Anda di halaman 1dari 387

xejro

Descartes de Souza Teixeira


Membro da Augusta e Respeitável Loja Simbólica “Quintino Bocaiúva n“ 10”, fundador
da OPM-Oñcina de Pesquisas Maçônicas e membro da Secretaria de Cultura da
Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo. Membro Correspondente da Loja de
Pesquisas Brasil e da American Lodge of Research - Grand Lodge of the State of New
York e da Academia Maçônica de Artes, Ciências e Letras.

ANTIMAÇONARIA
E O S MOVIMENTOS FUNDAMENTALISTAS DO
FIM DO SÉC. XX.

EDIÇÕES GLESP
Copyright © 1999 by Descartes de Souza Teixeira

Capa:
Mário Diniz

Preparação:
Mário Jorge

Direção editorial:
Wilson Garda

Revisão:
Maria Júlia Oliveira Zucolin

1999

3.000 exemplares

Todos os direitos desta edição reservados à

G rande L oja M açônica do E stado de São P aulo (G lesp)


Rua São Joaquim, 138
Caixa Postal 2774
01508-970 - São Paulo-SP
Telefone (011) 270-8399
Fax (011) 277-7732

Home Page: www.mason.com.br


E-mail: glesp@mason.com.br
“Aceita o lugar que a providência divina te designou,
a convivência com teus contemporáneos, a correlação
de eventos. Grandes homens sempre agiram assim e
fiaram-se, à maneira das crianças, no gênio de sua
época, revelando sua percepção de que o absoluta­
mente digno de confiança encontrava-se assentado
em seus corações, trabalhava pelas suas mãos, pre­
dominava em todo o seu ser. E agora, sendo homens,
devemos aceitar com elevação de espírito o mesmo
destino transcendente; e não nos fazer de menores
ou inválidos, protegidos em um canto, nem Jugir
como covardes ante uma revolução, mas exercer o
papel de guias, redentores e benfeitores, obedecendo
ao empenho do Todo-Poderoso e avançando sobre o
Caos e as Trevas. ”

Ralph Waldo Emerson, “Ensaios”, pág. 38


índice

Prefácio........................................................................................... I

Agradecimentos.............................................................................. 13

Reflexões......................................................................................... 15

1. Introdução.................................................................................. 31

2. A Condenação da Maçonaria pela Igreja Católica Apostólica


Romana: Um Resumo da Origem e dos Primeiros Desdobramen­
tos do Movimento Antimaçônico.................................................... 49
3. A Maçonaria e o Cenário Sociopolítico dos EUA no Séc. XVIII 65
4. A Antimaçonaria nos EUA depois de 1826: O “Caso Morgan”,
Deflagração de Verdadeiro Furor contra os Maçons.................... 77
5. A Frente Antimaçônica da Primeira Metade do Séc. XX e a
Proclamação do “Fundamentalismo” Protestante nos EUA........ 103
6. Radicalismos do Fim do Séc. XX: A Nova Onda Antimaçônica
e o Movimento Neofundamentalista nos EUA............................... 119
6.1. A Maçonaria, Agente da “Nova Ordem Mundial”: Uma
Conspiração em Curso.............................................................. 137
6.2 A M a çon a ria , o A p o c a lip s e e a In te rp re ta ç ã o
Fundamentalista do Fim do Mundo.......................................... 162
6.3. A Maçonaria, Religião Pagã e Satânica, e Outras Acusa­
ções Teológicas.......................................................................... 181
6.4. A Maçonaria e a Convenção Batista do Sul dos EUA: O
Novo Poder Fundamentalista se Instala................................... 197
7. Motivações dos Antimaçons e a Vulnerabilidade dos Maçons.... 225
8. A Situação Brasileira: Nossos Traços Históricos e Culturais,
Desprezados e Desconhecidos pelos Antimaçons......................... 241
8 .1 .0 Crescimento dos Evangélicos no Brasil.......................... 252
8.2. Séc. X IX : O P ro te s ta n tism o , a M a ç o n a ria e o
Ultramontanismo no Brasil....................................................... 257
9. Conclusões Provisórias.............................................................. 285
Apêndices

I - Sinopse da História e Doutrinas dos Batistas........................... 311


II - Resumo Estatístico: Fundamentalismo e Maçonaria nos EUA... 319
III - Organizações Antimaçônicas................................................... 325
IV - Lojas de Pesquisas e Organizações Maçônica, com trabalhos
sobre Antimaçonaria...................................................................... 331
V - C ronologia dos prin cipais eventos vincu lados com a
Antimaçonaria................................................................................ 337

Bibliografia..................................................................................... 367

índice Remissivo............................................................................. 373


ANTIM AÇONARIA I

PREFÁCIO

Irmão Ricardo Mário Gonçalves


Historiador
Membro da Secretaria da Cultura da GLESP

“...maçonspara quem a Maçonaria (longe de a consi­


derarem a depositária da herança sagrada da Gnose)
nunca fo i mais do que uma Carbonária ritual. ”
Fernando Pessoa

É com profunda satisfação que aqui atendo ao gentil convi­


te do dileto irmão Descartes de Souza Teixeira para prefaciar
este seu oportuno estudo sobre o antimaçonismo de nossos dias.
Evidentemente, não é minha intenção gastar espaço para lou­
var os mérito de pesquisador deste querido irmão, que a meu
lado reforça as colunas da Augusta Respeitável Benemérita Loja
Simbólica Quintino Bocaiúva, n2 10, como eu membro da Secre­
taria de Cultura da GLESP, méritos esses já sobejamente de­
monstrados em seus trabalhos anteriores como Mozart - Vida,
Obra e suas Relações com a Maçonaria (São Paulo, Editora Tra­
ço, 1991). Ao invés disso, passo a tecer algumas breves consi­
derações sobre o presente estudo que, digo eu sem o menor
exagero, deveria ser leitura obrigatória para todo o maçom, já
que novamente vemos o espectro do antimaçonismo a rondar
as portas de nossas oficinas, nestes derradeiros dias do Segun­
do Milênio da Era Cristã.
Como historiador mais familiarizado com as culturas orien-
II DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

tais e européias do que com a norte-americana, mais chegado à


francofonia do que à hoje onipresente anglofonia, devo confes­
sar, em primeiro lugar, que aprendi muito com este estudo: muito
sobre a história religiosa e maçônica dos Estados Unidos, e muito
mais, evidentemente, sobre o antimaçonismo de hoje, em gran­
de parte de origem ianque.
O antimaçonismo de hoje, como esclarece o irmão Descar­
tes, é um aspecto particular de um fenômeno muito mais amplo
conhecido como fundamentalismo. Embora se fale muito, talvez
algo impropriamente, de um fundamentalismo islâmico, na rea­
lidade o fundamentalismo é uma tendência hoje encontrada em
praticamente todas as grandes religiões: no Islão, no Judaísmo,
no Budismo, e, evidentemente, no Cristianismo, principalmente
em certas correntes conservadoras e antiliberais do Protestan­
tismo Norte-americano. Podemos conceituar o fundamentalismo
como um a grosseira simplificação fanática e autoritária de um
credo religio so , que é red u zid o a um as p ou cas fórm u las
dogmáticas que são apresentadas como sendo a verdade abso­
luta, capaz de proporcionar solução a todas as angústias e per­
plexidades com que se debatem os indivíduos e as sociedades
nestes duros tempos que atravessamos. Assim armado com umas
poucas fórmulas e slogans, parte o fundamentalista à conquis­
ta do mundo, pelejando contra tudo e contra todos.
Assim, o The Cutting Edge, m ovim ento fundam entalista
americano que difunde suas idéias pela Internet, arrola entre
seus incontáveis inimigos o Papa João Paulo II, o Presidente Bill
Clinton, o culto da Virgem Maria, os movimentos neopagãos, o
ecumenismo, os ecologistas e, evidentemente, a Maçonaria... O
fundamentalismo tem aparência de um tradicionalismo mas,
conforme demonstra o professor S. N. Eisenstadt, sociólogo da
U n iv e r s id a d e H e b r a ic a de J e r u s a lé m , em seu e s tu d o
Fundamentalismo e Modernidade, trata-se de um movimento
moderno, de um a tentativa retrógrada, simplória e ingênua de
superar os complexos desafios com que o homem se defronta na
Modernidade. Eu me atrevería a propor um a ligeira retificação
no esquema explicativo do Professor Eisenstadt, no sentido de
entender o fundamentalismo mais como um fenômeno da Pós-
modernidade do que da Modernidade. Isso porque, ao invés de
me situar entre os que interpretam o momento presente como
um a Modernidade tardia ou como uma fase em que o projeto
ANTIM AÇONARIA III

moderno ainda está por se realizar, alinho-me entre os que se


sentem no limiar de um período de características ainda ne­
bulosas e indefinidas a que se convencionou chamar de Pós-
modernidade.
Um d os a s p e c to s m a is s ig n ific a tiv o s do p ro je to da
Modernidade foi sua ênfase no poder da Razão, da qual resul­
tou a tentativa de construir um a sociedade perfeita fundamen­
tada nos recursos da Ciência e da Tecnologia. Uma excessiva
valorização da Razão fez com que as religiões passassem a ser
vistas com indiferença ou desprezo, o que favoreceu a difusão
do materialismo e acabou provocando o aparecimento de uma
nova religião, o cientificismo, ou seja, a crença otimista na ca­
pacidade da Ciência de responder a todas as perguntas do ho­
mem e de resolver todos os seus problemas. Tais crenças fica­
ram seriamente abaladas no presente século quando, ao invés
do paraíso prometido pelo cientificismo, tivemos duas catastró­
ficas guerras mundiais, um a infinidade de não menos sangren­
tos conflitos localizados, a ameaça nuclear, a poluição ambiental,
a agressão desenfreada contra a natureza ameaçando provocar
distúrbios climáticos, o colapso do “socialismo científico” mar-
xista-leninista seguido hoje pelo que parece ser o princípio de
um a crise generalizada do capitalismo, etc., etc. O homem de
hoje, perplexo, vendo o mundo a afundar-se debaixo de seus
pés, tem abaladas suas crenças ingênuas no materialismo e no
cientificismo e volta-se de novo para a busca do Sagrado, não
mais sabendo, entretanto, onde encontrá-lo...
Como mostrou o irmão René Guénon, um dos mais lúcidos
expositores da Tradição em nosso século, o homem contem po­
râneo, afastado que foi das autênticas tradições espirituais pelo
materialismo, encontra-se destituído de critérios para discernir
o certo e o errado em matéria de espiritualidade, tornando-se
presa fácil das mais aberrantes mistificações que, ao invés de
ampliar sua consciência e de conectá-lo com o divino, a vão
paulatinam ente empurrando para um a condição de cegueira
espiritual e de fanatismo embrutecido. Em nenhum momento
hesito em arrolar o fundamentalismo entre essas contrafações
da espiritualidade próprias destes nossos tempos que o irmão
Guénon definiu de uma forma muito feliz como contra-inicia-
ções. Um a das principais características da nascente Pós-
modernidade estaria exatamente no progressivo desencanto fren­
IV DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

te ao cientificismo materialista acompanhado por um panora­


ma caótico em que o que resta das autênticas tradições espiri­
tuais do passado ombreia com as mais extravagantes m istifica­
ções, sem que as pessoas tenham condições de distinguir um a
coisa da outra.
P o d e m o s , n e s ta a ltu r a , p e rg u n ta r: m as p o r qu e o
fundamentalismo se volta contra a Maçonaria? Além de endos­
sar as respostas que o leitor vai encontrar neste esclarecedor
estudo do irmão Descartes, arrisco-me a apresentar mais uma,
sugerida pela reflexão sobre as exposições do irmão Guénon.
Antes de expô-la, devo lembrar aqui o que, na perspectiva da
Tradição, seria a verdadeira natureza da Maçonaria. Longe de
ser ela uma simples sociedade de pensamento, um a instituição
beneficente ou um clube de ajuda mútua, como muita gente
pensa, a Ordem Maçõnica é a veneranda e legítima depositária
da Gnose, do Hermetismo, dos Mistérios Antigos, da Cabala ju-
deu-cristã, de todas as correntes, enfim, que constituem a cha­
mada Tradição do Ocidente. Como o Hermetismo e a Gnose,
reconhece ela que todas as legítimas correntes de espiritualidade
são manifestações particulares, adaptadas a cada cultura e a
cada época, de um a mesma consciência do Sagrado, onipresente
na raça humana desde suas mais remotas origens, que os filó­
sofos herméticos e cabalistas do Renascimento chamavam de
Prisca Theologia, o irmão Guénon de Tradição Primordial e ou­
tros autores de Sophia Perennis. Reconhecendo dessa forma to­
das as legítimas correntes espirituais como caminhos igualmente
válidos para se chegar à Verdade, a Maçonaria se situa nos
antípodas do dogmatismo estreito, fanático e intolerante que
caracteriza o fundamentalismo. Pregando que ninguém é dono
da verdade sozinho em matéria religiosa ou filosófica, a Maço­
naria Especulativa moderna criou, a partir de sua fundação em
Londres em 1717, o primeiro espaço ecumênico da História, em
que adeptos de religiões diferentes sentavam-se lado a lado e se
tratavam como irmãos, ao invés de saltarem às gargantas uns
dos outros, em conformidade com os hábitos seculares de sec­
tarismo e intolerância vigentes no Ocidente. Considerando o
fundamentalista o seu grupúsculo ou o seu conventículo como
o único legítimo detentor da Verdade Absoluta, nada mais re­
pugnante para ele do que a abertura ecumênica e universalista
e o espírito de tolerância veiculados pela Maçonaria. Daí os
ANTIM AÇONARIA V

encarniçados ataques dos fundamentalistas contra a Institui­


ção Maçônica.
Ao terminar estas despretensiosas reflexões, quero desejar
ao presente estudo do irmão Descartes um a vida fecunda, isto
é, que ele seja amplamente lido e discutido pelos irmãos e que
suscite o aparecimento de novas pesquisas de importância crucial
para todo o maçom preocupado com a trajetória presente e fu­
tura de nossa Ordem.
AN TIM AÇ O NARIA 11

PROJETO EDITORIAL

O lançamento deste livro dá início ao projeto editorial da


Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (Glesp), elabora­
do para proporcionar ao estudioso da M açonaria e aos obreiros
em geral a oportunidade de poderem contar com obras de porte
para suas pesquisas e estudos.
Até a presente data, nossa Grande Loja tem-se limitado a
editar apenas as obras de uso interno, como os rituais, além da
Revista “A Verdade” , de grande penetração na m açonaria m un­
dial, e o jornal “Grande Loja Urgente!” . Há muito, porém, vimos
analisando o mercado editorial no Brasil e sentindo a grande
lacuna nele aberta, mostrando, em especial, a ausência de im ­
portantes obras, não só indispensáveis como também neces­
sárias à intelectualidade maçônica do nosso País.
Por outro lado, obras de vulto, lançadas no exterior, che­
gam até nós às vezes com bastante atraso, quando não perm a­
necem ausentes indefinidamente, só as alcançando alguns pou­
cos leitores que dispõem de conhecimentos lingüísticos e rara
felcidade de tomar contato com as mesmas. Para reduzir essas
distâncias, vamos procurar oferecer estas obras traduzidas para
o português, sempre em bem cuidadas edições.
É bom deixar registrado que a edição desses livros não im ­
plicará, de forma alguma, na avalização de todo o seu conteúdo
e de todas as suas idéias, mas vai representar, sempre, o res-
12 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

peito à liberdade de pensamento e de expressão dos autores,


conjugado com a oportunidade que todos os leitores terão de
cotejá-los e se enriquecerem segundo seu próprio livre arbítrio.
O selo GLESP, agora inaugurado de fato, vai, porém, usar
de critérios importantes na seleção das obras a editar, conside­
rando a oportunidade dos assuntos, a lisura literária do autor e
a responsabilidade inerente ao ato de levar até o leitor obras
que poderão auxiliar a construção de seu caminho maçônico.
Desde já, colocamo-nos abertos às opiniões e sugestões,
desejando que todos possam apreciar o trabalho de pesquisa
sério e cansativo, realizado pelo irm ão Descartes de Souza
Teixeira, feito em defesa da verdade e em prol da Sublime Insti­
tuição, ainda hoje mal compreendida por alguns segmentos da
sociedade que, embora ciosos também da verdade, não conse­
guem ver além dos horizontes estreitos a que se justapõem.

A EDITORA
ANTIM AÇONARIA 13

AGRADECIMENTOS

Não seria possível realizar esse trabalho não fossem as co­


laborações espontâneas e estímulos recebidos de várias pes­
soas, entre irmãos e amigos. Aos obreiros que comigo debate­
ram em loja sobre esse tema, quero deixar minha gratidão por
suas críticas e sugestões que ampliaram os horizontes da mi­
nha avaliação do problema. Em especial cumpro o agradável
dever de agradecer aos irm ãos Claudir Neves Sinval, Celso
Amódio Mantovani e Raul Francisco Fernandes, da Loja Quintino
Bocaiuva na 10 por terem permitido o acesso a informes da
mídia e à literatura pertinente. Inestimáveis foram, e têm sido,
as trocas de opiniões, acesso à bibliografia relevante, as críticas
e revisões ao texto, oferecidas pelo irmão Ricardo Mário Gonçal­
ves, historiador, ex-professòr de história das religiões da USP.
Sua contribuição ao trabalho foi essencial para que a obra pu­
desse ser apresentada no estado em que agora está, escoimando
imprecisões, complementando informações relevantes e enrique­
cendo o pensamento do autor com novas e importantes idéias.
Igualmente essencial ao trabalho de busca de documentação
histórica, especialmente a relacionada à Maçonaria dos EUA,
foi o apoio que recebi da “The American Lodge o f Research” da
Grande Loja do Estado de Nova York, na pessoa do irmão Harvey
A Eysman, Secretário Geral da Loja, que não mediu esforços
para encaminhar-me exemplares de várias publicações regula­
res (Transactions) contendo estudos e relatórios de pesquisas
14 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

de interesse para o meu trabalho. Por esse motivo sou grato à


atenção e pronto atendimento que recebi daquela oficina de pes­
quisas, em especial ao irmão Eysman.
Registro ainda ao irmão Gary Leazer, Ph.D., eminente teó­
lo g o e e s c r it o r b a tis ta , a u to r da p r in c ip a l o b ra so b re
antimaçonaria nos EUA, meu reconhecimento fraterno pelo apoio
e pela autorização que me concedeu para a citação que faço de
su a o b ra , “ F r e e m a s o n a r y an d F u n d a m e n ta lis m an d
Freemasonry” .
Ao irmão Wilson Garcia agradeço o competente trabalho de
finalização editorial desta obra, sem o qual jam ais poderiamos
viabiliazá-la.
Muito devo aos irmãos de São Paulo, em especial aos líde­
res da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, que ofe­
receram irrestrito apoio ao prosseguimento desse trabalho e à
sua publicação. A todos as minhas homenagens e meu preito de
eterna gratidão, que aqui faço à pessoa de seu lider máximo,
irmão Salim Zugaib.
São Paulo, 26 de dezembro de 1998

O AUTOR
ANTIM AÇONARIA 15

REFLEXÕES

Por trás da obra estão suas motivações, sua força motriz ou


razão de ser: um a espécie de energia interior a impelir trabalhos
de busca, recolhimento de documentos, análise crítica do m ate­
rial reunido, redação, montagem, e revisão do texto. Com esta
não foi diferente. Trabalho extenuante, de mais de quatro anos,
competindo com as outras atividades rotineiras de chefe de fa­
mília e de profissional ativo na área industrial. As motivações
pessoais e o entusiasmo pelo tema foram suficientes para con­
tornar dificuldades, conseguir administrar o tempo e concen­
trar as forças que a mim permitiram seguir com determinação o
caminho que me propus. Subjacente a tudo o que se possa dizer
sobre motivações está a fé em que tudo o que tem sido objeto de
busca e análise faz sentido, especialmente nos dias que correm.
Não temos o direito de ignorar os fenômenos que estão aconte­
cendo muito próximos de nós.
Apresso-me, logo de início, a fazer um a advertência funda­
mental. Este trabalho não passa de uma visão pessoal, nada
mais do que isto. É nesta perspectiva que espero ser com preen­
dido pelo leitor. Sou eu, o autor desse estudo, o único responsá­
vel pelos conceitos aqui emitidos, salvo quando de citações de
matérias de outros, assim expressamente referidas. Nem de longe
passa pela minha mente fazer-me representante de qualquer
entidade, seja m açônica seja religiosa ou de qualquer outra na­
tureza. Estou apresentando minhas próprias idéias, nada mais
16 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

do que isto.
O tem a central se desenvolve em torno da antimaçonaria ,
um a espécie de contencioso universal de mais de dois séculos,
quase que totalmente entre a maçonaria e a igreja. Desta vez,
porém, concentro as atenções numa nova feição do movimento
contra a Ordem. A igreja referida não é a católica, é a protes­
tante, ou evangélica.
Evidentemente, longe de mim qualquer intenção de con­
frontar posições teológicas ou doutrinárias dessa ou daquela
religião. Respeito e sigo neste trabalho os princípios basilares
da Ordem, que se firmam - desde 1723 - eqüidistantes das
diferentes religiões, proibindo inclusive que dessa matéria se
trate em reuniões de loja. Renovo e registro, como compromisso
assumido, do íntimo do meu ser, e com todas as minhas energi­
as, o mais profundo respeito a todas as manifestações religio­
sas, particularmente aquelas que, por confissão pessoal de fé,
mais de perto me identifico: a cristã evangélica.
Esta obra não é dirigida aos antimaçons, como se fosse
um a resposta às suas acusações e críticas. Ela é endereçada
principalmente aos maçons, aos interessados em pesquisar para
melhor conhecer a Ordem, visando colocá-los a par do que está
acontecendo no mundo em contraposição às posições e obras
dos “pedreiros livres” . O leitor, espero, poderá notar que estou
preocupado em demonstrar que, em paralelo à história da Or­
dem, se desenvolve um a história contra essa mesma Ordem nos
dias atuais, e sobre esta devemos também estudar, refletir e
debater.
Este fim de m ilênio está revelando novos e ostensivos
detratores da Ordem dos Pedreiros Livres. Discursos inflama­
dos, acusações inusitadas, posições preconceituosas, publica­
ções com ataques gratuitos aos maçons e à maçonaria, despon­
tam neste fim de Séc. XX, originados de facções evangélicas con­
servad oras. P ara os m açon s b ra sileiro s essa n ova fren te
antimaçônica é insólita, pois que historicamente os ataques à
maçonaria, verificados no Brasil, sempre partiram dos católi­
cos, jam ais dos protestantes. Ao contrário, muitos líderes pro­
testantes, desde o Segundo Império, tinham nos maçons alia­
dos declarados na luta pelo livre exercício da religião, numa
época em que a Igreja Católica Romana, incrustada no poder
como religião oficial do Império, ditava as regras e cerceava a
ANTIM AÇONARIA 17

prática das demais religiões. Pastores, missionários norte-ame­


ricanos e europeus, leigos protestantes e outros líderes foram
d esta ca d os m açon s. P ro testa n tes e m açon s atu avam em
simbiose. Jamais houve, no Brasil, dissensões entre eles, a não
ser o caso da Igreja Presbiteriana do Brasil em 1903, que se
cindiu em duas denominações por questões declaradamente li­
gadas à maçonaria. Episódio isolado e de pequeno impacto na
história nacional, diga-se de passagem. Fato é que os maçons
tradicionalmente viam na Igreja Católica Romana, e somente
nela, o principal foco de campanhas e acusações à Ordem.
Neste fim de Séc. XX observamos que Roma tem adotado
uma postura mais flexível e tolerante de um a forma geral: reviu
sua posição com respeito a Galileu, numa espécie de reconheci­
mento de mea culpa, reconsiderou suas posições de condena­
ção à Teoria das Espécies de Darwin, resolveu abrir a sua bibli­
oteca ao público deixando ao alcance de todos seus registros
históricos sobre a Inquisição, entre outras mudanças. Ainda que
mantenha in verbis a condenação da maçonaria, sua prática no
Brasil em relação à Ordem evidencia certa indiferença ou vela­
da tolerância. Muitos maçons são católicos praticantes e disto a
Igreja tem conhecimento. Artigos sobre a m açonaria do conheci­
do estudioso Pe. Valério Alberton têm sido publicados nos peri­
ódicos maçônicos brasileiros. A maçonaria regular, por sua vez,
graças aos trabalhos de esclarecimento de homens como Alee
Mellor, Jean Baylot, Marius Lepage, Pe. J.F. Benimelli, Pe Michel
R iq u e t e o u tro s, tem fa c ilita d o o d iá lo g o e p e rm itid o o
abrandamento do universal contencioso. Hoje a Igreja, ainda
que não oficialmente, reconhece que a m açonaria não está m a­
quinando o desmantelamento do cristianismo, conforme tem i­
am e apregoavam no passado. Ainda que um ou outro escritor
maçom explicite esporadicamente posições anticlericais, as Obe­
diências regulares - em particular a Grande Loja Unida da In­
glaterra e a Grande Loja Nacional Francesa - têm deixado claro
suas posições em relação à Igreja e às religiões de um a forma
geral.
O fenômeno antimaçônico atual, porém, não está concen­
trado nos católicos, e esse é o fato para nós brasileiros inédito.
Também não vem dos políticos da extrema direita brasileira.
Vem de líderes fundamentalistas protestantes. Grupos, até bem
pouco tempo, minoritários no Brasil, considerados estranhos,
18 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

inexpressivos, e apenas juntados aos “outros” nas estatísticas


demográficas. Hoje começam a ter posições expressivas na po­
pulação. As igrejas evangélicas, e as pentecostais em especial,
crescem a olhos vistos em nosso país. No seio delas florescem
facções com traços fundamentalistas evidentes. Alguns analis­
tas chegam a dizer que, se a cidade de São Paulo prosseguir
com os evangélicos crescendo às mesmas taxas atuais, terá
população evangélica majoritária no início do primeiro decênio
do Séc. XXL A movimentação desses grupos, sua ostensiva pre­
sença na m ídia e a influência política que gozam não podem
permanecer desapercebidas a quem desejar conhecer melhor o
atual cenário psicossocial da sociedade brasileira. A igreja cató­
lica, por seu lado, já deu vários sinais de preocupação com o
crescimento do que chama de seitas protestantes em nossa so­
ciedade. Tem revisto suas posições e, de certa forma, tenta até
imitar as práticas dos evangélicos como parte da tática para
reconquista de seus fiéis.
O processo é muito complexo, novas seitas e religiões cres­
cem vertiginosamente no Brasil, principalmente entre as cama­
das jovens e mais pobres do povo. Estão presentes na mídia,
ocupando espaços promocionais jam ais vistos em nossa histó­
ria recente. Representantes dos evangélicos - das diversas de­
nominações - fazem-se presentes até mesmo nas camadas polí­
ticas. O Congresso Nacional tem contado com significativa ban­
cada evangélica. A música evangélica já invade as emissoras de
rádio e suas livrarias e lojas de discos espalham-se pelo país.
Dentro desse espaço dos chamados evangélicos surgem e ga­
nham destaque, quase que como corpo estranho aos propósitos
da religião, correntes, vertentes político-teológicas, “orto” e he­
te r o d o x a s , e n g e n d r a n d o fu n d a m e n ta lis m o s e n eo -
fundamentalismos. Além de pregarem a mensagem evangélica,
esses subgrupos defendem suas posições e doutrinas atacando
as demais religiões e as posições modernistas de nossa cultura
secular. São conhecidas as posições dos políticos evangélicos
sobre o homossexualismo, o aborto e outros temas que aten­
tam, como dizem, os princípios do ensino cristão. Sem muitos
rodeios, atacam a m açonaria gratuitamente. É a reprodução no
Brasil de fenômenos idênticos há tempos observados nos EUA,
matriz de todos esses movimentos. Os modelos aqui introduzi­
dos, os procedimentos nos cultos religiosos, as formas e práti-
AN TIM AÇ O NARIA 19

cas de exposição e interpretação bíblica, os cânticos e seus


intérpretes, e os programas veiculados na m ídia nacional copi­
am modelos americanos reconhecidos. Um processo de expor­
tação, tal como acontece na economia e no marketing em geral,
está acontecendo também na esfera da religião.
Os movimentos antimaçônicos surgidos de form a mais ati­
va e massiva, a partir de 1985 nos EUA, no meio de grupos
fundamentalistas protestantes, parecem agora fazer parte da
pauta dos produtos exportáveis para os países da periferia.
Chegou até nós em 1995. Torrente de livros, panfletos, vídeos e
palestras condenando a maçonaria invadiram o Brasil após 1995,
conforme faltam ente demonstramos nesse trabalho.
Como conhecer as origens, táticas e motivações desse novo
movimento? Esta foi a questão que fiz a mim mesmo. Este livro
tenta ensaiar um a análise sobre esse novo fenômeno. Motiva­
ções nasceram no meu espírito para esta empreitada. Desejei
entender todo este novo fenômeno e seus reflexos no Brasil.
Queira o leitor permitir-me um a liberdade: para o bom
entendimento das minhas motivações, preciso continuar escre­
vendo na primeira pessoa do singular, relatando meu passado,
minha experiência pessoal como maçom e m inha vida religiosa
como cristão evangélico. Esta é a única forma de poder expor
sem rodeios as motivações que me levaram a escrever essa obra.
Lembro-me de novembro de 1958, cheio de esperanças no
futuro profissional, estava cursando o primeiro ano da Escola
Fluminense de Engenharia, da Universidade Federal Fluminense,
em Niterói. Época de buscas, de indagações e muitas dúvidas
para um jovem de dezenove anos, ansioso por entender as coi­
sas no seu entorno, em plena preparação para a vida. Fui al­
cançado pelo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, em no­
vembro de 1958, quando convidado por um colega de classe
entrei numa Igreja Evangélica pela primeira vez. Em abril do
ano seguinte era batizado na Primeira Igreja Batista de Niterói.
Fiquei maravilhado com o que pude descobrir estudando a Bí­
blia na Escola Dominical daquela Igreja e convivendo com ou­
tros jovens como eu. Não faltava aos cultos. Embora criado em
fam ília religiosa, de origem católica e espírita, tinha minhas
dúvidas e questionamentos sobre as tradições nas quais cresci.
Jamais havia sido exposto ao estudo das Escrituras Sagradas.
Resolví trilhar minha vida espiritual independentemente da fa­
20 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

mília. Descobri Jesus Cristo - de quem ouvira falar muito su­


perficialmente e de cuja mensagem pouco ou nada conhecia -
levado que fui a estudar as Escrituras com m uita dedicação e
sede de saber. A pessoa de Jesus Cristo é para mim, até hoje, o
Senhor, o Salvador, o Mestre, graças ao que pude depreender e
aceitar do exame, sem qualquer preconceito, de sua mensagem
e vida conforme registrados no Novo e no Velho Testamento.
Ainda que tenha circulado por outras igrejas, saído de
Niterói e conhecido outros ambientes, aquela experiência na
juventude marcou minha vida definitivamente e fez de mim al­
guém que tenta viver a vida de um fiel seguidor do Mestre dos
Mestres, independentemente de filiação a esta ou aquela igreja.
Não demorou muito e fui exposto à fraternidade maçônica.
Meu pai, professor e intelectual envolvido em atividades literá­
rias e políticas em Niterói, conhecido por suas idéias liberais,
agnósticas e políticas de esquerda, foi convidado para integrar
um a loja maçônica importante da cidade - por onde passaram
alguns homens de destaque. Foi iniciado em 1957, sem que eu
tivesse tomado conhecimento, na Loja Libertação na 19, da Gran­
de Loja do Estado do Rio de Janeiro. Durante sua vida maçôni­
ca, pouco conhecimento tive das suas atividades. Após algum
tempo, porém, hoje reconheço, percebi que a minha casa estava
se tornando ponto de encontro de alguns senhores que, reuni­
dos na bem servida biblioteca de meu pai, discutiam assuntos
relacionados à Ordem, à filosofia, à cultura e à política. Foi aos
poucos que entendí que todos eram maçons e a maoria perten­
cia à Loja Libertação n2 19. Foram esses senhores que funda­
ram em janeiro de 1959 a primeira e única publicação periódi­
ca, daquela oficina, “LUZ DA LIBERTAÇÃO” , com o fim de divul­
gar a cultura maçônica e promover trabalhos de interesse geral
da fraternidade. Interessante listar alguns dos personagens por
trás desta iniciativa nascida das reuniões em minha casa: Antô­
nio Brandão da Silva (Diretor Responsável), Odern Ribam ar
Teixeira (Diretor Secretário), Nicola Asían (Diretor Redator), José
Carramanhos. É também desta época, 1959, o lançamento da
obra “HISTÓRIA DA MAÇONARIA” , de Nicola Asían, que privile­
giou o meu pai, Odern, como o apresentador, o que ficou regis­
trado no comentário da orelha do livro, datado de 15 de feverei­
ro de 1959 (Editora Espiritualista, 1959).
Assim, minha própria residência, reunindo tantos obrei-
ANTIM AÇONARIA 21

ros intelectuais, era um ponto de encontro onde se discutiam


temas maçônicos e se originavam iniciativas culturais. Ainda
que não iniciado, fui pouco a pouco deles tomando conheci­
mento pois as publicações iam crescendo e sendo incorporadas
ao acervo da biblioteca do meu pai, a que tinha acesso facili­
tado.
No meio de tantos obreiros que iam e vinham, conheci um
outro ilustre maçom de Niterói, não da mesma loja do meu pai.
Medianamente corpulento, trajando sempre terno escuro e gra­
vata escura, falando muito, visitava-nos com freqüência, car­
regando alguns livros debaixo do braço. Eram obras suas, por
ele mesmo editadas. Fazia questão de defender com sua potente
voz as idéias que o empolgavam diante do meu pai que com ele
pacientemente dialogava. Era a sua forma de promover a venda
de seus livros. Este homem, numa de suas visitas, deixou um
exemplar de sua obra, autografada para o meu pai: “A MAÇO-
NARIA E O CRISTIANISMO” . Seu nome, Jorge Buarque Lyra,
pastor presbiteriano, maçom, empenhado em defender o bom
diálogo entre o cristianismo e a maçonaria. O Pastor Lyra aca­
bara de editar seu mais conhecido livro, uma resposta a duas
obras antimaçônicas da primeira metade deste século publicadas
em língua portuguesa. A primeira, de 1945, de outro pastor
presbiteriano brasileiro, Eduardo Carlos Pereira, lançava le­
nha na fogueira do contencioso da igreja Presbiteriana do Bra­
sil, “A MAÇONARIA E A IGREJA CRISTÔ e acusava a Ordem de
ser incompatível com o cristianismo. A outra, editada no Brasil
em 1938, de L. Bertrand, “A MAÇONARIA,. SEITA JUDAICA” ,
trazia evidentes conotações fascistas, movimento político muito
ativo no Brasil na época em que fora editada. Sua tese básica
era denunciar o conluio judaico-m açônico contra o cristianismo
e os poderes constituídos. Vinha traduzida por Gustavo Bar­
roso.
Tive o privilégio assim de - ainda jovem e antes de iniciado
- conviver com alguns importantes maçons que se empenharam
em refletir, conhecer e pesquisar a Ordem, deixando alguma
contribuição à nossa história. Guardo em minha memória a
presença de tais personagens em minha casa, no fim dos anos
50 e início dos 60, e sobretudo, como zelador da biblioteca que
herdei do meu pai, preservo todas as obras desta época reuni­
das hoje no acervo da família.
22 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Nicola Asían foi ativo membro da Loja Libertação na 19.


Era um dos Mestres Instalados da loja quando na fria noite de
29 de maio de 1962 tive o privilégio de ser iniciado Aprendiz
Maçom. Lembro bem que, no cerimonial de iniciação, foi lido o
meu breve perfil biográfico e lá estava claramente declarada a
minha filiação religiosa: batista. Estavam lá, meu pai, muitos
outros freqüentadores de m inha casa e, para minha alegria, al­
guns importantes irmãos da mesma igreja batista da qual eu
era membro. Diáconos, presbíteros, missionários e pastores, ba­
tistas e presbiterianos, vim a descobrir posteriormente, pas­
saram a se identificar comigo como maçons. Sentia-me à vonta­
de entre as duas comunidades. Encontrava-me entre irmãos
maçons e entre irmãos evangélicos sem quaisquer preconceitos,
questionamentos ou mesmo vestígios de incoerências filosófi­
cas. Nas duas esferas, defendem-se comportamentos morais rígi­
dos, respeita-se Deus - na maçonaria denominado o Grande
Arquiteto do Universo, mas definido como o Deus aceito por
cada um e segundo os ditames da consciência individual, pre­
ga-se a fraternidade entre os homens e defende-se a liberdade
de consciência. Mais do que isso, minha dupla vinculação sem­
pre funcionou, e ainda funciona, em complementaridade, pre­
enchendo necessidades do meu espírito, da minha mente e da
minha vontade. Na Igreja encontrei a Salvação em Cristo, e o
crescimento espiritual pela leitura constante da Palavra de Deus.
Na Ordem encontrei valores em ação, estímulo ao estudo das
filosofias, da ética, das tradições dos construtores medievais e
das demais religiões; ambiente fraterno, oportunidade para o
crescimento intelectual, realização efetiva do trabalho constru­
tivo solidário em favor do próximo, seja quem ele for. Assim
cresci, amadurecí e me desenvolví, cristão batista e maçom des­
de 1962 aos dias atuais, sem qualquer conflito interno comigo
mesmo e com o meu Deus. Aliás, tenho certeza, hoje, após al­
guns anos de estudos e pesquisas, que muitos outros homens
no mundo têm igual experiência, principalmente nos EUA, como
abordaremos neste trabalho.
Em função de m inha vida profissional, fui levado a deixar
Niterói em 1966. Antes desta mudança, porém, fui iniciado no
grau 04, do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), na Loja de
Perfeição Silva Jardim, dando o primeiro passo de m inha longa
jornada nos chamados corpos filosóficos da Ordem. Fui morar
ANTIM AÇONARIA 23

em Brasília onde prossegui as atividades na Ordem vindo a ser


eleito Venerável Mestre da Loja Tiradentes ne 02, em 1983/84,
quando então passei a gozar do privilégio de um convivio mais
estreito com os maçons do Distrito Federal. Hoje estou em São
Paulo, membro da Augusta, Respeitável e Benemérita Loja Sim­
bólica “Quintino Bocaiuva nfl10” , um a das fundadoras da Gran­
de Loja Maçônica do Estado de São Paulo em 1927 e, desde
1991, passei a integrar o Consistorio de Príncipes do Real Se­
gredo “Saldanha Marinho” tendo colado o Grau 33 do REAA.
Tenho, além disso, desfrutado de estreito relacionamento com a
administração da Grande Loja, com seus líderes e Grão-Mes-
tres, fato que me permite nos dias que correm, conhecer proje­
tos, ações e iniciativas dos maçons no Estado de São Paulo,
onde vivo desde janeiro de 1985.
Juntamente com a m inha família, jam ais deixamos de cul­
tivar a vida espiritual bíblico-cristã. Freqüentamos regularmen­
te um a das grandes igrejas batistas da cidade de São Paulo.
Temos excepcional convívio com os irmãos daquela igreja, na
qual cultuamos Deus e reconhecemos a benéfica influência que
dela recebemos ao bom e equilibrado crescimento espiritual
de todos nós.
É de 1995 o fato que despertou m inha atenção e polarizou
meu interesse, m inha mente e meu espírito. A igreja, seguindo
hábito de muitas outras comunidades religiosas, estimula a lei­
tura de obras cristãs. Uma pequena livraria, sempre aberta aos
domingos, ao final dos cultos, é ponto de encontro dos interes­
sados na literatura cristã. Curioso e interessado, sou assíduo
visitador da livraria. Num belo domingo de 1995 meus olhos
deparam com um a nova obra: “MAÇONARIA E FÉ CRISTÔ , de
autoria de John Scott Horrel, Th.M., Th.D., trazendo ainda na
capa o comentário “Fraternidade beneficente ou religião pagã?
Uma análise a partir do contexto brasileiro”. Por se tratar de obra
de um teólogo, professor da Faculdade Teológica Batista de São
Paulo, merecedora de todo o meu respeito, comprei-a imediata­
mente. Li, reli, estudei, analisei e comparei com outros autores.
Verifiquei tratar-se de uma nova obra antimaçônica no Brasil -
renovando acusações amplamente publicadas em outros paí­
ses, repetindo alguns argumentos do pastor presbiteriano Carlos
Eduardo Pereira, com sérias críticas aos cristãos maçons e à
maçonaria em geral - posta no ambiente evangélico, visando
24 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

desviar os cristãos da alegada influencia maléfica, por ser anti-


cristã, da Ordem. Senti-me frontalmente atingido, dentro do
ambiente que sempre me foi caro e onde minha condição de
maçom sempre foi respeitada, aceita e jam ais questionada. Desta
vez, entendi que a divulgação desta obra - no seio da igreja ba­
tista da qual sou membro - contava obviamente com o respaldo
desta mesma igreja. Esta experiência, nova para mim, foi a pe­
dra de toque m otivadora dos estudos e in vestigações que
nortearam a presente obra. Verifiquei depois que Horrel não
estava só nessa posição. Outros pastores, evangelistas e teólo­
gos, americanos como ele, estavam colocando no mercado bra­
sileiro obras de idêntico teor. Parecia até algo orquestrado. Co­
incidentemente, 1995 constituiu-se no ano de lançamento no
Brasil de quatro obras antimaçõnicas de autores evangélicos
americanos. As livrarias evangélicas passaram a distribuí-las e
promovê-las. No mundo todo, outros livros, panfletos e vídeos
ressaltando allegados aspectos luciferianos, ou satânicos, dos
rituads maçônicos revelados, passaram a circular na mídia. Es­
timo que ao longo deste último decênio do Séc. XX cerca de
vinte e cinco obras antimaçõnicas foram editadas nos EUA, evi­
denciando o recrudescimento de posição latente em algumas
facções das sociedades modernas ou um novo fenômeno cujas
origens precisariam ser entendidas por todos nós. Pus mãos à
obra.
Por sorte, tive muitas facilidades para obter dados, infor­
mes a importantes documentos. Ao todo, examinei aproximada­
mente 160 documentos primários e secundários. A bibliografia
listada e as notas de rodapé refletem as obras que tive acesso
direto, a maioria das quais enriqueceram m inha biblioteca par­
ticular, hoje agregada à que herdei do meu pai. A realidade da
Internet foi, é e será o principal canal pelo qual estou conse­
guindo reunir quase toda a documentação. Os mais im portan­
tes tra b a lh os acad êm icos o rigin a is sobre a m açon aria, a
an tim açon aria, os estu dos eru ditos sobre os m ovim en tos
fundamentalistas e neofundamentalistas americanos e islâmicos
foram obtidos via Internet. E não são poucos. Tive acesso a
relatórios de reconhecidos grupos de pesquisas de universida­
des americanas e até mesmo a relatórios das Nações Unidas a
respeito do impacto dos grupos fundamentalistas em diferentes
partes do mundo.
ANTIM AÇONARIA 25

Não validei a priori nenhum documento assim obtido. Iden-


tifiquei outras referências cruzadas, para verificar até que pon­
to a publicação divulgada na rede era confiável, isto é, tinha
origem e conteúdo legítimos e credenciados. Algumas publica­
ções foram filtradas e outras foram sumariamente recusadas,
dada a procedência duvidosa, conteúdo falsificado ou autor não
declarado. Ganhei contatos preciosos com instituições de pes­
quisas, pastores evangélicos americanos, professores universi­
tários, maçons e pesquisadores do mesmo assunto. Tive acesso
às principais obras sobre o tema, de reconhecidos autores e
pesquisadores americanos e ingleses tais como Gary Leazer, S.
Brent M orris, A rt deHoyos, John J. Robinson, G eorge M.
Marsden, Bruce B. Lawrence, Alen E. Roberts, Jim T. Trestner,
Steven C. Bullock, K. Kutolowski, R. P. Formisano, além de li­
vros e artigos de notórios antimaçons como Stephen Knight, Pat
Robertson, Edward Decker, Gary Kah, John Ankerberg, William
Schnoebelen e outros. Entre europeus, muito valiosas foram as
obras de Jean Baylot, Alee Mellor, Luc Néfontaine, Alexander
Piatigorsky e Jacques Lémaire.
Outra facilidade que tive até agora, foi encontrar autores
brasileiros que trabalham com muita aplicação no levantamen­
to da história da maçonaria de nosso país. A contribuição mais
im portante vem do precioso trabalho realizado pela Editora
Maçônica “A TROLHA”, de Londrina (PR), editando a coleção
“Caderno de Pesquisas Maçônicas”. Desta coleção destaquei tra­
balhos originais, valiosos para esse estudo, mencionados ao
longo da obra e na bibliografia. O acesso que assim obtivç para
estudar as contribuições de J. Castellani, Marcelo Linhares,
Frederico Costa, Pe. J. A. Ferrer Benimelli e R. J. Charlier, m ui­
to facilitou o trabalho de pesquisa.
A literatura brasileira, entretanto, sobre as questões liga­
das à maçonaria e o protestantismo em nosso país, é escassa e
- diria mesmo - um tanto superficial. Admito que tive acesso a
todas, permitindo-me apreciar um panorama de nossa história
recente e assim melhor entender o cenário atual. Pelo menos
três publicações atuais, constantes desta escassa historiografia,
foram de muito valor: (1) O relato original compilado por J.
Castellani e Claudio Ferreira sobre a história da mais antiga
loja maçônica de São Paulo, a “Loja Amizade na 141” do Grande
Oriente do Brasil, publicado em 1996; contendo informes sobre
26 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

a presença dos primeiros imigrantes protestantes chegados ao


Brasil entre os maçons de São Paulo; (2) A obra, considerada
clássica entre nós, do Prof. David Gueiros Vieira, editada pela
Universidade de Brasília em 1980, “O Protestantismo, A Maçona-
ria e A Questão Religiosa no BrasiF, discutindo, com riqueza
documental, as relações de maçons e protestantes, ao lado do
poder público, tentando assegurar espaços no país à prática
das religiões não católicas; e (3) O trabalho original de J.
Castellani, editado pela “A TROLHA”, dissecando a posição dos
maçons, atualizando e revendo fatos históricos superficialmen­
te conhecidos, particularmente os relacionados à liderança de
Saldanha Marinho na questão religiosa de 1872. Refiro-me à
sua obra “Os Maçons e a Questão Reliqiosa” editada pela “A
TROLHA” .
Com base na informação reunida, no meu passado de mais
de 36 anos de maçom, na experiência pessoal dentro de loja em
todos os graus do REAA, gozando de amplo acesso à adminis­
tração da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, e do
convívio no seio de um a grande Igreja Batista, pude construir o
arcabouço deste trabalho que agora submeto ao crivo da com u­
nidade maçônica. Minha preocupação esteve concentrada em
levantar fatos, informações amplamente publicadas, relatá-los
com isenção e tentar analisar o fenômeno, que denomino de
neo-antimaçonaria, com rigor metodológico.
Tive de estudar outros autores, além dos já citados, para
melhor conhecer a abordagem de temas de natureza psicossocial
e antropológica como o que estamos aqui focalizando. Não se
trata de tarefa simples para um profissional formado na rigidez
das ciências exatas, familiarizado com a física e com a matemá­
tica mas não afeito às metodologias das ciências políticas, teo­
lógicas e sociais. Tive de estudar obras de cientistas sociais,
teólogos e humanistas tais como: Max Weber, particularmente
me concentrando na sua obra máxima “A Ética Protestante e o
Espírito do Capitalismo”, G. M. M arsden, B. Law rence, J.
Bronowsky, S. P. Huntington, Paul Freston, H. Richard Niebuhr,
R ic a rd o G o n d im , H an s K ü n g, R o b in s o n C a v a lc a n ti, E.
Hobsbawm, A. Toffler e outros. Procurei também estudar me­
lhor a história dos batistas, fato que me trouxe boa dose de
entusiasmo, gratificação e respeito pela denominação evangéli­
ca que abracei. Essa investigação, em certo sentido, me permi­
ANTIM AÇONARIA 27

tiu vislumbrar algumas das razões pelas quais parcela muito


expressiva dos maçons nos EUA é formada de batistas, confor­
me relato no texto. Foi gratificante examinar a história dos ba­
tistas, a vida e a coerência de seus desbravadores do passado e
entender seus caracteres mais importantes, particularmente o
ardor com que se envolvem prioritariamente na difusão do Evan­
gelho de Cristo, na sua pureza bíblica, e a luta permanente que
têm travado, por mais de quatrocentos anos de história, em de­
fesa da separação entre igreja e estado além do respeito
inarredável à liberdade de consciência de cada um.
O leitor poderá estranhar que este trabalho tenha consa­
grado parte ponderável do seu conteúdo para o protestantismo
e a maçonaria tal como se desenvolveram e como hoje estão nos
Estados Unidos da América. Parte significativa desta obra fala
dos EUA. Muito pouco se fala da Europa e muito menos da
Am érica Latina, Ásia e África. Esta inclinação é deliberada. Não
seria possível se entender o discurso neo-antimaçônico sem se
estudar o movimento religioso americano - matriz de todo esse
processo. Assim, fui naturalmente levado a descrever - ainda
que resumidamente - o desenrolar dos movimentos religioso e
maçônico na história americana com a formação da nação pelos
p rim eiro s co lo n o s P u rita n o s, em 1620 em P lym ou th , o
surgimento da Ordem por volta de 1730 em Boston e seus per­
calços após 1826 com o Caso Morgan, até desembocar na pre­
sente onda antimaçõnica com focos principalmente nos estados
sulinos dos EUA. Este é um caminho inexorável. Se alguém
deseja conhecer o movimento antimaçõnico atual - de origem
predominantemente protestante - tem de começar nos EUA.
Conhecido então como o movimento antimaçõnico se origi­
nou e está se desenvolvendo nos EUA, e como tem sido exporta­
do como parte da “bagagem” missionária mundial dos protes­
tantes, torna-se mais fácil entender como se estabelecem e pro­
cedem em nosso país. Trabalhando dessa m aneira passei a
caracterizar o atual cenário brasileiro sublinhando a expansão
de grupos evangélicos, pentecostais e neopentecostais, além da
movimentação dos antimaçons, e a identificar a percepção que
eles têm da maçonaria na sociedade brasileira. Realçamos, pela
simples citação de alguns textos de seus porta-vozes, a desme­
dida e desfocada avaliação que fazem do “perigo” representado
pela Ordem, nos trabalhos divulgados para os fiéis e para o
28 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

público em geral, sustentando falsas premissas sobre os rituais


e símbolos maçônicos.
Submetemos um breve ensaio conclusivo desafiando os
maçons a conhecer a atual antimaçonaria (que prefiro chamar
neo-antimaçonaria) - de origem nitidamente alienígena - em
fase inicial de expansão no Brasil - e a não subestimar seu
militante poder de influência. Alguns que deixaram de refletir e
se posicionar no passado, desprezando o poder propagandístico
dos antimaçons, foram parar nos porões das ditaduras ou nas
fogueiras acesas sob as ordens dos “detentores” e “defensores”’
da única verdade absoluta.
Nas conclusões, tentamos provisoriamente estabelecer os
laços entre os neofundamentalistas dos EUA e o Partido Repu­
blicano, levantando a tese da correlação entre a nova e neces­
sária agenda política desse partido e os discursos dos conserva­
dores neofundamentalistas.
O trabalho conta ainda com cinco apêndices que julguei
oportuno incluir. Neles o leitor encontrará um resumo da histó­
ria dos batistas, a maior denominação protestante americana,
um a sinopse das estatísticas recentes do fundamentalismo nos
EUA bem como da maçonaria americana. Informações sobre
conhecidas organizações antimaçônicas dos EUA, algumas das
quais com “filiais” no Brasil, são apresentadas no Apêndice III.
O Apêndice IV descreve os institutos de pesquisas, lojas de in­
vestigação e organizações maçõnicas que têm se ocupado de
estudos sistemáticos sobre a antimaçonaria. Uma cronologia
dos principais eventos conexos consta do último apêndice.
Finalmente, uma posição doutrinária tem de ser relevada.
Estamos alertando sobre o crescimento das diversas formas de
fundamentalismos e neofundamentalismos deste fim de m ilê­
nio. Creio que aí estão os sinais mais desconcertantes, e ao
mesmo tempo inquietantes, dos dias que correm. Atentados ter­
roristas, sinais de irracionalidade em nome de uma fé arraiga­
da, banalização da vida humana, intolerância ou não aceitação
tácita do pluralismo, tais são os sinais que essas novas corren­
tes estão a anunciar na defesa de suas posições e como estraté­
gia de enfrentamento às incertezas desses tempos de mudan­
ças.
Como maçons cumpre-nos importante tarefa didática: en­
tender o que acontece, disseminar a informação sobre o novo
ANTIM AÇONARIA 29

fenômeno, alertar os obreiros a estar prontos a prosseguir na


tarefa construtivista, tolerante e liberal, consagrando o princí­
pio máximo do entendimento e do amor fraternal entre os seres
humanos, sejam quais forem suas raças, credos ou posições
político-ideológicas. Fora desses valores, entendo eu, não pode­
rá haver convívio duradouro.

O AUTOR
1
ANTIM AÇONARIA 31

CAPÍTULO I

INTRODUÇÃO

A maçonaria dos “aceitos” tomou forma e se desenvolveu


nos primeiros decênios do Séc. XVIII graças à iniciativa, dedi­
cação e obstinação de um punhado heterogêneo de idealistas,
ainda que sob olhares de alguns outros, preocupados e descon­
fiados. Não bastou a proclam ação dos seus ideais pacíficos,
apolíticos e altruístas: respeito às autoridades, fraternidade, to­
lerância, exaltação e defesa das liberdades individuais e de união
daqueles que - de outra forma - viveríam eternamente distan­
tes. Também não foram suficientes a bagagem cultural-científi-
ca, a seriedade e a h on radez de seus prim eiros líd eres e
codificadores, nem mesmo a declaração pública de sua neutra­
lidade política e dos seus pacíficos princípios e obrigações de
1723. Nada disso foi bastante para afastar desconfianças ou
neutralizar ânimos dos que viam na nova confraria uma poten­
cial ameaça às suas posições hegemônicas, um foco de conspi­
ração ou mesmo, como sempre apregoaram, um caldo de cultu­
ra de novas heresias secretamente concebidas.
Mal a segunda edição da “Constituição de Anderson” - a
Carta Magna dos maçons - saía do prelo, a primeira condena­
ção formal e universal da nova sociedade vinha à luz, com pesa­
das acusações [e evidente tom preconceituoso]: o papa Clemen­
te XII lançava a Bula In Eminenti em 04 de maio de 1738. A
32 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

nova “sociedade” , ou seita, reunindo secretamente homens de


diferentes credos, era alvo de suspeição e acusada de desvios
com relação às doutrinas da Igreja. Assim, os católicos seriam
excomungados se dela participassem. Inaugurava-se o m ovi­
mento antimaçônico.
O discurso organizado contra a nova sociedade de homens
livres, ainda que aparentasse certa coerência e lógica interna,
tinha sinais autoritários evidentes, tons de intolerância e nas
suas entrelinhas revelava sintomas de disputa de poder. Im agi­
navam seus mentores que homens, de crenças, origens e linha­
gem política diversas, comprometidos entre si por juram ento
firmado secretamente, sujeitos a penalidades severas em caso
de perjúrio, estariam urdindo um a campanha para destruição
da Igreja e da ordem secular constituída. Uma nova organiza­
ção, com ares de seita religiosa herética, pela primeira vez na
história juntando homens de diversos credos, estaria am eaçan­
do tudo que até então existia. Foco de desestabilização político-
social, evidente ameaça aos poderes estabelecidos, era o que
concluíam os “defensores” do establishment. Pelo menos é o que
se pode concluir da leitura do primeiro documento universal
contrário à nova Ordem.
Para que se entenda o alcance do discurso contra a maço-
naria, devemos ter em mente a im portância atribuída à Igreja e
seus pronunciamentos no Séc. XVIII. Para muitas nações cató­
licas, como a Itália, Império da Áustria (remanescente do Sacro
Império Romano), Portugal, Irlanda e Espanha, a palavra da
Igreja era sinônimo de ordenança divina e, portanto, cegamente
aceita como verdade suprema, irrecusável e inquestionável: res­
peite-se e cumpra-se. Pelos menos assim pensava e assim agia
a maioria católica daqueles países.
Aquele não foi o único ato antimaçônico do Séc. XVIII. Em
realidade inaugurou um a série de outros. Era o início de uma
movimentação organizada contra a Ordem, com vários desdo­
bram entos.1

1 A Bula In Eminenti é marco histórico importante, mas outras campanhas surgiram na França,
Holanda e Inglaterra contra toda e qualquer reunião secreta, em particular, da fraternidade dos free-
masons, antes de 1738. Algumas das quais de ordem política. De toda forma, a Bula In Eminenti, pelo
alcance universal e seu poder autoritário, é “milestoné’ inaugural na estrada pontilhada de acusa­
ções que se. seguem contra a Ordem. Uma das mais abrangentes narrativas desse período é feita por
J.M.Roberts na obra “La Mvtholoaie des Snniétés Secretes”. chap.III-Lés Débuts de VAntimaçonerie,
págs. 67-96 [cf. Bibliografia].
ANTIM AÇONARIA 33

Já na primeira metade do Séc. XVIII, iniciativas de alguns


obreiros das próprias lojas não foram menos nocivas à nova
fraternidade. Alguns dos seus adeptos, que posteriormente aban­
donaram a maçonaria, divulgaram usos, costumes, rituais e até
mesmo formas de reconhecim ento dos irmãos. Imaginavam
poder assim solapar os alicerces da fraternidade, demonstrar
publicamente suas eventuais fraquezas, falaciosas conspirações
e presumíveis práticas heréticas, ou ainda - e principalmente -
ganhar algum dinheiro e fama. Com toda certeza este último era
o inconfessável objetivo de suas ações. Assim surgiram, no iní­
cio do Séc. XVIII, homens como Samuel Prichard, com sua fa­
mosa “Masonry Dissected” (Maçonaria Dissecada) (1730), o Abade
Pérau com “L ’Ordre des Franc-Maçons Trahi, et Leur Secret
R é v é lé ”( 1745), L o u is T r a v e r n o l com “La d ésola tion des
entrepreneurs modernes du temple de Jérusalem ou nouveau
catéchisme des franc-maçons”( 1744), o Abade Larrudan com “Les
Franc-Masons Écrasés” ( 1747) e muitos outros posteriores. Esta
conduta foi combustível para as ações antimaçônicas por muito
tempo. Diriamos que ainda hoje é prática muito comum, imita­
da em pleno fim do Séc. XX pelos que estamos apelidando de
neo-antimaçons.
Oportunistas, a serviço de objetivos nem sempre declara­
dos, têm se aproveitado de conhecimentos obtidos no interior
da Ordem para divulgá-los abertamente, apresentando polêm i­
cas interpretações, quase sempre superficiais e fantasiosas, tra­
zendo falsas acusações e induzindo confusão na mente dos mal-
informados. As informações obtidas e os segredos revelados,
con form e im agin am , alim en tam m entes sen sa cion a lista s,
preconceituosas e ávidas por identificar “mazelas” , desvios he­
réticos e outras fantasias. Serviríam ainda às mais estranhas
exegeses dos algozes da Ordem. Seriam excelentes oportunida­
des para novos negócios no mercado editorial. O exemplo mais
lembrado, embora não o único, vem do perjuro Leo Taxil2, que
na segunda metade do Séc. XIX, abandonando a maçonaria,

2 Pseudônimo de um aventureiro, imaginativo criador de logros e inventor de histórias, Gabriel Antoine


Jogand-Pagès, nascido em Marselha, França, em 21 de março de 1854. Diz a história que foi aceito na
maçonaria, na Loja “Temple de LTlonneur” , em 1881. Pouco depois dela foi expulso, não havendo
chegado mais do que ao grau de Aprendiz (cf. Mackey, Enc. ofFreemasonry). Dele a história narra as
mais incríveis peripécias, incoerências, engodos e trapaças. E, para os maçons, ficou como o grande
responsável pelas acusações de satanismo atribuídas às práticas ritualísticas da Ordem. Em reali­
dade todos os ataques atuais, dos novos algozes da maçonaria, denunciando a alegada “raiz luciferiana”
têm nas obras caluniosas desse cidadão suas reais (e jam ais por eles citadas) origens.
34 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

deixou desastroso rastro de diatribes e infâmias, fabricando,


com sua fértil imaginação, fantasiosas acusações, fraudes e in­
trigas, um a das quais, associando os rituais das lojas aos cul­
tos pagãos e satânicos, traria lamentáveis impactos até hoje.
Embora desmascaradas, as ficções e farsas de Taxil mancha­
ram a imagem da instituição e contribuíram para fixar nas m en­
tes de radicais, precon ceitu osos e despreparados, a falsa
conotação satânica atribuída aos rituais maçônicos. De acordo
com o seu discurso, as reuniões das lojas nada mais seriam do
que um ritual em louvor de Satã. Tal campanha, divulgada por
notório ex-maçom, desencadeou e motivou entusiasmo aos agen­
tes de atividades antimaçõnicas subseqüentes. Apesar de haver
sido fartamente denunciada como pura fabricação, engodo e
farsa, a obra de Taxil é usada com frequência pelos detratores
da Ordem dos dias atuais, conforme demonstramos nesse tra­
balho.
Do seio das próprias lojas maçônicas saíram pois alguns
dos que criaram embaraços, e ainda criam, ao pacífico desen­
volvimento da obra cultural, espiritual, fraternal e construtivista
da Ordem, fortalecendo as fileiras das hostes antimaçõnicas.
Alguns poucos ex-masons, de ontem e de hoje, são ativos cola­
boradores de campanhas antimaçõnicas, sustentados por re­
cursos incalculáveis e fazendo praça de conhecimentos e conví­
vios fruidos do interior das lojas. Alguns têm obras traduzidas e
publicadas no Brasil, como demonstramos neste trabalho. Ou­
tros estão divulgando os seus “achados” e “revelações” na Internet.
Incautos, crédulos e despreparados não faltam para ser ludibri­
ados, levando a sério as farsas, trotes, preconceitos e levianas
acusações contra a Ordem, sob a bem montada estratégia de
marketing das “revelações dos mistérios ocultos, ensinos secre­
tos agora revelados, enigmas decifrados, cultos satânicos, do ou­
tro lado da luz, conspirações desmascaradas, etc... ”
Nos EUA, o Morgan Affaire de 1826 desencadeou um dos
mais frenéticos movimentos antimaçônicos que se tem notícia
na história. Foi acontecimento abrangente, febril, publicamen­
te divulgado e, por isso mesmo, importante na vida das lojas e
dos maçons. Escandaloso e estranho incidente em Batavia, lu ­
garejo do centro-oeste do Estado de Nova York, motivado pelo
anúncio da iminente publicação de uma revelação dos rituais
dos graus simbólicos, usos e costumes das lojas gerou enorme
ANTIM AÇONARIA 35

celeuma. Trabalho, de autoria do perjuro William Morgan e seu


sócio, famoso na cidade, David C. Miller, outro ex-maçom, jo r­
nalista e proprietário de um a oficina gráfica, estaria para ser
publicado e este fato era de conhecimento de muitos. O desen­
cadear de um a série de acontecimentos a partir daí, trouxe ter­
ríveis consequências. Morgan desapareceu misteriosamente de
Batavia. Anunciou-se que teria sido seqüestrado e assassinado
pelos maçons, que foram postos sob suspeita pela sociedade
civil. O fato deflagrou campanha generalizada da mídia, instigada
por grupos conservadores, contra os maçons. A maçonaria ame­
ricana sofreu traumático revés, o escândalo alcançou quase todo
o país a ponto de esvaziar ou fechar várias lojas e chegar a
paralisar uma Grande Loja. Uma frente civil, de alcance nacio­
n a l, e n g e n d r o u a o r g a n iz a ç ã o de um p a r tid o p o lític o
antimaçônico, caso único na história. Visava desalojar os maçons
de importantes postos do governo e assim neutralizar sua influ­
ência política que, segundo alegavam, dominava a elite dirigen­
te. Tinha início o movimento antimaçônico nos EUA, com evi­
dentes interesses políticos por trás do discurso nacionalista, em
defesa da ética, com fortes traços conservadores e evangélico-
cristão. Não foi tanto o estranho desaparecimento de William
Morgan que motivou a reação, mas a movimentação dos maçons
nos p rocedim en tos ju d ic ia is que se segu iram e o alegado
acobertamento que providenciaram para impedir a identifica­
ção e indiciamento dos reais culpados. Acusados de proteger
irmãos suspeitos, conforme sustentam alguns historiadores e
relatos de testemunhas, os maçons ganharam fam a de grandes
vilões e passaram a ser publicamente execrados. A maçonaria
era vista como um a sociedade secreta de mútua proteção de
seus membros e foco de conspirações.
N ão s e ria p o s s ív e l a c o m p reen sã o dos m o vim en to s
antimaçônicos nos Estados Unidos da Am érica sem a aprecia­
ção do Morgan Affaire e suas conseqüências mais imediatas,
entre 1826-1840. Outras ondas contra a maçonaria passaram
a ser registradas na sociedade americana, aqui e acolá, contan­
do com o suporte de grupos político-religiosos conservadores de
direita. A Arte Real passou a ser estigmatizada como foco de
conspirações, origem de muitos males e “religião” contrária ao
cristianismo. Acusações não faltavam: bastava aos antimaçons
a manutenção do Caso Morgan ativa nos meios de com unica­
36 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ções para alimentar campanhas capazes de manter vivas, nas


mentes menos preparadas, com imagens hostis à Ordem.
Com o início do Séc. XX, as duas guerras mundiais a m odi­
ficar todo o cenário geopolítico, com novos atores e estruturas
político-sociais ainda se ensaiando, o prestígio secular da ciên­
cia e tecnologia influindo na formação da juventude e no ambi­
ente da erudição, o discurso e a praxis antimaçônicos pros­
seguiram, ainda mais radicalizados. Na Europa, a Igreja Católi­
ca Romana ganhou novos aliados nessa movimentação. O esta­
belecimento dos regimes ditatoriais fascistas na Espanha, Itália
e Portugal, bem como a revolução comunista russa de 1917,
além da ascensão do nazismo na Alemanha, acrescentaram no­
vos ingredientes no caldo de cultura onde se desenvolveram dis­
cursos violentos e a prática de verdadeiras barbáries contra os
maçons. Na Espanha franquista e em Portugal salazarista de
um lado, e na Rússia comunista de outro, dois grupos ideologi­
camente antagônicos mas politicamente alinhados por suas
p o s iç õ e s to ta litá ria s , d o m in a ra m g overn os n o to ria m en te
antimaçônicos. Uns e outros viam na maçonaria um a ameaça
aos seus planos hegemônicos. Maçons, comunistas e judeus
estariam alinhados, conspirando internacionalmente em busca
de um mesmo propósito: ocupar o poder em todo o mundo, dizi­
am os fascistas. Os comunistas viam um complô judaico-m açô-
nico a serviço do capitalismo ocidental e do domínio im perialis­
ta. Os fascistas foram além. Os mais radicais opositores da Or­
dem em toda a história, na teoria e na prática, acusavam o
“complô” formado pelos maçons, judeus e comunistas, para a
derrubada do poder constituído.3 Para que se entenda aquele
momento vivido pelos maçons sob hostes fascistas, invocamos
o com entário insuspeito e academ icam ente credenciado de
Benimelli, em sua obra “Maçonaria x Satanismo

“ Todas as situações políticas totalitárias tiveram de recorrer


à utilização dos ingredientes ‘anti’ do sistema, em especial o anti­
judaismo, o anti-comunismo e a anti-maçonaria. Os casos de
Mussolini, quando dissolveu as lojas italianas em 1925, e o de
Hitler, que o imitou em 1934, ‘como defesa contra a conspiração
judeu-maçônica’, são suficientemente expressivos e conhecidos.

3 Um dos mais notórios documentos dessa posição antimaçônica é sem dúvida o embuste chamado
“ Os Protocolos dos Sábios de Sião”. publicado pela primeira vez na Rússia em 1903, que teve ampla
divulgação no auge da onda fascista da primeira metade do Séc. XX, cf. bem descreve o prof. Ricardo
Mário Gonçalves em seu trabalho, “Os Protocolos dos Sáhimt de Siãn e. o Mito da Cnnsmracão M u n d iá f.
ANTIM AÇONARIA 37

Da mesma forma se podería falar dos regimes de Vichy, com o


Marechal Petain, ou de Lisboa, com Salazar. Na Espanha, os que
foram utilizados de um modo persistente pelo regime de Franco
foram o anti-comunismo e a anti-maçonaria, que chegaram a
constituir componentes muito importantes da dialética do siste­
ma. ... houve uma tendência a identificar a maçonaria com co­
munismo; identificação que se estabeleceu, em certo sentido,
inclusive no terreno jurídico, já que delitos atribuídos igualmen­
te a maçons e comunistas pela legislação espanhola, desde a Lei
de 10 de março de 1940 até a criação do Tribunal de Ordem
Pública [T.O.P.] em 1963, permaneceram individualizadas pela
tendência em maior ou menor gravidade a subverter os princípi­
os básicos do Estado, perturbar a ordem pública, a disseminar a
derrocada na consciência nacional.”4

De dentro e de fora da Ordem nasceram e se desenvolveram


atitudes, campanhas e posições antimaçônicas minando sua
imagem e deturpando publicamente a mensagem sobre seus
reais propósitos com o evidente objetivo de destruí-la. Egressos
da Ordem, não raro, estiveram e estão associados a tradicionais
grupos de antimaçons, contribuindo com mais “lenha na forna­
lha”.
A história assinala que a maioria das campanhas contra a
maçonaria sempre tiveram regimes autoritários por trás, confe­
rindo conotações políticas evidentes. Não podemos hoje acusar
Leo Taxil, sem deixar de ver a extensão do respaldo que recebeu
da Igreja e dos governos fascistas para a disseminação de suas
idéias e farsas. Na realidade, estava em jogo a defesa do poder
político-autoritário da Igreja, ameaçada, em sua estabilidade,
pelos novos governos, democráticos, republicanos laicos euro­
peus em plena ascensão, e diante da iminente queda das m o­
narquias e ditaduras que contavam com sua tácita aliança. Nos
países sob forte influência católica - como Portugal, Espanha e
Itália - foram os próprios regimes totalitários, das primeiras dé-

4Cf. Pe. José Antonio Ferrer Benimelli.” Maçonaria x Satanismo’’ , Ed. Maçônica “A TROLHA” , Vol.2,
pág. 15. Muito boa tradução do respeitado trabalho “El Contubernio Judeo-Masónico-Comunista” ,
em que o autor disseca os movimentos antimaçônicos europeus, principalmente nos paises latinos.
Comprova até que ponto a cegueira dos movimentos antimaçônicos pode chegar. Um dos destaques
no trabalho é sua descrição sobre a verdadeira obsessão de Franco contra a maçonaria desde 1936,
quando chegou ao poder na Espanha. O autor descreve verdadeiras atrocidades cometidas contra os
maçons, com perseguições e fusilamentos sumários. Do texto é possível se depreender que, somente
entre 1936 e 1937, mais de 300 maçons foram sumariamente fusilados, todas as lojas fechadas,
vários irmãos se refugiaram em outros paises e muitos perderam seus bens e propriedades (cf. Benimelli,
op.cit. págs.74-9).
38 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

cadas do Séc. XX, que forjaram sangrentas campanhas contra a


maçonaria em estreita aliança com a Igreja. Por outro lado, a
perseguição à maçonaria promovida por governos comunistas,
de passado recente, é bem conhecida e destacada na literatu­
ra5. A maçonaria foi banida nos países comunistas durante o
Séc. XX, exceto em Cuba.
Os maçons jam ais foram tolerados por regimes totalitários.
A história não registra movimentos organizados contra a Or­
dem, com respaldo de governos democraticamente constituídos.
O corolário de tudo isto é evidente: a fraternidade m açõnica re­
presenta uma ameaça, suas doutrinas e seus princípios, valo­
res e posições se contrapõem aos planos totalitários de dom í­
nio, são contrários às formas e idéias absolutistas de poder e
não se compatibilizam com qualquer forma de cerceamento às
liberdades individuais. Não por outra razão encontra resistên­
cia e oposição governamental nos regimes não democráticos de
nossos dias. Não por outra razão foi banida do Irã em 1979, tão
logo Khomeini assumiu o poder absoluto. Não sem motivo está
banida do Iraque, não existe na República Popular da China,
nem na Líbia, nem na Coréia do Norte, nem em Uganda, nem na
Argélia, nem nas outras ditaduras (“teocráticas” ou não).
Nos EUA, os movimentos contra a maçonaria tiveram de­
senvolvimento diferente da Europa. As campanhas contra o “po­
der” político, atribuído à Ordem, vieram de grupos político-reli­
giosos conservadores que pretendiam disputar, a seu modo,
posições de liderança na nova república, na virada do Séc. XVIII,
em defesa de valores - por eles considerados indispensáveis à
criação da nova sociedade. Há que se levar em consideração
também o perfil anglo-saxão, de predomínio protestante, do Novo
Mundo. A igreja católica era minoritária ou quase desprezível
na época. Predominava sim a Anglicana e demais denom ina­
ções protestantes satélites, de origem inglesa. A Bula In Eminenti
não teve, assim, influência nas treze colônias inglesas da Am é­
rica do Norte, já que a voz do Papa não recebia qualquer reco­

5Um dos mais abrangentes estudos sobre a recente recuperação da maçonaria, após cerca de setenta
anos de perseguição comunista no leste da Europa, é oferecido na obra “La Franc-Maçonnerie en
Europe de V E s f [ A Maçonaria na Europa do Leste] do conhecido estudioso pesquisador Daniel
Beresniak. O Pe. Ferrer Benimelli, em sua obra “Maçonaria x Satanismo”, destaca também a posição
oficialmente antimaçônica adotada nos Congressos Internacionais dos Partidos Comunistas (de 1919
a 1922) e nas posições oficiais do antigo governo da União Soviética (v. Bibliografia).
ANTIM AÇONARIA 39

nhecimento.
Para o estabelecimento do movimento antimaçônico muito
contribuiu, além do impacto do Morgan Affaire, o temor, difuso
na Europa e chegado às plagas americanas, de uma alegada
conspiração dos ffluminati6 e dos maçons contra toda a ordem
em vigor, após a deflagração da revolução francesa em 1789.
Não se falava de outra coisa, senão de uma provável reviravol­
ta nos governos, nas instituições, na Igreja e na própria cultura
nacional, por sublevações e o conseqüente estabelecimento de
uma “Nova Ordem dos Tem pos” (NOVUS ORDO SECLORUM),
tendo por trás as articulações da poderosa e secreta aliança da
franco-maçonaria com os ffluminati. Este tumultuado cenário,
pontilhado de desinformação, preconceitos e incertezas, muito
contribuiu para criar o ambiente psicossocial favorável ao de­
senvolvimento da antimaçonaria americana.
Chegamos ao fim do Séc. XX convivendo com nova onda
antimaçônica. A atual movimentação contra a Ordem, segundo
nossa hipótese, não está mais centralizada em Roma. Este cen­
tro se deslocou para os EUA. O movimento agora se concentra
mais intensamente nos EUA, uma sociedade dos grandes con­
trastes, que com as grandes conquistas econômicas, tecnológicas
e científicas convive com grupos extremistas diversos, racistas,
intolerantes, além das religiões de corte fundam entalista de
diferentes matizes.
Desta vez - segundo nossa hipótese e face ao cenário
político-institucional novo, repleto de radicais mudanças, con­
frontando e deslocando tradicionais paradigmas, induzindo in­
ce rte za s e n ovos a to res - em ergem n ovas cam p a n h a s
a n tim a ç ô n ic a s . A c u s a ç õ e s d iv e r s a s , c a r r e g a d a s de
desinformações, sofismas e preconceitos, revelando argumen­
tos infundados e intelectualmente desonestos, são disparadas
contra a Ordem Maçônica, reacendendo velhos slogans: religião

6 Organização secreta originada em 1776 na Baviera - sul da Alemanha - na cidade de Ingolstadt,


pelo ex-jesuita, professor de direito da Universidade de Ingolstadt, Adam Weishaupt. Foi denominada
“Iluminados da Baviera” e propagava suas claras intenções políticas: derrubar a ordem de então,
aniquilando a igreja e os poderes constituídos e instaurando um a nova ordem baseada - supostamen­
te - em princípios do iluminismo e novos paradigmas. Teve aproximações com maçons na cidade de
Frankfurt, contando com a participação do Barão Von Knigge que facilitou um a espécie de simbiose
com as lojas maçônicas. A Ordem foi, todavia, declarada inaceitável pelos poderes constituídos e
dissolvida a partir de 1885, começando na própria Baviera, por decisão do Eleitor Karl Theodor.
40 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

pagã contrária ao cristianismo, culto satânico, culto fálico, foco


de conspirações contra a ordem tradicional estabelecida e a
cultura cristã-ocidental, o anticristo profetizado pelo Apocalipse
na Bíblia, responsável por atividades aéticas praticadas clan­
destinamente contra a sociedade americana [crimes, escânda­
los, complôs e campanhas secretas contra o cristianismo], a
serviço de um modelo universal e apocalíptico de governo - con­
trário às pretensões nacionais e à preservação da cultura ame­
ricana tradicional - conservadora, bíblica e cristã.
A sen sa çã o que se tem é qu e, n a v is ã o dos n ovos
antimaçons, a maçonaria está estreitamente alinhada com a
posição secularista, culturalmente modernista, que ameaça der­
rubar valores tradicionais, a estabilidade das instituições, da
igreja e suas doutrinas. Abraça ainda as doutrinas secretas da
chamada Nova Era conjugada com rituais pagãos, ocultistas, e
por isso satânicos. Por todos esses motivos deve ser publica­
mente denunciada e atacada, como se guerreia contra um peri­
goso inimigo. Os cristãos devem, conforme dizem, se afastar da
Ordem ou dela se retirar. Organizações americanas há que não
fazem outra coisa senão promover campanhas ostensivas con­
tra a maçonaria, contando com o respaldo de muitos recursos
para difundir pela TV, radio e Internet as suas ostensivas, e as
vezes agressivas, mensagens contra a Ordem7.
A origem de todas essas modernas diatribes pode se locali­
zar em grupos evangélicos fundamentalistas americanos. Em ­
bora minoritários, quando considerados no amplo leque dos
grupos religiosos norte-americanos, contam com substancial
ajuda de conservadores. Têm acesso a um a respeitável rede de
comunicações (rádio, TV, imprensa, Internet e cadeias editori­
ais), apelam ao sentimento religioso americano, mantêm posi­
ções políticas alinhadas com a tradicional e conservadora direi­
ta americana e demonstram disposição de investir recursos
vultosos para atingir os seus propósitos. Mensagens contrárias
à Ordem partem principalm ente de teólogos, pastores, TVs
evangelistas e pregadores leigos evangélicos baseados numa
interpretação literal, e freqüentemente pessoal, da Bíblia, bran­

7 O Apêndice III, Organizações Antimaçônicas, reúne informações sobre as principais organizações


americanas atualmente em atividade, algumas das quais com objetivos claros e únicos de difundir a
campanha contra a maçonaria. Embora não seja exaustiva a relação oferece uma idéia da extensão da
obra antimaçônica que atualmente se desenvolve a partir de organizações sediadas nos EUA.
ANTIM AÇONARIA 41

dindo posições fundamentalistas bem conhecidas e citando, de


form a distorcida e preconceituosa, autores maçônicos, como
Albert Pike, Albert G. Mackey e outros.
A presença no Brasil de seus representantes já podemos
detectar: desde 1995 livros são aqui publicados e fartamente
distribuídos pelas editoras e livrarias evangélicas. Videocassetes
com mensagens contra a maçonaria já podem ser encontrados
em algumas locadoras de São Paulo, sendo já promovidos nos
jornais diários. Filiais de organizações (missões evangélicas, ins­
titu ições de p esqu isa e edu cação e editoras) am erican as,
dedicadas ao estudo e difusão das idéias sobre seitas estra­
nhas, ocultismo, e outras heresias, há algum tempo estão insta­
ladas no país. Ao lado da pregação do Evangelho e apoio às
igrejas, seminários e escolas bíblicas, que lhes dão certa facha­
da institucional politicamente neutra e imagem oficial de m is­
são religiosa, empregam parte dos seus recursos para editar e
promover mensagens acusatorias contra outros grupos, seitas,
inclusive a maçonaria, considerados por eles como anticristãos
ou heréticos - para dizer o mínimo. Autores antimaçons am eri­
canos como William Schnoebellen, John Ankerberg, John Weldon
e J. Scott Horrel encontram agora amplo espaço no mercado
editorial brasileiro para promoção, distribuição e venda de suas
obras, já traduzidas no país. Trata-se de traço bem caracterís­
tico do que chamamos de neofundamentalismo: são militantes
que buscam confrontar os que lhes parecem ser seus contrári­
os. Como bem define o Prof. George M. Marsden, professor de
h is tó ria do c ris tia n is m o n os E U A , da D u ke U n iv e rs ity ,
“fundamentálista é um evangélico que é militante em oposição a
...” Eles estão sempre lutando contra esse ou aquele grupo, es­
tigmatizado como contrário às suas posições. E entre os que
definem como seus contrários estão os maçons.
Nos EUA, vozes isoladas e algumas escassas organizações
têm-se levantado em resposta à torrente acusatoria e às posi­
ções dos antimaçons: a Masonic Service Association, a Philalethes
Society, o Center fo r Interfaith Studies e as lojas de pesquisas
maçônicas, com especial destaque para a Southern California
Research Lodge, a American Lodge o f Research (da Grande Loja
do Estado de Nova York), a Research Lodge o f Oregon nB 198
AF&AM e a Texas Lodge o f Research. Essas oficinas, dedicadas
ao estudo e à difusão da cultura maçõnica, têm contribuído para
42 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

trazer à luz fatos irrefutáveis, apontar os preconceitos evidentes


e desmascarar alguns mistificadores. Escritores e pesquisado­
res maçons americanos, como Peter P. Trei, Dennis Stocks, E.
Arthur Haglung (Past-Grão-Mestre da Grande Loja da California),
Trevor W. McKeown, Reid Mclnvale, Jam es T. Tresner, Rev.
Barón, Dr. Lloyd Worley, Christopher Haffner, Art deHoyos, S.
Brent Morris, Richard P. Thorn e o historiador John Jamieson
Robinson têm se destacado por suas contribuições. Com refu­
tações serenas, mas firmes e equilibradas, têm posto a nu as
farsas, sofismas e preconceitos, respeitando e reconhecendo,
todavia, o direito de cada um à livre expressão de suas opiniões
e crenças, oferecendo espaço às respostas, além de eventuais
réplicas e tréplicas. Mas não deixam de denunciar a torrente de
erros e falsidades ideológicas que estão por trás de diversos tra­
balhos antimaçõnicos.
O cenário é polêmico, carregado de tons emocionais, mas
aparentemente desigual e ambíguo, com os neo-antimaçons con­
tando com respeitável respaldo econômico, nos EUA, como po­
dem ser vistos pelas redes de TV, programas de rádio, audiência
garantida em muitas igrejas, farta distribuição de seus livros,
folhetins e cassetes, e pela presença marcante e atualizada na
Internet. Estimamos em mais de vinte e cinco títulos a quantida­
de de livros antimaçõnicos lançados nos últimos dez anos nos
EUA. No mesmo período, não mais do que meia dúzia de obras
foram publicadas naquele país com o propósito de responder às
acusações dos antimaçons. Não é possível se comparar o pode­
rio econômico por trás de autores como Edward Decker, Pat
Robertson, W illiam Schnoebellen, John Ankerberg, J. Scott
Horrel, Gary Kah, James (Larry) Holly e John Weldon com os
recursos postos à disposição de Art deHoyos, John J. Robinson,
S. Brent Morris, Jim Trestner, Richard Thorn e Gary Leazer. É
como comparar o poderio do marketing internacional da “Coca-
Cola” com o correspondente esforço minguado de qualquer uma
das á g u a s de c o c o em g a r r a fa b r a s ile ir a s . O d is c u rs o
antimaçõnico, por outro lado, correndo em paralelo com a con­
denação das seitas e igrejas com posições doutrinárias ditas
con flitan tes com o cristian ism o su stentado pelos m esm os
antimaçons, tem claras conotações de rancor, desamor e pre­
conceito. Não parece proceder da mente e do coração dos que se
dizem fiéis, legítimos defensores e seguidores dos ensinos de
ANTIM AÇONARIA 43

Jesus Cristo, pregoeiros do amor ao próximo, até mesmo quan­


do o próximo é inimigo.
Nossa crítica básica aos estudos e pesquisas sobre esse
neocontencioso é que as abordagens de uns poucos estudiosos
maçons, ainda que válidas, oportunas, honestas e intelectual­
m e n te s é r ia s , r e q u e re m m a io r a p r o fu n d a m e n to . T a l
aprofundamento se torna tão mais necessário quanto mais per­
plexos ficam os maçons diante de insólitas e não razoáveis acu­
sações em pleno alvorecer do Séc. XXI, conforme assinalamos
ao longo deste trabalho. Todas as tentativas de estabelecer um
entendimento desse processo, que hoje está mais radicalizado e
generalizado do que nunca, ainda que legítimas e bem coloca­
das, são dominadas por um a visão fragmentada do problema.
Nada até agora tem sido feito para se entender o todo, segundo
um a perspectiva holística. Dennis Stocks, por exemplo, cita em
seu precioso ensaio “Casebook: Another Look at Antimasonry ”,
divulgado na Internet, a análise que fez J.M. Hamill das acusa­
ções antimaçõnicas na obra “The Sins o fo u r Masonic Fathers”
(Os Pecados de nossos Antepassados Maçons). Hamill classifi­
ca as acusações antimaçõnicas em três grupos:
I. acusações relacionadas à conduta secreta da ordem;
II. o mal-entendido das relações da maçonaria com as reli­
giões;
III. insinuações de corrupção, atividades aéticas e outros
comportamentos, ditos clandestinos, escudados pelas relações
secretas entre maçons.
Stocks disseca cada um a delas. Responde com precisão,
serenidade e clareza aos detratores da Ordem, acusação por
acusação, usando a tipologia de Hamill. E fica por aí. Em ge­
ral, assim tem sido a forma como as posições dos maçons são
colocadas contra a avalanche de acusações que lhes são im pu­
tadas. É compreensível que assim se iniciem as campanhas de
resposta aos detratores. Não deixa de ser um a forma válida de
defender as posições dos maçons. Pelos menos serve para pro­
pagar a verdadeira imagem da Ordem àqueles que estão perple­
xos diante da investida dos acusadores na mídia. Mas o que
permanece frustrante é ninguém haver usado tais oportunida­
des para abordar com profundidade o que está por trás de todo
esse tiroteio. Não são conhecidos estudos detalhados de todo o
cenário por onde circulam as “catilinárias” antimaçõnicas deste
44 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

fim de século. Não são conhecidos trabalhos que mostrem aos


maçons o verdadeiro foco de interesse dos opositores da Ordem,
como e por que assim o fazem e até onde pretendem chegar. Do
e n te n d im e n to de to d o o p ro c e s s o , d e p e n d e rá o m e lh o r
posicionamento dos maçons a respeito.
Muitos historiadores, sociólogos e analistas contemporâ­
neos dos movimentos antimaçônicos dos séculos anteriores che­
g a ra m a tr a ç a r m o tiv a ç õ e s , e x p lic a n d o a c ir r a m e n to s ,
radicalizações e tentando uma explicação abrangente, pairando
acima e além da troca de acusações. As contribuições de Jacques
Lemaire, J.M. Roberts, Jean Baylot, Pe. Benimelli, Alee Mellor e
Luc Néfontaine são bons exemplos de tentativas de esclareci­
mento dos movimentos antimaçônicos do passado8.
O que se nota hoje, porém, é que tal abordagem abrangente,
se existe, ainda não apareceu na literatura para oferecer luzes
ao entendimento holístico do processo antimaçônico desse fim
de Séc. XX. Precisamos focá-lo em sua origem e no seu todo,
não só nos seus sintomas aparentes. Como poderemos respon­
der a questões do tipo: que motivações estarão movendo grupos
antimaçônicos a divulgar sistematicamente infundadas acusa­
ções, algumas até bizarras, em todos os canais de com unica­
ções disponíveis? O que poderá explicar tão maciça concentra­
ção de recursos aplicados na condenação pública da maçona-
ria, com base em sofismas e na irracionalidade dos falsos argu­
mentos, como ocorre nos dias atuais? Será que todo o esforço
para condenar a m açonaria por suas ligações com práticas sa­
tânicas, ou por promover cultos contrários ao cristianismo, ain­
da encontra eco na população, já que o seu desmascaramento é
por demais evidente? Se não há eco, por que razão insistir na
mesma tecla de 200 anos atrás? Será que todas essas infunda­
das acusações não encobrem problemas outros por que passa
fração da sociedade conservadora - fundamentalista - am erica­
na? Não estará a maçonaria sim plesmente servindo de bode
expiatório, desviando os olhares da sociedade de problem as
outros? Estaremos diante de um a nova paranóia coletiva? A
qu em , ou a qu e, e s tá s e rv in d o to d a a ca m p a n h a neo-
antimaçônica? Afinal, o que toda esta questão atualmente in­
cubada e desenvolvida nos EUA tem a ver com o Brasil? Esta-

8Todas as obras citadas, tratando desta matéria, constam da bibliografia deste trabalho.
ANTIM AÇONARIA 45

rão os americanos exportando antimaçonaria como exportam


seu fundamentalismo cristão? São todas questões pertinentes,
en volven d o asp ectos cen trais da co n tro vérsia , ain d a não
elucidados, e por isso mesmo são muito oportunas.
Iniciam os form ulando a hipótese de que por trás dessa
movimentação estão dois aspectos do momento em que vive­
mos: (1) tempos de vertiginosas e radicais mudanças sociais,
políticas e econômicas, confrontando valores, paradigmas e tra­
dições e (2) a aproximação de um novo milênio radicaliza as
visões apocalípticas de final do mundo com a perspectiva da
Segunda Vinda de Cristo e a iminente identificação da besta e
do anticristo.
As transformações por que passa o mundo atual, no pós-
modernismo, com a globalização da economia, a formação de
grandes blocos econômicos, o vertiginoso avanço da ciência e
da tecnologia, o crescente imperativo do conhecimento, as faci­
lidades de comunicações e com ela a franca disseminação da
informação, a migração crescente de grupos populacionais, o
desenvolvimento da nova economia asiática, com suas “tem pes­
tades” desestabilizando tradicionais economias ocidentais e pro­
vocando flutuações econômicas em todas as partes do planeta,
tudo isso engendrando novos paradigmas e derrubando mitos,
estabelecendo novos pólos de poder econômico, bem como a
queda das barreiras político-ideológicas leste/oeste com o fim
do comunismo soviético, induzem recrudescimento das posições
de grupos conservadores, em várias regiões do planeta, buscan­
do uma certa autopreservação. Reacende o papel político das
correntes fundamentalistas. Nos EUA o fenômeno não está sen­
do diferente e vem acrescido da verdadeira febre apocalíptica
engendrada pelos que vêem na chegada do ano 2000 a iminente
Segunda Vinda de Cristo, desencadeando uma série de eventos,
literal e livremente interpretados no livro do Apocalipse. Esta é
a época em que surgem os “profetas” do final dos tempos e a
radicalização na busca do sagrado.
Por sua im portância e pelos desdobramentos observados
no Brasil, todo esse novo movimento merece nossa atenção e
e s tu d o a n a lític o . Os jo r n a is d ia r ia m e n te fa la m de
fundamentalismo aqui e acolá, levantando questões e induzin­
do sinais de temor e cuidados redobrados com a segurança in­
dividual e de grupos. Em algumas nações islâmicas mata-se em
46 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

nome de Deus. Nos EUA, seitas exóticas cometem suicídio cole­


tivo e representantes de grupos fundamentalistas atacam hos­
pitais que realizam aborto e promovem também suas ondas de
terror contra minorias. Grupos feministas são atacados das mais
diferentes formas. Entidades religiosas promovem campanhas
políticas em favor da oração nas escolas públicas e o ensino
bíblico nas classes. O que tudo isto significa? Existem explica­
ções, ou alguma relação com a nova onda antimaçônica?
Enganam-se redondamente os que imaginam que o fim da
guerra fria trouxe ao mundo novo período pacífico. Nova guerra,
ou por outra, um conjunto de conflitos localizados já se vislum ­
bra nesse limiar de Séc. XXL O documento “Balanço Militar 1997-
1998”, divulgado em Londres, em 14 de outubro de 1997, pelo
Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IIEE) registra a
triste estatística: em diferentes partes do planeta, 70 países en-
volveram-se em conflitos armados nos últimos três anos. Dis­
putas territoriais, étnicas ou religiosas estão entre as principais
causas, destaca o IIEE9. Analistas, respaldados em levantamen­
tos e reflexões diversas, sustentam que conflitos regionais iso­
lados, predominantemente de natureza cultural, são como o soar
de trombetas a prenunciar graves confrontos nos quais a reli­
gião tem papel prepon deran te. Israel, B ósnia, Chechênia,
Cachemira, Afeganistão, radicalismo islâmico no Irã, crises po­
líticas e assassinatos em massa na Argélia, conflitos religiosos
diversos na índia, no Sudão, na Palestina e no Sri Lanka, ter­
rorismo no Egito, Japão, Paquistão e entre as nações árabes,
fundamentalismo cristão nos EUA cada vez mais radicalizado,
skinheads na Alem anha e Le Pen na França atacando imigran­
tes e as novas culturas em seus territórios, são apenas alguns
prenúncios da nova onda de choque e de desestabilização.
Os ataques à maçonaria, especialmente nesta década dos
90, não podem ser entendidos senão como parte deste cenário
mais abrangente. Não se trata de um fenôm eno isolado. O
contencioso entre a maçonaria e grupos radicais-conservadores
deste fim de século deve ser visto como parte de um conflito
maior, desta vez de forte natureza cultural que, como sustenta

9 “O Estado de São Paulo”, 15 de outubro de 1997.


ANTIM AÇONARIA 47

Samuel Huntington, é m ultipolar e m ulticivilizacional.10 Aca­


bou a bipolarização engendrada ao longo dos cinqüenta anos
de guerra fria na qual o comunismo foi o bode expiatório e gran­
de vilão, o artífice do mal, na percepção da extrema direita
americana, do qual o “macarthismo” 11 é paradigma.
Inicia-se agora, como diz Huntington, um a guerra multipolar
envolvendo diversas correntes onde culturas e etnias (leia-se,
religiões) - e não as tradicionais ideologias políticas esquerda-
direita - já estão em choque. Onde o fundam entalism o se
radicaliza cada vez mais pois que, visualizando “ameaças”, pres­
sionado pelas mudanças, novas culturas e influências que lhes
parecem antagônicas e que se arrojam a minar seu próprio ter­
reno de atuação, assume posições cada vez mais ofensivas.
Tiros são disparados em várias direções. São alvos tam ­
bém, por exemplo, outros grupos cristãos moderados, ditos li­
berais, modernistas ou heréticos, os cientistas que sustentam
descobertas e teorias conflitantes com as interpretações literais
dadas à Bíblia, grupos feministas, defensores do aborto, m ino­
rias homossexuais, os secularistas de um a forma geral, os im i­
grantes, os humanistas, e muitos outros “istas” .
Com sua postura universalista, pacífica, humanitária, pro­
gressista e tolerante, unindo homens de diferentes credos, etnias,
posições políticas e filosóficas, buscando a verdade e defenden­
do valores éticos e morais, liberdade de consciência, e outros
princípios fundamentais inarredáveis, a Ordem dos Maçons Li­
vres, Antigos e Aceitos, [...sem preocupações de fronteiras e de
raças...], é alvo predileto daqueles que defendem o separatismo,
posições exclusivistas, fechadas, intolerantes e radicalm ente
conservadoras. Surgem como detentores únicos da verdade ab­
soluta, consideram-se responsáveis diretos e únicos pela inte­
gridade do derradeiro bastião de um a antiga ordem cujas fron­
teiras devem ser defendidas a todo custo, diante da ameaçadora
invasão de novas culturas. Estão sistematicamente identifican­
do seus opostos para atacá-los, disferindo suas mensagens
alimentadas pelo ódio, pela disputa e pelo preconceito.
Há um a nova disputa de poder no ar, sobre a qual não
temos o direito de desconhecer ou subestimar. É nesta perspec­

l0Sam uelP. Huntington, “ O Choque de Civilizações”. Objetiva, 1997, págs. 19-29.


uCampanha radical de conservadores contra os comunistas, que dominou a cena política dos EUA
nos anos 50, capitaneada pelo Senador republicano Joseph Raymond MacCarthy (1908-1957).
48 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

tiva que devem estar focalizadas as nossas preocupações analí­


ticas, se pretendemos entender o fenômeno que aqui será cha­
mado neo-antimaçonaria. Assim pensamos e analisamos o pro­
blema, e sobre esta premissa básica está assentado todo este
trabalho. Entendemos que a Ordem é, entre outras conceituações
que possamos dar, um a organização fraternal e construtivista
voltada a preparar homens, transformá-los em obreiros, agir,
pensar e refletir sobre o mundo em que vivemos. Nunca foi tão
importante o exercício desse caráter da maçonaria como os dias
atuais de franca transição em direção do Séc. XXI.
ANTIM AÇONARIA 49

CAPÍTULO II

A Condenação da M açonaria pela Igreja Católica Apostólica


Romana: Um Resumo da Origem e dos Primeiros Desdobra­
mentos do Movimento Antimaçõnico

A Igreja Católica Apostólica Romana tem historicamente se


destacado como agente do movimento antimaçõnico internacio­
nal. A principal evidência é a proclamação da série de docu­
mentos oficiais da Santa Sé condenando a maçonaria, desde
que esta oficialmente se institucionalizou em 1723. Relembramos
anteriormente que a origem do movimento antimaçõnico foi a
Bula In Eminenti Apostolatus Specula, em 17381. Os católicos
foram alertados de que a adesão, apoio ou qualquer forma de
ligação com a nova “seita” dos franco-maçons, im plicava na
automática condenação com excomunhão. Era pecado grave. A
Igreja incitava um clima contra a Ordem, na m edida em que
dispunha de influência e poder nas sociedades européias, prin­
cipalmente nas latinas. Sua voz era respeitada na grande m aio­
ria das nações.
Mas afinal, de que os maçons estavam sendo acusados?
Por que um a decisão tão radical da Igreja? A questão é fácil de
ser respondida, em bora as reais intenções não sejam, à primei-

'In Eminenti Apostolatus Specula está datada de 28 de abril de 1738 mas sua promulgação pelo papa
Clemente XII deu-se em 04 de maio do mesmo ano. O título completo do documento é: “Condenação
da sociedade ou das reuniões dos vulgarmente chamados liben muratori ou franco-maçons, sob pena
de excomunhão incorrida pelo fato em si, cuja absolvição, salvo em caso de morte, é reservada ao
Soberano Pontífice [cf. Luc Néfontaine, “Éalise et Franc-Maconnerie?. págs. 26,7],
50 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ra vista, tão claras. Uma leitura atenta do texto da Bula permite


a seguinte avaliação, que confere com a visão de Hamill, confor­
me mencionada acima, no relato de Dennis Stocks:

- Imoralidade: O p a p a C lem e n te X II en ten d eu q u e p o r trá s da

p ro p a la d a p ro b id a d e e m o ra lid a d e d o s h o m e n s re u n id o s so b o
m a n to d a fra n c o -m a ç o n a ria e s con d ia m -se p e rv e rs õ e s e lib ertin a -
gen s. T e x tu a lm e n te te m -se : “...q u em f a z p a r te d e la (a se ita d os
F ra n co -M a ç o n s ) fic a , a o s o lh o s d a s p e s s o a s d e p ro b id a d e e de
p ru d ê n cia , m a rca d o com o fe rre te d a m a lícia e d a p e rv e rs id a d e ...”2
E n tre os m a çon s es ta v a m p o is h om en s d e con d u ta m ora l no m ín i­
m o duvidosa.
- Reuniões secretas: A bula cla ra m en te p õ e sob s u sp eita a
org a n iza çã o q u e se reú n e s e creta m e n te e ob rig a se u s a d ep to s a
m a n te r s ig ilo so b re o q u e se p a s s a d e n tro d a s lojas, su je ita n d o-o s
a se ve ra s p e n a s no ca so d e ru p tu ra d e com p rom issos. E n te n d ia
a S a n ta S é q u e se as reu n iões n ã o p o d ia m s e r d iv u lga d a s e s ta ri­
a m en co b rin d o a lg o d e m au con tra a Ig re ja e a s o cie d a d e s e cu la r
no se u todo. P o r q u e o c u lta r d e tod a a co m u n id a d e o q u e se p a s ­
sa va no in te rio r das loja s se ta is reu n iões se rviría m p a ra o b em de
to d o s ? A ss im , d e ver-se-ia co n d e n a r a nova “s e ita ” p o r e n g e n d ra r
ações, em segred o, con trá ria s a o s in te res ses d os p o d e re s co n s ti­
tu íd os (leia-se, a Ig re ja ) e d a s o cie d a d e no se u todo. E v id e n te p o s ­
tu ra p re co n ce itu o s a vind a d e q u em n ã o p o d e ría to le ra r (ou e n ten ­
d e r) e n co n tro s d e n a tu rez a p riv a d a , com o p o d e m o s na ve rd a d e
q u a lifica r a s reu n iões d a s lojas m açônicas.
- Suspeição de heresias: O texto a s sin a la a in d a a p re o c u ­
p a ç ã o d a igre ja com “d esv io s d o u trin á rio s ”:
“S a b em os que, p o r a í s e desen volvem , p ro g re d in d o a ca d a dia,
ce rta s s o cie d a d e s ... q u e s e c h a m a m v u lg a rm e n te d e F ra n co -
M açons, ... n a s q u a is se liga m h om en s d e to d a s a s religiões e s e i­
tas, sob a p a rê n cia d e h o n es tid a d e natural, ... ”3

Na época, era intolerável que católicos se reunissem com


membros de outras religiões, fosse qual fosse o pretexto. Seria
foco natural de desvios da doutrina santa. O Pe. Benimelli sus­
tenta que reuniões - ou simples contatos - entre católicos e não-
católicos, sob qualquer pretexto, eram severamente proibidas
pela Igreja sob pena de excomunhão.4

2Tradução livre de J. Castellani do texto da Bula [ cf. J.Castellani, “ Os Mnrnns e a Questão Religiosa
ATR O LH A, pág. 20 (1996)].
3Cf. J. Castellani, op. cit. pág. 20.
4José Ferrer Benimelli, “Relaciones Ialesia-Masoneria: Ayer. Hou. Mañana” . Caderno de Pesquisas
Maçônicas, Congr. Internacional, #12, pág. 120 (1996).
AN TIM AÇ O NARIA 51

Essas acusações são literalmente expostas na Bula, respal­


dando a decisão condenatoria. Por trás de tudo, porém, está a
preocupação política, com o surgimento, difusão e rápido cres­
cimento da m açonaria em todo o continente europeu e nas “bar­
bas” da Santa Sé (nos próprios Estados Pontifícios). Tratava-se
de um a entidade estranha, que unia secretamente, não se sabia
para o que, e sob juram ento de sigilo, católicos e não-católicos
dos diversos status social. Uma ameaça estava no ar. O poder
constituído poderia ser atingido. Na percepção de qualquer ana­
lista, com o mínimo de perspicácia, pode-se ver a preocupação
em manter o status quo, na dialética eclesiástica. O poder
ameaçado era temporal e também eclesiástico (ou espiritual, se
assim podemos chamá-lo). A Igreja, ela própria, governava par­
te do território italiano, os Estados Pontifícios. A educação, o
controle das principais entidades de ensino públicas e priva­
das, estava sob a sua tutela, em vários reinos de maioria católi­
ca. Qualquer nova organização, secreta ou não, e - mais do que
isto - envolvendo influência e participação ameaçadora de pro­
testantes britânicos, tinha de ser tratada com rigor e desconfi­
ança. A preocupação política da Bula pode também ser deduzida
do texto se dermos a devida atenção a algumas menções em
sua redação:

“E e s ta s s u s p e ita s cre s ce ra m d e ta l m a n e ira q u e e m vá rios


E sta d os, a s d ita s s o cie d a d e s fo r a m p ro s c rita s e ba n id a s, com o
elem en tos p e rig o s o s à se gu ra n ça d os rein os.” , assinala a Bula.
Pouco adiante, é mais incisivo: “E is p o rq u e nós, p o n d e ra n d o
os g ra n d e s m a les que, p o r via d e regra, resu lta m d e ss a s es p écies
d e so cie d a d es ou con ven tícu los, não so m en te p a ra a tra n qü ilid a -
de dos E sta d o s tem porais, m a s a in d a p a ra a sa lva çã o d a s alm as,
p o is , d e m a n eira a lgu m a p o d e m h a rm o n iz a rs e com a s leis civis e
c a n ô n ic a s ...”5.

O Pe. Benimelli dá-nos insuspeito depoimento sobre o inte­


resse político da Igreja com esta primeira condenação:

“ ... É d ito q u e o ca rd e a l F irra o, s e cretá rio d e E sta d o, p u b lico u


e m 14 d e ja n e ir o d e 1739 em R om a, no q u a l se d iz q u e as reu n i­
õe s m a çôn ica s era m não so m en te su sp eita s d e h eresia s m as qu e

5Cf. J. Castellani, op. cit. pág. 2.1


52 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ta m bém , sob retu d o, p e rig o s a s à tra n q u ilid a d e p ú b lic a e à s e g u ­


ra nça d o E s ta d o eclesiá stico...”6.

O interesse em causa era obviamente a segurança e a m a­


nutenção do status quo que, no caso do Édito do cardeal Firrao,
visava a observância da InEminenti nos Estados Pontifícios. Além
do Édito do cardeal Firrao, o Séc. XVIII teve mais um documen­
to condenatorio, a bula Providas Romanorum Pontificum, do papa
Bento XIV, de 18 de maio de 1751. Confirmava esta os termos
da In Eminenti e acentuava o caráter político da posição da
Igreja. Bento XIV chegou a invocar o Direito Romano e um a
carta de Plínio, o jovem , para repelir a formação de qualquer
sociedade sem a aprovação tácita do monarca.
Historiadores hoje entendem que, graças à sua argúcia po­
lítica, Bento XIV teria sido o mais importante papa do Séc. XVIII,
conforme assinala Luc Néfontaine7. Providas assinala posição
firme da Igreja contrária à maçonaria, inspirada na defesa das
posições de poder, encastelada que estava nas monarquias do­
minantes na Europa de então. A Igreja concluía assim sua lada­
inha condenatoria contra a m açonaria no Séc. XVIII. Mas ou­
tras novidades iriam comprometer ainda mais a imagem da Or­
dem naquele século.
A virada do Séc. XVIII trouxe outras novidades no cenário
p o lít ic o - in s t it u c io n a l com r e fle x o s p a ra o m o v im e n to
antimaçônico. A revolução francesa motivou reviravoltas políti­
co-sociais. A febre revolucionária, então exacerbada pela cam­
panha de terror jacobinista que se segue após 14 de julho de
1789 na França, parece ter sensibilizado muitas correntes, além
da própria Igreja, que consideravam as lojas maçônicas respon­
sáveis diretas pelos levantes e excessos. Existiría um complô
para agitar o ambiente, derrubar a Igreja e as monarquias (após
o que acontecera com a França). Pensava-se e escrevia-se a res­
peito. Os maçons estariam por trás de tudo isso.
A existência, e as maquinações, da sociedade secreta dos
Iluminados da Baviera passava a ser denunciada pelas autori­
dades, no Reino da Áustria dos Habsburgos em especial. Contí­
nua e equivocadamente confundida como a maçonaria, ambas

6 J.F. Benimelli, op.cit. pág. 120.


7 L. Néfontaine, op.cit. pág. 30.
ANTIM AÇONARIA 53

eram acusadas indiscrim inadam ente de envolvim ento numa


grande conspiração contra as organizações vigentes, poder tem ­
poral e espiritual. Duas obras, publicadas nesta época com o
mesmo propósito, equívocos e recado, têm excepcional reper­
cussão entre os que se opunham à maçonaria. Tornam-se ver­
dadeiros manuais dos antimaçons. Referimo-nos às obras do
Abade Barruel e de John Robinson. Mais conhecido e mais
freqüentemente citado, principalmente entre nós latinos, o Aba­
de Augustin Barruel (1741-1820), clérigo francês, com sua alen­
tada obra em quatro volumes, Mémoires pour servir à Vhistoire
du jacobinisme (Memórias a serviço da história do jacobinismo),
editada em Londres, em 1797, inaugura o “mito da conspira­
ção”, que após duzentos anos ainda estimula os atuais paladi­
nos da antimaçonaria. A tese fundamental de Barruel é que
maçons tramavam total reviravolta na ordem social pela der­
rubada das monarquias, o aniquilamento da igreja e do cristia­
nismo com a conseqüente retomada da evolução da hum anida­
de sob novas bases (ou nova ordem).
A revolução francesa e seus excessos no período do terror
eram apenas a mais flagrante evidência, dizia-se. John Robinson
(1739-1805), eminente matemático escocês, membro da Royal
Society e professor de filosofia natural da Universidade de Edim­
burgo, publicava na mesma época, 1798, a sua obra - menos
conhecida entre nós latinos - Proofs o fa Conspiracy (Provas de
um a Conspiração). Os dois trabalhos tiveram seus impactos.
Segundo alguns autores, Barruel foi apenas um compilador de
diversos outros trabalhos, com pouca contribuição pessoal. Sua
obra é fartamente documentada, principalmente ao historiar o
surgimento em 1776 da sociedade secreta bávara dos Ilumina­
dos.
Os m esm os an alistas tam bém se dão ao trabalh o de,
compulsando outros autores de diversas épocas, apontar os la­
mentáveis equívocos trazidos à baila pelo desconhecimento da
real relação dos Iluminados com a maçonaria e da natureza e
objetivos desta última. Ficou, entretanto, o mito criado por
B a r r u e l p r e s e n te n a lit e r a t u r a a a lim e n ta r m e n te s
preconceituosas de antim açons.8 Já em sua “Provas de uma

8Cf. J.M. Roberts, “L a M u th o lo a ie d e s S o c ié té s S e c r e te s ”. Paiot, Paris 1979 págs. 123-148.


54 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Conspiração”, Robinson foi mais elegante, por seu estilo acadê­


mico intelectualmente rigoroso e pela natureza sóbria da abor­
dagem em seu todo. Não se limitou a historiar acontecimentos,
nem apenas a sintetizar idéias de outros. Sua obra tem teor
mais filosófico do que a de Barruel. É analítico, preciso e crítico
ao discutir desvios que observara nas lojas maçõnicas que visi­
tara no con tin en te europeu, quase todas com in clin ações
racionalistas e políticas.9
Sua obra, de evidente denúncia, teve grande acolhida entre
os escoceses e ingleses, ambos com posições não tão favoráveis
aos jacobinos (com os quais, dizia-se, os maçons estariam as­
sociados). A comunidade de língua inglesa sorveu-lhe as idéias,
que rapidamente se disseminaram, chegando inclusive à recém-
fundada república independente dos Estados Unidos da Am éri­
ca. Importante, porém, como conseqüência da divulgação das
duas obras, é observar-se a relevância do mito da conspiração
daí originado, como alimento para os acusadores da maçonaria
nas épocas subseqüentes. A igreja passou a ter mais munição
para carregar suas baterias contra a Ordem.
De fato, ao longo do Séc. XIX, quando a m açonaria experi­
menta cisões internas, movimentos políticos se avolumam em
toda a Europa mercê do exemplo francês e da vulnerabilidade
dos estados italianos, além da própria ameaça ao status quo
representada pelas campanhas napoleónicas, mais acusações
contra a Ordem circulam com base no mito conspirativo. Novas
sociedades secretas ensaiam movimentos políticos e místicos,
na própria Itália (na vizinhança da Santa Sé), no Sacro Império
R om an o e, em esp ecia l, no Im p ério A u stro -H ú n g a ro dos
Habsburgos (tradicional sede da contra-reforma e fiel aliado da
Igreja). Tudo contribui para acumular novidades no estoque de
argumentos dos antimaçons. As novas sociedades secretas nas­
cidas neste século, como os carbonários por exemplo, estariam
operando sob alianças secretas com os maçons, era o que pen­

9Robinson era maçom iniciado em 1770 na loja La Parfaite Intelligence, em Liège. Sua obra é crítica
com relação ao papel político da maçonaria ao longo do período que se seguiu à revolução. Ainda
assim, assinala distinções entre as lojas que conheceu no continente e a sua experiência maçônica
nas lojas da Ilha. O impacto de suas acusações no seio das comunidades anglófonas foi, todavia,
muito grande. Ainda hoje sua obra é citada entre os autores antimaçons [cf. J.Lemaire, Les Origines
Françaises de VAntimaçonisme (1744-1797), Ed.Univ. Bruxelles, 1984. págs. 99-101; e ___ , “John
Robinson’s Proofs o fa Conspiracy” - Ed. Americanist Classic Edition, Boston, 1967 - ].
ANTIM AÇONARIA 55

savam, fabricavam e divulgavam os algozes da maçonaria.


Na segunda metade do Séc. XIX o provocante cenário seria
radicalizado com o crescimento dos movimentos anticlericais
na França e na própria Itália, a inspirar campanhas em favor do
estado laico e contra a ostensiva aliança da Igreja com os pode­
res civis. O anticlericalismo dominou boa parte da maçonaria
francesa na época, em que se destacou o Grande Oriente de
França. Maçons ilustres e outros líderes impulsionados pela ide­
ologia iluminista, à frente do governo francês, endossavam no­
vas posições, ao final do século, em favor do afastamento da
Igreja do comando das escolas públicas, como principal bandei­
ra da tese da separação definitiva do velho conluio Igreja-Esta-
do. O Grande Oriente de França, dando as costas às origens
deístas da Ordem, e fazendo muito pouco caso dos ingleses e
suas “Old Charges”, resolveu, em 1877, eliminar dos altares o
Livro da Lei e omitir o Grande Arquiteto do Universo de seus
rituais, renegando um dos landmarks considerados fundamen­
tais. Estaria aberta a grande cisão da maçonaria e colocada
mais lenha na fogueira das questões envolvendo as relações com
a Igreja. Para sintetizar, desvios de rota da própria Ordem, con­
forme descreveu Jean Baylot em sua “La Voie Substituée” - prin­
cipalmente pela ênfase nas questões políticas associadas às re­
viravoltas da época e à influência ostensiva das lideranças
iluministas - caracteriza o secularismo do período, acirra os
ânimos e radicaliza posições do contencioso maçonaria-igreja.
No sentido oposto à posição secularista dos governos da
Europa surge um a nova torrente de bulas, éditos, proclamações
e outros documentos emitidos pela Santa Sé, num crescendo
acusatorio jam ais visto e cujo ápice se dá com a edição da Bula
Humanum Genus em 1884. Novamente, pretende a Igreja alertar
para o perigo dos desvios éticos e doutrinários da nova “seita”,
mas sublinha, cada vez mais enfática e explícitamente, o perigo
da maçonaria, representado pela conspiração que tramavam os
maçons, em oculto, nas reuniões das lojas, consideradas de ins­
piração maligna.
O Séc. XIX é o mais rico e denso em mensagens oficiais da
Igreja contra a Ordem. O eminente pesquisador americano, Reid
Mclnvale, em levantamento feito em 1992, compilou e descre­
veu um total de 24 documentos acusatorios, emitidos oficial­
mente pela Igreja entre 1738 e 1983, todos direta ou indireta-
56 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

mente vinculados à maçonaria [veja o quadro abaixo]. Desses,


18 foram emitidos no Séc. XIX. Os últimos, com exceção de um
apenas [Etsi Multa, de 21 de novembro de 1873], cujas preocu­
pações são de natureza puramente teológica, são acusações que
carregam as tintas na preocupação política10. A acusação, qua­
se que generalizada, é concentrada na maçonaria como fonte
direta, indireta ou inspiradora, de conturbações políticas. Era
efeito ainda da difusão dos equívocos de Robinson e Barruel,
entre outros, mas associava a reação da Sé aos movimentos
libertários em pleno vigor nas províncias italianas.

Relação de documentos emitidos pela Igreja contra a maçonaria (1738-1983)

1. B u la to E m in en ti, 1738, a b r2 8 14. E ts i N os, 1882, fe b 15


2. Provid a s, 1751, m a i 18 15. H um anum Gertus, 1884, a p r2 0
3. E e d e s ia n A Jesu C hristo, 1821, sep 13 16. O ffid o S antíssim o, 1887, d e c2 2
4. Q uo G m v b ria M ala, 1825, m a r 13 17. DaU’A lto D e ll’A p ostolico Seggio, 1890, o ct 15
5. Tra d itiH urm litati, 1829, m m 24 18. Im rrúca Vis, 1892, d e c 18
6. IM teris A ltero, 1830, m a r 2 5 19. C ustod i d i Q ualla Fed e, 1892, d ec 18
7. M ira ri Vos, 1832, a u g 15 20. P ra ed a ra , 1 8 9 4 ,ju n 2 0
8. Q u iPtu ribu s, 1846, n o v 0 9 21. A rm u m In gressi, 1902, m ar 18
9. Q w bus Q uantisqueM aM s, 1849, a b r2 0 22. C a n on 2 3 3 5 ,1 9 1 7
10. Q uanta C ura, 1864, d e c0 8 23. D ecla ra tia n on C a th olic M em bership in M a son ic
11. M u ltíplices Inter, 1 8 6 5 ,s e p 2 5 A ssod ation s, 1981, m a i 02
12. ApostoU cae Seá is M oderaton, 1869, o ct 12 24. N ew C anon, 1983, nov 26
13. E ts iM u lta , 1873, nov2 1

[Fonte: Reid Mclnvale, op.cit. págs. 2-7.]

Leão XIII lança em 20 de abril de 1884 a mais terrível,


abrangente e longa de todas as bulas papais, em todos os tem­
pos: Humanum Gemís. É um violento desfilar de acusações, ao
mesmo tempo em que, para qualquer analista, mostra traços
pueris e incoerentes em sua dialética pela ênfase sectária do
discurso.
Sua longa cantilena tem, já no exordio, a restituição do cli­
ma de guerra entre a Igreja e a Maçonaria, ao mesmo tempo em
que condena radicalmente todas as demais organizações não
aderentes aos objetivos, doutrinas e dogmas da Igreja Católica
Romana (como as igrejas protestantes, por exemplo):

10Reid Mclnvale, “Román Catkolic Church Law Reçardina Freemasonry ” (Lei da Igreja Católica Romana
arespeito da maçonaria), Texas Lodge o f Research A.F.&A.M., June 13, 1992.
ANTIM AÇONARIA 57

“ A R a ça hum ana, p o r a stú cia m aligna, a fa stou -s e d e D eus, o


cria d o r e d o a d o r d os d on s celestiais, d iv id in d o -se em d u a s p a rte s
d istin ta s e opostas, u m a d a s q u a is in sis ten tem e n te com b a te em
fa v o r d a ve rd a d e e d a virtu d e en qu a n to a ou tra m ilita con tra a
virtude e a verdade. U m a é o R e in o d e D e u s na terra - isto é, a
Ig re ja d e J esu s Cristo, a qu ele q u e d eseja qu e to d a s as a lm a s a ela
se ju n te m p a ra sa lva çã o, p a ra o serviço d e D e u s e d e seu a m á v el
Filho, com to d a m en te e vontade. A ou tra é o rein o d e Satanás, em
cujo p o d e r e d o m ín io estã o to d o s a q u ele s q u e se gu em se u triste
ex em p lo e d os se u s p a is . R e cu s a m -s e a o b e d e ce r a lei etern a e
divin a e a in d a luta m p o r m u ita s ca u sa s qu e se a fa sta m ou s e opõem
a D eus. E s te d u p lo reino, com o s e fo s s e m d o is e s ta d os con trá rios
u m a o outro, m ilita m em d ire çõ e s op osta s... Um lu ta con tra o
ou tro com d iferen tes es p écies d e arm as, b a ta lh a m sem pre, em b o­
ra n em se m p re com o m esm o a rd o r e f u r ia ..... E m n osso s dias,
p o ré m , a q u ele s q u e se gu em o m a l p a re c e m c o n s p ira r e lu ta r sob
orie n ta çã o e com o au xílio d a so cie d a d e d e hom ens, esp a lh a d os
p o r tod a a p a rte , e so lid a m en te estabelecida, qu e eles ch a m a m d e
‘F re e -M a s o n s ’ ...” 11.

Como se fossem dois mundos separados, um Divino e outro


satânico. Assim estaria dividida a humanidade, segundo o papa
Leão XIII. A maçonaria estaria não somente no reino de Satanás
mas seria a organização líder desse mesm o reino, sua real
mentora. Uma grande muralha deveria separar os dois reinos. A
Igreja Católica Apostólica Romana, centro do Reino de Deus na
terra, seria a única depositária da verdade suprema, absoluta e
da virtude, além de gestora do estabelecimento deste mesmo
reino.
No seu conteúdo, o discurso da Humanum Genus, que leva
como subtítulo, “A Seita Maçônica”, desfila um a série de acusa­
ções bem específicas - compilando as bulas anteriores - com
base em alegados conflitos doutrinários e - evidentemente - res­
saltando preocupações políticas de vários matizes. Dentre os

nA tradução é livremente feita pelo autor. A fonte é o texto, em Inglês, reproduzido em apêndice da
obra “Bom in Blood - The Last Secreta o f Prp.pmaRnnnl ’ de John J. Robinson - South California Research
Lodge, 1994. A tradução para o português certamente é imperfeita, já que não parte do original, em
Latim, mas de um a versão para o inglês, cujo autor admite conter erros. A idéia transmitida, porém,
é fiel, já que confere com diversos analistas, como Luc Néfontaine, Benimelli, Peter Trei e David
Grooms.
58 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

c o n flito s d o u tr in á r io s le v a n ta d o s , L e ã o X III d e s ta c a o
indiferentismo da Ordem para com as religiões, que ele identifi­
ca como posição naturalista, segundo o qual o valor principal
é atribuído à revelação da verdade pela própria natureza e pela
razão humana, em detrimento da verdade emanada, ou revela­
da, pelo próprio Deus. Na maçonaria não é o Deus da Bíblia
que é cultuado, mas um deus qualquer - obedecido segundo a
consciência de cada um. O texto é muito claro e incisivo neste
ponto:

“.. .A o a b rir su a s p o rta s a p e s s o a s d e tod os os cred os eles p r o ­


m ovem , d e fa to , u m g ra n d e eq u ívo co d o in d iferen tism o relig io so e
d e p a rid a d e d e to d o s os cultos, m e lh o r ca m in h o p a ra a n iq u ila r
com to d a s as religiões, esp ecia lm en te a católica, q u e se n d o a ú n i­
ca verd a d eira (sic) n ã o p o d e se ju n ta r com ou tra s se m en orm e in ­
ju s tiç a ... com o os p rin cíp io s n a turalistas, n om e p o r eles [os m açons]
p ró p rio s indicad o, a n a tu reza h u m a n a e a razã o em to d a s a s coi­
sa s d e ve s e r os m estres e guias. Ten d o a s sim esta belecid o, eles
d e scu id a m d e tu d o com resp eito a o s d e veres p a ra com D eus, ou
p e rv e rte m -n o s com fa ls a s o p in iõ e s e en ga n os. E le s n e g a m qu e
to d a s as coisa s te n h a m sid o revela d a s p o r D e u s ...”12

Na esfera política, repetindo discursos anteriores, a Igreja


ataca o “secretismo” das reuniões, as severas penalidades atri­
buídas aos que quebram juram entos de sigilo, e à conspiração
que - como corolário de tudo isto - seria urdida pelos maçons,
em oculto, nas “trevas” de suas lojas: a destruição da Igreja e a
derrubada dos poderes temporais:

“ ...A boa á rv ore n ã o p o d e p ro d u z ir fru to s ru in s nem a á rvore


m á fr u to s b on s (M a teu s 7:18). A M a ço n a ria g e ra fr u to s ru in s e
m u ito am argos. D a ev id ên cia a cim a m encion ada, en con tra m os seu
ob je tivo q u e é o d e se jo d e d e rru b a r tod a a ord em religiosa e socia l

12 Importante lembrar que a emissão desta bula, 20 de abril de 1884, é posterior à cisão da maço­
naria, de 1877, provocada pelo afastamento do Grande Oriente de França dos Landmarks da Ordem,
retirando o Grande Arquiteto do Universo dos rituais e radicalizando sua posição anticlerical. Embora
questionado por muitos, o fato é que a maçonaria hoje pode se considerar cindida, doutrinária e
filosoficamente, em dois grandes grupos, comumente chamados: regulares, os que seguem fielmente
os Landmarks e são fiéis a linha doutrinária emanada das Constituições de Anderson; e os demais,
ditos irregulares, que aceitam ateus, agnósticos e são mais voltados às posições racionalistas e devo­
tados, na Europa sobretudo, a campanhas políticas. Essa distinção jam ais é feita pelos antimaçons.
Para eles a maçonaria é uma só. Não há distinções entre Obediências e muito menos entre os ritos
praticados. Tudo é um a coisa só.
ANTIM AÇONARIA 59

in tro d u zid a p e lo cristia n is m o e c o n s tru ir u m a nova o rd em d e a cor­


do com a su a vontade, sob fu n d a m e n to e leis d o na tu ra lism o...
eles [os m a çon s ] p re g a m e su ste n ta m a s e p a ra çã o en tre Ig re ja e
E s ta d o .” 13

A cólera explicitada contra a m açonaria deixa, porém ,


transparecer onde estaria o m aior (ou mais importante) temor
da Igreja:

“E les [o s m a çon sj tra balham , d evera s ob s tin a d a m en te p a ra o


fim d e q u e n em os en sin os n em a a u torid a d e da Ig re ja p o s s a m vir
a te r q u a lq u e r in flu ên cia ; e p o rta n to eles p re g a m e su ste n ta m a
com p leta se p a ra çã o d a Ig re ja d o E stado. A s s im a lei e o g ove rn o
sã o a rreb a ta d os d a s a lu ta r e d ivin a virtude da Ig reja C atólica, e
eles deseja m , p orta n to, p o r tod os os m eios, d irig ir os E s ta d o s in ­
d e p en d en te d a s in stitu ições e d ou trin a s d a Ig re ja .” 14

Era a posição eclesiástica deixando clara sua intenção de


batalhar contra as campanhas de separação entre Igreja e Esta­
do que pontilhava em todas as novas repúblicas. Adicionalm en­
te, e por estranho que possa parecer para a época de sua edi­
ção, a Bula prenuncia uma aliança dos maçons com com unis­
tas e socialistas, profetizando:

“Os turbulentos equívocos que temos mencionado devem ins­


pirar temor aos governantes; pois que, de fato, suponhamos que
o temor de Deus na vida e o respeito às Suas leis sejam despre­
zados, a autoridade do governo permitida e autorizada seria
destruída, a rebelião desencadeada e livre às pressões popula­
res, dai a revolução universal e a subversão necessariamente
viríam. Esta revolução subversiva é o objetivo deliberado e o pro­
pósito explícito de numerosas associações socialistas e comu­
nistas. A seita maçônica não tem razões de se considerar alheia
a esses desideratos, pois que os maçons promovem aqueles pro­
jetos e com eles [os socialistas e os comunistas] têm em comum
princípios fundamentais...”

13Neste ponto a Igreja acusa com clareza as preocupações que tem com a segurança da sua presença
nos bastidores do poder temporal de diversas nações - em especial na França, onde a batalha é contra
organizadas frentes anticlericais. Neste mesmo trecho da Bula o Papa Leão XIII vê no estado laico uma
obra satânica destinada a afastar a vontade divina do controle das decisões de governo, particular­
mente na esfera da educação.
14É nítida a preocupação política com a posição de maçons e outros grupos em defesa da separação da
Igreja do Estado, em todas as esferas da atividade de governo.
60 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Outros ataques viriam no Séc. XIX, polarizando ainda mais


o já turbulento e conflituoso cenário. A principal lenha posta a
atiçar o fogo no contencioso foi trazida por Leo Taxil, já m encio­
nado de passagem na introdução. Sua obra foi devastadora, na
m edida em que influiu no humor de muitos que, notórios e
preconceituosos, se colocavam contra a Ordem, e que adquiri­
ram n o vo m a te r ia l p a ra “ e n r iq u e c e r ” su a s c a m p a n h a s
difamatórias. Entender a obra e os estragos causados, todavia,
é menos importante do que entender o perfil psicológico de tal
impostor e o principal conteúdo das suas idéias. Já que ainda
que ten h a sido n o to ria m en te d esm a sca ra d o e seu p e rfil
comportamental doentio divulgado - sob ampla documentação -
seus textos são considerados ainda hoje expressão da verdade e
suas idéias difundidas e copiadas por muitos antim açons.15
O nome de Leo Taxil está estreitamente ligado às origens do
mitológico discurso sobre o satanismo dentro da maçonaria. Seu
nom e em erge nos m eios literá rio s da F ran ça na onda do
anticlericalismo da segunda metade do Séc. XIX. Publicações
contra o clero tinham mercado crescente. Tudo o que era publi­
cado se vendia rapidamente. Desta oportunidade se aproveita
Taxil. Monta em Paris, em 1879, o seu próprio negócio: uma
Livraria Anticlerical, em realidade um misto de livraria e edito­
ra. Ele próprio lança suas obras (folhetos, periódicos e livros)
contra o clero - fartamente fantasiosas. Era flagrante o excesso
de suas posições contra o clero. Basta que se relembrem alguns
dos seus títulos: Uma Jornada de Leão XIII, As Necessidades
Sagradas, A Bíblia Divertida, Abaixo as Curas!, O Filho do Jesuí­
ta, Pensamentos Anti-Clericais, Os Crimes do Alto-Clero Contem­
porâneo, Leão XIII e o envenenador, Pio IX diante da história, Seus
Vícios, Suas Loucuras, Seus Crimes, etc. Em 1882 publicaria ain­
da Os Amores Secretos de Pio IX e O Álbum Anticlerical, este
com ilustrações de Pepin; e em 1883 divulgaria seu Manuais
de Confessores, com instruções luxuriosas a serem observadas
nos confessionários, para se descobrir o desenvolvimento das
relações conjugais.
Diz Benimelli, que esses Manuais causaram verdadeiro fu­

15Como mencionado anteriormente, um dos mais abrangentes e acreditados trabalhos analíticos


abordando a obra mistificadora de Leo Taxil é do padre jesuíta espanhol, José Antonio Ferrer Benimelli,
“Maçonaria x Satanismo” (Editora Maçônica “A TROLHA”, Londrina, 1995).
ANTIM AÇONARIA 61

ror entre o clero. Esgotado, porém, o filão anticlerical, Taxil en­


gendra um novo golpe de mestre - sempre buscando manter
posição de relevo no meio editorial e, com toda certeza, locuple­
tar-se com a receita da comercialização de suas falácias.16 Como
diz Benimelli, “o inimaginável aconteceu” : aos seus trinta e um
anos de idade, 1885, Leo Taxil escreve à Santa Sé retratando-se
de todas as suas obras. Na qualidade de novo convertido com­
promete-se a se colocar a serviço da Igreja. Inicia sua m alfada­
da aventura, com doze anos de duração, pela qual se transfor­
ma em grande algoz da maçonaria, desfilando em suas obras
difamações e lendas, comprometendo a imagem - já muito cor­
roída - da fraternidade e atiçando o fervor oposicionista dos ca­
tólicos, seus ávidos (e desavisados) leitores. Com toda certeza,
ganhou muito dinheiro nessa nova empreitada. Sua produção
literária foi amplamente consumida pelos católicos que busca­
vam novidades reveladoras dos mistérios maçônicos. Passa en­
tão a prosseguir sua atividade panfletária, publicando obras
diversas “pretensamente” fidedignas “expondo” segredos m açô­
nicos e criando o mito do “culto luciferiano”, isto é, as lojas
maçônicas outra coisa não eram senão o templo do culto ao
diabo, o deus das trevas. Suas obras mais importantes neste
período são: O Inimigo é a Maçonaria (1885)17, Os Irmãos Três
Pontos: Revelações Completas sobre a Franco-Maçonaria, O Cul­
to do Grande Arquiteto e As Irmãs Maçons. A primeira de suas
obras, Os Irmãos Três Pontos, obteve grande sucesso entre os
católicos e ajudaram em muito o acirramento deles contra os
maçons. Como negócio editorial, certamente rendeu ao editor/
autor boa soma de dinheiro pois conseguiu vender cerca de
100.000 exemplares em pouco tempo, um a façanha.18 O propó­
sito da obra era efetivamente colocar a nu o que o autor imagi­
nava ser as práticas demoníacas das lojas maçônicas - ditas
Sinagogas de Satanás. Segundo Benimelli, a mais sórdida e
fantasiosa acusação de luciferianismo atribuida à maçonaria,
todavia, aparece no livro “A s Irmãs Maçons”, no qual descreve,
com requintes de detalhes, o que chama de “culto do demônio”,
batizado com o nome Palladismo.19 O alcance do “blefe” de Taxil

16Cf. J. A. Ferrer Benimelli, op. cit. págs. 33-5.


17Era a sua resposta, e também da Igreja, à palavra de ordem de Léon Gambetta, polítco francês,
maçom, um dos chefes da oposição republicana ao final do segundo império e Ministro do Interior: “O
Clericalismo, aí está o Inimiao
18Cf. J. A. Ferrer Benimelli, op.cit. pág. 46.
19Cf. J. A. Ferrer Benimelli, op.cit. pág. 43.
62 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

não pode ser imaginado senão quando se investiga o conteúdo


exato do que propunha, como fez o Pe. Benimelli:

“N a s lojas satânicas, o P a lla d is m o era celebra do, se gu n d o Taxil,


à b ase d e ve rd a d eira s org ia s on d e L ú c ife r era ven era d o com o o
p rín c ip e dos bons. O a d ep to d evia ju r a r in con d icio n a l ob e d ien cia
às ord en s da Loja, n ã o im p orta va o q u e lhe fo s s e ord ena do. A lé m
do m ais, d evia a d o ra r a Satanás, in vo ca n d o -o se gu n d o o ritua l da
n ecrom ancia. E ra rep re se n ta d o na fo r m a d e B a p h o m e t (sic), u m
íd olo com p a ta s de cabra, p e ito s d e m u lh e r e asa s d e m orcego...”20

Diferentemente de outros autores antimaçons que o prece­


deram, Taxil avança no território, muito pouco explorado até
então, o dos graus superiores (do Rito Escocês Antigo e Aceito).
Terreno desconhecido da grande maioria dos católicos - que até
então só observavam as “ameaças” das lojas azuis - foi logo per­
cebido pelo astuto autor como excepcional mercado a explorar.
Assim o Palladismo, anunciado na sua obra “As Irmãs Maçorts”
aponta os graus superiores como satânicos, ressaltando o grau
rosa-cruz ( Capítulo ) e a vingança templária, por ele vistos como
de origem diabólica, nos graus do Areópago:

“A m açona ria , com su a liturgia p a n te ís ta d os C a pítu los e su a s


execrá v eis ev oca çõe s d os A reóp a g os, n ã o é ou tra coisa q u e o culto
de S a ta n á s.”21

As loucuras e fantasias fabricadas por esse panfletário tive­


ram o seu fim, quando foi devidamente desmascarado. Suspei­
tas começaram a ser levantadas entre os próprios católicos, mas
coube ao próprio Taxil vir de público - em histórica conferência
proferida em 1897, em Paris - para retratar-se de todas as suas
fraudes contra a maçonaria e contra a própria Igreja - por ele
mesmo ludibriada por 12 anos. As fantasias por ele plantadas
foram, porém, fartamente divulgadas e não desapareceram de
todo. Para m uitos outros, antimaçons e incautos, o mito do

20Cf. J. A. Ferrer Benimelli, op. cit. págs. 43-44.


21Neste particular, Taxil teve a astúcia de implicar Albert Pike, líder da maçonaria escocesa nos EUA,
em suas fantasias antimaçônicas. Dizia ele que em Charleston, Carolina do Sul (EUA), existia um
templo onde se reuniam os membros dos altos graus da maçonaria. A. Pike era o seu chefe supremo,
o “primeiro papa luciferiano” . Pike conferenciava com Lúcifer regularmente, toda a sexta-feira, dizia o
texto. Estas conferências aconteciam em uma sala triangular, no centro de um labirinto. Em outra
sala estava entronizada a estátua monstruosa do demônio hermafrodita, com duas cabeças, Baphomet,
e um pouco mais distante a estátua de Eva, que se animava e se transformava no demônio Astarte
para abraçar os maçons [ cf. J. A. Ferrer Benimelli, op. cit. pág. 45}.
AN TIM AÇON ARIA 63

satanismo prosseguiu no consciente, e muito provavelmente no


inconsciente coletivo, de algumas sociedades. As acusações atu­
ais contra a Ordem, sem que expressamente o reconheçam, es­
tão impregnadas das idéias e fantasias de Leo Taxil. Ao longo do
restante do Séc.XIX e primeira metade do Séc. XX a Igreja pros­
seguiu com suas condenações, confirmando acusações anterio­
res. Ainda que, nos últimos trinta anos, clérigos católicos e es­
tudiosos insuspeitos como o Pe. Michel Riquet, Pe. J. A. Ferrer
Benimelli, Jean Baylot, Hervé Hasquin, Paul Naudon, Jacques
Lemaire, Luc Néfontaine, Jean Tourniac e Alee Mellor, tenham
esclarecido as reais posições doutrinárias da m açonaria com
respeito à Igreja, enfatizando a distinção entre a corrente cha­
mada “regular” e a “irregular” , sublinhando o caráter tradicio­
n a lis ta da O rdem , seu fu n d a m en to filo s ó fic o , p a c ífic o ,
construtivista, espiritual, fraterno e não envolvido em conspira­
ções contra a Igreja, esta permanece, coerente com sua posição
histórica: oficialmente contrária à Ordem e considera incompa­
tível teológica e políticam ente a participação do católico na
Maçonaria.
Suas mais recentes declarações oficiais mantêm a posição
teológico-dogmática de não-conformidade doutrinária entre as
duas instituições, sustentando punições impostas aos católicos
que, de alguma forma, se liguem à maçonaria. Mesmo depois de
1983, quando a Igreja aprovou o novo Código Canônico, um a
revisão do Código 2335 de 1917, no qual a condenação, com
pena de excomunhão, é prevista para todo o católico que se
vincular a qualquer organização que milite em favor da destrui­
ção da Igreja (omitindo o nome “m açonaria”), a condenação se
mantém. Alguns presumiam que pelo menos a maçonaria regu­
lar pudesse ficar de fora da alça de mira da Igreja, após tantos
esforços de esclarecimentos e tentativas de aproximação de Alee
Mellor, do Pe. Benimelli, de Jean Baylot e do Pe. Riquet.
Coube ao Cardeal Ratzinger colocar um a pá de cal nas
esperanças dos maçons regulares: em 26 de novembro de 1983,
a Sagrada Congregação de Doutrina e Fé emitiu a “Declaração
sobre as Associações Maçônicas”, em que diz do alto de sua
autoridade eclesiástica:

“T em -se q u es tion a d o se h ou ve a lg u m a a ltera çã o na d ecisã o


da Igreja, com resp eito às A s s o cia çõ e s M a çôn ica s, u m a vez q u e no
64 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

n o vo C ó d ig o C a n ôn ico d e L e is n ã o a s m en cion a e x p re s s a m e n te
com o o anterior.... E s ta S a gra d a C on grega çã o está em con d ições
d e res p on d er q u e ta l circu n stâ n cia é d evid a a u m critério ed itoria l
q u e f o i se gu id o ta m b é m no ca so d e ou tra s a ssocia ções, ig u a lm e n ­
te não m encion adas... P orta n to o ju lg a m e n to d a Igreja, con trá rio às
A s s o cia çõ e s M a çô n ica s p e rm a n e c e o m esm o, u m a vez q u e se u s
p rin c íp io s tê m sid o s e m p re co n s id e ra d o s irre c o n ciliá v e is com a
d ou trin a d a Ig re ja ...” 22

22Tradução livre do texto papal pelo autor, diretamente de uma versão em Inglês obtida da Internet.
Trata-se de material legítimo emitido pela Sagrada Congregação para Doutrina e Fé e assinado pelo
Cardeal Joseph Ratzinger, titular da pasta, em 26 de novembro de 1983.
ANTIM AÇONARIA 65

CAPÍTULO III

A Maçonaria e o Cenário Sociopolítico dos


EUA no Séc. XVIII

O fenômeno antimaçônico, enquanto movimento político-


religioso, nasceu e se desenvolveu na Europa continental com o
ostensivo suporte da Igreja Católica Apostólica Romana. A Fran­
ça, Itália, Espanha e demais nações latinas, vivenciando histó­
rica influência do catolicismo, serviram de berço e principal ca­
nal de difusão para o movimento de oposição à Ordem. O cená­
rio político, as incertezas percebidas pelos senhores do tradicio­
nal poder diante do estabelecimento das novas formas laicas de
governo (repúblicas e monarquias parlamentaristas), após a des­
truição das principais monarquias absolutistas, funcionou como
pano de fundo provocador da resistência ao desenvolvimento
dos maçons e suas lojas. A maçonaria era identificada com os
movimentos provocadores de mudanças (para não dizer revolu­
cionários), mais tarde republicanos, de inspiração iluminista,
positivista e, muitas vezes, anticlerical.
Que estaria acontecendo do outro lado do Atlântico, na
Am érica do Norte? Como a Ordem estava se desenvolvendo nas
Treze Colônias inglesas de onde haveria de brotar a primeira
República em 1787? Que correntes políticas, em pleno Séc. XVIII,
disputavam o poder naquela rica região, e como haveríam de se
relacionar com a maçonaria?
É lam entável que a historiografia am ericana seja tão
66 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

parcimoniosa, senão omissa, a respeito do papel da maçonaria,


na fixação da cultura e da política revolucionária a partir do
limiar do Séc. XVIII. O que se conhece do papel que os maçons
desempenharam na construção da sociedade americana, e como
se relacionavam com os diversos estratos sociais, tem sido di­
fundido escassamente, e de forma fragmentada, por iniciativa
de alguns estudiosos, como Melvin Maynard Johnson, uns pou­
cos pesquisadores maçons e, nos últimos vinte anos, por res­
peitáveis historiadores como Steven C. Bullock, M argaret C.
Jacob, Dorothy A. Lipson, John D. Hamilton, Alien E. Roberts
(maçom), Kathleen S. Kutolowski e Ronald P. Formisano.
O cenário sociopolítico nas colônias, na época em que a
m açonaria norte-am ericana começou a vicejar e ampliar sua
presença, era particularmente estimulante, com seus sinais de
turbulência na economia, na política, nas relações internas com
os índios e nos instáveis laços de dependência com a coroa in­
glesa.
Cada um a das Treze Colônias1 gozava de status especial e
inusitado no Império Britânico. Tinham vínculos diretos com a
coroa, que nomeava seus governadores mas concedia liberdade
e autonomia para que cada colônia tivesse seus próprios conse­
lhos de representação com o governador e incentivassem os ne­
gócios internos. Não obstante laços culturais, religiosos, exten­
sas fronteiras, facilitando aproximações, e a mesma língua, cada
colônia sempre zelou por sua identidade cultural e política. Cada
um a se considerava virtualmente em situação de Estado quase
independente. Era impossível admitir-se a ingerência de uma
colônia nos negócios da outra. O vínculo com o Império era motivo
de orgulho. Zelavam pelo bom relacionam ento com o Poder
Central, a coroa britânica, afinal berço de sua cultura (tradi­
ções, língua, religião e costumes).
No início do Séc. XVIII cresce o movimento comercial entre
as colônias e a Inglaterra. As colônias experimentavam resulta­
dos econômicos da expansão do mercantilismo engendrado na
revolução industrial capitalista européia, particularmente vin-

'As Treze Colônias podem ser grupadas segundo a região geográfica ocupada: Nova Inglaterra (no
litoral norte), compreendendo: MASSACHUSETTS, CONNECT1CUT, NEW HAMPSHIRE e RHODE
ISLAND; Colônias centrais: NOVA YORK, NOVA JERSEY, PENNSYLVANIA e DELAWARE; Colônias
meridionais: VIRGINIA, MARYLAND, CAROLINA DO NORTE, CAROLINA DO SUL e GEORGIA.
ANTIM AÇONARIA 67

da da Inglaterra, França, Holanda e Espanha. Regulam enta­


ções impostas pela coroa britânica ao Comércio e à Navegação,
em defesa de seus interesses, pretendendo manter e aprofundar
o estrito controle sobre os negócios entre as colônias e Londres,
vieram favorecer movimentos de resistência, como nos portos
de Boston, Nova Amsterdan (depois Nova York), Charleston e
demais. De um lado, pretendiam os ingleses limitar, ou mesmo
barrar, os negócios das colônias com espanhóis e franceses e,
ao mesmo tempo, ampliar - inclusive através de incentivos fis­
cais muito especiais - as trocas comerciais com a própria Ingla­
terra.
O movimento migratório a partir de 1700 foi, por sua vez,
outro acontecimento importante. Foi dos mais notáveis da his­
tória americana. A população das colônias foi estimada naquele
ano em 250.000 almas, a taxa de crescimento populacional daí
em diante foi excepcionalmente alta, mercê de casamentos lo­
cais e da expansão da onda migratória em busca de novas opor­
tunidades e de geração de riqueza naquele Novo Mundo. As
colônias se transformam em atraentes pólos de especulação,
audaciosas realizações e de crescimento vertiginoso dos empre­
endimentos no campo e nas grandes cidades costeiras. Já em
1750 a população das colônias era estimada em 1.250.000 ha­
bitantes.2
É neste momento, que a contínua ingerência britânica nos
negócios das colônias, buscando maior controle sobre o cres­
cente fluxo da riqueza, se transforma no estopim deflagrador de
revoltas e de florescimento de um ideal de independência. Tem
lugar o movimento nacional de unificação e independência na
segunda metade daquele século. Em todo esse cenário com ple­
xo, mas estimulante e cheio de ambigüidades, nasce, se desen­
volve e se consolida a fraternidade maçônica norte-americana.
Havería de se tornar elemento essencial nas grandes mudan­
ças, no próprio processo revolucionário de independência e na
conseqüente unificação das colônias numa federação de esta­
dos unidos, por sua mensagem universal, fraterna, tolerante,
impregnada de valores pátrios e libertários.

”Encvclopaedia B r it a n n ic o verbete United States (o f America). Ed. Enc. Brit. 1967 págs.
606, 7.
68 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Paul Naudon situa em 5 de junho de 1730 a origem oficial


da maçonaria nas treze colônias inglesas da Am érica do Norte3.
Esta data marca a presença de um primeiro dignitário maçom
Inglês, Daniel Coxe, em solo do Novo Mundo. Até então colono,
Coxe é nomeado, por Londres, Grão-Mestre Provincial de Nova
York, Nova Jersey e Pennsylvania4. É o primeiro a ser investido
de tal dignidade naquelas colônias. Não existem, porém, regis­
tros de criação de lojas sob a iniciativa de Coxe em quaisquer
das treze colônias. Culturalmente vinculadas à Inglaterra, ber­
ço da maçonaria especulativa, as treze colônias britânicas se­
guiam paradigmas idênticos aos da corte, isto é, observavam
valores religiosos, práticas e hábitos culturais muito próximos
dos britânicos.
Como não podería ser diferente: a m açonaria am ericana
nasce sob a tutela e, portanto, orientação filosófica, práticas e
rituais da primeira Grande Loja fundada em Londres em 1717.
Ritos, usos e costumes seguem, no alvorecer da maçonaria nor­
te-americana, o modelo Inglês dos “m odernos” . Daniel Ligou
menciona a criação de um a loja primitiva, não autorizada por
carta-constitutiva de qualquer Potência Maçônica, que esteve
funcionando entre 1729 e 1731 na Pennsylvania. Era a Loja de
São João, organizada em Philadelphia e cujos registros mais
antigos estão datados do sugestivo dia 24 de junho de 1731.
Teria sido também a origem da Grande Loja da Pennsylvania,
potência organizada sob a direção de Benjamin Franklin (um
dos primeiros obreiros a ser iniciado). Importante ser ressalta­
da essa iniciativa local, e independente dos ingleses, por alguns
maçons da Philadelphia. Há, neste fato, um traço precursor do
que viria a acontecer posteriormente em todo o país, com o esta­
belecimento de Grandes Lojas, circunscritas a cada Estado da
federação. Tornam-se independentes da Grande Loja de Lon­
dres (e de outras potências da Grã-Bretanha).5

3A principal fonte consultada para a história da maçonaria nos EUA foi Steven C. Bullock, “ Revolutiana.ni
BrotherhoocF. The Univ. o f North Carolina Press, 1996. Nada desprezíveis para o presente estudo,
porém, têm sido as obras: Mackey, A. G. aEncuclopaedia ofFreem a^onnT. Macoy, 1966; Paul Naudon,
“Histoire Générále de la Franc-MaconnerieF. Office de Livre, 1981 e Daniel Ligou, “Dictionnaire de la
Franc-Macoru^eriél,. P.U.F.. 1987.
4Segundo outros historiadores, Coxe não teria sido o primeiro maçom a pisar o solo norte-americano.
Jonathan Belcher (1681-1757), originário de Boston, foi iniciado na Inglaterra em 1704, retornando
então para Massachusetts. Há registro de sua mensagem de congratulações à primeira loja de Boston
em 25 de setembro de 1741, na qual revela a história de sua iniciação, conforme ata recuperada [cf.
Alien E. Roberts, “Freemasonm in American H istonF. págs. 7-9].
5Daniel Ligou, op. cit. págs. 430, 1.
ANTIM AÇONARIA 69

Franklin teve papel destacado na difusão da cultura ma-


çônica, a partir da Pennsylvania. Foi sua a iniciativa, por exem ­
plo, da edição e divulgação nos EUA, em 1734, da Constituição
de Anderson de 1723 (a primeira obra maçônica publicada nos
Estados Unidos da Am érica)6.
A primeira loja maçônica, organizada sob carta-constitutiva
emitida pela Grande Loja de Londres, surgiu em Boston, em
1733, recebendo o título de “Loja de São João”. A iniciativa par­
tiu de Henri Price, amigo íntimo de Benjamín Franklin, nomea­
do pela Grande Loja de Londres Grão-Mestre Provincial da Nova
Inglaterra.7 Ato contínuo, Price organiza em 1733, a que poderi­
amos chamar de primeira Obediência Maçônica regularmente
constituída nas colônias norte-americanas, vindo a se tornar
mais tarde na Grande Loja de Massachusetts. Tudo leva a crer
que a liderança e presença de Price induziu o nascimento de
outras lojas, que vieram a ser inicialmente organizadas, além
da Philadelphia, [e como seria de se esperar], nas principais
cidades costeiras como Norfolk (Virginia), Charleston (Carolina
do Sul), Savannah (Georgia) e Nova York (NY). A maçonaria se
estabelece primeiramente em tais cidades, fortalecidas pelo di­
nâmico movimento de mercadores e pelo estabelecimento de três
grupos de elite: os negociantes (artesãos e lojistas), os profissio­
nais liberais e os oficiais de governo (tanto civis como militares).
O historiador americano Steven C. Bullock vasculhou re­
centemente documentos maçônicos diversos desta época que
nos mostram o perfil das primeiras lojas americanas. Diz ele,
por exemplo, que tanto a primeira loja de Boston como a da
Philadelphia, contavam com a marcante presença de m ercado­
res entre seus membros. A Loja de São João de Boston era com­
posta, entre 1768-1770, de 64% de mercadores, 14% de profis­
sionais liberais (advogados, médicos, clérigos e outros) e os de­

6A.G. Mackev."Encuclopaedia o f FreemasonnT. Macoy Pub, págs. 373, 4.


7Paul Naudon, “Histoire Général de la Franc-Maconnerie?.Office du Livre, 1987, pág. 181. A Nova
Inglaterra compreendia então as colônias: Massachusetts, Connecticut, New Hampshire e Rhode Island.
Aí estava um dos mais importantes portos das colônias, caminho natural de entrada e saída de
negócios e emissário das conexões inglesas, Boston. Foi o palco de importantes eventos mobilizadores
do povo em direção à independência. Interessante notar que a primeira loja, “São João”, até hoje ativa,
foi estabelecida em 31 de agosto de 1733 numa taberna, “ The Bunch o f Grapes” [ Cacho de Uvas],
segundo narrativa de P. Naudon, como reproduzindo a experiência dos maçons ingleses que costuma­
vam se reunir em tabernas londrinas, antes da criação da Grande Loja. A iniciativa de Price, ainda
segundo Naudon, foi uma resposta a insistentes pedidos de alguns maçons já residentes em Boston,
provavelmente mercadores ingleses, recentemente estabelecidos.
70 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

mais 22% (artesãos, lojistas e militares diversos). A Loja de São


João da Philadelphia, tinha idêntico perfil em 1750, mas dez
anos após registrava a participação aumentada de profissionais
liberais e dirigentes políticos. A cidade, não esqueçamos, passa
a ter papel preponderante no movimento político em direção à
unificação e libertação das colônias.8 Aos poucos a maçonaria
penetra nas comunidades dos plantadores e pequenos proprie­
tários do interior das colônias.
A Ordem ganha com muita facilidade adesões e simpatias
nas mais diferentes camadas sociais das colônias: pequenos
proprietários de terras, artesãos, mercadores, profissionais li­
berais, clérigos, militares, lojistas e dirigentes públicos form a­
vam a elite que compunha as lojas maçônicas. Sua posição filo­
sófica declarada, e efetivamente tolerante com as posições polí­
ticas, étnicas e religiosas aliada à sua pregação da fraternidade
humana, sem fronteiras, e o realce dos valores éticos e morais,
ganha rápida identificação e ressonância no seio das mais dife­
rentes camadas da elite colonial. Seu discurso tinha muitos
pontos filosóficos afinados com as posições protestantes. O res­
peito à religião, à soberania reconhecida da revelação de Deus
nas Escrituras, de acordo com posição doutrinária da maioria
protestante, não deixava razões para suspeitas de heresias ou
conspiração. A maçonaria assim cresceu e se difundiu em todas
as colônias, sem encontrar grandes dificuldades de qualquer
natureza.
Não houve oposições nos primordios da nova nação, pelo
menos a historiografia deles não faz menção de qualquer espé­
cie. Com a onda m igratória ao longo do Séc. XVIII, as demais
potências maçônicas, que começavam a disputar espaço com a
Grande Loja de Londres (dos Modernos), estenderam sua influ­
ência às colônias. A Grande Loja da Escócia (organizada em
1736), a Grande Loja da Irlanda (de 1725 ) e a Grande Loja da
Inglaterra (de York , dos Antigos, de 1751) cedo fundaram lojas
e Grandes Lojas Provinciais nas colônias.9 Muito importante foi
o papel dos Antigos, praticamente presentes em todo o território

8Steven Bullock, “Revolutiona.ru Brotherhood: Freemasonry and the Transformation o f the American
Social Order. 1730-1840”.The Univ. o f North Carolina Press, Chapei Hill (NC), 1996, págs. 59, 60.
9Paul Naudon, op. cit. págs. 182-4.
ANTIM AÇONARIA 71

norte-americano, mas conquistando espaços sobretudo nas pe­


quenas comunidades do interior e mesmo entre camadas dos
artesãos e pequenos comerciantes das cidades mais importan­
tes. Muitas lojas na Philadelphia, em Charleston, Baltimore e
Norfolk se organizaram sob a égide dos Antigos, já na metade do
Séc. XVIII. Mackey sustenta que, ao final da Revolução Am eri­
cana, mais da metade dos maçons americanos estavam direta
ou indiretamente ligados aos Antigos.10
Não houve, como dissemos, sinais visíveis de movimentos
organizados nas Treze Colônias contrários à maçonaria no Séc.
XVIII. As bulas papais editadas na época não tiveram qualquer
influência nas colônias, que tradicionalmente eram ligadas à
Igreja Anglicana (religião cristã, de conotação protestante, ofi­
cial da coroa), ou a outras denominações protestantes de ori­
gem inglesa. Os líderes religiosos, protestantes, eram pois pre­
dominantemente antipapistas e essa era mais um a razão para
identificar os maçons como aliados, em certo sentido. Muitos
deles foram, inclusive, iniciados na Ordem. Nem mesmo as des­
confianças sobre a natureza secreta das reuniões dos maçons
chegaram a abalar o prestígio da maçonaria. Deve ser destaca­
da, todavia, a indisfarçável estratégia no marketing institucional
das lojas maçônicas americanas, desde os seus primordios. Pode
ser perfeitamente identificada desde o início, como havendo con­
tribuído para a boa aceitação da Ordem em todas as camadas
sociais. Os maçons de Boston foram os primeiros a inaugurar
um procedimento, que mais tarde tornar-se-ia um hábito, ver­
dadeira “marca registrada” da m açonaria norte-am ericana até
os dias atuais: paradas ou procissões públicas, muito seme­
lhantes às praticadas pelos católicos em dias santificados.
Tudo começou em Boston, em 24 de junho de 1739, quan­
do os maçons festejaram o padroeiro (São João Batista) desfi­
lando pelas ruas da cidade, ostentando seus aventais, luvas
brancas e exibindo seus símbolos e alfaias, tudo acompanhado
de banda de música. O séquito, passando pelas principais vias,
se dirigiu à casa do Governador, irmão maçom, que se juntou
ao cortejo para surpresa e espanto da população que a tudo
assistia. Todas as atividades normais daquele dia, conforme re-

10Albert G. Mackey, “ R n c u c lo n a e â ia o f F r e e m a s o n n f . Macoy, 1966, págs. 1.159, 60.


72 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

lato de Bullock, foram interrompidas para que o povo pudesse


apreciar o desfile, largamente anunciado nos jornais da cidade.
Diante do povo, ali estavam líderes da sociedade, eminentes
políticos, juizes, clérigos, mercadores e artesãos, paramentados,
ao estilo militar, exibindo cores brilhantes, esbanjando alegría e
orgulho de pertencer a tão nobre e honrada instituição. Uma
fraternidade, identificando publicamente seus membros, sím­
bolos e adereços, estava exibindo às escâncaras seu “acervo”’
mais importante: os seus membros constituintes, fina flo r da
elite.
Segredos, se é que existiam, estavam em boa medida sendo
publicamente revelados. Daí por diante, eram comuns os desfi­
les e as pompas especiais com seus rituais vistosos, em todas
as oportunidades: lançamento da pedra fundamental de novo
prédio (Igrejas, edifícios e monumentos públicos), posse de dig­
nidades maçônicas, cerimônias fúnebres, e outras celebrações.
Eram comuns cortejos maçônicos em solenidades especiais nas
Igrejas (como por exemplo no lançamento da pedra fundamen­
tal) ou mesmo comemorações como instalação de um novo dig­
nitário maçônico serem realizadas em Igrejas, publicamente. Exi­
bições como a que foi feita em Boston, 1739, eram também
testemunhadas por cidadãos da Philadelphia em 1755, quando
foi in au gu rada a fam osa e h istórica “M asonic H all” , e em
Charleston, em dezembro de 1739, nos festejos de São João
Evangelista.11 Não apenas seus desfiles, mas os símbolos os­
tensivamente difundidos em ambientes abertos e públicos, bem
como os vistosos prédios, sedes dos seus templos, permitem-
nos identificar os traços da postura americana de dar à Ordem
a publicidade e transparência possíveis.
Essa conduta maçônica, de alguma forma ainda hoje pecu­
liar aos maçons norte-americanos, teria atenuado o poder dos
críticos ao mistério e segredo que cercavam suas reuniões em
loja, alvos dos católicos europeus. A maçonaria teria sua ima­
gem ainda levada à mais alta consideração por mais duas ca­

1'Steven Bullock, op.cit. págs. 50-59. Vale acrescentar um registro deixado pelo historiador: o princi­
pal jornal da Virginia, lançou notas sobre certas “reuniões de sociedades misteriosas que poderíam
estar tramando contra o Rei e o império e deveríam ser pois esmagadas...” [assim dizia o Virginia
Gazette em 1739, reproduzindo notícia de uma revista inglesa]. Foi uma das poucas sinalizações
relatadas pelo historiador de “respingos” da In Eminente em território norte-americano.
ANTIM AÇONARIA 73

racterísticas. Em primeiro lugar pelo engajamento da Ordem


em diversas ações de caridade e beneficência comunitária. Ain­
da hoje, a maçonaria americana é reconhecida por suas obras
assistenciais, realizadas de maneira transparente em diversos
estados da federação. Hospitais, clínicas especializadas em aten­
dimento a acidentados e em doenças da fala, instituto de pes­
quisa de doenças cardíacas, lares para idosos, creches e orfa­
natos são reconhecidamente mantidos ainda hoje pelos maçons
americanos. Em segundo lugar, pelo envolvimento dos princi­
pais líderes políticos que laboravam pela unificação das colôni­
as, na busca de um a harmonização de interesses locais e da
independência, e que estavam reconhecidam ente ligados à
Fraternidade.
Benjamín Franklin, intelectual, homem de imprensa, esta­
dista e político sagaz da Philadelphia, foi o primeiro a propor em
1754, na histórica Conferência de Albany, Nova York, um acor­
do entre todas as colônias com o fim de unificar esforços nas
suas lutas contra os índios. Ainda que vencido na sua proposta,
projetou a imagem de estadista e líder nacional (se assim se
pode definir, para um a época onde a nacionalidade não estava
bem definida). Franklin veio a ser, de fato, o mentor ideológico
da unidade de ação entre as colônias, que viría desembocar na
luta unificada contra o Império Inglês, em 1776. Muitos maçons
estavam, com Franklin, envolvidos nesse processo de unifica­
ção. Entre os militares e os mercadores, todos dotados de gran­
de mobilidade entre as colônias, muitos eram maçons. Desloca-
vam -se com facilidade, atravessando fronteiras sem grandes
dificuldades ou riscos de rejeição: os primeiros, em lutas - lado
a lado - contra um inimigo comum, os indígenas, em defesa de
seus territórios e os demais, homens de comércio, dedicados
aos seus negócios entre os Estados. O fato de serem maçons
facilitava-lhes as ações, ainda que em territórios estranhos. Os
militares tiveram seu trabalho facilitado pela presença de mui­
tos maçons em seus diferentes escalões. Esta circunstância,
em boa medida, viabilizou a obra revolucionária liderada por
Benjamín Franklin e George Washington. Este fora iniciado na
maçonaria em 4 de novembro de 1752 na Loja de Fredericksburg,
Virginia.
A história deixa claro que, durante a Revolução, do corpo
de 14.000 oficiais com que contava George Washington, 2.018
74 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

eram maçons, representando um total de 218 lojas, das diver­


sas colônias.12 Assim, no interior da elite dirigente, responsável
pelas decisões, da segunda metade do Séc. XVIII, quer no meio
civil, quer entre os militares - heróis da revolução - encontra­
vam-se vários maçons.
Russel N. Cassei sustenta que, até m esm o a estrutura
conceituai da Constituição Americana, estabelecendo atribui­
ções e relações entre Estados Federados e a União, levou em
conta o modelo de Anderson na Constituição dos Maçons de
1723. A relação da Grande Loja com as lojas federadas muito
serviu de inspiração:

“... e o fe d e ra lis m o e s ta b e lecid o no g o v e rn o civ il q u e a C on sti­


tu içã o criou é id ên tico ao fe d e ra lis m o do sistem a m a çôn ico d e g o ­
verno criad o na C on stitu içã o M a çôn ica ” , sustenta Cassei13.

Esta tese de Cassei tem respaldo nos levantamentos que fez


da presença de maçons na concepção do texto constitucional. A
participação dos maçons entre os signatários da Constituição
dos Estados Unidos da América, como também em outros docu­
mentos, confirma a influência das idéias da Ordem - através de
seus obreiros mais destacados - na vida pública daquela nação.
Dos 39 membros que assinaram a Constituição, 22 eram maçons.
Entre os signatários encontravam-se 18 advogados, homens que
certamente se destacaram na concepção do texto constitucio­
nal. No meio desses, encontravam-se 10 maçons, segundo Cassei.
O primeiro gabinete formado pelo presidente George
Washington, tinha sete maçons entre os seus 14 m em bros.14
A maçonaria, por meio de seus ilustres membros, gozava
pois de posição especial e imagem positiva perante o povo. Cir­
culava com desenvoltura entre as elites dirigentes e deixava sua
influência na formação das bases doutrinárias e políticas da
nova nação. Presidentes, ministros de estado, juizes, represen­
tantes e governadores, ao longo da história, tiveram seus nomes

12______ , “Freemasonru in Earlu America: Unifmnn the Cnlnnip.,s” - http://www.liii.com/~srudy/


masons.html
13Russel N. Cassei, “ The United States Constitutian and Freemasann/’. Trans. The Am.Lodge. o f Res.
Free and Accepted Masons, vol. XVI, na. 3, 1987, New York, pág.74.
14Russel N. Cassei, op.cit. págs. 72-3.
ANTIM AÇONARIA 75

nos registros de membros de lojas maçônicas.


Ao chegar ao final do Séc. XVIII, praticamente todos os Es­
tados Federados já estavam com a Ordem organizada, as Gran­
des Lojas estavam consolidadas e a nação contava com a pre­
sença de lojas em praticamente todas a cidades mais im portan­
tes. Em 1800 os maçons apregoavam contar com 11 grandes
lojas já independentes da Inglaterra e Escócia, 347 lojas e 16.000
m em bros.15E a Ordem gozava de reputação elevada entre a po­
pulação contando com membros em várias camadas sociais,
mas certamente alguns em postos-chaves de governo. Por todos
esses motivos era procurada por aqueles que aspiravam posi­
ções de liderança ou carreira política.
A história americana não registra movimentos francamente
organizados de oposição à maçonaria até o início do Séc. XIX. A
cena se modifica com a passagem da Segunda década desse
Séc. XIX, coincidentemente com o chamado prim eiro grande
reavivam ento evangélico, o m ovim ento de m issões, a onda
pietista, o metodismo e novas seitas protestantes justo na costa
leste da nação.

15Ronald P. Formisano and Kathleen Smith Kutolowski, “ANTIMASONRY AND MASONRY: A Genesis
ofProtesf . Am. Quaterly, vol. 29, spring, 1977, n2 1. pág. 143.
I
ANTIM AÇONARIA 77

CAPÍTULO IV

A Antimaçonaria nos EUA depois de 1826: O “Caso Morgan”.


Deflagração de Verdadeiro Furor contra os Maçons

Tratar os movimentos sociais que serviram de pano de fun­


do para a antimaçonaria nos Estados Unidos, requer o reco­
nhecimento do momento histórico e político que rodeava o po­
der e as lideranças formadoras de opinião na ocasião em que
tudo se originou.
A vitória do movimento revolucionário de 1776 implicou a
dissem inação do pensam ento dem ocrático - de inspiração
iluminista - em todas as camadas sociais, isto é, a tomada de
consciência da autodeterminação, da liberdade de pensamento
e da cidadania. O controle do Estado recém-constituído está
passando às mãos do próprio povo, através de seus represen­
tantes eleitos em pleitos livres. Esse conceito, como que m ila­
grosamente foi se disseminando em todas as camadas do povo.
Nascia um a república, e essa era a primeira experiência na his­
tória da civilização, de um a organização de governo que, em
certo sentido, nascia de baixo para cima. Rigorosamente falan­
do, não havia nenhum exemplo anterior de um a nação em que
os americanos pudessem se inspirar para criar o seu modelo.
Idéias novas, para forjar a filosofia política republicana são di­
fundidas.
Benjamín Franklin e Thomas Jefferson surgem no cenário
político como os principais articuladores do ideário republicano
78 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

- alicerçado no pen sam en to ilu m in ista de Locke, H obbes,


Rousseau e Montesquieu - e sorvido pelo primeiro nas lojas e na
litera tu ra m açôn ica que conheceu. De um ponto de vista
psicossocial, a comunidade estava a ser preparada para se
organizar e dirigir os seus próprios destinos, independentemen­
te da influência de outros poderes estrangeiros. A própria expe­
riência inglesa, consagrada na afirmação da monarquia parla­
mentarista, servia de longínquo exemplo, não como modelo. Ain­
da assim, seus mentores filosóficos, tinham suas idéias ampla­
mente difundidas nas elites das treze colônias. A declaração de
independência - da lavra de Jefferson - é o melhor exemplo do
pensamento iluminista de Locke, Hobbes e Montesquieu torna­
do praxis na edificação da nova sociedade.
Trata-se de um dos mais distinguidos documentos da civili­
zação: exalta valores eternos da liberdade, igualdade, dos direi­
tos individuais, da democracia e explicita o direito de um povo a
aspirar ser senhor do seu próprio destino. O poder estava sendo
transferido ao povo, através dos governantes por ele escolhidos.
Os paradigm as das liberdades individuais, dos três poderes
autônomos e da separação entre Estado e Igreja estavam sendo
absorvidos e estabelecidos com amplo consentimento. Dez anos
depois da Declaração de Independência, Jefferson havería de
forjar outra importante contribuição à construção da nova re­
pública: o “Estatuto de Virginia pela Liberdade Religiosa”, era
assinado em 16 de janeiro de 1786. Ainda que tenha sido, inici­
alm en te circu n scrito , à V irgin ia , o d ocu m en to prom oveu
conscientização do direito à liberdade do culto e, como corolário,
o afastamento da religião - enquanto grupo institucionalizado -
da administração governamental. “O Estatuto de Virginia”, com
pequenas alterações veio, de fato e de direito, consagrar na Cons­
tituição Federal o princiípio da separação entre Igreja e Esta­
d o .1
A Constituição dos Estados Unidos da América, de 15 de
dezembro de 1791 dita claramente o fundamento da tese de­
m ocrática em seu preâmbulo:

1Richard B. Morris, “Documentos Básicos da História dos Estados U n i d o s Ed. Fundo de Cultura, Rio
de Janeiro, 1956, págs. 54-6.
ANTIM AÇONARIA 79

“N ó s o P o v o dos E sta d o s Unidos, com d isp osiçã o p a r a fo r m a r


u m a U nião m a is p erfeita , es ta b e le ce r a ju s tiça , a s s e g u ra r a tra n ­
q u ilid a d e d o m éstica , p ro v id e n c ia r a d e fe sa com um , p ro m o v e r o
b e m -e s ta r gera l, e fo r ta le c e r as G ra ça s d a L ib e rd a d e p a r a nós
m e s m o s e n o s s o s P ó s te ro s , fiz e m o s re g u la r e e s ta b e le c e r es ta
C on stitu içã o d os E sta d o s U nid os da A m érica .
A r t.I - P a rá g ra fo 1. Tod os os P od ere s a q u i con ced id n s serã o
in v e s tid o s no C o n gre ss o d o s E s ta d o s U nidos, q u e co n s istirá ...”
[grifos, evidentemente, nossos]2

Os maçons, envolvidos no processo revolucionário, haverí­


am de servir de porta-vozes do novo republicanismo, ao mesmo
tempo em que formulavam e radicalizavam o patriotismo, a li­
berdade e a união dos federados. Falar de maçons era o mesmo
que falar de valores éticos, patriotismo, liberdade, igualdade e
união, como bem realçam todos os historiadores que se deram
ao trabalho de examinar o papel dos representantes da Ordem
na consolidação da nova nação. Os maçons gozavam de excep­
cional reputação na sociedade. Dos quadros das lojas consta­
vam eminentes dirigentes públicos, generais, legisladores, juizes,
clérigos, homens de negócios e outros igualmente ilustres m em ­
bros da elite nacional. A Ordem estava integrada no dia-a-dia
das atividades sociais e políticas das comunidades. Seus even­
tos mais significativos eram publicamente exibidos nas igrejas,
nas praças públicas, nos atos cívicos e nas grandes comemora­
ções. A presença maçônica na política local e nacional era mais
do que evidente. Para muitos, pertencer à maçonaria era como
pré-requisito aos pretendentes a cargos públicos, a um lugar na
política, conforme assinala o pesquisador maçom canadense R.
Keith Muir, em precioso relato recentemente publicado pela Loja
de Pesquisas “Quatuor Coronatf n2 2076, de Londres3.
Nas primeiras décadas do Séc. XIX, o Estado de Nova York,
palco da origem e do desencadeamento da onda antimaçônica
nos Estados Unidos, tinha em postos-chave de seus quadros
governamentais vários membros de lojas maçônicas. Os maçons
desse Estado representavam, como nos demais, todas as cama-

2Richard B. Morris, “ noaimentoR Básicos da História dos Estados Unidos”. Ed. Fundo de Cultura, Rio,
1956, pág. 66.
3Cf. R. Keith Muir, “ The Morgan Affnir and its Effect on F reem a son n f. Trans. of Quatuor Coronati
Lodge, vol. 105, 1992, págs. 217-34.
80 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

das sociais e econômicas: pequenos proprietários, comercian­


tes, profissionais liberais, clérigos, militares e dirigentes de go­
verno (dos três poderes).4
O centro-oeste do Estado de Nova York, fronteiriço ao Esta­
do de Massachusetts, foi corredor natural através do qual se
deu a grande movimentação da virada do Séc. XVIII, em direção
ao oeste americano, quer de colonos da Nova Inglaterra quer de
levas de novos imigrantes. A grande conquista americana do
Oeste passaria, em boa parcela, pela região centro-oeste do Es­
tado de Nova York. Pequenos lugarejos da região tornaram-se,
em conseqüência, importantes centros políticos, sociais e de
negócios. A pequena Batavia, situada no condado de Genesee, a
meio caminho entre Rochester e Buffalo, vinte milhas ao sul do
lago Ontario - fronteira com o Canadá - é o local onde se origi­
nou todo drama vivido pelos maçons a partir do outono de 1826.
William Morgan, um itinerante pedreiro de oficio, é o perso­
nagem central. De origem obscura, personalidade igualmente
pouco conhecida, nasceu no Condado de Culpeper, na Virginia,
em 7 de agosto de 1774, embora existam dúvidas sobre tudo
isso diante da inexistência de registros na Comarca local, con­
forme diz Keith Muir. Teve um a vida de forasteiro, deslocando-
se constantemente em busca de oportunidades de trabalho, sem
acumular bens ou propriedades. Toda a informação que se tem,
a respeito dos seus primeiros vinte anos de vida, foi colhida de
relatos de familiares, por um pesquisador de nome Rob Morris5.
Pouco se sabe a respeito da vida pessoal desse forasteiro, a
não ser algumas poucas passagens e o seu “feito” principal, em
setembro de 1826. Tudo o mais sobre sua vida é cercado de
imprecisões e certo mistério, principalmente sobre sua inicia­
ção na Ordem e seu destino final, após desaparecer de Fort
Niagara, Nova York. Aprendeu os primeiros ofícios, de pedreiro
e construtor civil com parentes na Virginia. Ainda jovem teria se

4Kathleen Smith Kutolowski, “Freemasonru and Communitu in Earlu Repuhlir: The Case fnr Antimasonic
Anxieties”. American Quaterly, 1982, vol.34, n° 5, págs. 550-7.
5Cf. R. Keith Muir, op. cit. pág. 218. Rob Morris, pseudônimo de Robert Williams Peckman (1818-
1888), deu-se ao trabalho de produzir exaustivo estudo sobre o Morgan Affaire entrevistando todos
que tiveram, ainda que indiretamente, algum vínculo com o episódio ou com seu personagem central.
Seu trabalho, iniciado em 1846, foi concluído em 1883. Aos relatos produzidos por Rob Morris, teve
acesso o Irmão Muir para fundamentar, em boa medida, o trabalho publicado pela Quatuor Coronati
Lodgeem 1992.
ANTIM AÇONARIA 81

deslocado para o Kentucky à procura de trabalho, mas quatro


anos depois volta à Virginia. Em outubro de 1819 casa-se com
Lucinda Pendleton, filha de um pastor metodista. União, con­
trária aos desejos dos pais da noiva, constrange Morgan a ga­
nhar a vida fora da região, dois anos após seu casamento. Muda-
se para o Canadá, instalando-se na cidade de York (atual To­
ronto) onde consegue um emprego como pedreiro na Fazenda
Humberstone, situada a cerca de 5 milhas, em Yonge Street.
Pouco depois arranja outro em prego na Cervejaria Doei, na
mesma região. Em 1822, devido a um acidente nesta proprieda­
de, que se incendiou, teve de buscar trabalho ao sul, desta vez
em Rochester, Estado de Nova York. Aí se empregou com o Sr.
Warren, um maçom. Muito versátil, conversador e astuto, foi
aos poucos conquistando confiança e convencendo seu patrão
de que ele também era um iniciado.
Ainda que, anteriormente, tenha se declarado maçom para
alguns dos seus interlocutores, em Humberstone e York, ne­
nhum registro em lojas do Canadá confirmaram sua iniciação
ou mesmo presença em suas reuniões ao longo de sua estada
naquela região. Seus contatos com diversos maçons em York,
em frequentes encontros de final de dia nas tabernas, em meio
às costumeiras bebedices, teria permitido seu acesso a inform a­
ções esparsas sobre usos e costumes, ou mesmo alguns dados
de ritual, conforme sugere Keith Muir. Por sua intrepidez e san­
gue frio, conseguiu ser aceito e participou de um a reunião de
um a loja de Batavia, a “ Wells Lodge na 282”, intitulando-se
maçom e passando pelos testes de costume [naturalmente fei­
tos sem muito rigor e zelo].6 Se dúvidas eram colocadas aos
seus conhecimentos dos rituais, diante de falhas cometidas, saía-
se com a desculpa de que os rituais que aprendera no Canadá
eram diferentes dos praticados no Estado de Nova York.
O fato, porém, comprovadamente reconhecido por todos os
pesquisadores, é que Morgan jam ais foi iniciado nos graus sim ­
bólicos, nenhum documento sobre sua iniciação é até hoje co­
nhecido. Era um legítim o impostor, que se fazia passar por
maçom. Até 1826, visitara muitas lojas do oeste do Estado de
Nova York, tornando-se conhecido de muitos irmãos da região.

6K. Muir, op. cit. pág. 219.


82 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Em Le Roy, lugarejo situado a cerca de 12 milhas a leste de


Batavia, trabalhou na construção de um templo maçônico, de­
nominado “The Round House” [A Casa Redonda]. Esta especial
aproximação o encorajou a encaminhar pedido para iniciação
no Capítulo do Real Arco “Estrela Ocidental” , de Le Roy, corpo
filosófico conexo do Rito de York, conforme praticado nos EUA.
Era o que precisava para prosseguir sua “carreira” maçõnica.
Na ocasião, jurou solenemente haver passado por todos os graus
anteriores, no Canadá, e portanto estava em condições de gal­
gar o sublime grau de Mestre Maçom do Arco Real. Há registros
comprovando que Morgan foi de fato aceito em 31 de maio de
1825 no referido Corpo Filosófico. Ao que consta, porém, jam ais
foi visto novamente no referido Chapter.7
Coincidentemente, na mesma época, em Batavia, corria lis­
ta de adesão entre os maçons para a organização de Capítulo do
Real Arco da cidade - aliás motivo de orgulho na época para
qualquer lugarejo do interior. E aí surge o primeiro e grande
problema para o nosso personagem. Maçons de Batavia objeta­
ram aceitar a assinatura de Morgan no novo “Chaptef’ em orga­
nização. As razões não são bem conhecidas, mas a fama de
Morgan já não era muito boa. Era acusado de vida dissoluta,
bebedeiras constantes, mal pagador, falastrão e outros desvios
de comportamento, nada recomendáveis a um maçom. Assim,
por decisão dos irmãos daquela cidade, teve seu nome negado
para integrar o quadro de obreiros na criação do Capítulo do
Arco Real de Batavia, para o qual se candidatara. Surge daí, à
boca pequena, o rumor de que William Morgan estava prepa­
rando um a vingança contra os que barraram sua entrada na­
quele novo corpo filosófico. E stava elaboran do u m a obra
reveladora dos segredos maçõnicos, símbolos, rituais, etc., a
ser publicada brevemente. E de fato, o rumor tinha procedên­
cia, conforme descreve Palmer:

"... na p rim a v e ra d e 1826, M o rg a n se d irigiu a u m a rep a rtiçã o


g o v e rn a m e n ta l d o n orte d e N o va Y ork p a ra p re e n c h e r o fo r m u lá ­
rio no q u a l registrou o seu d ireito a u to ra l (cop y righ t) so b re a ob ra
q u e esta ria ela b o ra n d o in titu la d a ‘IL L U S T R A T IO N S O F M A S O N R Y
B y on e o f th e fra te m ity . G od sa id let th ere be ligh t a n d th ere w a s

7K. Muir, op. cit. pág. 220.


ANTIM AÇONARIA 83

[Ilustrações da Maçonaria por um da fraternidade. Disse


L ig h f
Deus, haja luz e houve luz]...”8

Era um a providência natural de quem precisava preservar


os seus interesses comerciais na empreitada e um a demonstra­
ção cabal de suas reais intenções.
A notícia rapidamente se espalhou de loja em loja do oeste
de Nova York, levantando preocupações, ressentimentos e dis­
cussões, sobre o que fazer, entre os maçons, ainda que alguns,
com muita sabedoria, aconselhassem aos mais afoitos sobrie­
dade, silêncio e desprezo com relação ao que se dizia da obra de
Morgan. Afinad, alegavam os mais comedidos, a obra poderia
rapidamente cair no esquecimento, sem gerar maiores conse-
qüências. Apesar desses cuidados, vindos de mentes mais sábi­
as, respirava-se ar de preocupação e temor com a possível pu­
blicação do texto de Morgan. Alguns jornais controlados por
maçons ou simpáticos à Ordem chegaram a noticiar a respeito.
Em 09 de a g o s to de 1826 um a n ú n c io a p a re c e c e u em
Canandaigua, Nova York, acusando o perigo representado por
William Morgan à maçonaria, como fraudador que era. O texto
foi republicado em outros jornais da região. A preocupação de
maçons com a publicação iminente talvez fosse menor do que
toda a conduta imprevista de Morgan. O historiador americano
Alien E. Roberts relembra que outras obras de similar natureza
já haviam circulado pelo Novo Mundo. Em realidade a “Masonry
Dissected’ de Prichard já era do conhecimento de muitos, havia
surgido em 1730 e tinha sido amplamente divulgada entre os
povos de língua inglesa. Outras duas obras, reveladoras dos
“rituais e práticas secretas da maçonaria”, originalmente surgidas
na Inglaterra, tiveram igualmente grande circulação no Novo
Mundo: referim o-nos a “Three Distinct Knocks” (Três Batidas
Distintas), de autor desconhecido mas apresentado como m em ­
bro de um a loja da Inglaterra, e a “Jachin and Boazf (Jaquim e
Boaz), cujo autor também preferiu não se identificar. Embora
tais obras fossem hoje encaradas como triviais e até ingênuas,
isto é, mais um a dentre tantas hoje disponíveis, para a época -
virada do Séc. XVIII - eram procuradas com avidez pelo público
anglófono, já que pouco se publicava sobre a Ordem no Novo

8John C. Palmer, “ T h e M o r g a n A f ía ir a n d A n t i -M a s o n n / ’. pág. 18 e K. Muir, op. cit. pág. 219.


84 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Mundo. Tudo que era publicado sobre a Ordem se consumia


rapidamente. Com título parecido ao escolhido por Morgan, já
era conhecido dos maçons americanos o texto de referência do
ensaísta, historiador e erudito pensador inglés William Presión,
“Elustrations o f Masonry” (Explanação da Maçonaria) original­
mente publicada em Londres em 1775. Um escritor maçom ame­
ricano, Thomas Smith Webb, chegou até a elaborar e publicar
urna nova obra, baseada em Preston, intitulada “Freemasons’
Monitor3’ que considerou mais adequada aos americanos.91 0Todo
esse material autêntico, disponível em língua inglesa, tornava
público ensinamentos, filosofia, práticas cerimoniais e símbo­
los da maçonaria. Por que havería de preocupar tanto os maçons
a edição de um a obra similar às demais? O próprio Alien sus­
tenta a verossímil hipótese de que:

"... O a n ú n cio fe ito p o r W illiam M o rg a n d e q u e p u b lic a ria u m


ou tro livro [similar aos anteriores aqui citados] n ã o d e ve ria te r
cria d o ta n to s p ro b le m a s em B atavia. T a lve z fo s s e o h om em e seus
hábitos, q u e ca u s a ra m todc o tu m u lto e n ã o o a n ú n cio q u e fiz e -

A esse respeito o citado anúncio publicado em Canandaigua


fornece uma pista, auto-explicativa, em suporte à tese de Roberts:

Notice and Caution

If a man, calling him self William Morgan,


should intrude himself on the community, they
be on the guard, particularly the M ASONIC
FRATERNITY. Morgan was in this village in May
last, and his conduct while here and elsewhere
calis forth this notice. Any information in relation
to Morgan can be obtained by calling the Masonic
Hall in this village. M organ is considered a
swindler and a dangerous man. There are people
in this village who would be happy to see this
Captain Morgan.

9Cf. Alien E. Roberts, “Freemasonru in American H is tn n f. Macoy Publishing, 1985, págs, 227-244.
10Cf. Alien E. Roberts, op. cit. pág. 230.
ANTIM AÇONARIA 85

Atenção e Cautela

Se um homem, chamado William Morgan, se


infiltrar na comunidade, estejam todos prevenidos,
particularmente a Fraternidade Maçônica. Morgan
esteve nesta cidade em maio passado e sua con­
duta nesta cidade e em outras merecem esta notí­
cia. Qualquer informação sobre Morgan pode ser
obtida consultando o Templo Maçônico nesta ci­
dade. Morgan é considerado um fraudador e um
homem perigoso. Há pessoas nesta cidade que fi­
cariam felizes por ver este Capitão Morgan (sic.).

Notícia publicada no “ The Ontario Messenger* de Canandaigua de 09 de agosto de


1826. [Fonte: Alien E. Roberts, *Freemasonry in American H is to n f. Macoy Publ.,
1985. pág. 230.]

A mensagem foi republicada em muitos outros jornais da


região. Muitos maçons viam nessa tentativa de Morgan um opor­
tunismo. Não passaria de mais uma panfletagem cassa-níqueis,
era o que se dizia entre os maçons. Mas a incerteza de outros
passos inusitados do intrépido forasteiro podería trazer novos
problemas. Daí a mensagem de cautela amplamente divulgada.
Morgan, por sua vez, não estava brincando. Estava decidi­
do a concretizar seus planos de publicar aquelas revelações.
Antes mesmo de providenciar o registro do copyright, firmou,
em 13 de março de 1826, contrato com David C. Miller, John
Davids e Russel Dyers para a publicação de sua obra, já que
precisaria de parceiros, com dinheiro, para viabilizar a emprei­
tada. Miller era proprietário de um a oficina gráfica em Batavia e
responsável pela edição, desde 1811, do jorn al da cidade, o
Republican Advócate. Seria ele o editor da obra. Miller havia
sido, comprovadamente, iniciado Aprendiz Maçom em um a loja
de Albany, Nova York, mas não passara deste grau inicial. A
loja recusara promovê-lo aos graus seguintes. Segundo assegu­
ra Palmer, Miller aguardava um a oportunidade para vingar-se
do tratamento que tivera dos maçons de Albany. Quanto aos
dois outros associados de Morgan, pouco se sabe. Apenas se
menciona que Morgan costumava pousar na casa de Davids.
Pelo trato acertado entre os quatro, Morgan trabalharia firme
86 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

no texto e os demais investiríam o total de $ 500,00 (quinhentos


dólares) garantindo ao autor % dos lucros esperados.11
Em 11 de setembro de 1826, a autoridade policial Holloway
Hayward, de Canandaigua, Nova York, deu ordem de prisão a
William Morgan, sob acusação, levantada por um taberneiro da
cidade, de furto de urna camisa e um a gravata de propriedade
deste último. Hayward estava acompanhado de outros seis ho­
mens que prenderam Morgan, causando em consequência enor­
me tumulto e excitação na cidade. M iller protestou contra o fato,
dado que a prisão se dera em outra comarca diferente da que
residia o acusado, e além dos limites do Condado de Genesee.
Ao final da tarde do dia seguinte Morgan foi libertado, tendo
sido paga a fiança de $ 2.68 por terceiros e daí levado numa
carruagem para local desconhecido, acompanhado de algumas
pessoas. Segundo relato de Palmer, teria havido certa comoção
nesse processo de libertação de Morgan de Canandaigua. Sua
retirada da prisão e embarque na carruagem, não foi voluntá­
ria, conforme relatos posteriores de testemunhas. Na realidade,
o nosso personagem estaria sendo raptado por um grupo, não
se sabe qual.12
O acontecimento, porém, ficou muito claro para os habitan­
tes da região: Morgan desaparecera misteriosamente. Tudo que
se soube, posteriormente, foi que, retirado de Canandaigua, te­
ria sido transportado para uma cela em Fort Niagara, cento e
vinte milhas a noroeste, e daí nunca mais se teve notícia do seu
paradeiro. Quais teriam sido os responsáveis pelo seu desapa­
recimento? Estaria ele ainda vivo, ou fora assassinado? Afinal,
que teria acontecido com W illiam Morgan? Para todos os habi­
tantes da região ficou a realidade de que o homem, que anunci­
ara havia poucos dias a edição de um a reveladora obra sobre os
segredos maçônicos, havia sido preso, em seguida raptado e

“ Cf. John C. Palmer, op. cit. pág. 19.


12Cf.Palmer, op. cit. págs. 20,2. Morgan foi levado para uma cela especial em Fort Niagara, a oeste de
Batavia, onde teria ficado algum tempo. Seu destino, a partir daí, é desconhecido. Diz-se que teria
aparecido posteriormente na Síria como mercador, no México, no Oeste americano, na Austrália, e até
mesmo na Turquia [ conforme sustenta inclusive Nicola Asían, em sua obra “História da Marañaría".
pág. 213, sem entretanto revelar qualquer comprovação). Imaginações férteis nunca faltaram para
estabelecer o destino final de nosso personagem. Nenhum documento ou relato fidedigno, porém, é
conhecido até hoje que permita ao investigador sério identificar o final da vida de Morgan. Restou a
hipótese em certo sentido verossímil, ainda que não demonstrada, sustentada por todos os antimaçons:
Morgan teria sido sequestrado e assassinado pelos maçons, como reação de vingança.
AN TIM AÇ O NARIA 87

misteriosamente desaparecera. Um crime havia acontecido, era


o que começava a se dizer. Não obstante, o corpo não foi encon­
trado e os culpados não eram identificados.
Uma indignação geral se estabeleceu e rapidamente se alas­
trou em Batavia e redondezas. A notícia do misterioso desapa­
recimento chegou ao Governador do Estado de Nova York, De
W itt Clinton, então Past-Grão-Mestre dos Maçons de Nova York
que, igualmente indignado, tomou as providências cabíveis: em
três sucessivas proclamações, determinou à polícia ampla di­
vulgação do ocorrido e busca do paradeiro de William Morgan
em todos os cantos da sua jurisdição. Procurava-se o corpo de
Morgan em toda a parte. O fundo do lago Ontario foi esquadri­
nhado, pois se pensava no provável afogamento. O corpo de
Morgan não foi encontrado no lago. Buscas por toda a parte
foram feitas. Prêmios foram oferecidos pela polícia do Estado de
Nova York para quem desse notícias de William Morgan, vivo ou
morto.
De outro lado, um a caçada sem tréguas foi iniciada para
prender os possíveis sequestradores e assassinos. Indiciados
começaram a ser apontados nos inquéritos abertos pelas auto­
ridades, movimentação de busca dos culpados passou a ser fre­
nética por conta das pressões da opinião pública por esclarecer
o caso. Não havia dúvidas: para a maioria da população, os
maçons estavam por trás de toda essa trama. Dizia-se que fo­
ram os próprios maçons que raptaram Morgan em Canandaigua,
mantiveram-no em cativeiro privado em Fort Niagara de onde
sumiram definitivamente com ele, isto é, mataram-no. Essa era
a crença firme do povo a respeito de tudo que acontecera. Os
maçons estariam assim praticando justiça com as próprias mãos,
trucidando um traidor. Aliás, praticando o que na teoria pre-
viam os rituais. Eram notórios e já conhecidos os rígidos com ­
promissos assumidos pelos maçons nos juram entos prestados
em loja. Os perjuros seriam punidos com a própria vida. Morgan
era um perjuro, logo merecedor da morte.
Os fatos próximos ao acontecimento, com a natural indig­
nação do povo, não são tão importantes para que se entenda o
fenômeno antimaçõnico surgido daí, quanto os acontecimentos
posteriores incriminadores de um a alegada postura de enco­
brimento dos fatos (e dos culpados) atribuída aos maçons. Tudo
o que deve ser entendido do “Morgan Affair” , como estopim do
88 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

m aior movimento antimaçônico de que se tem notícia, é menos


o desaparecimento misterioso de um maçom, menos ainda a
publicação de sua obra, e mais o desdobramento político opor­
tunista que tudo ensejou, permitindo a formação de um partido
antimaçônico - caso único na história universal.
A maçonaria, como já nos referimos, estava presente em
todas as camadas sociais. Mas, especialmente, se fazia presen­
te, pelos seus membros influentes, em todas as esferas de lide­
rança social e de mando político. Conforme registra a historia­
dora K. Kutolowski, a liderança política e boa parte das milícias
responsáveis pela segurança do Condado de Genesee, eram com­
postas de membros das lojas da região. Na arena política essa
presença era ainda mais forte.

“... m eta d e d o s d e te n to res d e ca rg os p ú b lic o s d e m a n d o na re­


g iã o, a n tes d e 1822 (in clu in d o q u a to rze d os d e zes se te m em b ros
d a s a s sem b léia s e s e n a d o) p e rte n c ia m à s lojas. N o s an os se g u in ­
te s à p ro m u lg a ç ã o d a lib era liza n te C on stitu içã o d e 1821, cin q u en ­
ta e cin co p>or c e n to d e to d o s os líd eres p o lític o s d o con d a d o - c a n ­
d id a to s e m em b ros d e p a rtid o s in clu íd os - era m m a çon s” , afirma
a historiadora.13

Para estudiosos dos fenômenos maçônico e antimaçônico,


percebidos a posteriori do Morgan Affaire, como Formisano e
Kutolowski, a m açonaria estaria demonstrando um perfil am­
bíguo. Ao lado de sua reconhecida atividade patriótica, fraterna
e beneficente, imagem conquistada pelas obras de caridade e
atividades públicas notórias, transmitia certo caráter de organi­
zação com esquemas secretos e exclusivistas de mútua prote­
ção entre seus membros. Ser maçom, na visão corrente - e so­
bretudo dos antimaçons - seria participar de um segregado gru­
po de escolhidos, com acesso privilegiado aos poderes locais e
nacionais, gozando de facilidades de ajuda e mútua proteção.
Este caráter último é que emerge na consciência de grupos tra­
dicionais diversos, para acirrar a campanha que se inicia frené­
tica contra a maçonaria. A postura maçônica feria princípios

,3Kathleen S. Kutolowski, *Freemasonm and Communitu in the Barlú Republic: The Case forAntimasonic
Anxteftes". Am. Quaterly, 1982, vol. 34, n'J 5, pâgs. 543, 61 - a autora promoveu detalhado estudo
sobre o clima político do condado, na época do evento, ressaltando o papel político de Batavia e o
notório envolvimento nele dos maçons.
ANTIM AÇONARIA 89

rep u b lican os de igu aldade, com o su sten tam Form isan o e


Kutolowski.14
Era como se a maçonaria fosse um a comunidade de privile­
giados, encastelados no poder, a estabelecer para eles próprios
um poderoso esquema de alianças e mútua proteção. Não é di­
fícil para qualquer um, nos dias atuais, perceber que a origem
da antimaçonaria americana, com o episódio Morgan, tem por
trás de si um a lógica própria: o desaparecimento de Morgan e
todos os processos que se seguiram visando trazer à luz a ver­
dade, revelar os culpados e exercer justiça, foram boicotados,
segundo os antimaçons, por um processo oculto arquitetado
pelos próprios maçons. A prática da mútua proteção, os ju ra­
mentos secretamente prestados e as penalidades impostas aos
perjuros, dava aos antimaçons todos os argumentos que preci­
savam para sustentar as suas acusações.
O episódio do desaparecimento de Morgan em si mesmo
não teria sido, entretanto, o principal m óvel da cam panha
a n tim a ç ô n ic a que se segu iu . F u n cio n ou ap en as com o o
catalisador que faltava para desencadear a reação.
Em seguida ao desaparecimento de William Morgan, mais
de 20 processos judiciais foram desencadeados. Investigações
foram feitas em cinco condados vizinhos de Genesee, um a dúzia
de maçons foram indiciados e ações chegaram à instância da
Suprema Corte do Estado de Nova York. A imprensa de toda
região passou a dar destaque aos depoimentos sobre o caso nos
tribunais, bem ao sabor da sociedade americana, sempre ávida
de casos judiciais. Não se falava de outro assunto em todo o
Estado de Nova York. Centenas de pessoas foram arroladas como
testemunhas. Nomes dos primeiros indiciados passaram a cir­
cular nas primeiras páginas dos jornais de todo o Estado. Gru­
pos pró e contra os maçons competiam por espaços na mídia,
defendendo suas posições sobre o caso.
Narrativas dos depoimentos e pareceres dos tribunais fo­
ram colecionados por alguns historiadores e homens de letras
da época. Um contador conhecido de Batavia, Henry Brown, 40
anos, maçom, publicava em 1829 um a narrativa, a mais antiga

14Ronald P. Formisano and Kathleen S. Kutolowski, “Antimasonry and Masonry: The Génesis o f Protest.
1826-1827’. Am. Quaterly. Vol. 29, Spring 1977, págs. 140, 65.
90 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

de todas - em defesa dos maçons - “A Narrative ofthe Excitement


in Western New York” (Urna Narrativa da Agitação no Oeste de
Nova York). Brown acusava os excessos cometidos pelos acusa­
dores, mas também não desculpou a postura maçônica de não
resolver de imediato punir os responsáveis, dando argumentos
aos antimaçons. Em 1832, outro trabalho de um maçom, coli-
gindo os resultados dos julgam entos dos tribunais de Nova York,
surgiu para trazer aos dias atuais um a descrição mais acurada
do papel dos maçons. Embora maçom, William Leete Stones,
homem de letras, historiador e editor em Nova York, não pou­
pou os maçons e apoiou a idéia da dissolução da Ordem, ainda
que ele próprio não tenha jam ais a ela renunciado.
Mas a posição desse irmão, com discurso eqüidistante dos
excessos dos extremos, é esclarecedora em suas “Letters on
M asonry and A n tim a s on ry ” ( C a rta s s o b re M a ç o n a r ia e
Antimaçonaria). Analisa muitos depoimentos judiciais, registra
um por um e não encontra vestígios definitivos im plicando
maçons de fato, a não ser pelos pareceres de três advogados,
consultores jurídicos, inseridos nos autos que relaciona: David
Mosely, John C. Spencer e Victory Birdseye. Nenhum desses
duvidava que um grupo de pessoas, operando secretamente,
teria de fato seqüestrado Morgan. Spencer chegou a falar no
envolvimento de um a instituição, operando em oculto e cercada
de mistérios, sem explícitamente dar-lhe o nome. Os três recla­
maram de obstruções encontradas nos tribunais aos procedi­
mentos que deveríam assegurar condições de ampla liberdade
às testemunhas. O insuspeito relato de Stones deixou no ar
acusações aos maçons da região no exercício do poder público.
Mas não poupou críticas aos fanatismos e aos excessos das ge­
neralizações feitas contra toda m açonaria pelos antimaçons.
Demais relatos, juntam ente com o de Stones e Brown, acusa­
vam potencial parcialidade nos processos judiciais.
Dizia-se que os tribunais do jú ri do Condado de Genesee,
de 1826-1827, contavam normalmente com muitos maçons en­
tre os jurados. Cinco dentre os sete juizes, presidindo os tribu­
nais da época, eram maçons. Um famoso advogado, procurador
da justiça do condado, Levi Rumsey, embora não maçom, era
irmão de um dos fundadores da loja “Olive Branch” (Ramo de
Oliveira), e cunhado de Ephraim Towner, eminente maçom de
Batavia, cujo irmão foi um dos indiciados no processo da alegada
ANTIM AÇONARIA 91

conspiração para dar sumiço a M organ15 Segundo Stones, con­


forme avaliação de Formisano e Kutolowski sobre sua análise, o
pior que podería acontecer à imagem da maçonaria estava nas
evidências de proteção ou encobrimento de maçons em todo o
processo judicial que se seguiu.
Já que ninguém foi formalmente acusado, culpados nunca
foram identificados e a coisa ficou assim mesmo, permanecia
no ar a desconfiança de improbidade nos procedimentos ju d ici­
ais. Todos os indiciados foram efetivamente absolvidos. A m a­
çonaria teria saido ilesa em todos os processos. Nenhuma acu­
sação form ulada chegou ao seu final com a condenação de
qualquer maçom.
Thurlow Weed, outro cronista da época alinhado com os
antim açons e respon sável direto p ela form ação p artid ária
antimaçônica no Estado de Nova York, ainda que tardiamente e
baseado no relato de Stones, trouxe à luz o comentário mais
importante e agudo sobre todo esse caso, após julgam ento nos
tribunais:

“As a b s olviçõe s n ã o a livia ra m o ceticism o p ú b lic o [a respeito


da responsabilidade dos maçons no episódio] m a s se rviu p a ra
im p lica r a fra te rn id a d e m a çôn ica m ais p ro fu n d a m e n te na con s ci­
ên cia d o p ú b lic o ”, disse.16

Foi “prato cheio” para os antimaçons. Parecia até que, após


muitos anos incubados na escuridão dos tempos, os antimaçons
americanos agora acordavam, com muitos argumentos nas mãos,
prontos para atirar pedras em todas as direções, com excitação
emocional e furor jam ais vistos. Nem as denúncias de Barruel e
as acusações da In Eminenti de Clemente XII foram tão profun­
damente contundentes quanto à simples menção pública de que
um tal William Morgan, autor da obra reveladora dos segredos
da Ordem, desaparecera misteriosamente, após propalar sua
decisão de publicá-la. O impacto sobre a maçonaria foi trem en­
damente adverso. Lojas Maçônicas foram destruídas, maçons
perseguidos e afastados de suas funções públicas, Igrejas deci-

15Ronaldo Formisano and Kathleen Kutolowski, op. cit. págs. 150, 5.


16Cf. relato feito em Harriet A. Weed, ed, “Autobioaraphy o f Thurlow Weed”. Houghton Mifflin, 1883,
págs. 285-95 [cf. Ronaldo Formisano and Kathleem Kutolowski, op. cit.].
92 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

diram expulsar do rol de membros os que se declaravam per­


tencer à Ordem, algumas outras igrejas chegaram até a se divi­
dir em razão de disputas internas contra a maçonaria e famílias
se autodestruiram por afastamento e dissensões envolvendo seus
membros que pertenciam à Ordem. O impacto sobre a vida da
maçonaria no Estado de Nova York foi muito grande. Nesse es­
tado, e nos demais estados vizinhos, a Ordem sofreu tamanho
abalo que quase sucumbiu. No Estado de Vermont, a Grande
Loja cerrou suas portas e todas as lojas abateram colunas, após
longo processo de esvaziamento. Seu retorno à normalidade só
se deu em 184517.
Cuidadoso relato histórico feito por Emmett E. Hawkins,
membro de um a das lojas do Condado de Genesee [Geneseo
Lodge n 214], que exam inou todas as publicações oficiais
[Proceedings] da Grande Loja de Nova York, conferindo relatos
de lojas que foram vítimas da onda antimaçônica que se seguiu
ao Caso Morgan, merece maiores reflexões. Hawkins fala de 13
lojas, a maioria da região oeste do Estado de Nova York, com
marcante presença na comunidade local, que teve de suportar
reveses inimagináveis.
A “Forest Lodge n“ 166”, de Fredonia, composta de homens
do campo, simples, trabalhadores vigorosos, foi obrigada a aba­
ter suas colunas após dez anos de atividades ininterruptas,
diante de infamantes perseguições por antimaçons locais. Uma
outra, a “Eastern Light Lodge n2 126”, da cidade de Greene,
havia resolvido alterar os dias de suas reuniões tão logo eclodiu
o Caso Morgan. Os irmãos passaram a se reunir esporadica­
mente e de maneira informal. Ainda assim, a perseguição aos
seus membros foi de tal ordem, que decidiram abater colunas e
encerrar suas atividades em 1831. Conforme diz o registro da
Grande Loja,

“... p o r q u in z e a n o s as lu ze s p e rm a n e c e ra m a p a g a d a s e as
ba tid a s d os m a lh etes não m a is se ouviram , m a s o esp írito d e f é e
es p era n ça en co n tro u g u a rid a nos cora ções d os ve rd a d eiros e p r o ­
vados m a çon s q u e a in d a sob rev iv em ; e, a pós cessa d a a te m p esta ­
d e e as p e rs e g u iç õ e s exa u rid a s em si m esm as, o rea viva m en to da
loja a con tece u .” (Cf. P ro ce e d in g s da Grande Loja de Nova York,
1906. págs. 228-230.)
O trabalho de Hawkins prossegue apreciando um a por uma

17Cf. Alien E. Roberts, op. cit. pág. 236.


ANTIM AÇONARIA 93

das experiências relatadas pelas 13 lojas, segundo os documen­


tos que examinou. Dois outros casos levantados por Hawkins
merecem destaque, de acordo com a nossa avaliação. Um deles
refere-se à trágica experiência da “Fidelity Lodge n° 309” , da
cidade Trumansburg. A loja havia experim entado um rápido
crescimento, chegando em 1826 a contar com 151 membros. A
cidade havia se tornado foco de grande agitação antimaçônica,
com perseguições aos maçons e lojas. Como de costume, ha­
viam sido programadas solenidades para as comemorações do
dia de São João Batista, em 1827. Eram as primeiras com em o­
rações agendadas na cidade, após a eclosão do Caso Morgan.
Um dos eventos constava de cerimonial programado para a Igreja
Presbiteriana local, cujo pastor era maçom. Durante a procis­
são, em direção à Igreja e a poucas quadras da loja, os maçons
que dela participavam foram atacados por um a multidão arm a­
da, composta de elementos os mais desqualificados da cidade,
muitos bêbados, incitados pela paixão e certamente a soldo de
alguns líderes antimaçons da região. A procissão foi simples­
mente dispersada. Esta foi a última atuação pública dos maçons
da “Fidelity Lodge n“ 309”, mas não o último ataque sofrido. O
seu templo foi invadido em 1829, seus haveres sequestrados e
nenhum vestígio deles se teve jamais. Muitos dos seus m em ­
bros, temerosos, se afastaram da loja. Segundo Hawkins, so­
mente doze irmãos permaneceram firmes até o final, quando a
tempestade cessou.
O outro caso a ser destacado aqui, numa demonstração
h is tó r ic a da n a tu re z a fe b r il e ir r a c io n a l do m o v im e n to
antim açônico, refere-se à experiência vivida por um pastor,
membro da “Oranje Lodge na 43”, posteriormente denominada
“Clinton Lodge na 140” , da cidade de Waterford. O Rev. John
L am b , M in is tr o do E v a n g e lh o , g o z a v a de r e s p e ito e
honorabilidade como pastor da Igreja Batista local. No inverno
de 1827, o Rev. Lamb foi iniciado, e galgou de imediato os três
graus simbólicos, na “Lafayette Lodge n° 373”, da cidade de Nova
York. Logo ele próprio se identificava como maçom. O fato foi
astutamente manipulado por boa parte dos antimaçons que cir­
culavam entre as igrejas da região. Na ausência do Rev. Lamb,
um dos p regadores que o su b stitu iu in iciou a cam panha
antimaçônica, ocultando ainda das ovelhas a intenção de afas­
tar o Rev. Lamb. Incitou os membros da Igreja a conhecer a
94 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

obra recém-publicada por Morgan, e outros autores antimaçons.


Chegou a ponto de propor a moção aos membros da Igreja de
votar pela exclusão da congregação daqueles que pertencessem
à Ordem.
A postura dessa Igreja foi acompanhada por outras da re­
gião, circunstância que deixava os maçons, membros de igrejas
evangélicas, em posição defensiva e num beco sem saída. No
retorno do Pastor titular, sua posição foi posta em cheque. Foi
convocado um concilio, constituído de pastores da região - obvi­
amente de vocação antimaçônica - que questionou a condição
de maçom do Pastor Lamb. O resultado do processo, foi sua
exclusão do pastorado da igreja. Sem conseguir encontrar ou­
tra igreja para recebê-lo como ministro, viu-se à beira da misé­
ria - com m ulher e dois filhos menores. Rev. Lamb morreu em
outubro de 1827, deixando mulher grávida e dois filhos. O fato
ficou co n h ecid o dos m açon s p ois que foi re g is tra d o nos
Proceedings da Grande Loja, graças a um a carta endereçada
pela “Clinton Lodge na 140” à Grande Loja solicitando auxílio
para a viúva e filhos.18
O saldo de toda esta lamentável história não podia ser pior.
Além dos casos de perseguições de que foram alvo as lojas
citadas, com diversos membros afastados e maçons persegui­
dos em suas próprias famílias, igrejas e ambientes de trabalho,
a Ordem sofreu um perverso processo de desgaste público.
Submetida à execração pública, a maçonaria de Nova York
sofreu um grande abalo. Segundo Palmer, os registros da Gran­
de Loja do Estado de Nova York acusavam 20 mil membros em
1826. Dez anos depois, a Grande Loja registrava um total de
apenas cerca de 3 mil membros em seu rol. Em 1832 o Grande
Secretário d izia que 84 lojas haviam perdido suas cartas-
constitutivas, no ano seguinte o mesmo acontecera com outras
110 oficinas19. O retrato mais contundente é dado pelo históri­
co da presença de representantes das lojas nas assembléias anu­
ais da Grande Loja. Em 1827, a Grande Loja do Estado de Nova
York registrava a presença de representantes de 228 lojas em

18Emmet E. Hawkins, “ The Times o f WiUiam M o r g a n Trans. The American Lodge o f Research,
F&A.M.Grand Lodge o f Free and Accepted Masons o f The State of New York, Vol. XIV, Na 3, 1980,
págs. 41-53.
19John C.Palmer, op. cit. pág. 101.
ANTIM AÇONARIA 95

sua assembléia anual. O número começou a cair drasticamente


ao longo dos treze anos que se seguiram. O quadro seguinte
ilustra, com números, o que aconteceu.

Núm ero de lojas representadas nas reuniões anuais da Grande Loja de


Nova York, entre 1827 e 1840

Ano N° de Lojas Ano N2de Lojas Ano Nfide Lojas Ano Nfide Lojas
1827 228 1831 71 1835 49 1838 46
1828 130 1832 52 1836 - 1839 43
1829 87 1833 56 1837 26 1840 46
1830 77 1834 53
Fonte: Steven C. Bullock, “Revolutionary Brotherhood”, pág.313.

O resultado da onda antimaçônica não parou aí. No início


de 1827 noticiário inusitado passou a circular nos principais
jornais do Estado de Nova York. Eram convocações de políticos
e cidadãos comuns para Convenções Antimaçônicas. Um certo
tom político deu lugar aos frenéticos movimentos contra maço-
naria, partindo de líderes de igreja e de políticos conservadores
oportunistas. Políticos sem muito espaço, seja por insignificân­
cia de projeção seja por quadros partidários muito fracos, en­
xergaram a revolta pública contra os maçons como discurso
capaz de ser encampado numa grande campanha política, não
somente local mas também no âmbito nacional. Thurlow Weed
acende o novo estopim de um a verdadeira fogueira política.
E ngajado na atividade jo rn a lística , declarado inim igo dos
maçons, funda um dos primeiros jornais americanos de linha
antimaçônica, o “Anti-Masonic Enquirer”. Seu púlpito para dis­
seminação das novas idéias políticas era a pena com que redi­
gia os editoriais de seu jornal. O momento era favorável à tese
política dos antimaçons. A balança político-partidária estava
desequilibrada. Os republicanos-demócratas, para os quais as
doutrinas políticas de Jefferson davam base ideológica, m ostra­
vam-se firmes nesta época de afirmação dos poderes atribuídos
aos Estados - ora independentes. Quem perdia espaço político
eram as vozes dos federalistas que, neste período, sem a força
nacional de homens como George Washington, John Adams e
C. C. Pinckney, e sem discurso contemporâneo que polarizasse
o povo, abria espaços para outras correntes. Thurlow Weed, me-
96 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

lhor do que os demais políticos, enxergou longe essa brecha e


identificou dois inimigos comuns dos antimaçons a serem usa­
dos na estratégia da campanha eleitoral do novo partido.
A ameaça política às pretensões do partido que nascia
era a figura líder do herói da Guerra Civil de 1812, General
Andrew Jackson, derrotado por John Quincy Adams nas elei­
ções presidenciais de 1824.20Embora derrotado, Jackson, um
sulista do Tennessee, primeiro grande líder político vindo de
fora das treze colônias originais, representava um a bandeira,
u m a reserva m oral e im agem sim ila r a dos fed era lista s.
Encarnava em certo sentido o papel de herdeiro de Washington
por sua participação heróica na Guerra Civil. Estava identifica­
do com o pensamento democrático liberal e com a moderniza­
ção da república recém-nascida. Às suas posições se opunham,
de um lado, os conservadores/democratas “jeffersonianos” e de
outro os evidentes excessos dos antimaçons. Andrew Jackson
(1767-1845) era maçom, tendo sido Grão-Mestre da Grande Loja
do Tennessee, em 1822.
Era, por todos esses motivos, considerado o primeiro ini­
migo político do partido dos antimaçons. O outro alvo, mais do
que natural, identificado por Weed, eram todos aqueles políti­
cos, líderes comunitários e empresariais que fossem maçons ou
que ousassem ter qualquer ligação com a Fraternidade. A onda
conservadora aliada aos movimentos contra a escravidão e o
chamado reavivamento religioso evangélico em favor da absti­
nência alcoólica, em defesa da abolição da escravatura e pro­
moção cada vez mais enfática dos valores emanados da Bíblia,
foram outros aliados de primeira hora dos antimaçons. É nesse
espaço político que se instala o Partido Antimaçõnico, inicial­
mente nos condados interioranos do Estado de Nova York e pos­
teriormente nos estados vizinhos (Pennsylvania, Nova Jersey,
Vermont, Massachusetts, e assim por diante até contar com ra­
zoável alcance nas treze colônias). O grande objetivo era dar
espaço aos políticos que buscavam legenda nova e, obviamen­
te, deslocar os maçons de espaços do poder. Os mais extrema-

“ Em realidade, nas eleições presidenciais de 1824 Jackson obteve 99 votos contra 84 atribuídos a
Adams no colégio eleitoral. Mas como não obteve maioria absoluta, a eleição foi determinada pelo voto
popular que,então, deu a Adams a Presidência do país. Caso jam ais registrado [ cf. Palmer, op. cit.
pág. 47].
ANTIM AÇONARIA 97

dos, almejavam declaradamente o desaparecimento definitivo


da Ordem.
Já em 13 de janeiro de 1827 foi realizada em Seneca, a
cerca de vinte milhas a leste de Canandaigua, Estado de Nova
York, a que seria a primeira convenção do Partido Antimaçônico.
Outras idênticas foram realizadas em todo o Estado, sob a lide­
rança de Weed. Era como a derrubada de uma carreira de pe­
dras de um dominó: um a seqüência de eventos similares. Como
que sintonizadas com o momento político, convenções realiza­
das pelas igrejas evangélicas da região foram programadas. A
prim eira delas, das igrejas batistas do Estado de Nova York,
realizada em Milton, denunciou a maçonaria pública e oficial­
mente como contrária às doutrinas cristãs.21 A época coincidia
com grande movimento de reavivamento das igrejas evangéli­
cas.22 Pregações evangélicas, fervor religioso e campanhas de
despertar evangélico pululavam em todo o Estado. O clima emo­
cional e político favorece o surgimento de seitas novas. Novas
seitas religiosas surgem no rastro do fervor religioso observado
nos EUA. Ainda que surgido independentem ente da questão
antimaçônica, o reavivamento religioso concomitante explica -
para alguns analistas - um certo toque de irracionalidade e
emoção no movimento antimaçônico23. O fato é que, a partir de
1827, rapidamente cresceu o prestígio do novo partido, atrain-

21Allen E. Roberts, op. cit. pág. 233.


220 período é reconhecido por historiadores e pelos evangélicos como o do primeiro e grande movi­
mento de reavivamento dos tempos modernos. Interessante, atual e oportuno ressaltar a opinião de
J. Naisbitt, em “Megatendências” a propósito de tais movimentos religiosos: "... durante épocas turbu­
lentas muitas pessoas precisam de estrutura - e não ambiguidade - em suas vidas”... "... acredito que
este ressurgimento [ religiosoJ nos EUA irá continuar enquanto permanecerem numa transição, p o r causa
da necessidade de estrutura durante os períodos de grandes mudanças. A nação experimentou um
pluralismo semelhante [ao atual - década dos 70J durante o Grande Despertar Religioso da América em
meados do Séc. XVIII, quando passávamos de uma sociedade agrícola para uma sociedade industriar
(op. cit pág. 238).
23Cf. Thomas C. OTDonnel, “ Outline o f a New Approach to the *Morgan Mistenf Trans. The Am. Lodge of
Research Free and Accepted Masons, vol.III -n2 1, Oct. 1938-Oct.l939. págs. 72-80. O’ Donnel é talvez
o primeiro pesquisador maçom a estabelecer a conexão entre o reavivam ento evangélico e a
antimaçonaria no período 1826-1847. Relembra que é desta época o surgimento do mormonismo, do
millerismo (berço dos Adventistas do Sétimo Dia), ciência cristã e outras seitas, todos surgidos na
região da Nova Inglaterra e tingindo o debate religioso de fortes tons emocionais e políticos. Um dos
mais festejados e famosos pregadores evangélicos americanos é fruto desta mesma época: Charles G.
Finney (1792-1875), um ex-maçom formado em Direito, convertido em 1821 e consagrado Ministro
Evangélico pela Igreja Presbiteriana em 1832. Foi o principal líder do reavivamento religioso que
tomou conta de todo o país desde 1834 com impactos no ambiente político da época. A posição do
Rev. Finney se identificou logo de princípio com os antimaçons. Chegou mesmo a publicar artigos
acusando a maçonaria de contrariar os princípios cristãos e veio a ser considerado, na opinião de
Palmer, um dos principais líderes do partido antimaçônico.
98 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

do aderentes à m edida que as acusações aos maçons implica­


dos no Caso Morgan eram difundidas. O número de políticos
inscritos no novo partido crescia na mesm a proporção que
maçons se afastavam de suas lojas e essas iam abatendo colu­
nas.
A primeira eleição que o Partido Antimaçônico participou
foi a de 1827, para a Assem bléia Legislativa (ou de Represen­
tantes) do Estado de Nova York. Boa parte dos candidatos dos
condados vizinhos de Batavia, região Centro-Oeste do Estado,
apoiados pelo movimento antimaçônico foram bem-sucedidos,
logrando assentos na Assem bléia. Vitórias estrondosas dos
antimaçons relatadas nos condados de Chatauqua, Monroe,
Otsego, Orleans, Seneca, Wayne e Yates, foram de tal monta,
elegendo 15 representantes, que os políticos de expressão naci­
onal logo se deram conta da força que a nova plataforma teria
se sua “ideologia” e discurso pudessem se espalhar pelos de­
mais estados e condados. Weed identificou em John Q. Adams,
o natural líder nacional do novo Partido. Foi seu representante
no Estado e propagador da idéia de sua reeleição sob a nova
legenda, na cam panha eleitoral para 1828.24 Alguns estados
chegaram a ter governadores eleitos pelo novo partido, como
aconteceu na Pennsylvania e Vermont.
O número de representantes nas Assembléias aumentava a
cada eleição. O partido, porém, só ganhou expressão nacional
a partir da realização da sua primeira convenção nacional na
Philadelphia, em 11 de setembro de 1830. Conseguiu aí reunir
representantes de Massachusetts, Connecticut, Pennsylvania,
Nova York, Vermont, Rhode Island, New Jersey, Delaware, Ohio,
Michigan e M aiyland, num total de 110 votantes. O efeito desse
en con tro foi m ais p ro p a g a n d ístico e m enos p o lítico . Os
“Proceedings” desse histórico evento foi, e continua sendo im ­
portante texto de referência além de peça de propaganda dos
antimaçons. Sua difusão atual, inclusive pela Internet, consti­
tui-se num amplo discurso contra a Ordem dos Maçons.

24Adams, presidente da república, eleito sem partido definido em 1824 ao derrotar Jackson, ambici­
onava a reeleição. Thurlow Weed talvez estivesse vendo em Adams o grande líder nacional que o novo
Partido precisaria para levar à frente, e nacionalmente, sua campanha contra os maçons (cf. Palmer,
op. cit., págs. 54-7).
ANTIM AÇONARIA 99

Em 1831 o Partido Antimaçônico realizou sua nova Con­


venção Nacional, desta vez em Baltimore, para consagrar o nome
do seu candidato às eleições presidenciais, o primeiro e único
caso na h istória. E m bora d esejoso de ser in d icad o pelos
antimaçons, John Quincy Adams, reconhecidamente contrário
à maçonaria, não foi o escolhido25. Um político de Maryland,
William Wirt, ex-colaborador no governo de Monroe, foi indica­
do pelo Partido para concorrer às eleições majoritárias de 1832.
Era a primeira vez que a nova e inusitada legenda enfrentava
um confronto de âmbito nacional. Como seria de se esperar, o
Partido Antimaçônico não logrou êxito, ao contrário, mostrou
suas fraquezas políticas: falta de estrutura partidária nos Esta­
dos distantes das querelas do Caso Morgan, como os do Sul; e o
fato de que a sua agenda política não alcançava peso nacional
quando comparada com as dos demais partidos - o Nacional
Republicano e o Democrata. O colégio eleitoral registrou 219
votos para Andrew Jackson, que concorria pelos Democratas;
49 votos para William Clay pelo Nacional Republicano e apenas
7(sete) votos atribuídos a William Wirt, do Partido Antimaçônico.
Daí para frente, nunca mais se ouviu falar de candidato à
presidência por esse partido. A história registra que seu im pac­
to eleitoral, assim como surgiu com todo o ímpeto no interior do
Estado de Nova York, rapidamente se esvaiu em si mesmo, per­
dendo rapidamente sua força e dando lugar à nova vertente po­
lítica - um a fusão dos Nacionais Republicanos com os Whigs -
originária dos atuais Republicanos. O fenômeno de assimila­
ção dos antimaçons já era notório em 1836. O novo discurso
Whig “engoliu” a agenda antimaçônica. Restaram, porém, os es­
tragos e ficaram os temores - latentes na cabeça da grande m ai­
oria dos mal-informados - acerca dos “perigos” apresentados
pelos representantes daquela organização dita secreta. Fica­
ram os impactos das acusações de que os maçons usavam de

25Adams teve a habilidade política de se declarar publicamente contrário à maçonaria, aproveitando a


onda Morgan, com o propósito de consagrar sua posição política em contraposição ao crescente pres­
tígio de Jackson. Suas posições a respeito da Ordem eram bem conhecidas pelas publicações que
eram divulgadas. A esse propósito, relembramos que em 1847, mesmo cessada a tempestade
antimaçônica, Adam s teve a coleção de suas famosas “letters” , “LETTERS ON THE MASONIC
INSTITUTION” publicada. Ainda hoje, esta obra goza de ampla divulgação pelos canais antimaçônicos
estando disponível inclusive na Internet pela editora “Acacia Press”, especializada em publicações
antimaçônicas.
100 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

práticas de mútua proteção quando ocupando cargos públicos


em detrimento, como alegado, de um a política democrática e,
obviamente, transparente. O caso Morgan despontou, daí para
frente, ainda que o seu desdobramento político tenha sido pífio,
como bandeira predileta dos extremados antimaçons para fixar
e proclamar suas posições.
E a maçonaria americana, como ficou? Importante recolher
a opinião de eminente historiador americano, dedicado a inves­
tigação de todo esse fenômeno:

“P o u co a n tes d e 1884, a m a çon a ria ha via e x p erim en ta d o ex­


tra ord in á rio crescim en to. O rol d e m em b ros j á era m uito s u p e rio r
ao p ic o o b s erv a d o em 1826. M as, d e u m a ou d e ou tra fo rm a , os
irm ã os h a via m se a com o d a d o em n ova s p o s içõ es , m a is m od estas,
no estra to s o c ia l...”26

Fatos novos, como o emergente Rito Escocês Antigo e Acei­


to, com seus altos graus e a criação do Supremo Conselho de
Charleston, atraindo candidatos aos graus superiores, a lide­
rança evidente de Albert Pike, são as novidades que revigoram a
Ordem em diversos Estados, especialmente na segunda metade
do Séc. XIX. É provável que o esvaziamento político do m ovi­
mento antimaçônico tenha facilitado o soerguimento da Ordem
nos EUA, após 1846.
Não há dúvida de que maçons verdadeiros, fiéis aos princí­
pios da Ordem, resistentes a toda tempestade, entrincheirados
em seus postos e colunas, foram responsáveis por assegurar
que a retomada viesse. Ainda em meio a toda onda, e justo no
mesmo ano (1831) em que o Partido Antimaçônico realizava sua
Convenção Nacional em Baltimore, colocando publicamente sua
ideologia e lançando seu candidato à presidência, um grupo de
1.469 maçons, de 54 diferentes cidades (a m aioria, 437,de
Boston) prepararam e assinaram um a declaração pública pela
qual:

• negavam, inequivocamente, qualquer conhecimento ou co­


nexão com o Caso Morgan; seja no que diz respeito ao seu desa­
parecimento seja nos processos de defesa dos acusados;
• asseguravam o caráter irreprovável dos princípios maçôni-
cos;

26Steven C. Bullock, “Revolutionaru Brotherhood...”. pág. 316.


ANTIM AÇONARIA 101

• desafiavam a qualquer um que negasse o fato de que o vín­


culo com a Fraternidade inclui os melhores elementos da cida­
dania do Estado;
• solenemente reafirmavam que nenhum compromisso as­
sumido pelos maçons, em qualquer grau, os obriga a apoiar qual­
quer irmão em atos que, por sua natureza, sejam incompatíveis
com princípios fundamentais da moralidade ou dos deveres im­
postos a todo cidadão de boa conduta.27

O Caso Morgan marcou a história da Ordem Maçônica nos


EUA. Suas conseqüências, nos mais diferentes níveis da socie­
dade americana, foram, e são, mais profundas, do que muitos
imaginam. Ousamos sustentar que faz parte ainda hoje do in­
consciente coletivo de um a sociedade, marcada por preconcei­
tos, diferenças socioeconómicas, acirrados conflitos internos,
afinada com suas raízes culturais religiosas e sensível aos ape­
los dos valores bíblicos, judaico-cristãos, pátrios e tradicionais.
Entendemos e sustentamos também que está na raiz do atavismo
observado hoje, no comportamento comum aos maçons: o da
discrição.
O comportamento mais discreto do que no passado remoto
resulta da reação a um quadro psicossocial, com focos potenci­
almente adversos e preconceituosos, encontrados em parte da
sociedade norte-americana atual. Os maçons prefeririam m an­
ter posição discreta, diante de poderosas hostes antimaçônicas
prontas a atirar suas acusações publicamente, prosseguindo
pacificamente suas atividades nas lojas e nos seus programas
filantrópicos e culturais comunitários.
Os antimaçons, por seu lado, ganharam argumentos, enri­
queceram seu arsenal acusatorio e fixaram alguns dos discur­
sos mais perversos contra os maçons, a partir das acusações
que circularam após 1826. Ainda hoje, se avaliarmos o tom e o
conteúdo das obras dos antimaçons americanos deste final de
Séc. XX, não será difícil encontrar claros vestigios das acusa­
ções e argumentos originados em 1826, no oeste do Estado de
Nova York. O episódio Morgan é ordinariamente relembrado em
apoio aos discursos da neo-antimaçonaria. O “crime” atribuído
aos maçons ficou marcado e a vítim a transformada em herói

27John C. Palmer, op. cit. pág. 80.


102 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

dos antimaçons, ainda que nenhuma prova contra maçons te­


nha jam ais sido demonstrada nos tribunais.
Organização antimaçônica americana tradicional e conser­
vadora, fundada por líderes religiosos na segunda metade do
século passado, foi por muito tempo a responsável pela manu­
tenção do monumento dedicado à memória do herói-símbolo,
W illiam Morgan, erguido na cidade de Batavia, N.Y., conforme
detalhamos mais adiante.
ANTIM AÇONARIA 103

CAPÍTULO V

A Frente Antimaçônica da Primeira Metade do Séc. XX e a


Proclamação do “Fundamentalismo” Protestante nos EUA.

Antes de relatar o resurgimento do fenômeno antimaçônico


do Séc. XX, importante ressaltar que, além do Caso Morgan de
1826 e seu desdobramento político, com o efêmero Partido
Antimaçônico, convém não nos afastarmos de outros fatos do
final do Séc. XIX que favoreceram o atual recrudescimento do
mesmo fenômeno. A movimentação de grupos religiosos, identi­
ficados politicamente com facções conservadoras, torna-se cada
vez mais dirigida contra mudanças sociais e culturais que se
observam na sociedade americana, especialmente após a Guer­
ra da Secessão, de 1860. São verdadeiramente traumáticas as
experiências da sociedade americana desta época apôs a san­
grenta luta interna envolvendo a abolição da escravatura. Foi,
antes de mais nada, uma guerra entre irmãos.
A maçonaria e certas sociedades civis, essas últimas legíti­
mamente secretas, surgidas nos EUA na época, são vistas como
grandes ameaças para alguns, como relataremos. A segunda
metade do Séc. XIX foi cheia de grandes mudanças nos EUA.
E sp ecia lm en te sig n ific a tiv a s foram as lu tas em torn o do
escravismo e as expressivas ondas migratórias na segunda m e­
tade do Séc. XIX. A população, que em 1780 era de aproxim a­
damente 4 milhões de habitantes, composta predominantemen­
te de brancos e negros, todos praticamente nativos, chega, em
104 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

1860 - em pleno alvorecer da Guerra de Secessão - a 32,5 m i­


lhões. Deste total, entretanto, encontravam-se cerca de 4,2 m i­
lhões de im igrantes (quase 13%). O Censo de 1860 apontou
para esta dramática e inusitada onda m igratória resultando em
alterações significativas na composição populacional, no seu
tecido social e na própria cultura am ericana1. Levas de irlande­
ses, escoceses, holandeses, alemães e franceses, entre outros,
ameaçavam mudar o perfil cultural americano. Muitos católicos
agora passavam a ser contados entre os americanos, até então
majoritária e tradicionalmente protestantes. Outros europeus,
a lim e n ta d o s até e n tã o em c u ltu ra s c a tó lic a s e lib e ra is
secularistas - como a francesa e irlandesa por exemplo - vêm
agora se misturar aos tradicionais americanos - amantes e cio­
sos da tradição local, seus valores históricos e religiosos.
A reação a essa onda migratória não fica nada a dever a
outros movimentos conservadores que se observaram na histó­
ria americana. Nascem partidos políticos, agremiações religio­
sas e frentes sociais em defesa do americanismo em vários can­
tos do país, desde 1850. Era a fobia coletiva ao excesso m igra­
tório, visto como ameaça. Um dos movimentos que emergem
deste período, na mesma onda antimigratória, veio também se
identificar com a antimaçonaria, e contra todas as sociedades
secretas do fim do Séc. XIX.
Em defesa dos valores religiosos americanos, isto é, tal como
a maioria conservadora protestante de então os tinham e os
viam, é criada em 1868, em Pittsburgh, a National Christian
Association (NCA) (Associação Nacional Cristã)2. Era a primeira
organização civil, fundada nos EUA, com propósitos claros de
defender o que se convencionou chamar de ameúcanismo em
vista da forte penetração da cultura estrangeira, católica e se­
cular. A NCA não esconde, todavia, em suas atuais publicações,
a vocação antimaçõnica que a impulsionou desde então. Na sua
gênese, os registros históricos podem também atestá-lo. Em
recente publicação divulgada na Internet, e com apoio do seu
braço editorial - Acacia Press, Inc., a NCA revelou que:

'Enc. Britannica, v. United States o f America.


2Não se deve confundir com a Associação Cristã de Moços (Youth World Christian Association - YWCA),
outra organização com propósitos e objetivos distintos daquela.
ANTIM AÇONARIA 105

“This A s s o c ia tio n a róse to m eet a g re a t w a n t crea ted by th e


g ro w th o f s e cre t ord ers, a n d th e ig n o ra n ce a n d tim id sile n ce o f
p u b lic te a ch ers as to th e ir n a tu re a n d effects. ”
[E s ta A ss o cia çã o su rgiu p a ra a te n d e r a o g ra n d e d e se jo cria d o
p e lo cres cim en to d e ord en s secreta s, a ign orâ n cia e tím id o silên cio
d os p ro fe s s o re s d a s escola s p ú b lic a s q u a n to a su a n a tu reza e e fe i­
tos.].

Enunciava a NCA no início do seu breve histórico, para mais


à frente revelar com detalhes seus reais objetivos e motivações:

“T h o u g h s o m e tw o -th ird s o f o u r g lo b e is g o v e m e d by ru lers


w h o a ck n o w le d g e Christ, fr o m th ree-fou rth s to n in e -te n th s o f th e
u io rld ’s p o p u la tio n a re deluded, taxed, a n d m ore o r less corru p ted
b y se cret socie ties in p a g a n a n d C h ristia n lands. G od h a s raised
u p th e N a tio n a l C h ris tia n A s s o c ia tio n to m e e t a n d c h a n g e th is
fe a r fu l State o f things, a n d th u s ‘P re p a re th e w a y o f th e L o r d ’ to
com e a n reign on th is earth. ”3
[Ainda que cerca de dois terços do mundo seja dirigido por
governantes que reconhecem Cristo, três quartos a nove déci­
mos da população mundial está iludida, oprimida e mais ou me­
nos corrompida por sociedades secretas em terras pagãs e cris­
tãs. Deus levantou a Associação Nacional Cristã para mudar este
temerário estado de coisas e assim “Preparar o caminho do Se­
nhor” para vir e reinar nesta terra.]

Por algum tempo, foi a NCA responsável por custear a m a­


nutenção do m onum ento existente no Cem itério de Batavia
erigido em 1882, por um grupo de antimaçons, em memória de
William Morgan - o herói e m ártir da antimaçonaria americana.
O irmão Edward Harter, Ex-Grande Mestre de Cerimônias da
Grande Loja de Nova York, traça detalhes do referido m onu­
mento, seu ato inaugural e a participação do NCA na sua m a­
nutenção, no artigo publicado em 1974 pela American Lodge o f
Research 4. É outro testem unho do m ovim ento antimaçônico,
representado já na virada do Séc. XIX, por organizações criadas

3”Anti-Masonic Scrap Book - Consisting o f Forty-three Anti-Secrecy Tracts - ns 1 , THE NATIONAL


CHRISTIAN ASSOCIATION. SKETCH OF ITS HISTORY/’ 1996, Acacia Press, Inc. (uma reprodução da
publicação origin al de 1883, disp onib ilizada na Internet p ela A cacia Press, Inc. v. http://
www.crocker.com/~acacia/antim.html).
4Edward Harter, “The Morgan Affair - The Local T r a d it i o n Trans. of The Am. Lodge of Research, Free
and Accepted Masons, Grand Lodge of the State o f New York, Vol. XII-na 3, págs. 438-42 .
106 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

com o propósito de combater a Ordem, ainda que histórica e


“oficialm ente” seus objetivos possam ser considerados mais
abrangentes. A NCA em realidade seguiu sua caminhada desde
então, prosseguindo no Séc. XX - e até os dias atuais, via Internet
- na sua cruzada contra a m açonaria e outras organizações, ou
sociedades, por ela identificada como secretas, anticristãs e
responsáveis por conspirações e por diversos males atuais. Sua
missão é a de depositária da “mem ória” antimaçônica e difusora
de suas idéias no presente século, em defesa de valores ameri­
canos representados pela tradição cristã-protestante.
A onda migratória, a transformação, cada vez mais veloz,
de um a sociedade rural, dom inada pelos pequenos e médios
proprietários do interior, plantadores e comerciantes, em uma
nova era marcada pela industrialização e comércio em torno
das metrópoles, passou a criar novos ambientes e conflitos en­
tre as forças propulsoras de mudanças e os defensores do status
quo. E a virada do Séc. XIX para o Séc. XX é a época que bem
caracteriza tal processo na sociedade norte-americana.
Diz o historiador e sociólogo Eric Hobsbawm que o Séc. XX
teve seu início atrasado. Não teria começado em 1901 mas em
1915 com o fim da I a Grande Guerra Mundial. Tudo o que ocor­
reu nos quinze primeiros anos ficou por conta de acontecim en­
tos originados no século anterior. Os líderes políticos teriam fi­
nalmente acordado, na metade do século, para o fato de que as
nações precisariam viver e deixar de se confrontar em escara­
muças que só destruíram. O mesmo autor assinala ter sido este
o século da vitória do individualismo. Na verdade quer isso di­
zer que, ao longo do presente século, e apesar dos arroubos
totalitários dos regimes comunistas e fascistas entre os anos
vinte e quarenta, boa parte das nações do Ocidente passaram a
ter seus governos subordinados à vontade do seu povo, a demo­
cracia teria triunfado e o anseio pela paz e progresso parecia
tomar o lugar das sangrentas competições. As novas repúblicas
ganhavam fôlego ao lado de tradicionais monarquias agora trans­
form ad as em p a rla m en ta rism os com a fig u ra secu n d á ria
atribuida à coroa.
Foi o século das grandes conquistas do conhecimento hu­
mano, no qual a ciência e a tecnologia tornaram-se quase divi­
nas, já que passaram a ser - mercê de grandes realizações na
indústria, na m edicina, no espaço, nas com unicações e na
ANTIM AÇONARIA 107

informática - oráculos do homem na sua angustiosa busca de


resposta e soluções aos problemas. O presente século m arca a
ascensão e consolidação da cultura secular, corolário da ex­
pansão das idéias herdadas do iluminismo e das conquistas da
ciência e da tecnologia. O que Hobsbawm, Toffler, Naisbitt e
tantos outros pensadores também assinalam é que nunca se
experimentaram tão rápidas mudanças, em tão pouco tempo,
como na segunda metade do presente século. A ciência e a
tecnologia passaram a ser, como nunca antes, forças propulso­
ras de novas formas de vida, de organização social e humana.
Aparecem contestações aos velhos modelos de pensamento
e comportamento, de reconhecimento da relevância do meio am­
biente para a sobrevivência humana neste planeta, da ascensão
social da mulher, do despertar para novos níveis de consciên­
cia, reconhecidas no dia-a-dia em nossa imprensa, nas escolas
e nos diversos estratos sociais. A agenda política nas socieda­
des mais avançadas do planeta trata hoje de temas que não
eram cogitados, ou eram escassamente mencionados, há um ou
dois decênios atrás: direito das minorias (homossexuais, imi­
grantes e deserdados da sorte), feminismo, ecologia e a defesa
do meio ambiente (a destruição das reservas florestais do plane­
ta, a poluição do ar e das águas), aborto, violência urbana, colo­
nização planetária, inform atização generalizada, engenharia
genética (clones de seres vivos, aperfeiçoamento de formas vivas
e outras inovações), o surgimento de organizações não-governa-
mentais (ONG’s), novas formas de organizações do trabalho e a
generalização das aplicações da robótica, a globalização da eco­
nomia e do tráfico de drogas, prostituição e o trabalho infantil,
desigualdades sociais, etc.
As sociedades tornam-se mais críticas das autoridades não
emanadas do seu próprio seio. O poder se organiza de baixo
para cima, ainda que se reconheça, nas sociedades judaico-cris-
tãs, a divina ordenança que cerca seus mandatários, como reza
a mais pura linha do pensamento teológico calvinista.
Todo este alvoroço social, engendrado nos últimos cinqüenta
anos por um processo, dito modernizante, avassalador, resul­
tante de novas correntes do pensamento filosófico, da inserção
das novas tecnologias em todas as atividades humanas e de
rápidas transformações sociais, políticas e econômicas, está de
fato mudando muito rapidamente a face de nossa civilização.
108 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Mudanças, mudanças e mudanças, virtualmente a única


“constante” capaz de bem caracterizar este fim de Séc. XX.
Enfim, um século com transformações, avanços tecnológicos e
convulsões sociais como em nenhum outro: a era dos extremos,
para usar a terminologia de Eric Hobsbawm.
Por todos esses motivos, com tantas mudanças, com deslo­
camentos de velhos hábitos e o surgimento de ondas de contes­
tação, sobretudo vindas dos jovens e da intelectualidade, não
poderiamos esperar que portadores do pensamento conserva­
dor permanecessem inertes.
Não existem ações - seja em que ambiente for - que não
induzam reações. Mudanças aceleradas são agentes indutores
de reações. Resistências e oposições podem ser esperadas, como
reação natural de grupos tendentes a permanecer no status quo.
Na realidade, quando nos damos ao trabalho de analisar o com ­
portamento humano, ou de grupos humanos, diante de mudan­
ças, vemos o homem apontar, louvar e distinguir sua capacida­
de de adaptação às mudanças como seu mais importante atri­
buto, mas não consegue esconder a verdade de sua praxis re-
fratária à modificação de comportamentos, hábitos, meios, es­
truturas e outros valores aos quais se acomodou até então. A
realidade é que boa parte do homem comum prefere viver e se
comportar conforme aprendeu e se acostumou, em lugar de ter
de buscar novos conhecimentos para m elhor se amoldar às
rápidas transformações.
O melhor exemplo desse estado de coisas, aqui proposita-
damente focalizado, pode ser encontrado na história americana
do início deste século, quando o pensamento iluminista, as no­
vas correntes de pensamento científico e as metodologias da
crítica histórica avançaram sobre a cultura contrapondo-se às
posições tradicionais da ortodoxia protestante. O surgimento de
um a nova corrente teológica, com presença marcante na Alem a­
nha, Suíça e Estados Unidos, impregnada do pensamento de
Hegel, Kant, Marx, Hume, Feuerbach, Bauer e outros, apelida­
da de modernista e liberal pelos mais conservadores, invade os
seminários, institutos bíblicos e faculdades teológicas am erica­
nos e se disseminam ao longo dos primeiros vinte anos do Séc.
XX. A nova corrente induz mudanças nas igrejas, nas interpre­
tações bíblicas, no ensino eclesiástico e na atualização da men­
sagem cristã diante do progresso científico, da crítica histórica,
ANTIM AÇONARIA 109

das descobertas mais recentes e da crescente aceitação da Teo­


ria da Evolução de Darwin. Fazem pouco das igrejas tradicio­
nais e seu apego às interpretações bíblicas literais, questionam
os m ilagres b íb lico s e advogam u m a p osição cristã m ais
identificada com as necessidades do mundo atual. São por isto
mesmo apontados pelos conservadores como os apóstatas do
evangelho social. Questionam dogmas e procedem à crítica tex­
tual e histórica da Bíblia.
Nasce daí a corrente teológica liberal, como uma tentativa
de acomodar a teologia ortodoxa protestante às posições e às
críticas das novas correntes do pensam ento secular. É essa
manifesta ação modificadora do pensamento teológico am erica­
no a principal responsável pelo surgimento então do m ovimen­
to de reação que ficou conhecido como fundamentálismo.
A lg u n s fa to s h is to ric a m e n te im p o rta n te s m a rca m o
surgimento da reação ao modernismo, ou liberalismo, teológico
nos EUA. Foram muitos, mas por limitação do presente traba­
lho, e dado o foco que a ele se pretendeu dar, vamos nos deter a
três deles apenas.
Em 1872, C h a rle s A. B rig g s (1 8 4 1 -1 9 1 3 ), p a s to r
presbiteriano, professor de teologia bíblica do Union Theological
Seminan/ (N.Y.) foi pivô da primeira grande questão, publica­
mente divulgada, entre os conservadores (defensores de uma
linha estritamente bíblica literal para interpretação da realida­
de humana) e os modernistas/liberais (submissos à linha da
alta crítica bíblica e do pensamento iluminista que dominava a
nova cultura secular). Por seu discurso inaugural, sustentando
a altacrítica científica, ao assumir a cátedra de teologia bíblica
em 1891, Briggs foi acusado de herético pelo presbitério de Nova
York. Um rumoroso processo contra ele foi instaurado. Ainda
que absolvido da acusação de se desviar da interpretação bíbli-
ca-textual ortodoxa, foi afastado do seminário vindo a deixar a
Igreja Presbiteriana posteriormente5. O caso levantou novas re­
ações, e grupos conservadores se unem para a resistência ao
que denominaram de nova teologia modernista, que contestava
valores, doutrinas e posições da ortodoxia protestante. Estava a
Igreja Protestante sujeita à ameaça de mudanças na linha dou-

5Cf. E n c y c l. B r ita n n ic a , Verb. Briggs, Charles Augustus - Vol.4 pág. 212.


110 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

trinária, exatamente no ambiente formador dos seus líderes: os


seminários e os institutos bíblicos.
Distinções teológicas básicas afastavam as duas facções.
Ambas aceitavam a inspiração divina da Bíblia e, portanto, a
sua autoridade em matéria de fé e prática eclesiástica. Mas o
afastamento m aior entre elas ficava por conta da aceitação da
inerráncia textual e nas interpretações do seu todo literal. En­
quanto um a adotava a posição de aceitação do texto, completo
como está, como autêntica Palavra de Deus, inerrante, a outra
favorecia a aplicação da crítica histórica (e científica) como es­
sencial, e condição sine qua non, para a interpretação. Muitos
congressos, reuniões e agrupamentos, das duas facções teológi­
cas tiveram lugar desde então.
Protestantes conservadores, grupo que dizia-se detentor da
mais legítima e intocável tradição cristã evangélica, toma posi­
ções firmes de enfrentamento do modernismo no inicio do Séc.
XX. Os liberais, por sua vez, se unem formando em 1908 o
Conselho Federal de Igrejas, voltado à propagação de suas idéi­
as de um evangelho social e liberal. Os conservadores, em sua
maioria, prosseguem em suas denominações e igrejas, mas lan­
çam publicações para reforçar suas posições teológicas e as­
segurar o domínio das instituições de ensino (seminários e ins­
titutos bíblicos). Outros se afastam de suas denominações para
organizar igrejas, independentes, debaixo de rígida doutrina bí­
blica e acompanhando posições de líderes como os pregadores
Dwight Lyman Moody (1837-1899) e Billy Sunday (1862-1935).
Em 1910 surge o primeiro volume de uma série de doze,
sob o título The Fundamentais (Os Fundamentos), cujo objetivo
não foi outro senão deixar claramente exposta a posição teológi­
ca conservadora, em defesa de um a estrita e ortodoxa interpre­
tação bíblica do cristianismo. A obra ressalta o que denomina
de “The fundamentais o f the faith” (Os fundamentos da fé) nos
seguintes pontos da doutrina que esposa :

1) a inspiração verbal da Bíblia


2) o nascimento virginal de Cristo
3) o sacrifício expiatório de Cristo na cruz
4) a ressurreição do corpo
ANTIM AÇONARIA 111

5) a segunda vinda de Cristo (iminente e visível)6

Se amplamente aceitas, ou se rigorosamente corretas, as


posições do texto apologético, pouco se sabe e muito se debate.
Diferenças nas interpretações da Bíblia têm historicamente afas­
tado grupos religiosos, originado cisões e motivado o surgimento
de facções e seitas. O fato, indisputado, é que permitiu a fixação
na mídia e, principalmente entre modernistas e secularistas, do
título de fundamentalistas atribuído aos seus mentores e segui­
dores, e de fundamentalismo à corrente teológica que passou a
subscrever os “cinco pontos” dos fundamentos da fé.
Início de um a posição teológica clara, e publicamente reve­
lada, a proclamação dos “Cinco Pontos do Fundamentalismo”, a
partir de 1912, é o divisor de águas da corrente evangélica con­
servadora até os dias atuais, em contraposição ao que denomi­
nam de liberalismo, modernismo teológico ou evangelho social.
Seus seguidores observam a interpretação literal da Bíblia, são
defensores e propagadores da sua inerrância e de outras doutri­
nas fundamentais não expressamente incluídas nos “cinco pon­
tos” mas aceitas pela maioria dos seus líderes.
Ao longo ainda da primeira metade do Séc. XX outros fatos
importantes haveríam de caracterizar nos EUA o contencioso
filo s ó fic o r e lig io s o e n tre c o n s e r v a d o r e s (d e s d e a g o ra
fundamentalistas) e liberais (ou modernistas), tornando públi­
cas as suas diferenças.
Um dos mais notáveis deles foi o julgam ento de um profes­
sor de um a escola secundária da cidadezinha de Dayton, no
Tennessee, John Thomas Scopes. Acusado de ensinar heresias
aos alunos de um a escola secundária no Condado de Rhea,
Scopes foi indiciado pelas autoridades estaduais. Professor de
biologia, Scopes ensinava a Teoria da Evolução das Espécies de
Charles Darwin em sua classe, fato que o colocava como infra­
tor da lei do Estado do Tennessee. Era considerado crime o en-

6 De acordo com Richard Thorn, a obra se constitui de um a série de doze panfletos publicados entre
1910 e 1915 que teriam sido escritos por professores do Seminário de Princeton (N.J.), liderados por
Charles Hodge e B.B. Warfield, teólogos conservadores [ cf. Richard P.Thorn, “The Bou Who Cried
W o ir. Evans, 1994, pág. 32].
112 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

sino nas escolas locais de princípios ou teorias que fossem con­


trários aos ensinos bíblicos da criação do homem. Lei aprovada
pela Assembléia Geral do Estado do Tennessee, deixava clara a
disposição da maioria esmagadora de seus representantes ao
aprovar a lei Na 185 de 1922:

“Section 1. B e it e n a cted by th e G en era l A s s e m b ly o f t h e S ta te


o f T en n essee,
T h a t it s h a ll b e u n la w f u l f o r a n y t e a c h e r in a n y o f th e
U niversities, N o rm a is a n d a ll o th e r p u b lic sch o ols o f th e S ta te w h ich
a re s u p p o rte d in w h ole o r in p a r t by th e p u b lic s ch o o l fu n d s o f th e
State, to te a ch any th eory th a t d en ies th e story o f th e D iv in e C reation
o f m a n as ta u g h t in th e B ible, a n d to te a ch th a t m a n has d escen d ed
fr o m a lo w e r o rd e r o f anim ais. ” (Cf. Public Acts of the State of
Tennessee, passed by the Sixty-Fourth General Assembly, 1925.)
[“A r t 1. É p ro m u lg a d o p e la A s s e m b lé ia G e ra l d o E s ta d o d o
T en n essee, q u e s e rá con s id e ra d o ile g a l q u e q u a lq u e r p ro fe s s o r,
d e u n iversid a d es, escola s se cu n d á ria s ou q u a lq u e r ou tra escola
p ú b lic a d o E s ta d o q u e se ja m antid a, em to d o ou e m p a rte , p o r
fu n d o s d o E s ta d o p a ra a ed ucação, e n s in a r q u a lq u e r te oria qu e
n egu e a história da cria çã o diinna d o h om em com o en sin a d a na
B íb lia , e e n s in a r qu e o h om em d e scen d e d e u m a ca tegoria in fe rio r
d e a n im a is.”]

A corte local indiciou Scopes pelo “ilícito” de ensinar a Teo­


ria da Evolução das Espécies de Darwin, invocando lei estadual
de evidente inspiração fundam entalista7. Toda a comunidade
tomou conhecimento de um dos mais famosos casos judiciais
da história dos EUA, que teve lugar em Dayton entre 10 e 16 de
julho de 1925. O caso não teria ganho repercussão nacional,
logo aos primeiros dias da audiência, não fossem as figuras
políticas de ampla projeção, envolvidas na defesa e na acusa­
ção. Como auxiliar da promotoria, veio de Miami, Florida, o fa­
moso político (por muito tempo líder do Partido Democrata), jo r ­
nalista, eminente advogado, líder fundamentalista e pregador,
William Jennings Bryan (1860 -1925). A defesa de Scopes foi

7A onda fundamentalista, contra o ensino da Teoria da Evolução, varreu alguns outros estados
sulistas na segunda metade da década de 20. Leis idênticas à aprovada no Tennessee 1922) foram
aplicadas em outros estados: Mississipi (1929), Arkansas (1928) e Texas (1929) [cf. Enc. Britannica,
vb. Fundamentalism, (1968)].
ANTIM AÇONARIA 113

liderada por um dos mais eminentes e reconhecidos criminalistas


dos EUA da época, baseado em Chicago, Clarence Seward Darrow
(1857-1938), um legítimo representante do pensamento liberal
e um cético declarado.
O caso Scopes, vulgarmente chamado “O Julgam ento do
Macaco”, ganhou foros de importância e repercussão nacional
pelo embate entre as duas eminentes figuras que contra-cenaram
em plena Corte, Bryan e Darrow, legítimos representantes das
duas linhas teológico-filosóficas em questão. O assunto ganhou
as primeiras páginas dos jornais da época, e chacotas vindas
dos fundamentalistas, que cegamente atacavam a teoria da ori­
gem do homem a partir do macaco, e o apelo ao respeito à liber­
dade de expressão (a partir da própria escola) vinda das corren­
tes, secularistas, modernistas e liberais, com respaldo da mídia
nacional.
Cerca de 150 repórteres vieram de todo o m undo para
Dayton, pelo menos dois milhões de palavras foram enviados
nos telegramas despachados pela W estern Union desde a sala
da Corte, além das várias emissões diárias das estações de rá­
dio, conforme assegura Madalin O ’ Hair em recente ensaio
divulgado na Internet.8
Em 21 de julho de 1925, após 11 dias de julgam ento, o ju iz
John T. Raulston anunciou o veredito: Scopes foi considerado
culpado, infrator da Lei do Tennessee, multado em US$ 100,00
e impedido de continuar ensinando a Teoria da Evolução. O
principal resultado do julgamento, porém, não ficaria aí. O im ­
pacto deste caso no desenvolvimento do contencioso ganhava
novas feições. O diálogo final, entre Darrow e Bryan - am pla­
mente divulgado na imprensa - e provocado por um ardil de
Darrow, que soube impedir que Bryan aproveitasse a chance
de fazer, ao final, sua alocução proselitista em defesa das posi­
ções fundamentalistas - deu lugar ao famoso diálogo no qual
Darrow questionou as crenças de Bryan na interpretação literal
e inerrante do texto bíblico, pondo-o na defensiva e pego em
algumas inconsistências, evidenciando a fragilidade das suas

8Madalin O’ Hair , “Fundamentalism’’ , American Atheists, texto completo de palestra proferida pela
autora, Fundadora da American Atheists, na Universidade Estadual do Tennessee - Memphis, em 22
de outubro de 1996. Cf. www.atheists.org/church/fundamentalism.html
114 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

posições. O fato exacerbou as posições e provocou grande re­


percussão.
Cineastas e artistas aproveitaram todo o argumento e a opor­
tunidade social, na esteira da onda anticomunista dos anos 50,
para fazer do Caso Scopes peça teatral bem-sucedida em Nova
York, vindo inclusive desembocar em Hollywood no filme “ O
Vento p o r Herança ”9, com S p en cer Tracy, com o D arrow e
Frederick March como Bryan, que ganhou repercussão mundial
nos anos 60.
Era o embate entre as duas correntes ganhando alcance
m undial10. Todo o desgaste psicológico dos dias de debate na
corte do Tennessee, segundo historiadores e testemunhas ocu­
lares, teria apressado o fim de Bryan, que veio a falecer em
Dayton em 26 de julho de 1925, cinco dias após o encerramento
do julgam ento de Scopes11.
A sociedade americana viria ainda a ser abalada por outros
eventos que, ainda que não diretamente relacionados com as
correntes fundamentalistas, foram de certa forma responsáveis
por novas posições, diriamos, ideológicas, assumidas publica­
mente pelo mesmo grupo, em contraposição à onda modernista.
Refiro-me à ideologia anticomunista que varreu os EUA, de for­
ma massificada no pós-guerra. Sociedades secretas (legitima­
mente secretas) como a John Birch Society, a Ku-Klux-Klan (KKK)
e o chamado movimento de caça aos comunistas engendrado
pelo Senador republicano Joseph R. McCarthy (1908-1957) são
exemplos emblemáticos originários de um a época de obscuran­
tismo radical que varreu os EUA no pós-guerra12. A tese espo­
s a d a p e lo s fu n d a m e n ta lis ta s a m e ric a n o s s u s te n ta v a o

t ít u l o inspirado em passagem bíblica de Provérbios 11:29: “O que perturba a sua casa herda o vento,
e o insensato é servo do entendido de coração*.
10O filme teve grande repercussão por onde foi exibido. No Brasil apareceu no início dos anos sessen­
ta, sendo objeto de debates nas igrejas, que sem conhecimento anterior da questão americana, não
deixaram de ver com perplexidade a natureza radical de todo o debate ocorrido no Tennessee em
1925. Com alguma sorte poderá ainda ser encontrado nas locadoras. Sua ficha técnica: Titulo: “INHERIT
THE WIND”, Produção: United Artists-1960, Direção: Stanley Kramer, Time: 127 minutos, PB. Prin­
cipais intérpretes e personagens: Spencer Tracy, Darrow ; Frederic March, Bryan ; Gene Kelly, H.L.
Mencken (jornalista) ; Dick York, Scopes ; Henry Morgan, Juiz John Raulston ; e outros.
"Im portante se observar um a faceta do perfil de Bryan. Além de reconhecido como um dos grandes
oradores políticos, radicalmente oposto à Teoria da Evolução e líder nacional do fundamentalismo
cristão, era também maçom. Foi inciado em 15 de abril de 1902 na Loja Lincoln na 19, em Lincoln,
Nebraska. Posteriormente se filiou à Temple Lodge n° 247, em Miami, Florida. [Cf. Alien E. Roberts,
“Freemasonru in American H is to n f. págs. 312, 3 - 337, 8.]
12Com exceção do KKK, cuja origem deve ser remetida aos idos de 1860 após a defecção dos sulistas,
defensores do escravagismo, na Guerra de Secessão.
ANTIM AÇONARIA 115

anticomunismo daqueles grupos citados, juntam ente com posi­


ções endossando a supremacia branca, valores pátrios, e a tra­
dição bíblica da família patriarcal. Outras posições diferentes
eram considerados de origem herética, maligna e, portanto, ini­
migas. O comunismo encarnava o poder de Satã sobre a huma­
nidade, conforme assinalam os textos bíblicos por eles interpre­
tados. Somente os EUA poderíam, sustentados no valor supre­
mo e divino do legítimo Cristianismo que representavam, fazer
frente a tal ameaça. John Foster Dulles, Secretário de Estado
do Governo Eisenhower, após haver em 1946 sustentado publi­
camente, inspirado no fundamentalismo cristão que represen­
tava, a necessidade de um reavivamento espiritual na socieda­
de americana, declarava - do alto de sua autoridade governa­
mental:

“ The w orld is diuid ed in to tw o g ro u p s o f p eo p le: th e ch ristia n s


anti-com m u n ists, a n d th e o tk e rs ”.13
[ “O m u n d o está d id ivid o em d o is g ru p o s d e p o v o s : os cris ­
tã os anti-com u n ista s, e os o u tro s ”].

Era um a espécie de nova versão maniqueísta da Humanun


Genus de 1884.
A corrente fundamentalista, durante a Guerra'Fria, via no
Comunismo mundial a maior ameaça ao Evangelho, o verdadei­
ro porta-voz de Satanás e, provavelmente, o foco de onde se
originaria a grande batalha apocalíptica (do Armaggedon), do
final dos tempos. A Rússia viria a ser a representação do reino
de Gog, conforme antecipava o profeta Ezequiel (Caps. 38 e 39).
Esta sempre foi a m ensagem central - e apocalíptica - dos
evangelistas porta-vozes daquela corrente, na segunda metade
do Séc. XX, com o pastor e escritor Hal Lindsey, a frente de
muitos outros14.
A bipolarização Leste-Oeste, ou as questões entre o cham a­
do então Mundo Livre versus Cortina de Ferro, em certo sentido

13Steve Brouwer, Paul Gifiòrd & Susan D. Rose, “Exportina the American Gnsspel - Global Chrixtinn
Furuinmentalism”. Routledge, New York, 1996. pág. 17.
14Com seu best seller, “The Late Great Planet Eartti’ (O fim do Grande Planeta Terra), em 1970,Hal
Lindsey explorou a credulidade dos seus seguidores, elocubrando sobre o iminente fim dos tempos,
dada a crescente onda do vício das drogas, e da ameaça nuclear vindo no “final dos tempos”, respal­
dado por um a interpretação pessoal, fundamentalista, das Escrituras [cf. Steve Brower, et al. - op.
cit., pág. 34],
116 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

empanou o movimento de bastidores dos antimaçons em boa


parte da segunda metade do Séc.XX. As mesmas vozes que viam
nas sociedades secretas a grande ameaça estiveram mais preo­
cupadas com os mísseis russos, com a penetração dos m ovi­
mentos comunistas nas nações latino-americanas e no sudeste
asiático e - principalmente - com o exemplo criado em 1959 em
Cuba pela revolução castrista, a poucos quilômetros da costa
sul dos EUA. Os fundamentalistas americanos, e seu braço po­
lítico representado pela extrema direita conservadora (com os
Republicanos à frente), assestavam as suas armas contra os
movimentos filocomunistas onde quer que estivessem. Susten­
taram, política e economicamente, as investidas militares ame­
ricanas na Coréia, no Vietnã e apoiaram a fracassada invasão
da Baía dos Porcos em Cuba e outros movimentos visando a
desestabilização de governos de esquerda, simpáticos aos co­
munistas.
As questões levantadas contra a maçonaria não foram tão
prioritárias para os fundamentalistas, até os anos 80. Sua ba­
talha foi concentrada em outras frentes, que lhes pareceram
mais ameaçadoras: o comunismo, o secularismo, o modernis­
mo e outros “ismos”.
Acrescente-se que o movimento fundamentalista am erica­
no cresceu, desenvolveu sua influência penetrando em diferen­
tes denominações protestantes, criando seus próprios seminá­
rios, modificando escolas, colocando seus líderes em postos-
chaves de denominações religiosas, criando suas editoras e seus
programas de rádio e TV nos EUA. Em outros casos, criaram
suas próprias Igrejas, independentemente de qualquer denomi­
nação. Sua presença está bem m arcada nos dias atuais na
Internet, onde podem ser visitados diversos “websites” com es­
tudos, “papers”, oferta de literatura, palavras de ordem e ende­
reços de referência para os interessados em sua mensagem. Na
defesa dos cinco pontos fundamentais da doutrina, os mais ex­
tremados mensageiros do fundamentalismo, se especializaram,
no fim do Séc. XX, em atacar os grupos cujas doutrinas não são
consideradas conciliáveis com as deles. Ser fundamentalista,
para muitos analistas atuais (cristãos ou não) é ser algo mais e,
diria, muito mais do que simples defensor dos cinco pontos fun­
damentais. Na realidade, o fundamentalismo do fim do Séc. XX
não está focado no mesmo tipo de opositor que se vislumbrava
AN TIM AÇONARIA 117

no início dos anos 20. Não são os modernistas de então e tam ­


bém não são os teólogos liberais que mais incomodam. O avan­
ço do secularismo com suas mazelas e virtudes, a atual tendên­
cia à globalização (não somente na economia, mas igualmente
na cultura) carregada de incertezas, a emergência de novas reli­
giões (escudadas no título genérico de Nova Era), o crescimento
acentuado do Islã no O cidente e o progresso da ciên cia e
tecnologia compõem o novo cenário, alvo predileto dos neo-
fundamentalistas americanos.
É fenômeno atual, ainda denominado fundamentalismo
por muitos e particularm ente pela im prensa de forma muito
generalizada, e às vezes descuidada, que podemos considerar
haver nascido no presente Séc. XX, mas que nessas últimas
décadas está assumindo novos traços. Em nossa avaliação está
sendo exacerbado nessas últimas décadas e dando sinais cla­
ros de globalização e horizontalidade, isto é, emergindo em ou­
tras religiões - além da cristã - como reação ao modernismo
secular e interferindo em diversas atividades da sociedade onde
estão presentes, pretendendo se envolver na política inclusive.
Fundamentalismo passou a figurar entre os termos mais
c o m u m e n te v e ic u la d o s n a m ídia in te r n a c io n a l. A su a
c o n c e itu a ç ã o é c o m p le x a , n ão p o d e e s ta r e s trita m e n te
identificada com o mesmo conceito ligado ao termo “cunhado”
pelos americanos nos anos 20. A imprensa, entretanto, se en­
carregou de generalizar o uso do termo. O que chamamos hoje
fundamentalismo islâmico, por exemplo, é movimento recente -
originado no Irã em 1979 quando o Aiatolá Khomeini assumiu o
poder, com ca ra cterística s p róp rias e p o lítica a u to ritá ria
escudada na ideologia islâmica. Sua afinidade ideológica, com o
precedente movimento fundamentalista evangélico dos EUA é
remota. Os dois movimentos têm em comum tão-somente a po­
sição contrária ao modernismo, que no caso iraniano é repre­
sentado pela influência ocidental - de raiz norte-americana -
em favor dos valores básicos e éticos da religião tradicional. O
movimento que desejamos analisar mais de perto, e que se de­
senvolve nos dias atuais nos EUA [ainda que se encontrem suas
influências em algumas outras nações] tem conotações própri­
as. Chega ao final do presente século com novos discursos, ins­
trumentos de propaganda e prioridades próprias. Conforme os
dados que temos apurado, não há dúvida de que o movimento
118 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

fundamentalista guarda correlação positiva com a antimaçonaria


do fim do Séc. XX. O seu crescimento nos EUA, com repercus­
sões na Am érica Latina e na Ásia (Japão, em especial), tem
m ostrado um paralelo com o crescim ento de m ovim entação
antimaçônica. Mas esse tema é detalhado adiante.
AN TIM AÇON ARIA 119

CAPÍTULO VI

Radicalismos do Fim do Séc. XX: A Nova Onda Antim acônica e


o Movimento Neofundamentalista nos EUA

Desde a década dos setenta, vive-se no mundo urna nova e


desconcertante experiencia: entramos na era que os atuais his­
toriadores, antropólogos e sociólogos costumam chamar de Pós-
modemidade. Muitos já se deram conta do choque das incoe­
rências deste fim de milenio: o homem passeia na superfície da
Lua, envia sofisticados robôs a Marte para transmitir imagens e
dados para a Terra, é capaz de “clonar” uma ovelha usando
técnicas da engenharia genética, promove sofisticadas experi­
ências científicas a bordo de naves espaciais orbitando nosso
planeta, aperfeiçoa métodos cirúrgicos de transplantes de ór­
gãos, descobre vestígios de água na Lúa por meio de complexos
sistemas de sensoriamento remoto e sondas espaciais e ainda
aum enta drasticam ente a produtividade da industria com a
automação e robótica. Mas não consegue, nem deter nem en­
tender, a onda de matanças de mulheres e crianças na Argélia,
muito menos os abusos dos fanáticos seguidores da seita Aum
Shinrikyo de Shoko Asahara, do Japão, que lançaram gases
mortais no Metrô de Tokio, nem o suicídio coletivo de mais de
cem pessoas da seita “Portal do Céu” [Heaven’s Gate] nos EUA e
menos deter os distúrbios étnicos-religiosos na Bósnia, índia,
Paquistão, Sri Lanka, Afeganistão, Sudão e últim am ente em
Kossovo na Iugoslávia; não consegue sequer minimizar o fosso
120 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

que separa nações ricas (ditas de Primeiro Mundo) de outros


povos cuja grande maioria da população beira a vida de m iserá­
veis, como no Sudão, Banghladesh, Etiopia; e muito menos con­
segue sequer atenuar a generalização do consumo de drogas
pelos jovens, e por ai vai. Era dos extremos, parafraseando
Hobsbawm: avanços e e recuos graças a tais conflitos e incoe­
rências intrigantes.
Estamos atravessando uma profunda e complexa transição,
sem paralelo na historia humana. Esgotou-se o estilo de vida
moderno, originado da revolução industrial do Séc. XVIII, quando
a sociedade apropriou as benesses da ciência e da tecnologia
criando formas organizacionais de produção, do emprego, do
trabalho, da distribuição e do comércio dos produtos, m oldan­
do a vida das pessoas e, como corolário, fixando paradigmas de
comportamento e de organização económico-social. Entender o
que está agora acontecendo ao derredor de todos nós, nas três
últimas décadas, é fundamental à percepção do recrudescimen-
to das campanhas contra a maçonaria. É o mesmo que ampliar
as chances de nos adaptar aos novos tempos, entender o nosso
papel e com preender o que existe por trás do discurso dos
detratores. Sustentamos que essa compreensão é mais im por­
tante do que começar a ensaiar respostas, a torto e a direito, às
diatribes levantadas pelos antimaçons deste fim de Séc. XX.
O modelo ainda hoje observado nos processos de produção
incorpora heranças da revolução industrial e capitalista da se­
gunda metade do Séc. XVIII. Neste fim de século, porém, novos
paradigmas assumem posição: a disseminação da informação
pelas redes de comunicações, o avanço da biotecnologia amea­
çando com suas inovações velhos princípios ligados à vida hu­
mana e suas relações com o meio ambiente, as altas taxas de
desemprego provocadas pelo avanço das novas formas de pro­
dução, distribuição e comercialização dos bens e outras m u­
danças. Novas descobertas da astrofísica estão deslocando m i­
tos sobre a origem e destino do universo. A idade do universo e
as teorias sobre o surgimento da vida no planeta, graças aos
novos métodos científicos de investigação, estão trazendo dores
de cabeça aos que se fixaram em velhas lendas e dogmas ou se
agarraram a interpretações literais da Bíblia. A utilização gene­
ralizada dos recursos da informática, da engenharia genética,
das telecomunicações, da Internet, da robótica e da automação,
ANTIM AÇONARIA 121

estão modificando drasticamente as velhas formas de produção


e do emprego, de distribuição dos serviços e produtos, do co­
mércio, dos transportes, de educação dos povos e do acesso ao
conhecimento, para citar apenas alguns traços dos novos tem ­
pos da Pós-modemidade.
Uma inusitada onda de desemprego bate à porta de todas
as tradicionais sociedades industrializadas, como um dos per­
versos resultados da onda de m udança de paradigmas econô­
micos e tecnológicos. Se qualquer pessoa desejar ter um a cópia
desse trabalho [que o leitor está me honrando com sua leitura
neste momento] disponível numa outra parte do planeta, dis­
tante mais de 10 mil km, poderá obtê-lo, a custo irrisório, pela
Internet em poucos minutos, exemplo de nova tecnologia cujo
impacto sobre a nossa vida mal começou a ser sentido. Hoje é
perfeitamente possível encomendar-se a um alfaiate em Lon­
dres um terno cujas medidas, tipo de corte e padrão de tecido é
especificado, encomendado e pago, de forma segura, com car­
tão de crédito, tudo feito pela Internet. Após uma ou duas sema­
nas, seu terno será entregue em sua casa, tal como você o espe­
cificou.
Muitos ainda não se deram conta, mas a natureza da cultu­
ra com a qual passamos a conviver nos últimos vinte anos, ain­
da que herdada da revolução industrial, mas agora modificada
pela vertiginosa cadência das inovações tecnológicas, começa
aos poucos e inexoravelmente a tomar novas características e
moldar novas formas de organização social: é a Pós-modemidade
que já bateu às nossas portas e alguns não estão ouvindo com a
devida atenção ou não estão entendendo o novo fenômeno.
A maneira como as sociedades se organizaram, formaram
suas metrópoles, desenvolveram seu comércio, suas redes de
transportes, suas escolas, seus traços culturais e seu lazer, tem
tudo a ver com a revolução industrial iniciada na Inglaterra em
meados do Séc. X V III.1 Durante a modernidade, formas de go-

‘ Um dos bons analistas deste fenômeno é Toffler. Seu clássico, “Future Shnnkx [ Choque do Futuro] é
leitura obrigatória para quem desejar entender melhor o real impacto na vida, na mente das pessoas,
nas organizações e na cultura em geral da civilização, causado pela Revolução Industrial, Uma rese­
nha desse fenômeno socioeconómico inglês, que engendrou e desenvolveu aquele movimento, é apre­
sentada com riqueza de detalhes na obra de Peter Mathias, “ The First industrial Nation: An Emnnmie
Historu ofBritam ”. Methuen & Co., London, 1969.
122 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

verno, elites políticas e lideranças intelectuais evocaram as idéi­


as iluministas, a soberania do conhecimento científico, e deixa­
ram, de certa maneira, afastados dos discursos oficiais os valo­
res e os princípios da religião. Esta foi deixada ao estrito dom í­
nio do indivíduo em particular. De certa maneira isolava-se do
poder secular as querelas e embates das religiões, permitindo-
se acomodar um a sociedade cada vez mais pluralista e com ple­
xa.
O posicionamento governamental laico, um dos paradigmas
da modernidade ocidental, ganha por isso mesmo caráter cada
vez mais sólido entre as elites dirigentes e formadoras de opi­
nião na Pós-modemidade. Esta posição é igualmente sustenta­
da e defendida pelos meios de comunicação, tática com preensí­
v e l p a ra a s o b r e v iv ê n c ia n u m m e rc a d o de c o m p o s iç ã o
pluralizada.
Nos estados ocidentais, o laicato não só afastou a Igreja do
Governo, como também deixou àquela, e só àquela, a tarefa de
levar a sociedade a preservar, observar e ensinar os princípios,
valores e doutrinas religiosas legadas da tradição judaico-cris-
tã. A té m esm o a m íd ia p assou a co n sid era r os assu n tos
intrinsicamente religiosos em suas sessões internas, de umas
poucas páginas misturadas com outros temas menos im portan­
tes. A economia, a política e os esportes, diriamos, movimenta
parte ponderável dos espaços da mídia em nossos dias. A reli­
gião costuma vir à baila nas páginas mais importantes tão-so­
mente quando envolvida com temas políticos, econômicos ou
sociais, dificilmente como motivo de temas espirituais ou religi­
osos propriamente ditos.
A esse fe n ô m e n o , n a s c id o n a m odernidade e a g o ra
radicalizado na Pós-modemidade, religiosos, como René Padilha
e Ricardo Gondim, representantes na Am érica Latina de uma
corrente protestante atual, chamam secularização. Sua genera­
lização, ao longo do presente século, mas acentuada nos dois
últimos decênios, é um a das responsáveis diretas pelo recru-
descim ento dos m ovim entos de reação e consolidação dos
fundam entalistas.2 A formação dos jovens, nas escolas e nas

2Ricardo Gondim, “ Fim do Milênio: Os Paríaos e Desafios da pós-modemidade na Igreja”. Abba Press,
São Paulo, 1996, págs. 19-43.
ANTIM AÇONARIA 123

universidades, é cercada das novas tecnologias e da quase


“divinização” do que entendem ser as benesses das inovações
tecnológicas deste fim de milênio, antecipando tempos revoluci­
onários a partir do ano 2000. Assim estão sendo formadas as
mentalidades da nova geração que haverá de nos substituir. De
um lado, estão acostumados a exortar as virtudes dos novos
paradigmas tecnológicos e, de outro, incentivados a subestimar,
desprezar e até mesmo esquecer as velhas tradições.
De toda maneira, colocando as coisas de uma forma mais
simplista, conhecendo, ou tentando conhecer, o processo de
mudança ou sofrendo seus impactos, uns procuram se adap­
tar, outros simplesmente se defender à sua maneira.
Como veremos, os maçons são considerados por antimaçons
um dos porta-vozes do secularismo universalista e assim consi­
derados representantes da posição oposta da cosmovisão cristã
fundamentalista, conforme dizem os fiéis seguidores desta últi­
ma. Neste conjunto de posições, temos um mundo dividido em
duas vertentes consideradas inconciliáveis. Na posição em que
estão os fundamentalistas atuais é possível se perceber a visão
crítica similar à do maniqueísmo manifesto pela Igreja Católica
no Séc. XIX com a Humanum Genus. De um lado, os cristãos
[agora representados pelos da vertente fundamentalista protes­
tante] e de outro, os secularistas - ou pagãos - onde ficam os
maçons e as demais correntes. Os adeptos da Ordem são consi­
derados representantes da religião natural-pagã, do secularismo
e das posições universalistas do pós-modernismo deste fim de
século, ainda que falem de Deus, o Grande Arquiteto do Univer­
so, e preguem a liberdade religiosa e de consciência e se preocu­
pem com antigas religiões e mistérios tradicionais.
Mais radicais e enfáticos em suas acusações, quando com­
parados à histórica posição dos católicos, o atual discurso
antimaçônico dos fundamentalistas protestantes americanos tem
se concentrado nas esferas doutrinárias e teológicas: foco de
satanismo, doutrina incompatível com o cristianismo, religião
pagã, culto a um deus que não é o Deus da Bíblia e ausência da
menção ao nome de Jesus Cristo, ensino da salvação pelas obras,
etc. Todas as demais acusações derivam dessas. Parecem diri­
gir o discurso à comunidade de cristãos que, ainda ignorante,
poderíam ser alcançados pelo canto de sereia dos maçons, ale­
gam. Na realidade, o público-alvo é mais amplo e inclui os pró-
124 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

prios maçons.O pastor Ron Carlson, antimaçom americano,


divulga normalmente as suas idéias através de programas de
rádio, conferências e pelas fitas gravadas que comercializa nos
EUA, como aliás tem sido feito por outros pastores da mesma
linha. Carlson é reconhecido pela incitação gratuita que faz contra
os maçons e a maçonaria em suas alocuções. Num dos seus
famosos sermões, gravados nos anos 80 clamava aos seus ou­
vintes que:

“A m a çon a ria n ã o é d e D eus, é d o fu n d o d o in fe rn o.”34 Ou en­


tão, chamando a atenção dos seus ouvintes para o ‘perigo’ das
práticas heréticas das lojas, pregava:
“M eu s am igos, se sois m açons, a q u i n esta noite, e n ten d o qu e
vocês não s a b em p a ra on d e estã o ca m inhand o. A lb e rt P ik e d iz
q u e vocês estã o se n d o en ga n a d os, con scien tem en te, p o is eles [os
maçons] n ã o d e s e ja m q u e vocês p e rc e b a m a n a tu rez a p a g ã e
id óla tra d a s su a s p rá tic a s .’**

William Schnoebelen, ex-adepto de seita satânica am erica­


na, ex-maçom que diz haver chegado ao Grau 32, agora, pre­
gador do evangelho, e outro representante da nova corrente
antimaçônica deste fim de milênio, não faz por menos:

“A m a çon a ria é u m a religiã o anticristã, e qu a n d o cristãos, e


esp ecia lm en te líd eres cristã os, ju n ta m -s e a ela, d evem os nos a la r­
m a r [Sic!]. N ã o p o d e m o s e s p e ra r q u e h om en s n ã o-sa lvos e n te n ­
d a m m elhor. S eu s o lh o s e s tã o ob s cu re cid o s p e lo p e ca d o . S ã o o
qu e eu era qu a n d o to m e i-m e m a çom - p a g ã os . C aso eles qu eira m
u n ir-s e a u m a religiã o p a g ã com o a m açona ria , o p ro b le m a é d e ­
le s ”, afirma, reivindicando uma “autoridade” que agora diz pos­
suir após haver encontrado a luz.5

3Cf. Art deHoyos, “A Cloud o f Preiudicé”. Kessinger Publishing Co., 1993, pág. 07.
4Cf. Richard P. Thorn, “The Boy Who Cried W o lf. Evans, 1994. págs. 141. Cristão, fundamentalista,
médico e missionário, e maçom ativo, o Dr. Thorn escreveu esta obra para responder as acusações
gratuitas do pastor Carlson. Este, como tantos outros antimaçons, baseiam suas teses em falsas
premissas. Freqüentemente, sustentam suas opiniões sobre a Ordem em autores - ditos autoridades
universais da maçonaria. Nessa citação, o pastor Carlson usa e abusa de declarações falsamente
atribuídas a Alberto Pike, pai do Rito Escocês Antigo e Aceito nos EUA. É comum em autores antimaçons,
usarem deliberadamente citações incompletas ou distorcidas de autores maçons, como no caso pre­
sente. Estudiosos maçons como: Thorn, deHoyos, J. J. Robinson, Brent Morris, e Gary Leazer, não têm
feito outra coisa senão pôr a nu a desonestidade intelectual de autores como o pastor Carlson [seus
trabalhos acham-se relacionados na bibliografia do presente trabalho].
5William Schnoebelen, “Maçonaria: Do Outro Lado da Lu2f . págs. 21, 22.
ANTIM AÇONARIA 125

O deus dos maçons não está identificado com o Deus da


Bíblia, dizem os antimaçons protestantes. Trata-se de um a reli­
gião pagã, como qualquer outra, astuta e poderosamente entra-
nhada nos escalões do poder, circulando com desenvoltura nos
meios de comunicações e conspirando internacionalmente pela
aniquilação dos seus opostos. Para o consum o das massas
despreparadas, dizem: maçonaria é um a religião incompatível
com o cristianismo, portanto, a ela devemos nos opor.

“E m nossa opinião, e n tra r p a ra a m a çon a ria req u e r a ções


e votos in com p a tív eis com as E scritu ra s; ... a p a rticip a çã o na m a ­
çon a ria com p rom e te s e ria m en te a f é e o te stem u n h o cristã o; ... a
p a rticip a çã o na m a çon a ria e a ativid a d e nos seu s ritua is levam a
u m a d ilu içã o d o com p rom iss o com C risto e com se u R eino. A s E s ­
critu ra s d izem e n fa tica m e n te q u e o C ristão n ã o p o d e te r d ois m es­
tre s...” , dizem, amparados em várias passagens bíblicas, os que
em 1987 apoiaram a moção antimaçônica da Assembléia Geral
da Igreja Presbiteriana da América (EUA)6.
“O D e u s d os m açons, o G ra n d e A rq u ite to d o U niverso, é u m
con ce ito q u e p o d e s e r aceito p o r m u itos q u e sã o livres p a r a n u trir
in te rp reta ções à su a vontade. M a s esse n ã o é o en ten d im en to qu e
se te m d e D eus, S u a N a tu rez a e P ropósito, com o revela d os p a ra
n ós em J e s u s C risto e n a s E scritu ra s...”, assinala a nota “Os
Batistas e a Maçonaria”, emitida pela União dos Batistas da Es­
cócia, e endossada pelas congêneres da Irlanda e Grã-Bretanha,
em 1987.7

Em realidade os acontecimentos do último quartil deste sé­


culo servem-nos de instrumento para compreender o acirramento
do contencioso entre religiões e a Maçonaria, e em especial, dos
fundamentalistas evangélicos norte-americanos com a Ordem.
O discurso fundamentalista, de coloração teológica, serve de
estratégia para o ataque às organizações e culturas que, na sua
visão estereotipada radical/conservadora, representam am ea­
ças às tradições. As motivações que sustentam tais movimentos
de oposição à Ordem têm raízes mais profundas do que o dis­
curso antimaçônico deixa-nos antever.

'Trata-se de afirmação expressa em decisão da Igreja Presbiteriana da América, reproduzida na obra


antimaçônica: J. Scott Horrel, “Maçonaria e Fé Cristã". Ed, Mundo Cristão, São Paulo, 1995, págs. 137-
47.
7Texto, traduzido pelo autor, encontrado em seu original na Internet, e facilmente obtido também na
missão cristã ABBA II , tel. 001-619-487-7746. Tradução completa desta declaração consta de
anexo da obra J. Scott Horrel, * Maçonaria e Fé Cristã”. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, 1995, págs. 149-
156.
126 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Ricardo Gondim, escritor e pastor evangélico brasileiro da


nova geração, identificado com a visão fundamentalista, que éles
próprios preferem agora chamar de conservadora, avalia o ce­
nário atual com um a lúcida e simples observação:

“Q u a n to m a is p lu ra lis ta f o r u m a so cie d a d e, m a is p ro fu n d a s
d e v e m s e r a s su a s con vicções. S em con v icçõ es p e s s o a is , o cren te
ou se fe c h a no tra d icio n a lism o e leg a lism o ou vive à m ercê d a s
ú lt im a s m o d a s i d e o ló g ic a s o u d o u t r in á r ia s . O c r e s c e n t e
fu n d a m e n ta lis m o is lâ m ico d e m o n s tra q u e na P ó s -m o d e m id a d e ,
q u a n d o a s p e s s o a s s e n te m -s e a m e a ç a d a s , te n d e m a se
e n trin c h e ira r em u m co n s e rv a d o ris m o extrem o. P a s s a a v a le r o
a p e go à in stitu içã o e n ã o m a is u m a con vicçã o p róp ria . ”8

Se a obra do pastor Gondim não fosse conhecida, diría que


sua afirm ação traz certo tom preconceituoso, ao atribuir ao
fundamentalismo islâmico o caráter defensivo conservador ex­
tremo, como diz. Toda a obra do pastor Gondim, até agora
publicada, tem se caracterizado pelo equilíbrio, sobriedade, se­
riedade analítica e, sobretudo, pela honestidade intelectual da
ab ord agem , d ig a -se a bem da verd a d e. N a rea lid a d e, o
entrincheiramento por ele referido é universal - reconhecido por
outros autores e estudiosos secularistas diversos como S.
Huntington, E. Hobsbawm, John Naisbitt e Lester C. Thurow -
em todas as tendências religiosas radicais e, específicamente,
entre os protestantes americanos da linha que temos chamado
de neofundamentalista.
O pós-modernismo e todo o seu inexorável arsenal de alte­
rações no cotidiano de cada um, as novas facilidades de comu­
nicações invadindo nossa vida e plasmando nossa forma de pen­
sar e agir, a universalmente presente informática e engenharia
genética com suas inovações, têm todos muito a ver com a pola­
rização das lideranças religiosas. O evidente indicador de tudo
isto é que as correntes fundamentalistas têm apresentado pu­
blicamente suas posições acusatorias de forma mais veemente
e ostensiva nos últimos vinte anos. Atirando contra diferentes
focos de “am eaças”, essas mesmas posições são endereçadas

8Ricardo Gondim, “Fim do Milênio: Os Feriaos e. Desafios da PóR-mndemMnde?. Abba Press, 1996.
pág. 77.
ANTIM AÇONARIA 127

aos secularistas em geral, ao liberalismo dos governos e às or­


ganizações atuais. Suas diatribes se movem contra a liberalida­
de com que os governos estão tratando os valores que sempre
defenderam: proibição do sexo fora do casamento, a condena­
ção ao homossexualismo, a hierarquia sexual consagrada no
patriarcado tradicional segundo a qual o homem é necessaria­
mente o cabeça da família e da sociedade como um todo, a con­
denação do aborto, a defesa de criacionismo, a teoria da criação
do homem e da natureza por Deus e a conseqüente condenação
de qualquer teoria científica, e seus mentores, que sustentar o
contrário, a valorização da ética conforme explicitada literal­
mente na Bíblia, e assim por diante. Os maçons, eqüidistantes
dessas querelas teológicas, ocupando suas atenções com outra
sorte de problem as hum anos, são vistos sob suspeita. Os
antimaçons os vêem, por tais motivos e visões, comprometidos
com posições anticristãs, contrárias portanto à verdade bíblica,
conforme entendem.
Esgotadas as ameaçadoras forças do comunismo, após a
queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, o discurso
político fundamentalista sofreu momentâneo revés. Perdeu-se
no vácuo da nova realidade internacional, agora sem o temível
poder vermelho a se apresentar como poderoso inimigo, repre­
sentante de Satã na terra. Outras frentes, inimigos novos, vis­
tos como ameaças às posições que defendem, são encontrados
e combatidos, custe o que custar. A criação de inimigos é parte
de um a lógica de sustentação do fundamentalismo. É seu ali­
mento natural.
As alegadas ameaças ao modelo e aos valores tradicionais
americanos, alicerçados na Bíblia, são exacerbadas e embates
insólitos promovidos por facções fundamentalistas são relata­
dos na imprensa diária. Nos últimos vinte anos, tem-se obser­
vado o recrudescimento nos EUA das manifestações públicas
contra o aborto, contra o homossexualismo, contra seitas ditas
heréticas, contra o movimento denominado Nova Era, contra o
ocultismo, a favor de orações nas escolas públicas, contra os
movimentos feministas e contra a maçonaria. A Ordem maçôni-
ca é um dos alvos, embora não o único, dos fundamentalistas.
A agenda do neofundamentalista é cada vez mais apresen­
tada com tons políticos. A defesa do seu terreno tem de se con­
centrar não somente no seio das igrejas - isolando tendências
128 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ditas subversivas, modernistas e seculares - como também no


meio ambiente, influindo no poder estabelecido e tentando as-
sumir o comando em contraposição às hordas seculares.
Nesta virada de milenio, os antimaçons de hoje, que aqui
preferimos chamar de neo-antimaçons, estão entre pastores evan­
g é lic o s , p r e g a d o r e s e e v a n g e lis ta s , id e n tific a d o s com o
fundamentalistas e neofundamentalistas. A bem da verdade, é
preciso que se observe que ainda que os atuais antimaçons se­
jam , em sua maioria, fundamentalistas e neofundamentalistas
a recíproca não se verifica necessariamente. Nem todos os pro­
testantes fundamentalistas são antimaçons. Temos conhecido
muitos respeitados protestantes tradicionais, conservadores e
fundamentalistas indiferentes ou favoráveis à Ordem. Alguns
deles são maçons, conforme mencionados ao longo desse traba­
lho, mais adiante.
A dinâmica do movimento fundamentalista protestante nos
EUA, porém, é mais complexa do que se pode imaginar numa
primeira aproximação. O movimento e seus porta-vozes estão
presentes em igrejas das diferentes denominações9protestantes:
b a tis ta s , e p is c o p a is , p r e s b ite r ia n o s , c o n g r e g a c io n a is ,
pentecostais, luteranos e metodistas, para citar as principais.
Há igrejas independentes, megaigrejas, até mesmo novas deno­
minações com toda infra-estrutura editorial e de ensino, cria­
das sob inspiração da ideologia fundamentalista. Outras deno­
minações demonstram certa indiferença ou mesmo são refratá-
rias às posições dos fundamentalistas. Esses últimos, entre­
tanto, segundo levantamentos recentes, têm crescido nos EUA,
em detrimento de certa estagnação das denominações mais tra­
dicionais, ditas, históricas [com exceção dos batistas do sul dos
EUA que acusam crescimento].
Grupos fundamentalistas há que são independentes, con­
tam com seus próprios organismos, seus seminários, suas or­
ganizações missionárias e evangelistas, seus líderes, suas edi­
toras, suas emissoras de rádio e TV, publicações, seus “websites”
na Internet, seus políticos e apoiadores financeiros. Missões in-

9Denominação, vocábulo usual dos protestantes para designar especial igreja histórica ou conjunto de
igrejas identificadas por um mesmo corpo de doutrina e prática: presbiteriana, batista, metodista,
congregacional, episcopal, luterana e mesmo as demais surgidas mais recentemente, com o por exem­
plo os pentecostais, holyness,...
ANTIM AÇONARIA 129

ternacionais, contando com o seu respaldo, já se espalham pelo


mundo afora com seus discursos, teologías e publicações, con­
forme analisam S. Brouwer, Paul Gifford e S. D. Rose em recen­
te obra publicada nos EUA, “Exporting the American Gospel -
Global ChristianFundamentalism” [Exportando o Evangelho Am e­
ricano - Fundamentalismo Global Cristão]10. Seus discursos e
posições sociopolíticas têm se apresentado na mídia em diferen­
tes oportunidades, ainda que nos países periféricos possam ter
ênfases diferentes. Para fins de sintetizar seus caracteres pre­
ponderantes, vale resumir suas posições atuais, concentradas
contra:

• o aborto;
• o liberalismo sexual;
• os movimentos feministas;
• as minorias homossexuais (ga y s e lésbicas);
• as minorias imigrantes (nos EUA, principalmente, latinos,
asiáticos e africanos);
■os movimentos identificados com a chamada N o va E ra (N ew
A g e );
• os movimentos “conspirando” em favor do “governo mun­
dial”, ou “Nova Ordem Mundial”, conforme dizem;
• as igrejas e denominações protestantes ditas modernistas
ou liberais;
• as seitas, ditas heréticas (Mormonismo, Ciência Cristã, Tes­
temunhas de Jeová, Adventistas e outras);
• a maçonaria (tratada como uma religião pagã e, portanto,
anticristã e satânica);
• os judeus, por suas articulações internacionais com gran­
des grupos econômicos;
• a Igreja Católica Romana (por suas doutrinas consideradas
idólatras e místicas, afastadas das Escrituras Sagradas);
■o Islamismo (diante de seu crescimento no Ocidente, parti­
cularmente entre os negros nos EUA);
• a erudição (a intelectualidade, a academia) - principalmente
aos que contestam as interpretações literais da Bíblia, à luz da
ciência, da crítica textual e da história.

Ao lado das posições de franco ataque aos movimentos e


p o s iç õ e s a c im a , o u tro c a r á te r im p o r ta n te da p o s iç ã o
fundamentalista atual evidencia verdadeira paranóia coletiva.
Está ligado à chamada “Teoria da Conspiração” . Há nos EUA

10V. Bibliografia.
130 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

atualmente um a discussão apaixonada em torno do que os


fundamentalistas, e seus parceiros políticos conservadores, con­
sideram como um a grande conspiração internacional visando o
estabelecimento de um a NOVA ORDEM MUNDIAL, com propó­
sitos de destruição do poder e liderança dos EUA e seus valores.
A acusação contra tal movimento tem suas baterias de ataque
contra organizações como a ONU, a Trilateral Comittee, o Fede­
ral Reserve Bank (Banco Central Americano), Council ofForeign
Relations (Conselho de Relações Externas), diversos jornais e
periódicos americanos ditos liberais, líderes políticos am erica­
nos, banqueiros internacionais, os judeus e, obviamente, os
maçons. Esta paranóia, evidentemente extravasa o ambiente
religioso e penetra na esfera política. Personagens como o tele­
evangelista Pat Robertson [ex-candidato à indicação do Partido
Republicano à Presidência da República], o pastor Jerry Falwell
[que vê inimigos de Cristo em cada legislador americano que
apóia a legalização do aborto e é contrário à oração nas escolas
públicas]11, e outros porta-vozes da nova onda fundamentalista,
têm ganho espaço promocional na mídia e propagado com m ui­
ta facilidade suas idéias (ou ideologias), entre as quais a conspi­
ração de maçons e outros em favor da NOVA ORDEM MUN­
DIAL.
Não tem os a pretensão de esgotar o tem a em torno do
fundamentalismo e do neofundamentalismo, com todos os seus
caracteres, que têm sido objeto de livros, panfletos, muitos
“websites” , páginas na Internet, artigos, shows na TV, reporta­
gens e elaborados projetos de pesquisa em universidades am e­
ricanas e européias de renom e12. Uns poucos aspectos e relatos
sobre esse movimento, porém, não podemos deixar de apresen­
tar neste trabalho, por sua relevância ao entendim ento da
antimaçonaria de nossos dias.
O movimento e seu discurso atual não pode ser todo ele

nBruce B. Lawrence, op. cit. pág. 105.


12Nos EUA, a University o f Notre Dame vem implementando com sucesso o Projeto Fundamentalismo.
tendo editado vários relatórios e ensaios sobre a matéria desde 1992, sob a liderança dos professores
Martin E. Marty e R. Scott Appleby. Outros centros de investigação, como a Duke University e a Univ.
o f Chicago, também nos EUA, têm concentrado especialistas (historiadores, sociólogos, teólogos e
antropólogos) no estudo do tema. Na Europa é importante destacar a contribuição até agora divulgada
pela Universidade Livre de Bruxelas, Bélgica. Algumas das publicações examinadas pelo autor estão
relacionadas na bibliografia deste trabalho.
AN TIM AÇON ARIA 131

identificado apenas com os princípios que o fizeram surgir nos


anos 20. Um a nítida radicalização, que o professor Bruce
Lawrence identifica como sua própria ideologia, perm anente­
m e n te c o n tr á r ia ao c h a m a d o m od ernism o [e a g o r a ao
neomodemismo], emerge neste fim de século, com cores políti­
cas de extrema direita13. A nova radicalização e o impacto que
o termo carrega têm sido tão forte que os demais cristãos evan­
gélicos, seguidores dos cinco pontos fundamentais estabeleci­
dos a p a rtir de 1912, p referem não m ais ser ch am ad os
Jundamentalistas. Optaram por ser chamados pura e simples­
mente de conservadores14. As acusações e os discursos atuais
não são dirigidos aos modernistas, conforme vistos no início do
século. Sustentamos, pelas evidências levantadas nos últimos
dez anos, que o que chamamos de “neo-antimaçonaria” é um
m ovim ento em ergente, id en tificad o com a exacerbação do
fundam entalism o protestante americano de 1985 em diante,
quando muitas publicações, vídeos e programas de rádio e TV
começam a circular atacando os maçons, os modernismos atu­
ais representados pelo relaxamento da ética, da moral e dos
valores cristãos, a invasão de culturas [leia-se religiões] estra­
nhas e exógenas, as reações - por meios insólitos - só com pará­
veis ao julgam ento de Scopes em 1925, e o ataque a outros
movimentos e organizações considerados - e interpretados por
eles - como ameaçadores ao status quo. Todos considerados ver­
dadeiros agentes de Satã, conspiradores e inimigos do cristia­
nismo, dizem alguns dos seus porta-vozes.
George M. Marsden, eminente professor de História do Cris­
tian ism o na A m érica, na E scola de D ivin d ad es da Duke
University, tem dedicado boa parte de sua vida ao estudo do
surgimento, desenvolvimento e impacto do fundamentalismo na
c u ltu r a a m e r ic a n a no p r e s e n te s é c u lo . N a su a o b ra ,
“Understanding Fundamentalism and Evangelicalism” [Entenden­
do Fundamentalismo e Evangelismo] enuncia de maneira muito
direta e simples o que entende como fundamentalismo nos dias

13Bruce B. Lawrence, “Defenderá ofG od - The Fundamentalist Revolt Aaainst the M odem Aaé”. Univ. of
South Carolina Press, 1989. págs. 90-101.
14Deste ponto em diante, uso indiferentemente os termos conservadores e Jundamentalistas com o
mesmo significado. São os representantes da corrente que se originou da publicação dos livretos “The
Fundamentais”, pelos professores da Univ. de Princeton, já citados. O neofundamentalismo é uma
exacerbação, ou radicalização ideológica, de um subgrupo daqueles. Estão surgindo nas três últimas
décadas deste século.
132 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

atuais. Diz ele, ao se referir ao fenómeno observado nos


EUA:

“Um fu n d a m e n ta lis ta é u m e v a n g é lico a b o rrecid o com algu m a


coisa. O q u e p a re c e s e r m u ito sim p les e é ra zo a ve lm e n te p reciso .
J e rry F a lw e ll [c o n h e c id o t e le e v a n g e lis t a a m e r ic a n o ,
fu n d a m e n ta lis ta ] a d ota es se conceito, q u e m uito aprecia, nos seu s
d e p oim en tos aos jo rn a lis ta s q u e o p ro cu ra m . M a is p re c is o en u n ci­
a d o do m es m o p o n to é q u e u m fu n d a m e n ta lis ta a m erica n o é u m
eva n gélico q u e é u m m ilita n te e m op o siçã o à teologia lib era l nas
igreja s ou a m u d a n ça s em va lores cu ltu ra is ou m a is ou tra s coisa s
ta is com o a q u ela s a s socia d a s com o “h u m a n is m o s e c u la r”. D e um a
ou ou tra fo r m a p a ra e n u n cia r este con ceito o qu e im p orta é q u e o
fu n d a m e n ta lis ta é u m s u b tip o d e ev a n g élico e a m ilitâ n cia é seu
tra ço essencia l. F u n d a m en ta lista n ã o é e x a ta m e n te o religioso con ­
se rva d or, ele é o c o n s e rv a d o r q u e d e s e ja to m a r u m a p o s iç ã o e
lu ta r p o r ela. ”15

Por trás das acusações teológicas, traço característico do


discurso fundamentalista contra os maçons e as seitas satâni­
cas, esconde-se um a luta pelo poder. Articula-se a luta pelo
controle do poder, seja nas denominações religiosas, seja nas
próprias igrejas, seja nas escolas ou então na própria sociedade
- nos p o s to s -c h a v e s de go vern o . M u d an ças no cen á rio
psicossocial são vistas como engendradas por Satã, no seu pro­
pósito de controlar o mundo. Trata-se de ameaças que devem
ser enfrentadas. Defendamos o nosso pedaço, mantenhamos os
nossos espaços impedindo o crescimento do inimigo a todo cus­
to. Esta é a lógica interna do novo movimento. E a maçonaria
estaria incomodando e muito, como parte integrante desse mun­
do em mudanças e ameaças.
Ao longo desse período considerado, recrudesceu, por exem­
plo, um debate público em alguns estados americanos em torno
do ensino religioso e da prática de orações nas escolas públicas.
Preocupados com o que denominam de invasão m aterialista no
ensino, neofundamentalistas - contestando princípios de liber­
dade religiosa estabelecidos na Constituição - propõem orações
nas escolas públicas, o sustento de escolas confessionais com

15G.M. Marsden, “ U n d e r s ta n d in a F u n d a m e n ta lis m a n d E v a n a e lic a lis m ” . William B. Erdmans Publ. Co.,


Grand Rapids, Mich. 1991, pág. 1 [o texto reproduzido nesta citação é de tradução livre do autor].
ANTIM AÇONARIA 133

recursos do poder público e a proibição do ensino de teorias


que se oponham ao ensino bíblico da criação16. De outro lado, a
discussão sobre o aborto, o feminismo e o homossexualismo
tem tomado feições febris em alguns locais dos EUA. Hospitais e
clínicas instalados em estados am ericanos que aprovaram o
aborto, são violentamente atacados por grupos contrários a tal
prática. A Clínica New Women, pertencente ao complexo médi-
co-hospitar da Universidade do Alabama, Birmingham, Alabama,
foi atacada em janeiro de 1998 por uma bomba que matou uma
pessoa, feriu outra e destruiu boa parte das instalações17. E
este é apenas um dos diversos casos similares registrados nos
últimos dez anos. O ataque às minorias homossexuais se tor­
nou lugar comum. A Convenção Batista do Sul (CBS) dos EUA,
formada em 1845, a maior denominação evangélica americana,
reunindo atualmente uma população de mais de 17 milhões de
crentes, aprovou na sua Convenção Anual de 1996, com a
presença de cerca de 13 mil delegados, um a decisão recomen­
dando às igrejas filiadas o boicote a Disney Co. por seu declara­
do apoio aos movimentos dos Gays e Lesbians. A mesma deci­
são deixou explicitada sua posição contra a famosa e tradicio­
nal organização-ícone americana, em defesa da família, ao de­
clarar textualmente:

“In recen t yea rs, th e D is n ey Co. has g iv e n th e a p p e a ra n ce th at


th e p ro m o tio n o f h om osexu a lity is m ore im p o rta n t th a n its historie
com m item e n t to tra d ition a l fa m ily va lú e s .”18 [Nos últimos anos, a
D isney Co. tem dado a entender que a prom oção do
homossexualismo é mais importante do que seu compromisso
histórico com os valores tradicionais da família.]

Outro fato relevante, ligado a um a nova decisão da CBS foi


veiculado nos jornais do Brasil. “Igreja Batista prega a submis­
são feminina”, estampou em grandes letras “O Estado de S. Paulo”
em sua edição de 11 de junho de 1998. Reproduzindo artigo do
New York Times, assinado pelo jornalista americano Gustav

16Grady C. Cothen, “ The New SBC - Fundamentalism’x Imnact on the Southern Baotist Convention".
Smith & Helwys Publishing, Inc.,1995. págs. 87-99.
170 Estado de S. Paulo, 30/01/98.
' »SOUTHERN RAPTIST CONVENTION AND HOMOSEXUAUTY. publicação veiculada na Web em 1997,
com link na página OCRT, sobre Homosexuality and Religión.
134 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Niebuhr, a reportagem relata decisão - agora nada surpreen­


dente - da grande maioria dos mensageiros presentes na Con­
venção Batista do Sul reunida, em Assem bléia Anual em Salt
Lake City, em 08 de junho de 1998, emendando a “Declaração
de Crenças Essenciais” . Pela emenda, passa a fazer parte do
cânone batista a declaração de que a m ulher deve se submeter
“afavelmente à liderança do marido, e o marido deve proteger e
liderar a familia e prover suas necessidades”.19
A CBS é Ultimamente comandada por pastores, profes­
sores, evangelistas e teólogos fundamentalistas, de urna ala mais
radical, neofundamentalista, que nos últimos cinco anos logra­
ram deslocar antiga liderança, dita e considerada por eles, m o­
dernista ou m oderada [também denominada liberal]. Esta m es­
ma CBS, não por coincidência, nem por acaso, foi palco - desde
1985 - de urna das m ais contundentes disputas entre neo-
fundamentalistas e a maçonaria, conforme apreciaremos mais
adiante. Quando, segundo analistas, teria se iniciado (e orques­
trad o) a c o n q u is ta de p o s to s -c h a v e s da CBS p elo s n eo-
fundamentalistas. Neste mesmo período, surgiram movimentos
contrários à ascensão das mulheres às posições de liderança
nas igrejas. Congregações, das mais diversas denominações pro­
testantes, de preponderância fundamentalista ou instigadas por
líderes dessa tendência, foram levadas a negar o direito à m u­
lher de ocupar posição no ministério da pregação, como pasto­
ras ou até mesmo como diaconisas, com base em interpretações
literais de passagens isoladas do Novo Testamento.
Toda esta exacerbação de final de Séc. XX tem ainda outras
raízes e desdobramentos. Para boa parte dos religiosos, cristãos
ou não, o final do século, coincidindo com a entrada do novo
milênio, traz à baila a teologia escatológica, ou do final dos tem ­
pos, radicalizando a visão profética e apocalíptica. As m ensa­
gens bíblicas a respeito do fim do mundo, da vitória da Igreja,
do aniquilamento do mal, do estabelecimento do novo reino vi­
torioso e divino são invocadas constantemente para dar expli­
cações sobre estes ou aqueles movimentos ou eventos, como
evidências da proximidade do fim do mundo. De certa forma, a
movimentação neofundamentalista atual é acentuada e, diría-

19“O Estado de S. Paulo”, 11 de junho de 1998, pág. A14.


AN TIM AÇ O NARIA 135

mos, em boa parte motivada, pela expectativa da Segunda Vin­


da vitoriosa de Cristo20, já na virada do Séc. XX. Ainda que o
Evangelho não assinale datas, pelo contrário, chame a atenção
para a imprevisibilidade de tal acontecimento,

“P o rta n to vigia i e ora i p o rq u e não sa b eis o d ia em qu e vem o


voss o Senhor. M a s con s id era i iss o: S e o p a i d e fa m ü ia so u b es se a
q u e hora vin a o ladrão, vigia ria e não d e ixa ria q u e fo s s e a rro m b a ­
d a a su a casa. P o r isso fic a i ta m b é m vós a p e rce b id os : p o rq u e , a
h ora em q u e n ã o cuidais, o F ilh o d o h o m e m virá .” (Mateus 24:42-
44), como assinala o próprio Cristo.

As fábulas, as conhecidas profecias de Nostradamus, m i­


tos, fantasias diversas e as tradições, criaram nas mentes dos
crentes a idéia de que o ano 2000 m arca o fim da humanidade,
a vinda do Messias dos judeus, ou o estabelecimento do novo
Reino esperado pelos cristãos e o início do ansiosamente aguar­
dado milênio final. Esta proximidade do fim, conforme crença
c o r r e n te in s tig a d a p o r p ro fe ta s , p o r ta -v o z e s do n eo-
fundamentalismo, pelos adventistas e teleevangelistas de ênfa­
se apocalíptica, faz, de todos estes, intérpretes e “ajudadores”,
ou como diz o professor Bruce B. Lawrence21, “defensores de
Deus”, com o propósito de acelerar a Segunda Vinda de Cristo.
Desta maneira estaria sendo montado o cenário, com cris­
tãos neofundamentalistas - detentores e intérpretes da verdade
absoluta - preparando o terreno para o estabelecimento do rei­
no terrestre, isolando os contrários, apontando os grandes vi­
lões, os que estão sob domínio de Satã, os perdidos pagãos e,
certamente, os anticristos. Se do lado de lá estão os hereges,
fujam deles e os denunciem. Assim fica o claro que, ou quem, é
de Deus e quem é de Satã, conforme interpretação deles.
Segundo sua concepção, os maçons estão do lado oposto
aos herdeiros do reino: portanto, é urgente assestar as armas
contra aqueles inimigos dos cristãos, que vivem nas sombras do

20A crença na Segunda Vinda de Cristo, para o estabelecimento na terra do Reino de Deus, é um a das
doutrinas fundamentais, esposada pelos cristãos com base nas promessas do próprio Jesus nos Evan­
gelhos e nas visões de São João Evangelista no livro do Apocalipse. O retom o corpóreo de Cristo
vitorioso e como ju iz neste esperado evento, denominado no grego ícaponoiao [PAROUSIAS], constitui
um dos cinco pontos do “TheFundamentais” que lastreiam o fundamentalismo cristão.
21Autor da obra “De fenders o f God - The Fundamentalist Revolt Aaainst the M odem Aoe” (v. Bibliogra­
fia).
136 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

paganismo, como forma de facilitar o caminho do estabeleci­


mento do Reino de Deus e Segunda Vinda.
Destruir a Ordem dos Maçons Antigos, Livres e Aceitos é
objetivo declarado de alguns notorios antimaçons americanos.
W illiam Schnoebelen é enfático ao convocar seus seguidores à
um a m ilitância contra a Ordem:

“ O s cristã os p re c is a m c o m b a te r nas lin h a s d e fre n te , no p r ó ­


p r io ca m p o d o in im ig o (Sicl). P recisa m o s a rru in a r as fo rta le z a s do
p e c a d o e d a d e scren ça nas cid a d ela s do p od e r. A fra n c o -m a ç o n a -
ria é u m a das m a iores d e ss a s fo rta le za s . ... O s cristã os p re c is a m
co m e ça r as op era ções m ilita res con tra os p rin cip a d o s d a fra n c o -
m a çon a ria em su a área, e na terra com o u m todo. ”22

Todos os demais porta-vozes desse movimento falam no mes­


mo tom. Ê como se estivessem dando uma mãozinha ao serviço
de Deus, um a espécie de catalisador humano de um processo a
ser desencadeado por Deus, para o estabelecimento do Seu Rei­
no, à medida que alertam os fiéis cristãos para as ameaças que
possam acontecer caso se aliem a maçons, ou a quaisquer ou­
tros hereges, identificados com o poder das trevas. Vale a pena
rever o que a National Christian Association, organização pio­
neira do fundamentalismo, apregoou a respeito da sua missão
na terra, com o “D efen sora de D eu s” , paradigm a da neo-
antimaçonaria:

"... from three fourths to nine-tenths of the world’s population


are deluded, taxed, and more or less corrupted by secret societies
in pagan and Christian lands. God has raised up the National
Christian Association to meet and change this fearful State of
things, and thus ‘Prepare the way of the Lord’ to come and reign
on this earth...”
[ ...“d e três qu a rto s a nove d é cim os d a p o p u la çã o m u n d ia l está
iludida, ta xad a, e m ais ou m en os corrom p id a p o r so cie d a d es s e ­
creta s em te rra s p a g ã s e cristãs. D e u s tem leva n ta d o a N a tion a l
C h ris tia n A s s o c ia tio n p a ra e n co n tra r e m o d ifica r es s e te m e rá rio
esta d o d e coisas, e a ssim ‘P re p a ra r o ca m in h o d o S e n h o r’ p a ra vir
e re in a r n esta te rra ...”] 23

22W. Schnoebelen, “ Mnmnnrin - Do Outra lM.do da Lu 2f . CLC Editora, São José dos Campos, 1995. pág.
267.
“ National Christian Association, “ANTI-MASONIC SCRAP BOOK”. 1996 Acacia Press . [ Originalmen­
te publicado em 1883, Chicago, Illinois.]
ANTIM AÇONARIA 137

Diante desse com plexo cenário, subm etido a aceleradas


mudanças radicais, onde os principais atores têm seu papel:
maçons, pregadores fundamentalistas, secularistas, políticos,
jornalistas, dirigentes governamentais e pesquisadores, cábe­
nos identificar dados essenciais para entender as motivações,
relações entre os atores, e objetivos desse m ovim ento neo-
antimaçônico.
Resolvemos dividir esta apreciação em quatro partes nas
quais a Ordem dos Maçons, Antigos, Livres e Aceitos é colocada
no banco dos réus, ficando a acusação por conta dos antimaçons,
cristãos evangélicos fundamentalistas, considerados os “De­
fensores de Deus” deste fim de milênio:

• A maçonaria como agente da conspiração da “Nova Ordem


Mundial”.
• A maçonaria e a visão apocalíptica do final dos tempos.
• A maçonaria, a religião pagã, satânica.
• O Caso da “Conquista” da Convenção Batista do Sul dos
EUA.

Nas três primeiras partes relatamos e ensaiamos um a in­


terpretação sobre as mais comuns acusações levantadas con­
tra a Ordem e as motivações correspondentes. Na última acha­
mos por bem abordar um dos mais intrigantes ‘casos” envolven­
do um a ação orquestrada por neofundamentalistas infiltrados
na maior denominação evangélica americana, e os resultados
da ação iniciada com o objetivo, entre outros, de atingir os
maçons membros desta mesma denominação. Na realidade, este
“caso” é um a das demonstrações da disputa, e conquista, do
poder, verificada num dos mais importantes grupos socio-religi-
osos da sociedade americana.

6.1 A Maçonaria, Agente da “Nova Ordem Mundial”: Uma


Conspiração em Curso

Convido o prezado leitor a ter em mãos um a nota de 1 dólar


americano. Na face oposta à da efígie de George Washington,
encontramos um símbolo, o grande selo americano: a pirâmide
truncada construída por camadas de pedras unidas, encimada
138 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

pelo olho-que-tudo-vê, tendo ao seu pé a inscrição “NOVUS


ORDO SECLORUM” , por alguns, não familiarizados com o La­
tim, traduzido de forma propositalmente distorcida como Nova
Ordem Mundial.
George Washington, o pai da nação americana, líder do m o­
vimento da independência, primeiro presidente, foi, como é bem
sabido, também um maçom dedicado que chegou a ser indicado
G rã o -M estre dos E sta d os U n id os, p ela G ran d e L o ja da
Pennsylvania, em 20 de dezembro de 1779, como relata-nos a
história.24
Muitos maçons, inclusive os brasileiros, vêem - com certa
dose de orgulho - a presença da maçonaria, que lançando mão
de símbolos e alegorias que lhes são familiares, registra-as na­
quela nota, que hoje circula em todo o planeta. Mal sabem eles
que é faca de dois gumes. Os neo-antimaçons americanos estão
usando a mesma simbologia, publicamente assim exibida, e cir­
culando em todo o planeta, para denunciar suposta conspira­
ção universal contra o status quo envolvendo os maçons.
Os neofundamentalistas deploram, ou melhor, temem, qual­
quer idéia ou movimento que antecipe mudanças na estrutura
do poder atual. A simples menção, ou mesmo hipótese, de uma
Nova Ordem envolvendo articulações internacionais, comunica-
lhes a idéia [ameaçadora] de nova form a de governo, agora mun­
dial, engendrada por poderes ocultos que conspiram nos basti­
dores contra o governo atual das nações e, em particular, con­
tra o status quo, os valores e a liderança americanos. A m aço­
naria é um desses poderes ocultos. Uma das provas cabais de
tudo isto está na nota de 1 dólar, que, dizem eles, inspirada e
desenhada pelos maçons, com seus símbolos, já pregava o
desejo, ocultamente planejado, de um a NOVA ORDEM MUNDI­
AL desde 1776. O lançamento desta nota com o desenho atual,
que se deu em pleno governo do maçom Franklin D. Roosevelt,
incluindo a simbologia dita de inspiração maçônica, foi obra do
Banco Central Americano (Federal Reserve Bank) que, segundo
os antimaçons, está também envolvido na mesma trama para o
estabelecimento da NOVA ORDEM MUNDIAL. A difusão mundi­
al dessa mensagem cifrada nos símbolos do Grande Selo Ameri-

24Daniel Ligou, “Dictionnaire de la Franc-Maconnerif?. Presses Univ. de France, Paris, 1987. pág. 1.245.
ANTIM AÇONARIA 139

cano, circulando internacionalmente na nota de um dólar, é urna


demonstração de um desiderato oculto que tem nos maçons os
agentes essenciais.
Embora sem invocar toda esta argumentação explícitamen­
te, J. Scott Horrel, antimaçom americano, vivendo no Brasil como
professor na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, apre­
senta nas primeiras páginas de sua obra, “Maçonaria e Fé Cris­
tã”, um a afirmação a respeito da historia americana, por ele
interpretada, com ares de verdade absoluta, transparecendo
algumas impropriedades e traços evidentes de preconceito con­
tra a Ordem Maçônica:

“N a h istoria am ericana , a m a çon a ria con ta com nom es ta is com o


B e n ja m ín Franklin, J o h n H a n cock , M a rk Tw ain, ... e ca to rze p r e s i­
dentes, en tre e s te s F. R oosevelt, Trum an,..., F o rd e R ea ga n . G eorge
W ashington, o p rim e iro p re s id e n te d os E U A , f o i u m d os m a çon s
m ais d e d ica d o s e o en tã o ú n ico G rã o-M estre m a çom (Sic!) d e to d a s
as tre ze colon ia s d e su a ép o ca (Sic!). N ã o é p o r aca so q u e a céd ula
do d ó la r am ericano, com o retra to d e W a sh in gton estam pad o, tra z
a p irâ m id e , o olh o esqu erd o, a águia, o es qu a d ro e ou tros s ím b o­
lo s m a ç ô n ic o s (S ic ! ) j u n t o c o m a s p a la v r a s N O V U S O R D O
S E C L O R U M ( ‘nova ord em d os s é cu los j . ”25

Seguem-se ilustrações da nota de um dólar, acompanha­


das de “explicações” sobre os símbolos nela apresentados, atri­
buidos todos à maçonaria26. Em realidade, a intenção não de­
clarada, mas patente nas entrelinhas da obra, está em apresen­
tar o mote NOVUS ORDO SECLORUM associado à maçonaria. E
este é um ponto de partida da chamada Teoria da Conspiração,
difundida na sociedade americana pelos representantes da cor-

25J. Scott Horrell, “Maçonaria e Fé Cristã”. Ed. Mundo Cristão, 1995. págs. 19-21.
26A bem da verdade, diga-se que o Prof. Horrel atribui a um escritor maçom brasileiro, Joaquim
Gervásio Figueiredo, todas as afirmações que faz a respeito dos símbolos do Grande Selo, identifica­
dos como maçônicos. Esta é um a prática usual dos antimaçons: citar como verdades maçõnicas
absolutas afirmações isoladas de autores maçons. Afirmar, como faz o texto, que a águia branca
exibida é um símbolo maçònico, figura comum na maçonaria, especialmente os altos graus, é - no
mínimo nada conhecer da fauna norte-americana e, muito menos do simbolismo tradicional atribuído
à águia. A mesma ordem de idéias e críticas ao Prof. Horrel - que aceita in limine os argumentos de
Gervásio - pode ser levantada com respeito à interpretação atribuída aos símbolos do esquadro, da
balança e da chave que descobre na nota de 1 dólar, e outras tolices similares. Ou se trata de um
tratamento pueril, para complicar a mente dos incautos ou retrata a ignorância do real significado
simbólico por trás de tão evidente e histórica mensagem implícita no Grande Selo, cuja historiografia
não deixa margem a dúvidas. Qualquer investigação mais aprofundada mostrará que muitos desses
símbolos são anteriores à maçonaria dos “aceitos” , que apenas os incorporou aos seus ensinos muito
tempo depois de 1717. É o caso do olho-que-tudo vê, da águia, da balança, da chave e do triângulo.
A Aguia, conforme exibida no selo, é o símbolo por excelência da fauna dos EUA, nada mais que isto.
140 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

rente neofundamentalista, acusando maçons de, juntamente com


representantes de outros órgãos internacionais, estarem cons­
pirando para implantar um governo mundial (uma nova ordem),
derrubando os poderes atuais, como o da nação norte-america­
na. A prova cabal seria a concepção do grande selo americano,
estampado na nota de um dólar, de responsabilidade dos maçons
americanos que, por baixo do pano, já urdiam uma trama para
criar um a nova ordem mundial desde 1776. Ultimamente, con­
tando com o beneplácito do Banco Central Americano, respon­
sável pela edição e disseminação da mesma nota de um dólar,
os maçons e outros agentes, conspiram contra o establishment
norte-americano, dizem os atuais antimaçons.
A idéia do Prof. H orrel, repetim os, não tão claram ente
explicitada, não é original. É provável, quando muito, que pela
primeira vez esteja sendo trazida aos leitores brasileiros. Sua
proposição é en con trada em outros n eofu n dam en talistas/
antimaçons, que o precederam, e que são muito mais am pla­
m en te c o n h e c id o s e c ita d o s n a lite r a tu r a m a ç ô n ic a e
antim açônica dos EUA. Ralph A. Epperson, numa das obras
clássicas da antimaçonaria americana, “The New World Ordef’
(A Nova Ordem Mundial), publicada em 1990, relaciona e des­
creve os agentes da conspiração mundial que estaria em curso,
visando a derrubada do poder dos EUA. Epperson crê que um a
Nova Ordem Mundial será estabelecida no ano 2000, basean­
do-se no culto a Lúcifer. Para ele, o olho dentro do triângulo no
topo da pirâmide truncada, que aparece no grande selo dos EUA,
simboliza o deus sol Lúcifer - que estaria governando a nova
ordem estabelecida, desde então e alimentada, nos bastidores,
pelas ações de entidades malignas diversas como a maçona-
ria.27
Nenhum outro escritor, porém, explorou tão bem esse m es­
mo tema, com tão grande sucesso comercial nas vendas de seu
livro, como o teleevangelista, ligado aos batistas do sul dos EUA,
fundamentalista assumido - e magnata da mídia americana,
como o define John J. Robinson - o Rev. Pat Robertson.
Em 1991 Robertson publicou o best-seller “The New World
Order: It will Change the Way you Live”, (Word Publishing, Dallas,

27A. Ralph Epperson, “ T h e N e w W o rld O rd e r” . Publius Press, pág. 295.


ANTIM AÇONARIA 141

1991) (A Nova Ordem Mundial: Ela modificará a maneira como


você vive). Estima-se que foram vendidos mais de 400 mil exem­
plares até 1997. Sua obra causou impacto profundo no meio
evangélico, principalmente batista, por onde circula amplamen-
te. Robertson goza de grande projeção popular e tem sua com u­
nidade de fiéis seguidores. É um a espécie do brasileño Bispo
Macedo melhorado, com idêntico carisma religioso e visibilida­
de na mídia, acrescido de melhor formação acadêmica e forte
viés antimaçônico, além de bem adaptado ao gosto dos am eri­
canos. Exibe, como ele próprio diz, a mais legítima tradição pro­
testante anglo-saxônica. Seu pai, foi membro do senado e (o que
êle n orm a lm en te ocu lta) fo i m açom ilu stre. H oje, o Rev.
Robertson, multimilionário, é dono de grande cadeia de rádio e
TV, a Christian Broadcasting NetWork, United States Media
Corporation, and Operation Blessing, por onde circulam suas
mensagens e campanhas. Suas organizações incluem ainda: o
“Clube dos 700”, organização selecionada que mantém as ativi­
dades em defesa de suas ideologias, e o jornal Christian American,
acoplado com a fam osa organização política - identificada com
as propostas da direita radical repu blican a - denom inada
“Christian Coalition” (Coalizão Cristã), freqüentemente citada na
m ídia.28
Robertson tornou-se ainda mais popular quando em 1988
concorreu para indicação do seu nome como candidato à presi­
dência da república pelo Partido Republicano. Tem diversos li­
vros publicados. Esta obra, porém, tenta convencer o leitor da
existência de um a grande conspiração, em andamento nos bas­
tidores do poder central dos Estados Unidos, articulada com
entidades internacionais. Esta conspiração visaria submeter
todas as nações a um poder central único, destruindo os gover­
nos n acionais e varren d o do p lan eta o cristian ism o. Para
Robertson, os principais líderes americanos envolvidos com a
política e a ecomomia internacionais estão ligados, de alguma
forma, na mesma conspiração. Para citar alguns: Ronald Reagan,
Jim m y Cárter, Henry Kissinger, George Bush, David Rockefeller,
etc. Organizações como as Nações Unidas, o Banco Central
Americano e outras entidades de alcance internacional estari-

28John J. Robinson, “A Pilarim’s Path - Freemasonru and Retiaiaus R ia h f. M. Evans and Co, Inc., 1993,
págs. 62-3.
142 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

am envolvidas no mesmo complô. Além dessas organizações e


pessoas relacionadas pelo Rev. Robertson, boa parte da obra
vem dedicada ao papel da m açonaria em todo esse imbróglio.
Seu raciocínio antimaçõnico se desenvolve a partir do falso pres­
suposto do culto a Osíris, como sendo o Deus dos maçons, por
êle deduzido da interpretação distorcida (ou propositalmente
tendenciosa) que faz de um texto de Albert Pike, extraído de
“M orais and D ogm a” : S eg u n d o o te x to “ s e le c io n a d o p o r
Robertson” , Pike teria dito, como verdade sua:

“E v e ry th in g g o o d in n a tu re com es fr o m O siris.” [Tudo de bom


na natureza vem de Osíris.]

Dito desta maneira, completamente fora do contexto, e atri­


b u ída a um au tor con sid erad o au torid ad e em m atéria de
ritualismo e simbolismo maçônico, soa como verdade maçônica
absoluta. Significa dizer que Robertson induz seu leitor a pen­
sar que a afirmação de Pike, traduz um a verdade absoluta en­
dossada pelos maçons. Na realidade, introduzindo todo o con­
texto, o que Pike diz é:

“E v e ry th in g g o o d in n a tu re com es fr o m O siris, - order, h arm ony,


a n d fa v o ra b le te m p e ra tu re o f th e s e a so n s a n d cele s tia l p e rio d s ...”
[Tudo de bom na natureza vem de Osíris, - ordem, harmonia,
temperatura favorável nas estações e períodos celestiais...]

Trata-se de afirmação feita ao longo de um a extensa expla­


nação que Pike faz sobre a crença e mitologia dos antigos egíp­
cios, inserida no ritual do 24e Grau do rito, e não uma profissão
de fé dos maçons, como quer o Rev. Robertson induzir seus
leitores a p en sa r.29 Afirm ando ser Osíris divinizado pelos
maçons e como tal cultuado nos rituais, Robertson se volta para
o olho-que-tudo-vê no topo da pirâmide truncada do grande
selo dos EUA e faz suas ilações. Afirm a ser o símbolo de Osíris
dos Egípcios, revigorado e cultuado pelos maçons. Daí desen­
volve suas acusações contra a Ordem. Encontra no grande selo
americano as bases para suas afirmações. O olho é de Osíris, e

29Cf. J. J. Robinson, op.cit. pág. 64 e Albert Pike, “ Morais and Dnama o f the Ancient and Accepted
Scottish Rite o f Freemasonru’’.Chañeston. 5641 págs. 474-6.
ANTIM AÇONARIA 143

O olho-que-tudo-vê, posto no centro do triángulo e no topo da pirâmide, é simbolo da Providência


Divina, a velar pela construção da nova nação. Esta é representada pela pirâmide truncada formada
por treze camadas de pedras bem ajustadas umas às outras: simboliza as treze colônias, agora unidas
numa nação subordinada à força maior de Deus. A pirâmide truncada representa ainda a possibilida­
de de novas camadas virem a se ajustar às treze iniciais, o que de fato veio a acontecer.

A Águia de Cabeça Branca é antes de mais nada um símbolo nacional dos EUA, do
mesmo modo que o Urso Pardo é da Rússia, o Canguru é da Austrália e o Urso-
Panda da China. A Águia de Cabeça Branca empresta sua imagem à criação do
símbolo máximo da Nação norte-americana. Não se trata de invenção dos maçons,
como dizem os antimaçons, mas de um símbolo identificado com a nacionalidade.
Aliás, se é verdade que a águia é símbolo maçônico, também é verdade que tem sido
explorado como símbolo de outras naturezas: símbolo nacional usado nas armas da
Rússia, da Alemanha, do Iraque e muitas outras nações. A águia bicéfala, de acordo
com Mackey, foi pela primeira vez usada como símbolo no REAA, a partir de 1758.
Antes dessa data, o uso da Águia como símbolo maçônico é desconhecido na literatu­
ra.

“E PLURIBUS UNUM”, um dos mais expressivos “motes”, do Grande


Selo Americano pelo seu significado simbólico, quer dizer simples­
mente “UNIDADE NA PLURALIDADE”. Exprime o desejo, formulado
pelos pais da pátria, de ainda que constituída de treze colônias com
suas culturas próprias bem diversificadas entre si, a nova nação

A Estrela de seis pontas formada por treze estrelas menores distri­


buídas organizadamente outra vez representa a nova organização
das treze colônias unidas. Insistimos que se fixe a idéia: nada tem a
ver com simbologia maçônica, como sustentam alguns apressados
antimaçons.
As treze flexas na garra esquerda e o ramo de oliveira, tradicional símbolo da paz, na
garra direita, relembram a verdade eterna por trás de qualquer construção, princi­
palmente da edificação de um a nova nação, alegorizada no relato bíblico de Neemias
reconstruindo os muros de Jerusalém: ... “cada um com uma das mãos fazia a obra,
e com a outra segurava a arma” (Neemias 4:17). Esse princípio deixa claro que a
edificação conta com inimigos e por isto quem constrói deve estar permanentemente
preparado para defender seus domínios. Este princípio nada tem a ver com a maço-
naria, é antes de tudo bíblico e foi bem assimilado pelos que conceberam do Grande
Selo Americano.

O mote “NOVUS ORDO SECLORUM”, impropriamente traduzido pelos antimaçons como “NOVA OR­
DEM MUNDIAL” , é retirado de um poema de Virgilio que traduzido quer efetivamente transmitir a
idéia de “NOVA ORDEM DOS TEMPOS”. A nova nação, a primeira república da história, estava
inaugurando um novo modelo de governo fundamentado na razão, na liberdade, na igualdade e ou­
tros valores individuais e, portanto, livre das amarras dos totalitarismos que então vicejavam em
outras partes do planeta.
144 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

A Balança confere simbologia bem mais antiga e anterior à Ordem Maçônica. Embora seja encontrada
no Gr. 08 do REAA, a partir do Séc. XIX, não poderia ser imputada aos maçons a adoção desse
tradicional símbolo de eqüidade, justiça e equilíbrio. Com tais acepções são encontradas menções, na
antigüidade, entre os gregos, babilônios, egípcios (no Livro dos Mortos), romanos e entre os hebreus.
A Bíblia contém diversas referências à balança - com diferentes acepções (Jó: 6:2; 31:6 - Prov 16:11
- E z.5:1 - Apoc.6:5). No tradicional zodíaco hebraico, o símbolo da balança (Libra) aparece no período
compreendido entre 23 de setembro e 23 de outubro - mês “TISHREI”, que coincide com a passagem
de ano novo judaico, oportunidade quando, no ritual religioso nas sinagogas, o tema central gira em
tom o do julgamento dos atos de cada um, no ano anterior. E a balança é o símbolo desse julgamento
(cf. E.Frankel and B.P.Teutsch, “The Encyclopedia o f Jewish Simbols”, págs. 144, 5 - v. bibliogr.).

O Esquadro, percebido no emblema com alguma boa vontade, é um símbolo dos


maçons. Ferramenta essencial dos operativos incorporada na simbologia dos maçons
“aceitos” também. No emblema, em realidade o dito esquadro tem ao longo de si as
treze estrelas axialmente dispostas, representando os treze estados fundadores da
Nação. Esse símbolo separa os dois outros, isto é, a balança acima e a chave abaixo.
Não seria demais imaginarmos que toda esta composição quer transmitir a idéia de
uma organização a serviço de toda Nação, administrando com segurança, justiça e
eqüidade o bem comum. Quer nos parecer verossímil que essa interpretação extrapola

Gen. George Washington (1732-1799), maçom, considerado um


dos Pais da Nação, foi o primeiro presidente dos EUA.

A Chave é símbolo incorporado ao Gr. 04 e outros do REAA. Nos EUA esse rito não é
introduzido senão no início do Séc. XIX. Não nos parece que os que conceberam o
emblema quizessem introduzir a simbologia, com a mesma acepção que os maçons
lhe atribuem. Mais razoável nos parece imaginar que a natureza da instituição re­
presentada nesse emblema ( Departamento do Tesouro) está impregnada da idéia de
cofre e segurança, onde devem ser tratados e administrados os recursos da Nação.

Selo (emblema) do Departamento do Tesouro dos EUA datado de 1789. Inclui símbolos, atribuídos à
maçonaria por alguns antimaçons: a balança, o esquadro e a chave. Todos de fato são símbolos
incorporados à Ordem. Mas não há evidências históricas de que foram os maçons que os colocaram
no emblema do Departamento do Tesouro. Muito mais verossímil é atribuir-se aos símbolos significa­
dos estritos aos objetivos daquela entidade: administrar com justiça, eqüidade, confiabilidade e segu­
rança os recursos da nação.
ANTIM AÇONARIA 145

Página de rosto da obra secular “The History o f the World” [A História do Mundo], de Sir Walter
Ralegh (1554-1618), editada em Londres, 1614, Note que a gravura apresenta, no seu topo, o símbolo
dito egípcio-maçônico pelos antimaçons, do olho-que-tudo-vê. Como pode ser facilmente percebido, o
documento precede a origem oficial da chamada maçonaria dos aceitos.
146 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Tela de Jacopo de Pontormo (1494-1557), A Ceia de Emaús. Trata-se de urna das mais antigas obras
da arte cristã conhecidas a incorporar o símbolo do olho-que-tudo-vé. O símbolo nunca foi estranho
às tradições cristas, que o incorporou nesta e em outras obras como representativo do Poder Maior.
Note-se que o triángulo com o olho-que-tudo-vé no seu centro está situado justo acima de Jesus.
ANTIM AÇONARIA 147

“São Francisco Agonizante com as Mãos já Estigmatizadas” (Séc. XVIII): óleo sobre o tabuado do forro
da Sacristia da Capela da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, Mariana - MG. Seu autor,
Manuel da Costa Ataíde. Exemplo de apropriação do símbolo do olho-que-tudo-vê numa obra de arte
sacra nacional, essencialmente cristã, de nosso barroco mineiro.
148 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

A Águia bicéfala, numa de suas mais primitivas representações. Trata-se de um relevo lateral sobre
pedra da Porta da Esfinge, em Alaca Hüyük. Data: Séc. XIV a.C. Este é local de encontro de várias
correntes artísticas (egípcias, hititas, cananita, etc.). Veja que, em realidade, foi a maçonaria que
absorveu essa simbologia e não o contrário, como tentam induzir alguns antimaçons.
ANTIM AÇONARIA 149

não do Deus dos cristãos. Abaixo está um a pirâmide truncada,


também identificada com os egípcios, tendo em sua base a ins­
crição, em algarismos romanos, correspondente a 1776, ano da
declaração de independência. Robertson chama atenção ainda
para as inscrições latinas que circundam toda a figura: “ANNUIT
COEPTIS” e “NOVUS ORDO SECLORUM”. Em tudo está pre­
sente a trama maçõnica. Assim ele as interpreta:
NOVUS ORDO SECLORUM significa para Robertson “Nova
Ordem Mundial” . ANNUIT COEPTIS é por ele traduzido como
“Ele vela (ou cuida) em nosso favor” . Referindo-se, nesta inter­
pretação, à Osíris. Assim, segundo a dialética de Robertson, os
maçons, desde 1776, já “armavam” um a grande “arapuca” para
a nova nação que eles próprios ajudaram a fundar, conspirando
em favor da NOVA ORDEM MUNDIAL, sob os olhares protecio­
nistas de um deus egípcio, Osíris. Em suas próprias palavras,
Robertson diz:
“Is it possible that a select few had a plan, revealed in the
great seál adopted at the founding o f the United States, to bring
forth, not the nation that our founders and champions o f liberty
desired, but a totally different world orderunderamystery religión
designed to replace the old Christian world order ofEurope and
America. ”30
[É possível que um grupo seleto tivesse um plano, revelado
no grande selo adotado na fundação dos Estados Unidos, de
dar à luz, não a nação que os nossos fundadores e defensores
da liberdade desejavam, mas um a totalmente diferente ordem
mundial subordinada a um a religião de mistérios concebida para
substituir a antiga ordem Cristã da Europa e América.]
Esta é a exegese que Robertson tem extraído da simbologia
do Grande Selo e exibido em seu best seller, “The New World
Order”.31 E muitos dos seus seguidores, como por exemplo o
Prof. Horrel, Ed Decker e G aiy Kah, seguem suas idéias e pro-
pagam-nas sem qualquer zelo crítico. Tudo é transmitido como
verdade absoluta, sobre a qual não pairam dúvidas.
Desde que toda esta simbologia apareceu, gravada no Gran­
de Selo emitido com o nascimento da nação, lembrada na nota
de 1 dólar que circula livremente no planeta, os neo-antimaçons

30Pat Robertson, “The New World Order” . Word Publishing, Dallas, 1991, pág. 36.
31J. J. Robinson, op. cit. págs. 64-5.
150 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

pretendem atingir a Ordem, acusando-a de estar ocultando uma


grande tram a em favor do estabelecimento da chamada NOVA
ORDEM MUNDIAL, articulada com o Banco Central americano
- o emissor desta mesma nota e responsável indireto por sua
circulação em todo planeta.

Aos que são amantes da verdade, não custa estimular um


pouco a curiosidade para encontrar evidências de que as coisas
não são bem assim, como insinuam os neo-antimaçons. Resol­
vemos examinar outras fontes confiáveis para entender o fenô­
meno e sua história. Tim Callaham, em artigo recente, apresen­
ta-nos um a perspectiva diferente do Rev. Robertson:

“S in ce th is sy m b o l a n d m otto a re on th e b a ck o f o u r c o u n try ’s
G rea t S e a l a n d w ere p u t th ere w h en th e n a tion w a s b ein g fo u n d e d ,
th ey rep re se n t th e revolu tion a ry se n tim en t th a t by d isp en sin g w ith
kings, w h os e rule w a s a u to cra tic a n d b a sed on fo rc e , a n d rep la cin g
th a t sy s te m w ith a rep u b lic b a sed on reason, b a la n ce o f p ow e rs,
a n d s é lfr u le , th e fo u n d e r s o f o u r n a tion w ere creatina a new o rd e r
f o r th e a g e s . ”
[Uma vez que este símbolo e mote estão no verso do Grande
Selo de nossa Pátria e foram lá colocados quando a nação estava
sendo fundada, êle representa o sentimento revolucionário que
desobrigando reis, cujos governos eram autocráticos, baseados
na força, e colocando em seu lugar uma república baseada na
razão, no equilíbrio dos poderes, e autogovemo, os fundadores
de nossa nação estavam criando uma nova ordem para os próxi­
mos tempos.]32- (grifo evidentemente nosso).

Diante de tão insólita acusação aos maçons, vinda dos teó­


ricos da conspiração, não poderiamos prosseguir sem o exame
da questão, mais de perto, verificando o que de verdade históri­
ca existe com respeito à concepção do Grande Selo dos EUA.33A
Encyclopaedia Britannica, vol. 20, págs. 128-9, apresenta uma
insuspeita descrição histórica da concepção do Grande Selo.
Poucas horas após a assinatura da Declaração de Indepen-

32Tim Callahan, “ The Rrui a fThe World & The New World O r d e f. Skeptic, vol. 4, n° 3, 1996, pág. 46.
33Vez por outra os próprios maçons se orgulham ao ver na nota de 1 dólar a pirâmide, o olho-que-
tudo-vê, o tetratkis no topo da águia americana, e outros sinais - para eles - maçônicos. A realidade
dos fatos é um tanto diferente. Historicamente não existe comprovações de que o Grande Selo Ameri­
cano tenha sido concebido por maçons, como querem os antimaçons. Muitos dos símbolos são ante­
riores à maçonaria dos aceitos.
AN TIM AÇ O NARIA 151

dência, em 04 de julho de 1776, um a comissão composta de


três proceres da revolução americana foi indicada pelo Congres­
so para apresentar um a proposta de design do Selo da Nação.
Compunham esta comissão: Benjamin Franklin, John Adams e
Thomas Jefferson. Destes, como é sabido, apenas Franklin era
maçom. Houve várias idéias, modelos e desenhos encam inha­
dos à comissão. A proposta selecionada veio de um reconhecido
especialista em heráldica, William Barton, da Philadelphia, que
foi auxiliado por Charles Thomson, Secretário do Congresso e
também da Philadelphia. Barton é reconhecido pelos historia­
dores como o autor do design final, ainda que seu original tenha
sido parcialmente alterado pela comissão. Não há registros de
filiação m açônica quer de Barton, quer de Thomson, quer de
quaisquer outros envolvidos na tarefa, salvo Franklin, que ape­
nas julgou as propostas com os demais membros da comissão.
O selo, composto em suas duas faces, exibe desenhos hoje des­
critos em Lei que diz claramente:

“.../o selo]...a p resen ta n d o, d e u m lado, a s a rm a s d a N a çã o : te m -


se a á g u ia a m erica n a d e ca b eça bra n ca [a ve -sím b olo d o p a ís], ex i­
b in d o no p e ito o g ra n d e escu d o com tre z e listra s vertica is em cores
p ra ta e verm elha alternad as. E m su a g a rra d a direita segu ra u m
ra m o d e o live ira e na ou tra u m fe ix e d e tre z e fle x a s . A c im a da
ca b e ça d a á g u ia vê-se, com o q u e e m glória , d e s ta ca n d o -s e d a s
nuvens, u m a con s te la çã o d e tre ze es tre la s s im etrica m e n te d is ­
p o s ta s fo rm a n d o u m a estrela d e seis p o n ta s [a d e DaxAd ]. N o se u
b ico s e g u ra u m rolo on d e s e lê o m ote ‘E P L U R IB U S U N U N ’
...o a n v ers o d o selo a p resen ta a p irâ m id e in com p leta [p irâ m id e
tru ncad a]. N o zên ite, te m os o olh o no cen tro d e u m triâ n gu lo, e n ­
volvid os a m b os p o r u m a g ló ria p ró p ria . A c im a do triâ n gu lo lê-se a
fra s e : “A N N U IT C O E P T IS ”. N a b ase d a p irâ m id e , te m -se os a lg a ­
rism os “M D C C L X X V I” e, a b a ix o d e tudo, a in scriçã o com o m ote
N O V U S O R D O S E C L O R U M .’34

O simbolismo tem interpretação muito conhecida de erudi­


tos, historiadores e especialistas em heráldica: a águia am erica­
na, de cabeça branca [american bald eagle], é ave-símbolo dos
Estados Unidos, a inscrição “E PLURIBUS UNUN”, “um de mui­
tos”, traduz a idéia de unidade da nova nação, modelada como

65Enc. Britannica, Vol. 20 - pág. 128.


152 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

um a federação de “Estados Unidos” . O ramo de oliveira simbo­


liza a paz enquanto que o feixe de treze flexas significa a guerra,
tudo relembrando as treze colônias. Este é um lado do selo, de
interpretação familiar e mais comumente reconhecido. O lado
oposto, porém, é mais sutil, dando margem a interpretações
diversas, inclusive às dos antimaçons. O desenho traz, em alga­
rismos romanos, a data de fundação da nação americana, 1776.
Uma pirâmide inababada, de aparência muito firme, montada
em treze camadas de pedras, sugerindo um edifício durável, mas
não completo ainda, simboliza um a nação em construção, com­
portando a inclusão de outros estados. Um olho envolvido pelo
triângulo com raios luminosos, sugere a providência divina, aci­
ma de todas as coisas, isto é, supervisionando e inspirando tudo
o mais. Os dois motes latinos: ANNUIT COEPTIS [Ele (Deus) fa­
vorece nossos empreendimentos] e NOVUS ORDO SECLORUM [A
nova ordem dos tempos (gerações ou eras)] são tirados de um
texto de Virgílio, para o qual o termo SECLORUM [genitivo plu­
ral da segunda declinação de SECLUS] significava “geração” ou
“tempos” e não “mundo ou m undial” . A conotação dada, e aceita
por vários eruditos, sobre esse mote é que com a fundação da
nova nação inaugurava-se um a nova ordem institucional, a v i­
gorar para as gerações vindouras. Governos totalitários, dom i­
nantes até então, não teriam futuro. Governos, de agora em di­
ante, divinamente inspirados, seriam formados, sob o modelo
am erican o, em que o povo, soberan o e u nido, teria seus
governantes, como seus delegados, a conduzir a nação.35 A pro­
pósito dessa simbologia, Joseph Campbell comenta que os ho­
mens que laboraram a construção da nova nação estavam ins­
pirados por Deus, com base na razão e na percepção de cada
um a respeito desta mesma divindade. Diz ele:

“E sta f o i a p rim e ira n a çã o d o m u n d o q u e se ed ificou com b ase


na razão, n ã o no esp írito g u erre iro ....A m en te h u m a n a a livia d a de
p re o cu p a çõ e s se cu n d á ria s e m era m e n te te m p ora is reproduz, com
ra d iã n cia d e es p elh o im a cu la d o, o reflexo d a m en te ra cion a l de
D eus. A ra zã o coloca você em con ta to com D eus... C on seqü en te-
m ente, p a ra a qu eles h om en s [o s p a is d a nova n a çã o americana]
não havia uma revelação especial em lugar algum, nem era ne-

35J. J. Robinson, op. cit. pág. 65.


AN TIM AÇ O NARIA 153

cessário, por que a mente do homem, livre de suas falibilidades,


é suficientemente capaz de compreender Deus...”36.

Sob esse clima, concebeu-se a “Declaração da Independên­


cia” , estabeleceram-se as demais leis e a própria Constituição
dos Estados Unidos da América. O Grande Selo Americano é
tão-somente o ícone representativo de todo esse movimento, sim­
bolizando princípios e valores agasalhados pelos mentores da
Nova República Americana, nada tendo a ver com tradições egíp­
cias ou de quaisquer outras fontes misteriosas, conspiratórias e
secretas.
A interpretação difundida pelo Rev. Robertson - e seguida
por antimaçons, sem qualquer senso crítico - de que o olho
significa Osíris e o mote latino significa “NOVA ORDEM MUNDI­
A L”, que então Osíris protegeria o estabelecimento da alegada
nova ordem [por baixo do pano estimulada por conspirações de
maçons e outros], é um absurdo que não se sustenta ao menor
exame desapaixonado e científicamente sério, ainda que possa
facilmente iludir incautos e despreparados.
Assim, o Rev. Robertson - com sua poderosa rede de com u­
nicações - deflagrou um processo doentio, baseado num sofis­
ma muito bem construído, que contaminou boa parte da popu­
lação americana, acusando os maçons de conspiradores, dese­
josos de derrubar o poderio dos EUA e elaborando, nas suas
reuniões secretas, um intrincado processo visando destruir o
poder americano, acabar com a Igreja'de Cristo e estabelecer
um governo mundial sob inspiração de um a alegada religião de
mistérios, a maçonaria.
Outros antimaçons surgiram, seguindo a escola do Rev. Pat
Robertson, fabricando outras novelas conspiratórias, dignas de
figurar no panteão dos luminares da ficção, não fossem tão fla­
grantemente ingênuas, desprovidas de qualquer base científica.
Destacam-se Hal Lindsey, J. R. Church, Texe Marrs, Stephen
Knight e Gary H. Kah no meio de outros de menor expressão. A
obra desse último merece um breve comentário: “En Route to
Global Occupation” (A Caminho da Ocupação Global), tem cau­
sado algum impacto nos EUA e circula atualmente em muitas
livrarias.

36Joseph Campbell, “O P o d e r d o M ito ” . Ed. Palas Athena, São Paulo, 1988, pág. 26.
154 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Kah, cristão, neofundamentalista, conferencista fartam en­


te citado, ex-funcionário de alto escalão do governo Reagan, ale­
ga ter informações privilegiadas de bastidores sobre a evolução
da dita conspiração pelo estabelecimento de um governo mun­
dial. Ao longo das 224 páginas do seu livro, revela nomes, docu­
m entos “ secreto s” , orga n iza ções com o World Parliam ent e
Constitution Association, como claras evidências da existência
de um conluio para fins não publicáveis. Kah se empenha em
interpretar seus “achados” sob um a perspectiva bíblico-cristã,
vislumbrando, no movimento mundial de dominio, a obra satá­
nica do final dos tempos, conforme assim interpreta as profeci­
as do A p o c a lip s e . P a ra ele os m a ço n s são os g ra n d e s
catalisadores da nova ordem, articulados com o movimento de­
nominado NOVA ERA, o Conselho Mundial de Igrejas, os ju ­
deus, os rosa-cruzes e outras organizações internacionais de
caráter político. Kah, como outros antimaçons, é pródigo em
listar personalidades públicas e organizações, participantes deste
grande imbroglio chamado “NOVA ORDEM MUNDIAL”. Todos
os seguidores desta nova onda da Teoria da Conspiração são
u n ân im es em id e n tific a r com o m em bros (id ea liza d o res e
mentores) do novo movimento, figuras como: Henry Kinsinger,
Gerald Ford, David Rockefeller, Zbigniew Brzezinski, Jim m y
Cárter, George Bush, Ronald Reagan, Colín Powel, Richard Nixon;
e organizações como Nações Unidas, Conselho de Relações Ex­
teriores, Banco Mundial, o Conselho Mundial de Igrejas, o Ban­
co C entral A m ericano (Federal R eserve Bank), a Com issão
Trilateral (organização estabelecida por líderes da Europa, EUA
e Japão), Clube de Roma, e diversos grupos da mídia (CNN, NBC,
CBS, ABC, New York Times, News Week, US News, Washington
Post, Los Angeles Times, Time, etc...), tidos e havidos como
seguidores do império das trevas.37
Kah relaciona vários documentos que diz ter tido acesso e
ressuscita a teoria dos Iluminados da Baviera e suas conexões
com a ideologia do estabelecimento da NOVA ORDEM MUNDI­
AL. Para ele a Ordem dos Iluminados continua ativa. E muitos
dos seus seguidores créem firmemente nesta historia. De acor-

37Tim Callahan, “The End nfth e World fit, The New World O r d e f. Skeptic, vol. 4, n“ 3, 1996, págs. 44-
51 e Gary Leazer, “Fund.nmen.tn.Ksm. & Freemasnnrv: The Southern Baptist Investiaation ofthe Fraternal
O r d e f. M.Evans and Company, 1995, págs. 77-80.
AN TIM AÇ O NARIA 155

do com as d e c la r a ç õ e s de K ah , os m a ço n s c o n tin u a m
umbilicalmente ligados aos Iluminados, um a sociedade secreta
estabelecida em maio de 1776 por um ex-jesuíta (inimigo visceral
da ig re ja de sua época) que, en can tad o p elas id éias dos
iluministas, torna-se um ardoroso anticlerical, cético e profes­
sor de direito canônico da Universidade de Ingolstadt, na Baviera,
Adam Weishaupt (1748-1813).
O declarado objetivo da Ordem dos Iluminados da Baviera,
conforme atesta a documentação conhecida, era o de destruir
os poderes constituídos, estabelecendo o governo baseado na
ra zã o , n a ig u a ld a d e , no c o n h e c im e n to e nos p rin c íp io s
iluministas, derrubando a igreja católica e retirando a sua in­
fluência nos governos de então. A história dos Iluminados está
fartamente esclarecida, por autores como René Le Forrestier38,
J.M. Roberts, Jean Baylot, Ferrer Benimelli, e outros, demons­
trando que:

(a) a Ordem, nascida justo no centro da Contra-reforma, a


Baviera, teve uma passagem efêmera, embora tenha captado o
interesse e concurso de intelectuais e influentes líderes políticos
da época (Goethe, Schiller, Wielander, Herder, Pestalozzi, Nicolai,
Van Swieten, Mirabeau, Bode, Sonnenfels, A. Blumauer, Kolowrat,
Cobenzl, etc...) e provocado alguma convulsão política e social
na Europa Central;
(b) a partir de 1778, Weishaupt, contando com a colaboração
do Barão Adolph Francis Von Knigge (1752-1796), infiltrou-se
na maçonaria, como tática para organizar sua “sociedade” sob
alguma disciplina hierárquica, conquistando aí seus adeptos,
valendo-se da rígida organização interna das lojas maçônicas e
obrigando - na sua estrutura ritualística de graus - que só se
iniciassem na Ordem dos Iluminados aqueles que também pas­
sassem pelos três graus da maçonaria simbólica. Muitas lojas
maçônicas na Europa, particularmente na França, na Áustria e
na Alemanha, foram influenciadas pelos Iluminados;
(c) O conluio entre os iluminados e os poucos maçons que a
eles aderiram, resultou no surgimento de uma pseudomaçonaria,
já que estavam sendo violados os princípios da Ordem Maçônica
estabelecidos na Constituição de Anderson e nas O íd C harges. A

38De longe, os trabalhos de Le Forrestier são reconhecidamente os mais profundos e completos sobre
o assunto, ressaltando-se sua tese de doutorado defendida na Faculdade de Letras da Universidade
de Paris: “ Les Rluminés de Bavière et la Franc-Macormerie Allemandé’. Paris, 1914 e sua obra “La
Franc-Ma.mnnp.rip. Templiere et occultiste aux. XVnie.et XlXe. siecles “. Ed. Antoine Faivre, Paris-Louvain,
1970.
156 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

política, a derrubada do poder constituído, a destruição da igreja


(conforme testemunha o discurso anticlerical) passaram a fazer
parte ostensiva das posições maçônicas - em algumas lojas so­
bretudo do continente europeu - e das próprias discussões in­
ternas. Era resultado principalmente da infiltração dos ilumina­
dos. A maçonaria sentiu o golpe. Muitas questões internas à
Ordem, provocaram cisões definitivas. A maçonaria alemã da
época, por exemplo, já era palco de novas tendências, dissen-
sões e disputas de poder. Correntes de pensamento e doutrinas
inspiradas pelos ocultistas, rosa-cruzes e católicos, favoreceram
o nascimento da Estrita Observância, rito inspirado nos mitos
templários, com a introdução de novos graus, que teve grande
penetração nas lojas e pronta aceitação entre os alemães. Segui­
dores da Estrita Observância, logo perceberam as ameaças re­
presentadas pelas idéias dos Iluminados, introduzidas nas lojas
simbólicas. A efervescência do discurso político-revolucionário
não lhes soava bem como propósito básico da maçonaria tradici­
onal e, particularmente, assim pensavam os da vertente
templária-ocultista. Muitos maçons estavam idenficados com o
establish m ent, eram nobres ou militares, da estrita confiança dos
príncipes e reis. Como é verossímil, não haveríam de aceitar -
sem restrições - a presença de um novo grupo predisposto a
virar a mesa.

J. M. Roberts, pesquisador, estudioso desse episódio da


história da maçonaria, deixa-nos um esclarecedor comentário,
fundamentado em fatos documentados sobre os problemas en­
tre maçons, causados pela ostensiva presença dos seguidores
de Weishaupt nas lojas do continente europeu:

“A O rd em [dos Iluminados] tin h a n esta ép oca ou tra s p re o c u p a ­


ções. A lg u n s d os seu s m em b ros tin h a m fa la d o [re v e la n d o p u b li­
ca m en te se u s “s e g re d o s ”]. A E strita O b serv â n cia p a s s o u a d e s­
c o n fia r d os Ilu m in a d os, d e p ois d a C o n ve n çã o d e W ilhelm sbad, de
1782; W ille rm o z p u b lic a ra p id a m e n te p a n fle to s con tra os se u s
op ositores e f a z alu s ões (sem c ita r n om es) às ten ta tiva s d e D ittfu rt
[eminente seguidor dos Iluminados] d e tra n sform a r a E strita O b ­
servâ n cia p a r a fin a lid a d e s revolucioná ria s. E s s e s fa to s a la rm a n ­
te s so b re a O rd em d os Ilu m in a d o s circu la ra m p e la B a v ie ra em
1784. M e m b ro s d e g ra u s in fe riores e m itira m p u b lic a m e n te ju íz o s
se ve ros con tra reis e sa cerd otes. O g ra n d e p ú b lic o p a s s o u a p r e s ­
ta r a ten çã o a essa s m anifestações, e a s sim ta m b é m a elite d iri­
g e n te d a B a v iera . A c re d ita v a -s e q u e a O rd em [d o s Ilu m in a d o s ]
esta va in filtra d a a té m es m o no cora çã o da a d m in is tra çã o p ú b li-
ANTIM AÇONARIA 157

Não demorou muito, e ainda em plena década dos 80 (do


Séc. XVIII), a Ordem dos Iluminados sofre o primeiro revés, ju s ­
to no seu berço de nascimento: a Baviera. Em 23 de junho de
1784, o Eleitor da Baviera, Karl Theodor, publica um Édito proi­
bindo seus súditos de pertencerem à Ordem. O fato desenca­
deia um a série de publicações em toda a Alemanha condenando
a Ordem dos Iluminados, agita os meios intelectuais e políticos,
por seus propósitos revolucionários e de confronto com a Igre­
ja .40 Era o princípio do desmantelamento de um a idéia revoluci­
onária, secretamente elaborada, que teria envolvido pouco m e­
nos de 700 adeptos, ainda que Weishaupt tenha dito que no seu
apogeu teve entre 2.500 e 3.000 nomes, e que pretendeu envol­
ver a maçonaria41.
As acusações do Abade Barruel contra a maçonaria, res-
ponsabilizando-a pelo terror revolucionário instituído pelos
jacobinos na França, se fundamentaram nos acontecimentos
envolvendo os Iluminados na Alem anha e na França. O que
Barruel não foi capaz de fazer, ou não quiz fazer, foi separar o
joio do trigo, isto é, analisar com a devida profundidade e isen­
ção, sustentado em alentada documentação disponível, o papel
da maçonaria e o da Ordem dos Iluminados em todo esse pro­
cesso. Sua análise da rejeição que os iluminados sofreram dos
próprios maçons, como os da Estrita Observância e os de influ­
ência rosa-cruz, foi superficial.
John Robinson42, professor da Universidade de Edinburgh,
outro autor da mesma época, foi realista e um pouco mais con­
descendente com a maçonaria, pelo menos com a sua vertente
dita ortodoxa (hoje cham ada regular) que conhecia na Grã-
Bretanha. Ainda que ambos tenham enxergado conspiração con­
tra a ordem secular estabelecida, Robinson foi mais analítico,3 5

35J. M. Roberts, “La Mitholoaie des Sociétés Secretes”, Payot, Paris, 1979, págs. 131, 2.
40J. M. Roberts, op. cit. pág. 132.
41Daniel Ligou , “Dictionnaire de la Franc-Maconnerié". Presses Universitaires de France, Paris, 1987.
vb. ILLUMINÉS DE BAVIÈRE.
42Amplamente citada pelos antimaçons americanos atuais, é constantemente reeditada e tartamente
mencionada: “Proofs o fa Conspiracu aaainst all the Reliçtions and Govemments ofEurooe. carried on in
the secret meetinas ofFreemasons. Rluminati andReading Societies" (Londres, 1797),(New York, 1798).
158 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

separando as lojas continentais que - dizia ele - eram marcadas


de influência jacobina (o mesmo que dizer de influencia dos ñu-
minados), da maçonaria tradicional de inspiração inglesa e fiel
às Oíd Charges43.
Os dois autores sublinharam o papel político da maçonaria
na Europa, como agentes de um a conspiração - uma ampla dis­
cussão nascida nas lojas dos iluministas que levava os maçons
a se levantar e debater livremente teses políticas e anticlericais.
A difusão dessas obras, ainda que Robinson tenha isentado os
maçons ingleses, soava como um a bomba contra a maçonaria
no seu todo. Jacques Lemaire, professor da Universidade Livre
de Bruxelas, estudioso da antimaçonaria européia, bem sinteti­
zou o papel da maçonaria em todo o processo condenatorio so­
frido a partir daí:

a d ou trin a d e W eish a u p t se rviu p a ra c o n d e n a ra m a çon a ria


alem ã, se g u id a d e tod a a m a çon a ria con tin en ta l, e m n o m e d a s
id é ia s q u e es ta v a m lon ge d e s e rem a ceita s d e fo rm a u n â n im e p e ­
los m açons, m a s qu e d a va m a e n te n d e r u m a m en sa g em p o lític a
m u ito p ró x im a , em espírito, das reivin d ica ções revolu cion á ria s [pre­
gadas pelos jacobinos!...”44

Quanto à Ordem dos Iluminados da Baviera propriamente,


a história não dá margem a dúvidas nem espaço para especula­
ções fantasiosas, como fazem os neo-antimaçons. A sua atua­
ção, como organização verdadeiramente secreta, durou pouco:
nascida em 1776, começou sua derrocada em 1784. Em 2 de
março de 1785, um segundo Édito emitido por Karl Theodor,
Eleitor da Baviera, interdita definitivamente todas as socieda­
des secretas, inclusive os Iluminados. Não demora muito e to­
das as demais lojas dos iluminados espalhadas pela Alemanha
cessam de existir. Le Forrestier, a mais respeitada autoridade
na matéria, admite que restaram apenas algum as lojas na
Saxônia, até 178945. Esta é a data mais provável do esfacela­
mento final da sociedade secreta que convencionou-se chamar

43J. M. Roberts, op. cit. págs. 205, 6.


44Jacques Lemaire, “Les Origines Francaises de VAntimaconnisme (1744-1797?. Ed. de LTJniversite de
Bruxelles, Bruxelles, 1984, págs. 108.
45Daniel Ligou, op. cit., idem.
ANTIM AÇONARIA 159

Iluminados da Baviera. Claro que a influencia ficou, o ideário


revolucionário permaneceu latente na mente de muitos maçons.
O Grande Oriente de França foi, e ainda é, o principal abrigo
de maçons seguidores da linha defendida pelos Iluminados que,
em certa medida, veio a ser incorporado no ideário de comunis­
tas e socialistas do Séc. XX. Desta linha de pensamento revolu­
cionário e anticlerical fazem parte outras lojas, filiadas a Obedi­
ências que mantém mútuo reconhecimento com o Grande Ori­
ente de França e que são, pelos demais maçons e potências,
denominadas “irregulares”.
O posicionamento político, o debate aberto e às vezes publi­
camente apresentado, sobre toda e qualquer matéria julgada
relevante, é apanágio e prioridade desta vertente maçônica. As
demais potências, subscrevem a Constituição de Anderson e os
chamados Landmarks Gerais da Ordem que, entre outros enun­
ciados, traçam limites às discussões em loja sobre temas polí­
ticos e religiosos. Normalmente debatem temas políticos, invo­
cando posicionamentos partidários neutros, de interesse geral
como: educação, defesa da separação igreja-estado, direitos
humanos, defesa da democracia, da ética nas relações hum a­
nas, do meio ambiente e assim por diante. As discussões políti-
co-partidárias estão definitivamente banidas das lojas.
De igual maneira é inadmissível qualquer discussão sobre
religião nas lojas ditas regulares. Esta distinção entre as duas
vertentes da maçonaria jam ais é feita pelos antimaçons. Em seus
discursos, muitos fazem questão de emitir opinião não respecti­
vamente às diferentes formas e vertentes doutrinárias da Or­
dem. Para os neo-antimaçons, a maçonaria é um todo indivisível
com caracteres universais, comuns e aceitos por todos. Assim,
para eles, todos os maçons estão envolvidos na Conspiração,
em pleno fim do Séc. XX, pelo estabelecimento da NOVA OR­
DEM MUNDIAL, mesmo que alguém se levante e prove, com
toda a documentação disponível, que o Grão-Mestre da Grande
Loja Unida da Inglaterra é o Duke de Kent, representante da
Coroa Britânica, identificado com o “establishment”, talvez o
mais conservador do planeta, e que vários presidentes e m em­
bros da Suprema Corte dos EUA foram ou são maçons.
O pastor David Bay, ministro da Igreja Batista da Graça,
u m a das m uitas con gregações batistas in dependentes, de
Attleboro, Massachusetts, neofundamentalista assumido, diri-
160 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ge o “Oíd Path Ministries” (OPM) [Ministerios do Antigo Cami­


nho] que sustenta e divulga am pla cam panha antimaçônica.
Através do seu OPM, o Rev. David Bay mantém o programa de
rádio “THE CUTTING EDGE” , de audiência nacional, com pales­
tras e p regações com u m ente a n tim açôn icas tra n scrita s e
reproduzidas na Internet. Uma de suas palestras, no ar em 1996,
atraía pelo seu título e inusitado subtítulo:

“P A G A N IS M O F F R E E M A S O N R Y :
The N e w W orld O rd e r is C orning? A re You R e a d y ?
S ta n d by f o r in s ig h ts so s ta rtlin g y o u w ill n e v e r loo k a t th e
n ew s th e sa m e w ay again. ”
[P A G A N IS M O E M A Ç O N A R IA : E s tá ch eg a n d o a N o va O rd em
M u n d ia l? V ocê está p re p a ra d o ?
F iq u e a p o s to s p a ra p e rc e b e r as s u rp reen d en tes notícia s q u e
você ja m a is verá da m es m a fo rm a ou tra vez.]

Em 30 minutos de discurso antimaçônico, o Rev. David Bay


discorreu sobre a sua visão neofundamentalista da Teoría da
Conspiração, versão Séc. XX. Eis algumas de suas passagens,
que dão bem a idéia de como se desenvolve o pensam ento
antimaçônico atual nos EUA:

“O a tu a l m ov im e n to d a N O V A O R D E M M U N D IA L, q u e e s tá c h e ­
g a n d o até nós, ja m a is te n a tid o êxito não fo s s e a in crível a tivid a d e
d e vá ria s so cie d a d es se creta s existen tes no m undo. Se você p e r ­
te n ce a u m a s o cie d a d e secreta , ta l com o a L o ja M açôn ica , não
[o rádio] até q u e eu te n h a a o p o rtu n id a d e d e d e s e n v o lv e r
d e slig u e
com p leta m en te este c o n ce ito ”, inicia suas colocações. Mais adi­
ante conceitua as sociedades secretas atribuindo suas origens
ao “Príncipe das Trevas”:
“A s so cie d a d es se creta s fo ra m orig in a lm en te con ce b id a s com o
in stru m en tos a tra vés d os qu a is o te m p ora ria m en te d errota d o S a ­
ta n á s p o d e rá p re s e rv a r e e s te n d e r su a s d ou trin a s e objetivos. P a ra
p r o te g e r e s s a s o rg a n iz a çõ e s d e a u to rid a d e s d e u m a s o cie d a d e
a b e rta [d e m o crá tic a ? ], q u e o p e ra m d e a c o rd o com p r e c e ito s do
V erd a d eiro D e u s Vivo, S a ta n á s criou esta s s o cie d a d es com o s e ­
cretas, p ro te g id a s p o r fo rte s com p rom issos, ju ra m e n to s e co n fis ­
sões. ”

Após essas definições, o Rev. David Bay passa a revelar


sua interpretação a respeito do movimento em favor da NOVA
ANTIM AÇONARIA 161

ORDEM MUNDIAL e suas vinculações com os maçons:

“ V am os en tã o ex a m in a r a h istória recen te (Sic!). Q uais sã o os


ob je tivo s d a N O V A O R D E M M U N D IA L, com o d e fe n d id a p e la so cie ­
d a d e s e creta d os M E S T R E S D O S IL U M IN A D O S , em 1 7 7 6 7 ’

Ele próprio passa a desfilar sua resposta a esta questão:

“O b je tivo s:

A b o lir:

1. Tod o o o rd en a m e n to [sociop o litico ], o g o v e rn o esta b elecid o;

2. A p ro p rie d a d e p riv a d a ;

3. Tod a a h erança;

4. P a trio tism o [n a cion a lism o ];

5. A fa m ília e o casa m ento, além d e tod a a m ora lid a d e;

6. Tod as a s re lig iõ e s .”

Explicado os objetivos da sociedade secreta, referida como


MESTRES DOS ILUMINADOS, faz novas considerações sobre as
tais sociedades secretas de um a form a generalizada, a mais
importante das quais, a maçonaria, é a seu ver criticamente
essencial no estabelecimento da NOVA ORDEM MUNDIAL.
O Rev. Bay induz seu ouvinte, ou o seu leitor, a ver na
Ordem M açônica a herdeira viva e atuante dos ideais de
Weishaupt, sem demonstrar com fatos e documentos historica­
mente comprováveis a veracidade das suas afirmações. Para
ele, como para outros antimaçons, a maçonaria e Iluminados
da Baviera - agentes satânicos da destruição - são a mesma
coisa. E nisto os seus fiéis seguidores acreditam.
Rev. Robertson, Gary Kah, Rev. Bay e tantos outros neo-
antimaçons persistem na mesma tecla, apontando a maçonaria
e outras organizações de alcance internacional, como responsá­
veis diretas por maquinações excusas visando virar o mundo de
cabeça para baixo destruindo, de passagem, o cristianismo e
outras tradições.
Pode parecer, para nós brasileiros, que estas acusações se­
jam um tanto fantasiosas - fruto de imaginação doentia - pue-
162 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ris, levianas e sem maiores conseqüências para a Ordem, quer


nos EUA quer entre nós. Apenas num ponto precisamos estar
atentos. Os tempos são outros, não estamos no Séc. XIX, quan­
do a Humanum Genus demorou meses para ser divulgada am­
plamente e, ainda assim, ficou restrita a um pequeno grupo de
pessoas ligadas à elite dirigente. Os tempos atuais tornaram os
sistemas de comunicações universais e dotados de canais ins­
tantâneos de difusão. Uma notícia hoje publicada no Texas, está
na mesma hora disponível na rede mundial da Internet, na CNN,
e outros canais, em Tokyo, Brasília, Cape Town, Buenos Ayres e
Oslo, antes que seja contestada ou desmentida. O Rev. Bay
difunde suas idéias, com seu ar de autoridade divinamente ins­
pirada, pelo seu “website” na Internet, disponibilizado instanta­
neamente no planeta, para quem tiver um microcomputador li­
gado na rede telefônica local e a um provedor. Antes que tenha­
mos tempo de refletir sobre elas, um grande número de seus
seguidores já as recebeu e assumiu como verdades incontestá­
veis, sem se darem ao trabalho de comprová-las.
Os que lêem, navegam na Internet e assistem aos noticiári­
os da TV, já começam a se acostumar com o noticiário sobre a
Teoria da Conspiração. Comentários sobre a movimentação de
banqueiros internacionais, declarações contrárias aos judeus,
reações exacerbadas contra q processo de globalização econô­
mica e cultural, acusações aos secularistas e à mídia em geral,
e circulação de boatos sobre o envolvimento de maçons em as­
sassinatos e outras atividades espúrias, são comuns na mídia
utilizada pelos neo-antimaçons e pelos seus parceiros da extre­
ma direita am ericana. Seguem todas as m esm as tradições
desencadeadas no Caso Morgan: propõem demonstrar que exis­
tem articulações secretas dos maçons com outras organizações
objetivando afastar do caminho os obstáculos em direção ao
objetivo maior: o estabelecimento da NOVA ORDEM MUNDIAL.
Estamos diante de uma paranóia coletiva disseminada por uma
minoria, mas minoria cercada de recursos respeitáveis e razoa­
velmente articulada.

6.2 - A Maçonaria, o Apocalipse e a Interpretação


Fundamentalista do Fim do Mundo

Os comentários a partir de agora devem ser vistos como


sequência natural do que se viu na secção 6.1 anterior. Existem
ANTIM AÇONARIA 163

razões, quase que inconscientemente plantadas na mente da


maioria dos evangélicos americanos, para relevar as preocupa­
ções com o possível estabelecimento de um governo mundial
neste fim de milênio. Essas razões têm a ver com a divulgação
generalizada nos últimos tempos das interpretações apocalípticas
e a proclamação de um a nova onda de seitas emergentes, de
traço espiritualista, comumente denominadas na literatura atual
como Nova Era.
Os últimos vinte anos têm sido marcados por um a nova
onda religiosa em todo o planeta. Existe um ressurgimento da
busca pelo sagrado neste fim de milênio. Opostamente ao que
se viu nos cem anos anteriores, nos quais a religião perdeu o
status que gozava, principalmente pela eclosão ampla da praxis
iluminista, nos últimos tempos tem-se verificado no Ocidente
um a busca da espiritualidade e do transcendente, evidenciada
pelo surgimento de novas seitas e religiões, pelo interesse cada
vez m aior pelas doutrinas e filosofias orientais, esoterism o,
gnosticismo e pelo misticismo de um a forma geral. Quem en­
trar hoje em qu alqu er livraria, verá que a seção de obras
esotéricas e religiosa s ocu pa tanto espaço qu anto as de
informática, de administração e muitas outras matérias de fic­
ção, científicas e de cultura geral. Homens e mulheres portam
novos amuletos, ditas fontes de sorte, poder e energia tais como:
cristais, gnomos, pirâmides, magos e outros similares. Os auto­
móveis circulam em nossas estradas e avenidas portando m en­
sagens esotéricas, bíblicas e místicas estampadas nos pára-bri­
sas, como nunca antes: “Eu creio em Duendes”, “Deus é fiel”,
“Jesus Salva”, “Leia Kardec”, “Leia a Bíblia”, “Eu Creio em Je­
sus” e outras. Os canais de televisão exibem programas religio­
sos, esotéricos e místicos com freqüência e concentração não
vistos anteriormente. Hoje encontram-se emissoras de rádio e
canais de TV com programação inteiramente dedicada à reli­
gião. Autores como Paulo Coelho, Carlos Castañeda, Shirley
MacLaine, Marilyn Ferguson estão ganhando expressivo espaço
no mercado editorial, e boa soma de dinheiro, com suas obras
de cunho esotérico e ocultista. Muitas das quais têm desponta­
do na lista dos mais lidos e dos best sellers.
A aproximação do fim do Séc. XX, como também aconteceu
no fim dos séculos passados, tem estimulado especulações so­
bre o fim dos tempos. Passagens de fim de século sempre foram
164 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

consideradas portadoras de misteriosas mensagens de mudan­


ça na esfera do transcendente, despertando os interesses místi­
cos, latentes em muitas mentes. Para muitos, inclusive e princi­
palmente cristãos, o ano 2000 assinala prognósticos do fim do
mundo.
O respeitado visionário do Séc. XVI Nostradamus, que tan­
ta influencia tem tido entre os futurologistas, também previu
uma grande guerra que deflagrada em 200246estaria iniciando
o fim do mundo. Essa data está figurando no inconsciente de
muitos de nós como presságio do final dos tempos, graças às
tradições esotéricas e aos pronunciamentos desses visionários
e profetas, autênticos formadores de opinião.
No cristianismo, a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final
para instaurar o Reino de Deus no fim dos tempos, conforme
sua promessa, sempre foi - desde os primeiros séculos de nossa
Era Cristã - um a das preocupações maiores dos fiéis e uma
doutrina am plam ente pregada e aceita, ainda que essa não
explicite as datas dos acontecimentos finais.

“O cristã os p rim itiv o s a cred ita v a m d e vo ta d a m en te na S e gu n ­


d a V inda d e C risto e no J u íz o F in a l. D u ra n te os d o is p rim e iro s
s é cu los d o cristin ism o eles fic a ra m es p era n d o esse s a co n te cim e n ­
to s q u a se q u e d iariam ente, e vivia m d e a cord o com o q u e os e s tu ­
d io sos tê m ch a m a d o d e ‘ética tra n s itó ria ’. N a q u e le tem po, os cris ­
tã os não a cu m u la v a m p o s s e s s õ e s m a teria is; m a rid os e m u lh eres
n ã o coa b ita va m ; m u itos h om en s ch eg a ra m a c a s tra rs e , a f im d e
n ã o se rem te n ta d os a p e ca r, no b rev e p e río d o d e te m p o q u e a in d a
lhes restava.
G r a d u a lm e n te , p o r é m , f o r a m - s e r e la x a n d o e s s a s te n s a s
expecta ções. Porém , qu a n d o se f o i a irizinhan d o o f im d o p e río d o
d o s p rim e iro s m il a n o s d e era cristã, rea ce n d e u -s e o a n tigo fe r v o r
a poca líptico. P o r tod a a E uropa , sa ce rd o tes e leigos, ju n ta m e n te ,
m o s tra v a m -s e co n fia n te s d e q u e o S a lv a d o r p r e s id iria a o J u íz o
F in a l a n tes d a ch eg a d a d o a n o 1000 d.C. A d a ta es colh id a com o
d ia da S e g u n d a Vinda d e C risto era à m e ia -n oite d o d ia 31 de
d e zem b ro d e 99 9 d.C. ...M as, qu a n d o ra iou o a n o 1000 d.C., sem
q u e nad a h o u ve sse su ced id o, a d a ta f o i tra n sferid a p a ra d en tro
d e m ais m il a n o s ”47, relata-nos, com certo fervor autoritário e
com uma postura, mista de profeta e exegeta bíblico dos últimos
tempos, o conhecido visionário, futurólogo e autor cristão ame-

46Cf. Erika Cheethan, “A s Profecias dp. Nostradamus”. Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1977, pág.
251.
47Russel Norman Champlin, “Estamos Entrando Agora nos Quarenta Anos Finais da T erra T . Nova
Época Ed. Ltda., São Paulo. págs. 16, 7.
ANTIM AÇONARIA 165

ricano, Russel N. Champlin, Ph.D.

Para os cristãos fundamentalistas de nossos dias, sinais


apocalípticos são reconhecidos nos movimentos mundiais cor­
rentes, confirmando profecias bíblicas, isto é, há evidências de
que o fim do mundo está próximo, de acordo com a interpreta­
ção que fazem dos acontecimentos mundiais correntes à luz das
Escrituras Sagradas. Interpretações sobre os eventos atuais não
faltam , na sua irrefreável busca para identificar sinais do fim
dos tempos. Esse é, aliás, um comportamento que se encontra
na vida dos americanos desde que a Nação foi formada. M o­
mentos históricos, de grandes mudanças, por que passaram os
EUA sempre foram vistos como evidências do fim dos tempos e
estabelecimento do Reino de Deus na terra, tomando a Nação
americana como base. O pastor Gary Leazer, analisando este
fenôm eno em sua obra mais conhecida, “Fundamentalism &
Freemasonry” [Fundamentalismo e Maçonaria], assinala que a
própria migração dos Puritanos para Massachusetts, o primeiro
e o segundo movimento de reavivamento religioso experimenta­
do pelos americanos nos Sécs. XVIII e XIX, respectivamente, a
expansão da nação em direção à costa oeste, a vitória da União
na Guerra Civil de 1812, a derrota da Alemanha na Primeira
Grande Guerra e a derrota dos Alemães e seus aliados na Se­
gunda Grande Guerra, convenceram grande parte do povo do
“destino divino” desta Nação, como berço do Reino Celestial
prometido nas Escrituras. Não poucos “profetas” vieram a pú­
blico nessas ocasiões para proclamar o iminente retorno de Cris­
to, com o conseqüente estabelecimento do Seu Reino. Assim sur­
giram líderes-profetas, novas religiões e seitas adventistas, com
mensagens de um a nova dispensação eminente sempre que al­
gum acontecimento histórico de grande envergadura teve lugar.
Ao longo e após o segundo movimento de reavivamento religio­
so, ocorrido entre 1797 e 1825, surgem líderes como: Alexander
Campbell (1788-1866), que fundou a seita dos “campbellitas”
ou “Discípulos de Cristo”, em 1827, cuja mensagem central era
o iminente retorno de Cristo; Joseph Smith (1805-1844) que
organiza, em Fayette (N.Y.) em 1830, a mais bem sucedida seita
m ilenarista do seu tempo, inicialmente denominada Igreja de
Cristo e posteriormente chamada “Igreja de Jesus Cristo dos
Santos dos Últimos Dias”. Os líderes da que hoje é conhecida
166 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

como a seita dos Mormons - cuja mensagem central, refletida


no próprio título da seita - insistiam que estavam vivendo os
dias finais antes do retorno de Cristo. Os Mormons ganharam
muitos adeptos e, ainda hoje, nos EUA, é a seita que mais eres-
ce. Outro exemplo histórico daqueles momentos, e característi­
co do apelo escatológico dos religiosos americanos da mesma
época, vem do líder batista William Miller (1782-1840). Este,
após seus estudos no Livro de Daniel, convenceu-se de que
Cristo estaria retornando no ano de 1843. Com base nessa sua
crença, organizou um a seita, à qual aderiram milhares de cren­
tes que passaram a aguardar ansiosos o retorno do Mestre na
data prevista. Não obstante o trem endo fiasco da previsão
millerista, a expectativa do iminente retorno de Cristo - ainda
que sem data marcada - tornou-se doutrina retomada por ou­
tros líderes que então fundaram a seita adventista, até hoje em
plena ação em vários pontos do planeta.48
Mais modernamente, com os acontecimentos desse início
de Séc. XX, e principalmente acompanhando as vitórias ociden­
tais nas duas grandes guerras, não faltaram exegetas para iden­
tificar os sinais da batalha do Armaggedon, a Segunda Vinda e
a presença dos Anticristos. Assim como, para alguns profetas,
Guilherme II (1859-1941), Kaizer da Alem anha durante a pri­
m eira grande guerra, era visto por fundamentalistas como o
primeiro forte candidato a Anticristo, durante e após a Segun­
da Guerra, não faltaram outros candidatos a esse título, ampla­
mente proclamados por líderes religiosos americanos: Mussolini,
Stalin e Hitler. Term inada a Segunda Guerra, passamos ao pe­
ríodo da Guerra Fria, o confronto político e ideológico aberto
entre os EUA e a URSS, sem nenhum momento de “euforia san­
ta” capaz de ensejar novas interpretações apocalípticas, sem
que Cristo houvesse retornado até então. Para os conservadores
religiosos, em aliança com os políticos de direita, criava-se nos
russos a imagem do grande inimigo dos cristãos e o mais prová­
vel agente da batalha final do Armaggedon. Os pregadores e
intérpretes dos sinais bíblicos dos últimos dias sempre foram
unânimes em apontar a Rússia como o protótipo do reino do
Mal - o reino de Magog profetizado por Ezequiel.49 A conquista

48Gary Leazer, “Fundamentalism. & Freemasonm: The Southern Baptist Investiaation o fth e Fraternal
O rd ef,M - Evans and Co., Inc. New York, 1995, págs. 58-65.
ANTIM AÇONARIA 167

de Jerusalém pelos judeus ao fim da guerra dos seis dias, de


1967, foi outro evento que m ergulhou todo o mundo ocidental
em novas especulações escatológicas.
O famoso escritor-profeta americano, Hal Lindsey, referên­
cia para os fundamentalistas, foi dos que melhor aproveitou o
momento assegurando o sucesso de sua bem-sucedida obra
profética, a “Countdown to Armaggedon” [Contagem Regressiva
para Armaggedon], “The Late Great PlanetEarth” [O Antigo Grande
Planeta Terra] e “The Planet Earth 2.000 A.D.” [O Planeta Terra,
ano 2000 d.C.], todos especulando sobre o breve retorno de Cris­
to, identificando os anticristos, a batalha final de Arm aggedon e
outros eventos apocalípticos. Muitos outros profetas, não tão
divulgados entre nós, também se levantaram para promover suas
visões escatológicas e alcançar com isso multidões de adeptos e
leitores para as suas obras. O citado teleevangelista e líder po­
lítico Pat Robertson arvorou-se de profeta, pouco antes de se
envolver na campanha presidencial de 1988. Em uma de suas
pregações pela rede de TV que comanda, afirmou em maio de
1982 que:

“Eu garanto a vocês que antes do outono de 1982 haverá o


Juízo Final neste mundo.”50

Outro visionário, não tão conhecido e citado como Robertson,


Edgar Whisenant, publicou um livro que atingiu o recorde de
dois milhões de exemplares nos EUA, com o sugestivo título:
“88 Reasons Why the Rapture Will Be in 1988” [88 Razões Por­
que o Arrebatamento Será em 1988]. Whisenant fez inúmeros
cálculos, fundamentados - segundo ele - em dados extraídos de
Mateus 24:36 e de Apocalipse 18:10, para declarar que o
arrebatamento da igreja aconteceria entre os dias 11 e 13 de
setembro de 1988 e que a Terceira Grande Guerra Mundial co­
meçaria no dia 03 de outubro de 1988 quando a URSS invadiría
Israel.51Muitos desses novos “arautos do fim ” chegam mesmo a
ilações beirando ao ridículo. Lembremo-nos dos encontros fi-

“’ Ezequiel cap. 38 e 39 , descreve a visão profética da batalha final travada entre Israel e o reino do
norte, da terra de Magog. Os intérpretes de todo esse texto, sempre sinalizaram que - por se tratar de
reino ao norte de Israel - a terra referida é a Rússia de nossos dias.
50G aiy Leazer, op. cit. pág. 70.
51Idem. pág. 71.
168 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

nais entre o presidente americano Ronald Reagan e o primeiro-


ministro soviético e chefe do Partido Comunista da União Sovi­
ética, Mikhail Gorbachev, na segunda metade dos anos 80. Urna
corrente fundamentalista, radicalmente contrária aos acordos
firm ados então, veio à im prensa den u n ciar a presen ça de
Gorbachev em solo americano para a assinatura do tratado com
o presidente dos EUA. Alegavam ser o líder russo, portador da
mensagem da Besta do Apocalipse. Razão: a mancha vermelha
na cabeça de Gorbachev era o sinal da besta, previsto na Bíblia,
diziam .52
Muitos autores evangélicos têm-se ocupado em interpretar
o Apocalipse53. Aproveitando a onda de mudança de milênio,
de olho no atraente mercado editorial, ávido por este tipo de
literatura, autores e obras de qualidade diversa se lançam com
análises e profecias sobre o final dos tempos. Fundamentalistas
deste fim de século, procuram identificar no mundo atual os
anticristos, os falsos profetas, o aparecimento do sinal da besta
e seu número, 666, as guerras em torno da cidade santa, Jeru­
salém, e outras evidências que prenunciem o Armaggedon e,
segundo sua interpretação literal, o final dos tempos.
Ê compreensível que as interpretações apocalípticas, esti­
muladas pela aproximação de fim deste milênio, tenham cor­
roborado com a radicalização fundamentalista, isto é, com a
posição dos chamados “defensores de Deus” , conforme define o
Prof. Bruce Lawrence. O Novo Testamento é explícito em pro­
clamar que um dia virá o fim e a instalação de um a nova ordem,
liderada pelo retorno de Cristo. Segundo o relato do Novo Testa­
mento, haverá de se instalar na Terra o Reino de Deus em al­
gum momento não assinalado.

“E n tã o a p a re cerá no céu o sin a l d o F ilh o d o h om em ; to d o s os

52Baseavam suas previsões literalmente no livro do Apocalipse 13:11-17: “Vi ainda outra besta emer­
gir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão. Exerce a autoridade da
primeira besta na sua presença. Faz que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja
ferida mortal fora curada. Também opera grandes sinais... seduz os que habitam sobre a terra p o r causa
dos sinais que lhe fo i dado executar diante da besta... A todos os pequenos e grandes, os ricos e os
pobres, os livres e os escravos, fa z que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte,
para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta, ou o
número do seu nome... ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis”.
53Último livro da Bíblia, Apocalipse - termo grego - significa Revelações. É o livro do Novo Testamento
que trata das últimas coisas. Sua mensagem é um relato de uma visão de São João Evangelista na
ilha de Patmos.
ANTIM AÇONARIA 169

p o v o s d a terra s e la m en ta rã o e verão o F ilh o d o h o m e m vind o


so b re a s n u ven s d o céu com p o d e r e m uita glória. E e le en via rá os
s e u s anjos, com g ra n d e c la n g o r d e trom beta , os q u a is reu n irã o os
se u s escolh id os, d os q u a tro ventos, d e u m a a ou tra extrem id a d e
d o s c é u s ”, registra o Evangelho Segundo São Mateus, Cap. 24:
30, 31.

Os três últimos capítulos do livro do Apocalipse falam da


segunda vinda, da instalação do Reino de Deus com a liderança
de Cristo e seus seguidores, a Igreja, prenunciada e seguida de
um a série de eventos. Jesus Cristo, instruindo seus discípulos,
afirmou que voltaria um dia, conforme os registros dos Evange­
lhos em diversas passagens.54
Para os não familiarizados com as interpretações atribuí­
das à mensagem bíblica do fim dos tempos, um breve com entá­
rio é oportuno. Pode esclarecer as motivações e o oportunismo
dos neo-antimaçons.
Para os cristãos de todas as denominações, o mundo terá
um fim com o estabelecimento do Reino de Deus na terra com
Jesus Cristo, o Filho de Deus, na posição de Senhor - entronizado
no Mundo55. O Novo Testamento deixa-nos antever que o pro­
cesso até chegar a este estabelecimento é longo, complexo e cheio
de sinais e eventos, como a segunda vinda de Cristo, o Juízo
Final, a vinda do Cavalo Branco com seu Fiel Cavaleiro, a bata­
lha de Arm aggedon, o Arrebatam ento da Igreja, o efêm ero
surgimento do Anticristo e sua derrota definitiva após sete anos,
o acorrentamento e destruição final de Satanás, etc. É a ordem
cronológica desses acontecimentos que divide a cristandade e
não o acontecimento do fim dos tempos, conforme a interpreta­
ção dada ao relato bíblico. O que acontece primeiro? Qual será
o último evento, antes do estabelecimento do Reino de Deus, da
vinda da Jerusalém Celestial?
Quase todos, os chamados milenaristas, são unânimes em
aceitar a instauração de um milênio sob nova ordem, com Sata­
nás acorrentado, ao interpretar literalmente os versículos 2 e 3
do capítulo 20 do Apocalipse:
“E le s e gu rou o dragão, a a n tiga serpente, q u e é o diabo, S a ta -

54Cf. São Mateus-24; São Marcos-13; São Lucas-21.


55Crença que tem paralelo com a fé judaica, segundo a qual com a vinda do Messias, esperada pelos
judeus, a nova ordem mundial, com a entronização do reino de Deus na terra haverá de ter lugar.
170 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

nás, e o p re n d e u p o r m il a n o s; la n çou -o no ab ism o, fe c h o u -o , e


p ô s o selo so b re ele, p a ra q u e não m a is e n ga n a ss e as n a ções até
s e c o m p le ta re m os m il anos. D e p o is d is s o é n e ce s s á rio q u e éle
seja so lto p o r p o u c o tem po. ”

E sse p e río d o de m il an os é a n te rio r ou p o s te r io r a


PAROUSIAS, isto é, a segunda vinda de Cristo? Cada grupo
tem sua opin ião e ai os in térp retes estão d ivid id os: pós-
milenistas, pré-milenistas e amilenistas.
Pós-milenistas são os que defendem a interpretação do
Apocalipse 20:2 e 3, segundo a idéia de que o retorno de Cristo
acontecerá após o estabelecimento de urna nova ordem na qual
Satanás será acorrentado primeiro. Os mil anos correspondem
a algum período entre a ressurreição de Cristo e a sua segunda
vinda. Estaríamos então já vivendo o milênio final, com a Igreja
de Cristo cooperando para criar as condições de encerramento
desse período. Cristo virá em seguida. Há seguidores e críticos
desta posição.
Pré-milenistas admitem a Segunda Vinda de Cristo, ante­
cedendo o estabelecimento dos Mil Anos. Dão um a interpreta­
ção literal do Apocalipse. Para os seguidores desta linha, o Cap.
20 do Apocalipse, descrevendo o desencadeamento do milênio,
segue cronologicamente a vinda do Cavaleiro “Fiel e Verdadeiro”
com seu cavalo branco, conforme Cap. 19 , vers. de 11 a 16:

“ Vi o céu aberto, e eis u m ca va lo branco. O se u ca va le iro se


ch a m a F ie l e V erdadeiro, e ju lg a e p e le ja com ju s tiça .... O s seu s
olh os sã o ch a m a de fo g o ; na su a ca b eça há m u itos diad em as...
E s tá vestid o com u m m a n to tin to d e sangue, e o se u n om e se c h a ­
m a o Verbo d e D e u s; e s e g u ia m -n o ex ército s q u e há no céu, m on ­
ta n d o ca va lo s brancos, com vestid u ra s d e linho fin ís s im o , bra n co
e p u ro. S a i d e su a boca u m a esp a d a afiada, p a ra com ela f e r ir as
n a ções; e e le m es m o a s regerá com ce tro d e fe rro .... Tem no seu
m anto, e na su a coxa, u m n om e escrito: R E I D O S R E IS E S E N H O R
D O S S E N H O R E S .”, que cronologicamente antecedería ao milê­
nio.

Assim sendo, o retorno vitorioso de Cristo desencadearia a


seqüência de eventos do milênio, com o estabelecimento do novo
Reino de Deus, a libertação final de Jerusalém ao final da bata­
lha do Armaggedon, com o aprisionamento de Satanás, a iden­
tificação e derrota final do anticristo, o arrebatemento da Igre­
ja, a ressureição dos mortos e finalmente o reinado eterno de
ANTIM AÇONARIA 171

Cristo. Várias vertentes cristãs, fundamentalistas ou não, abra­


çam essa corrente. Uma das principais preocupações desta cor­
rente está em identificar os sinais da segunda vinda de Cristo e
mesmo colaborar para apressá-la.
Os Amilenistas parecem imunes à interpretação literal pre­
ferindo atribuir significado puramente simbólico ao texto bíbli­
co. Não haverá os mil anos, segundo eles. Não é possível ter-se
Satanás acorrentado, tal como os milenistas admitem, já que se
trata de um Espírito que, como tal, não poderia ser literalmente
acorrentado. A interpretação deve ser extraída em torno do sim­
bolismo que impregna o texto, dizem.

Os milenistas têm maior força no cenário evangélico atual


e, no meio destes, os seguidores da linha pré-milenista parecem
predominar. Cada corrente tem seu líder maior, pregando suas
mensagens e trazendo à luz suas interpretações sobre os dias
finais da terra. Lamentavelmente, para os não iniciados nesses
meandros doutrinários - como é o caso de muitos maçons - é
preciso aprender a filtrar essas mensagens escatológicas, frutos
da interpretação literal de grupos minoritários fundamentalistas.
Muitas delas têm engendrado verdadeiros desastres, outras car­
regam dose de irracionalidade e outras ainda, pelo vocabulário
um tanto hermético para os não familiarizados, tornam as suas
idéias inacessíveis. Como nos tempos primitivos, grupos religio­
sos há que hoje nutrem muita dedicação às mensagens sobre o
fim dos tempos, aceitando cegamente os intérpretes pós e pré-
milenistas do Apocalipse. Nos EUA intérpretes dessas m ensa­
gens não têm faltado e seus trabalhos têm sido divulgados no
Brasil.
Mas o que todo este ardor apocalíptico de fim de Séc. XX
tem a ver com os maçons, mais diretamente? Por que a Ordem
tem sido envolvida, justo agora no fim deste milênio, nesta onda
apocalíptica? A maçonaria, como outras organizações humanas
cuja presença, influência e alcance ultrapassam as fronteiras
que dividem as nações, além de guardar eqüidistância das di­
versas religiões e posições políticas, é vista pelos intérpretes li­
terais da Bíblia como envolvida nos reinos materiais que have­
rão de organizar o governo mundial antes do estabelecimento
do Reino de Deus. Certam ente, dizem , a Ordem encobre o
anticristo e tem a ver com a Besta do Apocalipse. A tese, de
172 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

muitos adeptos, ganhou corpo nos últimos anos do presente


século e constitui argum ento central do discurso dos neo-
antimaçons.
Pensamos haver encontrado, um dos indícios mais prová­
veis de sua origem, nas interpretações bíblicas do Dr. Cyrus
Ingerson Scofield (1843-1921), autor de um dos mais conheci­
dos comentários bíblicos deste século: “The Scofield Reference
Biblé’ [A Bíblia Sagrada, com referências e anotações do Dr. C.I.
Scofield].56 As interpretações bíblicas de Scofield foram desde
cedo aceitas e seguidas fielmente pelos fundamentalistas. A obra
é ainda hoje tida como importante referência, seguida e citada
por diversas facções tradicionais e fundamentalistas. Sua edi­
ção entre nós, no Brasil, veio patrocinada pela Editora Batista
Regular, um a denominação batista, com muitas igrejas consti­
tuídas no país, mas com origem nos EUA. A Convenção Batista
R e g u la r é u m a d as m a is im p o r ta n te s d e n o m in a ç õ e s
fundamentalistas que inclusive proíbe em seus regulamentos -
de forma explícita - a aceitação de maçons no rol de membros
de suas igrejas.
A previsão do governo mundial - tal como verberam os “cons­
piradores” atuais - surge literalmente nos comentários de Scofield
aos textos do Apocalipse 12 e Daniel 7, conforme abaixo trans­
crevemos:

O Texto Bíblico, Apocalipse 13 A interpretação dada pelo Dr.


(Segundo a versão R evista e C. I. Scofield
Atualizada no Brasil, da S.B.B.) (cf. texto, págs. 1294-6)

01 Vi emergir do mar uma bes­ Neste desvendamento das condições


ta, que tinha dez chifres e sete finais sobre a terra no final da
cabeças e, sobre os chifres, dez dispensação, manifestar-se-ão os se­
diademas e, sobre as cabeças, guintes fatores: 1) o governador mun­
nomes de blasfêmia. dial será satánicamente Energizado
02 A besta que vi era semelhante (vs.2,4);
a leopardo, com pés como de 2) ele e sua imagem serão adorados

56Trata-se da Bíblia Sagrada, tal como a conhecemos, acompanhada de diversas notas de rodapé com
as interpretações inseridas pelo Dr. C.I. Scofield. Sua primeira edição surgiu nos EUA em 1909, logo
seguida da segunda edição em 1917. O Dr. Gary Leazer estima que até 1990 teriam sido vendidos
mais de 12 milhões de exemplares. A Bíblia Sagrada Scofield, como ficou conhecida, pode ser encon­
trada no Brasil, já traduzida para o português, tendo sido editada pela Imprensa Batista Regular do
Brasil em 1983.
AN TIM AÇ O NARIA 173

urso, e boca como boca de leão. (vs.4,8,12 e 15); 3) ele terá reconheci­
E deu-lhe o dragão o seu poder, damente supremo Poder militar (vs.4);
o seu trono e grande autorida­ 4) ele vai exercer autoridade Universal
de. (vs.7); 5) ele perseguirá os crentes em
03 Então vi uma de suas cabe­ Cristo (vs.6 e 7).
ças como golpeada de morte, A segunda besta é 1) sedutora (vs. 13 e
mas essa ferida mortal foi cura­ 14), e 2) exercerá ditadura econômica
da; e toda terra se maravilhou, (vs.lóe 17). Ainda o vs.l, a quarta besta
seguindo a besta; de Daniel (Dn 7:26). Os dez chifres são
04 e adoraram ao dragão por explicados em Dn 7:24 e Ap. 17:12
que deu a sua autoridade à bes­ como sendo dez reis. A visão toda é uma
ta; também adoraram a besta, Confederação de dez nações que serão
dizendo: Quem é semelhante a uma renovação do antigo Império Ro­
besta? quem pode pelejar con­ mano. Sua esfera de ação provavelmen­
tra ela? te vai atingir além dos antigos limites,
05 Foi-lhe dada uma boca que considerando que será um poder mun­
proferia arrogâncias e blasfêmi­ dial (vs.8).
as, e autoridade para agir qua­ Por exemplo, a mulher vestida de púr­
renta e dois meses; pura e escarlate é vista sentada sobre
06 E abriu sua boca em blasfê­ uma besta escarlate. A mulher é a
mias contra Deus, para lhe di­ Babilônia, o Cristianismo Apóstata e a
famar o tabernáculo, a saber, os besta a forma final do poder mundial
que habitam no céu. gentio. Considerando que a mulher
07 Foi-lhe dado também que cavalga a besta, onde uma vai a outra
pelejasse contra os santos e os vai também; assim o império mundial.
vencesse. Deu-se-lhe ainda au­ Vai abranger todas as áreas do Cristia­
toridade sobre cada tribo, povo, nismo, que certamente inclui o Hemis­
língua e nação; fério Ocidental. Apoc.13: 1-3 refere-se
08 e adora-la-ão todos os que ao poder dos dez reis; os vs. 4-10, ao
habitam sobre a terra, aqueles seu governante que é enfaticamente a
cujos nomes não foram escritos “besta” (veja Apoc. 19:12).
no livro da vida do Cordeiro que (13:2) Em Dn. 7:4-6 vêem-se três ani­
foi morto, desde a fundação do mais - um leão, um urso e um leopar­
mundo. do. Eles são símbolos dos impérios que
09 Se alguém tem ouvidos, precederam o Império Romano, a besta
ouça. composta (Dn 7:7) que combinava ca­
10 Se alguém leva para o cati­ racterísticas e qualidades dos três pri­
veiro, para o cativeiro vai. Se meiros: a voracidade da Babilônia, a
alguém matar à espada, neces­ tenacidade da Pérsia e a rapidez da
sário é que seja morto à espa­ Macedônia.
da. Aqui está a perseverança e (13:3) Fragmentos do antigo Império
a fidelidade dos santos. Romano jamais deixaram de existir
11 Vi ainda outra besta emergir como reinos separados. Foi a forma
da terra; possuía dois chifres, imperial de governo que acabou; a ca­
parecendo cordeiro, mas falava beça “ferida de morte”.O que está pro­
como dragão. feticamente contido no vs. 3 é a res­
12 Exerce toda autoridade da tauração da forma imperial como tal,
174 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

primeira besta na sua presença. embora sobre uma forma de império


Faz com que a terra e os seus federativo de dez reinos. A cabeça é
habitantes adorem a primeira “curada”, isto é, restaurada; vemos
besta, cuja ferida mortal fora cu­ novamente um imperador - a besta.
rada. (13:7) Quanto a certeza da vitória do
13 Também opera grandes si­ povo de Deus sobre todas estas for­
nais, de maneira que até fogo do ças malignas, veja Apoc. 15:2.
céu faz descer à terra, diante dos (13:8) Mundo (gr., kosmos), resumo:
homens. No sentido do atual sistema mundi­
14 Seduz os que habitam sobre al, o sentido eticamente ruim do
a terra por causa dos sinais que mundo refere-se à ordem ou ao ar­
lhe foi dado executar diante da ranjo sob o qual Satanás organizou
besta, dizendo aos que habitam o mundo da humanidade incrédula
sobre a terra que façam uma ima­ sobre os seus princípios cósmicos de
gem à besta, àquela que ferida à força, ganância, egoísmo, ambição e
espada, sobreviveu. prazer. Este sistema mundial é im­
15 e lhe foi dado comunicar fôle­ ponente e poderoso, sendo mantido
go à imagem da besta, para que, com força militar, visivelmente é re­
não só a imagem falasse, como ligioso, científico, culto e elegante na
ainda fizesse morrer quantos não aparência; mas embebido em rivali­
adorassem a imagem da besta. dades e ambições nacionais e comer­
16 A todos os pequenos e os ciais, apenas se mantém em qual­
grandes, os ricos e os pobres, os quer crise verdadeira pela força ar­
livres e os escravos, faz que lhes mada, e é dominado.
seja dada certa marca sobre a Pelos princípios satânicos.
mão direita, ou sobre a fronte. (13:11) Muitos identificam a “besta
17 para que ninguém possa com­ que emergiu da terra” com o
prar ou vender, senão aquele que Anticristo. De acordo com as Escri­
tem a marca, o nome da besta, turas, muitos “Anticristos” e aque­
ou o número do seu nome. Pelos les que têm o “espírito do anticristo”
princípios satânicos. precedem e preparam o caminho
18 Aqui está a sabedoria. Aquele para o Anticristo final.Se a “besta”
que tem entendimento calcule o que emergiu da terra é o Anticristo,
número da besta, pois é número então ele é o mesmo “falso profeta”.
de homem. Ora, esse número é
seiscentos e sessenta e seis.

Ora, as interpretações bíblicas de Scofield, como esperado,


tiveram ampla divulgação e ganharam inúmeros adeptos, entre
os evangélicos mais conservadores principalmente. Seus m ui­
tos seguidores vieram acrescentar outros cenários às interpre­
tações, identificando os agentes da instauração do governo
mundial, por exemplo, na formação dos blocos econômicos des­
te fim de milênio. Após a publicação no início dos anos 90 dos
ANTIM AÇONARIA 175

livros de Ralph A. Epperson e de Pat Robertson, porém, essas


idéias de um governo mundial - tramado secretamente para es­
tabelecer a NOVA ORDEM MUNDIAL - vieram tão-somente vali­
dar, consagrar e divulgar amplamente as interpretações que
Scofield sustentava desde 1909.
A diferença hoje está em que, com o mundo estrutural e
politicamente mais complexo do que na era de Scofield, os atu­
ais intérpretes tiveram de elocubrar um pouco mais para en­
gendrar suas novas mensagens de fim do mundo. Agora é pos­
sível se falar da Comunidade Econômica Européia, da ONU, da
Comissão Trilateral e outros organismos internacionais como
agentes do processo, isto é, responsáveis pelo surgimento da
“besta” do Apocalipse. Cada novo acontecimento de grande re­
percussão na mídia internacional merece um a sinalização dos
mercadores do Apocalipse. O antimaçom G aiy Kah prevê que a
batalha de Armaggedon estará sendo iniciada com a invasão de
Israel por tropas da Síria brevemente, pois que há ameaças ní­
tidas no ar, nos dias atuais, de um recrudescimento das hosti­
lidades entre aquelas nações islâmicas. Como a URSS não mais
existe e, aparentemente, os russos não representam a mesma
ameaça vislumbrada por Hal Lindsey nos anos 70, os profetas
da hecatombe final precisam agora “inventar” outros povos re­
presentando Magog, o guerreiro vindo do norte, disposto a inva­
dir Israel.
Jeffrey L. Sheller, respeitado jornalista norte-americano
em artigo publicado no U.S. News & World Report57 dá-nos sua
instigante perspectiva da cultura americana no que se refere
aos assuntos apocalípticos, que permitimos aqui destacar:

“A cren ça em p ro fe c ia s a p o ca líp tica s n ã o é a p e n a s u m f e n ô ­


m eno religioso. S e gu n d o u m a recen te p e s q u is a d e op in iã o da ‘U.S.
N e w s ’, 66% d os a m erica n os, in clu in d o u m terço d a q u e les q u e d i­
ze m n un ca ir à Igreja, a cred ita m q u e J e s u s C risto volta rá à Terra
u m d ia - u m a u m e n to em rela çã o a os 61% q u e m a n ife sta ra m sua
cre n ç a no S e g u n d o A d v e n to . D e a c o rd o com D a n ie l W ojcik da
U n iversid a d e d o O regon, a etern a atra çã o d a p ro fe c ia ap oca líp tica
está na ‘p ro m e s s a d e q u e a existên cia h u m a n a tem u m sen tid o e

57 Integralmente reproduzido no Caderno 2 d’ “O Estado de S. Paulo” de domingo, 11 de janeiro de


1998.
176 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

u m a im in en te era d e ou ro p o r á f im a to d o m a l e a tod a in ju s tiça ’.


D e certa fo rm a , o fa s c ín io d os E s ta d o s U n id os com o A p o ca lip s e
com eço u com C ristóv ã o C olom b o (!), u m a rd oros o le ito r d a s p ro fe ­
cia s ... q u e a cred ita v a q u e o m u n d o a ca b a ria em 1650 e a ch a va
q u e o fa to d e te r d e scob e rto o N o vo M u n d o era p a rte d e u m p la n o
d ivin o p a ra es ta b e le ce r u m p a ra ís o m ilenarista.... O s P u rita n o s da
A m é rica C o lo n ia l a cred ita v a m q u e se u s p o v o a d o s na N o va In g la ­
terra era m p o s to s a va n ça d os d o R e in o q u e C risto esta b e lecería em
s e u S e g u n d o A d v e n to ”, diz o articulista.

T o d o es s e a p a r e n te m e n te in g ê n u o p r o c e s s o de
sensibilização da sociedade americana, porém, não deixa de
conter seus perigos. Fato que não passa despercebido por Sheller
que citando vários outros autores contemporâneos destaca a
febre de identificação dos inimigos do cristianismo:

"... C. M a rv in Pate, do M ood y B ib le In stitu te, d e C hicago, a fir­


ma que ‘re la cio n a r even tos a tu a is a p ro fe c ia s b íb lica s é u m a o b ­
se ss ã o que, se m dú vida, ca u s ou m a is m a l d o q u e b e m ’. S e gu n d o
T im o th y W eber, a u to r d e ‘L iv in g in th e S h a d o w o f th e S e c o n d
C orn in g’ [Vivendo à Sombra da Segunda Vinda], os p ro b le m a s
com eça m qu a n d o as p e s s o a s d ã o a su a s in te rp reta ções d a s p ro fe ­
cias o m es m o p e s o d e d o g m a s com o a d iv in d a d e d e Jesu s, a vir­
g in d a d e d e M a ria e a ressurreiçã o, com o se fiz e s s e m p a rte d e u m
p a c o te d ou trin á rio básico.
E la s n ã o a p e n a s vêem n o s a c o n te cim e n to s a tu a is o c u m p ri­
m en to d os d e síg n ios d e D eus, com o d is trib u em os p a p é is d e h e­
róis e vilões no cen á rio d ivin o a se u s con tem p orâ n eos. E, d e a co r­
d o com W eber, u m a vez q u e a lg u m a s p e s s o a s se ja m id e n tifica d a s
com o p a rte d a a p osta sia d o f im d os tem pos, ‘su rge u m a ju s tific a ti­
va a p a re n te p a ra tra tá -la s com o in im ig a s d e D e u s ’. E ss a s in te r­
p re ta ç õ e s d is torcid a s d a s p ro fe c ia s p o d e m te r e feito s e cu n d á rio
b a s ta n te p e rig o s o : d e s p e rta r d e scon fia n ça e até m es m o o ód io con ­
tra a u torid a d es e in stitu ições p ú b lic a s ...”58

58 O mesmo longo artigo de Sheller prossegue na análise de fenômenos estranhos acontecidos nos
últimos anos nos EUA, como o incêndio e morte coletiva dos seguidores da seita conhecida como
Ramo Davidiano, em Waco Texas, que viam no cerco ao seu alojamento, por policiais, o sinal
apocalíptico dos inimigos de Deus representados pelas autoridades federais que buscavam evitar o
suicídio em massa, que acabou por acontecer. De igual forma, avalia o incêndio do prédio governa­
mental de Oklahoma City, por McWeigh, quando morreram mais de 120 pessoas, tudo motivado pela
visão de que o governo federal, representante do maligno, fora responsável pelo morticínio anterior em
Waco.
AN TIM AÇONARIA 177

Outros observadores, atentos às guerras atuais, já acionam


o relógio do fim dos tempos. Com a recente explosão atômica na
ín d ia , s e g u id a de o u tra s e x p e riê n c ia s id ê n tic a s do seu
a r q u iin im ig o , o P a q u is tã o , em p le n o v e r ã o de 1998,
fundamentalistas vêem sinais do fim dos tempos, previstos na
Bíblia. O jornal “O Estado de S. Paulo”, em sua edição de 12 de
junho de 1998, publicou nota a respeito desse assunto que, por
seu conteúdo emblemático, é mais um exemplo de espírito febril
americano de preocupação com o fim dos tempos, que aqui
estamos tentando sublinhar:

“M a is p e rto d a ca tá strofe: M ich a e l M oore, e d ito r d o B o le tim dos


C ien tista s A tôm icos, d e Chicago, a p re sen ta o novo horá rio d o R e ­
lógio d o J u íz o F inal, cria d o em 1 9 4 7 p a ra m a rca r o q u a n to a h u ­
m a n id a d e está p e rto da catástrofe. E le f o i a d ia n ta d o cin co m in u ­
to s on tem p o r ca u sa dos recen tes te stes nu clea res da ín d ia e do
P a q u istã o. A m e ia -n o ite s im b o liz a o f im d o m u n d o [acompanha
foto de Moore tendo ao fundo o relógio marcando treze minutos
para a meia-noite].”

O governo mundial, formado por um a federação de dez na­


ções, a grande besta de dez chifres, conforme decodificada por
Scofield, está sendo estabelecido pelas astutas maquinações dos
diversos agentes mencionados por Pat Robertson em sua “Nova
Ordem Mundial”. A contribuição m aior desses novos intérpre­
tes, usando como base as exegeses de Scofield e seus adeptos,
está em revelar quais são esses agentes e tentar introduzi-los
nos seus modelos de referência. O novo governo mundial será
poderoso, será satánicamente “energizado”, será amplo, domi­
nará pela força, perseguirá os cristãos; assim preconizou Scofield
e assim buscaram os atuais analistas identificar seus agentes.
Não foi difícil identificá-los. Senão vejamos: todos os organis­
mos que, de um a forma ou de outra, têm a ver com o atual
cenário da globalização (seja na economia, seja na política, seja
na segurança internacional, ...) estão qualificados, na obra de
Robertson, Kah e seus seguidores, como parte da Conspiração
em curso. Assim, a Organização das Nações Unidas, com o seu
propósito de unir os povos num clima de paz e cooperação, é a
primeira indicada pelos exegetas do Apocalipse 13 como res­
ponsável pela construção do governo m undial - um a das
mentoras da “besta” de dez cabeças. As demais organizações,
“reveladas” nas elocubrações das mentes de Robertson, Falwell,
178 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Kah e outros visionários seriam:

Conselho de Relações Exteriores (CRE): concebido em


1919, ao final da Primeira Guerra Mundial e estabelecido em
1921, após a falha dos EUA em participar da criação da Liga
das Nações. Composto de personalidades de relevo na política e
na economia, e operando de forma não-oficial, o CRE estaria
encarregado de assessorar o Governo Americano na formulação
de suas estratégias e políticas externas. Vários líderes teriam
sido membros ativos do CRE, destacando-se o ex-presidente
George Bush, Nelson Rockefeller, David Rockefeller, Adiai
Stevenson, Cirus Vanee, Paul Volker, Jeanne Kirkpatrick, Jesse
Jackson, Alian Greenspan, e outros.

Comissão Trilateral: um a das mais deploradas e temidas


organizações internacionais, na visão dos fundam entalistas
am ericanos59. Foi criada em 1970 por líderes em presariais e
políticos da Europa, EUA e Japão, com o declarado objetivo de
“encorajar estreita cooperação entre estas três regiões industri­
alizadas e d em ocráticas” , assin ala o com en tarista político
Callahan.60

Clube de Roma :apontado como um dos importantes agen­


tes satânicos desse final dos tempos, fundado em 1968 por Au­
rélio Peccei, um idealista piemontês de formação liberal e socia­
lista, reúne cientistas, políticos e intelectuais de diversas partes
do planeta interessados num objetivo comum: estudar o futuro
da humanidade. O Professor Hélio Jaguaribe sintetizou assim o
conceito e os objetivos dessa organização internacional: “ ...[o
Clube de Roma] fo i concebido como uma associação informal, mas
aberta, de um grupo de homens de diversas procedências: profis­
sionalmente, a vida universitária, o mundo dos negócios, as pro­
fissões liberais, a ação política; nacional e regionalmente, países
europeus e norte-americanos, inicialmente, e logo depois uma
ampla representação de países do Terceiro Mundo, bem como de
intelectuais do mundo socialista. Essa gente, tão diversa em suas

59Tim Callahan, “The End o fth e World & The New World Ordat’ . Skeptic vol.4, n“ 3, 1996. págs. 44-
51.
60Tim Callahan, op. cit. pág. 6.
ANTIM AÇONARIA 179

origens, ocupações e idéias, tem em comum um profundo compro­


misso com uma visão social-humanista do mundo e uma profun­
da preocupação com a crescente crise dos macrossistemas mun­
diais. ”6’
Banco Central Americano (Federal Reserve Board): O
chamado Federal Reserve System (Sistema do Banco Central),
juntam ente com toda a rede bancária internacional, é tido como
das mais ativas organizações que, ainda que “plantada” no ter­
ritório americano, articula com os demais agentes o controle
mundial sobre as nações, assim dizem teóricos da Conspiração
da Nova Ordem Mundial. O Banco Central (Fed) foi criado pelo
Congresso em 1913 com a missão de controlar a moeda, pela
emissão e compra de títulos, regulando as taxas com que os
bancos tomam recursos do próprio Fed e regulamentando os
percentuais de ativos que são recolhidos pelos bancos com erci­
ais ao próprio Fed. Com todos esses controles em mãos, pode
exercer forte influência sobre as taxas de inflação da economia
americana e, por sua vez, refletir-se sobre as demais economias
do planeta. Diferentemente de outros países, nos EUA o Fed
tem sua administração independente do Governo Federal, dis­
pondo de um poder muito grande já que exerce controle absolu­
to sobre a moeda, que hoje tem valor internacional, sendo prati­
camente considerada referência de troca em todo o planeta.
Obviamente, tal poder - com alcance internacional- coloca o Fed
como um candidato natural a agente do futuro governo m undi­
al, visto pelos fundamentalistas.
Comunidade Econômica Européia (CEE): Provavelmente
é a organização internacional que mais se ajusta às predições
dos m ilen ista s sobre o A n ticristo . É a orga n iza çã o m ais
comumente citada pelos fundamentalistas como aquela citada
em Apocalipse 13, que ainda que não seja a “besta” de dez chi­
fres está muito perto disto e já procura exercer um certo gover­
no sobre boa parte da civilização ocidental (a européia). Estamos
chegando ao fim deste milênio vendo a CEE adotando um a só
moeda ao mesmo tempo em que a OTAN - organização militar
defensora dos interesses do ocidente e sediada na Europa Oci­
dental - tem seu quadro de nações filiadas cada vez mais am­
pliado.

61 Aurélio Peccei, “ C e m P á g in a s p a r a o F u tu r o ". Ed. Universidade de Brasília. Brasília, 1981, pág. 1.


180 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Judeus e Banqueiros Internacionais: Os judeus sempre


foram vistos pelos antimaçons com desconfiança e preconceito.
Um povo errante, que somente em 1948 ganhou seu próprio
solo, retornando à sua Canaã, constituindo-se em estado autô­
nomo e independente, foi e é considerado pelos seus opositores
como apátridas, sem amor ao solo onde pisa e fixado à idéia de
conquista de poder político e econômico internacionais. Os ju ­
deus estão envolvidos numa grande trama universal, dizem seus
detratores, visando o poder mundial. A edição dos “Protocolos
dos Sábios de Sião” deu publicidade universal a essa idéia de
domínio judaico e ainda hoje se constitui no “manual” básico a
inspirar constantes diatribes. A associação do poder judaico com
o capital internacional acabou por levar de roldão toda a com u­
nidade financeira para o mesmo rol dos acusados pela conspi­
ração.
E por fim, mas certamente não o menos importante, todos
os neo-antimaçons falam com toda convicção dos maçons e seus
assemelhados.
Maçonaria, a Ordem dos Templários e os Iluminados: A
maçonaria, encarada como um a fraternidade que não enxerga
fronteiras, e que está simbióticamente ligada (como crêem os
antimaçons) com a organização secreta, ainda viva (!), dos Ilu­
minados, integra essa complexa conspiração em favor de um
governo mundial. A Ordem dos Templários, que ao longo da
Idade Média, acumulara tantos bens e poder, lograra relaciona­
mentos internacionais, estaria rediviva e associada aos maçons
e iluminados, no mesmo propósito: o estabelecimento do novo
poder mundial.
Estamos diante de um conjunto de instituições, caldo de
cu ltu ra, ou b erçá rio , dos a n ticristo s, um p od er m align o
constituido e articulado numa rede universal conspiratória, se­
gundo apregoam, para derrubar tradições religiosas, e outras,
em beneficio do estabelecimento da NOVA ORDEM MUNDIAL.
Traço comum: trata-se de organizações de alcance universal,
dotadas de algum poder potencial - seja político seja econômico
- para conspirar, nos bastidores, em favor de um governo mun­
dial. Eis o conteúdo básico do discurso neo-antimaçônico de
inspiração apocalíptica e fortemente moldada nas interpreta­
ções, literais e pioneiras de Scofield.
ANTIM AÇONARIA 181

6.3 - A Maçonaria, Religião Pagã e Satânica, e Outras Acusa­


ções Teológicas

Acusar a maçonaria de religião, incompatível com o cristia­


nismo, é um ardil especial dos antimaçons. Ainda que a preocu­
pação m aior seja por vezes o alegado poder político e articulador
internacional da Ordem. Ainda que pretendam os antimaçons
disputar o poder com os maçons. A melhor forma de minar os
fundamentos da Ordem é instigar no povo, em geral, e na cris-
tandade em particular, os alegados conflitos teológicos existen­
tes para todo aquele que pretenda, ao mesmo tempo, ser cristão
e maçom. Incautos, despreparados e conhecedores superficiais
da fé cristã e da filosofia maçônica, são facilmente envolvidos
pela dialética “capenga” utilizada pelos antimaçons. É lugar co­
mum os neo-antimaçons esbravejarem a incompatibilidade da
filosofia maçônica com o cristianismo. No primeiro capítulo de
sua obra “A Maçonaria e a Fé Cristã”, o Pastor e Professor J.
S c o tt H o r r e ll d e ix a c la r a m e n te e x p o s ta a su a p o s iç ã o
antimaçônica sustentando, juntam ente com outros autores, que

"... a p e s a r d e s e d e n o m in a r não-religiosa, d im ilg á u m a filo s o ­


f ia em ú ltim a a n á lis e anticristã . S u b ja ce n te à irm a n d a d e e aos
e s fo rço s d e caridad e, ex iste u m p ro g ra m a es con d id o a d vog a n d o
u m a religiã o sincretista, n e ga n d o a p e s s o a diiñna e a obra sá lvífica
d e J e s u s C risto e m a n ten d o elos sin is tros com o ocu ltis m o ...” e
ainda, citando uma decisão da Assembléia Geral da Igreja
Presbiteriana da América, proclama:
“A a s socia çã o com os m a çon s req u e r a ções e votos in com p a tí­
veis com as E scritu ra s ;... a p a rtic ip a ç ã o na m a çon a ria com p rom e­
te s e ria m en te a f é e o testem u n h o cristã o ...a s E scritu ra s in sistem
q u e o cristã o n ã o p o d e p o s s u ir d ois m es tres .”62

Intrincado e desafiante problema é tratar-se com o conceito


e as diversas acepções atribuídas ao termo “religião”. Mais com­
plicado ainda é tratar-se dessa matéria a partir dos conceitos
emitidos por religiosos. Há quem diga que o que atrapalha a
religião não são os seus conceitos e acepções, são os religiosos,
ou os profissionais da religião. Como há também aqueles que

62 C f J. Scott Horrell, op. cit. págs. 22-6.


182 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

vêem nas religiões um grande complicador para o entendimento


entre as pessoas e o principal foco de desentendimento entre os
homens.
Embora esse autor seja um religioso, cristão, não resiste ao
anseio profundo de explorar ao apresentar um a visão pessoal
sobre a “surrada” máxima antimaçõnica, tida por êles como ver­
dade absoluta: a maçonaria é verdadeiramente uma religião. São
eles, os religiosos antimaçons, e quase que exclusivamente eles,
os que, precisando desta premissa, se valem de rebuscadas
análises e dialéticas para demonstrar que a m açonaria não pas­
sa de um a religião como tantas outras, não-cristãs. Para uns, a
m açonaria não passa de um a religião pagã. Para outros é uma
religião satânica, a serviço do poder do Mal e, portanto, incom ­
patível com o cristianismo. A grande dificuldade que se tem é de
penetrar nos conceitos que sustentam o que chamam de reli­
gião. E mais, seja qual for o conceito que atribuirmos à religião,
os antimaçons haverão sempre de contestar a afirmação feita
oficialmente pelas obediências maçônicas: maçonaria não é uma
religião.
Se fosse extrair da própria Bíblia Sagrada, como seria de se
esperar de um autêntico fundam entalista evangélico, algum
conceito de religião - aliás palavra raramente encontrada no
texto sagrado - seria levado naturalmente às idéias emitidas a
respeito por Tiago, discípulo de Jesus Cristo e um dos seus ir­
mãos carnais:

“ S e a lg u ém su p õe s e r religioso, d e ixa n d o d e re fre a r a su a lín ­


gua, a n tes en g a n a n d o o p ró p rio coração, a s u a religiã o é vã. A
religiã o p u ra e se m m ácula, p a ra com o nosso D e u s e Pai, é esta:
vis ita r os órfã os e as viúvas nas su a s tribulações, e a s i m esm o
g u a r d a r s e in con ta m in a d o d o m u n d o .”
[Tiago 1: 26,27]

Trata-se de afirmação categórica, clara e cristalina não muito


ao gosto do que pensam os modernos fundamentalistas. Aliás,
o livro de Tiago não é dos mais cultivados pelos fundamentalistas.
O conceito de Tiago contrasta com a tradição mítica que associa
religião aos atos ritualísticos, à salvação da alma, à invocação,
à busca do Senhor, ao louvor, ao que chamamos culto ou práti­
cas ritualísticas. Tiago, discípulo de Cristo e seu irmão carnal,
ANTIM AÇONARIA 183

insta-nos a construir um modelo de vida religiosa pura, que


transcende aos atos tradicionais litúrgicos, à Lei, e alia à fé atos
concretos, ações beneficentes, obras de amor. Essa seria a ver­
dadeira e pura religião, segundo Tiago63. Certamente os fariseus
não concordariam tanto com ele, do mesmo modo que não con­
cordariam os neofundamentalistas de hoje. Se nos cingirmos a
esta visão de Tiago, claro que muitos movimentos e ações hu­
manitárias refletiríam posturas religiosas ou um a religiosidade.
A maçonaria, com suas obras de socorro e beneficência, tão
comuns, podería ser classificada como religião nesta estrutura
conceituai. Mas também assim o seriam tantos outros m ovi­
mentos filantrópicos espalhados pela face da terra. Tiago, em
realidade, vê na expressão ativa dos cristãos - em favor das
viúvas e dos órfãos - ações reflexas de uma religião interior e
profunda, plantada nas mentes e nos corações do cristão real54.
Sua obra não é vazia em si mesma, resulta de um a postura
consciente e não identificada com exteriorizações hipócritas, ao
estilo farisaico. Mas esta forma de enxergar a religião, embora
bíblica, não faz sentido para os antimaçons, quando sua argu­
mentação corre em direção da condenação da Ordem, como um
culto anticristão. Não há tanto a preocupação com conteúdo mas
com a forma. As acusações são postas aos nossos rituais, às
orações feitas sem a menção a Jesus Cristo, o herético “ressur­
gimento” de Hiram - um quase-deus dos maçons, e assim por
diante. A forma preocupa, o conteúdo nem tanto.
Comecemos por sim ular um a hipótese para o exame da
matéria. Tomando como premissa que todos sabem distinguir
conceitualmente o bem do mal, a virtude do vício, as trevas da
luz, Deus de Satã, o negro do branco, ainda que nem todos
saibam discerni-los com clareza muitas vezes. Admitamos, em
seguida, que algum investigador extraterrestre, ou qualquer ser
humano, dotado do mínimo de bom senso e isenção, alheio à

63A afirmação de Tiago precisa ser entendida à luz de todo o contexto da mensagem. Ele fala aos
discípulos de Cristo, que estavam espalhados pelas doze tribos, sobre a prática das ações versus a
prática vazia das palavras. Todo o trecho que vai do versículo 19 ao 27 versa sobre a prática da vida
cristã. “ 19 Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio
para falar, tardio para se irar ... 22 Tomai-vos, pois praticantes da palavra e não somente ouvintes,
enganando-vos a vós mesmos ...2 5 Mas aquele que considera atentamente na lei perfeita, lei da
liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-
aventurado no que realizar.”
64Cristão real, na minha visão pessoal, encarna o espírito de Cristo, isto é, vive segundo Sua mente,
Seus ensinos e Seu exemplo.
184 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

cultura de nossa civilização dos últimos três milênios, aqui che­


gasse ao nosso planeta e tivesse acesso a alguns poucos docu­
mentos, tais como:
(a) A Bula “Humanun Genus” da lavra do Papa Leão XIII;
(b) Ao noticiário dos EUA dos anos 90, dando conta da pu­
blicação da obra do Rev. Pat Robertson, “The New World O rd ef
(A Nova Ordem Mundial) e
(c ) Ao noticiário internacional, relatando o julgam ento feito
por Saddan Hussein ou pelo Aiatolá Khomeini, a respeito da
política e dos políticos dos EUA.
(a) Com o já apresentam os, um dos pontos básicos da
“Humanun Genus” consiste em traçar uma linha divisória entre
a Igreja Católica Apostólica Romana - legítima detentora da ver­
dade divina absoluta, inequívoca portadora do bem absoluto -
e tudo que, fora da Igreja, é considerado de procedência malig­
na, como é o caso da maçonaria, das seitas, do humanismo, do
secularismo e tudo o mais. Existem no mundo dois grandes gru­
pos: (1) A Igreja Católica Apostólica Romana, e tão-somente esta
igreja, representando Deus, o reino do bem e (2) Tudo o mais,
inclusive as igrejas protestantes e demais religiões, represen­
tando Satanás, o mal, o poder das trevas. Esta é a mensagem
central do Papa Leão XIII, aceita pela Igreja desde 1884.
(b) Os fundamentalistas evangélicos americanos, como Pat
Robertson, Jerry Falwell, Bill Schnoebelen, Gary Kah, John
Ankerberg, Ed Decker e outros, traçam um quadro, idêntico ao
do Papa Leão XIII: A Ordem m açônica está situada do lado
oposto ao da igreja (conforme o conceito evangélico), é um a obra
satânica, inspirada no paganismo, negando a Salvação por meio
de Cristo e induzindo seus adeptos a crer numa Salvação ofere­
cida pela maçonaria, através das obras de beneficência, e assim
por diante. É, portanto, incompatível com o cristianismo, se­
gundo afirmam. Servem ao poder de Satanás. É um movimento
satânico identificado com a conspiração internacional em bus­
ca da NOVA ORDEM MUNDIAL que, por sua vez, visa destruir
toda ordem estabelecida e a igreja de Jesus Cristo^ Esta mesma
corrente identifica outros agentes desta conspiração satânica,
exatamente do lado oposto da posição que defendem, a dos neo-
fundamentalistas evangélicos: são o FMI, a ONU, o Federal Re­
serve, a Trilateral Comission, o International Affairs Council, o
Conselho Mundial de Igrejas, a Igreja Católica Apostólica Ro­
ANTIM AÇONARIA 185

mana, a Maçonaria, os judeus, os banqueiros internacionais,


etc... Significa dizer, Satã (e todos os seus seguidores) está de
um lado e o neofundamentalismo, detentor único da verdade
absoluta última, do outro.
(c) Já os seguidores do fundamentalismo islâmico não fa­
zem por menos: o mal está na cultura ocidental, da qual os EUA
são o paradigma. A verdade está no Alcorão: só Allah é Deus e
Maomé seu único Profeta, tudo o mais é anátema. O governo
americano é representante de Satanás e, portanto, deve ser der­
rotado a todo custo. Segundo os islâmicos existem então dois
mundos antagônicos: o Islã, onde repousa o bem, a vontade de
Deus (Allah) e a verdade; e todo o resto - representado, entre
outros, pelos ocidentais e suas religiões - onde está Satanás e
seus seguidores.
O nosso observador, recém-chegado a este mundo, exami­
nando estas afirmações tão conflitantes, começaria por inda­
gar: onde está a verdade? Qual grupo religioso - o católico, o
fundamentalista protestante, o maometano - é detentor da
verdade última? Todos afirmam deter a verdade, enquanto
Satanás - senhor de tudo o que é mal e pai da m entira - está
identificado com os outros. Em vez de respostas, nosso obser­
vador ficaria com três grandes problemas a examinar e tentar
resolver. Não será, porém, com algumas poucas semanas, m e­
ses, ou mesmo anos de estudos e pesquisas, que logrará enten­
der esse complexo cenário. Idéias, teologias, dogmas e filosofias
v in d a s de m e n te s d o ta d a s de id ê n tic a s e s tr u tu r a s
neurofisiológicas, além de percepções similares sobre outras
matérias como as leis científicas, os princípios da física, psico­
logia, sociologia e da biologia, etc... Donde então tal conflito
filosófico? Qual a origem desses grandes dilemas?
Estamos chegando ao início do terceiro milênio, pontilhado
de conflitos interreligiosos e flagrantes de irracionalidades. Muito
sangue já correu, muitas guerras já se registraram e heróis se
sacrificaram em nome da religião. A revista semanal americana
TIME, na sua edição especial de 13/04/98, fazendo um balan­
ço deste fim de século, menciona alguns números no mínimo
estarrecedores: 60 é o número de grupos militantes islâmicos
envolvidos em ações violentas contra governos estabelecidos.
100 é o número médio anual de ataques violentos registrados
nos EUA contra clínicas praticantes de aborto, por razões ético-
186 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

religiosas. Todos os homens do Afeganistão, sob o domínio dos


fundamentalistas islâmicos do Taleban, são obrigados a esco­
lher entre deixar crescer sua barba dentro de 45 dias ou serem
executados. Não é possível a ninguém hoje, no pleno domínio de
suas faculdades racionais de análise, prever qualquer entendi­
mento entre as diversas facções religiosas, pois que aqui e alí
matam-se, cometem-se atrocidades em nome de Deus e em
defesa da religião. O Sri Lanka, a Cachemira, a Palestina, o
Paquistão, o Afeganistão, o Timor, a Bosnia, a Irlanda do Norte
e o sul dos EUA são enclaves geográficos testemunhas das lutas
e n tre g ru p o s é tn ic o s - r e lig io s o s , c a d a um d os q u a is
autoproclamando ser portador da verdade última e legítimo re­
presentante divino a contestar posições dos seus oponentes.
Com certeza um fato, no meio de todo este caos, não pode­
rá escapar à percepção de nosso ilustre e imaginário investiga­
dor extraterrestre: esse mundo, antes de tudo, é essencialmente
plural. Convive-se, ainda que precariamente, com povos de fac­
ções distintas, etnias distintas, religiões distintas, posições eco-
nômico-sociais distintas, culturas distintas e assim por diante.
A pluralidade não é fato explícitamente reconhecido pelos neo-
antimaçons. A verdade é a deles, tudo o mais é anátema e dia­
bólico. Para o fundamentalista não importa, ou importa muito
pouco, a cultura, as lutas, os problemas e conflitos dos outros.
Sua praxis parece se basear no princípio de que: eles estão lá,
no maligno, e por isso sofrem e têm sua própria vida com os
fardos naturais, e eu estou aqui, em Deus, por isso tenho a
verdade e sou feliz, apesar das minhas lutas próprias.
O mundo de hoje é culturalmente plural e, como tal deve
ser tratado e compreendido. Neste aspecto, nada diferente da
imagem que dele tiveram em 1721 os quatorze homens, porta­
dores de alguma sensibilidade, acuidade analítica e “massa cin­
zenta”, designados pelo Duque de Montague, Grão-Mestre da
Grande Loja de Londres, para dar os retoques finais no texto do
chamado “Book ofThe Constitutions ofth e Free-Masons” (Livro
da Constituição dos Franco-maçons). Esses, tomando por base
o trabalho de compilação prévia feita pelos pastores protestan­
tes James Anderson e John Th. Desagulliers, deram a redação
final do texto resultando daí a edição de 1723, ainda hoje to­
mado como documento de referência pelos maçons, principal­
mente quando o tema “religião” vem à luz:
ANT1MAÇONARIA 187

"... A p e s a r de, n os te m p os antigos, os M a çon s [os operativos]


es ta re m ob riga d os a p ra tica r, em ca d a p a ís , a relig iã o local, tem -
se com o m a is a p rop ria d o, hoje, n ã o lh es im p o r se n ã o a relig iã o
so b re a q u a l tod os os hom en s estã o d e acordo, d a n d o -lh es tota l
lib erd a d e com referê n cia às su a s p ró p ria s op in iõ es p a rticu la re s.
E sta con s iste em se rem h om en s bon s e sinceros, h om en s h o n ra ­
d os e ju s to s , se ja q u a l f o r a d e n om in a çã o ou cren ça p a rtic u la r qu e
eles p o s s a m ter. D o n d e s e con clu i q u e a M a çon a ria é u m C entro
d e U nião e o m eio d e co n cilia r u m a verd a d eira a m iza d e en tre p e s ­
so a s que, d e ou tra m aneira, fic a ria m p e rp e tu a m e n te sep a ra d a s” .65

Era óbvia a intenção dos “quatorze” de afastar da nova Or­


dem dos Maçons os conflitos religiosos tradicionalmente rei­
nantes nas sociedades européias e na Inglaterra muito em par­
ticular. Todos conheciam as querelas religioso-políticas, recen­
temente experimentadas pelos britânicos: um novo rei, da li­
nhagem hannoveriana, protestante, Jorge I assumira o trono
Inglês. Os Stuarts, tradicionalmente católicos, estavam no os­
tracismo obrigados a se refugiar fora dos domínios britânicos
caso desejassem sobreviver seguros, em paz e harmonia. Ainda
estavam vivos na memória de alguns os embates entre católicos
(jacobitas) e protestantes (hannoverianos) pelo poder. O próprio
Desagulliers, expoente da elaboração do texto constitutivo, era
filho de huguenotes obrigados a deixar a França como fugitivos
no ano em que o Édito de Nantes foi revogado. Aqueles homens
viveram (não eram apenas espectadores) épocas de conflitos
interreligiosos graves e, por isso mesmo, sabiam o significado e
o impacto político das querelas de grupos por questões de fé e
de política.
A maçonaria é estabelecida pois, por homens que buscam
um convívio harm onioso e um a união fraterna, respeitando
mutuamente a crença e a posição política de cada um, graças à
aceitação plena do princípio da tolerância e estabelecendo como
denominador comum os traços fundamentais de cada crença
que, relembrando, à época se limitavam praticamente apenas a
católicos e protestantes (esses últimos de todas as denomina­
ções). Os instituidores da nova Fraternidade desejaram estabe-

65Cf. J.Castellani e Raimundo Rodrigues, “Análise da Constituição de Andersori”. Ed. Maçônica “A


TROLHA”. Londrina, 1995, pãgs. 37, 8.
188 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

lecer não um a nova religião. Quizeram, segundo se pode con­


cluir do texto de 1723, criar um ponto de encontro, ou um cen­
tro de união, no qual os homens - pela vez primeira na história
da civilização - de diferentes credos, posições políticas e econô­
micas - poderíam fraternalmente trabalhar juntos pelo bem co­
mum, pela edificação de um novo modelo de sociedade e pela
busca - irrestrita - de novos conhecimentos. Tratava-se de edificar
a sociedade, com base na união de homens de diferentes ori­
gens, credos e posições, mas livres, honrados, tolerantes e ope­
rosos. Não fosse esse caminho, reconhecem êles próprios, “fica­
riam perpetuamente separados” alimentando as suas diferen­
ças e d a n d o v a z ã o e c o n s e q ü ê n c ia aos p r e c o n c e ito s e
dogmatismos. Essa é evidentemente um a postura que não se
alinha com grupos religiosos sectários, principalmente com os
neofundamentalistas e que os deixa certamente irritados com a
Ordem.
Identificar maçonaria como religião é, por todos esses moti­
vos, o ponto de partida da argumentação dos neo-antimaçons,
m u ito e s p e c ia lm e n te d os r e p r e s e n ta n te s do n eo -
fundamentalismo protestante dos tempos atuais. Os pastores e
evangelistas iniciam seu discurso antimaçônico - invocando até
consagrados autores maçons - afirmando com “toda autorida­
de” que a Ordem macônica é um a religião, como todas as de­
mais. Cultua deuses estranhos à Bíblia e prega valores que não
se alinham à mensagem cristã. Portanto é incompatível com a
religião cristã. Horrel é categórico ao concluir sua obra:

“P o r ou tro lado, in ic iá n d o s e na m açona ria , q u ere n d o ou não, o


cristã o id e n tific a s e n ã o a p e n a s com u m g ru p o loca l d e hom ens,
m as com u m a hiera rqu ia d e lid era n ça e u m a estru tu ra filo s ó fic o -
relig io sa m u n d ia l q u e n ã o co n v é m a o te s te m u n h o cristã o. A lé m
disso, u m a vez d e n tro da confraria, é d ifícil s a ir (Sic!). D ia n te de
p o d e ro s o s m em b ros d a socied a d e, o cristã o m a çom f a z ju ra m e n ­
tos so len e s d e fid e lid a d e e d e m a n te r os s e gre d o s d a org a n iza çã o
e d os m em bros. P od e-s e d iz e r q u e o cristã o g e ra lm e n te p e rm a n e ­
ce nos g ra u s in fe riores (Sic!), m u ita s vezes m a n ten d o u m a ign o­
rância in te n cion a l p a ra a p ro veita r-se d e ligações p riv ile g ia d a s .”66

66 J. Scott Horrell, op. cit. pág. 129.


ANTIM AÇONARIA 189

Religião ou filosofía-religiosa, verdade absoluta por eles


anunciada, em todos os textos e discursos, é pois condição sine
qua non para manter seus argumentos de pé.
John Ankerberg, e seu permanente associado, John Weldon,
no segundo capítulo de sua obra, já editada entre nós, “ Os
Ensinos Secretos da Maçonaria” elabora a tese, no Cap. 2 - A
Religião Maçônica, ao longo de vinte e uma páginas, iniciando
com uma citação atribuída ao escritor e enciclopedista maçôni-
co americano A. G. Mackey:

“A F ra n co -m a çon a ria p o d e ju s tifica d a m e n te reiv in d ica r o títu lo


d e in stitu içã o religiosa .”67

Os demais autores usam do mesmo enfoque para sustentar


as torrentes acusatorias. O já citado pastor batista, J. Scott
Horrel, professor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo,
usa idêntica seqüência de raciocínio e a mesma referência bási­
ca citada por Ankerberg e W eldon na sua dialética para enqua­
drar a Ordem M açônica como religião68. Por sua vez, outro
antimaçom também já difundido no Brasil, William Schnoebelen,
é mais simplista e sem muitos rodeios. Invoca como autoridade
o testemunho do nosso respeitado dicionarista Aurélio B. de
Holanda:

“assim [Aurélio] d e fin e ‘re lig iã o ’:

1.C ren ça na ex istê n cia d e u m a fo r ç a ou fo rç a s sobrena turais,


con sid era d a (s) com o cria d ora (s) do Universo, e qu e com o ta l d eve(m )
s e r a d ora d a (s) e obed ecid a(s). 2. A m a n ifesta çã o d e ta l cren ça p o r
m eio d e d o u trin a e ritu a l p ró p rio s , q u e en volvem , em geral, p re c e i­
tos éticos (e tc).”69

Cada um então se louva ora em declarações de autores

67Cf. J. Ankerberg and J. Weldon, “Os Ensinos Secretos da Maçonaria!’. Ed. Vida Nova, São Paulo
1995, págs. 49-70 (obra originalmente editada nos EUA, em 1990).
68Referem-se aos critérios elaborados por William Alston em sua “The Encuclopaedia ofPhilosoph^f
para identificar e enquadrar o que chama de Religião. Assim, o que Alston assinala como religião é
verdade última e absoluta para dizer se uma dada entidade, movimento ou organização é ou não uma
religião. Segundo o modelo Alston, a maçonaria é uma religião e assim considerada como tal por todos
os antimaçons.
69William Schnoebelen, *Maçonaria - Do Outro Lado da LuX’. CLC Editora, São José dos Campos,
1995, pág. 32.
190 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

maçons, quase sempre, senão sempre, americanos ou ingleses,


ou então tomam como referência autores profanos, como os
citados Alston e o dicionarista brasileiro Aurélio. Esta argumen­
tação básica é para eles suficiente para construir seus discur­
sos antimaçônicos: se a maçonaria é uma religião, vamos apontar
seus desvios com relação à religião cristã, fundamentalista evan­
gélica. Certamente ela é anticristã, herética e, portanto, satâni­
ca. Vamos combatê-la e desviá-la do caminho por onde andam
os santos cristãos. A maçonaria precisa ser identificada como
religião para que contra ela possam ser construídas as acusa­
ções de satanismo, nos moldes com que fez Taxil no século pas­
sado.
Ser ou não uma religião, eis a questão. Por muito que o
digam os maçons, pela autoridade inclusive de algumas potên­
cias, e da legislação básica da Ordem, pouco ou nada adian­
ta.70 Para os antimaçons a m açonaria é um a religião e isto é
tudo. Para eles esta é uma verdade absoluta, irrefutável. Para
os maçons, segundo enunciado oficial das Obediências, a m a­
çonaria não é um a religião e não se reconhece como tal.
O enquadramento da m açonaria como religião, conforme
querem os antimaçons, não se sustenta ao menor exame um
pouco mais detalhado do que a lógica com que apregoam suas
teses. Dizer que a maçonaria é ou não um a religião depende do
conceito em si que cada um tem de religião. Muitos fazem, por
exemplo, do seu centro de interesse pessoal um verdadeiro cul­
to, um a religião toda sua, a ela se submetendo. Um projeto de
vida, um empreendimento pessoal, um a preferência clubística
ou partidária, um a posição científica, e outros “affaires” pesso­
ais bem materialistas podem se configurar - ou se enquadrar -
em verdeira religião: têm seus “deuses”, sua ética, seu culto,
seu ritual e sua busca constante, senão frenética. Assim, não é
difícil enquadrar no mesmo arcabouço conceituai de Horrell e
Ankerberg outras atividades humanas como religiões. O que
escapa aos antimaçons, deliberadamente ou não, é um a inves­
tigação, sem preconceitos, sobre as bases e princípios funda­

70A Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI) mantém seu “website” ativo, divulgando seus trabalhos e
definindo o que é a maçonaria e afirmando, para quem quiser ver e comprovar, o que é a Ordem e
quais os seus objetivos. Texto publicado amplamente em 1984 pelo “Board o f General Purposes”
(Junta de Assuntos Gerais) da GLUÍ tem sido reproduzido na Internet. Sob o título MAÇONARIA E
RELIGIÃO, diz : *Maçonaria não é uma religião nem um substituto para religião”. Mas não se limita a
dizer o que a maçonaria não é . Discorre também sobre o que é a maçonaria.
ANTIM AÇONARIA 191

mentais que norteiam a Ordem. Não conhecemos nenhum tra­


balho antimaçônico que tenha se dado ao cuidado de apreciar
objetivamente a Constituição Maçõnica de 1723, nem mesmo
as declarações oficiais de Obediências importantes como a Gran­
de L o ja U n id a da In g la te rra , a p io n e ira G ran d e L o ja de
Massachusetts, o Grande Oriente do Brasil e a Grande Loja
Nacional da França, sobre essa polêm ica questão.
Por esclarecedor e objetivo, gostaríamos de mencionar o de­
poimento analítico que, sobre o tema, tem sido feito pelo em i­
nente pensador René J. Charlier, membro da Loja “Estrela do
Oeste” , de Ribeirão Preto (SP), da jurisdição do Grande Oriente
do Brasil:

“A c a b a m o s d e v e r q u a n d o a s d e fin içõ e s sã o a b s o lu ta m e n te
in c a p a z e s d e n o s s a tis fa z e r, p o is em m u ito s ca s o s c o n s titu e m
m era s q u ere la s d e p a la v ra s. E s s e ex a m e p u ra m e n te fo r m a l não
nos con ven ce e, p e lo contrário, nos in cita a m a n te r nossa p rim e ira
im p re s s ã o d e q u e a M a ço n a ria n ã o é u m a religiã o. E n tre ta n to,
d e ve m o s ir bem a lém q u e este ex a m e su perficial, p o is o q u e nos
in teressa sã o a s rea lid a d es e não m era s pa la v ra s. E m su a m a n i­
fe s ta ç ã o , a re lig iã o n ã o d e ixa d e s e r u m f a to h u m a n o, u m fa to
social. O s d a d os sã o d e o rd em d iversa s: d e ord em sociológica , de
ord em h istórica e d e ord em p sicoló g ica . N e ste p o n to , to d o s os es­
p e c ia lis ta s e sá b io s qu e se en tretivera m no estu d o d a s religiões
c o m p a ra d a s s ã o u n â n im e s : ‘A d e fin iç ã o d a d a p e lo d ic io n á rio
L a r o u s s e ’ d is s e F. C h a lla y e e m ‘P e q u e n a H is tó ria d a s G ra n d e s
R e lig iõ e s ’, con v ém certa m en te às religiões m on oteísta s e p oliteísta s.
C o n tu d o n ã o s e a p lic a n e m à s r e lig iõ e s p r im it iv a s c o m o o
T o te m is m o e A n im is m o , n e m à s re lig iõ e s c h in e s a s : S in is m o ,
C o n fu cion is m o e Taoísm o, nem , sobretu d o, ao B u d is m o ortod oxo
q u e é u m a religiã o atéia, no se n tid o d e q u e n ã o se p re o c u p a com o
S e r S u p rem o.” afirma Charlier. Seu argumento-chave se esbo­
ça na afirmação:
“P a rtin d o d o e s tu d o d a s religiões, fo rç o s o é c o n s ta ta r que, em
tod a s elas, en co n tra -se u m a id éia com u m : a d e p en d ên cia d o h o­
m em , com rela çã o a u m a rea lid a d e qu e o s o b rep u ja in fin ita m e n ­
te ”. 71.

Preferimos sustentar, como evidentes em si mesmas e auto­


rizadas, as colocações oficiais que a Ordem tem feito de si pró-

71R. J. Charlier, “Mosaico Macônico”. Ed. Maçõnica “A TROLHA”, Londrina (PR), 1995, págs. 166, 7.
192 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

pria. Não nos referimos a opiniões isoladas de maçons. Consi­


deramos sim, posições emanadas de Obediências Maçônicas,
responsáveis por conceder os três graus do simbolismo que, como
tais, p od em fa la r em n om e da O rdem . M en cio n a m o s a
conceituação, clara e objetiva, feita no preâmbulo das Consti­
tuições de Anderson, documento essencial e subscrito por to­
das as Obediências regulares. Resta-nos ainda invocar outro,
tão importante quanto aquele, subscrito por todos os Supremos
Conselhos do Rito Escocês Antigo e Aceito e, por isso mesmo,
endossado pela grande maioria das Obediências brasileiras72.
Referimo-nos à Declaração de Princípios aprovada na Conven­
ção do Rito Escocês Antigo e Aceito estabelecida em Lausanne,
22 de setembro de 1875:

-A m a çon a ria p rocla m a , com o tem p ro c la m a d o d e sd e su a o ri­


gem , a ex istê n cia d e u m p rin c íp io criador, sob o n om e d e G ra n d e
A rq u ite to d o U niverso;
-Ela n ã o im p õe q u a lq u e r lim ite à p e s q u is a d a verdade, e p a ra
g a ra n tir a tod os esta lib erd a d e ela ex ige d e tod os a tolerâ n cia ;
-A m a çon a ria é p o is a berta a to d o s os hom en s d e to d a s a s na­
cion a lid a d es, tod a s as ra ça s e to d a s a s crenças;
-E la p ro íb e em to d a s as su a s lojas tod a d is cu ssã o so b re m a té­
ria p o lític a e religiosa ; ela a colh e tod o p ro fa n o q u a is q u e r q u e s e ­
ja m su a s op in iõ es em m a téria d e p o lític a e em religião, d esd e qu e
e s te seja livre e d e bons costu m es;
-A os hom en s p a ra os q u a is a relig iã o é a s u p rem a consolação,
a m a ço n a ria d iz: c u ltiv a i su a re lig iã o s e m ob s tá cu lo s, s e g u i as
in sp ira çõ es d e su a con sciên cia ; a m a çon a ria n ã o é u m a religião,
ela n ã o tem u m culto; ela d e fe n d e a in stru çã o laica, su a d ou trin a
p o d e se lim ita r n este b elíssim o p re c e ito : A M A I A O P R Ó X IM O .73

[O texto se estende muito mais, porém, até estes pontos, os


maçons do R.E.A.A. querem deixar claro seus fundamentos es­
senciais, desejando não ser confundidos com quaisquer outras
organizações humanas.]
O candidato é aceito na Ordem com sua religião, com seu
Deus e com suas posições políticas, que são matérias reconhe­

72Como é o caso de todas as Grandes Lojas brasileiras.


73Paul Naudon, “Histoire. Rituais et Tuileur des Hauts Grades Maconniques”. Dervy Livres, Paris,
1984, págs. 480, 1.
ANTIM AÇONARIA 193

cidas do estrito domínio de sua consciência, sobre as quais a


Ordem nada tem a ver. Tudo o que a maçonaria requer do can­
didato à iniciação é, além de um coração puro e uma conduta
ilibada, a sua declaração de fé em Deus, o Deus aceito por sua
religião, e a crença numa vida futura - após a morte. Sua cons­
ciência individual é respeitada pela maçonaria. A prática e dou­
trina religiosa esposada por cada um são temas considerados
fora do ambiente de loja. As invocações feitas ao Grande Arqui­
teto do Universo no ritual, se limitam a abertura e fechamento
das lojas e aos atos iniciáticos, já que, por princípio os maçons
invocam a proteção de Deus [o Deus de cada um] antes de toda
e qualquer empreitada em que se envolvem. Outras orações,
que livremente as lojas resolvem fazer, correm por conta de cada
um, sendo a prática mais salutar a de deixar à consciência de
cada um a forma e o modelo de oração a praticar. Nem por isso
poderiamos identificar a Ordem como religião. Oração, qual­
quer um de nós poderá fazer, acompanhar ou simplesmente
escutar seja em que ambiente for. Trata-se de ato acima de qual­
quer limitação humana, não condicionada necessariamente a
modelos e rituais terrenos. Vem do coração, do íntimo do ho­
mem, para o coração do Deus que ele adora.
Ainda que esgotemos as considerações sobre a religião e a
maçonaria, aos antimaçons não faltam elucubrações para iden­
tificar e invocar atos religiosos nos rituais de loja. Seremos real­
mente um a religião?
Ultimamente, vários antimaçons americanos têm acusado
as lojas maçõnicas de, além de invocar um deus não bíblico,
apregoar a salvação pelas obras. A maçonaria estaria ensinan­
do que o maçom se salva praticando as boas obras - um a here­
sia à luz da teologia bíblica, conforme rezam os protestantes.
Esta acusação tem peso específico m aior quando ressoa nos
EUA, país predominantemente protestante. O protestante, se­
guindo tese teológica originalmente defendida por Lutero, não
aceita Salvação da Alma senão pela graça e através da fé em
Cristo, seguindo ensino paulino em textos diversos, como:

“P o rq u e p e la g ra ça sois salvos, m ed ia n te a fé ; e isso não vem


d e vós, é d om d e D e u s ; não vem d a s obras, p a ra q u e n in g u ém se
g lo rie .” (Efésios: 2:8,9)
“...se m a n ife stou a ju s tiç a d e D e u s te stem u n h a d a p e la L e i e
p e lo s p ro fe ta s ; ju s tiç a d e D e u s m e d ia n te a f é e m J e s u s Cristo,
194 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

p a r a tod os [ e so b re tod os ] os q u e créem ; p o rq u e n ã o há distinção,


p o is tod os p e c a ra m e ca rece m da g lo ria d e D eus, se n d o ju s tific a ­
d os g ra tu ita m en te p o r su a graça, m ed ia n te a red en çã o q u e há em
C r is t o J e s u s ; a q u e m D e u s p r o p ô s , n o s e u s a n g u e , c o m o
p rop icia çã o, m ed ia n te a fé , p a ra m a n ife s ta r a su a ju s tiça , p o r te r
D eus, na su a tolerância, d e ixa d o im p u n es os p e c a d o s a n teriorm e n e
com etid os; te n d o em vista a m a n ifesta çã o da su a ju s tiç a no tem po
p re s e n te , p a ra ele m es m o s e r ju s to e o ju s tific a d o r d a qu e le qu e
tem f é em Jesu s. O nde, p o is a ja c tã n c ia ? F o i to d a excluida. P o r
q u e lei? d a s o b ra s ? N ão, p e lo contrário, p e la lei d a fé . C on clu i­
m os, p o is , q u e o h o m e m é ju s tific a d o p e la fé , in d e p en d en tem en te
d a s ob ra s da lei..." (Romanos 3:21-28)
“J u stifica d os , p o is , m e d ia n te a fé , te m os p a z com D eu s, p o r
m eio d e n o sso S e n h o r Je s u s C risto...P o rq u e se nós, q u a n d o in im i­
gos, fo m o s recon cilia d os com D e u s m ed ia n te a m orte d o se u Filho,
m u ito m ais, e s ta n d o j á reco n cilia d o s , s e re m o s s a lv o s p e la su a
vida." (Romanos 5:1, 10 )
“S e com tu a boca con fes sa re s a J e s u s com o Senhor, e em teu
cora çã o creres q u e D e u s o res su s citou d e n tre os m ortos, s e rá s s a l­
vo.” (Romanos 10:9)
sa bend o, contudo, q u e o h om em não é ju s tific a d o p e la s ob ra s
d a lei, e, s im m ed ia n te a f é em C risto Jesú s, p a ra q u e fô s s e m o s
ju s tific a d o s p e la f é em C risto e n ã o p o r ob ra s d a lei, p o is com
ob ra s da lei n in g u ém s e rá ju s tifica d o ... O ju s to viverá p e la f é . ”
(Gálatas 2:16 ; 3:11)

J á p a ra o c a tó lic o e os p r a tic a n te s das c o n fis s õ e s


espiritualistas, tão comuns entre os brasileiros, a salvação da
alma pela via das boas obras - ainda que conflite com os ensi­
nos do Novo Testamento, são franca e naturalmente aceitas e
propagadas. A doutrina de salvação, conforme ensinada pela
Igreja Católica, não se baseia apenas na Biblia mas se funda­
m enta também na tradição da igreja, conforme apregoam os
pais da igreja primitiva, que proclama o valor das obras huma­
nas. Ainda que duvidosa e preconceituosa a alegação, o fato de
os maçons, sob circunstancias especiais, favorecerem um a vi­
são em favor das obras como instrumentação da salvação, não
se constitui heresia para boa parcela da cristandade brasileira,
já que em sua maioria a nossa população é composta de católi­
cos. Não pode tampouco ser vista como doutrina religiosa da
Ordem, já que tal idéia não compõe os ensinos da maçonaria
conforme explicitados em seus rituais. Salvação é tema que passa
completamente estranha aos ensinos e filosofia da ordem. É fal-
ANTIM AÇONARIA 195

sa a acusação dos antimaçons segundo a qual os maçons espe­


ram ganhar os ceus após a morte graças às boas obras realiza­
das em vida. Este ensino não existe nos rituais nem nas instru­
ções normalmente oferecidas em loja, para tristeza e desânimo
dos antimaçons.
Por outro lado, a prática das obras não pode ser vista na
maçonaria como instrumento para salvação - como denunciam
com frequência os neo-antimaçons. Trabalhar pelo bem do pró­
ximo, da Pátria e da Humanidade é, antes de tudo, um a obriga­
ção para os maçons. Trata-se de um ensino basilar da Ordem,
ampla e claramente enunciado nas instruções dadas aos seus
membros, que as obras são, antes de tudo, um a obrigação à
qual todos os obreiros estão comprometidos desde sua inicia­
ção. Os ensinos da Ordem estão, por isso mesmo, pontilhados
de uma simbologia que outra coisa não faz senão apelar para o
trabalho da construção. Ser um construtor, um obreiro dedica­
do à realização das boas obras é, antes de tudo, traço distintivo
do maçom e sua razão de ser. Não é invocado jam ais como ca­
minho para um a vida futura melhor mas um traço necessário a
todo o maçom. Não se trata de posição utilitarista, faz parte do
caráter do maçom.O maçom não está fazendo um a troca: traba­
lhar realizando boas obras para ganhar os céus. Trabalhar pelo
bem é um a obrigação e não moeda de troca, como querem infe­
rir os antimaçons ao analisar superficialmente os ensinos da
Ordem.
Doutrinas de salvação são tratadas na esfera da religião de
cada um, fato que todos os maçons respeitam e incentivam o
cultivo pelos obreiros, embora deliberadamente proíbam deba­
tes a respeito em suas lojas.
O Deus dos maçons é tradicionalmente denominado “Gran­
de Arquiteto do Universo”, um a acepção estreitamente atribuí­
da ao Deus revelado nas Escrituras, inspiração dos que fixaram
as bases filosóficas da Fraternidade nas primeiras décadas do
Séc. XVIII. Aliás a designação é atribuída a João Calvino, fun­
dador do presbiterianismo, que pela primeira vez a utilizou atri­
buindo ao Deus de sua devoção, obviamente como está na Bí­
blia, conforme reitera Dr. Gary Leazer.74 Na prática, em benefi­
cio do bom entendimento do Deus que os maçons cultuam - se*4

74G aiy Leazer, “Seventh Annual Ministru to Masons Cnnference AnnouncecT. CIS-Masonic Report, vol.
4, n“ 1 (May 1998), pág. 3.
196 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

é que cultuam da mesma forma que os religiosos - vale mencio­


nar que, diante da grande maioria das lojas e respectivos ritos
estarem sendo praticados no Ocidente, predominam obreiros
de origem católica, protestante e judaica para os quais o Deus
cultuado, mesmo antes de admitidos maçons, é o Deus revelado
ñas Escrituras. Queremos com isto relembrar que a Ordem têm
seu berço na cultura judaico-cristã que tem dominado o Oci­
dente. Ainda que no Brasil, por influência católica, a grande
maioria não se dê ao hábito de conhecer e ler a Bíblia Sagrada,
todos estão, segundo sua fé, na posição de cultuar o Deus da
Bíblia, que foi revelado a Abrão em Ur, na Caldéia e a Moisés no
Monte Sinai. As lojas, ao se referirem ao Grande Arquiteto do
Universo, costumeiramente levam os obreiros a associarem-nO
ao Deus do culto de cada um. O Rito Escocês Antigo e Aceito e
o Rito de York (Emulação) são essencialmente fundamentados
nas Escrituras Sagradas. O principal símbolo da maçonaria, o
Templo de Salomão, é a pedra angular de todos os ritos maçôni-
cos, em especial daqueles mais praticados em nosso país. O
Templo, na realidade, antes de ser de Salomão como os maçons
costumam mencionar, foi erguido por aquele Rei, em 965 a.C.,
para o culto a quem senão ao Deus dos Hebreus, Yahweh, o
Senhor e Criador de todas as coisas75, a quem denominamos
Grande Arquiteto do Universo, ao mesmo Deus cultuado pelos
cristãos. E esta verdade histórica é relembrada aos maçons, to­
das as vezes que este símbolo essencial é mencionado nas ins­
truções regulares em loja. Quer no Rito Escocês, quer no de
York, o Deus dos cristãos e dos judeus não permanece afastado
da loja. É parte integrante. Seu culto, admitido individualmente
a cada um, no recôndito do seu ser, é direito inalienável de cada
um reconhecido pelos maçons. Sua citação por todos os obrei­
ros, enquanto Grande Arquiteto do Universo, é revelador do re­
conhecimento do conjunto dos obreiros da existência de um Cri­
ador, responsável direto pelo universo e tudo o que nele há.
Nem por isso poder-se-á definir a maçonaria como um a religião,
a menos que esse conceito seja tão genérico que possa nele ca­
ber todas as manifestações grupais engendradas pelo homem.
Aí então tudo será válido, tudo é religião.

75TJma detalhada descrição desta obra histórica é feita no livro de 1 Reis, Cap. 7, vrs. 13-51.
ANTIM AÇONARIA 197

6.4 - A Maçonaria e a Convenção Batista do Sul: O Novo


Poder Fundamentalista se Instala

S u s te n ta m o s qu e 1985 a s s in a lo u o in íc io d a n eo-
antimaçonaria nos EUA. O novo movimento, ainda que guarde
semelhanças ideológicas com seus antecessores católicos dos
Sécs. XVIII e XIX, traz novos ingredientes e complexidade. O
protestantismo não pode ser caracterizado como uma unidade
religiosa, portadora de uma doutrina teológica única bem defi­
nida. Comporta inúmeras facções e doutrinas diferentes, ainda
que guardem um a raiz comum originada na Reforma de Lu tero.
Não podemos identificar um líder, um papa entre os protestan­
tes. Não existe um docum ento oficial, com o um a bu la ou
encíclica, contando com o apoio de todos os líderes protestan­
tes, formalmente acusando a maçonaria. São essencialmente
alguns dos atuais representantes da facção fundam entalista
evangélica - ou protestante - os principais agentes do m ovimen­
to de condenação da Ordem neste fim de Séc. XX. Não estão
identificados com nenhuma denominação protestante específi­
ca mas estão, ao mesmo tempo, em todas elas de um a forma
m a is p r e p o n d e r a n te em u m a s e m en o s em o u tra s . Os
fundamentalistas são vistos em muitas igrejas batistas inde­
p en den tes, isto é, não vin cu la d a s a n en h u m a con ven ção
denominacional como a Convenção Batista do Sul, por exem­
plo.
Para se entender o fenôm eno da inserção de correntes
fundam entalistas atuais [que estarem os denom inando neo-
fundamentalistas] nas igrejas americanas, é necessária a com­
preensão e o conceito em torno das denominações religiosas
que compõem o diversificado espectro dos protestantes, suas
forças e influências na sociedade no seu todo. Teríamos tam ­
bém de entender como líderes fundamentalistas têm logrado con­
quistar posições de governo nas principais denominações, de­
salojando opositores e fazendo valer suas idéias. Relevante ain­
da é o reconhecimento de que o novo movimento ganha espaço
em o u tro s p a íses, além dos E U A 76. Fu ndam entalism os e
76Cf. Brouwer, Gifford & Rose, “Exportina the American Gospel-Glohal Christian Fundamentalism”.
Routledge, 1996. Obra que aborda o crescimento do fundamentalismo na Coréia, Libéria, Phillipines,
Guatemala, Brasil, África do Sul, Zimbabwe, entre outras nações. Na mesma ordem de acontecimen­
tos, demonstrando o poder por trás de todo o movimento, importante e esclarecedor é o trabalho de
pesquisa de Yoshio Washizu, “Anti-Masnnru in Japan - Past and Presenf . publicado no Trans. of Quatuor
Coronad Lodge, Vol. 107 (1994) págs. 85-116.
198 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

neofundamentalismos estão presentes em quase todas as na­


ções, associados com as religiões locais. No caso do protestan­
tismo de nossos dias, há evidentes sinais de exportação do m o­
delo americano para os países do Terceiro Mundo, conforme
têm investigado alguns pesquisadores. O Brasil não está fora do
alcance deste movimento, pelo contrário, existem evidências
de que seus mentores já circulam com muita facilidade no Bra­
sil.
Não temos a pretensão de esgotar todo o tema. Traçamos
algumas descrições sintéticas, essenciais a esse trabalho, que
permitam aos maçons entenderem a dinâmica que hoje se cons­
trói para contrapor a influência ou mesmo a presença da maço-
naria na vida social em nossos dias.
Como ponto de partida, vale mencionar-se que as mais de
setecentas denominações protestantes que se conhecem nos EUA
podem ser classificadas em três grandes grupos, a saber:
• as d en om in a ções p ro testa n tes h is tó r ic a s : lu tera n a ,
presbiteriana, episcopal [anglicana], batista, metodista, refor­
mada, congregacional, menonita, quaker, e outras menores;
• as denominações pentecostais: Assem bléia de Deus, Igre­
ja de Deus, Igreja do E van gelh o Q u adran gu lar, Igreja do
Nazareno, Igreja “Holliness” , Igreja dos Irmãos; e
• as seitas c ris tã s : M orm ons, Testem u n h as de Jeová,
Adventistas, Ciência Cristã, Exército de Salvação e outras.
As denominações históricas têm suas raízes na Reforma Pro­
testante do Séc. XVI, iniciada com Martinho Lutero (1483-1546)
secundado por Philipp Melanchthon (1497-1560), em 1530, na
Alemanha e contando com seguidores como João Calvino (1509-
1564) em G e n e b ra n a S u íç a (c o n s id e r a d o o p a i do
presbiterianismo e das igrejas reformadas), John Knox (1514 -
1572), principal líder do m ovim ento de reform a na Escócia,
Robert Browne (1550-1633), inglês e originador do movimento
das igrejas livres de onde resultou a Igreja Congregacional, John
W esley (1703-1791), inglês e pai da Igreja Metodista e outros
líderes.
Por sua vez, as denominações pentecostais, representam
fenômeno mais recente, do início do Séc. XX. Embora influentes
e de população crescente - majoritárias entre os evangélicos no
Brasil - constituem ramo menor nos EUA, considerado por ve­
zes não evangélicos, ou não tão ortodoxos, pelos líderes das de­
AN TIM AÇ O NARIA 199

nominações históricas. Têm distinções teológicas com respeito


às igrejas históricas, enfatizam a santificação e o poder do Espí­
rito Santo como agente de cura, novo nascimento e transforma­
ção do homem, falam de línguas estranhas, e praticam-nas. Os
cultos são em geral ruidosos, com muita música, superficialida­
de teológica e pregações permeadas de emocionalismos que “pro­
movem” cura divina e “decisões” [conversões]. São rigorosos de­
fensores e praticantes do antitabagismo e do antialcoolismo.
Fundamentam suas doutrinas em uns poucos capítulos do Novo
Testamento, embora sustentem a posição fundamentalista de
interpretação literal de todo o texto escriturístico e a aceitação
de sua estrita infalibilidade e inerrância. Sua pregação é cerca­
da de demonstrações de Poder Divino, apelos emocionais, mila­
gres, cura de enfermos e exorcismos. O Brasil tem sido campo
fértil para a proliferação das denominações pentecostais. Igre­
jas e denominações desta linha têm, inclusive, nascido e se de­
senvolvido no Brasil: A Congregação Cristã do Brasil, a Igreja
Brasil para Cristo e a Igreja Universal do Reino de Deus são
exemplos atuais dessa tendência.
As seitas cristãs são consideradas pelos históricos e pelos
pentecostais como organizações religiosas heréticas, exemplos
de apostasia dos dias atuais. São vistas como desviadas das
doutrinas básicas - fundamentais - da ortodoxia protestante,
por isto que são consideradas na classe de seitas [termo encara­
do por muitos como inferior ou pejorativo]. A principal delas, e a
que mais cresce nos EUA e no resto do mundo, é a dos Mormons
[Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias], fundada
por Joseph Smith, em 1830, em Palmyra, Nova York, em meio
ao grande reavivamento religioso surgido nos EUA. Outras não
menos importantes são: as Testemunhas de Jeová, originada
nos EUA em 1872 por Charles T. Russell, e hoje espalhada em
praticamente todas as nações, os Adventistas do Sétimo Dia
[também chamados vulgarmente de sabatistas] originados em
1831 nos EUA sob a liderança de William Miller. A esta lista de
seitas, outras poderíam ser incluídas, tal a quantidade delas, já
espalhadas no mundo, mas a grande maioria surgida nos EUA.
Cada uma das denominações e seitas tem atualmente nos
EUA o seu peso específico maior, sua expressão social e política
além de área geográfica de grande influência. A tabela da pág.
20 1 descreve o posicionamento dessas denominações e seitas
200 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

principais na população religiosa dos EUA.


Neste estudo, delimitamos a abordagem nas três categori­
as acima citadas. Chamamos a atenção para os mais influentes
grupos denominacionais protestantes, seu poder sociopolítico
na sociedade americana, para que se possa avaliar o impacto
da presença do fundamentalismo. A tabela da pág. 201 de­
monstra a posição importante dos batistas. Trata-se da maior
denominação protestante dos EUA. 20,5% da população religio­
sa americana pertence a um a das diversas denominações batis­
tas. Em realidade o nome batista pode estar associado a quais­
quer das mais de dez convenções batistas, organizações inde­
pendentes que reúnem igrejas de diversas localidades e mesmo
regiões e estados da União. A principal delas, a Convenção Ba­
tista do Sul (CBS), reúne mais da metade dos batistas am erica­
nos. Segundo um dos seus historiadores e analistas, conta com
mais de 17 milhões de fiéis e cerca de 40 mil igrejas espalhadas
pelo território americano77. Os batistas têm caracteres, práti­
cas e doutrinas que os distinguem das demais denominações
protestantes e que talvez explique sua relevante posição social
nos EUA. Sua origem, suas doutrinas distintivas e forma de
organização de suas igrejas, nos moldes atuais, estão vincula­
das aos movimentos puritanos não-conformistas surgidos na
Inglaterra no início do Séc. XVII, sob influência destacada do
calvinismo e do movimento anabatista. Aportaram na Nova In­
glaterra no início da colonização, trazendo toda a sua tradição
religiosa e contribuindo para o estabelecimento de importantes
organizações de educação - um traço dos batistas.
Suas igrejas são autônomas, diferentemente de outras de­
nominações evangélicas, cujo poder é, em geral, mais centrali­
zado. Não devem obediência a nenhum escalão hierárquico su­
perior - tipo sínodos, concilios, presbitérios, dioceses ou bispa­
dos. As decisões internas de cada igreja, ou congregação, são
tomadas por votação democrática dos seus membros sem inge­
rências externas.

77”SOUTHERN BAPTIST CONVENTION AND HOMOSEXUALITY”, Op. cit pág. 1.


ANTIM AÇONARIA 201

G randes
Seitas, Denom inações e
G rupos Igrejas
G rupos Independentes %
R eligiosos

Cristãos Católicos Igreja Católica Ap. Romana 36,6


Ortodoxos Igreja Ortodoxa Oriental 2,9
Protestantes: Denomin. Históricas Batistas 20,5
Metodistas 8,3
Luteranos 5,3
Presbiterianos 2,7
Igreja de Cristo 2,5
Episcopal 1,5
Igreja Reformada 1,4
Protestantes: Pentecostais Igrejas Pentecostais 6,2
Igreja Holiness 0,8
Protestantes: Seitas Mormons 2,8
Testem, de Jeová 0,5
Adventistas 0,5
Ciência Cristã 0,4
Exército da Salvação 0,3
Judeus 3,7
Maometanos 1,9
Outros 1,2

Total da
filiação
religiosa
declarada 100

Tabela: Filiação religiosa declarada da população dos EUA, em 1994.


Fonte: Yearbook o f American and Canadian Churches, cf. “The MacMillan Visual Almanad’-
McMillan, N. York, 1996. pág. 115.

Alguns dos seus líderes são calvinistas, ainda que nem to­
dos aceitem completamente a teologia do reformador genebrino.
Outros sustentam o arminianismo (segundo o teólogo reformador
holandês Jacobus Arminius, 1560-1609). São tradicionais de­
fensores da liberdade de religião, liberdade de consciência e lí­
deres históricos dos movimentos de separação da Igreja do Es­
tado. Consideram as Escrituras a fonte última de toda autori­
dade eclesiástica e Jesus Cristo o único fundador da Igreja. Por
isto que não reconhecem nenhum homem como responsável pela
organização original da denominação. A doutrina do batismo
tem especial relevo para os batistas. O batismo é aplicado tão-
somente àqueles no gozo completo de sua consciência e vonta­
de, isto é, os batistas não aceitam o batismo infantil. E a sua
prática é por imersão, tal como - alegam - sustentam as Escritu-
202 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ras. A sociedade americana muito deve aos batistas a sua for­


mação religiosa e política como também a defesa irrestrita de
valores como liberdade religiosa e separação da Igreja do Esta­
do, consagrados na Constituição Am ericana78.
A primeira igreja batista plantada em solo americano foi
orga n iza d a p or R oger W illiam s (1 603-1683) em 1639 em
Providence (Rhode Island). A saga deste pioneiro cristão é bem
um retrato da luta de um homem confiante em valores, princi­
palmente, os da fé individual, da liberdade de consciência e de
culto, indepen den tem en te da in gerên cia do Estado. Roger
Williams aliás, era fiel seguidor das bases batistas que conhece­
ra na Inglaterra, de onde, segundo Max W eber saíram as pri­
meiras declarações públicas em favor da liberdade de consciên­
cia em matéria de religião e da separação da Igreja do Estado.
Vale a pena registrar comentário do pai da moderna sociologia:

“As seita s batistas, ..., m a n tivera m d esd e o in icio d e su a h isto­


ria (o m a is fo r te e co n s iste n te m en te p o s s ív e l) o p rin c ip io d e qu e
a p e n a s as p e s s o a s red im id a s p o d ia m s e r ad m itid a s na igreja. D a í
rep u d ia rem q u a lq u e r con ce p çã o d a Ig re ja com o instituição, assim
c o m o q u a lq u e r in te rfe rê n cia d o p o d e r te m p ora l. A q u i ta m b é m é
a tra vé s d e ra zõ es relig io sa s p o s itiv a s q u e a to lerâ n cia a b s olu ta
era advogada.
O p rim e iro a d e s ta c a r s e em d efesa d a to lerâ n cia a b s olu ta e
d a se p a ra çã o d a Igreja, d o E sta d o, q u a se qu e u m a g era çã o a ntes
d o s b a tis ta s e q u a s e d u a s a n te s d e R o g e r W illia m s, f o i J o h n
B ro w n e. A p rim e ira d e c la ra ç ã o d e u m g ru p o e c le s iá s tic o n e ste
s e n tid o p a r e c e t e r s id o a re s o lu ç ã o d o s b a tis ta s in g le s e s d e
A m sterd a n , em 1612 ou 1613 : ‘th e m a g is tra te is not to m id d le
w ith religión o r m a tters o f con scien ce... b eca u se C h rist is th e K in g
a n d la w g iv e r o f th e C h u rch a n d c o n s c ie n c e ’ [o magistrado não
deve se envolver com religião ou assuntos de consciência... por­
que Cristo é o Rei e legislador da Igreja e da consciência.]. O
p rim e iro d o cu m e n to o ficia l d e u m a ig re ja recla m a n d o, com o d e ­
creto, a p ro te ç ã o p o s itiv a p e lo E sta d o d a lib erd a d e d e con sciên cia
f o i p ro v a v e lm e n te o a rtigo 44 da C on fissã o d os ba tista s ‘p a rtic u la ­
r e s ’ d e 164 4 ,”79

Assim que Puritanos, conform istas e não-conform istas,


aportam em Plymouth, Massachusetts, em 1620, em busca de

78Para conhcer um pouco mais dos batistas e sua história, veja o Apêndice A : “UMA SINÓPSE DA
HISTÓRIA DOS BATISTAS” .
79Max Weber, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” , Ed. Univ. de Brasília, DF - 1981, pág.
187.
ANTIM AÇONARIA 203

um novo paraíso na terra, segundo os ideais por eles acalenta­


dos, as primeiras igrejas e escolas começaram a se estabelecer.
É desta época a fundação de Harvard University (1639), em
Boston, a primeira instituição educacional americana. O foco
da motivação dos puritanos era o de induzir o estabelecimento
da sonhada e utópica nova sociedade com os valores cristãos e
políticos irrealizados até então. A maioria estava culturalmen­
te alinhada com as práticas religiosas da Coroa, isto é, da igreja
oficial, seguindo regras, usos e costumes normatizados, ou
uniformizados, pelo poder para o exercício da religião.
Roger Williams, de posição separatista, em favor do livre
exercício da religião, se opôs à tendência dos demais religiosos
compromissados com o governo. Os primeiros clérigos purita­
nos, inspirados na tradição conformista de coalizão com o go­
verno, advogavam, por exemplo, que o salário dos obreiros das
igrejas fossem pagos com recursos do poder público. Posição
renegada por não-conformistas, principalmente os batistas como
Roger Williams. Forçado a abandonar Massachusetts, pela per­
seguição que sofreu dos demais religiosos, conformistas em
simbiose com os poderes temporais, foi se refugiar em Providence
(no atual Rhode Island). Aí, gozando de liberdade e espaço para
difusão de suas idéias, pôde organizar a igreja batista - a pri­
meira em solo americano - em 1639 nos moldes que sempre
defendeu.
A denominação posteriormente veio encontrar ampla acei­
tação entre os americanos de outras regiões e estados. A carac­
terística, politicamente aberta, contrária a ingerência do Estado
na religião e a form a democrática da gestão das igrejas batis­
tas, haveria de ficar marcada nos EUA, talvez justificando até
hoje, juntamente com a rígida observância das doutrinas bíblicas
que abraçam, a autonomia de suas igrejas, a prioridade atribu­
ída à evangelização dos povos e às missões, a posição de lide­
rança ostentada entre as denominações evangélicas históricas.
A natureza democrática e autônoma de suas igrejas, bem
como dos processos também democráticos com que são tom a­
das as decisões nas suas assembléias convencionais, explicam
também a facilidade com que suas congregações, seminários,
escolas e organismos administrativos denominacionais têm sido
alvos de sutis influências, e penetração de doutrinas e ideologi­
as externas. Explica também por que determinadas igrejas
204 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

batistas adotam posições mais fundamentalistas do que outras,


algumas são acusadas de liberais e modernistas enquanto ou­
tras são vistas como intolerantes e conservadoras. Igrejas batis­
tas hâ que, contrariando orientação da liderança da denomina­
ção, adotam posições inusitadas como: permitir a ascensão de
mulheres ao diaconato e ao púlpito, a presença de homossexu­
ais em sua direção, a posição aberta a pregadores de outras
denominações, e assim por diante. Ao longo da história, mais
do que outras denominações, as igrejas batistas têm se dividido
e novos grupos denominacionais batistas têm se formado como
resultado de cisões, provocadas por infiltração de polêmicas
políticas, de doutrinas estranhas ou mesmo por disputa de
poder. Exemplo recente ilustra esse traço da denominação. Ques­
tões entre “conservadores” e “moderados” , surgidas no seio da
Convenção Batista do Sul, levou à criação de novo grupo, no fim
dos anos 80, reunido em torno do que passaram a denominar
Convenção Batista Nacional da Am érica (CBN), constituída en­
tão de mais de 3 milhões e 500 mil membros e quase 20 mil
congregações. Igrejas batistas, independentes, concentrando
pessoas que abraçam um a ou outra corrente político-doutriná-
ria em comum, mas não aceitas por outros grupos, têm também
sido formadas. Assim, divisão de igrejas e a formação de novas
denominações, entre os batistas, é algo muito comum80. A pró­
pria Convenção Batista do Sul resultou de um a cisão em 1847
fomentada pela diferença com os Batistas do Norte que defendi­
am o fim da escravidão enquanto os sulistas, baseados na sua
interpretação bíblica, eram escravagistas, defensores do status
quo. Ainda assim, a CBS permanece o maior grupo batista do
EUA, reunindo mais de 38 mil igrejas e mantendo a maior agên­
cia missionária do mundo, com mais de 4.600 m issionários.81
O crescimento do neofundamentalismo na direção da CBS
constitui o mais importante fenômeno político-religioso dos últi­
mos dez anos na sociedade americana, principalmente pelo porte
e importância político-social da denominação no variado espec-

80Os batistas brasileiros não são exceção nesse particular. Em 1965 a Convenção Batista Brasileira
(CBB), viu-se envolvida com facções conhecidas como “Renovação Espiritual” que abraçavam teses e
práticas comuns aos pentecostais - contrariando bases doutrinárias esposadas pela grande maioria
das demais igrejas. Várias igrejas foram levadas a deixar a CBB e se organizar em nova denominação,
ainda hoje atuante, sob a mesma titulação “batista”.
81J. Scott Horrel, op.cit. págs. 157-8.
ANTIM AÇONARIA 205

tro do protestantismo daquela nação. Um processo lento, mas


bem urdido e implementado com competência, tem logrado a
conquista de postos-chaves nas escolas, principais igrejas, se­
minários e juntas da CBS, pelos fundamentalistas. A maçona-
ria tem sido um dos principais alvos da nova liderança da CBS.
Os fundamentalistas acusam a CBS de tolerar a presença de
maçons entre pastores, líderes e professores de Escola Domini­
cal e das universidades da denominação, pondo em perigo a
evolução da obra da igreja, o crescimento dos crentes, a pureza
da doutrina e a preservação dos princípios batistas. Para sensi­
bilizar membros da denominação, principalmente, pastores, te­
ólogos e outros líderes, alguns dos seus porta-vozes têm as­
sinalado que a presença de mais de um milhão de maçons entre
os batistas é a razão das igrejas não estarem crescendo nem
sendo reavivadas. Esta é a lógica do marketing que os impele a
um a jornada, sem precedentes na história do protestantismo,
contra maçons e contra a maçonaria.
A secção religiosa de um dos jornais da cidade Beaumont,
situada a oitenta milhas a leste de Houston, no Texas, “The
Beaumont Enterprisé’, de 31 de agosto de 1985, estampou na
primeira página da seção sobre religião a notícia sobre o que
havería de se tornar no estopim de grande movimentação entre
os batistas americanos. Em grandes letras, encimando o símbo­
lo do esquadro e compasso com a letra “G” , lia-se: “LÍDERES
RELIGIOSOS ACUSAM A MAÇONARIA DE SATÂNICA” . O arti­
culista, Thomas Morton, especializado em temas religiosos, des­
tacava logo abaixo que:

“Dr. L a rry H olly, u m m éd ico d e B ea u m on t, ju n ta m e n te com o


R e v . C h a rle s B u r c h e tt, p a s t o r d a P r im e ir a Ig r e ja B a tis ta d e
K irbyuille, Texas, su b m e te ra m à C on ven çã o em D a lla s u m p ro je to
d e resolu çã o es ta b elecen d o q u e a m açona ria , às vezes ch a m a d a
jra n co -m a ço n a ria , não é com p a tív el com a f é e a m en sa g em b a tis­
tas.”82

Dr. Holly, líder entre os homens batistas de sua região,


associado com o Rev. Burchett, havia de fato submetido uma
moção, sob o título “MAÇONARIA, NÃO COMPATÍVEL COM A

82Cf. Ed Decker, “Freemasonru and The Southern Baotist Church”. texto obtido do website http: / /
saintsalive.com/freemasonry/fmyandsbc.html (1996).
206 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

FÉ E MENSAGEM BATISTA” , a ser examinada pela Convenção


Batista, reunida no Dallas Convention Center, entre os dias 11
e 13 de junho de 1985, com a presença de mais de 13 mil m en­
sageiros (representantes de igrejas filiadas). Os dois signatários
aproveitaram o momento e distribuíram 15 mil exemplares de
panfleto entitulado “MAÇONARIA, NÃO COMPATÍVEL COM A
FÉ E MENSAGEM BATISTA, O ARROJADO IMPULSO MISSIO­
NÁRIO OU O PROGRAMA COOPERATIVO” , resultante de partes
de “Questions o f Freemasonry” (Questões da Maçonaria), obra
de Edward Decker, conhecido antimaçom. O texto, com tão alar­
mante título procurava polarizar a atenção dos convencionais e
assim ganhar adeptos para os seus propósitos. Desejavam que
a moção entrasse na ordem do dia, fosse debatida e aprovada
pelos convencionais. Uma decisão de tal envergadura, podendo
resultar numa condenação da maçonaria pela CBS, podería
trazer grandes impactos e incalculáveis implicações para a Or­
dem. Mas o resultado da movimentação dos dois antimaçons
não foi bem o que esperavam.
Encaminhada à Comissão de Resolução da Convenção, esta
acolheu a moção, que ficou registrada em ata. Mas, em lugar de
submeter à votação em plenário, a Comissão dirigiu o assunto
à Junta de Missões Nacionais (HMB - Home Missions Board). A
HMB, por sua vez, remeteu a matéria para estudos e recom en­
dações do seu Departamento Testemunho Interreligioso (IWD-
Interfaith Witness Department). O estudo rigoroso da matéria
demandaria um trabalho de pesquisa demorado. O IWD, tem ­
pos depois, emitiu relatório à HMB, assinado por seu diretor
assistente, Richard W. Harmon e que chegou a ser discutido
com Dr. Holly e o Rev. Burchett, concluindo que o assunto não
cabia àquele departamento, construindo assim a sua argumen­
tação:

• n in g u ém p o d e f a la r p e la m a çon a ria ;
■ a lg u n s d os e n sin os m a çõn icos reflete m fo rte m e n te d is p o s i­
çõe s d e é p o ca s em q u e fo r a m escritos;
• o IW D n ã o reco n h ece a m a çon a ria com o u m a religião, em b ora
reco n h eça q u e p a ra a lg u n s m a çon s p o s s a se to m a r u m a p s e u d o -
re lig iã o ;
■ e fin a lm e n te , a m a çon a ria e ou tra s ord en s fra te rn a is não sã o
d o â m b ito d a res p on s a b ilid a d e atrib u íd a a este IW D.
AN TIM AÇ O NARIA 207

A HMB adotou o “Relatório Harmon” e o submeteu ao ple­


nário da Convenção, em junho de 1986, que o aprovou83. No
seu encaminhamento, esta conclusão do IWD significava dizer
que o tem a maçonaria não podería ser objeto de estudo do de­
partamento, que tratava tão-somente de relações com outros
credos, isto é, outras religiões. Era o mesmo que dizer: a maço-
naría não é reconhecida como religião pelo IWD mas como uma
fraternidade. E assim foi considerado o assunto pela HMB, que
deixou de condenar a maçonaria como era desejo do Dr. Holly,
Rev. Burchett e outros antimaçons. O assunto, porém, não
morreu aí. Não satisfeito com a posição adotada pela CBS, Dr.
Holly voltou a submeter a moção à assembléia da CBS, reunida
em 1991. Novamente, a matéria foi remetida à Junta de Mis­
sões Nacionais que então delegou ao IWD, agora dirigido por
Larry L. Lewis, a missão de preparar os estudos e elaborar
resposta. Lewis passou a tarefa ao seu primeiro assistente, Dr.
Gary Leazer, Ph.D. Segundo depoimento do próprio Dr. Leazer,
uma de suas preocupações foi verificar nos arquivos da CBS,
desde sua criação em 1845, se tinha havido na história da con­
venção outras menções sobre a Ordem. Certificou-se de que “qua­
se certamente” a maçonaria jam ais tinha sido objeto de tal in­
vestigação como agora. Resolveu também se certificar qual era
a im portância da m açonaria no seio dos batistas do sul. Ed
Decker, estava anunciando que entre 40 e 65 % dos pastores
batistas estavam envolvidos com maçons, isto é, eram - ou ti­
nham sido - membros da Ordem, o que lhe parecia um a afirm a­
ção infundada e desmedida. Procedeu então a um a pesquisa de
cam po, con d u zid a em novem bro de 1991 pelo “ C orporate
Planning and Research Department o f the Sunday School Board”
[Departamento de Planejamento Corporativo e Pesquisa da Junta
de Escolas Dominicais], encontrando que 14% dos pastores
são maçons e que 18% dos diáconos são ou foram maçons84.
Estaria assim afastando um dos vários espantalhos pintados
pelo antimaçom Ed Decker, ao trazer fatos, e não versões, à
consideração da liderança e da opinião da denominação. Com
certeza, não só Dr. Leazer, mas Lewis e demais dirigentes da

83Gary Leazer, “Fundamentansm & Freemasonm: The Southern Rantist Investiaation o f the Fraternal
Order" . M.Evans and Co., Inc. ,1995. pág. 88.
84Gary Leazer, op. cit. págs. 88, 9.
208 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

HMB se deram conta de que estavam diante de problem a polí­


tico envolvente, de novos fatos e de ardilosos estrategistas, para
não dizer, com sinais evidentes de maquiavelismo.
Corria o ano de 1991 e com ele progrediam os estudos e
pesquisas do Dr. Leazer e seus associados. O Dr. Holly também
não parou aí. Editou um segundo volume de sua obra, agora
denom inada “Southern Baptist Convention and Freemasonry”
[Convenção Batista do Sul e Maçonaria] e prosseguiu pressio­
nando a direção da Convenção para discutir o tema na assem­
bléia seguinte, de 1992. 5.000 cópias de sua obra foram envia­
das para diferentes personalidades da denominação, antes da
assembléia de 1992. Agora, melhor preparado e sustentado por
sua obra de sessenta páginas, explicitando seus argumentos
contra a Ordem, providenciou fazer ampla e prévia divulgação
de suas idéias. Uma estratégia de marketing foi montada. O povo
batista já sabia, com antecedência, que o tema “m açonaria” se­
ria apresentado ao plenário, ainda que ampla maioria dos men­
sageiros não considerasse o tem a como importante85. A im pren­
sa secular foi ativada para promover o tema. Três semanas
antes da instalação da Convenção, Dr. H olly foi citado pela
Associated Press, declarando que a Maçonaria era crença pagã
que rivalizava com o Cristianismo. Disse ainda que:

“Noventa e nove por cento dos maçons não têm qualquer idéia
a respeito do que está envolvido. Eles vêem como um bem o
caminho das boas obras que realizam, deixando suas esposas
por vezes, mas não vêem quão anticristão é tudo isto...”86

Todos os preparativos para a discussão do assunto esta­


vam prontos. Na obra fartamente distribuída, Dr. Holly acusava
a Ordem de vários e conhecidos desvios, com respeito ao cristi­
anismo e recomendava às igrejas, com todo o caráter autoritário
dos antimaçons:

• A n e n h u m m a ç o m d e v e s e r p e r m itid o a s s u m ir fu n ç ã o d e
d iá co n o ou líd e r em q u a lq u e r igre ja d a C B S;

85Gary Leazer, op. cit. pág. 89.


86John J. Robinson, “Pilarim’s Path”. M. Evans and Co., 1993, pãgs. 89-90.
ANTIM AÇONARIA 209

• N e n h u m m a çom será em p o ssa d o com o p a s to r a m en os qu e


p u b lica m e n te ren u n cie à m a çon a ria e q u eim e se u a v en ta l e ou tra s
p a ra fe rn á lia s m a çôn ica s;
■ N o vos con v ertid os d e ve rã o s e r a lerta d o s so b re a in com p a tib i­
lid a d e d e s e r m em b ro da m a çon a ria e p e rte n c e r a u m a igreja b a ­
tista;
■ N e n h u m p a s to r d e ve p a rtic ip a r d e s e rviço fú n e b re con d u zid o
p o r m a çon s; e
■ Ig re ja s com so len id a d e d e la n ça m en to d e “p e d ra fu n d a m e n ­
ta l” rea liza d a p o r m açons, d e ve rá re a liz a r ce rim ô n ia p ú b lic a d e
ora çã o e a rre p en d im e n to .87

A moção de Holly foi lida em plenário da Convenção Batista


reunida em Indianópolis (Ind) em junho de 1992. Dizia :

“ The S o u th e rn B a p tist C o n ve n tion in a n n u a l se ss io n June, 9-


11, 1992, a t In d ia n op olis, In d ia n a , directs th e p re s id e n t elected at
th is con v en tion to a p oin t a n a d h o c com m itte e f o r th e stu d y o f th e
com p a tib ility w ith ch ristia n ity a n d S ou th ern B a p tist d o ctrin e o f th e
o rg a n iz a tio n k n o w n va rio u s ly as th e M a s o n ic L od g e , M a so n ry ,
F re e m a s o n ry a n d / o r A n c ie n t a n d A c c e p te d R ite o f F reem a son ry .
The stu d y is to en co m p a ss a n y a n d a ll b ra n ch es a n d / o r lod ges
thereof. F u rth erm ore, th e C on ven tion d irects th e p re s id e n t to ap p oin t
th is c o m m itte e w íth in th ir ty d a y s o f th is c o n c lu s ió n o f th is
C o n ve n tion a n d to ch a rg e th is com m itte e w ith th e resp on sib ility o f
brin g in g a report w ith recom en d a tion to th e con v en tion w h ich is to
m eet in H ou ston , Texas, J u n e 1993 .”88

[A Convenção Batista do Sul, em sessão anual em Junho,


9-11 de 1992, em Indianópolis, Indiana, dirige ao presidente
eleito nesta convenção o pedido para nomear um a comissão “ad
hoc” para estudar a compatibilidade entre o cristianismo e dou­
trina batista do sul e a organização variadam ente conhecida
como Loja Maçônica, maçonaria, franco-maçonaria e/ou Rito
Antigo e Aceito da Maçonaria (sic...). O estudo deve incluir todos
e quaisquer ramos e/ou lojas da referida organização. Além dis­
so, a Convenção propõe ao presidente nomear a referida comis­
são dentro de trinta dias do término desta Convenção e encar­
regar esta comissão com a responsabilidade de trazer um rela-

87Holly, L.J. “The Southern Baptist Convention and Freem asnnnf. págs. 53-54 [cf. Leazer, op. cit pág
90].
s8John J. Robinson, op.cit. pág. 91.
210 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

torio com recom endações à CBS que deverá se reu n ir em


Houston, Texas, em junho de 1993.]

Dentro do democrático espírito e tradição dos batistas, ain­


da observados na CBS, a moção do Dr. Holly foi colocada em
plenário e livremente debatida, ouvindo-se vozes contra e pró-
maçons no encaminhamento da votação. A tática do Dr. Holly,
ao sugerir a formação de um a comissão “ad hoc”, obviamente
encobria o temor de que o assunto fosse novamente levado ao
Interfaith Witness Department (IWD) e tivesse tratamento idênti­
co ao anterior. Mais do que isso, conforme afirma Robinson, o
Dr. Holly e outro conhecido antimaçon, Rev. John Ankerberg já
haviam se candidatado para fazer parte da referida comissão,
recomendando ainda que nenhum maçom fosse convidado a
integrá-la, caso sua moção fosse aprovada pelo plenário.89 A
moção, entretanto, não foi aprovada como queria Dr. Holly. Uma
emenda ao texto do Dr. Holly apresentada por outro m ensagei­
ro, Alvin Rowe, de Rockledge, Florida, foi aprovada pelo plená­
rio alterando parte da proposta original. A emenda Rowe dirigia
a responsabilidade do estudo ao Home Mission Board (HMB)
[Junta de Missões Nacionais], em lugar de um a comissão “ad
hoc” como preconizava Dr. Holly. E assim foi feito90. A HMB
chamou a si a responsabilidade de realizar todo o estudo e en­
caminhar a recomendação ao plenário da convenção. Novamen­
te delegação foi dada ao IWD para promover os estudos e pes­
quisas a respeito do assunto. Agora, Dr. Gary Leazer era o Dire­
tor e, portanto, encarrregado dos trabalhos.
Em sua obra, “ Fundam entalism & Freem asonry: The
South ern B a p tist In v e s tig a tio n o f the F ra tern a l O rder"
[Fundamentalismo 85 Maçonaria: A Investigação dos Batistas

189J.J. Robinson, op. cit. 91.


90A decisão da CBS sobre a maçonaria foi assim remetida paira estudo e recomendações do HMB, mas
nem por isso a assembléia desta mesma deixou de aprovar uma outra proposta que deixou margem a
interpretações de alguns antimaçons. Esta, embora não mencione maçonaria, levou Dr. Holly e ou­
tros a considerar que se tratava da condenação formal da Ordem. Sob o título genérico de “Sobre o
Testemunho Cristão e Associações Voluntárias” , o referido texto, dizia após alguns “considerandos” e
entre outras recomendações aos batistas: “ ...recomenda-se todos os batistas do sul a abster-se de
participar ou se tom ar membro de organizações com ensinos, juramentos, ou conhecimentos místicos que
são contrários à Bíblia e à pública expressão de nossa f é no Evangelho de Jesus Cristo, que deve estar
acima de toda reprovação” . Para o Dr. Leazer, esta moção não proibe, recomenda. Resoluções repre­
sentam a posição de um grupo de mensageiros presentes no momento da votação. Por principio e por
tradição, não possuem poder coercitivo para os batistas [cf. Leazer, op. cit. pág. 92].
AN TIM AÇ O NARIA 211

do Sul sobre a Ordem Fraternal], publicada em 1995, Dr. Leazer


oferece sua visão pessoal e um depoimento detalhado do traba­
lho de pesquisa feito. Oferece sua percepção sobre a metodologia
adotada, a formação da equipe e principais consultas feitas in­
terna e externamente à Ordem e aos batistas. Sua obra oferece
ampla bibliografia e referência a fontes primárias e secundárias
de que se valeu.91 Não deixa dúvidas de que espaço foi dado aos
antimaçons para discutir com o IWD suas posições e apresen­
ta r seus argu m en tos. S egu n do o p róp rio Dr. Leazer, e o
antimaçom Horrel confirma, foram consultadas obras de auto­
res antimaçons como também de autores maçons, com o propó­
sito de conferir ao trabalho equilíbrio e isenção. Até onde se
sabe nem maçons nem conhecidos antimaçons participaram do
grupo do IWD encarregado do trabalho. O relatório final, “A
Study o f Freemasonry” [Um Estudo Sobre a Maçonaria] usou
como referência 27 livros pró-maçônicos e 26 livros críticos da
Ordem. As obras pró-maçônicas usadas são quase que total­
mente editadas pelas grandes lojas americanas ou pelo Supre­
mo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito - Jurisdição do Sul
dos EUA.92
Em 21 de janeiro de 1993 a primeira versão do texto estava
pronta para ser apreciada pelas autoridades do HMB, e assim
se procedeu. Após reuniões internas, alguns cortes e inserções
no texto feitos por L. Lewis, conforme depoimento do Dr. Leazer,
o relatório foi dado como aceito pelo HMB' e pronto para divul­
gação durante a Convenção de junho de 1993. Sua redação, em
certo sentido procura responder às acusações do Dr. Holly, mas
não deixa de reconhecer algumas práticas maçônicas em desar­
monia com a posição cristã e batista, como no caso das soleni-
dades fúnebres, por exemplo. É enfático e objetivo, porém, não
reconhecendo a maçonaria como um a religião, mas como Or­

91Chama-nos a atenção, porém, a falta de referências, que seriam naturalmente esperadas, a autores
fora do ambiente americano, em especial os europeus, tais como Luc Néfontaine, Paul Naudon, Alee
Mellor, Jean Baylot, Jacques Lemaire, Marius Lepage, Harry Carr, Oswald Wirth, Rev. Pe. Bertheloot,
Albert Lantoine, Cyril M. Bathan, J.A.Ferrer Benimelli, Hervé Hasquin, e tantos outros que de algu­
ma forma abordaram o problema da maçonaria e seus conflitos (ou relações) com a igreja e o cristia­
nismo. Há uma certa preferência, entre os americanos, pelos autores americanos e uns poucos ingle­
ses [talvez por questões de idioma] nos estudos maçônicos e antimaçônicos publicados nos EUA.
Parecem só conhecer A. Mackey, Malcolm C. Duncan, H. Wilson Coil, Albert Pyke, W.L. Wilmshurt,
Alien E. Roberts e W. Preston e outros autores americanos contemporâneos.
92J. S. Horrel, op. cit. págs. 160, 1.
212 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

dem Fraternal e que, portanto, não podería ser objeto de ques­


tão levantada na esfera do IWD. Na sua recomendação final,
revelando um traço tão usual na autêntica tradição batista, o
relatório aprovado deixa a critério da consciência de cada um a
decisão a respeito da ordem maçônica. Não cabe a CBS reco­
mendar às igrejas e seus líderes voto contra ou a favor da Or­
dem. A decisão final sobre que posição adotar foi deixada por
cada um individualmente, em consulta à sua consciência, po­
dendo as igrejas adotar a recomendação que a maioria dos seus
membros indicar no livre exercício de suas vontades. Diferente­
mente da opinião do pastor Horrel que vê incoerência e tendên­
cia pró-maçônica na posição final da HMB da Convenção Batis­
ta do Sul93, a decisão final não condenando expressamente a
Ordem ou promovendo recomendações a respeito, com todas as
formalidades, como desejavam os antimaçons (Holly, Ankerberg
e outros), teve outros resultados importantes a serem conside­
rados:
(a) levantou à questão amplamente e propiciou a elabora­
ção de estudos e pesquisas, disponibilizando preciosas infor­
mações para os batistas do sul, esclarecendo sobre o que efeti­
vamente é a maçonaria e como os maçons e antimaçons a vêem
e a interpretam;
(b) permitiu a família batista identificar os antimaçons com
parte dos neofundamentalistas que, por sua vez, aos poucos,
estão assumindo posições de controle da denominação (seu ob­
jetivo último), desejando o exercício do poder sobre a com uni­
dade de crentes e afastando da liderança aqueles que se opõem
às suas idéias [obviamente induzindo dissensões nas igrejas e
na própria denominação];
(c) evidenciou o ainda remanescente traço democrático e
transparente das decisões tomadas pela denominação, deixan­
do aberto o debate, permitindo a participação das várias verten­
tes (moderada, liberal e fundamentalista), ouvindo prós e con­
tras, e concluindo pelo respeito à verdade e à liberdade de cons­
ciência - observados valores da fé e princípios doutrinários
batistas e, acima de tudo o mais, a soberania da pessoa de
Jesus Cristo.

93J. S. Horrel, op. cit. págs. 160, 3.


AN TIM AÇ O NARIA 213

A carreira profissional do Dr. Leazer, principal artífice dos


trabalhos da IWD, não teve final feliz. Convidado por Earl D.
Harris, Past-Grão-Mestre da Grande Loja da Georgia para uma
palestra esclareced ora sobre o tão fam oso “HMB-Study on
Freemasonry” diante da “33a Conferência Maçônica Anual do
Sudeste dos EUA”, em Atlanta, Ga, lá compareceu, em 06 de
agosto de 1993, sem pedir previamente a “bênção” de seus su­
periores. A conferência que proferiu foi reproduzida, sob sua
autorização, em outubro de 1993 no Masonic Messenger, da
Grande Loja da Georgia. No dia seguinte a publicação estava
sobre a mesa de Lewis, seu superior imediato. Chamado a ex-
plicar-se e a responder, a essa e outras críticas endereçadas ao
seu comportamento por “alguns emissários”, além evidentemente
do Dr Holly, foi “convidado” por Lewis a apresentar pedido de
demissão. Sumariamente demitido, encerrou aí sua contribui­
ção à CBS.
Dr. Holly prosseguiu questionando as posições do Dr. Leazer,
em seu famoso relatório, acolhido pela assembléia da conven­
ção, criticando a decisão final da CBS por não haver condena­
do a maçonaria. Novo volume de sua obra, “Freemasonry and
the Southern Baptist Convention” foi lançado após a decisão da
CBS. Ao todo, Dr. Larry J. Holly, escreveu três volumes, perfa­
zendo um total de 637 páginas, inicialmente defendendo suas
idéias antimaçônicas e finalmente acusando Dr Leazer, criti­
cando seu trabalho bem como a posição, a seu ver muito pró-
maçônica. Em resposta, e após ter sido despojado de todas as
suas funções na denominação, Dr. Leazer .publicou em 1995 a
obra, “Freemasonry & Fundamentalism: The Southern Baptist
Investigation o f the Fraternal O rdef, na qual relata sua experi­
ência e visão pessoal na elaboração do relatório do IWD, dedi­
cando nada mais do que 67 páginas, das 253 totais, para res­
ponder diretamente às críticas endereçadas pelo Dr. Holly ao
seu trabalho. Este talvez tenha sido um dos mais importantes
resultados de toda a celeuma levantada pelas instigantes ques­
tões postas pelos antimaçons. A obra do Dr. Leazer é peça obri­
gatória para quem desejar conhecer o pensamento daqueles que,
dentro do protestantismo, estão procurando aniquilar com a
maçonaria, criando acusações e aleivosias dos mais diversos
tipos.
A discussão em torno da maçonaria e da CBS, ainda que
214 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

cessada pela decisão de junho de 1993 em Houston, Texas, não


pode ser considerada encerrada. Muito ainda se escreve, deba­
tes e conferências em igrejas e em convenções regionais pros­
seguiram. Algumas igrejas sofreram cisões, resultantes de con­
flito de idéias e posições sobre a maçonaria. Outros líderes, por
sua vinculação com a Ordem, têm sido afastados. Os antimaçons
prosseguiram nos seus argumentos e acusações, desejando m i­
nar a Ordem, sempre presentes com seus membros em regiões
diversas, convenções, igrejas e denominações do país. O “m i­
nistério” antimaçônico do Rev. Ankerberg e seu associado J.
Weldon, bem como outros como de Ed Decker e Bill Schnoebelen
prossegue, na mesma linha de argumentos do Dr. Holly, acu­
sando os líderes da CBS pela decisão, dita pró-maçõnica, que
adotaram e outras personalidades que pensem diferentemente
deles.
A presença de maçons nas igrejas é responsável por males
diversos e é óbice ao bom desenvolvimento de suas missões,
segundo os antimaçons. Ankerberg e W eldon são incisivos e
categóricos ao sustentarem este pressuposto:

“A ve rd a d e é m u ito cla ra (sic): os m a çon s d e n tro da ig re ja p o ­


d em e x e rc e r in flu ê n cia co rru p to ra e in ib ir o cre s cim e n to co letivo
d a igreja .” 94

Os líderes da denominação devem ser responsabilizados por


não condenarem a maçonaria e que, por isto, as igrejas estari­
am deixando de crescer e reavivar.95
O afastamento do Dr. Leazer de suas funções, sob a acusa­
ção de haver conduzido um trabalho de pesquisa polarizado,
em favor da maçonaria, e de haver adotado conduta reprová­
vel - aos olhos de seus superiores - quando se comunicava com
maçons e aceitava proferir palestra em reunião de maçons - é
bem um indicador da forte influência, e até mesmo pressão psi­
cológica, exercida por antimaçons ao longo de todo o processo
da investigação que conduziu. Não foi Dr. Lewis, nem outros
superiores, quem demitiu Dr. Leazer. Seu afastamento é apenas
um episódio, ainda que significativo e exemplar, de um proces-

94J. Ankerberg, J.Weldon , “Os Ensinos Secretos da Maçonaria”.Ed. Vida Nova, 1995, pág. 271.
95G. Leazer, op.cit. págs. 48-50.
ANTIM AÇONARIA 215

so mais amplo - do qual os antimaçons são parte - que aos


poucos vem permitindo aos neofundamentalistas conquistarem
e exercerem o poder na CBS. Trata-se de afastar do caminho
aqueles que, de alguma maneira, representem ideologias ou po­
s iç õ e s n ão c o n fo rm e s com as e s p o s a d a s p e lo s n e o ­
fundamentalistas e seus ativistas seguidores.
O fenômeno transformador da CBS, pelo impacto da onda
neofundamentalista, tem sido alvo de estudos, comentários na
imprensa, páginas na Internet, teses acadêmicas, ensaios e es­
tudos de intelectuais seculares. Uma recente contribuição, dig­
na de nota, veio do Pastor Grady C. Cothen, ministro batista,
que durante mais de quarenta anos militou na administração
da CBS, tendo assumido altos cargos como: presidente de semi­
nário, secretário executivo e diretor da convenção, e - principal­
mente nos últimos anos - presidente da Junta de Escolas Domi­
nicais [Baptist Sunday School Board]. A vida pastoral, am pla­
mente dedicada à denominação, na esfera da educação religio­
sa e na própria administração da CBS, confere excepcional res­
peitabilidade ao seu depoimento. Rev. Cothen vivenciou todo o
processo de mudança, sofreu e muito se amargurou com tudo e
deu-se ao trabalho de oferecer, em duas importantes obras, best
sellers nos EUA, o seu testemunho pessoal: “ What Happened to
the Southern Baptist Convention? - A Memoire o f the Controversy
” (1993) [O que aconteceu à Convenção Batista do Sul? - Memó­
ria da Controvérsia] e “The New SBC: Fundamentalism’s Impact
on The Southern Baptist Convention” (1995) [A Nova CBS: O
Impacto do Fundamentalismo sobre a Convenção Batista do Sul],
A forma e o teor do prefácio do Rev. Cothen, em sua última
obra, deixa transparecer um coração amargurado, após muitos
anos de serviços prestados à denominação, ainda que controla­
do por um a mente lúcida e crítica com o estado de coisas que
vivenciou e que passa a narrar. Algumas de suas frases do seu
breve prefácio:

“It is a con tin u in g look a t on e o f th e c e n tu ry ’s g re a te s t religious


upheavels. In th is volum e, I d iscu ss th e n a tu re o f th e a b erra tion
ca lled fu n d a m e n ta lis m a n d how it h a s ch a n g ed th e n a tu re o f t h e
d e n om in a tion ...
... The sta g ge rin g losses in fe llo w s h ip , com m itm ent, cooperation,
a n d b roth erh ood b elon g to a ll p e rs o n s w h o w ere to u ch e d by th e
tra ged y .../ ha ve a ttem p ted to elim ín a te th e a n g e r a n d fru s tra tio n
216 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

th a t m a n y o f u s h a v e fe lt, a lth ou h I f e a r th a t I h a v e n ot su cce ed e d


to th e d egree I w ou ld h a v e w ish e d ...”

[Esta é a continuação da consideração sobre urna das maio­


res sublevações religiosas do século. Neste volume, discuto a
natureza da aberração chamada Jundamentalismo e como esta
mudou a natureza da denominação. As surpreendentes perdas
de amizade, compromissos, cooperação e fraternidade pertencem
a todos aqueles que foram atingidos pela tragédia. ... Tentei elimi­
nar a cólera e frustração que muitos de nós temos sentido, temo,
porém, não ter tido sucesso no grau que desejava.f6
O depoimento do Rev. Cothen, apesar de seu tom um tanto
em ocional, é rigoroso, respaldado em fontes respeitáveis e
inspirador de credibilidade. Permite-nos aqui traçar um a si­
nopse dos principais aspectos da vida da CBS que se m odifica­
ram, e prosseguem em mudanças, desfigurando alguns valores
tradicionalmente esposados pelos batistas, mercê da influência
de mentes dos novos líderes, comprometidos e identificados
com a ideologia neofundamentalista. Quem conhece bem a or­
ganização interna e as práticas administrativas da denom ina­
ção batista poderá bem avaliar a extensão das mudanças. Aos
não familiarizados recomenda-se examinar a história dos ba­
tistas, suas bases doutrinárias, seus valores e suas práticas.97
Na conclusão de sua obra, o Rev. Cothen assinala:

“O a b a n d o n o s is tem á tico d e vá ria s p o s içõ e s tra d icion a is b a tis­


ta s so b re d iv ersa s q uestões, é u m a m ed id a d e q u ã o ra d ica lm en te
f o i m od ifica d a a C on ven çã o B a tista d o Sul. D is cu tire i u m a s p o u ­
c a s a res p eito d a s q u a is p o u c o s e p o d e d iz e r [sobretudo para os já
familiarizados com a vida batista] o n d e elas fic a v a m e com o f i ­
c a m a g ora .”98

O resumo seguinte reúne algumas das mudanças na CBS,


conforme relato do Rev. Cothen.

^ G n x fy C. C oth en , ' The New SBC: FUndamentatism’s Im p a ct on the Southern B a p tist C o n v e n tio rf.
Snúth & H elw ys P u b.. 1995. Preface.
■"Umas d a s m a is resp eitáveis ob ra s d e referên cia sob re os b atista s é H en ry C. V edd er, “A Short
ffixjary afthe Bnptictc* [U m a P eq u en a H istória dos B a tistas], o rigin alm en te editad a em 1907, estan do
h o je e m s u a d écim a n o n a reim p ressão (1979), ê u sa d a com o p rin cip al referên cia no p resen te estudo.
U m resumo, com os dados mais importantes da historiografia dos batistas é apresentado no Apêndice I.
“ G . C . C oth en , op. cit. p àg. 216.
ANTIM AÇONARIA 217

Sacerdócio do Fiel (Crente)


Pedra angular da doutrina batista no que diz respeito às
relações do homem para com Deus. Cada indivíduo, fiel segui­
dor da fé batista, é sacerdote de si mesmo, isto é, é livre para
manter com Deus um a estreita e pessoal relação em direção à
edificação de sua alma, de sua vida e de sua própria salvação.
É, no dizer do Rev. Cothen, “o coração do livre exercício da reli­
gião”. Se qualquer um, seja um pastor ou qualquer pessoa, rei­
vindica o direito de tomar decisões - em matéria religiosa - por
um outro; estará reivindicando para si um direito que pertence
somente àquele outro e a Deus. Estará quebrando um a tradici­
onal doutrina batista. Neste sentido, a autoridade pastoral na
igreja, levada acima da liberdade individual atribuída a cada
membro da congregação, representa um a violação deste princí­
pio doutrinário. A ascensão, cada vez mais freqüente, do poder
pastoral em detrim ento do sacerdócio do crente, é caráter
marcante dos novos tempos da CBS. É sinônimo da violação da
liberdade de consciência de cada crente. A este e a Deus somen­
te, cabem as decisões essenciais em matéria de fé e salvação,
s e g u n d o a m a is le g ítim a tr a d iç ã o b a tis ta . O n e o -
fundamentalismo, segundo o Rev. Cothen, enfatiza a ideologia
segundo a qual o pastor, ministro do Evangelho, é autoridade
ou detentor do poder de decisão sobre a congregação, acim a de
cada um e em qualquer assu n to."

Liberdade (Autonomia) das Igrejas


A igrejas batistas são autônomas, como já tivemos a opor­
tunidade de mencionar. Quando a denominação chama a si o
direito de excluir igrejas por exercerem sua autonomia, o pro­
blem a da autoridade eclesiástica é posto sob questão. Nos
últimos anos a CBS tem indicado ãs igrejas filiadas como devem
p ro c e d e r com recu rso s ca p ta d o s p a ra m issõ es e o u tro s
fins.*100Igrejas batistas têm sido excluídas da CBS por suas ações

"G .C . Cothen, op. cit. pág. 150.


100Tradicionalmente, as Igrejas Batistas são livres para cooperar ou deixar de cooperar com recursos
próprios para manutenção de programas denominacionais de missões, seminários, obras sociais e
outros fins. Plano Cooperativo, neste sentido é aprovado nas assembléias denominacionais. As igrejas
normalmente aderem a tais planos. Tradicionalmente, porém, é respeitada a liberdade com que cada
igreja destina suas verbas para o Plano Cooperativo da Denominação, para outros planos indepen­
dentes ou para programas próprios. Muitas igrejas de grande porte, independentes, mantêm seus
próprios missionários, suas escolas e programas de assistência social. O que a nova CBS parece estar
implementando pouco a pouco é uma ingerência - ou direcionamento - nas igrejas, constrangendo-as
a aplicar seus recursos conforme orientação da própria convenção.
218 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

relacionadas com o homossexualismo. Outras foram desfiliadas


por haverem ordenado mulheres como diaconisas. Por princi­
pio, cabe a cada igreja, e somente a ela, a form a como adminis­
trar seus membros e as suas práticas eclesiásticas. Urna inge­
rencia externa nos negocios internos de cada igreja representa
um a m udança radical de atitude na CBS. Uma conseqüéncia
natural da interferência nas igrejas, tem sido o afastamento des­
tas da CBS em direção a outras convenções ou então à completa
independência de qualquer organismo denominacional. Hoje é
muito grande o número de igrejas batistas independentes, isto
é, não filiadas às convenções denominacionais nos EUA. Um
grupo qualquer de cristãos evangélicos pode se reunir e fundar
um a nova Igreja Batista independente de qualquer organismo
denom inacional.

Liberdade de Escolha de Pastores e Ministros

O processo de seleção de um pastor é influenciado pela von­


tade da congregação interessada no seu concurso e pelo perfil
do(s) candidato(s). A escolha é soberana e livremente feita pela
igreja, por votação dos seus membros em assembléia. Pelos
sinais detetados pelo Rev. Cothen, o futuro de um profissional
do ministério batista hoje pode estar nas mãos de pequenos
grupos, que manobrando nos bastidores da denominação, ten­
tam influir nas decisões de igrejas. No seu depoimento a respei­
to, o Rev. Cothen cita que, no Estado da Virginia, um certo
militar da reserva tem se dedicado a compilar a lista de “minis­
tros aprovados” . Em muitos outros estados são mencionadas
as fr e q ü e n te s lig a ç õ e s te le fô n ic a s de c o n h e c id o s n eo-
fundamentalistas a comissões de igrejas, encarregadas de re­
crutar candidatos ao pastorado, encarecendo a seleção daque­
les “aprovados”pela hierarquia.101

A Defesa dos Credos Batistas

Longe vai o tempo no qual as igrejas estavam na imprensa


secular ou na mídia em geral, defendendo valores do credo e da
prática batista: a fé na mensagem bíblica, ardor por missões,

101G. C. Cothen, op. cít. pág. 217.


AN TIM AÇON ARIA 219

iniciativas educacionais próprias, e outras iniciativas bem ca­


racterísticas da denominação. A nova agenda fundamentalista,
vem se caracterizando por abordar temas inusitados, tais como:
atitudes contra o aborto, homossexualidade, pornografia, o di­
reito e as idéias a respeito das mulheres e do feminismo na
escala social, a oração nas escolas públicas entre outras. Pou­
co se fala de outros temas sociais que estão na mídia: drogas,
crescim ento da AIDS, trabalho infantil, prostituição infantil,
proliferação da corrupção, violência urbana (inclusive envolvendo
menores), recrudescimento do racismo, má distribuição da ren­
da, crescimento dos bolsões de fome e miséria (nos EUA e no
resto do mundo). Estes temas não constam da agenda neo-
fundamentalista.

Afastamento dos Opositores

C om o te m o s m e n c io n a d o a n te r io r m e n te , o n eo -
fundamentalismo tem o claro propósito de controlar a denom i­
nação, ainda que para isto tenha de desalojar opositores, como
foi o caso do Dr. Leazer, Diretor do Interfaith Witness Department
do Home Mission Board (Junta de Missões Nacionais), o lam en­
tável e inexplicável afastamento do professor Russel Dilday,
presidente do Seminário do Sudoeste, em 9 de março de 1994 e
o pedido de desligamento do famoso Dr. Kenneth Cooper, inter­
nacional expert em medicina preventiva (conhecido pelo seu “Tes­
te Cooper”), membro do Conselho Consultivo e provedor do Se­
minário do Sudoeste, em protesto pela demissão do professor
D ild a y , a lé m de o u tro s c a s o s 102. Ao todo, a on da neo-
fundamentalista desalojou, ao longo dos últimos dezesseis anos,
cerca de 45% de batistas envolvidos em serviços nacionais di­
versos da denom inação.103

Envolvimento na Política Secular

Tradicionalmente a denominação, como tal, representando


mais de 17 milhões de fiéis do sul dos Estados Unidos, tem
evitado se envolver oficialmente no quadro político nacional ou

102G. C. Cothen, op. cit. págs. 101, 4.


103G. C. Cothen, op. cit. pág. 218.
220 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

local, ainda que pastores, evangelistas, professores e membros


das igrejas estejam livres, como individuos, para assum ir e
explicitar a posição política que bem entender. O posicionamento
político tem sido tradicionalmente deixado pelos batistas à cons­
ciência de cada um. Entre os últimos dez e quinze anos, porém,
os batistas do sul têm sido sistematicamente identificados com
a direita americana em geral e com o Partido Republicano em
particular. Nunca, na historia dos batistas americanos, foi a
denominação tão bem identificada com a política secular como
nos dias atuais. Em 1993, um a moção foi apresentada à assem­
bléia anual da CBS propondo o desligamento da Igreja Batista
Immanuel de Little Rock, Arkansas pelo “pecado” de não censu­
rar seu mais proem inente mem bro, o sr. W illiam Jefferson
Clinton, Presidente da República. A moção não foi aprovada,
mas na mesma data, aproximadamente vinte outras moções fo­
ram apresentadas censurando o Presidente Clinton. Jamais a
CBS havia censurado publicamente qualquer igreja por com­
portamento de um dos seus membros. Todas as censuras ao
eminente membro da Igreja de Little Rock trazia conotações po­
líticas e visava confrontar suas posições a respeito das minorias
homossexuais, o feminismo e sobre o aborto104. Era um a conde­
nação aos democratas, representados pelo batista William J.
Clinton, que coincidentemente era o ocupante da Casa Bran­
ca.

Relações entre Igreja e Estado

Traço distintivo dos batistas, que ostentam posição pionei­


ra a respeito, a separação entre Igreja e Estado é pedra angular
de sua doutrina e praxis. A influência neofundamentalista dos
últimos dezesseis anos, porém, tem transfigurado a imagem do
povo batista nessa esfera política. A convenção deixou oficial­
mente de esposar a posição da “igreja livre num estado livre”,
sem a interferência ou participação do governo secular nos ne­
gócios da religião. Os batistas do sul dos Estados Unidos estão

104G. C. Cothen, op. cit. pág. 08.


ANTIM AÇONARIA 221

agora apadrinhando campanhas em favor da aprovação de re­


gulamentos e leis que permitam:

• assegurar parte da receita tributária do governo para as


escolas já mantidas pelas igrejas;
• promover a prática da oração nas escolas públicas;
• permitir o controle dos conselhos das escolas públicas,
por razões religiosas;
• promover o controle dos currículos escolares das escolas
públicas, por razões religiosas; etc...105

Flagrante negação de valores que levaram muitos no pas­


sado a sofrer, se humilhar, verter sangue e lutar pela indepen­
dência e autonom ia das igrejas em relação ao estado. Roger
Williams, fundador da primeira igreja batista em solo am erica­
no, é símbolo de toda esta luta.
Assim como os batistas, outras denominações não ficaram
imunes à presença de correntes neofundamentalistas. Igrejas
Luteranas, Presbiterianas, Congregacionais e Metodistas, m es­
mo as menos expressivas numericamente têm presença dessas
correntes evidenciadas. Estudos e pesquisas de campo realiza­
dos nos últimos dez anos por especialistas da Universidade de
Chicago, liderados pelo Prof. Tom W. Smith, assinalam a pre­
sença dos grupamentos que classifica como fundamentalistas,
moderados e liberais nas diferentes denominações protestantes
americanas, investigadas entre 1972 e 1994. Um quadro resu­
mido dos seus resultados, aferindo o impacto nas principais
denominações, é apresentado no Apêndice II, Resumo Estatís­
tico: Fundamentalismo e Maçonaria nos EUA. A figura reproduzida
na pág. 222 apresenta um resumo estatístico do levantamento
feito, reunindo todas as denominações pesquisadas, não somente
os batistas, dando-nos um a visão panorâmica da evolução, ain­
da qu e g r a d a tiv a , da r e p r e s e n ta tiv id a d e de fa c ç õ e s
fundamentalistas em detrimento do esvaziamento dos m odera­
dos no seio dos protestantes am ericanos106. Vale ressaltar al­
guns poucos pontos dessa pesquisa: (a) um nítido esvaziamento
das posições moderadas, que em 1972 representava 54% do

105Cf. G. C. Cothen, op.cit. pág. 218.


106Cf. Tom W. Smith - GSS Social Change Report, NORC University of Chicago, 1996.
222 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

total da amostra, e chega em 1994 numa posição de 40%. Esta


tendencia reflete o esvaziamento das chamadas denominações
e igrejas tradicionais, respaldadas nos métodos, usos e costu­
mes conservadores e repudiando quaisquer tendências que ve­
nham a ferir tais tradições; (b) contrapondo-se aos moderados
observam-se crescimento dos chamados liberais, grupos não tão
a fin a d o s com a in te r p r e ta ç ã o b íb lic a lite r a l e n ão tão
exclusivistas, mas cristãos e evangelistas. Crescem significati­
vamente de um patam ar de 18% em 1972 para aproximada­
mente 27% em 1994; (c) o fundamentalismo cresceu sempre,
ainda que exibam alguma inquietude entre 87 e 90. De um total
de 28% que tinham em 1972, evoluíram para o patamar de
33% em 1994. Assim estimamos que atualmente, em cada três
protestantes americanos, um é fundamentalista - conforme a
definição a estes atribuídos na pesquisa feita pelos especialis­
tas da Universidade de Chicago. Um breve comentário conclusi­
vo dessa movimentação fundamentalista observada na pesqui­
sa supra-referida é oportuno.

Evolução (em %) do movimento fundamentalista, comparado com os moderados e liberais, observado


no seio das igrejas protestantes americanas entre 1972 e 1994. [ Fonte: GSS - Social Change Report -
NORC Univ. o f Chicago, 1996.]
ANTIM AÇONARIA 223

Não nos esqueçamos que o estudo abrange período históri­


co dos mais conturbados, desde o assassinato do presidente
Kennedy, fim da Guerra do Vietnan, a renúncia do presidente
Nixon, a queda do muro de Berlim, a assinatura do acordo
entre Reagan e Gorbachev, pondo fim à guerra fria e abrindo
espaço para a globalização dos negócios, até alguns eventos lo­
cais que nem por isso foram menos importantes. Vale lembrar,
por exemplo, que entre os anos 87 e 88 os evangélicos am eri­
canos foram sacudidos por um a série de escândalos financeiros
e m orais en volven d o n otáveis líd eres, os ch am ad os te le ­
evangelistas, tais como: Pat Robertson, Oral Roberts, Jim m y
Swaggart, Jim Bakker e outros. Jim m y Swaggart era inclusive
familiar aos brasileiros, pois seu programa semanal pela TV,
contando com boa audiência, era reproduzido em português atra­
vés de cadeia nacional de emissoras brasileiras no início dos
anos 80. Os nomes desses teleevangelistas americanos vieram
p a ra a im p r e n s a s e c u la r, r e la c io n a d o s a d e s v io s
comportamentais sérios, tradicionalmente repudiados pela co­
munidade protestante em geral. Swaggart, por exemplo, pastor
e evangelista da Assem bléia de Deus, admitiu publicamente ter-
se envolvido com prostitutas e por isto foi “convidado” a aban­
donar o m inistério evangélico. Bakker, acusado de desvios
morais similares, foi também levado a se demitir do ministério
que ocupava. Os demais, mencionados acima, foram também
alvo de escândalos financeiros e morais. Em resumo, a im pren­
sa secular não poupou os “ícones sagrados” da comunidade evan­
gélica, comprometendo no seu todo a credibilidade dos seus lí­
deres espirituais, os mais respeitáveis e populares, até então. O
resultado desse impacto, amplamente relatado em outro estudo
da mesma equipe da Universidade de Chicago107, pode explicar
o d is c r e to d e c r é s c im o d a r e p r e s e n ta tiv id a d e dos
fundamentalistas, na amostra estudada, no período entre 87 e
88 estampado no gráfico da pág. 222.
Os levantamentos estatísticos, entretanto, não deixam m ar­
gem a dúvidas: no seu agregado de denominações evangélicas,

107Tom W. Smith, “The Impact ofth e Televanaelist Scandals o f 1987-88 on American Reliaious Beliefc
and Behaviours”. GSS - Social Change Report nfi 34, NORC University o f Chicago, March, 1991.
{Reproduzido também na Public Opinión Quarterly, 56 [Fali, 1992] , págs. 360-380.)
224 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

e não somente entre os batistas, é relevante a participação dos


fundamentalistas entre os evangélicos. Em cada dez am erica­
nos que professam a fé protestante hoje, há pelo menos três que
podem ser identificados como fundamentalistas. A sua presen­
ça já tem sido percebida em escolas, universidades, seminários,
outras organizações denominacionais, na imprensa, no rádio e
TV de forma ostensiva. A CBS é hoje quase totalmente tomada
por líderes dessa vertente, ainda que muitas igrejas - pela pró­
pria natureza da autonomia batista - estejam mantendo posi­
ções independentes das assumidas pela Convenção. Outras igre­
jas, não concordantes com a posição da Convenção, procuram
se filiar a outras convenções batistas, de posições moderadas,
espalhadas pelo país.
De toda maneira, vale chamar atenção para esse fenômeno
enraizado na sociedade americana e espalhando o seu exemplo
nos países nos quais o crescimento evangélico é um fato consu­
mado, como é o caso do Brasil. Um termômetro deste fato é a
farta literatura de autores americanos que invade nossas livra­
rias e igrejas.
AN TIM AÇ O NARIA 225

CAPÍTULO VII

Motivações dos Antimaçons e a


Vulnerabilidade dos Maçons

Parece uma questão sem solução à vista. Grupos religiosos


fundamentalistas, políticos identificados com facções da extre­
ma direita - que militam em diversos países - e outros opositores
gratuitos, parecem dispostos a prosseguir disseminando men­
sagens abertamente de condenação da Ordem Maçônica. Ainda
que o fenômeno não tenha ainda surgido de forma ostensiva e
aberta nos meios de comunicações brasileiros, existem aqui e
ali veladas movimentações do marketing antimaçônico. A rgu­
mentos parecem não faltar. Recursos, pelo que se vê da literatu­
ra disponível e da circulação generalizada na mídia impressa e
mesmo na Internet, também já estão vicejando.
Países há que não aceitam a presença da maçonaria. A Or­
dem está banida virtualmente de todas as nações dominadas
pelo Islã. A Grande Loja do Irã, reconhecida por muitas outras
obediências coirmãs, mantém-se ativa no exílio, com suas 43
lojas reunindo-se nos EUA e países europeus1. Campanhas
parecem ser orquestradas contra a maçonaria por algumas ins­
tituições protegidas sob o manto da religião dos santos, perfei­
tos, defensores de Deus e detentores da verdade última e abso­

1“ L is t o fL o d g e s - 1 9 9 7 ’, pág. 259.
226 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

luta. Procuramos identificar as motivações dos antimaçons no


amplo cenário por onde se passam as mudanças deste fim de
século. Nossa tese básica é a de que o movimento atual contra a
Ordem pode ser localizado em grupos protestantes - chamados
neofundamentalistas. Esses, com as devidas ressalvas e adap­
tações, foram definidos pelo Prof. George M. Marsden, como:

"... [ fundamentalista é] o evangélico que é militante em opo­


sição à teologia liberal nas igrejas ou às mudanças nos valores
culturais ou mais, tais como aqueles associados com o
‘humanismo secular’ ...Fundamentalistas não são exatamente
os religiosos conservadores, êles são conservadores que querem
tomar uma posição e lutar...”2

Significa dizer, estão se posicionando contra. Contra o que


de novo se insere nos seus domínios e são vistos como ameaças.
A teologia liberal, influenciada pelas novas correntes de pensa­
mento que desde o fim do Séc. XIX circulam - como dizem - nos
seminários, contestando posições doutrinárias protestantes bá­
sicas, é um a ameaça contra a qual lutam. As mudanças soci­
ais, vividas sobretudo neste final do Séc. XX, evidenciadas nas
contestações seculares aos hábitos tradicionais: a liberação do
sexo, o reconhecimento social e o apoio tácito dado às minorias
homossexuais, ao aborto oficialmente reconhecido e por isso
legalmente praticado, o avanço da mulher nas atividades tradi­
cionalmente entregues aos homens, constituem outro conjunto
de ameaças contra o qual se insurgem. A intromissão da ciência
em temas, até então defendidos com unhas e dentes pelos por­
ta-vozes da religião é outra tradicional ameaça: o criacionismo
defendido e promovido nos EUA, por protestantes conservado­
res, como nova ciência funciona como antídoto ao evolucionismo
darwiniano.
O discurso é caracterizado fortemente pelo ódio aos contrá­
rios. Ainda que proclamem ser contra a maçonaria mas não
contra os maçons, seus discursos não dissociam - na sua es­
sência - um a coisa da outra. Os maçons são fiéis seguidores de
Satã, dizem. O maligno domina o ambiente da maçonaria e con-

2George M. Marsden, “ fIn d e rs ta n tím n F u n d a m e n la lis m a n d B v a n a e tic a lis m '’ . W. E. Eerdmans Publishing
Co., Gran Rapids, Michigan, 1991, pág. 1.
ANTIM AÇONARIA 227

trola seus passos, diz. W illiam Schnoebelen, exibindo seu


curriculum vitae de ex-maçom que chegou ao Grau 32 do REAA
- conhecendo a Ordem por dentro e agora um fiel seguidor dos
grupos evangélicos contrários à maçonaria, é taxativo e contun­
dente crítico da Ordem ao se referir ao conceito de Deus e a sua
aplicação em loja:

“...A p e s a r d os es critores m a çôn icos fa z e re m su a te olog ia (sic!)


p a r e c e r m u ito filo s ó fica , tra ta -s e a p e n a s d o velho jo g o d e a rm a çã o
d e S a ta n á s d e m o v e r D e u s p a ra lon g e d a vista, n e g a n d o -lh e q u a l­
q u e r va lo r p rá tico , s u b stitu in d o -o en tã o p o r u m íd o lo em Seu lu ­
g a r...”3

A lógica não é o instrumento básico por trás da argumenta­


ção. Não é difícil perceber-se inconsistências, sofismas, precon­
ceitos e traços evidentes de emocionalismos a empurrar esses
autores das diatribes. Art deHoyos e S. Brent Morris em sua
obra “Is It True Wkat They Say About Freemasonry? (Será Verda­
deiro o que Eles Dizem a Respeito da Maçonaria ?) sublinha os
hábitos dos antimaçons na construção de suas dialéticas (se
assim podemos chamar seus discursos):
(a) Afirm ações de autores maçons são consideradas por
antimaçons como verdades absolutas, e autorizadas, a respeito
da maçonaria, e como tais confrontadas em suas obras. Auto­
res antimaçons citam com freqüência frases isoladas de reco­
nhecidos autores maçons, fora do contexto original, para a par­
tir daí usá-las em favor de seus argumentos. Um dos clássicos
exemplos são os comentários do enciclopedista americano A.G.
Mackey freqüentemente citados - e distorcidos - pelos antimaçons
como sustentação à tese “maçonaria é um a religião” :

“ ... F re e m a s o n ry is, in ev ery se n s e o f th e w ord, e x cep t one,


a n d th a t its lea st p h ilos op h ica l, u n em in en tly religiou s institution...
B u t th e religión o f F re e m a s o n ry is n ot sectarian. It a d m its m en o f
e v e r y c re e d w ith in its h o s p ita b le b o s o n , r e je c tin g n o n e a n d

3W. Schnoebelen, “Maçonaria. Do Outro Lado da L w f . CLC Editora, São José dos Campos, 1995, pág.
52. Num contexto construído sobre falsas premissas, o autor conclui que Deus está excluido das
lojas, Satanás é o real senhor de tudo, segundo a verdade que ele, Schnoebelen, expõe. O que é
importante para os nossos propósitos, neste momento, é o verificar-se que com seus argumentos -
fartamente divulgados no Brasil pela rede de distribuição da literatura evangélica - dissemina uma
cultura contra a maçonaria e impregna um a postura preconceituosa que beira às raias do ódio cego
aos maçons. Esta tem sido a tônica do discurso antimaçônico trazido à luz neste dias.
228 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

a p p ro v in g n o n e f o r h is p e c u lia r fa ith . It is n ot J u d a is m , th o u g h
th ere is n oth in g to offe n d a J ew ; it is n ot C hristianity, bu t th ere is
n oth in g in it rep u gn a n t to th e fa ith o f a C hristian. Its religión is th a t
g e n e ra l on e o f n a tu re a n d p rim itiv e rev ela tio n ..
[Maçonaria é, em todos os sentidos do termo, exceto num, e
pelo menos filosófico, uma instituição eminentemente religio­
sa... Mas a religião da Maçonaria não é sectária. Ela admite ho­
mens de todos os credos dentro do seu hospitaleiro seio, não
rejeitando nem aprovando ninguém por sua fé particular. Ela
não é o judaísmo, embora nada tenha que possa ofender o ju­
deu. Ela não é o Cristianismo, embora nada exista nela de re­
pugnante à fé de um cristão. Sua religião é aquela da natureza
em geral de revelação primitiva.] 4 (Os grifos são desse autor.)

Frases isoladas - e tomadas fora do contexto original - vin­


das de um respeitado autor maçom, afirmando ser a Ordem
“uma instituição eminentemente religiosa” e “não é o Cristianis­
mo”, assim destacadas do contexto e citadas isoladamente, cons­
tituem afirmações preciosas para os antimaçons. Considerar uma
instituição religiosa como sinônimo de religião seria, no mínimo,
não conhecer o que exatamente significa ser um a religião. Ain­
da assim, toda esta argumentação tem servido para acusar de­
finitivamente a Ordem de Religião Pagã e oposta ao cristianis­
mo. O professor Horrel dá-no um exemplo dessa prática ao se
referir ao texto de Mackey:

“Tendo defendido a maçonaria como religião, o próprio Albert


Mackey declara em termos enfáticos: ‘a religião da maçonaria
não é o cristianismo”5

E esta passa a ser verdade absoluta atribuída à Ordem, por


ela própria assim enunciada, sem que possa ser posta em ques­
tão. O autor não se dá ao trabalho sequer de inserir o contexto
de onde a citação é extraída e ainda atribui adjetivo ( enfáticos) -
subjetivamente por ele próprio avaliado - ao texto de Mackey.
Assim raciocinam e agem os antimaçons. Destacam, de um dado

4A.G. Mackey, “ Mackeu’s Revised Encuclopedia ofF reem a son n f. págs. 846, 7. A citação é parte de um
amplo arrazoado do autor para indicar que a Ordem incorpora muito de antigas e atuais religiões mas
de forma alguma pode se comparar às religiões sectárias e muito menos como oposta ao cristianismo.
A frase é impropriamente retirada do contexto e usada como verdade absoluta por muitos antimaçons.
5J. S. Horrel, pág. 59.
ANTIM AÇONARIA 229

contexto, afirmações de maçons, aparentemente favoráveis às


suas teses, e apropriam-nas como verdades absolutas, enunci­
adas pela maçonaria, que como tais são proclamadas aos qua­
tro ventos.
Horrel cita, além de Mackey, autores brasileiros como Jor­
ge Adoum, J. Gervásio Figueiredo, Nicola Asían e Rizardo da
Camino, como autoridades que, falando em nome da maçona­
ria, fazem afirmações definitivas e oficiais sobre a Ordem. Inte­
ressante notar que não conhecemos nenhuma citação, que a
propósito da m esm a tese (M açonaria e Religião), tenha sido
emanada de um a Obediência Maçõnica regularmente constituí­
da. A antimaçonaria não procura nos textos oficiais das Obedi­
ências extrair suas afirmações a respeito de definições básicas e
fundamentais da Ordem.
É bem conhecido o princípio segundo o qual somente as
Grandes Lojas e Grandes Orientes, obediências com poderes
sobre os três graus do simbolismo (as chamadas lojas azuis),
podem oficialmente falar em nome da maçonaria. Nem mesmo
os Supremos Conselhos e demais organizações que regem os
altos graus da Ordem, podem fazê-lo publicamente em nome da
maçonaria. Somente aquelas obediências falam em nome da
Ordem, em sua respectiva jurisdição. Ainda que eminentes es­
tudiosos maçons, reconhecidamente identificados com essa ou
aquela potência, sejam livres para emitir suas opiniões e con­
ceitos, não poderão falar em nome da maçonaria. Suas declara­
ções não passam de opiniões pessoais.
(b) Antimaçons ficam satisfeitos, para não dizer eufóricos,
quando topam com qualquer obra contrária à maçonaria vinda
de ex-maçons ou autores seculares independentes. Endossam-
na, assumem como verdade absoluta, sem qualquer cuidado
crítico com seu conteúdo e sua procedência. Notórios autores
antimaçons como W. Schnoebelen, Ed Decker, J.Weldon e J.
Ankerberg, são useiros e vezeiros nesta prática, no que são se­
guidos pelos seus “discípulos” (como o Prof. Horrell, por exem­
plo). W eldon e Ankerberg6 desenvolvem muitas de suas teses
acusatorias invocando famosa obra em dois volumes, editada
em 1888, de autoria do Rev. Jonathan Blanchard, “ScotchRite *7

6 J. Ankerberg & J. Weldon, “Os Ensinos Secretos da Maçonaria*. Os seus capítulos de números 4, 5,
7, 10, 14, 15, 18 e 20 se fundamentam, entre outros, na obra referida de autoria do Rev. J. Blanchard.
230 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Masonry Mustrated, The Complete Ritual o f the Ancient and


Accepted Scottish Rite” [ Maçonaria do Rito Escocés Ilustrada, O
Ritual Completo do Rito Escocês Antigo e Aceito]. Não tiveram o
cuidado de pesquisar a origem e autenticidade da obra e déla
fizeram diversas inferências sobre os rituais dos graus superio­
res, sim plesm ente por favorecerem suas posições. O Rev. J.
Blanchard, autor da referida obra, é citado por Ankerberg e
Weldon como Soberano Grande Comendador (Grau 33 do REAA),
presidindo o Supremo Conselho, e portanto, a maior autoridade
do Rito. Fato que, segundo eles, conferiría à obra a mais absolu­
ta credencial e autoridade. Brent Morris e Art deHoyos se encar­
regaram de denunciar esse embuste. Nem o texto é auténtico
nem seu autor foi jam ais maçom - e portanto muito menos por­
tador do Grau 337. A obra tão citada pelos antimaçons, susten­
tam deHoyos e Morris, nada mais é do que um a revelação ori­
ginada da Ordem pseudomaçônica, portanto espúria, nascida e
desenvolvida nos anos 1800, em paralelo com o escocismo, de­
nominada “Cerneauismo”, em referência ao seu fundador Joseph
Cerneau. Juramentos de fidelidade e outras referências claras
a Cerneau aparecem na obra de Blanchard. Qualquer pesquisa­
dor medianamente cuidadoso havería de desconfiar da origem
da obra. Parece que Ankerberg e W eldon não aguçaram sua
curiosidade neste ponto ou não quiseram deliberadamente fazê-
lo. Na realidade, o “ScotchRite Masonry Mustrated ...” nada tem
de autêntico do REAA. É uma obra antimaçônica, com vestimenta
de autenticidade, prato cheio para os antimaçons. Essa prática
é comum entre os inimigos da maçonaria. Quando não se valem
de textos, ditos autênticos e autorizados, tomam afirmações le­
vianas de antimaçons como verdades absolutas e assim seguem
suas críticas à Ordem, enganando seus potenciais seguidores.
Outro exemplo dessa mesma natureza é o uso não declara­
do das ficções de Leo Taxil.
(c ) Antimaçons de nossos dias prosseguem tomando como
verdadeiros os trotes fabricados por Taxil - mesmo depois de
haverem sido universalmente desmascarados a partir de 1897 -
principalmente os que atribuem a Albert Pike afirmações a res­
peito dos rituais maçônicos. Pike é o autor mais citado pelos

7Art deHoyos & S. Brent Morris, “Is it T ra e W h a t T h e v S a u A b o u t F r e e m a s o n r u T ’ Masonic Service


Association ofthe United States, Silver Spring, Mariland, 1994, págs. 5, 6.
ANTIM AÇONARIA 231

antimaçons americanos. Afirmações falsas, levianamente atri­


buídas a Albert Pike, são citadas como verdades absolutas para
sustentar acusações, tais como o fabricado relato sobre uma
reunião interna do Supremo Conselho. Albert Pike teria assim
se dirigido aos seus membros (transcrição de trechos de um
discurso a ele atribuído):

“ To you, S o ve reign G rand In s p ecto rs G eneral, w e say, so th at


y o u ca n repeat it to th e B re th re n o fth e 32nd, 31 s t a n d 3 0 th d egrees:
- The M a s o n ic relig ió n m u st be, by a ll o f u s in icia tes o f th e h ig h
gra d es, m a in ta in ed in th e p u rity o f th e L U C IF E R IA N doctrine... If
L u c ife r w ere n ot God, A d o n a i (th e G od o f th e C h ris tia n s ) w h os e
d eed s p ro v e h is cruelty, p e rfid y a n h a tred o f m an, his b a rb a rism
a n d rep u lsión o f Science, i f L u c ife r w ere n ot God, w o u ld A d o n a i
a n d his p rie s ts sla n d e r h im .... Yes L u c ife r is God, a n d u n fo rtu n a tely
so is A d onai. F o r th e e te m a l law is th a t th ere is no s p le n d o r w ith ou t
shadow , no beu ty w ith ou t ugliness, no w h ite w ith o u t black, becau se
th e a b s olu te ca n o n ly ex ist as tw o, b eca u se d a rk n ess is necessa ry
to ligh t to serve as its com plim ent, as th e p e d e s ta l is necessa ry to
th e s ta tu e , a s th e b ra k e to th e lo c o m o tiv e .... T h e u n iv e r s e is
b a la n ce d by tw o fo rc e s w h ich m a in ta in its eq u ilib riu m : th e fo r c e
th a t attra cts a n d th e on e th a t repels. These tw o fo r c e s exists in
p h y s ics , in p h ilo s o p h y a n d religión. A n d th e scie n tific rea lity o f
th e d iv in e d u a lis m is p ro v e d by th e p h e n o m e n a o f p o la rity a n d
u n iv ersa l law o fa jfin itie s a n d antipathies. This is w h y th e in teligen t
d is cip le s o f Z o ro a s te r, a s w e ll as, a fte r th e m th e G n os tics, th e
M a n ich ea n s, a n d th e T em pla rs ha ve a d m itted as th e s o le logica l
a n d m e th a p h y s ic a l c o n c e p tio n th e s y s te m o f th e tw o d iv in e
p r in c ip ie s f ig h tin g o n e a n o th e r in a ll e te m ity , a n d o n e c a n n o t
b eliev e on e in fe rio r to th e o th e r in po w e r.... Thus, th e d o ctrin e o f
S a ta n ism is a heresy ; a n d th e tru e e p u r e p h ilo s o p h ic a l religión is
th e b e lie f in Lucifer, eq u a l to A d o n a i, bu t L ucifer, G od o f L ig h t a n d
G o d o f G ood , is f ig h t in g f o r h u m a n ity a g a in s t A d o n a i G o d o f
D a rk n e s s a n d G od o fE v il... ”

[ A vós, Soberanos Grandes Inspetores Gerais, dizemos, tal


que possais repetir aos irmãos dos Graus 32, 31 e 30: - A Reli­
gião Maçônica deve ser, para todos nós iniciados nos altos graus,
mantida em sua pureza de doutrina LUCIFERIANA... Se Lúcifer
não fosse Deus, Adonai (o Deus dos Cristãos) cujos feitos pro­
vam sua crueldade, perfídia e ódio do homem, seu barbarismo e
repulsa à ciência, se Lúcifer não é Deus, poderíam Adonai e
seus sacerdotes difamá-lo? ... Sim, Lúcifer é Deus, e infelizmen­
te Adonai também. Pois que a lei eterna estabelece que não há
232 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

esplendor sem sombra, beleza sem feiúra, branco sem preto, uma
vez que o absoluto só pode existir em dupla, porque as trevas
são necessárias para a luz servir como seu complemento, como o
pedestal é necessário para a estátua e o freio para a locomotiva...
O universo mantém-se equilibrado pelas duas forças que o sus­
tentam: as forças que atraem e as forças que repelem. Essas
duas forças existem na física, na filosofia e na religião. E a reali­
dade científica do dualismo divino é demonstrada pelo fenômeno
da polaridade e pela lei universal das afinidades e antipatías. Eis
por que os brilhantes discípulos de Zoroastro, bem como, depois
deles, os Gnósticos, os Maniqueus e os Templarios têm admitido
como única concepção metafísica e lógica a do sistema de dois
princípios divinos em confronto em toda eternidade, e um não
pode considerar-se inferior ao outro em poder....... Assim, a
doutrina do Satanismo é uma heresia, e a verdadeira e pura
religião filosófica é a fé em Lúcifer, igual a Adonai, mas Lúcifer,
Deus da Luz e Deus do Bem, em luta pela humanidade contra
Adonai Deus das Trevas e Deus do Mal...]8

Os antimaçons leram esse texto absurdo, e passaram a


considerá-lo legítimo e verdadeiro e daí divulgaram-no, isto é, a
m açonaria é um a religião dedicada a cultuar Lúcifer (Satanás).
Trata-se de verdade incontestável e definitiva, já que emanada
de reconhecida autoridade do REAA, assim apregoam.
Mas como o texto apareceu? Segundo deHoyos, a matéria
surgiu pela primeira vez nos EUA, em 1933, numa publicação
de um a escritora chamada Lady Queenborough, cujo verdadei­
ro nome era Edith Starr Miller, sob o título “Occult Theocrasy”
[Teocracia Oculta], Em realidade, Lady Queenborough retirou a
citação de outra obra surgida em 1894 na França: “La Femme
et L ’ Enfant dans la Franc-Maçonnerie Universelle” [A Mulher e
os Filhos da Franco-maçonaria] de Abel Clarin de la Rive. Tanto
Lady Queenborough como Mr. de la Rive, foram ludibriados pelo
trote que lhes deu o verdadeiro fabricante daquele texto atri­
buído a Albert Pike. A fonte últim a de toda essa farça foi o
notório pornógrafo, antimaçom e anticatólico, Gabriel Antoine
Jogand-Pagès, mais conhecido como Leo Taxil. Um fato particu­
lar a respeito de toda esta trama é que não faltam obras respei­
táveis na literatura de língua inglesa e francesa relatando os
episódios da vida e obra desse grande farsante, Leo Taxil. Art

8Art deHoyos & S. Brent Norris, op. cit. págs. 19-21.


ANTIM AÇON ARIA 233

deHoyos relaciona 23 livros, disponíveis atualmente, revelando


os trotes e fabricações de Taxil, enganando maçons, antimaçons
e a própria Igreja. Entretanto, antimaçons prosseguem até os
dias atuais, usando as ilações de Taxil, sem citá-lo, para acusar
a maçonaria de seita satânica, violando assim procedimentos
básicos da ética científica de pesquisa. O mesmo deHoyos se
deu ao trabalho de arrolar oito obras de antimaçons que se va­
lem das m e n tira s de T a x il p a ra s u s te n ta r a c u s a ç õ e s à
fra te rn id a d e m açõn ica. E n tre êles estão em in en tes neo-
antimaçons como: Pat Robertson, W. Schnoebelen, J. Holly,
Ed Decker e outros.
Mr. C. Fred Kleinknecht, Soberano Grande Comendador
do REAA, Jurisdição do Sul dos EUA, escreveu ao teleevangelista
Pat Robertson, em 19 de janeiro de 1992, a respeito da citação
atribuída a Pike, feita em sua famosa “The New World O rd e f.
Kleinknecht acusava Robertson de estar cometendo um a fraude
e convidava-o a ler os escritos originais de Albert Pike na House
o f Temple, a portentosa sede do Supremo Conselho, jurisdição
do Sul dos EUA. Na sua carta, Kleinknecht sugeria a Robertson
que retirasse a citação de Pike, pois assim estaria melhor ser­
vindo aos seus leitores. Encerrando a mensagem, Mr. Kleinknecht
desafiou:

“I f w e m u st d is a g re e let u s b ase o u r d is a gre em en t u p o n truuth. ”

[Se temos de discordar, baseemos nossa discordância na ver­


dade.]

Até 01 de janeiro de 1994, Robertson não havia respondido


à carta.9
Os três ardis usados pelos antimaçons, acima ilustrados,
evidentemente não esgotam todo o arsenal de metologias e pro­
cedimentos que se valem no processo destrutivo que estão em ­
penhados. Muitos outros estratagemas, usados para enganar
seus leitores e ouvintes, são comumente usados. A teologia é
constantemente usada por eles como instrumento e ponto de
referência para apontar os “desvios” do cristianismo que repre­
sentam. As motivações de todo esse movimento, pondo em risco

9Art deHoyos & S.Brent Norris, op.cit. págs. 09-14.


234 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

inclusive a credibilidade de seus nomes, enquanto líderes religi­


osos, têm variados aspectos.
P assam os a re la ta r algu n s p on tos da m o tiva çã o dos
antimaçons que deixam transparecer nas suas obras. Suas obras
têm um destinatário principal: os próprios cristãos em primeiro
lugar, e os não-cristãos, que maçons ou inclinados em favor da
Ordem, estariam sendo assim “evangelizados”. O grande temor:
cristãos sejam iniciados na Ordem, deixem de participar dos
cultos e do sustento da obra evangélica. Para tanto, é preciso
demonstrar que a Ordem é de natureza maligna e, portanto,
incompatível com o cristianismo em geral, e com a teologia bí­
blica em particular. Depois de um a série de falsas premissas, o
Prof. Horrel, por exemplo, recomenda aos pastores que

"... a q u i ca b e u m a p a la v ra fin a l. D ia n te do cres cim en to d o ocu l­


tis m o (Sic!) no B rasil, a s ig re ja s p re c is a m le v a n ta r as d ifíceis q u e s ­
tõ es so b re a com p a tib ilid a d e da m a çon a ria com a f é bíblica. ”

para, em conclusão, levar seus leitores a pensar seriamen­


te, com base na categórica afirmação que faz fundamentada na
sua autoridade teológica e eclesiástica:

“N o ssa in te n çã o n ã o é f e r ir n em e n v e rg o n h a r ninguém . E n tre ­


tanto, qu e a estru tu ra relig iosa e filo s ó fic a da m a çon a ria é con trá ­
ria aos p rin c íp io s fu n d a m e n ta is d a f é cristã, iss o é im p o s s ív e l de
se n e g a r".10

Missões evangélicas estão constituídas nos EUA com o ex­


clusivo e explícito propósito de falar aos maçons e induzi-los a
deixar suas lojas e se converter a Jesus. Duas dessas, têm orga­
nizado anualmente o “ National Leadership Conference on Ministry
to Masons” [Conferência Nacional da Liderança do Ministério
aos Maçons]: A “In His Grip Ministries, Inc.” dirigida pelo pastor
C.D.A Oxley e a organização denominada “Ephesians 5:11” do
pastor batista Larry Kunk11. Suas conferências anuais têm sido
relatadas por Gary Leazer em suas circulares, revelando o cará­
ter propagandístico e comercial desses encontros. A “Sexta Con-

10 Cf. Horrel, op.cit. págs. 133, 4.


11 G. Leazer, op.cit. pág. 85.
ANTIM AÇONARIA 235

ferência Nacional da Liderança” realizou-se de 5 a 8 de junho de


1997 em Columbus, Ohio e apresentou um programa consti­
tuído de palestras com mais de dez notáveis antimaçons. Do
programa, constou palestra introdutória do pastor Larry Kunk,
sob o significativo título “How to Lead Men Away from Masonry” 12,
isto é, “Como conduzir homens para fora da maçonaria” . Pensa­
mos ser esta observação em si mesma suficiente para entender­
se o objetivo que está por trás da movimentação antimaçônica
americana.
A motivação, ou um dos seus objetivos, jam ais declarados
pelos autores de todas essas diatribes: destruir a m açonaria e
ocupar seus espaços, assumindo sua posição ao afirmar tra­
tar-se de uma religião satânica ou pagã. A postura muito se
assemelha à disputa de produtos pela conquista de um mesmo
espaço de mercado: competição acirrada, pensam e assim agem
os antimaçons de nossos dias. Esperam desviar evangélicos de
se filiar às lojas maçônicas e de afastar atuais maçons de seus
vínculos com a Ordem. Proclamam para as igrejas e seus segui­
dores que a presença de maçons na liderança das congregações
está inibindo o crescimento do cristianismo e representa fator
inibidor à expansão da obra evangelizadora. Eufemismo de um
discurso que vê nos maçons todo o mal e o evidente represen­
tante de Satanás no meio cristão. A argumentação levantada
por Ed Decker, conhecido autor e atuante antimaçom am erica­
no, esteve focalizada contra a presença de pastores, diáconos e
outros líderes maçons na Convenção Batista do Sul dos EUA.
Foi sua a principal origem da movimentação da Convenção Ba­
tista do Sul dos EUA contra a maçonaria. Assegurava ele, para
fundamentar a luta pela condenação oficial da Ordem na As­
sembléia de junho de 1992 em Indianopolis, Indiana, que 40 a
65 por cento dos pastores batistas estavam ligados à maçonaria
de alguma maneira. Entre os leigos batistas, esse número ainda
seria maior, dizia ele.13 Ainda que sem citar suas fontes, o dis­
curso de Ed Decker foi totalmente endossado pelo líder da cam­
panha antimaçônica entre os batistas do sul dos EUA, o Dr.
Holly, que desejava demonstrar o quão maligna estava sendo
para as igrejas tão expressiva presença de maçons no seio de

12 G. Leazer, CIS Masonic Report, Vol.3, ne 2 (May, 1977).


13 G. Leazer, op.cit. pág. 89.
236 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

suas lid era n ça s. N esta d ireção trab alh avam , todos esses
detratores, para destruir a Ordem e assim afastar de seus qua­
dros os membros das igrejas.
A experiência e as idênticas táticas observadas nos EUA,
começam a surgir no Brasil, com evidentes e similares propósi­
tos. A posição do Dr. Holly é plenamente endossada pelo ilustre
J. Scott Horrel, professor da Faculdade Teológica Batista de São
Paulo, formador de opinião e de futuros pastores das igrejas
evangélicas do Brasil. Este, ao relatar sua opinião sobre a deci­
são da Assem bléia da Convenção Batista do Sul dos EUA, que
formal e democraticamete se recusou a condenar a Ordem con­
forme desejavam os antimaçons liderados pelo Dr Holly, endos­
sa a posição desse médico texano, conforme diz textualmente:

“D ia n te d a s con clu s ões u n â n im e s (S ic!) d e d e zen a s d e ou tra s


d e n o m in a çõ e s cristã s e d a e s m a g a d o ra m a ioria d a crista n d a d e
m u n d ia l (Sicl), ce rta m en te o com en tá rio d o Dr. J a m e s L a rry H olly
so a verd a d eiro: ‘O s B a tis ta s d o S u l s e to m a ra m a p rim e ira d e n o­
m in a çã o cristã [n a h istória ] q u e acabou, em sum a, p o r a b e n ço a r a
loja m a ç ô n ic a ’. ”14

Na avaliação de Horrell, respaldado que está em sua autori­


dade teológica, na posição do antimaçom Holly repousa a ver­
dade absoluta no confronto, por êle visto, “m açonaria versus
cristianismo” . E assim proclama ele, como um dogma, aos seus
seguidores e discípulos, futuros líderes das igrejas evangélicas
do país.
Os livros estão se multiplicando, as fitas de vídeo já come­
çam a aparecer nas locadoras de São Paulo. Um outro exemplo
de esforço de marketing, identificado em maio de 1998, eviden­
cia um a inclinação comercial do movimento já em ação no Bra­
sil. O jornal “O Estado de S. Paulo” publicou em sua edição de
07 de maio de 1998, matéria publicitária sob o título “MAÇO-
NARIA, TREVAS OU LUZ”, com o propósito claro de promover a
venda do livro e fita cassete, ambos de autoria de W illiam
Schnoebelen, “Maçonaria, Do Outro Lado da Luz” . A matéria
vem acom panhada do testem unho de eminentes antimaçons
americanos: Ed Decker, Ron Carlson e um depoimento atribuí­
do ao Instituto Cristão de Pesquisas. Seguem-se frases-clichés

14J. S. Horrell, op.cit. pág. 165.


AN TIM AÇ O NARIA 237

bem significativos do marketing antimaçônico: “Conheça seus


m istérios”, “Maçom: Jesus também te ama” , “Campanha Mun­
dial de Evangelização dos Maçons”, “Inclui Rituais Secretos (Sic!)
da M açonaria”. Tudo a venda pelo preço prom ocional de R$
50,00.
As editoras proclamam as virtudes e valores das obras neo-
antimaçônicas. As livrarias estão expondo em suas vitrines as
obras mais recentes de autores fundamentalistas e antimaçons
como: William Schnoebelen, John Ankerberg, John Weldon e J.
Scott Horrell.
Os maçons, como estão se comportando? Que resposta es­
tão dando aos discursos antimaçônicos? No Brasil o tema ain­
da é bastante desconhecido das lojas e obediências. O mundo
protestante ainda é enxergado por muitos como um a comuni­
dade inexpressiva, minoritária e distante para muitos brasilei­
ros. Suas posições sobre qualquer tem a são consideradas só
marginalmente. Não são levadas em conta pelos maçons brasi­
leiros. Quando, por um a das prim eiras vezes, apresentamos
palestra em um a das lojas mais eruditas de São Paulo (Capital),
sobre a invasão de obras antimaçônicas em nossas livrarias e
discorrí sobre o significativo desdobram ento que daí podería
advir, ganhamos um a verdadeira ducha de água fria. A grande
maioria entendeu que tais críticas aos maçons, vindas desses
fundamentalistas neo-antimaçons são “algo que não chega a
nos atingir”, diziam alguns; trata-se de “uma verdadeira para­
nóia coletiva sem maiores conseqüências, nada mais do que isso
e, portanto , nada que possa nos contaminar”, declaravam ou­
tros, em pleno debate em loja; “estas acusações tolas não nos
atingem. O discurso não é para nós”, chegou a comentar um dos
líderes da loja. Restou-nos a sensação de que os maçons, pelo
menos os daquela loja, ainda não estavam captando o que sig­
nifica para um grupo social conviver com um a certa massa de
irracionalidade, com recursos e marketing bem organizado, a
vomitar afirmações insensatas, levianas e comprometedoras a
respeito da Ordem. Muito menos, chega-se a avaliar o que pode
significar incutir certas “verdades ditas absolutas” nas mentes
de despreparados seguidores.
Dessa avaliação, mesmo superficial, resulta um a sensação,
pelo menos em nossa opinião, de um a das vulnerabilidades dos
maçons no Brasil. Desconhecem ou subestimam o fenômeno,
238 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

que tanto mal tem feito aos nossos irmãos dos EUA e não se dão
conta que já estão surgindo sorrateiramente entre nós. Tais como
as avestruzes que enterram seu pescoço no buraco para não
enxergar o perigo iminente, assim são alguns maçons brasilei­
ros que estão fazendo pouco caso da nova onda dos antimaçons.
O estudo da história dos movimentos contra a m açonaria deve­
ria integrar o curriculum da formação do maçom, já no primeiro
grau.
A Ordem está vulnerável também, mercê do caráter frag­
mentário que tem*no Brasil. Diferentemente dos EUA, onde cada
estado da federação tem um a potência maçônica una, soberana
e bem definida em sua respectiva jurisdição15, com capacidade
articuladora e força local para enfrentar investidas dos opositores,
no Brasil, os maçons estão fragmentados em várias potências
com poderes idênticos num a mesm a região geográfica. Cada
Estado da União tem pelo menos três Obediências distintas no
mesmo espaço geográfico. No Estado de São Paulo, por exem­
plo, convivem - com boas relações de amizade, diga-se de pas­
sagem - a Grande Loja do Estado de São Paulo16, o Grande
Oriente de São Paulo (federado ao Grande Oriente do Brasil17) e
o Grande Oriente Paulista (independente).
Embora existam boas relações entre as diferentes potênci­
as, não é possível se identificar ações concertadas a favor da
Ordem entre elas. Em São Paulo, por exemplo, só se observam
encontros conjuntos das três potências para com em orações
públicas no Dia do Maçom, ou em um ou outro ato solene inter­
no. Não se conhecem ações conjuntas dirigidas ao interesse da
Ordem objetivando esclarecer suas posições ou, eventualmen­
te, contrapor posições. Cada um a atua isoladamente, coorde­
nando suas lojas subordinadas não interferindo nas demais.
Esta posição fragmentada, e sem qualquer articulação visível,
fragiliza a posição da Ordem tornando-a vulnerável, em nossa

15Embora em todos os estados americanos também existam lojas maçônicas subordinadas à Grande
Loja “Prince Hall”, potência que reúne os negros, atualmente a grande maioria das Grandes Lojas
americanas já os reconhece e admitem ações conjuntas e inter-visitação. Este é um dos mais auspiciosos
traços da maçonaria americana deste fim de século. Pela sua força institucional e representatividade
predominantes, as Grandes Lojas dos diversos estados dos EUA efetivamente respondem pela Ordem
em suas respectivas jurisdições.
16Obediência que têm mais de 430 lojas subordinadas e cerca de 16 mil maçons. É atualmente reco­
nhecida por todas as Grandes Lojas dos EUA.
170 G.O.B. é a única Obediência maçônica brasileira oficialmete reconhecida como regular pela Gran­
de Loja Unida da Inglaterra.
ANTIM AÇONARIA 239

opinião, se, eventualmente, necessitar responder às insólitas


acusações assacadas pelos neodetratores. Rigorosamente, ne­
nhuma das Obediências, isoladamente, poderia falar em nome
de toda a m açonaria em sua jurisdição. Ainda que o faça sua
legitimidade poderia ser publicamente questionada. Ao con­
trário, sente-se que parecem preferir o silêncio e a discrição,
estejam sob que situação estiverem.
Depois de vencidas as grandes batalhas pela Abolição da
Escravatura e pela Proclamação da República, não mais se ou­
viu, ostensiva e publicamente, falar da maçonaria no Brasil,
ainda que muitas de suas ações em favor do aperfeiçoamento
de nossa organização social e política tenham de fato ocorrido.
Lamentavelmente, as poucas vezes que a m açonaria tem ocupa­
do páginas de destaque na imprensa tem corrido por conta das
cisões, como por exemplo a de 1973. As ações e acontecimentos
ligados à Ordem têm sido todos caracterizados pela discrição. E
assim tem sido nossa posição mesmo quando atacados, como
agora, pelos neo-antimaçons. O poder da mídia nos dias atuais
está sendo negligenciado ou subestimado pelas Obediências.
Muito poucas possuem sequer um bom “website” organizado na
Internet para identificar-se como organismo social presente e
ativo no meio. Nenhuma campanha, das diversas normalmente
encetadas pela Ordem, em favor do desenvolvimento humano e
social, tem qualquer divulgação. Ao longo de todo o período em
que a nossa República esteve envolvida na batalha por uma
nova constituição, boa parte da m açonaria brasileira, capitane­
ada pelas Grandes Lojas, esteve envolvida na cam panha em
defesa de uma Assembléia Constituinte e pela adoção do parla­
mentarismo como forma de governo. Maçons se levantaram em
vários pontos do país em defesa desse modelo de governo. Semi­
nários, palestras com políticos e juristas aconteceram em todo o
Estado de São Paulo, sob instigação da Grande Loja. Esta ten­
tativa, porém, pouco foi ouvida fora dos templos e de reuniões
internas, não ganhou foro de campanha política abrangente,
como no passado se houvera com a Abolição da Escravatura e a
movimentação republicana. Os maçons estavam fechados em si
mesmos, pelo menos boa parte deles. O ideário parlamentarista
foi defendido publicamente por alguns, isoladamente, sem que
qualquer vínculo com a Ordem houvesse sido percebido.
Vulneráveis sim, estão todas as potências maçônicas como
240 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

alvo predileto dos neofundamentalistas: postura de discrição


deliberada, pulverização de Obediências e outras fraquezas in­
ternas, estão minando o potencial de esclarecimento e orienta­
ção sobre os reais objetivos e doutrinas da Fraternidade Maçô-
nica. Esta é a maneira mais fácil de se deixar espaços para os
antimaçons difundirem, à vontade, as suas aleivosias.
O celebrado poeta português Fernando Pessoa, num dos
seus raros comentários sobre a Ordem, analisou esse compor­
tamento dos maçons de um a forma muito singela e lúcida, em
nossa opinião:

“S a b e-se q u e a m a çon a ria tem p o r n orm a n ã o vir a p ú b lico , d e


n en h u m m odo, a n u n c ia r s e ou d efen d er-se, p o d e p o rta n to d ize r-
se a cerca d ela o m a io r n ú m e ro d e d isparates, q u e ela n ã o p ro te s ­
ta. N ã o so u m ação, n em p e rte n ç o a q u a lq u e r ou tra O rd em s e m e ­
lh a n te ou diferen te. Ten h o eu, p o ré m , certa p re p a ra çã o , cu ja n a tu ­
reza m e não p ro p o n h o in d ic a r.”18

*" Citação extraída do Caderno Especial da “Gazeta Mercantil”, sobre o poeta, de 8-9 de agosto de
1998.
ANTIM AÇONARIA 241

CAPÍTULO VIII

A Situação Brasileira: Nossos Traços Históricos e Culturais.


Desprezados e Desconhecidos pelos Antimaçons

Está nas origens históricas a formação religiosa católico


romana do homem brasileiro: são quinhentos anos de tradição
católica iniciada nas praias baianas assim que os descobrido­
res aqui chegaram. A acidental descoberta do Brasil pelos aven­
tureiros portugueses e o primeiro ato religioso, a celebração da
primeira Missa, são fatos históricos estreitamente vinculados à
nossa tradição.
A Igreja Católica era ligada ao Estado no reino de Portugal.
O catolicismo romano era a sua religião oficial em toda a exten­
são do reino. Falar de Estado e da Igreja era quase que falar da
m esm a coisa. O professor Robinson Cavalcanti, historiador,
ministro episcopal e cientista político pernambucano reconhe­
cido, dá-nos um a síntese apropriada e oportuna do nascedouro
católico de nossa nação:

“U m a d a s p rim e ira s p ro v id ê n cia s d o c o lo n iz a d o r p o rtu g u ê s , em


a q u i ch ega n d o, f o i fin c a r u m a cru z e ce le b ra r u m a m issa. A con ­
q u ista d e n ova s te rra s era, p a ra os reinos ibéricos, exp a n s ã o d a f é
e d o im p ério, a ‘cru z e a e s p a d a ’ na e x p res sã o con s a g ra d a p e lo s
h istoriad ores. O B ra s il a ssim n a sceu d e n tro d e u m p ro je to da cris-
tandade. R e lig iã o e p olítica , n este País, s e vin cu la m in tim a m en te
d e sd e su a gênese.

Robinson Cavalcanti, “Cristianismo & Política”- Nascente Editora, Campinas (SP), 1985, pág. 171.
242 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Na recém-descoberta Terra de Vera Cruz, a realidade não


podería ser diferente dos demais territórios então ocupados por
Portugal. O poder jesuíta, que secundou o dominio político de
nosso território pelos colonizadores, é fato histórico que não pode
ser desconhecido, sobretudo pelas raízes e tradições que aqui
plantou. Nada da experiência inicial de nossa nação se compa­
ra à formação original, de inspiração inglesa, das treze colonias
norte-americanas. Nossa origem católica, latina, o ideário e as
motivações de nossos primeiros colonizadores, nada têm de se­
m elh an te com os fu n d am en tos da socied a d e n a scid a em
Plymouth, a partir do desembarque de um grupo de protestan­
tes, Puritanos, no alvorecer do Séc. XVII.
Impossível se traçar paralelos, a não ser relembrar que de
um lado vicejou o poder da Igreja Católica Romana, intimamen­
te identificada com a coroa portuguesa, e como tal, tradicional­
mente aliada ao poder. E de outro, no caso norte-americano,
chegava um punhado de religiosos, inconformados com a situa­
ção de suas comunidades na Inglaterra, desejosos de criar um
Novo Mundo, alicerçados no sonho, que todos compartilhavam:
organizar um a nova nação, sobre bases cristãs “puritanas” . Ins­
pirados em Calvino, Knox e John Milton buscavam pouco a pouco
construir o Paraíso Perdido, livres das amarras da coroa inglesa
e seus vínculos com a religião oficial. Como sublinha o Prof.
Cavalcanti, citando Vianna Moog:

“...O d e se jo u tóp ico d e fu n d a r u m N o v o M u n d o, se m o s m a les


d o Velho. U m a sa ga cu jos p ro ta g o n is ta s se es p e lh a m no p o v o j u ­
d eu em fu g a d o E gito. O E g ito era a in to lera n te In g la te rra d o ‘F a ra ó ’
J a im e I. O A tlâ n tico com o o im en s o M a r V erm elho. ’r¿

Um dos pontos sobre os quais os antimaçons americanos,


que aqui têm aportado, ainda não se deram conta são de tais
distinções. Aventu reiros portugueses contribu íram para o
surgimento de um a cultura com nenhum, ou quase nenhum,
paralelo com a que desenvolveram os Puritanos nas Treze Colô­
nias a partir da Nova Inglaterra.

2 Robínson Cavalcanti, op.cit. pág. 145.


AN TIM AÇONARIA 243

Suas obras, originalmente escritas e editadas nos EUA e,


por isto mesmo, baseadas numa experiência local de seus auto­
res - onde se vive um a cultura própria, com religião, usos e
costumes próprios - não deveríam ser traduzidas ao pé da
letra, como fazem, tentando alcançar idênticos objetivos, numa
outra sociedade histórica e culturalmente tão distinta. Seus res­
ponsáveis parecem não ter tido o cuidado de conhecer melhor o
ambiente brasileiro. São vulneráveis à menor consideração so­
bre a cultura brasileira, dado o desconhecimento que aparen­
tam dela ter ou mesmo desprezar.
A obra de Horrell, pareceu-nos a melhor posicionada em
relação ao Brasil, talvez porque o autor vive no País e aqui se
relaciona há algum tempo. Ele demonstra haver reunido razoá­
vel bibliografia de autores brasileiros (David Gueiros Vieira, Pe.
V. Alberton, Jorge Buarque Lyra, José Castellani, Nicola Asían,
Eduardo C. Pereira, Ricardo M. Gonçalves, Manoel Gomes, Fran­
cisco de Assis, Rizardo da Camino, Joaquim Gervásio e outros)
embora teça um a brevísssima consideração sobre a contribui­
ção dos maçons aos mais importantes eventos de nossa histó­
ria, o que nos parece não fazer justiça ao alcance e padrão de
erudição que pretende aparentemente dar à sua mensagem de
críticas à maçonaria. Não nos parece, por outro lado, justo con­
denar a Ordem por alegadas incompatibilidades teológicas com
o cristianismo fundamentalista que esposa e negar maiores con­
siderações analíticas sobre o papel construtivista desempenha­
do pela fraternidade ao longo de mais de duzentos anos de his­
tória brasileira, em favor de nossa independência, das liberda­
des individuais, da justiça e, particularmente, da separação entre
o Estado e Igreja. Além disso, comete incorreções como, por
exemplo, citar Tiradentes e Aleijadinho como maçons e referir-
se a D. Pedro I como o “...proclamado Grão-Mestre da Loja Gran­
de Oriente do BrasiT3 evidenciando conhecimento apenas su­
perficial de nossa história e imprecisão conceituai na distinção
entre loja e obediência.
O Brasil tem traços culturais próprios e obviamente distin­
tos dos EUA, insistimos. Os neo-antimaçons estão dando pro­
vas evidentes de desconhecimento do Brasil, sobretudo acerca

3 J. S. Horrel, op.cit. pág. 37.


244 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

de suas heranças culturais. Não conhecem nossa história e muito


menos nossa bagagem cultural. Pior, demonstram certo despre­
zo a respeito de nossas tradições e traços culturais. Não conhe­
cem nossa história maçônica, pouco ou nada aparentam conhe­
cer dos usos e costumes da praxis m açônica em nosso país.
Todos aparentam conhecer algo da maçonaria am ericana que,
apesar da identidade filosófica e conceituai com a brasileira,
tem usos e costumes que lhes são próprios além de ritos predo­
minantes distintos.
Um dos traços distintivos do país, quando se compara com
a experiência norte-americana, está ligado à própria história da
Ordem. A m açonaria brasileira guarda, desde sua origem ,
vinculações mais estreitas com a França e Portugal do que com
os países anglo-saxões. A primeira Obediência estabelecida no
Brasil, o Grande Oriente do Brasil (G.O.B.), foi resultado de con­
tribuições diretas e indiretas do Grande Oriente de França. Os
primeiros rituais maçônicos, manuseados em lojas brasileiras,
eram oriundos dos franceses e dos portugueses4. A elite brasi­
leira do império foi quase que totalmente formada sob a influên­
cia das culturas portuguesa e francesa.
O Rito Francês ou Moderno, agnóstico, predominava nas
lojas do Grande Oriente do Brasil nos primeiros anos de sua
existência. Os ritos comumente praticados no Brasil no final do
Séc. XIX eram todos de origem francesa, ainda que traduzidos
em Portugal: o Rito Moderno, o Rito Adoniramita e o Rito Esco­
cês Antigo e Aceito. Com a chegada ao Brasil, em 1832, do Rito
Escocês Antigo e Aceito (REAA), inaugurava-se a era da m aço­
naria dos altos graus no país e atribuia-se especial atenção aos
textos bíblicos. E neste caso, muitas lojas simbólicas passaram
a adotar o Rito Escocês Antigo e Aceito. Atualmente, no Brasil,
o REAA é o mais difundido dos ritos praticados. As grandes
lojas, o G.O.B. e a COMAB5 relatam que a prática do REAA em
suas lojas simbólicas é majoritária.
A experiência, a história e a praxis maçõnicas nos EUA são
muito distintas. As primeiras lojas, nascidas nas treze colônias,

4 Joaquim da Silva Pires, “Rituais Macônicos Brasileiros”. Ed. Maçônica “A Trolha Ltda.”, Londrina,
PR, 1996, págs. 25-33.
5 Confederação Maçônica do Brasil, organização que reúne os Grandes Orientes Independentes dos
Estados da Federação.
ANTIM AÇONARIA 245

receberam suas cartas constitutivas de um a das duas Grandes


Lojas da Inglaterra: a dos “m odernos” de Londres ou a dos
“antigos” de York. Todas se formaram sob a influência inglesa
onde se praticava rito próprio, posteriorm ente denom inado
“emulation”, e que hoje os americanos chamam, após várias adap­
tações - impropriamente, diga-se de passagem - “York”. Os
graus superiores também são praticados e muito difundidos.
Mas, dada a influência do Rito de York, como também a origem
americana do primeiro Supremo Conselho do Grau 33 do REAA
do mundo, os maçons americanos dispõem de duas vertentes
ritualísticas, com igual força e presença, que os obreiros podem
seguir após o mestrado do simbolismo. Muitos maçons ameri­
canos se jactam de portar graus superiores das duas linhas
ritualísticas. No simbolismo porém, todos, ou virtualmente to­
dos, passam por um único padrão ritualístico: o Rito de York
(diriamos melhor, York- ao estilo americano)6. A maçonaria ame­
ricana guarda traços (ritos e práticas) que melhor se identificam
com os britânicos e, em parte, com os alemães. Muito pouco
tem a ver com as práticas da maçonaria dita latina, apesar de
que - insistimos - seus fundamentos básicos em termos de filo­
sofia, simbolismo, princípios e formas de reconhecimento sejam
universais.
Diferentemente do caso brasileiro, os maçons americanos
criaram e mantêm, há várias décadas, um número de organiza­
ções paramaçônicas muito ativas, absorvendo jovens de ambos
os sexos, senhoras, e outras reunindo exclusivamente maçons,
destacando-se a bastante divulgada - dos portadores do Grau
33 do REAA - os “Shriners”, que sustentam um a rede nacional
de hospitais para crianças com problemas de fala e para quei­
mados, entre outras ações beneficentes. Nada semelhante se
encontra no Brasil. Apenas há pouco menos de dez anos se cons­
tituiu entre nós a “Ordem dos DeMolay” para jovens, com unida­
des (chapters) espalhadas por diversas cidades brasileiras reu­
nindo rapazes, filhos ou não dos maçons e recentemente come­
çaram a surgir a Ordem das “Filhas de Jó” para moças em
poucas capitais. Mas nisto se resume a mais próxima caracte­
rística brasileira da prática paramaçônica americana.

6 Na linguagem dos americanos, normalmente são chamadas de “blue lodges” (lojas azuis) ou “cra jT,
as lojas simbólicas, em sua maioria esmagadora operando no Rito de York.
246 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Mesmo a atividade filantrópica, um caráter distintivo da


maçonaria, não guarda semelhança na sua prática, quando se
comparam os dois países. Sem que falemos de poder aquisitivo
e do porte da maçonaria americana em termos numéricos, há
distinções nítidas na prática m açônica dos dois países. Os
maçons norte-americanos costumam ter suas ações filantrópi­
cas um tanto mais difundidas na comunidade secular. Os ame­
ricanos, de um a forma geral, conhecem os hospitais e as casas
de recolhimento de viúvas e órfãos mantidas por entidades para-
maçõnicas como os “Shñners” e por organizações como o pró­
prio Supremo Conselho do REAA e as Grandes Lojas. Os edifici­
os-sede dessas organizações são muito bem identificados em
suas comunidades, exibindo símbolos facilmente reconhecíveis.
Paradas e espetáculos públicos com maçons paramentados e,
particularmente, os “Shñners”, são conhecidos das respectivas
comunidades dos EUA. Ainda que atuando de forma mais vela­
da do que o foram no período colonial, e m esm o antes da
deflagração do Caso Morgan, os maçons norte-americanos ain­
da costumam tornar conhecidos das comunidades os seus fei­
tos e realizações. Suas atividades filantrópicas são mais trans­
parentes para o público em geral.
No Brasil, as obras maçônicas de filantropia são de peque­
no porte e difusas, porém, discretas e comparativamente mais
modestas, quer realizadas por lojas isoladas, por Obediências,
quer isoladamente por alguns dedicados irmãos. Por isso que
quase se tornam desconhecidas do público não-maçônico. Na
maioria dos casos é quase impossível se identificar, publica­
mente, a realização filantrópica da maçonaria brasileira, com
raras exceções. Os maçons brasileiros preferem a discrição, não
são muito afeitos ao marketing de suas realizações. As lojas, em
suas instruções promovem e disseminam abertamente a doutri­
na da discrição.
Seria estranhíssimo depararmos com um desfile de maçons
brasileiros paramentados em avenidas de nossas cidades nos
dias atuais. Podería ser até alvo de chacotas nos veículos notici­
osos, nada mais do que isso. Já nos EUA, seria visto como mais
um evento corriqueiro por muitas comunidades. Ainda que os
templos sejam bem conhecidos, principalmente no interior do
país, as obras de beneficência não são, em geral, ostensivamen­
te apresentadas ao povo. Abrigos, hospitais, escolas e creches
ANTIM AÇONARIA 247

efetivamente mantidas por maçons, por lojas e Obediências no


Brasil, não são tão abertamente identificadas pelo público em
geral, a não ser pela comunidade mais próxima. A m aior trans­
parência com que agem os maçons americanos pode ter criado
um a imagem favorável na mente da população em geral, cir­
cunstância contra a qual lutam os neodetratores da Ordem.7
No que diz respeito aos seus aspectos filosóficos e simbóli­
cos, vale mencionar a ênfase dos antimaçons americanos em
criticar a obra do ritualista americano, Albert Pike. É o tema
predileto. Não há obra antimaçõnica que deixe de fazer referên­
cia a Pike. Sua obra, “Morais and Dogma” tem sido estigmatiza­
da e impiedosamente atacada pelos neodetratores da Ordem.
No Brasil a obra de Albert Pike está muito distante da cultura
m açõnica corrente. Pike é muito pouco divulgado em nossa lín­
gua. Pouquíssimos maçons brasileiros conseguiríam lê-la no ori­
ginal. Citá-la, para os brasileiros, tem muito pouco efeito. Ainda
que possam enganar alguns incautos e despreparados, pelas
distorções que dela fazem os neo-antimaçons, trata-se de autor
quase desconhecido da ampla maioria dos maçons brasileiros.
Se perguntarmos ao maçom brasileiro: quem foi Albert Pike?,
seremos muito provavelmente surpreendidos com um generali­
zado “não sei”. A contribuição de Pike para a cultura maçõnica
é desconhecida da imensa maioria dos maçons brasileiros. Pike,
respeitado estudioso do REAA, autor da obra “Morais and Dogma”
é um dos mais importantes autores de língua inglesa, tomado
pelos antimaçons como autoridade m açõnica suprema, porta-
voz da verdade absoluta em matéria de ritualística, filosofia e
simbolismo. Tudo o que ele diz é tomado como referência, em
matéria de posição filosófica oficial da Ordem. Sua palavra é a
verdade m açõnica para todos os fins, segundo os antimaçons.

infelizm ente, a pesquisa sociológica, sobre a contribuição ao desenvolvimento sociocultural, das


organizações maçônicas e paramaçônicas nos EUA atualmente é virtualmente inexistente. A literatu­
ra atual não descreve objetivamente o grau de reconhecimento que a população americana faz do
papel da Ordem. Ainda assim, é bom que se diga - conforme insiste em seus trabalhos recentes G.
Leazer - “statistics for Shriners Hospitais for Children are Impressive” (os números relativos aos hos­
pitais para crianças são impressionantes) - os maçons operam maciçamente em suas obras de carida­
de. Em 1997 o orçamento geral daqueles hospitais, espalhados pelo território nacional, alcançou o
valor de US$ 425 milhões. Em 1996, 162.126 pacientes foram atendidos. Esses hospitais, num total
de 25 instalações em todo o país, em toda a sua história - na sua atenção a menores carentes -
promoveu mais de 11.352.189 atendimentos sem cobrar um só centavo. Todas as despesas têm sido
cobertas pelas contribuições dos maçons (cf. G aiy Leazer, CIS - Masonic Report, vol. 3, na 4, nov. 77).
Nada no planeta, em matéria de filantropia maçõnica, se assemelha a esse trabalho dos maçons
americanos, pelo seu alcance e volume de recursos financeiros e humanos que tem envolvido.
248 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Entre nós é mais provável que os estudiosos e investigado­


res da maçonaria conheçam, e estejam mais familiarizados com
Ragon, Oswald Wirth, Jules Boucher, Aldo Lavagnini (Magister),
Nicola Asían, José Castellani, Xico Trolha e Theobaldo Varoli
Filho, autores muito pouco examinados pelos opositores e críti­
cos norte-americanos da Ordem. Este é um aspecto muito co­
mum aos antimaçons americanos: pouco lêem em outras lín­
guas que não a inglesa. Seria demais esperar que tenham lido,
ou sequer conheçam , Oswald W irth, Ragon, R. Guenon, J.
Lemaire, Magister, Léon Zeldis, J. Mourgues, P. Naudon, Pe.
J.A. Ferrer Benimelli, L. Néfontaine, J. Boucher e outros euro­
peus (principalmente latinos), fartamente mencionados entre nós,
maçons de língua latina, principais responsáveis por plasmar
nossa cultura ritualística e filosófica. As verdades que aprego­
am são fruidas de um a só vertente, a de uns pouquíssimos au­
tores da língua inglesa.
Ao lado do caráter latino da m açonaria brasileira, visto
notadamente pela predominância do REAA e da filosofia, usos
e costumes de influência francesa, deve-se levar em considera­
ção ainda o já mencionado traço fragmentário do conjunto de
nossas Obediências maçônicas. Conforme apontamos no capí­
tulo anterior, a maçonaria brasileira vista sob a ótica institucional
e formal, mais do que a americana e a inglesa, é hoje desorgani­
zada, cindida, fragmentada e desestruturada, a despeito de que
em sua base se mantenham relações de amizade e livre inter-
visitação entre os obreiros de diferentes potências. Na sua es­
trutura organizacional e política a m açonaria brasileira difere
bastante das Obediências anglo-saxõnicas. Cada estado da nossa
federação tem pelo menos duas potências que reivindicam so­
berania sobre o mesmo território. Estados há que chegam a
contar com três potências maçônicas, todas ditas regulares,
comandando as lojas sediadas em um a mesma área geográfica
da federação. Assim, cremos, é muito difícil, à maçonaria brasi­
leira, responder de maneira coesa aos ataques dos neodetratores
que entre nós agora se ensaiam. As Grandes Lojas de cada esta­
do americano, ao contrário, são soberanas e unas - ainda que
existam em seus territórios as lojas subordinadas à “Prince Hall” ,
outra potência m açônica nacional congregando os maçons de
cor negra - podendo, oficial e legítimamente se posicionar, em
nome da Ordem nos seus territórios.
ANTIM AÇONARIA 249

Outro lado distintivo da cultura brasileira, nem sempre con­


s id e r a d o p e lo s qu e a q u i c h e g a m com se u s d is c u rs o s
antimaçônicos, envolve a religião predominante no país. Se ti­
vermos de identificar o católico brasileiro caracterísitco vamos
encontrar: nominalmente católico declarado, por vezes velada e
sincréticamente associado com o espiritismo em suas diversas
vertentes e manifestações e freqüentador da igreja apenas em
dias especiais. A Revista Época, reproduzindo dados pesquisados
pelo IBGE, em 1997, estimou que dos 121,8 milhões de católi­
cos brasileiros, apenas 20% poderíam ser considerados católi­
cos praticantes.8
Uma tradição religiosa não tão familiarizada com a Bíblia e,
por isso mesmo, não muito sensível aos apelos ao texto que
desconhecem, não tem sido devidamente levada em conta pelos
neofundam entalistas americanos. Tem os encontrado alguns
maçons atônitos sem entender as acusações de antimaçons, ba­
seadas apenas e tão-omente em textos bíblicos isolados. Outros
há que têm questionado sobre como pode um texto isolado,
comumente citado fora do seu contexto, adquirir tanta força e
vigor na argumentação dos detratores da Ordem, se um a sim ­
ples tradução do original grego - ou hebraico - podería ter inse­
rido alguma distorção ou imprecisão semântica? As traduções,
afinal, são obras humanas e, portanto, falíveis, argumentam
alguns que desconhecem a Palavra de Deus em sua profundida­
de. Esta é uma evidente fragilidade do fundamentalismo, pois
que normalmente se vale de interpretações literais das Escritu­
ras e estão dirigindo seu discurso para aqueles que virtualm en­
te nunca ouviram falar sequer da Bíblia. Muita argumentação
teológica, tão ao feitio dos neofundamentalistas, em geral, não
está ao alcance do brasileiro comum. Nem todos são versados
no texto bíblico e nas metodologias de sua interpretação. Além
disso, a grande maioria dos brasileiros não tem pela Bíblia o
mesmo respeito, acato e reverência que a grande maioria dos
norte-americanos. A religião aqui predominante não atribui ao
ensino bíblico a mesma prioridade com que o fazem os protes­
tantes. Sou pessoalmente inclinado a antecipar até, que o dis­
curso antimaçônico e neo-antimaçônico, baseado no texto sa­
grado, pode estar criando anticorpos nos maçons brasileiros que,

Época, Ano I, ns 7, 6 de julho de 1998, pág. 26.


250 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ao contrário de tudo isso, poderíam ser mais facilmente estimu­


lados ao estudo da Palavra de Deus, não fossem os apelos e
discursos radicais dos fundamentalistas que por aqui estão pre­
gando suas mensagens literais. Tem o inclusive que o discurso
antimaçônico, como brandido por alguns autores evangélicos,
venha logo funcionar às avessas, como o tiro saindo pela cula­
tra, afastando aqueles que de outra forma poderíam se interes­
sar pelo estudo da Palavra e serem encaminhados ao Salvador.
Até mesmo alguns cristãos fundamentalistas, mais comedidos
em suas ações, têm se dado a análises desses perigos que m en­
sagens apocalípticas radicais, sob o aparente ou distorcido res­
paldo bíblico, podem trazer entre nós. É o caso, por exemplo do
Pastor Paulo Romeiro, diretor do Instituto Cristão de Pesquisas
e autor de obras diversas. Crítico que tem sido dos excessos e
desvios doutrinários de alguns grupos evangélicos, tem alertado
seus leitores para os excessos dos pregoeiros dos sinais do
Apocalipse. Sua crítica se concentra nos pregadores que, copi­
ando as práticas de Hal Lindsey, vêem nos acontecimentos coti­
dianos sinais claros do fim dos tempos e marcam datas para a
batalha final de Armaggedon.

“E x is te m a q u ele s q u e h o je ex p lo ra m q u a lq u e r in fo rm a çã o d a
m íd ia p a r a c a u s a r su s p e n s e na Ig r e ja ”. B a s ta u m con flito em a l­
g u m lu g a r d o m und o, u m a greve, u m a g u e rra n a s M á lm n a s ou
u m a in ve stid a d e S a d a m H u s s e in no K w a ite e a lg u n s corre m a n u n ­
cia n d o o f im d o m u n d o ou m a rca n d o a d a ta d a volta d e J e s u s ”,
adverte.
“E x is te a in d a um p re ju íz o p a ra o te stem u n h o cristão, p o is to r­
n a -se m ais d ifícil e v a n g e liza r qu a n d o a cred ib ilid a d e d a P a la v ra
d e D e u s é q u es tion a d a p e lo s in créd u los d e vid o à s p re v is õ e s a n u n ­
cia d a s p e lo s cristã os q u e n ã o se cu m p re m ”.9
Conclui, Romeiro, como que prevenindo os cristãos sobre a
possível perda de credibilidade da mensagem bíblica entre os
brasileiros, resultante da disseminação ostensiva de pregações
disparatadas sobre o fim dos tempos - tal como gostam de fazer
os neo-antimaçons.

A difusão sistemática do ódio aos maçons e à maçonaria


poderá, por todos esses motivos, estar semeando um a reação
passiva e não abertamente declarada entre alguns, contra tudo

9 Paulo Romeiro, “Rvnnnp.lirnR m C r is e - D e c a d ê n c ia D o u tr in á r ia n a Ia r e ia B r a s ile ir a ”. Ed. Mundo


Cristão, São Paulo, 1995, págs. 189, 190.
ANTIM AÇONARIA 251

o que vier de tais facções dos evangélicos, baseado nas Escritu­


ras ou nas interpretações que delas tais facções fizerem. A im a­
gem dos evangélicos começa, inclusive, a ser corroída em algu­
mas camadas das comunidades por fatos diversos que com e­
çam a acontecer envolvendo líderes de projeção, quer na políti­
ca, quer nos negocios, quer ñas páginas policiais. Ainda que se
re c o n h e ç a m v a lo r e s e n tre m u ito s g ru p o s , h is tó r ic o s e
pentecostais, nem sempre a mídia e parte do povo consegue
entender e discernir onde está o joio e aonde anda o trigo. A
campanha movida contra maçons poderia trazer novos contor­
nos, penso eu, no imaginário das pessoas sobre o que afinal
pretendem agora os evangélicos em tudo isso. E a mensagem do
Evangelho de Cristo, para aonde vai? Que prioridade tem para
eles?
Assim, diferentemente do ambiente norte-americano, com a
grande maioria do povo já familiarizada com a Biblia e com a
crítica histórica e textual, um discurso antimaçônico com base
ñas Escrituras, tem no Brasil outro tipo de impacto. A simples
citação de uma passagem bíblica é facilmente identificada pela
grande maioria do povo, no caso dos EUA, que além disso con­
sidera a Biblia o texto autorizado em matéria de religião, a ver­
dadeira Palavra de Deus. Diferentem ente, o brasileiro típico
normalmente não conhece a Biblia. Déla tem distante relacio­
namento ou familiarização e não guarda o mesmo respeito e
acato que o norte-americano típico. Esse quadro tende a m u­
dar, mas certamente ainda levará muito tempo para a média de
nosso povo conhecer melhor e respeitar as Escrituras. Os evangé­
licos antimaçons estariam prestando excepcional serviço à cul­
tura brasileira se, ao contrário das diatribes, buscassem incen­
tivar nos maçons à leitura da Biblia Sagrada. É provável que
viessem a ganhar novos adeptos entre os maçons, até porque
muito do que se passa nos rituais das lojas, símbolos e alegori­
as, tem relação estreita com personagens e passagens bíblicos,
em especial do Velho Testamento.

A ssim , n ão d e ix a de ser um dos p o n to s fra c o s dos


antimaçons norte-americanos a tentativa de aliciar adeptos de
suas mensagens no Brasil desconhecendo (ou subestimando)
nossos traços culturais. Brasil e EUA, a despeito de algumas
semelhanças mais recentes, guardam traços culturais e heran­
252 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ças históricas muito distintas, principalmente em matéria de


religião.

8.1 O Crescimento dos Evangélicos no Brasil

O Brasil desta última década do Séc. XX tem mostrado


mudanças significativas no quadro das preferências religiosas
do seu povo. A Igreja Católica Romana perdeu parte da sua
força como religião da grande maioria. Há tempos deixou de ser
religião oficial e, modernamente, dá sinais de debilidade como
líder da comunidade cristã no Brasil. A grande maioria de bra­
sileiros - ditos católicos - são nominalmente católicos. Fazem da
religião apenas um ponto de passagem em três grandes ocasi­
ões da vida: no nascimento, no casamento e na morte. Não po­
demos identificá-los como católicos praticantes.
Parte das camadas m inoritárias de nossa população até
então, os protestantes despontam agora, com as novas forças
pentecostais e neopentecostais chegando a surpreender a todos
os analistas. As seitas pentecostais são as que mais crescem no
país, ganhando expressão demográfica nas camadas mais po­
bres da população e pontilhando a periferia de todas as grandes
cidades brasileiras com os seus grandes templos. Novas igrejas
surgem a cada ano, erguendo seus templos e promovendo ativo
trabalho proselitista. Historicamente, a presença das novas for­
ças religiosas protestantes entre nós, guarda correlação positi­
va com o avanço da cultura anglo-saxõnica e norte-americana
no país, substituindo de certa forma a predecessora cultura la­
tina predominante, para não dizer hegemônica, até metade do
Séc. XIX.
O protestantismo que aqui se estabeleceu, a partir da se­
gunda metade do Séc. XIX, é de origem anglo-saxônica nos seus
primordios e de predominância norte-americana nos seus des­
dobramentos mais recentes. Se alguém se der ao trabalho de
investigar por dentro as práticas religiosas e a infra-estrutura
eclesiástica dos evangélicos a sustentar todo o seu aparato,
logo se dará conta do caráter norte-americano predominante
que permeia o todo, ou quase o seu todo. Os livros, os hinários
e boa parte dos cânticos atuais, as práticas dos cultos, as esco­
las e universidades, os seminários e a estrutura organizacional
ANTIM AÇONARIA 253

das igrejas, lembram as formas com que se pratica a religião


evangélica nos EUA. Diversos pastores, pregadores, evangelistas,
personalidades formadoras de opinião e líderes evangélicos bra­
sileiros são graduados ou pós-graduados em universidades e
seminários protestantes norte-americanos. A grande maioria dos
livros evangélicos hoje publicados no Brasil são traduções de
autores norte-americanos. Editoras, sociedades bíblicas e enti­
dades culturais evangélicas estão estabelecidas no país, gozan­
do de amplo apoio e subsídios de suas congêneres americanas e
inglesas. A chamada música Gospel10 que se ouve nas rádios e
TV, em especial nos programas evangélicos, mas também em
exibições “profanas”, é de origem norte-americana. Os formatos
e as práticas dos cultos das Igrejas evangélicas de São Paulo
não são muito diferentes dos que se podem observar nas Igrejas
protestantes da Virginia, Oklahoma, Florida, California ou Texas.
De outro lado, desde que a abertura política se processou
no Brasil, após 1985 - e principalmente com a promulgação da
Constituição de 1988, assiste-se à presença crescente dos evan­
gélicos no cenário político. Evangélicos, de variados matizes
doutrinários e denominacionais, integram a bancada do Con­
gresso Nacional nas últimas três legislaturas. Pastores, prega­
dores e esposas de pastores estão atualmente conciliando seus
deveres eclesiásticos com a vida parlamentar, em Brasília e nas
capitais. A bancada evangélica durante a constituinte era com ­
posta por 33 parlamentares. Todos marcaram sua presença de­
fendendo a inserção de valores e princípios religiosos na Consti­
tuição. Na eleição de 1998 a bancada evangélica cresceu para
35 integrantes, só na Câmara de Deputados, segundo apurou a
revista “Veja” , de 14 de outubro de 1998. Foram sempre m enci­
onados na mídia, por suas posições nas campanhas sobre o
aborto, sobre a pornografia e as cenas de sexo nos meios de
comunicação, sobre o ensino religioso nas escolas públicas e
sobre direitos de minorias homossexuais.
Assim, a fração da população brasileira hoje submetida à
influência direta das doutrinas e práticas das novas seitas e
religiões protestantes, evangélicas e pentecostais não é despre­
zível como alguns anos atrás. Uma obra antimaçônica, de ori­
gem protestante, encontrará atualmente maior contingente de

10 Evangelho (Ingl.).
254 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

leitores crédulos e potencialmente prontos a aceitá-la e a divulgá-


la como verdade absoluta, quando comparado com o potencial
que se observava na primeira metade do Séc. XX.
Dessa nova cultura religiosa heterogêna, agora florescente
no país, e por isso mesmo oferecendo um caldo de cultura ao
n e o fu n d a m e n ta lis m o , d e s e n v o lv e -s e o p o te n c ia l n eo-
antimaçônico. Fato absolutamente singular em nossa história.
Mesmo quando se considera o conjunto das denominações
protestantes tradicionais, numa perspectiva histórica, há que
se observar que sua presença no Brasil é fenômeno muito re­
cente. Começou a acontecer após a independência. Até então a
religião católica era hegemônica no Brasil. Era a religião oficial
da coroa. Dela, e principalmente dela, partiam as oposições à
Ordem. Jamais os protestantes levantaram posições contrárias
aos maçons. Ao contrário, a história mostra que maçons e pro­
testantes se uniram em defesa das liberdades de culto e da se­
paração entre Igreja e Estado. Foram aliados na campanha em
favor do fim da escravatura no Brasil e do movimento republica­
no do fim do Séc. XIX.
O cenário está sendo aos poucos modificado. Aparentem en­
te, já neste fim de Séc. XX, a Igreja Católica deixou de mostrar
ostensivamente seu arsenal acusatorio, estaria se recolhendo a
uma posição de indiferença ou de passiva vigilância. O bastão
antimaçônico foi passado aos protestantes, cuja presença na
mídia e na sociedade brasileira como um todo aumenta a olhos
vistos, chegando atualmente a predominar sobre os católicos.
Segundo levantamentos recentes (1994), entre os eleitores
brasileiros, os católicos (assim declarados) reúnem 75% da
população adulta com direito a voto.11 Os demais 25% se divi­
dem entre os espíritas, os protestantes e não religiosos. Estima-
se que os protestantes de um a forma geral formam cerca de
13% da população12. Esse percentual representa considerável
avanço em relação ao início deste século. Segundo Thomas C.
Bruneau, em 1938 os protestantes representavam apenas 0,58%

11A F.Pierucci e R.Prandi, UA Realidade Social das Religiões no BrasiF. Ed. Hucitec, São Paulo, 1996,
pág. 215.
12 Segundo dados revelados em 1994 pelo Datafolha, de uma amostra de 20.968 de brasileiros,
74,9% eram católicos, 13,3 % protestantes (9,9% pentecostais), 3,5% espíritas kardecistas, 1,3%
afro-brasileiros (umbanda, candomblé,...), 2% outras religiões e 4,9% sem religião [cf. A. F. Pierrucci
e R. Prandi, op. cit. pág. 216.]
ANTIM AÇONARIA 255

da população, essa fração pulou para 3,26% em 1949 e 6,06%


em 196113. Os números atuais prosseguem exibindo respeitá­
vel taxa de crescimento, com os pentecostais liderando m aciça­
mente a fração protestante da população. A Editora Mundo Cris­
tão ao apresentar o livro de Paulo Romeiro, “Evangélicos em
Crise”, editado em 1995, em sua contracapa, é categórica:

“A p o p u la ç ã o e v a n g é lic a d o B ra s il vem cre s ce n d o v e rtig in o ­


sa m ente. J á so m os a terceira m a io r p o p u la çã o eva n g élica do m u n ­
d o ...”

É natural e altamente provável que o crescimento do pro­


testantismo no Brasil tenda a engendrar entre nós os fenôm e­
nos neofundamentalistas, paralelos aos observados nos EUA,
ainda que ao jeito brasileiro.
A presença protestante na política com m aior visibilidade
na mídia, por exemplo, já observada no Brasil desde o fim dos
anos 80, segue traços similares aos observados nos EUA. Uma
facção, de natureza direitista predominante, já se pode perce­
ber na camada evangélica que tem emergido na política nacio­
nal nos últimos dez anos. Os professores Antonio F. Pierucci e
Reginaldo Prandi talvez tenham sido os primeiros sociólogos
brasileiros a analisar esse novo quadro, assim sintetizado:

“ N o e n ca lço d e s te c o n s e rv a n tis m o ‘d e s d e a b a jo ’ é q u e d irijo


m inha a ten çã o p a ra a m ais recen te m a n ifesta çã o d e ativism o p o lí­
tico-relig ios o d e ca rá te r c o n s e rv a d o r a e m e rg ir en tre nós: os p r o ­
testa n tes d e p e n d o r fu n d a m e n ta lis ta , cu ja exp a n s ã o no B ra s il se
vem p ro c e s s a n d o há m u ita s décadas, em ritm o s a b id a m en te ve­
loz, c o m base e m u m m od elo d e p ro s e litis m o m uito b em -su ced id o
en tre a s ca m a d a s m a is p o b re s d a p o p u la çã o brasileira , p o r tod o o
te rritório nacional. S u a recen te d isp osiçã o p a ra o a tiv ism o na e s fe­
ra p ú b lic a p o lític a revelou -se, no p a lc o d o C on gresso C onstituinte,
u m ev en to n ã o a p e n a s novo, m a s im porta nte, cujo im p a cto na d i­
n â m ica da s o cie d a d e b ra s ile ira d e m od o gera l, p a rtic u la rm e n te
na vida p o lític a d o P a ís (p a ra não fa la r na d in â m ica in te rn a do
ca m p o relig io so ) p re c is a s e r a com p a n h a d o, p e rq u irid o , avalia do,
se é q u e a s fo rm a s s o cia is d a in to lerâ n cia tê m a v e r com a con s o­
lid a çã o d a d em ocra cia em u m a so cie d a d e com o a n ossa ”.14

13 Robinson Cavalcanti, “Cristianismo & P o l í t i c a Ed. Nascente. São Paulo, 1985, pág. 192.
14 A. F. Pierucci e R. Prandi, “A Realidade Social das Religiões nn RmsãT. Ed. Hucitec, São Paulo,
1996, pág. 165.
256 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

O cenário demográfico atual, com a presença do fator evan­


gélico, novo entre nós, começa pois a mostrar parte saliente em
nosso cotidiano, quer na política, quer nos canais de com unica­
ções, quer nas artes, quer nos esportes e - obviamente - na reli­
gião. Se alguma similaridade pode se perceber agora com a ex­
periência dos EUA, esta corre por conta tão-somente da origem
norte-americana da maioria das denominações e seitas protes­
tantes que aqui se instalaram. O que se percebe de distintivo,
entre nós brasileiros, é que ainda que prossigam minoritárias,
certas facções protestantes pentecostais e neopentecostais, pas­
saram a circular com mais evidência e desenvoltura na mídia e
na política. Já se fala na criação de um partido político saído da
esfera da Igreja Universal do Reino de Deus, um a neopentecostal
de pouco mais de quinze anos de existência entre nós, estiman­
do-se ter mais de cinco milhões de fiéis, dirigida pelo Bispo Edir
M acedo15, e cuja taxa de crescimento excede todas as demais
denominações protestantes ativas no país.
O discurso antimaçônico protestante no Brasil, como não
podería ser diferente, é de origem norte-americana. O antimaçom
Horrel, vivendo no Brasil, baseou-se principalmente na litera­
tura e na experiência dos EUA para elaborar seu discurso
acusatorio e aqui divulgá-lo. As demais obras antimaçônicas,
difundidas no Brasil, são traduções de livros concebidos, escri­
tos e editados nos EUA. Contando com presença no Brasil de
seus representantes e filiais, editoras e distribuidoras de litera­
tura, e outros materiais promocionais, originalmente norte-ame­
r ic a n o s , já d is s e m in a m h á a lg u m te m p o m e n s a g e n s
antimaçônicas entre nós.
Para perplexidade de alguns maçons brasileiros, habitua­
dos a ouvir falar de campanhas e críticas contundentes à Or­
dem vindas dos católicos do Brasil, como aconteceu na cham a­
da Questão Religiosa de 1872, não deixa de ser inusitado e in­
sólito que agora os protestantes, liderados por estrangeiros, al­
cem suas vozes contra a maçonaria em nosso território, no lim i­
ar de um novo milênio. A história brasileira recente demonstra
que, ao contrário, maçons e evangélicos, inclusive estrangeiros,
estiveram lado a lado nas lutas políticas por um ideal comum:

15Cf. Revista “Época”, ano 1 nc 7, 6 de julho de 1998, pág. 22.


ANTIM AÇONARIA 257

a liberdade de culto e a separação entre Igreja e Estado. Eram


a lia d o s , no a lv o r e c e r de n o s s a r e p ú b lic a , c o n tr a o
conservadorismo, em favor do “progresso”, do direito e das li­
berdades.

8.2 Séc. XIX: O Protestantismo, a Maçonaria e o


Ultramontanismo no Brasil

Protestantes, maçons e o clero formavam as forças políticas


que mais se destacaram na segunda metade do Séc. X IX 16. Par­
ticiparam do processo de construção da nova nação, já inde­
pendente de Portugal, que desenhava pouco a pouco um a nova
estrutura político-social-econômica e tentava romper com ar­
caísmos. Cada qual contava com alguma estrutura por trás,
oferecento apoio para as atividades. A Igreja Católica, as Obedi­
ências Maçônicas e as Missões Protestantes, sediadas princi­
palmente nos EUA, Alem anha e Inglaterra, formavam o pano de
fundo de todo o cenário dos embates políticos que estaremos
apreciando.
No Primeiro Império não se falava de protestantes no Bra­
sil. Eram outros os grupos representativos das correntes de pen­
samento que ora participavam ativamente na política, ora ali­
mentavam os políticos com suas teses e interesses. Protestan­
tes e maçons passaram a formar alianças com os políticos libe­
rais somente no Segundo Império, após 1860 aproximadamen­
te, quando por aqui chegam as primeiras missões presbiterianas,
congregacionais e episcopais.
Os ultramontanos, parcela do clero fiel ao papa, vieram a
exibir toda a sua força e influência política aproximadamente
na mesma época em que os missionários protestantes chegam
ao país, conforme relatamos adiante. Tinham propósitos bem
claros: desejavam romper com o regalismo, os fortes vínculos
que mantinham a Igreja atrelada ao Trono, ocupando espaços
importantes nas dioceses brasileiras.

16 Outras forças políticas, representando outras linhas ideológicas e de interesse, estiveram de algu­
ma forma envolvidas nesse conflito, como foi o caso dos positivistas, do clero jansenista, dos liberais
(não maçons), garibaldinos e outros grupamentos menores. Realçamos aqui os protestantes, maçons
e ultramontanos dada a ênfase desse trabalho, neste capítulo, à cooperação entre maçons e protes­
tantes na luta de ambos contra o ultramontanismo e em favor do livre exercício religioso. Um detalha­
do e completo exame de todos os grupos de interesse envolvidos na chamada “Questão Religiosa” é
competentemente apresentado pelo Prof. Vieira em sua obra já citada.
258 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

A presença protestante neste complexo cenário político, la­


mentavelmente, não tem sido aprofundada pelos nossos histo­
riadores, principalmente os maçons. São normalmente subesti­
mados, na influência política que detiveram ao longo dos últi­
mos trinta anos do Séc. XIX. O trabalho do Prof. David Gueiros
Vieira, da Universidade de Brasília, publicado em 1980, veio
resgatar parte dessa dívida com a historiografia brasileira. Sua
indispensável obra, “O Protestantismo, A Maçonaria e A Ques­
tão Religiosa no Brasil”, relatando conflitos, alianças e impactos
trazidos à nossa sociedade pela presença dos primeiros m issio­
nários protestantes, constitui praticamente o único documento
de referência sobre a matéria. A maior parte da aliança entre
protestantes e maçons, mencionada no presente trabalho de
forma sintética, está baseada nos acontecimentos revelados
por este estudioso, pioneiro entre nós.
Avaliar esse cenário é importante para se compreender as
aproximações entre maçons e protestantes, em oposição aos
ultramontanos, num contencioso que ganhou fama e acirrou
ânimos nos últimos quarenta anos do Séc. XIX, culminando com
o reconhecimento do culto protestante, a separação entre Igreja
e Estado e o abrândamento dos atritos interreligiosos, após a
Proclamação da República em 1889.
Os primeiros missionários protestantes só chegaram ao Bra­
sil após D. Pedro II subir ao trono. O primeiro a pisar o solo
brasileiro, com propósitos de se fixar, promover a mensagem
do Evangelho e efetivamente marcar presença em nossa histó­
ria, foi o capelão dos marítimos americanos que aportavam ao
Rio de Janeiro, James Cooley Fletcher (1823-1901), ministro
presbiteriano, que aqui chegou em 1851, conforme nos relata o
Prof. David Gueiros Vieira.17
Fletcher, um a figura humana vigorosa e intrépida na busca

17 De acordo com as investigações pioneiras do Prof. Vieira, Fletcher não foi o primeiro clérigo protes­
tante a pisar o solo brasileiro. Outros capelães haviam sido anteriormente enviados ao Brasil para
prestar assistência religiosa aos marítimos americanos, ingleses e escoceses que chegavam aos mi­
lhares ao país desde 1836. Os pastores norte-americanos Obadiah Johnson, Justin Spauding e Daniel
Kidder, esses dois últimos metodistas, estiveram no Brasil por algum tempo, precedendo Fletcher, e
dedicados exclusivamente a prestar assistência religiosa aos marítimos, comissionados que eram da
“Sociedade Americana de Amigos dos Marítimos” {American Seamen’s Friends Society). Cabe,todavia,
o mérito de pioneirismo a Fletcher por sua têmpera e determinação de permanecer no Brasil lutando
pelo estabelecimento do culto protestante, afastando resistências do poder público e atraindo outros
missionários estrangeiros a virem ao Brasil com o mesmo propósito. Fletcher é um nome a ser sempre
lembrado como personagem-chave do protestantismo em nosso país (cf. Vieira, op. cit. Brasília, DF,
págs. 61-94; e R. Cavalcanti, op. cit., São Paulo, 1985, pág. 117).
ANTIM AÇONARIA 259

dos seus objetivos políticos e devotado à sua religião, logo se


deu conta da realidade sociopolítica do Brasil, do teor das bar­
reiras que havería de encontrar e do espaço que podería abrir
para a penetração da mensagem evangélica. Inaugura um a es­
tratégia singular no Brasil, quando se pensa em protestantes,
que modernamente chamaríamos de lobby: procura se aproxi­
mar de autoridades brasileiras, ganha amizades no governo, se
aproxima do próprio Imperador com o objetivo de expor-lhe as
vantagens de estimular a presença de protestantes no Brasil
para o estabelecimento de um a nova era de progresso. Escuda
sua estratégia do estabelecimento do protestantismo num m o­
mento histórico do país que buscava alternativas para o seu
desenvolvimento, propondo trazer imigrantes portadores de ri­
quezas, conhecimentos e tecnologias. Promove campanha naci­
onal para atrair imigrantes para o Brasil defendendo a idéia de
que, particularmente os protestantes, seriam portadores de “pro­
gresso” de que o país tanto necessitava. Por trás do seu discur­
so em favor do “progresso” , entretanto, desejava obviamente pa­
vim entar o caminho para o estabelecimento de igrejas protes­
tantes no país. Manteve conversas com o Im perador sobre a
Bíblia, ganhou a simpatia, amizades e adesões às suas teses
“progressistas” entre autoridades, parlamentares e intelectuais
como Francisco Otaviano de Alm eida Rosa (deputado, escritor e
jornalista), Joaquim Maria N. Azam buja (Diplomata e Ministro
da Educação do Segundo Império), Dep. Aureliano Cândido
Tavares Bastos (político, maçom), José Inácio Silveira da Mota
(Senador, ardoroso defensor da abolição da escravatura), Dr.
Manuel Pacheco da Silva (Barão do Pacheco, médico e educador
de renome na corte), Cristiano Ottoni (presidente da Estrada de
Ferro D. Pedro II), Dr. Caetano Furquim de Alm eida (empresá­
rio, advogado, influente na corte, defensor de primeira hora das
teses de Fletcher sobre imigração), e muitos outros. Sua histó­
ria é cheia de notáveis episódios e sua mensagem, certamente,
teve alguma ressonância, principalmente entre homens como o
maçom Tavares Bastos e Silveira da Mota que, defensores do
liberalismo, do progresso e da abolição da escravatura, deram
passos importantes em favor dos ideais de Fletcher. Bíblias eram
distribuídas no Brasil, Fletcher era o maior propagandista do
texto sagrado, com o rep resen tan te e ven d ed o r de B íblias
(colportor) da Sociedade Bíblica Britânica. A idéia de sua dis­
260 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

seminação nas escolas tinha adeptos, como Joaquim Azambuja,


seu amigo particular, educador e sensível à liberdade de culto.
Cultos domiciliares - ainda que em língua inglesa - começa­
ram a acontecer no Rio de Janeiro, em Petrópolis, e em Niterói,
sob instigação e a liderança de Fletcher, que costumava levar
sua mensagem aos ingleses e americanos moradores dessas ci­
dades. Graças à sua influência, trouxe ao Brasil em 1855 o Dr.
Robert Reid Kalley (1809-1888), médico escocês, missionário
congregacional, com experiência anterior na Ilha da Madeira (o
que lhe permitira dominar a língua portuguesa) e que veio de­
sempenhar papel importante na organização de igrejas e na dis­
seminação de cultos domiciliares em várias cidades do país.
Certamente, trazendo Kalley ao Brasil, desejava Fletcher facili­
tar o trabalho protestante em língua portuguesa, a partir do Rio
de Janeiro, onde sempre encontrou obstáculos.
Kalley demonstrou ser um batalhador incansável pela causa
do Evangelho no Brasil. Um dos traços históricos de sua pas­
sagem em nosso país foi a sua liderança na fundação da prim ei­
ra igreja evangélica no Brasil, a Igreja Evangélica Fluminense
(Congregacional) no Rio de Janeiro em 1859. Além do Rio de
Janeiro (Capital, Niterói e Petrópolis), há registros de sua obra
em prol do estabelecimento de congregações em São Paulo, na
Bahia e em Pernambuco. Sua contribuição foi além da consti­
tuição de igrejas e pequenas congregações. Foi propagandista
da Bíblia, defensor dos ideais de liberdade de culto e da separa­
ção entre Igreja e Estado, fazendo valer para isso um de seus
dons, a facilidade de redigir mensagens. Entre diversos artigos
que publicou em jornais do Rio de Janeiro, somente entre outu­
bro de 1855 e dezembro de 1866, Kalley teria publicado mais de
trinta e cinco artigos no “Correio M ercantil” , defendendo suas
idéias, polemizando e propagando a mensagem protestante.18
Pouco depois, na manhã de um a sexta-feira, 12 de agosto
de 1859, chega ao porto do Rio de Janeiro o veleiro “Banshee”,
após 55 dias de um a cansativa viagem de alto-mar, atravessan­
do o Atlântico de norte para o sul, trazendo a bordo Ashbel Green
Simonton (1833-1867), um jovem de 26 anos, norte-americano
da Pennsylvania, diplomado pelo Princeton College (hoje Uni­
versidade de Princeton, na Virginia) e pelo Seminário Teológi­

David Gueiros Vieira, op.cit. pág. 132.


ANTIM AÇONARIA 261

co19. Foi o primeiro missionário a vir ao Brasil, como responsá­


v e l p e la o rg a n iz a ç ã o da Ig r e ja P r e s b ite r ia n a no B ra s il,
comissionado para tanto pela Junta de Missões Estrangeiras da
Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos.
Outros missionários protestantes (luteranos, presbiterianos,
metodistas e episcopais) haveríam de chegar, após 1860, inte­
grando os esforços para o estabelecimento de igrejas protestan­
tes no Brasil. Fletcher, Kalley e Simonton formam o trio de pio­
neiros que desbravaram o ambiente hostil do Brasil e, como
tais, os que mais diretamente sentiram na carne o peso da forte
oposição.
O estabelecimento do protestantismo no Brasil não foi tare­
fa fácil. Contou com forte oposição de parte do clero e de cama­
das conservadoras da sociedade, aliadas do ultramontanismo.
A própria Constituição em vigor, promulgada em 1824, em lu­
gar de conceder liberdade de culto, criava fortes restrições às
práticas religiosas não católicas. Os protestantes não podiam
celebrar seus cultos em ambientes abertos, não podiam cons­
truir templos - com características idênticas aos templos católi­
cos - e não podiam distribuir Bíblias. As Bíblias distribuídas
pelos protestantes eram consideradas falsas e como tais repu­
diadas pelos católicos. Os cultos eram realizados em ambientes
fechados, como residências, sobrados de prédios com erciais
centrais, ou então hotéis. Só assim era permitida sua realiza­
ção. Os católicos mais radicais interpretavam que não podería
ser tolerada a realização de cultos em português. A idéia, con­
sagrada e defendida pelo ultramontanismo, rezava que o pro­
testantismo era um a religião dos estrangeiros e, assim, não de­
veria ser pregada aos brasileiros. Não poderíam celebrar os cul­
tos na língua dos nativos, assim interpretavam a Constituição.
Não foi fácil para Fletcher, Kalley, Simonton e outros pio­
neiros, vencer barreiras impostas pela intolerância religiosa do
establishment católico. As lutas entre os grupos b eirava à
irracionalidade. A história do esforço desses homens é pontilha-

19 Uma das obras pioneiras, editada no Brasil, sobre a vida deste missionário presbiteriano é “Simonton.
Inspirações de uma existência”, elaborada por Maria Am élia Rizzo (Ed. Rizzo) e publicada em São
Paulo em 1962. Consta de excepcional trabalho de pesquisa que reúne a tradução de correspondên­
cias e diários, do próprio punho, de Simonton relacionados com sua permanência no Brasil, suas
viagens (ida e vinda) aos EUA e seus percalços na vida familiar e como primeiro missionário
presbiteriano. Boa parte dos comentários aqui citados sobre o trabalho de Simonton no Brasil são
baseados nesta obra especialmente compilada por Maria Am élia Rizzo.
262 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

da de perseguições, lutas e injustiças arquitetadas por segmen­


tos representativos da intolerância religiosa, de franca oposição
ao protestantismo. Perseguições ganharam as páginas dos jo r­
nais do Rio de Janeiro, São Paulo, Niterói e outras cidades. Al­
guns acontecimentos desses processos de oposição até chega­
ram aos registros policiais, como foi o caso da prisão de vários
protestantes em Niterói, em 27 de outubro 1864.
O prof. Vieira descreve com detalhes as amargas experiên­
cias dos protestantes, congregacionais, que resolveram prom o­
ver regularm ente cultos na residência de André Cayret,um
h u g u e n o te fr a n c ê s , em N ite r ó i. Os e n c o n tr o s dos
congregacionais, ainda que realizados conforme a Lei, foram
denunciados no jornal local, “O Fluminense”, por um leitor anô­
nimo que os acusava “de ofensivos à moral fam iliar” . Distúrbios
populares passaram a acontecer regularmente, e a ganhar con­
tornos cada vez mais agressivos, levando turbas às ruas bra­
dando contra as práticas religiosas dos protestantes. De nada
valeram as queixas que Kalley encaminhou às autoridades soli­
citando proteção. O fato repercutiu na imprensa local e da Ca­
pital, mas as autoridades não tomaram qualquer medida contra
os incitadores da perseguição. Ao contrário, a onda se acirrou
ameaçando a própria vida do missionário e culminando com
um lamentável incidente em 27 de outubro de 1864. Kalley
teve sua vida ameaçada por um a multidão de mais de 500 pes­
soas que desejava impedir a todo custo que os cultos na casa de
Cayret prosseguissem. Foi preciso que a polícia, com seus ca­
valos, dispersasse a multidão, fato que permitiu a Kalley sair
ileso. Diz o Prof. Vieira que, finalmente, a proteção a Kalley só
foi possível após uma aproximação com um seu “am igo”, Vis­
conde de Souza Franco, maçom, então presidente da Província
do Rio de Janeiro20. Em outra oportunidade, outubro de 1860,
um outro grave incidente, entre protestantes e seus opositores,
aconteceu na Freguesia de São José: a presença de oito portu­
gueses calvinistas, trazidos ao Brasil pelo próprio Kalley, num
culto celebrado em língua portuguesa, com a presença de mais
de 30 pessoas, levou a autoridade policial a dar voz de prisão a
todos os participantes, sob a alegação de estarem promovendo

20 David Gueiros Vieira, op. cit págs. 126-7.


ANTIM AÇONARIA 263

um a reunião ilícita.21 Todos foram presos e obrigados a prestar


declarações às autoridades da polícia. A reação protestante foi
imediata. Vários jornais liberais acolheram denúncias sobre a
intolerância das autoridades. O próprio Dr. Kalley publicou car­
ta no “Correio M ercantil” , do Rio de Janeiro, negando que as
pessoas presas tivessem realizando qualquer ato ilícito. E inda­
gando como o Brasil, que desejava atrair novos imigrantes pro­
testantes - portadores do progresso - podería contar com eles
se as autoridades entendiam tão pouco de tolerância religiosa?
O “Diário do Rio de Janeiro” , editado pelo líder dos maçons,
Saldanha Marinho, um extremado anticlerical, atacou com sua
p en a fe rin a o su b d elega d o que p ren d era os p ortu gu eses
calvinistas e os demais, reunidos no culto da Freguesia de São
José.
Um outro episódio, retratando a perseguição aos protestan­
tes, no meio de tantos outros verificados no interior de São Pau­
lo, teve lugar em Lorena, no vale do Paraíba, conforme relato do
Prof. Vieira. Desta vez foi Tavares Bastos, maçom, quem veio em
defesa dos protestantes:

“E m 1866 T a va res B a s to s ta m b é m tom ou p a rte a tiv a na p r o te ­


çã o d a vida d o s p ro te s ta n te s d e Loren a , e m S ã o Paulo. A ca sa dos
c u lto s d o s p r o t e s ta n t e s , n a q u e la c id a d e , f o r a a ta c a d a p e lo
p o p u la ch o cu ja in te n çã o era e v id en tem e n te m a ta r C h a m b e rla in e
e o P a d re C on ceiçã o que, en treta n to, con s eg u ira m fu g ir. A tu rb a
en tã o voltou -se con tra os m em b ros da ig re ja com ch icote s e ca ce­
tes, b a ten d o se m d ó ta n to n os h om en s com o nas m u lh eres e cria n ­
ças. Um h o m e m f o i d e ixa d o q u a s e à m orte. B la d fo rd a p elou im e ­
d ia ta m en te p a ra T a va res B astos, q u e to m ou m ed id a s n ecessá ria s
p a r a e v ita r o u tra s violên cia s. O p r ó p r io Im p e ra d o r in te rv e io na
q u estã o, p e lo q u e F le tc h e r a g ra d e ce u -lh e n u m a ca rta e s crita de
N o va York. O C a p itã o J o s é V icen te d e A ze ved o, q u e to m ou m ed i­
d a s p a r a p ro te g ê -lo s , f o i a s sa s sin a d o em 19 d e fe v e re iro d e 1869.
D iz e m os h is to ria d o re s p a u lis ta s qu e a su a m o rte d e v e u -s e à

21 David Gueiros Vieira, op.cit. págs. 123-33. O culto realizado em residência de estrangeiros, e com
a assistência predominante de estrangeiros, era costumeiramente tolerado pelas autoridades. O pro­
testantismo era considerado um a religião dos estrangeiros recém-chegados. Deveria, portanto, ter
suas práticas limitadas aos estrangeiros, e em seus respectivos idiomas. A presença dos portugueses
calvinistas trouxe o impasse: eram estrangeiros, mas falavam nossa língua e os cultos se realizavam
em português. A campanha contra os protestantes nesses casos foi radical e poderosa. Os inimigos do
protestantismo não recuavam.
264 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

‘p o lític a ’. E n tre ta n to os p ro te s ta n te s d e L ore n a a cred ita v a m qu e


f o i m orto p o r tê-los p ro te g id o . ” 22

Outro episodio semelhante aos anteriores é relatado pelo


Prof. Vieira. Ocorreu no Recife e teve os mesmos ingredientes:
um pequeno grupo de congregacionais, reunidos na residência
de Manuel José da Silva Viana, que foi para Recife como vende­
dor de Bíblias, da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira,
enviado por Kalley, estava reunido na noite de sexta-feira, 14 de
março de 1873. O sub-delegado de polícia comandou diversos
soldados que invadiram a casa de Viana. Os policiais determ i­
naram que se dispersassem ordenando que não mais poderíam
realizar tais reuniões. Viana e seus confrades de fé, não preten­
dendo criar maiores problemas, acataram provisoriam ente a
“determinação” policial. A imprensa, porém, deitou falação e
novos acusadores bem como ardorosos defensores do direito de
liberdade de culto apareceram trocando farpas publicamente.23
É mais um episódio a demonstrar o poder político e determina­
ção dos opositores aos protestantes em obstar-lhes os passos.
E assim poderiamos desfilar um a série de episódios, que a
história registrou e avaliou, graças aos cuidados do Prof. Vieira,
para demonstrar que a presença dos protestantes no Brasil,
naquela fase de nossa história, contrariava interesses de alguns
grupos e por isso era objeto de movimentos de reação, as vezes
agressivos e quase sempre irracionais.
Certamente o clero ultramontano estava por trás de toda
essa campanha. Os maçons, os políticos liberais e intelectuais
estavam entre os que formavam a trincheira em defesa das li­
berdades, da tolerância religiosa e da separação entre Igreja e

22 David Gueiros Vieira, op.cit. pág. 160. George Whitehill Chamberlain (1839-1902), missionário
presbiteriano, colaborador ativo de Simón ton e Blackford, chegara ao Rio de Janeiro em 21 de julho de
1862. Foi responsável, junto com sua esposa, Mary Annesley, pela introdução da primeira escola
evangélica em São Paulo, a Escola Americana, em 1871. Em 1886 já se transformava num complexo
educacional, oferecendo, além de internato e ensino fundamental, os cursos preparatórios e o Curso
de Comércio. Em 1890 o nome foi mudado para Colégio Mackenzie, precursor do que hoje se conhece
como Universidade Mackenzie. O padre José Manoel da Conceição (1822-1873) abandonou a batina
por haver se convertido ao presbiterianismo. Ordenado ministro presbiteriano em 1865 passou a
pregar em vários cultos no interior de São Paulo, inspirando ondas de furor e preocupação entre os
ultramontanos, sendo chamado de ‘O Padre Protestante’. Teve sua morte formalmente requerida por
um deputado da Câmara Provincial de São Paulo, por haver se tom ado protestante e abjurado a fé
católica. Outro nome mencionado no episódio é o de Alexander Lattimer Blackford (1828-180), minis­
tro presbiteriano, casado com Elizabeth (Lille) , irmã de Simonton. Foi missionário, braço direito
desse, nos primeiros anos do trabalho presbiteriano no Brasil.
23 David Gueiros Vieira, op. cit. págs. 336, 7.
ANTIM AÇONARIA 265

Estado e, portanto, identificados com os anseios dos protestan­


tes.
A maçonaria, o segundo componente deste complexo cená­
rio conflituoso, após a abdicação de D. Pedro I, voltara a ter
força e vigor, com o retorno de José Bonifácio, novamente à
frente do Grande Oriente do Brasil, e a retomada dos trabalhos
das lojas. É verdade que, ainda assim, experimentou lam entá­
veis dissensões internas que levaram-na a cisões, em todo esse
período, enfraquecendo em parte sua posição e pondo em relevo
vaidades e “vedetism os” de alguns de seus proceres. Mas foi no
momento em que a Questão Religiosa ganhou as primeiras pá­
ginas dos jornais, em 1872 e 1873, que as facções maçônicas
voltaram a se reunir para bradar contra o que consideravam ser
inimigo comum: o clero ultramontano. Alguns dos seus líderes
se destacaram nos confrontos com a Igreja. A história confere
especial realce, principalmente quando se associa o episódio
aos protestantes, ao papel desempenhado por Joaquim Saldanha
M a rin h o (1 8 1 6 -1 8 9 5 ), d e n o m in a d o n os seu s a r tig o s
“Ganganelli”, Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil (facção
do Vale dos Beneditinos); Quintino Antônio Ferreira de Souza
(posteriorm ente conhecido apenas como Quintino Bocaiúva)
(1836-1912), líder republicano, defensor da política de atração
de imigrantes e Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil (1901-
1904); Aureliano Cândido Tavares Bastos (1839-1875) parla­
mentar liberal, escritor, polemista e diplomata, chamado de “O
Apóstolo do Progresso” pelo Prof. Vieira. Defensor da política
favorável à imigração, forma com dois irmãos anteriores, o trio
maçônico dos mais ardorosos defensores do ideário republica­
no e da separação Igreja e Estado, além dele próprio ter sido um
defensor incondicional dos interesses dos protestantes, sem ter
sido jam ais um dos seus adeptos. Outros obreiros da “Arte Real”
podem ainda ser citados como havendo contribuído ativamente
para as mudanças, em direção à democracia republicana, que
havería de se estabelecer no país daí por diante: Cristiano B.
Ottoni, Francisco Rangel Pestana, Francisco Leite Bittencourt
Sampaio e Miguel Ferreira Vieira.
A Ordem estava presente, através de seus membros, em
postos-chave do Segundo Império, durante o período em que as
missões protestantes se fizeram presentes no Brasil. Foi nesta
situação política que as alianças entre protestantes e maçons
266 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ganharam corpo e permitiram, de um lado, que a campanha da


separação Igreja e Estado evoluísse e, de outro, como corolário
daquela, os protestantes pudessem organizar suas igrejas, es­
colas e missões com certa proteção. Interessante inserirmos nesse
ponto um comentário dos presbiterianos, sobre os resultados
de trinta dificies anos de trabalho no Brasil:

“E n tre 1859 e 1889, os p re s b ite ria n o s tin h a m no B ra s il m ais


d e 5 0 igrejas, q u a tro p res b ité rio s , u m sem in á rio, d o is colég ios e
d iv erso s p e rió d icos. N e sse in tervalo, 4 5 m issio n á rios fo r a m e n vi­
a d os ao p a ís , en tre eva n g elista s e ed ucadores. ’K>A

A maçonaria brasileira representava o pensamento liberal,


gozava da simpatia do Imperador D. Pedro II (embora esse ja ­
mais tenha sido iniciado) e com a tácita aliança de parte do
clero, ja n s e n is ta e re g a lis ta .2
25 O clero, porém , perm anecia
4
depedendente das benesses do trono, que tinha poderes para
nomear e destituir bispos, recolher dízimos e ofertas e distribuí-
los como aprouvesse, estava basicamente a serviço do Estado.
Eram funcionários públicos. Muitos estavam integrados ao go­
verno, eram políticos, assessores e, nas horas vagas, párocos.
Durante boa parte do Séc. XIX, a Igreja esteve politicamen­
te enfraquecida a despeito de religião oficial do Im pério. O
regalismo colocava o poder eclesiástico nas mãos do Estado.
Não deixava de ser uma posição incômoda para muitos bispos,
até que a movimentação ultramontana - estimulada pelo anseio
de Roma em retomar as rédeas do poder em várias nações -
invade o terreno político no Brasil, após 1870. É desta época a
nomeação de diversos bispos, de formação européia e afinados
com a orientação papal, e o desencadear dos processos de con­
testação comumente, e genericamente, chamado de a “Questão
Religiosa”. O regalismo passa a ser diretamente confrontado por

24 Instituto Presbiteriano Mackenzie, “Mackenzie. 126 anos de ensino - Valores Acima do Tempo”.
Preêmio - São Paulo, 1997, pãg. 22.
25 Não é de se estranhar que muitas lojas maçônicas contassem no seu quadro com sacerdotes,
dentre os quais o de maior destaque foi o próprio tutor de D. Pedro II, Pe. Diogo A. Feijó. Certamente
a grande maioria identificava-se com a linha regalista. A história brasileira não menciona a presença
de representantes do clero ultramontano nas lojas maçônicas brasileiras. Em realidade o clero pre­
sente na maçonaria era formado na escola “iluminista” , anterior ao surgimento do ultramontanismo
no Brasil. Foi a presença do clero ultramontano que introduziu no pais a vertente antimaçônica da
Igreja e o que levou à Questão Religiosa.
ANTIM AÇONARIA 267

bispos ultramontanos que preferiam ser fiéis ao Papa, em lugar


do Imperador. E neste ponto temos de considerar o terceiro
componente do cenário tão conflituoso: o clero ultramontano.
Muitos clérigos ultramontanos, brasileiros e estrangeiros,
começam a chegar ao Brasil na década dos sessenta. Eram cul­
turalmente mais bem preparados, haviam estudado em semi­
nários e universidades européias de reputação. Eram mais ca­
pacitados dos que os regalistas, liberais e jansenistas, que vivi­
am mais de perto ligados ao Império, gozando dos privilégios do
Estado. Conheciam a fundo o pensamento da Santa Sé e as
incíclicas, bulas e outros documentos papais condenatorios das
chamadas seitas secretas, como a dos pedreiros livres. Repudi­
avam o desleixo com que os sacerdotes regalistas observavam
as doutrinas católicas, como por exemplo o celibato clerical e,
obviamente, se opunham fortemente àqueles que sabidamente
eram maçons ou tinham simpatia pela maçonaria.
O clero ultramontano, ainda que escasso e de pouca influ­
ência na política brasileira nos primordios do Segundo Império,
era a fonte de vigorosa campanha contra os maçons e im igran­
tes protestantes, que começavam a chegar ao Brasil nos anos
50 e 60 do Séc. XIX. Mas sua presença e movimentação política
ganhou muita força e vigor em boa parte do fim do Segundo
Império, por algumas razões que passamos a destacar. A pri­
meira razão tem a ver com o que já mencionamos no Capítulo 2:
a grande concentração no Séc. XIX de bulas papais contra a
maçonaria e em favor de m aior rigor dos governos contra os
movimentos contrários à Igreja, de um a maneira geral. A Igreja
sentia-se cada vez mais ameaçada pelos movimentos dos libe­
rais, dos carbonários e outros pseudomaçônicos, e mesmo para-
maçõnicos, a retirar ou reduzir seus poderes políticos na Fran­
ça, na Itália, no México e em outras nações. Como seria natural,
os papas reagem com suas mensagens apimentadas contra as
ordens, ditas seitas secretas, incluindo obviamente a m açona­
ria. Essas decisões papais eram observadas com todo o rigor e
defendidas com fidelidade pelo clero ultramontano, e simples­
mente ignoradas no Brasil pelos jansenistas, regalistas e pelo
trono. Estava sendo montado todo o cenário de confrontação
entre ultramontanos e o poder Imperial (regalista).
O propósito de fazer valer o poder papal entre nós, lideran­
do campanhas contra os protestantes e a maçonaria, passava
268 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

então a ganhar força entre os novos bispos, que brandiam as


mensagens das bulas emitidas naquele século, mesmo que, as­
sim fazendo, estivessem confrontando a posição oficial da co­
roa.
Uma segunda importante razão está relacionada com a De­
claração de Infalibilidade Papal, a Pastor Aetemus, em itida pelo
Concilio Vaticano I, de 1870. O Papa, mestre supremo da Igreja,
passa a ter sua palavra acima de qualquer outra autoridade
terrena. Para os ultramontanos, esta decisão conciliar encora­
java-os a contestatar as decisões do Estado, cuja religião oficial
era o catolicismo, que contrariassem a palavra do Papa. Rui
Barbosa dizia, a propósito de tudo isto, que:

“ a p re c o n iz a ç ã o d a in fa lib ilid a d e p o n tifíc ia é a in a u g u ra çã o


p o s itiv a d a s u p re m a cia d o p o n tífic e rom a n o so b re o p o d e r civil.
P ro fe s s a r q u e o P a p a è in ca p a z d e erro, eq u iva le a in s titu ir q u e a
d e s o b e d iê n cia a ele é u m crim e, e q u iv a le p o r con seg u in te, a in ­
vesti-lo da rea leza u n iv e rs a l.”26

Finalmente, mas não menos importante, a outra razão para


o emergente poder político dos ultramontanos no Segundo Im ­
pério é factual, quase certamente parte de um a grande estraté­
gia do Vaticano. O número de bispos de orientação ultramontana
no Brasil cresceu como nunca depois dos anos 60. Na época do
Concilio Vaticano I todos os bispos brasileiros, como também
de outros países latino-americanos, ao todo quarenta e oito, eram
u ltram ontanos27. Assim, após 1870 o poder político exercido
até então pelo clero regalista, aliado aos liberais seculares, teve
de enfrentar poderosa oposição política arquitetada em diversos
pontos do país por bispos ultramontanos, defensores da infali­
bilidade papal, dispostos a observar as decisões da Sé com o
máximo rigor e fidelidade.
Além de toda a legislação rom ana a lhe dar respaldo, o
ultramontanismo esteve sempre apegado à letra-da-lei civil, fa­
zendo valer, e interpretada a seu modo, a Constituição do Im pé­
rio:

“A R e lig iã o C a tólica A p o s tó lica R o m a n a co n tin u a rá a s e r a R e-

26Marcelo Linhares, “A Maconaria e a Questão Religiosa do Segundo Império - Apontamentos”. Senado


Federal, Brasília, 1988, pág. 31.
27 Marcelo Linhares, op. cit. pág. 101.
ANTIM AÇONARIA 269

ligiã o d o Im pério. Tod as a s ou tra s R e lig iõ e s se rã o p e rm itid a s com


se u cu lto d om éstico, ou p a rtic u la r em ca sa s p a ra isso destinadas,
s e m fo rm a a lg u m a e x te rio r d e tem plo. ” [Assim rezava o Art. 5 da
Constituição do Império de 1824, conforme destaca Marcelo
Linhares28.)

Escudados na observância desse artigo constitucional e nas


orientações papais, os ultramontanos começaram a fazer valer
sua força política de contestação ao Imperador e seus aliados.
Em realidade, a grande maioria dos historiadores e estudiosos
maçons, como Castellani, Gueiros Vieira e Marcelo Linhares
sustentam que se os ataques eram desferidos aos protestantes
e aos maçons, não passava de um a bem urdida m anobra para
m inar o poder do Im pério e derrubar seu regalism o, assim
entronizando o poder papal na Igreja brasileira29.
O comando e decisões administrativas da Igreja estavam de
fato e de direito nas mãos da coroa. Esta pagava os honorários
dos prelados (bispos inclusive), os custos com a manutenção
dos templos, educação religiosa, controlava os cemitérios, co­
mandava os casamentos religiosos, emitia os registros de batis­
mo (com força de registro de nascimento), recolhia os dízimos e
taxas, em nome da Igreja. Era um conluio amplo e profunda­
mente arraigado: Igreja e Estado, sob controle deste último, es­
tavam efetivamente “casados”’. Esse fato explica, em certo sen­
tido, o motivo da ampla desenvoltura com que maçons se da­
vam no poder, lado a lado com representantes do clero liberal.
Para tristeza e frustração dos transmontanos, a coroa desco­
nheceu todas as bulas papais que condenavam a Ordem. O Es­
tado não tinha razões pois para negar aos maçons posições
destacadas no governo, ainda que se confessasse oficialmente
católico. O Imperador, um racionalista, era soberano em suas
decisões. Não era necessário ouvir o Papa quando havia de es­
colher seus primeiros auxiliares, nom ear ou destituir um bispo
e outros clérigos. Seus auxiliares diretos não tinham de ser ne­
cessariamente católicos, não precisavam exibir certidões de ba­
tismo ou abertamente se confessar defensores da Igreja, tal como

28 Marcelo Linhares, op. cit. pág. 23.


29 José Castellani, “Os Maçons e a Questão Religiosa”. Ed. Maçônica “A TROLHA” Ltda., Londrina,
1996, pág. 15.
270 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

acontecia em outras terras dominadas por ultramontanos. Mas


o mesmo fato explica também o desprezo com que as minorias
religiosas eram tratadas pelo Estado, conforme ressalta o Prof.
Robinson Cavalcanti:

“D u ra n te a vigência d a C on stitu içã o d e 1824, os nã o-ca tólicos


eram , d e fa to , cid a d ã os d e segu n d a cla ss e no B rasil. A s m in oria s
n ã o -ca tó lica s era m tolerad as, m as fic a v a m à m a rg em do p ro c e s s o
p o lítico . A a tiv id a d e p o lític a era p riv ilé g io d os católicos, d e p r e fe ­
rên cia regalistas. O s cem itérios era m a d m in is tra d os p e la s p a r ó ­
quias, e a p e n a s ca tó lico s a li p o d e ría m s e r enterra dos. O ú n ico ca ­
s a m e n to vá lid o era o celeb ra d o p e ra n te u m sa ce rd o te ca tólico ro­
m ano. A certid ã o d e b a tis m o em u m a p a ró q u ia ca tó lico rom a n a
eq u iv a lia ao re g istro c iv il (in e x is te n te este). O s lu g a re s d e cu lto
d a s cren ça s n ã o -ca tó lica s n ã o d evería m te r a p a rê n cia d e tem plo,
sen d o ob sta d a a a tivid a d e p ros elitista . O E sta d o q u e su b ord in a va
a Ig re ja R om an a, p riv ile g ia v a a Ig reja R om a n a ”, sustenta o pro­
fessor e reconhecido cientista político.30

O estado de coisas político-religioso, aparentemente está­


vel, sofre ameaças em seu tênue equilíbrio quando, após a in­
dependência, e próximo à Proclamação da República, novas for­
ças de influência galgam importantes posições de poder, influ­
indo nas decisões do Imperador e provocando as posições do
clero, principalmente ultramontano, e de grupos conservado­
res. Entre a Declaração de Independência e a Proclamação da
República, diversas mudanças no quadro político elevaram o
tom do latente conflito entre a Igreja e o Poder Imperial.
Levados pela onda liberal e positivista que varria o pensa­
mento político europeu, notadamente na França, de onde vi­
nham alguns dos nossos ilustres líderes políticos, um a corrente
liberal tem suas posições-chave estabelecidas no poder e no seio
das elites intelectuais da época em questão. A maçonaria, como
parte também do clero regalista, era o estuário onde desem bo­
cava o novo fluxo de pensamento filosófico e político. Esse foi
um dos dados novos no tabuleiro político da segunda metade
do Séc. X IX no B rasil. R esp irava-se ares im pregn ados do
positivism o de Comte e do liberalismo ilum inista de Locke e

30 Robinson Cavalcanti, op. cit. pág. 176.


ANTIM AÇONARIA 271

seus seguidores.
O fenômeno político, de grande repercussão, que desenca­
deou a chamada Questão Religiosa, foi a publicação do discur­
so proferido em 02 de março de 1872, no Grande Oriente do
Brasil, pelo Padre José Luiz de Alm eida Martins, então Grande
Orador Interino, exaltando o papel do Visconde do Rio Branco,
Grão-Mestre e Chefe do Conselho de Ministros do Império que
acabara de prom ulgar a “Lei do Ventre Livre” , de 28 de setem­
bro de 1871, marco abolicionista de nossa história. O discurso,
estopim de um a grande política de grandes proporções e uma
das causas do decrescente prestígio da monarquia, teve reper­
cussões em toda a imprensa causando impacto nas hostes
ultramontanas, por revelar abertam ente um clérigo, maçom,
exaltando o líder da maçonaria, e suas lutas desta em favor da
emancipação dos escravos. O “Jornal do Commercio” do Rio de
Janeiro, publicou na íntegra o discurso do Padre Alm eida no
dia seguinte.
A primeira reação ultramontana não se fez esperar muito.
D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro, exigiu que
o Padre Alm eida Martins abjurasse a maçonaria. Como o Padre
não acedeu ao pedido do Bispo, este o suspendeu de suas fun­
ções desencadeando a famosa querela entre a Igreja e os Maçons,
a Questão Religiosa31.
Desdobramentos desse episódio foram sentidos longe do Rio
de Janeiro. Ultramontanos, os Bispos Dom Antônio de Macedo
Costa, do Pará e Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, de
Olinda, Pernambuco, resolvem aplicar a legislação papal, con­
trária à maçonaria, condenando clérigos, confrarias e párocos
por suas conexões com a Ordem. Sentiam-se agora à vontade
para confrontar o Imperador, inspirados na audácia de D. Pedro
Lacerda. O fato foi encarado como um desafio ao Imperador que
de pronto ordenou a punição dos Bispos, instaurando-se pro­
cessos de prisão de bispos e, a partir daí, gerando um dos mais
notórios desdobramentos do movimento antimaçônico interna­
cional em terras brasileiras: o clero ultramontano, desgostoso
com o desprestígio que lhe era imposto pelo padroado, tenta

31 José Castellani, “Do Pó dos Arquivos”. Cadernos de Estudos Maçônicos, Editora Maçônica “A
TROLHA”, Londrina, 1995, págs. 71-76.
272 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ganhar novas posições levantando lutas contra os maçons cató­


licos.
O outro lado da questão levantada pelos ultramontanos,
nem sempre destacado pelos nossos historiadores, foi a fer­
renha oposição levantada pelo clero, nesta mesma época, e com
base nos mesmos instrumentos legais, contra a presença dos
protestantes em solo brasileiro. Protestantes e maçons eram
encarados do mesmo modo, como inimigos conforme se pode
concluir de um a vasta documentação exposta pelo Prof. Vieira
em sua obra. Dentre os bispos brasileiros, que mais vocifera­
ram contra os maçons e a maçonaria, merece destaque nesta
luta contra os protestantes o papel de D. Vital, bispo de Olinda
e D. Antônio de Macedo Costa, bispo de Belém.
Belém do Pará era um a das cidades onde protestantes ame­
ricanos e ingleses buscaram residência. O Rev. Richard Holden,
ministro episcopal, fixara em Belém a base de sua atividade
missionária, prestando assistência religiosa aos ingleses que por
lá resolveram residir. O Prof. Vieira assinala que a presença de
protestantes em Belém muito contribuiu para acirrar os ânimos
dos ultramontanos - com o Bispo Macedo à frente - contra os
maçons. Foi o próprio D. Macedo quem divulgou nos jornais,
inclusive num periódico criado pela sua diocese, “A Estrela do
Norte” , e nas suas homilias dominicais, o pensamento papal
sobre o protestantismo. Na tentativa de explicar ao povo o que
era - na visão dos católicos - o protestantismo, “A Estrela do
Norte” publicou por cinco meses um famoso artigo do Monsenhor
Segur, “Causeries sur le protestantisme” [Palestras sobre o Pro­
testantismo]. Foi de D. Macedo a propagação de um boato, de
inspiração ultranacionalista para a época, segundo o qual a dis­
tribuição de Bíblias e a pregação do protestantismo no Pará
estavam intimamente relacionadas com as alegadas m aquina­
ções dos Estados Unidos para tom ar a Amazônia. (Este boato
tinha suas razões, de certa forma, na quantidade de estrangei­
ros que procuraram se fixar em Belém e, posteriormente, em
Santarém). Pretendia D. Macedo atingir os protestantes que es­
tavam se instalando nas suas barbas, na sua própria diocese.
Acusá-los de serem parte de um a conspiração am ericana de
conquista, deixava também o governo em maus lençóis. Em outra
o p o r tu n id a d e , d e m o n s tr a n d o to d o o seu a r d o r o s o
posicionamento contra os protestantes, atacou os esforços des-
ANTIM AÇONARIA 273

tes em organizar educandários evangélicos no sul do país, em


pronunciamentos publicados no seu “A Estrela do Norte” :

"... [D. Macedo] in d ica va p e lo se u jo r n a l e s ta r p a rticu la rm e n te


a ca b ru n h a d o ta m b é m p e la s n o tícia s d e q u e se tin h a co n ce d id o
licença, no s u l d o B rasil, a escola s p ro te s ta n te s (tod a s as q u a is
ch a m a v a d e ‘m e to d is ta s ’) e se tin h a p e rm itid o qu e cria n ça s ca tóli­
ca s fo s s e m e d u ca d a s n a s m e s m a s .”32, conforme relata o Prof.
Vieira.

Era um ataque público contra um a importante contribui­


ção que os protestantes deram, e prosseguem dando, à form a­
ção do nosso povo: a instalação de muitas escolas, de qualida­
de, procurada mesmo por não-evangélicos, espalhadas em vá­
rios pontos do país. O Prof. Robinson Cavalcanti assinala que
as escolas protestantes prestaram excepcional contribuição ao
surgimento de um a nova classe média no Brasil, já no período
da república. É de sua autoria o comentário:

“P e la a lta q u a lid a d e d o en sin o e p e la ren ova çã o p ed a g óg ica ,


esse s colég ios [protestantes] a tra ía m filh o s d e im p orta n te s fa m í­
lias não-eva n gélica s, a lgu n s d os q u a is viría m a se co n v e rte r ou a
s o fre r fo r te in flu ê n cia p ro te s ta n te , com o f o i o ca so d o e s crito r G il­
berto F re ire (qu e ch eg ou a se filia r d u ra n te certo tem p o a P rim eira
Ig re ja B a tis ta d o R ecife). E ss a s in stitu içõe s ed u ca cion a is se ria m
g ra n d e m en te res p on s á ve is p e la m ob ilid a d e so cia l a s ce n d e n te d e
s e to res das n ova s g e ra çõ e s em d ireçã o à cla ss e m é d ia .”33

Com razoável precisão, é possível se afirmar que esse tra­


balho educacional que rapidamente se espalhou, no fim do sé­
culo passado, em todo o território nacional, estaria estorvando
os interesses mais imediatos dos transmontanos, que como apre­
goava D. Macedo, viam nos educandários protestantes uma “ame­
aça à formação de nossas crianças católicas
Outro ardoroso inimigo da obra protestante no Brasil foi D.
Frei V ital M aria G onçalves de O liveira (1844-1878), bispo
ultramontano de Olinda - Pernambuco. Sua campanha contra
os maçons tem sido descrita pelos historiadores aqui já citados.
Seu papel no movimento contra os protestantes, porém, é pou-

32 David Gueiros Vieira, op. cit. págs. 293, 4.


33 Robinson Cavalcanti, op. cit. págs. 180, 1.
274 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

co divulgado - devendo-se ao Prof. Vieira o pouco que se conhe­


ce. Tom ava conta da Diocese de Olinda, o que equivalería dizer,
todo o Estado de Pernambuco. Nesta sua região a história regis­
trou vários embates com os protestantes. A imprensa local, re­
presentada por pequenos jornais de diversas colorações políti­
cas, era fartamente usada para veicular as idéias dos católicos
ultramontanos, dos liberais maçons e protestantes. Felizmente
o governo não cerceava a imprensa, ainda que exibisse posições
contrárias às suas. Um grupo de leigos, seguidores de D. Vital,
encabeçado pelo Dr. José Soriano de Souza, fundou um jornal
em janeiro de 1865 chamado “A Esperança” cuja missão não
era outra senão defender a Igreja e denunciar os protestantes.
Costumava atacar o governo por haver defendido Kalley no fa­
moso episódio de Niterói, em 1863. Não deixou de denunciar a
propaganda protestante, atacando as distribuições de Bíblias e
reiteradamente pedindo à Coroa que desse um basta em toda a
campanha, alegada herética, dos religiosos com andados por
Kalley. Em outubro de 1865, o vigário capitular da Sé de Olinda,
Deão Joaquim Francisco de Faria, expediu carta-circular a to­
dos os vigários do bispado dando-lhes a incumbência, assim
como a todas as autoridades civis, de confiscar e destruir todas
as Bíblias protestantes. Faria publicou nota a respeito do as­
sunto nos jornais de Pernambuco, fato que gerou reações con­
trárias de outros jornais locais34. Mas serviu para bem identifi­
car a fonte de onde emanavam as restrições aos protestantes.
Os mesmos bispos, defensores da entronização do papa no co­
mando da Igreja (e, quem sabe, do Estado) no Brasil, estavam
comprometidos com um a campanha para destruir a obra pro­
testante. Campanhas na imprensa, perseguições articuladas,
proibições de atos litúrgicos (enterros, casamentos, registro de
nascimento) que envolvessem maçons e protestantes, caracteri­
zaram a posição dos bispos transmontanos ao longo dos vinte
anos que antecederam a Proclamação da República.
Assim, vistos os três componentes destacados desse confli­
to (os protestantes, os maçons e os ultramontanos), resta-nos
identificar de que forma, e sob que motivações, os protestantes
e m açons se associaram , ou eram “tão amiguinhos” com o
ironizava, em 24 de junho de 1874, o jornal ultramontano edi­

34 David Gueiros Vieira, op. cit. págs. 220, 1. •


AN TIM AÇ O NARIA 275

tado no Rio, “O Apóstolo”, reportando evento conjunto realizado


no interior do Estado do Rio35 .
Até que ponto maçons e protestantes eram aliados entre si
no segundo império, ao longo da onda migratória? Será que a
aproximação se deu por conta apenas de convergência de inte­
resses ou por algum tipo de afinidade ideológica. Este é um
traço de nossa história recente que precisa ser lembrado, ava­
liado e refletido para que se possa entender as razões pelas quais
podem ser encontrados em nossa história recente, e ainda hoje,
muitos protestantes nas lojas maçônicas brasileiras. Relações
entre maçons e protestantes eram amistosas, conforme regis­
tros que citamos adiante dos estudos e pesquisas publicados
pelo Prof. Vieira, José Castellani e Prof. Robinson Cavalcanti. A
onda que chamamos de neoantimaçônica no Brasil, promovida
ostensivamente por neo-fundamentalistas evangélicos é fenô­
meno muito recente, inusitado, alienígena e motivado, segundo
nossa avaliação, por ocultos propósitos.
Assim, se estudarmos a movimentação antimaçônica brasi­
leira, observada no período em que os primeiros missionários
protestantes aqui aportaram, teremos de destacar o papel do
ultramontanismo e tão-somente este. Vinha dos católicos a cam ­
panha antimaçônica. Este movimento anatematizou, a um só
tempo, a influência da maçonaria no Estado e a presença dos
protestantes estrangeiros trazendo ao Brasil um a religião cristã
condenada pelo papismo. Os maçons estavam interessados em
construir um a nova nação, livre da vergonhosa mancha da es­
cravidão e alicerçada nos princípios da liberdade, da tolerância
e da separação entre Igreja e Estado. Suas lutas para a conquis­
ta desses valores se davam em várias trincheiras: nas lojas, nas
Obediências (Grandes Orientes), na imprensa, no governo e
nas alianças políticas. A palavra “valores” é a mais adequada
nessa consideração. É bom lembrar que os maçons, de todos os
ritos, são diutum am ente lembrados em loja dos valores sobre
os quais se assenta toda a praxis e filosofia maçônicas. Não se
trata de posturas e filosofia da maçonaria brasileira em particu­
lar, mas de posições universais da Ordem. A intolerância, por
exemplo, não tem lugar na vida maçônica. O maçom ju ra defen­
der esse e outros valores, como parte dos seus compromissos

35 David Gueiros Vieira, op. cit. pág. 291.


276 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

solenemente assumidos com a Ordem. Assim, pugnar pela li­


berdade de culto (ansiosamente esperada pelos protestantes)
era o mesmo que defender um inarredável princípio maçônico.
Como obreiros da Arte Real, estariam os maçons lutando por
esta causa, fosse ela do interesse de protestantes, católicos ou
qualquer outra facção religiosa, política ou étnica. Os maçons
lutavam pelo livre exercício da religião numa Pátria livre. Quan­
do o maçom Tavares Bastos interveio no caso de Lorena, São
Paulo, em favor dos protestantes que estavam sendo persegui­
dos, estava rigorosamente cumprindo um maçônico dever de
consciência, defendendo um valor: ô direito inalienável de gru­
pos praticarem sua religião, um a vez que estivessem dentro da
Lei (e estavam). De igual maneira, e seguindo os mesmos princí­
pios, Saldanha Marinho, cumpriu seu papel maçônico ao redi­
gir sua matéria no “Diário do Rio de Janeiro”, denunciando vio­
lentamente as autoridades que fizeram vista grossa aos lam en­
táveis episódios promovidos contra os congregacionais em Niterói
e na Freguesia de São José. Na realidade pretendia o já famoso
“Ganganelli” reiterar publicamente os desvios que o país estava
tomando pela força da irracionalidade e intolerância religiosa
de alguns.
Todas as reivindicações levantadas ao governo pelos pro­
testantes encontravam ressonância nas posições dos liberais e
dos maçons. Além daquelas que, conforme acima mencionamos,
guardavam coerência com os valores éticos da Ordem, outras
encontraram ressonância entre os maçons dado o lado político
da oportunidade, como foi o caso da campanha em favor da
imigração. O desejo, de Fletcher e Kalley, de verem liberada e
incentivada a entrada de novos imigrantes protestantes vindos
principalmente dos EUA, tinha nos maçons diversos aliados fi­
éis, do porte de Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho e Tavares
Bastos e de boa parte de autoridades do governo. O Trono reco­
nhecia que precisava m odernizar o país, dada a escassez de
mão-de-obra especializada portadora de novas tecnologias para
a agricultura, para construção de novas estradas, portos e in­
dústria de base e de transformação. Os governantes estavam,
de certa maneira, ao lado dos protestantes na política de atrair
imigrantes. Grupos de interesse se uniram para formar entida­
des voltadas a promover a imigração. Os maçons citados esti­
veram completamente engajados nesta política. O Prof. Ricardo
AN TIM AÇ O NARIA 277

Mário Gonçalves, em recente obra histórica que organizou, des­


creve o perfil biográfico de Quintino Bocaiúva, ressaltando o
envolvimento deste ilustre maçom brasileiro, que encantado com
a perspectiva de um a república progressista se lança na cam­
panha nacional em favor da imigração de mão-de-obra especi­
alizada:

n a q u e le m om en to era g e n e ra liz a d a a con v icçã o d e que o


in e v itá v el fim d o regim e escra vista esta va ba sta n te p róx im o . L og o
[da obra ‘A Crise da Lavoura’] afirm a va o
nas p rim e ira s p á g in a s
a u to r [Quintino Bocaiúva]: ‘O la v ra d o r b ra s ile iro d eve reco n h ece r
q u e ch eg ou já , p o r im p o s içã o d o destin o, a o reg im e d o tra b a lh o
a s s a la ria d o ’ . F u n d a m e n ta d o n e s s a p re m is s a , a b o rd o u ele em
se gu id a d u a s g ra n d e s q u estões: a Im ig ra çã o e a C olonização. A
p rim e ira d everia s e r en ca ra d a no se u ca rá te r so cia l e m ora l e a
ú ltim a no se u a s p ecto econôm ico. A b o rd a n d o a im igração, d e cla ­
rou e le q u e o p ro c e s s o esta va a s e r en tra v a d o p o r p re c o n c e ito s de
n a cion a lid a d e e d e religiã o q u e ved a va m ao im ig ra n te d ireitos p r e ­
ciosos e g a ra n tia s ele m e n ta res...”36

In sp ira d o em m otivos d iversos, in clu sive os p o lítico s


relembrados acima, Quintino Bocaiúva foi um dos mentores e
dirigentes da chamada “Sociedade Internácional de Imigração”
organizada no Rio de Janeiro em 1866. O propósito era um só:
atrair imigrantes para o país. O grupo dirigente e articuladores
contavam com em presários, p olíticos e m açons: Caetano
Furquim de Almeida (1816-1879), banqueiro, Quintino Bocaiúva
(maçom), Dep. Aureliano Tavares Bastos (maçom), Joaquim
Saldanha Marinho (maçom), o missionário L. Cooley Fletcher e
outros37. Ainda que houvesse discussões sobre a origem dos
imigrantes: uns queriam mais chineses (Senador Vergueiro e
Quintino Bocaiúva) outros os europeus e americanos confede­
rados (Tavares Bastos), o fato é que o movimento conseguiu seus
objetivos lançando mão do poder político de articulação dos seus

36 Ricardo Mário Gonçalves (org.), “ QUINTINO BOCAIUVA ns 10”. A Trajetória de Uma Loja Macônica
Paulistana (1923-19 9 8 f. Sec. Do Estado da Cultura - Divisão de Arquivo do Estado, Imprensa Oficial.
S.Paulo, 1998, págs. 22, 3.
37 Castellani e Cláudio Ferreira relatam-nos que também em Sáo Paulo, por iniciativa do político
maçom e agricultor, Martinho Prado Junior (Martinico Prado) (1842-1906), foi criada a “Sociedade
Promotora da Imigração”, devotada aos mesmos objetivos daquela criada no Rio de Janeiro por Quintino
Bocaiúva. Cf. José Castellani e Cláudio Ferreira, “AMIZADE. A Primeira Loia Macônica na História de
São Paulo - (1832-1996F. Ed. Amizade. São Paulo, 1996, pág. 85.
278 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

componentes38. Protestantes vieram, no final dessa historia, a


ser privilegiados com a vinda de imigrantes americanos - confe­
derados principalmente. Eram os maçons, com Tavares Bastos
e Quintino Bocaiúva à frente, a oferecer essa ajuda aos interes­
ses protestantes.
A a p ro x im a ç ã o e n tre p ro te s ta n te s (p re s b ite ria n o s e
congregacionais principalmente) e maçons em todo esse perío­
do era muito estreita. Essa circunstância não passou desaper­
cebida nos estudos do Prof. Vieira e outros poucos historiado­
res, como tam bém se evidenciou aos olhos do próprio clero
transmontano. Os fatos históricos estão a demonstrar que um
grupo colaborava com o outro e de maneira bem estreita:

• S e gu n d o o u ltra m o n ta n o B is p o d e O linda, D o m Vital, ex p res­


sa n d o su a p re o c u p a ç ã o com o q u e ch a m ou d e “a v a n ço d o p ro te s ­
ta n tism o no B ra s il”, em ca rta q u e d irig iu ao seu coleg a argentino,
B is p o F re d e rico A n e iro s, d iz ia : “re p re s e n ta v a u m g ra n d e p e rig o
p a r a a n a ç ã o ”. “A M a ç o n a ria ”, com p leta va ele, “era a fo r ç a p r o ­
p u ls o ra p o r trá s d a p ro p a g a n d a p ro te s ta n te e d e tod a a a g ita çã o
con tra o u ltra m o n ta n is m o ...”39
■ Rev.
Simonton, fundou no Rio de Janeiro o jornal “A Im p re n ­
em 5 de novembro de 1864, era o emissário da
sa E va n gé lica ”
mensagem protestante na Capital do país - que afinal incomo­
dou muita gente, mas que teve muitos leitores importantes, não-
protestantes até, como: Francisco de Paula e Souza, Ministro da
Agricultura e a mãe do lider dos maçons, Saldanha Marinho. A
propósito da vida e posição política desse jornal, o Prof. Vieira
relata que:
“O jornal durou 25 anos. Era especialmente dedicado a as­
suntos religiosos... tinha também seção de notícias que lidava
com assuntos não religiosos e não estava isento de tecer comen­
tários sobre política que pudesse afetar a liberdade de culto, os
direitos civis dos acatólicos e a imigração dos protestantes... [fo­
ram encontradas nele] contribuições assinadas por Tavares Bas­
tos, José Eloi Ottoni, Dr. Miguel Vieira Ferreira e Cari von Kozeritz ” .
A melhor evidência histórica, porém, da cooperação protestante-
maçônica foi a demonstração de reconhecimento dada pelo jor­
nal a três ilustres maçons, relatados pelo Prof. Vieira no mesmo
texto:

38 David Gueiros Vieira, op. cit. págs. 223-226, 242-247.


39 David Gueiros Vieira, op. cit. pág. 346.
ANTIM AÇONARIA 279

‘A Im p re n s a E v a n g é lic a ’ d esv io u -s e d e su a s n o rm a s p a ra
lo u v a r três rep u b lica n os: 1) O S e n a d o r T eófilo O ttoni, p o r oca siã o
d o se u fa le c im e n to em 1869, a q u em ch a m ou d e ‘o p re c u rs o r h is ­
tórico d o d estin o d a n a ç ã o ’; 2 ) ‘G a n g a n e lli’ (S a ld a n h a M a rin h o) a
q u em ch a m ou d e ‘u m b en feitor d a P á tria ’, na oca siã o d a p u b lic a ­
çã o d o p rim e iro volum e d e su a obra in titu la d a ‘A Ig re ja e o E s ta ­
d o ’; e 3 ) Dr. M ig u e l Vieira F e rre ira e s e u s com p a n h eiros rep u b lica ­
n os d a s ‘E s co la s d o P o v o ’.”V1
• Um episódio em São Paulo, registrado independentemente
por dois historiadores, Prof. V ieira e C astellani, são
paradigmáticos da cooperação que existia no Segundo Império
entre os imigrantes protestantes e os maçons. Parte do que se
conhece, resulta de documentação deixada pelo Rev. Ashbel G.
Simonton, missionário presbiteriano pioneiro, e analisada pelo
Prof. Vieira. Simonton relatava que São Paulo já contava com
muitos protestantes em 1860, dada a grande colônia de alemães
(Luteranos) e ingleses (provavelmente Presbiterianos, Episcopais
e Metodistas). Cerca de 700 alemães se diziam protestantes,
Luteranos. Provavelmente era na ocasião o maior contingente de
protestantes na cidade, no meio de uma colônia de germânicos,
que num raio de 45 km do centro estimava-se em 6.000 pes­
soas. Conforme ainda o relato de Simonton, os protestantes -
com dificuldades em encontrar na cidade um local para os seus
cultos e mesmo impossibilitados de erigir templos próprios -
chegaram a optar pelo aluguel de um salão cedido por uma loja
maçônica. Citando depoimento do Rev. Hõzel, pastor daquela
comunidade, Simonton dizia que, por dificuldades financeiras,
impossibilitados de pagar o aluguel aos maçons, haviam desisti­
do de usar o salão. Os maçons paulistas, entretanto, insistiram
que os serviços religiosos continuassem e chegaram a oferecer o
salão gratuitamente ao vigário4 41. Estudos e pesquisas recentes,
0
revelando a história da mais antiga das lojas maçônicas da cida­
de de São Paulo, “AMIZADE”, realizados por José Castellani e
Cláudio Ferreira, permitiram extrair preciosa informação sobre
os cultos dos protestantes em São Paulo. A ata da Sessão da loja,
datada de 15 de maio de 1858, contém a seguinte informação,
aqui destacada “in v e rb is ”:
“... O tronco de propostas produziu uma peça de architetura
propondo que se empreste para, os Domingos, aos nossos Ir­
mãos Protestantes, para celebrarem os actos de sua religião as
salas externas deste Templo. Requerida a urgência e concedida
foi a proposta approvada.... e dando a palavra á bem da Ordem

40 David Gueiros Vieira, op. cit. pág. 149.


41 David Gueiros Vieira, op. cit. pág. 140.
280 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

em geral e da Loja, o I.: H.: Schroeder, agradece á Loja o emprés­


timo das salas aos nossos Ilr.: protestantes; ao que respondeo o
L: Venerável...”42

O episódio em si mesmo é testemunho exemplar da convi­


vência fraterna existente entre os maçons e protestantes na épo­
ca. É especialmente revelador denominar os “Irmãos Protestan­
tes” . A loja, além de contar com vários clérigos católicos, confor­
me o registro de Castellani, contava com “Irmãos Protestantes”
também. Esse relacionamento estendeu-se por longo tempo, atra­
vessando mesmo o período inicial da República. Os maçons
prosseguiram oferecendo apoio à expansão do protestantismo
no Brasil. Pastores e leigos, protestantes (presbiterianos e epis­
copais) integravam muitas lojas maçônicas. O Prof. Vieira, em
seu trabalho já referido, cita alguns nomes de pastores e líderes
presbiterianos e de outras denominaçõe que foram maçons.
Além das denominações já citadas, que chegaram com os
seus missionários nos anos 50 e 60 do Séc. XIX, os Batistas,
que aqui chegaram nos anos 80, também enfrentaram dificul­
dades, embora - pelo menos em parte - o terreno já estivesse
pavimentado pelos pioneiros congregacionais, presbiterianos,
episcopais e luteranos. O primeiro casal de missionários batis­
tas, com issionados pela Junta de M issões E strangeiras de
Richmond, Va, da Convenção Batista do Sul dos EUA, aportou
à cidade do Rio de Janeiro em 1882: William e Anne Bagby, logo
depois seguidos dos casais Zachary e Kate Taylor. Organizaram
igrejas em Salvador, no Rio de Janeiro e em Niterói como ponto
de partida.
Os batistas, como sempre foi o seu feitio, foram, e ainda
são, pró-ativos na evangelização, organizando pontos de prega­
ção, difundindo literatura bíblica, “plantando” igrejas e congre­
gações, iniciando na região do Estado do Rio de Janeiro, de
mais fácil acesso. Não foi fácil, todavia, o estabelecimento das
suas primeiras igrejas e pontos de pregação. A história dos
batistas é, como a dos protestantes que lhes antecederam, pon­
tilhada de lances de dificuldades com grupos de oposição, de
grupos católicos, apesar de a República já haver consagrado a

42 José Castellani e Cláudio Ferreira, “AMIZADE. A Primeira Loja Maçônica na História de São Paulo -
1832-1996”. Ed. Amizade, São Paulo, 1996, pãg. 54.”
ANTIM AÇONARIA 281

nova Constituição estabelecendo a liberdade de culto e a sepa­


ração entre Igreja e Estado, pouco depois da obra batista ser
instalada no Brasil.
Pelos contatos e relatos pessoais havidos com alguns anti­
gos obreiros batistas, que tivemos a oportunidade de conhecer
em Niterói, nos anos 60, foi possível perceber alguns aspectos
do estabelecimento de seus trabalhos no início do Séc. XX: (1)
alguns dos pastores batistas que pessoalmente conheci, diri­
gindo igrejas do interior do Estado do Rio de Janeiro, eram tam ­
bém maçons, embora não fizessem dessa condição qualquer
menção pública. Mantinham esta condição discretamente. Co­
nheci obreiros (pastores, diáconos e pregadores leigos), líderes
do trabalho batista em Niterói e no interior do Estado, em cida­
des como Rio Bonito, Maricá, Campos e São Gonçalo, que eram
maçons. Muito se ouvia falar das dificuldades que foram en­
frentadas por esses e outros obreiros no início dos seus traba­
lhos nas cidades do interior, onde o clero tinha poder e força
política consolidados. O fato de serem maçons teria facilitado a
tarefa inicial naquelas cidades, é o que se dizia; (2) não poucos
m issionários am ericanos batistas, que por aqui vieram nos
prim ordios do estabelecim ento das prim eiras igrejas, eram
maçons. Afinal de contas, a história dos batistas norte-america­
nos, nos EUA, é pontilhada de líderes (pastores, diáconos e lei­
gos) que também eram, e são, maçons (para tristeza e decepção
dos neofundamentalistas). Tive contatos, ainda nos anos ses­
senta, com alguns missionários americanos - em Niterói e Brasília
- que eram maçons, iniciados nos EUA. A Primeira Igreja Batis­
ta de Niterói, da qual tive o privilégio e honra de durante mais
de vinte anos ser membro, foi fundada em P de maio de 1892
por sete pessoas. Seus primeiros pastores eram missionários
americanos: William Buck Bagby, foi o primeiro e seu fundador;
Salomão L. Ginsburg, pastoreou a igreja em dois períodos, 1892-
1895 e 1913-1914; W. E. Entzminger, foi seu terceiro pastor,
havendo conduzido aquele rebanho em diferentes períodos, o
último dos quais foi o de 1915 a 1917. O primeiro brasileiro a
pastorear aquela igreja foi o educador, fundador do Colégio Ba­
tista de Niterói, Manoel Avelino de Souza, no período 1917-1962,
que tive o privilégio de pessoalmente conhecer, ser por ele bati­
zado e ouvir-lhe preciosos ensinamentos do Evangelho.
A história desta igreja traz-nos dois ingredientes interes-
282 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

santes que dizem respeito ao discreto relacionamento maçona-


ria-pro testan tism o:
(1) Seu segundo pastor, um missionário judeu, convertido
ao cristianismo, Salomão L. Ginsburg (1867-1927), era maçom
e esta condição nunca ocultou de ninguém. Sua foto, exibida na
galeria dos ex-pastores da igreja, mostra o obreiro portando na
lapela do seu paletó escuro um a pequena jóia com o tradicional
símbolo do esquadro-e-compasso. Seu nome tornou-se tão gra­
to aos m açons, que foi hom enageado posteriorm ente como
patrono de um a das lojas maçõnicas da jurisdição da Grande
Loja do Estado do Espírito Santo, a Loja “Salomão Ginsburg n2
03” - de Cariacica/Campo Grande, ES. Ao se referir ao depoi­
mento de Tácito da Gam a Leite Filho, em obra editada pela
JUERP (Editora oficial dos batistas), o Prof. Horrell menciona
que o fato de Ginsburg haver sido maçom facilitou sua tarefa
evangelística, “isto lhe valeu como proteção de muitos perigos ,
pois o inimigo de ambos era comum: o catolicismo”434.
(2) Há evidências de que os tumultos contra as igrejas ba­
tistas aconteceram, quase que com as mesmas características
dos distúrbios de 1863 e 1864 em Niterói, Santa Rita e São
José, contra os congregacionais. A história da Primeira Igreja
Batista de Niterói, hoje a m aior igreja batista do hemisfério sul,
com cerca de oito mil membros, tem um dado importante, que
devemos destacar. Pouco depois de organizada, no seu segundo
ano de vida, seus poucos obreiros sofreram grande persegui­
ção. Em 14 de abril de 1901, diz o texto histórico:

“ ... q u a n d o p e la c ru e l p e rs e g u iç ã o , tiv e m o s n o sso s m óveis,


p ú lp ito , p e rte n c e s e d iv erso s u ten s ílios q u eim a d o s em p le n a rua,
con form e n oticiou o jo r n a l ‘O P a ís ’ . M as, com o co s tu m a m os m en ­
cion a r: ‘A s cin za s d a qu e la s ch a m a s ca íra m so b re N iterói, e h oje
co lh e m o s os fr u to s /”*4

Interessante que o incidente, em pleno Brasil República,


ocorre entre os dois períodos do pastorado de Ginsburg. Nesta
época o pastor da igreja era o m issionário am ericano W.E.
Entzminger.
A história dos batistas, pioneiros no Brasil, e o papel dos

43J. Scott Horrell, op. cit. pág. 38.


44 Histórico da Primeira Igreja Batista de Niterói, cf. http://www.pibn.org.br/phist.htm
ANTIM AÇONARIA 283

maçons, é ainda assunto a ser melhor estudado pelos historia­


dores. Sou inclinado a admitir que as experiências anteriores
dos pioneiros m issionários protestantes, Sim onton, Kalley,
Fletcher e outros, certamente eram do conhecimento da Junta
de Missões Estrangeiras de Richmond, Va, da Convenção Batis­
ta do Sul dos EUA. Responsável que foi pelo envio dos primeiros
missionários, certamente a Junta de Richmond não o faria sem
antes melhor conhecer o terreno e suas dificuldades. O papel
dos maçons, em defesa da liberdade de culto e da separação
entre Igreja e Estado, coincidentemente um a bandeira também
dos batistas - como já assinalamos - era conhecido dos dirigen­
tes da Convenção Batista do Sul dos EUA. Assim, enviar ao
Brasil missionários que, além de dominar nossa língua, fossem
maçons ou tivessem algum relacionamento com a Ordem, cer­
tamente poderia contribuir para evitar males maiores e contor­
nar as dificuldades por que já haviam passado Kalley e seus
irmãos congregacionais em Niterói.
Excetuando-se o fato de que batistas maçons sempre foram
encontrados em posições diversas da Igreja (entre pastores, pre­
gadores, professores, e leigos) dos EUA, creio eu poder assim
explicar a presença de maçons, como Ginsburg, entre os pri­
meiros missionários batistas que aportaram ao Brasil. Não se­
ria de se estranhar que missionários, membros também da Or­
dem, fossem enviados para o campo brasileiro.
O exame das experiências, descritas e documentadas, so­
bre a cooperação entre maçons e protestantes, evidenciam que
os dois grupos estiveram operando paralelamente pelo bem de
um a nova organização política que consagrasse princípios e va­
lores liberais: separação entre Igreja e Estado, liberdade de cul­
to, tolerância religiosa, igualdade, respeito ao indivíduo e à sua
liberdade de consciência. De certa forma, esta cooperação atra­
vessou os tempos chegando até os nossos dias sem que as cha­
madas denominações históricas levantassem suspeitas ou acu­
sações à Ordem. A única exceção foi a ruptura interna da Igreja
Presbiteriana em 1903. Duas facções, um a favorável e outra
contrária à maçonaria, resultou na cisão de onde se originou a
Igreja Presbiteriana Independente. Ainda assim há quem espe­
cule se, de fato, foi a maçonaria a responsável pela dissensão,
ou apenas um bode expiatório a encobrir outras questões inter­
nas não tão visíveis. Em realidade, a cisão da Igreja Presbiteriana
284 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

teve como pano de fundo a luta pelo controle da própria Igreja


entre os que defendiam m aior autonomia nacional dada a capa­
cidade evidente do clero local e os que favoreciam ainda os laços
com a Igreja-mãe dos EUA.

“A existê n cia de u m clero n a cion a l m e lh o r q u a lifica d o e d e u m


s e to r de cla ss e m éd ia m a is bem ed ucado, en tre os p rotes ta n tes ,
vai co n co rre r p a ra o su rgim en to d e u m ‘esp írito n a tiv is ta ’, d e luta
p o r autonom ia , em rela çã o às igre ja s-m ã e s norte-am ericanas. E m
31 d e ju lh o d e 1903 era con s titu íd a a Ig re ja P res b iteria n a In d e ­
p e n d e n te , q u e fiz e ra da ‘q u es tã o m a çô n ica ’ [o cren te não d everia
p e rte n c e r a u m a L o ja j o p o n to d e lu ta con tra a tu tela dos m ission á ­
rios. F o rtís s im o m ov im e n to n a cio n a lis ta va i s e r en co n tra d o, nos
an os 20, en tre ba tista s do N ordeste, levando, inclusive, à cria çã o
d e co n v en çõ es s e p a ra d a s ”, sustenta o Prof. Robinson Cavalcanti
em sua apreciação histórica sobre os primordios do protestan­
tismo no Brasil.45

Se considerarmos então o conjunto das denominações pro­


testantes históricas, nenhum evento digno de nota é registrado
na história brasileira evocando rusgas entre protestantes e
maçons. Maçons protestantes existem no país, inclusive pasto­
res e líderes, e suas posições, como tais, são mantidas discre­
tas, mas jam ais, desconfortantes em seus ambientes religiosos.
Este parece ser o traço característico das relações entre ambos
ao longo de nossa história.

45 Robinson Cavalcanti, op. cit. pág. 181.


ANTIM AÇONARIA 285

CAPÍTULO IX

Conclusões Provisórias

Não estamos diante de um problema simples. Entender neo-


fundamentalistas, seus discursos, praxis e motivações requer
mais do que a simples leitura de seus textos. Um fosso parece
estar sendo criado entre as posições de grupos religiosos neo-
fundamentalistas, a Ordem dos Pedreiros Livres e outras orga­
nizações com objetivos, doutrinas, visões e características dis­
tintos dos prim eiros. Os m otivos que estão im pelindo B ill
Schnoebelen, um ex-maçom que chegou ao Grau 32, a escrever
o que escreve e divulgar o que divulga a respeito dos maçons,
não oferece resposta completa à questão central: por que desses
ataques aos maçons e à maçonaria, neste fim de século partin­
do dos EUA? Muitos outros ex-maçons no passado fizeram o
mesmo. Temos de examinar muitas outras facetas do fenômeno
antimaçônico atual para entender as suas origens e motivações
não tão explícitas. Nos dias atuais, os inflamados discursos e
obras escritas e divulgadas contra os maçons e a maçonaria,
acusados de heresias, conspirações internacionais e satanismo,
podem estar encobrindo motivações muito mais importantes do
que poderiamos pensar após a leitura isolada desses autores.
Temos certeza de não estar atacando o problema em sua
plenitude. A reflexão que possa induzir um a resposta, seja qual
286 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

for, não passaria de especulação. Tentam os nos afastar das


abordagens feitas pela maioria dos maçons que se debruçam
sobre o tema: organizar refutações um a por um a às acusações e
críticas que são feitas à Ordem. Preferimos entender as princi­
pais motivações que, declaradamente ou não, conscientemente
ou não, impelem os neo-antimaçons a atacar a Ordem nesses
turbulentos dias de fim do Séc. XX. Pretendemos entender o
pano de fundo que tem trazido à tona, específica e concentrada­
mente, nos anos 90 do Séc. XX, um a verdadeira avalanche de
livros, panfletos, programas de rádio e vídeos, especializados
em atacar a maçonaria. Umas das questões-chave parece-nos
ser: Por que esta avalanche acusatoria veio concentrada na úl­
tima década do Séc. XX ?
Nossa tentativa de examinar o assunto, começa com uma
ressalva. Uma afirmação feita hoje poderá ser completamente
refutada amanhã. Estamos assim ensaiando um conjunto de
idéias provisórias, a guisa de conclusões, como um a sugestão
para nortear maçons a respeito da provável origem da onda neo-
fundam entalista que, cremos, estará entre nós com toda a
força em futuro breve, mais explícitamente do que podemos
hoje perceber. Diante, porém, dos dias que correm, tão carrega­
dos de incertezas e transformações, chamamos de provisórias
estas conclusões.
O campo está aberto a investigações e o terreno é fértil para
estudiosos da Ordem, especuladores e outros interessados ten­
tarem extrair outras idéias e contestarem as nossas.
No meio do verdadeiro alvoroço por que passa o mundo nos
dias atuais, somente um a coisa é certa: a crescente incerteza
sobre o que vem pela frente. Profetas, videntes e advinhos têm
mercado seguro para “vender” suas “premonições” , mais do que
em qualquer época anterior. Como será o nosso amanhã? Ha­
verá um a terceira guerra mundial? Os EUA perderão seu poder
hegemônico? Quando e como a economia tomará novo rumo
em direção à criação de novos empregos e do progresso do nos­
so paus? Quem consegue dar alguma pista, tem audiência ga­
rantida, interessada em ouvi-lo. Os dias atuais demonstram,
pela rica bibliografia disponível, que obras sobre “A Nova Era” ,
“O Terceiro Milênio” , “A Era de Aquário” , “Futurologia”, ‘Nova
Ordem M undial’ e outras similares têm encontrado um a aceita­
ção e procura cada vez maior. O homem está cada vez mais
ANTIM AÇONARIA 287

ávido por notícias e idéias que possam orientá-lo quanto ao fu ­


tu ro. S o m en te o p a s to r a m erica n o e te le e v a n g e lis ta Pat
Robertson, neo-antimaçom e futurologista, diz haver vendido
até 1994 mais de 500 mil exemplares de seu best seller “The
New World O rd ef [A Nova Ordem Mundial]. O escritor visioná­
rio americano, Hal Lindsey, autor de “The Late Great Planet Earth’
(O Fim do Planeta Terra) e “The Final Battle” (A Batalha Final)
(1995) e dez outras obras apocalípticas, anunciou recentem en­
te a venda de um total de 35 milhões de exemplares de suas
obras em todo o mundo.
O bservam os duas form as principais de com portam ento
grupai: (a) há os que tentam entender o que ocorre, aproprian­
do-se do máximo de informação, aprendendo, ganhando conhe­
cimentos para adaptarem-se aos novos tempos, inovando e en­
frentando as mudanças que virão; e (b) há também os que, sem
entender exatamente o que virá ou então preferindo relegar esse
entendimento a plano secundário, carregam suas prioridades
de ação para assegurar seu lugar, seu terreno conquistado, ado­
tando postura defensiva, construindo “muros” de proteção ou
se contrapondo ostensivamente às ondas de mudanças com os
meios que dispuserem.
Posturas identificadas nas empresas fornecem boas ilus­
trações sobre o que estamos querendo dizer com tudo isto. Da­
das as incertezas da economia, no mercado dos negócios agora
globalizados, há empresas que adotam a postura (a), procuran­
do entender a direção das mudanças nas tecnologias e no seu
mercado (nas preferências e nos perfis dos seus clientes, nas
estratégias dos seus concorrentes e nas políticas econômicas de
cada país), para continuamente ajustar seus produtos, seus in­
vestimentos em pesquisa e desenvolvimento, no treinamento de
suas equipes e nas suas formas de promover e vender seus pro­
dutos. São empresas que “aprendem” continuamente sobre o
seu negócio e procuram se ajustar aos novos tempos de incer­
tezas e mudanças. Há outras que, sem procurar ostensivam en­
te entender o que acontece nos seus mercados, tecnologias e
economia, procuram sobreviver atribuindo prioridade à cons­
trução de “m uros” de defesa. Pleiteiam proteções, quando a
competição se aguça ou quando a economia se enfraquece, es­
peram que as autoridades resguardem-nas de competidores e
das dificuldades de conjuntura, promovem acordos com parcei-
288 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ros para formação de cartéis, fixam-se em suas antigas e ultra­


passadas estratégias, etc. Tudo procuram fazer, menos enten­
der, com m aior profundidade, o que acontece ao redor, para
ajustar-se aos novos tempos. Neste fim de Séc. XX temos ouvido
e conhecido empresas que adotam um ou outro comportamen­
to. Quem poderá sobreviver? Os do grupo (a) ? Os do grupo (b)?
Estamos assistindo a muitas mortes de empresas nos dias que
correm. Como também vemos empresas inovadoras vitoriosas
surgirem no mercado internacional, sem que delas ouvíssemos
falar poucos anos atrás.
A questão de sobreviver ou não, não é central para os nos­
sos propósitos. O importante é usarmos desse modelo, com as
devidas precauções, para entender a questão neo-antimaçonaria
e fundamentalismo nesta virada de milênio. Toda a analogia
tem imperfeições, e pode nos induzir a erros, por isso temos de
usá-la com cuidado.
G ru p a m en to s p o lític o s c o n s e rv a d o re s , p or d e fin iç ã o
c o m p o r ta m e n ta l, se e n q u a d ra m n a p o s tu r a (b ). São
preservadores incansáveis de valores, defendem-nos com vigor
e estão sempre prontos a propagá-los. A entrada de mudanças
sociais e/ou políticas, e suas incertezas, que conflitem com seus
valores e praxis, é vista como ameaça. Estão dispostos a enfrentá-
las, contrapor-se a elas e denunciar seus males, conforme suas
in te rp re ta ç õ e s . M as, ra ra m e n te e s ta rã o d is p o s to s a se
reposicionar revendo seus valores e premissas. Os conservado­
res tendem a imputar às ondas modernistas - secularistas -
todos os males éticos e socioeconómicos de nossos dias, daí
propor a preservação de valores das tradições e da religião.
O fenômeno de mudança económico-social que ocorreu no
Séc. XIX no Brasil, após o desencadeamento das restrições à
escravidão - culminando com a abolição em 1888 - fornece um
exemplo ilustrativo onde se identificam grupos com os dois com­
portamentos que citamos. A política de abolição gradativa da
escravatura impôs drásticas mudanças na estrutura da produ­
ção, em especial, na agricultura. A mão-de-obra escrava, a cus­
to praticamente zero, não estaria mais disponível como até en­
tão. Com o fim da escravidão, a mão-de-obra de custo zero, ou
praticamente zero, deixava de existir. O escravo estava sendo
libertado. Como sobreviver então dos ganhos da produção nes­
ta nova condição? era a pergunta que se fazia o produtor rural
ANTIM AÇONARIA 289

e seus representantes políticos. Viviam tempos de mudança ra­


dical. Plantadores de café de São Paulo e senhores de engenho
de Pernambuco passaram a enfrentar a dura realidade: a inter­
venção radical na vida das comunidades do interior com pro­
fundo impacto em toda economia. Os donos da terra e da pro­
dução agrícola, que até então só sabiam produzir e comercializar
com base no modelo escravista, tinham de encontrar novos ru­
mos. Como reagiram os diferentes grupos?
Movimentos surgiram para encontrar saídas, orientar as
ações de governo e do empresariado, sobretudo da área agrícola
(um dos grandes responsáveis pela geração de nossa riqueza na
época). Era necessária a incorporação de nova mão-de-obra no
campo, mais capaz e portadora de novas técnicas, após a libe­
ração dos escravos. Um grupo de empresários e políticos de São
Paulo engendraram um caminho: por que não estimular a im i­
gração? O imigrante europeu e americano era bem-vindo, na
perspectiva desses grupos, por sua capacidade técnica e expe­
riência. Homens de visão, políticos e empresários, como Martinico
do Prado (1842-1906), maçom, em São Paulo, reuniram-se e
formaram a “Sociedade Promotora de Imigração”, em 02 de ju ­
lho de 1886. Tinham como objetivo atrair imigrantes, capazes e
bem-preparados, colocá-los no trabalho assalariado do campo
e promover sua perfeita integração entre os brasileiros. Diz José
Castellani, a respeito dessa iniciativa do grupo paulista:

"... isso con trib u iu p a ra a p a u la tin a su b stitu içã o do braço es­


cra vo p e lo tra b a lh o d o im igrante, j á a n tes d a A b oliçã o. M a rtin ico
f o i vá ria s vezes à E uropa , a ssistin d o ao em b a rq u e d e im igrantes,
em G ênova, a com p a n h a n d o-o s ao B ra s il.”1

Outras iniciativas similares surgiram em outros pontos do


país, capitaneadas por homens que analisaram o fenômeno,
conheceram suas condições de contorno e foram capazes de
.prom over ações concretas para a solução do problema de subs­
tituição da mão-de-obra escrava. O incentivo organizado em fa­
vor do imigrante europeu e norte-americano foi o que engendra­
ram para substituir a m ão-de-obra escrava. Grupos liberais,

1 J. Castellani, “ Os Macons aue Fizeram a História do BrasiF. Ed. A Gazeta Maçônica, São Paulo,
1973, págs. 114, 5.
290 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

associados com os protestantes e maçons, formavam aquela fra­


ção da sociedade brasileira que procurava apropriar o melhor
conhecimento disponível e adaptar-se à nova realidade organi­
zando novas soluções. Formavam o que estamos aqui denomi­
nando Grupo (a). Segundo nossa perspectiva, buscavam solu­
ções em lugar de criar novos problemas.
Mas nem todos pensavam e agiam assim. Muitos ainda so­
nhavam com a manutenção do regime escravista, retendo o con­
trole sobre a mão-de-obra então semi-escravizada, assalariada
no nível de m iséria quase absoluta já que não existia legislação
protetora do trabalho assalariado no início da república. Ou­
tros, preocupados com a invasão em massa de imigrantes, ten­
tavam levantar barreiras à entrada de “certos estrangeiros”.
Queriam erguer “muros” em defesa do status quo. Não entendi­
am todo o cenário de transformações, ou faziam questão de não
procurar entendê-lo. Em verdade eram os ultramontanistas que
deitavam falação contra a liberalidade com que o Trono estava
tratando a entrada de levas de confederados, protestantes nor­
te-americanos. Campanhas foram levantadas contra o movimen­
to de imigração de protestantes por conta do temor do clero
ultramontano com o que chamavam de “invasão protestante”.
Esse exemplo ressalta caracteres distintivos de dois grupos
que saltam-nos aos olhos: de um lado, o Grupo (a) formado por
liberais (associados aos maçons e protestantes, esses com dese­
jo de trazer ao Brasil imigrantes norte-americanos, por sua vez
interessados em deixar os EUA, após a Guerra de Secessão),
convencidos de que este caminho daria solução à demanda de
mão-de-obra. Do outro lado, o Grupo (b) constituído dos que,
adstritos ao status quo, refutavam os planos de imigração, com
base no receio de um a invasão do país pelos protestantes - fac­
ção cristã condenada por Roma.
Interessante, pela evidência gritante desse caso, é o depoi­
mento exposto pelo Professor Ricardo Mário Gonçalves, em sua
obra lançada em 1998, sobre a h istória da Loja M açônica
“Quintino Bocaiúva na 10” . Ao apresentar um a sinopse biográ­
fica do patrono da referid a oficina, um dos pais e grande
articulador da política de abertura do país à imigração, ressal­
ta:

“E m 1868 [Quintino] B o ca iú va la n çou u m texto im p orta n te p a ra


ANTIM AÇONARIA 291

o con h ecim e n to d e se u p e n s a m e n to socio p olítico: ‘A C rise d a L a ­


v o u ra ’. N a q u e le m om en to j á era g en e ra liz a d a a con v icçã o d e qu e
o in e v itá v el f im d o regim e escra vista esta va b a s ta n te p róxim o. L og o
nas p rim e ira s p á g in a s a firm a va o a u tor: ‘O la vra d or bra sileiro d eve
reco n h ece r q u e ch eg ou já , im p osiçã o d o destino, ao regim e d o tra ­
b a lh o a s s a la ria d o ’. F u n d a m en ta d o n essa p re m is s a , a b ord ou ele
em segu id a d u a s g ra n d e s q u es tõe s: a Im igra çã o e a C olonização.
A p rim e ira d everia s e r e n ca ra d a no seu c a rá te r m o ra l e so cia l e a
ú ltim a no se u a s p ecto p o lític o e econôm ico. A b o rd a n d o a im ig ra ­
ção, d e cla rou ele q u e o p ro c e s s o esta va a s e r en tra v a d o p o r p r e ­
c o n ce ito s d e n a c io n a lid a d e e d e re lig iã o q u e ve d a v a m a o s im i­
g ra n te s d ireitos p re c io s o s e g a ra n tia s elem en ta res”2, avalia o pro­
fessor Ricardo.

Mais revelador ainda, de todo esse depoimento do insigne


historiador maçom, Prof Ricardo Mario Gonçalves, é sua obser­
vação ao final da citação a respeito do pensamento de Quintino
Bocaiúva:

“E s s a s o b s e rv a çõ e s , em que p e rce b e m o s o b a f e jo do
u n iv ersa lis m o m açônico, co n tin u a m h o je a res s o a r em n ossos ou ­
vid os com o a lg o m u ito a tu a l: n este fin a l d e Séc.XX, em qu e ex p lo­
d em os ód io s n a cion a lis ta s e fu n d a m e n ta lis ta s , os p re c o n c e ito s
d e n a cion a lid a d e e d e religiã o estão m a is fo rte s d o q u e n un ca”3.

Parece a história se repetindo hoje, com grupos reagindo


irracional e defensivamente aos novos tempos, com preconcei­
tos de toda a sorte, criando barreiras de todo o tipo e fazendo
questão de não procurar entender o processo de mudança em
que todos nós estamos metidos.
A história está registrando a presença de grupos (a) e (b),
com posições bem distintas, sempre que mudanças de grande
porte e profundidade rondam o ambiente. No passado era a
estrutura de produção que mudava de mão-de-obra escrava para
mão-de-obra assalariada. Agora, entre outros importantes tra­
ços de mudança, está a estrutura dos mercados: antes, para
assegurar a sobrevivência de suas indústrias, os governos lan­

2Ricardo Mário Gonçalves (org.), “ Quintino Bocaiúva nP 1 0 -A Trajetória de uma Loia Macônica Paulistana
(1923-1998T. Divisão do Arquivo do Estado, SP, 1998, pãgs. 22, 3.
3 Ricardo Mário Gonçalves (org.), op. cit. pág. 23.
292 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

çavam mão de todo o tipo de barreiras protecionistas, incenti­


vos e promoções aos empreendimentos locais. Agora, a palavra
de ordem chama-se “globalização” . A sobrevivência das econo­
mias nacionais está atrelada à inserção de seus produtos e ser­
viços no mercado, agora chamado de “global” , isto é, mundial
(planetário). O mundo deixou de ser composto de um conjunto
de nações esparsas e autônomas, como se fosse um arquipéla­
go, para ser um a grande aldeia integrada, com vários vasos
comunicantes - nações e blocos interdependentes. Tudo se pas­
sa como se as fronteiras estivessem se tornando apenas tema
de nossas análises geográficas, nada mais. Não mais um arqui­
pélago, mas uma rede de ilhas que se comunicam constante­
mente e se interdependem como nunca antes. As tecnologias
das comunicações, da informática, dos transportes, da aero­
náutica, espaço e dos materiais se encarregaram de introduzir
muitas dessas transformações a que, queiramos ou não, enten­
damos ou não, estamos submetidos. O fluxo dos capitais se
tornou mais dinâm ico e facilitado pelas com unicações, pela
informática e pela rede bancária, sempre em busca de novos e
promissores negócios onde investir. As informações circulam o
planeta cada vez mais rapidamente, em poderosas e sofistica­
das redes de computadores e a custos cada vez mais baixos,
permitindo a cada um o acessso mais facilitado e mais genera­
lizado a toda sorte de conhecimento.
O neofundamentalismo de nossos dias é um legítimo repre­
sentante do grupamento (b). Trata-se de movimento que propõe
levantar barreiras contra o que chama de modernismo. Luta
contra ondas de mudanças. Vê influência demoníaca e perver­
sa em tudo o que é novo. Não procura entender a forma e dire­
ção com que ocorrem as mudanças sociais. As opiniões e ações
dos neofundam entalistas se baseiam num único e definitivo
referencial: a Bíblia, Al Corão, a Torah e outros textos sagrados,
segundo sua interpretação literal, completa, definitiva, univer­
sal e inequívoca. São resistentes em aceitar interpretações cien­
tíficas atuais para os fenômenos, principalmente se tais inter­
pretações não têm respaldo nas Escrituras ou se contrapõem às
suas interpretações literais.
O neofundamentalismo, por exemplo, não aceita a atual
ascensão da m ulher na atividade hum ana. O fem inism o é
contraditado pela interpretação literal que atribuem aos textos
ANTIM AÇONARIA 293

bíblicos isolados que sustentam suas idéias4. Numa decisão re­


cente, de junho de 1998, dos membros presentes à Assembléia
Anual da Convenção Batista do Sul dos EUA (CBS), foi aprova­
da a moção de emenda à Declaração de Crenças Essenciais,
pregando a submissão feminina, isto é, “a mulher deve subme­
ter-se afavelmente à liderança do marido” .5 A CBS, a m aior de
todas as denominações protestantes americanas, conforme re­
latamos anteriormente, vem sofrendo um a bem orquestrada in­
fluência fundamentalista em sua liderança, desde os anos se­
tenta, segundo alguns analistas, como assevera o pastor Grady
Cothen6.
Os porta-vozes do neofundamentalismo procuram de toda
forma identificar “demônios” nos ditos reponsáveis pelas alte­
rações comportamentais e culturais de nossos dias: a mídia, os
b a n q u eiro s in te rn a c io n a is , os ju d e u s , os fe m in is ta s , os
secularistas de um a forma geral, os maçons, os cientistas e ou­
tros. Descobrem ou inventam agentes conspiradores ao redor
de tudo. Segundo a moderna Teoria da Conspiração, os novos
“demônios” são os responsáveis pelas mudanças, criando ame­
aças aos valores cristãos, e à própria estabilidade da igreja, di­
zem. São, provavelmente, os precursores do anticristo. À seme­
lhança dos ultramontanos brasileiros no fim do Séc. XIX, que
viam na política liberal brasileira, de estímulo à imigração de
norte-americanos, um a cortina a encobrir um a conspiração de
maçons e protestantes para invadir o Brasil, com sua religião, e
conquistar a Amazônia, os neofundamentalistas de nossos dias
vêem maçons, judeus e grandes banqueiros internacionais, numa
trama contra o cristianismo, os poderes constituídos e m aqui­
nando em favor de uma Nova Ordem Mundial que aniquilaria o
status quo atual. Esse é o discurso básico neofundamentalista,
nos EUA, de Pat Robertson, Jerry Falwell, Texe Marrs e Gary
Kah e seus outros seguidores. E, ouso afirmar, que essa é a
mais importante acusação dos antimaçons, pois que melhor iden­
tifica os objetivos políticos subjacentes às suas campanhas,

4 Obviamente não só entre cristãos e judeus encontramos resistências à ascensão da mulher. Admiti­
mos até que a cultura judaico-cristã tem demonstrado maior tolerância para com as mulheres do que
as religiões islâmicas. Os neofundamentalistas porém, sem exceção, são contrários a qualquer forma
de ascensão da mulher.
5 “O Estado de S. Paulo” , 11/06/98, pãg. A-14.
6 Cf. Grady C. Cothen, “The New SBC. Fundamentalism’s Impact on the Southern Baptist Convention”.
Smyth & Helwys Pub., Macón, Ga. 1995,
294 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

conforme analisaremos adiante.


Os maçons, no Brasil e no exterior, devem procurar conhe­
ce r as a lia n ç a s p o lític a s qu e se p a s s a m e n tre os n eo-
fundamentalistas e os partidos políticos de linha mais à direita
do espectro político-ideológico. Nos Estados Unidos, o Partido
Republicano tem sido o campo de atividade política dos conser­
vadores, isto é, dos que propugnam pelos valores nacionais, que
defendem barreiras contra a introm issão de novas culturas,
apoiam a liberação econômica do mercado, com menos im pos­
tos e advogam a não ingerência do governo na economia.
Quanto menos governo melhor governo, dizem. Militam contra
toda e qualquer sorte de aumento nos impostos, pregam uma
estrita moralidade dos costumes e defendem os valores cris­
tãos. Esse grupo, consagrado pelos que lhes são contrários e
pela própria mídia, como “conservador”, reúne as comunidades
do tipo (b), dentre os quais estão os fundamentalistas históri­
co s, os p r o te s ta n te s c o n s e r v a d o r e s e, a g o ra , os n eo-
fundamentalistas.
Quando nos debruçamos a verificar mais de perto o jogo
político dos EUA, vemos o bipartidarismo dominando o cenário,
com conservadores (segundo o que já se consagrou) sendo re­
presentados pelos Republicanos e os ditos liberais (as vezes nem
tanto), aliados ao Partido Democrata. Esse tem sido o modelo de
referência que a imprensa e os formadores de opinião consagra­
ram e passam a todos nós.
O Partido Republicano tem seu eleitorado na classe média e
nos abastados, ligados aos grupos protestantes e alguns pou­
cos católicos, tradicionais e conservadores. Os Democratas têm
nos lib era is (tam bém p ro testa n tes, porém , d ista n tes dos
fundam entalistas e dos conservadores, e mais próxim os de
moderados e liberais), nos judeus, nos demais católicos, nos
intelectuais, nas minorias (na maior parte dos negros, hispâni­
cos, feministas, homossexuais, etc...) e nos socialistas, a sua
força eleitoral. O esquema tem se mostrado pendular, ora um a
ora outra força adquire liderança e poder. O fim dos anos seten­
ta marcou o término do governo democrata do sulista e plantador
de amendoim, o “georgian” Jim m y Cárter, presidente que privi­
legiava os direitos humanos, a política social e a igualdade raci­
al, mas que pouca simpatia granjeou entre as camadas conser­
vadoras, embora fosse um legítimo representante da classe pro­
ANTIM AÇONARIA 295

testante sulista7. Marcou também a tomada do poder federal


pelos republicanos após longo período de poderio democrata.8
O mundo ocidental nesta época estava mais alinhado com po­
sições mais à direita: Margareth Thatcher na Inglaterra, Helmut
Kohl na Alemanha, Giscard D ’Estaing na França e outros. Ha­
via no ar um a aliança anglo-americana, à procura de meios po­
líticos para atenuar de vez com a posição do comunismo sovié­
tico.
A década dos oitenta é marcada pela grande ascensão do
Partido Republicano, que consegue eleger, de forma exuberan­
te, Ronald Reagan, derrotando Cárter por um a margem inusita­
da no colégio eleitoral9. Reagan, um político bem-sucedido da
Califórnia (duas vezes seu governador, com notáveis realizações),
confirmando a virada do eixo político-econômico aos EUA - que
vinha da tradição liberal-democrata do nordeste (Nova Inglater­
ra, Nova York, ...) para o sudoeste, onde a Califórnia desponta­
va como um a das mais promissoras regiões do país. A era Reagan
ressaltou a política econômica conservadora, permitindo aos EUA
um a pujança econômica e posição política invejáveis. O êxito
republicano, na era Reagan, pode ser medido pela sua reeleição
e pela eleição de seu vice, George Bush, como seu sucessor. Foi
vitoriosa a era republicana, onde até a sua política econômica
experimentou sucesso e cunhou novo termo muito mencionado
pelos comentaristas da década: “reaganomics”. A parcela con­
servadora da sociedade americana, que dera sustentação políti­
ca à “reaganomics”, não teve muito do que se queixar no gover­
no os anos oitenta. O resultado político da era Reagan coinci­
diu com o desmantelamento, como um castelo de cartas, dos

7 Cárter, um político que se projetou a partir da Georgia, é um fiel batista, ativo membro da igreja,
professor de Escola Dominical, vinculado à Convenção Batista do Sul dos EUA, portanto, identificado
com a classe protestante conservadora, embora, não seja possível - por seu comportamento político -
incluí-lo nas facções fundamentalistas dos dias atuais.
8 Relembre-se quão forte foi nesse fim de século XX o poderio dos democratas à testa da presidência.
Considerando-se o período pós-primeira grande guerra, grandes presidentes democratas se destaca­
ram por dez períodos: F.D. Roosevelt (considerado em recente pesquisa de opinião o melhor presiden­
te de toda a história americana), H.Truman, J.F. Kennedy (que se destacou pela promulgação da lei
dos direitos civis concedendo aos negros os direitos de igualdade até então negados), J. Cárter e o
atual Bill Clinton. Dentre os republicanos, merecem destaque: D. Einsenhower (general que coman­
dou os aliados na Segunda Grande Guerra), R. Nixon (que teve de renunciar por conta do escândalo
de Watergate), R. Reagan e G. Bush. Talvez, cremos, Reagan mereça destaque pelo crescimento da
economia e os acordos que promoveu com a antiga URSS, encerrando a Guerra Fria. Os republicanos
lutam agora para entrar no poder no novo milênio, levando à Casa Branca seu candidato em 2000.
73 Reagan arrancou 489 votos no Colégio Eleitoral enquanto Cárter obtinha apenas 49. Na votação
popular,Reagan conquistou 43,9 milhões de votos contra 35,4 milhões dados a Cárter.
296 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

regimes comunistas do leste europeu, consagrando os EUA no


cenário internacional como a m aior (se não única) potência eco­
nômica e política do planeta. O novo cenário mundial estava
sendo construido a partir dos grandes eventos do fim do Séc.
XX, conforme assinala - em sua síntese - o arguto comentarista
e historiador inglés Paul Johnson,

“o fim da g u e rra fr ia com eço u na n o ite d e 12 d e s e te m b ro de


1989 q u a n d o o p rim e iro g o v e rn o n ã o -com u n is ta a s su m iu o g o v e r­
no d a P olonia, p ro s s e g u iu na n oite d e 9 d e n o vem b ro d o m es m o
a n o qu a n d o ruiu o m u ro d e B e rlín e cu lm in ou na p rim e ira m eta d e
d e 1991 q u a n d o a U nião S oviética f o i a b olid a e B o ris Y eltsin f o i
d e m ocra tica m en te eleito o p rim e iro p re s id e n te d a R ú s sia n ã o-co­
m unista. ”10.

A queda do regime comunista no Leste europeu, em pleno


dominio Republicano nos EUA, com Bush na presidência, é o
mais importante registro para nossa presente análise. O m o­
mento histórico deve ter gerado na cabeça dos protestantes
fundamentalistas urna certa sensação ambigua, misto de vitó­
ria e frustração. Trouxe mal-estar e desconcerto entre as hostes
fundamentalistas que estavam apostando numa vitória final do
capitalismo americano sobre o comunismo soviético neste fim
de Séc. XX, depois que Reagan se cansara de anunciar ampios
investimentos na indústria militar para a sua tão decantada
“Guerra nas Estrelas” , que afinal nunca aconteceu.
As interpretações bíblicas apontavam para o Armaggedon
no Oriente Médio, conforme as previsões “lindseyanas” , da
derrocada do Magog russo pelas forças do “Bem” do “Mundo
Livre” . O Magog russo, pelo menos por enquanto, foi de fato
derrotado mas por outras armas que não as preparadas por
Reagan para a Guerra nas Estrelas. E agora, como ficariam,
daqui por diante os discursos fundamentalistas? Restou um certo
vazio, já que na prática o comunismo soviético, temido aliado
do mal, arquitetado pelo Inimigo para destruir os valores oci­
dentais, principalmente a religião e o poder democraticamente
constituído, estava já moribundo. Não seria mais um a ameaça.
No jogo internacional de poder, os EUA passaram - de fato - a

10Paul Johnson, “A H is to r y o f th e A m e r ic a n P e o p l e Harper Collins Publishers, N. York (NY), 1997,


pág. 930.
ANTIM AÇONARIA 297

ser os detentores do poder político internacional. Soberanos no


cenário político internacional. Poder esse que Bush soube m ui­
to bem exibir e “marquetear” , com toda a mídia internacional a
seu inteiro dispor, e politicamente capitalizar o momento ao
enfrentar o ditador iraquiano Saddan Hussein na Guerra “ciber­
nética” do Golfo em 1991.
E agora, sem um inimigo contra o qual esbravejar, ficavam
os conservadores e neofundamentalistas sem seu discurso prin­
cipal anticonspiração, anticomunista, antitudo o mais, sem tanta
força e vigor. Esteio dos republicanos, vivendo grandes vitórias
ao longo dos anos oitenta e agora experimentando mudanças, o
eleitorado republicano ainda sofre em 1992 um sério revés: um
obscuro ex-governador da politicamente inexpressiva interiorana
e esquecida Arkansas, William Jefferson Clinton, concorrendo à
presidência pelo Partido Democrata, derruba o “reinado” repu­
blicano da Casa Branca de doze anos, não tanto por seus m éri­
tos político-eleitorais como pela intromissão de um dado novo
no tabuleiro político na corrida presidencial. Um multimilionário
texano, Ross Perot, independente, e cercado do apoio de vários
capitalistas do sul interessados em recuperar seus investimen­
tos - após o fim da Guerra Fria - entrou no páreo e conquistou
muitos votos dos que seriam tradicionalmente canalizados para
o republicano. Bush é derrotado pelo desvio de votos republica­
nos para Perot. Os republicanos ficam fora do poder, são cons­
trangidos a bater palmas para o novo inquilino da Casa Bran­
ca, um novato vindo de Little Rock, até bem pouco tempo um
imberbe de ampla cabeleira com cara de garotão rebelde dos
anos 60, democrata e para os mais íntimos chamado Bill Clinton.
Os republicanos têm de construir nova agenda política,
não poderíam por muito tempo ficar com o papel de espectador
do cenário político, não estavam acostumados a esse lugar na
política - fora da Casa Branca por tanto tempo. No seu amplo
caminho de reconquista do poder, precisariam afinar muito bem
o diapasão de seu novo discurso político partidário.
Assistimos então ao recrudescimento de um a campanha de
oposição conservadora sem precedentes na história recente dos
EUA. A vida do novo presidente foi totalmente vasculhada, para
se encontrar no seu passado evidências de deslizes comprome­
tedores. Clinton, um inexperiente político, estaria na berlinda
por todo o tempo.
298 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Fundamentalistas vão atrás de um reforço novo para a agen­


da política que precisam elaborar visando a reconquista do po­
der pelos republicanos, de quem são fiéis e tradicionais alia­
dos11. Tinham de encontrar, ou “fabricar”, inimigos na busca do
fortalecimento da sua agenda política. Urna das bem engendra­
das estratégias nesta direção vem de um dos conhecidos líderes
evangélicos dos dias atuais, já tantas vezes aqui mencionado: o
teleevangelista, originalmente batista do sul, Pat Robertson. Um
ardoroso defensor das causas republicanas, dos valores m o­
rais, da liberdade de religião e da livre economia de mercado.
Robertson anunciou em 1986 sua intenção de candidatar-se à
presidência dos EUA, disputando a indicação pelo Partido Re­
publicano. Associou-se a outros parceiros que pensavam como
ele e se lançou à indicação republicana à presidência no mo­
mento em que Reagan iria passar o bastão. Concorreu pois com
George Bush para a indicação. O resultado é conhecido, Bush
contava com o apoio de Reagan e isso era quase tudo o que
precisava para conquistar a indicação. Mas não há dúvidas de
que a experiência de Robertson de aglutinar um grupo, razoa­
velmente expressivo, a lhe dar apoio político, trouxe bons resul­
tados. Viabilizou o nascimento da entidade política que pas­
saria a fazer um a espécie de “m eio-de-campo” entre o Partido
Republicano e a camada conservadora de fundamentalistas e
neo-fundamentalistas das mais diferentes origens. É assim que
nasceu em 1989 a Christian Coalition [Coalizão Cristã], reunin­
do um a expressiva comunidade de sustentadores em todo o ter­
ritório12. Seu poderio financeiro foi recentemente revelado por
Kleber Leite numa reportagem da revista evangélica “Vinde”:

“ S ó p e la m ov im e n ta çã o fin a n ce ira , já dá p a ra s e n tir o p e s o da


en tid a d e [Coalizão Cristã] - n a d a m en os qu e U S $ 17 m ilh ões f o ­
ra m a rre ca d a d os em con trib u içõ es no a n o p a s s a d o [1997], ... a
C oa lizã o j á e s te ve m elhor. E m 1996 ch eg ou a b a te r o reco rd e de

11 LesterThurow, em sua conhecida obra “The Future o f Capitalism”. acredita que os fundamentalistas
controlarão a indicação do candidato republicano a suceder Clinton. Diz ainda que, neste fim de Séc.
XX, os fundamentalistas votam em peso no Partido Republicano e que no total agregado, em 1994 do
total de votos republicanos dados a Bob Dole, 29% vieram dos fundamentalistas (cf. L. Thurow, op.
cit. págs. 236-7).
12 Vale mencionar que a Christian Coalition conta com amplo apoio das mais variadas origens. Além
de protestantes conservadores e fundamentalistaas tem o respaldo de vários católicos e outros gru­
pos da extrema direita.
ANTIM AÇONARIA 299

c o n trib u iç õ e s - U S $ 2 6 ,4 m ilh õ e s ” , comenta o articulista da


“Vinde”.

De um a sim ples idéia nascida num a região do país, a


Christian Coalition se espalhou por todo o território nacional,
ganhando sempre mais adeptos e sustentadores. Kleber Leite
assinalou ainda que:

“E m 1996, a lém d e te r g a n h o q u a se U S $ 2 7 m ilhões, j á s o m a ­


va 2 m ilh ões d e m em b ros e sim pa tiza n tes, a lém d e c o n ta r com 2
m il es critórios esp a lh a d os nos 50 es ta d os a m ericanos. ... con ta
com o a u x ílio d e ‘g e n te d a p e s a d a ’, c o m o o líd e r d o co n g re s s o
N e w t G ingrich, o e x -a to r d e cin em a C h a rlton H eston, o m ilion á rio
S tev e F o rb es, o g e n e ra l reform a d o O liv e r N o rth (a q u e le d o ca so
Irã -C o n tra s ) e d o s e n a d o r rep u b lica n o J o h n A sh cro ft, en tre ou tra s
lid e ra n ç a s .” 13

Ao longo de sua existência, a Coalizão tem, no dizer dos


seus seguidores, se esmerado na defesa radicalizada dos direi­
tos da cidadania e de valores morais nos EUA. Na nossa avali­
ação, trata-se de um a plataform a sobre a outra. Trata-se de
um a organização a serviço do Partido Republicano e que tam ­
bém se serve do partido para fortalecer a base eleitoral e ser o
porta-voz político das facções de traço fundamentalista. Através
da Christian Coalition as angústias, sonhos e utopias dos gru­
pos neofundamentalistas e fundamentalistas, são pregados a
todos os ventos. Basta que um a oportunidade surja, um inim i­
go seja identificado para então o discurso se anunciar em todo o
país. Quando vieram a público os depoimentos sobre as aventu­
ras sexuais do presidente Clinton com sua estagiária Mônica
Lewinsky, o próprio Pat Robertson, lder nato da Coalizão, ocu­
pou canais de TV para derramar seu discurso condenatorio à
conduta do presidente, argúindo o aperfeiçoamento moral da
sociedade americana e reclamando do Congresso a votação im e­
diata do impeachment do presidente.
O fato, facilmente verificável na m iídia em nossos dias, é
que preocupados em resguardar posições políticas e se prepa­
rar para reassumir a liderança da nação, os republicanos estão
firmemente montando sua estratégia e empenhados em fortale-

13 Kleber Leite, “F e c h a n d o a T o r n e i r a revista Vinde, junho de 1998, pág. 32.


300 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

cer sua posição eleitoral. E essa passa necessariamente pelo


enriquecimento de uma agenda política.
A frente de luta em favor do fortalecimento da economia,
ainda que encontre alguma ressonância nos eleitores quando o
tema redução de tributos é focado, tem um sério competidor no
próprio governo Clinton. Na esfera da política econômica, o Go­
verno Clinton pode perfeitamente ser idenficado com a platafor­
ma conservadora de governo. O produto interno continua cres­
cendo, a taxa de desemprego é a menor dos últimos vinte anos,
a inflação anual é baixíssima e Clinton demonstra estar prati­
cando com competência as práticas tradicionais da economia
de mercado. O presidente americano, por esses motivos, exibe
recordes de aceitação e aprovação pública. Mais de dois terços
da população americana declararam apoio ao Presidente Clinton,
mesmo sabendo de suas inclinações a “Casanova” da “Casa Bran­
ca” e das confusões que promoveu na justiça inicialmente ne­
gando em público os envolvimentos que teve com a notória es­
tagiária.
Nunca houve tanto crescimento econômico, com tão baixo
índice de inflação e elevado nível de emprego, na história recen­
te dos EUA. Assim sendo, atacar a administração Clinton, por
conta do desempenho da economia, é chover no molhado, a agen­
da não deveria priorizar tal assunto. Nessa área o discurso re­
publicano poderá cair no vazio.
O discurso contra o relaxamento dos costumes ou as novas
ondas em favor de minorias, esse sim, pode encontrar maior
ressonância no meio dos conservadores e grangear-lhes bons
votos nas próximas eleições. As minorias homossexuais nunca
tiveram tanta força. Alguns entendem que a força das minorias
gays e lésbicas chega a ser exageradamente grande, nos dias
atuais. O presidente tem sistematicamente apoiado as reivindi­
cações das minorias, o mesmo acontecendo - para irritação dos
neofundamentalistas - com respeito às feministas. O governo
Clinton talvez seja o que m aior número de mulheres teve, ser­
vindo no gabinete presidencial. Pela primeira vez na história
dos EUA, um a mulher, Madeleine Albright, veio ocupar o alto
posto de titular da Secretaria de Estado.
O discurso fundamentalista, por sua vez, tem sido reforça­
do nesta área, já que a ascensão feminista e o relaxamento dos
costumes (leia-se tolerância, dita inaceitável, para com os ho­
ANTIM AÇONARIA 301

m o s s e x u a is ) são p o n to s e s s e n c ia is da lu ta d o s n eo-
fundam entalistas.
A defesa ostensiva dos neofundamentalistas em favor do
ensino da religião cristã nas escolas públicas, apoiando a prá­
tica do ensino livre da Bíblia e da oração em classe, é parte do
empenho embutido na agenda política atual dos republicanos
mais à direita. Embora de difícil aceitação, se levarmos em con­
ta as disposições sobre a liberdade religiosa previstas na Cons­
tituição Federal, a mensagem e a luta em várias instâncias de­
verão acentuar o discurso neofundamentalista na próxim a cam­
panha eleitoral presidencial.
Em nossa avaliação, todos esses temas - tentando alim en­
tar o discurso republicano nesta virada de milênio - é apenas
um a parte de m aior visibilidade da estratégia usada de recon­
quista do poder. Não é toda estratégia, é uma parte dela. A agenda
não estaria completa se algo não fosse engendrado para reparar
o vazio deixado pelo grande inimigo e conspirador-mor: o co­
munismo ateu derrotado em 1991.
É evidente que os políticos da direita tiveram o seu discurso
enfraquecido com o desaparecimento do comunismo europeu
(isto é, com o fim da União Soviética e seus satélites). O próprio
pastor e teleevangelista dá-nos a pista com o lançamento de sua
já citada obra, “The New World Ordef, justo após a queda do
Muro de Berlim. Novos “demônios” se levantam e aí estão, se­
gundo Robertson, organizando um a tremenda conspiração con­
tra tudo o que existe - é como se fosse um novo “partido com u­
nista”, atuando de forma oculta, emergindo em lugar do que
naufragou junto com as pedras que caíram do muro de Berlim,
e pronto a confrontar a ordem existente nas nações. Um novo
inimigo estaria surgindo para ocupar o falecimento do comunis­
mo internacional.
O fortalecimento da agenda política conservadora, dos re­
publicanos, é então feito com a defesa dos valores morais (apro­
veitando os pontos fracos do democrata ocupante da Casa Bran­
ca), com a defesa de outros postulados dos fundamentalistas,
tais como: a valorização da religião nas escolas públicas, a cam­
panha contra o aborto, o antifeminismo, o homossexualismo e a
denúncia do movimento conspiratório da Nova Ordem Mundial.
O terreno político já está sendo adubado com as mensagens
desses pregadores do futuro incerto e perigoso. O novo anti-
302 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

comunismo chama-se antimaçonaria. A maçonaria é vista como


a parceira histórica da Ordem dos Iluminados, a que nasceu na
Baviera em 1776 com o Prof. Adam Weishaupt (um ardoroso
anticlerical, antigo membro da Companhia de Jesus). Para os
c o n s e rv a d o re s a m e ric a n o s , a ju d a d o s p elo s m e n s a g e iro s
fundamentalistas, a Ordem dos Iluminados está viva e ativa,
promovendo a infra-estrutura da conspiração - em conjunto com
diversas organizações, inclusive a Ordem dos Maçons - para o
estabelecimento do Governo Mundial.
Ao apresentar breve histórico dos Iluminados, Pat Robertson
não deixa de induzir seus seguidores a pensar que esta Ordem
secreta está desde há muito articulada com os maçons em bus­
ca de um objetivo - o da destruição da ordema atual e o estabe­
lecimento de um a Nova Ordem Mundial. Vejamos o que diz em
seu best-seller (texto destacado do original de Robertson e tra­
duzido pelo autor):

“N o in ício a p o n ta m o s q u e A d a m W eish a u p t (o fu n d a d o r d a O r­
d e m dos Ilu m in a d os) tin h a d eterm in a d o a in filtra çã o no ra m o con ­
tin e n ta l d a m açona ria . W eish a u pt tin h a sid o d o u trin a d o no ocu l­
tis m o eg íp cio em 1771 p o r u m m e rca d o r d e o rig em d escon h ecid a ,
d e n om e K olm er, qu e e s ta v a à p ro c u ra d e eu rop eu s convertid os.
F o i d ito q u e p o r q u a tro a n o s W eish a u p t fo rm u lo u u m p la n o p e lo
q u a l tod os os s is tem a s ocu ltista s p o d e ría m s e r red u zid os a u m a
sim p le s e p o d e ro s a orga n iza çã o. E le la n çou a O rd em dos R um ina-
d os e x a ta m e n te d ois m eses a n tes d a p ro m u lg a ç ã o p e la s colôn ia s
a m erica n a s d a D e cla ra çã o d e In d ep e n d ê n cia [d o s EUAj.
A p a re n te m e n te W eish a u p t te n to u com in sis tên cia p ro m o v e r o
con ce ito q u e os Ilu m in a d os, cu jos e s critórios na B a v iera h a v ia m
sid o a ta ca d o s e fe c h a d o s , fo ra m , p o rta n to , m era m e n te u m fe n ô ­
m en o tra nsitório. M a s o R u m in ism o [Sic!!!] n ã o f o i tra nsitório, e os
p rin c íp io s d e W eisha upt, se u s discíp u los, e su a in flu ê n cia con ti­
n u a m a re s s u rg ir nos d ia s atuais.
V irtu a lm en te ca d a p ro p o s iç ã o d e u m a com p leta ‘N ova O rd em
M u n d ia l’ rep ete os con ce itos d e W eishaupt, virtu a lm en te p a la v ra
p o r p a la v ra . E is os s e u s revolu cion á rios e d e stru tivo s objetivos:
1. A b o liç ã o d e m o n a rq u ia s e d e to d o s os g o v e rn o s c o n s titu í­
d os;
2. A b o liç ã o da p ro p rie d a d e p riv a d a e da hera n ça ;
3. A b o liç ã o d o p a trio tis m o e nacion a lism o;
4. A b o liçã o da fa m ília e d a in stitu içã o d o ca sa m ento, e o e s ta ­
belecim en to d a ed u ca çã o co m u n itá ria p a ra crianças;
ANTIM AÇONARIA 303

5. A b o liç ã o d e tod a religião.


.... O o b je tivo d e W eish a u p t n ã o era a p e n a s a d e stru içã o da
m ona rquia, m as a d estru içã o d a s o cie d a d e (sic). E m 1782, a m a-
çon a ria con tin en ta l f o i in filtra d a e ca p tu ra d a p e lo q u e W eisha upt
ch a m ou de M a çon a ria dos Ilu m in a d os ...”14

O texto de Pat Robertson, retirado de um contexto em que o


autor pretende demonstrar o nascedouro e recrudescimento da
conspiração em favor da Nova Ordem Mundial, é em si mesmo
evidente como novo tema do seu novo discurso político. É um
sucedâneo à campanha contra o comunismo ateu. Tem, entre­
tanto, algumas inconsistências: não demonstra claramente que
os Iluminados tenham sobrevivido até os dias atuais. [Robertson
não aceita que aquela organização de fato desapareceu do cená­
rio, embora tenha deixado alguns vestígios de sua influência
nos Carbonários, por exem plo]15. Não traz evidências docum en­
tais a respeito, além de introduzir um a ambigüidade ao usar o
termo “Iluminismo” [Muminism) que, ainda hoje, de fato, é influ­
ente como escola filosófica nascida no Séc. XVII, como queren­
do significar a doutrina dos Iluminados da Baviera, que de fato
desapareceu na poeira dos tempos. Confundiu o seu leitor e
nada declarou de científicamente aceitável sobre a veracidade
da atividade dos Iluminados nos tempos atuais.
Resta-nos sublinhar, todavia, que o discurso defendido por
Robertson, e seguido por tantos neo-antimaçons, tem coerência
em si mesmo, traz um a explicação clara: - o “retorno” dos Ilu­
minados e sua proposta de virar o mundo de cabeça para baixo,
reproduz a mesma ideologia da Internacional Comunista da pri­
meira metade do Séc. XX. Coloca, por tais motivos, boa camada
conservadora - e desconhecedora dos fatos históricos - america-

14 Pat Robertson, op. cit págs. 180, 1.


15 Interessante, por ser esclarecedor e contrário ao que pretende sustentar Robertson, o comentário
da “Enciclopaedia Britannica” a respeito da Ordem dos Iluminados. In verbis: “ILLUMINATI, a short-
lived movement o f republican free thought founded on may day 1776 by Adam Weishaupt, professor o f
canon law at Ingolstadt and a form er Jesuit ... From 1778 onward they begin to make contact with
uarious Masonic Lodges,where under the impulse o f A . Knigge, one o f their ch ief converts, they often
managed to gain a commanding position. The total number never exceeded 2.000. ... The movement
suffered from internai dissension and was ultimately banned by an edict o f the bavarian govem ment in
1785." [ ILUMINADOS, um movimento efêmero do livre pensamento republicano fundado em 1Q de
maio de 1776 por Adam Weishaupt, professor de direito canônico em Ingolstadt e antigo jesuíta... A
partir de 1778 começaram a fazer contatos com várias lojas maçônicas, onde sob o estímulo de um
dos seus convertidos, A. Knigge, eles trabalharam para ganhar posições de comando. O número total
nunca excedeu 2.000..... O movimento sofreu dissensões internas e finalmente foi banido por um
édito do governo da Bavaria em 1785.]
304 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

na de cabelo em pé e pronta a reagir eleitoralmente. É um bom


tem a político para alguns. É mensagem capaz de galvanizar os
incautos, acostum ados com as Teorias de Conspiração que
“demonizavam” o comunismo até um pouco antes da queda do
Muro de Berlim. Como os Iluminados e maçons (do continente
europeu) estiveram e continuam associados entre si, segue-se
que a Ordem dos Maçons está comprometida diretamente com
a Nova Ordem Mundial. Disto os neofundamentalistas não têm
dúvidas e por isto não se cansam de denunciar a seita pagã,
chamada maçonaria.
Assim, a nova agenda republicana instigada pelos seus mais
importantes aliados, os neofundamentalistas, deverá conter o
discurso antimaçônico. Derrubar os maçons, retirá-los da influ­
ência política é a meta. Ocupar seus espaços é a estratégia.
Assim, os fundamentalistas e seus seguidores precisam insistir
nas práticas de minar a maçonaria em suas bases, levando os
incautos a ver na Ordem o novo anticristo, a imagem do inimigo
- criando toda a sorte de aleivosias para minar a imagem da
ordem em seus currais eleitorais.
O c u p a r o e s p a ç o p o lític o p e la e le iç ã o de líd e r e s
fundamentalistas ou mesmo daqueles sim patizantes de suas
posições parece, finalmente, ser um a estratégia já em pleno
vigor nos EUA.
Há aproximadamente uns vinte anos nasceu entre protes­
tantes conservadores, notadam ente pentecostais, a chamada
T eologia do Dom ínio. Um a concepção baseada no livro de
Gênesis, interpretado livre e literalmente por alguns pastores,
segundo a qual o comando, desde agora até o fim dos tempos, é
dos cristãos. Ao criar o homem, Deus deu-lhe pleno domínio
sobre a terra. Para alguns isto significa - de fato - o comando de
todas as coisas. Vamos, pois e conquistemos nosso lugar na
cabine de comando desse grande veículo, pensam eles. O livro
de Gênesis diz:

“2 6 Ta m b ém d is s e D e u s : F a ça m o s o h om em à nossa im agem ,
con form e a n ossa se m elh a n ça ; te n h a ele d o m ín io so b re os p e ix e s
d o m ar, so b re as aves d os céus, so b re os a n im a is d om ésticos, so­
bre tod a a terra e so b re to d o s os rép teis qu e ra s teja m p e la terra ..”
[Trad. Revista e Atualizada no Brasil, SBB.]

Pastores, líderes evangélicos e pregadores há que, adeptos


ANTIM AÇONARIA 305

dessa corrente favorável à Teologia do Domínio, propagam-na e


apoiam as campanhas políticas em favor da tomada do poder
pelos cristãos. Dois exem plos dessa posição: O pastor Pat
Robertson, numa conferência que pronunciou em 1984 numa
Igreja em Dallas, declarou:

“ Q u ero q u e você im a g in e u m a so cie d a d e on d e os m em b ros da


Ig re ja tê m d o m ín io so b re a s fo r ç a s d o m und o, o n d e o p o d e r d e
S a ta n á s é a m a rra d o p e lo p o v o d e D eus. N ó s va m os v e r a s o cie d a ­
d e on d e o p o v o d e D e u s vai s e r o p o v o m a is honrado, s e m vício de
droga... os qu e p ro m o v e m a p o rn o g ra fia não terã o m a is q u a lq u e r
a ces so a o pú b lico ... o p o v o d e D e u s h erd a a terra... há u m p r e s i­
d e n te ch eio d o E s p írito S a n to na C asa B ran ca , os h om en s no S e ­
n a d o e no C on gresso sã o ch eio s d o E s p írito S a n to e a d ora m a J e ­
sus, e os ju iz e s fa z e m o m e s m o ... D e u s vai n os c o lo ca r em p o s içã o
d e lid era n ça e res p on s a b ilid a d e e nós te m os q u e p e n s a r a s s im ...” 161
7

Vários dos seus seguidores, inclusive no Brasil, pensam de


igual modo. Paulo Romeiro, diretor do Instituto Cristão de Pes­
quisas no Brasil, discute amplamente esta posição dos seguido­
res da Teologia do Dominio, apontando líderes evangélicos bra­
sileiros como seus sustentadores: Valnice Milhomens, L. Posella
Sobrinho, Nilson Fanini, entre outros. Valnice teria dito numa
de suas pregações, atualmente muito comum na TV,

“... E ch eg ou a h ora d e a Ig re ja o cu p a r os p o s to s d e lid era n ça


d esta nação. N ã o é só a Ig re ja lá a trá s d os qu a rto s ora n d o não. É a
Ig re ja lá nos p o s to s d e com a n d o a d m in is tra n d o a nação. ’n7

Se neste complexo cenário do jogo político inserimos ainda


as presunções de alguns futurólogos sobre o fim dos tempos, ao
se aproximar o ano 2000, temos a explicação completa. O dra­
ma apocalíptico, ao ocupar o cenário político e religioso cristão,
exacerba as posições contra tudo o que possa parecer precursor
do anticristo ou sinal da besta, isto é, dá força e vigor ao discur-

16 Paulo Romeiro, “Evangélicos em Crise - Decadência Doutrinária na Iareia B r a s ile ir a Ed. Mundo
Cristão, São Paulo, 1995, pág. 161.
17 Paulo Romeiro, op. cit. págs. 161, 4.
306 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

so contra a Ordem.
O discurso antimaçônico pois se explica: disputa pelo po­
der, a começar nos EUA - com a derrubada dos modernistas e
liberais - e pelo controle do poder pelo povo divinamente eleito -
os neofundamentalistas, senhores da verdade absoluta. Tudo o
mais é anátema, deverá ser destruido: maçons, nova era, nova
ordem mundial, iluminados , templários, judeus, liberalismo dos
costumes e assim por diante.
A Ordem dos Maçons, Antigos, Livres e Aceitos, como fica
depois de todo esse avassalador cenário? Resta-nos acrescentar
poucos comentários sobre a postura a adotar diante desse novo
tipo de acusadores de nossa Ordem. A posição tradicional e ofi­
cial da Ordem tem sido a de absorver pacificamente as insanas
diatribes de que tem sido alvo. Posição essa que tendo a admitir
perigosa e comprometedora para os dias atuais.
Se Fernando Pessoa estiver certo, e assim o cremos, e se
continuarmos a ver publicamente anunciadas toda sorte de in­
fâmias e falsidades contra a Maçonaria, assistiremos à sua
imagem universal ser pouco a pouco deteriorada através de
novos e eficientes canais de comunicações, com base em vastos
recursos de marketing dos seus detratores. Não mais será a de­
fensora das liberdades, a construtora da República, a respon­
sável direta pelo fim da escravidão e a mentora da separação
entre Igreja e Estado. Mas a religião pagã, incompatível com o
cristianismo, praticante de cultos satânicos, e organização que
conspira universalmente pela derrubada da ordem existente
(inclusive Igreja) e pelo estabelecimento de um governo mundial
pagão. Os maçons americanos já vivem hoje esta perversa expe­
riência. Basta alguém visitar os “websites” de algumas organi­
zações antimaçônicas americanas para encontrar toda sorte de
“arrazoados” e reportagens condenatorios da Ordem .18 Em re­
cente comunicação aos seus leitores, o pastor G aiy Leazer de­
clara que:

“q u a se q u e sem a n a lm en te, ig re ja s em to d o o te rritório d os EU A,

18 O leitor encontrará no Apéndice III - Organizações Antimaçônicas. uma relação parcial de organi­
zações antimaçônicas norte-americanas com os repectivos endereços eletrônicos. Uma navegação
nesses “websites” permite-nos avaliar a amplitude da campanha em pleno andamento nos EUA
contra a maçonaria.
ANTIM AÇONARIA 307

se d ia m con fe rê n cia s a n tim a çô n ica s e p a s to re s p re g a m con tra a


m a ço n a ria .” 19

Não nos parece razoável a confrontação direta com os neo-


fundamentalistas. Já a experiência tem mostrado por que não
seguem elementares regras da racionalidade e costumam não
atender a questionamentos feitos por intelectuais e pesquisado­
res, pois se postam em defesa de suas teses. Primam por distorcer
citações, por deduzir proposições a partir de premissas falsas,
por apregoar como verdadeiras as citações atribuídas à Ordem
vindas de autores sabidamente antimaçons e por aí vai.Não há
terreno para o diálogo construtivo sério, pensamos.
A maçonaria dos “aceitos” , deste fim de Séc. XX, obedecen­
do os princípios que a criaram, regendo-se pela constante bus­
ca da verdade e guardando eqüidistância das diferentes opi­
niões políticas e religiosas, como forma de unir homens virtuo­
sos, precisa sair do casulo onde se encastelou ao longo desses
seus quase trezentos anos de existência. É necessário que reti­
remos o véu de um pretenso enigma - inacessível ao povo em
geral - a encobrir as verdades básicas a respeito de seus valo­
res, princípios e posições filosóficas. Com tantas formas de ex­
pressão e canais de divulgação que a moderna tecnologia põe à
sua disposição, deixa de ter sentido a manutenção nos dias
atuais de tanto “secretismo” e pseudo-enigmas em tom o da gran­
de maioria de suas atividades. Sessões de instrução, atos sole­
nes de iniciação, temas que só dizem respeito aos seus obreiros,
são e devem continuar sendo do estrito domínio interno das
lojas. Infelizmente, porém, muitos atos, atividades assistenciais,
filantrópicas, culturais e patrióticas realizadas - para o bem da
humanidade (como gostamos de dizer) - não saem de nossas
quatro paredes. Continuam sendo “secretas”, ou segregadas para
melhor defini-las, e disso muitos gostam de se ufanar.
Recentemente, tivemos o privilégio de assistir à posse do
novo Grão-Mestre da Grande Loja do Estado de São Paulo. Ses­
são Solene, pujante e cheia de significados cívicos, políticos e
de cidadania. Templo lotado, autoridades maçônicas (e somen-

19 Comunicado inserido pelo “Center for Interfaith Studies, Inc.”, no “CIS-Masonic Report”, Vol. IV, nfi
03 (November, 1998).
308 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

te essas autoridades) presentes, vários obreiros de toda a parte


do país, discursos vibrantes, posse ritualística, importantes pro­
nunciamentos, etc... etc... Tudo muito bonito, mas a sociedade
de onde todos nós procedemos e atuamos pouco ou nada soube
do que se processou. Perdemos excelente chance de aparecer
perante a comunidade e de deixar algo do recado maçônico ao
povo que nos rodeia. Para esse mesmo povo, dir-se-ia, estive­
mos secretamente reunidos a portas fechadas numa sessão de
posse do Gráo-Mestre recém -eleito20. Insistimos, a posse de
um Grão-Mestre, numa comunidade livre como a nossa, é um
ato de cívico como muitos outros, além de (ou talvez antes de)
ser maçônico. Comparo-o à posse do novo presidente da Câma­
ra dos Vereadores, do novo Comandante da Polícia Militar, do
novo Secretário de Cultura do Estado, etc. Trata-se de um a au­
toridade de entidade reconhecida e integrante do tecido social
da comunidade a que pertencemos. Afinal a Ordem não é ele­
mento separado da sociedade. É parte dela, e muito importante.
Cada um de nós, não só obreiro da Ordem, é parte desse mesmo
tecido.
É verdade que parte das sessões solenes, sejam de posse ou
de qualquer outra natureza, tem um ritual maçônico que lhe é
próprio. Nada impede, todavia, que em algum momento sejam
abertas as portas aos profanos, com a entrada às autoridades e
outros cidadãos interessados - sobretudo àqueles formadores
de opinião. Já ouvimos falar que somos uma fraternidade não
secreta, mas discreta. Penso hoje que somos, aos olhos de nos­
sa sociedade, secretos e discretos demais.
Estamos cansados de anunciar para nós mesmos que não
somos um a religião. Esta mensagem prossegue sendo distorcida
e reinterpretada pelos detratores: somos na verdade um a reli­
gião pagã, dizem. Até quando deixaremos de anunciar o papel
didático da Ordem de, por exemplo, promover o estudo das
religiões e deixando a cada um o livre exercício da que melhor
se ajustar aos seus desejos e inclinações. Precisamos deixar
mais evidente o nosso papel, não de um a organização religiosa
que incorpora o que as religiões têm em comum, mas um a
fraternidade que congrega adeptos de todas as religiões, dei­

20E essa não é uma conduta isolada de apenas uma Grande Loja, é traço comportamental de todas as
Obediências Maçônicas. A Posse de um Grão-Mestre parece interessar somente aos maçons.
ANTIM AÇONARIA 309

xando respeitosamente a cada um a decisão - absolutamente


livre, aberta e aceita - de examinar todas as religiões que foram
engendradas em nossa civilização, como parte de seu processo
de aprendizagem e crescimento.
Entendemos que um a das estratégias pela qual a Ordem
poderá se contrapor às sandices de seus detratores é apenas
ser mais transparente para a comunidade onde se insere: divul­
gando mais os seus feitos, posições e princípios, abrindo-se mais
para o mundo profano, deixando clara sua identidade, seu re­
cado sobre objetivos, meios, usos, costumes e, sobretudo, sua
filosofia e valores fundamentais. Não sei de forma melhor para
atenuar, senão quebrar o impacto e influência dos discursos de
nossos novos detratores.
O antídoto contra a pérfida acusação dos neodetratores,
passa necessariamente pela maior transparência que a Ordem
deve oferecer sobre suas ações, e sobre si mesma, aos demais
atores de nossa sociedade, mas não se restringe somente a isto.
O ensino, a cam panha de esclarecim ento interna e a m aior
conscientização dos obreiros a respeito do histórico movimento
antimaçônico passam a ser tão importante quanto a própria
história da maçonaria em si. O curriculum constante das ins­
truções precisa incluir a antimaçonaria como matéria obriga­
tória.
Assim, falar o que somos, para fora, e esclarecer, para den­
tro, o que não somos e como agem os neo-antimaçons, eis uma
proposição de trabalho a ser debatida em nossas Lojas e Obedi­
ências.
ANTIM AÇ0NAR1A 311

APÊNDICE I

Uma Sinopse da História e Doutrinas dos Batistas

Os batistas têm suas raízes mais remotas nos anabatistas,


grupo dissidente saído da reforma protestante do Séc. XVI. Os
registros h istóricos m ais antigos conhecidos localizam os
anabatistas no sul da Alem anha e na Suíça. Tinham um traço
característico, que explica o próprio nome (os que batizam ou­
tra vez). Renegavam o batismo infantil. O ato do batismo, como
é sabido, foi instituído nos prim ordios da Igreja, conforme o
Novo Testamento. O Novo Testamento relata o batismo de Jesus
Cristo por João Batista. O batismo é traço fundamental e singu­
lar na doutrina e prática cristã. Confere ao cristão o significado
de pertinência. É a porta de entrada para a comunidade dos
cristãos. O ser cristão, tradicionalmente, implica haver passado
pelo ato batismal.
T a n to e n tre os c a tó lic o s com o e n tre os p r im e ir o s
reformadores luteranos, nunca houve menção da necessidade
da tomada de consciência do batizando sobre o significado do
ato batismal. As igrejas praticavam, e ainda praticam, o batis­
mo de crianças, em qualquer idade. A partir daí, todos os que
são batizados fazem parte dessa nova comunidade chamada
Igreja, qualquer que seja a idade e o nível de consciência. Con­
tra esse hábito os anabatistas se insurgiram, afastando-se dos
grupos que emergiram da Reforma, constituindo um a comuni-
312 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

dade à parte. O batismo, segundo eles, só podería ser ministra­


do àqueles que - arrependidos - fizessem sua pública profissão
de fé, confessando sua conversão a Cristo e seus ensinos con­
forme os Evangelhos. Assim, somente o adulto, consciente de
sua conversão e do significado do ato batismal, podería ter par­
te na Igreja, isto é, podería integrar esta comunidade dos fiéis
salvos, chamada Igreja. Por esta prática, os anabatistas sempre
foram acusados pelos demais cristãos de batizar pela segunda
vez o fiel seguidor. Os anabatistas, por sua vez, repudiavam
essas acusações pois que não aceitavam como válidos os batis­
mos de crianças. E o batismo era um a prática de valor simbóli­
co e teológico, representando o arrependimento e o ato de recep­
ção e integração na nova comunidade. Nem todos poderíam
efetivam ente participar dessa comunidade, que os batistas -
conforme pensamento do apóstolo Paulo - identificam como o
corpo vivo de Cristo.
O movimento ganhou corpo na Alemanha, na Suíça e che­
gou à Inglaterra por volta de 1610. Dessa corrente sairam ou­
tros grupos evangélicos, além dos batistas atuais, como: os
Mennonitas e os Quakers. Segundo um dos mais conceituados
historiadores do m ovimento batista, a prim eira igreja (ainda
denominada anabatista) foi organizada em Amsterdã, exclusi­
vamente por ingleses, liderados por John Smyth. Em realidade
essa organização resultou da fuga de grupos separatistas da
Inglaterra. Os primeiros grupamentos batistas surgiram na In­
glaterra: de um lado, separatistas, os chamados GeneralBaptists
e de outro lado os não-separatistas, os Particular Baptists. A
diferença básica entre eles estava na relação que mantinham
com a Igreja Oficial (a Anglicana). Os primeiros mantinham a
posição radicalmente afastada da relação com a Igreja do Esta­
do, por entender que este não deveria se imiscuir com os assun­
tos da esfera religiosa daquela. Os não-separatistas preferiam
manter um a posição de maior abertura com todas as demais
religiões, em bora preservando suas doutrinas fundam entais
sobre salvação, batismo e outras. Os dois grupamentos tinham
m uitas doutrinas em comum: batism o som ente de adultos,
congregacionalismo (isto é, cada congregação é autônoma para
conduzir-se e orientar seu próprio rebanho, etc...). O calvinismo
e arminianismo permeavam os dois grupamentos, um mais do
que o outro. Poder-se-ia dizer que os General Baptists eram mais
ANTIM AÇONARIA 313

próximos da doutrina calvinista. Por suas posições separatis­


tas, esses foram perseguidos por James I e obrigados em 1608
a deixar a Inglaterra indo se refugiar na Holanda. Um pequeno
grupo, sob a liderança de John Smyth, um ministro graduado
em Cambridge, foi organizar-se como igreja em Amsterdã. Ou­
tro se dirigiu para Leyden, com John Robinson à frente, e fez o
mesmo, organizando outra igreja. Gozando de liberdade em
Amsterdam, podendo refletir sobre a posição doutrinária que
abraçara, Smyth publica em 1609 sua obra “The Character o f
the B ea sf [O Caráter da Besta], na qual alinhava as idéias bási­
cas que nortearam a fundação da primeira igreja batista da his­
tória, com seus 36 seguidores. Parte desse grupo, identificado
como General Baptists retornam à Inglaterra entre 1611 e 1612
onde encontram em Londres os não-separatistas.
A primeira igreja dos Particular Baptists, saída desses gru­
pos não-separatistas foi organizada em Londres em 1616. Des­
ses dois grandes grupos, os Genérale os Particular Baptists, sa­
íram, segundo o historiador Henry C. Vedder, os primeiros pe­
regrinos do “M a y fl o w e f, histórico veleiro que trouxe para
Plymouth (Nova Inglaterra) os primeiros colonos.1
No Novo Mundo a história dos batistas tem seu traço pró­
prio. O mesmo Vedder assevera que muitos outros historiado­
res sustentam que vários anabatistas faziam parte da primeira
caravana de peregrinos que ocupou a Nova Inglaterra. Um des­
ses, chegado em 1638, foi Hanserd Knollys. Pouco se sabe da
vida de Knollys, a não ser que logo após sua chegada organizou
um a Igreja em Piskataway (atual Dover, New Hamphire). Como
não se conhece sua posição doutrinária exata, não é possível
aos historiadores asseverar se esta foi ou não a primeira igreja
batista em solo americano.
A historiografia americana, porém, aponta para a figura
ím par de Roger Williams (1603-1683), fundador da colônia de
Rhode Island e pioneiro das liberdades religiosas, como o pai
das igrejas batistas dos EUA.
Graduado em Cambridge em 1627, Williams conviveu nes­
se período - e nesse ambiente cheio de novas idéias - com emi­
nentes figuras, representativas do “puritanismo” efervescente,

1 Henry C. Vedder, “A Short Historu o f the Baptists”. Judson Press, Valley Forge, 1907, pág. 203.
314 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

seguidores da teologia calvinista e críticos do modelo Anglicano


de conluio com a coroa: Oliver Cromwell, John Wintrop, John
Cotton e Thomas Hooker. Logo após sua graduação atuou como
capelão de Sir William Marsham in Otes, Essex e, até sua che­
gada em Boston em 1731, ganhou fama de não-conformista e
eloqüente defensor das liberdades individuais. Sua motivação
e busca por novo ambiente, era compartilhada pela quase tota­
lidade dos sentimentos dos primeiros peregrinos “puritanos” :
liberdade religiosa e completa separação da igreja do poder tem­
poral.
A vida de Roger Williams em Boston não foi nada fácil. Con­
vidado a assum ir funções de capelania e pároco numa Igreja em
Salém, logo se tom aram evidentes suas inclinações separatis­
tas. Boston era, sob o ponto de vista religioso, um a filial da
Inglaterra. A Igreja Anglicana e as demais denominações não-
separatistas dominavam o ambiente político-religioso, preser­
vando suas relações de dependência com o poder temporal. Sa­
lários dos clérigos eram pagos pelo governo, assim como as de­
mais despesas eclesiásticas. Não havia lugar para clérigos que
pensassem ou agissem contra essas práticas. Chamado à corte
de Boston, Roger Williams foi condenado ao banimento, expul­
so de Massachusets, sob a acusação de - in verbis

Primeiramente, “ That the magistrate ought not to punish the


breach of the first table, otherwise than in such case as did disturb
the civil peace”, e em segundo lugar “Whereas, Mr. Roger
Williams, one of the elders of the church of Salem, hath broached
and divulged new and dangerous opinions against the authority
of magistrates...”.
[O magistrado não deve punir pela quebra da primeira regra
senão nos casos de distúrbio da paz da sociedade, e em segundo
lugar, considerando que o Sr. Roger Williams, um dos presbíteros
da igreja de Salem, tem quebrado e divulgado novas e perigosas
opiniões contra a autoridade dos magistrados...]2

N ada pod ería ser m ais evidente, sobre o que pregava


W illiams e incom odava os magistrados do que esse registro da
história. Além de sua pregação evangélica, sua posição no que

Henry C. Vedder, op. cit. pág. 289.


ANTIM AÇONARIA 315

se relacionava à política era muito clara. Sua ênfase estava em


defender o separatismo, isto é, igreja de um lado e governo tem­
poral do outro, sem interdependências e interpenetrações de
qualquer espécie. Banido vai procurar outros cantos onde po­
dería organizar sua atividade religiosa livre das perseguições do
poder. E assim é criada Providence, em Rhode Island onde nas­
ce a primeira igreja batista em solo norte-americano.
O crescimento e expansão das igrejas batistas foi muito gran­
de. Na Inglaterra e nas treze colônias (a partir da Nova Inglater­
ra), o trabalho batista se desenvolveu no Séc. XVII e XVIII, plan­
tando alguns dos seus principais caracteres, além da defesa
das liberdades de consciência e da separação entre Igreja e Es­
tado. Foram os batistas os pioneiros em organizar as chamadas
missões modernas, enviando seus primeiros missionários para
a índia, Burma, Austrália ..., levando a sério o supremo m an­
damento deixado por Jesus: “Ide portanto fazei discípulos de to­
das as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espí­
rito Santo.” [São Mateus. 28:19].
Dois outros caracteres batistas, plantados nos primordios
da Nova Inglaterra e hoje espalhados em várias nações dizem
r e s p e ito a: a p r io r id a d e a tr ib u íd a à e d u c a ç ã o e ao
congregacionalismo que cerca a administração eclesiástica. A
primeira escola organizada em Boston pelos peregrinos, foi de
orientação batista: Harvard. H em y Dunster, batista, foi seu
primeiro presidente. Seguem-se vários outros estabelecimentos
educacionais que iam sendo organizados em paralelo com as
igrejas que se espalhavam pelo território. A administração ecle­
s iá s tic a é o u tro c a r á te r s in g u la r d os b a tis ta s : o
congregacionalismo. Significa dizer, cada congregação - igreja
ou reunião de crentes - é autônoma. Não se subordina a nenhu­
ma organização superior, como se verifica em outras denomina­
ções protestantes. Elege e demite seus pastores, demais obrei­
ros e membros, ouvido o plenário composto apenas da comuni­
dade de membros congregados. Suas decisões são tomadas em
assembléias, seguindo a vontade da maioria dos membros pre­
sentes. É hábito das igrejas batistas de um a dada região se reu­
nir em colegiados maiores, tipo Convenções ou Associações. Atra­
vés desses colegiados organizam ações de interesse comum como:
ensino, hospitais, assistência missionária, assistência social,
apoios diversos às igrejas e outras iniciativas. Ainda assim, es-
316 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

ses colegiados não têm qualquer poder de interferir na vida in­


terna das igrejas.
Outros aspectos distintivos dos batistas devem ser aqui
mencionados como referência:

01 Suprema autoridade da Bíblia em matéria de fé e prática.


Esta é a principal razão que tem levado os batistas a manter
suas escolas dominicais e organizar escolas bíblicas e seminári­
os devotados ao estudo da Palavra e à formação de líderes estu­
diosos no texto sacro.
02 Batismo dos crentes. É o mais característico aspecto da
doutrina e prática dos batistas. Somente os que declaram
públicamente sua fé em Cristo, e sua submissão à Sua obra e
pessoa, podem ser batizados. Crianças não são batizadas até
que conscientemente tenham condições de publicamente
verbalizar sua fé. E o batismo é praticado por imersão, por seu
simbolismo mencionado pelo Apóstolo Paulo.
“D e so rte q u e fo m o s s e p u lta d os com ele p e lo b a tism o na m or­
te, p a ra q u e com o C risto ressu rg iu d e n tre os m ortos, p e la g ló ria do
[Epístola
Pai, a s sim a n d em os nós ta m b é m em n ovid a d e d e vida.”
aos Romanos: 6:4.]
03 As igrejas são compostas dos crentes apenas. Os batistas
rejeitam a idéia de território (jurisdição) ou de paróquia. Somen­
te os crentes, reunidos em congregação, declarada e consciente­
mente seguidores de Jesus Cristo, constituem a igreja. Assim,
só é aceito membro de uma igreja batista aquele que reconheci­
damente, a critério dos demais membros, dá provas de ser um
seguidor de Cristo.
04 Igualdade de todos os cristãos na vida da igreja. Pela dou­
trina do sacerdócio de todos os fiéis, os batistas não somente
sustentam que o cristão individualmente pode servir como mi­
nistro para os seus semelhantes como isso também confere a
cada membro o direito de participar de todos os negócios da igre­
ja. Os oficiais de uma igreja - pastores, ministros e diáconos -
têm responsabilidades especiais, derivadas do consentimento da
igreja, que somente eles podem desencumbir, mas não são os
únicos a deter o statu s sacerdotal.

Atualmente nos EUA existem diversas convenções batistas


espalhadas pelo território nacional e reunindo igrejas que guar­
dam traços comuns (Convenção Batista do Sul, Convenção Ba­
tista Regular, Convenção Nacional Batista, Convenção Batista
do Sétimo Dia, Convenção Batista Conservadora, Convenção
ANTIM AÇONARIA 317

Batista Americana, etc...). De longe a Convenção Batista do Sul


é a que reúne a grande maioria das igrejas batistas dos EUA,
representando mais de 60% da totalidade do povo batista am e­
ricano. Segundo dados correntes, 1998, a CBS reúne mais de
17.000 igrejas e cerca de 23 milhões de fiéis. A denominação,
n a sua totalidade, represen ta 20% da popu lação dos EUA
declaradamente religiosa.3
No Brasil, os batistas começaram a chegar nos anos 60 do
Séc. XIX, como parte do éxodo dos confederados em busca de
novas terras. Os primeiros a chegar foram se instalar no interior
de São Paulo em Santa Bárbara do Oeste. A maioria dos histori­
adores, todavia, situa em 1880 a organização da primeira Igreja
Batista no Brasil, em Salvador (BA), por um ex-padre converti­
do, Antonio Teixeira de Albuquerque. O primeiro casal de m is­
sionários enviados pela CBS para o Brasil, aqui aportaram em
1882, William e Anne Bagby. Hoje os batistas constituem no
Brasil o m aior grupo dentre as denominações protestantes his­
tóricas. Mantêm quatro seminários, inúmeras escolas espalha­
das pelas principais cidades do país, publicações, editoras e
mais de 7 mil igrejas.

3“ T h e M a c M itta n V is u a l A lm n n a c f ’ , MacMillan, 1996, págs. 112, 5.


AN TIM AÇ O NARIA 319

APÊNDICE II

Resumo Estatístico: Fundamentalismo e M açonaria nos EUA

A maioria da população am ericana é formada de protestan­


tes, assim como nós brasileiros costumamos nos definir como
um a nação católica, isto é, de maioria formada por seguidores
da Igreja Católica Apostólica Romana, ainda que muitos sejam
apenas nominais. De acordo com o NORC (Centro de Pesquisas
de Opinião Pública) da Universidade de Chicago, 60 a 65% da
população americana é protestante e nela cerca de 70 a 75%
são declaradamente membros de igreja.
O termo protestante, quando referido à religião, é muito vago.
Traz consigo um complexo de denominações, seitas e religiões
que” p odem co n ter m ais de setecen to s títu lo s d iferen tes.
Presbiterianos, metodistas, congregacionais, batistas, luteranos,
adventistas, quakers, reformados, menonitas, pentecostais e
muitos outros fazem parte desse grande guarda-chuva debaixo
do qual estão os chamados protestantes. As denominações pro­
testantes guardam alguns caracteres próprios, embora tenham
um a raiz teológica comum - oriunda da reform a luterana do
S éc. X V I. T o d a s e la s têm s id o in v a d id a s p e la lin h a
fundamentalista mercê de posições de alguns de seus princi­
pais líderes e da m aior ou menor permeabilidade que suas es­
truturas eclesiais têm à penetração de novas doutrinas. Ainda
que os pentecostais, batistas (independentes ou ligados a algu-
320 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

mas das convenções regulares) e os presbiterianos sejam os que


mais nitidamente têm abrigado tendencias fundamentalistas e
neofundamentalistas, outras denominações evangélicas também
as têm, de maneira mais ou menos intensa, como alguns estu­
dos acadêmicos empíricos têm mostrado com clareza. Não por
coincidência, algumas denominações evangélicas com declara­
ções públicas contrárias a maçonaria, citadas por Horrel e ou­
tros autores antimaçons, são identificadas como fortemente in­
fluenciadas por fundamentalistas nos trabalhos de campo rea­
lizados pela equipe de pesquisas sociológicas lideradas pelo pro­
fessor Tom W. Smith da Universidade de Chicago (cujos resulta­
dos têm sido p u b lica d o s na série c o n h e c id a com o “ GSS
Methodologicál R eporf, facilmente obtidos na Internet no ende­
reço <www.icpsr.umich.edu/report/m-report/meth ...htm> ) e
pelos estudos publicados do Professor George M. Marsden, em
e s p e c ia l em su a r e c e n te p u b lic a ç ã o , “ U nd erstan d ing
Fun da m en ta lism and E va n g e lica lism ” [E n te n d e n d o
Fundamentalismo e Evangelism o]. Nos quadros das próximas
páginas, reproduzimos alguns dados estatísticos das pesquisas
de campo, realizadas pela Universidade de Chicago nos últimos
quinze anos. O propósito ao apresentar esses dados é tão-so­
mente realçar a presença dessa corrente fundamentalista nas
igrejas americanas, verificar sua evolução mais recente e reali­
zar algumas ilações sobre o discurso antimaçônico de algumas
delas. No Quadro 1, o NORC (National Opinión Research Center),
Univ. de Chicago, qualifica algumas das principais denomina­
ções segu n do a lin h a d o u trin á ria : lib era is, m od erad os e
fundamentalistas. Observe-se que mesmo dentro de um mesmo
grupo denominacional (por exemplo, luteranos) existem facções
que exibem a posição fundamentalista e outros são moderados
ou liberais. Entre os batistas, a Convenção Batista do Sul - a
m aior denominação protestante americana - é qualificada como
fundamentalista pela equipe do NORC, a partir das pesquisas
de campo realizadas numa amostra de seus membros. O mais
importante a se notar é o crescimento de alguns grupos, a es­
tagnação e esvaziamento de outros. É nítido que, passado o
entusiasmo religioso do povo americano logo após a Segunda
Guerra, todas as denominações liberais registram marcante que­
da no número de membros arrolados nas suas igrejas. As igre­
jas moderadas também experimentaram idêntica evolução: o nú­
ANTIM AÇONARIA 321

mero de seus membros tendeu genericamente a diminuir. A ex­


ceção é a Igreja Católica que cresceu sempre, ao longo de todo o
período, embora com taxas de crescimento declinantes. É pos­
sível que o desempenho da Igreja Católica tenha a ver com a
corrente migratória, principalmente de hispânicos.
Já as chamadas denominações fundamentalistas, segundo
o critério do NORC, mostram taxas de crescimento, ainda que
moderadamente declinantes ao longo de todo o período. Notável
é que o mais fraco desempenho estatístico dentre as denomina­
ções fundamentalistas é a Igreja Luterana-Sínodo de Missouri.
Teve número de membros declinantes entre 1970 e 1980 e uma
taxa de crescimento entre 1980 e 1985 de apenas 0,1%, o que
virtualmente significa estagnação.
Quadro 1: Mudanças no número de membros arrolados nas principais denominações protestantes
americanas entre 1950 e 1985 (alterações percentuais durante o intervalo de cinco anos).

1950-55 1955-60 1960-65 1965-70 1970-75 1975-80 1980-85

United ChristianChurch 7,0 5,9 -7,9 -5,3 -7,2 -4,5 -3,0


í -i
§ Episcopal Church
<u 15,0 17,6 4,1 -3,4 -13,0 -2,5 -1,7
<3 a United Methodist 3,9 6,1 4,0 -5,0 -6,1 -3,5 -3,7
aS DisciplesofChrist 7,3 -5,1 6,5 -25,7 -8,6 -9,5 5,2
a
O) Presb. Church, USA 15,3 12,4 -4,3 1,5 -12,6 -4,9 -9,3
s
o RománCatholic 16,6 26,1 9,8 4,3 1,4 3,2 4,4
d Ludieran ChurchinAm. 15,2 10,6 2,9 -1,1 -3,9 2,1 -0,9
S Am. LutheranChurch 20,4 17,3 13,3 0,0 -5,0 -2,6 -0,9
o
Q5 ReformedChurchinAm. 12,3 11,0 8,8 -4,7 -3,4 -2,7 -0,9
Luth. Church-Mo Synod 19,7 19,3 12,6 3,6 -0,9 -5,0 0,1
<§ SouthernBaptist Conv. 19,6 14,9 10,7 8,0 9,5 6,8 6,5
« Churchofthe Nazarene 19,4 13,7 11,6 11,6 15,1 9,8 7,8
e
0> Mormon 10,7 20,9 20,3 15,9 12,7 23,3 37,3
a
cS Jehovah’ sWitnesses - 33,6 32,1 17,8 44,2 0,8 29,2
a 7*h-DayAdventist 16,9 14,7 14,7 15,3 17,9 15,2 14,1
s.
d ChurchofGod 22,5 19,3 20,7 32,5 26,1 26,7 20,3
o AssembliesofGod 25,6 27,1 12,5 9,2 - 35,5 95,7
Fonte: Tom W. Smith, “Are Conservative Churches GrotuinaT. NORC - University o f Chicago, GSS
Social Change Report Na 32, January, 1991.

É esta Igreja um a das mais ativas na campanha contra a


maçonaria. São conhecidas as suas publicações contrárias à
Ordem e suas posições são constantemente citadas por autores
como Ankerberg, Ed Decker, Horrel e outros. Será tão impor­
tante assim o citar-se a postura antimaçõnica de um a denomi­
nação protestante cuja posição, no conjunto das igrejas, não é
322 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

tão expressiva como pretendem os detratores da Ordem? Inte­


ressante se verificar que as igrejas filiadas à Convenção Batista
do Sul, ainda que estejam crescendo, exibem taxas de cresci­
mento declinantes. É possível que este desempenho tenha a ver
com o grande número de igrejas que têm se desfiliado da Con­
venção para se associar a outra ou então se tornar independen­
te, fato muito comum nestes últimos anos nos EUA.
O notável avanço entre os fundamentalistas está se dando
no seio das mais im portantes denom inações pentecostais: a
Assem bléia de Deus e a Igreja de Deus. Note-se que a Assem ­
bléia de Deus tem crescido sempre atingindo, no quinquênio
1980-85, a taxa recorde de 95,7%. Este é bem um sintoma
desse final de milênio, onde o povo americano tende a valorizar
os discursos fervorosos, os milagres, os poderes de cura e a
ênfase no poder do Espírito Santo. Observe-se ainda as taxas
de crescimento das seitas que, embora qualificadas pelo NORC
como fundamentalistas, são vistas pelos demais conservadores,
como heréticas e verdadeiras inimigas do cristianismo. Referimo-
nos aos Testemunhas de Jeová e aos Mormons, cujo crescimen­
to em todo o período tem se mantido em alta. Esse desempenho
incomoda os demais fundamentalistas que, provavelmente por
este m otivo, não se cansam de acusá-los com o hereges e
anticristãos.
O que poderiamos dizer da m açonaria americana? Conti­
nua crescente. O número de membros filiados ou o número de
lojas tem se alterado nestes anos? De acordo com a Grande
Loja do Estado de Nova York, no fim dos anos oitenta a Ordem
contava com 14 mil lojas e aproximadamente 3 milhões de m em ­
bros nos E U A .1Os números conhecidos para os anos oitenta
apontam para um certo declínio do número de membros das 51
grandes lojas. O Quadro 1 das páginas 323 e 324, apresenta a
situação, em número de membros registrados, das grandes lo­
jas dos EUA, tomados em dois anos, 1995 e 1997, segundo da­
dos divulgados no “List o f Lodges” correspondentes.
As primeiras duas colunas dizem respeito aos números de
1995 e as duas últimas a 1997. Note-se um decréscimo nestes
entre esses dois anos de em média aproximadamente 6% no

1 Os dados relacionam apenas as lojas simbólicas e não incluem as lojas subordinadas à Obediência
“Prince Hall” dos maçons de cor negra.
AN TIM AÇ O NARIA 323

número de membros das lojas de cada jurisdição. No todo, em


1995 as grandes lojas revelaram ter 2.275.070 membros,
13.277 oficinas e chegaram a 1997 com 2.141.468 membros e
12.994 lojas.

Estado Ns Membros N6 Lojas Ns Membros Na Lojas

1 ALABAMA 48.100 369 46.000 364


2 ALASKA 2.251 19 2.243 19
3 ARIZONA 19.905 69 19.905 68
4 ARKANSAS 27.761 339 25.945 328
5 CALIFORNIA 128.060 452 110.227 431
6 COLORADO 21.095 153 19.479 149
7 CONNECTICUT 23.745 124 22.091 117
8 DELAWARE 70.15 29 6.736 29
9 D.OF COLUMBIA 6.703 32 6.248 31
10 FLORIDA 68.278 317 65.538 316
11 GEORGIA 70.086 447 66.302 442
12 HAWAI 2.400 12 2.200 12
13 IDAHO 7.365 73 6.841 74
14 ILLINOIS 102.419 646 97.252 624
15 INDIANA 105.700 500 98.573 497
16 IOWA 39.642 371 36.656 357
17 KANSAS 45.277 312 43.342 294
18 KENTUCKY 73.564 448 71.382 445
19 LOUSIANA 31.646 280 28.903 275
20 MAINE 30.415 196 29.150 193
21 MARYLAND 28.776 126 28.776 120
22 MASSACHUSETTS 63.685 306 61.853 301
23 MICHIGAN 74.793 423 69.068 409
24 MINNESOTA 29.426 201 26.756 198
25 MISSISSIPI 33.145 288 31.070 283
26 MISSOURI 61.000 450 59.000 442
27 MONTANA 10.557 113 9.906 109
28 NEBRASKA 21.134 181 19.917 178
29 NEVADA 6.309 42 5.945 43
30 NEWHAMPSHIRE 10.878 76 10.113 74
31 NEWJERSEY 44.992 170 42.125 163
32 NEWMEXICO 8.656 67 8.424 66
33 NEWYORK 93.405 709 85.551 690
34 NORTHCAROLINA 64.362 386 61.814 385
35 NORTH DAKOTA 5.921 79 4.947 72
36 OHIO 164.550 634 154.638 614
37 OKLAHOMA 40.615 269 38.870 263
38 OREGON 19.226 156 17.608 155
39 PENNSYLVANIA 163.925 505 156.968 493
40 RHODEISLAND 7.603 41 6.989 39
324 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

41 SOUTHCAROLINA 60.452 330 58.922


42 SOUTHDAKOTA 8.866 108 8.442
43 TENNESSEE 76.800 372 72.397
44 TEXAS 154.807 917 144.884
45 UTAH 3.039 32 2.828
46 VERMONT 9.485 91 9.077
47 VIRGINIA 52.603 344 51.658
48 WASHINGTON 29.435 235 27.599
49 WESTVIRGINIA 32.689 151 30.083
50 WISCONSIN 25.236 237 23.163
51 WYOMING 7.273 50 7.064
Totais 2.275.070 13.277 2.141.468
ANTIM AÇONARIA 325

APÊNDICE III

Organizações Antimaçõnicas

Não são muitas, a grande maioria gira em torno de algum


líder evangélico proeminente. São de pequeno porte e guardam
alguns caracteres em comum: estão ativas, funcionam sob o
título de “m issão” - muito familiar e respeitável aos evangélicos,
muito dinâmicas, produzindo bastante, contam com respaldo
de grupos da extrema direita política, utilizam-se de recursos
da mídia m oderna (TV, Revistas, Redes de Editoras, Áudio e
Videocassetes, Internet e Convenções), evidenciam um a estra­
tégia e um discurso comum. Sua m ensagem é basicam ente
dirigida aos evangélicos, conforme dizem. Na realidade, porém,
pretendem atingir o público em geral, como se pode depreender
do alcance dado às suas iniciativas (publicações, eventos e pre­
sença na m ídia rádio/TV). Se podem os em poucas palavras
caracterizá-las, assim traçaríamos o perfil dos agentes da atual
antimaçonaria americana.
Graças aos recursos da Internet, é possível a qualquer um
identificar quais são os principais agentes, organizações e m ovi­
mentos antimaçônicos atualmente em operação nos EUA. A re­
lação das próximas páginas não é exaustiva, limita-se a regis­
trar aquelas que gozam de m aior reputação, pelo volume de
suas produções e pela marcante presença na mídia.
326 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Está no
# Organização/Endereço Caracterização
Brasil?

01 Christian Truth and Victory É instituição recomendada aos cris­ N


Publications tãos em busca de conhecimento so­
9088 County Road 11 NW bre a maçonaria. Dissemina obras
Alexandria, MN 56308 maçônicas e antimaçônicas diversas.
Ph. (320) 846-0835 Fornece catálogos sob pedido.
02 Followers of Jesus Christ, Inc. Sob o título de missão, seu líder David N
P.O. Box4174 Carrico realiza estudos e pesquisas
Evansville, IN 47724-4174 sobre as chamadas sociedades secre­
tas. Os seus resultados são editados
sob a forma de vídeos. O principal de­
les, SATANIC RITUAL AND SECRETS
SOCIETIES, é bem conhecido nos
EUA. Distribui também livros, tapes e
folhetos na mesma linha. Tudo pode
ser obtido sob encomenda dirigida a
David Carrico.
03 Free the Masons Ministries Faz parte do S a in ts A l i v e M in is tr ie s , N
P.O. Box 1076 dirigido por um dos mais conhecidos
Issaquah, WA, 98027 antim açons am ericanos, Edward
Decker, um ex-mormon e atual mem­
bro da Assembléia de Deus. Tem pu­
blicado artigos e livros contra a maço­
naria. Seu ministério objetiva desviar
cristãos da maçonaria: evangeliza
maçons e atrai para as suas idéias os
cristãos inclinados a pertencer à Or­
dem. Foi um dos principais
in stigadores do movim ento
antimaçônico desencadeado na Con­
venção Batista Americana de 1992.
Além de suas próprias obras, esse mi­
nistério realiza eventos, distribui li­
vros, tapes e folhetos.
04 HRT Ministries Seu dirigente, Harmon Taylor é ex- N
Box 12 maçom, ex-capelão da Grande Loja
Newtonville,NY 12128-0012 Maçônica do Estado de Nova York.
Tem se notabilizado pelas palestras e
artigos contra a Ordem. Seus traba­
lhos são, inclusive, disseminados pela
In tern et.
05 In His Grip Ministries Seu líder Mick Oxley é um estudioso N
Route#l Box257-E das religiões, particularmente do
Crescent City, FL 32112 induísmo e do islã. Segundo seus bió­
grafos, foi iniciado maçom na Ingla­
terra e imediatamente reconheceu ele­
mentos pagãos no ritual. Continuou
ANTIM AÇONARIA 327

Está no
# Organizaçáo/Endereço Caracterização
Brasil?

praticando a maçonaria em diferentes


locais como Irlanda, África, índia e
Cingapura antes de se converter ao
cristianismo. Mick, ainda segundo seus
biógrafos, entendeu que não poderia
ser cristão e maçom. Através desse
ministério, In H i s G rip, são distribuídos
tapes, livros e folhetos sobre temas tais
como: islã, maçonaria e guerra espiri­
tual.
06 In Search o f Light Mirústries Duane Washum, seu responsável, é um N
Box 28702 ex-maçom. Foi Venerável Mestre. Diz
Las Vegas, Nevada 89126 seu biógrafo que, ao levar a sério sua
relação com Jesus Cristo, Duane teve
de renunciar à maçonaria. Duane ofe­
rece atualmente mensagens diretas aos
maçons através da linha telefônica
(702) 363-8811.
07 JackHarris Jack Harris é ex-maçom e ex-Venerá- N
Truth and Light Mirústries vel Mestre. De acordo com a narrativa
Box 20214 de seus biógrafos, o Grão-Mestre teria
Towson, MD21284 dito a Harris que êle não poderia orar
em loja invocando o nome de Jesus
Cristo ao final. Ao se converter ao cris­
tianismo, dizem, foi levado a estudar a
Bíblia mais de perto e então deixou a
loja. Hoje é um reputado antimaçom,
tendo publicado o livro “F r e e m a s o n r y :
T h e In v is ib le C u lt in o u r M i d s t ”.
08 Sound Doctrine Mirústries Esse ministério é da responsabilidade N
Box 1962 de Steven Tsoukalas, autor da obra
“Masonic Rites and Wrongs” [Ritos
Maçônicos e Equívocos]. Por seu pai ter
sido maçom, teve acesso aos rituais e
publicações sobre a Ordem. Seus es­
tudos, dizem, levaram-no a concluir
pela incompatibilidade entre a maço­
naria e o cristianismo. Seu livro, difun­
dido pela missão, analisa o que é ensi­
nado através do ritual maçônico.
09 The John Ankerberg Show Uma rede de TV e rádio difunde pro­ S
P.O.Box8977 gramas desse já famoso evangelista -
Chattanooga, TN de origem batista - e reconhecido líder
da antimaçonaria americana, John
Ankerberg. Em parceria com John
Weldon, Ankerberg tem publicado vá-
328 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Está no
# Organização/Endereço Caracterização
Brasil?
rios livros focalizando sempre as cha­
madas correntes e organizações que
se opõem à tradição fundamentalista,
tais como: os mormons, a maçonaria,
a teoria da evolução, o movimento da
Nova Era, etc. Suas obras já estão
traduzidas para o Português e edita­
das no Brasil. Seus interesses no Bra­
sil estão sendo representados pela
O b r a M is s io n á r ia C h a m a d a d a M e i a -
N o ite ,sede em Porto Alegre, RS.
10 WithOneAccord Missão dirigid a pelo escritor N
P.O. Box 457 antimaçom William Schnoebelen, ex-
Dubuque, IA 52004 maçom e também membro da Igreja
de Satã (uma das aberrações da soci­
edade atual, com ramificações em al­
guns países). Da vida maçônica do Sr.
Schnoebelen pouco se sabe. Diz-se
que atingiu o 32" grau do Rito Esco­
cês Antigo e Aceito, até que um dia se
converteu ao cristianismo e passou a
deplorar todo o seu passado e, mui
particularmente, a maçonaria a que
pertenceu.É autor de obras diversas
antimaçônicas, a principal das quais
já foi publicada no Brasil: “M a ç o n a ­
ria, d o O u tr o L a d o d a L u z ”. Nos EUA é
palestrante em igrejas, convenções e
seminários. Sua missão distribui li­
vros, tapes e folhetos.

11 Word for Living Ministries Ministério dirigido pr Tom McKenney, N


P.O.Box413 co-autor do livro antimaçônico “T h e
Marión. KY 42064 D e a d l y D e c e p t i o n ”.
12 Christian Research Institute Organização que realiza estudos, pro­ S
P.O.Box 500-TC move cursos e apresentações e edita
San Juan Capistrano, CA livros. Conforme sua própria defini­
92693 ção, o “C.R.I. é entidade que defende
Ph. (714) 855-9926 a fé cristã e estuda as seitas não-cris-
tãs”. Com sede nos EUA, possui ra­
mificações em diversos países, inclu­
sive no Brasil. Publica regularmente
seus trabalhos através do “ C h ristia n
R e s e a r c h J o u r n a l ” e “ Christian
Research Newsletter”. Volumosa infor­
mação tem ainda sido disponibilizada
ANTIM AÇONARIA 329

Está no
# Organizaçào/Endereço Caracterização
Brasil?
pelo C.R.I. na In tern et. Seu escritório
no Brasil está em São Paulo, SP. Sob o
nome ICP-Instituto Cristão de Pesqui­
sas, no Brasil a entidade define seus
objetivos - entre outros : “A le r ta r a Ig r e ­
j a s o b r e o c r e s c im e n to e p e r ig o d a s s e i ­
ta s ...; M o b iliz a r a ig re ja p a r a g a n h a r o s
a d e p t o s d a s s e it a s p a r a C ris to e to m a r
m e d id a s p r e v e n t i v a s p a r a f r e a r o c r e s ­
c im e n to d a s s e i t a s e d o o c u ltis m o ...” .
Seu diretor no Brasil, Paulo Romeiro
é escritor tendo uma de suas obras
alcançado grande repercussão, “E v a n ­
g é lic o s e m C r i s e ” (cf. Bibliografia des­
te trabalho).
13 National ChristianAssodation Entidade evangélica tradicionalmente N
221, West Madison Street antimaçônica e contrária às socieda­
Chicago, Illinois des secretas de uma forma geral, or­
ganizada em Pittsburgh, PA, EUA, em
1868 e ainda hoje muito atuante na
difusão do seu ministério. De traço
eminentemente fundamentalista, mi­
litando contra o que denomina socie­
dades secretas, a NCA edita o sema­
nário ‘C h r is tia n C y n o s u r e ’ . Está pre­
sente na In te r n e t e seu veículo mais
amplamente conhecido é a A c a c i a
P r e s s , Inc. uma editora/livraria situa­
da em Montague, Massachusetts e
especializada em obras antimaçônicas.
Diremos, sem receio de errar, que se
alguém não encontrar na A c a c ia P r e s s
o livro antimaçônico que procura, difi­
cilmente achará em outro lugar. A NCA
está muito presente na In te rn e t na qual
divulga as obras disponíveis na A c a c ia
P r e s s e anuncia a disponibilização de
folhetos, livros e seu sem anário
C h r is tia n C y n o s u r e , todos de franca e
aberta oposição às sociedades secre­
tas em geral.
14 THE CUTTINGEDGE A Igreja Batista da Graça, em Attleboro,
N
Old Path Ministries, Massachusetts, é uma das muitas igre­
a ministry o f Grace Baptist jas independentes de vocação neo-
Church
fundamentalista, dirigida pelo pastor
Attleboro, Massachusetts
<www.cuttingedge.org> David Bay que - entre outras ativida-
330 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

Está no
# Organização/Endereço Caracterização
Brasil?

des conduz o programa de rádio THE N


CUTTING EDGE cujas palestras são
regularm ente transcritas no seu
w e b s ite . Essas são caracterizadas por
discursos paradigmas da nova verten­
te fundamentalista de nossos dias:
ataque frontal a todas as correntes de
pensamento não afinadas com a vi­
são conservadora dos evangélicos. Os
ataques à maçonaria são freqüentes.
O w e b s i t e é muito rico em detalhes e
sua concepção pode ser enquadrada
entre as mais modernas, oferecendo
inclusive contato direto do visitante
15 com o ministério.
Ephesians 5:11 ,Inc. Ministry Ministério muito ativo na realização N
Post Office Box 291 de eventos endereçados a cristãos.
Fishers, IN 46038 Seu diretor, Larry Kunk, tem anun­
Ph. (317)842-8087 ciado últimamente a comercialização
de tapes de eventos dirigidos aos
maçons, realizados em junho de 1996
e 1997 em In dian opolis, IN e
Columbus, Ohio. Tem se envolvido
regularmente em tais eventos, que le­
vam o título genérico de “ N a t i o n a l
L e a d e r s h ip C o n f e r e n c e o n M in is tr y to
M a s o n s ” (Conferência Nacional da Li­
derança do Ministério aos Maçons). A
literatura de “E p h e s ia n s 5 :1 1 , Jnc” dei-
xa claro o objetivo principal desse
ministério: “E p h e s i a n s 5 :1 1 p r o v ê in ­
f o r m a ç õ e s p a r a e q u ip a r o s c r is tã o s a
[cf.
tira r p e s s o a s d a s lo ja s m a ç ô n ic a s ”
C IS M a s o n ic R e p o r t , Vol.3, N2 2 (May
1997), p.01).
ANTIM AÇONARIA 331

APÊNDICE IV

Lojas de Pesquisas e Organizações Maçónicas.


com trabalhos sobre Antimaçonaria

O Brasil ainda se ressente de grupos dedicados a pesquisas


e estudos sobre a Ordem, de um a forma geral. Que dizer dos
que têm tratado da matéria central deste trabalho? Umas pou­
cas lojas de pesquisas têm dedicado algum esforço em prom o­
ver o m elhor conhecimento da realidade maçônica brasileira,
em particular. Vale mencionar a Loja de Pesquisas Brasil, de
Londrina (PR), a OPM (Oficina de Pesquisas Maçónicas) da Gran­
de Loja M açônica de São Paulo e a histórica Loja Maçônica
Fraternidade Brazileira, de Juiz de Fora (MG), como tentativas
isoladas de manter vivo entre nós o amor pelo conhecimento da
Ordem.
A Editora Maçônica “A TROLHA”, de Londrina (PR), vem pres­
tando excepcional serviço à difusão da cultura maçônica pelos
trabalhos que tem feito publicar na série CADERNOS DE ESTU­
DOS MAÇÔNICOS e outras publicações avulsas que norm al­
mente edita. No que diz respeito às atividades antimaçônicas,
no Brasil, devem ser ressaltadas as obras do Pe. Benim elli
(traduzidas para o Português) e de Castellani. Enquanto Benimelli
resume seu trabalho à história européia da antimaçonaria, com
riqueza de detalhes e rigor científico - diga-se de passagem - os
estudos divulgados por Castellani, em suas duas obras “Do Pó
dos Arquivos” (1995) e “Os Maçons e a Questão Religiosa” (1996),
332 DESCARTES DE SOUZA TEIXEIRA

traz novas luzes sobre a origem e os lamentáveis desdobramen­


tos do movimento chamado “A QUESTÃO RELIGIOSA” , envol­
vendo a maçonaria, a Igreja Católica e o Segundo Império no
Brasil após 1871. Trata-se de valiosas contribuições ao enten­
dimento da história do contencioso “Igreja versus Maçonaria”
no Brasil. Outro valioso trabalho, na mesma linha, vem do ex-
deputado federal e maçom ativo, Marcelo Linhares, que publi­
cou, com o apoio do Senado Federal, a obra “A Maçonaria e a
Questão Religiosa do Segundo Im pério” (1988).
T o d a s e s s a s c o n tr ib u iç õ e s tra ta m d a fo to g r a fia do
contencioso entre igreja (católica) e maçonaria do final do im pé­
rio. Não se conhecem iniciativas atuais de lojas de pesquisas
brasileiras e de estudiosos, direcionadas a identificar a m ovi­
mentação antimaçõnica dos dias atuais. O problema parece es­
quecido ou subavaliado. Os movimentos antimaçônicos de ori­
gem protestante não são conhecidos em nossa literatura, com
exceção de duas obras famosas, um a de um maçom e outra de
um historiador. Referimo-nos ao clássico “A MAÇONARIA E O
CRISTIANISMO” (1953), do Pastor presbiteriano, maçom, Jor­
ge Buarque Lyra, que viveu o episódio da divisão da Igreja
Presbiteriana do Brasil em função de posições antimaçônicas
estimuladas pelo não menos conhecido Pastor Eduardo Carlos
Pereira, cujas idéias foram publicadas no livro “A MAÇONARIA
E A IGREJA CRISTÔ(1945). E o outro trabalho, o clássico “O
PROTESTANTISMO, A MAÇONARIA E A QUESTÃO RELIGIOSA
NO BRASIL” (1980), do professor David Gueiros Vieira, da Uni­
versidade de Brasília. Nada mais tem sido produzido no Brasil
para o esclarecimento do tema.
Diferentemente, nos EUA, Inglaterra, França e Bélgica, gru­
pos de estudos e lojas de pesquisas têm se notabilizado pelos
trabalhos que publicam sobre diversos assuntos, inclusive so­
bre os movimentos antimaçônicos atuais e temas afins. As
Obediências entretanto guardam um comportamento extrema­
mente discreto com relação aos incitamentos dos antimaçons.
Preferem não se pronunciar, em resposta às provocações. A Gran­
de Loja Unida da Inglaterra (GLUI) mantém posição distante
das acusações dos antimaçons. Recentemente, porém, tem emi­
tido declarações públicas expondo o conceito de maçonaria e
estabelecendo suas relações com as religiões. Citamos no qua­
dro da pág. 333 as mais importantes organizações, dedicadas à
ANTIM AÇONARIA 333

pesquisa maçônica, com trabalhos valiosos sobre a matéria. Res­


saltamos que algumas delas dispõem de páginas na Internet,
com respectivos endereços citados.

# Organização/Entidade de Pesquisa Endereço

01 “ Q u a t u o r C o r o n a ti L o d g e n 2 0 7 6 ’ - Da 60 Great Queen Street,


jurisdição da Grande Loja Unida da Ingla­ London WC2B 5BA.
terra. Edita anualmente a famosa “A r s
Q u a t u o r C o r o n a to r u m ” , publicação de mai­
or credibilidade na área, com trabalhos
sobre a antimaçonaria entre outros temas.

02 “L o g e N a tio n a le d e R e c h e r c h e s V illa rd GLNF - 65, Bd. Bineau,


de H on n ecou rC - Da jurisdição da Grande 92200 Neuilly-sur-
Loja Nacional Francesa. Publica semestral­ Seine, France.
mente a “ T r a v a u x d e la L o g e N a tio n a le d e
R e c h e r c h e s V illa rd d e H o n n e c o u r t ” , coletâ­
nea de trabalhos de pesquisas dos seus
membros.

03 “ S o u t h e r n C a lifo r n ia R e s e a r c h L o d g e PO Box 6587, Buena


F & A M ’- da jurisdição da Grande Loja da Park CA 90622
California. Dispõe de livraria especializada, e-mail scrl@ aol.com
oferecendo títulos a preços especiais para <www. intemational. com/
maçons do mundo inteiro. Edita o periódi­ hiram/scrl>
co “F r a te r n a l R e v i e u f .

04 “R e s e a r c h L o d g e o f O r e g o n , n 198” da 15758 SE Hwy 224.


Grande Loja do Oregon. Clackamas, Or.
97015-8309.

05 “ M a s o n i c S e r v ic e A s s o c i a t i o n ” (MSA). 8120 Fenton Avenue,


Organização independente, dirigida por Silver Spring, MD
maçons, com propósito de prestar servi­ 20910-4785.
ços diversos aos seus membros em parti­
cular e aos maçons em geral. Publica men­
salmente a revista S h o rt T a lk B u lle tin