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Calvin S.

Hall
Gardner Lindzey
John B. Campbell
Teorias
da
Personalidade

4ª Edição
TEORIAS DA PERSONALIDADE 1

Teorias
da
Personalidade
2 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

H174h Hall, Calvin S.


Teorias da personalidade [recurso eletrônico] / Calvin S. Hall, Gardner
Lindzey, John B. Campbell ; tradução Maria Adriana Veríssimo Veronese. –
Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2007.

Editado também como livro impresso em 2000.


ISBN 978-85-363-0789-3

1. Psicotipologia. I. LIndzey, Gardner. II. Campbell, John B. III. Título.

CDU 159.923

Catalogação na publicação: Júlia Angst Coelho – CRB 10/1712


TEORIAS DA PERSONALIDADE 3
Calvin S. Hall
University of California, Santa Cruz, California

Gardner Lindzey
Center for Advanced Study in the Behavioral Sciences, Stanford, California

John B. Campbell
Franklin & Marshall College, Lancaster, Pennsylvania

Teorias
da
Personalidade
4ª Edição

Tradução:
MARIA ADRIANA VERÍSSIMO VERONESE
Psicóloga

Consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição:


ANTÔNIO CARLOS AMADOR PEREIRA
Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.
Professor da Faculdade de Psicologia da PUC-SP.

Versão impressa
desta obra: 2000

2007
4 Obra originalmente publicada sob o título
HALL, LINDZEY & CAMPBELL
Theories of personality
© John Wiley & Sons, Inc., 1998
ISBN 0-471-30342-9

Créditos das fotografias:

Capítulo 2: Página 51: © Archiv/Photo Researchers. Página 52: © Edmund Engleman. Capítulo 3: Página
87: Karsh/Woodfin Camp & Associates. Capítulo 4: Página 119: Cortesia de Alfred Adler Consultation
Center. Página 129: Rene Burri/ Magnum Photos, Inc. Página 134: Horney Clinic/Corbis-Bettmann. Página
139: Cortesia de William Alanson White Psychiatric Foundation. Capítulo 5: Página 166: Jon Erikson/Cortesia
de Clarke-Stewart. Capítulo 6: Página 192: Cortesia de Harvard University News Office, Cambridge, MA.
Capítulo 7: Página 225: Cortesia de Harvard University News Office, Cambridge, MA. Capítulo 9: Página
293: Cortesia de Hans Eysenck/The Institute of Psychiatry, The Maudsley Hospital, Londres. Capítulo 10:
Página 318: Archives of the History of American Psychology. Página 330: Cortesia de Dr. Ricardo Morant,
Department of Psychology, Brandeis University. Capítulo 11: Página 351: Cortesia de National Library of
Medicine. Página 355: Archives of the History of American Psychology. Página 364: Charles Schneider
Photography. Capítulo 12: Página 391: Christopher S. Johnson/Stock, Boston. Capítulo 13: Página 423:
Cortesia de Yale University. Página 425: Stella Kupferberg. Capítulo 14: Página 461: Cortesia de Albert
Bandura. Página 479: Cortesia de Walter Mischel.

Capa:
JOAQUIM DA FONSECA

Preparação do original:
NARA VIDAL

Supervisão editorial:
LETÍCIA BISPO DE LIMA

Editoração eletrônica e filmes:


GRAFLINE EDITORA GRÁFICA

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à


ARTMED® EDITORA S.A.
Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana
90040-340 Porto Alegre RS
Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070

É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,


sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação,
fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora.

SÃO PAULO
Av. Angélica, 1091 - Higienópolis
01227-100 São Paulo SP
Fone (11) 3665-1100 Fax (11) 3667-1333

SAC 0800 703-3444


TEORIAS DA PERSONALIDADE 5

Para nossos professores e amigos

Gordon W. Allport
Henry A. Murray
Edward C. Tolman
TEORIAS DA PERSONALIDADE 7

Prefácio

A edição original de Hall e Lindzey (1957) definiu o campo da personalidade, levou a dezenas de
livros didáticos sobre a teoria da personalidade, gerou centenas de cursos em nível de graduação e
pós-graduação nas universidades e manteve-se como um texto clássico por meio de duas revisões.
A terceira edição (1978) tem agora 20 anos de idade. A maior parte do material dessa edição ainda
permanece relevante, mas ela ficou desatualizada em dois aspectos. Primeiro, as teorias enfatiza-
das excluem várias posições de grande importância contemporânea. Segundo, o texto obviamente
omite qualquer referência ao corpo de pesquisas realizadas nos últimos 20 anos. A quarta edição de
Hall e Lindzey foi preparada para corrigir as inadequações decorrentes da passagem do tempo. É
importante enfatizar, entretanto, que esta quarta edição não altera aqueles atributos responsáveis
pelo duradouro valor de Hall e Lindzey. Isto é, a revisão trata as teorias da personalidade central-
mente importantes de uma forma abrangente, rigorosa e agradável. Este texto destina-se aos pro-
fessores e aos alunos que acolhem com satisfação esta abordagem.
A necessidade de incluir materiais novos, combinada com as inevitáveis limitações de espaço,
obrigou-nos a tomar difíceis decisões sobre as teorias a serem incluídas. Nós retiramos, relutante-
mente, os capítulos sobre a abordagem de Sheldon e as abordagens existencial e oriental, apesar de
seu persistente apelo. Além disso, omitimos o capítulo sobre os modelos organísmicos, mas incor-
poramos ao capítulo sobre Carl Rogers porções do material sobre Kurt Goldstein e Abraham Mas-
low. Da mesma forma, retiramos o capítulo sobre Kurt Lewin, mas parte do material foi acrescenta-
da a um novo capítulo sobre George Kelly. Também incluímos novos capítulos sobre Hans Eysenck,
que foi mencionado no capítulo sobre Raymond Cattell na terceira edição, e sobre Albert Bandura,
previamente incluído no capítulo sobre estímulo-resposta. Essas mudanças, juntamente com as
revisões dos capítulos da terceira edição, pretendem produzir um texto que apresentará ao leitor as
teorias mais diretamente relevantes para o trabalho atual em personalidade e nas áreas relaciona-
das.
Esta revisão será familiar para os leitores que conhecem as edições anteriores de Hall e Lindzey.
Mantivemos a prática de apresentar cada posição teórica da maneira mais positiva possível, e o
formato de cada capítulo foi amplamente preservado. Acrescentamos uma relação de conteúdos
ampliada para orientar o leitor, e um resumo esquemático no início de cada capítulo. Em uma nova
tentativa de ajudar o leitor a compreender as diferentes teorias e seus inter-relacionamentos, divi-
dimos as teorias em quatro grupos. Os teóricos desses grupos são distintos, mas compartilham uma
ênfase comum, que pode estar na psicodinâmica, na estrutura da personalidade, na realidade per-
cebida ou na aprendizagem.
8
VIII HALL, LINDZEY & CAMPBELL
PREFÁCIO

Queremos alertar o leitor para várias considerações gerais. Primeiro, continuamos fiéis a uma
abordagem “de teóricos” da personalidade, em vez de uma abordagem “de pesquisa” ou “de tópi-
cos”. O aspecto distintivo dos modelos de personalidade é o reconhecimento e a preservação da
integridade fundamental dos indivíduos, conforme salientado no Capítulo 1. Os textos organizados
em função de classes de comportamento ou de unidades estruturais ou dinâmicas inevitavelmente
prejudicam essa integridade. Segundo, esta apresentação enfatiza traduções de constructos por
meio das teorias. Por exemplo, Freud e Rogers propuseram um modelo de conflito, embora os
modelos difiram substancialmente em suas suposições e operações. Cattell também discutiu o con-
flito, mas tentou defini-lo quantitativamente. Freud, Kelly e Rogers enfatizaram a ansiedade, po-
rém definiram o constructo de maneiras muito diferentes. Bandura enfatizou a auto-eficácia, que,
por sua vez, soa como a busca de superioridade de Adler, a motivação para a eficiência de White e
o princípio de domínio e a competência de Allport. A dinâmica do self, apresentada por Karen
Horney, antecipa claramente a formulação muito influente de Carl Rogers uma geração mais tarde,
e assim por diante. Essas traduções são interessantes em si mesmas. Além disso, elas demonstram
a existência de conexões entre as teorias. Por extensão, existe substância no constructo da persona-
lidade. Finalmente, acreditamos que é importante mostrar conexões entre as teorias da personali-
dade e as pesquisas atuais. Essas teorias têm valor heurístico. A nossa agenda, nem tão oculta, visa
a mostrar que esses modelos de personalidade não são dinossauros desajeitados e obsoletos. Pelo
contrário, eles sugerem hipóteses e se relacionam à grande parte dos trabalhos em nossos periódi-
cos. Esperamos que o estudo das teorias apresentado por nós convença o leitor de sua utilidade
empírica e prática.

Gardner Lindzey
John B. Campbell
TEORIAS DA PERSONALIDADE 9

Prefácio da
Terceira Edição

Esta edição de Teorias da personalidade contém vários aspectos novos. Os mais proeminentes são os
dois novos capítulos, um sobre a teoria psicanalítica contemporânea e o outro sobre a psicologia
oriental. O primeiro descreve algumas das mudanças ocorridas na teoria e na pesquisa psicanalíti-
cas desde a morte de seu fundador, Sigmund Freud. Nesse capítulo é dada uma atenção especial às
importantes contribuições de Erik H. Erikson.
Devido ao crescente interesse pelo pensamento oriental, consideramos adequado e oportuno
apresentar um resumo da teoria oriental da personalidade e sua influência sobre a psicologia oci-
dental. Fomos afortunados, pois Daniel Goleman, uma autoridade sobre a psicologia oriental, esbo-
çou esse capítulo para nós.
Outra inovação é uma mudança na ordem dos capítulos. As teorias clinicamente orientadas
estão agrupadas na primeira metade do livro; as teorias mais experimentais e quantitativas se
encontram agrupadas na segunda metade do livro.
Os capítulos que apareceram na segunda edição sofreram quantidades variadas de revisão,
amplificação e condensação. Em cada caso, tentamos discutir todas as contribuições teóricas e de
pesquisa mais importantes publicadas desde a nossa última edição.
Nossos editores se esforçaram ao máximo para produzir um livro com um design atraente, que
enfatizasse claramente os títulos e subtítulos e tornasse mais fácil a leitura. Pela primeira vez,
aparecem fotografias no livro.
Recebemos uma ajuda significativa de várias pessoas. Erik Erikson leu a seção do Capítulo 3
dedicada às suas idéias e fez numerosas e úteis contribuições para melhorá-la. Medard Boss nos
forneceu novas informações sobre suas atividades desde 1970, e Jason Aronson e Paul J. Stern nos
ofereceram os manuscritos de traduções inglesas de dois livros recentes de Boss. Mais uma vez,
John Loehlin e Janet T. Spence realizaram serviços essenciais na revisão dos capítulos sobre a
teoria do fator e sobre a teoria de estímulo-resposta, respectivamente. Jim Mazur realizou um
serviço comparável em relação ao capítulo que trata da teoria operante.
William McGuire, da Princeton University Press, e Janet Dallett, da Clínica C. G. Jung, Los
Angeles, ajudaram na revisão do capítulo sobre Jung. Vernon J. Nordby colaborou na preparação
do novo capítulo sobre a teoria psicanalítica contemporânea. Ruth Wylie nos forneceu material
10
X HALL, LINDZEY
PREFÁCIO & CAMPBELL
DA TERCEIRA EDIÇÃO

não-publicado para usar no capítulo sobre Rogers. Rosemary Wellner nos ofereceu excelentes con-
selhos editoriais e Gen Carter foi muito útil na preparação final de grande parte do manuscrito. As
contribuições de Gardner Lindzey foram facilitadas pelo Center for Advanced Study in the Behavi-
oral Sciences.

Calvin S. Hall
Gardner Lindzey
TEORIAS DA PERSONALIDADE 11

Prefácio da
Segunda Edição

Nos 13 anos decorrentes entre a primeira e a presente edição de Teorias da personalidade, ocorre-
ram várias mudanças na teoria da personalidade. A morte diminuiu o rol dos teóricos mais impor-
tantes: Angyal (1960), Jung (1961), Goldstein (1965) e Allport (1967). Algumas das teorias foram
substancialmente revisadas e elaboradas por seus criadores. Todas as teorias, em maior ou menor
extensão, estimularam atividades empíricas adicionais. Mais importante, surgiram no cenário no-
vos pontos de vista que merecem atenção.
Vamos refletir sobre os novos pontos de vista. Foi difícil decidir quais, entre as novas teorias
que emergiram desde 1957, deveriam ser discutidas aqui. Poucos leitores contestarão energica-
mente as escolhas que fizemos. Os amigos e os inimigos, igualmente, concordarão que o ponto de
vista de B. F. Skinner (seria ousadia chamá-lo de teoria?) se tornou uma influência importante na
psicologia americana e não deve ser omitido. Também não podemos ignorar uma importante con-
tribuição européia para a teoria da personalidade. A psicologia existencial conquistou um público
significativo nos últimos dez anos, não apenas em sua Europa natal, mas também nos Estados
Unidos. Ela é um dos pilares do florescente movimento humanista. Embora possa haver pouca
discordância sobre essas escolhas, nós antecipamos as queixas sobre as omissões, especialmente de
Piaget e da teoria cognitiva. Ambas as teorias foram examinadas cuidadosamente e ambas teriam
sido incluídas se o espaço permitisse. A decisão final baseou-se no critério da sua centralidade para
a psicologia da personalidade. Skinner e a psicologia existencial nos pareceram satisfazer esse
critério mais do que a teoria desenvolvimental de Piaget ou a teoria cognitiva.
As limitações de espaço também exigiram alguns cortes. Cattell emergiu como o principal
representante da teoria fatorial de Eysenck, que dividira o palco com ele na primeira edição, e que
se envolveu cada vez mais com a teoria do comportamento e aparece no capítulo sobre a teoria de
estímulo-resposta (Capítulo 11), assim como no capítulo sobre a teoria fatorial (Capítulo 10). A
teoria biossocial de Murphy foi relutantemente sacrificada por ser uma teoria eclética e, como tal,
seus principais conceitos estão adequadamente representados em outros capítulos. Todos os capí-
tulos restantes foram atualizados. Alguns dos capítulos (particularmente os que tratam de Allport,
da teoria fatorial, da teoria de E-R e de Rogers) sofreram ampla revisão. Os outros capítulos preci-
saram de menos alterações.
O formato dos capítulos não foi modificado. Todos os pontos de vista ainda são apresentados
sob uma luz positiva. Esforçamo-nos ao máximo para descrever com clareza e exatidão os aspectos
essenciais de cada teoria.
12
XII HALL, LINDZEY
PREFÁCIO & CAMPBELL
DA SEGUNDA EDIÇÃO

Fomos extremamente afortunados, pois B. F. Skinner e Medard Boss, cujas posições estão re-
presentadas nos dois capítulos novos (Capítulos 12 e 14), leram e comentaram o que tínhamos
escrito sobre seus pontos de vista. A preparação do novo capítulo sobre a teoria do reforço operan-
te de Skinner e a revisão dos capítulos sobre a teoria de E-R e as teorias fatoriais tornaram-se
grandemente facilitadas pelas contribuições detalhadas e substanciais de Richard N. Wilton, Janet
T. Spence e John C. Loehlin. Também somos gratos a G. William Domhoff, Kenneth MacCorquodale
e Joseph B. Wheelwright, que fizeram contribuições críticas à revisão. Florence Strong e Allen
Stewart foram diligentes leitores de provas e indexadores.

Calvin S. Hall
Gardner Lindzey
TEORIAS DA PERSONALIDADE 13

Prefácio da
Primeira Edição

Apesar do crescente interesse dos psicólogos pela teoria da personalidade, não existe uma fonte
única à qual o aluno possa recorrer se está buscando um resumo das teorias existentes. O presente
volume pretende corrigir essa falha. Ele oferece resumos compactos, mas abrangentes das princi-
pais teorias da personalidade contemporâneas, em um nível de dificuldade apropriado à instrução
universitária. A partir deste livro, o aluno tem assegurado um panorama detalhado da teoria da
personalidade e, ao mesmo tempo, pode preparar-se para ler as fontes originais com maior apreci-
ação e facilidade. Esperamos que este volume tenha uma função na área da personalidade seme-
lhante à do Theories of learning, de Hilgard, na área da aprendizagem.
Que teorias devem ser incluídas em um volume sobre teoria da personalidade? Embora não
seja fácil especificar exatamente o que é uma teoria da personalidade, é ainda mais difícil concor-
dar sobre quais são as mais importantes dessas teorias. Como fica claro no primeiro capítulo,
estamos dispostos a aceitar qualquer teoria geral do comportamento como uma teoria da persona-
lidade. Ao julgar sua importância, recorremos principalmente à nossa avaliação do grau de influên-
cia que a teoria teve sobre a pesquisa e sobre a formulação psicológica. Nesse complexo julgamen-
to, também está envolvida a questão da possibilidade de distinção. Quando duas ou mais teorias
nos pareciam muito semelhantes, ou tratávamo-nas em um mesmo capítulo ou selecionávamos
uma delas e excluíamos as outras. Dados esses amplos critérios de importância e possibilidade de
distinção, provavelmente haverá poucas objeções às teorias específicas que decidimos incluir neste
volume. Mas pode haver menos unanimidade em relação à nossa decisão de omitir certas teorias.
Notáveis entre as omissões são a teoria hórmica de McDougall, a teoria de papel, a teoria da
contigüidade de Guthrie, o comportamentalismo intencional de Tolman e algumas posições recen-
temente desenvolvidas, como as de David McClelland, Julian Rotter e George Kelly.
Originalmente, planejávamos incluir a teoria hórmica de McDougall e a teoria de papel, mas as
limitações de espaço nos obrigaram a reduzir o número de capítulos, e essas foram as teorias que
julgamos mais “sacrificáveis”. A teoria hórmica foi omitida porque a sua influência é um pouco
mais indireta que a das outras teorias. Embora consideremos McDougall um teórico de grande
importância, seu impacto contemporâneo é grandemente mediado por teóricos mais recentes que
tomaram emprestados aspectos de sua teoria. A teoria de papel, parece-nos, é desenvolvida de
forma menos sistemática que a maioria das outras posições que elegemos incluir. É verdade que a
teoria contém uma idéia dominante de considerável valor e importância, mas essa idéia ainda não
foi incorporada a uma rede de conceitos abrangentes sobre o comportamento humano. Guthrie e
Tolman foram omitidos em favor da teoria do reforço de Hull simplesmente porque tem havido
14
XIV HALL, LINDZEY
PREFÁCIO & CAMPBELL
DA PRIMEIRA EDIÇÃO

uma aplicação de pesquisa menos comum dessas teorias fora da área da aprendizagem. McCle-
lland, Rotter e Kelly não foram incluídos por serem muito recentes e porque, em alguns aspectos,
suas posições se assemelham a teorias ou combinações de teorias incluídas por nós.
Depois de decidir quais teorias incluir, ainda deparamo-nos com o problema de como organizar
e descrever essas posições. Certa consistência no modo de apresentação parecia desejável, mas, ao
mesmo tempo, queríamos preservar a integridade de cada teoria. Acabamos optando por apresen-
tar categorias gerais em termos das quais as teorias podiam ser descritas, permitindo-nos bastante
liberdade dentro dessas categorias, de modo a apresentar cada teoria da maneira que parecia mais
natural. Também não aderimos muito rigidamente a essas categorias gerais. Em alguns casos, fo-
ram necessárias novas categorias para representar adequadamente uma teoria específica e, em um
ou dois casos, pareceu aconselhável combinar categorias. Mas, de modo geral, cada teoria é apre-
sentada com uma seção de Orientação que relata brevemente a história pessoal do teórico, esboça
as principais linhas de influência sobre a teoria e oferece um resumo de seus aspectos mais impor-
tantes. A seguir, o leitor encontrará uma seção sobre a Estrutura da Personalidade, na qual estão
incluídos os conceitos desenvolvidos para representar as aquisições ou as porções duradouras da
personalidade. Depois há uma seção sobre a Dinâmica da Personalidade, que apresenta os princípi-
os e os conceitos motivacionais ou disposicionais defendidos pelo teórico. Logo depois vem uma
seção sobre Desenvolvimento da Personalidade, que trata do crescimento e da mudança conforme
representados pela teoria. Segue-se uma seção sobre Pesquisa Característica e Métodos de Pesqui-
sa, em que são apresentadas investigações representativas e técnicas empíricas. Há então uma
seção de conclusão intitulada Status Atual e Avaliação, que delineia brevemente o atual estado da
teoria e resume suas principais contribuições, assim como as críticas mais importantes recebidas.
No final de cada capítulo, há uma breve lista das Principais Fontes representando as fontes origi-
nais mais importantes relativas à teoria. Todas as publicações referidas no texto são reunidas em
uma seção final no fim de cada capítulo intitulada Referências.
Tentamos apresentar cada teoria sob uma luz positiva, detendo-nos naqueles aspectos da teo-
ria que nos pareciam mais úteis e sugestivos. Embora tenhamos incluído uma breve crítica a cada
teoria, a nossa principal intenção não foi avaliar essas teorias. Na verdade, tentamos apresentá-las
em termos expositivos que demonstrem para o que elas são boas ou que promessa contêm para o
indivíduo que as adotar. A extensão de um capítulo não reflete o nosso julgamento sobre a impor-
tância relativa da teoria. Cada teoria foi escrita no que nos pareceu o número mínimo de páginas
necessárias para representar de modo acurado e abrangente as suas características essenciais. O
leitor vai perceber que em alguns capítulos parece haver informações mais detalhadas e pessoais
referentes ao teórico e ao desenvolvimento de sua teoria do que em outros. Isso se deve unicamen-
te à disponibilidade de informações. Nos casos em que sabíamos bastante sobre o teórico, decidi-
mos incluir todas as informações que nos pareciam vitais, mesmo que isso fizesse com que alguns
capítulos parecessem mais personalizados do que outros.
Na preparação deste livro, buscamos e recebemos uma ajuda inestimável de vários colegas. É
com profunda gratidão e apreço que reconhecemos a contribuição pessoal de muitos dos teóricos
cujo trabalho é apresentado aqui. Eles nos esclareceram sobre vários pontos e fizeram numerosas
sugestões sobre a forma e sobre o conteúdo que melhoraram imensamente o manuscrito. O mérito
que este livro porventura possui deve ser atribuído em grande parte ao meticuloso cuidado com
que cada um dos teóricos leu e criticou o capítulo dedicado à sua teoria: Gordon W. Allport, Ray-
mond B. Cattell, H. J. Eysenck, Kurt Goldstein, Carl Jung, Neal E. Miller, Gardner Murphy, Henry A.
Murray, Carl Rogers, Robert R. Sears e William Sheldon. Além de comentários esclarecedores sobre
o capítulo referente à sua teoria, Gordon Allport fez críticas penetrantes e ofereceu sugestões cria-
tivas sobre todos os capítulos restantes. Ele também usou muitos dos capítulos em seus cursos de
TEORIAS DA PRIMEIRA
PREFÁCIO PERSONALIDADE
EDIÇÃO 15
XV

graduação e pós-graduação e transmitiu-nos os comentários e as sugestões dos alunos. Agradece-


mos imensamente não apenas a esses alunos de Harvard e de Radcliffe, mas também aos alunos da
Western Reserve University que leram e comentaram os capítulos. Também reconhecemos com
satisfação nosso débito para com as seguintes pessoas, cada uma das quais leu um ou mais capítu-
los deste livro e contribuiu com sugestões que os melhoraram: John A. Atkinson, Raymond A.
Bauer, Urie Bronfenbrenner, Arthur Combs, Anthony Davids, Frieda Fromm-Reichmann, Eugene L.
Hartley, Ernest Hilgard, Robert R. Holt, Edward E. Jones, George S. Klein, Herbert McClosky, Geor-
ge Mandler, James G. March, A. H. Maslow, Theodore M. Newcomb, Helen S. Perry, Stewart E.
Perry, M. Brewster Smith, Donald Snygg, S. S. Stevens, Patrick Suppes, John Thibaut, Edward C.
Tolman e Otto A. Will, Jr. Também agradecemos a Heinz e Rowena Ansbacher por nos fornecerem
a prova de página de seu livro The individual psychology of Alfred Adler antes de sua publicação. Ele
nos foi muito útil para a redação da seção sobre a teoria da personalidade de Adler. Na preparação
final do manuscrito, recebemos uma ajuda inestimável de Virginia Caldwell, Marguerite Dickey e
Kenneth Wurtz.
A conclusão deste livro foi imensamente facilitada por uma licença de meio ano para Calvin S.
Hall, remunerada pela Western Reserve University e por uma bolsa do Center for Advanced Study
in the Behavioral Sciences outorgada a Gardner Lindzey. A redação também foi facilitada pela
permissão recebida por Lindzey para usar as instalações da Biblioteca do Dartmouth College du-
rante o verão de 1954.

Calvin S. Hall
Gardner Lindzey
TEORIAS DA PERSONALIDADE 17

Sumário

Capítulo 1
A Natureza da Teoria da Personalidade ....................... 27
A Teoria da Personalidade e a História da Psicologia 28
O que É Personalidade? 32
O que É uma Teoria? 33
Uma Teoria da Personalidade 36
A Teoria da Personalidade e Outras Teorias Psicológicas 38
A Comparação das Teorias da Personalidade 39
Atributos Formais 39
Atributos Substantivos 40

ÊNFASE NA PSICODINÂMICA 45
Capítulo 2
A Teoria Psicanalítica Clássica de Sigmund Freud .. 49
Introdução e Contexto 50
História Pessoal 50
A Estrutura da Personalidade 53
O Id 53
O Ego 54
O Superego 54
A Dinâmica da Personalidade 55
Instinto 55
A Distribuição e a Utilização da Energia Psíquica 58
Ansiedade 60
O Desenvolvimento da Personalidade 61
Identificação 61
Deslocamento 62
Os Mecanismos de Defesa do Ego 63
Estágios de Desenvolvimento 65
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 68
O Credo Científico de Freud 69
18 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Associação Livre e Análise de Sonhos 70


Estudos de Caso de Freud 72
Auto-Análise de Freud 74
Pesquisa Atual 74
Ativação Psicodinâmica Subliminar 75
Nova Visão 3 77
Status Atual e Avaliação 78

Capítulo 3
A Teoria Analítica de Carl Jung ............................. 83
Introdução e Contexto 84
História Pessoal 85
A Estrutura da Personalidade 88
O Ego 88
O Inconsciente Pessoal 88
O Inconsciente Coletivo 88
O Self 92
As Atitudes 92
As Funções 93
Interações entre os Sistemas da Personalidade 94
A Dinâmica da Personalidade 96
Energia Psíquica 96
O Princípio da Equivalência 98
O Princípio da Entropia 98
O Uso da Energia 99
O Desenvolvimento da Personalidade 99
Causalidade Versus Teleologia 100
Sincronicidade 100
Hereditariedade 100
Estágios de Desenvolvimento 101
Progressão e Regressão 102
O Processo de Individuação 103
A Função Transcendente 103
Sublimação e Repressão 103
Simbolização 104
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 105
Estudos Experimentais de Complexos 105
Estudos de Caso 105
Estudos Comparativos de Mitologia, Religião e as Ciências Ocultas 106
Sonhos 107
Pesquisa Atual 108
A Tipologia de Jung 108
O Indicador de Tipo Myers-Briggs 109
Status Atual e Avaliação 111
TEORIAS DA PERSONALIDADE 19

Capítulo 4
Teorias Psicológicas Sociais: Adler, Fromm,
Horney e Sullivan ................................................... 115
Introdução e Contexto 116

ALFRED ADLER 117


Finalismo Ficcional 120
Busca de Superioridade 121
Sentimentos de Inferioridade e Compensação 121
Interesse Social 122
Estilo de Vida 123
O Self Criativo 125
Neurose 125
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 126
Ordem de Nascimento e Personalidade 126
Memórias Iniciais 126
Experiências da Infância 127
Pesquisa Atual 127
Interesse Social 127

ERICH FROMM 128

KAREN HORNEY 133


Horney e Freud 133
Ansiedade Básica 135
As Necessidades Neuróticas 136
Três Soluções 137
Alienação 137

HARRY STACK SULLIVAN 138


A Estrutura da Personalidade 140
Dinamismos 141
Personificações 142
Processos Cognitivos 143
A Dinâmica da Personalidade 143
Tensão 143
Transformações de Energia 144
O Desenvolvimento da Personalidade 144
Estágios de Desenvolvimento 145
Determinantes do Desenvolvimento 146
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 147
A Entrevista 147
Pesquisa sobre a Esquizofrenia 148
Status Atual e Avaliação 149
20 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Capítulo 5
Erik Erikson e a Teoria Psicanalítica
Contemporânea .................................................... 153
Introdução e Contexto 154
Psicologia do Ego 155
Anna Freud 155
Relações Objetais 157
Heinz Kohut 159
A Fusão da Psicanálise e da Psicologia 160
George Klein 161
Robert White 162

E R I K H. E R I K S O N 165
História Pessoal 165
A Teoria Psicossocial do Desenvolvimento 168
I. Confiança Básica Versus Desconfiança Básica 169
II. Autonomia Versus Vergonha e Dúvida 171
III. Iniciativa Versus Culpa 171
IV. Diligência Versus Inferioridade 172
V. Identidade Versus Confusão de Identidade 173
VI. Intimidade Versus Isolamento 174
VII. Generatividade Versus Estagnação 174
VIII. Integridade Versus Desespero 175
Um Novo Conceito de Ego 175
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 177
Histórias de Caso 177
Situações Lúdicas 177
Estudos Antropológicos 179
Psico-História 180
Pesquisa Atual 181
Status da Identidade 182
Outros Estágios 183
Status Intercultural 183
Status Atual e Avaliação 184

ÊNFASE NA ESTRUTURA DA PERSONALIDADE 187

Capítulo 6
A Personologia de Henry Murray .......................... 189
Introdução e Contexto 190
História Pessoal 191
A Estrutura da Personalidade 194
Definição de Personalidade 195
Procedimentos e Séries 195
Programas e Planos Seriados 196
Habilidades e Realizações 196
Elementos Estáveis de Personalidade 196
TEORIAS DA PERSONALIDADE 21

A Dinâmica da Personalidade 198


Necessidade 198
Pressão 202
Redução de Tensão 203
Tema 204
Necessidade Integrada 204
Unidade-Tema 205
Processos de Reinância 205
Esquema de Vetor-Valor 205
O Desenvolvimento da Personalidade 206
Complexos Infantis 206
Determinantes Genético-Maturacionais 209
Aprendizagem 209
Determinantes Socioculturais 210
Singularidade 210
Processos Inconscientes 210
O Processo de Socialização 210
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 211
Estudo Intensivo de Pequenos Números de Sujeitos Normais 211
O Conselho Diagnóstico 212
Instrumentos de Mensuração da Personalidade 212
Estudos Representativos 213
Pesquisa Atual 215
McClelland e os Motivos Sociais 215
Interacionismo 216
“Onde Está a Pessoa?” 217
Psicobiografia 218
Status Atual e Avaliação 219

Capítulo 7
Gordon Allport e o Indivíduo................................. 223
Introdução e Contexto 224
História Pessoal 224
A Estrutura e a Dinâmica da Personalidade 228
Personalidade, Caráter e Temperamento 228
Traço 229
Intenções 232
O Proprium 232
Autonomia Funcional 233
A Unidade da Personalidade 236
O Desenvolvimento da Personalidade 236
O Bebê 236
A Transformação do Bebê 237
O Adulto 238
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 239
Idiográfico Versus Nomotético 239
Medidas Diretas e Indiretas da Personalidade 240
22 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Estudos do Comportamento Expressivo 241


Cartas de Jenny 244
Pesquisa Atual 245
O Interacionismo e o “Debate Pessoa-Situação” Revisitados 245
Idiográfica e Idiotética 246
Allport Revisitado 248
Status Atual e Avaliação 250

Capítulo 8
A Teoria de Traço Fatorial-Analítica de
Raymond Cattell ................................................... 253
Introdução e Contexto 254
Análise Fatorial 254
História Pessoal 256
A Natureza da Personalidade: Uma Estrutura de Traços 258
Traços 259
Traços de Capacidade e de Temperamento 260
A Equação de Especificação 263
Traços Dinâmicos 265
Cattell e Freud 269
O Desenvolvimento da Personalidade 270
Análise da Hereditariedade-Ambiente 272
Aprendizagem 272
Integração da Maturação e da Aprendizagem 273
O Contexto Social 273
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 274
Um Estudo Fatorial Analítico de um Único Indivíduo 275
O Modelo de Personalidade dos Sistemas VIDAS 276
Pesquisa Atual 277
Os Cinco Grandes Fatores da Personalidade 277
Genética do Comportamento 281
Teoria Evolutiva da Personalidade 283
Status Atual e Avaliação 286

Capítulo 9
A Teoria de Traço Biológico de Hans Eysenck ........ 291
Introdução e Contexto 292
História Pessoal 295
A Descrição do Temperamento 297
Extroversão e Neuroticismo 297
Psicoticismo 300
Modelos Causais 301
Eysenck (1957) 301
Eysenck (1967) 303
TEORIAS DA PERSONALIDADE 23

Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 306


Pesquisa Atual 310
Gray 310
Zuckerman 312
Status Atual e Avaliação 312

ÊNFASE NA REALIDADE PERCEBIDA 315

Capítulo 10
A Teoria do Constructo Pessoal de George Kelly ... 317
Introdução e Contexto 318

KURT LEWIN 319


A Estrutura da Personalidade 319
O Espaço de Vida 320
Diferenciação 321
Conexões entre as Regiões 322
O Número de Regiões 323
A Pessoa no Ambiente 324
A Dinâmica da Personalidade 324
Energia 325
Tensão 325
Necessidade 325
Tensão e Ação Motora 326
Valência 326
Força ou Vetor 326
Locomoção 327
O Desenvolvimento da Personalidade 328

GEORGE KELLY 329


História Pessoal 329
Suposições Básicas 331
Alternativismo Construtivo 331
Homem-Cientista 332
Foco no Constructor 333
Motivação 333
Ser Si Mesmo 334
Constructos Pessoais 334
Escalas 335
O Postulado Fundamental e seus Corolários 336
O Contínuo da Consciência Cognitiva 340
Constructos sobre Mudança 340
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 341
Pesquisa Atual 343
Status Atual e Avaliação 344
24 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Capítulo 11
A Teoria de Carl Rogers Centrada na Pessoa ......... 347
Introdução e Contexto 348

KURT GOLDSTEIN 349


A Estrutura do Organismo 350
A Dinâmica do Organismo 352
Equalização 352
Auto-Realização 352
“Chegar a um Acordo” com o Ambiente 353
O Desenvolvimento do Organismo 354

ABRAHAM MASLOW 354


Suposições sobre a Natureza Humana 356
Hierarquia de Necessidades 358
Síndromes 361
Auto-Realizadores 362

CARL ROGERS 363


História Pessoal 365
A Estrutura da Personalidade 367
O Organismo 367
O Self 368
Organismo e Self: Congruência e Incongruência 369
A Dinâmica da Personalidade 369
O Desenvolvimento da Personalidade 371
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 374
Estudos Qualitativos 374
Análise de Conteúdo 375
Escalas de Avaliação 375
Estudos com a Técnica-Q 376
Estudos Experimentais do Autoconceito 380
Outras Abordagens Empíricas 380
Pesquisa Atual 380
Teoria da Dissonância Cognitiva 381
Teoria da Autodiscrepância 382
Autoconceito Dinâmico 383
Status Atual e Avaliação 384

ÊNFASE NA APRENDIZAGEM 387


Capítulo 12
O Condicionamento Operante de B. F. Skinner ..... 389
Introdução e Contexto 390
História Pessoal 390
TEORIAS DA PERSONALIDADE 25

Algumas Considerações Gerais 394


Legitimidade do Comportamento 394
Análise Funcional 395
A Estrutura da Personalidade 398
A Dinâmica da Personalidade 399
O Desenvolvimento da Personalidade 401
Condicionamento Clássico 401
Condicionamento Operante 402
Esquemas de Reforço 403
Comportamento Supersticioso 404
Reforço Secundário 405
Generalização e Discriminação de Estímulo 406
Comportamento Social 407
Comportamento Anormal 408
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 411
Pesquisa Atual 413
Status Atual e Avaliação 414

Capítulo 13
A Teoria de Estímulo-Resposta de Dollard e Miller . 419
Introdução e Contexto 420
Histórias Pessoais 422
Um Experimento Ilustrativo 425
A Estrutura da Personalidade 430
A Dinâmica da Personalidade 430
O Desenvolvimento da Personalidade 431
Equipamento Inato 431
O Processo de Aprendizagem 431
Drive Secundário e o Processo de Aprendizagem 432
Processos Mentais Superiores 433
O Contexto Social 435
Estágios Críticos de Desenvolvimento 435
Aplicações do Modelo 437
Processos Inconscientes 437
Conflito 439
Como as Neuroses São Aprendidas 441
Psicoterapia 443
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 444
Pesquisa Atual 446
Wolpe 446
Seligman 449
Status Atual e Avaliação 454
26 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Capítulo 14
Albert Bandura e as Teorias da Aprendizagem
Social .................................................................... 459
Introdução e Contexto 460

ALBERT BANDURA 460


História Pessoal 460
Reconceitualização do Reforço 463
Princípios da Aprendizagem Observacional 464
Processos de Atenção 464
Processos de Retenção 465
Processos de Produção 465
Processos Motivacionais 465
Determinismo Recíproco 467
O Auto-Sistema 468
Auto-Observação 469
Processo de Julgamento 469
Auto-Reação 470
Aplicações à Terapia 471
Auto-Eficácia 472
Pesquisa Característica e Métodos de Pesquisa 476

WALTER MISCHEL 478


Variáveis Cognitivas Pessoais 480
O Paradoxo de Consistência e os Protótipos Cognitivos 482
Uma Teoria da Personalidade de Sistema Cognitivo-Afetivo 483
Status Atual e Avaliação 485

PERSPECTIVAS E CONCLUSÕES 489


Capítulo 15
A Teoria da Personalidade em Perspectiva ............ 491
A Comparação das Teorias da Personalidade 492
Algumas Reflexões sobre a Atual Teoria da Personalidade 500
Síntese Teórica versus Multiplicidade Teórica 504

Referências Bibliográficas ................................. 507


Índice Onomástico .............................................. 565
Índice ................................................................... 577
TEORIAS DA PERSONALIDADE 27

CAPÍTULO 1

A Natureza da
Teoria da Personalidade

A TEORIA DA PERSONALIDADE E A HISTÓRIA DA PSICOLOGIA ................................................ 28


O QUE É PERSONALIDADE? .................................................................................................... 32
O QUE É UMA TEORIA? ......................................................................................................... 33
UMA TEORIA DA PERSONALIDADE ......................................................................................... 36
A TEORIA DA PERSONALIDADE E OUTRAS TEORIAS PSICOLÓGICAS ........................................ 38
A COMPARAÇÃO DAS TEORIAS DA PERSONALIDADE ............................................................. 39
Atributos Formais 39
Atributos Substantivos 40
28 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Neste volume apresentaremos um resumo organiza- meçando com Charcot e Janet, mas incluindo especi-
do das principais teorias da personalidade contempo- almente Freud, Jung e McDougall, fez mais para de-
râneas. Além de oferecer um sumário de cada teoria, terminar a natureza da teoria da personalidade do que
discutiremos pesquisas relevantes e faremos uma ava- qualquer outro fator isolado. Nós logo examinaremos
liação geral da teoria. Mas antes de prosseguir deve- alguns dos efeitos desse movimento. Uma segunda li-
mos falar um pouco sobre o que são as teorias da per- nha de influência vem da tradição Gestáltica e de Wi-
sonalidade e como as várias teorias da personalidade lliam Stern. Esses teóricos estavam muito impressio-
podem ser distinguidas umas das outras. Também co- nados com a unidade de comportamento e, conseqüen-
locaremos essas teorias em um contexto geral, relaci- temente, convencidos de que um estudo fragmenta-
onando-as ao que aconteceu historicamente na psico- do de pequenos elementos do comportamento jamais
logia e situando-as no cenário contemporâneo. poderia ser esclarecedor. Como iremos descobrir, esse
Neste capítulo, começamos com um esboço bem ponto de vista está profundamente inserido na atual
geral e um pouco informal do papel da teoria da per- teoria da personalidade. Também temos o impacto
sonalidade no desenvolvimento da psicologia, segui- mais recente da psicologia experimental em geral e da
do por uma discussão sobre o que significam os ter- teoria da aprendizagem em particular. Dessa linha,
mos personalidade e teoria. Partindo dessas considera- surgiram uma crescente preocupação com a pesquisa
ções, é fácil passar para a pergunta: o que constitui empírica cuidadosamente controlada, um melhor en-
uma teoria da personalidade? Além disso, vamos con- tendimento da natureza da construção da teoria e uma
siderar brevemente a relação entre teoria da persona- apreciação mais detalhada de como o comportamen-
lidade e outras formas de teoria psicológica, e apre- to é modificado. Um quarto determinante é represen-
sentar algumas dimensões por meio das quais as tado pela tradição psicométrica, com seu foco na men-
teorias da personalidade podem ser comparadas en- suração e no estudo das diferenças individuais. Essa
tre si. fonte proporcionou uma sofisticação cada vez maior
nas dimensões de avaliação ou mensuração do com-
portamento e na análise quantitativa dos dados. Fi-
nalmente, a genética e a fisiologia desempenharam um
A TEORIA DA PERSONALIDADE E A papel crucial nas tentativas de identificar e de descre-
HISTÓRIA DA PSICOLOGIA ver as características de personalidade. Tal influência
tem sido particularmente forte em modelos recentes,
Um exame abrangente do desenvolvimento da teoria como os propostos por Eysenck (ver Capítulo 9) e os
da personalidade deve certamente começar com as Cinco Grandes teóricos (ver Capítulo 8), mas também
concepções do homem propostas por grandes estudi- está clara no trabalho inicial de Freud e em declara-
osos clássicos, como Hipócrates, Platão e Aristóteles. ções como a de Henry Murray: “Nenhum cérebro,
Um relato adequado também teria de incluir a contri- nenhuma personalidade.”
buição de dezenas de pensadores, como Aquino, Ben- O background específico do qual emergiu cada uma
tham, Comte, Hobbes, Kierkegaard, Locke, Nietzsche das teorias apresentadas neste livro é discutido bre-
e Machiavelli, que viveram nos séculos intervenientes vemente nas seguintes fontes: discussões históricas
e cujas idéias ainda são detectadas em formulações sobre o desenvolvimento da teoria contemporânea da
contemporâneas. A nossa intenção aqui não é a de personalidade são encontradas em Allport (1937,
tentar esse tipo de reconstrução geral. O nosso objeti- 1961), Boring (1950) e Sanford (1963, 1985); o sta-
vo é bem mais limitado. Nós simplesmente vamos con- tus atual da teoria da personalidade e da pesquisa é
siderar, em termos amplos, o papel geral que a teoria resumido em uma série de capítulos na Annual Revi-
da personalidade desempenhou no desenvolvimento ew of Psychology, iniciando em 1950 (ver, p. ex., Buss,
da psicologia durante o século passado. 1991; Carson, 1989; Digman, 1990; Magnusson & To-
Para começar, examinaremos cinco fontes de in- restad, 1993; Pervin, 1985; Revelle, 1995; Rorer &
fluência sobre a teoria da personalidade relativamen- Widiger, 1983; Wiggins & Pincus, 1992). Existem ou-
te recentes. Uma tradição de observação clínica, co- tros tratamentos gerais do campo que valem a pena
TEORIAS DA PERSONALIDADE 29

ler, incluindo McAdams (1994), Maddi (1996), Mis- mas desprezou as armadilhas da ciência, com sua res-
chel (1993), Monte (1995), Pervin (1993, 1996), Pe- trição sobre a imaginação e suas habilidades técnicas
terson (1992) e Ryckman (1992). rigorosas. O outro aplaudiu o rigor e a precisão da
Vamos tratar agora das características distintivas investigação delimitada e esquivou-se desgostoso do
da teoria da personalidade. Embora esse corpo de te- uso desenfreado do julgamento clínico e da interpre-
orias faça parte do amplo campo da psicologia, ainda tação imaginativa. No final ficou claro que a psicolo-
existem diferenças apreciáveis entre a teoria e a pes- gia experimental tinha pouco a dizer com referência
quisa da personalidade e a pesquisa e a teoria em aos problemas que interessavam ao teórico da perso-
outras áreas da psicologia. Essas diferenças são espe- nalidade e que este manifestava pouca consideração
cialmente evidentes em relação à teoria da personali- pelos problemas de importância capital para o psicó-
dade em seus estágios iniciais de desenvolvimento, e logo experimental.
elas ainda existem apesar da grande variação entre as Os estudos recentes sugerem que Wundt pode ter
próprias teorias da personalidade. As notáveis dife- sido uma exceção a essas generalizações. Por exem-
renças entre as teorias da personalidade, entretanto, plo, Stelmack e Stalikas (1991) descrevem como a
significam que quase qualquer declaração que se apli- classificação de Wundt dos temperamentos, baseada
que com exatidão detalhada a uma teoria da persona- em duas dimensões, a força das emoções e a variabili-
lidade será um pouco inexata quando aplicada a mui- dade, corresponde às subseqüentes descrições ofere-
tas outras teorias. Apesar disso, existem qualidades cidas por Hans Eysenck (ver Capítulo 9), baseadas nas
modais ou tendências centrais inerentes na maioria dimensões subjacentes de neuroticismo e extroversão.
das teorias da personalidade, e é nelas que focalizare- Apesar dessas conexões, as “duas disciplinas da psico-
mos nossa discussão. logia científica” (Cronbach, 1957, 1975) permanece-
Não discutimos que existam congruências impor- ram notavelmente separadas.
tantes nas correntes de influência que determinaram Sabemos bem que a psicologia se desenvolveu no
os caminhos iniciais da psicologia geral e da teoria da século XIX como fruto da filosofia e da fisiologia ex-
personalidade, mas também existem diferenças signi- perimental. A origem da teoria da personalidade deve
ficativas. É certo afirmar que Darwin foi um fator im- muito mais à profissão médica e às condições da prá-
portante no desenvolvimento da psicologia geral e da tica médica. De fato, os primeiros gigantes nessa área
psicologia da personalidade. Também é verdade que (Freud, Jung e McDougall) tinham formação em me-
a fisiologia do século XIX teve sua influência sobre os dicina, mas trabalhavam também como psicoterapeu-
teóricos da personalidade, assim como um efeito acen- tas. Esse vínculo histórico entre a teoria da personali-
tuado sobre a psicologia geral. No entanto, o princi- dade e a aplicação prática permaneceu evidente
pal teor dos fatores que influenciaram esses dois gru- durante todo o desenvolvimento da psicologia e ofe-
pos durante os últimos três quartos de século foi rece uma importante distinção entre esse ramo da te-
perceptivelmente diferente. Enquanto os teóricos da oria e outros tipos de teoria psicológica.
personalidade estavam tirando suas idéias mais im- Duas generalizações referentes à teoria da perso-
portantes principalmente da experiência clínica, os psi- nalidade são consistentes com o que dissemos até ago-
cólogos experimentais estavam prestando atenção aos ra. Primeiro, está claro que a teoria da personalidade
achados do laboratório experimental. Os nomes Char- ocupou um papel dissidente no desenvolvimento da psi-
cot, Freud, Janet, McDougall e Stern estão em pri- cologia. Os teóricos da personalidade foram rebeldes
meiro plano no trabalho dos primeiros teóricos da em sua época: rebeldes na medicina e na ciência ex-
personalidade, mas encontramos Helmholtz, Pavlov, perimental, rebeldes contra idéias convencionais e
Thorndike, Watson e Wundt em um papel compará- práticas usuais, rebeldes contra métodos típicos e téc-
vel na psicologia experimental. Os experimentalistas nicas de pesquisa respeitadas e, acima de tudo, rebel-
derivaram suas inspirações e seus valores das ciências des contra a teoria aceita e os problemas normativos.
naturais, enquanto os teóricos da personalidade per- O fato de que a teoria da personalidade jamais se in-
maneceram mais próximos dos dados clínicos e de suas seriu profundamente na psicologia acadêmica domi-
próprias reconstruções criativas. Um grupo recebeu nante tem várias implicações importantes. Por um
com satisfação os sentimentos intuitivos e os insights, lado, isso possibilitou libertar a teoria da personalida-
30 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

de das garras mortais dos modos convencionais de tégia de avanço na ciência nunca é fácil de especifi-
pensamento e dos preconceitos referentes ao compor- car, e o público geral normalmente não é considerado
tamento humano. Ao ficar relativamente fora da ins- um tribunal adequado para decidir quais problemas
tituição da psicologia, era mais fácil para os teóricos devem ser enfocados. Em outras palavras, embora seja
da personalidade questionar ou rejeitar as suposições um fato inquestionável que os teóricos da personali-
amplamente aceitas pelos psicólogos. Por outro lado, dade trataram de questões que pareciam centrais e
essa falta de envolvimento também os eximia de par- importantes para o observador típico do comporta-
te da disciplina e da responsabilidade por uma for- mento humano, resta ver se tal disposição para tratar
mulação razoavelmente sistemática e organizada, que dessas questões fará avançar a ciência da psicologia.
faz parte da herança do cientista bem integrado soci- Como dissemos, não há nenhum mistério sobre a
almente. razão pela qual as teorias da personalidade eram mais
Uma segunda generalização é que as teorias da amplas em escopo e mais práticas em orientação do
personalidade são funcionais em sua orientação. Elas que as formulações da maioria dos outros psicólogos.
se preocupam com questões que fazem diferença no As grandes figuras da psicologia acadêmica do século
ajustamento e na sobrevivência do indivíduo. Em uma XIX foram homens como Wundt, Helmholtz, Ebbin-
época na qual o psicólogo experimental estava mer- ghaus, Titchener e Külpe, que executaram seu traba-
gulhado em questões como a existência do pensamento lho dentro de ambientes universitários com poucas
sem imagens, a velocidade dos impulsos nervosos, a pressões do mundo exterior. Eles eram livres para se-
especificação do conteúdo da mente humana consci- guir suas inclinações intelectuais, com pouca ou ne-
ente normal e as controvérsias das localizações cere- nhuma compulsão de tratar daquilo que os outros
brais, o teórico da personalidade queria saber por que consideravam importante ou significativo. De fato, eles
alguns indivíduos desenvolviam sintomas neuróticos decidiam o que era significativo em grande parte por
incapacitantes na ausência de patologia orgânica, qual seus próprios interesses e atividades. Em contraste,
era o papel do trauma infantil no ajustamento adulto, os primeiros teóricos da personalidade eram pratican-
em que condições a saúde mental poderia ser recupe- tes, além de estudiosos. Defrontando-se com os pro-
rada e quais eram as maiores motivações subjacentes blemas da vida cotidiana, agravados por uma neuro-
aos comportamentos humanos. Assim, foi o teórico se ou algo pior, era natural que se dedicassem a
da personalidade, e apenas o teórico da personalida- formulações que contribuíssem para esses problemas.
de, que nos tempos iniciais da psicologia lidou com Um conjunto de categorias para a análise das emo-
questões que, para a pessoa comum, pareciam estar ções, que pudesse ser aplicado por sujeitos treinados
no âmago de uma ciência psicológica bem-sucedida. em um ambiente de laboratório, era de pouco inte-
Certos progressos entusiasmantes no campo continu- resse para um terapeuta que diariamente observava a
am a refletir essa orientação funcionalista. Um exem- operação de emoções que estavam prejudicando, in-
plo claro é David Buss (1991), que emprega a metate- capacitando ou inclusive matando seres humanos
oria evolutiva para identificar as metas importantes como ele. Assim, o forte tom funcional das teorias da
para os seres humanos, os mecanismos psicológicos personalidade e sua preocupação com problemas im-
resultantes e as diferenças individuais nas estratégias portantes para a sobrevivência dos indivíduos pare-
comportamentais empregadas pelas pessoas para atin- cem uma decorrência natural do ambiente em que
gir as metas ou para resolver problemas de adapta- essas teorias se desenvolveram.
ção. Está claro que os teóricos da personalidade costu-
O leitor não deve interpretar o que acabamos de mavam atribuir um papel crucial aos processos motiva-
dizer como uma acusação à psicologia geral e um elo- cionais. Em uma época na qual muitos psicólogos ig-
gio à teoria da personalidade. Ainda não está claro se noravam a motivação ou tentavam minimizar a
o caminho para uma teoria abrangente e útil do com- contribuição desses fatores em seus estudos, os teóri-
portamento humano resultará mais rapidamente do cos da personalidade viam nessas mesmas variáveis a
trabalho daqueles que têm essa teoria como objetivo chave para o entendimento do comportamento hu-
direto, ou dos esforços daqueles que focalizam pro- mano. Freud e McDougall foram os primeiros a consi-
blemas relativamente específicos e limitados. A estra- derar seriamente o processo motivacional. A grande
TEORIAS DA PERSONALIDADE 31

lacuna entre a arena da vida e a teoria desenvolvida geral sabia relativamente pouco sobre como essas fun-
por psicólogos de laboratório é retratada por McDou- ções especiais se relacionavam umas com as outras. O
gall quando ele justifica suas tentativas de desenvol- psicólogo da personalidade estava, nesse sentido, mais
ver uma teoria adequada do comportamento social preocupado com reconstrução ou integração do que
(que era mais uma teoria da personalidade do que com análise ou estudo segmental do comportamento.
uma teoria do comportamento social): A partir dessas considerações, surge a concepção um
tanto romântica do teórico da personalidade como o
“O ramo da psicologia mais importante para as
indivíduo que vai montar o quebra-cabeça apresenta-
ciências sociais é aquele que trata das fontes de
do pelos achados distintos de estudos separados den-
ação humana, dos impulsos e motivos que sus-
tro das várias especialidades que constituem a psico-
tentam a atividade mental e corporal e regulam a
logia.
conduta; e este, de todos os ramos da psicologia,
Devemos observar que vários autores lamentaram
é o que permanece no estado mais atrasado, em
a falta de atenção, por parte dos pesquisadores da
que ainda reinam a maior obscuridade, impreci-
personalidade, ao foco do teórico da personalidade
são e confusão.” (McDougall, 1908, p. 2-3)
na pessoa em sua totalidade. Rae Carlson escreveu:
Assim, variáveis que eram vistas primariamente como “O empobrecimento atual da pesquisa da personali-
um incômodo para o psicólogo experimental passa- dade é perturbador, porque indica que a meta de es-
ram a ser alvo de estudo intensivo e interesse focal tudar pessoas integrais foi abandonada” (1971, p. 207;
para o teórico da personalidade. ver Kenrick [1986] para uma réplica). Preocupações
Relacionada a esse interesse no funcional e no semelhantes foram levantadas por White (1981) e
motivacional está a convicção do teórico da persona- Sanford (1985).
lidade de que um entendimento adequado do compor- Em termos amplos, então, o que distingue os teóri-
tamento humano só vai surgir do estudo da pessoa em cos da personalidade dos tradicionais teóricos da psico-
sua totalidade. A maioria dos psicólogos da personali- logia? Eles são mais especulativos e menos ligados a
dade insistia que o sujeito deveria ser visto como uma operações experimentais ou de mensuração. A visão
pessoa inteira funcionando em um habitat natural. Eles rígida do positivismo afetou muito menos o psicólogo
defendiam ardorosamente o estudo do comportamen- da personalidade do que o psicólogo experimental.
to no contexto, com cada evento comportamental exa- Eles desenvolvem teorias que são multidimensionais
minado e interpretado em relação ao resto do com- e mais complexas do que as da psicologia geral. Em
portamento do indivíduo. Esse ponto de vista era um conseqüência, suas teorias tendem a ser um pouco
derivativo natural da prática clínica, em que a pessoa mais vagas e menos bem-especificadas do que as teo-
inteira se apresentava para a cura e em que era real- rias do experimentalista. Estão dispostos a aceitar
mente difícil limitar o exame a uma modalidade sen- qualquer aspecto do comportamento que possua im-
sorial ou a uma série restrita de experiências. portância funcional como um dado legítimo para seu
Se aceitamos que a intenção da maioria dos teóri- modelo teórico, ao passo que os psicólogos mais ex-
cos da personalidade é promover o estudo da pessoa perimentais se contentam em fixar sua atenção em
em sua totalidade, não-segmentada, é fácil compre- uma série limitada de observações ou registros. Eles
ender porque muitos observadores consideram que insistem que um entendimento adequado do compor-
um dos aspectos mais distintivos da teoria da personali- tamento individual só pode ser atingido quando ele
dade é a sua função como uma teoria integrativa. En- for estudado em um contexto amplo que inclua a pes-
quanto os psicólogos em geral têm demonstrado uma soa total, em funcionamento. O teórico da personali-
especialização cada vez maior, fazendo alguns recla- dade encara a motivação, o “porquê” ou o ímpeto sub-
marem que estavam aprendendo cada vez mais sobre jacente do comportamento como o problema empírico
cada vez menos, o teórico da personalidade aceitou e teórico crucial. Em contraste, o experimentalista o
uma responsabilidade pelo menos parcial de reunir e considera como um entre vários problemas e lida com
organizar os diversos achados dos especialistas. O ele por meio de um pequeno número de conceitos es-
experimentalista poderia saber muito sobre habilida- treitamente ligados aos processos fisiológicos.
des motoras, audição, percepção ou visão, mas em
32 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

O QUE É PERSONALIDADE? reside apenas no “outro-que-responde”, e sugere ser


preferível uma definição biofísica que baseie firmemen-
Existem poucas palavras na nossa língua com tanto te a personalidade em características ou qualidades
fascínio para o público em geral como o termo perso- do sujeito. De acordo com essa última definição, a
nalidade. Embora a palavra seja usada em vários sen- personalidade tem um lado orgânico, assim como um
tidos, a maioria desses significados populares se en- lado aparente, e pode ser vinculada a qualidades es-
caixa em um ou dois tópicos. O primeiro uso iguala o pecíficas do indivíduo suscetíveis à descrição e à men-
termo à habilidade ou à perícia social. A personalida- suração objetivas.
de de um indivíduo é avaliada por meio da efetivida- Um outro tipo importante de definição é a globa-
de com que ele consegue eliciar reações positivas em lizante ou do tipo coletânea. Essa definição abrange a
uma variedade de pessoas em diferentes circunstân- personalidade por enumeração. O termo personalida-
cias. É nesse sentido que a professora que se refere a de é usado aqui para incluir tudo sobre o indivíduo. O
um aluno como apresentando um problema de perso- teórico comumente lista os conceitos considerados de
nalidade, provavelmente, está indicando que suas ha- maior importância para descrever o indivíduo e suge-
bilidades sociais não são adequadas para manter rela- re que a personalidade consiste nisso. Outras defini-
ções satisfatórias com os colegas e com a professora. ções enfatizam principalmente a função integrativa,
O segundo uso considera a personalidade do indiví- ou organizadora, da personalidade. Tais definições
duo como consistindo-se na impressão mais destaca- sugerem que a personalidade é a organização ou o
da ou saliente que ele cria nos outros. Assim, pode- padrão dado às várias respostas distintas do indiví-
mos dizer que uma pessoa tem uma “personalidade duo. Alternativamente, elas sugerem que a organiza-
agressiva” ou uma “personalidade submissa” ou uma ção resulta da personalidade que é uma força ativa
“personalidade temerosa”. Em cada caso o observa- dentro do indivíduo. A personalidade é aquilo que dá
dor seleciona um atributo ou uma qualidade altamente ordem e congruência a todos os comportamentos di-
típica do sujeito, que presumivelmente é uma parte ferentes apresentados pelo indivíduo. Alguns teóricos
importante da impressão global criada nos outros, e enfatizam a função da personalidade na mediação do
identifica sua personalidade por esse termo. Está cla- ajustamento do indivíduo. A personalidade consiste
ro que existe um elemento de avaliação em ambos os nos esforços de ajustamento variados e, no entanto,
usos. As personalidades, conforme descritas comumen- típicos, realizados pelo indivíduo. Em outras defini-
te, são boas e más. ções, a personalidade é igualada aos aspectos únicos
Embora a diversidade no uso comum da palavra ou individuais do comportamento. Nesse caso, o ter-
personalidade possa parecer considerável, ela é su- mo designa aquilo que é distintivo no indivíduo e o
perada pela variedade de significados atribuídos ao diferencia de todas as outras pessoas. Finalmente, al-
termo pelos psicólogos. Em um exame exaustivo da guns teóricos consideram que a personalidade repre-
literatura, Allport (1937) extraiu quase cinqüenta de- senta a essência da condição humana. Essas defini-
finições diferentes que classificou em algumas cate- ções sugerem que a personalidade se refere àquela
gorias amplas. Nós aqui examinaremos apenas algu- parte do indivíduo que é mais representativa da pes-
mas dessas definições. soa, não apenas porque a diferencia dos outros, mas
Inicialmente é importante distinguir entre o que principalmente porque é aquilo que a pessoa realmente
Allport chama de definição biossocial e definição bio- é. A sugestão de Allport de que “a personalidade é o
física. A definição biossocial mostra uma estreita cor- que um homem realmente é” ilustra esse tipo de defi-
respondência com o uso popular do termo, uma vez nição. A implicação aqui é que a personalidade con-
que equipara personalidade ao “valor da impressão siste naquilo que é, na análise final, mais típico e ca-
social” que o indivíduo provoca. É a reação dos ou- racterístico da pessoa.
tros indivíduos ao sujeito o que define a sua persona- Poderíamos passar muito mais tempo tratando do
lidade. Podemos inclusive afirmar que o indivíduo não problema de definir a personalidade, mas o leitor en-
possui nenhuma personalidade a não ser aquela pro- contrará muitas definições detalhadas de personali-
porcionada pela resposta dos outros. Allport contesta dade nos capítulos seguintes. Além disso, estamos
vigorosamente a implicação de que a personalidade convencidos de que nenhuma definição substantiva de
TEORIAS DA PERSONALIDADE 33

personalidade pode ser generalizada. Com isso, quere- dadeira ou fatual quando os dados confirmatórios ti-
mos dizer que a maneira pela qual determinadas pes- verem sido coletados. Na nossa visão, as teorias nun-
soas definem a personalidade dependerá inteiramen- ca são verdadeiras ou falsas, embora suas implicações
te de sua preferência teórica. Assim, se a teoria enfatiza ou derivações possam ser.
a singularidade e as qualidades organizadas e unifi- As passagens a seguir são um resumo relativamen-
cadas do comportamento, é natural que a definição te convencional do pensamento de metodologistas ou
de personalidade inclua a singularidade e a organiza- lógicos da ciência. Certamente não existe concordân-
ção como atributos importantes da personalidade. cia completa em relação a todas as questões discuti-
Uma vez que o indivíduo tenha criado ou adotado das, mas o ponto de vista apresentado pretende ser
uma dada teoria da personalidade, a definição de per- modal, em vez de original. O estudante que está co-
sonalidade será claramente indicada pela teoria. As- meçando talvez tenha dificuldade para entender in-
sim, acreditamos que a personalidade é definida pelos teiramente algumas dessas idéias, e seria justo dizer
conceitos empíricos específicos que fazem parte da teo- que não é essencial entendê-las para poder ler e apre-
ria da personalidade empregada pelo observador. A per- ciar o restante do livro. Por outro lado, se o leitor es-
sonalidade consiste concretamente em uma série de tiver seriamente interessado no campo e ainda não se
valores ou termos descritivos que descrevem o indiví- aprofundou nessa área de estudo, deve consultar a
duo que está sendo estudado em termos das variáveis literatura relevante (para boas introduções apropria-
ou de dimensões que ocupam uma posição central den- das a psicólogos, ver Gholson & Barker, 1985; a Intro-
tro de uma teoria específica. dução em Leahey, 1991; Manicas & Secord, 1983;
Se tais definições parecerem insatisfatórias, que Rorer & Widiger, 1983; e Suppe, 1977; para trata-
o leitor se console com a idéia de que encontrará vári- mentos gerais, examine Bechtel, 1988; Eagle, 1984;
as definições específicas nas páginas seguintes. Qual- Earman, 1992; Kuhn, 1970; Lakatos & Musgrave,
quer uma delas pode-se tornar a definição do leitor se 1970; Popper, 1962, 1992).
ele adotar aquela determinada teoria. Em outras pa- Vamos começar examinando o que é uma teoria e
lavras, estamos dizendo que é impossível definir a per- depois tratar da questão mais importante, ou seja,
sonalidade sem concordar com a estrutura de refe- quais são as funções de uma teoria. Em primeiro lu-
rência teórica dentro da qual a personalidade vai ser gar, uma teoria é um conjunto de convenções criado
examinada. Se tentássemos agora chegar a uma úni- pelo teórico. Compreender uma teoria como um “con-
ca definição substantiva, estaríamos pondo fim, im- junto de convenções” enfatiza o fato de que as teorias
plicitamente, a muitas das questões teóricas que pre- não são “dadas” ou predeterminadas pela natureza,
tendemos explorar. pelos dados, ou por qualquer outro processo determi-
nante. Assim como as mesmas experiências ou obser-
vações podem levar um poeta ou um romancista a
criar uma entre as múltiplas formas de arte diferen-
O QUE É UMA TEORIA? tes, também os dados da investigação podem ser in-
corporados a um entre os incontáveis esquemas teóri-
Assim como a maioria das pessoas sabe em que con- cos diferentes. O teórico, ao escolher uma determinada
siste a personalidade, também sabe o que é uma teo- opção para representar os eventos em que está inte-
ria! A convicção mais comum é a de que uma teoria ressado, exerce uma escolha criativa livre que só é
existe em oposição a um fato. Nessa visão, ela é uma diferente da do artista nos tipos de evidência que fo-
hipótese não-comprovada ou uma especulação refe- caliza e nos termos em que seu aproveitamento será
rente à realidade que ainda não está definitivamente julgado. Nós estamos enfatizando aqui a maneira cri-
confirmada. Quando uma teoria é confirmada, ela se ativa e, no entanto, arbitrária pela qual as teorias são
torna um fato. Existe certa correspondência entre essa construídas. Não existe nenhuma fórmula para a cons-
visão e o uso que defendemos aqui, pois concorda- trução de uma teoria proveitosa, assim como não existe
mos que não sabemos se uma teoria é uma verdade. nenhuma fórmula para fazermos contribuições literá-
Também existe um elemento de discordância, pois a rias duradouras.
visão do senso comum afirma que ela se tornará ver-
34 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Já que uma teoria é uma escolha convencional, e plo, um teórico poderia escolher supor que um au-
não algo inevitável ou prescrito por relações empíri- mento na ansiedade levaria a um decréscimo no de-
cas conhecidas, a veracidade ou a falsidade não são sempenho motor. Além disso, ele poderia supor que
qualidades a serem atribuídas a uma teoria. Uma teo- um aumento na auto-estima levaria a uma melhora
ria só é útil ou inútil. Essas qualidades são definidas, no desempenho motor. Se não soubermos nada além
como veremos, principalmente em termos de quão efi- disso, a relação entre essas duas suposições seria in-
cientemente a teoria pode gerar predições ou propo- determinante. Precisamos descobrir algo sobre a rela-
sições relativas a eventos relevantes que acabarão sen- ção entre ansiedade e auto-estima antes de podermos
do confirmados (verdade). fazer predições sobre o que pode ocorrer nas circuns-
Sejamos um pouco mais específicos. Uma teoria, tâncias em que ambas as variáveis estejam envolvi-
em sua forma ideal, deve conter duas partes: uma sé- das. Um enunciado adequado das suposições teóricas
rie de suposições relevantes sistematicamente relaci- daria ao usuário da teoria uma clara especificação da
onadas uma à outra e um conjunto de definições em- relação entre essas duas suposições.
píricas. As definições empíricas (definições coordenativas)
As suposições devem ser relevantes no sentido de permitem a interação mais ou menos precisa de cer-
ter relação com os eventos empíricos aos quais a teo- tos termos ou conceitos da teoria com os dados empí-
ria se refere. Se for uma teoria sobre a audição, as ricos. Assim, por meio dessas definições, a teoria en-
suposições precisam ter alguma relação com o pro- tra em contato definido com a realidade ou com os
cesso da audição; se for uma teoria da percepção, as dados observacionais, em certos locais prescritos. Elas
suposições devem referir-se ao processo perceptual. freqüentemente são chamadas de definições opera-
A natureza dessas suposições geralmente representa cionais, porque tentam especificar operações pelas
a qualidade distintiva da teoria. O bom teórico é a quais as variáveis ou os conceitos relevantes podem
pessoa capaz de pôr às claras suposições úteis ou pre- ser medidos. Seria seguro dizer que, para que uma
ditivas referentes aos eventos empíricos em um domí- teoria contribua para uma disciplina empírica, ela deve
nio de interesse. Dependendo da natureza da teoria, poder ser traduzida empiricamente. Por outro lado,
essas suposições podem ser muito gerais ou bem es- deve estar claro que essas definições existem em um
pecíficas. Um teórico comportamental, por exemplo, contínuo que varia da especificação completa e exata
optaria por supor que todo o comportamento é moti- até uma declaração muito geral e qualitativa. Embora
vado, que os eventos que ocorrem cedo na vida são os quanto mais precisão melhor, uma insistência inicial
determinantes mais importantes do comportamento em uma especificação completa pode destruir muitos
adulto, ou que o comportamento de diferentes espé- caminhos proveitosos de investigação. Definir a inte-
cies animais é governado pelos mesmos princípios ligência simplesmente como “o que os testes de inteli-
gerais. A forma dessas suposições também pode vari- gência medem” ou igualar a ansiedade unicamente a
ar, da precisão de uma notação matemática à relativa certas mudanças fisiológicas pode ser exato, mas ne-
inexatidão da maioria das suposições que acabamos nhuma definição isolada provavelmente levará a idéi-
de usar como ilustração. as ou a investigações muito produtivas. A atitude ade-
Não só as suposições devem ser enunciadas clara- quada em relação a definições empíricas é a de que
mente, mas também as suposições e os elementos da devem ser tão precisas quanto as condições presentes
teoria precisam estar explicitamente combinados e no campo relevante permitem.
relacionados uns aos outros. Isto é, deve haver regras Vimos, em termos gerais, no que consiste uma
para a interação sistemática entre as suposições e os teoria. A pergunta seguinte é: o que ela faz? Primeiro,
conceitos nelas inseridos. Para dar à teoria consistên- e mais importante, ela leva à coleção ou à observação
cia lógica e permitir o processo de derivação, essas de relações empíricas relevantes ainda não-observadas.
relações internas necessitam estar claras. Sem essa es- A teoria deve conduzir à expansão sistemática do co-
pecificação seria difícil ou impossível extrair da teoria nhecimento referente aos fenômenos de interesse, e
conseqüências empíricas. Devido à sua semelhança essa expansão deve idealmente ser mediada ou esti-
com as regras de gramática, essas declarações são às mulada pela derivação de proposições empíricas es-
vezes referidas como a sintaxe da teoria. Por exem- pecíficas a partir da teoria (declarações, hipóteses, pre-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 35

dições), sujeitas a testes empíricos. Geralmente, o consistente todos os achados confiáveis relativos ao
âmago de qualquer ciência está na descoberta de re- processo de aprendizagem. As teorias sempre come-
lacionamentos empíricos estáveis entre eventos ou çam com algo que foi observado e relatado até o mo-
variáveis. A função de uma teoria é promover esse mento. Isto é, as teorias começam em uma fase indu-
processo de uma maneira sistemática. A teoria pode tiva e são orientadas e em certa extensão controladas
ser vista como uma espécie de moinho de proposi- por aquilo que sabemos. Entretanto, se as teorias não
ções, moendo declarações empíricas relacionadas que fizessem nada além de tornar consistente e ordenado
podem então ser confirmadas ou rejeitadas, à luz de o presentemente conhecido, elas teriam apenas uma
dados empíricos adequadamente controlados. Só as função menor. Nessas circunstâncias, o investigador
proposições ou as idéias derivadas da teoria é que es- persistente estaria justificado em sua convicção de que
tão abertas a testes empíricos. A teoria, ela mesma, é as teorias são apenas uma penugem verbal flutuando
suposta, e sua aceitação ou rejeição é determinada na esteira da experimentação, que constitui o verda-
por sua utilidade, não por sua veracidade ou falsida- deiro trabalho da ciência. O empiricista que insiste
de. Nesse caso, a utilidade tem dois componentes: que as teorias são meramente racionalizações depois-
verificabilidade e abrangência. A verificabilidade se do-fato daquilo que o investigador já relatou deixa de
refere à capacidade da teoria de gerar predições que apreciar que a principal função da teoria é apontar
são confirmadas quando coletamos os dados empíri- relações novas e ainda não-observadas. A produtivi-
cos relevantes. A abrangência se refere ao alcance ou dade da teoria é testada antes-do-fato, não depois-
completude dessas derivações. Podemos ter uma teo- do-fato.
ria que gera conseqüências freqüentemente confirma- A simplicidade, ou parcimônia, também é impor-
das, mas que lida apenas com alguns aspectos dos fe- tante, mas só depois de terem sido resolvidas as ques-
nômenos que nos interessam. Idealmente, a teoria tões de abrangência e de verificabilidade. Ela só se
deve levar a predições acuradas que tratem de forma torna uma questão quando duas teorias geram exata-
geral ou inclusiva os eventos empíricos que ela pre- mente as mesmas conseqüências. À medida que as
tende abranger. teorias diferem nas derivações que podem ser feitas
É importante distinguir entre o que pode ser cha- referentes aos mesmos eventos empíricos, a escolha
mado de geração sistemática e geração heurística de entre duas teorias deve ser decidida em termos da
pesquisa. Está claro que, no caso ideal, a teoria per- extensão em que essas predições diferem em verifica-
mite a derivação de proposições específicas testáveis, ção. Assim, só quando temos uma tautologia – duas
e estas, por sua vez, levam a estudos empíricos espe- teorias chegando às mesmas conclusões a partir de
cíficos. Entretanto, também acontece que muitas teo- termos diferentes – é que a simplicidade se torna uma
rias, como por exemplo as de Freud e Darwin, exer- questão importante. Existem alguns exemplos dessa
cem um grande efeito sobre os caminhos investigativos situação na ciência e nenhum, pelo que sabemos, na
sem a mediação de proposições explícitas. Essa capa- psicologia. A simplicidade, como oposta à complexi-
cidade de uma teoria gerar pesquisa ao sugerir idéias dade, é uma questão de valor ou preferência pessoal
ou inclusive ao despertar descrença e resistência pode na teorização da personalidade, e não um atributo
ser referida como a influência heurística da pesquisa. que deve necessariamente ser valorizado ou buscado.
Ambos os tipos de influência são muito importantes. Uma outra função da teoria é evitar que o observa-
Uma segunda função da teoria é permitir a incor- dor fique ofuscado pela complexidade total dos eventos
poração de achados empíricos conhecidos a uma estru- naturais ou concretos. A teoria é um conjunto de ante-
tura logicamente consistente e razoavelmente simples. paros e diz ao usuário que ele não precisa se preocu-
Uma teoria é um meio de organizar e integrar tudo o par com todos os aspectos do evento que está estu-
que é conhecido sobre um conjunto de eventos relaci- dando. Para o observador não-treinado, qualquer
onados. Uma teoria adequada do comportamento psi- evento comportamental razoavelmente complexo pa-
cótico deve ser capaz de organizar tudo o que se sabe rece oferecer incontáveis meios diferentes de analisar
sobre a esquizofrenia e sobre as outras psicoses em ou de descrever o evento – e realmente oferece. A
uma estrutura compreensível e lógica. Uma teoria da teoria permite que o observador abstraia a partir da
aprendizagem satisfatória deve abranger de maneira complexidade natural de uma maneira sistemática e
36 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

eficiente. As pessoas abstraem e simplificam quer usem É interessante especular acerca do status paradig-
ou não uma teoria. No entanto, se não seguirmos a mático da teoria e da pesquisa sobre a personalidade.
orientação de uma teoria explícita, os princípios que Para aqueles que adotam este idioma, parece mais fácil
determinam a nossa visão ficarão escondidos em su- ver essa área como em um estado pré-paradigmático.
posições implícitas e em atitudes das quais não esta- Isto é, embora existam muitos conjuntos de idéias sis-
mos conscientes. A teoria especifica para o usuário temáticas, ou um pouco sistemáticas, nenhum deles
um número limitado de dimensões, variáveis ou pa- adquiriu uma posição de real dominância. Não existe
râmetros mais ou menos definidos e de importância nenhuma teoria única que sirva como um “paradig-
crucial. Os outros aspectos da situação podem em certa ma” para ordenar achados conhecidos, determinar a
extensão ser ignorados do ponto de vista desse pro- relevância, ser algo estabelecido contra o qual rebel-
blema. Uma teoria útil vai detalhar instruções explíci- des possam rebelar-se e ditar o melhor caminho para
tas sobre os tipos de dados que devem ser coletados futuras investigações. Alguns teóricos da personali-
em relação a um determinado problema. Conseqüen- dade começaram a tratar do status paradigmático do
temente, como poderíamos esperar, os indivíduos com campo. Eysenck, em particular, afirmou que o mode-
posições teóricas drasticamente diferentes podem es- lo dimensional da personalidade oferece “pelo menos
tudar o mesmo evento empírico e fazer observações o início de um paradigma no campo da personalida-
bem diferentes. de” (1983, p. 369; ver também 1991).
Nos últimos anos, um crescente número de psicó-
logos adotou o raciocínio teórico e a terminologia de
Thomas Kuhn (1970). Em uma monografia muito in-
teressante, ainda que excessivamente simplificada, UMA TEORIA DA PERSONALIDADE
Kuhn sugere que o avanço científico pode ser descrito
com extrema precisão como consistindo em uma sé- Nós concordamos que a personalidade é definida pe-
rie de passos revolucionários, cada um acompanhado los conceitos específicos contidos em uma dada teo-
de seu próprio paradigma característico e dominante. ria, que são considerados adequados para a descrição
Segundo Kuhn, cada campo científico emerge de ma- ou entendimento completos do comportamento hu-
neira desajeitada e descoordenada, com o desenvol- mano. Também concordamos que uma teoria consiste
vimento de linhas diversas de investigação e de idéias em um conjunto de suposições relacionadas referen-
teóricas que preservam sua posição autônoma e com- tes aos fenômenos empíricos e às definições empíri-
petitiva, até que um determinado conjunto de idéias cas relevantes que permitem que o usuário passe da
assuma o status de um paradigma. Ele sugere que es- teoria abstrata para a observação empírica. Por sim-
ses paradigmas servem para ples acréscimo, temos a implicação de que uma teoria
da personalidade deve ser um conjunto de suposições
“definir os problemas e os métodos legítimos de relevantes para o comportamento humano, juntamen-
um campo de pesquisa para as próximas gerações te com as definições empíricas necessárias. Existe tam-
de praticantes. Eles permitiam isso porque apre- bém a exigência de que a teoria seja relativamente
sentavam duas características essenciais. Sua re- abrangente. Ela deve estar preparada para lidar com
alização foi suficientemente inédita para atrair um uma ampla variedade de comportamentos humanos
grupo duradouro de adeptos, afastando-os de ou fazer predições sobre eles. De fato, a teoria deve
modos concorrentes de atividade científica. Simul- estar preparada para lidar com qualquer fenômeno
taneamente, (eles estavam) . . . suficientemente comportamental que possua significado para o indiví-
abertos para deixar todo tipo de problema para o duo.
novo grupo de praticantes resolver . . . Essas são O que foi dito até este ponto possui uma validade
as tradições que o historiador descreve sob rubri- formal que, todavia, não se sustenta em uma análise
cas como ‘astronomia ptolemaica’ (ou ‘copérni- cuidadosa das teorias existentes sobre a personalida-
ca’), ‘dinâmica aristotélica’ (ou ‘newtoniana’), ‘óti- de. A nossa discussão é importante para identificar as
ca corpuscular’ (ou ‘ótica de onda’) e assim por qualidades às quais todos os teóricos aspiram, e tam-
diante.” (p. 10) bém dá uma idéia de como as teorias da personalida-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 37

de devem ser. Entretanto, está claro que no presente abandono das tentativas de construir uma dessas teo-
elas não são assim. Devemos dizer uma palavra sobre rias neste momento. Não seria melhor esquecer no
como elas diferem do ideal, tanto em estrutura quan- presente as teorias e focalizar os instrumentos empí-
to em função. ricos e os achados empíricos específicos? Enfaticamen-
Em primeiro lugar, como veremos, a maioria das te, não! Tal decisão não envolve desistir de uma teo-
teorias carece de clareza. Geralmente é bem difícil ria inadequada e ficar sem nenhuma teoria, mas
entender as suas suposições ou a sua base axiomáti- envolve a substituição de uma teoria implícita por uma
ca. As teorias da personalidade são freqüentemente explícita. Não existe isso de “nenhuma teoria”; conse-
embaladas em vistosas imagens lingüísticas que po- qüentemente, no momento em que tentamos esque-
dem servir muito bem como um meio de persuadir o cer as teorias “por enquanto”, estamos na verdade em-
leitor relutante, mas que freqüentemente servem para pregando suposições implícitas sobre o comporta-
ocultar e esconder as suposições específicas subjacen- mento, pessoalmente determinadas e talvez inconsis-
tes à teoria. Em outras palavras, a maioria das teorias tentes. Essas suposições não-identificadas vão deter-
não é apresentada de uma maneira direta e ordena- minar o que será estudado e como. A observação de
da. De fato, muitas delas parecem mais orientadas para qualquer evento concreto empírico é realizada sob os
a persuasão do que para a exposição. Relacionada a ditados de alguma “teoria” – isto é, prestamos aten-
essa falta de definição está uma freqüente confusão ção a certos fatos e ignoramos outros – e um dos pro-
sobre aquilo que é dado ou suposto e aquilo que é pósitos da teorização é tornar explícitas as regras que
afirmado empiricamente e aberto a testes. Como to- determinam esse processo de abstração. A possibili-
dos já concordamos, são apenas as derivações ou as dade de melhorar as suposições que estão controlan-
predições geradas pela teoria que estão abertas a tes- do a pesquisa é eliminada no momento em que al-
tes empíricos. O restante da teoria é suposto ou dado guém desiste de tentar definir a base teórica a partir
e não deve ser julgado em termos de confirmação ou da qual opera.
refutação, e sim em termos de quão exitosamente con- Por piores que sejam as teorias da personalidade
segue gerar proposições verificadas. Em geral, então, quando comparadas ao ideal, elas ainda representam
a distinção entre a teoria da personalidade em si e um passo à frente considerável quando comparadas
suas implicações ou derivações muitas vezes não é ao pensamento do observador ingênuo que está con-
mantida. vencido de estar abarcando ou examinando a realida-
Uma conseqüência inevitável da falta de clareza de da única maneira razoável. Mesmo que as teorias
referente à natureza das suposições subjacentes à te- da personalidade não possuam o grau de clareza que
oria é a existência de uma séria confusão no processo poderíamos desejar, sua mera existência possibilita
de derivar declarações empíricas da teoria. Assim, buscarmos essa meta de maneira sistemática.
existe a possibilidade de diferentes indivíduos, usan- Dado que as teorias da personalidade geralmente
do a mesma teoria, chegarem a derivações conflitan- não permitem um processo de derivação tão explícito
tes. Na verdade, o processo de derivação, na maioria quanto desejaríamos, que função elas têm para o in-
das teorias da personalidade, é casual, obscuro e ine- divíduo que as maneja? No mínimo, elas representam
ficiente. Isso é um reflexo não só da falta de clareza um agrupamento de atitudes (suposições) referentes
dessas teorias, mas também do fato de a maioria dos ao comportamento, que de uma maneira ampla limi-
teóricos da personalidade ter sido orientada para a ta os tipos de investigação a serem considerados cru-
explicação depois-do-fato, e não para a geração de ciais ou importantes. Além de estimular certos tipos
novas predições referentes ao comportamento. Final- gerais de pesquisa, elas também oferecem parâme-
mente, está claro que, embora as teorias da personali- tros ou dimensões específicas consideradas importan-
dade variem em seu cuidado ao especificar definições tes na exploração desses problemas. Assim, mesmo
empíricas, nenhuma delas atinge um padrão muito que a teoria não ofereça uma proposição exata para
bom em termos absolutos. ser testada, ela orienta o teórico para certas áreas de
As declarações que acabamos de fazer sobre o sta- problema e indica que determinadas variáveis são de
tus formal das teorias da personalidade podem pare- importância central no estudo desses problemas. Além
cer suficientemente desanimadoras para justificar o disso, temos de considerar o valor heurístico dessas
38 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

teorias. Tomadas como grupo, as teorias da personali- guidas da teoria da personalidade em termos de al-
dade são altamente provocativas e, como iremos des- cance ou abrangência. Elas não têm a pretensão de
cobrir, levaram a muitas pesquisas, mesmo que relati- ser uma teoria geral do comportamento e contentam-
vamente poucas tenham sido o resultado de um se em desenvolver conceitos apropriados para a des-
processo formal de derivação. Em outras palavras, a crição e predição de uma série limitada de eventos
capacidade dessas teorias de gerar idéias, de estimu- comportamentais. Mas, de modo geral, as teorias da
lar a curiosidade, de despertar dúvidas, ou de levar a personalidade aceitam o desafio de explicar ou incor-
convicções resultou em um sadio florescimento de in- porar eventos de natureza muito variada, desde que
vestigações, apesar de sua falta de elegância formal. eles possuam uma importância funcional demonstra-
da para o indivíduo.
O fato de testes de personalidade planejados para
medir componentes da personalidade serem freqüen-
A TEORIA DA PERSONALIDADE E temente usados na psicologia social e em outros ra-
OUTRAS TEORIAS PSICOLÓGICAS mos da psicologia não deve obscurecer esse ponto.
Como Lamiell salientou, existe uma distinção entre a
A nossa discussão, até o momento, leva à conclusão psicologia da personalidade, que focaliza consistências
de que uma teoria da personalidade deve consistir em “temporais e transituacionais” dentro das pessoas, isto
um conjunto de suposições referentes ao comporta- é, “no nível do indivíduo” (1981, p. 280), e a psicolo-
mento humano, juntamente com regras para relacio- gia diferencial, que focaliza o desempenho relativo das
nar essas suposições e definições para permitir sua pessoas em geral em alguma característica de interes-
interação com eventos empíricos ou observáveis. Neste se. As teorias da personalidade abrangem uma ampla
ponto, seria razoável perguntar se essa definição de variedade de comportamentos e de processos e consi-
alguma maneira diferencia as teorias da personalida- deram o indivíduo como uma unidade integrada. A
de de outras teorias psicológicas. Ao responder a essa pesquisa da personalidade baseia-se em uma teoria
pergunta, convém começar com uma distinção entre geral do indivíduo como um todo em funcionamento
dois tipos de teoria psicológica. e não emprega medidas ad hoc ou isoladas de tendên-
É evidente que certas teorias psicológicas pare- cias de resposta.
cem estar prontas para lidar com qualquer evento Resta a pergunta sobre se existem teorias gerais
comportamental que possa ser importante no ajusta- do comportamento que normalmente não seriam cha-
mento do organismo humano. Outras teorias se limi- madas de teorias da personalidade. Uma possibilida-
tam especificamente ao comportamento conforme ele de é a teoria da aprendizagem ser em alguns casos
ocorre sob certas condições cuidadosamente prescri- suficientemente generalizada para constituir uma te-
tas. Essas teorias professam interesse apenas em as- oria geral do comportamento. Esse é claramente o caso
pectos limitados do comportamento humano. Uma e, como veremos com detalhes mais tarde, alguns te-
teoria que tenta lidar com todos os fenômenos com- óricos tentaram generalizar as teorias da aprendiza-
portamentais de importância demonstrada pode ser gem de modo que fossem comparáveis em abrangên-
referida como uma teoria geral do comportamento, e cia a qualquer outra teoria geral do comportamento.
aquelas teorias que restringem seu foco a certas clas- Nesses casos, a teoria de aprendizagem deixa de ser
ses de eventos comportamentais são chamadas de te- meramente uma teoria da aprendizagem e torna-se
orias de domínio único. uma teoria da personalidade ou uma teoria geral do
As teorias da personalidade se encaixam claramen- comportamento. É verdade que tais modelos genera-
te na primeira categoria: elas são teorias gerais do lizados possuem certas características distintivas que
comportamento. Essa simples observação serve para lembram sua origem, mas, em intenção e proprieda-
separar a teoria da personalidade da maioria das ou- des lógicas, elas não são diferentes de qualquer outra
tras teorias psicológicas. As teorias da percepção, au- teoria da personalidade.
dição, memória, aprendizagem motora, discriminação A reunião de teorias que tiveram suas origens nos
e as muitas outras teorias especiais dentro da psicolo- laboratórios com animais e nas teorias que se origina-
gia são teorias de domínio único e podem ser distin- ram dos consultórios dos terapeutas pode parecer for-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 39

çada para muitos observadores. Entretanto, se consi- das em quatro famílias, sendo que as teorias de cada
derarmos as teorias do ponto de vista daquilo que família compartilham certas características. As teori-
pretendem fazer e de sua estrutura geral, e não do as psicodinâmicas enfatizam os motivos inconscientes
ponto de vista de onde vêm ou das suposições deta- e o conflito intrapsíquico resultante. As teorias estru-
lhadas que fazem sobre o comportamento, fica claro turais focalizam as diferentes tendências comporta-
que qualquer teoria geral do comportamento é igual mentais que caracterizam os indivíduos. As teorias ex-
a qualquer outra. Nesse sentido, todas as teorias ge- perienciais observam a maneira pela qual a pessoa
rais do comportamento são teorias da personalidade percebe a realidade e experiencia seu mundo. Final-
e vice-versa. Dentro desse grande grupo de teorias, mente, as teorias da aprendizagem enfatizam a base
podemos fazer muitas distinções, é claro. A próxima aprendida das tendências de resposta, com uma ênfa-
seção trata de alguns atributos em termos dos quais se no processo de aprendizagem em vez de nas ten-
as teorias da personalidade podem ser diferenciadas dências resultantes. Cada conjunto de teorias será in-
ou comparadas. troduzido com uma descrição mais completa das
características da família.
Segundo, alguns aspectos da personalidade são
discutidos por diferentes teóricos. Por exemplo, a an-
A COMPARAÇÃO DAS TEORIAS siedade, o senso de competência, o conflito intrapsí-
DA PERSONALIDADE quico e o nível de sociabilidade desempenham papéis
centrais em muitas das teorias que o estudante vai
O fato mais notável com o qual o estudante da perso- encontrar neste livro. Por um lado, isso é alentador,
nalidade se depara é a multiplicidade de teorias da porque a convergência de diferentes teóricos em de-
personalidade. A confusão aumenta quando lhe di- terminadas facetas da personalidade sugere que essas
zem que é impossível afirmar qual teoria está certa ou características são reais e importantes. Por outro lado,
é melhor do que as outras. Essa incerteza é tipica- isso pode ser desorientador, uma vez que os diferen-
mente atribuída à qualidade recente do campo e à tes teóricos necessariamente empregam linguagens
dificuldade do assunto. Neste ponto, em vez de per- específicas das próprias teorias para discutir essas ca-
guntar se as teorias estão certas ou erradas, o estu- racterísticas. Para ajudar o estudante a compreender
dante é aconselhado a adotar uma estratégia compa- essas convergências, nós incluiremos uma discussão
rativa. Uma boa base racional para essa abordagem explícita das traduções entre as teorias apresentadas.
vem de George Kelly, cuja teoria é apresentada no Finalmente, existem várias qualidades pelas quais
Capítulo 10. Kelly aborda a personalidade da posição as teorias da personalidade podem ser comparadas e
filosófica que ele chama de alternativismo construti- distinguidas. Nós agora apontamos algumas das mais
vo. Colocando-a simplesmente, Kelly sugere que as importantes destas dimensões. Os atributos se divi-
pessoas diferem em sua maneira de perceber, ou cons- dem naturalmente entre aqueles referentes a ques-
truir, a realidade. As pessoas diferentes constroem ou tões de adequação formal e os referentes à natureza
interpretam o mundo de maneiras diferentes e, con- substantiva da teoria.
seqüentemente, agem de maneiras diferentes. Nenhu-
ma dessas construções alternativas está necessaria-
Atributos Formais
mente certa ou errada; mais propriamente, cada uma
tem implicações diferentes. Essa mesma abordagem Aqui estamos interessados em quão adequadamente
sugere que as teorias da personalidade possibilitam a estrutura da teoria é desenvolvida e apresentada.
construções alternativas da personalidade, nenhuma Essas qualidades representam um ideal, e quanto mais
das quais está completamente certa ou errada, cada perto a teoria chega dele, mais efetivamente pode ser
uma das quais tem diferentes forças e fraquezas, e usada.
cada uma das quais enfatiza diferentes componentes A questão da clareza e explicitação é de imensa
do comportamento. importância. Essa é uma questão de quão claramente
Este texto foi organizado para facilitar este pro- e precisamente as suposições e os conceitos inseridos
cesso comparativo. Primeiro, as teorias estão agrupa- que constituem a teoria são apresentados. Em um dos
40 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

extremos, a teoria pode ser enunciada em termos de juiz. Também é verdade que nem sempre é fácil dizer
uma notação matemática, com uma definição precisa exatamente qual foi o processo que levou à realização
de todos os termos, com exceção dos primitivos, de de uma investigação específica. Assim, o papel gene-
modo que a pessoa adequadamente treinada possa rativo da teoria pode ser difícil de avaliar. Apesar dis-
empregar a teoria com um mínimo de ambigüidade. so, existem diferenças claras e perceptíveis entre as
Nessas circunstâncias, diferentes indivíduos, empre- teorias da personalidade na extensão em que foram
gando a teoria independentemente, chegarão a fun- traduzidas em investigações de interesse geral.
damentos ou derivações extremamente parecidos. No
outro extremo, encontramos teorias apresentadas com
Atributos Substantivos
tal excesso de descrição vívida e complexa que é ex-
tremamente difícil para a pessoa que vai empregar a Embora os atributos formais que acabamos de descre-
teoria saber ao certo com o que exatamente está li- ver apresentem um valor normativo ou padrão em
dando. Nessas circunstâncias, há pouca probabilida- termos do qual cada teoria pode ser comparada, os
de de que indivíduos, usando a teoria de forma inde- seguintes atributos não possuem essa implicação ava-
pendente, cheguem às mesmas formulações ou liativa. Eles são neutros em relação ao bom e ao mau
derivações. Ficará claro, à medida que prosseguirmos, e refletem simplesmente as suposições particulares da
que não existe uma teoria da personalidade que se teoria sobre o comportamento.
aproxime bastante do ideal da notação matemática; As diferenças de conteúdo entre as teorias da per-
no entanto, dado o livre uso da descrição verbal, va- sonalidade refletem naturalmente as questões atuais
mos descobrir que existe uma considerável variação mais importantes nessa área. Portanto, nas páginas
entre as teorias da personalidade na clareza de sua seguintes, não só apresentaremos as dimensões que
exposição. podem ser usadas para a comparação das teorias da
Uma outra pergunta é a questão de quão bem a personalidade, mas também destacaremos as opções
teoria se relaciona aos fenômenos empíricos. Aqui esta- mais importantes para um teórico nessa área. Seria
mos preocupados com a explicitação e a praticidade perfeitamente apropriado dar a esta seção o título
das definições propostas para traduzir as concepções “questões na teoria da personalidade”.
teóricas em operações de mensuração. Em um dos ex- Mais antiga que a história da psicologia é a per-
tremos, encontramos teorias que prescrevem opera- gunta sobre se o comportamento humano deve ser
ções relativamente exatas para avaliar ou medir cada visto como possuindo qualidades intencionais ou teleo-
um dos seus termos empíricos. Em outros casos, o te- lógicas. Algumas teorias do comportamento criam um
órico parece supor que o nome atribuído ao conceito modelo do indivíduo em que a busca de objetivos, o
é uma operação definidora suficiente em si mesma. propósito e o empenho são vistos como aspectos es-
Talvez este seja um lugar apropriado para enfati- senciais e centrais do seu comportamento. Outras
zar novamente a nossa convicção de que todas as ques- teorias supõem que os aspectos de empenho e busca
tões de adequação formal diminuem de importância no comportamento não são importantes, e acreditam
diante da pergunta sobre quais pesquisas empíricas que o comportamento pode ser explicado adequada-
foram geradas pela teoria. Por mais vaga e maldesen- mente sem essa ênfase. Estes últimos teóricos consi-
volvida que seja a teoria, e por mais inadequadas que deram os elementos subjetivos do empenho e da bus-
sejam sua sintaxe e definições empíricas, ela passa no ca como um epifenômeno, acompanhando o compor-
teste crucial se provarmos que tem um efeito genera- tamento, mas não desempenhando um papel deter-
tivo sobre áreas de pesquisa significativas. Assim, a minante em sua instigação. As teorias que minimizam
questão do resultado, que supera, e na verdade torna a importância do propósito ou da teleologia geralmen-
triviais todas as questões de adequação formal, é a te são chamadas de “mecanicistas”.
questão de quanta pesquisa importante a teoria pro- Um outro antigo debate se refere à importância
duziu. Não é fácil concordar sobre o que é pesquisa relativa dos determinantes conscientes e inconscientes
importante, especialmente porque a importância será do comportamento. Essa questão também poderia ser
em grande parte determinada pela posição teórica do enunciada em termos da relativa racionalidade ou irra-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 41

cionalidade do comportamento humano. O termo in- favor de algum tipo de ambientalismo, mas há uma
consciente é usado aqui simplesmente para se referir considerável variação entre os teóricos no que se re-
aos determinantes do comportamento dos quais o in- fere ao manejo e à aceitação dos fatores genéticos.
divíduo não está consciente e que é incapaz de trazer Uma dimensão adicional em termos da qual as
para a consciência exceto em condições especiais. As teorias da personalidade mostram uma considerável
teorias da personalidade variam daquelas que rejei- variação tem a ver com a relativa importância das ex-
tam explicitamente qualquer consideração de deter- periências desenvolvimentais iniciais. A teoria atribui
minantes inconscientes do comportamento, ou que se uma importância estratégica e crítica aos eventos que
recusam a aceitar a existência desses determinantes, ocorreram no período de bebê e na infância maior do
às teorias que os consideram os mais importantes ou que a importância atribuída aos eventos ocorridos em
poderosos determinantes do comportamento. Um estágios posteriores do desenvolvimento? Como des-
meio termo é ocupado pelos teóricos que estão dis- cobriremos, algumas teorias defendem que a chave
postos a atribuir um papel central aos determinantes para o comportamento adulto é encontrada em even-
inconscientes no comportamento dos indivíduos per- tos que aconteceram nos primeiros anos de desenvol-
turbados ou anormais, mas afirmam que para o indi- vimento, enquanto outras afirmam explicitamente que
víduo normal os motivos conscientes são as forças go- o comportamento só pode ser compreendido e expli-
vernantes. cado em termos dos eventos contemporâneos ou atu-
Uma distinção fundamental entre as teorias da ais. Relacionada a essa questão, está a extensão em
personalidade tem relação com a extensão em que o que os teóricos consideram a estrutura da personali-
processo de aprendizagem, ou a modificação do com- dade, em um determinado ponto do tempo, como au-
portamento, é uma questão que recebe uma atenção tônoma ou funcionalmente distinta das experiências
detalhada e explícita. Alguns teóricos da personalida- que precederam esse ponto. Para certos teóricos, o
de vêem no entendimento do processo da aprendiza- entendimento do comportamento em termos de fato-
gem a chave para todos os fenômenos comportamen- res contemporâneos não só é possível, mas é também o
tais. Para outros teóricos, a aprendizagem é um único caminho defensável para esse entendimento.
problema importante, mas secundário. Embora ne- Para outros, uma compreensão razoável do presente
nhum teórico da personalidade vá negar a importân- sempre depende parcialmente do conhecimento de
cia da aprendizagem, veremos que alguns preferem eventos que ocorreram no passado. Naturalmente,
focalizar as aquisições ou os resultados da aprendiza- aqueles que enfatizam o ponto de vista contemporâ-
gem ao invés do processo em si. Essa questão se tor- neo estão convencidos da independência funcional da
nou um ponto de discordância entre aqueles que que- estrutura da personalidade em qualquer momento es-
rem tratar principalmente do processo de mudança e pecífico no tempo, enquanto os que enfatizam a im-
aqueles que se mostram mais interessados nas estru- portância da experiência passada ou inicial estão me-
turas ou aquisições estáveis da personalidade em qual- nos convencidos da liberdade da estrutura presente
quer momento dado. em relação à influência dos eventos passados.
Uma questão tão antiga quanto o pensamento Estreitamente relacionada a essa questão está a
humano sobre a humanidade é a pergunta sobre a questão da continuidade ou descontinuidade do com-
relativa importância da genética, ou dos fatores here- portamento em diferentes estágios do desenvolvimen-
ditários na determinação do comportamento. Pratica- to. A maioria das teorias que enfatizam o processo de
mente ninguém vai negar que os fatores hereditários aprendizagem e/ou a importância das experiências de-
têm implicações para o comportamento, mas existem senvolvimentais iniciais tende a ver o indivíduo como
teóricos da personalidade que diminuem dramatica- um organismo em constante desenvolvimento. A es-
mente a sua importância, insistindo que todos os fe- trutura observada em um dado ponto do tempo está
nômenos comportamentais importantes podem ser relacionada de maneira determinante à estrutura e às
compreendidos sem recorrermos ao biológico e ao experiências que ocorreram em um ponto anterior. Ou-
genético. Na América, o papel dos fatores da heredi- tras teorias tendem a considerar o organismo como
tariedade tem sido historicamente subestimado em atravessando estágios de desenvolvimento relativa-
42 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

mente independentes e funcionalmente separados dos preender sem considerar os fatores significativos.
estágios iniciais de desenvolvimento. Este último ponto Embora o comportamento seja parcialmente um re-
de vista pode levar à construção de teorias drastica- sultado de determinantes inerentes ao indivíduo, exis-
mente diferentes para o comportamento do bebê e o tem forças externas igualmente convincentes que agem
comportamento do adulto. sobre a pessoa. É só quando o ambiente significativo
Uma diferença importante entre as teorias da per- do indivíduo está inteiramente representado que es-
sonalidade está na extensão em que elas adotam prin- sas forças, agindo fora da pessoa, podem receber a
cípios holísticos. Isto é, elas consideram legítimo abs- devida atenção. Existe uma forte tendência, nos teó-
trair e analisar de modo que, em um dado momento, ricos que enfatizam a importância do “campo”, de mi-
ou em um estudo específico, seja examinada apenas nimizar a importância dos fatores hereditários, assim
uma pequena parte do indivíduo? Os indivíduos que como dos eventos que ocorreram no início do desen-
adotam uma posição holística consideram que o com- volvimento. Essa não é uma necessidade lógica, mas
portamento só pode ser compreendido no contexto, na prática a maioria dos teóricos que se centraram no
de modo que devemos considerar simultaneamente a contexto ambiental do indivíduo enfatiza o presente
pessoa total, em funcionamento, juntamente com as ao invés do passado e está mais interessada no que
porções significativas de seu ambiente, para que te- está “lá fora” e não nos aspectos inatos do indivíduo.
nhamos um bom resultado. Outras teorias aceitam o Relacionada à questão do holismo está a questão
fato de que a própria natureza da ciência necessita de da singularidade ou individualidade. Certas teorias
análise. Essas posições normalmente não mostram ne- superestimam muito o fato de que cada indivíduo e,
nhuma preocupação especial com a violação da inte- na verdade, cada ato é único e não pode ser duplica-
gridade do organismo total que pode existir nos estu- do por qualquer outro indivíduo ou ato. Elas salien-
dos segmentais. tam que sempre existem qualidades distintivas e im-
Tal ênfase na totalidade do indivíduo e do ambi- portantes que destacam o comportamento de um
ente pode ser analisada de duas formas distintas. A indivíduo do comportamento de todas as outras pes-
primeira normalmente é referida como uma posição soas. Em geral, o indivíduo que adota fortemente um
organísmica. Aqui existe uma ênfase maior no inter- ponto de vista de campo ou organísmico tende a en-
relacionamento de tudo o que o indivíduo faz: cada fatizar também a singularidade. Isso decorre natural-
ato só pode ser compreendido contra o pano de fun- mente do fato de que, se ampliarmos suficientemente
do oferecido pelos outros atos da pessoa. Não só exis- o contexto que deve ser considerado em relação a cada
te uma implicação de que todos os comportamentos evento comportamental, ele passará a ter tantas face-
são essencialmente inter-relacionados e não-suscetí- tas que certamente apresentará diferenças distintas
veis a técnicas de análise, mas geralmente também em comparação com todos os outros eventos. Algu-
existe um interesse pelas bases orgânicas do compor- mas teorias aceitam o fato de que cada indivíduo é
tamento. Conseqüentemente, o comportamento deve único, mas propõem que essa singularidade pode ser
ser visto em função da perspectiva oferecida pelos explicada em termos de diferenças na configuração
outros atos do indivíduo, assim como em função da das mesmas variáveis subjacentes. Outras teorias afir-
perspectiva oferecida pelos processos fisiológicos e mam que os indivíduos nem sequer podem ser com-
biológicos concomitantes. Todos os comportamentos parados proveitosamente em termos de variáveis co-
e o funcionamento biológico da pessoa constituem um muns ou gerais, pois elas distorcem e representam mal
todo orgânico que não pode ser compreendido se es- a singularidade do indivíduo. As teorias da personali-
tudado de modo segmentado. dade variam das que não fazem nenhuma menção
A segunda posição holística normalmente é refe- especial à singularidade àquelas para as quais esta é
rida como uma ênfase no campo. Aqui, a teoria se pre- uma das suposições mais centrais. Tais teorias costu-
ocupa principalmente com a unidade indivisível de mam descrever uma hierarquia, variando de compor-
um determinado ato comportamental e o contexto tamentos específicos a tendências comportamentais
ambiental em que ele ocorre. Tentar compreender uma mais amplas e a princípios gerais de comportamento
dada forma de comportamento sem especificar com (p. ex., Raymond Cattell e Hans Eysenck). Isto é, es-
detalhes o “campo” em que ele ocorre é tentar com- sas teorias sugerem que o grau de individualidade ou
TEORIAS DA PERSONALIDADE 43

de generalidade depende do nível de análise que de- vai responder. Contrapondo-se, existem posições teó-
cidimos adotar. ricas que afirmam ser impossível construir uma teoria
Intimamente associada às questões de holismo e sólida do comportamento sobre as areias movediças
singularidade está a amplitude da unidade de com- dos relatos subjetivos ou das complicadas inferências
portamento empregada na análise da personalidade. necessárias para inferir “significado” dos eventos físi-
Aqueles teóricos que são holistas relativos ou absolu- cos. Tais teorias afirmam que podemos progredir mais,
tos escolhem analisar o comportamento só no nível deixando de lado as diferenças individuais na manei-
da pessoa completa, enquanto outros teóricos da per- ra de perceber o mesmo evento objetivo e focalizan-
sonalidade empregam constructos de graus variados do as relações, envolvendo eventos externos e obser-
de especificidade ou elementalismo. Isso já foi referi- váveis.
do como uma escolha entre uma abordagem molar Uma outra distinção entre os teóricos da persona-
(geral) e uma abordagem molecular (específica) ao lidade tem relação com o fato de acharem ou não ne-
estudo do comportamento. No segmento mais extre- cessário introduzir um autoconceito. Para certos teóri-
mo desse contínuo, está o teórico que acredita que o cos, o atributo humano mais importante é a visão ou
comportamento deve ser analisado em termos de re- a percepção que o indivíduo tem de si mesmo. Esse
flexos ou hábitos específicos; na outra extremidade, processo de auto-exame freqüentemente é visto como
está o observador disposto a ver o comportamento a chave para o entendimento da multiplicidade de
em algum nível mais molecular do que a pessoa intei- eventos comportamentais surpreendentes apresenta-
ra funcionando. Como veremos, pesquisas recentes dos pelas pessoas. Em outras teorias, não existe esse
sobre a utilidade diferencial dos constructos de per- conceito, e a percepção do sujeito de si mesmo é con-
sonalidade amplos versus limitados e a importância siderada de pouca importância geral.
de se “agregar” observações isoladas em escalas de- Uma característica do autoconceito que merece
sempenharam um papel importante na solução do especial atenção é o senso de competência do indiví-
debate entre aqueles que defendem o comportamen- duo. Alguns teóricos propuseram que estabelecer e
to como determinado pela situação e aqueles que en- manter um senso de poder, controle ou competência
fatizam o papel determinante das características de pessoal funciona como um motivo predominante.
personalidade. Além disso, o grau de competência, quer em domíni-
Existe uma distinção relacionada entre as teorias os gerais, quer específicos, existe como uma caracte-
que lidam extensivamente com o conteúdo do com- rística central da autodefinição e do senso de valor do
portamento e sua descrição e as que lidam principal- indivíduo. Outros teóricos não reconhecem a existên-
mente com princípios gerais, leis e análises formais. cia de um motivo autônomo como esse. Tal construc-
Os teóricos podem concentrar-se nos detalhes concre- to pode ser descrito em vários termos, mas serve como
tos da experiência e do comportamento ou preocu- um princípio organizador para o autoconceito naque-
par-se principalmente com leis ou princípios que po- las teorias que o incluem.
dem ser amplamente generalizados. Tipicamente, Os teóricos da personalidade variam muito na
quanto mais abstração tiver a teoria, menor a preocu- extensão em que enfatizam explicitamente os deter-
pação com o conteúdo ou com os detalhes concretos minantes comportamentais culturais ou a condição de
do comportamento. membro de um grupo. Em algumas teorias, esses fato-
Certos teóricos da personalidade centraram sua res recebem um papel principal, modelando e contro-
posição teórica na importância do ambiente psicológi- lando o comportamento; em outras, a ênfase é quase
co ou da estrutura subjetiva de referência. Eles enfati- exclusivamente nos determinantes do comportamen-
zam que o mundo físico e seus eventos só afetam os to que operam independentemente da sociedade ou
indivíduos se eles os perceberem ou experienciarem. dos grupos culturais aos quais o indivíduo está expos-
Assim, não é a realidade objetiva que serve como um to. Em geral, os teóricos caracterizados por uma pe-
determinante do comportamento, e sim a realidade sada ênfase organísmica tendem a subestimar o papel
objetiva conforme é percebida ou “significada” pelo dos determinantes comportamentais da condição de
indivíduo. É o ambiente psicológico, não o ambiente membro de um grupo. Aqueles que enfatizam o cam-
físico, que determina a maneira pela qual o indivíduo po em que o comportamento ocorre vêem com mais
44 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

simpatia o papel dos determinantes socioculturais ou guns teóricos oferecem uma rica descrição dos com-
da condição de membro de um grupo. Os exemplos ponentes sadios ou ideais da personalidade, enquan-
extremos dessa posição, normalmente referidos como to outros se limitam a uma descrição objetiva ou fatu-
exemplos de determinismo cultural, são encontrados al, sem nenhum esforço para indicar o positivo e o
entre teóricos antropológicos e sociológicos, mas os negativo ou inclusive o normal e o anormal. Alguns
teóricos psicológicos também apresentam considerá- teóricos estão muito mais preocupados com as carac-
vel variação nessa questão. terísticas da pessoa madura ou ideal, enquanto ou-
Além disso, temos a questão mais geral de quão tros relutam em considerar uma forma de ajustamen-
explicitamente os teóricos da personalidade tentam to como necessariamente superior à outra.
relacionar sua teoria à teorização e aos achados em- Algumas teorias da personalidade derivam-se de
píricos das disciplinas correlatas. Isso poderia ser re- e são mais relevantes para a descrição do comporta-
ferido como uma questão de ancoramento interdisci- mento anormal ou patológico. Outras teorias e teóri-
plinar. Alguns teóricos da personalidade ficam cos centram-se no normal ou no melhor que o nor-
relativamente satisfeitos ao lidar com os fenômenos mal. As teorias com origens nas clínicas psiquiátricas,
comportamentais em termos de conceitos e achados nos centros de aconselhamento e nos consultórios de
psicológicos, com pouca ou nenhuma atenção ao que terapeutas certamente têm mais a dizer sobre o com-
está acontecendo nas disciplinas afins. Outros julgam portamento desviante ou anormal, enquanto as teori-
que a teorização psicológica deve basear-se nas for- as derivadas do estudo das crianças e dos estudantes
mulações e nos achados de outras disciplinas. Os psi- universitários são mais descritivas e representativas
cólogos da personalidade “orientados para outras dis- do intervalo relativamente normal de personalidade.
ciplinas” podem ser divididos em dois tipos básicos: Nós agora encerramos nossa lista de dimensões
os que buscam orientação nas ciências naturais (bio- para a comparação das teorias da personalidade, mas
logia, fisiologia, neurologia, genética) e os que bus- esperamos que os leitores não se esqueçam delas. A
cam orientação nas ciências sociais (sociologia, antro- breve orientação aqui oferecida terá um significado
pologia, economia, história). mais rico e uma maior importância se essas questões
As teorias da personalidade mostram grande va- forem consideradas na leitura dos capítulos que des-
riação no número de conceitos motivacionais que em- crevem as diferentes teorias da personalidade. Tam-
pregam. Em alguns casos, considera-se que um ou dois bém ficará claro que os aspectos mais distintivos des-
desses conceitos estão na base de todos os comporta- sas teorias são decorrência de decisões relativas às
mentos; para outras teorias, existe um número extre- questões que acabamos de discutir. No capítulo final,
mamente grande de motivos hipotetizados; e para nós vamos reconsiderar essas dimensões à luz das te-
outras, ainda, o número é praticamente ilimitado. Tam- orias específicas da personalidade.
bém existem diferenças consideráveis entre as teorias Isso nos leva ao final da nossa discussão introdu-
na atenção dada aos motivos primários, ou inatos, em tória, e agora podemos prosseguir para a essência deste
oposição aos motivos secundários, ou adquiridos. Além volume – as próprias teorias da personalidade. Se o
disso, algumas teorias oferecem um quadro relativa- leitor só pudesse gravar um único pensamento de tudo
mente detalhado do processo pelo qual os motivos o que foi dito até este ponto, que fosse a simples im-
adquiridos se desenvolvem, enquanto outras pouco pressão de que as teorias da personalidade são tenta-
se interessam pela derivação ou aquisição de moti- tivas de formular ou representar aspectos significati-
vos. vos do comportamento dos indivíduos e que a
Um outro aspecto em que as teorias da personali- produtividade dessas tentativas deve ser julgada prin-
dade variam bastante é a extensão em que lidam com cipalmente em termos de quão efetivamente elas ser-
aspectos avaliativos ou ideais do comportamento. Al- vem como um estímulo para a pesquisa.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 45

ÊNFASE NA
PSICODINÂMICA

Os teóricos da personalidade descritos nesta seção compartilham uma preocupação central com
as forças dinâmicas que determinam o nosso comportamento e com as estruturas defensivas que,
sem saber, erigimos para nos proteger dessas forças. A primeira posição considerada,
evidentemente, é a de Sigmund Freud. Freud desenvolveu a primeira teoria sistemática da
personalidade, e em muitos aspectos todos os teóricos subseqüentes apresentaram reações à sua
posição.
O núcleo da teoria de Freud foi sua defesa de um modelo conflitual de motivação. Segundo
essa posição, o comportamento é provocado por impulsos inconscientes, com base biológica, que
exigem gratificação. Quando a expressão dessas exigências é bloqueada por constrangimentos
morais, nós negociamos compromissos comportamentais centrados nas substituições ou nas
representações simbólicas do objeto originalmente desejado. À medida que amadurecemos,
ficamos mais capazes de adiar a gratificação até o momento e o lugar apropriados. Mas
continuamos carregando o resíduo inconsciente de conflitos infantis não-resolvidos, e eles são a
base de grande parte do nosso comportamento adulto. Uma das suposições centrais de Freud era
o determinismo psíquico, segundo o qual todos os comportamentos ocorrem por alguma razão.
Conseqüentemente, a nossa tarefa como psicólogos é descobrir os determinantes
comportamentais enterrados. Essa posição de “psicologia profunda” levou Freud a fascinantes
análises de fenômenos cotidianos, como sonhos, chistes e atos falhos. As outras suposições
adotadas por Freud em seus modelos desenvolvimentais separados para homens e mulheres se
mostraram difíceis de aceitar. Neste ponto o leitor deve ser alertado: Freud oferece a primeira
ilustração, e em muitos aspectos a mais clara, da necessidade de se identificar as suposições de
um teórico. Uma vez que as suposições sejam aceitas, a lógica da teoria em si torna-se difícil de
contestar.
Duas notas finais sobre Freud. Primeiro, Freud foi um racionalista, não um defensor da
expressão desenfreada de impulsos irracionais. Ele escreveu: “Onde era o Id, ficará o Ego” e “A
voz do intelecto é uma voz suave, mas não descansa até ser ouvida”. Segundo, Freud se
considerava um empiricista. Isso não surpreende, dada sua carreira original em anatomia e no
que agora chamaríamos de neurociência, mas nos leva a um paradoxo. A teoria de Freud muitas
vezes é descartada como não-científica segundo os critérios apresentados no Capítulo 1.
Qualquer teoria baseada na estrutura e nas forças inconscientes revela-se difícil, se não
impossível, de testar, e a testabilidade das predições é a marca registrada da teoria científica. Na
46 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

verdade, Freud estava mais empenhado na “pós-enunciação”, ou explicação após o fato, do que
na predição. Você, leitor, deve chegar à sua própria conclusão sobre a estatura e a credibilidade
científicas da teoria de Freud.
Os cinco outros teóricos importantes discutidos nesta seção compartilham muito com Freud,
mas também diferem dele de maneiras substanciais. Carl Jung foi endossado por Freud como seu
“príncipe herdeiro”, mas eles acabaram tendo uma separação amarga. Jung jamais conseguiu
aceitar a ênfase de Freud na sexualidade como um motivo, e propôs que os determinantes
inconscientes do comportamento tinham uma origem ancestral e não-pessoal. Alfred Adler
nunca foi tão próximo de Freud em um nível pessoal ou teórico como Jung. Adler estava muito
mais interessado nos determinantes conscientes do comportamento do que Freud estivera, e ele
também enfatizou o “interesse social” como a base do funcionamento sadio. Karen Horney
desafiou as suposições e as conclusões de Freud acerca do desenvolvimento psicossexual. Ela
também propôs um modelo convincente, mas subapreciado, de ansiedade básica e conflitos entre
os componentes do autoconceito. Harry Stack Sullivan enfatizou os estágios desenvolvimentais,
e grande parte de seu modelo baseia-se em constructos de energia e ansiedade. Mas a inclusão
de Sullivan no presente grupo é assegurada pelo contexto interpessoal em que ele conceitualiza
o comportamento do indivíduo. Erik Erikson manteve grande parte do modelo de Freud, mas
reinterpretou os instintos freudianos como “fragmentos pulsionais”, que só recebem significado
por meio das forças culturais e das práticas de educação das crianças. Erikson transformou os
estágios do desenvolvimento psicossexual de Freud em estágios psicossociais, e estendeu a
análise desenvolvimental a todo o ciclo vital. Apesar dessas diferenças, os teóricos compartilham
uma ênfase geral no conflito intrapsíquico e na importância da ansiedade resultante.

TABELA 1 Comparação Dimensional das Teorias Psicodinâmicas

Parâmetro Comparado Freud Jung Adler Horney Sullivan Erikson

Propósito A A A A A A
Determinantes inconscientes A A M A M M
Processo de aprendizagem M B B M M M
Estrutura A A M M M A
Hereditariedade A A A B B M
Desenvolvimento inicial A B A M M A
Continuidade A B A M A A
Ênfase organísmica M A M M M M
Ênfase no campo B B A M A A
Singularidade M M A M M M
Ênfase molar M M M M M M
Ambiente psicológico A A M M A A
Autoconceito A A A A A A
Competência M B A M M A
Afiliação grupal M B A A A A
Ancoragem na biologia A A M B M M
Ancoragem nas ciências sociais A B A A A A
Motivos múltiplos B M B B M M
Personalidade ideal A A A A M A
Comportamento anormal A A A A A M

Nota: A indica alto (enfatizado), M indica moderado, e B indica baixo (pouco enfatizado).
TEORIAS DA PERSONALIDADE 47

Conforme indica a Tabela 1, os teóricos psicodinâmicos geralmente enfatizam o propósito e


os determinantes inconscientes do comportamento. Eles estão preocupados com a personalidade
ideal e com o comportamento patológico, e alguma versão do autoconceito desempenha um
papel-chave em suas posições. Observem a variabilidade, todavia, na importância que atribuem à
afiliação grupal e à hereditariedade. Essas semelhanças e discrepâncias ficarão claras conforme
tratarmos de cada teoria.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 49

CAPÍTULO 2

A Teoria Psicanalítica
Clássica de Sigmund Freud

INTRODUÇÃO E CONTEXTO ................................................................................................... 50


HISTÓRIA PESSOAL ................................................................................................................ 50
A ESTRUTURA DA PERSONALIDADE ....................................................................................... 53
O Id 53
O Ego 54
O Superego 54
A DINÂMICA DA PERSONALIDADE ......................................................................................... 55
Instinto 55
A Distribuição e a Utilização da Energia Psíquica 58
Ansiedade 60
O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE ........................................................................... 61
Identificação 61
Deslocamento 62
Os Mecanismos de Defesa do Ego 63
Estágios de Desenvolvimento 65
PESQUISA CARACTERÍSTICA E MÉTODOS DE PESQUISA .......................................................... 68
O Credo Científico de Freud 69
Associação Livre e Análise de Sonhos 70
Estudos de Caso de Freud 72
Auto-Análise de Freud 74
PESQUISA ATUAL .................................................................................................................. 74
Ativação Psicodinâmica Subliminar 75
Nova Visão 3 77
STATUS ATUAL E AVALIAÇÃO ................................................................................................ 78
50 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

INTRODUÇÃO E CONTEXTO se ponto de vista, uma psicologia que se limita à aná-


lise da consciência é totalmente inadequada para com-
Quando a psicologia emergiu como uma disciplina preender os motivos subjacentes do comportamento
científica independente na Alemanha, em meados do humano.
século XIX, ela definiu sua tarefa como a análise da Por mais de 40 anos, Freud explorou o inconsci-
consciência no ser humano normal, adulto. Ela consi- ente pelo método da associação livre e desenvolveu o
derava a consciência como constituída por elementos que geralmente é considerado como a primeira teoria
estruturais estreitamente correlacionados a processos abrangente da personalidade. Ele traçou os contor-
nos órgãos dos sentidos. As sensações visuais de cor, nos de sua topografia, penetrou nas fontes de sua cor-
por exemplo, estavam correlacionadas com mudan- rente de energia e diagramou o curso legítimo de seu
ças fotoquímicas na retina do olho, e os tons, com desenvolvimento. Ao realizar essas façanhas incríveis,
eventos ocorrendo no ouvido interno. As experiênci- ele se tornou uma das figuras mais controversas e in-
as complexas resultavam da reunião de várias sensa- fluentes do nosso tempo. (Para um relato do status do
ções, imagens e sentimentos elementares. A tarefa da inconsciente antes de Freud, ver White, 1962).
psicologia era descobrir os elementos básicos da cons-
ciência e determinar como eles formavam compostos.
A psicologia era muitas vezes referida como química
mental. HISTÓRIA PESSOAL
As objeções a esse tipo de psicologia vieram de
muitas direções e por uma variedade de razões. Ha- Sigmund Freud nasceu na Morávia, em 6 de maio de
via aqueles que se opunham à ênfase exclusiva na es- 1856, e morreu em Londres, em 23 de setembro de
trutura e insistiam com considerável vigor que as ca- 1939. Por quase 80 anos, todavia, ele morou em Vie-
racterísticas notáveis da mente consciente eram seus na, e só saiu daquela cidade quando os nazistas inva-
processos ativos e não seus conteúdos passivos. Sen- diram a Áustria. Quando jovem, ele decidiu que que-
tir, e não as sensações, pensar, e não as idéias, imagi- ria ser cientista. Com esse objetivo em mente,
nar, e não as imagens – esses processos, afirmava-se, ingressou na escola de medicina da Universidade de
deveriam ser o principal assunto da ciência da psico- Viena em 1873, formando-se oito anos mais tarde.
logia. Outros protestavam que a experiência consci- Freud nunca pretendeu praticar a medicina, mas as
ente não podia ser dissecada sem destruir a própria escassas recompensas do trabalho científico, as opor-
essência da experiência, a saber, sua qualidade de to- tunidades limitadas de avanço acadêmico para um
talidade. A consciência direta, diziam, consiste em judeu, e as necessidades de uma família crescente o
padrões ou configurações e não em elementos reuni- obrigaram a entrar na prática privada. Mesmo com o
dos. Um outro grupo grande e barulhento afirmava atendimento aos pacientes, ele encontrava tempo para
que a mente não era suscetível a investigações pelos pesquisar e escrever, e suas realizações como investi-
métodos da ciência por ser demasiadamente privada gador médico granjearam-lhe uma sólida reputação.
e subjetiva. Eles queriam que a psicologia fosse defi- O interesse de Freud pela neurologia fez com que
nida como a ciência do comportamento. se especializasse no tratamento de transtornos nervo-
O ataque de Freud à tradicional psicologia da cons- sos, um ramo da medicina que ficara para trás na
ciência veio de uma direção muito diferente. Ele com- marcha ativa das artes curadoras durante o século XIX.
parou a mente a um iceberg: a parte menor que apare- Para melhorar suas habilidades técnicas, ele estudou
cia acima da superfície da água representava a região um ano com o famoso psiquiatra francês Jean Char-
da consciência, enquanto a massa muito maior abai- cot, que estava usando a hipnose no tratamento da
xo da água representava a região do inconsciente. histeria. Embora tentasse a hipnose com seus pacien-
Nesse vasto domínio do inconsciente, encontramos os tes, Freud não ficou muito impressionado com sua
impulsos, as paixões, as idéias e os sentimentos repri- eficácia. Conseqüentemente, quando ouviu falar so-
midos, um grande mundo subterrâneo de forças vi- bre um novo método desenvolvido por um médico
tais, invisíveis, que exercem um controle imperioso vienense, Joseph Breuer, um método pelo qual o paci-
sobre os pensamentos e as ações dos indivíduos. Des- ente era curado dos sintomas ao falar sobre eles, Freud
TEORIAS DA PERSONALIDADE 51

Sigmund Freud.
52 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

o experimentou e o achou efetivo. Breuer e Freud es- Jung e Adler posteriormente se afastaram do círculo
creveram, em parceria, sobre alguns de seus casos de e desenvolveram pontos de vista rivais.
histeria tratados pela técnica da fala (1895). No breve espaço que nos é permitido, é impossí-
Entretanto, os dois logo divergiram sobre a im- vel cobrir todos os pontos mais interessantes da vida
portância do fator sexual na histeria. Freud conside- intelectual e pessoal de Freud: os primeiros anos como
rava que os conflitos sexuais eram a causa da histeria, estudante de medicina e investigador; a influência
enquanto Breuer adotava uma visão mais conserva- decisiva do grande fisiologista alemão Ernst Brücke,
dora (ver Ellenberger, 1970, para uma discussão so- um dos líderes da Helmholtz School of Medicine, com
bre os antecedentes históricos da posição de Freud). quem Freud aprendeu a ver o indivíduo como um sis-
A partir de então, Freud trabalhou praticamente sozi- tema dinâmico sujeito às leis da natureza (Amacher,
nho, desenvolvendo as idéias que seriam os funda- 1965); seu casamento com Martha Bernays e sua de-
mentos da teoria psicanalítica e que culminaram na voção vitalícia a ela e aos seis filhos, um dos quais,
publicação de seu primeiro grande trabalho, A Inter- Anna, seguiu os passos do pai; o estimulante ano com
pretação dos Sonhos (1900). Outros livros e artigos Charcot em Paris; sua auto-análise investigativa, que
logo chamaram a atenção de médicos e cientistas do começou na década de 1890 e continuou por toda
mundo inteiro, e Freud logo se viu cercado por um sua vida; a tentativa abortada de explicar os fenôme-
grupo de discípulos de vários países, entre os quais nos psicológicos em termos de anatomia cerebral; os
Ernest Jones, da Inglaterra, Carl Jung, de Zurique, A. anos de isolamento da comunidade médica de Viena;
A. Brill, de Nova York, Sandor Ferenczi, de Budapes- o convite de G. Stanley Hall, o eminente psicólogo
te, Karl Abraham, de Berlim, e Alfred Adler, de Viena. americano e presidente da Clark University, para fa-

Consultório de Freud.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 53

lar no encontro em comemoração à fundação da uni- A ESTRUTURA DA


versidade; a criação da Associação Psicanalítica Inter- PERSONALIDADE
nacional e a secessão de discípulos importantes como
Jung, Adler, Rank e Stekel; a influência da Primeira A personalidade é constituída por três grandes siste-
Guerra Mundial sobre o pensamento de Freud e sua mas: o id, o ego e o superego. Embora cada uma dessas
cuidadosa revisão dos princípios básicos da teoria psi- partes da personalidade total tenha suas próprias fun-
canalítica; a aplicação dos conceitos psicanalíticos em ções, propriedades, componentes, princípios de ope-
todos os campos de empreendimento humano; as ca- ração, dinamismos e mecanismos, elas interagem tão
racterísticas pessoais de Freud e o longo sofrimento estreitamente que é difícil, senão impossível, desema-
do câncer de mandíbula; e finalmente sua fuga melo- ranhar seus efeitos e pesar sua relativa contribuição
dramática das garras dos nazistas. Felizmente, todos ao comportamento humano. O comportamento é qua-
os recantos e frestas da longa vida de Freud foram se sempre o produto de uma interação entre esses três
examinados pelo grande psicanalista inglês Ernest sistemas; e raramente um sistema opera com a exclu-
Jones e brilhantemente relatados em uma biografia são dos outros dois.
de três volumes (1953, 1955, 1957). Mais recente-
mente, Peter Gay (1988) escreveu uma biografia
O Id
abrangente e simpática de Freud.
O espaço também não nos permite listar os traba- O id é o sistema original da personalidade: ele é a
lhos publicados de Freud. Começando com A Inter- matriz da qual se originaram o ego e o superego. O id
pretação dos Sonhos, em 1900, e terminando com Es- consiste em tudo que é psicológico, que é herdado e
boço da Psicanálise, publicado postumamente em 1940, que se acha presente no nascimento, incluindo os ins-
os textos psicológicos de Freud totalizam vinte e qua- tintos. Ele é o reservatório da energia psíquica e for-
tro volumes na edição inglesa padrão, definitiva (1953- nece toda a energia para a operação dos outros dois
1974). Para o leitor que não está familiarizado com a sistemas. Ele está em estreito contato com os proces-
teoria da personalidade de Freud, recomendamos os sos corporais, dos quais deriva sua energia. Freud cha-
seguintes livros: A Interpretação dos Sonhos (1900), A mou o id de “a verdadeira realidade psíquica” porque
Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), Conferências ele representa o mundo interno da experiência subje-
Introdutórias Gerais à Psicanálise (1917), Novas Con- tiva e não tem nenhum conhecimento da realidade
ferências Introdutórias à Psicanálise (1933) e Esboço objetiva. (Para uma discussão do id, ver Schur, 1966.)
da Psicanálise (1940). O id não tolera aumentos de energia, que são ex-
No seguinte relato das idéias de Freud, tratare- perienciados como estados de tensão desconfortáveis.
mos apenas das questões relativas à sua teoria da per- Conseqüentemente, quando o nível de tensão do or-
sonalidade. No processo, excluiremos de considera- ganismo aumenta, como resultado ou de estimulação
ção a teoria psicanalítica da neurose que, de qualquer externa ou de excitações internamente produzidas, o
forma, foi tão bem examinada por Otto Fenichel id funciona de maneira a descarregar a tensão ime-
(1945), as técnicas de psicanálise e as vastas aplica- diatamente e a fazer o organismo voltar a um nível de
ções da psicologia freudiana nas ciências sociais (ver energia confortavelmente constante e baixo. Esse prin-
Hall & Lindzey, 1968), artes e humanidades. Também cípio da redução de tensão pelo qual o id opera é cha-
deixaremos de lado a evolução do pensamento de mado de princípio do prazer.
Freud a respeito dos conceitos básicos de sua teoria Para atingir seu objetivo de evitar dor e obter pra-
da personalidade; será suficiente apresentar sua pa- zer, o id tem sob seu comando dois processos: as ações
lavra final sobre os conceitos que vamos discutir. No reflexas e o processo primário. As ações reflexas são
Capítulo 5, examinaremos algumas das adições e das reações inatas e automáticas como espirrar e piscar,
modificações na teoria clássica de Freud feitas por seus e, geralmente, reduzem a tensão imediatamente. O
seguidores. As teorias dissidentes de Jung e Adler, que organismo está equipado com vários desses reflexos
começaram como proponentes da psicanálise, são para lidar com formas relativamente simples de exci-
apresentadas nos Capítulos 3 e 4. tação. O processo primário envolve uma reação psi-
54 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

cológica um pouco mais complicada. Ele tenta des- suspende temporariamente o princípio do prazer, mas
carregar a tensão, formando a imagem de um objeto o princípio do prazer é eventualmente atendido quan-
que vai remover a tensão. Por exemplo, o processo do o objeto necessário é encontrado e quando a ten-
primário apresenta à pessoa faminta a imagem men- são é então reduzida. O princípio da realidade per-
tal de um alimento. Essa experiência alucinatória em gunta se uma experiência é verdadeira ou falsa – isto
que o objeto desejado é apresentado na forma de uma é, se tem existência externa ou não – enquanto o prin-
imagem de memória é chamada de realização do dese- cípio do prazer só quer saber se a experiência é dolo-
jo. O melhor exemplo do processo primário nas pes- rosa ou prazerosa.
soas normais é o sonho noturno, que Freud acredita- O processo secundário é o pensamento realista.
va representar sempre a realização ou a tentativa de Por meio do processo secundário, o ego formula um
realização de um desejo. As alucinações e as visões plano para a satisfação da necessidade e depois testa-
dos pacientes psicóticos também são exemplos do pro- o, normalmente com algum tipo de ação, para ver se
cesso primário. O pensamento autista ou veleitário é ele vai funcionar ou não. A pessoa faminta pensa so-
altamente colorido pela ação do processo primário. bre onde pode encontrar comida e depois segue para
Essas imagens mentais de realização do desejo são a aquele lugar. Isso é chamado de teste de realidade. Para
única realidade conhecida pelo id. desempenhar seu papel eficientemente, o ego tem
Obviamente, o processo primário sozinho não é controle sobre todas as funções cognitivas e intelec-
capaz de reduzir a tensão. A pessoa faminta não pode tuais; esses processos mentais superiores são coloca-
comer as imagens mentais de comida. Conseqüente- dos a serviço do processo secundário.
mente, desenvolve-se um processo psicológico novo Afirmamos que o ego é o executivo da personali-
ou secundário. Quando isso ocorre, a estrutura do dade porque ele controla o acesso à ação, seleciona as
segundo sistema da personalidade, o ego, começa a características do ambiente às quais irá responder e
tomar forma. decide que instintos serão satisfeitos e de que manei-
ra. Ao realizar essas funções executivas imensamente
importantes, o ego precisa tentar integrar as deman-
O Ego
das muitas vezes conflitantes do id, do superego e do
O ego passa a existir porque as necessidades do orga- mundo externo. Essa não é uma tarefa fácil e em ge-
nismo requerem transações apropriadas com o mun- ral coloca grande tensão sobre o ego.
do objetivo da realidade. A pessoa faminta tem de Mas devemos lembrar que o ego é a porção orga-
buscar, encontrar e comer o alimento para que a ten- nizada do id, que passa a existir para atingir os objeti-
são da fome seja eliminada. Isso significa que a pes- vos do id e não para frustrá-los, e que todo o seu po-
soa precisa aprender a diferenciar entre uma imagem der se deriva do id. Ele não existe separadamente do
mnemônica do alimento e uma percepção real do ali- id, e nunca se torna completamente independente
mento conforme ele existe no mundo externo. Tendo dele. Seu principal papel é o de mediador entre as
feito essa diferenciação crucial, é necessário conver- exigências instintuais do organismo e as condições do
ter a imagem em uma percepção, o que se consegue ambiente circundante; seus objetivos supra-ordena-
localizando-se o alimento no ambiente. Em outras dos são manter a vida do indivíduo e assegurar que a
palavras, a pessoa compara a imagem mnemônica do espécie se reproduza. Freud certa vez resumiu o qui-
alimento com a visão ou com o aroma do alimento nhão do ego dizendo que ele tinha “três duros senho-
conforme lhe chegam pelos sentidos. A distinção bá- res”: o id, a realidade externa e o superego.
sica entre o id e o ego é que o id só conhece a realida-
de subjetiva da mente, ao passo que o ego distingue
O Superego
as coisas na mente das coisas no mundo externo.
Dizemos que o ego obedece ao princípio da reali- O terceiro e último sistema da personalidade a se de-
dade e opera por meio do processo secundário. O obje- senvolver é o superego. Ele é o representante interno
tivo do princípio da realidade é evitar a descarga de dos valores tradicionais e dos ideais da sociedade con-
tensão até ser descoberto um objeto apropriado para forme interpretados para a criança pelos pais e im-
a satisfação da necessidade. O princípio da realidade postos por um sistema de recompensas e de punições.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 55

O superego é a força moral da personalidade. Ele re- trário, eles trabalham juntos, como uma equipe, sob a
presenta o ideal mais do que o real e busca a perfei- liderança administrativa do ego. A personalidade nor-
ção mais do que o prazer. Sua principal preocupação malmente funciona como um todo, e não como três
é decidir se alguma atitude é certa ou errada, para segmentos separados. De maneira muito geral, o id
poder agir de acordo com os padrões morais autori- pode ser pensado como o componente biológico da
zados pelos agentes da sociedade. personalidade, o ego como o componente psicológico
O superego, como árbitro moral internalizado de e o superego como o componente social.
conduta, desenvolve-se em resposta às recompensas
e punições impostas pelos pais. Para obter as recom-
pensas e evitar os castigos, a criança aprende a orien-
tar seu comportamento de acordo com os pais. Tudo A DINÂMICA DA PERSONALIDADE
o que eles dizem ser impróprio e, por isso, castigam a
criança por fazer, tende a ser incorporado à sua cons- Freud foi educado sob a influência da filosofia forte-
ciência, que é um dos dois subsistemas do superego. mente determinista e positivista do século XIX. Ele
Tudo o que eles aprovam e, por isso, recompensam a considerava o organismo humano como um sistema
criança por fazer, tende a ser incorporado ao seu ideal complexo de energia que era obtida do alimento con-
do ego, o outro subsistema do superego. O mecanis- sumido e que gastava uma quantidade limitada de
mo pelo qual ocorre essa incorporação é chamado de energia em propósitos variados como circulação, res-
introjeção. A criança absorve ou introjeta os padrões piração, exercício muscular, perceber, pensar e lem-
morais dos pais. A consciência pune a pessoa, fazen- brar. Freud não via nenhuma razão para supor que a
do-a sentir-se culpada; o ideal do ego recompensa a energia que fornece o poder para respirar ou digerir
pessoa, fazendo-a sentir-se orgulhosa. Com a forma- fosse diferente, salvo em forma, da energia que for-
ção do superego, o autocontrole substitui o controle nece o poder para pensar e lembrar. Afinal de contas,
parental. (Nós faremos comparações com este pro- como insistiam firmemente os físicos do século XIX, a
cesso de auto-avaliação quando discutirmos o auto- energia tinha de ser definida em termos do trabalho
sistema de Bandura no Capítulo 14.) que realiza. Se o trabalho consiste em uma atividade
As principais funções do superego são (1) inibir psicológica como pensar, é perfeitamente legítimo,
os impulsos do id, especialmente aqueles de natureza acreditava Freud, chamar essa forma de energia de
sexual ou agressiva, uma vez que estes são os impul- energia psíquica. Segundo a doutrina da conservação
sos cuja expressão é mais condenada pela sociedade; da energia, ela pode ser transformada de um estado
(2) persuadir o ego a substituir objetivos realistas por para outro, mas nunca se perde no sistema cósmico
objetivos moralistas; e (3) buscar a perfeição. Isto é, total. Disso decorre que a energia psíquica pode ser
o superego está inclinado a se opor tanto ao id quan- transformada em energia fisiológica e vice-versa. O
to ao ego e a reformar o mundo segundo sua própria ponto de contato ou a ponte entre a energia do corpo
imagem. Entretanto, ele é como o id ao ser não-racio- e a da personalidade é o id e seus instintos.
nal e como o ego ao tentar exercer controle sobre os
instintos. Diferentemente do ego, o superego não se
Instinto
satisfaz em adiar a gratificação instintiva; ele tenta
bloqueá-la permanentemente. (Uma análise histórica Um instinto é definido como uma representação psi-
do superego foi feita por Turiell, 1967.) cológica inata de uma fonte somática interna de exci-
Nós concluímos essa breve descrição dos três sis- tação. A representação psicológica é chamada de de-
temas da personalidade salientando que o id, o ego e sejo, e a excitação corporal da qual se origina é
o superego não devem ser pensados como homúncu- chamada de necessidade. Assim, o estado de fome pode
los que operam a personalidade. Eles são apenas no- ser descrito em termos fisiológicos como uma condi-
mes para vários processos psicológicos que obedecem ção de déficit nutricional nos tecidos do corpo, ao
a diferentes princípios de sistemas. Em circunstâncias passo que psicologicamente ela é representada como
comuns, esses diferentes princípios não colidem um um desejo de alimento. O desejo age como um moti-
com o outro e nem têm propósitos opostos. Pelo con- vo para o comportamento. A pessoa faminta busca
56 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

alimento. Por isso, os instintos são considerados os objeto se refere não só à coisa ou à condição específi-
fatores propulsores da personalidade. Eles não só im- ca que vai satisfazer a necessidade, mas inclui tam-
pulsionam o comportamento, mas também determi- bém todos os comportamentos que acontecem para
nam a direção que o comportamento tomará. Em ou- assegurar a coisa ou a condição necessária. Por exem-
tras palavras, um instinto exerce um controle seletivo plo, quando uma pessoa está com fome, ela normal-
sobre a conduta ao aumentar a sensibilidade da pes- mente tem de realizar algumas ações antes de atingir
soa a tipos específicos de estimulação. A pessoa fa- a meta final de comer.
minta é mais sensível aos estímulos alimentares e a O ímpeto de um instinto é a sua força, determina-
pessoa sexualmente excitada tende mais a responder da pela intensidade da necessidade subjacente. À
a estímulos eróticos. medida que aumenta a deficiência nutricional, até o
Parenteticamente, observamos que o organismo ponto em que se instala uma fraqueza física, a força
também pode ser ativado por estímulos do mundo do instinto aumenta correspondentemente.
externo. Mas Freud achava que essas fontes ambien- Vamos considerar brevemente algumas das impli-
tais de excitação desempenham um papel menos im- cações nessa maneira de conceitualizar um instinto.
portante na dinâmica da personalidade do que os ins- Em primeiro lugar, o modelo oferecido por Freud é
tintos inatos. Em geral, os estímulos externos fazem um modelo de redução de tensão. O comportamento
menos exigências ao indivíduo e requerem formas de uma pessoa é ativado por irritantes internos e ces-
menos complicadas de ajustamento do que as neces- sa quando uma ação apropriada remove ou diminui a
sidades. Sempre podemos fugir de um estímulo ex- irritação. Isso significa que a meta de um instinto tem
terno, mas é impossível fugir de uma necessidade. um caráter essencialmente regressivo, uma vez que faz
Embora Freud relegasse os estímulos ambientais a um a pessoa retornar a um estado anterior, um estado
lugar secundário, ele não negava a sua importância que existia antes de o instinto aparecer. Esse estado
sob certas condições. Por exemplo, uma excessiva es- anterior ao qual a personalidade retorna é de relativa
timulação durante os primeiros anos de vida, quando tranqüilidade. Também dizemos que um instinto é
o ego imaturo não é capaz de reunir grandes quanti- conservador, porque sua meta é conservar o equilíbrio
dades de energia livre (tensão), pode ter efeitos drás- do organismo, abolindo as excitações perturbadoras.
ticos sobre a personalidade, como veremos quando Assim, podemos descrever um instinto como um pro-
examinarmos a teoria de Freud sobre a ansiedade. cesso que repete, tão freqüentemente quanto apare-
Um instinto é um quantum de energia psíquica ce, um ciclo de eventos que se inicia com a excitação
ou, como Freud colocou, “uma medida da exigência e termina com o repouso. Freud chamou esse aspecto
feita à mente para trabalhar” (1905a, p. 168). Todos do instinto de compulsão à repetição. A personalidade
os instintos tomados juntos constituem a soma total é compelida a repetir interminavelmente o inevitável
de energia psíquica disponível para a personalidade. ciclo da excitação à tranqüilidade. (O termo compul-
Como salientamos previamente, o id é o reservatório são à repetição também é empregado para descrever
dessa energia e é também a sede dos instintos. Ele o comportamento perseverante que ocorre quando os
pode ser considerado um dínamo que fornece a ener- meios adotados para satisfazer a necessidade não são
gia psicológica para as múltiplas operações da perso- completamente apropriados. Uma criança pode per-
nalidade. Essa energia deriva-se, é claro, dos proces- severar chupando o dedo, quando está com fome.)
sos metabólicos do corpo. Segundo a teoria freudiana dos instintos, a fonte
Um instinto tem quatro aspectos característicos: e a meta de um instinto permanecem constantes por
uma fonte, uma meta, um objeto e um ímpeto. A fonte toda a vida, a menos que a fonte seja modificada ou
já foi definida como uma condição corporal ou uma eliminada pelo amadurecimento físico. Novos instin-
necessidade. A meta é a remoção da excitação corpo- tos podem aparecer à medida que se desenvolvem
ral. A meta do instinto de fome, por exemplo, é abolir novas necessidades corporais. Ao contrário dessa cons-
a deficiência nutricional, o que conseguimos, eviden- tância de fonte e meta, o objeto ou os meios pelos
temente, comendo o alimento. Todas as atividades que quais a pessoa tenta satisfazer a necessidade podem
intervêm entre o aparecimento do desejo e sua reali- variar e realmente variam consideravelmente duran-
zação são agrupadas sob o nome de objeto. Isto é, o te o tempo de vida da pessoa. Tal variação na escolha
TEORIAS DA PERSONALIDADE 57

do objeto torna-se possível porque a energia psíquica dois títulos gerais, os instintos de vida e os instintos de
é deslocável: ela pode ser gasta de várias maneiras. morte.
Conseqüentemente, se um objeto não está disponível, Os instintos de vida servem ao propósito da so-
ou por estar ausente ou pela presença de barreiras brevivência individual e da propagação racial. A fome,
dentro da personalidade, a energia pode ser investida a sede e o sexo se enquadram nessa categoria. A for-
em outro objeto. Se esse objeto também se mostrar ma de energia pela qual os instintos de vida realizam
inacessível, pode ocorrer outro deslocamento, e as- sua tarefa é chamada de libido.
sim por diante, até ser encontrado um objeto disponí- O instinto de vida ao qual Freud prestou mais aten-
vel. Em outras palavras, os objetos podem ser substi- ção é o do sexo, e, nos primeiros anos da psicanálise,
tuídos, o que definitivamente não acontece com a fonte quase tudo o que a pessoa fazia era atribuído a esta
ou a meta de um instinto. pulsão ubíqua (Freud, 1905a). Na verdade, o instinto
Quando a energia de um instinto é investida de sexual não é um único instinto, mas muitos. Isto é,
modo mais ou menos permanente em um objeto subs- existem várias necessidades corporais separadas que
tituto, isto é, um que não é o objeto original e inata- originam os desejos eróticos. Cada um desses desejos
mente determinado, o comportamento resultante é tem sua fonte em uma região corporal diferente, refe-
chamado de derivado instintual. Assim, se a primeira ridas coletivamente como zonas erógenas. Uma zona
escolha de objeto do bebê for a manipulação dos pró- erógena é uma parte da pele ou da membrana muco-
prios órgãos sexuais e ele for forçado a desistir desse sa que é extremamente sensível à irritação e que, quan-
prazer em favor de formas mais inócuas de estimula- do manipulada de certa maneira, remove a irritação e
ção corporal, como chupar o polegar ou brincar com produz sentimentos prazerosos. Os lábios e a cavida-
os dedos dos pés, as atividades substitutas são deriva- de oral constituem uma dessas zonas erógenas, a re-
dos do instinto sexual. A meta do instinto sexual não gião anal outra, e os órgãos sexuais uma terceira. Su-
muda quando ocorre uma substituição; a meta busca- gar produz prazer oral, a eliminação provoca prazer
da ainda é a da gratificação sexual. anal, e massagear ou esfregar traz prazer genital. Na
O deslocamento de energia de um objeto para infância, os instintos sexuais são relativamente inde-
outro é o aspecto mais importante da dinâmica da pendentes uns dos outros, mas, quando a pessoa atin-
personalidade. Ele explica a aparente plasticidade da ge a puberdade, eles tendem a se fundir e a servir
natureza humana e a notável versatilidade do com- conjuntamente à meta da reprodução.
portamento humano. Praticamente todos os interes- Os instintos de morte ou, como Freud às vezes os
ses, preferências, gostos, hábitos e atitudes adultas chamava, os instintos destrutivos, realizam seu traba-
representam os deslocamentos de energia das esco- lho muito menos conspicuamente do que os instintos
lhas de objeto instintuais originais. Eles são quase to- de vida. Por essa razão, pouco sabemos sobre eles, a
dos derivados instintuais. A teoria de Freud da moti- não ser que inevitavelmente cumprem a sua missão.
vação baseava-se solidamente na suposição de que os Todas as pessoas seguramente morrem, um fato que
instintos são as únicas fontes de energia para o com- levou Freud a formular seu famoso ditado: “a meta
portamento humano. Nós teremos muito mais a dizer de toda vida é a morte” (1920a, p. 38). Freud supu-
sobre o deslocamento em seções subseqüentes deste nha especificamente que a pessoa tinha um desejo,
capítulo. geralmente inconsciente, é claro, de morrer. Ele não
tentou identificar as fontes somáticas dos instintos de
morte, embora possamos especular se residem nos
Número e Tipos de Instintos
processos catabólicos, ou de decomposição, do corpo.
Freud não tentou fazer uma lista de instintos porque Ele também não deu nome à energia pela qual os ins-
sentiu que não sabíamos o suficiente sobre os estados tintos de morte executam seu trabalho.
corporais dos quais os instintos dependem. A identifi- A suposição de Freud de um desejo de morte ba-
cação dessas necessidades orgânicas é uma tarefa para seia-se no princípio de constância conforme formula-
o fisiologista, não para o psicólogo. Embora Freud não do por Fechner. Esse princípio afirma que todos os
pretendesse saber quantos instintos existem, ele real- processos vivos tendem a retornar à estabilidade do
mente supunha que todos podiam ser classificados sob mundo inorgânico. Em Além do Princípio do Prazer
58 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

(1920a), Freud apresentou o seguinte argumento em A Distribuição e a Utilização da


favor do conceito do desejo de morte. A matéria viva Energia Psíquica
se desenvolveu, pela ação das forças cósmicas, sobre
a matéria inorgânica. A princípio, essas mudanças A dinâmica da personalidade consiste na maneira pela
eram extremamente instáveis e rapidamente reverti- qual a energia psíquica é distribuída e utilizada pelo
am ao seu estado inorgânico anterior. Mas gradual- id, ego e superego. Uma vez que a quantidade de ener-
mente a duração da vida aumentou devido a mudan- gia é uma quantidade limitada, existe uma competi-
ças evolutivas no mundo, mas essas formas animadas ção entre os três sistemas pela energia disponível. Um
instáveis eventualmente regressavam à estabilidade sistema obtém controle da energia disponível à custa
da matéria inanimada. Com o desenvolvimento dos dos dois outros sistemas. À medida que um sistema se
mecanismos reprodutivos, os seres vivos conseguiram torna mais forte, os outros dois necessariamente se
reproduzir sua própria espécie e não dependiam mais tornam mais fracos, a menos que uma nova energia
de serem criados do mundo inorgânico. Mas, mesmo seja acrescentada ao sistema total.
com esse avanço, cada membro da espécie inevitavel- Originalmente o id possui toda a energia e a utili-
mente obedecia ao princípio da constância, uma vez za para a ação reflexa e para a realização do desejo
que este era o princípio que governava sua existência por meio do processo primário. Ambas as atividades
quando ele fora dotado de vida. A vida, dizia Freud, estão a serviço direto do princípio do prazer, pelo qual
era apenas um caminho indireto para a morte. Arran- o id opera. O investimento de energia em uma ação
cada de sua existência estável, a matéria orgânica tenta ou imagem que vai gratificar um instinto é chamado
voltar a um estado de tranqüilidade. O desejo de morte de escolha objetal ou catexia objetal.
no ser humano é a representação psicológica do prin- A energia do id está em um estado muito fluido, o
cípio da constância. que significa que ela pode ser facilmente desviada de
Um derivado importante dos instintos de morte é uma ação ou imagem para outra ação ou imagem. A
a pulsão agressiva. A agressividade é a autodestruição qualidade deslocável dessa energia instintual se deve
voltada para fora, contra objetos substitutos. Uma à incapacidade do id de fazer discriminações sutis entre
pessoa briga com outras e é destrutiva porque o dese- os objetos. Os objetos diferentes são tratados como se
jo de morte está bloqueado pelas forças dos instintos fossem o mesmo. O bebê faminto, por exemplo, vai
de vida e por outros obstáculos na personalidade que pegar qualquer objeto que puder agarrar e o levará
agem contra os instintos de morte. Foi necessária a aos lábios.
Primeira Guerra Mundial de 1914-1918 para conven- Uma vez que o ego não tem nenhuma fonte de
cer Freud de que a agressão era um motivo tão sobe- energia própria, ele precisa tomá-la emprestada do
rano quanto o sexo. (Essa visão de que a Grande Guer- id. O desvio da energia do id para os processos que
ra estimulou o interesse de Freud pela agressão foi constituem o ego faz-se por meio de um mecanismo
contestada por Stepansky, 1977). conhecido como identificação. Esse é um dos concei-
Os instintos de vida e de morte e seus derivados tos mais importantes na psicologia freudiana, e um
podem se fundir, neutralizar um ao outro, ou substi- dos mais difíceis de entender. Podemos lembrar, de
tuir um ao outro. Comer, por exemplo, representa uma uma discussão prévia, que o id não distingue entre
fusão da fome e da destrutividade que é satisfeita por imagem subjetiva e realidade objetiva. Quando ele
morder, mastigar e engolir o alimento. O amor, um investe energia psíquica na imagem de um objeto, é o
derivado do instinto sexual, pode neutralizar o ódio, mesmo que investir no próprio objeto. Entretanto, se
um derivado do instinto de morte. Ou o amor pode uma imagem mental não pode satisfazer uma neces-
substituir o ódio, ou o ódio, o amor. sidade, a pessoa é forçada a diferenciar entre o mun-
Uma vez que os instintos contêm toda a energia do da mente e o mundo externo. Ela precisa aprender
pela qual os três sistemas da personalidade realizam a diferença entre uma memória ou idéia de um objeto
o seu trabalho, examinemos agora como o id, o ego e que não está presente e uma impressão ou percepção
o superego controlam e utilizam a energia psíquica. sensorial de um objeto que está presente. Então, a fim
TEORIAS DA PERSONALIDADE 59

de satisfazer a necessidade, a pessoa tem de aprender A energia do ego também pode ser deslocada para
a comparar o que está em sua mente ao seu equiva- criar novas catexias objetais, de modo que se forma
lente no mundo externo, por meio do processo secun- no ego uma verdadeira rede de interesses, atitudes e
dário. Essa comparação de uma representação men- preferências derivadas. Essas catexias do ego podem
tal com a realidade física, de algo que está na mente não satisfazer diretamente as necessidades básicas do
com algo que está no mundo externo, é o que quere- organismo, mas estão conectadas por vínculos associ-
mos dizer como identificação. ativos a objetos que satisfazem. A energia da pulsão
Já que o id não faz distinção entre os conteúdos da fome, por exemplo, pode desdobrar-se para incluir
da mente, sejam eles percepções, imagens mnemôni- catexias como o interesse por colecionar receitas, fre-
cas, idéias ou alucinações, pode ser feita uma catexia qüentar restaurantes exóticos e vender porcelana. Tal
(investimento) em uma percepção realista tão facil- desdobramento de catexias em canais que estão ape-
mente quanto em uma imagem mnemônica de reali- nas remotamente conectados com o objeto original
zação de desejo. Dessa maneira, a energia se desvia do instinto é possibilitado pela maior eficiência do ego
dos processos psicológicos puramente subjetivos do ao realizar sua função fundamental de gratificar os
id para os processos objetivos, lógicos, ideacionais do instintos. O ego tem um excedente de energia para
ego. Em ambos os casos, a energia é usada para pro- usar para outros propósitos.
pósitos estritamente psicológicos, mas, no caso do id, Finalmente, o ego, como o executivo da organi-
não é feita nenhuma distinção entre o símbolo men- zação da personalidade, usa a energia para efetuar
tal e o referente físico, ao passo que, no caso do ego, uma integração entre os três sistemas. O propósito
essa distinção é feita. O ego tenta fazer com que o dessa função integrativa do ego é produzir uma har-
símbolo represente acuradamente o referente. Em monia interna dentro da personalidade, de modo que
outras palavras, a identificação permite que o proces- as transações do ego com o ambiente possam ser fei-
so secundário substitua ou suplante o processo pri- tas tranqüila e efetivamente.
mário. Já que o processo secundário é tão mais satis- O mecanismo de identificação também explica a
fatório para reduzir tensões, formam-se mais e mais energização do sistema do superego. Essa, também, é
catexias de ego. Gradualmente, o ego mais eficiente uma questão complexa, e ocorre da seguinte manei-
obtém um monopólio virtual sobre a reserva de ener- ra. Entre as primeiras catexias objetais do bebê estão
gia psíquica. Esse monopólio, entretanto, é apenas as dos pais. As catexias se desenvolvem cedo e entrin-
relativo, porque, se o ego deixa de satisfazer os ins- cheiram-se firmemente, porque o bebê é completa-
tintos, o id retoma seu poder. mente dependente dos pais ou de substitutos dos pais
Uma vez que o ego armazenou energia suficiente, para a satisfação de necessidades. Os pais também
pode usá-la para outros propósitos além do da gratifi- desempenham o papel de agentes disciplinares: eles
cação dos instintos pelo processo secundário. Parte ensinam à criança o código moral e os ideais e valores
da energia é usada para levar a um nível superior de tradicionais da sociedade em que a criança é criada.
desenvolvimento vários processos psicológicos, tais Eles fazem isso recompensando a criança quando ela
como perceber, lembrar, julgar, discriminar, abstrair, apresenta a atitude certa e punindo-a quando está
generalizar e raciocinar. Parte da energia tem de ser errada. Uma recompensa é qualquer fato ou objeto
usada pelo ego para impedir o id de agir impulsiva e que reduza a tensão ou prometa isso. Um pedaço de
irracionalmente. Essas forças restritivas são conheci- chocolate, um sorriso ou uma palavra gentil podem
das como anticatexia, em distinção às forças pulsio- ser uma recompensa efetiva. Uma punição é qualquer
nais ou catexias. À medida que o id se torna muito elemento que aumente a tensão. Pode ser um tapa,
ameaçador, o ego erige defesas contra ele. Esses me- um olhar desaprovador ou a negação de um prazer.
canismos de defesa, que serão discutidos em uma se- Assim, a criança aprende a identificar, isto é, a com-
ção posterior, também podem ser usados para lidar parar seu comportamento com as sanções e as proibi-
com as pressões do superego sobre o ego. Para a ma- ções impostas pelos pais. A criança introjeta os impe-
nutenção dessas defesas, é necessária energia, eviden- rativos morais dos pais em virtude das catexias
temente. originais que fez neles como agentes que satisfazem
60 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

necessidades. Ela investe energia em seus ideais e es- meiras décadas de vida, antes que a distribuição de
tes se tornam o seu ideal de ego; ela investe energia energia tenha se tornado mais ou menos estabilizada.
em suas proibições e estas se tornam a sua consciên- Essas mudanças de energia mantêm a personalidade
cia. Assim, o superego ganha acesso ao reservatório em um estado de fluxo dinâmico. Freud era pessimis-
de energia no id por meio da identificação da criança ta em relação às chances de a psicologia se tornar uma
com os pais. ciência exata porque, como ele salientava, até uma
O trabalho realizado pelo superego freqüentemen- mudança muito pequena na distribuição da energia
te, mas nem sempre, é na direção oposta aos impul- poderia fazer a balança pender em favor de uma for-
sos do id. Isso acontece porque o código moral repre- ma de comportamento e não da oposta (Freud, 1920
senta a tentativa da sociedade de controlar e até de b). Quem pode dizer se a pessoa em pé no parapeito
inibir a expressão das pulsões primitivas, especialmen- da janela vai pular ou não, ou se o atacante do time
te as do sexo e da agressão. Ser bom geralmente sig- de futebol vai falhar ou conseguir fazer o gol e obter a
nifica ser obediente e não fazer nem dizer “coisas fei- vitória?
as”. Ser mau significa ser desobediente, rebelde e Na análise final, a dinâmica da personalidade con-
lascivo. A pessoa virtuosa inibe seus impulsos; a pes- siste na interação das forças pulsionais (catexias) e
soa pecadora os satisfaz. Mas o superego pode às ve- das forças restritivas (anticatexias). Todos os confli-
zes ser corrompido pelo id. Isso acontece, por exem- tos da personalidade podem ser reduzidos à oposição
plo, quando alguém, em um ataque de fervor entre esses dois conjuntos de forças. Toda tensão pro-
moralista, toma medidas agressivas contra aqueles longada se deve à oposição entre uma força pulsional
considerados maus ou pecadores. A expressão da e uma força restritiva. Seja uma anticatexia do ego
agressão nesses casos é coberta pelo manto de honra- oposta a uma catexia do id ou uma anticatexia do su-
da indignação. perego oposta a uma catexia do ego, o resultado em
Depois que a energia fornecida pelos instintos foi termos de tensão é o mesmo. Como Freud gostava de
canalizada para o ego e o superego pelos mecanismos dizer, a psicanálise é “uma (concepção) dinâmica, que
de identificação, torna-se possível uma complicada investiga a vida mental na interação entre forças que
interação de forças pulsionais e restritivas. O id, po- favorecem ou inibem uma à outra” (1910b, p. 213).
demos lembrar, só possui forças pulsionais ou catexi-
as, ao passo que a energia do ego e do superego é
Ansiedade
usada tanto para satisfazer quanto para frustrar as
metas instintuais. O ego tem de supervisionar tanto o A dinâmica da personalidade é em grande extensão
id quanto o superego para poder governar sabiamen- governada pela necessidade de gratificar as próprias
te a personalidade; no entanto, ele precisa que lhe necessidades por meio de transações com objetos no
reste energia suficiente para realizar a interação ne- mundo externo. O ambiente circundante provê o or-
cessária com o mundo externo. Se o id mantém o con- ganismo faminto com alimento, e o sedento, com água.
trole sobre uma grande parcela da energia, o compor- Além de seu papel como fonte dos suprimentos, o
tamento da pessoa tende a ter um caráter impulsivo e mundo externo desempenha um outro papel impor-
primitivo. Por outro lado, se o superego obtém o con- tante como moldador do destino da personalidade. O
trole de uma quantidade indevida de energia, o fun- ambiente contém regiões de perigo e insegurança; ele
cionamento da personalidade será dominado por con- pode ameaçar, assim como satisfazer. O ambiente tem
siderações moralistas em vez de realistas. As o poder de produzir dor e aumentar a tensão, assim
anticatexias da consciência podem amarrar o ego com como de trazer prazer e reduzir a tensão. Ele pertur-
nós moralistas e impedir qualquer tipo de ação, en- ba, assim como conforta.
quanto as catexias do ideal de ego podem estabelecer Sentir medo é a reação costumeira do indivíduo
padrões tão elevados para o ego que a pessoa vai se às ameaças externas de dor e destruição com as quais
sentir continuamente frustrada e pode eventualmen- não está preparado para lidar. A pessoa ameaçada
te desenvolver um sentimento depressivo de fracasso. normalmente é uma pessoa com medo. Esmagado pela
As mudanças de energia súbitas e imprevisíveis estimulação excessiva que não consegue controlar, o
de um sistema para outro e de catexias para anticate- ego é inundado pela ansiedade.
xias são comuns, especialmente durante as duas pri-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 61

Freud reconheceu três tipos de ansiedade: ansie- O DESENVOLVIMENTO DA


dade de realidade, ansiedade neurótica e ansiedade PERSONALIDADE
moral, ou sentimentos de culpa (1926b). O tipo bási-
co é a ansiedade de realidade, ou o medo de perigos Freud foi provavelmente o primeiro teórico da psico-
reais no mundo externo; dele se derivam os outros logia a enfatizar os aspectos desenvolvimentais da
dois. A ansiedade neurótica é o medo de que os ins- personalidade e em particular o papel decisivo dos
tintos escapem ao controle e levem a pessoa a tomar primeiros anos do período de bebê e da infância como
alguma atitude pela qual ela será punida. A ansieda- formadores da estrutura de caráter básica da pessoa.
de neurótica não é tanto o medo dos próprios instin- Na verdade, Freud considerava que a personalidade
tos quanto o medo da punição que provavelmente se já estava muito bem formada pelo final do quinto ano
seguirá à gratificação instintual. A ansiedade neuróti- de vida e que o desenvolvimento subseqüente era pra-
ca tem uma base na realidade, porque o mundo, con- ticamente só a elaboração dessa estrutura básica. Ele
forme representado pelos pais e outras autoridades, chegou a essa conclusão com base em suas experiên-
realmente pune a criança por ações impulsivas. A an- cias com pacientes que se submetiam à psicanálise.
siedade moral é o medo da consciência. As pessoas Inevitavelmente, suas explorações mentais os levavam
com superegos bem-desenvolvidos tendem a sentir de volta a experiências da infância inicial que pareci-
culpa quando praticam algum ato ou, inclusive, quan- am decisivas para o desenvolvimento de uma neurose
do pensam em fazer alguma ação contrária ao código mais tarde na vida. Freud acreditava que “a criança é
moral pelo qual foram criadas. Dizemos que são apri- o pai do homem”. É interessante, em vista de sua for-
sionadas pela consciência. A ansiedade moral também te preferência por explicações genéticas do compor-
tem uma base realista, pois a pessoa foi punida no tamento adulto, que Freud raramente tenha estuda-
passado por violar o código moral e pode ser punida do as crianças pequenas diretamente. Ele preferia
novamente. reconstruir a vida passada da pessoa a partir de evi-
A função da ansiedade é alertar a pessoa em rela- dências fornecidas por lembranças adultas.
ção a um perigo iminente; ela é um sinal para o ego A personalidade se desenvolve em resposta a qua-
de que, a menos que sejam tomadas medidas apropri- tro fontes importantes de tensão: (1) processos de
adas, o perigo pode aumentar até o ego ser aniquila- crescimento fisiológico, (2) frustrações, (3) conflitos
do. A ansiedade é um estado de tensão; é uma pulsão e (4) ameaças. Como uma conseqüência direta de
como a fome ou o sexo, mas, em vez de surgir das aumentos de tensão emanando dessas fontes, a pes-
condições tissulares internas, é produzida originalmen- soa é forçada a aprender novos métodos de reduzir a
te por causas externas. Quando a ansiedade é desper- tensão. Tal aprendizagem é o que seria o desenvolvi-
tada, ela motiva a pessoa a fazer algo. Ela pode fugir mento da personalidade. (Para uma lúcida discussão
da região ameaçadora, inibir o impulso perigoso ou da teoria de Freud da aprendizagem, ver Hilgard &
obedecer à voz da consciência. Bower, 1975.)
A ansiedade que não pode ser manejada com A identificação e o deslocamento são dois métodos
medidas efetivas é chamada de traumática. Ela reduz pelos quais o indivíduo aprende a resolver as frustra-
a pessoa a um estado de desamparo infantil. De fato, ções, os conflitos e as ansiedades.
o protótipo de toda ansiedade posterior é o trauma do
nascimento. O neonato é bombardeado com estímu-
Identificação
los do mundo para os quais não está preparado e aos
quais não consegue se adaptar. O bebê precisa de um O conceito de identificação foi introduzido em uma
ambiente protegido até o ego ter tido a chance de se seção anterior para ajudar a explicar a formação do
desenvolver a ponto de conseguir dominar os fortes ego e do superego. No presente contexto, a identifi-
estímulos do ambiente. Quando o ego não consegue cação pode ser definida como o método pelo qual al-
lidar com a ansiedade por métodos racionais, ele tem guém assume as características de outra pessoa e tor-
de recorrer a métodos irrealistas. Esses métodos são na-as uma parte integrante de sua personalidade. Ela
os chamados mecanismos de defesa do ego, que serão aprende a reduzir a tensão modelando o próprio com-
discutidos na seção seguinte. portamento segundo o de outra pessoa. Freud prefe-
62 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

ria o termo identificação ao termo imitação, mais fa- A estrutura final da personalidade representa um
miliar. Ele achava que imitação denota uma espécie acúmulo de numerosas identificações feitas em vários
de comportamento de copiar superficial e temporá- períodos da vida da pessoa, embora a mãe e o pai
rio, e queria uma palavra que transmitisse a idéia de provavelmente sejam as figuras de identificação mais
uma aquisição mais ou menos permanente da perso- fortes na vida de qualquer pessoa.
nalidade.
Nós escolhemos como modelos aqueles indivídu-
Deslocamento
os que nos parecem mais bem-sucedidos do que nós
na gratificação das próprias necessidades. A criança Quando uma escolha de objeto original de um instin-
se identifica com os pais porque eles parecem ser oni- to se torna inacessível por barreiras externas ou inter-
potentes, pelo menos durante os anos da infância ini- nas (anticatexias), uma nova catexia se forma, a me-
cial. À medida que as crianças crescem, encontram nos que ocorra uma forte repressão. Se essa nova
outras pessoas com as quais se identificar, pessoas cujas catexia também é bloqueada, ocorre um outro deslo-
realizações estão mais de acordo com seus atuais de- camento, e assim por diante, até ser encontrado um
sejos. Cada período tende a ter suas figuras de identi- objeto que traga certo alívio para a tensão encurrala-
ficação características. Nem é preciso dizer que a da. Esse objeto é então catexizado até perder seu po-
maioria dessas identificações ocorre inconscientemen- der de reduzir a tensão, momento em que é instituída
te e não, como pode parecer, com intenção conscien- outra busca por um objeto apropriado. Durante toda
te. Essa ênfase na modelagem inconsciente distingue a série de deslocamentos que constitui, em grande
a identificação de Freud da aprendizagem observa- medida, o desenvolvimento da personalidade, a fonte
cional de Bandura (ver Capítulo 14). e a meta do instinto permanecem constantes. É só o
Não é necessário que uma pessoa se identifique objeto que varia.
com outra em todos os aspectos. Geralmente selecio- Um objeto substituto raramente é tão satisfatório
namos e incorporamos apenas aquelas características ou redutor de tensão quanto o objeto original, e quanto
que acreditamos que vão nos ajudar a atingir um ob- mais diferente for o objeto substituto do original,
jetivo desejado. Existe muita tentativa e erro no pro- menos a tensão é reduzida. Em conseqüência de nu-
cesso de identificação, porque geralmente não temos merosos deslocamentos, vai-se acumulando uma gran-
certeza do que existe na outra pessoa que explica o de tensão, que age como uma permanente força mo-
seu sucesso. O teste supremo é se a identificação aju- tivacional para o comportamento. A pessoa está
da a reduzir a tensão; se ajuda, aquela qualidade é constantemente buscando maneiras novas e melho-
absorvida; se não ajuda, ela é descartada. Podemos res de reduzir a tensão. Isso explica a variabilidade e
identificar-nos com animais, personagens imaginári- a diversidade do comportamento, assim como a in-
os, instituições, idéias abstratas e objetos inanimados, quietude humana. Por outro lado, a personalidade re-
assim como com outros seres humanos. almente se torna mais ou menos estabilizada com a
A identificação também é um método pelo qual idade, devido aos compromissos feitos entre as forças
podemos recuperar um objeto que foi perdido. Quan- pulsionais dos instintos e as resistências do ego e do
do nos identificamos com uma pessoa amada que superego.
morreu ou de quem nos separamos, a pessoa perdida Como escrevemos alhures:
é reencarnada como uma característica incorporada
da personalidade. As crianças que foram rejeitadas “Os interesses, os apegos e todas as outras formas
pelos pais tendem a formar sólidas identificações com de motivos adquiridos persistem porque são até
eles na esperança de recuperar seu amor. Também po- certo grau frustrantes, assim como satisfatórios.
demos nos identificar com alguém por medo. A crian- Eles persistem porque não produzem uma satis-
ça se identifica com as proibições dos pais a fim de fação completa . . . Todo compromisso é ao mes-
evitar o castigo. Esse tipo de identificação é a base mo tempo uma renúncia. A pessoa desiste de al-
para a formação do superego. guma coisa que realmente quer, mas não pode ter,
e aceita uma segunda ou terceira melhor escolha
que pode ter.” (Hall, 1954, p. 104)
TEORIAS DA PERSONALIDADE 63

Freud salientou que o desenvolvimento da civili- Freud, 1946). Todos os mecanismos de defesa têm
zação foi possível devido à inibição das escolhas obje- duas características em comum: (1) eles negam, falsi-
tais primitivas e ao desvio da energia instintual para ficam ou distorcem a realidade e (2) eles operam in-
canais socialmente aceitáveis e culturalmente criati- conscientemente, de modo que a pessoa não tem cons-
vos (1930). Um deslocamento que produz uma reali- ciência do que está acontecendo.
zação cultural superior é chamado de sublimação.
Freud observou, em relação a isso, que o interesse de
Repressão
Leonardo da Vinci por pintar madonas era uma ex-
pressão sublimada de um desejo de intimidade com a Este é um dos primeiros conceitos da psicanálise. An-
mãe, de quem ele fora separado em tenra idade tes de Freud chegar à sua formulação final da teoria
(1910a). Uma vez que a sublimação não resulta em da personalidade em termos de id, ego e superego,
uma satisfação completa, não mais que o deslocamen- ele dividiu a mente em três regiões: consciência, pré-
to, sempre fica certa tensão residual. Essa tensão pode consciência e inconsciência. O pré-consciente consis-
descarregar-se na forma de nervosismo ou inquietu- tia no material psicológico que poderia se tornar cons-
de, condições que Freud apontou como o preço que ciente quando surgisse a necessidade. O material no
os seres humanos pagavam por seu status civilizado inconsciente, entretanto, era visto por Freud como re-
(1908). lativamente inacessível à consciência: ele estaria em
A direção tomada por um deslocamento é deter- um estado de repressão.
minada por dois fatores: (1) a semelhança do objeto Quando Freud revisou sua teoria da personalida-
substituto com o original e (2) as sanções e as proibi- de, o conceito de repressão foi mantido como um dos
ções impostas pela sociedade. O fator de semelhança mecanismos de defesa do ego. (Gill, 1963, salienta
é na verdade o grau em que os objetos são identifica- que Freud abandonou uma topografia da mente em
dos na mente da pessoa. Leonardo pintava madonas termos de consciente, pré-consciente e inconsciente
em vez de camponesas ou aristocratas porque imagi- por uma visão estrutural em termos de id, ego e su-
nava sua mãe mais parecida com uma madona do que perego, porque a repressão e o que estava reprimido
com qualquer outro tipo de mulher. A sociedade, agin- não podiam estar no mesmo sistema. A repressão es-
do por meio dos pais e de outras pessoas disciplina- taria no ego, e o que era reprimido, no id. Ver tam-
doras, autoriza certos deslocamentos e proíbe outros. bém Arlow & Brenner, 1964). Dizemos que ocorre
A criança aprende que é permitido chupar um piruli- repressão quando uma escolha de objeto que provoca
to, mas não o polegar. um alarme indevido é empurrada para fora da consci-
A capacidade de formar catexias objetais substi- ência por uma anticatexia. Por exemplo, podemos
tutas é o mecanismo mais poderoso para o desenvol- impedir que uma memória perturbadora se torne cons-
vimento da personalidade. A complexa rede de inte- ciente, ou que uma pessoa não enxergue algo que está
resses, preferências, valores, atitudes e apegos que bem à vista porque a percepção daquilo está reprimi-
caracterizam a personalidade do adulto humano é da. A repressão pode inclusive interferir no funciona-
possibilitada pelo deslocamento. Se a energia psíqui- mento normal do corpo. Alguém pode ficar sexual-
ca não fosse deslocável e distributiva, não haveria mente impotente porque tem medo do impulso sexual,
nenhum desenvolvimento da personalidade. A pessoa ou desenvolver uma artrite em conseqüência de sen-
seria meramente um robô mecânico, levada pelos ins- timentos de hostilidade reprimidos.
tintos a executar padrões fixos de comportamento. As repressões podem abrir caminho à força por
meio das anticatexias opositoras ou encontrar expres-
são na forma de um deslocamento. Para que o deslo-
Os Mecanismos de Defesa do Ego
camento consiga impedir o redespertar da ansiedade,
Sob a pressão de excessiva ansiedade, o ego às vezes ele precisa estar disfarçado em alguma forma simbó-
é forçado a tomar medidas extremas para aliviar a lica adequada. Um filho que reprimiu seus sentimen-
pressão. Essas medidas são chamadas de mecanismos tos hostis em relação ao pai pode expressar esses sen-
de defesa. As principais defesas são a repressão, a pro- timentos hostis diante de outros símbolos de
jeção, a formação reativa, a fixação e a regressão (Anna autoridade.
64 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Uma vez formadas, as repressões são difíceis de da por uma manifestação extravagante – a pessoa faz
serem apagadas. A pessoa precisa reassegurar-se de protestos exagerados – e pela compulsividade. As for-
que o perigo não mais existe, mas não pode obter essa mas extremas de qualquer tipo de comportamento ge-
segurança até a repressão se erguer e ela poder testar ralmente denotam uma formação reativa. Às vezes, a
a realidade. É um círculo vicioso. É por isso que os formação reativa consegue satisfazer o impulso origi-
adultos levam consigo muitos medos infantis. Eles nal contra o qual a pessoa se defende, como quando
nunca têm a chance de descobrir que esses medos não uma mãe cobre o filho de afeição e atenção.
têm nenhuma base na realidade. Observem a seme-
lhança com a posição comportamentalista de que os
Fixação e Regressão
medos irracionais persistem porque levam o indiví-
duo a evitar situações em que o medo poderia ser ex- No curso do desenvolvimento normal, como veremos
tinto (ver Capítulo 12). na próxima seção, a personalidade atravessa uma sé-
rie de estágios bem-definidos até chegar à maturida-
de. Cada novo passo dado, todavia, envolve certa frus-
Projeção
tração e ansiedade. Se elas se tornam muito intensas,
Normalmente é mais fácil para o ego lidar com a ansi- o crescimento normal pode ficar temporária ou per-
edade de realidade do que com a ansiedade neurótica manentemente interrompido. Em outras palavras, a
ou a moral. Conseqüentemente, se a fonte da ansie- pessoa pode ficar fixada nos estágios iniciais do de-
dade pode ser atribuída ao mundo externo em vez de senvolvimento, porque dar o passo seguinte desperta
aos impulsos primitivos do indivíduo ou às ameaças muita ansiedade. A criança excessivamente dependen-
da consciência, a pessoa provavelmente obterá maior te exemplifica a defesa pela fixação; a ansiedade a
alívio para a condição ansiosa. Esse mecanismo pelo impede de aprender a ser independente.
qual a ansiedade neurótica ou moral é convertida em Uma defesa estreitamente relacionada é a da re-
um medo objetivo é chamado de projeção. Tal con- gressão. Nesse caso, uma pessoa que encontra experi-
versão é feita facilmente, porque a fonte original tan- ências traumáticas recua para um estágio anterior de
to da ansiedade neurótica quanto da moral é o medo desenvolvimento. Por exemplo, uma criança que está
de ser castigado por um agente externo. Na projeção, assustada com o primeiro dia na escola pode apresen-
alguém simplesmente diz: “Ela me odeia” em vez de tar um comportamento de bebê, como chorar, chupar
“Eu a odeio” ou “Ele está me perseguindo” em vez de o dedo, agarrar-se à professora ou esconder-se em um
“Minha consciência está me perturbando”. A proje- canto. Uma jovem mulher casada que está com difi-
ção geralmente tem um propósito duplo. Ela reduz a culdades com o marido pode voltar para a segurança
ansiedade ao substituir um perigo maior por um me- da casa dos pais, ou um homem que perdeu o empre-
nor, e permite que a pessoa que está projetando ex- go pode buscar consolo na bebida. O caminho da re-
presse seus impulsos sob o disfarce de defender-se dos gressão normalmente é determinado pelas fixações
inimigos. anteriores da pessoa. Isto é, as pessoas tendem a re-
gredir a um estágio no qual estiveram previamente
fixadas. Se eram excessivamente dependentes quan-
Formação Reativa
do crianças, é provável que se tornem mais uma vez
Esta medida defensiva envolve substituir, na consci- excessivamente dependentes quando sua ansiedade
ência, um impulso ou sentimento ansiogênico pelo seu atingir um nível intolerável.
oposto. Por exemplo, o ódio é substituído pelo amor. A fixação e a regressão em geral são condições
O impulso original ainda existe, mas é encoberto ou relativas: uma pessoa raramente se fixa ou regride
mascarado por outro que não causa ansiedade. completamente. Mais propriamente, a personalidade
É comum a pergunta sobre como podemos distin- tende a incluir infantilismos, isto é, formas imaturas
guir uma formação reativa de uma genuína expressão de comportamento, e predisposição a manifestar con-
de um impulso ou sentimento. Por exemplo, como o duta infantil quando frustrada. As fixações e as re-
amor reativo pode ser diferenciado do amor verda- gressões são responsáveis pela irregularidade no de-
deiro? Normalmente, uma formação reativa é marca- senvolvimento da personalidade.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 65

Estágios de Desenvolvimento objetos característicos. Essa relação entre o físico e o


psicológico continua, pois muitos dos traços de cará-
A criança atravessa uma série de estágios dinamica- ter associados a um estágio específico são transfor-
mente diferenciados durante os primeiros cinco anos mações de atos físicos característicos daquele estágio
de vida, depois dos quais a dinâmica fica mais ou específico. Por exemplo, o bebê que literalmente ten-
menos estabilizada por uns cinco ou seis anos – o pe- ta engolir tudo durante o estágio oral pode-se tornar
ríodo de latência. Com o advento da adolescência, a o adulto crédulo que aceita ou figurativamente “en-
dinâmica irrompe outra vez e depois gradualmente gole” tudo o que as outras pessoas dizem. Ou o bebê
se acomoda à medida que o adolescente entra na ida- que morde agressivamente pode-se tornar o adulto
de adulta. Para Freud, os primeiros anos de vida são sarcástico, com um humor “mordaz”. Esses exemplos
decisivos para a formação da personalidade. podem parecer extremos, mas observem que o pro-
Cada estágio de desenvolvimento durante os pri- cesso de fixação em si é muito razoável. Na verdade,
meiros cinco anos é definido em termos dos modos a noção de uma continuação ou de um retorno a mo-
de reação de uma zona específica do corpo. Durante dos estabelecidos de comportamento é a essência das
o primeiro estágio, que dura cerca de um ano, a boca abordagens da teoria da aprendizagem ao comporta-
é a principal região de atividade dinâmica. O estágio mento e à personalidade (ver Capítulos 12, 13 e 14).
oral é seguido pelo desenvolvimento de catexias e de Com essa introdução, agora passamos a tratar de cada
anticatexias em relação às funções eliminativas, o cha- estágio.
mado estágio anal. Ele acontece no segundo ano de
vida e é seguido pelo estágio fálico, em que os órgãos
O Estágio Oral
sexuais se tornam as zonas erógenas mais importan-
tes. Esses estágios – oral, anal e fálico – são chamados A principal fonte de prazer derivado da boca é comer.
de estágios pré-genitais. A criança então atravessa um Comer envolve a estimulação tátil dos lábios e da ca-
prolongado período de latência, os chamados anos de vidade oral e do engolir, ou, se o alimento é desagra-
tranqüilidade, dinamicamente falando. Durante esse dável, do cuspir. Mais tarde, quando surgem os den-
período, os impulsos tendem a ser mantidos em um tes, a boca é usada para morder e mastigar. Esses dois
estado de repressão. O ressurgimento da dinâmica na modos de atividade oral, incorporar alimento e mor-
adolescência reativa os impulsos pré-genitais. Se eles der, são os protótipos de muitos outros traços de cará-
forem satisfatoriamente deslocados e sublimados pelo ter que se desenvolvem. O prazer derivado da incor-
ego, a pessoa passa para o estágio final da maturida- poração oral pode ser deslocado para outros modos
de, o estágio genital. de incorporação, tais como o prazer da aquisição de
O modelo desenvolvimental de Freud baseia-se conhecimentos ou possessões. Uma pessoa crédula,
na suposição da sexualidade infantil. Isto é, os estági- por exemplo, está fixada no nível incorporativo oral
os representam uma seqüência normativa de diferen- da personalidade: essa pessoa vai engolir quase tudo
tes modos de gratificar os impulsos sexuais, e é a o que lhe disserem. A agressão mordaz ou oral pode
maturação física a responsável pela seqüência de zo- ser deslocada na forma de sarcasmo e de argumenta-
nas erógenas e de estágios correspondentes. Os está- tividade. Por meio de vários tipos de deslocamentos e
gios são chamados de “psicossexuais” porque são as sublimações, assim como de defesas contra os impul-
pulsões sexuais que levam à aquisição das caracterís- sos orais primitivos, esses modos prototípicos de fun-
ticas psicológicas. Freud é freqüentemente mal-enten- cionamento oral constituem a base para o desenvolvi-
dido nesse ponto. Quando usou o termo “sexualida- mento de uma vasta rede de interesses, atitudes e
de”, ele não estava se referindo exclusivamente à traços de caráter.
sexualidade genital; melhor dizendo, as forças sexu- Além disso, já que o estágio oral ocorre em uma
ais que induzem os estágios desenvolvimentais refle- época na qual o bebê é completamente dependente
tem tipos diferentes de prazer corporal. Os locais de da mãe para sobreviver, surgem nesse período senti-
prazer corporal mudam conforme a maturação física mentos de dependência. Tais sentimentos de depen-
que leva a uma seqüência normativa de zonas eróge- dência tendem a persistir por toda a vida, apesar dos
nas, cada uma com um conjunto diferente de ações e posteriores desenvolvimentos do ego, e podem aflo-
66 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

rar sempre que a pessoa se sentir ansiosa e insegura. de Édipo. Freud considerava a identificação do com-
Freud acreditava que o sintoma de dependência mais plexo de Édipo como uma de suas grandes descober-
extremo é o desejo de voltar ao útero. tas. O complexo de Édipo recebeu o nome do rei de
Tebas que matou o pai e casou com a mãe.
Definindo brevemente: o complexo de Édipo con-
O Estágio Anal
siste em uma catexia sexual no progenitor do sexo
Depois que o alimento foi digerido, os resíduos se acu- oposto e em uma catexia hostil no progenitor do mes-
mulam na extremidade inferior do trato intestinal e mo sexo. O menino quer possuir a mãe e afastar o
são reflexamente eliminados quando a pressão sobre pai; a menina quer possuir o pai e afastar a mãe. Es-
os esfíncteres anais atinge um certo nível. A expulsão ses sentimentos se expressam nas fantasias da criança
das fezes remove o desconforto e produz um senti- durante a masturbação e na alteração dos atos de amor
mento de alívio. Quando é iniciado o treinamento para e rebelião em relação aos pais. O comportamento da
deixar as fraldas, em geral durante o segundo ano de criança de três a cinco anos é marcado em grande
vida, a criança tem sua primeira experiência decisiva extensão pela operação do complexo de Édipo, e em-
com a regulação externa de um impulso instintual. bora seja modificado e sofra repressão depois dos cin-
Ela precisa aprender a adiar o prazer que vem de ali- co anos, ele permanece sendo uma força vital na per-
viar tensões anais. Dependendo do método específico sonalidade por toda a vida. As atitudes em relação ao
de treinamento para deixar as fraldas usado pela mãe sexo oposto e em relação a pessoas de autoridade,
e de seus sentimentos em relação à defecação, as con- por exemplo, são grandemente condicionadas pelo
seqüências desse treinamento podem ter efeitos im- complexo de Édipo.
portantes sobre a formação de traços e valores especí- A história e o destino do complexo de Édipo dife-
ficos. Se a mãe for muito rígida e repressiva em seus rem para homens e mulheres. A princípio, ambos os
métodos, a criança pode reter as fezes e ter prisão de sexos amam a mãe porque ela satisfaz suas necessida-
ventre. Se esse modo de reação se generalizar para des e ressentem-se do pai porque o consideram um
outras maneiras de se comportar, a criança vai desen- rival pelas afeições da mãe. Esses sentimentos persis-
volver um caráter retentivo. Ela se tornará obstinada tem no menino, mas mudam na menina. Vamos con-
e avarenta. Ou sob a coerção de medidas repressivas, siderar primeiro a seqüência de eventos que caracte-
a criança pode expressar sua raiva, expelindo as fezes riza o desenvolvimento do complexo de Édipo
nos momentos mais inadequados. Esse é o protótipo masculino.
de todos os tipos de traços expulsivos – crueldade, O desejo incestuoso do menino pela mãe e seu
destrutividade desenfreada, ataques de raiva e desor- crescente ressentimento em relação ao pai fazem-no
ganização desleixada, para mencionar apenas alguns. entrar em conflito com os pais, especialmente com o
Por outro lado, se a mãe é o tipo de pessoa que apela pai. Ele imagina que seu rival dominador vai machu-
para que a criança evacue e elogia-a extravagante- cá-lo, e seus medos podem realmente ser confirma-
mente quando ela o faz, a criança vai adquirir a no- dos pelas ameaças de um pai rancoroso e punitivo.
ção de que toda a atividade de produzir fezes é extre- Seus medos relativos ao que o pai pode fazer com ele
mamente importante. Essa idéia pode ser a base para centram-se em ataques a seus órgãos genitais, pois
a criatividade e a produtividade. Inúmeros outros tra- eles são a fonte de seus sentimentos de desejo. Ele
ços de caráter têm raízes no estágio anal. tem medo de que o pai ciumento remova os órgãos
ofensores. O medo da castração ou, como Freud cha-
mou, a ansiedade de castração induz à repressão do
O Estágio Fálico
desejo sexual pela mãe e da hostilidade em relação ao
Durante este estágio de desenvolvimento da persona- pai. A repressão também ajuda o menino a se identifi-
lidade, os sentimentos sexuais e agressivos associa- car com o pai. Ao identificar-se com o pai, o menino
dos ao funcionamento dos órgãos genitais ficam mui- também obtém certa satisfação vicária de seus impul-
to claros. Os prazeres da masturbação e a vida de sos sexuais dirigidos à mãe. Ao mesmo tempo, seu
fantasia que acompanham a atividade auto-erótica sentimento erótico perigoso pela mãe é convertido em
montam o cenário para o aparecimento do complexo uma afeição terna e inofensiva por ela. Por último, a
TEORIAS DA PERSONALIDADE 67

repressão do complexo de Édipo faz com que o su- justiça a Freud, devemos observar que ele considera-
perego sofra seu desenvolvimento final. Nas palavras va as diferenças sexuais como “supradeterminadas”
de Freud, o superego é o herdeiro do complexo de (i. e., como o produto de várias forças diferentes). No
Édipo masculino. Ele é a proteção contra o incesto e a mesmo texto em que aparece a citação anterior, Freud
agressão. escreveu o seguinte:
A seqüência de eventos no desenvolvimento e na
“Mas nós devemos ter o cuidado de não subesti-
dissolução do complexo de Édipo feminino é mais
mar a influência dos costumes sociais, que igual-
complicada. Em primeiro lugar, a menina troca seu
mente forçam as mulheres a situações passivas . . .
objeto de amor original, a mãe, por um novo objeto, o
Vocês podem tomar como um exemplo de injusti-
pai. Isso ocorre porque ela fica desapontada ao desco-
ça masculina se eu afirmar que a inveja e o ciúme
brir que o menino possui um órgão sexual protube-
desempenham um papel ainda maior na vida
rante, o pênis, enquanto ela tem somente uma cavi-
mental da mulher do que na do homem. Não é
dade. Dessa descoberta traumática, decorrem várias
que eu pense que essas características estejam au-
conseqüências importantes. Primeiro, ela vê a mãe
sentes nos homens ou que eu ache que elas não
como responsável por sua condição castrada, o que
tenham outras raízes nas mulheres além da inve-
enfraquece sua catexia na mãe. Segundo, ela transfe-
ja do pênis; mas eu estou inclinado a atribuir sua
re seu amor para o pai porque ele tem o órgão valori-
maior quantidade nas mulheres a esta última in-
zado que ela aspira compartilhar com ele. Entretanto,
fluência . . . Nós não pretendemos que essas afir-
seu amor pelo pai e por outros homens está também
mações tenham mais do que uma validade mé-
misturado a um sentimento de inveja, pois eles pos-
dia; também nem sempre é fácil distinguir o que
suem uma coisa que ela não tem. A inveja do pênis é o
deve ser atribuído à influência da função sexual e
equivalente feminino da ansiedade de castração no
o que deve ser atribuído à influência da educação
menino, e as duas ansiedades são chamadas de com-
social . . . Os determinantes da escolha objetal da
plexo de castração. Ela imagina que perdeu algo valio-
mulher muitas vezes são tornados irreconhecíveis
so, enquanto o menino tem medo de perder. Em certa
pelas condições sociais . . . Mas não esqueçam que
extensão, a falta de um pênis é compensada quando a
eu só estou descrevendo as mulheres uma vez que
mulher tem um bebê, especialmente se o bebê for do
sua natureza é determinada por sua função sexu-
sexo masculino.
al. É verdade que essa influência vai muito longe;
Na menina, o complexo de castração inicia o com-
mas nós não ignoramos o fato de que uma mu-
plexo de Édipo ao enfraquecer sua catexia na mãe e
lher pode ser um ser humano em outros aspectos,
instituir uma catexia no pai. O complexo de Édipo do
também.” (1933, p. 116-135)
menino é reprimido ou de outra forma modificado
pela ansiedade de castração. Em contraste, o comple- Apesar desses cuidadosos qualificativos, está claro que
xo de Édipo da menina tende a persistir, embora sofra a conclusão de Freud de que a menina tem três possí-
alguma modificação devido às barreiras realistas que veis linhas de desenvolvimento – a inibição sexual ou
a impedem de gratificar seu desejo sexual pelo pai. a neurose, um complexo de masculinidade, ou a “fe-
Mas ele não é fortemente reprimido, como no meni- minilidade normal” (i. e., narcisismo, vaidade, vergo-
no. Essas diferenças na natureza dos complexos de nha ou modéstia, pouco senso de justiça, interesse
Édipo e de castração são as bases para muitas dife- social mais tênue, e menor capacidade de sublimar os
renças psicológicas entre os sexos. instintos) – não soa, como ele próprio colocou, muito
A proposta de Freud da inveja do pênis foi ampla- “amigável”!
mente atacada, e nós examinaremos várias rejeições Freud supunha que cada pessoa é inerentemente
nos capítulos seguintes. Entre as reações contra Freud, bissexual: cada sexo é atraído para membros do mes-
destaca-se a afirmação de que ele confundiu expecta- mo sexo, assim como para membros do sexo oposto.
tivas culturais com necessidades biológicas. Afinal de Essa é a base constitucional da homossexualidade,
contas, Freud escreveu que “a distinção anatômica embora, na maioria das pessoas, os impulsos homos-
(entre os sexos) tem de se expressar em conseqüênci- sexuais permaneçam latentes. Tal condição de bisse-
as psíquicas” (1933, p. 124). Entretanto, para fazer xualidade complica o complexo de Édipo ao induzir
68 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

catexias sexuais no progenitor do mesmo sexo. Con- PESQUISA CARACTERÍSTICA E


seqüentemente, os sentimentos do menino pelo pai e MÉTODOS DE PESQUISA
os sentimentos da menina pela mãe teriam um cará-
ter ambivalente, ao invés de univalente. A suposição Os dados empíricos sobre os quais Freud baseou suas
da bissexualidade foi apoiada por investigações das teorias consistiam principalmente nas verbalizações e
glândulas endócrinas, que mostram que hormônios no comportamento expressivo de pacientes sob trata-
sexuais masculinos e femininos estão presentes em mento psicológico. Embora Freud conhecesse os mé-
ambos os sexos. todos exatos da ciência do século XIX e tivesse estabe-
A emergência e o desenvolvimento dos comple- lecido uma reputação substancial como investigador
xos de Édipo e de castração são eventos principais do médico antes de mudar sua atenção para a psicolo-
período fálico e deixam um grande número de depó- gia, ele não empregou técnicas experimentais ou obser-
sitos na personalidade. vacionais controladas em suas investigações da men-
te humana. Ele não fez parte do movimento da
psicologia experimental iniciado por Fechner em 1860
O Estágio Genital
e transformado em uma ciência por Wundt nas duas
As catexias dos períodos pré-genitais têm um caráter décadas seguintes. Conhecia esse movimento e a filo-
narcísico. Isso significa que o indivíduo obtém gratifi- sofia de Fechner o influenciou, mas Freud não foi um
cação a partir da estimulação e da manipulação do psicólogo experimental. Ele não realizou experimen-
próprio corpo, e que as outras pessoas só são catexi- tos psicológicos controlados, nem coletou dados e ana-
zadas porque proporcionam formas adicionais de pra- lisou-os quantitativamente como outros psicólogos do
zer corporal para a criança. Durante a adolescência, século XIX estavam fazendo. Procuramos em vão por
parte desse auto-amor, ou narcisismo, é canalizada uma tabela ou gráfico em seus extensos textos. Freud
para escolhas objetais genuínas. O adolescente come- também nunca empregou um teste diagnóstico, ou
ça a amar os outros por motivos altruístas e não sim- qualquer outro tipo de avaliação objetiva da persona-
plesmente devido a razões egoístas ou narcísicas. Atra- lidade. Suas teorias germinaram enquanto ele ouvia
ção sexual, socialização, atividades grupais, planeja- os fatos e as fantasias verbalizados por personalida-
mento vocacional e preparação para casar e criar uma des perturbadas.
família, tudo isso começa a se manifestar. Pelo final Uma anedota do final da vida de Freud ilustra
da adolescência, essas catexias altruístas, socializadas, essa posição a respeito da validação experimental de
tornam-se bem estabilizadas devido aos habituais des- suas proposições. Em 1934, Saul Rosenweig enviou a
locamentos, sublimações e identificações. A pessoa se Freud os resultados de alguns experimentos que pa-
transforma, de um bebê narcisista que busca o prazer, reciam apoiar a teoria psicanalítica da repressão (Ro-
em um adulto socializado e orientado para a realida- senweig, 1933). Freud replicou “polidamente, mas um
de. Entretanto, não devemos pensar que os impulsos tanto sumariamente, que, embora achasse a investi-
pré-genitais são deslocados pelos genitais. O que acon- gação interessante, via nela pouco valor, ‘porque a ri-
tece é que as catexias dos estágios oral, anal e fálico queza de observações confiáveis’ sobre as quais se
se fundem com os impulsos genitais. A principal fun- baseia a psicanálise ‘torna-as independentes da verifi-
ção biológica do estágio genital é a reprodução; os cação experimental. Entretanto, mal ela não faz’” (Gay,
aspectos psicológicos ajudam na obtenção desse fim 1988, p. 523, itálicos acrescentados). Gay acrescenta
ao oferecer certa medida de estabilidade e segurança. que Freud ocasionalmente citava apoios experimen-
Apesar do fato de Freud diferenciar quatro está- tais para a sua posição, mas de modo geral acreditava
gios no desenvolvimento da personalidade, ele não que suas horas analíticas ofereciam “provas suficien-
supôs rompimentos bruscos ou transições abruptas na tes de suas idéias”. Gay conclui que esta posição “foi
passagem de um estágio para outro. A organização no mínimo um erro tático”. Muitos críticos alegam
final da personalidade representa contribuições dos que tal atitude representa muito mais do que um erro
quatro estágios. tático; na verdade, ela é anticientífica e impede que a
TEORIAS DA PERSONALIDADE 69

posição de Freud seja aceita no panteão das teorias vida, não influenciou seu pensamento. Poucas vezes
científicas. em sua vida ele respondeu aos seus críticos. Nem a
No entanto, seria um sério erro dizer que as ver- falta de apoio de seus colegas mais próximos fez com
balizações das pessoas em tratamento foram os úni- que Freud alterasse suas teorias. Ele parecia ser dota-
cos ingredientes usados por Freud para criar suas teo- do de uma imensa autonomia intelectual, o que sem
rias. Tão importante quanto esses dados brutos dúvida é um dos pré-requisitos da grandeza.
certamente foi a atitude rigorosamente crítica com que
Freud analisou as associações livres de seus pacien-
O Credo Científico de Freud
tes. Hoje nós diríamos que ele analisou esse material
bruto pelo método da consistência interna. As infe- As idéias de Freud sobre como o cientista deve traba-
rências feitas a partir de uma parte do material eram lhar para desenvolver uma ciência foram apresenta-
comparadas com evidências que apareciam em ou- das sucintamente em um de seus raros pronunciamen-
tras partes, de modo que as conclusões finais sobre o tos sobre esse tópico. Ele escreve:
caso se baseavam em uma rede entrelaçada de fatos e
de inferências. Freud procedia em seu trabalho como “Nós ouvimos freqüentemente a afirmação de que
um detetive, reunindo evidências, ou um advogado as ciências deveriam ser fundamentadas em con-
apresentando um caso para o júri. Tudo tinha de en- ceitos básicos claros e nitidamente definidos. Na
caixar-se coerentemente antes de Freud achar que ti- verdade, nenhuma ciência, nem mesmo a mais
nha encontrado a interpretação correta. Devemos lem- exata, começa com tais definições. O verdadeiro
brar, além disso, que o material produzido por um início da atividade científica consiste mais exata-
caso atendido cinco horas por semana, durante dois mente em descrever fenômenos e depois prosse-
ou três anos, tinha imensas proporções, e que Freud guir para agrupá-los, classificá-los e correlacioná-
tinha amplas oportunidades de verificar e reverificar los. Mesmo no estágio da descrição não é possível
suas posições antes de decidir sobre a interpretação evitar aplicar certas idéias abstratas ao material
final. Em contraste, o sujeito dos experimentos psico- sob exame, idéias derivadas de algum lugar mas
lógicos típicos realizados sob condições controladas é que certamente não derivam das novas observa-
observado ou testado por apenas uma ou duas horas, ções sozinhas. Tais idéias – que mais tarde se tor-
em média. Certamente, duas das contribuições mais narão os conceitos básicos da ciência – são ainda
importantes de Freud para a estratégia de pesquisa mais indispensáveis à medida que o material vai
foram o estudo intensivo do caso único e o uso do sendo trabalhado. Elas a princípio necessariamen-
método da consistência interna para testar hipóteses. te possuem certo grau de indefinição; não pode
Inúmeras vezes Freud foi obrigado a revisar suas haver nenhuma clara delimitação de seu conteú-
teorias, porque novas descobertas não podiam ser do. À medida que elas permanecem nessa condi-
explicadas adequadamente por suas teorias corren- ção, chegamos a um entendimento de seu signifi-
tes. Ele ficava relutante em abandonar uma posição cado, fazendo repetidas referências ao material
sistemática depois de tê-la formulado, mas a história de observação do qual elas parecem ter sido deri-
da teoria psicanalítica da personalidade, de seu co- vadas, mas ao qual, de fato, elas foram impostas.
meço na década de 1890 ao final da década de 1920, Assim, estritamente falando, elas têm o caráter
demonstra muito conclusivamente que as visões de de convenções – embora tudo dependa de não
Freud eram finalmente determinadas pelo peso da evi- serem arbitrariamente escolhidas e sim determi-
dência conforme ele a via. Embora seus associados pró- nadas por suas relações significativas com o ma-
ximos possam ter tido certa influência em suas idéias, terial empírico, com as relações que parecemos
parece razoavelmente claro que o teste supremo da sentir antes de podermos reconhecer e demons-
validade de suas teorias era sua autocrítica e sua dis- trar claramente. É só depois de uma investigação
posição de ser guiado por novas evidências. A onda mais completa do campo da observação que sere-
de ataques indignados à psicanálise, que começou mos capazes de formular seus conceitos científi-
assim que Freud enunciou sua teoria da etiologia se- cos básicos com crescente precisão, e progressi-
xual da histeria e que continuou pelo resto de sua vamente modificá-los para que se tornem úteis e
70 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

consistentes em uma grande área. Então, realmen- Parisi (1987, 1988; ver também Silverstein, 1985,
te, pode ter chegado o momento de confiná-los 1988, 1989) igualmente contesta a concepção de
em definições. O avanço do conhecimento, entre- Freud como um reducionista e determinista biológi-
tanto, não tolera qualquer rigidez, mesmo em co. Parisi argumentou que Freud fracassou em sua ten-
definições. A física fornece uma excelente ilustra- tativa, mais notavelmente no Projeto para uma psico-
ção da maneira pela qual até os ‘conceitos bási- logia científica, de construir uma teoria da mente
cos’ que foram estabelecidos na forma de defini- baseada na ciência natural. Mas Freud estava “rica-
ções têm seu conteúdo constantemente alterado.” mente enganado”, e seu fracasso nos ajudou a com-
(1915, p. 117) preender as “limitações conceituais” da teorização so-
bre o comportamento humano que ele próprio passou
Portanto, Freud preferia o tipo mais aberto e in- a reconhecer. Parisi escreve:
formal de construção de teoria indutiva, que perma-
“A neurociência contemporânea tende a supor que
nece razoavelmente próximo dos apoios empíricos
as explicações da vida psicológica, para que te-
sobre os quais se baseia, ao invés do tipo de teoria
nham mérito, têm de ser consistentes com a neu-
dedutiva mais formal que começa com conceitos niti-
rofisiologia. Freud concluiu exatamente o opos-
damente definidos e postulados e corolários cuidado-
to: para que tenhamos uma ciência natural da
samente enunciados, dos quais as hipóteses testáveis
psicologia, ela tem de ser consistente com a expe-
são derivadas e, subseqüentemente, testadas. Além
riência . . . Ele sabia o que a ciência natural deve
disso, como mostra essa citação, Freud estava inteira-
ser..., mas também estava agudamente conscien-
mente consciente da importância da “mente prepara-
te da natureza dos fenômenos que lhe interessa-
da” do cientista para poder fazer o melhor uso dos
vam . . . Freud chegou à conclusão de que não é
dados empíricos. Essas “idéias abstratas” poderiam vir
possível reduzir esses fenômenos às suas raízes
de várias fontes; no caso de Freud, vinham de amplas
biológicas . . . os fenômenos psicológicos são irre-
leituras dos clássicos e de outras literaturas, de seu
dutíveis a fenômenos biológicos.” (1987, p. 237)
passatempo de arqueologia, de suas observações como
pai de seis filhos, de experiências cotidianas de todo Freud argumentava que as “idéias são causais” e os
tipo e, acima de tudo, talvez, de seu hábito vitalício “sintomas se reduzem a idéias” (Parisi, 1987, p. 238).
de auto-análise. De maneira semelhante, segundo Parisi, Freud rejei-
Existe certo debate sobre se Freud defendia o re- tava a teoria darwiniana conforme a entendia, por-
ducionismo e o determinismo biológicos. Sulloway que não acreditava que a biologia oferecesse o nível
(1979) argumentou que a teoria de Freud foi uma primário de explicação; na verdade, nem a biologia
continuação do trabalho revolucionário de Charles nem a psicologia são primárias. Esse é um argumento
Darwin sobre a evolução e seleção naturais. Sulloway um tanto desorientador. Em essência, Parisi concluiu
chamou Freud de um “criptobiólogo” cujas teorias que Freud resistiu à tentação de reduzir sua teoria de
psicanalíticas estavam enraizadas em suposições e mente à neurologia ou à seleção natural porque essa
abordagens biológicas. Dessa perspectiva, o trabalho redução distorceria o fenômeno da vida mental. Pari-
de Freud baseava-se na evolução, e o próprio Freud é si acredita que lucraríamos seguindo a orientação de
mais bem-compreendido por meio da expressão que Freud.
se tornou o título do livro de Sulloway, “O Biólogo da Vamos examinar agora algumas das técnicas em-
Mente”. Na opinião de Sulloway, grande parte dessa pregadas por Freud para coletar dados. Elas foram
influência foi exercida pela associação de Freud com usadas, evidentemente, na situação terapêutica, pois
Wilhelm Fliess e sua biologia sexual. Na verdade, Sullo- era nela que Freud coletava seus dados.
way argumentou que a psicanálise era, em grande
parte, uma transformação das idéias fliessianas. Os
Associação Livre e Análise de Sonhos
conhecimentos de Sulloway são impressionantes, mas
sua reconstrução intelectual de Freud foi convincen- Após uma breve tentativa com o método da hipnose
temente contestada por Robinson (1993). (1887-1889), que estava muito em voga na época,
TEORIAS DA PERSONALIDADE 71

especialmente na França, Freud ficou sabendo de um seriam divulgadas para o ouvinte que seguisse a ca-
novo método que fora usado com sucesso por seu deia de associações por meio do labirinto verbal.
amigo e colega Dr. Joseph Breuer no tratamento de A análise dos sonhos não é um método separado
um caso de histeria. Esse método, que Breuer chama- do método da associação livre; ele é uma conseqüên-
va de catarse ou “cura pela fala”, consistia em o paci- cia natural da instrução dada ao paciente para que
ente relatar os detalhes do aparecimento de cada um fale sobre tudo o que lhe vier à mente. Os primeiros
dos sintomas, depois do que os sintomas desapareci- pacientes de Freud lembravam os sonhos espontane-
am. A partir desse método, Freud gradualmente de- amente e prosseguiam para associar livremente sobre
senvolveu seu método inigualável da associação livre. eles. Freud logo percebeu que esses sonhos relatados
Ernest Jones chamou tal desenvolvimento de “uma e as associações livres concomitantes eram fontes de
das duas grandes façanhas da vida científica de Freud”, informação especialmente ricas sobre a dinâmica da
a outra sendo a sua auto-análise. personalidade humana. Em resultado desse insight,
Em essência, o método da associação livre requer que testou com os próprios sonhos, Freud formulou a
que o paciente diga tudo o que lhe vem à consciência, famosa teoria de que o sonho é uma expressão do
por mais ridículo ou inadequado que possa soar. Dife- funcionamento e dos conteúdos mais primitivos da
rentemente do método catártico, o método da associ- mente humana (1900). O processo primitivo que cria
ação livre não pára na origem dos sintomas. Ele per- o sonho foi chamado por Freud de processo primário.
mite, na verdade exige, que os pacientes falem sobre Como vimos, o processo primário tenta realizar um
qualquer coisa que lhes ocorrer, sem restrições e sem desejo ou descarregar uma tensão ao induzir uma ima-
qualquer tentativa de produzir um discurso lógico, gem do objetivo desejado. Uma vez que as defesas
organizado e significativo. O papel do terapeuta é, não estão tão vigilantes durante o sono, é mais fácil
em grande extensão, um papel passivo. O terapeuta negociar uma expressão de compromisso de um dese-
fica sentado, escutando, ocasionalmente estimula jo inconsciente. Esse compromisso assume a forma de
quando o fluxo verbal do paciente se esgota, mas não um sonho. Os sonhos, portanto, têm duas funções.
interrompe quando o paciente está falando. A fim de Primeiro, eles servem como os “guardiães do sono”
reduzir ao máximo a influência de distrações exter- para o sonhador, ao distinguir os desejos cujo conteú-
nas, o paciente normalmente fica deitado em um divã, do traumático de outra forma o faria acordar. Segun-
em uma sala tranqüila. do, eles oferecem ao analista a “via régia para o in-
Freud observou que, quando prevaleciam essas consciente”. A missão do analista é reverter os
condições, o paciente eventualmente começava a fa- processos de trabalho onírico e a formação de símbo-
lar sobre as memórias de suas experiências infantis lo que transformaram o “conteúdo latente” subjacen-
iniciais. Tais memórias proporcionaram a Freud seu te no “conteúdo manifesto” superficial experienciado
primeiro insight real sobre a formação da estrutura pelo sonhador. A interpretação dos símbolos é o mais
da personalidade e seu desenvolvimento subseqüen- conhecido desses dois instrumentos, talvez devido à
te. Esse método de reconstruir o passado a partir de natureza sexual de muitos dos símbolos comuns. Por
verbalizações atuais pode ser comparado com o mé- exemplo, Freud escreveu:
todo desenvolvimental de observar o desenvolvimen-
to da personalidade do período de bebê à idade adulta. “Todos os objetos alongados, como bastões, tron-
Talvez o insight mais original de Freud sobre os cos de árvores e guarda-chuvas . . . podem repre-
vôos indisciplinados das verbalizações de seus paci- sentar o órgão masculino . . . Caixas, estojos, baús,
entes tenha sido que cada declaração estava associa- armários e fornos representam o útero, assim
da de alguma maneira significativa e dinâmica à de- como objetos ocos, navios e naves de qualquer
claração precedente, de modo que da primeira à última tipo. As salas, nos sonhos, geralmente são mulhe-
havia uma cadeia contínua de associações. Tudo o que res . . . Nos sonhos dos homens as gravatas fre-
o paciente dizia se relacionava, sem exceção, ao que qüentemente aparecem como símbolo do pênis . . .
fora dito previamente. Podia haver numerosos circun- Um símbolo muito recente do órgão masculino
lóquios e bloqueios verbais, mas eventualmente a his- nos sonhos merece ser mencionado: o avião, cujo
tória da mente da pessoa e sua presente organização uso neste sentido é justificado por sua conexão
72 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

com voar e às vezes por sua forma.” (1900, p. pectos importantes de um ou mais dos conceitos teó-
354-357) ricos de Freud.
Dora foi publicado, disse Freud, para mostrar
Freud, entretanto, deixou clara a relativa importân-
como a análise dos sonhos nos permite descobrir as
cia dessas duas técnicas:
partes escondidas e reprimidas da mente humana e
“Eu gostaria de emitir uma advertência expressa para demonstrar que os sintomas histéricos são moti-
sobre superestimar a importância dos símbolos na vados pelo impulso sexual. Após um relato bastante
interpretação dos sonhos, sobre restringir o tra- longo dos fatores históricos e do quadro clínico atual,
balho de traduzir os sonhos meramente a tradu- Freud apresenta uma análise detalhada de dois dos
zir símbolos, e sobre abandonar a técnica de fa- sonhos de Dora. Grande parte do material consiste no
zer uso das associações do sonhador. As duas relato exato das associações livres de Dora e das in-
técnicas de interpretação dos sonhos devem ser terpretações de Freud, e apresenta um quadro nota-
complementares; mas tanto na prática quanto na velmente lúcido da maneira exata de interpretar os
teoria o primeiro lugar continua cabendo . . . aos sonhos. Nessa história de caso, como nas outras, nós
comentários feitos pelo sonhador.” (1900, p. 359- vemos como Freud tecia a urdidura desenhada da
360) personalidade a partir dos fios verbais emaranhados
de uma pessoa sofredora, e percebemos seu talento
Ao fazer seus pacientes associarem livremente
incomum para enxergar relações entre verbalizações
sobre os sonhos, Freud conseguiu penetrar nas regi-
amplamente discrepantes. Operando a partir da su-
ões mais inacessíveis da mente humana e descobrir os
posição de que tudo o que a pessoa diz ou faz é signi-
fundamentos da personalidade.
ficativo e encaixa-se no quadro total da organização
da personalidade, Freud era um observador vigilan-
Estudos de Caso de Freud te; a declaração ou o ato mais comum era minuciosa-
mente esquadrinhado em busca de um significado mais
A vasta quantidade de material bruto a partir da qual
profundo.
Freud criou sua teoria da personalidade nunca será
Freud não considerava seu talento para a obser-
conhecida. As poucas histórias de caso que Freud es-
vação como incomum, de nenhuma maneira, como
colheu publicar representam apenas uma fração infi-
indica a seguinte citação:
nitesimal dos casos tratados por ele. A ética profissio-
nal impediu-o parcialmente de apresentar seus casos “Quando estabeleci para mim a tarefa de trazer à
ao mundo, pois sempre havia o risco de o público cu- luz o que os seres humanos mantêm escondido
rioso descobrir a identidade de seus pacientes. dentro de si mesmos, não pelo poder compelidor
Além das histórias de caso que aparecem em Es- da hipnose, mas ao observar o que eles dizem e o
tudos Sobre a Histeria (1895), que escreveu em cola- que eles mostram, pensei que a tarefa era mais
boração com Breuer antes que a teoria psicanalítica difícil do que realmente é. Aquele que tem olhos
assumisse uma forma definida em sua mente, Freud para ver e ouvidos para escutar pode convencer-
publicou apenas seis relatos de caso. Um deles, o cha- se de que nenhum mortal é capaz de manter um
mado Caso Schreber (1911), não foi paciente de segredo. Se seus lábios estão selados, ele conver-
Freud. Freud baseou sua análise em um relato autobi- sa com as pontas dos dedos; ele se trai em cada
ográfico de um caso de paranóia, escrito pelo Juiz Da- poro. E, assim, a tarefa de tornar consciente os
niel Schreber. Um outro estudo de caso referia-se a recessos mais escondidos da mente é uma tarefa
uma fobia em um menino de cinco anos de idade, o muito possível de realizar.” (1905b, p. 77-78)
Pequeno Hans (1909a), que foi tratado pelo pai, um
médico, sob a orientação e as instruções de Freud. A notável capacidade de Freud de fazer inferências
Nos outros quatro casos, Freud foi o terapeuta. Eles de grande importância a partir do comportamento
são conhecidos como “Dora” (1905b), o “Homem dos comum é claramente observada naquele que prova-
Ratos” (1909b), o “Homem dos Lobos” (1918) e um velmente é um de seus textos mais populares, A Psico-
caso de homossexualidade feminina (1920b). Cada patologia da Vida Cotidiana (1901). Esse livro está
um desses casos foi apresentado para destacar os as- repleto de exemplos da importância dinâmica de sim-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 73

ples lapsos da fala, erros de memória, acidentes e vá- relacionados e que a força motriz de ambos, assim
rios tipos de equívocos. como dos outros aspectos do caso, era a homossexua-
A teoria de Freud da sexualidade infantil foi for- lidade latente. Nesse estudo de caso, Freud apresen-
mulada com base em memórias adultas. O caso do tou sua famosa hipótese do relacionamento causal
Pequeno Hans deu a Freud a primeira oportunidade entre a homossexualidade e a paranóia. O pendor de
de verificar a teoria, usando observações sobre uma Freud para derivar uma generalização de imensa im-
criança pequena. Hans temia que um cavalo o mor- portância a partir de um rol de fatos específicos é ma-
desse se ele se aventurasse na rua. A partir de anota- ravilhosamente retratado no caso de Schreber.
ções cuidadosas mantidas pelo pai do menino, muitas O Homem dos Lobos é um relato de uma neurose
das quais são apresentadas textualmente no relato pu- infantil que aflorou durante a análise de um jovem e
blicado, Freud conseguiu mostrar que essa fobia era estava relacionada dinamicamente à presente condi-
uma expressão de dois dos mais importantes comple- ção do paciente. Freud observou que a análise de uma
xos da infância inicial: o complexo de Édipo e o com- experiência ocorrida há cerca de quinze anos antes
plexo de castração. O caso do Pequeno Hans exempli- tinha vantagens, assim como desvantagens, quando
fica e corrobora a teoria da sexualidade infantil comparada à análise de um evento logo depois de ele
proposta por Freud em 1905. (Ver Brown, 1965, para ocorrer. A principal desvantagem é a não-confiabili-
uma reinterpretação persuasiva do caso do Pequeno dade da memória relativa àquela experiência. Por
Hans de um ponto de vista de condicionamento.) outro lado, se tentamos analisar crianças muito jo-
No caso do Homem dos Ratos, que sofria da re- vens, há a desvantagem de elas não saberem se ex-
voltante obsessão de que sua namorada e seu pai seri- pressar verbalmente. O Homem dos Lobos é o equiva-
am castigados, tendo uma quantidade significativa de lente adulto do Pequeno Hans, e ambas as abordagens,
roedores vorazes amarrados às suas nádegas, Freud a reconstrutiva e a genética, revelaram-se fontes vali-
juntou a dinâmica envolvida e as conexões de pensa- osas de evidência empírica para as teorias da psicaná-
mento de um neurótico obsessivo. Embora a apresen- lise. O principal aspecto dessa história de caso é uma
tação seja apenas fragmentária, esse caso ilustra cla- longa análise de um sonho com lobos que o paciente
ramente como Freud resolveu as aparentes contra- lembrava de sua infância inicial, e que foi interpreta-
dições, distorções e os absurdos nas divagações des- do como sendo causado pela reação da criança à cena
conexas de uma personalidade doente e transformou- primária, o termo usado por Freud para quando a cri-
as em um padrão logicamente coerente. Ao relatar ança observa ou fantasia os pais tendo relações sexu-
esse caso, Freud nos diz que ele se baseia em notas ais. (Para uma discussão desse caso ver Gardner, 1971).
feitas na noite do dia do tratamento e não em notas O último caso relatado por Freud foi um que ele
feitas durante a sessão analítica. Freud se opunha à teve de interromper porque a resistência da paciente
tomada de notas por parte do terapeuta durante o a desistir de sua homossexualidade foi tão forte que
período de tratamento porque sentia que a retirada nenhum progresso pôde ser feito. No entanto, como
da atenção do terapeuta iria interferir no progresso mostra a história de caso publicada, Freud conseguiu
da terapia. Ele acreditava, de toda maneira, que o te- chegar a um completo entendimento da origem e do
rapeuta se lembraria do material importante e esque- desenvolvimento da homossexualidade. A homosse-
ceria os detalhes triviais. xualidade, em ambos os sexos, deve-se a dois fatores
A análise de Freud do caso Schreber baseia-se no principais: uma bissexualidade inerente a todas as
relato do próprio Schreber de sua paranóia. Freud coisas vivas e a uma inversão do complexo de Édipo.
justificou o uso desse livro autobiográfico, dizendo que Ao invés de amar o pai e identificar-se com a mãe,
a paranóia é um tipo de transtorno em que a história essa mulher identificou-se com o pai e catexizou a
de caso escrita é tão satisfatória quanto um conheci- mãe. No caso da homossexualidade masculina, have-
mento pessoal do caso. O sintoma característico da ria uma identificação com a mãe e um amor pelo pai.
paranóia é o sistema delirante e tortuoso construído Esse caso também contém algumas das idéias de Freud
pelo paciente. Os delírios de Schreber consistiam em sobre o suicídio, já que a razão para essa mulher pro-
pensar que ele era o Redentor e que estava sendo trans- curar Freud, em primeiro lugar, foi uma tentativa de
formado em uma mulher. Em uma análise intrincada autodestruição.
desses dois delírios, Freud mostrou que eles estavam
74 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

É impossível dizer com certeza que essas histórias antes de testá-la em si próprio. Freud continuou sua
de caso específicas que Freud decidiu tornar públicas auto-análise por toda a vida, reservando a última meia
foram as fontes empíricas reais das teorias que elas hora de cada dia para essa atividade.
exemplificam, ou se elas foram meramente exemplos
convenientes e claros das formulações teóricas que já
tinham tomado forma na mente de Freud. Realmente
não faz muita diferença se o caso Schreber, por exem- PESQUISA ATUAL
plo, foi o caso que revelou a Freud a dinâmica da pa-
ranóia, ou se ele fez a descoberta fundamental com Não há dúvida nenhuma de que a teoria psicanalítica
base em casos anteriores e apenas a aplicou a esse de Freud tem um enorme valor intelectual e impacto
caso específico. De qualquer forma, o tipo de material heurístico. Mas não está claro se a teoria existe em
coletado por Freud, as técnicas empregadas por ele e uma forma que permita a predição e a testagem expe-
a maneira pela qual ele pensava são revelados nesses rimental. Conflito, defesa, sexualidade, agressão e “a
seis estudos de caso. Qualquer pessoa que deseje co- psicopatologia da vida cotidiana” são temas que pare-
nhecer o material bruto com o qual Freud trabalhava cem relevantes para a nossa vida. Mas será que esse
deveria lê-los. senso de relevância pode ser validado por alguma cor-
Não devemos confundir tais histórias de caso com roboração experimental? Será que as forças e as con-
a aplicação da teoria psicanalítica para um melhor traforças que por definição existem fora da consciên-
entendimento da literatura e das artes, ou para pro- cia estão sujeitas à mensuração, e será que os motivos
pósitos de crítica social. Freud não aprendeu sobre e os relacionamentos que existem em um estado de
sublimação a partir de seu estudo sobre a vida de Leo- esquecimento motivado estão sujeitos à regra da des-
nardo da Vinci, e não descobriu o complexo de Édipo confirmabilidade? Em resumo, em que extensão a te-
lendo Sófocles, Shakespeare ou Dostoevsky. Nem ele oria freudiana é testável?
compreendeu a irracionalidade básica do ser humano Grunbaum (1984, 1986, 1993) argumentou que
observando o comportamento humano religioso ou algumas das hipóteses de Freud são, de fato, falsificá-
político. A interpretação de uma obra literária ou a veis, mas que os dados clínicos não são válidos como
análise de uma instituição social, usando-se os insi- evidência científica em testes dessas hipóteses. Em
ghts da teoria psicanalítica, podem ter ajudado a con- conseqüência, existem poucas evidências apoiando as
firmar a utilidade dos insights e até a validar sua au- hipóteses psicanalíticas. Westen (1990), entretanto,
tenticidade e universalidade, mas as produções observa que Grunbaum “subestima consideravelmen-
literárias e as instituições sociais em si não fizeram te” as evidências experimentais que apóiam as propo-
parte dos dados empíricos de Freud. sições psicanalíticas (ver Robinson, 1993, e Sachs,
1989, para amplas refutações de Grunbaum). Exami-
nemos agora algumas das evidências experimentais.
Auto-Análise de Freud
Há muitos anos, de fato, existem tentativas de
O material “dragado” de seu próprio inconsciente cons- submeter hipóteses derivadas da teoria psicanalítica
tituiu uma fonte importante de dados empíricos para à testagem de laboratório. Nós já referimos o traba-
Freud. Conforme relatado por Ernest Jones (1953), lho de Rosenzweig, por exemplo. A pesquisa inicial
Freud começou a auto-análise no verão de 1897 com foi revisada por Sears (1943, 1944), Hilgard (1952) e
a análise de um de seus sonhos. A partir desse auto- Blum (1953). Essas revisões, todavia, são principal-
escrutínio investigativo, Freud confirmou para sua mente de valor histórico, porque grande parte da pes-
própria satisfação a teoria dos sonhos e a teoria da quisa inicial foi realizada com metodologia inadequa-
sexualidade infantil. Ele encontrou em sua personali- da e um entendimento insuficiente da teoria
dade aqueles conflitos, contradições e irracionalida- psicanalítica (Horwitz, 1963). Kline (1972) concluiu
des que observara em seus pacientes, e sua experiên- que “uma parte grande demais do que é distintiva-
cia, talvez mais do que qualquer outra, convenceu-o mente freudiano foi confirmada para ser possível a
da correção essencial de suas idéias. De fato, Freud rejeição de toda a teoria psicanalítica” (p. 350). Hans
relutava em aceitar a validade de qualquer hipótese Eysenck, um implacável inimigo da psicanálise, em
TEORIAS DA PERSONALIDADE 75

colaboração com Glenn Wilson, reexaminou os dados nificativo tendem a responder com depressão a desa-
sobre os quais Kline baseou sua conclusão e afirmou: pontamentos subseqüentes. Observem que as propo-
“não existe absolutamente nenhuma evidência em sições clínicas baseiam-se exclusivamente na co-vari-
favor da teoria psicanalítica” (1974, p. 385). Fisher e ância observada dos comportamentos. As “proposições
Greenberg (1977), ao contrário, acreditam que as metapsicológicas”, em contraste, “vão além dos dados
evidências, geralmente falando, favorecem Freud. empíricos, ao relacionar desejos a ‘instintos’ ou ‘pul-
Uma revisão anual intitulada Psychoanalysis and Con- sões instintuais’, e ao tentar especificar em uma ‘lin-
temporary Science, editada por Holt e Peterfreund, tem guagem de energia’ a maneira pela qual os motivos
circulado desde 1972. afetam o comportamento” (p. 622). Silverman argu-
Em vez de tentar revisar todos os testes experi- mentou que as proposições clínicas representam o nú-
mentais das proposições psicanalíticas realizados nos cleo da psicanálise, mas que a maioria dos críticos da
últimos anos, nós examinaremos o programa de pes- teoria psicanalítica focaliza as proposições metapsi-
quisa que tem recebido a maior atenção. cológicas. O programa de pesquisa de Silverman foi
planejado para aplicar aqueles “controles investigató-
rios adequados” característicos do método experimen-
Ativação Psicodinâmica Subliminar
tal às proposições clínicas centrais da teoria psicana-
Lloyd Silverman (1966, 1976, 1982, 1983; Silverman, lítica.
Lachman & Milich, 1982; Weinberger & Silverman, O método de estimulação subliminar envolve
1987) desenvolveu um programa de pesquisa para mostrar a uma pessoa uma figura ou frase escrita tão
testar hipóteses derivadas da noção freudiana geral rapidamente que ela não consegue reconhecer o que
de que o comportamento anormal ou desviante pode é. A breve exposição (0,004 segundos) é feita por um
ser intensificado ou atenuado quando os conflitos re- instrumento chamado taquistoscópio. Foi claramente
lativos a desejos inconscientes sexuais e agressivos são demonstrado em várias investigações que, embora a
atiçados ou diminuídos, respectivamente. A dificul- pessoa não esteja consciente daquilo que foi apresen-
dade nessa pesquisa, evidentemente, é desenvolver tado taquistoscopicamente, o material mostrado pode
um método para se ter acesso ao material conflitual afetar os sentimentos e o comportamento de manei-
em um nível inconsciente. Como veremos, Silverman ras demonstráveis.
desenvolveu um método para esse propósito, o qual Como exemplo da metodologia, nós descrevere-
ele chamou de ativação psicodinâmica subliminar. mos experimentos com pessoas deprimidas. Segundo
Antes de examinarmos a pesquisa em si, certos fun- a teoria psicanalítica, a depressão é produzida voltan-
damentos são necessários. do-se os sentimentos agressivos inconscientes em re-
Silverman (1976) começa chamando a atenção lação aos outros contra o próprio self. Se essa hipóte-
para a distinção entre proposições clínicas e metapsi- se estiver correta, uma pessoa deprimida deveria se
cológicas dentro da psicanálise. As “proposições clíni- sentir ainda mais deprimida quando os desejos agres-
cas” referem-se a declarações baseadas em dados sivos inconscientes forem ativados. Para estimular es-
empíricos tais como o comportamento dos pacientes ses desejos, é mostrada uma figura agressiva a pesso-
durante a hora analítica. As proposições clínicas po- as deprimidas. Por exemplo, um homem rosnando e
dem ser dinâmicas, referindo-se à motivação subja- segurando uma adaga, e uma mensagem verbal do
cente ao comportamento, ou genéticas, referindo-se tipo CANIBAIS COMEM PESSOAS. Os estímulos fo-
às origens do comportamento em experiências inici- ram mostrados aos sujeitos, como podemos lembrar,
ais. Como exemplo de uma proposição dinâmica, Sil- por apenas 0,004 segundos. Antes e depois da apre-
verman ofereceu a proposição psicanalítica de que sentação, o indivíduo faz uma auto-avaliação de seus
muitas depressões envolvem um desejo inconsciente, sentimentos. Os mesmos sujeitos, em uma sessão di-
conflitual e hostil em relação a alguém que desapon- ferente, foram expostos a uma figura neutra, por exem-
tou a pessoa deprimida, quando a depressão resulta plo, uma pessoa lendo um jornal e uma mensagem
em voltar defensivamente a hostilidade contra o self. verbal, por exemplo, AS PESSOAS ESTÃO CAMI-
Da mesma forma, uma proposição genética é a que as NHANDO, e foram solicitadas a fazer auto-avaliações
pessoas que experienciaram a perda de um outro sig- antes e depois da apresentação. Silverman (1976)
76 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

escreve: “A apresentação subliminar do conteúdo des- atiçados por alguma coisa da qual a pessoa não tem
tinado a estimular desejos agressivos levou a uma in- consciência.
tensificação de sentimentos depressivos que não esta- Os efeitos psicodinâmicos subliminares também
vam evidentes depois da apresentação subliminar do foram demonstrados em amostras não-patológicas.
conteúdo neutro” (p. 627). Geisler (1986) expôs universitárias a estímulos desti-
Para mostrar que o efeito do material foi específi- nados a intensificar o conflito edípico (“Amar o papai
co para o conteúdo agressivo, como exige a teoria é errado”), a reduzir o conflito edípico (“Amar o pa-
psicanalítica da depressão, e não poderia ter sido pro- pai é certo”), ou a ser neutros (“As pessoas estão ca-
duzido por um tipo diferente de material emocional, minhando”). Ela descobriu que os estímulos de inten-
o grupo de Silverman realizou o seguinte experimen- sificação do conflito realmente afetavam a memória
to. Em uma ocasião, pacientes deprimidos foram ex- para materiais neutros subseqüentemente apresenta-
postos subliminarmente a uma figura agressiva e, em dos (como opostos aos sexuais). Esse efeito só existia
outro momento, a uma figura de uma pessoa defe- para aqueles sujeitos que eram propensos a conflito
cando. Esta última figura estimularia desejos anais con- edípico e à repressão (ver Dauber, 1984, para um es-
flituais, que segundo a teoria freudiana estão ligados tudo semelhante com universitárias deprimidas). Em
à gagueira. Os deprimidos ficaram ainda mais depri- um estudo com universitários do sexo masculino, Sil-
midos depois da apresentação da figura agressiva, mas verman, Ross, Adler e Lustig (1978) apresentaram
não depois da apresentação da figura anal. O efeito estímulos destinados a intensificar o conflito edípico
oposto foi mostrado por um grupo de gagos. Eles ga- (“Bater no papai é errado”), a reduzir o conflito edí-
guejaram mais depois de ver subliminarmente a figu- pico (“Bater no papai é certo”) ou a ser neutros (“As
ra anal, mas não a agressiva. pessoas estão caminhando”). Os escores dos sujeitos
Silverman também demonstrou que os sintomas em arremesso de dardo foram medidos antes e depois
anormais podiam ser reduzidos, diminuindo-se os de- da exposição taquistoscópica aos estímulos. Confor-
sejos conflituais. Nesses experimentos foram testados me predito, os dois estímulos experimentais tiveram
pacientes esquizofrênicos. Eles foram expostos taquis- efeitos fortes e opostos. O estímulo “errado” levou a
toscopicamente à mensagem impressa MAMÃE E EU uma queda nos escores de arremesso de dardo, mas o
SOMOS UM SÓ. Seus sintomas anormais foram redu- estímulo “certo” levou a um aumento nos escores. O
zidos por essa mensagem subliminar e não por outras efeito foi o mesmo quando os escores pós-estímulo
mensagens de controle. Por que a mensagem MAMÃE foram comparados com os escores pré-estímulo nas
teve um efeito benéfico? Por três razões, diz Silver- mesmas condições ou com escores obtidos após a apre-
man. Primeiro, a unidade com a mãe afasta sentimen- sentação do estímulo neutro.
tos hostis inconscientes em relação a ela. Segundo, a Os trabalhos subseqüentes de Silverman e de seus
fantasia de unidade implica um suprimento ininter- colegas (Silverman & Weinberger, 1985) centraram-
rupto de nutrição (maternagem) da mãe. E terceiro, se na potência do estímulo “Mamãe e eu somos um
a fantasia diminui a ansiedade de separação. Ao con- só” para produzir melhora terapêutica em vários con-
trário, quando os esquizofrênicos foram expostos a textos. Na verdade, Silverman sugeriu que esse estí-
mensagens que continham hostilidade em relação à mulo simbiótico serve como um “agente terapêutico
mãe ou medo de perdê-la, seus sintomas anormais ubíquo” (Silverman, 1978).
aumentaram. Silverman incorporou vários controles experimen-
O leitor pode-se perguntar o que aconteceria se tais ao seu programa de pesquisa. Por exemplo, os
as mensagens destinadas a ativar desejos inconscien- estudos freqüentemente eram replicados, e conduzi-
tes fossem mostradas em condições normais, isto é, dos de modo duplo-cego (i. e., nem o sujeito nem o
em que os sujeitos pudessem facilmente reconhecer e experimentador sabiam em que condição estava o su-
compreender a mensagem. A resposta é que as men- jeito). A ordem de apresentação dos estímulos con-
sagens conscientemente percebidas não tiveram ne- trole e experimentais era contrabalanceada, e era to-
nhum efeito sobre os sintomas dos pacientes. Aparen- mado cuidado para confirmar que os sujeitos não
temente, os desejos inconscientes só podem ser conseguiam relatar acuradamente os conteúdos dos
TEORIAS DA PERSONALIDADE 77

estímulos aos quais eram expostos. Apesar desses con- Nova Visão 3
troles, Balay e Shevrin (1988) fizeram várias objeções.
Por exemplo, eles revisaram as questões psicofísicas e O estudo experimental da repressão tem uma longa
de mensuração feitas por examinadores anteriores. história na psicologia (D’Zurilla, 1965; Rosenzweig &
Além disso, eles sugeriram que a replicação real dos Mason, 1943; Zeller, 1950). Esse trabalho continua
achados é rara no programa de pesquisa de Silver- sendo feito, mas nos últimos anos grande parte dele
man, porque os pesquisadores empregam medidas ou centrou-se nos níveis de consciência e nos processos
medidas de resultado diferentes em diferentes estu- cognitivos em geral, em vez de proposições freudia-
dos. Eles também salientaram que a mudança relata- nas sobre a defesa motivada (Kihlstrom, 1990; Wes-
da em muitos dos estudos era um artefato estatístico. ten, 1990).
Isto é, a patologia na verdade não era reduzida nos A pesquisa cognitiva começou na década de 40
sujeitos expostos a estímulos experimentais como com a “Nova Visão” na percepção (ver Bruner, 1973;
“Mamãe e eu somos um só”; de fato, os sujeitos ex- Dixon, 1971), que investigou o impacto dos motivos,
postos a estímulos neutros como “As pessoas estão ca- das defesas e das expectativas nos processos e resul-
minhando” aumentavam sua patologia. Isso produz a tados perceptuais. Esse trabalho permaneceu ampla-
ilusão de apoio para o efeito predito do estímulo ex- mente não-integrado ao restante da psicologia, ape-
perimental, quando de fato o que se observa é um sar dos esforços de Erdelyi (1974) e outros, até Shevrin
efeito negativo não-predito e contra-intuitivo do estí- e Dickman (1980) argumentarem que o inconsciente
mulo neutro. (Observem que esse não foi o caso no é uma “suposição necessária” para virtualmente qual-
experimento de arremesso de dardo de Silverman e quer teoria ou pesquisa psicológica. O trabalho sub-
colaboradores (1978), em que os efeitos dos estímu- seqüente sobre o inconsciente, embora claramente
los “errado” e “certo” foram na direção predita nos consistente com a tradição freudiana, evoluiu dentro
três estudos relatados.) Finalmente, Balay e Shevrin do foco da psicologia cognitiva no processamento se-
questionaram a interpretação dos achados de Silver- letivo da informação, e a área de pesquisa passou a
man: O que as mensagens subliminares realmente fa- ser conhecida como o inconsciente cognitivo. Confor-
zem? Como elas ativam os resíduos inconscientes de me Kihlstrom (1990, p. 447) coloca, “a pesquisa so-
conflitos infantis? Em resumo, Balay e Shevrin esta- bre a percepção subliminar, o esquecimento motiva-
vam preocupados com a “falta de uma base teórica e do e assim por diante oferece pouco apoio para a
empírica sólida” no programa de pesquisa de Silver- concepção freudiana de vida mental não-consciente,
man (1988, p. 173; ver Weinberger [1989] para uma porque as proposições testadas raramente são exclu-
réplica, e Balay e Shevrin [1989] para uma refutação; sivas da teoria freudiana... por exemplo, que os con-
ver também Holender [1986] para uma crítica geral teúdos inconscientes são de natureza sexual e agres-
do processamento inconsciente da informação). siva, e que os processos inconscientes são primitivos e
Nesta, como na maioria das tentativas de ofere- irracionais”. Nessa pesquisa cognitiva, o inconsciente
cer apoio experimental para a psicanálise, todavia, as é descrito em termos de estados emocionais sutis, “co-
questões estão longe de estar claras. Com base em nhecimento procedural” sobre como as ações são rea-
uma meta-análise de 64 estudos, Hardaway (1990, p. lizadas, comportamento rotineiro que ocorre sem o
190) descobriu “um efeito de tratamento moderado e envolvimento da nossa atenção e a influência mútua
confiável do estímulo MAMÃE E EU SOMOS UM SÓ dos estados mentais e objetos, e nem todos precisam
que se generaliza por meio de laboratórios e de popu- estar completamente representados na consciência
lações de sujeitos. As críticas, afirmando que há ca- para exercer alguma influência.
rência de estudos bem-planejados nessa literatura, são Uma série de artigos na edição de junho de 1992
claramente o resultado de amostragem incompleta e da American Psychologist oferece um bom resumo dessa
tendenciosa”. Apesar dessa controvérsia, a metodolo- nova onda de pesquisa sobre o inconsciente (ver Lof-
gia de ativação subliminar psicodinâmica de Silver- tus e Klinger, 1992, para uma introdução; ver tam-
man oferece os apoios experimentais mais convincen- bém Epstein, 1994, e a edição especial de dezembro
tes para a teoria da psicanálise de Freud. de 1994 do Journal of Personality, dedicada à “psico-
78 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

dinâmica e cognição social”). O foco desses artigos insere esses processos em um modelo de cognição de
não é se o inconsciente existe, mas quão “inteligente” rede neural (ou conexionista ou de processamento
(i. e., complexo e flexível) ou “tolo” é o inconsciente. distribuído em paralelo).
Bruner (1992) descreveu como a Nova Visão original Kihlstrom (Kihlstrom, Barnhardt & Tataryn, 1992)
impôs uma “visão construtivista da percepção”. Sua ofereceu um ótimo resumo desse intercâmbio e da
mensagem preconizava que a percepção não era neu- distinção entre a pesquisa sobre o inconsciente cogni-
tra e sim influenciada por outros processos mentais tivo e a teoria freudiana sobre o inconsciente dinâmi-
concorrentes. O foco não se fixava no inconsciente ou co:
em Freud, mas simplesmente em como alguns obje-
tos se tornam “mais fenomenologicamente importan- “O inconsciente psicológico documentado pela
tes” do que outros. Os adeptos da “Nova Visão” subse- psicologia científica contemporânea é muito dife-
qüentemente se dividiram naqueles interessados na rente daquele que Sigmund Freud e seus colegas
cognição e naqueles interessados nas defesas do ego psicanalíticos tinham em mente na Viena do fim
e nos processos psicodinâmicos. Bruner conclui que o de século. Seu inconsciente era quente e úmido;
inconsciente “não é muito” inteligente e que o pro- ele fervilhava com luxúria e raiva; ele era aluci-
cessamento perceptual pré-consciente ocorre apenas natório, primitivo e irracional. O inconsciente da
na extensão em que é necessário. psicologia contemporânea é mais bondoso e mais
Erdelyi foi a força propulsora por trás da Nova gentil do que aquele e mais ligado à realidade e
Visão 2 que emergiu na década de 70. O objetivo des- racional, mesmo que não seja inteiramente frio e
sa segunda onda era forjar vínculos entre Freud e a seco.” (p. 789; itálicos acrescentados)
emergente psicologia cognitiva. Em contraste com esse
Assim, a hora terapêutica freudiana e o laboratório
ímpeto cognitivo, Erdelyi (1992) argumentou que os
experimental permanecem separados por seus cons-
fenômenos inconscientes não são simples e nem to-
trangimentos conceituais e procedurais distintivos.
los. Apesar de demonstrações de laboratório de que a
percepção inconsciente é “limitada no alcance semân-
tico, as memórias inconscientes... são amplamente
complexas e influentes. As memórias patogênicas e STATUS ATUAL E AVALIAÇÃO
os hábitos desadaptados com os quais lida a psicaná-
lise não envolvem lampejos de estímulos ou inputs Nenhuma outra teoria psicológica foi submetida a tal
despercebidos, mas estruturas de memória declarati- escrutínio e muitas vezes a críticas tão amargas quan-
va e procedural altamente complexas que são inaces- to a psicanálise. De todos os lados e por todos os mo-
síveis à consciência do sujeito” (p. 786). Assim, a ques- tivos concebíveis, Freud e sua teoria foram atacados,
tão dos constrangimentos experimentais sobre a injuriados, ridicularizados e caluniados. O único caso
complexidade dos processos e dos conteúdos incons- comparável na ciência moderna em que tanto a teoria
cientes que podem ser manipulados continua a limi- quanto o teórico foram tão ardentemente difamados
tar a aceitação da pesquisa de laboratório. é o de Charles Darwin, cuja doutrina evolutiva cho-
Greenwald provocou esse intercâmbio com sua cou a Inglaterra vitoriana. As principais ofensas de
sugestão de que “está a caminho uma terceira Nova Freud consistiram em atribuir desejos lascivos e des-
Visão” (1992, p. 766). Ele concluiu que há pouca dú- trutivos aos bebês, impulsos incestuosos e perverti-
vida de que as pessoas ocasionalmente percebem fa- dos a todos os seres humanos e em explicar o com-
tos sem ter consciência disso, mas que esses proces- portamento humano em termos da motivação sexual.
sos não são muito sofisticados. Ao contrário das As pessoas “decentes” ficaram enfurecidas com as idéi-
elaboradas defesas e transformações hipotetizadas por as de Freud sobre o indivíduo e chamaram-no de li-
Freud, o inconsciente cognitivo de Greenwald “não é bertino e pervertido.
particularmente inteligente”. Greenwald resumiu evi- Freud também foi criticado em termos morais
dências de cognição sem atenção e de cognição não- como sendo um covarde intelectual. A posição origi-
relatada verbalmente (ver artigo influente de Nisbett nal de Freud durante a década de 1890 era de que a
e Wilson, 1977, sobre este último ponto). Greenwald histeria resultava da memória reprimida de abuso se-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 79

xual na infância. Em 21 de abril de 1896 ele fez uma De uma perspectiva diferente, a teoria freudiana
conferência sobre isso na Sociedade de Psiquiatria e foi criticada como excessivamente aliada à visão me-
Neurologia de Viena. Em 21 de setembro de 1897, canicista e determinista da ciência do século XIX; em
todavia, Freud escreveu a seu confidente Wilhelm Fli- conseqüência, ela não é suficientemente humanista.
ess que ele já não acreditava mais na sua “teoria da A teoria é considerada por muitos, atualmente, como
sedução”. Ele agora defendia que os relatos de sedu- uma abordagem que pinta um quadro triste demais
ção de seus pacientes eram produto de seus desejos da natureza humana. As feministas como Beauvoir
fantasiados de contato sexual. Esse foi um momento (1953), Friedan (1963), Greer (1971) e Millett (1970)
divisor de águas no desenvolvimento das teorias de atacaram vigorosamente as especulações de Freud
Freud, porque mudou a base dos sintomas das ações sobre a psicologia feminina, especialmente o conceito
dos adultos no mundo objetivo para os desejos sexu- da inveja do pênis, embora uma figura proeminente
ais intrapsíquicos das crianças. A teoria de Freud da no movimento das mulheres (Mitchell, 1975) tenha
sexualidade infantil decorreu diretamente de tal trans- vindo em defesa de Freud (ver Robinson, 1987, para
formação. uma avaliação das críticas e defensoras feministas de
Em The Assault on Truth, Masson (1984) afirmou Freud).
que a posição original de Freud é que era exata, que o Não é nossa intenção revisar as críticas dirigidas
próprio Freud sabia disso na época, e que a sua re- à psicanálise. Grande parte delas não foi nada além
núncia a ela se constituía em um ato covarde, origi- do “som e fúria” de pessoas perturbadas. A maioria
nado por sua incapacidade de lidar com o desprezo das críticas já está desatualizada por avanços subse-
público que ela gerara. A dupla conseqüência foi que qüentes no pensamento de Freud (ver discussão no
a teoria de Freud teve uma base falaciosa e que os Capítulo 5 de recentes avanços na psicanálise). E agora
analistas subseqüentes foram levados a ignorar a rea- podemos ver que uma porção considerável das críti-
lidade e as terríveis conseqüências do abuso sexual cas se baseava em interpretações erradas e em distor-
infantil. Além disso, é claro, Masson está acusando ções da psicanálise. Além disso, revisar as críticas à
Freud de mentiroso e covarde. Essas são acusações psicanálise de maneira adequada exigiria um livro pelo
provocativas, para dizer o mínimo, e Freud delas tem menos tão grande quanto este. Em vez disso, nós dis-
sido fielmente defendido (p. ex., Robinson, 1993). Mas cutiremos várias críticas freqüentemente dirigidas à
o que precisamos reconhecer é que os méritos intelec- psicanálise e ainda amplamente discutidas.
tuais das idéias de Freud são independentes de suas Uma dessas críticas afirma que existem graves
origens e de sua história pessoal. A história intelectu- falhas nos procedimentos empíricos por meio dos quais
al é fascinante, mas a questão central continua sendo Freud validou suas hipóteses. Ele teria feito suas ob-
o poder da teoria. servações em condições não-controladas. Freud reco-
Foi justamente isso, a integridade intelectual do nheceu que não mantinha um relato textual do que
modelo, que Frederick Crews atacou recentemente de ele e o paciente faziam durante a hora de tratamento,
forma violenta. Crews conclui que “não existe literal- mas que trabalhava a partir de anotações feitas várias
mente nada a ser dito, em termos científicos ou tera- horas mais tarde. É impossível dizer quão fielmente
pêuticos, em favor de todo o sistema freudiano ou de essas notas refletiam os eventos como eles realmente
qualquer um de seus dogmas componentes” (1996, p. tinham ocorrido. Julgando a partir de experimentos
63). O artigo de 1996 oferece uma introdução para o sobre a fidedignidade dos testemunhos, não é impro-
“veredito” de Crews de que Freud conjurou “um ema- vável a existência de várias distorções e omissões nos
ranhado de quase-entidades pseudo-explanatórias” (p. registros. A suposição de Freud de que o material sig-
64), de que a investigação das associações livres é “um nificativo seria lembrado e os incidentes triviais, es-
jogo de salão divertido, mas dispendioso” (p. 66) e quecidos, nunca foi provada e parece improvável.
que todo o empreendimento deve ser visto como uma Críticos dos métodos de Freud também fazem
pseudociência (ver Begley, 1994, para uma perspecti- objeções ao fato de ele aceitar tudo o que os pacientes
va em relação a uma série anterior de comentários de diziam sem tentar corroborar aquilo com alguma for-
Crews). ma de evidência externa. Eles acham que Freud deve-
80 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

ria ter obtido evidências com parentes e conhecidos, suas tendenciosidades do que pelo material à mão?
documentos, dados de teste e informações médicas. Será que ele selecionava apenas as evidências que es-
Entretanto, Freud afirmava que o importante para o tavam de acordo com suas hipóteses e desconsidera-
entendimento do comportamento humano era um va os exemplos negativos? As associações livres de seus
conhecimento completo do inconsciente que só podia pacientes eram realmente livres ou eles diziam aquilo
ser obtido a partir da associação livre e da análise dos que Freud queria ouvir? Teria Freud criado uma ela-
sonhos. borada teoria da personalidade que se afirmava valer
Dado então o que seguramente era um registro para todos baseada em inferências feitas a partir das
incompleto e mais do que provavelmente imperfeito, verbalizações de um número relativamente pequeno
Freud prosseguia para fazer inferências e chegar a de pacientes atípicos? Que evidências sólidas Freud
conclusões por uma linha de raciocínio que raramen- realmente tinha para apoiar suas especulações gran-
te foi explicitada. Em geral, o que encontramos nos diloqüentes? Que salvaguardas ele empregava contra
textos de Freud é o resultado final de seu pensamento a influência insidiosa da tendenciosidade? Perguntas
– as conclusões, sem os dados originais sobre os quais desse tipo têm lançado dúvidas sobre a validade da
se basearam, sem um relato de seus métodos de aná- teoria psicanalítica.
lise, e sem uma apresentação sistemática, quer quali- Lawrence Kubie, um proeminente psicanalista,
tativa quer quantitativa, de seus achados empíricos. resumiu da seguinte maneira as limitações da psica-
O leitor é convidado a acreditar implicitamente na nálise como uma ciência básica:
validade de suas operações indutivas e dedutivas.
“Em geral, elas (as limitações) podem ser resumi-
Conseqüentemente, é praticamente impossível repe-
das, dizendo-se que o planejamento básico do pro-
tir qualquer uma das investigações de Freud com al-
cesso de análise tem uma validade científica es-
guma certeza de estarmos prosseguindo de acordo com
sencial, mas que as dificuldades de se registrar e
o planejamento original. Isso pode ajudar a explicar
reproduzir observações primárias, a conseqüente
por que outros investigadores chegaram a conclusões
dificuldade de derivar-se a estrutura conceitual
bem diferentes, e por que existem aparentemente tan-
básica, as dificuldades de examinar-se com igual
tas interpretações do mesmo fenômeno.
facilidade o relacionamento circular do inconsci-
Freud absteve-se de quantificar seus dados empí-
ente para o consciente e do consciente para o in-
ricos, o que torna impossível pesar a fidedignidade e
consciente, as dificuldades de avaliar-se quanti-
a significação estatística de suas observações. Em quan-
tativamente a multiplicidade de variáveis e,
tos casos, por exemplo, ele encontrou alguma associ-
finalmente, a dificuldade de estimar-se as coisas
ação entre paranóia e homossexualidade, entre histe-
que aumentam e as coisas que diminuem a preci-
ria e fixação no estágio oral, entre um desejo e uma
são de suas hipóteses e a validade de suas predi-
fobia, entre a cena primária e a instabilidade adulta?
ções estão entre os problemas científicos que ain-
Quantos casos de um determinado tipo ele estudou e
da precisam ser resolvidos.” (1953, p. 143-144)
de que classes e backgrounds vinham esses casos? Que
medidas e critérios eram usados para designar um caso Por outro lado, Paul Meehl faz uma declaração elo-
para uma categoria clínica específica? Será que Freud qüente que conclui: “quando testes adequados se tor-
alguma vez comparou suas interpretações com a de narem disponíveis para nós, uma porção considerável
um outro psicanalista competente para estabelecer a da teoria psicanalítica escapará à refutação” (1978, p.
fidedignidade do seu julgamento? Essas e outras nu- 831).
merosas perguntas de natureza semelhante preocu- Um outro tipo de crítica ataca a teoria em si e diz
pam o psicólogo quantitativamente orientado. que a teoria é “ruim” porque muitas partes suas não
A relutância de Freud em seguir as convenções de têm, e não podemos fazer com que tenham, conse-
um relato inteiramente científico de seus dados deixa qüências empíricas. Por exemplo, é impossível deri-
a porta aberta para muitas dúvidas relativas ao status var quaisquer proposições empíricas da postulação de
científico da psicanálise (Hook, 1960). Será que Freud um instinto de morte. Assim sendo, o instinto de mor-
encontrava em seus casos aquilo que queria encon- te “permanece oculto na escuridão metafísica” e não
trar neles? Seriam suas inferências guiadas mais por tem nenhum significado para a ciência. Embora pos-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 81

samos usar o instinto de morte para “explicar” certos termos de prova científica. A psicologia tem um longo
fenômenos, como suicídio ou acidentes, tais explica- caminho pela frente antes de poder ser chamada de
ções depois-do-fato pouco significam. É como apostar ciência exata. Conseqüentemente, o psicólogo preci-
em um cavalo depois de ele ter corrido. Uma boa teo- sa selecionar a teoria que pretende seguir por outras
ria, por outro lado, permite ao seu usuário predizer razões que não a adequação formal e a evidência fa-
antecipadamente o que vai acontecer. Algumas pes- tual.
soas podem preferir juntar e organizar uma grande O que a teoria psicanalítica tem a oferecer? Algu-
quantidade de dados aparentemente não-relaciona- mas pessoas gostam da linguagem pitoresca que Freud
dos sob o nome único de instinto de morte, mas pre- usa para projetar suas idéias. Elas são atraídas por
ferências desse tipo indicam apenas os interesses do sua maneira habilidosa de empregar alusões literári-
sistematizador e não a “verdade” do nome. Usado as e mitológicas para apresentar noções muito obscu-
dessa maneira, o instinto de morte é pouco mais do ras e por seu talento para se expressar ou criar uma
que um slogan. figura de linguagem para iluminar um ponto difícil
A teoria freudiana realmente não oferece um con- para o leitor. Seu texto tem uma excitante qualidade
junto de regras relacionais para chegarmos a uma literária, rara entre os cientistas. Seu estilo combina
expectativa exata do que vai acontecer se ocorrerem com a excitação de suas idéias. Muitas pessoas acham
certos eventos. Qual é exatamente a natureza do rela- os conceitos de Freud fascinantes e sensacionais. O
cionamento entre experiências traumáticas, sentimen- sexo, é claro, é um tópico atraente e tem um valor de
tos de culpa, repressão, formação de símbolos e so- sensação mesmo quando discutido em trabalhos cien-
nhos? O que conecta a formação do superego ao tíficos. A agressão e a destrutividade são quase tão
complexo de Édipo? Essas e milhares de outras per- absorventes quanto o sexo. (Na verdade, as novelas,
guntas ainda precisam ser respondidas com referên- os programas de entrevistas e os filmes na televisão
cia à rede emaranhada de conceitos e suposições con- testemunham a presença constante dos temas sexuais
jurados por Freud. e agressivos na nossa sociedade!) É muito natural, en-
A teoria fica omissa sobre o intrincado problema tão, que as pessoas se sintam atraídas pelos textos de
de como medir quantitativamente as catexias e anti- Freud.
catexias. De fato, não existe nenhuma especificação Mas um belo estilo literário e um assunto excitan-
sobre como podemos estimar, mesmo nos termos mais te não são as razões principais para a grande estima
aproximados, diferenças de quantidade. Quão inten- dedicada a Freud. As razões, mais exatamente, seri-
sa tem de ser uma experiência para ser traumática? am: suas idéias são desafiadoras, sua concepção do
Quão frágil tem de ser o ego para ser dominado por indivíduo é ao mesmo tempo ampla e profunda, e sua
um impulso instintual? De que maneira as várias quan- teoria tem relevância para a nossa época. Freud pode
tidades interagem uma com a outra para produzir um não ter sido um cientista rigoroso ou um teórico de
determinado resultado? E, no entanto, tudo depende primeira linha, mas ele foi um observador paciente,
da análise final justamente dessas especificações. Sem meticuloso e penetrante, e um pensador tenaz, disci-
elas, nenhuma lei pode ser derivada. plinado, corajoso e original. Acima de todas as outras
Se aceitarmos que a teoria psicanalítica é culpada virtudes de sua teoria, está a seguinte: ela tenta con-
de pelo menos duas faltas sérias – primeiro, que ela é siderar indivíduos “de carne e osso”, vivendo parcial-
uma teoria “ruim”, e segundo, que ela ainda não foi mente em um mundo de realidade e parcialmente em
substanciada por procedimentos cientificamente res- um mundo de “faz-de-conta”, assolados por conflitos
peitáveis – (e também atentos ao fato de que muitas e contradições internas, mas capazes de pensamento
outras críticas poderiam ter sido citadas), podemos e ação racionais, movidos por forças das quais eles
perguntar por que a teoria psicanalítica é levada a têm pouco conhecimento e por aspirações que estão
sério e por que não foi relegada ao esquecimento há além de seu alcance, alternadamente confusos e lúci-
muito tempo. Como podemos explicar seu status in- dos, frustrados e satisfeitos, esperançosos e desespe-
fluente no mundo de hoje? rados, egoístas e altruístas – em resumo, um ser hu-
O fato é que todas as teorias do comportamento mano complexo. Para muitas pessoas, esse quadro do
são teorias bastantes deficientes e decepcionam em indivíduo tem uma validade essencial.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 83

CAPÍTULO 3

A Teoria Analítica
de Carl Jung

INTRODUÇÃO E CONTEXTO ................................................................................................... 84


HISTÓRIA PESSOAL ................................................................................................................ 85
A ESTRUTURA DA PERSONALIDADE ....................................................................................... 88
O Ego 88
O Inconsciente Pessoal 88
O Inconsciente Coletivo 88
O Self 92
As Atitudes 92
As Funções 93
Interações entre os Sistemas da Personalidade 94
A DINÂMICA DA PERSONALIDADE ......................................................................................... 96
Energia Psíquica 96
O Princípio da Equivalência 98
O Princípio da Entropia 98
O Uso da Energia 99
O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE ........................................................................... 99
Causalidade Versus Teleologia 100
Sincronicidade 100
Hereditariedade 100
Estágios de Desenvolvimento 101
Progressão e Regressão 102
O Processo de Individuação 103
A Função Transcendente 103
Sublimação e Repressão 103
Simbolização 104
PESQUISA CARACTERÍSTICA E MÉTODOS DE PESQUISA .......................................................... 105
Estudos Experimentais de Complexos 105
Estudos de Caso 105
Estudos Comparativos de Mitologia, Religião e as Ciências Ocultas 106
Sonhos 107
PESQUISA ATUAL .................................................................................................................. 108
A Tipologia de Jung 108
O Indicador de Tipo Myers-Briggs 109
STATUS ATUAL E AVALIAÇÃO ................................................................................................ 111
84 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

INTRODUÇÃO E CONTEXTO estamos sendo solicitados, nem mais nem menos, a


abjurar da nossa crença na pulsão sexual. A única res-
Carl Jung era um jovem psiquiatra em Zurique quan- posta é professá-la abertamente” (p. 28).
do leu A interpretação dos Sonhos de Freud, logo de- Cinco anos mais tarde, quando Jung voltou de uma
pois de ter sido publicado em 1900. Imensamente série de palestras em Nova York, ele escreveu a Freud:
impressionado pelas idéias de Freud, que usou e veri- “Eu descobri que a minha versão da (psicanálise) con-
ficou em sua própria prática, Jung enviou-lhe cópias quistou muitas pessoas que até agora tinham sido afas-
de seus textos que, em geral, apoiavam o ponto de tadas pelo problema da sexualidade na neurose” (11
vista freudiano. Em 1906 começou uma correspon- de novembro de 1912, p. 515). Freud replicou: “Eu o
dência regular entre os dois. Quando Jung fez sua saúdo por seu retorno da América, não tão afetuosa-
primeira visita a Freud em Viena, no ano seguinte, mente como na última ocasião em Nuremburg – você
eles conversaram sem parar por treze horas! Freud conseguiu me tirar aquele hábito... Você diminuiu
decidiu que Jung seria seu sucessor, “seu príncipe her- muito a resistência com as suas modificações, mas eu
deiro” conforme ele escreveu a Jung. Quando foi fun- o aconselharia a não colocar isso na coluna dos crédi-
dada a Associação Psicanalítica Internacional, em tos porque, como você sabe, quanto mais se afastar
1910, Jung tornou-se seu primeiro presidente, uma do que é novo na (psicanálise), mais certo que será
posição que manteve até 1914. Em 1909, Freud e Jung aplaudido e menor a resistência que encontrará” (p.
viajaram juntos para a Clark University, em Worces- 324).
ter, Massachusetts, tendo sido ambos convidados a dar A essa altura o fim estava próximo. Em 18 de de-
uma série de conferências na celebração do 20º ano zembro de 1912, Jung escreveu:
de fundação da universidade. Três anos mais tarde,
entretanto, o relacionamento pessoal entre Freud e “Posso dizer-lhe algumas palavras sinceramente?
Jung começou a esfriar. Finalmente, em 1913, eles . . . Sou suficientemente objetivo para enxergar
terminaram sua correspondência pessoal e, alguns através de seu truquezinho . . . Veja, meu querido
meses mais tarde, sua correspondência profissional. professor, enquanto você disser essas tolices eu
Em abril de 1914, Jung renunciou à presidência da não dou a mínima para as minhas ações sintomá-
associação e, em agosto de 1914, ele se retirou como ticas; elas se reduzem a nada em comparação com
membro. O rompimento foi então completo. Freud e as formidáveis falhas de meu irmão Freud. Não
Jung nunca mais se viram. sou nem um pouco neurótico . . . Você sabe, claro,
Algumas citações das 359 cartas escritas por Jung quão longe um paciente pode ir com a auto-análi-
e Freud durante os anos de 1906-1913 revelam a di- se: não por sua neurose – exatamente como você.
nâmica do fascinante relacionamento entre os dois Se você chegar a se livrar totalmente de seus com-
homens tão obstinados (todas as citações são de Mc- plexos e parar de bancar o pai que aponta conti-
Guire, 1974). Em 7 de abril de 1907, após seu primei- nuamente os pontos fracos dos filhos e der uma
ro encontro, Freud escreveu: “você me inspirou confi- boa olhada nos seus próprios e mudá-los, eu pro-
ança no futuro, pois percebi que sou tão substituível meto modificar-me . . . Sem dúvida, você ficará
quanto qualquer outra pessoa, e não poderia esperar furioso com esse sinal peculiar de amizade, mas
ninguém melhor do que você, agora que passei a co- acho que ainda assim vai lhe fazer bem. Com meus
nhecê-lo, para continuar e completar meu trabalho” melhores votos (!!).” (p. 534-535)
(p. 27). Mas, nessa mesma carta, um pouco depois,
Freud referiu-se às diferenças a respeito da sexualida- Em 3 de janeiro de 1913, Freud replicou: “nenhum
de que contribuiriam substancialmente para sua ci- de nós precisa ter vergonha de sua própria parcela de
são final: “Eu aprecio seus motivos para tentar adoçar neurose. Mas aquele que fica gritando que é normal,
a maçã azeda, mas acho que você não terá sucesso. enquanto se comporta anormalmente, nos faz descon-
Mesmo se chamarmos o inconsciente de “psicóide” ele fiar que não tem insight nenhum de sua doença. Des-
ainda será o inconsciente, e mesmo se não chamar- sa maneira, eu proponho que abandonemos inteira-
mos de “libido” a força propulsora na concepção am- mente as nossas relações pessoais. Eu não perderei
pliada de sexualidade, ela ainda será a libido... Nós nada com isso, pois meu único laço emocional com
TEORIAS DA PERSONALIDADE 85

você há bastante tempo já é apenas um frágil fio – o ca de Zurique, iniciando assim sua carreira na psiqui-
efeito remanescente de desapontamentos passados... atria. Ele foi assistente e mais tarde colaborador de
sinta-se totalmente livre e poupe-me de seus preten- Eugen Bleuler, o eminente psiquiatra que desenvol-
sos ‘sinais de amizade’ (p. 539). Conforme Jung repli- veu o conceito de esquizofrenia, e estudou brevemen-
cou três dias mais tarde: “O resto é silêncio.” te com Pierre Janet, o aluno e sucessor de Charcot em
Existem muitos relatos sobre o relacionamento Paris. Em 1909 ele desistiu de seu trabalho no Bur-
entre Freud e Jung, incluindo os dos dois participan- ghölzli e, em 1913, de sua docência em psiquiatria na
tes (Freud, 1914, 1925; Jung, 1961), do biógrafo de Universidade de Zurique, a fim de dedicar-se inteira-
Freud, Ernest Jones (1955) e outros (Weigert, 1942; mente à prática privada, à sua formação, à pesquisa,
Dry, 1961; Kerr, 1993). Os artigos publicados por Jung, a viagens e a escritos. Por muitos anos ele coordenou
enquanto ele ainda estava influenciado por Freud, e um seminário em inglês para alunos de língua inglesa
suas subseqüentes críticas à psicanálise freudiana fo- e, depois que se aposentou do ensino ativo, foi criado
ram reunidos no Volume 4 das Obras Completas. Dois em Zurique um instituto de formação com seu nome.
outros artigos sobre Freud estão incluídos no Volume Em 1944 foi fundada uma cadeira de psicologia mé-
15. dica especialmente para Jung na Universidade da Ba-
Embora as causas da ruptura no relacionamento siléia, mas sua saúde enfraquecida o obrigou a renun-
outrora íntimo sejam complexas e “supradetermina- ciar à cadeira depois de um ano. Ele morreu em 6 de
das”, envolvendo incompatibilidades pessoais e inte- junho de 1961, em Zurique, aos 85 anos de idade.
lectuais, uma razão importante foi Jung ter rejeitado Ainda não foi publicada nenhuma biografia completa
o pansexualismo de Freud: “A razão imediata foi que de Jung comparável à biografia de Freud por Ernest
Freud... identificou seu método com sua teoria sexu- Jones. Uma autobiografia, Memórias, Sonhos, Refle-
al, o que considerei inadmissível” (comunicação pes- xões (1961) foi publicada no ano da morte de Jung.
soal de Jung, 1954). Jung então partiu para criar sua Uma parte dela foi escrita diretamente por Jung e outra
própria teoria da psicanálise e seu próprio método de parte foi gravada e editada por sua secretária confi-
psicoterapia, que se tornou conhecido como psicolo- dencial, Aniela Jaffé, suplementada por materiais de
gia analítica. As linhas de sua abordagem tinham sido conferências proferidas por Jung. Memórias, Sonhos,
estabelecidas antes de Jung conhecer Freud, e ele nela Reflexões é principalmente uma biografia interior ou
trabalhou consistentemente durante o período em que espiritual, embora também contenha uma grande
esteve associado a Freud (Jung, 1913). quantidade de informações sobre os eventos externos
da vida de Jung. O tom do livro é estabelecido pela
frase de abertura: “A minha vida é a história da auto-
realização do inconsciente.” Material biográfico so-
HISTÓRIA PESSOAL bre Jung pode ser encontrado em Frieda Fordham
(1953), Bennett (1961), Dry (1961), Jaffé (1971,
Antes de discutir as características relevantes e distin- 1979), D. S. Wehr (1987), G. Wehr (1971), von Franz
tivas do ponto de vista de Jung, vamos revisar breve- (1975), Hannah (1976), Stern (1976) e van der Post
mente alguns aspectos de sua vida. Carl Gustav Jung (1976). Mas nenhum desses livros pode ser conside-
nasceu em Kesswyl, uma cidade no Lago Constance, rado uma biografia definitiva.
no Cantão de Thurgau, Suíça, em 26 de julho de 1875, Por sessenta anos Carl Jung dedicou-se, com gran-
e cresceu na Basiléia. Seu pai era pastor da Igreja Re- de energia e singularidade de propósito, a analisar os
formada Suíça. Jung ingressou na Universidade da Ba- processos vastos e profundos da personalidade huma-
siléia com a intenção de se tornar um filologista clás- na. Seus escritos são volumosos e a extensão de sua
sico e, se possível, um arqueólogo, mas parece que influência, incalculável. Ele é conhecido não apenas
um sonho despertou seu interesse pelo estudo das ci- por psicólogos e psiquiatras, mas também por pesso-
ências naturais e, incidentalmente, pela medicina. as instruídas em todas as profissões. Ele recebeu mui-
Depois de obter seu diploma médico na Universidade tas homenagens, entre as quais diplomas honorários
da Basiléia, ele se tornou assistente no Burghölzli das Universidades de Harvard e de Oxford. Ele fazia
Mental Hospital, em Zurique, e na Clínica Psiquiátri- freqüentemente conferências nos Estados Unidos e tem
86 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

muitos seguidores e admiradores nesse país. Pratica- narão conscientes e à que responderão em seu mun-
mente toda a obra de Jung está hoje disponível em do experiencial. Em outras palavras, existe uma per-
uma edição de 20 volumes em língua inglesa (Jung, sonalidade racialmente pré-formada e coletiva que
1953-1978). Além das cartas de Freud/Jung previa- funciona seletivamente no mundo da experiência e é
mente mencionadas, foram publicados dois volumes modificada e elaborada pelas experiências vividas. A
de cartas de Jung (Jung, 1973b, 1975). Também exis- personalidade de um indivíduo resulta de forças in-
te um volume contendo entrevistas e encontros com ternas agindo sobre e sendo influenciadas por forças
Jung (McGuire, 1977). externas.
Embora a teoria de Jung da personalidade nor- Esse grande respeito pelo nosso passado racial e a
malmente seja identificada como uma teoria psicana- sua influência sobre as pessoas hoje significam que
lítica devido à ênfase que dá aos processos inconsci- Jung, mais do que qualquer outro psicólogo, sondou
entes, ela difere em alguns aspectos notáveis da teoria a história humana para descobrir o máximo possível
de Freud da personalidade. Talvez o aspecto mais pro- sobre as origens e a evolução racial da personalidade.
eminente e distintivo da visão de Jung dos seres hu- Ele estudou mitologia, religião, símbolos e rituais an-
manos é que ela combina teleologia com causalidade. tigos, os costumes e as crenças dos povos primitivos,
O comportamento humano é condicionado não ape- assim como os sonhos, as visões, os sintomas dos neu-
nas pela história individual e racial (causalidade), mas róticos, e as alucinações e os delírios dos psicóticos,
também pelas metas e aspirações (teleologia). Tanto em sua busca das raízes e dos desenvolvimentos da
o passado como realidade quanto o futuro como po- personalidade humana. Sua aprendizagem e erudição,
tencialidade orientam o nosso comportamento pre- tanto em amplitude de conhecimento quanto em pro-
sente. A visão de Jung é prospectiva no sentido em fundidade de entendimento, provavelmente ainda não
que olha para a frente, para a linha de desenvolvi- foram superadas pelos psicólogos atuais.
mento futuro da pessoa, e retrospectiva, no sentido Dry (1961) identificou alguns dos importantes
em que leva em conta o passado. Parafraseando Jung: desenvolvimentos intelectuais do século XIX que pre-
“a pessoa vive por metas, assim como por causas”. sumivelmente influenciaram Jung. Primeiro, havia os
Essa insistência no papel do destino ou do propósito filósofos, especialmente Schopenhauer, von Hartmann
no desenvolvimento humano separa Jung de Freud e Nietzsche, com suas concepções do inconsciente, da
muito claramente. Para Freud, existe apenas a inter- polaridade trabalhando para a unidade e da substi-
minável repetição de temas instintuais até o momen- tuição do raciocínio pela vontade ou intuição para
to da morte. Para Jung, existe um desenvolvimento compreender a realidade. Havia na época
constante e freqüentemente criativo, a busca da tota-
“as recém-desenvolvidas psiquiatrias alemã e fran-
lidade e completude, e o anseio de renascimento.
cesa...; as descobertas científicas de outros cam-
A teoria de Jung também se distingue de todas as
pos, especialmente da biologia; a ampla aceita-
outras abordagens à personalidade pela forte ênfase
ção da teoria evolutiva...; a aplicação das idéias
colocada nas fundações raciais e filogenéticas da per-
evolutivas ao homem, incluindo o estudo de sua
sonalidade. Jung vê a personalidade individual como
organização social e a religião, e a controvérsia
o produto e o continente de sua história ancestral. Os
entre os proponentes da unidade psíquica e da
seres humanos modernos foram moldados em sua
difusão cultural na exploração das semelhanças
presente forma pelas experiências cumulativas de ge-
(entre diferentes sociedades); os achados fasci-
rações passadas, estendendo-se às origens obscuras e
nantes da arqueologia; e as grandes tradições li-
desconhecidas do ser humano. As fundações da per-
terária, histórica e teológica da Alemanha, com
sonalidade são arcaicas, primitivas, inatas, inconsci-
um forte matiz de romantismo.” (p. 19-20)
entes e provavelmente universais. Freud enfatiza as
origens infantis da personalidade, ao passo que Jung Dry também acha que a neutralidade e a estabilidade
enfatiza as origens raciais da personalidade. Os seres da Suíça favoreciam uma vida de reflexão e solidão.
humanos nascem com muitas predisposições legadas Agora apresentaremos as principais característi-
por seus ancestrais; essas predisposições orientam sua cas da teoria de Jung da personalidade. Embora as
conduta e determinam em parte aquilo de que se tor- formulações teóricas sejam encontradas em toda a sua
TEORIAS DA PERSONALIDADE 87

Carl Gustav Jung.


88 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

volumosa obra, os Volumes 7, 8 e 9, Parte 1 das Obras que atrai ou “constela” várias experiências (Jung,
Completas, contêm as declarações mais sistemáticas 1934).
de sua posição. Considerem, por exemplo, o complexo materno
(Jung, 1954a). O núcleo se deriva parcialmente de
experiências raciais com mães e parcialmente das ex-
periências da criança com a mãe. As idéias, os senti-
A ESTRUTURA DA mentos e as memórias relacionadas à mãe são atraí-
PERSONALIDADE das para o núcleo e formam um complexo. Quanto
mais forte a força emanando do núcleo, mais experi-
A personalidade total, ou a psique, conforme chama- ências ela vai atrair. Assim, dizemos que uma pessoa
da por Jung, consiste em vários sistemas diferencia- cuja personalidade é dominada pela mãe tem um for-
dos, mas interatuantes. Os principais são o ego, o in- te complexo materno. Seus pensamentos, sentimen-
consciente pessoal e seus complexos, e o inconsciente tos e ações serão orientados pela concepção de mãe,
coletivo e seus arquétipos, a anima e o animus, e a o que a mãe diz e faz terá um grande valor para ela, e
sombra. Além desses sistemas interdependentes, exis- a imagem da mãe será predominante em sua mente.
tem as atitudes de introversão e extroversão e as fun- Um complexo pode-se comportar como uma persona-
ções do pensamento, do sentimento, da sensação e da lidade autônoma com uma vida mental e um motor
intuição. Finalmente, existe o self, que é o centro de próprios. Ele pode assumir o controle da personalida-
toda a personalidade. de e utilizar a psique para seus próprios fins – assim
como Tolstoi teria sido dominado pela idéia da sim-
plificação e Napoleão, pela sede de poder.
O Ego
O núcleo e muitos dos elementos associados são
O ego é a mente consciente. Ele é constituído por inconscientes em qualquer momento específico, mas
percepções, memórias, pensamentos e sentimentos qualquer uma das associações pode-se tornar consci-
conscientes. O ego é responsável pelos nossos senti- ente e com freqüência realmente se torna.
mentos de identidade e de continuidade, e, do ponto
de vista da pessoa, considera-se que esteja no centro
O Inconsciente Coletivo
da consciência.
O conceito de um inconsciente coletivo, ou transpes-
soal, é um dos aspectos mais originais e controversos
O Inconsciente Pessoal
da teoria de Jung da personalidade. Ele é o sistema
O inconsciente pessoal é uma região adjacente ao ego. mais poderoso e influente da psique e, em casos pato-
Ele consiste em experiências que outrora foram cons- lógicos, domina o ego e o inconsciente pessoal (Jung,
cientes, mas que agora estão reprimidas, suprimidas, 1936, 1943, 1945).
esquecidas ou ignoradas, e em experiências que fo- O inconsciente coletivo é o reservatório de traços
ram a princípio fracas demais para deixar uma im- de memória latentes herdados do nosso passado an-
pressão consciente na pessoa. Os conteúdos do incons- cestral, um passado que inclui não apenas a história
ciente pessoal, como os do material pré-consciente de racial dos seres humanos como uma espécie separa-
Freud, são acessíveis à consciência, e existe um gran- da, mas também seus ancestrais pré-humanos ou ani-
de trânsito de duas vias entre o inconsciente pessoal e mais. O inconsciente coletivo é o resíduo psíquico do
o ego. desenvolvimento evolutivo humano, um resíduo que
se acumula em conseqüência de repetidas experiênci-
as ao longo de muitas gerações. Ele é quase totalmen-
Complexos
te separado de tudo o que é pessoal na vida do indiví-
Um complexo é um grupo organizado ou uma conste- duo e aparentemente é universal. Todos os seres
lação de sentimentos, pensamentos, percepções e me- humanos têm mais ou menos o mesmo inconsciente
mórias que existem no inconsciente pessoal. Ele tem coletivo. Jung atribui a universalidade do inconscien-
um núcleo que age como uma espécie de magneto te coletivo à semelhança da estrutura do cérebro em
TEORIAS DA PERSONALIDADE 89

todas as raças humanas, e essa semelhança, por sua gem virtual se torna uma percepção ou idéia concreta
vez, deve-se a uma evolução comum. ao identificar-se com os objetos do mundo que cor-
As memórias ou as representações raciais não são respondem à imagem. As nossas experiências no mun-
herdadas como tal; nós herdamos a possibilidade de do são moldadas, em grande extensão, pelo inconsci-
reviver experiências de gerações passadas. São pre- ente coletivo, embora não completamente, pois de
disposições que nos fazem reagir ao mundo de uma outra forma não existiria variação e nem desenvolvi-
maneira seletiva. Tais predisposições são projetadas mento.
no mundo. Por exemplo, uma vez que os seres huma- As duas regiões inconscientes da mente, a pessoal
nos sempre tiveram mães, todo bebê nasce predispos- e a coletiva, podem ser imensamente úteis para os
to a perceber e a reagir a uma mãe. O conhecimento humanos: “Ele (o inconsciente) contém possibilida-
da mãe, individualmente adquirido, é a realização de des que estão fora do acesso da mente consciente, pois
uma potencialidade herdada que foi inserida no cére- tem ao seu dispor todos os conteúdos subliminares,
bro humano pelas experiências passadas da raça. As- todas aquelas vivências que foram esquecidas ou ig-
sim como os humanos nascem com a capacidade de noradas, assim como a sabedoria e a experiência de
enxergar o mundo em três dimensões e desenvolvem incontáveis séculos, armazenadas em seus órgãos ar-
essa capacidade por meio da experiência e do treina- quetípicos” (Jung, 1943, p. 114). Por outro lado, se a
mento, eles também nascem com muitas predisposi- sabedoria do inconsciente for ignorada pelo ego, o
ções para pensar, sentir e perceber segundo padrões e inconsciente pode perturbar os processos racionais
conteúdos definidos que se realizam por meio de ex- conscientes, apoderando-se deles e dando-lhes formas
periências individualizadas. Os humanos são predis- distorcidas. Os sintomas, as fobias, os delírios e as
postos a ter medo do escuro ou de cobras porque os outras irracionalidades originam-se de processos in-
seres humanos primitivos encontravam muitos peri- conscientes negligenciados.
gos no escuro e foram vítimas de cobras venenosas.
Esses medos latentes podem nunca se desenvolver nos
Arquétipos
humanos modernos, a menos que sejam reforçados
por experiências específicas, mas, sem dúvida, a ten- Os componentes estruturais do inconsciente coletivo
dência está lá e torna a pessoa mais suscetível a tais recebem vários nomes: arquétipos, dominantes, ima-
experiências. Algumas idéias, tal como a idéia de um gens primordiais, imagos, imagens mitológicas e padrões
Ser Supremo, formam-se facilmente, porque a predis- de comportamento (Jung, 1943). Um arquétipo é uma
posição foi firmemente gravada no cérebro e precisa forma universal de pensamento (idéia) que contém
de muito pouco reforço da experiência individual para um grande elemento de emoção. Essa forma de pen-
emergir na consciência e influenciar o comportamen- samento cria imagens ou visões que correspondem na
to. Essas memórias latentes ou potenciais dependem vida normal de vigília a algum aspecto da situação
de estruturas e de caminhos herdados que ficaram gra- consciente. Por exemplo, o arquétipo da mãe produz
vados no cérebro em resultado das experiências cu- a imagem de uma figura de mãe que é então identifi-
mulativas da humanidade. Negar a herança dessas me- cada com a mãe real. Em outras palavras, o bebê her-
mórias primordiais, afirma Jung, é negar a evolução e da uma concepção pré-formada de uma mãe genérica
a herança do cérebro. que determina em parte como ele perceberá a sua mãe.
O inconsciente coletivo é a base herdada, racial, A percepção do bebê também é influenciada pela na-
de toda a estrutura da personalidade. Sobre ela são tureza da mãe e por suas experiências com ela. As-
erigidos o ego, o inconsciente pessoal e todas as ou- sim, a experiência do bebê é o produto conjunto de
tras aquisições individuais. O que uma pessoa apren- uma predisposição interna para perceber o mundo de
de em resultado de experiências é substancialmente uma certa maneira e da natureza real daquele mun-
influenciado pelo inconsciente coletivo, que exerce do. Os dois determinantes normalmente se ajustam
uma influência orientadora ou seletiva sobre o com- compativelmente, porque o próprio arquétipo é um
portamento da pessoa desde o início da vida: “A for- produto de experiências raciais com o mundo, e essas
ma do mundo em que ela nasce já é inata nela como experiências são muito semelhantes às de qualquer
uma imagem virtual” (Jung, 1945, p. 188). Essa ima- outro indivíduo em qualquer época e parte do mun-
90 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

do. Isto é, a natureza das mães – o que elas fazem – com Hitler, existe a fusão dos arquétipos do demônio
continua muito parecida desde o início da história da e do herói, de modo que obtemos um líder satânico.
raça, de modo que o arquétipo de mãe herdado pelo Como já vimos, o núcleo de um complexo pode
bebê é congruente com a mãe real com a qual ele ser um arquétipo que atrai experiências. O arquétipo
interage. pode então penetrar na consciência por meio dessas
Como se origina um arquétipo? Ele é um depósi- experiências associadas. Os mitos, os sonhos, as vi-
to mental permanente de uma experiência que foi re- sões, os rituais, os sintomas neuróticos e psicóticos, e
petida constantemente por muitas gerações. Por exem- os trabalhos de arte contêm uma grande quantidade
plo, incontáveis gerações viram o sol fazer sua de material arquetípico e constituem a melhor fonte
excursão diária de um horizonte para outro. A repeti- de conhecimento em relação aos arquétipos. Jung e
ção dessa impressiva experiência eventualmente fixou- seus adeptos realizaram um trabalho prodigioso so-
se no inconsciente coletivo como um arquétipo do bre representações arquetípicas nas religiões, nos mi-
deus-sol, o corpo celeste poderoso, dominante, que tos e nos sonhos.
dá a luz e é deificado e adorado pelos humanos. Cer- O conceito junguiano de arquétipos não é estra-
tas concepções e imagens de uma deidade suprema nho à psicologia. Nós mencionamos previamente co-
são ramificações do arquétipo do sol. nexões com as abordagens genética e evolutiva ao
De maneira similar, os humanos têm sido expos- comportamento introduzidas no Capítulo 8. Além dis-
tos em sua existência a inumeráveis exemplos de for- so, considerem o conceito de “prontidão”. Segundo
ças naturais poderosas: terremotos, cachoeiras, inun- essa posição, as associações formadas durante a apren-
dações, furacões, relâmpagos, incêndios na floresta e dizagem não são necessariamente arbitrárias; mais
assim por diante. Dessas experiências, desenvolveu- propriamente, os animais estão predispostos a associ-
se um arquétipo de energia, uma predisposição para ar certas conseqüências a certas classes de estímulos.
perceber e ser fascinado pelo poder e um desejo de Por exemplo, Garcia e Koelling (1966) descobriram
criar e controlar o poder. O deleite da criança por bom- que ratos estavam preparados para associar doença a
binhas, a preocupação dos jovens com carros velozes estímulos de sabor, mas a associar dor a estímulos de
e o interesse obsessivo do adulto pela liberação das luz e som. Essas conexões fazem sentido no ambiente
energias ocultas dos átomos têm suas raízes no ar- natural dos ratos e, portanto, proporcionam uma van-
quétipo de energia. Os humanos são impulsionados tagem evolutiva. Seligman (1971) ofereceu uma teo-
por esse arquétipo a buscar novas fontes de energia. ria de prontidão para fobias, segundo a qual os huma-
A nossa atual época da energia representa a ascen- nos estão predispostos a aprender rapidamente reações
dência do arquétipo da energia. Isto é, os arquétipos de medo a objetos-estímulo que eram perigosos para
funcionam como centros de energia autônomos alta- seus ancestrais. Essa pré-programação teria um valor
mente carregados que tendem a produzir em cada de sobrevivência evolutiva e conceitualmente é muito
geração a repetição e a elaboração dessas mesmas semelhante à explicação dos arquétipos de Jung.
experiências. Berger (1977) sugeriu que os arquéti- Supõem-se que existam muitos arquétipos no in-
pos são os equivalentes humanos de detectores de consciente coletivo. Alguns dos que foram identifica-
características que foram descobertos em animais in- dos são os arquétipos de nascimento, renascimento,
feriores. morte, poder (energia), mágica, unidade, o herói, a
Os arquétipos não estão necessariamente isolados criança, Deus, o demônio, o velho sábio, a mãe terra e
uns dos outros no inconsciente coletivo. Eles se inter- o animal.
penetram e fundem-se. Assim, o arquétipo do herói e Embora todos os arquétipos possam ser conside-
o arquétipo do velho sábio podem-se fundir para pro- rados como sistemas dinâmicos autônomos que po-
duzir a concepção do “rei filósofo”, uma pessoa res- dem ser relativamente independentes do restante da
peitada por ser simultaneamente um líder herói e um personalidade, alguns arquétipos evoluíram tanto que
visionário sábio. Às vezes, como pareceu acontecer merecem ser tratados como sistemas separados den-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 91

tro da personalidade. Eles são a persona, a anima e o mulher a arquétipos. O arquétipo feminino no homem
animus e a sombra. é chamado de anima, e o arquétipo masculino na
mulher é chamado de animus (Jung, 1945, 1954b).
Esses arquétipos, embora possam ser condicionados
A Persona
pelos cromossomos sexuais e pelas glândulas sexuais,
A persona é uma máscara adotada pela pessoa em res- são os produtos das experiências raciais do homem
posta às demandas das convenções e das tradições com a mulher e da mulher com o homem. Em outras
sociais e às suas próprias necessidades arquetípicas palavras, ao viver com a mulher ao longo das épocas,
internas (Jung, 1945). É o papel atribuído a alguém o homem se feminilizou; ao viver com o homem, a
pela sociedade, o papel que a sociedade espera que a mulher se masculinizou.
pessoa desempenhe na vida. O propósito da máscara Tais arquétipos não só fazem com que cada sexo
é causar uma impressão definida nos outros e muitas manifeste características do outro sexo, mas também
vezes, embora não necessariamente, oculta a verda- agem como imagens coletivas que motivam cada sexo
deira natureza da pessoa. A persona é a personalida- a responder aos membros do outro sexo e a compre-
de pública, aqueles aspectos que apresentamos ao endê-los. O homem apreende a natureza da mulher
mundo ou que a opinião pública impõe ao indivíduo, por meio de sua anima, e a mulher apreende a natu-
em contraste com a personalidade privada existente reza do homem por meio de seu animus. Mas a anima
por trás da fachada social. e o animus também podem levar a desentendimento
Se o ego se identifica com a persona, como acon- e à discórdia se a imagem arquetípica for projetada
tece freqüentemente, o indivíduo se torna mais cons- sem consideração pelo caráter real do parceiro. Isto
ciente do papel que está desempenhando do que de é, se um homem tentar identificar sua imagem ideali-
seus sentimentos genuínos (“inflação da persona”). Ele zada de mulher com uma mulher real e não levar em
se aliena de si mesmo e toda a sua personalidade as- conta as discrepâncias entre o ideal e o real, ele pode
sume uma qualidade plana ou bidimensional. Ele se sofrer um amargo desapontamento quando perceber
torna a mera aparência de um humano, um reflexo que as duas não são idênticas. Tem de haver um com-
da sociedade ao invés de um ser humano autônomo. promisso entre as necessidades do inconsciente cole-
O núcleo do qual a persona se desenvolve é um tivo e as realidades do mundo externo para que a pes-
arquétipo. Esse arquétipo, como todos os arquétipos, soa seja razoavelmente bem-ajustada.
origina-se das experiências da raça. Nesse caso, as
experiências consistem em interações sociais em que
A Sombra
a assunção de um papel social teve um propósito útil
para os humanos ao longo de sua história como ani- O arquétipo da sombra consiste nos instintos animais
mais sociais. (A persona é parecida com o superego que os humanos herdaram em sua evolução a partir
de Freud em alguns aspectos.) de formas inferiores de vida (Jung, 1948a). Conse-
qüentemente, a sombra representa o lado animal da
natureza humana. Como um arquétipo, a sombra é
A Anima e o Animus
responsável por nossa concepção do pecado original;
É bastante reconhecido e aceito que o ser humano é quando é projetada para fora, ela se torna o diabo ou
essencialmente um animal bissexual. Em um nível fi- um inimigo.
siológico, o macho secreta tanto hormônios masculi- O arquétipo da sombra também é responsável pelo
nos quanto femininos, assim como a fêmea. No nível aparecimento, na consciência, de pensamentos, sen-
psicológico, as características masculinas e as femini- timentos e ações desagradáveis e socialmente repre-
nas são encontradas em ambos os sexos. A homosse- ensíveis, que podem então ser escondidos da visão
xualidade é apenas uma das condições, mas talvez a pública pela persona ou reprimidos no inconsciente
mais notável, que deu origem à concepção de bisse- pessoal. Assim, o lado sombra da personalidade, que
xualidade humana. deve sua origem a um arquétipo, permeia os aspectos
Jung atribuiu o lado feminino da personalidade privados do ego e também uma grande parte dos con-
do homem e o lado masculino da personalidade da teúdos do inconsciente pessoal.
92 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

A sombra, com seus instintos animais vitais e apai- são as expressões mais altamente diferenciadas do
xonados, dá à personalidade uma qualidade encorpa- arquétipo de self que podemos encontrar no mundo
da ou tridimensional. Ela ajuda a completar a pessoa moderno. Não surpreende que Jung tenha descober-
inteira. (O leitor deve ter notado uma semelhança to o self em seus estudos e observações das religiões
entre a sombra e o conceito freudiano de id.) do oriente, em que a busca de unidade e unicidade
com o mundo por meio de várias práticas ritualísti-
cas, como a Yoga, está mais avançada do que nas reli-
O Self
giões ocidentais.
Em seus primeiros textos, Jung considerava o self como Antes que um self possa emergir, é necessário que
equivalente à psique ou à personalidade total. Entre- os vários componentes da personalidade se tornem
tanto, quando começou a explorar as fundações raci- totalmente desenvolvidos e específicos. Por essa ra-
ais da personalidade e descobriu os arquétipos, ele zão, o arquétipo do self não se torna evidente até que
encontrou um que representava o anseio humano de a pessoa tenha atingido a meia-idade. Nessa época,
unidade (Wilhelm & Jung, 1931). Esse arquétipo ex- ela começa a fazer um sério esforço para mudar o
pressa-se por meio de diversos símbolos, e o principal centro da personalidade do ego consciente para um
deles é a mandala ou o círculo mágico (Jung, 1955a). que esteja a meio caminho entre a consciência e a
Em seu livro Psicologia e Alquimia (1944), Jung de- inconsciência. Essa região intermediária é a província
senvolve uma psicologia da totalidade baseada no sím- do self.
bolo da mandala. O principal conceito dessa psicolo- O conceito de self provavelmente é a descoberta
gia da unidade total é o self. psicológica mais importante de Jung, e representa a
O self é o ponto central da personalidade, em tor- culminação de seus estudos intensivos dos arquéti-
no do qual todos os outros sistemas estão constela- pos.
dos. Ele mantém esses sistemas unidos e dá à perso-
nalidade unidade, equilíbrio e estabilidade:
As Atitudes
“Se imaginarmos a mente consciente com o ego
O que controla o funcionamento do ego? A postula-
como seu centro, como estando oposto ao incons-
ção de Jung das atitudes e das funções permitiu-lhe
ciente, e acrescentarmos agora ao nosso quadro
explicar a orientação e os processos característicos do
mental o processo de assimilar o inconsciente,
ego. Ele distinguiu duas importantes atitudes ou ori-
podemos pensar nessa assimilação como uma es-
entações da personalidade, a atitude de extroversão e
pécie de aproximação do consciente e do incons-
a atitude de introversão. A atitude extrovertida orien-
ciente, em que o centro da personalidade total já
ta a pessoa para o mundo externo, objetivo; a atitude
não coincide com o ego, mas com um ponto mé-
introvertida orienta a pessoa para o mundo interior,
dio entre o consciente e o inconsciente. Esse seria
subjetivo (1921). Observe que Jung não está usando
o ponto de um novo equilíbrio, um novo centra-
esses termos como eles são usados no vernáculo: eles
mento da personalidade total, um centro virtual
se referem a uma orientação para dentro ou para fora,
que, devido à sua posição focal entre o consciente
e não para níveis baixos ou elevados de sociabilidade.
e o inconsciente, garante uma fundação nova e
Essas duas atitudes opostas estão ambas presen-
mais sólida para a personalidade.” (Jung, 1945,
tes na personalidade, mas habitualmente uma delas é
p. 219)
dominante e consciente, enquanto a outra é subordi-
O self é a meta da vida, uma meta que as pessoas nada e inconsciente. Se o ego é predominantemente
buscam incessantemente, mas raramente alcançam. extrovertido em sua relação com o mundo, o incons-
Como todos os arquétipos, ele motiva o comportamen- ciente pessoal será introvertido.
to humano e provoca uma busca de integralidade, Curiosamente, foi a tentativa de Jung de enten-
especialmente pelos caminhos oferecidos pela religião. der as diferentes explicações de Freud e de Adler para
As experiências religiosas verdadeiras são o mais pró- os sintomas neuróticos que o levou à distinção entre
ximo da qualidade de ser si mesmo que a maioria dos introversão e extroversão (Jung, 1917). Freud cen-
seres humanos vai atingir, e as figuras de Cristo e Buda trou-se nos relacionamentos neuróticos com pessoas
TEORIAS DA PERSONALIDADE 93

e objetos externos. Adler, como veremos no Capítulo Que existem exatamente quatro funções psicoló-
4, estava preocupado com o senso subjetivo de inferi- gicas, nem mais nem menos, “eu concluí”, escreveu
oridade do indivíduo e suas tentativas subseqüentes Jung, “em bases puramente empíricas”:
de compensá-lo. Jung usou o termo extroversão para
“Mas como mostra a seguinte consideração, essas
se referir à orientação externa característica de Freud
quatro, juntas, produzem uma espécie de totali-
e introversão para a orientação interna de Adler. O
dade. A sensação estabelece o que realmente está
próprio Jung era bastante introvertido, uma realida-
presente, o pensamento nos permite reconhecer
de que, indubitavelmente, contribuiu para seus pro-
seu significado, o sentimento nos diz qual é o seu
blemas com Freud.
valor e a intuição aponta possibilidades referen-
tes à sua origem e ao seu destino em uma dada
As Funções situação. Dessa maneira, podemos orientar-nos em
relação ao mundo imediato tão completamente
Além das diferenças de perspectiva resumidas pelas
como quando localizamos geograficamente um
atitudes, Jung introduziu dois pares de funções para
lugar pela latitude e longitude.” (1931b, p. 540-
explicar as diferenças nas estratégias empregadas pe-
541)
las pessoas para adquirir e processar a informação (nós
atualmente chamaríamos essas tendências de estilos O pensamento e o sentimento são chamados de
cognitivos). Existem quatro funções psicológicas fun- funções racionais porque utilizam a razão, o julga-
damentais: pensamento, sentimento, sensação e intui- mento, a abstração e a generalização. Elas permitem
ção. O pensamento é ideacional e intelectual. Ao pen- que os humanos procurem legitimidade no universo.
sar, os seres humanos tentam compreender a natureza A sensação e a intuição são consideradas funções irra-
do mundo e a si mesmos. O sentimento é a função de cionais porque se baseiam na percepção do concreto,
avaliação: é o valor das coisas, quer positivo quer ne- do particular e do acidental.
gativo, com referência ao sujeito. A função de senti- Embora as pessoas tenham todas as quatro fun-
mento dá aos humanos suas experiências subjetivas ções, elas não são igualmente bem-desenvolvidas.
de prazer e dor, de raiva, medo, tristeza, de alegria e Habitualmente, uma das quatro funções é mais dife-
amor. A sensação é a função perceptual ou de realida- renciada do que as outras três e desempenha um pa-
de. Ela transmite os fatos ou as representações con- pel dominante na consciência. Esta é chamada de fun-
cretas do mundo. A intuição é a percepção por meio ção superior. A menos diferenciada das quatro é
de processos inconscientes e de conteúdos sublimina- chamada de função inferior. Ela é reprimida e incons-
res. A pessoa intuitiva vai além de fatos, sentimentos ciente e expressa-se em sonhos e fantasias. A função
e idéias em sua busca da essência da realidade. inferior é sempre o outro membro do par que contém
A natureza das quatro funções pode ser esclareci- a função superior. Se o pensamento for superior, por
da pelo seguinte exemplo. Suponha que uma pessoa exemplo, o sentimento deve ser inferior. Quanto mais
está parada na beira do Grand Canyon do rio Colora- uma dada função domina o funcionamento conscien-
do. Se predominar a função do sentimento, ela vai te, mais a função inferior fica submersa no inconsci-
experienciar um senso de admiração, de grandeza e ente. Em essência, Jung está designando uma função
de beleza arrebatadoras. Se ela estiver controlada pela como superior quando ela é a mais desenvolvida das
função da sensação, verá o canyon simplesmente como quatro. A base para essa superioridade não estava clara
ele é ou como uma fotografia o representaria. Se a para Jung, embora ele tenha sugerido que as pessoas
função do pensamento controlar seu ego, ela tentará podem ter uma tendência inata para uma determina-
compreender o canyon em termos de teoria e princí- da atitude ou função mais desenvolvida. Sejam quais
pios geológicos. Finalmente, se prevalecer a função forem suas origens, os pais, em especial, devem res-
intuitiva, o espectador tenderá a ver o Grand Canyon peitar essas tendências e não tentar transformar os
como um mistério da natureza que possui um signifi- filhos em algo que eles não são.
cado profundo, que é parcialmente revelado ou senti- O fato de que o funcionamento consciente de cada
do como uma experiência mística. pessoa tende a ser guiado por uma das duas atitudes
94 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

mais uma das quatro funções monta o cenário para vem da função superior, com a auxiliar tendo um pa-
uma taxonomia de oito tipos. Introversão ou extro- pel complementar, não-antagonista. Tais combinações
versão como uma atitude dominante pode-se combi- permitem a Jung oferecer descrições mais específicas,
nar com pensamento, sentimento, sensação ou intui- como quando ele distingue entre o pensamento “prá-
ção como uma função superior, produzindo assim um tico”, que ocorre quando a sensação é a auxiliar, e o
tipo pensante introvertido, um tipo sensorial extro- pensamento “especulativo”, que surge quando a in-
vertido, e assim por diante. Jung reconheceu que pode tuição é a auxiliar.
haver graus de superioridade, dependendo da exten- Vamos resumir o amplo poder descritivo da com-
são em que uma determinada atitude ou função do- binação junguiana das atitudes e funções. A introver-
mina a consciência, mas ele acreditava que os tipos são ou a extroversão tenderá a dominar o ego. À me-
puros eram úteis como exemplo. Por exemplo, ele es- dida que aumenta essa dominação, o grau de
clareceu melhor suas diferenças em relação a Freud submersão da outra atitude no inconsciente também
sugerindo que Freud era um tipo pensante extroverti- aumenta. A função superior vai governar a orienta-
do, enquanto ele mesmo era um tipo intuitivo intro- ção da consciência, com o outro membro desse par de
vertido. função enterrado no inconsciente como o inferior. Do
Jung (1921) dedicou grande parte do Tipos Psico- par de função remanescente, uma servirá como auxi-
lógicos à descrição dos oito tipos possíveis. Vamos con- liar para a função superior e a outra como auxiliar
siderar dois dos oito como ilustrações (ver Hall & para a inferior. Se, por exemplo, um homem for do
Nordby, 1973). O tipo pensante extrovertido é o cien- tipo pensante introvertido, com a sensação como sua
tista típico, preocupado em entender os fenômenos auxiliar, então o sentimento deve ser sua função infe-
naturais e em explicá-los por meio de princípios ge- rior, com a intuição como sua auxiliar. Existem duas
rais, leis naturais e fórmulas. Essas pessoas reprimem possibilidades para a atitude dominante, quatro pos-
seu lado de sentimento, de modo que podem parecer sibilidades para a função superior e duas possibilida-
distantes, frias, desligadas e superiores. O tipo senti- des para a auxiliar da função superior (porque a auxi-
mental introvertido é mais comumente encontrado liar deve vir do par de função que não contém a função
entre as mulheres do que entre os homens. Essas pes- superior). Em conseqüência, podem existir dezesseis
soas escondem seus sentimentos e freqüentemente são tipos ou orientações. Jung reconheceu que são comuns
descritas como distantes, inescrutáveis ou melancóli- as gradações, mas os tipos puros oferecem uma estru-
cas. Elas muitas vezes parecem ter poderes misterio- tura potencialmente muito útil para conceitualizar
sos ou carisma. Elas têm sentimentos intensos que diferenças individuais.
podem irromper em explosões emocionais. O aforis- Se as quatro funções forem colocadas eqüidistan-
mo “as águas paradas são profundas” se aplica a essas temente na circunferência de um círculo, o centro do
pessoas. círculo representa a síntese das quatro funções intei-
O funcionamento da personalidade se torna ain- ramente diferenciadas. Nessa síntese não existe ne-
da mais complexo pelo fato de que um membro do nhuma função superior ou inferior, e nenhuma auxili-
par da função que não contém as funções superior e ar. Todas elas têm força igual na personalidade. Tal
inferior serve como um auxiliar para a função superi- síntese só pode ocorrer quando o self se realizar ple-
or (ver p. 405-407 em Jung, 1921). Por exemplo, se o namente. Uma vez que a realização completa do self é
pensamento ou o sentimento é a superior, a sensação impossível, a síntese das quatro funções representa
ou a intuição vai ser a auxiliar. Esse arranjo faz senti- uma meta ideal almejada pela personalidade.
do, dado que as funções irracionais governam a per-
cepção ou a aquisição de informação, enquanto as
Interações entre os Sistemas da
funções racionais controlam o julgamento ou o pro-
Personalidade
cessamento da informação. O ego precisa de uma es-
tratégia para perceber e para julgar o mundo, de modo Os vários sistemas e as atitudes e funções que consti-
que tanto uma função racional quanto uma irracional tuem a personalidade total interagem de três manei-
devem influenciar seu funcionamento consciente. A ras diferentes. Um sistema pode compensar a fraque-
influência decisiva para a orientação da consciência za de outro sistema, um sistema pode se opor a outro
TEORIAS DA PERSONALIDADE 95

sistema, ou dois ou mais sistemas podem se unir para sensação se opõe à intuição. O ego é como uma pete-
formar uma síntese. ca atirada de um lado para outro, entre as exigências
A compensação pode ser ilustrada pela interação externas da sociedade e as exigências internas do in-
das atitudes contrastantes de extroversão e de intro- consciente coletivo. Em resultado dessa luta, desen-
versão. Se a extroversão for a atitude dominante ou volve-se uma persona, ou máscara. A persona então se
superior do ego consciente, então o inconsciente vai descobre sob o ataque de outros arquétipos no incons-
compensar, desenvolvendo a atitude reprimida da in- ciente coletivo. A mulher no homem, isto é, a anima,
troversão. Isso significa que, se a atitude extrovertida invade a natureza masculina do homem e o animus
for frustrada de alguma maneira, a atitude inferior invade a feminilidade da mulher. A luta entre as for-
inconsciente de introversão vai assumir o controle da ças racionais e irracionais da psique nunca cessa. O
personalidade e manifestar-se. Um período de inten- conflito é um fato onipresente da vida.
so comportamento extrovertido é comumente segui- Será que a personalidade sempre precisa ser uma
do por um período de comportamento introvertido. casa dividida contra si mesma? Jung acreditava que
Os sonhos também são compensatórios, de modo que não. Os elementos polares não só se opõem uns aos
os sonhos de uma pessoa predominantemente extro- outros, mas também se atraem e se buscam. A situa-
vertida terão uma qualidade introvertida, e, inversa- ção é análoga à de um marido e uma mulher que bri-
mente, os sonhos de um introvertido tenderão a ser gam um com o outro, mas se mantêm unidos pelas
extrovertidos. próprias diferenças que provocam os desentendimen-
A compensação também ocorre entre as funções. tos. A união de opostos é realizada pelo que Jung cha-
Uma pessoa que enfatiza o pensamento ou o senti- mou de função transcendente (ver a seguir). A operação
mento na mente consciente será um tipo intuitivo ou dessa função resulta na síntese de sistemas contrários
sensorial inconscientemente. Da mesma forma, o ego para formar uma personalidade equilibrada, integra-
e a anima em um homem e o ego e o animus em uma da. O centro dessa personalidade integrada é o self.
mulher terão uma relação compensatória. O ego do
homem normal é masculino, enquanto a anima é fe-
Um Exemplo de Interação entre os
minina; e o ego da mulher normal é feminino, en-
Sistemas da Personalidade
quanto o animus é masculino. Em geral, todos os con-
teúdos da mente consciente são compensados pelos Para ilustrar os tipos de interações que ocorrem den-
conteúdos da mente inconsciente. O princípio de com- tro da psique, vamos considerar as relações entre a
pensação proporciona uma espécie de equilíbrio en- anima e os outros sistemas da personalidade. Jung
tre elementos contrastantes que impede a psique de disse: “a natureza integral do homem pressupõe a
se tornar neuroticamente desequilibrada. mulher... seu sistema está sintonizado com a mulher
Virtualmente todos os teóricos da personalidade desde o início...” (Jung, 1945, p. 188). O bebê do sexo
supõem que a personalidade contém tendências pola- masculino, equipado com seu arquétipo de mulher, é
res que podem entrar em conflito. Jung não é exce- instintivamente atraído para a primeira mulher que
ção. Ele acreditava que uma teoria psicológica da per- experiencia, usualmente a mãe. O estabelecimento de
sonalidade precisa basear-se no princípio da oposição um estreito relacionamento é estimulado, por sua vez,
ou do conflito, porque as tensões criadas por elemen- pela mãe. Entretanto, à medida que a criança cresce,
tos conflitantes são a própria essência da vida. Sem esses vínculos maternos se tornam restritivos e frus-
tensão não haveria energia e conseqüentemente ne- trantes, senão realmente perigosos para a criança, de
nhuma personalidade. modo que o complexo materno que se formou no ego
A oposição existe entre todos os elementos da per- é reprimido no inconsciente pessoal.
sonalidade: entre o ego e a sombra, entre o ego e o Ao mesmo tempo em que esse desenvolvimento
inconsciente pessoal, entre a persona e a anima ou o está ocorrendo, traços e atitudes femininos que fo-
animus, entre a persona e o inconsciente pessoal, en- ram implantados no ego pela anima também são re-
tre o inconsciente coletivo e o ego, e entre o inconsci- primidos por serem estranhos ao papel que a socieda-
ente coletivo e a persona. A introversão se opõe à ex- de espera que ele desempenhe como homem. Em
troversão, o pensamento se opõe ao sentimento, e a outras palavras, sua feminilidade inata é reprimida
96 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

por uma contraforça emanando da persona e de ou- A DINÂMICA DA PERSONALIDADE


tros arquétipos.
Como resultado desses dois atos de repressão, os Jung imaginou a personalidade, ou psique, como um
sentimentos da criança pela mãe e sua feminilidade sistema de energia parcialmente fechado. Dizemos que
são levados do ego para o inconsciente pessoal. As- é incompletamente fechado porque a energia de fon-
sim, a percepção que o homem tem das mulheres e tes exteriores precisa ser acrescentada ao sistema, por
seus sentimentos e comportamentos em relação a elas exemplo, pela alimentação. A energia também é sub-
são dirigidos pelas forças combinadas do inconscien- traída do sistema, por exemplo, pela realização de tra-
te pessoal e coletivo. balho muscular. Também é possível que estímulos
A tarefa de integração imposta ao ego em conse- ambientais produzam mudanças na distribuição de
qüência dessas vicissitudes do arquétipo da mãe e do energia dentro do sistema. Isso acontece, por exem-
arquétipo feminino (a anima) é encontrar uma mu- plo, quando uma mudança súbita no mundo externo
lher que se assemelhe à imago da mãe e que também reorienta a nossa atenção e percepção. O fato de que
preencha as necessidades de sua anima. Se escolher a dinâmica da personalidade está sujeita a influências
uma mulher que difira de um ou de ambos desses e a modificações de fontes externas significa que a
modelos inconscientes, ele está fadado a ter proble- personalidade não pode atingir um estado de perfeita
mas, porque seus sentimentos positivos conscientes estabilização, como poderia acontecer se ela fosse um
por ela serão perturbados por sentimentos negativos sistema completamente fechado. Ela só pode tornar-
inconscientes. Eles farão com que se sinta insatisfeito se relativamente estabilizada.
com ela, e ele a culpará por várias falhas e dificulda-
des imaginadas, sem perceber as razões reais de seu
descontentamento. Se a função transcendente estiver Energia Psíquica
operando bem, ela unirá todos os seus impulsos con- A energia pela qual o trabalho da personalidade é re-
traditórios e o fará escolher uma companheira com alizado se chama energia psíquica (Jung, 1948b). A
quem ele poderá ser feliz. energia psíquica é uma manifestação da energia de
Todas as decisões importantes na vida requerem vida, que é a energia do organismo como um sistema
que seja dada uma devida consideração aos fatores biológico. Ela se origina da mesma maneira que toda
inconscientes, e também aos conscientes, para que a energia vital, a saber, dos processos metabólicos do
tudo dê certo. Jung disse que muito desajustamento e corpo. O termo de Jung para a energia vital é libido,
infelicidade se devem a um desenvolvimento unilate- mas ele também usa libido paralelamente com ener-
ral da personalidade, que ignora facetas importantes gia psíquica. Jung não assumiu uma posição definida
da natureza humana. Essas facetas negligenciadas cri- sobre a relação da energia psíquica com a energia físi-
am perturbações na personalidade e na conduta irra- ca, mas ele acreditava que provavelmente existe al-
cional. gum tipo de ação recíproca entre as duas.
Para Jung, a personalidade é uma estrutura ex- A energia psíquica é um constructo hipotético; ela
tremamente complexa. Não só existem numerosos não é uma substância ou um fenômeno concreto. Con-
componentes – o número de possíveis arquétipos e seqüentemente, não pode ser medida ou sentida. A
complexos, por exemplo, é imenso – mas também as energia psíquica encontra sua expressão concreta na
interações entre esses componentes são intrincadas e forma de forças reais ou potenciais. Desejar, querer,
complicadas. Nenhum outro teórico da personalida- sentir, prestar atenção e buscar são exemplos de for-
de apresentou uma descrição tão rica e complexa da ças reais na personalidade; disposições, aptidões, ten-
estrutura da personalidade. dências, inclinações e atitudes são exemplos de forças
potenciais.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 97

Valores Psíquicos predisposta a associar qualquer experiência nova a


uma das constelações associadas ao patriotismo.
A quantidade de energia psíquica investida em um Jung discute três métodos para avaliar o poder
elemento da personalidade é chamada de valor desse constelador de um elemento nuclear: (1) a observa-
elemento. O valor é uma medida de intensidade. Quan- ção direta mais deduções analíticas, (2) os indicado-
do falamos que atribuímos um grande valor a uma res de complexo e (3) a intensidade da expressão emo-
determinada idéia ou sentimento, queremos dizer que cional.
a idéia ou o sentimento exerce uma considerável for- Por meio de observação e de inferência, podemos
ça instigadora e orientadora do comportamento. Uma chegar a uma estimativa do número de associações
pessoa que valoriza a verdade gastará muita energia vinculadas a um elemento nuclear. Um homem com
na busca da verdade. Quem atribui um grande valor um forte complexo materno tenderá a introduzir sua
ao poder estará altamente motivado a obter poder. mãe ou algo associado à mãe em suas conversas, seja
Inversamente, se algo tem um valor trivial, terá pou- isso apropriado ou não. Ele preferirá histórias e fil-
ca energia associada. mes em que as mães desempenham um papel impor-
O valor absoluto de uma idéia ou sentimento não tante, e valorizará o Dia das Mães e outras ocasiões
pode ser determinado, mas seu valor relativo pode. em que pode homenageá-la. Tenderá a imitar a mãe
Uma maneira simples, embora não necessariamente adotando suas preferências e interesses e sentir-se-á
acurada, de determinar valores relativos é perguntar atraído por suas amigas. E terá preferência por mu-
a uma pessoa se ela prefere uma coisa à outra. A or- lheres mais velhas a mulheres de sua idade.
dem de preferência pode ser tomada como uma me- Um complexo nem sempre se manifesta publica-
dida aproximada das forças relativas de seus valores. mente. Ele pode aparecer em sonhos ou de alguma
Ou pode ser imaginada uma situação experimental forma obscura, de modo que será necessário empre-
para testar se um indivíduo se esforçará mais por um gar evidências circunstanciais para descobrir o signi-
incentivo do que por outro. Observar cuidadosamen- ficado subjacente da experiência. É isso o que quere-
te uma pessoa por um certo período de tempo para mos dizer com dedução analítica.
ver o que ela faz transmite um quadro bastante bom Um indicador de complexo é qualquer perturba-
de seus valores relativos. Se uma pessoa passa mais ção de comportamento, indicando a presença de um
tempo lendo do que jogando cartas, podemos supor complexo. Pode ser um lapso da fala, por exemplo,
que a leitura é mais valorizada do que o jogo de car- quando um homem diz “mãe” quando queria dizer
tas. “esposa”. Pode ser um bloqueio de memória incomum,
como acontece quando alguém não consegue lembrar
o nome de um amigo porque o nome se parece muito
O Poder Constelador de um Complexo
com o de sua mãe ou com algo associado a ela. Os
Tais observações e testes, por mais úteis que possam indicadores de complexo também aparecem no teste
ser para a determinação de valores conscientes, não de associação de palavras.
lançam muita luz sobre os valores inconscientes. Eles Jung descobriu a existência dos complexos em
precisam ser determinados por uma avaliação do “po- 1903, por meio de experimentos com o teste de asso-
der constelador do elemento nuclear de um comple- ciação de palavras (Jung, 1973a). Esse teste, agora
xo”. O poder constelador de um complexo consiste no amplamente empregado na avaliação da personalida-
número de grupos de itens que são trazidos para as- de, consiste em uma lista-padrão de palavras que são
sociação pelo elemento nuclear do complexo. Assim, lidas uma de cada vez para a pessoa que está sendo
se alguém tem um forte complexo patriótico, isso sig- testada. O sujeito é instruído a responder com a pri-
nifica que o núcleo, amor pelo seu país, vai produzir meira palavra que lhe vier à mente. Se a pessoa levar
constelações de experiências em torno disso. Uma um tempo incomumente longo para responder a uma
dessas constelações pode consistir em eventos impor- palavra específica, isso indica que ela está associada
tantes na história da nação, enquanto outro pode ser de alguma maneira a um complexo. A repetição da
um sentimento positivo em relação aos líderes e he- palavra-estímulo e a incapacidade de responder a ela
róis nacionais. Uma pessoa muito patriótica estará também são indicadores de complexos.
98 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

A intensidade da reação emocional de alguém a Sem dúvida, o princípio da conservação da ener-


uma situação também é uma outra medida da força gia não se aplica de uma maneira estrita a um sistema
de um complexo. Se o coração bater mais rápido, a como a psique, que é apenas parcialmente fechado. A
respiração se tornar mais profunda, e o sangue sumir energia é acrescentada ou subtraída da psique, e o
da face, essas são ótimas indicações de um forte com- ritmo em que é acrescentada ou subtraída varia con-
plexo envolvido. Ao combinar medidas fisiológicas sideravelmente. Em conseqüência, a elevação ou que-
como pulsação, respiração e mudanças elétricas na da de um valor pode dever-se não apenas a uma trans-
condutividade da pele com o teste de associação de ferência de energia de uma parte do sistema para
palavras, é possível determinar de maneira bastante outra, mas pode depender também da adição de ener-
precisa a força dos complexos de uma pessoa. gia de fontes externas à psique ou da subtração de
energia quando é realizado um trabalho muscular.
Ficamos física e mentalmente revigorados depois de
O Princípio da Equivalência
comer uma refeição ou descansar, e ficamos física e
Jung baseou sua visão da psicodinâmica em dois prin- mentalmente cansados depois de um período de exer-
cípios fundamentais: o princípio da equivalência e o cício ou trabalho. São essas trocas de energia entre a
da entropia (Jung, 1948b). O princípio da equivalên- psique e o organismo ou o mundo externo, assim como
cia afirma que, se for gasta energia para provocar uma a redistribuição de energia dentro da psique, que tan-
determinada condição, a quantidade gasta aparecerá to interessavam a Jung e a todos os psicólogos dinâ-
em outro lugar do sistema. Os alunos de física reco- micos.
nhecerão esse princípio como a primeira lei da termo-
dinâmica, ou o princípio da conservação da energia.
O Princípio da Entropia
Conforme aplicado ao funcionamento psíquico por
Jung, o princípio afirma que, se um valor específico O princípio da entropia, ou a segunda lei da termodi-
se enfraquecer ou desaparecer, a soma de energia re- nâmica, estabeleceu que, quando dois corpos de dife-
presentada pelo valor não será perdida, mas reapare- rentes temperaturas são colocados em contato, o ca-
cerá em um novo valor. O rebaixamento de um valor lor vai passar do corpo mais quente para o corpo mais
inevitavelmente significa a elevação de outro. Por frio. Como um outro exemplo, a água flui de um nível
exemplo, à medida que diminui a valorização que uma mais alto para um nível mais baixo quando existe um
criança atribui à família, seu interesse por outras pes- canal. A operação do princípio da entropia resulta em
soas e coisas aumentará. Uma pessoa que perde o in- um equilíbrio de forças. O objeto mais quente perde
teresse por um passatempo normalmente descobre que energia térmica para o mais frio até os dois objetos
um outro assumiu o seu lugar. Se um valor for repri- atingirem a mesma temperatura. Nesse ponto, a troca
mido, sua energia pode ser usada para criar sonhos de energia pára, e dizemos que os dois objetos estão
ou fantasias. É possível, evidentemente, que a ener- em equilíbrio térmico.
gia perdida de um valor seja distribuída entre vários O princípio da entropia conforme adaptado por
outros valores. Jung para descrever a dinâmica da personalidade afir-
Em termos do funcionamento da personalidade ma que a distribuição de energia na psique busca um
total, o princípio da equivalência afirma que, se for equilíbrio. Assim, tomando o exemplo mais simples,
removida energia de um sistema, por exemplo, do ego, se dois valores (intensidades de energia) tiverem for-
ela vai aparecer em algum outro sistema, talvez na ças desiguais, a energia tenderá a passar do valor mais
persona. Ou, se cada vez mais valores se expressarem forte para o mais fraco até ser atingido um equilíbrio.
no lado sombra da personalidade, ele se fortalecerá à Entretanto, uma vez que a psique não é um sistema
custa de outras estruturas da personalidade. Da mes- fechado, pode ser acrescentada ou subtraída energia
ma forma, a desenergização do ego consciente é acom- de qualquer um dos valores opostos, o que perturba o
panhada pela energização do inconsciente. A energia equilíbrio. Embora um equilíbrio permanente de for-
está continuamente fluindo de um sistema da perso- ças na personalidade jamais possa ser atingido, esse é
nalidade para outro. Essas redistribuições de energia o estado ideal almejado pela distribuição da energia.
constituem a dinâmica da personalidade. Tal estado ideal em que a energia total está regular-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 99

mente distribuída em todos os sistemas totalmente são as funções inatas, instintivas, conforme exempli-
desenvolvidos é o self. Quando Jung afirmou que a ficado pela fome e pelo sexo. Elas operam segundo
auto-realização é a meta do desenvolvimento psíqui- leis biológicas naturais. Qualquer energia que excede
co, ele quis dizer, entre outras coisas, que a dinâmica a necessária para os instintos pode ser empregada em
da personalidade busca um perfeito equilíbrio de for- atividades culturais e espirituais. De acordo com Jung,
ças. tais atividades constituem os propósitos mais eleva-
O fluxo de energia dirigido de um centro de alto dos da vida. À medida que a pessoa se torna mais
potencial para um de baixo potencial é um princípio eficiente em satisfazer suas necessidades biológicas,
fundamental que governa a distribuição de energia sobra mais energia para a busca de interesses cultu-
entre os sistemas da personalidade. A operação desse rais. Além disso, conforme o corpo que envelhece faz
princípio significa que um sistema fraco tenta melho- menos demandas de energia, mais energia fica dispo-
rar seu status à custa de um sistema forte. Esse pro- nível para atividades psíquicas.
cesso cria tensão na personalidade. Se o ego consci-
ente, por exemplo, é supervalorizado em relação ao
inconsciente, muita tensão será gerada na personali-
dade pela tentativa por parte da energia de passar do O DESENVOLVIMENTO DA
sistema consciente para o inconsciente. Da mesma for- PERSONALIDADE
ma, a energia da atitude superior, quer seja extrover-
são quer seja introversão, tende a mover-se na dire- O aspecto mais relevante da teoria de Jung da
ção da atitude inferior. Um extrovertido superde- personalidade, fora o conceito do inconsciente coleti-
senvolvido sofre pressão para desenvolver a parte in- vo com seus arquétipos, é a sua ênfase no caráter pro-
trovertida de sua natureza. É uma regra geral na psi- gressista do desenvolvimento da personalidade. Jung
cologia junguiana que qualquer desenvolvimento uni- acreditava que os humanos estão constantemente pro-
lateral da personalidade cria conflito, pressão e tensão, gredindo ou tentando progredir de um estágio de de-
e que um desenvolvimento equilibrado de todos os senvolvimento menos completo para um mais com-
constituintes da personalidade produz harmonia, re- pleto. Ele também acreditava que a humanidade, como
laxamento e contentamento. espécie, está constantemente desenvolvendo formas
A produção de energia requer diferenças de po- mais diferenciadas de existência.
tencial entre os vários componentes de um sistema. Qual é a meta do desenvolvimento? Que objetivo
Em conseqüência, nenhuma energia seria produzida os seres humanos e a humanidade buscam? A supre-
em um estado de perfeito equilíbrio. Um sistema per- ma meta desenvolvimental buscada pelas pessoas é
de a força e pára quando todas as suas partes estão resumida pelo termo auto-realização. Auto-realização
em perfeito equilíbrio, ou perfeita entropia. Portanto, significa a diferenciação e a fusão harmoniosa mais
é impossível que um organismo vivo atinja uma en- plenas e completas de todos os aspectos de uma per-
tropia perfeita. Essa situação representa uma ironia sonalidade humana total. Isso significa que a psique
fascinante. Assim como o “instinto de morte” de Freud desenvolveu um novo centro, o self, que ocupa o
se referia ao desejo da pessoa de retornar a um esta- espaço do antigo centro, o ego. Toda a evolução, con-
do inorgânico, a meta de Jung de movimento rumo à forme se manifesta no desenvolvimento psíquico, des-
condição de ser si mesmo implica avançar para uma de os primeiros organismos primitivos até o apareci-
parada final da personalidade. mento dos humanos, é uma marcha de progresso. O
progresso não parou com a criação dos humanos; as-
sim como os humanos representam um avanço em
O Uso da Energia
relação a todas as outras espécies de animais, os hu-
A energia psíquica total disponível para a personali- manos civilizados também representam uma melhora
dade é usada para dois propósitos gerais. Parte dela é em relação aos humanos primitivos. Até os humanos
gasta na realização do trabalho necessário para a civilizados ainda têm muito pela frente antes de atin-
manutenção da vida e a propagação da espécie. Essas gir o fim da jornada evolutiva. Era o futuro dos huma-
100 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

nos o que Jung achava tão interessante e desafiador, princípio se aplica a eventos que ocorrem juntos no
e sobre isso ele teve muito a dizer em seus extensivos tempo, mas não são a causa um do outro, por exem-
textos. plo, quando um pensamento corresponde a um even-
to objetivo. Quase todo mundo já experienciou essas
coincidências. Estamos pensando em uma pessoa e a
Causalidade Versus Teleologia
pessoa aparece, ou sonhamos com a doença ou a morte
A idéia de uma meta que orienta e dirige o destino de um amigo ou parente e mais tarde ficamos saben-
humano é essencialmente uma explicação teleológica do que o evento ocorreu no exato momento do so-
ou finalista. O ponto de vista teleológico explica o nho. Jung indicou a vasta literatura sobre telepatia
presente em termos do futuro. De acordo com esse mental, clarividência e outros tipos de fenômenos
ponto de vista, a personalidade humana é compreen- paranormais como evidência do princípio da sincro-
dida em termos de para onde está indo, e não de onde nicidade. Ele acreditava que muitas dessas experiên-
esteve. Por outro lado, o presente pode ser explicado cias não podem ser explicadas como coincidências
pelo passado. Esse é o ponto de vista da causalidade, casuais; em vez disso, elas sugerem a existência de
que afirma que os eventos presentes são as conse- um outro tipo de ordem no universo além da descrita
qüências ou os efeitos de condições ou causas antece- pela causalidade. Os fenômenos sincrônicos são atri-
dentes. Nós examinamos o passado da pessoa para buídos à natureza dos arquétipos. Um arquétipo tem
explicar seu comportamento presente. um caráter psicóide, isto é, ele é tanto psicológico quan-
Jung afirmava que ambos os pontos de vista são to físico. Conseqüentemente, um arquétipo pode tra-
necessários na psicologia se quisermos buscar um en- zer à consciência uma imagem mental de um evento
tendimento completo da personalidade. O presente é físico mesmo que não exista nenhuma percepção di-
determinado não só pelo passado (causalidade), mas reta dele. O arquétipo não causa ambos os eventos;
também pelo futuro (teleologia). Em sua busca de ele possui uma qualidade que permite que ocorra a
entendimento, os psicólogos precisam ter as duas fa- sincronicidade. O princípio da sincronicidade parece
ces do deus Jano. Com uma, eles podem olhar para o ser uma evolução em relação à idéia de que um pen-
passado da pessoa; com a outra, eles podem olhar para samento causa a materialização da coisa pensada.
o seu futuro. As duas visões, quando combinadas, (Existe um ótimo ensaio sobre sincronicidade em From
transmitem um quadro completo da pessoa. the life and work of C. G. Jung [1971] de Aneila Jaffé.
Jung admitia que a causalidade e a teleologia são Ver também Progoff [1973].)
meramente modos arbitrários de pensamento empre-
gados pelo cientista para ordenar e compreender fe-
Hereditariedade
nômenos naturais. A causalidade e a teleologia não
são em si mesmas encontradas na natureza. Ele sali- A hereditariedade tem um papel importante na psico-
entou que uma atitude puramente causal tende a pro- logia junguiana. Em primeiro lugar, ela é responsável
duzir resignação e desespero nos humanos, uma vez pelos instintos biológicos que buscam a autopreserva-
que, do ponto de vista da causalidade, eles são prisio- ção e a reprodução. Os instintos constituem o lado
neiros de seu passado. Eles não podem desfazer o que animal da natureza humana. Eles são os vínculos com
já foi feito. A atitude finalista, por outro lado, dá aos um passado animal. Um instinto é um impulso inter-
humanos um sentimento de esperança e algo pelo que no para agir de uma certa maneira quando surge uma
viver (cf. Frankl, 1959, que endossou a frase de Niet- determinada condição tissular. A fome, por exemplo,
zsche: “Quem tem um porquê pelo qual viver pode evoca atividades de busca e ingestão de alimento. As
suportar quase qualquer como”.) idéias de Jung sobre os instintos não são diferentes
das defendidas pela biologia moderna (Jung, 1929,
1948c).
Sincronicidade
Entretanto, Jung desviou-se bastante da posição
Tardiamente em sua vida, Jung (1952a) propôs um da biologia moderna quando afirmou que existe, além
princípio que não era nem causalidade e nem teleolo- de uma herança de instintos biológicos, uma herança
gia. Ele o chamou de princípio da sincronicidade. Esse de “experiências” ancestrais. Essas experiências ou,
TEORIAS DA PERSONALIDADE 101

falando com maior exatidão, a potencialidade de se Idade Adulta Jovem


ter a mesma ordem de experiências de nossos ances-
trais, são herdadas na forma de arquétipos. Como vi- A puberdade serve como o “nascimento psíquico” da
mos, um arquétipo é uma memória racial que se tor- personalidade. Não só emerge a sexualidade, mas tam-
nou parte da hereditariedade humana ao se repetir bém a criança se diferencia dos pais. O adolescente
freqüente e universalmente ao longo de muitas gera- precisa aprender a enfrentar o mundo e a preparar-se
ções. Ao aceitar a noção de herança cultural, Jung para a vida. A extroversão é a atitude primária, e a
aliou-se à doutrina de Lamarck dos caracteres adqui- consciência domina a vida mental à medida que o jo-
ridos, uma doutrina cuja validade foi questionada pela vem se dedica às tarefas de encontrar um companhei-
maioria dos geneticistas contemporâneos. Entretan- ro e uma vocação (cf. discussão no Capítulo 4 das três
to, conforme Hall e Nordby (1973) apontam, os ar- tarefas de vida de Adler, mais a discussão no Capítulo
quétipos não requerem explicação em termos do pro- 5 das crises básicas de Erikson de identidade vs. con-
cesso lamarckiano de herdar características adquiridas. fusão de papéis e intimidade vs. isolamento). O ado-
Por exemplo, os primeiros humanos que, devido a uma lescente precisa lidar com questões de sexualidade,
mutação genética, possuíam uma predisposição para assim como de poder ou insegurança.
ter medo de cobras ou do escuro provavelmente tive-
ram uma vantagem de sobrevivência. Isso, por sua
Meia-Idade
vez, pode ter proporcionado uma vantagem reprodu-
tiva e levado finalmente a uma característica da espé- Pelo final da casa dos 30, a maioria das pessoas já
cie. De maneira semelhante, outros conteúdos do in- lidou com as questões da idade adulta jovem, tendo
consciente coletivo poderiam ter-se desenvolvido por casado e estabelecido-se em uma profissão. Nesse pon-
meio do processo de seleção natural. to, surge uma preocupação bem diferente, a necessi-
dade de significado. As pessoas precisam encontrar
um propósito em sua vida e uma razão para a sua
Estágios de Desenvolvimento
existência. Na terminologia de Jung, elas passam de
Jung não especificou detalhadamente, como fez Freud, uma atitude extrovertida para uma introvertida, e
os estágios pelos quais a personalidade passa desde o começam a buscar a auto-realização. Esse é o momento
período de bebê até a idade adulta. Mas ele descre- da “crise da meia-idade”. Os interesses e as atividades
veu quatro estágios gerais de desenvolvimento. Não juvenis perdem seu valor e são substituídos por novos
apresentaremos o último estágio, a Velhice, porque interesses, mais culturais e menos biológicos. A pes-
Jung o considerava um período relativamente pouco soa de meia-idade torna-se mais introvertida e menos
importante, em que as pessoas idosas gradualmente impulsiva. A sabedoria e a sagacidade tomam o lugar
mergulham no inconsciente. do vigor físico e mental. Os valores da pessoa são su-
blimados em símbolos sociais, religiosos, cívicos e fi-
losóficos. Ela se torna mais espiritual.
Infância
Tal transição é o evento mais decisivo na vida de
A vida da criança é determinada por atividades ins- uma pessoa. Também é um dos mais perigosos, por-
tintuais necessárias à sobrevivência. O comportamento que, se alguma coisa dá errado durante a transferên-
durante a infância também é governado pelas exigên- cia de energia, a personalidade pode-se tornar per-
cias parentais. Os problemas emocionais experiencia- manentemente perturbada. Isso acontece, por
dos pelas crianças pequenas geralmente refletem “in- exemplo, quando os valores culturais e espirituais da
fluências perturbadoras em casa” (1928, p. 54). Em meia-idade não utilizam toda a energia anteriormen-
um nítido contraste com Freud, Jung não enfatizou o te investida em metas instintuais. Nesse caso, a ener-
poder determinante da infância para o comportamento gia em excesso está livre para perturbar o equilíbrio
subseqüente. da psique.
102 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Jung teve muito sucesso, tratando pessoas de Progressão e Regressão


meia-idade cujas energias não encontravam saídas sa-
O desenvolvimento pode ter um movimento progres-
tisfatórias (Jung, 1931a). Em parte, isso talvez se deva
sivo, para a frente, ou regressivo, para trás. Por pro-
ao fato de Jung ter passado por um “período ocioso”
gressão, Jung queria dizer que o ego consciente está
de 1913 a 1917, os anos cercando seu 40º aniversá-
se ajustando satisfatoriamente tanto às exigências do
rio. Esse foi o período que se seguiu ao seu afasta-
ambiente externo quanto às necessidades do incons-
mento de Freud. Pelo relato do próprio Jung, nesses
ciente. Na progressão normal, forças opostas se unem
anos, ele se afastou do ensino universitário e imergiu
em um fluxo coordenado e harmonioso de processos
em seu inconsciente pessoal e coletivo. Alguns estudi-
psíquicos.
osos (p. ex., Jaffé, 1971; van der Post, 1975) sugeri-
Quando o movimento para a frente é interrompi-
ram que esse “período tempestuoso” foi uma viagem
do por alguma circunstância frustrante, isso impede a
autocontrolada de exploração (cf. auto-análise de
libido de ser investida em valores extrovertidos ou
Freud). Outros (p. ex., Ellenberger, 1970; Stern, 1976)
orientados para o ambiente. Em conseqüência, a libi-
argumentaram que Jung não tinha controle completo
do faz uma regressão para o inconsciente e investe-se
durante esse período, estando à beira de um surto
de valores introvertidos. Isto é, valores objetivos do
psicótico. Seja qual for a verdade, é certo que Jung
ego são transformados em valores subjetivos. A re-
emergiu desse período com idéias convincentes sobre
gressão é a antítese da progressão.
a natureza e o funcionamento do inconsciente.
Entretanto, Jung acreditava que um deslocamen-
A necessidade de significado era um conceito im-
to regressivo de energia não tem necessariamente um
portante para Jung, e oferece mais um contraste com
efeito permanentemente mau sobre o ajustamento. De
Freud. Freud (1927) argumentara que a crença em
fato, isso pode ajudar o ego a encontrar um caminho
Deus era uma ilusão, isto é, uma crença estimulada
para desviar-se do obstáculo e avançar novamente.
pela realização do desejo, com um protótipo infantil
Isso é possível porque o inconsciente, tanto o pessoal
e a função defensiva de tornar “tolerável a nossa im-
quanto o coletivo, contém o conhecimento e a sabe-
potência”. Jung tinha uma posição bem diferente,
doria do passado individual e racial, que foram repri-
baseada na utilidade e não na prova. Jung escreveu:
midos ou ignorados. Ao regredir, o ego pode desco-
“Uma vez que não podemos descobrir o trono de brir conhecimentos úteis no inconsciente que
Deus no céu com um radiotelescópio . . . as pesso- permitirão à pessoa superar a frustração. Os huma-
as supõem que essas idéias ‘não são verdade’ . . . nos devem prestar especial atenção aos seus sonhos,
O homem moderno pode afirmar que não precisa pois eles são revelações de material inconsciente. Na
delas, e reforçar sua opinião insistindo que não psicologia junguiana, o sonho é visto como um poste
existe nenhuma evidência científica de sua ver- sinalizador que aponta o caminho para o desenvolvi-
dade. Mas . . . por que deveríamos nos preocupar mento de recursos potenciais.
com evidências? Mesmo que não soubéssemos as A interação da progressão e da regressão no de-
razões da nossa necessidade de sal na comida, nós senvolvimento pode ser exemplificada pelo seguinte
não obstante nos beneficiaríamos de seu uso . . . exemplo esquemático. Um jovem que se desvencilha-
Por que, então, devemos privar-nos de idéias que ra da dependência em relação aos pais encontra uma
seriam úteis nas crises e dariam significado à nos- barreira intransponível. Ele procura os pais para con-
sa existência? . . . O homem, positivamente, pre- selhos e encorajamento. Ele, na verdade, não vai vol-
cisa de idéias e convicções gerais que dêem senti- tar para os pais em um sentido físico, mas sua libido
do à sua vida e que lhe permitam encontrar um vai regredir para o inconsciente e reativar as imagos
lugar para si mesmo no universo.” (1964, p. 87- parentais lá localizadas. Essas imagos parentais po-
88) dem então proporcionar-lhe o conhecimento e o en-
corajamento necessários para superar a frustração.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 103

O Processo de Individuação (Jung, 1943, p. 108). Outras forças na personalidade,


notavelmente a repressão, podem se opor à operação
Que a personalidade tem a tendência a desenvolver- da função transcendente. No entanto, apesar de toda
se na direção de uma unidade estável é um aspecto oposição, vai ocorrer a propulsão progressiva e unifi-
central da psicologia de Jung. O desenvolvimento é cadora do desenvolvimento. A expressão inconscien-
um desdobrar-se da totalidade original não-diferenci- te de um desejo de integralidade é encontrada em
ada com que nascem os seres humanos. A meta su- sonhos, mitos e outras representações simbólicas. Um
prema desse desdobrar-se é a realização da condição desses símbolos, que está sempre aparecendo em mi-
de ser si mesmo. tos, sonhos, arquitetura, religião e artes é o símbolo
Para realizar tal meta, é necessário que os vários da mandala. A mandala é uma palavra em sânscrito
sistemas da personalidade se tornem completamente que significa círculo. Jung estudou exaustivamente a
diferenciados e inteiramente desenvolvidos. Se algu- mandala porque ela é o emblema perfeito da unidade
ma parte da personalidade for negligenciada, os sis- e da totalidade completas nas religiões orientais e
temas negligenciados e menos desenvolvidos agirão ocidentais.
como centros de resistência que tentarão capturar
energia de sistemas mais desenvolvidos. Se houver
Sublimação e Repressão
muitas resistências, a pessoa tornar-se-á neurótica. Isso
vai acontecer quando os arquétipos não puderem se A energia psíquica é deslocável. Isso significa que ela
expressar por meio do ego consciente ou quando o pode ser transferida de um processo em um determi-
envoltório da persona se tornar tão espesso que aba- nado sistema para outro processo no mesmo sistema
fará o resto da personalidade. Um homem que não ou em um diferente. Essa transferência é feita de acor-
oferece uma saída satisfatória para seus impulsos fe- do com os princípios dinâmicos básicos de equivalên-
mininos, ou uma mulher que contém sua inclinações cia e de entropia. Se o deslocamento é governado pelo
masculinas estão armando problemas, porque a ani- processo de individuação e pela função transcenden-
ma ou o animus nessas condições tenderão a encon- te, é chamado de sublimação. A sublimação descreve
trar maneiras indiretas e irracionais de se expressar. o deslocamento de energia dos processos mais primi-
Para ter uma personalidade sadia e integrada, todos tivos, instintivos e menos diferenciados para proces-
os sistemas precisam atingir o grau mais pleno de di- sos superiores culturais, espirituais e mais diferencia-
ferenciação, desenvolvimento e expressão. O proces- dos. Por exemplo, quando a energia é retirada da
so por meio do qual isso é atingido chama-se processo pulsão sexual e investida em valores religiosos, dize-
de individuação (Jung, 1939, 1950). mos que a energia foi sublimada. Sua forma mudou,
no sentido de que um novo tipo de trabalho está sen-
do realizado; nesse caso, o trabalho religioso substi-
A Função Transcendente
tui o trabalho sexual.
Quando a diversidade foi atingida por meio da opera- Quando a descarga de energia, quer pelos canais
ção do processo de individuação, os sistemas diferen- instintuais, ou sublimados, é bloqueada, dizemos que
ciados são integrados pela função transcendente (Jung, foi reprimida. A energia reprimida não pode simples-
1916b). mente desaparecer; ela precisa ir para algum lugar,
Essa função tem a capacidade de unir todas as segundo o princípio da conservação da energia. Con-
tendências opostas dos vários sistemas e de buscar a seqüentemente, ela passa a residir no inconsciente.
meta ideal de integralidade perfeita (condição de ser Ao acrescentar energia ao material inconsciente, o
si mesmo). A meta da função transcendente é a reve- inconsciente pode ficar mais carregado que o ego cons-
lação da pessoa essencial e “a realização de todos os ciente. Se isso acontecer, a energia do inconsciente
seus aspectos, da personalidade originalmente escon- tenderá a fluir para o ego, segundo o princípio da
dida no idioplasma embrionário; a produção e o des- entropia, e perturbar os processos racionais. Em ou-
dobramento da integralidade original, potencial” tras palavras, processos inconscientes altamente ener-
104 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

gizados tentarão romper a repressão. Se conseguirem, nal à teoria do simbolismo. Jung voltava sempre em
a pessoa vai-se comportar de maneira irracional e seus textos a uma discussão do simbolismo e tornou-
impulsiva. o assunto de alguns de seus livros mais importantes.
A sublimação e a repressão são exatamente opos- A essência da teoria de Jung do simbolismo é encon-
tas em caráter. A sublimação é progressiva; a repres- trada em sua citação: “O símbolo não é um sinal que
são é regressiva. A sublimação faz a psique avançar; a esconde alguma coisa que todo mundo conhece. Seu
repressão a faz retroceder. A sublimação é integrati- significado não é esse; pelo contrário, ele representa
va; a repressão é desintegrativa. Mas já que a repres- uma tentativa de elucidar, por meio de analogia, al-
são é regressiva, ela pode permitir que os indivíduos guma coisa que ainda pertence inteiramente ao do-
encontrem as respostas para seus problemas em seus mínio do desconhecido ou alguma coisa que ainda está
inconscientes e assim possam avançar novamente. por vir a ser” (Jung, 1916a, p. 287).
Os símbolos são representações da psique. Eles
não só expressam a sabedoria racial e individualmen-
Simbolização
te adquirida armazenada pela humanidade, mas tam-
Um símbolo, na psicologia junguiana, tem duas fun- bém podem representar níveis de desenvolvimento que
ções importantes. Por um lado, ele representa uma estão muito além do presente status da humanidade.
tentativa de satisfazer um impulso instintual que foi O destino de uma pessoa e a maior evolução de sua
frustrado; por outro, ele é uma corporificação de ma- psique são marcados pelos símbolos. O conhecimento
terial arquetípico. O desenvolvimento da dança como contido em um símbolo não é diretamente aprendido
uma forma de arte é um exemplo de uma tentativa de pelos humanos; eles precisam decifrar o símbolo para
satisfazer simbolicamente um impulso frustrado como descobrir sua importante mensagem.
a pulsão sexual. Uma representação simbólica de uma Os dois aspectos de um símbolo, um retrospecti-
atividade instintual nunca pode ser inteiramente sa- vo e orientado pelos instintos, o outro prospectivo e
tisfatória, todavia, porque não alcança o objeto real e orientado pelas metas supremas da humanidade, são
a descarga de toda a libido. A dança não toma com- dois lados da mesma moeda. Um símbolo pode ser
pletamente o lugar de formas mais diretas de expres- analisado de qualquer lado. O tipo retrospectivo de
são sexual; conseqüentemente, as simbolizações mais análise expõe a base instintual de um símbolo; o tipo
adequadas de instintos frustrados estão sempre sen- prospectivo revela os anseios da humanidade por com-
do buscadas. Jung acreditava que a descoberta de sím- pletude, renascimento, harmonia, purificação e assim
bolos melhores, isto é, símbolos que descarreguem por diante. O primeiro é um tipo de análise redutivo,
mais energia e reduzam mais a tensão, permite à civi- causal, e o outro, teleológico, finalístico. Ambos são
lização avançar para níveis culturais cada vez mais necessários para uma completa elucidação do símbo-
altos. lo. Jung acreditava que o caráter prospectivo de um
Entretanto, um símbolo também desempenha o símbolo era negligenciado em favor da visão de que
papel de uma resistência a um impulso. À medida que ele é unicamente um produto de impulsos frustrados.
a energia está sendo drenada por um símbolo, ela não A intensidade psíquica de um símbolo é sempre
pode ser usada para descarga impulsiva. Quando al- maior que o valor da causa que o produziu. Isso quer
guém está dançando, por exemplo, essa pessoa não dizer que existe tanto uma força impulsionadora quan-
está envolvida em uma atividade sexual direta. Desse to uma força atrativa por trás da criação de um sím-
ponto de vista, um símbolo é o mesmo que uma subli- bolo. O impulso é dado pela energia instintual, a atra-
mação. Ambos envolvem deslocamentos da libido. ção é exercida por metas transcendentais. Nenhuma
A capacidade de um símbolo de representar li- delas, sozinha, é suficiente para criar um símbolo.
nhas futuras de desenvolvimento da personalidade, Conseqüentemente, a intensidade psíquica de um sím-
especialmente na busca de integralidade, desempe- bolo é o produto combinado de determinantes cau-
nha um papel altamente significativo na psicologia sais e finalistas e, portanto, é maior do que o fator
junguiana. Essa é uma contribuição distintiva e origi- causal isolado.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 105

PESQUISA CARACTERÍSTICA E mãos e a resposta à palavra mãe demora incomumen-


MÉTODOS DE PESQUISA te, esses fatores sugerem a presença de um complexo
materno. Se a reação a outras palavras relacionadas à
Jung foi um estudioso e um cientista. Ele descobria “mãe” for semelhante, isso confirma a existência des-
seus fatos em todo lugar: em mitos antigos e em con- se complexo. Outras indicações de que uma palavra-
tos de fada modernos; na vida primitiva e na civiliza- estímulo fora associada a um complexo incluíam re-
ção moderna; nas religiões dos mundos oriental e oci- petir ou entender mal a palavra, fazer movimentos
dental; na alquimia, astrologia, telepatia mental e corporais, dar respostas rimadas, gaguejar, dar res-
clarividência; nos sonhos e nas visões das pessoas nor- postas inventadas ou ser incapaz de responder. Em
mais; na antropologia, história, literatura e nas artes; muitos aspectos, o teste de associação de palavras de
e na pesquisa clínica e experimental. Em incontáveis Jung foi o primeiro exemplo de um teste clínico for-
artigos e livros, ele apresentou os dados empíricos nos mal. Ele incorporava muitas das características dos
quais suas teorias se baseiam. Jung insistiu que esta- atuais testes “projetivos”, tais como um conjunto-pa-
va mais interessado em descobrir fatos do que em for- drão de materiais-estímulo ao qual o sujeito respon-
mular teorias: “Eu não tenho nenhum sistema, falo dia conforme achava adequado, respostas normativas
de fatos” (comunicação pessoal aos autores, 1954). às palavras para diferentes tipos de sujeitos, e um
Uma vez que é completamente impossível revisar período de questionamento em que o sujeito discutia
a vasta quantidade de material empírico reunido por as palavras-estímulo que tinham produzido respostas
Jung em seus numerosos textos, teremos de nos re- incomuns.
signar à apresentação de uma minúscula porção da
sua pesquisa característica.
Estudos de Caso
Conforme observamos no capítulo precedente, Freud
Estudos Experimentais de Complexos
publicou seis longos estudos de caso. Em cada um
Os primeiros estudos de Jung que atraíram a atenção deles, Freud tentou caracterizar a dinâmica de uma
de psicólogos empregavam o teste de associação de condição patológica específica, por exemplo, Dora e
palavras em conjunto com medidas fisiológicas da histeria, Schreber e paranóia. Com exceção de alguns
emoção (Jung, 1973a). No teste de associação de pa- breves estudos de caso publicados antes de seu rom-
lavras, uma lista-padrão de palavras é lida para o su- pimento com Freud, Jung não escreveu qualquer es-
jeito, uma de cada vez, e a pessoa é instruída a res- tudo de caso comparável aos de Freud. Em Symbols of
ponder com a primeira palavra que lhe vier à mente. Transformation (1952b), Jung analisou as fantasias de
O tempo gasto para responder a cada palavra é medi- uma jovem mulher americana que conhecia apenas
do por um cronômetro. Nos experimentos de Jung, as por um artigo do psicólogo suíço Theodore Flournoy.
mudanças na respiração eram medidas por um pneu- Esse não é um estudo de caso, assim como também
mógrafo preso ao peito do sujeito, e as mudanças na não o é a análise de uma longa série de sonhos em
condutividade elétrica da pele, por um psicogalvanô- Psychology and Alchemy (1944) ou a análise de uma
metro preso à palma da mão. Essas duas medidas são série de pinturas feitas por um paciente em A Study in
evidências adicionais de reações emocionais que po- the Process of Individuation (1950). Nesses casos, Jung
dem acontecer diante de palavras específicas da lista, usou o método comparativo, empregando história,
pois sabemos bem que a respiração e a resistência da mito, religião e etimologia para mostrar a base arque-
pele são afetadas pela emoção. típica dos sonhos e das fantasias. Após sua ruptura
Jung utilizou tais medidas para descobrir com- com Freud, o método comparativo proporcionou a
plexos nos pacientes. Uma longa demora para respon- Jung seus dados básicos e o principal suporte para
der à palavra-estímulo mais mudanças respiratórias e seus conceitos. O leitor talvez não consiga assimilar
na resistência da pele indicam que a palavra tocou volumes arcanos de difícil leitura como Psychology and
em um complexo. Por exemplo, se a respiração de uma Alchemy (1944), Alchemical studies (1942-1957), Aion
pessoa se torna irregular, sua resistência a uma cor- (1951) e Mysterium Conjunctionis (1955b). O leitor
rente elétrica diminui devido ao suor nas palmas das encontrará, todavia, um exemplo facilmente digerí-
106 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

vel da metodologia comparativa de Jung em Flying alquimia, uma substância que transforma o material-
saucers: a modern myth of things seen in the sky (1958), base em ouro. Esse sonho significa, portanto, que o
escrito por Jung no final de sua vida. paciente precisa deslocar seu ego consciente do cen-
tro de sua personalidade para permitir que as pulsões
primitivas reprimidas sejam transformadas. O paci-
Estudos Comparativos de Mitologia,
ente só pode alcançar a harmonia interior integrando
Religião e as Ciências Ocultas
todos os elementos de sua personalidade, assim como
Já que é difícil encontrar evidências dos arquétipos o alquimista só podia atingir seu objetivo (o que ele
apenas em fontes contemporâneas, Jung dedicou jamais fez) pela mistura adequada de elementos bási-
muita atenção às pesquisas em mitologia, religião, cos. Em um outro sonho, um copo com uma massa
alquimia e astrologia. Suas investigações o levaram a gelatinosa está sobre uma mesa diante do sonhador
áreas que poucos psicólogos exploraram, e ele adqui- (p. 168). O copo corresponde ao aparato de alquimia
riu um vasto conhecimento de assuntos obscuros e usado para destilação, e os conteúdos, à substância
complexos, como religião hindu, taoísmo, yoga, con- amorfa que o alquimista espera transformar no lapis
fucionismo, a missa cristã, astrologia, pesquisa psí- ou pedra filosofal. Os símbolos alquímicos, nesse so-
quica, mentalidade primitiva e alquimia. nho, indicam que o sonhador está tentando ou espe-
Um dos mais impressionantes exemplos da tenta- rando transformar-se em algo melhor.
tiva de Jung de documentar a existência de arquéti- Quando o sonhador sonha com água, ela repre-
pos raciais é encontrado em Psychology and Alchemy senta o poder regenerativo da aquavitae do alquimis-
(1944). Jung acreditava que o rico simbolismo da al- ta; quando ele sonha em encontrar uma flor azul, a
quimia expressa muitos, se não todos, os arquétipos flor representa o local de nascimento da filius philoso-
dos humanos. Em Psychology and Alchemy ele exami- phorum (a figura hermafrodita da alquimia); e quan-
na uma extensa série de sonhos de um paciente (de do ele sonha que está atirando moedas de ouro no
um outro terapeuta) em comparação com a intricada chão, está expressando seu desprezo pelo ideal do al-
tapeçaria do simbolismo alquímico e conclui que em quimista. Quando o paciente desenha uma roda, Jung
ambos aparecem os mesmos aspectos básicos. É um vê uma conexão entre ela e a roda do alquimista, que
tour de force de análise simbólica que tem de ser lida representava o processo de circulação dentro da re-
em sua totalidade para ser apreciada. Os poucos exem- torta química, pela qual se supunha que ocorria a trans-
plos que apresentaremos pretendem apenas dar ao formação do material. De maneira semelhante, Jung
leitor uma idéia do método de Jung. interpreta um diamante que aparece no sonho do pa-
O material clínico consiste em mais de mil sonhos ciente como o ambicionado lapis, e um ovo, como a
e visões de um homem jovem. A interpretação de uma caótica matéria-prima com a qual o alquimista come-
seleção desses sonhos e visões ocupa a primeira me- çou a trabalhar.
tade do livro. O resto do livro contém um relato aca- Por toda a série de sonhos, conforme Jung de-
dêmico da alquimia e sua relação com o simbolismo monstra, existem grandes paralelos entre os símbolos
religioso. empregados pelo sonhador para representar seus pro-
Em um dos sonhos, algumas pessoas estão cami- blemas e suas metas e os símbolos usados pelos alqui-
nhando para a esquerda em torno de um quadrado. O mistas medievais para representar suas diligências. O
sonhador não está no centro, mas em um dos lados. aspecto surpreendente da série de sonhos é que eles
Elas dizem que um gibão vai ser reconstruído (p. 119). retratam de maneira mais ou menos exata os aspec-
O quadrado é um símbolo do trabalho do alquimista, tos materiais da alquimia. Jung consegue apontar
que consistia em separar a unidade caótica original duplicações exatas de objetos nos sonhos e nas ilus-
do material fundamental em quatro elementos e em trações encontradas em antigos textos de alquimia.
recombiná-los em uma unidade superior e mais per- Ele conclui, a partir disso, que a dinâmica da persona-
feita. A unidade perfeita é representada por um círcu- lidade do alquimista medieval conforme projetada em
lo, ou mandala, que aparece nesse sonho como o ca- suas investigações químicas e a dinâmica do paciente
minhar em torno de um quadrado. O gibão ou macaco são exatamente as mesmas. Essa correspondência exa-
representa a misteriosa substância transformadora da ta de imagens prova a existência de arquétipos uni-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 107

versais. Além disso, Jung, que executou investigações do elemento simbólico. Há muitos exemplos de am-
antropológicas na África e em outras partes do mun- plificação na obra de Jung, como o peixe (1951) e a
do, encontrou os mesmos arquétipos expressos nos árvore (1954c).
mitos de raças primitivas. Eles também se expressam
na religião e na arte, tanto modernas quanto primiti-
O Método da Série de Sonhos
vas: “As formas que a experiência assume em cada
indivíduo podem ser infinitas em suas variações, mas, Freud, podemos lembrar, analisava os sonhos um de
como os símbolos alquímicos, todas são variantes de cada vez fazendo o paciente associar livremente a cada
certos tipos centrais, e estes ocorrem universalmen- componente sucessivo do sonho. Depois, usando o
te” (Jung, 1944, p. 463). material do sonho e as associações livres, ele chegava
a uma interpretação do significado do sonho. Jung,
embora respeitando essa abordagem, desenvolveu um
Sonhos
outro método para interpretar os sonhos. Em lugar
Jung, como Freud, prestou muita atenção aos sonhos. de um único sonho, Jung utilizava uma série de so-
Ele os considerava como sendo prospectivos assim nhos obtidos de uma pessoa:
como retrospectivos em conteúdo, e compensatórios
“Eles (os sonhos) formam uma série coerente no
para aspectos da personalidade do sonhador negligen-
curso da qual o significado gradualmente se des-
ciados na vida de vigília. Por exemplo, um homem
dobra mais ou menos espontaneamente. A série é
que negligencia sua anima terá sonhos em que apare-
o contexto que o próprio sonhador proporciona.
cem figuras de anima. Jung também diferenciava os
É como se não apenas um texto, mas também vá-
sonhos “grandes”, em que existem muitas imagens
rios estivessem diante de nós, lançando luz de
arquetípicas, dos sonhos “pequenos”, cujos conteúdos
todos os lados sobre os termos desconhecidos, de
estão mais estreitamente relacionados às preocupa-
modo que uma leitura de todos os textos é sufici-
ções conscientes do sonhador.
ente para elucidar as passagens difíceis em cada
texto individual . . . Sem dúvida, a interpretação
O Método da Amplificação de cada passagem individual talvez seja apenas
uma conjetura, mas a série como um todo nos dá
Este método foi desenvolvido por Jung para ex-
todas as pistas de que precisamos para corrigir
plicar certos elementos dos sonhos considerados como
quaisquer possíveis erros nas passagens preceden-
possuindo um rico significado simbólico. Ele contras-
tes.” (1944, p. 12)
ta com o método da associação livre. Ao associar li-
vremente, a pessoa em geral dá uma série de respos- Na psicologia, isso é chamado de método de consis-
tas verbais lineares a um elemento do sonho. O tência interna e é amplamente empregado com mate-
elemento do sonho é meramente o ponto de partida rial qualitativo como sonhos, histórias e fantasias. O
para associações subseqüentes, e as associações po- uso que Jung fez disso é apresentado em seu livro
dem e normalmente se afastam do elemento. No mé- Psychology and Alchemy (1944), em que é analisada
todo da amplificação, o sonhador é solicitado a ficar uma série extremamente longa de sonhos.
atento ao elemento e a fazer múltiplas associações a
ele. As respostas dadas formam uma constelação em
O Método da Imaginação Ativa
torno de um determinado elemento do sonho e cons-
tituem os significados multifacetados que ele tem para Neste método, o sujeito deve concentrar sua atenção
o sonhador. Jung supunha que um símbolo verdadei- em uma imagem onírica impressionante, mas ininte-
ro é aquele que tem muitas faces e jamais é completa- ligível, ou em uma imagem visual espontânea, e ob-
mente cognoscível. Os analistas também podem aju- servar o que acontece com a imagem. As faculdades
dar a amplificar o elemento informando o que sabem críticas devem ser suspensas e os acontecimentos, ob-
sobre ele. Eles podem consultar textos antigos, mito- servados e anotados com absoluta objetividade. Quan-
logia, contos de fadas, textos religiosos, etnologia e do essas condições são fielmente observadas, a ima-
dicionários etimológicos para ampliar os significados gem normalmente sofre uma série de mudanças que
108 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

iluminam uma grande quantidade de material incons- tencional) e ternos (i. e., uma ênfase nos relaciona-
ciente. O seguinte exemplo foi tirado de Essays on a mentos e sentimentos ternos). Helson concluiu que
Science of Mythology (1949), de Jung e Kerenyi: as autoras de ficção tendem à introversão, à intuição
e ao sentimento, e inferiu que os modos heróico e
“Eu vi um pássaro branco com as asas abertas. Ele
terno representam “a ‘voz’ das funções de intuição e
pousou na figura de uma mulher, vestida de azul,
de sentimento, respectivamente” (p. 510). Helson
que estava sentada como uma estátua antiga. O
(1978) avaliou papéis, necessidades e preocupações
pássaro pousou em sua mão, e nela havia um grão
do conteúdo expressos em 79 artigos de críticos de
de trigo. O pássaro tomou-o em seu bico e voou
livros infantis. Uma análise de agrupamento subse-
novamente para o céu.” (p. 229)
qüente revelou quatro agrupamentos de críticos, re-
Jung salientou que o fluxo de imagens pode ser presentando elucidação, apreciação, contestação e ma-
representado por desenho, pintura e modelagem. Nes- nutenção de padrões. Uma classificação quádrupla dos
se exemplo, a pessoa fez uma pintura para acompa- artigos produzida por valores elevados ou baixos nos
nhar a descrição verbal. Na pintura, a mulher foi re- primeiros dois desses agrupamentos correspondia às
tratada com seios grandes, o que sugeriu a Jung que a quatro funções de Jung. Os artigos com valor alto em
visão representava uma figura materna. (Uma série elucidação e baixo em apreciação correspondiam ao
fascinante de 24 desenhos de uma mulher durante pensamento junguiano, enquanto os artigos com va-
sua análise é reproduzida em Jung, 1950.) lor baixo-alto refletiam uma orientação para o senti-
As fantasias produzidas pela imaginação ativa mento. Da mesma forma, artigos com valor baixo-baixo
normalmente têm uma forma melhor do que os so- sugeriam sensação, e artigos com valor alto-alto reve-
nhos noturnos, porque são recebidas por uma consci- lavam uma abordagem intuitiva à crítica. Outros tra-
ência vigil ao invés de adormecida. balhos de Helson (1982) descrevem quatro “estilos
de processamento da informação” paralelos às quatro
funções de Jung. Ela apresentou uma descrição geral
da influência das diferenças de tipo na crítica literá-
PESQUISA ATUAL ria, argumentando que os comentários dos críticos são
orientados por suas funções dominantes e auxiliares.
A teoria de Jung não estimulou muitas pesquisas em- Ela também estava sintonizada com a expansão da
píricas, em grande parte devido à dificuldade de quan- consciência que Jung disse ocorrer durante a indivi-
tificar muitos de seus constructos. Mas em duas áreas duação, e usou o crítico I. A. Richards como um exem-
acumulou-se um corpo de pesquisa digno de nota. plo de alguém que se dedicou ao pensamento, à sen-
sação, à intuição e depois ao sentimento durante o
curso de sua carreira como crítico. Helson concluiu
A Tipologia de Jung
sugerindo “proveitosas explorações com o roteiro da
A intenção de Jung não era desenvolver uma tipolo- elegante teoria de Jung” (p. 416).
gia formal para distinguir os indivíduos. Ele estava Carlson e Levy (1973) usaram o Indicador de Tipo
mais preocupado em descrever os processos cogniti- Myers-Briggs (MBTI – Myers-Briggs Type Indicator, (ver
vos ou as potencialidades que todos possuem e preci- próxima seção) para classificar sujeitos segundo os
sam desenvolver. No entanto, sua discussão das atitu- tipos junguianos básicos. Eles então confirmaram vá-
des e das funções proporcionou o ímpeto para rias predições baseadas nas descrições de Jung das
pesquisas fascinantes sobre as diferenças individuais, características desses tipos. Por exemplo, os tipos pen-
notavelmente de Helson e Carlson. santes introvertidos eram significativamente melho-
Helson (1973) dedicou-se à dinâmica e à estrutu- res na memória a curto prazo para dígitos emocional-
ra. Ela discutiu o relacionamento entre o ego e o in- mente neutros, mas os tipos sentimentais extrovertidos
consciente conforme revelado por autoras de ficção eram significativamente mais acurados na memória
caracterizadas por modos de escrever heróicos (i. e., de reconhecimento de nomes e expressões faciais afe-
uma ênfase na realização, assertividade e agressão in- tivamente significativas. Da mesma forma, tipos in-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 109

tuitivos extrovertidos estavam super-representados O mais influente dos testes derivados da teoria de
entre voluntários do serviço social, comparados a uma Jung foi o Indicador de Tipo Myers-Briggs (MBTI;
amostra equivalente de não-voluntários. Myers & McCaulley, 1985; Myers & Myers, 1980). O
Os trabalhos subseqüentes de Carlson (1980) exa- MBTI identifica 16 tipos baseados nas distinções de
minaram diferenças tipológicas na memória para ex- Jung entre extroversão – introversão (E-I), pensamen-
periências pessoais significativas, novamente usando to – sentimento (T-F, correspondendo às palavras em
o MBTI para categorizar sujeitos. Em um dos estudos, inglês, thinking e feeling) e sensação – intuição (S-N),
os sujeitos foram solicitados a descrever sua experi- mais a distinção de Isabel Myers entre julgar e perce-
ência mais vívida de cada um de sete afetos. Quando ber (J-P). A distinção J-P avalia se a orientação de um
juízes familiarizados com a teoria tipológica foram indivíduo em relação ao mundo exterior vem do par
solicitados a predizer se feitios de memória vinham de função racional (julgar) ou do irracional (perce-
de tipos pensantes introvertidos ou de tipos sentimen- ber). Os extrovertidos têm uma orientação externa
tais extrovertidos, uma designação correta para a ca- dominante, de modo que, nos extrovertidos, o escore
tegoria tipológica foi feita para 13 dos 15 sujeitos. J-P indica que o par da função contém a função domi-
Além disso, os extrovertidos tinham significativamente nante. Uma pessoa que recebe uma classificação ESTJ
mais memórias “sociais”, e os introvertidos mais me- no MBTI, por exemplo, teria o pensamento (T) como
mórias “individuais”, para as emoções de alegria, ex- função dominante, porque essa pessoa prefere o pen-
citação e vergonha. Igualmente, os tipos sentimentais samento do par de função racional, e o J indica que o
tinham significativamente mais lembranças emocio- par de função racional ou de julgamento é dominan-
nalmente vívidas do que os tipos pensantes nessas te. Os introvertidos têm uma orientação interna do-
mesmas três emoções. Carlson também descobriu que minante, de modo que, nos introvertidos, o escore J-P
os tipos intuitivos tendiam significativamente mais do indica a função auxiliar. Uma pessoa que recebe uma
que os tipos sensoriais a gerar constructos interpesso- classificação ISTJ, por exemplo, teria a sensação (S)
ais inferenciais (em uma oposição a concretos) no teste como função dominante, porque essa pessoa prefere
REP de George Kelly (ver Capítulo 10). Da mesma a sensação do par de função irracional, e o J indica
forma, os intuitivos faziam comentários mais partici- que o par de função racional ou de julgamento con-
pativos ao iniciar um relacionamento hipotético, mas tém a função auxiliar, em vez da dominante. Além
os tipos sensoriais ofereciam autodescrições mais con- disso, a preferência J-P indica uma constelação de ati-
cretas. Carlson concluiu que seus resultados apoia- tudes e de comportamentos preferidos, exatamente
vam “duas suposições básicas da teoria tipológica jun- como indicam as preferências I-E, T-F e S-N. O Manu-
guiana – o relacionar-se social dos extrovertidos... e a al do MBTI fornece as seguintes estimativas de fre-
qualidade ‘emocional’ do julgamento sentimental” (p. qüência de preferências específicas nos Estados Uni-
807). Em geral, os resultados “apoiaram claramente dos: cerca de 75% da população preferem E e S.
as hipóteses tiradas da teoria tipológica junguiana” Aproximadamente 55-60% preferem J. Cerca de 60%
(p. 809). dos homens preferem T, e aproximadamente 65% das
mulheres preferem F.
A Tabela 3.1 contém resumos de MBTI de 16 ti-
O Indicador de Tipo Myers-Briggs
pos possíveis. Em geral, os I são caracterizados por
Conforme observamos anteriormente, Jung descreveu uma profundidade de concentração e uma preferên-
as atitudes e funções não como a base para uma tipo- cia pelo mundo interior das idéias; os E são caracteri-
logia, mas como potencialidades existentes em todas zados pela amplitude de interesses e sentem-se mais
as pessoas, em graus variados. Essas potencialidades à vontade no mundo externo das pessoas e coisas. Os
precisam se desenvolver no processo de avançar para S baseiam-se nos fatos, enquanto os N conseguem
a auto-realização. Mas o modelo realmente sugere uma entender possibilidades e relações. Os T enfatizam a
tipologia, e foram feitas várias tentativas de desen- análise lógica e impessoal, e os F são calorosos e sim-
volver testes de lápis-e-papel para classificar as pes- páticos e baseiam seus julgamentos em valores pesso-
soas de acordo com essa tipologia (Kersey & Bates, ais. Finalmente, os J tendem a ser organizados, e os P
1978; Wheelwright, Wheelwright & Buehler, 1964). tendem a ser adaptáveis e espontâneos.
110 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

TABELA 3.1 Os 16 Tipos


Tipos Sensoriais Tipos Intuitivos

ISTJ ISFJ INFJ INTJ


Sério, quieto, obtém sucesso pela Quieto, cordial, responsável e Obtém sucesso pela perseverança, Em geral tem uma mente original e
concentração e meticulosidade. consciencioso. Trabalha originalidade e por fazer o que for muita motivação para realizar as
Prático, organizado, objetivo, dedicadamente para cumprir suas necessário ou desejado. Esforça-se sua idéias e propósitos. Em campos
lógico, realista e confiável. Cuida obrigações. Empresta estabilidade a ao máximo em seu trabalho. que o interessam, tem grande
para que tudo esteja bem qualquer projeto ou grupo. Tranqüilamente convincente, capacidade de organizar uma tarefa
organizado. Assume Meticuloso, esmerado, acurado. consciencioso, preocupado com os e executá-la, com ou sem ajuda.
responsabilidades. Decide o que Seus interesses normalmente não outros. Respeitado por seus Cético, crítico, independente,
deve ser feito e trabalha são técnicos. Capaz de ser paciente princípios firmes. Costuma ser determinado, às vezes obstinado.
perseverantemente para isso, com detalhes necessários. Leal, respeitado e seguido por suas Precisa aprender a ceder em pontos
independentemente de protestos respeitoso, perceptivo, preocupado claras convicções sobre como servir menos importantes para ganhar
ou distrações. com como as outras pessoas se melhor ao bem comum. nos mais importantes.
Introvertidos

Introvertidos
sentem.

ISTP ISFP INFP INTP


Observador imparcial – quieto, Discreto, tranqüilamente cordial, Cheio de entusiasmos e lealdades, Quieto e reservado. Gosta
reservado, observando e analisando sensível, bondoso, modesto em mas raramente os menciona, a não especialmente de atividades
a vida com curiosidade objetiva e relação às próprias capacidades. ser que conheça bem a outra teóricas e científicas. Gosta de
inesperados lampejos de bom Evita desentendimentos, não impõe pessoa. Preocupa-se com resolver problemas com lógica e
humor. Em geral interessado em aos outros seus valores e opiniões. aprendizagem, idéias, linguagem e análise. Em geral, interessa-se
causa e efeito, em como e por que Geralmente não se interessa em projetos independentes e pessoais. principalmente por idéias, não
as coisas mecânicas funcionam, e liderar, e é um seguidor leal. Não se Tende a assumir tarefas gosta muito de festas ou de bater
em organizar os fatos usando preocupa muito em fazer logo as demasiadamente e, de alguma papo. Costuma ter interesses
princípios lógicos. coisas, porque usufrui do momento maneira, consegue realizá-las. claramente definidos. Precisa de
presente e não quer estragá-lo por Amistoso, mas geralmente muito uma profissão em que exista algum
pressa ou por esforços indevidos. absorvido no que está fazendo para interesse sólido e útil.
ser sociável. Pouca preocupação
com possessões ou ambiente físico.

ESTP ESFP ENFP ENTP


Bom em resolver problemas na Sociável, calmo, tolerante, Calorosamente entusiasta, bom Rápido, engenhoso, bom em
hora em que surgem. Não se amistoso, gosta de tudo e torna a astral, engenhoso, imaginativo. muitas atitudes e situações. Uma
preocupa, usufrui das situações que vida mais divertida para os outros Capaz de fazer quase tudo que lhe companhia estimulante, atento e
lhe acontecem. Tende a gostar de por seu bom astral. Gosta de interessa. Rápido em solucionar sem papas na língua. Pode
coisas mecânicas e de esportes, esportes e de fazer os fatos qualquer dificuldade e pronto a defender qualquer lado de uma
junto com amigos. Adaptável, acontecerem. Percebe o que está ajudar qualquer pessoa com um questão, só para se divertir. Capaz
tolerante, geralmente conservador acontecendo e participa de bom problema. Muitas vezes conta com de resolver problemas novos e
em seus valores. Não gosta de grado. Acha mais fácil lembrar fatos sua capacidade de improvisar, ao desafiadores, mas pode
longas explicações. É melhor no do que dominar teorias. É melhor invés de com uma preparação negligenciar nas atividades
manuseio de objetos reais, que em situações em que são antecipada. Normalmente é capaz rotineiras. Tende a passar de um
podem ser trabalhados, necessários o senso comum e a de encontrar razões convincentes novo interesse para outro. Hábil em
manipulados, desmontados ou capacidade prática tanto com para tudo o que deseja. encontrar razões lógicas para aquilo
Extrovertidos

Extrovertidos
montados. pessoas quanto com situações. que deseja.

ESTJ ESFJ ENFJ ENTJ


Prático, realista, objetivo, com uma Amistoso, conservador, popular, Responsivo e responsável. Cordial, franco, decidido, líder em
capacidade natural para negócios consciencioso, um cooperador Geralmente sente uma atividades. Geralmente bom em
ou mecânica. Não se interessa por nato, um membro ativo de comitês. preocupação real por aquilo que os tudo o que requer raciocínio e
fatos e objetos para os quais não vê Precisa de harmonia e pode ser outros pensam ou querem e tenta conversa inteligente, como falar em
utilidade, mas é capaz de se dedicar bom em criá-la. Está sempre lidar com as situações com a devida público. Costuma ser bem
quando necessário. Gosta de fazendo algo de bom para alguém. consideração pelos sentimentos informado e gosta de aumentar
organizar e dirigir atividades. Pode Trabalha melhor com alheios. Capaz de apresentar uma seus conhecimentos. Às vezes pode
dar um bom administrador, encorajamento e elogios. Principal proposta ou liderar uma discussão parecer mais positivo e confiante do
especialmente se lembrar de interesse é por fatos que afetam grupal com facilidade e tato. que justifica sua experiência em
considerar os sentimentos e os direta e visivelmente a vida das Sociável, popular, simpático. uma determinada área.
pontos de vista alheios. pessoas. Responde a elogios e críticas.

Fonte: Reimpressa com a permissão de Myers e McCaulley, 1985.


TEORIAS DA PERSONALIDADE 111

A teoria tipológica subjacente ao MBTI segue Jung lo que os sujeitos realmente tinham testemunhado
ao acreditar que as pessoas nascem com uma predis- visualmente. Entretanto, quando uma pergunta en-
posição para um tipo específico. Como conseqüência, ganadora se referiu a um sinal de trânsito de parar
elas tendem a desenvolver suas funções preferidas e que não estivera presente, os tipos intuitivos intro-
auxiliares e a deixar de lado as funções não-preferi- vertidos cometeram significativamente mais erros de
das durante a primeira parte de suas vidas. Na meia- lembrança do que os tipos sensoriais extrovertidos.
idade, elas conseguem controlar melhor as duas ou- Em geral, os tipos introvertidos e intuitivos, quer iso-
tras funções, e esses processos menos desenvolvidos ladamente ou em combinação, tendiam mais a acei-
podem eventualmente entrar na consciência a serviço tar tanto informações consistentes quanto enganado-
dos processos dominantes. A ênfase na pesquisa e na ras. Isso levava à maior exatidão no primeiro caso e a
aplicação do MBTI, todavia, continua no tipo confor- à menor exatidão no segundo.
me medido. Outras pesquisas indicam que as escalas do MBTI
O Manual do MBTI e as publicações relacionadas pontuadas como variáveis contínuas em vez de tipo-
contêm muitas informações referentes à aplicação dos logias ou-ou têm utilidade preditiva. Por exemplo,
elementos de tipologia aos ambientes de aconselha- Cann e Donderi (1986) descobriram que os escores
mento, educação e trabalho. J. G. Carlson (1985), de intuição correlacionavam-se com a proporção de
Carlyn (1977), Murray (1990) e Thompson e Borre- sonhos categorizados como arquetípicos (r = 0,37) e
llo (1986) apresentam evidências da fidedignidade e os escores de introversão correlacionavam-se com a
validade do MBTI (ver também o intercâmbio entre J. freqüência dos sonhos comuns (r = 0,39). Tomado
G. Carlson [1989a, 1989b] e Healy [1989a, 1989b]). como um todo, então, o MBTI é promissor como uma
Mas ainda resta a pergunta sobre se o MBTI oferece medida das preferências junguianas e como um estí-
uma ponte para testes experimentais dos conceitos mulo para trabalhos experimentais.
junguianos.
Um crescente número de pesquisadores tem de-
monstrado que as escalas do MBTI realmente são úteis
nos ambientes experimentais. A pesquisa de Carlson, STATUS ATUAL E AVALIAÇÃO
discutida anteriormente, certamente se encaixa nessa
categoria. Hicks (1985) usou escores do MBTI em uma A psicologia junguiana tem muitos admiradores e pro-
investigação do “erro fundamental de atribuição”. Esse ponentes no mundo todo. Muitos deles são psicana-
erro se refere a uma tendência cognitiva comum em listas praticantes que usam o método de psicoterapia
observadores de concluir que os autores de ensaios de Jung e aceitam seus postulados fundamentais em
literários realmente acreditam naquilo que escrevem, relação à personalidade. Alguns são teóricos que ela-
mesmo quando os observadores sabem que os auto- boraram as idéias de Jung. Entre estes estão Gerhard
res foram instruídos a apoiar aquela determinada idéia. Adler (1948), Michael Fordham (1947), Esther Har-
Hicks predisse que os tipos intuitivos, com sua capa- ding (1947), Erich Neumann (1954, 1955), Herbert
cidade de se imaginar em situações hipotéticas, e os Read (1945), Jolande Jacobi (1959) e Frances Wi-
pensantes, que são ótimos em análises impessoais ckes (1950). Jung também recebeu um grande apoio
objetivas, deveriam ser mais resistentes a esse erro de leigos, como por exemplo de Paul Mellon dos Me-
fundamental de atribuição. Tal predição foi apoiada llons de Pittsburgh, que foi presidente da Fundação
pelo achado de que os tipos pensantes intuitivos, en- Bollingen (que recebeu esse nome em homenagem à
tre todos os tipos, eram os que menos cometiam o residência de campo de Jung no Lago Zurique). A
erro de supor que os criadores de testes acreditavam Fundação Bollingen financia a publicação de livros
naquilo que escreviam quando havia evidências do junguianos por meio da Princeton University Press. O
contrário. Da mesma forma, Ward e Loftus (1985) projeto mais ambicioso da Fundação Bollingen até
descobriram, em uma tarefa de testemunho ocular, agora é a tradução e a publicação das obras comple-
que os tipos intuitivos introvertidos tinham melhor tas de Jung em inglês, sob a supervisão editorial de
memória do que os tipos sensoriais extrovertidos quan- Read, Fordham e Adler. Finalmente, centros de influ-
do as perguntas do teste eram consistentes com aqui- ência para a disseminação das idéias de Jung podem
112 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

ser encontrados nos Institutos Junguianos, estabele- ca? Muito pouca, pelo que podemos perceber, exceto
cidos em várias cidades. pelo teste de associação de palavras e os conceitos de
A influência de Jung fora dos campos da psiquia- introversão e extroversão. O teste de associação de
tria e da psicologia tem sido considerável. O historia- palavras não começou com Jung. Galton normalmen-
dor Arnold Toynbee reconhece que deve a Jung por te recebe os créditos pela invenção do teste, que foi
ele ter aberto “uma nova dimensão na esfera da vida”. introduzido na psicologia experimental por Wundt.
O escritor Philip Wylie é um grande admirador de Conseqüentemente, quando Jung proferiu conferên-
Jung, assim como o autor e crítico Lewis Mumford, e cias sobre o método da associação de palavras na
o antropólogo Paul Radin. Hermann Hesse também Clark University, em 1909, ele não soou estranho para
admirava Jung (Serrano, 1966). Talvez o maior im- os psicólogos da audiência. Além disso, os estudos de
pacto de Jung tenha sido sobre o pensamento religio- Jung sobre a associação de palavras empregavam uma
so moderno (Progoff, 1953). Jung foi convidado a metodologia quantitativa, experimental, que estava
proferir as conferências Terry na Yale University, so- fadada a ser bem aceita por psicólogos que se orgu-
bre Psicologia e Religião (1938). Jung foi severamente lhavam de ser científicos. O uso do teste de associa-
criticado por apoiar o nazismo (Feldman, 1945), em- ção de palavras é discutido em vários exames da psi-
bora ele e seus seguidores tenham negado vigorosa- cologia clínica e das técnicas projetivas (Bell, 1948;
mente as acusações e afirmado que Jung foi mal-in- Levy, 1952; Rotter, 1951; Anastasi, 1988).
terpretado (Harms, 1946; Saturday Review, 1949; Mais difícil é explicar o interesse da psicologia pela
Jaffé, 1971; Cohen, 1975). tipologia de Jung. Foram criados vários testes de in-
Jung foi atacado por psicanalistas da escola freu- troversão – extroversão, e existe muita literatura psi-
diana, começando pelo próprio Freud. Ernest Jones cológica sobre o assunto. Eysenck (ver Capítulo 9)
(1959) opinou que depois dos “grandes estudos de identificou a introversão – extroversão como uma das
Jung sobre associação e demência precoce, ele decaiu três dimensões primárias da personalidade, as outras
para uma pseudofilosofia da qual jamais emergiu” (p. duas sendo o neuroticismo e o psicoticismo. Outros es-
165). Glover (1950), um psicanalista inglês, talvez tudos da tipologia de Jung foram realizados por Gor-
seja o responsável pelo ataque mais completo à psico- low, Simonson e Krauss (1966) e Ball (1967). Como
logia analítica. Ele ridicularizou o conceito de arqué- discutimos previamente, os testes que avaliam as qua-
tipo como metafísico e impossível de provar. Ele acre- tro funções psicológicas de pensamento, sentimento,
ditava que os arquétipos podem ser inteiramente sensação e intuição, juntamente com as atitudes de
explicados em termos da experiência e que é absurdo introversão e extroversão foram construídos por Gray
postular uma herança racial. Glover disse que Jung e Wheelwright (1964) e Myers e Briggs (1962).
não tinha conceitos desenvolvimentais para explicar A psicologia analítica não foi alvo da crítica mi-
o crescimento da mente. A principal crítica de Glover, nuciosa sofrida pela psicanálise freudiana por parte
todavia, e uma que ele reiterou várias vezes, é que a dos psicólogos. Nem ela encontrou um lugar substan-
psicologia de Jung seria um retrocesso a uma psicolo- cial nas histórias-padrão da psicologia. Boring, em seu
gia obsoleta da consciência. Ele acusou Jung de des- History of Experimental Psychology, dedicou seis pági-
truir o conceito freudiano do inconsciente e de erigir nas a Freud e quatro linhas a Jung. Peters, em sua
em seu lugar um ego consciente. Glover não preten- revisão e condensação do History of Psychology de
deu ser imparcial e nem objetivo em sua avaliação da Brett, após uma discussão bastante completa de Freud,
psicologia junguiana. (Para outra comparação das vi- dedicou uma página a Adler e uma a Jung. Ele consi-
sões de Freud & Jung, ver Gray, 1949; também Dry, dera o trabalho final de Jung tão misterioso que é
1961.) Selesnick (1963) argumentou que Jung, du- quase impossível discuti-lo. Embora existam algumas
rante sua associação com Freud, influenciou o pensa- exceções (Watson & Evans, 1991, dedicam 20 pági-
mento de Freud de várias maneiras significativas. nas a Jung), o retrato mais típico continua sendo o de
Que influência teve a teoria de Jung da personali- Leahey (1992), que tem um capítulo inteiro sobre
dade sobre o desenvolvimento da psicologia científi- Freud, mas menciona Jung apenas de passagem.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 113

Por que a psicologia ignorou a psicologia analíti- mos negar que muitas das idéias de Jung estão circu-
ca de Jung quando o mundo em geral o respeita e lando atualmente, quer ele seja responsável ou não.
homenageia tanto? Uma razão importante é que a Tomemos, por exemplo, a concepção de auto-realiza-
psicologia de Jung baseia-se em achados clínicos e em ção. Este ou conceitos semelhantes são encontrados
fontes históricas e míticas em vez de em investiga- nos textos de Goldstein, Rogers, Allport e Maslow, para
ções experimentais. Ela não atraiu o experimentalista nomear apenas aqueles psicólogos cujas idéias são
inflexível mais do que o freudianismo. De fato, Jung apresentadas neste livro. Em lugar nenhum vemos
tem tido muito menos apelo do que Freud, porque Jung recebendo o crédito por ter desenvolvido o con-
em seus textos existem tantas discussões sobre ocul- ceito. Isso, em si mesmo, não significa que Jung não
tismo, misticismo e religião, que os psicólogos apa- teve nenhuma influência, quer direta, quer indireta-
rentemente se sentem repelidos. (Essa crítica enfure- mente sobre esses homens. Eles podem ter tomado o
ceu Jung. Ele insistiu que seu interesse pelas ciências conceito emprestado de Jung, inconscientemente, ou
ocultas da alquimia e astrologia e pela religião não de outros que foram influenciados por Jung. Ou con-
implica, em qualquer sentido, uma aceitação dessas sideremos a idéia de desenvolvimento como progre-
crenças. Elas são estudadas e aparecem em seus tex- dir de um estado global para um estado diferenciado
tos porque contêm evidências para a sua teoria. Não e para um estado integrado, que encontramos em Jung
cabe a Jung dizer se Deus existe ou não; que a maio- e em Murphy (1947). Será que Jung influenciou Mur-
ria das pessoas acredita em Deus é tão verdadeiro phy (o oposto é impossível, porque as idéias de Jung
quanto o fato de que a água corre morro abaixo: “Deus foram enunciadas antes das de Murphy) ou será que
é um fato psíquico e não-físico óbvio, isto é, um fato Jung influenciou alguém mais que influenciou Mur-
que pode ser estabelecido psiquicamente, mas não fi- phy, ou será que não existe nenhuma conexão entre
sicamente” [1952c, p. 464].) Além disso, ele aceita os dois homens além do fato de serem figuras con-
idéias fora de moda como características adquiridas e temporâneas que viveram na civilização ocidental?
teleologia. Seu estilo de apresentação de idéias já foi Não existe nenhuma evidência de uma coisa ou de
considerado desconcertante, obscuro, confuso e de- outra. Será que o otimismo que caracteriza muitas
sorganizado por muitos psicólogos. (Sugestões sobre idéias recentes, por exemplo, as de Rogers e Allport, é
como ler Jung são encontradas em A Primer of Jungi- um reflexo do otimismo de Jung ou um reflexo da
an Psychology, de Hall e Nordby, 1973.) Como conse- época? Será que a ênfase de Jung no comportamento
qüência, as teorias de Jung parecem ter estimulado orientado para um objetivo montou o cenário para
muito pouco interesse entre os psicólogos e ainda outras teorias intencionais, ou será que o propósito,
menos na pesquisa. O fato de Jung ser considerado como um conceito teórico, está atualmente na moda
um psicanalista também contribuiu para que a psico- por ter sido o século XIX tão mecanicista? Essas são
logia negligenciasse seu sistema. Quando pensamos perguntas difíceis de responder.
na psicanálise, geralmente pensamos em Freud e ape- Para se tornar mais aceitável para os psicólogos
nas secundariamente em Jung e Adler. A estatura olím- cientificamente orientados, a psicologia junguiana
pica de Freud na psicanálise desvia a atenção de ou- precisa que as hipóteses derivadas da teoria sejam
tros astros no campo. testadas experimentalmente. Nós temos em mente não
Embora Jung não tenha tido muita influência di- o tipo clínico de estudo (Adler, 1949; Fordham, 1949,
reta sobre a psicologia, talvez certos progressos na Hawkey, 1947; Kirsch, 1949) ou estudos tipológicos
psicologia devam mais a Jung do que imaginamos. As (p. ex., Eysenck, Gray & Wheelwright, e Myers – Bri-
influências indiretas são difíceis de avaliar porque as ggs), mas uma abordagem mais experimental, como
idéias que passam a circular podem ser devidas à in- a encontrada no trabalho de Bash (1952), Melhado,
fluência de uma única pessoa ou podem surgir mais (1964), Meier (1965) e Dallett (1973). Quando tive-
ou menos espontaneamente nas mentes de algumas rem sido feitos mais estudos desse tipo, o status das
pessoas aproximadamente no mesmo momento, de- teorias de Jung entre os psicólogos provavelmente vai
vido ao clima intelectual predominante. Não pode- melhorar, porque eles preferem teorias que geram hi-
114 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

póteses testáveis e que instigam pesquisas. É preciso fenômenos humanos, é uma realização notável. A ori-
muita engenhosidade para formular proposições em- ginalidade e a audácia do pensamento de Jung têm
píricas a partir da complexidade da teoria junguiana. poucos paralelos na história científica recente, e ne-
Considerando tudo, a teoria de Jung da persona- nhuma outra pessoa, fora Freud, abriu mais janelas
lidade, conforme desenvolvida em seus prolíficos tex- conceituais para o que Jung chamaria de “a alma do
tos e conforme aplicada a uma ampla variedade de homem”.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 115

CAPÍTULO 4

Teorias Psicológicas
Sociais: Adler, Fromm,
Horney e Sullivan

INTRODUÇÃO E CONTEXTO ................................................................................................... 116

A L F R E D A D L E R ........................................................................................................... 117
FINALISMO FICCIONAL .......................................................................................................... 120
BUSCA DE SUPERIORIDADE .................................................................................................... 121
SENTIMENTOS DE INFERIORIDADE E COMPENSAÇÃO ............................................................. 121
INTERESSE SOCIAL ................................................................................................................. 122
ESTILO DE VIDA ..................................................................................................................... 123
O SELF CRIATIVO ................................................................................................................... 125
NEUROSE .............................................................................................................................. 125
PESQUISA CARACTERÍSTICA E MÉTODOS DE PESQUISA .......................................................... 126
Ordem de Nascimento e Personalidade 126
Memórias Iniciais 126
Experiências da Infância 127
PESQUISA ATUAL .................................................................................................................. 127
Interesse Social 127

E R I C H F R O M M ............................................................................................................ 128

K A R E N H O R N E Y ......................................................................................................... 133
HORNEY E FREUD .................................................................................................................. 133
ANSIEDADE BÁSICA .............................................................................................................. 135
AS NECESSIDADES NEURÓTICAS ............................................................................................ 136
TRÊS SOLUÇÕES .................................................................................................................... 137
ALIENAÇÃO .......................................................................................................................... 137

H A R R Y S T A C K S U L L I V A N .................................................................................... 138
A ESTRUTURA DA PERSONALIDADE ....................................................................................... 140
Dinamismos 141
Personificações 142
Processos Cognitivos 143
A DINÂMICA DA PERSONALIDADE ......................................................................................... 143
Tensão 143
Transformações de Energia 144
116 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE ........................................................................... 144


Estágios de Desenvolvimento 145
Determinantes do Desenvolvimento 146
PESQUISA CARACTERÍSTICA E MÉTODOS DE PESQUISA .......................................................... 147
A Entrevista 147
Pesquisa sobre a Esquizofrenia 148
STATUS ATUAL E AVALIAÇÃO ................................................................................................ 149

INTRODUÇÃO E CONTEXTO por circunstâncias sociais do que por fatores biológi-


cos.
As teorias psicanalíticas da personalidade formuladas Gradualmente, essas doutrinas sociais e culturais
por Freud e Jung foram nutridas pelo mesmo clima incipientes começaram a penetrar na psicologia e na
positivista que moldou o curso da física e da biologia psicanálise e a erodir as fundações nativistas e fisica-
do século XIX. O indivíduo era visto principalmente listas das ciências. Vários seguidores de Freud que
como um sistema complexo de energia que se manti- estavam insatisfeitos com o que consideravam como
nha por meio de transações com o mundo externo. Os a sua miopia em relação aos condicionantes sociais
propósitos finais dessas transações eram a sobrevivên- da personalidade abandonaram sua fidelidade à psi-
cia individual, a propagação da espécie e o contínuo canálise clássica e começaram a reformular a teoria
desenvolvimento evolutivo. Os vários processos psi- psicanalítica de acordo com linhas ditadas pela nova
cológicos que constituem a personalidade atendem a orientação desenvolvida pelas ciências sociais. Entre
esses fins. Segundo a doutrina evolutiva, algumas aqueles que deram à teoria psicanalítica um olhar de
personalidades estão mais bem preparadas do que século XX de psicologia social, estão as quatro pesso-
outras para realizar essas tarefas. Conseqüentemen- as cujas idéias formam o conteúdo do presente capí-
te, o conceito de variação e a distinção entre ajusta- tulo: Alfred Adler, Karen Horney, Erich Fromm e Har-
mento e desajustamento condicionaram o pensamen- ry Stack Sullivan. Alfred Adler pode ser considerado
to dos primeiros psicanalistas. Até a psicologia como a figura ancestral do “novo olhar psicológico
acadêmica entrou na órbita do darwinismo e preocu- social”, porque já em 1911 ele discordou de Freud em
pou-se com a mensuração das diferenças individuais relação à questão da sexualidade. A seguir, Adler de-
nas capacidades e com o valor adaptativo ou funcio- senvolveu uma teoria em que o interesse social e a
nal dos processos psicológicos. busca de superioridade eram os pilares conceituais
Ao mesmo tempo, outras tendências intelectuais mais substanciais. O próprio Fromm reconheceu que
que discordavam de uma concepção puramente biofí- Adler foi o primeiro psicanalista a enfatizar a nature-
sica do ser humano estavam começando a tomar for- za social fundamental dos seres humanos. Mais tar-
ma. Durante os últimos anos do século XIX, a sociolo- de, Horney e Fromm passaram a atacar a forte orien-
gia e a antropologia começaram a emergir como tação instintivista da psicanálise e insistiram na
disciplinas independentes, e seu rápido crescimento relevância das variáveis psicológicas sociais para a
durante o presente século foi fenomenal. Enquanto teoria da personalidade. Finalmente, Harry Stack Sulli-
os sociólogos estudavam os seres humanos vivendo van, em sua teoria das relações interpessoais, consoli-
em um estado de civilização avançada e considera- dou a posição de uma teoria da personalidade basea-
ram-nos como produtos de classe e casta, instituições da em processos sociais. Embora cada uma das teorias
e cultura popular, os antropólogos se aventuraram em tenha suas suposições e seus conceitos distintivos,
áreas remotas do mundo, onde encontraram evidên- existem numerosos paralelos entre elas salientados por
cias de que os seres humanos são quase infinitamente vários autores (H. L. & R. R. Ansbacher, 1956; James,
maleáveis. De acordo com essas novas ciências soci- 1947; Ruth Munroe, 1955).
ais, o indivíduo é principalmente um produto da soci- Neste capítulo, enfatizaremos Adler, Horney e
edade em que vive. A personalidade é moldada mais Sullivan, baseados na clareza de seus constructos e
TEORIAS DA PERSONALIDADE 117

em sua subseqüente influência no campo. Dos quatro seguidores no mundo todo. Durante a Primeira Guer-
teóricos, Sullivan foi o mais independente das doutri- ra Mundial, Adler serviu como médico no exército
nas psicanalíticas predominantes. Apesar de inicial- austríaco. Depois da guerra, ele se interessou pela
mente ter usado a estrutura freudiana, em seu traba- orientação infantil e criou as primeiras clínicas de ori-
lho posterior ele desenvolveu um sistema teórico que entação relacionadas ao sistema escolar vienense. Ele
se desviava claramente do freudiano. Sullivan foi pro- também inspirou a criação de uma escola experimen-
fundamente influenciado pela antropologia e pela psi- tal em Viena, onde foram aplicadas suas teorias de
cologia social. Tanto Horney quanto Fromm, por ou- educação (Furtmüller, 1964).
tro lado, permaneceram bem dentro da província da Em 1935, Adler estabeleceu-se nos Estados Uni-
psicanálise em seu pensamento. Adler, embora um dos, onde continuou sua prática como psiquiatra e
separatista da escola freudiana, continuou mostran- trabalhou como Professor de Psicologia Médica no
do durante toda a vida o impacto de sua associação Long Island College of Medicine. Adler foi um escri-
inicial com Freud. Horney e Fromm são habitualmen- tor prolífico e um palestrante incansável. Ele publi-
te referidos como revisionistas ou neofreudianos, cou muitos livros e artigos durante a vida. The Practi-
embora Fromm objetasse esses rótulos. Nenhum de- ce and Theory of Individual Psychology (1927) é
les desenvolveu uma nova teoria da personalidade; provavelmente a melhor introdução à teoria de Adler
eles se consideravam renovadores e reelaboradores da personalidade. Os sumários mais curtos das idéias
de uma teoria antiga. Sullivan foi muito mais um ino- de Adler aparecem em Psychologies of 1930 (1930) e
vador; foi um pensador extremamente original que no International Journal of Individual Psychology
atraiu um grande grupo de discípulos dedicados e (1935). Heinz e Rowena Ansbacher (1956, 1964) edi-
desenvolveu o que é às vezes chamado de uma nova taram e comentaram dois volumes contendo uma ex-
escola de psiquiatria. tensa seleção dos textos de Adler. Esses dois volumes
são a melhor fonte de informação sobre a Psicologia
Individual de Adler. O volume de 1964 contém um
ensaio biográfico de Carl Furtmüller. Heinz Ansbacher
ALFRED ADLER (1977) contribui com um capítulo sobre a Psicologia
Individual e Henri Ellenberger (1970b) contribui com
Alfred Adler nasceu em Viena em 1870, em uma fa- uma extensa discussão da vida e do pensamento de
mília de classe média, e morreu em Aberdeen, Escócia, Adler. Além disso, foram publicadas quatro biografias
em 1937, durante uma viagem como conferencista. de Adler (Bottome, 1939; Hoffman, 1994; Orgler,
Ele obteve seu diploma de medicina em 1895, na Uni- 1963; Sperber, 1974).
versidade de Viena. Inicialmente especializou-se em A história pessoal de Adler é um claro exemplo
oftalmologia e depois, após um período de prática em da luta para superar a inferioridade, que se tornou o
medicina geral, tornou-se psiquiatra. Foi um dos mem- tema central em sua teoria. Quando criança, ele era
bros fundadores da Sociedade Psicanalítica de Viena frágil, desajeitado, sem atrativos e inicialmente um
e mais tarde seu presidente. Entretanto, Adler logo mau aluno. Foi atropelado por carruagens em várias
começou a ter idéias que discordavam das de Freud e ocasiões, e teve raquitismo e pneumonia. Esta última
de outros na Sociedade de Viena e, quando essas dife- doença levou um médico a dizer ao pai de Adler: “Seu
renças ficaram muito agudas, ele foi convidado a apre- garoto está perdido”. Foi esse evento, segundo Adler,
sentar suas idéias à sociedade. Isso ele fez em 1911. o responsável por sua decisão de ser médico (Orgler,
Em conseqüência das veementes críticas e denúncia 1963, p. 16). Adler reconheceu que sua capacidade
da posição de Adler por outros membros da socieda- de compensar todas essas deficiências serviu como um
de, ele renunciou à presidência e alguns meses depois modelo para a sua teoria da personalidade. Isso se
desligou-se da psicanálise freudiana (H. L. & R. R. reflete na declaração: “Aqueles que conhecem o tra-
Ansbacher, 1956, 1964; Colby, 1951; Jones, 1955). balho da minha vida podem ver claramente a concor-
Ele então formou seu próprio grupo, que passou dância entre os fatos da minha infância e as idéias
a ser conhecido como Psicologia Individual e atraiu que expressei” (Bottome, 1939, p. 9).
118 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Em um nítido contraste com a suposição central ram de ouvir a melodia poderosa e primordial dos
de Freud de que o comportamento humano é motiva- instintos.”
do por instintos inatos e com o principal axioma de A segunda maior contribuição de Adler à teoria
Jung de que a conduta humana é governada por ar- da personalidade é o seu conceito do self criativo. Di-
quétipos inatos, Adler supôs que os seres humanos ferentemente do ego de Freud, que consiste em um
são motivados primariamente por impulsos sociais. Os grupo de processos psicológicos servindo aos fins dos
humanos, segundo Adler, são seres inerentemente instintos inatos, o self de Adler é um sistema subjetivo
sociais. Eles se relacionam com outras pessoas, envol- altamente personalizado, que interpreta e torna sig-
vem-se em atividades sociais cooperativas, colocam o nificativas as experiências do organismo. Além disso,
bem-estar social acima do interesse egoísta e adotam ele busca experiências que ajudarão a realizar o estilo
um estilo de vida de orientação predominantemente de vida único da pessoa; se essas experiências não
social. Adler não disse que os humanos se tornam so- são encontradas no mundo, o self tenta criá-las. Esse
cializados meramente por estarem expostos aos pro- conceito de um self criativo era novo na teoria psica-
cessos sociais. O interesse social é inato, mas os tipos nalítica. Ele ajudou a compensar o extremo “objeti-
específicos de relacionamentos com pessoas e insti- vismo” da psicanálise clássica, que dependia quase
tuições sociais que se desenvolvem são determinados inteiramente das necessidades biológicas e dos estí-
pela natureza da sociedade em que a pessoa nasce. mulos externos para explicar a dinâmica da persona-
Em um certo sentido, então, Adler é tão biológico em lidade. Como veremos em outros capítulos, o concei-
seu ponto de vista quanto Freud e Jung. Os três su- to de self desempenhou um papel importante em
põem que a pessoa tem uma natureza inerente que dá recentes formulações relativas à personalidade. A con-
forma à sua personalidade. Freud enfatizou o sexo, tribuição de Adler para essa nova tendência a reco-
Jung enfatizou padrões primordiais de pensamento e nhecer o self como uma causa importante do compor-
Adler enfatizou o interesse social. Esta ênfase nos de- tamento é muito significativa.
terminantes sociais do comportamento, ignorada ou O terceiro aspecto da psicologia de Adler que a
minimizada por Freud e Jung, é provavelmente a separa da psicanálise clássica é a sua ênfase na singu-
maior contribuição de Adler à teoria psicológica. Ela laridade da personalidade. Adler via cada pessoa como
chamou a atenção dos psicólogos para a importância uma configuração única de motivos, traços, interes-
das variáveis sociais e ajudou a desenvolver o campo ses e valores; cada ato realizado pela pessoa tem a
da psicologia social em uma época em que a psicolo- marca característica de seu estilo de vida distintivo. A
gia precisava de encorajamento e apoio, especialmente esse respeito, Adler pertence à tradição de William
das fileiras da psicanálise. James e William Stern.
Por mais que enfatizássemos a distinção entre A teoria de Adler da pessoa minimizava o instinto
Adler e Freud, não estaríamos exagerando. Adler es- sexual que, na teorização inicial de Freud, desempe-
creveu que “a diferença básica decisiva entre a psica- nhara um papel quase exclusivo na dinâmica do com-
nálise e a Psicologia Individual... é que Freud parte da portamento. A esse monólogo freudiano sobre sexo,
suposição de que, por sua natureza, o homem só quer Adler acrescentou outras vozes significativas. Os hu-
satisfazer seus desejos – o princípio do prazer – e por- manos são primariamente criaturas sociais, não sexu-
tanto, do ponto de vista da cultura, precisa ser consi- ais. Eles são motivados pelo interesse social, não pelo
derado totalmente mau... (Ao contrário, acreditava interesse sexual. Suas inferioridades não se limitam
Adler) o destino indestrutível da espécie humana é o ao domínio sexual, mas podem estender-se a todas as
interesse social” (Ansbacher & Ansbacher, 1964, p. facetas da existência, tanto físicas quanto psicológi-
210-211). Por sua parte, Freud reconheceu e rejeitou cas. Eles se esforçam para desenvolver um estilo de
esse movimento rumo aos determinantes culturais da vida único, em que a pulsão sexual desempenha um
personalidade. Em uma passagem característica diri- papel menor. De fato, a maneira pela qual a pessoa
gida a Adler e Jung, Freud (1914, p. 62) escreveu: “A satisfaz as necessidades sexuais é determinada pelo
verdade é que essas pessoas selecionaram alguns tons seu estilo de vida, e não vice-versa. O fato de Adler
culturais da sinfonia da vida e mais uma vez deixa- destronar o sexo foi para muitas pessoas um alívio
TEORIAS DA PERSONALIDADE 119

Alfred Adler.
120 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

bem-vindo depois do monótono pansexualismo de confirmadas. Elas podem ser dispensadas quando dei-
Freud. xam de ser úteis.
Finalmente, Adler considerava a consciência como Adler tomou essa doutrina filosófica de positivis-
o centro da personalidade. Isso o transforma em um mo idealista e deu-lhe a forma de suas próprias idéi-
pioneiro no desenvolvimento de uma psicologia ori- as. Freud, podemos lembrar, enfatizava as experiên-
entada para o ego. Os humanos são seres conscientes; cias e os fatores constitucionais durante a infância
eles geralmente estão cientes das razões de seu com- inicial como determinantes da personalidade. Adler
portamento. Eles têm consciência de suas inferiorida- descobriu em Vaihinger a refutação para esse rígido
des e das metas que buscam. Mais do que isso, os hu- determinismo histórico; isto é, os humanos são mais
manos são indivíduos autoconscientes capazes de motivados por suas expectativas em relação ao futuro
planejar e orientar suas ações com total consciência do que pelas experiências do passado. Tais metas não
de seu significado para a sua auto-realização. Essa é a existem no futuro como parte de algum desígnio tele-
completa antítese da teoria de Freud, que virtualmente ológico – nem Vaihinger e nem Adler acreditavam em
reduziu a consciência ao status de não-ser, uma mera predestinação ou fatalidade – em vez disso, elas exis-
espuma flutuando no grande mar do inconsciente. tem subjetivamente ou mentalmente, aqui e agora,
Alfred Adler, como outros teóricos da personali- como metas ou ideais que afetam o presente compor-
dade cuja principal formação foi em medicina e que tamento. Se uma pessoa acredita, por exemplo, que
praticavam a psiquiatria, começou sua teorização no existe um céu para as pessoas virtuosas e um inferno
campo da psicologia anormal. Ele formulou uma teo- para as pecadoras, essa crença exercerá uma conside-
ria da neurose antes de ampliar seu alcance teórico rável influência em sua conduta. Essas metas ficcio-
para incluir a personalidade normal, um passo dado nais eram, para Adler, as causadoras subjetivas dos
na década de 20 (H.L. & R. R. Ansbacher, 1956). A eventos psicológicos. Conforme ele colocou: “A per-
teoria de Adler da personalidade é uma teoria extre- gunta mais importante sobre a mente sadia e a enfer-
mamente econômica, no sentido de que alguns con- ma não é ‘de onde?’, mas ‘para onde’?” (Ansbacher &
ceitos básicos sustentam toda a estrutura teórica. Por Ansbacher, 1956, p. 91).
essa razão, o ponto de vista de Adler pode ser rapida- Como Jung, Adler identificava a teoria de Freud
mente esboçado sob algumas afirmações gerais. São com o princípio da causalidade, e a sua própria teoria
elas: (1) finalismo ficcional, (2) busca de superiori- com o princípio do finalismo:
dade, (3) sentimentos de inferioridade e compensa-
“A Psicologia Individual insiste absolutamente na
ção, (4) interesse social, (5) estilo de vida e (6) o self
indispensabilidade do finalismo para o entendi-
criativo.
mento de todos os fenômenos psicológicos. As
causas, as energias, os instintos, os impulsos e
assim por diante não servem como princípios ex-
FINALISMO FICCIONAL planatórios. A meta final, sozinha, explica o com-
portamento do homem. As experiências, os trau-
mas e os mecanismos de desenvolvimento sexual
Logo depois de Adler ter-se desligado do círculo que
não podem nos dar uma explicação, mas a pers-
cercava Freud, ele caiu sob a influência filosófica de
pectiva em que são considerados, a maneira indi-
Hans Vaihinger. Em seu livro de 1911, The Philosophy
vidual de vê-los, que subordina toda a vida à meta
of “As If” (tradução inglesa, 1925), Vaihinger propôs a
final, podem.” (1930, p. 400).
curiosa e intrigante noção de que os humanos vivem
de acordo com idéias puramente ficcionais, sem ne- Essa meta final pode ser uma ficção, isto é, um ideal
nhum equivalente na realidade. Essas ficções, por impossível de realizar, mas continua sendo um estí-
exemplo, “todos os homens são criados iguais”, “a mulo muito real para a busca humana e para a expli-
honestidade é a melhor política” e “os fins justificam cação final da conduta. Mas Adler acreditava que a
os meios”, permitem que os humanos lidem com a pessoa normal pode libertar-se da influência dessas
realidade de forma mais efetiva. São constructos ou ficções e enfrentar a realidade quando necessário, ati-
suposições e não hipóteses que podem ser testadas e tude que a pessoa neurótica é incapaz de tomar.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 121

BUSCA DE SUPERIORIDADE um princípio dinâmico, predominante. Não existem


pulsões separadas, pois cada pulsão recebe sua ener-
Qual é a meta final almejada por todos os seres hu- gia da busca de completude. Adler reconheceu que a
manos e que dá consistência e unidade à personalida- busca de superioridade pode manifestar-se de inúme-
de? Por volta de 1908, Adler já tinha chegado à con- ras maneiras diferentes, e que cada pessoa tem seu
clusão de que a agressão era mais importante do que modo concreto de atingir ou tentar atingir a perfei-
a sexualidade. Um pouco mais tarde, o impulso agres- ção. A pessoa neurótica, por exemplo, busca auto-es-
sivo foi substituído pelo “desejo de poder”. Adler iden- tima, poder e auto-engrandecimento – em outras pa-
tificava o poder com a masculinidade e a fraqueza lavras, metas egoístas – ao passo que a pessoa normal
com a feminilidade. Nesse estágio de seu pensamento busca metas de caráter primariamente social.
(cerca de 1910), apresentou a idéia do “protesto mas- Como, precisamente, surgem no indivíduo as for-
culino”, uma forma de supercompensação emprega- mas específicas de busca de superioridade? Para res-
da tanto por homens quanto por mulheres quando se ponder essa pergunta, é necessário discutir o concei-
sentem inadequados e inferiores. Mais tarde, Adler to de Adler de sentimentos de inferioridade.
abandonou o “desejo de poder” em favor da “busca
de superioridade”, à qual permaneceu fiel desde en-
tão. Assim, houve três estágios em seu pensamento
com relação à meta final dos seres humanos: ser agres- SENTIMENTOS DE INFERIORIDADE
sivo, ser poderoso e ser superior. E COMPENSAÇÃO
Adler deixou bem claro que por superioridade ele
não queria dizer distinção social, liderança ou uma Muito cedo em sua carreira, enquanto ainda estava
posição preeminente na sociedade. Por superiorida- interessado em medicina geral, Adler propôs a idéia
de, Adler queria dizer algo muito parecido com o con- da inferioridade e da supercompensação de órgão (tra-
ceito de self de Jung ou o princípio da auto-realização dução inglesa, 1917). Na época, ele estava interessa-
de Goldstein. É a busca de uma completude perfeita. do em encontrar a resposta para a perene pergunta
É “a grande pulsão ascendente”: de por que as pessoas, quando ficam doentes ou sen-
tem alguma dor, ficam doentes ou sentem dor em uma
“Eu comecei a ver claramente em cada fenômeno
região específica do corpo. Uma pessoa desenvolve
psicológico a busca de superioridade. Ela acom-
um problema cardíaco, outra, um problema pulmo-
panha o crescimento físico e é uma necessidade
nar, e uma terceira, artrite. Adler sugeriu que a razão
intrínseca da própria vida. Está na raiz de todas
do lugar de uma determinada doença era uma inferi-
as soluções dos problemas da vida e manifesta-se
oridade básica naquela região, uma inferioridade exis-
na maneira como enfrentamos esses problemas.
tente em virtude de hereditariedade ou de alguma
Todas as nossas funções seguem sua direção. Elas
anormalidade desenvolvimental. Ele então observou
buscam a conquista, a segurança, o crescimento,
que uma pessoa com um órgão defeituoso geralmen-
quer na direção certa, quer na errada. O ímpeto
te tenta compensar essa fraqueza, fortalecendo-o por
de menos para mais jamais cessa. Sejam quais fo-
meio de um treinamento intensivo. O exemplo mais
rem as premissas com as quais sonham todos os
famoso de compensação da inferioridade de órgão é
nossos filósofos e psicólogos – autopreservação,
Demóstenes, que gaguejava quando criança e tornou-
princípio do prazer, compensação – todas elas
se um dos maiores oradores do mundo. Um outro
são apenas vagas representações, tentativas de ex-
exemplo mais recente é o de Theodore Roosevelt, que
pressar a grande pulsão ascendente.” (1930, p.
foi doentio em sua infância e transformou-se, por meio
398)
de exercícios sistemáticos, em um homem fisicamen-
De onde vem a busca de superioridade ou perfei- te robusto.
ção? Adler disse que ela é inata. Não só é parte da Logo depois de ter publicado sua monografia so-
vida, mas também é a própria vida. Do nascimento bre a inferioridade de órgão, Adler ampliou o concei-
até a morte, a busca de superioridade leva a pessoa to para incluir quaisquer sentimentos de inferiorida-
de um estágio de desenvolvimento para o próximo. É de, desde os decorrentes de incapacidades psicológicas
122 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

ou sociais subjetivamente sentidas aos originados de o slogan darwiniano da sobrevivência dos mais adap-
fraquezas ou deficiências corporais reais. Nessa épo- tados.
ca, Adler equiparou a inferioridade à falta de virilida- Adler, um defensor da justiça social e da demo-
de ou feminilidade, cuja compensação era chamada cracia social, ampliou sua concepção dos humanos
de “o protesto masculino”. Entretanto, ele mais tarde para incluir o fator do interesse social (1939). Embo-
subordinou essa idéia à visão mais geral de que os ra o interesse social inclua questões como coopera-
sentimentos de inferioridade surgem de um senso de ção, relações interpessoais e sociais, identificação com
incompletude ou imperfeição em qualquer esfera da o grupo, empatia e assim por diante, ele é muito mais
vida. Por exemplo, a criança é motivada por seus sen- amplo do que tudo isso. Em seu sentido essencial, o
timentos de inferioridade a buscar um nível superior interesse social consiste em o indivíduo ajudar a soci-
de desenvolvimento. Quando ela atinge esse nível, edade a alcançar a meta de uma sociedade perfeita:
começa a sentir-se inferior novamente e inicia mais “O interesse social é a verdadeira e inevitável com-
uma vez o movimento ascendente. Adler afirmou que pensação de todas as fraquezas naturais dos seres
os sentimentos de inferioridade não são um sinal de humanos” (Adler, 1929b, p. 31).
anormalidade; eles são a causa de toda melhora na A pessoa está inserida em um contexto social des-
condição humana. Evidentemente, os sentimentos de de o primeiro dia de vida. A cooperação se manifesta
inferioridade podem ser agravados por condições es- no relacionamento entre o bebê e a mãe, e a partir daí
peciais, como no caso da criança mimada ou rejeita- a pessoa está continuamente envolvida em uma rede
da. Nesse contexto, podem ocorrer certas manifesta- de relações interpessoais que moldam a personalida-
ções anormais, como o desenvolvimento de um de e oferecem saídas concretas para a busca de supe-
complexo de inferioridade ou de um complexo de su- rioridade. A busca de superioridade se torna sociali-
perioridade compensatório. Mas, em circunstâncias zada; o ideal de uma sociedade perfeita toma o lugar
normais, o sentimento de inferioridade ou um senso da ambição puramente pessoal e do ganho egoísta.
de incompletude é a grande força propulsora da hu- Ao trabalhar pelo bem comum, os humanos compen-
manidade. Em outras palavras, o ser humano é im- sam suas fraquezas individuais.
pulsionado pela necessidade de superar sua inferiori- Adler acreditava que o interesse social é inato; os
dade e pressionado pelo desejo de ser superior. humanos são criaturas sociais por natureza, não por
Adler não foi um proponente do hedonismo. Em- hábito. Entretanto, como qualquer outra aptidão na-
bora acreditasse que os sentimentos de inferioridade tural, essa predisposição inata não aparece esponta-
eram dolorosos, ele não pensava que o alívio desses neamente, mas precisa ser orientada e treinada para
sentimentos era necessariamente prazeroso. A perfei- se realizar. Uma vez que acreditava nos benefícios da
ção, não o prazer, era para ele a meta da vida. educação, Adler dedicou grande parte de seu tempo a
estabelecer clínicas de orientação infantil, a melhorar
as escolas e a educar o público com relação aos méto-
dos adequados de criação dos filhos.
INTERESSE SOCIAL É interessante traçar nos textos de Adler a mu-
dança decisiva, embora gradual, em sua concepção
Durante os anos iniciais de sua teorização, quando do ser humano desde os primeiros anos de sua vida
estava proclamando a natureza agressiva e ávida de profissional, quando estava associado a Freud, até seus
poder dos seres humanos e a idéia do protesto mascu- últimos anos, quando tinha granjeado uma reputação
lino como uma supercompensação da fragilidade fe- internacional. Para o jovem Adler, os humanos eram
minina, Adler foi severamente criticado por enfatizar impulsionados por uma insaciável ânsia de poder e
pulsões egoístas e ignorar motivos sociais. A busca da dominação, para compensar um sentimento de inferi-
superioridade soava como o grito de guerra do super- oridade arraigado e oculto. Para o Adler mais velho,
homem nietzscheano, um bom acompanhamento para os humanos eram motivados por um interesse social
TEORIAS DA PERSONALIDADE 123

inato, que os fazia subordinar o ganho pessoal ao bem- centram-se nas amizades, na escola e no sexo oposto.
estar público. A imagem da pessoa perfeita vivendo Quando as tentativas do indivíduo de lidar com essas
em uma sociedade perfeita eclipsou o quadro da pes- tarefas são orientadas pelo interesse social, ele está
soa forte e agressiva dominando e explorando a soci- no “lado útil da vida”. Se a superioridade pessoal subs-
edade. O interesse social substituiu o interesse egoísta. titui o interesse social como meta, a pessoa se distan-
cia das tarefas da vida e fica no lado “inútil” da vida
(ver Figura 4.1, p. 124).
Ansbacher e Ansbacher (1964) estabelecem uma
ESTILO DE VIDA analogia entre a concepção de Adler da vida humana
como movimento e a análise que o físico faz do movi-
Estilo de vida é o slogan da teoria de Adler da perso- mento, em termos de direção e velocidade. O com-
nalidade, o tema recorrente em todos os seus textos portamento humano ocorre no espaço social, e sua
posteriores (p. ex., 1929a, 1931) e a característica mais direção depende do grau de interesse social. Da mes-
distintiva de sua psicologia. O estilo de vida é o prin- ma forma, o componente de velocidade ou de energia
cípio do sistema, segundo o qual funciona a persona- da vida humana pode ser descrito em termos do grau
lidade individual; é o todo que comanda as partes. O de atividade do indivíduo. Adler acreditava que “um
estilo de vida é o princípio idiográfico mais importan- ser humano não pode ser tipificado ou classificado...
te de Adler: é o princípio que explica a singularidade cada indivíduo deve ser estudado à luz de seu desen-
da pessoa. Todos têm um estilo de vida, mas não exis- volvimento peculiar” (Ansbacher & Ansbacher, 1964,
tem duas pessoas com o mesmo estilo, p. 68). No entanto, “somente para propósitos de ensi-
Exatamente o que significa o conceito? Essa é uma no,” Adler descreveu quatro estilos de vida diferen-
pergunta difícil de responder, porque Adler tinha muito tes, cada um conceitualizado em termos do grau de
a dizer a respeito e apresentou postulações diferentes interesse social e atividade. O tipo “dominante” tem
e às vezes conflitantes sobre isso em seus inúmeros muita atividade, mas pouco interesse social. Tais pes-
textos. E, além disso, é difícil diferenciá-lo de outro soas tentam lidar com os problemas da vida domi-
conceito adleriano, o de self criativo. nando-os. O tipo “obtentor”, que “certamente é o mais
Todas as pessoas têm a mesma meta, a da superi- freqüente”, espera que lhe dêem tudo de que precisa.
oridade, mas existem inumeráveis maneiras de bus- O tipo “evitante” tenta não ser derrotado pelos pro-
cá-la. Uma pessoa tenta tornar-se superior, desenvol- blemas da vida evitando os próprios problemas. Tan-
vendo o intelecto, enquanto outra dedica todos os seus to o segundo quanto o terceiro tipos têm pouco inte-
esforços à busca da perfeição muscular. O intelectual resse social e atividade. O quarto tipo de Adler, o
tem um estilo de vida, a atleta, outro. O intelectual lê, “socialmente útil”, é ativo a serviço dos outros. Essas
estuda, pensa; ele leva uma vida mais sedentária e pessoas enfrentam as tarefas da vida e tentam resol-
mais solitária do que a pessoa ativa. O intelectual or- vê-las de uma maneira consistente de acordo com as
ganiza detalhes da existência, hábitos domésticos, re- necessidades dos outros indivíduos. Arthur Ashe po-
creações, rotina diária, relações com a família, ami- deria servir como exemplo desse estilo de vida positi-
gos e conhecidos, e atividades sociais, de acordo com vo. É interessante observar a correspondência entre
a meta da superioridade intelectual. Tudo o que ele esses tipos e os tipos gerais propostos por outros teó-
faz é feito com um olho em sua meta suprema. Todo o ricos. Por exemplo, os tipos dominante, obtentor e
comportamento da pessoa se origina de seu estilo de evitante são mais ou menos análogos às estratégias
vida. A pessoa percebe, aprende e retém aquilo que de ir contra, aproximar-se, e afastar-se dos outros,
se ajusta ao seu estilo de vida, e ignora o restante. conforme descritas por Karen Horney.
O estilo de vida determina como a pessoa enfren- O estilo de vida se forma muito cedo na infância,
ta os três “problemas de vida” da idade adulta: rela- por volta dos quatro ou cinco anos, e a partir daí as
ções sociais, ocupação, e amor e casamento. As ver- experiências são assimiladas e utilizadas segundo esse
sões preliminares desses problemas durante a infância estilo de vida único. As atitudes, os sentimentos e as
124 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

FIGURA 4.1 Os lados ‘útil’ e ‘inútil’ da vida. (Reimpressa com a permissão de Ansbacher, 1977, p. 61.)

percepções tornam-se fixos e mecanizados em uma a criança é fisicamente frágil, seu estilo de vida assu-
idade bem inicial, e é praticamente impossível que o mirá a forma de fazer aquelas atividades que produ-
estilo de vida mude depois disso. A pessoa pode ado- zirão força física. O estilo de vida conquistador de
tar novas maneiras de expressar seu estilo de vida Napoleão foi determinado por sua estatura física in-
único, mas elas são apenas exemplos concretos e par- significante, e a ânsia predatória de Hitler de domi-
ticulares do mesmo estilo básico encontrado desde a nar o mundo, por sua impotência sexual. Essa expli-
tenra idade. cação simples da conduta humana, que agradou a
O que determina o estilo de vida do indivíduo? tantos leitores de Adler e foi amplamente aplicada à
Em seus textos iniciais, Adler disse que ele é ampla- análise de caráter nas décadas de 20 e 30, não satis-
mente determinado pelas inferioridades específicas da fez o próprio Adler. Era simples demais e também
pessoa, quer fantasiadas ou reais. O estilo de vida é mecanicista. Ele procurou um princípio mais dinâmi-
uma compensação de uma inferioridade particular. Se co e encontrou o self criativo.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 125

O SELF CRIATIVO ler da natureza da personalidade coincidiu com a idéia


popular de que os indivíduos podem ser os senhores,
O conceito de self criativo é a realização suprema de não as vítimas, de seu destino.
Adler como teórico da personalidade. Quando ele
descobriu o poder criativo do self, todos os seus ou-
tros conceitos ficaram subordinados a ele. Aqui, final-
mente, estava a fonte de energia, a pedra filosofal, o NEUROSE
elixir da vida, a causa primeira de tudo o que era hu-
mano perseguida por Adler. O self unitário, consisten- Utilizando esses princípios, Adler ofereceu um relato
te e criativo é soberano na estrutura da personalida- intrigante da neurose. Apesar de suas diferenças com
de. Freud, Adler concordava que os sintomas neuróticos
Como todas as primeiras causas, o poder criativo são interpretáveis e fundamentalmente defensivos. Ao
do self é difícil de descrever. Podemos ver seus efeitos, contrário do indivíduo sadio, o neurótico supercom-
mas não podemos vê-lo. É algo que intervém entre os pensa rigidamente as inferioridades percebidas. Suas
estímulos que agem sobre a pessoa e as respostas da- metas grandiosas centram-se no auto-engrandecimen-
das pela pessoa a esses estímulos. Em essência, a dou- to e no interesse pessoal, ao invés do interesse social.
trina de um self criativo afirma que os humanos fa- Adler estabeleceu uma analogia entre o neurótico e o
zem sua própria personalidade. Eles a constroem a criminoso que constrói um álibi:
partir do material bruto da hereditariedade e da ex-
“A neurose é inteiramente uma manobra encobri-
periência:
dora. Por trás da doença, está a tentativa patoló-
“A hereditariedade apenas dota (o homem) com gica e ambiciosa do paciente de ver a si mesmo
certas capacidades. O ambiente apenas lhe trans- como algo extraordinário . . . Os sintomas são um
mite certas impressões. Essas capacidades e im- grande monte de lixo no qual o paciente se escon-
pressões, e a maneira como ele as ‘experiencia’ – de. A superioridade fictícia do paciente data da
isto é, a interpretação que faz dessas experiências época em que ele foi mimado . . . Enquanto ve-
– são os blocos construtores, ou em outras pala- mos claramente o que ele faz, ele, sem perceber,
vras sua atitude perante a vida, que determinam está ocupado em erigir seus obstáculos; como um
seu relacionamento com o mundo externo.” (Ad- criminoso empedernido, ele está tentando asse-
ler, 1935, p. 5) gurar um álibi . . . Sempre termina em ‘o que eu
não teria realizado se não tivesse sido impedido
O self criativo é o fermento que age sobre os fatos do
pelos sintomas’. A nossa tarefa é tornar conceitu-
mundo e transforma esses fatos em uma personalida-
al o que nele estava não-conceitualizado.” (Ans-
de subjetiva, dinâmica, unificada, pessoal e unicamen-
bacher & Ansbacher, 1964, p. 198-199)
te estilizada. O self criativo dá significado à vida; ele
cria a meta, assim como os meios para a meta. O self Observem a similaridade entre essa passagem e o fa-
criativo é o princípio ativo da vida humana, e não é moso sumário de Freud sobre a terapia psicanalítica:
muito diferente do conceito mais antigo de alma. “Onde era o Id, ficará o Ego”.
Em resumo, podemos dizer que Adler criou uma O neurótico desenvolve os sintomas como uma
teoria humanista da personalidade que era a antítese proteção contra o esmagador senso de inferioridade
da concepção de Freud do indivíduo. Ao dotar os hu- que está tentando evitar tão desesperadamente. Essa
manos de altruísmo, humanitarismo, cooperação, cria- tentativa incessante de proteger o self da inferiorida-
tividade, singularidade e consciência, Adler devolveu de se transforma em um círculo vicioso, pois a falta
aos seres humanos um senso de dignidade e valor que de interesse social que levou ao problema também
a psicanálise tinha em grande parte destruído. Em impede sua solução. (Como veremos mais adiante
lugar do triste quadro materialista que horrorizou e neste capítulo, tal dilema é muito semelhante ao cír-
repeliu tantos leitores de Freud, Adler ofereceu um culo vicioso da insegurança e da alienação descrito
retrato do ser humano mais satisfatório, mais espe- tão eloqüentemente por Karen Horney.) A incapaci-
rançoso, e muito mais lisonjeiro. A concepção de Ad- dade do neurótico de lidar com os problemas da vida
126 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

o leva a criar “salvaguardas”. Essas salvaguardas são ada e precisa dividir a afeição dos pais com o novo
análogas aos mecanismos de defesa freudianos, mas bebê. Essa experiência pode condicionar o filho mais
servem para proteger o neurótico da baixa auto-esti- velho de várias maneiras, tais como odiar pessoas,
ma gerada pela inferioridade e pelo fracasso nas tare- proteger-se de súbitos reveses do destino e sentir-se
fas de vida, não da ansiedade gerada por um conflito inseguro. Os primogênitos também tendem a interes-
entre pulsões instintuais e proibições morais. Adler sar-se pelo passado, quando eram o centro das aten-
descreveu três categorias gerais de salvaguardas. As ções. Os neuróticos, os criminosos, os bêbados e os
desculpas se referem a qualquer tentativa de evitar a perversos, observa Adler, geralmente são primogêni-
culpa pelos fracassos na vida. A agressão envolve cul- tos. Se os pais manejam sabiamente a situação prepa-
par os outros pelos fracassos. O distanciamento inclui rando a criança para o aparecimento de um rival, o
protelações, alegações de impotência ou tentativas de primogênito tem maior probabilidade de transformar-
evitar problemas. Essas salvaguardas têm um sabor se em uma pessoa responsável, protetora.
bem cognitivo e contemporâneo. Além disso, obser- O segundo filho, ou o filho do meio, caracteriza-
vem sua semelhança com os mecanismos de defesa se por ser ambicioso. Ele está constantemente tentan-
específicos descritos por Anna Freud (ver Capítulo 5) do superar o mais velho. Ele também tende a ser re-
e com as descrições de Karen Horney de aproximar- belde e invejoso, mas de um modo geral é mais
se, ir contra ou afastar-se das outras pessoas (ver mais bem-ajustado do que o primogênito ou o caçula.
adiante neste capítulo). O caçula é o filho mimado. Depois do primogêni-
to, é mais provável que se torne uma criança-proble-
ma e um adulto neurótico desajustado.
Embora os primeiros testes da teoria de Adler da
PESQUISA CARACTERÍSTICA E ordem de nascimento não tenham sido muito confir-
MÉTODOS DE PESQUISA matórios (Jones, 1931), o trabalho mais sofisticado
de Schachter (1959) apoiou a tese adleriana e foi o
As observações empíricas de Adler foram feitas am- início de uma grande quantidade de pesquisas sobre
plamente no setting terapêutico e consistem princi- o assunto. Muitas pesquisas sobre a ordem de nasci-
palmente em reconstruções do passado, conforme lem- mento foram realizadas nas décadas de 60 e 70 (para
brado pelo paciente, e em avaliações do comporta- bibliografias, ver Forer, 1977; Vockell, Felker & Miley,
mento presente, com base em relatos verbais. Em gran- 1973), embora uma revisão de Schooler tenha relata-
de extensão, essas observações centravam-se no que do uma “ausência geral de achados consistentes”
Adler chamou de os “três portões de entrada para a (1972, p. 174; ver também Forer, 1976). Mais recen-
vida mental”: ordem de nascimento, memórias inici- temente, a ordem de nascimento foi incluída como
ais e sonhos. Só há espaço para mencionar alguns um componente do ambiente não-compartilhado que
exemplos das atividades investigativas de Adler. desempenha um papel extremamente importante nos
modelos genéticos de comportamento da personali-
dade (ver Capítulo 8; Hoffman, 1991; Plomin & Dani-
Ordem de Nascimento e
els, 1987).
Personalidade
De acordo com seu interesse pelos determinantes so-
Memórias Iniciais
ciais da personalidade, Adler observou que as perso-
nalidades do primogênito, do filho do meio e do ca- Adler sentia que as lembranças mais antigas que uma
çula em uma família tendiam a ser bem diferentes pessoa podia relatar eram uma chave importante para
(1931, p. 144-154). Ele atribuiu tais diferenças às ex- entender o seu estilo de vida básico (1931). Por exem-
periências distintivas que cada criança tem como mem- plo, uma jovem começou o relato de suas primeiras
bro de um grupo social. lembranças dizendo: “Quando eu tinha três anos de
O filho primogênito ou mais velho recebe muita idade, meu pai...” Isso indica que ela está mais inte-
atenção até o nascimento do segundo filho; ele é en- ressada no pai do que na mãe. Ela depois prossegue
tão subitamente destronado de sua posição privilegi- dizendo que o pai trouxe para casa um casal de pô-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 127

neis para sua irmã mais velha e para ela, e que a irmã Experiências da Infância
mais velha levou seu pônei pela rua puxando-o pelo
cabresto, enquanto ela era arrastada para a lama pelo Adler estava particularmente interessado nos tipos de
próprio pônei. Esse é o destino da criança mais jovem influências iniciais que predispõem a criança a um
– vir em segundo lugar na rivalidade com a irmã mais estilo de vida defeituoso. Ele descobriu três fatores
velha – e isso a motiva a tentar superá-la. Seu estilo importantes: (1) crianças com inferioridades, (2) cri-
de vida é de uma ambição impulsionadora, de uma anças mimadas e (3) crianças negligenciadas. As cri-
ânsia de ser a primeira, de um profundo sentimento anças com enfermidades físicas ou mentais carregam
de insegurança e desapontamento e de um forte pres- um carga muito pesada e tendem a sentir-se inade-
sentimento de fracasso. quadas para enfrentar as tarefas de vida. Elas se con-
Um jovem que estava sendo tratado por graves sideram um fracasso e muitas vezes são. Entretanto,
ataques de ansiedade lembrou esta cena inicial: “Quan- se tiverem pais compreensivos e encorajadores, po-
do eu tinha uns quatro anos de idade, estava sentado dem compensar suas inferioridades e transformar sua
à janela, olhando alguns pedreiros que construíam uma fraqueza em força. Muitas pessoas proeminentes co-
casa no lado oposto da rua, enquanto minha mãe tri- meçaram a vida com alguma fragilidade orgânica que
cotava meias.” Essa lembrança indica que o jovem foi conseguiram compensar. Adler alertava continuamen-
mimado quando criança, porque sua lembrança in- te, e com veemência, contra os perigos de se mimar
clui a solícita mãe. O fato de ele estar olhando para uma criança, pois considerava isso a pior maldição
outras pessoas que estão trabalhando sugere que seu que uma criança pode sofrer. As crianças mimadas não
estilo de vida é de um espectador, mais do que de um desenvolvem um sentimento social: elas se tornam
participante. Isso é corroborado pelo fato de ele ficar déspotas que esperam que a sociedade se conforme
ansioso sempre que tenta escolher uma profissão. aos seus desejos autocentrados. Adler as considerava
Adler sugeriu que ele pensasse em uma profissão na a classe potencialmente mais perigosa da sociedade.
qual pudesse utilizar sua preferência por olhar e ob- A negligência também tem conseqüências infelizes. A
servar. O paciente seguiu o conselho de Adler e tor- criança maltratada na infância se torna, quando adul-
nou-se um bem-sucedido negociante de objetos de ta, um inimigo da sociedade. Seu estilo de vida é do-
arte. minado pela necessidade de vingança. Essas três con-
Adler também usou esse método com grupos, além dições – enfermidade orgânica, mimos e rejeição –
de usá-lo com indivíduos, e descobriu que era uma produzem concepções errôneas do mundo e resultam
maneira fácil e econômica de estudar a personalida- em um estilo de vida patológico.
de. As primeiras lembranças são usadas como uma
técnica projetiva (Bruhn, 1984, 1985; Mayman, 1968;
Mosak, 1958). Além disso, foram desenvolvidos vári-
os instrumentos de pesquisa para avaliar as memórias PESQUISA ATUAL
iniciais (Altman & Rule, 1980; Kihlstrom & Haracki-
ewicz, 1982). Talvez o uso contemporâneo mais inte- Nós já mencionamos a pesquisa contemporânea
ressante das memórias iniciais seja sua incorporação sobre a ordem de nascimento e as lembranças mais
à nova onda de pesquisa cognitiva (p. ex., Bruhn, antigas. Além disso, estão sendo realizadas pesquisas
1990; Kihlstrom & Harackiewicz, 1982; Strauman, sobre a mensuração e os correlatos do interesse so-
1990). Em particular, o conceito de Cantor e Kihls- cial.
trom (1985, 1987, 1989) de inteligência social inclui
as categorias de conhecimento declarativo-semânti-
Interesse Social
co, conhecimento declarativo-episódico e de conheci-
mento procedural. A memória autobiográfica, que tem Foram desenvolvidos dois instrumentos para a men-
uma clara relação com a ênfase de Adler nas memóri- suração do interesse social: Social Interest Scale (SIS;
as iniciais, é um dos componentes dos episódios que Crandall, 1975) e Social Interest Index (SII; Greever,
constituem o nosso conhecimento declarativo-episó- Tseng & Friedland, 1973). O SIS fornece um índice
dico. global do interesse social, e o SII inclui subescalas se-
128 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

paradas para amizade, amor, trabalho e auto-signifi- Fromm foi profundamente influenciado pela obra
cado. Crandall (p. ex., 1980, 1981, 1984) apresenta de Karl Marx, especialmente por um trabalho inicial,
uma variedade de dados de valorização para o SIS. The Economic and Philosophical Manuscripts, de 1844.
Por exemplo, os escores no SIS correlacionam-se com Esse trabalho, em uma tradução inglesa de T. B. Bot-
medidas de auto-relato de ajustamento e bem-estar tomore, está incluído no Marx’s Concept of Man de
(Crandall, 1980), e os indivíduos com escores eleva- Fromm (1961). Em Beyond the Chains of Illusion
dos são mais cooperativos e menos hostis do que aque- (1962), Fromm comparou as idéias de Freud e de
les com escores baixos (Crandall, 1981). Os estudos Marx, observando suas contradições e tentando uma
demonstrando que os indivíduos com maior interesse síntese. Fromm considerava Marx um pensador mais
social têm mais amigos íntimos (Watkins & Hector, profundo do que Freud, e usou a psicanálise princi-
1990), e que os escores predizem correlações com palmente para preencher as lacunas em Marx. Fromm
outras características de personalidade (Mozdzierz & (1959) escreveu uma análise altamente crítica, inclu-
Semyck, 1980) oferecem um apoio semelhante para sive polêmica, da personalidade e da influência de
o SII. Freud e, ao contrário, um elogio incondicional a Marx
Existem dois problemas nessa pesquisa. Primeiro, (1961). Embora Fromm pudesse ser acuradamente
os escores nas duas medidas apresentam apenas uma chamado de um teórico marxista da personalidade,
frágil relação. Leak, Miller, Perry e Williams (1985) ele preferia o rótulo de humanista dialético. A obra de
sugerem que o SIS e o SII compartilham apenas cerca Fromm foi inspirada por seus profundos conhecimen-
de 10% de variância comum. Isso pode acontecer por- tos de história, sociologia, literatura e filosofia. Pode-
que o interesse social é um “constructo muitíssimo mos dizer que seus muitos livros (p. ex., 1950, 1951,
heterogêneo” ou pode refletir problemas fundamen- 1956, 1970, 1973, 1976) influenciaram os leitores
tais de mensuração. Segundo, as relações obtidas com leigos mais do que os psicólogos acadêmicos.
comportamentos de critério tendem a ser frágeis. As O tema essencial de toda a obra de Fromm é que
medidas de interesse social não têm um poder predi- a pessoa se sente solitária e isolada porque se separou
tivo consistente com o papel central atribuído ao in- da natureza e das outras pessoas. Essa condição de
teresse social na teoria de Adler. isolamento não é encontrada em outras espécies ani-
mais; ela é distintiva da situação humana. A criança,
por exemplo, liberta-se dos laços primários com os
pais e em resultado sente-se isolada e desamparada.
ERICH FROMM O servo conquista finalmente a sua liberdade apenas
para se descobrir à deriva em um mundo predomi-
Erich Fromm nasceu em Frankfurt, Alemanha, em nantemente alienígena. Como servo, ele pertencia a
1900, e estudou psicologia e sociologia nas Universi- alguém e sentia-se relacionado com o mundo e com
dades de Heidelberg, Frankfurt e Munique. Depois de as outras pessoas, mesmo que não fosse livre. Em seu
receber seu Ph.D. em Heidelberg em 1922, fez forma- livro Escape from Freedom (1941), Fromm desenvol-
ção psicanalítica em Munique e no famoso Instituto veu a tese de que, conforme os humanos conquista-
Psicanalítico de Berlim. Ele foi para os Estados Uni- ram mais liberdade através dos tempos, eles passa-
dos em 1933 como palestrante do Instituto Psicanalí- ram a se sentir mais sozinhos. A liberdade se torna
tico de Chicago e depois iniciou sua prática privada então uma condição negativa da qual eles tentam es-
na cidade de Nova York. Ensinou em várias universi- capar.
dades e institutos nos Estados Unidos e no México. Qual é a resposta para esse dilema? A estratégia
Em 1976, Fromm mudou-se para a Suíça, onde mor- sadia é a pessoa unir-se a outras no espírito do amor e
reu em 1980. Ver Evans (1966) e Hausdorff (1972) do trabalho compartilhado. A opção não-sadia é a
para detalhes sobre o desenvolvimento pessoal e inte- pessoa tentar “escapar da liberdade”. É possível esca-
lectual de Fromm. Seus livros receberam uma consi- par por três meios. A primeira fuga é pelo autoritaris-
derável atenção não só de especialistas nos campos mo, por uma submissão masoquista a pessoas mais
da psicologia, sociologia, filosofia e religião, mas tam- poderosas ou por uma tentativa sádica de tornar-se a
bém do público em geral. autoridade poderosa. Uma segunda fuga é pela des-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 129

Erich Fromm.
130 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

trutividade, pela tentativa de escapar da impotência, os humanos, ao se tornarem humanos, foram arran-
destruindo os agentes e as instituições sociais que pro- cados da união primária do animal com a natureza:
duzem um senso de desamparo e isolamento. Quanto “O animal está equipado pela natureza para lidar com
mais o impulso de crescimento da pessoa for frustra- todas aquelas condições que vai encontrar” (1955, p.
do, mais destrutiva ela se tornará. Essa análise cor- 23), mas o ser humano, com seu poder de raciocinar
responde perfeitamente ao crescente predomínio da e imaginar, perdeu essa interdependência íntima com
violência gratuita entre os membros das classes des- a natureza. Em lugar daqueles laços instintivos com a
favorecidas na nossa sociedade. O terceiro modo de natureza que os animais possuem, os seres humanos
escapar é pela conformidade de autômato, em que a precisam criar seus próprios relacionamentos, dos
pessoa renuncia ao seu estado de ser ela mesma ado- quais os mais satisfatórios são os baseados no amor
tando um “pseudo self” com base nas expectativas produtivo. O amor produtivo sempre implica cuida-
alheias. Observem como essa dinâmica é semelhante do, responsabilidade, respeito e entendimento mútu-
aos processos descritos por Karen Horney e Carl Ro- os.
gers (ver Capítulo 11) e à “inflação da persona” de A necessidade de transcendência se refere à ne-
Carl Jung (ver Capítulo 3). No caso sadio, o ser hu- cessidade do ser humano de erguer-se acima de sua
mano usa sua liberdade para desenvolver uma socie- natureza animal, de tornar-se uma pessoa criativa em
dade melhor. Nos casos não-sadios, ele passa a viver vez de permanecer uma criatura. Se os impulsos cria-
uma nova servidão. tivos forem frustrados, a pessoa se torna destruidora.
Escape from Freedom foi escrito sob a sombra da Fromm salientou que o amor e o ódio não são impul-
ditadura nazista e mostra que essa forma de totalita- sos antitéticos; ambos são respostas à necessidade da
rismo atraía as pessoas porque lhes oferecia uma nova pessoa de transcender sua natureza animal. Os ani-
segurança. Mas, como Fromm salientou em livros sub- mais não amam e nem odeiam, mas os humanos sim.
seqüentes (1947, 1955, 1964), qualquer forma de O ser humano quer ter raízes naturais; ele quer
sociedade criada pelo ser humano, seja o feudalismo, ser uma parte integral do mundo, sentir que pertence
capitalismo, fascismo, socialismo ou seja o comunis- a. Quando criança, ele está enraizado na mãe, mas, se
mo, representa uma tentativa de resolver a contradi- esse relacionamento persiste depois da infância, pas-
ção básica dos humanos. Essa contradição consiste em sa a ser considerado uma fixação perniciosa. As pes-
a pessoa ser tanto uma parte da natureza quanto se- soas encontram as raízes mais satisfatórias e saudá-
parada dela, em ser simultaneamente um animal e veis em um sentimento de afinidade com outros
um ser humano. Como animais, temos certas necessi- homens e mulheres. Mas também queremos ter um
dades fisiológicas que precisam ser satisfeitas. Como senso de identidade pessoal, ser indivíduos únicos. Se
seres humanos, possuímos autoconsciência, razão e não conseguimos alcançar essa meta por meio do es-
imaginação. As experiências exclusivamente humanas forço criativo individual, podemos obter certa marca
são os sentimentos de ternura, amor e compaixão; de distinção, identificando-nos com outra pessoa ou
atitudes de interesse, responsabilidade, identidade, grupo. O escravo se identifica com o senhor; o cida-
integridade, vulnerabilidade, transcendência e liber- dão, com o país; o trabalhador, com a companhia.
dade; e valores e normas (1968). Os dois aspectos da Nesse caso, o senso de identidade decorre de perten-
pessoa, animal e ser humano, constituem as condi- cer a alguém e não de ser alguém.
ções básicas da existência humana: “A compreensão Os humanos também precisam ter uma estrutura
da psique do homem deve basear-se na análise das ne- de referência, uma maneira estável e consistente de
cessidades humanas decorrentes das condições de sua perceber e compreender o mundo. A estrutura de re-
existência” (1955, p. 25). ferência desenvolvida pode ser primariamente racio-
Cinco necessidades específicas têm origem nas nal, primariamente irracional, ou ter elementos de
condições da existência humana: a necessidade de ambas.
relacionar-se, a necessidade de transcendência, a ne- Finalmente, Fromm (1973) introduziu uma sexta
cessidade de enraizamento, a necessidade de identi- necessidade básica, a necessidade de excitação e esti-
dade e a necessidade de uma estrutura de orientação. mulação. Ao descrever essa necessidade, ele fez uma
A necessidade de relacionar-se decorre do fato de que distinção entre estímulos simples e ativadores. Os es-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 131

tímulos simples produzem uma resposta automática, va; um tipo improdutivo-açambarcador seria uma
quase reflexa, e é melhor considerá-los em termos de pessoa que acumula bens apenas pelo prazer de acu-
pulsões; por exemplo, quando estamos com fome, mular, sem qualquer benefício para a sociedade.
comemos. Nós freqüentemente ficamos entediados Fromm (1964) também descreveu um sexto par
com os estímulos simples. Os estímulos ativadores, ao de tipos de caráter: o necrófilo, que é atraído pela
contrário, impõem a busca de objetivos. Os estímulos morte, versus o biófilo, que é apaixonado pela vida.
ativadores de Fromm soam como a busca do proprium Fromm observou que aquilo que poderia ser conside-
de Allport (ver Capítulo 7) e como as metanecessida- rado um paralelo entre essa formulação e os instintos
des de Maslow (ver Capítulo 11). de vida e morte de Freud na verdade não o é. Para
Para Fromm, essas necessidades são puramente Freud, tanto o instinto de vida quanto o de morte são
humanas e puramente objetivas. Elas não são encon- inerentes à biologia do ser humano, ao passo que para
tradas nos animais e não se derivam da observação Fromm a vida é a única potencialidade primária. A
daquilo que os humanos dizem querer. Também não morte é meramente secundária e só entra em cena
são criadas pela sociedade; melhor dizendo, elas fo- quando as forças de vida são frustradas.
ram sendo inseridas na natureza humana pela evolu- Em seu livro final, Fromm (1976) acrescentou uma
ção. Qual é então a relação da sociedade com a exis- distinção entre as orientações de “ter” e de “ser” em
tência do ser humano? Fromm acreditava que as relação à vida. Uma orientação de ter reflete a preo-
manifestações específicas dessas necessidades, as cupação competitiva da pessoa com possuir e consu-
maneiras reais pelas quais a pessoa realiza potenciali- mir recursos. Essa orientação é favorecida pelas soci-
dades internas, são determinadas pelos “arranjos so- edades tecnológicas. O modo de ser, ao contrário,
ciais de acordo com os quais ela vive” (1955, p. 14). A focaliza aquilo que a pessoa é, não o que ela tem, e o
personalidade se desenvolve em concordância com as compartilhar, em vez do competir. Essa orientação só
oportunidades que uma determinada sociedade ofe- vai se desenvolver se a sociedade a encorajar.
rece à pessoa. Em uma sociedade capitalista, por exem- Do ponto de vista do funcionamento adequado
plo, uma pessoa pode obter um senso de identidade de uma determinada sociedade, é absolutamente es-
pessoal, tornando-se rica, ou desenvolver um senso sencial que o caráter da criança seja moldado para se
de enraizamento, tornando-se um empregado respon- adaptar às necessidades da sociedade. A tarefa dos
sável e digno de confiança em uma grande compa- pais e da educação é fazer com que a criança queira
nhia. Em outras palavras, o ajustamento de uma pes- agir como tem de agir para que um dado sistema eco-
soa à sociedade normalmente representa um nômico, político e social seja mantido. Assim, em um
compromisso entre necessidades internas e exigênci- sistema capitalista, o desejo de economizar deve ser
as externas. Ela desenvolve um caráter social ao res- implantado nas pessoas, de modo que exista capital
ponder aos requerimentos da sociedade. para expandir a economia. Uma sociedade que de-
Fromm identificou e descreveu cinco tipos de ca- senvolveu um sistema de crédito precisa dar um jeito
ráter social encontrados na sociedade atual: recepti- para que as pessoas sintam uma compulsão interna a
vo, explorador, açambarcador, comerciante e produ- pagar suas contas prontamente. Fromm deu inúme-
tivo. Esses tipos representam as diferentes maneiras ros exemplos dos tipos de caráter que se desenvolvem
como os indivíduos se relacionam com o mundo e com em uma sociedade democrática e capitalista (1947).
os outros. Só o último deles foi considerado por ele Ao fazer exigências contrárias à sua natureza, a
como sadio e como expressando o que Marx chamou sociedade deforma e frustra os seres humanos. Ela os
de “atividade consciente livre”. Todo indivíduo é uma aliena de sua “situação humana” e nega-lhes o cum-
mistura desses cinco tipos de orientação em relação primento das condições básicas da existência. Tanto o
ao mundo, embora uma ou duas das orientações pos- capitalismo quanto o comunismo, por exemplo, ten-
sam estar mais evidentes do que as outras. Assim, é tam transformar o indivíduo em um robô, em um es-
possível que uma pessoa seja um tipo produtivo-açam- cravo do salário, em uma nulidade, e geralmente con-
barcador ou um tipo improdutivo-açambarcador. Um seguem levar a pessoa à insanidade, à conduta
tipo produtivo-açambarcador poderia ser uma pessoa anti-social ou a atos autodestrutivos. Fromm não he-
que adquire terras ou dinheiro para ser mais produti- sitou em estigmatizar a sociedade como estando do-
132 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

ente quando deixa de satisfazer as necessidades bási- nenhum sentimento de isolamento, nenhum desespe-
cas dos seres humanos (1955). ro. As pessoas encontrariam um novo lar, adequado à
Fromm também salientou que, quando uma so- “situação humana”. Tal sociedade atingiria o objetivo
ciedade muda em algum aspecto importante, como de Marx de transformar a alienação de uma pessoa
ocorreu quando o feudalismo se transformou em ca- sob um sistema de propriedade privada em uma opor-
pitalismo, ou quando o sistema de fábricas substituiu tunidade de auto-realização como um ser humano so-
o artesão individual, tal mudança tende a produzir cial, produtivamente ativo, sob o socialismo. Fromm
deslocamentos no caráter social das pessoas. A antiga ampliou o projeto da sociedade ideal, definindo como
estrutura de caráter não se ajusta à nova sociedade, o a nossa presente sociedade tecnológica pode ser hu-
que aumenta o senso de alienação e desespero das manizada (1968). As idéias de Fromm foram aguda-
pessoas. Os laços tradicionais são cortados, e, até que mente criticadas por Schaar (1961).
a pessoa consiga desenvolver novas raízes e relações, Embora as idéias de Fromm se originassem de suas
ela se sente perdida. Durante esses períodos transi- observações de pessoas em tratamento e de suas am-
cionais, a pessoa torna-se presa fácil de todos os tipos plas leituras em história, economia, sociologia, filoso-
de panacéias que oferecem um refúgio contra a soli- fia e literatura, ele realizou uma investigação empíri-
dão. (Conforme descrito no próximo capítulo, Erik ca em grande escala. Em 1957, Fromm iniciou um
Erikson tratou de maneira análoga as conseqüências estudo em psicologia social em um vilarejo mexicano
negativas que ocorrem quando a pessoa precisa ten- para testar sua teoria do caráter social. Ele treinou
tar funcionar em uma sociedade que enfatiza valores entrevistadores mexicanos para administrar um ques-
inconsistentes com a orientação segundo a qual ela tionário profundo que podia ser interpretado e pon-
foi socializada.) tuado para importantes variáveis motivacionais e ca-
O problema das relações de uma pessoa com a racterológicas. Esse questionário foi suplementado
sociedade preocupava muito Fromm, e ele retornou a pelo Método das Manchas de Tinta de Rorschach, que
isso inúmeras vezes. Ele estava inteiramente conven- revela atitudes, sentimentos e motivos mais profun-
cido da validade das seguintes proposições: (1) os seres damente reprimidos. Por volta de 1963 a coleta de
humanos têm uma natureza essencial, inata; (2) a dados foi concluída, e em 1970 os achados foram pu-
sociedade é criada pelos humanos para realizar essa blicados (Fromm & Maccoby, 1970).
natureza essencial; (3) nenhuma sociedade, de todas Foram identificados três tipos principais de cará-
que foram criadas até hoje, atende às necessidades ter social: o produtivo-açambarcador, o produtivo-ex-
básicas da existência humana; e (4) é possível criar plorador e o improdutivo-receptivo. Os indivíduos que
tal sociedade. pertenciam ao tipo produtivo-açambarcador eram os
Que tipo de sociedade Fromm defendia? proprietários de terra; ao produtivo-explorador, os co-
merciantes; e ao improdutivo-receptivo, os trabalha-
“(Uma) em que os homens se relacionem amoro-
dores pobres. Uma vez que pessoas com estruturas de
samente, com raízes em laços de fraternidade e
caráter semelhantes tendem a casar entre si, os três
solidariedade...; uma sociedade que dê ao homem
tipos constituíam uma estrutura de classe bastante
a possibilidade de transcender a natureza, crian-
rígida no vilarejo.
do, ao invés de destruir; em que todos obtenham
Antes que a influência da tecnologia e da indus-
um senso de self ao experienciar-se como o sujei-
trialização atingisse o vilarejo, havia apenas duas clas-
to de seus poderes, como contraponto à confor-
ses principais: os proprietários de terra e os campone-
midade; em que exista um sistema de orientação
ses. O tipo produtivo-explorador só existia como um
e devoção, sem que o homem precise distorcer a
tipo desviante. Mas foi esse tipo que tomou a iniciati-
realidade e adorar ídolos.” (1955, p. 362)
va de tornar os frutos da tecnologia disponíveis para
Fromm sugeriu inclusive um nome para essa socieda- os habitantes do vilarejo, tornando-se assim símbolos
de perfeita: Socialismo Comunitário Humanista. Nes- de progresso e líderes da comunidade. As pessoas que
sa sociedade, todos teriam oportunidades iguais de se pertenciam a esse tipo forneciam entretenimento ba-
tornarem plenamente humanos. Não haveria solidão, rato na forma de filmes, rádio, televisão e produtos
TEORIAS DA PERSONALIDADE 133

manufaturados. Em conseqüência, os pobres campo- HORNEY E FREUD


neses foram arrancados de seus tradicionais valores
culturais sem ganhar muitas das vantagens materiais Durante os anos que antecederam e que se seguiram
de uma sociedade tecnológica. O que eles ganharam a 1930, Horney publicou uma série de artigos criti-
na verdade era falso, se comparado ao que tinham cando Freud e propondo sua própria psicologia femi-
anteriormente: os filmes substituíram os festivais, o nina. Essa era uma continuação daqueles desafios à
rádio substituiu as bandas locais, as roupas prontas ortodoxia que fizeram com que ela fosse rebaixada e
substituíram as roupas feitas à mão, e os utensílios e subseqüentemente se retirasse do Instituto Psicanalí-
móveis produzidos em massa substituíram os artesa- tico de Nova York. Mas Horney achava que suas idéi-
nais. O principal foco do estudo, entretanto, era ilus- as se enquadravam na estrutura da psicologia freu-
trar a tese de Fromm de que o caráter (personalida- diana e não constituíam uma abordagem inteiramente
de) afeta e é afetado pela estrutura social e pela nova ao entendimento da personalidade. Ela escre-
mudança social. veu: “Nada de importância no campo da psicologia e
da psicoterapia foi feito sem basear-se nos achados
fundamentais de Freud” (1939, p. 18).
Ela aspirava a eliminar as falácias no pensamento
KAREN HORNEY de Freud – falácias que tinham raízes, acreditava ela,
em sua orientação biológico-mecanicista – para que a
Karen Horney nasceu em Hamburgo, Alemanha, em psicanálise pudesse realizar suas plenas potencialida-
16 de setembro de 1885, e morreu na cidade de Nova des como uma ciência dos seres humanos: “A minha
York, em 4 de dezembro de 1952. Ela fez sua forma- convicção, resumidamente, é que a psicanálise deve
ção médica na Universidade de Berlim e trabalhou no superar as limitações decorrentes de ser uma psicolo-
Instituto Psicanalítico de Berlim de 1918 a 1932. Ela gia instintivista e genética” (1939, p. 8).
foi analisada por Karl Abraham e Hans Sachs, dois Seguindo Adler, Horney também acreditava que
dos mais preeminentes analistas didatas europeus na a pouca ênfase de Freud nos inter-relacionamentos
época. Convidada por Franz Alexander, ela foi para entre as pessoas o levara a uma ênfase excessiva e
os Estados Unidos e trabalhou como diretora-associa- errônea na motivação sexual e no conflito. Ela trans-
da do Instituto Psicanalítico de Chicago por dois anos. formou o foco instintual de Freud em um foco cultu-
Em 1934, mudou-se para Nova York, onde praticou a ral. As pessoas internalizam estereótipos culturais ne-
psicanálise e ensinou no Instituto Psicanalítico de Nova gativos na forma de ansiedade básica e de conflitos
York. Insatisfeita com a psicanálise ortodoxa, ela e internos, de tal maneira que o indivíduo com um pro-
outros com convicções similares fundaram a Associa- blema emocional é “um enteado da nossa cultura”.
ção para o Avanço da Psicanálise e o Instituto Ameri- Para Horney, as preocupações com segurança e alie-
cano de Psicanálise. Ela foi decana desse instituto até nação intrapsíquica e interpessoal constituem as for-
a sua morte. ças motivacionais primárias da personalidade. Essas
A história profissional de Horney foi detalhada preocupações podem levar-nos a erigir uma estrutura
em várias publicações recentes (Quinn, 1987; Rubins, protetora, em uma tentativa de obter o que está fada-
1978; Sayers, 1991), e alguns de seus diários foram do a ser um falso senso de segurança. Em conseqüên-
publicados (Horney, 1980). Essas publicações também cia, “no centro das perturbações psíquicas estão ten-
esclarecem eventos centrais na rica vida pessoal de tativas inconscientes de lidar com a vida apesar dos
Horney, incluindo seu relacionamento com o pai e a medos, do desamparo e do isolamento. Eu as chamei
mãe, o irmão, o marido Oskar, os filhos, e Erich Fromm, de ‘tendências neuróticas’ “(1942, p. 40).
assim como seus problemas emocionais e sua luta com Horney objetava vigorosamente o conceito de
a ortodoxia psicanalítica em que os homens domina- Freud de inveja do pênis como o fator determinante
vam. na psicologia feminina. Freud, podemos lembrar, ob-
134 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Karen Horney.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 135

servou que as atitudes e os sentimentos distintivos das ção real, atitudes depreciativas, admiração demais
mulheres e seu conflito mais profundo originavam-se ou ausência de admiração, inexistência de um
de seu sentimento de inferioridade genital e de seu carinho consistente, ter de tomar partido nas dis-
ciúme do homem. Ela acreditava que a psicologia fe- córdias parentais, responsabilidade exagerada ou
minina baseia-se na falta de confiança e em uma ên- insuficiente, superproteção, isolamento em rela-
fase exagerada no relacionamento amoroso, e tem ção a outras crianças, injustiça, discriminação,
pouco a ver com a anatomia de seus órgãos sexuais. promessas não cumpridas, atmosfera hostil e as-
(As idéias de Horney sobre a psicologia feminina fo- sim por diante.” (1945, p. 41)
ram reunidas e publicadas depois de sua morte
O termo de Horney para todos esses fatores adversos
[1967].)
é mal básico. O estudante pode observar como esse
Segundo Horney, o complexo de Édipo não é um
conceito é semelhante às condições que Erik Erikson
conflito sexual-agressivo entre a criança e o progeni-
descreve como contribuindo para um senso de des-
tor, mas uma ansiedade decorrente de perturbações
confiança básica (ver Capítulo 5). Em geral, Horney
básicas, como, por exemplo, rejeição, superproteção
sugeriu que tudo o que perturba a segurança da cri-
e punição no relacionamento da criança com a mãe e
ança em relação aos pais produz ansiedade básica.
com o pai. A agressão não é inata, como Freud afir-
O mal básico experienciado pela criança natural-
mou, e sim um meio pelo qual os seres humanos ten-
mente provoca ressentimento, ou hostilidade básica.
tam proteger sua segurança. O narcisismo não é real-
Isso, por sua vez, produz um dilema ou conflito para
mente auto-amor, mas auto-inflação e supervalori-
a criança, porque expressar a hostilidade poderia fa-
zação devidas a sentimentos de insegurança. Horney
zer com que ela fosse punida e poria em risco o amor
também discordou dos seguintes conceitos freudia-
recebido dos pais. Esse conflito entre o ressentimento
nos: compulsão à repetição; id, ego e superego; ansi-
e a necessidade de amor substitui o conflito freudia-
edade; e masoquismo (1939). No lado positivo, Hor-
no entre impulso instintual e proibição internalizada.
ney endossou as doutrinas de Freud de determinismo
Esse dilema e o resultante senso de alienação são muito
psíquico, motivação inconsciente e de motivos emocio-
semelhantes à dinâmica subseqüentemente descrita
nais não-racionais.
por Carl Rogers (ver Capítulo 11). As crianças lidam
com sua hostilidade, reprimindo-a. Horney (1973, p.
86) sugeriu que a repressão pode ser estimulada por
ANSIEDADE BÁSICA três estratégias diferentes:
“Eu tenho de reprimir minha hostilidade porque
Segundo Horney, as crianças experienciam natural- preciso de você.”
mente ansiedade, desamparo e vulnerabilidade – Ad- “Eu tenho de reprimir minha hostilidade porque
ler, de maneira muito semelhante, descreveu a inferi- tenho medo de você.”
oridade como uma experiência infantil. Sem uma “Eu tenho de reprimir minha hostilidade porque
orientação amorosa para ajudar as crianças a lidar com tenho medo de perder você.”
as ameaças impostas pela natureza e pela sociedade,
Independentemente de sua causa, a repressão
elas podem desenvolver a ansiedade básica, que é o
exacerba o conflito, levando a um círculo vicioso. A
principal conceito teórico de Horney. A ansiedade bá-
ansiedade produz uma necessidade excessiva de afei-
sica se refere ao
ção. Quando tais necessidades não são satisfeitas, a
“sentimento da criança de estar isolada e desam- criança se sente rejeitada e a ansiedade e a hostilida-
parada em um mundo potencialmente hostil. Uma de se intensificam. Uma vez que essa nova hostilida-
ampla variedade de fatores adversos no ambiente de também precisa ser reprimida a fim de proteger o
pode produzir essa insegurança em uma criança: senso de segurança da criança, seja ele qual for, a an-
dominação direta ou indireta, indiferença, com- siedade aumenta e a necessidade de repressão leva à
portamento errante, falta de respeito pelas neces- mais hostilidade. Então, o círculo vicioso se perpetua.
sidades individuais da criança, falta de orienta- A criança, e mais tarde o adulto perturbado, fica apri-
136 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

sionada num círculo de angústia cada vez mais inten- za o amor e tem um medo extremo de ser
sa e de comportamento improdutivo. abandonada e deixada sozinha.
A criança insegura, ansiosa, desenvolve várias es- 3. A necessidade neurótica de restringir sua vida
tratégias para lidar com seus sentimentos de isola- a limites estreitos. Tal pessoa não é exigente,
mento e desamparo (1937). Ela pode ficar hostil e contenta-se com pouco, prefere permanecer
tentar se vingar daqueles que a rejeitaram ou maltra- na obscuridade e valoriza a modéstia acima
taram. Ou pode tornar-se excessivamente submissa, a de tudo.
fim de recuperar o amor que sente ter perdido. Ela 4. A necessidade neurótica de poder. Essa neces-
pode desenvolver um quadro irrealista e idealizado sidade se expressa na busca do poder pelo
de si mesma, para compensar seus sentimentos de amor ao poder, em um desrespeito essencial
inferioridade (1950). A criança pode tentar comprar pelos outros, em uma glorificação indiscri-
o amor dos outros ou usar ameaças para obrigar as minada da força e em um desprezo pela fra-
pessoas a gostarem dela. Ela pode mergulhar na au- queza. As pessoas que temem exercer o po-
topiedade para obter a simpatia dos outros. der abertamente podem tentar controlar os
Se a criança não puder conseguir amor, pode ten- outros pela exploração e pela superioridade
tar obter poder sobre os outros. Dessa maneira, ela intelectual. Outra variedade da pulsão de
compensa seu sentimento de desamparo, encontra poder é a necessidade de acreditar na onipo-
uma saída para a hostilidade e consegue explorar as tência da vontade. Essas pessoas acham que
pessoas. Ou a criança se torna altamente competitiva, podem realizar qualquer ação, simplesmen-
considerando a vitória mais importante que a realiza- te exercendo o poder de sua vontade.
ção. Ela também pode voltar a agressão contra si mes- 5. A necessidade neurótica de explorar os outros.
ma e passar a se desprezar. 6. A necessidade neurótica de prestígio. A auto-
valorização da pessoa é determinada pela
quantidade de reconhecimento público rece-
bido.
AS NECESSIDADES NEURÓTICAS
7. A necessidade neurótica de admiração pessoal.
As pessoas com essa necessidade têm um
Qualquer uma dessas estratégias pode-se tornar um
quadro inflado de si mesmas e querem ser
aspecto mais ou menos permanente da personalida-
admiradas nesta base, e não por aquilo que
de. Em outras palavras, uma determinada estratégia
realmente são.
pode assumir o caráter de uma pulsão ou necessidade
8. A ambição neurótica de realização pessoal. Tais
na dinâmica da personalidade. Horney apresentou
pessoas querem ser as melhores e obrigam-
uma lista de dez necessidades que surgem quando
se a realizações cada vez maiores como re-
tentamos encontrar soluções para o problema dos re-
sultado de sua insegurança básica.
lacionamentos humanos perturbados (1942). Ela cha-
9. As necessidades neuróticas de auto-suficiência
mou tais necessidades de “neuróticas” porque são so-
e independência. Tendo-se desapontado nas
luções irracionais para o problema:
tentativas de encontrar relacionamentos ca-
1. A necessidade neurótica de afeição e aprova- rinhosos e satisfatórios com os outros, a pes-
ção. Essa necessidade caracteriza-se por um soa se afasta e não quer vincular-se a nada e
desejo indiscriminado de agradar os outros a ninguém. Tais indivíduos se tornam “soli-
e cumprir suas expectativas. O mais impor- tários”.
tante para a pessoa é que os outros tenham 10. A necessidade neurótica de perfeição e não-vul-
uma boa opinião a seu respeito, e ela é ex- nerabilidade. Temerosas de cometer erros e
tremamente sensível a qualquer sinal de re- ser criticadas, as pessoas com essa necessi-
jeição ou frieza. dade tentam tornar-se inexpugnáveis e infa-
2. A necessidade neurótica de um “parceiro” que líveis. Estão constantemente buscando falhas
assuma a vida da pessoa. A pessoa com essa em si mesmas para poder corrigi-las antes
necessidade é uma parasita. Ela supervalori- que se tornem óbvias para os outros.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 137

Essas dez necessidades são as origens dos confli- Enquanto a pessoa normal consegue resolver os
tos internos. A necessidade de amor do neurótico, por conflitos, integrando as três orientações, uma vez que
exemplo, é insaciável; quanto mais recebe, mais quer. elas não são mutuamente exclusivas, a pessoa neuró-
Conseqüentemente, os neuróticos nunca estão satis- tica, devido à maior ansiedade básica, precisa utilizar
feitos. Da mesma forma, sua necessidade de indepen- soluções irracionais e artificiais. Ela conscientemente
dência nunca pode ser inteiramente satisfeita porque reconhece apenas uma das tendências e nega ou re-
outra parte de sua personalidade quer ser amada e prime as outras duas. Horney concordava com Adler
admirada. A busca de perfeição é uma causa perdida que o neurótico não é flexível.
desde o início. Todas as necessidades recém-citadas
são irrealistas.

ALIENAÇÃO

TRÊS SOLUÇÕES Em seus últimos livros, Horney (1945, 1950) enfati-


zou uma estratégia alternativa de manejo por parte
Em uma publicação posterior (1945), Horney classifi- do neurótico: ele pode, defensivamente, afastar-se do
cou essas dez necessidades em três grupos: (1) apro- self real e buscar alguma alternativa idealizada. No
ximar-se das pessoas, por exemplo, necessidade de processo, Horney enfatiza a alienação como a conse-
amor; (2) afastar-se das pessoas, por exemplo, neces- qüência da tentativa da criança de lidar com a ansie-
sidade de independência; e (3) ir contra as pessoas, dade básica. A ansiedade e a hostilidade levam a cri-
por exemplo, necessidade de poder. Aproximar-se das ança a considerar o seu “self real” como inadequado,
pessoas, às vezes chamado de aquiescência ou solução sem valor e indigno de amor. Dada essa auto-imagem
de auto-anulação, representa a tentativa de lidar com negativa, emerge um “self desprezado”. A criança res-
a insegurança por meio do raciocínio: “Se você me ponde defensivamente a essa autodescrição desprezí-
ama, não vai me magoar.” Afastar-se das pessoas, cha- vel, criando e lutando para manter uma imagem ide-
mado de retraimento ou solução de renúncia, repre- alizada da pessoa que deveria ser. Esse “self idealizado”
senta a tentativa da criança de resolver seu conflito existe em conjunção com uma série de auto-expecta-
de insegurança, dizendo: “Se eu me retraio, nada pode tivas rígidas, criando o que Horney chamou de “a ti-
me magoar.” Ir contra as pessoas, chamado de agres- rania do deveria” e a “busca da glória”. O neurótico
são ou solução expansiva, é a criança, dizendo: “Se eu busca a auto-estima que não possui, tentando chegar
tenho poder, ninguém pode me magoar” (Horney, a uma versão irrealista da pessoa que “deveria” ser.
1937, p. 96-99). Cada uma dessas “tendências neuró- Novamente, são notáveis os paralelos com os rígidos
ticas” superenfatiza um dos elementos envolvidos na finalismos ficcionais do neurótico, conforme previa-
ansiedade básica: o desamparo no aproximar-se das mente descrito por Adler, e com a adesão da pessoa
pessoas, o isolamento no afastar-se das pessoas, e a desajustada a condições de valor, conforme subseqüen-
hostilidade no ir contra as pessoas. Cada uma das temente descrito por Carl Rogers.
anotações representa uma orientação básica em rela- Além dessas estratégias centrais, Horney (1945,
ção aos outros e a si mesmo. Horney encontra nessas Capítulo 8) descreveu uma série de abordagens auxi-
diferentes orientações a base do conflito interno. A liares ao conflito neurótico. Assim, os neuróticos po-
diferença essencial entre um conflito normal e um dem desenvolver defensivamente “pontos cegos” ou
conflito neurótico é o grau: “A disparidade entre as “compartimentos”, uma vez que escolhem não enxer-
questões conflitantes é bem menor para a pessoa nor- gar discrepâncias entre seu comportamento e seu self
mal do que para o neurótico” (1945, p. 31). Em ou- idealizado. Ou podem empenhar-se em “racionaliza-
tras palavras, todo mundo tem esses conflitos, mas ção”, “cinismo” ou “autocontrole excessivo”. Todos
algumas pessoas, principalmente devido a experiên- esses artifícios inconscientes servem como pseudo-
cias iniciais com rejeição, negligência, superproteção soluções para o conflito básico do neurótico. Como
e outros tipos de tratamento parental infeliz, têm-nos uma estratégia final, o neurótico pode tentar lidar com
em uma forma agravada. conflitos internos, externalizando-os. Isto é, os neu-
138 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

róticos podem recorrer à “tendência a experienciar disso, as experiências interpessoais de uma pessoa
processos internos como se ocorressem fora deles e, podem alterar e realmente alteram seu funcionamen-
como regra, considerar esses fatores externos como to puramente fisiológico, de modo que mesmo o or-
responsáveis por suas dificuldades” (1945, p. 116). A ganismo perde seu status como entidade biológica e
pessoa diz, com efeito: “Eu não quero explorar os ou- torna-se um organismo social, com suas maneiras so-
tros, eles é que querem me explorar”. Essa solução cializadas próprias de respiração, digestão, elimina-
cria conflitos entre a pessoa e o mundo externo. ção, circulação e assim por diante.
Todos esses conflitos são evitáveis ou solucioná- Para Sullivan, a ciência da psiquiatria está aliada
veis se a criança for criada em um lar em que existe à psicologia social, e sua teoria da personalidade traz
segurança, confiança, amor, respeito, tolerância e ca- a marca de sua forte preferência pelos conceitos e
rinho. Isto é, Horney, diferentemente de Freud e Jung, variáveis desse ramo da psicologia. Ele escreveu:
não achava que o conflito estivesse inserido na natu-
“A ciência geral da psiquiatria parece-me cobrir
reza do ser humano, sendo portanto inevitável. O con-
praticamente o mesmo campo estudado pela psi-
flito decorre das condições sociais: “A pessoa que ten-
cologia social, porque a psiquiatria científica tem
de a se tornar neurótica é aquela que experiencia de
de ser definida como o estudo das relações inter-
forma acentuada as dificuldades culturalmente deter-
pessoais, e isso acaba exigindo o uso da estrutura
minadas, principalmente por meio das experiências
conceitual que agora chamamos de teoria de cam-
da infância” (1937, p. 290).
po. Dessa perspectiva, a personalidade é vista
como hipotética. O que pode ser estudado é o
padrão de processos que caracteriza a interação
HARRY STACK de personalidades em determinadas situações ou
SULLIVAN campos recorrentes que ‘incluem’ o observador.”
(1950, p. 92)
Harry Stack Sullivan foi o criador de um novo ponto Harry Stack Sullivan nasceu em uma fazenda perto
de vista, conhecido como a teoria interpessoal da psi- de Norwich, Nova York, em 21 de fevereiro de 1892,
quiatria. Seu princípio central, no que diz respeito a e morreu em 14 de janeiro de 1949, em Paris, França,
uma teoria da personalidade, é que a personalidade é a caminho de casa depois de um encontro do conse-
“o padrão relativamente duradouro de situações in- lho executivo da Federação Mundial de Saúde Mental
terpessoais recorrentes que caracteriza uma vida hu- em Amsterdam. Ele recebeu seu diploma de médico
mana” (1953, p. 111). A personalidade é uma entida- do Chicago College of Medicine and Surgery em 1917,
de hipotética que não pode ser isolada de situações e serviu nas forças armadas durante a Primeira Guer-
interpessoais, e o comportamento interpessoal é tudo ra Mundial. Depois da guerra trabalhou como oficial
o que podemos observar como personalidade. Portan- médico do Conselho Federal de Educação Vocacional
to, é inútil, acreditava Sullivan, falar do indivíduo e a seguir no Serviço de Saúde Pública. Em 1922,
como o objeto de estudo, porque o indivíduo não existe Sullivan foi para o Hospital Saint Elizabeth, em Wa-
e não pode existir à parte de suas relações com outras shington, D. C., onde sofreu a influência de William
pessoas. Desde o primeiro dia de vida, o bebê é parte Alanson White, um dos líderes da neuropsiquiatria
de uma situação interpessoal, e pelo resto de sua vida americana. De 1923 até o início da década de 30, ele
ele continua sendo membro de um campo social. Mes- trabalhou na escola de medicina da Universidade de
mo os eremitas, que renunciaram à sociedade, levam Maryland e no Hospital Sheppard e Enoch Pratt, em
consigo para a solidão as memórias de antigos relaci- Towson. Foi durante esse período de sua vida que
onamentos pessoais que continuam influenciando seu Sullivan conduziu investigações sobre a esquizofre-
pensamento e seus atos. nia que estabeleceram sua reputação como clínico. Ele
Embora Sullivan não negasse a importância da deixou Maryland para abrir um consultório na Park
hereditariedade e da maturação para formar e mol- Avenue, em Nova York, com o propósito expresso de
dar o organismo, ele sentia que tudo que é distinta- estudar o processo obsessivo em pacientes de consul-
mente humano é produto de interações sociais. Além tório. Na época, ele começou sua formação analítica
TEORIAS DA PERSONALIDADE 139

Harry Stack Sullivan.


140 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

formal com Clara Thompson, uma aluna de Sandor e comentários de Helen Swick Perry e Mary Gravell, e
Ferenczi. Esse não foi o primeiro contato de Sullivan os dois últimos, apenas da Sra. Perry. The Interperso-
com a psicanálise. Ele tivera cerca de 75 horas de aná- nal Theory of Psychiatry (1953) consiste principalmente
lise enquanto ainda era estudante de medicina. Em em uma série de palestras proferidas por Sullivan no
1933, ele se tornou presidente da Fundação William inverno de 1946-1947 e representa seu relato mais
Alanson White, e aí trabalhou até 1943. Em 1936, ele completo de sua teoria das relações interpessoais. The
ajudou a fundar e tornou-se diretor da Washington Psychiatric Interview (1954) baseia-se em duas séries
School of Psychiatry, o instituto de formação da fun- de palestras proferidas por Sullivan em 1944 e 1945,
dação. O jornal Psychiatry começou a ser publicado e Clinical Studies in Psychiatry (1956), em palestras
em 1938, para promover a teoria das relações inter- proferidas em 1943. Os artigos de Sullivan sobre es-
pessoais de Sullivan. Ele foi co-editor e depois editor quizofrenia, a maioria dos quais remonta à época em
até a sua morte. Sullivan trabalhou como consultor que trabalhava no Hospital Sheppard e Enoch Pratt,
para o Selective Service Systems em 1940-1941; par- foram reunidos e publicados sob o título Schizophre-
ticipou, em 1948, do Tensions Project da UNESCO, nia as a Human Process (1962). O último volume foi
estabelecido pelas Nações Unidas para estudar as ten- The Fusion of Psychiatry and Social Science (1964). O
sões que afetam o entendimento internacional; e foi primeiro e o último volumes dessa série são os mais
indicado como membro da comissão preparatória in- pertinentes para entendermos a teoria psicológica
ternacional do Congresso Internacional de Saúde social de Sullivan da personalidade.
Mental no mesmo ano. Sullivan foi um estadista cien- Patrick Mullahy, um filósofo e discípulo de Sulli-
tífico, assim como um proeminente porta-voz da psi- van, editou vários livros sobre a teoria das relações
quiatria, o líder de uma escola importante de forma- interpessoais. Um deles, A Study of Interpersonal Rela-
ção de psiquiatras, um terapeuta notável, um teórico tions (1949), contém um grupo de artigos de pessoas
intrépido, e um cientista médico produtivo. Por sua associadas à Washington School e ao Instituto Willi-
vívida personalidade e pensamento original, ele atraiu am Alanson White, na cidade de Nova York. Todos os
muitas pessoas que se tornaram seus discípulos, alu- artigos foram originalmente impressos no Psychiatry,
nos, colegas e amigos. incluindo três de Sullivan. Outro livro, intitulado The
Além de William Alanson White, as principais in- Contributions of Harry Stack Sullivan (1952) consiste
fluências no desenvolvimento intelectual de Sullivan em um grupo de artigos apresentados em um simpó-
foram Freud, Adolph Meyer e a Escola de Sociologia sio memorial por representantes de várias disciplinas,
de Chicago, que consistia em George Herbert Mead, incluindo psiquiatria, psicologia e sociologia. Esse li-
W. I. Thomas, Edward Sapir, Robert E. Park, E. W. vro contém um relato sucinto de Mullahy da teoria
Burgess, Charles E. Merriam, William Healy e Harold interpessoal, e uma bibliografia completa dos textos
Lasswell. Sullivan se sentia especialmente ligado a de Sullivan até 1951. Os resumos das idéias de Sulli-
Edward Sapir, um dos pioneiros na defesa de um rela- van também aparecem em três outros livros de
cionamento de trabalho mais estreito entre a antro- Mullahy (1948, 1970, 1973). A teoria interpessoal de
pologia, a sociologia e a psicanálise. Sullivan come- Sullivan foi examinada detalhadamente por Dorothy
çou a formular sua teoria das relações interpessoais Blitsten (1953), e sua vida e obra, por Chapman
em 1929 e em meados da década de 30 já tinha con- (1976) e Perry (1982).
solidado seu pensamento.
Durante sua vida, Sullivan publicou apenas um
livro, apresentando a sua teoria (1947). Entretanto,
ele manteve cadernos detalhados e muitas de suas A ESTRUTURA DA
aulas para os alunos da Washington School of Psychi- PERSONALIDADE
atry foram gravadas. Esses cadernos e gravações, as-
sim como outros materiais não publicados, foram en- Sullivan insistia repetidamente que a personalidade é
tregues à Fundação Psiquiátrica William Alanson uma entidade puramente hipotética, “uma ilusão”, que
White. Cinco livros baseados no material de Sullivan não pode ser observada ou estudada à parte de situa-
foram publicados, os primeiros três com introduções ções interpessoais. A unidade de estudo é a situação
TEORIAS DA PERSONALIDADE 141

interpessoal, e não a pessoa. A organização da perso- significativamente diferente, vai transformar o padrão
nalidade consiste em eventos interpessoais, ao invés em um novo padrão. Por exemplo, duas maçãs po-
de intrapsíquicos. A personalidade só se manifesta dem ser bem diferentes e ainda assim serem identifi-
quando a pessoa está se comportando em relação a cadas como maçãs, porque as diferenças não são sig-
um ou mais indivíduos. Essas pessoas não precisam nificativas. Entretanto, uma maçã e uma banana são
estar presentes; elas podem ser inclusive figuras ilu- diferentes em aspectos significativos e, portanto, for-
sórias ou inexistentes. Uma pessoa pode ter um rela- mam dois padrões diferentes.
cionamento com um herói popular como Paul Bunyan Os dinamismos com um caráter distintivamente
ou com um personagem ficcional como Anna Kareni- humano são aqueles que caracterizam as relações in-
na, ou com ancestrais ou descendentes ainda não nas- terpessoais. Por exemplo, alguém pode-se comportar
cidos: “A psiquiatria é o estudo de fenômenos que ocor- de uma maneira habitualmente hostil em relação a
rem em situações interpessoais, em configurações uma certa pessoa ou grupo de pessoas, o que expres-
formadas por duas ou mais pessoas, das quais todas, sa um dinamismo de ódio. Um homem que tende a
com exceção de uma, podem ser completamente ilu- buscar relacionamentos lascivos com mulheres mani-
sórias” (1964, p. 33). Perceber, lembrar, pensar, ima- festa um dinamismo de luxúria. Uma criança que tem
ginar, e todos os outros processos psicológicos têm medo de estranhos tem um dinamismo de medo. Qual-
um caráter interpessoal. Mesmo os sonhos noturnos quer reação habitual em relação a uma ou mais pes-
são interpessoais, uma vez que normalmente refle- soas, seja na forma de um sentimento, uma atitude,
tem os relacionamentos do sonhador com outras pes- ou seja uma ação manifesta, constitui um dinamismo.
soas. Todas as pessoas têm os mesmos dinamismos básicos,
Embora Sullivan desse à personalidade um status mas o modo de expressão de um dinamismo varia de
apenas hipotético, ele afirmava que ela é o centro di- acordo com a situação e a experiência de vida do in-
nâmico de vários processos que ocorrem em uma sé- divíduo.
rie de campos interpessoais. Além disso, ele atribuiu Um dinamismo normalmente emprega uma de-
um status substantivo a alguns desses processos, iden- terminada zona do corpo, como a boca, as mãos, o
tificando-os e nomeando-os, e conceitualizando algu- ânus e os genitais para interagir com o ambiente. Uma
mas de suas propriedades. Os principais são os dina- zona consiste em um aparelho receptor para receber
mismos, as personificações e os processos cognitivos. estímulos, um aparelho efetuador para realizar uma
ação, e um aparelho conector chamado edutor, no sis-
tema nervoso central, que conecta o mecanismo re-
Dinamismos
ceptor com o mecanismo efetuador. Assim, quando o
Um dinamismo é a menor unidade que pode ser em- mamilo é colocado na boca do bebê, ele estimula a
pregada no estudo do indivíduo. É definido como “o mucosa sensível dos lábios, que emitem impulsos ao
padrão relativamente duradouro de transformações longo dos caminhos nervosos até os órgãos motores
de energia, que recorrentemente caracteriza o orga- da boca que produzem movimentos de sugar.
nismo em sua duração como um organismo vivo” A maioria dos dinamismos tem o propósito de sa-
(Sullivan, 1953, p. 103). Uma transformação de ener- tisfazer as necessidades básicas do organismo. Entre-
gia é qualquer forma de comportamento. Ele pode ser tanto, existe um dinamismo importante que se desen-
manifesto e público, como falar, ou oculto e privado, volve em resultado da ansiedade. É o dinamismo do
como pensar e fantasiar. Uma vez que um dinamismo self ou do auto-sistema.
é um padrão de comportamento persistente e recor-
rente, ele é mais ou menos como um hábito. A defini-
O Auto-Sistema
ção de Sullivan de padrão é original: “um invólucro
contendo diferenças particulares insignificantes” A ansiedade é um produto das relações interpessoais,
(1953, p. 104). Isso significa que uma nova caracte- sendo transmitida originalmente da mãe para o bebê,
rística pode ser acrescentada a um padrão sem mudar e posteriormente por ameaças à segurança da pessoa.
esse padrão, desde que não seja significativamente Para evitar ou minimizar a ansiedade real ou potenci-
diferente dos outros conteúdos do invólucro. Se for al, as pessoas adotam vários tipos de medidas prote-
142 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

toras e controles para supervisionar seu comportamen- é “o principal obstáculo a mudanças favoráveis na
to. A pessoa aprende, por exemplo, que pode evitar personalidade” (1953, p. 169). Talvez com ironia, ele
punições conformando-se aos desejos dos pais. Essas escreveu: “O self é o conteúdo da consciência sempre
medidas de segurança formam o auto-sistema ou sis- que a pessoa está plenamente satisfeita consigo mes-
tema de self que sanciona certos modos de comporta- ma, com o prestígio que goza entre seus pares, e com
mento (o self eu-bom), proíbe outros (o self eu-mau) o respeito e a deferência que deles recebe” (1964, p.
e exclui da consciência outros modos que são estra- 217).
nhos e desagradáveis demais para serem sequer con-
siderados (o self não-eu). Por meio desses processos,
Personificações
o auto-sistema age como um filtro da consciência.
Sullivan empregou o termo atenção seletiva para a re- Uma personificação é a imagem que o indivíduo tem
cusa do inconsciente a prestar atenção a eventos e de si mesmo ou de outra pessoa. É um complexo de
sentimentos geradores de ansiedade. Esse processo sentimentos, atitudes e concepções que decorrem de
tem uma semelhança óbvia com os mecanismos de experiências de satisfação de necessidades e de ansie-
defesa descritos por Freud (ver Capítulo 2) e com o dade. Por exemplo, o bebê desenvolve uma personifi-
modelo de autodefesa apresentado por Carl Rogers cação de uma boa mãe ao ser amamentado e cuidado
(ver Capítulo 11). por ela. Qualquer relacionamento interpessoal que
O auto-sistema, como guardião da segurança, ten- envolva satisfação tende a criar uma imagem favorá-
de a isolar-se do resto da personalidade; ele exclui vel do agente que satisfaz. Por outro lado, a personifi-
informações que são incongruentes com sua presente cação do bebê de uma mãe má resulta de experiênci-
organização e deixa, portanto, de beneficiar-se da as com ela envolvendo ansiedade. A mãe ansiosa é
experiência. Uma vez que o self protege a pessoa da personificada como a mãe má. Finalmente, essas duas
ansiedade, ele é muito valorizado e protegido de crí- personificações da mãe, juntamente com quaisquer
ticas. Conforme o auto-sistema cresce em complexi- outras existentes, tais como a mãe sedutora ou a mãe
dade e independência, ele impede que a pessoa faça superprotetora, fundem-se para formar uma personi-
julgamentos objetivos de seu próprio comportamento ficação complexa.
e atenua contradições óbvias entre o que a pessoa re- As imagens que levamos em nossa mente rara-
almente é e o que o auto-sistema diz que ela é. Obser- mente são descrições acuradas das pessoas às quais
vem como esta dinâmica é semelhante à descrita por se referem. Elas se formam, em primeiro lugar, para
Horney anteriormente neste capítulo. Em geral, quanto lidar com as pessoas em situações interpessoais bas-
mais experiências de ansiedade a pessoa tem, mais tante isoladas, mas, uma vez formadas, normalmente
inflado fica o auto-sistema e mais ele se dissocia do persistem e influenciam as nossas atitudes em relação
restante da personalidade. Embora o auto-sistema sir- a outras pessoas. Assim, uma pessoa que personifica
va ao útil propósito de reduzir a ansiedade, ele inter- seu pai como um homem mesquinho e ditatorial pode
fere na capacidade da pessoa de viver construtivamen- projetar essa mesma personificação em outros homens
te com os outros. mais velhos, como professores, policiais e emprega-
Sullivan acreditava que o auto-sistema é um pro- dores. Conseqüentemente, algo que tem como função
duto dos aspectos irracionais da sociedade. Com isso reduzir a ansiedade no início da vida pode interferir
ele queria dizer que fazemos com que a criança pe- posteriormente nas relações interpessoais. Essas ima-
quena fique ansiosa por motivos que não existiriam gens carregadas de ansiedade distorcem nossas con-
em uma sociedade mais racional; ela é forçada a ado- cepções de pessoas presentemente significativas. As
tar maneiras não-naturais e irrealistas de lidar com personificações do self como o eu-bom e o eu-mau
sua ansiedade. Embora Sullivan reconhecesse que o seguem os mesmos princípios das personificações dos
desenvolvimento de um auto-sistema é absolutamen- outros. A personificação eu-bom resulta de experiên-
te necessário para evitar a ansiedade na sociedade mo- cias interpessoais recompensadoras e a personifica-
derna, e talvez em qualquer tipo de sociedade que o ção eu-mau, de situações ansiogênicas. E como as
ser humano seja capaz de construir, ele também reco- personificações de outras pessoas, as autopersonifi-
nheceu que o auto-sistema, como o conhecemos hoje, cações tendem a atrapalhar a auto-avaliação objetiva.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 143

As personificações compartilhadas por várias pes- sensualmente validada, especialmente de natureza


soas chamam-se estereótipos. São concepções consen- verbal. Um símbolo consensualmente validado é aque-
sualmente validadas, isto é, idéias com ampla aceita- le que possui um significado-padrão para um grupo
ção entre os membros de uma sociedade, transmitidas de pessoas. As palavras e os números são os melhores
de uma geração para outra. Exemplos de estereótipos exemplos de tais símbolos. O modo sintáxico produz
comuns na nossa cultura são o professor distraído, o ordem lógica entre as experiências e permite que as
artista inconvencional e o executivo de negócios astu- pessoas se comuniquem umas com as outras.
to e insensível. Além dessa formulação dos modos de experiên-
cia, Sullivan enfatizou a importância da previsão no
funcionamento cognitivo: “O homem, a pessoa, vive
Processos Cognitivos
com seu passado, seu presente e seu futuro próximo
A contribuição notável de Sullivan relativa ao lugar sendo claramente relevantes para explicar seu pensa-
da cognição nas questões da personalidade é sua clas- mento e ação” (1950, p. 84). A previsão depende da
sificação tripla da experiência. A experiência, disse nossa memória do passado e da interpretação do pre-
ele, ocorre em três modos: prototáxico, paratáxico e sente.
sintáxico. A experiência prototáxica “pode ser consi- Embora os dinamismos, as personificações e os
derada como a série descontínua de estados momen- processos cognitivos não completem a lista dos cons-
tâneos do organismo sensível” (1953, p. 29). Esse tipo tituintes da personalidade, eles são os principais as-
de experiência é semelhante ao que James chamou pectos estruturais distintivos do sistema de Sullivan.
de “fluxo de consciência”, as sensações, as imagens e
os sentimentos brutos que fluem através da mente de
um ser sensível. Eles não têm nenhuma conexão ne-
cessária entre si e não possuem nenhum significado A DINÂMICA DA PERSONALIDADE
para a pessoa que experiencia. O modo prototáxico
de experiência é encontrado em sua forma mais pura Sullivan, em comum com muitos outros teóricos da
nos primeiros meses de vida e é a pré-condição neces- personalidade, concebia a personalidade como um
sária para o aparecimento dos outros dois modos. sistema de energia cujo principal trabalho consiste em
O modo paratáxico de pensamento consiste em atividades que reduzirão a tensão. Ele disse que não
ver as relações causais entre os eventos que ocorrem há necessidade de acrescentar o termo “mental” à
aproximadamente no mesmo momento, mas que não energia ou tensão, pois ele os utiliza exatamente com
estão logicamente relacionados. O eminente escritor o mesmo sentido que têm na física.
tcheco Franz Kafka retratou um caso interessante de
pensamento paratáxico em um de seus contos. Um
Tensão
cachorro que vivia em um canil cercado por uma cer-
ca alta estava urinando certo dia quando um osso foi Sullivan começou com a concepção familiar do orga-
atirado por cima da cerca. O cachorro pensou: “Meu nismo como um sistema de tensão, que teoricamente
ato de urinar fez esse osso aparecer”. A partir daí, pode variar entre os limites do relaxamento absoluto,
sempre que ele queria algo para comer, erguia a per- ou euforia, como Sullivan preferia chamar, e a tensão
na. Sullivan acreditava que grande parte do nosso pen- absoluta, exemplificada no terror extremo. Existem
samento não avança além do nível da parataxe; nós duas fontes principais de tensão: (1) as tensões que
vemos conexões causais entre experiências que nada surgem das necessidades do organismo e (2) as ten-
têm a ver uma com a outra. Todas as superstições, por sões que resultam de uma ansiedade. As necessidades
exemplo, são exemplos de pensamento paratáxico. O estão relacionadas às exigências fisicoquímicas da vida;
pensamento paratáxico tem muito em comum com o são aquelas condições, como falta de alimento, água
processo chamado por Skinner de comportamento su- ou oxigênio, que produzem um desequilíbrio na eco-
persticioso (ver Capítulo 12). nomia do organismo. As necessidades podem ter um
O terceiro e mais elevado modo de pensamento é caráter geral, como a fome, ou estar mais especifica-
o sintáxico, que consiste na atividade simbólica con- mente relacionadas à alguma zona do corpo, como a
144 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

necessidade de sugar do bebê. As necessidades se or- ansiedade nas relações interpessoais, em vez de ten-
ganizam segundo uma ordem hierárquica; as inferio- tar lidar com os sintomas resultantes da ansiedade.
res precisam ser satisfeitas antes que as superiores pos-
sam ser acomodadas. Um resultado da redução da
Transformações de Energia
necessidade é uma experiência de satisfação: “As ten-
sões podem ser vistas como necessidades de transfor- A energia é transformada pelo trabalho. O trabalho
mações específicas de energia que dissiparão a ten- pode ser uma ação manifesta, envolvendo os múscu-
são, freqüentemente com uma mudança concomitante los estriados do corpo ou pode ser mental, tal como
de estado ‘mental’, uma mudança de consciência, à perceber, lembrar e pensar. Essas atividades manifes-
qual podemos aplicar genericamente o termo satisfa- tas ou ocultas têm como meta o alívio de tensão. Elas,
ção (1950, p. 85). A conseqüência típica do fracasso em grande medida, são condicionadas pela sociedade
prolongado em satisfazer as necessidades é um senti- em que a pessoa é criada: “O que qualquer um pode
mento de apatia que produz uma redução geral das descobrir ao investigar seu passado é que padrões de
tensões. tensões e de transformações de energia que constitu-
A ansiedade é a experiência de tensão resultante em sua vida são, em uma extensão verdadeiramente
de ameaças reais ou imaginárias à própria segurança. assombrosa, reflexos de sua educação para viver em
Muita ansiedade reduz a eficiência do indivíduo em uma determinada sociedade” (Sullivan, 1950, p. 83).
satisfazer suas necessidades, perturba as relações in- Sullivan não acreditava que os instintos fossem
terpessoais e produz confusão no pensamento. A an- fontes importantes de motivação humana, e não acei-
siedade varia em intensidade, dependendo da gravi- tava a teoria de Freud da libido. O indivíduo tende a
dade da ameaça e da efetividade das operações de se comportar de determinada maneira como resulta-
segurança empregadas pelas pessoas. Uma ansiedade do de interações com as pessoas e não porque possui
grave é como uma pancada na cabeça: não transmite imperativos inatos para certos tipos de ação.
nenhuma informação à pessoa e traz confusão total e
inclusive amnésia. As formas menos graves de ansie-
dade podem ser informativas. De fato, Sullivan acre-
ditava que a ansiedade é a primeira grande influência O DESENVOLVIMENTO DA
educativa na vida. A ansiedade é transmitida ao bebê PERSONALIDADE
por “aquela que faz a maternagem”, que expressa an-
siedade em seu jeito, tom de voz e comportamento Sullivan detalhou bem a seqüência de situações
geral. Sullivan admitiu não saber como ocorria essa interpessoais às quais a pessoa é exposta do período
transmissão, embora provavelmente se realize por al- de bebê à idade adulta, e as maneiras como essas si-
gum tipo de processo empático, de natureza obscura. tuações contribuem para a formação da personalida-
Em conseqüência da ansiedade transmitida pela mãe, de. Mais do que qualquer outro teórico da personali-
outros objetos no ambiente circundante ficam carre- dade, com as possíveis exceções de Freud e Erikson,
gados de ansiedade pela operação do modo paratáxi- Sullivan considerava a personalidade de uma pers-
co de associar experiências contíguas. O mamilo da pectiva de estágios definidos de desenvolvimento. Ao
mãe, por exemplo, transforma-se em um mamilo mau passo que Freud mantinha a posição de que o desen-
que produz reações de rejeição no bebê. O bebê apren- volvimento é amplamente um desdobramento do ins-
de a afastar-se de atividades e objetos que aumentam tinto sexual, Sullivan defendia persuasivamente uma
a ansiedade. Quando o bebê não pode escapar da an- visão mais psicológica social do desenvolvimento da
siedade, ele tende a adormecer. Esse dinamismo do personalidade, que reconhecesse devidamente as con-
desligamento sonolento, como Sullivan o chama, é o tribuições notáveis dos relacionamentos humanos.
equivalente da apatia, que é o dinamismo despertado Embora Sullivan não rejeitasse os fatores biológicos
por necessidades insatisfeitas. De fato, esses dois di- como condicionantes do desenvolvimento da perso-
namismos não podem ser objetivamente diferencia- nalidade, ele os subordinava aos determinantes soci-
dos. Sullivan disse que uma das grandes tarefas da ais do desenvolvimento psicológico. Além disso, ele
psicologia é descobrir as vulnerabilidades básicas à era da opinião de que às vezes essas influências soci-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 145

ais se opõem às necessidades biológicas da pessoa e A transição da infância para a meninice é possibi-
têm efeitos prejudiciais sobre a personalidade. Sulli- litada pela aprendizagem da linguagem e pela orga-
van jamais deixou de reconhecer as influências dele- nização da experiência no modo sintáxico. A menini-
térias da sociedade. De fato, como qualquer outro te- ce se estende da emergência da fala articulada ao
órico psicológico social, Sullivan foi um crítico agudo aparecimento da necessidade de companheiros para
e incisivo da sociedade contemporânea. brincar. O desenvolvimento da linguagem permite,
entre outras aquisições, a fusão de diferentes personi-
ficações, por exemplo, a mãe boa e a má, e a integra-
Estágios de Desenvolvimento
ção do auto-sistema em uma estrutura mais coerente.
Sullivan delineou seis estágios no desenvolvimento da O auto-sistema começa a desenvolver a concepção de
personalidade antes do estágio final da maturidade. gênero: o menino se identifica com o papel masculino
Esses seis estágios são típicos das culturas européias prescrito pela sociedade, e a menina, com o papel fe-
ocidentais e podem ser diferentes em outras socieda- minino. O desenvolvimento da capacidade simbólica
des. São eles: (1) infância, (2) meninice, (3) idade permite que a criança brinque de ser adulta; Sullivan
juvenil, (4) pré-adolescência, (5) adolescência inicial chamou de dramatizações esses desempenhos “como
e (6) adolescência final. se”. Isso também permite que a criança se dedique a
A infância se estende do nascimento ao apareci- várias atividades, manifestas e ocultas, que têm o pro-
mento da fala articulada. Nesse período a zona oral é pósito de evitar a punição e a ansiedade. Sullivan as
a zona primária de interação entre o bebê e seu ambi- chama de preocupações.
ente. A amamentação oferece ao bebê sua primeira Um evento dramático da meninice é a transfor-
experiência interpessoal. A característica do ambien- mação malevolente, o sentimento de que vivemos en-
te que se destaca durante o período de bebê é o obje- tre inimigos. Esse sentimento, caso se torne suficien-
to que alimenta o bebê faminto, ou o mamilo do seio temente forte, impossibilita a criança de responder
da mãe ou o bico da mamadeira. O bebê desenvolve positivamente aos gestos afetuosos das outras pesso-
várias concepções do mamilo ou bico do seio, depen- as. A transformação malevolente distorce as relações
dendo das experiências que tem com ele. São elas (1) interpessoais da criança, levando-a ao isolamento. Ela
o mamilo bom, que sinaliza a amamentação e é um diz, de fato, “Era uma vez, tudo era adorável, mas
sinal de que a satisfação está chegando; (2) o mamilo isso foi antes de eu ter de lidar com pessoas”. A trans-
bom, mas insatisfatório, porque o bebê não está com formação malevolente é causada por experiências
fome; (3) o mamilo errado, porque não dá leite e é dolorosas e ansiosas com pessoas, e pode levar à re-
um sinal para a rejeição e a subseqüente busca de ou- gressão ao estágio menos ameaçador do período de
tro mamilo; e (4) o mamilo mau da mãe ansiosa, que bebê.
é um sinal para a esquiva. A sublimação, que Sullivan definiu como “a subs-
Os outros aspectos característicos da infância são tituição involuntária de um padrão de comportamen-
(1) o aparecimento dos dinamismos de apatia e desli- to que encontra ansiedade ou colide com o auto-siste-
gamento sonolento; (2) a transição de um modo de ma, de um padrão de atividade socialmente mais
cognição prototáxico para um paratáxico; (3) a orga- aceitável, que satisfaz partes do sistema motivacional
nização de personificações, como a mãe má, ansiosa, que causaram problemas” (1953, p. 193), aparece
que rejeita e frustra, e a mãe boa, tranqüila, que acei- durante a meninice. O excesso de tensão que não é
ta e satisfaz; (4) a organização da experiência por meio descarregado pela sublimação é gasto em desempe-
da aprendizagem e a emergência dos rudimentos do nhos simbólicos, por exemplo, em sonhos noturnos.
auto-sistema; (5) a diferenciação do corpo do bebê, O estágio juvenil se estende pela maioria dos anos
de modo que ele aprende a satisfazer suas tensões iniciais do ensino fundamental. É um período para
independentemente da pessoa que faz a maternagem, socializar-se, adquirir experiências de subordinação
sugando o polegar, por exemplo; e (6) a aprendiza- social a figuras de autoridade fora da família, tornar-
gem de movimentos coordenados, envolvendo mão e se competitivo e cooperativo, aprender o significado
olho, mão e boca e ouvido e voz. de ostracismo, desprezo e sentimento grupal. A crian-
146 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

ça aprende a não prestar atenção às circunstâncias jeto um membro do sexo oposto, enquanto a necessi-
externas que não a interessam, a supervisionar seu dade de intimidade permanece fixada em um mem-
comportamento por meio de controles internos, a for- bro do mesmo sexo. Se essas duas necessidades não
mar estereótipos em atitudes, a desenvolver modos se divorciarem, o jovem vai apresentar uma orienta-
novos e mais efetivos de sublimação e a distinguir mais ção homossexual, em vez de heterossexual. Sullivan
claramente entre a fantasia e a realidade. salientou que muitos dos conflitos da adolescência de-
Um grande evento desse período é a emergência correm das necessidades opostas de gratificação se-
da concepção de orientação na vida: xual, de segurança e de intimidade. A adolescência
inicial persiste até que a pessoa encontre algum pa-
“A pessoa está orientada na vida na extensão em
drão estável de desempenho que satisfaça suas pul-
que formulou, ou pode facilmente ser levada a
sões genitais.
formular (ou tem insight disso), os seguintes ti-
Sullivan escreveu: “A adolescência final se esten-
pos de dados: as tendências integradoras (neces-
de da criação do padrão de atividade genital preferi-
sidades) que costumeiramente caracterizam suas
da, por meio de inumeráveis passos educativos e edu-
relações interpessoais; as circunstâncias apropri-
tivos, até o estabelecimento de um repertório
adas à sua satisfação e descarga relativamente li-
plenamente humano ou maduro de relações interpes-
vres de ansiedade; e as metas, mais ou menos re-
soais, conforme permitem as oportunidades pessoais
motas, pela aproximação das quais a pessoa vai
e culturais” (1953, p. 297). Em outras palavras, o pe-
privar-se de oportunidades intercorrentes de sa-
ríodo da adolescência final constitui uma iniciação
tisfação ou de aumento do próprio prestígio.”
bastante prolongada em privilégios, deveres, satisfa-
(1953, p. 243)
ções e responsabilidades da vida social e da cidada-
O período relativamente breve da pré-adolescên- nia. Gradualmente ocorre o aperfeiçoamento das re-
cia é marcado pela necessidade de um relacionamen- lações interpessoais, e o desenvolvimento da
to íntimo com um igual do mesmo sexo, um amigo experiência no modo sintáxico permite a ampliação
em quem possamos confiar e que enfrente conosco as dos horizontes simbólicos. O auto-sistema se estabili-
tarefas e os problemas da vida. Esse é um período za, são aprendidas sublimações de tensões mais efeti-
extremamente importante, porque assinala o início de vas, e instituídas medidas de segurança mais enérgi-
relacionamentos humanos genuínos com outras pes- cas contra a ansiedade.
soas. Em períodos anteriores, a situação interpessoal Quando o indivíduo deu todos esses passos e atin-
se caracteriza pela dependência da criança em rela- giu o estágio final da idade adulta, ele foi transforma-
ção a uma pessoa mais velha. Durante a pré-adoles- do, principalmente pelas relações interpessoais, de um
cência, a criança começa a formar relacionamentos organismo animal em uma pessoa humana. Nós não
de amizade nos quais existem igualdade, mutualida- somos animais cobertos por uma camada de civiliza-
de e reciprocidade entre os membros. Sem uma com- ção e humanidade, mas animais que foram tão drasti-
panhia íntima, o pré-adolescente torna-se vítima de camente alterados que já não somos animais, mas se-
uma solidão desesperada. res humanos, ou, se preferirem, animais humanos.
O principal problema do período da adolescência
inicial é o desenvolvimento de um padrão de ativida-
Determinantes do Desenvolvimento
de heterossexual. As mudanças psicológicas da puber-
dade são experienciadas pelo jovem como sentimen- Embora Sullivan rejeitasse firmemente qualquer dou-
tos de desejo sensual. O dinamismo do desejo sensual trina instintivista inflexível, ele reconhecia a impor-
emerge desses sentimentos e começa a afirmar-se na tância da hereditariedade na provisão de certas capa-
personalidade. O dinamismo do desejo sensual envol- cidades, entre as quais se destacam as capacidades de
ve primariamente a zona genital, mas outras zonas receber e elaborar experiências. Ele também aceitava
de interação, como a boca e as mãos, também partici- o princípio de que o treinamento não pode ser efetivo
pam do comportamento sexual. Existe uma separa- antes que a maturação tenha constituído a base estru-
ção entre a necessidade erótica e a necessidade de tural. Assim, a criança não pode aprender a caminhar
intimidade; a necessidade erótica toma como seu ob- antes que os músculos e a estrutura óssea tenham atin-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 147

gido um nível de crescimento que suporte uma postu- que interferia no processo de comunicação entre pa-
ra ereta. A hereditariedade e a maturação proporcio- ciente e terapeuta. Conseqüentemente, Sullivan pas-
nam o substrato biológico para o desenvolvimento da sou a estudar as forças que impediam e facilitavam a
personalidade, isto é, as capacidades, as predisposi- comunicação entre duas pessoas. Ao fazer isso, ele
ções e as inclinações. A cultura opera por meio de um descobriu que o psiquiatra era muito mais do que um
sistema de relações interpessoais para tornar mani- observador; ele era também um participante ativo de
festas as capacidades e os desempenhos reais (trans- uma situação interpessoal. O psiquiatra tinha suas
formações de energia) pelos quais a pessoa atinge a próprias apreensões para manejar, tais como compe-
meta da redução de tensão e a satisfação de necessi- tência profissional e problemas pessoais. Como resul-
dades. tado dessa descoberta, Sullivan desenvolveu sua con-
A primeira influência educativa é a da ansiedade, cepção do terapeuta como um observador participante:
que obriga o jovem organismo a discriminar entre ten-
“A teoria das relações interpessoais enfatiza mui-
são crescente e decrescente e a orientar sua atividade
to o método da observação participante e dá uma
na direção desta última. A segunda grande força edu-
importância secundária aos dados obtidos por
cacional é a da tentativa e sucesso. O sucesso, como
outros métodos. Isso, por sua vez, implica que a
muitos psicólogos salientaram, tende a fixar a ativi-
habilidade na entrevista psiquiátrica face a face,
dade que levou à gratificação. O sucesso pode ser com-
ou pessoa a pessoa, é de importância fundamen-
parado ao recebimento de recompensas, tais como o
tal.” (1950, p. 122)
sorriso da mãe ou o elogio do pai. Da mesma forma, o
fracasso pode ser comparado a uma punição, como o
olhar severo da mãe ou as palavras de desaprovação
A Entrevista
do pai. Também podemos aprender por meio da imi-
tação e da inferência. A entrevista psiquiátrica é o termo de Sullivan para o
Sullivan não acreditava que a personalidade já tipo de situação interpessoal, face a face, que ocorre
estivesse estabelecida em tenra idade. Ela pode mu- entre o paciente e o terapeuta. Pode haver apenas uma
dar em qualquer momento, à medida que surgirem entrevista, ou uma seqüência de entrevistas com um
novas situações interpessoais, porque o organismo é paciente, estendendo-se por um longo período de tem-
extremamente plástico e maleável. Embora predomi- po. Sullivan definiu a entrevista como “um sistema,
ne o ímpeto evolutivo da aprendizagem e do desen- ou uma série de sistemas, de processos interpessoais,
volvimento, podem ocorrer regressões quando o so- surgindo da observação participante em que o entre-
frimento, a ansiedade e o fracasso se tornam vistador deriva certas conclusões sobre o entrevista-
intoleráveis. do” (1954, p. 128). Como a entrevista é conduzida e
como o entrevistador chega a conclusões a respeito
do paciente constituem o assunto do livro de Sulli-
van, The Psychiatric Interview (1954).
PESQUISA CARACTERÍSTICA E Sullivan dividiu a entrevista em quatro estágios:
MÉTODOS DE PESQUISA (1) início formal, (2) reconhecimento, (3) investiga-
ção detalhada e (4) término.
Harry Stack Sullivan, em comum com outros psiquia- A entrevista é primariamente uma comunicação
tras, adquiriu seu conhecimento empírico da perso- verbal entre duas pessoas. Não só o que a pessoa diz,
nalidade trabalhando com pacientes que sofriam de mas também a sua maneira de dizer aquilo – entona-
diferentes transtornos de personalidade, mas princi- ções, ritmo da fala, e outros comportamentos expres-
palmente com esquizofrênicos e obsessivos. Quando sivos – são as principais fontes de informação para o
ainda era um jovem psiquiatra, Sullivan descobriu que entrevistador. O entrevistador deve estar atento a
o método da associação livre não funcionava satisfa- mudanças sutis nas vocalizações do paciente (p. ex.,
toriamente com esquizofrênicos porque despertava mudanças no volume) porque essas pistas muitas ve-
uma ansiedade excessiva. Foram tentados outros mé- zes são evidências vitais referentes a problemas focais
todos, mas esses também provocavam uma ansiedade e a mudanças de atitude em relação ao terapeuta. No
148 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

início, o entrevistador deve evitar fazer muitas per- seu papel como um perito observador participante.
guntas e deve manter uma atitude de observação tran- Uma série de entrevistas chega ao término quando o
qüila. O entrevistador deve tentar determinar as ra- entrevistador faz uma declaração final sobre o que
zões da vinda do paciente e alguma ocorrência sobre descobriu, prescreve um curso de ação para o pacien-
a natureza de seus problemas. te e avalia para ele os prováveis efeitos da prescrição
O período de reconhecimento visa a descobrir sobre sua vida.
quem é o paciente. O entrevistador faz isso por meio
de um interrogatório intensivo sobre o passado, o pre-
Pesquisa sobre a Esquizofrenia
sente e o futuro do paciente. Esses fatos sobre a vida
do paciente são os dados pessoais ou as informações A principal contribuição de pesquisa de Sullivan na
biográficas. Sullivan não defende um tipo de questio- psicopatologia consiste em uma série de artigos sobre
namento rígido, estruturado, que adote uma lista-pa- a etiologia, a dinâmica e o tratamento da esquizofre-
drão de perguntas. Por outro lado, ele insiste que o nia. A maior parte destes estudos foi realizada duran-
entrevistador não deve deixar o paciente falar sobre te seu período de trabalho no Hospital Sheppard e
questões irrelevantes e triviais. O paciente deve ficar Enoch Pratt, em Maryland, e eles foram publicados
sabendo que a entrevista é um procedimento sério e em jornais psiquiátricos nos anos de 1924-1931. Eles
que ele não deve perder tempo. O entrevistador tam- revelam o grande talento de Sullivan para fazer con-
bém não deve tomar notas durante as entrevistas, em tato com a mente do psicótico e compreendê-la. A em-
nenhum momento do curso do tratamento, porque patia era um traço extremamente desenvolvido na per-
tomar notas provoca distração demais e tende a inibir sonalidade de Sullivan, e ele a empregou de forma
o processo de comunicação. excelente ao estudar e tratar as vítimas da esquizofre-
Pelo final dos primeiros dois estágios do processo nia. Para Sullivan, essas vítimas não eram casos sem
de entrevista o psiquiatra deve ter formado algumas esperança a serem trancafiados nas últimas alas das
hipóteses prévias relativas aos problemas do paciente instituições para doentes mentais; eles podem ser tra-
e suas origens. Durante o período de questionamento tados com sucesso se o psiquiatra estiver disposto a
detalhado, o psiquiatra tenta definir qual das várias ser paciente, compreensivo e observador.
hipóteses é a correta. Ele faz isso ouvindo e fazendo Enquanto Sullivan estava no Hospital Sheppard e
perguntas. Sullivan sugeriu algumas áreas a serem Enoch Pratt, ele criou uma ala especial para pacien-
investigadas – questões de treinamento esfincteriano, tes. Ela consistia em uma suíte de dois quartos e uma
atitudes em relação ao corpo, hábitos de alimenta- sala de estar para seis esquizofrênicos do sexo mascu-
ção, ambição e atividades sexuais – mas novamente lino. Essa ala estava isolada do resto do hospital e
não insistiu sobre uma lista formal de perguntas a ser tinha uma equipe de seis atendentes do sexo masculi-
seguida rigidamente. no, escolhidos a dedo e treinados por Sullivan. Ele
À medida que tudo correr tranqüilamente, o en- sempre atendia cada paciente com um atendente pre-
trevistador provavelmente não aprenderá nada sobre sente na sala, pois descobriu que isso era seguro para
as vicissitudes de uma entrevista, entre as quais se o paciente. Nenhuma enfermeira do sexo feminino –
destaca o impacto das atitudes do entrevistador sobre de fato, nenhuma mulher – podia entrar na ala. Sulli-
a capacidade de comunicação do paciente. Mas quan- van acreditava na efetividade de uma enfermaria ho-
do o processo de comunicação se deteriorar, o entre- mogênea com pacientes do mesmo sexo, do mesmo
vistador será forçado a se perguntar: “O que eu disse grupo de idade e com o mesmo problema psiquiátri-
ou fiz que deixou o paciente ansioso?” Sempre existe co.
muita reciprocidade entre as duas partes – o termo de O papel de Sullivan como um psiquiatra político
Sullivan para isso é emoção recíproca – e cada uma também estava evidente em algumas de suas ativida-
está continuamente refletindo os sentimentos da ou- des de pesquisa. Ele acreditava que a pessoa tinha “de
tra. Cabe ao terapeuta reconhecer e controlar as pró- servir para poder estudar”. Ele fez pesquisa sobre os
prias atitudes no interesse de uma comunicação má- negros do sul com Charles S. Johnson, e sobre os ne-
xima. Em outras palavras, ele jamais deve esquecer gros de Washington com E. Franklin Frazier (Sulli-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 149

van, 1964). Seu trabalho durante a guerra consistiu posição ambientalista radical de que a personalidade
em criar procedimentos para fazer triagem de recru- de um indivíduo é criada unicamente pelas condições
tas, aumentar o moral, e desenvolver uma liderança da sociedade em que ele nasce. Cada teoria, à sua
efetiva. E já mencionamos seu grande interesse em própria maneira, concorda que existe isso que cha-
trabalhar por um mundo livre de tensões e conflitos. mamos de natureza humana que o bebê traz consigo,
amplamente na forma de predisposições ou potencia-
lidades bastante gerais, ao invés de necessidades e
traços específicos. Essas potencialidades generaliza-
STATUS ATUAL E AVALIAÇÃO das, exemplificadas pelo interesse social de Adler e
pela necessidade de transcendência de Fromm, são
As quatro teorias apresentadas neste capítulo fazem realizadas de maneiras concretas por agências educa-
parte de um mesmo grupo porque todas enfatizam a tivas formais e informais da sociedade. Em condições
influência das variáveis sociais no desenvolvimento ideais, essas teorias concordam, o indivíduo e a socie-
da personalidade. Todas elas, de uma maneira ou ou- dade são interdependentes; a pessoa trabalha para
tra, constituem uma reação contra a posição instinti- promover as metas da sociedade, e a sociedade, por
vista da psicanálise freudiana, embora todos os teóri- sua vez, ajuda a pessoa a atingir suas próprias metas.
cos reconheçam seu débito para com o pensamento Em resumo, a postura adotada por esses quatro teóri-
seminal de Freud. Todos subiram nos ombros de Freud cos não é nem exclusivamente social ou sociocêntri-
e acrescentaram seus próprios braços à sua eminente ca, nem exclusivamente psicológica ou psicocêntrica;
altura. Eles investiram a personalidade de dimensões ela tem um caráter genuinamente psicológico social.
sociais de importância igual, se não superior, às di- Além disso, cada teoria afirma não apenas que a
mensões biológicas propostas por Freud e Jung. Além natureza humana é plástica e maleável, mas também
disso, essas teorias ajudaram a colocar a psicologia na que a sociedade é igualmente plástica e maleável. Se
esfera das ciências sociais. uma determinada sociedade não atende às necessida-
Apesar da área comum que partilham, cada teo- des da natureza humana, ela pode ser mudada pelos
ria enfatiza agrupamentos um pouco diferentes de humanos. Em outras palavras, os humanos criam o
variáveis sociais. Erich Fromm dedica a maior parte tipo de sociedade que, em sua opinião, vai beneficiá-
de sua atenção a descrever como a estrutura e a dinâ- los mais. Obviamente são cometidos erros no desen-
mica de uma determinada sociedade moldam seus volvimento das sociedades, e quando esses erros se
membros para que seu caráter social se adapte aos cristalizam na forma de instituições e costumes soci-
valores e necessidades comuns daquela sociedade. ais, pode ser difícil modificá-los. Mas todos os teóri-
Karen Horney, embora reconhecendo a influência do cos foram otimistas em relação à possibilidade de
contexto social em que a pessoa vive, se detém nos mudança, e cada um, à sua maneira, tentou fazer
fatores íntimos, dentro do ambiente familiar, que mudanças fundamentais na estrutura da sociedade.
moldam a personalidade. A esse respeito, a teoria in- Adler defendeu a democracia social, lutou por melho-
terpessoal de Sullivan se assemelha às idéias de Hor- res escolas, montou centros de orientação infantil,
ney mais do que às de Fromm. Para Sullivan, os rela- insistiu em reformas no tratamento dos criminosos e
cionamentos humanos da infância, da meninice e da proferiu muitas palestras sobre os problemas sociais e
adolescência são de importância suprema, e ele é suas curas. Fromm e Horney, por meio de seus textos
muito eloqüente e persuasivo quando descreve o nexo e palestras, apontaram o caminho para uma socieda-
entre “aquela que faz a maternagem” e o bebê. Adler, de melhor. Fromm, em especial, detalhou algumas das
por outro lado, percorre toda a sociedade procurando reformas básicas que precisavam ser feitas para se ter
fatores que sejam relevantes para a personalidade e uma sociedade mais sadia. Sullivan, quando morreu,
encontra-os em todo lugar. estava ativamente envolvido em promover melhoras
Embora as quatro teorias se oponham vigorosa- sociais por meio da cooperação internacional. Todos
mente à doutrina freudiana dos instintos e à fixidez os quatro, como psicoterapeutas, tiveram ampla ex-
da natureza humana, nenhuma das quatro adota a periência com as vítimas de uma ordem social imper-
150 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

feita; conseqüentemente, eles falavam com conheci- Ao reduzir a personalidade ao sistema único do ego,
mento pessoal e experiência prática em seus papéis o teórico psicológico social isolou a personalidade das
como críticos e reformadores. fontes vitais do comportamento humano, fontes que
Outra suposição que cada teoria faz é que a ansi- têm sua origem na evolução dos seres humanos como
edade é socialmente produzida. O ser humano não é espécie. Ao ampliar o caráter social da personalidade
por natureza “o animal ansioso”. Ele fica ansioso pe- humana, eles alienaram os humanos de sua grande
las condições em que vive – pelo espectro do desem- herança biológica.
prego, pela intolerância e injustiça, pela ameaça da Uma crítica feita às vezes à concepção do ser hu-
guerra, por pais hostis. Removam essas condições, mano desenvolvida por Adler, Fromm e Horney (a
dizem os nossos teóricos, e secarão as fontes das quais crítica não se aplica a Sullivan) é o fato de ela ser
brota a ansiedade. O ser humano também não é des- muito adocicada e idealista. Em um mundo que foi
trutivo por natureza, como Freud acreditava. Ele se dilacerado por duas grandes guerras, para não men-
torna destrutivo quando suas necessidades básicas são cionar as muitas outras formas de violência e irracio-
frustradas, mas mesmo em condições de frustração nalidade manifestadas pelas pessoas, a imagem de um
podem ser tomados outros caminhos, como submis- indivíduo racional, autoconsciente e socializado sur-
são ou retraimento. preende como singularmente inadequada e inválida.
Todas as teorias, com exceção da de Sullivan, su- Podemos, é claro, culpar a sociedade e não os huma-
blinharam os conceitos do indivíduo único e do self nos por esse deplorável estado de coisas, e é isso que
criativo. Apesar de tentativas da sociedade de arregi- tais teóricos fazem. Mas foram os seres humanos raci-
mentar as pessoas, cada pessoa consegue manter cer- onais que criaram os tipos de arranjos sociais respon-
to grau de individualidade criativa. Na verdade, é sáveis pela irracionalidade e infelicidade humanas.
devido aos poderes criativos inerentes da pessoa que Esse é o grande paradoxo dessas teorias. Se as pesso-
ela consegue efetuar as mudanças na sociedade. As as são tão autoconscientes, tão racionais e tão sociais,
pessoas criam diferentes tipos de sociedade em dife- por que criaram tantos sistemas sociais imperfeitos?
rentes partes do globo e em diferentes momentos da Foi salientado por um filósofo, Isaac Franck
história, em parte porque elas são diferentes. Os hu- (1966), que a concepção da pessoa apresentada por
manos não são apenas criativos: eles são também au- Fromm e por outros psicólogos sociais e humanistas é
toconscientes. Eles sabem o que querem e lutam cons- menos um produto de pesquisa e mais o resultado de
cientemente para atingir suas metas. A idéia da suas preconcepções normativas. Eles são moralistas e
motivação inconsciente não recebe muito peso por não cientistas. Franck insiste que as tendências e os
parte desses teóricos psicológicos sociais. traços humanos são eticamente neutros, e assim não
Em geral, as teorias desenvolvidas por Adler, podemos deduzir prescrições éticas de declarações
Fromm, Horney e Sullivan ampliaram o alcance da fatuais sobre os seres humanos. Mas é difícil encon-
psicologia freudiana ao criar espaço para os determi- trar um teórico da personalidade, de Freud a Fromm,
nantes sociais da personalidade. Vários críticos, toda- que não faça julgamentos moralistas e éticos, aberta
via, desprezaram a originalidade dessas teorias psico- ou encobertamente, sobre os efeitos prejudiciais do
lógicas sociais. Eles dizem que tais teorias apenas ambiente social sobre os humanos. E muitos deles
desenvolvem um pouco mais um aspecto da psicaná- chegam a prescrever remédios. É difícil para um ob-
lise clássica: o ego e suas defesas. Freud viu clara- servador participante permanecer neutro, por mais
mente que os traços de personalidade muitas vezes científico que seja.
representavam as defesas ou as estratégias habituais Outra crítica menos devastadora, mas que tem
da pessoa contra as ameaças internas e externas ao mais peso para os psicólogos, conforme diferenciados
ego. As necessidades, as tendências, os estilos, as ori- dos psicanalistas, é o fracasso dessas teorias psicoló-
entações, as personificações, os dinamismos e assim gicas sociais em especificar os meios exatos pelos quais
por diante, nas teorias tratadas neste capítulo, aco- uma sociedade molda seus membros. Como uma pes-
modam-se na teoria freudiana sob o nome de defesas soa adquire caráter social? Como aprendemos a ser
do ego. Portanto, concluem esses críticos, nada de novo membros da sociedade? Essa evidente negligência do
foi acrescentado a Freud e muita coisa foi subtraída. processo de aprendizagem, em teorias que dependem
TEORIAS DA PERSONALIDADE 151

tanto do conceito de aprendizagem para explicar como geral, essas teorias não falam sobre a natureza do pro-
se forma a personalidade, é vista como uma omissão cesso de aprendizagem.
importante. Seria suficiente apenas estar exposto a Embora tais teorias psicológicas sociais não te-
uma condição da sociedade para que tal condição afe- nham estimulado muitas pesquisas em comparação
tasse a personalidade? Existiria uma fixação mecâni- com outras teorias, elas serviram para estimular um
ca de um comportamento socialmente aprovado e uma clima intelectual em que poderia florescer a pesquisa
eliminação igualmente mecânica de um comportamen- psicológica social, o que realmente aconteceu. Adler,
to socialmente desaprovado? Ou será que a pessoa Fromm, Karen Horney e Sullivan não só são os res-
reage ao meio social com insight e percepção, selecio- ponsáveis pela ascensão da psicologia social, mas tam-
nando as características que em sua opinião produzi- bém sua influência tem sido considerável. Eles contri-
rão uma melhor organização da personalidade e re- buíram imensamente para o quadro dos seres humanos
jeitando outras características que sente serem como seres sociais. Esse é seu grande valor no cenário
inconsistentes com sua auto-organização? De modo contemporâneo.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 153

CAPÍTULO 5

Erik Erikson
e a Teoria Psicanalítica
Contemporânea

INTRODUÇÃO E CONTEXTO ................................................................................................... 154


PSICOLOGIA DO EGO ............................................................................................................ 155
Anna Freud 155
RELAÇÕES OBJETAIS .............................................................................................................. 157
Heinz Kohut 159
A FUSÃO DA PSICANÁLISE E DA PSICOLOGIA ......................................................................... 160
George Klein 161
Robert White 162
E R I K H. E R I K S O N ....................................................................................................... 165
HISTÓRIA PESSOAL ................................................................................................................ 165
A TEORIA PSICOSSOCIAL DO DESENVOLVIMENTO .................................................................. 168
I. Confiança Básica Versus Desconfiança Básica 169
II. Autonomia Versus Vergonha e Dúvida 171
III. Iniciativa Versus Culpa 171
IV. Diligência Versus Inferioridade 172
V. Identidade Versus Confusão de Identidade 173
VI. Intimidade Versus Isolamento 174
VII. Generatividade Versus Estagnação 174
VIII. Integridade Versus Desespero 175
UM NOVO CONCEITO DE EGO ............................................................................................... 175
PESQUISA CARACTERÍSTICA E MÉTODOS DE PESQUISA .......................................................... 177
Histórias de Caso 177
Situações Lúdicas 177
Estudos Antropológicos 179
Psico-História 180
PESQUISA ATUAL .................................................................................................................. 181
Status da Identidade 182
Outros Estágios 183
Status Intercultural 183
STATUS ATUAL E AVALIAÇÃO ................................................................................................ 184
154 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

INTRODUÇÃO E CONTEXTO Quem quer que tentasse solapar esses pilares ou subs-
tituí-los era excluído do movimento psicanalítico. Ine-
O que aconteceu com a teoria da personalidade de vitavelmente, vários psicanalistas separaram-se do
Freud depois de sua morte em 1939? Essa é a pergun- movimento e desenvolveram suas próprias teorias.
ta da qual trataremos no presente capítulo. Antes de Entre eles, destacam-se Adler, Jung, Rank e Reich. Mas
começar a discussão, devemos observar que muitas seria incorreto dizer, como alguns disseram, que Freud
ocorrências aconteceram com a teoria psicanalítica era ditatorial ou pessoalmente vingativo em relação
enquanto Freud ainda estava vivo. Para confirmar isso, aos dissidentes. No caso de Jung, por exemplo, a cor-
só temos de comparar as Conferências Introdutórias respondência entre ele e Freud (McGuire, 1974) re-
publicadas em 1917 com as Novas Conferências Intro- vela que Freud fez um grande esforço, e um esforço
dutórias publicadas em 1933. Em 1917 não havia nem cordial, para convencer Jung da incorreção de suas
id, nem ego ou superego. Também não havia o instin- (de Jung) idéias. (Entre parênteses, poderíamos ob-
to de morte e seus derivados, a agressão e a autodes- servar que foi uma sorte Freud não ter conseguido
truição. Em 1917, a ansiedade era o resultado da re- convencê-lo.) Uma teoria, afinal de contas, é fruto da
pressão; em 1933, ela era a causa da repressão. Por imaginação de uma única pessoa; ela não pode ser
volta de 1933, Freud tinha desenvolvido uma nova concebida por um comitê.
teoria do complexo de Édipo feminino. Entretanto, Após a morte de Freud em 1939, seus seguidores
seria errado concluir, a partir dessas comparações, que se defrontaram com a difícil tarefa de decidir o que
a teoria psicanalítica esteve em contínuo fluxo e mu- fazer com relação ao futuro desenvolvimento da teo-
dança durante a vida de Freud. Muitos dos conceitos ria psicanalítica. O curso escolhido foi amplificar as-
originais permaneceram os mesmos. A elaboração e a pectos do sistema de Freud, tornar mais explícitos al-
ampliação regular das idéias básicas, em vez de revi- guns de seus postulados, esclarecer as definições de
sões radicais, marcaram o curso do trabalho de Freud. alguns dos conceitos básicos, ampliar a variedade de
Há aqueles que acham que Freud se tornou mais fenômenos explicados pela psicanálise e empregar
especulativo à medida que envelhecia, e que suas es- métodos observacionais diferentes da entrevista psi-
peculações sobre as origens, as estruturas e as dinâ- canalítica para validar proposições derivadas da teo-
micas da mente – o que Freud chamava de “metapsi- ria freudiana. Também foram instituídas mudanças na
cologia” – estavam muito distantes de suas formulações terapia psicanalítica, mas esse aspecto da psicanálise
teóricas, estreitamente ligadas a dados obtidos da está fora do escopo do presente volume.
observação clínica direta de pacientes. Outros, toda- Em grande parte da literatura psicanalítica, tanto
via, salientam que as sementes de sua metapsicologia passada quanto presente, os parágrafos de abertura
já tinham sido plantadas no Projeto para uma Psicolo- de um artigo ou capítulo são dedicados a uma apre-
gia Científica (1895) e no Capítulo 7 de A Interpreta- sentação do que Freud disse sobre o tópico em consi-
ção dos Sonhos (1900), e que Freud sempre teve inte- deração. O autor, a seguir, amplia o assunto e apre-
resse em chegar a uma teoria geral da mente ou da senta novas evidências ou argumentos. Os textos de
personalidade, e não apenas em criar uma teoria da Freud são a maior autoridade, e as suas citações estão
neurose. presentes por todo o artigo ou livro para justificar os
Embora Freud estivesse cercado por vários homens pontos defendidos pelo autor. Apesar dessa grande
e mulheres criativos, ele foi o mestre construtor da lealdade às idéias de Freud por parte de seus seguido-
teoria psicanalítica enquanto viveu. Ele estabeleceu res – e de sua compreensível tendência a tratar o for-
as fundações, orientou seu curso de desenvolvimento midável corpo de sua obra como textos sagrados –
e assumiu total responsabilidade por suas revisões podemos detectar algumas tendências novas na lite-
importantes. Freud era receptivo a idéias propostas ratura psicanalítica desde a morte de Freud. Nós dis-
por seus associados no movimento psicanalítico e cutiremos algumas delas.
muitas vezes dava-lhes o crédito por novos insights, Também devemos observar a crescente aproxima-
mas fazia questão absoluta de preservar os pilares ção entre a psicologia e a psicanálise. Não é nenhum
conceituais sobre os quais a teoria estava baseada. segredo que a maioria dos psicólogos era hostil às idéi-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 155

as de Freud antes da Segunda Guerra Mundial, mas em 1895, o ano da publicação final do livro em cola-
por motivos que discutiremos neste capítulo, essa hos- boração com Breuer, Estudos Sobre a Histeria, e o ano
tilidade diminuiu. As idéias de Freud não só permei- em que Freud escreveu seu Projeto para uma Psicolo-
am a psicologia, mas também os psicólogos têm feito gia Científica. Mais tarde, Anna iniciou sua prática
contribuições teóricas e empíricas à psicanálise. como analista em 1923, o ano em que seu pai publi-
O principal foco deste capítulo serão os textos de cou O Ego e o Id. Mas esse também foi o ano da pri-
Erik Erikson. Ele, provavelmente mais do que qual- meira cirurgia de Freud por causa de seu câncer oral.
quer outra figura contemporânea, exemplifica como Anna dedicou-se cada vez mais a ele, sendo sua en-
a psicanálise clássica foi elaborada, ampliada e apli- fermeira, secretária e companhia durante seus 16 anos
cada. Seus extensos textos também oferecem uma de vida restantes.
ponte entre a psicologia e a psicanálise. A posição de Anna Freud dentro da psicanálise
gerou várias ironias fascinantes. Por exemplo, é notá-
vel que a busca de Sigmund Freud de um herdeiro
intelectual, amargamente malsucedida com colegas
PSICOLOGIA DO EGO como Carl Jung, tenha tido sucesso com a própria fi-
lha. Sigmund Freud conduziu a análise didática de
O desenvolvimento mais notável na teoria psicanalíti- Anna, e ela acabou se tornando a guardiã intelectual
ca desde a morte de Freud certamente é a emergên- do pai, mas seu próprio trabalho demonstrou como o
cia de uma nova teoria do ego, às vezes referida como modelo de seu pai podia ser proveitosamente expan-
psicologia do ego. Embora Freud considerasse o ego dido. Além disso, foi Anna quem realmente estudou
o executivo da personalidade total, pelo menos no caso as crianças e os períodos da infância sobre os quais
da pessoa sadia, ele nunca lhe outorgou uma posição Freud tinha erigido interpretações tão elaboradas,
autônoma; o ego sempre permaneceu subserviente aos baseado em lembranças clínicas de pacientes adultos.
desejos do id. Naquele que foi seu pronunciamento Esse trabalho convenceu Anna Freud de que as técni-
final sobre a teoria psicanalítica, Freud (1940) reite- cas analíticas propostas por seu pai precisavam ser
rou o que já dissera tantas vezes: “Esta porção mais modificadas para a análise de crianças. A associação
antiga (o id) do aparelho mental permanece a mais livre era quase inútil com crianças, por exemplo, e a
importante durante toda a vida” (p. 14). O id e seus transferência passou a ser um fenômeno bem mais
instintos expressam “o verdadeiro propósito da vida complicado. Mas a modificação mais importante de
do organismo”. Não existe dúvida sobre o que Freud Anna Freud talvez tenha sido conceitual, além de téc-
pensava sobre o relacionamento entre o ego e o id: o nica. Seu trabalho na Inglaterra, com crianças devas-
id é o membro dominante da parceria. tadas pelos eventos traumáticos da Segunda Guerra
Mundial, convenceu-a de que um foco exclusivo no
conflito intrapsíquico é inadequado com crianças: as
Anna Freud
realidades externas passada e presente de uma crian-
Ao contrário da posição de Freud, alguns teóricos psi- ça influenciam imensamente seu comportamento e sua
canalíticos propuseram uma ênfase maior no papel patologia. Anna e seus colegas criaram centros tera-
do ego na personalidade total. O primeiro desses teó- pêuticos residenciais para essas crianças (p. ex.,
ricos foi a filha de Freud, Anna. A vida e o status espe- Hampstead Nurseries e Bulldogs Bank). Algumas de
cial de Anna Freud dentro da psicanálise foram exa- suas interpretações do comportamento dessas crian-
minados por vários autores (p. ex., Coles, 1992; Dyer, ças contrastam nitidamente com as interpretações ofe-
1983; Roazen, 1968, 1969, 1971; Sayers, 1991; Young- recidas por seu pai. Por exemplo, um grupo de crian-
Bruehl, 1988), e suas publicações foram compiladas ças evacuadas de um campo de concentração nazista
em oito volumes editados pela International Univer- demonstrava medo de grandes caminhões, e Anna
sities Press. interpretou essa fobia em termos da semelhança en-
A história de Anna Freud está inevitavelmente tre esses veículos e os caminhões vistos previamente
entrelaçada com a do pai. Por exemplo, Anna nasceu no campo de concentração. Tal inferência direta é uma
156 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

alternativa notável à interpretação edípica de seu pai dade no manejo corporal, do corpo para o brinquedo
da fobia de cavalos do Pequeno Hans. e do brincar para o trabalhar (A. Freud, 1965). Mais
Anna Freud é mais conhecida pelo trabalho sobre tarde em sua carreira, ela propôs outras linhas indo
o ego e seus mecanismos de defesa, descritos no clás- de caminhos físicos de descarga para caminhos men-
sico livro O Ego e os Mecanismos de Defesa, que ela tais, de objetos animados para inanimados, e da irres-
publicou em 1936. Ao contrário dos psicólogos do ego ponsabilidade para a culpa (A. Freud, 1973). A im-
que vieram depois, ela conceitualizou o ego de uma portância central atribuída às linhas desenvolvimentais
maneira consistente com a visão analítica ortodoxa por Anna Freud é revelada na seguinte passagem:
dos inter-relacionamentos entre id, ego e superego.
“Com completo equilíbrio temporal e harmonia
Isto é, o papel do ego é negociar a gratificação dos
entre as várias linhas, o resultado não poderia
impulsos instintuais e, ao mesmo tempo, acomodar
deixar de ser uma personalidade completamente
limitações morais internalizadas, mas com mais auto-
harmoniosa, bem-equilibrada . . . De fato, o pro-
nomia do que Sigmund Freud propusera. Anna Freud
gresso em qualquer linha está sujeito à influência
apresentou uma discussão sistemática das estratégias
de três lados: a variação em dados inatos, que
defensivas às quais o ego pode recorrer, ampliando
proporciona o material bruto do qual se diferen-
para dez os mecanismos defensivos propostos por seu
ciam o id e o ego; as condições e as influências
pai: regressão, repressão, formação reativa, isolamen-
ambientais, que com freqüência diferem ampla-
to, anulação, projeção, introjeção, volta contra si mes-
mente do que é apropriado e favorável ao cresci-
mo, transformação no contrário e sublimação.
mento normal; as interações entre forças internas
A segunda maior contribuição teórica de Anna
e externas, que constituem a experiência indivi-
Freud foi a extensão do desenvolvimento infantil para
dual de cada criança . . . é essa variedade de pro-
incluir seqüências maturacionais além da expressão
gresso nas linhas, isto é, os fracassos e os sucessos
dos impulsos sexuais e agressivos e das defesas con-
desenvolvimentais, que podemos considerar res-
tra eles. Essas seqüências, que ela chamou de linhas
ponsável pelas inumeráveis variações nos carac-
desenvolvimentais, envolvem uma progressão da de-
teres e nas personalidades humanas.” (A. Freud,
pendência irracional de limites externos para um do-
1973, p. 69)
mínio mais racional de pessoas, de situações e de im-
pulsos. Assim, as linhas desenvolvimentais refletem a Apesar das modificações, Anna Freud via suas for-
gradual aquisição da criança do domínio do ego, e mulações como consistentes com a ênfase de Sigmund
proporcionam uma base para a teoria de estágios de Freud nos impulsos instintuais. Ao contrário, a nova
Erik Erikson, descrita mais adiante neste capítulo. teoria de ego proposta por Heinz Hartmann (1958,
Como exemplo, considerem a linha desenvolvimental 1964) não só abrange tópicos como o desenvolvimento
do egocentrismo para o companheirismo. Segundo a do princípio da realidade na infância, as funções inte-
análise de Anna Freud, a criança inicialmente tem uma grativas ou sintetizadoras do ego, os processos auxili-
orientação egoísta em que as outras crianças são vis- ares do ego de perceber, lembrar, pensar e agir, e as
tas somente como rivais. Subseqüentemente, as ou- defesas do ego, mas também, de modo mais impor-
tras crianças são vistas como brinquedos sem vida. tante, apresenta o conceito da autonomia do ego. As
Gradualmente, elas passam a ser vistas como potenci- discussões das funções autônomas do ego normalmen-
ais auxiliares e parceiros, cuja ajuda pode ser útil em te começam citando um dos últimos artigos de Freud,
determinadas tarefas. Eventualmente, a criança se em que ele escreveu: “Mas não devemos ignorar o
torna capaz de conceitualizar outras crianças como fato de que o id e o ego são originalmente um só, e
indivíduos com seus próprios direitos e como alvos isso não implica uma supervalorização mística da he-
legítimos de uma variedade de emoções e interações. reditariedade se acreditarmos que, mesmo antes de o
Outras linhas desenvolvimentais importantes descre- ego existir, suas subseqüentes linhas de desenvolvi-
vem a progressão da dependência para a autoconfi- mento, tendências e reações já estão determinadas”
ança emocional, do aleitamento para a alimentação (Freud, 1937, p. 343-344). Partindo dessa citação,
racional, das fraldas para o controle da bexiga e do Hartmann postula a existência de uma fase indiferen-
intestino, da irresponsabilidade para a responsabili- ciada no início da vida, durante a qual se formam o id
TEORIAS DA PERSONALIDADE 157

e o ego. O ego não emerge de um id inato, mas cada Tal tendência de tratar o ego como um sistema
sistema tem suas origens em predisposições ineren- autônomo cuja origem é paralela ao id e é dotado de
tes, e cada um tem seu próprio curso de desenvolvi- funções e de fontes de energia autônomas foi questio-
mento. Além disso, afirma-se que os processos do ego nada por outros psicanalistas. Nacht (1952), por exem-
são operados por energias sexuais e agressivas neu- plo, deplora essa nova “psicologia do ego”, que consi-
tralizadas. As metas desses processos do ego podem dera estéril e regressiva. O psicólogo Robert R. Holt
ser independentes de objetivos puramente instintu- (1965) fez uma avaliação crítica do conceito de auto-
ais. Portanto, o ego e os instintos se desenvolvem e nomia do ego, conforme apresentado em textos de
funcionam de maneira independente e complemen- Hartmann e Rapaport, e concluiu que ele nunca che-
tar. Assim como os instintos têm bases biológicas, tam- garia a ocupar um lugar importante no pensamento
bém existem “aparatos de ego inatos” que permitem psicanalítico. Holt escreve: “Em vez disso, deveríamos
que o indivíduo se adapte ao ambiente. A adaptação é estar preocupados em descrever os papéis relativos
um processo recíproco que envolve mudança no self da pulsão, dos estímulos e das pressões externas, e de
(mudança “autoplástica”) e mudança no mundo (mu- várias estruturas internas na determinação do com-
dança “aloplástica”). O leitor deve observar a seme- portamento, e as complexas interações entre eles” (p.
lhança entre esse modelo e a distinção de Piaget en- 157). Poderíamos salientar que foi exatamente isso o
tre acomodação e assimilação, e também entre o que Freud disse e fez durante toda a sua vida.
conceito de Bandura do determinismo recíproco (ver Essa nova teoria do ego atraiu muitos psicólogos,
Capítulo 14). Como salienta Westen (1990), Hartmann pois centra-se nos temas tradicionais da psicologia:
foi, em grande extensão, um psicólogo cognitivo. percepção, memória, aprendizagem e pensamento. Ela
As defesas do ego não precisam ter um caráter também atrai porque enfatiza os processos e os com-
patológico ou negativo: elas podem ter propósitos portamentos característicos da pessoa normal, em
sadios na formação da personalidade. Hartmann acre- contraposição aos processos e comportamentos des-
dita que uma defesa pode tornar-se independente de viantes de uma população de pacientes. Além disso, a
sua origem ao combater os instintos e ter uma função teoria do ego tende a enfatizar os aspectos racionais,
de ajustamento e organização. Os teóricos do ego tam- conscientes e construtivos da personalidade humana,
bém atribuem ao ego uma esfera livre de conflitos. em contraste com a ênfase colocada pela psicanálise
Isso significa que alguns processos do ego não estão clássica no inconsciente e no irracional. Finalmente,
em conflito com o id, o superego ou o mundo exter- a teoria do ego é considerada mais “humanista” do
no. Esses processos do ego, é claro, podem ser incom- que a teoria psicanalítica ortodoxa.
patíveis um com o outro, de modo que a pessoa tem
de decidir qual é a melhor entre várias maneiras de
resolver um problema ou de fazer uma adaptação.
Paralelo à emergência dessa nova concepção de RELAÇÕES OBJETAIS
um ego autônomo, está um crescente interesse pelas
funções adaptativas do ego, isto é, as maneiras não- Um outro grupo de teóricos que apresentou revisões
defensivas do ego de lidar com a realidade, ou o que ainda mais radicais da psicanálise ortodoxa enfatiza o
Freud chamou de “teste de realidade”. Para fazer adap- papel das relações objetais na formação e no funciona-
tações efetivas ao mundo, o ego tem à sua disposição mento da personalidade. Segundo Westen (1990, p.
os processos cognitivos de perceber, lembrar e pensar. 26), a emergência desse ponto de vista representa “in-
Uma conseqüência dessa nova ênfase nos processos dubitavelmente o maior desenvolvimento da psicaná-
cognitivos do ego foi aproximar a psicanálise da psi- lise desde Freud”. Esse foco nas relações objetais e no
cologia, uma tendência discutida mais adiante neste conceito do self levou Eagle (1984, p. 3) a escrever:
capítulo. Entre os líderes dessa perspectiva adaptati- “Algumas das proposições outrora consideradas as mais
va, estão Rapaport (1960), Gill (1959) e Klein (1970). fundamentais da psicanálise foram nitidamente refor-
Ver Blanck e Blanck (1974, 1979) para discussões muladas” (ver também Cashdan, 1988).
gerais da psicologia do ego.
158 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

Freud propôs que a “escolha objetal” ocorre quan- onamentos com objetos, não para permitir a descarga
do as pessoas “catexizam” ou investem energia instin- de uma “família” de impulsos libidinais. A agressão é
tual em objetos que podem ser usados para gratificar uma resposta à privação e à frustração, não um ins-
impulsos instintuais. Eagle (1984, p. 10) descreve da tinto ativado. O ego tem suas próprias metas dinâmi-
seguinte maneira a teoria instintual de Freud: cas, e o conflito reflete cisões no ego, não incompati-
bilidades entre id e ego. Além disso, o ego está presente
“Os objetos e as relações objetais são importantes
no nascimento, tem sua própria estrutura dinâmica, e
primariamente como meios e veículos de descar-
é a fonte de sua própria energia. De fato, só existe o
ga de pulsões libidinais e agressivas. A esse res-
ego; não existe id. As principais funções do ego são
peito, os primeiros na verdade têm um status se-
buscar e estabelecer relações com os objetos no mun-
cundário e derivado . . . nós não desenvolveríamos
do externo. Em resumo, Fairbairn propôs que o de-
nenhum interesse por objetos ou relações obje-
senvolvimento e o comportamento do indivíduo re-
tais e nenhuma das funções de ego de teste de
fletem o relacionamento do ego com objetos externos
realidade se os objetos não fossem necessários para
e internalizados. A questão central no desenvolvimento
a gratificação das pulsões e se a gratificação ime-
da personalidade não é a canalização e a recanaliza-
diata fosse possível . . . somos forçados a nos rela-
ção dos impulsos instintuais, mas a progressão da
cionar com objetos. Mas . . . o nosso interesse
dependência infantil e a identificação primária com
pelos objetos e o nosso relacionamento com
objetos para um estado de diferenciação do self em
eles continuam direta ou indiretamente ligados
relação ao objeto.
ao seu uso e à relevância na gratificação pulsio-
A primeira relação do bebê é com a mãe e, subse-
nal.”
qüentemente, com o pai, com iguais, e com parceiros.
Para os teóricos das relações objetais, ao contrário, os Assim, as teorias das relações objetais estão essencial-
objetos são representações internalizadas de pessoas mente preocupadas com relacionamentos interpesso-
reais, não “meras saídas para a descarga de um ins- ais. As frustrações e as perdas que invariavelmente
tinto. As relações objetais são primárias, não deriva- ocorrem nas relações com esses vários objetos deixam
das de descarga instintual, e elas funcionam para dar um resíduo de representações internalizadas dos ob-
estrutura ao self” (McAdams, 1994, p. 96). Como con- jetos perdidos. Essas imagens internalizadas sobrevi-
seqüência, os teóricos das relações objetais enfatizam vem no inconsciente. Elas se aglutinam para formar o
a aquisição e a importância das representações do self self do indivíduo, elas entram em conflito umas com
e dos outros. No processo, o foco muda da primazia as outras, e proporcionam uma base para os relacio-
freudiana da descarga instintual para a primazia dos namentos interpessoais subseqüentes. O próprio Freud
relacionamentos interpessoais. introduziu esse modelo de relações objetais em suas
W. R. D. Fairbairn, por exemplo, conceitualizou discussões sobre luto, melancolia e complexo de Édi-
os seres humanos como primariamente preocupados po, mas os teóricos das relações objetais propõem que
com a busca de objetos, em vez de com a busca do a internalização de objetos perdidos é um fenômeno
prazer. Ele escreveu: “Podemos dizer que a psicologia bem mais disseminado. As inconsistências entre esses
se reduz a um estudo dos relacionamentos do indiví- objetos internalizados podem levar a cisões dentro do
duo com seus objetos, ao mesmo tempo em que, de ego, e os objetos internos fantasiados podem interfe-
modo semelhante, podemos dizer que a psicopatolo- rir na formação de relacionamentos interpessoais
gia se reduz mais especificamente a um estudo dos maduros.
relacionamentos do ego com seus objetos internaliza- Outros profissionais fizeram contribuições impor-
dos” (1952, p. 60). Fairbairn reinterpretou muitos dos tantes ao desenvolvimento das abordagens de rela-
postulados de Freud em termos das atividades do ego ção objetal (p. ex., Bowlby, 1969, 1973; Guntrip, 1971;
de busca de objeto (Eagle, 1984). Por exemplo, a re- Kernberg, 1976). Particularmente notável entre eles
pressão age sobre estruturas cindidas do ego e sobre é Margaret Mahler (p. ex., 1968; Mahler, Pine & Berg-
objetos internalizados que são intoleráveis, não sobre man, 1975). Mahler descreveu seis estágios pelos quais
impulsos instintuais. Os estágios psicossexuais refle- as crianças passam no processo de avançar de um es-
tem técnicas adotadas pelo ego para regular os relaci- tado de indiferenciação entre o “eu” e o “não-eu” para
TEORIAS DA PERSONALIDADE 159

um estado de separação e individuação em que reco- as incorpora como parte de si mesma. Tal assimilação
nhecem sua identidade corporal e psicológica. Outros no self ocorre por um processo de internalização trans-
pesquisadores conduziram investigações empíricas mutante, em que a criança adota aqueles que são per-
fascinantes das relações objetais (p. ex., Blatt & Ler- cebidos como os aspectos desejáveis dos objetos do
ner, 1983; ver Westen, 1990, para uma introdução). self. O principal objeto do self durante os dois primei-
ros anos de vida tende a ser a mãe. A mãe serve como
um objeto espelhante do self quando confirma e admi-
Heinz Kohut
ra empaticamente a força, a saúde, a grandeza e a
O mais influente dos teóricos das relações objetais é condição da criança de ser especial. Essa afirmação
Heinz Kohut (1966, 1971, 1977, 1984), e também foi do agir e poder da criança contribui para a formação
ele quem ofereceu o modelo mais claro do self e de do pólo de ambição do self bipolar. Mais tarde, a mãe
seu papel na patologia. Em essência, Kohut substituiu e/ou o pai servem como objetos do self idealizáveis ou
o conflito pelo self como o fator central na personali- idealizados que modelam perfeição, poder, força, cal-
dade e na psicopatologia. Nesse processo, ele tam- ma e cuidado. Esses apegos ajudam a estabelecer o
bém ofereceu as conexões mais claras com os teóricos pólo de metas e os valores idealizados do self.
tradicionais da personalidade. Observem que a questão-chave durante esse pro-
Como veremos mais adiante neste capítulo, Ko- cesso não é a satisfação pulsional, mas a presença ou
hut seguiu Erik Erikson em sua crença de que a famí- a ausência de relacionamentos empáticos e amoro-
lia e a sociedade com as quais as pessoas se deparam sos. Um espelhamento e uma idealização sadios pro-
hoje em dia diferem substancialmente daquelas expe- duzem o tipo ideal de personalidade, a pessoa com
rienciadas pelos pacientes de Freud. As famílias, na um self autônomo. Essas pessoas se caracterizam por
época de Freud, eram ameaçadoras por serem exces- níveis sadios de auto-estima e por relacionamentos
sivamente próximas e íntimas. Hoje em dia, ao con- interpessoais mutuamente gratificantes. A exposição
trário, as famílias são ameaçadoras por serem exces- a objetos do self deficientes produz crianças com um
sivamente distantes e não-envolvidas. Os pais estão self não-coeso, vazio ou danificado. Kohut (Kohut &
muito distantes emocionalmente e preocupados de- Wolf, 1978) descreveu quatro instâncias prototípicas
mais com as próprias necessidades narcísicas. Em con- desses fracassos: o self subestimulado caracteriza uma
seqüência, eles são modelos menos do que satisfató- pessoa entorpecida e vazia que pode buscar sensa-
rios de uma condição sadia de “ser si mesmo” e de ções e abusar de substâncias. Essa síndrome se desen-
relacionamentos interpessoais gratificantes. A recep- volve quando os objetos do self habitualmente dei-
ção de reações empáticas de pessoas significativas é xam de oferecer espelhamento e idealização. O self
tão importante para a saúde do self como é a presença fragmentado é inseguro, frágil e com auto-estima bai-
de oxigênio para a saúde do corpo. Na análise de Ko- xa. Esse tipo de self se desenvolve quando os objetos
hut, os nossos medos mais profundos refletem não a do self infligem humilhações e feridas narcísicas à cri-
ansiedade de castração ou os impulsos conflituais do ança. O self superestimulado desenvolve fantasias ir-
id, mas o potencial de perda dos objetos de amor. realistas de grandeza em conseqüência de objetos do
O modelo de Kohut da personalidade originou-se self que foram excessivamente indulgentes em seu
de suas tentativas de compreender as pessoas “narci- espelhamento. Essas pessoas evitam situações em que
sicamente perturbadas”. Tais pessoas são deficientes poderiam ser o centro das atenções. Finalmente, as
em autocontrole e auto-estima, e Kohut traçou sua pessoas com um self sobrecarregado percebem o mun-
patologia até um senso de self traumaticamente dani- do como um lugar hostil e perigoso. Essa atitude re-
ficado. O modelo de self de Kohut é bipolar, e os dois flete objetos do self que fracassaram em seu papel ide-
pólos têm ambição de poder e sucesso, e metas e valo- alizável de modelar força e calma.
res idealizados. Esses dois pólos estão ligados por um Para Kohut, a principal meta desenvolvimental e
“arco de tensão” constituído pelos talentos e habilida- terapêutica era substituir o self fragmentado por um
des básicas do indivíduo. Esse self bipolar se desenvol- self coeso, em contraste com a meta de Freud de subs-
ve à medida que a criança interage com objetos do tituir o id pelo ego. Além disso, são as ambições, os
self, ou com pessoas que são tão importantes que ela ideais e a auto-estima que funcionam como as forças
160 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

motivacionais primárias em nossa vida. Tal posição ção” da psicanálise é indicada pelo título do livro de
está consideravelmente distante da psicanálise clássi- ensaios em homenagem ao pai da psicologia do ego,
ca de Sigmund Freud. Conforme descreveu Westen Heinz Hartmann: Psychoanalysis: a general psycholo-
(1990), existem áreas importantes de controvérsia gy (Psicanálise: uma psicologia geral) (Loewenstein e
entre os teóricos da psicanálise clássica e os teóricos colaboradores, 1966). Rotular a psicanálise de “uma
das relações objetais do “self”. Primeiro, os teóricos psicologia geral” vai além da afirmação de Freud de
das relações objetais dispensaram amplamente o mo- que ela era uma parte, mas não o todo da psicologia.
delo da pulsão instintual. Os seres humanos são vis- A psicologia, por sua vez, começou a interessar-
tos como buscando objetos, não prazer. Segundo, a se pela motivação e pela personalidade, e o campo da
correspondência entre o self e o modelo estrutural freu- psicologia clínica floresceu durante e após a Segunda
diano de id, ego e superego não está nem um pouco Guerra Mundial. Os psicólogos encontraram na psi-
clara. Terceiro, a coesão do self é inconsistente com as canálise muitos ensinamentos que eram relevantes
noções psicanalíticas fundamentais de conflito e com- para seus novos interesses. Mesmo antes da guerra,
promisso; as dificuldades nas relações objetais não se alguns psicólogos, como Kurt Lewin e Henry Murray,
reduzem facilmente a conflitos entre desejos sexuais realizaram pesquisas empíricas relacionadas à psica-
ou agressivos e proibições do superego. nálise e em parte inspiradas por ela. Durante a déca-
da de 30, os esforços feitos por psicólogos como Neal
Miller, Hobart Mowrer e Robert Sears para aproximar
a teoria do reforço de Hull e alguns aspectos da psica-
A FUSÃO DA PSICANÁLISE E DA nálise colocaram mais experimentalistas em contato
PSICOLOGIA com as concepções freudianas da personalidade.
Do lado teórico, David Rapaport (1959, 1960)
A psicanálise e a psicologia tiveram um background criou um modelo conceitual da psicanálise estreita-
comum na ciência do século XIX, mas permaneceram mente entrelaçado com vários conceitos psicológicos
independentes por muitos anos em virtude de seus tradicionais. De fato, Rapaport foi uma das figuras-
interesses diferentes. Em seus primeiros anos, a psi- chave na crescente interpenetração entre a psicanáli-
cologia estava preocupada em investigar os elemen- se e a psicologia. Klein, Erikson e outros reconhece-
tos e os processos da consciência. A sensação, a per- ram a grande influência de Rapaport sobre seu
cepção, a memória e o pensamento eram os tópicos pensamento. Os simpósios incluindo psicólogos e psi-
que mais a interessavam. A psicanálise, por outro lado, canalistas interessados em examinar as relações mú-
era uma psicologia do inconsciente; seus interesses tuas entre os dois campos também foram úteis para
estavam nas áreas de motivação, emoção, conflito, reduzir a lacuna de comunicação (Bellak, 1959;
sintomas neuróticos, sonhos e traços de caráter. Além Frenkel-Brunswik e colaboradores, 1954; Pumpian-
disso, a ciência da psicologia cresceu em um ambien- Mindlin, 1952).
te acadêmico e de laboratório, enquanto a psicanálise Um dos fatores mais importantes nessa aproxi-
cresceu em um ambiente clínico. Portanto, os repre- mação certamente foi a oportunidade oferecida aos
sentantes das duas disciplinas tiveram pouco contato psicólogos de obter uma formação competente em psi-
uns com os outros. canálise com psicanalistas qualificados. Nos anos se-
Gradualmente, a lacuna entre as duas disciplinas guintes à Segunda Guerra Mundial, os institutos psi-
começou a diminuir e, após a Segunda Guerra Mun- canalíticos e locais como a Clínica Menninger em
dial, a interpenetração da psicologia e da psicanálise Topeka, Kansas, e o Centro Austen Riggs em Stock-
cresceu em um ritmo acelerado. Shakow e Rapaport bridge, Massachusetts, abriram suas portas a um sele-
(1964) e Hall e Lindzey (1968) discutiram as razões to grupo de psicólogos pós-graduados. Antes disso, a
da aproximação entre elas. Por um lado, a psicanáli- formação psicanalítica só era possível para pessoas
se, que Freud sempre considerou um ramo da psico- com diploma em medicina. Pelo menos, esse era o
logia, passou a interessar-se mais pelo comportamen- caso nos Estados Unidos. A monopolização da psica-
to “normal”, culminando na criação de uma psicologia nálise pela profissão médica é uma ironia em vista do
do ego. A extensão em que progrediu a “psicologiza- fato de que o próprio Freud se opunha energicamente
TEORIAS DA PERSONALIDADE 161

à psicanálise se tornar exclusivamente uma especiali- em colaboração com outros psicólogos e alunos de
dade médica e defendia vigorosamente uma política graduação, conduziu um programa de pesquisa sobre
de portas abertas na formação de psicanalistas tópicos profundamente influenciados pelo pensamento
(1926a). Muitos dos primeiros psicanalistas não eram psicanalítico. Em 1959, Klein começou a publicação
médicos. de uma série de artigos, Psychological Issues, que ofe-
Os psicólogos que fizeram formação psicanalítica recia um fórum para a apresentação de achados de
voltaram às universidades podendo oferecer aos alu- pesquisa e de questões teóricas relevantes para a psi-
nos um entendimento melhor e mais favorável da psi- canálise.
canálise. Eles também iniciaram programas de pes- Foram quatro as principais contribuições de Klein
quisa com uma orientação psicanalítica. Também não à fusão da psicologia com a psicanálise. Primeiro, ele
devemos ignorar o papel do Instituto Nacional de Saú- e seus colaboradores demonstraram que hipóteses cli-
de Mental do Departamento de Saúde, Educação e nicamente derivadas podiam ser investigadas em la-
Previdência Social. Esse instituto doou grandes somas boratório sob condições rigorosamente controladas.
de dinheiro para o treinamento e a pesquisa na psico- Segundo, ele e seus colaboradores ofereceram aos
logia de orientação psicanalítica. Sem esse apoio fi- candidatos a doutorado em psicologia interessados na
nanceiro talvez não tivesse ocorrido um progresso tão psicanálise a oportunidade de realizarem seus estu-
grande na união desses dois campos. dos em um ambiente orientado para a pesquisa. Ter-
ceiro, por ele ser um membro reconhecido e aceito da
psicologia tradicional, os textos de Klein ajudaram a
George Klein
diminuir a hostilidade que muitos psicólogos sentiam
George Klein pode ser tomado como um exemplo dos em relação ao que consideravam uma psicanálise “não-
psicólogos que, nos anos pós-guerra, combinaram uma científica”. Finalmente, Klein fez contribuições impor-
formação tradicional em psicologia com um treina- tantes à teoria psicanalítica, contribuições que tam-
mento em psicanálise. Esses indivíduos trouxeram para bém ajudaram a tornar a teoria mais aceitável para os
a psicanálise os valores da experimentação e da quan- psicólogos.
tificação em laboratório e um respeito pela constru- Como dissemos anteriormente, Klein foi apenas
ção das teorias, assim como uma sólida base nos pro- um entre muitos psicólogos que se tornaram impor-
cessos cognitivos. Eles receberam da psicanálise a tantes para derrubar as barreiras entre a psicologia e
orientação teórica e os insights sobre a pessoa que es- a psicanálise. Como mencionamos em outro capítulo,
tavam faltando em seu background educacional. A Henry Murray e seus muitos alunos brilhantes em
psicanálise já não é mais considerada estranha à psi- Harvard foram uma grande força, talvez a maior, na
cologia acadêmica em grande parte devido aos esfor- introdução da psicanálise dentro da psicologia acadê-
ços pioneiros desses psicólogos. mica. Mas Murray tinha formação médica e psicanalí-
Klein graduou-se em psicologia na Universidade tica e não era um psicólogo com formação tradicio-
de Colúmbia, onde fez investigações experimentais nal. Além disso, ele criou uma teoria da personalidade
sobre o comportamento animal e a percepção huma- que, embora fortemente influenciada pela psicanáli-
na, áreas altamente respeitáveis da psicologia. Depois se, era uma teoria exclusivamente sua. Por outro lado,
de ser dispensado da Força Aérea em 1946, ele foi Klein e muitos como ele eram e continuaram sendo
para a Clínica Menninger, um dos poucos lugares nos psicólogos, apesar de seu treinamento em psicanáli-
Estados Unidos onde os psicólogos podiam obter um se. Eles não só se esforçaram para tornar a psicanálise
treinamento psicanaliticamente orientado em psico- mais científica, mas também contribuíram para a ela-
logia clínica. Como muitos outros psicólogos daquele boração e modificação da psicanálise clássica. Eles não
período, Klein submeteu-se a uma psicanálise pessoal estavam preocupados em formular uma nova teoria.
e mais tarde formou-se no Instituto Psicanalítico de Embora as atividades de pesquisa de Klein abran-
Nova York. Mas a sua principal identificação conti- gessem várias áreas, ele é mais conhecido por seus
nuou sendo com a psicologia. Como professor de psi- estudos sobre as diferentes maneiras como percebe-
cologia e um dos fundadores do Centro de Pesquisa mos uma situação, lembramos um evento passado ou
em Saúde Mental da Universidade de Nova York, Klein, resolvemos um problema: “O nosso foco é o sujeito
162 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

que percebe e a maneira como ele organiza a experi- Gill & Holzman, 1976). A metapsicologia se refere a
ência” (Klein, 1970, p. 142). especulações sobre a estrutura, a dinâmica, as origens
Em uma série de estudos perceptuais, descobriu- e o desenvolvimento da personalidade. A metapsico-
se que algumas pessoas empregavam a estratégia de logia de Freud, afirma Klein, baseia-se na concepção
“nivelar” suas percepções, ao passo que outras em- do ser humano da ciência natural. Ela trata o indiví-
pregavam a estratégia de “aguçar” suas percepções. duo como um sistema biológico, isto é, um organis-
Os niveladores, comparados aos aguçadores, por mo, consistindo em estruturas (id, ego e superego)
exemplo, faziam piores estimativas dos tamanhos de carregadas de energias instintuais. As energias nas
quadrados que gradualmente aumentavam em tama- diferentes estruturas entram em conflito umas com
nho. Os niveladores tendiam a fazer a mesma estima- as outras (catexia versus anticatexia), resultando no
tiva de tamanho para quadrados grandes e pequenos. acúmulo de tensões. A meta do organismo é descarre-
Eles não percebiam a diferença. Os aguçadores varia- gar as tensões e voltar a um estado de repouso. Ao
vam em suas estimativas, de modo que eram muito tentar atingir essa meta, as energias instintuais so-
mais acurados. Klein chamou essas estratégias de con- frem o que Freud chamou de vicissitudes de vários
troles ou atitudes cognitivas. Em experimentos subse- tipos, incluindo repressão, deslocamento, projeção e
qüentes, descobriu-se que as pessoas se comportavam formação reativa. A metapsicologia, na visão de Klein,
consistentemente em diferentes tipos de tarefa. As pes- é impessoal e mecanicista.
soas niveladoras, ao estimar o tamanho, eram menos A teoria clínica de Freud, conforme descrita por
capazes de descobrir rostos escondidos em uma figu- Klein, é uma teoria da pessoa, ao invés de uma teoria
ra porque estavam menos conscientes, do que as agu- do organismo. Ela é pessoal e humanista. Tenta com-
çadoras, das diferenças na figura. Essa consistência preender os problemas do indivíduo e interpretar sua
pessoal no uso de uma determinada estratégia é cha- experiência e seu comportamento em termos de suas
mada de estilo cognitivo. Foram identificadas várias metas, intenções, direções e propósitos. Ela procura
outras estratégias cognitivas (Gardner e colaborado- razões, em vez de causas. Klein acha que as duas teo-
res, 1959). rias, a clínica e a metapsicológica, devem ser clara-
Para Klein, as necessidades, os motivos, as pul- mente diferenciadas – o que em sua opinião Freud
sões e as emoções não são os únicos processos que não fez – porque apresentam visões bem diferentes
dirigem e controlam o comportamento. Na verdade, do indivíduo. A primeira é psicológica e humana, mas
eles talvez nem sejam os mais importantes. A manei- a última é biológica e física. De fato, Klein descartaria
ra como a estrutura cognitiva de uma pessoa é orga- totalmente a metapsicologia, porque ela não tem ne-
nizada, o fato de ela ser uma niveladora ou uma agu- nhum propósito útil para o psicólogo e pode ser in-
çadora, também dirige e controla o comportamento e clusive um obstáculo ao entendimento adequado do
assim ajuda a determinar sua efetividade na adapta- indivíduo. Uma vez que Freud foi repetidamente cri-
ção ao mundo. ticado por psicólogos por seu modelo despersonaliza-
Embora Klein reconhecesse que sua pesquisa so- do, a rejeição de Klein da metapsicologia eliminou da
bre os processos cognitivos era motivada pela teoria teoria psicanalítica esse importante impedimento à sua
do ego de Hartmann e outros, podemos salientar que aceitação pelos psicólogos. Gill (1976) juntou-se a
esses estudos seguem mais a tradição da psicologia Klein nesse empreendimento, afirmando desafiado-
acadêmica do que a tradição da psicanálise. Eles po- ramente “que a metapsicologia não é psicologia”.
deriam ter sido planejados e executados sem recorrer Os outros psicólogos que contribuíram para a re-
à teoria psicanalítica do ego. formulação da teoria psicanalítica são Schafer (1976)
Os psicólogos com formação psicanalítica não só e Holt (1976). Um dos mais influentes desse grupo
fizeram investigações em laboratório das hipóteses foi Robert White.
freudianas, mas também se empenharam em dissecar
e reformular a teoria psicanalítica. George Klein, por
Robert White
exemplo, dedicou os últimos anos de sua vida a sepa-
rar o que ele chamava de a teoria clínica da psicanáli- White (1963a) reuniu-se aos psicólogos do ego ao
se de sua metapsicologia (Klein, 1976; ver também propor não só que o ego tem sua própria energia in-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 163

trínseca, mas também que há satisfações intrínsecas Essa motivação é facilmente vista em crianças brin-
do ego que são independentes do id ou de gratifica- cando. O brincar de uma criança pode ser compreen-
ções instintuais. Notável entre essas satisfações autô- dido como “a agradável tarefa de desenvolver uma
nomas do ego está o senso de competência da pessoa familiaridade efetiva com seu ambiente. Isso envolve
ao realizar tarefas adaptativas. descobrir os efeitos que ela pode ter sobre o ambiente
Em um artigo imensamente influente, White de- e os efeitos que o ambiente pode ter sobre ela. Na
finiu a competência como “uma capacidade do orga- extensão em que esses resultados são preservados pela
nismo de interagir efetivamente com seu ambiente” aprendizagem, vão criando uma crescente competên-
(1959, p. 297). Ele prossegue, argumentando que a cia no manejo do ambiente. O brincar da criança pode,
motivação para obter competência não pode ser ex- portanto, ser visto como um ato muito sério” (1959,
plicada pelas tradicionais teorias do drive (Clark Hull) p. 321).
ou do instinto (Sigmund Freud). Os modelos clássi- A aplicação mais compelidora do modelo de efici-
cos de redução da pulsão funcionam bem para moti- ência de White é sua tentativa de reconceitualizar os
vos de sobrevivência como fome e sexo, mas não são estágios freudianos psicossexuais de desenvolvimen-
adequados para explicar a tendência de uma ampla to. White (1960) ergue duas objeções ao modelo de
variedade de organismos, observada na década de 50, estágio freudiano. Primeiro, o modelo de libido de
de se empenharem em comportamentos exploratóri- Freud é inadequado para explicar o desenvolvimento
os. Diferentemente de outras pulsões, o comportamen- emocional das crianças. Observem que White não está
to exploratório não se relaciona a uma necessidade rejeitando o modelo de Freud; mais propriamente, ele
ou déficit orgânico, não leva a uma resposta consu- está argumentando que a libido aumenta devido ao
matória e parece trazer crescente excitação em vez de desenvolvimento do senso de competência da crian-
redução da excitação. De maneira semelhante, argu- ça. Isto é, os aspectos-chave do desenvolvimento só
mentou White, o impulso para a competência não se podem ser compreendidos da perspectiva das mudan-
encaixa em modelos pulsionais ortodoxos. ças na competência real da criança e em seu senso
A motivação para a competência também não se subjetivo de competência. Esse senso subjetivo de com-
encaixa no modelo psicanalítico clássico de motiva- petência é conceitualizado como “o produto cumula-
ção instintual. As abordagens psicológicas do ego, tivo da nossa história de eficácias e ineficácias” (1960,
como o “instinto de dominar” de Hendrick e as fun- p. 103-104; cf. a história de reforço de Skinner, discu-
ções autônomas de Hartmann existindo em uma “es- tida no Capítulo 12). Segundo, os protótipos desen-
fera livre de conflitos”, inicialmente parecem compa- volvimentais freudianos (i. e., o bebê no seio, a crian-
tíveis com a motivação para a competência, mas as ça no banheiro, a criança fálica preocupada com
tentativas de explicação em termos de energias ins- impulsos genitais em relação aos pais, e o adulto ma-
tintuais neutralizadas não são mais bem-sucedidas do duro preocupado com relacionamentos heterossexu-
que as tentativas comportamentalistas ortodoxas de ais), mesmo quando traduzidos em termos interpes-
incluir a exploração como uma pulsão primária. Mais soais mais contemporâneos, oferecem modelos
uma vez, as suposições necessárias de uma fonte so- inadequados de desenvolvimento.
mática e de uma redução de tensão não correspon- Considerem o estágio oral freudiano. White con-
dem à realidade do fenômeno. Em vez disso, White corda que “se alguém está determinado a usar um
propõe uma motivação distinta para se tornar compe- único modelo para tudo o que acontece durante o
tente, baseada na “necessidade intrínseca do organis- primeiro ano, o modelo da criança que se alimenta é
mo de lidar com o ambiente” (1959, p. 318), e ele claramente a escolha adequada” (1960, p. 112). Mas
chama essa motivação de eficiência. A motivação para esse modelo único não pode explicar outros compor-
a eficiência é deixada de lado quando as pulsões cuja tamentos, como o brincar e o crescente interesse da
satisfação é necessária para a sobrevivência exigem a criança por alimentar-se a si mesma. Na verdade, a
atenção do organismo, mas “a motivação para a efici- maioria dos pais vai-se divertir com a descrição de
ência é persistente, no sentido de que ocupa regular- Gesell da “perigosa jornada” da colher quando a cri-
mente o tempo livre de vigília entre os episódios de ança tenta levá-la do prato à boca. Se a gratificação
crise homeostática” (1959, p. 321). oral fosse a única questão, as crianças não tentariam
164 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

interferir ou assumir o controle quando os adultos White rejeitava a suposição de Freud de que o
querem alimentá-las. Mas as crianças realmente ten- período de latência é um momento de tranqüilidade
tam assumir o controle dessa função e, aparentemen- sexual: “Dessa vez, quase podemos dizer que Freud
te, adoram fazer isso. O brincar e a crescente auto- subestimou a importância do sexo” (1960, p. 127).
confiança são inexplicáveis de um ponto de vista Além disso, o fato de Freud agrupar de seis a oito
libidinal, mas são inteiramente consistentes com um anos da vida da criança em um período relativamente
modelo de competência que enfatiza o que a criança sem importância obscurece numerosos eventos signi-
ganha de suas interações cada vez mais efetivas com ficativos. Muitos desses eventos, tais como as exigên-
o ambiente. Em resumo, a versão psicossexual do es- cias de produtividade e os relacionamentos interpes-
tágio oral representa “uma lamentável supergenerali- soais que acompanham o ingresso na escolarização
zação de uma essência muito boa” (1960, p. 113), e formal, refletem e influenciam o emergente senso de
White propõe que empreguemos modelos complemen- competência da criança. Os resíduos dos estágios pré-
tares: oral e de competência. genitais podem ser consolidados ou alterados por even-
Da mesma forma, White sugere que o negativis- tos durante esse período, e a “força de ego” do adulto
mo da criança nos “terríveis dois anos” deve ser com- é grandemente afetada pelos eventos dessa época
preendido como “uma crise intrínseca no desenvolvi- importante. Em uma clássica declaração abrandada,
mento da competência social”, não como um White conclui: “O tratamento dado por Freud ao pe-
deslocamento de problemas no treinamento esfincte- ríodo de latência não foi uma de suas aventuras mais
riano. Os adultos muitas vezes se impressionam com felizes” (1960, p. 127).
as tentativas das crianças de dois ou três anos de fa- A esta altura, o leitor provavelmente está anteci-
zer as atividades sozinhas, chegando a ficar zangadas pando a avaliação que White faz do estágio genital.
quando um adulto demonstra a “maneira certa” de Para Freud, as ações e as escolhas objetais durante a
fazê-las, ou com as crianças que se negam a atender idade adulta são amplamente reexpressões de confli-
aos pedidos dos pais de compartilhar. Para White, es- tos e de impulsos infantis. Ao contrário, White consi-
sas tentativas de estabelecer autonomia são mais bem- derava reais os problemas da adolescência e da idade
compreendidas como manifestações da motivação adulta. Em parte, White atribuiu essa perspectiva às
para estabelecer competência do que como derivados suas “preferências ocupacionais”:
do treinamento esfincteriano. Observem como essa
“Minha vida profissional se passa entre adoles-
orientação é consistente com o foco de Adler nas cres-
centes cujos problemas sexuais e relações sociais
centes tentativas da criança de compensar sentimen-
em geral não são esmagadores. Nós conversamos
tos de inferioridade (ver Capítulo 4).
sobre seus planos de estudo, suas capacidades e
White reconhece prontamente a “qualidade cla-
limitações, suas lutas com assuntos que precisam
ramente sexual de algumas das atividades e interes-
ser aprendidos e com habilidades que precisam
ses da criança” durante aquele que Freud chamou de
ser conquistadas, suas tendências profissionais,
estágio fálico, mas ele não vê a sexualidade como a
planos de carreira, e preocupações com a socie-
única questão nesse estágio. Muitas das questões são
dade moderna como o cenário de seus futuros
fundamentalmente assexuais. A linguagem, a ação, a
empreendimentos. Nós falamos, em outras pala-
imaginação e a iniciativa são de importância intrínse-
vras, principalmente sobre sua competência, e eu
ca para a criança nesse estágio, e essas preocupações
não acredito que o entendimento seria maior, in-
devem ser compreendidas em termos da busca da cri-
terpretando-se essas preocupações como desloca-
ança de um senso maior de competência. Na verdade,
mentos de pulsões instintuais, mecanismos de
White está mais preocupado com a competência e suas
defesa ou relações interpessoais. Elas são reais.”
vicissitudes do que com “os instintos de Freud e suas
(1960, p. 134)
vicissitudes”! Além disso, o protótipo freudiano repre-
senta uma situação sem esperança para a criança, pois Além disso, White levava a sério a máxima de Freud
os pais inevitavelmente prevalecem no conflito edípi- de que o indivíduo maduro é capaz de “amar e traba-
co, assim como inevitavelmente triunfam no embate lhar”, mas não conseguia entender o último em ter-
sobre o treinamento esfincteriano. mos do primeiro: “Infelizmente, o turbilhão do orgas-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 165

mo, que envolve o clímax, é um modelo completa- ança que variam de cultura para cultura e são deter-
mente errado para o trabalho” (1960, p. 135). minados pela tradição” (1963, p. 95). Isto é, os seres
Em resumo, White argumenta persuasivamente humanos chegam com um “equipamento instintivo
que o modelo libidinal de Freud deve ser suplementa- mínimo”, e esses instintos são “extremamente variá-
do por um modelo de competência: “Nós devemos veis e extraordinariamente plásticos” (1963, p. 95-
tentar ser tão perspicazes ao detectar as vicissitudes 96). A segunda citação revela quanto Erikson consi-
do senso de competência como Freud foi com a sexu- derou as mudanças no mundo durante os 50 anos
alidade, a agressão e a defesa” (1960, p. 137). Além decorridos entre a publicação de A Interpretação dos
de seu apelo intuitivo, nós percebemos vínculos entre Sonhos (1900) e Childhood and Society (1950):
o modelo de competência de White e outras posições
“Eu enfoquei o problema da identidade de ego e
teóricas. Encontraremos novamente a noção de com-
seu ancoramento em uma identidade cultural por
petência quando discutirmos o princípio de domínio
sentir que ela é aquela parte do ego que, no final
e competência de Gordon Allport (ver Capítulo 7) e
da adolescência, integra os estados infantis de ego
especialmente quando apresentarmos o constructo de
e neutraliza a autocracia do superego infantil . . .
auto-eficácia, mais situacionalmente específico, de
o paciente de hoje sofre muito com o problema
Albert Bandura (ver Capítulo 14).
que consiste em que deveria acreditar e quem ele
deveria – ou, na verdade, poderia – ser ou tornar-
se; enquanto o paciente da psicanálise inicial so-
fria muito com as inibições que o impediam de
ERIK H. ERIKSON ser quem ele achava que sabia que era . . . O estu-
do da identidade, então, torna-se tão estratégico
na nossa época como o estudo da sexualidade foi
HISTÓRIA PESSOAL na época de Freud . . . Os achados de Freud refe-
rentes à etiologia sexual da parte neurótica de uma
perturbação mental são tão verdadeiros para os
A escolha de Erik H. Erikson como a figura central
nossos pacientes como eram para os dele; assim
neste capítulo sobre a teoria psicanalítica contempo-
como a carga da perda de identidade que se des-
rânea é uma escolha óbvia. Nenhuma outra pessoa,
taca em nossas considerações provavelmente pe-
depois da morte de Sigmund Freud, trabalhou tão
sava sobre os pacientes de Freud tanto quanto pesa
conscienciosamente para elaborar e ampliar a estru-
sobre os nossos, como mostrariam as reinterpre-
tura da psicanálise estabelecida por ele e para refor-
tações. Portanto, os períodos diferentes nos per-
mular seus princípios para um entendimento do mun-
mitem ver, em um exagero temporário, diferen-
do moderno. O mundo muda, e a menos que as teorias
tes aspectos de partes da personalidade essen-
acompanhem essas mudanças, elas eventualmente se
cialmente inseparáveis.” (p. 279-283)
tornam estagnadas e irrelevantes. Só precisamos ler
Freud cronologicamente para ver como suas idéias Alguns críticos podem dizer que as elaborações
acompanharam a evolução dos tempos. Após a morte de Erikson se desviam tão nitidamente da forma e do
de Freud, Erikson, mais do que qualquer outra pessoa espírito da psicanálise que não se incluem na tradição
discutida neste capítulo, cumpriu essa função. Ele in- freudiana. Mas nós pretendemos fazer uma compara-
suflou uma nova vida na teoria psicanalítica. ção exaustiva das idéias de Erikson com as de Freud,
Duas citações de Childhood and Society (1950, para determinar se ele é ou não um verdadeiro freu-
1963) indicam como a versão de Erikson da psicaná- diano. Essa questão, de qualquer maneira, é uma ques-
lise avançou além da de Freud. A primeira revela como tão trivial. O leitor pode encontrar, se desejar, uma
Erikson reconceitualizou o instinto freudiano: “Os ‘ins- versão das diferenças entre Erikson e Freud em Roa-
tintos inatos’ do homem são fragmentos pulsionais que zen (1976). Independentemente do que os outros
precisam ser reunidos, receber significado e ser orga- possam dizer, Erikson se considerava um psicanalista
nizados durante uma infância prolongada, por meio freudiano. Treinado em psicanálise em sua própria
de métodos de treinamento e de escolarização da cri- raiz, Viena, analisado por Anna Freud, psicanalista com
166 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

longos anos de prática, membro das organizações ofi- É importante que o leitor tenha em mente o que
ciais da psicanálise, e psicanalista didata por 35 anos, quer dizer psicossocial quando usado junto com de-
Erikson sentia que suas idéias estavam consoantes com senvolvimento. Significa especificamente que os está-
a doutrina básica da psicanálise estabelecida por gios de vida de uma pessoa, do nascimento até a mor-
Freud. Se Erikson tivesse de ser identificado por al- te, são formados por influências sociais interagindo
gum nome, ele provavelmente preferiria ser chamado com um organismo que está amadurecendo física e
de pós-freudiano. psicologicamente. Nas palavras de Erikson, existe “um
As contribuições mais significativas de Erikson se mútuo ajuste entre o indivíduo e o ambiente – isto é,
incluem sob dois aspectos: (1) uma teoria psicosso- entre a capacidade do indivíduo de se relacionar com
cial do desenvolvimento, da qual emerge uma con- um espaço de vida de pessoas e de instituições em
cepção ampliada do ego e (2) estudos psico-históri- constante expansão, por um lado, e, por outro, a pron-
cos que exemplificam sua teoria psicossocial nas vidas tidão dessas pessoas e instituições em torná-lo parte
de indivíduos famosos. de uma preocupação cultural contínua” (1975, p. 102).

Erik H. Erikson.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 167

Erikson não pretendia que sua teoria psicossocial escola tinha sido criada para crianças que estavam
substituísse a teoria psicossexual de Freud nem a teo- em psicanálise ou para filhos de pais que estavam sen-
ria de desenvolvimento cognitivo de Piaget. Erikson do psicanalisados. Era uma escola progressista, e os
reconheceu que eles estavam preocupados com ou- professores e os alunos tinham completa liberdade
tros aspectos do desenvolvimento. O leitor deve ob- para desenvolver o currículo. Erikson ficou tão inte-
servar que, embora as teorias de Freud e de Piaget ressado na educação das crianças que se matriculou e
parem antes da idade adulta, como a teoria interpes- formou-se em uma escola que treinava professores no
soal de Sullivan do desenvolvimento (ver Capítulo 4), método Montessori. O método Montessori enfatiza o
a de Erikson vai até a velhice. Devemos observar que desenvolvimento da iniciativa da criança por meio do
o esquema de Erikson, como os de Freud, Piaget e brincar e do trabalho. Essa experiência teve uma in-
Sullivan, é uma teoria de estágios. Isso significa que fluência definitiva sobre Erikson.
existem idades mais ou menos definidas, em que apa- Uma influência ainda mais profunda foi sua ine-
recem novas formas de comportamento em resposta vitável exposição à psicanálise. Ele passou a relacio-
a novas influências sociais e maturacionais. Nem to- nar-se com o círculo de Freud, submeteu-se a uma
das as teorias de desenvolvimento são necessariamente análise didática com Anna Freud e estudou psicanáli-
teorias de estágios. A teoria do condicionamento ope- se no Instituto Psicanalítico de Viena, no qual se for-
rante de Skinner, por exemplo, supõe que o desenvol- mou em 1933. Ele agora encontrara sua identidade
vimento é contínuo, ao invés de ocorrer em etapas. profissional.
Erikson acreditava que sua história pessoal de vida Enquanto estudava psicanálise e ensinava na es-
tinha muita relação com o desenvolvimento de sua cola, Erikson casou-se com Joan Serson, uma dança-
perspectiva teórica. Ele aparentemente experienciou rina canadense e sua colega na escola. Eles decidiram
muitos dos conflitos, confusões e crises sobre os quais mudar-se para a Dinamarca. Quando isso não funcio-
escreveu mais tarde. Sua vida e obra foram tema de nou satisfatoriamente, eles foram para os Estados
dois livros. O primeiro deles é de Robert Coles (1970), Unidos, estabelecendo-se em Boston, em 1933. Erik-
um antigo colega e grande admirador de Erikson. O son tornou-se o primeiro psicanalista infantil daquela
outro é de Paul Roazen (1976), mais crítico em sua cidade. Ele também recebeu um cargo na Escola de
análise. Erikson refere-se à sua história de vida em Medicina de Harvard e trabalhou como consultor para
alguns de seus textos. várias agências. Enquanto estava em Boston, Erikson
Nascido em Frankfurt, Alemanha, em 15 de ju- fez pesquisas com Henry A. Murray na Clínica Psico-
nho de 1902, de pais dinamarqueses – a família de lógica de Harvard. Depois de três anos em Boston,
sua mãe era judia – Erikson nunca conheceu seu pai Erikson aceitou um cargo no Instituto de Relações
verdadeiro, pois seus pais se separaram antes de ele Humanas da Universidade de Yale e passou a dar au-
nascer. Sua mãe casou-se com um pediatra, Dr. Hom- las na Escola de Medicina. Em 1938, um convite para
burger, que adotou Erikson e cujo nome Erikson pas- observar crianças índias na reserva Sioux em Dakota
sou a usar. Foi só bem mais tarde, em 1939, quando do Sul mostrou-se irresistível. Em 1939, Erikson foi
se tornou um cidadão americano, que Erikson adotou para a Califórnia, onde ingressou no Institute of Child
o nome pelo qual é conhecido – Erik Homburger Eri- Welfare da Universidade da Califórnia, em Berkeley,
kson. que estava realizando um estudo longitudinal em gran-
Ao concluir seu curso secundário, Erikson estava de escala do desenvolvimento da criança. Ele também
em dúvida sobre o que queria fazer. Como muitos retomou seu trabalho como psicanalista, reservando
outros jovens alemães da época, ele passou um ano um tempo para observar os índios Yurok da Califór-
viajando pela Europa em busca de inspiração ou de nia do Norte.
orientação sobre o que deveria fazer profissionalmen- Durante esses anos na Califórnia, Erikson escre-
te. Ele finalmente optou por arte, para a qual tinha veu seu primeiro livro, Childhood and Society (1950;
talento e inclinação. Nesse ponto de sua vida (estava edição revisada, 1963). Esse livro teve um impacto
então com 25 anos), aconteceu um fato que iria mo- imediato e importante. Apesar de Erikson ter publica-
dificá-la drasticamente. Ele foi convidado para ensi- do outros nove livros desde então, Childhood and So-
nar em uma pequena escola particular de Viena. Essa ciety geralmente é considerado o mais significativo,
168 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

porque apresenta os temas que preocupariam Erikson atravessado e então deixado para trás. Em vez disso,
pelo resto da vida. cada estágio contribui para a formação da personali-
Após demitir-se de seu cargo de professor na Uni- dade total. Nas palavras de Erikson: “tudo que cresce
versidade da Califórnia, como protesto contra um ju- tem um plano básico, e... desse plano básico surgem
ramento especial de lealdade exigido dos membros as partes, cada parte tendo seu momento de ascen-
da faculdade (esse juramento foi mais tarde declara- dência especial, até que todas elas tenham surgido
do inconstitucional), Erikson ingressou no Centro Aus- para formar o todo que funciona” (1968, p. 92). Isso
ten Riggs em Stockbridge, Massachusetts, um centro é conhecido como o princípio epigenético, um termo
importante de residência em psiquiatria. Em 1960, tomado emprestado da embriologia.
Erikson foi nomeado professor em Harvard, onde seu Ao descrever os oito estágios do desenvolvimento
curso sobre o ciclo vital era muito popular entre os psicossocial, nós reunimos e parafraseamos materiais
alunos. Erikson aposentou-se em 1970 e mudou-se de quatro fontes. Em Childhood and Society (1950,
para um subúrbio de San Francisco. Os Erikson volta- 1963) e mais tarde em Identity: Youth and Crisis
ram para Massachusetts em 1987, depois da funda- (1968), Erikson apresentou os estágios em termos da
ção, em Cambridge, do Centro Erik Erikson. Erikson qualidade básica de ego que emerge durante cada es-
morreu em 12 de maio de 1994, em Harwich, Massa- tágio. Em Insight and Responsibility (1964), ele discu-
chusetts (ver Hopkins, 1995). tiu as virtudes ou forças do ego que aparecem em es-
Passemos agora a uma discussão das formulações tágios sucessivos. Em Toys and Reasons (1976), ele
teóricas de Erikson. descreveu a ritualização peculiar a cada estágio. Por
ritualização, Erikson se referia a uma maneira lúdica
e culturalmente padronizada de fazer ou experienci-
ar alguma vivência na interação cotidiana dos indiví-
A TEORIA PSICOSSOCIAL DO duos. O propósito básico dessas ritualizações é trans-
DESENVOLVIMENTO formar o indivíduo que está amadurecendo em um
membro efetivo e conhecido de uma comunidade.
O desenvolvimento, como salientamos, avança em Infelizmente, as ritualizações podem tornar-se rígidas
estágios – oito, ao todo, segundo o esquema de Erik- e pervertidas e transformar-se em ritualismos.
son.* Os primeiros quatro estágios ocorrem durante o A mais recente síntese de Erikson sobre os estági-
período de bebê e da infância, e os três últimos du- os foi apresentada em O Ciclo de Vida Completo (1985).
rante os anos adultos e a velhice. Nos textos de Erik- Dois gráficos dessa publicação servem como um bom
son, é dada uma ênfase especial ao período da ado- resumo dos estágios. O primeiro (ver Figura 5.1 adi-
lescência, pois é nele que se faz a transição da infância ante) descreve as características e as conseqüências
para a idade adulta. O que acontece durante esse es- mais importantes de cada estágio. O estudante deve
tágio é da maior importância para a personalidade consultá-lo ao ler as seguintes descrições. O núcleo
adulta. Identidade, crises de identidade e confusão de de cada estágio é uma “crise básica”, representando o
identidade são indubitavelmente os conceitos mais desafio que o contato com uma nova faceta da socie-
conhecidos de Erikson. dade traz para o ego em desenvolvimento. Por exem-
Esses estágios consecutivos, devemos observar, não plo, o ingresso da criança na escola durante o quarto
seguem um esquema cronológico rígido. Erikson acha- estágio garante que ela vai enfrentar a questão da di-
va que cada criança tinha seu próprio ritmo cronoló- ligência versus inferioridade, bem como um novo com-
gico, e que seria enganador especificar uma duração plexo de agentes sociais. Portanto, os estágios descri-
exata para cada estágio. Além disso, um estágio não é tos por Erikson são psicossociais, em contraste com
os estágios psicossexuais descritos por Freud.
O segundo gráfico (ver Figura 5.2, p. 170) pre-
*N. de T. Joan Erikson, esposa e colaboradora mais íntima de Erik-
tende mostrar a questão importante, mas freqüente-
son, revisou seu livro O Ciclo de Vida Completo (Erik Erikson, Artes
mente ignorada, de que a crise básica que constitui o
Médicas, 1998), acrescentando um nono estágio, o da velhice avan-
çada, que passa a ter uma importância crescente à medida que a núcleo de cada estágio não existe só durante aquele
longevidade humana aumenta. estágio. Cada crise é mais relevante durante um está-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 169

A B C D E F G H
P a to l o g i a P ri n c í p i o s
E s t á g io s e c e n t ra l , re la c io n a d o s
m odos C ri s e s R a io d e re la ç õ e s F o rça s a n t ip a t ia s d e o rd e m R it u a liz a ç õ e s
E s t á g io s p s ic o s s e x u a is p s ic o s s o c ia is s ig n ific a t iva s b á s ic a s b á s ic a s s o c ia l d e u n iã o R it u a lis m o
I . P e r ío d o d e O ra l - r e s p i ra t ó r i o , C o n f ia n ç a Pesso a m a tern a l E s p e ra n ç a Retra im en to O rd e m N u m in o s a s Id o lis m o
bebê c o r p o ra l - c i n e s t é - - b á s ic a v s . c ó s m ic a
s ic o d e s c o n f ia n ç a
(m o d o s b á s ic a
i n c o r p o ra t i v o s )
II. In f â n c ia A n a l - u r e t ra l , Au to n o m ia vs. P e s s o a is Vo n ta d e C o m p u ls ã o " Le i e J u d ic io s a s Le g a l i s m o
in ic ia l m u s c u la r v e rg o n h a , p a re n t a i s o rd e m "
(reten tivo - d ú v id a
e l i m i n a t i vo )
III. Id a d e d o In fa n til-gen ita l, I n i c i a t i va Fa m ília b á sica Pro p ó sito In ib iç ã o P ro t ó t i p o s D ra m á t i c a s M o ra l i s m o
b rin c a r lo co m o to r vs. id e a is
( i n t r u s i vo , c u lp a
i n c l u s i vo )
IV. Id a d e " L a t ê n c ia " D ilig ê n c ia v s . " V iz in h a n ç a " , C o m p e t ê n c ia I n é rc i a O rd e m F o rm a is F o rm a lis m o
e s c o la r i n fe r i o r i d a d e e s c o la tecn o ló gica ( T é c n ic a s )

V. P u b e rd a d e Id e n t id a d e v s . G ru p o d e ig u a is F id e lid a d e R e p ú d io V is ã o d e Id e o ló g ic a s To ta lism o
A d o le s c ê n c ia c o n fu sã o d e e o u t ro s g r u p o s ; mundo
id e n t id a d e m o d e lo s d e id e o ló g ic a
l i d e ra n ç a
V I. Id a d e G e n it a lid a d e In t im id a d e v s . P a rc e i r o s d e Am or E x c lu s iv id a d e Pa d r õ e s d e A s s o c i a t i va s E lit is m o
a d u lt a jo ve m iso la m en to a m iz a d e , s e x o , c o o p e ra ç ã o
c o m p e t iç ã o , e
c o o p e ra ç ã o c o m p e t iç ã o
V II. Id a d e ( P ro c r i a t i v i d a d e ) G e n e ra t i v i d a d e Tra b a lh o d ivid id o C u id a d o R e je iç ã o C o rren tes G e ra c i o n a i s Au to rita rism o
a d u lt a vs. e sta g n a ç ã o e fa m ília e la r de educação
c o m p a r t ilh a d o s e t ra d i ç ã o

V III. Velh ice ( G e n e ra l i z a ç ã o In teg rid a d e vs. " G ê n e ro h u m a n o " S a b e d o ria D esd ém S a b e d o ria F ilo s ó f ic a s D o g m a t is m o
de m odos d e s e s p e ro " M e u g ê n e ro "
s e n s u a is )

FIGURA 5.1 Resumo dos oito estágios. Reimpressa com a permissão de Erikson (1985, p. 32-33).

gio específico, mas tem raízes em estágios prévios e mentar-se confortavelmente e de excretar de forma
conseqüências em estágios subseqüentes. Por exem- relaxada. A cada dia, à medida que suas horas de vigí-
plo, a identidade versus a confusão de identidade é a lia aumentam, o bebê vai-se familiarizando com ex-
crise definidora da adolescência, mas a formação da periências sensuais, e essa familiaridade coincide com
identidade começa nos primeiros quatro estágios, e o um senso de bem-estar. As situações de conforto e as
senso de identidade negociado durante a adolescên- pessoas responsáveis por tais confortos tornam-se fa-
cia evolui durante e influencia os três estágios finais. miliares e identificáveis para o bebê. Devido à confi-
Em conseqüência, os espaços “vazios” na Figura 5.2, ança do bebê e à familiaridade com a pessoa mater-
na verdade, não estão vazios, e considerá-los vazios é nal, ele atinge um estado de aceitação em que essa
compreender mal a natureza dos estágios de Erikson. pessoa pode ausentar-se por um momento. Essa reali-
Vamos agora examinar cada estágio individualmente. zação social inicial por parte do bebê é possível por-
que ele está desenvolvendo uma certeza e uma confi-
ança internas de que a pessoa maternal retornará. As
rotinas diárias, a consistência e a continuidade no
I. CONFIANÇA BÁSICA VERSUS ambiente do bebê proporcionam a primeira base para
DESCONFIANÇA BÁSICA um senso de identidade psicossocial. Pela continuida-
de de experiências com adultos, o bebê aprende a
A confiança básica mais inicial se estabelece durante depender deles e a neles confiar; mas, talvez ainda
o estágio oral-sensorial, e é demonstrada pelo bebê mais importante, ele aprende a confiar em si mesmo.
em sua capacidade de dormir pacificamente, de ali- Essa segurança vai contrabalançar a parte negativa
170 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

In teg rid ad e
vs.
Velh ice
d e s e s p e ro ,
V III
d esgo sto ,
S A B E D O R IA

G e n e ra t i v i d a d e
Id a d e a d u lt a
vs. e sta g n a çã o
V II
C U ID A D O

In t im id a d e
Id a d e a d u lt a
vs.
jo ve m
iso lam en to
VI
AM OR

Id e n t id a d e
vs.
A d o le s c ê n c ia
c o n fu sã o d e
V
id e n t id a d e
F ID E L ID A D E

D ilig ê n c ia v s .
Id a d e e s c o la r
i n fe r i o r i d a d e
IV
CO M P E T Ê N C I A

I n i c i a t i va v s .
Id a d e d o b rin c a r
c u lp a
III
P R O P Ó S I TO

Au to n o m ia
vs.
In f â n c ia in ic ia l
v e rg o n h a ,
II
d ú v id a
VO N TA D E

C o n f ia n ç a
b á s ic a v s .
P e r ío d o d e b e b ê
d e s c o n f ia n ç a
I
b á s ic a
ESPER A N ÇA

1 2 3 4 5 6 7 8

FIGURA 5.2 Seqüência dos oito estágios. Reimpressa com a permissão de Erikson (1985, p. 56-57).

da confiança básica – a saber, a desconfiança básica, ção para novas esperanças. Simultaneamente, ele de-
que, em princípio, é essencial para o desenvolvimen- senvolve a capacidade de abandonar as esperanças
to humano. frustradas e antever expectativas em futuras metas e
A razão adequada de confiança e de desconfiança perspectivas. Ele aprende quais esperanças estão den-
resulta na ascendência da esperança: “A esperança é a tro da esfera do possível e dirige suas expectativas de
virtude inerente ao estado de estar vivo mais primiti- acordo com isso. Conforme amadurece, ele descobre
va e a mais indispensável” (Erikson, 1964, p. 115). que as esperanças que outrora eram altas prioridades
Os fundamentos da esperança estão nas relações ini- foram superadas por um nível mais elevado de espe-
ciais do bebê com os progenitores maternais dignos de ranças mais avançadas. Erikson afirmou: “A esperan-
confiança, que dão respostas às suas necessidades e ça é a crença duradoura na possibilidade de se atingir
proporcionam experiências satisfatórias como tranqüi- desejos fervorosos, apesar dos sombrios impulsos e
lidade, nutrição e carinho. Todas as confirmações de das fúrias que assinalam o início da existência” (1964,
esperança originam-se no mundo mãe-criança. Por p. 118).
meio de um crescente número de experiências em que O primeiro estágio da vida, o período de bebê, é o
a esperança do bebê é confirmada, ele recebe inspira- estágio da ritualização de uma divindade. O que Erik-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 171

son queria dizer com isso é o senso do bebê da pre- as duas origens da virtude da vontade. A criança apren-
sença abençoada da mãe que o olha, segura-o, toca-o, de consigo mesma e com os outros o que é esperado e
sorri para ele, alimenta-o, diz seu nome e, de outra esperável. A vontade é responsável pela gradual acei-
forma, “reconhece-o”. Essas repetidas interações são tação da criança daquilo que é lícito e necessário. Os
altamente pessoais e, ainda, culturalmente ritualiza- elementos da vontade são gradualmente aumentados
das. O reconhecimento do bebê pela mãe afirma e pelas de experiências que envolvem consciência e aten-
certifica o bebê e sua mutualidade com a mãe. A falta ção, manipulação, verbalização e locomoção. A von-
de reconhecimento pode causar alienação na perso- tade é a força crescente de fazer escolhas livres, de
nalidade do bebê – um senso de separação e abandono. decidir, de exercer a autocontenção e concentrar-se.
Cada um dos estágios iniciais estabelece uma ri- Erikson chamou a ritualização desse estágio de
tualização que continua na infância e aí contribui para judiciosa, porque a criança começa a julgar a si mes-
os rituais da sociedade. A forma pervertida do ritual ma e os outros e a diferenciar o certo e o errado. Ela
da divindade materna se expressa na vida adulta pela percebe que certos atos e palavras são certos ou erra-
idolatria de um herói, ou idolismo. dos, o que a prepara para a experiência, no próximo
estágio, de sentir culpa. A criança também aprende a
distinguir entre o “nosso tipo” e outros considerados
diferentes; assim, os outros que não são como nós
II. AUTONOMIA VERSUS podem ser imediatamente avaliados como errados ou
VERGONHA E DÚVIDA maus. Essa é a base ontogenética da alienação mun-
dial conhecida como espécie dividida. Em outros tex-
Durante o segundo estágio da vida (o estágio anal- tos, Erikson chamou isso de pseudo-espécie, a origem
muscular no esquema psicossexual), a criança apren- do preconceito intra-humano.
de o que se espera dela, quais são seus privilégios e Esse período de ritualização judiciosa na infância
obrigações, e quais são as limitações que precisa acei- é a origem, no ciclo de vida, do ritual judicial. Na ida-
tar. O desejo da criança de experiências novas e mais de adulta, esse ritual é exemplificado pelo julgamen-
orientadas para atividades dá lugar a uma necessida- to no tribunal e pelos procedimentos por meio dos
de dupla: uma necessidade de autocontrole e uma quais se estabelece a culpa ou a inocência.
necessidade da aceitação do controle de outras pes- O ritualismo perverso desse estágio é o legalismo,
soas no ambiente. Para subjugar a teimosia da crian- a vitória da lei rigidamente aplicada – a punição ven-
ça, os adultos utilizarão a propensão humana à ver- ce a compaixão. O legalista sente satisfação ao ver os
gonha, universal e necessária, embora encorajem a condenados punidos e humilhados, independentemen-
criança a desenvolver um senso de autonomia e a even- te de ser essa a intenção da lei.
tualmente afirmar sua independência. Os adultos que
exercem controle também precisam ser firmemente
reasseguradores. A criança deve ser encorajada a ex-
perienciar situações que exigem a livre escolha autô- III. INICIATIVA VERSUS CULPA
noma. A vergonha excessiva só vai induzir a criança
ao descaramento ou obrigá-la a tentar escapar impu- O terceiro estágio psicossocial da vida, corresponden-
nemente sendo fechada, dissimulada e furtiva. Esse é te ao estágio psicossexual genital-locomotor, é o da
o estágio que promove a liberdade da auto-expressão iniciativa, uma época de crescente maestria e respon-
e a amorosidade. Um senso de autocontrole produz sabilidade. A criança, nesse estágio, apresenta-se como
na criança um duradouro sentimento de boa vontade claramente mais avançada e mais “organizada”, tanto
e orgulho; um senso de perda do autocontrole, por física quanto mentalmente. A iniciativa se combina
outro lado, pode causar um sentimento permanente com a autonomia para fazer com que ela seja ativa,
de vergonha e dúvida. determinada e capaz de planejar sua tarefas e metas.
A virtude da vontade emerge durante o segundo O perigo desse estágio é o sentimento de culpa que
estágio da vida. A vontade própria treinada e o exem- pode obcecar a criança por uma busca muito entusi-
plo de vontade superior apresentado pelos outros são asmada de metas, incluindo fantasias genitais e o uso
172 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

de meios agressivos e manipulativos para chegar a car-se à educação formal. Ela desenvolve um senso
essas metas. A criança está ansiosa para aprender e de aplicação e aprende as recompensas da perseve-
aprende bem nessa idade; ela desenvolve seu senso rança e da diligência. O interesse por brinquedos e
de obrigação e de desempenho. pelo brincar é gradualmente superado por um inte-
O propósito é a virtude que surge nesse estágio resse por situações produtivas e pelos implementos e
desenvolvimental. A principal atividade da criança instrumentos usados para trabalhar. O perigo desse
nessa idade é o brincar, e o propósito é o resultado de estágio é a criança desenvolver um senso de inferiori-
seu brincar, de suas explorações, tentativas e fracas- dade se for (ou fizerem com que se sinta) incapaz de
sos, e das experimentações com seus brinquedos. Além dominar as tarefas que inicia ou que lhe são dadas
de jogos físicos, ela faz jogos mentais, assumindo os pelos professores e pelos pais.
papéis dos pais e de outros adultos em um mundo de Durante o estágio da diligência emerge a virtude
faz-de-conta. Ao imitar as imagens desses adultos, ela da competência. As virtudes dos estágios prévios (es-
percebe até certo ponto como é ser como eles. O brin- perança, vontade e propósito) proporcionaram à cri-
car proporciona à criança uma realidade intermediá- ança uma visão de futuras tarefas, embora uma visão
ria; ela aprende qual é o propósito dos fatos, a cone- ainda não muito específica. A criança agora precisa
xão entre um mundo interno e um externo, e como as ter uma instrução específica em métodos fundamen-
memórias do passado se aplicam a metas do futuro. tais para familiarizar-se com um modo de vida técni-
Portanto, o brincar imaginativo e desinibido é vital- co. Ela está pronta e disposta a conhecer e a usar os
mente importante para o desenvolvimento da crian- instrumentos, as máquinas e os métodos preparatóri-
ça: “O propósito, então, é a coragem de imaginar e os para o trabalho adulto. Assim que tiver desenvolvi-
buscar metas valorizadas não-inibidas pela derrota das do suficiente inteligência e capacidade para o traba-
fantasias infantis, pela culpa e pelo medo cortante da lho, é importante que se dedique a esse trabalho para
punição” (Erikson, 1964, p. 122). evitar sentimentos de inferioridade e regressão do ego.
Essa idade do brincar é caracterizada pela rituali- O trabalho, nesse sentido, inclui muitas e variadas for-
zação dramática. A criança participa ativamente de mas, como ir à escola, fazer tarefas domésticas, assu-
dramatizações, usando figurinos, imitando personali- mir responsabilidades, estudar música, aprender ha-
dades adultas e fingindo ser qualquer coisa, de um bilidades manuais, assim como participar de jogos e
cachorro a um astronauta. O estágio inicial da rituali- esportes. O importante é a criança aplicar sua inteli-
zação contribui para o elemento dramático que será gência e sua abundante energia em algum empreen-
encontrado nos rituais (tal como o teatro como um dimento e direção.
ritual próprio) pelo resto da vida da pessoa. A aliena- Um senso de competência é obtido quando nos
ção interior que pode resultar desse estágio da infân- dedicamos ao trabalho e concluímos tarefas, o que
cia é um senso de culpa. acaba nos trazendo habilidade. Os fundamentos da
A contraparte negativa da ritualização dramática competência preparam a criança para um futuro sen-
é o ritualismo da personificação por toda a vida. O so de habilidade; sem isso, a criança sentir-se-ia infe-
adulto desempenha papéis ou atua a fim de apresen- rior. Durante essa época, ela está ansiosa para apren-
tar uma imagem que não representa sua verdadeira der as técnicas da produtividade: “A competência,
personalidade. então, é o livre exercício da destreza e da inteligência
na conclusão de tarefas, não-prejudicado pela inferi-
oridade infantil” (Erikson, 1964, p. 124).
A idade escolar é o estágio da ritualização formal,
IV. DILIGÊNCIA VERSUS quando a criança aprende a ter um desempenho me-
INFERIORIDADE tódico. Observar e aprender métodos de desempenho
proporcionam à criança um senso global de qualida-
Durante o quarto estágio do processo epigenético (no de que envolve habilidade e perfeição. Tudo o que a
esquema de Freud, o período de latência), a criança criança fizer – seja um trabalho na escola ou sejam
precisa controlar sua imaginação exuberante e dedi- tarefas em casa – ela faz do jeito certo.
TEORIAS DA PERSONALIDADE 173

O ritualismo distorcido na idade adulta é o for- dir, e, de fato, um periódico recuo à infantilidade pa-
malismo, que consiste na repetição de formalidades rece ser uma alternativa agradável ao complexo en-
sem significado e em rituais vazios. volvimento necessário em uma sociedade adulta. O
comportamento do adolescente é inconsistente e im-
previzível durante esse estado caótico. Em um mo-
mento, ele reluta em comprometer-se com os outros
V. IDENTIDADE VERSUS por medo de ser rejeitado, desapontado ou engana-
CONFUSÃO DE IDENTIDADE do. No momento seguinte, o adolescente quer ser um
seguidor, um amante ou um discípulo, sejam quais
Durante a adolescência, o indivíduo passa a experien- forem as conseqüências de tal comprometimento.
ciar um sentido da própria identidade, um sentimen- O termo crise de identidade refere-se à necessida-
to de que é um ser humano único, que está preparado de de resolver o fracasso transitório em formar uma
para se encaixar em algum papel significativo na soci- identidade estável, ou a uma confusão de papéis. Cada
edade. A pessoa se torna consciente das característi- estado sucessivo, de fato, “é uma crise potencial devi-
cas individuais inerentes, de situações, pessoas e ob- da a uma mudança radical em perspectiva” (Erikson,
jetos dos quais gosta ou não gosta, de metas futuras 1968, p. 96). Mas a crise de identidade pode parecer
antecipadas e da força e do propósito de controlar o especialmente perigosa porque todo o futuro do indi-
próprio destino. Essa é uma época na vida em que víduo, assim como a próxima geração, parece depen-
queremos definir o que somos no presente e o que der dela.
desejamos ser no futuro. É o momento de fazer pla- Também é especialmente perturbador o desenvol-
nos vocacionais. vimento de uma identidade negativa, isto é, o senso de
O agente interno ativador na formação da identi- possuir um conjunto de características más ou poten-
dade é o ego, em seus aspectos conscientes e incons- cialmente indignas. A maneira mais comum de lidar
cientes. O ego, nesse estágio, tem a capacidade de com a identidade negativa é projetar as característi-
selecionar e integrar talentos, aptidões e habilidades cas más em outras pessoas: “Elas são más, não eu.”
na identificação com pessoas semelhantes a nós e na Tal projeção pode resultar em diversas patologias so-
adaptação ao ambiente social. Ele também é capaz de ciais, incluindo preconceito, crime e discriminação
manter suas defesas contra ameaças e ansiedades, à contra vários grupos de pessoas, mas também é uma
medida que aprende a decidir quais impulsos, neces- parte importante da prontidão do adolescente para o
sidades e papéis são mais apropriados e efetivos. To- envolvimento ideológico.
das essas características selecionadas pelo ego são reu- Nessa época adolescente, desenvolve-se a virtude
nidas e integradas por ele para formar a própria da fidelidade. Apesar de serem agora sexualmente
identidade psicossocial. maduros e de muitas maneiras responsáveis, os ado-
Devido à difícil transição da infância à idade adul- lescentes não estão ainda adequadamente preparados
ta, por um lado, e à sensibilidade à mudança social e para serem pais. O equilíbrio de ego se depara com
histórica, por outro, o adolescente, durante o estágio uma situação precária: por um lado, é esperado que a
da formação da identidade, tende a sofrer mais pro- pessoa tenha um padrão adulto de vida, mas, por ou-
fundamente do que nunca em virtude da confusão de tro, ela não tem a liberdade sexual do adulto. O com-
papéis, ou da confusão de identidade. Esse estado pode portamento oscila entre atos impulsivos, irrefletidos
fazer com que ele se sinta isolado, vazio, ansioso e e esporádicos e uma restrição compulsiva. Durante
indeciso. O adolescente sente que precisa tomar deci- essa época difícil, todavia, o jovem busca um conheci-
sões importantes, mas é incapaz de fazer isso. Ele pode mento interno e um entendimento de si mesmo, e tenta
sentir que a sociedade o pressiona para tomar deci- formular um conjunto de valores. O conjunto particu-
sões; assim, ele fica ainda mais resistente. Ele se pre- lar de valores que emerge é o que Erikson denomina
ocupa imensamente com como os outros o vêem e fidelidade: “A fidelidade é a capacidade de manter
tende a ser muito inibido e envergonhado. lealdades livremente empenhadas, apesar das inevi-
Durante a confusão de identidade, o adolescente táveis contradições dos sistemas de valor” (1964, p.
pode sentir que está regredindo, ao invés de progre- 125).
174 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

A fidelidade é a base sobre a qual se forma um necessária para fazer escolhas, mas é claro que isso
senso de identidade contínuo. A substância da fideli- também pode resultar em graves problemas de perso-
dade é adquirida pela “confirmação” de ideologias e nalidade.
verdades e também pela afirmação de companheiros. A virtude do amor passa a existir durante o está-
A evolução da identidade baseia-se na necessidade gio de desenvolvimento da intimidade. O amor é a
inerente ao ser humano de sentir que pertence a um virtude dominante do universo. Ele aparece de mui-
gênero particular ou “especial” de pessoas. Por exem- tas formas nos estágios anteriores, começando com o
plo, precisamos saber que pertencemos a um grupo amor do bebê pela mãe, depois as paixões do adoles-
étnico ou religioso especial, em que podemos partici- cente e finalmente o amor que o adulto manifesta,
par dos costumes, dos rituais e das ideologias, ou, na importando-se com os outros. Embora o amor esteja
verdade, que preferimos participar de movimentos aparente nos estágios anteriores, o desenvolvimento
destinados a mudar ou renovar a estrutura social. A da verdadeira intimidade só acontece depois da ado-
identidade do jovem dá definição ao seu ambiente. lescência. Os jovens adultos agora são capazes de com-
A ritualização do estágio adolescente é a ideolo- prometer-se com um relacionamento em que seu modo
gia. A ideologia é a solidariedade de convicção que de vida é mutuamente compartilhado com um par-
incorpora ritualizações de estágios de vida prévios em ceiro íntimo. Erikson escreveu: “O amor, então, é a
um conjunto coerente de idéias e ideais. A alienação mutualidade de dedicação, subjugando para sempre
resultante da ausência de uma ideologia integrada é os antagonismos inerentes à função dividida” (1964,
a confusão de identidade. p. 129). Embora a identidade do indivíduo se mante-
A perversão da ritualização de ideologia que pode nha em um relacionamento íntimo, sua força de ego
ocorrer é o totalismo. O totalismo é a preocupação depende do parceiro com quem está preparado para
fanática e exclusiva com o que parece ser inquestio- compartilhar a criação dos filhos, a produtividade e a
navelmente certo ou ideal. ideologia de seu relacionamento.
A ritualização correspondente desse estágio é a
associativa, isto é, um compartilhar conjunto de tra-
balho, amizade e amor. O ritualismo correspondente,
VI. INTIMIDADE VERSUS o elitismo, expressa-se pela formação de grupos ex-
ISOLAMENTO clusivos que são uma forma de narcisismo comunal.

Neste estágio, os jovens adultos estão preparados e


dispostos a unir sua identidade a outras pessoas. Eles
buscam relacionamentos de intimidade, parceria e VII. GENERATIVIDADE VERSUS
associação, e estão preparados para desenvolver as ESTAGNAÇÃO
forças necessárias para cumprir esses comprometimen-
tos, ainda que para isso tenham de fazer sacrifícios. O estágio da generatividade caracteriza-se pela preo-
Agora, pela primeira vez na vida, o jovem pode viver cupação com o que é gerado – progênie, produtos,
uma genitalidade sexual verdadeira, em mutualidade idéias e assim por diante – e com o estabelecimento
com a pessoa amada. A vida sexual, nos estágios an- de orientações para as gerações que estão por vir. Essa
teriores, restringia-se a uma busca de identidade se- transmissão dos valores sociais é uma necessidade para
xual e a um anseio por intimidades transitórias. Para o enriquecimento dos aspectos psicossexuais e psicos-
que a genitalidade tenha uma importância social du- sociais da personalidade. Quando a generatividade é
radoura, é preciso que o indivíduo tenha alguém para fraca ou não recebe expressão, a personalidade regri-
amar e relacionar-se sexualmente, alguém com quem de e sente-se empobrecida e estagnada.
possa compartilhar um relacionamento confiável. O A virtude do cuidado se desenvolve durante esse
perigo do estágio da intimidade é o isolamento, a evi- estágio. O cuidado se expressa pela preocupação com
tação dos relacionamentos, quando a pessoa não está os outros, por querer cuidar das pessoas que preci-
disposta a comprometer-se com a intimidade. Um sen- sam e compartilhar com elas o próprio conhecimento
so temporário de isolamento também é uma condição e experiência. Isso é feito por meio da criação dos
TEORIAS DA PERSONALIDADE 175

filhos e do ensino, da demonstração e da supervisão. Embora aquele que atinge um estado de integridade
Os seres humanos, como espécie, têm uma necessida- esteja consciente dos vários estilos de vida dos ou-
de inerente de ensinar, uma necessidade comum às tros, ele preserva com dignidade um estilo de vida
pessoas em todas as profissões. O ser humano se sen- pessoal e defende-o de potenciais ameaças. Esse esti-
te satisfeito e realizado ao ensinar crianças, adultos, lo de vida e a integridade da cultura tornam-se assim
empregados e até animais. Os fatos, a lógica e as ver- o “patrimônio da alma”.
dades são preservados através de gerações por essa A contraparte essencial da integridade é um certo
paixão por ensinar. O cuidado e o ensino são respon- desespero em relação às vicissitudes do ciclo de vida
sáveis pela sobrevivência das culturas, pela reitera- individual e a condições sociais e históricas, para não
ção de seus costumes, rituais e lendas. O avanço de falar do vazio da existência diante da morte. Isso pode
cada cultura deve sua progressão àqueles que se im- agravar o sentimento de que a vida não tem sentido,
portam o suficiente para instruir e viver uma vida de que o fim está próximo, de um medo – e até de um
exemplar. O ensino também instila no ser humano um desejo – da morte. O tempo agora é curto demais para
senso vital de ser necessário aos outros, um senso de voltar atrás e tentar estilos de vida alternativos.
importância que o impede de absorver-se excessiva- A sabedoria é a virtude resultante do encontro da
mente em si mesmo. Durante a vida, o indivíduo acu- integridade com o desespero nesse último estágio da
mula múltiplas experiências e conhecimentos, tais vida. A atividade física e mental das funções diárias
como educação, amor, vocação, filosofia e estilo de está diminuindo a essa altura do ciclo de vida. A sim-
vida. Todos esses aspectos da vida precisam ser pre- ples sabedoria afirma e transmite a integridade das
servados e protegidos, pois são experiências precio- experiências acumuladas nos anos anteriores: “A sa-
sas. Preservam-se essas experiências transcendendo- bedoria, então, é a preocupação desprendida com a
as ou passando-as aos outros: “O cuidado é a crescente vida em si, diante da morte em si” (Erikson, 1964, p.
preocupação com aquilo que foi gerado por amor, 133).
necessidade ou acidente; ele supera a ambivalência O fato de a pessoa envelhecida ser menos adaptá-
presente na obrigação irreversível” (1964, p. 131). vel a mudanças não impede uma certa recreatividade
A ritualização desse estágio é a geracional, que é e curiosidade que permitem um fechamento da expe-
a ritualização de paternidade/maternidade, produção, riência acumulada em anos de conhecimento e de jul-
ensino, cura e assim por diante, papéis em que o adulto gamento. Os que estão no estágio da sabedoria po-
age como transmissor de valores ideais para os jovens. dem representar para as gerações mais jovens um estilo
As distorções da ritualização geracional se expres- de vida caracterizado por um sentimento de inteireza
sam pelo ritualismo do autoritarismo. O autoritaris- e completude. Esse sentimento de inteireza pode con-
mo é o confisco ou a usurpação da autoridade incom- trabalançar o sentimento de desespero e desgosto e o
patível com o cuidado. sentimento de estar acabado, conforme as situações
presentes da vida vão passando. O senso de inteireza
também alivia o sentimento de desamparo e depen-
dência que pode marcar o fim da vida.
VIII. INTEGRIDADE VERSUS A ritualização da velhice pode ser chamada de
DESESPERO integral; isso se reflete na sabedoria das idades. Bus-
cando um ritualismo correspondente, Erikson sugere
O último estágio do processo epigenético do desen- o sapientismo, “a tola pretensão de ser sábio”.
volvimento é denominado integridade. A melhor ma-
neira de descrevê-lo é como um estado que a pessoa
atinge depois de ter cuidado de coisas e pessoas, pro-
dutos e idéias, e de ter-se adaptado aos sucessos e UM NOVO CONCEITO DE EGO
fracassos da existência. Por meio dessas realizações,
os indivíduos podem colher os benefícios dos primei- Freud, podemos lembrar, concebia o ego como o exe-
ros sete estágios da vida e perceber que sua vida teve cutivo da personalidade, um executivo cujos deveres
certa ordem e significado dentro de uma ordem maior. eram satisfazer os impulsos do id, lidar com as exi-
176 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

gências sociais e físicas do mundo externo, e tentar verdade, Erikson falou muito pouco sobre o id e o
corresponder aos padrões perfeccionistas do superego. superego, ou sobre motivação inconsciente e estraté-
Assediado por três lados, o ego recorre a várias defe- gias irracionais.
sas para não ser esmagado. Esse conceito de um ego Como psicanalista praticante, Erikson, evidente-
defensivo, criado por Freud e elaborado por Anna mente, estava consciente da vulnerabilidade do ego,
Freud (1946), foi modificado por Hartmann e outros das defesas irracionais que ele erige, das conseqüên-
(ver p. 156-157) para incluir as funções adaptativas e cias devastadoras do trauma, da ansiedade e da cul-
integrativas. pa. Mas ele também via o ego do paciente como habi-
Como demonstra a discussão precedente dos es- tualmente capaz de lidar de forma efetiva com seus
tágios de vida de Erikson, ele dotou o ego de várias problemas, com certa ajuda do psicoterapeuta. Essa
qualidades que vão muito além de qualquer concep- concentração na força potencial do ego caracteriza
ção psicanalítica prévia do ego. Essas qualidades são todos os textos de Erikson.
confiança e esperança, autonomia e vontade, diligên- A concepção de ego de Erikson era bastante soci-
cia e competência, identidade e fidelidade, intimida- alizada e histórica. Além dos fatores genéticos, fisio-
de e amor, generatividade e cuidado, e integridade. lógicos e anatômicos que ajudam a determinar a na-
Tais qualidades, reconhecidamente humanas, geral- tureza do ego do indivíduo, também existem
mente não são discutidas na literatura psicanalítica. importantes influências culturais e históricas. Uma das
Quando são, a discussão normalmente consiste em contribuições mais criativas de Erikson à teoria do ego
rastrear essas qualidades até suas origens infantis. foi colocá-lo em um contexto cultural e histórico – em
Erikson zombava da ênfase exclusiva na originologia, uma estrutura de espaço e tempo.
como a chamava, ou no reducionismo, como outros Erikson também especulou sobre as dimensões que
chamaram. uma nova identidade de ego poderia assumir (1974).
Erikson afirmava estar consciente das conotações Uma identidade, segundo ele, precisava estar ancora-
“idealistas” de palavras como confiança, esperança, da em três aspectos da realidade. O primeiro é a fatu-
fidelidade, integridade e assim por diante. Ele as es- alidade: “um universo de fatos, dados e técnicas que
colheu porque elas conotam, em várias línguas, valo- podem ser verificados com os métodos observacionais
res humanos universais, que em culturas primitivas e e com as técnicas de trabalho da época” (1974, p. 33).
antigas, assim como na vida moderna, reúnem três Depois, existe um senso de realidade, que também pode
esferas mutuamente essenciais: o ciclo de vida indivi- ser chamado de universalidade, porque combina o prá-
dual, a seqüência de gerações e a estrutura social bá- tico e o concreto em uma imagem de mundo visioná-
sica. ria. Gandhi, por um lado, tinha esse senso de realida-
O tipo de ego descrito por Erikson pode ser cha- de. A terceira dimensão é a realidade, “uma nova
mado de ego criativo, embora ele não usasse essa pa- maneira de relacionar-se, de ativar-se e incentivar-se
lavra. O ego pode encontrar, e realmente encontra, mutuamente a serviço de metas comuns” (1974, p.
soluções criativas para os novos problemas que o as- 33). Mas, então, talvez com ironia, Erikson acrescen-
sediam em cada estágio da vida. Ele sabe, em cada tou uma quarta dimensão, a sorte ou o acaso. Essa
estágio, usar uma combinação de prontidão interna e nova identidade de ego, ao mesmo tempo, criaria uma
oportunidade externa, e o faz com vigor e mesmo com nova imagem de mundo em que um senso mais am-
um senso de alegria. Quando ameaçado, o ego reage plo de identidade comum gradualmente supera a pseu-
com renovado esforço, em vez de desistir. O ego pare- do-espécie que ajudou a causar preconceito, discrimi-
ce ser imensamente robusto e plástico. Os poderes de nação, ódio, crime, guerra, pobreza e escravidão. Só
recuperação, observou Erikson, são inerentes ao ego o tempo dirá se essa imagem de mundo é alcançável,
jovem. O ego, de fato, lucra com o conflito e com a mas sem a visão, diria Erikson, nenhuma nova reali-
crise. Ele pode ser, e normalmente é, o mestre e não o dade pode passar a existir.
escravo do id, do mundo externo e do superego. Na
TEORIAS DA PERSONALIDADE 177

PESQUISA CARACTERÍSTICA E nos e pelas meninas. Os meninos, em geral, construí-


MÉTODOS DE PESQUISA am estruturas altas com os blocos; as meninas tendi-
am a usar a mesa como o interior de uma casa em que
As observações de pacientes em tratamento constitu- colocavam a mobília e as pessoas. Elas raramente usa-
em a principal fonte de dados dos teóricos psicanalíti- vam os blocos para construir paredes ou estruturas.
cos. Embora geralmente Erikson derivasse suas for- As cenas dos meninos incluíam muita ação implícita –
mulações dessas observações, ele também observou tráfego movendo-se pelas ruas, policiais que bloquea-
crianças e adolescentes normais em situações lúdicas, vam o tráfego, animais e índios. As cenas das meni-
fez várias incursões em território índio e estudou a nas eram mais pacíficas, embora muitas vezes a tran-
vida de figuras históricas. Ele provavelmente é mais qüilidade fosse quebrada por um intruso que era
conhecido por seus estudos psico-históricos, e seus li- sempre um animal, menino ou homem – nunca uma
vros sobre Lutero (1958) e Gandhi (1969) são muito menina ou uma mulher. As meninas não tentavam
lidos. bloquear essas intrusões, erigindo paredes ou fechan-
do portas. Erikson comentou que “a maioria dessas
intrusões tem um elemento de humor ou excitação
Histórias de Caso
prazerosa” (1963, p. 105). Ele observou que as meni-
Embora Erikson não publicasse muitos estudos de caso nas preferiam utilizar o espaço interno, ao passo que
de seus pacientes, os poucos que apareceram (1963) os meninos utilizavam preferencialmente o espaço
demonstram um raro insight da dinâmica da persona- externo. O leitor deve ser informado de que várias
lidade e uma compaixão pelas pessoas perturbadas, tentativas de replicar as observações de Erikson sobre
especialmente pelas crianças com problemas. Seu ta- as diferenças sexuais na criação lúdica de forma geral
lento notável para estabelecer rapport com os pacien- não tiveram sucesso (Caplan, 1979; Cramer & Hogan,
tes está claramente evidente, e seu estilo refinado 1975).
transforma esses estudos de caso em eventos literári- Ao interpretar as diferenças entre os sexos, Erik-
os, assim como em trabalhos científicos. son enfatizou o que chamava de “o plano básico do
corpo” – significando que, pelo menos nas crianças
pré-púberes, a configuração anatômica dos órgãos
Situações Lúdicas
sexuais em amadurecimento influenciava fortemente
Ao fazer psicoterapia com crianças, Erikson, como o uso lúdico do espaço na elaboração de configura-
outros, descobriu que as crianças geralmente revela- ções exteriores e interiores. Estas, evidentemente,
vam melhor suas preocupações quando brincavam contêm temas profundamente influenciados pelos
com brinquedos do que por meio de palavras. Isso o papéis sexuais tradicionais. Essas interpretações pa-
levou a desenvolver uma situação lúdica padroniza- recem concordar com a máxima de Freud de que “ana-
da, utilizando brinquedos e blocos, que empregou em tomia é destino”, com a implicação de que as diferen-
um estudo não-clínico de 150 meninos e 150 meninas ças sexuais são inatas e resistentes à mudança.
entre dez e doze anos de idade: “Eu preparei uma As diferenças sexuais surgem em parte como um
mesa para brincar e uma seleção aleatória de brin- produto dos fenômenos desenvolvimentais que Erik-
quedos e convidei os meninos e as meninas do estu- son chama de zonas psicossexuais, modos dos órgãos e
do, um de cada vez, a entrar e a imaginar que a mesa modalidades sociais. Embora esse segmento de sua te-
era um estúdio de cinema e os brinquedos, atores e oria não seja muito conhecido, é importante porque
cenários. Eu então lhes pedi que ‘criassem sobre a mesa proporciona o “vínculo primário” entre os estágios
uma cena emocionante de um filme imaginário’” psicossexuais enfatizados por Freud e os estágios psi-
(1963, p. 98). Depois, a criança era solicitada a con- cossociais pelos quais Erikson é conhecido. As zonas
tar uma história sobre a cena que tinha construído. correspondem às zonas erógenas identificadas por
Ao estudar uma variedade de conexões entre con- Freud. Cada uma dessas zonas libidinais é dominada
figurações lúdicas e a história de vida dessas crianças, durante seu estágio de maior sensibilidade por um
Erikson ficou pasmo com as nítidas diferenças no uso modo principal de funcionamento. Assim, a boca pri-
do espaço para brincar nas cenas criadas pelos meni- mariamente incorpora, o ânus e a uretra tanto retêm
178 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

quanto eliminam, o falo se introduz, e a vagina con- A Figura 5.3 apresenta o esquema original de Eri-
tém. Cada um desses modos físicos dá origem a uma kson para ilustrar esse processo. Os círculos peque-
correspondente modalidade de interação social. Du- nos dentro dos círculos grandes representam as três
rante o estágio oral-sensório, por exemplo, existem zonas de órgãos: a boca em cima, o ânus embaixo e os
dois modos incorporativos. O primeiro, em que o bebê genitais do lado. Da mesma forma, os números arábi-
consegue segurar objetos na boca, produz a modali- cos se referem aos modos: 1 e 2 para os dois modos
dade de pegar. O segundo, em que o bebê pode usar incorporativos, 3 para retenção e 4 para eliminação,
seus novos dentes para morder objetos, produz a mo- 5 para intrusão e 1 novamente para a inclusão. Final-
dalidade de agarrar. Da mesma forma, os modos de mente, os números romanos se referem a estágios: I e
retenção e eliminação do estágio anal-uretral-muscu- II para o estágio oral-sensório, III para o estágio anal-
lar transformam-se na capacidade e no desejo de agar- uretral-muscular, IV para o estágio infantil-genital-lo-
rar-se a e deixar ir. Essas modalidades se referem a comotor e V para um estágio genital rudimentar. A
apegos e comprometimentos, assim como os modos seqüência desenvolvimental normativa para os meni-
se referem à interação com objetos. nos segue a diagonal de I.1 para IV.5. A seqüência
Até este ponto, a progressão desenvolvimental é normativa para as meninas é de I.1 para III.3 e III.4,
semelhante para meninos e meninas. Entretanto, con- depois IV.1 e IV.2.
forme mostra a Figura 5.3 (ver adiante), os caminhos Erikson (1975), subseqüentemente, discutiu ob-
desenvolvimentais através do estágio infantil-genital jeções erguidas por críticas feministas a essas inter-
divergem para meninos e meninas como uma função pretações. Ele salienta que nunca disse que semelhan-
de suas diferentes zonas de órgãos e modos físicos. ças ou diferenças psicológicas entre os sexos eram
Quando reforçada pela cultura, a intrusão do menino determinadas unicamente por fatos biológicos. A bio-
o predispõe a fazer, no sentido da iniciativa e da con- logia, embora demarcando potenciais vitais, interage
quista, e a intrusão da menina a predispõe a agarrar, com variáveis culturais e psicológicas para produzir
por meio da atração e do apelo. Em sua apresentação um determinado efeito comportamental. Conseqüen-
de 1975, todavia, Erikson fez questão de enfatizar que temente, o que os homens fazem e o que as mulheres
ambos os sexos têm as duas modalidades a seu dis- fazem com seus potenciais masculino e feminino não
por: esse estágio é dominado, “em ambos os sexos, é rigidamente controlado por suas respectivas anato-
por combinações de modos e modalidades intrusivas mias e fisiologias, mas está sujeito a diferenças de
e inclusivas”. Erikson não renunciou totalmente aos personalidade, a papéis sociais e a aspirações.
conceitos de inveja do pênis nas meninas e de ansie- Expandindo a máxima de Freud, Erikson (1975)
dade de castração nos meninos nesse estágio, mas ele escreveu que “anatomia, a história e a personalidade
mudou a ênfase no desenvolvimento feminino “do são o nosso destino combinado”. Mas ele reconheceu
senso exclusivo de perda de um órgão externo para preocupações típicas distintivas de mulheres e de ho-
um senso incipiente de potencial interno vital – o ‘es- mens. Ecoando sua discussão de zonas, modos e mo-
paço interno’, então – que de jeito nenhum se opõe a dalidades, ele sugeriu que “assim como o controle da
uma plena expressão de vigorosa intrusividade na lo- natalidade atinge o núcleo da condição feminina, as
comoção e em padrões gerais de iniciativa” (1975, p. implicações do controle de armas atingem o núcleo
38). Os modos genitais que emergem depois da pu- da identidade masculina, conforme ela emergiu ao
berdade são necessariamente intrusivos para os ho- longo da evolução e da história” (1975, p. 245). As-
mens e inclusivos para as mulheres. Sob a força de sim como o controle da natalidade permitiria à mu-
pressões culturais, as diferentes modalidades podem lher escolher papéis além da maternidade, o controle
contribuir para a exploração da mulher como aquela de armas permitiria que o homem escolhesse papéis
que espera – e de quem se espera – continuar depen- além daqueles definidos pela imagem da tecnologia e
dente e cuidando das crianças. O correspondente con- da conquista. Erikson não se desculpou por sua pos-
junto de forças pode levar o menino a papéis de com- tulação de modalidades separadas para homens e
petição ou de exploração. Erikson enfatizou que esses mulheres. Soando quase junguiano em sua sugestão
resultados não precisam ocorrer. de que os seres humanos, como espécie, precisam de
TEORIAS DA PERSONALIDADE 179

FIGURA 5.3 Zonas, modos e modalidades como fatores no desenvolvimento de (a) meninos e (b) meninas.
(Reimpressa com a permissão de Erikson, 1963, p. 89).

ambas as potencialidades, ele descreveu sua visão de textos, ele escreveu um artigo teórico muito impor-
uma ordem mundial que só pode-se desenvolver “por tante sobre os sonhos (1954), usando um sonho de
meio de um envolvimento igual das mulheres e de Freud para ilustrar suas idéias.
seus modos especiais de experiência no planejamento
e no governo, em geral, até agora monopolizados por
Estudos Antropológicos
homens” (1975, p. 247).
As situações lúdicas, na análise infantil, têm um Erikson foi um dos poucos psicanalistas que estuda-
papel semelhante ao do sonho na análise do adulto. ram a relação dos traços de caráter adultos com a
Embora Erikson não enfatizasse os sonhos em seus maneira pela qual a criança foi educada em grupos
180 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

primitivos. Em 1937, Erikson acompanhou a Dakota História de Caso e História de Vida


do Sul um representante de campo do Commissioner
of Indian Affairs para tentar descobrir por que as cri- Erikson deu um passo metodológico gigante no estu-
anças Sioux demonstravam uma apatia tão acentua- do de figuras históricas quando imaginou que seria
da. Ele descobriu que a criança Sioux estava aprisio- possível aplicar os mesmos métodos usados para re-
nada no dilema de tentar conciliar os valores tribais construir o passado de um paciente na psicanálise à
tradicionais, nela inculcados durante sua educação reconstrução do passado de uma pessoa histórica. A
inicial, com os valores do homem branco, ensinados história de caso se torna história. Mas ele também
nas escolas dirigidas pelo Indian Service. Incapazes de percebeu, ao fazer a transição da história de caso para
conciliá-los, muitas crianças simplesmente evitavam a história de vida, que o psicanalista precisa levar em
a questão, retraindo-se para um estado de apatia. consideração o que os pacientes fazem no mundo fora
Mais tarde, Erikson foi a Klamath River, na Cali- da clínica, como é o seu mundo, que limitações seu
fórnia do Norte, onde vivem os índios Yurok. Ele esta- mundo lhes impõe e também que oportunidades lhes
va especialmente interessado em fazer correlações oferece. Ele perguntou a si mesmo: o que os pacientes
entre as práticas de treinamento infantil e os traços podem fazer sendo o mundo como é? Em conseqüên-
de personalidade dos pescadores que viviam à beira cia de seu pensamento sobre a vida de figuras históri-
de um rio, em uma comparação com os caçadores das cas, ele percebeu que as técnicas da psicanálise “pre-
planícies. Por exemplo, a aquisição e a retenção de cisavam suplementar seus achados clínicos com o
posses era uma contínua preocupação dos Yurok. O estudo do funcionamento psicossocial” (1975, p. 105).
reforço desse comportamento começava muito cedo Mas os grandes homens e mulheres diferem dos
na vida da criança, que era ensinada a ser abstêmia, a pacientes, uma vez que mudam o mundo formulando
subordinar seus impulsos a considerações econômi- uma nova visão de mundo que captura a imaginação
cas e a engajar-se em fantasias sobre pescar salmões e das pessoas e incita-as à ação. Uma grande diferença
ganhar dinheiro. entre a história de vida de uma pessoa famosa e a
história de caso de um paciente é a seguinte: em uma
história de caso, tentamos explicar por que uma pes-
Psico-História
soa se desmontou; em uma história de vida, tentamos
Erikson definiu a psico-história como “o estudo da vida explicar como uma pessoa conseguiu permanecer in-
individual e coletiva com os métodos combinados da teira apesar dos conflitos, dos complexos e das crises.
psicanálise e da história” (1974, p. 13). Seu livro so- Essa, evidentemente, é uma questão imensamente im-
bre Lutero (1958) tinha o subtítulo de A study in portante. Deve haver muitos Hitlers vagando pelas ruas
Psychoanalysis and History. ou confinados a instituições mentais ou penais, mas
O interesse de Erikson por “psicanalisar” os indi- só houve um ou possivelmente alguns Hitlers bem-
víduos famosos começou com seus capítulos sobre a sucedidos (pelo menos por um período) nos tempos
infância de Hitler e a juventude de Maxim Gorky em modernos. Por que o mesmo conflito ou crise destrói
Childhood and Society (1950, 1963). Esses ensaios ini- uma pessoa e fortalece outra?
ciais foram seguidos por dois outros livros, Young Man Ao estudar figuras históricas como Lutero e Gan-
Luther (1958) e Gandhi’s Truth (1969). Ele também dhi, Erikson não estava interessado em seus traumas
escreveu sobre George Bernard Shaw (1968), Tho- infantis como tal, nem considerava seu comportamen-
mas Jefferson (1974), William James (1968) e, em to adulto apenas uma fixação em ou uma regressão a
muitos de seus textos, sobre Freud. O próprio Freud complexos infantis. Em vez disso, ele tentou mostrar
sondou a vida de pessoas famosas, incluindo Leonar- como os traumas da vida inicial eram reencenados,
do da Vinci (1910a), Daniel Schreber, um jurista ale- em uma versão transformada, nos atos da vida adul-
mão (1911), Dostoevsky (1928), Moisés (1939), e ta. É suficientemente simples estabelecer que Gandhi
Woodrow Wilson, em colaboração com William Bullit, ou Lutero, ou qualquer outro homem, por falar no
(1967). Há um debate considerável sobre o papel que assunto, experienciavam conflitos e culpa por senti-
Freud desempenhou na colaboração sobre Wilson. mentos sensuais em relação à mãe e sentimentos hos-
TEORIAS DA PERSONALIDADE 181

tis em relação ao pai. Para Erikson, o complexo ou a um evento ter realmente ocorrido na vida de uma
crise de Édipo é apenas a forma infantil de um confli- pessoa é reforçada se pudermos mostrar que ele ocor-
to geracional. O importante é como esse conflito é re comumente “na cultura contemporânea da comuni-
representado, de várias formas, durante a vida. Os dade e... na história dessa cultura” (1975, p. 132-133).
grandes homens parecem ser capazes de representá- Assim, é tão importante para o biógrafo conhecer a
lo de tal maneira que inspiram e motivam muitos ou- sociedade, passada e presente, em que a pessoa vive
tros a tornarem-se seus seguidores. Gandhi foi uma como é estar informado sobre os eventos da vida da
inspiração para milhões de hindus que queriam ficar pessoa. A pessoa é feita pela história, tanto quanto a
livres do domínio britânico, assim como Lutero, 400 faz.
anos antes, foi para milhões de europeus que queri- As interpretações psico-históricas são inevitavel-
am ficar livres da autoridade de Roma. Em estudos mente influenciadas pelo nosso humor no momento
psico-históricos de grandes indivíduos, tenta-se mos- em que fazemos as interpretações e pela tradição in-
trar como as vicissitudes de sua história desenvolvi- telectual em que fomos treinados. Isso significa que
mental pessoal mudaram o curso da história. se alguém com uma orientação intelectual diferente –
O que o grande homem faz é personificar e ofere- digamos, um junguiano ou um existencialista – escre-
cer às pessoas uma visão de mundo integradora e li- vesse sobre a vida de Lutero ou Gandhi, suas inter-
bertadora que, ao mesmo tempo, é necessária para pretações seriam diferentes das de Erikson. (A mes-
sua identidade grandiosamente conflituada e propor- ma diversidade, evidentemente, também é encontrada
ciona-lhe um senso de uma identidade coletiva nova nas interpretações do comportamento dos pacientes
e mais ampla. Uma visão de mundo comum une as por pessoas de diferentes linhas teóricas.) Mesmo dois
pessoas para dentro de uma força efetiva de mudan- freudianos não concordam em suas interpretações,
ça. A personalidade e a visão de mundo de Lutero como mostram os contrastantes relatos sobre Lutero
levaram à Reforma, as de Gandhi, à libertação da Ín- escritos por Norman O. Brown (1959) e Erikson
dia, as de Jefferson, à democracia americana, as de (1958). (Ver Domhoff, 1970, para uma interessante
Lenin, ao comunismo russo e as de Mao, ao comunis- comparação desses “dois Luteros”.)
mo chinês. Erikson também salientou que “qualquer psico-
historiador... projeta nos homens e nos tempos que
estuda algumas porções não-vividas e muitas vezes os
Metodologia Psico-Histórica
selves não-realizados de sua própria vida” (1975, p.
Erikson estabeleceu regras bastante rigorosas sobre 148). Esta observação sugere que o psico-historiador,
como realizar um estudo psico-histórico (1975). Pri- assim como o psicoterapeuta, deve ser psicanalisado
meiro, é essencial ter em mente que a interpretação para ter consciência de seus conflitos e complexos
de qualquer declaração que uma pessoa faz sobre sua pessoais antes de escrever ou avaliar biografias.
vida deve considerar várias questões. Em que ponto Em conseqüência dos estudos psico-históricos se-
de sua vida a pessoa fez a declaração? Como a decla- minais de Erikson, a psico-história tornou-se uma dis-
ração feita em um determinado momento se encaixa ciplina independente com numerosos praticantes. (Ver,
na história de vida total? O que estava acontecendo p. ex., McAdams, 1994, e uma discussão no Capítulo
em seu mundo na época em que a informação foi re- 7 deste livro.) Erikson sentia-se um pouco ambivalen-
gistrada? Como esses eventos mundiais contemporâ- te em relação a essa nova “indústria” da qual ele foi o
neos se articulam com o processo histórico global? empreendedor.
Por exemplo, Erikson teve de enfrentar essas pergun-
tas quando analisou e interpretou a autobiografia de
Gandhi, escrita quando este tinha quase 60 anos.
Além disso, a interpretação de um evento em uma PESQUISA ATUAL
história de vida precisa ser “compatível com o estágio
desenvolvimental em que se acredita ter ocorrido” O modelo de Erikson dos estágios psicossexuais ge-
(1975, p. 128) e também ser plausível com relação à rou uma variedade de estratégias de avaliação e ricas
continuidade de vida da pessoa. A probabilidade de investigações empíricas. Nós começaremos com a
182 HALL, LINDZEY & CAMPBELL

medida mais conhecida de status da identidade, de- riam os universitários do sexo masculino a desistir de
senvolvida por James Marcia. Depois, examinaremos uma carreira planejada se surgisse alguma situação
pesquisas sobre dois outros estágios psicossexuais, e melhor:
concluiremos comentando o recente trabalho sobre o
Identidade realizada: “Bem, eu poderia desistir,
status intercultural do modelo de estágios de Erikson.
mas duvido. Não sei se haveria para mim ‘al-
guma coisa melhor’.”
Status de Identidade Moratória: “Acho que, se tivesse certeza, poderia
responder melhor a essa pergunta. Teria de
James Marcia (1966) desenvolveu uma medida de
ser alguma coisa na área geral, alguma coisa
status da identidade amplamente utilizada com ado-
relacionada.”
lescentes e jovens adultos. Marcia começou identifi-
Execução: “Não muito disposto. Isso é o que eu
cando quatro “pontos de concentração” ao longo de
sempre quis fazer. Meus pais estão felizes,
um contínuo de realização da identidade de ego: iden-
assim como eu.”
tidade realizada, moratória, execução e difusão de
Difusão de identidade: “Oh, claro. Se surgisse al-
identidade. Ele definiu esses status em termos da ex-
guma coisa melhor, eu mudaria na hora.”
tensão em que o indivíduo experienciou uma crise de
identidade, ou “empenhou-se na escolha entre alter- Os pesquisadores identificaram vários correlatos
nativas significativas” (1966, p. 551), e desenvolveu de diferenças no status da identidade. Slugoski e co-
um compromisso de identidade, ou investimento em laboradores (1984) descobriram que tanto os sujeitos
determinadas metas e comportamentos. realizados quanto os sujeitos em moratória revelavam
Marcia empregou uma entrevista semi-estrutura- uma maior complexidade cognitiva do que os sujeitos
da para estabelecer o grau de crise e de compromisso em execução e difusão. Os sujeitos neste último sta-
apresentado pelo indivíduo nas áreas da escolha ocu- tus, o mais inferior, tendiam a ser mais rígidos, con-
pacional e de ideologia política e religiosa. (Ele mais cretos e impulsivos. Da mesma forma, os sujeitos no
tarde acrescentou o domínio da sexualidade. Ver, p. status mais elevado da identidade eram mais abertos,
ex., Slugoski, Marcia & Koopman, 1984). A pessoa mais cooperativos e ficavam mais à vontade com te-
que está com a identidade realizada experienciou um mas polêmicos. Os sujeitos em execução, ao contrá-
período de crise, durante o qual explorou alternativas rio, tendiam a ser antagonistas ou aquiescentes em
entre várias possibilidades e subseqüentemente com- suas interações, presumivelmente como um meio de
prometeu-se nos domínios de ocupação, na ideologia proteger-se de pontos de vista contrários. Outras pes-
e na sexualidade. O indivíduo em moratória está atu- quisas apresentam um quadro semelhante das carac-
almente em um período de crise. Seus compromissos terísticas de estilo cognitivo dos indivíduos em execu-
são ainda muito vagos, mas ele parece estar lutando ção (p. ex., Blustein & Phillips, 1990; Cella, DeWolfe
para formar tais compromissos. Essa pessoa ainda está & Fitzgibbon, 1987; Marcia, 1967; Read, Adams &
envolvida em questões adolescentes e nos desejos pa- Dobson, 1984; Schenkel & Marcia, 1972). Consisten-
rentais. Está tentando negociar um compromisso en- temente com Slugoski e colaboradores (1984), Wa-
tre os desejos parentais, as exigências sociais e as ca- terman (1982; ver também 1985) relatou que os su-
pacidades pessoais. Uma pessoa em execução fez jeitos em execução apresentam um relacionamento
compromissos, apesar de não ter experienciado uma mais estreito com os pais, e os indivíduos em difusão
crise. As atitudes e as metas dessa pessoa refletem de identidade apresentam uma maior distância em
rigidamente as dos pais. Finalmente, o indivíduo em relação aos pais.
difusão de identidade pode ou não ter experienciado Finalmente, as pesquisas empregando o instru-
uma crise. A marca característica dessa pessoa é a fal- mento de Marcia e várias outras medidas foram ge-
ta de compromisso e a ausência de preocupação em ralmente consistentes com as sugestões de Marcia re-
relação à ocupação, ideologia e sexualidade. Marcia ferentes ao curso desenvolvimental da formação da
(1966, p. 553) apresenta os seguintes exemplos de identidade de ego (p. ex., Adams & Fitch, 1982; Con-
respostas a uma pergunta sobre quão dispostos esta- stantinople, 1969; Waterman, Geary & Waterman,
TEORIAS DA PERSONALIDADE 183

1974). No entanto, as anomalias na seqüência e as mente, McAdams sugere que os adultos narram um
preocupações com bases conceituais levaram Cote e roteiro generativo para si mesmos. Isto é, eles tecem
Levine (1988) a criticar o modelo de Marcia, tanto uma história, relatando como suas tentativas de ser
como um modelo eriksoniano quanto como um mo- generativos se encaixam na sociedade da qual fazem
delo geral do desenvolvimento da identidade (ver parte. Observem como esse modelo é consistente com
Waterman, 1988, para uma réplica). a opinião de Erikson de que o indivíduo “ajusta-se
perfeitamente” à sua sociedade, e também com a per-
gunta persistente de Allport: “Como deve ser escrita
Outros Estágios
uma história de vida psicológica?” (ver Capítulo 7).
Orlofsky (p. ex., 1976, 1978; Orlofsky, Marcia & Les-
ser, 1973) propôs uma análise dos status de intimida-
Status Intercultural
de com base em uma entrevista semelhante à de Mar-
cia para a identidade. As entrevistas de Orlofsky As teorias de estágio, como as propostas por Freud e
buscam definir a presença e a profundidade dos rela- Erikson, geralmente são criticadas como inseparáveis
cionamentos com amigos do mesmo sexo e do sexo da cultura. Embora a crítica só possa ser aplicada a
oposto. Com essas informações, os indivíduos são de- Erikson com certo senso de ironia, dadas suas investi-
signados como íntimos, pré-íntimos, estereotipados, gações antropologicamente sofisticadas das tribos de
pseudo-íntimos (um subtipo de estereotipado) ou iso- índios americanos Sioux e Yukon, assim como da “iden-
lados. Como exemplos desses status, considerem as tidade americana” (1950, 1963), vários estudos rela-
duas definições seguintes: “O indivíduo íntimo tenta taram variação nos constructos eriksonianos por meio
desenvolver relacionamentos pessoais mútuos e tem de grupos culturais (p. ex., McClain, 1975; Ochse &
vários amigos próximos com os quais discute seus pro- Pl