5 /6 , pp. 202 ss.
152 T rês F o rm as da E xistên cia M alograda

“estilo agudo ou conceituoso” (Pointestil), a dicção ou raciocí­


nio192 “agudos” e mesmo exageradamente sutis, próprios especial­
mente ao epigrama (loc. cit., pp. 293 ss. trad. bras.: pp. 302 ss.)-
Também tem a ver com isso o laconismo,193 que conhecemos tão-
bem da esquizofrenia, e, além disso, as figuras sonoras ou jogos de
palavras (annominatio ou paronomasia), etc. Mas, com isso, já
entramos no domínio da retórica.
As relações estreitas que subsistem entre o maneirismo lingüís­
tico e o maneirismo intelectual podem ser evidenciadas através de
um exemplo de Gracián (1601-1658) que lembra, por sua vez, os
amaneiramentos esquizofrênicos. Gracián divide a palavra espanho­
la Dios (Deus) em D l OS, em português: dei-vos (a terra, o céu,
a graça, tudo) e daí “infere” que “o senhor tomou o seu santíssi­
mo e augusto nome em nossa língua espanhola do verbo dar” ( loc.
cit,, p. 302; trad. bras.: p. 311).
A mesma maneira de ler “a partir das coisas (baseando-se em
seus nomes)” encontramos por exemplo no caso por nós descritos
de Lola Voss.104 Quando a sul-americana Lola encontra um cava­
lheiro com uma bengala em cuja extremidade está preso um anet
de borracha, ela tem que virar imediatamente as costas, sob pena
de se manifestar um gravíssimo ataque de angústia. Em espanhol,
bengala se diz bastón. Essa palavra, ela a divide em bast e on. Em
seguida, on é invertido em no (não). Borracha significa, em es­
panhol, goma, também essa palavra é dividida em go e ma, go si­
gnifica em inglês ir, no go = não ir, virar as costas!
O que é comum aos dois exemplos, o de Gracián e o de Lola,
é a “leitura” a partir do nome, ou por outras, a introdução de um
sentido nas palavras pela divisão das mesmas em suas síla­
bas. Esse “costume amaneirado” torna-se em Lola um arremeda
ou careteamento (Ver fratzung) lingüístico na medida em qtte ela,
tendo uma vez enveredado por esse caminho ( “método” ), pros­
segue sempre em frente, invertendo as sílabas e, como mostra o
nosso exemplo, passando também de uma língua para a outra. Se
já é possível, no caso do jesuíta Gracián, falar de uma brinca­
deira com palavras, que esconde, porém, uma fé real, em Lola
192 Cf. a declaração escrita de nossa doente Kö.: “Um canto de boca
torto e um pouco demais de seivas das plantas mudam (às vezes) o todo
do ‘mundo’ ”.
193 c f . nossa doente Wi.: depois de ter declarado (por escrito) que
Keller estaria num plano superior ao de “Goethe com suas musas”, pros­
segue imediatamente: “Vulpius ainda deu rapidamente ao último um filho
sem importância” (em vez de: um filho do qual sabemos que ele não
era muito importante).
194 Schweiz A rchiv f. N eur u. Psych. t. 63.
A m a n eir a m en t o 153

€sse jogo degenera em careteamento ou total distorção da lingua­


gem, mas que também esconde, por sua vez, uma distorção da fé
{Glaube), a saber: a superstição (Aberglaube) derivada de um
medo “sem fundo”. Em Gracián e em Lola, a linguagem é aliena­
da de seu verdadeiro sentido, a saber, da “palavra adulta” e do
mútuo entendimento, e submetida a um princípio puramente ex­
terno, mecânico, o princípio da divisão silábica, para em seguida
se atribuir às sílabas isoladas num sentido puramente arbitrário,
“sem compromissos”. Aqui, nem o homem se absorve na lingua­
gem como discurso, nem a trata “adequadamente”, isto é, de uma
maneira natural ou conforme à coisa, mas, sim, maltrata-a, ao
isolar, artificialmente, na ignorância de sua essência, uma “parte”
sua (o “corpo da palavra” ), para além disso decompô-la em ou­
tras partes. Ao invés de usar a linguagem como órgão de expres­
são e comunicação, abusa dela como se fosse um aparelho des-
montável, a fim de dar uma prova “literal” no sentido da fé ou
uma comprovação no sentido da superstição.
No que tange ao exemplo de Gracián, nós o designaríamos,
caso ocorresse em nosso tempos, como pelo menos extravagante
e, até mesmo, amaneirado, embora possa ter sido para seus “con­
temporâneos” um sinal da “agudeza”, da sutileza do autor.195 No
que diz respeito ao exemplo de Lola Voss, o juízo aqui também
há de hesitar. É verdade que até mesmo os contemporâneos de
Gracián teriam como certeza declarado que Lola ultrapassara
a medida do que então ainda se “permitia”. Mas o que nos inte­
ressa aqui é o juízo dos contemporâneos da própria Lola. Muitos
leigos tenderão a falar ainda de um “costume amaneirado” supers­
ticioso”, outros designarão seu comportamento como amaneirado,
e outros ainda como excêntrico, conforme o que pensarem
da superstição. Mas o perito, o psiquiatra não hesitará em falar
de um amaneiramento esquizofrênico ou de um “costume amanei­
rado” esquizofrênico. O analista existencial, ao contrário, evitará
dar um nome ao comportamento antes de ter discernido a forma
existencial que aqui se “manifesta”. Mas, com isso chegamos à

195 Esse condicionamento temporal d o juízo justamente nas coisas d a


linguagem, ninguém mais claramente o destacou do que Frostig em seu
trabalho penetrante: "Das schizophrene Denken (Phaenomenolg. Studien
zum Problem der widersinnigen Sätze. Leipzig: Thieme, 1929).
Ele mostrou como, por exemplo, as palavras “psicotécnica” ou “navio
a rotor” constituíam há cerca de 50 anos uma “condensação ou neolo-
gismo esquizofrênico” altamente estranhos, sendo hoje, porém, “uma ex­
pressão em pleno gozo dos direitos de uma denominação pertencente ao
vocabulário alemão” (p. 34). Ao mesmo tempo, examinou as condições
sociológicas e fenomenológicas de semelhante mudança.
154 T rês F o rm as da E xistên cia M alograda

profunda diferença que subsiste, sem prejuízo de todas as concor­


dâncias, entre os dois exemplos. A contraposição do maneirismo
como fenômeno pertinente à Teoria Literária e do amaneiramen­
to como fenômeno esquizofrênico não deve servir, é verdade, tão-
somente para exibir as concordâncias entre os dois, mas também,
e sobretudo, para mostrar como podem ser diferentes as formas
existenciais em cujo terreno “medram” esses fenômenos.
Se olharmos mais de perto, veremos, por conseguinte, que
a concordância dos dois exemplos só subsiste no tocante ao méto­
do exterior, à divisão mecânica das palavras em sílabas e ao inves­
timento das sílabas assim obtidas com um novo sentido. Em com­
pensação, abre-se um profundo abismo quando atentamos para a
forma existencial de que “se origina”, nos dois casos, esse “mé­
todo”. O método de Gracián consiste tão-somente em compreen­
der a partir do projeto mundano da forma existencial cristã em
geral e da teoria da linguagem que lhe é própria: a teoria da
origem divina da linguagem. A partir dessa teoria, o método de
Gracián é perfeitamente sensato e, mesmo, se se quiser, agudo.
Com Lola Voss é diferente. O método dela consiste, como mos­
tramos, em só compreender a partir de uma forma existencial cujo
projeto mundano está ameaçado da mais grave maneira pelo
medo, pelo medo da irrupção no ser-aí do terror puro. Aqui não
se chega mais a um projeto mundano sobre a base da fé, mas,
como dissemos, unicamente sobre a base da superstição. O mé­
todo da decomposição silábica e do investimento de sentido das
sílabas não se origina aqui de nenhum sentido religioso, que se
imponha de modo geral para a comunidade na fé cristã e a comu­
nidade da igreja cristã, um sentido fixado pela tradição cristã em
enunciados de validez universal, mas, sim, de um sentido pura­
mente privado, que se impõe apenas a este ser-aí determinado e
originário de sua angústia existencial, indispensável, porém, para
esse ser-aí, para a conservação de sua existência e de seu mun­
do.196 Lá, por conseguinte, um método cujo caráter privado con­
siste apenas no fato de provir, é verdade, da agudeza pessoal do
crente cristão em questão, mas que de resto se desenvolve sobre
o solo da forma existencial assegurada do cristão católico. Aqui,
um método no qual se trata de ser ou não ser, que representa,
pois, a última âncora de salvação da existência, cuia perda signi­
fica, como o mostra o desenlace do caso de Lola Voss, o deixar-
se dominar pela insânia. Mais ainda: lá, uma forma existencial

196 Esse exemplo já mostra que wle public, la galerie, les admirateurs,
etc.n de modo algum constituem uma condição essencialmente necessária
da possibilidade do amaneiramento.
A m a n eir a m en t o 155

aberta para todos os lados, cujo projeto mundano exibe um es­


tilo marcado. Aqui, uma existência totalmente encerrada ou fe­
chada no sentido de um palco estreito, para falar com Ellen
West :197 uma existência “cujas saídas estão todas tomadas”.
Agora compreendemos: o que importa não é o “sintoma”, mas a
forma existencial donde provém. A igualdade dos sintomas (aqui,
portanto, dos métodos) ainda não significa nada.198 Isso vale para
a esfera da criação plástica (pintura, escultura), do mesmo modo
como para a esfera da linguagem. Por essa razão, uma simples
visão de conjunto dos sintomas da esquizofrenia — mesmo que
estes sejam elaborados teoricamente de modo tão penetrante como
ocorre em Carl Schneider — não nos leva muito longe na com­
preensão das formas existenciais esquizofrênicas. Na Psicopatolo­
gia, portanto, não podemos nos contentar — como na botânica,
na zoologia ou na fisiologia — com a enumeração e a explicação
teórica das características e órgãos específicos dos gêneros e es­
pécies e com a descrição de suas “funções” e “interconexões fun­
cionais”, mas temos que voltar em cada caso à forma existencial
a partir da qual pode-se compreender a característica individual
constatável, o “sintoma”.

Retórica

Voltamo-nos agora para as exposições do maneirismo, para


nós particularmente interessantes, na retórica.
Cícero já distingue, em seu escrito Orator, o aticismo ( “a
primeira forma do classicismo europeu” ) e o estrangeiro asianis-
mo, originário da Ásia Menor ( “a primeira forma do maneiris­
mo europeu” ). Como também ocorre na esquizofrenia, devem-se
distinguir no último, segundo Cícero, dois gêneros estilísticos, o
jocoso-sentencioso e o empolado-pat ético. Eles não se deixam dis­
tinguir nitidamente, mas têm em comum a “busca de efeitos sur­
preendentes” (loc. cit., p. 74 trad. bras.: p. 69). Na Idade Mé­
dia, os destinos da retórica “não são mais determinados por uma
197 Cf. Schweiz. A rchiv f. Psych. u. Neur. t. 53, p. 18.
*98 c f . a esse respeito a parte sobre as “Manifestações catatônicas na
vida normal” do livro, pouco conhecido entre nós, de Johannes Lange:
Katatonische Erscheinungen im Rahmen manischer Erkrankungen, Berlim
1922. Também Lange constata aqui (p. 2 9), “que ocorrências exte­
riormente em tudo semelhantes correspondem a mecanismos perfeitamente
diversos”. Essa diversidade, porém, deve ser descoberta em cada caso
individual. Ela não deve ser, como verificamos em Reboul-Lachaux, deci­
dida dogmaticamente de antemão.
9SI T rês F orm as da E xist ên c ia M alograda

evolução histórica viva. Ela exibe os sintomas de degenerescên-


cia, do enrijecimento, da perda de substância, do careteamento ou
arremedo {Verfratzung)” (p. 79). Vemos que o historiador em­
prega aqui as mesmíssimas expressões que usamos para o des­
crever o “destino” do esquizofrênico: falta de evolução histórica,
enrijecimento, perda de substância e — o que aqui mais nos in­
teressa — careteamento ou arremedo. Pois é conhecido o papel
que o arremedo ou careteamento desempenha, sob uma forma
qualquer, na mímica, nos gestos, na fala e no desenho, bem como
no teste de Rorschach, na esquizofrenia. Amaneiramento e “ca­
reta” (Fratze) ou esgar ( Grimasse) estão intimamente interliga­
dos. “Careta” é a expressão para a distorção da face, para o
esgar,m A expressão Verfratzung, que traduzimos por arremedo
ou careteamento, deve sua origem ao princípio da pars pro toto,
pois em todo amaneiramento200 é inerente a tendência à distorção
e, desse modo, para a “careta” de toda espécie.
Como primeiro exemplo retórico, mencionaremos:

O Hipérbato e a Anástrofe

Que a retórica antiga e medieval constitua uma mina parti­


cularmente rica para o maneirismo é tanto mais compreensível que,
desde sempre, um dos principais interesses da retórica era dar
instruções para o ornatus, para a exornação, o enfeite, a pompa
do discurso. Mas nada degenera mais facilmente em amaneira­
mento bem como em maneirismo no sentido de “afetação” e “me­
lindre” ["Ziererei” und “Geziertheit” — derivados de zieren:
enfeitar, adornar — N. do T.] do que o ornamento. Curtius co­
meça o capítulo sobre retórica e maneirismo (p. 276 — tr. bras.
p. 281) com o hipérbato?**1 que significa, como nos ensinam os di­
cionários de grego, a ordem transposta, deslocada ou “posta de
199 Cf. a esse propósito o exemplo do auto-retrato no espelho defor-
mante, e ainda Roland Kuhn: Über Maskendeutungen im Rorschach-
Versuch. Basiléia, 1944, 2.* ed., 1954.
000 N ão devemos dizer: em todo maneirismo. Pois, se essa frase tem,
como vimos, validade para muitas formas de exposição maneiristas. ela
não o tem para o maneirismo em geral. Basta pensar em Tintoretto
ou no último Miguel Ângelo! Tanto Curtius quanto Pinder ou Sedl-
mayer, entre outros, partem de uma avaliação muito mais positiva do
maneirismo. Em nosso contexto, todavia, o destaque dos aspectos “nega­
tivos” do maneirismo é particularmente instrutivo.
De U7repgatvc0, v, transitivo == jogar por cima de, por exemplo, jogar
a perna por cima do cavalo, a fim de colocá-la sobre o flanco direito
(X enofonte).
A m a n eir a m en t o 157
través”202 das palavras. Aqui se trata, como os gregos e os lati­
nos sabiam desde a escola, de uma colocação de palavras mais
livre, na qual as palavras relacionadas gramaticalmente são sepa­
radas por palavras intercaladas, Como todo ornatus, as épo­
cas maneiristas “acumularam” também essa figura do discur­
so “indiscriminada e insensatamente”. Deparamos com um hipér-
bato latino ou latinizado ainda “permissível”, quando Cícero diz,
em vez de “orationem in duas partes divisam esse” ; “in duas di­
visam esse partes”, ou quando um espanhol diz, em vez de “por
manos artificiosas de Vulcano” : “por manos de Vulcano artifu
ciosasf\ O maneirismo espanhol e, sobretudo, o dos repetidores de
Góngora “brincou” com essa figura, tornando-a cada vez mais
longa. Semelhante jogo exige, de qualquer modo, um certo discer­
nimento e ponderação a fim de levar a cabo de maneira conse­
qüente a intenção desejada, o jeito amaneirado. Certamente, se­
melhante intenção pode também guiar determinados esquizofrêni­
cos em sua colocação das palavras, ao passo que, em outros, a in­
tenção ou bem se converte em estereotipia, como mostrou Klási,
ou bem de todo falta, de tal modo que temos que compreender a
ordem das palavras como uma expressão imediata da forma exis­
tencial esquizofrênica.203
A “construção mais livre” dos esquizofrênicos vai, contudo,
além do “acúmulo indiscriminado e sem sentido” da comutação
da ordem das palavras, de tal modo que temos que falar de uma
anástrofe, de uma inversão da ordem normal das palavras.204 Dou
alguns exemplos de nossa paciente Wi.
202 Observe-se aqui também o emprego da expressão “de través**, ou
seja, “atravessado”, que em geral se usa para descrever a excentricidade.
203 A# distinções entre um procedimento imediato ou mediato, inten­
cional ou não*intencional, “consciente” e “inconsciente” são, todavia, com a
já dissemos, de importância secundária para o ponto de vista existencial-
analítico. Pois é preciso compreender também as “intenções” em questão
como expressão da forma existencial esquizofrênica. É interessante que
Prinzhom já atribuía “pouca importância” a essa distinção em suas inves­
tigações sobre as criações plásticas dos doentes mentais. (Cf. Gibt es
schizophrene Gestaltungsmerkmale in der Bildnerei der Geisteskrankhei­
ten?”, Z. Neur. 78, 1922, p. 528). Pois, se ele descreve o “sentimento”
de que somos tomados em face das criações dos esquizofrênicos e quo
“pode se intensificar desde o sentimento de estranheza, de isolamento
e de uma inquietação” causada por algo de estranho até o pavor que nos
deixa inteiriçados — quando vivenciamos pelo menos um “reflexo” de
seu estado mental — , ela acrescenta que a questão, se o autor pôs consci­
ente ou inconscientemente em sua obra aquilo que nos comove, teria
“pouca importância para o processo total” .
204 Com a tmesis, o “despedaçamento” de uma palavra, também a anás­
trofe tem um papel a desempenhar na literatura medieval. Cf. Curtius,
loc. cit., p. 417; trad. bras.: p. 434.
158 TRÊs FORMAs DA EXistÊNCiA MALOGRADA

1. "Mozart não e Haydn estão genialmente em atividade.


Mozart e Haydn não estão genialmente em atividade.

Vamos nos abstrair inteiramente, por enquanto, do conteúdo


de semelhantes frases, bem como do neologismo que se mostra
aqui (''genial im-Zug-sein" — estar genialmente em atividade).
O que nos importa é, primeiro, a constatação da ''ordem colo­
cada de través", do través pura e simplesmente, segundo, a cons­
tatação de que esse través, logo a excentricidade, tem as mais
íntimas relações com o arrevesamento ou amaneiramento. Se, ao
invés de "Mozart e Haydn", lemos; "Mozart não e Haydn", não
temos de modo algum apenas a "impressão" do atravessado, mas
constatamos que aqui algo atravessou o caminho da ordem das
palavras, a saber o "não", da mesma maneira como constatamos
por exemplo, ao viajarmos de carro, que um tronco está atraves­
sado sobre o caminho. Em ambos os casos perguntamos: o que
é que está aí à nossa frente, o que é que está aí atravessado em
hosso caminho? Para continuar em frente, seja no carro, seja
em nossa compreensão, é preciso primeiro remover o obstáculo.
A remoção do obstáculo na compreensão dessa seqüência atraves­
sada de palavras só é atingida quando conseguimos divisar o
"mundo" (o projeto do mundo) a partir do qual semelhante
obstáculo pode ser compreendido. Então, essa seqüência não
e mais nenhum obstáculo para nossa compreensão, nós a com­
preendemos e, compreendendo, podemos "continuar", “prosse­
guir". Mas, em ambos os casos, podemos "constatar'' outra coisa
ainda — desde que sejamos treinados fenomenologicamente — a
saber, a essência do través enquanto tal, o torto, o desvio da reti­
dão (em todo sentido da palavra). 205 Contudo, voltemos aos nos­
sos exemplos.
Nas expressões linguísticas dos esquizofrênicos encontramos,
como se sabe, com particular freqüência, a inversão da ordem gra­
matical do substantivo e do objetivo. Exemplo:

2. "Açucaradas nozes vivem exuberantes em A m a lf*


(WL)

ou, juntamente com outros arrevesamentos Verbais:

3. "Porque já meu tio me trouxe artificiais flores de Be-


lém” (W L), em Vez de:
206 Cf, Excentricidade.
AMANEIRAMENTO 159

"Porque meu tio já me trouxe flores artificiais de Be­


lém.''

Enquanto a frase é "fluente" nessa seqüência de palavras, a


seqüência escolhida por Wi. é "picada", dividida em fragmentos
de frases. Um semelhante fragmento de frase é, por exemplo, "já
meu tio", como no primeiro exemplo "Mozart não".206
Mais algumas palavras a respeito do segundo exemplo. Se
dizemos, em alemão, de uma raça humana, de uma espécie animal
ou vegetal, a título de algo que cresce, que elas "sind zuhause'*
[lit.: "estão em casa", isto é, vivem, crescem, estão aclimatada»
ou têm o seu habitat] no Norte ou no Sul, neste ou naquele con­
tinente, não o dizemos seguramente de algo feito como, por exem­
plo, um produto de confeitaria (nozes açucaradas). Se dizemos
que a expressão “zuhause” nos dá aqui a impressão de amaneira-
da ou mesmo excêntrica, temos, porém, que entender de que coisa
se trata aqui, a saber, de um mundo (no sentido de um projeto
de mundo) no qual não subsiste nenhuma diferença entre as
coisas que crescem naturalmente e as feitas! É só porque as coisas
se passam assim no "mundo dos esquizofrênicos" que o esquizo­
frênico pode "confundir” as expressões dessa maneira. Ele não
precisa de modo algum querer ser ou dar a impressão de amanei­
rado. Ao contrário, o nivelamento significativo do mundo, mais
corretamente: o nivelamento das significâncias (até a completa su­
pressão de sua diversidade) é a condição de possibilidade de tais
confusões ou deslocamentos expressivos. Pertence à essência de
semelhante projeto de mundo enquanto um projeto jogado que as
correspondências entre os todos finalizados ou significâncias mun­
danas — ou, como diz Goethe, as "relações vitais naturais” —
comecem a vacilar ou sejam suprimidas, como ocorre aqui entre
os todos finalizados das coisas crescidas e das coisas feitas, no
caso Hae. (cf. Excentricidade, segundo exemplo), entre o todo
finalizado da alimentação e do resfriamento, no caso de muitos
assassinatos esquizofrênicos, entre o todo finalizado vida e a fina­
lidade morte. A identificação das coisas feitas e das coisas cresci­
das fica mais ressaltada ainda pelo “wuchenderdes Zuhausessein”
[lit.: estar-em-casa exuberante] dos produtos da confeitaria. As

206 Encontramos a inversão das palavras até mesmo dentro de uma


mesma palavra composta. Assim, a mesma doente Wi. escreve numa carta
"Gesichtsgemahlzüge", em vez de "Gesichtszüge Ihrer Gemahlin" [ = tra­
ços fisionômicos de sua esposa — a expressão inventada pela doenta
podendo ser restituída aproximadamente em português por; “traços esposo-
fisionôrnicos" — trad.].
160 T rês F o rm as da E xistên cia M alograda

coisas feitas só podem ser “exuberantes” onde não estãó mais em


oposição às coisas que crescem naturalmente.
Pergunta-se agora se o discernimento da obliteração dos li­
mites entre os todos finalizados ou significâncias também nos pode
aproveitar para a compreensão da dissimulação da seqüência gra­
matical. No que concerne ao emprego e acúmulo artístico-manei-
rista do hipérbato, seu maneirismo consiste em que a linguagem
não se expressa mais aqui como discurso, no sentido da “compre-
«nsibilidade situada” ( der “berfindlichen V erstänplichkeit) origi­
nária do ser-no-mundo,207 mas é tratada como um “instrumento
disponível intramundanamente”. O maneirismo consiste, portanto,
no fato de se lidar com ela como se ela fosse um instrumento a se
polir, a se enfeitar ou a se ornar de arabescos. O que aqui se
“expressa” não é o ser-no-mundo enquanto um ser-no-mundo ar­
tístico ou enquanto “arte”, mas a vontade do adorno, do enfeite,
mas também de exagerar e desconcertar o outro e de fazer alarde
com sua própria “obra”, de brilhar com a sua própria “realiza­
ção”. Se tudo isso pode se ocultar também por trás de uma obra
de arte maneirista, isso ocorre, no entanto, em razão da tradição
e da comunicação. Pois até mesmo o maneirista artístico, até o
surrealista, ainda quer ser compreendido, apesar de dificultar o seu
entendimento com o seu jeito amaneirado. Mas de modo algum
devemos transpor tudo isso sem exame para a linguagem e as for­
mas existenciais esquizofrênicas, ainda que seja no sentido do
outro querer ou da vontade de alteridade de Gruhle. Certamente,
muitas vezes constatamos nos esquizofrênicos uma “vontade de se
amaneirar”, por exemplo, quando nosso doente Wa. declara ex­
pressamente que ele agora só fala “simbólico-alegoricamente”. Mas
semelhante vontade já é, por sua vez, “excêntrica”. No que diz
respeito à nossa paciente Wi., ela demonstrava uma nítida neces­
sidade de ser admirada, tomava-se por um gênio capaz de dese­
nhar, pintar, compor, filosofar. Apesar disso, precisamos ser pru­
dentes. com a tentativa de “explicar” seu jeito amaneirado de falar
por uma intenção deliberada, por exemplo a intenção de chamar a
atenção, de “brilhar”, de se “impor”, de tomar modos afetados.
Como é que — é preciso perguntar — a doente Wi. exibe o
mesmo estilo lingüístico “amaneirado” de centenas de outros es­
quizofrênicos ? Em outras palavras: como é que semelhante inten­
ção — supondo que ela exista — pode levar a um estilo lingüís­
tico tão claro, tão inconfundivelmente esquizofrênico? O que im­
porta não é a existência ou a ausência da intenção, mas, sim,
207 Cf. Heidegger, Sein und Z eit, p. 34. Ser-aí e discurso. A linguagem,
pp. 160 ss.
A m a n e ir a m e n t o 161

aquilo que — seja com ela, seja sem ela — se mostra aos olhos
ou aos ouvidos do pesquisador. O doente lida, de fato, com a lin­
guagem como se ela fosse um instrumento disponível intramun-
damente. Esse lidar-com, quer intencional, quer não, não é aqui,
porém, a expressão de uma intenção artística. Ele não está nem
dentro de uma nem contra uma tradição, nem tampouco precisa
ter um fim qualquer. Antes pelo contrário, uma só coisa é certa:
quando o discurso é de tal maneira “desfigurado” e, mesmo, mu­
tilado', o ser-aí que nele se expressa necessariamente experimen­
tou uma modificação correspondente a essa maneira de expressar
e comunicar. A natureza dessa modificação, só a consideração exis­
tencial-analítica do amaneiramento pode vir a mostrá-la.

Excurso sobre a Desagregação

Daqui até a desagregação como uma forma existencial esqui­


zofrênica “além” da extravagância, da excentricidade e do ama­
neiramento, é só um passo. Justamente a nossa doente Wi. exibe
todas as transições do modo de se expressar amaneirado até o
desagregado. Assim, escreve:

"Infelizmente, há muitas mulheres bonitas, mas todos os


homens são feios. "

Depois da palavra infelizmente deveríamos esperar, visto que


aqui se tratâ de uma antítese (“mas” ) : mas felizmente ou graças
a Deus nem todos os homens se deixam enganar por elas. ( Visto
que se trata de uma pessoa eroticamente exigente, pode-se supor
que, com esse “infelizmente”, estava pensando em suas “muitas”
rivais). Em vez disso, a antítese visada lingüisticamente perde
todo o seu sentido conceptual, visto que a constatação da feiúra
de todos os homens não constitui nenhuma oposição conceptual à
lamentação de que haja muitas mulheres bonitas. A doente fica
presa aqui na mera abstração da “oposição” enquanto tal, lingüis­
ticamente expressa através da oposição de “infelizmente” e “mas”,
conceptualmente representada pelos opostos homens e mulhe­
res, bonito e feio, muitos e todos, mas não consegue chegar a um
preenchimento de sentido (Sinnerfüllung) concreto desses opostos.
Ela paira — como diria Curt Schneider — na vaga estrutura de
sentido de uma oposição genérica, sem chegar a uma concretização
“sólida” e “bem estabelecida” da oposição enquanto tal num de­
terminado conteúdo significativo lógico. Todavia, se formulamos os
fatos assim, não devemos esquecer jamais que essa “falta de ló-
160 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

coisas feitas só podem ser "exuberantes" onde não estão mais em


oposição às coisas que crescem naturalmente.
Pergunta-se agora se o discernimento da obliteração dos li­
mites entre os todos finalizados ou significâncias também nos pode
aproveitar para a compreensão da dissimulação da seqüência gra­
matical. No que concerne ao emprego e acúmulo artístico-manei-
rista do hipérbato, seu maneirismo consiste em que a linguagem
não se expressa mais aqui como discurso, no sentido da "compre-
ensibilidade situada" (der "berfindlichen Verstänplichkeit) origi­
nária do ser-no-mundo,207 mas é tratada como um "instrumento
disponível intramundanamente". O maneirismo consiste, portanto,
no fato de se lidar com ela como se ela fosse um instrumento a se
polir, a se enfeitar ou a se ornar de arabescos. O que aqui se
"expressa" não é o ser-no-mundo enquanto um ser-no-mundo ar­
tístico ou enquanto "arte", mas a vontade do adorno, do enfeite,
mas também de exagerar e desconcertar o outro e de fazer alarde
com sua própria "obra", de brilhar com a sua própria "realiza­
ção". Se tudo isso pode se ocultar também por trás de uma obra
de arte maneirista, isso ocorre, no entanto, em razão da tradição
e da comunicação. Pois até mesmo o maneirista artístico, até o
surrealista, ainda quer ser compreendido, apesar de dificultar o seu
entendimento com o seu jeito amaneirado. Mas de modo algum
devemos transpor tudo isso sem exame para a linguagem e as for­
mas existenciais esquizofrênicas, ainda que seja no sentido do
outro querer ou da vontade de alteridade de Gruhle. Certamente,
muitas vezes constatamos nos esquizofrênicos uma ''vontade de se
amaneirar", por exemplo, quando nosso doente Wa. declara ex­
pressamente que ele agora só fala "simbólico-alegoricamente". Mas
semelhante vontade já é, por sua vez, "excêntrica". No que diz
respeito à nossa paciente Wi., ela demonstrava uma nítida neces­
sidade de ser admirada, tomava-se por um gênio capaz de dese­
nhar, pintar, compor, filosofar. Apesar disso, precisamos ser pru­
dentes, com a tentativa de "explicar" seu jeito amaneirado de falar
por uma intenção deliberada, por exemplo a intenção de chamar a
atenção, de "brilhar", de se "impor", de tomar modos afetados.
Como é que -— é preciso perguntar - a doente Wi. exibe o
mesmo estilo linguístico ''amaneirado" de centenas de outros es­
quizofrênicos ? Em outras palavras: como é que semelhante inten­
ção — supondo que ela exista — pode levar a um estilo lingüís­
tico tão claro, tão inconfundivelmente esquizofrênico? O que im­
porta não é a existência ou a ausência da intenção, mas, sim,
207 Cf. Heidegger, Sein und Zeit, p. 34. Ser-aí e discurso. A linguagem.
PP. 160 ss.
AMANEIRAMENTO 161
aquilo que — seja com ela, seja sem ela — se mostra aos olhos
ou aos ouvidos do pesquisador. O doente lida, de fato, com a lin­
guagem como se ela fosse um instrumento disponível intramun-
damente. Esse lidar-com, quer intencional, quer não, não é aqui,
porém, a expressão de uma intenção artística. Ele não esta nem
dentro de uma nem contra uma tradição, nem tampouco precisa
ter um fim qualquer. Antes pelo contrário, uma só coisa é certa:
quando o discurso é de tal maneira "desfigurado" e, mesmo, mu­
tilado, o ser-aí que nele se expressa necessariamente experimen­
tou uma modificação correspondente a essa maneira de expressar
e comunicar. A natureza dessa modificação, so a consideração exis-
tencial-analítica do amaneiramento pode vir a mostrá-la.

Excurso sobre a Desagregação

Daqui até a desagregação como uma forma existencial esqui­


zofrênica ''além" da extravagância, da excentricidade e do ama­
neiramento, é só um passo. Justamente a nossa doente Wi. exibe
todas as transições do modo de se expressar amaneirado até o
desagregado. Assim, escreve;

*Infelizmente, há muitas mulheres bonitas, mas todos os


homens são ieios."

Depois da palavra infelizmente deveríamos esperar, visto que


aqui se tratà de uma antítese (''m a s " ): mas felizmente ou graças
a Deus nem todos os homens se deixam enganar por elas. (Visto
que se trata de uma pessoa eroticamente exigente, pode-se supor
que, com esse "infelizmente'', estava pensando em suas "muitas"
rivais). Em vez disso, a antítese visada lingüisticamente perde
todo o seu sentido conceptual, visto que a constatação da feiúra
de todos os homens não constitui nenhuma oposição conceptual à
lamentação de que haja muitas mulheres bonitas. A doente fica
presa aqui na mera abstração da "oposição" enquanto tal, lingüis­
ticamente expressa através da oposição de "infelizmente" e ''mas'',
conceptualmente representada pelos opostos homens e mulhe­
res, bonito e feio, muitos e todos, mas não consegue chegar a um
preenchimento de sentido ( Sinnerfüllung) concreto desses opostos.
Ela paira — como diria Curt Schneider — na vaga estrutura de
sentido de uma oposição genérica, sem chegar a uma concretização
"sólida" e "bem estabelecida" da oposição enquanto tal num de­
terminado conteúdo significativo lógico. Todavia, se formulamos os
fatos assim, não devemos esquecer jamais que essa "falta de ló­
162 T rê s F o rm as da E x istên cia MALOGRADA

gica", esse "distúrbio do pensamento" de modo algum significa


algo de derradeiro, ou seja, não devemos esquecer que de modo
algum chegamos aqui "ao fundo". O pensamento nao pode — sem
sequer mencionar que todas essas categorias conceptuais psicoló­
gicas constituem puras abstrações — de modo algum estar "pri­
mariamente perturbado". As significações conceptuais e lógicas só
exibem um ''distúrbio", quando o ser-aí — Visto que ele nao
"Vive" originariamente de modo algum em significações, em signi-
ficancias268 — está alterado em suas relações vitais (Goethe), ou,
para expressá-lo existencial-analiticarnente: em seu modo de re­
meter a . . . ou destinar a um fim (bewendenlassen). Deixando de
íado a questão se Wi. renuncia a um preenchimento de sentido
concreto ou não consegue prencher um sentido, é preciso ter sem­
pre em mente que um ser-aí, como o que se expressa aqui, Vive
em outras significâncias ou relações vitais diferentes das nossas, ou
pelo menos, que ele "mistura" essas relações Vitais, apaga os seus
"limites'', e não tem mesmo o menor interesse em reconhecer se­
melhantes limites. Vimos nisso, aliás, a essência da excentricidade.
Falta aqui o interesse ou a necessidade de se expressar "com cla­
reza e distinção", tanto com relação à formulação dos próprios
pensamentos quanto, sobretudo, com respeito a um entendimento
claro com os outros. É isso o que desperta em nós não somente
a impressão do lúdico, mas também mostra um ser-aí que não se
deixa absorver na ''seriedade da vida'' (nem sequer em sua sus­
pensão pelo jogo, ao qual é sempre inerente uma seriedade própria
do jógo), mas que se absorve no desinteresse, ou, para expressá-lo
positivamente, no lúdico. Com certeza, esse caráter lúdico é uma
característica daquilo que denominamos autismo esquizofrênico.
Mas, por esse autismo nao se deve compreender, como já observa­
mos, de modo algum um isolamento no mundo, mas um comporta­
mento específico para com o mundo e também para com o mundo-
comum
Ainda um exemplo da mesma doente W i.:

"Dançar e cantar também não sei, mas, se eu soubesse»


quase todas as profissões me ficariam bem ”.

Aqui também, formulada numa frase condicional (se


. . . então . . . ) uma formação lógica ainda se apresenta intui­
tivamente a n ó s209 enquanto tal, a saber; a estrutura da

208 Cf. “Über Sprache und Denken", Studia philosophica vol. VI, 1946
e Ausgewählte Vorträge und Aufsätze, vol. II, Berna 1955.
209 As formações-de-sentido lógicas são tamhém dados originários ou
accessíveis à intuição. Cf. Husserl, Investigações Lógicas, II, 2.
AMANEIRAMENTO 163

condição lógica. Mas, uma vez mais; não se chega a urn nre-
enchimento-de-sentido concreto dessa formação-de-sentido ló­
gica. Não compreendemos mais como o saber cantar e dançar
pode tornar apto para quase todas as profissões, mas vemos
ainda, de qualquer modo a insistência num outro todo-de-
sentido que se pode dizer "estético" no sentido mais amplo
do termo. A doente não emprega a palavra “apto” exigida
pelo sentido lógico (se sabe fazer algo, então é apto), mas
a expressão "ficar bem", permanecendo, por conseguinte,
na esfera "estética" aberta pelo canto e pela dança. Por­
tanto, aqui tamhém, as fronteiras entre os diferentes traços
vitais ou significâncias, entre o logicamente dotado de sen­
tido e o esteticamente dotado de sentido, não são respeitadas,
não existindo, pois, nenhum interesse em respeitar essas fron­
teiras. Não devemos, porém, afirmar que não haveria abso­
lutamente nenhum interesse aqui, pois, abstração feita talvez
de certos estados esquizofrênicos finais, há sempre um.
Assim, é exatamente o interesse estético (no mais amplo
sentido de Kierkegaard), predominante na doente Wi. e que
domina sua existência, que desloca para o segundo plano
o interesse lógico.

Outros exemplos de outros doentes ;

“Fiz soar o s sinos da igreja de alegria porque não pude ir ao


toalete e fui forçado a urinar ao ar livre" (Kru.).
“Estou morto, queria dizer, meu joelho está doendo” (Wa.).
O circense não é espiritual, apesar das primaverinhas no
carro da cruz vermelha" (Ste.).

Analisei mais pormenorizadamente um exemplo proporciona­


do pelo mesmo doente na conferência: "Que tarefas resultam dos
progressos da psicologia moderna para a psiquiatria ?"210 Segundo
esse exemplo, a diferença entre a criança e o anão consistiria em
que wm poderia ser a polícia, o outro a polícia branca.
Para não ficar muito prolixo, observemos apenas que a desa­
gregação se diferencia da excentricidade porque os contextos de
remetimentos não só "se tornaram aqui lábeis", mas estão mais ou
menos nivelados ou não desempenham mais papel algum. Isso
significa, porém, que o ser-no-mundo enquanto desagregado nao
projeta mais nenhum projeto de mundo, ou então, só projeta
"farrapos'' inteiramente desconexos do mundo. A desagregação
distingue-se, por sua vez, do amaneiramento pelo fato de que o
ser-aí não busca mais aqui nenhum ponto de apoio, pura e simples­

210 "Welche Aufgaben ergeben sich für die Psychiatrie aus den Forts­
chritten der neueren Psychologie?”, Z. Neur. t. 91, p. 415 e A usgew.
Vortr. u. Aufs., vol. II, pp. 124 ss.
16 4 T rês F o rm as da E xistên cia M alograda

mente não quer mais ser apoiado, nem mesmo da maneira a ser
descrita mais abaixo, a saber: pela pro-posição ou sobre-pesa-
mento de um modelo ante-posto, colocando à frente uma idéia
pré-estabelecida, ou formando a imagem de um protó-tipo (in der
Weise, dass es sich eine Vor-Lage vor-legt oder über-legt, eine
Vor-Stellung vor-steUt oder am Vor-Büd ein-bildet),211 de tal
modo que ele não se temporaliza mais conservando e aguardan­
do (behaltend-gewärtigend), mas pura e simplesmente e numa se­
qüência de pontos instantâneos do agora.

A Perifrase

Aqui também se trata de uma forma artística poética e retó­


rica praticada em todos os tempos. Ela já existia, quando Píndaro
desiguava o mel como o "trabalho alveolado das abelhas", e já
demonstrava um emprego abusivo quando o poeta romano Estácio
(45-96 d. C.), ainda muito lido e enaltecido na Idade Média, des­
creve a escada como "inúmeros degraus cercados por árvores de
ambos os lados, um caminho aéreo" (Curtius, p. 278; trad. bras.:
p. 285)212 Se lêssemos, em nossos dias, uma semehante perifrase

211 ^ Binswanger faz aqui uma série de jogos de palavras quase intra-
duzíveis com as seguintes expressões; Vorlage (a coisa que serve de
modelo, amostra, padrão para a produção de uma outra coisa — por
exemplo, uma gravura a ser reproduzida), derivada do verbo vorlegen
= pôr (legen) à frente (vor), apresentar, propor. Überlegung — reflexão,
premeditação, de überlegen (v. "indivisível") = refletir sobre, meditar,
considerar, premeditar — mas Binswanger relaciona a palavra também
o outro verbo überlegen (v. "divisível"), que significa pôr em cima ou
por cima de (o verbo "sobrepesar" ( = refletir) admite um jogo seme­
lhante ao que Binswanger faz com a ambigüidade de "überlegen") Vors-
tellungs — idéia, representação, de (sieh) vorstellen — imaginar, fazer idéia
•— Binswanger relaciona-o, porém, também com vorstellen — colocar à
frente, apresentar Vorbild = modelo, protótipo, exemplo — literalmente:
a imagem (Bild) à frente (vord ). Binswanger relaciona essa palavra com o
verbo (sich) einbildens imaginar-se, ter-se na conta de, presumir-se —
ignorando, porém, seu caráter pronominal. Ein-bilden, pode ser assiin
traduzido pura e simplesmente por imaginar. (N. do T.)
212 Cf. a esse propósito o exemplo (esquizofrênico) de Gruhle citado
anteriormente; escada = "intermediário necessário da ahóhada da casa".
Um exemplo altamente instrutivo do Edda pode ser buscado no ensaio
do mesmo nome de R. A. Schröder (Ges. Werke II, 1952, pp. 762 ss.).
Em meio a "uma narrativa das mais desanimadas" a mulher é descrita
como “a senhora do leito do dragão", certamente porque "a mulher en­
quanto portadora de jóias e guardiã do tesouro é a ‘senhora do ouro’, —
também um tropo muito usado; o ouro, porém, é o leito do dragão, na
medida em que Fafnir, o ‘dragão’, nele se deitou” .
A m a n e ir a m e n t o 165
num texto comum, nós a designaríamos imediatamente como es­
quizofrênica. E, no entanto, aqui também a aparência é enganosa.
O que há de comum em ambas maneiras de se expressar, a artis-
tico-maneirista e a esquizofrênica, é, para empregar a designação
goetheana a que tantas Vezes recorremos, o desaparecimento da
relação vital natural. "Tudo", diz Goethe,213 "que o homem
enuncia de um modo naturalmente livre são relações Vitais". Essa
observação, já citada por Curtius, tomada aos "Elementos pri­
mordiais da Poesia Oriental", nas notas e estudos elaborados por
Goethe para a composição de seu Divã mostra com toda clareza
o que há de comum nas formas artísticas maneiristas e nas formas
esquizofrênicas (lingüísticas e plásticas): a perda das relações
vitais naturais ou da "primeiríssima expressão vital e natural" e
a impossibilidade correlata de se expressar "livremente". Nos
dois casos, a linguagem não é mais produtiva, nem no sentido re­
tórico, nem no sentido poético.214 Em vez das relações vitais "na­
turais'', surgem relações "antinaturais", a se exibirem numa mul­
tiplicidade que mal se pode abranger ainda, do nosso ponto de

213 "Notas e dissertações" para o Divã. Jub.-Ausg. V, p. 213. A pas­


sagem inteira é a seguinte; "Na língua árabe encontraremos poucos radi­
cais e palavras primitivas que não se refiram, senão imediatamente, pelo
menos mediante pequenas transformações e acréscimos, ao camelo, ao
cavalo e ao carneiro. A essa expressão imediata da natureza e da vida
não devemos sequer chamar metafórica. Tudo aquilo que o homem
expressa de um modo natural e livre são relações vitais. Ora, o árabe
está tão intimamente ligado ao camelo e ao cavalo quanto o corpo à
alma. Nada lhe pode acontecer que não interesse também a essas cria­
turas e não ligue o modo de ser e agir delas ao seu próprio modo de
ser e agir. Se acrescentarmos, aos já citados, outros animais domésticos
e selvagens com que o beduíno muitas vezes depara em suas andanças livres,
também os encontraremos em todas as relações vitais. E se prosseguirmos
assim e considerarmos todas as demais coisas visíveis; a montanha e o
deserto, o penhasco e a planície, as árvores, as ervas, as flores, o rio e
o mar e o firmamento estrelado, descobriremos que ao oriental tudo
ocorre a propósito de tudo, de tal modo que, acostumado a ligar a torto
e a direito as coisas mais distantes, não tem o menor escrúpulo em derivar
uma da outra coisas contraditórias com ínfimas flexões das letras e das
sílabas. Vemos aqui que a língua já é em si mesma produtiva e, na medi­
da em que vem de encontro ao pensamento, retórica, bem como, na
medida em que aquiesce à imaginação, poética" (pp. 212 ss.).
214 O caso Hölderlin não contraria essa afirmação. Pois, se os últimos
hinos de Hölderlin, da época de sua doença, ainda mostram, em parte,
uma intensificação inaudita da produtividade poética de sua linguagem,
isso se dá não por causa, mas apesar do incipiente desagregamento esqui­
zofrênico da linguagem. O gênio poético de Hölderlin ainda conseguia
conferir formas poéticas altamente produtivas à linguagem esquizofrênica
enquanto tal.
166 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

^ista "desmedidas", mas de fato e na Verdade dominadas por sua


própria medida, ou melhor; desmedida, e estourando ou deixando
fora de consideração os "limites naturais''. Assim, por exemplo, no
•exemplo esquizofrênico da escada de Gruhle, deixa-se fora de con­
sideração a "relação Vital" do subir e descer e do passar de um
andar a outro.
As Perífrases esquizofrênicas são tão conhecidas que basta
citar uns poucos exemplos. Assim, uma de minhas doentes, uma
catatonica atacada de um palavreado delirante (Me.) e que já fora
ginecologista, designa o aborto provocado como extração da im-
plantação de espermatozóides. Um catatonico que já foi muito
inteligente, mas já em processo de dementação (Rei.) designa as
influências elétricas ("ondas de rádio''), que se podiam "segurar
debaixo dos aventais das mulhers e depois se enrolar em torno
de si", como tecidos de cola de rádio. Um acadêmico outrora
igualmente muito inteligente (Ste.) designa um ramo de cravos
como "lembrança de florescimento do gênero do cravo", a situação
geográfica favorável de Karlsbad como Karlsbad com sua favora-
bilidade no mundo dos países, o fato da presença de outros doen­
tes em suas cercanias como uma "presença de um forte depósito de
insanidade mental”.
Nos últimos doentes pudemos também constatar a intenção
de formar novas palavras; ''Quero produzir, cunhar, novas pala­
vras, como directoire, regence, porque quero um símbolo, por
exemplo, farmácia de rosas. Minha meta é conseguir sempre um
símbolo intuitivo, porque não tenho outra capacidade de criar, ne­
nhuma outra missão, nenhuma outra ocupação fora essa.’’ Ao
mesmo tempo vangloria-se de sua capacidade de "ler símbolos ime­
diatamente".

A "Annonimatío" ou Paronímia

A retórica antiga entende por isso o acúmulo de diferentes


formas flexivas da mesma palavra e de suas derivações, mas tam­
bém de palavras que soam ou começam de maneiia igual
(Curtius, p. 280 trad. bras.: p. 287). Encontramos novamente
uma annonimatio acumulada no maneirismo da antiguidade tardia
e da Idade Média (exemplos em Curtius). Também encontra­
mos essa forma lingüística entre os esquizofrênicos, com muita
freqüência, como se sabe, mas, naturalmente, uma vez mais sem
uma intenção artística. Isso abrange, por exemplo, a designação
da criança como uma espontaneidade espontânea (Ste.). Conhe­
AMANEIRAMENTO 167

cemos suficientemente o acúmulo de palavras que soam e come­


çam igual» a partir das associações sonoras esquizofrênicas.

A Metafórica Maneirista

Um maneirismo muito difundido do século X II é a metáfora


"Música de citara" para "canto de pássaros". Exemplo; o cisne
canta seu canto de morte "tocando uma música de cítaras doce
como o mel"215 ( Curtius, p. 283 trad. bras.: p. 291; cf. também
pp. 417 ss.). Às vezes, certòs doentes inteligentes explicam por
que utilizam tantas metáforas e disfarces simbólicos. Assim Ste.,
de quem já dissemos que ele quer pensar em símbolos, dizia o se­
guinte : "É preciso fixar de tal modo os conceitos através
de exemplos que eles coincidam perfeitamente", ou : "É pre­
ciso fazer o símbolo tão simples e tão ajustado que não se levante
mais nenhuma questão".
Um semelhante símbolo ou "imagem" metafórica "ajustado"
ou, como se disse acima, "'intuitivo" é a seguinte imagem, que
apresenta de maneira drasticamente intuitiva a "ecforização" dos
pensamentos e seu "efeito" sobre os outros. O paciente declara
uma vez que os pensamentos teriam que ser examinados in statu
nascendi: "eles só têm valor no instante de seu nascimento. Eis
aí um fenômeno como muitas outras funções Vitais — assim como
uma mala postal é jogada para fora de um vagão do expresso na
estação alemã de Basiléia instantes antes da partida. Do mesmo
modo, os pensamentos podem ser ecforizados (!) pela força da
pessoa — podem ser jogados para fora, estão pura e simplesmen­
te ai — eu estou aí —- présent — à présent — o pensamento (jo ­
gado para fora) pode então atuar conforme alguém se ocupe dele
ou não.” Nesse exemplo, é notável não somente a transferência
de fatos psíquicos para ocorrências materiais, para a lida com uma
coisa — aliás muito comum no doente catatônico —, mas também
a imagem drástica da súbita emergência de um pensamento e de
sua exteriorização lingüística através do destaque explícito do
jogar p a r a fora no último momento. Esse sentido privado indica
com clareza tanto maior a maneira pela qual o doente pensa.
Ele usa, aliás, par descrever o seu pensamento muitas das me­
táforas que conhecemos do processo de pensamento esquizofrêni­
co: "Os pensamentos não escorregavam mais", "esguicha como
água no cérebro”, "os pensamentos reúnem-se numa tensão, num
215 Não é preciso dizer que, com essa imagem, nos vemos em face do
oposto exato de um mito criado.
168 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

excessivo esticamento há assim relações extensas, excessivamente


esticadas entre os pensamentos". Sua doença exterioriza-se num
"despedaçamento, destroçamento, dilaceramento, num lesionamen-
to do cérebro", etc. Todas essas metáforas são a expressão da for­
ma existencial esquizofrênica, se bem que em perfeita consonân­
cia com a tradição materialista do fim do século passado e do sé­
culo atual. Na esquizofrenia acresce a isso, contudo, que a ma-
terialização do processo intelectual e, mesmo, da vida espiritual
em geral, não somente é expressa metaforicamente, mas é também
vivenciada fisicamente. Assim, por exemplo, um outro doente de­
clara (Rei.) ; "Antes, tudo era mais um esqueleto muito delgado
na cabeça e, em volta, só pensamentos. Agora sinto mais matéria
na cabeça, que está cheia dela, isso é burrificante". O mesmo pa­
ciente "desmancha-se como um enxame de abelhas", fica "picado
por dentro pelas abelhas". Para descrever sua existência inteira,
utiliza-se de uma imagem extremamente "expressiva": "Deixa­
ram-me entrar no mundo como que preso a um fio, e a qualquer
instante eu poderia ser puxado de novo para fora e levado em­
bora". Há também, como se sabe, um sem número de imagens
para as alucinações acústicas, ópticas e, em particular, para as alu­
cinações do corpo. O paciente Ste. designa-as como um "eco de
Roma", "eco-insultos", consultório, cinema, filme, etc.
Vemos claramente que aqui se trata de metáforas, quando
conseguimos entabular uma conversa sobre isso com os doentes.
Um doente (Sch.) muito culto, atormentado da maneira mais
aguda pelo delírio que consiste em . acreditar que seus pensamen­
tos se tornam audíveis para os demais e que acabou por cometer
suicídio, usou para explicar a possibilidade dos enfermeiros es­
cutarem os seus pensamentos a seguinte frase: "Nossos cérebros
estão acoplados". Convidado a não se exprimir de maneira tão
materialista, declarou: "Nossa, consciência.está interligada”.
Resumindo, pode-se dizer sobre o maneirismo na arte literá­
r i a — limitando-nos expressamente ao "católogo" de Curtius —•
que aqui, como já se observou, é ainda mais difícil separar o
amaneiramento e o maneirismo do que nas artes plásticas. Mais
ainda: que aqui, em larga medida, não se pode falar do maneirismo
como estilo artístico. Se necessário, poderíamos dizer que o ma­
neirismo representa aqui uma coleção de amaneiramentos feita
numa intenção artística, embora à intenção permaneça, enquanto
intenção artística, presa ao aspecto puramente exterior do artesa­
nato, um sinal de que ela também tem o caráter do retorcimento
artificial-técnico.
Mas, em seguida, nossa Visão de conjunto mostrou de uma
maneira inesperada que a esquizofrenia ‘'produz” muito menos
AMANEIRAMENTO 169

coisas peculiares a ela apenas do que se supõe na clínica. Não es­


tamos, pois, pensando aqui nos arcaísmos no sentido do trabalho
conhecido de Storch,216 mas nos "maneirismos" na "arte" lite­
rária. Pode-se dizer apenas, portanto, que o ser-no-mundo esqui­
zofrênico mostra uma proximidade às peculiaridades lingüísticas,
as quais, porém, são, desde sempre e por toda parte, encontradi-
ças na história da humanidade. Em que se funda essa proximida­
de, eis aí uma questão que compete à análise existencial examinar.
Podemos antecipar desde já que ela se funda na significação des­
tacada que pertence, na forma- existencial esquizofrênica, ao ser-a-
Gente — em oposição ao poder e saber-ser-a-si-mesmo —, aliás,
num modo especial seu, a saber: o modo do absorver-se na cópia,
repetição e perpetuação ou, então, na recusa, ou, mesmo, abolição
de determinados protó-tipos ou pro-postas exemplares (Vor-bil-
der oder Vor-lagen) tomadas áo domínio público da Gente, nos;
dois casos, por conseguinte, num determinado modo do decaimen­
to nesse domínio público/ , Mas, ao mesmo tempo, a semelhança*,
"externa” dos amaneiramentos não deve de modo algum — como
é preciso frisar sempre —* permitir sem mais que se conclua dela
a sua concordância "interna" — como o mostrou de maneira par­
ticularmente clara a contraposição de Gracián e Lola Voss. Só a
análise pormenorizada da história da vida pode decidir aqui.

E. P a ra u m a A n á lis e E x iste n c ia l

1. A Partir da Linguagem Coloquial

A extravagância, a excentricidade, o amaneiramento consti­


tuem, como ressaltamos repetidamente, uma tríade suí generis,
mas em si mesma diferenciável, de possibilidades de malogro da
existência humana. Ou seja — para expressá-lo da maneira mais
genérica possível — de um malogro no sentido de uma maneira
determinada, a se descrever mais pormenorizadamente, pela qual
a autêntica movimentação histórica do ser-aí pode ficar presa ou
chegar a um fim em cada caso. Extravagância, excentricida­
de, amaneiramento revelam-se como ameaças imanentes á existên­
cia humana. Na extravagância, essa ameaça mostrava-se como uma.
maneira peculiar do deslocamento da proporção antropológica em
favor da direção de significação vertical do ser-aí ou, em suma,

216 Das archeisch-prímitive Erleben und, Denken der Schizophrenen. Ber^


lim, 1922.
170 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

da "altura'', com um encurtamento "simultâneo" da base "hori­


zontal" da íargura do ser-aí. O caráter peculiar desse desloca­
mento — há muitas outras espécies ainda desse deslocamento —
está em que a altura "desproporcional" à amplidão (da ex-peri-
ência218) não é numa altura realmente alcançada num vôo (a
saber ; alcançada "sobre as asas" da fantasia, do (mor, do entu­
siasmo, da arte), nem uma altura realmente escalada, mas urna
altura obtida por logro ( ersc/iwindel)219. O exemplo clássico aqui é
altura obtida por logro a erschwindelt) e por isso mesmo ameaça-
o construtor Solness de Ibsen220. O que dá impulso a esse logro
é aquilo a que Kierkegaard chamava "a mais miserável de todas
as artes solistas", a saber: o simples desejar. Esse desejar é uma
arte solista porque sua parte é exclusivamente a parte de um so­
lista, e é uma "arte" na medida em que pressupõe um determina­
do "saber-fazer", ou seja, a capacidade, para falar com Ibsen, de
'"construir mais alto do que se consegue subir". Aqui se trata,
pois, de um existir numa altura ''usurpada", uma altura na qual
não se tem mais o chão sob os pés, na qual, portanto, não se pode
mais caminhar nem para frente nem para trás, nem tampouco
descer, mas só continuar a pairar, ou então Cair. Por isso, pode­
mos designar com razão um semelhante existir — independente­
mente da questão se prestamos conta delé ou não — como uma
existência rarefeita (seja no sentido maníaco, caracteriológico ou
ideológico). A falta de amplidão da experiência mostrou-se para
nós, no exemplo do turista "diletante", na falta de uma visão de
um conjunto do "terreno" a se escalar, na falta de ''experiência"
da montanha, da rocha, das inclemências do tempo, do alpinismo,
etc. A arte solista do desejar juntamente com a pouca "perícia"
leva o ou os escaladores solistas a um ponto onde não há mais
retorno possível "sem ajuda alheia". Na extravagância, o ser-aí
isola-se como um "solista'' da orquestra do mundo-comum. To-

218 V. acima, n. 4,
219 Impossível traduzir literalmente o jogo de palavras feito por Bins­
wanger, uma vez que não temos em português uma palavra que reúna,
como Schwindel, o significado de logro, fraude, embuste, por um lado, e
vertigem, tontura, por outro lado. É essa duplicidade de sentido que per­
mite a Binswanger descrever as alturas alcançadas pela extravagância como
obtidas por logro e, por isso mesmo, como uma altura na qual o extra­
vagante não consegue se manter, na qual está exposto a vertigens e,
assim, ameaçado de queda. Ou seja, uma altura cuja escalada leva, não
ao sucesso, mas ao malogro de quem a escalou dessa maneira. Podemos
então dizer que essa altura alcançada por logro leva necessariamente ao
malogro, com o que fica justificada nossa tradução. (N. do T.)
220 c f . L. Binswanger, Henrik Ibsen und das Problem der Selbstrealisa­
tion in der Kunst.
AMANEIRAMENTO 171

davia, ele permanece, no fundo, preso a ele de duas maneiras:


por um lado, pelo desejo de subir além dele, por outro lado, pela
necessidade resultante da "inexperiência" de "não poder mais se­
guir em frente sozinho". Onde há extravagância, não há, pois,
apenas "falta de experiência do mundo* ou de "perícia", mas tam­
bém falta de uma genuína comunicação, tanto no sentido existen­
cial como, sobretudo, no sentido do amor. Pois em ambas as ma­
neiras da comunicação, o ser-aí está "em pé de igualdade" com
o ser-aí e a ex-periência do mundo não chega nunca a um fim.
Mas, quando a ex-periência chega a um fim, e, juntamente com
isso, sofre de falta de "comunicação", aí então é que a autêntica
existência ou ipseificação sofre mais ainda, aí então é que ela não
s e g u e mais em frente. "Atascado" que está o ser-aí aqui num de­
terminado desejar, numa determinada idéia, ideologia ou teoria,
sua movimentação histórica não sai mais "do lugar'' A extrava­
gância é o modo de existir do ser-aí para quem a parede, que ele
ergueu em seu próprio ser diante de si mesmo, constitui um limite
insuperável. :
Ao contrário da extravagância, o ser-aí enquanto excentrici­
dade não ergue, com vimos, nenhuma parede como um limite in ­
superável diante de si. A movimentação histórica do ser-aí é, antes,
detida aqui pelo fato de que nada mais anda direito (geht grad),
mas tudo dá errado [schief geht, l it : anda torto]. Pudemos Ver
isso no símile do ''parafuso mal enroscado" [verdrehte Schraiibe,
isto é, "maluco", "gira"] e do rolo torto [schiefer Wickel, isto é,
da pessoa que está ''muito enganada", e q u i v o c a d a ] . O q u e s e ex­
pressa aqui na linguagem naò é a insuperabilidade e, nessa me­
dida, tampouco a dimensão ém geral da altura, mas, se podemos
nos exprimir assim, a impossibilidade de forçar, enrosear mais, a
saber, o fato de que o parafuso não pode ser girado além de um
certo ponto. Portanto, na excentricidade também se trata de uma
forma da desproporção antropológica entre a altura e a largura,
exatamente a desproporção do atravessado, enviesado ou torto.'O
entalamento d o ser-aí mostra-se aqui, tanto em sua estrutura ou
"configuração" como um "parafuso mal enroscado", um "rolo
torto" ou como uma pessoa Cabeçuda ou do contra [Querkopf;
lit.: cabeça atravessada ], çomo também na limitação de sua mo­
vimentação; o parafuso mal ènroscado não pode mais ser movido,
ou seja, enroscado, o rolo tórto não pode mais ser movido, o u ­
seja enrolado, o do contra não pode mais ser movido, i.Ki seja cor­
rigido ou convertido. Por toda parte, a linguagem coloquial nos
apresenta intuitivamente, com suas ''imagens'' da vida quotidiana,
da oficina ou do m anejo'de qualquer ferramenta, aquilo que a
psicologia e a Psicopatologia têm que "constatar'' e a análise exis—
172 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

tencial que exibir e descrever fenomenologicamente como incapa­


cidade de se corrigir, de se converter, como teimosia ou cabeçu­
dice. Nós empreendemos essa tarefa exibindo a excentricidade
como uma modificação do ser-aí relativamente ao seu em-vista-de
e ao seu ser-para, em outras palavras, relativamente à sua exis­
tência e à sua mundanidade. Visto que a última se revelou como
o "mundo do través", a excentricidade pode ser desiguada como
o "espírito*' — ou melhor, como o "mau-espírito" — do traves.
No que tange, agora, ao espírito, ou melhor, ao mau-espírito
do amaneiramento — "espírito" é o maneirismo apenas, precisa­
mente enquanto arte —, nós o demarcamos e, mesmo, o consta­
tamos lingüístícamente sob muitos aspectos, mas ainda não che­
gámos a compreendê-lo existencial-analiticamente. Naturalmen­
te, não chegamos a essa compreensão enumerando as várias ca­
racterísticas do amaneiramento para, em seguida, tentar reduzi-
las a um "denominador comum", o que, mais uma vez, significa­
ria tão-somente uma demarcação e constatação factual desse mau-
'©spirito. Não é tampouco à maneira da psicologia e da Psicopato­
logia que avançamos até uma compreensão existencial-analítica, a
saber, recorrendo meramente a relação entre a vivência e a ex-
pressão, entre éprouver e exprimer e, assim, entre être et vouloir
Paraitre (cf. Reboul-Lachaux e Bleuler), Pois essas distinções
têm, como já observamos, uma natureza puramente psicológico-
constatativa. A separação da vivência e da expressão é tão inadmis­
sível quanto a separação da Vivência e da ocorrência. Do mesmo
modo, ser e querer-parecer não devem ser separados, pois o que-
rer-parecer "é" também, como também já observamos, um modo
de ser da existência humana. Tampouco devemos nos deter na
oposição do consciente e do inconsciente, equiparando "amanei­
rado" com "consciente" no sentido de intencional. Pois a Psico­
patologia fala também em "intenções inconscientes". Assim, por
exemplo, Bleuler, ao dizer que os doentes que apresentam o sín-
drome de Ganser representam inconscientemente o papel de doen­
tes mentais. Tudo isso e muitas outras coisas tornam, assim,
impossível ver na P s i c o p a t o l o g i a do amaneiramento um ponto de
partida para a consideração existencial-analítica. Pois ela já cons­
titui, como vimos — abstração feita de suas contribuições à feno-
menologia do amaneiramento dos “sãos" —, uma construção teóri-
ca que se move dentro de determinados limites.
Tal como na análise existencial da extravagância e da excen­
tricidade, também partimos da linguagem coloquial na análise
existencial do amaneiramento. Nela encontramos — aqui também
— o fundamento infalível para a compreensão existencial-analítica,
AMANEIRAMENTO 173

mas ainda, seu projeto mais originário. Não devemos, portanto,


partir das "expressões" técnicas maniera, Manier, maniêre, ma-
niérisme, etc. tanto mais que elas, como vimos, só dão expressão
à "mão'', à maneira geral do manuseio ou de tomar nas ou entre
as mãos, la façon d’agir em geral, mas sem nos informar sobre a
maneira especificamente amaneirada de tomar nas ou entre as
mãos. Para isso temos, de fato, à nossa disposição, como vimos ao
começar, palavras, sobretudo na linguagem coloquial alemã e fran­
cesa, que nos informam também sobre o modo especificamente
amaneirado de tomar nas ou entre as mãos. São elas as palavras
schrauben, geschraubt, Geschraubtheit (aparafusar/enroscar/retor-
cer, retorcido/arrevesado, retorcimento/arrevesamento) e winden,
gewunden, Gewundenheit (torcer/retorcer, (re)torcido, (re)torci-
mento), no francês guinder, guindé, se guinder. Ao contrário da
expressão verschroben (excêntrico), que se refere tanto ao homem
inteiro quanto a "algo nele", as expressões geschraubt e gewunden
estendem-se, como a expressão verstiegen (extravagante) tão-so­
mente a algo "na" ou "da" pessoa. Não falamos de uma pessoa
como verstiegen, geschraubt, ou gewunden [embora falemos, em
português, de uma pessoa como extravagante, arrevesada, mas não
retorcida — N. do T .], mas, sim, de desejos, idéias, pontos de
vista, ações, manifestações línguo-mímicas ou gestuais. Por outro
lado, a língua alemã conhece, é verdade, um "sicit-versteigen",
que é um extraviar-se, exceder-se, exorbitar-se, da pessoa inteira,
mas nao um "sich-verschrauben" e "sich-schraaben" [lit., algo
como (mal)aparafusar-se ou (mal-)enroscar-se, isto é, "excentri-
ficar-se" e arrevesar-se — N. do T.]. (A expressão “sich-iviiidèn”
assume um lugar especial, posto que se refere a um retorcer-se ou
revirar-se num apuro ou tormento do corpo ou da alma, mas não
ao amaneiramento de um semelhante torcer-se ou revirar-se. É
verdade que esse último pode também se mostrar de maneira ama-
neirada, todavia essa caracterização é um novo acréscimo.)
Temos, portanto, à nossa disposição na linguagem coloquial
alemã, para a compreensão da excentricidade, as imagens do "pa­
rafuso mal girado" [ = maluco] e do rolo “enrolado torto" [ =
pessoa que está muito enganada, equivocada]. Para a compreensão
da extravagância dispomos da imagem do montanhista "sem pe­
rícia", que se extraviou na rocha do despenhadeiro e só pode ser
resgatado de sua situação pelo guia "perito”. Todavia, a lingua­
gem coloquial parece carecer de uma ilustração semelhante para o
arrevesamento ou o retorcimento. Mas isso é só uma aparência.
Encontraremos semelhante ilustração se, ao invés de procurar por
uma imagem ou símile, atentarmos para o contexto de remetimen­
tos ou todo finalizado em que se inserem as expressões schrauben
174 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

e winden (enroscar e torcer). Enquanto a palavra alemã schrau­


ben remete à coisa a se aparafusar ou aparafusada e à pessoa que
aparafusa, etc., por conseguinte, ao ofício do carpinteiro, do mar­
ceneiro ou do funileiro e, assim, parece nos abandonar no tocante
ao arreVesamento ( Geschraubtheit) no sentido do amaneiramento,
em holandês, como vimos anteriormente, a expressão para arreve-
sado (geschraubt) no sentido de amaneirado é; op-geschroefd, isto
é, literalmente: "enroscado para cima". O mesmo "puxão para
cima" está contido na especificação alemã para o arrevesado na
expressão "hoch-<7esc/traubt" [que significa ''guindado" e se com­
põe com o prefixo hoch = para o alto — N. do T .]. Assim, vimos
como Bleuler afirmou, com relação aos maneirismos esquizofrê­
nicos, que os doentes se expressam com uma expressão hochges­
chraubt (retorcida, arrevesada, guindada), como se tratasse dos
mais altos interesses da humanidade. O fato de que o arrevesa-
mento amaneirado constitui um enroscar-se para o alto ou para
cima [isto é, traduzindo menos literalmente: de um içar-se ou
guindar-se — N. do T.] torna-se particulamente manifesto quan­
do nos voltamos para a expressão winden (retorcer) e, sobretudo,,
para o francês guinder. Pois ambos significam a lida com algo no
sentido de seu "levantamento", de seu ser-trazido (retorcido, pu­
xado, enroscado, dobrado, impelido) para cima. Aliás, essa lida
remete a uma determinada ferramenta como meio de obtenção do
fim a que se destina esse trazer para cima. Semelhantes ferramen­
tas ou instrumentos são a roldana (W inde) ou o parafuso
(Schraube), o guindaste e a corda: guinder les voiles diz o
francês para o nosso içar as velos. Esse contexto de remetimentos
"técnico" já mostra uma coisa, a saber: que o ato de enroscar-se
ou retorcer-se para cima, [isto é, de içar-se ou guindar-se] não é
executado com as próprias forças, mas sim mediante a ajuda
alheia, mediante um instrumento e as pessoas que dele se servem.
Conseqüentemente, temos que dizer que a coisa içada ou guindada
não tem o seu peso em si mesma. Mas, na medida em que a língua
(francesa) conhece, ao lado do guinder, do ato de íçar alguma
coisa com alguma coisa, ao lado da coisa içada, isto é, do fardo,,
também o "se guinder”, o içar-se a si mesmo como uma coisa, ela
mostra de maneira muito drástica que ela vê esse içar sob o ângu­
lo da ajuda “externa"23® técnico-artificial ou instrumental. Em vez
da ajuda instrumental externa, da roldana ou do parafuso, do
guindaste ou da corda, a linguagem coloquial coloca agora no "se
220 Cf. também a ênfase dada por Hans Hoffmann às "leis", que vêm
“de fora" (em oposição às "leis do próprio crescimento") para a carac­
terização do maneirismo artístico (p. 127).
AMANEIRAMENTO 175

guinder" a intenção e sua execução através da aplicação e do es­


forço da vontade! Isso indica que ela vê em ambos um dispositivo
ou mecanismo, ao contrário de tudo aquilo que ''de si mesmo"
cresce para o alto, por suas próprias forças sobe para o alto ou
por suas próprias forças se deixa arrebatar (nas asas da fantasia,
do amor ou do gênio criador). Assim, a linguagem coloquial
(francesa) abriu caminho para um dos traços essenciais do ama­
neiramento. Pois um Emil Staiger,221 por exemplo, também cha­
ma de maneiristas os "artistas cuja aplicação leva-os a produzir
mais do que o permitido por sua força criadora". Isso torna-se
mais claro ainda quando notamos que o fardo içado ou guindado
—- o qual não deve ser confundido de modo algum como o pesa222
— tampouco prec’sa manter-se "por suas próprias forças", como
é o caso das coisas qre :resceram naturalmente, ou que sao a con­
quista de uma atividade criadora ou de uma escalada, ou que fo­
ram, no sentido a^ima, arrebatadas, mas precisa ser mantido no
alto "com aplicação” pelo "instrumento" da intenção! Pois "en­
roscado" ou "guindado" nao significa apenas o que e enroscado
ou guindado, mas também o que está enroscado ou guindado,
yVemos então que, no se guinder, a intenção do ato de se içar é
Concebida como ura recurso técnico .ou, numa palavra, como técni­
ca (no sentido usual da palavra) e, de resto, como uma técnica
não no sentido da palavra arte, a. %íyyi\ dos gregos, mas no sen­
tido da aplicaçao estudiosa (Fleiss) do dispositivo ou mecanismo
artificial. O fato de que a linguagem coloquial vê. a essência do
amaneiramento na "técnica'' e de que sabe designar essa "técnica”
com expressões relativas a determinados modos de manejar dá
testemunho de sua clarividência e precisão. Esse discernimento e
essas designações mostram, porém, além disso, que já a linguagem
coloquial vê no amaneiramnto uma providência artificial para a
"superação" (Behebung) de uma falta, da falta de impulso pró­
prio. Desse modo, ela se encontra em inteira concordância com o
historiador da Arte quando este designa a postura total do manei­
rismo não como postura (feita de força vital, de uma plenitude

221 LOC. c it., p. 114.


222 Tamhém o caráter de fardo do retorcido está sujeito, como quase
todas as caracterizações do mesmo, às maiores variações, desde o grossei­
ro e pesadão até o delicado e "ágil". O mesmo vale para o dispêndio de
energia relativamente ao ato de retorcer. A o lado de "um excessivo dis­
pêndio de energia" — como o postulado de Kraepelin para certos manei-
rismos catatônicos, encontramos tamhém um "dispêndio de energia exces­
sivamente pequeno", como, mais uma vez, relativamente ao delicado, flo­
reado, encaracolado afetado e enfeitado. Mas aqui também é. a aplicação,
o esforço aplicado, que leva ao "excesso" no sentido do amaneirado.
176 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

Viva, de uma liberdade de movimentos refreada), mas sim como


um ser-detido!
Na medida em que. no "se guinder" ou, como também dizem
os franceses, no "se rnaniérer”, o esforço intencional toma o lugar
do dispositivo ou mecanismo "externo'' mecânico-artificial para a
supressão "superação" [Behebung, de heben = erguer, levantar]
de uma "falta", a linguagem coloquial já dá expressão à cisão in­
terna que tantas vezes encontramos em primeiro plano tanto nas
descrições do amaneiramento quanto nas do maneirismo. Assim
como o maneirismo artístico ''transplanta" algo que evoluiu de ma­
neira natural, a saber: o clássico, "para a atmosfera paralisante
da intenção contemplativa", assim também o amaneirado transplan­
ta algo que evoluiu e evolui de modo natural, a saber: sua ''natu­
reza" originária, para a atmosfera paralisante da intenção prática..
(Mesmo os gestos amaneirados, as exteriorizações lingüísticas e
mímicas amaneiradas são, não "movimentos expressivos", mas
aço es [intencionais] !) A linguagem coloquial já vê, pois, o ho­
mem numa oposição ou fracionamento entre algo interno e
central e algo externo ou periférico. Pois ao transpor o "se guin-
der” do contexto de remetimentos técnico-instrumental para o
todo finalizado psíquico, e isso para designar um modo especial do
comportamento psíquico, ela mostra ao mesmo tempo que nem
tudo no homem é por ela considerado instrumentalmente, que ela
não considera "o homem inteiro" instrumentalmente, mas apenas
algo nele, justamente aquilo que ela designa como retorcido e como
retorcimento.
O contrário do retorcido, da coisa feita artificial ou intencio­
nalmente chama-se: crescido. "Onde algo cresce", disse uma vez
Heideggers23 "ai se enraíza, aí medra". O retorcido é, em conse­
qüência, também o não-enraizado e que não medra. Retorcer-se ou
"se guinder" está, pois, em oposição ao crescer, enraizar-se e me­
drar. Daí também a justificada "suspeita" biológica e médica do
historiador da arte até mesmo em face do maneirismo artístico.
Pois, quando algo não cresce e não mais se enraíza e medra,
então ele "definha" e desaparece tão subitamente como veio. (>
que se desigua como retorcido definha, pois, porque, na "atmos­
fera paralisante da intencionalidade" nenhum vicejar é possíVel.
Muito longe de superar ( beheben) a "falta de impulso próprio"
no sentido próprio, a intencionalidade substitui essa falta, é Ver­
dade, através de um ato de se elevar ( erheben) a coisa a se alçar,
mas não a supera, e isso tanto menos que o esforço aplicado desse
223 "Die Frage nach der Technik", Vorträge u. A ufsätze (Pfullingen
1954), p. 36.
AMANEIRAMENTO 177

elevar, destacado de sua "raiz" (do fundamento do ser-aí), só


pode ocorrer à maneira do ser-retorcido.
Desse modo, porém, uma coisa a mais foi dita. Aquilo que
não pode crescer e medrar "de si mesmo", mas só pode existir a
maneira do estar retorcido ("mecânico" = intencional), também
perde o que chamamos de encanto natural ou graça; Por isso, há
um sentido profundo no fato de que, não somente nas descrições
do amaneiramento, mas também do maneirismo artístico, encon­
tramos com tanta freqüência expressões como contraído, enrijeci­
do, grosseiro, empolado, desgracioso, cheio de arestas, apavonado,
afetado, cheio de arabescos, floreado, arrevesado, complicado, etc.
Já Winckelmann ressaltara que qualquer elemento "estranho"
mata o encanto! A mais drástica manifestação disso ocorre no
ensaio muito citado sobre o teatro de marionetes de Heinrich von
Kleist. Para mostrar "que desordens a consciência apronta na
graça natural do ser humano", ele menciona225 um jovem dota­
do de um "maravilhoso encanto", o qual, ao se observar no espe­
lho no ato de enxugar os pés sobre um banquinho, se lembra do
"tirador de espinho" e procura repetir intencionalmente sua pos­
tura, perdendo assim, porém, cada vez mais, a graça original, de
tal modo que seus movimentos chegam mesmo a ter um efeito
cômico. Com o tempo, esse jovem mostrou uma"mudança incom­
preensível"; ficava o dia inteiro diante do espelho, com o que
perdeu um por um todos os seus encantos. "U m poder invisível e
incompreensível parecia se assentar, como uma rede de ferro, em
torno do jogo livre de seus gestos." E, assim como a "consciên­
cia" destrói a graça natural da pessoa, assim também se observa,
segundo Kleist, que, inversamente, a graça "no mundo orgânico**
"ressalta cada vez mais radiosa e imperiosamente'' na medida em
que nela "a reflexão se torna mais obscurecida e mais fraca''.
Não abordaremos as especulações ''metafísicas'' que Kleist faz
seguir a isso e limitamo-nos a observar que o que temos em mente
aqui não é, naturalmente, a "consciência", a "reflexão'', ou a "in-
tencionalidade" enquanto tal — como se cultivássemos, por exem­
plo, a doutrina de um Klages sobre o "espírito como adversário
224 Aqui e no que se segue, os grifos são meus.
225 Samt., W erke, Inselverlag, t. V, p. 222. — Cf. a esse propósito o
excelente estudo de Herbert Plügge, Grazie und Anm ut. Ein biologischer
Exkurs über das M arionettentheater von Heinrich v. Kleist (Hamburg
1947) e. em particular (p. 13), as características da motricidade "relati­
vamente à condição da inocência"; a segurança, o caráter crescido(!),.
ininterrupto do movimento de seu "encanto óbvio". — Plügge faz aqui
também uma tentativa digna de nota, em continuação das doutrinas de
W. R. Hess, para exibir o "substrato funcional fisiológico" do encanto
do movimento.
178 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

da alma" — mas, nota bene, o papel que a "consciência", a "refle-


xao", a "intenção" têm que assumir num determinado todo finali­
zado da alma, a saber: o papel que consiste em ter que fazer-as-
Vezes-de no sentido de um "substituto técnico" e de um esforço
aplicado, quando o crescer e Vicejar "enraizado" definha ou, para
falar afinal dentro da Visão e da linguagem existencial-analítica,
quando o ser-aí, "desligando-se ’ de seu fundamento e equivocan-
do-se assim a respeito de suas mais próprias possibilidades, fra­
cassa.

2. A Partir do Maneirismo
Artístico e do Amaneiramento como Forma Existencial

O objetivo desta secção é aprofundar o "fundamento exem­


plar" (Husserl) a partir do qual podemos "captar" a essência do
amaneiramento como uma forma, aparentada à extravagância e à
excentricidade, do malogro da existência humana. O que a lin­
guagem coloquial mostra é, na verdade, um traço essencial (no
pleno sentido da palavra essencial) do amaneiramento e do ma­
neirismo, mas não ainda sua essência inteira. A oposição entre o
crescimento e o viço natural, enraizado, por um lado, e, por outro
lado, o esforço e a lida de caráter "estranho" (W inckelmann),
ou seja de caráter "técnico" e intencional como substituto da falta
de uma própria e autêntica capacidade de crescimento, logo a opo­
sição entre o vicejar enraizado e o labor improbus, a aplicação
infatigável e os ''excessos" por ela cometidos — tudo isso encer­
rado na simples palavra "retorcer" e "enroscar-se-para-cima",
"guindar-se" —, essa oposição deixa ainda em aberto a questão e,
mesmo, desafia-a, como é que o ser-aí amaneirado não se acomo­
da com essa "falta", mas se extenua em seu esforço infatigável
para conseguir supri-la com um sucedâneo e ocultá-la. Já encon­
tramos uma resposta a essa questão na descrição do curso existen­
cial no caso Jürg Zünd (cf. parte H Ic). O que aqui levou ao
amaneiramento como modo existencial foi o Udesenraizamento"
desse ser-aí, em outras palavras, a impossibilidade de lançar raízes
em qualquer um de seus "mundos" e de se sentir "em casa".
Desse modo, o poder da confiança no mundo-comum e no mundo
ambiente foi suplantado pelo poder do medo, da dúvida e do de­
sespero. Para não se afundar nele totalmente, Jürg Zünd agarrou
um "último ponto de apoio", o apoio artificial em um dos mun­
dos da infância como pro-posição de um protó-tipo ou imagem
modelar ( Vor-bild, Vor-lage), papel ou máscara e no esforço in-
AMANEIRAMENTO 179

fatigáVel, desesperado, para ocultar ou esconder o medo através


da manutenção da "máscara", ou — para falar menos figurada-
mente — através da cópia ou imitação rígidas da imagem protó­
tipo (Vor-Bild) (de aristocratismo ou distinção) a título de
"tipo" da distinção. O aprofundamento já alcançado aqui do
"fundamento exemplar" do amaneiramento experimentará um
maior aprofundamento e consolidação quando o confrontarmos
com os resultados das investigações desenvolvidas pelas ciências
da cultura sobre o maneirismo, sobretudo nas artes plásticas. Mas,
antes, precisamos ainda nos perguntar até que ponto as investi­
gações procedidas pelas ciências da cultura sobre o maneirismo na
arte podem de todo funcionar como "fundamento exemplar" para
a análise existencial da essência do amaneiramento.226
Quanto a isso, somos favorecidos pela circunstância de que
a História da Arte é aqui em grande parte concebida como não
''pertencendo a si apenas", mas como "servindo ao conhecimento
do homem" (Pinder). Como já observamos acima, uma conseqüên­
cia é o fato de que nos instruímos aqui (com exceção de Dvorák
e, mais tarde, de Hans Hoffmann) menos sobre o maneirismo
como arte, como época estilística e, sobretudo, como obra de arte,
do que sobre o artista e o homem que cultiva ou decai no manei-
rismo como arte. Como é que temos que proceder em face dessas;
investigações ?
Em primeiro lugar, somos da opinião, juntamente com Hei­
degger e muitos outros, que a obra de arte está tanto mais firme
(fest), a saber: ''fixada (festgestellt) na forma", "quanto mais
nitidamente parecer desatar todas as relações com o homem".22’1'
Por outro lado, é preciso, ''a fim de permanecermos na verdade
que acontece na obra'', ou por outras, "para deixar a obra ser
uma obra'', a conservação-na-verdade (Bewahrung)228 da obra
(por seu contemplador ou fruidor). "É só para a conservação-
na-verdade que a obra (W erk) vem a se dar em sua condição
de coisa criada como a obra real (wirlich), isto é, como a obra

226 A fim de evitar equvocos, ohserve-se imediatamente que aqui nao


se pode tratar de vários "fundamentos" ("Gründe”). Nós procuramos
sempre, ao contrário, atingir um único e mesmo fundamento como o
fundamento exemplar, a partir do qual se possa captar a essência do
amaneiramen to.
227 "Der Ursprung des Kunstwerks", Holzwege (1950), p. 54.
228 A palavra Bewahrung significa, na linguagem ordinária, o ato de
conservar, guardar, ou preservar. Heidegger deriva a palavra de wahr =
verdadeiro, e define a Bewahrung da ohra de arte como o ato de deixar
ser o que ela é, e isto, por sua vez, é a permanência na verdade ( Wahr-
heit) da ohra de arte (N . do T .).
18Ô TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

que se torna agora operantemente (werkhaft) presente"229. Por


mais essencialmente que a obra precise dos criadores, "nem por
isso a coisa criada ela própria pode Vir a ser sem a conservação-
na-Verdade" (ib.). Pois bem, até agora não aprendemos muita
coisa a respeito da autêntica obra de arte maneirista, a respeito
da criação e conservação-na-verdade da obra como obra de arte.
As descrições que atingem mais facilmente a obra "independente”
("auf sich selbst gestellt") são designações como: ''tecido de for­
mas da mais alta finura especifica'' ou da mais alta "espirituali*
zação expressiva", como "formalismo e tipificação paralisantes”,
"distinção e seriedade acadêmicas", "labilização da estrutura do
quadro", mas sobretudo as características estilísticas destacadas por
Hoffmann relativamente ao espaço, à estruturação e à luz na obra
de arte maneirista. Na fronteira entre a consideração e maneira de
expressão própria à Teoria da Arte, por um lado, e à psicologia,
por outro lado, encontra-se por exemplo a constatação de uma
linguagem formal "da mais profunda vontade de expressão artís­
tica)".
Analogamente a Heidegger, Goethe já declarava que "uma
genuína obra de arte, do mesmo modo como um produto saudável
da natureza, deve ser julgada a partir de si mesma".230 Por outro
lado, porém, Goethe escrevera apenas alguns anos antes as se­
guintes palavra: ''Todo artista vai se formando em sua obra de
arte adentro."331 Certamente, não devemos compreender as duas
declarações como mutuamente contraditórias. Elas apenas dão tes­
temunho do fato, importante para nós, de que a obra de arte e o
artista devem ser compreendidos existencialmente como dois "pó­
los” de um mesmo e indivisível ser-aí humano ou ser-no-mundo.
Em conseqüência, os dois pólos estão efetivamente interliga­
dos numa relação recíproca. Ela é o incontornável (Heidegger)232
onde vem "haurir'' ou "lançar raízes" a Teoria da Arte, ainda
que não lhe seja possível, enquanto teoria científica, tornar acces-
sível para si mesma esse "incontornável”. Ao contrário, ela só fica
229 Note-se, nessa passagem, o jogo com as palavras; Werk (obra),
wirklich (real, efetivo) e werkhaft (à maneira de uma obra, como uma
obra) e que se justifica pela ligação etimológica dos termos em questão.
De fato, "wirklich" deriva do verbo wirken, que significa, como verbo
intransitivo, atuar, agir, ter efeitos, e como verbo transitivo, produzir,
operar, obrar, e tem a mesma raiz que a palavra Werk.
230 Ao comentar II Conte de Carmagnola de Manzoni. Jub-Ausg. t. 37
p. 159 (1820/21).
231 Über die Entsethung des Festspiels. Zu Ifflands Andenken". Jub-
Ausg. t. 37 p. 80 (1815/16).
232 “WissenscJift und Besinnung", Vortage und Aufsätze, pp. 45 ss.,
Pfullingen, 1954.
AMANEIRAMENTO 181

bem servida enquanto Teoria da Arte, quando seu objeto cientí­


fico, a obra de arte, é encarado como tal e investigado segundo
os métodos próprios dela.
Uma outra distinção que, do mesmo modo, não aparece nas
investigações da Teoria da Arte, mas que, para nós, mais uma
vez revela-se proveitosa é a distinção entre o homem que cria
artisticamente ou, para falar com G. von Lukács.233 O homem
''homogêneo'' enquanto o "homem inteiramente", e o "homem
inteiro", o homem não somente como artista e como a pessoa que
frui e "conserva em sua verdade" as obras de arte, mas, para
empregar a expressão tão justa da linguagem coloquial, o homem
''tal e qual" da vida real. Essa distinção também está ausente nas
mencionadas investigações e constatações da Teoria da Arte. Não
se distingue aqui entre o "homem inteiramente" e o homem in­
teiro, nem tampouco — o que representa apenas o reverso dessa
falta — entre o maneirismo como ''figura da consciência universal"
no sentido da ''consciência artística" da época e como forma de
vida, ou melhor, como forma existencial em geral. A questão se
e em que medida "o homem" enquanto artista e "conservador da
verdade" ou "fruidor" não somente cultivava o maneirismo artís­
tico, mas também decaía e se entregava enquanto "homem inteiro”
à forma existencial do amaneiramento, e mesmo se de todo po­
deríamos falar, além do maneirismo como uma peculiaridade esti­
lística da arte, também de um amaneiramento como forma exis­
tencial, essa questão não chegou a ser discutida.
Embora também não ousemos responder a primeira questão,
por falta de um material "biográfico" suficiente, podemos perfei­
tamente responder afirmativamente à última questão, baseando-nos
para isso em dois fatos. O primeiro, nós o encontramos nas aná­
lises empreendidas no domínio da "psicologia profunda" e da P s i ­
copatologia pelo próprio pesquisador da arte, na medida em que
elas — e tal é, como vimos, em larga medida, o caso — concernem
ao homem e artista decaído no maneirismo. Se esclarecemos o que
realmente ocorreu aqui, então podemos dizer simplesmente que
aqui se destacou um modo existencial perfeitamente sui generis,
de contornos nítidos, um modo existencial que não podemos des­
crever de outro modo senão com a expressão amaneiramento. Nós
nos vemos corroborados nisso pelas coincidências notáveis que se
observam entre a descrição do modo existencial designado como
maneirismo e o modo existencial de um Jürg Zünd. As autodes-

233 “Die Subjekt-Objektbeziehung in der Ästhetik", Logos VII, 1917-18,


bem como meu trabalho sohre Henrik Ibsen und das Problem der Selbst-
realisation in der Kunst, Heidelberg 1949, p. 25 s s.
182 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

crições desse paciente e nossas próprias observações sobre a


maneira como ele realmente se mostrava na vida constituem o
segundo, que permite responder afirmativamente à questão a res­
peito do modo existencial ou forma do ser-no-mundo a se desig­
nar como amaneiramento. Mas é preciso que fique ressaltado desde
logo que não compreendemos as coincidências entre as duas des­
crições de modo algum como se a forma existencial destacada pela
Teoria da Arte constituísse uma esquizofrenia! Nossa intenção é,
antes, o oposto, a saber: mostrar que a forma existencial do ama­
neiramento não é algo de peculiar à esquizofrenia como uma
doença mental e, por conseguinte, só encontradiça nela, mas, sim,
que ela corresponde a uma forma existencial humana universal. O
verdadeiro problema está — como tivemos que notar justamente
no caso do maneirismo na arte literária — na questão como é
que "a esquizofrenia" pode mostrar uma " tendência" tão declarada
ao amaneiramento! A resposta a essa questão só será possível, po­
rém, quando houvermos empreendido a tentativa de uma investi­
gação existencial-analítica do amaneiramento.
Não queremos enumerar com uma metieulosidade pedante as
coincidências em questão aqui, mas somente exibi-las em sua
essência. Recomenda-se para isso, em todo caso, a leitura do es­
tudo original sobre o caso Jürg Zünd, publicado no Schweizer
Archiv (t. 56 e 58 ss.),. De resto, nossa confrontação mostrará
que as categorias das análises a que procede a Teoria da Arte e
constantes em seu vocabulário não somente não ficam atrás das
descrições psicopatológicas, mas as superam em intuitividade e agi­
lidade lingüística.
O "primeiro plano" era ocupado aqui, "de ambas as partes",,
pela dúvida e, mesmo, pelo desespero, pelo medo vital e pela fra­
queza vital, numa palavra, pela "suspeita biológica" (Pinder).
Isso siguifica que a análise feita pela Teoria da Arte sai de
seu domínío mais específico, submetendo o domínio por ela in­
vestigado ao juízo de valor biológico, ou melhor; medical, da
doença ou do doentio (do "mórbido'') e assim se aproxima
da consideração psicopatológica. A isso pertencem expressões
como "profundo medo do mundo e da vida", "doença da moda",
"forma mórbida" individual e supra-individual, "cisão interna se-
mipatológica", "força vital abalada", "problematicidade e incerteza
da existência humana", "dúvida", "desespero", "anemia'', "falta de
vitalidade", "melancolia da aridez", "labilização insensível'', "nojo
como medo inconsciente da morte", "declínio das forças espiri­
tuais criadoras", "vacuidade e desgaste'', "degenerescência", "Ví­
cio", "atmosfera de uma irritante paralisação e alienação", ''deixar
esfriar e morrer'', "falta de calor generalizada'', ''um deixar-se
AMANEIRAMENTO 183

pressionar e limitar passivo e sobressaltado", "esquelético”


a b a ter,
(em oposição à "força exuberante, positiva, que irradia ativamen­
te'' do barroco), ''existência estreita, árida, opressa, sem liberdade",
"dependência de poderes e leis externos, imensos", "incapacidade
de se pôr sobre as próprias pernas", e mesmo "não poder- e saber-
ser”, "não poder- e saber-se-ajustar no todo'', ''pressentimento de
nexos a que ainda não se pode dar o assentimento" (lembremos
aqui o sentimento "de fim de mundo" de muitos esquizofrênicos,
enquanto o próprio Jürg Zünd se sente fora de todos os contex­
tos mundanos em geral e preferiria que a terra se abrisse sob os
seus pés e o tragasse). — Tudo isso, porém, caracteriza apenas
o fundamento e o solo no qual tanto o amaneiramento quanto o
maneirismo artístico podem lançar raízes. Trata-se aqui — como
já vimos ao considerar o caso Jürg Zünd — da confiança per­
dida no todo, nos homens, nas coisas e em si próprio.
Mas esse medo da vida, do mundo e da morte, essa perda
da confiança, como vimos, só vem a se converter era maneirismo
e em amaneiramento pelo esforço aplicado, despendido com todas
as forças e, mesmo, convulsivo, para encontrar apoio (H alt)
nessa inconsistência (Halt-Losigkeit). Mas esse apoio é e não
pode ser encontrado aqui no fato de suportar ( Aushalten ) o medo
no sentido do tornar-se a si mesmo, mas sim na adoção234 de um
modelo, idéia ou imagem protó-tipo pro-postos exteriormente e
no constante e cansativo esforço de imitá-lo, como o exibem tão
claramente Jürg Zünd e o jovem de Kleist, e como a linguagem
coloquial já o sugeriu na imagem do ato de se guindar com "ajuda
externa".
Ora, nenhum homem pode manter-se sozinho, inserto que está
no legado cultural, na tradição, na comunidade e na sociedade.285
Mas a autonomia (Selbständigkeit) do homem autônomo assim
como a do estilo artístico autônomo mostra-se no fato que, como
Pinder diz muito bem, todos os estilos realmente fortes pressu­
põem um outro estilo, mas "como raiz, não como imagem”z238
como esfera de vida (ainda que sob protesto), não como algo a

234 Veremos na próxima seção que o combate de um modelo também


representa uma maneira, ainda que negativa, de sua "adoção".
235 Cf. Goethe em sua última conversação com Eckermann, em 17 de
fevereiro de 1832; "No fundo, porém, nós todos somos seres coletivos,
não importa como nos coloquemos. Pois, como é pouco o que temos e
somos e que podemos chamar, no sentido mais puro, de nossa proprieda­
de! Nós todos temos que receher e aprender, tanto dos que existiram antes
de nós quanto dos que existem conosco. Mesmo o maior dos gênios não
iria muito longe se tivesse que dever tudo à sua própria interioridade."
236 Grifo meu.
184 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

se imitar e, mesmo, como algo evitado. O mesmo Vale mutatis


rnutandis para todos os homens "realmente fortes".
Através do apoio num modelo pro-posto ou na imagem pro-
tó-tipo e no guindar-se neles ou com eles, evita-se é verdade o
completo aniquilamento da possibilidade da estilização artística
bem como da "existência", mas ao preço da primitividade arrai­
gada, da naturalidade ou ingenuidade vivas. A preocupação ex­
clusiva de se-formar (Sichbilden) segundo a formação de uma
imagem pro-posta como protó-tipo ( Vor-bild), de se posicionar
(Sichstellen) conforme a posição de uma idéia pró-posta (V or­
stellung), de se situar (Sich-legen) segundo a situação (Lage)
de um modelo pró-posto (Vor-lage), o extraviar-se na tentativa
de repetir a escalada de um "alto" ideal já escalado anteriormen­
te, o andar, conduzir-se, mover-se e escrever de acordo com uma
pre-scrição (V o rsc h rift), o apoiar-se (Sich-halten) num pro­
testo (Vor-halt), tudo isso leva, como vimos, às manifestações que
designamos com maneirismo e amaneiramento. No caso Jürg Zünd,
era a imagem protó-tipo da distinção social, da irrepreensibilidade,
da inatacabilidade, da distinção acadêmico-artística.237 Em ambos;
os ''casos", trata-se da vitória do tipo (universal) ou da tipifi­
cação sobre o "indivíduo", um sinal de que aqui, efetivamente, não
é a "plenitude exuberante da vida" que floresce e frutifica, mas.
a fraqueza e o medo da vida que procura por um ultimo apoio.
Portanto, já se trata aqui de algo que deveria ficar oculto mas,
justamente, "aparece" agora.
A busca com todas as forças, convulsiva, guiada pelo medo,,
de um apoio no guindar-se, na imagem protó-tipo, na idéia pro­
posta, no modelo posto à frente ou na pre-scrição é — como
facilmente se pode ver — o pressuposto do medir-se e compa­
rar-se com a idéia que em cada caso se apresenta como proposta.
Ela é, pois, o sucedâneo da primitividade, da originariedade oit
da ingenuidade através da ''transposição de algo que evoluiu na­
turalmente" para a "atmosfera paralisante da intenção contempla­
tiva", da reflexão, pois, e da vontade. A partir da busca inten­
cional e voluntária de apoia neste ou naquele ser apoiado pelo
tipo apresentado como ideal, torna-se sem mais compreensível que
a consideração aqui se converta numa consideração de esguelha,
237 N ão é preciso frisar mais que, além do amaneiramento segundo o
tipo da distinção, há também outros modelos "típicos" para o amaneira­
mento, por exemplo, o tipo exatamente oposto a este último, o tipo da
submissão, cujo exemplo mais expressivo e a "humility" de Uriah em
David Copperfield. — Mas aqui tamhém se pode tratar, no fundo, de
urna tentativa de adotar um "comportamento distinto", como o mostra a
descrição muito justa dessa humility como um "gabar-se às avessas".
AMANEIRAMENtO 185

num olhar de soslaio. Pois a autonomia é, aqui, fingida apenas, e


sua perda, portanto, de modo algum admitida. Na Verdade, o que
governa aqui não é o Si, mas o tipo (universal) — permanente­
mente conservado sob os olhos. — Tal é o verdadeiro fundamento
da cisão interna dessa forma existencial. É a partir dela que se
explica tudo o que encontramos descrito como especificamente
amaneirado, justamente esse ''olhar de soslaio" para o tipo, que
é necessário para esconder ou ocultar aquela perda, e o que re­
sulta disso; o acumulo "cheio de emulação'' (ou guiado por um
espírito de oposição) das ênfases, a exageração, a repetição, o
formalismo, a paralisação, a frieza, a glacialidade, o amortecimen­
to, o polimento, etc.: "Um tipo ideal assenta (aqui) como uma
película de vapor (ou mesmo a camada de uma couraça) em tudo
o que é individual". O resultado é "o recobrimento do vivo pela
rigidez da couraça". Ligadas a isso estão todas as expressões que
conotam o mascarado, o cerimonioso e preso a etiquetas, espar­
tilhos, o "cultivado" e, mesmo "supercultivado", artificioso, levado
ao extremo, frio, insensível, oco, figurado, arrevesado, hermético,
preso a fórmulas, etc. do maneirismo, mais uma vez em completa
consonância com o modo existencial de um Jürg Zünd ou com as
tentativas desesperadas do jovem de Kleist. Tudo isso mostra que
"a formação espontânea da figura humana segundo as leis de seu
próprio crescimento desaparece" e que "são leis externas que de­
terminam sua estruturação, sua posição, seu movimento". Também
esse "dirigir-se" por "uma noção preconcebida das formas" vale
não somente para a pintura e a literatura do maneirismo, mas
também para a maneira pela qual Jürg Zünd ''realmente é na
vida".
Portanto, sob os dois aspectos, não somente surge a "impres­
são de uma distinção inquietante, fantasmagórica'', mas também
"essa seriedade fantástica quer se trancar e se encouraçar diante
de nós", de tal modo que só pode vir a se "trair" através de "ma­
nifestações involuntárias'', assim, por exemplo, na pintura, quando
a cabeça sobe para o terço superior do quadro ou mais alto ainda,
ou quando o homem com a ''máscara" de uma calma e de uma im-
passibilidade de ferro deixa ver suas ''mãos nervosas", ou ainda
quando são exageradas as dimensões de profundidade do espaço,
a distância do espectador, etc. No caso Jürg Zünd, quando, atra­
vés de movimentos que chamam a atenção por sua brusquidão ou
caráter abrupto, ele "trai" e dá a perceber como fingida, a non-
chalance ajustada ao tipo ou ideal da distinção; quando, através
de súbitas explosões ou agressões ou através de movimentos arti-
ficiosamente inocentes, a "brincar ludicamente", "trai" sua "ner-
vosia", escondida por trás de uma calma pretensamente glacial;
186 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

quando, através de uma exibição exagerada de indiferença e dis­


tância, "trai" seu interesse "proleta'' — em contradição com seu
ideal da distinção — pelas outras pessoas. Aqui também o ser-aí
"é desviado da realidade por poderes avassaladores", com a única
diferença que em Jürg Zünd, ao contrário de muitos esquizofrê­
nicos agudos, bem como do maneirismo, esses poderes não são "do
além", mas estão, por assim dizer, "secularizados", sendo, pois,
"deste mundo". Em Jürg Zünd, como também em Rousseau,238
por exemplo, seculariados em poderes anti-humanos e, finalmente,
em forçaj239 meramente mecânicas, se bem que temidas supersti­
ciosamente.
De particular interesse são ainda duas observações de Pinder,
uma no sentido de que a vontade de imitação leva a uma alteridade
"que aparece justamente quando se esforça por ser semelhante ou
mesmo igual" (cf. aqui também, mais uma vez, Jürg Zünd). A
outra no sentido de que, quando o maneirismo se torna ‘'mais obje­
to do que forma estilística", quem foi "salvo" dele "repousa o olhar
cheio de simpatia sobre as suas figuras", sobre a "figura exem­
plarmente maneirista" de Dom Quixote ou sobre a figura de
Hamlet. Vemos aqui, para falar com Dvorák,240 mais uma vez
uma intensidade vital ou "exposição" universais, uma exposição
que somos incitados a emular na análise existencial. A matéria,
porém, dessa exposição, ou seja, a humanidade — tanto no que
concerne a Dom Quixote quanto a Hamlet — pertence sempre, e
mesmo principalmente, àquele ‘'tipo astênico" — com sua más­
cara, sua couraça, sua formalidade e seu cerimonial —, por trás
de cuja "astenia", divisão interna, ceticismo e medo secreto da
vida se oculta uma agressividade perfeitamente "estênica", como
também ocorre com o nosso Jürg Zünd. Essa contradição per­
tence, como a contradição em geral, não somente à essência do
modo de ser-aí esquizofrênico, mas, como vimos, também à essên­
cia do estilo artístico maneirista. Como é notório, nós a encon­
tramos sempre, sem exceção, na esquizofrenia, desde o contacto
quotidiano com os esquizofrênicos até suas obras plásticas. Pois
aqui também se encontram, como no maneirismo artístico, formas

238 Cf. o Caso Suzanne Urban, Schweiz. Archiv f. Psych. u. N e w ., t.


71, p. 65.
239 Jürg Zünd "está certo" de que é a ele, justamente a ele, que voam
à cabeça as esferas centrífugas de uma máquina a vapor ao entrar na
casa de máquinas, depois de terem anteriormente "parado há muitas déca­
das". Também isso é um traço nitidamente amaneirado em seu ser-aí. Cf.
o segundo Protocolo de Rorschach para a prancha X , 4 (loc. cit., t.
56, p. 22).
240 Loc. cit., p. 237.
AMANEIRAMENTO 187
e x tr e m a m e n te b r u ta is , g r o s s e ir a s , d is fo r m e s , b e m ju n to de fo r m a s
m u ito d e lic a d a s , "a b r in c a r lu d ic a m e n te " e " in s in u a n te m e n te e le ­
g a n te s" ; fo r m a s r ig id a m e n te g e o m é tr ic a s , e ao la d o de cores lu ­
m in o s a s o u tra s to ta lm e n te ap a g a d a s, ao la d o da c la r id a d e m a is
o fu sc a n te o m a is im p e n e tr á v e l escu ro , e tc .
A p esa r d is s o , s e r ia um erro qu erer com preen der e ju lg a r a
produ ção p lá s tic a ( Bildnerei ) e s q u iz o fr ê n ic a — para u sar a
exp ressão in tr o d u z id a por P r in z h o r n a fim de d ife r e n c iá -la s das
obras de arte — a p a r tir d o m a n e ir is m o a r t ís t ic o , o u m e s m o a in d a ,
a p a r tir do a m a n e ir a m e n to apenas. A produ ção p lá s tic a e s q u iz o ­
fr ê n ic a não d e ix a reconh ecer a b s o lu ta m e n te nenhum e s t ilo a r tís ­
tic o d e te r m in a d o . P o is não se há de qu erer d e s ig n a r a ju sta p o -
p o s iç ã o típ ic a d e la s , que acabam os de d escrever, com o um e s tilo
a r tís tic o . Por is s o fa la m o s , con cord an d o q u a n to ao fu n d o com
o p r ó p r io P r i n z h o r n 241 e q u a n to à te r m in o lo g ia com M ü lle r -
S u u r ,242 d e u m a incompatibilidade d o s c o n c e ito s " e s q u iz o fr ê n ic o " e
'' a r t e " , e s o m o s d a o p in iã o q u e n ã o h á u m a arte e s q u i z o f r ê n i c a .243
C om o que não se qu er a f i r m a r 244, com o d is s e m o s , q u e, em
p esso a s d o ta d a s a r tis tic a m e n te ou m esm o em v e r d a d e ir o s a r tis ta s *
que su c u m b ir a m à e s q u iz o fr e n ia , a in d a e n c o n tr e m o s em a lto grau
um a vontade de expressão a r tís tic a , e v e n tu a lm e n te to r n a d a m a is
in te n s a a in d a p e la doença e que nos com ove p r o fu n d a m e n te .

3. Colocações Iniciais para uma Análise Existencial


do Amaneiramento
Q uando em preen dem os um a a n a lis e e x is te n c ia l do a m a n e ir a ­
m en to , n ã o pod em os m a is fa la r em c r e s c e r , e n r a iz a r -s e e m edrar,

241 c f . sua distinção modelar entre a consideração estética e a conside­


ração psicológica na produção plástica dos doentes mentais (Berlim, 1922),
p. 332 ss.
242 "Schizophrene Kunst", Grenzgeb. d. Medizin, ano I, cad. 4, p. 156.
Berlim-Munique, 1948.
243 Nã0 falamos naturalmente de artista satacados de esquizofrenia e
que, apesar de sua esquizofrenia, continuaram a criar durante mais ou
menos tempo ohras de arte de alto nível ou mesmo chegaram a uma
grandiosa mudança estilística artística, como ocorre por exemplo em Höl­
derlin. Mas tampouco falamos de esquizofrênicos que, antes de caírera
doentes, tiveram uma atividade artística qualquer e, por isso, ainda são
capazes de realizações artísticas "na" esquizofrenia, como por exemplo o
caso Pohl de Prinzhorn (loc. cit., pp. 271 ss). Em contraposição, as cria­
ções plásticas de Adolf Wölflin não pertencem, a nosso ver ao domínio
da arte (cf, Morgenthaler Ein Geisteskhanker als Künstler , Berna e Leip­
zig, 1921).
244 Sic. Trata-se manifestamente de um lapso; deve-se entender aqui
"negar", em vez de "afirmar" (N. do T.).
188 T r ê s FORMAs da E xistên cia M alograda

em uma "suspeita biológica", em "doença da moda" e formas


mórbidas, pois todas essas expressões derivam da esfera da vida,
como é o caso, naturalmente, com maior razão ainda, das expres­
sões "insegurança vital", "debilidade vital", "medo oculto da Vida”,
etc. A Vida, porém, quer no sentido de uma ciência natural como
a biologia, quer no sentido de uma ciência do espírito como a
Antropologia filosófica, é, na Verdade, um modo de ser específico.
Todavia, ninguém conseguiu ainda, nem um biólogo, nem um
Bergson, Dilthey ou Simmel, exibir o caráter peculiar dessa ma­
neira de ser. Nem o élan vital de Bergson, nem a vida e o viven-
ciar no sentido de Dilthey ou Simmel mostram, apesar de se falar
em "contexto estrutural" vivo ou em "lei individual", uma ver­
dadeira estrutura. É verdade que a "vida" não é mais considerada
aqui como pura subsistência, mas não se compreendeu ainda que
ela so é "accessível", por uma necessidade de essência, no ser-aí.
"O ser-aí, por sua vez, jamais deve ser determinado de modo a
ser colocado como vida (ontologicamente indeterminada) e algo
mais que venha por acréscimo". Ao contrário, a ontologia da vida
só se efetua via uma "interpretação privativa": "ela determina
aquilo que tem que haver, a fim de que possa haver algo como
viver-apenas".246 Só quem se ocupou anos a fio como psiquiatra
da "Filosofia da Vida", buscando um fundamento para a inves­
tigação psiquiátrica, pode avaliar como a ontologia do ser-aí pôde
vir a atuar num sentido liberador. Pois, enquanto o élan vital e
"a vida" não deixam ver, como dissemos, nenhuma estrutura ou
sentido próprio — razão por que a investigação psíquátrica, ba­
seando-se nesses conceitos, tinha sempre que acabar na vaguidão
conceptual —, a ontologia do ser-aí trouxe à luz uma estrutura
essencial apriórica, juntamente com elementos estruturais essenciais
(os "existenciais") que permitem ao psiquiatra investigar e des­
crever as formas mórbidas a serem investigadas e descritas por
ele como modificações fácticas dessa estrutura apriórica.
Pois bem, de que maneira pode-se compreender e descrever a
modificação da estrutura essencial do ser-homem que acabamos de
descrever como amaneirada, arrevesada, guindé, retorcida, sem se
recorrer ao fator biológico no sentido de uma forma mórbida ou
doença da moda individual ou supra-individual ou de um "menos"
de vitalidade e sua substituição pela espiritualidade — no sentido
mais amplo, não apenas no sentido artístico do termo. Ou, para
formulá-lo positivamente: de que maneira podemos compreendê-la
e descrevê-la, compreendendo e enunciando existencial-analiti-

245 Heidegger, Sein und Zeit, p. 50.


AMANEIRAMENTO 189
camente aquela carência e o caráter específico de seu sucedâneo ?
Pois a análise existencial jamais se ocupa de diferenças quanti­
tativas, de um mais ou menos de "forças". Sua intenção e su&
significação consistem precisamente em que ela, em oposição tanto
à psicanálise quanto à psicologia e à Psicopatologia biológica e
mecanicista em geral, reduz todas as “supostas” forças e "deslo­
camentos de ''força", todas as "supostas" alterações da "energia
psíquica'' ou da "libido", das funções ou "mecanismos" vitais ou
psíquicos, etc. a diferenças "qualitativas", a saber, a alterações,
que se podem exibir fenomenologicamente, da estrutura do ser-aí
ou do ser-no-mundo. O mesmo vale naturalmente para a lingua­
gem da técnica, privilegiada pela linguagem coloquial.
Até aqui, tentamos primeiro esboçar o "fundamento exem­
plar" fáctico — no sentido de Husserl —, baseando-se no qual a
análise existencial pode aspirar a ''captar" e "fixar" "numa idea-
ção adequada" a essência do amaneiramento.246 Mas, em oposição
a Husserl, a "facticidade do mundo natural" ou da "experiência
natural" não "desaparece" para nós, muito embora não concirna
mais a um fato bruto subsistente aqui ou ali, mas, sim, ao estar-
jogado do ser-aí em seu ser.247 Por conseguinte, o estar-jogado
deve indicar a facticidade da obrigação para o ser-aí de se encar-
regar de seu fundamento ( Überantwortung des Daseins an seinen
Grund) — fundamento esse que ele próprio não lançou. (Nessa
medida, Heidegger pode dizer que a "existencialidade é essencial­
mente determinada pela facticidade".) Mas o existir fáctico (do
ser-aí) "não é apenas, de uma maneira geral e indiferente, um
poder- ou saber-ser-no-mundo caracterizado pelo estar-jogado, mas
já se deixou sempre absorver no mundo de suas providências.
Nesse ser junto d e . . . , que decai e se entrega, anuncia-se de ma­
neira explícita ou não, quer se compreenda quer não, a fuga da
atmosfera de inquietante estranheza ( Unhelmlichkeit), que no
mais das vezes permanece oculta juntamente com a angústia la­
tente, porquanto a publicidade da Gente' reprime toda falta de fa­
miliaridade. ( Unvertrautheit)2*8 "O já-estar-num-mundo-em-an-
tecipação-de-si-mesmo (Sich-vorweg-schon-sein-in-einer-Welt) im­
plica essencialmente o ser que decai e se entrega junto ao ser dis­
ponível e providenciado no interior do mundo."249 O ser-junto-ao-
ente-disponível que decai e se entrega, ou, numa só palavra, o de­

246 Cf. para o todo Log. Untersuchungen II, 1, 2.a ed., p. 440 e Ideen
p. 60.
247 c f. Heidegger, Sein und Zeit, p. 135 e passim.
248 Grifo meu.
249 Ib., p. 192.
190 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

caimento é, por sua vez, um modo existencial do ser-no-mundo,


no sentido de uma maneira fundamental do ser da quotidianidade.
Esse ser-decaído e entregue junto do ente disponível providen­
ciado "tem no mais das vezes o caráter do estar-perdido no do­
mínio público da 'Gente'. O ser-aí já está sempre, a princípio, de­
caído de si mesmo como um autêntico poder- ou saber-ser-a-si-
próprio e entregue ao 'mundo'. Estar decaído e entregue ao
*mundo' significa deixar-se absorver na convivência (Miteinander-
sein), na medida em que esta é conduzida pela tagarelice, pela
curiosidade e pela ambigüidade."250 Como se sabe, Heidegger
chama o ser-no-mundo "que está inteiramente absorvido na 'Gente'
pelo 'mundo' e pelo ser-aí coexistente dos demais'' de inautenti-
cidade do ser-aí no sentido de não-ser-ele-mesmo. Esse não-ser-
ele-mesmo não atua, porém, como não-ser, mas como “possibili-
dade positiva”, a saber: "como o modo de ser imediato do ser-aí'',
"no qual ele se mantém no maís das vezes''.251 Também o não-ser-
-ele-mesmo, enfatizado por Bleuler, Reboul-Lachaux entre outros,
no sentido de imitar e querer-parecer, já foi interpretado acima
como semelhante "possibilidade positiva''.
Se a inauticidade do ser-aí enquanto absorção (Benommen­
heit) na "Gente'', ou perder-se na "Gente" significa "decair no
sem-fundo",252 então já percebemos que o amaneiramento constitui
por sua parte, mais uma vez, um modo privilegiado desse "decair
no sem-fundo" caracterizado pela inauticidade, pelo deixar-se ab­
sorver pela "Gente" ou perder-se na "Gente".253 E esse privilégio
consiste — para antecipá-lo desde logo — em que o ser-aí enquanto
amaneirado não decai pura e simplesmente no sem-fundo da "Gen­
te*', mas busca nele "convulsivamente" um "fundo'', sobre o qual
acredita, com ''desmedido atrevimento'', poder se pôr de pé e en­
contrar um apoio. Considere-se apenas a forma existencial de um
Jürg Zünd ou dos maneiristas, tal como descrita pelos historia­
dores da arte enquanto praticantes da "psicologia profunda''. Esse
250 jb., p. 175 . cf. a esse propósito todo o § 38 sobre o decaimento e
o estar-jogado.
251 Ib., p. 176.
252 ib., p. 177. Grifo meu.
253 isso também vale para Lola Voss na medida em que a linguagem
coloquial também — e em especial — é a expressão do "domínio publico
da 'Gente'", mesmo quando ela, numa pura intencionalidade "privada",
é despida de seu sentido autêntico e mesmo abusada para fins puramente
privados. Como mostramos no estudo sobre o caso Lola Voss (no Schweiz.
Archiv., t. 63), o estar decaído no "sem fundo" da linguagem como um
mero instrumento lingüístico, logo o amaneiramento, é aqui o último
apoio antes do afundamento posterior, que teve efetivamente lugar nò
sem-fundo da loucura.
AMANEIRAMENTO 191

"privilégio" implica ainda que a fuga da atmosfera de inquietante


estranheza do ser-aí, a fuga da angustia não se mostra mais aqui
como uma fuga de uma atmosfera de inquietante estranheza e de
uma angústia latente encobertas, mas como uma fuga desesperada
de uma atmosfera de inquietante estranheza não-encoberta e de
uma angústia manifesta. Além de Jürg Zünd, 1embre-se especial­
mente Lola Voss e suas fórmulas lingüísticas mágico-amaneiradas
para conjurar a angústia.
Que o amaneiramento é um modo privilegiado da inautentici-
dade e, assim, da dependência do ser-aí é algo, aliás, que a lin­
guagem coloquial já percebeu com grande clareza. Pois ela já viu
no arrevesar-se ou retorcer-se (se guinder ou se maniérer) e, por­
tanto, no arrevesamento enquanto tal, como já expusemos, o re­
curso a uma manipulação técnica a fim de superar uma falta de um
poder- e saber-ser independente, uma ajuda técnica ''externa".
O significado da inautenticidade e da dependência (t/n -
selbständige:eit) torna-se mais claro ainda quando recorda­
mos o que Heidegger entende pelas expressões “Selbst“
("Si", "auto-", "o mesmo") e Selbständigkeit" (indepen­
dência, autonomia, auto-suficiência, capacidade de ser e agir
por si mesmo). "A ipseidade" (Selbstheit), diz Heidegger,254
só pode ser lida existencialmente a partir do autêntico poder
e saher-se-a-si-mesmo, isto é, a partir da autenticidade do
ser do ser-aí como cuidado. É dela que a constância do Si
m esm o (Ständigkeit des Selbst) , enquanto pretensa persis­
tência do subjectum, recebe o seu esclarecimento. Mas a
fenômeno do poder- e saber-se autêntico abre também
nossos olhos para a constância do Si mesm o no sentido do
ter conquistado uma posição (Stand). A constância do St
mesmo no duplo sentido da firmeza constante (beständige
Standfestigkeit) é a autêntica contrapossihilidade para a falta
de autonomia ou de posição própria (U n selbststän digkeit) d»
decaimento indeciso. A autonomia ou posição própria (Selbst­
ständigkeit) outra coisa não significa existencialmente senão
a determinação da decisão que se adianta e corre à frente
(die vorlaufende Entschlossenheit). A estrutura ontológica
desta desvela a existencialidade da ipseidade do Si mesmo.
O ser-aí é autenticamente ele mesmo na individuação origi­
nária da silente determinação que reclama para si a angústia.
O autêntico ser a si mesmo, na medida em que se cala,
justamente não diz "eu-eu", mas "é", na reserva de seu
calar-se (in der Verschwiegenheit), o ente que veio a ser da
maneira pela qual pode- e sahe-ser autenticamente. O Si
mesmo, que o calar-se da existência decidida desvela, é o solo
fenomenal originário onde se situar a questão pelo ser do
" e u .”

254 Cf. Sein und Zeit, p. 322 s.


192 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

Dessas formulações —- que naturalmente só podem ser com­


preendidas integralmente no contexto de todo Ser e Tempo —
resulta mais uma Vez que a linguagem coloquial Viu corretamente,
ao deslocar, no se guinder a posição (Stand) do ser humano para
algo — para não dizer fora dele — pelo menos "periférico'' com
relação a ele, para a sua periferia, portanto. Semelhante periferia
era, para ela, a intencionalidade. Em Vez desse modo de se expres­
sar espacial, encontramos na análise existencial de Heidegger a
distinção existencial entre a inautenticidade e a autenticidade, ou
a independência do ser entendida com a constância do si mesmo,
no sentido de ter conquistado uma posição e da firmeza constante.
De nada disso se fala no amaneiramento, como repetidamente o
Vimos. Pois o ser-aí não "está de pé" ("steht") sobre o seu pró­
prio fundamento, mas, como já nos expressamos, sobre um "solo"
ou "fundo" (Boden) no sem-fundo (Bodenlosigkeit) da Gente-
mesma. Semelhante "fundo" Viu-se que era a respectiva pró-posta
de um modelo ou idéia tomados ao domínio público da Gente, de
sua tagarelice, de sua ambigüidade e sua ''moda". É por ela [pela
pró-posta desse modelo ou idéia] que o ser-aí está aqui inteira­
mente absorvido, ou na qual ele se perdeu inteiramente.255 Pois
aqui não se pode falar em uma silente determinação (da decisão)
a reclamar a angustia para si. Tanto no amaneiramento quanto no
maneirismo, como vimos, tudo está disposto de modo a evitar a
atmosfera de inquietante estranheza do ''medo da vida e da morte''
e a se ocultar — se não de si mesmo, o que, como se disse, é im­
possível aqui — pelo menos do mundo-comum, mediante a ante-
posição (Vorlegen) de uma “máscara" ( = modelo pró- ou ante­
posto [Vor-lage]) tão "expressiva" e, mesmo, tão gritante quanto
possível.

255 É precisamente em conexão com semelhantes locuções que convém,


sobretudo em consideração do leitor não ou pouco familiarizado com a
analítica existencial de Heidegger, frisar expressamente que "a Gente" ou
o "domínio púhlico da 'G en te'" de modo algum significa os outros ou
os demais "além de mim" ou "em face de mim". Muito antes, também
eu "pertenço" à "Gente" melhor quando se fala da Gente, é sempre do
ser-aí como o meu ser-aí, em cada caso, que existe à maneira de ser-a-
gente. E é só porque e na medida em que isso ocorre que o ser-aí se
perdeu no domínio púhlico da Gente ou num modelo pro-posto (Vor-lage)
ou está por ele absorvido. Um exemplo; quando Heidegger diz; “A
'Gente' esquiva-se da escolha" (loc. cit., p. 391), isso significa que o
ser-aí, como em cada caso o meu, esquiva-se da escolha à maneira do
ser-a-gente ou, dito de outro modo, que o ser-aí, na medida em que se
«esquiva da escolha, existe à maneira do ser-a-gente,
AMANEIRAMENTO 193
A tudo isso acresce agora aquilo que a linguagem coloquial, a
interpretação dada pela Teoria da Arte e pela Psicopatologia do
maneirismo e do amaneiramento designam como guindado, retor­
cido, altamente cultivado, sublimado (de sublevo = elevar ou
segurar no alto, erigir). Ao amaneiramento pertencem não so­
mente o ''terreno" ("Boden") alto e vazio do cerimonial, da eti­
queta, do espartilho, da couraça, do véu ou da máscara, ou seja,
a moda da corte, dos soldados ou da sociedade em geral, ou o tipo
geral, mas também a enfatização ou o desrespeito dessa moda, seja
em direção ao distorcido, cheio de trejeitos, "empolado-patético",
em direção ao grosseiro, desgracioso ou "desconjuntado" — tal
como o encontramos tão bem descrito no "Teatro de Marionetes"
de Kleist, se bem que não segundo um modelo da moda, mas se­
gundo um modelo artístico, mas em todo caso "em moda" —, seja
em direção ao afetado, jocoso-sentencioso, divertido-lúdico e,
mesmo, "brincalhão" ou floreado. Ao modo existencial do ama­
neiramento pertence, pois, de fato, a inautencidade do ser-aí no
sentido do não-ser-ele-mesmo, em outras palavras, a absorção pela
''Gente" ou pelo estar-perdido nela, por um lado, o deliberado que-
rer-conquistar-uma-posição ou um fundamento (Boden) nela, que
é um querer desesperado e condenado, como vimos, de antemão
ao fracasso, por outro lado. O "destino" do ser-aí no modo do
amaneiramento é "conformar-se" a uma posição pseudo-autônoma,
uma posição autônoma "por graça" de um determinado modelo
pró-posto da "Gente".256 Mas isso significa, como vimos, não
somente uma contradição vivida existencialmente ( existenziell),
mas uma contradição ontologicamente existencial (existenzial).
Essa contradição, tal como se manifesta de maneira particular­
mente clara nas descrições do maneirismo na Teoria da Arte, mas
principalmente no caso Jürg Zünd, significa o t z q c o t o v x p e v ò o ç , ori­
ginário da angústia, do desespero, a "primeira'' inverdade, o "pri­
meiro" engano e awto-engano do amaneiramento e, em parte,
também do maneirismo. Dele resulta a divisão interna, a falta de
genuinidade, de naturalidade, de ingenuidade, "o acúmulo dos
acentos" resultante do desejo de octiltamento, o exagerado, ''a r­
tificial" no sentido do amaneiramento (o artificial e deliberado
nao precisando ser, contudo, enquanto tais, amaneirados!) Isso
também ficou manifesto na análise da linguagem coloquial, na me­
dida em que esta compreendeu a altura, no sentido da forma exis­
tencial amaneirada, não como uma altura escalada por sua via "na­
25« Binswanger faz aqui um jogo de palavras com “Geschick" (fado,
destino, sorte) e "sieh schicken in” (conformar-se, resignar-se a) (N .
d o T .) .
194 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

tural", mas como uma altura alcançada por obra de recursos técni-
co-artificiais. Essa "altura" é, de fato, a altura de um "Si'' "sem na­
turalidade'', não genuíno, ou presumido ( medido por compara­
ção257) ou — lembremos de novo o jovem de Kleist —• de um
"Si" simulado no espelho da reflexão (vor-gespiegelt) para si
mesmo. É nessa auto-simulação que se deve ver, portanto, a pe­
culiaridade essencial do amaneiramento como um modo privilegia­
do da absorção pela Gente. É, portanto, na simulação desesperada
de um Si na imitação268 explícita de um modelo ( Vorlage) da
moda, isto é, tomado ao domínio público da Gente, de um deter­
minado "tipo" social ou de um jeito amaneirado "artístico" — seja
do comportamento, da roupa, da maneira de se exprimir, escrever
ou falar, seja do modo de vida ou da arte — que se encontra, por
conseguinte, a chave para a compreensão do amaneiramento oii
do arrevesamento como um modo privilegiado da maneira inau-
têntica do ser-no-mundo. Mas o mesmo vale também para o con­
trário da imitação, para a oposição "teimosa''. Pois imitação e
oposição significam do mesmo modo dependência do domínio pú­
blico da Gente.259
257 A raiz comum das palavras permite a Binswanger um jogo com as
palavras (sieh) anmassen = arrogar(-se), usurpar, atrever (-se a ), preten­
der, presumir e anmessen — tomar as medidas de alguma coisa a alguém,
adaptar.
258 Cf. a esse propósito o excelente ensaio de Simmel, "Die Mode”, em
Philos. Kultur, 2.a ed., Leipzig 1909, pp. 26 ss.; "Poderíamos descrever
a imitação como um legado psicológico, como a transição da vida grupai
para a vida individual. Seu atrativo está, em primeiro lugar, no fato de
nos possibilitar um agir apropriado e sensato, mesmo que não surja nada
de pessoal e criador. Poderíamos chamá-la de filha do pensar com o
fazer-sem-pensar. Ela dá ao indivíduo a segurança de não estar sozinho
em sua ação, mas se ergue, sohre a execução, repetida de uma mesma
atividade até agora, como que sohre um sólido alicerce, que desencarrega
a presente atividade da dificuldade de sustentar-se a si mesma. Ela pro­
porciona nas coisas práticas a tranqüilidade que se alcança nas coisas teó­
ricas, quando subordinamos um determinado fenômeno a um conceito
universal. Quando imitamos, não somente passamos para os outros a
exigência de energia produtiva, mas ao mesmo tempo também a respon­
sabilidade por esse agir. Ela libera assim o indivíduo do tormento da esco­
lha e faz com que ele se mostre como uma simples criatura do grupo,
como um recipiente de conteúdos sociais. O instinto de imitação com o
princípio caracteriza um nível evolutivo no qual está vivo o desejo de
uma atividade pessoal adequada, embora inexista a capacidade de obter
conteúdos individuais para ela ou a partir dela."
259 Cf. de novo Simmel, loc. cit., p. 40; "Está claro que é também pos­
sível obter a mesma combinação que a extrema obediência obtém em
face da moda, precisamente por oposição a ela. Quem se traja ou se
comporta de maneira conscientemente antimoderna alcança o sentimento
AMANEIRAMENTO 195

O que, no ser entendido como disponibilidade, é espelho e


espelhamento, reflexo, significa no ser-aí, por conseguinte, a publi­
cidade da Gente e o ato de se espelhar, de se refletir nele no sen­
tido da "reflexão" intelectual. A pro-posta de um modelo ou idéia
dada de antemão pelo domínio público da Gente e por ela adotada
ou, então, contradita "dirige'' os seus raios "de Volta para" o ser-aí,
ou como costumamos dizer, o ser-aí reflete sobre essa pro-posição
de um modelo, ou por outras, coloca-a a (sua) frente (es stellt
sie vor sich hin), compara-se com ela, mede-se com ela, em suma,
reflete. Se o Verdadeiro esquema da reflexão (Überlegung) é o
“se — então",260 então a reflexão aqui é a seguinte: se isto é uma
maneira de ser costumeira para o domínio público da Gente ( =
pro-posição de um modelo), então eu "coloco" (lege) a mesma
sobre mim, em outras palavras, eu a faço minha, imito-a, exage­
ro-a ainda mais ou, então, converto-a em seu contrário. Mas, na
medida em que o ser-aí coloca sobre si ou reflete (auf sich legt
oder sich überlegt) esse modelo ou o seu contrário, esse modelo
pro-posto converte-se no ante-posto (Vor-Gelegtes), na mascara
posta à frente, na couraça ou véu com que se reveste. Mas, desse
modo, todos os elementos estruturais dessa estrutura existencial,
sobretudo o da mundanidade, assumem o caráter do posto à frente
ou em volta, da pró-posição de uma idéia ou de uma imagem pre-
figurada (des Vor-Gestellten oder For-Gebildeten), de tudo aqui­
lo que tem o caráter de uma máscara, couraça ou véu, não impor­
ta de que gênero de máscara, couraça ou véu se trate. Esse todo
estrutural é o que se tem em mente nas expressões retorcido ou
arrevesado, retorcer-se, ou arrevesar-se e retorcimento ou arrevesa-
mento.
Se quisermos agora abandonar o discurso figurado, como con­
vém à análise existencial, temos que voltar à reflexão entendida
corno a abordagem explicitadora caracterizada pela circunvisão or­
ganizadora das coisas providenciadas. Já sabemos que seu esque­
ma peculiar é o ''se — então":

de individualização a isso ligado não, a rigor, pela própria qualificação


individual, mas pela mera negação do exemplo social; se a modernidade
é a imitação deste último, então a antimodernidade intencional é a sua
imitação com sinais invertidos, que nem por isso dá menos testemunha
do poder da tendência social que nos faz dependentes dela de uma manei­
ra qualquer, positiva ou negativa. O intencionalmente antimoderno aco-*
lhe exatamente o mesmo conteúdo como o janota, só que ele enforma
numa outra categoria aquele na categoria do exagero este na categoria
da negação." Cf. também p. 41.
260 Cf. Sein und Zeit, p. 359.
196 TRÊS FORMAS m EXISTÊNCIA MALOGRADA
"Se isso ou aquilo deve ser, por exemplo, produzido,
utilizado, evitado, então é preciso recorrer a este ou aquele
meio, caminho, circunstâncias, ocasiões. A reflexão guiada
pela circunvisão organizadora aclara a respectiva situação
fáctica de ser-aí em seu mundo ambiente providenciado".261

Ao mundo ambiente conVém acrescentar aqui o mundo-eomum.


Também ele é ''providenciado" no amaneiramento no sentido da
disponibilidade — e não, por exemplo, no da comunicação. No
amaneiramento, é esse aclaramento (da situação fáctica de cada
ser-aí), no sentido da abordagem explicitadora guiada pela cir­
cunvisão organizadora, que desempenha o papel principal, como já
sabemos do caso Jürg Zünd e do maneirismo. Ou por outras: o
"homem” está continuamente em reflexão. Ele não pode esquecer
«m momento algum o papel que tem que representar de maneira
“ refletida" e que ele, ainda por cima, exagera por medo de ser
descoberto. Isso, porém, leva-nos finalmente ao modo de tempo-
ralização característico do amaneiramento.

“A abordagem do mundo ambiente na reflexão guiada


pela circunvisão organizadora tem o sentido existencial de
uma a-presentação (Gegenwartigung). Pois o ato de se tornar
a lg o Üe novo prCSCntC {Vergegenwärtigung) e apenaS Um
modo dela. Nela a reflexão avista diretamente a coisa não
disponível de que ela necessita. A circunvisão organiza­
dora que torna de novo presente concerne, digamos, a ‘me­
ras representações’ (Vorstellungen). A a-presentaçao carac-
1 terizada pela circunsvisão organizadora é, porém, um fenô­
meno multiplamente fundado. Em primeiro lugar, ela per­
tence em cada caso a uma plena unidade ecstática da tem-
poralidade. Ela se fundamenta num conservar do contexto,
providenciando o qual o ser-aí aguarda (gewärtig ist einer)
possibilidade. Aquilo que já se esclarece no ato de conservar
aguardando torna mais próxima a a-presentação reflexiva ou,
conforme o caso, o ato reflexivo de se tornar algo de novo
presente".2®

Se o modo de temporalização do amaneiramento, bem como


do maneirismo, é, em última análise, um aguardar, então esse
aguardar precisa, em todo caso, ser distinguido da "reflexão em
geral". A reflexão enquanto tal não tem, aliás, nada a ver com o
amaneiramento. A peculiaridade da a-presentação, do ato de se
tornar algo de novo presente e do ato de aguardar do ser-aí en­
quanto amaneirado e maneirista, ou por outras, a natureza de seu
261 1b.
262 Grifo meu.
A m a n e ir a m e n t o 197

compreender no sentido da estrutura-do-enquanto (ibid.) está em


que as duas maneiras de ser-aí, a artística bem como a da "Vida
real", a situação fáctica do ser-aí, já anteciparam sempre conser­
vando e apresentando, logo já deixaram o f u t u r o advir a elas num
s e n t i d o especial, no sentido precisamente da pro-posição de um
modelo ou da representação de uma “maneira" ("M anier"), de
um modo ou de um tipo genérico. Aqui se mostra que o "pro"
(Vor) da pro-posição de um modelo ou representação de modo
algum é tão-somente um "pro" espaçante (einräumend), mas
sobretudo um pro temporalizante, tanto no sentido do antes
(Vorher) quanto no sentido do adiante (Voraus). O amaneira­
mento significa que o ser-aí já compreendeu sempre como ele teni
de explicar o mundo263 (como condizendo com ou contradizendo
esta ou aquela "maneira"), e como ele tem de aguardar o seu
futuro, mais uma vez de modo condizente com ou contradizendo
a respectiva "maneira". Nessa medida, o ser-aí jamais consegue,
enquanto amaneirado ou maneirista, "vir a si mesmo" num pre­
sente autêntico, mas se consome na cópia, repetição ou refundi-
mento contemplativo-apresentador do respectivo ''tipo" ou da res­
pectiva "maneira", como as "últimas" (Jürg Zünd) possibilida­
des de seu ser-no-mundo.
Esse modo de temporalização torna compreensível a ''tensão"
e a "opressão", a "seriedade mortal", a dúvida e o desespero, a
falta de humor e de encanto do amaneiramento e do maneirismo.
Pois uma existência que se absorve no ato de aguardar a possi­
bilidade do mero condizer com ou contradizer, uma tal maneira
de existir só pode ser designada como "tensa" (gespannt), como
subjugada (eingespannt), oprimida, avassalada por poderes e leis
"externas", ou por outras, como desesperada ou sem liberdade e,
assim também, como desprovida dos modos da liberdade e desen­
voltura de existir, que designamos como humor e como encanto,
sem falar na ''abençoada" liberdade do amor!
Da maneira de temporalização do subjugamento do ato de
se tornar algo de novo presente pelo ato de aguardar deriva tam­
bém a maneira de espacialização do modo existencial e artístico
amaneirado e, mesmo,, do maneirista. O mundo do amaneiramen­
to está restrito , ao "espaço", que o aguardar constante lhe abre
{einräumt), logo ao espaço no sentido da proximidade da ''pres­
são e do choque" (Druck und Stoss), como vimos no caso Jürg
Zünd.264 É o espaço estreito da urgência (Dringlichkeit, a urgence
263 Ib.
264 Cf. a esse propósito a experiência associativa (loc. cit. t. 56, pp. 213
ss.), que mostra de maneira particularmente clara como as coisas o
"apertam".
198 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

dos franceses), e mesmo da apertura (Bedrängnis) e do deses­


pero. Dai a peculiaridade do amaneiramento, mas sobretudo do
maneirismo, de "represar." artificialmente "o espaço'' (Hans
Hoffmann), mas, ao mesmo tempo, de proteger a pessoa de uma
proximidade excessiva, e por outro lado, mais uma vez, a neces­
sidade angustiada de aprofundar tanto quanto possível ''o espa­
ço", e até mesmo de "esticar" e "alongar" a figura do homem.
Queremos, desse modo, tão-somente indicar que e em que medida
o modo de espacialização, assim como o modo de temporalização,
está ligado aqui à reflexão ( Überlegung ou Reflexion) e, assim,
igualmente, como a linguagem e o gesto parecem estudados, sem
naturalidade, fingidos ou artificiais.
A extravagância mostrou-se a nós como um malogro do ser-aí
causado pelo erguimento de uma parede ou barreira insuperável e
que resultava no atolar-se ou entalar-se da movimentação histó­
rica do ser-aí na decisão tomada uma vez por todas por uma
"idéia'', ideologia ou empreendimento, ou seja, resultando numa
desproporção antropológica que redundava em favor de uma altu­
ra desproporcionalmente íngreme em comparação com a estreiteza
da ex-periência. A excentricidade mostrou-se como o malogro do
ser-aí resultante de um projeto do mundo no sentido do través, do
enviesamento da totalidade dos contextos de remetimentos e, nessa
medida, do entalamento da movimentação histórica do ser-aí. O
amaneiramento, por sua vez, revelou-se como um malogro do ser-aí
resultante do guindar técnico-artificial ( = "intencional") no sen­
tido da vontade de conquistar um fundamento no sem-fundo da
Gente mediante a adoção o u imposição premeditada [Überlegung,
lit.: reflexão — N. do T.] de uma "m4scara-de-Si-mesmo", to­
mada de esguelha ao domínio público da Gente ou projetada em
oposição a ele, e assim "muito da Gente” (durchaus man-haft).
Aqui se trata, pois, de um entalar-se da movimentação histórica
do ser-aí no sentido da simulação no espelho da reflexão (Vor-
Spiegelung) de um si e, assim, de um logro de si mesmo.
É no papel decisivo que o ser-a-gente desempenha nesse modo
de ser-aí que temos que enxergar a condição da possibilidade para
que o amaneiramento se converta tão facilmente em moda,385 tanto
no sentido da exageração quanto no sentido do combate da mesma.
Isso Vale não somente para o maneirismo artístico enquanto algo
de supra-indiVidual, mas também para o amaneiramento enquanto
"doença da moda” individual, a expressão "doença da moda”
tendo para nós o duplo sentido de uma doença "que se converteu

265 Cf. a esse propósito mais uma vez Simmel, loc. cit.
AMANEIRAMENTO 199

em moda'', bem como, principalmente, o de uma "inclinação do­


entia para a moda".
Com esta expressão não Visamos, naturalmente, nenhuma do­
ença no sentido médico-biológico, mas a "falta de resistência" do
ser humano para a tentação de fingir um "fundo" ou posição au­
tônoma próprios, através da adoção de um modelo pro-posto to­
mado ao domínio público da Gente, ou por outras: de um tipo
genérico — por exemplo, da distinção, da humility ou do servilis­
mo, do estouvamento juvenil, da rebeldia, da má-criação, da ironia,
da zombaria, etc.266 Todavia, essa tentação e as tentativas correla­
tas — ao contrário do absorver-se "ingênuo" na quotidianidade da
Gente — não levam ao apaziguamento, mas mantêm intranqüilos
— enquanto um logro de si mesmo — a dúvida, o desespero e a
angústia. É da miséria dessa cisão interna que se "originam” o
esforço de uma incessante repetição, a "exageração" com relação
ao efeito e à "acumulação dos acentos".Se o amaneiramento foi
designado como o modo por excelência do decaimento no sem-fun-
do da Gente, a razão precisa é que o domínio público da Gente
justamente não reprime (niederhält) , mas entretém (unterhält) a
falta de familiaridade. Com base em tudo isso, o amaneiramento
pode ser designado como uma "inclinação doentia à moda”.
Vemos, pois, que a expressão de Reboul-Lachaux, "sans ga-
lerie, sans public, sans admirateurs le maniérisme (o amaneira­
mento) tendrait à disparaitre”, não pode ser o decisivo para a
compreensão do amaneiramento, assim como, tampouco, as ex­
pressões "vanité de la satisfaction de soi", da "auto-appréciation",
do í(vouloir-paraítre", "vouloir se faire retnarquer>>, etc. Pois,
abstração feita do fato que o amaneiramento, como mostra o caso
Jürg Zünd, também pode se exteriorizar num "vouloir-disparai-
tre”, numa vontade de não dar na vista e de "igualdade”, e mesmo
de "sumir no anonimato da m assa''; logo, abstração feita do fato
de que o amaneiramento não precisa de modo algum consistir
apenas em um "outro querer” (Gruhle), ou melhor, em um que­
rer a alteridade, no contrastamento com os demais ou na oposição
aos outros; o fundamento essencial do amaneiramento não deve,
finalmente, ser visto de modo algum no debate ou confronto com
"os outros”, mas num debate ou confronto ("malogrado'') do ser-aí
consigo mesmo. Na verdade, trata-se de um debate ou confronto
(Auseinandersetzung) no sentido do guindar-se (se guinder) me­
diante meios "periféricos” no sentido da intencionalidade e auto-
engano, em oposição ao processo autêntico ou "central" de ipsei-
286 Eis aí uma das razoes para a íntima ligação entre o amaneiramento
e a esquizofrenia, em particular, em sua forma hebefrêniea.
200 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

ficaçao ou amadurecimento. Ou por outras, trata-se daquilo que,


tanto relativamente ao amaneiramento quanto ao maneirismo ar­
tístico, encontramos sempre e por toda parte designado como a
cisão ou divisão interna (do ser-aí), como uma "separação'* ( " a u ­
seinander")267 ou uma fissuração da existência.
Posto que, no primeiro plano dessa divisão interna, estava
sempre o deslocamento de algo que "evoluiu naturalmente" para
"a atmosfera paralisante da intenção contemplativa", a saber: a in­
tenção (Absicht) no sentido do ato de ter em vista (Sicht) o
efeito, temos que ressaltar mais uma vez aquilo que já foi frisado
em face de Reboul-Lachaux: que esse ter em vista o efeito não
constitui a essência, mas apenas uma conseqüência essencial desse
debate ou confronto do ser-aí consigo mesmo. Mas assim também
nos colocamos em oposição a Goethe, quando este relaciona "todo
amaneiramento" ao "trabalhar para o efeito". Todavia, dado que
as formulações de Goethe a esse respeito mais uma vez confirmam
e ampliam, apesar disso, o que encontramos apresentado nesta
obra, em particular a partir do ponto de vista da Teoria da Arte,
é preciso, para terminar, conceder-lhes um pouco de espaço.
Para Goethe, o estilo baseia-se na "essência das coisas'', nos
mais fundos alicerces do conhecimento, "na medida em que nos
é permitido reconhecê-la (essa essência) em figuras visíveis e tan­
gíveis".268 Em vez de "essência das coisas", também encontramos
em Goethe (numa carta a Herder) a expressão existência (no
sentido usual, não no sentido existencial-analítico) e, contraposta
a ela, a expressão efeito, ao qual, como se viu, ele relaciona "todo
amaneiramento". Essa passagem da carta, muito importante para
nós, diz o seguinte: "Quanto a Homero, é como se uma venda
houvesse caído de meus olhos. As descrições, as comparações, etc.
parecem-nos poéticas e, no entanto, são indescritivelmente natu­
rais, embora, é verdade, desenhadas com uma assombrosa pureza
e intensidade de sentimentos. Até mesmo os acontecimentos mais
estranhos e falsos têm uma naturalidade que jamais senti, a não
ser na proximidade dos objetos descritos. Deixa-me expressar
meus sentimentos, para resumir, da seguinte maneira: enquanto
elas apresentam a existência, nós usualmente apresentamos o efei­

267 Note-se o jogo de palavras com Auseinandersetzung (debate, con­


fronto) e Auseinander (separação). O debate ou confronto consigo mes-
mo supõe uma separação ou divisão interna (N . do T.)
268 Einfache Nachahumung der Natur, Manier, Stil. Jub.-Ausg. vol. 33,
p . 57. — Cf. a esse propósito também Emil Staiger, Die Zeit als Einbil­
dungskraft des Dichters, pp. 114 ss., Zurique e Leipzig, 1939. Natural­
mente, o maneirismo também tem o seu estilo, se bem que, justamente,
não no sentido goethiano, "repousando sobre a essência das coisas".
AMANEIRAMENTO 201
to; enquanto elas descrevem o terrível, nós descrevemos terrivel­
mente ; enquanto elas descrevem o agradável, nós descrevemos
agradavelmente, etc. Ê daí que advém todo exagero, todo amanei­
ramento, toda graça falsa, todo empolamento.2®* Pois quando tra­
balhamos com o efeito e para o efeito, não acreditamos poder tor-
ná-lo bastante sensível."270
Aqui o "jeito amaneirado" é tomado no sentido da maneira
contemporânea de apresentar e expor, e em oposição ao "antigo e
o único verdadeiro estilo no sentido da existência como a essência
das coisas". Se o ''jeito amaneirado", enquanto o modo ou a lin­
guagem com a qual o artista aspira "expressar à sua maneira"
aquilo que ele "captou com a alma", se torna "cada vez mais
vazio e insignificante,"271 então a arte, como escreveu Goethe uma
vez a Karl August,272 degenera "numa pompa sem alma".
Por mais profundas que sejam as verdades que todas essas
opiniões e modos de ver de Goethe contêm para todos os tempos
e, sobretudo, para os nossos, já vimos claramente que o ''trabalhar
para o efeito" e a "ausência de alma" que vai de par com ele
carecem existencial-analiticamente de mais um aprofundamento, a
saber: da volta ao amaneiramento como uma forma existencial
específica. Por mais fundamental para a compreensão do manei-
rismo e do amaneiramento que seja a enfatização da oposição da
essência ou do Quid, por exemplo, do terrível, ao Como, à ma­
neira de sua descrição, a oposição, pois, entre o estilo (no sen­
tido de Goethe) por um lado, e a pompa sem alma e sem estilo
por outro lado, o decisivo aqui é, para resumir mais uma vez,
não o "trabalhar para o efeito" ou a "busca do efeito", não o
"querer brilhar e ofuscar" — que também desempenha um papel
tão importante para os historiadores da arte —, mas, sim, o absor­
ver-se "positivo" ou "negativo", mas sempre desesperado, na Gen­
te, no duplo sentido do estar-concernido e mesmo avassalado por
éla e do querer, intencional ou "voluntarioso", conquistar uma po­
sição ou tomar pé nela. "Todo exagero, todo amaneiramento, toda
graça falsa, todo empolamento" (Goethe) devem, por conseguinte,
ser compreendidos como tentativas de continuar a desempenhar "à
tout prix" um papel próprio no "absorver-se" — aqui, pois, não
tranqüilo, mas desesperado — ''no domínio público da Gente" e
na busca desesperada de apoio num tipo "à maneira da gente"'
(manhaft) ou genérico. Tudo isso está implícito nas expressões
269 Grifo meu.
270 Goethe a Herder, 17 de maio de 1787 (Italienische Reise N áp oles)..
Jub-Ausg. vol. 27, pp. 4 ss.
271 Jub-Ausg. vol. 33, pp. 55 e 59.
272 Roma, 3 de fevereiro de 1887.
202 TrÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

aparentemente tão simples do arrevesar e do arrevesamento, do


retorcer-se e guindar-se "com o auxílio de tipos, poderes ou leis
provenientes de fora", quer no sentido de sua imitação, quer no
sentido de evitar e combater. Já se pode ver que o desempenho de
um papel próprio constitui sempre um absorver-se na Gente, uma
maneira (ainda que especial) do ser-a-gente, a partir do fato que
o caráter "particular" desse papel justamente não se baseia na
autenticidade e na determinação da existência em suas decisões e,
assim, tampouco na verdade autêntica. Ao contrário, para esse
papel, vale o que Kierkegaard diz da falta de espírito e de sua
apropriação da verdade; "O estar-perdido implicado pela falta de
espírito é, ao contrário, o mais terrível de tudo. A desgraça está
justamente em que a falta de espírito tem uma relação com o es­
pírito e este é nada. Por isso, a falta de espírito pode se apropriar
até certo grau de todo o conteúdo do espírito, mas, nota bene, não
como espírito, mas como brincadeira, galimatias, palavras vazias,
etc. Ele pode se apropriar da verdade, mas, nota bene, não como
verdade, mas como conversa fiada e mexerico."273
Lancemos aqui mais um olhar sobre a mundanidade do mundo
do amaneiramento, e veremos que ela também é, como convém ao
ser-em nesse mundo como retorcer, essencialmente caracterizada
por seu retorcimento, isto é, pelo fracionamento, pela exageração,
pela contraditoriedade e pela oposição. Esse fracionamento do
mundo do amaneiramento está ligado, por seu lado, ao modo de
sua temporalização e espacialização. O aguardar constante ou o
ficar-alerta do ser-aí e o constante estar-apertado e oprimido por
e o estar-subjugado pela proximidade e estreiteza de poderes ''es­
tranhos", de pessoas e coisas "estranhas" — a única coisa cons­
tante no ser-no-mundo amaneirado e maneirista —, tudo isso mos­
tra-se também na imprevisibilidade, contraditoriedade e oposição
do mundo do amaneiramento e do maneirismo, na possibilidade da
união da grosseria, da rigidez, da "insensibilidade", do arremedo
e carateamento, do esgar, de um pathos vazio e da trivialidade, por
um lado, com uma "expressividade capaz de remexer com os sen­
timentos", com uma movimentação e uma aflição inquietas ou com
uma graça brincalhona por outro lado. O enigma da contraditorie­
dade, do duplo ou múltiplo fracionamento desse projeto do mundo
resolve-se quando levamos em conta que não se trata de um pro­
jeto mundano próprio, mas alienígena, um projeto dependente
da "momentaneidade" do tipo imitado ou combatido e projetado
de acordo com ele. Se é verdade que esse projeto do mundo não

273 Der Begriff der Angst. Ges. W. V ol. V , p, 91.


AMANEIRAMENTO 203

""paira inteiramente no ar'', também é Verdade que ele não descan­


sa sobre o fundamento de ser-aí, ou por outras, sua abertura não
se baseia na "individuação originária da silente determinação, a
reclamar para si a angústia". Jeito amaneirado, amaneiramento,
maneirismo não representam, por isso, nenhum mundo do silêncio,
mas um mundo que não consegue se satisfazer com o enunciar,
expressar, comunicar e expor.

F . E x tra v a g â n cia , E x cen tr ic id a d e,


A m a n e ir a m e n to e E s q u iz o fr e n ia

Extravagância, excentricidade e amaneiramento são modos do


malogro do ser-aí no sentido do respectivo "chegar a um fim" ou
"ficar entalado'' de sua autêntica movimentação histórica, logo de
sua autêntica ipseificação, juntamente com o não poder- ou sa­
ber-ser no convívio do amor e da amizade. Como modos de se­
melhante malogro, elas se encontram de fato na mais próxima pro­
ximidade das maneiras existenciais da esquizofrenia, a título de
modos de ''paralisação" ou "atolamento" da autêntica movimenta­
ção histórica do ser-aí kat’exochen. Onde quer que esse malogro
se mostrou — na desproporção antropológica da extravagância,
no "mau espírito" do través da excentricidade, na "divisão inter­
na" do amaneiramento — pôde-se ver também, aliás de maneira
cada vez mais intensa, relações existenciais com aquilo que a Psico­
patologia designa como rigidez, estupor e cisão esquizofrênicas.
Acreditamos por isso ter lançado, com nossas investigações, o fun­
damento para a compreensão existencial-analítica do significado da
paralisação ou do estupor, e da cisão em geral e da paralisação, ou
estupor, e da cisão esquizofrênicas em particular. Nessa medida,
as mesmas constituem o complemento necessário de nossos estudos
a propósito do problema da esquizofrenia no Schweizer Archiv f.
Psych. u. Neürol. dos anos 1945-1952 (t. 53-71), Mas tanto 1á
como cá, não somente pudemos constatar que a historicidade do
ser-aí, no sentido de sua ipseificação, amadurecimento e transfor­
mação autênticos, juntamente com a possibilidade do encontro ani­
mado pelo amor, estavam ameaçados ou mesmo paralisados, como
também pudemos mostrar modos muito diversos de semelhante pa­
ralisação.
Depois disso tudo, a expressão "paralisação” ou "estupor”
não significa que o ser-aí não "mundanize" ("weitet") mais de
todo, isto é, não abra mais o mundo, mas apenas que a movimen­
tação histórica do ser-aí, o autentico antecipar-a-si-mesmo, logo o
204 T rês F o rm as da E xistên cia MALOGRADA

"caminho para o futuro” está "cortado”. Isso mostrou-se, no caso


de nossa Ellen West (Schweiz. Archiv f. Psych. u. Neur., t,
53-55), no fato de que ela se consumia na luta sem perspectivas
entre a gula e o ideal de magreza, de tal modo que, para falar
sua própria linguagem, vendo barradas "todas as saídas do palco”
(de sua existência), desmoronou desesperada sobre esse palco e
só pôde ver, como única saída a lhe restar, como único antecipar-
se-a-si-mesma, a decisão de suicidar-se. Em Jürg Zünd (ibid., t..
56, 58, 59), a imobilização da ipseificação autêntica mostrou-se,
afinal, no desejo de afundar-se no anonimato da massa, ou seja,
justamente no abandono-de-si. Em Lola Voss (ibid., t. 63) a mo­
vimentação histórica do ser-aí ficou "entalada” no decaimento e
entrega "supersticiosos” aos lúdicos oráculos silábicos que prece­
deram o delírio de perseguição. Em Suzanne Urban (ibid., t.
69-71), no abandono total ao terrível e medonho sob a forma do
delírio de perseguição.
Quanto à extravagância, nós a encontramos em nossos estu­
dos como "uma formação de ideais extravagantes”, manifestando-
se no começo de cada doença. Por sua vez, a excentricidade, no
sentido da "labilidade dos contextos de remetimentos” — como
se mostra o mundo do través — é existencial-analiticamente uma
fase preliminar do "estupor" esquizofrênico na medida em que a
ipseificação autêntica só é possível juntamente com uma certa "es­
tabilidade'' ou "simetria" do mundo, um mundo de "relações vitais''
naturais "estáveis", numa palavra, um mundo da reta, não do
torto ou do través. Em tal mundo do través, no qual, como vimos,
tudo "sai torto", o ser-aí não se antecipa mais a si mesmo num
autêntico sentido. Ele não consegue mais fazer como lhe advenha
de maneira autêntica nem o futuro nem o outro como um "Tu".
Ao contrário, sua movimentação fica entalada no decaimento numa
"obliqüidade", numa teimosia, ou no enrolamento num erro que
o afastam do "Tu". Não é preciso dizer que a expressão ''fase pre­
liminar" não significa aqui que nossa tríade tenha que se "trans­
formar*' em esquizofrenia como uma forma de uma doença psíqui­
ca ou psicose. Pois a consideração existencial-analítica e a consi­
deração clínica devem ser mantidas sempre separadas, na medida
em que a tarefa da primeira é destacar a pura estrutura essencial
e as puras ligações essenciais de modos e transformações existen­
ciais, enquanto a última tem a ver com fatos clínicos reais e seu
decurso factual. Mas é preciso compreender que, tanto aqui como
de modo geral, cada "fato” só pode ser "compreendido” a partir
da essência, que, como diz Husserl, atua como a "norma insupe­
rável” para o fato.
AMANEIRAMENTO 205

Finalmente, as ligações do amaneiramento com a estuporação


esquizofrênica são, como Vimos, particularmente estreitas na me­
dida em que também o esquizofrênico -— na repetição274 incessante
do espelhamento ( = idéia ou representação anteposta, — refle­
xão) do próprio ser-aí no espelho das "pro-postas" de modelos,
imagens protó-tipos, prescrições ou princípios da Gente — não
somente, como Jürg Zünd e o jovem de Kleist, perde sua graça
originária, mas também "sofre uma alteração incompreensível de
todo o seu ser'', no sentido em que "uma força invisível, incom­
preensível" parece se assentar, "como uma rede de ferro, em tor­
no do jogo livre de seus gestos'', e mesmo era torno do "jogo
liVre" da movimentação histórica de sua existência inteira. O
poder dessa ''rede de ferro", do cerimonial, da couraça, do véu, do
espartilho, da mascara e do esgar, nós já a compreendêramos, em
nossos estudos sobre a esquizofrenia, a partir do prevalecimento
do poder existencial da angústia, que fugira da koinonía do
ser-aí, sobre o poder do amor e da confiança! A "força férrea”
que aqui assentava em cada caso ''em torno do jogo livre'' da
movimentação histórica da existência e, assim, detinha o ser-aí,
impedindo-o de agarrar suas mais próprias possibilidades histó­
ricas, seu poder — e saber-ser-nós, levou no primeiro caso (Ellen
West) ao suicídio, no segundo (o caso do tão inteligente Jürg
Zünd) a uma duradoura "exaustão'' da ''atividade psíquica" e a
um tratamento constante em sanatório, no terceiro e quarto caso
(Lola Voss e Suzanne U rban), a um delírio de perseguição ''sis­
tematizado" ( "plural" ).
Para concluir, temos que nos perguntar ainda se, na desco­
berta e enfatização existencial-analítica do decaimento e entrega
(positivos ou negativos) do esquizofrênico a quaisquer modelos
''típicos" tomados ao domínio público da Gente, não se deve ver
uma contradição com a teoria clínica do autismo esquizofrênico.
, Que nao é este o caso, mostra-o o fato de que — como sempre res­
saltamos — o avTÓç do autismo não significa nenhum "Si mesmo"
no sentido do poder — e saber-ser-a-si-mesmo,» mas o oposto
exato, a saber: a dependcncia do domínio público da Gente, seja'
na obediência declarada de suas "prescrições" e na adoçao de seus
modelos, seja na oposição radical aos mesmos, no ''querer da al-
teridade" e no puro "negativismo", tudo isso significando, ainda
que no sentido negativo da resistência, dependência! Podemos
muitas vezes seguir facilmente a passagem da orientação exage­

274 A repetição no sentido do mero repisar e copiar e, naturalmente,


não no sentido da repetição de Kierkegaard, é o contrário exato de toda
movimentação histórica do ser-aí.
206 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

rada segundo os modelos da Gente para a oposiçao exagerada a


eles e Vice-Versa. Sob o último aspecto, aliás, podemos fazê-lo de
maneira particularmente clara em Jürg Zünd, que se transforma
de um furioso combatente da sociedade ("proleta") num meticulo­
so imitador de um modelo da Gente, a saber, do "tipo" da distin­
ção.
Uma exceção das ligações discutidas até aqui entre extrava­
gância, excentricidade, amaneiramento e esquizofrenia é, natural­
mente, a esquizofrenia iniciada de maneira tempestuosa, sobretudo'
os casos acompanhados de sentimentos de fim de mundo. No sen­
timento de fim de mundo, com o ''mundo" desaparecem também;
as pro-postas de modelos do domínio público da Gente, mas ape­
nas, para melhor ressurgirem por ocasião da reconstrução do
''mundo", ainda que justamente de uma maneira extravagante,
excêntrica e amaneirada. Não há idéias, sugestões, projetos ou
construções do mundo delirantes, por mais "abstrusas" que sejam,
que não deixem reconhecer de algum modo e em alguma parte
pro-postas de modelos ou imagens protótipos tomadas ao domínio
público da Gente e de suas respectivas "modas". Isso mostra tao-
somente, de uma maneira particularmente clara justamente a par­
tir daqui, que a esquizofrenia, em certos casos, pode muito bem
significar uma evasão para fora da Gente, mas que ela não con­
segue levar a uma ipseificação autônoma, livre no sentido da exis­
tência autêntica, nem na "vida" nem na "arte", mas só a um modo
particular da elaboração extravagante, excêntrica ou amaneirada
das pro-postas de modelos da Gente. Os jeitos amaneirados es­
quizofrênicos, na medida em que são verdadeiramente jeitos ama­
neirados e não estereotipias, são os exemplos mais destacados do
isolamento e fixação de semelhantes pro-postas de modelos. Se o
esquizofrênico de Bleuler, como inúmeros outros esquizofrênicos,
"enuncia trivialidades em expressões arrevesadas, como se se tra­
tasse dos interesses supremos da humanidade", ele ainda está se­
guindo, é verdade, uma determinada pro-posta de modelo da
Gente, ao se pro-por a máscara da distinção, da solenidade e da
vontade de ensinar, mas ele existe também não-somente como essa
máscara! Podemos dizer algo de análogo dos demais jeitos ama­
neirados esquizofrênicos. Assim, para lembrar só mais um exem­
plo, o instituteur excêntrico-esquizofrênico de Minkowski segue a
pro-posta de modelo de certos princípios pedagógicos e de certos
princípios do amor universal aos homens, revestindo-se, para falar
figuradamente, da máscara desses princípios, mas já existe em lar­
ga medida quase que unicamente como essa máscara. Eis aí de
novo, aliás, um exemplo da íntima afinidade entre a excentricidad«
AMANEIRAMENTO 207

e o amaneiramento. Do mesmo modo, o jovem de Kleist, em quem


podemos ver mais um paradigma esquizofrênico, ainda está a se­
guir a proposta modelar do Tirador de Espinho, mas já existe em
larga medida unicamente como essa ou em essa pro-posta modelar
ou máscara. Isso é atestado pela perda da graça e pela "alteração'*
manifesta de seu ser inteiro.
Existir como mascara, isto é, não por trás, mas em uma mas­
cara (== papel), representa o extremo oposto de uma existência
autêntica e de um autêntico convívio. Pois significa o "esvazia­
mento" da existência no sentido de seu abandonar-se ao nada da.
angústia e às tentativas desesperadas de combatê-la e encobri-la.
Se o amaneiramento — enquanto forma existencial — , como nos
antolha tão claramente o caso Jürg Zünd — já mostra uma nítida
perda de plenitude e liberdade existencial, juntamente, porém, com
sinais ainda claros de "reflexão'' e empenho voluntário, então fa­
lamos em feitos amaneirados esquizofrênicos quando um ser-aí se
absorve completamente na pro-posta modelar ou máscara, quando,
por conseguinte, a oposição entre existência e pro-posta modelar
desapareceu, e o ser-aí se retraiu completamente para a máscara oií
papel, ou, dito de outra maneira, quando se deixa prender inteira­
mente por eles. É só nesses casos que falamos em esvaziamento da
existência e em um mundo do vazio, ou melhor, de um vazio da
mundo ( em face do qual o mundo do través e do fracionamento
representam ainda uma certa ''plenitude" do mundo!).
A "proximidade" da esquizofrenia com relação às formas
existenciais da extravagância, da excentricidade, do amaneiramen­
to, e mesmo sua eventual e total absorção nas mesmas, baseia-se,,
pois, no fato de que essas formas representam, existencialmente,
formas intermediárias entre uma autêntica movimentação histórica
do ser-aí e uma completa paralisação dessa movimentação, formas,,
pois, que ainda possibilitam ao ser-aí afirmar-se de um modo qual­
quer, durante um maíor oii menor espaço de tempo, "no mundo'*
— se bem que não mais no berço (Heimat) do amor. Ele se afir­
ma, é verdade, não no sentido do sucesso do ser-aí, no desdobra­
mento de sua liberdade, plenitude e "força criadora", mas, sim, no
sentido de persistir ainda no abismo daquilo que descrevemos cli­
nicamente como "vazio" ou ''paralisação da vida psíquica'', com»
o processo esquizofrênico de desagregação, encalhamento ou de-
mentação. O afundamento nesse abismo representa o ''instante'*
em que essas formas existenciais não conseguem mais resistir ao
assalto da angústia existencial. Em vez da desproporção entre am­
plidão e altura, em vez de um mundo do torto ou do través, em
vez do existir dividido internamente ''por detrás de uma másca­
208 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

ra" — tudo isso, é Verdade, já não representando mais nenhuma


movimentação histórica ou existencial autêntica do ser-aí, mas uma
movimentação no sentido da temporalização, espadalização, mun-
danização em geral — em vez de tudo isso, surge agora um modo
existencial no qual a mobilidade do ser-aí (no sentido do anteci-
par-se a si mesmo, do deixar-advir do futuro, em suma, da deter­
minação pré-cursora) parou ou paralisou-se, no qual só o ter-sido
ainda "joga" consigo mesmo no jogo da existência, razão por que
um autêntico presente tampouco pode se temporalizar. Tal é o
sentido existencial-analítico daquilo que nos impressiona como o
vazio esquizofrênico e com que, no contacto com os esquizofrêni­
cos nós nos "chocamos" ("Iteuter").
Ligado a isso, é preciso ainda dizer uma palavra sobre a dis­
tinção existencial-analítica entre aquilo que designamos, na Psico­
patologia, como separação ou cisão esquizofrênica, por um lado,
como vazio e estupor ou paralisação esquizofrênicos, por outro
lado. A cisão esquizofrênica não é mais explicada aqui, pois, de
uma maneira associativo-psicológica e dinâmico-funcional com base
numa hipótese teórico-construtiva, como era o caso em E. Bleuler,
o fundador da teoria da "psicose da cisão'', mas, sim, compreendi­
da existencial-analiticamente! Aliás, procura-se compreendê-la com
base naquilo que compreendemos como dupla ou múltipla divisão
interna ("ambi- e polivalência") do ser-aí enquanto amaneira-
do e do mundo do amaneiramento. Visto desse ângulo, aquilo que
a psicopatologia chama de cisão ou separação siguifica a ameaça
da ipseidade e da autonomia do ser-aí pela observação num tipo ge­
nérico estranho ao Si", tomado ao domínio público da Gente,
num mero Como (da conduta, do falar, do julgar, etc.). Ao grau
extremo (psicopatológico) dessa cisão corresponde a completa re­
núncia a uma posição própria e autônoma e a completa absorção
do ser-aí em semelhante tipo. Visto que há somente uma possi­
bilidade de autêntica existência ou ipseidade, ao passo que há mi­
lhares de possibilidades de tipos gerais e, nessa medida, também
de papéis e máscaras correlatos, não devemos nos admirar de que
haja "mil'' possibilidades de existências e mundos esquizofrênicos.
Nós também designamos semelhante ser-aí (esquizofrêni­
co) como vazio ou esvaziado com base no abandono da existência
autêntica, de sua autêntica plenitude e desenvolvimento, em favor
da absorção num tipo genérico "sem alma" (Goethe) e em sua
cópia e exageração ("estereotipada"), ou então em sua recusa e
contradição. Por paralisação ou estupor esquizofrênico, entende­
mos, por sua vez, a transformação do ser-aí como historicidade
em geral em a-historicidade. O ser-aí está paralisado, embora, é
AMANEIRAMENTO 209

Verdade, ainda se mundanize (temporalize, espacialize) num certo


sentido, pois, de outro modo, não seria mais ser-aí, quando não
mais se "desenvolve" historicamente.
Vemos, pois, que todas essas expressões tomadas à psicopa-
tologia — como "vazio'', "paralisação" ou "estupor'', "cisão",
''separação" — giram em torno dos mesmos fatos existenciais-
analíticos, desiguando-os, porém, a partir de diferentes pontos de
vista. Ao mesmo tempo, em todo caso, é preciso que fique claro
que a "cisão" deve ser designada — como a expressão do fato
existencial-analítico do fracionamento, e sua forma mais extrema
( = esquizofrênica) — como aquele conceito, dentre os três, de
mais rico conteúdo, a saber: na medida em que pode receber a
mais rica autenticação e corroboração existencial-fenomenológica.

Para concluir, mostraremos mais uma vez num exemplo que


e em que medida a distinção existencial-analítica dos três elemen­
tos de nossa tríade concerne efetivamente a três diferentes traços
essenciais de uma e a mesma essência, a saber: a essência da mo­
dificação do ser-aí no sentido da "paralisação" que acabamos de
''definir''.
Quando a nossa doente Ilse,275, casada e de 39 anos, enfia a
mão direita num forno aceso para mostrar ao pai, a quem ama
apaixonadamente, "o poder do amor'', e a fim de movê-lo, através
dessa prova de amor, a abrandar a tirania que exerce sobre a mãe
essa açao parece-nos a princípio extravagante. E, de fato, é extra­
vagante porque nela se mostra uma nítida desproporção existen-
cial-analítica entre a "altura" escarpada dessa decisão "altamente''
problemática, tomada uma Vez por todas, e a "amplidão" da ex-
periência. A Ilse falta a necessária experiência psicológica para
poder prever que, a longo prazo, nada pode alcançar com esse
"feito heróico", em face de uma natureza tão tirânica como a de
seu pai. O "guia de montanha'' experimentado, ou seja, aqui o
conhecedor experimentado dos homens, ter-lhe-ia desaconselhado
essa "escalada" temerária da alma, predizendo-lhe com toda certe­
za que não ''iria muito longe'' com esse passo "heróico'' num do­
mínio com que estava tão pouco familiarizada e que era difícil
demais para ela, ou por outras, ele lhe diria que ela estaria a
subir alto demais e a extravagar.
Essa ação deve ser descrita como excêntrica na medida em
que a filha quer, é verdade, vir amorosamente ao encontro do pai
— do mesmo modo como aquele pai no exemplo do caixão

275 cf. acima.


210 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADa

quer Vir amorosamente ao encontro da filha — , mas ao


mesmo tempo se alheia dele com a escolha do meio. A
"conseqüência penosa" na perseguição do tema, a saber, mover o
pai a uma mudança de opinião e comportamento, mostra-se aqui no
fato de que aquela ação, em vez de ser uma prova de amor pura
e sincera, converter-se em algo de tirânico ou violento, a saber
numa pressão ou coerção exercida sobre o pai. Apesar de todo o
seu amor, Ilse quer, através de seu amor, forçar o pai a tratar
melhor a mãe. "Se eu tomo sobre mim semelhante dor" —■ é o
que ela manifestamente quer dizer ao pai — ''então você tem que
tratar melhor a mãe". Desse modo, o nexo referencial entre prova
de amor e mudança de opinião do pai é invertido em seu contra-
rio (num pavor alarmante), exatamente como o desejo daquele
outro pai de dar uma alegria à filha cancerosa por ocasião do
Natal (em nosso primeiro exemplo da excentricidade) é trans­
formado — pela escolha, incompatível com esse desejo, do meio
(o caixão) — numa afronta. Ao fazer essa análise, deixamos de
lado o siguificado da ''prova de fogo"276 como uma expressão de
seu amor ardente pelo pai e, ao mesmo tempo, de um ''procedi­
mento de purificação" com relação a esse amor. Pois a razão mais
profunda dessa prova de fogo não concernia à mãe — essa "ra­
zão" era apenas o motivo racional —, mas a seu amor pelo pai.
Mostrou-o a ''evolução" clínica posterior do caso, a saber: a con­
versão do amor pelo pai e do sacrifício por ele num delírio agudo
— e, assim, levando de novo à cura — de amor, de relacionamen­
to e de prejuízo. No caso Ilse, a prova de fogo, o "sacrifício",
foi, na verdade, a fase preliminar fáctica, em si dupla e mesmo
multiplamente fracionada de uma psicose esquizofrênica que se
estendeu por mais de um ano, ou seja, da psicose da cisão esqui­
zofrênica. A expressão "fase preliminar" não deve, no entanto, de
modo algum significar tão-somente que a excentricidade no senti­
do clínico "transforma-se" no processo esquizofrênico. Muito ao
ao contrário, depois de tudo o que expusemos, é preciso conser­
var em mente que aqui também procuramos compreender existen-
cial-analiticamente uma semelhante "transformação clínica", a sa­
ber: como uma modificação da estrutura existencial que vai da es­
trutura do mundo do través ou do torto até a estrutura do delí­
rio e do mundo do delírio, ou por outras, que vai de uma estrutu­
ra no sentido do ameagarnento do ser-aí por avassaladores pode­

276 Estamos naturalmente conscientes de que a expressão "prova de


fogo" não corresponde ao que ela significou na "jurisdição" cristã.
AMANEIraMENTO 211

res "estranhos ao Si" até uma estrutura do avassalamento do


ser-aí por esses poderes ou do completo abandonar-se a eles.277
No que concerne, finalmente à designação da prova do fogo
como amaneirada ou arrevesada, chamamos mais uma vez a aten­
ção para o fato de que ela também tem, notoriamente, seus mode­
los e protótipos. Esses protótipos pertencem à história, à história
cultural e artística e à literatura, em suma, à tradição. Quem se­
gue semelhante protótipo não precisa ser, a rigor, de modo algum
amaneirado, pois há um seguir genuíno no sentido da verdade do
legado e da tradição, o que também vale em larga medida para o
maneirismo artístico! O seguimento torna-se, porém, mera imita-
ção, quando, em vez de ter lugar a partir da verdade do legado,
ocorre a partir da inverdade, da ambigüidade, da curiosidade e da
tagarelice do domínio público da Gente, como, aliás, já explicamos
extensamente. No que concerne ao caso Ilse, essa prova de fogo,
o "sacrifício", não se mostra em sua verdadeira figura, não se
mostra em sua pureza como um testemunho ativo e um sinal vi-
eariante, nem como instituição no sentido da instituição de uma
aliança, mas numa figura cindida por uma divisão interna, a saber,
por um lado como "sacrifício", por outro lado, porém, como uma
ação calculada em vista do efeito, como uma ação que apela e,
mesmo, alarma. Também é verdade que Ilse cometeu essa ação
apenas "até um certo grau" por uma livre decisão. Ela estava,
como logo veremos, em larga medida sob a "coerção > — condi­
cionada por muitos fatores — de ter que representar o papel da
mártir. Pois havia declarado ao marido — informado de sua in­
tenção — que ''precisava livrar-se disso" (da "coerção" irresistí­
vel a levar a cabo a prova de fogo). Tratava-se, pois, da tentativa
desesperada de, em meio ao ameaçamento existencial pelo medo
(confessado) da loucura, desempenhar ainda um papel próprio,
a saber, o papel "refletido” ou pré-meditado, simulado para si
mesma no sentido de um "si" real, ou a "máscara" da mártir.
(Era impossível dissuadi-la desse papel, assim como tampouco se
podia convencer Jürg Zünd a depor o papel ou a máscara da dis­
tinção, ou o jovem de Kleist a abandonar a "máscara" do Tira-
dor de Espinho.) Desse modo, vê-se efetuada a caracterização exis-
tencial-analítica do amaneiramento ou do arrevesamento, a auto-
simulação pela adoção de um papel ou pela imposição premedita­
da, refletida de uma ''máscara" tirada da publicidade da Gente ou,
o que dá no mesmo, de um papel ou máscara no sentido da am­
bigüidade do ser-a-gente.

277 Cf. a esse propósito meu estudo sobre o caso Suzanne Urban, Schweiz.
Archiv. /. Psych. u. Neur., t. 69, 70, 71.
212 TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA

A partir do amaneiramento, é também possível compreender


claramente a prova dè fogo como uma das condições existenciais
analíticas da possibilidade do delírio. Pois, como mostram as pos­
teriores palavras delirantes da doente sobre os "instrumentos do
martírio" com os quais os médicos querem tratá-la, sobre o seu
sentimento de estar exposta ao escárnio e à zombaria dos outros,
sobre os seus braços frios e transformados em barro ( ! ) e o pro­
cedimento de purificação nela efetuado, o papel de mártir por ela
representado, simulado para si mesma — no sentido de um Si —
por assim dizer "esvaiu-se-lhe entre as mãos" e, "tornando-se
maior do que ela, dela se emancipou". Existencial-analiticamente
isso siguifica que o ser-aí enquanto "delirante" não está mais ape­
nas "decaído e entregue'' à máscara ou papel, continuando a exis­
tir, por assim dizer, "por trás" da máscara, mas doravante só
existe como essa máscara ou papel, ou "dentro" dela!
Com isso esperamos ter conseguido mostrar nesse exemplo
também onde residem o sentido e o objetivo psiquiátricos de nos­
sos três tratados, a saber, na dissolução do conceito rígido do au­
tismo como um sintoma esquizofrênico cardinal, Pransformando-o
de modo a reintroduzi-lo no fluxo dos acontecimentos da existência
humana e exibindo as formas e transformações existenciais nas
quais esses acontecimentos tomam aquele curso que a clínica psi­
quiátrica diagnostica como esquizofrenia. Se compreendermos e
soubermos de algum modo o que aqui realmente "acontece'', sere­
mos mais prudentes com os artifícios teóricos que buscam explicar
a "esquizofrenia" a partir de dados diagnósticos.
FIL O SO FIA

Filosofia da Arte, Virgil C. Aldrich (2.a ed.)


Filosofia da Linguagem, William Alston
As Questões Centrais da Filosofia, Alfred J. Ayer
O Racionalismo Aplicado, G. Bachelard
Estruturalismo e Marxismo, René Ballet
Filosofia da Matemática, Stephen Barker (2.a ed.)
História da Filosofia (8 Volumes), François Châtelet
1. A Filosofia Pagã
2. A Filosofia Medieval
3. A Filosofia do Mundo Novo
4. O Iluminismo
5. A Filosofia e a História
6. A Filosofia do Mundo Científico e Industrial
7. A Filosofia das Ciências Sociais
8. O Século XX
Teoria do Conhecimento, Roderick M. Chistolm (2 a ed.)
Dialética da Libertação, David Cooper
Filosofia da História, William H . Dray
Filosofia Social, Joel Feinberg
A Doutrina de Epicuro, Benjamin Farrington
A Necessidade da Arte, Ernest Fischer (5.a ed.)
Ética, William K. Frankena ( 2 a ed.)
Filosofia da Ciência Natural, Carl G. Hempei (2.a ed.)
Introdução à Filosofia da Educação, George F. Kneller
Introdução ao Pensamento de Michel Foucault, A. Kremer
Marietti
Ideologia da Sociedade Industrial, Herbert Marcuse ( 4 a ed.
Eros e Civilização, Herbert Marcuse (6.a ed.)
Psicologia e Dilema Humano, Rollo May ( 2 a ed.)
O Significado de Significado, C. K. Ogden e I. A. Richards
(2 a ed.)
Problemas do Estruturalismo, Je an Pouülon
Filosofia da Lógica, Willard Quine
Filosofia da Ciência Social, Richard Rudner (2.a ed.)
Introdução à Filosofia Matemática, Bertrand Russell (3.a ed.
Lógica, Wesley Salmon ( 3 a ed.)
A Decadência do Ocidente, Oswald Spengler ( 2 a ed.)
Metafísica, Richard Taylor
Crítica da Tolerância Pura, Robert Paul Wolff
PSYCHE

Manual de Psicologia, C. Adcock (3.a ed.)


Fundamentos da Psicanálise, Frank Alexander (2.a ed.)
A Interação Social, Michael Argyle
As Psicoses da Criança, H . Aubin
Teste dos Três Personagens, M. Backes-Thomas
Introdução à Antipsiquiatria, Chantal Bosseur
A Estrutura da Magia, R. Bandler e John Grinder
Três Formas da Existência Malograda, L. Binswanger
Psicodrama e Vida, Pierre Bour
ChaVes da Psicanálise, G. P. Brabant (2.a ed.)
A Etologia, Rémy Chauvin
Temas de Psicopatologia, Miguel Chalub
As Psicoterapias da Criança, / . Chazmd
Contestações Atuais da Psicanálise, /. Chazaud
ChaVes da Psicologia, J. Cosnier (2.a ed.)
Problemas Psicológicos da Adolescência, Helene Deutsch (2.a ed.)
Para compreender Jean Piaget, Jean-Marie Dolle
Psicanálise e Pediatria, Françoise Dolto (2 a ed.)
Psicanálise da Percepção Artística, Anton Ehrenzweig
Gestalt-Terapia, Joen Fagan e I. L. Shepherd ( 3 a ed.)
Teoria da Dissonância Cognitiva, L. Festinger
A Psicologia como Filosofia Ciência e Arte, Logan J. Fox
Infância Normal e Patológica, Anna Freud ( 2 a ed.)
Psicologia Humanista, W. B. Frick
A Missão de Freud, Erich Fromm ( 3 a ed.)
A Linguagem Esquecida, Erich Fromm ( 6 a ed.)
Chaves da Caracterologia, Roger Gaillat
A Psicologia do Medo e do "Stress", Jeffrey Gray ( 2 a ed.)
Métodos da Psicologia Social, Jean Grisez
Amnésia Social, Russell Jacoby
Vida e Obra de Sigmundo Freud, Ernest Jones ( 2 a ed.)
Tipos Psicológicos, C. G. Jung ( 3 a ed.)
A Psicologia como Ciência Biológica, Daniel P. Kimble
Psicologia Analítica da Criança, F. Klein e outros
Antipsiquiatria: Senso ou Contra-Senso?, Cyrillo Koupernick
Psicologia da Orientação Vocacional, Paul Kline
Mata-se uma Criança, Serge Leclaire
O Nascimento Psicológico da Criança, M. S. Mahler e outros
Psicologia e Dilema Humano, Rollo May ( 3 a ed.)
A Criança Deficiente Mental, Roger Mis és
Édipo: Mito e Complexo, Patrick Mullahy (3.a ed.)
Fundamentos de Psicopatologia, John C. Nemiah (2.a ed.)
Modelos em Psicologia, Eva Nick e Heliana Rodrigues
A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia, F. Perls
A Revolução Sexual, Wilhelm Reich (4.a ed.)
A Sexualidade Feminina na Doutrina Freudiana, M. Safouan
A Psicologia da Infância e da Adolescência, C. I. Sandström
(5.a ed.)
Neurose e Classes Sociais, Michael Schneider
As Sete Idades do Homem, R. R. Sears e «S*. .9. Feldman
A Busca da Solidão, Philip Slater
Formas de Vida, Eduard Sprang er
A Agressão Humana, Anthony Storr (2.a ed.)
Desvios Sexuais, Anthony Storr ( 2 a ed.)
Dor e Prazer, Thomas S. Szasz
A Ética da Psicanálise, Thomas S. Szasz
A Fabricação da Loucura, Thomds S. Szasz
Ideologia e Doença Mental, Thomas S. Szasz
O Mito da Doença Mental, Thomas S. Szasz.
O Indivíduo Excepcional, C. W . Telford e J. M. Sawrey ( 2 a ed.)
Evolução da Psicanálise, Clara Thompson ( 3 a ed.)
A Criança e o Seu Mundo, D. W . Winnicott ( 3 a ed.)
Os Medos Infantis, Michel Zlotowicz
FORMAS DE VIDA
Eduard Spranger

O presente livro é uma das obras maiores produzidas pela


cultura ocidental neste Século. Nele se empreende uma análise
tipológica da personalidade, utilizando-se do método da
“compreensão” ( Verstehen), método cujo caráter empírico
era sustentado por SPRANGER, e que consiste essencialmente
numa percepção estética das formas culturais na vida
individual, sendo motivado por um eros platônico: um amor
pelos valores pessoais envolvidos.
A análise de SPRANGER das ciências do espírito encontrou
aplicação em suas discussões das bases éticas da cultura e da
educação modernas, exercendo enorme influência nos
principais problemas éticos e culturais, enfrentando o desafio
de questões tão graves como a educação para o trabalho,
a educação vocacional, a orientação pessoal e vocacional, e
a delinqüência juvenil. Essa análise combina uma crítica
das filosofias históricas da sociedade e da cultura, com o
desenvolvimento e a reformulação de uma teoria hegeliana do
espírito objetivo.

A FABRICAÇÃO DA LOUCURA
T hom as Szasz

Psiquiatra praticante e Professor de Psiquiatria na


Universidade do Estado de Nova York, em Siracusa,
Thom as Szasz é também um dos mais extraordinários dentre
os críticos contemporâneos preocupados com os abusos da
Psiquiatria. Neste importante livro, ele desenvolve a
idéia de que, da mesma forma que na chamada Idade das
Trevas os homens “criaram” feiticeiras, eles agora “criam"
doentes mentais. Para o Dr. Szasz, a crença na existência
de doença mental e as ações sociais a que isso conduz
têm as mesmas implicações morais e desdobramentos políticos
que tiveram, na Idade Média, a crença em feitiçaria e as
conseqüências sociais a que isso conduziu. Em todos
os casos, a sociedade isola e estigmatiza os “heréticos” ou
“desviantes” para proteger-se ela mesma, embora
proclame — e a maioria acredite — que assim age em
benefício dos confinados.
Z AHAR

A cultura a serviço do progresso social

ED ITO RES