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DOSSIÊ

V.2
PAT R I M Ô N I O C U LT U R A L I M AT E R I A L D O B R A S I L
D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A

PAT R I M Ô N I O C U LT U R A L I M AT E R I A L D O B R A S I L

RECIFE, MAIO 2013


CRÉDITOS INSTITUCIONAIS
Governo do Estado de Pernambuco
Coordenador de Artes Visuais
Governador do Estado de Pernambuco Félix Farfan
Eduardo Campos
Assessora de Design e Moda
Vice-governador Cecília Pessoa
João Lyra Neto
Assessor de Fotografia
Secretário da Casa Civil Jarbas Araújo
Tadeu Alencar
Coordenadora de Audiovisual
Carla Francine
Presidenta da República Departamento do Patrimônio Imaterial
Dilma Vana Rousseff Secretaria Estadual de Cultura Coordenadora de Cultura Popular
Coordenadora Geral de Identificação e Alexandra Lima
Ministra da Cultura Registro Secretário Estadual de Cultura
Marta Suplicy Ana Gita de Oliveira Fernando Duarte Assessor de Artesanato
Breno Nascimento
Presidenta do Iphan Coordenação de Identificação Secretário Executivo
Jurema de Souza Machado Mônia Silvestrin Beto Silva Coordenador de Literatura
Wellington de Melo
Chefe de Gabinete Coordenação de Registro Diretores Executivos
Rony Oliveira Cláudia Vasques Vinícius Carvalho e Beto Rezende Coordenador de Música
Andreza Portella
Procurador-Chefe Federal junto ao Iphan Coordenadora Geral de Salvaguarda Coordenador de Articulação Institucional
Geraldo de Azevedo Maia Neto Teresa Maria Paiva Chaves Claudemir Souza Coordenadora para Populações Rurais e
Povos Tradicionais
Diretora do Patrimônio Imaterial Coordenação de Apoio à Sustentabilidade Coordenador de Economia Criativa Erika Nascimento
Célia Maria Corsino Rívia Bandeira Luciano Gonçalo
Coordenador do Festival Pernambuco Nação
Diretor de Patrimônio Material e Fiscalização Diretor de Formação Cultural
Andrey Rosenthal Schlee Félix Aureliano Leo Antunes
Superintendência do Iphan em Pernambuco
Diretor de Articulação e Fomento Diretor de Gestão Gestoras de Comunicação
Estevan Pardi Corrêa Coordenador Técnico José Mário Duarte Coelho Michelle Assumpção e Olívia Mindêlo
Fábio Cavalcanti
Diretor de Planejamento e Administração Diretora de Planejamento Assessores de Comunicação
Marcelo Vidal Coordenador Administrativo Amara Cunha Tiago Montenegro, Gilberto Tenório, Giselly
Santino Cavalcanti Andrade, Chico Ludermir, Dora Amorim,
Superintendente do Iphan em PE Diretor de Políticas Culturais Raquel Holanda e Julya Vasconcelos
Frederico Faria Neves Almeida Procuradora Federal junto ao Iphan-PE Carlos Carvalho
Fabiana Dantas
Coordenadora de Artes Cênicas
Núcleo de Patrimônio Imaterial / Tereza Amaral
Acompanhamento Técnico
Antônio José Pereira de Araújo Assessora de Artes Circenses
Giorge Bessoni Aronildes Gomes
Júlia Morim
Mabel Leite Maia Neves Baptista Assessora de Dança
Maria das Graças Carvalho Villas Marília Rameh
Romero de Oliveira e Silva Filho
Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico FICHA TÉCNICA FICHA TÉCNICA DO VÍDEO Fernando Luiz de Melo
de Pernambuco - Fundarpe Inventário Nacional de Referências DE CANDIDATURA Rinaldo Silva
Culturais Maracatu Baque Solto “VERSO LANÇA FLOR” Carlos Alberto de Menezes
Presidente Edilson Manoel dos Santos
Severino Pessoa Roteiro e direção Adiel Luna
Coordenadora Geral Maria Alice Amorim Paulo Henrique Albuquerque
Diretora de Gestão Célia Campos José Luiz de Souza (Mestre Dedinha)
Sandra Simone dos Santos Bruno Animação Ariano Suassuna
Coordenador Técnico Maurício Nunes Leonardo Dantas Silva
Diretor de Gestão do Funcultura Eduardo Sarmento Manoel Salustiano Soares Filho
Emanuel Soares de Lima Leda Alves
Supervisores Técnicos REC PRODUTORES ASSOCIADOS Aparecida Nogueira
Diretor de Gestão de Equipamentos Culturais José Brito, Leilane Nascimento e Luiz Henrique Produção executiva Afonso Oliveira
Célio Pontes dos Santos Janaisa Cardoso José Manoel da Silva (Zé de Carro)
José Francisco de Almeida Irmão
Diretora de Preservação Cultural Coordenação administrativa Joanita Maria da Silva Alvez
Célia Campos Equipe do INRC Maracatu Baque Solto Alice Dias Carmenzita Arcoverde
Raquel Sílvia
Coordenadora de Patrimônio Histórico Coordenação Geral Coordenação financeira Janice Maria Muniz
Fátima Tigre Maria Alice Amorim Patricia Gonçalves Givanilda Maria da Silva (Mestra Gil)
João Flor da Silva
Coordenador de Patrimônio Imaterial Supervisão Assistente financeiro Valdemar Belarmino Jerônimo
Eduardo Sarmento Hugo Menezes Arthur Vitor Geraldo Henrique de Lima (Boca)
José Gomes da Silva (Zé Pequeno)
Diretor de Produção Direção de produção Imagens Manuel Carlos de França (Mestre Barachinha)
Fernando Augusto Janaisa Cardoso Ademir Leão Severina Maria da Silva (Biu de Carro)
João Manoel dos Santos (Mestre João Paulo)
Pesquisadores Motorista Manoel Vicente da Silva (Barata)
Bárbara Luna Ednaldo Candido (Padre) Luiz Cláudio Almeida Filho
Karina Rodrigues José Sinfrônio de Lima (Mestre Zé Sinfrônio)
Lêda Cristina Correia Severino Teotônio Rodrigues (Biu Véi)
Leonardo Leal Esteves ATELIÊ PRODUÇÕES Jeneton Augusto Pereira Filho
Thiago Sales Edição Manoel Coelho de Souza (Pula Pula)
Maria Duda e Fred Figueiredo José João Estevão da Silva
Assistentes de pesquisa João Estevão da Silva
Bruno Mesquita Produção Antônio Estevão da Silva
Raíssa Fonseca Nanda Dantas Albemar Araújo
Solange Maria da Silva
Operação de Audio / Assistência Geral
Documentação fotográfica Henrique Lopes Trilha sonora
Lídia Marques Poetas da Mata Norte | Maracatu
Elysangela Vieira Câmera Antônio Roberto | Volume 6
Maria Alice Amorim Felipe Lima, Michel Tito, Marco Antônio
Duarte, Marcelo Lacerda Faixa 01 - Marcha em seis linhas
Assessoria Técnica Faixa 02 - Maracatu do passado
João Paulo França Assistência Geral Antônio Roberto
Joel Severino Faixa 03 - Hino em parceria – Antônio Roberto
Designer Faixa 05 - Desafio
Yvana Alencastro Participam do vídeo | por ordem de aparição Antônio Roberto e José Galdino
Helder Vasconcelos Faixa 08 - Eu quero ver
FICHA TÉCNICA DO DOSSIÊ DE Fotografia
CANDIDATURA “MARACATU DE BAQUE Elysangela Vieira
SOLTO: PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL Katarina Real
DO BRASIL” Lídia Marques
Lula Cardoso Ayres
Edição Maria Alice Amorim
Maria Alice Amorim Stela Maris

Textos
Prelúdio Desenhos e Ilustrações
Maria Alice Amorim Cavani Rosas
Lula Cardoso Ayres
Invento folgazão Maurício Nunes
Entranhas da festa
Maria Alice Amorim
Projeto gráfico e diagramação
Gestos sagrados Yvana Alencastro
Bárbara Luna
Maria Alice Amorim
Encadernação
Carnaval de Páscoa Nilo Firmino
Solange Maria da Silva
Maria Alice Amorim Aos

Fluxo dos Encontros Folgazões


Thiago Sales
Maria Alice Amorim estrelas dessa folia

A catedral sonora do baque solto


Thiago Sales

Entre céu e terra leveza


Raíssa Fonseca
Maria Alice Amorim
A
O verbo sedutor
Ensaio primeiro Cida Nogueira
Reverência ao brinquedo misterioso
Maria Alice Amorim madrinha desta obra

Recomendações de salvaguarda
Hugo Menezes

A
Biu Véi
dançarino de galáxias e pavões
AGRADECIMENTOS
Abel Menezes
Ailton Nativo
Carol Vergolino
Cavani Rosas
Cezar Maia
Chico Ribeiro
Cristiano Ferraz
Daniela Araújo
Ébano Nunes
Édson Júnior
Fundação Joaquim Nabuco
Germana Siqueira
Gilmar Rodrigues
Ivan Amorim Monteiro
Juliana Cardoso
Lúcia Gaspar
Luciana Brito
Lula Cardoso Ayres Filho
Manoel Pula Pula
Mario Griz Junior
Neusa Rodrigues
Ofir Figueiredo
Rosi Silva
Stela Maris Alves de Oliveira
Sumaia Vieira
“Quais são os valores permanentes
de uma nação? Quais são
verdadeiramente esses pontos de
referência nos quais podemos nos
apoiar, podemos nos sustentar porque
não há dúvida de sua validade, porque
não podem ser questionados, não
podem ser postos em dúvida? Só os
bens culturais.“

Aloísio Magalhães
sumário
Ensaio primeiro 175
Os Indecifraveis Tucháus, por Valdemar de Oliveira 177

O Maracatu, por Ascenço Ferreira 182

Um maracatu-de-orquestra e o de Caruaru, por Guerra-Peixe 188


Introdução 17 Os Maracatus Rurais (Maracatus de orquestra), por Katarina Real 196
Os Caboclos de Lança - Azougados Guerreiros de Ogum, por Olímpio Bonald Neto 204
Identificação
Maracatus Rurais, por Roberto Benjamin 217

Maracatus Rurais de Pernambuco, por Roberto Benjamin 221


Prelúdio 33
Ensaio de complexidades 228

Invento folgazão 55
Registro e salvaguarda
Entranhas da festa: memória e paixão 56

Gestos sagrados: o velado e o manifesto 75 Reverência ao brinquedo misterioso 235


Carnaval de Páscoa: rito sagrado, rito festivo 84
Diretrizes de salvaguarda
Fluxo dos Encontros: entre o festivo e o cooperativo 90
Da metodologia 246

Verso lança flor Dos eixos

A catedral sonora do baque solto Estrutura física e burocrática 248

Um agregado de brinquedos e sons 98 Produção e reprodução cultural 253

Marchas, Sambas e Galopes 106 Mobilização social e alcance da política 258

Diálogos Musicais 117 Gestão participativa e sustentabilidade 266

Difusão e valorização 270


Entre céu e terra leveza 124
A dança dos folgazões 125

Manobras e liberdade 130 Referências 277


Na Trincheira 132

O verbo sedutor 137


Anexo 293
Local, universais 143

Fios da t radição 146

O ensaio ou a sambada 149 Índice dos volumes 325


Com mestres de poesia 163
Introducão
19

não nos parece derivar de expressões folguedo pedem este cuidado.

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
ameríndias, mas nomeava uma forma
O maracatu de baque solto é visual-
particular de batuque sob o seu as-
mente reconhecido no país pelo ca-
pecto precisamente rítmico” (1980, p.
boclo de lança, personagem viril que,
31). Francisco Pereira da Costa, no livro
empunhando lança pontiaguda, se
Folk-lore Pernambucano, escreve que
movimenta com ruidosos chocalhos às
“o maracatu é propriamente dito um
costas, flutuante cabeleira e vistoso fi-
cortejo régio, que desfila com toda a
gurino multicolorido. O emblemático
solenidade inerente à realeza, e reves-
caboclo de lança é, seguramente, a
tido, portanto, de galas e opulências”
figura que mais se destaca. De outro
(2004, p. 226). Assim, se antes a pala-
personagem, o caboclo de pena, resva-
vra era designativo de certo batuque,
la semelhante aura de magnetismo. O
utilizar hoje o termo maracatu requer,
cortejo real e os demais elementos que
no mínimo, uma distinção entre o ba-
integram o folguedo formam, com am-
que solto e o virado, entre os grupos
bos – caboclos de lança e caboclos de
conhecidos por maracatu rural e aque-
pena –, um conjunto vistoso, de apre-
les nominados maracatu nação, confor-
ciável plasticidade, cuja beleza não
Para os folgazões, maracatu de baque açucareiro da Zona da Mata Norte de me fez Guerra-Peixe: “ ‘toque’ vem a
requer, a priori, explicação, exige frui-
solto é brinquedo, brincadeira, é fol- Pernambuco. E, antes de qualquer coi- ser a execução individual, coletiva e a
ção. Nesse espírito festivo do exibir-se
guedo, folgança. Folguedo, pausa para sa, de qualquer sistematização etno- festa musical do Maracatu. ‘Toque vi-
a folga, ter prazer, alegrar-se, desafogar gráfica, quando perguntados são eles rado’, ‘baque virado’, ‘toque dobrado’
e desoprimir-se da massacrante labuta próprios que, visceralmente, definem o e ‘baque dobrado’ são expressões que

Stela Maris
diária de trabalhadores braçais. O fol- que é mesmo essa diversão-devoção: indicam a música de percussão dos
gazão gosta de folgar, divertir-se, é um maracatu é paixão, maracatu é a minha conjuntos em que participam mais de
brincalhão. E o gosto por determinado vida, maracatu é o brinquedo do feitiço um zabumba” (1980, p. 79). A exclusi-
modo de se divertir é tão potente que e da bruxaria, é uma coisa boa, é uma vidade da percussão no baque virado
a diversão se converte em devoção, coisa gostosa. distingue-se do “toque solto”, este
em esfusiante festa de carnaval e festa executado com um só zabumba, instru-
Das entranhas da festa, emergem de- mentos de sopro e mais outros quatro
de terreiro. É assim que os brincantes
clarações apaixonadas, apaixonan- de percussão. É do maracatu de ba-
encaram o samba de maracatu: como-
tes. Dos livros, afloram definições que que solto, ou maracatu rural, maracatu
vente alegria e devoção obstinada, que
contribuem para desvelar fragmentos de orquestra, maracatu de trombone,
trança as fibras da espinhenta palha da
desse pulsar envolvente. César Guerra- maracatu de baque singelo, que este
cana com as fitas esvoaçantes da fanta-
-Peixe, em Maracatus do Recife, co- dossiê cuida em descrever, desvelar. A
sia, na soberba paisagem do latifúndio
menta que “o vocábulo ‘maracatu’ exuberância e a importância cultural do
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possível origem e fixação do folguedo, de cabocaria e mestra das baianas, o


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Elysangela Freitas
ficou estabelecido que o sítio pesquisa- modo de fazer a indumentária de ca-
do seria a Zona da Mata Norte, Recife e boclo de lança e arreiamá. Quanto aos
Região Metropolitana. Com as viagens lugares, foram escolhidos, para descri-
a essas localidades, a pesquisa de cam- ção e análise, a Associação dos Maraca-
po aconteceu no período de fevereiro a tus de Baque Solto de Pernambuco, o
novembro de 2012, momento em que Parque dos Lanceiros, o Espaço Ilumiara
folgazões e grupos de maracatu foram Zumbi, o Cruzeiro das Bringas. Entre as
visitados e entrevistados, resultando celebrações, os encontros de maracatu
em registros sonoros, fotográficos, au- em Olinda (Cidade Tabajara), Aliança e
diovisuais. A finalização de todo o in- Nazaré da Mata; o concurso de agremia-
ventário aconteceu em maio de 2013. ções carnavalescas do Recife; as samba-
das; os ensaios e esquentes de terno; o
Mediante levantamento preliminar, de-
carnaval de Páscoa; a cerimônia da trin-
cidiu-se que, entre os ofícios e modos
cheira; os rituais sagrados. Entre as for-
de fazer, seriam considerados o ofício
mas de expressão, o estudo deteve-se
do mestre do apito, o ofício do mestre
Maracatu Piaba de Ouro, no Marco Zero, Recife

Lídia Marques
por diversão e devoção, a brincadeira das Formas de Expressão, o bem cultu-
revela peculiaridades, detalhes da ves- ral foi inventariado, sob a coordenação
timenta, um olhar, uma cor, a expres- de Maria Alice Amorim e supervisão de
sividade dos rostos, o visual deslum- Hugo Menezes. A equipe de pesquisa
brante, o espetáculo minuciosamente do Inventário Nacional de Referências
preparado, a dança vigorosa, o frenesi Culturais (INRC) do Maracatu de Ba-
dos instrumentos de sopro e percus- que Solto contou com a participação
são, os versos improvisados do mestre de profissionais das áreas de ciências
do apito. São fragmentos de complexa sociais, antropologia, etnomusicolo-
festa, da qual uma viagem antropoló- gia, história, fotografia: Bárbara Luna,
gica capta flagrantes, sem a pretensão Karina Leão, Thiago Sales, Lêda Cor-
de dar conta de todo o reino do mara- reia, Leonardo Esteves; os assistentes
catu. de pesquisa Raíssa Fonseca, Bruno
Mesquita e Solange Silva; as fotógra-
Com o objetivo de pleitear o registro
fas Lídia Marques e Elysangela Freitas.
dos maracatus de baque solto como
Adotando-se o critério geográfico da
patrimônio imaterial do Brasil, no Livro Capela vizinha ao Cruzeiro das Bringas
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no cortejo; na música do baque solto; da Mata, que, também conforme re- de Ferreiros foi escolhido por ser um O Cambinda Dourada de Camaragibe
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nas danças, evoluções e manobras. gistro oral, foi fundado em 1918, e é, dos mais recentes, de 2011, e por ter foi escolhido pelo fato de estar situa-
portanto, apontado como o segundo sido criado pelo aplaudido Mestre José do na Região Metropolitana do Reci-
Além disso, em meio às formas de ex-
mais antigo. No Recife, o destaque fi- Galdino, cirandeiro, violeiro, poeta de fe, cujo líder, Fernando Luiz de Melo,
pressão foram pesquisados, com mais
cou para o Maracatu Cruzeiro do Forte, maracatu. Para o Leão Misterioso de oriundo de Glória do Goitá, foi caboclo
detalhes, onze grupos de maracatu,
o mais antigo maracatu de baque solto Nazaré, o chamariz foi o presidente da de lança durante décadas e, por isso,
escolhidos por algumas particularida-
do Recife que, segundo registros do- agremiação, Mestre João Paulo, repen- detentor de muitos conhecimentos
des, sobretudo de caráter histórico e
cumentais, data de 1929, e cujo baque tista aclamado, tão elogiado quanto Zé acerca da brincadeira. O Maracatu Pia-
antropológico. O Maracatu Cambindi-
chegou a ser confundido com o baque Galdino, dois dos preferidos poetas ba de Ouro, do bairro de Cidade Ta-
nha de Araçoiaba, fundado em 1914,
virado dos maracatus nação. Por con- entre os apreciadores de maracatu. bajara, Olinda, foi eleito pela beleza e
foi um dos eleitos para compor uma
ta dessas particularidades, também foi grandiosidade do grupo no cenário do
das fichas de identificação por figurar Igualmente escolhido para descrição
evidenciado o Cambinda Estrela, que, baque solto; pela representatividade
como o mais antigo na memória oral detalhada por certas peculiaridades, o
proveniente do Recife e originalmen- midiática; por sediar importante en-
dos depoimentos de dirigentes e fol- Maracatu Estrela de Ouro de Aliança,
te fundado como baque virado, atu- contro de maracatus no carnaval; por
gazões. Com a mesma justificativa, no qual funciona um Ponto de Cultura,
almente encontra-se sediado na zona ter sido fundado em 1977 pelo famo-
outro dos escolhidos foi o Cambinda é um grupo de tradição da zona rural
rural de Aliança. O Maracatu Beija-Flor so Manoel Salustiano Soares (o Mestre
Brasileira, do Engenho Cumbe, Nazaré daquela cidade, fundado por respeita-
Salu, falecido em 2008) e manter-se em
do líder de folguedos, o Mestre Batista
atividade graças aos esforços da famí-
(já falecido), e é agremiação atuante
lia Salustiano, a qual também lidera o

Lídia Marques
no campo das políticas culturais refe-
movimento associativo dos maracatus.
rentes às demandas do baque solto. O
Leão de Ouro de Condado, liderado Um apoio decisivo na realização da
pelo aclamado Mestre Biu Alexandre, pesquisa foi oferecido pela Associação
é apresentado nessa lista de destaques de Maracatus de Baque Solto de Per-
por ser bicampeão do concurso de nambuco (AMBS-PE), órgão associati-
agremiações carnavalescas do Recife vo criado em 1989 pelo Mestre Salus-
e por alguns dos componentes inte- tiano, com a adesão de doze grupos,
grarem espetáculos de dança exibidos representação coletiva que hoje agluti-
em teatros e arenas. O critério para a na um conjunto formado por 115 mara-
escolha do Maracatu Leão de Ouro de catus e é símbolo de lutas cooperativas
Nazaré deveu-se ao fato de o grupo e de resistência cultural dos folgazões.
ter sido fundado há quase vinte anos e Graças, pois, à colaboração da AMBS
situar-se entre os seis mais antigos, em foi possível obter os dados cadastrais e
atividade ininterrupta, naquela cidade contatos de todos os associados, par-
conhecida como a “terra do maracatu”. ticipar de reuniões mensais na sede da
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as questões preliminares, os primeiros carnavalescos e o carnaval de páscoa;


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Lídia Marques

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passos articulados com o Prelúdio. de que modo os rituais sagrados são
vivenciados, sob o ponto de vista in-
A seguir, o primeiro bloco, Invento
dividual e também coletivamente. Na
Folgazão, exibe conteúdos indispen-
dinâmica do folguedo, estas e outras
sáveis à compreensão do bem cultu-
questões, apresentadas no Prelúdio,
ral, essa invenção de alegrias: como
no Invento Folgazão e nas duas outras
se organizam os grupos, o que man-
partes, a seguir, se oferecem incontor-
tém a coesão social. Por que motivos
náveis para a apreensão e fruição do
mantém-se o desejo dos folgazões em
bem.
protagonizar esta festa. O que existe
de memória e paixão, conforme rela- O segundo bloco – Verso lança flor –
tos deles próprios, além do carnaval, oferece etnografias e análises acerca
durante todo o ano, em torno dos pre- de três aspectos de grande relevância,
Sede da Associação dos Maracatus de Baque Solto, em Aliança
parativos e principalmente das festas e indissociáveis, no brinquedo: a músi-
de terreiro. Quais são as maneiras com ca, a dança e a poesia. Conforme abor-
que celebram o carnaval, os encontros da o capítulo O verbo sedutor, a práti-
instituição, em Aliança, e produzir co- seus múltiplos aspectos e significações. ca poética de mestres repentistas, no
letivamente as propostas de salvaguar- O Prelúdio e mais três blocos reúnem maracatu, dá conta de experiências an-

Lídia Marques
da do bem. Das cidades que sediam os capítulos que tratam da identifica- cestrais em que as três expressões ar-
grupos, todas foram visitadas, e cerca ção do bem cultural. Com o prelúdio, tísticas formavam um todo imbricado,
de um terço desses 115 grupos, entre- inauguram-se os ensaios, os preparos e atuante de modo simultâneo. Que
vistados. A partir da coleta em campo, que, à maneira de improviso musical, sentidos e significações são oferecidos
tornou-se possível vislumbrar o conjun- introduzem ao espetáculo, a uma brin- pelos mestres do apito, quando mo-
to cultural que se desenha hoje, com o cadeira complexa nas afinações, toques biliza as pessoas no ímpeto dos jogos
baque solto; reconhecer o quanto é vi- e timbres. Que folguedo é este, em corporais e de sinestesias embriagadas
goroso e reverenciá-lo por tudo o que que territórios afetivos, antropológicos de poemas. Que construções poéticas
simboliza no universo de folgazões, e e contexto socioeconômico se insere; são praticadas pelos mestres do apito,
respectivas comunidades, e no univer- quais são os elementos constitutivos, no universo das tradições de oralidade
so da cultura brasileira. personagens e respectiva hierarquiza- seculares recorrentes no Nordeste bra-
ção; como se prepara e acontece o car- sileiro. Que dança praticam os folga-
Assim, constitui-se o presente dossiê
naval do baque solto; que adaptações zões, como se organizam os desenhos
documento imprescindível à defesa do
fazem os brincantes a fim de que a vita- coreográficos, no desenrolar das apre-
título de patrimônio cultural imaterial
lidade e importância cultural conferida sentações carnavalescas e na liberda-
brasileiro para o maracatu de baque
ao folguedo se mantenham – são estas de das festas de terreiro. Isto é o que
solto, o qual é aqui identificado em Reunião do INRC na AMBS
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vocavam estranhamento e curiosidade contidas às permanências e transfor-


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no Recife desde os anos 1940. Quem mações apreendidas durante a pes-
são, de onde surgiram, desde quando quisa de campo.
existem? Instigados por estas e outras
Concluídos os capítulos referentes à
perguntas acerca dos maracatus de
identificação do bem cultural, o quarto
baque solto, esses pesquisadores agu-
bloco do presente dossiê é dedicado ao
çaram os sentidos e saíram à cata de
Registro e Salvaguarda do maracatu de
respostas, comovendo-se ainda mais
baque solto. Ao mesmo tempo em que
com a exuberância do folguedo, pro-
defende o registro, no livro das Formas
duzindo descrições pioneiras e minu-
de Expressão, deste patrimônio cultu-
ciosas. Esta parte do dossiê apresen-
ral imaterial do Brasil, apresenta as di-
ta, pois, um diálogo com os ensaios
retrizes de salvaguarda produzidas na
que primeiro esboçaram a fisionomia
AMBS, durante reunião de folgazões e
do baque singelo de maracatus, arti-
pesquisadores do inventário. Com as
culando as descrições históricas neles

Caboclos de lança do Maracatu Estrela da Tarde

Lídia Marques
Foto de Katarina Real Acervo Fundação Joaquim Nabuco (2-KR-0497)

tenta dar conta o capítulo Entre céu e o tema, inaugurando hipóteses, des-
terra leveza. Como se caracteriza a mú- crições, complexidades acerca do as-
sica de sopro e percussão, que ritmos sunto. Ao longo de várias décadas,
e tipos de instrumentos são executa- os estudiosos Valdemar de Oliveira
dos no baque solto, em que contextos (1948), Ascenço Ferreira (1951), Cé-
etnográficos se desenvolve a musica- sar Guerra-Peixe (1949 a 1952), Kata-
lidade do baque solto, que nuances e rina Real (1961 a 1965), Olímpio Bo-
transformações são passíveis de apre- nald Neto (1972) e Roberto Benjamin
ensão: estes são os aspectos apresen- (1976, 1979 a 1981) dão conta de per-
tados no capítulo A catedral sonora do sonagens, indumentárias, rituais, cele-
baque solto. brações que caracterizam os grupos
nomeados de maracatu rural, de trom-
No terceiro bloco, intitulado de Ensaio
bone, de orquestra, de baque singelo.
Primeiro, são apresentados e comen-
Enigmáticos, vistosos, vibrantemente
tados os textos de seis autores que
coloridos, os caboclos de lança pro-
se debruçaram pioneiramente sobre Pesquisadores do inventário do baque solto registram seminário sobre salvaguarda
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grupos filiados à associação participa-

Lídia Marques
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Lídia Marques

ram de reunião especificamente agen-


dada para esse fim, e, subdivididos em
quatro rodas de trabalho, debateram
sobre os itens constituintes do ques-
tionário de salvaguarda, resultando na
elaboração de documento organizado
em cinco eixos temáticos, cujo texto
propositivo é adiante apresentado.

Neste dossiê, o bem cultural em ques-


tão é identificado em suas múltiplas
complexidades e significações. Etno-
argumentações produzidas, o registro grafias e análises dão conta da música,
que aqui se pleiteia é lastreado na pes- dança e poesia, exibindo, entre outras,
quisa de campo, em alguns casos com informações indispensáveis à contextu-
observação participante, na mnemo- alização socioeconômica e antropológi-
técnica multimídia, sobretudo na me- ca do folguedo; o que existe de memó-
mória viva e sensibilidade de folgazões ria e paixão; os diversos personagens e
apaixonados por um brinquedo que se respectiva hierarquização no brinque-
traduz em prática cultural entranhada do; as maneiras com que celebram o
no cotidiano de pessoas, de comuni- carnaval e vivenciam os rituais sagra-
dades imersas nas vivências da Zona dos; como se organizam os grupos e
da Mata Norte de Pernambuco ou vis- o que mantém a coesão social. Estas
ceralmente ligadas a essas vivências e outras questões, aqui abordadas, se
mesmo que em territórios de diáspora, oferecem incontornáveis para a apre-
como é o caso de migrantes no Recife ensão e fruição do bem. Resultante de
e Região Metropolitana ou nos arredo- todo o levantamento bibliográfico, et-
res da Mata Norte. Sob a condução de nográfico e sistematização da pesquisa
Hugo Menezes foram produzidas, e a de campo, o dossiê de candidatura re-
seguir por ele redigidas, as diretrizes vela, pois, os importantes aspectos do
de salvaguarda para o fomento, pro- maracatu de baque solto, sem os quais
moção, difusão e preservação do ma- não seria possível compreender a rele-
racatu de baque solto. Em setembro vância deste bem cultural e o seu status
de 2012, representantes de 75 dos 115 de patrimônio imaterial do Brasil.
identiFIcacão

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prelúdio

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Stela Maris
Que fisionomia tem o maracatu de nesse roteiro sagrado de culto aos Ori-
baque solto? De onde surgiu, desde xás, mestres do Catimbó e caboclos
quando existe? Quem são os protago- da Jurema; nessa explosão poética de
nistas desta expressão cultural? De que mestres improvisadores que constroem O território primeiro é a Zona da Mata nicípios que compõem a microrregião:
maneira se constituiu a exuberância do versos em sintonia com as tradições de Norte, também conhecida por Mata Aliança, Buenos Aires, Carpina, Con-
folguedo, a partir de quais elementos? oralidade procedentes da Península Setentrional Pernambucana, Zona da dado, Chã de Alegria, Ferreiros, Glória
Evidenciados na observação durante Ibérica; resultando nesse “misto de te- Mata Seca, Litoral-Mata. São 115 ma- do Goitá, Goiana, Itambé, Itaquitinga,
pesquisas de campo, e também nas atro e dança”, no dizer de Ariano Su- racatus de baque solto, espalhados en- Lagoa do Carro, Lagoa de Itaenga, Na-
descrições de estudiosos e escritores, assuna; nesse tecido cultural em que tre 24 cidades, e a Mata Norte é onde zaré da Mata, Paudalho, Tracunhaém,
traços da cultura ibérica associam-se há, conforme Roberto Benjamin, “uma está localizada a maior parte deles. É Vicência. Com as correntes migratórias
a elementos das culturas africanas e acentuada semelhança do caboclo de aí, nesse espaço privilegiado de cons- em direção à capital do Estado, a par-
indígenas, exibindo no microcosmo, lança com figuras do bumba-meu-boi, trução do folguedo, que fica o coração tir da primeira metade do século XX os
de modo complexo, o amálgama ori- como também no bumba do Maranhão do brinquedo e daí pulsa, expande-se, folgazões passaram a buscar trabalho,
ginário da cultura brasileira. O caráter existe o caboclo de pena”; resultando dissemina-se a cultura do baque solto. melhores condições de vida no Recife
exuberante, enigmático, poderoso do nesse conjunto de confluências que se Na Mata Setentrional, onde os mara- e arredores, o que explica o fato de
caboclo de lança alia-se a outras com- singularizam no maracatu de baque catus principalmente se concentram, a os maracatus também se fixarem nas
plexidades de personagens e elemen- solto, patrimônio cultural imaterial do presença deles se dá em 16 dos 19 mu- cidades de Araçoiaba, Igarassu, Cama-
tos outros do brinquedo, resultando Brasil.
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MAPA DE PERNAMBUCO politana do Recife, ao sul; com a região o mais baixo IDH estadual encontra-se
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do Agreste Setentrional, a oeste, e, a exatamente na Mata Norte, em Itambé
leste, limita-se com o Oceano Atlânti- (0,357), um dos redutos dos maracatus.
co e mesorregião da Região Metropo- O latifúndio e a exploração da mão-
litana do Recife. Abrange uma área de -de-obra, as condições sub-humanas
3.219,266 km², menos de 50% do total de emprego e de vida, os altos índices
dessa microrregião geopolítica e conta de analfabetismo, a sazonalidade das
com uma população de 577.191 mil ha- ofertas de trabalho no corte da cana
bitantes (IBGE, 2010). Na Mata Norte, caracterizam a região onde se originou
mantém-se o plantio de cana-de-açú- e desenvolveu a complexidade cultural
car como uma das principais atividades do baque solto, onde ainda hoje estão
econômicas, a monocultura açucareira mergulhados muitos dos protagonistas
não mais funcionando como exclusi- desse folguedo, em sua maioria traba-
va fonte de renda das cidades da re- lhadores da cana. Mesmo convivendo
gião. Conforme dados do IBGE, Censo com as adversidades decorrentes de
2010, na Zona da Mata Norte o Índi- tal contexto socioeconômico, esses ca-
ce de Desenvolvimento Humano (IDH) navieiros construíram um vigoroso le-
é de 0,650, inferior ao do Estado de gado cultural, em que os maracatus de
ragibe e Olinda. Considerando, ainda, Parte mais úmida de Pernambuco, ca- Pernambuco como um todo (0,705), e baque solto sobressaem.
a capilaridade das culturas em territó- racterizada por especificidades cultu-
rios circunvizinhos, há a presença do rais engendradas a partir da implan-
folguedo em Vitória de Santo Antão, tação da economia açucareira nos
cidade localizada na Zona da Mata Sul, primórdios do domínio português (sé-
fronteiriça com localidades da Mata culo XVI), a Zona da Mata, subdividida
Norte em que há forte presença de em Mata Norte e Mata Sul, ocupa uma
maracatus: Glória do Goitá e Chã de área de 8.465km² dos 98.146,315 km²
Alegria. No Agreste pernambucano, do território estadual, o equivalente
há maracatu de baque solto na cidade a um total de 8,5%, e conta com po-
de Feira Nova, cuja vizinhança à Mata pulação pouco maior do que 1,2 mi-
Norte se dá com Lagoa de Itaenga e lhões de pessoas, ou seja, 15,2% da
Glória do Goitá. Fundado por migran- população do Estado (Condepe/Fi-
tes do Estado de Pernambuco, há um dem, 2009). A Zona da Mata Norte faz
maracatu em Caaporã, Paraíba, municí- fronteira com o Estado da Paraíba, ao
pio também localizado na fronteira da norte; com a Mata Sul e Região Metro-
ZONA DA MATA NORTE
Mata Norte.
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Nos lugares por onde passa, o mara- convidado a partir das nove da noite
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Maria Alice Amorim

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catu atrai todos os olhares. Basta um até o dia amanhecer, sob a torcida de
chocalho ao longe para todos correrem folgazões e diversificada platéia. Com
à porta. No cenário desses habitantes deslumbrante visual, o desenho forma-
da Zona da Mata Norte, ou oriundos do predominantemente por caboclos
dela, jamais passam despercebidos de lança, caboclos de pena e baianal
os treinos dos caboclos de lança que oferece espetáculo carnavalesco minu-
saem pelas ruas, de setembro até a ciosamente preparado durante todo o
Páscoa, chocalhos às costas, sozinhos, ano, espetáculo de grande plasticida-
em dupla, a três ou a quatro; os ensaios de que inclui figurino exuberante, dan-
dos maracatus em largos, engenhos ou ça vigorosa, batida forte da percussão,
ruas próximas à sede do folguedo; as repente poético do mestre tirador de
sambadas que se traduzem em ver- loas, cujos versos têm parentesco com
dadeiros torneios de mestres, dispu- os repentes de viola e com a poesia de
tando o poeta anfitrião com o poeta cordel, na rima e métrica. Nas trinchei-
ras do baque solto do maracatu, explo-
de o colorido sonoro dos chocalhos. A
Maria Alice Amorim

beleza do bordado das golas, as tiras


policromáticas dos chapéus, as fitas ge-
nerosamente dispostas na pontiaguda
lança vermelha iluminam o verde cana-
vial e paisagens outras, urbanas ou ru-
rais, aglutinando, em torno de si, refe- uma parcela desse todo sistêmico das alegria de estarem juntos, comparti-
rências culturais, formas de expressão práticas sociais envolvidas. As festas lhando coletivamente a paixão pela
constitutivas de inegável patrimônio de terreiro – ensaios e sambadas – que dança, pela música, pela poesia: a pai-
imaterial brasileiro. se desenrolam durante o ano formam xão pelo maracatu.
o conjunto mais significativo do baque
A fim de compreender a importância O carnaval, explosão de alegria de
solto. A agenda anual de cada grupo, e
deste bem cultural, necessário dizer apaixonados folgazões, exige preparo
dos grupos agregados em associação,
que, para além de possíveis obscurida- corporal e religioso, preparo logístico
fazem do período carnavalesco desdo-
des no acesso a um marco originário, o e financeiro. Inaugurando o período
bramento natural desse conjunto de
maracatu de baque solto se apresenta com a cerimônia da trincheira, rito de
atividades festivas e corporativas. No
como legítimo representante da cultu- abertura solene da folia, é a partir da
carnaval, os folgazões se exibem para
ra brasileira. É um folguedo carnava- própria sede, ou de local previamen-
a sociedade, para o mundo; nos outros
lesco, embora o carnaval represente te escolhido para a celebração, que
Mestre Antônio Roberto momentos comunitários, celebram a
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mulheres no folguedo. “Maracatu é respeito ao alimento do grupo, que,


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Elysangela Freitas

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brincadeira de homem ligeiro, de ho- para percorrer as distâncias todas e se
mem valente”, narra Carlos Alberto de exibir com energia, necessita se deslo-
Menezes, do Maracatu Piaba de Ouro, car cedo da manhã e se alimentar bem,
no vídeo Verso lança flor (Inventário a fim de conseguir cumprir os compro-
Nacional de Referências Culturais do missos nas cidades onde o brinque-
Maracatu de Baque Solto, 2013). Do do é esperado, geralmente mediante
que se rememora, portanto, a antiga contrato previamente estabelecido. As
história de maracatus é a de luta cor- comidas, em grande quantidade, são
poral cheia de ligeireza e virilidade, em preparadas, de véspera, por integran-
meio aos canaviais, nas veredas percor- tes do maracatu, e servidas durante o
ridas a pé. Por isso a possibilidade de percurso das viagens, nos intervalos
que o folgazão não conseguisse se sair entre apresentações, e às vezes sob a
com vida dessa trama violenta. Tempos sombra de árvores na beira da estrada.
adiante, já com a presença de mulhe- Quanto ao pernoite, este também é
res integrada ao brinquedo, a violência planejado, sobretudo para evitar a dis-
transforma-se em elemento simbólico persão dos folgazões que não moram
Maracatu Leão de Ouro de Condado, Praça do Marco Zero, Recife
e o cenário atravessado nas caminha- na localidade do folguedo. Quando
das passa a descortinar-se de cima dos não é possível acolhê-los no ambiente
o grupo se lança nessa aventura anu- três a cinco cidades, a depender das caminhões de cana-de-açúcar, numa da própria sede, uma das estratégias
al, com múltiplas viagens diárias a di- distâncias e da fila de espera no local espécie de reprodução do cotidiano é obter apoio de alguma instituição
versas localidades da Zona da Mata e da exibição. Esse nomadismo dos fol- desses trabalhadores rurais, que agora que permita o alojamento de todos, a
da Região Metropolitana do Recife, gazões durante o carnaval é uma recor- saem não mais com as vestes da labuta exemplo de escola, galpão, centro co-
a fim de se apresentarem nos palan- rência, uma tradição que se adapta às diária, e, sim, com imponente figurino munitário, órgão associativo. No perío-
ques municipais. Após a apoteose da novas configurações de espaço/tempo, de rei, rainha, baiana, lanceiro, caboclo do do carnaval, o grupo passa a estar
celebração de abertura da temporada conforme relato dos próprios protago- de pena. Cena esta que não mais se re- junto a partir do início da tarde do do-
carnavalesca – que se dá com o mes- nistas. Nos primórdios, era a pé que se pete a partir dos últimos quinze anos, mingo, quando todos se reúnem para o
tre cantando a marcha de saída, sob o deslocavam, de engenho em engenho, por conta da proibição de transporte ritual de chegada na sede ou cerimônia
pipocar dos fogos – o grupo segue via- de cidade em cidade, e a possível volta humano em veículo cargueiro aberto. da trincheira, e só se dispersam na ma-
gem. Para transporte das pessoas e do para casa acontecia apenas no fim do Assim os folgazões passam a adotar drugada da quarta-feira de cinzas, após
figurino, providencia-se a locação e/ou carnaval. ônibus para as pessoas e caminhões o fechamento do ciclo, diante da sede,
cessão de ônibus e caminhão, obtidos apenas para o figurino. com as marchas de despedida do mes-
Associado à valentia, o protagonismo
mediante apoio institucional e verba tre do apito e mais fogos de artifício. O
desses caminhantes carnavalescos era Com as providências tomadas quanto à
arrecadada para tal fim. Cada grupo caráter agregador do circuito carnava-
exclusividade de homens: não havia locomoção, outro item fundamental diz
consegue se apresentar, em média, em lesco corrobora práticas sociais e tro-
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cas simbólicas no ambiente cultural dos Criado em 1935 pela Federação Car-
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maracatus de baque solto. É principal- navalesca de Pernambuco e assumido
mente na Zona da Mata Norte, locus pela Prefeitura do Recife a partir de
privilegiado para as exibições, que os 1956, o concurso é questionado pe-
maracatuzeiros se sentem bem recebi- las regras que estabelece para que o
dos e são efusivamente aclamados du- maracatu seja admitido como passível
rante o carnaval. Por isso a necessidade de competir. Os itens de julgamento,
de cumprirem roteiro que privilegie a obrigatórios, conforme regulamento,
região, embora o desejo de mostrar-se inviabilizam a participação sobretu-
na programação de carnaval do Recife do quanto a quantidade de folgazões
e Olinda seja cada vez mais cultivado, e personagens. Outra dificuldade diz
sobretudo pela possível inserção midi- respeito aos gastos necessários para
ática estadual e nacional. chegar até o Recife, muitos dos grupos
não dispõem de capital para investir no
No Recife, o concurso de agremiações
deslocamento e na obediência às nor-
provoca acalorados debates. Distribu-
mas do concurso. Finalmente, diversos
ídos em quatro categorias – acesso,
dos líderes das agremiações discordam
grupo I, grupo II e especial – não há
dos ditames reguladores, por conside-
vaga para todos os grupos concorre-
rá-los invasivos quanto às tradições de
rem ao certame. Na categoria de aspi- do as viagens, os deslocamentos para de maracatus é na segunda-feira. Essa
cada grupo. Ainda assim, cerca de oi-
rante, a participação é mais numerosa se apresentar, cada grupo consegue agenda de exibições garante cada vez
tenta maracatus adotam o concurso do
e a remuneração, ínfima. Além do mais, se exibir em pelo menos três cidades. mais ampla difusão nacional e sempre
Recife como um dos eventos indispen-
são rigorosos os critérios exigidos para Para isso, todos eles viajam, quer pela maior inserção na mídia.
sáveis no carnaval. Metade disso – qua-
admissão nas categorias superiores e Zona da Mata, quer pelo Recife e Re-
renta – integra o grupo de acesso. O Inserir-se nos circuitos turísticos, nos ro-
há poucas vagas. Na tarde da terça-fei- gião Metropolitana. Os encontros te-
tempo de duração varia entre 15 e 30 teiros que proporcionem ampla visibili-
ra os maracatus de baque solto concor- máticos, programados para acontecer
minutos. O grupo de acesso e o grupo dade é parte do contínuo processo de
rem na passarela da Avenida Nossa Se- em Nazaré da Mata, Aliança e Olinda,
II têm 15 minutos; o grupo I, 20 minu- legitimação perante a sociedade. Se an-
nhora do Carmo, cenário de exibição recebem os grupos mediante distri-
tos; o especial, meia hora. tes os folgazões se apresentavam para
do grupo especial. Cada um dos outros buição por sorteio. Na Associação de
comunidades menos numerosas é por-
grupos, promove a apresentação num Ainda no Recife, a praça do Marco Maracatus de Baque Solto de Pernam-
que as circunstâncias para a exibição e
pólo específico. No grupo de acesso, Zero e outras praças também oferecem buco (AMBS-PE), em Aliança, os ma-
divulgação eram outras. Hoje, faz parte
não há remuneração. Os demais gru- palco para exibição das agremiações racatus se apresentam durante os três
desse mesmo desejo de exibir-se dançar
pos recebem apoio monetário e os três tradicionais. Os maracatus apreciam dias de carnaval. No Espaço Ilumiara
diante de inúmeros e variados modelos
escolhidos como melhores ganham viajar para o Recife, embora isto não Zumbi, em Olinda, e no centro da ci-
de câmeras fotográficas e de câmeras
também uma premiação em dinheiro. represente unanimidade. Consideran- dade de Nazaré da Mata, o encontro
de registro audiovisual porque assim se
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oferecem as atuais circunstâncias de di- caboclos de lança oferece o comando xa preta. A Catirina usa colares, peruca, a lança, o surrão – é uma caricatura,
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fusão do folguedo, principalmente nas corporal, na liderança das coreografias óculos escuros, vestido e outros aces- em menores dimensões, das vestes do
redes de televisão, na mídia impressa, e da organização espacial dos lanceiros sórios extravagantes, e também carre- lanceiro. Na mão, leva uma bexiga de
sonora, nas mídias digitais. Tanto quan- e demais folgazões. Atento à coordena- ga um instrumento de pescaria, um je- animal, cheia de ar, que bate ruidosa-
to o carnaval é parte desse conjunto ção da chefia feminina, as baianas exe- reré, com o qual “pescava” as comidas mente numa perna enquanto dança e
cultural, as festas de terreiro – samba- cutam as danças na composição inter- para o grupo durante as antigas andan- se exibe, do mesmo jeito que faz o Ma-
das, ensaios – proporcionam diálogos e na, ou miolo, do cortejo. Os caboclos ças na zona rural. teus do cavalo-marinho. É personagem
confluências na dinâmica da formação de pena e a corte real integram a parte cômico que, acompanhado da Catita,
A Catita forma par com o Mateus, es-
dos folgazões e da legitimação social mais interior do conjunto do folguedo, se encarrega de fazer palhaçadas, in-
pécie de palhaço do maracatu, e am-
do folguedo. É no terreiro de cada ma- enquanto a parte mais externa é pre- clusive gesticulações provocativas que
bos são dois dos principais persona-
racatu que os aprendizes observam os enchida pelas figuras meladas de gra- simulam o ato sexual com a parceira. A
gens que integram o folguedo natalino
mais velhos e ensaiam o engajamento xa – Mateus, Catirina, Burrinha, Babau, Burrinha, o Babau e o Caçador também
do cavalo-marinho. O Mateus tem um
no grupo. É aí que se exercita a função Caçador –, aquelas que se espalham na integram o elenco de personagens de
chapéu de formato cônico, feito com
social de cada um dos integrantes na frente da brincadeira e conferem picar- cavalo-marinho, bumba-meu-boi e rei-
tiras coloridas de papel brilhoso, as-
composição coletiva da agremiação. dia à exibição. sado, autos populares do ciclo natalino
semelhado ao chapéu do caboclo de
que guardam semelhanças entre si, na
Na hierarquia da brincadeira é o mestre Quando os maracatus eram compos- lança. Aliás, todo o figurino – a gola,
temática e composição estrutural.
do apito quem comanda a festa. Porta- tos apenas de homens, e percorriam
-voz do grupo, o poeta ordena as ma- os engenhos a pé, era a Catirina ou

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nobras e evoluções do cortejo, conduz Catita quem ia à frente do folguedo
o espetáculo, executa as marchas de “roubando” alimentos para o grupo,
abertura, as marchas de saída e de che- ao mesmo tempo em que dava notícia
gada, durante o carnaval. E, não ape- da existência de algum outro maracatu
nas isto, durante todo o ano comanda por perto. Significando pessoa bonita,
as festas de terreiro: é quem dá o tom atraente, bem vestida, a palavra catita
vibrante à alegria dos ensaios e à dispu- é também sinônima de rato miúdo, ou
ta poética de sambadas. Acompanhado seja, etimologicamente o apelido com-
dos instrumentos musicais – percussão e bina com a figura feminina caricatural
sopro – o mestre de maracatu modula a e cheia de espertezas exercida pela
expansão dos folgazões com o fascínio personagem, “a ladrona do maracatu”,
dos versos, palavras aladas que alcan- cujo papel é sempre desempenhado
çam o corpo cênico do folguedo e atin- por um homem fantasiado de mulher
gem a todos os que rodeiam a cena e que simula estar grávida e, imitando
nela se envolvem. Se o mestre do apito a dama do paço, anda abraçada com
profere o comando verbal, o chefe dos uma calunga, também melada de gra-
Na cerimônia da trincheira, arreiamás agacham-se aos pés do mestre do apito
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A história dos indivíduos e dos grupos cáveis ao longo do tempo, corroboran-


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guarda profunda relação com o am- do a necessidade, até, de adaptações,
biente social da Zona da Mata Norte, a fim de que se mantenha a vivacida-
tanto quanto é visceral a relação do ba- de do folguedo e, consequentemente,
que solto com outros bens culturais da- persista o caráter de memória longa
quela microrregião estadual, a exem- desta forma de expressão. É nessa di-
plo dos folguedos tradicionais dos nâmica, portanto, que personagens, e
ciclos natalino e junino, como o cavalo- respectivos figurinos, mantêm-se con-
-marinho, o coco de roda, a ciranda. forme pede o apreço de folgazões pe-
Possivelmente as tradições culturais da los conteúdos tradicionais e conforme
região enraizaram-se e mantiveram-se evidenciam textos pioneiros, escritos
arraigadas pelo isolamento do ambien- a partir da década 1940, por compa-
te rural em que as brincadeiras e festi- ração aos registros etnográficos re-
vidades cíclicas funcionavam como úni- centes, produzidos durante a pesquisa
ca opção de lazer daqueles habitantes do Inventário Nacional de Referências
folgazões. Nesse ambiente rural pude- Culturais (INRC) do Maracatu de Ba-
Maracatu Cambinda Estrela de Tupaoca, Aliança ram viver até a década 1990, graças ao
vigor, à época, de convenção coletiva
O Caboclo de Lança é o mais atraen- As Baianas, com vestido de saia lon- que determinava a obrigatoriedade
te integrante do maracatu de baque ga e rodada, às vezes levam buquê patronal de reservar aos canavieiros,
solto. Com figurino vistoso, a presen- de flores às mãos e/ou miniatura do nos engenhos onde trabalhavam, um
ça do lanceiro é marcante, sobretudo símbolo do brinquedo – um leão ou pedaço de terra para morada e plantio
pelo chapéu recoberto de tiras colori- peixe, por exemplo. A Dama do Paço, de lavoura de subsistência. Os liames
das de papel brilhoso; pela manta ou uma das baianas, é aquela que conduz culturais construídos nesse ambiente
gola rebordada que se assemelha, no a boneca ou calunga, objeto ritual do social específico ainda hoje se apresen-
formato, a um poncho; pelo surrão ou folguedo. O Rei e a Rainha se fazem tam como elementos aglutinadores,
maquinada, onde grandes chocalhos acompanhar de Príncipe, Princesa e mesmo quando vivenciados em con-
ficam pendurados; pela lança pontia- Pajem. Há, ainda, o Carregador do dições geográficas e socioeconômicas
guda recoberta de tiras multicolori- Lampião, o Carregador do Símbolo e diferenciadas, inclusive mais urbanas
das; pelos óculos escuros e pelo cravo o Porta-Estandarte. Os diretores da que rurais e fora da Mata Norte.
branco que leva à boca. O Caboclo de agremiação, quando não são folga-
Assim, embora surjam nuances, mo-
Pena, também vistoso, chama a aten- zões, acompanham o grupo durante o

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dificações no modo de organizar-se e
ção mais pelo imenso cocar de penas carnaval portando elementos identifi-
exibir-se, os maracatus de baque solto
de ema e de pavão, do que pela gola cadores nas vestes.
oferecem repertórios culturais identifi-
similar à do lanceiro, embora menor.
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maracatus de Vitória e Glória do Goi- lantejoula, sapato e meião coloridos. Mata Norte e realizar pesquisas siste-
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tá, sendo tocado por um dos músicos, Hoje o vestuário do poeta se apresen- máticas nesta região. Escolhe residir
não mais pelo poeta. ta mais despojado, passando a adotar em Nazaré da Mata e vivencia o papel
na vestimenta tênis, calça jeans, cami- de caboclo de lança, contramestre e
O conjunto da indumentária dos diver-
sa de tecido estampado ou colorido. mestre do apito. Durante os anos 2000,
sos personagens mantém elementos
O que se mantém no figurino são os Siba produz o disco Fuloresta do Sam-
que proporcionam um reconhecimento
instrumentos de trabalho – a bengala ba e a série de seis discos Poetas da
visual do brinquedo e permitem esta-
e o apito – poderosos objetos rituais. Mata Norte, com a participação de mú-
belecer um continuum cultural, mesmo
A inserção de músicos e mestres de sicos e mestres de maracatu que, daí
considerando as transformações, as
maracatu no mercado fonográfico, a por diante, integram o circuito de apre-
variações por que têm passado, seja
partir, sobretudo, da atuação da famí- sentações artísticas nas praças, teatros,
na escolha de materiais mais acessí-
lia Salustiano, do artista Siba Veloso, casas de show em Pernambuco, São
veis economicamente, seja na escolha
do produtor cultural Afonso Oliveira, Paulo e outros Estados. O músico, ator
deliberada da amplificação dos efeitos
certamente constitui experiência reno- e dançarino Helder Vasconcelos, tam-
plásticos do conjunto. Um exemplo diz
vadora sob o ponto de vista da criação bém integrante do Mestre Ambrósio,
respeito à gola dos caboclos de lança,
artística e do diálogo das tradições po- participa há duas décadas como arreia-
que não mais são bordadas com aljô-
pulares com o universo pop, propor-
far, vidrilho e canutilho, em decorrência
cionando adaptações, transformações
dos custos monetários e do peso des-
que Solto. Os instrumentos musicais, próprias à dinâmica da cultura.

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ses materiais, por comparação às lan-
descritos por Guerra-Peixe na déca-
tejoulas usadas atualmente. O mesmo A música Maracatu Atômico, composta
da de 1950, são cinco percussivos, os
se pode dizer em relação aos materiais por Nelson Jacobina e Jorge Mautner,
mesmos cinco registrados desde en-
utilizados na execução dos bordados e lançada em 1974, ganha releitura de
tão até 2012 – gonguê, ganzá, tarol,
de gola do caboclo de pena ou arreia- Chico Science e Nação Zumbi, na dé-
cuíca, bombo ou surdo –, associados
má. Quanto ao tamanho do diâmetro cada 1990, com a explosão do movi-
a instrumentos de sopro, que podem
das golas dos lanceiros, entretanto, mento manguebeat. Nesta cena, o ma-
variar entre trombone, trompete, sa-
cada vez maiores dimensões vêm sen- racatu de baque solto – sob o ponto
xofone, clarinete, como se constata
do adotadas, certamente levando-se de vista coreográfico, sonoro, visual – é
ainda hoje. A única variação encontra-
em consideração o efeito visual duran- incluído entre os elementos que inte-
da, quanto aos instrumentos musicais,
te as exibições. gram a estética desse movimento. O
diz respeito à buzina, instrumento de
grupo musical Mestre Ambrósio, lide-
sopro, cônico, produzido artesanal- Outra mudança no figurino do mara-
rado por Siba Veloso, integra a cena,
mente em folha de flandres, que à catu se refere ao mestre do apito, que
produzindo discos e shows inspirados
época da pesquisa de Guerra-Peixe antes se vestia de modo especial, com
no cavalo-marinho e no baque solto.
era executado pelo mestre tirador de roupas de lamê e outros tecidos brilho-
A partir daí, Siba passa a frequentar a
loas e atualmente é visto apenas em sos, chapéu rebordado de miçanga e Siba e Manoel Roque
50 51

má ou caboclo de pena do Maracatu poeta das tradições de oralidade com


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Piaba de Ouro e elabora experiências o autor que se inspirou nos maracatus
estéticas que interagem com o univer- quando criou aclamada música, dos
so do baque solto. anos 1970, a qual vinte anos depois
ganhou releitura de Chico Science,
A expressividade e a dinâmica das
mentor do manguebeat. O filme Ma-
culturas tradicionais de Pernambuco
racatu, Maracatus (1995), de Marcelo
provocam recorrente inspiração ar-
Gomes, é outro registro audiovisual
tística nas diversas áreas. O produtor
que documenta a ambiência do ba-
cultural Afonso Oliveira, idealizador
que solto. No campo das artes visuais,
do Festival Canavial e dos primeiros
entre as obras de grande represen-
encontros de maracatus em Nazaré da
tatividade, há fotografias, desenhos,
Mata, recentemente produziu o disco
xilogravuras, pinturas de Lula Cardo-
Maracatu Atômico - Kaosnavial (2009)
so Ayres; desenhos a bico-de-pena e
e o filme homônimo (2011), protago-
esculturas de Cavani Rosas, estas últi-
nizados por Jorge Mautner e o mes-
mas produzidas especialmente para o
tre Zé Duda, do Maracatu Estrela de
Parque dos Lanceiros, em Nazaré da
Ouro, de Aliança. Esse trabalho resul-
Mata. Nos anos 1960, o Movimento
ta emblemático por fazer dialogar um
de Cultura Popular (MCP) já eviden-
ciava sensibilidades para a força da Lula Cardoso Ayres Tuxaus do Carnaval do Recife Óleo sobre tela, 1942
Lídia Marques

Acervo do Museu do Estado de Pernambuco


cultura e arte populares do Estado de
Pernambuco. Na década seguinte, é o tos coreográficos da dança e elemen- inscrevem, por considerar inadmissível
Movimento Armorial, concebido pelo tos visuais do figurino do baque solto. a submissão a regras impostas pelos
escritor Ariano Suassuna, quem vai organizadores daquele ou de qual-
Nessa dinâmica de antropofagias, re-
desencadear reflexões e experiências quer outro certame. A necessidade de
criação artística e apropriações, cabe
estéticas em defesa da construção de transformação dos grupos de maraca-
aos protagonistas do folguedo a le-
uma arte erudita a partir das raízes tu em pessoa jurídica provoca tensões,
gitimação, a representatividade. São
populares da cultura brasileira, cujas suscita polêmicas, tendo em vista que
eles próprios a quem cabe aceitar, ou
ações desdobram-se em iniciativas vá- determinadas inserções no mercado
não, submeter-se a regras ditadas pela
rias, como a criação do Balé Popular cultural exigem dos folgazões abdi-
indústria cultural, por órgãos regula-
do Recife e do Grupo Grial de Dança, car de algumas características, mesmo
dores, por instituições. Um exemplo
cuja produção artística se inspira nos que momentaneamente. A Associação
é o concurso de agremiações carna-
folguedos, entre eles os maracatus. As de Maracatus de Baque Solto de Per-
valescas do Recife, para o qual deter-
aulas-espetáculo ministradas por Su- nambuco (AMBS-PE) tem funcionado
minados grupos de maracatu não se
assuna exibem, entre outros, elemen- como um organismo mediador dessas
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tensões e, cada vez mais, o associati- cias da cultura brasileira, um dos seus
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vismo do baque solto vem funcionan- valores permanentes, cuja condição,
do como orientador de demandas portanto, é inquestionável, conforme
profissionais que incluem captação de reflexões do artista e intelectual Aloísio
recursos, agendamento de apresen- Magalhães, que pioneiramente tratou
tações em variados eventos artísticos do assunto e fundou, em meados da
e culturais durante todo o ano, pro- década de 1975, o Centro Nacional de
dução de projetos para concorrer em Referência Cultural:
editais de fomento à cultura. As polí-
Quais são os valores permanentes
ticas públicas ganham nova dimensão de uma nação? Quais são verdadei-
nesse processo de autoafirmação dos ramente esses pontos de referência
próprios folgazões, de conquista de nos quais podemos nos apoiar, pode-
respeito e legitimação própria. Assim, mos nos sustentar porque não há dú-
nesse processo de reconhecimento de vida de sua validade, porque não po-
dem ser questionados, não podem
si mesmo, de autoestima, o maracatu
ser postos em dúvida? Só os bens
se apresenta e se legitima como um
culturais. (Magalhães: 1985, p. 41)
bem cultural vivo, uma das referên-

Elysangela Freitas

Arte Maurício Nunes


invento folgazão

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Elysangela Freitas

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
entranhas da festa
MEMÓRIA E PAIXÃO

Zona da Mata Norte, Pernambuco, Bra- tão, todos os maracatuzeiros paravam


sil. A paisagem física, dócil aos olhos, lá. Na época os maracatus era muito
poucos maracatus, agora tem muito
poderia dizer da doçura do canavial
maracatu no meio do mundo, todo
ondulando sobre a topografia aciden-
mundo quer ter um maracatu. Aquele
tada das colinas. Nazaré, reinando so- tempo, não tinha esse negócio de Ta-
berana sobre os arredores, sabe de ari- bajara, Aliança, Recife, sempre a gente
dez e suor, sabe de trabalhadores da parava em Nazaré, só era Nazaré. (En-
palha da cana e dos emblemas de uma trevista Severino Teotônio Rodrigues:
cultura, a cultura do baque solto: INRC Maracatu de Baque Solto, 2013)

Na época, a apresentação mais boni-


ta que tinha aqui e, ainda hoje é, para
todos os maracatuzeiros, era Nazaré,
Por toda essa memória que habita o
que Nazaré é a terra do maracatu. En- universo folgazão, Nazaré da Mata ga-
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Maria Alice Amorim

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Maria Alice Amorim
Mestre Dedinha e Arreiamá Biu Véi Mestre João Paulo

nhou o designativo de “Terra do Ma- forme registro oral, o grupo surgiu em bretudo se soubessem que a última 67 anos incompletos. Presenteia a me-
racatu”. Distante aproximadamente 65 1914, no Engenho Cotunguba, situado dança de Biu Véi conquistou o status de mória afetiva, a memória social com a
km do Recife, não é uma metrópole, em Tracunhaém, quando esta cidade inesquecível: solícito, fez toda a ques- leveza da dança de estrelas e pavões.
abrange área de pouco menos de 150 ainda fazia parte do município de Na- tão de movimentar-se diante da câmera
Para manter a brincadeira com alegria,
km² e é habitada por pouco mais de zaré. Desde os anos 1980, o maracatu para exibir como se dança a dança do
o folgazão sempre tem de guardar
trinta mil pessoas, conforme o censo é conhecido por Cambindinha de Ara- caboclo de pena, cabeça sob o pesado
um pedaço da renda de trabalhador
demográfico de 2010. Aclamado pelo çoiaba, onde fincou as mais recentes ra- penacho. Aquele cocar que era, confor-
da cana, ou seja, parte do sustento
topônimo, o município possui cerca de ízes. Quando, portanto, evoca lembran- me brincantes, o mais volumoso: diz-se
da família, é o que relata Biu Véi, em
vinte e cinco agremiações de baque ças de antigo folgazão, o arreiamá Biu que a tradição manda acrescentar mui-
uníssono com quase todos os maraca-
solto e, cada vez mais, consolida a rela- Véi pesca da infância esse peixe miúdo tas penas a cada ano e Biu Véi era um
tuzeiros. O Mestre João Paulo, dono,
ção visceral com o folguedo. e outros, demonstrando habilidades dos mais antigos dos arreiamá. A pai-
presidente e poeta do Maracatu Leão
com o corpo. Para brincar de caboclo xão por maracatu, a entrega amorosa
Severino Teotônio Rodrigues, amoro- Misterioso de Nazaré, também conhe-
de pena, aponta o penacho com sete ao folguedo era desmedida. No audio-
samente tratado por Biu Véi, exercita ce intimamente as dificuldades e praze-
mil penas de pavão, extraídas do criató- visual Verso lança flor (INRC Maracatu
a viva memória de maracatus em ter- res entranhados no brinquedo. Nasci-
rio que mantinha em casa, sob o auxílio de Baque Solto, 2013) Biu Véi entrega
ras nazarenas e do maracatu de baque do em 1950 no Engenho Água Branca,
precioso da esposa. Sete mil, número o coração à última dança. Morre no dia
solto mais antigo, o Cambindinha. Con- em Vicência, João Manoel dos Santos
cabalístico, diriam os especialistas, so- seguinte, 12 de novembro de 2012, aos
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Viriço Sobrinho, cantar. E aí a gente dentemente, aprendeu a sambar cava-
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Lídia Marques

Elysangela Freitas
foi se adaptando, foi gostando de lo-marinho “desde que se entende por
maracatu e eu fui crescendo e na-
gente”, quando ia ver Mestre Inácio e
quilo fui gostando. A gente saía do
Mestre Batista. Em 1979, funda, então,
engenho no domingo à tarde e meu
tio morava na rua do rio e a gente o Cavalo-Marinho Estrela de Ouro, em
só voltava... Eu, eu, a minha pessoa homenagem ao Mestre Batista, dono
só voltava na terça-feira, depois que do Cavalo-Marinho Camará e do Ma-
terminava o carnaval, na quarta-feira racatu Estrela de Ouro, ambos no dis-
é que eu voltava pra casa. (Entrevista trito de Chã de Camará, Aliança. Nesse
Manoel Coelho de Souza: INRC Ma-
maracatu, Biu Alexandre foi caboclo de
racatu de Baque Solto, 2013)
lança até 1991, data em que o Mestre
Batista morreu. Depois passou a inte-
grar o Piaba de Ouro, do Mestre Salu,
A paixão pelo folguedo vem das en-
e, a seguir, o Maracatu Leão Formoso
tranhas: “maracatu é um pedaço de
de Olinda, comandado pelo Mestre
mim”, confessa Pula-Pula, emociona-
Nazaré. Por amor aos folguedos, Biu
do. E a poesia se acha aí, na emoção
Alexandre dedica-se desde muito a ser
Manoel Pula-Pula Manoel Salustiano Filho de ver “aquela boniteza na minha fren-
lanceiro, além de capitão do cavalo-ma-
te”, entranhando a festa dos folgazões
rinho. A partir de 2002, assume a presi-
presenciou a labuta do pai trabalhador pouco a pouco João Paulo se inicia no com a rapidez do improviso, a leveza
dência do Leão de Ouro de Condado.
rural e experimentou a angústia da es- universo da brincadeira, sobretudo na das metáforas. Os antigos mestres do
Hoje considerado um dos nomes mais
tiagem e da fome. Precisou abandonar arte da poesia e do improviso. apito transformam-se num dos mais
conhecidos do universo do maracatu de
o ensino fundamental para ajudar a fa- potentes fios dessa trama.
baque solto, Mestre Biu Alexandre con-
Este interesse pela cultura do baque
mília, e a única opção naquele momen- Outro ramo poderoso é o cavalo-mari- quistou inclusive projeção internacional.
solto, entretanto, não é esporádico,
to era trabalhar no canavial da Usina nho, sempre associado ao maracatu de Parte dos folgazões do Leão de Ouro,
acompanha os brincantes e donos de
Barra, distrito de Chã de Palha, Vicên- baque solto por afinidades culturais e por exemplo, integra o Grupo Grial de
maracatu desde a infância, segundo
cia. A partir dessa experiência vieram por compartilhar os mesmos folgazões, Dança, idealizado por Ariano Suassuna,
confirmam diversos relatos, entre eles
os contatos com mestres e folgazões: conforme pede o ciclo festivo. Severino coordenado pela bailarina e coreógrafa
o de Manoel Coelho de Souza, ou Ma-
trabalhadores e sitiantes da usina men- Alexandre da Silva, ou Biu Alexandre, Maria Paula Costa Rêgo, e que já per-
noel Pula-Pula, nascido em 1957, fun-
cionavam o talento de mestres de ma- nascido em 1943, no Engenho Paragua- correu alguns países. Em 2006, o Cava-
dador, dono e presidente do Leão de
racatu, como Baracho, Mestre Veloso e çu, Aliança, desde criança se viu enre- lo-Marinho Estrela de Ouro esteve no
Ouro, de Nazaré:
Manoel Veríssimo. Somente aos quinze dado nessas brincadeiras, por influência evento Brasil em cena, na Alemanha, e
anos, conseguiu ver, pela primeira vez, A gente saía do Engenho Japaran-
do pai, Pedro de Quina, famoso folga- o Leão de Ouro figura entre os maraca-
uma apresentação de carnaval do tão duba para Nazaré de pés para ouvir
zão de cavalo-marinho nos terreiros dos tus de baque solto mais representativos
o mestre Mané Viriço cantar, Manoel
comentado Mestre Baracho. Assim, engenhos da região. Biu Alexandre, evi- da cultura popular de Pernambuco.
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Nos entremeios de maracatu e cavalo- binda do Cumbe, este é, na realidade,


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Lídia Marques

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-marinho, o Estrela de Ouro de Alian- o mais antigo em atividade ininterrup-
ça evidencia esse importante entrelace ta, tendo em vista que o Cambindinha
de tradições familiares e culturais. Foi permaneceu inativo por cerca de três
fundado em 1966, por Severino Lou- anos, entre o final da década 1960 e o
renço da Silva, o Mestre Batista acima início dos anos 1970. Porque misterio-
referido, o qual liderava o maracatu so Zé de Carro explica. Convidado pelo
também sob a função de mestre de famoso Caboco João Padre a substitui-
cabocaria. Um dos ícones do grupo é -lo na liderança do folguedo, relembra
o Mestre Zé Duda, famoso e respeita- como sentiu arrepios na solene con-
do pela habilidade nas rimas e improvi- versa. Queria pedir uma semana para
sos. Desde os anos 2000, a agremiação, refletir sobre que decisão tomar e foi
que vem conquistando diversos títulos irresistível, irrecusável a pronta respos-
e prêmios, passou a desenvolver uma ta, embora soubesse da grande res-
série de ações sociais na comunidade, ponsabilidade em cuidar de brinquedo
sediada no sítio Chã de Camará, onde tão antigo e repleto de particularida-
a família do fundador viveu. A sede é des, como o fato de a sede estar no
instalada numa casa avarandada da dé- mesmo ambiente desde o princípio, ou Zé de Carro

cada de 1930 – local em que o Mestre seja, na zona rural da famosa terra do
Batista viveu – e abriga várias atividades maracatu, a seis quilômetros do centro caria durante muito tempo, sempre se tar, localizada no bairro do Sertão-
do maracatu, entre reuniões, confecção de Nazaré. esforçou para fazer bonito, sobretudo zinho, área urbana de Nazaré, onde
e armazenamento de figurino, além de porque o proprietário do engenho, fica guardado o acervo de fantasias
Na sede do Cambinda, João Estevão
manter estúdio fonográfico e biblioteca. Antônio Borba Maranhão de Albu- do maracatu e onde funciona o Ponto
da Silva, o Caboco João Padre, viven-
O maracatu é presidido por um filho do querque, recomendava: “quero o meu de Cultura, com atividades permanen-
ciou ali muitos carnavais, por ter sido
Mestre Batista, José Lourenço da Silva, maracatu de cima”. Afinal, era ele o tes, a exemplo de reuniões, encontros
permanentemente morador do enge-
também chamado de Zé Batista. financiador da brincadeira, recordava para confecção de figurino e cursos de
nho. A casa, a palhoça lateral, coberta
João Padre (Amorim: 1995). Hoje, com capacitação. O grande mistério que
“Maracatu é um brinquedo muito mis- com palha de coco, e o vasto terrei-
a contribuição de Zé de Carro, aliada mantém unido o folguedo é a força
terioso”, segreda Zé de Carro, ou José ro guardam a memória de ensaios e
à dos três filhos do antigo líder, Cabo- da tradição, ainda hoje vivenciada no
Manuel da Silva, presidente do Cam- sambadas memoráveis. Quando fez
co João Padre – João, Antônio e José mesmo terreiro de festas e segredos
binda Brasileira, do Engenho Cumbe, o convite a Zé de Carro, João Padre
João Estevão da Silva – e dos demais experimentados desde os primórdios
Nazaré, o segundo maracatu mais an- era então o dono do folguedo e vis-
componentes do grupo, o terreiro do daquele maracatu.
tigo, fundado em 1918, conforme data ceralmente ligado ao Cambinda: tinha
Cumbe ainda é cenário das festivida-
atribuída a partir da memória oral. Se- apenas três anos quando o maracatu “Brinquedo misterioso”, o mistério
des do Cambinda Brasileira, mesmo
gundo contam os folgazões da Cam- começou, em 1918. Mestre de cabo- de maracatu segreda coisas que só os
existindo hoje uma sede complemen-
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folgazões necessitam saber. Severina ção espiritual dos maracatus, com a


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Maria da Silva, ou Biu de Carro, e irmã firmeza de quem nasceu em Glória do
de Zé de Carro, é antiga madrinha es- Goitá, imerso no folguedo e respec-
piritual do Cambinda Brasileira e evita tivas práticas sociais, nas expressões
expor gratuitamente os preparos reli- tradicionais do mundo rural da Mata
giosos que faz para os folgazões. Entre- Norte. Em Lagoa de Itaenga, os pais
tanto, há quem deseje saber e há quem de Fernando Luiz de Melo trabalha-
diga às claras quais são esses preparos. vam em uma casa de farinha e, como
Fernando Luiz de Melo, do Cambinda era comum na época, costumavam
Dourada, não se exime da tarefa, nem abrigar alguns maracatus da região à
guarda silêncio: noite, durante os dias de carnaval. O
Carneiro Manso e o extinto Maracatu
Todo domingo de carnaval eu peço
proteção ao povo. Que, se eu não Fortaleza eram dois que faziam pouso
for pedir a Deus, eu vou pedir ao de- por lá no domingo e na segunda-feira
mônio, né? Aí eu peço a Deus... Meu de carnaval. Os folgazões costuma-
mestre caboclo, ele fica revoltado vam se deslocar a pé, logo cedo, para
comigo, ele vai [para o terreiro]. Eu engenhos e demais localidades aonde

Fotos Maria Alice Amorim


não vou. O que eu ainda faço aqui,
iriam se apresentar e, à noite, busca-
que o pessoal chama de olho gordo
vam onde se alimentar e restabelecer
aqui, eu compro um quilo de sal gros-
so no domingo de carnaval. Aí, antes as energias para as atividades do dia
do maracatu sair, logo de manhã, eu seguinte. Quando Fernando se muda
jogo aqui na frente, onde o pessoal para Camaragibe, em fins dos anos
vai sair. Aí compro também um perfu- 1960, passa a acompanhar alguns fol-
me de alfazema e dou um banho no guedos e sair de caboclo de lança, na
terno e, quando tem alguma baiana,
companhia de conterrâneos que tam-
peço: ‘passa aqui em mim!’. Eu só
bém haviam migrado em busca de
faço isso mesmo. Aí eu não vou em
lugar nenhum, não, nenhum terreiro, trabalho. É, então, nos anos 1990, de-
essas coisas não. (Entrevista Fernan- pois de tanto brincar de lanceiro, que
do Luiz de Melo: INRC Maracatu de decide fundar o próprio maracatu, o
Baque Solto, 2013) Cambinda Dourada, um dos mais re-
presentativos da Região Metropolita-
na do Recife.
Embora declarando-se pertencente
Como num enredo que se repete em
ao catolicismo, Fernando pratica o
espiral, também a família Salustiano
que considera indispensável à tradi- Caboco João Padre e Caboco Zé de Rosa (óculos)
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No mesmo rumo de trabalhadores Era, inclusive, a líder espiritual do mara-


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Elysangela Freitas

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que haviam migrado de diferentes lo- catu, antes mesmo de passar a presidir
cais da Zona da Mata Pernambucana a agremiação. Com o falecimento de
para a capital, como Paudalho, Tim- Dona Netinha, em 2000, a filha Maria
baúba e Nazaré, estavam os primeiros da Conceição da Silva Ramos assume a
integrantes do Maracatu Cruzeiro do presidência do grupo, e, desde então,
Forte, outro dos mais antigos maraca- coordena a brincadeira, anteriormen-
tus de baque solto, fundado em 1929, te comandada por sua mãe, levando à
na comunidade dos Torrões, zona frente o desafio de ainda ser uma das
oeste do Recife. O nome da agremia- poucas representantes femininas de
ção faz referência a um monumento, um maracatu de baque solto. Graças
construído em forma de coluna jônica à liderança e esforço de Conceição e
com uma cruz na extremidade, popu- demais dirigentes, o Maracatu Cruzei-
larmente conhecido como “Cruzeiro ro do Forte tem conquistado títulos no
do Forte”, erguido na área do anti- disputado concurso de agremiações
go Arraial do Bom Jesus, local usado carnavalescas do Recife e o reconheci-
Piaba de Ouro, no Marco Zero, Recife como base para as tropas que lutaram mento como expressivo representante
contra a dominação holandesa em do baque solto.
traz da Zona da Mata Norte uma série ta o grupo com cerca de trinta compo- Pernambuco, no período colonial. O
de brincadeiras tradicionais. Ao migrar nentes, entre familiares e amigos mais marco está situado na região central

Elysangela Freitas
de Aliança para a Região Metropolita- próximos. Pelos conhecimentos que do bairro e, durante muito tempo, o
na do Recife nos mesmos anos 1960, dispunha sobre o universo da cultura entorno serviu de espaço para as prin-
que, conforme dito, era época de popular e pelo engajamento na luta cipais festas dos moradores.
grande êxodo da região açucareira em por condições dignas para folguedos
Uma das particularidades do Cruzeiro
busca de melhores condições de vida, e folgazões, Mestre Salu vai pouco a
do Forte é que Ionete Maria da Silva, ou
Manoel Salustiano Soares, o Mestre pouco conquistando reconhecimento
Dona Netinha, foi a primeira mulher a
Salu, entendia dos brinquedos por ter, e passa a ser reverenciado em todo o
dirigir um maracatu de baque solto, na
durante toda a infância, acompanhado país. Após falecer em 2008, o filho mais
época em que tal expressão cultural di-
o pai rabequista, João Salustiano, nos velho, Manoel Salustiano Filho, assume
zia respeito a um universo estritamente
folguedos da região. Além disso, por o comando do folguedo, que hoje re-
masculino. Dona Netinha exerceu im-
contingências sociais fez companhia ao úne mais de duzentos integrantes e
portante liderança na comunidade. Foi
pai também no ofício de cortador de se constitui em importante referência
Yalorixá em um terreiro que praticava
cana até decidir-se a migrar. Em 1977, para outros grupos, quanto à organi-
o culto aos orixás do Candomblé e aos
quando já estava morando em Olinda, zação interna e articulação política dos
caboclos e mestres da Jurema Sagrada.
cria o Maracatu Piaba de Ouro, e mon- dirigentes.
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Maria Alice Amorim

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Mestre Zé Galdino
Cruzeiro do Forte, no Marco Zero, Recife

Este reconhecimento, no entanto, este- legítimo representante do baque solto e direto de Zé Galdino nas loas do Beija- Poeta respeitado em toda a Zona da
ve abalado durante a década de 1980, defendia as próprias características mu- -Flor é o contramestre Barra Mansa. O Mata Norte de Pernambuco, José Gal-
quando o Cruzeiro do Forte foi submeti- sicais como sendo particulares, tradicio- grande diferencial nesse novo maracatu dino, ou “Mestre Zé Galdino”, como é
do a intervenção da Associação de Mara- nais da agremiação. é o próprio Zé Galdino quem aponta: mais conhecido, nasceu em 11 de julho
catus de Baque Solto de Pernambuco. O de 1950, no Engenho Bonfim, municí-
Tradição, em verdade, é um conceito É eu não cantar a melodia dos outros.
objetivo era excluir o surdo, que figurava Eu nunca cantei uma melodia de nin- pio de Ferreiros, onde viveu significativa
emblemático, quando o tema é maraca-
entre os instrumentos do terno, e modifi- guém, nem um samba de ninguém. parcela da vida. Durante a infância, cos-
tu. Mesmo se o grupo for recém-criado,
car a forma de execução do baque, que Os mestres gostam de repetir, enten- tumava acompanhar os festejos popula-
como o Maracatu Beija-Flor de Ferrei-
era realizada em compasso mais lento do deu? Eu não gosto de cantar metá- res da região e, assim que aprendeu a
ros, que, embora fundado em 2011, já fora não, só canto se for minha. Se
que a maioria dos maracatus de baque ler, aos oito anos, passou a cantar folhe-
nasceu imerso no que existe de mais maracatu é novidade, se poesia é no-
solto. Por este motivo, o maracatu era tos de cordel que o pai adquiria na feira.
tradicional no folguedo. O dono e pre- vidade, a cada verso bota uma ima-
tido por “descaracterizado”, e classifi- Comovida com o interesse do filho por
sidente é o Mestre Zé Galdino, antigo gem e meu ponto referencial relativo
cado pela AMBS como sendo de baque a cantar é esse aí. Eu não canto mar- cantoria de viola e outras expressões
integrante de vários outros maracatus,
virado. A proposta da associação gerou cha velha, é um capricho que eu te- poéticas da região, a mãe resolveu pre-
aclamado mestre do apito, além de can-
desentendimentos e foi veementemente nho. (Entrevista José Galdino: INRC senteá-lo com uma violinha de brinque-
tador de viola e cirandeiro. O auxiliar
rejeitada pelo grupo, que se considerava Maracatu de Baque Solto, 2013) do. Zé Galdino passa a exercitar o ofício
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te disse “Oxe! e eu quero filho pra tá versos e maior empatia com o princi-
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vagabundando, rapaz? Eu quero filho pal público que o aplaude, os cana-
pra plantar inhame, algodão, pra criar
vieiros da Mata Norte:
bode, criar boi. Se trouxer essa viola
pra cá eu quebro!” Aí ela não trouxe. Quando papai morreu em 1973, em
Eu disse quando meu pai morrer, eu 1974 eu saí lá do sítio e vim morar
compro uma viola e vou cantar! (En- aqui na rua (cidade). Em 1975, eu
trevista José Galdino: INRC Maracatu tava limpando quadra, cortando cana
de Baque Solto, 2013) no engenho Perori. Aí um amigo
disse: “Poeta, tu canta toada de boi
de cavalo-marinho, boi de carnaval,
tu é toadeiro de cavalo-marinho...”.
Na década 1950, a literatura de cor-
Eu era toadeiro de cavalo-marinho,
del brasileira ainda vivia o apogeu e o brinquei três anos... “Tu faz essas loa
Recife era celeiro de poetas, editores todinha, compra uma viola e vamos
e distribuidores do livrinho de feira. cantar?!”. Aí eu disse: “Tindara [co-
Estava entranhada na cultura local a nhecido violeiro da cultura popular
apreciação de histórias cantadas e re- de Pernambuco], eu não vou comprar
uma viola, não, senão eu vou deixar
citadas, tanto no ambiente público das
de tirar quadra [corte de cana]!” Aí
feiras e mercados, quanto nos serões
Mestre Biu Passim ele disse: “Pois experimente!” Quan-
noturnos do ambiente privativo das fa- do foi em 1975, eu comprei a viola
de poeta e alicerça a trajetória artística desse folheto, quando eu acabei de mílias. Neste contexto, portanto, a ex- e, em 1977, eu tava profissionaliza-
a partir das experiências com folheto de cantar, ele acabou de vender! Com periência de Galdino como cantador do em viola com um programa no ar

feira, maracatu, ciranda, boi de carna- oito anos... Naquele tempo era uma de folheto de feira era o prenúncio de em Carpina, cantando com Tindara e
corneta, amarrada no pau assim, e o uma vida inteira dedicada à poesia. O com todo tipo de cantador... Aí quan-
val, cavalo-marinho e viola:
folheteiro com um microfone amarra- do foi em 1978, eu fui ao primeiro
talento, a elegância, a versatilidade,
A minha profissão é só cantar, mestre do no pescoço, com um lenço assim festival, ao primeiro congresso lá em
hoje consolidados, aliados às experi-
de maracatu, cirandeiro e repentista. pra não enferrujar. Eu era tão peque- Olinda, cantando com Heleno Severi-
no que o microfone foi lá pra baixo!
ências de infância, garantiram o bri- no fomos o terceiro lugar. Aí pronto,
Com sete anos eu já estudava e com
oito anos eu comecei a cantar folhe- Aí ele disse: “Venha todo sábado que lhantismo da carreira, a admiração e o agora pode jogar a enxada no mato
to. Com uma voz bonitinha, bem fi- eu lhe dou um negócio”. Eu cantei respeito do público apreciador. Mes- e patrão eu não quero não, e graças a
ninha, bem afinadinha [...]. Aí papai um bocado de sábado! Aí, depois, mo não se sentindo intimidado pela Deus até hoje. E comecei só na raça!
comprava toda semana o folheto a minha mãe vendo aquilo disse: “Eu rejeição paterna ao talento poético, (Entrevista José Galdino: INRC Mara-
um conhecido dele. Ele disse: “Cadê vou comprar uma viola pra você meu catu de Baque Solto, 2013)
ainda assim José Galdino, tempora-
o seu menino? Seu Vicente Silva dis- filho!”. Aí comprou uma viola assim
riamente, por força das circunstâncias
se que ele canta folheto!” Aí ele disse pequenininha. Quando foi um dia ela
comprou uma viola de verdade de um
sociais, precisou exercitar a profissão
“Canta o folheto de Rosa Mundo aqui
de cortador de cana. Certamente, esta Antes de abandonar definitivamente
pra mim!” O estoque que ele tinha cantador chamado Joaquim Venân-
cio. Mas meu pai era muito ignoran- experiência tem garantido melhores a profissão de canavieiro, “de jogar
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sões poéticas mencionadas por Galdi- zeres que inclusive reúne apreciadores Indicando o talento de João Paulo e a
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Lídia Marques
no guarda particularidades, ao mesmo e folgazões em torno do esplendor respectiva admiração que provoca no
tempo em que aponta confluências. É dos maracatus: público, a modéstia de José Galdino
vital compreender, portanto, o quanto o impede de declarar-se, também ele,
A poesia pra mim significa vida. A
as “toadas”, as “loas” de cavalo-ma- natureza numa só se descreve na um dos ícones da poesia tradicional
rinho, boi de carnaval estão interco- poesia. Até num bom dia é preciso que circula pela Mata Norte. A perfor-
nectadas com a poesia tradicional de se botar poesia, porque um bom dia mance de ambos igualmente provoca
maracatu, de cordelistas e violeiros. E, maldito fica feio. Tem que se botar arrepio nos ouvintes, nos espectado-
pela história de vida de cada um dos poesia até num bom dia. Não adian- res, pois esta é uma prática entranha-
ta você chegar perto de uma pessoa
poetas, apreende-se tal realidade, da na cultura do baque solto. Prática
e dizer “eu te amo”. Você disse “eu
conforme vai narrando Galdino, que, que, recomenda Zé Galdino, precisa
te amo”, mas não botou poesia! Não
ainda adolescente, passou a participar botou sentimento! Poesia é o senti- estar em sintonia com o desempenho
do terno de um boi de Carnaval, cha- mento do espírito da pessoa, poesia dos músicos da percussão e do sopro,
mado “Vencedor”. Estando o mestre é a vida do espírito, porque da ma- a fim de que consigam executar com
daquela agremiação sem condições téria ela é muito mais. A poesia é qualidade a melodia que o poeta quei-
de cantar, por ter exagerado na bebi- tão bonita que tem muita gente dis- ra inventar no samba de maracatu:
criminando ela e, a mais valorizada,
da, os folgazões incentivaram Zé Gal-
tão discriminando! Porque a poesia Um terno, pra ser completo, tem que
dino a fazer as loas, e daí por diante ser batido no tarol, no surdo, tocado
erudita, ela vem dos gregos, vem dos
ele passou a comandar a brincadeira. grandes, entendeu? Eu gosto é da no metal, bem batido no gongué,
Posteriormente, nos anos 1970, com a poesia barroca que vem da criança bem balançado o mineiro, bem pu-
ajuda de um dos folgazões, transfor- que come leite com cuscuz, a poesia xado na cuíca, tudo num tempo só.
a enxada no mato”, Mestre Zé Gal- Por isso, que a gente ensaia. Meu ta-
mou o Boi Vencedor em maracatu de barroca vem dos cortadores de cana.
dino foi experimentando, “na raça”, Você vê João Paulo, analfabeto, mal rolzeiro tem doze anos de tarol, inclu-
baque solto, que passou a se chamar
a carreira de poeta até conquistar a sabe escrever o nome, mas quando sive o nome dele é “Chuchu”. Ele foi
Estrela de Prata. Assim o Mestre Zé
consagração. Interessante observar você vê ele cantando, você se arre- o xodó do carnaval... Samba de ma-
Galdino inaugurou paixão duradoura racatu, eu canto na melodia que eu
que, como a poesia que se vivencia- pia! A poesia pra mim é a vida! Mi-
pelo “brinquedo misterioso”, que ar- nha inspiração é tão abstrata que só inventar, eu gosto muito de inventar.
va corriqueiramente na Mata Norte,
rebata e não larga os folgazões. pode vir de Deus, porque tanta coisa Eu criei uma toada numa melodia de
era a poesia dos toadeiros de boi de
bonita, com tanta facilidade só pode [Luiz] Gonzaga. Eu desmanchei o som
carnaval e de cavalo-marinho, foi por O impulso incontornável de dedicar- de Gonzaga todinho em samba de
vir de Deus. Eu não gosto de ler o li-
aí que o mestre começou. Com este -se exclusivamente à poesia tem razão vro com a poesia já feita, eu gosto de dez. (Entrevista José Galdino: INRC
depoimento, é possível vislumbrar um de ser. A poesia, que permeia toda a ler o livro que dele eu tire a poesia. Maracatu de Baque Solto, 2013)
entre tantos exemplos dessas práticas vida do mestre, é a própria vida, como (Entrevista José Galdino: INRC Mara-
recorrentes entre os mestres do apito ele mesmo declara, e um dos grandes catu de Baque Solto, 2013)

nos maracatus de baque solto: o con- prazeres que justificam a permanência


texto cultural de cada uma das expres- no baque solto, um dos grandes pra-
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Para compreender a importância da po- se perceber que esta é a linha-mestra


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esia entre os admiradores dos maraca- do folguedo. E as estrofes antológicas
tus, não é preciso se deslocar muito lon- repercutem, infinitamente, como esta,
ge no espaço-tempo. Em 1994, na terça do Mestre Reginaldo Silva, que Mano-
feira da semana pré-carnavalesca, a pre- elzinho Salustiano (INRC Maracatu de
feitura de Aliança promoveu encontro
de mestres do apito, reunindo os po-
etas Juriti, do Maracatu Leão Mimoso,
de Upatininga; Cobrinha, do Leão de
Baque Solto, 2013) rememora, fiel às vi-
brações da paixão pelo brinquedo mis-
terioso e, também por isso, poético:

No dia que eu me acabar


GESTOS SAGRADOS
O VELADO E O MANIFESTO
Ouro, de Tupaoca; Carlinhos, do Leão Me enterro com dez segundos
Mimoso, de Olinda; Cosme Antônio, do Chego lá no outro mundo
Estrela de Ouro, de Chã de Camará; Ca- Faço logo uma nação
nário Avoador, do Maracatu Leãozinho, Boto o nome de leão
de Aliança (Amorim: 1994). Basta ouvir E mando buscar meu apito
Convido São Benedito
alguns amantes de maracatu conversan-
Para segurar meu troféu
do sobre a admiração por verdadeiras
Faço um carnaval no Céu
legendas da poesia de maracatu para Que até Jesus acha bonito “A lei do maracatu é a lei do Candom- ou seja, funcionam como uma prote-
blé”. Esta fala do Mestre Biá, ou Seve- ção para que não ocorram incidentes,
rino Pedro Lima, dono e presidente do brigas ou outros imprevistos durante

Elysangela Freitas
Maracatu de Baque Solto Leão Vence- as festividades. O dono/presidente do
dor, de Carpina, deixa bem evidentes as maracatu é o responsável por interme-
relações que brincantes afirmam existir diar a relação entre os folgazões e os
entre o folguedo e as religiões de ori- padrinhos espirituais. O preparo inclui
gem afro-brasileira. Porém, na maioria resguardo sexual, banhos à base de er-
das vezes, essas relações não são reve- vas, orações, aguações, fumaçadas de
ladas, fazem parte do que eles chamam cachimbo e charuto, matança de ani-
de “segredo de maracatu”. Trata-se do mais, velas etc. Além disso, alguns ele-
preparo religioso que antecede e suce- mentos do figurino dos personagens
de as apresentações, inclusive as sam- do maracatu necessitam de atenção
badas e o período carnavalesco. Essas especial. São eles: o cravo na boca do
preparações geralmente são realizadas caboclo de lança, a Calunga (boneca) e
por pessoas específicas: o padrinho ou a bengala do mestre do apito. Por se
madrinha espiritual da brincadeira, e tratar de um segredo, nem sempre é
impedem o “desmantelo” da mesma, possível conhecer detalhes dos rituais.
Cruzeiro do Forte, no Marco Zero, Recife
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é carregada de mistérios e que, no ou madrinha espiritual, mais especifica-


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Brasil, essas religiões foram submeti- mente no Peji (santuário onde são de-
das a complexo processo de sincretis- positadas as oferendas aos orixás) ou
mo. Então, uns falam em Candomblé, no Quarto de Jurema (santuário onde
a exemplo de Mestre Biá, outros falam são depositadas as oferendas aos mes-
em Umbanda, e outros ainda em cato- tres e caboclos). Os preparos realiza-
licismo popular repleto de simbolismo dos na sede do maracatu ou na casa
afro-indígena. Elemento determinante do dono/dona do brinquedo têm uma
nessa mistura é a chamada Jurema, finalidade mais ligada à limpeza espiri-
planta arbustiva de ocorrência no Nor- tual do lugar. Esses geralmente envol-
deste do Brasil e investida de profundo vem defumações e aguações. Os rituais
simbolismo. É chamada “planta de po- realizados em cemitérios, ou encruzi-
der”, com elementos psicoativos e con- lhadas, são aqueles chamados pelos
siderada por determinadas populações adeptos das religiões afro-brasileiras
uma planta sagrada. Acredita-se que de “rituais de esquerda”. Podem ser
o uso da Jurema em rituais religiosos oferendas a orixás como Exu, Pomba-
começou com os povos indígenas sen- -Gira (Exu fêmea), Iansã de Balé (Iansã
do logo depois assimilado pelos rituais de Cemitério) ou a Mestres como, por
africanos. Assim, a Jurema ganhou vá- exemplo, Vira Mundo e Malunguinho.
rios significados: a Jurema é planta, é o Os preparos de cemitério podem indi-
Cemitério do Cruzeiro das Bringas
mundo sagrado dos espíritos (Juremá) car a rivalidade existente entre grupos.
e é também uma entidade feminina Esse tipo de “serviço” funciona como
Apenas o resguardo sexual, ou “evi- ocorrer fora desses ambientes, a exem-
nos cultos a mestres e caboclos. Ape- contrafeitiço: o grupo A desejou o mal
tamento”, é referido abertamente: os plo de encruzilhadas ou cemitérios,
sar de tamanha importância, a Jurema do grupo B e o grupo B, sob a orienta-
folgazões são orientados pelos donos como é o caso do local conhecido por
não foi muito citada nas narrativas so- ção das entidades espirituais, irá retri-
e padrinhos a não manterem relações Cruzeiro da Bringa, onde há um cruzei-
bre os rituais sagrados fornecidas por buir o mal que lhe foi desejado.
sexuais durante certo período antes e ro, um cemitério e uma encruzilhada,
nossos interlocutores. Esse fato só vem
depois do carnaval. cenário de onde se diz que, antigamen- O agenciamento do espaço para a ati-
confirmar que, dentro do maracatu,
te, caboclos de lança lutavam entre si vidade vai depender do tipo de ritual
Não existe um local específico para nem tudo pode ser revelado.
e se digladiavam. Os padrinhos e ma- realizado. Geralmente, as defumações,
a realização dos rituais. Geralmente
drinhas são, na maioria, pais ou mães A ocorrência dos “trabalhos” em cada aguações e banhos não exigem ne-
ocorrem ou na casa do padrinho/ma-
de santo, autoridade maior de religiões local vai depender da finalidade dos nhuma modificação do espaço, sejam
drinha espiritual ou na casa do dono/
ameríndias e africanas. É difícil precisar mesmos. Quando envolve oferendas eles realizados na casa do dono/dona
presidente do maracatu ou, ainda, na
que tipo de religião africana é profes- aos orixás, mestres ou caboclos, o pre- do maracatu, na sede ou no terreiro do
sede do brinquedo. Igualmente pode
sado, já que a fala dos interlocutores paro é realizado na casa do padrinho padrinho/madrinha espiritual. Diferen-
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Fotos Maria Alice Amorim
Madrinha espiritual e mestra das baianas

temente, as oferendas aos orixás, mes- da entidade homenageada, feitura das


tres e caboclos exigem uma mudança comidas que serão servidas aos deuses
não só no espaço, mas no ritmo de vida e aos homens, preparação da louça a
das pessoas que fazem parte do “povo ser utilizada etc. Dependendo da situ-
do santo” (adeptos das religiões de ma- ação, os móveis ou quaisquer objetos
trizes africanas). Na maioria das vezes, que ocupem o salão onde ocorrerá o
as oferendas são promovidas por meio evento são afastados ou retirados do
de festa. Canta-se e dança-se para a local para dar espaço às pessoas.
entidade homenageada. Tais festas
Laurinete de Assis Santana, Dona Neta,
(conhecidas em grande parte do esta-
é madrinha espiritual do Maracatu Cru-
do como “toques” ou “xangô”) ocor-
zeiro do Forte. Sem criar embaraços ao
rem no terreiro do padrinho/madrinha
assunto, expõe a própria relação com o
espiritual e possuem uma logística pró-
brinquedo e discorre sobre o ofício de
pria: arrumação e limpeza da casa, de-
mãe de santo:
coração aplicada de acordo com a cor
Madrinha espiritual e mestra das baianas
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com os caboclos. Tudo isso eu traba- Na maioria das vezes, a preparação
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lho com eles. Se for para trabalhar espiritual dos maracatus começa com
eu trabalho mesmo, tá entendendo?
uma oferenda feita aos orixás, mes-
Agora, tem muitas pessoas que tem
tres e caboclos. Tal ritual é realizado
e não quer dizer, né? Tem vergonha
de dizer, tá entendendo? Mas, eu
na casa do padrinho/madrinha espi-
não. Eu digo abertamente. Aquilo ritual da brincadeira. Como afirma D.
que Deus me deu? Que eu sei fazer? Severina, dona e madrinha espiritual
Eu digo a qualquer pessoa. Não tem do Maracatu de Baque Solto Leão da
esse negócio, não. E se quiser que Campina, de Paudalho: “eu sou filha
eu ensine eu ensino. Agora, vamos
de Iemanjá e Iansã de Balé. São meus
ver se você vai ter o poder que eu
santos de cabeça. Aí eu zelo por isso
tenho. Porque tudo isso é dado por
Deus, não é minha amiga?” (Entre-
aí. O dele é Xangô e Ogum. Aí eu ofe-
vista Dona Neta: INRC Maracatu de reço para eles. Para viajar os três dias
Baque Solto, 2013) de carnaval. Para a gente chegar em

Maria Alice Amorim


Erva propiciatória confere proteção ao lanceiro

“Eu peguei a brincar aqui no mara- esse dom que Deus me deu. Eu sou
catu eu tinha oito anos de idade até espírita. Eu tenho esse dom porque
a data presente. Nesse mesmo ma- Deus me deu”. (Entrevista Dona
racatu já saiu minhas filhas, minhas Neta: INRC Maracatu de Baque Sol-
netas, meus netos e agora eu quero to, 2013)
que saia também os bisnetos. Tô es-
perando que os bisnetos ainda saiam
comigo aqui no maracatu. Porque
Dona Neta cita ainda o receio que os
tudo de mim... A minha diversão é só
esse maracatu. Esse maracatu para
maracatuzeiros possuem em falar so-
mim é tudo na vida. Então quan- bre a ligação do folguedo com as reli-
do é no carnaval, né? A gente tem giões de origem africana:
que se preparar. Para a gente sair.
“Eu trabalho com caboclo, eu tra-
Para o brinquedo sair bonito. Para
balho com mestre, eu trabalho com
não acontecer problema no maraca-
Exu, eu trabalho com as Pombas-
tu nem negócio de discussão, essas
-Gira, tudo isso eu trabalho. Trabalho
coisas. Desde pequena que eu tenho
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paz, sair em paz”. Não existe uma data os banhos de “descarga” e os banhos “O caboclo de lança, de frente, tem Para os grupos que fazem oferendas
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
específica para a realização das ofe- de “limpeza”. Os de “descarga” são que sair manifestado”. A costureira aos orixás, mestres e caboclos dias an-
e madrinha do Cambinda Brasileira,
rendas, porém alguns grupos prefe- indicados para as pessoas que estão tes do carnaval, a quarta-feira de cin-
Severina de Carlos, “bota um ponto”
rem realizar esse tipo de ritual no mês com algum problema espiritual e, ge- zas é reservada à realização dos des-
nos caboclos, no sábado de carnaval.
de agosto ou dias antes do carnaval. ralmente, são feitos com ervas como Na quarta-feira de cinzas, voltam lá
pachos, os quais consistem em pegar
Aos orixás são oferecidas as mais di- arruda, lacre e pinhão-roxo. Já os ba- para “desmanchar o ponto”. “A pre- as oferendas que até então estavam
versas comidas e bebidas, desde corte nhos de limpeza funcionam como pro- paração é sete dias antes. Se há pro- aos pés das entidades, seja no Peji ou
de animais até cachaça e champanhe. teção e são feitos com manjericão, al- blema no maracatu – carro quebra, no Quarto da Jurema, e transportá-las
Cada orixá, mestre ou caboclo possui favaca de caboclo, liamba, espada de caboclo adoece, aparece baiana ma- embaladas até a encruzilhada ou cam-
nifestada – eles dizem que não houve
uma comida e uma bebida específicas, São Jorge, macassá, corona, colônia, pina mais próxima da casa do dirigen-
cumprimento do ritual”, informa um
a exemplo da farofa de Exu, o Omalá entre outras. Acrescenta-se também te espiritual do folguedo. É o momen-
dos diretores do Cambinda, Sérgio
de Xangô ou o arroz de Oxalá e Nanã. perfume na receita dos banhos de Gaspar. (Amorim: 1995)
to de agradecer a proteção recebida,
Aos mestres e caboclos são oferecidos erva. após o indispensável cumprimento de
cigarros, flores, frutas, velas e mais todas as obrigações e reverências ofe-
Outro preparo importante consiste no
uma infinidade de presentes que têm recidas às entidades religiosas.
cumprimento rigoroso da abstinência
como objetivo pedir a proteção ao
sexual dos integrantes do grupo, dias
brinquedo.
antes das apresentações de carnaval.

Lídia Marques
As defumações, aguações e banhos Alguns folgazões falam em afastamen-
são realizados dias antes do carnaval. to da vida sexual sete dias antes do car-
O padrinho/madrinha espiritual do naval e sete dias depois. Outros falam
brinquedo se responsabiliza por fazer de três dias antes e três dias depois.
aguações e defumações tanto na pró- Esse resguardo, apesar de funcionar
pria casa como na casa do dono/dona para todos do maracatu, deve ser se-
do maracatu e, ainda, na sede do guido mais rigidamente por figuras
mesmo. As aguações geralmente são centrais como a dama do paço, o mes-
feitas com sal grosso, perfume e erva tre dos caboclos, a mestra das baianas,
como, por exemplo, arruda. Já para os arreiamá e o mestre do apito, sob
as defumações, queimam-se diversas pena de transtornos e imprevistos aco-
ervas, condimentos e perfumes no meterem o grupo:
carvão em brasa. Os banhos de ervas
“Quando vai ensaiar, ou sair no car-
são preparados pelo líder religioso, e naval, o caboclo tem que cumprir as
devem ser tomados pelos folgazões, obrigações”, diz a costureira e dona
em suas próprias casas ou na sede do do Maracatu Leão da Mata, de Itaqui-
maracatu. São dois os tipos de banho: tinga, Maria Antônia Araújo da Silva.
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CARNAvAl DE PáSCOA
RITO SAGRADO, RITO FESTIVO

O Carnaval de Páscoa é uma celebra- Simboliza-se, com este rito, catártico


ção que se dá com almoço festivo, sentido pascal de fartura e júbilo após
no domingo de páscoa, e simboliza o o recolhimento quaresmal, de encer- Mesmo se houver pausa para o almoço, a alegria, reinstaurar o espírito folgazão.
encerramento das comemorações do ramento e renascimento para um novo a celebração pode durar um dia inteiro, a Alguns grupos decidem permanecer
ciclo carnavalesco. A principal motiva- ciclo carnavalesco. depender “do público, da animação dos todo o dia na localidade do festejo, en-
ção é reunir os folgazões, na própria presentes”, segundo informa Antônio quanto outros preferem percorrer a vi-
Associa-se, portanto, esta circunstância a
sede ou em algum outro espaço cole- Raposo, representante do Maracatu Es- zinhança e voltar à sede, não havendo,
tradicionais festejos de micareta ou mi-
tivo, para interagir, confraternizar, ce- trela Dourada, de Buenos Aires, que des- de modo geral, roteiro específico, con-
careme, o correspondente à mi carême
lebrar a tradição, inclusive a tradição creve as etapas da organização e realiza- forme Antônio relata: “A gente sai sem
ou, literalmente, “meio da quaresma”,
cristã. Antes de celebrarem em volta ção do Carnaval de Páscoa. Primeiro se saber para onde vai. Só brinca mesmo
festa francesa que remonta à Idade Mé-
da mesa, a música, a dança e a poesia faz uma reunião na sede para deliberar na sede, assim. E vai em duas, três casas
dia e que se traduzia em carnaval fora de
envolvem a todos. Os músicos tocam, sobre onde será a apresentação, quem comerciantes. Faz a brincadeira normal,
época. O Carnaval de Páscoa é, pois, a
o poeta improvisa e todos dançam, dela participará e como se dará a colabo- depois volta para a sede. A gente pára
ocasião propícia para um brincar diferen-
percorrendo algumas localidades, ração para viabilizar o almoço. num comércio, o mestre canta umas três
ciado, sem os compromissos de horário
ruas, praças, que estrategicamente ou quatro toadas. Os meninos bate o
e deslocamentos necessários à exibição Quando, enfim, o maracatu está reuni-
permitam cumprir reverência obriga- terno, brinca. Depois segue para outro
em palanques e concursos de carnaval. do no local da festa, é hora de anunciar
tória diante de algum templo católico. lugar”. Cada apresentação pode durar
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Mestre de caboco e arreiamá reverenciam-se

cerca de dez minutos, conforme assim baianas, catita, mateus, burra, arreiamá
escolha o líder, vez que o ritual varia são convocados e se integram à come-
bastante de um grupo para outro. moração, o que, por vezes, gera cachê
e custos de deslocamento a serem pa-
“O domingo de páscoa é uma tradição
gos pela agremiação. E justamente os
cultural do maracatu, uma tradição mui-
gastos com a festividade é que têm
to antiga”, afirma Manoel Pula-Pula,
sido motivo para a diminuição da ocor-
dono e presidente do Maracatu Leão
rência. Alguns grupos, como o Maraca-
de Ouro, de Nazaré da Mata. Desde a
tu Estrela Dourada, não têm consegui-
fundação em 1995, anualmente o gru-
do captar recursos para a celebração
po comemora a data, inclusive na zona
pascal, a não ser dos brincantes e de
rural da cidade, como fez em 2012 e
um e outro comerciante. Há, entretan-
2013. Para a celebração, todos os inte-
to, exceções como o caso do Leão de
grantes são sempre convidados, e são
Ouro de Nazaré, que tem contado com
presença obrigatória o terno, o mestre
apoio institucional.
do apito e o contramestre. Caboclos,
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No geral, a exibição ocorre no espa- ceição, que é a padroeira da cidade de

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ço externo da sede, na rua ou no que Nazaré e do maracatu de baque solto,
chamam de palanque para o terno e o cujo manto sagrado protege a brinca-
mestre, podendo acontecer, ainda, em deira”. É praxe os folgazões sentirem
espaço público, como o Parque dos necessidade de passar diante de algu-
Lanceiros, em Nazaré da Mata. Quan- ma igreja católica, tanto no domingo
do percorrem algumas localidades, em de páscoa, quanto no carnaval, e ain-
cortejo, o grupo decide fazer mano- da no ensaio geral, na semana anterior
bras e evoluções em frente à residên- à folia. Em Nazaré da Mata, como o
cia de alguém importante para o gru- desfile ocorre diante da Catedral de
po ou ponto comercial de empresários Nossa Senhora da Conceição, todos
que ajudaram a financiar a celebração. os maracatus, sejam da cidade, ou ve-
A sede do maracatu, onde acontecem nham de outros locais, prestam essa
reuniões e também a comemoração de reverência.
páscoa, muitas vezes é provisória, ins-
talada na residência do dono ou pre-
sidente. O lugar, especialmente prepa-
rado para a cerimônia, sobretudo para
acomodar a todos no almoço, ganha,
pois, conotação festiva. Entretanto,
pela falta de estrutura em parte das
sedes, os folgazões têm apontado di-
ficuldades para adaptar os espaços, e
consequente desestímulo em manter a
tradição.

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Tradição em que há um sentido reli-
gioso explícito, agora focado no ca-
tolicismo. Para os folgazões, não se
pode dispensar de fazer reverências,
evoluções coreográficas e entoar ver-
sos diante de templo católico, confor-
me depoimento de Manoel Pula-Pula:
“durante o domingo de páscoa é feita
homenagem a Nossa Senhora da Con-
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FlUxO DOS ENCONTROS
ENTRE O FESTIVO E O COOPERATIVO

Encontro de Maracatus no Terreiro Leda Alves, sede da AMBS

Três grandes encontros compõem tituem importante espaço-tempo de belicosidade, acreditando que a tinta ção dos Maracatus de Baque Solto de
parte do calendário carnavalesco dos trocas afetivas, interação, intercâm- vermelha da lança dos caboclos faz re- Pernambuco quem organiza os outros
maracatus de baque solto, na emble- bios estéticos e conceituais, de trocas ferência ao passado de “sangue” em dois encontros.
mática ambiência de Nazaré, Olinda e simbólicas, de valorização dos mestres que o folguedo estava inserido. Era,
Reafirmando a organização da entida-
Aliança. Agregando diversos grupos e tradições da Zona da Mata Norte. portanto, essa guerra latente, sem-
de federativa e a força política do mo-
provenientes de municípios da Zona pre prestes a explodir, que Salustiano
A gênese desses encontros se confun- vimento de baque solto, a associação
da Mata Norte e Região Metropolita- desejava neutralizar, mediante a cria-
de com os esforços do Mestre Salus- buscou garantir mais espaços de ce-
na, as exibições são organizadas por ção de associações, reuniões, espaços
tiano para agregar os mais diversos lebração e difusão, legitimados pelos
entidade associativa e poder público, formais para apresentação. Assim, a
grupos de baque solto. Historicamen- sócios. A história dos encontros, assim
com dinâmica e estrutura próprias, sem partir de iniciativas de pacificação, as-
te famosos pela violência, diz-se que como a representação social, vincula-se
o propósito de competição. O intuito sociadas a desejo de inserção no mer-
as brigas faziam parte da brincadeira. à história de certo “elenco de honra”
é celebrar e vivenciar o repertório de cado cultural, surgiram os três encon-
A propósito da violência antigamen- do baque solto: Mestre Salu, Ariano
tradições do folguedo, de preferência tros. Em Nazaré da Mata, é o Governo
te cultivada, José Manoel da Silva, ou Suassuna, Leda Alves. Esta última, atriz,
em ambiente aberto e espaçoso que do Estado quem promove um dos
Zé de Carro, presidente do Maracatu secretária de cultura do Recife desde
possibilite amplas manobras. Além da eventos, realizado na Praça da Cate-
Cambinda Brasileira, reporta-se a essa janeiro de 2013, referência no campo
motivação lúdica, os encontros cons- dral. Em Olinda e Aliança, é a Associa-
92 93

A concentração dos maracatus se dá Em Aliança, é na AMBS que o encontro


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nos arredores do “Maracanã dos Ma- acontece, precisamente no Terreiro Leda
racatus”, o Parque dos Lanceiros, no Alves, arena construída para essas e ou-
bairro do Juá, às margens da BR 408. tras exibições. Ali a festa possui caracte-
De lá, os grupos saem em desfile pe- rísticas bem distintas de outros pólos. O
las ruas da cidade, até chegarem ao encontro é mais voltado para a própria
local das apresentações, em frente à comunidade e para os folgazões das ci-
catedral, onde o palco erguido abriga dades vizinhas. Não é um evento de di-
os músicos dos maracatus, a imprensa, mensão midiática, cujo objetivo seria en-
autoridades locais, políticos de desta- treter inúmeros visitantes, mas momento
que estadual e nacional. As evoluções de encontro, lazer e “disputas” entre os
do cortejo, em frente ao palanque, folgazões. O público pertence à própria
contraditoriamente não ocorrem de comunidade que, muitas vezes, compa-
maneira satisfatória, pois o tempo é rece em família. O Terreiro Leda Alves,
curto e o espaço não é amplo, exigin- de chão batido, é amplo, possibilitando
do atenção redobrada com o público as coreografias dos diversos folgazões,
para não ocorrer acidente. as manobras e evoluções dos maracatus.
Espaço Ilumiara Zumbi

da pesquisa em cultura popular, é a numerosos grupos de maracatu, con-

Lídia Marques
“madrinha”, a grande defensora dos centrando-se ao longo de rua estreita
folgazões, sempre reverenciada por to- enquanto aguardam o momento de
dos eles e homenageada pela AMBS- exibir-se. Durante a espera, folgazões
-PE com o batismo da arena “Terreiro batem o terno, baianas e rainha con-
Leda Alves”. versam e tentam, de alguma maneira,
diminuir o calor e o cansaço agravados
O encontro de Nazaré da Mata é a ce-
pelo peso das fantasias.
lebração dos maracatus na “terra do
maracatu”. Promovido pela gestão O município de Nazaré da Mata há
pública, com atuação direta da AMBS, anos transformou a cultura do baque
ocorre na Praça João XXIII, ou Praça da solto em mote para atrair turistas e
Catedral, espaço público transformado movimentar economicamente a cida-
em arena para exibição da expressão de, sobretudo no período carnava-
cultural mais representativa da locali- lesco. O público do encontro tornou-
dade. É para Nazaré que convergem -se, portanto, bastante heterogêneo.
Lídia Marques
95

Os mestres sobem no palanque, can- va o Mestre Salustiano, culminando na

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
tam as loas e interagem com o público. arena onde a geografia permite melhor
Embaixo, o grupo dança, executando expansão coreográfica.
manobras e evoluções. Os especta-
Os três locais são simbólicos na his-
dores, sentados na arquibancada co-
tória do baque solto. Os espaços têm
berta, protegidos do sol, aguardam
grande relação afetiva com o universo
os mestres favoritos, torcem, opinam,
cultural do brinquedo, estão presentes
aplaudem. Fora do grande portão de
na memória e na história dos maraca-
acesso ao terreiro, os demais folga-
tus, configurando-se como importante
zões aguardam em fila e por ordem
ambiência para os conteúdos tradicio-
de apresentação. Enquanto esperam,
nais. Atualmente consolidados, esses
“batem o terno”, conversam, pales-
encontros festivos representam even-
tram com os amigos, até o momento
to oficial do carnaval de Pernambuco,
em que serão protagonistas da festa.
mobilizando todos os 115 maracatus
Há barracas para vender bebida e co-
de baque solto associados à entidade
mida. O cenário ao redor é o ambiente
cooperativa dos folgazões.
de trabalho cotidiano dessas pessoas,
o canavial.

Em Olinda, a festa é na Cidade Tabaja-


ra, junto à sede do Maracatu Piaba de
Ouro, precisamente no Espaço Ilumia-
ra Zumbi. No ambiente dos encontros,
esse local representa um marco históri-
co. As paredes exibem ícones da cultu-
ra afro-brasileira, parte do jogo simbó-
lico e imagético do folguedo. A praça,
concebida por Ariano Suassuna e Mes-
tre Salustiano, simboliza a legitimação
do maracatu de baque solto e o devido
reconhecimento enquanto patrimônio
cultural. O cortejo, naquele lugar, cos-
tuma cumprir um trajeto situado entre

Lídia Marques
a Casa da Rabeca e o Ilumiara, espécie
de procissão pelas ruas onde caminha-
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verso lanca flor

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Lídia Marques
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A catedral sonora
do baque solto
Contramestre Zé Preto e Mestre Alexandre

lança, a impingir forte marca sonora no não perceber a importância do mestre


brinquedo através de um conjunto de na estruturação da brincadeira – uma
sinos de metal atrelados às fantasias (o vez que, entre o cortejo, há uma série
UM AGREGADO DE BRINQUEDOS E SONS
chamado surrão). Em suma, o mestre de figuras suntuosas, como o rei e a rai-
“rege” a brincadeira e seu apito opera nha, a sugerirem uma importância que,
O poeta anuncia a música e a música por explosões sonoras produzidas por como uma espécie de batuta sonora. na verdade, não possuem – ou me-
anuncia o poeta, eis a dinâmica estru- uma percussão aguda a produzir um Certamente, o mestre também acata lhor, possuem, mas não como o mes-
tural por onde passeiam os três mo- som sempre frenético. indicações do mestre caboclo e demais tre. Nesses momentos percebemos o
mentos “rítmicos” do baque solto: a urgências que surgem. baque solto como um “amontoar” de
O mestre carrega um apito, normal-
marcha, o samba comprido, o samba brinquedos. E afinal, por que dizemos
mente “calçado”2, utilizado para “re- Essa situação provoca uma cumplici-
curto e o galope. Claro, há outras dis- isso? É curioso perceber como, ante
ger” todo o cortejo. Ora, a palavra “re- dade profunda entre dança e música
tinções possíveis, porém, essas se re- a figura do mestre, haja espaço para
ger” aqui é bem ampla, afinal, o mestre – justamente por ser o corpo do cabo-
ferem mais às estruturas das toadas ou reis e rainhas4. Tal encadeamento de
também passa indicações, através do clo um “corpo musicado” e, ao mesmo
loas improvisadas1. Funciona assim: há personagens sugere uma brincadeira
apito, para componentes do baque tempo, por ser o mestre (também poe-
um mestre, posicionado de maneira construída aos moldes da Catedral de
solto que não estão encarregados da ta) um sambador e um regente da dan-
estratégica entre os brincantes e mú- Santiago: ao longo do tempo amontoa-
música – com exceção do caboclo de ça3. Por isso, um olhar desavisado pode
sicos, a declamar poesias entremeadas
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ram-se uma infinidade de estilos a com- pormenores da indumentária, como o (do terno) e, acima de tudo, intensifica-
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por um monumento vistoso e diverso5. lenço vermelho amarrado em volta do -a. Ora, eis o drama do mestre: coor-
Talvez, o mais célebre exemplo dessa pescoço, o chapéu em forma de funil denar este amontoado de elementos
catedrática condição surge na curiosa (tal como aquele encontrado entre os que parecem ter sido convidados gra-
presença do “surrão” – um composto “Mateus”) e, também, pela forma de dativamente, recrutados pelo acaso
de sinos6 a ornamentar a indumentária ajustar as calças utilizando um entrela- das brincadeiras de engenho. Daí a ín-
do caboclo de lança e servir, ao mesmo çado de tecidos muito semelhantes. E, tima associação entre música e dança,
tempo, como instrumento percussivo7. além disso, os joaldunaks “marcham” pois é preciso esperar a autorização do
no intuito de encadear o som dos sinos mestre para a música começar: o mes-
É possível realizar uma cartografia re-
aos passos dos brincantes – eis outro tre é também um regente do “balé”,
lativamente segura acerca da tradição
elemento de grande semelhança9. As pois coordena a articulação entre dan-
de ornamentar o corpo com sinos (no
tradições acima descritas, sobretudo a ça e música. E o caboclo, a figura pri-
caso do baque solto, o surrão). E, ao
portuguesa e espanhola, parecem ter meira a permitir esse diálogo, pois seus
mesmo tempo, perceber uma série de
se imiscuído a uma série de elementos passos acentuam ou encobrem a per-
possíveis influências inusitadas8. Há de
já encontrados na capital e na zona da cussão do terno – que hoje em dia não
fato um conjunto de brinquedos, dis-
mata norte: caboclinho, capoeira, fre- é mais “terno”, como veremos: “Seu

Lídia Marques
postos entre Itália e Portugal, por onde
vo, cavalo-marinho, e, também, o “ba- apito indica os movimentos e a entrada
desfilam, no carnaval, diversas “figu-
que virado”. A figura do arreamar, por do terno (...) ao seu apito, o terno para,
ras” marcadas pela utilização de sinos
exemplo, assemelha-se à figura do ca- bem como todo o séquito; caboclos
devidamente atrelados às suas respec-
boclinho na mesma proporção que as ajoelham-se, e todos ficam escutando
tivas fantasias. Temos na Itália os ma- de elementos a erigir uma suntuosa ca-
“simulações de luta” assemelham-se à o improviso do mestre” (Silva: 2005, p.
mutzones de Sardenha, na Espanha os tedral de tradições, há outro elemento
capoeira (ou também ao coco zambê). 61). E, claro, há o “batuque” do terno
joaldunaks ou os chamados zanpantzar a indicar imensa especificidade sonora
Entretanto, o “caboclo de lança”, por a apresentar uma influência africana in-
(em língua basca) da região de Navar- ao baque solto: a vontade de combate
sua singularidade, tornou-se a “marca” superável sob a música do baque solto.
ra e, por fim, em Portugal, os “caretos a sugerir uma ambiência quase bélica.
do baque solto. E, o caboclo de lança, Certamente, temos o costume de pen-
de podence” – mais especificamente, Isto está bem expresso em diversos
tal como Hermes e Prometeu, realiza o sar que tal influência situa-se apenas no
na região de Trás-Os-Montes, na jus- elementos do histórico do brinquedo,
justo encontro entre música e dança: horizonte de uma população excluída,
ta área onde a imigração para o Bra- por exemplo, há um cemitério especí-
ele é metade brincante, metade mú- porém, devemos nos lembrar de que
sil parece ter sido elevada. Entretanto, fico para os “caboclos” que morreram
sico, uma espécie de aristoi composto no século XIX, o lundu, por exemplo,
o grande conjunto de coincidências em combate11. A lança dos caboclos,
de um refinamento brutal. É um guer- tomou conta dos salões e festas brasi-
estéticas e discursivas incide, ironica- quase sempre pintada em tons aver-
reiro no sentido extenso do termo, pois leiros10.
mente, no brinquedo do país basco, os melhados, faz alusão à cor do sangue.
esgrima e seduz, consegue perfurar o
chamados joaldunaks. São esses que Para além da cumplicidade entre dan- E musicalmente, não seria diferente.
peito sob o som da valsa. E os sinos,
sobressaem nas inúmeras semelhan- ça e música (expressa, sobretudo no Vemos os metais convidados12 a pince-
dispostos sob as costas numa eterna
ças com o baque solto, inclusive, com surrão dos caboclos) e do amontoado lar a música num tom marcial, pois os
alusão ao esforço, realça a percussão
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músicos, educados nas escolas de ban- de superioridade – aqui, não é difícil Portanto, a musicalidade do baque sol- flertam com tradições outras e, acima
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das marciais da Zona da Mata, acompa- lembrar-se do “desejo” na acepção to também se estrutura como o restan- de tudo, são também fruto de um diálo-
nham os demais com a musicalização de Hegel. Desejar o desejo do outro te do brinquedo: uma catedral sonora go entre referências culturais distintas.
da cantoria do mestre sob a estrutura como forma de reconhecimento sobre composta por agregados provenientes E, igualmente, tudo isso se faz presen-
de uma musicalidade bélica. No baque si próprio – nesse caso, o desejo de das mais diversas solicitações – vê-se te na musicalidade desses folguedos.
solto, os metais “instigam”, ou seja, os ser o “mestre” vencedor. E, como nos a musicalidade das bandas marciais a Assim e, por exemplo, é fácil perceber
metais “esquentam o terno”. meandros da Fenomenologia do Espí- dialogar com a sonoridade das pelejas elementos do teatro improvisado típi-
rito13, as pelejas elegem vencedores e de violeiros e repentistas; e vê-se tudo co da Commedia dell’Arte no cavalo-
Além disso, o caráter marcial também
vencidos – servos e senhores, aprendi- isso imerso na carga percussiva típica -marinho. Da mesma forma, um caráter
é percebido nas pelejas tão presentes
zes e mestres. Dinda Salu, mestre do dos cultos religiosos afro-brasileiros igualmente “bélico” em diversos ele-
nas chamadas “sambadas”. Trata-se,
Maracatu Piaba de Ouro, enfatiza a – marchas e sambas caminham lado mentos do caboclinho. Entretanto, é
em suma, de um duelo exaustivo (tais
importância de enfrentar mestres bons a lado. E, claro, a música permanece preciso apontar a impossibilidade de
confrontos atravessam uma madruga-
para, a partir do confronto, obter maior interpelada pelos surrões a sugerirem edificar um discurso etnomusicológico
da) entre dois mestres. Os participan-
experiência e habilidade na feitura de uma herança ibérica inusitada14. Trata- sem recorrer ao método comparati-
tes, mestres, músicos e público, mer-
sambas improvisados. -se, afinal, duma suntuosa catedral vo tão exaustivamente solicitado pela
gulham num jogo de auto-superação
de sons15. E, ante essa diversidade, o antropologia – muito embora seja ne-
pautado num lúdico reconhecimento
mestre, mais uma vez, carrega grande cessário ter em conta elementos que,
responsabilidade, pois tem a imensa necessariamente, correspondem a es-

Lídia Marques
tarefa de propor uma harmonia sempre pecificidades próprias de um determi-
sugerida pelo toque frenético do apito. nado universo de referência/cultura.
Talvez, seja esse o motivo do teor, às Jaap Kunst, cansado do termo “musi-
vezes incisivo, com que o apito interpe- cologia comparada”, recorreu ao con-
la a música – tal como um mando rígido ceito de “etnomusicologia” na justa
de um capitão. Afinal, o mestre está a tentativa de não limitar tais pesquisas
coordenar ensaios de batalha nas ruas ao desenfreado desejo de comparação
do carnaval – pois tradicionalmente e, – afinal, tal conduta poderia negligen-
como afirma Zé de Carro, dirigente do ciar aspectos que só fazem sentido no
Maracatu Cambinda Brasileira, os gru- universo de referência de determinada
pos se enfrentavam. expressão musical16. Aqui, os proble-
mas epistemológicos se aproximam
Há algo que deve ser ressaltado para
sobremaneira daqueles encontrados
que possamos seguir adiante na análi-
na Antropologia: há uma busca pelo
se dos pormenores da música: estamos
universal, expressa por excelência na
cientes de que demais brinquedos,
tradição filosófica continental e repre-
como cavalo-marinho e caboclinho,
Terno ou percussão sentada, na Antropologia, por nomes
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como Claude Lévi-Strauss e Marcel to de fundamental importância para na”21, que haverá sempre um “recorte” xo” sob tal manifestação, pois há uma
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Mauss e, por outro lado, uma Antro- a “compreensão” da brincadeira. Há, a privilegiar uma coisa ou outra, ou me- evidente relevância “científica” que
pologia a buscar particularidades – tal no brinquedo, diversas “brincadeiras” lhor, a apreensão concreta da música é atravessa o chamado “Maracatu Rural”.
como o culturalismo de Franz Boas e o que possivelmente foram agregadas sempre uma tentativa limitada. Ante um “brinquedo” que é música, re-
interpretativismo de Clifford Geertz. O com a entrada sucessivas de brincantes ligião e sapiência, os “recortes” tornam-
O “fenômeno” do Baque Solto torna-se
mesmo ocorreu na história da etnomu- – construindo certa “lógica de recruta- -se sempre delicados. A brincadeira é
relevante também por isso: é um convi-
sicologia, pois o que buscou Kunst era mento” que se coaduna com o discur- uma “brincadeira permanente” – pois ao
te a investigações históricas, antropoló-
também perceber as particularidades so marcial também presente no Baque longo do ano uns costuram o maracatu,
gicas e etnomusicológicas que podem
centrando-se no universo de referência Solto. Com isso queremos dizer que outros dirigem o maracatu, e os demais
dizer muito da formação cultural do Nor-
de uma determinada tradição musical. brincantes e brincadeiras eram “recru- falam e pensam o maracatu (seja na oca-
deste. Além disso, dada à complexidade
Contudo e, como bem explicita Bruno tados” ao acaso da formação e cresci- sião de reuniões oficiais a ocorrerem na
do brinquedo, abre-se uma oportunida-
Nettl, torna-se complicado abdicar-se mento dos grupos. Nazaré da Mata, na Associação do Maracatu de Baque Solto,
de para discussões teóricas e metodo-
inteiramente de tal prática: “Is it pos- altura da criação dos primeiros grupos, ou quaisquer outros momentos do quo-
lógicas diversas nos ramos disciplinares
sible to deal interculturally with music como o Cambinda Brasileira, era uma tidiano onde dois ou mais estejam pre-
acima citados. Isto suscita, portanto, a
without, in some sense, carrying out capital centralizadora da Mata Norte. sente). Sendo a música do terno e das
emergência de um olhar mais “comple-
comparative study?” (2005: p. 148)17. Tal condição talvez tenha suscitado um loas a trilha sonora desse contexto.
Nettl conclui, por fim, a necessidade entrechoque de folguedos e, por con-
de não excluir, outrossim, refinar as es- seguinte, um “cortejo” de influências

Lídia Marques
tratégias de comparação no campo da tão diversas. Essa “condição” específi-
etnomusicologia18. E, no caso do “Ba- ca de Nazaré e cidades do entorno, é
que Solto”, tal estratégia se torna im- fundamental para perceber o momento
portante por duas razões: primeiro, por “etnológico/específico” do brinquedo.
não podermos pensar a sonoridade do Temos, portanto um conjunto influên-
baque solto a partir da rígida tríade: cias provenientes de heranças distintas
melodia, ritmo e harmonia, pois tais que se amontoam a uma série de influ-
“conceitos” poderiam “sufocar” a pró- ências locais.
pria expressão sonora do “Maracatu
Dessa forma, a própria apreensão “et-
de Baque Solto”19. Contudo e, ao mes-
nomusicologica” das especificidades
mo tempo, não podemos refletir sobre
do baque solto elucida-se com a ex-
a musicalidade deste brinquedo sem
posição de um aparato “musicológi-
tais referências. Segundo, por haver
co” que nos permite o delineamento
no “Baque Solto” um sincretismo ine-
de influências diversas20. Mesmo reco-
rente ao brinquedo. Tal característica,
nhecendo, à guisa do etnomusicólogo
apontada pela folclorista Katarina Real
Anthony Seeger na “metáfora da bana-
(1990), permanece como um elemen- Músicos ou sopro
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MARCHAS, SAMBAS E GALOPES O mestre nunca está sozinho, pois alusões sutis a Reginaldo Rossi, Odair
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tem lá um “parceiro irmão” chamado José e, atualmente, a bandas como
“contramestre” a repetir suas loas com Calypso e Aviões do Forró. Entretan-
Até aqui observamos uma série de sin- malmente, as apresentações exploram bastante atenção. Com efeito, o con- to, há um “riff melódico” a operar
gularidades estruturais do baque sol- o seguinte roteiro: toca-se uma marcha tramestre tenta seguir a mesma linha como espécie de hino referencial do
to e sua relação com a música, agora, de abertura e, em seguida, sambas melódica e harmônica proferida pelo baque solto23. Esse fragmento é repe-
urge apresentar o “produto sonoro” curtos e/ou longos podem surgir. Fei- mestre, entretanto, a melodia execu- tido pelos mais diversos grupos e, de
dessa trama. Normalmente, os grupos to isto, um galope surge a “fechar” o tada pelos metais pode ser distinta da acordo com muitos brincantes, é im-
de Maracatu de Baque Solto executam ciclo musical quase sempre finalizado melodia da loa do mestre/contrames- possível precisar a autoria exata dessa
sempre as três “estruturas musicais” co- por uma “marcha de despedida” e/ou tre – mesmo porque e, por diversas ve- “canção”. Sendo assim, há determina-
nhecidas como marchas, sambas e ga- uma espécie de agradecimento. Po- zes, as notas proferidas nas loas e na dos “trechos melódicos” que operam
lopes. Porém, quais as diferenças entre rém e, muitas vezes, os agradecimen- “póica” apresentam notas dissonantes. como uma espécie de símbolo sonoro
as três estruturas apontadas? Como os tos iniciam-se na marcha de abertura. do brinquedo. Acredito que, em parte,
Normalmente, os metais repetem o
músicos executam essas três modalida- Nas chamadas “sambadas”, onde dois há certo orgulho no “anonimato” refe-
mesmo “fragmento melódico” ao de-
des? A princípio, podemos afirmar que mestres promovem um “fraterno” de- rente ao verdadeiro compositor desses
correr de toda a apresentação de um
a marcha é mais lenta e compassada e, safio, os sambas são mais constantes, “riffs”, afinal, tal fato cria uma espé-
determinado grupo. A inspiração para
o samba, por sua vez, faz ligeiros usos pois são nestes que a peleja encontra cie de repositorium musical do baque
tais fragmentos pode surgir das mais
de contratempos22. O galope, de for- maior espaço. Poderíamos apresentar solto a funcionar como uma espécie
diversas fontes, desde vinhetas de de-
ma geral, dialoga com as duas primei- uma estrutura rítmica padrão a perpas- de “lugar comum” dos brincantes. Eis
senhos animados e novelas, a trechos
ras “estruturas musicais” sob a caução sar as três “modalidades” musicais do abaixo a transcrição de um dos “hinos”
emblemáticos de músicas populares.
de uma óbvia apoteose musical. Nor- baque solto: mais famosos:
Assim, é possível ouvir, aqui e acolá,
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Tal melodia é executada exclusiva- em dia, os grupos adotam recomenda-


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Maria Alice Amorim

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mente pelos instrumentos de sopro, ções típicas dos desfiles de carnaval.
no caso, sempre metais. Com efeito,
No mais, temos o “terno” – assim ba-
não encontramos flautas, pífanos ou
tizado por ser inicialmente composto
clarinetes em nenhum dos grupos. E,
por três instrumentos de percussão.
tampouco instrumentos de teclas ou
Especifiquemos instrumento por ins-
cordas. Os metais, nomeadamente o
trumento: Há sempre a “póica” a pre-
trombone, o pistom e o trompete, exe-
dominar a marcação do tempo e guiar
cutam em uníssono a mesma melodia –
os demais músicos – trata-se, afinal, de
há por vezes jogos de harmonia muito
um instrumento a operar quase como
discretos, intervalos de terças e quin-
um “metrônomo grave”: “a porca é
tas. Se há variações, essas são quase
diferente da escola de samba. A porca
sempre sutis, pois se compreende que
é como se fosse um metrônomo gra-
o improviso cabe ao mestre.
ve, ele pega a marcação do bombo”
De acordo com Mestre Peu, responsá- – afirma Maciel Salustiano. Além disso,
vel pelo Maracatu Leão da Fortaleza, estar na “porca” implica um intenso
originalmente, os grupos de baque desgaste físico, pois o sujeito apoia o Maracatu Estrela da Tarde, de Glória do Goitá, Terreiro de Maria Viúva
solto não utilizavam instrumentos de instrumento entre as pernas e se curva
sopro. A música era composta unica- ligeiramente para obter uma posição
mente pela articulação entre mestre, ótima para execução do instrumen-
vi usar foi o Maracatu Estrela de Ouro diversas regiões da África: “Trumpets
de Abreu e Lima que era do Mestre of one sort or another are universal.
contramestre e instrumentos de per- to. De acordo com Maciel Salustiano, Custódio, um mestre bem antigo do
cussão. Contudo e, aos poucos, os me- a chamada “póica” substituiu um ins- Composite instruments of widely va-
maracatu.
tais foram gradativamente inseridos no trumento bem próximo da conhecida rying design are found in many places
brinquedo. Convém lembrar a quanti- “vulvuzela” – uma espécie de corneta/ in Africa” (Wachsmann: 1963, p. 110)26.
dade grande de “bandas marciais” que buzina24, ou “cornetão”, utilizado com Deve-se acrescentar que a “póica” é
Hoje, poucos grupos utilizam o chama-
existem em Nazaré da Mata, cidade o mesmo intuito da porca, ou seja, re- um instrumento construído artesanal-
do cornetão ao invés da “porca”. Em
que, anteriormente, agregava gran- alizar a “marcação do tempo” através mente com madeira e um balde e/ou
1962, Gordon D. Gibson (1915-2007)
de parte dos municípios vizinhos ago- de uma vibração grave e profunda a lata, onde o “graveto” permanece in-
identificou um instrumento musical afri-
ra emancipados. Talvez, os grupos de sugerir uma densa reverberação: serido.
cano, da etnia dos bantos, que, talvez,
baque solto passaram a dialogar dire- tenha certo parentesco com a chamada Com efeito, assemelha-se demais à cuí-
Antigamente não se usava uma cuíca,
tamente com as bandas marciais da ci- era uma corneta grande (...) antiga- “póica”25. Mas e, na verdade, encon- ca, sendo, inclusive, chamada como tal
dade – afinal, as bandas sempre foram mente se usava uma corneta maior, a tram-se “trompetes/trombetas”, ou em alguns grupos de baque solto. O
“bem aceitas” em detrimento do ba- porca era aquilo ali. Tem alguns ma- seja, extensos cilindros a produzir um som é o resultado da fricção da madei-
que solto. Da mesma forma como, hoje racatus de Vitória que tem. O que eu
som deveras reverberado e vibrato em ra com um pequeno pedaço de tecido
110 111

O mineiro, por sua vez, apresenta-se

Lídia Marques
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Lídia Marques

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como um típico “ganzá” – chocalho a
ornamentar a música com um teor mais
“solto” – certamente, é um instrumen-
to deveras comum nos mais diversos
folguedos da Zona da Mata. Encontra-
do, por exemplo, em grupos de cavalo-
-marinho e caboclinho. Afirma Maciel
Salustiano: “o mineiro serve para a
questão do agudo, porque você tem
o bombo, que é mais grave, a cuíca, o
gonguê que é um pouco grave, porém,
mais agudo que grave, e o caixa tam-
bém, que é um médio-grave”.

Há também um bombo pequeno cha-


mado “bombinho/surdinho” a execu-
tar a parte “grave” da percussão. Ao
contrário do Maracatu de Baque Vira-
do, a sonoridade da percussão incide
molhado. Nas apresentações, é natural depois da “porca”, seria o instrumen- mais sobre o som agudo, sendo o “sur-
que o restante do “terno” esteja sem- to percussivo “guia”. Normalmente dinho” um dos poucos instrumentos a
pre atento à marcação rítmica da por- ornamentado com penugens das mais diversas cores, dá a impressão de ser realizar uma tímida solicitação à tonali-
ca. uma parte do “caboclo de lança” dei- dade grave.

Lídia Marques
xado para trás.
O gonguê se apresenta como um pe- A percussão se faz aguda e, ao mesmo
queno sino, ligeiramente achatado, O tarol é um “caixa” com duas pe- tempo, todo o “corpus” sonoro do fol-
feito de ferro. Assemelha-se aos sur- les, sendo a inferior coberta por uma guedo também. Soma-se a isso o fato
rões dos caboclos, tal como o cowbell fina esteira de metal a produzir ligeiro de, normalmente, utilizarem instru-
– justamente de onde foram retirados. “ressoar” – possivelmente, tal esteira mentos de sopro para executar a me-
O gonguê também realiza uma espécie estende a vibração do caixa e garan- lodia em soprano. Ademais, a própria
de “marcação” rítmica e acaba por as- te o efeito do “rufar de tambores” tão cantoria do mestre volta-se mais para
sumir uma função semelhante ao triân- representativos do baque solto. Esse as regiões próprias do “tenor” – rara-
gulo nas bandas de forró tradicionais, caixa, como tal, difere-se do caixa utili- mente vemos um mestre a cantarolar
normalmente executando sempre uma zado no frevo, de maior tamanho. nas regiões mais graves, ou seja, di-
mesma frase sincopada. Com efeito,
112 113
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Lídia Marques

Lídia Marques

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
ficilmente um “baixo” executaria uma claro, isso se deve a necessidade de baque virado é grave mesmo – embo- um grupo específico que indicam mar-
loa de forma satisfatória. Em parte, execução ao ar livre, onde os tons agu- ra tenha elementos agudos também, chas, sambas ou galopes. Esses detalhes
dos são mais viáveis. Porém e, ao con- como o mineiro”. surgem ora como práticas específicas de
trário do Maracatu de Baque Virado, cada mestre ora como procedimentos
Porém, há um ponto importante que
tudo o mais, para além da percussão, já pré-estabelecidos para determinada
deve ser ressaltado: a diferença entre
acompanha essa lógica dos agudos execução. Ademais, como bem indica
uma marcha, um samba e um galope
dissonantes. A princípio, tais solici- Maciel Salustiano, a musicalidade do ba-
surge muitas vezes sob a estrutura da loa
tações de tons agudos e dissonantes que solto se transforma de acordo com
– daí certas especificidades, tais como:
podem soar estridentes, como afirma cada região: “existe uma questão de ba-
marcha de quadra, samba de seis, samba
a jornalista e pesquisadora Ana Valéria tidinha de ritmo um pouquinho diferen-
de dez e o galope de seis. Portanto, nem
Vicente sobre o baque solto: “ritmo te. Em Araçoiaba, por exemplo, os ter-
sempre as mudanças tornam-se presen-
característico e estridente” (2005: p. nos batem mais graves. Na Cambinda do
tes na forma de executar os instrumentos
28). Sobre essa questão, comenta Ma- Cumbe [Cambinda Brasileira] também, é
do terno ou de sopro e/ou em aspectos
ciel Salustiano: “o maracatu de baque um terninho mais grave, mais lento”. Em
melódicos da cantoria dos mestres. E,
solto, a batida dele puxa mais para o Nazaré da Mata e municípios do entorno,
Lídia Marques

muitas vezes, os grupos já conhecem de


agudo que para o grave, existe o gra- o ritmo se apresenta mais “moderado”,
antemão determinados pormenores de
ve também, mas é o médio-grave. Já o realçando os contratempos de maneira
114 115

mais branda. Da mesma forma, no Reci- tória do grupo. Normalmente são acom- Os sambas se estendem mais facil- detalhadas narrativas eram proferidas
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
fe, o ritmo apresenta-se mais sincopado panhadas de improvisos de agradeci- mente na ocasião das chamadas “sam- para a apreciação de um público que
– talvez, pela influência das quebras rít- mentos e rememorações dos esforços badas” – onde dois mestres encaram o se envolvia com as histórias. Tais co-
micas tão comuns no baque virado. De empregados para a ocorrência da apre- desafio do improviso. Esses podem ser mentários, sempre saudosos, podem
acordo com Maciel Salustiano, tais di- sentação em questão. O terno bate fre- “curtos” (samba de 6 ou 4) ou “longos/ ser escutados na ocasião dos encon-
ferenças encontradas no Recife surgem nético, como de costume, porém, alguns compridos” (samba de 10), mas tal di- tros da Associação de Baque Solto
da influência do “xambá”. Há aqueles instrumentos realçam os contratempos ferença surge apenas no horizonte da em Aliança. Nos sambas, a marcação
encontrados nas redondezas de Goiana com maior ou menor intensidade como poesia expressa nas loas/toadas, uma do contratempo sugerida pela porca
e Glória do Goitá, que se parecem mais sugerem as transcrições baseadas no vez que o ritmo, permanece o mesmo. reforça-se. Segue abaixo a execução
com os do Recife na execução rítmica. Manual de Percussão dos Ritmos Per- Antigamente, os brincantes afirmavam dos instrumentos do terno:
nambucanos escrito pelo etnomusicólo- existir sambas de 20, onde imensas e
As marchas soam como cartões de visita,
go e pesquisador Fernando Sousa:
pois costumam anunciar a própria traje-
116 117

E, por fim, temos o galope, considera- mamente envolvidos e tomados pelas DIÁLOGOS MUSICAIS
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
do pelos brincantes um momento de músicas e toadas dos mestres. Há uma
“despedida”, pois se sabe que, após ligeira diferença na forma de tocar o
a execução do mesmo, surgirá uma gonguê, entretanto, tais exemplos fo- Oswald de Andrade tentou erigir uma pofágicos” na Tropicália, no Movimen-
“marcha de despedida” normalmente ram baseados na audição de registros filosofia tipicamente brasileira a partir to Armorial e, também, no chamado
agradecendo a participação dos envol- de áudio do Maracatu Leão Misterioso de uma conceptualização bem espe- “Movimento Manguebeat” ocorrido
vidos. Não há muitas diferenças, na es- e Leão Teimoso. Portanto, é possível cífica da Antropologia. Dizia Andrade no Recife na década de 1990. Com
truturação do ritmo, entre um samba e que certas nuances sejam reforçadas que não poderíamos adotar uma “filo- efeito, é importante afirmar que todos
um galope. Porém, em termos gerais, de acordo com as especificidades do sofia messiânica”, aos moldes da euro- esses “movimentos” abriram espaço
o galope sugere a apoteose da dan- grupo. péia, pois somos uma sociedade ma- para o vislumbre de sem número de
ça – aqui os brincantes já estão extre- triarcal, diferentemente dos europeus manifestações próprias da cultura da
e alguns orientais, que são patriarcais. tradição. Entretanto e, quase sempre,
Andrade fez críticas à filosofia européia sob a caução de uma espécie de diálo-
na ilusão de assim erigir uma filosofia go entre o “anfitrião” e o “convidado”
brasileira. Porém, Andrade esqueceu – muito embora o esforço de Oswald
que aquilo que os europeus chamam de Andrade seja justamente o contrá-
de Filosofia não é “Filosofia”, ou, pelo rio: demonstrar a impossibilidade de
contrário, o que Andrade gostaria de produzir uma “filosofia messiânica”,
chamar de “filosofia brasileira” talvez típica de uma sociedade patriarcal,
seja melhor chamar: “reflexão acadê- dentro duma sociedade matriarcal.
mica a partir das entranhas do popu-
No caso do “baque solto”, as figuras
lar”27. Tal postura, assumida ante a fi-
de Chico Science e Siba foram a maior
losofia, também foi posta em prática,
responsável por conseguir algum des-
ao decorrer de muitos anos, no campo
taque sobre a musicalidade deste “fol-
da música – muito embora as incursões
guedo”. A faixa “Maracatu Atômico”,
de Mário de Andrade, companheiro
uma releitura de uma composição de
intelectual de Oswald, tenham sido
Jorge Mautner feita por Chico Science,
mais etnográficas, tais como aque-
faz jus à tentativa de promover alguma
las realizadas mais recentemente por
visibilidade ao brinquedo – a abertura
Marcus Pereira. A “postura antropo-
faz-se no batuque frenético de um típi-
fágica” funcionará, mesmo de forma
co “terno” de maracatu.
indireta, como um guia para os mais
diversos movimentos surgidos nas dé- Mas, e infelizmente, a audição só se
cadas seguintes: há elementos “antro- torna possível quando “licenciada”
118 119

por um artista consagrado, como se a ca para “deixar a ver” a musicalidade


M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

Stela Maris

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
“cultura da tradição” fosse a “cultura desses grupos. Mesmo porque, a atu-
convidada”. Pode-se perceber esse al configuração social possui a estru-
estado de coisas a partir da imensa tura necessária para que os próprios
dificuldade em encontrar registros em brincantes possam ouvir, nas rádios e
áudio acerca do brinquedo nos acer- emissoras de televisão, seus próprios
vos regionais e nas lojas da cidade do registros.
Recife. E, além disso, a dificuldade
Ao decorrer do trabalho de campo
de ouvir discos/composições de mes-
realizado no Inventário do Maracatu
tres e grupos já consagrados, como o
de Baque Solto, ouvimos muitos brin-
“Mestre Barachinha”, nas rádios mais
cantes reclamarem acerca da “pouca
populares. Atualmente, não é mais
visibilidade” do brinquedo. Muitos in-
necessária uma postura antropofági-
sistem no privilégio constante que a
mídia dá à figura do “caboclo de lan-
ça” em detrimento da complexidade
musical e artística do brinquedo. E, ao
mesmo tempo, do longo período em
que, ao decorrer do ano, os maracatus
permanecem “adormecidos” e sem a
devida oportunidade de se apresen-
tarem em festas, programas de rádio Notas pelos reinos africanos. Ela surge, gradativamen-
te, no Maracatu de Caboclo ou de Baque Solto à
e televisão. Certamente, a “música” 1 - “As toadas ou loas são improvisadas e podem medida que eles começaram a se apresentar no
do baque solto não é “fácil” – pois há ser de vários tipos: a marcha de quadra, o samba carnaval do Recife, uma lembrança dos tempos
a articulação entre o batuque frené- de seis, o samba de dez e galope de seis. Tam- em que havia a coração dos Reis de Congo, nos
bém tem o samba cumprido pra mestre que se pátios das igrejas das Irmandades de Nossa Se-
tico e a cantoria do mestre exige um
perdeu nas dez linhas.” (Severino: 2005, p. 61). nhora do Rosário dos Pretos” (Silva: 2005, p. 48).
ouvido já acostumado. Porém, é dis-
so que estamos a falar: já há ouvidos 2 - Refere-se a procedimentos religiosos para 5 - No Livro “Regressos”, o ex-presidente e es-
“encantar” determinado objeto. critor português Manuel Teixeira-Gomes (1991)
acostumados. Há ali um momento de
ofertou uma série de impressões acerca de “lo-
pausa onde a vida recomeça fácil sob 3 - Como explicitado nas fichas do Inventário
cais” que regressara em saudade. Há um mo-
o lúdico manejo das coisas graves – no do Maracatu de Baque Solto, o virtuosismo, em
mento específico para a cidade de Santiago,
grande parte, incide nessa coesão fundamental
Maria Alice Amorim

entremeio entre a troça e a dignidade quando o escritor se vê admirado como um


entre música e dança.
do caboclo. número tão imenso de estilos possa provocar,
4 - “No começo, o Maracatu Rural não possuía numa série tão extensa de acasos, a construção
a corte, pois esta não existia entre os primeiros de uma catedral de tanto bom gosto. Em suma,
Mestre Barachinha habitantes do Brasil. Foi trazida pelos europeus e vê-se na Catedral de Santiago um “museu”
120 121
arquitetônico harmonioso. O baque solto tem expressam um ritual de espantar os insetos e esforço – no caso dos mamutzones, trata-se Detalhes acerca dessa relação entre músicos e
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
muito disso: há aspecto de muitas brincadeiras as larvas das lavouras (tarefa que, certamente, de andar imitando os passos de um mamute. E brincantes podem ser encontrados na ficha “en-
ali presentes, desde personagens típicos do ca- se faz ajoelhado): “Juan Antonio Urbeltz also é claro, ao conversar com diversos brincantes saio e esquentes de terno”.
valo-marinho e caboclinho, a uma musicalidade writes about the significance of words with de maracatu, encontramos todo um discurso
13 - Principal obra de Hegel, escrita em 1807
a aludir pelejas entre repentistas e violeiros – in- Inauteri and Aratuste, both meaning “the time do “esforço” que pode ser elevado à cate-
que, ao longo dos anos, serviu como aporte re-
clusive e, para o pesquisador Severino Vicente of pruning” that references the tasks carried goria de “problemática central da pesquisa”.
ferencial para discussões sobre a relação entre
da Silva, tal elemento surgiu depois que a brin- out in the month of February before the arrival Afinal, confeccionar aquelas golas rebuscadas,
servo e senhores. Inclusive, discussões diversas
cadeira já estava “estruturada”: “Parece que no of Spring. But why the pruning? Urbeltz points carregar toda aquela pesada indumentária, e,
sobre os problemas da exploração no campesi-
início, não havia o improviso nas canções dos out it was done to at least try and minimize the por fim, programar todo um desfile com uma
nato foram, em grande parte, uma herança de
mestres. Mas a influência dos improvisadores arrival of damaging insects that would emerge. situação financeira tão delicada, passa a ser
reflexões originalmente alardeadas por Hegel
tocadores de viola, tão ouvido pelas comunida- These activities, which possibly date from the uma tarefa de Hércules. Há todo um discurso
“traduzidas” sob a ótica marxista. Além disso,
des interioranas, fez surgir e crescer essa habi- Neolithic period, clean the trees and fields of do sacrifício que se faz presente a incitar uma
inaugurou discussões diversas sobre a neces-
lidade” (2005: p. 61). Além disso, a riqueza sa- insect larvae which are dormant but will soon verdadeira competição: qual grupo se sacrifi-
sidade de “reconhecimento” a partir da legiti-
piencial inerente a qualquer arcabouço religioso come to life.” Entretanto, o “Caboclinho” pa- cou mais? É este o “tom” que ressoa nas apre-
mação do outro – demonstrando a importância
também se faz presente. rece ter surgido antes do maracatu. Assim co- sentações. Ao decorrer da história, o próprio
das questões de alteridade antes mesmo das
mentam muitos dos brincantes nas cidades de elogio do trabalho é o elogio do “esforço” – é
6 - Semelhante ao cowbell e ao próprio “gon- discussões promovidas pela psicanálise e antro-
Nazaré da Mata e Tracunhaém, reconhecidas só lembrar do ritual do boi na Grécia Antiga.
guê” utilizado no aparato percussivo do baque pologia. O título original se chama Phänome-
oficialmente como “berço” do maracatu rural
solto. 10 - “We cannot forget, either, the strong in- nologie des Geistes, porém, para efeito deste
– embora essa alcunha seja difícil de utilizar.
fluence of musical manifestations that have estudo, utilizamos a tradução brasileira lançada
7 - Os sinos são usados por baixo da chamada E, como igualmente atestamos, há um núme-
come from Africa. A typical example of this is pela “editora vozes”.
“gola”. Esse tipo de instrumento se chamam tec- ro significativo de sobrenomes espanhóis na
the lundu, of Bantu origin, which has come to
nicamente na música erudita de idiofones – ins- mesma região. A imigração espanhola, como 14 - É inegável a forte influência indígena na mu-
Brazil in previous centuries. As it was fancied
trumentos de som produzido pelo impacto ou bem sabemos, passou-se sempre despercebi- sicalidade do baque solto, sobretudo na utiliza-
by the nobility, it invaded and remained in the
mesmo agitação de seu corpo. Sua diferença dos da em detrimento das demais, daí os poucos ção de esquema percussivo mais “agudo”, tal
upper-class society’s saloons, and underwent
Tambores (membranofones) está no fato dos idio- registros. Sendo assim, é difícil precisar com como no caboclinho. Entretanto é importante
adaptations in the lyrics and even in the rhythm,
fones não produzirem som por um impacto de um exatidão como ou se o Joldunak dialogou, na ressaltar a já conhecida dificuldade em identificar
resulting, sometimes, in a mixture of Portugue-
corpo qualquer numa pele. Assim, idiofone não Zona da Mata, com o Caboclinho e demais ma- (apreender) as influências musicais indígenas no
se and African idioms.” (Medeiros: 2002, p. 3).
tem som produzido por se bater numa pele. nifestações brasileiras e se transformou nisto baque solto. Como bem aponta o etnomusicólo-
que, atualmente, é conhecido como “maraca- 11 - Tal cemitério localiza-se na área rural do go Gerard Béhague numa espécie de “relatório”
8 - Com a ressalva, claro, de perceber tal elemen- tu rural”. Katarina Real já havia sugerido não munícipio de Tracunhaém. O local foi constru- acerca das produções em “antropologia musi-
to como algo universal – pois tal prática pode ser se tratar de “maracatu” isto que chamamos ído nas mediações do “Engenho Bringa”, si- cal” produzidas na América-do-sul: “Perhaps the
observada, por exemplo, na “dança do leão” na de “maracatu rural”. Para a antropóloga, as tuado entre o município de Nazaré da Mata e most depressed area in Brazilian musical studies
China, Japão, e demais países do oriente. diferenças entre os dois brinquedos são tão Itaquitinga. Passado os anos, o espaço foi gra- is that affecting traditional Indian music. Despite
imensas que nada justifica essa associação. A dativamente utilizado como lugar de referência the socioanthropological focus on Brazilian In-
9 - Tal como no cortejo do maracatu rural, há
figura do “Mateus”, que fica à frente de qual- do brinquedo pelo grande número de “cabo- dian cultures since the beginning of the century,
entre os Joaldunak um guia a seguir em fren-
quer cortejo de maracatu rural, assemelha-se clos” ali sepultados. Atualmente desativado, o Indian music has remained foreign to most Brazi-
te e dar coordenadas dos movimentos. Da
ainda mais aos joaldunaks que os cabloclos cemitério encontra-se como “espaço sagrado”, lian researchers.” (1985: p. 25).
mesma forma, o grupo é dividido em blocos
de lança. Isto porque, o Mateus ainda utiliza uma vez que é utilizado na ocasião de rituais re-
tal como numa estratégia de ataque e defesa. 15 - A antropóloga Katarina Real já havia carac-
o chapéu em forma de funil e carrega apenas alizados pelos brincantes.
Além disso, a expressão africana “cambinda”, terizado o “maracatu rural” como um brinque-
um único sino nas costas. Além disso, devo
tão presente no discurso do maracatu rural, 12 - Nesse caso, urge apontar uma ironia: aque- do sincrético por excelência (1990). Talvez, na
acrescentar que, quer os joaldunaks quer os
denota o movimento de se abaixar, se acoco- les que executam os metais são sempre contra- altura em que Nazaré da Mata correspondia ao
mamutzones realizam uma procissão baseada
rar, se ajoelhar. Por coincidência, os Joaldunaks tados, raramente são brincantes dos folguedos. grande centro urbano da Zona da Mata Norte,
em passos pesados que denotam demasiado
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ocorreu um diálogo intenso entre os mais diver- ople who purchase them have never seen the pro. O Mestre João Paulo diz que, no começo era dros da filosofia africana contemporânea. Henry
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
sos folguedos, promovendo uma fusão de inte- whole plant. Music, too, has an intuitive defini- uma buzina para acompanhar o terno. Era um ne- Odera Oruka, filósofo kenyano criador do con-
resses variados e expressos, sob a sabedoria do tion that is equally real to many Western-trained gócio de estanho desse tamanho. Aí mudou. Tirou ceito “filosofia sábia”, postulava uma espécie
mestre, na brincadeira. scholars-it consists of discrete audio structures. a buzina e botou porca” (Severino: 2005, p. 56). de “etnofilosofia” de caráter individual. Para
Music, too, has been commodified that way for Oruka, há Filosofia na África, e os inúmeros sá-
16 - “In print, the term was evidently coined by 25 - Aqui, a sugestão que haja algum parentes- bios que carregam, discutem e questionam as
over a hundred years-as discrete sounds sold on
Jaap Kunst who, in intro-ducing it, refers to what co incide somente sobre ser uma “trombeta” próprias tradições, são os responsáveis pela ma-
cylinders, discs and audio files where they are
he considered the unsatisfactory nature of the típica de uma etnia que influenciou o Brasil em nutenção da mesma. Sendo assim, Oruka dis-
removed from the “whole” of the concepts and
comparative orientation.” (Nettl: 1973, p. 148). outros pontos, inclusive no lundu, rítmo de ori- tingue dois tipos de Filosofia: aquela oficiosa e
processes of which those sounds are the fruit
gem africano que se tornou tão popular no Bra- livresca que conhecemos tão bem, e a africana,
17 – Compreensão aproximada em língua por- (to further abuse the metaphor). As scholars we
sil. Gibson descreve um instrumento de formato pautada sobremaneira na tradição oral. Kwasi
tuguesa: “É possível lidar interculturalmente must not mistake the banana for the plant-or
cilindrico com uma “câmara” de cera de abelha Wiredu retoma a discussão na crença de que
com a música, sem, de alguma forma, proceder rather we must be very careful not to mistake
na extremidade: “This is the onjemboe roseo f tudo isto é fruto de um equívoco, afinal, há a
a um estudo comparativo?” the sounds of music for the social processes of
the Himba, a south-western Bantu people of the “filosofia sábia” por todo lado, inclusive, em pa-
which they are a part.” (Seeger: 2002, p. 190).
18 - “It appears, there-fore, that ethnomusico- Herero cluster, who inhabit an area in South-West íses como Alemanha e França, que detêm um
logy must increase its concern with comparative 22 - Está justamente batendo contra o tempo Africa and Angola intersected by the Kunene Ri- arcabouço faraônico da filosofia “licenciada”
methodology, with such techniques as the me- forte, contra a marcação da música. O percussio- ver. The onjembo erose is an end-blown straight institucionalmente.
asurement of similarity and difference, and with nista e etnomusicólogo Fernando Souza observa conical trumpet provided with a bulbous terminal
the epistemological problems underlying the o contratempo como algo que define um “pro- resonating chamber of beeswax. Indeed, it is the
entire discipline.” (Idem: p. 159). cesso de conscientização” de que existe uma pe- beeswax bulb which makes the Himba trumpet
riodicidade regular entre a repetição de tempos perhaps unique in Africa”. (1962: p. 258). Num
19 - Há, por exemplo, uma articulação muita rítmicos na musica, de modo que seja possível se outro artigo, publicado em junho de 1963, o
própria entre ritmo e melodia – se compreen- perceber a metade desses tempos. O tempo é pesquisador/africanista Wachsmann indica a ra-
dermos o ritmo como aquilo que é executado tônico e marca essa repetição, tal como o pulsar ridade de tal instrumento, pois trata-se de um
pelo “terno” e a melodia como aquilo que é do coração. O contratempo é átono e está entre “trompete” com características bem particulares
“cantado” pelo mestre. O “terno” suspende o as repetições tônicas. Em música o tempo e o e executado somente por guerreiros: “The Nuba
toque para que o mestre inicie a cantoria como contratempo são elementos fundamentais. trumpets (fig. i) were ‘peculiar trumpets, taro, as-
se duas estruturas musicais distintas estivessem sociated with wrestling, made from the horn of a
em conflito. Inclusive, o “terno” tem sua própria 23 - Queremos com “riff melódico” falar de uma kudu prolonged by a peculiarly shaped mass of
melodia, que é representada pelos músicos que pequena progressão de notas que se repete em wax and perhaps clay. Only important and suc-
tocam os metais. Entretanto, esses dois mo- conjunto com a percussão (terno). Esse chama- cessful wrestlers possessed or were allowed to
mentos, aparentemente “antagônicos”, fazem do “riff” é executado sempre pelos metais e não blow them; they were so highly valued that it was
parte de uma mesma “peça”. necessariamente condiz com a melodia da loa impossible to purchase an original specimen, but
cantada pelo mestre. Porém e, por vezes, o “riff” no difficulty was raised about copying one, and
20 - Isso, claro, se pensarmos em etnomusicolo- se assemelha às loas dos mestres. Alguns des- the specimen3 brought home is now in the Bri-
gia em termos de especificidade e musicologia ses “trechos melódicos” tornaram-se referências tish Museum” (1963: p. 86)
como “universalidade”. no universo musical do brinquedo. Sendo assim,
logo ao início de sua execução, os brincantes re- 26 – Compreensão aproximada em língua por-
21 - “Music and bananas have two similar at-
conhecem de imediato o “riff”. Daí utilizar a ex- tuguesa: “Trombetas de uma forma ou de ou-
tributes that facilitate the fallacy of misplaced
pressão “hino referencial do baque solto”, afinal, tra são universais. Instrumentos compositos de
concreteness. Bananas are too clearly delimited
alguns desses trechos melódicos já se tornaram designs muito variados podem ser encontrados

Lídia Marques
by their smooth skins, and they are sold indivi-
símbolo sonoro para os brincantes. em muitos lugares na África”.
dually or in bunches separated from the large
banana plant of which they are a part. Many pe- 24 - “Inicialmente nem tinha instrumento de so- 27 - Essa discussão torna-se clara nos mean-
124 125
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
Elysangela Freitas
Entre céu e terra leveza
A dança do maracatu de baque solto guras de frente” puxam o cortejo. São A DANÇA DOS FOLGAZÕES
é vigorosa, saltitante, ágil. O ritmo da as figuras meladas, pintadas de graxa
O estado corporal na dança do mara- dos à atividade cotidiana do trabalho
percussão e do sopro associa-se ao api- preta: o Mateus, a Catirina, a burra,
catu está muito ligado à ativação do no roçado e no canavial. São movimen-
to do mestre e conduz a dança, forma- mais o caçador e o babau, quando há.
centro de gravidade do corpo, localiza- tos cotidianos que exigem força, pre-
ção coreográfica a sugerir guerreiros Seguindo o ritmo da música, os per-
do na altura do umbigo, ponto da força paro físico, e, por isso, possibilitam ao
em estado de alerta, entrincheirados, sonagens “sujos” exibem movimentos
de impulso e equilíbrio. Na coreogra- folgazão simultaneamente suportar o
buscando proteger-se e proteger a na- despojados, livres, caricatos, na ence-
fia dos caboclos fica evidente o víncu- peso da fantasia e exibir coreografias
ção taticamente guardada no coração nação teatral de apelo cômico. A im-
lo com a terra, pelos movimentos de aeróbicas durante todo o carnaval.
das filas ou trincheiras. Sob o comando ponente realeza – rei, rainha, príncipe,
abaixar e levantar rapidamente, ligação Fica, assim, evidente que os movimen-
do mestre de cabocaria e dos caboclos princesa, vassalo, dama da boneca –
estabelecida para além da brincadeira tos realizados na dança do maracatu
líderes dos cordões ou “bocas de trin- dança resguardada pelos caboclos de
como, por exemplo, no trabalho braçal estão visceralmente entrelaçados a
cheira”, os lanceiros se espalham em pena, baianas, pelos condutores dos
de folgazões que geralmente são cor- uma memória corporal vivenciada fora
evoluções circulares ao redor dos de- lampiões e do pálio, pelos músicos,
tadores de cana. O vigor da brincadei- da brincadeira. A dança dos caboclos
mais folgazões, que dançam, no inte- mestre, bandeirista, e mais alguns ca-
ra, a construção e a memória corporal de lança, tanto quanto a dos caboclos
rior, protegidos pela fortaleza circular. boclos que garantem proteção à parte
dessas pessoas vêm, portanto, associa- de pena, se concentra particularmente
Durante a evolução das danças, as “fi- de trás do cortejo.
126 127

de ferro sobre os quadris que, para per- que agrega à performance corporal.
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

Maria Alice Amorim

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
cutir, exigem movimentos específicos É este personagem quem protege es-
de pés, costas e de inclinação do corpo. piritualmente a brincadeira com uma
Idiofones de percussão, os chocalhos dança ritual: figura ligada a cultos indí-
têm tonalidades diferentes, variáveis genas, recebe entidades e dança incor-
entre agudo e grave, marcam o ritmo e porado ou atuado, com movimentos
funcionam como arautos que se fazem propiciatórios que se destinam a “ar-
ouvir a grandes distâncias. riar”, derrubar os males, as ameaça à
paz e segurança do maracatu. O reper-
Com cruzamento de pernas, muitos gi-
tório de gestos do caboclo de pena,
ros, passos baixos e pequenos, dança
constituído de passos cruzados e aga-
o arreiamá. Garante exuberância visual
chamentos, assemelha-se ao bailado
ao maracatu com o imenso penacho de
guerreiro dos cabocolinhos. Isto pode
plumas de ema e pavão, e as flutuações
ser inferido pela observação e também
do corpo não se inibem com o peso e o
pelos comentários dos brincantes, con-
volume do adereço. O caboclo de pena
forme se constata na descrição de Ed-
também traz consigo uma machadinha,

Lídia Marques
Na trincheira, caboclos se ajoelham ante o mestre do apito

na parte inferior do corpo, nas pernas e coloridas. Com ela, fazem-se movimen-
no quadril, com passos de cruzamento tos de giro, apontando-a para cima,
de perna e quedas, executados ao tér- para baixo, para os lados, delimitando
mino de cada toada, sob o comando o território e, por fim, jogando-a para o
do apito do mestre. alto o caboclo encerra cada apoteótico
manejo da guia. Um caboclo de lança é
O peso e o volume do surrão, gola e de-
considerado um bom caboclo se souber
mais componentes da fantasia, usados
usar a guiada sem machucar ninguém
durante a folia, entretanto impedem
enquanto dança. E, além de exibir as ha-
movimentos de ampla expansão. Nas
bilidades com a lança, necessita de fôle-
apresentações carnavalescas é utilizada
go e manejo corporal para movimentar
a guiada ou pesada lança de madeira,
o surrão, grade recoberta de pelúcia
com cerca de dois metros de compri-
sintética com quatro a cinco chocalhos
mento e totalmente recoberta de fitas
128 129

nia religiosa, girando e mostrando a gazões, é o que quer dizer o comen-

Stela Maris
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portadora dos segredos do maracatu, tário de Fernando Luiz de Melo, do
folguedo cuja dança, não importa de Maracatu Cambinda Dourada, de Ca-
qual personagem, é para ser dançada maragibe. “Tem gente que aprende
sob o sol, sob o céu de estrelas, na rua, ligeiro, tem gente que pra aprender é
nas praças, nos palanques, nos enge- difícil (...). Tem que ter alguém pra lhe
nhos, em espaços públicos do mundo ensinar. Faça isso, faça isso. A pessoa
rural e urbano. dança aquela dança pelo olhar”, refor-
ça Edmilson Honório da Silva. Desse
Durante os ensaios e sambadas, à noi-
modo, não há ambiente mais privile-
te, ao ar livre, ante a sede da agre-
giado aos aprendizes de folgazão do
miação ou em algum espaço público,
que o espaço de sambadas e ensaios.
presencia-se o que folgazões chamam
Ambiente ainda mais privilegiado para
de “bater pau”, brincadeira que simula
os iniciados, que, libertos do peso da
briga e constitui momento especial na
fantasia, expandem-se na amplidão do
aprendizagem de manobras da guiada.
terreiro. A delícia é de todos: todos os
Dispostos em duplas ou círculos, movi-
que dançam, os que aprendem, os que
mentam-se para frente e para trás, e,
observam.
munidos de uma vara que manuseiam
tal qual espada, dançam como se esti-
vessem numa luta, num jogo de capo-

Maria Alice Amorim


milson Honório da Silva, dono e presi- aos de caboclinhos e arreiamá. Dois eira. É momento especial para os ini-
dente do Maracatu Águia Formosa, de dos caboclos de pena lideram o cordão ciantes, tendo em vista que, conforme
Tracunhaém: “a dança é ele brincar, o das baianas e dão andamento às evo- observações de campo e segundo os
arreiamá, o pulo dele mais devagarzi- luções coreográficas do grupo. A dan- próprios folgazões, a aprendizagem
nho. A alegoria dele é mais diferente. ça do baianal relaciona-se à praticada das coreografias, manobras e evolu-
Ele se abaixa, fica de vez, levanta de pelas mulheres, nos terreiros de can- ções se concretiza empiricamente,
costa, o arreiamá tem numa faixa de domblé: “aquelas baianas que sabem olhando e imitando. O “saber cair”, o
cinco, seis dança quando tá com o pe- brincar dançam mesmo como as baia- “jogo de pernas”, o agachar, levantar,
nacho na cabeça. (...) O arreiamá é a nas dos Xangôs, é quase a dança do puxar um cordão, manobrar a guiada
peça mais grã-fina do maracatu”. Xangô. Principalmente o traje, os vesti- dependem, sobretudo, da acuidade na
dos” (Chaves: 2008, p. 89). A dama do observação e da persistência no treina-
Figuras de índia às vezes aparecem en-
paço, que carrega a calunga, também mento de cada iniciante.
tre os personagens que compõem o
se movimenta, sob o ritmo ditado pelo
miolo da brincadeira, também execu- “Um vê o outro brincando”. Esta é a
terno, como se estivesse numa cerimô-
tando movimentos que se assemelham escola experimental de dança dos fol-
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São vários os tipos de manobras. Uma atrapalha muito o maracatu, mas os

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delas é a manobra solta, ou seja, as maracatus do interior faz tudinho isso

trincheiras ou cordões de caboclos, (...) O maracatu fica cruzando todinho,


enquanto o último caboclo não pas-
que protegem o miolo do maracatu,
sa o maracatu não pode andar. (INRC
seguem fazendo volta, por dentro e/ou
Maracatu de Baque Solto: 2012)
por fora, enquanto o miolo permane-
ce no mesmo lugar. Ao ser pergunta-
do sobre o assunto, descreve Edmilson
Cortar por fora, deixando o miolo livre,
Honório da Silva: “vai os caboclo sozi-
se traduz pelo andamento de cada cor-
nho e o miolo fica parado, aí quando
dão movendo-se na direção contrária à
ele vai e volta, pega o miolo pra pas-
do miolo. Outra das maneiras de cons-
sear”. Logo que os caboclos chegam
truir cada um dos círculos é a fileira dos
de volta ao ponto onde se encontram
lanceiros movimentando-se em direção
os demais folgazões, o miolo do mara-
ao centro, cortando por dentro do mio-
catu se desloca, para novas manobras
lo. Esta manobra é mais complexa e
mais à frente. Assim, de forma ágil, o
mais demorada. Há, ainda, a manobra
maracatu se move rapidamente em di-
solta, em que apenas se movimentam
ferentes sentidos, simulando a direção
os caboclos de lança, e somente quan-
a tomar, como verdadeira estratégia de
do finalizada a manobra todo o maraca-
guerra.
tu segue com as evoluções, dançando e
MANOBRAS E LIBERDADE As maneiras de movimentação dos cor- se deslocando. Para finalizar cada con-
A manobra é um movimento do Ma-
dões também variam, inclusive haven- junto de manobras, conforme Fernan-
Em meio à performance coreográfi- racatu que envolve todos os seus
participantes e que é invariavelmente do a possibilidade de outras manobras do Melo, a apoteose fica por conta da
ca de todos os personagens de ma-
realizado, tanto na sambada, quan- serem criadas pelo mestre caboclo de habilidade dos caboclos de lança, que
racatus de baque solto, a dança dos
to na evolução, ou apresentação do cada maracatu, conforme lembra Fer- puxam os cordões, “puxam o terno, vão
caboclos de lança é a que oferece Maracatu nos palcos carnavalescos e nando Luiz de Melo: embora, fazendo aquele corrupio, que
maior deslocamento no espaço físico na passarela. As duas manobras, re- eles chamam de corrupio, um [cordão]
das exibições e celebrações festivas. alizadas no início e no final da noite os maracatus de Recife cortam por
volta por dento e o outro por fora”.
Sob a regência do mestre de caboca- de sambada, ‘abrem’ e ‘fecham’ o fora pra deixar o miolo livre e a maio-
samba. Nos três dias de carnaval (...) ria dos maracatus do interior cortam Nesse conjunto de coreografias indivi-
ria e “bocas de trincheira”, essa mo-
as manobras são parte dos rituais de por dentro. Aqui tá o mestre cabo-
vimentação espalhada dos caboclos, duais, de manobras e evoluções cole-
chegada e entrega que marcam o ci- clo e uma fileira vem pra cá e a ou-
ordenada em cordões, é chamada de tivas, é interessante perceber como a
clo: o início e o fim do carnaval. (Cha- tra pra lá, aí fica essa demora todinha
manobra, a qual, juntamente com a [enquanto cruzam os dois cordões]. dança dos folgazões do baque solto
ves: 2008, p. 24)
trincheira, acontece tanto nos ensaios Cortando por dentro os caboclos tem oferece elementos de permanência,
e sambadas, quanto nas apresenta- que passar tudinho, aí demora muito, claramente perceptíveis na descrição
ções de carnaval:
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que Roberto Benjamin publicou há Em algumas ocasiões ajoelham-se e


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trinta anos, por comparação ao que se curvam-se todos, levantando-se logo
aos pulos, jogando as lanças cheias de
verifica na atualidade:
fitas coloridas para cima. (Benjamin:
Os caboclos de lança são os responsá- 1982, p. 207 e 209)
veis principais pela exuberante core-
ografia, embora os caboclos de pena
e baianas também dancem. Os lancei-
Exuberante, sim, e cheia de violência
ros deslocam-se rapidamente em filas
indianas, retornando em movimentos
simbólica ainda hoje é a coreografia
semicirculares, ora na direção interior, dos caboclos de lança. No carnaval,
ora na direção exterior; às vezes em sobretudo, durante as apresentações
movimentos circulares envolvem o ante um palanque, o público continua
núcleo central; nos lugares em que se necessitando manter-se distanciado. A
concentram multidões, os caboclos
simulação de cerimônia guerreira, com
de lança dançam ameaçadoramente,
um gestual belicoso que transita entre
afastando os espectadores, brandin-
do as lanças pontiagudas e dando coi-
ataque e defesa, às vezes surpreende e
ces inesperados com os surrões por- assusta o espectador.
tadores dos barulhentos chocalhos.

NA TRINCHEIRA
Descreve Fernando Melo: “o mestre “caída de concentração”, movimento
A cerimônia da trincheira ou cerimô- cia ao poeta e líder maior do folguedo, apita, aí eles caem tudinho, só fica em ritmado que leva a uma queda de to-
nia de chegada dos folgazões, além de generosa oferenda do próprio corpo e pé o bandeirista, até as baianas tam- dos os folgazões, inclusive as baianas,
marcar, de modo ritual, a abertura do da própria vontade à alegria coletiva, bém caem, o rei e a rainha ficam em pé ficando de fora da caída apenas as fi-
ciclo carnavalesco, traduz-se em espe- singular maneira de “cair” e expandir e o mestre que canta. Aí quando ele guras que compõem o cortejo real. No
táculo de dança dos brincadores. Com a potência coreográfica de uma dança termina a marcha, o samba, ele apita momento da queda, cada caboclo tem
sofisticação e delicadeza, o mestre tira a que se faz de improvisos e liberdade e segue”. Depois de cantada a loa, o o seu próprio “saber cair”, conquistan-
loa, uma marcha em que chama o cabo- criadora. Quando sai da trincheira, ou- mestre apita freneticamente e levan- do reconhecimento exatamente pela
clo pelo nome. O folgazão atravessa o tro e outro, outros e outros vêm reve- ta a bengala dando o sinal para, mais qualidade desse movimento.
terreiro, pulando, jogando a lança para renciar quem simboliza, ali, Dionísio ou uma vez, os caboclos dançarem e rea-
o alto, vibrando os chocalhos. Vem aos Orfeu, o poeta-cantor, o dono da festa. Enquanto o mestre canta, os caboclos
lizarem as manobras. Quando o apito
pés do mestre do apito e dá uma caída, permanecem na posição da queda.
A chegada é ritual muito apreciado do mestre indica o recomeço da poe-
caída em que sobressaem, naquele mo- Quando o apito toca novamente, de-
por toda a comunidade e folgazões. sia, sinaliza-se a parada da dança, sem-
vimento, cerimonioso gesto de reverên- pois que o mestre conclui a estrofe,
pre finalizada com uma “descaída” ou
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é o momento de se levantar e seguir chegam, diante do mestre, baianas


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Reprodução

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a manobra. Coerente com a atitude e todo o miolo, que se vêem envol-
guerreira, sinalizada por termos como vidos pelas manobras dos caboclos
trincheira e manobra, a expressão viril da trincheira, em franca acolhida aos
da dança dos caboclos ganha em exu- folgazões. Domingo de carnaval pede
berância durante o manejo da lança para ser assim, no baque solto: com as
pontiaguda, objeto bélico que movi- manobras, as chamadas de caboclo,
mentam como se estivessem à procu- as evoluções no próprio terreiro, cada
ra do inimigo para atacá-lo, perfurá- maracatu, cada folgazão necessita do
-lo. No jogo de cena do passo feroz, prazer de ser evidenciado, de chegar
o caboclo de lança finge que vai para ao pé do mestre. Necessita da intra-
um lado, indo para outro, sincroniza o duzível alegria deste rito inaugural,
manuseio da lança, os movimentos do esta explosão que dança.
surrão, dos chocalhos, e o corpo, liber-
O maior segredo na arte de dançar ma-
to, saltitante, joga-se no espaço.
racatu quem dita é o modo de dançar
De caída em caída revezam-se os fol- de cada um. A propósito de estudos
gazões até todos poderem entregar- sobre cavalo-marinho, em cujo folgue-
-se à folia. Os mais experientes se do é possível identificar similaridades
posicionam à frente, lideram as evo- no expressar-se corporalmente dos fol-
luções da cabocaria. Ninguém deve gazões de maracatu, a pesquisadora
ficar parado, vários tipos de manobra Maria Acselrad entendeu o “pantinho”
acontecem, no ir e vir, no passar um ou “pantim” como uma categoria nati-
pelo outro como se tramassem, entre va que procura dar conta da expressi-
si, os fios dessa comoção. É a voz do vidade ou estilo pessoal que qualifica
mestre quem determina: de um em e individualiza o samba de cada brin-
um, de dois em dois, de três em três, cador, e que pode ser relacionado ao
de quatro em quatro vão chegando os conceito de qualidade de movimento,
caboclos de lança. Importa, quando se elaborado por Rudolf von Laban (Ac-
está no destaque, comover a platéia, selrad: 2002, p. 107). Assim, “o pan-
comover-se em gestos ritualísticos: tinho é o que diferencia e qualifica o
travessia do terreiro lançando a guia samba de cada brincador” (Acselrad:
para o alto, com o corpo saltitante fi- 2002, p.109). Aparentada à categoria
nalizando em genuflexão. Com a invo- do “pantim”, a expressão vernacular
cação aos caboclos de pena, a seguir “munganga” também poderia definir
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o que os dançarinos de maracatu de- tranhas da terra, com a dança da vida.


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senvolvem como expressão corporal A singular fluidez corporal com que se
estritamente singular que comunica, exprimem os brincantes de maracatu,
simboliza. Quem a utiliza de modo manejando categorias como espaço,
pertinente é o lavador de carro e ex- tempo, intensidade, forma, garantem a
-trabalhador rural de Nazaré da Mata, qualidade de movimento proposta por
Tonny Berto Nunes, que, ao ser en- Laban como condição sine qua non ao
trevistado em 1995 (Amorim: 1995), corpo cênico.
relembra o pai, caboclo de lança por

O verbo sedutor
Expondo à cena o que vai no mais ín-
mais de trinta anos, exatamente com
timo do ser, combinado com as sensa-
essa definição – “saía de casa de costas
ções mais emergentes, à flor da pele,
quando ia dançar: cada um fazia suas
a principal característica dessa dança
mungangas”. Similar à explicação de
folgazã é a liberdade criadora. Cada fo-
Edmilson Honório, quando fala sobre
lião coloca o próprio corpo em contato
a “pintura”, gestos praticados entre os
com a força da terra e com o ilimitado
lanceiros enquanto dançam no terreiro
do céu. Nos gestos rituais lanças para
de ensaios e sambadas: “ele tem mui-
o alto e agachamentos simbolicamen-
ta dança quando tá ensaiando, ele cai,
te unem Céu e Terra, com reverência e
se levanta, faz uma pintura pro outro, o
leveza. Sobressai quem domina a ma-
outro faz pra ele”.
estria do “jogo de pernas” e do “saber
Singulares na criação coreográfica de cair”, conforme definem os próprios Se as sereias de Ulisses queriam fisgá- memória coletiva e pelos territórios
cada folião, os repertórios de passos dançarinos dessa dança de folgazões. -lo pelos ouvidos, é justamente pelo do discurso poético. Homero, cego e
executados na dança do maracatu não A imponência e leveza dos movimen- ouvido que o verbo sedutor dos mes- poeta, é uma metáfora da palavra es-
possuem nome, são livremente impro- tos, o prazer de dançar, a irrestrita li- tres improvisadores nos hipnotiza. É sencial, invisível, sedutora, que, inscrita
visados pelos folgazões, que se comu- berdade na composição dos gestos um canto de sereia a sonora do mestre na memória e no ouvido, é voz e verbo
nicam e se expressam com o corpo em são construções sensíveis de poesia, de maracatu, que mobiliza em torno de fluindo paralelamente à materialidade
movimento. Estes movimentos, cuja beleza, espiritualidade, alegria. si apreciadores do verso feito na hora, da escritura.
“gramática” está por ser feita, consti- ágil, sagaz, inteligente. A senha de can-
O verso sedutor do poeta exercita a
tui-se no principal meio de expressão to e poesia, que nos abre as portas da
função de toda e qualquer retórica,
dos brincantes, quando se expandem, percepção, nos faz ir ainda mais profun-
quando laça o ouvinte. A técnica do dis-
inteiros, na poética folia de ensaios e damente nessa viagem, mergulha-nos
curso é que é especial: passa pelo verso
sambadas, comunicando, exprimindo, em oceano de signos e palimpsestos.
cantado, em explosão de rima, metro
significando, simbolizando a alegria de É a palavra a garantia de que não se-
e metáfora; passa pela transfiguração
ser e estar em comunhão com as en- remos náufragos nesse mergulho pela
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é performance coletiva de canto (voz contemporâneo” que está a poesia im-


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à capela e coro), de poesia (discurso provisada pernambucana, mesmo que
poético engendrado em melopéia, seja, de partida, uma expressão poética
fanopéia e logopéia), de dança (core- da tradição. Justamente no presente é
ografia feita de gestos espontâneos que se atualizam experiências do pas-
e de acasos, realçados pela ginga re- sado: com a força da palavra viva cons-
verberante da estridência metálica de truindo-se continuamente, elementos
chocalhos presos ao corpo), de música temáticos e, sobretudo, formais do
(percussão e sopro que alternam com cancioneiro e romanceiro tradicionais
as vozes), de gestos, de rituais religio- ibéricos aparecem, entrelaçados, em
sos (cumprimento de obrigação vinda vários folguedos e brincadeiras de rua,
dos terreiros de candomblé e/ou de como o coco, a ciranda, os cabocli-
umbanda), do ver e ouvir, do estar nhos, o maracatu, o boi, o cavalo-mari-
imerso num ambiente em que os cinco nho, o samba de véio, e em exercícios
sentidos, unos, carne viva em estesia, de poesia como o aboio, o repente de
afloram em intensidade máxima. Ínti- viola, a roda de glosa. À maneira de
ma consonância com o pensamento um caleidoscópio, tais elementos vis-
do semioticista russo Iuri M. Lotman lumbram sempre novas configurações
(1996: p. 24), na obra La semiosfera
– Semiótica de la cultura y del texto:

Maria Alice Amorim


“(...) sólo la existencia de tal universo
– de la semiosfera – hace realidad el
do cotidiano em imagem poética. E é ca à platéia: as musas passeiam sob céu
acto sígnico particular”. É neste con-
justamente essa transubstanciação que de estrelas e as sereias cantam.
junto, neste mosaico de confluências,
magnetiza o público, que o faz intera-
Nessa semiosfera, nesse tecido cul- de signos múltiplos e intercomplemen-
gir com o criador. Mas, o espetáculo do
tural que envolve os participantes do tares, nesta ambiência dos ensaios e
improviso verbal é espetáculo também
maracatu de baque solto, cada borda- sambadas de maracatu, preparatórios
visual. E mais: é sensação, é sinestesia.
dura tem um sentido, antes de tudo ao ciclo carnavalesco, que são desen-
É no conjunto da música, da dança, do
porque faz parte de um universo cultu- cadeados o prazer estético, a catarse,
canto, da embriaguez de infinito, da
ral, de um arrebatamento provocado o espírito lúdico, e se estabelece um
eternidade daqueles instantes de ma-
por um entrelace de explosões artísti- jogo de seduções no qual a metáfora
gia, do cenário previamente organiza-
cas, lúdicas, ritualísticas, socializantes. e a performance poética são a culmi-
do para o espetáculo da improvisação
Exercício de contemplação e algara- nância de um erotismo polifônico.
que a verve do poeta sobressai, e, em
via, de memórias inscritas no corpo,
performance sempre singular, comuni- É, portanto, na “semiosfera do mundo
Mestre Ivanildo Ferreira
140 141

tudo metrópoles, os quais se curvam, Se, desde os primórdios, poesia, can-


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interessados e reverentes, ante ela. to, música e dança se misturam nas
manifestações lúdicas e ritualísticas
Isto nos permite dizer, com Jesús Mar-
da humanidade, continua não sendo
tín-Barbero (2002: p. 289), em Oficio
diferente. No maracatu de baque sol-
de cartógrafo, que ambos – rural/ur-
to, em que a sambada ou o ensaio de
bano, periferia/centro - são um “espa-
barraca são o ponto alto dessa perfor-
cio comunicacional que conecta entre
mance poético-musical e coreográfica,
sí sus diversos territorios y los conecta
também não é novidade a apropriação
con el mundo”. Criando os versos em
ou releitura, por classes economica-
linguagem corrente, do cotidiano, vis-
mente superiores, de aspectos tradi-
ceralmente vinculados àquele ambien-
cionais recorrentes na cultura popular.
te de periferia rurbana, como disse Gil-
Nos últimos anos, está tão na moda
berto Freyre, os que fazem esta poesia
conhecer e cantar samba de maracatu
– a dos maracatus de baque solto - são
que a gravação do gênero tem proli-
trabalhadores rurais da palha da cana,
ferado rapidamente, na voz dos pró-
pequenos agricultores que vivem da

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Mestre Biu Ferreira lavoura de subsistência, trabalhadores
da construção civil, servente de esco-
do expressar-se poeticamente, apon- – para melhor apreendê-la – efetuar la pública, fiscal de feira, comerciantes
tando para a natureza múltipla de um um registro etnográfico das circunstân- autônomos e/ou ambulantes, dentre
universo poético-musical de riqueza cias em que se dá o improviso poético; outras profissões classificadas econo-
inesgotável, pouco estudado como um que nos impele a realçar a importância micamente como de baixa renda. Os
corpus em que tradições milenares do do espaço da cidade, encruzilhada de temas que desenvolvem em poesia
verso rimado e metrificado dialogam idéias, sensações, de identidades e di- relacionam-se, claro, com o cotidiano
com as práticas de poesia e festas de ferenças, de transmissão e recepção deles próprios, os mestres, e dos de-
rua do mundo contemporâneo. poética em processos comunicacionais mais brincantes; com o sentido da vida
que não dispensam absolutamente a e o prazer de jogar o jogo das palavras
Uma realidade de identidade e alteri-
mídia do corpo, a antena parabólica, que surpreendem.
dade entremeados, conforme o con-
o telefone celular, a Internet, o CD, o
ceito de mestiçagem em Laplantine e E mais, assuntos outros “estranhos”
DVD, nem prescindem de uma poe-
Nouss (1997: p. 82). Uma realidade de à comunidade e temas vinculados ao
sia que, em formas e temas, reporta-
entrelaçamentos e interconexões de mundo das mídias digitais desabro-
-se livremente ao meio rural e urbano,
signos múltiplos que nos impele a re- cham com velocidade, porque o sam-
à periferia onde vivem os brincantes e
alçar a necessidade incontornável de ba de maracatu agora está na moda.
poetas ou aos centros urbanos, sobre-
Mestre Mutruca
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diante de admiradores, num ambien- admitem que os versos gravados são


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te propício à emulação poética. Neste preparados em casa. Isto não desonra
tipo de ambiente, ainda assim o poeta o talento, é, entretanto, como foi dito,
consegue driblar o público, levando uma experiência diferente. O calor do
uns sambas preparados, conhecidos improviso se esvai, mas a força da me-
como balaio. Portanto, não é de admi- táfora é quem vai dizer se o poeta é
rar que todos os que foram num estú- bom mesmo.
dio para gravar CD solo ou em dupla

LOCAL, UNIVERSAIS

É, portanto, em territórios físicos, an- cidades da Zona da Mata Norte ou Mata


tropológicos, sociais, psicológicos, afe- Setentrional, o folguedo vincula-se, de
tivos, a um só tempo locais e universais, um modo geral, e em decorrência da lo-
territórios de convergência e diferença, calização geográfica, aos afazeres do ru-
que acontece a brincadeira. Sediada em rícola da indústria açucareira, trabalha-

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prios mestres autores dos sambas e na mídia do corpo, novos suportes para
voz de compositores/cantores da mú- se comunicar com a platéia, embora
sica rotulada de étnica. A conservação nada disso possibilite substituir o pra-
e repetição de versos, anteriormente zer de vê-los cantar improvisado em
retidos apenas na memória humana e plena interação com o público. Esse
em precárias gravações com equipa- espetáculo, essa envolvência com a
mento portátil, cantados e recitados comunidade, uma gravação de disco
de cor pelos amantes da poesia de não dá a conhecer, é claro. Imaginar
maracatu em mesa de bar, na quitan- apenas também não confere a força
da, na rua, em casa, ganham novos ar- que a brincadeira tem. Para o mes-
quivos. tre, entrar num estúdio é também
uma experiência diferente da que está
Isto não é mau para os mestres sam-
acostumado a enfrentar, que é ver-se
badores, que passam a usar, além da Catitas
144 145
(...) nas linhas pares (ABCBDB), enquanto na
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do maracatu há predominância de rimas
Lá existe tudo quanto é de beleza emparelhadas (ABBCCB) e somente a
tudo quanto é bom, belo e bonito, primeira linha não rima. Isto, quando o
parece um lugar santo e bendito
mestre não pega na deixa (leixa pren),
ou um jardim da divina Natureza:
o que não é obrigatório. Nas décimas
imita muito bem pela grandeza
de maracatu, o esquema de rima pode
a terra da antiga promissão
variar em ABBCCDDEED, ABBCDDCE-
para onde Moisés e Aarão
EC ou em algum outro modelo mais
conduziam o povo de Israel,
onde dizem que corriam leite e mel desamarrado na rima e na quantidade
e caía manjar do céu no chão. de linhas (ABBCCDDEEFFE), embora
a estrofe clássica seja a mais praticada
(ABBAACCDDC). Esta certa fixidez dos
gêneros poéticos oferece importante
contribuição ao território movente das
A poesia de folhetos, também conheci- tradições.
da como literatura de cordel, recorre à
Mestre Zé Sinfrônio
utilização de alguns tipos de estrofe de
formas fixas, como as sextilhas e a dé-

Maria Alice Amorim


dor rural que não necessariamente vive (...) cima acima transcritas. No maracatu de
no campo. Grande parte deles mora baque solto, os principais tipos de estro-
nas regiões periféricas urbanas, entre- Maniva lá não se planta fe utilizados são quadra, sextilha e dé-
tanto mantêm hábitos da vida campes- nasce e invés de mandioca cima, nomeados pelos próprios poetas
tre, como criar animais e cultivar lavoura bota cachos de beijús e pelos brincantes de marcha (quadra),
e palmas de tapioca galope e samba curto (sextilha) e samba
branca (de subsistência). E, mais, feste-
milho a espiga é pamonha comprido (décima). Normalmente em
jam memórias de uma vida harmônica
e o pendão é pipoca.
no meio da natureza, acalentadas pelo verso de redondilha maior, o setissílabo,
mito fundador de um paraíso terrestre, ou em decassílabo, comumente usados
a exemplo do País de Cocanha ou do na poesia tradicional nordestina. Na va-
As canas em São Saruê
nordestino País de São Saruê, tão pre- riedade de gêneros, também varia o rit-
não tem bagaço (é gozado)
sente no imaginário popular e sempre umas são canas de mel
mo com que cantam. Embora haja cons-
revisitado, inclusive com a ajuda dos outras açúcar refinado trução de estrofes semelhantes à dos
versos clássicos do famoso cordel de as folhas são cinturão versos da poesia de viola e de cordel,
Manoel Camilo dos Santos (1977: p. 13 de pelica e bem cromado. na rima nem sempre acontece o mes-
e 19): mo. Na sextilha de folheto, a rima se dá Baiana Zezé
146 147

FIOS DA TRADIÇÃO
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Lídia Marques

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Cultura é memória, transmissão e recep- cultural em que a força dos tambores
ção, movência e invariâncias, performan- jeje-nagôs do maracatu nação ou de ba-
ce. Na voz e no corpo atualiza-se a tradi- que virado é mundialmente conhecida,
ção cosida com as fibras do lembrar e do difere o maracatu rural ou de baque sol-
esquecer, do ontem e do agora, da mo- to por não descender exclusivamente da
bilidade, das circularidades da cultura. O instituição dos reis de congo.
fio da tradição conduz o homem pelos
É brincadeira híbrida, mestiça, sím-
labirintos das infinitas possibilidades do
bolo da combinação de expressões
fazer cultural e justo nas diferenças des-
populares ibéricas e afro-indígenas
sas encruzilhadas nos reconhecemos.
– cambindas e outros folguedos vin-
Para ler o ambiente, a poesia, as sensa-
culados ao rito de coroação dos reis
ções, para melhor compreender o que
negros, bumba-meu-boi, caboclinhos.
se passa durante os ritos preparatórios
Há um cortejo real: rei e rainha desfi-
ao ciclo carnavalesco, torna-se soberano
lam sob um pálio, acompanhados de
tentar responder à seguinte pergunta: o
dama, valete e dois porta-lampiões.
que é mesmo maracatu? Num cenário
Há personagens denominados de su-
jos saídos do cavalo-marinho, auto pena (este, caracterizado como um ín- ce, na rima e na métrica, a esquemas
de natal que dialoga com a teatrali- dio, é também chamado de arreiamá, de estrofes de formas fixas, em conso-
dade da Commedia dell’Arte italiana ou seja, aquele que deve arriar o mal, nância com a poesia tradicional que se
(os sujos, por causa do corpo tisnado uma espécie de pajé ou feiticeiro). Há, pratica em terras nordestinas e aponta
de preto, são a burrinha, o babau, o ainda, o balizeiro, o símbolo e o porta- algumas semelhanças à do romanceiro
caçador, a dupla clownesca Mateus e -símbolo, o bandeirista conduzindo ibérico trazido na bagagem dos colo-
Catirina). Há um baianal ou cordão de o-estandarte. Há o mestre, o contra- nizadores portugueses. O maracatu de
baianas, dentre as quais destacam-se mestre, a orquestra. baque solto tem forte tradição na palha
as damas do buquê, a dama do paço, da cana, sobretudo na Zona da Mata
a dama da boneca. As bonecas ou ca- A música é feita com instrumentos de
Norte, em Pernambuco, o que apare-
lungas, preta e/ou branca, carregadas sopro e percussão, e o mestre entoa
ce, de forma recorrente, na temática
por baianas, são objetos rituais. Ne- versos improvisados e/ou decorados,
do improviso dos mestres. Na década
las, e na fantasia de baianas e damas, mas não acompanhado do instrumen-
1930, com a migração de rurícolas para
pode-se perceber vínculos com o cul- tal. A orquestra pára e o mestre entra,
áreas urbanas, começou a aparecer no
a cada vez, com uma estrofe das toa-
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to aos orixás pela cor da roupa e por Recife, e hoje podemos encontrá-lo na
adereços que portam na cabeça e nas das e loas que desfia ao longo da apre-
Mata Norte, Mata Sul, Região Metro-
mãos. Há os caboclos de lança e os de sentação. A construção poética obede-
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Integrantes do ciclo carnavalesco, os culados a terreiros de umbanda e can-


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maracatuzeiros abrem a temporada em domblé, em todas as situações que in-
setembro, coincidindo com o início do cluam a passagem diante de uma igreja
estio e da colheita da cana-de-açúcar. católica, os brincantes não dispensam
Não gostam de se apresentar em agos- reverências, evoluções coreográficas
to porque o consideram um mês azia- e versos laudatórios ante o templo, à
go. O fechamento do ciclo também não semelhança da cerimônia de coroação
se dá após o carnaval, mas no domin- de reis negros no período colonial. Esta
go de Páscoa, com o que eles deno- é, possivelmente, mais uma confluência
minam de carnaval de páscoa, espécie dos maracatus rurais com tal festejo.
de mi-carême ou micareta. Mesmo vin-

O ENSAIO OU A SAMBADA

Mesmo dizendo-se constantemente gistros orais, dos dois mais antigos gru-
que a poética tradicional nordestina - pos em atividade – o Cambindinha, de
aparentada com a poesia tradicional 1914, e o Cambinda Brasileira, de 1918
ibérica – é uma peculiaridade indissoci- – e onde, inclusive, nasceram grandes
ável do sertão, em Pernambuco pode- mestres de poesia tradicional.
politana e até na Paraíba. de madeira, antigamente forrado com mos provar que não somente em terras
pele de animal (hoje com um tecido à sertanejas cultiva-se o prazer dos jogos
O visual é muito bonito, sobretudo o
imitação de), que sustenta um conjunto verbais do improviso poético. Além
dos caboclos de lança, que portam um
de chocalhos os quais funcionam como das cidades de Tracunhaém, Itaquitin-
manto (chamado de gola) enfeitado de
idiofones de percussão quando em ga, Condado, Aliança, Buenos Aires,
lantejoula, miçanga, vidrilho, canutilho,
movimento. O conjunto da fantasia, Vicência, Paudalho, Araçoiaba dentre
cujos bordados são, preferencialmen-
que eles próprios chamam de arruma- aquelas em que sobressaem a poesia
te, flores, volutas e arabescos, além
ção, pesa em torno de vinte quilos ou dos mestres e o baque solto como dis-
de desenhos figurativos, como o da
mais, principalmente quando molhada, putadas atrações carnavalescas, estão
fuga de Jesus para o Egito. Na cabeça,
pelo suor e/ou chuva. Para habitantes as quatro mais importantes da micror-
um chapéu recoberto de tiras multico-
da região em que predomina o mara- região da Zona da Mata Norte: Goia-
res de papel brilhoso ou celofane. Na
catu de baque solto, esta brincadeira na, Timbaúba, Carpina e Nazaré. Esta
mão, uma lança pontiaguda revestida
também é conhecida como coisa de última – Nazaré da Mata - é difundida

Lídia Marques
de fitas coloridas que pendem ao lon-
catimbozeiro, pela afiliação de compo- como o berço dos maracatus rurais,
go dela e correspondem, uma a uma,
nentes ao culto à jurema e à umbanda, onde figura o surgimento, conforme re-
a mil histórias dos carnavais brincados.
além, claro, do vínculo já mencionado Sambada no Parque dos Lanceiros
Nas costas, carregam um engradado
aos terreiros de candomblé.
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Piaba de Ouro, à frente Mestre Grimário e Dinda Salu, chegando ao Parque dos Lanceiros,
Mestre Dedinha para sambada com o Leão de Ouro de Nazaré

E é aí, nessas poéticas de tradição Este “saber-ser” é o que vivenciam de caráter único, efêmero, sem direito Brasil para referir-se à voz e performan-
oral, que Paul Zumthor (1997: p. 157), o mestre e seu respectivo auditório, a rascunho, como a vida. ce vocal do poeta de viola. É impensá-
em obra mencionada, aponta a voca- em performance coletiva, num exercí- vel que o público vá e não consiga ou-
O espaço em que se desenrola o en-
lização, a disputa verbal como o clí- cio pleno do sentido de pertença ao vir ou entender o que o mestre canta.
saio ou a sambada é geralmente uma
max de uma conversa entre poeta e grupo e do sentido de haver, ali, uma Ver e ouvir o desfiar de versos é a prin-
ponta de rua, nos subúrbios, num lo-
platéia, entre poetas e platéia. “Per- teia cultural de múltiplos fios tensio- cipal, mas não única, atração de uma
cal em que a referência seja a sede
formance implica competência. Além nados pela dialogia e pela busca de festa dos sentidos, que só acaba quan-
da agremiação, a casa de alguém que
de um saber-fazer e de um saber-dizer, razões mais prazerosas para se viver. do o poeta pára, ao amanhecer do dia.
apóia ou participa da brincadeira, um
a performance manifesta um saber-ser Nesse jogo de seduções em que se O ambiente é dionisíaco, a medida do
bar ou bodega no bairro onde se reú-
no tempo e no espaço. O que quer configura a situação de performance, beber é a embriaguez, a medida do
ne o maracatu. O clima é festivo, a rua
que, por meios lingüísticos, o texto lembra Zumthor (1997: p. 133), tudo é dançar é a exaustão, a medida da po-
recebe iluminação extra, um carro de
dito ou cantado evoque, a performan- sincrônico: improvisação, transmissão, esia é o verso tradicional improvisado
som ou bocas de megafone amplificam
ce lhe impõe um referente global, que recepção, fruição acontecem a um só e cantado pelo mestre, verso cuja in-
a voz do poeta, voz que denominam de
é da ordem do corpo. É pelo corpo tempo, simultaneamente, e, por isso, tensidade é o talento para as imagens
sonora - mesma expressão usada entre
que nós somos tempo e lugar: a voz “não pode comportar nem arranhões, poéticas quem vai dar a medida.
violeiros repentistas do Nordeste do
o proclama emanação do nosso ser.” nem arrependimentos”. É uma poesia
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que a longa lança, e o espírito de luta a ponta apoiada no chão. Além disso,
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consegue ser encenado, de forma mais os dois porta-estandartes têm cruzar
clara, em dança coletiva. É aí que os as bandeiras para, em seguida, cada
dançarinos se movimentam com agili- grupo prosseguir. O modo de o lancei-
dade, por não portarem a vestimenta ro chegar-se aos outros implica regras
carnavalesca, pesada, que limita o ges- definidas: a lança apenas é propiciado-
tual. ra da simulação de luta, o uso fica no
nível do simbólico e da representação
Não é, pois, só em palavras que se tra-
teatral. Quando conversam, entre si, a
va um combate imaginário: a dança é
“arma” é posta de lado. Tais indícios
guerreira, os instrumentos são de guer-
mostram clara sintonia com o universo
ra. Durante a execução da coreografia,
mítico das cavalarias medievais, que
a lança é empunhada de modo a simu-
perpassa toda uma vivência cultural do
lar um ataque frontal ao inimigo. Quan-
mundo nordestino.
do dois grupos se encontram na rua,
frente a frente, a lança deve ser apoia- O mestre de poesia, à sua vez, empunha
da no solo, em posição vertical e com um bastão ou batuta, que eles próprios
Sambada no Parque dos Lanceiros

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Há amistosidade propícia a cumpri- investidas contra o parceiro quando
mentos, conversa de compadres e co- executam coreografia a dois, a três, a
madres, comentários sobre o dia-a-dia, quatro, coreografia caracterizada pelo
troca de opinião sobre assuntos polí- improviso e pela encenação de investi-
ticos, olhares curiosos de grupos ad- das de combate, de luta corporal.
versários, bisbilhotice de vizinhos que
Os dançadores empunham um peda-
não curtem participar daquilo, e toda
ço de madeira, à imitação de espada
uma gama de relações interpessoais e
ou lança. Durante o carnaval, ou nas
grupais. As crianças adoram se embre-
apresentações em que estão com a
nhar no meio dos dançarinos e imitar
indumentária de festa, os brincantes
os adultos. Estes, por sua vez, agem
chamados de caboclo de lança portam
como crianças em plena diversão, no
uma lança de madeira revestida de fi-
mais sincero espírito lúdico. Os baila-
tas coloridas e terminação pontiaguda
dores – menino, jovem, adulto, velho
pintada. Nos ensaios e sambadas, esta
- cultivam o espírito de emulação na
é substituída pelo pedaço de madeira,
gaiatice do molejo do corpo, nas falsas
que é manejado mais facilmente do Sambada no Parque dos Lanceiros
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costumam nomear de bengala. Nela, cavaleiresco medieval, conforme Jeru- tão. Os saltos sobre o outro parecem
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concentram-se poder e força poética, sa Pires Ferreira (1993: p. 92-101) ex- um bote. Há passos frenéticos, que exi-
sobretudo ao que reportam simbolica põe, em detalhes, no livro Cavalaria em gem firmeza e agilidade nas pernas. É
e religiosamente. Há diversos aros de Cordel. uma festa de corpos em transe, onde a
metal que a envolvem, significando vi- bebida sagrada é a cachaça, a famosa
Quanto ao corpo a corpo do verso, na
tórias e poderes secretos vinculados à pinga ou caninha, não por acaso fabri-
peleja entre dois mestres de maraca-
magia operada com a ajuda de mestres cada com o sumo da cana-de-açúcar,
tu, a ambiência não se restringe a uma
e caboclos dos terreiros de umbanda. mais um dos elementos constitutivos
torcida, tampouco é estática. O terno,
É sempre empunhando a bengala que do cenário cultural. O transe pode re-
composto de percussão e sopro, inci-
o mestre vai enfrentar outro mestre e sultar, para além do êxtase da festa,
ta à dança, dança guerreira, viril, e ao
dialogar com a platéia. A batuta do naquilo que chamam de incorporar, ou
mesmo tempo, sutil e sofisticada. As
mestre e a lança do caboclo, tratados seja, na acolhida corporal dos orixás do
mulheres rodopiam, balançam-se indi-
como objetos mágicos e representati- candomblé ou de entidades da umban-
vidualmente. Como foi dito antes, os
vos de poder, fazem emergir a simbo- da.
homens dançam como se estivessem
logia da espada e da lança, recorrente
lutando, de dois em dois, ou em peque- Há pessoas que dançam atuadas, ou
nas histórias de cordel vinculadas aos
nos grupos; a arma de guerra é o bas- seja, possuídas por espíritos que nor-
ciclos arturiano e carolíngio do mundo
malmente recebem no catimbó e na
umbanda, durante cerimônia religiosa.

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Sambada no Parque dos Lanceiros
Para evitar que isto aconteça – consi-
derado como um inconveniente, nem destaque e, ao mesmo tempo, ofere-
sempre controlável por não se passar cem um pedaço de rua ou terreiro para
no ambiente próprio para tal –, faz- que os dançarinos possam se espalhar.
-se uma defumação do ambiente, com Estabelecer-se neste lugar também exi-
charuto e cachimbo, em oferenda às ge um ritual. O mestre faz as saudações
entidades que, ocultamente, também iniciais diante da sede do brinquedo,
estão ali. Justo em reverência a es- em seguida, faz um desfile por algumas
tes participantes, o mestre, quando é ruas, cantando sempre, acompanhado
um iniciado, começa e termina a festa pelos músicos e brincantes organiza-
com o que chama de abrir e fechar a dos em cortejo.
seara. Os primeiros e os últimos versos
É imprescindível percorrer a encruzilha-
da noitada de poesia são dedicados a
da mais próxima desse trajeto e fechá-
pedir e a agradecer a participação de-
-la palmilhando cada braço da cruz no
les. No cenário do torneio poético, o
sentido de ir e vir ao centro dela, para
mestre e os músicos ocupam local de
Beija-Flor de Ferreiros, à frente Mestre Zé Galdino e Contramestre Barra Mansa, no Terreiro Leda Alves que assim se desfaça qualquer feitiço
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ali despachado. Quando é apenas en- Às vezes, a disputa poética entre dois
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saio, o grupo percorre ruas e volta ao mestres parece uma litania e/ou lato-
local onde se dará a festa. Quando é mia, com a força de temas repetitivos
sambada, o grupo anfitrião cumpre na provocação de um ao outro. Isto
esse ritual de inauguração da brinca- também lembra o entoar de mantras,
deira e aguarda, a seguir, que o grupo que serve justamente para acalmar, ex-
rival chegue, também fechando uma purgar maus pensamentos, purificar o
encruzilhada e percorrendo um certo espírito. Como a noite é toda para o
trajeto até o local preestabelecido para prazer, a folia, a catarse, não há pressa.
a noitada. Até na forma de o adversá- Tudo tem que ser bem repisado, reba-
rio chegar está evidente o impulso ao tido, porque a noção de tempo crono-
combate. É praxe o rival querer chegar lógico se perde nesse intervalo praze-
de surpresa, à imitação de uma embos- roso, nesse hiato entre as agruras do
cada. Assim, cenário pronto, folgazões cotidiano. Porque tudo sai da boca e
guerreira e lascivamente convocados, vai direto aos ouvidos. Cabe à audição
suspenda-se a realidade, porque todos fixar os versos na memória. Faz parte
agora querem beber palavras e entra- do processo mnemônico repetir, repe-
nhar-se de poesia. tir, repetir. Isto alimenta a memória au-
ditiva, facilita a reprodução desse dis-
curso de oralidade. A poesia cantada
do mestre de maracatu, prática cultural
localizada num espaço/tempo, é obra
num contínuo fazer-se em performance
sempre singular.

Há momentos que determinam cer-


ta hierarquia no que o mestre produz
durante a exibição do talento poético-
-musical. Consideremos, inicialmente,
o ensaio - ensaio de sede ou ensaio de
barraca - momento em que os com-
ponentes de um maracatu se reúnem,
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em torno do mestre e brincam a noite


inteira, na própria sede, no terreiro de
algum componente do grupo ou em

Mestre Veronildo
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espaço público (calçada de bar, largo numa linguagem cheia de clichês, fór- mados, metrificados e despojados de afora e, mais, há toda uma simbologia
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de igreja, praça, rua) vinculado a inte- mulas previamente planejadas e repe- sofisticação metafórica. Os versos são relativa ao uso deles em ritos agrários.
grantes da brincadeira. Nessa prepa- tidas à exaustão a cada ano, em qua- cantados pelo poeta, no intervalo mu- São anexados ao corpo para afugentar
ração do grupo para o carnaval, pode- se todos os ensaios (Amorim: 2003, p. sical dos instrumentos, e há o coro que maus espíritos em cerimônias propicia-
mos dizer que a interação mais íntima 123). sempre repete uma ou duas linhas de tórias.
do poeta com o público que o rodeia cada estrofe. Empunhando a batuta
O que acontece é que, se o grupo per- Também conhecido como maracatu
começa justamente nos cumprimentos (bengala), mais um apito para marcar a
manece sediado num mesmo lugar, a de baque solto – motivado pela bati-
da noite aos presentes, aos familiares, entrada e saída da voz em contrapar-
vizinhança é basicamente a mesma, os da solta da percussão, ou maracatu de
aos amigos de infância, a autoridades, tida aos instrumentos musicais, mão
freqüentadores assíduos são conheci- orquestra - por causa dos instrumentos
a policiais que devem garantir a ordem em concha sobre o ouvido, palavra viva
dos, os dirigentes da agremiação ocu- de sopro, a execução da música nesta
no ambiente, aos integrantes da dire- percorrendo o corpo em espasmo, o
pam durante anos o mesmo cargo. A modalidade de maracatu é subdividi-
toria da brincadeira. Começa com os mestre mastiga os versos em lábios se-
maneira de pedir apenas se adapta ao da, pelos próprios maracatuzeiros, em
pedidos de bebida, doada mediante micerrados até expulsá-los e transfor-
nome das pessoas, vez que o apelo é dois grupos: o terno, que correspon-
convocação em versos, para ser con- má-los em palavra coletiva.
nominal, construído em quadras. O pe- de à percussão, e musgos ou músicos,
sumida pelos músicos. Começa, igual-
dido de bebida e os cumprimentos não O transe do grupo é propiciado por quando se trata do sopro. À medida
mente, com antigo costume de tecer
passam de formalidade que, naquele esta voz do poeta e pela execução de que executam o ritmo, a platéia, forma-
loas aos presentes. Esses versos saem
contexto, são expressos em versos ri- ritmos saídos do bombo, tarol, gon- da quase que totalmente por brincan-
guê, cuíca ou porca, ganzá, trombone, tes, dança freneticamente, porque está

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trompete, piston, clarinete, saxofone. ali para se exercitar fisicamente, para
Os chocalhos presos às costas dos ca- se divertir e, mais que isso, exercer o
boclos de lança - uma média de cinco direito de pertença àquele conjunto de
para cada folgazão - acrescentam mu- pessoas. Os olhos passeiam pelo cená-
sicalidade aos instrumentistas, pro- rio, o corpo interage em êxtase coleti-
duzindo sons variados, conforme os vo, mas os ouvidos não se dispersam
tamanhos. Chamados de idiofones de do essencial: a voz do mestre e o que
percussão, este elemento sonoro apa- ela tem para comunicar.
rece em diversas brincadeiras de rua,
O ensaio pressupõe a presença de
como na indumentária dos caretas de
apenas um poeta em exibição. Como,
Semana Santa e dos caretas de carna-
normalmente, existe em cada grupo
val, vistos no sertão de Pernambuco, e
um mestre e um contramestre, quan-
na dos caretos da Festa dos Rapazes,
do se anuncia que determinado grupo
no Nordeste de Portugal. Sabe-se que
vai fazer um ensaio, já se sabe que o
é freqüente a presença de chocalhos
espetáculo e a grandeza da noitada fi-
nas mais variadas festas de rua mundo
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carão sob a responsabilidade daquele esforça para suplantar os dotes poéti- sorverem tal preparado, os olhos ficam pode ser tocado por ninguém, exceto
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sambador. O ajudante faz revezamen- cos do adversário. O termo sambada ultra-sensíveis à luz e, por isso, andam pelo padrinho ou madrinha, a pessoa
to, canta durante algum tempo para pé-de-parede também é utilizado para sempre de óculos escuros. Outro mis- que prescreve as obrigações religio-
propiciar instantes de descanso ao ti- a mesma celebração, e alude a termi- tério diz respeito à saída de casa: nun- sas e calça os objetos. Não é somente
tular e, claro, poder oferecer um pouco nologia (pé-de-parede) usada entre os ca saem de frente para a rua, ou seja, o caboclo de lança quem procura um
do próprio exercício de poesia. Geral- cantadores de viola com idêntico sig- nunca dão as costas para a casa. Saem calço, quase todos os componentes
mente o contramestre é um aprendiz, nificado de disputa acirrada. Pois bem: olhando para a própria casa, escolhem da brincadeira freqüentam algum ter-
alguém que ainda não goza da mesma na sambada, a ambiência oferece mais uma janela, de onde dão um salto mor- reiro de candomblé e/ou de umban-
reputação daquele que representa o vivacidade, exatamente por este espí- tal para a calçada e, assim, ganham a da e buscam a devida proteção. Mes-
professor. Além dos dois poetas, sem- rito de competição. No início também rua. mo os não adeptos são convidados a
pre há no meio da platéia mestres de há os pedidos de bebida, cumprimen- cumprir preceitos e interdições, como
Diz-se, ainda, que pactuam com o
outros maracatus, que são chamados a tos, agradecimentos. Cada mestre re- obedecer a abstinência sexual durante
diabo, e muitos deles simplesmente
cantar, um de cada vez. É de praxe que cebe os brincantes do próprio grupo, o período do carnaval e mais sete dias
sumiram em alguma encruzilhada ou
estes sempre prestigiem a apresenta- que chegam realizando coreografias antecedentes. A vasta cabeleira colori-
ficaram loucos após o carnaval. Usam
ção dos companheiros. Isto enriquece nomeadas por eles de manobras. da, o cravo branco, a lança, os óculos
um cravo branco na boca que não
ainda mais a sessão de poesia. Mesmo escuros, e todo o mistério que envolve
Os caboclos de lança se apresentam
que algum deles não queira ir até ao
à vontade, sem indumentária prede-
microfone, nem queira ouvir a própria
finida, vestem calça comprida, camisa
voz amplificada num carro de som, ne-

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geralmente estampada e de manga
nhum passa despercebido, e vira mote
longa, lenço em forma triangular amar-
dos versos de quem está cantando. A
rado sobre a cabeça, galho de arruda
interação entre poetas é inevitável, as-
(ou alguma outra planta de caráter pu-
sim também a avaliação crítica, velada
rificador, como pinhão roxo, alfavaca
ou explícita, elaborada pelos que assis-
de caboclo, manjericão) na boca, atrás
tem à exibição dos colegas de poesia.
da orelha ou pendurado no peito. Dos
Na sambada, o que marca a diferença personagens do maracatu de baque
quanto ao ensaio de barraca é, sobre- solto, este é tido como o mais emble-
tudo, a exaltação de ânimos – da pla- mático, em decorrência de alguns as-
téia e dos poetas – por se tratar de uma pectos que o revestem em aura mítica.
peleja, de um embate. Ensaio noturno Um deles é o fato de se dizer que os
preparatório para o carnaval, é uma caboclos bebem uma mistura à base
sessão de poesia improvisada em que de pólvora, limão e cachaça, conheci-
dois mestres de dois maracatus dife- da por azougue, e que os fazem ficar
rentes pelejam entre si, e cada um se alucinados. Diz-se, ainda, que após
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uma conversa entre poetas. A sambada mestres de maracatu, pois, se o cordel


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é, pois, uma conversa rimada, metrifi- e a improvisação executada pelos mais
cada. É uma construção poética dialó- variados tipos de repentistas mostram-
gica, um combate em que “a palavra se -se tão peculiares às tradições culturais
torna a ocupação primordial de rivais”, do Nordeste brasileiro, não é extrava-
conforme explicita Jerusa Pires Ferreira gante considerar tais expressões poéti-
(1993: p. 79-80), em livro anteriormen- cas veios de um mesmo rio de rimas e
te citado. Esta rivalidade figadal bem metáforas.
se aplica à poesia improvisada dos

COM MESTRES DE POESIA

Para tratar de forma mais concreta des- dente sai em samba curto, modalidade
ses afluentes que em algum ponto se em seis linhas, conforme alguns versos
cruzam, e desse discurso poético dos a seguir, que descrevem um vigoroso e
mestres de maracatu, repassemos al- simbólico embate corporal:
Mestre João Júlio
guns dos versos de memorável sam-
bada acontecida no dia 24 de janeiro
o caboco transformaram-no num ícone diante do mestre e dos músicos. Isto Bacalhau
de 2004, em preparação ao carnaval
da cultura pernambucana. O mestre da é repetido pelo mestre convidado du- Vou te bater
daquele ano. O mestre João Júlio, do De sola e de cinturão
cabocaria, quando é um iniciado nos rante a exibição do próprio grupo. O
maracatu Leão de Ouro, de Nazaré da (bis)
terreiros, credita o mistério à força das visitante não vai sozinho cantar no ter-
Mata, disputou numa metafórica luta Vou da-te tu uns empurrão
entidades que os caboclos atraem. reiro do anfitrião, leva consigo músicos,
corporal, o título de melhor da noite, O tempo muda de clima
componentes da diretoria e folgazões.
Nos ensaios e sambadas, despidos da com o mestre Bacalhau, do maracatu Eu vou é sambar em cima
Após o ritual de chegada de cada um
vistosa e pesada fantasia de carnaval, o Cambinda Nova, do Recife. A peleja E você deitado no chão
dos dois maracatus, inaugura-se a pe-
vigor dos caboclos sobressai em dança aconteceu diante da sede do Leão de
leja e os dois mestres passam a alternar
e representação teatral de festa guer- Ouro, numa rua poeticamente apelida- João Júlio
as estrofes com desaforos, empáfia,
reira. Enquanto o mestre vai cantando da de rua do Rio, do igualmente po- Não tá cantando
emulação e competitividade acirrada. Porque perdesse o cartaz
loas aos componentes do grupo, eles ético bairro do Sertãozinho, em Naza-
desfilam pelas ruas próximas ao local Todo o beabá desse rito imagético é ré, cidade pernambucana tida como a (bis)
De todo jeito fica atrás
da apresentação, exibem coreografias descrito em poesia, até chegar ao âma- meca da poesia dos mestres de ma-
E o pobre está perdido
em duas filas e em movimentos circu- go da questão: a peleja improvisada. O racatu. No frenesi de comparações e
Menino até bandido
lares, fazem piruetas e agacham-se corpo a corpo do verso é o ápice de metáforas, a provocação mais contun-
já não quer responder mais
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individual, o início – pedido de bebidas antecipação da vitória, exercitada nos comprido em oito, dez, doze, catorze,
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
Bacalhau e cumprimentos – é composto de mais versos de cada um dos poetas, é recor- dezesseis linhas. João Júlio e Bacalhau
O velho é doido “versejamento” do que mesmo poesia, rente no debulhar do embate verbal, mostraram isto na referida peleja, nos
Além de besta ainda é mudo sobretudo em construções de metalin- versos a seguir e em outros mais adian-
(bis) guagem: te transcritos:
E o sor é mei carrancudo Bacalhau
Chaminé trouxe a fumaça Fui nas Flores já voltei
Saiu pra beber cachaça Pedi bebida a meu povo João Júlio João Júlio
Comeu com casco e tudo (bis) Eu achei muito importante Meu peixe saiu da lagoa
(...) Não precisou rapidez Mas colega esse camin Tão contente e satisfeito
Tô no batente de novo Sua sambada mal feita Batendo c’a mão nos peito
(bis) O povo achano ruim Dizendo eu não me sai mal
João Júlio Uma sambada tão feia (bis)
Eu sambo Sem entrada e sem camin Dizendo que rim (ruim) é igual
é no desenrolar do véu da noite que
Porque tem categoria (bis) Pra fazer o que ele quer
despontam as melhores surpresas. E a
(bis) Se quer samba peça a mim Saíste de Nazaré
Porque tu com anarquia Pa não se sentir tão mal Se acabou-se o Bacalhau

Maria Alice Amorim


Em cima desse terrestre Se é sambar com Bacalhau
Nunca mais você faz teste É melhor sambar sozim Bacalhau
Com mestre de poesia Eu tenho meus defensores
Minha nação de Cambinda
As formas fixas, rimadas e metrifica- Minha poesia linda
Os temas – e metatemas - desenvolvidos A moçada tá sabendo
das, também influem na qualidade
De hora em hora dizendo
pelos mestres são variados. Na sambada dessas alegrias, dessa fruição estética.
Vou defender Bacalhau
ou no ensaio de barraca. Muitas das es- O samba curto, construído em sexti-
(bis)
trofes fixadas no imaginário, a partir de lhas, fica caracterizado, na temática,
O pescador anormal
disputas antológicas, de mestres vivos pela cantoria despeitada, um queren-
Que entra no meu defeso
ou falecidos, são repetidas pelos poetas do esfolar o outro, conforme foi visto Eu mando matar de tiro
em novas contendas, são repetidas pe- mais acima. Outro tipo de estrofe é o E você eu mato de pau
los amantes da poesia de maracatu, são samba comprido, usualmente samba
relembradas sempre que se evoca o que em dez linhas ou décima, que termina
há de melhor nessas composições lite- tendo amarração extrapolada à desse O mestre João Júlio se vale da imagem
rárias da oralidade, nessas composições modelo clássico, conforme o fôlego do do peixe para opor-se, em valentia e
de vocalidade poética. Se, na hierar- poeta e conforme a própria matreirice, nobreza, tanto ao apelido do mestre
quia dos versos construídos no embate ao querer surpreender e embaralhar adversário – Bacalhau -, quanto ao
entre dois mestres ou na apresentação Caboco Pepeta o rival com estrofes longas. Há samba
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nome da agremiação rival – Cambinda mo musical, os grupos de baque virado


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Nova-, que alude a um peixe miúdo dos de baque solto. Também segundo
de água doce, o cambindinha, vendi- pesquisadores, nos maracatus de baque
do a preço baixíssimo nas feiras livres virado, o termo nação ganha status de
da circunvizinhança e, exatamente por diferenciador por reportar-se às nações
isso, muito consumido pelos brincan- dos africanos escravizados que freqüen-
tes. Cambinda ou Cabinda é também tavam as irmandades de homens pretos
uma região da África de onde saíram e participavam da cerimônia de coroa-
muitos negros para serem escraviza- ção de reis de Congo no adro de igre-
dos no Brasil. Bacalhau promete bala jas católicas, a exemplo das do Recife,
ao “pescador anormal” que invadir a Olinda, Goiana, Igarassu, dentre tantas
área de pesca dele – “meu defeso” - e outras vilas e cidades brasileiras do pe-
promete, ainda, uma surra ao inimigo ríodo colonial. Entretanto, a convivên-
João Júlio. Entre os mestres de mara- cia com os participantes dos folguedos
catu, é bastante recorrente a promessa mostra que as distinções entre os dois
recíproca de “matar de pau” um ao ou- tipos de maracatu são mais tênues do
tro, o correspondente a uma metafóri- que se supõe.
ca luta corporal, que se concretiza em
Retomando a disputa entre João Júlio
poesia.
e Bacalhau, ambos vão manejando o
Na estrofe de Bacalhau, um detalhe verbo, querendo convencer um ao ou-
a ressaltar é o verso “minha nação de tro de que a própria vitória está consu-
Cambinda”. Além da importância, aí, da mada:
palavra Cambinda, conforme exposto
acima, o termo nação é peça importan-
João Júlio
te para se compreender o hibridismo da
Bacalhau eu bem que sabia
brincadeira. Embora seja diferenciado o
Tu não agüentava sambar
maracatu de baque solto do de baque Só tinha parrapapá
virado também usando este termo – na- Mas sambada tu não tinha
ção -, os brincantes do primeiro usam (bis)
tal palavra para referir-se ao próprio Eu disse à turma todinha
grupo. Aliás, eles sempre se autode- Que meu serviço é completo
nominam simplesmente de maracatu, à Você pode ficar certo
revelia das distinções impostas por al- Que é pau a noite todinha
Orquestra de Maracatu guns estudiosos para distinguir, pelo rit-
Lula Cardoso Ayres (reprodução do livro É de tororó)
Elysangela Freitas
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Bacalhau a fome de vitória com uma comidinha
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

Um dia eu passei perto tão parca – um bacalhau – para a vo-


A moçada me chamou racidade de um animal carnívoro. O
O meu caminhão quebrou embate poético repetidamente traduz
Eu encostei na estrada essa idéia de um ir devorando o outro,
Eu disse meu camarada
destruindo o rival a golpes simbólicos
De longe eu vi um barulho
de violência corporal e antropofagia:
Fui pra perto era João Júlio
Apanhando a noite todinha
(bis) Bacalhau
Já quase de tardezinha Quando amanhecer João Júlio
Tijolo de quatro furo Fica desmoralizado
Tu comendo cuscuz puro E os Mateu encabulado
Que nem comida tu tinha Da pisa que tu levasse
Cambinda te esbagaçando
João Júlio Deixou já você voando
Eu achei muito importante Nazaré toda dizendo
A sambada do moreno João Júlio tá no cacete
Pelo que ele está fazendo Sentou-se num tamborete
Coitado não presta não Quem tá dizendo sou eu
Que a sambada do pobre (bis)
Faz doer no coração Zé Pilintra apareceu
(bis) Com um saco do lado
Se caiu na minha mão E você todo escanchavado
Apanha de instante em instante Da pisa que recebeu
Bacalhau num deu um lanche
Pa boca do meu leão

O “Mateu encabulado” é uma referên-


cia ao nome de um dos personagens
Depois de ouvir cantar que estava em sujos do maracatu de baque solto que,
situação de derrota, “apanhando”, no folguedo do cavalo-marinho, repre-
entalando-se com “cuscuz puro”, “que senta uma espécie de palhaço. Entre-
nem comida tinha”, João Júlio vai à tanto, no verso acima, o mestre Baca-
desforra e mostra que estava mesmo lhau se dirige aos caboclos de lança do
faminto: o leão do mestre (o maraca- grupo adversário, o que corrobora a hi-
tu Leão de Ouro) não conseguiu matar pótese do pesquisador Roberto Benja-

Mateus
170 171

min de que o Mateus do auto natalino de samba de maracatu. Na estrofe que Para botar mais “força no vapor”, João São Francisco tá esborrano
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migrou para o maracatu, transforman- segue, Bacalhau pede ao poeta que Júlio tenta se sair com uma crônica do Tracunhaém tá no mei
do-se numa espécie de protocaboclo, “bote força no vapor”, socorrendo-se cotidiano, temática usual entre poe- Capibaribe vem chei
que foi acrescendo outras caracterís- de ditos populares, como o que ele vai tas tradicionais – violeiro, cordelista, Que vem capibaribano
ticas até passar a ser lembrado como usar em nova resposta, ao dizer “é co- coquista, embolador, cirandeiro etc.
Bacalhau
Mateus apenas nos versos dos mestres. bra engolindo cobra”. Vale-se, ainda, –, que transforma o discurso poético
A chuva está chovendo
Esta idéia Benjamin expõe em artigo – de linguagem hiperbólica – “eu lhe ex- em comunicação jornalística. Alude às
Começou relampiano
Maracatus rurais de Pernambuco – pu- pulso pa fora”, recurso constante em chuvas extemporâneas de dezembro
O trovão tá trovejano
blicado na Antologia de Folclore Bra- muitas das estrofes. Bacalhau se dirige de 2003, provocadoras de calamidade
Eu vou te dá um consei
sileiro, organizada por Pellegrini Filho ao mestre da cabocaria de João Júlio, no agreste, mata e sertão pernambu- São Francisco hoje está chei
(1982: p. 199-212). apelidado de Capanga, para dizer que canos. Enumera alguns dos rios que Dizendo que está esborrano
nem mesmo ele, que desempenha a estavam “esborrano” (São Francisco, (bis)
importante função de coordenador do Tracunhaém e Capibaribe), e quando Bacalhau tá completano
João Júlio
conjunto dos caboclos de lança do Leão fala deste último, usa o rio conjugado Água hoje tem de sobra
Esse bacalhau só tem fama
Dizeno que é sambador
de Ouro, está reclamando da desvanta- como verbo: “Capibaribe vem chei / E é cobra engolino cobra

Vou explicar po senhor gem do próprio sambador. Tomando, que vem capibaribano”. Bacalhau, na Bonito tais te afogano
Mas ele não é de nada metonimicamente, a opinião de todo o tentativa de se sair melhor, corre ao
Isso nunca teve bom grupo a partir da suposta aprovação de pleonasmo, para enfatizar a força das
Mais nunca teve sambador Capanga, vangloria-se de ser merece- tempestades: “a chuva está choven- Acompanhando a fluência imagética
(bis) dor de fama e vitória: do” e “o trovão tá trovejano”. Acres- dos bons sambadores, envolvendo-se
Vou dizer à rapaziada centa que é nas águas “de sobra”, com a torcida que se forma em torno
De cima do mundo inteiro invocadas pelo adversário, que o mes- dos mestres, a platéia embriaga-se de
Bacalhau
Esse é o meu coqueiro mo está se afogando: poesia durante uma noite inteira, e é
Você mermo aí quem disse
Do engenho Pedra Furada esperado que haja um crescendum,
Que bacalhau tem a fama
Porque você se engana que os melhores versos se sucedam
João Júlio
Querendo ganhar pra mim Bacalhau pegue esse samba
nessa farra poética, como fizeram João
“Esse é o meu coqueiro”. Aqui, coquei- Saia tu do meu camim Júlio e Bacalhau, já no fim da disputa,
Que lá ao fim desse ano
ro alude ao gênero poético de improvi- Que eu lhe expulso pa fora o sol manchando de rosa a barra do
Lá na cidade Caruaru
so usado tanto por violeiros e embola- Eu vou lhe dizer agora As água tão embolano dia, céu claro, colinas carecas de cana-
dores de coco, quanto por cordelistas Bote força no vapor Descendo o morro de pedra -de-açúcar, safrejada, serpenteando na
ao escreverem fictícias pelejas de viola. (bis) O novilho se acabano aurora pink, os dois cantando em sam-
É, ainda, o mesmo que coquista, poe- Você mesmo quem falou Os bode tudo na cheia ba curto, a golpes de esconjuro numa
ta repentista de samba de coco e, ao Capanga nem arreclama Os carneiro pinotano encruzilhada, apelando à ajuda sobre-
ser usada por João Júlio, pode estar E eu não posso ter fama (bis) natural de entidades como Tranca-Rua
referindo-se a ele mesmo, repentista Se eu não for merecedor
para vencer a peleja:
172
João Júlio Júlio, este foi o vitorioso. Para os adep-
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

Lídia Marques
Coitado dele tos do Bacalhau, a história era bem ou-
O samba não tem mais nada tra. Dúvidas, de lado a lado não havia.
(bis) Cada um que trouxesse para si a coroa
Chego nas encruzilhada de louros. Durante o ano de 2004, os
Te tranco numa gaveta
dois grupos decidiram concretizar a
Que até o diabo cambeta
idéia inicial: fazer uma sambada tro-
Te leva de madrugada
cada, isto é, em novembro do mesmo
ano Bacalhau foi o anfitrião da disputa,
Bacalhau
A noite foi
invertendo a hierarquia da festa do ja-
Lá vem a barra do dia neiro anterior. Mas, esta réplica desti-
(bis) na-se a um novo ensaio de conversa.
Vou dizer com garantia Ante o emaranhado de signos, de códi-
Vá chamar seus fariseu gos aqui relatados como fragmento de
Que já encontrasse o teu concentradas doses de infinito, estas
Cacete que tu queria palavras analíticas quase nada dizem
de instantâneos em que mais vale ouvir
as sereias e mergulhar num oceano de
Surra, paulada, nenhum dos dois que- verbo sedutor, de sinestesias e palimp-
ria. Segundo a torcida do mestre João sestos.

Maria Alice Amorim


M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O
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ensaio primeiro

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
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Maria Alice Amorim

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
OS INDECIFRAVEIS TUCHÁUS, POR VALDEMAR DE OLIVEIRA

Em meio à típica paisagem carnava- preciosos, aos quais se juntavam im-


Enigmáticos, vistosos, vibrantemente artística, poetas, dramaturgos, escri- lesca pernambucana, povoada de rei portantes informações adquiridas, pelo
coloridos, os caboclos de lança pro- tores, artistas plásticos lançam mais e rainha de maracatu, passista de fre- pintor, graças à captura fotográfica de
vocavam estranhamento e curiosidade perguntas, mobilizam-se em volta do vo, cabocolinho, Valdemar de Oliveira exóticos foliões.
no Recife dos anos 1950 e 60. Quem tema, produzem textos inspirados, re- registra, em artigo publicado na revis-
É, pois, mediante a etnofotografia e
são, de onde surgiram, desde quando gistros singulares, descrições delica- ta Contraponto (1948), o fato de que
o depoimento de Lula que Valdemar
existem? Instigados por estas e outras das, minuciosas. Quem, exatamente, estudiosos não conseguem decifrar
afirma serem os tucháus vistos somen-
perguntas, pesquisadores aguçam os se debruça sobre a brincadeira, inau- o mistério dos chamados “tucháus”,
te em cortejos de maracatu, especifi-
sentidos e saem à cata de respostas. gurando interpretações, ensaios pri- personagem que confere “a nota mais
camente no Estrela Brilhante e Cam-
Comovem-se ainda mais com a exu- meiros? É disto que se trata aqui, de vibrantemente colorida” no referido
binda Estrela: “em número reduzido,
berância do folguedo, mesmo que ensaios antológicos, os que pioneira- cenário. A exceção, conforme o escri-
eles acompanham os cabocolinhos dos
as possíveis respostas se percam no mente esboçaram a fisionomia de um tor, era o artista plástico Lula Cardoso
maracatus – os que acolhiam a rainha
caminho. Movidos pela sensibilidade baque singelo. Ayres, cuja fototeca continha registros
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ao descer do seu trono – único traço das duas décadas mais recentes, pode-
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
ameríndio na compacidade africana do ria ser atribuída a um detalhamento de
cortejo”. Vale ressaltar, em breve pa- personagem dos maracatus de baque
rênteses, que a presença de cabocoli- solto, de intensa carga simbólica e re-
nhos no maracatu nação é igualmente ligiosa, conhecido por arreamar ou ar-
registrada em artigo de Ascenço Fer- reiamá. Seria possível apontar aí o justo
reira, publicado quase na mesma épo- momento em que o caboclo de pena e
ca (1951), e logo adiante comentado. o caboclo de lança confluem para um
Embora evidenciando esse pormenor, mesmo folguedo de carnaval – não por
essa relação estabelecida entre cabo- acaso também nominado maracatu?
clinhos e tucháus, Valdemar de Oliveira Pergunta-se.
defende uma possível negritude dos
Quanto aos tucháus, comenta Valde-
enigmáticos personagens: “parecem
mar, a partir de fotografia exibida no
ser de origem puramente negra, mere-
periódico, que “outro pormenor ex-
cendo, entre os comparsas do maraca-
pressivo é o vasto turbante onde se
tu, o título de ‘lanceiros’ pelo fato de
fixam as bandas de pano que lhes en-
trazerem, sempre, às mãos, uma lan-
volvem a cabeça, deixando livre, ape-
ça”.
nas, o rosto”. A propósito da vasta
A preciosidade do registro fotográfico cabeleira montada sobre o volumoso
– ao que parece, ensaio pioneiro sobre turbante do estranho folgazão, acres-
o tema – possibilita a descrição de Val- centa ser ainda “mais curioso, todo um
demar, a começar pela comprida lança, enchimento que se lança para trás, co-
adornada com pendentes fitas colori- berto inteiramente de tiras de papel de
das similares às encontradas no arco seda branco ou colorido em duas e três
dos caboclinhos das mesmas fotos, ou faixas”. Aliás, um dos aspectos marcan-
seja, aqueles que, em posição coadju- tes, até hoje, no porte vistoso dos ca-
vante, integram o cortejo do maracatu boclos de lança, a cabeleira continua
nação. Invocando o “gôsto do decora- sendo composta de tiras de papel em
tivismo que empolga essa gente”, Oli- cores fortes, somente vermelho, ou so-
veira ressalta a exuberância do cocar mente amarelo, ou azul, ou verde, e um
de penas de pavão e o elegante tecido ou outro brincante apresenta chapéu
xadrez, usado à maneira de cinto, que com camadas de tiras em cores mescla-
ornamentam os referidos caboclinhos, das, geralmente duas a três cores. Os
descrição esta que, se fosse datada materiais utilizados nos vinte anos mais Rei e Rainha do Maracatu
Lula Cardoso Ayres (reprodução do livro É de tororó)
180 181

pernambucana em que predominam ne de percussão, na atualidade com- dos”, os quais possivelmente “tenham
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
maracatus de baque solto. É o caso do posto usualmente por quatro a cinco deixado em nossas religiões popula-
estudioso Roberto Benjamin (1982), chocalhos, de tamanhos diversos e so- res mais de um arabismo decorativo”.
que, para tal hipótese, entre outros da- noridade variável entre aguda e grave, Pergunta Valdemar de Oliveira se não
dos relevantes adiante comentados, se e fixados numa armação de madeira seria esse o caso dos tucháus, possi-
baseia também nas mesmas fotos de revestida de pelúcia sintética, o con- velmente remetendo-se aos arabescos,
Lula Cardoso Ayres, onde se vê a se- junto de sinos, conhecido por surrão geometrismos e florais tematizados
melhança entre o chapéu do caboclo ou maquinada, é outro dos itens que nos desenhos de gola dos lanceiros,
de lança e o do personagem do cava- compõem o personagem desde os pri- personagens para os quais atribui, por-
lo-marinho, o “funil” do Mateus, cujo meiros registros e se mantém como tanto, total procedência africana.
modelo cônico ornado de fitas coinci- um dos elementos mais importantes,
Nesse contexto de convergências e di-
de. Seguindo tal raciocínio, Benjamin senão o mais forte, a reiterar o caráter
vergência de hipóteses, fica ainda mais
considera possível, portanto, identifi- exuberante, enigmático, poderoso do
interessante chamar a atenção para a
car traços da cultura ibérica no folgue- caboclo de lança.
palavra indígena que compõe o título
do, possibilidade divergente daquela
“O resto são missangas, vidrilhos, fran- do artigo de Valdemar de Oliveira. “Tu-
Bombo, Tirador de Loas e Gonguê explicitada por Oliveira, que dá razão
Lula Cardoso Ayres (reprodução do livro É de tororó) jas douradas, sôbre tecidos de côres cháus” – tuwi’xawa, em tupi – corres-
ao artista plástico Hélio Feijó, afirman-
vivas, quando não uma veste de chi- ponde a tuchaua ou tuxaua, tubichaba
recentes têm variado, a exemplo de do ser o enfeite de cabeça imitação
tão, inexpressiva e desalinhavada”, ou tubicháua, e significa “o chefe, o
papel celofane, papel laminado, saco de “enormes penteados de negros de
complementa Valdemar, certamente maioral”, segundo o Vocabulário Tupi-
plástico e, ultimamente, um material in- certas tribos africanas”. Outra explica-
ao referir-se à gola dos lanceiros, tra- -Guarani, de Silveira Bueno. No Dicio-
dustrializado, brilhoso, misto de papel ção de reminiscência afro, oferecida
dicional peça do vestuário do caboclo nário Houaiss da Língua Portuguesa,
e plástico, que os brincantes chamam por Valdemar, diz respeito ao “adôrno,
de lança, que continua vivamente co- tuxaua, ou morubixaba, é o indivíduo
de chicote. Cor forte, brilho e grande construído de lã, que se avoluma sobre
lorida, rebordada e arrematada com influente no lugar que mora, indivíduo
volume são indispensáveis à composi- suas nádegas, o que constitue ainda, a
franjas de lã nas bordas. A miçanga, o valentão, mandachuva. Morubixaba é o
ção da peça, que pode alcançar quase meu ver, imitação da linha plástica mui-
vidrilho, conforme registro acima, fo- chefe, o cacique, o principal da tribo.
um metro de altura. to comum a certos grupos étnicos da
ram sendo substituídos por lantejoula, Este sentido tupi da nomenclatura não
África, se bem que peculiares, não aos
Sobre as possíveis interpretações acer- material mais leve, maior e, portanto, é questionado, em momento algum do
homens, mas, às mulheres – às mulhe-
ca da cabeleira do personagem, em menos trabalhoso no preenchimento artigo, quando aplicado aos caboclos
res esteatopígias”.
momento posterior ao artigo de Valde- do campo a bordar. Embora os motivos de lança, nem o autor levanta a possi-
mar de Oliveira pesquisadores defen- Um aspecto que o autor do artigo des- dos desenhos não estejam descritos no bilidade de que se refira apenas aos ca-
dem a possível relação do caboclo de creve como não elucidado “é a presen- artigo, o autor arremata o texto invo- boclos de pena e não aos lanceiros. Tal
lança com o Mateus do auto natalino ça, sob êsse enorme tufo de lã, de uma cando o “decorativismo folclórico” de sentido etimológico é, entretanto, des-
do cavalo-marinho, variante do bum- porção de chocalhos que o andar do que fala Mário de Andrade, “não dos locado quando a terminologia passa a
ba-meu-boi típica da mesma região tucháu faz vibrar fortemente”. Idiofo- negros bantus, mas dos muçulmaniza- referir-se somente ao caboclo de pena,
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a partir dos registros da antropóloga o pajé, o xamã, aquele que cuida da positavam oferendas em dinheiro para
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norte-americana Katarina Real (1967), espiritualidade, da segurança e saúde a festividade da coroação. Um “Baliza”
conforme analisado mais adiante. Na dos integrantes do maracatu. vai à frente, abrindo alas para a passa-
condição de sinônimo de arreiamá, o gem do cortejo.
tuxau seria o chefe religioso do grupo,
Além de deixar subentendido, pelas
descrições, que os maracatus da Mata
Sul apresentavam hibridismo nas carac-
terísticas, Ascenço se pergunta por que
O MARACATU, POR ASCENÇO FERREIRA
o maracatu, “destacando-se do grupo
das festas dos Reis Magos, entrou para o
“Êste estudo que se vai ler gira, ùni- quem parte do mundo rural em direção
carnaval”. Ou seja, parte do pressupos-
camente, em torno das ligações com à metrópole que o registro literariamen-
to de que o festejo católico de coroação
o Rei Baltazar, consagrado à devoção te etnográfico de Ascenço conduz ao hi-
de reis negros origina os maracatus do
dos negros, e representa um esfôrço no bridismo de maracatus da Mata Sul, em
interior de Pernambuco, baseando-se
sentido de lançar algumas luzes sôbre que há “o Rei, com seu manto de velu-
nas similaridades de descrição que loca-
a origem do nosso Maracatu”. Com tal do”, em que há “os caboclos vestidos
liza em documento de 1742, transcrito
intuito, o poeta Ascenço Ferreira se vale de cocares e plumas”, acompanhados
pelo escritor baiano Melo Morais Filho
da própria infância e adolescência “na de perspicaz tirador de loas, “improvi-
no livro Festas e tradições populares, Palmares, então “um dos centros rurais
ruralíssima cidade de Palmares”, e, com sando depressa esta toada”. Em busca
onde se vê narrada tradicional coroação mais evidentes do Estado”, conforme
alegria peculiar, rememora, em texto de descrições para o folguedo, naquela
de um negro no dia dedicado aos Reis descreve Ascenço Ferreira. Além de
publicado no livro É de tororó (1951), o região também conhecido apenas pelo
Magos, especificamente realizada por compreender que os maracatus vistos
que viu de maracatus por aquelas ter- nome de “Baque”, não busca distinguir
“adeptos da nação do Santo Rei Balta- naquela cidade eram diferentes dos
ras – mesmo tendo sido “criado num os grupos pela modalidade de maraca-
zar”. Ascenço reproduz o documento considerados “antigos”, defende o ar-
ambiente de horror aos Maracatus”. As- tu, seja virado ou solto: “Na frente do
histórico, e vai apontando semelhanças. gumento de que, na zona rural, o tradi-
sim, poeticamente seduz o leitor, con- pálio real ia ainda o ‘Embaixador’, con-
Importante registrar que o impulso ini- cional maracatu se transforma em clube
duzindo-o ao “esplendor de cores, de duzindo a bandeira, ladeado por duas
cial para escrever o artigo foi provocado carnavalesco, denominado samba de
adornos e de luzes” por veredas ainda figuras de índios brasileiros, vestidos de
por um amigo, filho de senhor de en- matuto. Ao mesmo tempo apresenta a
hoje de alguma maneira inexploradas, penas e cocares, talvez numa homena-
genho, que lhe indagou o motivo pelo poética de mestres improvisadores de
como é o caso da relação que estabe- gem aos nativos da terra ou alusão aos
qual “os Maracatus têm por obrigação versos deste brinquedo e também de
lece entre maracatus e outro folguedo preamentos outrora realizados pelos
dançar primeiro nas portas das Igrejas, maracatus. Embora exibindo diferenças
da região açucareira de Pernambuco, o negros, a serviço dos conquistadores”.
antes de entrar no Carnaval”. na temática das loas de cada um dos
samba de matuto. Registra, em torno do séquito real, as
“Baianás, Sambas e reuniões carnava- dois folguedos, revela que o ritmo das
baianas e duas damas do paço, condu-
Diferentemente de pesquisadores con- toadas é o mesmo. Ao apontar a pre-
zindo um casal de bonecos onde se de- lescas” compunham a cena cultural de
temporâneos a ele, é com o olhar de
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sença do tirador de loas, deixa transcri- A esse propósito, verifica que os des- uma corneta de flandres para dar maior
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Maria Alice Amorim
tos cânticos dos maracatus de Palmares cendentes dos antigos adeptos do ressonância aos cantos, marchava entre
e do maracatu de baque virado Leão Santo Rei Baltazar abrasileiram a “Na- a orquestra e o grupo de dançarinas”. A
Coroado do Recife, “menos como do- ção”, como foi o caso do Maracatu importância da observação ganha ainda
cumentação do que para revelar o es- Pôrto Rico, de Palmares, que passa a mais relevância pelo fato de que, além
pírito lírico das camadas populares de cantar temas contemporâneos, como do registro oral existente sobre o uso
Pernambuco”. Tocado por este lirismo os navios de guerra, o balão de Santos de corneta em antigos maracatus de
das poéticas de tradição oral, descreve Dumont. Encontra, ainda, o termo “la baque solto, há grupos que ainda man-
temas e aponta a existência de um coro, contenda” em um dos cantos, interpre- têm o uso desse instrumento musical ao
evidenciando o canto responsorial dos tando como “natural influência ou dos qual chamam buzina. São as mesmas
poetas tiradores de loas, ou os conser- espanhóis ou mais provàvelmente dos as características descritas por Ascenço
vados pela tradição, ou os feitos à base italianos batedores de tachos ou mas- e pelos desenhos que acompanham a
do improviso, “girando as canções con- cates e dançarinos de macacos nos En- publicação: artesanalmente produzido
temporâneas em torno de temas mais genhos de Pernambuco”. Do Maracatu com folha de flandres, sob formato ci-
em voga (...) acontecimentos mais em Sol Nascente, Capiba anota a partitura líndrico. A citação acima também apon-
voga na região do trabalho rural”. de um canto, sobre o qual escreve As- ta a existência de uma orquestra. Por
cenço: “embora o assunto seja tradicio- comparação aos maracatus de baque
nal, vemos que o ritmo não obedeceu virado, os de baque solto destacam-se,
Maria Alice Amorim

ao que em linguagem popular se cha- inicialmente, e de modo marcante, jus-


ma ‘baque virado’. Trata-se de simples to pela existência de orquestra formada
o hibridismo como uma das marcas do
pancadas, batidas em igual espaço de de sopro e percussão. Nesta última, o
que se convencionou chamar “maraca-
tempo, para marcar o compasso, o que toque percussivo de gonguê e bombo,
tu” na Zona da Mata, durante a primeira
o povo denomina ‘baque singelo’ ”. ou zabumba, comparece nos dois tipos
metade do século XX, especificamente
Nesse momento, apresenta mais uma de baque, o solto e o virado.
década 1950, quando Ascenço Ferreira
diferença entre os maracatus do Recife
Mais um dado marcante é a presença publicou o artigo, a partir do depoimen-
e os da Mata Sul, sem perder de vista
de “duas figuras de índios brasileiros, to de brincantes e das próprias memó-
o contexto histórico das festividades
vestidos de penas e cocares”, talvez rias de infância e juventude. A realçar,
católicas em que se inseriam as coro-
indicando que ocorreria a partir desta igualmente, o fato de que, àquela altura,
ações, antes de se transformarem em
prática a possível inserção obrigatória, o poeta Ascenço descrevia característi-
maracatu, em folguedo carnavalesco.
nos maracatus de baque solto, da figura cas peculiares aos maracatus da própria
Quanto à música, outra observação im- do arreiamá, personagem indígena que cidade, sem perder de vista o que ele
portante diz respeito ao instrumento de compõe o núcleo de figuras indispensá- então denomina “maracatus antigos”,
sopro executado pelo poeta de mara- veis à caracterização desse tipo de ma- numa clara menção aos maracatus na-
catu: “o ‘Tirador de Loas’, conduzindo racatu. Ao longo do texto fica evidente ção, ou de baque virado, presentes no
186

carnaval do Recife. Evidenciam-se, ain- Ferreira dos Santos, que improvisa e


M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

da, relações importantes quanto à exis- canta os sambas de própria autoria. As


tência de cortejo real nos maracatus e baianas dançam em duas filas e é muito
nos reisados ou demais folguedos pro- envolvente a percussão. Três elementos
venientes das celebrações religiosas do se oferecem imediatamente à compara-
ciclo natalino em homenagem aos Reis ção com os maracatus de baque solto:
Magos, relações importantes entre o a percussão, o baianal, o poeta improvi-
antigo rito das festas de coroação de sador. No samba de matuto, bombo, tri-
reis negros no pátio das igrejas e a ne- ângulo, ganzá compõem o batuque. O
cessidade, até hoje mantida pelos brin- tirador de loas canta o verso, as baianas
cantes, de iniciar a folia reverenciando o fazem o coro e, enquanto ecoa o bom-
sagrado à porta dos templos católicos. bo, dançam dispostas em dois cordões.
Uma bandeirista no meio das filas vai la-
Sobre o clube carnavalesco em que se
deando o mestre, que comanda a brin-
transformam os maracatus da Mata Sul,
cadeira, com o apito e a voz, à seme-
o que se sabe hoje acerca de samba de
lhança dos mestres poetas de maracatu.
matuto, a partir de escasso registro et-
Vale observar, igualmente, a recorrência
nográfico, deve-se à memória e à prá-
de nomenclatura utilizada no ambiente
tica de antigos brincantes que ainda
poético do maracatu de baque solto,
ousam resistir, conforme pude obser-
do coco, do samba de matuto: samba,
var em entrevistas de campo realizadas
sambar, sambada, sambador.
entre janeiro e fevereiro de 2012, para
conclusão da tese Pelejas em rede, so- Nesse contexto poético, em meio às
bre tradicionais poéticas de oralidade. confluências que resultaram nos ma-
Dois grupos ainda em atividade foram racatus da Zona da Mata, importante
então mapeados, um em Alagoas, outro papel cabe ao mestre do apito, o tira-
em Pernambuco. Na praia alagoana de dor de loas de que fala Ascenço. É o
Maragogi, há o Samba de Matuto Leão poeta improvisador quem comanda a
da Primavera, do mestre Tião, ou Sebas- nação, cantando temas circunstanciais
tião Amaro dos Santos. Em Tamandaré, mesclados a assuntos de repertório tra-
cidade localizada no litoral sul pernam- dicional. Manejando a batuta e o apito,
bucano, na fronteira entre os dois Esta- conduz a alternância de dança/música
dos, esporadicamente apresenta-se o com a poesia. Desenvolve estrofes de
Maria Alice Amorim
Samba de Matuto Leão do Norte, lide- formas fixas, rimadas e metrificadas,
rado pelo mestre Zé Ferreira, ou José variando-as entre as modalidades de
188 189

quatro linhas, seis linhas e dez linhas, “influências de melodias e textos origi- no bairro recifense de Casa Amarela. A
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
denominadas marcha, galope, samba nados de outros divertimentos, como o relação conflituosa estabelecida pela
curto, samba comprido. Na Zona da Coco e o Pastoril” (1980, p. 103) e a Federação Carnavalesca Pernambuca-
Mata Norte, mestres de maracatu pas- antropóloga norte-americana Katarina na quanto a esses maracatus do interior
seiam, com familiaridade, por expres- Real descreveu há 50 anos exatamente aparece logo no texto de Guerra-Peixe,
sões poéticas outras, como aquelas o que ainda se verifica nos dias atuais: dado importante para compreender, de
praticadas no repentismo de violeiros, alguma maneira, a formação inicial dos
Quase todos os Maracatus rurais brin-
no samba de coco, ciranda, cabocli- cam ‘côco de roda’ nas suas sedes grupos de baque solto e o possível adi-
nho, boi de carnaval. Sobre este tema, na época junina, e alguns ‘ensaiam’ cionamento de personagens e elemen-
a ser tratado adiante, num capítulo es- também ‘cirandas’ e ‘quadrilhas’. Há tos dos maracatus de baque virado gra-
pecialmente dedicado ao universo po- vários casos em que o Mestre do Ma- ças a interferência daquela federação, a
ético em que se acham mergulhados racatu durante o carnaval também é qual chegou a considerar tais agremia-
mestre do côco e da ciranda junina!
os maracatus “de baque singelo”, o ções um desvirtuamento dos “legíti-
(1967, p. 93)
maestro César Guerra-Peixe apontou mos” maracatus.

Guerra-Peixe anota em 1952 a inexis-


tência de cortejo real no Cambinda Ve-
lha, muito embora desde o carnaval de
UM MARACATU-DE-ORQUESTRA E O DE CARUARU, POR GUERRA-PEIXE 1941 a mesma federação tenha promo-
vido aquele maracatu à primeira clas-
“Maracatu-de-orquestra”, “maracatu- membros dos velhos cortejos recifen- ma de funil)”, porta-bandeira, dama-
se. Supõe-se, portanto, que o grupo
-de-trombone”, “maracatu moderno” ses; a inclusão de músicos populares -de-paço, damas de buquê, uma bone-
foi aceito na instituição oferecendo as
são designações “autenticamente po- executando instrumentos de sopro e, ca de pano com cor e feições brancas,
mesmas características e composição
pulares” apontadas nas pesquisas que sobretudo, a participação de foliões instrumentos de percussão – gonguê,
de personagens descritas por Guerra-
o maestro César Guerra-Peixe realizou procedentes de diversas localidades ganzá, tarol, cuíca, surdo, zabumba –, e
-Peixe, apesar de uma das hipóteses,
de 1949 a 1952, quando passa a resi- pernambucanas” (1980, p. 91). três instrumentos de sopro – saxofone,
acerca da presença de cortejo real em
dir no Recife. O musicólogo inaugura trompete e trombone.
Registra, ainda, que àquela época os tais maracatus do interior, consistir em
o texto sobre os maracatus de baque
maracatus-de-orquestra estavam se tor- que a federação exigiu a adoção da As observações gerais que o estudioso
solto buscando compreender e expli-
nando mais numerosos em relação aos realeza para os mesmos serem admi- constrói acerca do folguedo, e também
car como surgiram tais grupos carna-
tradicionais e justamente devido à im- tidos como “verdadeiros” maracatus. as específicas, relacionadas ao campo
valescos. Começa observando que,
possibilidade de acompanhar todos, es- A composição do grupo, descrita pelo musical, partem do contato com o gru-
em decorrência de movimento migra-
colhe, para a elaboração das notas que pesquisador, incluía, entre outros ele- po escolhido para a descrição detalha-
tório do interior em direção à capital
compõem o trabalho publicado, o Ma- mentos, “dez baianas, dois caboclos, da, e de contatos vários com brincantes
e às cidades mais desenvolvidas eco-
racatu Cambinda Estrela, “dos mais an- dez caboclos-de-lança (conduzindo de agremiações similares, resultando
nomicamente, há “a presença nele de
tigos e destacados”, fundado em 1935, lanças e cobertos de chapéus em for- na preciosidade de registro etnográfi-
190 191
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

Maria Alice Amorim

Lídia Marques

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
co e análise comparativa, permitindo, Abstraindo-se dos instrumentos de
assim, ao pesquisador a inferência so- sopro, notemos a semelhança que
aproxima os diversos grupos instru-
bre como, de fato, poderiam ser defi-
mentais. Em Nazaré da Mata, por
nidos os maracatus-de-orquestra: “não
exemplo, um Maracatu possui a se-
nos parecem senão a mistura ou fusão guinte orquestra: gongué, tarol, cuí-
de elementos tomados dos antigos ca, surdo e zabumba. Lá, chama-se
Maracatus, do Recife, com os origina- igualmente ‘baque solto’ o toque do
dos de localidades diversas, do Estado conjunto que tem apenas um zabum-
de Pernambuco. Pelo menos musical- ba. Em Bom Conselho, um conjunto
musical é constituído por: gongué,
mente, esclareça-se”. Essa hipótese de
ganzá, triângulo, pratos, reco-reco,
“mistura” ou “fusão” é, pioneiramente,
tarol, caixa-de-guerra e dois zabum-
sistematizada na pesquisa musical do bas – um destes executando a rítmica
maestro Guerra-Peixe, que expande que caberia ao surdo. Nesse Maracatu
o corpus da investigação para impor- tomam parte dois ‘pifes’, quando há
tante área geográfica do brinquedo – a executantes acessíveis à colaboração.
Zona da Mata pernambucana – confor- (1980, p. 99)

me comprova o trecho a seguir:


192 193

modalidade de maracatu, de ‘toque ca e da dança; ‘baianá’, o canto em vez que ainda hoje a nomenclatura,
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D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
solto’ ou ‘baque solto’, denominação conjunto. Mesmo a toada é algumas corriqueiramente pronunciada como
vezes no Recife chamada de ‘jorna-
que registra como sendo usual em Na- “póica”, é utilizada pelos próprios brin-
da’, vocábulo mais generalizado no
zaré da Mata. cantes dos mais diversos grupos de ba-
interior, para designar canto popular.
(1980, p. 99) que solto.
A propósito do que Ascenço Ferreira
descreve, no livro É de tororó, sobre O musicólogo registra, ainda, que “à ca-
os cantos, Guerra-Peixe faz questão de lunga não é dedicada nenhuma dança
evidenciar a discordância em relação Quanto à cuíca, “permite produzir um de caráter sagrado, não obstante a ‘toa-
aos termos “toada” e “loa”, afirmando som grave e outro agudo”, e por isso é da da boneca’ ser a que inicia e termina
que toda música, vocal ou instrumen- também chamada de “porca” graças à a cantoria...” A referida toada “Quando
tal, executada nos maracatus de baque semelhança de sonoridade com o ron- eu vim lá de Luanda”, cujo registro de
solto é chamada de “toada”. Também co do animal. Sobre esse instrumento, letra e partitura encontra-se no livro de
ressalta que não existe canto improvi- Guerra-Peixe acrescenta o comentário Guerra-Peixe, é cantada antes de o gru-
sado, nem aparecem temas circunstan- de que “os populares vêm abandonan- po sair para se apresentar no carnaval
ciais nesses cantos, os quais “têm um do a expressão, pois acham que o ter- e quando os brincantes estão de volta
Lídia Marques

ritmo particular, são tradicionalizados mo é... feio”. Tal fato não se consuma, à sede, fechando o carnaval. Embora
e os assuntos restringem-se ao corte-
jo”. “As ‘loas’ também não têm opor-

Maria Alice Amorim


O pesquisador se detém, evidente- tunidade nos grupos recifenses, pois
mente, nos detalhes da música, reve- o que estes cantam são ‘toadas’. Por
lando a execução, em uníssono, dos ‘toada’ compreende-se também parti-
instrumentos de sopro; a importância cularmente as palavras de um cântico,
do tarol nos toques do maracatu-de- enquanto que ‘música’ é a melodia, e o
-orquestra; as variações feitas no gon- ‘toque’, o ritmo executado nos instru-
guê; as passagens melódicas, ao modo mentos de percussão”. O maestro co-
de contracanto, interpretadas no trom- leta e registra termos adotados pelos
bone, instrumento tido por indispensá- brincantes, entre os quais não se vê a
vel na brincadeira que, por essa razão, palavra “loa”:
também é designada “maracatu-de- Cumpre realçar também, no Maraca-
-trombone”. A zabumba na orquestra tu-de-orquestra, o uso de expressões
é apenas uma e, conforme o estudioso, correntes em folguedos do interior,
“essa condição ímpar permite ao músi- parecendo-nos indicar elementos
dessa fonte: ‘porca’, a cuíca; ‘bis’, o
co executar variações à vontade”, daí
refrão; ‘mestre’, o ensaiador da músi-
resultando chamarem ao toque dessa
194 195

Guerra-Peixe aluda à inexistência de


M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

Elysangela Freitas

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
dança sagrada dedicada à boneca, po-
de-se supor que os cantos de abertura
e fechamento são cantos propiciatórios,
espécie de pedido de proteção, de re-
verência, de agradecimento à calunga,
representativo e tradicionalíssimo obje-
to ritual entre maracatuzeiros. Eviden-
cia-se, ainda por esse cântico, além de
outros detalhes descritos e analisados
por Guerra-Peixe, que os diferentes
tipos de maracatus – os “legítimos”,
os de orquestra, o de Caruaru – eram
nomeados de modo idêntico mas não
eram sinônimos: “esse cântico não pas-
Maria Alice Amorim

saria para os populares de uma toada


dos antigos Maracatus. Importa ressal-
tar que os versos da referida canção fa-
lam em ‘rei’ e ‘rainha’, personagens que tro baianas, calunga Dona Júlia, porta- rifica “como os ritmos resultantes dos
não vimos nessa espécie de Maracatu”. -estandarte, buzina (ou ‘buzineiro’) e sons acentuados assemelham-se aos
Conforme descreve, a boneca, de pano, cinco músicos” (1980, p. 99). Quanto assinalados no Maracatu-de-orquestra,
de cor e feições brancas, é uma particu- à coreografia, uma particularidade do do Recife” (1980, p. 103).
laridade que, “convém realçar, alcança “Clube Carnavalesco Cambinda Nova”
também os demais grupos do mesmo Com respeito, enfim, à presença do po-
é a semelhança da dança das baianas
gênero”, inclusive registrando que a do eta improvisador que Ascenço Ferreira
com os bailados do auto natalino do
Cambinda Nova, de Caruaru, tem cabe- menciona nos maracatus e no presumi-
Pastoril, com os passos da dança do
lo louro. do sucessor, o samba de matuto, César
Coco e, ainda, com as revistas musicais
Guerra-Peixe alega que “somente no
A propósito do cortejo caruaruense, o do cinema. Quanto aos textos e melo-
Maracatu-de-orquestra não havia can-
“único da localidade” segundo Guerra- dias dos cantos do cortejo de Caruaru,
tador solista – nas vezes que assistimos
-Peixe, o maracatu foi fundado por um o maestro aponta “elementos hetero-
ao folguedo – mas canto coral, com o
negro do Recife que passou a residir gêneos” que se fundem, a partir de
qual se intercala, algumas vezes, uma
Maria Alice Amorim

naquela cidade nos primeiros anos do cocos, pastoris e antigos maracatus do


parte instrumental executada pelos
século XX e, em 1952, era constituído Recife. No instrumental, constituído
instrumentos de sopro” (1980, p. 113).
de “rei, rainha, dois balizas, vinte e qua- por “gongué e quatro tambores”, ve-
Não se pode dizer que há, aí, erro de
196 197

informação, considerando-se que, con- çantes” (1980, p. 98). Também a rela-


M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
forme descrições existentes, à época ção dos maracatus de baque solto com
sobressaía diversidade de cambiáveis o Catimbó é apenas apontada pelo
aspectos no que se designava por maestro, deduzida a partir de cons-
maracatu. A dança no Maracatu-de- tatação da recorrência, nos cânticos,
-orquestra é mencionada rapidamente de termos, como “aldeia”, “caboclo”,
por Guerra-Peixe, afirmando ocorrerem “jurema” (1980, p. 23). Este assunto é
“com movimentos e passos vagamente investigado e explanado logo a seguir,
delineados, num bailar em que se fun- quando estiverem em discussão os tex-
dem o samba e a marcha – o que não tos de Katarina Real, Olímpio Bonald
impede observarem-se instantes mais Neto e Roberto Benjamin.
demarcadores dessas derivações dan-

OS MARACATUS RURAIS (MARACATUS DE ORQUESTRA), POR KATARINA REAL

Distorcidos ou descaracterizados: as- passa a nomear maracatu rural, pela lo-


sim eram tratados os maracatus de ba- calização geográfica predominante do
que solto na década 1960. Não apenas folguedo na zona canavieira norte de
pesquisadores, ciosos da importância Pernambuco:
histórica e religiosa dos maracatus de
Entre todos os deslumbrantes folgue-
baque virado, também a imprensa reci- dos que percorrem as ruas do Recife
fense e a Federação Carnavalesca Per- e os morros e córregos do subúrbio
Caboclos de lança se enfrentando Foto de Katarina Real
nambucana lançavam olhar de despre- durante a época carnavalesca, um dos Acervo Fundação Joaquim Nabuco (2-KR-0500)
zo sobre os grupos que Guerra-Peixe mais extraordinários é, sem dúvida, o
trata por maracatus de orquestra, con- “maracatu rural”, também denomi-
nado de “Maracatu de orquestra” ou
forme nomenclatura então utilizada por
“Maracatu de baque-sôlto”. De todos
populares. Ao realizar registro etnográ-
êstes folguedos tem sido não sòmen-
fico e documental em Pernambuco, a te o menos estudado como também o
antropóloga norte-americana Katarina menos compreendido. É até estranha
Real, no livro O folclore no carnaval a sua existência no Recife, durante vá-
do Recife, constata exatamente o des- rias décadas, numa penumbra de mis-
prestígio dessas agremiações, às quais tério, quase desinterêsse por parte de
alguns e crítica violenta por parte de
198 199
outros. (...) Devido a algumas de suas possibilidade: “tenho a impressão de
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
características, principalmente à pre- que os Maracatus rurais não nasceram
sença de “caboclos de lança” e “ca-
da instituição mestra do Rei do Con-
boclos de pena”, os Maracatus rurais
go”. Este é, aliás, um ponto obscuro,
são de vez em quando denominados
de “caboclinhos” ou “maracatus des- considerado de difícil esclarecimento,
caracterizados”. (1967, p. 83) vez que, acerca da questão, até o mo-
mento não se descobriu nenhum regis-
tro documental que pudesse eliminar
Ao desinteresse verificado, Katarina as dúvidas. A hipótese na qual Katarina
atribui, “talvez”, o fato de considerar se apóia é a de Guerra-Peixe: há um
que os grupos “estão em plena fase hibridismo de elementos de diversos
de desenvolvimento com as suas es- folguedos do interior de Pernambu-
truturas ainda não completamente de- co. Para a defendida fusão, a norte-
finidas”, defendendo, portanto, que a -americana aponta a convergência de
origem de tais folguedos é mais recen- “pastoril e ‘Baianas’, cavalo-marinho,
te do que outras tradições do Carnaval caboclinhos, folia (ou rancho) de Reis”,
Caboclos de lança do Maracatu Estrela da Tarde Foto de Katarina Real
Acervo Fundação Joaquim Nabuco (2-KR-0498) do Recife sobre as quais produziu et-
nografia. Importante considerar que a
pesquisa ficou circunscrita ao Recife e
Região Metropolitana, não levando em
conta o que poderia ter sido coletado
a partir da memória de antigos brincan-
tes e moradores de engenhos da Mata
Norte. Entretanto, a contribuição de
Katarina Real consiste em que simulta-
neamente rompe a “penumbra de mis-
tério”, o desinteresse, a crítica virulen-
ta e os “maracatus descaracterizados”
ganham caracterização minuciosa.

O baque solto recebe nova luz com os


estudos realizados pela antropóloga.

Elysangela Freitas
Um dos aspectos que realça diz respei-
to à origem do folguedo, para a qual
Caboclos de lança em evolução Foto de Katarina Real oferece, não de modo enfático, uma
Acervo Fundação Joaquim Nabuco (2-KR-0499)
200 201

complexo o folguedo exatamente pela exótico”; pela gola, “tipo de peitoral Em referência aos caboclos de pena,
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
confluência, pela fusão de variados ele- de veludo pesado”, e seus desenhos “também denominados de tuxáus”, es-
mentos de outras expressões da cultu- bordados em miçanga e vidrilho co- tes são descritos por Katarina Real como
ra de tradição, e, de modo recorrente, loridos, aljofre dourado e prateado, figuras “de beleza misteriosa e rica ori-
até o ano de 2013 ainda se observa que “cada gola inteiramente diferente – ginalidade”, vistosos sobretudo pela
folgazões e mestres do apito referem o com desenhos de flôres, estrêlas, li- alta coroa “com mais de uma dezena
próprio grupo como “nação”, “minha ras, e acabamento de franjas”. Rosto de penas de ema tingidas de encarnado
nação”. Quanto a essa utilização do tingido de urucum, “os caboclos de e amarelo, e várias centenas de longas
termo, a antropóloga constata serem lança são ‘brabos’ e frequentemen- penas de cauda do pavão”. Chama, ain-
os estandartes dos maracatus similares te brincam ‘atuados’, segundo vários da, a atenção para o artigo de Valdemar
aos pavilhões nacionais, diferentes da dos meus informantes”, registra a de Oliveira (1948), em que o autor os
variedade de estilo encontrado nos es- pesquisadora, atentando, aí, para um qualifica de “indecifraveis tucháus”. Na
tandartes das demais modalidades de aspecto delicado, a questão religiosa descrição que elabora, Real atribui aos
agremiação carnavalesca no Recife. presente no folguedo com o status de caboclos de pena a nomenclatura usa-
segredo, ou seja, não deve ser revela- da por Valdemar, quando se sabe, após
Elysangela Freitas

Dos personagens observados, Katari-


do aos não integrantes da seita, dos detida análise daquele texto, que eram
na deu preferência à descrição de ca-
cultos praticados.
boclos de lança e caboclos de pena.
Os caboclos de lança “devem ser en-

Lídia Marques
carados como um ‘exército’ de fero-
além de comentar a incorporação, ao
zes guerreiros que são contratados
folguedo, de toadas de maracatus-
pelo Maracatu Rural para defender o
-nação ou aruendas. O pastoril, aliás,
grupo durante o carnaval na rua e nos
é mencionado em Guerra-Peixe como
seus encontros com os rivais”. O figu-
uma das principais influências na musi-
rino do “caboclo lanceiro africano”,
calidade, poesia e dança do Maracatu
e respectivos adereços, é composto,
Cambinda Nova, de Caruaru.
entre outros elementos, pela compri-
Perceber nos estandartes a sigla da e pontiaguda lança coberta de fi-
NMCM, ou Nação Mista Carnavales- tas; pelo chapéu, “enorme cabelereira
ca Maracatu, faz Katarina Real obser- de tiras de celofane ou papel crepom
var que, “segundo alguns dos meus multicolorido”, que àquela época era
informantes, representam ‘nações’ de chamado também de funil graças ao
‘índios africanos’, concepção comple- formato cônico; pelo surrão e choca-
xa da imaginação popular pernambu- lhos que “vibram fortemente, produ-
cana”. É, de fato, muito rico, muito zindo um som barulhento, primitivo,
202 203

os lanceiros os enigmáticos “tucháus”. ter sagrado de determinados persona- Entre os anos de 1961 e 1965, Kata- “MARACATUS DISTORCIDOS”
M A R A C AT U D E B A Q U E S O LT O

D O S S I Ê D E C A N D I D AT U R A
Pelas observações da antropóloga, os gens e objetos rituais dos maracatus de rina Real dá conta da existência, no É simplesmente lastimável a apresen-
caboclos de pena, “geralmente de tipo baque solto. O brincar “atuado”, por Recife, de “pelo menos onze Maraca- tação desses maracatus descaracte-
físico ameríndio bem marcado, são fre- exemplo, diz de um estado de transe, tus rurais, uns sete dos quais filiados à rizados que todos os anos aparecem
quentemente ‘catimbozeiros’ na vida e das relações estabelecidas entre fol- Federação Carnavalesca Pernambuca- no carnaval. Melhor seria que esses
real”, aí aludindo diretamente às re- gazões e práticas religiosas resultantes na”, registrando serem “quase todos” conjuntos não fossem classificados
como tais, pois maracatu com orques-
lações entre a prática do Catimbó e a de hibridismo de elementos africanos, classificados na segunda categoria.
tra, flautas e pífano, com uma praga
figura do caboclo de pena: “segundo indígenas, europeus. Aspectos estes “De origem mais recente que os fol-
de ‘tuchaus’ carregando nas traseiras
vários integrantes desses maracatus, o também presentes nas observações de guedos já descritos, os Maracatus ru- aquela lataria pode ser tudo menos
homem se transforma, quando veste outros pesquisadores, os estudos de rais nem são incluídos entre os grupos uma ‘nação africana’... (1967, p. 94)
ditos trajes (quer dizer, é ‘atuado’)”. A Roberto Benjamin e Olímpio Bonald tradicionais do carnaval recifense.”
figura do arreiamá, ou “tuxáu”, ocupa Neto, adiante, acrescentam observa- Não é possível afirmar se nesse perí-
posição emblemática quanto ao cará- ções sobre o tema. odo já havia imposições, por parte da Pela descrição acima, a “praga de tu-
federação, quanto a obrigatoriedade chaus” era exatamente a cabocaria, ou
da inclusão de cortejo real na brin- conjunto dos caboclos de lança, no re-

Maria Alice Amorim


cadeira. O que se pode assegurar é gistro jornalístico identificada como tal
que, em 1952, o Maracatu Cambinda por estarem “carregando nas traseiras
Estrela, detalhadamente descrito por aquela lataria”. O que parece ser de-
Guerra-Peixe (1980), não tinha nem nominação corriqueira de então, sin-
rei, nem rainha, e, no entanto, era tido toniza-se com aquela adotada para os
por “legítimo maracatu” mediante lanceiros, mais de duas décadas antes,
promoção à primeira classe, em 1941, conforme registra Valdemar de Olivei-
conforme registro de correspondência ra. Outra observação importante, na
da Federação Carnavalesca Pernam- reportagem, é a presença de “flautas
bucana, recebida pelo grupo e trans- e pífanos” em meio aos instrumentos
crita no livro do musicólogo. de sopro, o que remete às descrições
Quando comenta sobre “fortes ‘perse- do maestro Guerra-Peixe (1980, p. 99),
guições’ por parte da imprensa há vá- que registra dois “pifes” em maracatu
rios anos” ao que considera “um dos de Bom Conselho. Embora não deixe
mais extraordinários” folguedos carna- de mencionar a existência de grupos
valescos, Katarina oferece a transcrição “que botam até três ‘trompetes’ e um
de um texto publicado em periódico saxofone”, Katarina Real afirma con-
do Recife, o Diário da Noite, de 11 de sistirem os sopros “quase sempre” em
janeiro de 1966: trombone, trompete, clarinete. Na en-
204 205

trevista que realiza cerca de dez anos imprensa conservadora e estudiosos


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depois, com o Mestre Simões, Olímpio conservadores não conseguiam acei-
Bonald Neto (1976) também constata tar a existência de elementos híbridos,
o uso de clarinete, registrando ser este assimilados de outros folguedos tradi-
o único instrumento de sopro do Mara- cionais, tampouco o fato de poder ha-
catu Estrela do Monte. ver maracatus que não descendessem
exclusivamente da instituição dos reis
Graças à imponência da nação africana
de congo. Diferente, portanto, do ma-
exibindo-se sob a percussão do baque
racatu de baque virado, o maracatu de
virado e ao histórico de tradição que
baque solto causou estranhamento jus-
conferia legitimidade àquele gênero
to por não afiliar-se, com exclusividade,
de maracatu, torna-se compreensível,
à tradicional cerimônia de coroação de
de alguma maneira, embora não justifi-
negros, que, no Recife, acontecia dian-
cável, que naquele momento histórico
te da Igreja de Nossa Senhora do Rosá-
recaísse a indiferença sobre o maracatu
rio, protagonizada pela Irmandade dos
rural ou de baque solto, tido por imi-
Homens Pretos.
tação deselegante daquele. A princi-
pal questão, nesse embate, era que a

Em sintonia com as hipóteses de Guer- Iemanjá?)”, apresenta o esclarecedor


ra-Peixe, Katarina Real e Roberto Ben- depoimento de Mestre Simões, a pro-
OS CABOCLOS DE LANÇA - AZOUGADOS GUERREIROS DE OGUM, POR
jamin, Bonald acerta plenamente quan- pósito de preparo, calço, irradiação, de
OLÍMPIO BONALD NETO
do aponta o hibridismo de culturas banho de limpeza ou “purificação que
“Produto típico do sincretismo afro- “Extraordinária carga de sugestões africanas e indígenas na composição antecede qualquer ato mágico”, dos
-índio”, é assim que o pesquisador mágicas”, “agressiva beleza plástica”, de maracatus de baque solto. Apreen- perigos da meia noite, das beberagens
Olímpio Bonald define os caboclos de “composição fantástica de guerrei- de o espírito guerreiro, agressivo dos do azougue e de outras misturas.
lança, caboclos de guiada, lanceiros ro africano e entidade mítica indíge- caboclos de lança, ao mesmo tempo
Ir para o carnaval “atuado, irradiado”
ou Guerreiros de Ogum, num texto na” são designativos que o estudioso em que capta a magia dos ritos sagra-
significa, entre outros rituais, sair ‘azou-
em que adota por subtítulo “Notas apresenta ao leitor, numa tentativa de dos de religiões de orixás e caboclos
gado’ graças a mistura de “limão, pól-
para um ensaio”. O artigo foi escrito a dar conta da exuberância de um brin- da mata. À constatação de que “mui-
vora, aguardente e azeite doce que
partir de material coletado no mês de quedo carregado de estranheza para tos usam óculos escuros, mesmo de
tomam em homenagem a Zé Pelintra”.
abril de 1972, em entrevista com José os olhos habituados de quem tivesse noite (para esconder os olhos injetados
Às mulheres e crianças recomenda-se
Simões de Souza, o Mestre Simões, ca- domínio apenas sobre a história dos do ‘azougue’? ou simplesmente por
igualmente bebida propiciatória: “as
boclo de lança e dono de ciranda e do maracatus nação ou de baque virado. nada, mera tradição?) e um cravo bran-
mulheres tomam uns goles de uma be-
Maracatu Estrela do Monte, Olinda. co na boca (preceito mágico, ‘calço’ de
206 207

beragem (mistura) de vinho ou aguar- dos malefícios dos caminhos cruza-


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dente com açúcar, cabeça de negro, dos”, Simões descreve a cena: “Passou
folha de macassa, banha tudo engar- 7 dias debaixo da mesa levando defu-
rafado e em repouso por uns dias, no mador, fumaça de cachimbo, de charu-
escuro. Até as crianças experimentam to, incenso e rezas especiais”.
antes de saírem no Maracatu”. Além da
Caboclo de lança desde os 17 anos,
bebida ritual, há os banhos de limpeza,
Mestre Simões relata na entrevista
para os quais se usam água, incenso
que começou brincando no Estre-
e perfume. Há, também, para afastar
la Brilhante, de Chã de Vinagre, em
olho mau, inveja, malquerença, a pro-
Goiana, onde as práticas religiosas
teção exercida pela calunga ou bone-
eram comandadas pelo dono daquele
ca que, esculpida na madeira, Simões
maracatu, Mestre Aprígio Gabriel, pai-
levou para ser “calçada” por um “po-
-de-santo na linha da Umbanda, que
deroso” pai-de-santo de Igarassu, em
“proibia álcool e defumava o seu pes-
1949. Contra “todos os problemas dos
soal com fumaças de charuto”. Aos 19
perigos da noite, das encruzilhadas e
anos, quando muda de grupo, vai para

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Capanga, mestre de cabocaria, purifica o ambiente com cachaça e fumaça de charuto


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o Maracatu Estrela da Tarde, também quanto beber a Jurema Sagrada, reve- As entidades conhecidas por caboclo da ro explica os usos das espécies preta e
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em Goiana, e o dono, Zé Pedro, tinha renciar e realizar oferendas a caboclos mata são cultuadas pelo personagem branca, no maracatu. A Jurema Branca
terreiro de Xangô. Os dois grupos, e mestres. arreamá, ou caboclo de pena, confor- é utilizada “como remédio, limpeza, de-
conforme relata Olímpio, rivalizavam, me esclarece Severina Carlos, ou Biu de fesa espiritual”, sob a forma de banhos,
É importante ressaltar, quanto à fumaça,
disputando entre si “a melhor jornada Carro, madrinha do Maracatu Cambinda fumo e bebida. A beberagem pode ser
que este é um dos ritos mais praticados
e a melhor Nação”. Com a experiência Brasileira, de Nazaré da Mata, em de- preparada com a casca da raiz ou, ainda,
publicamente por líderes de caboclos de
religiosa aprendida dos dois mestres, poimento para o documentário Verso “ser misturada com algumas ervas (man-
lança ou mestres de cabocaria, por arre-
sobretudo sob a influência confessa lança flor (2013), vídeo de candidatura jericão, pinhão branco etc.) antes de ser
amá, por madrinhas e padrinhos dos ma-
de Aprígio, Simões relata a fidelidade dos maracatus de baque solto ao título engarrafada”. Sobre a Jurema Preta, a
racatus: “a fumaça atirada como bênção,
às mesmas práticas no próprio mara- de patrimônio cultural do Brasil. Acerca “força” é o principal atributo. Na mistura
esconjuro poderoso” (Cascudo: 1978, p.
catu e deixa claro que “tem sempre da Jurema Sagrada, declara ser “uma com esta jurema, usa-se “pinhão roxo,
37). O ritual consiste em defumar o am-
Ogum a seu lado”. Para o Mestre Si- questão muito delicada para o maraca- manjericão roxo, liamba roxa” e a plan-
biente aspergindo a fumaça a partir do
mões, “os caboclos de lança são, ge- tu”, sem entrar em maiores detalhes. ta “tem que vir das matas, com a força
fornilho em direção ao cano do cachim-
ralmente, filhos de Ogum, Senhor do Entretanto, no depoimento registrado dos caboclos, dos índios”. Uma prescri-
bo: “um traço específico do Catimbó-
Ferro, da Guerra e da Agricultura”, em artigo de Grünewald (2005, p. 250) ção particular referente à espécie preta,
-Jurema se encontra no uso da fumaça
por isso a preferência por vermelho sobre os sujeitos da Jurema, Biu de Car- é que somente a madrinha bebe:
de tabaco (...). De fato, é possível que já
e amarelo na roupa dos lanceiros. Re-
o termo Catimbó não passe de uma va-
laciona, ainda, os caboclos de lança

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riação de cachimbo, que representa um
“com a macumba – linha indígena de
dos principais apetrechos litúrgicos des-
umbanda, não são de Xangô”. Com-
sa religião” (Motta: 2005, p. 290). Luís
preende-se, portanto, que as formas
da Câmara Cascudo, ao discorrer sobre
sincréticas de religião explicitadas em
a mesa de Catimbó, o funcionamento e
depoimento do Mestre Simões são
preparos, esclarece, nesse mesmo senti-
“afro-indo-brasileiras”, conforme con-
do, acerca da simbologia de cachimbo,
ceituação de Roberto Motta (2005),
fumaça e defumação:
no artigo em que trata da Jurema do
Recife. Apreende-se, a partir de múl- o trabalho do ‘mestre’ não se chama
tiplos depoimentos e da observação feitiço, nem muamba, coisa-feita ou
canjerê. O mestre que entende de Ca-
nos terreiros de maracatu, haver diver-
timbó diz sempre ‘fumaça’. (...) Certos
sidade de práticas religiosas e trânsito
‘mestres’ mais autorizados ensinam
explícito entre terreiros de Umbanda, que o cachimbo é o verdadeiro Catim-
Xangô, Catimbó-Jurema. A fumaçada bó e seu segredo. (...) O ‘mestre’ só
ou defumação, recorrente prática en- fuma o seu cachimbo às avessas, pon-
tre maracatuzeiros, corrobora vínculo do a boca no fornilho e soprando a
explícito aos rituais do Catimbó, tanto fumaça pelo canudo. (1978, p. 41-43)
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os caboclos do seu maracatu recebem vidade sexual, do controle motor, dos
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a força e a proteção da Jurema atra- sonhos, de diversas funções cogniti-
vés do ‘calço’ que Biu prepara para
vas. A atividade da serotonina está
eles (o cravo que levam na boca, por
associada ao planejamento e à busca
exemplo). Protegidos e juntos, esses
brincantes fazem a proteção coletiva de padrões, à lucidez mental e ao es-
do Maracatu Cambinda. (2005, p. 250) tado de alerta. Além de atuar como
neurotransmissor, a serotonina é mul-
tifuncional, desempenhando papel
E o que seria, pois, a Jurema Sagra- neuromodulador e afetando outros
da? Do Tupi, vem a palavra Yu-r-ema. neurotransmissores. Há sutis diferen-
O prefixo “Ju” quer dizer espinho. ças entre a estrutura dos elementos
“Rema”, cheiro desagradável. Espécie químicos dos hormônios neurotrans-
classificada como Mimosa tenuiflora, a missores e os alcalóides das plantas
jurema, ou espinheiro preto, é planta de poder, de tal maneira que os recep-
de poder. Para uma melhor compre- tores cerebrais dessas moléculas não
ensão dos seus efeitos, notáveis são distinguem uns dos outros. A principal
os resultados obtidos com a pesquisa substância psicoativa da jurema preta
sobre as estruturas moleculares das é a mesma da ayahuasca (N, N-Dime-
plantas sagradas psicoativas. Quase tiltriptamina ou DMT). proteja o maracatu contra a violência, brincantes, seja no carnaval, seja na
todas essas plantas contêm o elemen- a fim de conquistar a paz para os in- festividade de páscoa, seja nos en-
É importante, porém, compreender
to nitrogênio e pertencem, portanto, tegrantes do grupo, que se beneficiam saios e sambadas. Transe que pode
que um ritual sagrado é muito mais
a uma classe de compostos quími- da força e proteção da Jurema, seja ser atingido com a ingestão de bebi-
amplo do que os supostos efeitos psi-
cos chamados alcalóides. A estrutu- diretamente, seja indiretamente, sob das, a exemplo do citado azougue, e,
coativos de certas plantas. A Jurema,
ra química das principais plantas de os cuidados de um líder espiritual. A ainda, de preparos à base de cachaça
seja branca, seja preta, é uma entidade
poder está estreitamente relacionada simbologia religiosa ultrapassa, assim, e Jurema, vinho e ervas. O azougue,
espiritual, com a consequente potência
à estrutura dos hormônios existentes os efeitos químicos e fisiológicos das a partir do que diz Simões, funciona
simbólica. Nos maracatus, a utilização
no cérebro, agentes fisiológicos que plantas psicoativas. como homenagem a Zé Pelintra, en-
visa a atingir, conforme depoimento
cumprem um papel importante na tidade classificada de Exu, e deixa os
de Biu de Carro (2005, p. 250), “trans- Quanto ao dançar “irradiado”, “atu-
bioquímica das funções mentais. Esses lanceiros “azougados, agitados e ati-
porte ao mundo sagrado, ao lugar dos ado”, o “não estar em si”, segundo
hormônios são os neurotransmissores, vos por muitas horas”. A “irradiação”
espíritos, e o faria com amor, calma e descreveu o Mestre Simões, e confor-
sendo o principal deles a serotonina, dos brincantes, o estado alterado de
conforto”. Para além dos efeitos psico- me descrevem folgazões, dirigentes,
responsável pela modulação geral da consciência traduz-se num transe que
ativos acima descritos, a planta sagra- líderes espirituais dos maracatus, tal
atividade psíquica: regularização do é sinônimo de trânsito para um mun-
da é sempre usada de forma ritualís- experiência extática indica o estado
estado emocional, do humor, da ati- do mágico-religioso, e que, conforme
tica, entre os folgazões, a fim de que de transe em que se apresentam os
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confirmar práticas religiosas alçadas à com esse sentido de proteção contra


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condição de “segredo de maracatu” e os males. “Sair de caboclo, toma as-
que, desde então, eram já vivenciadas sim significado transcendental”, ecoa
como tradição a que não se podia fu- a afirmação de Bonald.
gir. Durante as duas últimas décadas,
Significado transcendental que ter-
os rituais são mantidos. Conforme
mina por ser também exigência de
depoimentos gravados para o docu-
ordem prática para a proteção do
mentário audiovisual Verso lança flor
corpo, para a manutenção da vida. O
(2013), diversos folgazões e donos de
costume de “bater pau”, rememorado
maracatu listam, abertamente, entre
“com entusiasmo”, nas palavras do
os preparativos para cada carnaval, es-
caboclo de lança Severino Ramos, era
ses cuidados permanentes com o fe-
o que acontecia antigamente, há pelo
chamento do corpo. Ervas propiciató-
menos meio século, quando os grupos
rias – arruda, pinhão roxo, alfavaca de
saíam pelos engenhos e dois deles se
caboclo, jurema, alfazema – sempre
encontravam num dos caminhos. Para
aparecem penduradas no pescoço,
não haver briga, os rivais precisavam
na boca, sob a orelha dos folgazões,

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define Roberto Motta, “implica numa o caboclo de lança Severino Ramos da
abertura para o infinito”, conduz “ao Silva, da cidade de Goiana. Das con-
mundo ‘segundo a verdade’, que é firmações conseguidas, uma se refe-
também o mundo dos sonhos, nos re à proteção fornecida pela lança ou
quais me manifesto tal como sou no “guiada”; outra, ao “calço” resultante
mais profundo de meu ser” (2005, p. de “serviço especial numa casa da li-
294). nha de Xangô que os benze e protege
durante a ‘brincadeira’ ”, ambas situ-
Dez anos depois de publicado o pri-
adas no conjunto dos rituais de purifi-
meiro artigo de Olímpio acerca dos
cação e proteção pedidas, assim como
rituais sagrados praticados por inte-
a abstinência sexual e a recomen-
grantes dos maracatus de baque sol-
dação de não se tomar banho “para
to, Olímpio Bonald Neto prepara novo
não abrir o corpo”. Tais depoimentos
texto, com confirmações e acréscimos
apresentados por Olímpio, embora se
relevantes, obtidos graças a entrevista
resumam a apenas dois informantes,
do pesquisador Evandro Rabello com
jamais poderiam ser desprezados por
214 215

nas estratégias de defesa adotadas com o cachimbo usado às avessas


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em supostos campos de guerra: “A pode ser realizada em forma de cruz,
gente se abaixa e se levanta. Se ajoe- apontando-se os quatro pontos carde-
lha e bota o ouvido no chão para ouvir ais (Cascudo: 1978, p. 99). Para os ma-
o que vem vindo. Vai certinho para o racatuzeiros, passar em encruzilhada
‘juízo’ do camarada. Dá pra sentir de exige “preparo”: quando percorrem
uns 3 km se vem e quantos vêm de ca- algum cruzamento durante a cerimônia
boclos”. da trincheira, ou mesmo na abertura e
fechamento de ensaios e sambadas, o
Quando acontece de se passar numa
mestre de cabocaria puxa os cordões
encruzilhada, sobretudo se for à meia-
nas quatro direções. Nesse sentido, o
-noite, o Mestre Simões recomenda
local conhecido por “Cruzeiro da Brin-
“encruzar pois é preciso pedir licença
ga”, na área rural de Tracunháem, é um
ao Sete Encruzilhadas, para evitar aci-
espaço emblemático por reunir, num
dentes, uma queda, quebrar uma per-
mesmo ambiente, uma igreja, um cemi-
na, um encontro com desafeto etc.”.
tério e uma encruzilhada. Ambiente no
Nos rituais do Catimbó, a defumação
qual, em tempos passados, foram tra-

Lídia Marques
cruzar as bandeiras. Caso contrário, duplas ou em círculo, numa simulação
“botam a guiada no outro e furam dos modos de se manobrar a guiada.
logo o pano da bandeira, derrubando Entretanto, lembra Olímpio, “a core-
‘o caboclo-de-frente’, chamado o ‘ca- ografia dos caboclos de lança não se
boclo-pé-de-bandeira’, o que defende esgota no ‘duelo’ de lanças”. Evo-
o símbolo da ‘Nação’. Quando furam cando descrições de Roger Bastide
a bandeira, começa o pau”. O calço, mencionadas em Guerra-Peixe (1980)
o fechamento do corpo, a proteção e Katarina Real (1967), menciona o
espiritual evocavam a paz, buscavam bailado dos lanceiros, predomínio de
afugentar a morte. Transformada em saltos para o alto, a cabeleira flutuan-
carga simbólica, essa luta hoje está do, as mãos fazendo evoluções com a
convertida em coreografia: “bater lança apontada para cima, para baixo,
pau” se transformou em jogo de cena, para os lados. Bonald ressalta, porém,
em faz-de-conta, em dança vigorosa a preferência pelo depoimento de Se-
que se aprende e se exercita durante verino Ramos, talvez pelo possível in-
ensaios e sambadas. É praticado entre dício de práticas indígenas, refletidas
216 217

MARACATUS RURAIS, POR ROBERTO BENJAMIN


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A respeito de maracatus de baque solto, uma “praga de tuchaus”, são tratados
o texto inaugural deste pesquisador é por “distorcidos”.
publicado em 1976, sob a forma de mi-
Benjamin descreve antigos maracatus
cro-monografia, pelo Centro de Estudos
rurais como “exclusivamente mascu-
Folclóricos, do Departamento de Antro-
linos. As mulheres - mães, esposas,
pologia do Instituto Joaquim Nabuco de
filhas ou namoradas – guardam uma
Pesquisas Sociais. É uma espécie de pre-
respeitosa e servil distância durante sua
âmbulo ao texto que publica seis anos
apresentação. Também não se veem
adiante, após pesquisa de campo e in-
crianças, só homens”. A esse respeito,
terpretação de resultados realizada com
Katarina Real também mencionou a
a colaboração de mais três professores
inexistência de mulheres entre os brin-
da Universidade Federal Rural de Per-
cantes de maracatu rural, acrescentan-
nambuco, instituição em que trabalha-
do as dificuldades decorrentes desse
va e para a qual foi realizado o trabalho
fato para a obtenção de informações.
etnográfico. Na introdução ao assunto,
Quando Roberto Benjamin decide des-
descreve os maracatus rurais, “grupos
vadas lutas entre nações de maracatu a volta à sede do maracatu, ao térmi- folclóricos típicos do carnaval da zona ca-
e sobre o qual se diz que “tem caboclo no da folia, se faz com canto de des- navieira de Pernambuco”, mencionando
enterrado”. Nesse local atualmente se pedida. Todas as transcrições feitas Carpina, Tracunhaém, Nazaré da Mata,
costuma realizar “despacho” e outros pelo pesquisador são de versos em Timbaúba, Igarassu e Goiana como os
ritos sagrados de religiões afro-brasi- quadras, ou estrofes poéticas de qua- “municípios onde eles aparecem com
leiras. tro linhas, modalidade que se man- mais frequência” e ressaltando que, no
tém usual entre os mestres do apito, Recife, aonde chegaram em decorrência
Acerca dos cantos propiciatórios, e de fluxos migratórios, “têm sido trata-
permeando os registros feitos sobre o
dos meramente festivos, alguns são dos como maracatus descaracterizados,
assunto. Deseja-se felicidade, pede-se
transcritos por Olímpio. Há canto de degenerados, de segunda classe” e, por
licença para passar, proteção contra o
despedida, quando o caboclo sai de imposição oficial, “obrigados a renunciar
mal, contra confusão. O pedido se dá
casa para mergulhar no carnaval. Can- a suas formas autênticas”. Tal afirmação
mediante ritos, como “sai de casa com
to de saudação, quando os brincan- repercute o que Katarina Real expõe no
minha nação, com meu pé direito na
tes visitam amigos e são recebidos na trabalho dos anos 1960, já mencionado,
frente ao Morro da Conceição”, me-

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casa de conhecidos. Ao passar numa inclusive com a transcrição de texto jor-
diante fórmulas como “Deus te salve
igreja, entoar cantos de reverência ao nalístico de explícito caráter deprecia-
água benta”.
sagrado torna-se obrigatório. Por fim, tivo, em que os maracatus, repletos de
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tacar três personagens marcantes do percussivo produzido pelos chocalhos,


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brinquedo – lanceiros, tuxaus e baianas “os folgazões tocam apitos que imitam
– frisa que “as baianas, nos grupos tra- pássaros”, detalhe não mencionado pe-
dicionais, são homens”, embora tenha los demais pesquisadores ora em cote-
visto a inovadora participação de mu- jo. Entre os textos inaugurais sobre os
lheres baianas em cidades maiores e no maracatus de baque solto, este é um
Recife. Os tuxaus, ou caboclos de pena, registro encontrado apenas nas descri-
ganham um parágrafo descritivo e uma ções elaboradas por Roberto.
informação das mais relevantes é o as-
Em relação à poesia, outro item relevan-
pecto diferenciado da coroa de pena
te no texto de Benjamin, a participação
de pavão, quando comparada ao cocar
do poeta ou “tirador de loas” é relatada
dos caboclinhos recifenses. A flecha é
de modo sucinto, o suficiente, embo-
enfeitada com fitas de tecido, similar à
ra, para que aspectos essenciais sejam
lança dos caboclos, e são usados, ainda,
revelados acerca da expressão poética
óculos escuros e cravo branco na boca,
que estrutura o maracatu de baque sol-
elementos que também compõem o fi-
to, que o caracteriza e distingue:
gurino do lanceiro. Outra nota de des-
taque é que, além do complemento À sombra do estandarte o tirador de
loas grita versos tradicionais ou impro-
visa uma saudação; o grupo responde a alternância entre orquestra e a voz Ascenço Ferreira assinala que nos
Maria Alice Amorim

o refrão; zoam os chocalhos e toca a do poeta, ou “tirador de loas”, confor- Maracatus de Palmares giram “can-
orquestra de modo ensurdecedor; o ções contemporâneas em torno de
me terminologia adotada por Ascenço
canto fica inteiramente abafado. Pas- temas mais em voga e marcantes
Ferreira, e que Guerra-Peixe contesta.
sada a excitação da música e da dan- do ambiente” em que se movimen-
Rememorando o que foi dito, o musi- tam os foliões. O assunto é “usina”,
ça, o silêncio é geral e se ouve a voz
do tirador de loas e assim prossegue cólogo alega existirem apenas toadas, “açúcar”, “cana”, “amor”, sátira
o folguedo. Nos intervalos curtos, aos e não loas, nos grupos de maracatu tra- social, etc. Há inclusive, segundo
poucos, por revezamento, os partici- dicional, ou aqueles de baque virado A. Ferreira, momentos de improvi-
pantes ingressam na casa para beber vistos no Recife, incluindo os de outras sação. Nos tradicionais grupos re-
cachaça ou outra bebida alcoólica. cifenses não é igual (...). Os Mara-
localidades, porém organizados sob
(1976, p. 2) catus-de-orquestra, porém, adotam
os mesmos moldes. Guerra-Peixe faz
versos de variado assunto, quadras
questão de contestar a informação, de tradicionais, abecês dos Violeiros e
deixar claro que as agremiações sobre tantos poemas que podem não se
Revela-se, pois, a existência de versos as quais Ascenço escreve são os mara- referir ao divertimento. (1980, p. 47)
cantados de cor e também os improvi- catus de orquestra, ou baque solto, e
sados, o coro que responde o mestre, não os de baque virado:
220 221

Interessante saber que o poeta de ma- exibições de maracatu: “chegando em


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Cavani Rosas - Projeto de esculturas para o Parque dos Lanceiros, Nazaré/PE

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racatu de baque solto visitasse, nos lugares previamente acertados, nas ca-
anos 1950, repertório tradicional de sas de pessoas conhecidas e de posses,
quadras, abecês, canções e romances como os senhores rurais ou nas portas
tão familiares a violeiros e cordelistas, das simples bodegas dos sítios e arrua-
a coquistas e mestres de samba de ma- dos, o grupo pára a fim de se apresen-
tuto. Importante saber, para compre- tar”. Observa-se, ainda na atualidade,
ender a complexidade desse universo a animação conduzida por cachaça e
poético tão cultivado pelos folgazões outras bebidas alcoólicas, embora es-
e apreciadores do brinquedo. Roberto cassos sejam os grupos sediados na
Benjamin percebe a relevância desta zona rural e que se apresentem ainda
expressão artística, ao descrever a par- “de engenho em engenho”. Quanto
ticipação do poeta, entre alternâncias ao costume de parar nas portas, há ma-
da música e dança, simultaneamente racatus que também se apresentam na
executadas e simultaneamente inter- rua ou na frente da casa de amigos, co-
rompidas a fim de que se instaure o nhecidos, parentes, apoiadores do fol-
silêncio e ressoe a voz do mestre, a po- guedo, durante a jornada nas cidades
esia. Esta celebração é contextualizada em que realizam exibição no palanque
na ambiência rural em que ocorriam as carnavalesco.

MARACATUS RURAIS DE PERNAMBUCO, POR ROBERTO BENJAMIN

No artigo escrito a partir de observa- é reproduzida por Benjamin em todo


ções de campo realizadas entre 1979 e o texto, inclusive no título do ensaio,
1981, e que dá seguimento à pesquisa embora defendesse que a adjetivação,
publicada em 1976, Roberto Benjamin depreciativa, se torna desnecessária por
amplia a descrição detalhada do fol- ser o brinquedo “a única modalidade
guedo, que, àquela altura, “prossegue conhecida” no habitat original, a Zona
vivo e em expansão na sua região e da Mata Norte de Pernambuco.
incorporou-se definitivamente ao carna-
Considerando a quantidade de gru-
val do Recife” (1982, p. 199). A origem
pos de maracatu de baque solto com
rural é colocada como um dos pontos
a denominação “cambinda”, Benjamin
de diferenciação dos maracatus de ba-
levanta a hipótese de origem comum
Lídia Marques

que virado e a nomenclatura – “mara-


a ambos os folguedos, defendendo se-
catu rural” – adotada por Katarina Real
rem os maracatus de baque solto uma
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variante das Cambindas, acrescida de dificuldade “a sua interpretação e a fi-

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outros elementos, entre os quais o ca- xação de suas origens”. Outra hipóte-
boclo de lança e o de pena. Conside- se, remota, que não descarta, é a de
ra possível, ainda, a origem comum à “serem os lanceiros reminiscências de
Aruenda, folguedo visto na cidade de guerreiros de antigos quilombos”.
Goiana e vizinhança, conforme registra
A hipótese que defende Benjamin, a
Valdemar de Oliveira (1948). Durante a
partir da observação de rituais dos ma-
pesquisa, três personagens recorrentes
racatus de baque solto, associada a
são identificados nos grupos: o lanceiro
pesquisas dele próprio sobre festas de
ou caboclo de lança, o arreiamá ou ca-
reis negros no Nordeste, aponta “a ori-
boclo de pena e as baianas. Ao descre-
gem direta e imediata” dos caboclos de
ver o caboclo de lança, qualifica-o por
lança: “o lanceiro é a mesma figura do
“estranha figura” e igualmente evoca
Mateus, do bumba-meu-boi, com um
o clássico texto de Valdemar, em que
progressivo enriquecimento dos moti-
os lanceiros são designados “indecifra-
vos decorativos e mudança de papel”
veis tucháus”. Tal aspecto enigmático é
(1982, p. 202). Segundo o estudioso, tal
visto por Roberto Benjamin como uma

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racatu rural leva buquê de flores arti- “chegada” na sede, no domingo de


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ficiais e uma das baianas é a dama do carnaval. Trata-se de prática tradicio-
paço ou dama da boneca. Em sintonia nal, ainda hoje vigorando, em que os
com as observações de campo coleta- integrantes abrem o carnaval, no do-
das por Guerra-Peixe, a calunga é “tra- mingo à tarde, no próprio terreiro ou
dicionalmente branca, de pano”, para a local público próximo à sede do grupo.
qual não se atribui “o sentido mágico- É somente depois disto que os brincan-
-religioso das bonecas dos maracatus tes ficam aptos a sair visitando sítios,
africanos, embora sejam preparadas engenhos, arruados, centros urbanos,
(calçadas) para proteger o grupo”. inclusive cruzeiros, igrejas ou outros lo-
cais, tidos por sagrado, e palanques de
“Não há rei ou rainha”, afirma Benjamin,
carnaval, denominados “Federação”.
deixando claro, entretanto, em nota de
Fica, ainda, o registro de que, àquela
rodapé, ser “possível que no passado
época (anos 1970/1980), as prefeituras
estes grupos tivessem suas figuras mo-
já promoviam a visita de maracatus às
nárquicas”. Lança a suposição a partir
diversas cidades da região, produzin-
de Valdemar de Oliveira (1948), que re-
do, em consequência, ajustes no ho-
gistra repressão policial contra reis e rai-
rário e duração do ritual de chegada.
nhas da Aruenda Iaiá Pequena, folgue-
teoria pôde ser confirmada em conversa gor metodológico que o faz discordar do considerado por Roberto Benjamin
um dos plausíveis primórdios do mara-

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com antigos mestres por ele entrevista- da hipótese lançada por Bonald, acerca
dos, a exemplo dos poetas Baracho e das relações entre maracatus, Catimbó catu de baque solto. Também Ascenço
Zé Bagadu, além da constatação de que e Xangô. Ferreira comenta, no texto publicado
os lanceiros, nos grupos de zona rural e em 1951, relatos que ouviu acerca de rei
Quanto às baianas, Benjamin constata e caboclos apreendidos pelo patrão usi-
mais isolados, eram chamados de Ma-
que, nos locais mais isolados, homens neiro, em pleno carnaval, e obrigados a
teus e Mateusinho. Sobre os caboclos
as representavam, diferentemente dos assumir o posto de trabalho sem direito
de pena, também chamados de arreia-
grupos sediados em áreas urbanas a mudar os trajes, o que pode levar a su-
má, apresenta a hipótese de que “tais
como o Recife. A partir da constatação, por a existência de cortejo real nos ma-
caboclos representem espíritos indíge-
lança a hipótese de que o “baianal” te- racatus do interior, de “baque singelo”.
nas protetores dos grupos e, portanto,
ria sido o núcleo original dos maracatus
possam retirar (arriar) os males”, sem, Entre as particularidades com que se
rurais, sobretudo levando-se em conta
entretanto, obter declarações que com- defronta na pesquisa de campo, Ro-
a proposta de origem comum ao fol-
provassem tal possibilidade, conforme berto Benjamin descreve minuciosa-
guedo das Cambindas de Pernambuco
escreve. Este posicionamento pode mente a cerimônia da trincheira, ou
e Paraíba. O grupo de baianas do ma-
significar, inclusive, um indicativo do ri-
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É igualmente descrito o temor latente, mencionei anteriormente, diz respei-


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em tempos passados, provocado pela to ao artigo de Olímpio Bonald Neto
possibilidade de encontro violento (1976), que atribui “uma ligação direta
de diferentes agremiações entre si e da brincadeira com os cultos religiosos
como isto se transformou em violência afro-brasileiros (Umbanda e Xangô, de
simbólica, dando origem à cerimônia linha jeje-nagô)”, o que Roberto refuta,
de “cruzamento de bandeiras”, ritual abertamente, por Olímpio basear-se
acompanhado pelos mestres improvi- “no depoimento de um único dirigente
sando versos, em tom de peleja. de grupo”. Comparativamente à vincu-
lação dos maracatus nação aos terrei-
Sobre os aspectos mágico-religiosos,
ros de Xangô, o pesquisador defende
Roberto Benjamin remete a pesquisa
que a relação religiosa estabelecida
de campo à hipótese da antropóloga
pelos integrantes dos maracatus de
americana Katarina Real, confirmando-
baque solto é “uma ligação pessoal,
-a. Quanto a este assunto, a principal
de cada integrante e não dos grupos”,
discordância de Benjamin, conforme
cuja proteção é pedida em ‘mesas de

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catimbó’, ‘cultos de mestres do além’ e da paisagem carnavalesca pernambuca-


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‘jurema’ por meio, inclusive, de alguns na. Seguindo veredas da memória afe-
objetos, tidos por mágicos, e por isso tiva, da memória de infância, Ascenço
preparados ou calçados nos locais de Ferreira nos oferece dionisíaco relato de
culto. poeta-folião dos maracatus palmaren-
ses de baque singelo. O maestro César
Guerra-Peixe desvenda detalhes musi-
cais, até então ignorados, sobre mara-
catus tradicionais e maracatus recentes,
diferenciando-os principalmente pelo
ENSAIO DE COMPLEXIDADES tipo de baque e pela minuciosa análise
de personagens e outros elementos dos
Uma trama inconclusa? Sim, inconclusa, cortejos.
incompleta, aberta. E, nela, sem valia é
o pensamento único, estéril, que se ar- Acrescentando contribuição aos estu-
vorasse a garantir uma solução, uma ori- dos, a antropóloga norte-americana
gem, uma unanimidade. O maracatu de Katarina Real descreve os principais as-
baque solto, à maneira de palimpsesto, pectos e personagens que compõem o
guarda como tesouro confluências e re- folguedo, sem negligenciar a questão
desenhos, camadas de cultura, tintas de religiosa, mote para a pesquisa de Olím-
memória longa na memória recente de pio Bonald Neto, que se ocupa, sobre-
folgazões. As práticas sociais, a observa- tudo, dos rituais sagrados, das relações
ção participante, a produção intelectual entre Catimbó, Umbanda, Candomblé
desses ensaios pioneiros nos deixam e maracatu rural. É evidente o entrela-
vislumbrar a surpresa hologramática: de çamento de idéias, a franca interlocução
religiões híbridas, de poéticas de tradi- que os estudiosos estabelecem com os
ção oral, de indissociável dança-música- textos antecedentes. Nesse aspecto, o
-poesia, de enredadas teias “afro-indo- pesquisador Roberto Benjamin, autor
-brasileiras”, aflorando em complexos do mais recente texto entre os consi-
desenhos, em sedutores bordados. O derados antológicos, visita os demais,
indecifrável enigma lançado por Val- coteja-os e oferece novas contribui-
demar de Oliveira, mesmo depois de ções. Todos eles apresentam argumen-
parcialmente desvendado, mantém o tos próprios, construindo, assim, análise
encantamento pelo mistério, pela exu- e interpretações fundadoras acerca do
berância de personagens emblemáticos baque solto, das particularidades desse
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ramo “destoante” de maracatus. reunião e avaliação de bens herdados,

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históricos e de continuidade criativa,
Fascinante perceber, na descrição dos
incontornáveis, portanto, são os textos
autores, a complementaridade de in-
pioneiros aqui analisados, sem os quais
formações, as interseções e diferenças,
não seria possível fazer avançar o pen-
mas, sobretudo, as permanências que
samento acerca de complexidades, de
se expandem em temporalidades e
emaranhadas origens e surpreendentes
espacialidades diversas daquelas nar-
rumos dos maracatus de baque solto.
radas, permanências cultivadas pelos
próprios folgazões, protagonistas cio-
sos dos papéis que lhes cabem na legiti-
mação da brincadeira, na manutenção e
adaptações do folguedo conforme a di-
nâmica dos fluidos processos culturais.
Considerando ser inventário cultural a

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Caçador
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registro e salvaguarda

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brinquedo misterioso
Reverência ao

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que simbolizam conteúdos. Invenção imaginar, descobrir, conhecer. E o que
tramada e urdida pela sensibilidade de se conhece, agora, a partir de levanta-
quem busca instantes de plenitude, de mento preliminar e pesquisa de campo,
quem poetiza a vida. corrobora, enfatiza a fidelidade de fol-
Vistosos. Deslumbrantes. Enigmáticos. ventio, muito mais do que descrever gazões a tradição viva – desde onde a
Este inventário cultural dos maracatus
Se há pompa nas palavras, elas jamais minuciosamente, do que registrar, re- memória oral alcança até o ano de 2013
de baque solto, muito mais do que um
dariam o tom do que desejemos di- lacionar, catalogar, muito mais do que – e exatamente viva porque é uma prá-
levantamento sistemático de bem cul-
zer de encantamento e poesia de ma- apenas visar a descrição e enumeração tica cultural entranhada no cotidiano de
tural que precisa ser conhecido e res-
racatus. O baque é solto; a língua do minuciosa, a palavra descende de in- pessoas, de comunidades imersas nas
peitado, busca puxar os fios de uma
mestre do apito, afiada. Os folgazões venire, ou seja, achar, encontrar, des- vivências da Zona da Mata Norte de
trama tecida há séculos e emaranhada
são apaixonados, feito adolescente; cobrir, imaginar, inventar, encontrar-se, Pernambuco ou visceralmente ligadas
em outras teias ancestrais, mesmo que
lúdicos, feito criança. Que palavras, achar-se, conhecer-se. Descobrir, sim. a essas vivências mesmo que em terri-
a história aponte apenas documentos,
que descrições dariam conta de de- Inventar, sobretudo. A invenção de um tórios de diáspora, como é o caso de
registros recentes, de umas tantas dé-
cifrar universo mítico, misterioso, de folguedo diz de relações pessoais, so- migrantes no Recife e Região Metropo-
cadas. O ato de desvelar, muito mais do
iniciados? Se o vocábulo inventarium, ciais, de um espaço-tempo, sincronias litana ou nos arredores da Mata Norte.
que atitude técnica, é ato de amor, de
em latim, tem o mesmo radical de in- e diacronias que dão sentido à vida, É, sobretudo, tradição viva porque não
paixão. É uma entrega e uma busca. É
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se recusa a dialogar com novas práticas encanta. Por isso, também por isso, o
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sociais, próprias à dinâmica da cultura: ímpeto em reproduzir-se, em perpetu-
ar-se, para além do desejo de apenas
Uma cultura é avaliada no tempo e se
insere no processo histórico não só
exibir-se. A perpetuação, nesta dinâmi-
pela diversidade dos elementos que a ca, não se guarda em códigos enrijeci-
constituem, ou pela qualidade de re- dos, ao contrário, abre-se ao invenire,
presentações que dela emergem, mas ao inventar-se, reinventar-se.
sobretudo por sua continuidade. Essa
continuidade comporta modificações Isto permite afirmar que, fiéis ao pró-
e alterações num processo aberto e prio ritmo criador, os folgazões se con-
flexível, de constante realimentação cedem, com dignidade, o direito de re-
(...). (Magalhães: 1985, p. 44) presentar-se, autolegitimar-se, mesmo
quando se sabe que conquistar uma fi-
sionomia de símbolo oficial de pernam-
Se o maracatu de baque solto é tra- bucanidade – a do caboclo de lança –
dição viva, entre as tradições culturais abre alguns canais à instrumentalização
pernambucanas, como suporta esta de formas de expressão, de saberes
cultura de memória longa os embates constituídos por uma comunidade vin-
com a indústria cultural, com a indús- culada ao que se designa por “culturas
tria do turismo, com fugazes exibições tradicionais e populares”. O lanceiro é cor”, aspectos apontados pelo artista nas misturam-se à herança européia, e
de carnaval, com os supostos bom- um dos ícones da cultura pernambuca- plástico Rinaldo Silva, no mesmo vídeo, se deixam vislumbrar em perspectivas
bardeios que minariam esses alicerces na, emblemático, simbólico de misci- e que realçam o imagético, o erótico do detalhe e do panorâmico: borda-
fincados no massapê? É a vida em si genações plasmadas durante cinco sé- na composição cênica, visual, poética, duras que fluem em arabescos, corpo
mesma que dá conta do fenômeno: o culos. E os maracatuzeiros não apenas simbólica de um folguedo emblemá- cênico que dança em terra nua, poesia
maracatu de baque solto é um orga- sabem, valem-se dessa importância de tico exatamente porque funde contri- que se improvisa ao vento. São conflu-
nismo vivo, um sistema que se traduz que se investe o mais destacável repre- buições ancestrais, funde religião, arte, ências que o situam num continuum
em interconexões, flexibilidade, trocas sentante do folguedo, entre os demais vida, e não exige explicações do saber de tradições reconhecíveis, enquanto
simbióticas. Traduz-se em amor, “viva- personagens e elementos complexos oficial constituído para perpetuar-se e sistema cultural, num território especí-
cidade pura, o ritmo do tempo” (Paz: que engendram a brincadeira, “brin- reinventar-se. fico, a Zona da Mata Norte de Pernam-
1994, p. 196). Traduz-se em vitalidade, quedo lindo, e importante na cultura”, buco, onde não é possível segmentar
Expressão artística cheia de mistérios,
vitalidade cultural que, embora imersa como tão bem define o Mestre João integrantes de cada expressão cultural,
indecifráveis enigmas, o maracatu de
num sistema econômico decadente, Paulo, no vídeo-documentário Verso onde maracatu, cavalo-marinho, coco
baque solto traz em si mesmo, à manei-
reflete o esplendor de um saber-fazer, lança flor (2013). Brinquedo que se fir- de roda, ciranda, boi de carnaval, ca-
ra de microcosmo, representações das
de um saber-viver, de um expressar- ma, há décadas, pela “força da libido”, boclinhos, repentismo compõem teci-
grandes matrizes do patrimônio cultu-
-se particular que encanta e sabe que pela “força poética”, pela “força da do cultural sutilmente matizado e, ao
ral do país. Contribuições afro-indíge-
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agulha, linha, miçangas, lantejoulas.


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Inspirados em motivos diversos, como
arabescos, florais, figurativos, a repro-
dução deles pode partir de revistas de
moda, decoração, tatuagem. Além da
gola, todos os adereços das fantasias
mobilizam a comunidade cultural: fami-
liares, donos, brincantes, costureiras,
artesãos. É, assim, entre os integrantes
da comunidade que circula a remune-
ração por tais serviços, indicativo, in-
clusive, de ser este um entre os vários
ofícios, associados ao bem cultural,
preferentemente vivenciados no inte-
rior da mesma.
Lídia Marques

Os elos do saber-fazer são indícios do


saber ser e estar em grupo. Muito mais
do que o valor material, compreende-
-se que os valores imateriais, os valo-
res simbólicos mobilizam a todos da lho com caboclo, eu trabalho com mes- permeia múltiplas esferas do saber-vi-
mesmo tempo, robusto em sua intei- tre, eu trabalho com Exu, eu trabalho ver, cujo esteio pode ser tanto o rito se-
comunidade cultural. O trabalho de
reza. Há uma capilaridade que une fol- com as Pombas-Gira, tudo isso eu tra- creto, propiciatório, quanto a explosão
montar e manter um maracatu envol-
guedos e folgazões, os quais partilham balho”. Ainda que deparando-se com de dança, música, criações de poesia.
ve o grupo, que se envolve em trocas
os diversos gêneros de folguedos entre pronunciamento desse teor, falar em “Samba de maracatu, eu canto na me-
sociais que resultam, não apenas em
os diferentes ciclos festivos anuais. maracatu é dizer de mistérios, de ritos lodia que eu inventar, eu gosto muito
sociabilidade, sobretudo em espiritua-
É com o sentido cíclico da vida que a lidade, identidade coletiva. As práticas iniciáticos e propiciatórios referentes a de inventar”, quem diz é o Mestre Zé
festa se renova. Mal acaba o carnaval, e sociais, no maracatu de baque solto, Candomblé, Catimbó, Jurema. É dizer Galdino, poeta de maracatu, violeiro,
já estão todos a pensar como preparar passam pela esfera coletiva e/ou estri- de gestos sagrados, velados e manifes- cirandeiro, mestre de boi de carnaval,
o seguinte. A produção das golas do tamente particular do transcendental. tos, que se constituem em mistérios, toadeiro de cavalo-marinho, que se
caboclo de lança requer não apenas di- Nessa esfera, a relação é mediada por no que os folgazões chamam “segredo iniciou cantando folheto de cordel nas
nheiro para os insumos, sobretudo cria- líderes espirituais, como Laurinete de de maracatu”. feiras, ainda na infância, aos oito anos,
ção artística e habilidades manuais. Os Assis Santana, madrinha do Maracatu e para quem a poesia “significa vida,
“Esse maracatu para mim é tudo na
desenhos instigam a invenção plástica, Cruzeiro do Forte, que não se exime é o sentimento do espírito da pessoa”.
vida”, exulta Laurinete, numa franca in-
pedem mãos habilidosas no manejo de de anunciar publicamente: “eu traba- No baque solto, a poesia consiste num
dicação de que a fruição do folguedo
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dos principais elos a interconectar fol- presentatividade dos folgazões que se de mestres do apito, como que a re- mitos, ritos, arte, vida. E é nesse ocea-
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gazões, platéia e demais integrantes firma. É, sobretudo, na confirmação de alimentar sistematicamente a memó- no de palimpsestos que mergulham os
da comunidade cultural. consolidado processo de pertencimen- ria do folguedo e o prazer de vivê-lo e folgazões. Vivenciando, experimentan-
to coletivo que se justifica: nele exprimir-se. do cotidianamente o terreiro, constrói-
“Maracatu é um brinquedo muito mis-
-se a afirmação de identidades e o pró-
terioso”. Com esta afirmativa, o mestre “Os processos de construção da me- Legítimos detentores de patrimônio
mória social e do patrimônio cultural prio sentido da existência. E é com os
caboclo Zé de Carro, de longa vivência cultural, protagonistas dessa cultura
criam – ambos – marcos afetivos e fios da poesia que se tece esta trama,
de folgazão, expressa a impossibilida- de terreiro, são os próprios maracatu-
cognitivos compartilhados que bali- este brinquedo misterioso, bem cultu-
de de uma definição fechada do que zeiros que apontam emblemas, encru-
zam a continuidade e a mudança so- ral cujo valor simbólico exige reverên-
seja o maracatu de baque solto. Para ciais, a formação de representações zilhadas, convergências: o maracatu é
cia e habilita-o plenamente a integrar o
além de tudo o que pudesse ser dito, de si e projetos de futuro.” (Arantes: terreiro, terreiro de festa, terreiro sa-
patrimônio imaterial brasileiro.
há o inefável – aquilo que se sabe, se 2010, p. 52) grado. Nele, indecifráveis, misturam-se
sente, mas, em razão de sua natureza,
força, beleza, é inexprimível – e o mis-
tério, que não se pode acessar, o in- O pertencimento se traduz em identi-

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decifrável. A quem cabe definir o brin- dade, em representações simbólicas de
quedo, senão aos próprios brincantes? uma comunidade cultural, comunidade
“Maracatu não é carnaval, maracatu é da qual, no presente estudo, o mara-
terreiro”, enfatiza Manoelzinho Salus- catu de baque solto é patrimonium. É
tiano, presidente da AMBS, no depoi- patrimônio, cuja reunião de bens, teres
mento ao vídeo acima referido Verso e haveres, mobiliza o cotidiano de fol-
lança flor. gazões e apreciadores, durante todo
o ano. Se hoje é possível valer-se da
Não é, portanto, um possível gosto
memória técnica de discos gravados,
do pitoresco o que move a iniciativa
de registros audiovisuais produzidos
de registro de um patrimônio cultural.
por especialistas, simultaneamente os
É na cont