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O PROTOCOLO DE MANCHESTER NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE E A

ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO

Valdeci de Assis TEIXEIRA1


Gleidson Brandão OSELAME2
Eduardo Borba NEVES3
1
Enfermeiro. Centro Universitário Campos de Andrade. Curitiba PR. Rua Irmã Sophia Rieche, nº 300 – Cidade
Industrial – Curitiba - PR. Telefone: 041 84361817 – e-mail: assisesilvana@yahoo.com.br
2
Enfermeiro. Especialista em Saúde Pública. Docente do Centro Universitário Campos de Andrade. Curitiba -
PR. Rua João Scuissiato, nº 1 – Santa Quitéria. Telefone 041 88741267 - e-mail: gleidsonoselame@gmail.com
3
Fisioterapeuta. Doutor em Saúde Pública e Meio Ambiente. Docente do Centro Universitário Campos de
Andrade. Curitiba - PR. Rua João Scuissiato, nº 1 – Santa Quitéria - e-mail: borbaneves@hotmail.com

Recebido em: 27/09/2014 - Aprovado em: 27/11/2014 - Disponibilizado em: 15/12/2014

RESUMO: Objetivou-se analisar os princípios e motivos que levaram à implantação do Protocolo de


Manchester nos hospitais públicos que integram o Sistema Único de Saúde. Realizou-se um estudo de caráter
bibliográfico, por meio da busca eletrônica nas bases Scientific Eletronic Library Online (Scielo), Biblioteca
Virtual em Saúde (Bireme) e Google Acadêmico, no período compreendido entre setembro de 2011 a março de
2012. O critério de inclusão foi de corte cronológico, utilizando-se artigos publicados nos últimos 08 anos.
Optou-se pela técnica de análise de conteúdo, resultando em cinco categorias temáticas. Observa-se uma queda
considerável nos índices de internamentos com consequente diminuição das taxas de mortalidade após
implantação do protocolo de Manchester em hospitais públicos. No Brasil, o protocolo tem se mostrado eficiente
e de fácil aplicação, além de possibilitar ao Estado o acompanhamento e auditoria relativos ao mesmo. Nesse
processo, o Enfermeiro se apresenta como profissional qualificado para atuar como classificador do protocolo, e
sua principal responsabilidade é a de se tornar proativo na avaliação rápida e eficiente dos casos de urgência e
emergência, desde que salvaguardados os direitos do usuário.
Palavras-chave: Protocolo de Manchester; Sistema único de saúde; Enfermagem; Urgência e emergência;
Triagem.

ABSTRACT: Was aimed to analyze the principles and reasons that led to the implementation of the Protocol
Manchester in public hospitals that make up the Health System conducted a study of bibliographical character,
through electronic searching databases Scientific Electronic Library Online (scielo), Virtual Health Library
(BIREME) and Google Scholar, in the period September 2011 to March 2012 the inclusion criterion was
chronological cut, using articles published in the last 08 years. We opted for the technique of content analysis,
resulting in five thematic categories. There has been a considerable drop in the rates of hospitalizations with a
consequent decrease in mortality rates after implementation of the protocol of Manchester in public hospitals. In
Brazil, the protocol is efficient and easy to use, and enable the State to monitor and audit for the same. In this
process, the nurse introduces himself as qualified to act as classifier of professional protocol, and its main
responsibility is to become proactive in fast and efficient evaluation of urgent and emergency cases, since
safeguarding the rights of the user.
Keywords: Manchester Protocol; Public health system; nursing; Emergency care; Screening.

INTRODUÇÃO de Saúde (SUS) foi criado a fim de garantir

Instituído pela Constituição o acesso livre e gratuito a todos que

Brasileira de 1988 e regulamentado pelas necessitam de cuidados de saúde, cabendo

Leis 8080/90 e 8142/90, o Sistema Único ao Estado promover, através de políticas


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públicas, a diminuição das doenças e consequência a dificuldade nos

outros agravantes que coloquem em risco a atendimentos e nas internações(4).

saúde dos cidadãos. Para tanto, deve O Ministério da Saúde, em parceria

garantir a prevenção e proteção nas ações e com as Secretarias Estaduais e Municipais

nos serviços de saúde, e que o acesso a ele de Saúde, e buscando solucionar as reais

seja universal e igualitário(1,2). necessidades dos usuários do sistema,

No âmbito do SUS, a instituição implementaram políticas públicas no

hospitalar pública ou a ela conveniada se intuito de reorganizar a assistência prestada

configura como ferramenta com a pelo SUS. Assim, foram adotadas diversas

incumbência de proporcionar assistência e medidas, e entre elas destaca-se a

tratamento a todos os usuários que a ela implantação do acolhimento com

recorrem e que apresentem agravos de classificação de risco, tendo como

saúde. Com funcionamento ininterrupto principal objetivo a organização do fluxo

durante as 24 horas diárias, os serviços de de usuários(5).

urgência e emergência configuram-se Nessa perspectiva, o protocolo de

como portas de entrada na maioria desses avaliação e classificação de risco,

hospitais(3). fundamentado em experiências

Nas últimas décadas, a crescente internacionais, constitui-se como

procura por atendimentos de urgência e ferramenta necessária e de grande utilidade

emergência nos hospitais públicos do país nos serviços de urgência e emergência,

tem resultado em superlotação, o que estabelecendo o atendimento não mais pela

contribui para provocar a uma ordem de chegada, mas sim pela gravidade

desorganização do processo de trabalho, do quadro e/ou queixa apresentada pelo

tanto do setor quanto dos profissionais que paciente(6).

atuam nesses serviços, tendo como


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O sistema de triagem de Considera-se o protocolo de

Manchester originou-se em 1997 na cidade Manchester uma ferramenta sensível na

de Manchester, na Inglaterra(7), ante a identificação de prioridades em setores de

necessidade do aprimoramento na emergência. Baseia-se em um sistema de

qualidade da assistência nos serviços de algoritmos composto por cinco níveis de

urgência e emergência, a partir da urgência associados a cores, determinando

priorização dos pacientes em virtude ao tempo estimado e prioridade para o

risco apresentado, reorganizando o fluxo atendimento. No Brasil, este tipo de

nesses atendimentos(8). Sua implantação sistema foi adotado inicialmente pelo

ocorreu progressivamente em todos os estado de Minas Gerais a partir do ano de

hospitais do Reino Unido, sendo adotado 2007(11).

por diversos países da Europa(9). A implantação de um sistema de

Dentro deste contexto, o enfermeiro classificação de risco, no caso, o Protocolo

vem se mostrando como o profissional de de Manchester, encontra por vezes uma

saúde mais indicado para avaliar e espécie de resistência dadas as dificuldades

classificar os riscos apresentados pelos relacionadas à introdução da nova

pacientes que chegam aos prontos-socorros tecnologia, e que é totalmente

dos hospitais públicos. Suas ações são informatizada. Na falta de mais e melhores

orientadas por protocolos que avaliam o recursos públicos de pessoal e tecnologia, a

nível da gravidade, determinando implementação do Protocolo de

prioridades de atendimento e área de Manchester torna difícil para muitos

tratamento, o que configura uma profissionais vincular essa prática à sua

assistência com segurança e rotina diária, tornando a classificação dos

competência(10). pacientes em um processo longo e

árduo(12). Sugere-se que tal fato decorre


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muito mais do que simplesmente adaptação anos, por entender que com um corte

à rotina profissional, entende-se que cronológico mais prolongado incorreria no

fatores como carga de trabalho e falta de risco de confrontar, em um mesmo estudo,

condições adequadas podem contribuir publicações com técnicas diferentes das

para este tipo de comportamento. atuais, dado que o Protocolo de

Diante disto, o presente estudo teve Manchester começou a ser implantado com

como objetivo analisar os princípios e mais vigor a partir do ano de 2007 no

motivos que levaram à implantação do Brasil.

Protocolo de Manchester nos hospitais Os dados foram obtidos com busca

públicos ligados ao o SUS, descrevendo a eletrônica nas bases Scientific Eletronic

metodologia utilizada, como também o Library Online (Scielo), Biblioteca Virtual

impacto provocado nos profissionais de em Saúde (Bireme) e Google Acadêmico,

saúde frente a essa nova tecnologia. através da utilização dos termos

“Acolhimento com Classificação de

MÉTODO Risco”, “Protocolo de Manchester” e

Realizou-se um estudo de caráter “Resistência dos Enfermeiros”. Para

bibliográfico, aquele que explica um tema análise do material, os termos “triagem” e

ou problema com base em referências “classificação de risco” foram

teóricas já elaboradas e publicadas, na considerados como sinônimos.

busca de analisar e compreender outras A categorização dos dados deu-se

pesquisas científicas existentes(13). pela técnica de análise de conteúdo, que

A busca ocorreu no período implica em classificar os elementos

compreendido entre setembro de 2011 à constitutivos de um conjunto por

março de 2012, tendo como critérios de diferenciação e, em seguida, por

inclusão artigos publicados nos últimos 08 reagrupamento em categorias, segundo a


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analogia entre os elementos encontrados. DICUSSÃO

As categorias, portanto, são rubricas ou

classes que reúnem um grupo de elementos A superlotação nos serviços de urgência

com caracteres comuns sob um título e emergência nos hospitais ligados ao

genérico(13). SUS

Os serviços de urgência e

RESULTADOS emergência constituem-se num importante

Foram encontrados 26 trabalhos, componente da assistência à saúde para os

excluindo-se as duplicações entre as bases doentes que procuram por atendimento nos

de dados pesquisadas. Destes, apenas 10 hospitais públicos do SUS. Nas últimas

apresentaram conteúdo de interesse ao décadas, observou-se uma elevada e

objetivo deste estudo. Esses 10 trabalhos constante procura de cuidados nesses


(4)
tiveram seu conteúdo analisado e foi serviços . Isso se deve a fatores como o

possível identificar cinco categorias aumento da expectativa de vida da

temáticas: “a superlotação nos serviços de população, acarretando a incidência das

urgência e emergência nos hospitais doenças crônicas e degenerativas, somadas

ligados ao SUS”, “a adoção da a fatores de risco como o tabagismo,

classificação de risco no SUS como obesidade, sedentarismo, abuso do álcool e

processo de triagem”, “ações outras drogas, além da alimentação

governamentais para a implantação do inadequada(14).

sistema de classificação de risco”, “sistema A constante e crescente procura por

de triagem de Manchester e sua estes serviços pode ser associada ao

aplicabilidade”, e “a capacitação do aumento da violência urbana, dos acidentes

Enfermeiro para o uso do protocolo de de trânsito e mesmo pela criação e

Manchester”. implantação de novas tecnologias. Graças


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a estas últimas, a população tem tido mais carga de trabalho nos serviços de urgência

facilidade de acesso a fontes de informação e emergência. Uma conseqüência imediata

– tanto técnicas como políticas -, é a sobrecarga de doentes nesse setor,

capacitando-a a exigir mais de todos os provocando um desgaste excessivo dos


(17)
serviços nos quais tem direito ao profissionais de saúde , dificuldades no

atendimento, o que viria, no limite, a atendimento, recusa de pacientes oriundos

colocar em risco a viabilidade do SUS, de outras unidades, culminando num

obrigando os gestores (âmbitos federal, atendimento fragmentado e a um total

estadual e municipal) a uma reengenharia desarranjo nas portas do SUS(4).

na organização e no modelo do

atendimento(15). A adoção da classificação de risco no

Também alguns serviços de atenção SUS como processo de triagem

básica são responsáveis pelo referido Os fundamentos éticos e

crescimento ao encaminhar pacientes que constitucionais levam à afirmação de que o

não apresentam risco compatível com acesso aos serviços de saúde é um direito

urgência/emergência e que deveriam ser inerente a todos os brasileiros(18). No

atendidos naquelas mesmas unidades. entanto, fundamentalmente por questões

Como resultado, nota-se um econômicas, questiona-se até que ponto

congestionamento nos prontos-socorros esse direito é praticável, pois as

dificultando a adequada prestação de necessidades de saúde tornaram-se maiores

serviços, o que gera insatisfação de todos do que os recursos disponibilizados pelo

os usuários e profissionais de saúde(16). Estado para esse fim. Como tais custos vão

Por sua vez, a falta de capacitação além das disponibilidades para gastos,

organizacional do setor público hospitalar impõe-se a necessidade de se estabelecer

contribuiu para o aumento expressivo da prioridades(19).


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Diversos países passaram pelo confundia-se com o ato de “mandar o

mesmo problema e encontraram no paciente embora, sem atendimento”. Para

processo de triagem parte da solução, ao evitar esse transtorno ou criar algum tipo

estabelecer processos de avalição clínica de resistência, adotou-se o termo

rápidos, a fim de determinar o tempo e o classificação de risco como sinônimo de

setor em que os pacientes deveriam receber triagem. Entretanto, apesar da

atendimento em uma unidade de urgência e recomendação do Ministério da Saúde,

emergência com recursos limitados(19). diversos profissionais e autores ainda

Devido ao sucesso, um desses processos, o continuam a utilizar o termo triagem(10).

Protocolo de Manchester, o levou a ser

copiado em várias partes do mundo(20). Ações governamentais para a

Neste contexto, a triagem de prioridades implantação do sistema de classificação

proporciona ao paciente uma melhor de risco

avaliação do seu estado de saúde(21). Desta No intuito de reorganizar o setor, o

forma, os serviços de triagem tornaram-se Ministério da Saúde, por meio da Portaria

essenciais ao SUS, à necessidade de 2.048/2002, determinou princípios e

organizar o fluxo e selecionar os meios diretrizes a serem seguidos nos sistemas de

adequados para o diagnóstico e urgência e emergência do país,

tratamento(7). estabelecendo normas e critérios para

Apesar de o termo triagem ser operação e prestação desses serviços,

consagrado mundialmente, sua utilização cadastrando e classificando os hospitais

não é universal. Na Espanha, por exemplo, públicos que prestam esse tipo de

seu uso se limita a situações atendimento, além da determinar a criação

catastróficas(22). Em Santa Catarina na de coordenações em nível estadual(6).

catástrofe climática de 2008, por exemplo,


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O objetivo maior da Portaria menos graves e que podem aguardar pelo

2.48/2002 foi estruturar o sistema de saúde atendimento por um período maior de

de tal forma que toda a rede estivesse tempo ou serem encaminhados a unidades

interligada, envolvendo desde o de pronto atendimento. Em outros termos,

atendimento pré-hospitalar até o de alta o ACR proporciona agilidade no

complexidade, capacitando cada elemento atendimento e organiza o fluxo no setor(4).

envolvido na prestação da assistência e

responsabilizando-o pela atenção prestada Sistema de triagem de Manchester e sua

dentro dos limites da sua qualificação(6). aplicabilidade

No entanto, em 2004, os problemas No Brasil, o estado de Minas

com a superlotação ainda persistiam. O Gerais foi o primeiro a utilizar o Protocolo

Ministério da Saúde lança, então, a Política de Manchester nos postos de atenção à

Nacional de Humanização (PNH)(23), e saúde. Para sua implantação foi necessária

dentro desta propõe a implantação do uma negociação envolvendo o governo

Acolhimento com Classificação de Risco mineiro com o Grupo Português de

(ACR) como forma de criar condições para Triagem (GPT), possuidor dos direitos

que todos os usuários que procurassem por para tradução e utilização desse protocolo,

esses serviços fossem atendidos(24). A sob autorização do British Medical Journal

ACR permite identificar os pacientes que (BMJ) e a Manchester Triage Group

necessitam de cuidados imediatos, a partir (MTG), detentores da propriedade dos

do potencial de risco e/ou grau de direitos autorais. Para a implantação foi

sofrimento apresentados por aqueles que também necessária a criação do Grupo

apresentam maior grau de gravidade Brasileiro de Classificação de Risco

clínica são priorizados em detrimento (GBCR), o qual firmou acordo com o GPT,

àqueles que apresentam quadros clínicos MTG e o BMJ e obteve autorização para
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representar e utilizar o protocolo no País sinais e sintomas apresentados, os sinais
(25)
. vitais e a condição física, permitindo

Curitiba foi a 2ª cidade do Brasil a definir a prioridade clínica a um tempo-

implantar o Protocolo de Manchester em alvo recomendado durante o aguardo do

sua rede de unidades de saúde. Em 24 de atendimento médico(28).

maio de 2011, no Centro Municipal de O Protocolo de Manchester é

Urgências Médicas (CEMUM), na composto por 52 fluxogramas que refletem

Regional do Sítio Cercado, a classificação as diversas condições relacionadas à

de risco foi implantada em fase classificação de risco, sendo acompanhado

experimental, logo sendo estendida às 109 de nota explicativa definindo sua

unidades de atenção básica, aos outros 07 aplicabilidade, facilitando e orientando o

CEMUM e as unidade de Saúde da profissional sobre o direcionamento da

Família(26). situação para o fluxograma mais

Fundamentado por conceitos adequado(29). Essa classificação é realizada

internacionais, o Sistema de Triagem de quando o paciente chega às portas do

Manchester impõe a padronização no sistema, a fim de que doentes menos

atendimento das emergências ao graves não sejam priorizados em

estabelecer a necessidade de preferência ao detrimento àqueles que apresentam

atendimento a partir da indicação clínica. quadros verdadeiramente graves(7).

Esta busca de minimizar os problemas

encontrados(27), tendo como principal Capacitação do Enfermeiro para o uso

objetivo o estabelecimento de prioridades, do Protocolo de Manchester

com base em critérios de gravidade A Portaria 2048/2002 estabelece

sistemáticos, onde se leva em conta o que as unidades de urgência e emergência,

problema do paciente, a história clínica, os na realização do processo de acolhimento e


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classificação de risco, tenham um Os Conselhos Regionais de

profissional de saúde com formação Enfermagem (COREN) de alguns estados

superior, exigindo como critério o seu têm emitido pareceres em referência à

treinamento específico na utilização de atuação do Enfermeiro no processo da

protocolos informatizados(30). classificação de risco. Entre eles, citamos o

Atualmente, inúmeros hospitais Parecer 010/2007, do COREN de Minas

públicos do país, que adotaram o sistema Gerais, ressaltando que o Enfermeiro deve

de triagem de Manchester, totalmente ser devidamente capacitado para proceder

sistematizado, têm atribuído ao Enfermeiro a classificação de risco, e estando

a responsabilidade na avaliação e subsidiado por protocolo técnico(12). O

classificação de pacientes em concordância Parecer 0064/2011, do COREN do estado

ao Protocolo, determinando suas do Tocantins considera o Enfermeiro como

necessidades e prioridades(14). Essa o profissional detentor de conhecimentos,

atribuição se deve ao fato de que durante capacitado para avaliação de pacientes,

sua vida profissional – dado o peculiar direcionado por um protocolo e/ou portaria

processo de trabalho - o Enfermeiro pode de classificação de atendimento, conforme

adquirir habilidades fundamentadas por o estado geral apresentado pelo paciente ou

uma escuta qualificada, observação e consulta de enfermagem(31).

registros detalhados, capacidade de O estudo constatou que a

trabalho em equipe, tomada de decisão a implantação do sistema de classificação de

partir de um raciocínio clínico e rápido, risco do Protocolo de Manchester tem

identificando nos pacientes tanto as encontrado uma inevitável resistência por

necessidades biológicas como também as parte de muitos Enfermeiros que, devido

psicológicas e sociais(10). ao longo tempo do exercício profissional

em prontos-socorros de diversos hospitais,


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desenvolveram uma habilidade própria de um arranjo difícil, o que torna a

avaliar e identificar as reais necessidades classificação dos pacientes em um

dos pacientes. Habilidosos no processo longo e árduo. No entanto, essa

preenchimento e registro detalhado em mudança deve ser vista pelos profissionais

todo o tipo de formulário e/ou documento, como um aperfeiçoamento do sistema de

o que os leva a se autointitularem de triagem proporcionando o

“experientes”, eles estranham a desenvolvimento de um raciocínio incisivo

implementação de novos conceitos que na tomada da decisão, bem como o

resultam em mudanças de paradigmas, aprimoramento das competências do

opondo-se ao surgimento e/ou implantação Enfermeiro na atenção em urgência e

das novas tecnologias(32). No setor saúde, a emergência(20).

tecnologia ainda é marcada pela

conformação entre saúde e doença, normal CONSIDERAÇÕES FINAIS

e patológico, vida e morte, tal fato em que A superlotação dos serviços de

os profissionais não podem intervir, o que saúde aliada à fragmentação do processo

leva a crer que o conhecimento é o maior de trabalho culminaram no desrespeito aos

patrimônio tecnológico de atenção a saúde. direitos humanos, fato que deve levar o

Desta forma, a tecnologia é tida muitas profissional da saúde a uma reflexão no

vezes como concorrente(33). intuito de buscar formas de como superar

Essa resistência se dá pela exigente tal impasse. Isto requer a adoção de uma

adaptação relacionada à introdução da atitude que possa ser compreendida e

nova tecnologia – o Protocolo de introduzida no sistema com o objetivo

Manchester - que vem totalmente único de prestar uma assistência com

informatizada. Para muitos profissionais, qualidade, baseada num modelo de atenção

vincular essa prática à sua rotina diária é resolutivo, e realizada de forma


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humanizada e acolhedora, resultando em profissionais envolvidos, podendo haver a

satisfação por parte dos usuários. delegação de tarefas.

Neste sentido, diversas publicações Avalia-se que, com a inclusão dessa

atestam uma queda considerável nos nova tecnologia de classificação de risco, a

índices de internamentos, com consequente habilidade do profissional será cada vez

diminuição das taxas de mortalidade, após mais requisitada e, por extensão,

a implantação do sistema de classificação aprimorada a sua competência na operação

de risco trazida pelo Protocolo de de equipamentos informatizados que

Manchester. No Brasil, a implementação funcionam como suporte decisivo na

do Protocolo tem se mostrado eficiente classificação dos doentes de

seja em qualquer nível de atendimento, urgência/emergência. O fato da resistência

além de possibilitar ao Estado o pode ser encarado como temporário, visto

acompanhamento, em tempo real, de os benefícios trazidos pelo protocolo nos

informações quanto ao local e momento diversos locais onde já foi implantado.

dos casos assistidos. Sendo o Enfermeiro Comumente o medo do novo é apresentado

entendido como profissional qualificado a na forma de resistência, porém, em alguns

atuar como classificador do Protocolo, ou casos pode ser entendido como despreparo.

seja, sua principal atuação tem sido a Desta forma, a contínua capacitação

prestação de uma avaliação rápida e dos enfermeiros torna-se fundamental,

eficiente dos casos de exigindo atualização constante relacionada

urgência/emergência. Ele tem ciência do à realidade vivenciada no ambiente de

perfil e da gravidade dos quadros trabalho, e com o desenvolvimento de uma

apresentados, além de conhecimento do visão critica que leve o profissional a

processo de trabalho da equipe de refletir sobre o seu modo de trabalhar, sem

descuidar-se da arte do cuidado.


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