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Márcio André Lopes Cavalcante

Processo excluído deste informativo esquematizado por não ter sido concluído em virtude de pedido de vista: RE 870947/SE.

Julgados excluídos por terem menor relevância para concursos públicos ou por terem sido decididos com base em
peculiaridades do caso concreto: ADI 4357 ED/DF; ADI 4425 ED/DF.

ÍNDICE
DIREITO ADMINISTRATIVO
CONCURSO PÚBLICO
 Surgimento de novas vagas e discussão sobre direito subjetivo à nomeação.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


COMPETÊNCIA
 STF não possui competência originária para julgar ação popular.

JUSTIÇA GRATUITA
 Exigibilidade suspensa das obrigações resultantes da sucumbência.

DIREITO PROCESSUAL PENAL


INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA
 Possibilidade de compartilhamento das provas obtidas em outro processo criminal.

DIREITO ADMINISTRATIVO

CONCURSO PÚBLICO
Surgimento de novas vagas e discussão sobre direito subjetivo à nomeação

Importante!!!
O surgimento de novas vagas ou a abertura de novo concurso para o mesmo cargo, durante o
prazo de validade do certame anterior, não gera automaticamente o direito à nomeação dos
candidatos aprovados fora das vagas previstas no edital, ressalvadas as hipóteses de
preterição arbitrária e imotivada por parte da administração, caracterizada por
comportamento tácito ou expresso do Poder Público capaz de revelar a inequívoca
necessidade de nomeação do aprovado durante o período de validade do certame, a ser
demonstrada de forma cabal pelo candidato.
Assim, o direito subjetivo à nomeação do candidato aprovado em concurso público exsurge
nas seguintes hipóteses:

Informativo 811-STF (17/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


a) quando a aprovação ocorrer dentro do número de vagas dentro do edital;
b) quando houver preterição na nomeação por não observância da ordem de classificação; e
c) quando surgirem novas vagas, ou for aberto novo concurso durante a validade do certame
anterior, e ocorrer a preterição de candidatos de forma arbitrária e imotivada por parte da
administração nos termos acima.
STF. Plenário. RE 837311/PI, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 09/12/2015 (repercussão geral) (Info 811).

CANDIDATO APROVADO DENTRO DO NÚMERO DE VAGAS


O candidato aprovado dentro do número de vagas tem direito subjetivo à nomeação?
SIM. O candidato aprovado dentro do número de vagas previstas no edital do concurso público possui
direito subjetivo de ser nomeado e empossado dentro do período de validade do certame.

Momento da nomeação
O candidato aprovado dentro do número de vagas tem direito subjetivo à nomeação, mas quem escolhe o
momento de nomear é a Administração Pública. Assim, o candidato não pode exigir que seja
imediatamente nomeado. O direito de o candidato exigir a nomeação só surge quando o prazo do
concurso está expirando ou já expirou sem que ele tenha sido nomeado.

CANDIDATO APROVADO FORA DO NÚMERO DE VAGAS


O candidato aprovado fora do número de vagas tem direito subjetivo à nomeação?
Em regra, não.

Se o candidato foi aprovado fora do número de vagas, mas durante o prazo de validade do concurso
foram criados novos cargos, ele terá direito subjetivo à nomeação?
Em regra, não.

Imagine que a Administração fez um concurso para 10 vagas, tendo nomeado e dado posse aos 10
primeiros. Alguns meses depois são criadas 5 novas vagas. O prazo de validade do concurso ainda não
expirou. Apesar disso, o Poder Público decide fazer um segundo concurso. Os candidatos aprovados no
primeiro certame fora do número de vagas inicialmente previsto poderão exigir sua nomeação?
Em regra, não.

A situação pode ser assim definida:


REGRA: o surgimento de novas vagas ou a abertura de novo concurso para o mesmo cargo durante o prazo
de validade do certame anterior não gera automaticamente o direito à nomeação dos candidatos
aprovados fora das vagas previstas no edital.

EXCEÇÃO:
Haverá direito à nomeação se o candidato conseguir demonstrar, de forma cabal:
•à ueà existeà i e uívocaà ecessidadeà deà o eaçãoà deà ap ovadoà du a teà oà pe íodoà deà validadeà doà
certame; e
•à ueà est à have doà preterição arbitrária e imotivada por parte da administração ao não nomear os
aprovados.

HIPÓTESES NAS QUAIS EXISTIRÁ DIREITO SUBJETIVO À NOMEAÇÃO


O STF listou as três hipóteses nas quais existe direito subjetivo à nomeação do candidato aprovado em
concurso público:
1) Quando a aprovação do candidato ocorrer dentro do número de vagas dentro do edital;
2) Quando houver preterição na nomeação por não observância da ordem de classificação;
3) Quando surgirem novas vagas, ou for aberto novo concurso durante a validade do certame anterior, e
ocorrer a preterição de candidatos de forma arbitrária e imotivada por parte da administração.

Informativo 811-STF (17/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


TESE FIXADA EM REPERCUSSÃO GERAL
A decisão do STF foi proferida em sede de recurso extraordinário submetido à sistemática da repercussão
geral, tendo sido fixada a seguinte tese a ser aplicada em todos os processos tratando sobre o tema:
“O surgimento de novas vagas ou a abertura de novo concurso para o mesmo cargo, durante o prazo de
validade do certame anterior, não gera automaticamente o direito à nomeação dos candidatos
aprovados fora das vagas previstas no edital, ressalvadas as hipóteses de preterição arbitrária e
imotivada por parte da administração, caracterizada por comportamento tácito ou expresso do Poder
Público capaz de revelar a inequívoca necessidade de nomeação do aprovado durante o período de
validade do certame, a ser demonstrada de forma cabal pelo candidato.
Assim, o direito subjetivo à nomeação do candidato aprovado em concurso público exsurge nas
seguintes hipóteses:
a) quando a aprovação ocorrer dentro do número de vagas dentro do edital;
b) quando houver preterição na nomeação por não observância da ordem de classificação; e
c) quando surgirem novas vagas, ou for aberto novo concurso durante a validade do certame anterior, e
ocorrer a preterição de candidatos de forma arbitrária e imotivada por parte da administração nos
termos acima."
STF. Plenário. RE 837311/PI, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 09/12/2015 (repercussão geral).

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

COMPETÊNCIA
STF não possui competência originária para julgar ação popular

O STF não possui competência originária para processar e julgar ação popular, ainda que
ajuizada contra atos e/ou omissões do Presidente da República.
A competência para julgar ação popular contra ato de qualquer autoridade, até mesmo do
Presidente da República, é, via de regra, do juízo de 1º grau
STF. Plenário. Pet 5856 AgR, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 25/11/2015 (Info 811).

Dete i ado idadão p opôs ação popula o t a a P eside te da Repú li a pedi do ue ela fosse
condenada à perda da função pública e a privação dos direitos políticos. A competência para julgar essa
ação é do STF?
NÃO. O STF não possui competência originária para processar e julgar ação popular, ainda que ajuizada
contra atos e/ou omissões do Presidente da República.
A competência para julgar ação popular contra ato de qualquer autoridade, até mesmo do Presidente da
República, é, via de regra, do juízo de 1º grau.

JUSTIÇA GRATUITA
Exigibilidade suspensa das obrigações resultantes da sucumbência

O art. 12 da Lei nº 1.060/50 foi recepcionado pela CF/88.


O CPC 2015 revogou o art. 12 da Lei nº 1.060/50, mas previu regra semelhante no § 3º do art. 98:
Art. 98 (...) § 3º Vencido o beneficiário, as obrigações decorrentes de sua sucumbência ficarão
sob condição suspensiva de exigibilidade e somente poderão ser executadas se, nos 5 (cinco)
anos subsequentes ao trânsito em julgado da decisão que as certificou, o credor demonstrar

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que deixou de existir a situação de insuficiência de recursos que justificou a concessão de
gratuidade, extinguindo-se, passado esse prazo, tais obrigações do beneficiário.
STF. Plenário. RE 249003 ED/RS, RE 249277 ED/RS e RE 284729 AgR/MG, Rel. Min. Edson Fachin,
julgados em 9/12/2015 (Info 811).

Garantia de assistência jurídica integral e gratuita


áàCF/88àp evêàaàga a tiaàdaàassistê ciaàju ídicaài teg alàeàg atuitaàe àseuàa t.à º,àLXXIV:à o Estado prestará
assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos .

Esse dispositivo constitucional consagra duas garantias:


II – Gratuidade da justiça
I – Assistência jurídica integral e gratuita
(Assistência Judiciária Gratuita – AJG).
Fornecimento pelo Estado de orientação e defesa Isenção das despesas que forem necessárias para
jurídica, de forma integral e gratuita, a ser que a pessoa necessitada possa defender seus
prestada pela Defensoria Pública, em todos os interesses em um processo judicial.
graus, aos necessitados (art. 134 da CF). Era regulada pela Lei nº 1.060/50, mas o CPC 2015
Regulada pela Lei Complementar 80/94. passou a tratar sobre o tema, revogando quase
toda essa lei.

Quem tem direito à gratuidade da justiça?


Tem direito à gratuidade da justiça a pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de
recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios (art. 98 do CPC-2015).

Quem está abrangido por ela?


 pessoas físicas (brasileiras ou estrangeiras);
 pessoas jurídicas (brasileiras ou estrangeiras).

A pessoa beneficiada pela justiça gratuita está dispensada do pagamento de quais verbas?
Segundo o § 1º do art. 98 do CPC-2015, a gratuidade da justiça compreende:
I - as taxas ou as custas judiciais;
II - os selos postais;
III - as despesas com publicação na imprensa oficial, dispensando-se a publicação em outros meios;
IV - a indenização devida à testemunha que, quando empregada, receberá do empregador salário integral,
como se em serviço estivesse;
V - as despesas com a realização de exame de código genético - DNA e de outros exames considerados
essenciais;
VI - os honorários do advogado e do perito e a remuneração do intérprete ou do tradutor nomeado para
apresentação de versão em português de documento redigido em língua estrangeira;
VII - o custo com a elaboração de memória de cálculo, quando exigida para instauração da execução;
VIII - os depósitos previstos em lei para interposição de recurso, para propositura de ação e para a prática
de outros atos processuais inerentes ao exercício da ampla defesa e do contraditório;
IX - os emolumentos devidos a notários ou registradores em decorrência da prática de registro, averbação
ou qualquer outro ato notarial necessário à efetivação de decisão judicial ou à continuidade de processo
judicial no qual o benefício tenha sido concedido.

Se a parte beneficiada pela justiça gratuita, ao final da demanda, for sucumbente (perder a causa), ela
terá que pagar os ônus da sucumbência (custas e honorários) ou é isenta?
O beneficiário da justiça gratuita não é isento do pagamento dos ônus sucumbenciais (custas e
honorários). Apenas sua exigibilidade fica suspensa até que cesse a situação de hipossuficiência ou se
decorridos cinco anos.

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Veja o que o art. 12 da Lei nº 1.060/50 previa:
Art. 12. A parte beneficiada pelo isenção do pagamento das custas ficará obrigada a pagá-las, desde que
possa fazê-lo, sem prejuízo do sustento próprio ou da família, se dentro de cinco anos, a contar da
sentença final, o assistido não puder satisfazer tal pagamento, a obrigação ficará prescrita.

Em outras palavras, o juiz deverá condená-la a pagar as custas, mas a exigibilidade dessa obrigação ficará
suspensa aguardando que a situação econômica da parte melhore e ela tenha condições de quitar o
débito. Assim, enquanto não houver alteração na situação econômica da parte, ela não poderá ser
cobrada (executada) pela dívida. Essa suspensão irá perdurar durante o prazo de 5 anos. Passado tal
interregno, a obrigação será extinta pela prescrição.

Cuidado nas provas. Isso porque, segundo a interpretação dada pelo STJ a esse dispositivo, a parte
beneficiada pela justiça gratuita não é isenta do pagamento. Assim, ela é condenada a pagar (a obrigação
existe), mas a sua exigibilidade é suspensa. Veja:
(...) O beneficiário da justiça gratuita não é isento do pagamento dos ônus sucumbenciais, custas e
honorários, apenas sua exigibilidade fica suspensa até que cesse a situação de hipossuficiência ou se
decorridos cinco anos, conforme prevê o art. 12 da Lei nº 1.060/50. (...)
(STJ. 2ª Turma. AgRg no AREsp 598.441/SP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 26/05/2015)

Segundo a jurisprudência, o art. 12 da Lei nº 1.060/50 era compatível com a CF/88?


SIM. A jurisprudência do STJ e a do STF são pacíficas no sentido de que o art. 12 da Lei nº 1.060/50 foi
recepcionado pela CF/88.
Não seria justo privilegiar tributariamente jurisdicionado que recuperasse sua capacidade contributiva
para adimplir obrigação relacionada à taxa, em detrimento de todo corpo social que pagaria impostos
sobre as bases econômicas renda, patrimônio e consumo.
STF. Plenário. RE 249003 ED/RS, RE 249277 ED/RS e RE 284729 AgR/MG, Rel. Min. Edson Fachin, julgados
em 9/12/2015 (Info 811).
STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1414975/SP, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 05/11/2015.

O que acontece com o novo CPC?


O CPC 2015 revogou o art. 12 da Lei nº 1.060/50, mas previu regra semelhante no § 3º do art. 98:
Art. 98 (...)
§ 3º Vencido o beneficiário, as obrigações decorrentes de sua sucumbência ficarão sob condição
suspensiva de exigibilidade e somente poderão ser executadas se, nos 5 (cinco) anos subsequentes ao
trânsito em julgado da decisão que as certificou, o credor demonstrar que deixou de existir a situação de
insuficiência de recursos que justificou a concessão de gratuidade, extinguindo-se, passado esse prazo, tais
obrigações do beneficiário.

Desse modo, as observações feitas acima a respeito do art. 12 continuam valendo com o CPC 2015.

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DIREITO PROCESSUAL PENAL
INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA
Possibilidade de compartilhamento das provas obtidas em outro processo criminal

O fato de a interceptação telefônica ter visado elucidar outra prática delituosa não impede a
sua utilização em persecução criminal diversa por meio do compartilhamento da prova.
STF. 1ª Turma. HC 128102/SP, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 9/12/2015 (Info 811).

Imagine a seguinte situação adaptada:


A Polícia Civil de Minas Gerais estava investigando crimes praticados por João naquele Estado.
O juiz autorizou a interceptação telefônica do investigado e, durante os diálogos, descobriu-se a
ocorrência de delitos praticados por Pedro em São Paulo (SP).
O Ministério Público de Minas Gerais denunciou João pelos crimes por ele praticados e, quanto aos delitos
cometidos por Pedro, remeteu cópias para o Ministério Público de São Paulo, que requisitou a instauração
de inquérito policial para apurar o fato.
Após novas provas colhidas no inquérito policial que confirmaram a prática de crimes praticados por
Pedro, o MP/SP ofereceu denúncia contra ele.
O réu alegou a nulidade da ação penal sob o argumento de que a prova seria ilícita, já que foram
aproveitados dados alusivos a interceptação telefônica verificada em outra unidade da Federação e em
outro processo-crime.

O argumento da defesa de Pedro foi aceito pelo STF?


NÃO. O fato de a interceptação telefônica ter visado elucidar outra prática delituosa não impede a sua
utilização em persecução criminal diversa por meio do compartilhamento da prova.

INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA
Ausência de autos apartados configura mera irregularidade

Segundo o art. 8º da Lei 9.296/96, o procedimento de interceptação telefônica (requerimento,


decisão, transcrição dos diálogos etc.) deverá ser instrumentalizado em autos apartados.
Haverá nulidade caso a interceptação não seja formalizada em autos apartados?
NÃO. Preenchidas as exigências previstas na Lei nº 9.296/96 (ex: autorização judicial, prazo
etc.), não deve ser considerada ilícita a interceptação telefônica pela simples ausência de
autuação. A ausência de autos apartados configura mera irregularidade que não viola os
elementos essenciais à validade da interceptação.
STF. 1ª Turma. HC 128102/SP, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 9/12/2015 (Info 811).

Autos apartados
Segundo a Lei nº 9.296/96, o procedimento de interceptação telefônica (requerimento, decisão,
transcrição dos diálogos etc.) deverá ser instrumentalizado em autos apartados:
Art. 8º A interceptação de comunicação telefônica, de qualquer natureza, ocorrerá em autos apartados,
apensados aos autos do inquérito policial ou do processo criminal, preservando-se o sigilo das diligências,
gravações e transcrições respectivas.

Haverá nulidade caso a interceptação não seja formalizada em autos apartados?


NÃO. Preenchidas as exigências previstas na Lei nº 9.296/96 (ex: autorização judicial, prazo etc.), não deve ser
considerada ilícita a interceptação telefônica pela simples ausência de autuação. A ausência de autos apartados
configura mera irregularidade que não viola os elementos essenciais à validade da interceptação.

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JULGADO NÃO COMENTADO

Precatórios: embargos de declaração convertidos em diligência


O Tribunal, por maioria, converteu em diligência o julgamento conjunto de embargos de declaração
opostos em ações diretas de inconstitucionalidade para permitir a intervenção de todos os interessados na
causa,à osà te osà doà a t.à à doà RI“TFà Oà Ple ioà ouà aà Tu aà pode à co ve te à oà julga e toà e à
diligê cia,à ua doà ecess iaà àdecisãoàdaàcausa .àMa teve,àai da,àaà odulaçãoàdosàefeitos,à oàte po,àdoà
quanto decidido anteriormente em questão de ordem, sem prejuízo do pagamento dos precatórios
(questão de ordem noticiada nos Informativos 725, 739, 778 e 779). A Corte apontou que representantes
de estados-membros teriam demonstrado preocupação com a falta de capacidade de pagamento dos entes
públicos e que iriam buscar uma solução legislativa para esse problema. Referiam-se à PEC 74-A, aprovada
em primeiro turno e encaminhada pela Câmara dos Deputados — em segundo turno de votação — para o
Senado Federal. Tal proposta levaria em conta a modulação ditada pelo STF, de modo a assegurar
mecanismos de diferenciamento para que a decisão judicial que prevê a quitação total dos precatórios até
o final de 2020 seja cumprida. Assim, não obstante tenha conferido um prazo largo para o pagamento dos
precatórios, estudos estatísticos atuariais do Congresso revelariam que os estados-membros não teriam
como pagar no tempo aprazado. Vencidos os Ministros Luiz Fux (relator), Roberto Barroso, Rosa Weber,
Cármen Lúcia e Marco Aurélio, que acolhiam em parte os embargos.
ADI 4357 ED/DF, rel. Min. Luiz Fux, 9.12.2015.
ADI 4425 ED/DF, rel. Min. Luiz Fux, 9.12.2015.

OUTRAS INFORMAÇÕES

REPERCUSSÃO GERAL
DJe de 7 a 11 de dezembro de 2015

REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 738.481-SE


RELATOR: MIN. EDSON FACHIN
EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. MUNICÍPIOS. COMPETÊNCIA PARA LEGISLAR ACERCA DA
OBRIGATORIEDADE DE INSTALAÇÃO DE HIDRÔMETROS INDIVIDUAIS NOS EDIFÍCIOS E CONDOMÍNIOS. AUSÊNCIA DE
PRECEDENTE ESPECÍFICO. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA.
REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 907.777-RN
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. SERVIDORA PÚBLICA INATIVA. AÇÃO VISANDO AO
PAGAMENTO DE COMPLEMENTAÇÃO DE APOSENTADORIA. LEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM DO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ.
MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL.
1. A controvérsia relativa à legitimidade do Município de Mossoró para figurar no polo passivo de demanda visando ao pagamento de
complementação de aposentadoria a servidora pública inativa é infraconstitucional, pois fundada na interpretação da Lei Municipal 311/91.
2. É cabível a atribuição dos efeitos da declaração de ausência de repercussão geral quando não há matéria constitucional a ser apreciada ou quando
eventual ofensa à Carta Magna ocorra de forma indireta ou reflexa (RE 584.608-RG, Rel. Min. ELLEN GRACIE, DJe de 13/3/2009).
3. Ausência de repercussão geral da questão suscitada, nos termos do art. 543-A do CPC.
REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 921.694-RS
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. SERVIDORA PÚBLICA DA SECRETARIA DE ESTADO
DE EDUCAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL. GRATIFICAÇÃO DE DIFÍCIL ACESSO. BASE DE CÁLCULO. MATÉRIA
INFRACONSTITUCIONAL. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL.
1. É de natureza infraconstitucional a controvérsia acerca da base de cálculo da gratificação de difícil acesso, pois requer a análise das Leis 6.672/74 e
9.121/90, do Estado do Rio Grande do Sul.
2. É cabível a atribuição dos efeitos da declaração de ausência de repercussão geral quando não há matéria constitucional a ser apreciada ou quando
eventual ofensa à Carta Magna ocorra de forma indireta ou reflexa (RE 584.608-RG, Rel. Min. ELLEN GRACIE, DJe de 13/3/2009).
3. Ausência de repercussão geral da questão suscitada, nos termos do art. 543-A do CPC.
Decisões Publicadas: 3

Informativo 811-STF (17/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 7


CLIPPING DO D JE
7 a 11 de dezembro de 2015

HC N. 126.315-SP
RELATOR: MIN. GILMAR MENDES
Habeas corpus. 2. Tráfico de entorpecentes. Condenação. 3. Aumento da pena-base. Não aplicação da causa de diminuição do § 4º do art. 33, da Lei
11.343/06. 4. Período depurador de 5 anos estabelecido pelo art. 64, I, do CP. Maus antecedentes não caracterizados. Decorridos mais de 5 anos desde
a extinção da pena da condenação anterior (CP, art. 64, I), não é possível alargar a interpretação de modo a permitir o reconhecimento dos maus
antecedentes. Aplicação do princípio da razoabilidade, proporcionalidade e dignidade da pessoa humana. 5. Direito ao esquecimento. 6. Fixação do
regime prisional inicial fechado com base na vedação da Lei 8.072/90. Inconstitucionalidade. 7. Ordem concedida.
*noticiado no Informativo 799
RHC N. 129.811-ES
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. CAUSA DE DIMINUIÇÃO DA PENA PREVISTA NO
ART. 33, § 4º, DA LEI 11.343/2006. APLICAÇÃO. INVIABILIDADE. RÉU QUE NÃO PREENCHE OS REQUISITOS LEGAIS. REFORMATIO
IN PEJUS. NÃO OCORRÊNCIA. REGIME PRISIONAL FUNDAMENTADO NAS CIRCUNSTÂNCIAS DO CASO.
1. A não aplicação da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei 11.343/2006 pressupõe a demonstração pelo juízo sentenciante da existência de
conjunto probatório apto a afastar ao menos um dos critérios, que são autônomos, descritos no preceito legal: (a) primariedade; (b) bons antecedentes;
(c) não dedicação a atividades criminosas; e (d) não integração à organização criminosa. Nesse juízo, não se pode ignorar que a norma em questão
tem a clara finalidade de apenar com menor grau de intensidade quem pratica de modo eventual as condutas descritas no art. 33, caput e § 1º, daquele
mesmo diploma legal em contraponto ao agente que faz do crime o seu modo de vida, razão pela qual, evidentemente, não estaria apto a usufruir do
referido benefício.
2. As instâncias ordinárias concluíram, com base nos elementos de provas colhidos sob o crivo do contraditório, pela dedicação do recorrente a
atividade criminosa, circunstância que não pode contraditada em sede de habeas corpus, instrumento que não se presta para o revolvimento do
conjunto fático probatório. Precedentes.
3. Mantida a essência da causa de pedir e sem piorar a situação do recorrente, é legítima a manutenção da decisão recorrida, em sede de apelação,
ainda que por outros fundamentos. No particular, a não aplicação da minorante foi mantida, sob perspectiva diversa, com esteio circunstâncias fáticas
apontadas na própria sentença condenatória. Desse modo, não há falar em reformatio in pejus.
4. A determinação do regime inicial de cumprimento da pena deve levar em conta dois fatores: (a) o quantum da reprimenda imposta (CP, art. 33, §
2º); e (b) as condições pessoais do condenado estabelecidas na primeira etapa da dosimetria (CP, art. 59 c/c art. 33 § 3º). Nesse contexto, não há
ilegalidade na decisão que, mediante fundamentação jurídica adequada, estabelece o regime inicial mais grave, como medida necessária e suficiente
para reprovação e prevenção do crime.
5. Recurso ordinário a que se nega provimento.
AG. REG. NO AG. REG. NO RE N. 562.763-SP
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
REPERCUSSÃO GERAL – BAIXA À ORIGEM – DECISÃO PRECLUSA – ARTIGO 543-B DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. A preclusão
do pronunciamento, mediante o qual se determinou a remessa do Agravo de Instrumento nº 682.112/SP à origem, obstaculiza o sucesso de
impugnação.
AG. REG. NO AI N. 745.101-SP
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
RECURSO EXTRAORDINÁRIO – MATÉRIA FÁTICA E LEGAL. O recurso extraordinário não é meio próprio ao revolvimento da prova, também
não servindo à interpretação de normas estritamente legais.
RECURSO EXTRAORDINÁRIO – LEI LOCAL. O recurso extraordinário não é meio hábil a ter-se o rejulgamento da lide no que decidida pelas
instâncias ordinárias a partir de interpretação emprestada a normas locais.*noticiado no
AG. REG. NO RMS N. 31.515-DF
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. PROCESSO ADMINISTRATIVO
DISCIPLINAR. APLICAÇÃO DE PENA DE DEMISSÃO A POLICIAL RODOVIÁRIO FEDERAL. ABSOLVIÇÃO DO DENUNCIADO
NA ESFERA PENAL POR AUSÊNCIA DE PROVAS. FATOS NOVOS. DENÚNCIA DAS ÚNICAS TESTEMUNHAS PELO
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL POR DENUNCIAÇÃO CALUNIOSA. CONDENAÇÃO E RETRATAÇÃO. ENQUADRAMENTO
NA HIPÓTESE DE INEXISTÊNCIA DO FATO. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA PENA NA ESFERA ADMINISTRATIVA.
INOCORRÊNCIA DE INVASÃO DO PODER JUDICIÁRIO NO MÉRITO ADMINISTRATIVO DO ATO. INEXISTÊNCIA DE FALTA
RESIDUAL. INOCORRÊNCIA DE DECISÃO EXTRA PETITA. MERA INDICAÇÃO DA POSSIBILIDADE DE PLEITEAR
INDENIZAÇÃO NAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
1. A absolvição penal e a comunicabilidade do resultado na instância administrativa é tema jurídico que prescinde de dilação probatória.
2. A absolvição penal baseada na inexistência do fato ou autoria afasta a responsabilidade administrativa, tendo em vista a comunicabilidade das
instâncias.
3. In casu: a) O juízo criminal, quando da absolvição do agravado, não negou, expressamente, a existência do fato ou da sua autoria. Ocorre que a
superveniência dos fatos novos conduzem à conclusão no sentido da inexistência do fato, porquanto houve a condenação de dois dos denunciantes,
um por denunciação caluniosa e outro por falso testemunho, além da retratação das demais testemunhas. b) A Comissão Processante não sugeriu a
aplicação de pena de demissão ao policial com fundamento no fato de ter permitido que o motorista buscasse a CNH conduzindo seu próprio veículo.
Desse modo, não se verifica falta residual. Súmula 18 do STF. c) Inocorreu exame de conveniência, oportunidade e utilidade do ato primitivo pelo
Poder Judiciário, mas, apenas, a apreciação quanto à sua legalidade.
4. A mera indicação da possibilidade de se pleitar indenização nas instâncias ordinárias, sem a existência desse requerimento no recurso ordinário,
não configura decisão extra petita.

Informativo 811-STF (17/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 8


5. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO RE N. 809.476-SP
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
IMPOSTO DE RENDA – PESSOA NATURAL – TABELA PROGRESSIVA – CORREÇÃO – ATUAÇÃO JUDICIAL –IMPOSSIBILIDADE – PRECEDENTE.
Não cabe ao Poder Judiciário autorizar a correção monetária, ante a ausência de previsão legal nesse sentido, da tabela progressiva do Imposto de Renda devido por
pessoas naturais. Precedente: Recurso Extraordinário nº 388.312/MG, Pleno de minha relatoria, acórdão redigido pela ministra Cármem Lúcia, Diário da Justiça de 11 de
outubro de 2011. Ressalva da óptica pessoal.
EMB. DECL. NO RE N. 900.701-SC
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO RECEBIDOS COMO AGRAVO REGIMENTAL. DIREITO ADMINISTRATIVO E
PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DEMOLITÓRIA. EDIFICAÇÃO EM FAIXA DE DOMÍNIO DE RODOVIA FEDERAL E ÁREA NON
EDIFICANDI. LIMITAÇÃO ADMINISTRATIVA. LEI Nº 6.766/1979. DEBATE DE ÂMBITO INFRACONSTITUCIONAL. EVENTUAL
OFENSA REFLEXA NÃO VIABILIZA O MANEJO DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ART. 102 DA LEI MAIOR. ACÓRDÃO
RECORRIDO PUBLICADO EM 17.10.2014.1. A jurisprudência desta Suprema Corte firmou-se no sentido de que incabíveis embargos de
declaração opostos em face de decisão monocrática. Recebimento como agravo regimental com fundamento no princípio da fungibilidade. 2. A
controvérsia, a teor do já asseverado na decisão guerreada, não alcança estatura constitucional. Não há falar em afronta aos preceitos constitucionais
indicados nas razões recursais. Compreender de modo diverso exigiria a análise da legislação infraconstitucional encampada na decisão da Corte de
origem, a tornar oblíqua e reflexa eventual ofensa, insuscetível, como tal, de viabilizar o conhecimento do recurso extraordinário. Desatendida a
exigência do art. 102, III, “a”, da Lei Maior, nos termos da remansosa jurisprudência desta Suprema Corte. 3. As razões do agravo regimental não se
mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada. 4. Embargos de declaração recebidos como agravo regimental, ao qual
se nega provimento.
ADI N. 3.415-AM
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. LEIS 2.875/04 E 2.917/04, DO ESTADO DO AMAZONAS. COMISSÁRIO DE
POLÍCIA. CARGO DE NATUREZA ISOLADA. TRANSFORMAÇÃO, APÓS POUCO MAIS DE 3 ANOS, EM CARGOS DE DELEGADO DE
POLÍCIA. QUEBRA DE HIERARQUIA FUNCIONAL. BURLA AO CONCURSO PÚBLICO CARACTERIZADA.
INCONSTITUCIONALIDADE.
1. As leis estaduais impugnadas equipararam (Lei 2.875/04) e, logo após, transformaram (Lei 2.917/04) em delegados de polícia 124 cargos isolados
de comissários de polícia, que haviam sido criados em 2001 com remuneração bastante inferior à daquele primeiro cargo e sem perspectiva de
progressão funcional.
2. A forma pela qual foi conduzido o rearranjo administrativo revela que houve, de fato, burla ao postulado do concurso público, mediante o
favorecimento de agentes públicos alçados por via legislativa a cargo de maior responsabilidade do que aquele para o qual foram eles aprovados em
concurso. Não se verificou, no caso, um gradual processo de sincretismo entre os cargos, senão que uma abrupta reformulação da condição dos
comissários de polícia, que em menos de três anos deixaram de ter suas características originais para passar a um cargo organizado em carreira.
3. Ação direta de inconstitucionalidade julgada procedente.
*noticiado no Informativo 800
Inq N. 3.320-RS
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: PENAL. INQUÉRITO. OFERECIMENTO DE DENÚNCIA POR CRIME DE SONEGAÇÃO DE DOCUMENTOS. CONDUTA QUE
NÃO SE ADEQUA AO TIPO PENAL DO ART. 314 DO CÓDIGO PENAL. POSSÍVEL CRIME DE PREVARICAÇÃO, CUJA PUNIBILIDADE
ESTÁ EXTINTA. DENÚNCIA REJEITADA.
1. O crime de sonegação de documentos descrito no art. 314 do Código Penal se caracteriza pela ocultação ou negativa de acesso a quem de direito a
documentos de que o acusado tenha a guarda em razão do cargo.
2. In casu, foram requisitados: a) demonstrativos, relatórios, dados e outras informações que permitissem avaliar os indicadores de saúde do Estado; b) a
apresentação dos saldos das contas bancárias que movimentam os recursos recebidos do Fundo Nacional de Saúde.
3. O crime de sonegação de documentos não se caracteriza em razão da não elaboração de demonstrativos, relatórios ou informações, podendo encerrar, em
tese, quando muito, o crime de prevaricação, cuja punibilidade está extinta, no caso sub judice.
a) In casu, os saldos das contas vinculadas à saúde foram apresentados pela Secretaria de Saúde, o que é inconteste nos autos. Embora os auditores tenham se
queixado da não apresentação dos extratos bancários das mencionadas contas, o fato é que somente foram solicitados os saldos, e não os extratos, razão pela
qual é inadmissível imputar ao acusado a prática do crime de sonegação de um documento que não lhe foi requerido.
b) Outrossim, afigura-se impossível a prática do crime de sonegação de extratos bancários pelo Secretário de Saúde, por não se tratar de ato do seu ofício a
guarda dos documentos exigidos, encarregada a órgão próprio, não se revelando presente o fim de agir do tipo penal do art. 314 do Código Penal (consistente
em inviabilizar por completo o acesso aos documentos requeridos).
c) os extratos bancários acabaram por ser fornecidos pelo Ministério Público de Contas do Estado, que é um dos órgãos detentores dos mencionados
documentos. É que “a aplicação correta da Emenda Constitucional n° 29 foi verificada e atestada pelo órgão competente, que é o Tribunal de Contas do
Estado. O mesmo se diga dos indicadores de saúde, reconhecidamente os melhores da federação. O IBGE fez o levantamento dos dados relativos à gestão de
2008, exatamente o período auditado, concluindo que o Rio Grande do Sul possuía os melhores índices de saúde do país”.
c.i) Consequentemente, assume verossimilhança o fato de que a auditoria que se pretendia realizar foi programada pelo Diretor do DENASUS por motivos
políticos, uma vez que “vinha fazendo oposição declarada ao governo do qual fazia parte o Acusado” e tinha por fim aproveitar-se do momento de excesso de
trabalho da Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, por conta da epidemia da gripe H1N1 que atingiu o país naquele período, pois todos os seus
diretores estavam envolvidos, dia e noite, com esta pauta.
4. Denúncia rejeitada.
MS N. 26.419-DF
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. NOTÍCIAS DE IRREGULARIDADES
NA ADMINISTRAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO AMAZONAS. REPRESENTAÇÃO. PROCEDIMENTO DE CONTROLE
ADMINISTRATIVO. INSTAURAÇÃO. NOTIFICAÇÃO POR EDITAL DE PESSOA IDENTIFICADA COMO BENEFICIÁRIA DE ATO
IMPUGNADO. NULIDADE. ORDEM CONCEDIDA.
1. Reveste-se de nulidade por ofensa ao exercício do direito ao contraditório e ampla defesa a notificação apenas por edital de pessoa identificada como
beneficiária direta de ato objeto de questionamento em procedimento de controle administrativo instaurado no âmbito do Conselho Nacional do Ministério
Público.

Informativo 811-STF (17/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9


2. No caso, a comunicação por edital se deu na forma do art. 105 do Regimento Interno do Conselho Nacional do Ministério Público, então em vigor, que
possuía a mesma redação do art. 98 de antigo Regimento Interno do Conselho Nacional de Justiça, cuja inconstitucionalidade foi reconhecida pelo Plenário
desta Corte no julgamento do MS 25.962 (Rel. Min. Marco Aurélio, DJe de 20/3/2009).
3. Ordem concedida.
*noticiado no Informativo 785
Acórdãos Publicados: 643

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Ação popular - Presidente da República - Supremo Tribunal Federal - Incompetência (Transcrições)


Pet 5.856/DF*
RELATOR: Ministro Celso de Mello
EMENTA: Ação popular. Ajuizamento contra a Presidente da República. Falta de competência originária do Supremo Tribunal
Federal. Doutrina. Precedentes. Regime de direito estrito a que se submete a definição constitucional da competência da Corte Suprema.
Ação popular de que não se conhece.
DECISÃO: Trata-se de “ação popular” ajuizada contra a Senhora Presidente da República com o objetivo de impor-lhe a perda da função pública
e a privação dos direitos políticos.
A pretensão do autor popular fundamenta-se na Constituição da República (art. 5º, incisos XXXIV, XXXV e LXXIII) e, também, na Lei nº
8.429/92.
Sendo esse o contexto, passo a examinar questão preliminar concernente à competência originária do Supremo Tribunal Federal para
processar e julgar a presente causa.
E, ao fazê-lo, reconheço não competir a esta Suprema Corte atribuição para apreciar, em sede originária, a ação popular proposta pelo
demandante.
A jurisprudência constitucional do Supremo Tribunal Federal consolidou-se no sentido ora mencionado, destacando, em inúmeros
precedentes, a absoluta falta de competência originária desta Corte para o processo e julgamento de ações populares, ainda que ajuizadas contra
o Presidente da República e/ou outras autoridades que disponham de prerrogativa de foro “ratione muneris” perante o Supremo Tribunal Federal
(AO 772-QO/SP, Rel. Min. MOREIRA ALVES – Pet 129/PR, Rel. Min. MOREIRA ALVES – Pet 296/MG, Rel. Min. CÉLIO BORJA – Pet
352/DF, Rel. Min. SYDNEY SANCHES – Pet 431/SC, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA – Pet 487/DF, Rel. Min. MARCO AURÉLIO – Pet 546-
MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Pet 713/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Pet 1.546-MC/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Pet 2.018-
AgR/SP, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Pet 3.152-AgR/PA, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE – Pet 3.422-AgR/DF, Rel. Min. AYRES
BRITTO – Pet 5.239/DF, Rel. Min. DIAS TOFFOLI, v.g.):
“Competência. Ação Popular contra o Presidente da República.
– A competência para processar e julgar ação popular contra ato de qualquer autoridade, inclusive daquelas que, em mandado de
segurança, estão sob a jurisdição desta Corte originariamente, é do Juízo competente de primeiro grau de jurisdição.
Agravo regimental a que se nega provimento.”
(RTJ 121/17, Rel. Min. MOREIRA ALVES – grifei)
“AÇÃO ORIGINÁRIA. QUESTÃO DE ORDEM. AÇÃO POPULAR. COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA DO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL: NÃO-OCORRÊNCIA. PRECEDENTES.
1. A competência para julgar ação popular contra ato de qualquer autoridade, até mesmo do Presidente da República, é, via de
regra, do juízo competente de primeiro grau. Precedentes. (…).”
(AO 859-QO/AP, Red. p/ o acórdão Min. MAURÍCIO CORRÊA – grifei)
“AÇÃO POPULAR. AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA DO STF.
– A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal – quer sob a égide da vigente Constituição republicana, quer sob o domínio da
Carta Política anterior – firmou-se no sentido de reconhecer que não se incluem na esfera de competência originária da Corte Suprema o
processo e o julgamento de ações populares constitucionais, ainda que ajuizadas contra atos do Presidente da República, das Mesas da
Câmara dos Deputados e do Senado Federal ou de quaisquer outras autoridades cujas resoluções estejam sujeitas, em sede de mandado de
segurança, à jurisdição imediata do STF. Precedentes.”
(Pet 1.641/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
É oportuno destacar, neste ponto, que a colenda Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, defrontando-se com pretensão jurídica
semelhante à ora em exame, coincidentemente deduzida pelo mesmo autor popular que promove a presente demanda, proferiu decisão
consubstanciada em acórdão assim ementado:
“’AÇÃO POPULAR’ – AJUIZAMENTO CONTRA JUÍZES DO TRABALHO – AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL – AÇÃO POPULAR DE QUE NÃO SE CONHECE – PARECER DA PROCURADORIA- GERAL DA
REPÚBLICA PELO NÃO PROVIMENTO DO RECURSO – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO.
O PROCESSO E O JULGAMENTO DE AÇÕES POPULARES CONSTITUCIONAIS (CF, ART. 5º, LXXIII) NÃO SE INCLUEM
NA ESFERA DE COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
– O Supremo Tribunal Federal – por ausência de previsão constitucional – não dispõe de competência originária para processar e
julgar ação popular promovida contra qualquer outro órgão ou autoridade da República, mesmo que o ato cuja invalidação se pleiteie tenha
emanado do Presidente da República, das Mesas da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal ou, ainda, de qualquer dos Tribunais
Superiores da União. Jurisprudência. Doutrina. (…).”

Informativo 811-STF (17/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10


(Pet 5.191-AgR/RO, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Não constitui demasia assinalar que a competência originária do Supremo Tribunal Federal, por qualificar-se como um complexo de
atribuições jurisdicionais de extração essencialmente constitucional – e ante o regime de direito estrito a que se acha submetida –, não comporta a
possibilidade de ser estendida a situações que extravasem os rígidos limites fixados, em “numerus clausus”, pelo rol exaustivo inscrito no art. 102,
I, da Carta Política, consoante adverte a doutrina (MANOEL GONÇALVES FERREIRA FILHO, “Comentários à Constituição Brasileira de
1988”, vol. 2/217, 1992, Saraiva) e proclama a jurisprudência desta própria Corte (RTJ 43/129 – RTJ 44/563 – RTJ 50/72 – RTJ 53/776 – RTJ
159/28, v.g.).
Esse regime de direito estrito a que se submete a definição da competência institucional do Supremo Tribunal Federal tem levado esta Corte
Suprema, por efeito da taxatividade do rol constante da Carta Política, a afastar do âmbito de suas atribuições jurisdicionais originárias o processo
e o julgamento de causas de natureza civil que não se acham inscritas no texto constitucional – tais como ações populares (RTJ 121/17, Rel. Min.
MOREIRA ALVES – RTJ 141/344, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Pet 352/DF, Rel. Min. SYDNEY SANCHES – Pet 431/SP, Rel. Min. NÉRI
DA SILVEIRA – Pet 487/DF, Rel. Min. MARCO AURÉLIO – Pet 1.641/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO), ações civis públicas (RTJ 159/28,
Rel. Min. ILMAR GALVÃO – Pet 240/DF, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA) ou ações cautelares, ações ordinárias, ações declaratórias e medidas
cautelares (RTJ 94/471, Rel. Min. DJACI FALCÃO – Pet 240/DF, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA – Pet 1.738-AgR/MG, Rel. Min. CELSO DE
MELLO, v.g.)
Essa orientação jurisprudencial, por sua vez, tem o beneplácito de autorizados doutrinadores (ALEXANDRE DE MORAES, “Direito
Constitucional”, p. 180, item n. 7.8, 6ª ed., 1999, Atlas; RODOLFO DE CAMARGO MANCUSO, “Ação Popular”, p. 129/130, 1994, RT; HELY
LOPES MEIRELLES, ARNOLDO WALD e GILMAR FERREIRA MENDES, “Mandado de Segurança e Ações Constitucionais”, p. 192/193,
item n. 6, 35ª ed., 2013, Malheiros; HUGO NIGRO MAZZILLI, “O Inquérito Civil”, p. 83/84, 1999, Saraiva; MARCELO FIGUEIREDO,
“Probidade Administrativa”, p. 91, 3ª ed., 1998, Malheiros, v.g.), cujo magistério também assinala não se incluir na esfera de competência
originária do Supremo Tribunal Federal o poder de processar e julgar causas de natureza civil não referidas no texto da Constituição, ainda que
promovidas contra agentes públicos a quem se outorgou, “ratione muneris”, prerrogativa de foro em sede de persecução penal ou ajuizadas contra
órgãos estatais ou autoridades públicas que, em sede de mandado de segurança, estão sujeitos à jurisdição imediata do Supremo Tribunal Federal.
A “ratio” subjacente a esse entendimento, que acentua o caráter absolutamente estrito da competência constitucional do Supremo Tribunal
Federal, vincula-se à necessidade de inibir indevidas ampliações descaracterizadoras da esfera de atribuições institucionais desta Suprema Corte,
conforme ressaltou, a propósito do tema em questão, em voto vencedor, o saudoso Ministro ADALÍCIO NOGUEIRA (RTJ 39/56-59, 57).
Manifesta, pois, a falta de competência originária do Supremo Tribunal Federal para processar e julgar a presente causa, considerado o
que dispõe, em norma de direito estrito, o art. 102, I, da Constituição.
Registro, finalmente, que a incognoscibilidade da presente ação popular, em decorrência das razões ora expostas, justifica a seguinte
observação: no desempenho dos poderes processuais de que dispõe, assiste ao Ministro Relator competência plena para exercer, monocraticamente,
o controle das ações, pedidos ou recursos dirigidos ao Supremo Tribunal Federal, legitimando-se, em consequência, os atos decisórios que, nessa
condição, venha a praticar.
Impõe-se referir, neste ponto, que o Pleno do Supremo Tribunal Federal reconheceu a inteira validade constitucional da norma legal que
inclui na esfera de atribuições do Relator a competência para negar trânsito, em decisão monocrática, a recursos, pedidos ou ações, quando
incabíveis, estranhos à competência desta Corte, intempestivos, sem objeto ou que veiculem pretensão incompatível com a jurisprudência
predominante do Tribunal (RTJ 139/53 – RTJ 168/174-175).
Nem se alegue que esse preceito legal implicaria transgressão ao princípio da colegialidade, eis que o postulado em questão sempre restará
preservado ante a possibilidade de submissão da decisão singular ao controle recursal dos órgãos colegiados no âmbito do Supremo Tribunal
Federal, consoante esta Corte tem reiteradamente proclamado (RTJ 181/1133-1134, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – AI 159.892-AgR/SP, Rel.
Min. CELSO DE MELLO, v.g.):
“PODERES PROCESSUAIS DO MINISTRO-RELATOR E PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE.
– Assiste ao Ministro-Relator competência plena para exercer, monocraticamente, com fundamento nos poderes processuais de que
dispõe, o controle de admissibilidade das ações, pedidos ou recursos dirigidos ao Supremo Tribunal Federal. Pode, em conseqüência, negar
trânsito, em decisão monocrática, a ações, pedidos ou recursos, quando incabíveis, intempestivos, sem objeto ou, ainda, quando veicularem
pretensão incompatível com a jurisprudência predominante na Suprema Corte. Precedentes.
– O reconhecimento dessa competência monocrática deferida ao Relator da causa não transgride o postulado da colegialidade, pois
sempre caberá, para os órgãos colegiados do Supremo Tribunal Federal (Plenário e Turmas), recurso contra as decisões singulares que
venham a ser proferidas por seus Juízes.”
(MS 28.097-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Sendo assim, e em face das razões expostas, não conheço da presente ação popular.

Arquivem-se os presentes autos.

Publique-se.

Brasília, 06 de novembro de 2015.

Ministro CELSO DE MELLO


Relator

*decisão publicada no DJe de 11.11.2015

INOVAÇÕES LEGISLATIVAS
7 a 11 de dezembro de 2015

Lei nº 13.202, de 8.12.2015 - Institui o Programa de Redução de Litígios Tributários - PRORELIT; autoriza o
Poder Executivo federal a atualizar monetariamente o valor das taxas que indica; altera as Leis n os 12.873, de 24 de
outubro de 2013, 8.212, de 24 de julho de 1991, 8.213, de 24 de julho de 1991, 9.250, de 26 de dezembro de 1995, e

Informativo 811-STF (17/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 11


12.546, de 14 de dezembro de 2011; e dá outras providências. Publicada no DOU, Seção 1, Edição nº 235, p. 1, em
9.12.2015.
Lei nº 13.203, de 8.12.2015 - Dispõe sobre a repactuação do risco hidrológico de geração de energia elétrica;
institui a bonificação pela outorga; e altera as Leis nos 12.783, de 11 de janeiro de 2013, que dispõe sobre as concessões
de energia elétrica, 9.427, de 26 de dezembro de 1996, que disciplina o regime das concessões de serviços públicos de
energia elétrica, 9.478, de 6 de agosto de 1997, que institui o Conselho Nacional de Política Energética, 9.991, de 24 de
julho de 2000, que dispõe sobre realização de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e em eficiência energética
por parte das empresas concessionárias, permissionárias e autorizadas do setor de energia elétrica, 10.438, de 26 de abril
de 2002, 10.848, de 15 de março de 2004, que dispõe sobre a comercialização de energia elétrica, e 11.488, de 15 de
junho de 2007, que equipara a autoprodutor o consumidor que atenda a requisitos que especifica. Publicada no DOU,
Seção 1, Edição nº 235, p. 2, em 9.12.2015.
Medida provisória nº 700, de 8.12.2015 - Altera o Decreto-Lei nº 3.365, de 21 de junho de 1941, que dispõe
sobre desapropriações por utilidade pública, e a Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, que dispõe sobre os registros
públicos, e dá outras providências. Publicada no DOU, Seção 1, Edição nº 235, p. 4, em 9.12.2015.
Lei Complementar nº 153, de 9.12.2015 - Altera o art. 3º da Lei Complementar nº 79, de 7 de janeiro de 1994,
que cria o Fundo Penitenciário Nacional - FUNPEN, e dá outras providências. Publicada no DOU, Seção 1, Edição nº
236, em 10.12.2015.

O Informativo STF voltará a circular em fevereiro de 2016.

Secretaria de Documentação – SDO


Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 811-STF (17/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 12


Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos em virtude de pedidos de vista:
MS 33586 AgR/DF; RE 641320/RS.

Julgados excluídos por terem menor relevância para concursos públicos ou por terem sido decididos com base em
peculiaridades do caso concreto: RE 608847 AgR/RJ.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
 Não cabimento de ADPF contra decisão judicial transitada em julgado.

IMUNIDADE PARLAMENTAR
 Imunidade material.

SUS
 Diferença de classes no SUS é inconstitucional.

DIREITO ADMINISTRATIVO
SERVIDORES PÚBLICOS
 Declaração de inconstitucionalidade de lei que efetuou transposição e exoneração do servidores.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


RECURSOS
 INSS é dispensado do pagamento de porte de remessa e retorno.

DIREITO PROCESSUAL PENAL


HABEAS CORPUS
 Não cabimento para reexame dos pressupostos de admissibilidade dos recursos.

DIREITO TRIBUTÁRIO
IMPOSTO DE RENDA
 Aumento de alíquota e irretroatividade.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


DIREITO CONSTITUCIONAL

CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
Não cabimento de ADPF contra decisão judicial transitada em julgado

Não cabe arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF) contra decisão judicial
transitada em julgado. Este instituto de controle concentrado de constitucionalidade não tem
como função desconstituir a coisa julgada.
STF. Decisão monocrática. ADPF 81 MC, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 27/10/2015 (Info 810).

É possível, em tese, que seja proposta ADPF contra decisão judicial?


SIM. Segundo o art. 1º da Lei nº 9.882/99, a ADPF será proposta perante o STF, e terá por objeto evitar ou
reparar lesão a preceito fundamental, resultante de ATO DO PODER PÚBLICO.
Quando a lei fala em "ato do poder público", abrange não apenas leis ou atos normativos, mas também
outros atos do poder público, como uma decisão judicial. Nesse sentido:
(...) A arguição de descumprimento de preceito fundamental foi concebida pela Lei 9.882/99 para servir
como um instrumento de integração entre os modelos difuso e concentrado de controle de
constitucionalidade, viabilizando que atos estatais antes insuscetíveis de apreciação direta pelo Supremo
Tribunal Federal, tais como normas pré-constitucionais ou mesmo decisões judiciais atentatórias a
cláusulas fundamentais da ordem constitucional, viessem a figurar como objeto de controle em processo
objetivo. (...)
(STF. Decisão Monocrática. ADPF 127, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 25/2/2014)

É possível que seja proposta ADPF contra decisão judicial mesmo que já tenha havido trânsito em julgado?
NÃO. Não cabe arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF) contra decisão judicial
transitada em julgado. Este instituto de controle concentrado de constitucionalidade não tem como
função desconstituir a coisa julgada.

É possível que seja proposta ADPF contra súmula (comum ou vinculante)?


NÃO. A arguição de descumprimento de preceito fundamental não é a via adequada para se obter a
interpretação, a revisão ou o cancelamento de súmula vinculante. (STF. Plenário. ADPF 147-AgR, Rel. Min.
Cármen Lúcia, julgado em 24/03/2011).

(PGM Salvador 2015 CESPE) É possível, mediante o ajuizamento de arguição de descumprimento de


preceito fundamental, a revisão, o cancelamento ou a interpretação conforme a CF de súmula vinculante
proferida pelo STF. (ERRADA)

IMUNIDADE PARLAMENTAR
Imunidade material

A imunidade parlamentar é uma proteção adicional ao direito fundamental de todas as


pessoas à liberdade de expressão, previsto no art. 5º, IV e IX, da CF/88. Assim, mesmo quando
desbordem e se enquadrem em tipos penais, as palavras dos congressistas, desde que
guardem alguma pertinência com suas funções parlamentares, estarão cobertas pela
imunidade material do art. 53, caput , da CF/88.
STF. 1ª Turma. Inq 4088/DF e Inq 4097/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 1º/12/2015 (Info 810).

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


Declarações de Senador nas redes sociais
O Senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) publicou, em suas contas no Twitter e Facebook, as seguintes
mensagens:
Lulaàtem postura de bandido. E bandido frouxo! Igual à época que instigava metalúrgicos a protestar e ia
do i à aàsalaàdoàdelegadoàTu a .
Lulaàeà suaàtu aàfo a àpegosà ou a doàaàPet o asàeà ago aàa eaçaà o àaàt opaàM“Tàdoà“t dileàeà doà
Rainha para promover a bade a .
E àvezàdeài àpa aà eu iõesàdeài itaçõesàaoàódio,àLulaàdeve iaài à àCPIàdaàPet o asàexpli a àosàassaltosà
o etidosàpo àeleàeàseuàgove o .

Queixa-crime
O ex-Presidente Lula, por intermédio dos seus advogados, ingressou, então, com queixa-crime contra o
Senador pedindo a sua condenação por calúnia, injúria e difamação.

Defesa do Senador
A defesa argumentou que o parlamentar não cometeu qualquer crime com seu comentário, considerando
estar acobertado pela imunidade material prevista no art. 53 da CF/88:
Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões,
palavras e votos.

O Senador praticou crime contra a honra do ex-Presidente Lula?


NÃO. A 1ª Turma do STF entendeu que as declarações publicadas pelo Senador estavam protegidas pela
imunidade parlamentar prevista no art. 53 da CF/88.
Segundo decidiu o Min. Relator Edson Fachin, as manifestações do congressista, no caso concreto,
possuíam cunho político e estavam relacionadas com o exercício do mandato. Isso porque a função
parlamentar não abrange apenas atividades legislativas, mas inclui também a fiscalização e a investigação
da administração pública.
A imunidade parlamentar é uma proteção adicional ao direito fundamental de todas as pessoas à
liberdade de expressão, previsto no art. 5º, IV e IX, da CF/88. Assim, mesmo quando desbordem e se
enquadrem em tipos penais, as palavras dos congressistas, desde que guardem alguma pertinência com
suas funções parlamentares, estarão cobertas pela imunidade mate ialàdoàa t.à5 ,à aput ,àdaàCF/88.

Imunidade material é prevista para assegurar a democracia


A Constituição confere uma tolerância maior com o uso da liberdade de expressão quando proveniente de
parlamentar no exercício de seu respectivo mandato. Trata-se da imunidade material. Essa imunidade se
justifica com o objetivo de assegurar um bem maior, qual seja, a própria democracia. Entre um parlamentar
acuado pelo medo de sofrer um processo criminal e um parlamentar livre para expor as suspeitas que pairam
sobre outros homens públicos, o caminho trilhado pela Constituição foi o de conferir liberdade ao congressista.
Dessa feita, a regra da imunidade deve prevalecer nas situações limítrofes em que não fique demonstrada
uma conexão direta entre a atividade parlamentar e as ofensas irrogadas, mas que, igualmente, não se
possa, de plano, dizer que exorbitem do exercício do mandato.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


SUS
Diferença de classes no SUS é inconstitucional

Importante!!!
É inconstitucional a possibilidade de um paciente do Sistema Único de Saúde (SUS) pagar para
ter acomodações superiores ou ser atendido por médico de sua preferência, a chamada
"diferença de classes".
Existe uma portaria do Ministério da Saúde (Portaria 113/1997) que proíbe a diferença de
classe. Este ato estava sendo questionado e o STF, em recurso extraordinário submetido à
repercussão geral, declarou que ele é constitucional, firmando a seguinte tese, que vale de
forma ampla para todos os casos envolvendo diferença de classe:
"É constitucional a regra que veda, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS, a internação em
acomodações superiores, bem como o atendimento diferenciado por médico do próprio SUS,
ou por médico conveniado, mediante o pagamento da diferença dos valores correspondentes."
STF. Plenário. RE 581488/RS, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 3/12/2015 (repercussão geral)
(Info 810).

Imagine a seguinte situação hipotética:


O hospital pa ti ula à Boaà “aúde à credenciado junto ao SUS para prestar atendimento gratuito à
população em geral. Em outras palavras, esse hospital recebe verbas do SUS para que uma parte de seu
atendimento seja destinada a todas as pessoas, independentemente de pagamento.
João foi internado no hospital para tratamento de saúde pelo SUS, ficando no ambulatório com outros
pacientes. Como foi internado pelo SUS, João não pagaria nada e o hospital receberia do governo pelos
serviços realizados.
Ocorre que o médico de confiança de João (que não era do SUS) lhe deu uma dica: se ele pagasse determinado
valor ao hospital, poderia ter direito de ficar no quarto (em vez do ambulatório) e poderia escolher o médico
que iria lhe operar (mesmo que este profissional não fosse do SUS).
Para ter direito a esse "upgrade", bastaria que João pagasse a diferença entre o tratamento já pago pelo
SUS e o que seria devido em caso de tratamento particular nas acomodações melhores. Ex: o SUS paga ao
hospital R$ 1 mil reais por dia que o paciente fica no ambulatório. O hospital cobra R$ 1.500 por dia de
paciente no quarto. Logo, João teria que pagar apenas essa diferença (R$ 500).

Qual é o nome dessa prática?


Pagamento pela "diferença de classe".

Isso é permitido? A chamada diferença de classes no SUS é compatível com a CF/88?


NÃO. É inconstitucional a possibilidade de um paciente do Sistema Único de Saúde (SUS) pagar para ter
acomodações superiores ou ser atendido por médico de sua preferência, a chamada "diferença de classes".

O SUS é baseado nos seguintes princípios:


a) UNIVERSALIDADE: o sistema garante prestação dos serviços de saúde a toda e qualquer pessoa;
b) EQUIDADE: os serviços de saúde são prestados em todos os níveis que sejam necessários, de acordo
com a complexidade que o caso venha a exigir, de forma isonômica, nas situações similares;
c) INTEGRALIDADE: deve ser reconhecido que cada indivíduo é considerado como um todo indivisível e
integrante de uma comunidade, o que exige do Poder Público que as ações de promoção, proteção e
recuperação da saúde formem também um todo indivisível, atendendo os casos e observando os diversos
graus de complexidade de forma integral pelas unidades prestadoras de serviços de saúde.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 4


Subverte a lógica do sistema, que tem como um dos princípios a equidade
Para o STF, admitir que um paciente internado pelo SUS tenha acesso a melhores condições de internação
ou a médico de sua confiança mediante pagamento subverte totalmente a lógica do sistema, em especial a
equidade. Não se pode conceber que um atendimento público de saúde que se pretenda igualitário
compreenda, dentro de si, diversas possibilidades de atendimento de acordo com a capacidade
econômico-financeira do paciente, sobretudo quando esse atendimento se encontra a cargo do Estado.

Risco de os serviços prestados pelo SUS piorarem como forma de forçar o pagamento extra pelos pacientes
Se fosse permitida a diferença de classes, haveria o risco de os hospitais piorarem as condições das
enfermarias e das estruturas hospitalares, de maneira a constranger os indivíduos a procurarem por
condições mais dignas, ainda que pagas. Além disso, não se pode eliminar a possibilidade de ocorrer
superdimensionamento dos preços das acomodações superiores, de forma a que os usuários do Sistema
Único de Saúde arquem integralmente com os custos do tratamento. Em outras palavras, o pagamento
dessa "diferença" seria tão alto que, na verdade, o paciente estaria pagando o tratamento todo e o
hospital recebendo duas vezes (uma do SUS e outra dessa "diferença").

Atendimento personalizado e dividido em classes é permitido na rede privada de saúde


A Constituição Federal não proibiu o atendimento personalizado de saúde, mas este deve ser feito na rede
privada. Assim, aquele que desejar contratar médicos e acomodações diferenciados, de acordo com sua
vontade e posses, deve recorrer à rede privada de saúde. Os atendimentos realizados pela rede pública
devem ser igualitários.

Na rede do SUS, o indivíduo deve ser atendido por médico do SUS


Segundo entendeu o STF, permitir o acompanhamento por médico particular via Sistema Único de Saúde é
injusto e desleal com os próprios profissionais da rede pública, que se submetem a concursos e todos os
demais requisitos exigidos para ingresso em cargos ou empregos públicos. Em última análise, é uma forma
de burlar os requisitos para ingresso no serviço público.
Na rede do SUS, o indivíduo deve ser atendido por profissional do SUS. Ao internar-se pelo SUS, o
indivíduo aceita todo o pacote, inclusive a assistência por profissional da rede pública. A chamada relação
de confiança médico-paciente será construída com o profissional do SUS que acompanhará o paciente.

Existe uma portaria do Ministério da Saúde (Portaria 113/1997) que proíbe a diferença de classe. Este
ato estava sendo questionado e o STF, em recurso extraordinário submetido à repercussão geral
declarou que ele é constitucional, firmando a seguinte tese, que vale de forma ampla para todos os
casos envolvendo diferença de classe:
"É constitucional a regra que veda, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS, a internação em
acomodações superiores, bem como o atendimento diferenciado por médico do próprio SUS, ou por
médico conveniado, mediante o pagamento da diferença dos valores correspondentes."
STF. Plenário. RE 581488/RS, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 3/12/2015 (repercussão geral) (Info 810).

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DIREITO ADMINISTRATIVO

SERVIDORES PÚBLICOS
Declaração de inconstitucionalidade de lei que efetuou transposição e exoneração do servidores

No julgamento da ADI 3819, o STF declarou inconstitucional lei estadual, posterior à CF/88,
que transformou ocupantes de determinado cargo público em Defensores Públicos. Entendeu-
se que houve violação ao princípio do concurso público.
Os servidores foram, então, exonerados pelo Governador do Estado, mas conseguiram ser
reintegrados por decisão do STJ, que entendeu que, antes da exoneração, deveria a eles ser
garantido devido processo legal, com contraditório e ampla defesa.
O STF, em reclamação, cassou essa decisão do STJ por entender que ela contrariou a
autoridade da decisão proferida pelo STF no julgamento da ADI 3.819/MG.
STF. 2ª Turma. Rcl 16950/MG, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 1º/12/2015 (Info 810).

Imagine a seguinte situação adaptada:


Em 1990, foi editada uma Lei em Minas Gerais transformando os ocupantes do cargo de advogado de uma
extinta sociedade de economia mista estadual em Defensores Públicos.
Em 2007, essa Lei foi declarada inconstitucional pelo STF por violar o princípio do concurso público (ADI
3819, Rel. Min. Eros Grau, julgado em 24/10/2007).
O STF modulou os efeitos da decisão, conferindo um prazo de 6 meses para que os referidos servidores
continuassem como Defensores Públicos até que o Governo mineiro conseguisse realizar novo concurso
público para prover os cargos.
Passado esse prazo, o Governador exonerou os referidos servidores do cargo de Defensor Público.
Os servidores exonerados impetraram mandado de segurança contra o ato do Governador afirmando que
essa exoneração foi feita sem que eles tivessem tido direito ao contraditório e ampla defesa.
O TJ negou o pedido do MS, mas o STJ, ao apreciar o recurso, concordou com a tese e determinou a
reintegração dos servidores no cargo de Defensor Público, sem prejuízo de que eles fossem novamente
exonerados no futuro, mas após o devido processo legal.
O Estado de Minas Gerais ingressou com reclamação no STF afirmando que a decisão do STJ afrontou o
que a Corte decidiu na ADI 3819.

O STF concordou com o pedido contido na reclamação? A decisão do STJ determinando a reintegração
dos servidores afrontou a decisão proferida na ADI 3819?
SIM. A reclamação foi julgada procedente, determinando que fosse cassada a decisão do STJ que
reintegrava os servidores nos quadros da Defensoria Pública.
A decisão reclamada contrariou a autoridade da decisão proferida pelo STF no julgamento da ADI
3.819/MG (DJe de 23.8.2008). Nessa ação direta, o STF declarou a inconstitucionalidade, com efeitos
prospectivos, da lei estadual que admitiu, na função de Defensor Público, servidores que não ingressaram
na carreira mediante concurso.
O STF explicou que, durante o julgamento dessa ADI, ficou definido que os servidores não poderiam mais
permanecer como Defensores Públicos por força da declaração de inconstitucionalidade. O prazo
conferido para que a decisão paradigma produzisse seus efeitos apenas tinha o propósito de permitir ao
Estado de Minas Gerais a adoção das medidas necessárias para solucionar eventual risco à continuidade
dos serviços prestados pela Defensoria Pública.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 6


DIREITO PROCESSUAL CIVIL

RECURSOS
INSS é dispensado do pagamento de porte de remessa e retorno

Se o INSS interpuser um recurso, ele precisará pagar o porte de remessa e retorno (despesas
postais para o transporte do recurso)?
NÃO. O INSS é dispensado de pagar o porte de remessa e retorno mesmo nos processos que
tramitam na Justiça Estadual. Segundo decidiu o STF, o INSS é exonerado de recolher o porte de
remessa e retorno com base no § 1º do art. 511 do CPC 1973 (§ 1º do art. 1.007 do CPC 2015).
O porte de remessa e retorno é uma despesa de serviço postal prestado pelos Correios
(empresa pública federal) e que é remunerada por tarifa (preço público). Desse modo, o porte
de remessa e retorno não tem natureza jurídica de taxa, não sendo uma taxa estadual.
Sendo o porte de remessa e retorno uma tarifa paga a uma empresa pública federal, o CPC, que
é uma lei federal, poderia, de forma válida, prever a sua dispensa para o INSS. Trata-se de
diploma editado pela União, a quem compete dispor sobre as receitas públicas oriundas da
prestação do serviço público postal.
O STF resumiu a solução da controvérsia por meio da seguinte frase: "Aplica-se o parágrafo 1º
do artigo 511 do CPC, para dispensa de porte de remessa e retorno, ao exonerar o seu
respectivo recolhimento por parte do INSS .
STF. Plenário. RE 594116/SP, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 3/12/2015 (repercussão geral)
(Info 810).

PREPARO
Preparo consiste no pagamento das despesas relacionadas com o processamento do recurso.
No preparo incluem-se:
 taxa judiciária (custas);
 despesas postais com o envio dos autos ( ha adoàdeà porte de remessa e de retorno dos autos).

Desseà odo,à p epa a à o recurso é nada mais que pagar as despesas necessárias para que a máquina
judiciária dê andamento à sua apreciação. O pagamento do preparo é feito, comumente, na rede bancária
conveniada com o Tribunal.

MOMENTO DO PREPARO
O CPC afirma que a parte que está recorrendo da decisão precisa comprovar o preparo no momento da
interposição do recurso. Logo, o preparo (recolhimento do valor) deve ser feito antes da interposição do
recurso e, junto com o recurso interposto, o recorrente deve juntar o comprovante do pagamento.

PREPARO NÃO COMPROVADO NA INTERPOSIÇÃO DO RECURSO


Se o recorrente, quando interpuser o recurso, não comprovar que fez o preparo, o seu recurso será
considerado deserto (deserção).
Importante: os §§ 2º e 4º do art. 1.007 do novo CPC preveem mitigações à essa regra, conforme você verá
mais abaixo.

DESERÇÃO
Deserção é a inadmissibilidade do recurso pela falta ou insuficiência de preparo, observados os §§ 2º e 4º
do art. 1.007 do CPC 2015. Se o recurso foi deserto, significa que ele não foi conhecido (não foi sequer
apreciado). Gramaticalmente, desertar é o mesmo que abandonar.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 7


PREVISÃO DA REGRA DO PREPARO
CPC 1973 CPC 2015

Art. 511. No ato de interposição do recurso, o Art. 1.007. No ato de interposição do recurso, o
recorrente comprovará, quando exigido pela recorrente comprovará, quando exigido pela
legislação pertinente, o respectivo preparo, legislação pertinente, o respectivo preparo,
inclusive porte de remessa e de retorno, sob pena inclusive porte de remessa e de retorno, sob pena
de deserção. de deserção.

§ 1º São dispensados de preparo os recursos § 1º São dispensados de preparo, inclusive porte


interpostos pelo Ministério Público, pela União, de remessa e de retorno, os recursos interpostos
pelos Estados e Municípios e respectivas pelo Ministério Público, pela União, pelo Distrito
autarquias, e pelos que gozam de isenção legal. Federal, pelos Estados, pelos Municípios, e
respectivas autarquias, e pelos que gozam de
isenção legal.

§ 2º A insuficiência no valor do preparo implicará § 2º A insuficiência no valor do preparo, inclusive


deserção, se o recorrente, intimado, não vier a porte de remessa e de retorno, implicará deserção
supri-lo no prazo de cinco dias. se o recorrente, intimado na pessoa de seu
advogado, não vier a supri-lo no prazo de 5 (cinco)
dias.

§ 3º É dispensado o recolhimento do porte de


remessa e de retorno no processo em autos
eletrônicos.

§ 4º O recorrente que não comprovar, no ato de


interposição do recurso, o recolhimento do preparo,
inclusive porte de remessa e de retorno, será
intimado, na pessoa de seu advogado, para realizar o
recolhimento em dobro, sob pena de deserção.

§ 5º É vedada a complementação se houver


insuficiência parcial do preparo, inclusive porte de
remessa e de retorno, no recolhimento realizado
na forma do § 4º.

§ 6º Provando o recorrente justo impedimento, o


relator relevará a pena de deserção, por decisão
irrecorrível, fixando-lhe prazo de 5 (cinco) dias
para efetuar o preparo.

§ 7º O equívoco no preenchimento da guia de custas


não implicará a aplicação da pena de deserção,
cabendo ao relator, na hipótese de dúvida quanto ao
recolhimento, intimar o recorrente para sanar o vício
no prazo de 5 (cinco) dias.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 8


PREPARO ENVOLVENDO RECURSOS INTERPOSTOS PELO INSS
Como vimos acima, o preparo é composto de duas partes: custas judiciais + porte de remessa e retorno.
Se o INSS interpuser um recurso, ele precisará pagar as CUSTAS JUDICIAIS (espécie de taxa) ou é isento?
A situação do INSS é peculiar porque este, mesmo sendo uma autarquia federal, pode ser demandado na
Justiça Estadual, no foro do domicílio dos segurados ou beneficiários, quando a comarca não for sede de
vara federal (art. 109, § 3º).
Em suma, o INSS pode ser parte tanto em processos na Justiça Estadual como na Justiça Federal.

Se estiver litigando na Justiça Federal: Se estiver litigando na Justiça Estadual:


É isento das custas NÃO é isento das custas (terá que pagar)
Lei nº 9.289/96: Súmula 178 do STJ: O INSS não goza de isenção do
Art. 4° São isentos de pagamento de custas: pagamento de custas e emolumentos, nas ações
I - a União, os Estados, os Municípios, os acidentárias e de benefícios propostas na Justiça
Territórios Federais, o Distrito Federal e as Estadual.
respectivas autarquias e fundações; Isso ocorre porque as custas e emolumentos
possuem natureza jurídica de taxa. As custas da
Justiça Estadual são taxas estaduais; logo,
somente uma lei estadual poderia isentar o INSS
do pagamento dessa taxa, não podendo uma lei
federal prever essa isenção (art. 151, III da CF/88).
Justamente por isso, o § 1º do art. 1º da Lei nº
9.289/96 prevê o seguinte:
Art. 1º (...) § 1° Rege-se pela legislação estadual
respectiva a cobrança de custas nas causas
ajuizadas perante a Justiça Estadual, no exercício
da jurisdição federal.

Vale ressaltar que, quando o INSS estiver litigando na Justiça Estadual, ele terá que pagar as custas
processuais, mas somente ao final da demanda, se for vencido. Aplica-se ao INSS o art. 27 do CPC 1973
(art. 91 do CPC 2015) e o art. 1ºA da Lei nº 9.494/97:
CPC 1973 CPC 2015
Art. 27. As despesas dos atos processuais, Art. 91. As despesas dos atos processuais
efetuados a requerimento do Ministério Público praticados a requerimento da Fazenda Pública, do
ou da Fazenda Pública, serão pagas a final pelo Ministério Público ou da Defensoria Pública serão
vencido. pagas ao final pelo vencido.

Lei nº 9.494/97:
Art. 1º-A. Estão dispensadas de depósito prévio, para interposição de recurso, as pessoas jurídicas de
direito público federais, estaduais, distritais e municipais.

Conforme já dito, o INSS é uma autarquia federal, portanto, está englobada dentro do conceito de
Fazenda Pública. Para que não houvesse qualquer dúvida, o legislador foi expresso na Lei n. 8.620/93:
Art. 8º O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), nas causas em que seja interessado na condição de
autor, réu, assistente ou opoente, gozará das mesmas prerrogativas e privilégios assegurados à Fazenda
Pública, inclusive quanto à inalienabilidade e impenhorabilidade de seus bens.
§ 1º O INSS é isento do pagamento de custas, traslados, preparos, certidões, registros, averbações e
quaisquer outros emolumentos, nas causas em que seja interessado na condições de autor, réu, assistente
ou opoente, inclusive nas ações de natureza trabalhista, acidentária e de benefícios.
§ 2º O INSS antecipará os honorários periciais nas ações de acidente do trabalho.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9


Em 2012, foi editada a Súmula 483 do STJ, deixando claro que o INSS também goza desta prerrogativa:
Súmula 483-STJ: O INSS não está obrigado a efetuar depósito prévio do preparo por gozar das
prerrogativas e privilégios da Fazenda Pública.

Obs: a lei federal não pode conceder isenção das custas na Justiça Estadual, mas pode afirmar que o INSS
só irá pagar ao final porque isso não é isenção.

E o porte de remessa e retorno? Se o INSS interpuser um recurso, ele precisará pagar o porte de remessa
e retorno (despesas postais para o transporte do recurso)?
NÃO. O INSS é dispensado de pagar o porte de remessa e retorno mesmo nos processos que tramitam na
Justiça Estadual.
Segundo decidiu o STF, o INSS é exonerado de recolher o porte de remessa e retorno com base no § 1º do
art. 511 do CPC 1973 (§ 1º do art. 1.007 do CPC 2015):
CPC 1973 CPC 2015

Art. 511. (...) Art. 1.007. (...)

§ 1º São dispensados de preparo os recursos § 1º São dispensados de preparo, inclusive porte


interpostos pelo Ministério Público, pela União, de remessa e de retorno, os recursos interpostos
pelos Estados e Municípios e respectivas pelo Ministério Público, pela União, pelo Distrito
autarquias, e pelos que gozam de isenção legal. Federal, pelos Estados, pelos Municípios, e
respectivas autarquias, e pelos que gozam de
isenção legal.

Assim, eventual lei estadual que determine que o INSS tenha que pagar porte de remessa e retorno é
inconstitucional. Isso porque o porte de remessa e retorno é uma despesa de serviço postal prestado pelos
Correios (empresa pública federal) e que é remunerada por tarifa (preço público). Desse modo, o porte de
remessa e retorno não tem natureza jurídica de taxa, não sendo uma taxa estadual.
Sendo o porte de remessa e retorno uma tarifa paga a uma empresa pública federal, o CPC, que é uma lei
federal, poderia, de forma válida, prever a sua dispensa para o INSS. Trata-se de diploma editado pela
União, a quem compete dispor sobre as receitas públicas oriundas da prestação do serviço público postal.
Como o recurso acima foi decidido sob a sistemática da repercussão geral, o STF resumiu a solução da
controvérsia por meio da seguinte frase: "Aplica-se o parágrafo 1º do artigo 511 do CPC, para dispensa de
porte de remessa e retorno, ao exonerar o seu respectivo recolhimento por parte do INSS .

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10


DIREITO PROCESSUAL PENAL

HABEAS CORPUS
Não cabimento para reexame dos pressupostos de admissibilidade dos recursos

Importante!!!
Não é cabível habeas corpus para o reexame dos pressupostos de admissibilidade dos recursos.
A jurisprudência admite o habeas corpus substitutivo ?
• STJ e 1ª Turma do STF: NÃO (mas pode ser conhecido habeas corpus de ofício).
• 2ª Turma do STF: SIM.
STF. 1ª Turma. HC 114293/MG, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Edson Fachin,
julgado em 1º/12./2015 (Info 810).

Imagine a seguinte situação adaptada:


João foi condenado em processo criminal e interpôs apelação, tendo o TJ mantido a sentença.
Contra o acórdão do TJ, a defesa manejou recurso especial, mas o STJ não conheceu do recurso sob o
argumento de que estava intempestivo.
A defesa impetrou, então, habeas corpus questionando a decisão do STJ e procurando, por meio do writ,
demonstrar que o recurso interposto estava dentro do prazo.

Agiu corretamente a defesa? Esse habeas corpus será conhecido?


NÃO. Não é cabível habeas corpus para o reexame dos pressupostos de admissibilidade dos recursos.

Habeas corpus substitutivo


O habeas corpus substitutivo ocorre quando o impetrante, em vez de interpor o recurso cabível contra a
decisão, opta por questioná-la ajuizando novo habeas corpus, dirigido à instância superior. Na prática, os
advogados e Defensores Públicos preferem valer-se do HC substitutivo por ser este mais simples e rápido
que o recurso.

A jurisprudência admite a utilização do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio (o chamado
ha eas orpus su stitutivo )?
O entendimento majoritário é no sentido de que não. Não é possível a impetração de habeas corpus
substitutivo do recurso próprio.
Deve-se alertar, contudo, que, se a ilegalidade exposta no processo for flagrante (evidente, manifesta,
muito clara), ou então a decisão impugnada for teratológica (absurda, monstruosa), admite-se que o
Tribunal conceda habeas corpus de ofício, beneficiando o paciente.
Em outras palavras, se a ilegalidade for indiscutível ou a decisão absurda, o Tribunal não conhecerá do HC
impetrado (por ser ele substitutivo), mas concederá HC de ofício em favor do réu.
Esse entendimento é adotado pela 1ª Turma do STF e pelo STJ.

2ª Turma do STF admite habeas corpus substitutivo


Vale fazer uma ressalva: a 2ª Turma do STF admite o habeas corpus substitutivo. Nesse sentido:
(...) A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal admite habeas corpus substitutivo de recurso
ordinário constitucional (art. 102, II, a, da Constituição Federal). (...)
(STF. 2ª Turma. HC 125841, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 24/03/2015).

A jurisprudência admite o ha eas orpus su stitutivo ?


 STJ e 1ª Turma do STF: NÃO (mas pode ser conhecido habeas corpus de ofício).
 2ª Turma do STF: SIM.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 11


DIREITO TRIBUTÁRIO

IMPOSTO DE RENDA
Aumento de alíquota e irretroatividade

É inconstitucional a aplicação retroativa de lei que majora a alíquota incidente sobre o lucro
proveniente de operações incentivadas ocorridas no passado, ainda que no mesmo ano-base,
tendo em vista que o fato gerador se consolida no momento em que ocorre cada operação de
exportação, à luz da extrafiscalidade da tributação na espécie.
A Súmula 584 do STF permanece válida. No entanto, este enunciado não se aplica para as
hipóteses em que o tributo tenha função extrafiscal.
STF. Plenário. RE 592396/SP, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 3/12/2015 (repercussão geral)
(Info 810).

A Lei nº 7.988/89 aumentou as alíquotas do Imposto de Renda sobre exportações, nos seguintes termos:
Art. 1º A partir do exercício financeiro de 1990, correspondente ao período-base de 1989:
I - passará a ser 18% (dezoito por cento) a alíquota aplicável ao lucro decorrente de exportações
incentivadas, de que trata o art. 1º do Decreto-Lei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988;

O problema foi que essa Lei, publicada em 28 de dezembro de 1989, influenciou no recolhimento do
imposto incidente sobre operações ocorridas em 1989. Como ela foi publicada no final de 1989, acabou
incidindo sobre operações realizadas antes mesmo da sua vigência.

Diante disso, o STF declarou a inconstitucionalidade do art. 1º, I, da Lei (que elevou a alíquota de 6% para
18% sobre as exportações) por entender que ele violou os princípios da anterioridade e da segurança
jurídica.

Súmula 584-STF
Um dos argumentos da União para defender a constitucionalidade da Lei foi a de que esse aumento da
alíquota é permitido pela jurisprudência do STF cristalizada na Súmula 584, que tem a seguinte redação:
Súmula 584-STF: Ao imposto de renda calculado sobre os rendimentos do ano-base, aplica-se a lei vigente
no exercício financeiro em que deve ser apresentada a declaração.

A súmula 584 do STF está superada? Ela pode ser aplicada no caso do art. 1º, I, da Lei nº 7.988/89 para
reconhecer esse aumento constitucional?
O tema é polêmico, mas prevalece no STF que a Súmula 584 continua válida.
O fato gerador do imposto de renda, na visão do STF, somente ocorre em 31 de dezembro do ano. Por
isso, em regra, não viola o princípio da irretroatividade a edição de lei editada nos últimos dias mesmo que
se aplique ao seu ano de edição.
No entanto, esse entendimento do STF, cristalizado na Súmula 584, foi construído e vale para as hipóteses
em que o imposto de renda tenha função meramente fiscal (arrecadatória), o que é a regra geral.
Esse enunciado, contudo, não se aplica ao caso do art. 1º, I, da Lei nº 7.988/89 porque, nesta hipótese, o
imposto de renda incidia sobre importações incentivadas pelo Governo, ou seja, o tributo aí tinha função
extrafiscal.
Para o caso da Lei nº 7.988/89, como não se trata de hipótese arrecadatória, deve ser afastada a
incidência da súmula, sob pena de se ferir direito adquirido do contribuinte.

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Resumindo. A Súmula 584 do STF permanece válida e aplicável?
 Regra: SIM.
 Exceção: a súmula não se aplica para as hipóteses em que o IR tenha função extrafiscal.

Assim, não é legítima a aplicação retroativa do art. 1º, I, da Lei 7.988/89, que majorou a alíquota
incidente sobre o lucro proveniente de operações incentivadas ocorridas no passado, ainda que no
mesmo exercício. Relativamente a elas, a legislação havia conferido tratamento fiscal destacado e mais
favorável, justamente para incrementar a sua exportação. A evidente função extrafiscal da tributação
das referidas operações afasta a aplicação, em relação a elas, da Súmula 584/STF.
STF. RE 183130, Rel. p/ Acórdão Min. Teori Zavascki, julgado em 25/09/2014.

No julgamento deste RE 592396/SP, o STF reiterou o que foi decidido acima e, pelo fato de o recurso ter
sido julgado sob a sistemática da repercussão geral, a Corte fixou a seguinte tese:
"É inconstitucional a aplicação retroativa de lei que majora a alíquota incidente sobre o lucro proveniente
de operações incentivadas ocorridas no passado, ainda que no mesmo ano-base, tendo em vista que o
fato gerador se consolida no momento em que ocorre cada operação de exportação, à luz da
extrafiscalidade da tributação na espécie."

JULGADO NÃO COMENTADO

Abono variável e competência do STF


Compete ao STF para processar e julgar, originariamente, demanda ajuizada por magistrado estadual a
respeito de pagamento de correção monetária sobre valores correspondentes a abono variável. Essa a
conclusão da Segunda Turma que, por maioria, deu provimento a agravo regimental em recurso
extraordinário em que debatida a definição da competência. Afirmou que o Plenário já se manifestara no
sentido de ser o STF competente para processar e julgar as ações ajuizadas por magistrados federais
referentes à correção monetária do abono variável prevista na Lei 10.474/2002. Assinalou que a ação de
cobrança, no caso concreto, visaria ao pagamento da correção monetária incidente sobre o abono variável,
vantagem instituída pela Lei 9.655/1998 correspondente à diferença entre a remuneração mensal de cada
magistrado e o valor do subsídio que viesse a ser fixado na vigência da EC 19/1998. A Lei 9.655/1998, no
entanto, não estabelecera o valor nominal dos subsídios devidos aos magistrados. Apenas escalonara os
respectivos estipêndios com base no subsídio mensal dos Ministros do STF, que não teria sido fixado pela
lei exigida nos termos do art. 48, XV, da CF. A aplicação do art. 6º da Lei Federal 9.655/98 dependeria,
portanto, da edição da lei de fixação do subsídio dos Ministros do STF. Assim, com o fim de dar eficácia ao
art. 6º da Lei Federal 9.655/1998, a Lei Federal 10.474/2002, ao tratar da remuneração da magistratura da
União, determinara que até que fosse editada a lei prevista no art. 48, XV, da CF, o vencimento básico do
Ministro do STF seria fixado em R$ 3.950,31. Embora as disposições acima se aplicassem apenas à
magistratura da União, fora editada, no âmbito do Estado do Rio de Janeiro, a Lei fluminense 4.631/2005
ueàapli a aàaosà e osàdoàPode àJudi i ioàestadualàoàdispostoà oàa t.à º,à aput ,àeà§à º,àdaàLeiàFede alà
10.474/2002.

A Turma frisou que, embora as disposições normativas aplicáveis à magistratura da União e do Estado do
Rio de Janeiro não fossem absolutamente idênticas, em ambas as situações, apenas os membros do Poder
Judiciário que tivessem recebido o abono variável no período de 1º.1.1998 a 28.6.2002 teriam interesse na
causa, de modo que, quanto a esse ponto, não haveria distinção entre o presente caso e aqueles
apreciados pelo Plenário. Portanto, a limitação temporal do interesse da magistratura na matéria ocorreria
tanto no âmbito federal quanto no estadual, de modo que não se poderia afastar a aplicação do art. 102, I,
,àdaàCF.àáde ais,àoàfato de a controvérsia interessar apenas a magistrados estaduais também não seria

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suficiente para obstar a aplicação do entendimento firmado pelo Plenário em hipóteses relativas a
magistrados federais. Isso porque, conquanto interpretação literal do art. 102,à I,à ,à daà CFà pe itisseà
concluir pela necessidade de envolvimento de todos os membros da magistratura de forma direta ou
indireta para a aplicação da competência originária do STF, dever-se-ia ter em conta que essa disposição
normativa constitucional não possuiria outro objetivo senão o de deslocar a competência para evitar-se,
ainda que de forma geral, o julgamento da causa por interessados. Vencida a Ministra Cármen Lúcia
(relatora) e vencido o Ministro Celso de Mello. Pontuou que a discussão sobre a incidência de correção
monetária no sistema de pagamento do abono variável criado especificamente no Estado do Rio de Janeiro
ãoàseài se i iaà oà olàdeà at iasàaptasàaàat ai àaà o pet iaào igi iaàdoà“TF,àp evistaà oàa t.à ,àI,à ,à
da CF, cuja interpretação deveria ser restritiva. Não haveria, na espécie vertente, interesse direto ou
indireto de toda a magistratura estadual autorizador do deslocamento da competência para o STF.
RE 608847 AgR/RJ, rel. orig. Min. Cármen Lúcia, red. p/ o acórdão Min. Teori Zavascki, 1º.12.2015.

OUTRAS INFORMAÇÕES

REPERCUSSÃO GERAL
DJe de 30 de novembro a 4 de dezembro de 2015

REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 901.623-SP


RELATOR: MIN. EDSON FACHIN
EMENTA: CONSTITUCIONAL. PENAL. ART. 19 DA LEI DAS CONTRAVENÇÕES PENAIS. PORTE DE ARMA BRANCA. PRINCÍPIO DA
LEGALIDADE PENAL. ANÁLISE SOBRE A OBSERVÂNCIA DO PRINCÍPIO DA TAXATIVIDADE DA CONDUTA DESCRITA.
REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA.
Questão relevante do ponto de vista social e jurídico.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 806.339-SE
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
LIBERDADE DE REUNIÃO – AUTORIDADE COMPETENTE – PRÉVIO AVISO – ARTIGO 5º, INCISO XVI, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL – ALCANCE – RECURSO EXTRAORDINÁRIO – REPERCUSSÃO GERAL CONFIGURADA. Possui repercussão geral a
controvérsia alusiva ao alcance da exigência de prévio aviso à autoridade competente como pressuposto para o exercício do direito versado no artigo
5º, inciso XVI, da Carta de 1988.
Decisões Publicadas: 2

CLIPPING DO D JE
30 de novembro a 4 de dezembro de 2015

AG. REG. NO ARE N. 825.531-CE


REDATOR P/ O ACÓRDÃO: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Constitucional e administrativo. Servidor público. Pretensão de
manutenção de vantagem remuneratória adquirida no exercício de cargo de carreira diversa. Impossibilidade. Precedentes.
1. A pretensão do ora agravado era a manutenção de vantagem remuneratória adquirida no exercício de cargo público no Judiciário estadual e a
transposição dessa vantagem funcional para o cargo atualmente exercido na Justiça Federal.
2. O Supremo Tribunal Federal no julgamento de mérito do recurso extraordinário nº 587.371/DF-RG, Relator o Ministro Teori Zavascki, DJe de
24/6/14, cuja repercussão geral havia sido reconhecida, assentou a impossibilidade de as vantagens remuneratórias adquiridas no exercício de
determinado cargo público serem transportadas para outro cargo pertencente a carreira e regime jurídico distintos para o qual o agente público venha a
ser nomeado posteriormente.
3. No referido julgamento, consignou o relator que “as vantagens remuneratórias adquiridas no exercício de determinado cargo público não
autoriza o seu titular, quando extinta a correspondente relação funcional, a transportá-las para o âmbito de outro cargo, pertencente a
carreira e regime jurídico distintos, criando, assim, um direito de tertium genus, composto das vantagens de dois regimes diferentes”.
4. Agravo regimental provido para que se conheça do agravo e se dê provimento ao recurso extraordinário interposto pela União, julgando-se, por
conseguinte, improcedente a ação proposta pelo ora agravado, com a ressalva de preservação dos valores eventualmente já recebidos, em respeito ao
princípio da boa-fé.
RMS N. 32.202-DF
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
DEVIDO PROCESSO LEGAL – DEFESA – VIABILIZAÇÃO. Uma vez viabilizada a defesa, descabe agasalhar alegação de ofensa ao devido processo legal.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 14


DEMISSÃO – FUNDAMENTOS. Surgindo fundamentado o ato de demissão, fica afastado o vício de forma.
SANÇÃO ADMINISTRATIVA – ATO DA COMISSÃO PROCESSANTE – INDEPENDÊNCIA. A autoridade julgadora não está vinculada à conclusão da
comissão processante.
PRESCRIÇÃO – PROCESSO ADMINISTRATIVO – LEGISLAÇÃO PENAL. A influência da legislação penal faz-se consideradas balizas a englobarem a
pena máxima prevista para o delito.
PROCESSO ADMINISTRATIVO – PROCESSO-CRIME – REPERCUSSÃO. A teor do disposto no artigo 935 do Código Civil, a repercussão do que
decidido no processo-crime pressupõe pronunciamento, precluso na via da recorribilidade, afastando o fato ou a autoria.
RHC N. 116.463-MG
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
RECURSO EM HABEAS CORPUS – PREJUÍZO. Fica prejudicado o recurso em habeas corpus dirigido ao afastamento de custódia preventiva ante a
absolvição do acusado, com expedição de alvará de soltura.

AG. REG. NO ARE N. 793.712-SP


RELATOR: MIN. EDSON FACHIN
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. MATÉRIA CRIMINAL. INTEMPESTIVIDADE DO
PRIMEIRO AGRAVO. INAPLICABILIDADE DO PRAZO DA LEI 12.322/2010. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 699 DO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL. SEGUNDO AGRAVO. APLICAÇÃO DA SISTEMÁTICA DA REPERCUSSÃO GERAL NO TRIBUNAL DE ORIGEM.
INTERPOSIÇÃO DO AGRAVO PREVISTO NO ART. 544 DO CPC. NÃO CABIMENTO.
1. É intempestivo o agravo, em matéria criminal, que não observa o prazo de interposição de 05 (cinco) dias estabelecido no art. 28 da Lei
8.038/1990.
2. O Supremo Tribunal Federal, por maioria, resolvendo questão de ordem suscitada no ARE 639.846-AgR, manteve o enunciado da Súmula 699 do
STF, ao relevar que não se aplica, na espécie, a alteração trazida pela Lei 12.322/2010 ao art. 544, caput, do Código de Processo Civil.
3. Não cabe a esta Corte rever a aplicação da sistemática da repercussão geral no Juízo de origem, nos termos do que assentado no julgamento da
Questão de Ordem no AI 760.358, Rel. Min. Gilmar Mendes.
3. Agravo regimental a que se nega provimento.
Acórdãos Publicados: 230

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

ADPF - Impugnação a decisões judiciais transitadas em julgado - Inadmissibilidade - Lei pós-constitucional - Inviabilidade
(Transcrições)
(v. Informativo 810)
ADPF 81-MC/DF*
RELATOR: Ministro Celso de Mello

EMENTA: ADPF. CONTROLE NORMATIVO ABSTRATO. LEGITIMIDADE ATIVA DA ENTIDADE DE CLASSE ARGUENTE.
PRECEDENTE. FISCALIZAÇÃO CONCENTRADA DE CONSTITUCIONALIDADE: PROCESSO DE CARÁTER OBJETIVO
IMPOSSIBILIDADE DE DISCUSSÃO DE SITUAÇÕES INDIVIDUAIS E CONCRETAS. PRECEDENTES. AUSÊNCIA DE
CONTROVÉRSIA JURÍDICA RELEVANTE. PRESSUPOSTO NECESSÁRIO E ESSENCIAL AO VÁLIDO AJUIZAMENTO DA ADPF.
INEXISTÊNCIA, NO CASO, DE QUALQUER ESTADO DE INCERTEZA OU DE INSEGURANÇA NO PLANO JURÍDICO,
NOTADAMENTE PORQUE JÁ DIRIMIDO O DISSENSO INTERPRETATIVO PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
PRECEDENTES ESPECÍFICOS SOBRE O LITÍGIO EM QUESTÃO. SUPERVENIÊNCIA, ADEMAIS, DE LEGISLAÇÃO
MODIFICADORA, EM PONTO RELEVANTE, DO ESTATUTO BÁSICO DISCIPLINADOR DA MATÉRIA. IMPUGNAÇÃO DE
INTERPRETAÇÃO JUDICIAL DE DIPLOMAS LEGISLATIVOS PÓS-CONSTITUCIONAIS. POSTULADO DA SUBSIDIARIEDADE.
CABIMENTO, NO CASO, DE AÇÃO DECLARATÓRIA DE CONSTITUCIONALIDADE. CONSEQUENTE INVIABILIDADE DA
ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO. PRECEDENTES. EXISTÊNCIA, NO ORDENAMENTO POSITIVO, DE INSTRUMENTO
PROCESSUAL APTO A SANAR, DE MODO EFICAZ, A SITUAÇÃO DE LESIVIDADE ALEGADAMENTE RESULTANTE DOS
ATOS ESTATAIS IMPUGNADOS (LEI Nº 9.868/99, ART. 21). POSSIBILIDADE DE IMPUGNAÇÃO, MEDIANTE ADPF, DE
DECISÕES JUDICIAIS, DESDE QUE NÃO TRANSITADAS EM JULGADO. CONSEQUENTE OPONIBILIDADE DA COISA
JULGADA EM SENTIDO MATERIAL À ADPF. PRECEDENTES. O SIGNIFICADO POLÍTICO-JURÍDICO DA “RES JUDICATA”.
RELAÇÕES ENTRE A COISA JULGADA MATERIAL E A CONSTITUIÇÃO. RESPEITO PELA AUTORIDADE DA COISA JULGADA
MATERIAL, MESMO QUANDO A DECISÃO TENHA SIDO PROFERIDA EM CONFRONTO COM A JURISPRUDÊNCIA DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ADPF: AÇÃO CONSTITUCIONAL QUE NÃO DISPÕE DE FUNÇÃO RESCISÓRIA.
INTERPRETAÇÕES FUNDADAS, NO CASO, EM DECISÕES JUDICIAIS QUE, EXPRESSAMENTE INVOCADAS PELA
ARGUENTE, JÁ TRANSITARAM EM JULGADO. INADMISSIBILIDADE, EM TAL SITUAÇÃO, DA ADPF. A AUTORIDADE DA
COISA JULGADA MATERIAL COMO OBSTÁCULO INSUPERÁVEL AO AJUIZAMENTO DA ADPF. DOUTRINA.
PRECEDENTES. ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO NÃO CONHECIDA.
DECISÃO: Trata-se de arguição de descumprimento de preceito fundamental, com pedido de medida cautelar, ajuizada pela Associação Brasileira
das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros – ABRATI, que pretende que o Supremo Tribunal Federal “declare, com eficácia ‘erga omnes’
e efeito vinculante, ser competência privativa da União, pelos órgãos delegados, obedecidos os critérios de conveniência e oportunidade, inerentes à
Administração, a outorga de autorização, concessão ou permissão de exploração de transporte interestadual e internacional de passageiros, sempre

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 15


mediante licitação, prestando-se homenagem, assim, ao disposto nos arts. 2º, 5º, ‘caput’ e inciso XXXVI, 21, XII, e, 37, ‘caput’ e inciso XXI, e 175,
da Constituição” (fls. 35 – grifei).
A ora arguente, ao deduzir referida postulação, destacou, com especial ênfase, a existência de decisões judiciais que têm reconhecido “(...)
a particulares o direito de explorar serviço público de transporte interestadual e internacional de passageiros, sujeito ao regime de autorização,
concessão ou permissão, sem a observância do procedimento licitatório” (fls. 33 – grifei).
A ABRATI sustenta, bem por isso, que tais decisões judiciais, inclusive provimentos jurisdicionais de natureza meramente cautelar,
qualificam-se como atos estatais transgressores dos preceitos inscritos nos arts. 2º, 5º, “caput” e inciso XXXVI, 21, inciso XXII, alínea “e”, 37,
“caput” e inciso XXI, e 175, todos da Constituição da República, assinalando, em razão dessa conduta do Poder Judiciário, que se impõe
proclamar a “(...) impossibilidade de outorga de concessão, autorização e/ou permissão de exploração de serviços de transporte de passageiros
interestadual e internacional a empresas particulares por outro que não pelo Poder concedente” (fls. 03) e, sempre, mediante prévia instauração do
concernente procedimento licitatório.
Eis, no ponto, os aspectos essenciais realçados na presente arguição de descumprimento de preceito fundamental (fls. 03/05):
“O transporte rodoviário de passageiros no Brasil é parte integrante do chamado ‘Sistema Nacional de Viação’, descrito no art. 2º da
Lei nº 10.233/01 (e alterações introduzidas pela MP nº 2.217-3/01), que se constitui numa infraestrutura viária e estrutura operacional dos
diferentes meios de transporte de pessoas e bens, sob jurisdição da União, regido pelos princípios e diretrizes traçados na Constituição
Federal, arts. 21, XII, ‘e’ (regulamentado pelo Decreto nº 2.521/98 e disposições da Lei nº 8.987/99), 37, XXI, e 175.
2 – Trata-se de um serviço de utilidade pública e, conforme previsão constitucional, vista acima, é provido pelo exercício do poder
discricionário da União, obedecidos os critérios de conveniência e oportunidade, sempre mediante licitação, devendo contemplar as
necessidades básicas do cidadão, tanto para o exercício da atividade laboral como para a satisfação das necessidades sociais, assistenciais,
culturais e de lazer, o que o torna, portanto, um fator importante de inclusão social, desenvolvimento econômico e integração nacional.
3 – Nesse passo, o particular ao pretender explorar tais serviços deverá reportar-se à Agência Nacional de Transportes Terrestres –
ANTT, que, por determinação legal (Lei nº 10.233, de 5.6.01), é o órgão responsável pelo estabelecimento do plano de concessão, pela
realização de licitações, pelo incentivo à competição, pela definição da tarifa, pelo controle de serviços, pela defesa dos direitos dos usuários
e pela arbitragem de conflitos.
4 – E assim deve ser, pois somente a Administração (Poder concedente) dispõe de meios hábeis para promover estudos de viabilidade
técnica e econômica, podendo, assim, regulamentar, controlar e fiscalizar, de forma centralizada e efetiva, a prestação desses serviços.
5 – Não obstante esses fatos, várias empresas (clandestinas) do setor, que sequer ostentam legitimidade para ser tuteladas
judicialmente, por não possuírem autorização hábil a legalizar suas atividades de exploradora de serviços públicos, vêm obtendo, no Poder
Judiciário, a outorga de concessões e permissões de exploração de tais serviços, o que invariavelmente acarreta enormes prejuízos àquelas
já regularmente delegadas, além de violar, de uma só vez, os preceitos fundamentais insculpidos nos arts. 2º, 5º, ‘caput’ e inciso XXXVI, 21,
inciso XII, alínea ‘e’, 37, ‘caput’ e inciso XXI, e 175, todos da Constituição.
6 – Tais linhas rodoviárias são ‘concedidas’, em todos os casos, sem que seja levada em conta sua viabilidade econômico-financeira e
em completa inobservância a critérios técnicos, causando um enorme estado de insegurança jurídica no setor, além de prejudicar
sobremaneira o regular desenvolvimento dos serviços prestados por aquelas empresas que possuem contrato com o Poder Público
(concessionárias ou permissionárias).
7 – Sob esse prisma, além do prejuízo jurídico, perpetrado, antes de tudo, pela inobservância aos princípios da segurança jurídica, da
separação dos Poderes e da isonomia, com grave repercussão e lesão à ordem e à economia públicas e à ordem jurídica, pela inobservância,
também, ao disposto na Lei nº 8.987/95 e no Decreto nº 2.521/98, verifica-se, ainda, o prejuízo econômico das empresas legalmente
delegadas.” (grifei)
O eminente Advogado-Geral da União manifestou-se, em caráter preliminar, pelo não conhecimento da presente arguição e, quanto ao
mérito, pela procedência do pedido formulado (fls. 598/613).
O Ministério Público Federal, por sua vez, em pronunciamento da lavra do eminente Procurador-Geral da República, Dr. RODRIGO JANOT
MONTEIRO DE BARROS, opinou, com ressalva, pelo parcial acolhimento da pretensão cautelar (fls. 641/663).
Sendo esse o contexto, passo a apreciar, inicialmente, a admissibilidade da presente ação constitucional. E, ao fazê-lo, assinalo que a
arguição de descumprimento de preceito fundamental, instituída pela própria Constituição (art. 102, § 1º) e disciplinada pela Lei nº 9.882/99,
qualifica-se como típica ação constitucional destinada a proteger e a preservar a integridade de preceitos fundamentais revestidos, em decorrência
de sua natureza mesma, de um claro sentido de essencialidade, configurando “modalidade de integração entre os modelos de perfil difuso e
concentrado no Supremo Tribunal Federal” (ADPF 33/PA, Rel. Min. GILMAR MENDES).
No sistema constitucional brasileiro, há, como sabemos, duas modalidades de arguição de descumprimento: uma de caráter autônomo (Lei
nº 9.882/99, art. 1º, “caput”) e outra de natureza incidental (‘lex cit.’, art. 1º, parágrafo único), como esclareceu esta Suprema Corte em precedente
sobre a matéria (ADPF 3-QO/CE, Rel. Min. SYDNEY SANCHES).
Impõe-se destacar, de outro lado, que a arguição de descumprimento de preceito fundamental pode ter por objeto de impugnação tanto ato
estatal impregnado de conteúdo normativo quanto ato do Poder Público despojado de qualquer atributo de normatividade, valendo relembrar, no
que se refere a esse específico ponto, valioso precedente firmado pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal:
“Argüição de descumprimento de preceito fundamental. Lei nº 9882, de 3.12.1999, que dispõe sobre o processo e julgamento da
referida medida constitucional. 2. Compete ao Supremo Tribunal Federal o juízo acerca do que se há de compreender, no sistema
constitucional brasileiro, como preceito fundamental. (…) 4. Argüição de descumprimento de preceito fundamental como instrumento de
defesa da Constituição, em controle concentrado. (…). 6. O objeto da argüição de descumprimento de preceito fundamental há de ser ‘ato
do Poder Público’ federal, estadual, distrital ou municipal, normativo ou não (…).”
(ADPF 1-QO/RJ, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA – grifei)
Reconheço, de outro lado, como salientei em anterior decisão nesta causa (fls. 364/366), a legitimidade ativa “ad causam” da entidade de
classe ora arguente, considerado o que estabelece o art. 2º, inciso I, da Lei nº 9.882/99, c/c o art. 103, inciso IX, da Constituição Federal.
Com efeito, esta Suprema Corte já reconheceu que a Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros – ABRATI
dispõe de qualidade para agir em sede jurisdicional concentrada (RTJ 207/583).
Cabe registrar, ainda, que a Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros – ABRATI satisfaz, plenamente, a
exigência jurisprudencial concernente à pertinência temática, consideradas, de um lado, as finalidades institucionais dessa entidade de classe de
âmbito nacional e, de outro, o próprio objeto da postulação ora deduzida nesta sede processual.
É importante rememorar, neste ponto, que o requisito da pertinência temática – que se traduz na relação de congruência que
necessariamente deve existir entre os objetivos estatutários ou as finalidades institucionais da entidade autora e o conteúdo material do ato
questionado em sede de controle abstrato – foi erigido à condição de pressuposto qualificador da própria legitimidade ativa “ad causam” para efeito
de instauração, entre outros processos de fiscalização concentrada, daquele concernente à arguição de descumprimento de preceito fundamental.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 16


Impende verificar, a seguir, se se revela admissível a arguição de descumprimento de preceito fundamental nos casos em que se impugnam
decisões judiciais reputadas lesivas em razão de interpretação nelas veiculada e que transgrediriam – segundo sustenta a arguente – preceitos
fundamentais consagrados no texto da Constituição da República.
Tenho assinalado, na linha de orientação jurisprudencial firmada por esta Suprema Corte (ADPF 33/PA, Rel. Min. GILMAR MENDES –
ADPF 47/PA, Rel. Min. EROS GRAU – ADPF 101/DF, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – ADPF 144/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO – ADPF
249-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), que se mostra processualmente viável a impugnação, em sede de arguição de descumprimento
de preceito fundamental, de interpretações judiciais alegadamente violadoras de preceitos fundamentais, cuja suposta transgressão decorreria de
decisões emanadas de órgãos diversos do Poder Judiciário, desde que tais decisões judiciais ainda não tenham transitado em julgado (ADPF 249-
AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), considerado o que dispõe o art. 5º, § 3º, “in fine”, da Lei nº 9.882/99:
“Não podem ser alcançados pela eficácia suspensiva de liminar concedida em ação de descumprimento de preceito fundamental os
efeitos de sentenças transitadas em julgado ou convalidados por lei superveniente.”
(ADPF 79-AgR/PE, Rel. Min. CEZAR PELUSO – grifei)
Essa compreensão da matéria – que sustenta a viabilidade da utilização da arguição de descumprimento contra interpretação judicial de que
possa resultar lesão a preceito fundamental (excluídas, no entanto, as decisões impregnadas da autoridade da coisa julgada material) – encontra
apoio em autorizado magistério doutrinário (ALEXANDRE DE MORAES, “Constituição do Brasil Interpretada e Legislação Constitucional”, p.
2.280, item n. 5.1, 8ª ed., 2011, Atlas; FABIO CESAR DOS SANTOS OLIVEIRA, “Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental”, p.
144/145, item n. IV.2, 2004, Lumen Juris; GABRIEL DIAS MARQUES DA CRUZ, “Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental –
Lineamentos Básicos e Revisão Crítica no Direito Constitucional Brasileiro”, p. 99, item n. 5.7.1, 2011, Malheiros; SYLVIO MOTTA e
GUSTAVO BARCHET, “Curso de Direito Constitucional”, p. 885, item n. 10, 2007, Elsevier, v.g.), valendo destacar, por relevante, a lição
expendida pelo eminente Ministro GILMAR MENDES (“Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental: comentários à Lei n. 9.882,
de 3.12.1999”, p. 72, item n. 6, 2007, Saraiva):
“Pode ocorrer lesão a preceito fundamental fundada em simples interpretação judicial do texto constitucional.
Nesses casos, a controvérsia não tem por base a legitimidade ou não de uma lei ou de um ato normativo, mas se assenta simplesmente
na legitimidade ou não de uma dada interpretação constitucional. No âmbito do recurso extraordinário essa situação apresenta-se como um
caso de decisão judicial que contraria diretamente a Constituição (art. 102, III, ‘a’).
Não parece haver dúvida de que, diante dos termos amplos do art. 1º da Lei n. 9.882/99, essa hipótese poderá ser objeto de argüição
de descumprimento – lesão a preceito fundamental resultante de ato do Poder Público –, até porque se cuida de uma situação trivial no
âmbito de controle de constitucionalidade difuso.
Assim, o ato judicial de interpretação direta de um preceito fundamental poderá conter uma violação da norma constitucional. Nessa
hipótese, caberá a propositura da argüição de descumprimento para afastar a lesão a preceito fundamental resultante desse ato judicial do
Poder Público, nos termos do art. 1º da Lei n. 9.882/99.” (grifei)
Assentadas tais premissas, e reconhecidas, no caso, a legitimidade ativa da autora, a existência de pertinência temática e a possibilidade
processual de impugnação, em sede de arguição de descumprimento de preceito fundamental, de interpretação fundada em decisões judiciais ainda
não transitadas em julgado, cabe examinar, agora, a idoneidade jurídica da presente ação constitucional, tendo em vista a pretensão formulada
pela arguente (ABRATI).
Verifico, a partir da leitura da petição inicial, dos documentos que a instruem e dos demais elementos de informação produzidos nos autos –
e após exame mais aprofundado, diverso daquele realizado mediante “non plena cognitio” (fls. 364/366) –, que este processo de controle
concentrado foi instaurado com o iniludível objetivo de promover, em sede de fiscalização abstrata, a defesa de interesses individuais e concretos das
empresas de transporte coletivo terrestre de passageiros “que possuem contrato com o Poder Público (concessionárias ou permissionárias)” (fls. 05 –
grifei), como se depreende do seguinte fragmento constante da peça processual mencionada (fls. 06):
“10 – O sistema rodoviário brasileiro conta, hoje, aproximadamente 1783 (mil setecentos e oitenta e três) linhas regularmente
delegadas, que geram um faturamento para o setor de R$ 3.000.000.000,00 (três bilhões de reais) por ano. Todavia, de acordo com dados
fornecidos pela Agência Nacional de Transportes Terrestres-ANTT (doc. anexo), há ainda, no Brasil, quase 200 (duzentas) linhas de
transporte rodoviário interestadual e/ou internacional de passageiros em operação por determinação judicial, o que representa um prejuízo
para o setor regularmente delegado de aproximadamente R$ 310.000.000,00 (trezentos e dez milhões de reais) por ano.
11 – Essa prática de colusão e de captura regulatória desmoraliza a autoridade pública, desestrutura os órgãos gestores e abre porta
para a ilegalidade, pois impede o exercício do poder de polícia do Estado, ficando inviável para a Administração exercer adequadamente
sua competência de forma centralizada e com uniformidade de critérios, impedindo, também, o regular desenvolvimento das atividades das
empresas concessionárias e permissionárias.
….............................................................................................................
13 – Não obstante o mandamento constitucional da realização de licitações, o que se observa, por um lado, é a continuidade da
prática de prorrogação de autorizações por decisões judiciais, sem nenhuma justificativa técnica ou econômica, desestimulando a eficiência
e os investimentos pelo setor regularmente delegado, desmoralizando-o e fragilizando-o.” (grifei)
Esses elementos tornam inquestionável o intuito da autora de, ao agir em sede de fiscalização concentrada, buscar, na realidade, amparo
jurisdicional para a preservação de direitos e interesses concretos das empresas de transporte coletivo terrestre de passageiros que, vinculadas à
ABRATI, estariam sendo afetadas, em suas respectivas situações individuais, pela interpretação veiculada nas decisões judiciais referidas.
Veja-se, pois, que o contexto ora exposto põe em evidência a configuração concreta de interesses individuais das sociedades empresárias em
questão, o que basta, por si só, para inviabilizar a utilização, na espécie, da arguição de descumprimento de preceito fundamental, considerada a
natureza essencialmente abstrata da controvérsia nela suscitada.
Não se pode perder de perspectiva, neste ponto, que o sistema de controle normativo abstrato de constitucionalidade – em cujo âmbito não se
discutem situações individuais, nem se examinam interesses concretos – qualifica-se como típico processo de caráter objetivo, destinado a
viabilizar “o julgamento não de uma relação jurídica concreta, mas de validade de lei em tese (…)” (RTJ 95/999, Rel. Min. MOREIRA ALVES –
grifei), ou, como sucede na espécie, a propiciar decisão “in abstracto” da compatibilidade de uma dada interpretação judicial com o texto da
Constituição da República.
A importância de qualificar-se o controle normativo abstrato de constitucionalidade como processo objetivo – vocacionado, exclusivamente, à
defesa, em tese, da “harmonia do sistema constitucional, ferida pela manutenção de lei [ou de interpretação judicial] produzida em desrespeito à
Constituição” (CELSO RIBEIRO BASTOS, “Curso de Direito Constitucional”, p. 327, 11ª ed., 1989, Saraiva) –, além de refletir entendimento
exposto em autorizado magistério (CLÈMERSON MERLIN CLÈVE, “A Fiscalização Abstrata de Constitucionalidade no Direito Brasileiro”, p.
141/145, item n. 3.2.2, 2ª ed., 2000, RT; NAGIB SLAIBI FILHO, “Ação Declaratória de Constitucionalidade”, p. 106, 2ª ed., 1995, Forense;
GILMAR FERREIRA MENDES, “Controle de Constitucionalidade – Aspectos Jurídicos e Políticos”, p. 250, 1990, Saraiva), encontra apoio na
própria jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que, por mais de uma vez, já enfatizou a objetividade desse instrumento de proteção “in
abstracto” da ordem constitucional (RTJ 113/22, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA – RTJ 131/1001, Rel. Min. CELSO DE MELLO – RTJ 136/467,

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Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), repelindo, por isso mesmo, qualquer pretensão que vise a resguardar interesses individuais supostamente
lesados em face de situações concretas.
Isso significa, portanto, tal como ressaltado, que, em face da natureza objetiva de que se reveste o processo de fiscalização concentrada de
constitucionalidade, não se discutem situações individuais no âmbito do controle abstrato de normas (RTJ 164/506-509, Rel. Min. CELSO DE
MELLO – ADI 1.254-AgR/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), notadamente quando o ajuizamento da arguição de descumprimento de
preceito fundamental é motivado, em caráter preponderante, por determinadas situações concretas claramente identificáveis:
“INADEQUAÇÃO DO CONTROLE NORMATIVO ABSTRATO PARA A DEFESA DE INTERESSES INDIVIDUAIS E
CONCRETOS – CONSEQUENTE INADMISSIBILIDADE DA AÇÃO DIRETA.
– O controle normativo de constitucionalidade qualifica-se como típico processo de caráter objetivo, vocacionado, exclusivamente, à
defesa, em tese, da harmonia do sistema constitucional. A instauração desse processo objetivo tem por função instrumental viabilizar o
julgamento da validade abstrata do ato estatal em face da Constituição da República. O exame de relações jurídicas concretas e individuais
constitui matéria juridicamente estranha ao domínio do processo de controle concentrado de constitucionalidade.
– A tutela jurisdicional de situações individuais, uma vez suscitada a controvérsia de índole constitucional, há de ser obtida na via do
controle difuso de constitucionalidade, que, supondo a existência de um caso concreto, revela-se acessível a qualquer pessoa que disponha de
interesse e legitimidade (CPC, art. 3º). Doutrina. Precedentes.”
(ADI 2.423-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
“O controle normativo de constitucionalidade qualifica-se como típico processo de caráter objetivo, vocacionado exclusivamente à
defesa, em tese, da harmonia do sistema constitucional. O exame de relações jurídicas concretas e de situações individuais constitui matéria
juridicamente estranha ao domínio do processo de fiscalização concentrada de constitucionalidade. Precedentes.”
(ADPF 363-MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Vale referir, bem por isso, ante a pertinência de seu conteúdo, fragmento do parecer que o eminente Procurador-Geral da República
produziu no âmbito da ADPF 318/DF, de que fui Relator:
“A amplitude da arguição de descumprimento para impugnar atos do Poder Público, todavia, não deve ser tomada a ponto de
transmudar a vocação constitucional dessa via processual, de ação de contornos marcadamente objetivos para sucedâneo de recursos
próprios, como forma de atalhar as vias processuais ordinárias a fim de submeter a lide à apreciação direta do Supremo Tribunal Federal.
…..................................................................................................
Não se deve admitir manejo de ADPF para tutela judicial de caso singular, a fim de obter solução para situação concreta, sob pena
de banalizar e inviabilizar a jurisdição constitucional concentrada que a Constituição da República atribui ao Supremo Tribunal Federal.
Com a admissibilidade desmedida da arguição e de outros instrumentos de controle concentrado de constitucionalidade, adviria enorme
risco para a Corte e para a própria sociedade brasileira, decorrente de invencível incapacidade operacional do Supremo Tribunal Federal de
fazer face ao volume de demandas que lhe seriam submetidas. É própria das cortes constitucionais a imposição de requisitos relativamente
rigorosos para eleição das causas que lhes são ofertadas pelos interessados, a fim de permitir que elas emprestem aos litígios admitidos a
atenção e o tempo necessários, inerentes às graves e complexas demandas a seu cargo.” (grifei)
Mesmo que fosse possível superar esse obstáculo processual, ainda assim subsistiria outro fundamento autorizador do juízo negativo de
admissibilidade da presente ação constitucional.
Como se sabe, a admissibilidade da arguição de descumprimento de preceito fundamental supõe, entre outros requisitos, aquele referente à
existência de controvérsia constitucional relevante.
Com efeito, um dos pressupostos inerentes à arguição de descumprimento de preceito fundamental consiste na comprovação da existência
“de controvérsia judicial relevante sobre a aplicação do preceito fundamental que se considera violado”, como prescreve o art. 3º, n. V, da Lei nº
9.882/99
É que a arguição de descumprimento de preceito fundamental, quando impugnar atos estatais, como os provenientes do Poder Judiciário,
somente poderá ser utilizada se se demonstrar que há relevante controvérsia constitucional sobre determinado tema, o que, no entanto, não ocorre
no caso ora em exame.
A análise da jurisprudência prevalecente no Supremo Tribunal Federal e nos Tribunais Regionais Federais de todas as Regiões evidencia, de
maneira muito clara, que já não existe qualquer estado de incerteza ou de insegurança no plano jurídico a respeito da pretensão deduzida pela ora
arguente, não mais havendo, por isso mesmo, qualquer situação de indefinição em torno do “thema decidendum”, tal como proposto pela ABRATI.
O Supremo Tribunal Federal, defrontando-se com litígio jurídico idêntico ao versado nestes autos, firmou entendimento que fez cessar
qualquer controvérsia constitucional na matéria em causa, como resulta inequívoco de inúmeros precedentes emanados de seu Plenário, de ambas
as suas Turmas e de seus Juízes (AI 594.615/RJ, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – AI 836.059-AgR/RS, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – ARE
885.427/PR, Rel. Min. LUIZ FUX – ARE 902.634/PR, Rel. Min. GILMAR MENDES – RE 140.989/RJ, Rel. Min. OCTAVIO GALLOTTI – RE
264.621/CE, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – RE 267.383/CE, Rel. Min. GILMAR MENDES – RE 412.977-AgR/PR, Rel. Min. AYRES BRITTO – RE
412.978/PR, Rel. Min. AYRES BRITTO – RE 435.837/RJ, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – RE 496.150/PR, Rel. Min. AYRES BRITTO – RE
501.387-AgR/DF, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – RE 517.431/ES, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – RE 549.330/PR, Rel. Min. RICARDO
LEWANDOWSKI – RE 586.934/DF, Rel. Min. MARCO AURÉLIO – RE 597.536/RJ, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – RE 607.126-AgR/RJ,
Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – RE 617.204/RS, Rel. Min. ROSA WEBER – RE 628.337-AgR/PR, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – RE 640.723/SC,
Rel. Min. LUIZ FUX – RE 748.085/RS, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI – RE 759.648/RS, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, v.g.):
“Demonstração dos requisitos objetivos para o deferimento de suspensão da execução de acórdão: lesão à ordem pública, tendo em
vista o contido nos arts. 21, XII, ‘e’, e 175 da Constituição da República. Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal no sentido da
impossibilidade da prestação de serviços de transporte interestadual de passageiros a título precário, sem a observância do procedimento
licitatório. Lesão à ordem administrativa: afastamento da Administração do legítimo juízo discricionário de conveniência e oportunidade na
fixação de trecho a ser explorado diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão, do serviço de transporte rodoviário
interestadual de passageiros.
…...................................................................................................
4. Agravo regimental improvido.”
(STA 73-AgR/SP, Rel. Min. ELLEN GRACIE, Pleno – grifei)
“Agravo regimental no recurso extraordinário. Transporte coletivo interestadual de passageiros. Concessão ou permissão.
Necessidade de prévia licitação. Precedentes.
1. A jurisprudência da Suprema Corte pacificou o entendimento de que é imprescindível prévia licitação para a concessão ou
permissão da exploração de serviços de transporte coletivo de passageiros.
2. Agravo regimental não provido.”
(RE 626.844-AgR/RS, Rel. Min. DIAS TOFFOLI, 1ª Turma – grifei)

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“Agravo regimental em recurso extraordinário. 2. Transporte interestadual de passageiros. Concessão e permissão. Prorrogação. 3.
Controle de legalidade dos atos administrativos pelo Poder Judiciário. Possibilidade. Não configuração de ofensa ao Princípio da Separação
de Poderes. 4. Necessidade de licitação prévia. Norma cogente. Artigo 175 da Constituição. Precedentes. 5. Agravo regimental a que se
nega provimento.”
(ARE 805.715-AgR/PE, Rel. Min. GILMAR MENDES, 2ª Turma – grifei)
Inocorre, desse modo, o requisito essencial e necessário ao válido ajuizamento da arguição de descumprimento de preceito fundamental,
consistente – segundo exigência imposta pelo art. 3º, inciso V, da Lei nº 9.882/99 – na comprovada “existência de controvérsia judicial relevante
sobre a aplicação do preceito fundamental que se considera violado”.
Sem a observância desse pressuposto de admissibilidade, torna-se inviável a instauração (ou o prosseguimento) do processo de fiscalização
normativa “in abstracto”, sob pena de converter-se a arguição de descumprimento de preceito fundamental em um inadmissível instrumento de
consulta sobre determinada interpretação constitucional – já pacificada, de resto, no tema ora em exame, na esfera do Poder Judiciário –,
descaracterizando, por completo, a própria natureza jurisdicional que qualifica a atividade desenvolvida, em referido processo, pelo Supremo
Tribunal Federal.
Desse modo, e para efeito de configuração do interesse objetivo de agir do autor da arguição de descumprimento de preceito fundamental,
torna-se indispensável que exista (e continue a existir) controvérsia apta a afetar a presunção “juris tantum” de constitucionalidade ínsita a
qualquer ato emanado do Poder Público (RTJ 157/371, 385).
Vale reproduzir, a propósito do tema ora em exame e no sentido ora exposto, expressivo fragmento de obra doutrinária (GILMAR
FERREIRA MENDES e PAULO GUSTAVO GONET BRANCO, “Curso de Direito Constitucional”, p. 1.279/1.281, item n. 2.3, 7ª ed., 2012,
Saraiva):
“Tal como a Lei n. 9.868/99, na parte que disciplinou os pressupostos da ação declaratória de constitucionalidade (arts. 13 a 20), a
Lei n. 9.882/99 pressupõe, basicamente, a existência de controvérsia judicial ou jurídica relativa à constitucionalidade da lei ou à
legitimidade do ato para a instauração da arguição de inconstitucionalidade. Portanto, também na arguição de descumprimento de preceito
fundamental há de se cogitar de uma legitimação para agir ‘in concreto’, tal como consagrada no Direito alemão, que se relaciona com a
existência de um estado de incerteza, gerado por dúvidas ou controvérsias sobre a legitimidade da lei. É necessário que se configure,
portanto, situação hábil a afetar a presunção de constitucionalidade ou de legitimidade do ato questionado.” (grifei)
O que não se mostra viável é dar prosseguimento a uma arguição de descumprimento de preceito fundamental em situação na qual já não
mais subsiste a exegese impugnada, pois, como anteriormente assinalado, cessou a controvérsia jurídica em torno do tema veiculado nesta ação
constitucional, tendo em vista a jurisprudência firmada pelo Supremo Tribunal Federal e pelos Tribunais Regionais Federais (AC
00029347020084036000, Rel. Juiz NERY JUNIOR, TRF/3ª – AC 00159002320124013400, Rel. Juiz NÉVITON GUEDES, TRF/1ª – AC
00190416020064013400, Rel. Juiz JIRAIR ARAM MEGUERIAN, TRF/1ª – AC 00699079120144013400, Rel. Juiz KASSIO NUNES MARQUES,
TRF/1ª – AC 199351010561885, Rel. Juiz FREDERICO GUEIROS, TRF/2ª – AC 199650010078991, Rel. Juiz SERGIO SCHWAITZER, TRF/2ª
– AC 473418/PE, Rel. Juiz FRANCISCO BARROS DIAS, TRF/5ª – AC 9702430844, Rel. Juiz MARIA ALICE PAIM LYARD, TRF/2ª – AG
00179191220154010000, Rel. Juiz JOÃO BATISTA MOREIRA, TRF/1ª – AG 200904000000260, Rel. Juiz CARLOS EDUARDO THOMPSON
FLORES LENZ, TRF/4ª – AG 42496/CE, Rel. Juiz FREDERICO PINTO DE AZEVEDO (Convocado), TRF/5ª – AGRAC 00173149619974010000, Rel. Juiz
MARCIO BARBOSA MAIA, TRF/1ª – AI 00991837520074030000, Rel. Juiz ALDA BASTO, TRF/3ª – EIAC 00339163020094013400, Rel. Juiz
DANIEL PAES RIBEIRO, TRF/1ª – EINF 200171040048569, Rel. Juiz MARGA INGE BARTH TESSLER, TRF/4ª, v.g.):
“CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. TRANSPORTE RODOVIÁRIO INTERESTADUAL DE PASSAGEIROS.
EXIGÊNCIA DE LICITAÇÃO. 1 – As outorgas de concessões de serviço público exigem necessariamente a realização de licitação pública,
uma vez que apenas por meio do procedimento licitatório é possível assegurar-se a igualdade de condições a todos os interessados em
explorar o serviço público, objetivando-se, assim, a otimização da prestação do serviço. Precedentes do STF, do STJ e do TRF 1ª Região. 2
– Apelação a que se nega provimento.”
(AC 00204884920074013400, Rel. Juiz VALLISNEY DE SOUZA OLIVEIRA (Convocado), TRF/1ª – grifei)
“ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL. EXPLORAÇÃO DE TRANSPORTE INTERESTADUAL DE PASSAGEIROS.
NECESSIDADE DE LICITAÇÃO. ART. 175 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. 1 – A autorização, permissão ou concessão de serviço
público de transporte rodoviário interestadual de passageiros somente pode ser outorgada pela União (art. 21, XII, ‘e’, da CF), mediante
licitação e após análise da conveniência e necessidade de implementação de uma determinada linha de transporte de passageiros pela
Administração. 2 – Não cabe ao Judiciário substituir a Administração, para autorizar a exploração do serviço de transporte, ainda que de
forma provisória, sob pena de violação do princípio da separação de Poderes e da obrigatoriedade de licitação. 3 – Precedentes jurisprudenciais. 4
– Recurso e remessa necessária providos.”
(AC 200002010212573, Rel. Juíza CLAUDIA MARIA BASTOS NEIVA, TRF/2ª – grifei)
“PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO E ASSISTÊNCIA LITISCONSORCIAL –
PRESSUPOSTOS LEGAIS – AUSÊNCIA – ARTS. 47 E 50, CPC – INTERESSE MERAMENTE ECONÔMICO DE OUTRAS
EMPRESAS CONCESSIONÁRIAS OU PERMISSIONÁRIAS – TRANSPORTE INTERESTADUAL DE PASSAGEIROS – SERVIÇO
PÚBLICO – DELEGAÇÃO AO PARTICULAR – NECESSIDADE DE PRÉVIA LICITAÇÃO. (…). 3. O transporte interestadual de
passageiros caracteriza-se como serviço público, consoante dicção do art. 21, XII, ‘e’, c.c. 175, ambos da Constituição Federal. 4. A
exploração dos serviços públicos de transporte coletivo interestadual ou internacional é precedida da necessária e indispensável licitação,
sendo exercida em consonância com os elementos nesta fixados, ou seja, os itinerários, horários, freqüência, etc., preestabelecidos no edital
de licitação, de acordo com o art. 20 do Decreto nº 952/93, e 17 do Decreto 2521/98. Precedentes do C. STF e desta E. Turma.”
(AC 00017287019984036000, Rel. Juiz MAIRAN MAIA, TRF/3ª – grifei)
“AGRAVO. SUSPENSÃO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. GRAVE LESÃO AOS BENS TUTELADOS PELO ART. 4º DA LEI
8.437/92. TRANSPORTE RODOVIÁRIO INTERESTADUAL DE PASSAGEIROS. SERVIÇO PÚBLICO EXPLORADO
DIRETAMENTE PELA UNIÃO OU MEDIANTE OUTORGA ADMINISTRATIVA. PROCEDIMENTO DE LICITAÇÃO.
AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. IMPOSSIBILIDADE. O artigo 4º da lei nº 8.437/92 prevê a possibilidade de suspensão das decisões
concessivas de liminares e sentenças proferidas em ações contra o Poder Público ou seus agentes, se configurado que a execução do ato
judicial implicará ameaça de lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia públicas. Pedido formulado pela ANTT objetivando a
suspensão de decisão judicial que autorizou a prestação de serviço de transporte rodoviário interestadual de passageiros, independentemente
de outorga administrativa. Precedentes desta Corte e dos Tribunais Superiores. Hipótese em que a autorização judicial causa: a) lesão à
ordem jurídica, na medida em que compete à União a exploração dos serviços de transporte rodoviário interestadual e internacional de
passageiros, seja de forma direta, seja mediante autorização, concessão ou permissão, nesses casos, obrigatoriamente precedida de licitação
(art. 21, XII, ‘e’, 175 e 178, todos da CF/88); b) lesão à ordem administrativa, visto que o sistema nacional de transporte rodoviário de
passageiros vigente decorre de estudo técnico detido, elaborado com objetivo de interligar as esferas federal, estadual e municipal; e c)

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prejuízos às empresas formalmente autorizadas a explorar rotas previamente definidas pela ANT, devido à sobreposição de linhas. Agravo
improvido.”
(SL 200904000306098, Rel. Juiz VILSON DARÓS, TRF/4ª – grifei)
“ADMINISTRATIVO. AÇÃO CAUTELAR. TRANSPORTE INTERESTADUAL DE PASSAGEIROS. IMPRESCINDIBILIDADE
DE PRÉVIA LICITAÇÃO. REFORMA DA SENTENÇA.
1. Impossibilidade de o Judiciário substituir a autoridade administrativa admitindo que a Autora continue a exercer a atividade de
transporte interestadual de passageiros, sem que para tal esteja habilitada. Não dispondo de qualquer título que a torne apta ao dito
exercício, a suplicante não faz jus à manutenção da situação fática eventualmente existente e à outorga de uma chancela judicial, a
ampará-la e a compatibilizá-la, ainda que provisoriamente, com o ordenamento jurídico.
2. Ausência dos requisitos essenciais da ação cautelar, ou seja, do ‘fumus boni iuris’ e do ‘periculum in mora’. Precedentes.
3. Apelações da ** e da União providas. Remessa Oficial provida.”
(AC 336208/CE, Rel. Juiz ÉLIO WANDERLEY DE SIQUEIRA FILHO (Convocado), TRF/5ª – grifei)
Também o E. Superior Tribunal de Justiça perfilha igual orientação (REsp 964.946/RJ, Rel. Min. JOSÉ DELGADO – REsp 1.208.580/RJ, Rel.
Min. HUMBERTO MARTINS – RMS 21.843/GO, Rel. Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, v.g.):
“ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL – RECURSO ESPECIAL – ADMISSIBILIDADE. OUTORGA DE AUTORIZAÇÃO PARA
A EXPLORAÇÃO DE LINHA RODOVIÁRIA. LICITAÇÃO. AUSÊNCIA.
…...................................................................................................
2. O transporte coletivo de passageiros nas rodovias federais é um serviço público, competindo à União explorá-lo diretamente ou
outorgar sua execução, mediante autorização, concessão ou permissão, a teor do que dispõe o art. 21, XII, “e”, e art. 175 da Constituição
Federal, conforme conveniência e necessidade. A implantação de nova linha de transporte, bem como qualquer alteração referente à linha
ou à prestação do serviço por empresa de ônibus deverá sempre ser precedida de licitação. (…).”
(REsp 617.147/PR, Rel. Min. LUIZ FUX – grifei)
“ADMINISTRATIVO – TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS – AUSÊNCIA DE LICITAÇÃO – LINHAS DE TRANSPORTE
EM REGIME DE PERMISSÃO – AUSÊNCIA DE LICITAÇÃO – AUTORIZAÇÕES PRECÁRIAS PARA PREENCHER A LACUNA PELO
PODER JUDICIÁRIO.
1. Após a CF de 88 se passou a exigir licitação para a concessão do serviço de transporte de passageiros intermunicipal, respeitadas
as permissões concedidas antes do novo regramento normativo.
2. Constatação inequívoca de que a impossibilidade do Poder Público conceder novas permissões e a ausência de licitação por
vontade política ocasionam graves prejuízos à população.
3. Não pode o Poder Judiciário pretender suprir a omissão do Executivo autorizando o funcionamento de serviços de transportes,
sob pena de desorganizar o modelo político da divisão de tarefas pelos Poderes.
4. Recurso especial das empresas conhecido e não provido, recurso especial da União conhecido em parte e nessa parte provido.”
(REsp 661.122/PR, Red. p/ o acórdão Min. ELIANA CALMON – grifei)
Cabe enfatizar, neste ponto, considerada a regra inscrita no art. 175 da Constituição da República, que a exploração indireta de serviços
públicos em geral, nestes compreendidos os serviços de transporte rodoviário interestadual e internacional de passageiros (CF, art. 21, XII, alínea
“e”), quando efetivada mediante concessão ou permissão, dar-se-á “sempre através de licitação” (CF, art. 175, “caput”).
Em razão dessa específica cláusula constitucional fundada no art. 175, “caput”, da Constituição, editou-se a Lei nº 12.996, de 18/06/2014,
que introduziu alterações relevantes na legislação básica sobre a matéria consubstanciada na Lei nº 10.233, de 05/06/2001.
Com efeito, a Lei nº 12.996/2014 definiu a autorização (modalidade de delegação unilateral) como uma das formas de outorga, quando se
tratar de “prestação regular de serviços de transporte terrestre coletivo interestadual e internacional de passageiros desvinculados da exploração
da infraestrutura” (art. 13, inciso V, alínea “e”, da Lei nº 10.233/2001).
Ao assim proceder, a União Federal viabilizou a possibilidade de, adotada a autorização no contexto normativo que venho de mencionar
(Lei nº 10.233/2001, art. 13, V, “e”, na redação dada pela Lei nº 12.996/2014), não tornar obrigatória a prévia instauração de procedimento
licitatório, como se vê do art. 43 da Lei nº 10.233/2001, na redação que lhe deu a MP nº 595/2012, convertida na Lei nº 12.815/2013:
“Art. 43. A autorização, ressalvado o disposto em legislação específica, será outorgada segundo as diretrizes estabelecidas nos arts.
13 e 14 e apresenta as seguintes características: (…)
I – independe de licitação;
II – é exercida em liberdade de preços dos serviços, tarifas e fretes, e em ambiente de livre e aberta competição;
III – não prevê prazo de vigência ou termo final, extinguindo-se pela sua plena eficácia, por renúncia, anulação ou cassação.” (grifei)
Resulta claro desse novo quadro normativo que não mais subsiste o fundamento de ofensa ao art. 175, “caput”, c/c o art. 21, XII, “e”, ambos
da Constituição, pois, naqueles casos em que a delegação unilateral assumir a forma administrativa da autorização, tonar-se-á desnecessária a
prévia licitação para efeito de outorga da exploração de serviços de transporte rodoviário interestadual e internacional de passageiros.
Mesmo que fosse possível superar os obstáculos processuais precedentemente referidos, ainda assim não se revelaria admissível o
ajuizamento da presente arguição de descumprimento de preceito fundamental.
Refiro-me ao fato, juridicamente relevante, de que a pretensão de reconhecimento de ofensa a preceitos fundamentais deduzida nesta causa
dirige-se a interpretações judiciais de diploma legislativo de índole pós-constitucional (Lei nº 10.233, de 05/06/2001, alterada pela Lei nº
12.815/2013 e pela Lei nº 12.996/2014), o que evidencia a inadmissibilidade da presente arguição de descumprimento, considerados os julgamentos
– colegiados e monocráticos – proferidos por esta Corte Suprema a respeito dessa específica questão.
Cabe destacar, bem por isso, o fato de que o Plenário do Supremo Tribunal Federal tem advertido ser inadmissível a arguição de
descumprimento de preceito fundamental, quando se tratar de diploma normativo pós-constitucional, vale dizer, de espécie normativa editada após
a vigência da presente Constituição, ou quando se cuidar, como sucede na espécie, de interpretação judicial que tenha por objeto legislação pós-
constitucional (ADPF 158-AgR/DF, Rel. Min. GILMAR MENDES – ADPF 314-AgR/DF, Rel. Min. MARCO AURÉLIO – ADPF 330-AgR/PB, Rel. Min.
CELSO DE MELLO, v.g.).
E a razão dessa diretriz jurisprudencial é uma só: por tratar-se de diploma normativo pós-constitucional, há, no plano dos processos
objetivos, instrumento de controle normativo abstrato, como a ação declaratória de constitucionalidade, em cujo âmbito torna-se possível a
adoção de meio eficaz apto a sanar, com real efetividade, o estado de lesividade alegadamente resultante dos atos estatais impugnados (Lei nº
9.868/99, art. 21).
Por tal motivo, esta Suprema Corte tem acentuado que será inadmissível a arguição de descumprimento de preceito fundamental onde cabível
a ação direta de inconstitucionalidade (ADPF 329-MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO) ou a própria ação declaratória de constitucionalidade:
“Em outros termos, o princípio da subsidiariedade – inexistência de outro meio eficaz de sanar a lesão –, contido no § 1º do art. 4º da
Lei nº 9.882, de 1999, há de ser compreendido no contexto da ordem constitucional global.

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 20


…..................................................................................................
Nesse caso, cabível a ação direta de inconstitucionalidade ou de constitucionalidade, não será admissível a arguição de
descumprimento. Em sentido contrário, não sendo admitida a utilização de ações diretas de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade
– isto é, não se verificando a existência de meio apto para solver a controvérsia constitucional relevante de forma ampla, geral e imediata –,
há de se entender possível a utilização da arguição de descumprimento de preceito fundamental.”
(ADPF 33/PA, Rel. Min. GILMAR MENDES – grifei)
Nem se diga que, em razão de tratar-se de legitimação ativa de caráter estrito (Lei nº 9.868/99, art. 13), não seriam invocáveis, na espécie,
os precedentes mencionados, eis que o § 1º do art. 4º da Lei nº 9.882/99, ao pré-excluir a arguição de descumprimento de preceito fundamental
“quando houver qualquer outro meio eficaz de sanar a lesividade”, refere-se à possibilidade de utilização de qualquer espécie de processo de perfil
objetivo (ADI, ADO ou ADC), independentemente de o autor da arguição de descumprimento dispor, ele próprio, de qualidade para agir em sede
de ação declaratória de constitucionalidade.
O que se mostra relevante acentuar, no ponto, é a possibilidade teórica de existirem meios eficazes de neutralização dos efeitos
alegadamente lesivos resultantes do ato estatal impugnado, ainda que o meio processual utilizável esteja sujeito a uma cláusula estrita de
legitimação ativa.
Inadmissível, desse modo, também por esse outro fundamento, a presente ação constitucional, por nela tratar-se de interpretação judicial
incidente sobre ato estatal posterior à promulgação da vigente Carta Política, a significar que o diploma legislativo em causa, tendo em vista o seu
caráter pós-constitucional, revela-se suscetível de exame mediante ação declaratória de constitucionalidade (ADPF 317-MC/MA, Rel. Min. CELSO
DE MELLO), motivo pelo qual incide, na espécie, a cláusula da subsidiariedade fundada no § 1º do art. 4º da Lei nº 9.882/99.
Mostra-se tão relevante esse aspecto da questão que o Supremo Tribunal Federal, em recente julgamento, assentou a impossibilidade de
converter-se a arguição de descumprimento de preceito fundamental (em cujo âmbito se haja instaurado o exame de lei pós-constitucional) em
qualquer outra modalidade de controle abstrato de constitucionalidade (ADPF 314-AgR/DF, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, Pleno).
Há, ainda, uma outra razão que constitui obstáculo ao processamento desta arguição de descumprimento de preceito fundamental.
Tal como salientei em passagem anterior desta decisão, pronunciamentos judiciais podem qualificar-se como “res habilis”, vale dizer,
como objeto idôneo suscetível de impugnação em sede de arguição de descumprimento de preceito fundamental, desde que referidas manifestações
decisórias ainda não tenham transitado em julgado, em face do que prescreve o art. 5º, § 3º, “in fine”, da Lei nº 9.882/99.
Esse entendimento não só tem o beneplácito do magistério doutrinário (a que precedentemente aludi nesta decisão), mas encontra suporte
na própria jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.
As considerações que venho de fazer prendem-se ao fato de que todas as decisões veiculadoras da interpretação ora questionada,
expressamente referidas pela ora arguente em sua petição inicial, transitaram em julgado, o que inviabiliza o processamento desta arguição de
descumprimento.
As decisões em causa, que veicularam a outorga de provimentos cautelares e antecipatórios, todas elas transitadas em julgado, foram
proferidas nos seguintes processos:
– Agravo de Instrumento nº 2004.01.00.002790-1/BA, TRF/1ª: trânsito em julgado em 05/07/2005;
– Agravo Regimental em Agravo de Instrumento nº 2002.04.01.036135-0/PR, TRF/4ª: trânsito em julgado em 30/04/2008 (REsp);
– Apelação Cível nº 2001.04.01.033093-1/PR, TRF/4ª: trânsito em julgado em 03/03/2010 (REsp) e 03/11/2010 (RE);
– Agravo de Instrumento nº 2004.04.01.047614-8/RS, TRF/4ª: trânsito em julgado em 01/07/2008;
– Apelação Cível nº 2001.04.01.033082-7/PR, TRF/4ª: trânsito em julgado em 03/03/2010 (REsp) e em 28/06/2010 (RE);
– Mandado de Segurança nº 2002.01.00.007504-5/PA, TRF/1ª: trânsito em julgado em 29/11/2005 (REsp);
– Agravo de Instrumento nº 2004.01.00.007110-3/DF, TRF/1ª: trânsito em julgado em 17/04/2006;
– Agravo de Instrumento nº 2004.04.01.021930-9/RS, TRF/4ª: trânsito em julgado em 07/06/2006;
– Agravo de Instrumento nº 2004.01.00.008316-0/DF, TRF/1ª: trânsito em julgado em 28/02/2011.
Não constitui demasia relembrar que a existência de coisa julgada atua como pressuposto negativo de admissibilidade do ajuizamento da
arguição de descumprimento de preceito fundamental, tornando-a incognoscível, em consequência, se e quando promovida contra decisões
revestidas da autoridade da coisa julgada, tal como adverte, com absoluta precisão, o eminente Professor ELIVAL DA SILVA RAMOS
(“Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental: Delineamento do Instituto”, “in” Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental: Análises à Luz da Lei nº 9.882/99, obra coletiva, p. 116/117, item n. 2.1, 2001, Atlas):
“É certo que a eficácia do instrumento, uma vez revestido dessa característica de incidente processual, dependerá, em grande parte,
da concessão de medida liminar pelo Supremo Tribunal Federal, conforme previsto no § 3º do art. 5º do referido diploma legal, no sentido de
determinar a suspensão do andamento do processo, bem como, desde logo, o efeito de decisão judicial eventualmente já proferida, desde que
ainda não transitada em julgado. Esse é um importante limite que o Legislador Ordinário expressamente estipulou em relação à utilização
da argüição de descumprimento de preceito fundamental em face de atos judiciais, excluindo a possibilidade de gerar efeitos rescisórios.”
(grifei)
Na realidade, esse entendimento tem o beneplácito do magistério jurisprudencial desta Suprema Corte (ADPF 288-MC/DF, Rel. Min.
CELSO DE MELLO, v.g.) que adverte – tal como anteriormente referido – que a arguição de descumprimento de preceito fundamental não se
qualifica como sucedâneo da ação rescisória, eis que “Este instituto de controle concentrado de constitucionalidade não tem como função
desconstituir a coisa julgada” (ADPF 134-AgR-terceiro/CE, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Pleno – grifei).
A importância e o elevado sentido político-jurídico da “res judicata”, examinada em sua acepção material, justificam a compreensão que
se vem de mencionar, considerados os atributos de indiscutibilidade, de imutabilidade e de coercibilidade que exprimem as notas especiais que
tipificam os efeitos resultantes do comando sentencial.
É por tal razão que o Supremo Tribunal Federal, em diversos precedentes, já destacou o significado do instituto da coisa julgada material
“como expressão da própria supremacia do ordenamento constitucional e como elemento inerente à existência do Estado Democrático de Direito”
(RE 659.803-AgR/RS, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.).
Daí a advertência de NELSON NERY JUNIOR e de ROSA MARIA DE ANDRADE NERY (“Código de Processo Civil Comentado e
Legislação Extravagante”, p. 715/716, item n. 28, 11ª ed., 2010, RT):
“28. Coisa julgada material e Estado Democrático de Direito. A doutrina mundial reconhece o instituto da coisa julgada material
como ‘elemento de existência’ do Estado Democrático de Direito (…). A ‘supremacia da Constituição’ está na própria coisa julgada,
enquanto manifestação do Estado Democrático de Direito, fundamento da República (CF 1.º ‘caput’), não sendo princípio que possa opor-
se à coisa julgada como se esta estivesse abaixo de qualquer outro instituto constitucional. Quando se fala na intangibilidade da coisa
julgada, não se deve dar ao instituto tratamento jurídico inferior, de mera figura do processo civil, regulada por lei ordinária, mas, ao
contrário, impõe-se o reconhecimento da coisa julgada com a magnitude constitucional que lhe é própria, ou seja, de elemento formador do
Estado Democrático de Direito (…).” (grifei)

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 21


O Plenário do Supremo Tribunal Federal, no precedente já referido, ao acentuar que não é função constitucional da arguição de
descumprimento de preceito fundamental atuar como instrumento de desconstituição da autoridade da coisa julgada em sentido material,
claramente delimitou o âmbito de incidência dessa ação constitucional, pré-excluindo de seu campo de abrangência atos jurisdicionais como os
ora referidos na petição inicial, desde que impregnados, como sucede na espécie, dos atributos que qualificam a “res judicata”.
Ao assim decidir, esta Corte Suprema levou em consideração o magistério de doutrinadores eminentes – tais como HUMBERTO
THEODORO JÚNIOR (“Curso de Direito Processual Civil”, vol. I/550- -553, itens ns. 516/516-a, 51ª ed., 2010, Forense), VICENTE GRECO
FILHO (“Direito Processual Civil Brasileiro”, vol. 2/267, item n. 57.2, 11ª ed., 1996, Saraiva), MOACYR AMARAL SANTOS (“Primeiras
Linhas de Direito Processual Civil”, vol. 3/56, item n. 754, 21ª ed., 2003, Saraiva), EGAS MONIZ DE ARAGÃO (“Sentença e Coisa Julgada”, p.
324/328, itens ns. 224/227, 1992, Aide) e ENRICO TULLIO LIEBMAN (“Eficácia e Autoridade da Sentença”, p. 52/53, item n. 16, nota de
rodapé, tradução de Alfredo Buzaid/Benvindo Aires, 1945, Forense, v.g.) –, cujas lições enfatizam a verdadeira razão de ser do instituto em
questão: preocupação em garantir a segurança nas relações jurídicas e em preservar a paz no convívio social, valendo rememorar, por relevante,
a observação de JOSÉ FREDERICO MARQUES (“Manual de Direito Processual Civil”, vol. III/329, item n. 687, 2ª ed./2ª tir., 2000, Millennium
Editora) em torno das relações entre a coisa julgada material e a Constituição:
“A coisa julgada cria, para a segurança dos direitos subjetivos, situação de imutabilidade que nem mesmo a lei pode destruir ou
vulnerar – é o que se infere do art. 5º, XXXVI, da Lei Maior. E sob esse aspecto é que se pode qualificar a ‘res iudicata’ como garantia
constitucional de tutela a direito individual.
Por outro lado, essa garantia, outorgada na Constituição, dá mais ênfase e realce àquela da tutela jurisdicional, constitucionalmente
consagrada, no art. 5º, XXXV, para a defesa de direito atingido por ato lesivo, visto que a torna intangível até mesmo em face de ‘lex
posterius’, depois que o Judiciário exaure o exercício da referida tutela, decidindo e compondo a lide.” (grifei)
Nem se diga que eventual inobservância da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal poderia legitimar a utilização da arguição de
descumprimento de preceito fundamental com função rescindente, pois, mesmo em tal hipótese, esta Corte não tem admitido o desrespeito à
autoridade da coisa julgada (ADPF 52-MC/MA, Rel. Min. CELSO DE MELLO – ADPF 176-AgR/RS, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – ADPF
224/DF, Rel. Min. AYRES BRITTO – ADPF 249-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO – ADPF 288-MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO –
ADPF 340/SP, Rel. Min. ROBERTO BARROSO – ADPF 345/BA, Rel. Min. ROBERTO BARROSO – RE 401.399/RS, Rel. Min. AYRES
BRITTO – RE 431.014-AgR/RN, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE – RE 504.197- AgR/RS, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI, v.g.):
“(...) Sob pretexto de contrariar a jurisprudência, não pode ser descumprida sentença recoberta por coisa julgada material.”
(RE 486.579-AgR-AgR/RS, Rel. Min. CEZAR PELUSO – grifei)
“RECURSO EXTRAORDINÁRIO – COISA JULGADA EM SENTIDO MATERIAL – INDISCUTIBILIDADE, IMUTABILIDADE E
COERCIBILIDADE: ATRIBUTOS ESPECIAIS QUE QUALIFICAM OS EFEITOS RESULTANTES DO COMANDO SENTENCIAL –
PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL QUE AMPARA E PRESERVA A AUTORIDADE DA COISA JULGADA – EXIGÊNCIA DE CERTEZA
E DE SEGURANÇA JURÍDICAS – VALORES FUNDAMENTAIS INERENTES AO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO – EFICÁCIA
PRECLUSIVA DA ‘RES JUDICATA’ – ‘TANTUM JUDICATUM QUANTUM DISPUTATUM VEL DISPUTARI DEBEBAT’ –
CONSEQUENTE IMPOSSIBILIDADE DE REDISCUSSÃO DE CONTROVÉRSIA JÁ APRECIADA EM DECISÃO TRANSITADA EM
JULGADO, AINDA QUE PROFERIDA EM CONFRONTO COM A JURISPRUDÊNCIA PREDOMINANTE NO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL – A QUESTÃO DO ALCANCE DO PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 741 DO CPC – MAGISTÉRIO DA DOUTRINA –
RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO.”
(RE 659.803-AgR/RS, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Todas essas razões justificam, plenamente, a oponibilidade da “res judicata” em sentido material ao instituto da arguição de
descumprimento de preceito fundamental, cuja função constitucional, insista-se, não se reveste de caráter rescindente, tal como já advertiu, em
precedente específico, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (ADPF 134-AgR-terceiro/CE, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI).
Registro, finalmente, que a inviabilidade da presente arguição de descumprimento de preceito fundamental, em decorrência das razões ora
expostas, justifica a seguinte observação: no desempenho dos poderes processuais de que dispõe, assiste ao Ministro Relator competência plena
para exercer, monocraticamente, o controle das ações, pedidos ou recursos dirigidos ao Supremo Tribunal Federal, legitimando-se, em consequência,
os atos decisórios que, nessa condição, venha a praticar.
Impõe-se referir, neste ponto, que o Pleno do Supremo Tribunal Federal reconheceu a inteira validade constitucional da norma legal que
inclui, na esfera de atribuições do Relator, a competência para negar trânsito, em decisão monocrática, a recursos, pedidos ou ações, quando
incabíveis, estranhos à competência desta Corte, intempestivos, sem objeto ou que veiculem pretensão incompatível com a jurisprudência
predominante do Tribunal (RTJ 139/53 – RTJ 168/174-175).
Nem se alegue que esse preceito legal implicaria transgressão ao princípio da colegialidade, eis que o postulado em questão sempre restará
preservado ante a possibilidade de submissão da decisão singular ao controle recursal dos órgãos colegiados no âmbito do Supremo Tribunal
Federal, consoante esta Corte tem reiteradamente proclamado (RTJ 181/1133-1134, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – AI 159.892-AgR/SP, Rel.
Min. CELSO DE MELLO, v.g.):
“PODERES PROCESSUAIS DO MINISTRO-RELATOR E PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE.
– Assiste ao Ministro-Relator competência plena para exercer, monocraticamente, com fundamento nos poderes processuais de que
dispõe, o controle de admissibilidade das ações, pedidos ou recursos dirigidos ao Supremo Tribunal Federal. Pode, em conseqüência, negar
trânsito, em decisão monocrática, a ações, pedidos ou recursos, quando incabíveis, intempestivos, sem objeto ou, ainda, quando veicularem
pretensão incompatível com a jurisprudência predominante na Suprema Corte. Precedentes.
– O reconhecimento dessa competência monocrática deferida ao Relator da causa não transgride o postulado da colegialidade, pois
sempre caberá, para os órgãos colegiados do Supremo Tribunal Federal (Plenário e Turmas), recurso contra as decisões singulares que
venham a ser proferidas por seus Juízes.”
(MS 28.097-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Cabe enfatizar, por necessário, que esse entendimento jurisprudencial é também aplicável aos processos objetivos de controle concentrado
de constitucionalidade (ADC 21/DF, Rel. Min. DIAS TOFFOLI – ADI 563/DF, Rel. Min. PAULO BROSSARD – ADI 593/GO, Rel. Min. MARCO
AURÉLIO – ADI 2.060/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO – ADI 2.207/AL, Rel. Min. CELSO DE MELLO – ADI 2.215/PE, Rel. Min. CELSO DE
MELLO – ADO 3/RJ, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – ADPF 6-MC/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO – ADPF 40/MG, Rel. Min. GILMAR
MENDES – ADPF 82/PE, Rel. Min. GILMAR MENDES – ADPF 95/DF, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – ADPF 104-MC/SE, Rel. Min. CÁRMEN
LÚCIA – ADPF 125/DF, Rel. Min. LUIZ FUX – ADPF 239/DF, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – ADPF 240/DF, Rel. Min. ROBERTO BARROSO –
ADPF 287/TO, Rel. Min. DIAS TOFFOLI – ADPF 288-MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO – ADPF 308/SP, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI
– ADPF 319/PB, Rel. Min. DIAS TOFFOLI – ADPF 327/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO – ADPF 329-MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO –
ADPF 333/RS, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – ADPF 340/SP, Rel. Min. ROBERTO BARROSO – ADPF 352/MT, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – ADPF 363-
MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), eis que, tal como já assentou o Plenário do Supremo Tribunal Federal, o ordenamento positivo brasileiro

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 22


“não subtrai ao Relator da causa o poder de efetuar – enquanto responsável pela ordenação e direção do processo (RISTF, art. 21, I) – o controle
prévio dos requisitos formais da fiscalização normativa abstrata, o que inclui, entre outras atribuições, o exame dos pressupostos processuais e das
condições da própria ação direta” (RTJ 139/67, Rel. Min. CELSO DE MELLO).
Sendo assim, e em face das razões expostas, não conheço da presente arguição de descumprimento de preceito fundamental, inviabilizando-
se, em consequência, o exame do pedido de medida liminar.

Arquivem-se os presentes autos.

Publique-se.

Brasília, 27 de outubro de 2015.

Ministro CELSO DE MELLO


Relator

*decisão publicada no DJe de 4.11.2015


**nome suprimido pelo Informativo

INOVAÇÕES LEGISLATIVAS
30 de novembro a 4 de dezembro de 2015

Lei Complementar nº 152, de 3.12.2015 - Dispõe sobre a aposentadoria compulsória por idade, com
proventos proporcionais, nos termos do inciso II do § 1º do art. 40 da Constituição Federal. Publicada no DOU, Seção
1, Edição nº 232, p. 2, em 4.12.2015.

Secretaria de Documentação – SDO


Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 810-STF (11/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 23


Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos em virtude de pedidos de vista: SL
853 MC-AgR/SP; ADI 4067/DF; RMS 32482/DF; Rcl 15551/GO; Rcl 20132/SP.

Julgados excluídos por terem menor relevância para concursos públicos ou por terem sido decididos com base em
peculiaridades do caso concreto: Rcl 8668/SP; MS 25430/DF; Ext 1375 ED/DF; Rcl 6527 AgR/SP; HC 123971/DF.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
PODER JUDICIÁRIO
 Competências do órgão especial.

DIREITO ADMINISTRATIVO
SERVIDORES PÚBLICOS
 Adicional por tempo de serviço e direito adquirido.

DIREITO PROCESSUAL PENAL


COMPETÊNCIA
 Redução a condição análoga à de escravo.

PRISÃO CAUTELAR DE SENADOR


 Análise dos principais aspectos jurídicos.

DIREITO FINANCEIRO
DEPÓSITOS JUDICIAIS
 Inconstitucionalidade das leis estaduais que permitem que o Estado utilize tais verbas

DIREITO CONSTITUCIONAL
PODER JUDICIÁRIO
Competências do órgão especial

Em regra, o órgão interno do Tribunal que decide as questões administrativas é o Plenário,


chamado de "tribunal pleno" e que é formado, como o próprio nome diz, pela totalidade dos
julgadores. Ocorre que nos Tribunais maiores (exs: TJ/SP, TJ/MG) existem centenas de membros,
o que dificulta a reunião para decidirem as questões administrativas. Diante disso, a fim de
facilitar o funcionamento, a CF/88 previu que, se o Tribunal possuir mais que 25 membros, ele
poderá criar um "órgão especial" para exercer algumas atribuições administrativas e
jurisdicionais que seriam originalmente de competência do tribunal pleno (art. 93, XI).
Compete aos Tribunais de Justiça definirem quais as competências que serão delegadas ao
órgão especial, desde que aprovadas pela maioria absoluta de seus membros.
STF. Plenário. MS 26411 MC/DF, rel. orig. Min. Sepúlveda Pertence, red. p/ o acórdão Min. Teori
Zavascki, julgado em 26/11/2015 (Info 809).

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


Órgão especial
Em regra, o órgão interno do Tribunal que decide as questões administrativas é o Plenário, chamado de
"tribunal pleno" e que é formado, como o próprio nome diz, pela totalidade dos julgadores.
Ocorre que nos Tribunais maiores (exs: TJ/SP, TJ/MG) existem centenas de membros, o que dificulta a
reunião de todos para decidirem as questões administrativas. Diante disso, a fim de facilitar o
funcionamento, a CF/88 previu que, se o Tribunal possuir mais que 25 membros (ex: um TJ que tenha mais
que 25 Desembargadores), ele poderá criar um "órgão especial" para exercer algumas atribuições
administrativas e jurisdicionais que seriam originalmente de competência do tribunal pleno. Veja a
previsão constitucional:
Art. 93 (...)
XI - nos tribunais com número superior a vinte e cinco julgadores, poderá ser constituído órgão especial,
com o mínimo de onze e o máximo de vinte e cinco membros, para o exercício das atribuições
administrativas e jurisdicionais delegadas da competência do tribunal pleno, provendo-se metade das
vagas por antiguidade e a outra metade por eleição pelo tribunal pleno; (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 45/2004)

Caso concreto
Em um caso concreto envolvendo o TJ/SP, o CNJ afirmou que, quando o órgão especial é criado, todas as
atribuições administrativas e jurisdicionais que eram do Pleno, exceto a eletiva, passariam
automaticamente para a competência do órgão especial.
O STF não concordou com esse entendimento do CNJ e afirmou que compete aos Tribunais de Justiça
definirem quais as competências que serão delegadas ao órgão especial, desde que aprovadas pela
maioria absoluta de seus membros.

DIREITO ADMINISTRATIVO
SERVIDORES PÚBLICOS
Adicional por tempo de serviço e direito adquirido

Não há garantia à continuidade de recebimento de adicional por tempo de serviço em


percentual superior àquele previsto em legislação posterior sob o fundamento de direito
adquirido.
STF. Plenário. MS 22423/RS, rel. orig. Min. Eros Grau, red. p/ o acórdão Min. Gilmar Mendes, julgado
em 26/11/2015 (Info 809).

Imagine a seguinte situação adaptada:


João era servidor público federal e, em 1970, ao completar 10 anos de serviço público, passou a receber
uma gratificação chamada de "adicional por tempo de serviço", que era equivalente a 30% dos seu
vencimentos.
Ocorre que, em 1974, veio uma lei que reduziu esse adicional para 5%.
Inconformado com a redução, João impetrou mandado de segurança pedindo para continuar recebendo o
adicional em 30%. A ação foi julgada procedente e transitou em julgado em 1980. Assim, João continuou
recebendo o adicional no percentual de 30% por força da decisão judicial com coisa julgada.
Vale ressaltar que, por lei, esse adicional é levado para a aposentadoria, ou seja, quando a pessoa se
aposenta, ele continua a fazer parte dos proventos pagos.
Em 2000, João pediu aposentadoria e o TCU, ao analisar o ato, determinou que a aposentadoria fosse
concedida, mas que o valor do adicional fosse reduzido para 5% de acordo com a lei.

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


O TCU fundamentou sua decisão no art. 17 do ADCT da CF/88, que afirma o seguinte:
Art. 17. Os vencimentos, a remuneração, as vantagens e os adicionais, bem como os proventos de
aposentadoria que estejam sendo percebidos em desacordo com a Constituição serão imediatamente
reduzidos aos limites dela decorrentes, não se admitindo, neste caso, invocação de direito adquirido ou
percepção de excesso a qualquer título.

João impetrou mandado de segurança contra a determinação do TCU alegando que houve violação do
direito adquirido e da coisa julgada. O pedido foi aceito pelo STF?
NÃO. Não há garantia à continuidade de recebimento de adicional por tempo de serviço em percentual
superior àquele previsto em legislação posterior sob o fundamento de direito adquirido.
A Corte entendeu que a perpetuação do direito ao adicional, na forma estabelecida em lei revogada,
implicaria, na situação dos autos, na possibilidade de aquisição de direitos com base em regras abstratas
decorrentes de sistema remuneratório já não mais em vigor, em clara afronta ao princípio da legalidade.
Para o STF, não existe direito adquirido a regime jurídico.

DIREITO PROCESSUAL PENAL

COMPETÊNCIA
Redução a condição análoga à de escravo

Importante!!!
Compete à justiça federal processar e julgar o crime de redução à condição análoga à de
escravo (art. 149 do CP).
O tipo previsto no art. 149 do CP caracteriza-se como crime contra a organização do trabalho e,
portanto, atrai a competência da justiça federal (art. 109, VI, da CF/88).
STF. Plenário. RE 459510/MT, rel. orig. Min. Cezar Peluso, red. p/ o acórdão Min. Dias Toffoli, julgado
em 26/11/2015 (Info 809).

Competência da JF para julgar os crimes contra a organização do trabalho


Segundo o art. 109, VI, da CF/88, compete aos juízes federais processar e julgar:
VI - os crimes contra a organização do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o sistema
financeiro e a ordem econômico-financeira;

O Título IV do Código Penal, que e glo a os arts. 97 a 7, possui a segui te ru ri a: Dos ri es


o tra a orga ização do tra alho . Dia te disso, i daga-se: os crimes contra a organização do trabalho
previstos neste Título IV do CP serão sempre julgados pela Justiça Federal?
NÃO. Segundo entende o STJ, os crimes previstos nos arts. 197 a 207 do CP somente serão de competência
da Justiça Federal quando ficar demonstrado, no caso concreto, que o delito provocou lesão a:
 direito dos trabalhadores coletivamente considerados; ou
 organização geral do trabalho.

Como exemplo, o art. 203 do CP prevê como crime f ust a , edia te f aude ou violê ia, di eito
assegu ado pela legislação do t a alho . O STJ já decidiu que, se o art. 203 foi perpetrado em detrimento
de apenas um trabalhador, compete à Justiça Estadual processar e julgar o feito (CC 108.867/SP, DJe de
19/4/2010).

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De igual modo, o delito de sabotagem industrial (art. 202 do CP), apesar de estar no Título IV, que trata
dos crimes contra a organização do trabalho, deve ser julgado pela Justiça estadual se atingir apenas bens
particulares sem repercussão no interesse da coletividade (STJ. CC 123.714-MS, julgado em 24/10/2012).

O STF possui entendimento semelhante. Para a Corte, somente são da competência da Justiça Federal os
crimes contra a organização do trabalho (arts. 197 a 207 do CP) quando causarem prejuízo à ordem
pública, econômica ou social e ao trabalho coletivo (RE 599943 AgR, Relator Min. Cármen Lúcia, Primeira
Turma, julgado em 02/12/2010).

Em outro julgado, o Pretório Excelso afirmou que a interpretação do que seja crime contra a organização
do trabalho, para o fim constitucional de determinar a competência, não se junge à capitulação do Código
Penal. Assim, se no caso concreto houve retenção momentânea, mediante violência, de um único
empregado, impedido de adentrar à empresa onde laborava, verifica-se ofensa à liberdade individual e
não à organização do trabalho como um todo. Logo, a competência, nessa hipótese, é da Justiça estadual
(ARE 706368 AgR, Relator Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 30/10/2012).

Em resumo, os delitos previstos nos arts. 197 a 207 do CP poderão ser de competência da Justiça Federal
ou da Justiça Estadual, a depender do caso concreto.

Vamos tratar agora do crime de redução a condição análoga à de escravo, previsto no art. 149 do CP. De
quem é a competência para julgar esse delito?
Justiça FEDERAL. Compete à justiça federal processar e julgar o crime de redução à condição análoga à de
escravo (art. 149 do CP).
Este crime encontra-se encartado no Título I do Código Penal,à ueàt ataàso eàosà i esà o t aàaàpessoa à
eà ãoà oàTítuloà IVà Dosà i esà o t aàaào ga izaçãoàdoàt a alho .àápesa àdisso,àoà“TFàe te deà ueà seà
trata de delito de competência da Justiça Federal, tendo em vista que a topografia do crime (ou seja, sua
posição no Código Penal) não é o fator preponderante no momento da fixação da competência.

Como explica o Min. Joaquim Barbosa:


A Co stituição, o a t. 9, VI, dete i a ue são da o petê ia da Justiça Fede al os i es o t a a
organização do trabalho , se expli ita ue delitos se i lue essa atego ia. E o a o Código Pe al
brasileiro haja um capítulo destinado a tais crimes, o entendimento doutrinário e jurisprudencial
dominante é no sentido de que não há correspondência taxativa entre os delitos capitulados no referido
Código e aqueles indicados na Constituição, cabendo ao intérprete verificar em quais casos se está diante
de u i e o t a a o ga ização do t a alho . (RE 398.041-6).

No mesmo sentido, veja as palavras do Min. Gilmar Mendes:


Com efeito, o art. 109, VI, da Constituição Federal estabelece a competência da Justiça Federal para julgar
os crimes contra a organização do trabalho. Contudo, a Lei Maior não se interpreta a partir do Código
Penal e o nomen iuris de um capítulo do Diploma Penal não tem o condão de definir a natureza jurídica de
um delito, tampouco sua objetividade jurídica. (ARE 706368 AgR / SP)

Em suma, é possível encontrar crimes definidos no Título IV do Código Penal que não correspondem à norma
constitucional do art. 109, VI, também sendo certo que outros crimes definidos na legislação podem
configurar, dependendo do caso, crime contra a organização do trabalho (STF. ARE 706368 AgR / SP)

O Plenário do STF, no julgamento do RE 398.041 (rel. Min. Joaquim Barbosa, sessão de 30.11.2006), fixou a
competência da Justiça Federal para julgar os crimes de redução à condição análoga à de escravo, por
entender "que quaisquer condutas que violem não só o sistema de órgãos e instituições que preservam,
coletivamente, os direitos e deveres dos trabalhadores, mas também o homem trabalhador, atingindo-o
nas esferas em que a Constituição lhe confere proteção máxima, enquadram-se na categoria dos crimes
contra a organização do trabalho, se praticadas no contexto de relações de trabalho" (RE 541627, Relatora
Min. Ellen Gracie, Segunda Turma, julgado em 14/10/2008).
Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 4
No mesmo sentido entende o STJ:
(...) A Terceira Seção desta Corte já pacificou o entendimento de que compete à Justiça Federal processar
e julgar os autores do delito previsto no art. 149 do Código Penal, haja vista a violação aos direitos
humanos e à organização do trabalho. (...)
(STJ. 6ª Turma. RHC 25.583/MT, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 09/08/2012)

PRISÃO CAUTELAR DE SENADOR


Análise dos principais aspectos jurídicos

No caso envolvendo a prisão do Senador Delcídio do Amaral, podemos apontar algumas


conclusões:
1) Como regra, os membros do Congresso Nacional não podem ser presos antes da condenação
definitiva. Exceção: poderão ser presos caso estejam em flagrante delito de um crime
inafiançável (art. 53, § 2º da CF/88).
2) Segundo entendeu o STF, o Senador e as demais pessoas envolvidas teriam praticado, no
mínimo, dois crimes: a) integrar organização criminosa (art. 2º, caput, da Lei 12.850/2013); b)
embaraçar investigação envolvendo organização criminosa (art. 2º, § 1º da Lei 12.850/2013).
3) O STF entendeu que as condutas do Senador configurariam crime permanente,
considerando que ele, até antes de ser preso, integrava pessoalmente a organização criminosa
(art. 2º, caput) e, além disso, estaria, há dias, embaraçando a investigação da Lava Jato (art. 2º,
§ 1º). Desse modo, ele estaria por todos esses dias cometendo os dois crimes acima, em estado,
portanto, de flagrância.
4) Os crimes do art. 2º, caput e do § 1º da Lei nº 12.850/2013 que, em tese, foram praticados
pelo Senador, não são, a princípio, inafiançáveis considerando que não se encontram listados
no art. 323 do CPP. Não se tratam, portanto, de crimes absolutamente inafiançáveis. No
entanto, como, no caso concreto, estariam presentes os motivos que autorizam a decretação da
prisão preventiva (tentativa de calar o depoimento de colaborador, tentativa de influenciar os
julgadores e planejamento de fuga), havia uma situação que não admite fiança, com base no
art. 324, IV, do CPP.
5) O STF admite a prisão preventiva de Deputado Federal ou Senador? Surgiram duas
correntes: 1ª) SIM. Para Rogério Sanches e Marcelo Novelino, o STF teria autorizado a prisão
preventiva do Senador, relativizando o art. 53, § 2º da CF/88. 2ª) NÃO. Não é possível a prisão
preventiva de Deputado Estadual, Deputado Federal ou Senador porque a única prisão
cautelar que o art. 53, § 2º da CF/88 admite é a prisão em flagrante de crime inafiançável. É a
posição que entendo mais acertada.
6) É lícita a prova consistente em gravação ambiental realizada por um dos interlocutores sem
conhecimento do outro. Assim, se A e B estão conversando, A pode gravar essa conversa
mesmo que B não saiba. Para o STF, a gravação de conversa feita por um dos interlocutores
sem o conhecimento dos demais é considerada lícita, quando ausente causa legal de sigilo ou
de reserva da conversação.
7) Depois de concretizada a prisão em flagrante do parlamentar, qual é o procedimento que
deverá ser adotado em seguida? A CF determina que os autos deverão ser remetidos dentro de
24 horas à Casa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a
prisão (art. 53, § 2º). Esse voto é aberto. Assim, o STF remeteu os autos ao Senado Federal que,
por 59 votos contra 13, decidiu manter a prisão do Senador.
STF. 2ª Turma. AC 4036 e 4039 Referendo-MC/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgados em 25/11/2015
(Info 809).

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Resumo dos fatos
O Min. do STF Teori Zavascki ordenou a prisão do Senador Delcídio do Amaral e de mais três pessoas: o
advogado Edson Ribeiro, o banqueiro André Esteves, e o chefe de gabinete do parlamentar, Diogo
Ferreira. No dia seguinte, a 2ª Turma do STF referendou (confirmou) a regularidade das prisões e as
manteve.

O que as pessoas presas fizeram, segundo o Ministério Público?


O Senador, em conjunto com os demais investigados, estariam tentando convencer o ex-diretor
Internacional da Petrobrás, Nestor Cerveró (um dos réus na Lava Jato), a não assinar acordo de
colaboração premiada com o Ministério Público Federal. Isso porque Cerveró iria delatar crimes que
teriam sido praticados por Delcídio e Esteves.
Em troca de seu silêncio, o Senador e o banqueiro teriam oferecido o pagamento de uma quantia mensal
em dinheiro à família de Cerveró.
Além disso, o Senador teria também prometido fazer lobby junto aos Ministros do STF para que estes
concedessem liberdade a Cerveró e, em seguida, com o réu solto, o parlamentar iria facilitar a fuga do ex-
diretor da Petrobras para a Espanha, país do qual também tem cidadania.
Foram realizadas pelo menos quatro reuniões para tratar sobre a proposta e o plano de fuga. Nestas
reuniões participavam, além do Senador, o assessor parlamentar, o advogado de Nestor Cerveró e seu
filho (Bernardo Cerveró).
Ocorre que Nestor Cerveró já estava decidido a fazer o acordo de colaboração premiada e não confiava na
proposta do Senador. Por isso, seu filho (Bernardo Cerveró) gravou as conversas e as propostas que foram
feitas e as entregou ao Ministério Público.
Bernardo entregou também vídeos, conversas trocadas por e-mail e por whatsapp.

Vamos aqui abordar alguns aspectos jurídicos do tema.

1) O Deputado Federal ou Senador pode ser preso antes da condenação definitiva?


•à Reg a:à NÃO.à Co oà eg a,à osà e osà doà Co g essoà Na io alà ãoà pode à se à p esosà a tesà daà
condenação definitiva.
•àEx eção:àpode ãoàse àp esosà asoàesteja àe àflag a teàdelitoàdeàu à i eài afiançável.

Isso está previsto no art. 53, § 2º da CF/88:


Art. 53 (...) § 2º Desde a expedição do diploma, os membros do Congresso Nacional não poderão ser
presos, salvo em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e
quatro horas à Casa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão.

Pela redação literal do art. 53, § 2º da CF/88, o Deputado Estadual, o Deputado Federal e o Senador
somente poderão ser presos, antes da condenação definitiva, em uma única hipótese: em caso de
flagrante delito de crime inafiançável. Isso significa que, pela literalidade do dispositivo constitucional, tais
parlamentares não podem ter contra si uma ordem de prisão preventiva.

Trata-se da imunidadeàfo alàe à elaçãoà àp isão,àta é à ha adaàdeà i oe i ilidadeàpessoalà elativa à


(freedom from arrest).
As imunidades parlamentares são prerrogativas conferidas pela CF/88 aos parlamentares para que eles
possam exercer seu mandato com liberdade e independência.
Vale ressaltar (isso será importante mais a frente) que a imunidade prevista no art. 53, § 2º da CF/88
aplica-se não apenas para Deputados Federais e Senadores, mas também para os Deputados Estaduais.
Isso porque os Deputados Estaduais possuem as mesmas imunidades que os parlamentares federais, por
força do art. 27, § 1º da CF/88.

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2) O Deputado Federal ou Senador pode ser preso se for condenado em processo criminal com trânsito
em julgado?
SIM. O § 2º do art. 53 da CF/88 veda apenas a prisão penal cautelar (provisória) do parlamentar, ou seja,
não proíbe a prisão decorrente da sentença transitada em julgado, como no caso de Deputado Federal
condenado definitivamente pelo STF.
STF. Plenário. AP 396 QO/RO, AP 396 ED-ED/RO, rel. Min. Cármen Lúcia, 26/6/2013 (Info 712).

REGRA: Deputados Federais e Senadores não poderão ser presos.


Exceção 1: Exceção 2:
Poderão ser presos em flagrante de crime O Deputado ou Senador condenado por
inafiançável. sentença judicial transitada pode ser preso
para cumprir pena.
Trata-se de exceção prevista Trata-se de exceção construída pela
expressamente na CF/88. jurisprudência do STF.

Obs: os autos do flagrante serão Obs: o parlamentar condenado por


remetidos, em até 24h, à Câmara ou ao sentença transitada em julgado será preso
Senado, para que se decida, pelo voto mesmo que não perca o mandato.
aberto da maioria de seus membros, pela Poderíamos ter por exemplo, em tese, a
manutenção ou não da prisão do esdrúxula situação de um Deputado
parlamentar. condenado ao regime semiaberto que,
durante o dia vai até o Congresso Nacional
trabalhar e, durante a noite, fica recolhido
no presídio.

Obs: existe divergência na doutrina sobre a possibilidade de o Deputado ou Senador ser preso por conta
de atraso no pagamento da pensão alimentícia (prisão civil). Admitem: Uadi Bulos e Marcelo Novelino.
Não admitem: Pedro Lenza e Bernardo Fernandes. Não há precedente do STF sobre o tema.
Em suma, pode-se dizer que o § 2º do art. 53 da CF/88 veda apenas a prisão penal cautelar (provisória) do
parlamentar, ou seja, não proíbe a prisão decorrente da sentença transitada em julgado, como foi a
hipótese do ex-Deputado Federal Natan Donadon condenado pelo STF na AP 396/RO.
No caso do Senador Delcídio, ele ainda nem foi formalmente denunciado. Dessa forma, não estamos
falando em condenação definitiva.

3) Quais os crimes teriam sido praticados pelo Senador e demais envolvidos?


Segundo o Ministério Público, o Senador e as demais pessoas teriam praticado, no mínimo, dois crimes:
•ài teg a ào ga ização criminosa (art. 2º, caput, da Lei nº 12.850/2013);
•àe a aça ài vestigaçãoàe volve doào ga izaçãoà i i osaà a t.à º,à§à ºàdaàLeià ºà . / .

Art. 2º Promover, constituir, financiar ou integrar, pessoalmente ou por interposta pessoa, organização
criminosa:
Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa, sem prejuízo das penas correspondentes às demais
infrações penais praticadas.

§ 1º Nas mesmas penas incorre quem impede ou, de qualquer forma, embaraça a investigação de infração
penal que envolva organização criminosa.

Crime do caput do art. 2º: as declarações de Cerveró e os indícios presentes nos autos comprovariam que
o Senador Delcídio faria parte da organização criminosa investigada na operação "Lava Jato" e que teria
sido beneficiado em esquemas envolvendo contratos da Petrobrás.

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Crime do § 1º do art. 2º: o Senador, ao tentar convencer Cerveró a não assinar o acordo de colaboração
premiada e planejar a sua fuga para a Espanha, estava embaraçando as investigações dos crimes apurados
na operação Lava Jato e que envolvem organização criminosa. Embaraçar significa dificultar, atrapalhar.

4) Mas o Senador estava em flagrante delito?


Para o STF, sim. O STF entendeu que as condutas do Senador configurariam crime permanente,
considerando que ele, até antes de ser preso, integrava pessoalmente a organização criminosa (art. 2º,
caput) e, além disso, estaria, há dias, embaraçando a investigação da Lava Jato (art. 2º, § 1º). Desse modo,
ele estaria por todos esses dias cometendo os dois crimes acima, em estado, portanto, de flagrância.

Na doutrina, Rogério Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto consideram que o delito do art. 2º, caput, da
Lei nº 12.850/2013, um dos imputados ao Senador Delcídio, é sim crime permanente. Confira:
"(...) Infração permanente, a sua consumação se protrai enquanto não cessada a permanência. Isso
significa que o agente pode ser preso em flagrante delito enquanto não desfeita (ou abandonar) a
associação (art. 303 do CPP);" (Crime Organizado. Comentários à nova lei sobre o Crime Organizado - Lei
nº 12.850/2013. Salvador : Juspodivm, 2013, p. 18).

5) Os crimes supostamente praticados pelo Senador (art. 2º, caput e § 1º da Lei nº 12.850/2013) são
inafiançáveis?
O STF entendeu que sim. Sobre esse ponto, é importante explicar o tema com calma.

O art. 5º, incisos XLII, XLIII e XLIV e o art. 323 do CPP preveem a lista de crimes inafiançáveis:
a) Racismo;
b) Tortura;
c) Tráfico de drogas;
d) Terrorismo;
e) Crimes hediondos;
f) Crimes cometidos por ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o
Estado Democrático.

Assim, a lista acima é composta por crimes que são absolutamente inafiançáveis. Nunca poderá ser
concedida fiança para eles. São inafiançáveis por natureza.

O art. 324 do CPP, por sua vez, traz situações nas quais não se poderá conceder fiança. Veja a redação do
dispositivo, em especial o inciso IV:
Art. 324. Não será, igualmente, concedida fiança:
I - aos que, no mesmo processo, tiverem quebrado fiança anteriormente concedida ou infringido, sem
motivo justo, qualquer das obrigações a que se referem os arts. 327 e 328 deste Código;
II - em caso de prisão civil ou militar;
III - (Revogado pela Lei nº 12.403/2011).
IV - quando presentes os motivos que autorizam a decretação da prisão preventiva (art. 312).

Desse modo, segundo esse inciso IV, não será concedida fiança se estiverem presentes os motivos que
autorizam a decretação da prisão preventiva (garantia da ordem pública, da ordem econômica,
conveniência da instrução criminal, ou necessidade de se assegurar a aplicação da lei penal).

O inciso IV prevê, portanto, situação em que a pessoa praticou um crime que, mesmo não estando na lista
do art. 323 (absolutamente inafiançáveis), não poderá receber fiança por circunstâncias específicas
verificadas no curso do processo.

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 8


A partir desse dispositivo, o STF construiu a seguinte tese: os crimes do art. 2º, caput e do § 1º da Lei nº
12.850/2013 que, em tese, foram praticados pelo Senador, não são, a princípio, inafiançáveis,
considerando que não se encontram listados no art. 323 do CPP. Não se tratam, portanto, de crimes
absolutamente inafiançáveis. No entanto, como, no caso concreto, estão presentes os motivos que
autorizam a decretação da prisão preventiva (tentativa de calar o depoimento de colaborador, tentativa
de influenciar os julgadores e planejamento de fuga), estamos diante de uma situação que não admite
fiança, com base no art. 324, IV, do CPP.

Em suma, os crimes do art. 2º, caput e do § 1º da Lei nº 12.850/2013 praticados pelo Senador são
inafiançáveis, no caso concreto, não por força do art. 323 do CPP, mas sim com fundamento no art. 324, IV.

O STF criou a seguinte tese: se, no caso concreto, estiverem presentes os pressupostos para a decretação
da prisão preventiva, o crime será considerado inafiançável (art. 324, IV, do CPP) mesmo que não esteja
listado no art. 323 do CPP.

6) Como vimos acima, o STF reconheceu que o parlamentar estava em situação de flagrância. No
entanto, vale ressaltar que o pedido do MP no presente caso foi de prisão PREVENTIVA. O Procurador
Geral da República, ao fundamentar seu pedido no STF, requereu a prisão PREVENTIVA do Senador
Delcídio do Amaral afirmando que o art. 53, § 2º da CF/88 não poderia ser tido como absoluto. Diante
disso, indaga-se: essa tese do MP foi acolhida pelo STF? É possível prisão preventiva de Deputado
Federal ou Senador?
Surgiram duas correntes entre os professores e autores que se debruçaram para explicar o tema:
1ª) SIM. Para Rogério Sanches e Marcelo Novelino, o STF teria autorizado a prisão preventiva do Senador,
relativizando o art. 53, § 2º da CF/88.
2ª) NÃO. Não é possível a prisão preventiva de Deputado Estadual, Deputado Federal ou Senador porque a
única prisão cautelar que o art. 53, § 2º da CF/88 admite é a prisão em flagrante de crime inafiançável.
Particularmente, entendo que o Ministro Teori Zavascki não decretou a prisão preventiva do Senador
Delcídio do Amaral. Digo isso não apenas com base na argumentação por ele utilizada, mas também pela
forma como escreveu o comando da decisão. Vejamos:

Comando da decisão de prisão do advogado Comando da decisão de prisão do Senador


"Ante o exposto, observadas as especificações "Ante o exposto, presentes situação de flagrância e os
apontadas, (a) decreto a prisão preventiva de Edson requisitos do art. 312 do Código de Processo Penal,
Ribeiro, qualificado nos autos, a teor dos arts. 311 e decreto a prisão cautelar do Senador Delcídio do
seguintes do Código de Processo Penal; (b) decreto a Amaral, observadas as especificações apontadas e ad
prisão temporária de André Esteves e Diogo Ferreira, referendum da Segunda Turma do Supremo Tribunal
também qualificados nos autos, nos termos do art. 10, I Federal."
e I", da Lei 7.960/1989."

Veja o trecho do Informativo 809 do STF que, no meu ponto de vista, corrobora a ideia de que não houve
decretação de prisão preventiva:
"No âmbito das prisões cautelares para os representantes do Senado, somente se admitiria a modalidade
de prisão em flagrante decorrente de crime inafiançável em tese. Dos delitos apontados como praticados
pelo senador consta, dentre eles, o de organização criminosa — crime permanente —, a contemplar não
sóà aà possi ilidadeà deà flag a teà aà ual ue à te poà o oà atéà es oà aà ha adaà açãoà o t olada ,à osà
te osà daà Leià . / à á t.à º.à Co sisteà aà açãoà o t oladaà e à eta da à aà i te ve çãoà poli ialà ouà
administrativa relativa à ação praticada por organização criminosa ou a ela vinculada, desde que mantida
sob observação e acompanhamento para que a medida legal se concretize no momento mais eficaz à
fo açãoàdeàp ovasàeào te çãoàdeài fo ações .àáàhipóteseàp ese te é de inafiançabilidade, nos termos
doà CPPà [ á t.à .à Nãoà se ,à igual e te,à o edidaà fia ça:à ...à IVà - quando presentes os motivos que
auto iza àaàde etaçãoàdaàp isãoàp eve tivaà a t.à ]."

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9


7) E por que, durante o voto e na notícia do informativo, é mencionada algumas vezes a expressão
prisão preventiva?
Porque o Min. Teori entendeu que a situação seria de inafiançabilidade justamente por estarem presentes
os requisitos da prisão preventiva (art. 324, IV, do CPP). Logo, ele precisava expressamente discorrer sobre
os fundamentos, no caso concreto, da prisão preventiva, que estão presentes no art. 312 c/c art. 282, § 6º
do CPP.

8) Se era caso de prisão em flagrante, por que o Ministério Público formulou um requerimento de prisão
ao STF? A prisão em flagrante não precisa de pedido...
Realmente. A prisão em flagrante não se pede ao Poder Judiciário. Qualquer do povo poderá e as
autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito
(art. 301 do CPP). Não é necessária ordem judicial para tanto. No entanto, no caso concreto, o Procurador
Geral da República não requereu ao STF a prisão em flagrante do Senador Delcídio, mas sim a sua prisão
preventiva. Veja o trecho final do pedido:
"O Procurador-Geral da República requer a prisão preventiva de Delcídio Amaral e Edson de Siqueira
Ribeiro Filho e a prisão temporária de André Santos Esteves e Diogo Ferreira Rodrigues.
Caso se entenda descabida a prisão preventiva de congressista, em razão de vedação constitucional, o
Procurador-Geral da República requer a imposição cumulativa das seguintes medidas cautelares a Delcídio
Amaral: (...)"

Na minha opinião, contudo, o STF não concordou em decretar a prisão preventiva, mas reconheceu que o
Senador estava em situação de flagrância, razão pela qual ordenou o cumprimento da prisão.
Ressalto, mais uma vez, que o tema é polêmico e que alguns autores entenderam que foi decretada a
prisão preventiva do parlamentar.

9) Sendo prisão em flagrante, o STF precisaria ter expedido mandados de prisão contra o Senador?
Tecnicamente, não. Como já dito, a prisão em flagrante não precisa de ordem judicial para ser cumprida.
Entretanto, no caso concreto, o STF foi provocado e precisava decidir se seria hipótese mesmo de prisão
preventiva ou não. Além disso, havia a prisão preventiva de Edson Ribeiro e as prisões temporárias de
André Esteves e Diogo Ferreira que precisavam ser cumpridas simultaneamente a fim de que não
houvesse risco de fuga ou de destruição de provas por parte de qualquer dos investigados.
Por essas razões, o Ministro houve por bem expedir um mandado de prisão cautelar (gênero do qual a
prisão em flagrante é uma espécie). Não há qualquer irregularidade nisso, já que se trata de uma
formalidade adicional em prol do investigado. A outra opção seria o Ministro, na decisão, afirmar:
qualquer do povo está autorizado a prender o Senador.
Vale destacar que não é porque foi expedido um mandado de prisão que a custódia, no caso concreto,
deixou de ser prisão em flagrante e passou a ser preventiva. A diferença entre essas duas espécies de
custódia não está no instrumento por meio do qual ela é formalizada.

10) Na chamada "Operação Dominó", deflagrada em 2006, no Estado de Rondônia, envolvendo supostos
desvios praticados por Deputados Estaduais, o STJ e o STF autorizaram a prisão preventiva dos
Deputados envolvidos?
NÃO. Nesta "Operação Dominó" o STJ (na época, Min. Eliana Calmon), em situação parecida com a exposta
acima, reconheceu que os Deputados Estaduais estavam em situação de flagrância pela prática do então
existente crime de quadrilha (art. 288 do CP). Não foram decretadas, portanto, prisões preventivas.
Na "Operação Dominó" houve uma relativização do art. 53, § 2º da CF/88. Essa relativização, contudo, não foi
quanto à possibilidade de prisão preventiva. Isso não foi relativizado. O que o STJ e o STF decidiram foi que,
naquele caso concreto, não se deveria remeter a prisão para ser analisada pela Casa (Assembleia Legislativa)
em 24 horas. Entendeu-se que, pelo fato de 23 dos 24 Deputados estarem envolvidos supostamente no
esquema criminosa, a ALE não teria condições de analisar a manutenção da prisão. Veja trecho da ementa:

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10


(...) 2. Os elementos contidos nos autos impõem interpretação que considere mais que a regra proibitiva
da prisão de parlamentar, isoladamente, como previsto no art. 53, § 2º, da Constituição da República. Há
de se buscar interpretação que conduza à aplicação efetiva e eficaz do sistema constitucional como um
todo. A norma constitucional que cuida da imunidade parlamentar e da proibição de prisão do membro de
órgão legislativo não pode ser tomada em sua literalidade, menos ainda como regra isolada do sistema
constitucional. Os princípios determinam a interpretação e aplicação corretas da norma, sempre se
considerando os fins a que ela se destina. A Assembléia Legislativa do Estado de Rondônia, composta de
vinte e quatro deputados, dos quais, vinte e três estão indiciados em diversos inquéritos, afirma situação
excepcional e, por isso, não se há de aplicar a regra constitucional do art. 53, § 2º, da Constituição da
República, de forma isolada e insujeita aos princípios fundamentais do sistema jurídico vigente. 3. Habeas
corpus cuja ordem se denega.
(STF. 1ª Turma. HC 89417, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 22/08/2006)

Além disso, na época, a decisão da 1ª Turma do STF foi por apertada maioria (3x2), sendo que, dos
Ministros que votaram a favor da manutenção da prisão e desnecessidade de deliberação pela ALE,
somente a Ministra Cármen Lúcia ainda permanece na Corte.

11) A gravação da conversa feita por Bernardo Cerveró pode ser considerada como prova lícita?
SIM. Trata-se de entendimento pacífico do STF:
(...) É lícita a prova consistente em gravação ambiental realizada por um dos interlocutores sem
conhecimento do outro." (STF. Plenário. RE 583937 QO-RG, Min. Rel. Cezar Peluso, julgado em 19/11/2009
- repercussão geral)

ássi ,àseà á àeà B àestãoà o ve sa do,à á àpodeàg ava àessaà o ve saà es oà ueà B à ãoàsai a.àPa aàoà
STF, a gravação de conversa feita por um dos interlocutores sem o conhecimento dos demais é
considerada lícita, quando ausente causa legal de sigilo ou de reserva da conversação.

12) Seria possível falar que houve flagrante preparado por parte de Bernardo Cerveró, o que traria
hipótese de crime impossível, nos termos da Súmula 145 do STF?
NÃO. Ocorre o flagrante preparado (provocado) quando alguém instiga o indivíduo a praticar o crime com
o objetivo de prendê-lo em flagrante no momento em que ele o estiver cometendo. O flagrante preparado
é hipótese de crime impossível e o indivíduo instigado não responderá penalmente, sendo sua conduta
considerada atípica.
No caso analisado, segundo a versão do Ministério Público com base nas informações indiciárias que
constam nos autos, não houve flagrante preparado porque foi o Senador Delcídio, por intermédio de seu
chefe de gabinete, Diogo Ferreira, quem teria procurado a família de Cerveró com a proposta de ajuda
financeira e outras formas de auxílio em troca do silêncio do réu. Logo, neste momento, sem qualquer
instigação por parte de Bernardo Cerveró, já teria havido a prática do crime do art. 2º, § 1º da Lei de Crime
Organizado. Além disso, de acordo com a versão do Ministério Público, o Senador Delcídio seria
beneficiário de contratos fraudulentos celebrados pela Petrobrás, inclusive a compra da refinaria de
Pasadena, de forma que, em tese, há anos, ele seria integrante da suposta organização criminosa que é
investigada pela operação Lava Jato. Dessa forma, mesmo antes de procurar a família de Cerveró, o
Senador, em tese, já teria cometido o delito do art. 2º da Lei nº 12.850/2013.

13) Depois de concretizada a prisão em flagrante do parlamentar, qual é o procedimento que deverá ser
adotado em seguida?
A Constituição Federal determina que os autos deverão ser remetidos dentro de 24 horas à Casa
respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão (art. 53, § 2º).
Assim, o STF remeteu os autos ao Senado Federal que, por 59 votos contra 13, decidiu manter a prisão do
Senador.

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 11


14) O Regimento Interno do Senado afirmava que essa votação no Senado deveria ser secreta, no
entanto, ela foi aberta. Por quê?
O Regimento Interno do Senado, nesta parte, é inválido porque se tornou incompatível com o texto da
CF/88, que foi alterado pela EC nº 35/2001. Explico:
Na redação original da CF/88, o § 3º do art. 53 previa o seguinte:
§ 3º - No caso de flagrante de crime inafiançável, os autos serão remetidos, dentro de vinte e quatro
horas, à Casa respectiva, para que, pelo voto secreto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão e
autorize, ou não, a formação de culpa.

Com base nesse dispositivo, o Regimento Interno do Senado previu que a votações para se decidir sobre a
manutenção ou não da prisão do parlamentar deveria ser secreta.

Ocorre que a EC nº 35/2001 modificou esse dispositivo, deslocando-o para o § 2º do art. 53 e suprimiu a
expressão "pelo voto secreto". Ficou assim:
§ 2º Desde a expedição do diploma, os membros do Congresso Nacional não poderão ser presos, salvo em
flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à
Casa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão.

Veja, portanto, que a redação atual não fala mais em voto secreto.

A regra é que as votações na Câmara dos Deputados e no Senado Federal sejam ABERTAS. Isso decorre do
fato de o Brasil ser uma República e de adotarmos a publicidade dos atos estatais como um princípio
constitucional.

Assim, a população tem o direito de saber como votam os seus representantes, considerando que eles
estão exercendo o poder em nome do povo (art. 1º, parágrafo único, da CF/88).

A votação secreta somente é permitida se for expressamente prevista na CF. Em caso de silêncio,
prevalece a publicidade. Tanto isso é verdade que, para as demais votações do Parlamento, o texto
constitucional não precisa reafirmar que se trata de voto aberto. É o caso, por exemplo, das demais
matérias previstas no art. 53 da CF/88.
Desse modo, o dispositivo do Regimento Interno que previa o voto secreto para apreciar a prisão dos
parlamentares não foi recepcionado pela EC 35/2001.

DIREITO FINANCEIRO

DEPÓSITOS JUDICIAIS
Inconstitucionalidade das leis estaduais que permitem que o Estado utilize tais verbas

Diversos Estados têm editado leis complementares estaduais prevendo que o Poder Executivo
pode utilizar os valores constantes dos depósitos judiciais não apenas relacionados com processos
em que os Estados fossem parte, mas também oriundos de outros feitos em que estivessem
litigando somente particulares. Tais leis estão sendo questionadas por meio de ADIs propostas
pelo Procurador Geral da República. É o caso, por exemplo, da LC 42/2015, do Estado da Bahia.
O STF tem entendido, ainda em um juízo sumário e provisório, que tais leis estaduais são
inconstitucionais por violarem:

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 12


1) O princípio da separação dos poderes.
2) A iniciativa privativa legislativa da União (art. 22, I, da CF/88).
3) A LC federal 151/2015 apenas autoriza o levantamento de 70% dos valores que sejam
objeto de depósitos vinculados a processos em que os entes federados sejam parte.
STF. Plenário. ADI 5409 MC-Referendo/BA, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 25/11/2015 (Info 809).

Depósitos judiciais
Todos os valores em dinheiro que ficam à disposição da Justiça enquanto o processo não se encerra são
depositados em um conta bancária em nome do Poder Judiciário. A isso chama-se de depósito judicial.
Exs: João ingressa com ação de consignação em pagamento em face de Pedro, depositando em juízo R$
100 mil reais. Maria ajuíza execução contra Antônio e consegue a penhora on line de R$ 200 mil. Tais
valores ficarão em depósito judicial e, quando o juiz autorizar, eles poderão ser levantados pela parte
vencedora, devidamente atualizados.

Lei complementar federal 151/2015


Como se sabe, o Brasil vem passando por uma crise econômica e os Estados e Municípios têm enfrentado
enormes dificuldades para pagar suas despesas, especialmente com precatórios.
Diante disso, uma das medidas encontradas pelo Governo para contornar esse problema foi o de permitir
que o Poder Executivo estadual utilize parte dos valores que estão nos depósitos judiciais. Para tanto, foi
editada a LC 151/2015, que prevê, resumidamente, o seguinte:
 Dos valores que estão na conta do Poder Judiciário como depósito judicial deve-se identificar aqueles
que sejam oriundos de processos nos quais os Estados, o DF e os Municípios sejam parte.
 Desses valores, 70% poderão ser transferidos para a conta única do Tesouro do Estado, do Distrito
Federal ou do Município.
 Os 30% restantes ficarão como um fundo de reserva a fim de serem utilizados para o pagamento dos
valores devidos à outra parte, caso o Estado, o DF ou o Município perca a causa.

Assim, em outras palavras, a LC 151/2015 autorizou que os Estados, o DF e os Municípios utilizem 70% dos
valores que sejam objeto de depósitos vinculados a processos em que tais entes federados sejam parte.
Segundo o art. 7º da LC 151/2015, esses recursos repassados ao Estado, ao Distrito Federal ou ao
Município serão aplicados, exclusivamente, no pagamento de:
I – precatórios judiciais de qualquer natureza;
II – dívida pública fundada, caso a lei orçamentária do ente federativo preveja dotações suficientes para o
pagamento da totalidade dos precatórios judiciais exigíveis no exercício e não remanesçam precatórios
não pagos referentes aos exercícios anteriores;
III – despesas de capital, caso a lei orçamentária do ente federativo preveja dotações suficientes para o
pagamento da totalidade dos precatórios judiciais exigíveis no exercício, não remanesçam precatórios não
pagos referentes aos exercícios anteriores e o ente federado não conte com compromissos classificados
como dívida pública fundada;
IV – recomposição dos fluxos de pagamento e do equilíbrio atuarial dos fundos de previdência referentes
aos regimes próprios de cada ente federado, nas mesmas hipóteses do inciso III.

Obs: poderá o Estado, o Distrito Federal ou o Município utilizar até 10% da parcela que lhe for transferida
para constituição de Fundo Garantidor de PPPs ou de outros mecanismos de garantia previstos em lei,
dedicados exclusivamente a investimentos de infraestrutura.

Leis complementares estaduais


Ocorre que, antes da LC 151/2015, diversos Estados já haviam editado leis complementares estaduais
prevendo que o Poder Executivo poderia utilizar os valores constantes dos depósitos judiciais não apenas
relacionados com processos em que o Estado fosse parte, mas também oriundos de outros feitos em que

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estivessem litigando somente particulares. Em outras palavras, os Estados poderiam utilizar
indistintamente os valores dos depósitos judiciais.
Tais leis estão sendo questionadas por meio de ADIs propostas pelo Procurador Geral da República.
É o caso, por exemplo, da LC 42/2015, do Estado da Bahia.

O que o STF vem decidindo?


O STF tem entendido, ainda em um juízo sumário e provisório, que tais leis estaduais são inconstitucionais
pelos seguintes motivos:
1) Violam o princípio da separação dos poderes. Segundo já decidiu o STF, cumpre ao Poder Judiciário a
administração e os rendimentos referentes à conta única de depósitos judiciais e extrajudiciais. Atribuir ao
Poder Executivo essas funções viola o disposto no art. 2º CF/88, que afirma a interdependência -
independência e harmonia - entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. (STF. Plenário. ADI 3458, Rel.
Min. Eros Grau, julgado em 21/02/2008).
2) Ofendem a iniciativa privativa da União. A Lei que versa sobre depósitos judiciais é de competência
legislativa privativa da União, por tratar de matéria processual, nos termos do art. 22, I, da CF/88 (STF.
Plenário. ADI 2909, Rel. Min. Ayres Britto, julgado em 12/05/2010).
3) Contraria a LC federal 151/2015. A lei federal apenas autoriza o levantamento de 70% dos valores que
sejam objeto de depósitos vinculados a processos em que os entes federados sejam parte (art. 2º).

JULGADOS NÃO COMENTADOS

Advogado: inexistência de sala de Estado Maior e prisão domiciliar - 2


Em conclusão de julgamento, o Plenário assentou o prejuízo de pedido formulado em favor de advogada
para que aguardasse em prisão domiciliar, na falta de sala de Estado Maior. No caso, ela se encontrava
presa, por força de sentença condenatória recorrível, em penitenciária feminina em cela separada de
outras detentas. A Presidência do Supremo deferira liminar e determinara a prisão domiciliar — v.
Informativo 575. O Colegiado registrou que fora proferida sentença de extinção da punibilidade da
interessada pelo cumprimento integral da pena, da qual não fora interposto recurso.
Rcl 8668/SP, rel. Min. Cármen Lúcia, 26.11.2015

Coisa julgada e TCU


O Plenário, por maioria, denegou mandado de segurança impetrado contra ato do TCU que determinara a
suspensão do pagamento da incorporação do reajuste de 26,05% e 26,06% — referentes aos vencimentos
de fevereiro de 1989 e julho de 1987, respectivamente — aos proventos de servidora pública aposentada
— v. Informativo 454. Na espécie, a impetrante teria requerido o pagamento do índice de 26,05% fixado
para URP relativa ao mês de fevereiro de 1989 e consequente incorporação deste percentual a partir de
março de 1989. O Tribunal reconheceu que a controvérsia em exame não se referiria ao alcance da coisa
julgada, mas à eficácia temporal da sentença. Por essa razão, limitada a discussão à eficácia temporal da
sentença, não haveria falar-se em imutabilidade da própria decisão. Ademais, sequer seria o caso de se
cogitar em uma ação revisional, pois as modificações das razões de fato ou de direito, que serviriam de
suporte para a sentença, operariam efeitos imediata e automaticamente, dispensando-se novo
pronunciamento judicial. Frisou que, na situação dos autos, com a modificação da estrutura remuneratória
da impetrante, a decisão que lhe favorecera deveria ter produzido efeitos somente durante a vigência do
regime jurídico anterior. Com a mudança de regime, não seria possível manter o pagamento de vantagem
econômica sem qualquer limitação temporal. Destacou que a alteração do regime jurídico garantiria à
impetrante o direito à irredutibilidade dos vencimentos, mas não à manutenção no regime anterior. Assim,
tendo a impetração suscitado ofensa à coisa julgada, não se poderia reconhecer direito líquido e certo,
porque o ato atacado apenas interpretara o alcance da eficácia temporal da coisa julgada. Vencido o

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Ministro Eros Grau, que concedia a ordem. Em seguida, o Plenário, por maioria, assentou que as verbas
recebidas até o momento do julgamento, ante o princípio da boa fé e da segurança jurídica, não teriam que
ser devolvidas. Vencido, em parte, o Ministro Teori Zavascki, que resguardava os valores recebidos até a
concessão da liminar proferida pelo relator em 2005.
MS 25430/DF, rel. orig. Eros Grau, red. p/ o acórdão Min. Edson Fachin, 26.11.2015.

Extradição e cumprimento de pena


Os requisitos do pedido de extradição devem ser verificados na data do julgamento, sendo impossível a
análise de fatos supervenientes. Com base nesse entendimento, a Primeira Turma, por maioria, acolheu
embargos de declaração, sem efeitos infringentes, para esclarecer que a entrega do extraditando somente
poderá ocorrer até 6.12.2015. No caso, o extraditando alegava omissão superveniente ao julgamento da
extradição pela Turma. Aduzia que o somatório do cumprimento de parte da pena no seu país de origem
com o tempo de prisão preventiva para fins de extradição resultaria em saldo remanescente de 1 ano e 1
mês de pena. Assim, considerado o prazo para a sua retirada do Brasil, a extradição estaria vedada,
porquanto a pena a cumprir seria inferior a 1 ano. Pleiteava, em consequência, a denegação do pedido de
extradição ou, subsidiariamente, o reconhecimento da possibilidade de extradição até 6.12.2015. A Turma
consignou que as razões recursais admitiriam a inexistência de omissão no julgado. No entanto, por uma
questão de justiça, dever-se-ia acolher o pleito subsidiário. A extradição somente seria legítima se realizada
até 6.12.2015, momento em que o saldo da pena atingirá exatamente um ano. Isso porque o tratado de
extradição admitiria a extradição, apenas, quando a pena fosse igual ou inferior a um ano. Vencidos os
Ministros Edson Fachin e Rosa Weber, que não acolhiam os embargos. Pontuavam que, quando a Turma
deferira a extradição, ainda restaria um ano e nove meses de pena a ser cumprida.
Ext 1375 ED/DF, rel. Min. Luiz Fux, 24.11.2015. (EXT-1375)

Reclamação e sociedade de economia mista (Errata)


Comunicamos que o correto teor da matéria referente à Rcl 6.527 AgR/SP, divulgada no Informativo 796, é
este:
A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, negou provimento a agravo regimental
interposto de decisão que determinara a remessa dos autos de ação civil pública — que fora apreciada pela
Justiça do Trabalho — à justiça comum. Na espécie, a decisão agravada acolhera o argumento de que teria
havido afronta à decisão proferida na ADI 3395 MC/DF (DJU de 10.11.2006). Prevaleceu o voto do Ministro
Luiz Fux (relator), que manteve o que decidido na decisão monocrática para assegurar o processamento
dos litígios entre servidores temporários e a Administração Pública perante a justiça comum. A Ministra
Rosa Weber, por sua vez, acompanhou o relator na conclusão, ao negar provimento ao agravo, porém,
divergiu quanto à fundamentação. Assentou que no julgamento da ADI 3395 MC/DF, o Tribunal decidira
não competir à Justiça do Trabalho a apreciação de litígios que envolvessem servidores estatutários ou
vinculados de qualquer forma por relação jurídico-administrativa com pessoas jurídicas de direito público,
da Administração direta e indireta. Apontou que a Prodesp seria sociedade de economia mista e fora
questionada sobre a validade de seus contratos de trabalho sem o prévio concurso público. Dessa forma,
seus trabalhadores, por força do ordenamento constitucional, não poderiam ser vinculados a relações
estatutárias. Frisou que os ora agravantes seriam os reclamantes beneficiados pelo julgamento da
reclamação que lhes dera razão e determinara a remessa dos autos à justiça comum. Aduziu que o único
ponto discutido no presente recurso seria se, ante a declaração de incompetência absoluta da Justiça do
Trabalho, haveria ou não necessidade de decretar nulidade de atos decisórios da Justiça do Trabalho. Por
se à vedadaà aà efo atioà i à pejus ,à egavaà p ovi e toà aoà ag avoà egi e tal.àVe idoàoà Mi ist oàMa oà
Aurélio, que provia o recurso. Assentava que, ao se ajuizar processo trabalhista, até mesmo para se
declarar o autor carecedor dessa ação, competente seria a justiça do trabalho.
Rcl 6527 AgR/SP, rel. Min. Luiz Fux, 25.8.2015. (Rcl-6527)

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 15


Art. 225 do CP e ação penal
áà“egu daàTu aàafetouàaoàPle ioàoàjulga e toàdeà ha easà o pus àe à ueàseàdis uteàaà e epção,àpelaà
CF/ ,à doà a t.à à doà CP,à e à suaà edaçãoà o igi iaà á t.à à - Nos crimes definidos nos capítulos
anteriores, somente se procede mediante queixa. § 1º - Procede-se, entretanto, mediante ação pública: I -
se a vítima ou seus pais não podem prover às despesas do processo, sem privar-se de recursos
indispensáveis à manutenção própria ou da família; II - se o crime é cometido com abuso do pátrio poder,
ou da qualidade de padrasto, tutor ou curador; § 2º - No caso do nº I do parágrafo anterior, a ação do
Mi isté ioàPú li oàdepe deàdeà ep ese tação .à
HC 123971/DF, rel. Min. Teori Zavascki, 24.11.2015. (HC-123971)

OUTRAS INFORMAÇÕES

REPERCUSSÃO GERAL
DJe de 23 a 27 de novembro de 2015

REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 900.968-BH


RELATOR: MINISTRO PRESIDENTE
EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO ADMINISTRATIVO E DIREITO DO CONSUMIDOR.
RESPONSABILIDADE CIVIL. EMPRESA PRESTADORA DE SERVIÇO PÚBLICO. SUSPENSÃO DO FORNECIMENTO DE ENERGIA
ELÉTRICA. DANOS. INDENIZAÇÃO. MATÉRIA DE ÍNDOLE INFRACONSTITUCIONAL. OFENSA INDIRETA À CONSTITUIÇÃO.
INEXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL.
I – A controvérsia relativa à ocorrência de dano indenizável em virtude da suspensão do fornecimento de energia elétrica por empresa prestadora de
serviço público está restrita ao âmbito infraconstitucional.
II – O exame da questão constitucional não prescinde da prévia análise de normas infraconstitucionais, o que afasta a possibilidade de reconhecimento
do requisito constitucional da repercussão geral.
III – Repercussão geral inexistente.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 736.090-SC
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. TRIBUTÁRIO. MULTA FISCAL QUALIFICADA. SONEGAÇÃO, FRAUDE E CONLUIO.
150% SOBRE A TOTALIDADE OU DIFERENÇA DO IMPOSTO OU CONTRIBUIÇÃO NÃO PAGA, NÃO RECOLHIDA, NÃO
DECLARADA OU DECLARADA DE FORMA INEXATA (ATUAL § 1º C/C O INCISO I DO CAPUT DO ARTIGO 44 DA LEI FEDERAL
Nº 9.430/1996). VEDAÇÃO AO EFEITO CONFISCATÓRIO. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. QUESTÃO RELEVANTE DOS PONTOS
DE VISTA ECONÔMICO E JURÍDICO. TRANSCENDÊNCIA DE INTERESSES. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 905.357-RR
REDATOR P/ O ACÓRDÃO: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ESTADO DE RORAIMA. SERVIDORES PÚBLICOS.
REVISÃO GERAL ANUAL. ÍNDICE DE 5%. PREVISÃO NA LEI DE DIRETRIZES ORÇAMENTÁRIAS (LEI ESTADUAL 339/02).
AUSÊNCIA DA DOTAÇÃO ORÇAMENTÁRIA CORRESPONDENTE NA LEI ORÇAMENTÁRIA DO RESPECTIVO ANO. EXISTÊNCIA OU
NÃO DE DIREITO SUBJETIVO. REPERCUSSÃO GERAL CONFIGURADA.
1. Possui repercussão geral a controvérsia relativa à existência ou não de direito subjetivo a revisão geral da remuneração dos servidores públicos por
índice previsto apenas na Lei de Diretrizes Orçamentárias, sem correspondente dotação orçamentária na Lei Orçamentária do respectivo ano.
2. Repercussão geral reconhecida.
Decisões Publicadas: 3

CLIPPING DO D JE
23 a 27 de novembro de 2015

ADI N. 1.077-RS
RELATOR: MIN. GILMAR MENDES
Ação direta de inconstitucionalidade.
2. Governador do Estado do Rio Grande do Sul.
3. Lei estadual nº 10.114, de 16 de março de 1994.
4. Alegação de ofensa aos artigos 2º; 5º, caput e incisos XVII, XVIII e XX; e 61, § 1º, II, “e”, da Constituição Federal.
5. Lei que dispõe sobre entidades municipais legitimadas a integrar órgão da administração pública estadual ou firmar convênios com o Estado-
membro.

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 16


6. Usurpação da competência legislativa exclusiva do Chefe do Poder Executivo. Artigo 61, § 1º, inciso II, “e”, da Constituição Federal. Precedentes.
Inconstitucionalidade formal configurada.
7. Violação aos princípios da autonomia municipal e da isonomia. Artigos 30, inciso I; 34, inciso VII, “c”; e, art. 5º, caput da Constituição Federal.
Inconstitucionalidade material configurada.
8. Ação julgada procedente.
HC N. 126.573-BA
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: HABEAS CORPUS. DIREITO PROCESSUAL PENAL. SUBSTITUTIVO DE RECURSO CONSTITUCIONAL.
INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. HOMICÍDIOS QUALIFICADOS E ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA. PRISÃO PREVENTIVA.
GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. CONVENIÊNCIA DA INSTRUÇÃO CRIMINAL. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. EXCESSO DE
PRAZO NA FORMAÇÃO DA CULPA NÃO CONFIGURADO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA.
1. Contra acórdão exarado em recurso ordinário em habeas corpus remanesce a possibilidade de manejo do recurso extraordinário previsto no art.
102, III, da Constituição Federal. Diante da dicção constitucional, inadequada a utilização de novo habeas corpus, em caráter substitutivo.
2. Prisão preventiva decretada em razão do risco à ordem pública, da conveniência da instrução criminal, pois as circunstâncias concretas dos autos
indicam a periculosidade do agente e a eventual ameaça às testemunhas. Precedentes.
3. A razoável duração do processo não pode ser considerada de maneira isolada e descontextualizada das peculiaridades do caso concreto.
4. Habeas corpus extinto sem resolução do mérito.
HC N. 94.680-SP
RELATOR: MIN. RICARDO LEWANDOWSKI
EMENTA: PENAL. HABEAS CORPUS. FIXAÇÃO DE PENA-BASE. LATROCÍNIO. MAUS ANTECEDENTES. FOLHA DE ANTECEDENTES
CRIMINAIS. PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA. DESRESPEITO. OCORRÊNCIA. ORDEM CONCEDIDA.
I – Inquéritos ou processos em andamento, que ainda não tenham transitado em julgado, não devem ser levados em consideração como maus
antecedentes na dosimetria da pena.
II – Ordem concedida.
*noticiado no Informativo 791
RMS N. 29.914-DF
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ORDINÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. PRETENSÃO DE EQUIPARAÇÃO DE
SERVIDORES INATIVOS AO PESSOAL DA ATIVA NO QUE SE REFERE AO PAGAMENTO DE VANTAGEM REMUNERATÓRIA.
FICHAS FINANCEIRAS JUNTADAS PELA PRÓPRIA AUTORIDADE IMPETRADA EM INFORMAÇÕES, AS QUAIS FORAM REUNIDAS
EM VOLUME APENSADO AOS AUTOS PRINCIPAIS. AFASTAMENTO DO FUNDAMENTO DO ACÓRDÃO DE AUSÊNCIA DE PROVA
PRÉ-CONSTITUÍDA. RETORNO DOS AUTOS AO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, PARA QUE PROSSIGA NO EXAME DA CAUSA.
RECURSO ORDINÁRIO PROVIDO.
*noticiado no Informativo 807
HC N. 94.620-MS
RELATOR: MIN. RICARDO LEWANDOWSKI
EMENTA: PENAL. HABEAS CORPUS. FIXAÇÃO DE PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. POSSIBILIDADE. PREMEDITAÇÃO.
MOMENTO DE ANÁLISE. MAUS ANTECEDENTES. FOLHA DE ANTECEDENTES CRIMINAIS. PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA.
DESRESPEITO. OCORRÊNCIA. ORDEM CONCEDIDA.
I – O magistrado, ao fixar a pena-base dos pacientes, observou fundamentadamente todas as circunstâncias judiciais constantes do art. 59 do Código
Penal, o que justifica o quantum acima do mínimo legal.
II – A premeditação é analisada quando da fixação da pena-base, tal como ocorreu na espécie.
III – Inquéritos ou processos em andamento, que ainda não tenham transitado em julgado, não devem ser levados em consideração como maus
antecedentes na dosimetria da pena.
IV – Ordem concedida.
AG. REG. NO ARE N. 914.579-DF
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO ELEITORAL. CABIMENTO DE AÇÃO RESCISÓRIA. INELEGIBILIDADE. EVENTUAL OFENSA REFLEXA NÃO
VIABILIZA O MANEJO DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ART. 102 DA LEI MAIOR. ACÓRDÃO RECORRIDO PUBLICADO EM
15.6.2015.
1. A controvérsia, a teor do já asseverado na decisão guerreada, não alcança estatura constitucional. Não há falar em afronta aos preceitos
constitucionais indicados nas razões recursais. Compreender de modo diverso exigiria a análise da legislação infraconstitucional encampada na
decisão da Corte de origem, a tornar oblíqua e reflexa eventual ofensa, insuscetível, como tal, de viabilizar o conhecimento do recurso extraordinário.
Desatendida a exigência do art. 102, III, “a”, da Lei Maior, nos termos da remansosa jurisprudência desta Suprema Corte.
2. As razões do agravo regimental não se mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada.
3. Agravo regimental conhecido e não provido.
AG. REG. NO ARE N. 923.296-SP
RELATOR: MIN. GILMAR MENDES
Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo.
2. Penal e Processual Penal. Art. 48 da Lei 9605/1998 (impedir ou dificultar a regeneração natural de florestas e demais formas de vegetação).
Denúncia.
3. Ausência de prequestionamento. Incidência dos enunciados 282 e 356 da Súmula do STF.
4. Alegação de violação ao artigo 93, inciso IX, da CF. Não ocorrência. Acórdão recorrido suficientemente motivado.
5. Prescrição. Pleito que demanda reexame do conjunto fático-probatório dos autos (Súmula 279/STF) e da interpretação da legislação
infraconstitucional.
6. O crime previsto no art. 48 da Lei n. 9.605/1998 é de natureza permanente, de modo que o prazo prescricional inicia-se com a cessação da conduta
delitiva. Precedentes.
7. Ausência de argumentos capazes de infirmar a decisão agravada.
8. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO ARE N. 853.123-PE
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 17


RECURSO EXTRAORDINÁRIO – MATÉRIA FÁTICA E LEGAL. O recurso extraordinário não é meio próprio ao revolvimento da prova, também
não servindo à interpretação de normas estritamente legais.
AG. REG. NO ARE N. 743.430-BA
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. DESERÇÃO DO RECURSO. DEFICIENTE REALIZAÇÃO DO PREPARO PREVISTO NA LEI
ESTADUAL Nº 12.373/2011. RECOLHIMENTO INCOMPLETO. ANÁLISE DE LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL. EVENTUAL
OFENSA REFLEXA NÃO VIABILIZA O MANEJO DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ART. 102 DA LEI MAIOR. DECISÃO RECORRIDA
PUBLICADA EM 10.10.2012.
1. A controvérsia, a teor do já asseverado na decisão guerreada, não alcança estatura constitucional. Não há falar em afronta aos preceitos
constitucionais indicados nas razões recursais. Compreender de modo diverso exigiria a análise da legislação infraconstitucional encampada na
decisão da Corte de origem, a tornar oblíqua e reflexa eventual ofensa, insuscetível, como tal, de viabilizar o conhecimento do recurso extraordinário.
Desatendida a exigência do art. 102, III, “a”, da Lei Maior, nos termos da remansosa jurisprudência desta Suprema Corte.
2. As razões do agravo regimental não se mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada.
3. Agravo regimental conhecido e não provido.
AG. REG. NO ARE N. 907.065-DF
RELATOR: MIN. EDSON FACHIN
AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SINDICAL
RURAL. MARCO INICIAL DA PRESCRIÇÃO. CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS TRABALHISTAS. RESERVA DE LEI COMPLEMENTAR.
CLÁUSULA DA RESERVA DE PLENÁRIO.
1. A jurisprudência do STF é firma no sentido de que a contribuição sindical rural foi recepcionada pela Constituição Federal de 1988, submetendo-se
ao regime tributário, de modo que as disposições do CTN lhe são aplicáveis.
2. Por se tratar de espécie tributária prevista na Constituição Federal, é possível a instituição do tributo por meio de lei ordinária, a qual deve fixar o
aspecto temporal da hipótese de incidência, à luz do princípio da legalidade. Assim, em nenhum momento se infere dos autos tratamento de matéria
reservada à lei complementar.
3. O Plenário desta Corte já atestou que não há repercussão geral na matéria referente ao lançamento de contribuição sindical rural, com base no art.
605 da CLT. Precedente: AI-RG 743.833, de relatoria do Ministro Cezar Peluso, DJe 16.10.2009.
4. O afastamento, pelos órgãos judiciários a quo, de lei ou ato normativo do Poder Público sem expressa declaração de inconstitucionalidade constitui
ofensa à cláusula de reserva de plenário, consistindo em error in procedendo no âmbito do acórdão recorrido, tal como previsto no art. 97 da
Constituição Federal e na Súmula Vinculante 10 desta Suprema Corte. Precedente: RE-QO-RG 580.108, de relatoria da Ministra Ellen Gracie, DJe
19.12.2008.
5. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO RE N. 881.849-GO
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. GRATIFICAÇÃO DE REPRESENTAÇÃO. EXTENSÃO A INATIVOS. LEI
DELEGADA ESTADUAL Nº 04/2003. EVENTUAL OFENSA REFLEXA NÃO ENSEJA RECURSO EXTRAORDINÁRIO. NECESSIDADE DE
INTERPRETAÇÃO DE LEGISLAÇÃO LOCAL. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 280/STF. ACÓRDÃO RECORRIDO PUBLICADO EM
13.6.2014.
1. As razões do agravo regimental não se mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada, mormente no que se refere ao
óbice da Súmula nº 280 do STF, a inviabilizar o trânsito do recurso extraordinário.
2. A suposta afronta aos postulados constitucionais invocados no apelo extremo somente poderia ser constatada a partir da análise da legislação
infraconstitucional, o que torna oblíqua e reflexa eventual ofensa, insuscetível, como tal, de viabilizar o conhecimento do recurso extraordinário.
3. Agravo regimental conhecido e não provido.
AG. REG. NO RE N. 885.451-CE
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO COLETIVA. LIMITES TERRITORIAIS DA COISA JULGADA. MATÉRIA COM
REPERCUSSÃO GERAL REJEITADA PELO PLENÁRIO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NO ARE 796.473-RG/RS. ALEGAÇÃO DE
OFENSA AO ART. 5º, XXXV, LIV E LV, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA. DEVIDO
PROCESSO LEGAL. INAFASTABILIDADE DA JURISDIÇÃO. DEBATE DE ÂMBITO INFRACONSTITUCIONAL. RECURSO
EXTRAORDINÁRIO QUE NÃO MERECE TRÂNSITO. ACÓRDÃO RECORRIDO PUBLICADO EM 16.3.2012.
1. O Plenário Virtual desta Suprema Corte já proclamou a inexistência de repercussão geral da questão relativa à limitação territorial da eficácia da
decisão proferida em ação coletiva, em face do caráter infraconstitucional do debate (ARE 796.473-RG/RS, Rel. Min. Gilmar Mendes).
2. O exame da alegada ofensa ao art. 5º, XXXV, LIV e LV, da Constituição Federal, observada a estreita moldura com que devolvida a matéria à
apreciação deste Supremo Tribunal Federal, dependeria de prévia análise da legislação infraconstitucional aplicada à espécie, o que refoge à
competência jurisdicional extraordinária prevista no art. 102 da Magna Carta.
3. As razões do agravo regimental não se mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada, mormente no que se refere à
ausência de ofensa direta e literal a preceito da Constituição da República.
4. Agravo regimental conhecido e não provido.
HC N. 113.577-RS
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
PENA-BASE – CIRCUNSTÂNCIA JUDICIAL – ANTECEDENTES CRIMINAIS – INQUÉRITOS E PROCESSOS EM CURSO –
DESINFLUÊNCIA. Ante o princípio constitucional da não culpabilidade, inquéritos e processos criminais em curso, bem como condenações por
fatos posteriores ao crime, embora com decisões transitadas em julgado, são neutros na definição dos antecedentes – precedente: Recurso
Extraordinário nº 591.054, de minha relatoria, julgado no Plenário em 17 de dezembro de 2014, com acórdão publicado no Diário da Justiça de 26 de
fevereiro de 2015.
PENA – REGIME DE CUMPRIMENTO – DEFINIÇÃO. O regime de cumprimento da pena é fixado, presentes os parâmetros do artigo 33 do
Código Penal, ante as circunstâncias judiciais. Sendo a pena-base estabelecida no mínimo previsto para o tipo e a final em quantitativo inferior a
quatro anos, não se tratando de condenado reincidente, impõe-se o regime aberto.
PENA – SUBSTITUIÇÃO – EXAME. Uma vez aplicada pena em patamar a atrair a incidência do disposto no artigo 44 do Código Penal, cumpre
implementar a substituição da restritiva da liberdade pela limitadora de direitos.
EMB. DECL. NO ARE N. 916.187-PA
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 18


EMENTA: PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO RECEBIDOS COMO AGRAVO REGIMENTAL.
RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. PRELIMINAR DE REPERCUSSÃO GERAL. FUNDAMENTAÇÃO INSUFICIENTE. ÔNUS
DO RECORRENTE. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. INOCORRÊNCIA. ART. 5º, XXXV E LV, DA CF/88. OFENSA
CONSTITUCIONAL REFLEXA. SERVIDOR PÚBLICO. INATIVOS. GRATIFICAÇÃO DE DESEMPENHO DA CARREIRA DA
PREVIDÊNCIA, DA SAÚDE E DO TRABALHO (GDPST). REDUÇÃO DO PERCENTUAL PAGO EM RAZÃO DO ADVENTO DAS
AVALIAÇÕES DE DESEMPENHO. OFENSA AO PRINCÍPIO DA IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS. INOCORRÊNCIA.
1. Apreciando a Gratificação de Desempenho do Plano Geral de Cargos do Poder Executivo (GDPGPE), cujo regramento é similar ao da Gratificação
de Desempenho da Carreira da Previdência, da Saúde e do Trabalho (GDPST), o Plenário do STF, no julgamento do RE 631.389, Rel. Min. MARCO
AURÉLIO, DJe de 3/6/2014, Tema 351, submetido ao regime do art. 543-B do CPC, decidiu pela sua concessão aos inativos, no mesmo percentual
pago aos ativos, apenas até que fossem processados os resultados da primeira avaliação de desempenho. A partir desse termo, a gratificação perde sua
natureza geral e adquire o caráter pro labore faciendo.
2. Assim, avaliados os servidores em atividade, o pagamento da GDPST aos pensionistas e inativos deverá observar o art. 5º-B, § 6º, da Lei
11.355/2006, de modo que a redução da gratificação de desempenho paga aos servidores não importa ofensa ao princípio da irredutibilidade de
vencimentos.
3. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO ARE N. 901.780-RJ
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO TRIBUTÁRIO. AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÃO A CASCO NU. IMPOSTO SOBRE SERVIÇOS. NATUREZA DA
ATIVIDADE. EVENTUAL OFENSA REFLEXA NÃO VIABILIZA O MANEJO DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ART. 102 DA LEI
MAIOR. ACÓRDÃO RECORRIDO PUBLICADO EM 19.5.2015.
1. A controvérsia acerca da natureza das atividades prestadas pela empresa, a teor do já asseverado na decisão guerreada, não alcança estatura
constitucional. Não há falar em afronta aos preceitos constitucionais indicados nas razões recursais. Compreender de modo diverso exigiria a análise
da legislação infraconstitucional encampada na decisão da Corte de origem, a tornar oblíqua e reflexa eventual ofensa, insuscetível, como tal, de
viabilizar o conhecimento do recurso extraordinário. Desatendida a exigência do art. 102, III, “a”, da Lei Maior, nos termos da remansosa
jurisprudência desta Suprema Corte.
2. As razões do agravo regimental não se mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada.
3. Agravo regimental conhecido e não provido.
Ext N. 1.339-DF
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
EXTRADIÇÃO – REQUISITOS. Uma vez atendidos os requisitos legais – ordem de prisão ou de título condenatório criminal, da promessa de
reciprocidade do Estado requerente, da dupla tipologia e da ausência de prescrição –, mostrando-se os documentos anexados ao processo em
harmonia com a forma prevista em lei, há de ser reconhecida a possibilidade de entrega do extraditando, cabendo o ato ao Chefe do Poder Executivo
Nacional.
Pet N. 5.647-DF
RELATOR: MIN. ROBERTO BARROSO
EMENTA: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. QUEIXA-CRIME. INJÚRIA. DIFAMAÇÃO. SÚMULA 714/STF. DECLARAÇÕES EM ENTREVISTA
VINCULADA À ATIVIDADE PARLAMENTAR. DEPUTADO FEDERAL. IMUNIDADE MATERIAL. ATIPICIDADE DA CONDUTA. REJEIÇÃO.
1. É concorrente a legitimidade do ofendido, mediante queixa, e do Ministério Público, condicionada à representação do ofendido, para a ação penal
por crime contra a honra de servidor público em razão do exercício de suas funções (Súmula 714/STF).
2. As manifestações do parlamentar possuem nexo de casualidade com a atividade legislativa.
3. A imunidade cível e penal do parlamentar federal tem por objetivo viabilizar o pleno exercício do mandato.
4. O excesso de linguagem pode configurar, em tese, quebra de decoro, a ensejar o controle político
5. Não incide, na hipótese, a tutela penal, configurando-se a atipicidade da conduta. Precedentes. Queixa-crime rejeitada
AG. REG. NO ARE N. 914.837-SP
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
RECURSO EXTRAORDINÁRIO – MATÉRIA FÁTICA E LEGAL. O recurso extraordinário não é meio próprio ao revolvimento da prova, também
não servindo à interpretação de normas estritamente legais.
PREQUESTIONAMENTO – CONFIGURAÇÃO – RAZÃO DE SER. O prequestionamento não resulta da circunstância de a matéria haver sido
arguida pela parte recorrente. A configuração pressupõe debate e decisão prévios pelo Colegiado, ou seja, emissão de entendimento. O instituto visa o
cotejo indispensável a que se diga enquadrado o recurso extraordinário no permissivo constitucional.
EMB. DECL. NO ARE N. 875.604-PA
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO RECEBIDOS COMO AGRAVO REGIMENTAL. DIREITO PREVIDENCIÁRIO. BENEFÍCIO
ASSISTENCIAL. DEFICIENTE. LIMITAÇÃO LEVE. AUSÊNCIA DE INCAPACIDADE. ALEGAÇÃO DE OFENSA AO ART. 5º, II, XXXV,
XXXVI, LIV E LV, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. LEGALIDADE. CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA. DEVIDO PROCESSO
LEGAL. INAFASTABILIDADE DA JURISDIÇÃO. DEBATE DE ÂMBITO INFRACONSTITUCIONAL. EVENTUAL VIOLAÇÃO REFLEXA
DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA NÃO VIABILIZA O MANEJO DE RECURSO EXTRAORDINÁRIO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO
JURISDICIONAL. ART. 93, IX, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. RAZÕES DE DECIDIR
EXPLICITADAS PELO ÓRGÃO JURISDICIONAL. ACÓRDÃO RECORRIDO PUBLICADO EM 20.10.14.
1. Inexiste violação do art. 93, IX, da Lei Maior. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no sentido de que o referido dispositivo
constitucional exige a explicitação, pelo órgão jurisdicional, das razões do seu convencimento, dispensando o exame detalhado de cada argumento
suscitado pelas partes.
2. O exame da alegada ofensa ao art. 5º, II, XXXV, XXXVI, LIV e LV, da Constituição Federal, observada a estreita moldura com que devolvida a
matéria à apreciação desta Suprema Corte, dependeria de prévia análise da legislação infraconstitucional aplicada à espécie, o que refoge à
competência jurisdicional extraordinária prevista no art. 102 da Magna Carta.
4. Embargos de declaração recebidos como agravo regimental, ao qual se nega provimento.
EMB. DECL. NO AG. REG. NO RE N. 755.613-ES
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Embargos de declaração no agravo regimental no recurso extraordinário. Efeitos infringentes. Possibilidade, em casos
excepcionais. Corte de origem. Recebimento de petição. Erro do próprio órgão judiciário no processamento do recurso. Recurso de apelação
tempestivo.

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 19


1. No caso concreto, o recebimento da petição de apelação no Tribunal a quo não poderia dar ensejo à declaração de intempestividade do recurso,
haja vista ter sido protocolado dentro do prazo previsto em lei.
2. O erro não pode ser atribuído exclusivamente ao advogado do apelante, sendo da responsabilidade, também, do setor que recebeu a petição do
recurso indevidamente.
3. A Turma acolheu os embargos de declaração para, atribuindo a eles excepcionais efeitos infringentes, dar provimento ao agravo regimental e, em
consequência, prover o recurso extraordinário, tão somente para que a Corte de origem, afastada a premissa de intempestividade, prossiga no exame
do recurso de apelação.
HC N. 100.978-SP
REDATOR P/ O ACÓRDÃO: MIN. EDSON FACHIN
EMENTA: HABEAS CORPUS IMPETRADO EM FACE DE DECISÃO MONOCRÁTICA QUE INDEFERE LIMINAR EM TRIBUNAL
SUPERIOR. SÚMULA 691/STF. NÃO CONHECIMENTO. PODERES DE INVESTIGAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO. TEMA ASSENTADO
EM REPERCUSSÃO GERAL. POSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DAS CONDI-CIONANTES. INEXISTÊNCIA DE
TERATOLOGIA OU ABUSO DE PODER.
1. A teor da Súmula 691/STF, não se conhece do habeas corpus impetrado contra decisão de relator que indefere liminar em writ originário, salvo em
hipóteses excepcionais, em que o impetrante demonstre a existência de flagrante ilegalidade ou abuso de poder na decisão hostilizada.
2. “O Ministério Público dispõe de competência para promover, por autoridade própria, e por prazo razoável, investigações de natureza penal,
desde que respeitados os direitos e garantias que assistem a qualquer indiciado ou a qualquer pessoa sob investigação do Estado. (…) ‘O Ministério
Público dispõe de competência para promover, por autoridade própria, e por prazo razoável,’ - eis aí a primeira condicionante, o prazo há de ser
razoável - ‘investigações de natureza penal,’ - portanto, o julgamento abriu as portas para a investigação de natureza penal - ‘desde que’ - vem a
segunda condicionante - “respeitados os direitos e garantias que assistem a qualquer indiciado ou a qualquer pessoa sob investigação do Estado,
observadas, sempre, por seus agentes, - e vem a terceira condicionante - as hipóteses de reserva constitucional de jurisdição e, também, - vem a
quarta - as prerrogativas profissionais de que se acham investidos, em nosso País, - fazendo referência expressa aos ilustres advogados - (...) sem
prejuízo da possibilidade - sempre presente no Estado democrático de Direito - do permanente controle jurisdicional dos atos, - do Ministério
Público, é a quinta condicionante - necessariamente documentados (Súmula Vinculante 14), praticados pelos membros dessa instituição. - é a sexta
condicionante” (RE 593.727, Redator para o Acordão Min. Gilmar Mendes, julgado em 14.05.2015).
3. Writ não conhecido.
EMB. DECL. NO AG. REG. NO RE N. 755.613-ES
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Embargos de declaração no agravo regimental no recurso extraordinário. Efeitos infringentes. Possibilidade, em casos
excepcionais. Corte de origem. Recebimento de petição. Erro do próprio órgão judiciário no processamento do recurso. Recurso de apelação
tempestivo.
1. No caso concreto, o recebimento da petição de apelação no Tribunal a quo não poderia dar ensejo à declaração de intempestividade do recurso,
haja vista ter sido protocolado dentro do prazo previsto em lei.
2. O erro não pode ser atribuído exclusivamente ao advogado do apelante, sendo da responsabilidade, também, do setor que recebeu a petição do
recurso indevidamente.
3. A Turma acolheu os embargos de declaração para, atribuindo a eles excepcionais efeitos infringentes, dar provimento ao agravo regimental e, em
consequência, prover o recurso extraordinário, tão somente para que a Corte de origem, afastada a premissa de intempestividade, prossiga no exame
do recurso de apelação.
*noticiado no Informativo 801
Acórdãos Publicados: 201

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Mandado de segurança - Impetração em defesa de direito alheio - Inadmissibilidade (Transcrições)


(v. Informativo 809)
MS 33.844-MC/DF*
RELATOR: Ministro Celso de Mello
EMENTA: MANDADO DE SEGURANÇA. IMPUGNAÇÃO A PROVIMENTOS CAUTELARES DEFERIDOS, EM SEDE
MANDAMENTAL ORIGINÁRIA, CONTRA O PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS, SUSPENDENDO A EFICÁCIA DA

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 20


RESPOSTA À QUESTÃO DE ORDEM Nº 105/2015. IMPETRAÇÃO EM DEFESA DO PRINCÍPIO DEMOCRÁTICO, DO DOGMA DA
SEPARAÇÃO DE PODERES, DAS PRERROGATIVAS DO CONGRESSO NACIONAL E DOS DIREITOS DO POVO BRASILEIRO.
AJUIZAMENTO, EM NOME PRÓPRIO, DE AÇÃO MANDAMENTAL OBJETIVANDO A PROTEÇÃO DE DIREITO ALHEIO (O DO
CONGRESSO NACIONAL E O DOS CIDADÃOS EM GERAL). INADMISSIBILIDADE. CARÁTER EXCEPCIONAL DA
LEGITIMAÇÃO ATIVA EXTRAORDINÁRIA OU ANÔMALA (CPC, ART. 6º). INOCORRÊNCIA, NO CASO, DA HIPÓTESE A QUE SE
REFERE O ART. 3º DA LEI Nº 12.016/2009. PRECEDENTES. DOUTRINA. IMPOSSIBILIDADE, ADEMAIS, DE UTILIZAÇÃO DO
MANDADO DE SEGURANÇA COMO SUCEDÂNEO DE AÇÃO POPULAR (SÚMULA 101/STF). JURISPRUDÊNCIA.
IMPETRAÇÃO CONTRA ATO REVESTIDO DE CONTEÚDO JURISDICIONAL EMANADO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
INVIABILIDADE. PRECEDENTES. MANDADO DE SEGURANÇA DE QUE NÃO SE CONHECE.
DECISÃO: Trata-se de mandado de segurança, com pedido de medida liminar, impetrado contra o Supremo Tribunal Federal em razão de
decisões que, proferidas em sede mandamental originária (MS 33.837/DF, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI e MS 33.838/DF, Rel. Min. ROSA
WEBER), determinaram a suspensão de eficácia da solução que o Senhor Presidente da Câmara dos Deputados deu à Questão de Ordem nº
105/2015, bem assim a sustação dos demais procedimentos relacionados a essa mesma resposta parlamentar.
Passo a apreciar, preliminarmente, a pertinência do mandado de segurança no caso ora em análise. E, ao fazê-lo, reconheço a inviabilidade
da utilização, na espécie, da presente ação de mandado de segurança, eis que a parte ora impetrante postula, na realidade, em nome próprio, nesta
sede mandamental, a defesa de direito alheio (o direito dos cidadãos em geral, de um lado, e as prerrogativas institucionais do Congresso Nacional,
de outro).
Isso significa, portanto, que o autor da presente ação mandamental, ao assim proceder, age, inequivocamente, na condição de verdadeiro
substituto processual, sem que exista, para tanto, qualquer base normativa que lhe permita investir-se de legitimação anômala ou extraordinária,
para efeito de instauração deste processo de mandado de segurança.
Como se sabe, o ordenamento jurídico pátrio estabelece que “Ninguém poderá pleitear, em nome próprio, direito alheio, salvo quando
autorizado por lei” (CPC, art. 6º – grifei).
Vê-se, desse modo, presente o contexto em exame, que falece ao ora impetrante legitimidade ativa “ad causam” para fazer instaurar, em
nome próprio, a presente ação mandamental, eis que, longe de vindicar a defesa de direito subjetivo próprio, limitou-se a pleitear, em seu nome, a
defesa da integridade de direito alheio (o do Congresso Nacional e o do Povo brasileiro).
Cabe assinalar que o entendimento que venho de expor encontra apoio em autorizado magistério doutrinário (HELY LOPES MEIRELLES,
ARNOLDO WALD e GILMAR FERREIRA MENDES, “Mandado de Segurança e Ações Constitucionais”, p. 36, item n. 4, 34ª ed., 2012,
Malheiros; HUMBERTO THEODORO JUNIOR, “Curso de Direito Processual Civil”, volume I/73, item n. 67, 41ª ed., 2004, Forense; CÂNDIDO
RANGEL DINAMARCO, “Instituições de Direito Processual Civil”, volume II/116, item n. 440, 4ª ed., 2004, Malheiros; VICENTE GRECO
FILHO, “Direito Processual Civil Brasileiro”, volume I/78, item n. 14, 17ª ed., 2003, Saraiva, v.g.), cujas lições fazem incidir, em situações como a
dos autos, a norma restritiva fundada no art. 6º do CPC.
Impende registrar, ainda, que essa orientação tem o beneplácito da jurisprudência que o Supremo Tribunal Federal firmou na matéria ora
em análise (MS 20.902/DF, Rel. Min. CÉLIO BORJA – MS 22.444/SP, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA, v.g.):
“Mandado de segurança. Legitimidade ativa.
O mandado de segurança pressupõe a existência de direito próprio do impetrante. Somente pode socorrer-se dessa especialíssima
ação o titular do direito, lesado ou ameaçado de lesão, por ato ou omissão de autoridade. A ninguém é dado pleitear, em nome próprio,
direito alheio, salvo quando autorizado por lei (art. 6º do CPC).
Não obstante a gravidade das alegações, evidente é a ilegitimidade do postulante e a falta de interesse processual.
Pedido não conhecido.”
(RTJ 110/1026, Rel. Min. DJACI FALCÃO – grifei)
“Mandado de Segurança. Direito subjetivo. Interesse.
Descabe o mandado de segurança quando o impetrante não tem em vista a defesa de direito subjetivo, mas a de mero interesse reflexo
de normas objetivas. Precedentes e doutrina. (...).”
(RTJ 120/328, Rel. Min. FRANCISCO REZEK – grifei)
“Mandado de segurança. Legitimidade ativa: inexistência.
O mandado de segurança é medida judicial que só pode ser utilizada para defesa de direito próprio e direito do impetrante e não
para defender direito potencial, e que apenas poderia eventualmente surgir se afastado aquele a quem o ato apontado como ilegal iria atingir.
(...).”
(RTJ 120/816, Rel. Min. ALDIR PASSARINHO – grifei)
“Mandado de segurança requerido pelo Impetrante, na qualidade de cidadão brasileiro, contra ato de Comissão da Câmara dos
Deputados, tendente a possibilitar a adoção da pena de morte, mediante consulta plebiscitária.
Falta de legitimidade ativa do Requerente, por falta de ameaça concreta a direito individual, particularizado em sua pessoa.”
(RTJ 139/783, Rel. Min. OCTAVIO GALLOTTI – grifei)
“Mandado de Segurança. Não cabe se o ato contra o qual é impetrado não fere direito líquido e certo do impetrante. A ninguém é
dado pleitear em nome próprio direito alheio, salvo quando autorizado por Lei (CPC, art. 6º).
Impetração não conhecida.”
(RTJ 128/1138, Rel. Min. CARLOS MADEIRA – grifei)
“– O autor da ação de mandado de segurança individual não pode pleitear, em nome próprio, a tutela jurisdicional de direito público
subjetivo alheio, salvo quando autorizado por lei (CPC, art. 6º). O impetrante do mandado de segurança individual, por não dispor de
legitimação extraordinária para agir, não pode invocar a proteção jurisdicional do Estado em favor da generalidade dos participantes de um
determinado concurso público.”
(RTJ 179/210-211, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Nem se diga, ainda, que o ora impetrante, em sua condição de cidadão responsável, de “integrante de um povo da América”, desejoso de
viver sob regime democrático e de ver preservada “(...) a atuação do Congresso Nacional num momento de intensa crise institucional” (grifei),
poderia valer-se deste “writ” mandamental para a consecução de seus propósitos.
Não obstante o relevo de tais objetivos, impende assinalar que o mandado de segurança não pode ser utilizado como sucedâneo de ação
popular, consoante esta Suprema Corte tem advertido em sucessivos julgamentos (RTJ 116/71, Rel. Min. DJACI FALCÃO – RTJ 172/495-496,
Rel. Min. SYDNEY SANCHES – MS 31.629-MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), valendo referir, por necessário, a existência, neste
Tribunal, da Súmula 101, cujo enunciado tem o seguinte conteúdo: “O mandado de segurança não substitui a ação popular” (grifei).
Mesmo que se mostrassem superáveis essas questões prévias, ainda assim não se revelaria admissível, no caso, o presente mandado de
segurança, eis que o “writ” constitucional insurge-se contra atos praticados em sede jurisdicional.

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 21


Impõe-se ter presente, quanto a esse fundamento, que o Supremo Tribunal Federal, em sucessivos pronunciamentos, não tem admitido a
impetração de mandado de segurança contra atos emanados dos órgãos colegiados desta Corte ou de qualquer de seus Juízes, proferidos em
processos de índole jurisdicional, como o de que ora se cuida, ressalvada, unicamente, a hipótese singular de decisão teratológica, de todo
inocorrente na espécie em exame:
“Não cabe mandado de segurança contra atos de conteúdo jurisdicional proferidos pelo Supremo Tribunal Federal, sendo
irrelevante, para esse efeito, que as decisões tenham emanado de órgãos colegiados (Pleno ou Turmas) ou de qualquer dos Juízes da Corte.
Precedentes. Mandado de segurança não conhecido.”
(MS 23.572/MG, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
“AGRAVO REGIMENTAL EM MANDADO DE SEGURANÇA. ATO JURISDICIONAL. NÃO CABIMENTO DO ‘WRIT’. 1. Não
cabe mandado de segurança contra ato jurisdicional, a não ser que se trate de decisão teratológica, o que não é o caso dos autos. 2. Agravo
regimental a que se nega provimento.”
(MS 29.875-AgR/PR, Rel. Min. ROBERTO BARROSO, Pleno – grifei)
Bem por isso, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem sempre enfatizado, na linha desse entendimento, que não se revela
processualmente viável, por inadmissível, mandado de segurança contra decisões de índole jurisdicional proferidas por esta Suprema Corte (MS
26.704-MC/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.):
“Mandado de Segurança impetrado contra decisões proferidas pelos Relatores.
II – As decisões do Supremo Tribunal Federal de caráter jurisdicional não comportam impugnação através da via mandamental. (...).
Súmula 268.
III – Pedido não conhecido.”
(RTJ 91/445, Rel. Min. THOMPSON FLORES – grifei)
“A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal orienta-se no sentido da inadmissibilidade de mandado de segurança contra ato
jurisdicional da Corte.
.......................................................................................................
Agravo regimental improvido.”
(MS 21.734-AgR/MS, Rel. Min. ILMAR GALVÃO – grifei)
“DESCABIMENTO DE MANDADO DE SEGURANÇA CONTRA ATO JURISDICIONAL EMANADO DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL.
– A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal – mesmo sob a égide da vigente Constituição – firmou-se no sentido de não admitir,
por incabível, mandado de segurança contra atos decisórios de índole jurisdicional proferidos pela Suprema Corte, eis que tais decisões,
ainda quando emanadas de Ministro-Relator, somente são suscetíveis de desconstituição mediante utilização dos recursos pertinentes ou,
tratando-se de pronunciamentos de mérito já transitados em julgado, mediante ajuizamento originário da ação rescisória. Precedentes.”
(RTJ 168/174-175, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
“– DIREITO CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA CONTRA ACÓRDÃO DE TURMA DO
S.T.F. 1. É pacífica a jurisprudência do Plenário do Supremo Tribunal Federal, no sentido de que não cabe Mandado de Segurança contra
seus acórdãos ou de qualquer de suas Turmas. (…).”
(MS 22.515-AgR/DF, Rel. Min. SYDNEY SANCHES – grifei)

“Mandado de segurança: inadmissibilidade contra decisão jurisdicional de Turma do STF, ademais, transitada em julgado.”
(MS 22.897-AgR/SP, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE)
“CONSTITUCIONAL. PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA: DECISÃO DO PLENÁRIO DO S.T.F., DE SUAS
TURMAS OU DE RELATOR: NÃO CABIMENTO.
I. – Não cabe mandado de segurança contra decisão do Plenário do Supremo Tribunal Federal, de suas Turmas ou de Relator, de
índole jurisdicional.
II. – Precedentes do S.T.F.
III. – Agravo não provido.”
(MS 22.988-AgR/MS, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – grifei)
“– Os atos emanados do Supremo Tribunal Federal, quando revestidos de conteúdo jurisdicional, não comportam a impetração de
mandado de segurança, eis que tais atos decisórios somente podem ser desconstituídos, no âmbito da Suprema Corte, em decorrência da
adequada utilização dos recursos cabíveis ou, na hipótese de julgamento de mérito, com trânsito em julgado, mediante ajuizamento
originário da pertinente ação rescisória. Precedentes. (…).”
(RTJ 182/194-195, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Vale registrar que esse entendimento – inadmissibilidade de mandado de segurança contra atos de conteúdo jurisdicional emanados de
Ministros desta Corte ou proferidos por qualquer dos órgãos colegiados do Supremo Tribunal Federal (Plenário ou Turmas) – vem de ser
reafirmado, por esta Corte, agora sob a égide da Lei nº 12.016/2009:
“MANDADO DE SEGURANÇA – IMPETRAÇÃO CONTRA ATO DE CONTEÚDO JURISDICIONAL EMANADO DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL – INADMISSIBILIDADE – POSSIBILIDADE DE O RELATOR DA CAUSA, NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, DELA
NÃO CONHECER MEDIANTE DECISÃO MONOCRÁTICA – LEGITIMIDADE CONSTITUCIONAL DESSE PODER PROCESSUAL DO
RELATOR – INEXISTÊNCIA DE OFENSA AO POSTULADO DA COLEGIALIDADE – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO.
DESCABIMENTO DE MANDADO DE SEGURANÇA CONTRA ATO JURISDICIONAL EMANADO DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL.
– Não cabe mandado de segurança contra julgamentos impregnados de conteúdo jurisdicional, não importando se monocráticos ou
colegiados, proferidos no âmbito do Supremo Tribunal Federal. É que tais decisões, ainda quando emanadas de Ministro-Relator, somente
serão suscetíveis de desconstituição mediante utilização dos recursos pertinentes ou, tratando-se de pronunciamentos de mérito já transitados
em julgado, mediante ajuizamento originário da pertinente ação rescisória. Precedentes. (…).”
(MS 28.097-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
“(...) 2. Inadmissível a impetração de mandado de segurança contra Ministro da Corte, no exercício da função jurisdicional.
Precedentes: MS 25.070-AgR, Rel. Min. Cezar Peluso; MS 24.399-AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa. Excepcionalidade não verificada.
…...................................................................................................

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 22


4. Agravo regimental a que se nega provimento.”
(MS 27.335-ED/DF, Rel. Min. AYRES BRITTO – grifei)
“PROCESSO PENAL. MANDADO DE SEGURANÇA. DECISÃO DE MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
INADMISSIBILIDADE.
1. É inadmissível mandado de segurança contra ato jurisdicional do Supremo Tribunal Federal. Precedentes.
2. No Supremo Tribunal Federal, compete ao Relator negar seguimento a recurso ou pedido inadmissível (Lei nº 8.038/1990, art. 38;
RI/STF, art. 21, § 1º).
3. Mandado de segurança a que se nega seguimento.”
(MS 33.534/DF, Rel. Min. ROBERTO BARROSO – grifei)
Mais recentemente, o Plenário deste Tribunal reafirmou essa diretriz jurisprudencial, acentuando a incognoscibilidade da ação de mandado
de segurança quando ajuizada, como na espécie, com o objetivo de desconstituir pronunciamento de índole jurisdicional emanado desta Suprema
Corte:
“PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA EM FACE DE ATO JURISDICIONAL DE MINISTRO, DAS TURMAS
OU DO PLENÁRIO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. NÃO ADMISSIBILIDADE. PRECEDENTES. AGRAVO REGIMENTAL NÃO
PROVIDO.”
(MS 28.635-AgR/DF, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – grifei)

“AGRAVO REGIMENTAL NO MANDADO DE SEGURANÇA. PROCESSUAL CIVIL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO.


APLICAÇÃO DO ART. 543-B DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. NÃO CABIMENTO DA IMPETRAÇÃO CONTRA ATO DE
CONTEÚDO JURISDICIONAL DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. PRECEDENTES. AGRAVO REGIMENTAL AO QUAL SE
NEGA PROVIMENTO.”
(MS 31.955-AgR/BA, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – grifei)

“MANDADO DE SEGURANÇA – IMPETRAÇÃO CONTRA ATO DE CONTEÚDO JURISDICIONAL EMANADO DE ÓRGÃO


COLEGIADO (PLENÁRIO OU TURMAS) DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL OU PROFERIDO POR QUAISQUER DE SEUS JUÍZES –
PRECEDENTES – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO.
– Não cabe mandado de segurança contra julgamentos impregnados de conteúdo jurisdicional, não importando se monocráticos ou
colegiados, proferidos no âmbito do Supremo Tribunal Federal. É que tais decisões, ainda quando emanadas de Ministro Relator, somente
serão suscetíveis de desconstituição mediante utilização dos recursos pertinentes ou, tratando-se de pronunciamentos de mérito já transitados
em julgado, mediante ajuizamento originário da pertinente ação rescisória. Precedentes.”
(MS 32.880-AgR/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Impõe-se, finalmente, uma outra observação, considerada a inviabilidade da presente ação de mandado de segurança: no desempenho dos
poderes processuais de que dispõe, assiste ao Ministro Relator competência plena para exercer, monocraticamente, o controle das ações, pedidos ou
recursos dirigidos ao Supremo Tribunal Federal, legitimando-se, em consequência, os atos decisórios que, nessa condição, venha a praticar.
Cumpre acentuar, neste ponto, que o Pleno do Supremo Tribunal Federal reconheceu a inteira validade constitucional da norma legal que
inclui, na esfera de atribuições do Relator, a competência para negar trânsito, em decisão monocrática, a recursos, pedidos ou ações, quando
incabíveis, estranhos à competência desta Corte, intempestivos, sem objeto ou que veiculem pretensão incompatível com a jurisprudência
predominante do Tribunal (RTJ 139/53 – RTJ 168/174-175 – RTJ 173/948).
Nem se alegue que esse preceito legal implicaria transgressão ao princípio da colegialidade, eis que o postulado em questão sempre restará
preservado ante a possibilidade de submissão da decisão singular ao controle recursal dos órgãos colegiados no âmbito do Supremo Tribunal
Federal, consoante esta Corte tem reiteradamente proclamado (RTJ 181/1133-1134, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – AI 159.892-AgR/SP, Rel.
Min. CELSO DE MELLO, v.g.):
“PODERES PROCESSUAIS DO MINISTRO-RELATOR E PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE.
– Assiste ao Ministro-Relator competência plena para exercer, monocraticamente, com fundamento nos poderes processuais de que
dispõe, o controle de admissibilidade das ações, pedidos ou recursos dirigidos ao Supremo Tribunal Federal. Pode, em conseqüência, negar
trânsito, em decisão monocrática, a ações, pedidos ou recursos, quando incabíveis, intempestivos, sem objeto ou, ainda, quando veicularem
pretensão incompatível com a jurisprudência predominante na Suprema Corte. Precedentes.
– O reconhecimento dessa competência monocrática deferida ao Relator da causa não transgride o postulado da colegialidade, pois
sempre caberá, para os órgãos colegiados do Supremo Tribunal Federal (Plenário e Turmas), recurso contra as decisões singulares que
venham a ser proferidas por seus Juízes.”
(MS 28.097-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Sendo assim, em face das razões expostas, e considerando, sobretudo, os precedentes jurisprudenciais ora invocados, não conheço do
presente mandado de segurança, restando prejudicado, em consequência, o exame do pedido de liminar.
2. Defiro o pretendido benefício de gratuidade, tendo em vista a afirmação feita pela parte impetrante nos termos e para os fins a que se
refere o art. 4º da Lei nº 1.060/50, na redação dada pela Lei nº 7.510/86, c/c o art. 21, XIX, do RISTF.

Arquivem-se os presentes autos.

Publique-se.

Brasília, 19 de outubro de 2015.

Ministro CELSO DE MELLO


Relator

*decisão publicada no DJe de 22.10.2015

INOVAÇÕES LEGISLATIVAS
Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 23
23 a 27 de novembro de 2015

Lei nº 13.193, de 24.11.2015 - Altera a Lei no 6.815, de 19 de agosto de 1980, que define a situação jurídica
do estrangeiro no Brasil e cria o Conselho Nacional de Imigração, para dispor sobre a dispensa unilateral do visto de
turista por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, Rio 2016. Publicada no DOU, Seção 1, Edição nº 225,
p. 3, em 25.11.2015.

Secretaria de Documentação – SDO


Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 809-STF (04/12/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 24


Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos em virtude de pedidos de vista: RE
845779/SC; MS 33406/DF; MS 33406/DF; MS 30364/PA.
Julgados excluídos por terem menor relevância para concursos públicos ou por terem sido decididos com base em
peculiaridades do caso concreto: AP 913 QO/AL; RMS 23111/DF.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
 O STF não admite a teoria da transcendência dos motivos determinantes.

CNJ
 Revisão disciplinar e prazo de instauração.

DIREITO ADMINISTRATIVO
TETO REMUNERATÓRIO
 As vantagens pessoais do servidor também devem respeitar o teto, mesmo que sejam anteriores à EC 41/2003.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


AGRAVO
 Multa do § 2º do art. 557 do CPC 1973 (§ 4º do art. 1.021 do CPC 2015) e justiça gratuita.

DIREITO PENAL
LEI DE DROGAS
 A causa de aumento prevista no inciso V do art. 40 não exige a efetiva transposição da fronteira.

DIREITO PROCESSUAL PENAL


INDULTO NATALINO
 Período de prova no sursis não pode ser equiparado a cumprimento de pena.

DIREITO CONSTITUCIONAL

CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
O STF não admite a teoria da transcendência dos motivos determinantes

O STF não admite a teoria da transcendência dos motivos determinantes .


Segundo a teoria restritiva, adotada pelo STF, somente o dispositivo da decisão produz efeito
vinculante. Os motivos invocados na decisão (fundamentação) não são vinculantes.

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


A reclamação no STF é uma ação na qual se alega que determinada decisão ou ato:
• usurpou competência do STF; ou
• desrespeitou decisão proferida pelo STF.
Não cabe reclamação sob o argumento de que a decisão impugnada violou os motivos
(fundamentos) expostos no acórdão do STF, ainda que este tenha caráter vinculante. Isso
porque apenas o dispositivo do acórdão é que é vinculante.
Assim, diz-se que a jurisprudência do STF é firme quanto ao não cabimento de reclamação
fundada na transcendência dos motivos determinantes do acórdão com efeito vinculante.
STF. Plenário. Rcl 8168/SC, rel. orig. Min. Ellen Gracie, red. p/ o acórdão Min. Edson Fachin, julgado
em 19/11/2015 (Info 808).

A Constituição Federal, em seu art. 102, § 2º, estabelece os efeitos da decisão proferida pelo STF no
controle abstrato de constitucionalidade:
Art. 102 (...)
§ 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, nas ações diretas de
inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade produzirão eficácia contra todos e
efeito vinculante, relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e
indireta, nas esferas federal, estadual e municipal.

Vamos explicar melhor esses efeitos:


1) Quanto ao aspecto SUBJETIVO (quem é atingido pela decisão?)
• Eficácia contra todos (erga omnes)
• Efeito vinculante

2) Quanto ao aspecto OBJETIVO


(que partes da decisão produzem eficácia erga omnes e efeito vinculante?)

1ª corrente: teoria restritiva


Somente o dispositivo da decisão produz efeito vinculante.
Os motivos invocados na decisão (fundamentação) não são vinculantes.

2ª corrente: teoria extensiva


Além do dispositivo, os motivos determinantes (ratio decidendi) da decisão também são vinculantes.
Admite-se a transcendência dos motivos que embasaram a decisão.

Em suma, pela teoria da transcendência dos motivos determinantes, a ratio decidendi, ou seja, os
fundamentos determinantes da decisão também teriam efeito vinculante.

Ocorre que o STF NÃO adota a teoria da transcendência dos motivos determinantes (teoria extensiva).

O STF já chegou a manifestar apreço pela teoria da transcendência dos motivos determinantes, mas
atualmente, a posição da Corte é no sentido de que não pode ser acolhida.

Para melhor explicar o tema, veja o seguinte exemplo:


A , P efeito de u a idade do i te io do Ceará, teve suas contas aprovadas pela Câmara Municipal, mas
rejeitadas pelo Tribunal de Contas.
O Tribunal de Contas tomou essa decisão porque a Constituição do Estado do Ceará prevê que o Tribunal
de Contas irá julgar as contas dos prefeitos.
A afi a que a decisão do Tribunal de Contas foi errada e que a Constituição do Ceará, nesse ponto,
viola a CF/88, considerando que, no caso dos chefes do Poder Executivo, o Tribunal de Contas apenas
emite parecer prévio, não devendo julgar as contas.

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


A defe de que o STF já acolheu essa tese, ou seja, a de que as contas dos Prefeitos não são julgadas pelo
Tribunal de Contas, mas sim pela Câmara Municipal. Cita como precedentes do STF as ADIs 3715 MC/TO,
1779/PE e 849/MT.
Desse odo, A , i o fo ado o a de isão do Tribunal de Contas, ajuiza reclamação no STF alegando
que o entendimento do Supremo foi desrespeitado pelo Tribunal de Contas.

Essa reclamação do Prefeito pode ser julgada procedente?


NÃO.

Quando o STF julgou as ADIs 3715 MC/TO, 1779/PE e 849/MT, ele realmente decidiu que:
 As contas dos chefes do Poder Executivo são julgadas pelo Poder Legislativo (no caso dos
Governadores, pelas Assembleias e, se for Prefeito, pelas Câmaras Municipais);
 No caso das contas dos chefes do Poder Executivo, o Tribunal de Contas apenas emite um parecer
prévio, que poderá ser acolhido ou não pelo Poder Legislativo.

No entanto, o STF mencionou essas duas conclusões acima expostas apenas na fundamentação do
julgado. O dispositivo da decisão foi a declaração de inconstitucionalidade de normas das Constituições do
Estado de Tocantins (ADI 3715), de Pernambuco (ADI 1779) e de Mato Grosso (ADI 849).

O dispositivo do acórdão do STF que julgou as ADIs 3715 MC/TO, 1779/PE e 849/MT possui eficácia
vinculante e erga omnes?
SIM. Logo, a decisão do STF de que são inconstitucionais esses artigos das Constituições do TO, PE e MT
deve ser respeitada por todos e, em caso de descumprimento, pode-se ajuizar reclamação no STF.

A fu da e tação utilizada pelo “TF ao julgar essas ADI’s 1 MC/TO, 1 /PE e /MT possui eficácia
vinculante e erga omnes?
NÃO. Porque o STF não adota a teoria da transcendência dos motivos determinantes.

O Supremo acolhe a teoria restritiva, de forma que somente o dispositivo da decisão produz efeito
vinculante. Os motivos invocados na decisão (fundamentação) não são vinculantes.

Assim, ainda que a Constituição do Ceará tenha um artigo com redação idêntica ao da Constituição do
Tocantins (que foi declarado inconstitucional), não se poderá ajuizar reclamação diretamente no STF caso
o Tribunal de Contas aplique normalmente esse artigo da Carta cearense. Teria que ser proposta uma nova
ADI impugnando a Constituição cearense ou então valer-se o interessado dos instrumentos processuais
para a defesa do seu direito e a declaração difusa de inconstitucionalidade.

CNJ
Revisão disciplinar e prazo de instauração

O CNJ possui a competência para rever, de ofício ou mediante provocação, as decisões das
Corregedorias locais que julgam, a favor ou contra, juízes e membros de Tribunais. No entanto,
essa competência revisora deverá ser exercida no prazo máximo de 1 ano depois da decisão
proferida (art. 103-B, § 4º, V, da CF/88).
STF. 2ª Turma. MS 32724/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 17/11/2015 (Info 808).

Imagine a seguinte situação hipotética:


Determinado magistrado foi alvo de duas reclamações disciplinares a respeito de um mesmo fato: uma na
corregedoria do TJ e outra no CNJ.

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


Tanto o TJ como o CNJ instauraram procedimento para apurar a suposta infração.
O CNJ foi informado de que a Corregedoria local estava investigando o caso, razão pela qual sobrestou
(suspendeu) a reclamação disciplinar que estava instaurada no Conselho.
Em outubro de 2012, a Corregedoria do TJ absolveu o magistrado por falta de provas, comunicando essa
decisão ao CNJ.
Em dezembro de 2013, o CNJ retirou do sobrestamento o processo disciplinar que ali havia sido instaurado
e decidiu rever a decisão da Corregedoria do TJ.

Primeira pergunta: em tese, o CNJ pode rever processos disciplinares de Juízes e membros de Tribunais
julgados pelas corregedorias dos Tribunais?
SIM. Essa competência está prevista expressamente no art. 103-B, § 4º, V, da CF/88.

No caso concreto, o CNJ poderia reabrir a apuração do fato envolvendo o magistrado?


NÃO. Houve decadência. Isso porque o CNJ possui o prazo de 1 (um) ano para exercer a competência de
revisão disciplinar. Confira:
Art. 103-B (...)
§ 4º Compete ao Conselho o controle da atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário e do
cumprimento dos deveres funcionais dos juízes, cabendo-lhe, além de outras atribuições que lhe forem
conferidas pelo Estatuto da Magistratura:
(...)
V - rever, de ofício ou mediante provocação, os processos disciplinares de juízes e membros de tribunais
julgados há menos de um ano;

Segundo decidiu o STF, ao apreciar o caso acima, apesar de o CNJ ter instaurado processo disciplinar para
apuração dos fatos antes de se ter o julgamento da questão pela corregedoria local, o feito estava sobrestado
no Conselho aguardando a decisão do TJ. Uma vez decidida no TJ, a reanálise do caso pelo CNJ adquiriu
natureza revisional. Em razão disso, deveria ter sido retomada dentro do prazo de 1 ano previsto na CF.

DIREITO ADMINISTRATIVO
CONCURSOS PÚBLICOS
Teoria do fato consumado: inaplicabilidade em concurso público

Importante!!!
O candidato que toma posse em concurso público por força de decisão judicial precária
assume o risco de posterior reforma desse julgado que, em razão do efeito ex tunc ,
inviabiliza a aplicação da teoria do fato consumado em tais hipóteses.
A posse ou o exercício em cargo público por força de decisão judicial de caráter provisório não
implica a manutenção, em definitivo, do candidato que não atende a exigência de prévia
aprovação em concurso público (art. 37, II, da CF/88), valor constitucional que prepondera
sobre o interesse individual do candidato, que não pode invocar, na hipótese, o princípio da
proteção da confiança legítima, pois conhece a precariedade da medida judicial.
Em suma, não se aplica a teoria do fato consumado para candidatos que assumiram o cargo
público por força de decisão judicial provisória posteriormente revista.
STF. 1ª Turma. RMS 31538/DF, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, julgado
em 17/11/2015 (Info 808).
STF. Plenário. RE 608482/RN, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 7/8/2014 (repercussão geral)
(Info 753).

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 4


Imagine a seguinte situação hipotética (com diferenças em relação ao caso original):
Maria prestou concurso para Auditor-Fiscal do Trabalho e não foi aprovada na 1ª fase por conta de um ponto.
A candidata ajuizou ação pedindo a anulação de uma questão e conseguiu liminar para participar da 2ª
fase, tendo sido aprovada na prova discursiva, razão pela qual foi nomeada, tomou posse e passou a
exercer o cargo.
Ocorre que, depois de 15 anos no cargo, a ação foi julgada improcedente, com trânsito em julgado, tendo
a Administração Pública tornado sem efeito a sua nomeação.
Diante disso, Maria impetrou mandado de segurança pedindo para que seja mantida no cargo com base
na teoria do fato consumado, uma vez que já exercia a função há muitos anos.

O pedido de Maria foi aceito pelo STF?


NÃO. O candidato que toma posse em concurso público por força de decisão judicial precária assume o
is o de poste io efo a desse julgado ue, e azão do efeito ex tu , i via iliza a apli ação da
teoria do fato consumado em tais hipóteses.
STF. 1ª Turma. RMS 31538/DF, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, julgado em
17/11/2015 (Info 808).

O que é a Teoria do Fato Consumado?


Segundo esta teoria, as situações jurídicas consolidadas pelo decurso do tempo, amparadas por decisão
judicial, não devem ser desconstituídas, em razão do princípio da segurança jurídica e da estabilidade das
relações sociais (STJ. REsp 709.934/RJ).
Assim, de acordo com essa posição, se uma decisão judicial autorizou determinada situação jurídica e,
após muitos anos, constatou-se que tal solução não era acertada, ainda assim não deve ser desconstituída,
para que não haja insegurança jurídica.
Em suma, seria uma espécie de convalidação da situação pelo decurso de longo prazo.

A Teoria do Fato Consumado é admitida pela jurisprudência no caso de posse em cargo público por força
de decisão judicial provisória?
NÃO. A posse ou o exercício em cargo público por força de decisão judicial de caráter provisório não
implica a manutenção, em definitivo, do candidato que não atende a exigência de prévia aprovação em
concurso público (art. 37, II, da CF/88), valor constitucional que prepondera sobre o interesse individual
do candidato, que não pode invocar, na hipótese, o princípio da proteção da confiança legítima, pois
conhece a precariedade da medida judicial.
Em suma, não se aplica a teoria do fato consumado para candidatos que assumiram o cargo público por
força de decisão judicial provisória posteriormente revista.
STF. Plenário. RE 608482/RN, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 7/8/2014 (repercussão geral) (Info 753).

O que é o princípio da proteção da confiança legítima?


Trata-se de um princípio que ganhou destaque inicialmente na Alemanha, por volta da década de 50.
Segundo esse princípio, os comportamentos adotados pelo Estado, em virtude da presunção de
legitimidade, geram no particular a confiança de que são atos legais. Logo, o administrado não pode ser
prejudicado caso esse ato seja desfeito (revogado ou anulado) já que, de boa-fé, acreditou (confiou) que
eram legítimos.
O princípio da proteção da confiança legítima está relacionado com a boa-fé e com o princípio da
segurança jurídica.

O princípio da proteção da confiança legítima é adotado pelo STF em algumas situações?


SIM. O STF reconhece o princípio da confiança legítima, por exemplo, quando, por ato de iniciativa da
própria Administração, decorrente de equivocada interpretação da lei ou dos fatos, o servidor recebe
determinada vantagem patrimonial ou alguma condição jurídica melhor. Nesses casos, o servidor tinha a

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 5


legítima confiança de que aquela vantagem era legítima.
Assim, mesmo que fique, posteriormente, constatada a ilegitimidade dessa verba, esse servidor não será
obrigado a restituí-la, considerando que a recebeu de boa-fé e exigir que ele a devolvesse violaria o
princípio da confiança legítima.
Essas hipóteses, contudo, são excepcionais e não se tratam da regra geral.

E por que o STF não aplica o princípio da proteção da confiança legítima para os casos de posse em
cargo público por força de medida judicial provisória posteriormente revogada?
Porque nesses casos a nomeação e a posse no cargo ocorrem por iniciativa, provocação, requerimento do
próprio particular interessado e contra a vontade da Administração Pública que, inclusive, contesta o
pedido feito na Justiça.
Logo, não há que se falar em legítima confiança do administrado, já que não foi a Administração Pública
quem praticou o ato nem reconheceu o direito.
Em situações envolvendo concurso público não faz sentido invocar-se o princípio da proteção da confiança
legítima, haja vista que o candidato beneficiado com a decisão não desconhece que o provimento
jurisdicional tem natureza provisória e que pode ser revogado a qualquer momento, acarretando
automático efeito retroativo.
Vale ressaltar, por fim, que a concessão da tutela antecipada corre por conta e responsabilidade do
requerente.

O servidor que teve a sua posse tornada sem efeito em virtude da revogação da decisão anterior terá
que devolver as verbas recebidas? Em nosso exemplo, Maria terá que restituir a remuneração que
percebeu ao longo desses anos?
NÃO. Isso porque a remuneração possui caráter alimentar que, como regra, é irrepetível. Além disso, se
fosse exigida a devolução, haveria enriquecimento ilícito por parte do Estado, considerando que o servidor
trabalhou durante esse período.

TETO REMUNERATÓRIO
As vantagens pessoais do servidor também devem respeitar o teto,
mesmo que sejam anteriores à EC 41/2003

Importante!!!
Alguns servidores continuavam tentando excluir do teto as vantagens pessoais que haviam
adquirido antes da EC 41/2003 (que implementou, na prática, o teto no funcionalismo).
Argumentavam que a garantia da irredutibilidade de vencimentos, modalidade qualificada de
direito adquirido, impediria que as vantagens percebidas antes da vigência da EC 41/2003
fossem por ela alcançadas. O STF acolheu esse argumento? As vantagens pessoais anteriores à
EC 41/2003 estão fora do teto?
NÃO. Computam-se para efeito de observância do teto remuneratório do artigo 37, XI, da
Constituição da República, também os valores percebidos anteriormente à vigência da EC
41/2003 a título de vantagens pessoais pelo servidor público, dispensada a restituição de
valores eventualmente recebidos em excesso e de boa-fé até o dia 18/11/2015.
STF. Plenário. RE 606358/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 18/11/2015 (repercussão geral)
(Info 808).

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 6


NOÇÕES GERAIS SOBRE O TETO REMUNERATÓRIO
Teto remuneratório
A CF/ p e , e seu a t. , XI, o ha ado teto e u e ató io , ou seja, o alor máximo que os
agentes públicos podem receber no país. O objetivo do constituinte foi o de evitar que alguns agentes
pú li os e e esse os ha ados supe salá ios , ue são i o patí eis o o se iço pú li o.
Além de um teto geral (nacional), o dispositivo constitucional prevê limites específicos para o âmbito dos
Estados e Municípios (chamados de subtetos).
O teto geral do serviço público no Brasil é o subsídio dos Ministros do STF que, atualmente, está em cerca
de R$ 37.476,93 mil (bruto).
Obs.: o Mi . Teo i )a as ki de o i a o teto e u e ató io de teto de et i uição , exp essão ue pode
ser cobrada em sua prova.

A quem se aplica o teto?


Aplica-se aos agentes públicos independentemente do tipo de vínculo: estatutário, celetista, temporário,
comissionado, político.

O teto se aplica à Administração direta e indireta?


 Agentes públicos da administração direta: SEMPRE
 Agentes públicos das autarquias e fundações: SEMPRE
 Empregados públicos das empresas públicas e sociedades de economia mista: o teto somente se aplica
se a empresa pública ou a sociedade de economia mista receber recursos da União, dos Estados, do DF
ou dos Municípios para pagamento de despesas de pessoal ou de custeio em geral (art. 37, § 9º).

Quais as parcelas incluídas nesse limite?


Regra: o teto abrange todas as espécies remuneratórias e todas as parcelas integrantes do valor total
percebido, incluídas as vantagens pessoais ou quaisquer outras.

Exeções:
Estão fora do teto as seguintes verbas:
a) parcelas de caráter indenizatório previstas em lei (§ 11 do art. 37);
b) verbas que correspondam aos direitos sociais previstos no art. 7º c/c o art. 39, § 3º da CF/88, tais
como 13º salário, 1/3 constitucional de férias etc. (Fernanda Marinela);
c) quantias recebidas pelo servidor a título de abono de permanência em serviço (§ 19 do art. 40);
d) remuneração em caso de acumulação legítima de cargos públicos. O STJ entende que, se o servidor
acumular dois cargos públicos nas hipóteses admitidas na CF/88, a remuneração de cada cargo não
poderá ser superior ao teto constitucional, sendo possível, no entanto, que a soma dos dois ultrapasse
esse limite (STJ. 2ª T. AgRg no AgRg no RMS 33.100/DF, Min. Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado
em 07/05/2013). Ex.: se determinado Ministro do STF for também professor da UnB, ele irá receber
seu subsídio integral como Ministro e mais a remuneração decorrente do magistério. Nesse caso, o
teto seria considerado especificamente para cada cargo, sendo permitido que ele recebesse acima do
limite previsto no art. 37, XI da CF se considerarmos seus ganhos globais.

Os proventos recebidos pelo agente público aposentado também estão submetidos ao teto?
Sim. A redação do art. 37, XI, menciona expressamente os proventos.

O teto remuneratório existe desde quando?


A redação originária da CF/88 já previa a existência de um teto remuneratório, mas o dispositivo
constitucional não era autoaplicável. Assim, na prática, o teto só foi implementado com a EC nº 41/2003.
Confira a evolução histórica do tema:
 Redação original da CF/88: previa, no inciso XI do art. 37, que cada ente da Federação deveria editar
sua própria lei fixando o teto remuneratório dos servidores públicos. Na prática, o teto não era exigido
Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 7
porque, segundo a jurisprudência, o inciso XI não era autoaplicável, já que dependia de lei para
produzir todos seus efeitos.
 EC 19/98: alterou esse inciso estabelecendo que o teto remuneratório seria um só para todos os
servidores públicos do país, sendo este limite o subsídio mensal dos Ministros do STF. Na prática, o
teto continuava não sendo exigido porque ainda não havia lei.
 EC 41/2003: alterou novamente o inciso XI trazendo duas novidades importantes: 1) passou a admitir
que os Estados e Municípios instituíssem subtetos estaduais e municipais; 2) previu que, mesmo sem
lei regulamentando, o teto remuneratório deveria ser imediatamente aplicado, utilizando-se como
limite o valor da remuneração recebida, na época, pelo Ministro do STF (art. 8º da EC 41/2003).
 EC 47/2005: acrescentou o § 11 ao art. 37 estabelecendo que estão fora do limite do teto as parcelas
de caráter indenizatório previstas em lei.

Dessa forma, na prática, o teto passou a vigorar no Brasil a partir da EC nº 41/2003, que foi publicada em
31/12/2003. Isso porque, como vimos acima, essa Emenda afirmou expressamente que, enquanto não
houvesse lei regulamentando o inciso XI, o valor do teto seria a remuneração do Ministro do STF na época.
O primeiro valor do teto remuneratório foi de R$ 19.115,19, remuneração do Ministro do STF naquele
momento.

Quando o teto foi finalmente implementado na prática (EC 41/2003), o que aconteceu com a
remuneração das pessoas que recebiam acima do teto que foi instituído? Essas pessoas tiveram direito
adquirido de continuar recebendo acima do teto?
NÃO. O art. 9º da EC nº 41/2003 determinou que qualquer remuneração ou proventos que estivessem
sendo recebidos acima do teto deveriam ser imediatamente reduzidos ao limite fixado, não podendo a
pessoa invocar direito adquirido.
Assim, em 01/01/2004, se o servidor público tinha uma remuneração de R$ 25.000,00, por exemplo, ele
passou a receber apenas R$ 19.115,19.

Obviamente, tal situação gerou reação das pessoas prejudicadas, que recorreram ao Poder Judiciário
questionando a constitucionalidade dessa previsão. O que decidiu o STF? Era possível aplicar
imediatamente o teto previsto na EC nº 41/2003, reduzindo a remuneração de quem ganhava acima
desse valor?
SIM. O STF decidiu, em sede de repercussão geral, que o teto de retribuição fixado pela EC nº 41/2003 é
de eficácia imediata e todas as verbas de natureza remuneratória recebidas pelos servidores públicos da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios devem se submeter a ele, ainda que adquiridas
de acordo com regime legal anterior.
A aplicação imediata da EC nº 41/2003 e a redução das remunerações acima do teto não afrontou o
princípio da irredutibilidade nem violou a garantia do direito adquirido.
Em outras palavras, com a EC nº 41/2003, quem recebia acima do teto fixado, teve a sua remuneração
reduzida para respeitar o teto. Essa redução foi legítima.
STF. Plenário. RE 609381/GO, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 2/10/2014 (Info 761).

Mas isso não viola o princípio da irredutibilidade da remuneração/proventos?


NÃO. Segundo o STF, a garantia da irredutibilidade de remuneração/proventos não impede a aplicação
imediata do teto de retribuição. Isso porque o próprio texto constitucional, ao tratar sobre o princípio da
irredutibilidade, ressalva expressamente o inciso XI do art. 37, deixando claro que é possível a redução da
remuneração/proventos para aplicação do teto de retribuição. Nesse sentido, confira o art. 37, XV, art. 95,
III e a t. , § 5º, I, .
Nas palavras do Min. Teori Zavascki, ao condicionar a fruição da garantia de irredutibilidade de
vencimentos à observância do teto de retribuição (art. 37, XI, da CF/88), a literalidade dos citados
dispositivos constitucionais deixa fora de dúvida que o respeito ao teto representa verdadeira condição de
legitimidade para o pagamento das remunerações no serviço público.
Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 8
Não há violação ao direito adquirido e ao ato jurídico perfeito?
NÃO. O art. 5º, XXXVI a lei ão p ejudi a á o di eito ad ui ido, o ato ju ídi o pe feito e a oisa julgada ,
também não pode ser invocado para excepcionar a imposição do teto de retribuição.
Segundo o STF, a cláusula da irredutibilidade somente pode ser invocada se a remuneração que estava
sendo recebida pelo servidor estava em conformidade com a CF/88. Desse modo, os vencimentos acima
do teto constitucional, ainda que com o beneplácito de disciplinas normativas anteriores, não estão
amparados pela regra da irredutibilidade.
O pagamento de remunerações superiores aos tetos de retribuição, além de se contrapor aos princípios da
moralidade, da transparência e da austeridade na administração dos gastos com custeio, representa
gravíssima quebra da coerência hierárquica essencial à organização do serviço público.
O Min. Zavascki lembrou, por fim, que o fato de o art. 9º da EC 41/2003 ser objeto de ação direta de
inconstitucionalidade ainda pendente de apreciação, não impediria, contudo, que o STF fizesse impor a
força normativa do próprio art. 37, XI, da CF, cujo enunciado seria suficiente para coibir situações
inconstitucionais de remuneração excessiva.

Mesmo após a decisão do STF no RE 609381/GO, alguns servidores continuavam tentando excluir do
teto as vantagens pessoais que haviam adquirido antes da EC 41/2003 (que implementou, na prática, o
teto no funcionalismo). Argumentavam que a garantia da irredutibilidade de vencimentos, modalidade
qualificada de direito adquirido, impediria que as vantagens percebidas antes da vigência da EC 41/2003
fossem por ela alcançadas. O STF acolheu esse argumento? As vantagens pessoais anterior à EC 41/2003
estão fora do teto?
NÃO. Computam-se, para efeito de observância do teto remuneratório do art. 37, XI, da CF/88, também os
valores percebidos anteriormente à vigência da EC 41/2003 a título de vantagens pessoais pelo servidor
público.
O art. 37, XI, da CF/88, na redação da EC 41/2003, é expresso ao incluir as vantagens pessoais ou de
qualquer outra natureza para fins de limitação dos ganhos ao teto remuneratório do serviço público.
A EC 41/2013 não violou a cláusula do direito adquirido, porque o postulado da irredutibilidade de
vencimentos, desde sua redação original, já indicava que deveria ser respeitado o teto remuneratório (art.
37, XI, da CF/88).
Em outras palavras, a Constituição assegurou a irredutibilidade, mas no mesmo dispositivo já mencionou
que deveria ser respeitado o teto remuneratório.
Assim, a Constituição não só autoriza, como exige o cômputo, para efeito de incidência do teto, de
adicionais por tempo de serviço, sexta parte, prêmio de produtividade e gratificações, ainda que
qualificados como vantagens de natureza pessoal percebidas antes do advento da EC 41/2003.
STF. Plenário. RE 606358/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 18/11/2015 (repercussão geral) (Info 808).

E os servidores que receberam vantagens pessoais acima do teto antes dessa decisão do STF deverão
devolver os valores? A Administração Pública poderá ingressar com ações cobrando o ressarcimento
dessas quantias recebidas acima do teto a título de vantagens pessoais?
NÃO. O STF afirmou que os servidores não estão obrigados a restituir os valores eventualmente recebidos
em excesso e de boa-fé até o dia 18/11/2015 (data da decisão do STF).

Em todos os julgamentos de recursos extraordinários com repercussão geral reconhecida, o STF elabora
uma frase que resume a tese adotada pelo Tribunal. A tese fixada pela Corte neste caso foi a seguinte:
Computam-se para efeito de observância do teto remuneratório do artigo 37, XI, da Constituição da
República, também os valores percebidos anteriormente à vigência da EC 41/2003 a título de vantagens
pessoais pelo servidor público, dispensada a restituição de valores eventualmente recebidos em excesso
e de boa-fé até o dia 18/11/2015.
STF. Plenário. RE 606358/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 18/11/2015 (repercussão geral) (Info 808).

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9


DIREITO PROCESSUAL CIVIL
AGRAVO
Multa do § 2º do art. 557 do CPC 1973 (§ 4º do art. 1.021 do CPC 2015) e justiça gratuita

O § 2º do art. 557 do CPC 1973 (§ 4º do art. 1.021 do CPC 2015) prevê que, quando
manifestamente inadmissível ou improcedente o agravo, o tribunal condenará o agravante a
pagar ao agravado multa de
 1% a 10% do valor corrigido da causa (CPC 1973)
 1% a 5% do valor atualizado da causa (CPC 2015).

Essa multa é aplicada também para o beneficiário da justiça gratuita?


SIM. No entanto, há uma diferença de tratamento no caso:
• CPC 1973: a parte beneficiária da justiça gratuita não está isenta do pagamento da multa do
art. 557, § 2º do CPC 1973. Porém, o recolhimento da multa ficará suspenso por 5 anos para
ver se a parte conseguirá melhorar sua condição econômica e auferir recursos para pagar a
sanção, conforme prevê o art. 12 da Lei nº 1.060/50. Nesse sentido, decidiu o STF, 1ª Turma.
RE 775685 AgR-ED/BA, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 17/11/2015 (Info 808). Na prática,
ela quase nunca irá pagar.
• CPC 2015: o novo CPC prevê no art. 98, § 4º que a concessão de gratuidade não afasta o dever
de o beneficiário pagar, ao final, as multas processuais que lhe sejam impostas.
STF. 1ª Turma. RE 775685 AgR-ED/BA, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 17/11/2015 (Info 808).

AGRAVO DE INSTRUMENTO E MULTA DO ART. 557, § 2º DO CPC 1973


Vejamos as etapas do processamento e julgamento do agravo de instrumento:
1) João ajuizou ação contra Pedro e requereu uma tutela antecipada (no novo CPC: "tutela provisória").

2) Após ouvir a ré, o juiz proferiu uma decisão interlocutória denegando a tutela.

3) Contra as decisões interlocutórias prolatadas pelo juízo de 1ª instância qual é o recurso cabível?
No CPC 1973: cabia, em tese, agravo retido ou agravo de instrumento, conforme o caso concreto.
No CPC 2015: cabe agravo de instrumento nas hipóteses listadas pelo art. 1.015. Se não se enquadrar
em uma dessas situações, a parte prejudicada só poderá atacar a decisão nas razões de apelação (art.
1.009, § 1º). Assim, as decisões interlocutórias que não puderem ser impugnadas por meio de agravo
de instrumento por não estarem no rol do art. 1.015 não ficam sujeitas à preclusão imediata e
poderão ser discutidas pela parte em preliminar de apelação (se ela for a recorrente ao final) ou nas
contrarrazões (se não foi ela quem interpôs a apelação). O que é muito importante que você guarde:
no novo CPC não mais existe agravo retido.

4) No caso concreto, era hipótese realmente de agravo de instrumento (art. 522 do CPC 1973 / art.
1.015, I, do CPC 2015).

5) Qual é o prazo para a interposição do agravo de instrumento?


 CPC 1973: 10 dias.
 CPC 2015: 15 dias.

6) A parte prejudicada (João) interpôs o agravo de instrumento. Para isso, teve que dar entrada no
recurso diretamente no Tribunal (entregou no protocolo do Tribunal e não no do Fórum), conforme
determina o art. 524 do CPC 1973 (art. 1.016 do CPC 2015).

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10


A petição do agravo de instrumento deve estar acompanhada das peças obrigatórias e facultativas
mencionadas no art. 525 do CPC 1973 (art. 1.017 do CPC 2015).
Destaco a novidade prevista no inciso II do art. 1.017 do CPC 2015 que será muito importante na
prática forense e exaustivamente cobrado nas provas de concurso:
Art. 1.017. A petição de agravo de instrumento será instruída:
I - obrigatoriamente, com cópias da petição inicial, da contestação, da petição que ensejou a decisão
agravada, da própria decisão agravada, da certidão da respectiva intimação ou outro documento
oficial que comprove a tempestividade e das procurações outorgadas aos advogados do agravante e
do agravado;
II - com declaração de inexistência de qualquer dos documentos referidos no inciso I, feita pelo
advogado do agravante, sob pena de sua responsabilidade pessoal;
III - facultativamente, com outras peças que o agravante reputar úteis.

7) O agravante, no prazo de 3 dias, teve que juntar aos autos do processo em 1ª instância cópia da
petição do agravo de instrumento interposto e do comprovante de sua interposição, assim como a
relação dos documentos que instruíram o recurso. Como há algumas inovações no CPC 2015 sobre o
tema, importante você conhecer a nova redação:
CPC 1973 CPC 2015
Art. 526. O agravante, no prazo de 3 (três) dias, Art. 1.018. O agravante poderá requerer a
requererá juntada, aos autos do processo de juntada, aos autos do processo, de cópia da
cópia da petição do agravo de instrumento e do petição do agravo de instrumento, do
comprovante de sua interposição, assim como a comprovante de sua interposição e da relação
relação dos documentos que instruíram o dos documentos que instruíram o recurso.
recurso. § 1º Se o juiz comunicar que reformou
Parágrafo único. O não cumprimento do inteiramente a decisão, o relator considerará
disposto neste artigo, desde que argüido e prejudicado o agravo de instrumento.
provado pelo agravado, importa § 2º Não sendo eletrônicos os autos, o agravante
inadmissibilidade do agravo. tomará a providência prevista no caput, no
prazo de 3 (três) dias a contar da interposição do
agravo de instrumento.
§ 3º O descumprimento da exigência de que
trata o § 2º, desde que arguido e provado pelo
agravado, importa inadmissibilidade do agravo
de instrumento.

8) No Tribunal, o agravo de instrumento foi distribuído incontinenti (imediatamente), sendo sorteado um


Desembargador Relator (art. 527 do CPC 1973 / art. 1.019 do CPC 2015).

9) Relator CONTRÁRIO ao recurso do agravante (art. 527, I do CPC 1973 / art. 932, III e IV do CPC 2015):
O Desembargador Relator poderá, de forma monocrática:
CPC 1973 CPC 2015
Art. 527. Recebido o agravo de instrumento no Art. 932. Incumbe ao relator:
tribunal, e distribuído incontinenti, o relator: III - não conhecer de recurso inadmissível,
I - negar-lhe-á seguimento, liminarmente, nos prejudicado ou que não tenha impugnado
casos do art. 557; especificamente os fundamentos da decisão
(...) recorrida;
Art. 557. O relator negará seguimento a recurso IV - negar provimento a recurso que for
manifestamente inadmissível, improcedente, contrário a:
prejudicado ou em confronto com súmula ou a) súmula do Supremo Tribunal Federal, do

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 11


com jurisprudência dominante do respectivo Superior Tribunal de Justiça ou do próprio
tribunal, do Supremo Tribunal Federal, ou de tribunal;
Tribunal Superior. b) acórdão proferido pelo Supremo Tribunal
Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em
julgamento de recursos repetitivos;
c) entendimento firmado em incidente de
resolução de demandas repetitivas ou de
assunção de competência;
(...)
Parágrafo único. Antes de considerar
inadmissível o recurso, o relator concederá o
prazo de 5 (cinco) dias ao recorrente para que
seja sanado vício ou complementada a
documentação exigível.

10) E se a parte não concordar com essa decisão monocrática do Relator, o que ela poderá fazer?
A parte poderá, neste caso, interpor um agravo interno para o órgão colegiado do Tribunal
questionando a decisão monocrática do Relator.

11) Qual é o prazo desse agravo interno?


 CPC 1973: 5 dias (art. 557, § 2º).
 CPC 2015: 15 dias (art. 1.021, § 2º).

12) Imaginemos que o Relator negou seguimento ao agravo de instrumento e João interpôs um agravo
interno manifestamente infundado ( abusivo ) contra a decisão que negou seguimento ao agravo de
instrumento.
Se o órgão colegiado do Tribunal considerar que o agravo interno ( ag a o egi e tal ) interposto é
manifestamente inadmissível ou improcedente, ele aplicará ao recorrente duas sanções:
12.a) condenará o agravante a pagar ao agravado uma multa;
12.b) condicionará o depósito do valor da multa em juízo para que futuros recursos sejam recebidos.

13) Qual é o valor dessa multa?


 CPC 1973: entre 1% e 10% do valor corrigido da causa;
 CPC 2015: entre 1% e 5% do valor atualizado da causa.

14) Para a aplicação da multa, exige-se que a decisão do Tribunal tenha sido unânime?
 CPC 1973: NÃO. Não era necessário.
 CPC 2015: SIM. A aplicação da multa prevista no art. 1.021, § 4º do novo CPC exige votação unânime.

15) A multa prevista para o agravante que interpuser recurso manifestamente inadmissível ou
improcedente aplica-se também para a Fazenda Pública? A sanção explicada no item "12.a" acima
aplica-se também ao Poder Público?
SIM. Tanto no CPC 1973 como no CPC 2015.

16) A legislação prevê uma segunda punição, qual seja, exige o depósito do valor da multa em juízo para
que futuros recursos sejam recebidos. Essa sanção explicada no item "12.b" acima aplica-se também
para a Fazenda Pública?
 CPC 1973: SIM. O CPC 1973 não falava expressamente sobre a Fazenda Pública ao tratar dessa
sanção. Diante disso, o STJ entendia que, havendo condenação do Poder Público ao pagamento da
multa prevista no art. 557, § 2º, do CPC 1973, a interposição de qualquer outro recurso ficava

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 12


condicionada ao depósito prévio do respectivo valor. Nesse sentido: STJ. 2ª Turma. AgRg no AREsp
553.788-DF, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em 16/10/2014 (Info 551).
 CPC 2015: NÃO. O § 5º do art. 1.021 do CPC 2015 afirma expressamente que não se exige da
Fazenda Pública o depósito prévio do valor da multa, podendo este pagamento ser feito ao final.

17) A multa prevista para o agravante que interpuser recurso manifestamente inadmissível ou
improcedente (item "12.a" acima) aplica-se também para o beneficiário da justiça gratuita?
SIM. No entanto, há uma diferença de tratamento no caso:
 CPC 1973: a parte beneficiária da justiça gratuita não está isenta do pagamento da multa do art.
557, § 2º do CPC 1973. Porém, o recolhimento da multa ficará suspenso por 5 anos para ver se a
parte conseguirá melhorar sua condição econômica e auferir recursos para pagar a sanção,
conforme prevê o art. 12 da Lei nº 1.060/50. Nesse sentido, decidiu o STF, 1ª Turma. RE 775685
AgR-ED/BA, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 17/11/2015 (Info 808). Na prática, ela quase nunca
irá pagar.

 CPC 2015: o novo CPC trata sobre o tema nos §§ 3º e 4º do art. 98. Compare:

Lei nº 1.060/50 CPC 2015


Art. 12. A parte beneficiada pelo isenção do Art. 98 (...)
pagamento das custas ficará obrigada a pagá-las, § 3º Vencido o beneficiário, as obrigações
desde que possa fazê-lo, sem prejuízo do decorrentes de sua sucumbência ficarão sob
sustento próprio ou da família, se dentro de condição suspensiva de exigibilidade e somente
cinco anos, a contar da sentença final, o poderão ser executadas se, nos 5 (cinco) anos
assistido não puder satisfazer tal pagamento, a subsequentes ao trânsito em julgado da decisão
obrigação ficará prescrita. que as certificou, o credor demonstrar que
deixou de existir a situação de insuficiência de
Este art. 12 é revogado pelo novo CPC. recursos que justificou a concessão de
gratuidade, extinguindo-se, passado esse prazo,
tais obrigações do beneficiário.
§ 4º A concessão de gratuidade não afasta o
dever de o beneficiário pagar, ao final, as multas
processuais que lhe sejam impostas.

18) A legislação prevê uma segunda punição, qual seja, exige o depósito do valor da multa em juízo para
que futuros recursos sejam recebidos. Essa sanção explica no item "12.b" acima aplica-se também para
a parte beneficiária da justiça gratuita?
NÃO. O CPC 2015 trata sobre o tema de forma expressa:
Art. 1.021 (...)
§ 5º A interposição de qualquer outro recurso está condicionada ao depósito prévio do valor da multa
prevista no § 4º, à exceção da Fazenda Pública e do beneficiário de gratuidade da justiça, que farão o
pagamento ao final.

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 13


DIREITO PENAL

LEI DE DROGAS
A causa de aumento prevista no inciso V do art. 40 não exige a efetiva transposição da fronteira

Importante!!!
O art. 40, V, da Lei de Drogas prevê que a pena do tráfico e de outros delitos deverá ser
aumentada se ficar "caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre estes e o
Distrito Federal".
Para que incida essa causa de aumento não se exige a efetiva transposição da fronteira
interestadual pelo agente, sendo suficiente a comprovação de que a substância tinha como
destino localidade em outro Estado da Federação.
Ex: João pegou um ônibus em Campo Grande (MS) com destino a São Paulo (SP); algumas horas
depois, antes que o ônibus cruzasse a fronteira entre os dois Estados, houve uma blitz da
polícia no interior do coletivo, tendo sido encontrados 10kg de cocaína na mochila de João, que
confessou que iria levá-la para um traficante de São Paulo.
STF. 1ª Turma. HC 122791/MS, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 17/11/2015 (Info 808).

Imagine a seguinte situação hipotética:


João pegou um ônibus em Campo Grande (MS) com destino a São Paulo (SP).
Ocorre que algumas horas depois, antes que o ônibus cruzasse a fronteira entre os dois Estados, houve
uma blitz da polícia no interior do coletivo, tendo sido encontrados 10kg de cocaína na mochila de João,
que confessou que iria levá-la para um traficante de São Paulo.
O agente foi denunciado pela prática de tráfico de drogas (art. 33 da Lei nº 11.343/2006), com a incidência
de duas causas de aumento previstas no art. 40, III e V:
Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são aumentadas de um sexto a dois terços, se:
(...)
III - a infração tiver sido cometida nas dependências ou imediações de estabelecimentos prisionais, de
ensino ou hospitalares, de sedes de entidades estudantis, sociais, culturais, recreativas, esportivas, ou
beneficentes, de locais de trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou diversões de
qualquer natureza, de serviços de tratamento de dependentes de drogas ou de reinserção social, de
unidades militares ou policiais ou em transportes públicos;
(...)
V - caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre estes e o Distrito Federal;

Como primeira tese, a defesa alegou que o agente levou a droga no transporte público, mas não a
ofereceu nem comercializou para as pessoas que estavam dentro desse meio de transporte. Logo, não
deveria incidir a causa de aumento do inciso III. Essa tese é aceita pela jurisprudência? Para que incida
essa causa de aumento, é necessário que o agente comercialize a droga no interior do transporte
público?
SIM. A majorante do art. 40, III, da Lei 11.343/2006 somente deve ser aplicada nos casos em que ficar
demonstrada a comercialização efetiva da droga em seu interior.
A mera utilização de transporte público para o carregamento da droga não leva à aplicação da causa de
aumento do inciso III do art. 40 da Lei nº 11.343/2006.
Com base em uma interpretação teleológica, o disposto no art. 40, III, somente pode ser aplicado se
houver a comercialização da droga em transporte público, não alcançando a situação de o agente ter sido
surpreendido quando trazia consigo droga em ônibus intermunicipal, sem que nele a tivesse vendido.
STF. 2ª Turma. HC 120624/MS, Red. p/ o acórdão, Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 3/6/2014 (Info 749).
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.295.786-MS, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 18/6/2014 (Info 543).

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 14


Como segunda tese, a defesa alegou que o agente não chegou a atravessar a fronteira de nenhum
Estado, de forma que não houve tráfico "entre Estados da Federação". Logo, não deveria incidir a causa
de aumento do inciso V. Essa tese é aceita pela jurisprudência? Para incidir essa causa de aumento, é
necessário que o agente atravesse as fronteiras?
NÃO. Para que incida a causa de aumento de pena prevista no inciso V do art. 40, não se exige a efetiva
transposição da fronteira interestadual pelo agente, sendo suficiente a comprovação de que a substância
tinha como destino localidade em outro Estado da Federação.
STF. 1ª Turma. HC 122791/MS, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 17/11/2015 (Info 808).
STJ. 6ª Turma. REsp 1370391/MS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 03/11/2015.

DIREITO PROCESSUAL PENAL

INDULTO NATALINO
Período de prova no sursis não pode ser equiparado a cumprimento de pena

Em 2013, a Presidente da República editou o Decreto 8.172/2013 concedendo o indulto


natalino para os condenados que cumprissem os requisitos ali estabelecidos.
No art. 1º, XIII e XIV, o Decreto concedeu indulto para os réus condenados a pena privativa de
liberdade, desde que tivessem cumprido, até 25/12/2013, 1/4 (um quarto) da pena.
Se o condenado foi beneficiado com sursis e já cumpriu mais de 1/4 do período de prova ele
poderá ser beneficiado com o indulto? É possível afirmar que cumprimento do período de
prova no sursis é a mesma coisa que cumprimento de pena?
NÃO. Não é possível o cômputo do período de prova cumprido em suspensão condicional da
pena para preenchimento do requisito temporal objetivo do indulto natalino. O sursis não tem
natureza de pena. Ao contrário, trata-se de uma alternativa à pena, ou seja, um benefício que o
condenado recebe para não ter que cumprir pena. Por essa razão, não se pode dizer que a
pessoa beneficiada com sursis e que esteja cumprindo período de prova se encontre
cumprindo pena. Cumprimento de período de prova não é cumprimento de pena.
STF. 1ª Turma. RHC 128515/BA, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 30/6/2015 (Info 792).
STF. 2ª Turma. HC 123698/PE, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 17/11/2015 (Info 808).

Anistia, graça e indulto:


- são formas de renúncia do Estado ao seu direito de punir;
- classificam-se como causas de extinção da punibilidade (art. 107, II, CP);
- a anistia, a graça e o indulto são concedidas pelo Poder Legislativo (no primeiro caso) ou pelo Poder
Executivo (nos dois últimos), mas somente geram a extinção da punibilidade com a decisão judicial;
- podem atingir crimes de ação penal pública ou privada.

ANISTIA GRAÇA INDULTO


(ou indulto individual) (ou indulto coletivo)
É um benefício concedido pelo Congresso Concedidos por Decreto do Presidente da República.
Nacional, com a sanção do Presidente da
República (art. 48, VIII, CF/88), por meio do Apagam o efeito executório da condenação.
ual se pe doa a p áti a de um fato
criminoso. A atribuição para conceder pode ser delegada ao(s):
Normalmente, incide sobre crimes políticos,  Procurador Geral da República;

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 15


mas também pode abranger outras espécies  Advogado Geral da União;
de delito.  Ministros de Estado.
É concedida por meio de uma lei federal Concedidos por meio de um Decreto.
ordinária.
Pode ser concedida: Tradicionalmente, a doutrina afirma que tais benefícios
 antes do trânsito em julgado (anistia só podem ser concedidos após o trânsito em julgado da
própria); condenação. Esse entendimento, no entanto, está cada
 depois do trânsito em julgado (anistia dia mais superado, considerando que o indulto natalino,
imprópria). por exemplo, permite que seja concedido o benefício
desde que tenha havido o trânsito em julgado para a
acusação ou quando o MP recorreu, mas não para
agravar a pena imposta (art. 5º, I e II, do Decreto
7.873/2012).
Classificação Classificação
a) Propriamente dita: quando concedida a) Pleno: quando extingue totalmente a pena.
antes da condenação. b) Parcial: quando somente diminui ou substitui a pena
b) Impropriamente dita: quando concedida (comutação).
após a condenação.
a) Incondicionado: quando não impõe qualquer
a) Irrestrita: quando atinge indistintamente condição.
todos os autores do fato punível. b) Condicionado: quando impõe condição para sua
b) Restrita: quando exige condição pessoal concessão.
do autor do fato punível. Ex.: exige
primariedade. a) Restrito: exige condições pessoais do agente. Ex.:
exige primariedade.
a) Incondicionada: não se exige condição
b) Irrestrito: quando não exige condições pessoais do
para a sua concessão.
agente.
b) Condicionada: exige-se condição para a
sua concessão. Ex.: reparação do dano.

a) Comum: atinge crimes comuns.


b)Especial: atinge crimes políticos.
Extingue os efeitos penais (principais e Só extinguem o efeito principal do crime (a pena).
secundários) do crime.

Os efeitos de natureza civil permanecem Os efeitos penais secundários e os efeitos de natureza


íntegros. civil permanecem íntegros.
O réu condenado que foi anistiado, se O réu condenado que foi beneficiado por graça ou
cometer novo crime, não será reincidente. indulto, se cometer novo crime, será reincidente.
É um benefício coletivo que, por referir-se É um benefício individual É um benefício coletivo
somente a fatos, atinge apenas os que o (com destinatário certo). (sem destinatário certo).
cometeram. Depende de pedido do É concedido de ofício (não
sentenciado. depende de provocação).

Indulto natalino
É bastante comum o Presidente da República editar um Decreto, no final de todos os anos, concedendo
i dulto. Esse De eto o he ido o o i dulto atali o .
No Decreto de indulto já constam todas as condições para a concessão do benefício. Caso o apenado
atenda a esses requisitos, o juiz das execuções deve reconhecer o direito, extinguindo a pena pelo indulto.

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Decreto 8.172/2013
Em 2013, a Presidente da República editou o Decreto n. 8.172/2013 concedendo o indulto natalino para
os condenados que cumprissem os requisitos ali estabelecidos.
No art. 1º, XIII e XIV, o Decreto concedeu indulto para os réus condenados a pena privativa de liberdade,
desde que tivessem cumprido, até 25/12/2013, 1/4 (um quarto) da pena.

Imagine agora a seguinte situação adaptada:


João foi condenado e recebeu suspensão condicional da pena (sursis).
O sursis é um benefício por meio do qual o indivíduo, mesmo condenado, não irá cumprir pena (a pena
fica suspensa).
Assim, o condenado não ficará preso, mas terá que cumprir algumas condições que são impostas pelo juiz
e que irão durar por certo período (chamado de período de prova). Ex: prestar serviços à comunidade.
Cumprido o período de prova pelo prazo fixado, haverá extinção da punibilidade.
Voltando ao nosso exemplo, após João cumprir 1/4 do período de prova, ele pediu que a ele fosse
concedido o indulto natalino afirmando que o cumprimento do período de prova no sursis seria
equivalente ao cumprimento de pena. Logo, poderia ser estendida a ele, por equiparação, a possibilidade
de indulto prevista no art. 1º, XIII e IX do Decreto.

A tese de João foi aceita pelo STF?


NÃO. Não é possível o cômputo do período de prova cumprido em suspensão condicional da pena para
preenchimento do requisito temporal objetivo do indulto natalino.
O sursis não tem natureza de pena. Ao contrário, trata-se de uma alternativa à pena, ou seja, um benefício
que o condenado recebe para não ter que cumprir pena.
Por essa razão, não se pode dizer que a pessoa beneficiada com sursis e que esteja cumprindo período de
prova se encontre cumprindo pena. Isso não é verdade. Cumprimento de período de prova não é
cumprimento de pena.
STF. 1ª Turma. RHC 128515/BA, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 30/6/2015 (Info 792).
STF. 2ª Turma. HC 123698/PE, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 17/11/2015 (Info 808).

Veja o que diz a doutrina:


I a í el dizer que o sursis seja pena, pois estas estão claramente enumeradas no art. 32 do Código Penal
e a suspensão é medida destinada justamente a evitar a aplicação de uma delas, a privativa de liberdade.
(...) Daí por que é mais indicadotratar o sursis como medida alternativa de cumprimento da pena privativa
de li e dade, ão deixa do de se u e efí io. ... NUCCI, Guilhe e de “ouza. Código Pe al
Comentado. 10ª ed., São Paulo: RT, p. 492).

Confira outro precedente do STF:


(...) O sursis não ostenta a categorização jurídica de pena, mas, antes, medida alternativa a ela; por isso
que não cabe confundir o tempo alusivo ao período de prova exigido para a obtenção desse benefício com
o requisito temporal relativo ao cumprimento de 1/4 da pena privativa de liberdade para alcançar-se o
indulto natalino e, consectariamente, a extinção da punibilidade.
(...)
3. In casu, o paciente foi condenado a 2 (dois) anos de reclusão, pela prática do crime de estelionato
tipificado no art. 251 do Código Penal Militar e, beneficiado com o sursis, teve, a posteriori, negado o
indulto natalino sob o fundamento de que não satisfizera o requisito temporal alusivo ao cumprimento de
1/4 da pena privativa de liberdade, advindo irresignação no sentido de que tal requisito fora satisfeito em
razão do cumprimento do período de provas da suspensão condicional da pena.
4. Destarte, tratando-se de institutos penais diversos, não cabe ter como tempo de cumprimento da pena
o período de prova exigido para a suspensão condicional da pena. (...)
STF. 1ª Turma. HC 117855, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 24/09/2013)

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EXERCÍCIOS
Julgue os itens a seguir:
1) (PGM-Maceió 2012) Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício faz
coisa julgada em relação aos posteriores. Isto se dá em razão da ampla aceitação da teoria da
transcendência dos motivos determinantes na jurisprudência nacional. ( )
2) O art. 40, V, da Lei de Drogas prevê que a pena do tráfico e de outros delitos deverá ser aumentada se
ficar "caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre estes e o Distrito Federal". Para que
incida essa causa de aumento não se exige a efetiva transposição da fronteira interestadual pelo
agente, sendo suficiente a comprovação de que a substância tinha como destino localidade em outro
Estado da Federação. ( )

Gabarito
1. E 2. C

JULGADOS NÃO COMENTADOS

Ha eas o pus de ofí io e e e i e to de de ú ia - 2


Ante a falta de justa causa (CPP, art. 395, III), a Segunda Turma, em conclusão de julgamento, resolveu
uestão de o de pa a o ede , de ofí io, o de de ha eas o pus e ejeita de ú ia pela suposta
prática dos crimes de fraude à licitação (Lei 8.666/1993, art. 90) e peculato (CP, art. 312) — v. Informativo
806. Na espécie, após o recebimento de denúncia por juízo de primeiro grau, a diplomação do acusado
como deputado federal ensejara a remessa dos respectivos autos ao STF para prosseguimento do feito. O
Colegiado afirmou que, nos termos do art. 230-A do Regimento Interno do STF, em havendo deslocamento
de competência para o STF, a ação penal deveria prosseguir no estado em que se encontrasse, preservada
a validade dos atos já praticados na instância a te io , e ho e age ao p i ípio te pus egit a tu .
Contudo, o STF não poderia permitir que uma ação penal inviável prosseguisse, pelo só fato de recebê-la no
estado em que se encontrasse, sob pena de manifesto constrangimento ilegal ao réu. Não bastasse isso, o
prosseguimento do feito acarretaria a desnecessária prática de inúmeros atos de instrução, como a
inquirição de testemunhas e a produção de perícias. Ademais, a justa causa para a ação penal consistiria na
exigência de suporte probatório mínimo a indicar a legitimidade da imputação e se traduziria na existência,
no inquérito policial ou nas peças de informação a instruir a denúncia, de elementos sérios e idôneos que
demonstrassem a materialidade do crime e a existência de indícios razoáveis de autoria. No caso, o
acusado, à época da concorrência supostamente fraudada, da assinatura do contrato e de seus aditivos, da
sua execução, das medições de obra e dos pagamentos à empresa contratada — questões atinentes ao
objeto da ação penal em comento —, não mais seria o chefe do Poder Executivo local, por haver
renunciado ao seu mandato. Portanto, além de não subsistir relação de subordinação hierárquica com os
responsáveis pela licitação, o acusado não mais deteria qualquer poder de mando sobre o curso do
procedimento licitatório e a execução do contrato ora hostilizado. O simples fato de ser governador, à
época em que determinada secretaria de Estado firmara o convênio objeto de apuração, não atrairia a sua
responsabilidade penal pela fraude à licitação subsequente e pelo eventual desvio de verbas na execução
do contrato. Reiterou-se o que decidido na AP 477/RS (DJe de 29.5.2009). Assim, à míngua de elementos
probatórios concretos, constituiria mera criação mental da acusação a pretensa relação de causalidade
entre as doações eleitorais feitas ao réu e o seu suposto concurso para a fraude à licitação e ao desvio de
recursos públicos.
AP 913 QO/AL, rel. Min. Dias Toffoli, 17.11.2015. (AP-913)

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 18


Aquisição de imóvel funcional das Forças Armadas e servidor civil - 3
Em conclusão de julgamento, a Segunda Turma desproveu recurso ordinário em mandado de segurança no
qual pretendida a aquisição de imóvel funcional das Forças Armadas por servidor civil, nos termos da Lei
8.025/1990 e do Decreto 99.664/1990. Na esp ie, o “TJ de ega a o it lá i pet ado ao e te di e to
de que o ora recorrente não ocuparia de forma regular o bem colimado, na medida em que se aposentara
antes da vigência das normas em questão. — v. Informativo 657. A Turma rememorou jurisprudência da
Co te o se tido de ue a o dição de apose tado ão eti a ia do e ue e te o status de legíti o
ocupante do imóvel se o ocupasse regularmente, no momento de sua aposentadoria, nele residindo até a
promulgação da Lei 8.025/1990. De outro lado, reputou que o bem em litígio não poderia ser alienado. Isso
porque administrado pelas Forças Armadas e destinado à ocupação por militares. Explicitou que a limitação
de alheamento desses imóveis residenciais imporia a restrição sobre a coisa, e não sobre o militar. Assim,
explicou que a permissão de compra por civil constituiria interpretação deturpada da legislação. Outrossim,
salientou que o Decreto 99.664/1990 proibiria a venda do imóvel a qualquer pessoa, logo, o óbice não seria
pessoal. Nesse contexto, asseverou que a circunstância de o bem ser administrado pelas Forças Armadas
evidenciaria sua destinação precípua à ocupação por militar, de maneira que sua excepcional ocupação por
civil não o desnaturaria ou desafetaria.
RMS 23111/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, 17.11.2015. (RMS-23111)

OUTRAS INFORMAÇÕES

REPERCUSSÃO GERAL
DJe de 16 a 20 de novembro de 2015

REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 922.144-MG


RELATOR: MIN. ROBERTO BARROSO
Ementa: DIREITO CONSTITUCIONAL E DIREITO ADMINISTRATIVO. DESAPROPRIAÇÃO. GARANTIA DE JUSTA E PRÉVIA
INDENIZAÇÃO EM DINHEIRO. COMPATIBILIDADE COM O REGIME DE PRECATÓRIOS. PRESENÇA DE REPERCUSSÃO GERAL.
1. Constitui questão constitucional saber se e como a justa e prévia indenização em dinheiro assegurada pelo art. 5º, XXIV, da CRFB/1988 se
compatibiliza com o regime de precatórios instituído no art. 100 da Carta.
2. Repercussão geral reconhecida.
REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 914.045-MG
RELATOR: MIN. EDSON FACHIN
RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. REPERCUSSÃO GERAL. REAFIRMAÇÃO DE JURISPRUDÊNCIA. DIREITO
TRIBUTÁRIO E DIREITO PROCESSUAL CIVIL. CLÁUSULA DA RESERVA DE PLENÁRIO. ART. 97 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL.
JURISPRUDÊNCIA DO TRIBUNAL PLENO DO STF. RESTRIÇÕES IMPOSTAS PELO ESTADO. LIVRE EXERCÍCIO DA ATIVIDADE
ECONÔMICA OU PROFISSIONAL. MEIO DE COBRANÇA INDIRETA DE TRIBUTOS.
1. A jurisprudência pacífica desta Corte, agora reafirmada em sede de repercussão geral, entende que é desnecessária a submissão de demanda judicial
à regra da reserva de plenário na hipótese em que a decisão judicial estiver fundada em jurisprudência do Plenário do Supremo Tribunal Federal ou
em Súmula deste Tribunal, nos termos dos arts. 97 da Constituição Federal, e 481, parágrafo único, do CPC.
2. O Supremo Tribunal Federal tem reiteradamente entendido que é inconstitucional restrição imposta pelo Estado ao livre exercício de atividade
econômica ou profissional, quanto aquelas forem utilizadas como meio de cobrança indireta de tributos.
3. Agravo nos próprios autos conhecido para negar seguimento ao recurso extraordinário, reconhecida a inconstitucionalidade, incidental e com os
efeitos da repercussão geral, do inciso III do §1º do artigo 219 da Lei 6.763/75 do Estado de Minas Gerais.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 678.162-AL
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
COMPETÊNCIA – JUSTIÇAS FEDERAL E ESTADUAL – INSOLVÊNCIA CIVIL – ARTIGO 109, INCISO I, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL
– ALCANCE – RECURSO EXTRAORDINÁRIO – REPERCUSSÃO GERAL CONFIGURADA. Possui repercussão geral a controvérsia alusiva à
competência para processar e julgar as ações de insolvência civil nas quais haja interesse da União, entidade autárquica ou empresa pública federal,
considerado o preceito do artigo 109, inciso I, da Constituição Federal.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 887.671-CE
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
ASSISTÊNCIA JURÍDICA INTEGRAL E GRATUITA – DEFENSORIA PÚBLICA – PREENCHIMENTO DE CARGO – CONTROLE JUDICIAL –
SEPARAÇÃO DE PODERES – ALCANCE DOS ARTIGOS 5º, INCISO LXXIV, E 134 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL – RECURSO
EXTRAORDINÁRIO – REPERCUSSÃO GERAL CONFIGURADA. Possui repercussão geral a controvérsia alusiva à possibilidade de o Poder
Judiciário impor o preenchimento de cargo de Defensor Público em localidade desamparada, considerados os preceitos dos artigos 5º, inciso LXXIV,
e 134 da Carta de 1988.

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 19


REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 780.152-DF
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
COISA JULGADA – DESAPROPRIAÇÃO – HONORÁRIOS – AÇÃO CIVIL PÚBLICA – OBJETO – QUESTIONAMENTO – DOMÍNIO –
DEFESA – PATRIMÔNIO PÚBLICO – ALCANCE DOS ARTIGOS 5º, INCISO XXXVI, E 129, INCISO III, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL – RECURSO EXTRAORDINÁRIO – REPERCUSSÃO GERAL CONFIGURADA. Possui repercussão geral a controvérsia alusiva
à possibilidade de ação civil pública ser utilizada como meio hábil a afastar a coisa julgada, em particular quando já transcorrido o biênio para o
ajuizamento da rescisória, considerados os preceitos dos artigos 5º, inciso XXXVI, e 129, inciso III, da Constituição Federal.
Decisões Publicadas: 5

CLIPPING DO D JE
16 a 20 de novembro de 2015

RMS N. 28.428-SP
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
PROCEDIMENTO INVESTIGATÓRIO – RECEBIMENTO – DISTRIBUIÇÃO – APRECIAÇÃO – PRINCÍPIO DA LEGALIDADE –
PORTARIA – INSUBSISTÊNCIA. Cumpre observar o princípio da legalidade, o que se contém no artigo 397 do Código de Processo Penal Militar,
não subsistindo Portaria de teor contrário.
*noticiado no Informativo 798
AG. REG. NO RE N. 798.740-DF
REDATOR P/ O ACÓRDÃO: MIN. MARCO AURÉLIO
RECUPERAÇÃO JUDICIAL – NATUREZA – RECURSO – INADMISSIBILIDADE DECLARADA NA ORIGEM. Questionamento sobre a
natureza estritamente política de atos praticados surge relevante, abrindo a via de acesso ao Supremo.
*noticiado no Informativo 797
MS N. 27.601-DF
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
CONCURSO – ATIVIDADE JURÍDICA – ESPECIFICIDADE – ARTIGO 129, § 3º, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL – ALCANCE. A expressão “três
anos de atividade jurídica”, contida no artigo 129 da Constituição Federal, não encerra vinculação a atividade privativa de bacharel em direito.
*noticiado no Informativo 800
Acórdãos Publicados: 404

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Ação Rescisória - Coisa Julgada Material - Erro de Fato - Conceito - Precedentes (Transcrições)
(v. Informativo 808)
AR 2.347/AM*
RELATOR: Ministro Celso de Mello
EMENTA: AÇÃO RESCISÓRIA. DECISÃO RESCINDENDA QUE APRECIOU O MÉRITO DA CONTROVÉRSIA. CUMULAÇÃO
OBJETIVA, EM ORDEM SUCESSIVA, DO “JUDICIUM RESCINDENS” COM O “JUDICIUM RESCISSORIUM” (CPC, ART. 488, I).
ERRO DE FATO COMO PRESSUPOSTO DE RESCINDIBILIDADE DO JULGADO (CPC, ART. 485, IX E § 1º). ÓRGÃO
JULGADOR QUE, AO DECIDIR A CAUSA, INCIDIU EM ERRO DE PERCEPÇÃO, RECONHECENDO OCORRENTE FATO
EFETIVAMENTE INEXISTENTE. APLICAÇÃO EQUIVOCADA DE PRECEDENTE, FIRMADO EM REPERCUSSÃO GERAL (RE
563.965/RN), QUE NÃO GUARDA QUALQUER PERTINÊNCIA COM A SITUAÇÃO JULGADA PELO ACÓRDÃO RESCINDENDO (RE
602.300-AgR/AM). A NOÇÃO DE ERRO DE FATO NA VISÃO DA JURISPRUDÊNCIA E DA DOUTRINA. POSSIBILIDADE DE
REJULGAMENTO DA CAUSA EM SEDE DE AÇÃO RESCISÓRIA. INVIABILIDADE DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO
INTERPOSTO PELO ESTADO DO AMAZONAS. APELO EXTREMO INCOGNOSCÍVEL, POR VEICULAR CONTROVÉRSIA
INFRACONSTITUCIONAL. DIREITO LOCAL (SÚMULA 280/STF) E OFENSA INDIRETA. PRECEDENTES ESPECÍFICOS DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL QUE DESAUTORIZAM A PRETENSÃO RECURSAL EXTRAORDINÁRIA DEDUZIDA PELO
ESTADO DO AMAZONAS. AÇÃO RESCISÓRIA JULGADA PROCEDENTE.
DECISÃO: Trata-se de ação rescisória ajuizada em 07/01/2013 e que, promovida com fundamento no art. 485, incisos IV e V, do CPC, visa a
desconstituir acórdão emanado da colenda Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal que negou provimento a recurso de agravo interposto
contra decisão monocrática que dera provimento ao apelo extremo deduzido pelo Estado do Amazonas (RE 602.300-AgR/AM).
O acórdão rescindendo – que transitou em julgado em 16/11/2011 – está assim ementado:
“Agravo regimental no recurso extraordinário. Servidor público. Estabilidade financeira. Vantagem incorporada. Revisão.
Inexistência de direito adquirido a regime jurídico. Irredutibilidade de vencimentos. Desvinculação. Possibilidade. Precedentes.
1. É pacífica a jurisprudência desta Corte no sentido de que, embora constitucional o instituto da estabilidade financeira, não há
direito adquirido à forma de reajuste da remuneração, o que implicaria direito adquirido a regime jurídico, ficando assegurada, contudo, a
irredutibilidade de vencimentos.

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 20


2. É possível ao legislador desvincular o cálculo de vantagem pecuniária que foi incorporada pelo servidor inativo daquela ocupada
pelo servidor em atividade, sem que isto represente violação ao texto constitucional.
3. Agravo regimental não provido.”
(RE 602.300-AgR/AM, Rel. Min. DIAS TOFFOLI – grifei)
Sustenta-se, nesta sede processual, que a decisão rescindenda viola o preceito inscrito no art. 5º, inciso XXXVI, da Constituição da
República, postulando os litisconsortes ativos, em síntese, a desconstituição da autoridade da coisa julgada, de um lado (“judicium rescindens”), e o
restabelecimento do acórdão emanado do E. Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas, de outro (“judicium rescissorium”).
O Estado do Amazonas e a Fundação Amazonprev, em sede de contestação, manifestaram-se pela improcedência da presente ação rescisória,
sustentando a não caracterização das hipóteses previstas nos incisos IV e V do art. 485 do CPC e destacando, ainda, existir conflito entre a
pretensão deduzida pelos autores e a orientação que o Supremo Tribunal Federal estabeleceu a propósito da controvérsia em exame.
O Ministério Público Federal, em pronunciamento da lavra do eminente Procurador-Geral da República, Dr. RODRIGO JANOT
MONTEIRO DE BARROS, opinou pela improcedência da presente ação rescisória.
Sendo esse o contexto, passo a examinar a presente causa, fazendo, no entanto, algumas considerações prévias que entendo pertinentes e
necessárias à resolução deste processo.
Registre-se, inicialmente, que “a garantia da coisa julgada não impede que a sentença seja desconstituída através de ação rescisória” (RTJ
83/389, Rel. Min. SOARES MUÑOZ – grifei), valendo observar que a Constituição da República, ao expressamente prever a utilização dessa
verdadeira ação autônoma de impugnação, ajuizável, unicamente, contra provimentos de conteúdo sentencial que tenham julgado o “meritum
causae” (RTJ 105/473, v.g.), viabilizou, ela própria, a possibilidade de desconstituição da coisa julgada em sentido material.
Tratando-se de ação rescisória ajuizada, originariamente, perante o Supremo Tribunal Federal, impõe-se destacar que esse excepcional
remédio processual – que poderá ter por objeto, até mesmo, decisões monocráticas proferidas por Relator nesta Suprema Corte (RTJ 75/29 – RTJ
92/922, v.g.) – somente terá pertinência se o julgamento, colegiado ou singular, houver apreciado, efetivamente, a questão federal controvertida,
quer acolhendo-a, quer repelindo-a (Súmula 249/STF), excluída, no entanto, a possibilidade de qualquer demanda rescisória que vise a invalidar
acórdãos do Supremo Tribunal Federal emanados de julgamento em sede de controle normativo abstrato, como sucede nas ações diretas de
inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade (Lei nº 9.868/99, art. 26) ou, então, nas arguições de descumprimento de
preceito fundamental (Lei nº 9.882/99, art. 12).
Não se desconhece, de outro lado – como assinala o magistério da doutrina (HUMBERTO THEODORO JÚNIOR, “Curso de Direito
Processual Civil”, vol. I/802, item n. 615, 55ª ed., 2014, Forense; JOSÉ CARLOS BARBOSA MOREIRA, “Comentários ao Código de Processo
Civil”, vol. V/205-212, itens ns. 123 a 126, 15ª ed., 2009, Forense; JOSÉ MIGUEL GARCIA MEDINA, “Código de Processo Civil Comentado”,
p. 508/509, itens ns. I e II, 3ª tir., 2011, RT; ARRUDA ALVIM, ARAKEN DE ASSIS e EDUARDO ARRUDA ALVIM, “Comentários ao Código
de Processo Civil”, p. 790, item n. 1, 2012, GZ Editora; LUIZ GUILHERME MARINONI e DANIEL MITIDIERO, “Código de Processo Civil”, p.
516, item n. 4, e p. 521/522, itens ns. 1 e 2, 6ª ed., 2014, RT; NELSON NERY JUNIOR e ROSA MARIA DE ANDRADE NERY, “Código de
Processo Civil Comentado e Legislação Extravagante”, p. 983/984, itens ns. 10 a 13, 14ª ed., 2014, RT; LUIZ FUX, “Curso de Direito
Processual Civil”, vol. I/699-700, item n. 3.7.2, 4ª ed., 2008, Forense, v.g.) –, que o ajuizamento da ação rescisória pode comportar,
eventualmente, a cumulação processual objetiva, em ordem sucessiva, de dois pedidos, cujo exame, por sua vez, ensejará, quando for o caso,
considerado o que dispõem os arts. 488, I, e 494, ambos do CPC, a formulação de um duplo juízo: (a) o “judicium rescindens” (que objetiva a
desconstituição da “res judicata” em sentido material) e (b) o “judicium rescissorium” (que tem por finalidade o rejulgamento da causa).
Fixadas tais premissas, observo que o exame do acórdão rescindendo evidencia que esse ato decisório incorreu na hipótese de
rescindibilidade prevista no art. 485, inciso IX (“erro de fato”) e respectivo § 1º, do CPC, eis que admitiu fato inexistente, ao proclamar,
erroneamente, que o objeto do apelo extremo deduzido perante esta Suprema Corte – que envolvia a discussão sobre a paridade remuneratória entre
servidores inativos do Estado do Amazonas, de um lado, e servidores em atividade lotados na Secretaria de Fazenda dessa mesma unidade da
Federação, de outro – guardava consonância com os fundamentos subjacentes a julgado proferido pelo Plenário desta Suprema Corte no âmbito do
RE 563.965/RN, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA, cuja ementa está assim redigida:
“DIREITOS CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. ESTABILIDADE FINANCEIRA. MODIFICAÇÃO DE FORMA DE
CÁLCULO DA REMUNERAÇÃO. OFENSA À GARANTIA CONSTITUCIONAL DA IRREDUTIBILIDADE DA REMUNERAÇÃO:
AUSÊNCIA. JURISPRUDÊNCIA. LEI COMPLEMENTAR N. 203/2001 DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE:
CONSTITUCIONALIDADE.
1. O Supremo Tribunal Federal pacificou a sua jurisprudência sobre a constitucionalidade do instituto da estabilidade financeira e
sobre a ausência de direito adquirido a regime jurídico.
2. Nesta linha, a Lei Complementar n. 203/2001, do Estado do Rio Grande do Norte, no ponto que alterou a forma de cálculo de
gratificações e, consequentemente, a composição da remuneração de servidores públicos, não ofende a Constituição da República de 1988,
por dar cumprimento ao princípio da irredutibilidade da remuneração.
3. Recurso extraordinário ao qual se nega provimento.” (grifei)
Nota-se da análise de referido julgado que esta Suprema Corte limitou-se, naquela oportunidade (RE 563.965/RN), a assentar a
constitucionalidade do instituto da estabilidade financeira e a confirmar a ausência de direito adquirido a regime jurídico remuneratório, não se
podendo extrair, por isso mesmo, de referido provimento judicial qualquer inferência sobre a inconstitucionalidade de equiparação remuneratória
entre servidores integrantes de carreiras distintas promovida por ato normativo estadual, tal como registrado no acórdão cuja desconstituição
postula-se na presente sede processual.
Verifica-se, portanto, que o acórdão rescindendo desconstituiu a decisão proferida pelo E. Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas,
tomando por base matéria essencialmente estranha à razão de decidir subjacente ao julgado emanado daquela Corte judiciária local.
Ao assim proceder, a colenda Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal incorreu em erro de fato, o que legitima, plenamente, a
aplicação, ao caso, do art. 485, inciso IX e respectivo § 1º, do CPC.
Cumpre relembrar, neste ponto, a propósito do erro de fato, a advertência formulada pelo eminente Ministro MOREIRA ALVES em
julgamento no qual se instaurou controvérsia sobre essa específica hipótese de rescindibilidade dos julgados, ocasião em que salientou, a esse
respeito, que o erro de fato, “para dar margem à rescisória, ocorre quando a decisão rescindenda admite fato inexistente, ou quando considera
inexistente fato efetivamente ocorrido, desde que não tenha havido controvérsia, nem pronunciamento judicial, sobre o fato (art. 485, IX, §§ 1º e 2º,
do Código de Processo Civil)” (RTJ 185/441-442, 451, Rel. Min. MOREIRA ALVES – grifei).
Esta Suprema Corte, na decisão ora rescindenda, supôs (erroneamente) existente um fato (efetivamente) inocorrente, pois admitiu que o
acórdão emanado do Tribunal de origem divergia de orientação jurisprudencial pacífica desta Suprema Corte, quando, na realidade, o julgado
oriundo da colenda Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, além de referir-se a matéria substancialmente diversa (“estabilidade financeira”),
fundamentou-se em questão eminentemente infraconstitucional de índole local, para prover o pleito formulado pelo Estado do Amazonas, ora
litisconsorte passivo.
Vale reproduzir, por oportuno, fragmento do voto condutor do acórdão rescindendo, revelador do manifesto equívoco em que esta Corte
incidiu no julgamento do RE 602.300-AgR/AM:

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 21


“O Tribunal de Justiça concedeu a segurança, sob o fundamento de que os agravantes se aposentaram com a dita gratificação já
incorporada aos seus vencimentos, fazendo jus, portanto, ao recebimento do benefício, da forma como por eles postulada.
Desse modo, é certo que o Tribunal de origem divergiu do entendimento firmado pelo Plenário desta Corte, no exame do Recurso
Extraordinário nº 563.965/RN, Relatora a Ministra Cármen Lúcia, no qual, após reconhecida a repercussão geral da matéria, reafirmou-se
a jurisprudência deste Tribunal no sentido de que, embora constitucional o instituto da estabilidade financeira, não há direito adquirido à
forma de cálculo da remuneração, o que implicaria direito adquirido a regime jurídico, ficando assegurada, contudo, a irredutibilidade de
vencimentos.” (grifei)
Os fundamentos que venho de referir permitem invocar, em face de sua extrema pertinência, precedentes do Supremo Tribunal Federal nos
quais esta Corte, ao fazer incidir o art. 485, inciso IX e respectivo § 1º, do CPC, deixou assentado o cabimento da ação rescisória, quando razoável
presumir que o magistrado ou Tribunal não teria decidido a controvérsia nos termos em que o fez, não fosse a percepção errônea por ele revelada
no exame equivocado dos dados existentes nos autos e que constituíram objeto de inadequada apreciação judicial (AR 1.450-AgR/SP, Rel. Min.
CELSO DE MELLO – AR 1.605/SP, Rel. Min. LUIZ FUX – AR 1.607/MS, Red. p/ o acórdão Min. EROS GRAU – AR 1.916/SP, Rel. Min.
CELSO DE MELLO – AR 2.124/ES, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI, v.g.):
“– Ação rescisória.
– Configuração, no caso, de erro de fato, pois o acórdão rescindendo admitiu a ocorrência de acontecimento inexistente, sem que
tenha havido pronunciamento judicial sobre ele.
Ação rescisória que se julga procedente.”
(RTJ 137/124, Rel. Min. MOREIRA ALVES – grifei)
“AÇÃO RESCISÓRIA – ERRO DE FATO (Art. 485, IX, do CPC):
Somente se admite a rescisória fundada nesse inciso processual quando for razoável presumir que o juiz não teria julgado como o fez
se tivesse atentado para a prova, e não quando a apreciou e, bem ou mal, firmou sua convicção. – Inexistência, ainda, de ofensa aos preceitos
constitucionais e legais invocados. Ação rescisória julgada improcedente.”
(AR 991/PB, Rel. Min. CUNHA PEIXOTO – grifei)
Perfilhando essa mesma orientação, assim se pronunciou o eminente Ministro MOREIRA ALVES no julgamento da AR 1.306/SP (RTJ
136/55), de que foi Relator:
“O erro de fato que dá margem à rescisória é aquele que, observados os requisitos do inciso IX do artigo 485, Código de Processo
Civil, serve de fundamento à sentença rescindível, que teria chegado a conclusão diversa não fora ele.” (grifei)
Cabe assinalar, por oportuno, que o Supremo Tribunal Federal, em recente julgamento plenário, reafirmou a jurisprudência da Corte sobre o
tema, proferindo, então, decisão consubstanciada em acórdão assim ementado:
“AÇÃO RESCISÓRIA – APOSENTADORIA POR IDADE DE TRABALHADOR RURAL – ACÓRDÃO RESCINDENDO QUE,
DANDO PROVIMENTO AO RECURSO EXTRAORDINÁRIO INTERPOSTO PELO INSS, JULGOU IMPROCEDENTE A AÇÃO
PREVIDENCIÁRIA AJUIZADA PELO SEGURADO – APLICAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DESTA SUPREMA CORTE NO SENTIDO
DA NECESSIDADE DA ‘INTERPOSITIO LEGISLATORIS’, PARA EFEITO DE APLICABILIDADE DO ART. 202, I, DA CONSTITUIÇÃO
DA REPÚBLICA, EM SUA REDAÇÃO PRIMITIVA – ERRO DE FATO (CPC, ART. 485, IX E § 1º) – ACÓRDÃO RESCINDENDO QUE
ADMITIU FATO INEXISTENTE, AO PROCLAMAR, ERRONEAMENTE, QUE A SITUAÇÃO VERSADA NOS AUTOS TERIA
OCORRIDO ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI INSTITUIDORA DO PLANO DE BENEFÍCIOS DO REGIME GERAL DE PREVIDÊNCIA
SOCIAL (LEI Nº 8.213/91) – CONSTATAÇÃO DE QUE O ÓRGÃO JULGADOR NÃO TERIA DECIDIDO A CONTROVÉRSIA, NOS
TERMOS EM QUE O FEZ, NÃO FOSSE A PERCEPÇÃO ERRÔNEA POR ELE REVELADA NO EXAME EQUIVOCADO DOS DADOS
EXISTENTES NOS AUTOS – A OCORRÊNCIA DE ERRO DE FATO COMO PRESSUPOSTO DE RESCINDIBILIDADE DOS
JULGADOS (CPC, ART. 485, n. IX) – A NOÇÃO DE ERRO DE FATO NA VISÃO DA JURISPRUDÊNCIA E DA DOUTRINA – PARECER
DA PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA PELO IMPROVIMENTO DO RECURSO – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO.”
(AR 1.450-AgR/SP, Rel. Min. CELSO DE MELLO)
Cumpre ter presente, ainda, a precisa lição de BERNARDO PIMENTEL SOUZA (“Introdução aos Recursos e à Ação Rescisória”, p.
387, 2000, Brasília Jurídica) no sentido de que “o erro que pode ser corrigido na ação rescisória é o de percepção do julgador, não o proveniente
da interpretação das provas” (grifei).
Importante ressaltar, por oportuno, o autorizado magistério de PONTES DE MIRANDA (“Tratado da Ação Rescisória”, p. 343, 2ª ed.,
2003, Bookseller), que, manifestando-se sobre essa específica hipótese de rescindibilidade, sustenta que “A distinção entre erro escusável e erro
inescusável é estranha ao erro de que tratamos como causa de rescindibilidade. A sentença, e não qualquer litigante, foi que admitiu o fato
inexistente, ou negou o fato existente. O erro é do juiz” (grifei).
Na linha desse entendimento, ADA PELLEGRINI GRINOVER (“Ação Rescisória. Erro de Fato. Atualização de Dívida de Dinheiro
Como Sendo de Valor”, “in” Revista da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas, p. 201, Ano XIX, nº XIV, 1985), por sua vez,
assevera que “Consiste o erro de fato em admitir a sentença um fato inexistente, ou em considerar inexistente um fato efetivamente ocorrido. E os
pressupostos que devem concorrer para que o erro dê causa à rescindibilidade são: a) que a sentença nele seja fundada, ou seja, que, sem o erro,
outra seria a decisão; b) que o erro seja apurável mediante simples exame dos autos, afastada a possibilidade de novas provas para comprová-lo; c)
que não tenha havido controvérsia sobre o fato, com o pronunciamento judicial sobre a mesma” (grifei).
Relevante destacar que perfilha essa orientação o eminente Ministro (e notável processualista) LUIZ FUX, que expende, em obra
doutrinária (“Curso de Direito Processual Civil”, vol. I/688-689, item n. 3.4, 4ª ed., 2008, Forense), a propósito da hipótese de rescindibilidade
prevista no art. 485, inciso IX, do CPC, valiosas observações que se aplicam, com inteira pertinência, ao caso ora em exame.
São essas as razões que me levam a acolher a pretensão rescindente dos litisconsortes ativos, por entender configurado o pressuposto de
rescindibilidade a que se refere o inciso IX do art. 485 do CPC.
Uma vez desconstituída a decisão rescindenda, passo ao rejulgamento da causa, fazendo-o com apoio no “judicium rescissorium” que se
legitima, processualmente, em razão do que autoriza o art. 494 do CPC, que assim dispõe: “Julgando procedente a ação, o tribunal rescindirá a
sentença, proferirá, se for o caso, novo julgamento (…)” (grifei).
Ao fazê-lo, e tendo em vista o pedido expressamente formulado pelos litisconsortes ativos na inicial (“Do pedido”, item “c”), entendo que o
recurso extraordinário interposto pelo Estado do Amazonas revela-se insuscetível de conhecimento, eis que a suposta ofensa ao texto constitucional
invocada por essa unidade da Federação, caso existente, apresentar-se-ia por via reflexa, porque a sua constatação reclamaria – para que se
configurasse – a formulação de juízo prévio de legalidade, fundado na vulneração e infringência de dispositivos de ordem meramente legal. Não se
tratando de conflito direto e frontal com o texto da Constituição, como exigido pela jurisprudência da Corte (RTJ 120/912, Rel. Min. SYDNEY
SANCHES – RTJ 132/455, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), torna-se inviável o acesso à via recursal extraordinária.

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 22


De outro lado, cabe enfatizar que a matéria ora em análise foi decidida com base no direito local, sem qualquer repercussão direta no plano
normativo da Constituição da República, configurando, por isso mesmo, situação que inviabiliza, por completo, por efeito do que dispõe a Súmula
280/STF, a possibilidade de utilização do recurso extraordinário.
Impõe-se registrar, no que concerne ao próprio fundo da controvérsia que se suscitou na causa examinada pelo acórdão da 1ª Turma desta
Corte, que o entendimento exposto na presente decisão tem sido observado em julgamentos sobre casos idênticos, todos oriundos do Estado do
Amazonas, proferidos no âmbito desta Suprema Corte (ARE 725.266-AgR/AM, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – ARE 737.230/AM, Rel. Min. CÁRMEN
LÚCIA – ARE 776.848-AgR/AM, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – RE 642.123-AgR/AM, Rel. Min. AYRES BRITTO – RE 642.621-AgR/AM, Rel. Min.
RICARDO LEWANDOWSKI – RE 660.717-AgR/AM, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – RE 682.038-AgR/AM, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – RE 683.173-
AgR/AM, Rel. Min. ROBERTO BARROSO – RE 683.330/AM, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA – RE 698.789-AgR/AM, Rel. Min. GILMAR MENDES,
v.g.):
“AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO. SERVIDOR PÚBLICO. SISTEMA REMUNERATÓRIO.
ATUALIZAÇÃO DA GRATIFICAÇÃO DE ATIVIDADE INDUSTRIAL – GAI. CONTROVÉRSIA DECIDIDA À LUZ DA
LEGISLAÇÃO ESTADUAL PERTINENTE. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 280/STF.
1. Eventual ofensa ao Magno Texto apenas ocorreria de modo reflexo ou indireto, o que não autoriza a abertura da via recursal
extraordinária. Precedentes.
2. Agravo regimental desprovido.”
(RE 663.049-AgR/AM, Rel. Min. AYRES BRITTO – grifei)
“Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Administrativo. Servidor Público. Gratificação de atividade industrial
(GAI). Decreto do Estado do Amazonas nº 16.282/94. Legislação local. Ofensa reflexa. Fatos e provas. Reexame. Impossibilidade.
Precedentes.
1. Não se presta o recurso extraordinário para a análise da legislação local, tampouco para o reexame do conjunto fático-probatório
da causa. Incidência das Súmulas nºs 280 e 279/STF.
2. Agravo regimental não provido.”
(RE 677.239-AgR/AM, Rel. Min. DIAS TOFFOLI – grifei)
“AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. ADMINISTRATIVO. SERVIDORES
PÚBLICOS DO ESTADO DO AMAZONAS. GRATIFICAÇÃO DE ATIVIDADE INDUSTRIAL. DECRETO ESTADUAL 16.282/1994.
MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL LOCAL. SÚMULA 280 DO STF. EXAME DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO
CONSTANTE DOS AUTOS. SÚMULA 279 DO STF. AGRAVO A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
I – Inviável o recurso extraordinário quando sua apreciação demanda reexame, por esta Corte, da legislação infraconstitucional
local aplicável à espécie. Incidência da Súmula 280 do STF.
II – Para se chegar à conclusão contrária à adotada pelo acórdão recorrido, necessário seria o reexame do conjunto fático-
probatório constante dos autos, o que atrai a incidência da Súmula 279 do STF.
III – Agravo regimental a que se nega provimento.”
(ARE 724.627-AgR/AM, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI – grifei)
Impende assinalar, por oportuno, em face de sua extrema pertinência e ante a inquestionável procedência de suas observações, a seguinte
passagem da decisão que o eminente Ministro DIAS TOFFOLI proferiu em outra causa, de que foi Relator (RE 590.031-AgR/AM), em cujo
âmbito discutiu-se a mesma controvérsia jurídica ora veiculada na presente sede processual:
“(...) a jurisprudência desta Corte firmou o entendimento de que, para analisar o direito de equiparação salarial entre os servidores
da Secretaria da Fazenda do Estado do Amazonas e os servidores da Secretaria de Estado da Indústria, Comércio e Turismo do mesmo
Estado, seria necessário interpretar a legislação infraconstitucional pertinente (Decreto Estadual nº 16.282/94), cujo reexame é incabível
em sede de recurso extraordinário.” (grifei)
Vê-se, desse modo, que os fundamentos que venho de referir levam-me a reconhecer que o recurso extraordinário interposto pelo Estado do
Amazonas revela-se efetivamente insuscetível de conhecimento.
Impõe-se, finalmente, uma observação adicional: no desempenho dos poderes processuais de que dispõe, assiste ao Ministro Relator
competência plena para exercer, monocraticamente, o controle das ações, pedidos ou recursos dirigidos ao Supremo Tribunal Federal, legitimando-
se, em consequência, os atos decisórios que, nessa condição, venha a praticar (RISTF, art. 21, § 1º).
Cumpre acentuar, neste ponto, que eminentes Juízes desta Suprema Corte têm decidido, monocraticamente, ações rescisórias, examinando-as
quanto ao próprio fundo da controvérsia nelas suscitada (AR 1.411/PE, Rel. Min. AYRES BRITTO – AR 1.507/RN, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – AR
1.509/RS, Rel. Min. DIAS TOFFOLI – AR 1.521/RS, Rel. Min. EDSON FACHIN – AR 1.539/AM, Rel. Min. AYRES BRITTO – AR 1.670/SP, Rel.
Min. CELSO DE MELLO – AR 1.891/MG, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – AR 2.075/SP, Rel. Min. LUIZ FUX – AR 2.297/PR, Rel. Min.
EDSON FACHIN – AR 2.315/PR, Rel. Min. EDSON FACHIN, v.g.).
Nem se alegue que tal conduta implicaria transgressão ao princípio da colegialidade, eis que o postulado em questão sempre restará
preservado ante a possibilidade de submissão da decisão singular ao controle recursal dos órgãos colegiados no âmbito do Supremo Tribunal
Federal, consoante esta Corte tem reiteradamente proclamado (RTJ 181/1133-1134, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – AI 159.892-AgR/SP, Rel.
Min. CELSO DE MELLO).
Sendo assim, e em face das razões expostas, julgo procedente a presente ação rescisória, para, desconstituindo a autoridade da coisa julgada
que se formou no âmbito do RE 602.300-AgR/AM, não conhecer do recurso extraordinário interposto pelo Estado do Amazonas, restabelecendo,
em consequência, o acórdão que o E. Tribunal de Justiça amazonense proferiu no julgamento do MS 2007.1754-9.
Por tratar-se de beneficiários da gratuidade de justiça, os autores da presente demanda rescisória foram dispensados da efetivação do
depósito a que se refere o art. 488, inciso II, do CPC.
As custas processuais e a verba honorária, que arbitro em 10% (dez por cento) sobre o valor atualizado da causa (CPC, art. 20, § 4º), serão
pagas pelo Estado do Amazonas e pelo Fundo Previdenciário do Estado do Amazonas – AMAZONPREV, que sucumbiram integralmente, sendo
inaplicável a Súmula 512/STF, na linha de diversos precedentes desta Corte (AR 1.509/RS, Rel. Min. DIAS TOFFOLI – AR 2.297/PR, Rel. Min.
EDSON FACHIN – AR 2.374/RS, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI, v.g.).
2. À Secretaria, para retificar a autuação, em ordem a que conste, como litisconsorte passiva, nesta ação rescisória, a FUNDAÇÃO
AMAZONPREV, atual denominação do FUNDO PREVIDENCIÁRIO DO ESTADO DO AMAZONAS – AMAZONPREV, conforme indicado na petição
protocolada, eletronicamente, sob o nº 25827/2013 (contestação).

Arquivem-se os presentes autos.

Publique-se.

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 23


Brasília, 16 de outubro de 2015.

Ministro CELSO DE MELLO


Relator

*decisão publicada no DJe de 21.10.2015

INOVAÇÕES LEGISLATIVAS
16 a 20 de novembro de 2015

Decreto de 18.11.2015 - Convoca as Conferências Nacionais dos Direitos da Criança e do Adolescente, dos
Direitos da Pessoa Idosa, de Políticas Públicas de Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais, dos Direitos da Pessoa com Deficiência e de Direitos Humanos. Publicado no DOU, Seção 1, Edição nº
221, em 19.11.2011.
Decreto nº 8.573, de 19.11.2015 - Dispõe sobre o Consumidor.gov.br, sistema alternativo de solução de conflitos
de consumo, e dá outras providências. Publicado no DOU, Seção 1, Edição nº 222, em 20.11.2015.
Lei nº 13.190, de 19.11.2015 - Altera as Leis nos 12.462, de 4 de agosto de 2011, que institui o Regime
Diferenciado de Contratações Públicas - RDC, 7.210, de 11 de julho de 1984, 6.015, de 31 de dezembro de 1973, 8.935,
de 18 de novembro de 1994, 11.196, de 21 de novembro de 2005, e 12.305, de 2 de agosto de 2010; e dá outras providências.
Publicada no DOU, Seção 1, Edição Extra nº 222, p. 1, em 20.11.2015.
Secretaria de Documentação – SDO
Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 808-STF (26/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 24


Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos em virtude de pedidos de vista: RE
194704/MG; ADI 1625/DF; PSV 115/DF; ARE 785068/DF; MS 32569/DF.

Julgados excluídos por terem menor relevância para concursos públicos ou por terem sido decididos com base em
peculiaridades do caso concreto: ADI 5365 MC-AgR/PB; RMS 29914/DF.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
COMPETÊNCIAS LEGISLATIVAS
 Inconstitucionalidade de lei estadual que prevê punições para quem exige teste de gravidez nas contratações.

DIREITO ADMINISTRATIVO
SERVIDORES TEMPORÁRIOS
 Competência da Justiça Comum.

DIREITO ELEITORAL
FINANCIAMENTO DE CAMPANHA ELEITORAL
 Inconstitucionalidade da norma que permitia doações anônimas a candidatos

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


SERVIDORES TEMPORÁRIOS
 Competência da Justiça Comum.

DIREITO CONSTITUCIONAL

COMPETÊNCIAS LEGISLATIVAS
Inconstitucionalidade de lei estadual que prevê punições
para quem exige teste de gravidez nas contratações

É inconstitucional lei estadual que preveja punições a empresas privadas e a agentes públicos
que exijam a realização de teste de gravidez e a apresentação de atestado de laqueadura para
admissão de mulheres ao trabalho.
STF. Plenário. ADI 3165/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 11/11/2015 (Info 807).

Imagine a seguinte situação:


O Estado de São Paulo aprovou a Lei nº 10.849/2001, de iniciativa parlamentar, prevendo punições a
empresas privadas e a agentes públicos que exigirem, de mulheres candidatas a uma vaga de
emprego/cargo, a realização de teste de gravidez e a apresentação de atestado de laqueadura.

Informativo 807-STF (19/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


Essa lei é constitucional?
NÃO. É inconstitucional lei estadual que preveja punições a empresas privadas e a agentes públicos que
exijam a realização de teste de gravidez e a apresentação de atestado de laqueadura para admissão de
mulheres ao trabalho.

Inconstitucionalidade formal
A inconstitucionalidade, no caso, é formal. Isso porque a competência para legislar sobre direito do
trabalho é da União, nos termos do art. 22, I, da CF/88.
Vale ressaltar que já existe a Lei federal nº 9.029/95, que proíbe a exigência de atestados de gravidez e
esterilização, e outras práticas discriminatórias, para efeitos admissionais ou de permanência da relação
jurídica de trabalho.
Assim, como não existe omissão legislativa por parte da União, não poderia o Estado-membro ter legislado
sobre o tema.
Além disso, haveria vício de forma, uma vez que a lei estadual cuida de servidor público, mas ela foi
proposta por um Deputado Estadual, violando a reserva privativa do chefe do Poder Executivo (art. 61, §
1º, II, "c", da CF/88).

Não confunda
É proibido exigir, como condição para contratação da mulher, a realização de teste de gravidez ou de
qualquer procedimento de esterilização. A lei estadual foi declarada, contudo, inconstitucional porque
tratar sobre esse tema é competência da União e já existe lei federal dispondo sobre o assunto.

DIREITO ADMINISTRATIVO

SERVIDORES TEMPORÁRIOS
Competência da Justiça Comum

Importante!!!
A justiça comum é competente para processar e julgar causas em que se discuta a validade de
vínculo jurídico-administrativo entre o poder público e servidores temporários.
Dito de outra forma: a Justiça competente para julgar litígios envolvendo servidores temporários
(art. 37, IX, da CF/88) e a Administração Pública é a JUSTIÇA COMUM (estadual ou federal).
A competência NÃO é da Justiça do Trabalho, ainda que o autor da ação alegue que houve
desvirtuamento do vínculo e mesmo que ele formule os seus pedidos baseados na CLT ou na lei
do FGTS.
STF. Plenário. Rcl 4351 MC-AgR/PE, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Dias Toffoli,
julgado em 11/11/2015 (Info 807).

O art. 37, IX da CF/88 dispõe o seguinte:


IX - a lei estabelecerá os casos de contratação por tempo determinado para atender a necessidade
temporária de excepcional interesse público;

Se a pessoa, contratada nas hipóteses do art. 37, IX, da CF/88, quer pedir judicialmente valores
decorrentes deste vínculo, de quem será a competência para julgar este pleito?
Justiça Comum. O STF possui entendimento pacífico de que a competência é da JUSTIÇA COMUM,
estadual (se o contratante for Estado ou Município) ou federal (se o contratante for órgão ou entidade

Informativo 807-STF (19/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


federal). Assim, a Justiça do Trabalho não é competente em tais casos.
Mesmo que tais contratos tenham sido prorrogados sucessivamente, de maneira irregular, ainda assim
persiste o caráter jurídico-administrativo do vínculo, de modo que a competência é da Justiça comum.
Em resumo: para o STF, os direitos relativos ao contrato de trabalho temporário, de que trata o art. 37, IX
da CF, são SEMPRE julgados pela Justiça comum. Nesse sentido: Confira:
Conforme o julgamento proferido no RE 573202, rel. min. Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, DJ
05.12.2008, compete à Justiça comum estadual o julgamento de causas que digam respeito a contratos
temporários celebrados pela Administração Pública municipal, nos termos do artigo 37, IX, da
Constituição.
(AI 784188 AgR, Relator Min. Joaquim Barbosa, 2ª Turma, julgado em 10/05/2011)

DIREITO ELEITORAL

FINANCIAMENTO DE CAMPANHA ELEITORAL


Inconstitucionalidade da norma que permitia doações anônimas a candidatos

A parte final do § 12 do art. 28 da Lei nº 9.504/97 prevê a possibilidade de "doações ocultas"


de pessoas físicas a candidatos, ou seja, sem que os nomes dos doadores fiquem registrados na
prestação de contas. Veja: "§ 12. Os valores transferidos pelos partidos políticos oriundos de
doações serão registrados na prestação de contas dos candidatos como transferência dos
partidos e, na prestação de contas dos partidos, como transferência aos candidatos, sem
individualização dos doadores." (Incluído pela Lei nº 13.165/2015)
O Plenário deferiu pedido de medida cautelar na ADI para suspender, até o julgamento final da
ação, a eficácia da expressão sem individualização dos doadores , constante desse dispositivo.
Para o STF, essa expressão suprime a transparência do processo eleitoral, frustra o exercício da
fiscalização pela Justiça Eleitoral e impede que o eleitor exerça, com pleno esclarecimento, seu
direito de escolha dos representantes políticos. Isso atenta contra a arquitetura republicana e a
inspiração democrática que a Constituição Federal imprime ao Estado brasileiro.
STF. Plenário. ADI 5394 MC/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 12/11/2015 (Info 807).

Doações ocultas
O art. 28, § 12 da Lei nº 9.504/97 prevê a possibilidade de "doações ocultas" de pessoas físicas a
candidatos, ou seja, sem que os nomes dos doadores fiquem registrados na prestação de contas. Veja:
§ 12. Os valores transferidos pelos partidos políticos oriundos de doações serão registrados na prestação
de contas dos candidatos como transferência dos partidos e, na prestação de contas dos partidos, como
transferência aos candidatos, sem individualização dos doadores. (Incluído pela Lei nº 13.165/2015)

ADI
O Conselho Federal da OAB ajuizou ADI contra esse dispositivo, que foi incluído pela Lei nº 13.165/2015.
A entidade argumentou que o dispositivo é inconstitucional, pois permite que doações feitas a partidos
possam ser repassadas a candidatos sem a demonstração da origem dos recursos, o que violaria o
princípio da transparência e o princípio da moralidade, além de favorecer a corrupção, dificultando o
rastreamento das doações eleitorais.
Segundo a petição inicial, doações ocultas são aquelas em que não é possível identificar o vínculo entre
doadores e candidatos. Nesse modelo, a pessoa física doa dinheiro para o partido, que repassa ao
candidato, sem que o processo seja transparente.
áà possi ilidadeà deà doaçõesà o ultas à deà pessoasà físi asà aà a didatosà podeà sustentar relações pouco

Informativo 807-STF (19/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


republicanas entre os políticos e seus financiadores. A ausência de transparência impede a identificação
dos interesses por trás da atuação do candidato, dificultando eventuais investigações e impedindo que o
eleitor decida de modo informado.
É preciso que o eleitor saiba quem financia seus candidatos, compreendendo todo o caminho do dinheiro
nas campanhas eleitorais.

O STF apreciou o pedido de liminar formulado na ação. O que decidiu a Corte? Em uma análise liminar, o
dispositivo viola a Constituição Federal?
SIM. O Plenário deferiu pedido de medida cautelar na ADI para suspender, até o julgamento final da ação,
aàefi iaàdaàexp essãoà se ài di idualizaçãoàdosàdoado es ,à o stante da parte final do § 12 do art. 28 da
Lei nº 9.504/1997, acrescentado pela Lei 13.165/2015.
álé àdisso,à o fe iu,àpo à aio ia,àefeitosà exàtu à àde isão.à
A parte final do § 12 do art. 38 da Lei nº 9.504/97, acrescentado pela Lei nº 13.365/2015, suprime a
transparência do processo eleitoral, frustra o exercício da fiscalização pela Justiça Eleitoral e impede que o
eleitor exerça, com pleno esclarecimento, seu direito de escolha dos representantes políticos. Isso atenta
contra a arquitetura republicana e a inspiração democrática que a Constituição Federal imprime ao Estado
brasileiro.

Fundamentação
O STF afirmou que é necessário que haja um efetivo sistema de controle dos recursos arrecadados por
partidos e candidatos. Para isso, é indispensável que haja transparência nas contas eleitorais.
Sem as informações necessárias, entre elas a identificação dos particulares que contribuíram
originariamente para os partidos e candidatos, o processo de prestação de contas perde a sua capacidade
de documentar a real movimentação financeira, os dispêndios e os recursos aplicados nas campanhas
eleitorais, impedindo a fiscalização por parte da Justiça Eleitoral e o controle pelos eleitores. As
informações sobre as doações de particulares a candidatos e a partidos não interessam apenas à Justiça
Eleitoral, mas à sociedade como um todo.
A identificação dos particulares que fizeram doações eleitorais é informação essencial para que se possa
constatar se as doações provêm de fontes lícitas e se respeitam os limites máximos de valor previstos no
art. 23 da Lei nº 9.504/97.
Por fim, o acesso a esses dados ainda propicia o aperfeiçoamento da própria política legislativa de
combate à corrupção eleitoral, ajudando a denunciar as fragilidades do modelo e a inspirar propostas de
correção futuras.

Decisão aplicável às eleições de 2016


Vale ressaltar que a decisão do STF já vale para as eleições de 2016, ou seja, não poderá haver doações ocultas.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

SERVIDORES TEMPORÁRIOS
Competência da Justiça Comum

Importante!!!
A justiça comum é competente para processar e julgar causas em que se discuta a validade de
vínculo jurídico-administrativo entre o poder público e servidores temporários.
Dito de outra forma: a Justiça competente para julgar litígios envolvendo servidores temporários
(art. 37, IX, da CF/88) e a Administração Pública é a JUSTIÇA COMUM (estadual ou federal).

Informativo 807-STF (19/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 4


A competência NÃO é da Justiça do Trabalho ainda que o autor da ação alegue que houve
desvirtuamento do vínculo e mesmo que ele formule os seus pedidos baseados na CLT ou na lei
do FGTS.
STF. Plenário. Rcl 4351 MC-AgR/PE, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Dias Toffoli,
julgado em 11/11/2015 (Info 807).

JULGADOS NÃO COMENTADOS

Suspensão de ações judiciais em ADI e precatório


O Plenário, por maioria, negou provimento a agravo regimental interposto de decisão acauteladora
proferida em ação direta de inconstitucionalidade, ajuizada em face da LC 131/2015 do Estado da Paraíba.
A norma prevê a transferência de depósitos judiciais para conta específica do Poder Executivo, para
pagamento de precatórios de qualquer natureza e outras finalidades. A decisão agravada suspendera
diferentes ações judiciais que determinavam o sequestro dos valores previstos na lei complementar, sob
pena de prisão em flagrante do servidor da instituição financeira que não efetuasse a transferência
imediata dos recursos. O Colegiado apontou a existência de duas situações excepcionais: em primeiro
lugar, a lei impugnada não trataria apenas do repasse de valores para pagamento de precatórios, mas
também para outros fins, ou seja, para custeio do tesouro. Além disso, haveria lei complementar federal
recente, a disciplinar a matéria de maneira distinta das legislações estaduais (LC 151/2015). Ressaltou que
não haveria previsão legal, em se tratando de ADI, a respeito da possibilidade de suspender ações judiciais
em curso que determinassem a aplicação da lei impugnada, muito embora houvesse essa previsão para os
casos de ADC e ADPF. Assim, seria razoável adotar a mesma sistemática, não obstante se tratar de
diferentes espécies de ações constitucionais. Vencido o Ministro Marco Aurélio, que provia o agravo.
ADI 5365 MC-AgR/PB, rel. Min. Roberto Barroso, 12.11.2015.

Mandado de segurança e prova pré-constituída


A Segunda Turma deu provimento a recurso ordinário em mandado de segurança que impugnava acórdão
do STJ em que se pleiteava o pagamento da Gratificação de Desempenho de Atividade Técnica de
Fiscalização Agropecuária - GDATFA aos inativos em paridade com o pessoal da ativa. Na espécie, aquele
tribunal superior assentara a ausência de prova pré-constituída e, por não ser permitida a dilação
p o ató ia,à julga aà exti toà oà it à se à julga e toà deà é ito.à áà Tu aà es la e euà ueà aà i pet a teà
pretende obter, em favor de seus substituídos, a percepção de determinada vantagem remuneratória que
teria natureza genérica, não inerente ao exercício do cargo. Para tanto, aduz que, com o advento da Lei
10.484/2002, os servidores ocupantes de cargos técnicos ativos do Poder Executivo teriam passado a
perceber, a título de GDATFA, o equivalente a 100 pontos, enquanto os servidores inativos estariam
limitados a 20 pontos. Segundo o Colegiado, a discussão se circunscreveria com a existência ou não do
direito dos inativos à equiparação ao pessoal da ativa no que se refere ao pagamento da vantagem em
questão, nos termos do voto condutor do acórdão recorrido. Nesse ponto, frisou não ser possível ao STF,
desde logo, entrar no mérito, porque a jurisprudência da Corte seria no sentido de que não se aplicaria, em
sedeà deà e u soào di ioàe à a dadoà deà segu a ça,à oà dispostoà oà a t.à515,à§à 3º,à doàCPCà [ á t.à515.à áà
apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada. (...) § 3º Nos casos de extinção do
processo sem julgamento do mérito (art. 267), o tribunal pode julgar desde logo a lide, se a causa versar
uestãoà ex lusi a e teà deà di eitoà eà esti e à e à o diçõesà deà i ediatoà julga e to ].à Noà e ta to,à deuà
provimento ao recurso ordinário para afastar o fundamento do acórdão recorrido, de forma que os autos
retornassem ao STJ para que prosseguisse no exame do mandado de segurança.
RMS 29914/DF, rel. Min. Teori Zavascki, 10.11.2015. (RMS-29914)

Informativo 807-STF (19/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 5


OUTRAS INFORMAÇÕES

REPERCUSSÃO GERAL
9 a 13 de novembro de 2015

REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 910.351-DF


RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. RECLAMATÓRIA TRABALHISTA. CONCESSÃO DE
FÉRIAS FORA DO PRAZO DO ART. 145 DA CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO. PAGAMENTO EM DOBRO DA
REMUNERAÇÃO CORRESPONDENTE. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL.
1. A controvérsia relativa ao pagamento em dobro da remuneração de férias concedidas fora do prazo do art. 145 da Consolidação das Leis do
Trabalho, fundada na interpretação desse dispositivo legal, é de natureza infraconstitucional.
2. É cabível a atribuição dos efeitos da declaração de ausência de repercussão geral quando não há matéria constitucional a ser apreciada ou quando
eventual ofensa à Carta Magna ocorra de forma indireta ou reflexa (RE 584.608-RG, Rel. Min. ELLEN GRACIE, DJe de 13/3/2009).
3. Ausência de repercussão geral da questão suscitada, nos termos do art. 543-A do CPC.

REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 919.285-RS


RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. LEGITIMIDADE DE REVISÃO DE CONTRATO JÁ
EXTINTO. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL.
1. A controvérsia relativa à legitimidade da revisão de contrato já extinto, por se resolver tão somente a partir da interpretação e da aplicação das
normas legais pertinentes, é de natureza infraconstitucional.
2. É cabível a atribuição dos efeitos da declaração de ausência de repercussão geral quando não há matéria constitucional a ser apreciada ou quando
eventual ofensa à Carta Magna ocorra de forma indireta ou reflexa (RE 584.608-RG, Rel. Min. ELLEN GRACIE, DJe de 13/3/2009).
3. Ausência de repercussão geral da questão suscitada, nos termos do art. 543-A do CPC.
Decisões Publicadas: 2

CLIPPING DO DJE
9 a 13 de novembro de 2015

AG. REG. NO ARE N. 906.386-DF


RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
RECURSO – CONTROVÉRSIA SOBRE CABIMENTO – EXTRAORDINÁRIO – ADEQUAÇÃO. Quando envolvida controvérsia sobre cabimento
de recurso, a via excepcional do extraordinário apenas é aberta se, no acórdão, constar premissa contrária à Constituição Federal.
FGTS – CONTRATO DE TRABALHO – ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA – NULIDADE. A nulidade do contrato de trabalho a envolver a
Administração Pública não afasta o direito aos depósitos relativos ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS. Precedente: Recurso
Extraordinário nº 596.478/RR, julgado no Pleno, redator do acórdão ministro Dias Toffoli, publicado no Diário da Justiça de 1º de março de 2013.
Ressalva de entendimento pessoal, porque vencido quanto aos efeitos do ato nulo.
AG. REG. NO ARE N. 894.024-SE
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Direito Civil. Princípios do contraditório e da ampla defesa. Ofensa
reflexa. Dano moral. Pressupostos da responsabilidade civil demonstrados na origem. Fatos e provas. Reexame. Impossibilidade. Ausência de
repercussão geral. Precedentes.
1. A afronta aos princípios da legalidade, do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, dos limites da coisa julgada e da prestação
jurisdicional, quando depende, para ser reconhecida como tal, da análise de normas infraconstitucionais, configura apenas ofensa indireta ou reflexa à
Constituição da República.
2. O Tribunal de origem concluiu, ante as circunstâncias fáticas peculiares do caso concreto, que a conduta da agravante teria sido apta a causar dano
à honra do agravado, ensejando assim sua condenação ao pagamento de indenização por danos morais.
3. A ponderação de interesses, in casu, não prescinde do reexame do conjunto fático-probatório da causa, o qual é inadmissível em recurso
extraordinário. Incidência da Súmula nº 279/STF.
4. O Plenário da Corte, no exame do ARE nº 739.382/RJ, Relator o Ministro Gilmar Mendes, concluiu pela ausência de repercussão geral do tema
relativo à configuração da responsabilidade civil por dano à imagem ou à honra, haja vista que o deslinde da questão não ultrapassa o interesse
subjetivo das partes, tampouco prescinde do reexame de fatos e provas.
5. Agravo regimental não provido.
AG. REG. NO MI. N. 6.519-DF
RELATORA: MIN. CÁRMEN LÚCIA
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO MANDADO DE INJUNÇÃO. CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. APOSENTADORIA
ESPECIAL DE SERVIDOR PÚBLICO PORTADOR DE DEFICIÊNCIA: ART. 40, § 4º, INC. I, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. A
AUTORIDADE ADMINISTRATIVA RESPONSÁVEL PELO EXAME DO PEDIDO DE APOSENTADORIA É COMPETENTE PARA AFERIR,
NA ESPÉCIE EM EXAME, O PREENCHIMENTO DE TODOS OS REQUISITOS PARA A APOSENTAÇÃO PREVISTOS NO
ORDENAMENTO JURÍDICO VIGENTE. PRECEDENTES. AGRAVO REGIMENTAL AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO.

Informativo 807-STF (19/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 6


HC N. 114.223-SP
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL PENAL. HOMICÍDIO CONSUMADO E TENTADO. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. ALEGAÇÃO DE
INÉPCIA DA INICIAL ACUSATÓRIA. IMPUTAÇÃO ALTERNATIVA. FALTA DE DESCRIÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS DO ART. 14, II,
DO CÓDIGO PENAL. INCOMPATIBILIDADE ENTRE DOLO EVENTUAL E TENTATIVA. INOCORRÊNCIA. HABEAS CORPUS
DENEGADO.
1. A jurisprudência desta Corte firmou entendimento no sentido de que a extinção da ação penal, de forma prematura, pela via do habeas corpus,
somente se dá em hipóteses excepcionais, nas quais seja patente (a) a atipicidade da conduta; (b) a ausência de indícios mínimos de autoria e
materialidade delitivas; ou (c) a presença de alguma causa extintiva da punibilidade.
2. A inicial acusatória indica os elementos indiciários mínimos aptos a tornar plausível a acusação e, por consequência, suficientes para dar início à
persecução penal, além de permitir ao paciente o pleno exercício do seu direito de defesa, nos termos do art. 41 do Código de Processo Penal.
3. Não se reputa alternativa a denúncia que descreve conduta certa e determinada, em imputação de tipo penal doloso, tanto o dolo direto quanto o
eventual, porque cingidos naquela norma incriminadora.
4. Constatada a higidez da denúncia, não há como avançar nas questões que compõem típicas teses defensivas, sob pena de afronta ao modelo
constitucional de competência. Caberá ao juízo natural da instrução criminal, com observância do princípio do contraditório, proceder ao exame do
ora alegado e, porventura, conferir definição jurídica diversa para os fatos.
5. Ordem denegada.
AG. REG. NO ARE N. 819.662-RS
RELATOR: MIN. ROBERTO BARROSO
EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL. DIREITO À SAÚDE. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM
AGRAVO. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO PELO PODER PÚBLICO. INOVAÇÃO DE FUNDAMENTO EM AGRAVO
REGIMENTAL. IMPOSSIBILIDADE.
1. A tese suscitada pela parte agravante não fez parte das razões do recurso extraordinário, sendo aduzida somente nesta via recursal. Constitui-se,
portanto, em inovação insuscetível de apreciação neste momento processual. Precedentes.
2. Ausência de argumentos capazes de infirmar a decisão agravada.
Acórdãos Publicados: 578

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Liberdade de Imprensa - Censura Judicial – Inadmissibilidade (Transcrições)


(v. Informativo 807)
Rcl 21.504-MC-AgR/SP*
RELATOR: Ministro Celso de Mello
EMENTA: RECLAMAÇÃO. ALEGAÇÃO DE DESRESPEITO À AUTORIDADE DO JULGAMENTO PLENÁRIO DA ADPF 130/DF.
EFICÁCIA VINCULANTE DESSA DECISÃO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. POSSIBILIDADE DE CONTROLE, MEDIANTE
RECLAMAÇÃO, DE ATOS QUE TENHAM TRANSGREDIDO TAL JULGAMENTO. LEGITIMIDADE ATIVA DE TERCEIROS QUE
NÃO INTERVIERAM NO PROCESSO DE FISCALIZAÇÃO NORMATIVA ABSTRATA. LIBERDADE DE EXPRESSÃO.
JORNALISMO DIGITAL. PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL. DIREITO DE INFORMAR: PRERROGATIVA FUNDAMENTAL QUE SE
COMPREENDE NA LIBERDADE CONSTITUCIONAL DE MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO E DE COMUNICAÇÃO.
INADMISSIBILIDADE DE CENSURA ESTATAL, INCLUSIVE DAQUELA IMPOSTA PELO PODER JUDICIÁRIO, À LIBERDADE DE
EXPRESSÃO, NESTA COMPREENDIDA A LIBERDADE DE INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA. TEMA EFETIVAMENTE VERSADO
NA ADPF 130/DF, CUJO JULGAMENTO FOI INVOCADO, DE MODO INTEIRAMENTE PERTINENTE, COMO PARÂMETRO DE
CONFRONTO. PRECEDENTES. SIGILO DA FONTE COMO DIREITO BÁSICO DO JORNALISTA: PRERROGATIVA
CONSTITUCIONAL QUE SE QUALIFICA COMO GARANTIA INSTITUCIONAL DA PRÓPRIA LIBERDADE DE INFORMAÇÃO.
RECLAMAÇÃO JULGADA PROCEDENTE.
– A liberdade de imprensa, qualificada por sua natureza essencialmente constitucional, assegura aos profissionais de comunicação social o
direito de buscar, de receber e de transmitir informações e ideias por quaisquer meios, inclusive digitais, ressalvada, no entanto, a
possibilidade de intervenção judicial – necessariamente a posteriori à– nos casos em que se registrar prática abusiva dessa prerrogativa de
ordem jurídica, resguardado, sempre, o sigilo da fonte quando, a critério do próprio jornalista, este assim o julgar necessário ao seu
exercício profissional. Precedentes.
– A prerrogativa do jornalista de preservar o sigilo da fonte (e de não sofrer qualquer sanção, direta ou indireta, em razão da prática
legítima dessa franquia outorgada pela própria Constituição da República), oponível, por isso mesmo, a qualquer pessoa, inclusive aos
agentes, autoridades e órgãos do Estado, qualifica-se como verdadeira garantia institucional destinada a assegurar o exercício do direito
fundamental de livremente buscar e transmitir informações. Doutrina.
– O exercício da jurisdição cautelar por magistrados e Tribunais não pode converter-se em prática judicial inibitória, muito menos censória,
da liberdade constitucional de expressão e de comunicação, sob pena de o poder geral de cautela atribuído ao Judiciário transformar-se,
inconstitucionalmente, em inadmissível censura estatal.
DECISÃO:
1. Alegação de ofensa ao julgamento proferido na ADPF 130/DF: a reclamação como meio processual idôneo e a legitimidade ativa de
terceiros que não intervieram no processo de controle normativo abstrato

Informativo 807-STF (19/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 7


Trata-se de reclamação na qual se sustenta que o ato judicial ora questionado – emanado do Juízo de Direito da 2ª Vara Cível da comarca de
Ribeirão Preto/SP (Processo nº 1035561-20.2014.8.26.0506) – teria desrespeitado a autoridade da decisão que o Supremo Tribunal Federal proferiu
no julgamento da ADPF 130/DF, Rel. Min. AYRES BRITTO.
A parte reclamante, ora agravada, para justificar o alegado desrespeito à autoridade decisória do julgamento proferido pelo Supremo
Tribunal Federal, afirma, em síntese, o que se segue:
“Com efeito, ao determinar que a reclamante retirasse do seu ‘site’ a matéria jornalística, a r. decisão solapou a autoridade da
decisão proferida pelo egrégio Supremo Tribunal Federal na ADPF 130, Rel. Min. Ayres Britto, que declarou a não recepção da chamada
‘Lei de Imprensa’ (Lei nº 5.250/1967) pela Constituição de 1988, constituindo, assim, censura na forma mais direta que um veículo de
comunicação pode sofrer.
A reportagem em questão foi embasada em diversos elementos de prova (testemunhal e documental) e não procurou denegrir
deliberadamente a imagem daquele requerente, mas apenas relatar situação de extrema relevância e de interesse da população.
Diversas testemunhas corroboraram os fatos lá narrados, confirmando a atuação de ** como segurança particular da síndica do
Condomínio ** – o que gerou a sanção disciplinar.
A reportagem, a bem de ver, não se baseia exclusivamente na conduta daquele requerente – que, na qualidade de policial, estava
fora do expediente de trabalho portando arma de fogo, em descompasso com a legislação aplicável –, mas em diversas irregularidades que
vêm ocorrendo dentro do condomínio em questão (vide reportagens que seguem acostadas).
Após várias denúncias dos moradores, entre as quais se destacam os crimes de ameaça, injúria e abuso de poder, a equipe de
reportagem do reclamante houve por bem investigar os fatos, o que deu ensejo à matéria em questão.
As arbitrariedades expostas na aludida reportagem que ocorreram no Condomínio **, na cidade de Ribeirão Preto/SP, constituem
fato público e notório, que inclusive motivaram a propositura de diversas demandas judiciais, tanto na esfera criminal, quanto na esfera civil,
contra a então síndica, **, assim como procedimento administrativo contra aquele requerente, a culminar em sanção disciplinar.
Destarte, por não se tratar de divulgação deliberada de informação falsa, mas, sim, obtida a partir de fontes jornalísticas, a
manutenção da r. decisão singular proferida pela autoridade reclamada viola a autoridade da decisão proferida na mencionada ADPF 130,
constituindo evidente censura prévia.” (grifei)
Registro que deferi o pedido de medida cautelar formulado nestes autos, por vislumbrar ocorrentes os requisitos da plausibilidade jurídica
e do “periculum in mora”.
O Ministério Público Federal, em parecer da lavra do ilustre Subprocurador-Geral da República Dr. PAULO GUSTAVO GONET BRANCO,
opinou pela procedência da presente reclamação em parecer assim ementado:
“Reclamação. Censura a veículo de imprensa. Arguido desrespeito à autoridade da decisão proferida na ADPF 130. Parecer pela
procedência.” (grifei)
Admissível, preliminarmente, o ajuizamento de reclamação nos casos em que se sustente, como na espécie, transgressão à eficácia
vinculante de que se mostra impregnado o julgamento do Supremo Tribunal Federal proferido no âmbito de processos objetivos de controle
normativo abstrato, como aquele que resultou do exame da ADPF 130/DF, Rel. Min. AYRES BRITTO.
Orienta-se nesse sentido a jurisprudência desta Suprema Corte:
“O DESRESPEITO À EFICÁCIA VINCULANTE, DERIVADA DE DECISÃO EMANADA DO PLENÁRIO DA SUPREMA
CORTE, AUTORIZA O USO DA RECLAMAÇÃO.
– O descumprimento, por quaisquer juízes ou Tribunais, de decisões proferidas com efeito vinculante, pelo Plenário do Supremo
Tribunal Federal, em sede de ação direta de inconstitucionalidade ou de ação declaratória de constitucionalidade autoriza a utilização da
via reclamatória, também vocacionada, em sua específica função processual, a resguardar e a fazer prevalecer, no que concerne à Suprema
Corte, a integridade, a autoridade e a eficácia subordinante dos comandos que emergem de seus atos decisórios. Precedente: Rcl 1.722/RJ,
Rel. Min. CELSO DE MELLO (Pleno).”
(RTJ 187/151, Rel. Min. CELSO DE MELLO, Pleno)
Cabe reafirmar, de outro lado, que mesmo terceiros – que não intervieram no processo objetivo de controle normativo abstrato – dispõem
de legitimidade ativa para o ajuizamento da reclamação perante o Supremo Tribunal Federal, quando promovida com o objetivo de fazer restaurar
o “imperium” inerente às decisões emanadas desta Corte proferidas em sede de ação direta de inconstitucionalidade, de ação declaratória de
constitucionalidade ou, como no caso, de arguição de descumprimento de preceito fundamental.
É inquestionável, pois, sob tal aspecto, nos termos do julgamento plenário de questão de ordem suscitada nos autos da Rcl 1.880-AgR/SP,
Rel. Min. MAURÍCIO CORRÊA, que se revela plenamente viável a utilização, na espécie, do instrumento reclamatório, razão pela qual assiste à
parte reclamante, ora agravada, legitimidade ativa “ad causam” para fazer instaurar a presente medida processual.
Impende registrar, por oportuno, tal como já precedentemente salientado, que esse entendimento tem prevalecido em sucessivos
julgamentos proferidos pelo Supremo Tribunal Federal:
“(...) LEGITIMIDADE ATIVA PARA A RECLAMAÇÃO NA HIPÓTESE DE INOBSERVÂNCIA DO EFEITO VINCULANTE.
– Assiste plena legitimidade ativa, em sede de reclamação, àquele – particular ou não – que venha a ser afetado, em sua esfera
jurídica, por decisões de outros magistrados ou Tribunais que se revelem contrárias ao entendimento fixado, em caráter vinculante, pelo
Supremo Tribunal Federal no julgamento dos processos objetivos de controle normativo abstrato instaurados mediante ajuizamento quer de
ação direta de inconstitucionalidade, quer de ação declaratória de constitucionalidade. Precedente. (…).”
(RTJ 187/151, Rel. Min. CELSO DE MELLO, Pleno)
Plenamente justificável, assim, a utilização, no caso, do instrumento constitucional da reclamação pela parte reclamante, ora agravada.
2. Liberdade de informação jornalística como expressão de um direito fundamental. Inadmissibilidade da censura estatal, inclusive daquela
imposta pelo Poder Judiciário
Sendo esse o contexto, passo ao exame do pedido formulado nesta sede processual. E, ao fazê-lo, reitero os fundamentos que expus ao
deferir medida liminar nesta reclamação, eis que o ato judicial ora questionado na presente sede reclamatória está em desacordo com a orientação
jurisprudencial que esta Suprema Corte veio a firmar a propósito do tema em análise.
Cumpre enfatizar – presente o quadro normativo vigente em nosso País – que, mais do que simples prerrogativa de caráter individual ou de
natureza corporativa, a liberdade de informação jornalística desempenha relevantíssima função político-social, eis que, em seu processo de
evolução histórica, afirmou-se como instrumento realizador do direito da própria coletividade à obtenção da informação (JOSÉ AFONSO DA
SILVA, “Curso de Direito Constitucional Positivo”, p. 246, item n. 15.3, 32ª ed., 2009, Malheiros; JOSÉ CRETELLA JÚNIOR, “Comentários à
Constituição de 1988”, vol I/283, item n. 184, 1989, Forense Universitária, v.g.).
Tenho enfatizado, em diversas decisões que proferi no Supremo Tribunal Federal, que o exercício da jurisdição cautelar por magistrados e
Tribunais não pode converter-se em prática judicial inibitória, muito menos censória, da liberdade constitucional de expressão e de comunicação,

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sob pena – como já salientei em oportunidades anteriores – de o poder geral de cautela atribuído ao Judiciário qualificar-se, perigosamente, como o
novo nome de uma inaceitável censura estatal em nosso País.
A interdição judicial imposta à empresa reclamante, ora agravada, ordenando-lhe a remoção, de seu “site”, de matéria que relatou situação
ocorrida no Condomínio ** em Ribeirão Preto, sob pena de incidência de multa cominatória diária, configura, segundo entendo, clara transgressão
ao comando emergente da decisão que esta Corte Suprema proferiu, com efeito vinculante, na ADPF 130/DF.
Não constitui demasia insistir na observação de que a censura, por incompatível com o sistema democrático, foi banida do ordenamento
jurídico brasileiro, cuja Lei Fundamental – reafirmando a repulsa à atividade censória do Estado, na linha de anteriores Constituições brasileiras
(Carta Imperial de 1824, art. 179, nº 5; CF/1891, art. 72, § 12; CF/1934, art. 113, nº 9; CF/1946, art. 141, § 5º) – expressamente vedou “(...)
qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (CF/88, art. 220, § 2º).
Cabe observar, ainda, que a repulsa à censura, além de haver sido consagrada em nosso constitucionalismo democrático, representa
expressão de um compromisso que o Estado brasileiro assumiu no plano internacional.
Com efeito, o Brasil subscreveu, entre tantos outros instrumentos de proteção internacional dos direitos humanos, a Declaração Universal
dos Direitos da Pessoa Humana, promulgada pela III Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948.
Esse estatuto contempla, em seu Artigo XIX, previsão do direito à liberdade de opinião e de expressão, inclusive a prerrogativa de procurar,
de receber e de transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras.
O direito fundamental à liberdade de expressão, inclusive à liberdade de imprensa, é igualmente assegurado pelo Pacto Internacional
sobre Direitos Civis e Políticos (Artigo 19), adotado pela Assembleia Geral da ONU em 16/12/1966 e incorporado, formalmente, ao nosso direito
positivo interno em 06/12/1992 (Decreto nº 592/92).
Vale mencionar, ainda, por sumamente relevante, a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, promulgada pela IX
Conferência Internacional Americana, realizada em Bogotá, em abril de 1948, cujo texto assegura a todos a plena liberdade de expressão (Artigo
IV).
A Convenção Americana de Direitos Humanos, também denominada Pacto de San José da Costa Rica, por sua vez, garante às pessoas em
geral o direito à livre manifestação do pensamento, sendo-lhe absolutamente estranha a ideia de censura estatal (Artigo 13).
É interessante assinalar, neste ponto, até mesmo como registro histórico, que a ideia da incompatibilidade da censura com o regime
democrático já se mostrava presente nos trabalhos de nossa primeira Assembleia Geral Constituinte e Legislativa, reunida em 03/05/1823 e
dissolvida, por ato de força, em 12/11/1823.
Com efeito, ANTONIO CARLOS RIBEIRO DE ANDRADA, ao longo dessa Assembleia Constituinte, apresentou proposta que repelia, de
modo veemente, a prática da censura no âmbito do (então) nascente Estado brasileiro, em texto que, incorporado ao projeto da Constituição,
assim dispunha:
“Artigo 23 – Os escritos não são sujeitos à censura nem antes nem depois de impressos.” (grifei)
A razão dessa proposta de ANTONIO CARLOS RIBEIRO DE ANDRADA prendia-se ao fato de que D. João VI editara, então, havia pouco
mais de dois anos, em 02 de março de 1821, um decreto régio que impunha o mecanismo da censura, fazendo-nos recuar, naquele momento histórico, ao
nosso passado colonial, período em que prevaleceu essa inaceitável restrição às liberdades do pensamento.
Preocupa-me, por isso mesmo, o fato de que o exercício, por alguns juízes e Tribunais, do poder geral de cautela tenha se transformado em
inadmissível instrumento de censura estatal, com grave comprometimento da liberdade de expressão, nesta compreendida a liberdade de
imprensa e de informação. Ou, em uma palavra, como anteriormente já acentuei: o poder geral de cautela tende, hoje, perigosamente, a traduzir o
novo nome da censura!
Todas as observações que venho de fazer evidenciam, a meu juízo, que a decisão objeto da presente reclamação desrespeitou a autoridade do
julgamento plenário invocado pela parte reclamante, ora agravada, como parâmetro de controle, eis que o tema da censura foi efetivamente
abordado e plenamente examinado no julgamento plenário da ADPF 130/DF.
Enfatizo, por oportuno, que eu próprio, no voto que proferi na ADPF 130/DF, discuti, expressamente, o tema referente à censura estatal,
qualquer que tenha sido o órgão ou o Poder de que haja emanado esse ato de (inadmissível) cerceamento da liberdade de expressão.
Devo relembrar, neste ponto, que o Plenário do Supremo Tribunal Federal, no julgamento final da ADI 869/DF, ao declarar a
inconstitucionalidade de determinada expressão normativa constante do § 2º do art. 247 do Estatuto da Criança e do Adolescente, advertiu, em
decisão impregnada de efeito vinculante, que a cláusula legal que punia emissoras de rádio e de televisão, bem assim empresas jornalísticas, pelo
fato de exercerem o direito de informar mostrava-se colidente com o texto da Constituição da República (art. 220, § 2º).
O julgamento em questão restou consubstanciado em acórdão assim ementado:
“AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEI FEDERAL 8069/90. LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO DO
PENSAMENTO, DE CRIAÇÃO, DE EXPRESSÃO E DE INFORMAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE RESTRIÇÃO.
1. Lei 8069/90. Divulgação total ou parcial, por qualquer meio de comunicação, de nome, ato ou documento de procedimento policial,
administrativo ou judicial relativo à criança ou adolescente a que se atribua ato infracional. Publicidade indevida. Penalidade: suspensão
da programação da emissora até por dois dias, bem como da publicação do periódico até por dois números. Inconstitucionalidade. A
Constituição de 1988 em seu artigo 220 estabeleceu que a liberdade de manifestação do pensamento, de criação, de expressão e de
informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerá qualquer restrição, observado o que nela estiver disposto.
2. Limitações à liberdade de manifestação do pensamento, pelas suas variadas formas. Restrição que há de estar explícita ou
implicitamente prevista na própria Constituição.
Ação direta de inconstitucionalidade julgada procedente.”
(ADI 869/DF, Red. p/ o acórdão Min. MAURÍCIO CORRÊA – grifei)
O fato é que não podemos – nem devemos – retroceder neste processo de conquista e de reafirmação das liberdades democráticas. Não se
trata de preocupação retórica, pois o peso da censura – ninguém o ignora – é algo insuportável e absolutamente intolerável.
RUI BARBOSA, em texto no qual registrou as suas considerações sobre a atuação do Marechal Floriano Peixoto durante a Revolução
Federalista e a Revolta da Armada (“A Ditadura de 1893”), após acentuar que a “rule of law” não podia ser substituída pelo império da espada,
assim se pronunciou sobre a questão da censura estatal:
“A Constituição proibiu a censura irrestritamente, radicalmente, inflexivelmente. Toda lei preventiva contra os excessos da imprensa,
toda lei de tutela à publicidade, toda lei de inspeção policial sobre os jornais é, por conseqüência, usurpatória e tirânica. Se o jornalismo se
apasquina, o Código Penal proporciona aos ofendidos, particulares, ou funcionários públicos, os meios de responsabilizar os verrineiros.”
(grifei)
Essencial reconhecer, pois, em face do que se vem de expor, que a liberdade de imprensa, qualificada por sua natureza essencialmente
constitucional, assegura aos profissionais de comunicação social o direito de buscar, de receber e de transmitir informações e ideias por
quaisquer meios, inclusive digitais, ressalvada, no entanto, a possibilidade de intervenção judicial – necessariamente “a posteriori” – nos
casos em que se registrar prática abusiva dessa prerrogativa de ordem jurídica, resguardado, sempre, o sigilo da fonte quando, a critério do
próprio jornalista, este assim o julgar necessário ao seu exercício profissional (Inq 870/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO).

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3. O direito do jornalista à preservação do sigilo da fonte: prerrogativa de índole constitucional
A Constituição da República, após assegurar a todos o acesso à informação, reconheceu aos profissionais dos meios de comunicação social
importantíssima prerrogativa jurídica consistente no direito de ver resguardado o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional (CF,
art. 5º, XIV, segunda parte).
Com efeito, nenhum jornalista poderá ser constrangido a revelar o nome de seu informante ou a indicar a fonte de suas informações, sendo
certo, também, que não poderá sofrer qualquer sanção, direta ou indireta, quando se recusar a quebrar esse sigilo de ordem profissional e de
estatura constitucional.
Na realidade, essa prerrogativa profissional qualifica-se como expressiva garantia de ordem jurídica que, outorgada a qualquer jornalista
em decorrência de sua atividade profissional, destina-se, em última análise, a viabilizar, em favor da própria coletividade, a ampla pesquisa de
fatos ou eventos cuja revelação impõe-se como consequência ditada por razões de estrito interesse público.
O ordenamento constitucional brasileiro, por isso mesmo, prescreve que nenhum jornalista poderá ser compelido a indicar o nome de seu
informante ou a fonte de suas informações. Mais do que isso, e como precedentemente assinalado, esse profissional, ao exercer a prerrogativa em
questão, não poderá sofrer qualquer sanção motivada por seu silêncio ou por sua legítima recusa em responder às indagações que lhe sejam
eventualmente dirigidas com o objetivo de romper o sigilo da fonte.
Para FREITAS NOBRE (“Lei da Informação”, p. 251/252, 1968, Saraiva), “O jornalista, à semelhança de outros profissionais (...), goza
do direito ao segredo profissional, podendo (…) não indicar o nome do informante, ou mesmo a fonte de suas informações, isto é, até mesmo o local
onde obtém os elementos que lhe permitem escrever a notícia ou comentário”, eis que – tratando-se do profissional de imprensa – “este segredo é
exigência social, porque ele possibilita a informação mesmo contra o interesse dos poderosos do dia, pois que o informante não pode ficar à mercê
da pressão ou da coação dos que se julgam atingidos pela notícia”.
Com a superveniência da Constituição de 1988, intensificou-se, ainda mais, o sentido tutelar dessa especial proteção jurídica, vocacionada
a dar concreção à garantia básica de acesso à informação, consoante enfatizado pelo próprio magistério da doutrina (WALTER CENEVIVA,
“Direito Constitucional Brasileiro”, p. 52, item n. 10, 1989, Saraiva; MANOEL GONÇALVES FERREIRA FILHO, “Comentários à Constituição
Brasileira de 1988”, vol. 1/39, 1990, Saraiva, v.g.).
Essa é a razão pela qual a Carta Política, ao proclamar a declaração de direitos, nela introduziu – como pauta de valores essenciais à
preservação do Estado democrático de direito – explícita referência à indevassabilidade da fonte de informações, qualificando essa prerrogativa de
ordem profissional como expressão de um dos direitos fundamentais que claramente limitam a atividade do Poder Público.
A Constituição da República, tendo presente a necessidade de proteger um dos aspectos mais sensíveis em que se projetam as múltiplas
liberdades do pensamento – precisamente aquele concernente ao direito de obtenção (e de divulgação) da informação –, prescreveu, em seu art.
5º, n. XIV, que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional” (grifei).
Impõe-se rememorar, no ponto, o magistério de DARCY ARRUDA MIRANDA (“Comentários à Lei de Imprensa”, p. 774, item n. 781,
3ª ed., 1995, RT), que, após enfatizar o alto significado político-social que assume a prerrogativa concernente ao sigilo da fonte de informação,
observa:
“O jornalista ou radialista que publicou ou transmitiu a informação sigilosa, ainda que interpelado, não fica obrigado a indicar o
nome de seu informante ou a fonte de suas informações. Este silêncio é direito seu, não podendo ser interpretado neste ou naquele sentido e
não fica sujeito a sanção de qualquer natureza, nem a qualquer espécie de penalidade.
Esclareça-se, porém: o que não sofre sanção civil, administrativa ou penal, é o silêncio do divulgador, não a publicação ou
transmissão incriminada.” (grifei)
A liberdade de imprensa, na medida em que não sofre interferências governamentais ou restrições de caráter censório, constitui expressão
positiva do elevado coeficiente democrático que deve qualificar as formações sociais genuinamente livres. E a prerrogativa do sigilo da fonte,
nesse contexto, qualifica-se como instrumento de concretização da própria liberdade de informação, atuando como verdadeira garantia
institucional asseguradora do exercício do direito fundamental de livremente buscar e transmitir informações.
Isso claramente significa que a prerrogativa concernente ao sigilo da fonte, longe de qualificar-se como mero privilégio de ordem pessoal ou
de caráter estamental, configura, na realidade, meio essencial de plena realização do direito constitucional de informar, revelando-se oponível, por
isso mesmo, em razão de sua extração eminentemente constitucional, a qualquer pessoa e, também, a quaisquer órgãos, agentes ou autoridades do
Poder Público, inclusive do Poder Judiciário, não importando a esfera em que se situe a atuação institucional dos agentes estatais interessados.
Daí a exata advertência de CELSO RIBEIRO BASTOS (“Comentários à Constituição do Brasil”, vol. 2/81-82, 1989, Saraiva):
“O acesso à informação ganha uma conotação particular quando é levado a efeito por profissionais, os jornalistas. Neste caso, a
Constituição assegura o sigilo da fonte. Isto significa que nem a lei, nem a administração, nem os particulares podem compelir um
jornalista a denunciar a pessoa ou o órgão de quem obteve a informação. Trata-se de medida conveniente para o bom desempenho da
atividade de informar. Com o sigilo da fonte ampliam-se as possibilidades de recolhimento de material informativo.” (grifei)
Resulta claro, pois, que se mostra indeclinável o dever estatal de respeito à prerrogativa jurídica que assegura ao jornalista o direito de não
revelar a fonte de suas informações, pois – insista-se – esse direito, agora, compõe o quadro da própria declaração constitucional de liberdades
fundamentais, não podendo sofrer, por isso mesmo, qualquer tipo de restrição nem legitimar, quando exercido, a imposição, ao jornalista, de
medidas de caráter sancionatório.
Em uma palavra: a proteção constitucional que confere ao jornalista o direito de não proceder à “disclosure” da fonte de informação ou de
não revelar a pessoa de seu informante desautoriza qualquer medida tendente a pressionar ou a constranger o profissional de imprensa a indicar a
origem das informações a que teve acesso, eis que – não custa insistir – os jornalistas, em tema de sigilo da fonte, não se expõem ao poder de
indagação do Estado ou de seus agentes e não podem sofrer, em função do exercício dessa legítima prerrogativa constitucional, a imposição de
qualquer sanção penal, civil ou administrativa, tal como o reconheceu o Supremo Tribunal Federal (Inq 870/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO,
DJU 15/04/96, v.g.).
4. Precedentes do Supremo Tribunal Federal e parecer da Procuradoria-Geral da República
Vale registrar, por sumamente relevante, o fato de que, em situações idênticas à que ora se examina, esta Suprema Corte, fazendo
prevalecer a eficácia vinculante derivada do julgamento da ADPF 130/DF, tem sustado decisões judiciais que haviam ordenado a interdição,
claramente censória, de matérias jornalísticas divulgadas em órgãos de imprensa (Rcl 11.292-MC/SP, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – Rcl
16.074-MC/SP, Rel. Min. ROBERTO BARROSO, decisão proferida pelo Ministro Ricardo Lewandowski no exercício da Presidência – Rcl
16.434/ES, Rel. Min. ROSA WEBER – Rcl 18.186-MC/RJ, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA, decisão proferida pelo Ministro Ricardo Lewandowski no
exercício da Presidência – Rcl 18.290-MC/RJ, Rel. Min. LUIZ FUX – Rcl 18.566-MC/SP, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.).
Impende ressaltar, finalmente, que a douta Procuradoria-Geral da República, ao pronunciar-se pela procedência da presente reclamação,
formulou parecer do qual se destaca a seguinte passagem:

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“No julgamento da ADPF 130, foi repelida a censura prévia, proveniente de qualquer dos Poderes do Estado, por incompatível com a
ordem democrática instaurada em 1988. A Corte afirmou não caber ao poder público definir previamente o que não pode ser dito ou
publicado. (…).
…...................................................................................................
Daí haver exposto o Ministro Celso de Mello, na Rcl 18566 MC (Dje 16/9/2014), que o ‘exercício de jurisdição cautelar por
magistrados e Tribunais não pode converter-se em prática judicial inibitória, muito menos censória, da liberdade constitucional de expressão
e de comunicação, sob pena de o poder geral de cautela atribuído ao Judiciário qualificar-se, anomalamente, como um novo nome de uma
inaceitável censura estatal em nosso País’.
…...................................................................................................
A natureza do conteúdo da matéria jornalística, no caso, é de irrecusável interesse público (…).” (grifei)
5. Conclusão
Em suma: a questão em exame, segundo entendo, assume indiscutível magnitude de ordem político-jurídica, notadamente em face de seus
claros lineamentos constitucionais que foram analisados, de modo efetivo, no julgamento da referida ADPF 130/DF, em cujo âmbito o Supremo
Tribunal Federal pôs em destaque, de maneira muito expressiva, uma das mais relevantes franquias constitucionais: a liberdade de manifestação
do pensamento, que representa um dos fundamentos em que se apoia a própria noção de Estado democrático de direito e que não pode ser
restringida, por isso mesmo, pelo exercício ilegítimo da censura estatal, ainda que praticada em sede jurisdicional.
Sendo assim, pelas razões expostas, e acolhendo, ainda, o parecer da douta Procuradoria-Geral da República, julgo procedente a presente
reclamação, para invalidar a decisão ora impugnada, proferida pelo Juízo de Direito da 2ª Vara Cível da comarca de Ribeirão Preto/SP (Processo nº
1035561-20.2014.8.26.0506), e o acórdão, que a confirmou, emanado da 3ª Câmara de Direito Privado do E. Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo (Agravo de Instrumento nº 2067708-14.2015.8.26.0000), restando prejudicado, em consequência, o exame do recurso de agravo interposto
nesta sede processual.
Comunique-se, transmitindo-se cópia da presente decisão ao Juízo de Direito da 2ª Vara Cível da comarca de Ribeirão Preto/SP (Processo nº
1035561-20.2014.8.26.0506) e à 3ª Câmara de Direito Privado do E. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Agravo de Instrumento nº
2067708-14.2015.8.26.0000).
Arquivem-se os presentes autos.

Publique-se.

Brasília, 05 de outubro de 2015.


(27º Aniversário da promulgação da vigente Constituição Republicana)

Ministro CELSO DE MELLO


Relator
*decisão publicada no DJe de 7.10.2015
**nomes suprimidos pelo Informativo

INOVAÇÕES LEGISLATIVAS
9 a 13 de novembro de 2015

Medida Provisória nº 699, de 10.11.2015 - Altera a Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, que institui o
Código de Trânsito Brasileiro. Publicada no DOU, seção 1, Edição nº 215, p. 1, em 11.11.2015.
Lei nº 13.188, de 11.11.2015 - Dispõe sobre o direito de resposta ou retificação do ofendido em matéria
divulgada, publicada ou transmitida por veículo de comunicação social. Publicado no DOU, Seção 1, Edição nº 216, p.
1, em 12.11.2015.
Decreto nº 8.572, de 13.11.2015 - Altera o Decreto nº 5.113, de 22 de junho de 2004, que regulamenta o art. 20,
inciso XVI, da Lei nº 8.036, de 11 de maio de 1990, que dispõe sobre o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço -
FGTS. Publicado no DOU, Seção 1, Edição Extra nº 217, p. 1, em 13.11.2015.
Secretaria de Documentação – SDO
Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

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Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos em virtude de pedidos de vista:
PSV 93/DF; ADI 2404/DF; AP 913 QO/AL; RE 514639/RS.

Julgados excluídos por terem menor relevância para concursos públicos ou por terem sido decididos com base em
peculiaridades do caso concreto: RE 201512/MG; RE 196752 AgR/MG; RE 790059 AgR-AgR/DF.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS
 Inviolabilidade de domicílio e flagrante delito.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


PROCESSO COLETIVO
 Legitimidade da Defensoria Pública para ação civil pública.

DIREITO PROCESSUAL PENAL


PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVA
 Oitiva antecipada de testemunhas apenas pelo fato de serem policiais.

INDULTO
 Possibilidade de concessão para pessoas submetidas a medida de segurança.

DIREITO TRIBUTÁRIO
IPTU
 Alíquota aplicável em caso de lei municipal declarada inconstitucional por prever progressividade em função do
valor do imóvel antes da EC 29/2000.

DIREITO CONSTITUCIONAL
DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS
Inviolabilidade de domicílio e flagrante delito

Importante!!!
A entrada forçada em domicílio sem mandado judicial só é lícita, mesmo em período noturno,
quando amparada em fundadas razões, devidamente justificadas a posteriori , que indiquem
que dentro da casa ocorre situação de flagrante delito, sob pena de responsabilidade
disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade, e de nulidade dos atos praticados.
STF. Plenário. RE 603616/RO, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 4 e 5/11/2015 (repercussão
geral) (Info 806).

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


INVIOLABILIDADE DOMICILIAR

Previsão
A CF/88 prevê, em seu art. 5º, a seguinte garantia:
XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador,
salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por
determinação judicial;

Entendendo o inciso XI:


Só se pode entrar na casa de alguém sem o consentimento do morador nas seguintes hipóteses:
Durante o DIA Durante a NOITE
•àE à asoàdeàflag a teàdelito; •àE à asoàdeàflag a teàdelito;
•àE à asoàdeàdesast e; •àE à asoàdeàdesast e;
•àPa aàp esta àso o o; •àPa aàp esta àso o o.
•à Pa aà u p i àdete i açãoàjudi ial (ex: busca e
apreensão; cumprimento de prisão preventiva).

Assim, guarde isso: não se pode invadir a casa de alguém durante a noite para cumprir ordem judicial.

O que é considerado "dia"?


Não há uma unanimidade.
Há os que defendem o critério físico-astronômico, ou seja, dia é o período de tempo que fica entre o
crepúsculo e a aurora.
Outros sustentam um critério cronológico: dia vai das 6h às 18h.
Existem, ainda, os que sustentam aplicar o parâmetro previsto no CPC, que fala que os atos processuais
serão realizados em dias úteis, das 6 (seis) às 20 (vinte) horas.
O mais seguro é só cumprir a determinação judicial após as 6h e até as 18h.

O que se entender por "casa"?


O conceito é amplo e abrange:
a) a casa, incluindo toda a sua estrutura, como o quintal, a garagem, o porão, a quadra etc.
b) os compartimentos de natureza profissional, desde que fechado o acesso ao público em geral, como
escritórios, gabinetes, consultórios etc.
c) os aposentos de habitação coletiva, ainda que de ocupação temporária, como quartos de hotel, motel,
pensão, pousada etc.

Escritório vazio e busca e apreensão realizada à noite por ordem judicial


No Inquérito 2.424/RJ, o STF considerou válida a instalação de escuta ambiental por policiais, no escritório
de advocacia de um advogado suspeito da prática de crimes. A colocação das escutas ocorreu no período
da noite por determinação judicial.
O STF afirmou que a CF/88, no seu art. 5º, X e XI, garante a inviolabilidade da intimidade e do domicílio dos
cidadãos, sendo equiparados a domicílio, para fins dessa inviolabilidade, os escritórios de advocacia, locais
não abertos ao público, e onde se exerce profissão (art. 150, § 4º, III, do CP). No entanto, apesar disso,
entendeu-se que tal inviolabilidade pode ser afastada quando o próprio advogado seja suspeito da prática
de crime concebido e consumado, sobretudo no âmbito do seu escritório, sob pretexto de exercício da
profissão. Neste caso, os interesses e valores jurídicos, inviolabilidade do domicílio, que não tem caráter
absoluto, deve ser ponderada e conciliada com o direito de puir, à luz da proporcionalidade.
Assim, apesar de ser possível a equiparação legal da oficina de trabalho com o domicílio, julgou-se ser
possível a instalação da escuta, por ordem judicial, no período da noite, principalmente porque durante

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esse período o escritório fica vazio, não sendo, portanto, possível sua equiparação neste caso a domicílio,
que pressupõe a presença de pessoas que o habitem.
Em suma, o STF decidiu que essa prova foi válida.
STF. Plenário. Inq 2424, Rel. Min. Cezar Peluso, julgado em 26/11/2008.

Veículo é considerado casa?


Em regra não. Assim, o veículo, em regra, pode ser examinado mesmo sem mandado judicial.
Exceção: quando o veículo é utilizado para a habitação do indivíduo, como ocorre com trailers, cabines de
caminhão, barcos etc.

Flagrante delito
Vimos acima que, havendo flagrante delito, é possível ingressar na casa mesmo sem consentimento do
morador, seja de dia ou de noite.
Um exemplo comum no cotidiano é o caso do tráfico de drogas. Diversos verbos do art. 33 da Lei nº
11.343/2006 fazem com que este delito seja permanente:
Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda,
oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo
ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal
ou regulamentar:

Assim, se a casa do traficante funciona como boca-de-fumo, onde ele armazena e vende drogas, a todo
momento estará ocorrendo o crime, considerando que ele está praticando os verbos "ter em depósito" e
"guardar".

Diante disso, havendo suspeitas de que existe droga em determinada casa, será possível que os policiais
invadam a residência mesmo sem ordem judicial e ainda que contra o consentimento do morador?
SIM. No entanto, no caso concreto, devem existir fundadas razões que indiquem que ali está sendo
cometido um crime (flagrante delito). Essas razões que motivaram a invasão forçada deverão ser
posteriormente expostas pela autoridade, sob pena de ela responder nos âmbitos disciplinar, civil e penal.
Além disso, os atos praticados poderão ser anulados.

A tese fixada pelo STF em sede de recurso extraordinário sob repercussão geral foi a seguinte:
A entrada forçada em domicílio sem mandado judicial só é lícita, mesmo em período noturno, quando
amparada em fundadas razões, devidamenteàjustifi adasà aàposte io i ,à ueài di ue à ueàde t oàdaà asaà
ocorre situação de flagrante delito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da
autoridade, e de nulidade dos atos praticados.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

PROCESSO COLETIVO
Legitimidade da Defensoria Pública para ação civil pública

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


Importante!!!
A Defensoria Pública tem legitimidade para a propositura de ação civil pública em ordem a
promover a tutela judicial de direitos difusos e coletivos de que sejam titulares, em tese, as
pessoas necessitadas.
STF. Plenário. RE 733433/MG, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 4/11/2015 (repercussão geral) (Info 806).

A Defensoria Pública pode ajuizar ação civil pública?


SIM. Trata-se, inclusive, de previsão expressa da Lei nº 7.347/85 (Lei da ACP):
Art. 5º Têm legitimidade para propor a ação principal e a ação cautelar:
II — a Defensoria Pública; (Redação dada pela Lei nº 11.448/2007).

A legitimidade da Defensoria para a ACP é irrestrita, ou seja, a instituição pode propor ACP em todo e
qualquer caso?
Apesar de não ser um tema ainda pacífico, a resposta que prevalece é que NÃO.
Assim, a Defensoria Pública, ao ajuizar uma ACP, deverá provar que os interesses discutidos na ação têm
pertinência com as suas finalidades institucionais.

Por que se diz que a legitimidade da Defensoria não é irrestrita?


Porque a legitimidade de nenhum dos legitimados do art. 5º é irrestrita, nem mesmo a do Ministério
Público. O STJ já decidiu, por exemplo,à ueà oàMi ist ioàPú li oà ãoàte àlegiti idadeàativaàpa aàp opo à
ação civil pública na qual busca a suposta defesa de um pequeno grupo de pessoas - no caso, dos
asso iadosà deà u à lu e,à u aàópti aà p edo i a te e teà i dividual. à REspà /“E,à Rel.àMin. Luis
Felipe Salomão, julgado em 21/06/2011).

Qual é, enfim, o parâmetro para a legitimidade da Defensoria na ACP?


A Defensoria só tem adequada representação se estiver defendendo interesses relacionados com seus
objetivos institucionais e que se encontram previstos no art. 134 da CF.
Em outras palavras, a Defensoria Pública somente poderia propor uma ACP se os direitos nela veiculados,
de algum modo, estiverem ela io adosà àp oteçãoàdosài te essesàdosàhipossufi ie tesà e essitados ,àouà
seja, indivíduosà o à i sufi i iaàdeà e u sos .à
Esse é o entendimento tanto do STJ (REsp 1.192.577-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em
15/5/2014) como do STF (RE 733433/MG, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 4/11/2015).

Segundo a jurisprudência, a Defensoria Pública só tem legitimidade ativa para ações coletivas se elas
estiverem relacionadas com as funções institucionais conferidas pela CF/88, ou seja, se tiverem por
objetivo beneficiar os necessitados que não tiverem suficiência de recursos (CF/88, art. 5º, LXXIV).

A própria Lei Orgânica da Defensoria Pública (Lei Complementar n. 80/94) nos faz concluir dessa forma:
Art. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras:
(...)
VII – promover ação civil pública e todas as espécies de ações capazes de propiciar a adequada tutela dos
direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos quando o resultado da demanda puder beneficiar
grupo de pessoas hipossuficientes; (Redação dada pela LC 132/2009).
VIII – exercer a defesa dos direitos e interesses individuais, difusos, coletivos e individuais homogêneos e
dos direitos do consumidor, na forma do inciso LXXIV do art. 5º da Constituição Federal; (Redação dada
pela LC 132/2009).
X – promover a mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos necessitados, abrangendo seus direitos
individuais, coletivos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sendo admissíveis todas as espécies de

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ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela; (Redação dada pela LC 132/2009).
XI – exercer a defesa dos interesses individuais e coletivos da criança e do adolescente, do idoso, da
pessoa portadora de necessidades especiais, da mulher vítima de violência doméstica e familiar e de
outros grupos sociais vulneráveis que mereçam proteção especial do Estado; (Redação dada pela LC
132/2009).

No julgamento da ADI 3943 (STF. Plenário. Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 6 e 7/5/2015. Info 784),
diversos Ministros manifestaram esse mesmo entendimento.

A Min. Cármen Lúcia, em determinado trecho de seu voto, afirmou:


Nãoàseàest a afirmar a desnecessidade de a Defensoria Pública observar o preceito do art. 5º, LXXIV, da
CF, reiterado no art. 134 — antes e depois da EC 80/2014. No exercício de sua atribuição constitucional, é
necessário averiguar a compatibilidade dos interesses e direitos que a instituição protege com os possíveis
beneficiários de quaisquer das ações ajuizadas, mesmo em ação civil pública.

O Min. Roberto Barroso corroborou essa conclusão e afirmou que o fato de se estabelecer que a
Defensoria Pública tem legitimidade, em tese, para ações civis públicas, não exclui a possibilidade de, em
um eventual caso concreto, não se reconhecer a legitimidade da Instituição. Em tom descontraído, o
Ministro afirmou que a Defensoria não teria legitimidade, por exemplo, no caso concreto, para uma ação
ivilà pú li aà aà defesaà dosà só iosà doà Yat hà Clu .à Eà da doà out oà e e ploà e t e o,à afi ouà ueà aà
Defensoria não teria legitimidade, no caso concreto, para ajuizar uma ação civil pública em favor dos
lie tesà Pe so alit àdoàBa oàItaú.

O Min. Teori Zavascki segue na mesma linha e afirma que existe uma condição implícita na legitimidade da
Defensoria Pública para ações civis públicas que é o fato de ela ter que defender interesses de pessoas
hipossuficientes, sendo esta uma condição imposta pelo art. 134 da CF/88.

A Min. Rosa Weber também deixou claro que a Defensoria Pública tem legitimidade para propor ações
civis públicas, mas que o juízo poderá aferir, no caso concreto, sua adequada representação.

Atenção. Não confunda: não se está dizendo que a Defensoria Pública só pode propor ACP se os direitos
dis utidosà e volve e à ape asà pessoasà po es (rectius: hipossuficientes). Essa era a tese da CONAMP,
que foi rechaçada pelo STF. O que estou afirmando é que, para a Defensoria Pública ajuizar a ACP aquele
interesse discutido na lide tem que, de algum modo, favorecer seu público-alvo (hipossuficientes), ainda
que beneficie outras pessoas também que não sejam necessitadas.

Se o interesse defendido beneficiar pessoas economicamente abastadas e também hipossuficientes, a


Defensoria terá legitimidade para a ACP?
SIM, considerando que, no processo coletivo, vigoram os princípios do máximo benefício, da máxima
efetividade e da máxima amplitude.
Dessa feita, podendo haver hipossuficientes beneficiados pelo resultado da demanda, deve-se admitir a
legitimidade da Defensoria Pública.
É o caso, por exemplo, de consumidores de energia elétrica, que tanto podem abranger pessoas com alto
poder aquisitivo, como hipossuficientes:
LEGITIMIDADE. DEFENSORIA PÚBLICA. AÇÃO COLETIVA.
A Turma, ao prosseguir o julgamento, entendeu que a Defensoria Pública tem legitimidade para ajuizar
ação civil coletiva em benefício dos consumidores de energia elétrica, conforme dispõe o art. 5º, II, da Lei
nº 7.347/1985, com redação dada pela Lei nº 11.448/2007. (...)
REsp 912.849-RS, Rel. Min. José Delgado, julgado em 26/2/2008 (Info 346).

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Ao julgar o recurso extraordinário sob a repercussão geral, o STF firmou a seguinte tese:
A Defensoria Pública tem legitimidade para a propositura de ação civil pública em ordem a promover a
tutela judicial de direitos difusos e coletivos de que sejam titulares, em tese, as pessoas necessitadas.

DIREITO PROCESSUAL PENAL

PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVA


Oitiva antecipada de testemunhas apenas pelo fato de serem policiais

Existe um argumento no sentido de que se as testemunhas forem policiais, deverá haver


autorizada a sua oitiva como prova antecipada, considerando que os policiais lidam
diariamente com inúmeras ocorrências e, se houvesse o decurso do tempo, eles iriam esquecer
dos fatos. Esse argumento é aceito pela jurisprudência? A oitiva das testemunhas que são
policiais é considerada como prova urgente para os fins do art. 366 do CPP?
1ª corrente: SIM. O fato de o agente de segurança pública atuar constantemente no combate à
criminalidade faz com que ele presencie crimes diariamente. Em virtude disso, os detalhes de
cada uma das ocorrências acabam se perdendo em sua memória. Existem vários precedentes
do STJ nesse sentido.
2ª corrente: NÃO. Não serve como justificativa a alegação de que as testemunhas são policiais
responsáveis pela prisão, cuja própria atividade contribui, por si só, para o esquecimento das
circunstâncias que cercam a apuração da suposta autoria de cada infração penal.
STF. 2ª Turma. HC 130038/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 3/11/2015 (Info 806).

Se o acusado é citado por edital, mesmo assim o processo continua normalmente?


O art. 366 do CPP estabelece que:
 se o acusado for citado por edital e
 não comparecer ao processo nem constituir advogado
 o processo e o curso da prescrição ficarão suspensos.

Se o réu comparecer ao processo ou constituir advogado, o processo e o prazo prescricional voltam a


correr normalmente.
O objetivo do art. 366 é garantir que o acusado que não foi pessoalmente citado não seja julgado à revelia.

Produção antecipada de provas urgentes e prisão preventiva:


O art. 366 do CPP afirma que se o acusado, citado por edital, não comparecer nem constituir advogado, o
juiz poderá determinar:
 a produção antecipada de provas consideradas urgentes e
 decretar prisão preventiva do acusado se estiverem presentes os requisitos do art. 312 do CPP (o simples
fato do acusado não ter sido encontrado não é motivo suficiente para decretar sua prisão preventiva).

Produção antecipada das provas consideradas urgentes:


No caso do art. 366 do CPP, o juiz poderá determinar a produção antecipada de provas consideradas
urgentes.
Para que o magistrado realize a colheita antecipada das provas, exige-se que seja demonstrada a real
necessidade da medida.
Assim, toda produção antecipada de provas realizada nos termos do art. 366 do CPP está adstrita à sua
necessidade concreta, devidamente fundamentada.

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Nesse sentido, existe, inclusive, entendimento sumulado do STJ:
Súmula 455-STJ: A decisão que determina a produção antecipada de provas com base no artigo 366 do
CPP deve ser concretamente fundamentada, não a justificando unicamente o mero decurso do tempo.

A oitiva de testemunhas pode ser considerada prova urgente para os fins do art. 366 do CPP?
Sim, desde que as circunstâncias do caso concreto revelem a possibilidade concreta de perecimento.
Ex: a testemunha possui idade avançada e se encontra enferma, com possibilidade concreta de morte.

Existe um argumento no sentido de que se as testemunhas forem policiais, deverá haver autorizada a
sua oitiva como prova antecipada, considerando que os policiais lidam diariamente com inúmeras
ocorrências e, se houvesse o decurso do tempo, eles iriam esquecer dos fatos. Esse argumento é aceito
pela jurisprudência? A oitiva das testemunhas que são policiais é considerada como prova urgente para
os fins do art. 366 do CPP?
SIM. É a posição do STJ. NÃO. Julgado do STF.
O fato de o agente de segurança pública atuar É incabível a produção antecipada de prova
constantemente no combate à criminalidade faz testemunhal fundamentada na simples
com que ele presencie crimes diariamente. Em possibilidade de esquecimento dos fatos, sendo
virtude disso, os detalhes de cada uma das necessária a demonstração do risco de
ocorrências acabam se perdendo em sua perecimento da prova a ser produzida (art. 225 do
memória. CPP).
Essa peculiaridade justifica que os policiais sejam Não serve como justificativa a alegação de que as
ouvidos como produção antecipada da prova testemunhas são policiais responsáveis pela
testemunhal, pois além da proximidade temporal prisão, cuja própria atividade contribui, por si só,
com a ocorrência dos fatos proporcionar uma para o esquecimento das circunstâncias que
maior fidelidade das declarações, possibilita ainda cercam a apuração da suposta autoria de cada
o registro oficial da versão dos fatos vivenciados infração penal.
por ele, o que terá grande relevância para a STF. 2ª Turma. HC 130038/DF, Rel. Min. Dias
garantia da ampla defesa do acusado, caso a Toffoli, julgado em 3/11/2015 (Info 806).
defesa técnica repute necessária a repetição do
seu depoimento por ocasião da retomada do curso
da ação penal.
STJ. 5ª Turma. RHC 51.232-DF, Rel. Min. Jorge
Mussi, julgado em 2/10/2014 (Info 549).
STJ. 6ª Turma. RHC 48.073/DF, Rel. Min. Nefi
Cordeiro, julgado em 30/06/2015.

INDULTO
Possibilidade de concessão para pessoas submetidas a medida de segurança

Importante!!!
Indulto é um ato do Presidente da República (art. 84, XII, da CF/88), materializado por meio de
um Decreto, por meio do qual é extinto o efeito executório da condenação imposta a alguém.
Em outras palavras, mesmo havendo ainda pena a ser cumprida, o Estado renuncia ao seu
direito de punir, sendo uma causa de extinção da punibilidade (art. 107, II, CP).
Tradicionalmente, o indulto é concedido a pessoas que receberam uma pena por terem sido

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condenadas pela prática de infração penal. No entanto, é possível que o indulto seja concedido
a pessoas que receberam medida de segurança.
Sobre o tema, o STF definiu a seguinte tese:

"Reveste-se de legitimidade jurídica a concessão, pelo Presidente da República, do benefício


constitucional do indulto (CF, art. 84, XII), que traduz expressão do poder de graça do Estado,
mesmo se se tratar de indulgência destinada a favorecer pessoa que, em razão de sua
inimputabilidade ou semi-imputabilidade, sofre medida de segurança, ainda que de caráter
pessoal e detentivo."
STF. Plenário. RE 628658/RS, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 4 e 5/11/2015 (Info 806).

Anistia, graça e indulto:


- são formas de renúncia do Estado ao seu direito de punir;
- classificam-se como causas de extinção da punibilidade (art. 107, II, CP);
- a anistia, a graça e o indulto são concedidas pelo Poder Legislativo (no primeiro caso) ou pelo Poder
Executivo (nos dois últimos), mas somente geram a extinção da punibilidade com a decisão judicial;
- podem atingir crimes de ação penal pública ou privada.

ANISTIA GRAÇA INDULTO


(ou indulto individual) (ou indulto coletivo)
É um benefício concedido pelo Congresso Concedidos por Decreto do Presidente da República.
Nacional, com a sanção do Presidente da
República (art. 48, VIII, CF/88), por meio do Apagam o efeito executório da condenação.
ualà seà pe doa à aà p ti aà deà u à fatoà
criminoso. A atribuição para conceder pode ser delegada ao(s):
Normalmente, incide sobre crimes políticos,  Procurador Geral da República;
mas também pode abranger outras espécies  Advogado Geral da União;
de delito.  Ministros de Estado.
É concedida por meio de uma lei federal Concedidos por meio de um Decreto.
ordinária.
Pode ser concedida: Tradicionalmente, a doutrina afirma que tais benefícios
 antes do trânsito em julgado (anistia só podem ser concedidos após o trânsito em julgado da
própria); condenação. Esse entendimento, no entanto, está cada
 depois do trânsito em julgado (anistia dia mais superado, considerando que o indulto natalino,
imprópria). por exemplo, permite que seja concedido o benefício
desde que tenha havido o trânsito em julgado para a
acusação ou quando o MP recorreu, mas não para
agravar a pena imposta (art. 5º, I e II, do Decreto
7.873/2012).
Classificação Classificação
a) Propriamente dita: quando concedida a) Plenos: quando extinguem totalmente a pena.
antes da condenação. b) Parciais: quando somente diminuem ou substituem a
b) Impropriamente dita: quando concedida pena (comutação).
após a condenação.
a) Incondicionados: quando não impõem qualquer
a) Irrestrita: quando atinge indistintamente condição.
todos os autores do fato punível. b) Condicionados: quando impõem condição para sua
b) Restrita: quando exige condição pessoal concessão.
do autor do fato punível. Ex.: exige
primariedade. a) Restritos: exigem condições pessoais do agente. Ex.:

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a) Incondicionada: não se exige condição exige primariedade.
para a sua concessão. b) Irrestritos: quando não exigem condições pessoais do
b) Condicionada: exige-se condição para a agente.
sua concessão. Ex.: reparação do dano.

a) Comum: atinge crimes comuns.


b)Especial: atinge crimes políticos.
Extingue os efeitos penais (principais e Só extinguem o efeito principal do crime (a pena).
secundários) do crime.

Os efeitos de natureza civil permanecem Os efeitos penais secundários e os efeitos de natureza


íntegros. civil permanecem íntegros.
O réu condenado que foi anistiado, se O réu condenado que foi beneficiado por graça ou
cometer novo crime, não será reincidente. indulto, se cometer novo crime, será reincidente.
É um benefício coletivo que, por referir-se É um benefício individual É um benefício coletivo
somente a fatos, atinge apenas os que o (com destinatário certo). (sem destinatário certo).
cometeram. Depende de pedido do É concedido de ofício (não
sentenciado. depende de provocação).

Indulto natalino
É bastante comum o Presidente da República editar um Decreto, no final de todos os anos, concedendo
i dulto.àEsseàDe etoà à o he idoà o oà i dultoà atali o .
No Decreto de indulto já constam todas as condições para a concessão do benefício. Caso o apenado
atenda a esses requisitos, o juiz das execuções deve reconhecer o direito, extinguindo a pena pelo indulto.

Indulto e medida de segurança


Sanção penal é a resposta dada pelo Estado à pessoa que praticou uma infração penal.
Existem duas espécies de sanção penal:
a) pena;
b) medida de segurança.

Medidaà deà segu a çaà à aà odalidadeà deà sanção penal com finalidade exclusivamente preventiva, e de
caráter terapêutico, destinada a tratar inimputáveis e semi-imputáveis portadores de periculosidade, com
oàes opoàdeàevita àaàp ti aàdeàfutu asài f açõesàpe ais. à Má““ON,àCle e .àDireito Penal esquematizado.
São Paulo: Método, 2012, p. 815).

Assim, a medida de segurança é aplicável para o indivíduo que praticou uma conduta típica e ilícita, mas,
no tempo do fato, ele era totalmente incapaz (inimputável) ou parcialmente capaz (semi-imputável) de
entender o caráter ilícito de sua conduta e de se autodeterminar segundo tal entendimento. Em razão
disso, em vez de receber uma pena, ele estará sujeito a receber uma medida de segurança (AVENA,
Norberto. Execução penal esquematizado. São Paulo: Método, p. 363).

Ao final do ano, a Presidente da República tem editado Decreto concedendo indulto a diversas pessoas
condenadas pela prática de infrações penais. Dentre os beneficiados com esse perdão, têm sido incluídos
indivíduos que receberam medidas de segurança. Veja, por exemplo, o Decreto nº 8.380/2014:
Art. 1º Concede-se o indulto coletivo às pessoas, nacionais e estrangeiras:
(...)
XII - submetidas a medida de segurança, que, até 25 de dezembro de 2014, independentemente da
cessação de periculosidade, tenham suportado privação da liberdade, internação ou tratamento
ambulatorial por período igual ou superior ao máximo da pena cominada à infração penal correspondente
à conduta praticada ou, nos casos de substituição prevista no art. 183 da Lei de Execução Penal, por

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9


período igual ao remanescente da condenação cominada;

O Ministério Público não concordou com essa prática. Segundo argumentou o Parquet, a medida de
segurança é um instituto jurídico de natureza terapêutica e que tem por objetivo evitar que a pessoa que
apresenta certo grau de periculosidade pratique novos fatos previstos como crime. Logo, de acordo com o
MP, só se poderia afastar a medida de segurança após uma avaliação técnica na qual ficasse comprovado
que o indivíduo não apresenta mais periculosidade. Assim, seria impossível conceder indulto para pessoas
submetidas a medida de segurança.

A tese do MP foi acolhida pelo STF? É vedada a concessão de indulto para pessoas submetidas a medida
de segurança?
NÃO. A tese do MP não foi acolhida. É possível sim a concessão de indulto para pessoas submetidas a
medida de segurança.
A competência do Presidente da República para a concessão de indulto (art. 84, XII, da CF/88) abrange não
apenas pessoas que receberam "pena", como também aquelas que foram submetidas a medida de
segurança, considerando que ambas são espécies de sanção penal. Ademais, não existe uma restrição
expressa à concessão de indulto.

O STF aprovou a seguinte tese para efeitos de aplicação da repercussão geral (para servir de paradigma):
Reveste-se de legitimidade jurídica a concessão, pelo Presidente da República, do benefício constitucional
do indulto (CF, art. 84, XII), que traduz expressão do poder de graça do Estado, mesmo se se tratar de
indulgência destinada a favorecer pessoa que, em razão de sua inimputabilidade ou semi-imputabilidade,
sofre medida de segurança, ainda que de caráter pessoal e detentivo.

DIREITO TRIBUTÁRIO

IPTU
Alíquota aplicável em caso de lei municipal declarada inconstitucional por prever
progressividade em função do valor do imóvel antes da EC 29/2000

Antes da EC 29/2000, a CF/88 permitia para o IPTU apenas a progressividade em razão da


função social da propriedade (art. 182, § 4º, II). A Constituição não previa, expressamente, a
progressividade em razão do valor do imóvel (art. 156, § 1º, I).
Ocorre que mesmo antes da EC 29/2000, muitos Municípios editaram leis prevendo alíquotas
progressivas em razão do valor do imóvel. O STF considera que essas leis são inválidas:
Súmula 668-STF: É inconstitucional a lei municipal que tenha estabelecido, antes da emenda
constitucional 29/2000, alíquotas progressivas para o IPTU, salvo se destinada a assegurar o
cumprimento da função social da propriedade urbana.
Com a declaração de inconstitucionalidade da lei municipal, os contribuintes irão pagar o IPTU
com base em qual alíquota?
A mínima prevista. O STF firmou a seguinte tese: "Declarada inconstitucional a
progressividade de alíquota tributária, é devido o tributo calculado pela alíquota mínima
correspondente, de acordo com a destinação do imóvel."
STF. Plenário. RE 602347/MG, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 4/11/2015 (repercussão geral)
(Info 806).

IPTU

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10


IPTU significa imposto sobre propriedade territorial urbana de bens imóveis, sendo tributo de
competência dos Municípios.

O IPTU está previsto no art. 156, I, da CF/88:


Art. 156. Compete aos Municípios instituir impostos sobre:
I - propriedade predial e territorial urbana;

Normas que regem o IPTU


 CF/88 (arts. 156, I, e § 1º; art. 182, § 4º, II);
 CTN (arts. 32 a 34);
 Estatuto da Cidade - Lei federal n. 10.257/2001 (art. 7º);
 Lei municipal que institua o imposto (verificar a lei local).

Características
Trata-se de um imposto:
 Real: incide sobre uma coisa (propriedade imobiliária urbana);
 Direto: o próprio contribuinte é quem suporta o encargo financeiro da tributação (não há repercussão
econômica);
 Fiscal: a função precípua deste imposto é a arrecadação (imposto fiscal). Vale ressaltar, no entanto,
que, em alguns casos, ele poderá assumir também um caráter extrafiscal (forma de estimular o
cumprimento da função social da propriedade);
 Progressivo: pode ser progressivo no tempo caso a propriedade não esteja cumprindo sua função
social (art. 182, § 4º), além de poder ser progressivo em razão do valor do imóvel (art. 156, § 1º, I);
 Complexivo: significa que seu fato gerador é um só ao longo de todo o ano.

Fato gerador

- de bem imóvel
propriedade

O fato gerador - por natureza ou
domínio útil

do IPTU é a... - por acessão física
posse
- localizado na zona urbana.

Alíquota
As alíquotas poderão ser livremente estipuladas pelos Municípios, desde que, obviamente, não sejam tão
elevadas a ponto de caracterizar um confisco, o que é vedado constitucionalmente (art. 150, IV, da CF/88).
Existem três critérios de diferenciação de alíquota no IPTU:
a) Progressividade em razão do valor do imóvel (art. 156, § 1º, I);
b) Progressividade em razão da função social da propriedade (art. 182, § 4º, II): aumento de alíquotas
para desestimular que o imóvel fique não edificado, inutilizado ou subutilizado.
c) Extrafiscalidade pela localização e uso (art. 156, § 1º, II).

O s:àalgu sàauto esà ha a àaàe t afis alidadeàpelaàlo alizaçãoàeàusoàdeà seletividadeàdoàIPTU .àÉàoà asoà
de Hugo de Brito Machado e Ricardo Lobo Torres.

Progressividade
Progressividade é uma técnica de tributação que tem como objetivo fazer com que os tributos atendam à
capacidade contributiva.
Na prática, a progressividade funciona da seguinte forma: a lei prevê alíquotas variadas para o imposto e o
aumento dessas alíquotas ocorre na medida em que se aumenta a base de cálculo.
Assim, na progressividade, quanto maior a base de cálculo, maior será a alíquota.

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 11


O exemplo comum citado pela doutrina é o do imposto de renda, que é progressivo.
No IR, quanto maior for a renda (BC), maior será o percentual (alíquota) do imposto. Quanto mais a pessoa
ganha, maior será a alíquota que irá incidir sobre seus rendimentos.

O IPTU é progressivo?
SIM. Existem duas espécies de progressividade no IPTU:
a) Progressividade em razão do valor do imóvel (art. 156, § 1º, I): quanto maior o valor do imóvel, maior a
alíquota. Trata-se de progressividade fiscal (com o objetivo de arrecadar mais).
b) Progressividade em razão da função social da propriedade (art. 182, § 4º, II): aumento de alíquotas para
desestimular que o imóvel fique não edificado, inutilizado ou subutilizado. Consiste em uma
progressividade extrafiscal (tem por finalidade fazer cumprir um mandamento constitucional, qual seja, a
função social da propriedade).

O IPTU sempre teve essas duas espécies de progressividade?


NÃO.
Antes da EC 29/2000, a CF/88 permitia para o IPTU apenas a progressividade em razão da função social da
propriedade (art. 182, § 4º, II) (letra "b" acima). A Constituição não previa, expressamente, a
progressividade em razão do valor do imóvel (art. 156, § 1º, I) (letra "a" acima).
Ocorre que mesmo antes da EC 29/2000, muitos Municípios editaram leis prevendo alíquotas progressivas
em razão do valor do imóvel. Em outras palavras, mesmo sem autorização expressa da CF/88, os
Municípios fizeram leis fixando alíquotas de IPTU que variavam de acordo com o valor do imóvel. Quanto
maior a faixa de valor, maiores eram as alíquotas.

Exemplo hipotético de lei municipal prevendo progressividade em razão do valor:


A Lei do Município XXX, editada em 1998, previa o seguinte
Art. 33. A alíquota para cálculo do IPTU é:

I - Quanto aos imóveis residenciais:


a) Para terrenos com valor venal até R$ 100 mil, alíquota de 5% (cinco por cento);
b) Para terrenos com valor venal acima de R$ 100 mil e até R$ 500 mil, alíquota de 7% (sete por cento);
c) Para terrenos com valor venal acima de R$ 500 mil e até R$ 1 milhão, alíquota de 9% (nove por cento);
d) Para terrenos com valor venal acima de R$ R$ 1 milhão, alíquota de 10% (dez por cento).

II - Quanto aos imóveis não-residenciais:


a) Para terrenos com valor venal até R$ 100 mil, alíquota de 6% (seis por cento);
b) Para terrenos com valor venal acima de R$ 100 mil e até R$ 500 mil, alíquota de 8% (oito por cento);
c) Para terrenos com valor venal acima de R$ 500 mil e até R$ 1 milhão, alíquota de 10% (dez por cento);
d) Para terrenos com valor venal acima de R$ R$ 1 milhão, alíquota de 12% (doze por cento).

Para o STF, as leis municipais que, antes da EC 29/2000, previam alíquotas progressivas em razão do
valor do imóvel eram válidas? Essa Lei do Município XXX era válida?
NÃO. Como vimos acima, antes da EC 29/2000, a CF/88 não previa, em seu texto, a progressividade em
razão do valor do imóvel. Para o STF, essa lacuna era proposital e, não havendo previsão expressa, os
Municípios estavam proibidos de instituir a progressividade em razão do valor. Antes da EC 29/2000 só era
válida uma forma de progressividade no IPTU: a progressividade para cumprir a função social da
propriedade. Logo essas leis municipais que trouxeram progressividade fiscal antes da EC 29/2000 eram
inconstitucionais. Foi editada até uma súmula para expor esse entendimento:
Súmula 668-STF: É inconstitucional a lei municipal que tenha estabelecido, antes da emenda constitucional
29/2000, alíquotas progressivas para o IPTU, salvo se destinada a assegurar o cumprimento da função
social da propriedade urbana.

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 12


Imagine que esse art. 33 da Lei do Município XXX foi declarado inconstitucional com base no
entendimento exposto na Súmula 668-STF. A dúvida que surge agora é a seguinte: com a declaração de
inconstitucionalidade, os contribuintes estarão dispensados de pagar o IPTU?
NÃO. O fato de ter sido declarada inconstitucional a progressividade das alíquotas não inviabiliza a
cobrança do IPTU. De acordo com a teoria da divisibilidade da lei, somente se deve proferir a
inconstitucionalidade das normas viciadas, não devendo estender o juízo de censura às outras partes da
lei. Nesse sentido, a lei municipal só seria inconstitucional no tocante à progressividade das alíquotas, de
modo que a solução mais adequada é manter a exigibilidade do tributo.

Qual será, no entanto, a alíquota que deverá ser paga? Suponha que João possui um imóvel avaliado em
R$ 2 milhões, ele pagará o IPTU com base em qual alíquota?
Declarada inconstitucional a progressividade de alíquota tributária, é devido o tributo calculado pela
alíquota MÍNIMA correspondente, de acordo com a destinação do imóvel.
Segundo decidiu o STF, o reconhecimento da inconstitucionalidade da progressividade do IPTU não afasta
a cobrança total do tributo. Esta, no entanto, deve ser realizada pela forma menos gravosa prevista em lei.

JULGADOS NÃO COMENTADOS

Correção monetária, demonstrações financeiras, imposto de renda e Lei 8.200/1991 - 3


É constitucional o inc. I do art. 3º da Lei 8.200/1991, que dispõe sobre a correção monetária das
demonstrações financeiras para efeitos fiscais e societários. Com base nessa orientação, o Tribunal, em
preliminar e, por maioria, conheceu do recurso e, no mérito, deu-lhe provimento. Na espécie, tribunal
regional federal entendera que a devolução parcelada da diferença verificada no ano de 1990 entre a
variação do IPC e do BTNF, estabelecida pela mencionada norma, teria configurado empréstimo
compulsório sem observância dos requisitos constitucionais — v. Informativos 369 e 434. O Tribunal
adotou a jurisprudência por ele firmada no julgamento do RE 201.465/MG (DJU de 17.10.2003) no sentido
de que referido dispositivo, posteriormente modificado pelo art. 11 da Lei 8.682/1993, não representaria
ilegítima e disfarçada espécie de empréstimo, mas sim favor fiscal criado pelo legislador. Vencidos os
Ministros Marco Aurélio (relator), Ricardo Lewandowski (Presidente), Ayres Britto e Rosa Weber, que a ele
negavam provimento. Apontavam que a devolução parcelada da diferença verificada no ano de 1990 entre
a variação do IPC e do BTNF configuraria empréstimo compulsório porque ausentes requisitos
constitucionais.
RE 201512/MG, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Cármen Lúcia.5.11.2015.

Juntada do incidente de inconstitucionalidade


Em conclusão de julgamento e, por maioria, o Plenário deu provimento a agravo regimental em recurso
extraordinário no sentido de dispensar a exigência de juntada do aresto que servira de base ao acórdão
recorrido nas hipóteses em que já houver o pronunciamento do STF sobre a questão. Assim como ocorreu no
asoà o eto,àaàCo teàe te deuà ue,àseàoàpa g afoàú i oàdoàa t.à àdoàCPCà á t.à .à“eàaàalegaçãoàfo à
rejeitada, prosseguirá o julgamento; se for acolhida, será lavrado o acórdão, a fim de ser submetida a questão
ao tribunal pleno. Parágrafo único. Os órgãos fracionários dos tribunais não submeterão ao plenário, ou ao
órgão especial, a arguição de inconstitucionalidade, quando já houver pronunciamento destes ou do plenário
do Supremo Tribunal Federal sobre a questão) permite que, nesses casos, o órgão fracionário não submeta ao
plenário do STF o incidente de inconstitucionalidade, exigir-se a juntada do inteiro teor do acórdão proferido
peloàT i u alà aà uo à oài ide teàdeài o stitu io alidadeàpa aàoà o he i e toàdoà e u soàe t ao di ioà
resultaria em desmedida valoração do julgamento do órgão especial do Tribunal de origem sobre a decisão do
STF. Na espécie, trata-se de agravo regimental interposto contra decisão de relator que, ante a ausência da
juntada da arguição de inconstitucionalidade aos autos, negara seguimento a recurso extraordinário. Tal

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 13


recurso fora manejado contra acórdão de tribunal regional federal que, fundado em precedente do Plenário
daquela Corte, não integrado aos autos, reconhecera a inconstitucionalidade do art. 3º, I, da Lei 8.200/1991,
declarado constitucional pelo STF nos autos do RE 201.465/MG (DJU de 17.10.2003) — v. Informativos 310,
346 e 583. A Corte destacou que, embora o órgão recorrido não tenha transcrito integralmente o acórdão do
tribunal regional que apreciara o incidente de inconstitucionalidade, sua ementa fora reproduzida. Apontou
que estariam sumariadas as razões da decisão, suficientes para afastar qualquer dúvida a respeito do tema.
Ademais, o acórdão recorrido conteria vasta e minuciosa fundamentação própria a respeito da matéria
constitucional, condição suficiente para atestar a higidez do que nele contido e viabilizar o conhecimento do
recurso extraordinário. Vencidos os Ministros Sepúlveda Pertence (relator), Cármen Lúcia, Eros Grau e Marco
Aurélio, que negavam provimento ao recurso. Afastavam a incidência, na espécie, do parágrafo único do art.
481 do CPC.
RE 196752 AgR/MG, rel. orig. Min. Sepúlveda Pertence, red. p/ o acórdão Min. Gilmar Mendes, 5.11.2015.

ECT e prescrição
A Primeira Turma, em conclusão de julgamento e por maioria, proveu agravo regimental para determinar que
o recurso extraordinário tenha sequência. Na espécie, debate-se a possibilidade, à luz do art. 173, § 1º, II, da
CF, de equiparação da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) com a Fazenda Pública — v.
Informativo 797. A Turma destacou que a matéria deveria ser examinada em razão de várias prerrogativas de
direito público já terem sido reconhecidas aos Correios. Vencidos a Ministra Rosa Weber (relatora) e o
Ministro Roberto Barroso que mantinham a decisão agravada no sentido de que o conceito de fazenda
pública se estenderia à ECT. Agravo regimental em agravo regimental em recurso extraordinário provido para
assegurar o trânsito em julgado do recurso extraordinário em que se questiona a aplicação da prescrição
quinquenal prevista no Decreto 20.910/1932 à referida empresa pública prestadora de serviço público.
RE 790059 AgR-AgR/DF, rel. orig. Min. Rosa Weber, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, 3.11.2015.

OUTRAS INFORMAÇÕES

REPERCUSSÃO GERAL
DJe de 3 a 6 de novembro de 2015

REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 907.209-DF


RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. RECLAMATÓRIA TRABALHISTA AJUIZADA POR
SINDICATO, NA QUALIDADE DE SUBSTITUTO PROCESSUAL. CONTROVÉRSIA ACERCA DA NATUREZA DOS DIREITOS
DEMANDADOS, SE INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS OU HETEROGÊNEOS. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. AUSÊNCIA DE
REPERCUSSÃO GERAL.
1. A controvérsia relativa à natureza, se individual homogênea ou heterogênea, dos direitos postulados por Sindicato em reclamação trabalhista, na
qualidade de substituto processual, é de natureza infraconstitucional.
2. É cabível a atribuição dos efeitos da declaração de ausência de repercussão geral quando não há matéria constitucional a ser apreciada ou quando
eventual ofensa à Carta Magna ocorra de forma indireta ou reflexa (RE 584.608-RG, Rel. Min. ELLEN GRACIE, DJe de 13/3/2009).
3. Ausência de repercussão geral da questão suscitada, nos termos do art. 543-A do CPC.
REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 911.161-SC
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS DA LEI 9.099/95. PRAZO
PARA APRESENTAÇÃO DE DEFESA. TERMO INICIAL. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL.
1. A controvérsia relativa ao termo inicial da contagem do prazo para apresentação de defesa no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis, fundada na
interpretação da Lei 9.099/95 e do Código de Processo Civil, é de natureza infraconstitucional.
2. É cabível a atribuição dos efeitos da declaração de ausência de repercussão geral quando não há matéria constitucional a ser apreciada ou quando
eventual ofensa à Carta Magna ocorra de forma indireta ou reflexa (RE 584.608-RG, Rel. Min. ELLEN GRACIE, DJe de 13/3/2009).
3. Ademais, esta Corte, ao apreciar o Tema 800 da sistemática da repercussão geral (ARE 835.833-RG, de minha relatoria, DJe de 26/3/2015),
atribuiu os efeitos da ausência de repercussão geral aos recursos extraordinários interpostos nos Juizados Especiais Cíveis da Lei 9.099/99 que, como
o presente, não demonstrem claramente (a) o prequestionamento de matéria constitucional e (b) a repercussão geral da controvérsia.
4. Ausência de repercussão geral da questão suscitada, nos termos do art. 543-A do CPC.

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 14


CLIPPING DO DJE
3 a 6 de novembro de 2015

AG. REG. NO ARE N. 807.255-RJ


RELATOR: MIN. EDSON FACHIN
AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO TRIBUTÁRIO. DIREITO PROCESSUAL CIVIL.
DEVIDO PROCESSO LEGAL. ITBI. FATO GERADOR. PROMESSA DE COMPRA E VENDA.
1. A jurisprudência do STF se consolidou no sentido de que suposta ofensa aos princípios do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório
e dos limites da coisa julgada, quando a violação é debatida sob a ótica infraconstitucional, não apresenta repercussão geral. Precedente: RE-RG
748.371, de relatoria do Ministro Gilmar Mendes, DJe 1º.8.2013.
2. A transferência do domínio sobre o bem torna-se eficaz a partir do registro público, momento em que incide o Imposto Sobre Transferência de
Bens Imóveis (ITBI), de acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Logo, a promessa de compra e venda não representa fato gerador
idôneo para propiciar o surgimento de obrigação tributária.
3. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO ARE N. 910.280-DF
RELATOR: MIN. ROBERTO BARROSO
EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL E DIREITO DO TRABALHO. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO
EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO. CONTRATO DE TRABALHO ANTERIOR À
CF/1988. INEXISTÊNCIA DE TRANSPOSIÇÃO AO REGIME JURÍDICO ÚNICO. ALEGAÇÃO DE NULIDADE DO CONTRATO DE
TRABALHO. SÚMULA 284/STF. PRECEDENTES.
1. A controvérsia dos autos não é fundada em vínculo estatutário ou em contrato de trabalho temporário submetido a lei especial. Trata-se de
contrato que fora celebrado antes do advento da Constituição Federal de 1988, em época na qual se admitia a vinculação à Administração
Pública de servidores sob o regime da CLT. A competência, portanto, é da Justiça do Trabalho. Precedentes.
2. O Plenário Virtual do Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o ARE 906.491-RG, sob a relatoria do Ministro Teori Zavascki, reconheceu
a existência de repercussão geral da questão constitucional em análise e reafirmou a jurisprudência da Corte sobre a questão.
3. As razões do recurso extraordinário quanto à nulidade do vínculo com a Administração Pública não guardam pertinência com a
fundamentação do acórdão recorrido. Nessas circunstâncias, incide a Súmula 284/STF.
4. Agravo regimental a que se nega provimento.
RHC N. 117.806-PE
REDATOR P/ O ACÓRDÃO: MIN. EDSON FACHIN
EMENTA: RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. DOSIMETRIA DA PENA. PENA-BASE. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS
DESFAVORÁVEIS. FUNDAMENTAÇÃO ADEQUADA. EXASPERAÇÃO. EXCESSO NÃO VERIFICADO. DISCRICIONARIEDADE
REGRADA. INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA. RECURSO DESPROVIDO.
1. É razoável a fundamentação que justifica a exasperação da pena-base tendo em vista a constatação de circunstâncias judiciais desfavoráveis ao
condenado e que extrapolam os elementos típicos inerentes à figura penal cominada.
2. Inexiste excesso no quantum da exasperação quando, presentes diversos vetores negativos, a pena foi fixada abaixo do termo médio. Dosimetria
efetuada segundo os critérios de discricionariedade regrada que naturam a individualização da pena.
3.Recurso ordinário em habeas corpus desprovido.
AG. REG. NO AI N. 671.749-BA
RELATOR: MIN. ROBERTO BARROSO
EMENTA: DIREITO ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO.
CONVERSÃO DE VENCIMENTOS. URV. LEI Nº 8.880/1994. MP 434/1994. REDUÇÃO DE VENCIMENTOS. SÚMULA 279/STF.
1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal já assentou a inexistência de repercussão geral da controvérsia relativa à suposta violação aos princípios do
contraditório, da ampla defesa, dos limites da coisa julgada e do devido processo legal (ARE 748.371-RG, Rel. Min. Gilmar Mendes – Tema 660).
2. A questão referente a redução ou não dos vencimentos implicaria a reanálise dos fatos e provas constantes nos autos, o que é vedado pela súmula
279/STF.
3. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. EM MS N. 27.052-DF
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL EM MANDADO DE SEGURANÇA. ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO QUE
JULGOU ILEGAL O ATO DE CONCESSÃO DE PENSÃO CIVIL. BENEFICIÁRIA. MENOR SOB GUARDA TEMPORÁRIA.
JURISPRUDÊNCIA CONSOLIDADA. AGRAVO REGIMENTAL AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO.
1. A Primeira Câmara do Tribunal de Contas da União considerou ilegal e negou registro à pensão civil instituída por servidora pública federal
falecida e concedida em favor da impetrante, sua neta, nascida em 28/10/1996, ao argumento de que a genitora da impetrante é economicamente ativa,
o que descaracterizava a dependência econômica da menor em relação à instituidora do benefício.
2. O recebimento de pensão temporária até completar 21 (vinte um) anos de idade (alínea “b”, do inciso II, do art. 217, da Lei nº 8.112/1990) é assegurado ao
menor de idade que esteja sob a guarda do servidor na data do seu óbito. Irrelevante o fato de a guarda ser provisória ou definitiva. (MS 25.823/DF, Redator
para o acórdão Min. Ayres Britto, Plenário, DJe 28/08/2009).
3. O art. 205 do Regimento Interno desta Suprema Corte, na redação conferida pela Emenda Regimental nº 28/2009, expressamente autoriza o Relator
a julgar monocraticamente o mandado de segurança, quando a matéria em debate for objeto de jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal
Federal.
4. In casu, a decisão do TCU teve por fundamento, apenas, a necessidade de comprovação da dependência econômica da ora impetrante. Dessa forma,
anulada a decisão questionada e não existindo outra fundamentação para a negativa do registro, a Corte de Contas deve procedê-lo na forma legal.
5. Agravo regimental a que se nega provimento.

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 15


HC N. 127.444-SP
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. SUBSTITUTIVO DE RECURSO CONSTITUCIONAL. INADEQUAÇÃO DA VIA
ELEITA. CRIME DE TRÁFICO DE DROGAS. SENTENÇA CONDENATÓRIA. REGIME DE CUMPRIMENTO DA PENA. SUBSTITUIÇÃO
DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR RESTRITIVA DE DIREITOS. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. MANUTENÇÃO DA PRISÃO
PREVENTIVA. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. CONCESSÃO DA ORDEM DE OFÍCIO.
1. Contra a denegação de habeas corpus por Tribunal Superior prevê a Constituição Federal remédio jurídico expresso, o recurso ordinário.
Diante da dicção do art. 102, II, a, da Constituição da República, a impetração de novo habeas corpus em caráter substitutivo escamoteia o
instituto recursal próprio, em manifesta burla ao preceito constitucional.
2. Inviável o exame das teses defensivas não analisadas pelo Superior Tribunal de Justiça, sob pena de indevida supressão de instância.
3. O decreto de prisão cautelar há de se apoiar nas circunstâncias fáticas do caso concreto, evidenciando que a soltura, ou a manutenção em
liberdade, do agente implicará risco à ordem pública, à ordem econômica, à instrução criminal ou à aplicação da lei penal (CPP, art. 312).
4. A motivação sem elementos concretos ou base empírica idônea a amparar o decreto prisional, esbarra na jurisprudência consolidada deste
Supremo Tribunal Federal, que não lhe reconhece validade. Precedentes.
5. Ordem de habeas corpus concedida para assegurar o direito de o paciente recorrer em liberdade.
AG. REG. NA Rcl N. 21.419-PA
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: RECLAMAÇÃO. AGRAVO REGIMENTAL. DESMEMBRAMENTO DE INVESTIGAÇÃO CRIMINAL POR DETERMINAÇÃO DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. AÇÃO PENAL EM TRAMITAÇÃO PERANTE MAGISTRADO DE PRIMEIRO GRAU. DEPOIMENTO
TESTEMUNHAL PRESTADO POR COLABORADOR. MENÇÃO A AUTORIDADE DETENTORA DE FORO PRIVILEGIADO. USURPAÇÃO
DE COMPETÊNCIA DO STF. INOCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE PERSECUÇÃO CRIMINAL DIRETA DO
PARLAMENTAR PELO JUÍZO RECLAMADO.
1. A atuação do juízo reclamado deu-se com base em decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal em 19.12.2014, nos autos de Pet 5.245, que,
acolhendo manifestação do Procurador-Geral da República, dominus litis, deferiu “os requerimentos de cisão processual, mantendo-se no Supremo
Tribunal Federal aqueles termos em que figurem detentores de prerrogativa de foro correspondente (item VII, h), com remessa dos demais aos juízos
e tribunais indicados”.
2. Eventual encontro de indícios de envolvimento de autoridade detentora de foro privilegiado durante atos instrutórios subsequentes, por si só, não
resulta em violação de competência desta Suprema Corte, ainda mais quando houver prévio desmembramento pelo Supremo Tribunal Federal, como
ocorreu no caso.
3. Não demonstração de persecução, pelo juízo reclamado, da prática de atos violadores da competência do Supremo Tribunal Federal.
4. Agravo regimental a que se nega provimento.
*noticiado no Informativo 802
Ext N. 1.394-DF
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: EXTRADIÇÃO. CLÁUSULA DO ACORDO EXTRADICIONAL FIRMADO ENTRE OS ESTADOS PARTES DO MERCOSUL, A
REPÚBLICA DA BOLÍVIA E A REPÚBLICA DO CHILE QUE IMPEDE A ENTREGA DO SÚDITO ESTRANGEIRO PARA EXECUÇÃO DE
SENTENÇA QUANDO A PENA AINDA POR CUMPRIR FOR INFERIOR A SEIS MESES. INDEFERIMENTO.
1. O acordo de extradição firmado entre os Estados Partes do Mercosul (República Argentina, República Federativa do Brasil, República do Paraguai
e República do Uruguai), a República da Bolívia e a República do Chile promulgado pelo Decreto 5.867/2006, contempla cláusula (artigo 2, item 2)
que impede a entrega do súdito estrangeiro para execução de sentença quando a pena ainda por cumprir no Estado requerente seja inferior a seis
meses.
2. Na verificação de pena remanescente a ser executada pelo Estado requerente é imprescindível que seja computado o lapso temporal em que o
estrangeiro permaneceu preso no aguardo do julgamento do pedido extradicional (art. 91, II, Lei 6.815/1990). Precedentes.
3. A hipótese dos autos revela que a pena remanescente resulta inferior a seis meses.
4. Extradição indeferida.
AG. REG. NA Rcl N. 5.476-PE
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL EM RECLAMAÇÃO. ALEGAÇÃO DE AFRONTA AO QUE DECIDIDO NA ADC Nº 4.
INDEFERIMENTO DE PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. AUSÊNCIA DE ESTRITA ADERÊNCIA.
Ao julgamento da medida cautelar na ADC 4, este Supremo Tribunal Federal assentou a legitimidade das restrições impostas pela Lei nº 9.494/97
relativas ao não cabimento de antecipação de tutela contra o Poder Público nas hipóteses que importem em a) reclassificação ou equiparação de
servidores públicos; (b) concessão de aumento ou extensão de vantagens pecuniárias; (c) outorga ou acréscimo de vencimentos; (d) pagamento de
vencimentos e vantagens pecuniárias a servidor público ou (e) esgotamento , total ou parcial, do objeto da ação, desde que tal ação diga respeito,
exclusivamente, a qualquer das matérias acima referidas.
Não se tratando de insurgência contra a concessão de medida liminar contra a Fazenda Pública nas hipóteses descritas, impõe-se reconhecer a
ausência de estrita aderência entre o ato reclamado e o paradigma invocado.
Agravo regimental conhecido e não provido.
Acórdãos Publicados: 230

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 16


Presunção Constitucional de Inocência - Dever do MP de Provar a Acusação (Transcrições)
(v. Informativo 806)
AP 869/AL*
RELATOR: Ministro Teori Zavascki

REVISOR: Ministro Celso de Mello


VOTO (SENHOR MINISTRO CELSO DE MELLO): A presente ação penal foi ajuizada contra o Deputado Federal ** pela suposta prática do delito
tipificado no art. 129, § 9º, do Código Penal, alegadamente cometido quando o réu – que hoje é membro do Congresso Nacional – exercia o
mandato de Deputado estadual em Alagoas.
A imputação criminal deduzida pelo eminente Senhor Procurador-Geral da República afirma ueàoà u,à oàdiaà / / ,à agrediu
fisicamente a sua ex-companheira ** na residência da vítima à fls.à à– grifei).
Segundo a denúncia,à as agressões perpetradas pelo denunciado ocasionaram lesões corporais leves na vítima, conforme o laudo de exame
de corpo de delito juntado às fls. 20 do apenso 2 à fls.à à– grifei).
Registro, ainda, por necessário, que o Ministério Público Federal, em peça processual protocolada em separado (fls. 52/53), propõe seja
declarada extinta a punibilidade do Deputado Federal ** em relação ao delito de ameaça (CP, art. 147), objeto de apuração nos autos do Inquérito
nº ** (Apenso, vol. 1), por entender consumada, na espécie, a prescrição penal.
Em sua resposta preliminar, o então denunciado alegou, em síntese, (a à a ausência de justa causa para o prosseguimento do feito, já que
toda a prova foi colhida por autoridade incompetente ;à b à a negativa de autoria ,àeis que,à ao contrário do que afirmado na denúncia, não é
verdade que o acusado tenha agredido fisicamente sua ex-companheira ** ,àsustentando, ainda, que, no caso,à a instauração de um processo
pe alàeàeve tualàse te çaà o de ató iaàt a ia à à vidaà eal à aisàp ejuízoàdoà ueà e efí io,à o t a ia doàaàdi ç oàdoàa t.à59, CP, e os fins políticos
de aplicação de uma pena à grifei).
A denúncia foi recebida por esta Suprema Corte, em 05/12/2013, em julgamento que está assim ementado (fls. 327):
P‘OCE““UáLàPENáL.àRECEBIMENTO DA DENÚNCIA. ATENDIMENTO DOS REQUISITOS DO ART. 41 DO CPP. PRESENÇA DE JUSTA
CAUSA (CPP, ART. 395, III), EM FACE DOS INDÍCIOS DE AUTORIA E MATERIALIDADE.
DENÚNCIA RECEBIDA.
(Inq 3.156/AL, Red. p/ o acórdão Min. TEORI ZAVASCKI – grifei)
O Ministério Público Federal, em suas alegações finais, pleiteou a absolvição penal do réu, fazendo-o em manifestação assim ementada (fls.
658):
AÇÃO PENAL. SUPOSTA PRÁTICA DO CRIME DE LESÕES CORPORAIS NO ÂMBITO DE RELAÇÕES DOMÉSTICAS ATRIBUÍDA A
CONGRESSISTA. ALEGAÇÕES FINAIS.
1. Negativa da existência dos fatos em audiência pela vítima, declarando que deu início à persecução criminal como forma de
vi ga ça .
2. Testemunhas negaram em juízo a existência do fato delituoso, com mudança do panorama fático apresentado à autoridade
policial. Laudo pericial que não corresponde à forma como a suposta agressão teria ocorrido.
3. Requerimento de absolvição do réu. Art. 386, VII, do CPP. Promoção de responsabilidade da comunicante pelo crime de
de u iaç oà alu iosa. à(grifei)
O réu, por sua vez, postula a absolvição da imputação penal contra ele deduzida por ausência de qualquer prova evidenciadora da autoria
do delito de lesões corporais (violência doméstica).
Impõe-se examinar, inicialmente, questão prévia, suscitada pelo Ministério Público Federal (fls. 52/53), consistente na ocorrência de causa
extintiva da punibilidade em relação, exclusivamente, ao delito de ameaça (CP, art. 147).
Assiste razão ao eminente Chefe do Ministério Público da União, eis que o exame dos marcos temporais relevantes para o cálculo
prescricional evidencia que se consumou, na espécie, a prescrição da pretensão punitiva do Estado referentemente ao delito tipificado no art. 147
do Código Penal (fls. 52/53):
1. Em relação ao delito de ameaça, objeto do Inquérito nº ** (apenso 1), verifica-se que houve o transcurso do lapso prescricional. A
pena máxima atribuída ao referido crime é de 6 (seis) meses de prisão. Como o delito foi praticado antes do advento da Lei nº 12.234/2010,
aplica-se o prazo prescricional de 2 (dois) anos previsto na redação original do art. 109, inciso VI, do Código Penal, por ser mais benéfico ao
investigado. A suposta ameaça teria sido praticada em 16.7.2007, sendo o prazo prescricional alcançado em 15.7.2009.
2. Ante o exposto, requer o Procurador-Geral da República seja declarada a extinção da punibilidade em relação ao delito de
ameaça. à grifei)
Acolho, por tal motivo, essa douta promoção do Senhor Procurador-Geral da República (fls. 52/53) e declaro extinta, em consequência,
quanto ao crime de ameaça (CP, art. 147), a punibilidade do Deputado Federal **, fazendo-o com apoio no art. 107, IV, c/c o art. 109, VI, do CP.
Superada essa questão, passo, desde logo, ao exame da causa. E, ao fazê-lo, entendo que a insuficiência da prova penal existente nos autos
não pode legitimar a formulação, no caso, de um juízo de certeza que autorize a condenação do réu.
Tenho para mim que os elementos produzidos neste processo evidenciam, de maneira bastante clara, a ausência de dados que permitam
identificar, com segurança, a autoria do crime de lesões corporais por parte do réu, sendo certo, ainda, o caráter precário da prova testemunhal,
que, embora arrolada pelo próprio Ministério Público, contradiz a versão dos fatos narrados na denúncia.
Também o Ministério Público Federal, como precedentemente assinalado, ao manifestar-se pela absolvição do réu, destacou, nas alegações
finais, a iliquidez do conjunto probatório quanto à autoria do fato, valendo destacar o seguinte fragmento de seu pronunciamento (fls. 661/666):
Por ocasião da audiência de instrução, ** declarou, essencialmente, o seguinte:
Juiz – […] A senhora está me dizendo, aqui, que não houve contato físico nenhum entre vocês?
Depoente – Não, não houve.
[…]
Juiz – Muito bem. Então, para finalizar, consta que a senhora foi examinada e foram verificados sinais, salvo engano, no seu
braço, ao que recordo agora. Ao que a senhora atribui, então, esses sinais de agressão?

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 17


Depoente – Não sei. Eu acho que hematoma... eu não sei, porque eu tenho mais duas crianças – uma do meu primeiro
casamento, e ele e eu brincava muito com os meninos, eu fico muito no chão com eles até hoje. Briga de menino, brincadeira de
menino geralmente são pesadas. Eu acho que foi alguma coisa dos meninos que eu devo ter esbarrado também, batido em berço. Eu
sou muito destrambelhada, assim, para essas coisas, até que eu tô com um roxo aqui no joelho.
Juiz – […]àa senhora reitera, então, que, naquela oportunidade – essa oportunidade claramente identificada na denúncia –, a
senhora, em nenhum momento, sofreu agressão física de **?
Depoente – Isso. Reitero.
[…]à
Ministério Público – Então, no caso, na Polícia Civil, a senhora teria inventado que ele lhe agrediu?
Depoente – Isso.
Ministério Público – Como vingança?
Depoente – Isso.
**, mãe da vítima e pessoa que teria presenciado parcialmente os fatos, declarou:
[…]à
Ministério Público – A acusação é de que, em novembro de 2006, ** teria agredido fisicamente a sua filha **. O que a senhora
pode dizer sobre essa acusação, sobre esses fatos?
Testemunha – Olha, agressão física eu não sei; não vi.
Ministério Público – Certo.
Testemunha – Pelo menos perante minha presença não aconteceu. Aí não. Houve discussão de baixíssimo grau.
Ministério Público – A senhora diz que não viu, mas o que a senhora viu?
Eu vi foi, quando fui chamada por uma secretária, que eles estavam em um bate-boca de baixo nível, a ponto de se pegarem.
Só discussões; discussão, como eu digo, de baixo nível. E aquilo estranhou o pessoal que trabalhava na casa, no apartamento, porque
não era comum, até porque também ele não estava mais em casa. Ele já tinha saído de casa, não é? E me chamaram com medo de
que acontecesse alguma coisa, alguma agressão, alguma coisa, mas quando eu cheguei lá meu filho puxou ele para a cozinha, eu
segurei ele e a gente assim... mas agressão, não. De jeito nenhum.
[…]
Ministério Público – Mas quando a senhora chegou lá na casa, ** estava como?
Testemunha – ** estava batendo boca com o **.
Ministério Público – Ah, ainda estava discutindo com ele em pé, na sala?
Testemunha – Estava, estava sim, estava em pé, estava batendo boca mesmo, sério.
Ministério Público – Sem agressão física?
Testemunha – Sem agressão,à asàestavaà a uela,à a ueleà i gue,àsa e?à[…].
Ministério Público – Mas tinha algum machucado no corpo dela? Alguma coisa?
Testemunha – Não, não, tinha não. De jeito nenhum.
Ministério Público – Ele já tinha tentado agredi-la fisicamente antes?
Testemunha – Não, nunca.
Ministério Público – Nunca?
Testemunha – Nunca. O **?
Por sua vez, **, irmão da vítima que teria presenciado parcialmente os fatos, declarou, em síntese, que:
[…]
Juiz – Em nenhum momento então o senhor viu o ** encostando a mão na sua (ininteligível)?
Testemunha – Não, de forma alguma. Pelo contrário. Eu até, para evitar isso, puxei ele para a cozinha, para conversar comigo;
porque, até então, eu não estava sabendo o que estava havendo e o motivo daquela discussão.
[…]
Ministério Público – Depois disso, sua mãe e sua irmã foram à delegacia de polícia para registrar a ocorrência, o senhor sabe?
Testemunha – Quem foi à delegacia fui eu, com ela. Fui eu que a acompanhei.
[…]à
Ministério Público – No mesmo dia?
Testemunha – No mesmo dia, na mesma noite que ela dizendo que tinha sido agredida. E eu perguntei onde estava a agressão,
que eu não tinha visto.
Ministério Público – E ela disse?
Testemunha – Ela ficou calada.
[…]
Ministério Público – E tinha algum machucado no corpo dela?
Testemunha – Eu não vi. Aparentemente, aqui no rosto, o que ela estava apresentando – né? –, eu não vi.
[…]
Juiz – Muitoà e .àMi haàpe gu taà àaàsegui te:à[…]àu aà ulhe à ueàapa ha, estaria talvez segurando um braço, ou gemendo
de dor, ou reclamando de um tapa. Nenhum desses sinais a senhora sua irmã apresentava?
Testemunha – Não, só vi ele chorando muito, mas sinais de agressão eu não vi,àEx el ia.
…...................................................................................................
O conjunto probatório é, contudo, ilíquido quanto à autoria. ** e **, ouvidas pela autoridade policial e pela autoridade judiciária,
modificaram completamente seus relatos de uma para a outra instância, passando a negar o que antes afirmaram.
…...................................................................................................
Impende, portanto, como forma de resguardar a respeitabilidade do sistema de justiça criminal, não só absolver o réu, mas possibilitar à
i st iaào di iaàaàp o oç oàdaà espo sa ilidadeàdeà**àpeloà i eàdeàde u iaç oà alu iosa. à(grifei)
Como se vê, Senhores Ministros, assume inquestionável relevo, no caso ora em julgamento, a ausência conspícua de dados probatórios
evidenciadores da prática delituosa pelo réu.
Com efeito, o estado de dúvida que emerge deste processo penal de conhecimento desautoriza, por completo, qualquer juízo condenatório.

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 18


Na realidade, em nosso sistema jurídico, como ninguém o desconhece, a situação de dúvida razoável só pode beneficiar o réu, jamais
prejudicá-lo, pois esse é um princípio básico que deve sempre prevalecer nos modelos constitucionais que consagram o Estado democrático de
Direito.
O exame dos elementos constantes destes autos evidencia que o Ministério Público deixou de produzir prova penal lícita que corroborasse
o conteúdo da imputação penal deduzida contra o réu, não sendo capaz de cumprir, por isso mesmo, a norma inscrita oàa t.à ,à caput ,àdoàCPP,à
que atribui ao órgão estatal da acusação penal o encargo de provar, para além de qualquer dúvida razoável, a autoria e a materialidade do fato
delituoso.
Como sabemos, nenhuma acusação penal presume-se provada. Esta afirmação, que decorre do consenso doutrinário e jurisprudencial em
torno do tema, apenas acentua a inteira sujeição do Ministério Público ao ônus material de provar a imputação penal consubstanciada na
denúncia.
Com a superveniência da Constituição de 1988, proclamou-se, explicitamente (art. 5º, LVII), um princípio que sempre existira, de modo
imanente, em nosso ordenamento positivo: o princípio da não culpabilidade (ou do estado de inocência) das pessoas sujeitas a procedimentos
pe se utó iosà DáLMOàDEàáBREUàDáLLáRI,à O Renascer do Direito ,àp. / ,à ,àBushatsk ;àWEBERàMáRTIN“àBáTI“Tá,à Liberdade
Provisória ,àp.à ,à ,àFo e se .
Esse postulado – cujo domínio de incidência mais expressivo é o da disciplina da prova – impede que se atribuam à denúncia penal
consequências jurídicas apenas compatíveis com decretos judiciais de condenação definitiva. Esse princípio tutelar da liberdade individual repudia
presunções contrárias ao imputado, que não deverá sofrer punições antecipadas nem ser reduzido,àe àsuaàpessoalàdi e sãoàju ídi a,àaoà status
poenalis àdeà o de ado.àDe outro lado, faz recair sobre o órgão da acusação, agora de modo muito mais intenso, o ônus substancial da prova,
fixando diretriz a ser indeclinavelmente observada pelo magistrado e pelo legislador.
É preciso relembrar, Senhores Ministros, que não compete ao réu demonstrar a sua inocência. Antes, cabe ao Ministério Público
demonstrar, de forma inequívoca, a culpabilidade do acusado. Hoje já não mais prevalece, em nosso sistema de direito positivo, a regra hedionda
que, em dado momento histórico de nosso processo político, criou, para o réu, com a falta de pudor que caracteriza os regimes autoritários, a
obrigação de ele, acusado, provar a sua própria inocência!!!
Refiro-me ao art. 20, inciso 5, do Decreto-lei nº 88, de 20/12/1937 – editado sob a égide do nefando Estado Novo de VARGAS –, que
veiculava, no que se refere aos delitos submetidos a julgamento pelo tristemente célebre Tribunal de Segurança Nacional, e em ponto que guarda
inteira pertinência com estas observações, uma fórmula jurídica de despotismo explícito:à Presume-se provada a acusação, cabendo ao réu prova
em contrário (...) à grifei).
O fato indiscutivelmente relevante no domínio processual penal, Senhores Ministros, é que, no âmbito de uma formação social organizada
sob a égide do regime democrático, não se justifica, sem base probatória idônea, a formulação possível de qualquer juízo condenatório, que deve
sempre assentar-se – para que se qualifique como ato revestido de validade ético-jurídica – em elementos de certeza, os quais, ao dissiparem
ambiguidades, ao esclarecerem situações equívocas e ao desfazerem dados eivados de obscuridade, revelem-se capazes de informar e de subsidiar,
com objetividade, o órgão judiciário competente, afastando, desse modo, dúvidas razoáveis, sérias e fundadas, cuja ocorrência só pode conduzir a
um decreto de absolvição penal.
Não se pode – considerada a presunção constitucional de inocência dos réus – atribuir relevo e eficácia a juízos meramente conjecturais,
para, com fundamento neles, apoiar um inadmissível decreto condenatório.
Não custa enfatizar que, no sistema jurídico brasileiro, não existe qualquer possibilidade de o Poder Judiciário, por simples presunção ou
com fundamento em meras suspeitas, reconhecer, em sede penal, a culpa de alguém.
Revela-se importante advertir, Senhores Ministros, na linha do magistério jurisprudencial e em respeito aos princípios estruturantes do
egi eàde o ti o,à ue,à Por exclusão, suspeita ou presunção, ninguém pode ser condenado em nosso sistema jurídico-penal à RT 165/596, Rel.
Des. VICENTE DE AZEVEDO – grifei).
É preciso relembrar que as limitações à atividade persecutório-penal do Estado traduzem garantias constitucionais insuprimíveis que a
ordem jurídica confere ao suspeito, ao indiciado e ao acusado, com a finalidade de fazer prevalecer o seu estado de liberdade em razão do direito
fundamental – que assiste a qualquer um – de ser presumido inocente.
Cumpre ter presente, bem por isso, neste ponto, em face de sua permanente atualidade, a advertência feitaàpo àRUIàBáRBO“áà Novos
Discursos e Conferências ,àp.à ,à ,à“a aiva àno sentido deà ueà Quanto mais abominável é o crime, tanto mais imperiosa, para os guardas da
ordem social, a obrigação de não aventurar inferências, de não revelar prevenções, de não se extraviar em conjecturas (...) .
Nem se alegue, de outro lado, que os depoimentos prestados pela suposta vítima e pelas testemunhas perante a autoridade policial
autorizariam, por si só, a formulação de um juízo de certeza quanto à culpabilidade do réu em relação aos fatos que lhe foram imputados.
Não podemos desconhecer, no ponto, que o processo penal, representando uma estrutura formal de cooperação, rege-se pelo princípio da
contraposição dialética, que, além de não admitir condenações judiciais baseadas em prova alguma, também não legitima nem tolera decretos
condenatórios apoiados em elementos de informação unilateralmente produzidos pelos órgãos da acusação penal. A condenação do réu pela
prática de qualquer delito – até mesmo pela prática de uma simples contravenção penal – somente se justificará quando existentes, no processo, e
sempre colhidos sob a égide do postulado constitucional do contraditório, elementos de convicção que, projetando-se beyond all reasonable
doubt à além, portanto, de qualquer dúvida razoável), veiculem dados consistentes que possam legitimar a prolação de um decreto condenatório
pelo Poder Judiciário.
Somente a prova penal produzida em juízo pelo órgão da acusação penal, sob a égide da garantia constitucional do contraditório, pode
revestir-se de eficácia jurídica bastante para legitimar a prolação de um decreto condenatório (HC 73.338/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO).
Disso decorre que os subsídios ministrados pelas investigações policiais, que são sempre unilaterais e inquisitivas – embora suficientes ao
oferecimento da denúncia pelo Ministério Público –, não bastam, enquanto isoladamente considerados, para justificar a prolação, pelo Poder Judiciário,
de um ato de condenação penal.
Na realidade, Senhores Ministros, o resultado do inquérito policial traduz, como efeito da atividade unilateral desenvolvida pelo Poder
Público, um acervo informativo meramente destinado a habilitar o órgão da acusação penal, que é o Ministério Público,àaài stau a àaà persecutio
i i isài àjudi io à FERNáNDOàDEàáLMEIDáàPEDRO“O,à Processo Penal – O Direito de Defesa ,àp.à / ,àite à .à ,à ,àFo e se;àVICENTEàDEà
PáULOàVICENTEàDEàá)EVEDO,à Direito Judiciário Penal ,àp.à , ,à“a aiva;àJO“ÉàFREDERICOàMáRQUE“,à Elementos de Direito Processual
Penal ,àvol.àI,àp.à ,à ,àFo e se .
A unilateralidade dasài vestigaçõesàdese volvidasàpelaàPolí iaàJudi i iaà informatio delicti ,àde um lado, e o caráter inquisitivo que
assinala a atuação da autoridade policial, de outro, não autorizam, sob pena de grave ofensa à garantia constitucional do contraditório e da
plenitude de defesa, a formulação de decisão condenatória cujo único suporte venha a ser a prova, não reproduzida em juízo, consubstanciada nas
peças do inquérito respectivo.

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 19


Por isso mesmo, a orientação jurisprudencial dos Tribunais (RT 422/299 – RT 426/395 – RT 448/334 – RT 479/358 – RT 547/355) firmou-se
no sentido de que:
É nula a decisão proferida em processo que correu em branco, sem que nenhuma prova fosse produzida em Juízo.
(RT 520/484 – grifei)
A prova colhida no inquérito não serve, sabidamente, para dar respaldo a um decreto condenatório, à falta de garantia do
contraditório penal.
(RT 512/355 – grifei)
Nem se diga que o princípio do livre convencimento do magistrado deveria preponderar, sem qualquer limitação, tendo presente, apenas, a
realidade do conjunto probatório, e não o lugar em que este se produziu. Como apropriadamente observa FERNANDO DE ALMEIDA PEDROSO
op. cit. ,àp.à ,àite à ºà ,à sufragar-se tal escólio implicaria postergar-se, de maneira flagrante, o princípio basilar do contraditório... .
Outro não é o magistério deàJO“ÉàFREDERICOàMáRQUE“à Tratado de Direito Processual Penal , vol. I, 1980, Saraiva), para quem não há
prova (ou como tal não se considera), quando não produzida contraditoriamente à p.à à– grifei). Afinal, salienta o saudoso Mestre paulista,à se
a Constituição solenemente assegura aos acusados ampla defesa, importa violar essa garantia valer-se o Juiz de provas colhidas em procedimento
em que o réu não podia usar do direito de defender-seà o àosà eiosàeà e u sosài e e tesàaàesseàdi eito (p. 104).
O entendimento que venho de referir encontra apoio e àauto izadoà agist ioàdout i ioà EDUáRDOàE“PÍNOLáàFILHO,à Código de
Processo Penal Brasileiro Anotado ,àvol.àIV/ - ,àite à .à ,à ªàed.,à ,àBo soi;àJULIOàFáBBRINIàMIRáBETE,à Código de Processo Penal
Interpretado àp.à . ,àite à .à . ,à ªàed.,à ,àátlas;àGUILHERMEàDEà“OU)áàNUCCI,à Código de Processo Penal Comentado ,àp.à ,àite à .à
48, 5ª ed., 2006, RT), valendo referir, no ponto, ante a extrema pertinência de suas observações, a lição de FERNANDO DA COSTA TOURINHO
FILHOà Código de Processo Penal Comentado ,àvol.àI/ ,àite à .àVI,à ªàed.,à ,à“a aiva :
… àPara que o Juiz possa proferir um decreto condenatório é preciso haja prova da materialidade delitiva e da autoria. Na dúvida,
a absolvição se impõe. Evidente que a prova deve ser séria, ao menos sensata. Mais ainda: prova séria é aquela colhida sob o crivo do
contraditório. Na hipótese de, na instrução, não ter sido feita nenhuma prova a respeito da autoria, não pode o Juiz louvar-se no apurado na
fase inquisitorial presidida pela Autoridade Policial. Não que o inquérito não apresente valor probatório; este, contudo, somente poderá ser
levado em conta se, na instrução, surgir alguma prova, quando, então, é lícito ao Juiz considerar tanto as provas do inquérito quanto aquelas
por ele colhidas, mesmo porque, não fosse assim, estaria proferindo um decreto condenatório sem permitir ao réu o direito constitucional do
o t aditó io.à … . à grifei)
Em suma: a análise dos elementos de informação contidos neste processo leva-me a reconhecer a inexistência de prova penal convincente e
necessária que permita, de modo seguro, a formulação de um juízo de certeza quanto à autoria do fato delituoso cuja prática foi imputada ao réu
pelo Ministério Público.
Sendo assim, e consideradas as razões por mim expostas, julgo improcedente a presente ação penal, para, em consequência, absolver o réu,
**, da imputação penal contra ele deduzida (CP, art. 129, § 9º), fazendo-o nos termos do art. 386, inciso VII, do CPP, restando prejudicado, em
consequência, o exame doà agravo regimental àinterposto pelo Ministério Público Federal a fls. 254/263.
É o meu voto.
*acordão pendente de publicação
**nomes suprimidos pelo Informativo

INOVAÇÕES LEGISLATIVAS
3 a 6 de novembro de 2015

Lei nº 13.183, de 4.11.2015 - Altera as Leis nºs 8.212, de 24 de julho de 1991, e 8.213, de 24 de julho de 1991,
para tratar da associação do segurado especial em cooperativa de crédito rural e, ainda essa última, para atualizar o rol
de dependentes, estabelecer regra de não incidência do fator previdenciário, regras de pensão por morte e de
empréstimo consignado, a Lei nº 10.779, de 25 de novembro de 2003, para assegurar pagamento do seguro-defeso para
familiar que exerça atividade de apoio à pesca, a Lei nº 12.618, de 30 de abril de 2012, para estabelecer regra de
inscrição no regime de previdência complementar dos servidores públicos federais titulares de cargo efetivo, a Lei nº
10.820, de 17 de dezembro de 2003, para dispor sobre o pagamento de empréstimos realizados por participantes e
assistidos com entidades fechadas e abertas de previdência complementar e a Lei nº 7.998, de 11 de janeiro de 1990; e
dá outras providências. Publicada no DOU, Seção 1, Edição nº 211, p. 1, em 5.11.2015.
Lei nº 13.184, de 4.11.2015 - Acrescenta § 2o ao art. 44 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996 - Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, para dispor sobre a matrícula do candidato de renda familiar inferior a dez
salários mínimos nas instituições públicas de ensino superior. Publicada no DOU, Seção 1, Edição nº 211, p. 2, em
5.11.2015.
Lei nº 13.185, de 6.11.2015 - Institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying). Publicada no
DOU, Seção 1, Edição nº 213, p. 1, em 9.11.2015.
Secretaria de Documentação – SDO
Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 806-STF (13/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 20


Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos em virtude de pedidos de vista:
RE 579431/RS; MS 31285/DF.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
COMPETÊNCIAS LEGISLATIVAS
 A disciplina sobre o ordenamento do espaço urbano pode ser feita por meio de outras leis municiais além do plano
diretor, desde que sejam compatíveis com esta.

CNMP
 Procedimento de controle administrativo e notificação pessoal.

DIREITO PROCESSUAL PENAL


COMPETÊNCIA
 Disponibilizar ou adquirir material pornográfico envolvendo criança ou adolescente.

DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL MILITAR


PEDERASTIA
 Inconstitucionalidade das expressões que mencionem homossexualismo

DIREITO CONSTITUCIONAL

COMPETÊNCIAS LEGISLATIVAS
A disciplina sobre o ordenamento do espaço urbano pode ser feita por meio de outras leis
municipais além do plano diretor, desde que sejam compatíveis com esta

Os Municípios com mais de 20 mil habitantes e o Distrito Federal podem legislar sobre
programas e projetos específicos de ordenamento do espaço urbano por meio de leis que
sejam compatíveis com as diretrizes fixadas no plano diretor.
Isso significa que nem sempre que o Município for legislar sobre matéria urbanística, ele
precisará fazê-lo por meio do Plano Diretor. O Plano Diretor é o instrumento legal que dita a
atuação do Município ou do Distrito Federal quanto ao ordenamento urbano, traçando suas
linhas gerais, porém a sua execução pode se dar mediante a expedição de outras lei e decretos,
desde que guardem conformidade com o Plano Diretor.
STF. Plenário. RE 607940/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 29/10/2015 (Info 805).

Imagine a seguinte situação:


No Distrito Federal, foi editada uma lei (Lei Complementar 710/2005) estabelecendo regras para a criação de
condomínios fechados (também denominados "condomínios horizontais" ou "condomínios urbanísticos").
Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1
Vale ressaltar que o DF, por não ser dividido em Municípios (art. 32, caput, da CF/88), acumula tanto as
competências dos Estados-membros, como dos Municípios (art. 32, § 1º). Assim, quando o DF editou essa
lei, ele estava exercendo uma competência municipal (art. 30, I e II).
O Ministério Público do Distrito Federal ajuizou ação direta de inconstitucionalidade (ADI) no TJDFT contra
a lei, tendo, contudo, o Tribunal de Justiça julgado a ADI improcedente.
Contra a decisão do TJ, o MP interpôs recurso extraordinário ao STF argumentando que a LC 710/2005
violaria o art. 182, §§ 1º e 2º, da CF/88, que define que é o plano diretor o instrumento básico de política
de desenvolvimento e de expansão urbana:
Art. 182 (...)
§ 1º - O plano diretor, aprovado pela Câmara Municipal, obrigatório para cidades com mais de vinte mil
habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana.
§ 2º - A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de
ordenação da cidade expressas no plano diretor.

Em outras palavras, não poderia ter sido editada essa lei, uma vez que se trata de assunto que deveria ser
tratado no plano diretor.

A tese esposada pelo MP foi acatada pelo STF?


NÃO. A Constituição prevê que compete concorrentemente à União, aos Estados-membros, ao DF e aos
Municípios legislar sobre direito urbanístico (art. 24, I e § 1º, e 30, II). Nesta competência, os Municípios
possuem um papel fundamental porque tais entes serão os responsáveis pelo planejamento da política de
desenvolvimento e expansão urbana, a ser conduzida com a aprovação, pela Câmara Municipal, de um
plano diretor (obrigatório para as cidades com mais de 20.000 habitantes).
Vale ressaltar, no entanto, que nem toda matéria urbanística relativa às formas de parcelamento, ao uso
ou à ocupação do solo precisa estar inteiramente regrada no plano diretor. Determinados modos de
aproveitamento do solo urbano, pelas suas singularidades, podem receber disciplina jurídica autônoma,
ou seja, podem estar em leis específicas, como foi o caso da LC 710/2005.
O Plano Diretor é o instrumento legal que dita a atuação do Município ou do Distrito Federal quanto ao
ordenamento urbano, traçando suas linhas gerais, porém a sua execução pode se dar mediante a
expedição de outras lei e decretos, desde que guardem conformidade com o Plano Diretor (Min. Luiz Fux).

Em suma, o STF firmou a seguinte tese para fins de repercussão geral:


Os Municípios com mais de 20 mil habitantes e o Distrito Federal podem legislar sobre programas e
projetos específicos de ordenamento do espaço urbano por meio de leis que sejam compatíveis com as
diretrizes fixadas no plano diretor.

CNMP
Procedimento de controle administrativo e notificação pessoal

Reveste-se de nulidade a decisão do CNMP que, em procedimento de controle administrativo


(PCA), notifica o interessado por meio de edital publicado no Diário Oficial da União para
restituir valores aos cofres públicos.
A notificação por edital é feita com fundamento no Regimento Interno do CNMP. Essa previsão
também constava no Regimento interno do CNJ. Ocorre que o STF entende que tal disposição
normativa é inconstitucional, sendo necessária a intimação pessoal.
STF. 2ª Turma. MS 26419/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 27/10/2015 (Info 805).

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


Imagine a seguinte situação adaptada:
O CNMP instaurou procedimento de controle administrativo (PCA) contra determinado Promotor de Justiça.
O Conselho concluiu que houve a prática de atos irregulares por parte do Promotor e determinou que ele
devolvesse R$ 200 mil que teriam sido recebidos indevidamente.
O Promotor de Justiça foi notificado por meio de edital para que devolvesse os valores.

Diante disso, indaga-se: essa notificação foi válida?


NÃO. Reveste-se de nulidade a decisão do CNMP que, em procedimento de controle administrativo (PCA),
notifica o interessado por meio de edital publicado no Diário Oficial da União para restituir valores aos
cofres públicos.
A notificação por edital é feita com fundamento no art. 105 do Regimento Interno do CNMP O Relato
determinará a oitiva da autoridade que praticou o ato impugnado e, por edital, dos eventuais beneficiários
de seus efeitos, o p azo de ui ze dias . Essa previsão também constava no Regimento interno do CNJ.
Ocorre que o STF entende que tal disposição normativa é inconstitucional, sendo necessária a intimação
pessoal.

DIREITO PROCESSUAL PENAL

COMPETÊNCIA
Disponibilizar ou adquirir material pornográfico envolvendo criança ou adolescente

Importante!!!
Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes consistentes em disponibilizar ou
adquirir material pornográfico envolvendo criança ou adolescente (arts. 241, 241-A e 241-B
do ECA), quando praticados por meio da rede mundial de computadores (internet).
STF. Plenário. RE 628624/MG, Rel. Orig. Min. Marco Aurélio, Red. p/ o acórdão Min. Edson Fachin,
julgado em 28 e 29/10/2015 (repercussão geral) (Info 805).

Inciso V do art. 109 da CF/88


O art. 109 da CF/88 prevê a competência da Justiça Federal comum em 1ª instância.
Veja a hipótese trazida pelo inciso V:
Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:
(...)
V - os crimes previstos em tratado ou convenção internacional, quando, iniciada a execução no País, o
resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente;

Este inciso fixa competência criminal da Justiça Federal. Consiste em competência estabelecida em função
da matéria.

Para que o delito seja de competência da Justiça Federal com base neste inciso, são necessários três
requisitos:
a) que o fato seja previsto como crime em tratado ou convenção;
b) que o Brasil seja signatário de compromisso internacional de combate àquela espécie delitiva;
c) que exista uma relação de internacionalidade entre a conduta criminosa praticada e o resultado
produzido [ou que deveria ter sido produzido].

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


A relação de internacionalidade ocorre quando:
• iniciada a execução do crime no Brasil, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro;
• iniciada a execução do crime no estrangeiro, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no Brasil.

Desse modo, não é suficiente que o crime esteja previsto em tratado ou convenção internacional para ser
julgado pela Justiça Federal.

Podemos citar os seguintes exemplos de crimes que poderão ser submetidos a julgamento pela Justiça
Federal com fundamento no art. 109, V, da CF/88, desde que haja relação de internacionalidade, por
serem previstos em tratados internacionais:
a) tráfico transnacional de drogas (art. 70, da Lei nº 11.343/2006);
b) tráfico internacional de arma de fogo (art. 18 da Lei nº 10.826/2003);
c) tráfico internacional de pessoas para fim de exploração sexual (art. 231 do CP);
d) envio ilegal de criança ou adolescente para o exterior (art. 239 do ECA).

Todo crime praticado pela internet é de competência da Justiça Federal com base neste inciso V?
Obviamente que não. Segundo entendimento pacífico da jurisprudência, o fato de o delito ter sido
cometido pela rede mundial de computadores não atrai, por si só, a competência da Justiça Federal. Para
que o delito cometido por meio da internet seja julgado pela Justiça Federal, é necessário que se amolde
em umas das hipóteses elencadas no art. 109, IV e V, da CF/88.

Disponibilizar ou adquirir material pornográfico envolvendo criança ou adolescente


O ECA prevê três crimes que punem a conduta de disponibilizar ou adquirir material pornográfico
envolvendo criança ou adolescente. Veja:
Art. 241. Vender ou expor à venda fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito
ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente:
Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.

Art. 241-A. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar por qualquer meio,
inclusive por meio de sistema de informática ou telemático, fotografia, vídeo ou outro registro que
contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente:
Pena – reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa.
(...)

Art. 241-B. Adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro
que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente:
Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
(...)

De quem será a competência para julgar esses delitos caso tenham sido praticados por meio da internet?
Justiça Federal, com base no art. 109, V, da CF/88.
Os delitos acima listados são crimes que o Brasil, por meio de tratado internacional, comprometeu-se a
reprimir. Trata-se da Convenção sobre Direitos da Criança, adotada pela Assembleia Geral das Nações
Unidas, aprovada pelo Decreto legislativo 28/90 e pelo Decreto 99.710/90.
Se o crime é praticado por meio da internet, o vídeo ou a fotografia envolvendo a criança ou o adolescente
em cenas de sexo ou de pornografia poderão ser visualizados em qualquer computador do mundo.
Ocorre, portanto, a transnacionalidade do delito.

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 4


A tese firmada pelo STF ficou assim redigida:
Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes consistentes em disponibilizar ou adquirir material
pornográfico envolvendo criança ou adolescente [artigos 241, 241-A e 241-B da Lei 8.069/1990] quando
praticados por meio da rede mundial de computadores.

De quem será a competência territorial?


A competência territorial é da Seção Judiciária do local onde o réu publicou as fotos, não importando o
Estado onde se localize o servidor do site: STJ. CC 29.886/SP, julgado em 12/12/2007.
E se o réu publicou as fotos no exterior? Esse crime poderá ser julgado pelo Brasil, por se enquadrar na
hipótese prevista no art. 7º, II, do CP, cumpridas as condições previstas no § 2º do mesmo art. 7º. Em
sendo preenchidos tais requisitos, o delito seria julgado no Brasil pela Justiça Federal, sendo competente a
Seção Judiciária da capital do Estado onde o acusado por último morou ou, se nunca residiu aqui, será
competente a Seção Judiciária do Distrito Federal (art. 88 do CPP).

DIREITO PENAL E
PROCESSUAL PENAL MILITAR

PEDERASTIA
Inconstitucionalidade das expressões que mencionem homossexualismo

O tipo penal do art. 235 do CPM continua sendo crime mesmo com a CF/88. No entanto, devem
ser consideradas incompatíveis com a CF/88 as expressões empregadas que falem em
homossexualismo. Isso porque o crime em tela se configura tanto quando o militar pratica
relação sexual com alguém do mesmo sexo, como também de sexo diferente, não devendo
haver distinção de tratamento.
Assim, as expressões pederastia ou outro — mencionada na rubrica enunciativa referente ao
art. 235 do CPM — e homossexual ou não — contida no aludido dispositivo — não foram
recepcionadas pela CF/88.
STF. Plenário. ADPF 291/DF, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 28/10/2015 (Info 805).

O Código Penal militar prevê o seguinte delito:


Pederastia ou outro ato de libidinagem
Art. 235. Praticar, ou permitir o militar que com ele se pratique ato libidinoso, homossexual ou não, em
lugar sujeito a administração militar:
Pena - detenção, de seis meses a um ano.

ADPF 291
O Procurador-Geral da República ajuizou uma arguição de descumprimento de preceito fundamental
(ADPF) contra esse dispositivo alegando que ele violaria os princípios da isonomia, da liberdade, da
dignidade da pessoa humana, da pluralidade e do direito à privacidade, e pedia que fosse declarada a não
recepção do dispositivo pela CF/88. Subsidiariamente, pedia a declaração de inconstitucionalidade do
te o pede astia e da exp essão ho ossexual ou ão a tipificação pe al.
Para o PGR, essa norma foi editada no contexto histórico de um regime militar ditatorial, marcado pelo
autoritarismo e pela intolerância às diferenças.

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 5


O pedido contido na ADPF foi aceito?
Em parte. O STF decidiu que o tipo penal deveria ser mantido, mas deveriam ser declaradas inválidas
(incompatíveis com a CF/88) as exp essões pede astia ou out o e ho ossexual ou ão , co sta tes a
tipificação, uma vez que têm caráter discriminatório.
Segundo entendeu a maioria dos Ministros, a conduta do militar que pratica relação sexual em lugar
sujeito à administração militar pode ser punida como crime, considerando que isso ofende a disciplina e a
hierarquia, princípios estes que possuem fundamento constitucional (arts. 42 e 142 da CF/88).
Contudo, o tipo penal ao falar em "pederastia" (prática de sexo entre homens) e em "homossexual", acaba
sendo discriminatório. A lei não poderia se utilizar de expressões pejorativas e discriminatórias,
considerado o reconhecimento do direito à liberdade de orientação sexual como liberdade essencial do
indivíduo.

Em suma:
O tipo penal do art. 235 do CPM continua sendo crime mesmo com a CF/88. No entanto, devem ser
consideradas incompatíveis com a CF/88 as expressões empregadas que falem em homossexualismo. Isso
porque o crime em tela se configura tanto quando o militar pratica relação sexual com alguém do mesmo
sexo, como também de sexo diferente, não devendo haver distinção de tratamento.
Assim, o tipo penal do art. 235 do CPM deve ser agora lido da seguinte forma:
Ato de libidinagem
Art. 235. Praticar, ou permitir o militar que com ele se pratique ato libidinoso em lugar sujeito a
administração militar:
Pena - detenção, de seis meses a um ano.

OUTRAS INFORMAÇÕES

CLIPPING DO D JE
26 a 29 de outubro de 2015

AG. REG. NOS EMB. DECL. NOS EMB. DIV. NO AG. REG. NO AI N. 808.405-SP
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA – ACÓRDÃO RELATIVO A AGRAVO. Acórdão decorrente de julgamento de agravo regimental, interposto
contra ato de relator no exame de agravo, sem apreciação da matéria de fundo do extraordinário, não desafia embargos de divergência – inteligência
do artigo 546 do Código de Processo Civil.
Ext N. 1.351-DF
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO. EXTRADIÇÃO EXECUTÓRIA. REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA. TRÁFICO E ASSOCIAÇÃO
PARA O TRÁFICO DE ENTORPECENTES – ARTIGOS 33 E 35, C/C ARTIGO 40, I, TODOS DA LEI N. 11.343/2006. DUPLA TIPICIDADE. CIDADÃO
ALEMÃO. EXEQUATUR DE SENTENÇA PROFERIDA PELA JUSTIÇA ESPANHOLA CONCEDIDO PELA JUSTIÇA ALEMÃ. CUMPRIMENTO DA PENA NA
ALEMANHA. REGULARIDADE FORMAL DO PEDIDO. AUSÊNCIA DE TRATADO SUPRIDA PELA PROMESSA DE RECIPROCIDADE. COMPETÊNCIA DO
ESTADO REQUERENTE. PRINCÍPIO DA NACIONALIDADE. CONOTAÇÃO POLÍTICA. INEXISTÊNCIA. CONTENCIOSIDADE LIMITADA (ART. 85, § 1º DA
LEI N. 6.185/1980). NULIDADE DO INTERROGATÓRIO POR AUSÊNCIA DE TRADUTOR JURAMENTADO. INEXISTÊNCIA: TRADUTOR NOMEADO E
COMPROMISSADO PELO JUIZ. EXTRADITANDO NÃO FLUENTE EM PORTUGUÊS. CIRCUNSTÂNCIA NÃO COMPROMETEDORA DA VALIDADE DO
INTERROGATÓRIO: COMPREENSÃO PLENA DOS FATOS IMPUTADOS. PROPÓSITO DE ACIONAR O TRIBUNAL EUROPEU DOS DIREITOS DOS
HOMENS PARA DESCONSTITUIR A SENTENÇA CONDENATÓRIA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE DECISÃO CONCESSIVA DE EFEITO SUSPENSIVO
DA EXECUÇÃO DA PENA. INEXISTÊNCIA DE PRESCRIÇÃO EM AMBOS OS ORDENAMENTOS JURÍDICOS. QUESTIONAMENTO A RESPEITO DA PRISÃO
PREVENTIVA PARA EXTRADIÇÃO. INVIABILIDADE: CONDIÇÃO DE PROCEDIBILIDADE DO PEDIDO. RESIDÊNCIA PERMANENTE NO BRASIL E FILHO
BRASILEIRO: CIRCUNSTÂNCIAS NÃO IMPEDITIVAS DA EXTRADIÇÃO (SÚMULA 421/STF). EXTRADIÇÃO DEFERIDA.
1. A extradição pressupõe o cumprimento dos requisitos legais extraídos por interpretação a contrario sensu do art. 77 da Lei nº 6.815/80; vale dizer,
defere-se o pleito se o caso sub examine não se enquadrar em nenhum dos incisos do referido dispositivo e restarem observadas as disposições do
tratado específico.
2. A promessa de reciprocidade torna indiferente a ausência de tratado, não impedindo a extradição.
3. Os elementos de convicção embasadores da condenação são insuscetíveis de análise pelo Supremo Tribunal Federal, cuja competência, a teor do
artigo 85, § 1º, da Lei n. 6.815/1980, restringe-se ao exame da identidade da pessoa reclamada, defeito de forma dos documentos ou ilegalidade da
extradição (Ext 1009, rel. Min. Sepúlveda Pertence).

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 6


4. A ausência de tradutor juramentado resta suprida com a nomeação de tradutor não detentor dessa qualificação que firmou o compromisso de
traduzir com veracidade e autenticidade as perguntas e respostas, sendo certo ainda que, na linha do parecer ministerial, “a circunstância de o
extraditando não ser plenamente fluente em português não chegou a comprometer a validade do interrogatório, ficando claro que ele, coadjuvado
pelo intérprete, teve plena compreensão dos fatos que lhe são imputados”.
5. A representação junto ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem para desconstituir a sentença condenatória é irrelevante para o julgamento do
pedido de extradição, mercê de a defesa não ter colacionado nos autos comprovação de eventual efeito suspensivo da execução da pena concedido por
qualquer organismo internacional.
6. Os crimes de tráfico e associação para o tráfico de entorpecentes não prescreveram segundo os ordenamentos jurídicos alemão e espanhol, uma vez
que a pena restou fixada, de modo conglobado, em 10 (dez) anos e o artigo 79, ns. 1-3 e 6, do Código Penal alemão prevê prazo prescricional de 20
(vinte) anos. O art. 133 do Código Penal espanhol estipula, por sua vez, o prazo de 15 (quinze) anos; logo, transitada em julgado a sentença em
06/11/2009, marco inicial da prescrição, resta evidente sua inocorrência.
7. A prescrição da pretensão executória também não ocorreu nos termos da legislação brasileira, porquanto apesar de o artigo 119 do Código Penal
dispor, no caso de concurso de crimes, que a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada um deles, isoladamente, a jurisprudência desta
Corte firmou-se no sentido de que seja considerada a pena conglobada, uma vez que “viável não se torna formar um terceiro sistema, conjugando as
duas leis que, em regra, obedecem a princípios diferentes, para adotar um híbrido e com ele solver a tese da prescrição” (Ext 267/Iugoslávia). Desse
modo, tendo em conta o prazo prescricional de 16 (dezesseis) no que tange à pena superior a 8 (oito) anos e não excedente a 12 (doze) anos (art. 109,
II, do CP), o trânsito em julgado da sentença, ocorrido em 06/11/2009, e a causa interruptiva da prescrição, caracterizada pela prisão preventiva para
extradição, efetivada em 11/07/2014, a ausência da extinção da pretensão executória afigura-se patente, sendo certo ainda que, se fosse considerada a
pena mínima de 5 (cinco) anos, isoladamente, para os crimes de tráfico e de associação para o tráfico, a prescrição também não teria ocorrido, por
força do art. 109, III, do Código Penal, uma vez que consoante o referido diploma o prazo prescricional para a pena superior a 4 (quatro) anos e não
excedente a 8 (oito) anos é de 12 (doze) anos.
8. A prisão preventiva para extradição constitui condição de procedibilidade do processo extradicional (Ext 579-QO, Rel. Min. Celso de Mello),
tendo, a propósito, pronunciamento do Supremo Tribunal Federal no sentido da constitucionalidade do art. 84, parágrafo único, da Lei n. 6.815/1980,
in litteris: “A prisão perdurará até o julgamento final do Supremo Tribunal Federal, não sendo admitidas a liberdade vigiada, a prisão domiciliar,
nem a prisão albergue” (Ext 785-QO, Rel. Min. Néri da Silveira, DJ de 06/10/2001).
9. A residência permanente no país e o filho brasileiro, dependente econômico do extraditando, não constituem causas impeditivas da extradição,
consoante Súmula 421/STF.
10. Os delitos de tráfico e associação para o tráfico de entorpecentes não expressam, a toda evidência, conotação política.
11. In casu:
(i) o extraditando foi condenado, em 30/07/2008, pela Justiça espanhola, à pena de 10 (dez) anos de de reclusão, advindo o trânsito em julgado em
06/11/2009;
(ii) a Justiça alemã concedeu exequatur à sentença espanhola, a fim de que o extraditando, alemão, cumpra a pena em seu país, competente para a
execução em face do princípio da nacionalidade;
(iii) os autos estão instruídos com informações seguras a respeito do local, data, natureza e circunstâncias dos fatos criminosos, identidade do
extraditando e cópia dos textos legais sobre os crimes, as penas e os prazos prescricionais, estando satisfeitos os requisitos do art. 80 da Lei n.
6.815/80; e
(iv) apesar de a sentença ter sido proferida pela Justiça da Espanha, a Alemanha é competente para a execução da pena em razão do exequatur que
concedera à sentença estrangeira e, principalmente, em virtude do princípio da nacionalidade, uma vez que se trata de cidadão alemão.
12. O Estado requerente deverá firmar o compromisso de descontar da pena o tempo de prisão do extraditando no território brasileiro para fins de
extradição (Ext 1211/REPÚBLICA PORTUGUESA, rel. Min. Ellen Gracie, Pleno, DJ de 24/3/2011; Ext 1214/EUA, rel. Min. Ellen Gracie, Pleno,
DJ 6/5/2011; Ext 1226/Reino da Espanha, rel. Min. Ellen Gracie, Segunda Turma, DJ de 1/9/2011); aliás, como previsto na promessa de
reciprocidade.
13. Pedido de extradição deferido.
RMS N. 30.548-DF
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
ANISTIA – SERVIÇO PÚBLICO – RETORNO – REGIME. O retorno do servidor à Administração Pública, à prestação de serviços, faz-se
observada a situação jurídica originária, descabendo transmudar o regime da Consolidação das Leis do Trabalho em especial – inteligência das Leis nº
8.878/94 e 8.212/90.
*noticiado no Informativo 799
Inq N. 3.601-SP
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: INQUÉRITO. PENAL. CRIME DE FALSIDADE IDEOLÓGICA EM PRESTAÇÃO DE CONTAS ELEITORAL.
PREJUDICIAL: PRESCRIÇÃO PELA PENA EM ABSTRATO. INOCORRÊNCIA. NATUREZA PÚBLICA, E NÃO PRIVADA, DO
DOCUMENTO. PRECEDENTES. OMISSÃO DE INFORMAÇÃO COM FIM DE ALTERAR A VERDADE SOBRE FATO
JURIDICAMENTE RELEVANTE. NARRATIVA FÁTICA OBEDIENTE AO DISPOSTO NO ART. 41 DO CÓDIGO DE PROCESSO
PENAL. DEMONSTRAÇÃO MÍNIMA DA PRÁTICA DA CONDUTA E DO ESPECIAL FIM DE AGIR. EXISTÊNCIA DE JUSTA
CAUSA PARA O INÍCIO DA AÇÃO PENAL. DENÚNCIA RECEBIDA.
1. O crime de falsidade ideológica, quando incidente sobre prestação de contas eleitoral, é apenado com reclusão, de um a cinco anos, e multa, por se
tratar de documento de natureza pública.
2. O candidato e o administrador financeiro da campanha são os responsáveis legais pela veracidade das informações, nos termos dos artigos 20 e 21
da Lei 9.504/97.
3. A jurisprudência deste Supremo Tribunal Federal assentou o entendimento de que jurisprudência deste Supremo Tribunal Federal, “a
responsabilidade na prestação de contas das despesas realizadas com a campanha cabe ao candidato, pouco importando que outrem haja
intermediado as relações jurídicas” (Inq. 3345/DF, Primeira Turma, Rel. Min. Marco Aurélio, j. 12/08/2014, unânime).
4. In casu, os nomes dos dois acusados constam do documento de prestação de contas objeto da acusação, razão pela qual ambos respondem pela
prática, em tese, do crime de falsum.
5. A aplicação do método fenomenológico e ontológico ao Direito penal levou à substituição do conceito causal por um conceito final de ação, cujo
ponto de partida é a consideração de que o que o comportamento humano possui de específico não é a causalidade, mas a finalidade (isto é, o
conduzir-se intencionalmente a uma meta previamente eleita), porque as forças da natureza também operam causalmente. Só a ação humana é
‘vidente’ (vê para onde tende a finalidade perseguida), ao contrário dos demais processos naturais, que atuam de modo ‘cego’. A ação humana se
caracteriza, pois, por ser ‘exercício de atividade final (PUIG, 2007, p. 156/157). Consequentemente, verificada a prática de uma conduta por um
indivíduo capaz (imputável), presume-se que ele a tenha praticado consciente e voluntariamente.

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 7


6. De modo excepcional, o comportamento humano pode derivar de culpa, que afasta o dolo. Culpa, segundo conceitua a doutrina, é a inobservância
do dever de cuidado manifestada numa conduta produtora de um resultado não querido, objetivamente previsível (BITENCOURT, CONDE, 2000, p.
199).
7. In casu, a omissão narrada na exordial teria envolvido pagamento de despesas da campanha por uma empresa da família do candidato acusado,
empresa esta que teria sido empregada também em supostos crimes contra a Administração Pública.
8. Assim, a inicial acusatória apresentou argumentação suficiente para demonstrar não somente a materialidade delitiva como, também, a presença do
elemento subjetivo da conduta.
9. A justa causa revela-se demonstrada quando se analisam os documentos fiscais emitidos pela prestadora de serviços, inscrições que os vinculam
diretamente à campanha eleitoral do acusado, elemento a que se somam os montantes omitidos, no total de 21% dos recursos declarados na prestação
de contas.
10. Denúncia recebida contra os acusados PAULO SALIM MALUF e SÉRGIO STEFANELLI GOMES.
Acórdãos Publicados: 389

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Maus antecedentes e período depurador (Transcrições)


(v. Informativo 799)
HC 126.315/SP*
RELATOR: Ministro Gilmar Mendes
EMENTA: Habeas corpus. 2. Tráfico de entorpecentes. Condenação. 3. Aumento da pena-base. Não aplicação da causa de diminuição do § 4º
do art. 33, da Lei 11.343/06. 4. Período depurador de 5 anos estabelecido pelo art. 64, I, do CP. Maus antecedentes não caracterizados.
Decorridos mais de 5 anos desde a extinção da pena da condenação anterior (CP, art. 64, I), não é possível alargar a interpretação de modo a
permitir o reconhecimento dos maus antecedentes. Aplicação do princípio da razoabilidade, proporcionalidade e dignidade da pessoa humana.
5. Direito ao esquecimento. 6. Fixação do regime prisional inicial fechado com base na vedação da Lei 8.072/90. Inconstitucionalidade. 7.
Ordem concedida.
RELATÓRIO: Trata-se de habeas corpus, com pedido de medida liminar, impetrado pela Defensoria Pública da União, em favor de **, em face de
acórdão emanado da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, que negou provimento ao Agravo Regimental no REsp 1.396.731/SP.
O paciente foi preso em flagrante em 8.10.2010, porquanto teria consigo, para consumo de terceiros, 32 (trinta e duas) porções de cocaína e 50
(cinquenta) porções de crack, sem autorização e em desacordo com determinação legal e regulamentar, além da quantia de R$ 211,00 (duzentos e
onze reais).
Após as diligências investigativas, foi denunciado pela suposta prática do delito tipificado no art. 33, caput, da Lei n. 11.343/2006.
Em 28.12.2010, a denúncia foi recebida pelo Juízo da 1ª Vara da Comarca de Aparecida/SP.
As informações referentes à vida pregressa do paciente constam no eDOC 3, p. 24-52.
Transcorrida a instrução criminal, sobreveio condenação na qual o então réu recebeu a reprimenda de 5 (cinco) anos e 10 (dez) meses de reclusão, em
regime inicial fechado, e o pagamento de 583 dias-multa.
Interposta apelação defensiva no TJ/SP, esta foi parcialmente provida, tendo sido redimensionada a pena para 2 (dois) anos e 6 (seis) meses de
reclusão, com manutenção do regime inicial fechado para cumprimento da pena, e o pagamento de 250 dias-multa, afastando-se a circunstância
desfavorável referente aos maus antecedentes, com fixação da pena-base no mínimo legal e aplicação da causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º,
da Lei nº 11.343/2006, no patamar de 1/2. Confiram-se os termos da ementa:
“TÓXICO - Crime de tráfico - Quadro probatório que se mostra seguro e coeso para evidenciar autoria e materialidade do delito -
Inexistência de dúvida que justifica o decreto condenatório - Impossibilidade de desclassificação para o crime de posse de drogas para uso
pessoal (art. 28 da Lei nº 11.343/06) - Condenação mantida - Dosimetria da pena - Não reconhecimento de maus antecedentes - Decurso do
período depurador (art. 64, I, CP) - Fixação da pena-base no mínimo legal - Acusado que preenche todos os requisitos exigidos para
aplicação da causa de diminuição (art. 33, § 4º) - Quantidade e variedade do tóxico que justifica a fixação do redutor na fração
intermediária - Regime inicial fechado que decorre de expressa previsão legal - Recurso parcialmente provido”. (eDOC 4, p. 23).
Daí, a interposição de recurso especial pelo Ministério Público do Estado de São Paulo. O apelo especial foi admitido pelo Tribunal estadual e
provido, monocraticamente, pelo Superior Tribunal de Justiça, determinando-se o restabelecimento da sentença proferida pelo Juízo de primeiro grau,
tendo em vista a efetiva existência de maus antecedentes.
Interposto agravo regimental pela defesa, a Sexta Turma do STJ negou-lhe provimento, nos termos da seguinte ementa:
“PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CRIME DE TRÁFICO. DECURSO DE LAPSO TEMPORAL
SUPERIOR A CINCO ANOS ENTRE O TÉRMINO DA CONDENAÇÃO ANTERIOR E A DATA DO NOVO CRIME. RECONHECIMENTO
DE MAUS ANTECEDENTES. POSSIBILIDADE. - É firme neste Superior Tribunal de Justiça o entendimento de que as condenações
anteriores transitadas em julgado, alcançadas pelo prazo de 5 anos de que cuida o art. 64, inciso I, do Código Penal, constituem fundamento
idôneo para justificar a exasperação da pena-base, ao passo que, embora esse período afaste os efeitos da reincidência, não o faz quanto aos
maus antecedentes. Precedentes.
- Agravo regimental desprovido”.
Nesta Corte, a defesa argumenta que condenações anteriores transitadas em julgado, alcançadas pelo prazo depurador de 5 anos, que já não mais geram
efeitos negativos da reincidência, também não podem configurar maus antecedentes, sob pena de se atribuírem efeitos perpétuos às condenações.
Aduz que o entendimento da Primeira Turma (HC 119.200/PR) é no sentido de não poderem ser consideradas maus antecedentes condenações
anteriores cujas penas foram extintas há mais de cinco anos.

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 8


Questiona também a fixação de regime fechado para cumprimento de pena, considerando que as penas fixadas tanto em primeiro grau (5 anos
e 6 meses) quanto no Tribunal de origem (2 anos e 6 meses), segundo os critérios do art. 33, § 2º, do CP, demonstram a necessidade de se fixar o
regime inicial diverso do fechado.
Após a apreciação pelo Ministro Presidente desta Corte, com base no art. 13 do RI/STF, a impetração veio a minha apreciação.
A Procuradoria-Geral da República opinou pelo não conhecimento do writ e, se conhecido, pela denegação da ordem.
Em 4.3.2015, indeferi a liminar.
É o relatório.
VOTO: Conforme relatado, a defesa impetrou o presente habeas corpus buscando o reconhecimento de que as condenações transitadas em julgado
alcançadas pelo prazo de cinco anos de que cuida o inciso I do artigo 64 do Código Penal não constituem fundamento idôneo à exasperação da pena-
base a título de maus antecedentes. Dessa forma, pretende a Defensoria Pública o restabelecimento da decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do
Estado de São Paulo para que seja reduzida a pena-base do ora paciente e alterado regime prisional inicial de cumprimento da reprimenda, atualmente
fixado no fechado.
O Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao REsp n. 1.396.731/SP, ao acolher a tese do Ministério Público segundo a qual, transcorrido
o período depurativo do art. 64, inciso I, do CP, não podem as condenações anteriores ser consideradas para reincidência, mas legitimam, por outro
lado, exasperação da pena-base como configuradoras de maus antecedentes. Como consequência de tal entendimento, a pena-base, antes fixada no
mínimo legal, foi restabelecida em 5 anos e 10 meses de reclusão e assim tornada definitiva, porquanto vedada a aplicação da privilegiadora do § 4º
do artigo 33 da Lei de Drogas, ante o afastamento da primariedade.
Desde logo, entendo assistir razão à defesa.
Impende ressaltar, por oportuno, que a celeuma em debate teve repercussão geral reconhecida (RE nº 593.818-RG/SC, de relatoria do min.
Roberto Barroso), não havendo, ainda, pronunciamento definitivo desta Corte.
Tecidas as considerações pertinentes, mister se faz analisar a preleção do art. 64, inciso I, do Código Penal, in verbis:
“Para efeito de reincidência: I - não prevalece a condenação anterior, se entre a data do cumprimento ou extinção da pena e a
infração posterior tiver decorrido período de tempo superior a 5 (cinco) anos, computado o período de prova da suspensão ou do livramento
condicional, se não ocorrer revogação.”
Extrai-se da leitura do dispositivo transcrito que o período depurador de cinco anos tem aptidão de nulificar a reincidência, de forma que não
possa mais influenciar no quantum de pena do réu e em nenhum de seus desdobramentos.
Com efeito, é assente que a ratio legis consiste em apagar da vida do indivíduo os erros do passado, considerando que já houve o devido
cumprimento da punição, sendo inadmissível que se atribua à condenação o status de perpetuidade, sob pena de violação aos princípios
constitucionais e legais, sobretudo o da ressocialização da pena.
A Constituição Federal veda expressamente, na alínea b do inciso XLVII do artigo 5º, as penas de caráter perpétuo. Tal dispositivo suscita
questão acerca da proporcionalidade da pena e de seus efeitos para além da reprimenda corporal propriamente dita.
Ora, a possibilidade de sopesarem-se negativamente antecedentes criminais, sem qualquer limitação temporal ad aeternum, em verdade, é pena
de caráter perpétuo mal revestida de legalidade.
Como bem apontado por Luiz Luisi em conferência proferida no Seminário Internacional “O Tribunal Internacional e a Constituição
Brasileira”, promovido pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal em 30.9.99, as penas de caráter perpétuo têm sido
proibidas em diversos textos constitucionais, inclusive em países da própria América Latina. Nas palavras do professor:
“(...) No Brasil, a proibição das penas perpétuas – pode-se afirmar – é já uma tradição constitucional.
A primeira das nossas Constituições Federais a proibir a pena de prisão perpétua foi a de 16 de julho de 1934. (...)”
Especificamente quanto à proibição constitucional das penas de caráter perpétuo é preciso ressaltar a sua inserção no título dos
direitos e garantias individuais. É de se enfatizar que não se trata de um princípio, mas de uma verdadeira regra, embora esta se embase em
um princípio. É necessário relevar que no caput do art. 5º, da Constituição vigente, no qual estão enumerados os direitos e deveres
individuais e coletivos, está consagrada a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.
É óbvio que consagrada constitucionalmente a inviolabilidade da liberdade, a sua privação e restrição há de ter caráter excepcional,
notoriamente quando presentes exigências de proteção de outros direitos invioláveis, ou seja, da vida, da propriedade e da segurança. A
tutela desses bens impõe, quando gravemente ofendidos, e as outras sanções que se revelem impotentes, o sacrifício da liberdade. Mas é
logicamente evidente que a possibilidade de supressão total de liberdade, ou seja, a supressão perpétua de liberdade implica negar a sua
inviolabilidade. Não é concebível a inviolabilidade da liberdade sem que se impeça a possibilidade de sua integral eliminação. Proibir, pois,
as penas perpétuas, como o faz expressamente a nossa Constituição, é um consectário necessário do princípio, também constitucional, da
inviolabilidade da liberdade.
Acresce, ainda, que o princípio da humanidade permeia a Constituição brasileira vigente. A sua presença é evidente em uma série de
incisos do art. 5º. Basta lembrar que são disposições constitucionais ser assegurado aos presos a integridade física e moral, a proibição de
pena de trabalhos forçados, as cruéis, e outras similares. Destarte a proibição de penas perpétuas é um corolário da orientação humanitária
ordenada pela Constituição, como princípio orientador da legislação penal.
Nessa perspectiva, por meio de cotejo das regras basilares de hermenêutica, constata-se que, se houve o objetivo primordial de afastar a pena
perpétua, reintegrando o apenado no seio da sociedade, com maior razão deve-se aplicar tal raciocínio aos maus antecedentes.
Advirto, outrossim, que o agravamento da pena-base com fundamento em condenações transitadas em julgado há mais de cinco anos não
encontra previsão na legislação, tampouco em nossa Carta Maior, tratando-se de analogia in malam partem, método de integração vedado no
ordenamento jurídico. É que, em verdade, assiste ao indivíduo o “direito ao esquecimento”, ou “direito de ser deixado em paz”, alcunhado, no direito
norte-americano de “the right to be let alone”.
O direito ao esquecimento, a despeito de inúmeras vozes contrárias, também encontra respaldo na seara penal, enquadrando-se como direito
fundamental implícito, corolário da vedação à adoção de pena de caráter perpétuo e dos princípios da dignidade da pessoa humana, da igualdade, da
proporcionalidade e da razoabilidade.
Manifestei-me nesse sentido, ainda em maio de 2013, quando relatei o HC nº 110.191/RJ, DJe 6.5.13. Em seguida, o entendimento foi adotado
na Primeira Turma, em março de 2014, quando do julgamento do HC nº 118.977/DF, da relatoria do ministro Dias Toffoli, a saber:
Recurso ordinário em habeas corpus. Processual Penal. Interposição contra julgado em que colegiado do Superior Tribunal de Justiça
não conheceu da impetração, ao fundamento de ser substitutivo de recurso ordinário cabível. Constrangimento ilegal não evidenciado.
Entendimento que encampa a jurisprudência da Primeira Turma da Corte. Precedente. Dosimetria. Fixação da pena-base acima do mínimo
legal em decorrência de maus antecedentes. Condenações transitadas em julgado há mais de cinco anos. Pretensão à aplicação do disposto
no inciso I do art. 64 do Código Penal. Penas ainda não extintas. Constrangimento ilegal inexistente. Recurso não provido. 1. O entendimento
do Superior Tribunal de Justiça quanto ao cabimento do habeas corpus encampou a jurisprudência da Primeira Turma da Corte no sentido da
inadmissibilidade do habeas corpus que tenha por objetivo substituir o recurso ordinário (HC nº 109.956/PR, Relator o Ministro Marco
Aurélio, DJe de 11/9/12), o que resultou no seu não conhecimento. 2. Quando o paciente não pode ser considerado reincidente, diante do

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9


transcurso de lapso temporal superior a cinco anos, conforme previsto no art. 64, I, do Código Penal, a existência de condenações
anteriores não caracteriza maus antecedentes. Precedentes. 3. No caso as condenações anteriores consideradas pelas instâncias ordinárias
para fins de valoração negativa dos antecedentes criminais do ora paciente ainda não se encontram extintas. 4. Recurso não provido.
(Destaquei).
Dessa forma, entendo que, decorridos mais de cinco anos desde a extinção da pena da condenação anterior (CP, art. 64, I), não é possível
alargar a interpretação de modo a permitir o reconhecimento dos maus antecedentes.
Emerge daí que a pena-base deve adstringir-se ao piso legal, porquanto não há nenhuma circunstância judicial passível de justificar a majoração,
cabível, em consequência, a aplicação da causa de diminuição consubstanciada no art. 33, § 4º da Lei 11.343/06, nos moldes do acórdão proferido pelo TJSP.
E no que concerne ao regime prisional inicial para cumprimento de pena, entendo que o pedido também merece prosperar.
O magistrado do primeiro grau fixou o regime inicial fechado para cumprimento da pena apenas com fundamento na Lei 8.072/90 e na gravidade
abstrata do delito. Por oportuno, colho trecho da decisão:
“O regime inicial de cumprimento de pena deve ser o fechado, ressaltando-se que o tráfico é delito grave, equiparado a hediondo,
demonstrando periculosidade acentuada por parte do agente. Pelo mesmo motivo, presentes os requisitos da custódia cautelar, não poderá
recorrer em liberdade. Recomende-se o réu na prisão em que se encontra recolhido. Transitada em julgado, lance-se o nome do réu no rol dos
culpados. “(eDOC 3, p. 130).
Ocorre que, em sessão realizada em 27.6.2012 (DJe 17.12.2013), o Plenário, ao analisar o HC 111.840/ES, de relatoria do ministro Dias
Toffoli, por maioria, declarou, incidenter tantum, a inconstitucionalidade do § 1º do art. 2º da Lei 8.072/90, com a redação dada pela Lei 11.464/2007.
Desse modo, ficou superada a obrigatoriedade de início do cumprimento de pena no regime fechado aos condenados por crimes hediondos ou a eles
equiparados.
Entender de forma diversa implica, necessariamente, malferir o princípio da individualização da pena, consignado na Constituição Federal.
Não se pode olvidar que, embora seja vedada a imposição de regra fixa ao regime prisional nos crimes hediondos, admite-se a definição de
regime mais gravoso, desde que se apreciem elementos concretos e individualizados, aptos a demonstrar a necessidade de maior rigor da medida
privativa de liberdade do indivíduo.
No caso, nem o juiz, nem o Tribunal paulista realizaram qualquer análise da situação concreta. Ao revés, fundamentaram o regime mais severo
tão somente no dispositivo legal eivado do vício da inconstitucionalidade.
Ante o exposto, voto no sentido de conceder a ordem para restabelecer a decisão proferida pelo TJ/SP na Apelação n. 0005243-
89.2010.8.26.0028, no que diz respeito à quantidade de pena aplicada.
Determino, ainda, ao Tribunal de origem que, afastando o disposto no art. 2º, § 1º, da Lei 8.072/90, proceda a nova fixação do regime inicial
de cumprimento de pena, segundo os critérios previstos no art. 33, §§ 2º e 3º do CP.
É como voto.
*acordão publicado no Dje de 24.9.2015
**nomes suprimidos pelo Informativo

Secretaria de Documentação – SDO


Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 805-STF (06/11/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10


Márcio André Lopes Cavalcante

Processo excluído deste informativo por não ter sido concluído em virtude de pedido de vista: ADI 5296 MC/DF.

Julgados excluídos por terem menor relevância para concursos públicos ou por terem sido decididos com base em
peculiaridades do caso concreto: Rcl 8823/RJ; Ext 1394/DF.

ÍNDICE
DIREITO CIVIL
ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA
 Desnecessidade de registro do contrato de alienação fiduciária de veículos no RTD.

DIREITO PENAL
LEI MARIA DA PENHA
 Impossibilidade de penas restritivas de direito.

DIREITO CIVIL

ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA
Desnecessidade de registro do contrato de alienação fiduciária de veículos no RTD

Importante!!!
Quando for realizada a alienação fiduciária de um veículo, o contrato deverá ser registrado no
DETRAN e esta informação constará no CRV do automóvel.
É desnecessário o registro do contrato de alienação fiduciária de veículos em cartório.
STF. Plenário. RE 611639/RJ, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 21/10/2015 (repercussão geral).
STF. Plenário. ADI 4333/DF e ADI 4227/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgados em 21/10/2015 (Info 804).

CONCEITO
A alie ação fidu iá ia e ga a tia é u o t ato i st u e tal e ue u a das pa tes, e o fia ça,
aliena a outra a propriedade de um determinado bem, ficando esta parte (uma instituição financeira, em
regra) obrigada a devolver àquela o bem que lhe foi alienado quando verificada a ocorrência de
dete i ado fato. RAMO“, A d é Luiz “a ta C uz. Direito Empresarial Esquematizado. São Paulo:
Método, 2012, p. 565).

ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA DE VEÍCULOS


A espécie mais comum de alienação fiduciária é a de automóveis.
Ex: Antônio quer comprar um carro de R$ 30 mil, mas somente possui R$ 10.000,00. Antônio procura o
Ba o X , ue ele a o ele contrato de financiamento com garantia de alienação fiduciária.
Informativo 804-STF (29/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1
Assi , o Ba o X e p esta R$ 0 mil a Antônio, que compra o veículo. Como garantia do pagamento do
e p ésti o, a p op iedade esolúvel do a o fi a á o o Ba o X e a posse di eta o A tô io.
Em outras palavras, Antônio ficará andando com o carro, mas no documento, a propriedade do automóvel
é do Ba o X o sta á alie ado fidu ia ia e te ao Ba o X . Diz-se que o banco tem a propriedade
esolúvel po ue, u a vez pago o e p ésti o, a p op iedade do a o pelo a o esolve-se a a a e o
automóvel passa a pertencer a Antônio.

Registro do contrato de alienação fiduciária no DETRAN e anotação da informação no CRV


CRV (Certificado de Registro de Veículos) é um documento expedido pelo DETRAN no qual consta quem é o
proprietário do veículo.
A legislação determina que, quando for realizada a alienação fiduciária de um veículo, o contrato deverá ser
registrado no DETRAN e esta informação constará no CRV do automóvel.
No CRV, existe um campo chamado "observações" e lá constará uma frase mais ou menos com os seguintes
dizeres: "AL.FID./BANCO XXX", que significa alienado fiduciariamente para o banco XXX. Veja a imagem
abaixo:

Essa informação é uma garantia tanto para o banco ,como também para terceiros que eventualmente se
interessem por comprar aquele carro. Isso porque, ao consultarem o documento do veículo (CRV), verão
que existe esse gravame e que a pessoa que está na posse direta do veículo não possui ainda a propriedade
plena do bem, já que aquele automóvel foi oferecido como garantia de uma dívida. Somente após pagar
todo o débito é que o possuidor terá a propriedade plena.

Onde consta a obrigatoriedade de que o contrato de alienação fiduciária seja registrado no DETRAN?
É o Código Civil que determina que o contrato de alienação fiduciária seja registrado no DETRAN e que essa
informação seja anotada no CRV. Confira:
Art. 1.361. Considera-se fiduciária a propriedade resolúvel de coisa móvel infungível que o devedor, com
escopo de garantia, transfere ao credor.
§ 1º Constitui-se a propriedade fiduciária com o registro do contrato, celebrado por instrumento público ou
particular, que lhe serve de título, no Registro de Títulos e Documentos do domicílio do devedor, ou, em se
tratando de veículos, na repartição competente para o licenciamento (explico: DETRAN), fazendo-se a
anotação no certificado de registro (esclareço: CRV).

Além de ser anotado no CRV, é necessário (obrigatório) que a alienação fiduciária seja registrada no
cartório de Registro de Títulos e Documentos (RTD)?
NÃO. É desnecessário o registro do contrato de alienação fiduciária de veículos em cartório.
O registro da alienação fiduciária no RTD, no passado, já foi obrigatório, conforme previa o art. 66, § 1º da
Lei nº 4.728/65, tendo este artigo sido revogado pela Lei nº 10.931/2004.
Além disso, para que não houvessem dúvidas de que o registro no RTD é dispensável, o legislador editou
duas leis afirmando isso. Confira:

Lei nº 11.882/2008:
Art. 6º Em operação de arrendamento mercantil ou qualquer outra modalidade de crédito ou
financiamento a anotação da alienação fiduciária de veículo automotor no certificado de registro a que se

Informativo 804-STF (29/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


refere a Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, produz plenos efeitos probatórios contra terceiros,
dispensado qualquer outro registro público.

Lei nº 11.795/2008:
Art. 14 (...) § 7º A anotação da alienação fiduciária de veículo automotor ofertado em garantia ao grupo de
consórcio no certificado de registro a que se refere o Código de Trânsito Brasileiro, Lei nº 9.503, de 23 de
setembro de 1997, produz efeitos probatórios contra terceiros, dispensado qualquer outro registro público.

ADIs 4333 e 4227/DF


Os Registradores de Títulos e Documentos não ficaram satisfeitos com as alterações legislativas acima
expostas e ajuizaram, juntamente com um determinado partido político, duas ADIs no STF contra os arts.
1.361, § 1º, do Código Civil, art. 14, § 7º, da Lei nº 11.795/2008, e art. 6º da Lei nº 11.882/2008.
Segundo argumentaram, tais leis violaram o art. 236 da CF/88, uma vez que não poderiam dispensar a
realização do registro público dos contratos de alienação fiduciária em garantia de veículos automotores
pelas serventias extrajudiciais de registro de títulos e documentos.

Essa tese foi aceita? Houve inconstitucionalidade das referidas leis ao dispensarem o registro da
alienação fiduciária no RTD?
NÃO. Não havia nada que impedisse o legislador de extinguir, como o fez, essa obrigatoriedade. Não há
nenhum dispositivo na CF/88 que obrigue o registro do contrato de alienação fiduciária no cartório.
Na verdade, os requisitos relacionados com a formação, validade e eficácia de contratos privados são
assuntos para serem tratados pela legislação federal e não pelo texto constitucional.
O legislador entendeu, de forma correta, que a exigência do registro da alienação fiduciária na serventia
extrajudicial (RTD) acarretaria ônus e custos desnecessários ao consumidor, além de não conferir ao ato a
publicidade adequada. Para o leigo que irá comprar um carro, é muito mais provável que ele procure no
DETRAN e no CRV se há restrições ao veículo, sendo improvável que ele vá atrás dessa informação no RTD
ou em qualquer outro cartório.

Convênios entre DETRAN e RTD


Antes de 2008, era comum que os DETRANs fizessem convênios com os cartórios de RTD para que o
licenciamento dos veículos ocorresse nos próprios cartórios. A Lei nº 11.882/2008 proibiu essa prática:
Art. 7º (...)
§ 1º Consideram-se nulos quaisquer convênios celebrados entre entidades de títulos e registros públicos e
as repartições de trânsito competentes para o licenciamento de veículos, bem como portarias e outros atos
normativos por elas editados, que disponham de modo contrário ao disposto no caput deste artigo.
§ 2º O descumprimento do disposto neste artigo sujeita as entidades e as pessoas de que tratam,
respectivamente, as Leis nºs 6.015, de 31 de dezembro de 1973, e 8.935, de 18 de novembro de 1994, ao
disposto no art. 56 e seguintes da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, e às penalidades previstas no
art. 32 da Lei nº 8.935, de 18 de novembro de 1994.

Essa proibição também foi questionada por meio das ADIs, mas o STF entendeu que não havia nenhuma
inconstitucionalidade na proibição.
O STF, no entanto, a fim de respeitar o ato jurídico perfeito e a segurança jurídica, afirmou que a vedação
imposta pela Lei nº 11.882/2008 não poderia ser aplicada aos convênios celebrados antes da publicação
dessa norma.
Assim, os convênios já pactuados por ocasião da edição da lei foram preservados até o fim do prazo da sua
vigência, sendo vedada qualquer prorrogação.

Informativo 804-STF (29/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


DIREITO PENAL
LEI MARIA DA PENHA
Impossibilidade de penas restritivas de direito

Não é possível a substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos ao


condenado pela prática do crime de lesão corporal praticado em ambiente doméstico (art.
129, § 9º do CP).
STF. 2ª Turma. HC 129446/MS, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 20/10/2015 (Info 804).

Penas restritivas de direitos


O Código Penal prevê que, em determinadas situações, em se tratando de pessoa condenada a uma pena
privativa de liberdade, pode ser esta reprimenda substituída por uma ou duas penas restritivas de direito.

Quais são os requisitos cumulativos para a conversão da pena privativa de liberdade em penas
restritivas de direitos?
Estão previstos no art. 44 do CP e podem ser assim esquematizados:

1º requisito (objetivo): 2º requisito (subjetivo): 3º requisito (subjetivo):


Natureza do crime e Não ser reincidente A substituição seja
quantum da pena em crime doloso indicada e suficiente
a) Crime doloso: Regra: não ser reincidente em A culpabilidade, os
 igual ou inferior a 4 anos; crime doloso. antecedentes, a conduta social e
 sem violência ou grave a personalidade do condenado,
ameaça a pessoa. Exceção: bem como os motivos e as
§ 3º Se o condenado for circunstâncias, indicarem que
b) Crime culposo: qualquer que reincidente, o juiz poderá aplicar essa substituição seja suficiente
seja a pena aplicada. a substituição, desde que, em (Princípio da suficiência da
face de condenação anterior, a resposta alternativa ao delito).
medida seja socialmente
recomendável e a reincidência
não se tenha operado em
virtude da prática do mesmo
crime.

Se a pessoa for condenada a...


Pena igual ou inferior a 1 ano de prisão: Pena superior a 1 ano (até 4 anos) de prisão:
A pena privativa de liberdade aplicada poderá ser A pena privativa de liberdade aplicada poderá ser
substituída por: substituída por:
a) multa OU a) 1 pena restritiva de direito + multa OU
b) 1 pena restritiva de direito b) 2 penas restritivas de direito.

Agora que você relembrou os requisitos para a aplicação das penas restritivas de direito, imagine que João
foi condenado por lesão corporal no âmbito da violência doméstica, delito previsto no art. 129, § 9º do CP:
Violência Doméstica
§ 9º Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com
quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de
coabitação ou de hospitalidade:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos. (Redação dada pela Lei nº 11.340, de 2006)

Informativo 804-STF (29/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 4


É possível que o juiz, na sentença, substitua a pena privativa de liberdade por restritiva de direitos?
NÃO. A substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos pressupõe, entre outras
coisas, que o crime não tenha sido cometido com violência ou grave ameaça.
No caso concreto, embora a pena privativa de liberdade fosse inferior a 4 anos, o crime fora cometido com
violência contra pessoa, motivo suficiente para obstaculizar o benefício, nos termos do art. 44, I do CP.
Art. 17 da Lei nº 11.340/2006
O art. 17 da Lei Maria da Penha prevê o seguinte:
Art. 17. É vedada a aplicação, nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, de penas de
cesta básica ou outras de prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que implique o
pagamento isolado de multa.

Veja, portanto, que esse dispositivo proíbe que o juiz aplique as seguintes penas restritivas de direitos à
pessoa que praticou violência doméstica e familiar contra a mulher:
 Pena de "cesta básica";
 Quaisquer espécies de prestação pecuniária (art. 45, §§ 1º e 2º);
 Pagamento isolado de multa (art. 44, § 2º do CP).
Alguns doutrinadores sustentaram a tese de que o art. 17, ao proibir apenas esses tipos de penas, teria, a
contrario sensu, permitido que fossem aplicadas outras espécies de penas restritivas de direitos. Essa
interpretação, contudo, não foi aceita pela jurisprudência.
O entendimento que prevalece é o seguinte: além das sanções previstas no art. 17, são proibidas
quaisquer penas restritivas para os condenados por violência doméstica e familiar contra a mulher. Isso
porque o art. 44, I, do CP veda penas restritivas de direito em caso de crimes cometidos com violência ou
grave ameaça à pessoa. Nesse sentido:
(...) Não se pode diminuir a abrangência da norma trazida no art. 44, inciso I, do Código Penal, com a
finalidade de se contornar a impossibilidade de aplicação da Lei n. 9.099/1995 aos crimes cometidos no
âmbito familiar. Com efeito, não obstante a Lei n. 11.340/2006 não vedar a substituição da pena privativa
de liberdade por restritiva de direitos, restringindo apenas a aplicação de pena de prestação pecuniária e o
pagamento isolado de multa, o inciso I do art. 44 do Código Penal é claro ao proibir a substituição quando
o crime for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa. (...)
STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 288.503/MS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 26/08/2014.

EXERCÍCIOS
Julgue os itens a seguir:
1) (Juiz Federal TRF2 2009 CESPE) No caso de veículos, a propriedade fiduciária só se constitui após o registro do
contrato na repartição competente para o licenciamento, procedendo-se à anotação no certificado de registro. ( )
2) (Promotor MP/RO 2010 CESPE) Pela Lei de Registros Públicos, o registro em cartório do contrato de alienação
fiduciária de veículo automotor é requisito de validade do negócio jurídico. ( )
3) (Juiz TJDFT 2015 CESPE) Fernando, com trinta anos de idade, capaz, ameaçou de morte sua companheira Tereza,
com vinte e nove anos de idade, capaz. Fernando foi processado e condenado, definitivamente, pelo referido
crime à pena de cinco meses de detenção. Nessa situação, Fernando tem direito à substituição da pena privativa
de liberdade por pena restritiva de direitos. ( )
4) (Promotor MP/MS 2015) É possível a aplicação da pena restritiva de direitos de prestação pecuniária, bem como a
substituição de pena que implique o pagamento isolado de multa, nos casos de violência doméstica e familiar
contra a mulher. ( )
5) (Juiz TJ/SC 2015 FCC) É vedada a aplicação, nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, de penas
de cesta básica ou outras de prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que implique o pagamento
isolado de multa. ( )

1. C 2. E 3. E 4. E 5. C

Informativo 804-STF (29/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 5


JULGADOS NÃO COMENTADOS

Convalidação de atos e nulidade


“e dete i ada de isão do “TF de la a a ulidade p o essual a pa ti de e to de isiu a repercutir,
inclusive, nos atos subsequentes, o órgão reclamado não pode os declarar convalidados. Com base nessa
orientação, a Primeira Turma julgou procedente pedido formulado em reclamação e determinou fosse
afastada a custódia que decorrera da prática dos atos implementados de forma automática. No caso, ao
ap e ia ha eas o pus do e la a te, a P i ei a Tu a a ula a o ue de idido po t i u al egio al
federal, uma vez demonstrada a impossibilidade de comparecimento do representante processual à sessão
de apreciação de recurso em sentido estrito, com formal pedido de adiamento. Além disso, em embargos
declaratórios, a Turma esclarecera que a nulidade alcançara todos os atos posteriores ao exame do referido
recurso, inclusive os alusivos à custódia e ao julgamento popular. Ocorre que, ao reapreciá-lo, a turma
especializada do mencionado tribunal restabelecera atos no processo-crime que teriam sido afastados pela
Primeira Turma do STF no campo da automaticidade, a caracterizar ofensa ao que decidido no ha eas
o pus pa adig a HC . /RJ, DJe de . . 00 .
Rcl 8823/RJ, rel. Min. Marco Aurélio, 20.10.2015.

Acordo de Extradição entre os Estados Partes do Mercosul e pena remanescente


A Segunda Turma indeferiu pedido de extradição formulado em desfavor de nacional argentino, condenado
em seu país à pena de seis anos de reclusão pela prática do crime de abuso sexual agravado pela conjunção
carnal, nos termos dos artigos 45 e 119, § 3º, do Código Penal Argentino. O Colegiado afirmou que o
Acordo de Extradição entre os Estados Partes do Mercosul e as Repúblicas da Bolívia e do Chile,
promulgado pelo Decreto 5.867/2006, contemplaria cláusula a impedir a entrega do súdito estrangeiro
para execução de sentença quando a pena ainda por cumprir no Estado requerente fosse inferior a seis
eses A tigo , ite : “e a ext adição fo e ue ida pa a a exe ução de u a se te ça exige-se, ademais,
que a parte da pena ainda por cumprir não seja inferior a seis eses . No aso, se ia possível o stata
que o extraditando efetivamente permanecera preso, de 16.8.2006 até 30.5.2011, tendo cumprido quatro
anos, nove meses e 14 dias da pena imposta. Já no Brasil, fora preso em 23.1.2015, por força de decreto de
prisão preventiva para fins de extradição, permanecendo preso desde então. Considerando que o período
em que o extraditando ficara detido no território brasileiro deveria ser detraído da pena a ser cumprida (Lei
6.815/1980, artigos 91, II, e Acordo firmado entre os Estados Partes do Mercosul, art. 17), ter-se-ia que a
pena remanescente — considerado o trânsito em julgado para a acusação — resultaria, a partir de
9.10.2015, inferior a seis meses, pelo que incidiria a cláusula restritiva disposta no artigo 2, item 2, do já
aludido acordo de extradição.
Ext 1394/DF, rel. Min. Teori Zavascki, 20.10.2015. (Ext-1394)

OUTRAS INFORMAÇÕES

CLIPPING DO D JE
19 a 23 de outubro de 2015

AG. REG. NA Rcl N. 21.632-PE


RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA. ARTIGO 71, § 1º, DA LEI 8.666/93. CONSTITUCIONALIDADE.
ADC 16. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. DEVER DE FISCALIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE DO ESTADO. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
1. A Administração tem o dever de fiscalizar o fiel cumprimento do contrato pelas empresas prestadoras de serviço, também no que diz respeito às obrigações
trabalhistas referentes aos empregados vinculados ao contrato celebrado, sob pena de atuar com culpa in eligendo ou in vigilando.

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2. A aplicação do artigo 71, § 1º, da Lei n. 8.666/93, declarado constitucional pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADC 16, não exime a entidade
da Administração Pública do dever de observar os princípios constitucionais a ela referentes, entre os quais os da legalidade e da moralidade administrativa.
3. A decisão que reconhece a responsabilidade do ente público com fulcro no contexto fático-probatório carreado aos autos não pode ser alterada pelo manejo
da reclamação constitucional. Precedentes: Rcl 11985-AgR, Rel. Min. CELSO DE MELLO, Tribunal Pleno, julgado em 21/02/2013, PROCESSO
ELETRÔNICO DJe-050 DIVULG 14-03-2013 PUBLIC 15-03-2013.
4. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO ARE N. 679.210-MG
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Constitucional e previdenciário. Pensão por morte. Cônjuge varão.
Demonstração de invalidez. Ofensa ao princípio da isonomia. Precedentes. Dependência econômica. Preenchimento do requisito reconhecido pelo
tribunal de origem. Legislação local. Reexame de fatos e provas. Análise. Impossibilidade. Precedentes.
1. A exigência de invalidez do marido para ser beneficiário de pensão por morte da esposa fere o princípio da isonomia inserto no art. 5º, inciso I, da
Constituição Federal, uma vez que tal requisito não é exigido em relação à esposa. Esse entendimento é aplicável, inclusive, quando o óbito da instituidora se
tenha dado anteriormente à promulgação da Emenda Constitucional nº 20/98. Precedentes.
2. Inadmissível, em recurso extraordinário, o reexame dos fatos e das provas da causa e a análise de legislação local. Incidência das Súmulas nºs 279 e 280/STF.
3. Agravo regimental não provido.
AG. REG. NA Rcl N. 9.674-SP
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: CONSTITUCIONAL. AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. PISO SALARIAL. LEI 4950-A/1966. ENGENHEIROS. BASE DE
CÁLCULO EM MÚLTIPLOS DE SALÁRIO-MÍNIMO. REAJUSTES POR OUTROS ÍNDICES. DESRESPEITO À SÚMULA VINCULANTE 4. NÃO
CONFIGURAÇÃO.
AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
AG. REG. NO AI N. 703.282-SP
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. REGIME ESPECIAL DE RECOLHIMENTO DE ICMS. AUSÊNCIA DE
PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 282/STF. ACÓRDÃO BASEADO EM LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL. CÓDIGO
TRIBUTÁRIO NACIONAL E LEI ESTADUAL 6.374/89. ANÁLISE. IMPOSSIBILIDADE. OFENSA REFLEXA À CONSTITUIÇÃO
FEDERAL. REVOLVIMENTO DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. VEDAÇÃO. SÚMULA 279/STF. RECURSO
ESPECIAL DESPROVIDO PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. RESP 1.032.515 (2ª TURMA, REL. MIN. ELIANA CALMON).
AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
AG. REG. NO AI N. 762.803-RS
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Agravo regimental no agravo de instrumento. Prequestionamento. Ausência. Precatório. Juros moratórios. Critérios de cálculo.
Coisa julgada reconhecida pelo Tribunal de origem. Limites objetivos. Fundamento suficiente à manutenção do acórdão recorrido. Matéria
infraconstitucional. Ofensa reflexa. Precedentes.
1. Inadmissível o recurso extraordinário quando os dispositivos constitucionais que nele se alega violados não estão devidamente prequestionados.
Incidência das Súmulas nºs 282 e 356/STF.
2. Não se admite recurso extraordinário contra acórdão que contenha fundamento infraconstitucional suficiente para a manutenção do julgado
recorrido. Orientação da Súmula nº 283/STF.
3. É pacífica a jurisprudência da Corte de que não se presta o recurso extraordinário para a verificação dos limites objetivos da coisa julgada, haja
vista tratar-se de discussão de índole infraconstitucional.
4. Agravo regimental não provido.
AG. REG. NO HC N. 130.276-DF
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS CONTRA DECISÃO DO STJ QUE APLICA A
SISTEMÁTICA DA REPERCUSSÃO GERAL. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE.
1. Inexistente ilegalidade na decisão que não conheceu do agravo contra decisão que aplica a sistemática da repercussão geral para não admitir o
extraordinário (art. 543-B, §§ 2º e 3º, do CPC). Isso porque o Plenário desta Corte firmou o entendimento de que não cabe recurso ou reclamação ao
Supremo Tribunal Federal para rever decisão do Tribunal de origem que aplica a sistemática da repercussão geral, a menos que haja negativa
motivada do juiz em se retratar para seguir a decisão da Suprema Corte. Precedentes.
2. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO RE N. 580.279-SE
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. SERVIDOR
PÚBLICO. REENQUADRAMENTO. ANÁLISE DA LEGISLAÇÃO LOCAL PERTINENTE (LEI ESTADUAL 4.133/99). IMPOSSIBILIDADE.
SÚMULA 280/STF. REVOLVIMENTO DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. VEDAÇÃO. SÚMULA 279/STF.
AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
EMB. DECL. NO ARE N. 829.646-RJ
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Embargos de declaração no recurso extraordinário com agravo. Conversão dos embargos declaratórios em agravo regimental.
Direito Administrativo. Pensão especial. Incidência do teto constitucional remuneratório previsto no art. 37, XI, da Constituição Federal,
com a redação dada pela Emenda Constitucional nº 41/03. Repercussão geral reconhecida. Manutenção do julgado em que se determinou o
retorno dos autos à origem. Precedentes.
1. Embargos de declaração recebidos como agravo regimental.
2. O Supremo Tribunal Federal, no exame do RE nº 609.381/GO, Relator Ministro Teori Zavascki, Tema nº 480, reconheceu a repercussão geral da
matéria relativa à “possibilidade, ou não, de ser mantida transitoriamente a integralidade dos proventos de servidores públicos, até que haja absorção
da diferença salarial a ser reduzida em decorrência do estabelecimento de novos limites remuneratórios trazidos pela EC 41/2003”.
3. Foi mantida a decisão com que, com base no art. 328, parágrafo único, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, se determinou a
devolução dos autos ao Tribunal de origem para a observância do disposto no art. 543-B do Código de Processo Civil.
4. Agravo regimental não provido.
QUARTO AG. REG. NO RE N. 285.302-SP

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RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. AÇÃO DIRETA DE
INCONSTITUCIONALIDADE ESTADUAL. ART. 70 DA LEI 9.167/80, DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, NA REDAÇÃO DADA PELA LEI
MUNICIPAL 11.548/94. APLICAÇÃO, AOS SERVIDORES DO TRIBUNAL DE CONTAS MUNICIPAL, DA LEGISLAÇÃO ESTABELECIDA
PARA O QUADRO FUNCIONAL DA CÂMARA MUNICIPAL, INCLUSIVE NO QUE TOCA AOS “VALORES E FORMAS DE CÁLCULO
DAS VANTAGENS” E ÀS “ESCALAS DE VENCIMENTOS”. ATRIBUIÇÃO DA REGULAMENTAÇÃO DA MATÉRIA À CORTE DE
CONTAS, POR RESOLUÇÃO. INCONSTITUCIONALIDADE. OFENSA AOS ARTS. 2º, 37, X, 39, § 1º, 73 E 96, II, ‘B’, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL.
1. A isonomia a que se referia o art. 39, § 1º, da CF/88, na redação anterior à EC 19/98, era princípio dirigido ao legislador, a quem cabia concretizá-
lo, considerando especificamente os cargos de atribuições iguais ou assemelhadas, por meio da observância recíproca das leis de fixação de
vencimentos (ADI 1.776-MC, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Tribunal Pleno, DJ de 26/5/2000; RMS 21.512, Rel. Min. MOREIRA ALVES,
Primeira Turma, DJ de 19/2/1993).
2. Não obstante haja, no caso em exame, lei formal prevendo a aplicação da legislação referente aos servidores da Câmara Municipal ao quadro
funcional do Tribunal de Contas, a referida norma não identificou os cargos de atribuições iguais ou assemelhados, limitando-se a conferir à Corte de
Contas a competência para, por meio de resolução, aplicar a seus servidores a legislação pertinente ao quadro funcional da Câmara Municipal.
3. Ao regular a matéria de que trata o art. 70 da Lei 9.167/80, o Tribunal de Contas terminaria por dispor pormenorizadamente acerca “dos valores e
formas de cálculo das vantagens e das escalas de vencimentos” aplicáveis a seus servidores, extrapolando, em muito, os limites do poder normativo
inerente à função administrativa desempenhada pelo órgão e imiscuindo-se em atribuição do Poder Legislativo Municipal, em manifesta violação ao
princípio da separação dos poderes, no qual encontra-se implícita a restrição de delegação legislativa (ADI 3.090-MC, Rel. Min. GILMAR MENDES,
DJe de 26/10/2007), mormente de matéria cuja reserva de lei é prescrita pela própria Carta Magna.
4. A norma municipal impugnada usurpa a iniciativa legislativa privativa conferida pela Constituição Federal aos tribunais de contas para tratar da
fixação da remuneração de seu quadro funcional, uma vez que, observada a legislação municipal, a esse órgão caberia apenas adequar aos seus
servidores o disposto em resolução da Câmara Municipal.
5. Agravo regimental a que se nega provimento.
RE N. 188.083-PR
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
LEI – APLICAÇÃO NO TEMPO – TRIBUTO – IRRETROATIVIDADE. Lei regedora de tributo há de ser editada em certo exercício, para
observância no subsequente.
BALANÇO – CORREÇÃO MONETÁRIA – EXERCÍCIO DE 1989 – ARTIGO 30, § 2º, DA LEI Nº 7.799/89. Ante o princípio da irretroatividade,
surge inconstitucional o § 2º do artigo 30 da Lei nº 7.799/89, no que impôs a correção monetária das demonstrações financeiras referentes ao
exercício de 1989.
*noticiado no Informativo 793
AG. REG. NO ARE N. 781.115-SP
RELATOR: MIN. EDSON FACHIN
AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO DO CONSUMIDOR. RESPONSABILIDADE DO
FORNECEDOR.
1. As razões recursais do agravo interno não refutam especificadamente todos os fundamentos da decisão agravada. Súmula 284 do STF.
2. Fixação de multa em 1% do valor da causa, em decorrência de litigância de má-fé.
3. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO ARE N. 910.117-MG
RELATOR: MIN. EDSON FACHIN
AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO PREVIDENCIÁRIO. PENSÃO POR MORTE.
COMPROVAÇÃO DA QUALIDADE DE SEGURADO DO DE CUJUS.
1. A jurisprudência do STF é firme no sentido da inadmissibilidade de recurso extraordinário interposto sem preliminar formal e fundamentada de
repercussão geral. Precedente: AI-QO 664.567, de relatoria do Ministro Sepúlveda Pertence, Tribunal Pleno, DJ 06.09.2007.
2. É inadmissível o recurso extraordinário, quando a matéria constitucional suscitada não tiver sido apreciada pelo acórdão recorrido, em decorrência
da ausência do requisito processual do prequestionamento. Súmula 282 do STF.
3. É inviável o processamento do apelo extremo, quando o seu exame demanda o reexame da legislação aplicável à espécie e dos fatos e provas.
Súmulas 279.
4. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO HC N. 128.550-RS
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO. INADEQUAÇÃO DA VIA
ELEITA. TRÁFICO DE DROGAS. PRISÃO PREVENTIVA. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA.
1. Contra a denegação de habeas corpus por Tribunal Superior prevê a Constituição Federal remédio jurídico expresso, o recurso ordinário. Diante da
dicção do art. 102, II, a, da Constituição da República, a impetração de novo habeas corpus em caráter substitutivo escamoteia o instituto recursal
próprio, em manifesta burla ao preceito constitucional.
2. Se as circunstâncias concretas da prática do crime indicam a periculosidade do agente ou o risco de reiteração delitiva, está justificada a decretação
ou a manutenção da prisão cautelar para resguardo da ordem pública, desde que igualmente presentes boas provas da materialidade e da autoria.
Precedentes.
3. Agravo regimental conhecido e não provido.
AG. REG. NO ARE N. 881.585-DF
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Tributário. Coisa julgada. Efeitos. Alteração das circunstâncias fáticas
e jurídicas. Superveniência de alteração legislativa. Necessidade de reexame da causa à luz da legislação infraconstitucional e dos fatos e das
provas dos autos. Súmula 279/STF. Afronta reflexa.
1. O Tribunal de origem entendeu que houve alteração nas circunstâncias fáticas e jurídicas que permitiriam uma alteração dos efeitos da coisa
julgada não só por força da atual exegese do Supremo Tribunal Federal, como também por força de alteração legislativa (LC nº 87/96).
2. Para decidir de modo contrário ao assentado pelo Tribunal de origem, seria necessário analisar a eficácia vinculante da coisa julgada e se tais
circunstâncias fáticas teriam modificado, de modo substancial, a situação jurídica do objeto do pedido ou a causa de pedir, o que importaria no
revolvimento dos fatos e das provas dos autos. Incidência da Súmula 279/STF.

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3. A Corte tem entendimento pacífico no sentido de que a violação do art. 5º, XXXVI, da Constituição, quando dependente do reexame da contenda à
luz da legislação infraconstitucional (LC nº 87/96), ocorre de maneira meramente reflexa, sendo, dessa forma, incabível a interposição de apelo
extremo.
4. Agravo regimental não provido.
AG. REG. NO ARE N. 894.463-SP
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Direito Administrativo. Servidor militar. Processo administrativo
disciplinar. Prequestionamento. Ausência. Violação dos princípios do contraditório, da ampla defesa e da legalidade. Ofensa reflexa.
Legislação infraconstitucional. Fatos e provas. Reexame. Impossibilidade. Artigo 125, §§ 4º e 5º da CF. Exclusão da Corporação. Comando-
Geral da Polícia. Competência. Possibilidade. Julgamento colegiado. Composição. Precedentes.
1. Inadmissível o recurso extraordinário quando os dispositivos constitucionais que nele se alega violados não estão devidamente prequestionados.
Incidência das Súmulas nºs 282 e 356/STF.
2. A afronta aos princípios da legalidade, do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório, dos limites da coisa julgada ou da prestação
jurisdicional, quando depende, para ser reconhecida como tal, da análise de normas infraconstitucionais, configura apenas ofensa indireta ou reflexa à
Constituição Federal.
3. Inadmissível, em recurso extraordinário, o reexame dos fatos e das provas e a análise da legislação infraconstitucional. Incidência das Súmulas nºs
636, 279 e 280 /STF.
4. O art. 125, § 4º, da Constituição Federal somente se aplica quando a perda da graduação for pena acessória de sanção criminal aplicada em
processo penal, e não, como no caso dos autos, quando o comando-geral da polícia aplicar a pena de demissão após apuração de falta grave em
processo administrativo disciplinar.
5. O art. 125, § 5º, da Constituição Federal contém exigência de que as demandas que tenham por objeto ato disciplinar cometido por militar sejam
julgadas em primeiro grau por juiz de direito, não fazendo, entretanto, nenhuma menção acerca dos julgamentos colegiados de tais demandas.
6. Agravo regimental não provido.
Acórdãos Publicados: 466

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Procedimento investigatório criminal e arquivamento (Transcrições)


(v. Informativo 798)
RMS 28.428/SP*
RELATOR: Ministro Marco Aurélio
EMENTA: PROCEDIMENTO INVESTIGATÓRIO – RECEBIMENTO – DISTRIBUIÇÃO – APRECIAÇÃO – PRINCÍPIO DA
LEGALIDADE – PORTARIA – INSUBSISTÊNCIA. Cumpre observar o princípio da legalidade, o que se contém no artigo 397 do Código de
Processo Penal Militar, não subsistindo Portaria de teor contrário.
RELATÓRIO: – O assessor Dr. ** prestou as seguintes informações:
O recorrente busca reformar acórdão do Superior Tribunal Militar assim ementado:
Mandado de Segurança. Impugnação de ato de magistrada da Justiça Militar da União, consubstanciado na Portaria nº 01, de
08/01/2009, fundado na qual teria se recusado a receber e autuar Procedimento Extrajudicial do MPM. Pedido de anulação da citada
Portaria. Indeferimento. Ausência de direito líquido e certo. A elaboração de portaria para normatizar procedimentos na Auditoria
insere-se na competência do Juiz Auditor. O direito à tutela jurisdicional é abstrato, isto é, não inclui o direito a uma decisão
favorável, e deve estar devidamente fundado. Controvérsia assentada na consideração por parte do Impetrante de que o
“Procedimento Extrajudicial”, um PIC, autuado na PJM/SP, tem natureza jurídico de “peça de informação” e como tal deveria ser
apreciado pela magistrada a quo à luz do preceituado no art. 397 do CPPM. Pressuposto básico do Mandado de Segurança é a
existência de direito incontroverso, não comportando dilação probatória, exigindo prova pré-constituída apresentada na Inicial,
devendo o direito surgir inquestionável, o que não ocorreu, uma vez que, na alusão às regras estabelecidas em duas normas – CPPM,
art. 397, e Resolução nº 51/CSMPM, não é possível identificar direito cristalino e incontroverso a amparar a pretensão do Requerente,
porquanto tais dispositivos não são expressos, no sentido de dar condições de sua aplicação ao Impetrante. Afastada a discussão e
decisão, no contexto da ação mandamental, sobre o tema relacionado à legitimidade da atuação investigatória do MPM, tendo em
vista que a matéria se encontra sub judice no e. STF. Indeferida a segurança, por falta de amparo legal. Decisão majoritária.
Sustenta equívoco no acórdão recorrido, porquanto assentada a validade da Portaria nº 001/2009, segundo a qual não são
passíveis de distribuição os procedimentos de investigação criminal e as sindicâncias, ante a ausência de amparo legal, ressalvada
denúncia oferecida pelo Ministério Público Militar, na forma do artigo 28 do Código de Processo Penal Militar. Segundo narra, o
mandado de segurança foi impetrado com a finalidade de assegurar que a autoridade judiciária competente apreciasse o
Procedimento Investigatório Criminal nº **, cujo seguimento foi obstado por força da aplicação do citado ato normativo.
Argui a ilegalidade da Portaria, a ofender, consoante aduz, direito líquido e certo no tocante à observância do artigo 397 do
Código de Processo Penal Militar, a versar a legitimidade do Promotor de Justiça para requerer o arquivamento do inquérito ou das
peças de informação. Menciona, ainda, a Resolução nº 51 do Ministério Público Militar, no que consagrada a regra a revelar que a
promoção de arquivamento será apresentada ao juízo competente, nos termos do aludido dispositivo legal, ou encaminhada à Câmara
de Coordenação e Revisão, para deliberação. Diz da negativa de prestação jurisdicional concretizada em ato infralegal.
Destaca que se dá o nome de peças de informação a todo e qualquer conjunto indiciário resultante das atividades desenvolvidas
fora do inquérito policial, de modo a incluir, no conceito, os procedimentos investigatórios derivados de sindicâncias e apurações
sumárias realizadas nos quartéis, por determinação de comandantes.

Informativo 804-STF (29/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9


Enfatiza que, ao afastar o uso de outros instrumentos investigativos, senão para fins de oferecimento de denúncia, a Justiça
Militar promove desrespeito à ordem jurídica vigente, limitando as demandas passíveis de análise pelo Poder Judiciário. Ressalta que
as peças informativas podem rotular investigações e diligências diversas, na amplitude das provas que representam dados a respeito
de delitos, não se admitindo a recusa em recebê-las, quando diante de manifestação fundamentada.
Salienta que, na atualidade, o inquérito policial militar não ocupa primazia na apuração de delitos. Alude à existência de
diversos mecanismos apuratórios. Assinala que a restrição versada na Portaria atacada impõe obstáculos ao Ministério Público e,
como consequência, a toda a sociedade.
A Procuradoria Geral da República opina pelo provimento do recurso, porquanto ilegal a norma impugnada. Afirma que o
arquivamento de peças informativas pode se dar no âmbito da própria instituição ou a partir de requerimento dirigido à autoridade
judiciária. Evoca o artigo 15 da Resolução nº 12/2006, do Conselho Nacional do Ministério Público, a disciplinar a instauração e a
tramitação do procedimento investigatório criminal. Aponta, alfim, a inobservância aos artigos 397 do Código de Processo Penal
Militar e 28 do Código de Processo Penal.
É o relatório.
VOTO: – O recurso veio a ser interposto em 27 de outubro de 2009, data anterior à publicação do acórdão, em 29 seguinte. O subscritor da peça
encontra-se legalmente habilitado. Conheço.
Colho das razões recursais que o mandado de segurança tem por objetivo impugnar ato da Juíza Auditora Distribuidora da 2ª Circunscrição
Judiciária Militar, a qual, com fundamento na Portaria nº 001/2009, deixou de receber, distribuir e apreciar requerimento de arquivamento do
Procedimento Investigatório Criminal nº **, instaurado na Procuradoria da Justiça Militar de São Paulo, em decorrência de provocação do Chefe do
Estado-Maior da 2ª Região.
O recorrente aponta violação ao artigo 397 do Código de Processo Penal Militar, a versar a possibilidade de submissão da decisão de
arquivamento ao crivo do Poder Judiciário. Eis o teor do dispositivo legal alegadamente transgredido:
Art. 397. Se o procurador, sem prejuízo da diligência a que se refere o art. 26, n° I, entender que os autos do inquérito ou as peças de
informação não ministram os elementos indispensáveis ao oferecimento da denúncia, requererá ao auditor que os mande arquivar. Se este
concordar com o pedido, determinará o arquivamento; se dele discordar, remeterá os autos ao procurador-geral.
1º Se o procurador-geral entender que há elementos para a ação penal, designará outro procurador, a fim de promovê-la; em caso
contrário, mandará arquivar o processo.
2º A mesma designação poderá fazer, avocando o processo, sempre que tiver conhecimento de que, existindo em determinado caso
elementos para a ação penal, esta não foi promovida.
Procede a articulação. Não é preciso grande esforço para que se conclua no sentido da ilegalidade do ato impugnado, porquanto respaldado em
Portaria elaborada em afronta ao preceito transcrito. Há evidente conflito entre normas de diferente hierarquia, a revelar necessária a observância do
Direito instrumental militar.
Descabe discutir a natureza do procedimento administrativo que se pretendia ver apreciado, porquanto, a despeito da denominação utilizada,
fez-se composto por peças de informação, circunstância suficiente para atrair a observância do artigo 397 do Código de Processo Penal Militar, sem
campo para avaliações quanto ao rito previsto. A par desse aspecto, o artigo 28 do citado diploma legal alude expressamente à possibilidade de
dispensa do inquérito quando o fato e a autoria já estiverem esclarecidos por documentos ou outras provas materiais.
Cabia à Juíza Auditora a adoção de duas possíveis condutas: anuir com o arquivamento proposto ou, discordando da fundamentação
apresentada, remeter o processo ao Procurador-Geral. A recusa em dar andamento ao pleito de trancamento consagra inaceitável abandono do
controle jurisdicional a ser exercido no tocante ao princípio da obrigatoriedade da ação penal.
Não se pode admitir que argumentos pragmáticos, como aqueles ligados ao volume de trabalho da Justiça Militar, afastem o devido processo
legal.
Pelo exposto, dou provimento ao recurso para declarar a ilegalidade da Portaria nº 001/2009 e determinar a distribuição do Procedimento
Extrajudicial nº **, respeitado o rito consagrado no Código de Processo Penal Militar.
*acordão publicado no Dje de 17.9.2015
**nomes e números suprimidos pelo Informativo

Secretaria de Documentação – SDO


Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 804-STF (29/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10


Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos: RE 837311/PI; HC 100612/SP; Inq
3305 AgR/RS; RHC 130132/MS.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
MEDIDAS PROVISÓRIAS
 Emenda parlamentar em medida provisória e contrabando legislativo.

DIREITO CONSTITUCIONAL
MEDIDAS PROVISÓRIAS
Emenda parlamentar em medida provisória e contrabando legislativo

Importante!!!
Durante a tramitação de uma medida provisória no Congresso Nacional, os parlamentares
poderão apresentar emendas?
SIM, no entanto, tais emendas deverão ter relação de pertinência temática com a medida
provisória que está sendo apreciada. Assim, a emenda apresentada deverá ter relação com o
assunto tratado na medida provisória.
Desse modo, é incompatível com a Constituição a apresentação de emendas sem relação de
pertinência temática com medida provisória submetida à sua apreciação.
STF. Plenário. ADI 5127/DF, rel. orig. Min. Rosa Weber, red. p/ o acórdão Min. Edson Fachin, julgado
em 15/10/2015 (Info 803).

Durante a tramitação de uma medida provisória no Congresso Nacional, os parlamentares poderão


apresentar emendas?
SIM, no entanto, tais emendas deverão ter relação de pertinência temática com a medida provisória que
está sendo apreciada. Em outras palavras, a emenda apresentada deverá ter relação com o assunto
tratado na medida provisória.

Imagine que o Presidente da República edita medida provisória dispondo sobre matéria tributária.
Durante a tramitação no Congresso Nacional, um Deputado apresenta emenda incluindo o art. 76 na
medida provisória para tratar sobre os requisitos para a profissão de contador. A medida provisória é
aprovada, sendo convertida em lei, inclusive com o artigo incluído. Indaga-se: esse art. 76 da lei é
constitucional?
NÃO. É incompatível com a Constituição a apresentação de emendas sem relação de pertinência temática
com medida provisória submetida à sua apreciação. Assim, como essa emenda versa sobre assunto
diverso do que é tratado na medida provisória, deve-se considerá-lo inconstitucional.

Informativo 803-STF (22/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


A inserção, por meio de emenda parlamentar, de assunto diferente do que é tratado na medida provisória
que tramita no Congresso Nacional é chamada de "contrabando legislativo", sendo uma prática vedada.
O uso de medidas provisórias se dá por motivos de urgência e relevância da matéria, cuja análise compete
ao chefe do Poder Executivo. Assim, toda e qualquer emenda parlamentar em projeto de conversão de
medida provisória em lei deve ficar restrita ao tema definido como urgente e relevante.
Vale ressaltar que a própria Resolução 1/2002, do Congresso Nacional, que trata sobre os procedimentos
para tramitação das medidas provisórias, veda a apresentação de emendas sem pertinência temática com
a MP. Veja:
Art. 4º (...) § 4º É vedada a apresentação de emendas que versem sobre matéria estranha àquela tratada
na Medida Provisória, cabendo ao Presidente da Comissão o seu indeferimento liminar.

Assim, é até possível emenda parlamentar ao projeto de conversão da MP, no entanto, deverá ser
observada a devida pertinência lógico-temática.
Essa foi a conclusão do STF ao julgar a ADI 5127/DF proposta contra o art. 76 da Lei nº 12.249/2010,
inserido mediante emenda parlamentar em projeto de conversão de medida provisória em lei, e que
tratava sobre assunto diferente daquele veiculado no texto da MP.
O art. 76 foi acrescentado indevidamente por emenda parlamentar durante a tramitação da MP 472/2009,
convertida na Lei nº 12.249/2010. Isso porque o referido artigo dispunha sobre assunto diverso daquele
tratado na MP, faltando, portanto, pertinência temática. Assim, o art. 76 foi fruto de um contrabando
legislativo.

Conclusão com efeitos ex nunc


Veja agora algo bem interessante. O STF declarou que o contrabando legislativo é proibido pela CF/88,
como vimos acima. No entanto, a Corte afirmou que, mesmo assim, o art. 76 da Lei nº 12.249/2010 não
deveria ser declarado inconstitucional.
Segundo decidiu o STF, esse entendimento de que o contrabando legislativo é inconstitucional só deverá
valer para as próximas medidas provisórias que forem convertidas em lei. Assim, ficou decidido que o STF
irá comunicar ao Poder Legislativo esse seu novo entendimento e as emendas que forem aprovadas a
partir de então e que não tiverem relação com o assunto da MP serão declaradas inconstitucionais.
É como se o STF tivesse dado uma chance ao Congresso Nacional e, ao mesmo tempo, um alerta: não faça
mais isso.

Quais foram os fundamentos utilizados pelo STF para não declarar o art. 76 da Lei nº 12.249/2010
inconstitucional?
O STF apresentou dois argumentos para não declarar o art. 76 inconstitucional:
1) Essa foi a primeira oportunidade em que a Corte enfrentou esse tema (contrabando legislativo) e, por
isso, seria necessário antes de declarar inconstitucionais todas as emendas que foram inseridas nesta
mesma situação, iniciar um diálogo entre o Legislativo e o Judiciário sobre a matéria.
2) O contrabando legislativo é uma prática já arraigada em nosso processo legislativo, tendo ocorrido
inúmeras outras vezes. Assim, se a decisão do STF já valesse para todos os casos, isso poderia provocar
enorme insegurança jurídica, considerando que diversos dispositivos que estão em vigor e são fruto desse
procedimento seriam declarados inconstitucionais.

Proclamação do resultado
Na proclamação do resultado do julgamento, a Corte decidiu cientificar ao Poder Legislativo que o STF afirmou,
com efeitos ex nunc (de agora em diante), que não é compatível com a Constituição a apresentação de
emendas sem relação de pertinência temática com medida provisória submetida à sua apreciação.
Ficam preservadas, até a data do julgamento, as leis oriundas de projetos de conversão de medidas provisórias,
em obediência ao princípio da segurança jurídica, mesmo que contenham contrabando legislativo.

Informativo 803-STF (22/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


OUTRAS INFORMAÇÕES

CLIPPING DO D JE
13 a 16 de outubro de 2015

HC N. 129.474-PR
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: HABEAS CORPUS. PROCESSO PENAL. SÚMULA 691/STF. AFASTAMENTO. TRÁFICO DE ENTORPECENTES. ARTIGO
33, CAPUT, DA LEI 11.343/2006. LIBERDADE PROVISÓRIA COM FIANÇA. SITUAÇÃO ECONÔMICA DO RÉU. DISPENSA.
ARTIGOS 325, § 1º, I, E 350, DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. CONCESSÃO DA ORDEM.
1. Em casos excepcionais, viável a superação do óbice da Súmula 691 desta Suprema Corte. Precedentes.
2. O magistrado de primeiro grau decidiu fundamentadamente pela concessão de liberdade provisória com fiança (art. 310, III, do CPP), porquanto
inexistentes os elementos concretos indicativos de fuga do paciente, de interferência indevida na instrução processual ou de ameaça à ordem pública.
3. Na dicção dos arts. 325 e 326 do Código de Processo Penal, a situação econômica do réu é o principal elemento a ser considerado no arbitramento
do valor da fiança.
4. Diante da incapacidade econômica do paciente, aplicável a concessão de liberdade provisória com a dispensa do pagamento da fiança, “sujeitando-
o às obrigações constantes dos arts. 327 e 328 deste Código e a outras medidas cautelares, se for o caso”, nos termos do art. 325, § 1º, I, c/c art.
350, do Código de Processo Penal. Precedente.
5. Ordem de habeas corpus concedida para deferir o benefício da liberdade provisória com dispensa do pagamento de fiança e imediata expedição do
competente alvará de soltura, ressalvada, se o caso, a imposição de medidas cautelares do art. 319 do Código de Processo Penal, pelo Juízo de origem.
*noticiado no Informativo 800

HC N. 112.382-RS
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL E PENAL MILITAR. USO DE DOCUMENTO FALSO (ART. 315 DO CPM). CRIME
SUJEITO À JURISDIÇÃO MILITAR (ART. 9º, III, “A”, DO CPM). PRECEDENTES. EXASPERAÇÃO DA PENA, DE OFÍCIO, PELO
TRIBUNAL DE APELAÇÃO. IMPOSSIBLIDADE.
1. As condutas imputadas ao paciente, tais como descritas no acórdão condenatório, amoldam-se, em tese, ao tipo descrito no art. 315 do Código
Penal Militar, atingindo, diretamente, a ordem administrativa militar (art. 9º, III, “a”, do CPM). Nesse contexto, torna-se inviável, em sede de habeas
corpus, decidir que o crime praticado foi o de estelionato e, portanto, a vítima seria a Caixa Econômica Federal, até porque em momento algum a
denúncia alude a prejuízo alheio (elementar normativa do delito de estelionato).
2. Se é certo que o efeito devolutivo inerente ao recurso de apelação permite que o Tribunal aprecie em exaustivo nível de profundidade, o mesmo não
ocorre quanto a sua extensão (limite horizontal), que deve se adstringir - sobretudo em se tratando de recurso da acusação - à matéria questionada e ao
pedido formulado na petição recursal, ressalvada sempre a possibilidade de concessão de ordem de ofício. Assim, padece de ilegalidade julgado do
Tribunal de apelação que agrava a situação processual do réu (exasperação da pena) sem que a própria acusação a tenha almejado.
3. Ordem concedida em parte.
*noticiado no Informativo 793
AG. REG. NO ARE N. 883.846-RJ
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
AGRAVO – OBJETO. Visando o agravo a fulminar certa decisão, a minuta deve estar direcionada a infirmá-la. O silêncio quanto a fundamento
consignado conduz, por si só, à manutenção do que assentado.
AG. REG. NO ARE N. 900.478-RO
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO ADMINISTRATIVO. CELEBRAÇÃO DE CONVÊNIO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA AOS
FUNDAMENTOS DA DECISÃO QUE INADMITIU O RECURSO EXTRAORDINÁRIO. SÚMULA 287/STF. ACÓRDÃO RECORRIDO
PUBLICADO EM 10.3.2014.
1. A jurisprudência desta Suprema Corte é firme no sentido de que inadmissível o agravo que não ataca especificamente os fundamentos da decisão
que inadmitiu o recurso extraordinário. Incidência da Súmula 287/STF.
2. Da detida leitura das razões recursais, bem como dos fundamentos adotados pela Presidência da Corte a quo, ao exame da admissibilidade do
recurso, verifico não impugnados os fundamentos da decisão pela qual inadmitido o extraordinário na origem.
3. Agravo regimental conhecido e não provido.
Ext N. 1.375-DF
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO. EXTRADIÇÃO EXECUTÓRIA. GOVERNO DA ESPANHA. SONEGAÇÃO FISCAL – ART. 1º, INC. I, DA LEI N.
8.137/90. REGULARIDADE FORMAL DO PEDIDO. DUPLA TIPICIDADE. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESPANHOLA: PRINCÍPIO DA TERRITORIALIDADE.
AUSÊNCIA DE PRESCRIÇÃO EM AMBOS OS ORDENAMENTOS LEGAIS. CONVERSÃO DA PENA DE MULTA EM PRISÃO. IMPOSSIBILIDADE: QUESTÃO
AFETA À SOBERANIA ESTATAL. EXTRADIÇÃO DEFERIDA.
1. A extradição pressupõe o cumprimento dos requisitos legais extraídos por interpretação a contrario sensu do art. 77 da Lei nº 6.815/80; vale dizer,
defere-se o pleito se o caso sub examine não se enquadrar em nenhum dos incisos do referido dispositivo e restarem observadas as disposições do
tratado específico.
2. In casu, o extraditando foi condenado à pena de 2 (dois) anos e 5 (cinco) meses de prisão, pela prática do crime de sonegação fiscal, que restou
acrescida de 5 (cinco) meses por conta do inadimplemento da pena de multa, e que restou parcialmente cumprida entre 11/04/2011 e 08/06/2012,
resultando o saldo de 1 (um) ano e 9 (nove) meses a cumprir.
3. O pedido atende ao disposto no Tratado de Extradição firmado entre a Espanha e o Brasil (Decreto n. 99.340/1990), há indicações seguras sobre
locais, datas, natureza e circunstâncias dos fatos.

Informativo 803-STF (22/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


4. A omissão de declarações ao fisco espanhol, objetivando a supressão de tributos, corresponde ao crime de sonegação fiscal tipificado no artigo 1º,
inc. I, da Lei n. 8.137/1990, satisfazendo a exigência da dupla incriminação, que prescinde da absoluta identidade entre os tipos penais (EXT 1.283,
Relator o Min. Marco Aurélio, Primeira Turma, DJe de 17/04/2014 e EXT 908, Relatora a Ministra Ellen Gracie, DJ de 19/11/2004).
5. A ausência de cópia do inteiro teor da sentença condenatória e da certidão do tempo de pena a cumprir não impede a análise do pedido de
extradição quando emergem da parte dispositiva da sentença informações seguras sobre o tempo de prisão cumprido e a cumprir.
6. A inexistência de comprovação dos marcos interruptivos do curso prescricional não impossibilita verificar a inocorrência da causa extintiva da
pena, mercê de o artigo 133 do Código Penal espanhol dispor que o prazo prescricional da pretensão executória começa a fluir do trânsito em julgado
da sentença, ocorrido em 02/02/2011; ou seja, entre o marco inicial e a presente data não transcorreu o lapso prescricional de 5 (cinco) anos previsto
na legislação espanhola. Precedentes: EXT 1305, Rel. Min. Rosa Weber, 1ª Turma, DJe de 23/10/2014, e EXT 576, Rel. Min. Moreira Alves, Pleno,
DJ de 01/10/1993.
7. A prescrição também não se deu segundo a lei brasileira, que prevê o prazo prescricional de 8 (oito) anos (CP, art. 109, inc. IV) para a pena
superior a 2 (dois) anos e não excedente a 4 (quatro) anos.
8. A alegada prescrição da pretensão punitiva é impertinente, porquanto se trata de sentença penal transitada em julgado, vale dizer, de questão afeta à
prescrição da pretensão executória.
9. A ausência de legislação a respeito da competência do Estado requerente para o processo e julgamento não tem relevância em face do princípio da
territorialidade, aplicável em se tratando de prática delituosa contra o seu fisco (EXT 1094, Rel. Min. Marco Aurélio, Pleno, DJe de 25/04/2009, e
EXT 1077, Rel. Ministra Cármen Lúcia, Pleno, DJe de 03/08/2007).
10. A pena foi fixada em 2 (dois) anos e 10 (dez) meses e o paciente cumpriu pouco mais de 1 (um) ano e 1 (um) mês – entre 11/04/2011 e
08/06/2012 -, remanescendo o saldo de 1 (um) ano e 9 (nove) meses, por isso que não incide o óbice à extradição previsto no item 2 do artigo II do
Tratado bilateral (Artigo II - […] 2) Se a extradição for solicitada para execução de uma sentença, será necessário que a parte da pena ainda não
cumprida seja superior a um ano)”.
11. A impossibilidade da conversão da pena de multa em prisão em decorrência de seu descumprimento é questão não afeta à jurisdição brasileira, sob
pena de afronta à soberania do Estado na regulação de seus institutos penais, conforme sustentado no parecer ministerial à luz do precedente firmado
na EXT 542, Rel. Min. Celso de Mello, Pleno, DJ de 20/03/1992, o qual se aplica, mutatis mutandis, ao presente caso, valendo destacar da ementa do
julgado, in verbis: “A questão do reconhecimento, ou não, da ficção jurídica do crime continuado, traduz – enquanto expressão da benignidade
estatal no tratamento jurídico-penal das infrações múltiplas cometidas pelo mesmo agente – opção legislativa peculiar ao ordenamento jurídico de
cada Estado. Nesse contexto, não se pode impor, no plano das relações extradicionais entre Estados soberanos, a compulsória submissão da parte
requerente ao modelo jurídico de aplicação das penas vigente no âmbito do sistema normativo do Estado a quem a extradição é solicitada. O Brasil,
consequentemente, não pode, a pretexto de deferir o pedido extradicional, impor, à observância necessária dos demais países o seu modelo legal
que, consagrando o instituto da unidade fictícia do crime continuado, estipula regras concernentes à aplicação da pena. A impossibilidade de o
Estado brasileiro impor, mediante ressalva, ao Estado requerente, a aceitação de institutos peculiares ao direito penal positivo do Brasil – tal como
se dá em relação ao fenômeno jurídico da continuidade delitiva – deriva da circunstância de que, em assim agindo, estaria a afetar a própria
integridade da soberania estatal da parte requerente. A força da importação de critérios ou de institutos penais não se legitima em face do Direito da
Gentes e nem à luz de nosso próprio sistema jurídico. Cabe, assim, à Justiça do Estado requerente, reconhecer soberanamente – desde que o permita
a sua própria legislação penal – a ocorrência, ou não, da continuidade delitiva, não competindo ao Brasil, em obséquio ao princípio fundamental da
soberania dos Estados, que rege as relações internacionais, constranger o Governo requerente a aceitar um instituto que até mesmo o seu próprio
ordenamento jurídico positivo possa rejeitar.”
12. O Estado requerente deverá firmar o compromisso de descontar da pena o tempo de prisão do extraditando no território brasileiro para fins de
extradição (Ext 1211/REPÚBLICA PORTUGUESA, rel. Min. Ellen Gracie, Pleno, DJ de 24/3/2011; Ext 1214/EUA, rel. Min. Ellen Gracie, Pleno,
DJ 6/5/2011; Ext 1226/Reino da Espanha, rel. Min. Ellen Gracie, Segunda Turma, DJ de 1/9/2011).
13. Pedido de extradição deferido.
*noticiado no Informativo 796
HC N. 126.081-RS
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. AMPLA DEFESA. NULIDADE. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DA
DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO PARA A SESSÃO DE JULGAMENTO DO RECURSO DE APELAÇÃO NO SUPERIOR
TRIBUNAL MILITAR. INOCORRÊNCIA. PROVA DA INTIMAÇÃO NOS AUTOS. ORDEM DENEGADA.
1. Imperiosa a intimação da Defesa da data do julgamento do recurso de apelação quando há pedido expresso para a realização de sustentação oral.
Precedentes.
2. Não há falar em nulidade por ausência de intimação se há prova nos autos de que a Defensoria Pública foi devidamente intimada da sessão de
julgamento do recurso de apelação pelo Superior Tribunal Militar.
3. Ordem de habeas corpus denegada.
*noticiado no Informativo 796
SEGUNDO AG. REG. NA Rcl N. 6.527-SP
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: SEGUNDO AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. CAUSAS INSTAURADAS ENTRE SERVIDOR E PODER
PÚBLICO. VÍNCULO DE ORDEM ESTATUTÁRIA OU JURÍDICO-ADMINISTRATIVA. COMPETÊNCIA. JUSTIÇA COMUM.
OFENSA À ADI 3.395-MC. OCORRÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
1. É de competência da Justiça Comum o processamento e o julgamento dos dissídios entre o Poder Público e seus servidores subordinados a regime
jurídico estatutário, a teor do que decidiu o STF na ADI (MC) 3.395, Min. Cezar Peluso, DJ de 10.11.06.
2. Agravo regimental desprovido.
*noticiado no Informativo 796
Acórdãos Publicados: 345

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TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Recurso exclusivo da defesa e “reformatio in pejus” (Transcrições)


(v. Informativo 797)
RHC 126.763/MS*
RELATOR: Ministro Dias Toffoli
REDATOR P/ O ACORDÃO: Ministro Gilmar Mendes
VOTO-VISTA (MINISTRO GILMAR MENDES): Pois bem, a regra legal, cerne da presente discussão, vem fixada na parte final do artigo 617 do
Código de Processo Penal, que diz não poder o tribunal agravar a pena, quando somente o réu houver apelado da sentença.
A questão central aqui é definir, afinal, em que consiste esse agravamento de pena.
Pelo que se depreende das decisões anteriores e, também, do voto já proferido pelo Relator, a conclusão objetiva é: o princípio da ne
reformatio in pejus traria interpretação literal do artigo 617 do Código de Processo Penal, limitando-se a vedar o agravamento da quantidade da pena
ao final imposta.
Com a devida vênia, não creio ser esse o entendimento mais acertado.
Como se sabe, a melhor interpretação sempre é a sistemática, levando em conta que a norma está inserida em um conjunto organizado de
ideias, devendo ser seu sentido extraído da lógica geral, coadunando-se com o viés metodológico de todo o arcabouço normativo. Faz-se mister
encadear todos os dispositivos e normas, evidenciando-se, destarte, a mens legis. E, certamente, tal propósito jamais será alcançado se nos ativermos à
literalidade do dispositivo legal. A literalidade, especialmente nessas circunstâncias, apresenta-se rasa e, portanto, insuficiente.
Pois bem. O reiteradamente citado artigo 617 do Código de Processo Penal é a expressão do princípio da personalidade dos recursos que, em
resumo, determina que a irresignação só pode aproveitar àquele que a apresentou. Nessa linha, veda-se a reformatio in pejus.
Como já tive oportunidade de expressar em outros momentos, penso que a vedação da reformatio in pejus não se cinge, simplesmente, à
quantidade final de pena. Tal me parece evidente.
A pena, que é a consequência principal da prática delitiva, o fim em si do próprio direito penal, é fixada com base em determinados elementos
definidos em lei. É ato complexo, trifásico, no nosso ordenamento jurídico. Ao contrário do que possa parecer, não se trata de mero cálculo
aritmético, mas sim de efetiva valoração da conduta levada a efeito pelo sentenciado.
Rechaçando a restrição do disposto no artigo 617 do CPP ao simples aspecto quantitativo da pena, avalizam Ada Pellegrini Grinover, Antonio
Magalhães Gomes Filho e Antonio Scarance Fernandes:
“(...) Não se admite a reformatio in pejus, entendida como diferença para pior, entre a decisão recorrida e a decisão no recurso, não
podendo a piora ocorrer nem do ponto de vista quantitativo, nem sob o ângulo qualitativo.
Até mesmo com relação à matéria cognoscível de ofício – como, por exemplo, no caso das nulidades absolutas –, o recurso do réu não
pode servir de veículo para o reconhecimento de nulidade que prejudique a defesa. (...)” (Recursos no Processo Penal. 7ª Edição. Revista dos
Tribunais, 2011, p. 41, grifos meus).
Tamanha é a importância de não pronunciar qualquer decisão em desfavor de quem recorre que, seguindo tal raciocínio, os citados autores
trazem à baila o teor do Enunciado 160 da Súmula desta Corte, que veda o reconhecimento de nulidade absoluta quando desfavorece o réu, caso não
arguida em recuso da acusação.
Pois bem. Para fixar a pena-base, o magistrado, atendo-se às vetoriais do artigo 59 do Código Penal, dimensionará a culpabilidade do réu, a
existência de antecedentes, examinará a conduta social, a personalidade, os motivos que levaram à prática delitiva, as circunstâncias e consequências
desse ato, assim como a influência que o comportamento da vítima teve nos fatos. A reunião de todos esses elementos culminará na manutenção da
pena-base no mínimo legal ou em sua elevação.
Individualizar a reprimenda é uma das tarefas mais importantes e árduas a serem exercidas pelo magistrado, porque, sempre adstrito ao
princípio da legalidade, deve equalizá-la da forma mais justa possível ou, como acerta Paulo Queiroz, da forma menos injusta possível.
Como parece evidente, cada uma das vetoriais que compõem o rol do artigo 59 do Código Penal faz parte das circunstâncias fáticas que
envolvem a prática da infração penal. Não fosse assim, a lei traria uma pena previamente fixada, estanque, predeterminada e sem possibilidade de
alteração. Constitui ato decisório, constitutivo, que transita em julgado, não sendo mera fundamentação. Tanto é assim que, nos termos de pacífica
jurisprudência, a exasperação da pena-base sem fundamentação concreta é ato ilegal, passível, inclusive, de correção de ofício.
Tal tema foi objeto de recente discussão neste Colegiado, como evidencia o acórdão, de minha relatoria:
“Habeas corpus. 2. Emendatio libelli (art. 383, CPP) em segunda instância mediante recurso exclusivo da defesa. Possibilidade,
contanto que não gere reformatio in pejus, nos termos do art. 617, CPP. A pena fixada não é o único efeito que baliza a condenação, devendo
ser consideradas outras circunstâncias para verificação de existência de reformatio in pejus. 3. O redimensionamento da pena-base pelo
Tribunal de Apelação em patamar para além daquele fixado no Juízo originário, embora reduza a reprimenda total em apelação exclusiva da
defesa, reconhecendo vetoriais desfavoráveis não veiculadas na sentença (art. 59, CP), gera reformatio in pejus. 4. Ordem concedida. (HC
103310, relator(a): min. TEORI ZAVASCKI, redator do acórdão: min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em 3/3/2015, ACÓRDÃO
ELETRÔNICO DJe-085 DIVULG 7-5-2015 PUBLIC 8-5-2015)”.
Nesse viés, tem-se em mente que, em decorrência do princípio devolutivo, o recurso interposto devolve ao tribunal somente o conhecimento da
matéria impugnada, nos termos da expressão tantum devolutum quantum appellatum. Então, como aceitar que o tribunal reconheça – e os agregue à
decisão e à condenação – elementos que envolvem a infração penal, que venham em desfavor do réu, quando estamos em face de apelação exclusiva
da defesa? Tal proceder vai de encontro a toda a lógica recursal vigente.

Informativo 803-STF (22/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 5


Traçando-se um paralelo sem muito apuro, tão somente para evidenciar a esterilidade de tal pretensão, o próprio processo civil, que não é
revestido das mesmas garantias do processo penal e trata de interesses privados, não permite a ofensa à preclusão que aqui se pretende franquear,
ferindo, também, a lógica devolutiva.
Com efeito, na situação sob exame, à primeira vista, aos olhares mais desavisados, o então apelante parece ter sido beneficiado pela decisão de
segunda instância, levando em conta que sua pena final ficou menor do que a fixada na sentença monocrática. Nem por isso devemos nos contentar,
visto que, seguindo-se à risca as regras legais e interpretativas, sua pena deveria ter ficado ainda menor.
Após o trânsito em julgado para o Ministério Público, o Tribunal de apelação reconheceu a existência de uma circunstância qualificadora
(delito praticado durante o repouso noturno), em momento algum aventada. Contudo, ainda que presentes todos os requisitos fáticos à aplicação da
referida qualificadora, a ausência de recurso da acusação veda tal proceder, visto que é reconhecer elemento desfavorável à defesa.
Ainda, quando da fixação da pena-base, a Magistrada de primeira instância identificou por desfavoráveis cinco circunstâncias judiciais
elencadas no artigo 59 do Código Penal, elevando em doze meses a reprimenda, ou seja, quase dois meses e meio cada uma. Já em segunda instância,
quatro dessas vetoriais foram decotadas. Contudo, de forma desproporcional, atribuiu-se a essa circunstância judicial negativa remanescente um
aumento de oito meses na pena-base, além dos parâmetros definidos em primeiro grau e aceitos pela acusação, em claro desrespeito às normas
recursais.
De fato, não há de se olvidar que a pena privativa de liberdade final, fixada em 1 ano e 5 meses e 23 dias de reclusão, é menor do que a
imposta ainda em primeira instância, 2 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão. Todavia, é, também, inegável que, sem que reconhecidas quaisquer
circunstâncias desfavoráveis ao apelante, em respeito às regras recursais, tal reprimenda restaria ainda menor. Está aí o evidente prejuízo.
Com efeito, aparentemente sem gerar qualquer prejuízo prático ao ora recorrente, a decisão de segunda instância aumentou a pena atribuída a
cada vetorial negativa reconhecida e agregou à decisão uma qualificadora outrora inexistente, o que indubitavelmente configura prejuízo e gera
constrangimento ilegal.
Vou pedir vênia a Vossa Excelência e abrir a divergência com base no precedente recente trazido, invocando, portanto, referidos fundamentos.
Ante o exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso, a fim de que seja refeita a dosimetria da pena em relação ao recorrente.
*acordão publicado no Dje de 10.9.2015

INOVAÇÕES LEGISLATIVAS
13 a 16 de outubro de 2015

Decreto nº 8.539, de 8.10.2015 - Dispõe sobre o uso do meio eletrônico para a realização do processo
administrativo no âmbito dos órgãos e das entidades da administração pública federal direta, autárquica e fundacional.
Publicado no DOU, Seção 1, Edição nº 194, p. 2, em 9.10.2015.
Secretaria de Documentação – SDO
Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 803-STF (22/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 6


Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos em virtude de pedidos de vista:
ADI 5286/AP, ADI 5287/PB e ADPF 339/PI; ADI 5296 MC/DF; Rcl 15243/RJ.

Julgados excluídos por terem menor relevância para concursos públicos ou por terem sido decididos com base em
peculiaridades do caso concreto: ACO 1664 AgR/RS, ACO 1516 AgR/RS; AP 933 QO/PB.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
INELEGIBILIDADES
 As hipóteses de inelegibilidade são aplicáveis às eleições suplementares

DIREITO ELEITORAL
INELEGIBILIDADES
 As hipóteses de inelegibilidade são aplicáveis às eleições suplementares

DIREITO PENAL
CRIMES DE RESPONSABILIDADE DOS PREFEITOS (DL 201/67)
 Para a configuração do delito do art. 1º, XIV é indispensável a inequívoca ciência do Prefeito.

DIREITO PROCESSUAL PENAL


COMPETÊNCIA
 Menção ao investigação com foro por prerrogativa de função no depoimento do réu que está sendo processado
em 1ª instância.

DIREITO CONSTITUCIONAL

INELEGIBILIDADES
As hipóteses de inelegibilidade são aplicáveis às eleições suplementares

As hipóteses de inelegibilidade previstas no art. 14, § 7º, da CF, inclusive quanto ao prazo de
seis meses, são aplicáveis às eleições suplementares.
STF. Plenário. RE 843455/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 7/10/2015 (Info 802).

Para maiores informações, veja os comentários no capítulo de Direito Eleitoral.

Informativo 802-STF (16/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


DIREITO ELEITORAL

INELEGIBILIDADES
As hipóteses de inelegibilidade são aplicáveis às eleições suplementares

As hipóteses de inelegibilidade previstas no art. 14, § 7º, da CF, inclusive quanto ao prazo de
seis meses, são aplicáveis às eleições suplementares.
STF. Plenário. RE 843455/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 7/10/2015 (Info 802).

INELEGIBILIDADE REFLEXA
O art. 14, § 7º, da CF/88 estabelece o seguinte:
§ 7º São inelegíveis, no território de jurisdição do titular, o cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins,
até o segundo grau ou por adoção, do Presidente da República, de Governador de Estado ou Território, do
Distrito Federal, de Prefeito ou de quem os haja substituído dentro dos seis meses anteriores ao pleito,
salvo se já titular de mandato eletivo e candidato à reeleição.

A doutrina chama esta hipótese de inelegibilidade em razão do parentesco ou inelegibilidade reflexa.

De acordo com esse caso de inelegibilidade:


O cônjuge,
parentes e afins Não poderão candidatar-se a...
até o 2º grau do...
PREFEITO Vereador e/ou prefeito do mesmo município.
Qualquer cargo no mesmo Estado, ou seja:
• vereador ou prefeito de qualquer município do respectivo Estado;
GOVERNADOR
• deputado estadual e governador do mesmo Estado;
• deputado federal e senador nas vagas do próprio Estado;
PRESIDENTE Qualquer cargo eletivo no país (municipal, estadual ou federal).

Exceção à regra do § 7º: (...) salvoàseàj àtitula àdeà a datoàeletivoàeà a didatoà à eeleição.

Assim, no caso do cônjuge, parente ou afim já possuir mandato eletivo, não haverá qualquer impedimento
para que concorra à reeleição (candidatura ao mesmo cargo).

A ra gê ia do ter o ô juge :
Considera-se cônjuge não somente a mulher/homem que esteja casada(o), mas também aquela(e) que
vive em união estável com o Chefe do Poder Executivo, ou mesmo com seu irmão (afim de 2º grau). Isso
porque a CF/88 amplia o conceito de entidade familiar, nos termos do art. 226, § 3º. A vedação incide
também no caso de união homoafetiva.

A inelegibilidade persiste, ainda que, no curso do mandato, a relação se extinga:


O TSE tem entendimento de que, se em algum momento do mandato, ocorreu a relação de casamento,
união estável ou parentesco, esta pessoa já está inelegível, ainda que esta relação seja desfeita.
Ex: Luciano foi eleito prefeito em 2004. Em 2008, foi reeleito. Logo, em 2012, não poderia concorrer à reeleição
porque seria seu terceiro mandato consecutivo. Em 2010, Luciano separou-se de sua esposa Amélia. Mesmo
estando separados, Amélia não poderá concorrer nas eleições de 2012 porque, durante o mandato do prefeito,
houve uma relação entre eles, não cessando a inelegibilidade pelo fim do vínculo conjugal.

Informativo 802-STF (16/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


O STF possui o mesmo entendimento:
Súmula vinculante 18-STF: A dissolução da sociedade ou do vínculo conjugal, no curso do mandato, não
afasta a inelegibilidade prevista no § 7º do artigo 14 da Constituição Federal.

Os parentes (ou cônjuge) podem concorrer nas eleições, desde que o titular do cargo tenha direito à
reeleição e não concorra na disputa:
Ex: em 1998, Garotinho foi eleito Governador do RJ. No final do seu 1º mandato (em 2002), ele renunciou ao
cargo para se desincompatibilizar e concorrer à Presidência da República. Sua esposa, Rosinha, candidatou-se
ao cargo de Governador na eleição de 2002, tendo sido eleita. O TSE considerou que Rosinha poderia
concorrer e assumir o cargo porque seu marido havia renunciado e ainda estava no 1º mandato. A lógica
utilizada pelo TSE foi a seguinte: ora, se o próprio Garotinho poderia concorrer novamente ao cargo de
Governador, não haveria sentido em se negar à sua esposa o direito de disputar a eleição.
Vale ressaltar, no entanto, que Rosinha, ao ganhar a eleição, é como se estivesse exercendo o 2º mandato
consecutivo. Logo, em 2006 não poderia ela concorrer novamente ao Governo.
Em suma, este núcleo familiar foi eleito Governador em 1998 e reeleito em 2002, não podendo figurar em
um terceiro mandato consecutivo.

ELEIÇÃO SUPLEMENTAR E AS HIPÓTESES DE INELEGIBILIDADE


Imagine a seguinte situação hipotética:
João foi eleito, em 2012, prefeito de uma cidade do interior.
Ocorre que, em 2013, ele e o vice foram cassados.
Diante disso, a Justiça Eleitoral determinou a realização de nova eleição para Prefeito (chamada de
"eleição suplementar").
Maria, mulher de João, inscreveu-se para concorrer na eleição suplementar. No entanto, os partidos
oposicionistas impugnaram a candidatura afirmando que ela seria inelegível com base no art. 14, § 7º da CF/88:
Art. 14 (...) § 7º - São inelegíveis, no território de jurisdição do titular, o cônjuge e os parentes
consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do Presidente da República, de Governador de
Estado ou Território, do Distrito Federal, de Prefeito ou de quem os haja substituído dentro dos seis meses
anteriores ao pleito, salvo se já titular de mandato eletivo e candidato à reeleição.

Maria defendeu-se afirmando que as hipóteses de inelegibilidade só se aplicam para eleições gerais, não
valendo para o caso de eleições suplementares.

O argumento defensivo de Maria está correto? As hipóteses de inelegibilidade só se aplicam para as


eleições gerais?
NÃO. As hipóteses de inelegibilidade previstas no art. 14, § 7º, da CF/88, inclusive quanto ao prazo de seis
meses, são aplicáveis às eleições suplementares. Assim, incide o art. 14, § 7º, da CF/88.
João estava no seu primeiro mandato. Logo, em tese, ele ainda teria direito de concorrer a uma reeleição
(em 2016). Diante disso, quando o próprio chefe do Poder Executivo ainda pode concorrer à reeleição, a
jurisprudência abre uma exceção ao art. 14, § 7º, da CF/88 e permite que o cônjuge (no caso, sua mulher)
concorra no seu lugar. Assim, em tese, em 2016, Maria poderia concorrer à Prefeita mesmo existindo a
regra do art. 14, § 7º (vimos essa situação acima no caso da Rosinha Garotinho).
Voltando, no entanto, ao caso concreto: Maria não poderá concorrer nas eleições suplementares porque
João, ao ser cassado, tornou-se inelegível, conforme prevê o art. 1º, I, "c", da LC 64/90:
Art. 1º São inelegíveis:
I - para qualquer cargo:
(...)
c) o Governador e o Vice-Governador de Estado e do Distrito Federal e o Prefeito e o Vice-Prefeito que
perderem seus cargos eletivos por infringência a dispositivo da Constituição Estadual, da Lei Orgânica do
Distrito Federal ou da Lei Orgânica do Município, para as eleições que se realizarem durante o período

Informativo 802-STF (16/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


remanescente e nos 8 (oito) anos subsequentes ao término do mandato para o qual tenham sido eleitos;
(Redação dada pela Lei Complementar nº 135/2010)

Assim, sendo João inelegível, Maria também tornou-se inelegível, não podendo ser aplicada a exceção
feita pela jurisprudência ao art. 14, § 7º, da CF/88. Em outras palavras, não se pode aplicar aqui a mesma
solução dada ao caso da Rosinha porque lá o Garotinho não estava inelegível (ele ainda poderia concorrer
à reeleição, se quisesse). No presente caso é diferente porque João estava inelegível, fazendo com que
essa inelegibilidade se transmitisse à sua mulher.

O que é mais importante, no entanto, é que você aprenda a tese fixada pelo STF no âmbito da
repercussão geral:
As hipóteses de inelegibilidade previstas no art. 14, § 7º, da CF, inclusive quanto ao prazo de seis meses,
são aplicáveis às eleições suplementares.

DIREITO PENAL

CRIMES DE RESPONSABILIDADE DOS PREFEITOS (DL 201/67)


Para a configuração do delito do art. 1º, XIV, é indispensável a inequívoca ciência do Prefeito

O art. 1º, XIV, do DL 201/67 prevê que o Prefeito pratica crime quando nega execução a lei
federal, estadual ou municipal, ou deixa de cumprir ordem judicial, sem dar o motivo da
recusa ou da impossibilidade, por escrito, à autoridade competente.
Vale ressaltar, no entanto, que, segundo entende o STF, para a configuração do delito em tela é
indispensável que o MP comprove a inequívoca ciência do Prefeito a respeito da ordem judicial.
Ex: em Joinville (SC), o juiz expediu ordem judicial determinando que o Município se
abstivesse de praticar determinado ato administrativo. A ordem judicial foi endereçada à
Procuradoria do Município. Mesmo após a intimação ser efetivada, o ato administrativo
questionado foi praticado. Diante disso, o Ministério Público ofereceu denúncia contra o
Prefeito, imputando-lhe a prática do crime previsto no art. 1º, XIV, do DL 201/67. O STF
absolveu o réu. Segundo entenderam os Ministros, não foram produzidas provas de que o réu
tenha tido conhecimento da ordem judicial ou que tenha concorrido para seu
descumprimento. Para configuração do delito em tela, é indispensável que o MP comprove a
inequívoca ciência do Prefeito a respeito da ordem judicial, não sendo suficiente que a
determinação judicial tenha sido comunicada a terceiros. Para que o Prefeito pudesse ser
responsabilizado criminalmente, seria indispensável a sua intimação pessoal.
STF. 1ª Turma. AP 555/SC, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 6/10/2015 (Info 802).

DECRETO-LEI 201/67
O Decreto-Lei 201/67 é um ato normativo com status de lei ordinária e que prevê, em seu art. 1º, uma lista
de crimes cometidos por Prefeitos no exercício de suas funções.
O DL 201/67 traz também regras de processo penal que deverão ser aplicadas quando ocorrerem os
crimes ali previstos.
Vale ressaltar que o DL 201/67 foi recepcionado pela CF/88 como lei ordinária (Súmula 496 do STF).

ART. 1º
O art. 1º do DL 201/67 elenca, em seus incisos, diversos crimes de responsabilidade dos Prefeitos.
Vejamos a redação do caput:

Informativo 802-STF (16/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 4


Art. 1º São crimes de responsabilidade dos Prefeitos Municipais, sujeitos ao julgamento do Poder
Judiciário, independentemente do pronunciamento da Câmara dos Vereadores:

O que são crimes de responsabilidade?


Tecnicamente falando, crimes de responsabilidade são infrações político-administrativas praticadas por
pessoas que ocupam determinados cargos públicos.
Caso o agente seja condenado por crime de responsabilidade, ele não receberá sanções penais (prisão ou
multa), mas sim sanções político-administrativas (perda do cargo e inabilitação para o exercício de função
pública).

O art. 1º prevê realmente crimes de responsabilidade?


NÃO.à Oà a t.à 1ºà afi aà ueà osà delitosà eleà ele adosà sãoà i esà deà espo sa ilidade .à ápesa à deà se à
utilizada essa nomenclatu a,à aà dout i aà eà aà ju isp udê iaà o ige à oà legislado à eà afi a à ue,à aà
verdade, esses delitos são crimes comuns, ou seja, infrações penais iguais àquelas tipificadas no Código
Penal e em outras leis penais.
Desse modo, o que o art. 1º traz são crimes funcionais cometidos por Prefeitos.
Vale ressaltar que os crimes de responsabilidade (em sentido estrito) dos Prefeitos estão previstos no art.
4º do DL 201/67. É nesse dispositivo que estão definidas as infrações político-administrativas dos alcaides.
Nesse sentido: STF. Plenário. HC 70671, Rel. Min. Carlos Velloso, julgado em 13/04/1994.

Os crimes funcionais dos Prefeitos estão previstos exclusivamente no art. 1º do DL 201/67?


NÃO. Os Prefeitos poderão responder também pelos crimes funcionais previstos no Código Penal, na Lei
de Licitações (Lei n. 8.666/93) e em outras leis penais, desde que tais condutas não estejam descritas no
art. 1º do DL 201/67. Os crimes tipificados nas demais leis somente incidirão para os Prefeitos se não
estiverem previstos no DL 201/67, que é norma específica.

Bem jurídico protegido pelos tipos do art. 1º: o patrimônio da Administração Pública e a moralidade
administrativa.

Sujeito passivo: em regra, é o Município. No entanto, a depender do caso concreto, poderá também ser
vítima do crime o Estado ou a União. É o caso em que o Prefeito se apropria ou desvia de bens ou rendas
públicas pertencentes ao ente estadual ou federal (ex: Prefeito que desvia recursos de um convênio
federal).
Sendo o sujeito passivo o Município ou o Estado, a competência para julgar o crime é da Justiça Estadual.
Se o sujeito passivo for a União, a competência será da Justiça Federal.

Sujeito ativo: trata-se de crime próprio, uma vez que somente pode ser praticado pelo Prefeito (ou por
quem esteja no exercício desse cargo, como o Vice-Prefeito ou o Presidente da Câmara de Vereadores).
Os crimes do art. 1º são próprios, mas é possível que haja coautoria ou participação. Em outras palavras,
outros indivíduos podem ser coautores ou partícipes do Prefeito no cometimento da infração. Exs: um
Secretário Municipal, um contador, um assessor etc.

Término do mandato: importante destacar que o fato de ter terminado o mandato do Prefeito não
impede que ele seja denunciado e processado pelos crimes do art. 1º do DL 201/67, desde que os fatos
tenham sido praticados durante o mandato. Essa dúvida foi tão frequente no passado, que existem duas
súmulas afirmando isso:
Súmula 164-STJ: O prefeito municipal, após a extinção do mandato, continua sujeito a processo por crime
previsto no art. 1º do Dec. lei n. 201, de 27/02/67.
Súmula 703-STF: A extinção do mandato do Prefeito não impede a instauração de processo pela prática
dos crimes previstos no art. 1º do DL 201/67.

Informativo 802-STF (16/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 5


Elemento subjetivo: é o dolo. Todos os tipos previstos no art. 1º exigem o dolo, não havendo modalidade
culposa no DL 201/67.

É possível aplicar o princípio da insignificância?


Sobre o tema, existe divergência entre o STF e o STJ:
STF: SIM STJ: não pode ser aplicado
Ex-prefeito condenado pela prática do crime Não é possível a aplicação do princípio da
previsto no art. 1º, II do Decreto-Lei 201/1967, por insignificância a prefeito, em razão mesmo da
ter utilizado máquinas e caminhões de própria condição que ostenta, devendo pautar sua
propriedade da Prefeitura para efetuar conduta, à frente da municipalidade, pela ética e
terraplanagem no terreno de sua residência. 3. pela moral, não havendo espaço para quaisquer
Aplicação do princípio da insignificância. desvios de conduta. (...) (HC 148.765/SP, Rel. Min.
Possibilidade. (...) (HC 104286, Rel. Min. Gilmar Maria Thereza De Assis Moura, 6ª Turma, julgado
Mendes, 2ª Turma, julgado em 03/05/2011) em 11/05/2010)

CRIME DO INCISO XIV


Vamos agora estudar o crime previsto no inciso XIV (negar execução de lei ou descumprir decisão judicial):
Art. 1º São crimes de responsabilidade dos Prefeitos Municipais, sujeitos ao julgamento do Poder
Judiciário, independentemente do pronunciamento da Câmara dos Vereadores:
(...)
XIV - Negar execução a lei federal, estadual ou municipal, ou deixar de cumprir ordem judicial, sem dar o
motivo da recusa ou da impossibilidade, por escrito, à autoridade competente;
(...)
§ 1º Os crimes definidos neste artigo são de ação pública, punidos os dos itens I e II, com a pena de
reclusão, de dois a doze anos, e os demais, com a pena de detenção, de três meses a três anos.

Exemplo:
Juiz do Trabalho determina ao prefeito que ele bloqueie o saldo que uma empresa que prestava serviços
ao Município ainda tinha para receber a fim de que esse dinheiro seja utilizado para pagar direitos
trabalhistas. Apesar de receber a ordem de forma direta e específica, o prefeito não a cumpre e autoriza o
pagamento à empresa.

Tipo especial de desobediência


O inciso XIV acima se assemelha com o crime de desobediência (art. 330 do CP). Cuidado para não
confundir: se quem descumpriu a ordem judicial foi o Prefeito, ele não responderá pelo art. 330 do CP,
mas sim pelo art. 1º, XIV, do DL 201/67.

Elemento subjetivo
O crime é punido a título de dolo. Não se exige elemento subjetivo especial ("dolo específico"). Assim,
para o crime se consumar, não é necessário que o Prefeito tenha descumprido a lei ou a ordem judicial por
causa de um motivo específico, para ajudar alguém, ter vantagem pecuniária etc. Para que o delito se
configure, basta que o Prefeito tenha negado execução à lei ou descumprido a ordem judicial de forma
injustificada, ou seja, sem apresentar motivos, por escrito, as razões da recusa ou da impossibilidade de
cumprimento.

É indispensável comprovar a inequívoca ciência do Prefeito


Imagine a seguinte situação adaptada:
Em Joinville (SC), o juiz expediu ordem judicial determinando que o Município se abstivesse de praticar
determinado ato administrativo.

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A ordem judicial foi endereçada à Procuradoria do Município.
Mesmo após a intimação ser efetivada, o ato administrativo questionado foi praticado.
Diante disso, o Ministério Público ofereceu denúncia contra o Prefeito, imputando-lhe a prática do crime
previsto no art. 1º, XIV, do DL 201/67.
O STF, no entanto, absolveu o réu. Segundo entenderam os Ministros, não foram produzidas provas de
que o réu tenha tido conhecimento da ordem judicial ou que tenha concorrido para seu descumprimento.
De acordo com a jurisprudência do STF, para configuração do delito em tela, é indispensável que o MP
comprove a inequívoca ciência do Prefeito a respeito da ordem judicial, não sendo suficiente que a
determinação judicial tenha sido comunicada a terceiros.
Vale lembrar, ainda, que os Procuradores Municipais representam o Município e não o Prefeito. Dessa
forma, é certo que, ao intimar a Procuradoria, houve comunicação válida para o Município, mas não para o
Prefeito. Assim, o Município poderá sofrer sanções cíveis pelo descumprimento (ex: astreintes etc.), mas
para que o Prefeito pudesse ser responsabilizado criminalmente, seria indispensável a sua intimação pessoal.
A Ministra Relatora Rosa Weber salientou que Joinville é um município grande, com a maior população de
Santa Catarina, o que torna factível a alegação da defesa de que o prefeito não sabia das decisões judiciais
ou de seu descumprimento, pois possui administração descentralizada.
STF. 1ª Turma. AP 555/SC, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 6/10/2015 (Info 802).

Consumação
Trata-se de crime formal (mera conduta): consuma-se no momento em que o Prefeito nega execução à lei
ou descumpre a ordem judicial sem apresentar motivos, por escrito, as razões da recusa ou da
impossibilidade de cumprimento.

DIREITO PROCESSUAL PENAL

COMPETÊNCIA
Menção ao investigado com foro por prerrogativa de função
no depoimento do réu que está sendo processado em 1ª instância

Na chamada "operação Lava Jato", o STF decidiu desmembrar um dos feitos, ficando no
Supremo a investigação relacionada com o Deputado Federal "EC" e sendo remetido de volta
para a Vara Federal de Curitiba o processo que apura a conduta dos demais réus (supostos
comparsas do parlamentar).
Depois do desmembramento, durante a oitiva de um réu colaborador na 1ª instância, este
revelou novos fatos criminosos que teriam sido praticados por "EC".
Essa oitiva foi correta e não houve usurpação de competência do STF.
Só se poderia dizer que houve violação da competência do STF se o juiz federal tivesse
realizado medidas investigatórias dirigidas ao Deputado Federal, não podendo ser
considerada medida de investigação o simples fato de ele ter ouvido réu colaborador e este ter
mencionado a participação de "EC" durante a audiência.
É comum que, em casos de desmembramento, ocorra a produção de provas que se relacionem
tanto com os indivíduos investigados na 1ª instância, como o dos demais réus com foro
privativo. A existência dessa coincidência não caracteriza usurpação de competência.
Em suma, a simples menção do nome do reclamante em depoimento de réu colaborador,
durante a instrução em 1ª instância, não caracterizaria ato de investigação, ainda mais quando
houve prévio desmembramento, como no caso.
STF. Plenário. Rcl 21419 AgR/PR, Rel. Min.Teori Zavascki, julgado em 7/10/2015 (Info 802).

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Imagine a seguinte situação adaptada:
No curso das investigações da chamada operação "Lava Jato", surgiram supostos indícios de que o Deputado
Federal "EC" teria, em conjunto com outras pessoas, praticado crimes contra a administração pública.
Diante disso, considerando que parlamentar federal possui foro por prerrogativa de função, o juiz federal
que conduz o processo remeteu os autos ao STF.
O STF decidiu promover a cisão (desmembramento) das investigações, de forma que o Deputado
permaneceu sendo investigado no Supremo e o processo contra os demais envolvidos voltou para a 1ª
instância (13ª Vara Federal de Curitiba).
A instrução do processo continuou a tramitar na Vara Federal em Curitiba e, durante a oitiva de um réu
colaborador, este revelou novos fatos criminosos que teriam sido praticados por "EC".
Ao tomar conhecimento dessas declarações, "EC" ajuizou reclamação no STF afirmando que o juiz federal
de Curitiba usurpou a competência do Supremo porque o magistrado, a pretexto de conduzir a instrução
processual do feito, teria realizado atos de verdadeira investigação contra ele (parlamentar federal).

O STF concordou com os argumentos do reclamante? No caso concreto, houve usurpação da


competência do STF pelo juiz federal?
NÃO. O STF afirmou que, como houve o desmembramento dos feitos e a remessa de parte do processo
para a 1ª instância, o fato de terem sido encontrados novos indícios da participação do Deputado Federal
em momento subsequente não significa, por si só, que tenha havido usurpação de competência.
O juiz federal continuou conduzindo parte do processo por decisão do próprio STF e os fatos são os mesmos, de
forma que não se pode dizer que o magistrado estivesse investigando diretamente o reclamante.
Só se poderia dizer que houve violação da competência do STF se o juiz federal tivesse realizado medidas
investigatórias dirigidas ao Deputado Federal, não podendo ser considerada medida de investigação o simples
fato de ele ter ouvido réu colaborador e este ter mencionado a participação de "EC" durante a audiência.
Se fosse ser adotada a tese do reclamante, todas as vezes em que ele fosse mencionado, o processo teria que
retornar ao STF para novo exame, o que, além de desarrazoado, inviabilizaria, na prática, a persecução penal.
Além disso, é comum que, em casos de desmembramento, ocorra a produção de provas que se
relacionem tanto com os indivíduos investigados na 1ª instância, como o dos demais réus com foro
privativo. A existência dessa coincidência não caracteriza usurpação de competência.
Em suma, a simples menção do nome do reclamante em depoimento de réu colaborador, durante a
instrução em 1ª instância, não caracterizaria ato de investigação, ainda mais quando houve prévio
desmembramento, como no caso.

O juiz federal de Curitiba, ao prestar informações na reclamação contra ele proposta, bem explicou a
situação:
"Apesar da irresignação do Reclamante, não cabe à Justiça silenciar testemunhas ou acusados ou orientar o que
devem e o que não devem declarar em Juízo, máxime quando, segundo alegam, pretendem falar a verdade.
O foro por prerrogativa de função apenas outorga ao seu detentor o direito de ser processado perante a
Corte própria, privilégio este garantido ao Reclamante no presente caso, já que o Deputado Federal 'EC'
está sendo investigado pelos supostos crimes cometidos perante o Supremo Tribunal Federal no aludido
Inquérito 3.983.
O foro por prerrogativa de função não outorga ao titular o direito de não ter sequer o seu nome
pronunciado por quem quer que seja, máxime por testemunhas ou acusados colaboradores em
investigações ou processos previamente desmembrados pelo Supremo Tribunal Federal.
(...)
Saliente-se que a mera referência ao nome do titular do foro em depoimento em Juízo não o torna
acusado do processo, nem significa ato investigatório contra ele."

Informativo 802-STF (16/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 8


JULGADOS NÃO COMENTADOS

Conflito de atribuições: tribunal de justiça militar e ministério público


O Plenário, em julgamento conjunto e por maioria, negou provimento a agravos regimentais em ações
cíveis originárias que tratavam de conflito de atribuições relativamente à apuração de crime cometido por
membro de tribunal de justiça militar criado em âmbito estadual. Na espécie, órgão do Ministério Público
no Estado do Rio Grande do Sul, ao suscitar o conflito em questão, entendera que o STJ seria o órgão
competente para processar e julgar o referido magistrado, considerado o quanto disposto no art. 104, § 5°,
daàCo stituiçãoàdoàEstadoàdoàRioàG a deàdoà“ulà OsàJuízesàdoàT i u alàMilita àdoàEstadoàte ãoàve i e to,à
vantagens, direitos, garantias, prerrogativas e impedimentos iguais aos dos Desembargadores do Tribunal
deàJustiça ,àoà ueàe seja iaàaàat i uiçãoàdoàMPUàpa aàatua à oàfeito.àásàde isõesàag avadas,àaoàa ata àaà
argumentação do suscitante, assentaram a atribuição do PGR. A Corte, mantendo esse entendimento,
destacou que a constitucionalidade do referido dispositivo da Constituição estadual ainda estaria pendente
de análise na ADI 4.360/RS. O fenômeno da prescrição e a necessária maturação da questão constitucional
proposta em sede de controle concentrado recomendariam que se resolvesse o presente conflito
imediatamente, de acordo com as normas atualmente inseridas no ordenamento jurídico. As referidas
normas se presumiriam constitucionais, não havendo prejuízo imediato para as partes no deslocamento
das investigações para a Procuradoria-Geral da República. Os Ministros Teori Zavascki e Rosa Weber
ressalvaram seu entendimento quanto ao conhecimento das ações. Vencido o Ministro Marco Aurélio, que
provia os agravos para assentar a atribuição do Ministério Público estadual para atuar no caso em
comento.
ACO 1664 AgR/RS, rel. Min. Ricardo Lewandowski, 7 e 8.10.2015. (ACO-1664)
ACO 1516 AgR/RS, rel. Min. Ricardo Lewandowski, 7 e 8.10.2015. (ACO-1516)

Crime cometido por prefeito e competência do TRE


áà “egu daà Tu aà esolveuà uestãoà deà o de à pa aà o ede à ha easà o pus à deà ofí ioà eà exti gui à açãoà
penal, por ausência de justa causa, nos termos do art. 395, III, do CPP. Na espécie, o Ministério Público
Eleitoral denunciara o paciente, então prefeito, por supostamente ter oferecido emprego a eleitores em
troca de voto, com intermédio de empresa contratada pela municipalidade. A Turma frisou que o rito
instituído pela Lei 11.719/2008, que alterara o CPP, deveria ser aplicado ao 1º grau de jurisdição em
matéria eleitoral. Observou que, recebida a denúncia em 1ª instância, antes de o réu ter sido diplomado
como deputado federal, e apresentada a resposta à acusação, competiria ao STF, em face do deslocamento
de competência, examinar, em questão de ordem, eventuais nulidades suscitadas e a possibilidade de
absolvição sumária (CPP, art. 397), mesmo que o rito passasse a ser o da Lei 8.038/1990. Afirmou que, no
caso de crime eleitoral imputado a prefeito, a competência para supervisionar as investigações seria do
TRE, nos termos do Enunciado 702 da Súmula do STF. Dessa forma, não poderia o inquérito ter sido
supervisionado por juízo eleitoral de 1º grau. Além disso, não poderia a autoridade policial direcionar as
diligências para investigar e indiciar o prefeito. Assim, a usurpação da competência do TRE constituiria vício
que contaminaria de nulidade a investigação realizada, em relação ao detentor de prerrogativa de foro, por
violação do princípio do juiz natural (CF, art. 5º, LIII).
AP 933 QO/PB, rel. Min. Dias Toffoli, 6.10.2015. (AP-933)

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OUTRAS INFORMAÇÕES

REPERCUSSÃO GERAL
DJe de 5 a 9 de outubro de 2015

REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 906.491-DF


RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: CONSTITUCIONAL. TRABALHISTA. COMPETÊNCIA. SERVIDOR PÚBLICO ADMITIDO SEM CONCURSO PÚBLICO, PELO
REGIME DA CLT, ANTES DO ADVENTO DA CONSTITUIÇÃO DE 1988. DEMANDA VISANDO OBTER PRESTAÇÕES DECORRENTES
DA RELAÇÃO DE TRABALHO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO. REPERCUSSÃO GERAL CONFIGURADA.
REAFIRMAÇÃO DE JURISPRUDÊNCIA.
1. Em regime de repercussão geral, fica reafirmada a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal no sentido de ser da competência da Justiça do
Trabalho processar e julgar demandas visando a obter prestações de natureza trabalhista, ajuizadas contra órgãos da Administração Pública por
servidores que ingressaram em seus quadros, sem concurso público, antes do advento da CF/88, sob regime da Consolidação das Leis do Trabalho –
CLT. Inaplicabilidade, em casos tais, dos precedentes formados na ADI 3.395-MC (Rel. Min. CEZAR PELUSO, DJ de 10/11/2006) e no RE 573.202
(Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI, DJe de 5/12/2008, Tema 43).
2. Agravo a que se conhece para negar seguimento ao recurso extraordinário.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 817.338-DF
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Direito Constitucional e Administrativo. Segurança concedida para declarar a decadência de ato da Administração por meio do qual se
anulou portaria anistiadora. Análise quanto à existência ou não de frontal violação do art. 8º do ADCT. Julgamento de tese sobre a possibilidade de
um ato administrativo, caso evidenciada a violação direta do texto constitucional, ser anulado pela Administração Pública quando decorrido o prazo
decadencial previsto na Lei nº 9.784/99. Matéria dotada de repercussão econômica e jurídica. Questões suscetíveis de repetição em inúmeros
processos. Repercussão geral reconhecida.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 838.284-SC
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. TRIBUTÁRIO. TAXA PARA EMISSÃO DE ANOTAÇÃO DE
RESPONSABILIDADE TÉCNICA. LEI Nº 6.994/82. PRINCÍPIO DA RESERVA LEGAL. FIXAÇÃO DE VALOR MÁXIMO.
Possui repercussão geral a matéria alusiva à validade da exigência da taxa para expedição da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), baseada
na Lei nº 6.994/82 a qual estabeleceu limites máximos para a ART, até o valor de 5 MVR, considerada a exigência do art. 150, I, da Constituição.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 852.796-RS
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. ART. 20, LEI 8.212/91.
SISTEMÁTICA DE CÁLCULO. EXPRESSÃO DE FORMA NÃO CUMULATIVA. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE.
JUIZADO ESPECIAL.
A matéria envolvendo a constitucionalidade da expressão de forma não cumulativa constante no caput do art. 20 da Lei nº 8.212/91, o qual prevê a
sistemática de cálculo da contribuição previdenciária devida pelo segurado empregado e pelo trabalhador avulso, possui viés constitucional e
repercussão geral, pois concerne a afronta aos princípios da capacidade contributiva, da proporcionalidade e da isonomia.
REPERCUSSÃO GERAL EM RE N. 865.401-MG
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Direito constitucional. Direito fundamental de acesso à informação de interesse coletivo ou geral. Recurso extraordinário que se funda na
violação do art. 5º, inciso XXXIII, da Constituição Federal. Pedido de vereador, como parlamentar e cidadão, formulado diretamente ao chefe do
Poder Executivo, solicitando informações e documentos sobre a gestão municipal. Pleito que foi indeferido. Invocação do direito fundamental de
acesso à informação, do dever do poder público à transparência e dos princípios republicano e da publicidade. Tese da municipalidade fundada na
ingerência indevida, na separação de poderes e na diferença entre prerrogativas da casa legislativa e dos parlamentares. Repercussão geral
reconhecida.
REPERCUSSÃO GERAL EM ARE N. 824.781-MT
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Direito Constitucional e Processual Civil. Ação popular. Condições da ação. Ajuizamento para combater ato lesivo à moralidade
administrativa. Possibilidade. Acórdão que manteve sentença que julgou extinto o processo, sem resolução do mérito, por entender que é condição da
ação popular a demonstração de concomitante lesão ao patrimônio público material. Desnecessidade. Conteúdo do art. 5º, inciso LXXIII, da
Constituição Federal. Reafirmação de jurisprudência. Repercussão geral reconhecida.
1. O entendimento sufragado no acórdão recorrido de que, para o cabimento de ação popular, é exigível a menção na exordial e a prova de prejuízo
material aos cofres públicos, diverge do entendimento sufragado pelo Supremo Tribunal Federal.
2. A decisão objurgada ofende o art. 5º, inciso LXXIII, da Constituição Federal, que tem como objetos a serem defendidos pelo cidadão,
separadamente, qualquer ato lesivo ao patrimônio material público ou de entidade de que o Estado participe, ao patrimônio moral, ao cultural e ao
histórico.
3. Agravo e recurso extraordinário providos.
4. Repercussão geral reconhecida com reafirmação da jurisprudência.
Decisões Publicadas: 6

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CLIPPING DO D JE
5 a 9 de outubro de 2015

RE N. 632.265-RJ
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
TRIBUTO – PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. A exigibilidade de tributo pressupõe lei que o estabeleça – artigo 150 da Constituição Federal.
ICMS – REGIME DE APURAÇÃO – ESTIMATIVA – DECRETO – IMPROPRIEDADE. A criação de nova maneira de recolhimento do tributo,
partindo-se de estimativa considerado o mês anterior, deve ocorrer mediante lei no sentido formal e material, descabendo, para tal fim, a edição de
decreto, a revelar o extravasamento do poder regulamentador do Executivo.
*noticiado no Informativo 790
ADI N. 2.314-RJ
REDATOR P/ O ACÓRDÃO: MIN. MARCO AURÉLIO (ART.38,IV, b, DO RISTF)
POLÍCIA CIVIL – REGÊNCIA – LEI – NATUREZA. A previsão, na Carta estadual, da regência, quanto à polícia civil, mediante lei complementar
não conflita com a Constituição Federal.
*noticiado no Informativo 790
AG. REG. NO ARE N. 903.291-BA
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. AGENTE DE POLÍCIA.
APLICAÇÃO DE PENA DE SUSPENSÃO. NULIDADE DO ATO ADMINISTRATIVO IMPUGNADO. FALHAS PROCEDIMENTAIS.
ALEGAÇÃO DE OFENSA AO ART. 5º, XXXV, XXXVI, LIV E LV, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. CONTRADITÓRIO E AMPLA
DEFESA. DEVIDO PROCESSO LEGAL. INAFASTABILIDADE DA JURISDIÇÃO. DEBATE DE ÂMBITO INFRACONSTITUCIONAL.
EVENTUAL VIOLAÇÃO REFLEXA DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA NÃO VIABILIZA O MANEJO DE RECURSO
EXTRAORDINÁRIO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. ARTIGO 93, IX, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. NULIDADE.
INOCORRÊNCIA. RAZÕES DE DECIDIR EXPLICITADAS PELO ÓRGÃO JURISDICIONAL. ACÓRDÃO RECORRIDO PUBLICADO EM
18.3.2008.
1. Inexiste violação do artigo 93, IX, da Lei Maior. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no sentido de que o referido dispositivo
constitucional exige a explicitação, pelo órgão jurisdicional, das razões do seu convencimento, dispensando o exame detalhado de cada argumento
suscitado pelas partes.
2. O exame da alegada ofensa ao art. 5º, XXXV, XXXVI, LIV e LV, da Constituição Federal, observada a estreita moldura com que devolvida a
matéria à apreciação desta Suprema Corte, dependeria de prévia análise da legislação infraconstitucional aplicada à espécie, o que refoge à
competência jurisdicional extraordinária prevista no art. 102 da Magna Carta.
3. As razões do agravo regimental não se mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada, mormente no que se refere à
ausência de ofensa direta e literal a preceito da Constituição da República.
4. Agravo regimental conhecido e não provido.
AG. REG. NO ARE N. 906.803-MG
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO CIVIL. INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS. SUSPEITA DE FURTO. ABORDAGEM EM ESTABELECIMENTO
COMERCIAL. EVENTUAL OFENSA REFLEXA NÃO VIABILIZA O MANEJO DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ART. 102 DA LEI
MAIOR. REELABORAÇÃO DA MOLDURA FÁTICA CONSTANTE DO ACÓRDÃO REGIONAL. IMPOSSIBILIDADE. ACÓRDÃO
RECORRIDO PUBLICADO EM 11.02.2015.
1. O exame da alegada ofensa ao art. 5º, X, da Constituição Federal, observada a estreita moldura com que devolvida a matéria à apreciação desta
Suprema Corte, dependeria de prévia análise da legislação infraconstitucional aplicada à espécie, o que refoge à competência jurisdicional
extraordinária prevista no art. 102 da Magna Carta.
2. Divergir da conclusão da Corte Regional exigiria a reelaboração da moldura fática delineada no acórdão da origem, procedimento vedado em sede
extraordinária. Aplicação da Súmula 279/STF: “Para simples reexame de prova não cabe recurso extraordinário”.
3. As razões do agravo regimental não se mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada, mormente no que se refere à
ausência de ofensa direta e literal a preceito da Constituição da República.
4. Agravo regimental conhecido e não provido.
AG. REG. NO ARE N. 893.353-SP
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Direito do consumidor. Acidente de consumo. Lucros cessantes e
danos morais. Valor. Fixação. Prequestionamento. Ausência. Princípios da legalidade e do devido processo legal. Ofensa reflexa. Fatos e
provas. Reexame. Legislação infraconstitucional. Análise. Impossibilidade. Ausência de repercussão geral. Precedentes.
1. Não se admite o recurso extraordinário quando os dispositivos constitucionais que nele se alega violados não estão devidamente prequestionados.
Incidência das Súmulas nºs 282 e 356/STF.
2. A afronta aos princípios da legalidade, do devido processo legal, da ampla defesa ou do contraditório, dos limites da coisa julgada ou da prestação
jurisdicional, quando depende, para ser reconhecida como tal, da análise de normas infraconstitucionais, configura apenas ofensa indireta ou reflexa à
Constituição Federal.
3. Inviável, em recurso extraordinário, o reexame dos fatos e das provas dos autos e a análise da legislação infraconstitucional de regência. Incidência
das Súmulas nºs 279 e 636 /STF.
4. O Supremo Tribunal Federal, analisando o ARE nº 743.771/SP-RG, Relator o Ministro Gilmar Mendes, assentou a ausência de repercussão geral
da questão relativa à modificação do valor fixado a título de indenização por danos morais, uma vez que essa discussão não alcança status
constitucional.
5. Agravo regimental não provido.

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AG. REG. EM MS N. 29.551-DF
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: CONSTITUCIONAL. SERVENTIA EXTRAJUDICIAL. PROVIMENTO, MEDIANTE REMOÇÃO, SEM CONCURSO PÚBLICO.
ILEGITIMIDADE. ARTIGO 236 E PARÁGRAFOS DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL: NORMAS AUTOAPLICÁVEIS, COM EFEITOS
IMEDIATOS, MESMO ANTES DA LEI 9.835/1994. INAPLICABILIDADE DO PRAZO DECADENCIAL DO ARTIGO 54 DA LEI 9.784/1999.
PRECEDENTES DO PLENÁRIO. AGRAVO NÃO PROVIDO.
1. A jurisprudência do STF é no sentido de que o art. 236, caput, e o seu § 3º da CF/88 são normas autoaplicáveis, que incidiram imediatamente desde
a sua vigência, produzindo efeitos, portanto, mesmo antes do advento da Lei 8.935/1994. Assim, a partir de 5/10/1988, o concurso público é
pressuposto inafastável para a delegação de serventias extrajudiciais, inclusive em se tratando de remoção, observado, relativamente a essa última
hipótese, o disposto no art. 16 da referida lei, com a redação que lhe deu a Lei 10.506/2002. As normas estaduais editadas anteriormente, que
admitem a remoção na atividade notarial e de registro independentemente de prévio concurso público, são incompatíveis com o art. 236, § 3º, da
Constituição, razão pela qual não foram por essa recepcionadas.
2. É igualmente firme a jurisprudência do STF no sentido de que a atividade notarial e de registro, sujeita a regime jurídico de caráter privado, é
essencialmente distinta da exercida por servidores públicos, cujos cargos não se confundem.
3. O Plenário do STF, em reiterados julgamentos, assentou o entendimento de que o prazo decadencial de 5 (cinco) anos, de que trata o art. 54 da Lei
9.784/1999, não se aplica à revisão de atos de delegação de serventias extrajudiciais editados após a Constituição de 1988, sem o atendimento das
exigências prescritas no seu art. 236.
4. É de ser mantida, portanto, a decisão da autoridade impetrada que interferiu na atuação irregular do Tribunal submetido ao seu controle e
considerou ilegítimo o provimento de serventia extrajudicial, sem concurso público, decorrente de remoção, com ofensa ao art. 236, § 3º, da
Constituição. Jurisprudência reafirmada no julgamento do MS 28.440 AgR, de minha relatoria, na Sessão do Plenário de 19/6/2013.
5. Agravo regimental desprovido.
RHC N. 129.951-PA
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. TRÁFICO TRANSNACIONAL DE ENTORPECENTES. DOSIMETRIA. PENA-
BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. MENORIDADE RELATIVA. QUANTUM DE ATENUAÇÃO DA PENA. PATAMAR DE DIMINUIÇÃO
DE PENA PREVISTA NO ART. 33, § 4º, DA LEI 11.343/2006. FIXAÇÃO DE REGIME INICIAL SEMIABERTO. SUBSTITUIÇÃO DA PENA
PRIVATIVA DE LIBERDADE POR RESTRITIVA DE DIREITOS. CIRCUNSTÂNCIAS DESFAVORÁVEIS. NATUREZA E QUANTIDADE
DA DROGA APREENDIDA. FUNDAMENTOS IDÔNEOS.
1. A dosimetria da pena, além de não admitir soluções arbitrárias e voluntaristas, supõe, como pressuposto de legitimidade, adequada fundamentação
racional, revestida dos predicados de logicidade, harmonia e proporcionalidade com os dados empíricos em que se deve basear.
2. Idônea a exasperação da pena-base com fundamento na natureza das substâncias traficadas, consoante preconiza o art. 42 da Lei 11.343/2006 c/c
art. 59 do Código Penal.
3. A avaliação do quantum de atenuação da pena, à míngua de previsão legislativa dos parâmetros a serem considerados, sujeita-se ao livre
convencimento motivado do julgador, observado o limite máximo de redução, as circunstâncias do caso e os princípios da proporcionalidade e
razoabilidade.
4. A minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei 11.343/2006 em patamar inferior ao máximo permitido encontrou respaldo em fundamentação
jurídica adequada, com base na quantidade da droga apreendida com o recorrente (2.360g de cocaína e 1.895g de maconha).
5. À luz do art. 33, § 3º, do Código Penal, a jurisprudência desta Corte firmou o entendimento de que a imposição do regime inicial de cumprimento
da pena não decorre somente do quantum da reprimenda, mas também das circunstâncias judiciais (CP, art. 59) declinadas na primeira etapa da
dosimetria. No crime de tráfico de drogas, devem ser levadas em consideração, ainda, a quantidade e a qualidade das drogas apreendidas, como
critério legal adicional na fixação do regime inicial de cumprimento de pena, conforme intelecção do art. 42 da Lei 11.343/2006.
6. Não é viável proceder à substituição da pena privativa de liberdade por restritivas de direito, pois, embora preenchido o requisito objetivo previsto
no inciso I do art. 44 do Código Penal (pena não superior a 4 anos), as instâncias ordinárias concluíram que a conversão da pena não se revela
adequada ao caso, ante a existência de circunstâncias judiciais desfavoráveis (natureza da droga apreendida). Precedentes.
7. Recurso a que se nega provimento.
AG. REG. NO ARE N. 802.075-PA
RELATOR: MIN. ROBERTO BARROSO
EMENTA: DIREITO ADMINISTRATIVO. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. EXTENSÃO DO
ABONO CONCEDIDO PELO DECRETO Nº 2.219/1997, DO ESTADO DO PARÁ, AOS SERVIDORES INATIVOS. NATUREZA DA
VANTAGEM. AUSÊNCIA DE QUESTÃO CONSTITUCIONAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO ASSINADO POR ADVOGADO SEM
PROCURAÇÃO NOS AUTOS. DESCABIMENTO.
1. Caso em que o Tribunal de origem adotou fundamento autônomo e suficiente à manutenção do julgado, o qual não foi impugnado pelo recurso
extraordinário (Súmula 283/STF).
2. Para se chegar à conclusão pretendida pela parte recorrente no sentido da natureza transitória do abono em questão, seria necessário examinar a
legislação ordinária aplicada à espécie. Hipótese que atrai a incidência da Súmula 280/STF. Precedentes.
3. A jurisprudência desta Corte é firme no sentido de considerar inexistente o recurso interposto por advogado sem procuração nos autos, não sendo
aplicável a regra do art. 13 do CPC.
4. Ausência de argumentos capazes de infirmar a decisão agravada.
5. Agravos regimentais desprovidos.
AG. REG. NO ARE N. 898.539-SP
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
RECURSO EXTRAORDINÁRIO – MATÉRIA FÁTICA E LEGAL. O recurso extraordinário não é meio próprio ao revolvimento da prova, também
não servindo à interpretação de normas estritamente legais.
PREQUESTIONAMENTO – CONFIGURAÇÃO – RAZÃO DE SER. O prequestionamento não resulta da circunstância de a matéria haver sido
arguida pela parte recorrente. A configuração pressupõe debate e decisão prévios pelo Colegiado, ou seja, emissão de entendimento. O instituto visa o
cotejo indispensável a que se diga enquadrado o recurso extraordinário no permissivo constitucional.
AG. REG. NO ARE N. 904.247-MG
RELATORA: MIN. ROSA WEBER
EMENTA: DIREITO ADMINISTRATIVO. UNIDADES DE ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE - UAPS. DETERMINAÇÃO DE
APRESENTAÇÃO ÀS AUTORIDADES COMPETENTES DE PROJETO ARQUITETÔNICO E DO PROCESSO DE SEGURANÇA CONTRA
INCÊNDIO E PÂNICO. ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA SEPARAÇÃO DE PODERES. RECURSO QUE NÃO ATACA
TODOS OS FUNDAMENTOS DA DECISÃO AGRAVADA. IRREGULARIDADE FORMAL. ART. 317, § 1º, REGIMENTO INTERNO DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.ACÓRDÃO RECORRIDO PUBLICADO EM 09.02.2015.

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1. Não preenchimento do requisito de regularidade formal expresso no artigo 317, § 1º, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal: “A
petição conterá, sob pena de rejeição liminar, as razões do pedido de reforma da decisão agravada.” Ausência de ataque, nas razões do agravo
regimental, aos fundamentos da decisão agravada.
2. Agravo regimental conhecido e não provido.
AG. REG. NO ARE N. 907.826-PI
RELATOR: MIN. ROBERTO BARROSO
EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL E DIREITO DO TRABALHO. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO
COM AGRAVO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO. CONTRATO DE TRABALHO ANTERIOR À CF/1988. INEXISTÊNCIA DE
TRANSPOSIÇÃO AO REGIME JURÍDICO ÚNICO. ALEGAÇÃO DE NULIDADE DO CONTRATO DE TRABALHO. SÚMULA 284/STF.
PRECEDENTES.
1. A controvérsia dos autos não é fundada em vínculo estatutário ou em contrato de trabalho temporário submetido a lei especial. Trata-se de contrato
que fora celebrado antes do advento da Constituição Federal de 1988, em época na qual se admitia a vinculação à Administração Pública de
servidores sob o regime da CLT. A competência, portanto, é da Justiça do Trabalho. Precedentes.
2. As razões do recurso extraordinário quanto à nulidade do vínculo com a Administração Pública não guardam pertinência com a fundamentação do
acórdão recorrido, a atrair a incidência da Súmula 284/STF.
3. Agravo regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NA ACO N. 928-DF
RELATOR: MIN. ROBERTO BARROSO
EMENTA: DIREITO FINANCEIRO E CONSTITUCIONAL. AÇÃO CÍVEL ORIGINÁRIA. PERDA DE OBJETO.
1. Recebidas as verbas cuja liberação se almejava com a presente ação, esta perde o objeto.
2. Caso a parte interessada considere devido o seu ressarcimento, poderá postulá-lo na via própria.
3. Agravo Regimental a que se nega provimento.
AG. REG. NO RE N. 881.908-CE
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS – FRETE – BASE DE CÁLCULO – INCLUSÃO – LEI ORDINÁRIA –
INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL. Viola o artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Carta Federal norma ordinária segundo a qual hão de ser
incluídos, na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, valores em descompasso com o disposto na alínea “a” do inciso II
do artigo 47 do Código Tributário Nacional. Precedente – Recurso Extraordinário nº 567.935/SC, de minha relatoria, Pleno, apreciado sob o
ângulo da repercussão geral.
AG. REG. NOS EMB. DECL. NO AG. REG. NO RE N. 705.264-SC
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
EMBARGOS DECLARATÓRIOS – INEXISTÊNCIA DE VÍCIO. Uma vez voltados os embargos declaratórios ao simples rejulgamento de certa
matéria, inexistindo, na decisão formalizada, qualquer dos vícios que os respaldam – omissão, contradição e obscuridade –, cumpre desprovê-los.
ICMS – BENS – IMPORTAÇÃO – EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 33, DE 2001 – PRINCÍPIO DA LEGALIDADE – PRECEDENTES. É constitucional a
incidência do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS em bens importados, prevista na Emenda Constitucional nº 33, de 2001, pressupondo a
cobrança a edição de lei complementar e de lei estadual a versar a matéria. Precedentes: Recursos Extraordinários n. 474.267/RS e 439.796/PR, julgados no Pleno,
relatados pelo ministro Joaquim Barbosa, acórdãos veiculados, respectivamente, no Diário de 20 e 17 de março de 2014.
EMB. DECL. EM MS N. 26.264-DF
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
EMBARGOS DECLARATÓRIOS – VÍCIO – INEXISTÊNCIA. O acolhimento do pedido formulado pelo embargante, a envolver o mérito do
recurso, pressupõe um dos vícios relativos aos declaratórios – omissão, contradição e obscuridade.
MS N. 32.941-DF
RELATOR: MIN. MARCO AURÉLIO
CONCURSO PÚBLICO – BALIZAS – EDITAL. O concurso é regido pelo edital, a lei do certame, publicado.
Acórdãos Publicados: 584

TRANSCRIÇÕES
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham
despertado ou possam despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica.

Guarda municipal e fiscalização de trânsito (Transcrições)


(v. Informativo 793)
RE 658.570/MG*
RELATOR: Ministro Marco Aurélio
REDATOR P/ O ACORDÃO: Ministro Roberto Barroso
EMENTA:DIREITO ADMINISTRATIVO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. PODER DE POLÍCIA. IMPOSIÇÃO DE MULTA DE
TRÂNSITO. GUARDA MUNICIPAL. CONSTITUCIONALIDADE.
1. Poder de polícia não se confunde com segurança pública. O exercício do primeiro não é prerrogativa exclusiva das entidades policiais, a
quem a Constituição outorgou, com exclusividade, no art. 144, apenas as funções de promoção da segurança pública.
2. A fiscalização do trânsito, com aplicação das sanções administrativas legalmente previstas, embora possa se dar ostensivamente, constitui
mero exercício de poder de polícia, não havendo, portanto, óbice ao seu exercício por entidades não policiais.

Informativo 802-STF (16/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 13


3. O Código de Trânsito Brasileiro, observando os parâmetros constitucionais, estabeleceu a competência comum dos entes da federação para
o exercício da fiscalização de trânsito.
4. Dentro de sua esfera de atuação, delimitada pelo CTB, os Municípios podem determinar que o poder de polícia que lhe compete seja
exercido pela guarda municipal.
5. O art. 144, §8º, da CF, não impede que a guarda municipal exerça funções adicionais à de proteção dos bens, serviços e instalações do
Município. Até mesmo instituições policiais podem cumular funções típicas de segurança pública com exercício de poder de polícia.
Entendimento que não foi alterado pelo advento da EC nº 82/2014.
6. Desprovimento do recurso extraordinário e fixação, em repercussão geral, da seguinte tese: é constitucional a atribuição às guardas
municipais do exercício de poder de polícia de trânsito, inclusive para imposição de sanções administrativas legalmente previstas.
RELATÓRIO: – O Procurador-Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais formalizou ação direta de inconstitucionalidade perante o Tribunal de
Justiça local, requerendo a invalidação do inciso VI do artigo 5º da Lei nº 9.319/07 e do Decreto nº 12.615/07, ambos do Município de Belo
Horizonte. Transcrevo o teor dos dispositivos impugnados:
Lei Municipal nº 9.319/07
Art. 5º. Compete à Guarda Municipal de Belo Horizonte:
(...)
VI – atuar na fiscalização, no controle e na orientação do trânsito e do tráfego, por determinação expressa do Prefeito;
Decreto nº 12.615/07
Art. 1º. Por força do disposto no inciso VI do art. 5º da Lei nº 9.319, de 19 de janeiro de 2007, a Guarda Municipal fica designada
para atuar na fiscalização, no controle e na orientação do trânsito e do tráfego no âmbito do Município de Belo Horizonte, devendo
anteriormente adotar as seguintes medidas:
I – separação de um contingente para o exercício concomitante desta tarefa com as demais atribuições da Guarda Municipal;
II – treinamento específico para realização desta função.
O Procurador-Geral de Justiça alegou não ter a guarda municipal atribuição para exercer a fiscalização do trânsito em geral, autuar condutores
nem aplicar multas de trânsito, considerado o disposto nos artigos 144, § 8º, da Constituição Federal (Art. 144. A segurança pública, dever do Estado,
direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos
seguintes órgãos: (...). § 8º - Os Municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações,
conforme dispuser a lei.) e 138 da Carta do Estado de Minas Gerais (Art. 138. O Município pode constituir guardas municipais para a proteção de seus
bens, serviços e instalações, nos termos do art. 144, § 8º, da Constituição da República). Sustentou serem os aludidos atos administrativos de
competência da Polícia Militar, ante os preceitos dos artigos 144, § 5º, da Lei Maior (Art. 144. (...). § 5º. às polícias militares cabem a polícia
ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de
atividades de defesa civil) e 142, “inciso I”, do segundo Diploma (Art. 142. A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros Militar, forças públicas
estaduais, são órgãos permanentes, organizados com base na hierarquia e na disciplina militares e comandados, preferencialmente, por oficial da ativa
do último posto, competindo: I – à Polícia Militar, a polícia ostensiva de prevenção criminal, de segurança, de trânsito urbano e rodoviário, de
florestas e de mananciais e as atividades relacionadas com a preservação e restauração da ordem pública, além da garantia do exercício do poder de
polícia dos órgãos e entidades públicos, especialmente das áreas fazendária, sanitária, de proteção ambiental, de uso e ocupação do solo e de
patrimônio cultural;). Afirmou não abranger a fiscalização referida no artigo 23, inciso III, do Código de Trânsito Brasileiro (Art. 23. Compete às
Polícias Militares dos Estados e do Distrito Federal: (...) III – executar a fiscalização de trânsito, quando e conforme convênio firmado, como agente
do órgão ou entidade executivos de trânsito ou executivos rodoviários, concomitantemente com os demais agentes credenciados;) (Lei nº 9.503/97) –
para a qual se exige a celebração de convênio – a realizada nas vias públicas, por ser inerente ao controle ostensivo de trânsito, cuja competência
pertence à Polícia Militar. Aduziu violar o princípio da eficiência (artigos 37, cabeça, da Constituição Federal (Art. 37. A administração pública direta
e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:)e 13 da Carta estadual (Art. 13. A atividade de administração pública dos
Poderes do Estado e a de entidade descentralizada se sujeitarão aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, eficiência e
razoabilidade.) ) conferir a mesma atribuição (polícia de trânsito) a duas entidades diferentes – a guarda municipal e a Empresa de Transportes e
Trânsito de Belo Horizonte (BHTRANS), que, em virtude da celebração de convênio entre o Estado de Minas Gerais e o Município, ficou
encarregada de aplicar sanções e proceder à arrecadação das multas correspondentes. Apontou poderem os entes locais optar por quadro próprio de
agentes de trânsito ou pela formalização de convênio com o Estado, na forma do artigo 23, inciso III, do Código de Trânsito, a fim de que a Polícia
Militar execute a fiscalização de trânsito.
O Município de Belo Horizonte, por meio da Câmara Municipal e da Procuradoria-Geral, apresentou informações, defendendo a validade dos
atos atacados. Arguiu a competência do ente municipal para legislar sobre assuntos de interesse local e organizar e prestar serviços públicos também
nesse âmbito, incluído o transporte coletivo (artigo 30, incisos I e V, da Carta Federal (Art. 30. Compete aos Municípios: I - legislar sobre assuntos de
interesse local; (...) V - organizar e prestar, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, os serviços públicos de interesse local, incluído o de
transporte coletivo, que tem caráter essencial;) ). Asseverou mostrar-se mais racional dispensar a Polícia Militar de funções meramente administrativas e
concentrar a atuação do órgão em atividades ligadas à segurança da população. Salientou não haver usurpação da competência dessa última, tendo em
conta o fato de a regra do § 5º do artigo 144 da Carta Federal não impedir outros órgãos e entidades de desempenharem a polícia de trânsito.
Esclareceu não ser taxativo o rol de atribuições conferidas pelo § 8º do artigo 144 do Texto Constitucional à guarda municipal. Sublinhou que
estabelecer a mesma competência a um órgão integrante da Administração direta e a uma entidade da Administração indireta não viola a Constituição
Federal, porquanto o artigo 175 (Art. 175. Incumbe ao Poder Público, na forma da lei, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, sempre
através de licitação, a prestação de serviços públicos.) dela constante autoriza a prestação de serviços públicos diretamente ou sob regime de
concessão ou permissão.
A Câmara Municipal ponderou referirem-se as normas questionadas apenas à fiscalização, ao controle e à orientação do trânsito, providências
ligadas à proteção do patrimônio municipal, não havendo permissão para autuação, tampouco para lançamento de multas, atos de competência dos
órgãos de trânsito municipais e da Polícia Militar.
A Procuradoria-Geral do Município, ao contrário, destacou caber à guarda municipal não só o policiamento e a fiscalização, como também a
aplicação de penalidades de trânsito, por serem atribuições decorrentes de delegação legítima ao Município, presentes o interesse local e a existência
de previsão expressa no Código de Trânsito Brasileiro (artigo 24, incisos VI, VII, VIII, IX e XX (Art. 24. Compete aos órgãos e entidades executivos
de trânsito dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição: (...) VI - executar a fiscalização de trânsito, autuar e aplicar as medidas administrativas
cabíveis, por infrações de circulação, estacionamento e parada previstas neste Código, no exercício regular do Poder de Polícia de Trânsito; VII -
aplicar as penalidades de advertência por escrito e multa, por infrações de circulação, estacionamento e parada previstas neste Código, notificando os
infratores e arrecadando as multas que aplicar; VIII - fiscalizar, autuar e aplicar as penalidades e medidas administrativas cabíveis relativas a infrações
por excesso de peso, dimensões e lotação dos veículos, bem como notificar e arrecadar as multas que aplicar; IX - fiscalizar o cumprimento da norma
contida no art. 95, aplicando as penalidades e arrecadando as multas nele previstas; (...) XX - fiscalizar o nível de emissão de poluentes e ruído

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produzidos pelos veículos automotores ou pela sua carga, de acordo com o estabelecido no art. 66, além de dar apoio às ações específicas de órgão
ambiental local, quando solicitado;) ).
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais, por maioria, julgou improcedentes os pedidos, em acórdão assim ementado:
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEI E DECRETO MUNICIPAIS. GUARDA MUNICIPAL. PODER DE ATUAÇÃO.
POLICIAMENTO DO TRÂNSITO E IMPOSIÇÃO DE SANÇÃO PECUNIÁRIA AOS INFRATORES. POSSIBILIDADE. REPRESENTAÇÃO
JULGADA IMPROCEDENTE. 1. Em consonância com o posicionamento adotado pelo Supremo Tribunal Federal, o Município detém
competência para coibir o estacionamento em locais proibidos, inclusive com competência para impor multas, ou seja, sanção pecuniária de
caráter administrativo. 2. Não basta só a fiscalização: uma fiscalização sem sanção não significa nada; do contrário. Ela nem precisaria
existir. 3. Desta forma, a aprovação do projeto de Lei pelo legislativo local, sancionado pelo Prefeito Municipal, vem apenas atender a uma
realidade do Município de Belo Horizonte. 4. Representação julgada improcedente.
Assentou não violar a Constituição a competência, conferida à guarda municipal, de autuar e aplicar multas de trânsito. Realçou o
esvaziamento da utilidade da fiscalização quando se retira dos agentes de controle o poder sancionador. Consignou que a autuação e a apenação
mostram-se inerentes ao poder de polícia. Esclareceu ser a criação da instituição uma necessidade histórica da realidade do Município de Belo
Horizonte, tendo em conta a complexidade do trânsito típica das grandes cidades. Destacou a existência de norma federal reconhecendo não se tratar
de competência privativa da Polícia Militar lavrar autos de infração e aplicar multas de trânsito (artigo 280, § 4º, do Código de Trânsito (Art. 280. (...).
§ 4º O agente da autoridade de trânsito competente para lavrar o auto de infração poderá ser servidor civil, estatutário ou celetista ou, ainda, policial
militar designado pela autoridade de trânsito com jurisdição sobre a via no âmbito de sua competência.) ). Asseverou disciplinar o ente local, ao
legislar sobre a fiscalização do trânsito e do tráfego nas ruas da capital, o uso de patrimônio municipal, no que não há inconstitucionalidade. Afirmou
haver previsão expressa, no Código de Trânsito Brasileiro, de aplicação de sanções pelos órgãos e entidades de trânsito municipal (artigo 24, incisos
V a VIII). Ressaltou a harmonia das normas atacadas com o Texto Constitucional, pois, ao controlar e fiscalizar o trânsito nas ruas, praças, avenidas e
outras vias de circulação – bens integrantes do patrimônio público municipal –, a guarda municipal está cumprindo o preceito do artigo 144, § 8º, da
Carta Federal.
Embargos de declaração interpostos foram desprovidos.
No extraordinário de folha 357 a 411, o Ministério Público do Estado de Minas Gerais reproduz os argumentos lançados na inicial. Acrescenta
haver o acórdão recorrido implicado ofensa ao artigo 93, inciso IX, da Constituição Federal, ante a omissão relativa ao exame da contrariedade ao
artigo 144, § 5º e § 8º, da Lei Maior, presente alegado rol taxativo das atribuições da guarda municipal e da Polícia Militar. Inova arguindo a
inobservância do princípio federativo, tendo em conta a redução da autonomia do Estado-membro provocada por restrições impostas ao poder-dever
de fiscalização da Polícia Militar decorrentes da ampliação das atribuições da guarda municipal.
O Município de Belo Horizonte, nas contrarrazões de folha 417 a 427, subscritas pela Procuradoria-Geral do Município, e nas de folha 429 a
441, elaboradas pela Câmara Municipal, sustenta a manutenção da decisão atacada.
O recurso foi admitido na origem mediante a decisão de folhas 443 e 444.
No Supremo, o processo, inicialmente distribuído ao ministro Dias Toffoli, foi a mim redistribuído, com base no artigo 325-A do Regimento,
porquanto a repercussão geral da matéria veio a ser reconhecida no Recurso Extraordinário nº 637.539, da minha relatoria (decisão de folha 457 e de
folhas 462 e 463) (Tema nº 472.).
Por meio do ato de folhas 465 e 466, determinei a substituição do aludido paradigma por este recurso, em virtude da homologação de pedido
de desistência formalizado no processo.
A Procuradoria Geral da República, no parecer de folha 471 a 477, opinou pelo provimento do extraordinário. Enfatiza não caber à legislação
local atribuir à guarda municipal funções de polícia de trânsito, em desrespeito ao artigo 144, § 8º, da Carta Federal. Sublinha restringir o dispositivo
constitucional as tarefas da guarda municipal à vigilância de bens e serviços do Município. Evoca julgados do Supremo no sentido de mostrar-se
taxativo o rol de órgãos de segurança pública versados na cabeça do artigo 144 (Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2.827, da relatoria do
ministro Gilmar Mendes, e Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 236, da relatoria do ministro Octavio Gallotti.), entre os quais não se inclui a
guarda municipal. Argumenta que, por envolver monopólio de força bruta do Estado, as funções de fiscalização, controle e orientação do trânsito são
da competência da Polícia Militar. Salienta haverem os atos municipais impugnados contrariado o sistema constitucional de repartição de
competências, pois, ao conferirem aos guardas municipais as relacionadas à fiscalização do trânsito, disciplinaram matéria reservada privativamente à
União (artigo 22, inciso XI, da Constituição Federal). Ressalta não constar a guarda municipal no artigo 7º do Código de Trânsito Brasileiro (Art. 7º
Compõem o Sistema Nacional de Trânsito os seguintes órgãos e entidades: I - o Conselho Nacional de Trânsito - CONTRAN, coordenador do
Sistema e órgão máximo normativo e consultivo; II - os Conselhos Estaduais de Trânsito - CETRAN e o Conselho de Trânsito do Distrito Federal -
CONTRANDIFE, órgãos normativos, consultivos e coordenadores; III - os órgãos e entidades executivos de trânsito da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios; IV - os órgãos e entidades executivos rodoviários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; V -
a Polícia Rodoviária Federal; VI - as Polícias Militares dos Estados e do Distrito Federal; e VII - as Juntas Administrativas de Recursos de Infrações -
JARI.), entre os órgãos integrantes do Sistema Nacional de Trânsito, havendo, no tocante aos municípios, apenas alusão a “órgãos e entidades
executivos de trânsito” e “órgãos e entidades executivos rodoviários” (artigo 7º, incisos III e IV), que, segundo diz, deveriam ter exclusivamente
competências de trânsito. Por fim, destaca que a orientação firmada pela Segunda Turma do Supremo, no julgamento do Agravo Regimental no
Recurso Extraordinário nº 191.363, da relatoria do ministro Carlos Velloso, não respalda as conclusões veiculadas no acórdão recorrido, no que
assentada legítima a atuação do município em matéria de “infração de posturas municipais”, que não se confunde com “infrações de trânsito”.
É o relatório.
VOTO: – Na interposição do recurso, atendeu-se aos pressupostos de recorribilidade. A peça, subscrita por Procuradora de Justiça e por Promotor de
Justiça, atuando como fiscais da lei e ante o interesse público, foi protocolada no prazo legal. Conquanto o extraordinário tenha origem em ação direta
de inconstitucionalidade estadual, nas razões do recurso, arguiu-se, a par da violência ao artigo 93, inciso IX, a violação às normas dos artigos 144, §
5º e § 8º, 37, cabeça, e 18 da Constituição Federal, preceitos de reprodução obrigatória nas Cartas estaduais. A repercussão geral da questão foi
reconhecida. Conheço.
De início, afasto a alegação de ofensa ao artigo 93, inciso IX, do Texto Constitucional por entender ter sido amplamente debatida, na origem, a
questão relacionada às competências da Polícia Militar e da guarda municipal. Conforme decidido no Recurso Extraordinário nº 128.519, por mim
relatado, o prequestionamento prescinde da referência, no acórdão impugnado mediante o extraordinário, a artigo, parágrafo, inciso e alínea de
diploma normativo, sendo suficientes o debate e a decisão prévios do tema versado nas razões recursais. Eis a ementa do acórdão do Pleno:
RECURSO EXTRAORDINÁRIO – PREQUESTIONAMENTO – ALCANCE DO INSTITUTO. A exigência do prequestionamento não
decorre de simples apego a determinada forma. A razão de ser está na necessidade de proceder a cotejo para, somente então, assentar-se o
enquadramento do recurso no permissivo legal. Diz-se prequestionado determinado tema quando o órgão julgador haja adotado
entendimento explícito a respeito, contando a parte sequiosa de ver o processo guindado à sede extraordinária com remédio legal para
compeli-lo a tanto - os embargos declaratórios. A persistência da omissão sugere hipótese de vício de procedimento. Configura-se deficiência
na entrega da prestação jurisdicional, o que tem contorno constitucional, pois à garantia de acesso ao Judiciário há que ser emprestado
alcance que afaste verdadeira incongruência, ou seja, o enfoque de que, uma vez admitido, nada mais é exigível, pouco importando a
insuficiência da atuação do Estado-Juiz no dirimir a controvérsia. Impor para configuração do prequestionamento, além da matéria

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veiculada no recurso, a referência ao número do dispositivo legal pertinente, extravasa o campo da razoabilidade, chegando às raias do
exagero e do mero capricho, paixões que devem estar ausentes quando do exercício do oficio judicante.
(…). (Recurso Extraordinário nº 128.519, Relator ministro Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 27/09/1990)
No mais, não subsiste o argumento de usurpação da competência da Polícia Militar, prevista no § 5º do artigo 144 da Carta Federal, e de
inobservância ao princípio federativo (artigos 1º e 18 da Lei Maior). O fato de o constituinte ter atribuído a essa instituição o policiamento ostensivo e
a preservação da ordem pública não impede os entes municipais de fiscalizarem o cumprimento da legislação de trânsito nem de desempenharem
outras funções estabelecidas pela União no Código de Trânsito (artigo 22, inciso XI, da Constituição Federal). Não vejo redução de autonomia do
Estado-membro – mas simples cooperação – na atuação repressiva dos municípios no combate às infrações de trânsito. Os entes federativos devem se
esforçar, para, nos limites das competências de cada qual, assegurarem a efetividade das normas de trânsito.
No julgamento do Agravo Regimental no Recurso Extraordinário nº 191.363, da relatoria do ministro Carlos Velloso, muito embora se tenha
diferenciado “infração de posturas municipais” de “infrações de trânsito” – como apontou a Procuradoria Geral da República –, a Segunda Turma do
Supremo proclamou que:
na área de jurisdição, na organização do serviço local de trânsito, que se incluía e ainda se inclui em assunto de seu peculiar interesse,
o Município tem competência quanto ao trânsito, inclusive, evidentemente, para impor e arrecadar multas decorrentes das infrações que
ocorrem.
A União, no exercício da competência privativa para legislar sobre trânsito (artigo 22, inciso XI, da Carta Federal (Art. 22. Compete
privativamente à União legislar sobre: (...) XI - trânsito e transporte;) ), editou o Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503/97) e incumbiu
expressamente os órgãos e entidades executivos de trânsito municipais de cumprirem e fazerem cumprir a legislação e as normas de trânsito, no
âmbito das respectivas atribuições (artigos 21, inciso I (Art. 21. Compete aos órgãos e entidades executivos rodoviários da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição: I - cumprir e fazer cumprir a legislação e as normas de trânsito, no âmbito de suas
atribuições;), e 24, inciso I); executarem a fiscalização de trânsito, autuarem, aplicarem as penalidades de advertência, por escrito, e ainda as multas e
medidas administrativas cabíveis, notificando os infratores e arrecadando as multas que aplicarem (artigo 21, inciso VI (Art. 21. Compete aos órgãos
e entidades executivos rodoviários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição: (...) VI - executar a
fiscalização de trânsito, autuar, aplicar as penalidades de advertência, por escrito, e ainda as multas e medidas administrativas cabíveis, notificando os
infratores e arrecadando as multas que aplicar;) ); executarem a fiscalização de trânsito, autuarem e aplicarem as medidas administrativas cabíveis,
por infrações de circulação, estacionamento e parada previstas no Código de Trânsito, no exercício regular do poder de polícia de trânsito (artigo 24,
inciso VI); aplicarem as penalidades de advertência por escrito e multa, por infrações de circulação, estacionamento e parada previstas na Lei nº
9.503/97, notificando os infratores e arrecadando as multas que aplicar (artigo 24, inciso VII); fiscalizarem, autuarem e aplicarem as penalidades e
medidas administrativas cabíveis relativas a infrações por excesso de peso, dimensões e lotação dos veículos, bem como notificarem e arrecadarem as
multas que aplicarem (artigo 24, inciso VIII); fiscalizarem o cumprimento da norma contida no artigo 95 do Código de Trânsito, aplicando as
penalidades e arrecadando as multas nele previstas (artigo 24, inciso IX). (Art. 24. Compete aos órgãos e entidades executivos de trânsito dos
Municípios, no âmbito de sua circunscrição: I - cumprir e fazer cumprir a legislação e as normas de trânsito, no âmbito de suas atribuições; (...); VI -
executar a fiscalização de trânsito, autuar e aplicar as medidas administrativas cabíveis, por infrações de circulação, estacionamento e parada previstas
neste Código, no exercício regular do Poder de Polícia de Trânsito; VII - aplicar as penalidades de advertência por escrito e multa, por infrações de
circulação, estacionamento e parada previstas neste Código, notificando os infratores e arrecadando as multas que aplicar; VIII - fiscalizar, autuar e
aplicar as penalidades e medidas administrativas cabíveis relativas a infrações por excesso de peso, dimensões e lotação dos veículos, bem como
notificar e arrecadar as multas que aplicar; IX - fiscalizar o cumprimento da norma contida no art. 95, aplicando as penalidades e arrecadando as
multas nele previstas; Art. 95. Nenhuma obra ou evento que possa perturbar ou interromper a livre circulação de veículos e pedestres, ou colocar em
risco sua segurança, será iniciada sem permissão prévia do órgão ou entidade de trânsito com circunscrição sobre a via.)
O próprio recorrente, às folhas 371 e 372, admitiu a competência dos entes locais para fiscalizar, controlar e organizar o trânsito local.
Some-se a isso a promulgação da Emenda Constitucional nº 82/2014, que acrescentou o § 10 ao artigo 144 da Lei Maior, com a seguinte
redação:
Art. 144. (...).
§ 10. A segurança viária, exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do seu patrimônio nas vias
públicas:
I – compreende a educação, engenharia e fiscalização de trânsito, além de outras atividades previstas em lei, que assegurem ao
cidadão o direito à mobilidade urbana eficiente; e
II - compete, no âmbito dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, aos respectivos órgãos ou entidades executivos e seus
agentes de trânsito, estruturados em Carreira, na forma da lei.
Assentada a atribuição dos Municípios para fiscalizar e aplicar multas de trânsito, fica afastada a alegação de competência privativa da Polícia
Militar – órgão integrante da Administração estadual – para a autuação e imposição de penalidades por descumprimento da legislação de trânsito.
O § 4º do artigo 280 do Código de Trânsito, na mesma linha, dispõe ser competente para lavrar o auto de infração “servidor civil, estatutário
ou celetista ou, ainda, policial militar designado pela autoridade de trânsito com jurisdição sobre a via no âmbito de sua competência”.
A afirmação da Procuradoria Geral da República de não poderem as guardas municipais aplicar multas por não integrarem o sistema previsto
no artigo 7º do Código de Trânsito também não merece prosperar. Não existe preceito, na Lei nº 9.503/97, a preconizar que os órgãos executivos
municipais citados nos incisos III e IV do artigo 7º do diploma federal tenham somente atribuições relativas a trânsito. Nem poderia. A União, a
pretexto de exercer a competência privativa do artigo 22, inciso XI, da Carta Federal, não pode restringir a autonomia dos municípios a ponto de
dispor sobre atribuições de órgãos e estruturas do Poder Executivo local. A capacidade de autoadministração integra o núcleo essencial da autonomia
municipal. Transcrevo as lições do professor José Afonso da Silva acerca da questão:
A autonomia municipal, assim, assenta em quatro capacidades:
(a) capacidade de auto-organização, mediante a elaboração de lei orgânica própria;
(b) capacidade de autogoverno, pela eletividade do Prefeito e dos Vereadores às respectivas Câmaras Municipais;
(c) Capacidade normativa própria, ou capacidade de autolegislação, mediante a competência de elaboração de leis municipais sobre
áreas que são reservadas à sua competência exclusiva e suplementar;
(d) Capacidade de autoadministração (administração própria, para manter e prestar serviços de interesse local).
Nessas quatro capacidades, encontram-se caracterizadas a autonomia política (capacidades de auto-organização e de autogoverno), a
autonomia normativa (capacidade de fazer leis próprias sobre matéria de sua competência), a autonomia administrativa (administração
própria e organização dos serviços locais) e a autonomia financeira (capacidade de decretação de seus tributos e aplicação de suas rendas,
que é uma característica da autoadministração).
(...)
Veja-se a diferença fundamental da outorga da autonomia municipal: as normas constitucionais anteriores sobre ela se dirigiam aos
Estados-membros, porque estes é que deveriam organizá-los, assegurando-a, mas, aí, se reservavam a eles poderes sobre os Municípios, que

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agora já não têm: o poder de organizá-los, de definir suas competências, a estrutura e competência do governo local e os respectivos limites.
(SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 32ª edição. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 641)
Os municípios não estão impedidos de qualificarem como “órgão ou entidade executivo de trânsito” ou “órgão ou entidade executivo
rodoviário” estruturas da administração local titulares de outras competências não relacionadas ao trânsito.
Assento as premissas deste voto: os entes municipais têm competência para exercer a fiscalização, a orientação e o controle do trânsito,
inclusive com a aplicação de sanções, respeitados os limites estabelecidos pela legislação federal, editada com base no artigo 24, inciso XI, da Lei
Maior. Não se extrai do artigo 144, § 5º, do Texto Constitucional competência exclusiva da Polícia Militar na autuação e na aplicação de multas de
trânsito. Os municípios não estão proibidos de qualificarem como “órgão ou entidade executivo de trânsito” ou “órgão ou entidade executivo
rodoviário” estruturas da administração local titulares de outras competências não relacionadas ao trânsito.
Passo a tratar especificamente da competência da guarda municipal para atuar como órgão ou entidade executiva de trânsito nos municípios.
O artigo 144, § 8º, da Carta Federal dispõe:
Art. 144. (...)
§ 8º - Os Municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme
dispuser a lei.
Ante o preceito, indaga-se: o legislador é livre para definir as atribuições da guarda municipal? Evidentemente que não. Há, nesse ponto,
vinculação constitucional. A regulamentação legal alusiva às funções dos guardas municipais apenas se mostra válida se mantiver alguma relação
com a proteção dos bens, serviços e instalações do município.
Mas não é só isso. Considerada a competência privativa da União para legislar sobre trânsito e transporte (artigo 22, inciso XI, do Texto
Constitucional), qualquer norma local a versar os deveres da guarda municipal deve observar as regras contidas na Lei nº 9.503/97.
Definidas as balizas constitucionais das atribuições da guarda municipal, pergunta-se: pode a lei conferir-lhe a prerrogativa de promover
autuações e aplicar multas de trânsito?
É preciso verificar, em primeiro lugar, se as atividades de prevenção e repressão a infrações de trânsito têm alguma relação com a proteção dos
bens, serviços e instalações do município.
Nessa análise, deve-se levar em conta constituírem ruas, avenidas, praças, logradouros e equipamentos públicos patrimônio municipal. É
inegável que o cumprimento de algumas normas do Código de Trânsito produz efeitos diretos e imediatos sobre as vias e passeios públicos. Imagine-
se um carro estacionado irregularmente sobre um jardim mantido pela Prefeitura. Ninguém duvida dos danos passíveis de ocorrer no tocante à
instalação pública em razão do desrespeito à norma proibitiva do estacionamento naquela área. Também não se questiona que a circulação de veículos
com peso acima dos parâmetros legais pode provocar graves prejuízos à pavimentação da via pública. Da mesma forma, não se podem negar os
transtornos causados aos serviços de transporte mantidos pelo município (artigo 30, inciso V, da Lei Maior (Art. 30. Compete aos Municípios: (...) V -
organizar e prestar, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, os serviços públicos de interesse local, incluído o de transporte coletivo,
que tem caráter essencial;) ), quando veículos estacionam em local proibido ou quando a realização de obras ou eventos, sem autorização do órgão
responsável de trânsito, perturbe ou atrapalhe a circulação de veículos e pedestres. Automóveis, trafegando acima do limite de velocidade, podem
colidir com instalações e equipamentos públicos municipais (postes, grades, sinais, placas de sinalização, monumentos, etc), danificando-os.
Em todos esses casos, de cunho exemplificativo e não exaustivo, o exercício da polícia de trânsito – a abranger tanto a fiscalização, como a
apenação – mantém estreita ligação com a proteção de bens, serviços e instalações municipais. Observem que a fiscalização, desacompanhada do
poder sancionador, esvazia a força conformativa da norma que a prevê e, nesses casos, põe em risco patrimônio e serviços municipais.
Estabelecida a conexão entre a atuação da guarda municipal e a proteção dos bens, serviços e instalações do município, afasta-se o óbice do
artigo 144, § 8º, da Carta Federal evocado pelo recorrente.
Deve-se analisar, em segundo lugar, se o exercício da polícia de trânsito por guardas municipais está em harmonia com a legislação federal,
considerada a competência privativa da União para legislar sobre trânsito e transporte (artigo 22, inciso XI). Não podem os municípios criar
atribuições para a guarda municipal em desarmonia com as regras editadas pelo Congresso Nacional. A propósito, transcrevo os seguintes preceitos
do Código de Trânsito Brasileiro:
Art. 21. Compete aos órgãos e entidades executivos rodoviários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, no
âmbito de sua circunscrição:
I - cumprir e fazer cumprir a legislação e as normas de trânsito, no âmbito de suas atribuições;
(...)
VI - executar a fiscalização de trânsito, autuar, aplicar as penalidades de advertência, por escrito, e ainda as multas e medidas
administrativas cabíveis, notificando os infratores e arrecadando as multas que aplicar;
(...)
Art. 24. Compete aos órgãos e entidades executivos de trânsito dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição:
I - cumprir e fazer cumprir a legislação e as normas de trânsito, no âmbito de suas atribuições;
(...)
V - estabelecer, em conjunto com os órgãos de polícia ostensiva de trânsito, as diretrizes para o policiamento ostensivo de trânsito;
VI - executar a fiscalização de trânsito, autuar e aplicar as medidas administrativas cabíveis, por infrações de circulação,
estacionamento e parada previstas neste Código, no exercício regular do Poder de Polícia de Trânsito;
VII - aplicar as penalidades de advertência por escrito e multa, por infrações de circulação, estacionamento e parada previstas neste
Código, notificando os infratores e arrecadando as multas que aplicar;
VIII - fiscalizar, autuar e aplicar as penalidades e medidas administrativas cabíveis relativas a infrações por excesso de peso,
dimensões e lotação dos veículos, bem como notificar e arrecadar as multas que aplicar;
IX - fiscalizar o cumprimento da norma contida no art. 95, aplicando as penalidades e arrecadando as multas nele previstas;
(...)
Art. 95. Nenhuma obra ou evento que possa perturbar ou interromper a livre circulação de veículos e pedestres, ou colocar em risco
sua segurança, será iniciada sem permissão prévia do órgão ou entidade de trânsito com circunscrição sobre a via.
(...)
Art. 280. (...).
(...).
§ 4º O agente da autoridade de trânsito competente para lavrar o auto de infração poderá ser servidor civil, estatutário ou celetista ou,
ainda, policial militar designado pela autoridade de trânsito com jurisdição sobre a via no âmbito de sua competência.
Reproduzo, ainda, dispositivos da Lei federal nº 13.022, de 8 de agosto de 2014, que instituiu, recentemente, o chamado “Estatuto Geral das
Guardas Municipais”:
Art. 3º São princípios mínimos de atuação das guardas municipais:
(...)

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III - patrulhamento preventivo.
(...)
Art. 4º É competência geral das guardas municipais a proteção de bens, serviços, logradouros públicos municipais e instalações do
Município.
Parágrafo único. Os bens mencionados no caput abrangem os de uso comum, os de uso especial e os dominiais.
Art. 5º São competências específicas das guardas municipais, respeitadas as competências dos órgãos federais e estaduais:
(...);
VI - exercer as competências de trânsito que lhes forem conferidas, nas vias e logradouros municipais, nos termos da Lei no 9.503, de
23 de setembro de 1997 (Código de Trânsito Brasileiro), ou de forma concorrente, mediante convênio celebrado com órgão de trânsito
estadual ou municipal;
A União, na competência legislativa privativa prevista no artigo 22, inciso XI, da Constituição Federal, não proibiu a guarda municipal de
aplicar multas de trânsito. Ao contrário: os artigos 280, § 4º, do Código de Trânsito Brasileiro e 3º, inciso III, e 5º, inciso VI, da Lei nº 13.022/14
autorizaram os guardas municipais a exercerem as atribuições de trânsito que lhes forem conferidas, nas vias e logradouros municipais, observados os
limites estabelecidos pelo Código de Trânsito.
O quadro normativo revela a possibilidade de guardas municipais aplicarem multas de trânsito, nos casos em que se verificar conexão entre a
repressão ao ato infracional e a proteção de bens, serviços e instalações municipais.
Não se extrai do Texto Constitucional, nem da legislação federal editada pela União, com base no artigo 22, inciso XI, vedação ao controle e
fiscalização do trânsito, tampouco à aplicação de multas, por guardas municipais.
Por outro lado, afigura-se incompatível com os artigos 144, § 8º, e 22, inciso XI, da Lei Maior reconhecer à guarda municipal o poder para
fiscalizar todo e qualquer tipo de infração de trânsito, impondo sanções. A guarda municipal não pode atuar na repressão de infrações de trânsito
quando não estiver em jogo a proteção de bens, serviços e equipamentos municipais, nem ultrapassar as fronteiras da competência dos municípios
fixadas pela legislação federal.
Essa circunstância conduz a conferir-se interpretação conforme à Constituição aos dispositivos atacados pelo Ministério Público estadual, de
forma a restringir as competências da guarda municipal consideradas as balizas estabelecidas acima.
Por conta dos limites à atuação da guarda municipal em matéria de trânsito, afasto a alegação de contrariedade ao princípio da eficiência. As
atribuições da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte – BHTRANS, ao menos sob a perspectiva constitucional, não se reduzem à
proteção de bens, serviços e instalações municipais, no que não haveria sobreposição de funções entre as duas instituições. Notem, a propósito, que o
empréstimo de poderes relativos à polícia de trânsito a pessoas jurídicas de direito privado – como a BHTRANS – é de duvidosa constitucionalidade,
tendo sido reconhecida a repercussão geral do tema no Recurso Extraordinário com Agravo nº 662.186 (Em 2014, ante o provimento do agravo, o
processo foi reautuado como Recurso Extraordinário nº 840.230.), da relatoria do ministro Luiz Fux, submetido ao regime dos artigos 543-A e 543-B
do Código de Processo Civil, ainda pendente de julgamento.
Ante o quadro, dou parcial provimento ao extraordinário para julgar procedente em parte o pedido formalizado na ação direta e dar
interpretação conforme aos dispositivos impugnados, de maneira a restringir a atribuição da guarda municipal para exercer a fiscalização e o controle
do trânsito aos casos em que existir conexão entre a atividade a ser desempenhada e a proteção de bens, serviços e equipamentos municipais,
respeitando-se os limites das competências municipais versados na legislação federal.
Proponho a seguinte tese para efeito de repercussão geral: é constitucional a lei local que confira à guarda municipal a atribuição de fiscalizar e
controlar o trânsito, com a possibilidade de imposição de multas, desde que observada a finalidade constitucional da instituição de proteger bens,
serviços e equipamentos públicos (artigo 144, § 8º, da Carta de 1988) e limites da competência municipal em matéria de trânsito, estabelecidos pela
legislação federal (artigo 22, inciso XI, da Constituição Federal).
É como voto.
*acordão publicado no Dje de 30.9.2015

Secretaria de Documentação – SDO


Coordenadoria de Jurisprudência Comparada e Divulgação de Julgados – CJCD
CJCD@stf.jus.br

Informativo 802-STF (16/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 18


Márcio André Lopes Cavalcante

Processos excluídos deste informativo esquematizado por não terem sido concluídos em virtude de pedidos de vista:
HC 101473/SP; MS 26415/DF. Julgado excluído por ter menor relevância para concursos públicos: MS 25838/DF.

ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
 Reversão jurisprudencial (revisão legislativa).

DIREITO ELEITORAL
PARTIDOS POLÍTICOS
 É constitucional a Lei 13.107/2015, que alterou a Lei dos Partidos Políticos.
 É inconstitucional a Lei 12.875/2013, que alterou a Lei dos Partidos Políticos e a Lei das Eleições.

DIREITO CONSTITUCIONAL
CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
Superação legislativa da jurisprudência (reação legislativa)

As decisões definitivas de mérito proferidas pelo STF no julgamento de ADI, ADC ou ADPF
possuem eficácia contra todos (erga omnes) e efeito vinculante (§ 2º do art. 102 da CF/88).
O Poder Legislativo, em sua função típica de legislar, não fica vinculado. Assim, o STF não proíbe
que o Poder Legislativo edite leis ou emendas constitucionais em sentido contrário ao que a Corte
já decidiu. Não existe uma vedação prévia a tais atos normativos. O legislador pode, por emenda
constitucional ou lei ordinária, superar a jurisprudência. Trata-se de uma reação legislativa à
decisão da Corte Constitucional com o objetivo de reversão jurisprudencial.
No caso de reversão jurisprudencial (reação legislativa) proposta por meio de emenda
constitucional, a invalidação somente ocorrerá nas restritas hipóteses de violação aos limites
previstos no art. 60, e seus §§, da CF/88. Em suma, se o Congresso editar uma emenda
constitucional buscando alterar a interpretação dada pelo STF para determinado tema, essa
emenda somente poderá ser declarada inconstitucional se ofender uma cláusula pétrea ou o
processo legislativo para edição de emendas.
No caso de reversão jurisprudencial proposta por lei ordinária, a lei que frontalmente colidir
com a jurisprudência do STF nasce com presunção relativa de inconstitucionalidade, de forma
que caberá ao legislador o ônus de demonstrar, argumentativamente, que a correção do
precedente se afigura legítima. Assim, para ser considerada válida, o Congresso Nacional
deverá comprovar que as premissas fáticas e jurídicas sobre as quais se fundou a decisão do
STF no passado não mais subsistem. O Poder Legislativo promoverá verdadeira hipótese de
mutação constitucional pela via legislativa.
STF. Plenário. ADI 5105/DF, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 1º/10/2015 (Info 801).

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 1


Eficácia subjetiva das decisões proferidas em ADI: quem são as pessoas atingidas?
As decisões definitivas de mérito proferidas pelo STF no julgamento de ADI, ADC ou ADPF possuem eficácia
contra todos (erga omnes) e efeito vinculante. Isso está previsto no § 2º do art. 102 da CF/88:
§ 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, nas ações diretas de
inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade produzirão eficácia contra todos e
efeito vinculante, relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e
indireta, nas esferas federal, estadual e municipal.

Obs: no caso da ADPF, esse efeito está descrito no art. 10, § 3º da Lei nº 9.882/99.

O que acontece se as pessoas e órgãos que estão vinculados à decisão do STF desrespeitarem aquilo que
foi decidido?
Neste caso, o interessado poderá questionar esse ato diretamente no STF por meio de reclamação (art.
102, I, "l", da CF/88). Se o ato estiver realmente violando o que foi decidido, ele será cassado.

A decisão proferida na ADI, ADC e ADPF vincula o próprio STF? E o Poder Legislativo?
Veja abaixo um quadro-resumo sobre o tema:

EFICÁCIA SUBJETIVA DAS DECISÕES PROFERIDAS PELO STF EM ADI, ADC E ADPF
Ficam vinculados.
Particulares
Caso haja desrespeito, cabe reclamação.
Os órgãos e entidades do Poder Executivo ficam vinculados.
Executivo
Caso haja desrespeito, cabe reclamação.
Os demais juízes e Tribunais ficam vinculados.
Judiciário
Caso haja desrespeito, cabe reclamação.
A decisão vincula os julgamentos futuros a serem efetuados monocraticamente pelos
Ministros ou pelas Turmas do STF.
Essa decisão não vincula, contudo, o Plenário do STF. Assim, se o STF decidiu, em controle
abstrato, que determinada lei é constitucional, a Corte poderá, mais tarde, mudar seu
entendimento e decidir que esta mesma lei é inconstitucional por conta de mudanças no
STF
cenário jurídico, político, econômico ou social do país. Isso se justifica a fim de evitar a
"fossilização da Constituição".
Esta mudança de entendimento do STF sobre a constitucionalidade de uma norma pode
ser decidida, inclusive, durante o julgamento de uma reclamação constitucional. Nesse
sentido: STF. Plenário. Rcl 4374/PE, rel. Min. Gilmar Mendes, 18/4/2013 (Info 702).
O Poder Legislativo, em sua função típica de legislar, não fica vinculado.
Isso também tem como finalidade evitar a "fossilização da Constituição".
Assim, o legislador, em tese, pode editar nova lei com o mesmo conteúdo daquilo que foi
declarado inconstitucional pelo STF.
Se o legislador fizer isso, não é possível que o interessado proponha uma reclamação ao
Legislativo
STF pedindo que essa lei seja automaticamente julgada também inconstitucional (Rcl
13019 AgR, julgado em 19/02/2014).
Será necessária a propositura de uma nova ADI para que o STF examine essa nova lei e a
declare inconstitucional. Vale ressaltar que o STF pode até mesmo mudar de opinião no
julgamento dessa segunda ação.

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 2


CASO CONCRETO JULGADO PELO STF
Feitos esses esclarecimentos, imagine a seguinte situação concreta:
Em junho de 2012, o Plenário do STF, ao julgar as ADIs 4430 e 4795, declarou inconstitucionais
determinados dispositivos da Lei nº 9.504/97 (chamada de Lei das Eleições).
Em outubro de 2013, o Congresso Nacional editou a Lei nº 12.875/2013, que alterou novamente a Lei nº
9.504/97 prevendo algumas regras semelhantes àquelas que já haviam sido declaradas inconstitucionais
pelo STF no julgamento das ADIs 4430 e 4795.
Dessa forma, a Lei nº 12.875/2013 foi uma reação legislativa à decisão do STF, uma forma de o Congresso
Nacional superar a interpretação legislativa dada pela Corte ao tema.
Foi proposta ADI contra a Lei nº 12.875/2013. Vamos verificar o que foi decidido, mas antes é importante
fazer um resumo das considerações iniciais expostas no brilhante voto do Min. Luiz Fux, relator da ação.

Em tese, o Congresso Nacional pode editar uma lei em sentido contrário ao que foi decidido pelo STF no
julgamento de uma ADI/ADC?
SIM. Conforme vimos acima, o Poder Legislativo, em sua função típica de legislar, não fica vinculado aos
efeitos da decisão do STF.
O STF possui, segundo a CF/88, a missão de dar a última palavra em termos de interpretação da
Constituição. Isso não significa, contudo, que o legislador não tenha também a capacidade de
interpretação do Texto Constitucional. O Poder Legislativo também é considerado um intérprete autêntico
da Constituição e justamente por isso ele pode editar uma lei ou EC tentando superar o entendimento
anterior ou provocar um novo pronunciamento do STF a respeito de determinado tema, mesmo que a
Corte já tenha decidido o assunto em sede de controle concentrado de constitucionalidade. A isso se dá o
nome de "reação legislativa" ou"superação legislativa da jurisprudência"
A reação legislativa é uma forma de "ativismo congressual" com o objetivo de o Congresso Nacional
reverter situações de autoritarismo judicial ou de comportamento antidialógico por parte do STF, estando,
portanto, amparado no princípio da separação de poderes.

Mas se houver uma "reação legislativa", com toda a certeza o STF irá julgar novamente a nova lei
inconstitucional, não é verdade?
NÃO. Em tese, ou seja, na teoria, isso não é verdade. É possível que o STF repense seu entendimento
anterior e evolua para uma nova interpretação, chegando a conclusão diferente daquilo que havia
decidido e, assim, concorde com a nova lei editada com o mesmo conteúdo da anterior.
Veja o que dizem Daniel Sarmento e Cláudio Pereira de Souza Neto, citados pelo Min. Luiz Fux em seu voto:
... ão é saluta at i ui a u ú i o ó gão ual ue a p e ogativa de da a últi a palav a so e o
sentido da Constituição. (...). É preferível adotar-se um modelo que não atribua a nenhuma instituição –
nem do Judiciário, nem do Legislativo – o di eito de e a po últi o , a i do-se a permanente
possibilidade de correções recíprocas no campo da hermenêutica constitucional, com base na ideia de
diálogo, em lugar da visão tradicional, que concede a última palavra nessa área ao STF.
(...)
As decisões do STF em matéria constitucional são insuscetíveis de invalidação pelas instâncias políticas.
Isso, porém, não impede que seja editada uma nova lei, com conteúdo similar àquela que foi declarada
inconstitucional. Essa posição pode ser derivada do próprio texto constitucional, que não estendeu ao
Poder Legislativo os efeitos vinculantes das decisões proferidas pelo STF no controle de
constitucionalidade (art. 102, § 2º, e art. 103-A, da Constituição). Se o fato ocorrer, é muito provável que a
nova lei seja também declarada inconstitucional. Mas o resultado pode ser diferente. O STF pode e deve
refletir sobre os argumentos adicionais fornecidos pelo Parlamento ou debatidos pela opinião pública para
dar suporte ao novo ato normativo, e não ignorá-los, tomando a nova medida legislativa como afronta à
sua autoridade. Nesse ínterim, além da possibilidade de alteração de posicionamento de alguns ministros,
pode have ta é a uda ça a o posição da Co te, o eflexões o esultado do julga e to.
(SARMENTO, Daniel; SOUZA NETO, Cláudio Pereira de. Direito Constitucional. Teoria, história e métodos de
trabalho. Belo Horizonte: Fórum, 2012, p. 402-405)

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 3


Existem exemplos de "reação legislativa" que foram consideradas exitosas, ou seja, que foram acolhidas
pelo STF gerando uma "correção jurisprudencial"?
SIM. Um exemplo emblemático diz respeito à chamada Lei da Ficha Limpa (LC 135/2010). Antes dessa Lei,
o TSE e o STF possuíam jurisprudência consolidada no sentido de que não era possível reconhecer a
inelegibilidade do candidato a não ser que houvesse contra ele uma condenação transitada em julgado. O
fundamento para esse entendimento residia no princípio da presunção de inocência.
A LC 135/2010 foi editada com o objetivo de superar esse entendimento. Segundo previu essa lei, não é
necessário que a decisão condenatória tenha transitado em julgado para que o condenado se torne
inelegível. Basta que tenha sido proferida por órgão colegiado (exs: TRE, TJ, TRF).
O STF, superando seus antigos precedentes, entendeu que a reação legislativa foi legítima e que a Lei da
Ficha Limpa é constitucional e não viola o princípio da presunção de inocência. (STF. Plenário. ADC 29/DF,
ADC 30/DF, ADI 4578/DF, Rel. Min. Luiz Fux, julgados em 15 e 16/2/2012).
Esse caso, dentre outros, demonstra que, na teoria, não existe uma supremacia judicial do STF e que é possível,
em tese, a existência de um diálogo (abertura dialógica) por meio do qual o Legislativo proponha, por meio de
leis, correções à jurisprudência do Supremo, alterando a forma de a Corte interpretar a Constituição.

Mas sempre se disse que o STF possui a última palavra na interpretação da Constituição...
É verdade. Sempre se afirmou isso. O STF, de fato, detém a última palavra no que se refere à interpretação
da Constituição, imune a qualquer controle democrático. Contudo, essa afirmação vem sendo rediscutida
(remodelada) pelos constitucionalistas.
Entende-se atualmente que a decisão do STF em matéria constitucional deve ser compreendida como
"última palavra provisória", nas palavras do Min. Luiz Fux. Isso porque depois que o STF decidir, reiniciam-
se as rodadas de debates entre as instituições e os demais atores da sociedade civil sobre o tema.

Algumas conclusões do STF sobre o tema:


a) O STF não subtrai ex ante a faculdade de correção legislativa pelo constituinte reformador ou legislador
ordinário. Em outras palavras, o STF não proíbe que o Poder Legislativo edite leis ou emendas
constitucionais em sentido contrário ao que a Corte já decidiu. Não existe uma vedação prévia a tais atos
normativos. O legislador pode, por emenda constitucional ou lei ordinária, superar a jurisprudência. Trata-
se de uma reação legislativa à decisão da Corte Constitucional com o objetivo de reversão jurisprudencial.

b) No caso de reversão jurisprudencial (reação legislativa) proposta por meio de emenda constitucional, a
invalidação somente ocorrerá nas restritas hipóteses de violação aos limites previstos no art. 60, e seus §§,
da CF/88. Em suma, se o Congresso editar uma emenda constitucional buscando alterar a interpretação
dada pelo STF para determinado tema, essa emenda somente poderá ser declarada inconstitucional se
ofender uma cláusula pétrea ou o processo legislativo para edição de emendas.

c) No caso de reversão jurisprudencial proposta por lei ordinária, a lei que frontalmente colidir com a
jurisprudência do STF nasce com presunção relativa de inconstitucionalidade, de forma que caberá ao
legislador o ônus de demonstrar, argumentativamente, que a correção do precedente se afigura legítima.
A novel legislação que frontalmente colida com a jurisprudência (leis in your face) se submete a um
controle de constitucionalidade mais rigoroso.
Para ser considerada válida, o Congresso Nacional deverá comprovar que as premissas fáticas e jurídicas
sobre as quais se fundou a decisão do STF no passado não mais subsistem. O Poder Legislativo promoverá
verdadeira hipótese de mutação constitucional pela via legislativa.
Vale ressaltar, no entanto, que excetuadas as situações de ofensa evidente ao texto constitucional, o STF
deve adotar comportamento de autorrestrição e de maior deferência às opções políticas do legislador.

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 4


Voltando ao caso concreto:
No caso concreto da Lei nº 12.875/2013, o Congresso Nacional procurou superar o precedente fixado pelo
STF nas ADIs 4.430 e 4.795. Todavia, o STF, examinando as justificativas do projeto que deu origem à lei e
analisando a inocorrência de mudanças na sociedade entre a data da decisão passada e os dias atuais,
entendeu que não foi legítima a tentativa de reversão da interpretação fixada pelo Tribunal.
Para o STF, os argumentos invocados pelo Legislativo não são capazes de infirmar (retirar à força) a tese
jurídica fixada no julgamento das ADIs 4.430 e 4.795.
Por essa razão, o Plenário da Corte, por maioria, julgou inconstitucional a Lei nº 12.875/2013.

DIREITO ELEITORAL

PARTIDOS POLÍTICOS
É constitucional a Lei 13.107/2015, que alterou a Lei dos Partidos Políticos

A Lei 13.107/2015 alterou a Lei 9.096/95 com o objetivo de desestimular a fusão de partidos
políticos. Veja duas das mudanças promovidas:
1) A Lei nº 13.107/2015 alterou o § 1º do art. 7º da Lei 9.096/95 ao exigir que as pessoas que
assinarem o apoiamento para a criação de novos partidos não poderão fazer parte de outros
partidos políticos.
2) A Lei nº 13.107/2015 determinou que somente será admitida a fusão ou incorporação de
partidos políticos que hajam obtido o registro definitivo do Tribunal Superior Eleitoral há,
pelo menos, 5 anos. Antes não havia essa exigência.
Essas duas mudanças foram impugnadas por meio de ADI, mas o STF negou a medida cautelar
afirmando que as alterações são compatíveis com a CF/88, não tendo havido violação à
autonomia constitucional dos partidos políticos.
STF. Plenário. ADI 5311-MC/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 30/9/2015 (Info 801).

Lei 13.107/2015
Em 2015, foi publicada a Lei nº 13.107/2015, que alterou a Lei nº 9.096/95 (Lei dos Partidos Políticos) com
o objetivo de desestimular a fusão de partidos políticos.

Veja duas das mudanças promovidas pela Lei nº 13.107/2015 na Lei nº 9.096/95:

1) Apoiamento de eleitores
O art. 7º da Lei nº 9.096/95 prevê as regras para que um partido político possa ser criado.
Um dos requisitos para a criação de um novo partido é que ele deverá obter uma quantidade mínima de
eleitores assinando uma declaração de apoio à nova agremiação. Isso é chamado de "apoiamento mínimo
de eleitores". É como se fosse um "abaixo-assinado" com eleitores declarando que desejam a criação do
novo partido. Essa lista de assinaturas e títulos é posteriormente conferida pelo chefe do Cartório
eleitoral, que irá lavrar um atestado na própria lista.
A Lei nº 13.107/2015 alterou o § 1º deste art. 7º com o objetivo de dificultar a criação de novos partidos ao
exigir que as pessoas que assinarem esse apoiamento não poderão fazer parte de outros partidos políticos.
Antes: pessoas que assinavam o apoiamento podiam já ser filiadas a partidos políticos. Ex: João é filiado ao
PSOL, mas assina lista de apoiamento para criação do partido REDE.
Depois: isso foi proibido. As pessoas que assinarem a lista de apoiamento não podem mais ser filiadas a
partidos políticos.

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 5


2) Prazo mínimo
Somente será admitida a fusão ou incorporação de partidos políticos que hajam obtido o registro
definitivo do Tribunal Superior Eleitoral há, pelo menos, 5 anos. Antes não havia essa exigência.

ADI 5311
O Partido Republicano da Ordem Social (Pros) ajuizou ação direta de inconstitucionalidade no STF contra
essas duas alterações promovidas pela Lei nº 13.107/2015.
Segundo alegou o partido na Inicial, as modificações violam o pluralismo político, a liberdade de criação,
fusão, incorporação e extinção dos partidos políticos e a participação do cidadão no processo político-
partidário do país.

A princípio, o STF concordou com os argumentos do autor e concedeu a medida cautelar?


NÃO. O Plenário do STF indeferiu o pedido formulado em medida cautelar na ADI.

A CF/88 assegura a liberdade de criação, fusão, extinção e incorporação de partidos políticos, como
expressão do princípio democrático e do pluripartidarismo (art. 17). Portanto, realmente está garantida no
ordenamento jurídico-constitucional a liberdade dos partidos políticos de se articularem. Essa garantia,
contudo, não é absoluta, sendo possível haver um controle quantitativo e qualitativo dos partidos político,
o que justificaria a existência das normas impugnadas.

Segundo apontou o STF, há agremiações intituladas formalmente como partidos políticos sem qualquer
substrato eleitoral. Essas legendas estão habilitadas a receber parcela do fundo partidário e a disputar
tempo de televisão sem difundir, contudo, ideias e programas. Elas atuam para defender outros interesses
partidários, especialmente para obtenção de vantagens particulares para os seus dirigentes.

Como os partidos políticos recebem recursos do fundo partidário (dinheiro público), é necessário e
justificável que haja um controle sobre eles.

A proliferação indiscriminada de partidos sem coerência ou respaldo social causa risco institucional e
ameaça a democracia. Além disso, pode transformar o sadio pluripartidarismo em caos político.

As normas impugnadas têm como objetivo a tentativa de incentivar a utilização de mecanismos da


democracia representativa, a reforçar a legitimidade e o compromisso do eleitor e do partido no qual se
depositara o seu aval.

A exigência de que os apoiadores do novo partido não sejam filiados a partidos políticos está de acordo
com o sistema representativo.

A exigência de 5 anos para se levar a efeito fusões e incorporações entre partidos assegura o atendimento
do compromisso do cidadão com a sua opção partidária, o que evita o estelionato eleitoral ou a reviravolta
política contra o apoio dos eleitores, então filiados.

Portanto, as normas atacadas na ADI têm a finalidade de evitar a lógica mercantilista e nada republicana
de prática política.

Ante o exposto, o STF entendeu que não houve ingerência estatal indevida na autonomia constitucional
dos partidos políticos.

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 6


PARTIDOS POLÍTICOS
É inconstitucional a Lei 12.875/2013, que alterou a Lei dos Partidos Políticos e a Lei das Eleições

A Lei 12.875/2013 promoveu alterações na:


• Lei dos Partidos Políticos (Lei 9.096/95); e na
• Lei das Eleições Lei 9. 0 /97 .
Mudança na Lei dos Partidos Políticos: a Lei 12.875/2013 determinou que, para os fins de
distribuição dos recursos do Fundo Partidário, deveriam ser desconsideradas as mudanças de
filiação partidária. Dessa feita, a Lei 12.875/2013 determinou que o Deputado Federal que
mudasse de partido (ainda que para um partido novo) durante o mandato não poderia levar
para o outro os votos que obteve na última eleição. O objetivo foi evitar que, com a mudança, o
partido de destino recebesse mais verbas do fundo partidário.
Mudança na Lei das Eleições: a Lei nº 12.875/2013 determinou que, para os fins de
distribuição do tempo de rádio e TV, seriam desconsideradas as mudanças de filiação
partidária. Assim, o Deputado Federal que mudasse de partido (ainda que para um partido
novo) durante o mandato não poderia levar para o outro os votos que obteve na última
eleição. Mais uma vez, o objetivo aqui da Lei 12.875/2013 foi o de evitar que o partido de
destino recebesse mais tempo de rádio e TV.
Assim, de acordo com as regras da Lei 12.875/2013, os partidos novos ficariam com
pouquíssimos recursos do Fundo Partidário e reduzidíssimo tempo de rádio e TV.
O STF entendeu que as mudanças efetuadas foram inconstitucionais. Em nosso sistema
proporcional, não há como afirmar, simplesmente, que a representatividade política do
parlamentar está atrelada à legenda partidária para a qual foi eleito, ficando, em segundo
plano, a legitimidade da escolha pessoal formulada pelo eleitor por meio do sufrágio. O voto
do eleitor brasileiro, mesmo nas eleições proporcionais, em geral, se dá em favor de
determinado candidato. O princípio da liberdade de criação e transformação de partidos,
contido no caput do art. 17 da CF/88 serve de fundamento constitucional para reputar como
legítimo o entendimento de que, na hipótese de criação de um novo partido, a novel legenda,
para fins de acesso proporcional ao rádio e à televisão, leva consigo a representatividade dos
deputados federais que para ela migraram diretamente dos partidos pelos quais foram eleitos.
STF. Plenário. ADI 5105/DF, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 1º/10/2015 (Info 801).

Sobre o que tratou a Lei 12.875/2013:


A Lei n. 12.875/2013 promoveu alterações na:
• Lei dos Pa tidos Políti os Lei n. 9.096/95); e na
• Lei das Eleições Lei n. 9.504/97).

Objetivo da Lei
A Lei 12.875/2013 foi editada com o objetivo de inibir a criação de novos partidos políticos. Para isso,
restringiu o acesso de novas legendas aos recursos financeiros do Fundo Partidário e ao tempo de
propaganda na TV e no rádio.

Fundo partidário
Trata-se de um Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos que tenham seu estatuto
registrado no Tribunal Superior Eleitoral e prestação de contas regular perante a Justiça Eleitoral.
O Fundo Partidário é o stituído po dotações o ça e tá ias da U ião, ultas, pe alidades, doações e
outros recursos financeiros previstos no art. 38 da Lei n. 9.096/95.
Os valores contidos no Fundo Partidário são repassados aos partidos políticos por meio de um cálculo
previsto no art. 41-A, da Lei n. 9.096/95.
Consiste na principal fonte de verbas dos partidos.

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 7


Propaganda eleitoral
A propaganda eleitoral é aquela que se realiza antes do certame eleitoral e objetiva, basicamente, a obtenção
de votos, tornando-se instrumento de convencimento do eleitor, que pode, por seu intermédio, ampliar seu
conhecimento sobre as convicções de cada candidato ou partido, fazendo a escolha que mais lhe convier.
A legislação que rege a propaganda eleitoral é a Lei n. 9.504/97.

ADI 5105
O Partido Solidariedade (SDD) ajuizou no STF ação direta de inconstitucionalidade contra a Lei nº
12.875/2013.
Vejamos as alterações realizadas pela Lei nº 12.875/2013 e se elas foram declaradas inconstitucionais pelo STF.

Alterações na Lei dos Partidos Políticos (Lei nº 9.096/95)


A Lei nº 12.875/2013 alterou o art. 29, § 6º e o art. 41-A da Lei nº 9.096/95.

O dinheiro do Fundo Partidário é dividido da seguinte forma:


 5% é dividido em partes iguais, a todos os partidos que atendam aos requisitos constitucionais de
acesso aos recursos do Fundo Partidário. Desse modo, pega-se 5% do Fundo e divide-se
igualitariamente entre todos os partidos.
 os 95% restantes são distribuídos aos partidos na proporção dos votos obtidos na última eleição geral
para a Câmara dos Deputados. Assim, os partidos que obtiveram mais votos, irão, proporcionalmente,
receber mais.

Até aí, tudo bem. Mas veja agora o que fez a Lei nº 12.875/2013.

A Lei nº 12.875/2013 determinou que, para os fins dessa distribuição acima, devem ser desconsideradas as
mudanças de filiação partidária. Dessa feita, o Deputado Federal que mudar de partido (ainda que para um
partido novo) du a te o a dato ão pode á leva para o outro os votos que obteve na última eleição,
de modo que a mudança não fará com que o partido de destino receba mais verbas do fundo partidário.

Alterações na Lei das eleições (Lei nº 9.504/97)


A Lei nº 12.875/2013 alterou o § 2º do art. 47 da Lei nº 9.504/97 e determinou que os horários de
propaganda eleitoral entre os partidos e coligações deveria ser o seguinte:

DISTRIBUIÇÃO DOS HORÁRIOS DE RÁDIO E TV PPARA PROPAGANDA ELEITORAL

2/3 1/3

do tempo seria distribuído entre os partidos e Desse 1/3 restante, a distribuição seria assim:
coligações de forma proporcional ao número de
Deputados Federais que possui esse partido ou a) 1/3 distribuído igualitariamente entre os
coligação. partidos e coligações; e

No caso de coligação, calcula-se esse número pela b) 2/3 de forma proporcional ao número de
soma dos Deputados Federais que integram os representantes eleitos no pleito imediatamente
partidos que fazem parte da coligação. anterior para a Câmara dos Deputados.

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 8


Obs1: a Lei nº 12.875/2013 afirmou que, para os fins dessa distribuição acima, serão desconsideradas as
mudanças de filiação partidária. Assim, o Deputado Federal que mudar de partido (ainda que para um
partido novo) du a te o a dato ão pode á leva para o outro os votos que obteve na última eleição,
de modo que essa mudança não fará com que o partido de destino receba mais tempo de rádio e TV.

Obs2: de acordo com as regras da Lei nº 12.875/2013, os partidos novos ficariam com pouquíssimo tempo
de rádio e TV. Eles só entrariam na divisão da letra "a" da segunda coluna acima explicada.

As mudanças operadas pela Lei nº 12.875/2013 foram compatíveis com a CF/88?


NÃO. O STF julgou procedente a ADI e declarou a Lei nº 12.875/2013 INCONSTITUCIONAL.

A pergunta que o STF respondeu, na prática, foi a seguinte:


Se um novo partido é criado e não possui Deputados Federais eleitos pelo próprio partido, mas sim
oriundos de outras agremiações, mesmo assim ele terá direito de "ganhar" a participação no Fundo
Partidário e o tempo de propaganda eleitoral a que teria direito esse Deputado Federal? Em palavras
simples, o Deputado Federal que se filia a um partido novo "leva" seu percentual de Fundo Partidário e
de tempo de rádio e TV?
SIM. O STF entende que, no nosso sistema proporcional, não há como afirmar, simplesmente, que a
representatividade política do parlamentar está atrelada à legenda partidária para a qual foi eleito,
ficando, em segundo plano, a legitimidade da escolha pessoal formulada pelo eleitor por meio do sufrágio.
O voto do eleitor brasileiro, mesmo nas eleições proporcionais, em geral, se dá em favor de determinado
candidato.
O princípio da liberdade de criação e transformação de partidos, contido no caput do art. 17 da CF/88
serve de fundamento constitucional para reputar como legítimo o entendimento de que, na hipótese de
criação de um novo partido, a novel legenda, para fins de acesso proporcional ao rádio e à televisão, leva
consigo a representatividade dos deputados federais que para ela migraram diretamente dos partidos
pelos quais foram eleitos.
Esta interpretação prestigia, por um lado, a liberdade constitucional de criação de partidos (art. 17, caput,
CF/88) e, por outro, a representatividade do partido que já nasce com representantes parlamentares, tudo
em consonância com o sistema de representação proporcional brasileiro.

ADIs 4430 e 4795


Vale ressaltar que o STF já havia enfrentado esse mesmo tema no julgamento das ADIs 4430 e 4795
MC/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgadas em 27, 28 e 29/6/2012.
No julgamentos dessas duas ações, o STF já havia afirmado que os partidos novos, criados após a
realização de eleições para a Câmara dos Deputados, deveriam ter direito de acesso proporcional aos 2/3
do tempo destinado à propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.
Alguns meses após o julgamento dos casos supracitados, o Congresso Nacional editou a Lei nº
12.875/2013 que, em sentido oposto ao pronunciamento da Corte, subtraiu dos novos partidos o acesso
aos recursos do Fundo e ao direito de antena.
Dessa forma, a Lei nº 12.875/2013 foi uma reação legislativa à decisão do STF, uma forma de o Congresso
Nacional superar a interpretação legislativa dada pela Corte ao tema.
O STF não concordou com essa tentativa do Poder Legislativo.
Segundo afirmou o Min. Luiz Fux, houve abuso do legislador ao editar lei buscando modificar a interpretação
constitucional do Supremo. Diante disso, a Lei nº 12.875/2013 já nasceu com o gérmen da
inconstitucionalidade porque violou uma decisão do STF em controle concentrado de constitucionalidade
sem trazer nenhuma novidade. Para o Ministro, isso configura um atentado à dignidade da jurisdição do STF.

Lei nº 13.165/2015
Atenção. A Lei nº 13.165/2015 alterou o § 2º do art. 41 da Lei nº 9.504/97 modificando os percentuais de
tempo de rádio e TV destinados a cada partido. A redação atual do dispositivo é a seguinte:

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 9


LEI 9.504/97 (LEI DAS ELEIÇÕES)
Redação antes da Lei 13.165/2015 Redação depois da Lei 13.165/2015
Art. 47 (...) Art. 47 (...)

§ 2º Os horários reservados à propaganda de cada § 2º Os horários reservados à propaganda de cada


eleição, nos termos do § 1º, serão distribuídos eleição, nos termos do § 1º, serão distribuídos
entre todos os partidos e coligações que tenham entre todos os partidos e coligações que tenham
candidato, observados os seguintes critérios: candidato, observados os seguintes critérios:

I - 2/3 (dois terços) distribuídos I - 90% (noventa por cento) distribuídos


proporcionalmente ao número de representantes proporcionalmente ao número de representantes
na Câmara dos Deputados, considerado, no caso na Câmara dos Deputados, considerados, no caso
de coligação, o resultado da soma do número de de coligação para eleições majoritárias, o
representantes de todos os partidos que a resultado da soma do número de representantes
integram; dos seis maiores partidos que a integrem e, nos
casos de coligações para eleições proporcionais, o
resultado da soma do número de representantes
de todos os partidos que a integrem;

II - 10% (dez por cento) distribuídos


II - do restante, 1/3 (um terço) distribuído igualitariamente.
igualitariamente e 2/3 (dois terços)
proporcionalmente ao número de representantes
eleitos no pleito imediatamente anterior para a
Câmara dos Deputados, considerado, no caso de
coligação, o resultado da soma do número de
representantes de todos os partidos que a integram.

JULGADO NÃO COMENTADO

LC 75/1993: auxílio-moradia e promoção com deslocamento


A Segunda Turma denegou mandado de segurança impetrado em face de atos do TCU e do PGR que
importaram na cessação do pagamento de auxílio-moradia concedido aos membros do MPU em razão de
promoção com deslocamento. Na espécie, o TCU determinara a suspensão dos pagamentos do referido
auxílio, em razão da impossibilidade jurídica da criação de hipótese de benefício não prevista em lei. Ante
essa decisão, o PGR editara portaria que extingue o benefício relativamente àquela espécie de promoção. A
Turma afirmou que o auxílio-moradia fora instituído pelo art. 227, VIII, da LC 75/1993, que o assegura aos
e os do MPU ua do lotados e lo al ujas o dições de o adia seja pa ti ula e te difí eis ou
onerosas, assim definido em ato do Procurador-Ge al da Repú li a . Co ase essa disposição o ativa,
o chefe do MPU editara a Portaria 495/1995, cujo art. 1º dispunha, em sua redação original, que o auxilio
em comento seria concedido aos membros do MPU lotados nas localidades cujas condições de moradia são
consideradas particularmente difíceis ou onerosas — referidas na própria portaria —, bem como aos
promovidos com deslocamento. Contudo, a Portaria PGR 495/95 teria extrapolado os limites do art. 227,
VIII, da LC 75/1993. Esse comando normativo seria claro ao estabelecer o direito ao auxílio-moradia apenas

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 10


aos membros do MPU lotados em local cujas condições de moradia fossem particularmente difíceis ou
onerosas, delegando ao PGR apenas a atribuição para definir os locais em que a lotação ensejaria o
pagamento do benefício. Assim, o dispositivo legal não preveria a possibilidade de que ato do Chefe do
MPU estabelecesse outros casos de concessão do auxílio. Os atos administrativos normativos não poderiam
ultrapassar os limites da lei que regulamentam, dispondo acerca de situações não previstas na norma
primária de que retiram seu fundamento de validade, mormente em situações como a que se discute no
mandado de segurança em comento, em que o regulamento trataria de matéria que a própria Constituição
reservaria à lei em sentido formal (CF, art. 37, X, e 128, § 5º). Ademais, o art. 227, I, da LC 75/1993, já
determinaria a concessão de benefício — ajuda de custo — em razão da promoção com deslocamento.
MS 25838/DF, rel. Min.Teori Zavascki, 29.9.2015.

OUTRAS INFORMAÇÕES

CLIPPING DO DJE
28 de setembro a 2 de outubro de 2015

HC N. 125.768-SP
RELATOR: MIN. DIAS TOFFOLI
EMENTA: Habeas corpus. Processo penal militar. Recurso. Embargos infringentes e de nulidade. Superior Tribunal Militar. Norma
regimental que exige no mínimo 4 (quatro) votos minoritários divergentes para seu cabimento. Inadmissibilidade. Requisito não previsto nos
arts. 538 e 539 do Código de Processo Penal Militar. Tribunal que não dispõe de poderes normativos para disciplinar matéria recursal em
contrariedade à lei. Inteligência do art. 96, I, a, da Constituição Federal. Inconstitucionalidade formal da alteração regimental. Garantia da
razoável duração do processo (art. 5º, LXXVIII, CF) que não a legitima. Violação dos princípios constitucionais do devido processo legal e da
ampla defesa (art. 5º, LIV e LV, da CF). Ilegalidade flagrante. Impossibilidade de analogia com o art. 333, parágrafo único, do Regimento
Interno do Supremo Tribunal Federal, que exige no mínimo 4 (quatro) votos vencidos para o cabimento dos embargos infringentes. Norma
editada à época em que o art. 119, § 3º, c, da Carta de 1969 expressamente outorgava à Suprema Corte poderes para dispor, em seu
regimento interno, sobre o processo e o julgamento dos feitos de sua competência originária ou recursal. Ordem concedida para se
determinar ao Superior Tribunal Militar que processe os embargos infringentes interpostos pelo paciente. Declarada a inconstitucionalidade
incidental do art. 119, § 1º, do Regimento Interno do Superior Tribunal Militar, na redação dada pela Emenda Regimental nº 24, publicada
no DJe de 10/6/14.
1. Assim como o legislador não pode se imiscuir em matéria reservada ao regimento interno dos tribunais, a esses é vedado desbordar de seus poderes
normativos e dispor sobre matéria de competência privativa da União (art. 22, I, CF), sob pena de inconstitucionalidade formal. Precedentes.
2. A atribuição de poderes aos tribunais para instituir recursos internos e disciplinar o procedimento dos recursos que devam julgar não lhes outorga
competência para criar requisito de admissibilidade recursal não previsto em lei. Inteligência do art. 96, I, a, da Constituição Federal.
3. Os arts. 538 e 539 do Código de Processo Penal Militar não exigem, para o cabimento dos embargos infringentes e de nulidade, número mínimo de
votos vencidos.
4. O art. 119, § 1º, do Regimento Interno do Superior Tribunal Militar, ao exigir, no mínimo, 4 (quatro) votos divergentes minoritários para o
cabimento dos embargos infringentes e de nulidade, além de dispor sobre matéria de competência privativa da União, viola o devido processo legal
(art. 5º. LIV, CF), por impor requisito de admissibilidade recursal não previsto em lei.
5. Descabe invocar-se analogia com o art. 333, parágrafo único, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, que exige no mínimo 4 (quatro)
votos vencidos para o cabimento dos embargos infringentes, uma vez que essa regra foi editada à época em que a Constituição de 1969, no art. 119, §
3º, c, outorgava poderes normativos ao Supremo Tribunal Federal para dispor sobre o processo e o julgamento dos feitos de sua competência
originária ou recursal.
6. A garantia constitucional da duração razoável do processo não pode ser hipertrofiada em prejuízo da ampla defesa, com os meios e recursos a ela
inerentes (art. 5º, LV, CF), salvo quando nítido o abuso do direito de recorrer.
7. É inconstitucional o art. 119, § 1º, do Regimento Interno do Superior Tribunal Militar, na redação dada pela Emenda Regimental nº 24, publicada
no DJe de 10/6/14, ao exigir no mínimo 4 (quatro) votos divergentes minoritários para o cabimento dos embargos infringentes e de nulidade.
8. Ordem de habeas corpus concedida.
*noticiado no Informativo 791
HC N. 128.446-PE
RELATOR: MIN. TEORI ZAVASCKI
EMENTA: HABEAS CORPUS. PENAL. SONEGAÇÃO TRIBUTÁRIA. ART. 1º, I, DA LEI 8.137/1990. DOSIMETRIA DA PENA. AFERIÇÃO
DAS CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS DO ART. 59 DO CP. INVIABILIDADE. CIRCUNSTÂNCIAS E CONSEQUÊNCIAS DO CRIME.
QUANTUM FIXADO MEDIANTE FUNDAMENTAÇÃO ADEQUADA.
1. Não é viável, na via estreita do habeas corpus, o reexame dos elementos de convicção considerados pelo magistrado sentenciante na avaliação das
circunstâncias judiciais previstas no art. 59 do Código Penal. O que está autorizado é apenas o controle da legalidade dos critérios utilizados, com a
correção de eventuais arbitrariedades. No caso, entretanto, não se constata qualquer vício apto a justificar o redimensionamento da pena-base. Precedentes.
2. Ademais, em se tratando de infrações penais contra a ordem tributária, a extensão do dano causado pode ser invocada na primeira fase da
dosimetria, como critério para exasperação da pena-base, sem que tanto implique bis in idem.
3. Ordem denegada.
*noticiado no Informativo 799

Informativo 801-STF (13/10/2015) – Esquematizado por Márcio André Lopes Cavalcante | 11


MI N. 833-DF e MI 844-DF
RED. P/ O ACÓRDÃO: MIN. ROBERTO BARROSO
Ementa: DIREITO PREVIDENCIÁRIO. MANDADO DE INJUNÇÃO COLETIVO. OFICIAIS DE JUSTIÇA. ALEGADA ATIVIDADE DE
RISCO. APOSENTADORIA ESPECIAL. ORDEM DENEGADA.
1. Diante do caráter aberto da expressão atividades de risco (art. 40, § 4º, II, da Constituição) e da relativa liberdade de conformação do legislador,
somente há omissão inconstitucional quando a periculosidade seja inequivocamente inerente ao ofício.
2. A eventual exposição a situações de risco – a que podem estar sujeitos os Oficiais de Justiça e, de resto, diversas categorias de servidores públicos –
não garante direito subjetivo constitucional à aposentadoria especial.
3. A percepção de gratificações ou adicionais de periculosidade, assim como o porte de arma de fogo, não são, por si sós, suficientes para reconhecer
o direito à aposentadoria especial, em razão da autonomia entre o vínculo funcional e o previdenciário.
4. Voto pela denegação da ordem, sem prejuízo da possibilidade, em tese, de futura lei contemplar a pretensão da categoria.
*noticiado no Informativo 789
RE N. 658.570-MG
RED. P/ O ACÓRDÃO: MIN. ROBERTO BARROSO
DIREITO ADMINISTRATIVO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. PODER DE POLÍCIA. IMPOSIÇÃO DE MULTA DE TRÂNSITO. GUARDA
MUNICIPAL. CONSTITUCIONALIDADE.
1. Poder de polícia não se confunde com segurança pública. O exercício do primeiro não é prerrogativa exclusiva das entidades policiais, a quem a
Constituição outorgou, com exclusividade, no art. 144, apenas as funções de promoção da segurança pública.
2. A fiscalização do trânsito, com aplicação das sanções administrativas legalmente previstas, embora possa se dar ostensivamente, constitui mero
exercício de poder de polícia, não havendo, portanto, óbice ao seu exercício por entidades não policiais.
3. O Código de Trânsito Brasileiro, observando os parâmetros constitucionais, estabeleceu a competência comum dos entes da federação para o
exercício da fiscalização de trânsito.
4. Dentro de sua esfera de atuação, delimitada pelo CTB, os Municípios podem determinar que o poder de polícia que lhe compete seja exercido pela
guarda municipal.
5. O art. 144, §8º, da CF, não impede que a guarda municipal exerça funções adicionais à de proteção dos bens, serviços e instalações do Município.
Até mesmo instituições policiais podem cumular funções típicas de segurança pública com exercício de poder de polícia. Entendimento que não foi
alterado pelo advento da EC nº 82/2014.
6. Desprovimento do recurso extraordinário e fixação, em repercussão geral, da seguinte tese: é constitucional a atribuição às guardas municipais
do exercício de poder de polícia de trânsito, inclusive para imposição de sanções administrativas legalmente previstas.
*noticiado no Informativo 793
RE N. 673.707-MG
RELATOR: MIN. LUIZ FUX
EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL. DIREITO TRIBUTÁRIO. HABEAS DATA. ARTIGO 5º, LXXII, CRFB/88. LEI Nº 9.507/97.
ACESSO ÀS INFORMAÇÕES CONSTANTES DE SISTEMAS INFORMATIZADOS DE CONTROLE DE PAGAMENTOS DE
TRIBUTOS. SISTEMA DE CONTA CORRENTE DA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL-SINCOR. DIREITO
SUBJETIVO DO CONTRIBUINTE. RECURSO A QUE SE DÁ PROVIMENTO.
1. O habeas data, posto instrumento de tutela de direitos fundamentais, encerra amplo espectro, rejeitando-se visão reducionista da garantia
constitucional inaugurada pela carta pós-positivista de 1988.
2. A tese fixada na presente repercussão geral é a seguinte: “O Habeas Data é garantia constitucional adequada para a obtenção dos dados
concernentes ao pagamento de tributos do próprio contribuinte constantes dos sistemas informatizados de apoio à arrecadação dos órgãos da
administração fazendária dos entes estatais.”
3. O Sistema de Conta Corrente da Secretaria da Receita Federal do Brasil, conhecido também como SINCOR, registra os dados de apoio à
arrecadação federal ao armazenar os débitos e créditos tributários existentes acerca dos contribuintes.
4. O caráter público de todo registro ou banco de dados contendo informações que sejam ou que possam ser transmitidas a terceiros ou que não sejam
de uso privativo do órgão ou entidade produtora ou depositária das informações é inequívoco (art. 1º, Lei nº 9.507/97).
5. O registro de dados deve ser entendido em seu sentido mais amplo, abrangendo tudo que diga respeito ao interessado, seja de modo direto ou
indireto. (…) Registro de dados deve ser entendido em seu sentido mais amplo, abrangendo tudo que diga respeito ao interessado, seja de modo
direto ou indireto, causando-l