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Sociedade e cultura

Universidade Federal de Goiás


robertolima@fchf.ufg.br
ISSN (Versión impresa): 1415-8566
ISSN (Versión en línea): 1980-8194
BRASIL

2007
Carlos Rodrigues Brandão
REFLEXÕES SOBRE COMO FAZER TRABALHO DE CAMPO
Sociedade e cultura, janeiro-junho, año/vol. 10, número 001
Universidade Federal de Goiás
Goiania, Brasil
pp. 11-27

Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal

Universidad Autónoma del Estado de México

http://redalyc.uaemex.mx
Reflexões sobre como fazer
trabalho de campo
CARLOS RODRIGUES BRANDÃO*

Resumo: Este artigo reflete sobre a vivência da pesquisa de campo e sobre o tipo de
conhecimento produzido no encontro etnográfico. Nele são discutidas estratégias pessoais
usadas na aproximação inicial com os sujeitos da pesquisa, especialmente em comunidades
camponesas, bem como os dilemas éticos enfrentados pelo etnógrafo durante e após a
pesquisa de campo.
Palavras-chave: metodologia da pesquisa de campo; comunidades camponesas; etnografia.

Para contextualizar um texto itinerante, de um Cinco de janeiro de 1983: algumas reflexões


autor andarilho que não precisa ser apresen- extraídas da vivência a respeito do trabalho de
tado: No início da década de 1980, Brandão foi campo. Esta gravação é feita para o pessoal do
procurado por Niuvenius Paoli para dar um MG 2.
curso de práticas de campo a professores e
O que eu quero expor aqui nesta fita de
alunos da UFMG que estavam começando um
projeto ligado à Secretaria de Educação do
maneira nenhuma substitui o que poderia ter sido
estado de Minas Gerais e pretendia diagnos- uma conversa de um dia em Belo Horizonte, o
ticar a educação em uma centena de municípios que eu espero que venha acontecer lá ainda ou,
de pequeno e médio porte do estado a fim de quem sabe, até em Estiva, no próprio campo.
propor um modelo de educação no campo. Por outro lado, o que eu estou apresentando
Como ele não teve tempo hábil para isso, ditou aqui, de maneira nenhuma, implica uma teoria
numa fita cassete uma série de reflexões sobre de trabalho de campo ou mesmo uma metodolo-
suas experiências. Essa fita foi transcrita e o gia de trabalho de campo. Eu estou deitado numa
texto mimeografado por Suzana Obler, ajudando
rede; são quatro horas da tarde de um dia de
a formar muitos pesquisadores desde então.
Em 2002, João Batista Almeida Costa da chuva e, além de ser janeiro, eu estou de férias,
UniMontes, em Montes Claros, conseguiu-me ou seja, raros os contextos menos teóricos e
uma cópia quase ilegível desse texto, que tentei metodológicos do que este de hoje, de agora.
adotar para os alunos de graduação na Uece, Então, o que eu me proponho a fazer é refletir
mas esbarrava na impossibilidade de tirar
cópias. Então, Glaudiane Holanda, também da
Uece, resolveu ressuscitar o artigo que agora a 1. Nota do editor: o autor solicitou que organizasse o texto
transcrito para que ficasse “com forma de artigo”. Neste
revista Sociedade e Cultura publica,1 fazendo
caso, minha opção foi de apenas suprimir alguns poucos
coro à homenagem que a 25ª Reunião Brasileira vícios de fala e verificar, no que fosse possível, citações que
de Antropologia prestou a esse autor que, estavam confusas, tentando manter o ar de conversa fran-
nascido carioca, adotou-se goiano. ca. Assim, quaisquer incorreções são de minha responsabili-
dade. Apesar de a pesquisa ter sido “engavetada” por moti-
Roberto Lima vos políticos, quem se interessar pelos resultados parciais
dela pode consultar os artigos do Cadernos Cedes 11 (Cam-
* Professor titular da Unicamp. pinas, 1984), organizado por Niuvenius Paoli.

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BRANDÃO, CARLOS RODRIGUES. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.

em voz alta sobre o trabalho de campo, sobre a sempre a própria experiência do trabalho de
minha experiência de pesquisa de campo. campo redefiniu projetos, redefiniu hipóteses de
Em primeiro lugar, o que eu queria dizer é trabalho, redefiniu abordagens metodológicas e
o seguinte: para mim, o trabalho de campo é assim por diante. Mas, de qualquer maneira, essa
uma vivência, ou seja, mais do que um puro ato segunda entrada se faz quando eu sei o que eu
científico, como talvez pudesse ser um trabalho quero pesquisar. Por outro lado, dizer que o
de laboratório, no caso de um psicólogo experi- trabalho de campo, numa pesquisa antropológica,
mental, ou a pesquisa de gabinete de um econo- passa muito pela relação interpessoal e, conse-
mista. O trabalho de campo, a pesquisa antropo- qüentemente, pelo domínio da subjetividade não
lógica, para mim, é uma vivência, ou seja, é um quer dizer que seja um trabalho espontaneísta,
estabelecimento de uma relação produtora de muito pelo contrário. A própria relação interpes-
conhecimento, que diferentes categorias de soal e o próprio dado da subjetividade são partes
pessoas fazem, realizam, por exemplo, antropó- de um método de trabalho, por isso que a gente
logo, educador e pessoas moradoras de uma vai falar em observação participante; que vai
comunidade rural, lavradores, mulheres de lavra- falar, numa outra dimensão, em pesquisa partici-
dores, pequenos artesãos, professoras das esco- pante; vai falar em envolvimento pessoal do
las e assim por diante. pesquisador com as pessoas, com o contexto
Por outro lado, a experiência de trabalho da pesquisa e assim por diante, como dados do
de campo tem uma dimensão muito intensa de próprio trabalho científico. Ou seja, como dados
subjetividade. Ou seja, ainda que o antropólogo que, em vez de serem tomados como alguma
possa se armar de toda uma intenção de coisa que se põe contra e precisa ser controlada,
objetividade, de obtenção, de produção de dados são tomados como alguma coisa que faz parte
e informações, os mais objetivos, os mais reais da própria prática do trabalho de campo.
(não sei se com aspas ou sem aspas) possíveis, Dentro disso, existe um aspecto muito
de qualquer maneira, muito mais do que em importante, que todo mundo que conhece um
outros casos, todo trabalho de produção de pouco de teoria de pesquisa sabe. Um projeto
conhecimento aí se passa através de uma rela- de pesquisa não diz apenas como aquilo vai ser
ção subjetiva. A pessoa que fala, fala para uma pesquisado. Uma teoria que fundamenta uma
outra pessoa. Uma relação entre pessoas que hipótese de pesquisa delimita até o que vai ser
tem uma dimensão social, e uma dimensão visto, ou seja, até aquilo que, dentro de um todo
afetiva se estabelece. Dados de troca, de sinais de relações sociais, econômicas e políticas, vai
e símbolos entre as pessoas se estabelecem ser intencionalizado pelo pesquisador, vai ser
inevitavelmente e isso marca não só a realização objeto de sua própria atenção, da sua própria
do trabalho, mas o material produzido por esse maneira de observar. Mais do que isso, dentro
trabalho realizado. de um mesmo marco teórico, de uma mesma
Na minha experiência de campo, eu tenho pauta teórica, dentro, por exemplo, de uma
dois tipos de entradas. Uma entrada que poderia mesma abordagem estruturalista ou de uma
chamar para a pesquisa. Muitas vezes é o chegar mesma abordagem dialética, diferentes ênfases
no campo para conhecer uma comunidade, para, podem ser colocadas, e isso é uma coisa que
em cima dela, e articulando aquele primeiro muitas vezes atrapalha as pessoas quando vão
conhecimento com dados de estudos de uma fazer pesquisas.
proposta de pesquisa, escrever, fazer o primeiro Eu vou dar aqui um exemplo muito concreto
projeto. Algumas pessoas vão chamar de um que está atravessando a própria pesquisa que
levantamento prévio, de um survey e assim por estou realizando agora. Estou fazendo um estudo
diante. sobre o trabalho e o saber do trabalho, ou seja,
Uma outra entrada se faz quando eu já desenvolvo um projeto no qual o que quero saber
tenho uma pesquisa definida, definição esta que é como se dão as relações imediatas, diretas,
em nenhuma de minhas experiências foi abso- concretas, familiares, interpessoais do trabalho
luta, ou seja, sempre o próprio material de campo, do camponês. Como esse homem, ao longo de

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um ciclo anual agrícola, vive diferentes cotidia- ouvir, o próprio ver do pesquisador. Um dos
nos de relação com a natureza e de relação entre problemas que muita gente enfrenta é uma
pessoas, por exemplo, no contexto propriamente espécie de obsessão pela explicação determi-
familiar, pais e filhos, mães e filhas, marido e nante: é sempre necessário remontar às últimas
mulher, avô e neto, irmãos que fazem parte de causas, aos primeiros determinantes, é sempre
um mesmo grupo doméstico ou que, mesmo preciso remontar ao capital. Então, as coisas
morando em casas diferentes, trabalham num que muitas vezes são derivadas disso, mas que
mesmo sítio, numa mesma chácara, dentro de embora derivadas têm articulações em si, ficam
um contexto comunitário como numa situação inexplicadas. Por exemplo, nesta minha pesquisa,
de mutirão. Ou dentro de um contexto, digamos interessa saber, como base para um momento
assim, pequeno-empresarial, na situação em que de introdução que ocuparia duas folhas, o que
pequenos proprietários em condições de fazer, provocou, do ponto de vista macroestrutural, a
ou por necessidade, contratam esporadicamente situação atual da prática econômica do campe-
o trabalho remunerado, a força de trabalho sinato da região que estou pesquisando. Agora,
remunerada de outras pessoas da própria comu- o que vou pesquisar lá é como se dá o cotidiano
nidade, às vezes até de parentes. Dentro disso, de trabalho entre produtores diretos de produtos
quero pesquisar como é que aí, nessa prática agrícolas de gado leiteiro; como diferentes cate-
econômica que é o trabalho do lavrador campo- gorias de parentes, de vizinhos, de produtores
nês, ao longo de um ciclo agrícola, processam- rurais, agregados, meeiros, assalariados, campo-
se relações através das quais as pessoas apren- neses se relacionam entre si em função de uma
dem, sobretudo relações através das quais prática econômica que, por sua vez, tem uma
meninos e adolescentes aprendem dentro do dimensão pedagógica, que é aquilo que eu quero
próprio trabalho como adultos. Isto é o que eu pesquisar mais essencialmente.
quero pesquisar. Este é um dado muito importante, porque é
Claro, dentro dessa minha pesquisa, eu isso o que vou pesquisar. Dentro disso, o domínio
preciso levar em conta a questão das relações da minha pesquisa não é o domínio das relações
socioeconômicas determinantes dos limites entre o Incra e o campesinato. Não é o domínio
daquela prática econômica. É preciso que eu das relações entre os fazendeiros que existem
tenha conhecimento de determinantes de também na região do campesinato. É o domínio
concentração da propriedade fundiária, de das relações internas e diretas dos produtores
transformação progressiva do pequeno proprie- camponeses, é esse contexto e esse espaço da
tário camponês num trabalhador rural assalariado família, da troca de serviço entre pai e filho, entre
de tipo “bóia-fria” e assim por diante. Agora, irmãos e assim por diante.
essas explicações determinantes, que são Dito isso, vamos discutir um pouco essa
necessárias para a compreensão daquilo que questão de como fazer um trabalho de campo.
quero explicar, não são meu objeto direto de Eu costumo chegar na região onde vou pesqui-
pesquisa. É possível, inclusive, que na minha sar e, dependendo do tempo que eu tenha,
pesquisa eu vá recorrer à documentação a costumo passar algum tempo de “contami-
respeito disso na agricultura paulista e mineira, nação” com o local, ou seja, procuro não entrar
em termos de livros e de levantamentos, deixan- diretamente numa relação de pesquisa. Não só
do que meu trabalho de campo siga daí pra não invadir o mundo das pessoas com uma
frente. atitude imediata de pesquisa, como também não
Bom, é possível que eu tenha perdido o fio me deixar levar de imediato sem um trabalho
da meada porque eu interrompi este depoimento de coleta de dados. Eu acho que é muito enri-
para atender a um longuíssimo telefonema. O quecedor viver um tempo, que, dependendo do
que eu estava dizendo era mais ou menos o tempo global que você tenha, pode ser um dia,
seguinte: dentro de um mesmo foco de abor- dois, uma semana, até quinze dias, quem sabe
dagem, essa delimitação do que vai ser pesqui- até um mês de puro contato pessoal, se possível,
sado é o que conduz o próprio olhar, o próprio até de uma afetiva intimidade com os bares, as

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BRANDÃO, CARLOS RODRIGUES. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.

ruas, as casas, as pessoas, os bichos, os rios urbano, como também toda a área rural compre-
(em geral só pesquiso onde tem rio bom para endida como sendo dessa comunidade pesqui-
tomar banho) e assim por diante. Conviver, sada. Incluo essa própria compreensão ideoló-
espreitar dentro daquele contexto o que eu gica, ou seja, estou admitindo aí os lugares, as
chamaria o primeiro nível do sentir, sentir como pessoas e as famílias que se identificam como
é que o lugar é, como é que as pessoas são, sendo desse lugar, como sendo parte dessa
como é que eu me deixo envolver. Isso é muito comunidade.
bom, porque faz com que a gente entre pela Dentro disso, o meu primeiro trabalho se
porta da frente e entre devagar. E, por outro concentra mais numa observação participante.
lado, é bom também porque essa lenta entrada, Participante num duplo sentido. Em primeiro
eu diria essa mineira entrada, não tem aquela lugar, porque se faz estando pessoalmente no
característica de um trabalho invasor em que lugar e observando e compreendendo aquilo que
as pessoas se sentem de repente visitadas por está acontecendo, por participar da vida coti-
um sujeito que mal chegou ao lugar, saltou do diana das pessoas. Eu quero me meter nos bares,
carro e começou a aplicar um questionário. dentro da casa, nas manhãs da vida das pessoas,
Inclusive às vezes por experiências antece- nos lugares de igreja e principalmente nos lugares
dentes de trabalho: no Incra eu tive de fazer de trabalho. Quero estar ali vendo o que está
pesquisas assim, saltar, pesquisar, porque eu acontecendo. E participar em um seguinte
tinha um dia para trabalhar num bairro rural. sentido também: de que eu me envolvo pessoal-
Isto é muito ruim. Toca-se apenas o verniz e mente com o próprio trabalho quando posso. Há
toca-se num verniz em que as pessoas se defen- momentos em que eu participo de um mutirão,
dem até quando podem da invasão de que se trabalho num mutirão com as pessoas. Não para
sentem vítimas. sentir, não para que as pessoas me sintam como
A partir dessa primeira experiência, desse alguém deles, mas que para esse participar faça
primeiro contato, eu me coloco do ponto de vista com que eu me identifique mais de perto como
de me perguntar o que é que explica aquilo que uma pessoa não deles, mas mais próxima deles,
envolve mais diretamente o que eu quero daqueles lavradores que eu pesquiso. Esse é o
pesquisar. Ainda no caso desta pesquisa minha, momento em que eu vejo as coisas acontecendo
o objeto central da pesquisa é o estudo da e anoto. Eu tenho uma caderneta de campo e,
reprodução do saber no contexto do trabalho. atento a esses acontecimentos, eu anoto. Por
Então, o que é aquilo que eu preciso conhecer exemplo, uma família em casa, tomando seu café
porque é o espaço de relações que envolve aquilo e se arrumando pra sair. Eu anoto as coisas que
que eu quero pesquisar? É o próprio cotidiano estão acontecendo, o que eu chamo as seqüên-
do trabalho. Então, neste momento, a minha cias “actanciais”, a mulher acordando primeiro
pesquisa é sobre esse cotidiano do trabalho. e chamando as pessoas da casa, servindo café,
Passado esse período de um entrosamento com as pessoas agarrando as ferramentas, tomando
a comunidade e de um sentir da vida, do fluir da café e saindo. E anoto também o que as pessoas
vida da comunidade, eu começo a fazer esse falam, principalmente o que as pessoas falam
trabalho de compreensão das relações sociais entre si. É um momento em que eu, inclusive,
diretas familiares e extrafamiliares da prática procuro me retirar um pouco de cena, não me
do trabalho camponês na comunidade que estou tornar muito visível, me fazer um pouco opaco,
pesquisando. A minha comunidade, para vocês para muito mais ver e procurar entender do que
terem uma idéia, deve ser muito semelhante perguntar.
àquelas que vocês vão pesquisar: é um povoado Depois, no contexto do trabalho, eu procuro
rural de mais ou menos umas 150 famílias, ver as pessoas trabalhando. Existem determi-
distrito de um município na Serra do Mar, em nadas relações estruturais que são importantes.
São Paulo. Isso é o que eu chamo a minha Eu nunca mais esqueci do livro do Antonio
comunidade. E envolve concretamente não só Candido em que ele mostra como é que existe
o que nós poderíamos chamar o concentrado toda uma lógica através da qual as pessoas

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dividem entre equipes de trabalho uma área de termos de bens materiais, bens simbólicos, ditos
pasto a ser limpa. Como é que aquilo é feito de espirituais e assim por diante. Isso tudo não sai
tal maneira que o resultado é o máximo aprovei- apenas da entrevista, uma coisa é o que as
tamento do trabalho de cada um, uma raciona- pessoas dizem a respeito disso, outra coisa é
lização camponesa do trabalho agrícola. Procuro aquilo que o antropólogo vê, aquilo que o
observar qual é a relação que se estabelece entre pesquisador vê acontecendo.
as pessoas. Dentro de uma equipe de parentes, Vejam vocês, num primeiro momento, eu
existe um que é aquele que dá as ordens? Ou procuro ver o que está acontecendo simples-
as ordens já são mais ou menos conhecidas e mente, eu procuro anotar descritivamente. Às
as pessoas vão chegando e trabalhando? Existe vezes, essa descrição horroriza o sociólogo,
trabalho subordinado? Ele ainda é hierarquizado porque ela parece uma coisa tão banal e tão
como ele é hierarquizado numa equipe de medíocre, tão improcedente para uma pesquisa
pedreiros? Pais fazem um trabalho e filhos, que pretende dizer grandes coisas, que parece
outro? Meninos de diferentes idades fazem uma banalidade mesmo. Mas leiam com cuidado,
trabalhos diferentes? Quando é que o menino por exemplo, O capital, de Karl Marx, para ver
começa a fazer o trabalho de um adolescente? como é que grande parte do que está escrito ali
E assim por diante. são pequenas observações a respeito de como
Observar direto e anotar. Isso tudo que vai um operário trabalha em uma máquina, de como
sendo anotado no momento tem uma dupla uma mulher operária se relaciona com um tear,
função. Em primeiro lugar, é material que depois de como uma equipe de operários se relacionam,
vou usar na pesquisa. Isso, muitas vezes, não é de como um capataz estabelece relações com
uma coisa tão importante numa pesquisa de os operários, e assim por diante. Marx jamais
prática econômica, mas, numa pesquisa de seria um grande filósofo e sociólogo se não
processo pedagógico, pode ser muito importante: tivesse sido grande observador das pequenas
a observação das relações entre professor e relações interpessoais no contexto da prática
aluno, a observação das relações entre diretora econômica. Então é descrever mesmo, descre-
da escola, professores, alunos e pais de alunos ver a banalidade do cotidiano.
numa reunião é de uma grande importância. Num segundo momento, essa descrição
Aquela é uma situação teatral, é alguma coisa pode começar a ser articulada. Isso pode ser
que a gente entende muito bem lendo Erwin feito de duas maneiras. Eu tenho um costume
Goffman ou Victor Turner, cada um a seu modo. que é o seguinte. Vamos supor que esteja no
As pessoas agem, hierarquizam relações, a ação contexto de um mutirão. Estou ali descrevendo
de uma pessoa determina a ação de outra, o o que está acontecendo, as pessoas fazendo isso
resultado é uma espécie de drama da vida coti- e aquilo, momento do trabalho, momento do
diana. Isso se vê na escola todos os dias de uma descanso, de uma brincadeira, de cantoria. A
maneira mais visível do que numa pequena partir de um certo amadurecimento do que estou
equipe de trabalho camponês; se vê muito mais vendo e descrevendo, começo a entender deter-
ainda num trabalho ritual, no trabalho de uma minadas organizações e relações. Uma hierar-
equipe de foliões de Santos Reis (eu estou quização do trabalho produtivo é uma certa
voltando de um trabalho com uma dessas equipes relação, que embora não seja necessariamente
em Goiás). Ou, então, dentro de uma festa de hierarquizada e realizada entre iguais, tem uma
amplitude maior, onde tudo que se faz são lógica própria: as pessoas se distribuem para
comportamentos sociais e simbólicos entre realizar o trabalho assim ou de outra maneira.
categorias de pessoas que a própria situação da Então, eu começo ali mesmo, no contexto da
festa redefine: foliões, promesseiros, devotos, observação, a tentar explicar por que as coisas
alferes, embaixadores, dançantes de congo, de devem ser assim, qual é a lógica subjacente
moçambique, reis, rainhas, assim por diante; o àquilo, quais são as regras de conduta, quais são
que as pessoas cantam, dançam; o que as os princípios operativos daquela relação de
pessoas cerimonialmente trocam entre elas em trabalho produtivo, de trabalho pedagógico, de

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BRANDÃO, CARLOS RODRIGUES. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.

trabalho ritual. Isso, eu repito, pode ser feito no Imaginemos, agora, a situação de vocês, vocês
momento, no ato. estão tentando fazer uma pesquisa sobre campo
Por outro lado, tenho o costume também educativo, vamos pensar esse pessoal, esse
de analisar essas relações, esse ver no campo momento da pesquisa. Então, vocês estão, por
num momento posterior. Aquilo que eu anotei exemplo, dentro de diferentes contextos em que
descritivamente na caderneta de campo, quando conhecimentos são passados entre as pessoas,
eu chego em casa, depois de um banho, no lugar de que a escola é um, talvez o mais importante
onde está sendo a minha sede da pesquisa de no nosso caso, mas um deles. Tem a própria
campo, passo para um caderno maior. Mas eu família, outros são as diferentes unidades de
não passo apenas transcrevendo com uma letra vizinhança, outros são instituições da própria
melhor aquilo mesmo que escrevi no momento comunidade como uma pequena igreja pente-
em que estava observando o acontecimento, a costal, um terreiro de umbanda que foram cria-
estrutura de relações, o ritual, a prática do dos por pessoas do lugar ou, então, uma equipe
trabalho. Eu já passo tentando explicações, de trabalho ritual de Folia de Reis ou de congos,
tentando articular o material. Isso é o que eu outros são agências de mediação, a própria
chamo articular os dados. Essa explicação ainda escola, o posto de saúde que oferece cursos,
não é uma análise teórica daquilo que eu captei igrejas católicas ou evangélicas ou centros
na minha pesquisa, é apenas uma organização espíritas trazidos por pessoas de fora e que se
mais compreensiva dos meus dados. instalam no lugar e que têm uma prática docente,
Num terceiro momento que, inclusive, não o trabalho da Emater e de outras entidades.
precisa ser sucessivo – muitas vezes tudo isso Então, num primeiro momento, vocês estão
está acontecendo ao mesmo tempo –, entra a observando, estão ali anotando, por exemplo,
questão de pedir às pessoas que reflitam sobre uma situação escolar ou de aula ou, então, de
a sua prática, que interpretem aquilo que elas reunião de pais e mestres ou reunião de prepa-
estão fazendo e que se interpretem através ração de programa de um próximo período
daquilo que estão fazendo. Isso que nós temos escolar, e assim por diante. Vejam vocês, no
o costume de chamar de ideologia, ou seja, as momento em que se dá essa observação, em
categorias sociais, experiências de relações que vocês estão anotando o que as pessoas estão
sociais que determinam e configuram práticas, fazendo, que posições estão ocupando, estão
a prática produtiva, a prática política, a prática articulando esse material, algumas perguntas se
ritual, a prática familiar, e assim por diante... as apresentam, não em termos de pedir às pessoas
pessoas têm um pensar sobre isso. Um pensar que interpretem o que estão fazendo ou por que
que reflete uma prática coletiva e uma condição estão fazendo, por que se relacionam assim, mas
de vida semelhante entre categorias de pessoas, em termos de pedir a elas que expliquem o que
pais, mães, filhos, mas todos camponeses, todos estão fazendo. Claro, está exposta uma pergunta
pertencentes ao mesmo universo comunitário, de fito explicativo. Muitas vezes a gente pergun-
elas têm uma espécie de consistência coletiva ta uma coisa e a pessoa responde outra, isso é
para se apresentar, para poder ser compreendida algo que se anota também. Essa é a pesquisa
como a visão de realidade daquela coletividade. que se faz num primeiro momento.
Então esse é o momento em que eu peço às Num segundo momento, aí sim, é possível
pessoas que me falem sobre sua prática. No que interesse a vocês a interpretação que as
caso ainda da minha pesquisa, num primeiro pessoas têm, se vocês quiserem, o juízo que as
momento, as perguntas que eu faço são direta- pessoas têm a respeito não só da sua prática,
mente coladas na prática, são perguntas quase mas a respeito das fronteiras entre essas práticas
que a respeito de informação: por que se faz e outras práticas. Por exemplo, uma coisa é
assim e não de outra maneira, por que o menino perguntar aos pais como eles estão ensinando
trabalha assim, ajudando o pai. aos filhos a partir de que idade, quem ensina e
Como eu dizia, esse primeiro momento é quem faz o quê, e outra coisa é perguntar aos
aquele em que eu estou junto com o pessoal. pais as diferenças que eles reconhecem entre o

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ensino que eles têm em casa, o ensino de cate- escola não têm um interesse eles próprios de
quese na igreja, na paróquia, e o ensino que eles participar de um trabalho de envolvimento entre
recebem na escola, e pedir que eles avaliem, escola e comunidade? Que lugar simbólico, que
que eles categorizem com a lógica da própria lugar social é dado à escola pela diretora, pelo
comunidade esses diferentes espaços de saber professor, pelos pais, pelas pessoas da comuni-
comunitário, até chegar o momento, talvez este dade que não têm filhos na escola? Isso é algo
seja um ponto terminal na pesquisa, em que, que se capta observando. Observando as rela-
juntando observações com entrevistas, se tem ções que essas pessoas estabelecem entre si
um dado a respeito de como se estrutura um dentro do contexto da escola e fora do contexto
campo de relações de saber. Como é que as da escola. Por exemplo, a maneira como nós
pessoas categorizam ideologicamente esse observamos as pessoas da comunidade tratando
campo? Um domínio familiar? Um domínio as professoras do lugar diz muito a respeito
comunitário? Um domínio vicinal? Um domínio disso. Isso é alguma coisa que se sabe também
institucional? Um domínio religioso? Um domínio perguntando às pessoas a respeito.
profano? Um domínio erudito? Um domínio Uma outra forma de fazer isso (tem um
popular? Como é que do ponto de vista da lógica pouco a ver também com a maneira que eu
explicativa do pesquisador (da nossa?), como é estou tendendo a realizar esta minha pesquisa)
que nós estruturamos esse campo de saber? E é captar a ideologia das pessoas, não através
como é que ele é do ponto de vista da ideologia de uma explicação direta (por que isso é assim,
da comunidade ou da ideologia de diferentes por que você faz assim, como é que você vê
categorias de pessoas na comunidade? isso ou como é que você avalia isso, por que
Eu vou dar só um exemplo. É possível que você faz dessa maneira e evita fazer dessa
um membro da Congregação Cristã no Brasil outra), mas captar isso pedindo que as pessoas
das Testemunhas de Jeová veja como centro reconstruam uma história que toca isso. Pedir
articulador do saber da vida a igreja, e tudo mais que as pessoas falem sobre como eram, até onde
é secundário. É possível até que ele considere a memória alcança, as relações da prática
que espaços que nós consideramos como econômica do campesinato, como elas foram
pedagógicos sejam desagregadores, destrui- se modificando e como elas são agora. Isso,
dores. Já, por exemplo, uma pessoa daquela inclusive, eu aprendi, porque, na verdade, quando
mesma comunidade, camponesa católica tradi- se pergunta, muitas vezes, tanto no contexto de
cional, talvez faça uma redistribuição comple- trabalho ritual quanto no contexto de trabalho
tamente diferente, em que a igreja vá ocupar produtivo, por que as coisas são assim agora e
uma posição muito menos importante, quase como elas se relacionam, é muito comum que
irrelevante. Isso é o que a gente chama muitas as pessoas respondam fazendo a história que
vezes uma exegese, ou seja, pedir que as pessoas explica esse momento atual. Tudo é assim uma
que nós observamos fazendo alguma coisa, se história mítica, muitas vezes, que vai ser muitas
relacionando, primeiro expliquem aquilo que vezes uma história fantástica no caso da expli-
estão fazendo e, segundo, interpretem aquilo que cação de um ritual como uma dança de Moçam-
fazem, as relações que vivem, assim por diante. bique ou congos. As pessoas vão ligar isso à
Esse é o momento em que muitas vezes as própria divindade, a um santo, e assim em diante.
pessoas vão dizer não de uma forma direta, mas Às vezes vão até trazer esse santo para aquele
de uma forma indireta, por que determinadas lugar para que ele explique como é que isso é,
atitudes delas, como pessoas individuais, e da ou então essas explicações vão ser uma socio-
comunidade, como uma coletividade articulada, logia popular, uma maneira como o campesinato
são tomadas diante da escola. É possível que a interpreta relações sociais em diferentes tempos.
partir da observação e da explicação se tenha Eu gosto muito de trabalhar nesse momen-
um pouco do fio da resposta a essa pergunta: to, fazendo com que minha entrevista tenha dois
por que os mesmos pais que têm um interesse fios. Um fio é esse que eu chamo a entrevista
muito grande em que os filhos participem da da descrição colada na prática. É um exemplo

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BRANDÃO, CARLOS RODRIGUES. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.

mineiro, quando, em julho do ano passado, eu antigo, dos escravos. Mas tem muita coisa pelo
pesquisava por alguns dias garimpeiros da região jeito que o senhor está me ensinando e não tinha
de Diamantina. Eu consegui que um velho fosse nesse livro. Me conta um pouco mais, como é
garimpar comigo, então fomos só nós dois para que era? Como é que era o regime desses
a beira do rio. Eu conversava com ele pelo cami- homens (ele usava muito essa palavra – regi-
nho. Quando chegamos lá, eu liguei o gravador me)?”. Eu colo muito nas próprias categorias
e durante algum tempo fiquei em silêncio e das pessoas.
ouvindo esse homem garimpar, ouvindo os baru- É interessante que todos esses homens, e
lhos do garimpo. Deixei no primeiro momento os mineiros mais ainda, do povo, eles têm
que ele mesmo falasse. Então, ora ele falava o categorias de interpretação da realidade como
que fazia: “Olha, está vendo, eu agora estou nós temos. É muito comum esses homens
fazendo isso. Eu estou peneirando com a peneira usarem palavras como regime, sistema, tempo,
mais grossa, ela se chama primeira mesmo, para pensamento, idéia: no meu pensamento, na
ver se tem algum diamante grande. Eu faço minha idéia. Isso são categorias deles. As nos-
assim, depois eu mexo assim, depois eu mexo sas não são nada mais, nada menos do que uma
assim, porque o diamante ele fica aqui, está eruditização dessas categorias. Então, no mo-
vendo, no meio dessas pedras escuras”. Então mento da entrevista, eu colo nas categorias deles.
ele ia dando para mim, inclusive, vocabulário. Se, de repente, ele divide os tempos da vida da
E, a partir dessa fala espontânea, eu ia fazendo comunidade num tempo antigo dos escravos,
perguntas coladas no que ele dizia, sempre num tempo de alforria, num tempo dos pais e
coladas. Em nenhum momento eu pedi uma nos dias de hoje, eu uso essas categorias. Então,
interpretação mais ampla do que isso. Quando, pergunto: “Então, fala um pouco mais do tempo
por exemplo, ele dizia as coisas e os nomes, eu dos antigos, dos escravos. Como é que era?”.
pedia que ele repetisse, às vezes, para gravar o Bom, eu ligo esse falar à própria biografia, ou
nome, eu dizia a ele: “Não escutei bem, como é seja, o próprio homem que está me fazendo a
que é?”. Então ele repetia. Quando ele não dizia história, quando chega num momento em que
o nome, eu perguntava: “Vem cá, como é que ele aparece ou aparecem os pais, ele começa a
chama essa pedrinha escura aqui que o senhor fazer biografia. Então, eu colo como se fosse
disse que o diamante fica perto dela?”. Mais um fio só. Há um momento em que, ao mesmo
adiante eu pedia a ele que, a partir do que estava tempo, ele está fazendo para mim a história da
fazendo, fosse me explicando por que ele fazia. comunidade, contando das relações sociais,
Esse porquê aos poucos ia se colando na vida como é que era muito no passado, como é que
dele. Por exemplo, por que ele era garimpeiro e era no tempo do Juscelino, como é que ficou
não ia para Diamantina trabalhar lá? Ainda era depois que chegaram as grandes mineradoras,
vantagem? Por que era vantagem? Eu começa- como é que é agora. Está me contando relações
va a pedir que esse homem me interpretasse a sociais do momento presente, por exemplo, como
prática econômica dele: como eu fiquei apenas é o trabalho do garimpeiro autônomo, como é o
alguns dias, eu fiz isso nessa vez. Se eu fosse trabalho do garimpeiro meia-praça, aquele que
ficar meses, talvez deixasse isso mais para frente, trabalha para um sujeito que lhe paga comida e
a não ser que ele, naquele falar mineiro espon- lhe dá o material, como é o trabalho do garimpeiro
tâneo, já me fosse expondo essas coisas. A de turma e como é o trabalho do garimpeiro de
história da vida desse homem saiu esponta- empresa. Isso tudo vem no fio da história. E
neamente. Ele começou a me contar como é vem no fio da biografia, porque, de repente, ele
que tinha mais diamante no passado. Como é começa a contar experiências que teve vivendo,
que tinha muito mais no tempo dos escravos. duas ou três dessas situações de trabalho.
Ele gostava muito de falar desse tempo, ele era É claro que a própria entrevista que é feita
negro. Então, eu pedi que ele me contasse desse com a pessoa varia muito, porque as pessoas
tempo. Eu dizia: “Seu João, já andei lendo, até, não são iguais. Quando a gente vai aplicar o
sobre essas coisas de diamante aqui no tempo questionário careta, daquele em que tudo vem

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pronto, em que as pessoas têm de responder sociopolítica das relações de produção naquele
aquilo, a gente uniformiza diferenças. O sujeito lugar, naquela região. Bom, eu tenho um costu-
pode ser tímido, desinibido, gago, bem falante, me que é o de misturar observações e entrevista.
que ele tem de responder daquele jeito. Quando Uma das coisas que eu acho que mais tem
se estabelece uma entrevista, mesmo que a comprometido uma certa qualidade de trabalho
gente tenha o roteiro, eu muitas vezes tenho um de campo é que, hoje em dia, esse dado tão rico
roteiro, ainda que não me sinta obrigado a do ver e compreender, do participar diretamente
cumpri-lo. É muito importante que se respeite a de relações sociais, e que mais uma vez eu quero
própria maneira como a pessoa se coloca numa dizer, não só é material de pesquisa como é
entrevista. Existem sujeitos, mineiros são muito material para ser pensado, para daí se fazer o
assim, que não vão se abrindo logo de saída. É roteiro da entrevista, isso tem sido abandonado
impressionante a diferença entre entrevistar um em favor da pura entrevista. E de uma entrevista
lavrador mineiro e um lavrador da Paraíba, nesse que se faz com gravador e que é padronizada,
sentido a diferença cultural é muito significativa. uma espécie de questionário mecânico, eletrô-
O lavrador da Paraíba agarra o gravador e não nico. Claro, eu não nego que isso produza uma
pára mais, você pode ir embora e voltar uma riqueza muito grande em termos de dados. Mas
hora depois. O mineiro muitas vezes tem de ser o que eu quero dizer é o seguinte: peguem, por
perguntado aos poucos, com idas e vindas, para exemplo, livros de sociologia ou de antropologia,
que, aos poucos, ele sinta que pode entrar na que sejam de sociedades primitivas ou então do
entrevista e dizer. E muitas vezes isso nem vai campesinato, e que o pesquisador articulou
acontecer. É o tipo de informante de quem vai dados de fontes secundárias, por exemplo,
coletar alguns dados e pronto. Ele não entrou informações de jornal, coleta de outros livros,
na intimidade da pesquisa, ele não vai se abrir, é de fontes como o IBGE, com observações dire-
um direito dele, eu não tenho por que obrigá-lo tas de vida social em suas várias dimensões com
a fazer o que ele não quer. entrevistas. Comparem isto com pesquisas em
A experiência de puxar uma entrevista pelo que o único meio de produção de conhecimento
fio de vida passa muito por aí. Existem pessoas foi entrevista, ou seja, aquelas que são análise
para quem o melhor caminho, em que elas se do discurso. Cada um tem um valor em si, mas,
sentem respeitadas e valorizadas, é quando se para a explicação daquilo que eu estou querendo
perguntam coisas que têm a ver com a comu- na minha pesquisa, ou daquilo que vocês querem
nidade, a partir da experiência delas, a expe- na de vocês, aquele primeiro procedimento é
riência de migrante, de trabalhador, de lavrador, muito mais rico, quer dizer, o procedimento em
de gente do povo, de artista popular. Para outras que vocês jogam com o material exegético, com
pessoas, esse perguntar pela vida ameaça. Então, material ideológico em formação, com a fala,
eles respondem, quando respondem, objetiva- com o discurso do sujeito, mas articulado com
mente, quando se pergunta como é que se faz aquilo que vocês viram, aquilo que vocês
aquilo. Muitas vezes é interessante num caso compreenderam, como descrições das relações
começar a pesquisa por um fio de vida, por uma que vocês, mais adiante, estarão tentando
história de vida e passar pra uma interpretação interpretar, com o material da fala, do discurso
mais analítica, mais crítica. Chegar até perguntas das pessoas que vocês viram vivendo, se rela-
do tipo: “O senhor não acha que esse regime de cionando, trabalhando e assim por diante.
trabalho é injusto para o trabalhador?”. Isso é Então, num momento da minha pesquisa,
uma pergunta lá do fim, às vezes de uma outra eu faço tudo ao mesmo tempo. Ou seja, eu estou
entrevista, que já implica, inclusive, uma catego- anotando no meu caderno de campo as coisas
ria de valor. O sujeito vai começar a avaliar como circunvizinhas daquilo que estou pesquisando e
interpretação de política popular as relações as coisas nuclearmente ligadas àquilo que estou
sociais que ele próprio vive. Muitas vezes, no pesquisando. Eu me dirijo aos locais, procuro
caso de um líder sindical, o sujeito começa por ver as diferentes situações em que aquilo está
aí, ele começa já dando de bandeja uma análise acontecendo. Uma pesquisa referente a festas

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BRANDÃO, CARLOS RODRIGUES. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.

e rituais religiosos, em que eu vou nesses lugares, “Seu Ataliba, no momento em que as pessoas
as melhores pesquisas que eu fiz a respeito disso estavam fazendo isso, o que isso queria dizer?
foram aquelas em que eu cheguei ao local antes Por que elas faziam assim? Por que esse homem
do acontecimento que eu queria pesquisar, dava uma flor para aquele outro? Que aquilo
convivi um pouco com as pessoas, assisti a quer dizer?”. Então, ele me explicava aquilo com
ensaios, vivi o contexto da preparação da festa, o simbolismo dele, que depois eu iria interpretar
e depois vivi a festa nas suas diferentes situa- estruturalmente.
ções: pessoal acordado, se reunindo, começando Uma parte das informações do seu Ataliba
a fazer a coisa; o pessoal, de repente, vivendo eram informações como: “Seu Ataliba, quantas
um momento importante do ritual. E eu vivi o pessoas ficam em cada lado?”. Isso não é ideo-
depois, depois que a coisa acabou eu fiquei lá, logia. “São doze pessoas.” Qualquer pessoa me
voltando aos locais com as pessoas, indo à casa responde que são doze pessoas de cada lado.
delas. A memória está quente, as pessoas estão “De que cor se vestem tais pessoas, e de que
ainda parece que embriagadas pelo que viveram, cor se vestem tais pessoas?” Dado, informação.
querem falar, querem comentar, inclusive, que- Outras eram respostas de interpretação, de exe-
rem dizer em cima do que aconteceu. Eu estou gese. “Seu Ataliba, por que são doze de cada
coletando, estou anotando. Eu estou, inclusive, lado? Por que que os mouros se vestem de
fazendo croquis de situações. Como é que, num vermelho e os cristãos de azul?” Aí, seu Ataliba
determinado momento, ou de trabalho familiar pode dizer uma coisa, talvez seu João vá dizer
ou então de um ritual, as pessoas estão ali outra. E eu vou interpretar em cima dessas dife-
organizadas: eu desenho a posição, o pai, o filho rentes falas. Eu acho que isso pode acontecer
ou, então, esse dançador aqui, e assim por diante. muito na pesquisa de vocês.
Em cima disso, eu estou perguntando às pes- Eu costumo, para o meu gasto, dizer o
soas. Muitas vezes, nesse momento, ao mesmo seguinte: que numa pesquisa existe um trabalho
tempo em que eu estou vendo e anotando, eu de observação sistemática. Chegar num lugar e
estou perguntando às pessoas. observar organizadamente, fazendo croquis,
Aquele meu trabalho, Cavalhadas de Pire- aquilo que está acontecendo, um acontecimento
nópolis, tem muito disso. Aparentemente, é uma ou, então, uma estrutura de relações. Pedir
pesquisa que não tem nada com o que a gente material a respeito. Se eu for numa escola, não
quer ver, quer analisar aqui. Mas ele ajuda pelo só observar as relações entre as diferentes
seguinte, porque eu tentei analisar um campo pessoas, funcionários, diretoras, professores,
de relações sociais dentro de uma festa. Então, alunos, pais e assim por diante, mas, também,
eu observei as Cavalhadas sendo corridas em pegar material, o estatuto da escola ou algum
Pirenópolis. Num determinado momento, eu me regimento que diga por que tem de ser assim e
sentei na beira do Rio das Almas (afluente do não de outra maneira. Outra coisa é isso que eu
Tocantins, onde se tomam banhos maravilhosos, chamo a observação participante, que é esse
inesquecíveis) com o sr. Ataliba, que foi o infor- conviver mais livre, mais pessoal, com a situação
mante único que deu quase que 60% das infor- que implica um envolvimento pessoal e implica
mações faladas. E, com ele ao meu lado, tendo um participar de momentos, de uma discussão
visto, inclusive, tendo desenhado coisas, eu fui com as pessoas que conversam no sindicato;
pedindo explicações. Então, vejam vocês, se eu ou participar de uma dança; ou participar de um
estivesse baixado de pára-quedas e dito: “Seu ritual religioso; ou participar de um trabalho.
Ataliba me conta como é que são as Cavalhadas, Outra coisa é a entrevista que produz dado.
me conta como é que as pessoas fazem, me Nas minhas pesquisas, muitas vezes até,
conta por que é isso”, o meu aproveitamento da eu classifico os meus entrevistados em três
riqueza do ritual seria um. Como eu convivi com categorias. Esse entrevistado de dado é o sujeito
as coisas, vi, me emocionei, desenhei, gravei, pobre de experiência, ou então o sujeito de expe-
fotografei, e como eu perguntei em cima disso, riência, mas fechado, de quem eu não consigo
meu aproveitamento foi outro. O que eu dizia: na entrevista mais do que alguns dados, mais do

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que algumas informações a respeito de como a outro, eu obtive dados de um especialista, em


coisa é. Depois o sujeito, o entrevistado, o infor- cima dos quais eu fiz a minha interpretação.
mante que me dá material crítico, que me dá Quando estou fazendo o meu trabalho de
realmente discurso: é o sujeito que fala, que campo, procuro estabelecer três momentos
explica, que me diz uma história de vida, que recorrentes, ou seja, três momentos que se
interpreta fatos. Depois, o que eu chamo de interpenetram. Vejam vocês, são momentos
informante especialista, o informante que não sucessivos, mas que acontecem dentro de uma
só produz dados populares com muita precisão, mesma prática, dentro de uma mesma semana.
como também é aquele que entende profunda- Eu levo algum material comigo de estudo, não
mente da coisa, e ele fala como um especialista. material teórico, porque, em geral, atrapalha. Eu
No caso de um trabalho camponês, é difícil você levo outras pesquisas que têm a ver com minha
localizar esse homem, porque todos são mais pesquisa. Então, se eu estou pesquisando traba-
ou menos sabedores do mesmo nível, mas, no lho camponês, eu levo pesquisas, por exemplo,
caso de um trabalho artesanal, no caso de um do pessoal do Museu Nacional a respeito disso.
trabalho profissional qualificado como o trabalho Eu leio aquilo, leio nos meus momentos de
de pequenos fabricantes de coisas numa comuni- cansaço, quando eu estou em casa descansando
dade rural (o carapina rural, o ferreiro rural, o de entrevistas, de andanças, e assim por diante.
benzedor, o rezador, o curandeiro), existem pes- Levo o meu projeto, levo as minhas anotações
soas que são especialistas. Então, eles vão ofere- anteriores à pesquisa e de durante a pesquisa.
cer dados de especialista. Vão fazer interpre- Leio, releio, tento ver até que ponto eu estou
tações de especialistas. Esse seu Ataliba, no dentro de uma proposta de pesquisa preesta-
caso de Cavalhadas de Pirenópolis, era um belecida, até que ponto meu material de campo
especialista, eu tive a sorte de encontrar numa está precisando ser modificado, ou se está
mesma pessoa não só um sujeito que se abria, precisando modificar meu projeto, e assim por
ainda que timidamente – era um homem muito diante. Então, este é o momento de estudo, de
tímido, mas que empatizou comigo –, como um reflexão. Por outro lado, eu realizo a pesquisa
especialista: ele tinha plena consciência de que, propriamente, aquilo que eu vim falando até aqui,
quando ele me explicava aquilo, ele explicava ou seja, eu entrevisto, eu convivo com as pessoas,
realmente como a coisa é. E quando é. E, quan- eu observo, eu anoto, anoto à mão uma entrevis-
do eu ia perguntar a outras pessoas do ritual, a ta, ou quando uma entrevista é rica e eu quero
informação era muito mais pobre e elas termi- todo o discurso, eu gravo, então, eu procuro saber
navam dizendo: “Por que que você não vai se há condições para isso, digo para a pessoa
conversar com seu Ataliba?”. A mesma coisa que eu quero gravar, não gravo escondido, eu
quando eu fiz meu trabalho, ainda em Pirenópolis, mostro para ela a fala dela, eu digo para que eu
sobre o reinado de Nossa Senhora do Rosário e vou usar aquilo. E, num outro momento ainda,
o Juizado de São Benedito: eu trabalhei basi- eu processo meu material.
camente com um homem chamado seu Jackson, Tem muita gente que faz assim: quando está
um sujeito, inclusive, muito sem graça do ponto no campo, só faz a pesquisa de campo, vai
de vista de pessoa humana. Se eu tivesse guardando as suas anotações, os seus desenhos,
pensando do ponto de vista de tipos interes- vai guardando as suas fitas e deixa esse proces-
santes, ele não me atrairia jamais, mas era um samento para um momento posterior, por exem-
sujeito especialista no assunto, quer dizer, aquele plo, para quando voltar para Campinas ou para
que há anos se responsabilizou por aquele Belo Horizonte. Eu tenho um costume diferente.
trabalho e que, conseqüentemente, sabia me Quer dizer, embora eu vá escrever lá depois, eu
dizer como a coisa é, ou como ele interpreta trabalho meu material no campo mesmo, minhas
que a coisa seja. Então, eu entrevistava várias fitas gravadas eu ouço lá mesmo. Vou fazer
pessoas, diferentes categorias de pessoas, uma confissão para vocês: muitas vezes eu chego
obtendo de cada uma um tipo de material. Mas em casa, vou fazer um pouco de ginástica, vou
do seu Jackson, num caso, e de seu Ataliba, no tomar um banho, ligo o gravador e escuto uma

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BRANDÃO, CARLOS RODRIGUES. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.

entrevista que eu fiz naquele dia. Não só aquilo que eu copiei ali em cima da perna na hora, eu
me reacende idéias, como também me mostra recopio de uma forma mais articulada, eu dese-
falhas: momentos em que eu estava cortando a nho com croquis, às vezes eu ponho um dese-
pessoa na fala dela, momentos em que eu nho, coisas da minha observação e coisas de
enfatizei um ponto importante e deixei coisas uma entrevista, ou de uma entrevista ou de um
importantes de lado, momentos em que eu obri- momento em que eu liguei o gravador e deixei
guei o sujeito a ir para uma direção de pesquisa as pessoas conversando livremente. Esse é o
que eu queria, enquanto ele queria explorar outra momento, vejam vocês, que eu tenho não mais
coisa. Então, escuto. Muitas vezes, escutando o que eu chamaria de dado bruto, que é a minha
uma entrevista anterior, eu escrevo aquilo como pesquisa tal como ela está na fita ou na minha
um roteiro seguinte, que tem de ser objeto de caderneta de campo, e nem o relatório, que já é
uma próxima entrevista. Às vezes, com um o meu material interpretado, descrito, analisado.
informante eu faço cinco, seis, sete, oito, dez Eu tenho o que eu chamo o dado articulado.
entrevistas. Para vocês terem uma idéia, eu Eu, muitas vezes, ali já faço uma espécie
acabei de deixar em Goiânia com um mestre de de pré-articulação com o material teórico. Por
folia, chamado Aladares, três cadernos de exemplo, eu venho descrevendo esses aconteci-
duzentas páginas de desgravações de fita. mentos dessa manhã e digo: olha, isso tem a ver
Setenta por cento desse material foram entre- com coisas que a Maria Isaura Pereira de Quei-
vistas feitas com um mestre de folia só, mestre roz descreve num trabalho camponês em tal
Messias, que, inclusive, foi mestre desse Alada- bairro na periferia de São Paulo e tem a ver
res. Então, foi um trabalho de anos, desde 1975 também com o que eu li em tal autor a respeito
eu gravo esse homem, que já morreu. Então eu de uma comunidade camponesa na Irlanda. Por
gravei, tirei tudo que eu precisava para um outro lado, analisar até que ponto essas relações
relatório de pesquisa que eu estou fazendo agora não são relações de tal modo, porque trocas de
sobre reprodução do saber no contexto ritual- serviços agrários ainda não estão passando por
religioso, e devolvi esses cadernos para o uma relação plenamente capitalista, ver isso em
Aladares, na situação até interessante, em que tal pessoa e tal pessoa, em Karl Marx, José
a fala de um mestre de folia, que serviu de César Gnaccarini, Niuvenius Paoli e José de
material para a minha pesquisa, foi devolvida Souza Martins. Eu não estou ainda discutindo,
para um discípulo dele que vai poder agora ler eu estou apenas tentando ligar fios, quando eu
aquilo e perpetuar aquele ensino daquele mestre. for escrever meu relatório de pesquisa, aí eu
Bom, então, no campo eu faço isso. Depois lanço mão de tudo. Aí é o momento em que
eu tenho esse costume que eu falei pra vocês e retrabalho o meu material. Aí eu já estou em
que quero voltar a ele. Nas noites dos dias de casa, eu vou reouvir minhas fitas, vou pagar
pesquisa eu pego um caderno, no meu caso é alguma pessoa para transcrever essas fitas para
um cadernão de capa preta, desses cadernos mim. Eu costumo fazer o seguinte: transcrevo
de ata, bem costurado e bem grande para não essas fitas, batendo à máquina com uma cópia
perder, e eu transcrevo coisas importantes. Às ou duas. Estabeleço um código, por exemplo,
vezes, até, quando uma entrevista gravada foi C-01, Catuçaba, o lugar onde estou pesquisando,
muito importante, eu transcrevo ali na hora, ou fita nº 1. Então eu guardo o original na íntegra,
a entrevista inteira ou pedaços dela. Por exem- que é o discurso completo de um lavrador desse
plo, eu ponho os acontecimentos do dia 5 de povoado, depois, numa cópia, eu recorto momen-
janeiro em Catuçaba, S. Luís do Paraitinga: “Hoje tos da entrevista que têm a ver com diferentes
passei a manhã com seu Vicente. Ele tinha de assuntos: quando ele está explicando como era
resolver um problema de limpa de um terreno e o trabalho camponês no tempo antigo; quando
chamou alguns companheiros para ajudá-lo. ele está explicando um momento fundamental
Então não foi propriamente um mutirão, mas foi de transformações, como a introdução do gado
um quase mutirão, e foi o que eu observei essa leiteiro nessa área, ou a concentração da
manhã”. Eu começo a descrever isso. Aquilo propriedade fundiária; quando ele está expli-

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SOCIEDADE E CULTURA, V. 10, N. 1, JAN./JUN. 2007, P. 11-27

cando as relações atuais de trabalho; ou quando artigos, monografias, que têm a ver com a minha
ele está explicando dados tecnológicos do pesquisa. E livros, artigos, cuja teoria também
trabalho de agricultura do milho ou do feijão. tem a ver com a minha pesquisa. Então, de
Claro, em cima da minha proposta de pesquisa, repente, eu tenho todo o material classificado e
eu sei quais são os tópicos que me interessam. articulado.
Então, eu posso fazer um fichário. Eu recorto Muitas vezes até, no campo, eu já estou
os pedaços da entrevista, colo em fichas. Eu fazendo esse trabalho, como eu digo a vocês,
vou fichando, por exemplo, descrição das ao mesmo tempo em que estou observando
relações de trabalho no passado, descrição das lavradores trabalhando, convivendo com eles e
relações atuais entre fazendeiro e camponês, entrevistando e ligando o gravador para captar
descrição das relações atuais da família campo- falas espontâneas, eu estou lendo outras pesqui-
nesa, descrição das relações atuais entre campo- sas a respeito. Então, muitas vezes, nesse cader-
neses, observações sobre tecnologia do trabalho no grande, eu repito, eu já coloco: esses dados
agrícola, mitos e histórias populares ligadas ao tão importantes para determinado momento em
trabalho, e assim por diante. Então, em pastas que eu pretendo estar explicando certas transfor-
eu tenho as entrevistas completas, e dentro desse mações dentro da família camponesa com
fichário eu tenho essas mesmas entrevistas relação ao trabalho estão, principalmente, na
recortadas por assuntos, e nos meus cadernos entrevista que eu fiz com seu Vicente, fita CA-
de campo, nas minhas cadernetas, eu tenho as 03, na entrevista que eu fiz com seu João Vaes,
minhas observações. Muitas vezes eu anoto na fita PO-08, na entrevista que eu fiz com seu
caderneta de campo: ver fita C-03 de 5 de janeiro Jonas, fita FE-05, na caderneta de campo nº 3,
de 83, ou seja, eu entendo que aquilo que eu das páginas tal a tal, aqui, nesse caderno de
estou descrevendo ali está naquela fita, ou como organização dos dados, de tal a tal lugar, de tal a
uma gravação feita no momento em que as tal página, algumas observações importantes eu
pessoas trabalhando estavam conversando, ou encontrei no Vapor do diabo, do José Sérgio
numa entrevista que eu fiz com alguém. Eu tenho Leite Lopes, principalmente no quinto capítulo,
as entrevistas completas, as entrevistas frag- e encontrei também no A nação dos homens,
mentadas e classificadas por assunto dentro de da Lígia Sigaud, no capítulo 6º, isso tem a ver
um fichário e o meu material de campo. Além com alguma coisa que eu andei lendo no Antonio
disso, nesses cadernos maiores, eu tenho esses Gramsci, quando ele vai falar do campesinato
dados já articulados, produto de um material do sul da Itália em tal livro, em tal capítulo. Isso
antecedente, que foi processado no campo e que já é uma articulação de dados. Eu só estou
eu posso continuar processando depois. explicando aqui, porque, muitas vezes, eu faço
Quando eu vou fazer o meu relatório, eu aí isso lá no local da pesquisa.
vou estabelecer o meu roteiro do relatório de Não sei se valeria a pena, dentro dessa
pesquisa, que nem sempre é o roteiro do projeto, conversa, voltar a coisas muito simples para
que muitas vezes até é o projeto muito modi- discutir certos procedimentos de pesquisa.
ficado. Aí, o meu primeiro trabalho, qual é? Quando eu chego numa comunidade, eu procuro,
Estabelecer que tipo de material eu tenho para em primeiro lugar, chegar com algum conheci-
cada um dos meus momentos de análise. Se mento prévio. Então, para dar um exemplo,
vocês quiserem, para a introdução, para o pri- quando a minha pesquisa é num povoado, eu
meiro capítulo, para o segundo, para o terceiro, vou na sede do município e lá eu entro em contato
para o quarto, para o quinto, para o sexto, e para com as instituições estatais, municipais, religio-
a conclusão. Que entrevistas, que tópicos do meu sas, particulares, políticas, que possam me forne-
fichário, que lugares de meu caderno de campo, cer dados a respeito: a Emater; o serviço de
que lugares desse cadernão com material erradicação da malária, que, pelo menos em
articulado. Mais adiante (isso é papo para uma Goiás, tinha mapas excelentes, localizando casa
outra fita, uma outra conversa aí em Belo por casa, de cada povoado; o Incra, que me
Horizonte) eu vou relacionar isso com livros, emprestou em Goiás cadastros de propriedades

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BRANDÃO, CARLOS RODRIGUES. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.

fundiárias; a “Casa do Agricultor”; a Secretaria tempo, porque eu não gosto muito de trabalho
de Saúde; a Secretaria de Educação; outros com arquivo, eu vou aos jornais. Na minha
setores da prefeitura; a paróquia católica; uma pesquisa de Itapira, dos Deuses do Povo, eu
igreja evangélica; o sindicato do trabalhador fiquei um mês e meio trabalhando com jornais,
rural; uma escola de samba, e assim por diante. porque no caso era muito importante, pois eu
Mapas, listagens, documentos. estava reconstruindo a história política das reli-
Uma outra coisa que eu gosto de fazer é giões do lugar e os jornais, sobretudo nos anos
ler a respeito daquele lugar nos livros que, do passado, fim do século XIX e meados deste
porventura, tenha. Em Minas Gerais, era muito século XX, produziram muito material a respeito.
comum nos municípios se fazer almanaques. No Quando eu chego lá, na comunidade, eu já chego
sul de Minas isso é comuníssimo, Almanaque com esse conhecimento prévio.
de Pouso Alegre 1936; então, embora seja feito Quando eu chego na comunidade, num
por leigos, não-especialistas, tem muitos dados primeiro momento, como disse a vocês, não vou
a respeito da própria história do lugar. Tem muito, diretamente às pessoas com quem quero traba-
inclusive, a ideologia das classes dominantes, de lhar. Se eu vou fazer uma pesquisa sobre a vida
intelectuais eruditos dessas classes do lugar. Às religiosa do lugar, não vou diretamente aos
vezes, a gente vai encontrar material do que eu agentes religiosos, a não ser que seja o que eu
chamo os pequenos sábios do lugar, quer dizer, chamo uma pesquisa de emergência, quando
pessoas da comunidade, um advogado, um juiz, estou num lugar onde eu só vou aquela vez,
um professor que escrevem sobre o lugar. Ainda quero obter dados para escrever um artigo,
ontem mesmo eu estava lendo um livro horrível tenho apenas aquela semana, então não posso
do ponto de vista de português e do ponto de me dar ao luxo de passar aquela semana fazendo
vista da explanação de uma vida comunitária, um trabalho de aquecimento e de me dar a
mas importantíssimo do ponto de vista de dados, conhecer, mas, quando eu tenho condições, eu
que era um livro escrito por uma mulher mora- não vou diretamente. Eu procuro ir contactando
dora em Itapirapuã e resolveu fazer um livro pessoas a esmo. O dono de um bar, a pessoa
sobre a terra natal. Isso em Minas deve ter aos que está me acolhendo na sua casa, pessoas
montes. Na minha pesquisa sobre a cultura do que eu encontro na rua, e assim por diante.
garimpeiro em Diamantina, muita coisa eu vou Apenas um parêntese machista: é verdade que,
obter de livros antigos e atuais, inclusive de dentro da cultura em que a gente vive, tudo isso
documentos sobre Diamantina. Eu trabalho com é muito mais fácil para homem do que para
mapas, com dados censitários, com esses livros, mulher. Eu reconheço que uma das áreas onde
livrecos, almanaques, artigos e assim por diante. há uma injustiça social muito grande é nessa
Fora material de pesquisa que evidentemente área de pesquisa de campo. Por exemplo, eu
tem a ver com isso. Por exemplo, na minha posso entrar com uma grande tranqüilidade em
pesquisa na Serra do Mar, embora não esteja qualquer bar, beber pinga com as pessoas e daí
pesquisando no município de Cunha, eu tenho o tirar uma camaradagem que produza dados.
trabalho do Emílio Willems sobre Cunha, Uma Quero ver a Derly fazer isso. Ela vai ter de
vila brasileira: tradição e transição, e tenho entrar através de mulheres, vai ter de chegar
o trabalho de Robert Shirley, O fim de uma devagarinho, conversar com donas de casa,
tradição. Então, eu vou trabalhar em cima conversar com a freirinha do lugar, quer dizer,
desses dados, porque aqui, embora não seja o ela vai ter de entrar pela porta, que não faça
mesmo município, certas relações antigas e com que a comunidade estereotipe sobre ela,
atuais de produção de vida social têm muita então, isso é uma porta de entrada, entrar por aí.
compatibilidade, então isso me ajuda, isso me Bom, se eu tenho definido o que eu quero
faz a cabeça. Eu chego no lugar já com esses pesquisar, se estou sabendo com que categorias
dados. Quando, por exemplo, o município tem de sujeito eu quero trabalhar, a partir do momen-
jornal, muito comum em São Paulo e no sul de to em que esse aquecimento, que eu descrevi
Minas, desde o passado, e quando eu tenho no começo da fita, foi feito, eu começo a ir às

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pessoas. Eu, em geral, dou uma explicação do uso muito de fazer entrevista dentro de um
porquê que estou fazendo essa pesquisa, que contexto coletivo. Se eu estou no meio de uma
não precisa ser a explicação verdadeira, inclu- Folia de Reis, em vez de conversar com o mestre,
sive, porque, muitas vezes, as pessoas nem com o alferes, com o folião sempre numa relação
sabem entender. Eu digo que sou um professor dual, chega num determinado momento, por
de colégio, que estou tentando reconstruir a exemplo, que tem uma gente comendo numa
história daquele lugar, que tenho interesse em sala de casa, eu entro lá, com meu prato na mão
conhecer os costumes, e assim por diante. Muitas e puxo o assunto em geral. Eu evito muitas vezes,
vezes até, eu perco um tempo em deixar que as sobretudo nessas situações, essa entrevista
pessoas forneçam um dado que não é interes- profissional, que é uma coisa, às vezes, horrorosa,
sante, para que as pessoas forneçam um dado imaginem vocês: uma pessoa entrar pela casa
que é mais fácil para elas. Aquilo que eu já tinha de vocês, se apresentar, sentar e começar
falado também quando eu estava discutindo as malhar vocês de perguntas. Eu prefiro fazer
categorias de entrevistas. A partir daí, as pessoas diferente. Eu prefiro provocar a produção de
às vezes começam a falar: “Bom, aqui tem isso, material, em cima de uma observação. Eu sento
aqui tem aquilo”. Não é o que me interessa, mas e digo: “Oh, pessoal, mas vocês cantaram bonito
é por onde a pessoa liga um fio, entre aquilo que agora, heim? Faz muito tempo que eu não ouço
ela acha que eu quero e aquilo que ela sabe um cantorio tão bonito”. Disse alguma coisa que
falar naquele primeiro momento. Então, eu vou faz com que as pessoas se sintam empati-
por aí também. A partir daí, eu não só começo a camente ligadas a mim e digo alguma coisa que
conversar com as pessoas, como eu começo a vai produzir das pessoas um comentário. “É. A
fazer um inventário de informantes, que é per- gente cantou bem. É porque aqui nessa casa a
guntar para elas quais são as pessoas que elas gente canta com muita vontade, porque o dono
acham que poderiam me ajudar mais nisso que dela é um folião muito amigo, é o velho que a
eu quero. Quando a pesquisa é bem definida, gente quer muito bem.” Eu provoco, eu deflagro
como essa pesquisa de reprodução de saber, no e deixo o pessoal seguir aí em frente. Essa
momento que as pessoas entendem, elas têm pesquisa coletiva às vezes fica um pouco difícil
dados objetivos: o senhor vai procurar a profes- de ser desgravada, porque, só ouvindo as
sora tal, sobre isso o senhor vai procurar o seu pessoas, a gente não sabe quem está falando o
Messias, que é o sujeito que entende muito desse quê. Mas, por outro lado, ela tem uma riqueza
assunto de benzeção, sobre essa questão de muito grande, porque as pessoas estão mais
trabalho você vai procurar tal pessoa, e assim soltas, e porque as pessoas vão se desafiar
por diante. mutuamente. A mesma coisa que a gente vê
Então eu faço esse inventário e começo a quando, na televisão ou no rádio, assiste a um
ir nas pessoas, eu uso muito o seguinte: pedir intelectual interpretando as eleições e assiste a
que pessoas me levem a pessoas. Isso ajuda uma mesa-redonda, em que sujeitos de
extraordinariamente. Quer dizer, no momento tendências diferentes ou de tendências seme-
que você fez familiaridade com uma pessoa, que lhantes, mas com opiniões diferentes, estão
você não é mais um estranho e que você já interpretando aquela situação.
entrevistou, já ouviu, já cantou, já bebeu pinga Então, vejam vocês, para concluir esta fita
com aquela pessoa, coisa que eu posso fazer e a nossa conversa. Por que não tem muito livro
com liberdade e que a Derly vai ter de fazer de métodos e técnicas de pesquisa em antropo-
com grande moderação, eu peço a ela que me logia? Porque, embora haja teoria antropológica,
leve a outra pessoa, um compadre, um vizinho, método de pesquisa, ou melhor, métodos de
um alguém. Então, o relacionamento com essa pesquisa, abordagens diferentes, a prática da
outra pessoa já fica muito mais fácil. Não é raro, pesquisa vai muito em cima de uma relação
inclusive, que eu vá a essa segunda pessoa com pessoal. Eu nunca aprendi entrevista, eu acho
a primeira e, com a segunda, eu faça uma que eu tenho muito de aprender ainda, em cima
entrevista a três, a primeira, a segunda e eu. Eu de manual. Já li, já li entrevistas, já li manuais de

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BRANDÃO, CARLOS RODRIGUES. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.

entrevista, na psicologia tem muitos manuais de até se aborrece quando a gente vai e não leva o
entrevista psicológica, manuais até de entrevista gravador. Dá informações. Opina. Mas, sobre-
terapêutica. Na antropologia é mais raro. A tudo no começo do trabalho, quando o grau de
observação, o ver, o anotar, a entrevista, a confiabilidade ainda é pequeno, muitas vezes faz
pesquisa sistemática, o momento participante vai isso através de uma atitude defensiva, que é essa
muito da pessoa. O que eu acho que educa e de um espelhar a sua resposta, ou seja, ao invés
ajuda a gente é cada um descobrir o seu estilo, de dizer a coisa como pensa, ela diz de uma
ou seja, ainda que a proposta seja coletiva, e maneira não comprometedora e ao mesmo
ainda que a abordagem teórica seja uma, tempo de uma maneira não ofensiva, ou seja,
assumida por todos, a prática concreta da muitas vezes, para o camponês, dizer uma coisa
pesquisa é uma coisa que vai pela relação pessoal que ele pensa que é o que a gente não quer
e aí cada um tem de descobrir o seu estilo. ouvir é alguma coisa que nos ofende, e por isso
Claro, algumas coisas devem existir como ele só diz o que a gente quer ouvir. Então, é
regras. Existe uma regra muito importante, é preciso ter um cuidado muito grande para ser
curioso como é que algumas coisas não passam sensível a essa possibilidade da resposta cortês-
pela cabeça de certos pesquisadores, o pesqui- espelho, esse é o momento em que, sem interferir
sador, ele pode ser militante do PT, mineiros com o juízo de valor, a gente pode fazer questio-
podem ser do PMDB, mas de preferência do namentos em cima da entrevista, para que o
PT. Bom, no momento da pesquisa, ele é um informante se sinta obrigado a se definir. Um
pesquisador. Não quer dizer que ele seja um exemplo: ele está dizendo que ele trabalha em
sujeito neutro do ponto de vista positivista, mas terra alheia, recebe na meia, e depois de descre-
ele é um sujeito que não emite necessariamente ver como é que ele trabalha, o seu regime, o
juízos de valor sobre a conduta social ou seu “rejume”, como dizem alguns, ele vai dizer
simbólica dos outros, para não condicionar as que é assim mesmo. É o momento em que posso
respostas dos outros. No momento em que um dizer: “Mas seu João, o que que o senhor acha,
lavrador está me interpretando a sua visão real, por exemplo, se cada lavrador como o senhor
se essa visão for terrivelmente alienada do ponto tivesse a sua própria terra?”. “Ah, aí era bem
de vista dessa estranha coisa chamada cons- melhor.” “E o senhor acha, seu João, que isso
ciência de classe, eu não tenho nada que ver podia acontecer?” Ele vai dizer. Se ele disser
com isso. Se eu começar fazer ver a ele ali, no que não. “Por quê?” Se ele disser que sim. “Por
momento, que o que ele está me dizendo é uma quê?” As perguntas se sucedem. No momento
impropriedade, é um absurdo do ponto de vista em que a gente sente que o seu João se fecha,
do pensar de uma pessoa que é explorada e não é porque ele está sendo ameaçado com essas
se reconhece como tal, ele, ou vai se fechar, ou perguntas. Então, talvez seja a hora de retornar
vai começar a fazer aquilo que eu chamo a um pouco aquém e dizer: “Bom, seu João, vamos
resposta de espelho: ele vai responder para mim voltar naquela história que o senhor estava me
aquilo que ele quer dizer, porque é aquilo que contando, como é que o senhor planta feijão?”.
ele pensa que eu quero ouvir. Mineiro, então, é Jogo de cintura pessoal, capacidade de sentir
especialista nisso. Vocês sabem muito bem, vide através das pessoas, não através da gente. Eu
o nosso governador, o eleito [Tancredo Neves]. tenho um roteiro, mas o meu principal roteiro é
Este é um dado importante. Como a pesquisa minha sensibilidade, a minha vivência. Eu tenho
implica uma relação ameaçadora, ou seja, eu a impressão que o melhor mestre de cada um
estou intervindo em vidas, eu estou fotografando, de nós é cada um de nós. Então eu acho que se,
gravando, anotando... eu estou captando segre- de um lado, vale a pena fazer ouvir essa fita,
dos, opiniões, atitudes e provavelmente não vou discutir, ler algum manual de pesquisa, acho que
devolver nada em troca, a comunidade joga com muito mais importante é trabalhar no campo o
essa relação, cada pessoa joga com essa relação. tempo todo revendo o material de campo. Então
Produz informações, se deixa fotografar, se deixa eu volto àquilo, reouvindo fitas, voltando às
gravar. Às vezes, até gosta muito. Às vezes, anotações. Perguntando-se se coisas que devem

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SOCIEDADE E CULTURA, V. 10, N. 1, JAN./JUN. 2007, P. 11-27

estar sendo conhecidas estão sendo conhecidas. outros momentos nós poderíamos trabalhar, aí
O que é que está faltando. Quais são os pontos sim, numa relação face a face, discutindo, quem
de resistência. Quais são as coisas a respeito sabe, a partir do material de campo de vocês
das quais está sendo difícil perguntar. Está sendo num determinado momento. Como poderia ser
difícil responder, por quê. Ter consciência de o retorno e como, inclusive, esse retorno poderia
que numa pesquisa, muitas vezes, a coisa mais ser produtivo.
importante são as respostas que não foram Gente, um feliz 83 e bom trabalho de campo.
perguntadas, as coisas que fluem e saem livre- Até a próxima.
mente. Ser capaz de fazer com que o próprio
trabalho de pesquisa, constantemente reouvido,
reavaliado, ali na própria situação de campo ou
Abstract: This essay deals with the experience in field
individualmente ou coletivamente, seja o fio do work and the kind of knowledge produced by the
aprendizado da própria prática de pesquisa. Isso ethnographyc encounter. Here are discussed personal
é uma coisa que eu acho que ajuda muito e é estrategies that can be used in inicial dialogic approach,
por onde eu tenho procurado aprender aí. especially in peasants communities, and the ethic
dilemmas faced by the ethnographer in the field work and
Bom, a fita está terminando. Vamos ficar at home.
por aqui. Nós temos mais ou menos uma hora
Key words: field work methodology; peasants commu-
de gravação, quase sem interrupção. Eu espero nities; ethnography.
que isso seja útil para vocês. Eu acho que em

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