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Livro comemorativo de10 ANOS

do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo


da Universidade Federal Fluminense

PRODUÇÃO
E GESTÃO
DO ESPAÇO
ORGANIZADORAS
Maria de Lourdes Costa
Maria Lais Pereira da Silva
PRODUÇÃO
E GESTÃO
DO ESPAÇO
Livro comemorativo de10 anos
do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo
da Universidade Federal Fluminense

PRODUÇÃO
E GESTÃO
DO ESPAÇO
organizadoras

Maria de Lourdes Costa


Maria Lais Pereira da Silva

1a Edição
Niterói, 2015
PPGAU/EAU/UFF
Rua Passo da Pátria 156, Bloco D, 5º andar, sala 541 Programa de Pós-graduação
em Arquitetura e Urbanismo
Campus Praia Vermelha, São Domingos
24210-240 Niterói Rio de Janeiro RJ

Escola de Arquitetura e Urbanismo


telefone 55-21. 2629.5490
www.uff.br/ ppgau

Universidade Federal Fluminense


parq.uff@gmail.com

O Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo – PPGAU/EAU/


UFF foi criado pela Resolução UFF nº 71 de 03 de julho de 2002. Ofereceu, a
partir de 2003, o curso de mestrado e, em março de 2012, implantou seu curso
de doutorado. Nesse ínterim, ascendeu em relação ao conceito inicial dado
pela CAPES e teve 124 dissertações defendidas até o final de 2014. No início
de 2016 terá as primeiras teses de doutorado concluídas. Conta, atualmente,
com 24 professores, em sua maioria do corpo permanente, mais os colabora-
dores.
No trajeto dos 10 anos de existência recém completados passou por gestões
assumidas pelos coordenadores e subcoordenadores abaixo relacionados:

Gestão 2003-2007 Sergio Roberto Leusin de Amorim


Thereza Christina Couto Carvalho
Maria Lais Pereira da Silva
Gestão 2007-2010
Sergio Roberto Leusin de Amorim
Gestão 2010-2012 Maria de Lourdes Pinto Machado Costa
___________________________________________________________________ Maria Lais Pereira da Silva
Produção e gestão do espaço – 10 anos de PPGAU/UFF, Gestão 2013-2015 José Simões de Belmont Pessôa
Maria de Lourdes Pinto Machado Costa, Maria Laís Pereira da Silva –org.
Fernanda Furtado de Oliveira e Silva
Niterói: FAPERJ; Casa 8, 2014.
612 p.;Il.; 16x23cm
Inclui bibliografia
Livro comemorativo de 10 anos do Programa de Pós-graduação em O Programa forma também pós-graduandos com Estágio docente desde sua
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense 2003-2013
implantação em 2006, que contou até 2011 com a supervisão da profa. Patrí-
ISBN 978-859-927-429-3
cia Fraga.
1. Didática. 2. História. 3. Patrimônio. 4. Cultura. 5. Arquitetura e Urbanismo. 6. Plane-
jamento urbano e regional. 7. Gestão do território. 8. Políticas urbanas. 9. Habitação.
10. Mobilidade urbana. 11. Imagem urbana. 12. Mercado. 13. Percepção do ambiente.
14. Conforto ambiental. I. Costa, Maria de Lourdes P. M.,Silva, Maria Lais Pereira da. II.
Universidade Federal Fluminense. Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Ur-
banismo. III. Título: Produção e gestão do espaço – 10 anos de PPGAU/UFF
___________________________________________________________________

7
SUMÁRIO 4 CIDADE CONTEMPORÂNEA: IDEOLOGIA E MERCADO

Arquitetura da violência: segurança e mercado numa


cidade transparente 201
Apresentação 11
Sonia Maria Taddei Ferraz | Bruno Amadei Machado | Juliane G. Baldow
Maria de Lourdes Costa | Maria Laís Pereira da Silva
Projeto, ideologia e hegemonia na cidade brasileira contemporânea 213
Trajeto do Programa 19
Pedro da Luz Moreira
Vera Lucia F. M. Rezende | Marlice N. S. de Azevedo | Sergio R. Leusin de Amorim

5 HABITAÇÃO: POLÍTICAS, GESTÃO E REPRESENTAÇÕES


parte i ARTIGOS DE AUTORES DO PROGRAMA E CO-AUTORES
Reconfiguração territorial urbana em tempo de grandes projetos regionais:
1 EXPERIÊNCIA DIDÁTICO-PEDAGÓGICA
o caso do leste metropolitano do Rio de Janeiro 227
Necessidade e importância da formação para o ensino. Regina Bienenstein | Eloisa H. Barcelos Freire | Natalia Oliveira | Daniela Amaral
Disciplina didática aplicada 24
Jorge Baptista de Azevedo
O Programa Morar Carioca:
novos rumos na urbanização das favelas cariocas? 245
Gerônimo Emilio Almeida Leitão e Jonas Delecave 
2 HISTÓRIA E PATRIMÔNIO

Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico: Significados e representações em favelas:
a aldeia, o porto e a ponte 35 o que é e o que não é próprio, o que é? 261
Marlice Nazareth Soares de Azevedo Maria Laís Pereira da Silva com João Paulo Oliveira Huguenin

Memória e patrimônio na cidade: o caso do Rio de Janeiro 55 6 PERCEPÇÃO, OCUPAÇÃO E EXPANSÃO DO AMBIENTE NATURAL
Nireu Oliveira Cavalcanti
E CONSTRUÍDO
O telefone sobre a mesa do século XVIII, ou como os arquitetos modernistas Notas sobre a dispersão urbana: o exemplo de Maricá, RJ 279
brasileiros pensaram a conservação dos centros históricos 77 Werther Holzer | Camila Quevedo dos Santos
José Simões de Belmont Pessôa
Niterói e a ponte: transformações urbanas e impactos produzidos:
O urbanismo moderno na cidade do Rio de Janeiro: uma avaliação à luz da percepção ambiental 295
dos princípios à oficialização 89 Lelia Mendes de Vasconcellos
Vera Lucia Ferreira Motta Rezende
O projeto e avaliações de conforto ambiental e eficiência energética do
projeto do prédio do centro de informações do CRESESB, Rio de Janeiro 313
3 CULTURA, MORFOLOGIAS E MEIO SOCIAL
Louise Land Bittencourt Lomardo
Do kitsch à metafísica: arquitetura, estética e imagética 109 com Ingrid Chagas L. da Fonseca | Carla Cristina da Rosa de Almeida | Estefânia Neiva Mello
Dinah Papi Guimaraens

A arquitetura de papel: os desenhos sedutores 127 7 PLANEJAMENTO E GESTÃO DO TERRITÓRIO: PERSPECTIVA URBANA E REGIONAL
Eduardo Mendes de Vasconcellos Globalização e metrópole.
A relação entre as escalas global e local: o Rio de Janeiro 337
(Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica 143
Glauco Bienenstein
Vinicius M. Netto | Júlio Celso Vargas | Renato Saboya
O projeto de cidade para os megaeventos:
Espaços livres públicos: uma análise multi dimensional
atores, escalas de ação e conflitos no Rio de Janeiro 359
de apropriações e conflitos 165
Fernanda Ester Sánchez Garcia
Lucia Capanema Alvares
A cidade dos megaeventos como laboratório neoliberal 373
O passado tem futuro? Um estudo sobre a
Christopher Thomas Gaffney
persistência dos espaços públicos 183
Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos
Reflexos da exploração do petróleo no trritório fluminense.
Impactos, normativas e intervenções urbanísticas 393 Apresentação
Maria de Lourdes Costa | Aline Couto da Costa | Diana Bogado Corrêa da Silva

Uma revisão das bases conceituais para um sistema de instrumentos


de política fundiária urbana 409 Maria de Lourdes Costa
Fernanda Furtado de Oliveira e Silva Maria Laís Pereira da Silva – Organizadoras

parte ii PESQUISADORES COLABORADORES EXTERNOS

ARTIGOS
Este livro é comemorativo de 10 anos de existência do Programa de Pós-gra-
duação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense – PPGAU/
A construção da imagem urbana nos grandes eventos:
Potemkinismo, a mídia e a periferia 428 UFF – que cresceu e consolidou-se no período. Ele objetiva apresentar diversos
Anne-Marie Broudehoux | Canadá aspectos e temas da produção científica de seus docentes, reunindo tanto textos
inéditos quanto outros, recuperados, revistos ou ampliados, de modo a mostrar o
La universidad y sus acciones en el Municipio Cerro 441
perfil de seu corpo docente e áreas de atuação. Apresenta, ainda, a contribuição de
Ada Esther Portero Ricol | Cuba
pesquisadores externos que vêm colaborando com o Programa através de inter-
Repensar La Habana: câmbios com diversas universidades e outras instituições de diferentes países, que
En búsqueda de la sustentabilidad del desarrollo urbano 455
se dedicam ao estudo de campos e temas de grande interesse para o Programa.
Gina Rey | Cuba
A primeira publicação coletiva dos docentes do Programa tem início com a
Historic centers under pressure. apresentação de seu resumo, seguido pelo depoimento conjunto de três professo-
Lights and shadows from the italian experience 481 res, que participaram da estruturação e desenvolvimento do PPGAU, e que revelam
Giorgio Piccinato | Itália
a trajetória do Programa em sua primeira decenia. Segue-se um texto das organi-
Ciudades para todos. Por qué el género es importante 495 zadoras do livro, em que destacam o teor dos artigos produzidos, segundo seções
Inés Sánchez de Madariaga | Espanha que congregam teorias e práticas de atuação profissional, abrangendo a variedade
Do bom uso (político) da cidade em imagens 519 de experiências que compõem a vertente da produção e gestão do espaço em dife-
Laurent Vidal | França rentes escalas territoriais.
O documento foi dividido em duas partes: a primeira traz artigos dos profes-
Importância da história para as pesquisas sobre arquitetura e urbanismo 531
Nestor Goulart Reis | Brasil sores do Programa; a segunda é composta pelas contribuições de autores externos,
provenientes de diferentes continentes, condizente com a internacionalização em-
Espacios publicos lineales en las ciudades latinoamericanas 545
preendida pela Universidade, em que se destacam trabalhos voltados tanto para
Silvia Arango | Colômbia
as atividades de ensino e pesquisa, quanto de extensão. Esses autores colaboraram
Quando as aldeias vieram à cidade, quando as cidades foram até às aldeias. com o desenvolvimento do Programa ao proferirem conferências, organizarem
Da Exposição do Mundo Português ao “Inquérito”: 1940-1961 559 workshops ou participarem de projetos junto a Grupos de Pesquisa e Laboratórios
Tânia Beisl Ramos | Portugal
constituídos pelos corpos docente e discente do PPGAU.
Urban mobility and the death of the automobile era (EAU) 577
Walter Hook | Estados Unidos Na Parte 1, os artigos foram organizados em sete seções de acordo com suas afini-
dades em linhas de pesquisa, de temáticas, de áreas de atuação e de interesse, assim
constituídos:
Identificação dos autores 597
1 EXPERIÊNCIA DIDÁTICO-PEDAGÓGICA
A seção trata de educação e atuação profissional, com a apresentação de
atividade característica e fortalecimento de um dos pontos altos do Programa em

Maria de Lourdes Costa | Maria Lais Pereira da Silva (org.) 11


questão, ao mostrar a importância da formação docente para uma área de conheci- tinuidade, inclusive com abordagens específicas trazidas tanto por professores do
mento, através da disciplina de Didática a esta aplicada, escrito pelo professor Jorge quadro inicial, quanto por aqueles recentemente credenciados junto ao Programa.
Baptista de Azevedo, acompanhada da atividade de Estágio docente, que confere Assim é que, com focos e metodologias diferenciadas, mas que partem da
treinamento, preparo e supervisão para o efetivo exercício da docência, visando va- questão da morfologia de edifícios e cidades, os autores desta seção trabalham as
lorização e qualificação geral do ensino e deste ramo da profissão. Representa con- implicações no espaço público, sejam de caráter físico-territorial, social ou cultural.
tinuidade e aperfeiçoamento da referida atividade, em funcionamento desde 2006. O professor Vinicius M Netto, em coautoria de Júlio Celso Vargas e Renato Saboya,
apoiado em pesquisa com amplo instrumental estatístico, desenvolvem uma refle-
2 HISTÓRIA E PATRIMÔNIO
xão que, partindo da forma arquitetônica e de uma abordagem sobre densidades,
As vertentes de História Urbana e das questões do Patrimônio constituíram,
trabalha as relações de impacto das tipologias em diferentes setores urbanos do Rio
desde o início do Programa, linhas de produção científica importantes, e que vêm
de Janeiro, em termos de seus efeitos no movimento de pedestres, em aspectos da
sendo solidificadas e expandidas através de redes de pesquisa interinstitucionais
microeconomia local e nas formas de segregação socioespacial, buscando a carac-
nacionais e, mais recentemente, através de projetos de parceria internacional. Nos
terização mais fina destes setores. Numa outra vertente metodológica, a professora
textos constantes desta seção, alguns aspectos destas reflexões são apresentados.
Thereza Christina Couto Carvalho, com a arquiteta urbanista Aline Santos, egressa
A professora Marlice Nazareth Soares de Azevedo e o professor Nireu Oli-
do Programa, analisam efeitos e impactos nos espaços públicos a partir da ação e
veira Cavalcanti trabalharam no campo da História Urbana e voltaram-se para as
das transformações protagonizadas por agentes sociais e físico-territoriais, tomando
origens e desenvolvimento das cidades de Niterói e do Rio de Janeiro, respectiva-
como objeto de pesquisa quatro praças da cidade de Juiz de Fora. Indica uma diver-
mente. A primeira acentua a importância do olhar sobre a história dos indígenas
sidade de agentes que trazem singularidades a esses espaços, ancorando sua análise
fundadores da cidade de Niterói, traçando estes começos e como – em vários mo-
de um lado nas várias dimensões – sociais, ambientais, culturais, econômicas e de
mentos do desenvolvimento de Niterói – permanece como estratégica a área fun-
acessibilidade – e, de outro, nas transformações que foram sofrendo estes espaços
dada e conformada pelos nativos. O Professor Nireu Cavalcanti aborda a história da
ao longo da história. Neste sentido, focalizam, à medida que desenvolvem o texto,
cidade do Rio de Janeiro, pontuando suas transformações em diferentes momentos
as diferentes tipologias morfológicas que vão conformando os espaços pesquisa-
históricos, no que se refere à atuação dos vários agentes e suas repercussões no
dos. No debate sobre os espaços públicos, a professora Lúcia Capanema Alvares
patrimônio da cidade. Conclui ser esta uma cidade “contraditória” e encerra com
ainda introduz outro viés. De fato, ao fazer uma releitura dos espaços livres públicos,
propostas para a reversão das situações precárias apontadas.
embora também acentue as dimensões sociais, culturais e ambientais, desenvolve
Tanto a professora Vera Lucia Ferreira Motta Rezende quanto o professor
sua reflexão com a busca ainda de uma caracterização – na verdade um perfil – a
José Simões Belmont Pessôa retomam o viés histórico e trabalham o modernis-
partir das relações de conflito surgidas nestes espaços. Centra seu estudo sobre os
mo no Brasil, entretanto sob ângulos e prismas diversos. Confluem no período que
tipos e incidência de conflitos encontrados a partir de uma significativa base empírica
tratam, ou seja, a fase inicial do Modernismo. A professora Vera Rezende trata do
em que compara as áreas do Centro do Rio e o bairro de São Cristóvão. Neste sentido,
impacto do modernismo no urbanismo. Analisa, em especial, o lugar das transfe-
enfatiza o caráter político da apropriação dos espaços públicos, através das ações que
rências dos princípios modernistas de fora para o Brasil, o debate e coexistência das
aí se desenvolvem. A professora Dinah Papi Guimaraens faz crescer o debate discu-
correntes do urbanismo de “melhoramentos” e o modernismo “novo” introduzido
tindo a arquitetura no amplo e diversificado quadro em que se insere a questão da
inicialmente via arquitetura, através das propostas e concretizações na cidade. O
transculturalidade. Em vários momentos associa as teorias do projeto e da projetação
professor José Pessôa, por sua vez, assinala os debates e tendências na arquitetura,
para além dos limites disciplinares, mostrando suas interfaces mais abrangentes, em
focando em que os conceitos modernistas vão ser integrados ou absorvidos (ou
especial com a arte. Traz assim uma série de referências cruzando os campos e indi-
não) às mudanças e discussões de concepções de patrimônio.
cando formas novas e instigantes de se refletir sobre morfologia, cultura, arquitetura
3 CULTURA, MORFOLOGIAS E MEIO SOCIAL e cidade. Este viés é ampliado ainda pelo professor Eduardo Mendes de Vascon-
As questões que relacionam morfologia do espaço arquitetônico e do espaço cellos, que foca o seu texto nos significados e sentidos filosóficos da “representação”
urbano e suas implicações em impactos de caráter social e cultural, especialmente em arquitetura, explorando origens, trajetória e desenvolvimento dos conceitos e sua
no âmbito dos espaços públicos, vêm sendo objeto de contínua reflexão no PPGAU. transmutação para a linguagem do projeto arquitetônico.
É de se notar que a linha de estudos relacionados à cultura vem passando por con-

12 apresentação Maria de Lourdes Costa | Maria Lais Pereira da Silva (org.) 13


4 CIDADE CONTEMPORÂNEA: IDEOLOGIA E MERCADO do de que tratam de forma direta e indireta de questões da política e da gestão da
As questões relacionadas à ideologia (no caso do plano, do projeto) e a ação habitação popular no Rio de Janeiro. O professor Gerônimo Leitão, em parceria com
do mercado imobiliário como agente modelador de nossas cidades perpassam boa o arquiteto urbanista Jonas Delacave, egresso da EAU/UFF, desenvolve uma aná-
parte dos trabalhos do Programa, em suas várias abordagens, em especial ao tratar lise detalhada sobre o recente Programa Morar Carioca, contrapondo-o, em alguns
do momento pelo qual passam as cidades brasileiras. Assim, nesta seção, reunimos aspectos, ao Programa Favela Bairro, e apontando, em especial, as inovações que
os trabalhos dos professores Pedro da Luz Moreira e Sonia Maria Taddei Ferraz. observa na proposta do Morar Carioca, situando-o no quadro das linhas recentes
O primeiro de início estabelece os contornos dos conceitos de ideologia, hegemo- de urbanização de favelas. A professora Maria Lais Pereira da Silva, tendo como co-
nia e projeto, discutindo-os no desenvolvimento histórico das cidades, e como base autor do trabalho o arquiteto urbanista João Paulo Huguenin, também egresso da
para a análise das cidades brasileiras. Neste sentido, explora as tensões presentes na EAU, foca sua análise nas representações dos moradores sobre os instrumentos e as
cidade brasileira contemporânea, surgidas através do mercado, da necessidade de formas de ocupação encontradas nas favelas. Os autores acentuam a importância
responder, de um lado aos “megaeventos” que têm levado a um tipo de projeto com de se compreender as regras e códigos que informam as ocupações e os significa-
a concepção de “monumento” e, de outro, ao plano e a ação projetual necessários dos atribuídos à posse, propriedade, aluguel etc. pelos moradores, como elementos
à demanda do cotidiano. Enfatiza a importância de se colocar o protagonismo do que, embora acrescentando complexidade à situação fundiária destas áreas, devem
plano e do projeto, que devem ser concebidos a partir de alguns princípios nortea- ser levados em conta nos programas de regularização fundiária instituídos pelos
dores de superação das tensões apontadas. órgãos públicos.
A professora Sonia Ferraz, em coautoria com Bruno Amadei Machado e
6 PERCEPÇÃO, OCUPAÇÃO E EXPANSÃO SOBRE O AMBIENTE
Juliane Guimarães, alunos de Iniciação Científica da EAU/UFF, explicita a forma e
NATURAL E CONSTRUÍDO
os mecanismos através dos quais o mercado imobiliário “redesenha” arquitetura e
Os textos desta seção tratam de temas e processos percebidos e materializa-
cidade com vistas à segurança contra o aumento da criminalidade na cidade de Ni-
dos sobre o território, ocorridos em diferentes dimensões e segundo abordagens que
terói. Assim, aponta o uso de novos materiais e tecnologias, e os discute a partir
dão foco às escalas regionais e municipais, de cidades e da arquitetura, mas com teo-
da concepção de “transparência” que, entre outros efeitos, leva à disseminação dos
rias bastante distintas. Evidenciam procedimentos metodológicos próprios, relativos
“muros de vidro” complementados pela tecnologia digital. Acentua as implicações
à avaliação de mudanças, seja no âmbito da ocupação do território, seja na forma
de tal utilização nas relações entre o espaço público e privado e o papel do mercado
de apreender essas mudanças, vivenciadas por diferentes populações deste Estado.
imobiliário nos seus desdobramentos, ao promover a crescente concretização de
Assim, o primeiro texto, de autoria do professor Werther Holzer, em coautorira de
uma sociabilidade excludente.
Camila Quevedo, trata de uma das vertentes mais recentes da urbanização – a dis-
5 HABITAÇÃO: POLÍTICAS, GESTÃO E REPRESENTAÇÕES persão urbana, ocorrida no município de Maricá que, com suas realidades e carac-
A questão habitacional, tanto na análise de suas características quanto nas terísticas geográficas, cercado por elevações, vem convivendo com acessos viários
intervenções dos vários agentes sob forma de políticas, programas e projetos, é um indutores de seu crescimento e parcelamento do solo, com tendências ocupacio-
dos campos de maior continuidade não só da produção que tem sido desenvolvida nais e formação de tecidos urbanos propiciados por este tipo de urbanização, e que
no PPGAU, como em relação à própria tradição de formação da Escola de Arquitetu- fragmenta seu ecossistema, segundo diferentes formas de isolamento. O segundo
ra e Urbanismo – EAU a que se vincula o Programa. Ao longo dos anos esta produ- texto se dedica a rever as transformações e os impactos trazidos pela construção da
ção tem se diversificado e acompanhado sob a forma de reflexão e de prática social ponte Rio-Niterói, analisados pela professora Lelia Mendes de Vasconcellos através
as transformações do campo. Neste sentido, os professores reunidos nesta seção das percepções retidas pela população e das imagens mentais formadas a partir do
abordam diferentes aspectos da questão habitacional, que são bastante expressivos espaço percebido, abarcando depoimentos e entrevistas com os que vivenciaram as
dessa produção. A professora Regina Bienenstein, em coautoria com os pesquisa- alterações das configurações espaciais. As diferentes apreensões foram detectadas
dores Eloisa Helena Barcelos Freire e Natalia Oliveira, do NEPHU/UFF e Daniela no levantamento realizado nos anos 1993-1994, vinte anos depois da intervenção no
Amaral, doutoranda do PPGAU, iniciam a seção incluindo de forma mais abrangente espaço e ambiente a elas concernentes, basicamente direcionadas a três diferentes
a questão habitacional em escala regional, tratando dos desdobramentos das inter- pontos da cidade de Niterói. O terceiro trabalho, de conotação tecnológica, desen-
venções sobre o espaço do leste metropolitano. Os professores Gerônimo Emilio volvido pela professora Louise Land Bittencourt Lomardo, em coautoria de Ingrid
Almeida Leitão e Maria Laís Pereira da Silva têm seus artigos confluindo no senti- Chagas L. da Fonseca, Carla Cristina da Rosa de Almeida e Estefânia Neiva Mello,

14 apresentação Maria de Lourdes Costa | Maria Lais Pereira da Silva (org.) 15


destaca a importância do conforto ambiental e eficiência energética, na avaliação de políticos, sob efeitos complexos e irreversíveis. O quinto trabalho, apresentado pela
projeto bioclimático específico no Rio de Janeiro, que privilegia os recursos naturais professora Fernanda Furtado de Oliveira e Silva, propõe a revisão de um sistema
em sua construção. O projeto demonstra aperfeiçoamento na metodologia aplicada, de instrumentos afeitos ao financiamento da infraestrutura necessária ao desenvol-
diretrizes para a adoção de recursos em favor da redução do ganho térmico da edifi- vimento urbano, tendo como princípio os recursos disponibilizados pelo Estatuto da
cação e tecnologias construtivas inovadoras. Cidade, referência para os Planos Diretores Municipais, com o objetivo de correção de
manifestações perversas do mercado, que permitem a apropriação privada da valo-
7 Planejamento e Gestão do Território: perspectiva urbana e regional
rização fundiária.
Presença marcante nas temáticas desenvolvidas nos artigos da seção mostra
preocupação com o estágio atual do capitalismo no país, em especial nestes tempos
A PArte 2 do livro consagra-se ao produto da colaboração prestada por pesquisado-
de neoliberalismo, com as correspondentes produções dos espaços, vistas de acordo
res externos, de grande valia para a complementação dos conteúdos trabalhados no
com diferentes instâncias, escalas, ações de agentes públicos e privados e instrumen-
Programa, trazendo além de metodologias científicas, o pensamento e a discussão
tos de políticas fundiárias. Em geral, considera grandes projetos em implantação no
de temas atuais, fundamentais para a formação, investigação e treinamento de técni-
estado, municípios e cidades fluminenses. O primeiro artigo, apresentado pelo pro-
cos que querem se dedicar tanto à educação quanto a outras atividades necessárias
fessor Glauco Bienenstein, destina-se a analisar as configurações de processos eco-
ao desenvolvimento urbano e regional, sobretudo de responsabilidade no âmbito
nômicos globais, segundo rebatimentos sobre o espaço metropolitano, apontando
público, em nosso país e em seus países de origem, na América do Sul, nos Estados
consequências que assumem padrões seletivos e excludentes de segmentos sociais,
Unidos e na Europa.
seja nos investimentos, na produção e/ou na gestão do espaço urbano, tomando o
Assim, o primeiro artigo apresenta a construção da imagem urbana nos gran-
Rio de Janeiro como caso referência. O segundo trabalho, escrito pela professora
des eventos, escrito pela professora Anne-Marie Broudehoux (Canadá). Os textos
Fernanda Ester Sánchez García, expressa a reconfiguração das cidades, especial-
em seguida, sob mesma procedência, primeiro da professora Ada Esther Portero
mente no que afeta aos grupos sociais submetidos aos impactos causados pelos me-
Ricol (Cuba), em coautoria com Ricardo Machado Jardo, mais os acadêmicos Mi-
gaeventos esportivos, quando se tenta refazer a cidade do Rio de Janeiro segundo a
relle Cristóbal Fariñas, Abniel Ramirez González e Roberto Adám Bell Sellén, na
imagem pretendida, na perspectiva de sediar a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos
busca do entendimento da sustentabilidade do desenvolvimento urbano de Havana
de 2016, situando o significado do megaevento esportivo como expressão da globa-
e, o seguinte, de autoria da professora Gina Rey (Cuba) coloca a posição da universi-
lização, com suas diversas dimensões e interconexões em relação a outros processos.
dade em relação às questões do desenvolvimento local. O quarto texto, do Professor
O terceiro texto, do professor Christopher Thomas Gaffney, expõe a orientação as-
Giorgio Piccinato (Itália), trata dos centros históricos sob pressão, visto à luz de sua
sumida nas reestruturações políticas, sociais e fiscais no contexto político-econômico
experiência em seu país. O quinto escrito abrange um tema que, aos poucos, vem
brasileiro, no mesmo tempo de neoliberalismo, tendo como foco a cidade do Rio
sendo demandado pelo Programa: trata-se de uma atualização da argumentação
de Janeiro, com suas transições revelando desigualdades e contradições, no curso
sobre a questão do gênero, como o que vem sendo desenvolvido pela professora
do surgimento de coalizões e interesses que transformam tanto os espaços quanto
Inés Sánchez de Madariaga (Espanha), em que destaca a importância deste estudo
as relações sociais, no horizonte dos megaeventos esportivos nas cidades brasilei-
para que as cidades possam ser consideradas realmente de todos. O sexto artigo é do
ras, em 2014 e 2016. O quarto texto – elaborado pela professora Maria de Lourdes
professor Laurent Vidal (França), em que revela o imaginário das cidades ao longo
Costa, em coautoria com a arquiteta urbanista Aline Couto da Costa (egressa do
do tempo e o uso político que se faz das imagens então construídas. O sétimo artigo
PPGAU) e pela então pesquisadora de Iniciação Científica Diana Bogado Corrêa
traz na análise a importância da história para as pesquisas dos arquitetos urbanistas e
da Silva (egressa do PPGAU), constitui-se um alerta em relação aos efeitos do novo
planejadores urbanos, de autoria do professor Nestor Goulart Reis (Brasil). Nele, os
ciclo econômico, advindo da exploração e produção offshore do petróleo no territó-
campos do saber aparecem em longa duração, segundo uma articulação que se faz
rio do estado do Rio de Janeiro, no que tange aos municípios litorâneos da bacia de
necessária desde alguns séculos atrás. O oitavo artigo se estende por experiências dos
Campos. Assumem importância os impactos locais e regionais ocorridos na área, as
espaços públicos lineares em cidades latino-americanas, nas análises da professora
intervenções urbanísticas então praticadas e a implantação gradativa de normativas,
Silvia Arango (Colômbia), cujos exemplos passam por vários países, urbes e espaços,
no curso do recebimento majorado de recursos, provenientes dos royalties, no pós
nesta escala. O nono texto, da professora Tânia Beisl Ramos (Portugal), nos remete
1988. O questionamento surge pela forma de urbanização propiciada, com desca-
a diferentes manifestações entre aldeias e cidades, no contexto luso, em período que
racterizações físico-espaciais e ambientais, ocorrendo sob a execução de projetos

16 apresentação Maria de Lourdes Costa | Maria Lais Pereira da Silva (org.) 17


alcança a produção do seu modernismo a partir de exposição que considerou vinte e
dois anos de sua história. O décimo e último artigo, de autoria do pesquisador Walter O trajeto do Programa de
Pós-graduação em Arquitetura
Hook (Estados Unidos) dá foco ao debate cada vez mais atual e premente em relação
às cidades contemporâneas: a questão da mobilidade urbana, a par da congestionan-
te cidade do automóvel.
e Urbanismo
Marlice Azevedo
Sergio Leusin
Vera Rezende

O curso de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo – PPGAU – UFF teve


início com a aprovação pela CAPES de proposta para a criação da Pós-graduação
em nível de mestrado em 2003. Esta aprovação veio coroar um esforço de um grupo
de professores que desde alguns anos já desenvolviam pesquisas e buscavam um
espaço para melhor compartilhar esta atividade com outros pesquisadores e alunos.
As atividades do curso começaram com a entrada da primeira turma no segundo
semestre de 2003.
A partir desse ano, o curso se tornou referência regional, formando como
pesquisadores técnicos de níveis superiores de órgãos públicos municipais, estadu-
ais e nacionais, assim como dirigentes políticos e profissionais de ONGs e empresas
privadas. Nesse período, tivemos projetos de pesquisas e bolsas financiados pelas
principais instituições de fomento de pesquisa do país, como CNPQ, CAPEs e FAPERJ,
FINEP, bem como convênios com instituições governamentais, como MDIC, ABDI,
Min. Das Cidades e organizações privadas, como a FIESP e SINDUCON RIO. Isto resul-
tou em grande número de produções bibliográficas sob a forma de artigos em anais
de congressos e periódicos, nacionais e internacionais, livros e capítulos de livros.
Ao mesmo tempo, a implantação em nível de mestrado nos permitiu melhor
identificar a demanda existente por um curso de tal perfil localizado no Estado do
Rio de Janeiro, fora de sua capital, a cidade do Rio de Janeiro, apoiando-se na evidên-
cia de que tradicionalmente a Cidade de Niterói exercia uma polarização de serviços
especializados nos municípios vizinhos, como polo leste da Região Metropolitana
Em 2011, a criação do curso de Pós-graduação em “Produção e Gestão do Am-
biente Urbano” em nível de doutorado constituiu um desenvolvimento natural do
processo de amadurecimento do curso, concretizando a intenção inicial do grupo
de professores que formavam o quadro permanente do Mestrado.
Após cinco anos e meio de existência do curso em nível de Mestrado, havía-
mos verificado uma demanda permanente para as seleções das vagas oferecidas a

18 apresentação Marlice Azevedo | Sergio Leusin | Vera Rezende 19


cada semestre. Os candidatos eram originários de todo o Estado do Rio de Janeiro do. A formação esperada dos doutores reforça esse caráter de pesquisa interdiscipli-
e, ainda, extrapolavam os seus limites geográficos, vindo principalmente de estados nar, objetivando a sua inserção social, profissional e acadêmica.
como Minas Gerais e Espírito Santo. A inovação da criação do Programa em nível de Doutorado para o curso em
Essa demanda se reafirmou após a criação do curso em nível de doutorado. A geral se deu com a diminuição do número de linhas em nível de mestrado, “Planeja-
necessidade de profissionais qualificados é própria da Região Metropolitana do Rio mento e Gestão do Espaço”, “Projeto, Produção e Gestão do Edifício”, “Espaço e Cul-
de Janeiro, cujos problemas mostram a necessidade de refletir sobre questões urba- tura” e, ainda,“Espaço construído e Meio ambiente”, concentrando-as em três linhas,
nas e regionais e seus desdobramentos como sustentabilidade ambiental, proteção que tratam tanto da edificação quanto da cidade, a partir da inclusão do objeto
do patrimônio natural e construído, as transformações das cidades e sua história, a arquitetônico dentro das diferentes abordagens: projeto, planejamento, gestão, his-
moradia e a infraestrutura, assim como a busca e o resgate da possibilidade de apli- tória, cultura, sustentabilidade e ambiente.
cação de novos instrumentos urbanísticos. Essas três linhas, que contemplam tanto a edificação como unidade básica de
A especificidade do Programa se destaca por reunir as temáticas da arquite- composição do ambiente urbano, assim como, o espaço construído, correspondem
tura e do urbanismo, segundo óticas diversas, história, patrimônio, sustentabilidade às linhas de distribuição das pesquisas e estudos: “Projeto, Planejamento e Gestão
e gestão de projetos, em um mesmo programa em níveis de Mestrado e Doutorado. da Arquitetura e da Cidade”; “Cultura e História da Arquitetura, da Cidade e do Urba-
O Doutorado em “Produção e Gestão do Ambiente Urbano” se inseriu, por- nismo”; “Espaço construído, Sustentabilidade e Ambiente”.
tanto, em uma Região Metropolitana, que tem uma tradição técnica de preocupa- Apesar da diversidade contemplada nos temas de cada linha busca-se uma
ções com o urbanismo, intensificada por medidas mais recentes instauradas após a inter-relação entre estes, o que se traduz na existência de projetos de pesquisa e
Constituição de 1988. Um dos principais desafios a enfrentar é a crescente interde- disciplinas que cruzam de forma necessária reflexões de duas ou mais linhas.
pendência entre as cidades do Estado do Rio de Janeiro, que necessitam de instru- Devemos ressaltar uma forte preocupação pedagógica direcionada ao
mentos legais que não se restrinjam à escala municipal. mestre, refletida em disciplinas e estágios docentes complementares visando refor-
Por outro lado, a questão metropolitana merece permanente reflexão, seja çar a formação do exercício da atividade de professor.
pela interdependência econômica e social de suas atividades, seja em problemas
específicos de planejamento urbano e regional, ou ainda pelo impacto de grandes
eventos programados para os anos próximos como a Copa do Mundo de 2012 e os
Jogos Olímpicos de 2016.
A contribuição do PPGAU para os municípios da região é, pois, considerável,
tornando-se maior com a criação do Doutorado. Além de produzir a pesquisa e a
reflexão critica sobre conceitos e instrumentos, que podem servir de subsídios para
os órgãos públicos locais, o Programa tem assumido o papel de formar técnicos es-
pecializados de nível superior e também professores e pesquisadores que irão atuar
em outros cursos de graduação ou pós-graduação.
O caráter interdisciplinar do curso é marcante na área de concentração em
Produção e Gestão do Ambiente Urbano, que envolve conhecimentos de arquite-
tura, urbanismo, planejamento urbano e regional, história, sociologia, geografia
e gestão de projetos. Tal Interdisciplinaridade, justificada pela complexidade das
questões urbanas, reflete-se na produção intelectual do PPGAU, na formação dos
docentes e na entrada dos discentes, assim como em linhas de pesquisa e pesquisas
em desenvolvimento.
O exercício dessa interdisciplinaridade se refletiu, ainda, na estruturação das
suas disciplinas e no conteúdo acadêmico do Programa, no Mestrado e no Doutora-

20 o trajeto do programa Marlice Azevedo | Sergio Leusin | Vera Rezende 21


PARTE l
DOCENTES PPGAU E
COAUTORES
1. EXPERIÊNCIA DIDÁTICO-PEDAGÓGICA de la formación en el trabajo profesional de arquitecto y urbanista, cuando aborda las con-
secuencias potenciales de la falta de formación del profesorado centrada en la enseñanza.
A continuación, analizaremos su contenido y consecuencias, así como sus objetivos para la
recuperación y mejora de la educación y la consiguiente necesidad de fortalecer la profe-
Necessidade e importância sión, con la responsabilidad social y la ética, en Brasil.

da formação para o ensino.


Palabras clave: la educación, la enseñanza, la formación, el rendimiento, la arquitectura
y el urbanismo.

Disciplina didática aplicada 1. Introdução


Da profissão e da formação do arquiteto e urbanista
Jorge Baptista de Azevedo
“Não adianta termos o melhor currículo possível, se os professores conti-
nuarem trabalhando com metodologias e pensamentos superados, com
Resumo | Este artigo observa a importância das disciplinas Didática Aplicada e Estágio cursos repetidos e sem interesse. Sendo assim não há aluno que tenha
Docente supervisionado que integram o Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da Univer- motivação.” (trecho de entrevista em Azevedo, 1995).
sidade Federal Fluminense. Estrutura-se a partir de uma breve análise sobre a complexida-
de da formação na atuação profissional do arquiteto e urbanista, quando aborda possíveis Arquitetos e urbanistas estudam, concebem e produzem o abrigo do corpo
consequências da falta de preparação docente voltada para seu ensino. A seguir, discorre humano em suas múltiplas atividades e dimensões. Seja a casa que abriga o homem
sobre os conteúdos e desdobramentos das disciplinas citadas, bem como seus objetivos de e sua família, seu trabalho ou lazer, ou ainda, a casa que contém todas as casas que é
valorização e melhoria do ensino para o consequente e necessário fortalecimento da profis- a cidade – a casa do corpo social e seus espaços livres resultantes, através do paisagis-
são, com responsabilidade social e ética, na atualidade brasileira.1 mo. Arquitetos e urbanistas, entre tantas outras atividades, são criadores e, também,
devem ser construtores. E como podem criar e construir, muitas vezes ousam uto-
PALAVRAS-CHAVE: ensino, didática, formação, atuação, arquitetura e urbanismo.
pias para o amanhã. Afinal, segundo Argan: “todo arquiteto é um reformador social”
Abstract | This article points out the importance of the subjects Applied Teaching Didac- (2000:87) e, isso, mais do que bom ou poético é absolutamente necessário.
ticism and Teaching stage at the education of Architecture and Urbanism Master’s degree A formação em arquitetura e urbanismo envolve tecnologia, ciências sociais e
at the Universidade Federal Fluminense. Structured from a brief analysis of the complexity artes, pensadas no projeto pedagógico, distribuídas e articuladas nas dimensões di-
of training in professional work of architect and urbanist, when addresses potential conse- dáticas do currículo e da sala de aula (LUAIZA, 2008). Por tantos aspectos é uma das
quences of the lack of teacher didacticism training focused on teaching. The following dis- mais complexas da atual configuração de áreas e campos de saberes do ensino su-
cusses its content and consequences, as well as your goals for recovery and improvement of perior brasileiro. A organização pedagógica e desdobramentos didáticos do ensino
education and the consequent need to strengthen the profession, with social responsibility das disciplinas, bem como os seus conteúdos precisam ser articulados para garantir
and ethics, in Brazilian present. qualidade e segurança, o que inclui a responsabilidade social e a ética no exercí-
Keywords: education, teaching, training, performance, architecture and urbanism. cio profissional. Afinal, durante a graduação é definido o perfil geral do profissional
Resumen | Este artículo señala la importancia de los temas aplicados Enseñanza y prácticas mesmo que, após o seu término, diferentes rumos de atuação possam ser tomados.
de Enseñanza supervisados que integran el Máster de Arquitectura y Urbanismo de la Uni- Por outro lado, esse ensino multifacetado e complexo, que visa a formação de um
versidad Federal Fluminense. Estructurado a partir de un breve análisis de la complejidad profissional generalista, também produz um estudo semelhante, em que muitas de
tantas informações diferenciadas podem ser distanciadas de um aprofundamento
1. Este texto se refere a terceira experiência da disciplina Didática Aplicada realizada sob minha docência. A partir da maior de seus conteúdos, ou das indicações de suas complementaridades. O que
segunda experiência, o professor visitante, Christopher Gaffney, participa e contribui voluntariamente para a mesma. pode representar a força, deste modo, também pode se transformar em fragilidade.
A sua participação e seu olhar crítico como docente de outras áreas em diferentes países têm sido muito enriquecedor
para a disciplina e, especialmente, para mim. (NOTA DO AUTOR).

24 Necessidade e importância da formação para o ensino Jorge Baptista de Azevedo 25


Em uma dimensão mais ampla de análise a profissão continua em expansão, De novo volta-se ao ensino, que é o ponto de partida, a base para o enten-
o crescimento populacional, somado ao desenvolvimento econômico brasileiros, dimento dos papéis e características almejadas para a profissão. Sabe-se, quase
tem aberto novas e significativas oportunidades profissionais para a arquitetura e o sempre, que as graduações não estão devidamente preparadas e atualizadas para
urbanismo e, assim, o campo de trabalho se ampliou muito nos diversos setores de tais empreendimentos – tarefismo sem reflexão, carência de experimentação, mas-
atuação. Entretanto, em todos eles, verificam-se mudanças aceleradoras do ritmo e sificação com mediocrização baseada na falácia da democratização do ensino, pro-
métodos do sistema produtivo que, por sua vez, exigem profissionais cada vez mais fessores desestimulados, alunos desmotivados com o curso e apenas interessados
qualificados, especialmente em termos tecnológicos, desde a representação gráfica nos diplomas e na renda futura, infelizmente estão por trás de muitos currículos.
do projeto até o canteiro de obras. Como exemplo de tantas mudanças e novidades, Tudo isso pode ser somado à falta de escolas e cursos originais e diferenciados,
é citado com frequência o desenvolvimento do uso da plataforma BIM, alvo de inú- apesar de se viver em um país continental e rico de culturalidades, já que a maio-
meros encontros e publicações, uma nova ferramenta da informática capaz de revo- ria das graduações tendem à um ensino homogêneo, pois, em geral, é mais fácil e
lucionar o cotidiano das tarefas do arquiteto e urbanista, controlando até mesmo a econômico cumprir somente o mínimo curricular disposto em lei. Esses são alguns
manutenção e uso das edificações após sua construção2. aspectos citados por estudiosos da crise do ensino da profissão no país.
A profissão de arquiteto e urbanista, por sua vez, encontra-se em um momen- Enfim, somos quase 300 graduações de arquitetura e urbanismo no país
to muito especial e delicado de sua história no país – seja no ensino, na atuação e, (VIEIRA, 2012) e sabe-se lá como funcionam. O ensino é ainda pouco valorizado e
mais recentemente, em sua reorganização política representativa. A categoria con- a ideia de que uma sala de aula, um quadro de giz e um professor mal remunerado
quistou seu conselho próprio, o CAU3, mas este só se fortalece com o fortalecimento podem dar o jeito, ainda é comum e rentável em muitas instituições preocupadas
da classe, em um processo bilateral de atuação e trabalho. Porém, tal fato só será com o lucro. Até nas instituições federais de ensino superior, que deveriam ser pa-
possível por meio do amplo reconhecimento dessa profissão e sua efetiva capacida- drões e referências de qualidade e eficiência, verificam-se instalações precarizadas
de de contribuir para a melhoria da realidade social, em suas múltiplas dimensões de e desatualizadas, o ensino sobrevive em sua dignidade pelo esforço de seu corpo
desigualdades, ainda gravíssimas na situação brasileira. Espera-se que, em breve, de docente e qualidade do discente. Afinal, ao garantir a estabilidade de vínculo empre-
acordo com a aplicação da lei já existente desde 2008, seja possível iniciar um proces- gatício em um cenário marcado pelas incertezas e má remuneração, esses empregos
so de transformação da imagem, ainda elitizada, que se faz fortemente presente nas ainda atraem os melhores profissionais de ensino e atuação da área. E, seguindo a
representações sociais da categoria. Com um bom caminho para essa desconstrução, lógica discente, a gratuidade das vagas e o reconhecimento da qualidade, por sua
arquitetos e urbanistas recebem a oportunidade e a responsabilidade por atender a vez, são chamarizes para os melhores e mais dedicados estudantes do ensino médio.
população de cada município brasileiro, para assegurar “às famílias de baixa renda Todavia, essa última observação poderá ser questionável em unidades que estão se
assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de transformando em escolões públicos de ensino superior (Mattos, 2007)4.
interesse social” (Lei 11.888/2008), conforme preconizado no Estatuto da Cidade, que Paralelo ao alardeado enfraquecimento de nossas graduações, verifica-se
regulamenta os artigos 182 e 183 sobre Política Urbana da Constituição Federal. que a crise econômica e financeira de outros países, em especial da Europa, tem
Por outro lado, existem dimensões do mercado norteadas pela especulação suscitado a vinda de inúmeros profissionais, especialmente jovens, oriundos de tra-
que também cooptam profissionais inescrupulosos, que assinam intervenções inde- dicionais instituições de ensino e em busca de oportunidades profissionais. Claro
vidas nas cidades e outros locais, antigos rurais ou com grandes recursos naturais, que uma injeção bem dosada de jovens profissionais qualificados pode ser positiva
aviltando lugares, culturas e vidas humanas. Arquitetos e urbanistas devem ser pro- e estimulante, mas uma proporção desequilibrada somada com a tradicional “sín-
fissionais com amplo olhar, atento desde o novo necessário até o antigo que precisa drome de colonizado” brasileira, poderá produzir o senso comum de que é mais
ser preservado, e esses valores devem ser apreendidos e fortalecidos durante a for- barato ou melhor importar profissionais do que os preparar por aqui.
mação universitária.
4. Em diversas unidades da Universidade Federal Fluminense (UFF), o caos praticamente se instalou, com turmas de
dezenas de alunos após a implantação mal planejada do Programa REUNI, ao qual a Escola de Arquitetura e Urbanismo
2. Building Information Modeling (BIM – em português, Modelagem de Informação para Construção) nas áreas de (UFF) não aderiu. Lembra-se aqui a fala do professor Mattos, de História, quando em seu surgimento: “Não há mágica
construção e projetos. (PINI Web – Especial BIM, de 23 de maio de 2013) capaz de multiplicar matrículas sem investimentos, e ainda assim afirmar-se que se estará formando profissionais com
3. Criado pela Lei Federal N. 12.378 de 31 de dezembro de 2010, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo, autarquia um ensino superior de qualidade. O que se propõe com o REUNI é diplomar um número maior de jovens em habili-
dotada de personalidade jurídica de direito público, com autonomia administrativa, financeira e estrutura federativa, tações sem qualquer capacidade de inserção nos empregos de fato para profissionais de nível superior. Com isso se
passa a regulamentar as atividades de arquitetura e urbanismo no país. O CAU surge como o mais novo interlocutor da dá uma resposta fácil à justa demanda social por ampliação do ensino superior público, mas para agregar mais e mais
sociedade na agenda do desenvolvimento urbano (retirado do site CAU RIO DE JANEIRO. Disponível em: <http://www. diplomados ao desemprego e subemprego.” (Mattos, 2007).
caurj.org.br/?page_id=62>). Novembro de 2014.

26 Necessidade e importância da formação para o ensino Jorge Baptista de Azevedo 27


Evidentemente que pensar o ensino de arquitetura e urbanismo, ou qual- o que teriam recebido. Assim, o aprendente era o maior responsável pelo seu pró-
quer ensino, é pensar na política nacional de ensino em um plano maior. Avaliar prio aprendizado. Desse modo, caberia ao estudante dar o seu jeito para aprender,
até que ponto os diversos aspectos do modelo econômico vigente, em que o con- compreender e absorver conteúdos e instruções repassadas, estabelecendo uma
sumo transforma tudo em mercadoria, influenciam a política que planeja o ensino equação bastante cruel com os estudantes menos preparados ou com dificuldades
superior. Em tempos em que o sonho do ensino superior para os filhos aponta nas específicas. Assim, fundamentava-se uma quase “antididática” baseada na crença
estatísticas junto ao da casa própria e o carro novo, torna-se mais importante se de que para o professor bastava emanar conhecimentos e sabedoria.
preocupar com a quantidade do que com a qualidade, e a política de ensino pode Essa didática às avessas, segundo diversos depoimentos de docentes e dis-
ser facilmente seduzida por um ensino político, centes, ainda hoje explica boa parte da dificuldade observada no aprendizado das
Por tantos aspectos e questões, surpreende que quase inexistam iniciativas disciplinas técnicas, resultando em desempenho insatisfatório, reprovações e péssi-
para pensar e propor estudos voltados para a formação docente em Arquitetura e mos índices nas avaliações. O pior deles é o afastamento na prática da dimensão téc-
Urbanismo. Daí, conforme anteriormente afirmado, segue a segunda parte deste nica da construção, pois raros são os arquitetos e urbanistas que gostam de realizar
texto, que analisa os problemas observados em diversas graduações da área, e a cálculos estruturais e vivenciar o canteiro de obras.
terceira parte final, que apresenta a proposta das disciplinas da Pós-graduação em Em muitas graduações de arquitetura e urbanismo, as disciplinas de tecnolo-
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense. gia são ensinadas por professores que chegam de outros departamentos como o da
Física, Matemática e Engenharia, onde a sensibilidade criativa dos futuros arquitetos
e urbanistas parece incomodar, pois, ao invés de esforços para tentar demonstrar a
2. A importância da Didática e as consequências de aplicabilidade de seus ensinamentos, utilizam-se, na maioria das vezes, de métodos
sua utilização indevida em graduações de terroristas e punitivos de ensino. 5 Como resultado, os alunos tinham de se dedicar
arquitetura e urbanismo quase que exclusivamente a tais disciplinas, prejudicando o andamento de outras
ao longo do curso. Os demais professores, face às olheiras ou à ausência de seus
A importância de um ensino de qualidade, devidamente planejado e ministra- discípulos, mesmo tendo suas disciplinas afetadas eram obrigados a reconhecer tais
do, é fundamental para a trajetória de qualquer profissional de excelência. É fato que dificuldades. Afinal, os próprios docentes, quando estudantes, também já haviam
um bom ensino de arquitetura e urbanismo tem custos elevados, afinal, em razão da enfrentado situações semelhantes. Perdia-se a reflexão para a decoreba da aplica-
complexidade já citada, são necessários espaços especiais, equipamentos atualiza- ção de regras de derivações, limites e integrais, esquemas abstratos que poucas
dos, como bons computadores, mobiliários, bibliotecas e laboratórios. Entretanto, vezes podem ser associados com elementos reais de uma construção.
mesmo quando bem equipados, sem a devida pedagogia e didática, ainda podem Mas, o pior de toda essa calculeira, caracterizadora de um ensino meramente
trazer problemas muito sérios para a formação. Verificam-se pelo menos dois graves tecnicista, é ser transmitida em disciplinas completamente separadas do ensino de
problemas de natureza didática-pedagógica que afetam diversas graduações brasi- projeto, pois jamais se associava a exemplificações didáticas de sua aplicabilidade.
leiras: no ensino tecnológico e no ensino de desenho, conforme se explicita nos pará- Por mais que um ou outro arquiteto possa reconhecer alguma importância nelas
grafos a seguir, pois, durante muito tempo, mesmo docentes profissionais graduados como exercício mental abstrato, é raro descobrir algum que afirme a sua utilização
em programas de grande proficiência não recebiam o devido preparo didático-pe- no cotidiano da profissão do modo como foram transmitidas. A aproximação do
dagógico. Tais problemas já poderiam ter sido melhorados ou mesmo resolvidos, curso de Arquitetura e Urbanismo com o de Engenharia Civil revela pesadas heran-
caso existisse uma preocupação didático pedagógica mais disposta e enfrenta-los. ças do tecnicismo e da “antididática”.
Talvez pela herança de se possuir uma formação parcialmente tecnológica, É importante lembrar que a tecnologia pode ser ensinada de forma mais
a docência nunca foi discutida como parte da formação, mesmo que suplementar, atrativa e coerente com o modo de pensar e trabalhar dos arquitetos e urbanistas.
bastando até certo tempo atrás ser um arquiteto para poder lecionar disciplinas na Lacunas e omissões não podem ser admitidas – afinal, trata-se de profissionais au-
área. Durante certa fase do ensino, em especial das áreas técnicas, naturalizou-se o
conceito do docente universitário que, quando reconhecido por sua atuação profis- 5. O que se pode dizer de professores cujo índice de reprovação chegava, em renovadas vezes, a quase 100% do
número de alunos da turma? Em 2013, cansados de reprovações e jubilamentos, os estudantes de Arquitetura e Urba-
sional, não necessitava de maiores preocupações didáticas. Todos acreditavam nisso nismo da UFF(Universidade Federal Fluminense) fizeram uma série de cartazes de filmes de terror alusivos às discipli-
e assim ficou, afinal, de acordo com o seu método de ensino, apenas reproduziam nas de Sistemas Estruturais e realizaram uma exposição com os mesmos no hall da Escola. Em 2014, o novo projeto po-
lítico pedagógico da prevê atividades integradas e disciplinas revistas sob um novo olhar didático. (NOTA DO AUTOR)

28 Necessidade e importância da formação para o ensino Jorge Baptista de Azevedo 29


torizados e historicamente envolvidos com construir e edificar e, portanto, possuem Muita coisa é feita distante das suas pranchetas, computadores com cads e mais
responsabilidades sobre aquilo que edificam. O que deve ser erradicado é o tipo de recentemente revits, e é bem verdade que existem exemplos fantásticos de criati-
tecnicismo estéril que se vem praticando e buscar a renovação das formas didáticas vidade e bom senso popular, erguidos frente à adversidade e escassez de recursos.
de ensino. Tecnicismo antiquado e decadente de soluções ultrapassadas e repeti- No entanto são mais numerosos os desabamentos anônimos, as aglomerações que
das, mal explicado e copiado de cadernos como receituários amarelados. É preciso impedem a circulação e implantações de redes de infraestrutura. Esforços de uma
estar atualizado das possibilidades técnicas, como também de lhe lançar desafios, vida que se vão a uma noite de tempestade, territórios espacialmente marginaliza-
questões e até novas soluções. Os atuais estudantes, futuros arquitetos e urbanistas dos, resistentes em sua caoticidade, à urbanização, estigmatizando e condenando
deverão estar mais atentos e exigindo maior qualidade de ensino nas disciplinas seus moradores a condições quase impossíveis de vida.
que abordam os materiais, seus comportamentos frente aos esforços, as estruturas Por outro lado, felizmente, a natureza das artes e das linguagens visuais, pre-
e instalações, durante o curso. Entretanto, a gravidade dessa herança ainda vai além sentes na formação do arquiteto e urbanista, sempre utiliza a visualização como
e também atinge a própria formação de engenheiros, resultando no surgimento de recurso, além de outros meios didáticos para seu ensino e aprendizado, ainda que
obras e autores que, egressos dessas áreas técnicas, reivindicam maiores preocupa- também possa ter problemas. A experiência prática, a demonstração de exemplos
ções didáticas e voltadas para um ensino mais criativo (LAURIA, 2001). são procedimentos metodológicos do ensino de artes que, tradicionalmente, se re-
Outro problema está centrado no ensino de desenho, em que a didática cos- produzem no ensino de projeto. Teorias e disciplinas complementares não se estru-
tuma faltar, fruto da dificuldade relacionada à questão de que há docentes de de- turam eficazmente sem a crítica e a compreensão de aspectos que são elucidados
senho que não sabem ou não querem desenhar, ou o que talvez seja ainda pior: por meio de leituras comentadas, compartilhamento de imagens e visitas especiais.
não usam e nem ensinam o desenho como ferramenta de reflexão e de comunica- Sendo assim, em geral, esse esforço para a compreensão da problemática humana
ção. Inicialmente o desenho precisa ser ensinado, implica em trabalho e dedicação para a produção da edificação e organização do espaço social, consubstanciadas
docente e discente, mas qualquer pessoa interessada pode aprender a desenhar, pelos meios técnicos, políticos e econômicos de cada tempo histórico, faz do estu-
obviamente desde que motivada por uma didática adequada para tal finalidade. dante de arquitetura e urbanismo um discente diferenciado, crítico e pouco afeito a
Em uma pesquisa realizada em escala nacional, estudantes de graduação de todo padrões impositivos de aprendizado, características que o afasta ainda mais de um
o país afirmavam saber fazer o antigo desenho técnico, bastante complexo e cheio ensino de tecnologias em que não se percebe reconhecido. 6
de instrumentos bem difíceis de manipulação, enquanto não conseguiam desenhar
livremente. O pior é que naturalizavam tal fato acreditando no dom para o dese-
nho, como algo de propriedade de alguns, e até docentes assinavam embaixo dessa 3. Os papéis das disciplinas Didática Aplicada e Estágio
tolice. Hoje a coisa se repete com o uso do computador e programas tipo CAD fa- Docente na formação do profissional da docência em
zendo a parte “técnica”(Azevedo, 1995). Arquitetura e Urbanismo
O desenho como limite entre a criação e a realização não deve ser um estrei-
tamento de possibilidades visando alguns poucos domínios de saber, por isso esse é Depois desta longa introdução que explicita alguns aspectos da complexi-
um ponto que precisa necessariamente ter suas práticas de ensino reavaliadas. Seja dade da profissão e, consequentemente, de seu ensino, fica mais fácil e justificado
o desenho de carvão sobre papel comum, seja o desenho realizado em computado- compreender a proposta da disciplina Didática Aplicada, que vem sendo oferecida
res de última geração, não devem representar uma linguagem redutora que coíba a no programa de pós-graduação. Na elaboração de sua programação, não se pensou
compreensão por parte dos não arquitetos, nem tampouco a do próprio arquiteto a disciplina apenas como uma exemplificação de recursos didáticos, como dinâmi-
enquanto interlocutor de desejos alheios, ou de seus próprios anseios de criatividade. cas em sala de aula, conforme sugere sua ementa, pois considera-se importante
Desse modo, o ensino do desenho tem sido, em uma das melhores hipóteses, uma compreensão mínima da profissão e de sua formação e estruturação no país.
um panorama de técnicas meramente aplicativas, sem a devida reflexão sobre os
6. No Brasil, ao contrário de outros países, existe um distanciamento pouco saudável entre profissionais da engenharia
porquês e para quês de sua aplicabilidade. Desvincula-se do estudo para o desen- e da arquitetura e urbanismo, infelizmente bastante generalizada. Esta prática se funda na graduação de ambos os
volvimento da linguagem gráfica em busca de melhores utilizações coerentes com cursos e, a meu ver, representa a mediocrização do ensino, uma vez que tais categorias não percebem a importância
de ambas estarem mais juntas e afins. O desconhecimento leva ao não reconhecimento e o medo parece ser recíproco.
as necessidades, sempre reatualizadas, da arquitetura e do urbanismo. Enquanto Os engenheiros temem a criatividade do arquiteto que implica em estudos mais complexos. O arquiteto, por sua vez,
os arquitetos sonham, cidades se erguem, ampliam-se e até mesmo desaparecem. teme não dominar os processos construtivos e se irrita com a frequente invasão de seu campo de trabalho por profis-
sionais da engenharia, que, em geral, não são preparados para tratar da complexidade dos projetos (NOTA DO AUTOR).

30 Necessidade e importância da formação para o ensino Jorge Baptista de Azevedo 31


Questionamentos como ”quais são os papéis que se espera ou se deveria esperar do melhor uso da didática, no bojo de um pensamento pedagógico coerente com a
desse profissional” podem contribuir para um ensino mais eficiente da profissão e formação e a atuação almejadas, são os principais objetivos da preocupação com o
capaz de enfrentar os sérios desafios que lhe são impostos. ensino, presentes nessa disciplina do mestrado.
Em relação à distribuição de conteúdos, a disciplina se divide em quatro mó- Para aplicar os conhecimentos aprendidos e vivenciar o ensino de Arquitetu-
dulos de aulas: no primeiro são estudadas e discutidas a didática e a pedagogia, en- ra e Urbanismo na totalidade de sua prática, existe a atividade Estágio Docente que
tendendo-as como ciências autônomas e seus devidos papéis. No segundo módulo pode se realizar de dois modos. No primeiro, trata-se do acompanhamento de uma
aborda-se uma compreensão dos aspectos estruturadores de seu ensino: a evolu- disciplina regular da graduação, sob a supervisão de um professor responsável, en-
ção histórica do ensino da profissão no país, a política de ensino nacional, o próprio volvendo os diversos aspectos de preparação, ensino e avaliação de uma disciplina.
ensino em sua dimensão política, e dentro dessa ótica analisa-se a regulamentação No segundo modo, o interessado se inscreve em uma turma especial do mestrado,
de ensino vigente e como se caracterizam seus atuais docentes e discentes, suas que oferece uma disciplina optativa para a graduação (normalmente Estudos Urba-
origens e a própria representação social da profissão. No terceiro módulo adentra- nos e Regionais II) com temática a ser definida, onde cada mestrando é responsável
-se a sala de aula como lugar da didática, em que são discutidos tópicos como o pla- por uma aula, também sob a responsabilidade de um professor. É importante frisar
nejamento do curso, ementa, programação e uso do tempo, além da organização que em nenhuma das modalidades se exime o professor de sua responsabilidade
espacial, meios técnicos e o mobiliário adequado, e questões relativas ao comporta- com a turma da graduação, ou, ainda, de usar tal iniciativa para suprir carências de
mento e disciplina, características e representações sociais de docentes, discentes e docentes nas disciplinas. O professor deve estar presente durante todas as aulas mi-
demais profissionais da arquitetura e urbanismo. No quarto módulo são observados nistradas e realizar tanto uma avaliação do desempenho do estudante, bem como
aspectos ainda mais específicos do ensino da arquitetura e do urbanismo em que contribuições durante a aula para estimular o seu dinamismo e valorizar a troca aca-
a didática pode contribuir para modos mais eficazes de aprendizagem e superação dêmica de conhecimentos.
de dificuldades. O debate por uma didática voltada para a criatividade no ensino e Durante a participação no mestrado, já fui responsável por coordenar dois
no aprendizado, no ensino de desenho e de projeto. A finalização do curso aborda estágios docentes, ocupados por estudantes mestrandos nas disciplinas de Projeto
questões sobre o papel da crítica no processo de construção de conhecimento, as de Paisagismo e Expressão no Urbanismo, respectivamente. Em ambas as experi-
metodologias de avaliação do ensino e suas práticas, quando existentes, além de ências, os benefícios foram compartilhados entre todos. As turmas contavam com
uma avaliação da própria disciplina. uma pessoa a mais a colaborar nos exercícios, explanação de dúvidas, nas críticas e
O mais interessante da disciplina é que, em cada módulo, com exceção do pri- comentários que, em geral, valorizam a autoestima dos estudantes, ao se sentirem
meiro que é realizado pelos professores, os assuntos são abordados em aulas expo- avaliados por dois profissionais. A presença do estudante em estágio-docente valo-
sitivas apresentadas pelos próprios alunos de modo individual. Cada aula exige a sua riza a disciplina, torna a aula mais dinâmica e estimula o próprio professor respon-
preparação, para a qual o estudante recebe orientações e indicação de textos de uso, sável, pois representa a presença de alguém mais próximo em termos de experiên-
não obrigatórios, durante um tempo previsto no início da aula da semana anterior. O cias e conteúdos acumulados para a realização de trocas e colaboração salutar. Para
estudante é convidado a criar dinâmicas para fixação e reforço dos objetivos de cada o mestrando em si, sempre se trata de uma aplicação prática dos conhecimentos
aula. Um questionário de avaliação é distribuído entre os demais estudantes presen- aprendidos em Didática Aplicada e de uma oportunidade de crescimento no exer-
tes com o objetivo de uma avaliação da aula apresentada pelo colega7. Ao final, os cício da docência, uma vez que pode acompanhar a evolução de uma disciplina de
questionários preenchidos são entregues ao autor da aula, para fins de autorreflexão, seu planejamento ao encerramento, ou seja, na totalidade.
e nos últimos minutos é realizada uma breve avaliação coletiva comentada. A disciplina Didática Aplicada e o Estágio Docente são atividades obrigató-
A expectativa em torno de cada novo encontro, tanto pela temática como rias para alunos bolsistas, porém, critico a possibilidade de o aluno não bolsista ser
pela atuação de cada colega, gera uma grande participação dos estudantes. O sis- dispensado de cursar tais disciplinas. Como lembra Paulo Freire (2010), somos todos
tema de funcionamento da disciplina leva a um engajamento com a dimensão da sujeitos de nossos aprendizados, aprendemos quando ensinamos e podemos en-
aula, não apenas participativo, mas, sobretudo, crítico e político. O desenvolvimento sinar o que aprendemos. Essa relação dialógica só enriquece o aprendizado para
todos seus participes. Todo mestrado acadêmico deveria formar mestres, e mestres,
7. O questionário, desenvolvido pelo professor Christopher Gaffney, avalia a aula com quesitos pedagógicos, como
a escolha do texto e estrutura do curso (aula) e os seguintes aspectos didáticos: engajamento, objetividade, uso do
como o próprio nome afirma, são educadores. Profissionais que lidam com a do-
tempo, variação metodológica, clareza, conteúdo, arranjo espacial e avaliação do aluno. São atribuídos conceitos MB cência devidamente qualificada para o processo de formação profissional, na busca
(muito bom), B (bom), M (médio) ou R (ruim). Existe ainda um espaço para comentários. (NOTA DO AUTOR)

32 Necessidade e importância da formação para o ensino Jorge Baptista de Azevedo 33


de um arquiteto e urbanista renovado em sua imagem, em um momento em que a 2. HISTÓRIA E PATRIMÔNIO
profissão se amplia e se populariza. Mestres que, efetivamente, busquem contribuir
para a educação de seres éticos e críticos e, consequentemente, para um mundo
mais justo e pleno de potencialidades. Nosso país possui realidades transculturais
que resultam de convívios interculturais seculares e que precisam ser mais compre- Niterói e a enseada de
endidas e preservadas pelos representantes desta e de outras profissões.
Em tantas instâncias de nossas vidas somos professores, em casa, no traba-
lho, no cotidiano em geral. Ensinar obriga a olhar o outro, a compreender suas po-
São Lourenço como local estratégico:
tencialidade e dificuldades e, assim, a ajudar a prosseguir onde, às vezes, só parece
haver grandes obstáculos. Aprender e ensinar, ensinando e aprendendo, faz de cada
a aldeia, o porto e a ponte
ser uma pessoa mais tolerante, compreensiva e generosa. Afinal tudo isso são coisas
que todo mundo e cada um necessita, e não apenas aqueles que irão se dedicar ao
Marlice Nazareth Soares de Azevedo
ensino como profissão. Arquitetos e urbanistas, acima de tudo, precisam se sensibi-
lizar com a dimensão humana e se responsabilizar, ética e esteticamente, contra a
falta de graça e de justiça do mundo.
Resumo | “Dos belos arredores do Rio, o mais interessante para mim foi quando fomos à
vila de São Lourenço, o único arredor da capital onde se encontra ainda os habitantes pri-
Referências Bibliográficas mitivos do país antes tão numerosos nestes cantões” (príncipe Maximilien de Wied-Newied,
Voyage au Brésil 1815).
ARGAN, Giulio Carlo. Projeto e destino. São Paulo: Editora Ática. 2000.
Este marco de origem da cidade, o morro de São Lourenço, foi cuidadosamente escolhido pela
AZEVEDO, Jorge Baptista de. Um olhar sobre o desenho na formação de arquitetos e urbanistas posição estratégica, pois permitia uma visão completa da baía de Guanabara, da entrada ao
brasileiros. Niterói, dissertação de mestrado aprovada junto a Escola de Educação da
fundo, constituindo um privilegiado ponto de vista para controlar os invasores estrangeiros. Essa
Universidade Federal Fluminense, 1995.
localização qualificada foi reiterada como um dos pontos de referência para a entrada da cidade,
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários á prática educativa. 42ª Ed. São em momentos distintos: o núcleo da aldeia (1567), o terminal ferroviário e portuário (1927), a
Paulo: Paz e Terra, 2010.
ponte Rio-Niterói (1975). São Lourenço é o berço do primeiro povoado de Niterói e também
MEIRA, Maria Elisa. A Educação do arquiteto e urbanista. Coord. Valeska Peres Pinto e Isabel objeto de importantes e emblemáticas obras públicas de intervenção urbana, como a constru-
Cristina Eiras. Piracicaba: Editora Unimep, 2001.
ção do porto no aterrado e da ponte de ligação com o Rio de Janeiro.
SANTOS, Milton. Por uma nova Geografia. São Paulo: HUCITEC – Universidade de São Paulo, 1978.
Esses fatos reiteram o valor histórico do lugar representado pela enseada e pelo morro de São
LAURIA, Douglas et al. O desafio da criatividade na formação e atuação do engenheiro. Disponível
Lourenço como origem da cidade e seu papel de acesso à baía de Guanabara, à cidade e ao estado
em: <www.pp.ufu.br/Cobenge2001/trabalhos/FCU003.pd>, Acesso em: fevereiro de 2014
do Rio de Janeiro através dessas interconexões. Essas relações se consolidaram, mas apesar de
LUAIZA, Benito Almaguer. Pedagogia e didática: duas ciências independentes. Cuba,
local fundador, São Lourenço é percebido como uma “periferia” física e social da cidade.
CEPEDH (Centro de Pesquisas para o Desenvolvimento Humano). Disponível em: <
br.monografias.com/trabalhos3/pedagogia-e-didatica/peda>, acesso em maio de 2011. Abstract | “The most interesting place of Rio`s beautiful outskirts is the village of São
MARAGNO, Gogliardo Vieira. Questões sobre a qualificação e o ensino de arquitetura e Lourenço. The only place around the capital where you can still find some native people
urbanismo no Brasil. In: XXXI ENCONTRO NACIONAL SOBRE ENSINO DE ARQUITETURA once so numerous in the area” (Prince Maximilien de Wied-Neuwied, Voyage au Brésil (1815).
E URBANISMO. ABEA: São Paulo, 2012. Disponível em: <http://www.abea-arq.org. The São Lourenço hill, where the city began, was carefully chosen for its strategic posi-
br/?p=382>, Acesso maio de 2023.
tion because it allowed a vast view of Guanabara Bay, from its mouth to its end. It was a
MATTOS, Marcelo Badaró. Reuni: expansão ou escolão? Espírito Santo. CADI – UFES. Disponível privileged view to control foreign invasions. This highly qualified position was reinforced
em: <http://cadiufes.wordpress.com/2007/10/26/reuni/>, Acesso em outubro de 2014.
through time as one of the references to enter the city: the center of the village (1573), the
train station and the docklands (1930), the Rio-Niterói bridge (1975). São Lourenço was the
center of the first settlement in Niterói. It is also the place of important and famous public

34 Necessidade e importância da formação para o ensino Marlice Nazareth Soares de Azevedo 35


works and urban interventions as the landfill to build the harbour and the bridge connect- núcleo da aldeia (1567), o terminal ferroviário e portuário (1927), a ponte Rio-Niterói
ing the cities of Niteroi and Rio de Janeiro. (1975). São Lourenço é o berço do primeiro povoado de Niterói e também objeto de
These examples reaffirm the historical importance of the São Lourenço cove and hill as the importantes e emblemáticas obras públicas de intervenção urbana, como a constru-
origin of the city and its role in the access to Guanabara Bay, to the city of Rio de Janeiro as ção do porto no aterrado e da ponte de ligação com o Rio de Janeiro.
well as to the state of Rio de Janeiro using the existing interconnections. With time these Esses fatos reiteram o valor histórico do lugar representado pela enseada e
relations were reinforced but despite being the origin of the city, São Lourenço is seeing pelo morro de São Lourenço como origem da cidade e seu papel de acesso à baía
today as a physical and social ‘outskirt’ of the city. de Guanabara, à cidade e ao estado do Rio de Janeiro através dessas interconexões.
Essas relações se consolidaram, mas apesar de local fundador, São Lourenço
Resumen | “La vecindad de São Lourenço fue, de entre todos los bellos alrededores de Rio,
é percebido como uma “periferia” física e social da cidade.
el que más me llamo la atención ya que justamente en este punto de la capital es donde
aún se puede encontrar a los habitantes originales del país, antes tan numerosos por estos
cantos”. Príncipe Maximilien de Wied-Newied, Viaje a Brasil (1815). 1. A Aldeia de São Lourenço dos Índios. Origem
El morro de São Lourenço, como marco de fundación de la ciudad, fue cuidadosamente
elegido por su posición estratégica ya que permitía una completa visión de la bahía de Gua- A concessão a Araribóia das terras da Banda d’Além pode ser entendida num
nabara, permitiendo así, un efectivo control de los invasores extranjeros. Esta localización contexto do projeto colonizador português, que se caracterizava no Rio de Janeiro
privilegiada de entrada a la ciudad ha sido puesta de manifiesto en distintas oportunidades: pela necessidade de se fixar nas terras em torno da baía de Guanabara, e para tanto
como centro de fundación de la aldea (1573), como terminal portuario y ferroviario (1930), era imprescindível se desvencilhar dos franceses invasores. A proximidade dos por-
como punto para la construcción del puente Rio-Niterói. São Lourenço, aparte de ser el tugueses com este chefe guerreiro Tememinós era fundamental pelas alianças já
lugar que dió origen al primer poblado de Niterói, ha sido también objeto de importantes estabelecidas entre os franceses e os Tamoios, inimigos históricos de Araribóia, que
obras públicas representativas de la intervención urbana, tales como la construcción del por conta disso já tinha anteriormente se refugiado no Espírito Santo. Por solicitação
puerto y también del puente que une Niterói a Rio de Janeiro. dos portugueses, sob o governo de Mem de Sá, ele volta desse refúgio para partici-
Los hechos ya mencionados no hacen sino reiterar el valor histórico del lugar representado
par da luta contra os franceses.
por la ensenada y el morro de São Lourenço debido a su importancia como punto de fun-
Após a expulsão francesa, a presença próxima do chefe indígena era funda-
dación de la ciudad y en su rol como acceso a la bahía de Guanabara, a la ciudad de Rio de
mental para assegurar a posse portuguesa. Coube a Antônio Marinho, figura de ex-
Janeiro y al estado del mismo nombre. A pesar que estas relaciones de interconexión se han
pressão do Reino, futuro provedor da fazenda real no Rio, a tarefa de transferir a Ara-
reforzado, el punto de fundación de São Lourenço es, aún, percibido como “periferia” física
ribóia as terras do outro lado da baía, o que também garantiria a proteção da futura
y social de la ciudad.
capital do Reino. No registro deste ato aparece o nome cristão de Araribóia, Martim
Afonso, índio da terra, que em 1568, com seus comandados ainda permanecia no
lado ocidental da baía em terras jesuíticas, pela ameaça permanente do retorno dos
Introdução franceses. De fato, os franceses com seus aliados tamoios voltaram a atacar o Rio de
Janeiro ainda naquele ano. Tais circunstâncias adiaram a posse efetiva da sesmaria
“Dos belos arredores do Rio, o mais interessante para mim foi quando fomos doada, que só se deu em 22 de novembro de 1573.
à vila de São Lourenço, o único arredor da capital onde se encontra ainda os habi- O aldeamento se instalou sob as normas do projeto colonizador português
tantes primitivos do país antes tão numerosos nestes cantões”. (príncipe Maximilien de orientação jesuítica, que impôs o estabelecimento de um único aldeamento. A
de Wied-Newied: Voyage au Brésil, 1815). sesmaria era extensa para os padrões da época e constituída de uma légua na orla
Este marco de origem da cidade, o morro de São Lourenço, foi cuidadosamen- marítima (6 6000 m) e com duas léguas de profundidade (13 200 m) pelo sertão
te escolhido pela posição estratégica, pois permitia uma visão completa da baía de adentro. O aldeamento se localizou junto à enseada denominada de São Lourenço,
Guanabara, da entrada ao fundo, constituindo um privilegiado ponto de vista para e no morro foi edificada uma pequena igreja dedicada ao Santo, local que se tornou
controlar os invasores estrangeiros. Essa localização qualificada foi reiterada como o coração da aldeia. Estava em curso um processo de descimento dos gentios para
um dos pontos de referência para a entrada da cidade, em momentos distintos: o as aldeias existentes e, cinco anos mais tarde, já se identifica uma solicitação do je-

36 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 37
suíta Antônio Lousada, nomeado procurador dos índios, por mais terras, pois eram çada pela expulsão dos jesuítas em 1759, pelo Marques de Pombal, a aldeia só foi
poucas para os que lá viviam e para os que descessem. A solicitação foi atendida e extinta em 1866.
quatro léguas da banda d’ Além, depois do rio Macacu, foi dada em 1578. Como se
constata, havia um interesse especial dos jesuítas pela expansão dessas terras, que
correspondia a maior número de índios para catequisar, contingente maior de mão As terras e o patrimônio territorial
de obra para cultivar e indiretamente, maiores possibilidades de comercializar as
terras através das concessões de posse aos colonizadores europeus. A testada de terras parece estender a sesmaria indígena do morro do Gra-
goatá até o porto de Maruí (Maraguhi). Uma demanda de terras que data de 1656
exigiu uma composição amigável entre os jesuítas e o procurador dos índios de um
A Igreja e a catequização Jesuíta lado, e seis ocupantes de terras pertencentes a Antônio Mariz de outro. Os domínios
indígenas iniciavam no termo da légua de testada medida a partir do marco das
O projeto de colonização foi bem sucedido nesses primeiros anos nos aldea- barreiras vermelhas. (FIGURA 1, desenho de Seixas).
mentos da capitania do Rio de Janeiro. O número de novos cristãos era expressivo Em 1866 este marco foi encontrado enterrado no Gragoatá pelo engenhei-
e chegava a três milhões de índios cristãos, segundo informações do padre José de ro José Maria de Almeida Portugal, encarregado de demarcar as terras do antigo
Anchieta e Fernão Cardim. Na Aldeia de Araribóia, em carta datada de 1570, o padre aldeamento. O patrimônio indígena foi objeto de venda, troca, arrendamento e in-
Gonçalo de Oliveira cita a existência de uma pequena capela em taipa, em honra a vasões intermediadas pelos procuradores jesuítas tornando necessário, na segunda
São Lourenço, que é substituída em 1586 por outra mais robusta, mas ainda modes- metade do século XVII, por solicitação das autoridades do Colégio, um levantamen-
ta, onde no dia do Santo Padroeiro, em 10 de agosto do ano seguinte, é representa- to das escrituras emitidas pelos cartórios de notas, confirmando o encolhimento
do pela primeira vez o “Auto de São Lourenço” do Padre Anchieta. O episódio revela desse patrimônio. Essa situação foi sistematicamente agravada, o que pode ser ve-
a importância que assume o projeto de catequização. Essa construção foi substitu- rificado pelo documento de 13 de janeiro de 1835 emitido pelo juiz de órfãos, na
ída por outra de pedra e cal em 1627, e reformada em 1769 com as características condição de juiz dos índios dirigido ao presidente da província: “As propriedades da
arquitetônicas dos jesuítas, conservadas até hoje. aldeia consistem em uma sesmaria de uma légua de testada e duas de sertão neste
A prioridade de catequização vai perdendo significado, pois no período da município (Niterói), na igreja de São Lourenço, e da casa onde reside o seu pároco,
construção da igreja o aldea- situados no morro de mesma denominação e dentro da sesmaria. Esta se acha
mento se torna de visita, condi-
ção que significa que a cada 15
dias os padres do colégio vão
administrar os sacramentos, e
a aldeia de São Lourenço está
excluída da categoria de aldeia
de Missão do Colégio do Rio de
Janeiro ( Abreu, 2010). Poucas
década depois, o governador
considera essa aldeia útil pela sua localização perto do Rio de Janeiro, mas peque-
na para poder contar com a ajuda deles. Se no século XVI a aldeia de São Louren-
ço aponta uma população de 800 almas, no século XVII a população diminui para
330 almas e no XVIII são pouco mais de 100 almas. Abreu (2010) aponta três causas
principais para a redução da população dos aldeamentos indígenas: a mortandade
causada pelas epidemias, fugas e vícios como o uso de aguardente, e, perda das
terras comercializadas pelos procuradores jesuítas. Apesar dessa decadência, refor- FIGURA 1 Desenho de Romeu de Seixas Mattos (desenhista da Prefeitura). Fonte: Acervo do Labo-
ratório de Pesquisa LDUB – Niterói

38 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 39
quase que totalmente usurpada por diversos avarentos, abastados preponderan- terras passou para a União e a municipalidade recebeu as terras devolutas, e no final
tes, que, pelo influxo de suas riquezas, conseguiram apossar-se das terras e tecer a dessa mesma década também o foro. Esses arrendamentos eram denominados “foro
enredada teia com que procuram mascarar sua usurpação com o mais escandaloso dos índios”, ainda que não pertencessem mais aos antigos donos. A República (1899)
manifesto dano aos infelizes índios.” (Maia Forte, 1935). Essa perda foi se dando ao veio sedimentar a localização e o desenho do centro da cidade de autoria de Pallière
longo do tempo e as iniciativas de regularização não tiveram êxito. (1819). O esquecimento de São Lourenço como origem está representado na tendên-
Segundo documentos citados por Abreu, no início do século XVII, os descen- cia que se observa a partir do início do século XX, expressa na tese de Attilio Correia
dentes de Araribóia buscaram as áreas litorâneas e planas das terras do aldeamento e Lima (1930) “Avant-Projet d’aménagement et d’extensione de la ville de Niterói”, que
começaram a invadir a sesmaria vizinha de Icaraí, o que foi alvo de litígios com os her- aponta a chegada das barcas, no centro, como primeiro local de referência na cidade.
deiros dessa sesmaria (Abreu, 2010). Quanto às terras do sertão foram pouco aprovei-
tadas pelos índios e invadidas por outros proprietários, o que gerou muitos conflitos.
Esses fatos se acumulam e os índios vão perdendo terras e direitos paulatinamente. 2. A enseada e o porto
A população indígena vai se rarefazendo, e, em 1820, Milliet de Saint Adolphe
estimava a população em 200 índios que viviam da venda do peixe que pescavam A primeira ideia de se intervir na enseada do bairro de São Lourenço, área de
e dos poucos víveres que cultivavam, e alguns como remeiros dos escaleres d’el mangue da cidade, data de 1886, quando se cogitou pela primeira vez a construção
Rei. Algumas mulheres fabricavam uma louça de barro, muito estimada no Rio de de um porto. Essa localização era respaldada por argumentos higienistas: aterrar o
Janeiro. Dessa mesma época, segundo a descrição do príncipe Maximilien: desem- manguezal e remover casebres (“ferida cancerosa da cidade”). Essa imagem mostra
barca-se a pouca distância de São Lourenço e se coloca a subir morro de altitude a deterioração que atinge o núcleo da aldeia indígena.
medíocre por um caminho sombreado de espécies de plantas elegantes. O texto Na época, parte da enseada era um extenso mangue que margeava os fundos
desse pesquisador europeu descreve a vegetação, o índio, seu trabalho, sua casa e das casas da rua limítrofe ao morro (atual rua Marechal Deodoro). Segundo o poeta e
seu aspecto físico, e, principalmente, o impacto da paisagem tropical. jornalista Luiz Antônio Pimentel, o mangue era reforçado pela existência de uma pe-
Outras descrições reiteram o aspecto de abandono que vai tomando essa quena Lagoa (a dos Passarinhos), formada pela água recebida do Rio dos Passarinhos
aldeia, sendo que em 1831 é extinta a capitania mor das aldeias indígenas, e o Impé- e de duas fontes existentes na Chácara do Vintém e na Praça da República (FIGURA 2).
rio coloca os índios sob a tutela do juizado de órfãos. As terras vendidas ou cedidas Apesar desse mangue, a partir da Rua Visconde de Sepetiba, ter sido quase
mediante o pagamento de foros tinham pagamentos irregulares ou não efetivados. todo aterrado no período de 1903 a 1911, a enseada de São Lourenço resistiu por
Apesar do número cada vez mais restrito de índios, que chegaram a 46 na conta- muito tempo e só veio a desaparecer com a construção do Porto (FIGURA 3).
gem de 1835, esses acontecimentos mostravam que a renda não dava conta das Em 1911, a ideia do porto volta a ser discutida quando o então prefeito da
despesas. O último capitão mor dos índios, José Cardoso de Souza, e também juiz cidade, Feliciano Sodré, encaminha projeto à Câmara Municipal. Somente em 1924,
de Paz, era considerado descendente de Araribóia e também vivia do comércio de é lançada a pedra fundamental das obras projetadas, que incluíam um aterro com
cerâmicas, praticamente a única atividade econômica da aldeia. Com a sua morte o lodo retirado da enseada e, com o material resultante do desmonte parcial de
em 1837, encerrou-se o pouco prestígio que a aldeia ainda detinha por conta da res- morros da cidade. No entanto, o projeto só é concretamente levado adiante quando
peitabilidade que ele exercia. O seu prestígio era considerável, pois participou dos Feliciano Sodré assume o governo do estado do Rio de Janeiro e, preocupado com a
atos comemorativos da instalação da Vila Real de Praia Grande em 1819, cuja locali- salubridade e aparência da capital do estado, viabiliza a construção do porto, que é
zação veio suplantar a aldeia de São Lourenço. Anos depois (1854), a sua viúva rece- aberto em 1929. As questões higienistas somavam-se a razões econômicas: terrenos
beu a visita de D. Pedro II e a pensão de 240 mil réis anuais do Império.. O primeiro ganhos ao mar, dinamização da circulação de mercadorias com a conexão com a rede
cemitério da cidade foi autorizado nesta freguesia em terreno próximo a igreja, mas ferroviária, descongestionamento do Porto do Rio de Janeiro, entre outras. Nesse mo-
ainda naquele ano essa freguesia foi extinta, constituindo mais um passo para o fim mento, a Estrada de Ferro The Leopoldina Railway cumpre os compromissos assumidos
do aldeamento em 1866. em 1911 com o governo estadual e prolonga suas linhas da estação de Maruí (existente
Os moradores remanescentes receberam lotes que passaram a ser de sua pro- desde 1827) até o novo cais, onde é construída uma estação de passageiros, aberta ao
priedade desde que neles morassem, e para administrá-los foi criada a Inspetoria público em 1930.
de Terrenos do Extinto aldeamento dos índios, que sobreviveu até 1880. O foro das Para a construção do porto foi criada a “Comissão Construtora do Porto de

40 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 41
situavam-se em meio a ruas circulares, predominou”1.
Do ponto de vista espacial, o aterrado proporcionado pela construção do
porto teve importante significado no traçado da cidade, como um novo espaço, ele-
mento de ligação interurbana. Do ponto de vista histórico, teve relevante interesse
por remontar à origem da cidade.
A aposta na construção do porto representava, além da promessa de unificar
o escoamento da produção agrícola e industrial do interior do Estado, a dinamização
da circulação de mercadorias. A taxação das mercadorias que passassem por Niterói
exigiria a instalação da alfândega, que possibilitaria, segundo argumentos políticos, a
geração de novos empregos, o desafogo do porto do Rio e a ligação com os trilhos da
Leopoldina Railway, capaz de chegar ao interior dos estados de Minas e Espírito Santo.
Na Enseada de São Lourenço, a nova estação ferroviária a 1,5 km da velha
estação de Maruí, estendia o ramal ferroviário até o porto e, dessa maneira, desviava
o fluxo de mercadorias que costumeiramente iam direto à Capital Federal.
A construção do porto teve como pressuposto a emancipação econômica do
FIGURA 2 Foto da Enseada de São Lourenço antes do aterro, no início da década de 1920. Série Cartão Estado e anunciou a possibilidade de se superar a “falta de identidade” que sofria o
Postal, Fonte: Acervo do Laboratório de Pesquisa LDUB – Niterói
município de Niterói, considerado “nada mais que uma zona rural do Rio de Janeiro”.
Foi uma tentativa de promover o estado fluminense e sua capital, Niterói.
O aterro da Enseada de São Lourenço ficou sob a responsabilidade do en-
genheiro Felipe dos Santos Reis, presidente da comissão construtora. A Praça Re-
nascença localizar-se-ia em frente à futura Estação Ferroviária e seria o tronco do
novo sistema viário. O novo espaço criado teria destinação institucional e industrial,
destacando-se, inicialmente, a construção de três edifícios: a Estação Ferroviária
Central, o Fomento Agrícola2, o Quartel da Polícia Militar e, posteriormente, o Mer-
cado de Niterói. No início de seu funcionamento, em 1927, o Porto de Niterói, com
mais de 30 mil metros quadrados de área, foi entregue à Companhia Brasileira de
Portos, passando em 1941 para o Estado, que o entregou, em 1960, ao Departamen-
to de Portos e Navegação do Rio de Janeiro. O movimento portuário de Niterói, no
entanto, esvaziou-se em quase 50% no período de 1964-1967, com a decadência
da economia cafeeira do Norte Fluminense. O setor têxtil, tradicional na economia
fluminense, também foi perdendo competitividade. Desde então, do ponto de vista
FIGURA 3 Perspectiva do arruamento projetado para o porto. Ilustração da Comissão Construtora do Porto, econômico, o porto se tornou um imenso fracasso.
Fonte: Livro da Comissão Construtora do Porto, 1927
Depois de 1964, com a expansão do sistema rodoviário, o Porto de Niterói
entrou em declínio, fato agravado também pelo assoreamento do canal e a proxi-
Niterói e Saneamento da Enseada de São Lourenço” e, entre as obras de natureza
midade do Porto do Rio de Janeiro. Em 1967, o canal que dá acesso ao porto ficou
portuária, estava previsto o aterro da enseada, a abertura de ruas e a conexão com
reduzido a uma profundidade de três metros e meio (dos 8 metros mínimos), contri-
a malha existente. O arruamento proposto seguia o traçado radial concêntrico, cujo
buindo para amedrontar os comandantes dos navios cujos porões vinham carrega-
ponto de confluência era a Praça da Renascença, tronco do novo sistema viário que
interligaria a recém-aberta Avenida Feliciano Sodré à Alameda São Boaventura, via-
1. MARY, 1988, p. 4.
bilizando a ligação do centro com o bairro do Fonseca. “Aqui, como na cidade do Rio
2. Atual prédio do Centro Cultural do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro – TCE-RJ. Em 1927, foi inaugurado
de Janeiro, a influência francesa que concebia desenhos de bairros, onde parques o primeiro trecho de cais com 120 metros e, em 1929, ficou pronto o cais de 562 metros e os dois armazéns.

42 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 43
dos, e forçando-os a optar por atracar no Rio. ano, iniciaram-se as obras de restauração da antiga Estação Ferroviária, que seria
O porto, em crise, passou a movimentar apenas trigo, trazido da Argentina, transformada em centro cultural. 5
Estados Unidos e Canadá pela empresa Moinho Atlântico, única usuária do terminal, A movimentação de trigo, única atividade do porto, definhou nos últimos anos
e a receber também sardinhas congeladas para as indústrias da região. até ser paralisada por completo em 2005. A retomada da operação portuária foi firmada
em agosto daquele ano, quando a área foi arrendada às empresas Nitporte Nitshore.6
“Sua linha de cais foi reduzida de 1700 para 465 metros em virtude da
ponte Rio-Niterói (inaugurada em 1974), que suprimiu a parte destinada
Para o setor portuário, a revitalização do Porto de Niterói, com 23.000 m² de
à atracação de navios de cabotagem. Também foi atingida a linha férrea, área aberta e 3.300 m² de área coberta, é estratégica ao desenvolvimento da pro-
que transportava diretamente para a plataforma de embarque os produ- dução industrial local, em especial a relacionada à indústria de construção e reparo
tos oriundos do interior. Então, um porto que tinha capacidade de receber naval, em franco crescimento.
oito cargueiros de 10 mil toneladas, passou a receber apenas dois de 6 mil Por outro lado, o Aterrado São Lourenço, destinado inicialmente a uma ocu-
toneladas, pois a bacia de evolução recebeu tanto detrito vindo do canal
pação institucional e industrial, que nunca se consolidou, teve como principais en-
da Alameda São Boaventura, e de outras partes da baía, que reduziu os 24
pés de profundidade para apenas 20”3. traves ao seu desenvolvimento, de um lado, a própria situação fundiária, na qual a
maioria dos lotes é público, e de outro, a morfologia. Neste primeiro aspecto, obser-
Em 1981, a falência do porto foi reconhecida e, sob o domínio da Companhia va-se que prevalecem os lotes públicos estaduais, herança de quando a cidade era
Docas do Rio de Janeiro, foi arrendado à Enavi Engenharia Naval e Industrial Ltda uma capital do estado do Rio de Janeiro, que se encontram atualmente subutilizados.
área equivalente a 75% de todo o porto. O contrato de aluguel da área, que incluiu Sobre o segundo aspecto, observa-se que a própria conformação das quadras, de
também os dois únicos armazéns, terminou em dezembro de 1991 e não foi reno- grandes dimensões, favoreceu um parcelamento interno irregular, de lotes em for-
vado. A Companhia Docas, com interesses na privatização, entrou com mandato de mato trapezoidal e com extensas testadas, nos quais as edificações ora ocupam as
reintegração de posse. divisas, ora o centro do terreno, gerando uma difícil leitura.
O sindicato dos portuários era contrário à privatização, alegando que resul- Somada à questão das quadras, a desintegração viária entre as ruas em se-
taria em desemprego para a categoria. No meio do fogo cruzado, a prefeitura ma- micírculo do Aterrado e as ortogonais do entorno sinaliza a ruptura entre esses dois
nifestava sua intenção em discutir o uso adequado do porto, mas se opunha à ideia tecidos da cidade. Em alguns casos, nos locais de intercepção dos dois tecidos, for-
de transformá-lo em terminal pesqueiro. Em 1998, Docas e o sindicato concordam mam-se pontos de inflexão; em outros casos, ocorrem situações em que uma via
que o melhor destino para o porto é o mercado offshore. Para o presidente da Com- interrompe o prolongamento da outra, induzindo o seu fechamento pela falta de
panhia Docas “foi uma falha de modelagem querer dar o mesmo destino aos dois uso. A indefinição fundiária deu margem à ocupação irregular em área do projeto
portos (Rio e Niterói). Em vez de competir com o Rio, Niterói pode investir em uma que se consolidou como a favela do sabão.
atividade que para o porto carioca não é vantajosa”. Segundo ele: Mais recentemente, certamente influenciado pela nova dinâmica do porto,
observa-se o retrofit de edificações existentes e a construção de prédios residenciais
“O Porto de Niterói tem peculiaridades que favorecem as atividades de na avenida principal, retomando uma vocação identificada nos anos de 1950, em que
apoio à indústria naval, como por exemplo, o calado (profundidade), consi-
se observa antigos casarões dessa época na Av. Feliciano Sodré, reutilizados para ati-
derado pequeno para suportar grandes embarcações, mas ideal para abri-
vidades de serviço. O que se constata oito décadas depois é um aterrado com projeto
gar os equipamentos da indústria naval e de petróleo”4.
bem definido se constituir ainda como área periférica ao centro da cidade.
Nesse sentido, em 2001, estava prevista a abertura de licitação para a entrega
do terminal à iniciativa privada através de concessão. No entanto, impasses políticos
adiaram os planos e enquanto não se aprovava nenhum projeto de revitalização, a
prefeitura e a Companhia Docas promoveram eventos na área, incluídos no calen-
dário oficial da cidade.
Além da ideia de ocupação dos armazéns com variadas atividades, no mesmo
3. Jornal O Fluminense, novembro de 1977. 5. Hoje a obra encontra-se parada sem definição sobre seu término.
4. O Fluminense, 16 e 17 agosto de 1998 6. O arrendando tem prazo de 10 anos, podendo ser estendido por igual período.

44 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 45
3. Ponte: Utopias, debates, propostas e realização da de 2700 m de comprimento entre as pontas de Calabouço e de Gragoatá. Em 1932,
Mello Marques propôs o mesmo traçado de P. W. Barlow, mas defendendo a cons-
ligação Rio – Niterói
trução de uma ponte como sendo a melhor opção. Mas, o túnel era mais bem visto
naquele momento, pois tinha o apoio das Forças Armadas por questões de ordem
A ligação das cidades do Rio de Janeiro e Niterói é um tema que remonta o
estratégica e de segurança nacional.
século XIX e dois pontos estiveram sempre presentes nos debates, como e onde:
Um projeto datado de 1937, de Leon D’Escoffier, destaca a ponte em concre-
ponte ou túnel e a possível localização dos acessos. A primeira questão permeou
to e composta por seis pavimentos, com 102 elevadores. A obra previa uma mini
as discussões até a decisão final pela ponte e a sua localização foi concretizada em
cidade: dois teatros dividindo o espaço com lojas e apartamentos e vias de tráfego
1974, Ponta do Caju e Ilha da Conceição/Enseada São Lourenço, preterindo a menor
com níveis diferenciados segundo o tipo de transporte. (PITTA, Luciano, 1998).
distância – Ponta do Calabouço e Gragoatá.
O tema voltou à tona em 1943, quando o engenheiro e deputado Duarte de
Entre a primeira iniciativa e a efetivação da ligação foram 100 anos de tentati-
Oliveira, embasado num estudo de vinte anos, levantou novamente a bandeira da
vas e propostas das mais diversas naturezas. Sabe-se que em 1875, o Imperador deu
ponte e mais uma vez as autoridades e as Forças Armadas a rejeitaram.
ao engenheiro inglês Hamilton Linsday Bucknall7 a concessão, através do decreto
Nove anos se passaram, quando em dezembro de 1952 a lei 1793 permitiu
Nº. 6138, para a construção de um túnel ferroviário submarino transpondo a Baía
a abertura de concorrência pública internacional para a construção do túnel que
de Guanabara. O projeto, de autoria do também engenheiro inglês P. W. Barlow,
transporia a Baía de Guanabara (VERRY, C., 1974). Études et Enterprises, empresa fran-
teria entre cinco e seis metros de diâmetro e cinco quilômetros e meio de extensão.
cesa, venceu a concorrência, adotando o traçado sugerido pelo governo do Rio de
O trajeto escolhido ligaria o Calabouço, no Rio de Janeiro, ao Gragoatá, em Niterói
Janeiro: Praça Mauá – Avenida Feliciano Sodré, com um túnel de 6.105 m de exten-
(DNER, 1984).
são. Um ano mais tarde, o Ministério de Obras Públicas assinou contrato com a em-
O tema era objeto de inspiração para os caricaturistas dos periódicos da Ca-
presa francesa para a execução da obra. A ligação entre o Rio de Janeiro e Niterói já
pital do Império. Ângelo Agostini, por exemplo, publicou em dezembro de 1871, na
parecia consumada sob a forma de túnel quando problemas de âmbito econômico
Vida Fluminense, uma caricatura em que era possível vislumbrar a ligação física entre
e de praticabilidade inviabilizaram o processo.
as duas cidades. Essa visão do artista era compartilhada pela sociedade, que consi-
Com a ruptura do contrato com a Études et Enterprises, a credibilidade da li-
derava uma verdadeira utopia tal projeto. A ponte metálica elevada dava passagem
gação entre as duas principais cidades da Baía de Guanabara parecia encontrar-se
a um trem, que de tão moderno, reciclava a sua própria fumaça (COTRIN, A., 1974).
abalada. Em 1959, nova concorrência internacional foi aberta através do decreto Nº.
Constata-se que efetivamente não houve nenhum outro projeto levado a discus-
47168. Havia a expectativa de dezenas de inscrições de firmas e consórcios, mas
sões durante o Império.
apenas uma concorreu: a Sailav. A empresa argentina era estranha à engenharia e à
indústria nacional e por isso a comissão julgadora pediu a anulação da concorrência
Debates e iniciativas no século XX e a consideração da construção de uma ponte.
As discussões intensificaram-se a partir de meados de 1962. A divisão de edifícios
Tem-se conhecimento através de Charles Dunlop, em sua publicação, “Meios públicos do D.A.S.P. promoveu um ciclo de conferências sob a tutela do engenheiro Al-
de Transportes do Rio Antigo”, que houve projetos datados de junho de 1903 e outro berto Lélio Moreira. A “Revista do Serviço Público” trouxe, de outubro de 1962 a março de
de 1920, prevendo o trânsito de veículos e de pedestre entre as duas cidades. 1963, reportagens mensais acerca dos debates realizados na cidade do Rio de Janeiro.
Mas, a partir de 1930, com o avanço tecnológico e experiências já concretiza- Ainda em março de 1963, o governo federal, através do Ministério de Viação
das em outros países, o tema toma uma dimensão mais concreta e consequente. A de Obras Públicas, criou um Grupo de Trabalho presidido pelo seu chefe de Trans-
tese do arquiteto Attilio Correa Lima, defendida em 1930 no IUP de Paris aborda a portes, o engenheiro Luis Augusto da Silva Vieira. Após dez meses, baseados em
ligação Rio-Niterói debatendo o dilema, túnel ou ponte? No caso de ponte recorre pareceres de ordem técnica e econômica, o grupo decide essa questão centenária:
a estudos do engenheiro Alpheu Diniz que propõe uma ponte suspensa metálica “O grupo de trabalho, após cuidadosos estudos de diversas soluções para a
travessia Rio-Niterói, optou pela ligação por meio de uma ponte entre a ponta do
7. Objetivando a obtenção de recursos, Linsday fez várias viagens à Inglaterra. Publicou, em 1878, o livro “A Search
for Fortune”, no qual concluía seus estudos de viabilidade do projeto e suas alternativas. Os seus esforços de nada
Caju e a ilha da Conceição – Feliciano Sodré”. (DNER, 1984).
adiantaram e o projeto, sem financiamento, não saiu do papel. Quinhentas mil libras, valor estimado da obra, era um
montante considerável em 1875.

46 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 47
A ponte se impunha como a melhor solução em razão do menor custo de financiamento se deu pelo convênio DNER – FINEP, tendo o BNDES como agente
construção, operação e manutenção; maior facilidade de construção; maior vazão financeiro e de repasse de recursos oriundos da USAID.
de tráfego em condições equivalentes; circulação livre a todos os tipos de carga, O relatório, concluído em meados do ano seguinte, traz em seu texto a ponte
constituindo a primeira vez na história que a solução através de ponte é cogitada como melhor solução técnica e econômica e sua construção amplamente justificá-
por um órgão oficial. vel. O trajeto Ponta do Caju – Ilha da Conceição foi considerado o mais conveniente.
No ano seguinte, o engenheiro Luiz Vieira é incumbido pelo ministro Juarez A forma de obtenção de financiamento, através de agências internacionais para o
Távora de estudar a questão e sugerir medidas a serem tomadas. Em dezembro de desenvolvimento também são apontadas, bem como sua amortização num prazo
1964, na sequência das investigações, o engenheiro relata sete possíveis traçados de 10 anos possibilitado pela cobrança de pedágio. A estimativa do tempo de cons-
através da Baía de Guanabara aos Estados Maiores da Armada e da Aeronáutica, das trução (e de carência) era de três anos.
quais apenas duas mereceram considerações. (Relatório do GT). A captação de recursos começou antes mesmo da entrega oficial dos estu-
A seguir, o Ministério de Viação e de Obras Públicas solicita estudos detalhados dos, baseada na estimativa inicial do custo total do empreendimento. O conjunto
e um novo Grupo de Trabalho, tendo à frente novamente o engenheiro Luiz Augusto de bancos ingleses, liderados pela Casa Rothschild, que viria a financiar parte da
da Silva Vieira, nomeado pela portaria nº 51, de 5 de fevereiro de 1965. Em 21 de julho obra, passou a figurar entre os possíveis financiadores. Outro Grupo de Trabalho,
de 1965, o engenheiro Sérgio Marques de Souza envia, como colaborador, um rela- com membros do Ministério dos Transportes, da Fazenda e do Branco Central, foi
tório ao presidente do Grupo de Trabalho, em que propõe uma nova abordagem de constituído através do Decreto nº. 62.303 de 22 de fevereiro de 1968, para pesquisar
projeto e outra solução. Baseado em dados estatísticos de fluxo de pedestres e de ve- as fontes para o financiamento da obra, baseado na estimativa inicial, que girava em
ículos da época propõe a ligação em dois eixos de travessia e duas soluções técnicas. torno de 141 bilhões de cruzeiros, moeda da época.
Uma ponte dando prosseguimento ao Plano Rodoviário Nacional, através da Com o relatório do Grupo de Trabalho responsável pela pesquisa das fontes
BR 101 e atendendo principalmente ao fluxo de caminhões de carga e de ônibus de recursos e o apoio das entidades envolvidas, os ministros do Transporte, do Pla-
intermunicipais e interestaduais, e um túnel submarino objetivando o atendimento nejamento e da Fazenda apresentam exposição de motivos ao então presidente da
da demanda do tráfego urbano. O GT concluiu que realizar duas obras seria inviável República Arthur da Costa e Silva, sugerindo “a inclusão do projeto de construção da
e que o traçado Caju-Ilha da Conceição seria mais conveniente por interferir menos ponte Rio-Niterói no programa governamental”.
no trânsito, e possivelmente mais aceito pela população, ainda respondia aos inte- A seguir, uma mensagem do presidente foi enviada ao Congresso solicitando a
resses das Forças Armadas e oferecia melhores condições de exequibilidade devido aprovação do projeto de lei autorizando a construção da ponte. Em 17 de outubro de
à tranquilidade das águas da baía naquele trecho. 8 1968, a Lei nº 5.512 foi aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente.
Seguindo recomendações do GT, o governo federal constituiu através
do decreto nº. 57.555/65, a Comissão Executiva da Ponte Rio-Niterói, com re-
presentantes do Ministério da Viação e Obras Públicas, do DNER, do Ministério Os contratempos da construção
do Planejamento, dos governos dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro.
A execução da obra da ponte sofreu diversos obstáculos, especialmente de
natureza técnica e jurídica, mas foi objeto de uma ação firme e autoritária do governo
O Estudo de Viabilidade federal, uma vez que correspondeu a um dos períodos mais duros da ditadura militar.
Em 1968, foi realizada a licitação para a construção da estrutura de concreto
O estudo de viabilidade foi promovido após a seleção internacional do con- armado. Foi vencida por um consórcio de empresas brasileiras, encabeçado pela
sórcio consultor. Duas firmas nacionais e duas firmas americanas foram escolhidas Companhia Construtora Brasileira de Estradas. Em segundo lugar foi escolhido outro
para a formação do consórcio. Howard Needles, Tammen&Bergendoff Inc., Wilbur consórcio nacional, liderado pela Construtora Camargo Correa, muito próxima das
Smith and Associetes Inc., Escritório de Engenharia Antônio Alves Noronha Ltda. e autoridades de Brasília. O prazo proposto era de 850 dias, inferior ao máximo previs-
Eletroprojetos – Consultores Técnicos. O contrato data de 17 de julho de 1967 e o to, satisfazendo uma das condições de viabilidade financeira da obra – era inferior
aos três anos correspondente a duração do empréstimo.
8. “(...) imprescindível sob muitos aspectos, inclusive militar, ligação esta prevista no Plano Nacional de Viação já apro-
vado pelo Senado e em tramitação na Câmara Federal e que tomará designação de BR-101”.(VON RANKE, Félix Ernest
– 1963).

48 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 49
No ano seguinte, foi lançada a licitação para a seleção de empresas inglesas
que deferiam realizar a superestrutura metálica das partes centrais, de acordo com
as condições do empréstimo. O controle técnico da obra foi confiado às empresas
que realizaram o projeto, empresas brasileiras especializadas e a uma comissão de
consultores para questões relacionadas à mecânica dos solos e fundações.
Os primeiros obstáculos surgem: atraso na liberação dos equipamentos im-
portados, defeitos técnicos exigindo o reforço de elementos estruturais e a substi-
tuição de outros elementos. Em consequência, a empresa responsável pelas obras
obtém uma prorrogação para 1070 dias e é autorizada a modificar a pressão ad-
missível para cada pilar, o que deveria ser confirmado pela realização de provas de
carga. No primeiro teste, um acidente mata mais de uma dezena de pessoas, enge-
nheiros e operários, o que cria um clima de desconfiança em relação aos aspectos
técnicos da obra. Aos problemas técnicos somam-se o descumprimento dos prazos
de execução dos trabalhos. O DNER tenta resolver a situação transferindo parte dos
trabalhos para outras empresas especializadas. O consórcio recusa essa solução e o
contrato é rompido unilateralmente, em dezembro de 1970. As obras são confiadas FIGURA 4 Situação atual da área da enseada. Fonte: Laboratório LDUB. Imagem elaborada por Gabriel Costa
com os dados levantados, com uso do Google, agosto de 2013
ao consórcio que ficou em segundo lugar, sem novo processo licitatório.9
A empresa desapropriada tornou-se uma empresa pública, ligada ao DNER século XX. Algumas hipóteses podem ser consideradas para essa aparente coinci-
e denominada “Empresa de Construção e Exploração da Ponte Presidente Costa e dência, a principal é a expulsão dos jesuítas do Brasil no final do século XVIII, ou
Silva” (ECEX), com o objetivo de realização e exploração da obra graças à cobrança ainda o abandono dos colonizadores portugueses do modelo de ocupação em áreas
de pedágio. elevadas. O que se observa é uma descida dos morros em favor das áreas planas no
O decreto presidencial de desapropriação (decreto n° 68 110 de 26/01/1971) século XIX, e podemos exemplificar com o papel relevante que a Praça XV tomou no
permitiu a continuidade das obras e previu seu final para o segundo semestre de Rio de Janeiro e da Praça. Araribóia em Niterói. A chegada da corte do Rei D. João VI
1973, mas as obras se estenderam até o início do ano de 1974, e a ponte foi inaugu- trouxe possivelmente outro modelo urbano que iria alimentar o traçado das cidades
rada em 4 de março deste mesmo ano. (FIGURA 4). no século XIX. A organização de alguns núcleos urbanos valorizaram localizações de
mais fácil acesso vinculadas diretamente a trocas comerciais mais sofisticadas, uma
vez que a economia local passava de uma categoria extrativista, como a exploração
Considerações finais
da madeira, para outro tipo de comércio baseado na produção agrícola.
Por outro lado, os gentios vão perdendo suas terras e se interiorizando. No caso
O texto foi desenvolvido no sentido de analisar o papel da enseada e do
exemplar de Niterói, as terras ganhas para constituir a aldeia, vão sendo transferidas ou
morro de São Lourenço, origem da cidade, lembrados especialmente pela sua re-
invadidas pelos europeus, especialmente as áreas litorâneas e planas, restando o morro
lação legendária com Niterói. A reflexão sobre o legado da aldeia indígena para a
de origem, de acesso mais difícil, para os moradores remanescentes. A área indígena
sua formação e a posterior reiteração da enseada de São Lourenço como porta de
neste final do século XIX estava distanciada do novo centro projetado para abrigar a Vila
entrada de Niterói, está ainda em curso.
Real da Praia Grande, que se firmou como centro da cidade e, com o passar do tempo
No que concerne ao morro de São Lourenço pode-se fazer um paralelo com
esse centro se confundiu com a própria cidade – ir a Niterói era sinônimo de ir ao centro.
o morro do Castelo no Rio também deixado abandonado e arrasado no início do
Quando a enseada foi escolhida para dar lugar ao aterrado do porto, a margem
9. O presidente Médici, conta o diálogo sobre o episódio: “Foi uma decisão pessoal, a obra demorava. As empresas já estava ocupada por casebres insalubres, como bem descreve o documento da Co-
construtoras estavam em situação insolvável. Chamei o Andreazza e disse: nós vamos retomar a obra, constituir uma
missão do Porto. Esse porto constituía uma promessa de reforma renovadora e revi-
empresa e terminá-la. Ele perguntou: Temos recursos? Eu respondi: eu posso. Eu tenho o decreto AI-5 na mão e com
ele posso fazer tudo. Se eu não posso, ninguém pode. Se nós não nos encarregássemos das obras da ponte, a questão talizadora da economia fluminense com seu traçado contemporâneo de forma radial
da insolvabilidade das antigas empresas teriam ido para os tribunais (...). O processo estaria ainda em curso, e a ponte
não existiria’’. (Veja, 16/05/1984).
concêntrica. O projeto inovador foi pouco ocupado restringindo-se a preencher a

50 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 51
avenida reta e diametral de ligação, a Avenida Feliciano Sodré, e a sua perpendicu- LIMA, Attilio Correa. Avant Projet d’Ámenagementet d’ Extension – Niterói au Brésil, IUUP, Paris,
lar Avenida Jansen de Melo, que constituíam os raios principais do desenho. Nessa 1932.
avenida principal em direção ao centro pode-se até hoje encontrar vestígios de ca- COSTA, Milena. Possibilidades e perspectivas de um espaço em transição: a área portuária de
sarões ecléticos, de elevado padrão construtivo, hoje ocupados por prestadores de Niterói e os vazios urbanos: Dissertação de mestrado. Niterói, 2010.
serviços variados. Esse projeto tinha como objetivo a criação de um setor dinâmico COTRIM, Álvaro. “Realização de um sonho centenário”, Jornal do Brasil, 3 de março de 1974,
de serviços, uma vez que o centro e os bairros como Icaraí e Fonseca já se distinguiam Caderno B.
por abrigar a classe média emergente. Constituindo uma área predominantemente DIRIGENTE CONSTRUTOR. “Os problemas da ligação Rio-Niterói vistos da ponte”. Volume XI –
pública não teve um plano urbanisticamente adequado para sua ocupação, e com a Nº 3, São Paulo, março de 1974.
perda do papel de capital da cidade as áreas tornaram-se mais ociosas. DNER – Departamento Nacional de Estradas e Rodagens. “Ponte Presidente Costa e Silva”.
Em 1974 chega à ponte superpondo-se com seus acessos em trevos e viadu- DNER, 1984.
tos, como centopeias viárias seccionam o antigo traçado radial, tornando o aterra- ENGENHARIA. “Rio-Niterói: Concluída a grande travessia”. Revista do Instituto de Engenharia,
do um local de passagem a grande velocidade e intensificando o papel da avenida nº 366, São Paulo, dezembro de 1973.
principal como corredor de ônibus, predominantemente intermunicipais, reiteran- FORTE, José Mattoso Maia,. Notas para a História de Niteroy, 1835 – 1935, Officinas Graphicas
do a pouca vocação da área para os planejados serviços públicos, e usos comercial do Diario Official, Niterói, 1935.
ou industrial. Mas, recentemente, parece que um novo papel lhe foi atribuído e o MARY, Cristina Pessanha. Porto de Niterói: uma promessa de autonomia: Tese de doutorado.
aterrado do porto começa a ser reutilizado como residencial para classe média (três Rio de Janeiro, UFRJ, 1988.
lançamentos imobiliários) e porto offshore de apoio à indústria da construção naval, MOREIRA, Alberto Lélio. “Considerações sobre a ligação Rio-Niterói”. Ciclo de Conferências
reabilitada para construir as plataformas petrolíferas, cuja utilização está se expan- promovido pela Divisão de Edifícios Públicos do D.A.S.P (Departamento Nacional de
dindo com a exploração do petróleo na costa norte fluminense. Esse movimento Imprensa), Rio de Janeiro, 1963.
recente não foi ainda capaz de resgatar a antiga enseada de São Lourenço de seu NEUWIED, Maximilien, Voyage au Brésil,dans les années 1815,1816,1817. Traduit de l’allemand
estatuto de periferia da área central, e certamente a sua valorização pode se dar par J.B. B. Eyriès, Tome Premier, Arthur Bertrand Libraire, Paris, 1821.
com amplos e substanciais estímulos públicos e investimentos privados. NITERÓI 400 ANOS. Revista Álbum. Rossijór Propaganda Ltda., Rio de Janeiro, 1973.
PREFEITURA MUNICIPAL DE NITERÓI. Programa Viva-Centro. Niterói, 2007.

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. Niterói Urbano: a construção do espaço da cidade. à faculdade de Arquitetura e urbanismo da Universidade de São Paulo, FAU-USP,
In: Cidade Múltipla: temas da história de Niterói. Organizadores: Ismênia de Lima 1986.
Martins e Paulo Knauss. Niterói, RJ: Niterói Livros, 1997. . Três momentos de um lugar: da enseada de São Lourenço à
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COMISSÃO CONSTRUTORA DO PORTO. Lembrança: a construção do porto de Niterói. Niterói, Engenharia, nº 319, Rio de janeiro, 1963.
1927.

52 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Marlice Nazareth Soares de Azevedo 53
Rio-Niterói: Do projeto de túnel à realidade da ponte. Revista do clube de Engenharia. Rio de
Janeiro. fevereiro de 1981, Edição especial. Memória e patrimônio na cidade:
o caso do Rio de Janeiro
SOUZA, Sérgio Marques de. “A ligação Rodoviária Rio – Niterói: uma solução racional, técnica e
econômica”. Revista do Clube de Engenharia, nº 374, julho/setembro, Rio de janeiro,
1965.
VERRY, Carlos. “Ponte Presidente Costa Silva: Extraordinário êxito da engenharia nacional”.
Revista do Clube de Engenharia, nº 392, janeiro/fevereiro, Rio de Janeiro, 1974.
Nireu Oliveira Cavalcanti
WEHRS, Carlos, Niterói, Cidade Sorriso, história de um lugar. Editora Vida Doméstica, Rio de
Janeiro, 1984.

Resumo | Iniciando com a imagem simbólica do bíblico Jardim do Éden, no qual a har-
monia entre o homem e a natureza era perfeita, buscamos verificar os momentos e ações
ocorridas na história da cidade do Rio de Janeiro que a fez afastar-se ou aproximar-se do
sonho de seu quadro paradisíaco. Vista sob perspectiva histórica, a cidade muito se trans-
formou em função de ações governamentais e da sociedade, desde sua fundação em 1565,
passando pelo período colonial, governos monárquico, imperial e republicano. De cons-
trução complexa, guarda importantes elementos da memória coletiva sob as mais diversas
representações. Teve seu belo patrimônio natural explorado por colonizadores europeus
que, entre conquistas de território aos índios e batalhas para a implantação da cidade por-
tuguesa assumiu configurações diferenciadas no meio construído e em sua relação com a
natureza, resultando na atual realidade de seus espaços públicos e privados. Este trajeto
a afasta daquela utopia em relação aos meios urbano e ambiental, ao passar por transfor-
mações fruto de uma sociedade de origem escravista, com privilegiamento de pequena
elite titulada, uma sociedade historicamente desigual, que foi composta por três principais
segmentos formadores – índios, negros e brancos de diferentes procedências. No decorrer
do século XIX, teve incentivada a imigração proveniente de outros países europeus, além
da de Portugal e países africanos, com o objetivo de se chegar ao “branqueamento” da
população e à substituição da mão de obra escrava e dos forros. Dos elementos que in-
fluenciaram transformações e morfologia da urbe, destacam-se as permanentes políticas
públicas excludentes, a desigual distribuição de renda e, em decorrência, uma população de
extrema pobreza, que se alojou precariamente em cortiços e favelas, ocupando as encostas
dos morros, margens de rios e lagoas, manguezais e áreas insalubres. Mesmo sob muitos
governos responsáveis por planos de ordenamento e contando com incalculáveis recursos
humanos, financeiros e técnicos, públicos e privados nela aplicados, o resultado não condiz
com o montante de investimentos, ações e obras realizadas. Hoje, o Rio de Janeiro tornou-
-se contraditório, com ilhas ambientalmente agradáveis ao viver humano, mas com espaços
fragmentados, desiguais, violentos e sumamente desconfortáveis. E é neste caleidoscópio
que se insere a questão do patrimônio histórico, artístico, arquitetônico, urbanístico, cultu-
ral, material e imaterial

54 Niterói e a enseada de São Lourenço como local estratégico Nireu Oliveira Cavalcanti 55
Abstract | Our text begins with the symbolic biblical image Garden of Eden, where har- cios públicos y privados. Este trayecto le aleja de la utopía en relación a los medios urbano
mony between man and Nature was perfect; in order to observe in which historical mo- y ambiental, al pasar por transformaciones fruto de una sociedad de origen esclavista, con
ments and actions the city of Rio de Janeiro came nearer or more distant from a dream of a privilegios de una pequeña elite titulada, una sociedad históricamente desigual, que estaba
heavenly harmony. The city is visualized, in this paper, through an historical approach, it’s compuesta por tres principales segmentos formadores – indios, negros y blancos de dife-
changes due to actions of government and society ever since it’s foundation in 1565, and rentes procedencias. Durante el siglo XIX, se incentivó la inmigración proveniente de otros
running through the colonial period, the years of monarchy, and the imperial and republi- países europeos, además de la de Portugal y países africanos, con el objetivo de conseguir
can periods. Its complexity involves important elements of collective memory integrated by un “blanqueamiento” de la población y de la substitución de la mano de obra esclava. De
a diversity of representations. los elementos que influenciaron las transformaciones y la morfología de la urbe, destacan
Rio de Janeiro had it’s beautiful natural patrimony explored by European colonists and the las permanentes políticas públicas excluyentes, la desigualdad en la distribución de renta
conquests of native territories and battles for the establishment of a Portuguese city result- y, como resultado, una población de extrema pobreza, que se alojó precariamente en “cor-
ed in different configurations of the built and natural environment, which explains today’s tiços” y “favelas”, ocupando las laderas de los montes, márgenes de ríos y lagos, manglares
reality of its public and private spaces. However, the historical course led the city farther e áreas insalubres. Incluso bajo muchos gobiernos responsables por planes de ordenación
away from the Garden of Eden utopia, the city evolution was the product of a slave-oriented y contando con incalculables recursos humanos, financieros y técnicos, públicos y privados
society that privileged the titled few, a historical unequal society, unjust, and structured by aplicados en ella, el resultado no coincide con el montante de las inversiones, acciones y
three main social groups: natives, black and white men from different origins. During the XIX obras realizadas. Hoy día, Rio de Janeiro se volvió contradictorio, con islas ambientalmente
the century, migration from other European countries was encouraged with the objective of agradables para la vida humana, pero con espacios fragmentados, desiguales, violentos y
“whitening” the population and in order to substitute the slave labor. sumamente incómodos. Y es en este caleidoscopio que se inserta la cuestión del patrimonio
histórico, artístico, arquitectónico, urbanístico, cultural, material e inmaterial.
Among the important factors that influenced the urban transformations, including changes
in the city’s morphology, were the permanent public policies of social exclusion and an
extremely unequal distribution of wealth. This resulted in a population of extreme poverty
that lodged precariously in favelas and low rent tenements occupying the hillsides, rivers
and lagoons banks, mangroves and unhealthy areas in general. Even under some Govern-
Começo este texto com citação de trecho da Bíblia, livro fonte de sabedoria e
ments responsible for urban plans and counting with a great amount of human, financial
sagrado para os colonizadores portugueses.
and technical, public and private resources applied in the city, the results obtained did not
match the amount of investments and actions made. So nowadays, the city of Rio de Janeiro 1o Dia – No princípio Deus criou os céus e a terra, porém estava informe
presents contradictory aspects, with pleasurable “islands” to live insided by fragmentary, vi- e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as
águas.
olent and extremely uncomfortable areas. It is in this kind of “kaleidoscope” that is inserted
Deus disse: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e
the theme of our historical, artistic, architectural and cultural patrimony. separou a luz das trevas.
Resumen | Iniciando con la imagen simbólica del bíblico Jardín del Edén, en el cual la har- 6o Dia – Deus disse: “Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie:
monía entre el hombre y la naturaleza era perfecta, buscamos verificar los momentos y ac- animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo a sua espécie.”
E assim se fez. Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e
ciones ocurridas en la historia de la ciudad de Rio de Janeiro que la hace alejarse o aproxi-
semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre os pássaros dos
marse del sueño de su cuadro paradisíaco. Vista bajo la perspectiva histórica, la ciudad se céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os
transformo mucho en función de acciones gubernamentales y de la sociedad, desde su répteis que se arrastam sobre a terra!”
fundación en 1565, pasando por un período colonial, gobierno monárquico, imperial y re-
publicano. De construcción compleja, guarda importantes elementos de la memoria colec- O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para que ele
tiva bajo las más diversas representaciones. Su bello patrimonio natural fue explorado por o cultivasse e o guardasse. Deu-lhe este preceito: “Podeis comer do fruto de todas
colonizadores europeos que, entre conquistas de territorio a los indios y batallas para la as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do
implantación de la ciudad portuguesa asumió configuraciones diferenciadas en el medio mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente.” (grifo meu)
construido y en su relación con la naturaleza, resultando en la realidad actual de sus espa- Para que o homem pudesse multiplicar-se, Deus criou a mulher, à sua semelhan-

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ça, e ofereceu o ambiente apropriado do jardim do Éden. Mas o casal não soube “reinar” A cidade “cercada de muros” reflete a visão de que o maior tesouro de uma
o jardim e comeu do fruto proibido. Deus então falou para o homem e sua mulher: sociedade deve ser protegido contra a ganância de outros seres humanos. Isso
porque os homens e mulheres se multiplicaram sem harmonia entre si.
“Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu
te havia proibido comer, a terra será maldita por tua causa. Tirarás dela
Bluteau, ao definir as premissas do viver do ser humano urbano “com socie-
com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te dade e subordinação”, nos oferece o caminho para entendermos o processo de for-
produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás erva da terra. Comerás o teu mação e transformação de uma cidade; buscando analisar que sociedade a formou
pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; e usufrui, as relações estabelecidas para o viver com urbanidade e as regras de su-
porque és pó, e em pó te hás de tornar.” bordinação vigentes e quem e como são cumpridas.
Podemos ainda, segundo Bluteau, dividir a cidade espacialmente em dois
A análise crítica deste trecho do livro do Gênesis poderá ser feita sob múlti- conjuntos: o dos espaços privados, formados pelo “amontoado de casas”, e os cole-
plos ângulos, até enfatizando suas contradições e preconceitos. Interesso-me aqui, tivos, ou públicos, pelas “ruas e praças”. Conjuntos indissociáveis para o sentido da
entretanto, pela constatação de que a Arquitetura se fez necessária para sanar os aglomeração urbana titulada como cidade.
problemas da perda do Éden – que era “uma arquitetura paisagística” de profunda O grau de equilíbrio e de harmonia entre esses dois conjuntos reflete a qua-
beleza – e, portanto, deve ser em sua essência, radical na busca da Utopia de regres- lidade estética, funcional, e espacial de cada cidade. Quanto mais ela for próxima à
so ao paraíso, de representação de sua essência ambiental, para que o homem e a utopia do Jardim do Éden, maior será a qualidade de vida da população e seu equi-
mulher possam “reinar” a terra com harmonia. líbrio com o meio ambiente.
A cidade, construção mais complexa e global da cultura humana, para que seja Quanto maior for a presença da história e da memória preservadas na cidade,
conceitualmente e espacialmente apropriada à vida de homens e mulheres, dos ani- maior será a identidade e viver de sua população “com sociedade e subordinação”.
mais da terra, dos peixes e das
aves, deve ser à imagem e se-
melhança do Jardim do Éden. A cidade do Rio de Janeiro
Isto porque, para o
equilíbrio do ser humano com O território em volta da Baía de Guanabara1 onde, em parte, situa-se a cidade
o universo em que vive, é ne- do Rio de Janeiro era dotado de extraordinária beleza natural, de terras férteis, de rios
cessário que tenha presente e riachos, de mar (da baía), de águas cristalinas e repletas de fauna variada e abun-
a energia das suas raízes e dante. Era, quase, a imagem do Jardim do Éden! Os homens e mulheres que viviam
consciência de seu espaço na nesse paraíso pertenciam a ramos da milenar família dos índios Tupis. Os grupos se
sociedade, e o respeito à natu- sucediam em função das lutas entre si. Ora eram os Temiminós, ora os Tupinambás.
reza e aos demais animais. Foi esse o belo patrimônio natural oferecido à exploração dos colonizado-
Daí a importância da res europeus.
cidade guardar elementos da A tribo que dominasse o território guanabarino tinha o privilégio de comer-
memória coletiva sob as mais ciar com os estrangeiros, principalmente franceses e portugueses, de quem, em
diversas representações – ma- troca de seus produtos coletados (pau-brasil, animais e pássaros, pimenta, goma
terial e ou imaterial. etc.), adquiriam objetos considerados exóticos e de grande aceitação ( espelhos,
Dom Raphael Bluteau, facas, facões, miçangas etc).
autor do primeiro dicionário enciclopédico a ser publicado em língua portuguesa Em abril de 1531, os indígenas comerciaram com a esquadra portuguesa
(1712-1725), define cidade como – “Multidão de casas, distribuídas em ruas e praças, comandada por Martim Afonso de Souza, auxiliado por seu irmão Pero Lopes de
cercada de muros, e habitadas de homens, que vivem com sociedade e subordi- Souza. Nessa oportunidade, foi permitido aos parceiros de negócios construírem
nação.“ (grifo meu)
1. Termo de origem indígena, goanã-pará ou guanã-mbará, designando “lagamar”, ou “seio semelhante ao mar”. SILVA,
1961, p. 51

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a primeira edificação com sistema construtivo desconhecido pelos indígenas: uma personagens dignos de serem preservados em sua memória: desde a paisagem na-
casa de pedra! Casa que, ao contrário da oca indígena, tinha parede (elemento des- tural e os primeiros sítios (na Urca, chamado de Cidade Velha – a Casa de Pedra-,
conhecido por eles, ao ponto de sua língua não conter a palavra referente), porta e o sítio e núcleo da Cidade Nova, no alto do morro, depois nomeado de Castelo,
janelas. Situava-se no sopé do morro hoje conhecido como da Viúva, no bairro do erigida em 1o de março de 1567) até o guerreiro Araribóia, considerado o funda-
Flamengo. Próximo, desembocava no mar o riacho de águas cristalinas que veio a dor da cidade de Niterói, e as águas e percurso do rio Carioca, origem gentílica de
se chamar Carioca. quem nasce na cidade, empregado pelos indígenas para designar “casa ou viveiro
Sinal de que aquele território seria o adotado quando da implantação da dos acaris” (acary-oca) 2.
cidade portuguesa na região.
Em 10 de novembro de 1555, chegou a esquadra francesa, comandada por
Nicolas Durand du Villegaignon, a fim de estabelecer uma cidade na Guanabara,
A questão das terras públicas e a
apoiado por seus aliados índios Tupinambás. Sonho que foi quase desbaratado especulação imobiliária
cinco anos após pelas forças portuguesas comandadas pelo governador-geral do
Brasil, Mem de Sá. Quase, porque alguns franceses e índios conseguiram fugir e se Estácio de Sá, ao fundar a cidade, destinou-lhe a sesmaria pública para admi-
reorganizaram logo após a retirada da esquadra lusa. nistração pela Câmara de Vereadores, a ser demarcada a partir e tendo como centro
Passaram-se mais cinco anos de domínio francês-tupinambá da Baía de Guana- a Casa de Pedra, construída em 1531. Nesse terreno público os vereadores deveriam
bara. Até que chegou nova esquadra luso-brasileira-temiminó, sob a direção do capi- destinar os rocios (para pastagens dos animais ), os lotes urbanos para as casas e
tão-mor Estácio de Sá, objetivando, além da expulsão dos invasores, fundar uma cidade. os sítios para agricultura e criatório, e arrendá-los para, com o seu rendimento, a
Os guerreiros temiminós eram comandados pelo cacique Araribóia, e vinham Câmara obter receita para administrar a cidade. Sobre as terras públicas dessa ses-
retomar o território guanabarino, dele expulsos pelos seus inimigos históricos, os maria, a administração municipal abriria as “ruas e praças” visando o embelezamen-
tupinambás. to, a funcionalidade, a comodidade e grandeza do Rio de Janeiro.
Estácio de Sá, provisoriamente, edificou a cidadela fortificada em estreita Inexplicavelmente, quando da realização da primeira medição das terras pú-
faixa de praia situada no sopé do morro Cara de Cão, no atual bairro da Urca. Cidade blicas, iniciada em 25 de maio de 16673 os vereadores e demais autoridades cons-
criada por decreto, em 1o de março de 1565, sem “ruas e praças”, sob o nome de São tataram que as dimensões e forma do território público haviam diminuído. Grande
Sebastião do Rio de Janeiro. área estava de posse da Companhia de Jesus e a área mais densa da cidade, inclusive
Após dois anos de violentos combates entre os grupos, na batalha de con- o morro do Castelo, pertencia a famílias importantes e a diversas ordens religio-
quista da fortificação francesa de Uruçumirim, situada no alto do morro conhecido sas como a dos beneditinos, dos franciscanos, jesuítas etc. Assim, para intervir na
hoje como da Glória, os portugueses e aliados foram vencedores, com o alto preço cidade, a Câmara teria que indenizar os proprietários dos imóveis quanto ao valor
da perda do fundador da cidade, Estácio de Sá. do terreno e as suas benfeitorias.
Mem de Sá e os “homens bons” decidiram que o núcleo provisório deveria Mesmo o terreno que sobrou da área da sesmaria de Estácio de Sá, foi afora-
ser localizado em outro sítio, que fosse estratégico para a sua defesa. Escolheram do a preços irrisórios pela Câmara de vereadores a seus apaniguados, que, por sua
um morro coberto de mata que do seu topo daria visão completa de embarcações vez, arrendavam pequenas parcelas de suas chácaras e sítios a terceiros, cobrando-
que se aproximassem da entrada da Baía de Guanabara. Entretanto este sítio apre- -lhes aluguéis altíssimos. O território da cidade do Rio de Janeiro tornou-se lucrati-
sentou alguns problemas para os primeiros habitantes: no alto do morro não tinha va mercadoria nas mãos dos proprietários titulados e dos arrendatários do poder
fonte de água potável abundante; o platô para crescimento da cidade era reduzido; público municipal. Essa mentalidade mercantilista sobre a terra urbana gerou sérios
a várzea em volta era baixa em relação ao nível do mar, dificultando o escoamento problemas de controle e planejamento da cidade.
das águas pluviais, era tomada de charcos, de lagoas e o solo muito úmido e de Para a construção da Catedral da Sé, obrigação real, o governador Gomes
difícil absorção das águas superficiais. Além de haver, na região do saco formado Freire de Andrada descartou localizá-la na área mais central da cidade, em função
pelo mar adentrando no território e pelos vários rios que nele desembocavam, um
extenso manguezal. 2. Também “caray-oca ou caraib-oca, expressando residência ou casa do branco, do cristão, dos astutos, do senhor, dos
mandões”. (SILVA, 1961, p. 43)
Contudo, a cidade do Rio de Janeiro nasceu com vários marcos, histórias e
3. Apesar da provisão real ser de 7 de janeiro de 1643),

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do valor altíssimo cobrado pelos proprietários. Optou por uma área fora da muralha, Os três principais segmentos formadores da
por ser terreno compreendido no interior das terras públicas, e que se encontrava
sociedade brasileira
sem arrendamento.
Quando da expulsão dos jesuítas do reino de Portugal, em 1759, os seus imó- Os índios
veis passaram ao patrimônio da Coroa. Os bens mais urbanos compreendiam quase
uma centena de prédios na área central da cidade, uma imensa fazenda que com- Os índios que habitavam a região do atual estado do Rio de Janeiro tiveram
preendia os atuais bairros do Rio Comprido (parte), São Cristóvão, Vila Isabel, Tijuca, dois tratamentos pelos colonizadores luso-brasileiros: os considerados inimigos,
Grajaú, Engenho Novo, Méier e outros. A opção da Coroa foi leiloar os prédios urba- foram escravizados, expulsos ou dizimados; os amigo, batizados e com outro nome,
nos e parcelas da fazenda a preços abaixo do mercado, ao invés de repassá-los ao aldeados em núcleos de morfologia arquitetônica semelhantes aos dos dominado-
poder municipal. Privatizou o território público e comprometeu o planejamento do res e sob administração de ordens religiosas e de funcionários do governo. Os que
crescimento da cidade no sentido Oeste e Norte, sem necessidade de investimentos não se diluíram na sociedade dos brancos (por casamento, por exemplo) mantive-
altíssimos pelo Erário... ram -se unidos em grupos tribais, receberam terras, (caso da aldeia de Araribóia), e
foram aquinhoados com áreas semelhantes às dadas aos brancos para abrir enge-
nhos de açúcar, por exemplo.
A sociedade e os sistemas de governo Como os índios não possuíam recursos, não tinham perspectivas ou conhe-
cimentos técnico-administrativos para serem senhores de engenho, utilizaram suas
Todas as pessoas que moravam na colônia brasileira faziam parte da cate- terras, parte para plantio de roças de subsistência, e parte para aforamento a tercei-
goria dos súditos do monarca português. Havia alguns poucos estrangeiros (todo ros em busca de alguma renda fixa. Os homens foram trabalhar como assalariados
aquele que não fosse de origem portuguesa ou naturalizado), protegidos por trata- nas obras públicas, e as mulheres dedicaram-se à produção de cerâmica utilitária
dos internacionais entre Portugal e países eventualmente amigos, geralmente a In- e de objetos de palha ou de tecido grosseiro na confecção de redes. Essa pequena
glaterra, Holanda e Espanha. Era permitido, por lei, a permanência de apenas quatro produção artesanal era vendida nas feiras da cidade, povoados e vilas. A maioria das
famílias de cada país conveniado, em cada capitania do Brasil. Portanto, esses es- aldeias terminou em estado de penúria total e os seus ex-moradores, sem as terras
trangeiros pouco podiam influenciar a sociedade colonial brasileira. de sua sesmaria e espalhados como serviçais nas casas da cidade do Rio de Janeiro,
Esses súditos pertenciam a dois blocos desiguais numericamente: uma mino- ou nas fazendas do interior, como se deu com a aldeia de São Lourenço, dos descen-
ria formada de fidalgos, nobres e pessoas privilegiadas com altos cargos na adminis- dentes dos índios Temiminós, do bravo cacique Araribóia (Martim Afonso de Souza).
tração pública, as representações locais nas Câmaras de Vereadores (privilégio dos A partir do final do século XVII foram estabelecidas leis protetoras dos índios
“homens bons”), os altos postos da hierarquia militar e eclesiástica e o domínio dos proibindo sua escravidão, exceção para os aprisionados em guerras.
meios de produção e comercial.
Entretanto, a grande maioria dessa sociedade, era constituída pelos plebeus. Os negros
Estes, por sua vez, eram divididos entre os livres (os que nunca foram escravos), e os
forros, isto é, os ex-escravos e a imensa população escrava. Os negros, oriundos do mercado escravo da África, foram inseridos no nível
Portanto, uma sociedade de origem escravista, excludente, de privilegiamen- mais inferior da sociedade, com violenta desagregação de suas relações familiares,
to aos membros da pequena elite titulada e, historicamente, distribuidora de forma culturais e sociais, e transformados num novo ser: batizados, com nome português,
desigual da renda produzida por todos. situados em lugar estranho sob o poder do seu senhor, a quem deveriam servir (até
O sistema colonial, gerido centralmente pelo governo monárquico, na Corte seus descendentes) enquanto fossem escravos, e que constituía a sua via de relação
de Lisboa, manteve-se até a sua transferência para a cidade do Rio de Janeiro, e o e inserção na sociedade. A escravidão no Brasil só veio a ser extinta, tardiamente, em
príncipe regente Dom João, promulgar a Carta de Lei (16.12.1815) elevando o Estado 13 de maio de 1888.
do Brasil ao nível e categoria de Reino unido ao de Portugal.
A partir daí, o sistema monárquico-imperial desenvolveu-se no país até ser
eliminado com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

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Os demais sabrigados se alojassem precariamente em cortiços ou ocupassem as encostas dos
morros, as margens de rios e lagoas, os manguezais e áreas insalubres e doentias
Os demais segmentos formadores da sociedade nascente eram compostos como antigos aterros sanitários e charcos originando favelas. Estas representam
de portugueses oriundos do Reino, ou que já habitavam outra capitania brasileira, hoje, na cidade, mais de um milhão e 100 mil pessoas vivendo nas centenas de fave-
os nascidos aqui, descendentes de portugueses, com ou sem mistura com índios las registradas pela Prefeitura. Cerca de 20% do total de sua população.
(aceito pela sociedade) ou com negros, os chamados mulatos, pardos, e cabras.
No decorrer do século XIX, foi incentivada a imigração de outros países eu-
ropeus, além de Portugal, com objetivo de “branqueamento” da população e de Elementos influenciadores das transformações e
substituição da mão-de-obra escrava e dos forros. morfologia da cidade
Além do crescimento populacional de caráter endógeno, a cidade abrigou
parte significativa desses imigrantes, a qual lhe foi acrescida levas de deserdados do Neste ítem, optamos por fazer uma sintética listagem cronológica dos princi-
campo e de cidades interioranas. O fim do regime escravista (1888) veio sem que o pais elementos que, ao nosso ver, contribuíram para a formação da cidade.
governo implantasse programas de inserção desses forros no mercado de trabalho,
de educação, habitação e preparação da sociedade em geral para aceitação dessa Da fundação à chegada do governo monárquico na cidade (1565-
ruptura, gerando grande contingente de excluídos, embora livres.
1808)
As permanentes políticas públicas excludentes e de má distribuição de renda,
acopladas à reduzida oferta de postos de trabalho, com alta parcela de pobres e 1. A ocupação por ordens religiosas e da igreja secular, além do morro do Cas-
abandonados à própria sorte, levou, entre outros fatores, a que essas levas de de- telo, dos outros três morros formadores dos vértices do retângulo da área central da
cidade: os beneditinos (1590) no Morro
de São Bento; os franciscanos (1608)
no morro de Santo Antônio, e a capela
de Nossa Senhora da Conceição (1665)
depois transformada no palácio do
Bispo (1706), além de uma fortaleza,
no morro da Conceição. Unindo esses
quatro pólos, formaram-se ruas im-
portantes como as atuais: Primeiro de
Março, Quitanda, Uruguaiana, Acre,
São José, Assembléia, Teófilo Otoni etc.
Esse perímetro tornou-se o núcleo cen-
tral na cidade colonial.
2. A criação da Aula de Fortifi-
cações (1699), núcleo gerador de pro-
fissionais competentes nas áreas de
Arquitetura Militar e Civil. Essa Escola
funcionou ininterruptamente até se
transformar na atual Escola de Enge-
nharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao longo de sua história dividiu
–se em escola militar e civil. Foram os engenheiros militares e arquitetos os dese-
nhadores e construtores das edificações, vilas e cidades no Brasil colonial.

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3. As invasões francesas: a) a de 1710, comandada por Jean François Duclerc, Séculos XIX e XX
que gerou um sentimento de orgulho nas autoridades e população local, pela co-
ragem de seu povo e eficiência de suas fortificações; b) a vitoriosa invasão de 1711, 1. A transferência da sede da monarquia portuguesa para a cidade do Rio de
sob o comando de René Duguay-Trouin, que destruiu parte da cidade com o intenso Janeiro foi o mais importante fato ocorrido no século XIX, para o Brasil e, especialmen-
bombardeio e os focos de incêndios, o saque das lojas, moradias, igrejas, navios te, para a sua antiga capital. Os portos brasileiros foram abertos a outros países (antes
e até a destruição de arquivos religiosos e públicos. Acima de tudo, o alto preço restrito a Portugal), ao comércio, a troca cultural, a vinda de estrangeiros. Foram sus-
que foi pago aos invasores para o resgate da cidade, e o dispêndio de particulares tadas as leis coloniais que proibiam a existência de fábricas no Brasil, de gráficas, de
para reaverem seus pertences. A cidade do Rio de Janeiro foi vítima de uma tragé- imprensa e de práticas religiosas diferentes da católica. São muitas as transformações
dia moral, patrimonial, financeira e de esgarçamento das relações entre os grupos políticas, econômicas, culturais e sociais advindas dessa presença na cidade.
sociais com acusações de traição, covardia, etc, e destes com os governantes e o 2. A fundação da Real Academia de Belas Artes, compreendendo curso formal
comando militar. Em consequência dessa violência, o governo construiu uma mu- de Arquitetura Civil, sob a responsabilidade do grupo de professores franceses que
ralha unindo o Morro do Castelo ao de Nossa Senhora da Conceição. Muralha que chegou em 1816.
representou um retrocesso urbanístico para a cidade e um entrave à sua expansão. 3. A localização de atividades e palácios na região suburbana da cidade, le-
4. A construção pela administração pública do sistema de abastecimento de vando-a a crescer e se desenvolver para além do seu antigo núcleo central: o Jardim
água potável, coletando-a na nascente do rio Carioca, levando-a por dutos pelo alto Botânico e a fábrica de Pólvora, na Zona Sul, o real palácio residencial da Quinta da
do morro de Santa Teresa e através de belo aqueduto construído em pedra, até um Boa Vista, em São Cristóvão, na Zona Norte e a sede do palácio rural, no longínquo
chafariz no atual largo da Carioca, inaugurado em 1723. subúrbio de Santa Cruz na Zona Oeste,.
5. O deslocamento do comércio negreiro da área central da cidade para a região 4. A volta, do rei Dom João VI para Portugal (1821) ficando na regência do
do Valongo, parte do seu arrabalde, a partir de 1758. Iniciativa da Câmara de Vereado- Reino do Brasil seu filho Dom Pedro. Coube a ele proclamar a independência do
res respaldada no parecer de médicos e cirurgiões recomendando a transferência para Brasil do reino de Portugal, em 1822, e assumir como imperador Dom Pedro I. A
evitar o surto de epidemias originário dos pretos novos que chegavam doentes. Além cidade do Rio de Janeiro passou a ser sede de um novo império.
disso, representou o princípio da hierarquia dos espaços da cidade, estabelecendo, os 5. A posse do imperador Dom Pedro II, em 1841, iniciou a sequência de gover-
vereadores, quais os tipos de comércio compatíveis com a zona urbana. nantes nascidos no país. Seu longo governo e o sistema imperial foram extintos, em
6. A elevação da cidade do Rio de Janeiro à categoria de capital do Brasil 15 de novembro de 1889, com a Proclamação da República.
e sede do vice-reinado, em 1763. Esse novo status representou a vinda de maior
6. A implantação do sistema ferroviário no Brasil, iniciado em 1853, com a
número de altos funcionários da monarquia, aumento da força militar, a necessi-
inauguração da Estrada de Ferro Mauá (ligando o porto de Mauá à Raiz da Serra, na
dade de novos prédios públicos e de moradia para as pessoas chegadas. Além de
baixada fluminense) e, em seguida, a Estrada de Ferro D. Pedro II (atual Central do
maior representatividade política na estrutura colonial.
Brasil), inaugurado o primeiro trecho (Campo de Santana, no centro da cidade, até
7. A construção do complexo urbanístico e paisagístico do Passeio Público,
Belém, em Queimados) em novembro de 1858. Além das grandes transformações
primeiro do gênero no Brasil, pelo vice-rei Dom Luiz de Vasconcelos, inaugurado em
urbanas na área central da cidade, as zonas suburbanas servidas pela linha férrea
1783. Primeira obra pública de caráter estético urbanístico e com o objetivo de cria-
foram ocupadas densamente por moradias, comércio, indústria etc., espraiando a
ção de nova centralidade na cidade e sua expansão para a direção Sul do território.
malha urbana pelo território municipal.
8. A urbanização da antiga chácara da família Paes Leme, pelo vice-rei conde
7. A criação de redes de transporte público urbano, inicialmente de bonde
de Resende (1790-1801), a partir de 1796, gerando área projetada para expansão do
puxado por animais, iniciado em 1838, ligando o centro da cidade aos subúrbios de
núcleo urbano. Atuais ruas do Lavradio, Resende, Senado, Inválidos etc.
Laranjeiras, Botafogo, na Zona Sul e Rio Comprido, São Cristóvão, Tijuca e Engenho
9. A instalação do sistema de iluminação pública (lampiões a base de azeite
Velho, na Zona Norte; depois sobre trilhos, e em 1878, substituídos os animais, por
de peixe), pelo mesmo Conde de Resende, nos principais logradouros da cidade.
força mecânica a vapor. Os percursos tornaram-se mais longos e rápidos. No final
do século, o sistema elétrico foi instalado em todas as linhas e levado até a zona de
Copacabana, graças ao túnel aberto dando acesso à região. A partir daí, toda a orla

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marítima, do Leme ao Leblon, foi ocupada gerando novos bairros residenciais para para proteção do patrimônio da cidade tem sido mais abrangente do que as demais
a cidade do Rio de Janeiro. congêneres, pois tem protegido, através do instrumento da Área de Proteção Cultu-
8. A implantação dos diversos serviços de infra-estrutura urbana como: ilu- ral – APAC, ambientes urbanos de morfologia e tipologia arquitetônica mais simples.
minação pública a gás (a partir de 1854), substituindo a de azeite de peixe, depois a 12. A perda do status de capital do Brasil para Brasília (inaugurada em
elétrica (a partir de 1879); a rede de água potável domiciliar (a partir de 1876); a rede 21.04.1960), no estado de Goiás, acarretando esvaziamento, em parte, de setores
de telefone (a partir de 1877); a rede de esgotamento sanitário (a partir de 1886). políticos, econômicos e culturais da cidade.
9. A Proclamação da República (1889), modificou a administração municipal. 13. A inauguração da primeira linha do metrô carioca, em 5 de março de 1979,
Antes cabia à Câmara de Vereadores o papel de legislativo e executivo. Sistema veio mudar o sistema de transporte coletivo então vigente, melhorando os serviços
mudado para dois poderes: o executivo, sob responsabilidade de um prefeito, e o le- e o fluxo de veículos na cidade.
gislativo, que continuou sob responsabilidade dos vereadores. O prefeito da cidade 14. O re-surgimento das organizações sociais urbanas, a partir da década
passou a ser nomeado diretamente pelo presidente da República, até a transferên- de 1970, principalmente as associações de moradores, sejam de favelas, sejam da
cia da capital brasileira para Brasília, ocasião em que o município passou a Cidade- cidade formal. Essas entidades da sociedade civil exerceram e ainda exercem em
-Estado e o governador eleito, em 1960. A fusão do Estado do Rio de Janeiro com muitos bairros da cidade importante papel na preservação do patrimônio local e
o da Guanabara (Lei de 1o de julho de 1974) fez com que a cidade do Rio de Janeiro reivindicatório de melhorias de seus bairros, e do bom atendimento dos serviços
voltasse ser a capital do estado e os seus prefeitos nomeados pelo governador. Só públicos essenciais como educação, saúde e lazer.
após o processo de abertura do Regime Militar (Lei da Anistia de 28 de agosto de 15. O surgimento dos movimentos ecológicos, a partir da década de 1960, em
1979) é que o governante municipal passa a ser eleito diretamente por voto univer- defesa da qualidade ambiental e proteção do meio ambiente natural, dos rios e baía
sal. O primeiro prefeito eleito tomou posse em 1o de janeiro de 1986. de Guanabara, do mar e praias da orla municipal e de sítios que ainda guardam re-
10. A regulamentação e criação de conselho profissional abrigando arquite- servas de manguezais, de floresta atlântica, sambaquis, de exemplares significativos
tos, engenheiros, geógrafos e técnicos, em 1933. Este conselho passou a o exercício de árvores, mesmo isolados numa rua ou no interior de um terreno.
profissional de seus filiados e a exigir que os projetos e obras de suas áreas fossem de 16. O crescimento assustador da violência em todos os níveis na cidade, pro-
responsabilidade desses profissionais formados. Isto, sem dúvida, melhorou o nível vocando transformações na sociabilidade urbana, e mudança dos hábitos da po-
técnico e estético dos imóveis urbanos, dos equipamentos e logradouros públicos. pulação no uso dos espaços públicos. Imóveis nas circunvizinhanças dos núcleos
11. A criação dos órgãos públicos voltados para a proteção do patrimônio geradores de violência foram desvalorizados, muitos receberam gradeamento e
arquitetônico, urbano, histórico, artístico, arqueológico e, cultural, sendo o primei- instalações de equipamentos de segurança, proliferaram empresas paramilitares
ro, a nível federal, em 1934:o Serviço de Proteção aos Monumentos Nacionais e às de segurança e houve aumento de fechamento de ruas públicas pelos moradores
Obras de Arte Tradicionais, embrião do atual IPHAN. O segundo órgão foi o Instituto locais, de construção de cabines e outros equipamentos ao longo de logradouros
estadual do Patrimônio Cultural – Inepac, que se iniciou como secretaria do antigo públicos, como paliativos ao grave problema que vitima as cidades brasileiras.
estado da Guanabara. Por fim, a Prefeitura do Rio de Janeiro criou o Departamento Muitos outros fatores, não citados, são importantes para entendermos como
Geral de Patrimônio Cultural – DGPC, e que recentemente (6 de março de 2006), chegou, hoje configurada, a cidade do Rio de Janeiro, mas nos parecem suficientes
foi elevado à Secretaria Extraordinária de Promoção, Defesa, Desenvolvimento e para a dimensão deste trabalho os destacados. Todos são geradores de elementos
Revitalização do Patrimônio e História-Cultural da Cidade do Rio de Janeiro – SE- que podem representar momentos e imagens da memória e patrimônio da cidade.
DREPAHC. Inúmeras leis foram estabelecidas visando operacionalizar os institutos
de tombamento, preservação e registro do nosso patrimônio. Tem sido meritório
o trabalho sistemático desses órgãos na preservação de nossa memória artística,
Planos e ações, públicas e privadas que influenciaram
histórica e cultural. Entretanto, os pioneiros profissionais que trabalhavam no IPHAN a “Cara do Rio”
negavam aprioristicamente qualidade da arquitetura, objetos e outras produções
Se o bloco anterior já foi difícil de sintetizar, este será mais desafiante, por sua
da linguagem eclética e não protegeram conjuntos belíssimos como os prédios e
variedade, especificidade, dimensão física e cultural. Tentaremos enfrentar o desafio.
equipamentos públicos da Avenida Rio Branco. Em menos de 50 anos, grande parte
desse acervo foi demolido pelos empreendedores imobiliários. A política municipal

68 Memória e patrimônio na cidade: o caso do Rio de Janeiro Nireu Oliveira Cavalcanti 69


1. O plano de fortificações da cidade e baía de Guanabara, considerado aqui a 8. A gestão do prefeito Henrique de Toledo Dodsworth (1937-1945) foi
partir de sua fundação, em 1565. Situados em lugares estratégicos para visibilidade também marcante na cidade do Rio de Janeiro. Destacamos a abertura da Avenida
dos inimigos marcaram a paisagem da cidade do Rio de Janeiro, tanto a voltada para Brasil (1941-1944), primeira via planejada com a função viária e estética de entrada e
o oceano, quanto para a baía, de tal forma a ela vinculada que é impossível apreciá- saída da cidade. Sua obra mais marcante e que interferiu na morfologia e memória
-la separada dessas belas obras de engenharia militar. Por sinal, são todas tombadas da área central da cidade foi a abertura da Avenida Presidente Vargas (1940-1944), a
por um ou mais órgão de proteção do patrimônio. Os fortes e fortalezas construídos mais larga e moderna da cidade, que deveria representar o símbolo da modernida-
no interior continental, também são de rara beleza, como o forte de São Clemente de do Estado Novo. A memória da cidade pagou alto preço com essa avenida: foram
e o de Campinhos. Infelizmente, o primeiro foi demolido e o segundo está sendo arrasados os largos do Capim e o de São Domingos, a Praça Onze, amputada parte
palco de aguerrida luta dos preservadores contra sua demolição e uso do terreno do Campo de Santana; demolidas quatro igrejas, centenas de prédios particulares
para empreendimento imobiliário. e até a sede da própria Prefeitura. Até o presente momento, a Avenida está incon-
2. O Plano de “Remodelação do Rio de Janeiro” realizado, pioneiramente, em clusa, com terrenos abandonados e outros usados como estacionamentos. Aliás,
1843, pelo engenheiro militar conde Henrique de Beaurepaire Rohan. Foi executado com a mesma finalidade de estacionamento, encontra-se um terreno na Avenida
parte do plano. Passos, que antes abrigara a sede da antiga Academia de Belas Artes (inaugurado
3. O Plano da “Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro”, de em 05.11.1826), projetado por Grandjean de Montigny, demolido em 1938.
1875. Foi executado parte do plano. 9. A urbanização da antiga área da Misericórdia, com a demolição de várias
4. A criação do bairro de Vila Isabel, a partir de 1873, planejado segundo as edificações históricas, inclusive o belo mercado em estrutura metálica, e a cons-
regras do urbanismo moderno de influência francesa, inclusive com a novidade da trução do elevado da Perimetral, inaugurado o seu primeiro trecho em 1960. Esta
avenida boulevard. Dotado de linha de bonde unindo o novo bairro ao centro da desastrada reurbanização danificou o espaço simbólico, histórico e da memória do
cidade, de jardim zoológico e de praças. Projeto do arquiteto Francisco Joaquim núcleo central da cidade: a Praça Quinze.
Bethencourt da Silva. 10. O período da Cidade-Estado da Guanabara (1960-1975) trouxe muitas ini-
5. A administração do prefeito Francisco Pereira Passos (1902-1906). Transfor- ciativas governamentais importantes para a cidade: a) a troca de bondes por ônibus
mou a cidade, abriu novas ruas e avenidas (Beira-Mar, Central, atual Rio Branco, Fran- elétricos, mais silenciosos e não poluentes; b) a conclusão da abertura dos túneis
cisco Bicalho, Rodrigues Alves, Mem de Sá, Salvador de Sá etc.), alargou e prolongou Santa Bárbara e Rebouças; c) a implantação de política habitacional para a popula-
muitas outras, remodelou praças, canalizou rios etc. Foi construído um novo porto ção residente em favelas, prioritariamente, com a vertente da remoção da popula-
sobre o aterro de parte significativa da baía, alterando radicalmente o antigo perfil ção para os subúrbios das Zonas Oeste e Norte; d) a conclusão do aterro da baía ao
da orla da área central, principalmente da região no sopé do morro da Conceição, longo das praias do Boqueirão, no centro da cidade, até o morro da Viúva, na divisa
dos bairros de Santo Cristo, da Saúde e da Gamboa. A cidade do Rio de Janeiro, após com a praia de Botafogo, implantando na área o belíssimo e vasto parque conhecido
as cirurgias passorianas dividiu-se em duas: a da malha urbana e tipologia arquite- como do Flamengo; e) a contratação do escritório do urbanista grego Constantinos
tônica de origem colonial e imperial, e a do urbanismo moderno de inspiração na Apostolos Doxiadis, que elaborou um Plano Diretor para o então Estado da Guana-
administração haussmanneana de Paris. bara (1963-1965), com participação de técnicos do governo, trazendo novas tecno-
6. A derrubada do morro do Castelo (1920-1922), marco territorial e histórico logias de planejamento e o conceito de ampliação da ação sobre a cidade inserida
da memória da origem da cidade, paradoxalmente para comemorar a “memória” do no contexto da Região Metropolitana, tendo algumas de suas propostas realizadas,
centenário da Independência do Brasil. Foi esta ação governamental a mais perni- principalmente as voltadas para o sistema viário; f) o “Plano-Piloto para a urbani-
ciosa contra o patrimônio da cidade do Rio de Janeiro. zação da baixada compreendida entre a Barra da Tijuca, o Pontal de Sernambetiba
e Jacarepaguá” do arquiteto Lucio Costa, elaborado em 1969, no qual propõe uma
7. O plano de “Remodelação, Extensão e Embelezamento da Cidade do Rio de
nova cidade para o Rio de Janeiro, dotada de novo Centro Metropolitano, voltada
Janeiro”, encomendado pelo prefeito Antonio Prado Junior (1926-1930), ao arquiteto
para as classes média e rica da sociedade, que se desloca em veículo particular. O
e urbanista francês Alfred Agache. Plano Diretor para o planejamento da cidade com
Plano não previa sistema de transporte coletivo, rede de coleta de esgoto (caberia a
propostas de ações imediatas, de médio e longo prazos. O Plano propõe a ocupação da
cada promotor imobiliário realizar estações próprias a cada empreendimento), nem
grande área resultante da demolição do morro do Castelo, existindo até hoje alguns dos
habitação para os mais pobres que trabalhariam na nova cidade. Menos de 50 anos
prédios construídos dentro dessas normas. Pouco foi realizado dessa proposta.

70 Memória e patrimônio na cidade: o caso do Rio de Janeiro Nireu Oliveira Cavalcanti 71


após, o Eldorado que os investidores imobiliários da Barra da Tijuca anunciavam aos e espírito carioca e do esporte brasileiro; e) o Museu de Arte Moderna (1953-1958);
compradores de seus imóveis mostra-se como imagem espelhada da velha cidade, f) o Teleférico do Pão de Açúcar (1912-1913), no bairro da Urca, e o monumento ao
as lagoas e trechos das praias poluídos, os mangues e a vegetação nativa deterio- Cristo Redentor (1924-1931), no alto do morro do Corcovado, são dois exemplares
rados. As favelas se espalham pela região e sua população pobre continua a sofrer que interferiram na silhueta das montanhas da cidade, mas que se integraram ma-
a histórica exclusão do poder público, sem se beneficiar dos investimentos volta- gistralmente à sua paisagem, hoje dela são indissociáveis, e existem como pontos
dos aos grandes empreendimentos para a região, por exemplo, na construção da focais para apreciação emocionada do conjunto natureza cidade do Rio de Janeiro.
“Cidade da Música” e para os Jogos Pan Americanos.
11. A criação do Banco Nacional de Habitação – BNH, que atuou por 20 anos
(1964-1984) e deixou marcas significativas na cidade com seus conjuntos habitacio-
Inquietações finais
nais, compostos de unidades unifamiliares, de um ou dois pavimentos, ou blocos de
edifícios multifamiliares. A cidade do Rio de Janeiro, ao
longo de seus anos de existência, as-
12. Os planos realizados em 1977: o “Plano Urbanístico Básico da Cidade do
sumiu sempre papel relevante político,
Rio de Janeiro – Pub-Rio“, de caráter geral para a cidade, e o Pit-Metrô com ênfase
econômico e cultural no país. Nasceu
no transporte metropolitano. Pouco se realizou desses dois planos.
predestinada a ser capital, a ser cosmo-
13. O programa de proteção do patrimônio e revitalização da área central
polita. Sucessivamente foi sede: a) da
da cidade denominado “Corredor Cultural”, iniciado em 1979, mas regulamentado
nascente capitania do Rio de Janeiro; b)
em 17.01.1984. Tem sido um instrumento eficaz na proteção do vasto patrimônio do
do governo geral da repartição Sul do Brasil; c) volta ao seu primeiro status de sede
ecletismo carioca.
da capitania; d) capital do Brasil (1763-1808) colônia; e) Corte do Reino de Portugal
14. A promulgação da Lei Orgânica do Município (1990) estabelecendo meca- (1808-1816); f) capital do Brasil imperial (1822-1889); g) sede do Brasil republicano
nismos importantes para o Planejamento Participativo da cidade, a obrigatoriedade (1889-1960); h) volta a ser capital do estado do Rio de Janeiro, com pequeno interva-
da elaboração do “Plano Diretor Decenal” e do “Plano Diretor Ambiental”; estabele- lo de cidade-estado (1960-1975).
ce, ainda, que “Os poderes Municipais, com a colaboração da comunidade, protege-
Foram muitos os governantes da cidade do Rio de Janeiro e muitos os Planos
rão o patrimônio cultural por meio de inventários, tombamentos, desapropriações
para seu ordenamento, embelezamento e desenvolvimento econômico, social e
e outras formas de acautelamento e preservação”;
cultural. Nela foram aplicados recursos humanos, financeiros e técnicos, públicos
15. As intervenções pontuais (dentro da linha do Planejamento Estratégico e privados, incalculáveis. O resultado não corresponde a tantos investimentos e
adotado pela Prefeitura) chamadas de “Rio Cidade”, para reabilitação dos logradouros planos, projetos, ações pontuais e obras realizadas.
principais de vários bairros da cidade e o programa Favela Bairro destinado aos assen- Trata-se uma cidade contraditória, com ilhas ambientalmente agradáveis
tamentos das populações de baixa-renda, sem a sua remoção, objetivavam a requalifi- ao viver humano, conflitando com espaços fragmentados, desiguais, violentos, de
cação ambiental, social e cultural das áreas que receberam esses benefícios. Esses pro- meio ambiente poluído e sumamente desconfortáveis.
gramas foram iniciados em 1994 e continuam a ser realizados até o presente momento. Sem dúvida, resultado da descontinuidade política, da mentalidade domi-
16. Da vasta relação de edificações isoladas que foram reconhecidas por suas nante dos governantes de abandonarem o que o governo anterior planejou e re-
qualidades estéticas, históricas, culturais e de importância para a memória e patri- alizou, de não se empenharem na continuação dos planos e obras em andamento,
mônio da cidade, portanto tombadas e preservadas, restringindo-me às construídas e não manter as concluídas. É o eterno recomeçar da estaca zero e desperdício de
no século XX, citarei algumas que mais se destacam: a) os prédios ecléticos que res- recursos! A ausência de políticas públicas.
taram da antiga Avenida Central (Rio Branco), Teatro Municipal, Biblioteca Nacional, Como agravante a essa descontinuidade, não há quadro administrativo está-
Museu de Belas Artes etc.; b) o prédio Gustavo Capanema (1937-1943) construído vel e com independência suficiente para planejar, aplicar, acompanhar e redimen-
para sede do antigo Ministério da Educação e Saúde, que tornou-se um ícone da sionar as políticas públicas, ao longo de vários mandatos políticos. Além da desqua-
arquitetura moderna no Brasil e recebeu o aval público para a nova linguagem ser lificação de parte dos técnicos e dos políticos que assumem determinado período
utilizada por todos; c) o aeroporto Santos-Dumont (1937-1944); d) o estádio de fu- da administração pública.
tebol inaugurado em 16 de junho de 1950 – famoso Maracanã –, símbolo da alegria

72 Memória e patrimônio na cidade: o caso do Rio de Janeiro Nireu Oliveira Cavalcanti 73


Inegavelmente, apesar dessas mazelas, devemos reconhecer que a cidade do Janeiro no Século XIX. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006.
Rio de Janeiro acumulou rico acervo histórico, artístico, arquitetônico-urbanístico, ANSAY, Pierre; SCHOONBRODT, René. Penser la ville: choix de textes philosophiques.
natural e cultural. Ultrapassa os bens tombados a casa dos 500, além das APAC que Bruxelles: AAM Editions, 1989.
preservam alguns milhares de imóveis, logradouros isolados ou conjuntos forman- ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e persuasão: ensaio sobre o barroco. Tradução: DIAS, Maurício
do malha característica do local, monumentos, jardins, árvores, elementos da pai- Santana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
sagem e constituinte de sua natureza, como o espelho d’água da lagoa Rodrigo de BÍBLIA SAGRADA. Tradução do Centro Bíblico de São Paulo. São Paulo: Editora AVE MARIA,
Freitas, a praia da Moreninha, na Ilha de Paquetá etc. 1965, 7 ed.
Para reversão desse quadro são necessárias algumas mudanças nos homens BIERMANN, Verônica; et al. Teoria da Arquitetura: do Renascimento aos nossos dias.
e mulheres que usufruem a dadivosa e ainda Cidade Maravilhosa. Todos nós temos Tradução: BOLÉO, Maria do Rosário Paiva. Itália: TASCHEN, 2003.
que aprender a viver “com sociedade”, isto é, com urbanidade. Temos que buscar BLUTEAU, Dom Raphael. Vocabulário Portuguez e Latino. Coimbra: Collegio das Artes da
cotidianamente a utopia do Jardim do Éden. Companhia de JESU, 1712.
Os políticos governantes e os servidores públicos precisam imbuir-se de que CAVALCANTI, Lauro. Quando o Brasil era moderno: guia de Arquitetura 1928-1960. Rio de
estão naqueles postos para servirem ao bem-comum, ao interesse coletivo, a todos os Janeiro: Aeroplano, 2001.
homens e mulheres da sociedade. Conscientizarem-se de que o saber especializado CAVALCANTI, Nireu Oliveira. O Rio de Janeiro Setecentista: a vida e a construção da cidade da
de cada um deve ser fundido para a correta elaboração dos projetos e sua realização. invasão francesa até a chegada da Corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
Os servidores públicos devem exercer suas funções dentro de um processo . Santa Cruz: uma paixão. Rio de Janeiro: Relume Dumará /
contínuo de práticas e de projetos, ser honestos, éticos, qualificados para a função Prefeitura do Rio de Janeiro, 2003.
que exerce, e, com eqüidade, oferecer os serviços públicos à população usuária da . Rio de Janeiro Centro Histórico (1808-1998): marcos da colônia.
cidade. Devem atuar de forma ampla e coerente com a complexidade urbana. Rio de Janeiro: Anima, 1998.
As normas devem ser claras, justas e aplicáveis de forma transparente, e ser . Construindo a violência urbana. Rio de Janeiro: Madana, 1986.
de plena aceitação pela sociedade.
. Urbanização no Brasil nos séculos XIX e XX. Boletin del Instituto
Por sua vez, a sociedade tem que se reeducar, aprender a viver com urbani- de Estudios Latinoamericanos de Kyoto, Kyoto – Japão, n. 5, p. 1-31, 2006.
dade, cada um sabendo respeitar seu semelhante, as normas públicas, e preservar
. O comércio de escravos novos no Rio setecentista. In:
o que de bom permanece na cidade, sabendo que foi obra de várias gerações ao FLORENTINO, Manolo. (Org.). Tráfico, cativeiro e liberdade (Rio de Janeiro, séculos
longo de tantos anos. O “bom” originado da ação humana ou que vive e pulsa na XVII-XIX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 15-77.
dadivosa natureza, em sua diversificada complexidade na terra, no ar, nas águas. . Memórias de alegria: o Rio de Janeiro na folia dos ranchos (1893-
Contribuir para eliminar as desigualdades sociais econômicas e culturais vi- 1911). In: THIESEN, Icléia; BARROS, Luitgarde Oliveira Cavalcanti; SANTANA, Marco
gentes na sociedade e refletida na cidade. Portanto, participar na reconstrução e Aurélio. (Org.). Vozes do porto: memória e história oral. Rio de Janeiro, 2005, p. 81-110.
reabilitação dos espaços e sítios degradados para eliminar as diferenças e contradi- CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Tradução: MACHADO, Luciano Vieira. São
ções do viver urbano. Paulo: Editora UNESP, 2001.
A busca da volta ao Jardim do Éden deve ser o cotidiano de homens e mulhe- COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Tradução: REBELLO, Aurélio Barroso; ALVES, Laura.
res, no seio da família, na escola, no trabalho, no lazer, nas “ruas e praças”. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. (1a edição, Paris, 1903)
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São Paulo: Pini: Fundação Vilanova Artigas; Rio de Janeiro: RIOARTE, 1991. sulated the modernista atitude toward historic architecture in that country. To an extent
unprecedented in other countries with strong modernist movementes, the leading Brazilian
modernist architects were also the country’s leading preservationists, and, for modern in-
terventions within growing urban centres, and for modern interventions into historical cen-
ters. In both cases, the architects of SPHAN used preservation to create a dialogue between
colonial and modern architecture, and to reinforce the continuity between the distant past
and the future of Brazilian architecture.

76 Memória e patrimônio na cidade: o caso do Rio de Janeiro José Simões de Belmont Pessôa 77
Resumen | La preservación del patrimonio histórico y artístico en Brasil tuvo la singulari- A preservação na visão do grupo de arquitetos modernos brasileiros não de-
dad de tener como protagonistas de su nacimiento la vanguardia del movimiento moderno veria ser um empecilho ao desenvolvimento do país e à produção da nova arquite-
en el país. Esta dualidad señaló particularmente las estrategias de conservación de edificios tura. A conservação dos testemunhos do passado colonial servia para forjar a identi-
y centros históricos brasileño, así como influenció en una parte sustancial de la producción dade da nação, que se completava com a imagem de presente, ou melhor dizendo,
arquitectónica de vanguardia, responsable de un carácter regional del movimiento moder- de futuro que para eles a arquitetura moderna anunciava ao País. As primeiras dé-
no en Brasil. Analizar cómo los arquitectos modernos dentro del Patrimônio Histórico e Ar- cadas do século XX são marcadas na America Latina pela construção de identidades
tístico Nacional trataron edificios antiguos en nuevos centros y las nuevas construcciones nacionais que tem na difusão dos estilos neocoloniais a resposta arquitetônica ao
en los viejos centros es una excelente manera de entender la relación entre la arquitectura problema. A partir da década de 1920, o neocolonial brasileiro vai se firmando como
moderna y la conservación en Brasil. ?Quales los paradigmas que guiaran esta acción y es- a resposta arquitetônica à demanda de um estilo nacional. Os arquitetos modernos
tableceran un estándar responsable por la construcciones del paisaje de las ciudades brasi- no Brasil iriam, na década seguinte, contrapor essa ideia com o estudo e a conserva-
leñas contemporáneas. ção da verdadeira arquitetura colonial, e a produção de construções modernas que
teriam a “identidade” do futuro da nação.
Portanto, analisar como os arquitetos modernos dentro do Patrimônio His-
tórico e Artístico Nacional trataram os velhos edifícios nos novos centros e as novas
construções nos velhos centros é um excelente modo para compreendermos a rela-
A preservação do patrimônio histórico e artístico brasileiro teve a singula- ção entre arquitetura moderna e preservação no Brasil.
ridade de ter como protagonista do seu nascimento a vanguarda do movimento A imagem proposta pelo título foi usada por Lucio Costa numa carta redigida em
moderno do país. Esta dualidade marcou particularmente as estratégias de conser- 1939, em defesa do projeto moderno de Oscar Niemeyer para o novo Grande Hotel da
vação de prédios e centros históricos brasileiros, bem como influiu numa parte con- cidade colonial setecentista de Ouro Preto.4 A legislação federal brasileira de preserva-
siderável da produção arquitetônica desta vanguarda, responsável por um caráter ção do patrimônio histórico e artístico começara a vigorar dois anos antes, e o debate
regional do movimento moderno no Brasil. em torno da forma que deveria assumir um novo hotel dentro da antiga cidade vai esta-
A criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN)1 dá belecer as diretrizes iniciais para os novos projetos nas cidades tombadas.
inicio em 1937 a uma efetiva ação federal de proteção no Brasil. Pode-se atribuir ao A ideia de que o moderno telefone estivesse artisticamente integrado em
fato de os arquitetos integrantes do SPHAN serem modernos2, a opção pela prote- cima de uma mesa do século XVIII é o paradigma que vai caracterizar as intervenções
ção dos centros históricos brasileiros ter-se inicialmente restringido às pequenas ci- dos anos 1930 aos anos 1950 nas pequenas cidades coloniais brasileiras consideradas
dades coloniais que estavam de fora das zonas de maior desenvolvimento econômi- patrimônio histórico e artístico. Essa ideia nos remete ao ensaio escrito e publicado
co do país. Nas décadas de 1930, 40 e 50 foram protegidas onze pequenas cidades3 por Erwin Panofsky na Alemanha em 1930, intitulado The first Page of Giorgio Vasari’s
que tinham em comum uma paisagem marcada pela arquitetura do século XVIII e libro, e que será traduzido e publicado em inglês somente 25 anos depois. 5 Nesse
por se encontrarem economicamente estagnadas. Já nos grandes centros urbanos, texto que considero de fundamental interesse para o entendimento das questões
nas capitais regionais vistas por eles como o lugar da construção do “Brasil Moder- relativas ao desenvolvimento da restauração como disciplina, Panofsky analisa como
no”, só foram protegidos edifícios isolados, isso pelo menos até 1959 quando uma os artistas do Renascimento enfrentaram o problema da unidade estilística, diante
parte do centro histórico de Salvador, capital do estado da Bahia, foi reconhecida da necessidade de concluir os edifícios inacabados da arquitetura gótica.
como patrimônio nacional. Quando os humanistas dos séculos XV e XVI tomam a arquitetura da antigui-
dade clássica greco-romana como modelo, eles se distanciam da arquitetura gótica
1. Criado para reconhecer e proteger federalmente o patrimônio histórico e artístico teve vários nomes ao longo da sua
história: Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, SPHAN, de 1937 a 1946; Diretoria do Patrimônio Histórico até então produzida tornando impensável a prática com que na Idade Média se jun-
e Artístico Nacional, DPHAN, de 1946 a 1970; Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN, de 1970 a
tavam estilos diversos.
1979; Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, SPHAN, de 1979 a 1990; Instituto Brasileiro do Patrimônio
Cultural, IBPC, de 1990 a 1994; Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN, desde 1994. O estilo gótico não poderia ser mais admitido por se tratar de uma “arte bár-
2. A equipe técnica inicial era constituída de arquitetos e engenheiros integrantes da vanguarda modernista brasileira: bara”, mas era ainda menos admissível, para os artistas do Renascimento, a violação
Lucio Costa (1902-1998), Renato Soeiro (1911-1984), José de Souza Reis (1909-1986), Alcides da Rocha Miranda (1909-
2001), Luís Saia (1911-1975), Carlos Leão (1906-1983), Joaquim Cardozo (1897-1978).
3. São elas: Ouro Preto (1938), Mariana (1938), Tiradentes (1938), São João Del Rei (1938), Serro (1938), Diamantina (1938), 4. A esse respeito ver o ensaio de Lauro Cavalcanti Brazilian Modern Heritage.
Congonhas (1941), Alcântara (1948), Goiás Velho (1951), Pilar de Goiás (1954) e Parati (1958). 5. In: PANOFSKY E. Meaning in the Visual Arts. Papers in and on Art History, 1955.

78 O telefone sobre a mesa do século xviii José Simões de Belmont Pessôa 79


da regra de adequação harmônica entre as partes que compunham a arquitetura de Preto em 1946. Os dois funcionários do IPHAN eram também arquitetos atuantes da
um edifício chamada por Leon Batista Alberti de convenienza ou conformità. então vanguarda modernista brasileira. Em todos eles o procedimento era semelhan-
Ora Panofsky explica que este impasse gerado pelo principio da adequação te, como quando a comunidade batista de Ouro Preto apresenta o seu projeto para
foi resolvido de três modos: no primeiro as partes preexistentes seriam remode- edificar um templo religioso na cidade, este é negado pelo SPHAN com o argumento
ladas segundo os princípios da maneira moderna como no Templo Malatestiano que o mesmo afasta-se completamente dos princípios fundamentais da arquitetura. 6
de Alberti em Rimini ou na Basílica de Palladio em Vicenza, no qual as construções Junto com a negativa é apresentado à igreja batista um projeto alternativo, radical-
existentes são totalmente revestidas por uma fachada moderna; no segundo com- mente moderno no tratamento do telhado, do volume, dos vãos e que efetivamente
pletava-se a obra preexistente com elementos goticizantes como nas propostas de foi construído. O principal doutrinador da arquitetura moderna brasileira vai afirmar
Bramante para o tibúrio da Catedral de Milão; e no terceiro buscava-se uma solução ao longo da sua vida a ideia de uma afinidade espiritual entre a arquitetura funciona-
conciliatória das duas anteriores como na execução da fachada da Igreja de Santa lista do século XX e a singela arquitetura colonial brasileira, esta também funcional
Maria Novella por Alberti. na sua extrema simplicidade. Neste
Panofsky também chama a atenção para outra dimensão na solução da uni- sentido é bom notar que a mesa do
dade estilística. A partir de um desenho pertencente ao acervo da biblioteca do século XVIII a que se referia Lucio
Louvre e que ele identifica como tendo pertencido a Giorgio Vasari, que fez para Costa não seria um delicado móvel
o mesmo uma moldura em papel de gosto gótico porque considerava tratar-se de rococó europeu, e sim uma robus-
uma obra bizantina do século XIV, de autoria de Cimabue. Ora a solução empregada ta mesa colonial brasileira, assunto
por Vasari na sua moldura para o desenho não seria mais a busca de uma unidade que ele estava estudando e publi-
estética, mas sim histórica e de espírito. caria no mesmo período um ensaio
Não creio que o texto de Panofsky fosse nos anos 1930 ou 40 conhecido dos a respeito.7 Diversos estudos sobre
arquitetos modernos brasileiros, mas a idéia de uma adequação espiritual e histó- a arte e arquitetura brasileira dos
rica entre o moderno e o colonial foi o que prevaleceu na visão dos que atuavam séculos XVII e XVIII seriam patroci-
no SPHAN. Para Lucio Costa, o moderno era a verdadeira arquitetura do século XX, nados pelo Serviço do Patrimônio
assim como a arquitetura colonial era o moderno do século XVIII.  O principal dou- e publicados em sua revista. Em
trinador da arquitetura moderna brasileira vai afirmar ao longo da sua vida a idéia boa parte destes ensaios temos
de uma afinidade espiritual entre a arquitetura funcionalista do século XX e a singela uma leitura funcionalista da arte
arquitetura colonial brasileira, esta também funcional na sua extrema simplicidade. colonial que corrobora com a ideia
Neste sentido é bom notar que a mesa do século XVIII a que se referia Lucio Costa proposta por Lucio Costa de que a
não seria um delicado móvel rococó europeu e sim uma robusta mesa colonial bra- arquitetura moderna era a legítima
sileira, assunto que ele estava estudando e publicaria no mesmo período um ensaio herdeira da tradição dos mestres
a respeito.[6] Diversos estudos sobre a arte e arquitetura brasileira dos séculos XVII de obra dos séculos XVI a XVIII. O
e XVIII seriam patrocinados pelo Serviço do Patrimônio e publicados em sua revista. passado no Brasil passa a ser um
Em boa parte destes ensaios temos uma leitura funcionalista da arte colonial que FIGURA 1 Projeto apresentado para construção da nova argumento dos modernos para
corrobora com a idéia proposta por Lucio Costa de que a arquitetura moderna era a capela batista de Ouro Preto, 1946, acervo Arquivo IPHAN) legitimar sua arquitetura em detri-
e projeto alternativo do SPHAN construído, 1946, acervo
legitima herdeira da tradição dos mestres de obra dos séculos XVI a XVIII.   O passa- Arquivo IPHAN mento dos acadêmicos.
do no Brasil passa a ser um argumento dos modernos para legitimar sua arquitetura A experiência do Grande
em detrimento dos acadêmicos. Hotel de Ouro Preto em contrapor um projeto de edificação moderna a uma inten-
A experiência do Grande Hotel de Ouro Preto em contrapor um projeto de ção de realizar uma obra em estilo neocolonial foi repetida em projetos como os de
edificação moderna a uma intenção de realizar uma obra em estilo neocolonial foi re-
petido em projetos como os de Alcides da Rocha Miranda para uma escola na cidade 6. REIS José de Souza, Projeto de igreja batista, 1946, Obras, Arquivo Central do IPHAN, Rio de Janeiro
colonial do Serro em 1945 e de José de Souza Reis para a Capela Batista de Ouro 7. COSTA Lucio. “Notas sobre a evolução do mobiliário luso brasileiro”. In: Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, n. 3, Rio de Janeiro, 1939.

80 O telefone sobre a mesa do século xviii José Simões de Belmont Pessôa 81


Se olharmos para a escola projetada por Alcides da Rocha Miranda, verifi-
camos que o conceito de harmonia traduz-se aqui como um confronto “positivo”
entre obras de arte de diferentes épocas. Aqui também as janelas rasgadas em fita,
a ausência de telhado cerâmico, a vista e a volumetria distinta dos edifícios nos ar-
redores afirmam a modernidade da nova construção. Estes exemplos demonstram
que no Brasil a ação de preservação do Serviço do Patrimônio vai curiosamente se
tornar também instrumento para difusão e legitimação da arquitetura moderna no
país. O próprio Oscar Niemeyer realizaria uma série de projetos modernos – hotel,
escola e clube – no centro histórico tombado da cidade setecentista de Diamantina,
na década de 1950.
Todas essas intervenções são pensadas dentro da perspectiva de excepciona-
lidade dos pequenos centros históricos brasileiros que não viviam nem a destruição
da modernização que levou Buls, o burgomestre de Bruxelas, a promover no final
do século XIX a reconstituição da Grand Place da cidade, nem a destruição das duas
grandes guerras do século XX que levaram o debate europeu a discutir a recupera-
ção de seus centros históricos destruídos, expresso no com’era, dov’era, que teve em
Varsóvia o seu mais emblemático exemplo, mas também se disseminou na recons-
Figura 3 Escola no Serro, 1946, acervo Arquivo IPHAN
trução de várias cidades alemãs, francesas e italianas.
No entanto, o experimentalismo a que recorreram os modernistas nas pri-
Alcides da Rocha Miranda para uma escola na cidade colonial do Serro em 1945, e meiras décadas da atuação federal de preservação foi sendo gradativamente aban-
de José de Souza Reis para a Capela Batista de Ouro Preto em 1946. Os dois funcio- donado, diante do aumento extraordinário da demanda de novas construções nas
nários do IPHAN eram também arquitetos atuantes da então vanguarda modernista cidades históricas do século XVIII da antiga região da mineração. A partir de 1960
brasileira. Em todos eles o procedimento era semelhante, que o mesmo afasta-se a cidade de Ouro Preto vive um novo surto de desenvolvimento econômico, em
completamente dos princípios fundamentais da arquitetura. 8 Junto com a negativa função da exploração do alumínio e do ferro. Os vazios remanescentes na cidade
é apresentado à igreja batista um projeto alternativo, radicalmente moderno no tra- passam a ser objeto de interesse de uma renovada demanda habitacional. A inser-
tamento do telhado, do volume, dos vãos e que efetivamente foi construído. ção de prédios modernos na cidade antiga vai sendo substituída por regras que
O que todos esses projetos tinham em comum era o entendimento de que a fixam a linguagem arquitetônica das novas edificações sob forma de uma espécie
nova intervenção seria um elemento excepcional em um conjunto urbano já conso- de “falso colonial”. A ideia de inserir uma “obra de arte” moderna em uma cidade
lidado e que, portanto, não se repetiria. Eles também propõem um diverso conceito colonial pronta é substituída por um novo pragmatismo que deixa de lado a pre-
de harmonia, não baseado na busca de soluções plásticas comuns, e sim na existên- ocupação com a autenticidade do conjunto arquitetônico diante da necessidade
cia de um espírito comum, na paridade qualitativa dos objetos arquitetônicos de de manter a prevalência do ambiente colonial na paisagem urbana. São fixadas as
épocas diversas na paisagem urbana. características de fachada e proporções dos telhados em telha cerâmica canal e ar-
Este conceito foi claramente explicitado na diretriz estabelecida no parecer rematados com cimalha pintada de branco; dos vãos de esquadrias com as propor-
do Serviço do Patrimônio que negou o edifício neocolonial, projetado para ser a ções das casas coloniais sendo as janelas em guilhotina com caixilhos envidraçados
nova escola da cidade histórica mineira do Serro: “todas as construções novas exe- pintados a óleo nas cores tradicionais; e da caiação externa das paredes sempre em
cutadas nas cidades consideradas “monumento histórico” se devem harmonizar branco. A partir dos anos 1960 até 1980 essa regra iria garantir a unidade estilística
com as edificações existentes, sem contudo se confundir com as mesmas.”9 de centros históricos como Ouro Preto, em detrimento da perda parcial de autenti-
cidade dos mesmos.
8. REIS José de Souza. Projeto de igreja batista, 1946, Obras, Arquivo Central do IPHAN, Rio de Janeiro. Em paralelo à conservação integral das pequenas cidades coloniais setecen-
9. MIRANDA, Alcides da Rocha. A nova escola do Serro, Minas Gerais, 17/03/1945, Obras, Arquivo Central do IPHAN, Rio tistas, a proteção nos grandes centros urbanos iria se restringir aos monumentos iso-
de Janeiro, Brasil.

82 O telefone sobre a mesa do século xviii José Simões de Belmont Pessôa 83


lados nas duas primeiras décadas da ação federal de preservação. A proteção desses rítmica original a própria monumentalidade”11. A preservação do monumental
monumentos serviria de pretexto para o Serviço do Patrimônio intervir no desenho aqueduto aliava-se aos projetos de transformação viária do bairro, responsáveis pela
de várias das grandes cidades brasileiras. Essas intervenções priorizam uma leitura destruição da antiga malha urbana. Nos grandes centros a ação federal de proteção
estética da cidade, na qual o monumento antigo ora é exposto em destaque, pela privilegia as edificações monumentais que, à maneira do Plano Voisin de Le Corbu-
demolição do contexto construído à sua volta, sendo tratado como um fragmento sier, ficariam como marcos do passado na paisagem urbana moderna. A exceção é
do passado isolado da cidade contemporânea, ora era exposto ao confronto com as dada à Igreja da Lapa do Desterro, que estava também destinada à demolição para
edificações modernas na busca de uma valorização do mesmo pelo contraste com abertura de um novo eixo viário e seria preservada das transformações da cidade
a sua vizinhança. moderna, segundo Lucio Costa, não só pelo seu interesse arquitetônico, apesar de
A cidade do Rio de Janeiro, primeira capital do país independente e uma das ser despojada de valor monumental, mas principalmente “por se tratar de monu-
suas principais metrópoles brasileiras, é, para os intelectuais do Serviço do Patrimô- mento cuja feição arquitetônica está por demais vinculada à tradição urbana”12. A
nio, um dos palcos do projeto de construção de um país moderno. As metrópoles aparente contradição em se referir à tradição urbana no contexto de destruição da
eram vistas sempre como a cidade do presente, porém existiam ainda nelas alguns cidade tradicional para sua modernização explica-se pela preocupação de Lucio
trechos da cidade colonial para os quais o Patrimônio dedica especial atenção e Costa na preservação do caráter didático da arquitetura – fosse ela erudita ou po-
propõe um mesmo olhar. pular. A igreja deveria ser valorizada pela sua qualidade de vernáculo exemplar de
O conceito de paisagem urbana seria enunciado pela primeira vez no Brasil, uma língua não mais falada, que articularia na cidade moderna a imagem de uma
entre aspas, por Lucio Costa em 1943 num relatório destinado a definir as estra- paisagem do passado, servindo como conhecimento da própria cidade.
tégias para a recuperação de um pequeno trecho da paisagem colonial do século A ideia de preservar na paisagem da cidade o caráter didático da arquitetura
XVIII na metrópole do século XX. A igreja barroca de Nossa Senhora da Glória no inspirou também em 1962 a proteção de um conjunto de sobrados característicos
Rio de Janeiro, protegida pelo Serviço do Patrimônio, ficava no alto de um outei- do século XIX existentes na Rua do Catete, no Rio de Janeiro. Nesta rua há um palá-
ro que começava a ser circundado por arranha-céus, que gradativamente estavam cio neoclássico monumental que estava protegido desde 1938. Em 1962, o Serviço
fazendo desaparecer o pequeno morro. Lucio defende que a ação do Estado para do Patrimônio passa a discutir a necessidade de garantir também a preservação das
desapropriação e demolição das casas numa parte do sopé garantiria visualmente casas íntegras remanescentes na rua, para dar ao palácio neoclássico o ambiente
a manutenção de pelo menos um pequeno trecho de encosta. O objetivo não era urbano original. A proposta de Lucio Costa previa também um trabalho de recom-
tanto “beneficiar a igreja, como, principalmente, a ‘paisagem urbana’, num dos seus posição dos lotes vazios ou descaracterizados, que seriam refeitos com a possibili-
trechos mais caraterísticos e impregnados de tradição”.10 dade da “transferência integral de frontarias que se adaptem ao lugar”,13 e transfor-
Não há nos escritos de Lucio Costa nenhuma referência que possa permi- mariam aquele trecho da cidade em um “museu de arquitetura urbana carioca’ de
tir identificar influências nessa sua ideia de paisagem urbana, conforme descrita meados e da segunda metade do século XIX”.14 Um fragmento urbano composto
em 1943, e os pensamentos modernistas e de preservação debatidos na época em de um conjunto daquelas arquiteturas da boa tradição do “velho portuga”, sauda-
outros países. O conceito da legislação francesa de mies em valeur, valorização do do por Lucio Costa no seu texto, chave de leitura da continuidade entre o passado
monumento pela demolição das pequenas construções em torno dele, não era colonial e a arquitetura moderna, “Documentação Necessária”, que fora publicado
o que estava em causa. O objetivo não era valorizar a igreja, e sim recompor um em 1937 na Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico. Tratava-se aqui
trecho da paisagem da cidade, conforme havia sido registrado na iconografia de de pela primeira vez preservar, no Rio de Janeiro, um inteiro fragmento urbano do
finais do século XVIII e início do XIX. século XIX, composto de edificações não monumentais, e que é pensado como uma
Com o mesmo objetivo de recuperar uma paisagem perdida pelas transfor- espécie de museu da arquitetura urbana carioca no qual o passado é tratado não
mações da cidade, foram realizadas demolições no bairro da Lapa, também no Rio
de Janeiro, para dar ao grande aqueduto do século XVIII ali existente a possibilidade 11. COSTA, Lucio. Retirada de uma pilastra dos arcos do Aqueduto da Carioca. Parecer, Obras, 1949, Arquivo Central do
de ressurgir sem “as construções que o afogam e o impedem de ostentar na pureza IPHAN, Rio de Janeiro.
12. COSTA, Lucio. Convento e Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Desterro. Parecer, Processo de tombamento, 08/07/1949,
Arquivo Central do IPHAN, Rio de Janeiro.
13. COSTA, Lucio. Conjunto arquitetônico da Rua do Catete. Parecer, Processo de tombamento, 15/05/1962, Arquivo
10. COSTA, Lucio. Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Relatório, Obras, 26/07/1943, Arquivo Central do IPHAN, Central do IPHAN, Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro. 14. Idem.

84 O telefone sobre a mesa do século xviii José Simões de Belmont Pessôa 85


como lugar da saudade, e sim do co-
nhecimento. Lucio previa em alguns
terrenos, jardins e estacionamentos,
admitindo a divisão das quadras
mais profundas para a construção
de edifícios de gabarito alto, desde
que fosse deixada uma faixa de 20
metros necessária à percepção pelos
usuários do conjunto antigo sem a
interferência visual das novas cons-
truções.
Na realidade destruir a malha
urbana envoltória, ou estender às
edificações menores a preservação
dada aos edifícios monumentais
para garantir a ambiência destes,
não caracterizava a maioria das in-
Figura 4 Estudo de Lucio Costa, 1972 (Arquivo do IPHAN) e torre construída sobre fachada tombada, Rio
tervenções do Serviço do Patrimô- de Janeiro (foto José Pessôa)
nio, nas grandes cidades brasileiras.
Estas foram operações excepcionais. vazado cerâmico para criar um fundo neutro e, ao mesmo tempo, protegê-la do
A prática era acreditar no papel re- sol; e o melhor arranjo na paisagem urbana com o chanframento dos dois últimos
Figura 3 Projeto do novo convento arquivo IPHAN e dentor da boa arquitetura moderna tramos de cada extremo da fachada, de modo a obter visualmente um volume mais
estudo alternativo de Lucio Costa, arquivo IPHAN como instrumento para a qualifica- esbelto na perspectiva dos transeuntes. Foi a partir dessa proposta que o prédio foi
ção dos espaços urbanos das grandes metrópoles e valorização dos monumentos efetivamente edificado, seguindo todos os princípios estabelecidos, exceto a dimi-
antigos. Também nos grandes centros urbanos era a ideia do telefone sobre a mesa nuição do volume nas extremidades.
do século XVIII que funcionava como paradigma do confronto entre a arquitetura O papel transformador da arquitetura moderna nas grandes cidades vai se
moderna e a colonial. demonstrando uma quimera, diante da inexorável pressão do capital imobiliário.
O incêndio em 1958 do convento existente por detrás da igreja da Lapa do Lucio Costa tenta em várias situações escamotear com artifícios de projeto o crescer
Desterro repropõe, no contexto da cidade moderna, a relação entre o antigo e o continuado sobre o existente. A crença na arquitetura e nos detalhes arquitetônicos
novo. É um excelente exemplo para compreendermos a lógica de desenho com como qualificadores da paisagem urbana demonstra-se, pouco a pouco, impotente
que os arquitetos do Serviço do Patrimônio pensavam a cidade. Destruído pelas e a desilusão pela desigualdade das forças em campo fica explícita na avaliação feita
chamas, os proprietários apresentam ao Patrimônio um projeto moderno para a em 1962, do “processo anormal de crescimento das nossas cidades”.15 Fica cada vez
reconstrução do edifício do velho convento. Elaborado em 1959, o novo convento mais difícil compatibilizar a crença na metrópole com a preservação da boa arqui-
seria colado à igreja como o antigo edifício, seguia o padrão da arquitetura moderna tetura do passado.
brasileira da época: um prédio em fita marcado pelos panos de vidro na fachada e Em 1972 tenta-se proteger da demolição, através do tombamento, a última
os pilotis que deixavam livre o térreo. Lucio Costa rejeita o projeto e exige que a unidade remanescente de um conjunto de mais de sessenta casas neoclássicas,
nova construção deva recuar 4 metros da igreja. Ele apresenta também um estudo construídas no centro do Rio de Janeiro, em meados do século XIX. Os novos pro-
alternativo de sua autoria no qual se completam a preocupação com a qualidade prietários, um grande grupo empresarial, recorrem da decisão do Serviço do Patri-
arquitetônica do novo prédio, com a diminuição do número de pilotis; a harmo-
nia com a igreja existente no tratamento da fachada voltada para ela, com tijolo 15. COSTA, Lucio. Antigo Convento do Carmo (remanescentes). Parecer, Processo de tombamento, 10/02/1963, Arquivo
Central do IPHAN, Rio de Janeiro.

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mônio. Diante da perspectiva dos proprietários ganharem na justiça e ser efetiva-
da a demolição, é selado um acordo que procurou conciliar a construção da nova O Urbanismo Moderno
na Cidade do Rio de Janeiro:
torre prevista, com a preservação da casa neoclássica, sob o argumento de que o
fundamental era garantir a conservação da fachada. Lucio Costa elabora então um
estudo16 no qual, como num jogo lúdico, soltaria a casa da torre construída sobre
ela, pelo recuo da fachada na faixa imediatamente superior a platibanda da cons- dos princípios à oficialização1
trução antiga. Diante da força do capital imobiliário, que anula a eficácia do desenho
da paisagem, o antigo se transforma enfim em mero fragmento decorativo aposto
ao grande arranha-céu. Vera F. Rezende
Como vimos até aqui, a ação de proteção e conservação do patrimônio cultu-
ral no Brasil será, na sua fase inicial, legitimadora da produção dos arquitetos moder-
nistas. A presença destes arquitetos, que eram a totalidade dos técnicos do SPHAN, Resumo | Este artigo se orienta para o processo de irradiação e consolidação dos princípios
foi determinante para a filosofia de conservação dos centros históricos brasileiros, e propostas do urbanismo moderno na cidade do Rio de Janeiro, Capital da República. A
permitindo uma grande experimentação inicial nos projetos de nova construção, partir da década de 1930, circularam pelos principais periódicos técnicos, em que se destaca
que rompiam com a tradição disseminada na Europa de reconstituição dos conjun- a Revista Municipal de Engenharia, os ideais do urbanismo moderno, sob a forma de textos
tos antigos perdidos. De outra parte eles foram também protagonistas do paradoxal teóricos ou propostas relacionadas a projetos, em grande parte como resultado das visitas
uso, nos grandes centros, dos princípios urbanísticos modernistas para valorizar os de Le Corbusier à cidade em 1929 e 1936. Os princípios modernistas aproximaram arquite-
monumentos protegidos e até re-caracterizar, através de grandes cirurgias urba- tos, expressaram-se em projetos e ganharam os quadros da prefeitura do Distrito Federal,
nas, trechos da cidade colonial. Era a cidade funcionalista, vista também pelo seu ao mesmo tempo em que, a partir da década de 1940, esses arquitetos definiram e consoli-
valor estético. O acelerado crescimento das cidades brasileiras, a partir da década daram um campo de projeto dentro do campo maior do urbanismo, que nas décadas ante-
de 1960, irá reduzir o papel do SPHAN na construção de uma paisagem urbana de riores era ocupado por engenheiros-urbanistas. O processo de concretização desses ideais
qualidade. Os eventuais reveses não comprometeram o legado de Lucio Costa e dos modernistas na cidade, contudo, não se deu em curto prazo, evidenciando as dificuldades
outros arquitetos do Serviço do Patrimônio na paisagem de muitas das cidades bra- da passagem da escala da arquitetura para a escala do urbanismo, da mesma forma em que
sileiras. Era para eles fundamental preservar aquelas construções que expressavam demonstrou a incapacidade do Movimento Moderno de lidar com a cidade existente.
vontade de arte, vontade de beleza, vontade de forma, ou nas palavras de Lucio
Abstract | This article aims to analyze the process of diffusion and framing of the
Costa, intenção plástica, característica tanto dos antigos edifícios coloniais como da
principles and proposals of modern urbanism in the city of Rio de Janeiro, capital of
moderna arquitetura brasileira.
the Republic. From the 1930s, the ideals of modern urbanism were published in tech-
nical journals, especially the Revista Municipal de Engenharia [Municipal Engineer-
Referências bibliográficas ing Magazine], in the form of theoretical texts or proposals related to projects. In
large part, this was the result of the visits of Le Corbusier to the city in 1929 and 1936.
CAVALCANTI Lauro. “The role of modernists in the establishment of Brazilian Cultural Modern architects have been gathered around the ideas that were expressed in projects and
Heritage”. in Future Anterior. Journal of Historic Preservation. Volume VI, Number 2. have won the cadres of the Municipality of the Federal District. At the same time, from the
New York: Columbia University, 2009, pp 15-32.
1940s, the architects have defined and strengthened a design professional field within the
COSTA Lucio. “Notas sobre a evolução do mobiliário luso-brasileiro” in Revista do larger field of urbanism, which in previous decades was occupied by engineers. The process
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, N. 3. Rio de Janeiro: SPHAN, 1939, pp. 149- of implementation of these modern ideals in the city, however, did not occur in the short term,
162.
highlighting the difficulties of the transition from the scale of the architecture to the scale of
PANOFSKY Erwin. Significado das Artes Visuais. São Paulo: Perspectiva, 2001.

1. Este artigo é resultado da pesquisa “Levantamento Documental do Urbanismo no Brasil-Sub-Projeto Rio de Janeiro
16. COSTA, Lucio. Tombamento do Prédio a Rua Mayrink Veiga, n. 9. Parecer, Processo de tombamento, 25/02/1972, –1900-1990”, parte da rede de pesquisa “ Urbanismo br “ que integra cidades brasileiras e é coordenada por Maria
Arquivo Central do IPHAN, Rio de Janeiro. Cristina da S. Leme – FAU-USP.

88 O telefone sobre a mesa do século xviii Vera F. Rezende 89


urbanism, in the same way that has shown the inability of the Modern Movement on dealing sistema viário, que não se consolida. Interrompe-se com a Revolução de 1930, mas
with the existing city. acaba por produzir um cenário favorável à circulação de propostas sobre a cidade.
Resumen | Este artículo se refiere al proceso de divulgación y consolidación de los prin- Em outras palavras, o Plano Agache não é implantado, mas cumpre a função
cipios y de las propuestas del urbanismo modernista en la ciudad de Río de Janeiro, ca- de orientar a discussão para os problemas da cidade e suas possíveis soluções,
pital de la República. Desde los años 1930, los ideales del urbanismo moderno circularan mesmo aquelas não previstas por Agache, fato reconhecido pelo Prefeito H. Do-
por las principales revistas técnicas, en las que se destaca la Revista de Ingeniería Muni- dsworth (1943) ao afirmar que o plano “...repercutiu no seio das Academias e das
cipal, en forma de textos teóricos o propuestas relacionadas con proyectos. Esto en gran Associações Técnicas, despertando curiosidade, interesse e gosto pelas coisas do ur-
parte ha ocurrido como resultado de las visitas Le Corbusier a la ciudad en 1929 y 1936. banismo”, ainda que decida por não aplicá-lo3. A partir dele, a discussão se amplia e
Los principios modernistas reunieron arquitectos, se expresaron en proyectos y ganaron buscam-se exemplos no exterior. Alguns anos mais tarde (1937), quando Dodsworth
la aceptación de los técnicos de la Municipalidad del Distrito Federal. Al mismo tiempo, acena com seu plano de obras viárias e realiza um conjunto expressivo de interven-
desde la década de 1940, los arquitectos han creado y consolidado un campo profesional ções voltadas para os melhoramentos da cidade, os ideais do urbanismo modernista
de proyecto dentro del campo más amplio del urbanismo, que en las décadas anteriores fue já haviam, então, atingido um número expressivo de profissionais, em especial ar-
ocupado por los ingenieros y planificadores urbanos. El proceso para alcanzar estos ideales quitetos, como veremos ao longo do artigo.
modernistas de la ciudad, sin embargo, no se produjo en el corto plazo, poniendo de relieve A produção sobre urbanismo no Rio de Janeiro, à época, tem como principais
las dificultades del paso de la escala de la arquitectura para la escala del urbanismo, de la veículos de divulgação dois periódicos técnicos: a Revista do Clube de Engenharia e a
misma forma que demostró la incapacidad de hacer frente a la ciudad existente. Revista Municipal de Engenharia4. As experiências em países da Europa, em especial
a França, na América do Sul, o Chile e a Argentina, e nos Estados Unidos despertam
o interesse dos estudiosos locais5 e são divulgadas nesses periódicos.
As ideias em circulação A tensão que antecede a Segunda Guerra Mundial, na década de 1930,
também se expressa em artigos publicados. Nesse caso, os países utilizados como
No final da década de 1920, enquanto D. Alfred Agache conclui o seu Plano de exemplos variam segundo o desenrolar do conflito. Com o transcorrer da guerra,
Remodelação, Extensão e Embelezamento para o Rio de Janeiro, Le Corbusier visita intensificam-se exemplos dos E.U.A., enquanto desaparecem os modelos de cida-
a cidade pela primeira vez (1929) a caminho de São Paulo. Sem nenhum interesse des alemãs6, que figuravam nos periódicos técnicos. No início da década de 1940,
em atuar na realização do plano, este último registra suas impressões sobre a cidade quando se aproxima a definição do governo brasileiro de apoio aos países aliados, a
(1930) e produz o croqui do edifício viaduto em forma de fita, sem compromisso com Alemanha deixa de representar um modelo a ser divulgado.
sua possível concretização, e que ficaria registrado como uma das utopias modernas Antes, durante e imediatamente após7 o período da guerra, o urbanismo é
no tratamento de uma cidade existente. Nesse momento, inicia-se uma mudança obrigado a apresentar respostas quanto à proteção ou à reconstrução das cidades
de direção no pensamento urbanístico, expressa mais claramente após alguns anos: na Europa, preocupação que é reproduzida pelos urbanistas locais. É, então, nesse
o enfraquecimento gradual do urbanismo de melhoramentos com as edificações ambiente propício à circulação de modelos de outros países, que circulam os ideais
projetadas dentro de critérios acadêmicos, como as propostas do Plano Agache, e modernistas, que parecem trazer respostas para questões estruturais da cidade.
o fortalecimento e a irradiação dos princípios do urbanismo moderno ancorado na
arquitetura também moderna.
3. DODSWORTH,,1943, p. 7. O Prefeito justifica no artigo: “Nunca houve Plano Agache. Houve esboço de plano de urba-
A realização do Plano Agache representa o ponto alto de um processo de nização sistemática da cidade elaborado pelo ilustre arquiteto urbanista de 1928 a 1930. O esboço elaborado não foi
discussão – que se acelera na década de 1920 – sobre a necessidade de um plano convertido, por ato oficial, em plano, razão pela qual não foi obedecido e muito menos desobedecido como é corrente
invocar-se. ”Trata-se de um equívoco de Dosdsworth, intencional ou não, já que Armando de Godoy registra o ato de
para a cidade e a sua forma de gestão2, o aproveitamento das áreas de aterro e de oficialização do Plano Agache.” (Godoy, 1943, p. 330).
desmonte de morros, as áreas de expansão, o saneamento básico, os transportes e 4. A Revista do Clube de Engenharia e a Revista Municipal de Engenharia foram, respectivamente, editadas a partir de
1887 e 1932.
5. GODOY, 1935, PORTINHO, 1933, ESTELITA, 1933,1936.
6. Com a ascensão da Alemanha no período anterior à guerra, Berlim é utilizada como modelo, destacando-se PENIDO
2. Agache trata da criação de uma Repartição  Permanente do Plano ( p. 321) e da questão da valorização da terra por (1937), que apresenta a Vila Olímpica para sede das Olimpíadas de 1936.
efeito das obras de urbanização, alertando que este aumento do valor dos terrenos não deveria ser apropriado pelos 7. Após a guerra, intensificam-se propostas relacionadas à reconstrução de habitações na Europa, em especial na Ingla-
proprietários. (Anexo, Art. VII,, p. XLIV). terra. Conferir HELLMEISTER, 1947 e CORREA LIMA, 1947.

90 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Vera F. Rezende 91


O Plano Voisin (1925) de Le Corbusier para a cidade de Paris é apresentado blemas da cidade para uma nova sociedade – para todos os indivíduos das cidades
por Estelita (1934)8 como estratégico em caso de guerra, como exemplo de descon- modernas – e uma nova etapa da civilização, em que as decisões sejam tomadas de
gestionamento do centro e alargamento dos espaços vazios. O urbanismo moder- maneira mais racional10. A busca da racionalidade não poderia mais ser evitada, já
nista é vinculado à defesa de cidades em caso de bombardeios. Anos mais tarde, que se tornava necessária para impor ordem às cidades existentes.
Andrade e Silva (1942) utiliza a cidade de Paris como exemplo de dificuldade de O discurso modernista pauta-se, ainda, pela recorrência de determinados
proteção contra ataques aéreos, em face da concentração de edificações, e propõe temas. No nível simbólico, uma sociedade mais justa, em que os benefícios sejam
o aproveitamento da área vizinha à Av. Presidente Vargas por edificações verticali- distribuídos de forma igualitária, embora dentro dos limites impostos pelo capitalis-
zadas, espaços livres e pilotis dentro do repertório modernista. mo11. No nível espacial, uma cidade estruturada de forma diversa das tradicionais: a
ausência de lotes ou quadras, a separação entre pedestres e veículos, onde a verti-
calização é utilizada como estratégia para a concentração de áreas edificadas com a
Os Princípios Modernistas criação de áreas vazias. Mais ainda, um urbanismo que se apóia sobre a arquitetura,
esta realizada dentro de princípios também racionais. Esses fatores vão ganhando
“Na época nós todos estávamos convencidos que essa nova arquitetura corações e mentes, a adesão dos profissionais, principalmente dos arquitetos.
que estávamos fazendo, essa nova abordagem, era uma coisa ligada à O modelo é a cidade centralizada, a metrópole em oposição à cidade com
renovação social. Parecia que o mundo, a sociedade nova, a arquitetura os seus subúrbios. Le Corbusier (1937)12, em artigo publicado no Rio de Janeiro, O
nova eram coisas gêmeas, uma coisa vinculada à outra”. Problema das Favelas Parisienses, é crítico severo dos esquemas de descentralização:
“Nós os urbanistas modernos pensamos que se deve dar um fim a este desastre
Esse sentimento expresso por Lúcio Costa (1987), que coloca a arquitetura que são os arrabaldes e as cidades de extensões ilimitadas com seus gastos desen-
como elemento essencial da transformação social, é compartilhado pela geração de freados”. E reafirma o plano para Paris: “a superfície de Paris intra-muros comporta
arquitetos que, a partir do final da década de 1920 e no decorrer das décadas de 1930 oito milhões de habitantes, instaladas em uma cidade admirável, uma cidade de
e 1940, se torna adepta e defensora dos princípios do modernismo no Rio de Janeiro. parques. Porém nos contentaríamos com três milhões”(1937, p. 285).
Neste ponto, não podemos deixar de registrar o desagrado de Lúcio Costa Denuncia, ainda, as condições das habitações em seu país, propondo a de-
com a denominação urbanismo modernista, que colocamos abaixo. Consideramos, molição dos quarteirões insalubres e divulga os princípios do IV CIAM (1933), que
entretanto, que, em função da distância que nos separa dos acontecimentos que tem a habitação como ponto central. A arquitetura é o recurso para uma possível
estamos por analisar, esse aspecto apontado por Costa se encontra atenuado. Utili- reforma social. Dentro dessa linha, a Revista de Arquitetura (1938) transcreve um
zaremos as expressões “moderno” e “modernista”, para nos referirmos à produção projeto para Nova York, de autoria de Norman Bel Geddes, em que torres, acessadas
arquitetônica ou urbanística, específica desse movimento moderno. por vias elevadas, separadas por largos espaços acomodam uma população três a
“Moderno é o certo. Modernista tem um ar pernóstico e um sentido suspei- cinco vezes maior que a existente.
to. Parece que está se opondo ao que se fazia antes, a tradição, para fazer As transferências dos princípios modernistas se devem em grande parte às
uma coisa obcecadamente moderna. Eu não via diferença. A verdadeira visitas de Le Corbusier ao Rio de Janeiro (1929, 1936), que se tornam o principal veí-
arquitetura moderna não promove a ruptura com o passado, só a falsa”9. culo de tradução dos ideais do CIAM junto aos urbanistas locais13. Esse fato explica a
pequena influência de outras correntes ou outros arquitetos como Josep Lluís Sert
Os ideais propagados pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moder- (1902–1983), um dos influentes arquitetos modernos, que contribuiu com projetos
na – CIAM, que se realizam após 1928, trazem a possibilidade de solução dos pro- urbanos na Europa, Estados Unidos e outros países da América.

8. Na cidade ideal, as artérias têm a largura maior que a soma das alturas das edificações dos lados, para permitir em
caso de desmoronamento a passagem de turmas de salvamento. A orientação dos ventos auxilia na evaporação dos
10. Sobre esse conteúdo de universalidade e de verdade científica dos princípios dos CIAM, ver TSIOMIS, 1998.
gases. O modelo não permite centro comercial ou industrial para diluir os prejuízos de bombardeios, ESTELITA, 1934.
11. Sobre o assunto, ver SILVA PEREIRA et al, 1987.
9. COSTA, Lúcio. Entrevista para a Folha de São Paulo, São Paulo: 23/07/1995. O arquiteto, contudo, utiliza o termo
“modernista” ao se referir a Atílio Masieri Alves como o “primeiro modernista rebelado” em Muita Construção, alguma 12. LE CORBUSIER,1937, p. 284. A densidade proposta para Paris é de 1000 hab/ha, seis vezes a das cidades jardins e três
arquitetura e um milagre, Correio da Manhã, Rio de Janeiro: 15/06/1951. É interessante, ainda, observar a utilização por vezes a dos quarteirões parisienses. Este estudo se tornou mais preciso quando da construção do Pavilhão dos Tempos
Lúcio Costa de “modernístico” no sentido pejorativo (“grotescas feições modernísticas”) em Razões da nova arquitetura, Novos na Exposição de Paris de 1937.
Revista da Diretoria e Engenharia, Rio de Janeiro: nº 1, janeiro 1936. 13. Essa questão também é apontada por LEME, 2000.

92 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Vera F. Rezende 93


Na primeira visita, que ocorre em 1929, curiosamente, nem todos os arquite- rando, estão prontos para criar esplendores desconhecidos e para propi-
tos brasileiros são tocados pelos ideais modernistas. Nessa ocasião, em que vai “a ciar as glórias de uma nova civilização”16, (1936, p. 243).
caminho do Prata”, nas palavras de Lúcio Costa (1951), às cidades de Buenos Aires,
Montevidéu e São Paulo, realiza uma palestra no Rio de Janeiro. Lúcio Costa (1987) é Coloca-se, portanto, como continuador de um urbanismo desenvolvido no
um deles: “Eu era inteiramente alienado nessa época, mas fiz questão de ir lá; Che- Século XX, com raízes em Haussmann no Século XIX, num discurso renovador que
guei um pouco atrasado e a sala estava toda tomada... Fiquei um pouco e depois anuncia uma nova era, desta vez para a cidade do Rio de Janeiro.
desisti e fui embora, inteiramente despreocupado, alheio à premente realidade”. Mas, esse urbanismo deve também dar as costas ao passado e voltar-se para
O seu interesse pelo modernismo se dá pouco depois, após o seu período o futuro. Le Corbusier propõe a negação das ideias e propostas de Agache17, por
como diretor da Escola de Belas Artes, nos anos de “chômage” de 1932 a 1935, atra- entender que representam aquilo com o que se deveria romper. Em 1936, assume
vés de livros, alguns por indicação do amigo Carlos Leão. uma posição diversa da adotada por ocasião da visita de 192918, quando não se opõe
No ano de 1936, Le Corbusier vem ao Rio de Janeiro por quatro sema- claramente à Agache, que se encontrava em vias de concluir o seu plano.
nas, em viagem motivada por solicitação de arquitetos brasileiros, em espe- Os princípios de Le Corbusier marcam os assistentes das palestras e a partir
cial Lúcio Costa14, ao ministro Capanema, com vistas a consultá-lo sobre o daí os urbanistas se manifestam apoiando os princípios dos Congressos Internacio-
projeto do Ministério da Educação e Saúde e sobre a Cidade Universitária. As nais de Arquitetura Moderna – CIAM, como a necessidade de se impor ordem às
suas cinco conferências se caracterizam por suas ideias inovadoras e por sua cidades e de criação de áreas vazias e espaços verdes. Adalberto Szilard (1936), dois
capacidade de exposição. meses mais tarde, já os utiliza e propõe soluções que parecem constituir a primeira
Nessa ocasião, é difícil ficar imune ao encanto de suas ideias que anunciam expressão aplicada a um projeto de adesão aos novos valores. Seu croqui se orien-
uma nova era, que aliam princípios arquitetônicos a decisões tomadas racionalmen- ta para a futura Av. Presidente Vargas, para a qual projeta, sem compromisso com
te. Uma racionalidade, que se manifestaria além da arquitetura ou da cidade, como dimensões, a separação de pedestres e veículos com vias no nível térreo das edifica-
décadas mais tarde justificaria Lúcio Costa (1962, p. 334): “O Novo Mundo não está ções, pedestres e lojas no primeiro nível. (FIGURA 1)
mais à esquerda ou à direita, mas acima de nós; precisamos elevar o espírito para al-
cançá-lo, pois não é mais questão de espaço, mas de tempo, de evolução e de matu-
ridade. O Novo Mundo agora é a Nova Era, e cabe à inteligência retomar o comando”.
Convém recordar, também, como Lúcio Costa justifica o seu interesse pelo
urbanismo e a importância devida a Le Corbusier no processo de seu comprome-
timento e adesão aos novos valores: “O Corbusier tratava o urbanismo como coisa
fundamental e a arquitetura como coisa complementar. Foi com ele que me apaixo-
nei por urbanismo. Não dá para separar arquitetura do urbanismo”15.
Mas a que urbanismo pretendia Le Corbusier dar continuidade? Em 1936, em
artigo publicado em periódico local, exaltava as obras do prefeito Pereira Passos e FIGURA 1 Proposta para Av. Presidente Vargas
Fonte: Szilard, A. Revista de Arquitetura e Urbanismo. Ano 1, Setembro/outubro, 1939
sua visão grandiosa:

“... caso se queira, a mesma grandeza de visão poderia reinar de novo. E,


O Rio de Janeiro é objeto de uma série de formulações concretas de inspi-
desta vez pelo esforço sincronizado entre a arquitetura e o urbanismo, os
ração modernista, produzidas pelos urbanistas locais. Na XIª Feira Internacional de
trabalhos de Passos poderiam ser continuados, dentro dos seus espíritos
e suas linhas com as técnicas modernas e com um sentimento cívico de Amostras da Cidade do Rio de Janeiro em 193819, realizada no aterrado do Cala-
responsabilidade bastante elevados para que o Rio de Janeiro traga ao 16. LE CORBUSIER,1936 (tradução livre da autora).
mundo a demonstração brilhante que os Tempos Modernos, em se prepa- 17. Em carta a Oswaldo Costa, em 22/04/1930, lamenta o fato de o plano ter sido conferido a um arquiteto à margem da
era maquinista. A correspondência está transcrita em SILVA PEREIRA et al, 1987.
14. A responsabilidade de Lúcio Costa na vinda foi inicialmente ignorada pelo próprio Le Corbusier, que considerava 18. Naquela ocasião (1929), Le Corbusier encontrava-se interessado em planejar a nova capital do Brasil. Sobre o tema,
o convite uma iniciativa do ministro Capanema e a presença dos arquitetos brasileiros, uma intromissão exagerada, ver MARTINS, 1994.
(Costa, 1987). 19. A Secretaria Geral de Viação, Trabalho e Obras Públicas na XIª Feira Internacional de Amostras, Revista Municipal de
15. COSTA, Lúcio. Entrevista a Mario César Carvalho. Folha de São Paulo, São Paulo: 23 de julho de 1995. Engenharia. Rio de Janeiro: nº 6, p. 670-693, novembro de 1938.

94 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Vera F. Rezende 95


bouço, a prefeitura apresenta que em 1950 irá reavaliar. Propõe
os seus projetos de urbanização uma cidade com vias exclusivas
elaborados pela Comissão do para veículos, a urbanização do
Plano da Cidade20 na adminis- subsolo para transporte ferrovi-
tração de H. Dodsworth para ário, edificações sobre pilotis e
a Avenida Presidente Vargas, a a verticalização com criação de
área do desmonte do Morro de áreas livres.
Santo Antônio e do aterro no J. O. Saboya Ribeiro
bairro da Glória e Flamengo, e a (1943), em artigo denominado
Esplanada do Castelo. Embora a Os Núcleos Residenciais do Futuro,
maioria das propostas se relacio- propõe um projeto habitacional
ne com o sistema viário, as ma- FIGURA 2 Loteamento na área do Saco da Glória. para o bairro da Gávea dentro
quetes e desenhos demonstram Fonte: Fonte: Almeida, P. de Camargo, 1939. dos novos princípios, embora,
o aproveitamento dos terrenos por uma tipologia arquitetônica em série, onde já se FIGURA 3 Tipos de quadras. segundo ele, esses critérios não
encontram presentes edificações em “redent”, pilotis e a abertura de áreas livres. A Fonte: Andrade e Silva e Fusco, 1938. possam ser aplicados às cidades
arquitetura modernista produzida a partir da replicação de uma mesma edificação, “obsoletas”, mas àquelas que
exaustivamente, se antecipa ao urbanismo modernista. (FIGURA 2) fazem parte de um novo “surgimento urbano”. O que parece demonstrar a dificulda-
Por outro lado, os novos princípios fazem com que sejam questionados cri- de encontrada pelos urbanistas locais em aplicá-los em escalas maiores nas cidades
térios de ocupação de quadras propostos por D. A. Agache. Affonso Eduardo Reidy existentes.
(1938) discorda das propostas para a Esplanada do Castelo, quadras com áreas in- Em outro texto (1945) defende o aproveitamento da Esplanada do Morro de
ternas, segundo ele, um resíduo da rua corredor, com deficiências de ventilação e Santo Antônio sem divisão em quadras e lotes pela definição de massas arquitetônicas.
iluminação. Propõe o aproveitamento das quadras ainda vazias com a criação de Nesse momento, Saboya Ribeiro já é autor de projeto (PA nº 3612/41) para o local, em
espaços livres, a separação dos tráfegos rápidos e local, com autoestradas elevadas. que a aplicação dos ideais modernistas, ainda, está centrada na repetição de blocos
Nesse mesmo ano, são revogados pela Comissão do Plano da Cidade os projetos construídos dentro dos novos princípios, ao contrário de outros projetos posteriores.
de alinhamento para a Esplanada do Castelo feitos de acordo com as diretrizes do Plano Percebe-se que, ao final da década de 1930 e início da de 1940, os princípios
Agache. Esses vinham sendo aprovados desde 1928 e são, então, substituídos pelo PA do urbanismo modernista – a separação de vias para veículos e pedestres, a con-
nº 3085/38, contemplando as quadras abertas dentro dos novos princípios. Nesse mo- centração em torres e a ausência de divisão em lotes – não são ainda amplamente
mento, o ideário modernista se encontra estabelecido junto aos quadros da prefeitura. aplicados, mesmo em projetos, ao contrário dos princípios arquitetônicos. Encon-
Paulo de Camargo Almeida (1939), ao estudar o centro da cidade, afirma tram-se presentes os pilotis e os blocos de diferentes alturas. A busca dos elementos
orientar-se pelo Plano Agache quanto à destinação da maior parte dos espaços, mas centrais da “Ville Radieuse” (1934) de Le Corbusier, sol, ar, vegetação, já se torna
o aproveitamento dos terrenos retrata as composições modernistas das maquetes determinante nas propostas teóricas e nos projetos.
de 1938. Andrade e Silva e Rosário Fusco (1942) defendem, anos mais tarde, a redivi- Por outro lado, apesar da crescente adesão aos novos valores, na década de
são de quadras existentes na área central para o seu aproveitamento por edificações 1940, observa-se também a tentativa de se estabelecer uma síntese ou acordo entre
verticalizadas, com vistas ao aumento das áreas livres. Eles mostram graficamente as diferentes propostas. Szilard (1944) reitera os princípios do CIAM quanto à neces-
vantagens das quadras modernistas diante de outros tipos de ocupação. (FIGURA 3) sidade de se impor ordem às cidades existentes, mas baseando-se nas propostas
Determinadas propostas se dirigem para uma cidade ideal e não para uma de Eliel Saarinen21, que advoga uma descentralização racional, adapta o modelo à
cidade existente. A. Szilard (1943), em artigo denominado Cidades do Amanhã, reafir- cidade do Rio de Janeiro. Stephane Vannier (1945), por outro lado, reitera que o ur-
ma os princípios do Plano Voisin (1925) para Paris, defendendo-o de críticas, posição
21. Conceitos baseados no livro de Eliel Saarinen, A Cidade, seu desenvolvimento, sua decadência e futuro, de 1943. É
20. Em 1937 o Prefeito Dodsworth recria a Comissão que havia sido estabelecida em 1930 pelo Prefeito Adolfo Bergamini proposta uma descentralização orgânica, em que cada núcleo é razoavelmente complexo, com vistas a permitir uma
para avaliar o Plano Agache, extinta em 1931 pelo Prefeito Pedro Ernesto. vida coletiva próxima ao campo.

96 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Vera F. Rezende 97


banismo deve contemplar as diversas funções – habitar, trabalhar, repouso e recreio
– mas cita, também, Agache e a necessidade do urbanismo interdisciplinar.
Posteriormente, na tentativa de preparar uma síntese sobre o urbanismo, Szi-
lard, em livro editado em 1950 (em coautoria com Oliveira Reis), traça o desenvolvi-
mento da teoria do urbanismo moderno, contemplando os modelos recomendados
pelos CIAM e outras propostas contemporâneas, porém mais orgânicas, como as
desenvolvidas por Eliel Saarinen e, ainda, por Gaston Bardet com seu método de
topografia social, com levantamentos sobre a cidade e os seus habitantes22.
Os conceitos presentes no Plano Voisin (1925) para Paris são aplicados por Szi-
lard na área central, ao mesmo tempo em que menciona as ideias de Lewis Munford, FIGURA 4 Diferentes representAções e quadras para a mesma Avenida do Mangue. Fonte: Revista Municipal
de Engenharia, 1938.
contrárias à centralização. Compara as propostas de Le Corbusier, concentração e
alta densidade, e Frank Loyd Wrigth, dispersão e baixa densidade, para concluir – A implantação da Avenida Presidente Vargas coincide com a consolidação
como uma tomada de posição – que constituem propostas radicais, tornando-se desses princípios na cidade, embora a intenção de prolongamento do antigo Cami-
necessário voltar para os urbanistas que propuseram melhoramentos nas cidades nho do Aterrado até o mar já datasse de meados do século XIX 25. O projeto inicial
existentes: Patrick Geddes, Lewis Munford e Werner Hegemann23. prevê a Avenida do Mangue, um importante eixo de ligação leste-oeste da cidade,
Szilard distancia-se, assim, do urbanismo modernista e reproduz a tentativa posteriormente Avenida Presidente Vargas, com o canal do meio em toda a sua ex-
dos estudiosos em compatibilizar a aplicação dos novos princípios com a realidade tensão, detalhe que é modificado pelo Plano Agache.
existente das cidades. A sua visão do urbanismo, além disso, considera os levan- Na administração H. Dodsworth, o projeto é reavaliado26 e apresentado na
tamentos que abrangem os diversos campos, afastando-se da rígida aplicação do XIª Feira Internacional de Amostras em 1938, como parte importante do conjunto
modernismo, e do seu artigo anterior Cidades do Amanhã (1943). de obras viárias propostas27, uma das radiais principais aprovadas pela Comissão do
A este propósito, cumpre-nos lembrar, que no período do pós-guerra, outros Plano da Cidade. Em 1937, reproduzem-se as condições favoráveis para a execução
fatores passam também a ser valorizados pelos CIAM24 e a cidade já é então en- de obras no Distrito Federal pela concentração de poder de decisão propiciada pela
tendida como uma categoria complexa, não mais abstrata e universal, e o seu ha- vigência do Estado Novo, com a atuação conjunta da prefeitura e do governo federal,
bitante um ser político e social, o que acarreta a necessidade de estudos para a situação semelhante presenciada com a Reforma Pereira Passos no início do século.
formulação de propostas. Trata-se do momento em que os novos ideais começam a ser absorvidos, res-
tritos ainda ao campo da arquitetura. O projeto do conjunto de obras viárias reuni-
das sob a denominação “Plano da Cidade”, de autoria de engenheiros urbanistas
O Urbanismo Moderno e seus projetos como José de Oliveira Reis, expressa os novos valores, ainda limitados à representa-
ção das edificações em desenhos ou maquetes. As representações contraditórias de
Nas décadas de 1930, 1940 e 1950 alguns projetos urbanos incorporam, parcial
mesma época (1938), para a mesma avenida, demonstram que os dois urbanismos
ou totalmente, os princípios modernistas. Destacamos, por sua interferência na área
– melhoramentos e modernista – coexistem. (Figura 4) Por vezes, o elemento novo
central, os projetos da Avenida Presidente Vargas e da Esplanada de Santo Antônio.
é uma espécie de galeria (“loggia” na arquitetura italiana), e não o pilotis. E as edi-
ficações ainda mantêm as áreas livres internas típicas do plano Agache. Em outras
22. Bardet advoga a urbanização das cidades para uma vida cristã e, desde a década de 1930, escreve livros e artigos 25. A ideia de ligar o centro histórico ao Paço de São Cristóvão provém dos tempos do Barão de Mauá (1857), quando foi
sobre urbanismo. A influência de Bardet, em nosso país, se dá mais intensamente em Belo Horizonte e São Paulo, onde executada a canalização do primeiro trecho do canal até a Praça 11 de Junho. REIS, 1977.
se manifesta através do padre dominicano Louis Joseph Lebret. Ver Urbanismo no Brasil, 1895-1965, LEME, Maria Cristina 26. A implantação da via, com largura de 80,00m, resulta na demolição de 525 edificações. REIS, 1994 e ALVES DE
(org.), 1999. BRITO, 1944.
23. Patrick Geddes (1865-1935) dedicou-se à biologia e ao estudo das atividades humanas. Lewis Munford, discípulo 27. Entre outras obras da administração H. Dodsworth, destacam-se a urbanização da Esplanada do Castelo, a Avenida
de Gueddes, crítico das idéias de Le Corbusier e das grandes metrópoles, era defensor da descentralização. Werner Brasil, a Avenida Tijuca, a duplicação do Túnel do Leme e o Corte do Cantagalo. Juntamente com o prolongamento
Hegemann (1882-1936) tornou-se famoso por sua campanha pela descentralização de Berlim em 1912. Foi editor, de da Avenida do Mangue são projetadas outras vias pela Comissão do Plano da Cidade, entre elas, a Avenida Diagonal,
1924 a 1933, da Revista Arquitetura e Urbanismo (Alemanha). cortando a área de desmonte do Morro de Santo Antônio e ligando a Lapa ao Campo de Santana, atual Praça da
24. Desde o VI CIAM (1947) e do VII CIAM (1949), são introduzidas novas reflexões sobre a cidade. Sobre o assunto, ver República. Ver na Revista Municipal de Engenharia: O plano Diretor, 1943; Plano de Melhoramentos da Cidade do Rio de
TSIOMIS, 1998. Janeiro, 1941 e PASSOS, 1941.

98 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Vera F. Rezende 99


representações, as edificações com previsão de pilotis são dispostas em “redents” e pelo XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, cujo sítio definido para a sua realização
criam espaços livres. é a área resultante do aterro proveniente do material retirado do morro.
Embora intenção antiga, a decisão de sua execução na vigência do Estado Desde o final da década de 1930, o aproveitamento da esplanada do Morro
Novo (1937) se dá pouco depois do emblemático projeto do Ministério da Educação de Santo Antônio é objeto de projetos32 da prefeitura, inclusive, de Saboya Ribeiro,
e Saúde (1936). Nesse momento, a solução parece ser a adoção do traçado viário já colaborando com a Comissão do Plano da Cidade, com as mesmas características da
amadurecido como proposta de Agache em 1930, dando-lhe um caráter modernista arquitetura modernista em série que se antecipa ao urbanismo modernista. E outros
na ocupação dos lotes resultantes. posteriores do Departamento de Urbanismo-DUR, em que figuram urbanistas como
Szilard, em 1936, propunha de forma esquemática o aproveitamento dos ter- José de Oliveira Reis, Affonso Eduardo Reidy, ambos diretores do Departamento de
renos com separação de pedestres e veículos, mas não é essa a solução adotada. Urbanismo –DUR em épocas diversas, e Hermínio de Andrade e Silva.
O projeto de urbanização acaba por ficar limitado à arquitetura modernista com É, contudo, o projeto de Reidy e Andrade e Silva33 de 1948 que expressa de
abertura de áreas livres, pilotis e edificações de diferentes alturas em lotes indivi- forma ampla os ideais modernistas (FIGURA 5). Uma via arterial, a Avenida Norte Sul,
dualizados. A Presidente Vargas é inaugurada em 1944 por Getúlio Vargas, como em dois níveis, separa a circulação de veículos leves e pedestres da de veículos pesa-
um marco do conjunto de realizações da administração da prefeitura apoiado pelo dos, propostas justificadas pela transcrição de trechos da Carta de Atenas. A densida-
governo federal. O seu projeto monumental, suas grandes dimensões simbolizam de, também baseada na Carta de Atenas, é de 1000 habitantes por hectare – a mesma
a busca pela construção de uma nova nação em oposição ao Brasil da República advogada por Le Corbusier para a cidade de Paris (1937). Presentes estão os princípios
Velha28 e, ainda, serve de palco para inúmeros desfiles cívicos, em consonância com modernistas, em especial, o atendimento das funções – habitar, trabalhar, circular e
o que ocorre em regimes totalitários fora do país. recrear-se – a concentração com a criação de áreas livres, o sol, o ar e a vegetação.
A ocupação concretizada demonstra, porém, que a sua implantação acaba O projeto, entretanto, ainda sofre
por não atender em toda a sua extensão aos novos princípios. Persistem em parte modificações, algumas de autoria de An-
dela – trecho mais próximo à igreja da Candelária – as edificações coladas nas divisas drade e Silva, e a urbanização iniciada na
com galerias térreas para pedestres. Nesse trecho, a harmonia é dada pela uniformi- década de 1960 e presente hoje no local
dade de alturas, que aliada à largura da via, dá ao espaço uma característica monu- não corresponde às propostas de Reidy.
mental nos moldes do Plano Agache, características que faltam aos demais trechos. Além da ausência da função residencial,
Constante também do conjunto de obras da Comissão do Plano da Cidade as diversas edificações verticalizadas di-
em 1938, encontra-se o desmonte do Morro de Santo Antônio29, ideia que data da ferem umas das outras, tendo o conjunto
mesma época da proposta do desmonte do Morro do Castelo – início do século XIX perdido o caráter de unidade. Embora o
– ambos, então, justificados por razões sanitárias30. urbanismo moderno tenha sido capaz
Entretanto, os primeiros projetos, no século XX, não preveem a sua demolição, de ser expresso como projeto pelas
mas a extensão de vias e a sua urbanização. No final da década de 1930, a ideia de des- mãos de Reidy e Andrade e Silva, ainda
monte e a sua urbanização já figura entre as intenções da Comissão do Plano da Cidade. assim não logrou a sua concretização
P. de Camargo Almeida, em 1939, apresenta um estudo detalhado sobre os desmontes plena naquele espaço.
e o aproveitamento da esplanada. Em 1941, um projeto de alinhamento é aprovado, O material retirado do morro de
que contempla a demolição e o consequente aterro da faixa litorânea entre o Aeroporto Santo Antônio dá lugar ao Aterro do
Santos Dumont e o Morro da Viúva. A impossibilidade de sua realização será lamentada FIGURA 5 Urbanização da Esplanada de Santo Flamengo. Para esse local, ao longo da
Antônio, projeto de REIDY E ANDRADE E SILVA Fonte:
por H. Dodsworth31, em 1943, em face de seus altos custos no período da 2ª Guerra década de 1950, são elaborados projetos
Reidy, 1948.
Mundial. Somente na década de 1950, as obras de desmonte são iniciadas, motivadas por parte do Departamento de Urbanis-

28. REZENDE, 2012.


32. PA 3612/41 (Saboya Ribeiro), PA 5028/49 (Reidy e Andrade e Silva), PA 6972/57 e PA 7214/58 (Andrade e Silva e
29. FARME D’AMOEDO, 1958, REIDY, 1948. outros). Ao aprovar o PA 5028/49, o prefeito Mendes de Moraes afirma não incluir na aprovação o elevado proposto,
30. José Maria Bontempo, médico de D. João VI, tendo em vista evitar enfermidades no Rio de Janeiro propõe o que, segundo ele, desfiguraria a cidade. REIS, 1977.
desmonte dos morros (1814). 33. Trata-se de blocos comerciais e de serviços, alguns de 26 pavimentos, e uma lâmina residencial de 780,00 m de
31. DODSWORTH, 1943. comprimento e 12 pavimentos, com a criação de áreas livres e outras edificações baixas para lazer.

100 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Vera F. Rezende 101


mo34, em que a responsabilidade pelas definições fica entre José de Oliveira Reis modernos na arquitetura e no urbanismo ou seus projetos e realizações se dão inten-
para a parte viária (“park-way”), e Affonso Eduardo Reidy para a urbanização. É, con- samente no período compreendido entre os anos de 1930 e 1945, a Era Vargas37.
tudo, pelas mãos de Lota de Macedo Soares, que gerencia o projeto e execução na Ao longo da década de 1940 e 1950, os arquitetos, especificamente aque-
gestão do Governador Carlos Lacerda, assessorada por uma comissão de profissio- les comprometidos com o movimento moderno consolidam um campo de projeto
nais como Reidy e Burle Marx, que é finalmente implantado o Parque do Flamengo dentro do campo maior do urbanismo, que nas décadas anteriores era ocupado por
na década de 196035. engenheiros-urbanistas. Processo esse, coerente com o observado em outros países,
a respeito do qual nos lembra Choay: “Os membros do CIAM redefinem o papel do
arquiteto na nova sociedade tecnicista, cuja ordenação global reivindicam.”38
Urbanismo Moderno, um processo Enquanto no decorrer da década de 1930 e início da de 1940 engenheiros
como Saboya Ribeiro e José de Oliveira Reis são responsáveis pela urbanização
Na primeira metade do século XX, duas linhas de urbanismo se constroem36 de diversos bairros39, em que a ênfase se encontra na definição do sistema viário
e se tocam em determinados momentos. A primeira, que tem início nos planos de e praças, ao longo das décadas de 1940 e 1950, o profissional mais adequado para
melhoramentos com o prefeito Pereira Passos no início de século, manifesta-se no projetos de urbanização é aquele que domina o referencial modernista, que se
plano de remodelação e embelezamento de Agache em 1930 e tem continuidade apóia sobre a arquitetura, como Reidy e Lúcio Costa.
no conjunto de obras da Comissão do Plano da Cidade em 1938, na administração de As manifestações concretas do urbanismo modernista em nossa cidade se
H. Dodsworth. A segunda tem origem no movimento moderno e é divulgada pelos fazem sentir de forma gradual a partir da década de 1940, demonstrando que as
congressos do CIAM e pelas mãos de Le Corbusier. As duas linhas se tocam quando ideias contidas nos textos produzidos na década de 1930 precisavam ser assimiladas
as construções representadas nas propostas da Comissão do Plano da Cidade já antes de sua execução. Nesse processo, a execução do projeto do arquiteto Lúcio
possuem características modernistas, ou quando as obras viárias, como o corredor Costa para Brasília e sua inauguração em 1960 funcionam como marco e inspiração.
Norte-Sul da Esplanada de Santo Antônio ou o “park-way” do Aterro do Flamengo É possível dizer que é através da arquitetura que se dá a introdução concreta
são partes essenciais de projetos de urbanização. As diferenças entre as duas, con- – a realização – do urbanismo modernista em nossa cidade. Apesar da boa recepti-
tudo, ficam claras em determinados momentos como no período pós-conclusão do vidade das palestras de Le Corbusier, em 1936, algumas de suas propostas, como a
Plano Agache que coincide com a segunda visita (1936) de Le Corbusier. ausência de lotes e quadras, a separação de circulação de pedestres/veículos são de
Nessa ocasião, as divergências não são somente o fato de Agache olhar para difícil execução. Os princípios arquitetônicos são mais facilmente concretizados atra-
o passado e Le Corbusier, para o futuro, como expresso pelo arquiteto modernista. vés de construções isoladas, em que o prédio do Ministério da Educação e Saúde é um
Mas de diferentes visões de cidade e dos meios para obtê-la. O modernismo prome- exemplo aprovado por sua beleza e por suas qualidades de ventilação e iluminação.
te a solução dos problemas, a partir da criação de uma nova cidade – para uma nova Não só nos textos produzidos na década de 1930 estão presentes projetos urbanísti-
sociedade – negando a existente ou reconstruindo-se sobre o seu tecido – enquan- cos, em que as edificações representadas possuem características modernistas, como
to a primeira linha propõe a sua remodelação, preparando-a para o futuro. É dentro também no momento da realização de alguns projetos, como a implantação da Ave-
dessa vertente modernista que cresce e se consolida a contribuição dos arquitetos, nida Presidente Vargas, os princípios modernistas são utilizados na arquitetura.
em especial, Affonso Eduardo Reidy e Lúcio Costa. A intenção de execução da avenida é, como vimos, anterior ao envolvimento
Ao final do nosso período de estudo, em 1948, encontramos Reidy, um dos dos urbanistas locais com os princípios modernistas, mas a sua implantação coinci-
principais defensores do movimento moderno, à frente do recém-criado órgão de de com o período em que essas ideias são divulgadas de forma intensa, fato que se
urbanismo da prefeitura, a Diretoria de Urbanismo, o que nos leva a admitir que o mo- manifesta nas propostas de aproveitamento dos lotes resultantes da urbanização.
vimento moderno, como processo, já se encontra afirmado nos meios oficiais. Numa
perspectiva mais ampla desse processo, a irradiação e a consolidação dos princípios
37. O modernismo, entretanto, não pode ser considerado o estilo oficial da Era Vargas em seus diferentes níveis da
administração. Muitos dos projetos executados nesse período estão apoiados em valores tradicionais, produzindo,
especialmente na cidade do Rio de Janeiro, a coexistência de expressões distintas, tanto na arquitetura quanto no
urbanismo. Ver Rezende e Azevedo, 2009.
34. PA 5030/49, PA 5031/49, PA 5476/50, PA 6128/53, PA 7172/58 e PA 7500/59. 38. CHOAY, 2004. (tradução livre da autora)
35. Sobre o tema, cf. Oliveira, 2011. 39. Além de projetos viários, Saboya Ribeiro é responsável pelo projeto do Recreio dos Bandeirantes, parte do Leblon,
36. Sobre a questão, cf. LEME, Maria Cristina, 1999. do Jardim Botânico e de Laranjeiras, e J.O. Reis pelo do Bairro Peixoto, em Copacabana.

102 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Vera F. Rezende 103


Por outro lado, ao longo da década de 1930, enquanto vão sendo assimilados os sitária (Lúcio Costa e Reidy, 1937 e Jorge Moreira, 1957); do Parque Guinle, projeto
novos princípios, vai sendo posto de lado o Plano Agache. O avião, imagem carregada habitacional precursor das super quadras de Brasília (Lúcio Costa, 1946) e no Plano
de significados para Le Corbusier, simbolizando a era maquinista, promove a substitui- Piloto para a Baixada de Jacarepaguá (Lúcio Costa, 1969). Cabe lembrar, contudo,
ção de um grande espaço público e livre – a entrada da cidade – de Agache, pelo Aero- que os projetos realizados no setor público contam também com a competente par-
porto Santos Dumont. Já vimos que na Esplanada do Castelo são aprovadas, a partir de ticipação de outros profissionais engenheiros como José de Oliveira Reis.
1938, as quadras abertas no lugar das quadras fechadas propostas por Agache. A Cidade Universitária é projetada a partir do final da década de 1940, para
Não podemos esquecer, embora não sejam objeto de nossa análise, dois o local de arquipélago do Fundão, 42 em que participam os arquitetos Lúcio Costa e
outros embates que travam o academicismo e o modernismo. O primeiro diz respei- Reidy e, finalmente, o Escritório Técnico da Universidade, chefiado por Jorge Moreira,
to às transformações propostas pelo arquiteto Lúcio Costa, quando diretor da Escola e demonstra a maior facilidade do movimento moderno em lidar com áreas livres.
de Belas Artes no início da década de 1930, função da qual se retira meses depois. O Contudo, o Plano Piloto para a Baixada de Jacarepaguá de autoria de Lúcio
segundo diz respeito ao concurso para o projeto do Ministério da Educação e Saúde, Costa, em 1969, é a oportunidade que o modernismo tem de se realizar em uma
cujo projeto vencedor de características acadêmicas acaba por ser substituído40 pelo área de expansão do Rio de Janeiro, desvencilhando-se das dificuldades impostas
projeto modernista da equipe de arquitetos brasileiros, a partir do risco de Le Corbu- em áreas parceladas e edificadas. Vários de seus aspectos, principalmente aqueles
sier para outro terreno. A discussão em relação a esse projeto que traz Le Corbusier ao relacionados à produção capitalista do espaço construído e a urbanização resultante,
Rio de Janeiro parece demonstrar que o clima era também favorável à outra discus- tem sido questionados.43 Apesar de corrermos o risco de minimizar outros aspectos
são. Desta vez, não relacionada a uma edificação, mas à cidade e seu destino. relevantes, parece claro que no momento de sua elaboração, após a inauguração de
No Rio de Janeiro, a partir da década de 1930, a prefeitura do Distrito Federal Brasília e de parte da Esplanada de Santo Antônio, o urbanismo modernista já havia
se estrutura de forma mais adequada para fazer frente aos problemas da cidade, incorporado algumas críticas quanto à certa rigidez funcional ou à presença “bruta-
passando a contar a partir de 1937 não só com a Comissão do Plano da Cidade, assim lista” da arquitetura44. Esse fato, aliado à beleza do sítio da Baixada de Jacarepaguá,
como com órgãos técnicos especializados. Em 1945, ela é transformada em Depar- parece contribuir para que Lúcio Costa opte pela valorização de aspectos paisagísti-
tamento de Urbanismo, vinculado à Secretaria Geral de Viação e Obras41. Inúmeros cos, preocupação já presente no projeto do autor para o Parque Guinle.
projetos passam a ser produzidos pela prefeitura a partir de 1937. Ainda na década de 1960, a cidade do Rio de Janeiro, então Estado da Gua-
José de Oliveira Reis, engenheiro, destaca-se por sua atuação a partir de 1938 nabara, é também objeto de um plano de desenvolvimento de autoria de Doxiadis
à frente da Comissão do Plano da Cidade e do Departamento de Urbanismo da pre- (1965), em que são definidas propostas para o período de 1960 a 2000. Embora o
feitura. No final da década de 1940, Affonso Eduardo Reidy assume a diretoria do plano se oriente para a identificação e a quantificação de necessidades gerais e seto-
Departamento de Urbanismo, momento em que os princípios modernistas passam riais, são apresentados projetos para alguns bairros da cidade, entre eles o de Copa-
a ser expressos com mais clareza, como no projeto da Esplanada de Santo Antônio. cabana. Esse projeto enquadra-se dentro do repertório modernista – concentração
Naturalmente, é preciso dizer que na defesa dos ideais modernistas estão em torres e separação de pedestres e veículos – e acarretaria, para a sua realização,
presentes os arquitetos pertencentes ou não aos quadros da prefeitura. Lúcio Costa, a demolição das edificações existentes nas quadras à época.
Affonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira, Hermínio de Andrade e Silva e Edwaldo Vas- A dificuldade de concretização da proposta específica para o bairro de Copa-
concelos participam com projetos e consolidam a passagem do urbanismo realizado cabana faz com que ela não seja avaliada com profundidade, passando a fazer parte
por engenheiros, para o realizado por arquitetos. Destaca-se a participação desses do rol das utopias. O plano geral, por sua vez, não é implantado por outras razões,
arquitetos, isolada ou em equipe, nos projetos de urbanização da área de desmon- entre as quais, a sua baixa flexibilidade, a descontinuidade administrativa, a falta de
te do Morro de Santo Antônio (Reidy e Andrade e Silva, 1949 e Andrade e Silva, e recursos e, ainda, acidentes naturais como as chuvas que abalam a cidade em 1966 e
Edwaldo Vasconcelos, 1958); do Aterro do Flamengo (Reidy e Edwaldo Vasconcelos, 1967, questões que estão além de uma reflexão sobre o urbanismo moderno.
1953, Andrade e Silva e Edwaldo Vasconcelos, 1958 e Reidy, 1962); da Cidade Univer-
42. Diversas localizações são pensadas: a área da Praia Vermelha, que conta com outros prédios públicos e já havia sido
40. Segundo Gustavo Capanema: “... depois de concurso por mim mesmo promovido para escolher um projeto, antes indicada por Agache em seu plano, a área da Quinta da Boa Vista e, finalmente, o arquipélago do Fundão.
da vinda de Le Corbusier, mandei pagar o prêmio ao primeiro colocado (Arquimedes Memória) com a ressalva de que 43. Recentemente: LEITÃO, 1999. REZENDE e LEITÃO, 2004.
não aproveitaria o seu trabalho,...” Entrevista do ministro Capanema ao Jornal do Brasil. Revista de Arquitetura. Rio de 44. Cabe lembrar o impacto que a massa edificada da Unidade de Marselha (1948) produz em Lúcio Costa: ”O Ministério
Janeiro: julho 1963. da Educação não tinha essa estrutura brutalista... Pensando e exigindo dos calculistas (a respeito do MEC) que
41. Decreto-lei nº. 8305/ 1945, aprovado pelo Presidente da República José Linhares. reduzissem os diâmetros dos pilotis e, de repente, vieram os pilotis enormes”. COSTA, 1987.

104 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Vera F. Rezende 105


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um ambiente onde as relações sociais se tornam possíveis e se “espacializam”. No movimen-
. Urbanização da Esplanada de Santo Antônio e suas adjacências. Revista
Municipal de Engenharia. Rio de Janeiro, p.6-13, janeiro 1945. to moderno, foram concebidos novos princípios imagéticos em busca de uma totalização
englobando a arte, a funcionalidade e a tecnologia, sendo estes responsáveis pela criação
SILVA PEREIRA, Margareth, et al. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo: Tessela/Projeto, 1987.
da grandiosa narrativa da arquitetura do século XX. Nossa questão é: “há tantos estatutos
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de imagem quanto proliferam as imagens no mercado?”Daí a dificuldade do discurso crí-
Rio de Janeiro, p. 165–179, setembro e outubro 1936.
tico basear-se apenas em obras-primas da arte, com seus “valores universais” que podem
. Cidades de Amanhã. Revista Municipal de Engenharia. Rio de Janeiro: nº 3, p. 161-
representar uma espécie de “evolucionismo pictórico”​. É possível falar de uma “pequena
166, julho 1943.
estética” para se referir aos eventos artísticos na era digital, como aqueles característicos do
. Projetos Regionais. Revista Municipal de Engenharia. Rio de Janeiro: nº 1, p. 17-20,
kitsch híbrido de cultura erudita e popular? A imagética da arquitetura kitsch nos subúrbios
janeiro 1944.
do Rio de Janeiro, e até mesmo no Nordeste brasileiro, expressa uma estética mesclada aos
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e todo edifício atual deve aceitar que no mesmo território estão incluídos elementos meta-
Rio de janeiro, 1998.
-artísticos de arte e de não arte. A arte contemporânea combate o kitsch quando pretende
. Uma cidade de 1960. Revista de Arquitetura. Rio de Janeiro: nº 37, p. 16-17,
transcender o papel que lhe é dado pelo mercado, ao criar ou descobrir novos papéis, ten-
janeiro 1938.
tando se encaixar em outras áreas e, especialmente, para procurar negar sua participação
. Urbanismo no Brasil 1895-1965, LEME, Maria Cristina (org.), São Paulo, Nobel/
na indústria do entretenimento. O pós-modernismo foi definido como uma continuidade /
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ruptura com a modernidade. O arquiteto pós-moderno voltou a viver um novo ecletismo
VANNIER, Stephane. O Urbanismo no Estado do Rio de Janeiro. Revista do Clube de
típico do século XIX, com as correntes de retorno ao historicismo que revivem o passado e
Engenharia. Rio de Janeiro: nº 108, agosto 1945.
olham para trás para zombar da alta tecnologia. Este é o esteticismo extremo da descons-
trução como tentativa de dar autonomia ao repertório moderno, com a desmaterialização
da arquitetura formal. Constituiria então o moderno – e, portanto, também o pós-moder-
no–, uma ruptura com todos os elementos estéticos apontados? O “encontrado” (trouvé) na
obra do arquiteto surrealista norte-americano Frank O. Gehry revela um novo método de
projeto em arquitetura inspirado no método “crítico-paranóico” de Salvador Dalí, que pode

108 O Urbanismo Moderno na Cidade do Rio de Janeiro Dinah Papi Guimaraens 109
trazer a tona aspectos irracionais através de um procedimento técnico e criativo razoável. metaphor, to finally refuse it. If the dating of the vanguard and even futuristic surrealism
Ao contrário da “fantasmática” dos meios de comunicação audiovisuais, a “pintura meta- with totalitarian regimes is a notorious fact that composes the modernist avant-garde and
física” (1909-1919) de Giorgio De Chirico é contemporânea à “pintura pura” de Paul Klee, can be represented by the surrealist-inspired metaphysics of De Chirico, one can consider
pintor-músico que explora os limites da metáfora musical, para finalmente recusá-la. Se os here the case of the University within a cross-cultural dialogue. Rio de Janeiro calls “samba
namoros da vanguarda futurista e mesmo do Surrealismo com os regimes totalitários é um schools” their carnival institutions. Thus, it is possible that the academies can learn some-
fato notório, e se a vanguarda modernista pode ser representada pela inspiração surrealista thing new with the Rio samba schools?
e metafísica de De Chirico, pode-se considerar aqui o caso da universidade no seio de um Resumen | La relación entre la imagen y el ser como estructura social en el espacio-tiempo
diálogo transcultural. O Rio de Janeiro denomina de “escolas de samba” suas instituições de define las diferentes prácticas artísticas como la arquitectura. Visto como un todo, la arqui-
carnaval. Assim, será possível que as academias de ensino possam aprender algo de novo tectura es un ambiente donde las relaciones sociales son posibles y “espacializadas”. En el
com as escolas de samba cariocas? movimiento moderno, fueron concebidos nuevos principios basados en imágenes en bús-
Abstract | The relationship between image and being as social structure in space-time queda de una totalización que engloba el arte, la funcionalidad y la tecnología, que son los
defines the different artistic practices such as architecture. Seen as a whole, the architecture responsables de la creación de la gran narrativa de la arquitectura del siglo XX. Nuestra pre-
is an environment where social relations are possible and “spatialized. New imagery prin- gunta es: “¿Hay tantos estatutos de imagen como las imágenes proliferan en el mercado?”
ciples have been designed in modern movement, in search of a totalization encompassing De ahí la dificultad del discurso crítico basarse únicamente en las obras maestras del arte,
art, functionality and technology, which are responsible for creating the grand narrative con sus “valores universales” que puede representar una especie de “evolución pictórica.”
of twentieth century architecture. Our question is: “There are so many image statutes as Es posible hablar de una “pequeña estética” para referirnos a eventos artísticos en la era
images proliferate on the market?” Hence the difficulty of critical discourse based solely digital, como las propias de kitsch híbrido de la cultura erudita y popular? La imágen de la
on masterpieces of art, with their “universal values” that may represent a kind of “pictorial Arquitectura kitsch en los suburbios de Río de Janeiro, e incluso en el nordeste brasileño,
evolution.” It is possible to speak of a “small aesthetic” to refer to artistic events in the digital expresa una estética que combina los principios constructivos de la arquitectura moderna
age, as those characteristic of kitsch hybrid of classical and popular culture? The imagery de Niemeyer, que a su vez incorpora posturas barrocas al funcionalismo de Le Corbusier.
of architectural kitsch in the suburbs of Rio de Janeiro, and even in the Brazilian Northeast, Situaciones consumistas de una arquitectura kitsch están presentes, en cualquier momento,
expresses an aesthetic that had merged the constructive principles of modern architec- en la relación entre el objeto y el espectador, y todo edificio actual debe aceptar que en el
ture by Niemeyer, which in turn incorporates baroque postures with the functionalism of mismo territorio están incluidos elementos meta-artísticos del arte y del no-arte. El arte con-
Le Corbusier. Situations of a consumerist kitsch architecture are present at any time in the temporáneo combate lo kitsch cuando pretende trascender el papel que le es dado por el
relationship between the object and the viewer, and all current building must accept that mercado, mediante la creación o el descubrimiento de nuevos papeles, tratando de encajar
in the same territory are included meta-artistic elements of art and non-art. Contemporary en otras áreas y, sobre todo, tratando de negar su participación en la industria del entreteni-
art combat kitsch when it try to transcend the role given to it by the market, by creating miento. Lo posmoderno se ha definido como una continuidad / ruptura con la modernidad.
or discovering new roles, trying to fit in other areas and, especially, to seek to deny his in- El arquitecto posmoderno vuelve a vivir un nuevo eclecticismo típico del siglo XIX, con las
volvement in the entertainment industry. Postmodernism has been defined as a continuity corrientes de vuelta al historicismo que reviven el pasado y miran atrás para burlarse de la
/ rupture with modernity. The postmodern architect returned to live a new eclecticism typi- alta tecnología.
cal of the nineteenth century, with the currents return to historicism reliving the past and Este es el esteticismo extremo de la deconstrucción como intento de dar autonomía al re-
look back to mock the high technology. This is the extreme aestheticism of deconstruction pertorio moderno, con la desmaterialización de la arquitectura formal. Se constituiría en-
as an attempt to empower the modern repertoire, with the dematerialization of the formal tonces lo moderno – y por tanto, también lo posmoderno – una ruptura con todos los ele-
architecture. Would then constitute the modern – and therefore also the postmodern – a mentos estéticos señalados? Lo “encontrado” (trouvé) en la obra del arquitecto surrealista
break with all the aesthetic elements pointed? The “found” (trouvé) in the work of the sur- americano Frank O. Gehry revela un nuevo método de diseño de la arquitectura inspirado
realist American architect Frank O. Gehry reveals a new design method for architecture –, en el método “crítico-paranoico” de Salvador Dalí, que puede poner de manifiesto aspectos
inspired on the method “paranoiac-critical” by Salvador Dali, which can bring out irrational irracionales a través de un procedimiento técnico y creativo razonable. Al contrario de los
aspects through a reasonable procedure both technical and creative. Unlike the “ghostly” “fantasmas” de los medios de comunicación audiovisuales, la “pintura metafísica” (1909-
audiovisual media, the “metaphysical painting” (1909-1919) by Giorgio De Chirico is the con- 1919) de Giorgio De Chirico es contemporáneo de la “pintura pura” de Paul Klee, pintor-
temporary “pure painting” of Paul Klee, painter-musician who explores the limits of musical músico que explora los límites de la metáfora musical, para finalmente rechazarla. Si la rela-

110 Do kitsch à metafísica Dinah Papi Guimaraens 111


ción de la vanguardia futurista y del surrealismo con los regímenes totalitarios es un hecho o chamado estilo internacional. 2 Em
notorio y que la vanguardia moderna puede ser representada por la inspiración surrealista y geral, as notações gráficas, em todas
metafísica de De Chirico, se puede considerar entonces el caso de la Universidad en el seno as suas formas de expressão, são
de un diálogo transcultural. Río de Janeiro denomina “escuelas de samba” a sus institucio- consideradas como instrumentos
nes del carnaval. Por lo tanto, es posible que las academias de enseñanza puedan aprender fundamentais do desenho artístico.
algo nuevo con las escuelas de samba cariocas? “O pensamento visual” adota os con-
ceitos de “imaginação interativa” e
do “conceito figural” para reiterar sua
rejeição de qualquer dicotomia entre
a concepção do projeto e a gravação
“A casa da criança, uma árvore, flores, um quarto escuro. O gênio infantil nas- da imagem figurativa. Em outras pa-
cido em tal casa não será parecido com o homem de gênio nascido em um meio lavras, a notação gráfica empregada
diferente.” (Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais, 1864: 2009), para desenhar diagramas e croquis
A relação entre a imagem e o ser enquanto estrutura social no espaço-tempo é entendida como sendo funda-
define as diferentes práticas artísticas como arquitetura, artes visuais, escultura, li- Jay Milder, Ark Journey 40, 2003-06 mental para a concepção do projeto
teratura, música e dança / performance. O conceito de “imagética” foi desenvolvido (Arnheim, in op. cit.).
por psicólogos como Rudolf Arnheim (1954: 1974) e se refere à produção de imagens A questão fundamental é se as notações gráficas do projeto podem constituir
relacionadas com o domínio do simbólico. a base do processo de concepção do arquiteto e do desenvolvimento da “ideia”
No caso da arte, as imagens distinguem-se por uma representação ou “ilusão” do projeto. A geometria do espaço arquitetônico concebida como um espaço de
(mimetismo ou cópia) do verdadeiro1, pois o fabrico da imagética artística depende- projeção do pensamento no espaço real envolve duas noções: a concepção e a per-
rá da estética dos diferentes períodos históricos, da criação de estilos de arte, e até cepção, representando uma abordagem “científica” da arquitetura. Para explicar o
mesmo da pessoa de cada artista, fazendo com que os artistas de um determinado espaço arquitetônico não é suficiente analisar o espaço físico, mas é preciso enten-
período e seus estilos individuais produzam diferentes estilos artísticos (cf. Arnheim, der a construção mental de um espaço de referência “arquiteturológico” que inte-
1995). A reprodução excessiva de imagens visuais na história contemporânea sim- gra o processo de concepção e a percepção que permite a “modelagem” do lugar
boliza a imagética típica, em termos estruturais e históricos, da civilização dos meios arquitetônico (cf. Barki, 2003).
de comunicação de massa, embora não represente o poder discriminatório de uma O emprego de eixos e formas triangulares como elementos de composição é
era. uma tradição na arquitetura. O eixo imaginário estabelece uma linha de suporte que
A propósito da especificidade da arquitetura baseada na imagética, deve- cria um tipo de relação entre as partes da composição, quando se define um tipo
-se conceituar suas formulações teóricas (apresentações orais) em termos de suas ideal de um “esqueleto” que apoia a concepção de valores primários de ordem, esta-
configurações espaciais (expressões plásticas ou visuais) para pensar o objeto, tais bilidade e dominação. Com esta ênfase nos eixos, a ideia geométrica se afirma pela
como: da arquitetura como um todo e sua apreciação na dimensão artística, a qual é redução da solução tradicional da rede reticulada em um sistema que determina
experimentada em sua dimensão estética e construída em sua dimensão funcional a organização e o layout dos elementos urbanos. O projeto, ao invés da expressão
e tecnológica. Vista como um todo, a arquitetura é um ambiente onde as relações artística de algo desenhado no papel, assume assim a forma de um meio ou a forma
sociais se tornam possíveis e se “espacializam”. de um pensamento arquitetônico. 3
No movimento moderno, foram concebidos novos princípios imagéticos em
busca de uma totalização englobando a arte, a funcionalidade e a tecnologia, sendo 2. Este sujeito moderno surgiu no Renascimento, época em que a arquitetura tornou-se o artefato (ars mechanica) na
arte liberal (ars liberalis), fazendo com que o arquiteto local de construção remota se tornasse o mestre do desenho,
estes responsáveis pela criação da grandiosa narrativa da arquitetura do século XX, com a invenção da geometria e da perspectiva (cf. Malard, 2006).
3. A geometria é fundamental para o projeto e reflete o arquiteto projetual. O que distingue o pensamento do arquite-
1. Como palavra grega que significa “imitação”, mimesis é usada na filosofia grega em dois contextos distintos. O pri- to do pensamento matemático do agrimensor é o seu tamanho: é, portanto, a noção de escala que constitui a diferença
meiro é um contexto narrativo de Platão, designando uma forma narrativa particular (oral): “por imitação”, o narrador fundamental entre as duas linhas de pensamento. O ato de papel “zero” pode ser uma forma de realização do “gesto”:
imita personagens adotando sua língua. A segunda é uma representação contextual em Aristóteles, em que a mimesis o movimento manual que é humano e comunica o que fazer no ato criativo que envolve a mão, os olhos e a mente do
representa uma imitação representativa (cf. Aumont, 1990). arquiteto (cf. Barki, in op. cit.).

112 Do kitsch à metafísica Dinah Papi Guimaraens 113


Na concepção do projeto, a conceituação do pensamento e o pensamento do
desenho podem ser indicados pelo aforismo de Lucio Costa (1962) de que “o risco
é um risco” – projeto. O “risco” de um arquiteto estimula a imaginação dita “ativa”,
ou seja, uma imaginação com “vontade” (Bachelard, 1979). A concepção do projeto
refere-se a uma atividade cuja notação gráfica aparece como um modo de discurso,
ou seja, o discurso de um estilo poético que simboliza um dos quatro níveis de pre-
cisão propostos por Aristóteles: poética, retórica, dialética e analítica. Caracteriza-
-se tal discurso poético como sendo parte da imagem em que o gosto por hábitos
convencionais se afirma como forma de ser que deve ser aceita como verdadeira,
temporariamente, ocasionando dessa maneira a suspensão da descrença sobre a
realidade imagética. Galeria Miguel Rio Branco, Inhotim, MG

A transição do mundo real, nas artes visuais, decorre do papel fundamen- eliminação da “alma anima, humana ou animal”, mas sob uma ordem de “proto-sub-
tal desempenhado pela atividade criadora do olho como órgão que estabelece um jetividade” que permite que se imprima uma função de coerência na máquina, tanto
espaço comum para a arquitetura, a escultura e a pintura artística. O essencial entre em relação a ela mesma quanto em uma relação de alteridade com o ser humano
as três artes da arquitetura, escultura e pintura encontra-se no elemento que o teó- (Guattari, 1993).
rico de arte e escultor alemão Hildebrand (apud Poulain, 2001) chama de impressões Se “a imagem poética é superior por sua facilidade transcendental” (Cany,
“arquitetônicas” e que representa a confluência da verticalidade, da horizontalidade 2012), é possível falar de arte maquínica no caso de artistas visuais como Nam June
e da profundidade como lei geral que constitui o espaço de composição. Tal lei geral Paik. É ele um artista coreano que discorre sobre a dualidade entre arte e ciência
pode ser descrita a partir da teoria de autores como Wölfflin (2000: 1915). 4 apropriando-se das invenções da Renascença, como a pintura de Leonardo da Vinci
Sobre a percepção visual, pode-se estabelecer uma conexão com o mundo “fresco secco” (“Última Ceia”). Além disso, Paik incorpora as invenções da biologia,
para responder a pergunta: o que é (re)apresentado pela imagem (real ou imaginá- da medicina e da engenharia para estabelecer um uso inovador da tecnologia da
ria)? (Cany, 2008, p. 47-48). A resposta clássica é que “o plano da consciência gráfica televisão e dos meios de comunicação de massa, de forma a “humanizar” a máquina
é que formaliza”, já a resposta tradicional afirma que “é o plano do inconsciente e discutir o novo ambiente criado pela “tecnologia maquínica” (cf. Ori, 2002). 5
que se materializa” (Bachelard, in op. cit.), enquanto a resposta filosófica diz que “é o A “política de despolitização” da globalização (Bourdieu, 2003) fez com que a
nível de consciência abstrata que conceitua.” A conclusão deste autor é que “a visão independência duramente conquistada da produção cultural – tanto no mundo de-
que pensa, ou o pensamento que vê, pode enxergar para além da presença do visí- senvolvido quanto no mundo subdesenvolvido – e a circulação das necessidades da
vel.” A imagem poética é, assim, a palavra como “a imagem do assombro invisível” economia fossem ameaçadas pela intrusão da lógica de negócios em todas as fases
(Cany, in op. cit., p. 49). da produção e circulação de bens culturais. A Escola de Frankfurt já discorrera sobre
Neste quadro antropológico que é “o pensamento que se pensa como visão”, a perda da “aura” da arte com a mecanização. Citando Paul Valéry, Walter Benjamin
a tese de Cany (2012) é que o moderno pensamento-artista é o pensamento visual. revela que a reprodutibilidade das obras de arte só recentemente mudou de fato a
Se o cinema iniciou uma revolução antropológica e civilizacional, a imagem poética noção da arte, na medida em que técnicas apropriadas começaram a emergir como
tem a vantagem de não estar presa na esfera técnica. Atualmente nos encontramos formas originais de arte representadas pela fotografia e pelo cinema. A função da
em uma inevitável encruzilhada, onde a máquina é tratada como um anátema a obra de arte (representada pela unicidade, evidência histórica, contemplação, ado-
uma situação de desumanidade e de ruptura com qualquer tipo de projeto ético. ração, etc) é incidental em relação à reprodutibilidade técnica, e o cinéfilo é “um
A reação à idade maquínica, de maneira a recomeçar novamente não a partir de examinador que se distrai” (Benjamin, 1994, p. 27). 6
uma “territorialidade primitiva” ou de um modo de pensamento “animista”, somen-
te torna-se possível se consideramos que a interface maquínica não existe enquanto 5. “Fluxofilmes” são curtas-metragens de artistas associados à Fluxus. Nam June Paik fez “Zen para o filme” (1962-64),
instalação de mesa com tela de cinema, com piano vertical e baixo em rolo de 1.000 pés de filme de 16 mm, em branco,
projetado na tela por 30 minutos.
4. Wölfflin (2000, 1915) estabelece cinco pares opostos de estilos da arte a partir daqueles estabelecidos nos séculos 6. O processo de “empoderamento” das áreas artísticas e literárias, emancipadas das regras financeiras e de interesse,
XVI e XVII, os quais são: 1) do linear ao pictórico; 2) do plano à profundidade; 3) da forma aberta à forma fechada; 4) da é destruído pela homogeneidade que traz novas plateias de todas as origens em todos os países para assistir filmes de
multiplicidade à unidade. Hollywood, novelas e best-sellers produzidos diretamente para o mercado global (Bourdieu, 1992).

114 Do kitsch à metafísica Dinah Papi Guimaraens 115


Se “nosso horizonte ético-político não é outro que a crítica da sociedade do Rio de Janeiro, foi impregnado por um
espetáculo, do todo comunicativo e consumista” (Cany, 2012) pode-se, então, detec- sabor tropical através da elegância e da
tar um viés ético e político na representação do espaço-cinema e das artes visuais, harmonia formais obtidas pela simplifi-
onde as imagens “neo-sequenciais” assumem tanto a forma de imagens estáticas cação dos volumes que Niemeyer articu-
como a de imagens em movimento (desenhos, fotografias, stills de filmes, pinturas lou, ao acrescentar pilotis bem mais altos
de pop arte, hiperrealismo de um lado, e imagens em movimento e televisão de no vão livre de entrada do MES. A equipe
outro). Nossa questão aqui é: “há tantos estatutos de imagem quanto proliferam as brasileira de arquitetos construiu, dessa
imagens no mercado?” Daí a dificuldade do discurso crítico basear-se apenas em forma, um espaço fluido e aberto que di-
obras-primas da arte, com seus “valores universais” que podem representar uma feria da “sofisticada elegância do mestre
espécie de “evolucionismo pictórico” ​​(cf. Schneiter, 1981, p. 3). francês” (apud Campello, 2001, p. 19) que
É possível, então, falar de uma “pequena estética” para se referir aos eventos realizou o primeiro desenho deste edi-
artísticos na era digital, como aqueles característicos do kitsch7 híbrido de cultura fício em uma visita ao Brasil, em 1930, a Terraço-jardim de Burle-Marx, Edifício do MES-RJ
erudita e popular? A imagética da arquitetura kitsch nos subúrbios do Rio de Janei- convite do então ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema.
ro 8, e até mesmo no Nordeste brasileiro, expressa uma estética mesclada aos princí- A arquitetura exige formas de beleza não apenas úteis. Como resultado de
pios construtivos da arquitetura moderna de Niemeyer, a qual por sua vez incorpora uma função estritamente utilitária, a arquitetura poderia se tornar apenas uma prática
posturas barrocas ao funcionalismo de Le Corbusier. A presença de uma corrente de asséptica para consumidores comerciais. Situações consumistas de uma arquitetura
influência barroca luso-brasileira na obra de Niemeyer é caracterizada pelo uso de kitsch estão presentes, a qualquer momento, na relação entre o objeto e o espectador,
elementos de linhas curvas e de forma livre (cf. Underwood, 1992), tal como ocorre e todo edifício atual deve aceitar que no mesmo território estejam incluídos elemen-
com a colunata do Palácio da Alvorada (1956-1958), em Brasília. Essas colunas foram tos meta-artísticos de arte e de não arte. Basta, portanto, em relação a uma maior
inspiradas em redes estendidas ou em velas de barcos e se tornaram ícones do estimulação causada pelo kitsch, colocar de quarentena todas as definições teóricas
poder político federal, tendo seus elementos construtivos caído no gosto popular de bom gosto e mau gosto (cf. Dorfles, 1969). Eco (1970) afirma que, sem o kitsch, a
e sido copiados em fôrmas de gesso, dispostos maciçamente como decoração nas arte não existe hoje, enquanto Portoghesi (2002) salienta que o resultado kitsch da
fachadas das casas das classes trabalhadoras em todo o país. Disneyland é mesmo superior, em termos estéticos, aos esforços da alta cultura dos
Outros elementos absorvi- arquitetos modernos, na medida em que tal estética cria “peças genuínas de cidades”
dos das obras estéticas e funcio- que se transformaram em “peças de xadrez” depois da arquitetura moderna.
nais de Le Corbusier e Niemeyer Robert Venturi é um crítico da arquitetura moderna, como revela seu livro-
foram o telhado plano e o telha- -manifesto Complexidade e Contradição em Arquitetura9 de 1966. Esta obra tem sido
do “borboleta” (teto em “v”, com considerada como uma das melhores conceituações sobre as mudanças que ocor-
uma calha central, onde a água reram na arquitetura, nos anos 1970 e 1980, enquanto Venturi ali apregoa a necessi-
da chuva é drenada), derivadas da dade de se criar uma arquitetura “complexa e contraditória”. Acredita este arquiteto
estética das “máquinas-de-mo- que a cultura contemporânea aceitou a contradição como condição existencial e,
rar” modernistas. O edifício do em todos os setores culturais e científicos, parece incapaz de chegar a uma síntese
Ministério da Educação e Saúde da realidade abrangente e completa. O texto é colocado em uma condição de com-
(1937-1943), marco modernista no Arquitetura kitsch em Santa Cruz, RJ plementaridade e de diálogo com os “mestres” da arquitetura moderna e, apesar
de haver rejeitado o lema “menos é mais” – uma frase do poeta Robert Browning
7. A palavra kitsch aparece na segunda metade do século XIX, quando turistas americanos em Munique, para comprar empregada por Ludwig Mies van der Rohe para definir um dos principais princípios
pinturas com preços mais baixos, exigem um esboço destas. A partir daí, o kitsch indica “bugigangas” para comprado-
res dispostos a uma experiência estética fácil. O verbo alemão kitschen designa o fato de se “limpar a lama e o lixo nas estéticos da arquitetura moderna da Bauhaus – Venturi busca elementos complexos
ruas”, ou “um mobiliário suave que parece velho”, enquanto verkitschen quer dizer “vender barato” (cf. Brock, 1970).
8. Os princípios de construção da estética kitsch na arquitetura residem nos símbolos da elite cultural disseminados
pelos meios de comunicação de massa e absorvidos pelas classes populares (kitsch passivo), opondo-se a uma atitude 9. Tal sentimento de “complexidade e contradição” se manifesta até mesmo nas arquiteturas “menores” ou espontâne-
crítica da cultura oficial (kitsch criativo), o que aproxima o kitsch de uma vanguarda de choque (Pignatari, 1968), na as, constituindo também a expressão típica de todas as fases do maneirismo italiano do Cinquecento com Palladio e
“criatividade de devorador antropofágico” da arquitetura moderna brasileira (cf. Guimaraens & Cavalcanti, 2007:1979). Borromini, Sullivan, e, mais recentemente, com Alvar Aalto, Le Corbusier e Louis Kahn (cf. Gusdorf, 1982).

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e contraditórios dentro das obras produzidas pelo Movimento Moderno, reconhe- ruptura com a “tradição artística”, ao remeter a suposições de rompimento da arte
cendo tais contradições no seio de um sentimento universal poético e expressivo. com a sociedade burguesa. Walter Benjamin (1994) lamenta o desaparecimento das
O fenômeno do kitsch tem sido visto de forma crítica, particularmente do arcadas parisienses do comércio, mostrando o layout de uma cultura de commodities
ponto de vista da sociedade de consumo, mas há pouca discussão estabelecida e do show na Exposição Universal de 1889, com a construção da Torre Eiffel como um
sobre ele, em termos da teoria da arte. Gilos Dorfles (1969) é uma exceção, tendo marco da arquitetura moderna e da engenharia industrial (cf.Schulz, 2008).
realizado a primeira tentativa de estabelecer uma teoria para analisar a visualidade O arquiteto pós-moderno voltou a viver um novo ecletismo típico do século
kitsch.10 Se a submissão da cultura à lógica esmagadora do mercado que se estabe- XIX, com as correntes de retorno ao historicismo que revivem o passado e olham
lece com o capitalismo passa a governar a partir dos anos 1970-1980 todos os as- para trás para zombar da alta tecnologia. Este é o esteticismo extremo da descons-
pectos da vida urbana, como demonstraram autores como Greenberg e Adorno, há trução como tentativa de dar autonomia ao repertório moderno, com a desmateria-
uma correspondência entre a estética kitsch e a reinvenção dos gêneros artísticos. lização da arquitetura formal. Tal neo-ecletismo pode ser um prenúncio de um novo
A interpenetração da estética kitsch na visualidade contemporânea tem sido discurso que inclui a arquitetura em toda a sua complexidade, liberando seu apego
realmente pouco explorada no campo teórico da arquitetura e da arte, que procu- estético e representando outra grande narrativa como foi aquela do movimento
ra quase sempre ler o kitsch em seus aspectos puramente formais.11 O espaço da moderno. Constituiria então o moderno – e, portanto, também o pós-moderno –,
arte contemporânea tem sido questionado pela transformação da estética em um uma ruptura com todos os elementos estéticos acima apontados?13
produto de consumo, caracterizando-se como o mercado da decoração, do entrete- A consciência pós-moderna pode se juntar à grande aventura da nova tra-
nimento e da indústria cultural. A reprodução em série, o marketing, a massificação dição moderna, abrindo o último dos motivos estéticos e não estéticos. A questão
e a homogeneização são temas que percorrem vários movimentos compostos por aqui é se a produção artística pode voltar sua transmissão para uma atividade estéti-
artistas pop e pós-pop, artesãos e designers que tomam posse do kitsch ou que são ca desinteressada, ao contrário da vanguarda modernista inventada pelos surrealis-
apropriados por ele. Artistas “românticos” ou “convencionais”, assim como membros tas, a qual acarretou naquela distância da arte que conduziu à deterioração e à “po-
da vanguarda combatem o kitsch. A arte contemporânea combate o kitsch quando lítica dos intelectuais.” Este retorno às concepções tradicionais de beleza representa
pretende transcender o papel que lhe é dado pelo mercado, ao criar ou descobrir uma volta à estética modernista, tal como foi definido por Baudelaire em O Pintor
novos papéis, tentando se encaixar em outras áreas e, especialmente, para procurar da Vida Moderna (1863: 2010). A operação crítica aqui descrita representa, então, a
negar sua participação na indústria do entretenimento.12 separação entre o novo e o presente, indicando o primeiro verdadeiro momento
O pós-modernismo foi definido como uma continuidade / ruptura com a mo- de modernidade para Baudelaire. O poeta-crítico descreve a arte moderna real que
dernidade (cf. Jameson, 2004). Baudelaire (2010) fala da transitoriedade do mundo combina a realidade fugaz do momento histórico com certo grau de compromisso
moderno com foco no papel de “espectador”, enquanto Marshall Berman (1986) com o mundo eterno e imutável de forma, assumindo assim o poder de “extrair a
define o “ser moderno” como pertencendo a um ambiente de aventura, poder, cres- transição eterna”.
cimento, alegria, autotransformação e transformação das coisas ao redor, mas que ao Com a delineação desta desconexão entre o “presente” e o “novo”, pode-se
mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos e tudo o que demarcar os estágios de decomposição de um modernismo inautêntico, não com-
somos. Os artistas de vanguarda do final do século XIX e início do século XX escolhe- prometido com o moderno clássico – enquanto a modernidade de Baudelaire é uma
ram Paris como a cidade por excelência “moderna”, indicando um falso problema de realização de certa “presença do antes dentro do mundo” –, com um futuro que
quer reinstalar o valor desacreditado do progresso burguês na estética.14 É uma his-
10. De acordo com Dorfles (1969), a primeira regra prova que “não pode ser considerado kitsch o desequilíbrio formal.”
Se a “vanguarda imitou o ato de imitação”, a pop arte kitsch empregou estilemas sem pecado em seu gosto. Assim, a tória da tradição ortodoxa moderna ilustrada por Clement Greenberg em sua rein-
segunda regra proposta por ele afirma que: “Não se deve deixar de considerar o uso de ornamentos kitsch e estilemas
em diferentes contextos”. 13. A arquitetura pós-moderna apresenta três hipóteses para o fracasso da arquitetura moderna: 1) esta não conseguiu
11. Theodor Adorno, Hermann Broch e Clement Greenberg foram unânimes em sua definição negativa do kitsch, si- aprender a interagir com as pessoas; 2) sua falha decorreu do fato de ter sido reduzida à sua dimensão espacial; 3) seu
tuando-o em direção contrária à vanguarda e, acima de tudo, como uma espécie de “falsa consciência”, ou seja, uma maior erro foi ser totalizadora. O pós-modernismo refere-se, portanto, ao esgotamento da vanguarda histórica elitista
sensibilidade específica do capitalismo, onde o indivíduo está longe de seus próprios desejos e vontades. e futurista, com sua obsessão com o futuro e sua narrativa de convicção sobre a morte de sua própria teoria modernis-
12. Abraham Moles (1986) define o kitsch como “a arte da felicidade”, apenas porque representa os valores da so- ta. (Compagnion apud Jameson, in op. cit., p. 79).
ciedade burguesa em ascensão durante a Revolução Industrial, assim como o princípio de “conforto”, um dos cinco 14. A superficialidade da produção cultural, do design e da mídia como um momento frívolo na história da arte e da
princípios enunciados por Walter Killy (1962): novos materiais e meios de produção, disponibilizados pelos avanços história da arquitetura, cuja missão foi a de desacreditar certas características da modernidade como tal. Esta é a crítica
tecnológicos, que foram tomados como símbolos de posição social privilegiada da classe dominante e como uma pós-moderna contra a sua própria história como uma história falsa e inautêntica. Não haveria nenhuma “teoria” de
forma de autoafirmação e demonstração de prosperidade, simbolizando um retrato da necessidade de abundância e Baudelaire ou Cézanne simplesmente porque eles não se consideravam “revolucionários”. (Compagnion, apud Jame-
de bem-estar material e social. son, in op. cit., p. 79).

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venção de um mito americano teleológico que visa quebrar o domínio do “estilo rápidos e livres, obtidos através da intuição e modelados em modelos formais.16 Os
internacional” em Paris, no período pós-segunda guerra, de modo a permitir que conceitos formais e espaciais da arquitetura pós-moderna, inspirados pelo Surrealis-
o campo artístico do expressionismo abstrato na América do Norte assuma uma mo, pelo high-tech e pelo desconstrutivismo, ilustram uma correspondência expres-
preponderância no mercado de arte internacional. siva alegórica ou simbólica, deixando-nos com o sabor de uma espécie de “nova
A vanguarda surrealista é criticada ao se enfatizar que sua narrativa ortodoxa natureza” dessas formas não específicas de caráter antinatural-corbuseanas.
esconde um aspecto de “apologética” para romper com a tradição. Para tentar con- Os edifícios projetados com essas premissas conduzem, espacial e esteti-
vencer o público sobre a relevância da miragem do vazio, Compagnion fala de uma camente, a uma espécie de metamorfose das categorias do modelo modernista
“história de voz do futuro”, encontrada na polêmica da retórica de André Breton formal, através da incorporação da dualidade do seu interior e do exterior. A forma
e seus discípulos. O nojo que a pós-modernidade tem da vanguarda é decorrente dessa arquitetura “incomensurável”, incorporada ao sentido formal pelo prosaico de
da intolerância de sua linguagem acadêmica escrita na forma de slogans típicos de sua forma incomum, nega os grandes projetos de Le Corbusier sobre a relação ex-
meta-narrativas de livros de história antiga, que sempre consegue parecer uma cul- pressiva da plástica obtida entre as linhas de paredes interiores e exteriores, aban-
minação de haver rompido com a tradição (cf. Jameson, in op. cit., p. 57). A apropria- donando sua rigidez e flexibilidade para suportar novas funções que combinam es-
ção de “Roda de Bicicleta” (1913) e “Urinol” (“Fountain”, 1917), de Marcel Duchamp, teticamente as realidades do “plano aberto” a partir do interior dos edifícios.17
é uma combinação de dois elementos antagônicos que parece muito familiar, pois As paisagens urbanas foram desenhadas por obras arquitetônicas que repre-
enquanto o primeiro objeto incorpora o movimento, o segundo constitui uma ideia sentam o teatro desde os tempos antigos. Vitruvius descreve três cenários corres-
de imobilidade. Duchamp fez ainda a “profanação” da “Mona Lisa” (LHOOQ, 1919), pondentes a cenas de teatro urbano: o trágico, o cômico e o satírico. Esses ambien-
adicionando um bigode e um cavanhaque nesta “obra-prima” de Leonardo Da Vinci. tes são modelos paradigmáticos da Renascença, onde dramas foram organizados
O artista brasileiro Nelson Leirner propõe o trabalho “Monalisas” (2003) como diariamente em áreas urbanas e rurais. Os espaços urbanos projetados por Alberti
uma paródia de “bens” e da venda de objetos de decoração para a concessionária estabelecem ligações com um teatro imaginário, onde foram realizadas cenas cômi-
que oferece caixas de luxo com recipientes para armazenar uma coleção kitsch feita cas nas ruas, em curvas sinuosas, enquanto as cenas trágicas foram feitas em cida-
de Mona Lisas – broches, brincos, pratos, canetas, isqueiros etc –, fazendo sua obra des nobres de plano normal, contando com a limpeza de ruas pavimentadas com
se tornar um mero “produto” vendido pela loja do Museu do Louvre, de onde o fachadas de altura idêntica e constante (cf. Schulz, 2008, p. 79-81).
artista retirou a maioria dos objetos que expôs posteriormente no Museu de Arte O teatro-enunciação de Beckett e o teatro-absoluto de Artaud, onde “a his-
Contemporânea de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil (cf. Leirner, 2006, p. 45-50).15 tória se torna teatro e o mito se torna história” (Guattari, 2012, p. 183), fala sobre
Como Salvador Dalí (1956) notou, os críticos de arte “ditirâmbicos” foram ilu- uma nova territorialidade enquanto código de produção final da territorialidade
didos pela “feiura”, pela “modernidade” e pela “tecnização” da arte moderna, tendo e da vontade de poder, possibilitada pela produção de sinais de efeito de reinci-
sido enganados novamente pela “arte abstrata”. Para ele, o cubismo de Picasso era dência no sentido linearizado onde o signo linguístico recuperou o “inapropria-
uma farsa, uma vez que ainda ali permaneciam os objetos reais e anedóticos, com do”. O audio-visual é, assim, a normalização e a consumação do fantasmático. Ao
etiquetas coladas sobre eles revelando sua própria história sentimental. Baudelaire contrário da “fantasmática” dos meios de comunicação audiovisuais, a “pintura
(2010) conceitua o pensamento moderno baseado na imagética ao afirmar que é metafísica” (1909-1919) de Giorgio de Chirico é contemporânea à “pintura pura”
o pensamento abstrato que se desenvolve filosoficamente. A metáfora surrealista de Paul Klee, pintor-músico que explora os limites da metáfora musical, para final-
indica uma maneira diferente de pensar, contendo um retrovisor. É um pensamento mente recusá-la. De Chirico afirma que a crítica antropológica do estilo musical de
e uma visão da metáfora como imagem do pensamento abstrato (cf. Cany, 2012). pensar é o que desenvolve o seu próprio modelo de visualidade. A pintura metafí-
O “encontrado” (trouvé) na obra do arquiteto surrealista norte-americano sica constrói imagens de um ritmo além do visível e uma lógica de “vida universal”,
Frank O. Gehry revela um novo método de projeto em arquitetura inspirado no incorporando um retorno ao classicismo mesclado ao modernismo surrealista.18
método “crítico-paranóico” de Salvador Dalí, que pode trazer a tona aspectos irra-
16. Tais modelos são, então, transmitidos à mídia digital e criam formas curvas irregulares espaçadas, com luz e sobre-
cionais através de um procedimento técnico e criativo razoável. A maioria das obras carga natural, delimitadas por volumes de encadeamento irracional que rompem com os ângulos de luz e os limites do
espaço perceptivo para criar um novo tipo de espaço fluido, sonhador e sensual (cf. Montaner, 2002, p. 56).
de Gehry começa com uma escrita “automática” dos croquis para realizar esboços
17. Tal “incomensurabilidade” ocorre, por exemplo, na Biblioteca da França, em Paris, projetada pelo arquiteto Rem
Koolhaus e pelo OMA-Office for Metropolitan Architecture (cf. Jameson, in op. cit., p. 201-202).
15. A máquina de Duchamp em seus “ready-mades” simboliza o papel desempenhado pela indústria cultural, com 18. Pela revelação da pintura metafísica, De Chirico descobre a essência da arte “pura” inspirada pelo uso da faculdade
seu autor tendo afirmado que “obras de arte não são feitas por artistas, mas apenas por homens.” (cf. Cabanne, 1967). transcendental da sensibilidade, onde o exercício do “puro poder” de sentir é desfrutado a partir desse privilégio da

120 Do kitsch à metafísica Dinah Papi Guimaraens 121


Então, para transpor sua percepção metafísica na composição de um espaço O Parangolé (composto por vestidos, tops, banners ou bandeiras) foi criado
visual, o pintor vai tentar combinar o classicismo de arquitetura antiga com a au- por Hélio Oiticica para ser usado pelos dançarinos da favela da Mangueira. Constitui,
daciosa modernidade futurista dos primeiros anos do século XX. A ideia da obra portanto, uma forma de “antiarte” que visa iniciar uma nova visão de como os seres
de arte como enigma impossível de ser resolvido está presente no projeto de arte humanos e a arte podem ser integrados, causando a morte do espectador e o nas-
metafísica de De Chirico. A inquietante luz da noite é propícia para a revelação das cimento do participante. No Parangolé, o samba é o motor e a ação da necessidade
paisagens de aspecto metafísico que de repente as coisas podem assumir, enquanto ontológica, em que a roupagem está em contraste com o relógio que fala do tempo
os personagens humanos assumem a forma de modelos e de assemblages cubistas da máquina e da produção. 20 Como, então, a universidade pode escapar da postu-
(cf. Chalumeau, 2009).19 ra aristocrática de um conhecimento hegemônico e acadêmico e desfrutar de um
De Chirico lança um novo pensamento como crítica ao modelo antropológi- dialogismo transcultural entre os diferentes níveis de funcionários e alunos, e entre
co visual da modernidade, com a busca de um modelo semiótico em que ocorre a diferentes grupos étnicos e culturais?
solução simbólica para o seu imaginário poético e metafísico. Ele constrói essa ima- Como resposta a essa questão, Cany (2012) nos sugere que se “Pense a poesia
gética pela negação da unidade do tempo, superando a velha antinomia da pintura como parte de uma antropologia filosófica e um propósito ético-político”. Se o pen-
moderna com a pintura de “cidades metafísicas” da Itália e das arcadas reminiscen- samento poético pode permitir-nos superar uma caricatura universal menos “oci-
tes da arquitetura clássica (cf. Chalumeau, 2009). dentalizada” que estrutura o conhecimento escolástico de modelo europeu, a uni-
Em contraste a essa valorização da metafísica imagética e em um tom meio versidade deve estar aberta para a alteridade, abandonando uma ótica civilizacional
cínico e pós-moderno, Harvey (2008, p. 39) destaca o fato de De Chirico haver per- (Nietzsche), em favor de uma ótica transcultural (Artaud). Assim, a resposta para a
dido o interesse pela experimentação modernista após a Primeira Guerra, classifi- universidade, bem como para a arte, é o pensamento visual através da etnopoesia
cando de “arte comercial com raízes na beleza clássica combinada com vigorosos enquanto universal antropológico. Hélio Oiticica (H.O.), artista experimental, trans-
cavalos e desenhos narcisistas de si mesmo vestido com roupas históricas” e desta- formou o sistema global e criou uma série sensorial de expressão artística com a
cando o fato de que tal pintura recebeu uma merecida aprovação de Mussolini. Se Tropicália, ambiente multissensorial e microcosmo poético.
os namoros da vanguarda futurista e mesmo do Surrealismo com os regimes tota- Divisão feita na formalidade da casa, com a ligação orgânica entre as diver-
litários é um fato notório, e se a vanguarda modernista pode ser representada pela sas áreas funcionais dentro do interno-externo “penetrável”, seu trabalho simboliza
inspiração surrealista e metafísica de De Chirico, o qual combina elementos clássicos um projeto ambiental com imagens de experiência máxima, criando um ambiente
e modernos para criar uma nova estética, pode-se considerar aqui o caso da univer- tropical com plantas, papagaios, seixos, areia e barracos das favelas onde, no final
sidade no seio de um diálogo transcultural. O Rio de Janeiro denomina de “escolas de um labirinto escuro, chega-se a um receptor de televisão que dá a impressão
de samba” suas instituições de carnaval. Assim, será possível que as academias de de “devorar” o espectador, indicando uma experiência de “antropofagização”. A ex-
ensino possam aprender algo de novo com as escolas de samba cariocas? Valorizan- periência transcultural de H.O. na favela da Mangueira pode ser assim descrita por
do sua identidade social e trabalhando com novas audiências, a fim de estabelecer Wally Salomão (2003):
uma compreensão madura entre seus participantes e para se renovar esteticamen-
Ele vagou durante todo o ano na colina conhecida pelo nome da planta,
te, as escolas de samba no Brasil expressam a criatividade que parece estar faltando coberta de cabanas, biroscas e bocas (...) Designer obcecado de territórios
na educação universitária tradicional (cf. Pinto & Silva, 1997). desconhecidos de exceção, pareceu ter uma atitude como a de Rimbaud.
A única diferença que eu vejo é que eu declaro que a favela da Mangueira
não era para ele uma caricatura da Abissínia como foi esta para Arthur
“fruição estética”, como descreveu Kant, de acordo com Bourdieu (2007 p. 89-90). Tal fruição estética resulta de dois Rimbaud, porque Rimbaud, por conta de sua negociação, foi para a África
elementos: o primeiro refere-se à autonomia do campo artístico, livre de restrições econômicas e políticas, a qual é dos escravos e se tornou silencioso como o deserto, silencioso como o
guiada pelos padrões da “arte pela arte”; e o segundo trata da ocupação do espectador no mundo social, no qual as Saara. A Mangueira, onde o samba é a madeira, disse que H.O. falou dela!
posições em que o fornecimento de “disposição pura” é capaz de dar livre curso ao “puro prazer” (ou a estética) que é
formado principalmente pela família e pela educação “escolástica”.
19. A influência do Cubismo na obra de Le Corbusier pode ser revelada em sua frase mais famosa: “A casa é uma má-
quina de morar”, que foi proferida com a intenção de utilizar a máquina como modelo da obra de arte, cuja forma e es-
trutura foram determinadas pelo próprio direito. Essa ideia é considerada uma metáfora para a “teoria da opacidade”
que foi aplicada à vanguarda estética, falando sobre a visão do Cubismo como algo “orgânico” que flui do interior para 20. A ação é expressiva como pura manifestação da obra na qual o artista representa a experiência visual em sua pureza
o exterior. Assim, o Cubismo foi o primeiro movimento artístico que queria pintar um “objeto” destacado daquele da no que se refere à experiência do toque, do movimento e do prazer sensual de materiais no corpo. Este é apenas limita-
pintura antiga (cf. Colquhoun, 2004, p. 159). do pelas fronteiras visuais, as quais são superadas como fonte de sensualidade total (cf. Favaretto, 1992).

122 Do kitsch à metafísica Dinah Papi Guimaraens 123


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Cosac&Naify, 2002.
quadro de referência é tanto o Construtivismo Soviético de Tatlin, Malevich, Rodchencko e
VENTURI, Robert. Complexity and Contradiction in Architecture. New York: The Museum of Lissitsky quanto as obras de Palladio, Vredeman de Vries, Piranesi, Schinkel e Wagner. A força
Modern Art, 1966.
dessa arquitetura mostra-se nos desenhos que, com um virtuosismo exemplar (ao contrário
WOLLFLIN, H. Conceitos Fundamentais da História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2000: daquele usado como uma ferramenta a serviço da representação da materialidade da ar-
1915.
quitetura) não esperam nada do mundo da realidade exterior e exploram corajosamente o
mundo interior da fantasia. São desenhos que tentam exprimir o inexprimível: traços da me-
mória ou do sonho do desenhista, explosões de temperamento e humor, provocações ao ob-
servador, quebra-cabeças, evocações vagas, metáforas urbanas, cenários fantásticos e irreais
ou gestos e teses filosóficas. Desenhos desse tipo (desenhos poéticos) se relacionam com o
seu referencial só em um sentido muito limitado. Eles não se propõem a apresentar apenas
informações, mas sim persuadir ou encantar o observador. Eles encaminham o observador
a penetrar no espaço optativo, em paisagens fantásticas, em discursos de significado aberto
e flutuante, muitas vezes com qualidades borgeanas; sendo sustentados pela mágica do in-
definível. As transferências e interpretações resultantes movem-se não somente nas práticas
do exercício e das aptidões técnicas, mas em todos os níveis possíveis. A diferença entre as
virtudes poéticas da arquitetura de papel e a mimese construtiva do desenho arquitetônico
é o ponto nevrálgico dessa reflexão.
Abstract | A consideration about the designs that shape the architecture of paper. This
architecture maintains the greatest imaginable distance of all that is merely functional, in-
vading the illusory field of aesthetics and dipping into the realm of pure fantasy. Its frame
of reference is the Soviet Constructivism of Tatlin, Malevich, Rodchencko and Lissitsky as the
works of Palladio, Vredeman de Vries, Piranesi, Schinkel and Wagner. The strength of this
architecture is shown in the drawings, with an exemplary virtuosity – unlike the one used
as a tool in the service of representing the materiality of architecture – expect nothing from
the world of external reality and boldly explore the inner world of fantasy. They are draw-
ings they attempt to express the inexpressible: traces of memory or dreams of the designer,
outbursts of temper and mood, teasing the viewer, puzzles, vague evocations, urban meta-
phors, fantastic and unreal scenarios or gestures and philosophical theses. Drawings of this

126 Do kitsch à metafísica Eduardo Mendes de Vasconcellos 127


type – poetic drawings – relate your reference only in a very limited sense. They are not in- le permite dar fin a su porfia.
tended to present only information but to persuade and delight the viewer. They forward the En el preciso instante de la muerte
viewer to enter the optional space in fantastic landscapes, in speeches open and fluctuating descubre que esa vasta algarabía
meaning, often with qualities Borgean; being supported by an indefinable magic. Transfers de líneas es la imagen de su cara.1
and interpretations resulting move not only of prowess and technical skills, but on all pos-
sible levels. The difference between the poetic virtues of paper arquiiteture and the mimesis
Um dia, durante o tempo do meu doutoramento em Londres, enquanto dis-
and constructive role of architectural design is the crux of this discussion.
traidamente garimpava livros na Triangle, uma livraria especializada em arquitetura,
fui surpreendido pelo conteúdo de um catálogo de exposição que apresentava a
Resumen | Una consideración de los diseños que dan forma a la arquitectura de papel. Esta
produção de alguns jovens arquitetos russos. Essa mostra não era na forma de uma
arquitectura mantiene la mayor distancia imaginable de todo lo que es meramente funciona,
produção arquitetônica à qual estamos habituados, já que não se materializava em
invadiendo el campo ilusorio de la estética y la inmersión en el reino de la pura fantasía. Su
objetos arquitetônicos ou fatos urbanos (não existiam fotografias de edifícios, nada
marco de referencia es el constructivismo soviético de Tatlin, Malevich, Rodchencko y Lissits-
mostrava reluzentes acabamentos em aço, nada dos graves e poderosos detalhes
ky como las obras de Palladio, Vredeman de Vries, Piranesi, Schinkel y Wagner. La fuerza de
em granito, nenhuma superfície reflexiva ou espelhada, nenhuma corajosa estru-
esta arquitectura se muestra en los dibujos, con un virtuosismo ejemplar – a diferencia de la
tura de concreto, nem mesmo o menor vestígio de forma construída). Construir,
que se utiliza como una herramienta al servicio de la representación de la materialidad de la
mesmo sendo certamente um desejo comum, não estava entre as grandes preo-
arquitectura – no esperar nada del mundo de la realidad externa y con valentía explorar el
cupações exibidas por aqueles arquitetos enigmáticos. O esforço deles era, numa
mundo interior de la fantasía. Son dibujos que tratan de expresar lo inexpresable: huellas de la
primeira leitura, aparentemente dirigido para os muitos artifícios e estratagemas
memoria o el sueño del diseñador, los estallidos de ira y el estado de ánimo, las burlas al espec-
da representação arquitetônica nas suas mais extraordinariamente obsessivas,
tador, rompecabezas, evocaciones vagas, metáforas urbanas, escenarios o gestos fantásticos e
ricas, maravilhosas, assombrosas, sedutoras, misteriosas e inumeráveis apresenta-
irreales y tesis filosóficas. Dibujos de este tipo – los dibujos poéticos – relacionan su referencia
ções; preciosos desenhos executados a lápis ou nanquim, aqui e ali realçados com
sólo en un sentido muy limitado. No tienen la intención de presentar solamente información,
lápis de cor; cores; pasteis; aquarelas; guaches; gravuras reembrandtescas em cobre
sino para persuadir y deleitar al espectador. Se remiten al espectador a entrar en el espacio
e ferro, insuportavelmente intrincadas; xeroxes; origamis de papel; desenhos com
opcional en paisajes fantásticos, en los discursos de significado abierto y fluctuante, a menu-
lápis de cor; xilogravuras; colagens; pinturas a óleo; fotocópias; fotolitos em off-set;
do con cualidades borgeanas; siendo apoyado por una magia indefinible. Las transferencias y
maquetes em arame, vidro, compensado, plexiglass e espelho; sgraffitos em linóleo;
las interpretaciones resultantes movimiento no sólo de las habilidades técnicas y de negocio,
serigrafias e monotipias. Em síntese, todos os ‘mídias’ possíveis para representar a
sino en todos los niveles posibles. La diferencia entre las virtudes poéticas de la arquiitectura
ideia arquitetônica. E isso era tudo. Representações. Utópicas representações arqui-
de papel e la mimesis constructiva del diseño arquitectónico real es el quid de esta discusión.
tetônicas que excluiam a construção, alegorias, narrativas, talvez um drama ou um
poema gráfico, porém nada de estático ou sólido, nada que se identificasse com o
mundo real:

…o caráter estético destas arquiteturas como coerência fictícia e uma


Ante la cal de una pared que nada ordem inventada de eventos é enfatizado. Esta arquitetura mantém a
maior distância imaginável de tudo o que é meramente funcional; como
nos veda imaginar como infinita
uma narrativa ela invade o domínio ilusório da estética e rejeita a iden-
un hombre se ha sentado e premedita
tidade da arte e da vida para alcançar o reino da fantasia pura. A revolta
trazar con rigurosa pincelada contra uma arquitetura de funcionalismos ignora qualquer apelo para a
en la blanca pared el mundo entero: sua realização e se volta para a imagem do sonho, a invenção cerebral.
puertas, balanzas, tártaros, jacintos,
ángeles, bibliotecas, laberintos,
anclas, Uxmal, el infinito, el cero.
Puebla de formas la pared. La suerte,
que de curiosos dones no es avara,
1. Jorge Luis Borges, La Suma, Los Conjurados, em Obra Poética, Buenos Aires, Kodama – Emecé, 2005, p: 599.

128 A arquitetura de papel: os desenhos sedutores Eduardo Mendes de Vasconcellos 129


Isso está muito além dos fatos. A arquitetura de papel é um exercício de características, suas dimensões, sua locação, sua forma, seus métodos construtivos,
sobrevivência da imaginação livre das injunções estilísticas. O seu quadro os materiais usados no seu acabamento etc., ou usando semelhanças representa-
de referência é tanto o construtivismo Soviético quanto as obras de Palla-
cionais ou signos convencionados. No entanto, tal desenho, mesmo ostensivamen-
dio, Piranesi, Schinkel e Loos. 2
te feito para comunicar fins, pode ser bem composto: em princípio ele pode ser
convertido para outras escalas, outras técnicas, outras cores e assim por diante;
A arquitetura de (ou em) papel é um conceito nascido da resistência e do podendo preencher os seus propósitos, em certas fases e contextos de trabalho,
amor. Resistência à ditadura das práticas arquitetônicas estabelecidas, ossificadas mesmo quando impreciso, pouco claro, inacabado. O desenho representa a mediú-
junto com a ideologia funcionalista de uma vanguarda anciã que luta para permane- nica exploração do lado sombrio da razão e, contraditoriamente, o cenário de uma
cer no poder; resistência a uma abrangente crise econômica que impede o exercício paisagem ideal onde o arquiteto acredita que será feliz. Tal desenho não existe pelo
democrático da arquitetura. Amor à arquitetura, à beleza da criação arquitetônica, valor de sua qualidade material, seu valor especial não está em si mesmo. Como ver-
à poiesis da forma, à possibilidade de infinitas mudanças, à realidade do múltiplo. dade teórica, o desenho se institui independentemente da arquitetura. Superior à
A paixão pela realidade do múltiplo é a matriz da fantasia. A fantasia se as- arquitetura por ser uma ficção, o desenho apresenta-se como teatro da aparição da
semelha à utopia em muitos aspectos, mas é mais abrangente, porque envolve linguagem. Essencialmente antiperspéticos, os desenhos reduzem-se, em sua fron-
inumeráveis visões do mundo apesar de, diferentemente da utopia, a fantasia não talidade, a uma rápida e nua metáfora da página, enquanto se referem à escritura
exigir, para nenhuma de suas visões, a chave para a solução dos urgentes problemas como sua autêntica estrutura e necessária memória. Nascido de uma premeditação
da humanidade. A utopia, como caracterizada na teoria e na prática da arquitetura intensa, mas ao mesmo tempo causado por um abandono ao automatismo e aos
européia dos séculos XIX e XX, nega o pluralismo, e um projeto utópico se baseia prazeres da obscuridade, os desenhos buscam libertar-se por todos os meios pos-
em uma percepção universal do espaço que resulta em uma possibilidade geral de síveis. Neles, a mais explícita subjetividade, através de seus excessos, transforma-se
realização; as condições espaciais específicas (geográficas, territoriais, humanas) in- na ausência do desenhador, a sua remoção e reclusão nos úmidos e sonoros sub-
fluenciam o projeto, entretanto não podem mudá-lo fundamentalmente, estando terrâneos da arquitetura. Absolvidos da datação e subtraídos ao abraço salvador e
radicalmente comprometida com a ilusão do idêntico. Por outro lado, a fantasia, destrutivo da natureza, os desenhos de arquitetura se desvinculam da dinâmica do
procedendo da realidade do múltiplo, da visão de um mundo pluralístico com infini- tempo e se arranjam em um tratado imutável. Da mesma forma rejeitam as dimen-
tas possibilidades para as condições espaciais da vida humana, propõe inumeráveis sões, submetendo-se àquela de uma liberação final em uma contemplação alarma-
tipologias fantástico-teatrais embricadas somente com os poderes da imaginação, da, em uma atenção que ambiciona a crueldade. O branco e o negro se constituem,
que são válidos tanto para uma locação proposta imaginariamente quanto para no papel, como a tradição da alternativa stendhaleana, separada pela afiada lâmina
uma acordada pela razão. do heroísmo: o negro é construção, aquilo que pode ser pesado, medido, visualiza-
As diferenças entre a utopia e a fantasia em relação às categorias temporais são do; o branco é a transparência que dissolve, corrói e marca.
análogas. O tempo da utopia é ou o eterno para sempre (como exemplificado pela Esta situação é diferente para aqueles desenhos que tentam exprimir o inex-
Jerusalém Celestial), ou uma era passada, como a da Idade do Ouro, ou o futuro dis- primível: traços da memória ou dos sonhos do desenhista, explosões de tempera-
tante, “que não possui uma reversibilidade lógica”3. A fantasia, sendo arbitrária, pode mento e humor, provocações ao observador, quebra-cabeças, evocações vagas,
aparecer ou desaparecer à vontade, e o seu tempo é igualmente o agora ou o nunca, metáforas urbanas, cenários fantásticos e irreais ou gestos e teses filosóficas. Dese-
regulado pela vontade humana e novamente pelo ilimitado poder da imaginação. nhos deste tipo (desenhos poéticos) se relacionam com o seu referencial só em um
Um desenho de arquitetura é, acima de tudo, um instrumento de informação. sentido muito limitado. Eles não se propõem a apresentar apenas informações, mas
O seu propósito é apresentar um depoimento sobre uma determinada estrutura a sim persuadir ou encantar o observador. Eles encaminham o observador a penetrar
ser construída, descrever – tão fielmente quanto for humanamente possível – suas no espaço optativo, em paisagens fantásticas, em discursos de significado aberto e
flutuante, muitas vezes, com qualidades borgeanas; sendo sustentados pela mágica
2. Heinrich Klotz, Preface. In: Paper Architecture– New Projects from the Soviet Union, Rizzoli, New York, 1990, p: 8.
3. A arquitetura de Papel, em toda a sua abrangência, poderia cobrir também a produção dos grupos Archigram, Archi-
do indefinível. As transferências e interpretações resultantes movem-se não somen-
zoom, Superstudio, Ziggurat, etc.; os desenhos teóricos de Franco Purini, Gaetano Pesce, Paolo Soleri, Massimo Scolari; te os do expediente e das aptidões técnicas, mas em todos os níveis possíveis. Este
ou mesmo, num viés peculiar, os desenhos de Mário Chiattone e Antonio Sant’Elia, assim como os de Eric Mendelsohn
ou os de Le Corbusier (as propostas da cidade de três milhões de habitantes, os planos de Buenos Aires, Montevidéu,
é o ponto nevrálgico da arquitetura de papel.
São Paulo, Rio de Janeiro e Argel); os desenhos visionários de Hugh Ferris e, mais recentemente, de Lebbeus Woods,
Sacha Brodsky e Ilia Utkin; ou também as composições construtivistas da vanguarda artística soviética.

130 A arquitetura de papel: os desenhos sedutores Eduardo Mendes de Vasconcellos 131


As dificuldades que enfrentamos em relação à representação e o significado, de que a instrumentalidade possa simplesmente produzir sua própria forma de re-
que são muitas vezes citados de maneira sumária como uma crise da representação, presentação simbólica. Como consequência, nós não apropriamos que ainda existe
não podem ser caracterizados como uma falta de representação e sentido, mas sim um espaço da experiência que contém um resíduo da autêntica representação. Esse
como deslocamento e confusão. O deslocamento aponta para um dilema entre a é o espaço ao qual nos referimos quando usamos a expressão ‘caráter’. O significado
monotonia e a esterilidade na área das edificações e para uma super abundância e e sentido profundo do ‘caráter’ está aparente só indiretamente, por exemplo, em
complexidade na área da situação4. O deslocamento levanta a questão do ser apro- nossa preocupação com um bom relacionamento entre o propósito e a aparência
priado, que sempre esteve integralmente presente no pensamento arquitetônico, de um edifício, ou em nosso cuidado com a escolha da estrutura e dos materiais de
quase sempre sob o título de ‘décor’. A confusão é parcialmente condicionada pelo acabamento em relação à natureza de uma edificação ou de um espaço em parti-
deslocamento, mas o seu resultado é primariamente resultante do pensamento mo- cular. O que a ‘presença da representação’ no ‘caráter’ realmente significa é obscu-
derno, com sua ênfase na tangibilidade e certeza no conhecimento. As consequên- recido e parcialmente perdido na versão introvertida e altamente personalizada do
cias culturais do pensamento moderno podem ser encontradas nas transformações ‘caráter’ apresentada contemporaneamente para nós. Mesmo assim não podemos
da representação simbólica em representação instrumental. ignorar o fato de que é o principal (senão o único) elo ainda preservado com a mais
As representações simbólicas e instrumentais estão quase sempre em confli- autêntica tradição da representação. É a essa tradição – que emerge vitoriosa no
to. Enquanto a primeira é conciliatória e serve como um veículo de entendimento século XVIII, quando se tornou pela primeira vez no conceito dominante do pensa-
participativo e de sentido abrangente, a última é agressiva e serve como um instru- mento arquitetônico – que o ‘caráter’ pertence. A noção de ‘caráter’ no século XVIII
mento da autonomia, dominação e controle. derivou largamente da retórica e dos tratados sobre a pintura da época7. O reno-
No pensamento instrumental, o problema da representação tende a ser redu- vado interesse na expressão individual e na fisionomia foi provavelmente um dos
zido à relação identificável entre a representação e aquilo que é representado. Isso principais motivos por trás do estudo do ‘caráter’, que por mais de um milênio havia
encaminha inevitavelmente para a duplicação da realidade e, como consequência, sido tratado como uma questão secundária. A introdução do conceito de ‘caráter’
para uma tautologia onde a representação torna-se sem sentido5. A crença em que no pensamento arquitetônico não foi, entretanto, sem problemas.
o edifício diante de nós está representado pela referência a alguma coisa que não é Um conceito que emergiu de um vasto domínio cultural abrangendo a ar-
presente não leva em consideração o simples fato de que o único modo possível que quitetura, a retórica, a poesia e a pintura estava carregado de significados que a
podemos experimentar a referência é através de uma situação onde não somente arquitetura sozinha não poderia prontamente absorver. A simplificação da forma
o edifício, mas também nós mesmos fazemos parte. Gadamer é particularmente barroca de representação foi uma primeira consequência. A estetização do ‘caráter’
sensitivo para esse problema quando argumenta: “É um preconceito objetivista de foi uma segunda. Isso fica claro no depoimento de Germain Boffrand, que pode até
enorme primitivismo que a nossa primeira pergunta seja – o que representa este de- ser tomado como uma definição do que é ‘caráter’:
senho? – claramente, isto é parte da nossa compreensão do desenho. Tanto quanto
A arquitetura, apesar de o seu objeto parecer ser apenas o uso daquilo
sejamos capazes de reconhecer o que é representado, o reconhecimento é um mo- que é material, é capaz de diferentes gêneros que servem para animar
mento da nossa percepção do que é representado”. Na representação simbólica, “o suas soluções básicas através dos diferentes caráteres que pode expressar.
simbólico não aponta simplesmente para um significado, mas permite que ele se Um edifício se expressa através de sua composição, como se em um palco,
apresente a si mesmo”. Em outras palavras, “o que é representado está presente da seja a cena pastoral ou cômica, seja ele um templo ou um palácio… é o
única maneira possível”6. mesmo com a poesia: ali também se encontram gêneros diferentes, e o
estilo de um não contradiz o estilo do outro. Horácio nos ensinou alguns
Na nossa usual compreensão da representação, estamos mais ou menos de-
excelentes princípios para este fenômeno em seu ‘A arte da poesia’. 8
satentos para tais diferenças e suas consequências. Isso é confirmado pela crença,
universal entre os arquitetos, de que a instrumentalidade pode ser reconciliada com
A ambição de submeter a metafísica tradicional e a poética da arquitetura
o simbolismo, de que um equilíbrio entre tais categorias possa ser estabelecido, ou
à estética do ‘caráter’ criou uma ilusão temporária de ordem que, a longo prazo,
7. O caráter era conhecido pelos gregos particularmente em sua relação com o ethos. O caráter exerceu um importante
4. Existe uma estreita relação com o dilema entre o esteticismo da produção e a abundância do consumo, um dilema papel na Retórica e na Poética de Aristóteles, e seu conceito foi desenvolvido mais explícitamente por Teofrasto em Os
exaustivamente discutido por W. Rombart, M. Weber, e mais recentemente por J. Baudrillard. Caráteres, tendo uma grande influência no desenvolvimento da retórica de Cícero e Quintiliano, assim como da poética
5. A arquitetura se manifesta somente através da forma construida, do objeto arquitetônico acabado. Será mesmo? de Horácio.
6. H. G. Gadamer, The Relevance of the Beautiful, Cambridge University Press, Cambridge, 1986, pp: 33/38. 8. G. Boffrand, Livre d’Architecture, Paris, 1745, p. 16.

132 A arquitetura de papel: os desenhos sedutores Eduardo Mendes de Vasconcellos 133


provou ser a base do relativismo, da arbitrariedade e da confusão. A estetização o antigo equivalente da ‘bienséance’, era a tal ponto complementado por contribui-
geral do ‘caráter’ tornou-o vulnerável às operações da taxonomia, em que se fez ções de fontes não arquitetônicas (poéticas e retóricas em particular)12 que o seu
possível o isolamento das manifestações individuais do ‘caráter’ do contexto da tra- tratamento, como encontrado na maioria dos tratados de arquitetura, pode ser visto
dição e das normas culturais estabelecidas. Isso já era evidente para Jacques Fran- como fornecendo somente uma pequena parte do seu verdadeiro significado. Isso
cois Blondel, que escreveu: “Apesar de tudo, pouco importa se nossos monumentos era verdadeiro desde a primeira discussão sobre ‘decor’, em Vitruvius.
se aparentem com arquiteturas passadas, antigas, góticas ou modernas, desde que Os argumentos de Vitruvius sobre ‘decor’, na única parte do seu texto que
eles possuam um efeito satisfatório e um caráter apropriado para cada diferente se refere explicitamente ao contexto representativo da arquitetura, continua como
gênero de edifício.”9 um componente isolado. ‘Decor’ é definido, esperançosamente, como um “conjunto
O conteúdo simbólico do ‘caráter’, que foi obscurecido no final do século XVIII perfeito de trabalho composto de acordo com o precedente (auctoritas) de detalhes
pela autonomia estética dos vários caráteres específicos – tableaux – era ainda ex- aprovados”13, e é baseado na convenção (statio), nos costumes (consuetudo) e nas
plícito nos primeiros conceitos de ‘convenance’ e ‘bienséance’. Ambos os termos circunstâncias naturais (natura)14. A relação entre ‘decorum’ e os outros princípios
são inerentes a uma tradição originada no conceito clássico do ‘decorum’, de quem arquitetônicos mencionados no texto (ordenatio, dispositio, eurithmia, simmetria,
são apenas equivalentes mais recentes. Em um de seus primeiros escritos, Blondel distributio) é obscura, se é que pode ser estabelecida. É característico que mesmo
menciona esta correspondência: “A conveniência (convenance) pode ser entendida quando essas relações são discutidas mais explicitamente, o significado qualitativo
como o mais essencial aspecto da edificação. Através dela o arquiteto assegura a do ‘decor’ é subordinado ao seu equivalente quantitativo ou a alguma outra catego-
dignidade e o caráter de um edifício. O que aqui entendemos por ‘convenance’ é ria (quase sempre com a simetria, a euritmia ou a distribuição)15.
reconhecido por Vitruvius como ‘bienséance’ (decorum).”10 A insuficiência da definição de Vitruvius torna-se aparente quando compara-
A diferença entre ‘convenance’ e ‘bienséance’ não é tão importante para este da com os significados filosóficos e retóricos de ‘decorum’. A comparação é legítima
argumento como o é a distância que os separa do conceito de ‘caráter’11. Em uma porque sabemos que foi de tais fontes que Vitruvius tomou empestado a maioria de
leitura desatenta dos textos do século XVIII, ‘caráter’, ‘convenance’ e ‘bienséance’ seus termos teóricos16.
muitas vezes aparentam ser sinônimos sem nenhuma diferença evidente entre eles.
Aquilo que em Latim é chamado ‘decorum’ (propriedade), em Grego é
Entretanto, existe uma diferença e ela é fundamental. Com o ‘caráter’ podemos dis- chamado de ‘prepon’. Tal é a sua natureza essencial que o conceito é in-
tinguir claramente a tendência do movimento em direção à superfície do edifício, separável da bondade moral, porque aquilo que é próprio é moralmente
de um interior ou de um jardim; em direção à experiência das aparências, enquanto certo, e o que é moralmente certo é próprio. A natureza da diferença entre
que, por meio da ‘convenance’ e da ‘bienséance’ existe uma tendência do movimen- a moralidade e aquilo que é próprio pode ser mais facilmente sentida do
to em direção à profundidade da realidade arquitetônica, em direção a uma ordem que explicada. Pois qualquer que seja a propriedade, ela é manifesta so-
mente quando preexiste a retitude moral.17
ainda compreendida em termos de ‘ethos’.
A mudança em direção ao ‘ethos’ trouxe a arquitetura para o território da
Com a transição desde o ‘decor’ e o‘decorum’ até o ‘prepon’, chegamos muito
cultura humanística, da qual até o século XVII foi uma parte invisível. A evidência da
perto da essência da cultura clássica grega, assim como à essência da representação.
proximidade entre a arquitetura e a cultura humanística pode ser observada pela
A tensão entre o significado ético e estético da representação que vimos no ‘caráter’
ênfase no ‘ethos’ da representação, e mais ainda pela ênfase no entendimento co-
e no ‘decor’ não existe em ‘prepon’. Somente aquilo que é bom pode ser próprio e,
municativo entre áreas individuais do conhecimento e da habilidade (arquitetura,
neste sentido, o que é moralmente bom não é nada mais do que um preenchimento
pintura, poesia, retórica, música, matemática, literatura, teatro, ciências naturais
harmonioso da natureza humana, que faz parte do belo, manifestado em particular
etc.). O problema da representação não pode ser discutido sob estas condições com
a mesma facilidade como seria possível sob o viés do ‘caráter’ e, num grau limitado,
sob a ótica da ‘convenance’ e da ‘bienséance’. O conceito de ‘decor’, historicamente 12. De particular importância era a tradição expressa em ‘ut pictura poiesis’. Ver R. W. Lee, Ut Pictura Poiesis – The
Humanist Theory of Painting, Mack Graw Hill, New York, 1987.
13. Vitruvius, De Architectura, 1. 2. 5.
9. J. F. Blondel, Cours d’Architecture, Vol I, Paris, 1771/ 1778, p. 318. 14. Vitruvius, op. cit., 1. 2. 5-7.
10. J. F. Blondel, L’Architecture Française, Vol II, Paris, 1752/ 1756, p. 22, nota ‘a’. 15. No livro VI, 2. 5., Vitruvius fala sobre o ajustamento da simetria às necessidades do ‘decor’.
11. Para uma discussão mais recente sobre o conceito de ‘convenance’ e ‘bienséance’, ver W. Szambien, Symmetrie, Gout, 16. J. J. Politt, The Ancient view of Greek Art, Yale University Press, Boston, 1974, p. 343.
Charactère, Plon, Paris, 1986. 17. Cícero, Orator, 72 e 73, Edição bilingue, Oxford University Press, Oxford, 1978.

134 A arquitetura de papel: os desenhos sedutores Eduardo Mendes de Vasconcellos 135


como ‘prepon’. Em sentido primário, ‘prepon’ pertence ao mundo das aparências, sig- nome que deveríamos chamar a todas as artes. Entretanto esta é a única
nificando apenas “ser visto claramente, ser conspícuo”. Em seu sentido maior, significa forma de arte que chamamos de poesia; e aos que a praticam, nós os cha-
mamos poetas.19
uma participação harmônica na ordem da realidade, a expressão visível da ordem.18
Essa expressão visível não se refere à mera imitação ou representação da
ordem que já nos é familiar. Ela sugere, entretanto, que a ordem é representada de A natureza ambígua da ‘poiesis’, claramente aparente neste diálogo, reflete
tal maneira que se torna conspícua, estando abundante e sensualmente presente. É uma ambiguidade mais profunda, característica da época em que pela primeira
óbvio que este tipo de representação não é diferente da ‘mimesis’, ‘prepon’ (conve- vez a tradicional cultura oral torna-se literária e, mais ainda, também pela primeira
niência) por si mesmo não é uma representação, mas é uma condição e um critério vez, filosófica. Alguns dos conceitos tradicionais tais como ‘poiesis’ e ‘mimesis’, por
decisivo da autenticidade e verdade da representação. É neste sentido que ‘prepon’ exemplo, tornaram-se objetos de novas interpretações filosóficas, que produziram
pertence ao mundo da representação e da ‘mimesis’. Esse significado particular de valiosas percepções, assim como conclusões problemáticas e unilaterais. Uma das
‘prepon’ foi bastante preservado na tradição do ‘decorum’ na poética e na retórica, mais particularmente desafortunadas foi a que criou a distinção entre artes mimé-
mas foi praticamente perdido no conceito vitruviano de ‘decorum’. Não é difícil de- ticas e não miméticas, em parte porque foi formulada de uma maneira polêmica,
monstrar que a maioria das possibilidades de representação entre a era clássica e o sendo por isso unilateral; e parte porque teve a mais trágica influência no posterior
fim do Barroco foi desenvolvida em torno do princípio do ‘decorum’, mais do que do entendimento do conceito de ‘mimesis’ e da representação em geral. Essas são algu-
‘decor’. Muito pouco foi o que pode ser construído sobre o conceito do ‘decor’ por mas das razões porque eu escolhi como referência seminal a Poética de Aristóteles,
si mesmo. E isto nos remete à desagradável, porém inevitável conclusão de que a em que a interpretação de ‘mimesis’ é menos parcial e, mais importante, ainda ba-
doutrina vitruviana do ‘decor’ é mais um obstáculo do que uma ajuda para qualquer seada numa tradição pré-filosófica.
entendimento genuíno da questão da representação. O fato de a arquitetura não ser discutida explicitamente no texto não é sig-
O segundo e mais formidável obstáculo é a apresentação distorcida e parcial nificativo e não deve ser motivo para nossa preocupação. O papel da ‘mimesis’ e da
do conceito de ‘mimesis’ na tradição platônica. Este é um obstáculo que ainda te- ‘praxis’ humana, a formação do ‘mitos’ poético e da natureza da representação são
remos que ultrapassar. A relação entre ‘prepon’ e a representação mimética revela discutidos no texto, constituindo uma eficiente corroboração para os meus propó-
o quanto a representação arquitetônica é próxima da ‘mimesis’. Ao mesmo tempo, sitos. No entendimento da representação baseado no conceito de ‘prepon’, como já
nós não consideramos que a arquitetura seja uma arte mimética. Isso se relaciona foi visto, a arquitetura – além de ser uma arte (‘tekne’) por suas próprias qualidades
com a bem estabelecida tradição em que a mimesis arquitetônica foi reduzida à – está profundamente imersa no ethos da vida, assim como está também ligada es-
imitação de precedentes reificados (a cabana primitiva, o templo Salomônico, edifí- treitamente com as outras artes, particularmente com a pintura e a poesia20. Tanto a
cios exemplares etc.) ou a conceitos generalizados tais como ‘imitação da natureza’. pintura quanto a poesia são discutidas explicitamente no texto que, como Aristóte-
‘Mimesis’ não é a mesma coisa que imitação. No pensamento clássico a ‘mimesis’ les argumenta claramente no começo, não trata de artes individualmente, mas sim
era compreendida como uma forma particular da ‘poiesis’. A afinidade entre a ar- da ‘poiesis’ (‘poietikes autes’)21. A ‘poiesis’, que encontra seu apogeu na ‘mimesis’ está
quitetura e as artes, e o papel da ‘poiesis-mimesis’ como o seu terreno comum em também por trás da bem conhecida definição do mundo da arte como uma ‘mime-
potencial estão questionados de uma maneira provocativa no Simposion de Platão: sis ton praxis’, por Aristóteles. “E é principalmente porque uma peça é uma repre-
sentação (‘mimesis’) da ação (‘praxis’) que é também por esta razão que representa
Você irá concordar que, no verdadeiro sentido da palavra, existe mais de alguém fazendo ou experimentando alguma coisa (‘prattontes’)22. O que é a ‘praxis’?
um tipo de poesia – quer dizer, dando existência a alguma coisa que antes
Em termos genéricos, é viver e agir de acordo com princípios éticos. Para um entendi-
não existia, de tal forma que todo o tipo de criação artística é poesia e
mento mais específico, é melhor que vejamos a ‘praxis’ não como uma situação onde
todo o artista é um poeta.
as pessoas estão somente fazendo ou experimentando alguma coisa, mas que essa
É verdade.
situação também inclua coisas que contribuam para a plenitude da vida.
Mas nós não chamamos todos os artistas de poetas, chamamos? Nós
damos diferentes nomes para as várias artes, e somente chamamos a
aquela particular forma de arte que lida com a música e a métrica pelo 19. Platão, Symposium, 205/206.
20. Ver nota 11.
21. Aristóteles, Poética, 1447 a.
18. Platão, Greater Hippias, 229 e. 22. Aristóteles, Poética, 1450 b.

136 A arquitetura de papel: os desenhos sedutores Eduardo Mendes de Vasconcellos 137


As situações representam uma das mais complexas maneiras de entendimen- como dos eventos que sedimentam um significado neles mesmos, não somente
to da condição de nossas experiências do mundo que nos circunscreve assim como como resíduos ou como sobrevivências, mas como um convite para um desenrolar
das qualidades humanas desse mundo. As situações também proporcionam dura- de experiências futuras. Este aspecto receptivo das situações é quase sempre pré-
bilidade à experiência, em relação à qual as outras diferentes experiências podem -reflexivo e sinestésico. Não existem diferenças claras entre os fenômenos visuais,
adquirir um sentido e formar uma memória e uma história. A dimensão temporal auditivos ou táteis, isto se constituindo numa importante condição para a existên-
faz com que os processos de diferenciação e estabilização das situações tornem-se cia das metáforas. É quase sempre devido à estrutura metafórica das situações e,
mais compreensíveis. Quanto mais nos aprofundamos na história, mais as situações mais especificamente, devido à natureza mimética das metáforas que se formam os
dividem os seus precedentes comuns, até atingirmos o nível do mito, que é a sua paradigmas; paradigmas que representam um papel não somente sintético, como
última fundação compreensível. O mito é a dimensão da cultura que abre o caminho também receptivo. A unidade do espaço barroco, por exemplo, é estabelecido pela
para uma unidade da nossa experiência e para a unidade do nosso mundo. Em sua estrutura metafórica do espaço, que tem a capacidade característica de manter
essência, o mito é uma interpretação de símbolos primários que são formados es- juntas as diferentes artes e, ao mesmo tempo, satisfazer todas as condições da vida
pontaneamente, e que preservam a nossa memória de nossos primeiros encontros prática: ‘decorum’ e ‘ethos’.
com a condição cósmica da existência. A persistência dos símbolos primários, par- O fato de que a síntese de uma situação seja consumada quase sempre atra-
ticularmente no território da arquitetura, contribui decisivamente na formação dos vés das metáforas da linguagem não precisa ser enfatizado. O que, por outro lado,
símbolos secundários e, finalmente, para a formação de situações paradigmáticas. A deve ser enfatizado é o papel da metáfora nos gestos significantes, nos rituais, no
natureza dessas situações é similar à natureza dos fenômenos descritos em diferen- drama e, mais ainda, na imaginação espacial na escultura, na pintura ou literatu-
tes terminologias como instituições, estruturas profundas ou arquétipos. ra como uma contribuição complementar para o papel sintético da linguagem. A
O papel da estrutura paradigmática de uma situação especial é comparável natureza do relacionamento existente entre a linguagem, a metáfora e a situação
ao papel do ‘mithos’ poético em um poema. Ambos têm o poder de organizar even- espacial é melhor ilustrada pelo desenvolvimento do drama antigo.
tos individuais e elementos da ‘praxis’ em uma síntese e dá-los um sentido mais uni- A linguagem do drama tem a sua origem no canto do ‘corus’, e o ‘corus’ por
versal. A formação de um mito poético ou paradigma representa somente a metade sua vez emergiu da unidade ritual entre lugar e evento. A palavra corus refere-se não
do ciclo criativo, de que a interpretação inovadora do mito poético ou paradigma é somente ao grupo de dançarinos e cantores, mas também ao palco da dança, tem
a segunda metade. Isto é claramente o significado deste argumento de Aristóteles uma etimologia comum; Tanto corus e cora referem-se à mesma situação do ‘vir a
(Poética): “O poeta não deve ser um criador de versos, mas sim de mitos, já que ele é ser’, do tornar-se, criação e renascimento. A dimensão do lugar (espaço) na dança
um poeta em virtude de sua ‘mimesis’, sendo a ‘praxis’ aquilo que ele imita.”23 mimética torna-se mais clara se nos recordarmos que ela não se refere somente à
A posição proeminente que damos ao mito poético ilustra o quanto é impor- dança dos dançarinos, mas também à dança das estrelas, que representam as regu-
tante o conteúdo da representação no processo criativo, e assim até que ponto o laridades matemáticas e as proporções da ordem cósmica.
mito poético “é o primeiro princípio e, desta maneira, a verdadeira alma da tragédia. É também devido à possibilidade metafórica da linguagem que foi possí-
O caráter vem em segundo. Em pintura isso se repete da mesma maneira.”24 Será vel relacionar a experiência de simples movimentos e rituais com a experiência de
que não acontece a mesma coisa em arquitetura? Caso não aconteça, como podem ritmo, regularidades e conceitos. A linguagem transforma-se no meio onde os para-
a pintura e a arquitetura encontrar-se? digmas mais abstratos do processo criativo (‘poiesis’) podem ser formados. Os para-
Nos espaços barrocos e maneiristas, por exemplo, a relação entre pintura e digmas conceituais tornaram-se depois uma fonte da tensão e conflito com o mito
arquitetura está baseada até certo ponto no conteúdo, no decor e no sentido geral poético tradicional. O papel poético do mito foi assim desafiado pela primeira vez
que critérios formais tais como a perspectiva, as ilusões óticas ou a composição ge- durante o período da cultura orientada filosoficamente, e principalmente durante
nérica não nos ajudam a compreender. Qual então será o território onde a arquitetu- o Iluminismo grego do século V ac. O passo que produziu o efeito mais duradouro
ra, a arte e a vida prática podem encontrar-se de uma maneira que constituam uma foi a filosofia da ‘poiesis’ em Platão, formulada em resposta a esta crise, completa-
unidade significativa? Quando discutimos acima a natureza das situações, enfatiza- mente consciente da especificidade do conflito entre ‘poiesis’ e filosofia– em outras
mos seu papel sintético e a sua capacidade de estruturação da experiência, assim palavras, consciente de que “existe há muito tempo uma disputa entre a filosofia e a
poesia”25. Nesta situação, a mais decisiva contribuição para a transformação do mito
23. Aristóteles, Poética, 1451 b. 10.
24. Aristóteles, Poética, 1450 b. 21. 25. Platão, Republic, 607 b.

138 A arquitetura de papel: os desenhos sedutores Eduardo Mendes de Vasconcellos 139


poético tradicional em um sofisticado paradigma que tinha o poder de preservar, objeto da ciência da percepção ou estética.”28 A palavra estética, que foi usada aqui
não somente a verdade da poesia, mas também a verdade do mito tradicional no pela primeira vez como uma referência a uma disciplina do conhecimento, perten-
confronto com a verdade filosófica foi a de Platão. Desta nova posição, a confiança ce, como argumentado em outro ponto, ao domínio da representação instrumen-
com que ele discursa aos poetas tradicionais não era inteiramente injustificada. tal. 29 No domínio da representação instrumental, a arte não está somente sujeita
aos critérios da ciência, mas como consequência está também separada da ética, e
Respeitáveis visitantes, somos nós mesmos os autores de uma tragédia, a
melhor e mais bela que soubemos fazer. De fato, toda a nossa trajetória
isso, como já foi visto, transforma-se na principal origem da ‘crise da representação’.
foi construída como uma dramatização de vida nobre e perfeita; o que Enquanto o primeiro confronto entre a poesia e a filosofia resultou numa reconci-
acreditamos ser a mais real das tragédias. Assim vocês são poetas, e nós liação, o segundo confronto, que ocorreu entre a poesia e a ciência, resultou em
também o somos, no mesmo estilo, artistas rivais e atores rivais, partici- uma subordinação, onde a poesia tornou-se uma forma inferior de conhecimento
pantes do melhor de todos os dramas, um que somente pode ser produzi- (Gnosiologia inferior). No entanto, esta não é a última palavra e, certamente, muito
do por um código de leis verdadeiras – ao menos esta é a nossa fé. 26
menos será o fim do debate. O paradigma poético da arte está ainda presente no
fundo da nossa cultura. Isto é bem demonstrado por suas manifestações através
Esta passagem representa o clímax do argumento em um dos seus últimos
do Romantismo, do Simbolismo e do Surrealismo – e agora na arquitetura de (em)
diálogos. Ela mostra como se estabeleceu o conflito entre a poesia e a filosofia e
papel, que originou esta reflexão – onde “toda obra de arte sempre parece ser uma
como esse conflito pode ser resolvido dentro do contexto da trajetória ‘polithia’, a
coisa como tinha sido anteriormente tanto quanto a sua existência a ilumine e ateste
mais realizada situação espacial que conhecemos. O que é, neste caso, a diferença
a ordem como um todo. Talvez esta ordem não seja uma que possamos harmonizar
entre mito poético e o paradigma situacional? Em termos de conteúdo e significa-
com nossas particulares noções de ordem, mas sim aquela que uma vez uniu as
do da representação, existe uma óbvia diferença relacionada com as características
coisas familiares de um mundo familiar”30. É encorajador perceber que a presença
específicas de cada arte em particular. Mas em termos das suas naturezas, essa dife-
do paradigma poético é reconhecida não somente pelos humanistas ou pelos ar-
rença é negligenciável até tal ponto que podemos justificavelmente falar dos mitos
tistas, mas também pelos cientistas contemporâneos. W. Heisenberg refere-se a ele
poéticos como sendo a alma de todas as artes criativas, inclusive a arquitetura.
quando argumenta sobre a linguagem ainda ligada aos fenômenos, ou quando fala
Esta conclusão demonstra também que a arquitetura, como muitas outras
sobre o ‘um’ que é somente outro nome para o papel unificador da praxis.
artes, é uma representação da ‘praxis’ humana, e não uma representação da natu-
reza ou das ideias. A ‘praxis’ está sempre situada entre a natureza e as ideias e serve Em último caso, até a ciência pode apoiar-se sobre a linguagem ordinária,
como veículo desta unidade. Foi somente muito tempo depois que o paradigma já que ela é a única linguagem na qual podemos estar seguros de real-
mente elaborar os fenômenos… a linguagem das semelhanças e das ima-
poético foi substituído pela ‘ideia conceitual’, e como consequência a imitação de
gens é provavelmente o único caminho de aproximação para o “um” à
ideias foi complementada pela imitação da natureza (idealismo, naturalismo). Esta partir de casos mais gerais. Se a harmonia em uma sociedade apoia-se
dicotomia foi uma característica do helenismo, do maneirismo e do século XVIII, mas numa interpretação comum do “um”, o princípio unitário por trás do fe-
não era um ponto crítico antes do fim do Barroco. A natureza do paradigma poético nômeno, então a linguagem da poesia pode ser mais importante aqui do
tornou-se o sujeito de uma nova interpretação crítica na tentativa da formulação que a linguagem da ciência.31
de um equivalente racional da poética tradicional. Esta tentativa bastante infeliz foi
descrita da maneira mais lúcida no trabalho de A. G. Baumgarten em um conjunto Londres, 1993 / Rio das Ostras 2014.
de definições simples, como se seguem: “Por poema entendemos um discurso sen-
sato e perfeito; por poética, o conjunto de regras das quais depende o poema; por
poética filosófica, a ciência da poética.”27 A natureza da nova ciência da poética é de-
finida na última parte do texto como uma ciência da percepção: “As coisas conheci-
das devem ser conhecidas por uma inteligência superior como um objeto da lógica;
as coisas percebidas devem ser conhecidas por uma inteligência inferior como o 28. A. G. Baumgarten, op. cit., parágrafo 116.
29. Sobre este assunto, ver Dalibor Vesely, Architecture and the Conflict of Representation.
In: AA Files, nº 8, Architectural Association Editions, London, 1985.
26. Platão, Laws, 817 b. 30. H. G. Gadamer, op. cit., pp: 103.
27. A. G. Baumgarten, Meditationes Philosophicæ de Nonullis ad Poema Pertinentibus, Halle, 1735, parágrafo 9. 31. W. Heisenberg, Across the Frontiers, Keegan Paul, New York, 1974, p. 120 – 121.

140 A arquitetura de papel: os desenhos sedutores Eduardo Mendes de Vasconcellos 141


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ampla escala na cidade. Propõe uma abordagem para identificar os efeitos da forma arquite-
SZAMBIEN, W. Symmetrie, Gout, Charactère. Paris: Plon, 1986.
tônica, de modo a distingui-los dos efeitos de outros aspectos da estrutura urbana como a
VASARI, Giorgio. Abrége de la Vie des plus Fameux Peintres (4 vols). Paris: De Bure l’Ainé, 1762. acessibilidade, e verificar de fato sua existência e, se confirmada, sua extensão. A abordagem
VESELY, Dalibor. Architecture and the Conflict of Representation. AA Files, nº8. London: é aplicada em um estudo empírico em 24 áreas no Rio de Janeiro. Finalmente, o artigo lança
Architectural Association Editions, 1985. os fundamentos de uma teoria probabilística dos efeitos da arquitetura que visa contribuir
VITRUVIUS, M. P. Lês Dix Livres D’Architecture. Paris: Pierre Mardaga, 1979. para uma resposta mais precisa a uma questão que captura a imaginação espacial: o quanto
a arquitetura importa para a vitalidade urbana?
Abstract | From Jacobs’ seminal insights to recent works in urban economics, one of the
most emphasized – and least closely examined – notions in urban studies is the role of ar-
chitectural and urban form in the “vitality” of our cities, a set of social and microeconomic
qualities. However, can buildings really affect their urban surroundings? Would distinct
architectural morphologies have distinct effects over local socioeconomic processes? The
paper unfolds a theory of tensions between built forms manifested upon the body, as a con-
dition for co-presence and social activity in urban space as local socioeconomic factors with
potential large scale effects in the city. It advances an approach able to identify precisely
the existence and extension of effects of architectural morphology on local socioeconomic
processes, with potential large-scale effects, in a way to disentangle them from the effects
of urban structures such as the street network. We apply the approach in an empirical study
in twenty-four areas in Rio de Janeiro. Finally, the paper establishes the grounds for a proba-

1. Este texto é uma versão reduzida do artigo publicado em Netto, Vargas e Saboya (2012). Para a versão integral, veja
http://www2.pucpr.br/reol/index.php/urbe?dd1=7400&dd99=view

142 A arquitetura de papel: os desenhos sedutores Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 143
bilistic theory of the social effects of architecture, an approach proposed to help answer- ciado ao tema da interatividade e inovação, enfatizado recentemente na economia
ing more precisely a question that puzzles the spatial imagination: how does architecture urbana – de modo contraditório – por Glaeser (2010), Gordon e Ikeda (2011) e Florida
matter to urban vitality? (2012). 2
Resumen | Una de las ideas más centrales y tal vez más claras en arquitectura y estudios Entretanto, teria a forma da edificação algum papel na vitalidade? Ou, mais es-
urbanos – sobre todo desde el trabajo seminal de Jacobs hasta los recientes énfasis de la pecificamente, teriam morfologias arquitetônicas distintas efeitos também distintos
economía urbana – habla sobre el papel de la forma arquitectónica en la “vitalidad urbana”, sobre o que ocorre nos espaços públicos? Se há tal influência, qual sua extensão? O
un conjunto de cualidades sociales y microeconómicas de nuestras ciudades. Sin embar- quanto a arquitetura impacta seus entornos urbanos?
go, ¿Los edificios pueden realmente afectar a su entorno urbano? ¿Distintas morfologías O presente trabalho desenvolve uma abordagem para identificar os efeitos
arquitectónicas tendrían también efectos diferentes sobre lo que ocurre en los espacios da forma arquitetônica sobre processos socioeconômicos locais com implicações de
públicos? El articulo explora la tensión entre formas construidas manifestadas fundamental- ampla escala – de modo a distingui-los dos efeitos de outros aspectos da estrutura
mente sobre el cuerpo, como condición para la copresencia y actividad social en el espacio urbana como o sistema viário, e verificar de fato sua existência e extensão.
urbano – dinámicas locales con implicaciones de amplias escalas en la ciudad. Propone un Entender os impactos de diferentes morfologias arquitetônicas sobre a vita-
abordaje para identificar los efectos de la forma arquitectónica, de modo que se distingan lidade de entornos urbanos significa entender as implicações entre essa morfologia
de los efectos de otros aspectos de la estructura urbana, como accesibilidad, verificar su e dinâmicas mais amplas. Está no cerne de uma definição mais precisa e consistente
existencia y, si se confirma, su extensión. El abordaje se aplica en un estudio empírico de 24 do termo “sustentabilidade urbana”. Essa preocupação ganha maior sentido no con-
aéreas de Rio de Janeiro. Por último, el artículo establece las bases para una teoría probabi- texto brasileiro, uma vez que podemos observar em nossas cidades a reprodução
lística de los efectos de la arquitectura, un enfoque propuesto para ayudar a responder con de tipos de arquitetura e padrões de urbanização fixados por modelos espaciais e
mayor precisión a una pregunta que captura la imaginación espacial: ¿cómo la arquitectura preceitos de produção imobiliária, a partir de critérios usualmente limitados à otimi-
importa a la vitalidad urbana? zação dos processos construtivos e sua rentabilidade.
Há, entretanto, desconhecimento da real extensão das possíveis influências
da tipologia e configurações urbanas sobre as condições da apropriação social do
Introdução espaço. Gravemente, temos observado ainda uma dissolução do tecido urbano em
cidades brasileiras – uma substituição progressiva de tipos de edifícios tradicionais
por um tipo predominante no mercado de produção, de ligações mais frágeis com
...há dois tipos de densidade [...] A “densidade crua” é encontrada em
o espaço público. Essa crescente rarefação urbana, suspeita-se, seria acompanhada
áreas repletas de edifícios mais e mais altos que, sozinhos, não geram
inovação ou desenvolvimento econômico. Diferentemente, a “densida- do aumento das distâncias intraurbanas, diluição do movimento de pedestres e da
de Jacobs” estimula a interação ao nível da rua e amplia o potencial de vida microeconômica local, problemas de segurança pública e novas formas de se-
contato informal entre pessoas em espaços públicos a qualquer momen- gregação socioespacial.
to. Ela torna encontros e a construção de redes [sociais] mais prováveis. Buscamos examinar se a dissolução do tecido urbano implicaria em uma dis-
(Richard Florida, For creative cities, the sky has its limits, 2012). solução da apropriação do espaço público – e retornar a uma questão que tem cap-
turado a imaginação arquitetônica e urbana: o quanto a arquitetura importa para a
Uma das ideias mais centrais e talvez menos esclarecidas em arquitetura e nos vitalidade urbana?
estudos urbanos diz respeito ao papel da forma arquitetônica e urbana na “vitalida-
de” de nossas cidades. A vitalidade dos espaços urbanos é um fenômeno que vem
sendo abordado com ênfase, sobretudo desde o trabalho seminal de Jane Jacobs
(2000 [1961]). Um número de autores se dedicou a refletir sobre quais aspectos das
edificações e dos espaços públicos teriam a capacidade de estimular vitalidade, en-
tendida como um conjunto de condições encontradas em espaços em que há inten-
sa presença de pessoas nas ruas, grupos em interação e trocas microeconômicas. O
2. Embora todos esses autores concordem sobre a importância da densidade, Glaeser afirma que a verticalização é o
papel das densidades e da forma urbana retorna agora à atenção, sobretudo asso- fator chave de cidades interativas e criativas, o que os estudos empíricos de Gordon e Ikeda apontam como não sendo
o caso: apoiados por Florida, insistem no papel das densidades horizontais que chamam “jacobianas”.

144 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 145
Vitalidade urbana como efeito da demonstrável empiricamente. 4 É o que buscamos fazer neste trabalho: desenvolver
um caminho teórico e metodológico para verificar se há e, em caso positivo, qual a
morfologia arquitetônica
extensão dos efeitos da morfologia edificada sobre o que ocorre em seus entornos.
Uma nota sobre a definição de “efeitos” e “vitalidade urbana”, o recorte social
A possibilidade da arquitetura ter efeitos refere-se aos impactos da edificação
e espacial e a metodologia aqui adotados. A possibilidade e natureza dos efeitos
para além do estético e perceptivo – sobre as ações que ocorrem fora do seu períme-
sociais da arquitetura são temas mais intuídos que problematizados explicitamente.
tro, mas atreladas a ela, tais como o movimento e acesso a atividades, a intensidade
São de longe menos tematizados que os aspectos estéticos. Sua captura é difícil:
variada de apropriação do espaço público e a densidade de encontros no âmbito da
terminam rejeitados em interpretações pejorativas como sendo “subjetivos” (e, por-
rua. Esses fenômenos são ancorados na interface espaço aberto-construído, entre a
tanto, supostamente descartáveis quando conveniente) quando na verdade se re-
pele do edifício e a rua. São componentes elementares na relação espaço urbano-vida
ferem a fatores que envolvem as pessoas em suas interações mediadas pelo espaço
social, no status do espaço como condição para a produção dos fatores basilares da
e não apenas suas percepções. Por envolver o que ocorre fora de nossas mentes,
vida social. Ao envolver encontros no espaço público e a possibilidade de acesso ao
podemos, contudo, reconhecer seus traços, evidenciar sua existência. É o que de-
espaço construído, essa relação envolve também potencial de comunicação e a consti-
sejamos fazer neste trabalho. Mas precisamos capturar esses traços do modo mais
tuição de trocas sociais, políticas e microeconômicas que se manifestam localmente.3
direto possível – e mostrar objetivamente sua importância. Usaremos um caminho
As relações entre ação, espaço público aberto, espaço interno da edificação
estatístico para tentar reconhecer os efeitos da arquitetura, na forma de possíveis
e as atividades que esta abriga consistem na verdade na ponta visível de uma rede
regularidades das coincidências entre fatores espaciais e sociais presentes em áreas
de alta complexidade, conectada a uma infinidade de atores cujas ações são reali-
urbanas e diferentes cidades e contextos.
zadas em outros lugares e tempos – uma rede de ações e circulação de informação
Aqui reside um primeiro mal-entendido frequente no campo dos estudos
e artefatos que se completa no momento da interação e troca final no interior da
arquitetônicos e urbanos: o entendimento da análise “quantitativa” de fenômenos
arquitetura e na sua relação com oscanais do espaço público. A escala do edifício
como uma redução do simbólico e experiencial, o descarte de tudo o que não é
e suas imediatas relações em complexos urbanos colocam-se por extensão como
visível e mensurável como não existente ou irrelevante – uma visão dessa análise
uma das forças estruturantes da cidade, sobre as quais as relações macroscópicas
como menos “humana” que, digamos, os métodos interpretativos ou “qualitativos.”
tornam-se reconhecíveis e onde dinâmicas cotidianas reproduzem processos sociais
Na verdade, a análise estatística é tão humana quanto uma interpretação subjeti-
e microeconômicos geograficamente mais amplos.
va. Nem mais, nem menos. Mas ela tem especificidades: é útil para lidarmos com
A atenção a essa escala da constituição das estruturas urbanas e seus impac-
duas coisas com as quais temos natural dificuldade usando palavras. A linguagem
tos não é exatamente nova. Jacobs (2000) já atentava para a importância dos ele-
discursiva é poderosa para definir significados conotativos e denotativos, mas seu
mentos de “constituição”, os componentes da forma arquitetônica diretamente liga-
léxico é surpreendentemente pequeno e impreciso para lidar com o problema das
dos à rua, como aberturas e fachadas. Gehl (2011) defende a conexão visual e física
intensidades (palavras como “muito”, “pouco”, etc. são muito vagas). A natureza
entre edificação e espaço público através de espaços de transição. Aborda também
sequencial da fala e escrita ainda nos coloca dificuldades para capturar cognitiva-
a posição da edificação no lote, diferenciando edificações afastadas das ruas da-
mente as teias de relações em fenômenos complexos como cidades, onde aspectos
quelas diretamente conectadas a elas. No Brasil, a atenção a essa problemática tem
e eventos influenciam outros em várias direções, de modo sincrônico (ocorrem ao
aparecido sob forma de observações empíricas como a relação entre ocasiões de
mesmo tempo), processual (transcorrem no tempo) e em lugares distintos – tramas
contato face a face, o uso de grades e a distância entre a casa e a rua em Santos,
impossíveis de serem descritas discursivamente. Precisamos do complemento de
Vogel e Mello (1985). Holanda (2002) aponta a ligaçãoentre o número de portas
outras linguagens para incorporar completamente o problema das intensidades e
voltadas para o espaço público e a relação fachada-rua necessária à sua animação.
das relações – sob pena de não entendermos a riqueza e a extensão das relações
Vargas (2003) trata da forma do quarteirão e ruas de alta centralidade como fatores
entre espaço e prática social.
de vitalidade, ao passo que o papel do tipo e seus efeitos sociais sobre o entorno são
conceituados em Netto (2006). Entretanto, essas leituras do papel da forma arqui-
tetônica-urbana não formulam o problema em um enunciado teórico sistemático e 4. A ideia de que a arquitetura tenha impactos sociais, apesar de vista em certos autores menos ou mais sistematica-
mente, não é um pressuposto no campo: a ênfase na prática e no ensino segue nos aspectos da funcionalidade interna
e estética externa. De fato, não temos verificação empírica dessa relação e sua extensão, com exceção ao nível das
3. Veja Netto (2013). densidades de trabalhos como de Gordon e Ikeda (2011).

146 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 147
Buscaremos estudar a vitalidade urbana em um recorte específico. Esse re- Agora uma nota sobre o recorte espacial. Reconhecemos que a vitalidade
corte não incluirá nesse momento as formas de sociabilidade em si, mas aspectos urbana inclui formas de interação e proximidade entre atores e geração de comu-
sociais anteriores a elas, que as subjazem: a presença dos corpos no espaço urbano. nidades que certamente podem se manifestar mesmo em espaços de diferentes
Reconhecemos que a riqueza das particularidades simbólicas, seus aspectos inter- formas e tipologias, como os subúrbios e os espaços rurais. Focaremos, entretanto,
pretativos, as formas de relacionamento e afetos serão dimensões da vitalidade. em áreas urbanas com a presença (não exclusiva) de tipologias arquitetônicas mul-
Entretanto, essas dimensões estão além do foco jacobiano do presente trabalho, tifamiliares, analisadas em diferentes níveis de densidade – de modo a evitarmos
ligado, sobretudo, ao problema das intensidades da copresença no espaço urbano morfologias e tipologias radicalmente diferentes.
como condição para produção das interações sociais e microeconômicas – dinâmicas
que só podem emergir quando há intensidades mínimas de presença humana e que
têm a diversidade como consequência. Queremos destacar que a dimensão das in-
Identificando diferenças na morfologia arquitetônica
tensidades de fenômenos como a copresença é certamente tão relevante quanto a
dimensão hermenêutica das trocas sociais e suas motivações. A primeira é condição Investigamos os impactos da morfologia arquitetônica por meio do reconhe-
para a vida social emergir plenamente, em sua diversidade. cimento de diferenças ao mesmo tempo profundas e evidentes no tecido urbano
É curioso notar como tradições de pesquisa são assentadas em uma dicoto- (FIGURA 1).
mia epistemológica – o “qualitativo” e o “quantitativo” – que implica em trazer des- Tecidos urbanos apresentam diferentes graus de continuidade e desconti-
continuidades a coisas que são, na verdade, profundamente ligadas. Tal dualismo nuidade, proximidades e afastamentos entre edificações, implicando diferentes
se relaciona a uma limitação em reconhecer a posição da teoria frente ao mundo: relações entre espaços construídos e o espaço livre público. O elemento essencial
intensidades são parte dos fenômenos à volta e operam em conjunção com suas nesse tecido é o próprio edifício e suas relações. A imensa variedade da forma edi-
diferenças, incluindo aquelas de natureza simbólica. Ele evidencia uma dificuldade ficada encontra,entretanto,
da epistemologia (o modo como entendemos as coisas) mais do que descontinuida- reduções usuais na literatura
des ontológicas (na natureza das coisas em si). Essa é uma dicotomia a ser superada. e no planejamento urbano,
Precisamos reconhecer essas diferenças como dualidades e não como dualismos. A como a dos tipos arquitetô-
dimensão das intensidades das presenças e interações, e a dimensão dos conteú- nicos, entre eles:(a) o edifício
dos simbólicos da interação e valores subjetivos são complementares e igualmente cujos limites coincidem com
importantes para a vitalidade urbana. Aqui, trataremos do aspecto presencial que as divisas do lote urbano, es-
subjaz processos comunicativos e intersubjetivos. pecialmente na parte lateral
Diferenças espaciais e sociais entre áreas em uma cidade são parte funda- (chamado aqui “contínuo”);
mental deste estudo, dado que desejamos detectar efeitos arquitetônicos que (b) o edifício livre no lote,
possam estar presentes e ativos mesmo em diferentes contextos. Entendemos que caracterizado por afasta-
diferentes formas de sociabilidade ocorram e possam intensificar ou reduzir a pre- mentos laterais, explorado
sença no espaço público. Certamente, diferenças de valores, cultura e classe podem sobretudo a partir do Mo-
afetar hábitos de uso do espaço público. Mas como Jacobs, entendemos que a co- dernismo (“isolado”); e (c)
presença e a interação social e microeconômica são fatores que atravessam diferen- um terceiro tipo, “híbrido”,
tes campos sociais e emergem em diferentes contextos. São efeitos que se referem composto por uma justapo-
a relações entre arquitetura, corpo e dinâmicas sociais profundas,constitutivos de dife-
renças sociais e desdobramentos psicossociais. Nosso objetivo é verificar se o efeito FIGURA 1 Diferenças morfológicas
da arquitetura sobre a copresença pode ser reconhecido mesmo com todas essas teriam impactos sobre a apropriação
social do espaço? Áreas na cidade
diferenças em jogo. Por outro lado, os impactos dessas diferenças sobre o presencial do Rio de Janeiro: trechos do Centro,
podem e devem ser tema de outros trabalhos. Botafogo e Barra da Tijuca. (Fonte:
Google Street View e Google Maps)

148 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 149
sição dos dois anteriores apresentando um volume basal horizontalizado colado nas Aspectos arquitetônicos, como o grau de porosidade das fachadas (densida-
divisas, e um volume superior isento de contato lateral.Essestrês tipos de formas ar- de de aberturas), fechamento do lote, densidade construída etc. se colocariam como
quitetônicas, definidos pela posição no lote, o grau de continuidade de suas fachadas itens que intensificariam ou não as tensões entre formas construídas, e entre estas e o
e suas relações de permeabilidade com o espaço público, representam uma grande corpo, potencialmente relevantes para a copresença nas ruas e a atividade social e
parte das formas produzidas em nossas cidades, contempladas e mesmo prescritas econômica urbana.
pelos planos diretores municipais. Buscaremos evidências da existência dessas tensões em um estudo empíri-
Agora tentemos relacionar essa diferenciação inicial entre edifícios a fenôme- co, em queconfrontaremos estatisticamente as distribuições de diferentes arranjos
nos sociais reconhecíveis em seus entornos. Nossa hipótese é que, mantidas relati- dessas características espaciais e a presença da atividade social nesses espaços.
vamente constantes propriedades como acessibilidade e densidade, o tipo contínuo
(a) ampararia mais adequadamente a vida social e microeconômica na escala local,
ao relacionar-se mais diretamente aos espaços públicos e permitir uma relação in-
Caminhos para encontrar os efeitos
tensa entre atividades e pedestres, por meio das fachadas contíguas (FIGURA 2). sociais da arquitetura

Entretanto, se nosso objetivo é chegar aos impactos sociais de um compo-


nente urbano particular – a morfologia arquitetônica – precisamos de uma forma
de isolar seus efeitos dos de outros componentes do sistema urbano. Entre esses
outros componentes, aquele considerado isoladamente como o mais influente por
grande parte da literatura urbana é a relação entre posições no espaço urbano, a aces-
sibilidade (cf. Hansen, 1954; Anas et al., 1998; Hillier; Hanson, 1984; Hillier et al., 1993).
Outros aspectos que tendem a influenciar o potencial de uso dos espaços públicos
são as densidades populacional e arquitetônica. Em condições de neutralidade em
outros componentes, ambientes urbanos mais densos tendem a ter movimento de
pedestres mais intenso, por implicarem mais atividades para a mesma quantidade
de espaços públicos e mais pessoas em potencial.
Precisamos definir um método para isolar a influência desses fatores da confi-
guração arquitetônica dos da estrutura urbana sobre a vitalidade dos espaços públi-
cos, representada por (i) intensidade de movimento de pedestres, (ii) presença de
FIGURA 2 A hipótese dos efeitos sociais da arquitetura. grupos e indivíduos em uso estático da rua, e (iii) presença de atividades comerciais
e de serviços, como indicadores de trocas microeconômicas. Entre possibilidades
Por outro lado, o tipo isolado (b) teria efeitos opostos a (a) emfunção do quão metodológicas, optamos por uma forma bastante simples. Propomos a seguinte
amplos são seus afastamentos em relação à rua e aos edifícios laterais. As caracterís- ideia: pesquisar áreas urbanas de níveis similares de acessibilidade. Confrontaremos
ticas de (b) ainda implicariam em aumento de distâncias entre edificações, trariam as variações na morfologia arquitetônica com as variações nos aspectos da vitalidade
dificuldades à implantação de atividade comercial e à passagem entre o interior das urbananessas áreas. Essa ideia é amparada ainda numa observação. Há uma relação
edificações e os espaços públicos, afetando a apropriação destepelos pedestres, linear entre acessibilidade e movimento amplamente encontrada empiricamente
com efeitos potenciais de larga escala quanto ao desempenho urbano, tais como o (e.g. Hillier et al., 1993; Penn et al., 1998): quando a acessibilidade proporcionada
aumento da dependência veicular. Assim, quanto mais dominante for (b) em uma pela malha viária aumenta, fatores-chave da vitalidade (como o movimento pedes-
área urbana, mais rarefeita seria a presença de pedestres e a atividade microeconô- tre) tendem a aumentar (FIGURA 3).
mica. Entre esses dois conjuntos de efeitos opostos, um tipo (c) híbrido teria efeitos Podemos ver que há variações nessa relação: o aumento gradual da acessi-
intermediários, sendo pouco positivos ou negativos, a depender do modo como a bilidade não é perfeitamente replicado em um aumento do movimento pedestre:
base é tratada na sua relação com o espaço público. duas ruas de mesma acessibilidade apresentam com frequência volumes pedestres

150 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 151
das, obviamente, pela eficácia do método empregado para avaliar a acessibilidade,
assim como pela consideração das diferentes escalas de acessibilidade ativas simul-
taneamente em um mesmo lugar. Ao minimizarmos os efeitos da configuração do
sistema viário em áreas sob estudo, poderemos comparar as variações nos aspectos
sociais e econômicos locais com as variações nas características arquitetônicas, e exa-
minar se correlações entre elas podem ser encontradas. A consideração das densi-
dades pode fazer uso da mesma lógica.

Descrevendo e controlando a acessibilidade

Apesar da lógica desse método ser simples, ela implica em outras questões
metodológicas. Controlar a influência da acessibilidade na vitalidade urbana é uma
tarefa difícil, dado que ela é penetrante, potencialmente combinada com a de outros
padrões urbanos e imersa em contingências. Medidas de acessibilidade topológica
parecem ferramentas adequadas para esse propósito, por terem sido bem-sucedi-
das em prover descrições detalhadas de diferenciação espacial em cidades em uma
variedade de contextos e culturas urbanas. Entretanto, a descrição da acessibilidade
FIGURA 3 Relação acessibilidade-vitalidade: quando a acessibilidade aumenta, fatores de vitalidade urbana implica em mais questões, como (i) qual a medida a ser utilizada para representar
como o movimento pedestre tendem a aumentar. Mas não tão simplesmente. Ruas (pontos no gráfico) a acessibilidade proporcionada pela malha (como as medidas de integração ou es-
de mesmo nível de acessibilidade podem ter substancial diferença em fatores de vitalidade. A relação não
pode ser explicada, portanto, apenas pela acessibilidade. colha); (ii) o entendimento de distância como caminhos mínimos (métrica, geomé-
trica ou topológica); (iii) o raio de acessibilidade a ser considerado (dos raios mais
distintos. E nem poderia ser o caso de uma equivalência perfeita: cidades têm inú- globais da cidade aos mais locais); e (iv) a unidade espacial usada para representar
meros fatores intervindo no movimento pedestre, incluindo fatores imprevisíveis as ruas e espaços públicos (linhas axiais ou segmentos).Selecionamos neste estudo
como as decisões de cada pedestre. (Na verdade, considerando tantos outros veto- o conjunto composto pela combinação: Integração + Distância Topológica + Raio
res urbanos, é surpreendente que haja uma relação consistente entre acessibilidade Global (RR)5 + Linhas Axiais, representando trechos retilíneos de ruas e segmentos. 6
e movimento pedestre, como de fato é encontrada empiricamente). Estaremos atentos ao papel de outras escalas de acessibilidade fazendo uso de um
Assim, nem toda variação no movimento é explicada pela acessibilidade pro- monitoramento estatístico – correlacionando-as com os aspectos socioeconômicos.
porcionada pela malha. Podemos ver isso claramente ao selecionarmos uma faixa Uma última questão sobre acessibilidade: falamos em olhar para a variação
bastante estreita de variação de acessibilidade, e ver que ela corresponde a uma arquitetônica nas ruas de uma mesma faixa de acessibilidade como modo de iden-
faixa nem tão estreita de intensidades de movimento (veja a figura 2 novamente). tificarmos os possíveis efeitos dela sobre os fenômenos socioeconômicos que ocor-
Essas variações no movimento não são explicadas pela acessibilidade. Mesmo as rem nessas ruas. Mas será que o nível de acessibilidade em si não influenciaria esses
distribuições das atividades na cidade se mostram com variações similares. fenômenos? Ruas de alta acessibilidade poderiam ter naturalmente mais pedestres
Aqui está o ponto central do problema que queremos capturar. Propomos do que ruas de baixa acessibilidade, independentes da morfologia arquitetônica,
que exatamente nessas diferenças “mais que proporcionais” entre acessibilidade e quem sabe interferindo assim na possível influência da arquitetura? Pode haver li-
movimento pedestre estaria o lugar ativo da arquitetura e das diferenças na morfo- miares de acessibilidade a partir dos quais a arquitetura pode estimular a vitalidade,
logia arquitetônica. Nessas diferenças estariam “os efeitos da arquitetura”. ou não. Para verificarmos essas possíveis interferências, analisaremos áreas e ruas
Vejamos como podemos verificar se esse seria de fato o caso. Nosso método em três faixas distintas de acessibilidade (baixa, média e alta) – e, seguindo o mesmo
implica que, se analisarmos um conjunto de ruas em uma cidade dentro de uma
5. Entendido como equivalente à profundidade média da linha axial mais integrada do sistema, utilizado para minimi-
mesma faixa de acessibilidade, as diferenças de movimento pedestre encontradas zar o efeito de borda (Hillier, 2007).
nessas ruas estariam aproximadamente livres dos efeitos da acessibilidade – limita- 6. Para detalhes sobre as razões desta seleção de medida, propriedade e entidade, veja Netto et al. (2012).

152 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 153
raciocínio, em três faixas de densidade. Devemos buscar áreas que atendam às com- lares. Entendemos que a razão para tal divergência seja a rápida expansão urbana,
binações de acessibilidade e densidade, de modo a termos áreas de características que impacta a hierarquia de acessibilidade sem o acompanhamento imediato da
distintas e garantir a representatividade dessas diferenças face ao conjunto morfo- densificação, visível especialmente em áreas na zona norte do Rio. 8
logicamente diverso da cidade em estudo. É importante analisar áreas diferentes entre si para verificarmos se tais di-
Não há condição – ou necessidade – de estudar todas as áreas de uma cidade. ferenças são ativas, e o quão basilar é o papel da morfologia arquitetônica para a
Mas as áreas que atendam essas combinações devem ser selecionadas de forma intensidade da copresença e atividade emergindo nesses espaços. As 24 áreas sele-
aleatória e não arbitrariamente, para reduzir riscos de indução das conclusões. Cada cionadas aleatoriamente no Rio de Janeiro incluem 250 segmentos e cerca de 3800
uma das combinações, entretanto, deve conter um número de ruas grande o bas- edifícios. Observamos pedestres nesses segmentos em seis horários durante um dia
tante para permitir: (i) uma análise estatisticamente significante; (ii) certa concen- de semana. Um mapa final mostra sua localização (FIGURA 4).
tração dos trechos de ruas a serem analisados para facilitar o levantamento; e (iii)
boa presença dos tipos arquitetônicos de interesse para o estudo.

O Rio de Janeiro como estudo de caso

Aplicamos essa abordagem em um estudo empírico de larga escala, buscan-


do identificar os efeitos sociais da forma arquitetônica na cidade do Rio de Janeiro.
Analisamos a acessibilidade do Rio em 20 faixas, da menor a maior, das quais sele-
cionamos as faixas 7 (baixa), 11 (média) e 17 (alta acessibilidade).7 Acompanhamos
ainda a densidade nessas áreas, distinguindo três grandes faixas (baixa, média e alta).
Este recorte permitirá examinar o quanto a acessibilidade geral de uma área pode
interferir no potencial da forma arquitetônica no estímulo da vitalidade urbana. No
caso do Rio de Janeiro, em função do seu porte, fizemos ainda uma última setoriza-
ção em três zonas (centro e zona norte, zona sul e zona oeste).
Devemos definir quantos segmentos de rua analisar. Esse número depende
do número de segmentos nas áreas selecionadas aleatoriamente, de modo a chegar-
mos a uma amostra representativa e possível de ser levantada. A análise estatística é
o meio para essa definição. No caso do Rio, em cada combinação de acessibilidade
e densidade, e em cada zona, deveríamos ter 12 segmentos de rua (trechos entre as
esquinas do quarteirão) – ou seja, 36 segmentos para cada combinação. Talvez nem FIGURA 4 As 24 áreas selecionadas aleatoriamente dentro das três faixas de acessibilidade e densidade sob
todas as combinações possam ser plenamente atendidas: áreas de alta acessibilida- estudo, atendendo a condição da variedade tipológica de interesse aqui
de com baixa densidade, por exemplo, tendem a não ocorrer (a economia urbana
Nessas áreas foram contados e medidos os lotes (dimensões e área) e verifi-
nos explica que áreas de alta acessibilidade tendem a ser mais procuradas para lo-
cado seu tipo de fechamento em relação ao alinhamento do passeio público. Já as
calização de atividades e produção arquitetônica). Contudo, este não é o caso do
edificações foram levantadas com grande grau de detalhe: dimensões, áreas, altu-
Rio: áreas de alta acessibilidade frequentemente não possuem alta densidade, o que
ras, número de unidades (economias), portas, janelas, garagens e algumas relações
limita a amostragem. Encontramos dentro das áreas selecionadas nas faixas apenas
convencionalmente estabelecidas entre essas medidas básicas na área da arquite-
nove segmentos com alta densidade e alta acessibilidade – um sinal de interessante
tura, tais como a taxa de ocupação, o índice de aproveitamento, um novo índice de
“divergência” entre padrões urbanos que tenderiam de outro modo a ter níveis simi-
continuidade de fachadas e outros. Confrontamos as distribuições dessas variáveis

7. Usamos a medida de acessibilidade “integração” adotando o raio equivalente à profundidade do sistema de ruas
(linhas axiais) a partir da linha axial mais acessível ou integrada (RR). 8. Veja Netto et al. (2012).

154 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 155
e suas intensidades (cerca de 50 variáveis arquitetônicas e urbanas e 15 variáveis ASPECTOS VARIÁVEIS
socioeconômicas resumidas na tabela 1) com as ferramentas da estatística: colidi- Atividade Pedestre Movimento de Pedestres (médio no segmento)
mos variáveis e observamos o comportamento desses confrontos, por vias gráficas Grupos de pessoas paradas
e correlações numéricas. Indivíduos parados
Atividade Microeconômica Residencial
ASPECTOS VARIÁVEIS
Comercial
Tipologia Arquitetônica Tipo Contínuo (a)
Serviço
Tipo Isolado (b)
Comércio e Serviço
Tipo Híbrido (c)
Índice de Diversidade Tipológica Institucional / Índice de Diversidade de Atividades

Permeabilidade das Garagens/m TABELA 1 Principais variáveis utilizadas no estudo.


edificações Garagens/edificação
Indícios da relação entre aspectos da arquitetura e
Portas/m
Portas/edificação
das dinâmicas sociais locais
Janelas/m
Considerando a complexidade e número de fatores urbanos que interferem
Relação da Edificação com Afastamento Frontal (médio no segmento de quadra)
o Lote na geração dos fenômenos socioeconômicos locais, as correlações encontradas entre
Largura do Lote
este conjunto de fatores espaciais com componentes da vitalidade socioeconômica
Largura da Fachada da Edificação
são bastante expressivas. Detalhamos em seguida apenas os resultados das áreas de
Afastamento Lateral
baixa acessibilidade (faixa 7), que apresentam em geral as correlações mais elevadas.
Índice de Continuidade de Fachadas
As correlações das áreas de média e alta acessibilidade têm variações intrigantes,
Fechamento dos lotes Grade
seguindo, contudo, a mesma tendência geral (veja Netto, Vargas e Saboya, 2012).
Muro
Nossos achados são preocupantes. Lembrando que correlações baseadas no
Aberto
coeficiente de Pearson variam entre zero e -1 ou +1 (correlação perfeita negativa
Altura das Edificações Pavimentos/m
ou positiva), verificamos que características arquitetônicas tendem a ter correlações
Pavimentos por Edificação
consistentes e expressivas com a presença – ou ausência – de pedestres e atividades
Densidades Arquitetônica (área construída por área do lote)
microeconômicas. Gravemente, o estudo empírico de larga escala no Rio de Janeiro
Economias/m
indica ainda que os tipos arquitetônicos se comportam de modo inverso em rela-
Economias por Edificação / Índice de Aproveitamento
çãoà vitalidade: o tipo (a) contínuo correlaciona positivamente, enquanto o tipo (b)
Áreas Área do Lote (média no segmento de quadra)
isolado correlaciona negativamente com praticamente todos os fatores de vitalida-
Área do Térreo
de urbana considerados. Uma seleção de confrontos entre fatores arquitetônicos e
Área da Edificação
socioeconômicos e seus graus de correlação simples são apresentadas na tabela 2 .
Taxa de Ocupação
Vejamos o que as correlações, como indicadores da coincidência entre fato-
Parcelamento do Solo Lotes/m
res, nos dizem:
Acessibilidade Integração RR
Integração RN
Integração R3
Escolha RR

156 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 157
Variáveis Pedestres Atividades socioeconômicas Tipo Arquitetônico Investigamos ainda a relação entre diversidade de atividades  (residencial, co-
nos Térreos mércio, serviços e institucional) tanto em térreos quanto em pavimentos superiores,
Mov. Grupos Indiv. Resid. Comerc. Comerc + Diversid Contín. Isolado Híbrido e variáveis pedestres como movimento e presença de grupos estáticos no espaço
Pedestres Estat. Estat. Serviçoes
público da rua. A correlação entre diversidade de atividades em térreos e movimen-
Tipo Contí- 0.327 0.447 0.407 -0.413 0.293 0.422 0.428 1 -0.983 -0.054
arq. nuo
to pedestre é positiva, assim como com grupos estáticos. Fora da tabela – resumo
Isolado -0.342 -0.469 -0.415 0.446 -0.318 -0.449 -0.456 -0.983 1 -0.128
acima, nossos dados mostram que a diversidade de atividades em pavimentos supe-
Híbrido 0.094 0.140 0.060 -0.200 0.146 0.163 0.172 -0.054 -0.128 1
riores também é um fator que coincide com movimento pedestre (0,345) e, de modo
Ind. 0.418 0.430 0.462 -0.316 0.353 0.380 0.276 0.460 -0.436 0.017
mais marcante, com a presença de grupos estáticos na rua (0,475),11 dando suporte à
Cont. hipótese jacobiana da associação urbana entre diversidade de atividades e vitalidade.
Afast. -0.424 -0.393 -0.394 0.2275 -0.386 -0.290 -0.217 -0.317 0.339 -0.129 E quanto às relações entre diversidade de atividades e tipos arquitetônicos?
Front.
Encontramos correlações bastante positivas entre diversidade no térreo e o tipo con-
Lote: Muro -0.477 -0.506 -0.460 0.472 -0.454 -0.496 -0.449 -0.428 0.423 0.012 tínuo, e negativas para o tipo isolado. Temos assim outra reversão entre o compor-
Limite Grade -0.196 -0.096 -0.113 0.150 -0.272 -0.199 0.078 0.227 -0.207 -0.099 tamento apontando a redução drástica de diversidade para áreas de predominância
Rua
Lote 0.627 0.589 0.554 -0.592 0.657 0.650 0.410 0.286 -0.295 0.055 do tipo (b). A correlação entre diversidade de atividades em pavimentos superiores e
aberto
tipos intensifica essa tendência.
Portas e Dens. 0.683 0.446 0.499 -0.533 0.610 0.577 0.408 0.551 -0.567 0.111
janelas Portas A porosidade da fachada é um dos itens clássicos da ideia jacobiana de vitali-
Dens. 0.725 0.512 0.677 -0.466 0.486 0.524 0.338 0.298 -0.301 0.028 dade urbana. Nossos dados confirmam isso. A densidade de portas tem fortes corre-
Janelas lações com movimento de pedestres (MP), grupos estáticos, comércios, comércio e
Densida- Dens. 0.517 0.473 0.508 -0.223 0.326 0.284 0.216 0.428 -0.436 0.060 serviços e diversidade de atividades no térreo. A densidade de janelas também apre-
de Arq
senta altíssimas correlações com movimento de pedestres, altas com grupos estáti-
Dens. 0.652 0.369 0.498 -0.360 0.390 0.427 0.256 0.173 -0.172 0.003
Econ
cos, atividades comerciais e serviços, e em menor grau com diversidade de ativida-
Vari- Mov. 1 0.553 0.628 -0.682 0.796 0.839 0.336 0.327 -0.342 0.094 des no térreo. A correlação entre a densidade de janelas dos pavimentos superiores
áveis Pedest. e MP é 0,420. As janelas do térreo, sozinhas, pouco estimulam o pedestre (0,158). Mas
pedes- Grupos 0.553 1 0.776 -0.646 0.669 0.658 0.510 0.447 -0.469 0.140 em associação, fazem muita diferença: a correlação com MP somando as janelas de
tres Estat.
todos os andares é das mais altas encontradas. O pedestre parece preferir caminhar
Indiv. 0.628 0.7763 1 -0.563 0.599 0.616 0.459 0.407 -0.412 0.060
onde há janelas presentes nos dois níveis. Ainda, a densidade de janelas coincide
Estat.
fortemente com lotes abertos (0,674) e com a continuidade de fachadas (0,549).
TABELA 2 Correlações de Pearson entre variáveis arquitetônicas e variáveis socioeconômicas (faixa de acessibi-
lidade baixa): a graduação de cinzas mostra diferenças na intensidade das correlações. Agora vejamos como itens de fachada se relacionam aos tipos arquitetônicos.
A correlação da densidade de portas com o tipo contínuo é expressivamente positiva, e
Temos correlações positivas entre edifícios do tipo (a) contínuo com o movi- o inverso para o tipo isolado. Já entre densidade de janelas e tipos temos ligeira queda.
mento pedestre e com a presença de térreos com comércios ou serviços. Já a correla- A combinação de correlações entre variáveis socioeconômicas, fatores de fa-
ção entre o edifício tipo (b) isolado e movimento pedestre e comércios ou serviços em chada e tipos mostra que o tipo contínuo favorece a porosidade entre arquitetura e
térreos é significantemente negativa,9 revertendo quase diametralmente o tipo (a). espaço público, e que essa porosidade é associada positivamente com a presença
Também dando suporte às hipóteses que apontamos, o tipo (c) híbrido apresenta de pedestres e atividades – em proporção inversa a do tipo isolado.
correlação quase nula ou ligeiramente positiva com movimento pedestre e ativida- Tal tendência é similar para a interface edifício x espaço público sob forma
des comerciais e serviços.10 dos afastamentos frontais e das bordas entre lote e passeio. As correlações entre
9. Todas as correlações tem significância com valor p<0,001. O teste de significância estatística (o “valor p” de cada muros e movimento de pedestres e muros e grupos estáticos na rua são bastante
correlação) examina a probabilidade de um resultado observado se repetir ou surgir por mera coincidência. Valores negativas, assim como entre muros e atividades comerciais e serviços de térreo e
p iguais ou maiores que 0.05 não têm significância estatística, segundo o parâmetro convencionalmente adotado de
95% de confiança. diversidade. Grades apresentam correlações negativas, mas em menor grau com
10. As correlações de fatores socioeconômicos com o tipo híbrido não obtiveram significância estatística (os valores p
encontrados foram superiores a 0.05) em função de sua baixa presença nas 24 áreas examinadas. 11. Todas as correlações com p<0,05 exceto onde indicado.

158 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 159
movimento pedestre, grupos estáticos na rua, comércio e serviços de térreo e di- àquele encontrado nas áreas de acessibilidade alta com os mesmos fatores, um R2
versidade. Já as correlações entre lotes abertos, movimento de pedestres e grupos ajustado de 0,497.
estáticos são fortemente positivas, assim como em atividades comerciais e serviços O resultado para a amostra agregada (todas as faixas) traz um R2 ajustado de
de térreo e diversidade. 0,585, bastante alto, com significância estatística atestada e capacidade preditiva
Essas observações confirmam a impressão do senso comum de que muros e dos fatores arquitetônicos analisados sobre a intensidade do movimento pedestre.14
grades impactam negativamente o uso de pedestres no espaço público e as ativi- Essencialmente, essa análise mostra que um número pequeno de fatores arquitetô-
dades comerciais ao nível do térreo, sendo mais intensos os impactos do primeiro. nicos pode responder por parte substancial das distribuições do movimento pedes-
As correlações entre muros e tipos mostram forte associação entre recuos,muros e o tre no Rio de Janeiro. Uma das utilidades da análise é entender o quanto um fator
tipo isolado – hoje o preferido pelo mercado imobiliário –, fatores de permeabilida- não apenas coincide com outros, mas tem potencial preditivo em relação ao seu
de entre arquitetura e rua que terminam por apresentar estatisticamente uma rela- comportamento e intensidades, mesmo em outras situações.
ção problemática com aspectos sociais e econômicos locais. Contrariamente, lotes Alguns fatores reunidos parecem explicar grande parte do movimento pe-
abertos correlacionam positivamente com tipos contínuos. destre. Como podemos entender o peso de cada um deles, e todos no conjunto,
Como as características das edificações se relacionam entre si? As correlações entre si? Há ferramentas interessantes capazes de mostrar exatamente o grau de
entre tipos e densidade arquitetônica são consideravelmente positivas com o tipo contribuição de arranjos de características arquitetônicas na explicação do movi-
contínuo e negativas com o isolado. Os dados mostram uma combinação positiva mento pedestre. Utilizamos de forma experimental um tipo de regressão múltipla
para a vitalidade entre densidades, lotes abertos e proximidade de fachadas entre si (PLS) que, à maneira de uma análise de componentes principais, reconhece agrupa-
e com a rua. (veja Netto, Vargas e Saboya, 2012) mentos de variáveis altamente correlacionadas entre si, e com elas gera construtos
capazes de representar a quase totalidade das variáveis independentes. Essa análise
mostra graficamente as intensidades das variáveis em seus papéis no movimento
Quais os aspectos arquitetônicos mais relevantes no pedestre a partir da distribuição de eixos (gráfico 1), fatores positivos à direita, ne-
movimento pedestre? gativos à esquerda.

Buscamos, a seguir, identificar os fatores arquitetônicos mais relevantes para


a explicação da vitalidade urbana explorando regressões lineares múltiplas, um con-
fronto de todos os fatores entre si.12 Neste momento, usamos apenas o movimento
pedestre como aspecto da vitalidade. Selecionamos em seguida um conjunto de
fatores arquitetônicos amplo o bastante para responder pelo movimento pedestre
– as densidades, atividades e componentes da forma arquitetônica.
Nas áreas de baixa acessibilidade examinadas, a regressão múltipla entre mo-
vimento pedestre e quatro fatores arquitetônicos (densidade de economias, ativi-
dades de comércio e serviço no térreo, lote aberto e densidade de portas no térreo)
apresenta um coeficiente de determinação ajustado13 (R2) de 0,703, bastante elevado,
apontando que apenas esses fatores responderiam por grande parte da movimen- Gráfico 1
tação pedestre. Esses fatores podem ser substituídos e estimados novamente. Nas Análise de regressão
áreas de acessibilidade média, mantendo três desses fatores e substituindo a den- com capacidade pre-
ditiva: a extensão dos
sidade de portas pelo tipo contínuo, temos um R2 ajustado menor, de 0,482, similar eixos mostra o grau de
importância de cada
12. A modelagem por regressão visa interpretar e prever uma ou mais variáveis dependentes (resposta) por meio de
fator na predição do
variáveis independentes (preditoras).
movimento pedestre.
13. Coeficiente de determinação (R2) é a proporção de variação em um fator que é explicada pelo comportamento de
outros fatores estudados conjuntamente. O R2ajustado é uma modificação do R2 usada com o intuito de compensar
pela adição de novas variáveis ao estudo, penalizando-o quando essas novas variáveis não contribuem para o poder
explicativo do modelo. 14. Veja a análise detalhada em Netto, Saboya e Vargas (2012).

160 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 161
A análise confronta o papel de todos os fatores entre si, inclusive as próprias Esses resultados sugerem que a arquitetura faz diferença nos fenômenos so-
variáveis “respostas” – movimento pedestre, indivíduos e grupos estáticos e em in- cioeconômicos locais: aspectos como a proximidade entre edifício e passeio, entre
teração – para a explicação de qualquer outra variável. Lotes abertos, comércios edifícios, sua permeabilidade e atividades da forma parecem adicionar tensão entre
e serviços, diversidade, densidade de janelas, a continuidade de fachadas e o tipo espaço construído e aberto, entre arquitetura e corpos usando o espaço público – as
contínuo aparecem agrupados em um componente com papel claramente positi- condições materiais do potencial de copresença e interação social e microeconômi-
vo. Muros, uso residencial exclusivo, afastamentos lateral e frontal e o tipo isolado ca. Por outro lado, arranjos caracterizados por espaçamentos entre edifícios e entre
aparecem no componente com impactos negativos sobre o movimento pedestre. estes e os canais da rua enfraquecem-se como suporte e atração para a manifesta-
O que essa informação significa em termos das relações entre características ção da copresença. As distribuições encontradas são assim consistentes com nossa
arquitetônicas e estímulos ou danos à vitalidade urbana? Do ponto de vista de uma teoria das tensões entre espaços e corpo. Esses achados permitem que se possa
busca por um arranjo de características que melhor responda à vitalidade, encontra- avançar também na teoria probabilística dos efeitos sociais da arquitetura. O fato
mos concentrações em torno de um tipo contínuo, aberto e bastante permeável em de que, entre todas essas complexidades, encontramos regularidades e relações não
sua fachada:15 a continuidade da linha de interface edifício-rua é a chave da tipologia deixa de ser surpreendente – fortes indícios do papel da morfologia arquitetônica, e
enquanto elemento ativo na vitalidade. A queda da presença de pedestres e ativida- fortes traços da existência de relações não contingenciais entre sociedade e espaço
des microeconômicas aparece consistentemente associada a arquiteturas que apre- operando já na escala do edifício e seu entorno.
sentam descontinuidade de fachadas, afastamentos, lotes de maior largura e muros. Mas esses achados colocam outra pergunta chave: eles seriam os mesmos em
Em outras palavras, ainda que itens como muros possam ser encontrados em dife- diferentes contextos sociais e geográficos? Encontramos relações marcantes entre
rentes tipos arquitetônicos, a análise mostra sua associação mais frequente com um aspectos sociais e espaciais em diferentes contextos em uma mesma cidade, ainda
tipo particular. A combinação dessas análises de regressão nos leva a concluir que que com diferentes intensidades. Um segundo momento desta pesquisa buscará
“pacotes” de características arquitetônicas aparecem bastante distinguíveis entre si, entender se diferenças contextuais em outras cidades, bem como diferenças de
e ambos têm relacionamentos também bastante distintos com o uso pedestre do grupo social, hábitos e valores e formas de sociabilidade podem afetar a extensão
espaço público. dos efeitos sociais da arquitetura.
Mais importante, esses resultados sugerem a necessidade da urgente atenção
à tipologia sendo hoje produzida em nossas cidades – predominantemente isolada,
Cidade: contingência, causalidade, contexto: conclusão empiricamente associada a condições de diluição da vitalidade urbana – na esfera
do planejamento urbano e seu debate franco na esfera pública.
Cidades são fenômenos onde há um enorme número de fatores ativos, com
implicações e interdependências e efeitos mútuos. Reconhecendo os cuidados do
argumento antideterminismo, devemos rejeitar a tese de implicações simples de Referências bibliográficas
causa e efeito entre fatores. Processos urbanos têm particularidades e diferenças as-
sentadas em condições contingenciais, como em contextos distintos e nas implica- FLORIDA, R. For Creative Cities, the Sky Has Its Limit. Wall Street Journal, 27 jul. 2012.
ções de ações cujas trajetórias são impossíveis de prever. A morfologia arquitetônica GEHL, J. Life between buildings: using public space. Washington, DC: Island Press, 2011.
é colhida em emaranhados dos quais reconhecemos apenas parte. GLAESER, E. (2010) The triumph of the city: how our greatest invention makes us richer, smarter,
Entretanto, o estudo das relações entre certos fatores espaciais e sociais apon- greener, healthier and happier. New York, Penguim
tam para a possibilidade de termos ao mesmo tempo indeterminação e causalidade GORDON, P.; IKEDA, S. Does density matter? In: ANDERSSON, D.; ANDERSSON, A.; MELLANDER,
nas relações entre arquitetura e a vitalidade urbana. Nosso método de confrontos C. (Eds.). Handbook of Creative Cities. [S.l.] Edward Elgar Pub, 2011. 
entre aspectos urbanos via o rigor da estatística tem mostrado que fluxos pedestres HILLIER, B. et al.Natural movement: or, configuration and attraction in urban pedestrian
e a presença de atividades econômicas variam acompanhando em extensão consi- movement. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 20, n. 1, p. 29-66,
derável as variações de componentes da arquitetura. 1993.
HILLIER, B.; HANSON, J. The social logic of space. Cambridge: University Press, 1984.
HOLANDA, F. DE. O espaço de exceção. Brasília: Editora da UNB, 2002.
15. Veja Saboya, Netto e Vargas (2013).

162 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Vinicius M.Netto | Julio Celso Vargas | Renato Saboya 163
JACOBS, J. Morte e Vida de Grandes Cidades. Martins Fontes, São Paulo, 2000 [1961].
NETTO, V.M. “O efeito da arquitetura: impactos sociais, econômicos e ambientais de
Espaços livres públicos:
uma análise multi dimensional
diferentes configurações de quarteirão”Arquitextos079.07, 2006.
NETTO, V.M. Cidade e Sociedade: As Tramas da Prática e seus Espaços. Porto Alegre: Editora
Sulina, 2013.
NETTO, V.M., VARGAS, J.C., SABOYA, R.T. “(Buscando) Os efeitos sociais da morfologia de apropriações e conflitos
arquitetônica”. Revista Brasileira de Gestão Urbana (Brazilian Journal of Urban
Management), v. 4, n. 2, p. 261-282, 2012.
PENN, A. et al.Configurational modelling of urban movement networks. Environment and Lucia Capanema Alvares
Planning B: Planning and Design, v. 25, n. 1, p. 59-84, 1998.
SABOYA, R., NETTO, V.M.; VARGAS, J. C. “Tipologias edilícias e vitalidade urbana: um estudo
de caso em Florianópolis.” In: Anais do XV Encontro da Associação Nacional de Pesquisa
Resumo | O conceito de espaços livres públicos (ELPs) está ainda em aberto e estrutura-
e Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional. Recife: UFPE, 2013.
-se nas vertentes do estudo da paisagem e das ciências sociais, da prática físico-ambiental,
SANTOS, C. N.; VOGEL, A.; MELLO, M. (1985) Quando a rua vira casa. São Paulo: Projeto.
da prática social e transdisciplinar. É no encontro de tais estudos e práticas que o conceito
VARGAS, J. C. “Densidade, paisagem urbana e vida da cidade: jogando um pouco de luz em construção surge: num primeiro momento significam aqueles espaços de livre acesso
sobre o debate porto-alegrense.” Arquitextos, v. 039, 2003.
do povo, e que recaem na maioria das vezes nos espaços livres de edificações, mas não
estão restritos a eles. É onde se podem observar as relações entre elementos construídos e
livres, os fluxos de pessoas e mercadorias, as interações sociais, conflituosas ou não. Serão
mais relevantes ambientalmente quando forem espaços vegetados ou residuais, economi-
camente quando se sobrepuserem à infraestrutura ou forem alvo da cobiça imobiliária, cul-
turalmente quando se associarem às identidades dos cidadãos e socialmente quando forem
espaços onde se conforma a esfera de vida pública. Este estudo propõe uma releitura das
representações, imaginários, apropriações e conflitos existentes nos ELPs, tomando-se por
base três dimensões não exaustivas e suas relações com os aspectos políticos e externos:
socioambiental, socioeconômica e sociocultural.
Como estudo de caso, escolheu-se uma comparação entre o Centro do Rio de Janeiro, por
sua riqueza identitária e como lócus principal da vita activa da cidade, e São Cristóvão, pela
disponibilidade de dados físico-ambientais coletados em estudos anteriores. Consideran-
do-se cada dimensão em seus aspectos principais, o estudo revela o que o projeto institu-
cional propõe histórica e atualmente para os espaços livres públicos do Centro do Rio e do
bairro de São Cristóvão e o que resulta das apropriações populares na realidade cotidiana.
Tanto no bairro como na região central o que se vai ler é uma apropriação que passa ao largo
do pretendido pelo poder público; a esfera pública se faz em ambos os espaços, em escalas
diferenciadas e diante de possibilidades também diferenciadas.
Abstract | The concept of open public spaces (OPS) is itself open and structured within
landscape studies, the social sciences, environmental and social practice and transdisci-
plinary. It is in the convergence of such studies and practices that the concept arises mean-
ing, at first, free access spaces, which fall mostly in spaces free of buildings, but are not
restricted to them. It is where one can observe the relationships between built elements

164 (Buscando) os efeitos sociais da morfologia arquitetônica Lucia Capanema Alvares 165
and flows of people and goods, social interactions, conflicting or not. They will be more Introdução
environmentally relevant when they are vegetated, economically relevant when overlap-
ping infrastructure lines or at real estate valued areas, culturally relevant when associated to Aos urbanistas parece ainda faltar uma metodologia de compreensão da pai-
local identities and socially relevant when they support a public sphere. This study proposes sagem urbana como lócus da vita activa, como produtora e produto da sociedade
a fresh look at representations, imaginaries, appropriations and conflicts in OPS taking on da diferença, como vêm demandando estudiosos da categoria de Milton Santos
three non-exhaustive dimensions and their relations to political and externalaspects: socio- – com sua abordagem de conteúdo socioespacial – e vêm tentando responder
environmental, socioeconomic, and sociocultural. alguns pesquisadores. Nessa perspectiva, este ensaio procura analisar sob a lógica
As a case study, we present a comparison between the Center of Rio de Janeiro, due to its do conflito urbano e das apropriações dos espaços livres públicos, como os cida-
identity as the mainlocus for vita activa in the city, and São Cristóvão, due to the availability dãos conformam a cidade e como esta última conforma as desigualdades de luga-
of physical and environmental data collected in previous studies. Considering each dimen- res, possibilidades e comportamentos. A desigualdade, marca inexorável da cidade,
sion in their main aspects, the study reveals 1) what, historically and up to this date, the é demonstrada e enfrentada de diversas formas, seja por caminhos institucionais,
institutional project proposes for the public spaces in both areas and 2) what follows from como nos Conselhos Populares ou no Ministério Público, seja através de manifesta-
popular appropriations in everyday reality. Both in the district and in the central region what ções em espaços urbanos ou de movimentos sociais organizados.
can be seen is an appropriation far from the desired by the government; the public sphere Como e onde são gerados e manifestos os conflitos? Que reivindicações, anseios
realizes itself in both areas, in different scales and under different possibilities. e frustrações emergem? É possível determinar as desigualdades socioespaciais criado-
Resumen | El concepto de espacios libres públicos (ELPs) todavía está abierto y se estructu- ras e criaturas dos conflitos através dos estudos de qualidade ambiental e urbanística?
ra en las áreas de estudio del paisaje, de las ciencias sociales, la práctica físico – ambiental, Como os conflitos se relacionam a essas qualidades da cidade? Como os múltiplos usos
la práctica social y transdisciplinar. Y en el encuentro de tales estudios y prácticas se deriva reais e potenciais estão ou estariam em conflito entre si e com as instituições? De que
el concepto en construcción: en un primer momento vale decir aquellos espacios de libre maneira a desigualdade socioespacial se expõe? Eis algumas das questões que este pro-
acceso del pueblo, y que recaen la mayoría de las veces en los espacios libres de edificacio- jeto procurou elucidar, aprofundar e contextualizar territorialmente.
nes, pero no se limita a ellos. Es el lugar donde se puede observar la relación entre los ele- A adoção de uma perspectiva crítica requer ainda a contextualização das prá-
mentos construidos y libres, flujo de bienes y personas, interacciones sociales conflictivas ticas políticas para e no espaço público urbano sob a ótica do capital e do trabalho;
o no. Serán más relevantes ambientalmente cuando sean espacios con vegetación o resi- melhor dizendo, e lançando mão das ideias de Lefébvre, Harvey e outros, a luta que se
duales, económicamente cuando se superpongan a la infraestructura o sean objetivos de la trava no espaço urbano é, em última instância, entre o capital em suas diversas formas
codicia inmobiliaria, culturalmente cuando se asocien las identidades de los ciudadanos y e o trabalho. Grandes empreiteiras, sistema financeiro, conglomerados multinacionais,
socialmente cuando sean espacios donde se conforma la esfera de vida pública. Este estu- especuladores imobiliários e todo um conjunto de atores capitalistas têm e exercem in-
dio propone una relectura de las representaciones, imaginarios, apropiaciones y conflictos teresses diretos e indiretos na cidade e, por conseguinte, nos espaços públicos urbanos.
existentes en los ELPs tomando como base tres dimensiones no exhaustivas y su relación Do outro lado está o trabalho, que tem no espaço não só seu meio de produção, mas
con los aspectos políticos y externos: socio ambiental, socioeconómica y sociocultural. também seu meio de reprodução, dependendo dele para exercer grande parte de suas
atividades e delas sobreviver. O terceiro grande componente da equação é o Estado,
Como estudio de caso, se optó por una comparación entre el Centro de Río de Janeiro, por
que embora teoricamente possa se aproximar de qualquer um dos lados, tem se colo-
su riqueza de identidades y como principal locus de vita activa de la ciudad, y el barrio de
cado sistematicamente junto ao capital – oscilações no caso brasileiro, consideradas em
São Cristóvão, por la disponibilidad de datos físicos y ambientales obtenidos en estudios
seus objetivos e consequências, serão foco de absoluto interesse.
previos. Considerando cada dimensión en sus aspectos principales, el estudio revela 1) lo
Como estudo de caso, escolheu-se uma comparação entre o Centro do Rio de
que propone históricamente y en la actualidad el proyecto institucional a los espacios públi-
Janeiro e o bairro de São Cristóvão. O primeiro, por sua riqueza identitária e como
cos del centro de Río y al distrito de San Cristóbal y 2) lo que resulta de las apropiaciones po-
lócus principal da vita activa da cidade, como atesta o Mapa de Conflitos Urbanos do
pulares en la realidad cotidiana. Tanto en el barrio como en la región central se va a leer una
Rio de Janeiro (www.observaconflitos.ippur.ufrj.br); o segundo, pela disponibilidade de
apropiación que está lejos de ser el deseado por el poder público; la esfera pública se hace
dados físico-ambientais, dada a já longa pesquisa realizada pelo Laboratório Qualida-
en ambos espacios, en diferentes escalas y delante de posibilidades también diferentes.
de do Lugar e Paisagem.

166 Espaços livres públicos Lucia Capanema Alvares 167


Para sua realização contou com o apoio da Universidade Federal de Minas Bauman (2007) descreve os espaços livres públicos a partir da dicotomia
Gerais, através da liberação para estágio de pós-doutoramento, do Laboratório gerada pelo medo e seu contraponto, as possibilidades sociais de encontro com o
Estado, Trabalho, Território e Natureza (ETTERN), do Instituto de Pesquisa e Plane- outro. Enquanto a ambição modernista propunha o aniquilamento e o nivelamento
jamento Urbano e Regional (IPPUR), coordenado pelos professores Carlos B. Vainer das diferenças, sem jamais realizar tal façanha, a tendência pós-moderna aprofunda
e Henri Acselrad – onde foram baseados os estudos, e do Laboratório Qualidade e as ‘calcifica’, através da separação e estranhamento mútuos. No entanto, se por
do Lugar e Paisagem, do Programa de Pós Graduação em Arquitetura – PROARQ um lado os espaços livres públicos conduzem a sensações de repulsa, por outro, a
da UFRJ, coordenado pelos professores Doutores Paulo Afonso Rheingantz e Vera atração que exercem sobre os indivíduos tem chance de superar ou neutralizar tal
Regina Tângari, que abriu seu banco de dados para a pesquisa. repulsão: “uma reunião de estranhos é um lócus de imprevisibilidade endêmica e
incurável. [S]em suprimir as diferenças, de fato ele (o espaço público) as celebra”
(Bauman, 2007, p. 102-103).
1. Marco teórico Tal como Bauman, Simmel (1903) destaca a importância das interações so-
ciais, ou seja, do espaço que obriga os indivíduos a formarem uma unidade – uma
O conceito mesmo de espaços livres públicos está ainda em aberto e estru- sociedade; o filósofo entende a sociabilidade como a autorregulação do indivíduo
tura-se nas vertentes do estudo da paisagem e das ciências sociais, da prática físico- em suas relações com os outros. A vida humana manifesta-se no cotidiano em que
-ambiental, da prática social e do desejo transdisciplinar. Nos estudos da paisagem, se revelam os conflitos e as contradições de cada sociedade em seus diferentes mo-
os espaços livres urbanos são definidos por Magnoli (1982) como os espaços livres mentos históricos.
de edificação; todos eles, quintais, jardins públicos ou privados, ruas, avenidas, De uma perspectiva durkheimiana ou organicista, o conflito constituir-se-
praças, parques, rios, matas, mangues e praias urbanas, ou simples vazios urbanos; -ia como uma espécie de “anticorpo” ou mecanismo de defesa da coesão social,
tais espaços podem formar também um tecido pervasivo, sem o qual não se con- impedidor da doença social; ainda que sua existência possa parecer uma afronta
cebe a existência das cidades; estão por toda parte, mais ou menos processados e à ordem e um incitamento ao caos, esse fenômeno agiria no sentido de evitar o
apropriados pela sociedade; constituem, quase sempre, o maior percentual do solo caos e o desmantelamento do sistema social. Em Simmel (1903), o conflito, forma
das cidades brasileiras, mesmo entre as mais populosas (MAGNOLI, 1982). Já a prá- elementar de socialização entre indivíduos, é parte indissociável da dialética anta-
tica físico-ambiental aponta que os sistemas de espaços livres urbanos constituem gonismo – unidade que levará à significância sociológica do sujeito na cooperação
um sistema complexo, dada a interrelação com outros sistemas que podem se justa- com o outro. Para o autor, o homem traz consigo a hostilidade e a simpatia a outrem
por a eles (circulação, drenagem urbana, atividades do ócio, imaginário e memória como formas de transcendência. As lutas sociais seriam como conflitos contratados
urbana, conforto, conservação e requalificação ambiental). ou legais, quando a personalidade e a luta são apartadas e o processo pode resul-
Nos estudos sociais, o espaço público toma a característica de lugar de en- tar em decisões puramente objetivas, ainda que as pessoas estejam subjetivamente
contro, de manifestação individual e coletiva, de embate, de conflito, de apropria- enredadas. O agravamento pessoal dentro do conflito diminui sem que se reduza
ções simbólicas. A prática social traz intrinsecamente o problema da esfera pública a sua intensidade; ao contrário, o conflito torna-se mais consciente, concentrado e
– esfera própria da vita activa, que somente tem lugar no espaço público. Aqui se pró-ativo, pois o indivíduo vê-se lutando por uma causa vasta e suprapessoal.
chamam de espaços públicos os lugares de uso comum do povo, como ruas, praças, A compreensão da conflitualidade acerca dos problemas urbanos é fonte pri-
parques, imóveis públicos e todos os lugares de apropriação pública, onde se rea- mária e abrangente para o conhecimento das múltiplas realidades urbanas em suas
lizam ações da esfera pública, de propriedade pública ou privada. Prescindem de dinâmicas sociais e espacialidades. A cidade se mostra de maneira múltipla e através
estrutura física, tangível. dos seus conflitos, suas fendas, seus anseios. É na manifestação cotidiana dos con-
É no encontro de tais estudos e práticas que o conceito em construção, aberto, flitos que nossas sociedades criam e recriam a esfera pública e na qual podem ser
surge: num primeiro momento significam aqueles espaços de livre acesso do povo, encontradas e lidas as dinâmicas sociais nos espaços livres públicos.
e que recaem na maioria das vezes nos espaços livres de edificações, mas não estão A partir da sistematização proposta por Mario Beni (2002) para o turismo, este
restritos a eles. É onde se podem observar as relações entre elementos construídos e estudo propõe uma releitura das relações manifestas nos espaços livres públicos,
livres, os fluxos de pessoas e mercadorias, as interações sociais, conflituosas ou não. tomando-se por base o conjunto das relações locais, ancorado em três dimensões
não exaustivas e suas relações com a dimensão política e com as influências ex-

168 Espaços livres públicos Lucia Capanema Alvares 169


ternas (em seus aspectos de maior relevância atual). Segundo o autor, os lugares ção de espaços verticalizados; espaços livres (%) x verticalização (%); áreas livres por
são necessariamente estruturados por relações locais nos âmbitos social, econômi- habitante por bairros; evolução da população por bairros; taxa de arborização por
co, ambiental e cultural; relações estas permeáveis e superposicionáveis até certo rua do bairro; caracterização dos espaços livres mais relevantes; croquis de fluxos,
ponto, gerando um conjunto indissociável. O conjunto das relações locais estaria fixos e atividades dos espaços livres mais relevantes e seu entorno imediato; análise
em constante troca com o meio externo e sob influência de uma superestrutura do uso e apropriação de praças, parques e largos.
dada pela dimensão político-administrativa. Desta forma, buscamos compreender Uma área de aproximadamente 750 ha, incluindo os bairros de Benfica, Man-
representações, imaginários, apropriações e conflitos nos espaços livres públicos gueira, São Cristóvão e Vasco da Gama, que abrigava em 2000 cerca de 70.000 ha-
considerando o Quadro 1. bitantes1, tem como elementos físicos predominantes as áreas planas, os morros,
ainda visíveis em meio à massa construída, e os ramais ferroviários. Realizando uma
Dimensão socioambiental
análise em nível local, o laboratório caracterizou as condições urbano-paisagísticas,
Áreas verdes, eixos infraestruturais e espaços residuais (fringe belts)
classificando as áreas verdes e os espaços livres segundo uma hierarquia ou nível de
Preservação, conservação, restauração e intervenção
abrangência da metrópole à vizinhança, passando pelo bairro. No nível metropoli-
Justiça socioambiental
tano estariam a Quinta da Boa Vista, por seu caráter de lazer e cultura, e o Obser-
Pressões sociais sobre o ambiente natural
vatório Nacional, polo de ciência e tecnologia regional. No nível do bairro, por seu
Dimensão socioeconômica
atendimento e acessibilidade, estariam os pontos focais no sistema viário e as refe-
Uso do solo e especulação imobiliária
rências históricas e identitárias, como o Largo da Cancela e a Praça Santa Edwiges.
Eixos de transportes, eixos de expansão
No nível de relevância para a vizinhança, estariam os espaços de alcance comunitá-
Direitos humanos (moradia, acessibilidade, ir e vir, mobilidade)
rio, como os equipamentos do Conjunto do Pedregulho e a Praça Carmela Dias, na
Dimensão sociocultural
entrada da favela Barreira do Vasco.
Sociabilidade e esfera pública – Apropriações e usos
Os dados cadastrais revelaram que as praças, parques e largos constituem
Lazer e amenidades
7,5 % do total da área da R.A. e se concentram junto aos complexos institucionais
Aspectos simbólicos e identitários (paisagens, praças, parques, grandes eixos e
e equipamentos públicos de São Cristóvão e Vasco da Gama, que possuem 17,1 m2
espaços centrais urbanos)
de área verde por habitante, contra 0% da Mangueira. Esses espaços têm idade
Dimensão político-administrativa
média de mais de 50 anos de criação, com crescimento lento e contínuo desde o
Políticas higienistas
século XIX até os anos 1970. Ainda, menos de 20% desses espaços encontram-se
Marketing político
em bom estado de conservação e manutenção, considerados sua pavimentação,
Empresariamento das cidades
equipamentos, mobiliário urbano e vegetação. Uma análise do uso e apropriação
Dimensão externa
de praças, parques e largos encontrou grande diversidade de espaços com múlti-
Capital global e grandes corporações
plos usos funcionais na R.A., atendendo à população adulta (80% da frequência) em
Interescalaridades
maior escala que aos idosos e crianças (20% da frequência). Constatou-se também
Turismo
predominância da população masculina – no mercado informal ou temporário –.
Quadro 1 Conjunto das relações locais e externas
Ainda segundo os estudos, os espaços hierarquizados como de bairro são mais fre-
quentados no final do dia, e os de vizinhança, mais comumente localizados junto a
2. Estudos e saberes estabelecidos acerca do bairro de comunidades com menor poder aquisitivo, são frequentados durante todo o dia.
São Cristóvão (SC) e do Centro do Rio de Janeiro Para os autores há um forte desequilíbrio hierárquico entre os espaços livres
do bairro de São Cristóvão:
O Laboratório Qualidade do Lugar e da Paisagem produziu e coletou, desde
2000, uma enormidade de dados acerca da Região Administrativa (R.A.) de São Cris- Os espaços da Quinta da Boa Vista, Jardim Zoológico e Campo de São Cris-
tóvão, assim como as linhas expressas Linha Vermelha e Avenida Brasil,
tóvão, que assim podem ser elencados: mapa geral e vista aérea do bairro; histórico
atuam como polos de atração trazendo para a região fluxos, usos e usu-
e análise das condições urbano-paisagísticas; proporção de espaços livres; propor-
1. Em 2010 já eram 85.000, segundo dados do IBGE.

170 Espaços livres públicos Lucia Capanema Alvares 171


ários flutuantes, sazonais e de diferentes regiões da cidade e do estado. 32% foram em praça pública e 22% em confronto direto com forças policiais; já em
Esses espaços pontuam o sistema de forma intensa e concentrada, levan- S.C., 39% se deram em praça pública, com outros 39% através de denúncia via Minis-
do a uma distribuição não uniforme de espaços livres [...] no território da
tério Público ou abaixo-assinados, cartas e solicitações. Dos conflitos registrados no
região (SILVA e TÂNGARI, 2008, p. 17).
Centro, 55% referem-se ao governo municipal (incluindo-se aí a Guarda Municipal) e
apenas 10% aos governos estadual e federal, cada, enquanto em SC, 50% foram diri-
O Observatório Permanente de Conflitos Urbanos já fichou desde 2004 mais
gidos diretamente à prefeitura, com 17% ao governo federal e à Polícia Militar, cada.
de 2100 conflitos, montando um retrato bastante aproximado dos conflitos urbanos,
Dos 166 conflitos originados no Centro, apenas oito (menos de 5%) foram
suas causas e motivações, agentes envolvidos, tipologia, distribuição espacial, de-
manifestos em outras regiões, sendo cada uma delas em Copacabana, Laranjeiras,
mandas sociais e problemas urbanos que se encontram à sua origem. As fontes utili-
Leblon, Maracanã e Cidade Nova e três que percorreram várias regiões. Dos confli-
zadas para a coleta de dados são os jornais locais de grande circulação e o Ministério
tos originados em São Cristóvão, oito ou 44% foram manifestos em outras regiões,
Público Estadual. A coleta empreendida pelo ‘Observatório’ não expressa a totalidade
incluindo o Centro, que recebeu sete (39%). Esses dados confirmam o Centro como
dos conflitos que ocorrem na cidade, mas representa um mapeamento possível, a
alvo privilegiado de manifestações, como já demonstramos em outros estudos. Ali
partir das fontes selecionadas. O Observatório também fornece dados básicos acerca
é maior a visibilidade e ali se concentram muitos dos escritórios institucionais contra
dos bairros em que há conflitos que nos permitem perceber a similaridade socioeco-
os quais se vai manifestar.
nômica entre os dois bairros foco deste estudo. Apresentam, grosso modo, o mesmo
Quanto a um perfil geral dos conflitos originados no Centro, considerando-
padrão de tamanho, de serviços básicos domiciliares, de população e alfabetização.
-se a moda matemática, pode-se dizer que são organizados por camelôs, feirantes
Apesar da enorme diferença no volume de conflitos – do total de 1999 confli-
e artesãos que se manifestam contra o governo municipal, em praça pública e rei-
tos fichados no período estudado para a cidade, 166 foram originados no Centro da
vindicando maior acesso e uso do espaço público, enquanto os conflitos originados
cidade, a maior incidência com 8,3% do total, e dezoito foram originados no bairro
em SC (muitas vezes manifestos no Centro) são manifestos em praça pública por
de São Cristóvão (SC), vigésimo sétimo em ordem de incidência com 0,9% do total;
moradores e associações de moradores contra o governo municipal reivindicando
as similaridades não parecem terminar aí quando se analisa o total de conflitos ma-
melhores condições de segurança, o que revela algum nível de despolitização, já
nifestos em quartis no tempo (18 anos de estudo): a conflitualidade é distribuída si-
que a segurança pública é de responsabilidade do governo estadual. Ali há também
milarmente para ambas as regiões estudadas, com o período mais conflituoso entre
um grupo significativo de camelôs, feirantes e artesãos que, como no Centro, se
janeiro de 2002 e junho de 2006 (35% no Centro e 44% em SC), e o menos conflituoso
manifestam contra o governo municipal, em praça pública e reivindicando maior
entre janeiro de 1997 e dezembro de 2001 (9% e 11%, respectivamente). As questões
acesso e uso do espaço público.
mais conflituosas são as que se referem a acesso e uso do espaço público em ambas
Dos 64 conflitos protagonizados por camelôs, feirantes e artesãos no Centro,
as regiões, destacando-se que em São Cristóvão essa questão empata em conflitos de
apenas quatro tiveram como objeto a segurança pública e casos relacionados ao
segurança pública (22%), enquanto no Centro é protagonista (40%), com o segundo
seu trabalho nas ruas; os demais casos, num total de 60, envolvem o acesso e o uso
lugar, também para a segurança pública, registrando apenas 19%. As semelhanças
do espaço público (e o direito ao trabalho): são manifestações contra a retirada dos
param aí, pois a maioria dos problemas geradores de conflitos nem sequer aparecem
vendedores de algum ponto, protestos contra as ações da fiscalização e da polícia,
nos dados de São Cristóvão, enquanto somente as questões relativas a parques, jar-
contra a venda de terrenos ou destruição de equipamentos onde trabalham. Dos
dins e florestas não foram objeto de conflitos manifestos no Centro.
158 conflitos originados e manifestos no Centro, há uma maior concentração na Av.
No Centro, os conflitos organizados por camelôs, feirantes e artesãos somam
Presidente Vargas entre a Central do Brasil e a Rua Uruguaiana com 24 casos, entre o
39% contra outros coletivos com 12%, moradores ou vizinhos com 10% e sindica-
Camelódromo e o Largo da Carioca exclusive com 21 casos, entre o Largo da Carioca
tos e associações profissionais com 8% das manifestações. Enquanto isto, em São
(inclusive) e a Assembleia Legislativa com 19 casos, e entre a Praça da Candelária e a
Cristóvão (S.C.) os moradores ou vizinhos correspondem a 22%, que se somando
Rua Uruguaiana com sete casos.
a associações de moradores (33%), vão conformar a maioria dos conflitos; também
Em São Cristóvão os conflitos já não aparecem de forma temática tão clara-
no bairro, camelôs, feirantes e artesãos organizaram 28% dos conflitos. Quanto à
mente, mas apontam para questões específicas locais: O Campo de São Cristóvão é
forma de manifestação do conflito, 27 ou 16,3% dos ocorridos no Centro não foram
o mais comum palco e alvo de manifestações, com ambulantes e feirantes reivindi-
manifestos em espaços livres públicos propriamente ditos, o que ocorreu em sete
cando também o direito ao trabalho ali, seja contra a transferência da feira, seja para
casos em SC, representando 39%. Dos quase 84% manifestos nos ELPs do Centro,

172 Espaços livres públicos Lucia Capanema Alvares 173


utilizar os espaços externos a ela. Já na Barreira do Vasco, as questões são relacio- percepção do usuário sobre o objeto. Utiliza-se também de conceitos como a legibi-
nadas à ação da polícia, ora protestando contra a morte de moradores, ora contra o lidade do espaço, de Kevin Lynch (1999), para desconstruir as sensações experimen-
fechamento do Posto de Policiamento Comunitário. Dos dez conflitos originados e tadas pelos usuários do espaço e reconstruir uma percepção coletiva do território; 4)
manifestos em SC, as maiores concentrações foram junto ao Campo de São Cristó- o comportamento ambiental, ou a investigação das interrelações entre o ambiente
vão com quatro casos e junto à entrada da favela Barreira do Vasco com três casos. e o comportamento humano, complementar à percepção territorial.
Foram preenchidos doze conjuntos de formulários contendo cada um: a) le-
vantamento de recursos locais, b) morfologia do território, c) percepção do meio
3. Expandindo o conhecimento prévio ambiente, d) análise visual e e) comportamento ambiental (em três horários dife-
rentes cada) para os locais focos de conflitos: Central do Brasil, Praça da República
O conhecimento acumulado indicava algumas necessidades para atingir os – Campo de Santana, Camelódromo (praça central), Largo da Carioca, Av. Nilo Peça-
objetivos do estudo, entre elas: a) o complemento dos dados físico-ambientais do nha com Rua São José e Avenida Presidente Antonio Carlos próximo à Assembleia,
Centro através de pesquisa documental, de modo a construir um panorama nivela- no Centro; Rua do Campo de São Cristóvão próximo ao Corpo de Bombeiros, área
do com aquele apresentado sobre São Cristóvão, b) a observação sistemática e dos verde do Campo de São Cristóvão, Rua do Campo de São Cristóvão próximo ao Colé-
locais foco dos conflitos em ambos os bairros, c) a realização de entrevistas com os gio Pedro II, Largo da Cancela, Rua Fonseca Teles próximo ao Largo Pedro Lo Bianco,
usuários desses locais para se ter uma noção geral de seu perfil e percepções, e d) Praça Carmela Dutra, em São Cristóvão.
estudos de percepção territorial e comportamento ambiental para construir a ponte
entre os dados sociais e os físico-ambientais.
Foram realizadas 200 entrevistas com usuários, uma centena em cada bairro, 4. Novas compreensões
estruturadas em formulário, nos locais focos dos conflitos urbanos para mapeamen-
to das atividades exercidas nos locais, motivações, frequências e permanências, Segundo os critérios sócio-demográficos e do comportamento dos usuários
meios de transporte utilizados, opiniões e perfis. Definiu-se também por uma ob- (conforme método proposto por Claude Kaspar apud DENCKER, 2003) do Centro, o
servação sistemática não participante, individual, em campo e fazendo uso de ano- perfil predominante alia uma maioria adulta em idade ativa (25 a 64 anos) à escolari-
tações e fotografias in loco. Ocasionalmente, e de modo a completar a observação dade entre oito e 11 anos de estudo (ciclo básico completo a médio completo), com
sistemática, foram feitas entrevistas focalizadas não estruturadas. O foco das obser- moradia na própria região central ou nas regiões Norte e Oeste. Este grupo se utiliza
vações e entrevistas não estruturadas foi compreender a dinâmica das relações a dos transportes públicos como forma de acesso e trafega pelo Centro a pé algumas
partir das observações e proposições de Bourdieu n’O Poder Simbólico e enfocaram: vezes por semana para usufruir dos seus serviços ou a trabalho, permanecendo ali
1) hierarquias, autoridades e posições relativas dos sujeitos; 2) propriedades mate- geralmente por mais de 8 horas; classifica a região (97%) e a rua específica (73%)
riais e capital; 3) prestígio, reputação e fama; 4) filiação étnica, religiosa; 5) localida- onde foi entrevistado como ótima ou boa, e considera a insegurança o seu pior as-
de de moradia; 6) princípios de divisão social; 7) coletividades presente e futuras. pecto, enquanto os serviços e o comércio são considerados os melhores aspectos.
A percepção territorial (DEL RIO, 1999), advinda do campo do planejamento Os mesmos critérios em São Cristóvão apontam para um perfil predominante
urbano e regional, é uma somatória de metodologias utilizadas para a apreensão similar àquele do Centro, que alia uma maioria adulta em idade ativa (25 a 64 anos)
do caráter do território sob a ótica do usuário e engloba: 1) a morfologia territorial, à escolaridade entre oito e 11 anos de estudo (ciclo básico completo a médio com-
que pode ser compreendida através de mapas históricos e atuais, bem como outras pleto), com moradia em S.C. ou no Centro. Eles vêm a pé ou de transporte público e
formas de registro, em especial a fotografia de visadas dos quarteirões e dos vazios; sua principal motivação para estar ali, o que ocorre algumas vezes ao dia, são os ser-
2) a análise visual – um dos métodos fundamentais para a compreensão da dimen- viços (alimentação, educação, serviços públicos e outros), que os detêm na região
são afetiva, ou das concepções e imagens, explora os efeitos emocionais a partir da por intervalos de 1 a 4 horas, 4 a 8 horas, ou até mais de 8 horas. O grupo classifica a
experiência visual e das qualidades estéticas do objeto percebido; 3) a percepção do região (62%) e a rua específica (73%) onde foi entrevistado como boa, e considera as
meio ambiente – pensada a partir da teoria gestáltica, entende que a forma só tem áreas verdes e praças o seu melhor aspecto, enquanto a insegurança é considerada
sentido a partir da identificação coletiva do seu significado. Para apreender imagens o pior aspecto.
públicas, bem como a memória coletiva dos objetos, seria preciso compreender a

174 Espaços livres públicos Lucia Capanema Alvares 175


O perfil relativo a anos de estudo revela um usuário de nível mais alto em S.C.; “fecha” o espaço da paisagem, configurando-se também como o caminho mais claro
diferentemente do Centro, que obteve conceito “ótimo” de 19% dos entrevistados, seu da área. O Pavilhão toma as características de marco, setor e nó, com os viadutos ope-
usuário padrão o avalia apenas como “bom” e a característica mais valorizada é a pre- rando como limites. O conjunto oferece bom grau identitário e de imageabilidade.
sença de áreas verdes e praças, enquanto o dados comportamentais acusam menor Foram observadas as pessoas que faziam uso da parte interna da área, desde
uso do transporte público e maior proporção de deslocamentos a pé ou de bicicleta desabrigados, moradores a funcionários locais desenvolvendo atividades como se
(em consonância com uma maior parcela moradora do bairro), várias vezes ao dia. deslocar, conversar, esperar, ler, comer, jogar dama, e até realizar atividades esporti-
Os estudos de percepção territorial relatados aqui enfocam os locais de maior vas e uso de drogas leves. A maior parcela é de jovens moradores da região e estudan-
conflitualidade e importância em São Cristóvão – Campo e Barreira do Vasco – e tes que já têm uma relação com seu contexto físico, mas o descanso de trabalhadores
aqueles, dentre os pesquisados por sua conflitualidade no Centro, com os quais se é um comportamento padrão na área ajardinada, em contraste com o território dos
pode traçar alguns paralelos: desabrigados e jovens. A utilização da área como atalho para pedestres é uma das
Campo de São Cristóvão – Os jardins tiveram a sua última obra de reforma em sequências comportamentais que pode ser percebida, exceto à noite quando o lazer
1996 resultando em uma grande alteração no seu uso, devido ao fluxo de pessoas (inclusive as rodas de repentistas de rap) é uma das atividades especificas.
com a inauguração do Centro de Tradições Nordestinas. A maior parte da ativida- Sob dois viadutos, a área entre o Corpo de Bombeiros e a entrada provisória
de econômica está compreendida no comércio interno do Pavilhão – que ganha do pavilhão é utilizada como atalho por pedestres que evitam a extensão de toda a
notoriedade devido à sua escala e à atividade única de grande identidade, respon- rua ao redor do campo. Território de veículos a frete e taxistas, o espaço é dividido
sável pelo espírito nordestino instalado de terças-feiras a domingos, e acaba por com trabalhadores que aproveitam a sombra e a calmaria. Sob o viaduto Agenor de
ser referência de consumo também para as três escolas tradicionais (Colégio Pedro Oliveira a segurança pública é deficiente, fazendo com que os moradores evitem o
II, Escola Municipal Gonçalves Dias e Educandário Araújo). Hoje, a área ajardinada trecho, liberando-o para a ocupação desordenada de veículos em todos os espaços
vizinha ao Pavilhão de São Cristóvão – um dos símbolos do bairro – está cercada por e criando um cenário composto por carros, lixo, usuários de drogas e flanelinhas, a
viadutos de acesso à Linha Vermelha, quadras ortogonais irregulares, edificações área é cercada também pelas grades do pavilhão e a exposição de cartazes na entra-
com afastamentos diferenciados e arquitetura do século XIX conservada em certos da principal, definindo a baixa qualidade ambiental.
edifícios de uso comercial e residencial. Bares, restaurantes, edifícios residenciais, Nos ambientes externos aos jardins, as sequências comportamentais apre-
prédios públicos, o Teatro Mário Lago, a igreja e até uma filial de apostas do Jockey sentam alguns comportamentos padrão, como a não utilização das escadas que se-
Club Brasileiro compõem os quarteirões que envolvem a grande área ajardinada param as vias, a aglomeração de estudantes e funcionários locais na estreita calçada
configurando o entretenimento na região, servida de boa pavimentação do sistema do Colégio Pedro II até o Largo Pedro Lobianco, e a agitação à entrada principal do
viário e transportes coletivos satisfatórios com linhas que ligam o bairro a diversas pavilhão, palco de ação local.
localidades do Centro e da zona norte da cidade. Praça Carmela Dutra – Localizada na confluência das ruas Ricardo Machado e
A julgar pelo grande fluxo de veículos em determinados horários, a qualida- General Américo de Moura – onde tem presença predominante o estádio do Vasco
de do ar e ambiental é moderada no trecho que sofre com a poluição sonora; já no da Gama, a pequena praça semicircular é ladeada pelos acessos à favela Barreira do
interior do campo, apesar da boa iluminação, depara-se com a falta de segurança Vasco, onde se localizam o 4º Batalhão da PMRJ, a Escola João de Camargo, o Espaço
pública, apesar da presença contínua da Guarda Municipal – destaque na opinião de Desenvolvimento Infantil, a sede da associação do bairro e um comércio local,
de moradores e funcionários locais que o evitam à noite em razão dos assaltos e composto por vários bares, padaria e farmácia; só é possível ver as vielas que dão
uso de crack – e a ação das chuvas, com alagamentos em alguns pontos. A limpeza acesso à favela e pequenos trechos de ruas comerciais. À sua frente há dois vazios,
de toda a parte interna, vias e calçadas é feita diariamente pela Comlurb, mas o uso um aberto e asfaltado que serve de estacionamento ao estádio, e um grande lote
local – território de desabrigados – e a diversidade de árvores de médio e grande vago tapado por um muro em ruínas e quiosques do comércio informal. As quadras,
porte a tornam insuficiente. sob este ângulo, são regulares, ortogonais e servem de suporte a lotes e edificações
Com relação ao espaço existencial e níveis de percepção, os equipamentos regulares de dois pavimentos.
mais acessíveis da área observada são as diversas árvores, bancos, coretos, grades, A sua área é 100% pavimentada, o que lhe confere uma sensação de secura
lixeiras, brinquedos infantis, quadras e um skate park. A representação dos espaços e dureza, e possui pontos de ônibus, táxis, vãs e motocicletas de aluguel, adicio-
urbanos dá-se nos prédios, vias e serviços de transporte, enquanto a Rua do Campo nando um caráter movimentado e desorganizado. Por outro lado, a boa qualidade

176 Espaços livres públicos Lucia Capanema Alvares 177


dos serviços de iluminação pública, drenagem, coleta de lixo e comércio trazem à juntos, causam movimentação intensa, inclusive de policiais que tentam reprimir o
memória as praças de bairro. Se um primeiro nível de percepção nos aproxima do comércio. O quarteirão da Rua Bento Ribeiro vizinho à Central é um palco de ação
mobiliário urbano abundante e sobreposto, um segundo nível nos oferece maior que vem sendo inteiramente ocupado por camelôs vitimados pelo incêndio no
conforto nas sombras das árvores, nos brinquedos infantis, bancos e mesas e nos camelódromo local em abril de 2010. O atrito entre os ambulantes e o choque de
pequenos quiosques de serviços; o que define o espaço urbano são os edifícios à ordem é constante nesses locais.
sua volta, com o Maciço da Tijuca ‘fechando’ a paisagem ao fundo das grandes áreas Além do próprio prédio da Central, o Palácio Duque de Caxias é a principal re-
abertas. O grande marco local é a sede do Vasco da Gama, com imponente edifício, ferência construída do lugar. A vista para a grande área verde do Campo de Santana
para o qual contribui o caminho principal (Av. General Américo de Moura), que tem é ofuscada pela movimentação da Avenida Presidente Vargas e da Praça Procópio
seu fim na Praça-nó Carmela Dutra. Para ‘trás’ da praça está o limite representado Ferreira, ocupada de maneira mais esparsa por camelôs de mercadorias mais refi-
pelos imóveis comerciais entrecortados pelas vielas do morro. nadas e jovens com trajetória de rua, e onde também há vários pontos de ônibus.
A presença de crianças e avós da comunidade é mais marcante no interior Com relação ao espaço existencial, é definido pelo mobiliário urbano e de
da praça, onde há também uma ocupação adolescente na quadra de esportes; nas acessibilidade das plataformas, pelos prédios e paredões de camelôs e pelo vazio da
calçadas circulam policiais e moradores em busca de transporte público enquanto Av. Presidente Vargas, que oferece como escape o espaço da paisagem, que parece
grupos de aposentados jogam dama, dominó, cartas. No entorno imediato, mulhe- infinito na direção oeste e verde na direção sul. O edifício da Central e o Palácio
res fazem compras e grupos de amigos se sentam à mesa dos bares – que nos finais Duque de Caxias possuem boa imageabilidade, assim como o Campo de Santana,
de semana ficam repletos. Mais além, e na direção oposta à PM, o território da milí- qualidade pouco percebida pelo pedestre que se vê mais envolvido com a movi-
cia, que subcontrata motoboys, supervisiona os feirantes locais, fecha acordos para mentação da estação e da avenida.
obtenção de serviços como TV a cabo. Trata-se claramente de uma praça de bairro Praça da Republica/Campo de Santana – O Campo de Santana, com projeto
periférico do Rio de Janeiro. Nos dias de futebol, no estádio a cena se transforma e a de Glaziou, foi inaugurado em 1880, servindo como marco entre a área central e os
lógica do consumo que este esporte engendra se sobrepõe aos costumes cotidianos. subúrbios do Rio durante décadas. Em sucessivas reformas urbanas foi perdendo área
Central do Brasil – Principal terminal metro-ferroviário do Rio, localizado em e hoje se restringe a um quarteirão. Atualmente o campo é uma área ajardinada em
uma das principais avenidas da cidade, caracteriza-se como o ponto nevrálgico de meio ao centro urbano do Rio de Janeiro, situada em frente à Central do Brasil; possui
toda a região, cuja reurbanização nos anos 1940 criou quadras ortogonais e triangu- quatro entradas (Av. Presidente Vargas, Pça. da República-leste e duas na Pça. da Re-
lares regulares, vias largas e pequenas praças, que se anulam diante da rotina feéri- pública-oeste) e é conservada pela Fundação Parques e Jardins da prefeitura, com
ca. Possui intensa movimentação durante todo seu horário de funcionamento, com o apoio da PM e da Guarda Municipal. À sua volta está o que se chama oficialmente
todos os tipos de gente, advinda em sua maioria das zonas norte e oeste da cidade Praça da República, hoje reduzida a duas avenidas paralelas (faces leste e oeste do
e da região metropolitana; as áreas internas ao edifício são tomadas por trabalha- campo) e à Rua Frei Caneca, faceando o campo ao sul. O mobiliário para lazer con-
dores ansiosos em frente aos telões de marcação das linhas nas plataformas (numa templativo em harmonia com sua diversa fauna, formada por cotias, pavões, gatos e
sequência comportamental clara), gerando grande tumulto nos horários de pico e outros animais soltos, entre espécies exóticas da flora, conforma uma bela área verde
correria desordenada pelos trens e plataformas, principalmente quando ocorrem separada por grades em todo seu perímetro. O jardim, em estilo inglês de grande
alterações nas telas. O pátio de saída lateral do terminal para a Rua Bento Ribeiro efeito paisagístico, com suas espécies exóticas, dá o principal contraste com as edifi-
conforma-se num território dos trabalhadores de rua – entre biscateiros, vendedo- cações à sua volta.
res ambulantes de pequenos objetos e prostitutas, que aproveitam o grande espaço Já a Praça da República recebe este nome por ter sido palco da proclamação
para descansar, dormir e pedir dinheiro em meio à multidão de passantes. da República e abriga edifícios, em sua maioria da época imperial, de baixa volume-
As ruas adjacentes, geralmente ladeadas por filas ininterruptas de camelôs, tria, mas largos e regulares com afastamentos heterogêneos, como o Arquivo Nacio-
exercem também o papel de terminal rodoviário, com os pontos de parada dos co- nal, a Rádio MEC, o Corpo de Bombeiros e a Faculdade de Direito da Universidade
letivos lotados durante o horário comercial. A entrada da Fundação Leão XVIII Hotel Federal do Rio de Janeiro.
Escola Popular, que serve refeições a preços populares, fica na mesma calçada es- Utilizado prioritariamente por passantes apressados que entram pela Praça
treita da Delegacia do Idoso à Rua Senador Pompeu, que abriga também pontos da República–leste em direção à Central do Brasil – conformando uma sequência
finais de ônibus e o mais efêmero camelódromo da região, conhecido como ‘varal’; comportamental, a área lhes fornece um microclima mais agradável que o entorno.

178 Espaços livres públicos Lucia Capanema Alvares 179


Frequentado por moradores mais antigos do bairro e por alunos da Escola Muni- com a plácida concordância do Estado. Sob a dimensão socioeconômica há o as-
cipal Campos Sales ali localizada, conta com uma territorialização típica de gran- pecto da regulação dos usos do solo, mecanismo de exclusão dos menos privilegia-
des centros urbanos: há o território dos viciados em drogas leves (pelo menos nos dos dos espaços formais que enseja o enfrentamento da desigualdade estabelecida
momentos em que ali estão), bem próximo à entrada da Presidente Vargas, onde pelo Estado em nome do capital nos espaços livres públicos; a grande maioria dos
desfrutam de uma bela paisagem à beira do riacho e podem também dormir sob conflitos registrados na Central do Brasil, bem como no Campo de São Cristóvão,
os olhos da Guarda Municipal. Há os desabrigados andarilhos que permeiam várias diz da necessidade dos ELPs como suporte para a produção e a sobrevivência. O
áreas e comumente se aproximam do território das garotas de programa, distribuí- encontro que se conforma em todos esses espaços não é o dos diferentes, mas das
das pelos caminhos mais utilizados pelos transeuntes; ali se encontram mulheres de parcelas alijadas do trabalho formal. O que muda é a escala.
todas as idades e localidades do Rio e até de outros estados, que dividem vagas nas É preciso pensar então, sob a dimensão sociocultural, que esfera pública está
edificações mais precárias da área; há também as garotas de programa de menor se desenhando nos ELPs quando amenidades são utilizadas pelo Estado como sa-
poder aquisitivo que dormem nas ruas. O comportamento padrão é o da aborda- natórios de outrora; quando este mesmo Estado, simbolizado por suas forças poli-
gem profissional do transeunte, mas muitas delas utilizam o local também para se ciais, fecha os olhos ao que não se vê e criminaliza a pobreza ao reprimir a atividade
drogarem livremente. Outro território marcante é o do crack, mais ao fundo, em de trabalho e ao matar favelados da Barreira do Vasco; que identidades se forjam
direção à Frei Caneca (onde não há saída), mais frequentada por homens adultos. Há quando a inconsciência das drogas é vista com complacência, as milícias são atu-
ainda uma pequena parcela de visitantes (turistas ou locais) que se sentam ao redor radas nas áreas pobres e a luta pelo direito à cidade (e ao trabalho) é reprimida
dos lagos, aproveitam a paisagem para fotografias, passeios familiares, enfim, para o violentamente.
lazer e descanso. Diante de frequências tão díspares há, naturalmente, os pequenos Considerando-se a dimensão externa, fica claro que o papel estatal é ditado
assaltos e furtos. por uma coalizão interescalar do capital: o Estado não pretende ser mediador de in-
O espaço existencial, dado pelos níveis de percepção da área, contém em teresses, é subjugado pelo mercado – não há ação educativa, recuperadora, de inte-
primeira instância o mobiliário urbano e a vegetação, juntamente com os elemen- resse público; não há tampouco mediação política, pois é a economia quem manda,
tos paisagísticos mais expressivos, como pedras, monumentos e o riacho. Num como sintetizou Torres Ribeiro (apud CÂMARA, 2006).
nível mais abrangente, o verde predomina entremeado por caminhos e nós. Todo Repensando Bourdieu, as autoridades se fazem violentamente presentes
o espaço do campo é paisagístico. Tomando-se a área externa, há então um grande quando as lutas dos desfavorecidos por propriedades materiais e capital estão em
contraste, mais evidente pelo diferencial de conservação e poluição sonora, com o evidência; as divisões sociais são aprofundadas quando parcelas da mesma classe
caminho proporcionado pela Presidente Vargas e o setor encapsulado do campo são tratadas diferentemente pelo Estado, ameaçando os laços sociais e as coletivi-
servindo como limite ou divisor de duas realidades. dades futuras. O Baile Internacional é para poucos e os barrados que se droguem
em locais de baixa visibilidade, ou tomem cacetadas para desimpedir os espaços
livres públicos de maior visibilidade. As tentativas de se contrapor a esta ordem, de se
5. À guisa de uma análise ideológica dos apropriar dos espaços citadinos, de gerar conflitos e propor papeis antitéticos (como
barrados no baile deseja Simmel) devem ser, mais do que nunca, objeto de estudo e publicidade.

Buscando refletir sobre os diversos conhecimentos amealhados, retomamos


as dimensões propostas teoricamente para explorar alguns dos aspectos de nosso Referências bibliográficas
interesse e incidência neste estudo.
Sob a dimensão socioambiental será preciso pensar os Campos de São Cris- BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

tóvão e de Santana, áreas verdes conservadas em meio a regiões 100% urbanizadas BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo (7ª Ed.). São Paulo: Senac, 2002.
e valorizadas, que se prestam mais como refúgio de outcasts que como amenidades BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz (14ª Ed). Rio de Janeiro:
para a reprodução do sistema lazer-trabalho. Parece-nos que as áreas de lazer sob Bertrand Brasil, 2010.
o reinado neoliberal tomam uma nova função, para além das já conhecidas e en- CÂMARA, Breno P. Insegurança pública e conflitos urbanos na cidade do Rio de Janeiro (1993-
gendradas pelo capital: a possibilidade higienista de esconder os não trabalhadores 2003). Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado, UFRJ, 2006.

180 Espaços livres públicos Lucia Capanema Alvares 181


DEL RIO, Vicente. Introdução ao Desenho Urbano no Processo de Planejamento. São Paulo: PINI,
1999. O passado tem futuro?
Um estudo sobre a persistência
DENCKER, Ada F. Maneti. Métodos e Técnicas de Pesquisa em Turismo. São Paulo: Futura, 2003.
MAGNOLI, Miranda M. E. M. Espaços livres e urbanização: uma introdução a aspectos
da paisagem metropolitana. São Paulo: Tese de Livre-docência, Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, USP, 1982. dos espaços públicos1
SILVA, Jonathas Magalhães Pereira da; TÂNGARI, Vera Regina. Requalificação de paisagens
centrais: o plano de integração dos espaços públicos livres de edificação da região
administrativa de São Cristóvão – Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.fau.
ufrj.br/prolugar/arq_pdf/diversos/artigosvera%20tangari/requalif_saocristovao_ Thereza Christina Couto Carvalho
magalhaesetangari_2008.pdf>. Acesso em 25/10/2011. Aline Lima Santos
SIMMEL, Georg. “The Sociology of conflict”; In American Journal of Sociology (1903) 490-525.
Disponível em: <www.brocku.ca/MeadProject/Simmel/Simmel_1904a.html> Acesso
em 25/10/2014 Resumo | A constituição de espaços públicos, aqui entendidos como largos, praças e eixos
viários de ligação, tem na sua forma física e inserção na malha da cidade, relações recíprocas
de intercomplementaridade. Da mesma forma, a localização desses elementos no tecido
urbano, materializando a interseção entre o público e o privado, o individual e o coletivo,
entre “movimento e lugar, os âmbitos distintos do espaço edificado e aberto, entre arquite-
tura e planejamento”, entre o simbólico e o utilitário e – demanda a atenção simultânea às
pessoas, ao ambiente fisco e às suas numerosas relações.
Essas relações definem combinações particulares (que as distinguem como um DNA) e que
tendem a perdurar ao longo da permanência daqueles espaços na malha, e das relações
que constroem herdadas e novas, entremeadas no tecido urbano da cidade. As condições
históricas, sociais, econômicas, morfológicas e ambientais que caracterizaram os contextos
em que foram gerados, influíram na definição daqueles elementos assim como também
nas suas combinações. A sua percepção não pode, todavia, prescindir da perspectiva fun-
cionalista que trate daquelas condições, sem deixar de reconhecer que a inércia das formas
urbanas lhes confere certa autonomia que as simplificações funcionalistas costumam negli-
genciar. A importância e a necessidade da análise histórica, por outro lado, não podem se
ater ao estudo da cidade do passado pretendendo ignorar as relações que as formas urbanas
pré-existentes têm com o presente, com outros elementos da cidade, reforçando combi-
nações herdadas ou recentes. É nesse sentido que a cidade do presente se afirma, onde as
formas urbanas, as ruas, as praças, os largos são muito mais do que simples tradições ou tra-
duções de intenções políticas do presente ou do passado, e estão em permanente processo
de sedimentação dinâmica com perspectivas de futuro, a despeito dos que profetizam a sua
extinção por obsolescência.
A partir de pesquisa em andamento, esta comunicação busca apresentar algumas perspec-
tivas que possam contribuir para o estudo das relações e das combinações que formam a

1. Este texto foi publicado nos Anais do I Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em
Arquitetura e Urbanismo. Simpósio Temático: Espaço Público, Cidade e Equidade.

182 Espaços livres públicos Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 183
sedimentação do referido capital genético da paisagem, com foco nos espaços públicos. simultánea de la gente, do medio ambiente físico y com sus numerosas relaciones. Estas
Para demonstrar o argumento, um conjunto de largos, praças e eixos viários foram selecio- relaciones definen combinaciones particulares (que se distinguen como un DNA) y que tien-
nados em Juiz de Fora, Minas Gerais, são eles o Parque Halfeld, a Av. Rio Branco, a Praça do den a persistir a lo largo de la permanencia de esos espacios en la malla y las relaciones que
Riachuelo, a Av. Getúlio Vargas, a Praça António Carlos, a Rua Independência e a Praça da se construyen, heredadas y nuevas, intercaladas en el tejido urbano de la ciudad. Las condi-
Estação. Todos localizados no Centro de Juiz de Fora. A gênese de cada um desses espaços ciones históricas, sociales y econômicas, morfológicas y ambientales, que caracterizan los
está relacionada a diferentes contextos específicos da formação da cidade, e a seus dife- contextos en los que se generaron, influíran en la definición de esos elementos, así como em
rentes agentes, tendo em comum o papel estruturador do tecido urbano que cada um dos sus combinaciones. Su percepción no puede prescindir sin embargo, de la perspectiva fun-
eixos de acesso então configurados desempenhou. A persistência dos largos e praças está cionalista que aborda esas condiciones sin dejar de reconocer que la inercia de las formas
associada à vitalidade daqueles eixos viários e das redes de ligação que construíram entre urbanas les da cierta autonomía que las simplificaciones funcionalistas tienden a descuidar.
si, com as pessoas que atraíram para a sua apropriação e com a cidade. La importancia y la necesidad de análisis histórico, por outro lado, no se adhiere al estudio
Abstract | Public spaces, meaning squares and streets in the environment – “intersecting de la ciudad del pasado para ignorar las relaciones que la preexistente formas urbanas tie-
public and private, individual and society, movement and place, the built and the unbuilt, nen con el presente, con otros elementos de la ciudad, reforzando combinaciones herdadas
architecture and planning”, the symbolic and the utilitarian – demands that simultaneous o recientes. És en este sentido que la ciudad de ló presente se afirma, donde las formas
attention be given to people, to physical environment, and to their numerous interrelations. urbanas, las calles, las plazas, el ancho, son mucho más que simples tradiciones o las traduc-
Roads turned into high streets, and open public spaces have been made useful, in differ- ciones de intenciones políticas del presente o pasado y están en constante proceso diná-
ent historic periods, for multiple economic purposes establishing, when certain conditions mico de sedimentación con perspectivas de futuro, a pesar de que profetizan su extinción
were preserved, new functional spatial links between different urban areas, and allowed new por obsolescencia. A partir da la investigación en curso, este artículo pretende presentar
social practices of survival. algunas perspectivas que pueden contribuir al estudio de las relaciones y las combinaciones
que conforman el capital genético de la sedimentación del paisaje con un enfoque en los
Changes that were made have, in some circumstances, helped to aggregate new uses,
espacios públicos. Para demostrar el argumento, un conjunto de plazas, plazas y carreteras
and to consolidate them, allowing necessary links between the existing grid – with all its
fueron seleccionados en Juiz de Fora, Minas Gerais. Estos son el parque Halfeld, AV. Rio Bran-
multiple functions, shapes and values, and new urban expansions. In other circumstances,
co, la Plaza del Riachuelo, AV. Getúlio Vargas, Praça Antônio Carlos, calle Independencia y
other changes have helped to condemn and to lose functional urban tissue and related
Plaza de la estación. Todos ellos situados en el centro de Juiz de Fora. La génesis de cada uno
networks of uses, meanings and values and social related constructions and expectations.
de estos espacios se relaciona con diferentes contextos específicos de la formación de la ciu-
This chapter adopts a network view to the matter of how humans relate to space as it ad-
dad y sus diversos agentes, y tienen en común el papel estructurador del tejido urbano que
dresses the role that the physical environment plays intertwining our lives to places and to
cada uno de los ejes de acceso configurados configuró. La persistencia de ancho y plazas
place-making.
están asociados con la vitalidad de lós ejes de vias y de las redes de conexión que construyó
Based on this perspective and on the preliminary results of the ongoing research the pro- uno con el otro, con gente atraída para La su apropiación, y con la ciudad.
posed chapter identifies on selected public spaces and routes in the city of Juiz de Fora, a
set of spatial and functional patterns of linkage, linking different genetic (qualitative) di-
mensions. It takes on board six here called genetic dimensions of the cultural heritage of a Introdução
city and its grid, how they are intertwined in the landscape. They are the economic, social,
morphological, environmental, and organizational dimensions together with accessibility A constituição de espaços públicos, aqui entendidos como largos, praças e
as a determinant condition. eixos viários de ligação, tem na sua forma física e inserção na malha da cidade, rela-
Resumen | La Constitución de espacios públicos, entendida acá como plazas amplia y eje ções recíprocas de intercomplementaridade. Da mesma forma, a localização desses
de conexión de vías, en su forma física e inserte en el tejido de la ciudad, las relaciones re- elementos no tecido urbano, materializando a interseção entre o público e o pri-
cíprocas de inter-complementaridade. El mismo fueron la ubicación de estos elementos en vado, o individual e o coletivo, entre “movimento e lugar, os âmbitos distintos do
el tejido urbano, materializando la intersección entre público y privado, lo individual y lo espaço edificado e aberto, entre arquitetura e planejamento”, entre o simbólico e o
colectivo, entre “movimiento y lugar, los diferentes ambitos del espacio construído y abier- utilitário e – demanda a atenção simultânea às pessoas, ao ambiente fisco e às suas
to, entre arquitectura y planificación”, entre lo simbólico y la utilidad y demanda atención numerosas relações.

184 O passado tem futuro? Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 185
Essas relações definem combinações particulares (que as distinguem como Rio Janeiro (RJ), com a BR-267, que vai de Leopoldina (MG), passa pelo estado de São
um DNA) e que tendem a perdurar ao longo da permanência daqueles espaços na Paulo, indo até o Mato Grosso do Sul, na fronteira do Brasil com o Paraguai.
malha, e das relações que constroem herdadas e novas, entremeadas no tecido Ocupando uma área de 1.429,875 Km² e com uma população de 509.125 habi-
urbano da cidade. As condições históricas, sociais, econômicas, morfológicas e am- tantes3, Juiz de Fora é o município mais extenso e populoso da Zona da Mata. É consti-
bientais que caracterizaram os contextos em que foram gerados, influíram na defini- tuído por quatro distritos: Juiz de Fora – distrito sede, Torreões, Rosário de Minas e Sa-
ção daqueles elementos assim como também nas suas combinações. A sua percep- randira, e cerca de 99 % de sua população reside na área urbana (PREFEITURA, 2007).
ção não pode, todavia, prescindir da perspectiva funcionalista que trate daquelas A sua mancha urbana abrange aproximadamente 93,5 km², que correspon-
condições, sem deixar de reconhecer que a inércia das formas urbanas lhes confere dem a pouco mais de 23% da área urbana legal do município, deixando livres quase
certa autonomia que as simplificações funcionalistas costumam negligenciar. A im- 77% do espaço legalmente considerado urbano. Ainda assim, nem toda a mancha
portância e a necessidade da análise histórica, por outro lado, não podem se ater ao urbana está ocupada ou homogeneamente ocupada, fundamentalmente por conta
estudo da cidade do passado pretendendo ignorar as relações que as formas urba- da natureza geográfica da topografia do sítio.
nas pré-existentes têm com o presente, com outros elementos da cidade, reforçan- O município também se destaca no contexto regional pelo alto índice de de-
do combinações herdadas ou recentes. É nesse sentido que a cidade do presente se senvolvimento humano, de 0,828 (PREFEITURA, 2007). Em relação à economia, apre-
afirma, onde as formas urbanas, as ruas, as praças, os largos são muito mais do que senta significativa representatividade no setor de serviços e indústria, com ênfase
simples tradições ou traduções de intenções políticas do presente ou do passado, para as atividades de ensino superior, siderurgia, produção alimentar e têxtil4 (FUN-
e estão em permanente processo de sedimentação dinâmica com perspectivas de DAÇÃO João Pinheiro, 2006).
futuro, a despeito dos que profetizam a sua extinção por obsolescência.
A partir de pesquisa em andamento, este artigo2 busca apresentar algumas
perspectivas que possam contribuir para os estudos das relações e das combinações Área analisada – as praças escolhidas
que formam a sedimentação do referido capital genético da paisagem, com foco
nos espaços públicos. Para demonstrar o argumento, um conjunto de largos, praças Em 1854, o Largo da Câmara, atual Parque Halfeld, surge com o traçado da Es-
e eixos viários foram selecionados em Juiz de Fora, Minas Gerais, são eles o Parque trada Nova do Paraibuna, próximoà Câmara Municipal e Cadeia. A Companhia União
Halfeld, a Av. Rio Branco, a Praça do Riachuelo, a Av. Getúlio Vargas, a Praça Antônio e Indústria aparece como segundo agente de formação da cidade com a construção
Carlos, a Rua Independência e a Praça da Estação. Todos localizados no Centro de Juiz da Rodovia União e Indústria, a partir da qual se configura o Largo da União e Indús-
de Fora. A gênese de cada um desses espaços está relacionada a diferentes contextos tria, atual Praça do Riachuelo, na mesma época. A Praça Antônio Carlos, antigo Largo
específicos da formação da cidade, e a seus diferentes agentes, tendo em comum o da Alfândega Seca (alfândega ferroviária), surge de um aterro e da singularidade e
papel estruturador do tecido urbano que cada um dos eixos de acesso então confi- importância estratégica dessa função. Por fim, o Largo da Estação, atual Praça da
gurados desempenhou. A persistência dos largos e praças está associada à vitalidade Estação, que a chegada da Estrada de Ferro do Brasil, em 1875, define pontuando
daqueles eixos viários e das redes de ligação que construíram entre si, com as pessoas uma nova área de expansão da cidade.
que atraíram para a sua apropriação e com a cidade.
Morfologia – algumas dimensões
Contexto
Os caminhos de acesso criados por iniciativas voluntaristas de diferentes em-
A cidade de Juiz de Fora possui uma localização privilegiada, por conta da preendedores transformaram-se em corredores estruturadores da cidade de Juiz de
proximidade com as principais metrópoles do Sudeste brasileiro, no entroncamen- Fora. A época em que esses espaços foram configurados corresponde à segunda
to da BR-040, que liga o município às capitais Brasília (DF), Belo Horizonte (MG) e metade do século XIX. Faziam-se sentir no Brasil de então as repercussões da indus-
trialização de processos produtivos que tinham lugar na Europa, particularmente na
área da geração de energia e dos transportes de longa distância. A região da Zona
2. Este artigo sintetiza alguns dos resultados e reflexões que serviram de base para a criação da Rede de Cooperação
para o Urbanismo em Escala Regional e Ordenamento Territorial, da qual hoje fazem parte um conjunto de professores, 3. De acordo com a estimativa do IBGE, em 01 de julho de 2006.
pesquisadores e alunos da UFF, UFRJ e UFRV no Rio de Janeiro. 4. Dados referentes ao ano de 2004.

186 O passado tem futuro? Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 187
da Mata, onde as mencionadas repercussões materializavam mudanças significati- minhos de desenvolvimento e de crescimento econômico que diferentes empreen-
vas na morfologia urbana da cidade de Juiz de Fora, destacava-se pela força da sua dedores buscaram para si naquele território, literalmente, ou seja, rotas e percursos,
economia agrícola. Principal produtora e exportadora de café no estado de Minas com tipologias de parcelamentos distintos direcionados para diferentes propósitos.
Gerais, responsável por 60% da arrecadação provincial na década de 1870 (Pinheiro, O “motor” da industrialização imprime maior velocidade aos fluxos de mercado-
2005), os padrões espaciais de uso e ocupação do seu território representam uma rias que a rodovia em primeiro lugar, e a ferrovia depois, passam a permitir sobre o
ruptura com o passado histórico de Minas Gerais, marcado pelo ciclo do ouro. Apre- eixo que liga a Praça do Riachuelo ao Largo da Alfândega Seca. Essa nova dinâmica
senta características do século XIX como o liberalismo, a iniciativa privada, a crença marca a paisagem com novos padrões relacionais arquitetura/ funções produtivas/
no progresso, a evolução trazida pela máquina a vapor e pela eletricidade, o ecletis- novas comunidades de trabalhadores migrantes.
mo do estilo arquitetônico e outras manifestações de um pensamento com tendên- A Estrada Nova, posteriormente renomeada Av. Rio Branco, apresenta uma ti-
cia a romper com o estabelecido. Essa mesma mentalidade vai também repercutir pologia de quarteirões e lotes pequenos traçados pelo engenheiro Heinrich Halfeld.
sobre a morfologia urbana de Juiz de Fora sob as formas de novas tipologias urba- A doação de áreas em locais estratégicos para a destinação de funções públicas sin-
nísticas e arquitetônicas. gulares na cidade proporciona a Halfeld as condições para transformar a Estrada Nova
A fragilidade do Poder Público, associada ao empreendedorismo ‘voluntario- em Rua Direita, organizadora do espaço urbano da vila e alavanca da valorização do
so’ dos três agentes privados – H. Halfeld, Mariano Procópio e Bernardo Mascare- assentamento que passa a ser reconhecido como cidade de Paraibuna, em 1856. Apa-
nhas, reforçou as condições que permitiram aquelas variadas formas de apropriação rentemente o propósito do investimento era a valorização imobiliária que a nobreza
do território. arquitetônica dos prédios remanescentes, hoje, indica em contraste com a simplicida-
Contextos tão distintos de geração de riquezas têm diferentes “pegadas” de da tipologia arquitetônica constatada à época da abertura da estrada.
no território, aqui entendidas como matrizes espaciais relacionais que marcam a A constituição de outro caminho desviando aproximadamente 45 graus da
morfologia da cidade, abrangendo um conjunto de fatores de diferentes dimen- Estrada Nova, iniciativa capitaneada por Mariano Procópio, faz a primeira rodovia
sões qualitativas. Emergem da pesquisa as seguintes dimensões – legal ou institu- da America Latina – chamada Estrada União Indústria e marca no território um novo
cional nas regras de permissão dos usos e apropriações do território ali praticadas; eixo de evolução. Inaugurada em 1860, cria uma tensão entre as duas tendências
a dimensão ambiental nas formas de exploração do potencial geo-morfológico do de expansão e adensamento com a formação de outro Centro, de natureza bem di-
local e dos recursos naturais demandados pelos processos de produção; a dimen- versa, com a convergência de fábricas de tecido, de cerveja, entre outras, e introduz
são morfológica nas tipologias e padrões de ocupação do solo, nas redes formadas outra tipologia com lotes e quarteirões grandes para atrair indústrias. Os migrantes
pelas intercomplementaridades funcionais e contiguidades espaciais; a dimensão alemães trazidos para a construção da primeira rodovia da América Latina também
da acessibilidade nos caminhos definidos e nos fluxos que se seguiram de matéria contribuem para o enriquecimento daquela morfologia.
prima, de pessoas e de mercadorias; a dimensão econômica dos processos de produ- A rede ferroviária construída posteriormente em área próxima e paralela à ro-
ção escolhidos para a geração de riquezas e sua distribuição entre poderes públicos dovia concorre e reforça, ao mesmo tempo, a atração que as inovações tecnológicas
e privados; a dimensão social percebida nas respostas da população à atração que que para ali convergem, aplicadas em novos processos de produção, exerciam. Essa
aquelas novas iniciativas exerciam, na apropriação e na agregação de novas funções concentração estimula a expansão da produção industrial, da comercialização e da
e padrões de ocupação que geraram, e a dimensão cultural que o reconhecimento circulação de mercadorias, ao mesmo tempo em que repercutem sobre a atração
social do conteúdo simbólico atribuído às práticas de uso e apropriação do território de novas apropriações correspondentes do território da cidade, que se agregam e
anteriormente descritas imprimiram. consolidam um novo Centro, de predominância fabril, com dinâmica própria.
A convergência das singularidades nas várias dimensões econômica, insti-
tucional, morfológica, ambiental, social, cultural e de acessibilidade que passam a
Morfologia e Gênese – repercussões sobre as tipologias distinguir a cidade, atrai outros interesses que imprimem àquele território, novos
saberes, novos valores e novas expectativas. A primeira hidrelétrica da América
A Praça do Riachuelo, situada na divisão do caminho original de acesso à Latina é ali construída em 1889, chamada de Usina de Marmelos, fato que por sua
cidade que a Estrada Nova indicava, marca na paisagem a atração e a convergência vez amplifica ainda mais a atração de novas apropriações e agregações associadas,
de interesses que se seguem, ao mesmo tempo em que sinaliza a disputa pelos ca- consolidando-se a identidade e o valor dos processos industriais de produção.

188 O passado tem futuro? Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 189
O triângulo composto pela Estrada Nova (Av. Rio Branco), pela União Indústria constituem, hoje, aproximadamente 3.000m de caminhos pedonais, em sua grande
(Av. Getúlio Vargas) como direção e pela linha ferroviária paralela fechava a tercei- maioria concentrados no triângulo menor constituído pelas praças Riachuelo, Parque
ra aresta com um dos braços do Rio Paraíbuna, aterrado em 1890, dando lugar ao Halfeld e Antônio Carlos.
Largo da Alfândega Seca. Esta função de cobrança das taxas sinaliza a presença do
Poder Público e a sua participação na configuração daquela área.
O Córrego Independência foi parcialmente canalizado em 1934, data que marca Gênese 1 – Os agentes produtores do espaço no tempo
a mudança de nome, de forma e de função do Largo da Alfândega – que passa a ser a
Praça António Carlos, em meio a quarteirões grandes industriais – a quem ela serve? Halfeld constitui-se como o primeiro agente no processo de origem dos espa-
Uma intervenção realizada pelo Poder Público em 1960 aterra o restante do córrego ços públicos estudados. A Companhia União e Indústria, representada por Mariano
e faz a Rua da Independência, e com ela introduz outra tipologia no território. Rua Procópio, aparece como segundo agente, em 1861, ao propiciar a construção da Ro-
com escala de desenho maior que as anteriores, parâmetros distintos de ocupação dovia União e Indústria, a partir da qual se forma o Largo da União e Indústria – atual
e destinação mista – residência, comércio e serviços – liga o Centro a vários bairros Praça do Riachuelo. O terceiro agente é constituído pela Estrada de Ferro D. Pedro
da zona sul e serve, também, como um dos caminhos de entrada e saída da cidade, II, em 1875, investimento privado com o beneplácito do Poder Público que estabe-
chegando até a BR-040, que liga o município às capitais Brasília (DF), Belo Horizonte lece outro eixo de crescimento demarcando outra área de expansão da cidade em
(MG) e Rio Janeiro (RJ). Equipamentos de maior porte como a Universidade Federal direção ao Rio Paraibuna, proporcionando o surgimento do Largo da Estação – atual
de Juiz de Fora (na cabeceira da rua), várias escolas, supermercados e hospitais sina- Praça da Estação. Dessa maneira, assim como nos casos anteriormente citados, a
lizam a significativa mudança dimensão acessibilidade dispara mais um eixo/vetor de formação do espaço.
N
de escala do desenho urbano
e na tipologia. A inserção do
Shopping Independência, o
maior da cidade, marca a pai- Praça do Riachuelo

sagem da via com viadutos e


grandes obras de terraplena-
gem reforçando a diversida-
de morfológica.
Mais uma tipologia Praça da Estação

distinta é introduzida na
cidade com a primeira galeria Praça Halfeld

comercial que dá passagem a Praça Antônio Carlos

pedestres, ao comércio e ao
consumo, por dentro de edi-
ficações privadas. Inaugurada
em 1925 por migrantes ita-
lianos (muito provavelmente
segundo modelo Milanês de
referência), permite e promo-
ve a densificação do uso co-
mercial com menores custos Planta do Centro de Juiz de Fora, com a marcação dos espaços Vista do Parque Halfeld, no início do século XX; Vista da Praça da Estação, na década de 1930; Vista da Praça
0 100 250 500
adicionais. Foi seguida de públicos do estudo. 0 do Riachuelo, em 1934 e Vista da Praça Antônio Carlos, em 1934

muitas outras que somadas

190 O passado tem futuro? Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 191
Por fim, a construção da Alfândega Seca do Estado, iniciada por volta de 1893, 3. Relações entre eixos, largos e praças e a grande escala física de espaços/
deu origem à constituição do último largo do núcleo histórico da cidade, o Largo da edificações monofuncionais – na Rua da Independência e Praça Antônio Carlos.
Alfândega Seca – atual Praça Antônio Carlos, para o exercício da cobrança mencio-
nada. Porém, antes da edificação da Alfândega, a instalação da Companhia Têxtil
Bernardo Mascarenhas e da Companhia Mineira de Eletricidade impulsionaram o As Praças – as transformações e as persistências
desenvolvimento da área. Dessa forma, Bernardo Mascarenhas, junto com o Poder
Público, pode ser considerado o quarto agente de formação dos espaços analisados. Por conta das singularidades em termos de localização (em frente à Estação
Ferroviaria), funções econômicas e o reconhecimento social e político, o comércio
logo se desenvolveu ao redor da praça. Esta passou a assumir, por agregações su-
Gênese 2 – Largos, eixos e praças, escalas de transição e cessivas, a função centralizadora de diversas atividades produtivas e de serviços.
de permissão No final do século XIX, foi construído o Grande Hotel Renascença, famoso em todo
o país pelo requinte e luxo. Várias personalidades em visita a Juiz de Fora, como os
Cabe aqui uma breve explanação sobre largos e como estes estão sendo aqui presidentes Getúlio Vargas e Arthur Bernardes, além de Rui Barbosa e o Rei Alberto,
entendidos. Um grande número dos largos visitados na etapa da pesquisa realizada da Bélgica, hospedaram-se no hotel. A praça tornou-se ponto de referência e palco
em Lisboa parece constituir espaços intersticiais de transição entre distintas morfo- de grandes acontecimentos públicos da cidade, como a chegada de autoridades, os
logias e suas respectivas lógicas de configuração. A permissividade é característica comícios e as manifestações políticas e sociais. A obsolescência permitida do trans-
fundamental e necessária dos espaços de transição.5 Percebida como condição obri- porte ferroviário gerou repercussões negativas sobre as áreas que anteriormente
gatória de evolução, a relativa leniência pode proporcionar as condições necessárias ‘irrigou’.
para abrigar diferentes formas e propósitos de apropriação (assim como as variadas A Praça Antônio Carlos, como foi renomeado o Largo da Alfândega Seca,
funções que abrigaram) que, em muitos casos, se consolidam em ritmos distintos constitui um exemplo da anulação da centralidade por eliminação de singularida-
para reconhecimentos e valorizações futuras. Ao Poder Público caberia reconhecer e des atrativas. Uma vez polo de atração pela singularidade da função pública estra-
valorizar o mencionado patrimônio genético, ainda vivo no presente, e as múltiplas tégica que desempenhava para a dinâmica econômica da região, o Largo apresen-
relações de intercomplementaridades que este exerce e abriga, e nas quais os usu- tava relativa fragilidade na sua ligação com a cidade, uma vez que tangenciava um
ários e residentes se apóiam para estabelecer suas relações com a cidade. Portanto, córrego não navegável e parcialmente canalizado. Duas forças de transformação se
neste artigo, contesta-se a definição de largo como “espaço residual” (Lamas, 2004), colocam em campo. A eliminação gradativa da centralidade se dá em decorrência
uma vez que o significado de ‘sobras’ não corresponde ao papel articulador de mu- da “morte” da ferrovia e das suas repercussões sobre as atividades econômicas que
danças e transformações que os largos exercem. ela apoiava e vice-versa, e, consequentemente, a obsolescência da Alfândega Seca e
Os eixos, largos e praças encontrados em Juiz de Fora apresentaram relações a sua absorção por outra função pública, esta, no entanto, com muito menor poder
espaciais e funcionais distintas com as áreas onde estavam inseridos. de atração – o quartel do exército, que ocupa toda uma aresta da Praça, de formato
1. Relações entre eixos, largos e praças e atributos físico-morfológicos distin- aproximadamente triangular. Essa aresta e sua interface com os fluxos da cidade
tos: tipologias de quarteirões, de ruas e de passeios distintas; escalas de diferentes deixam de ser atrativas e a inércia em trechos de um tecido urbano não significa
grandezas que caracterizavam esses elementos, os espaços abertos e as edificações neutralidade, mas sim estagnação e sua repercussão imediata – a deterioração. Em
lindeiras – na Praça Riachuelo e na Av.Presidente Vargas. termos de dinâmica dos processos de configuração urbana, não importa quão bem
2. Relações de atributos físico-morfológicos e múltiplas funcionalidades atra- pintado esteja o muro que a cerca, quando deixa de atrair funções socialmente re-
ídas pelas singularidades morfológicas dos eixos, largos e praças: o pequeno, o conhecidas como legítimas, começa a atrair as outras, as negativas.
médio e o grande comércio, rótulas viárias, equipamentos de serviços públicos com
diferentes patamares de atração – no Parque Halfeld e na Av. Rio Branco.

5. Em alguns casos essas apropriações temporárias se manifestavam sob a forma de estacionamentos na área integral
do espaço público aberto.

192 O passado tem futuro? Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 193
Linha-do-tempo zamento da cidade, prometendo fazer doações de terra aos proprie-
tários da Rua Direita que construíssem jardins gradeados em frente às
Século XIX Com o fim do ciclo do ouro e a expansão da economia cafeeira, o go- suas casas.
verno de Minas Gerais contrata o engenheiro prussiano Heinrich Wi- 1856 A cidade recebe a primeira leva de imigrantes alemães, para constru-
lhelm Halfeld para construir uma nova estrada em 1836. ção da Estrada.
1838 Inaugurada a Estrada Nova do Paraibuna, que agregou em grande 1860 A Câmara Municipal solicita ao engenheiro alemão Gustavo Dodt a
parte o trajeto já existente do Caminho Novo, ampliando-o. Começa elaboração da primeira planta cadastral da cidade e de um plano para
a se formar o povoado de Santo Antônio do Paraibuna, que em seu ordenar a expansão da cidade, no qual as ruas perpendiculares à Rua
trecho de reta, consolidar-se-ia como um dos principais eixos de ocu- Direita deveriam ser abertas até a Serra adjacente à cidade, o Morro do
pação da localidade, provocando o abandono progressivo da região à Imperador. Tanto as ruas existentes quanto as novas deveriam adequar-
margem oposta do Rio Paraibuna, onde se situava o sobrado do juiz de -se ao novo percurso entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro constituído
fora. pela União e Indústria.
1840 Halfeld se casa com Cândida Carlota, filha de Antônio Tostes, e imple- 1861 Inauguração da Rodovia Companhia União e Indústria, que ligava Juiz
menta um processo de desenvolvimento para a ocupação das terras do de Fora a Petrópolis, encurtando o caminho entre Minas e a Corte, com
sogro, inclusive com a doação de terrenos. o objetivo de facilitar o transporte de mercadorias e, principalmente,
1850 O povoado é elevado à categoria de vila, ainda com a denominação de do café. É considerada a primeira rodovia da América Latina.
Santo Antônio do Paraibuna. Por conta de um erro na publicação da lei, 1863 É formada a Colônia Dom Pedro II, nas terras de Mariano Procópio, onde
a instalação da vila só ocorreu em 1853. No início da década de 1850 a foram construídas casas para as famílias alemãs. É estabelecido outro
malha urbana da localidade foi se constituindo a partir de um desenho Centro urbano (conhecido como Estação de Juiz de Fora) por Mariano
de ruas riscado por Halfeld, que se apropriou da Estrada do Paraibuna, Procópio, independente e distante daquele desenhado por Halfeld.
tornando-a a principal rua da localidade – Rua Direita, atual Avenida
1865 A cidade é nomeada, por lei provincial, como Juiz de Fora.
Rio Branco.
1868 Início das obras de abertura e calçamento de ruas, de escavação e ca-
1855 De acordo com a planta desenhada por Halfeld, o engenheiro traçou
peamento de canais para a evasão de esgotos e drenagem das águas
uma perpendicular, que deu origem às ruas da Califórnia e da Câmara
pluviais.
(as duas formam a atual Rua Halfeld) e a um largo (atual Parque Hal-
feld), onde doou terrenos para a construção da Câmara Municipal e 1870 – 1920 A cidade assistiu a um crescimento de 277 % em relação aos estabeleci-
do Fórum. Também previu loteamentos para casas e uma área para a mentos industriais e comerciais. O capital acumulado na cidade, com as
localização da Igreja Matriz – atual Catedral Metropolitana. Começa atividades agroexportadoras, permitiu direta ou indiretamente, o surto
a ser desenvolvido outro eixo de expansão urbana, incentivado pelo de industrialização local.
Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage: a Rodovia Companhia
1875 A Ferrovia Dom Pedro II chega à cidade, que se tornou um relevante
União e Indústria, cujo desenho foi orientado pelo curso do Rio Parai-
centro ferroviário de Minas Gerais.
buna e que propiciou a formação da Praça ou Largo da União e Indús-
tria, onde hoje é a Praça do Riachuelo. 1877 É inaugurada a Estação de Juiz de Fora, que permitiu o surgimento
do Largo da Estação e consolidou as ruas Halfeld e Marechal Deodoro
1856 A vila passou a ser a cidade do Paraibuna e para comemorar o fato
como eixos comerciais. Com o desenvolvimento da lavoura cafeeira, o
também foram abertas, perpendiculares à Rua Direita, as ruas Imperial
eixo ferroviário se expande e a cidade passa a ser servida também pela
(ou da Imperatriz, atual rua Marechal Deodoro) e do Cano (rua Sam-
Estrada de Ferro Leopoldina, que a atravessa no sentindo norte-sudes-
paio), e paralelas, as ruas Santo Antônio e Formosa (rua do Comércio,
te, enquanto a Estrada de Ferro Dom Pedro II segue no sentido leste-
atual rua Batista de Oliveira). A Câmara Municipal incentiva o embele-

194 O passado tem futuro? Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 195
-oeste. O estabelecimento da ferrovia, ainda mais próximo às margens um largo – atual Parque Halfeld, ao longo dos quais alguns terrenos foram apropria-
do rio Paraibuna, se comparado com o da União e Indústria, salientou dos para a construção dos prédios públicos com funções singulares como a Câmara
o avanço tecnológico sobre a sinuosidade do rio, considerando que as Municipal e o Fórum. Também previu loteamentos para casas e uma área para a
inundações no local já podiam ser controladas. localização da Igreja Matriz – atual Catedral Metropolitana. Em 1856, a vila passou
a ser a Cidade do Paraibuna e para comemorar o fato, também foram abertas, per-
1881 Foram inaugurados os bondes à tração animal na cidade, cujas linhas
pendiculares à Rua Direita, as ruas Imperial ou da Imperatriz – atual Rua Marechal
iam da Rua Direita à Estação, servindo as ruas Halfeld, da Imperatriz, do
Deodoro – e do Cano – atual Rua Sampaio –, e paralelas, as ruas Santo Antônio e For-
Comércio e Espírito Santo.
mosa – Rua do Comércio, atual Rua Batista de Oliveira (PASSAGLIA, 1983). A Câmara
1888 Montagem da Tecelagem Bernardo Mascarenhas. Municipal incentiva o embelezamento da cidade, prometendo fazer doações de
A instalação da fábrica, junto à União Indústria e em um ponto perifé- terra aos proprietários da Rua Direita que construíssem jardins gradeados em frente
rico da malha urbana, no desaguadouro do córrego da Independên- às suas casas. Nove anos depois, a cidade é nomeada, por lei provincial, como Juiz
cia, trouxe mudanças significativas para o local, pela necessidade de de Fora (OLIVEIRA, 1966).
retificação do Rio Paraibuna para evitar inundações e para permitir a
expansão posterior da tecelagem.
Considerações finais
1889 Construção da primeira usina hidroelétrica do país, a Usina de Marme-
los, que possibilitou a iluminação da cidade e a atracão de novas indús- Desde a sua implantação, os espaços públicos analisados sofreram inúme-
trias, por iniciativa e com investimentos do industrial Bernardo Masca- ras intervenções, mas é possível perceber que alguns aspectos marcantes da sua
renhas. gênese continuaram refletindo no seu uso, até os dias de hoje.
Os pensamentos dos agentes de formação dos espaços – Halfeld, Mariano
1893 Instalação da Alfândega Ferroviária, cujo pátio fronteiro definiu a con-
Procópio e Bernardo Mascarenhas – deixaram marcas e influências no território. O
formação do último largo na área central histórica da ciade, o Largo da
Parque Halfeld, estabelecido a partir de um traçado regular de ruas proposto por
Alfândega.
Halfeld, com seu desenho que buscava uma identificação com o paisagismo inglês,
1906 Foram instalados bondes elétricos, que utilizam os mesmos trilhos dos apesar das formas um tanto rígidas, diferencia-se das outras praças que tinham a
antigos movidos à tração animal. modernidade e a industrialização trazidas por Mariano Procópio e Bernardo Masca-
Década 1920 Limitações do setor industrial e o declínio da economia cafeeira contri- renhas como referência.
buíram para a modificação do perfil da cidade, que passou de Centro A questão do transporte acompanha a Praça do Riachuelo desde a sua cons-
comercial atacadista para um polo prestador de serviços. tituição até as modificações de trânsito e a incorporação das ilhas da Praça, para
orientar o tráfego. A união dessas já está sendo implementada pela prefeitura para
1925 Inaugurada a Galeria Pio X, primeira galeria de Juiz de Fora, idealizada
impedir o estacionamento na área.
e executada por imigrantes italianos – Rosino Baccarini e a Construtora
A Praça Doutor João Penido carrega desde a sua gênese até a atualidade sua
Pantaleone Arcuri.
ligação com a ferrovia, que é expressa inclusive em sua denominação, sendo mais
A transformação da antiga fábrica de tecidos do Bernardo Mascarenhas em conhecida pela população como Praça da Estação. O fator transporte também apa-
Centro Cultural, e a subsequente apropriação da Praça como extensão do Centro, rece nas alterações sofridas na Praça Antônio Carlos, quando ela se tornou uma ro-
começa a reverter essa tendência, ainda que parcialmente, pela falta de “dialogo” tatória, na década de 1960, com a conclusão das obras da Avenida Independência.
com a face integralmente murada correspondente ao quartel. Ao longo da Av. Getú- Apesar da última intervenção realizada, que buscou a integração do Centro Cultural
lio Vargas, próximo à Praça, subsistem lojas e usos comerciais diversificados, alimen- Bernardo Mascarenhas com a Praça, seu esvaziamento reflete até hoje o isolamen-
tados, também, pela parada de ônibus. to característico de uma rotatória, sem ligação com o entorno, servindo apenas de
Com base na Rua Direita, o engenheiro traçou uma perpendicular, que deu passagem para os pedestres.
origem às ruas da Califórnia e da Câmara – as duas formam a atual Rua Halfeld – e a

196 O passado tem futuro? Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 197
O declínio das áreas do entorno e das três praças – Riachuelo, Doutor João ção e facilidade de acesso, um número maior de usuários do que a Praça Antônio
Penido e Antônio Carlos – aparece relacionado com a redução da primazia da Carlos. Essa Praça, com a transformação da antiga Fábrica Bernardo Mascarenhas
Rodovia União Indústria e com a decadência do transporte ferroviário e da indus- em Centro Cultural e com a intervenção nela realizada, teve grande parte do seu uso
trialização. condicionado à ocorrência de eventos, permanecendo praticamente vazia durante
A dimensão da acessibilidade aparece como a dimensão de formação e de- quase todo o tempo.
senvolvimento que une os quatro espaços, já que, além das modificações ocorridas Com poucas opções de lazer e de atração, esses locais abrem espaço para
ao longo do tempo nas praças, o Parque Halfeld foi implantando dentro da regula- a ocupação por moradores de rua, expondo a apropriação seletiva e diferencia-
ridade do esquema de ruas feito a partir do traçado da Estrada Nova do Paraibuna, da de territórios. A prefeitura tenta atrair novo público, através de eventos cultu-
que ligava a Vila Rica ao Rio de Janeiro. rais, solução paliativa que vem sendo empregada também na Praça do Riachuelo,
Apesar da proximidade entre os quatro espaços, o Parque Halfeld é o que onde os moradores de rua se estabelecem na área em volta e nas proximidades do
possui a localização mais privilegiada, sendo que seu entorno se destaca pela diver- Monumento em homenagem aos pracinhas, que permanece fechado por grades
sidade de usos. A Praça do Riachuelo, por conta de sua localização, com intenso uso e vazio durante a maior parte do tempo. O que esta pesquisa também questiona
comercial e de prestação de serviços existente ao redor, privilegia as classes mais é qual a frequência dos acontecimentos culturais a ser adotada para que ocorra a
populares. Os pontos de ônibus existentes no entorno do Parque Halfeld e da Praça mudança desejada, e se é realmente possível alterar o uso diário desses espaços
do Riachuelo contribuem efetivamente para a movimentação das pessoas nesses apenas com eventos.
espaços, ao contrário do que acontece nas Praças da Estação e Antônio Carlos, onde Nos quatro espaços são apontados problemas relacionados à presença de
os pontos das proximidades pouco interferem na concentração de usuários. As duas moradores de rua, que ocupam, nos espaços públicos, áreas de menor articulação
últimas praças mencionadas apresentam características comuns quanto ao entorno, com o entorno, gerando sensações de insegurança, desordem e desconforto, preju-
com um rico conjunto arquitetônico que, entretanto, não está integrado às mesmas, dicando a manutenção e vitalidade desses espaços e afastando muitos usuários. No
em termos de atividades. Parque Halfeld, os moradores de rua destacam-se pela sua quantidade e se situam
Os usos e apropriações podem servir tanto para atrair, como também para em sua margem posterior, menos movimentada, voltada para a Igreja de São Se-
afastar as pessoas dos espaços. As áreas nesses espaços, onde as condições de uso e bastião, cujo uso é restrito aos dias e horários de celebração, demonstrando como o
abandono foram encontradas, reafirmaram as etapas do processo de sedimentação entorno interfere no uso ou esvaziamento dos espaços.
dinâmica (Carvalho e Dias Coelho, 2009). Além disso, foi possível constatar como o
conforto físico, psicológico e social podem reduzir as ameaças ao convívio público
(CARR et al., 1992). Referências Bibliográficas
Dos quatro espaços analisados, o Parque Halfeld é o que apresenta a maior
CARVALHO SANTOS, T. C. Espaço Público, Morfologia e Fragmentação – Rupturas e Mutações
diversidade de equipamentos e atividades para seus usuários, assim como a maior
no Ordenamento do Território. In: 6º Fórum de Pesquisa FAU – Mackenzie, Anais...,
possibilidade de usos e apropriações. Além disso, é o espaço que foi melhor adap- outubro de 2010, CD – Rom.
tado, de acordo com as mudanças de comportamento da população, apesar das
DIAS COELHO Carlos. A Praça em Portugal. Lisboa: DGOT, 2007.
inúmeras críticas recebidas depois de cada intervenção que sofreu. Em seguida,
ESTEVES, Albino. Álbum do Município de Juiz de Fora. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1915.
aparece a Praça do Riachuelo, que apesar de não apresentar grande diversidade do
seu mobiliário urbano, possui uma relação muito forte com o entorno e comporta FUNDAÇÃO João Pinheiro. PIB Minas Gerais – Municípios e Regiões 1999 – 2004. Informativo
CEI – Centro de Estatística e Informações. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro,
diversos usos e apropriações.
2006.
As duas Praças que apresentam menor uso são aquelas que sofreram grandes
GIROLETTI, Domingos. A industrialização de Juiz de Fora: 1850 a 1930. Juiz de Fora: Editora da
intervenções mais recentes, o que traz de volta o questionamento da compatibili-
Universidade Federal de Juiz de Fora, 1988.
dade dos critérios de desenho urbano nessas reformas com as ações e atividades
LESSA, Jair. Juiz de Fora e seus pioneiros: do Caminho Novo à Proclamação. Juiz de Fora: UFJF/
da população anteriormente ali realizadas. A Praça da Estação, essencialmente ca-
FUNALFA, 1985.
racterizada como local de passagem e cenário para seu conjunto arquitetônico, não
oferece variedade de atividades. Mesmo assim, recebe, por conta da sua localiza-

198 O passado tem futuro? Thereza Christina Couto Carvalho | Aline Lima Santos 199
MANGIN David; PANERAI Philippe. Projet urbain. Marseille: Éditions Parenthèses, 2005. 4. CIDADE CONTEMPORÂNEA: IDEOLOGIA E MERCADO
OLIVEIRA, Paulino de. História de Juiz de Fora. Juiz de Fora: Gráfica Comércio e Indústria LTDA,
1966.

Arquitetura da violência:
PREFEITURA MUNICIPAL DE JUIZ DE FORA. Atlas Social: Diagnóstico. Juiz de Fora: Editora
Biblioteca Municipal de Juiz de Fora, 2007.

segurança e mercado numa


cidade transparente
Sonia Maria Taddei Ferraz
Bruno Amadei Machado
Juliane G. Baldow

Resumo | Este trabalho atualiza as observações e análises referentes às alterações formais e


funcionais da arquitetura em nome da segurança patrimonial e suas repercussões no âmbito
da sociabilidade urbana. O universo de análise se desloca para Niterói, como reflexo do
crescimento das cidades de médio porte e seus desdobramentos em nível nacional. O foco
privilegiado se volta para o aumento da violência e o crescimento do mercado imobiliário
na cidade, fenômenos simultâneos observados no noticiário recente, e nos leva a investigar
como ambos conciliam a demanda por segurança patrimonial, que tem sido marcada pela
transparência como um símbolo da atualidade. Ao considerar a arquitetura como um reflexo
da realidade, a estética contemporânea redesenha também a paisagem urbana, incorporada
pelo mercado imobiliário. As formas atuais da arquitetura e da cidade impostas pelo merca-
do revelam e permitem observar como o espaço público tem sido “estreitado”, não só no seu
sentido essencial como também fisicamente, dado o avanço dos interesses e dos espaços
privados, apontando para a intensificação de uma sociabilidade urbana excludente, como
mais uma expressão da arquitetura da violência.
Abstract | This article updates the remarks and analysis on formal and functional changes
of architecture on behalf of property security and its effects on urban sociability. The analysis
moves to the city of Niterói, as a reflection on the growth of medium sized cities and its reper-
cussions on a national level. The privileged focus turns to the increase of violence rates and
to the expansion of the real estate market in the city, simultaneous phenomena observed
on the recent news, leading us to investigate how both reconcile the demand for property
security, often marked by “transparency” as a symbol of the present times. In considering
architecture as a reflection of reality, contemporary aesthetics also redesign the cityscape,
itself incorporated by the real estate market. Present-day forms of architecture and city im-

200 O passado tem futuro? Sonia Maria Taddei Ferraz | Bruno Amadei Machado | Juliane G. Baldow 201
posed by the market unveil and allow one to note how public space has been “narrowed”, minares, de como o mercado tem conciliado a demanda por segurança patrimonial
not only on its essential meaning, but also physically, given the advance of private interests com as tendências estéticas da atualidade, particularizadas nas edificações residen-
and spaces, pointing to the intensification of an excluding urban sociability, as an expression ciais multifamiliares.
of the architecture of violence.
Resumen | Este artículo actualiza el análisis y las observaciones sobre los cambios forma-
1. Niterói: “uma cidade rica é uma cidade sem pobreza”1
les y funcionales de la arquitectura en el nombre de la seguridad y sus repercusiones en la
sociabilidad urbana. El universo de análisis se desplaza hacia Niterói, lo que refleja el creci-
Em posição privilegiada no Índice de Desenvolvimento Humano, Niterói é
miento de las ciudades de tamaño médio y sus desarrollos a nivel nacional. El enfoque pri-
também a cidade com o maior número percentual de ricos no país. De acordo com
vilegiado se convierte en el aumento de la violencia y el mercado inmobiliário en la ciudad,
um estudo da Fundação Getúlio Vargas, datado de 2011, 30,7% da população do
fenômenos similares y simultâneos observados en noticias recientes, y nos lleva a investigar
município se insere na classe A2. A proximidade com o Rio de Janeiro implica não
cómo ambos concilian la demanda de seguridad patrimonial, que se he caracterizado por la
somente na facilidade de acesso à infraestrutura construída para receber os jogos
transparência como unsímbolo de la actualidad. Cuando se considera la arquitectura como
de 2014 e 2016 que serão realizados na capital, mas faz de Niterói destinatária de
un reflejo de la realidad, la estética contemporánea también vuelve a dibujar el paisaje ur-
investimentos e movimentos populacionais na metrópole. A condição de vizinha da
bano, construído por el mercado inmobiliário. Las formas actuales de arquitectura y de la
sede dos megaeventos, no entanto, exige recursos públicos para atrair benefícios à
ciudad que impone el mercado revelan y nos permiten observar cómo el espacio publico se
cidade. No campo urbanístico, o “horizonte de oportunidades” que se produz com
ha “reducido”, no solo en su significado esencial, así como fisicamente, como la promoción
vista aos megaeventos tem servido de pretexto para flexibilizar a legislação muni-
de los intereses y espacios privados, que apunta a la intensificación de la sociabilidad urbana
cipal. O jornal O Globo, de 17 de junho de 2012, noticiou o projeto de lei em vias de
excluyente, como otra expresión de la arquitectura de la violencia.
aprovação que altera o gabarito construtivo de determinadas áreas de Niterói para
até 30 andares, visando “atrair investimentos de olho no turista que visitará o Rio de
Janeiro durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas”.
Introdução
Via de regra, a política para esses megaeventos tem sido marcada pelo em-
belezamento e limpeza da cidade, com ênfase nas políticas de segurança pública
O presente trabalho tem por objetivo atualizar as observações e análises re-
capitaneadas pela instalação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), prometen-
ferentes às alterações formais e funcionais da arquitetura em nome da segurança
do extirpar a violência das favelas e, consequentemente, do Rio. O noticiário jorna-
patrimonial e suas repercussões no âmbito da fragmentação espacial e sociabilida-
lístico, paulatinamente, passa a revelar o destino da “sujeira” carioca indesejável e
de urbana. O universo de análise da pesquisa se desloca das grandes cidades – Rio
sua expulsão das áreas mais valorizadas da cidade, elucidando a transferência da
de Janeiro e São Paulo – para aquelas de médio porte como reflexo do crescimen-
criminalidade para cidades de médio porte.
to apontado pelos dados do IBGE, divulgados pela Folha de São Paulo em matéria
Como efeito colateral dessa expulsão, nos últimos dois anos Niterói tem vi-
publicada no dia 1 de setembro de 2012. No período entre 2000 a 2010, as cidades
venciado a migração da criminalidade. A partir de fevereiro de 2011, a mídia noti-
médias – de 100 mil a 500 mil habitantes – registraram no Brasil as maiores taxas de
ciou indícios de “fracassos” da ação das UPPs pelo aumento do número de roubos e
crescimento populacional.
assaltos em cidades menores da região metropolitana. A situação atinge seu ápice
A escolha recaiu sobre Niterói, situada na região metropolitana do Rio de
quando, em 12 de abril de 2012, o secretário estadual de segurança, José Mariano
Janeiro. A localização da Universidade Federal Fluminense na cidade também nos
Beltrame, confirma a migração de bandidos para Niterói, oficializando o fenôme-
motiva a deslocar as atenções dos grandes centros para a sua dinâmica cotidiana
no e garantindo o aumento do efetivo policial no combate à violência. Nos meses
e seus problemas, como uma responsabilidade acadêmica e cidadã em relação à
cidade que nos acolhe.
Assim, o trabalho se divide em duas partes. A primeira caracteriza a cidade
1. A expressão foi extraída do vídeo-divulgação da “Operação Urbana Morro do Estado”. Proposta pela Secretaria de
de Niterói no contexto metropolitano contemporâneo, com foco no aumento da Urbanismo de Niterói, o projeto prevê a remoção de duas favelas entre as mais populosas da cidade e, como alternati-
violência e no crescimento do mercado imobiliário, fenômenos observados simulta- va, a realocação da população em conjuntos habitacionais.

neamente no noticiário recente. A segunda apresenta o resultado das análises preli- 2. (Online) Disponível em: <http://oglobo.globo.com/economia/niteroi-lidera-lista-da-riqueza-segundo-fgv-2757154>.
(Acesso em: 24 de outubro 2012).

202 Arquitetura da violência Sonia Maria Taddei Ferraz | Bruno Amadei Machado | Juliane G. Baldow 203
de 2012, a criminalidade aumenta, e a população protesta. Esse processo pode ser sensação de insegurança contra a delinquência e a percepção de que Niterói está
exemplificado pelas extrações jornalísticas abaixo: mais vulnerável e mais perigosa intensificam a adoção de estratégias novas e tradi-
cionais de segurança e proteção no redesenho da cidade.
O GLOBO Rio 10/02/2011: Prisão confirma migração de bandidos de favelas
Paralelamente, Niterói tem crescido e recebido vultosos investimentos imo-
ocupadas para pacificação. Traficante do Morro de São Carlos é capturado
biliários, como no caso do Jardim Icaraí, bairro de classe média situado na zona sul.
pela PM de São Gonçalo.
Segundo a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (ADEMI),
O GLOBO Rio 12/04/2012: Beltrame admite: bandidos migraram para Niterói. o bairro teve um incremento de 58% no número de unidades lançadas no período
O GLOBO 16/04/2012: Denúncias sobre ação de bandidos no Morro do Pre- de 2010-2011. Sob o título “Contrariando previsões negativas, mercado imobiliário
ventório (Niterói) crescem mais de 1.400% segue aquecido”, O Fluminense noticiou, em 10/06/2012, a valorização constante dos
imóveis em Niterói. No site Zapmoveis, de 2008 a 2012, a valorização imobiliária nos
PM decidiu instalar até a próxima segunda-feira um posto de comando bairros nobres do Rio de Janeiro e nos bairros nobres de Niterói girou em torno de
móvel na comunidade. O Morro do Preventório, antes local pacato, en-
100%. A dinâmica urbana do Jardim Icaraí, conhecida até 2009 pela presença pre-
frenta um crescimento da violência: comunidade concentra 70% da po-
pulação de Charitas. (...) Apontado como um dos destinos de traficantes dominante de residências unifamiliares de baixo gabarito, tem sido alterada, signifi-
que fugiramda Mangueira (RJ) após o início da pacificação, o Preventório cativamente, nos últimos dois anos. Os engarrafamentos constantes e a interrupção
experimenta um aumento do número de denúncias sobre a ação de ban- na distribuição de água sentidos no local são indícios da saturação na infraestrutura
didos. (...) Do fim de 2011 para o início deste ano, o clima se tornou ainda que não está preparada para receber tamanha quantidade de novos moradores.
mais tenso. As denúncias que chegam dão conta de que traficantes da
A divulgação de índices de violência influi não somente na sensação de in-
Rocinha (RJ), de uma facção rival à que domina o Preventório, estariam
segurança dos moradores, mas também nas decisões do mercado imobiliário. Se,
tentando invadir o local. (grifos nossos)
por um lado, o Estado tem tentado tranquilizar a população aumentando o efetivo
policial, como revela a matéria publicada pelo jornal O Globo, em 13/04/2012, inti-
O GLOBO 16/04/2012: Niterói protesta contra a escalada de violência. Mora- tulada “Niterói: mais 244 PMs para tentar frear violência”, a iniciativa privada reser-
dores fazem nova manifestação pedindo segurança, em fim de semana que va gastos ascendentes na adoção de novas tecnologias e estratégias de segurança
teve mais dois mortos na cidade. patrimonial. O Sindicato das
O GLOBO 13/10/2012: Cidade tem uma queixa Empresas de Segurança Pri-
por dia sobre ação do tráfico. Comunidades mais vada, Vigilância Patrimo-
afetadas são as ocupadas por criminosos do Rio. nial e Sistema de Segurança
(Sindesp-RJ) estima que, no
“As comunidades mais citadas são exata-
último ano, a venda de pro-
mente aquelas em que há denúncias da presença
dutos de segurança privada
de traficantes que migraram do Rio, após a im-
tenha aumentado 15% no
plantação das Unidades de Polícia Pacificadora
município, como aponta a
(...) 2.436 denúncias só este ano – uma média de
FIGURA 2 Divulgação de lançamentos imobiliários recentes no notícia publicada pelo jornal
270 por mês”. Jardim Icaraí (fotos de publicidades imobiliárias) O Fluminense, em 06/05/2012,
A onda de violência, o aumento de assaltos
intitulada: “Segurança privada e eletrônica em alta”.
e a intensificação dos protestos apontados acima
FIGURA 1 Protesto contra Protesto Nesse quadro, inquestionavelmente, o mercado imobiliário enfrenta o cons-
são reflexos da crescente sensação de inseguran-
contra violência em Niterói. O Globo, tante desafio de conciliar a volumosa oferta de imóveis residenciais, que precisam
16/04/2012 ça em determinadas áreas e passam a constituir
ser vendidos, com a inquestionável oferta de segurança residencial patrimonial que
Legenda da notícia: “Com cartazes pedindo uma ameaça à boa imagem da “Cidade-sorriso”3.
policiamento, moradores de Niterói fazem, represente ao mesmo tempo modernidade, atualidade e desenvolvimento.
na orla de São Francisco, mais uma manifes- Uma vez que a frequência de notícias aumenta, a
tação contra a onda de violência”

3. Niterói é conhecida como “cidade sorriso”.

204 Arquitetura da violência Sonia Maria Taddei Ferraz | Bruno Amadei Machado | Juliane G. Baldow 205
2. Segurança, mercado e transparência do, seus desenhos orgânicos, ou geométricos, os transformavam em elementos
também decorativos; os acabamentos, quase sempre em forma de lanças, reprodu-
O noticiário sobre as migrações da criminalidade do Rio para Niterói e o con- ziam simbolicamente a proteção, a defesa e o limite territorial da propriedade.
sequente aumento do medo da violência nos colocam frente ao crescimento das A proposta da arquitetura moderna subtraiu esse tipo de limites territoriais,
medidas de segurança, e, como decorrência, frente a três tipos de transparência: a caracterizando, grosso modo, os edifícios residenciais multifamiliares, no auge do
transparência ética proposta pelos movimentos sociais, a transparência dos muros período modernista, que exibiam elementos arquitetônicos como paredes de vidro,
de vidro que limitam os territórios da classe média e a transparência digital, tal qual planta livre e pilotis que liberavam o solo para usos coletivos, circulação e ventilação
nos apresenta Virilio (1993): – no Rio de Janeiro o Ed. Finúsia & Dona Fátima, o Ed. Angel Ramirez e Ed. João M. de
Magalhães, dos arquitetos MMM Roberto e o Ed. Jarau, do arquiteto Firmino Salda-
(...) não se trata mais, como no passado, de isolar pelo encarceramento nha, em São Paulo o Ed. Prudência, do arquiteto Rino Levi e o Ed. Louveira, do Arqui-
o contagioso ou o suspeito, trata-se, sobretudo, de interceptá-lo em seu
teto Vilanova Artigas. O uso dos pilotis permitia ainda a permeabilidade urbana e o
trajeto a tempo de auscultar seus trajes e bagagens, daí a súbita prolife-
ração de câmeras, radares e detetores nos locais de passagem obrigatória livre trânsito, ampliando o espaço da cidade, já que não interpunha barreiras físicas.
(VIRILIO, 1993, p.8). A implantação progressiva, nas últimas décadas, de altos muros e grades
(complexas, agressivas e sequenciais) de proteção e segurança tornou os espaços
A primeira transparência é expressa nos convites enviados pelo CCOB – Con- dos pilotis “impenetráveis”, como um retorno “à estrutura espacial dos mundos do
selho Comunitário da Orla da Baía de Niterói, para duas reuniões em 31/10/2012 passado”, como afirmou Norberg-Schulz (2005 p.):
sobre segurança e transparência política, como revelam os temas: “Fórum de trans- Entendendo que a arquitetura é, de modo peculiar, reflexo da realidade,
parência e controle social de Niterói” e “Conselho Comunitário de Segurança Públi- como constata Duayer (2008), é possível afirmar que na sua contemporânea subor-
ca de Niterói”; a segunda transparência é expressa pelos muros de vidro instalados dinação à perversa lógica do mercado, a arquitetura residencial multifamiliar, como
em praticamente todos os novos empreendimentos imobiliários; a terceira transpa- qualquer mercadoria, “advém antes de tudo da necessidade de valorização do capi-
rência, através das câmeras, vigia as ruas, dispensa políticas públicas de segurança tal e do seu instrumento de inovação estética que se expressa com a utilização de-
e “oficializa” o abandono dos espaços públicos, na medida em que as imagens cap- corativa repentina, sob a qual objetos de uso não guardam nenhuma estabilidade
turadas por elas oferecem confiabilidade suficiente para, por exemplo, desvendar rotineira e racional”, como afirma Haug (1997, p. 127).
crimes que ali acontecem, dada a sua incontestabilidade de registro imagético. O mesmo autor evidencia ainda que “cada nova tendência estética leva auto-
A análise das relações entre segurança, mercado e transparência na arquitetu- maticamente a um mercado”, e assim:
ra da violência contemporânea implica na percepção de que o redesenho urbano se (...) “uma mercadoria puxa outra mercadoria e uma compra puxa outras
dá pela renovação de elementos e equipamentos de proteção residencial. As grades compras. Essa dinâmica tem uma tendência totalitária; ela ambiciona to-
de ferro, por exemplo, têm sido substituídas, extensivamente, por muros de vidro talidades dirigidas respectivamente por gerações de mercadorias. Estas
e complementos digitais, evidenciando a preferência por determinada concepção mostram a dinâmica pretendida por meio de conceitos tais como ‘moda
entre espaços públicos e privados. O consubstanciamento dessa análise sugere um total’ e ‘design total’, oriundos das linguagens dos agentes do capital e
que são alcançados somente de modo insuficiente. Pois esses conceitos
voo por formas pretéritas de arquitetura que implicavam de modo relevante em
atingem primeiramente determinados grupos de mercadoria, por exem-
outra concepção das relações entre espaços públicos e privados da cidade. plo, a ‘moda feminina’ (roupas, perucas, acessórios) ou a ‘cultura habita-
Apesar das resistências iniciais à subordinação das artes e da arquitetura aos cional’ (móveis, tapetes, cortinas, luminárias, vasos, quadros, etc.). Se no
processos de produção industrial, o uso do ferro na arquitetura, ainda no século XIX, mundo humano as gerações coexistem, o mesmo ocorre no mundo das
começou com experimentações determinadas pela produção industrial e em série mercadorias com os ‘estilos’, cada qual cobrindo respectivamente um
que procuravam se adequar à estética da época, subordinando as propriedades na- segmento do mercado e no âmbito dos quais as gerações de mercadoria
se sucedem” e “a única coisa determinada nessa configuração é que eles
turais do material à criação de elementos construtivos orgânicos florais, incorpo-
precisam ser novos e homogêneos estimulando a compra”. (HAUG, 1997,
rando beleza à sua função. No Brasil, a evolução da ocupação dos lotes nas cidades p.124 e 126)
introduziu o uso de gradis de ferro nos limites e acessos aos terrenos residenciais.
Além de sua função reguladora e explicitadora das relações entre público e priva-

206 Arquitetura da violência Sonia Maria Taddei Ferraz | Bruno Amadei Machado | Juliane G. Baldow 207
Assim sendo, a estética dos elementos e equipamentos de proteção e seguran- vidro vem se popularizando nas cidades, no mesmo período. Em segundo lugar, o
ça residencial tem sido progressivamente substituída pela moda dos muros ou panos muro de vidro, que em 2007 chamava atenção pelo seu caráter singular em contras-
de vidro combinados com grades tubulares de alumínio, associadas a equipamentos te com o gradeamento convencional dos edifícios entorno, agora é, via de regra, a
digitais e tecnológicos, como que inaugurando uma nova cultura habitacional. solução mais “rotineira” observada nos novos edifícios da elite e da classe média
Portanto, na perspectiva da “moda total” e do “design total”, oriundos da lin- niteroiense.
guagem do capital, a transparência, como moda e design, aliada à transparência da Ao considerar a transparência como propriedade fundamental do vidro, sua
Era Digital, da qual fala Virílio (1993), significa a constante conexão, vendo e ouvindo aplicação na cidade e na arquitetura residencial poderia então ser entendida como
tudo o tempo inteiro, e traz para o campo do consumo todo tipo de transparên- uma resposta física do mercado à tendência da transparência na era digital. Mas,
cia. No campo ético, o Portal da Transparência do Governo Federal e as revelações para que o vidro se viabilize como barreira, sua fragilidade e devassamento devem
do Wikileaks; na moda feminina, o Fashion Rio 2013 apresentando bolsas, sapatos e ser complementados por um aparato digital e tecnológico altamente sofisticado.
roupas transparentes; no campo da cultura habitacional, de que fala HAUG, pode- Tamanha sofisticação, tida como diferencial nos anúncios publicitários de
riam ser ainda incorporados os revestimentos, os estilos de fachadas, de muros e condomínios residenciais da década de 1990, já deixou de ser um privilégio para se
seus materiais. À independência das estruturas espaciais dos “mundos do passado”, tornar requisito essencial nos novos empreendimentos, que incluem, “obrigatoria-
poderia ser acrescentada a ampliação dos limites dos lotes numa apropriação indé- mente”, sistemas de monitoramento remoto 24h, interfones, portões automáticos,
bita dos espaços públicos. alarmes e serviços privados de segurança. Comprovadamente, as visitas ao Jardim
No que concerne à proteção e segurança, na arquitetura contemporânea de Icaraí confirmam que nenhum empreendimento de classe média e alta tem sido
habitações multifamiliares, o vidro surge como o dernier cri na confecção dos muros, entregue sem esse sistema.
inaugurando um redesenho urbano marcado pela transparência. Sem dúvida, a sofisticação do mercado de segurança permite, cada vez mais,
Já na cidade do Rio de Janeiro, o uso do vidro como barreira tem se popu- que os muros sejam transparentes e que as cidades sejam de vidro. A necessidade que
larizado nos últimos cinco
anos. Em 2007, o fenômeno
foi noticiado pelo jornal O
Globo, que em matéria intitu-
lada “Fortalezas de vidro” (O
GLOBO, 22/04/2007), revelou
a substituição que se iniciava
nos prédios da orla carioca, em
especial em Ipanema.
No mesmo ano, levanta-
mentos fotográficos do acervo
do grupo de pesquisa registra-
ram os primeiros empreendi-
FIGURA 4
mentos com características si- Transparência
milares em Niterói, um conjunto e aparatos de
segurança ob-
multifamiliar de alto padrão em servados nos
frente ao Museu de Arte Con- novos edifícios
multifamiliares
temporânea.
no Jardim Icaraí
O registro e observa- (acervo da pes-
FIGURA 3 Grade de ferro (fonte: Google Earth) substituída na ções empíricas já nos levam a quisa)
2ª imagem por painel de vidro na Rua Presidente Pedreira. concluir, primeiramente, que o
(acervo da pesquisa)

208 Arquitetura da violência Sonia Maria Taddei Ferraz | Bruno Amadei Machado | Juliane G. Baldow 209
o vidro cria na ampliação do mercado de equipamentos de segurança vai ao encontro com reflexos do público. Tal reflexo não amplia a importância do espaço público
da notícia publicada pelo jornal O Fluminense, citada anteriormente, a qual divulgou o como campo de trocas e interações, ao invés disso, ajuda a reduzi-lo de significação,
aumento de 15% em um ano do mercado de segurança no município. De certa forma, como aponta Chauí5: “Uma das características mais impressionantes do neolibera-
a consolidação do uso de novas estratégias de segurança fecha um ciclo, pois insere lismo é que ele opera pelo encolhimento do espaço público, do alargamento do
produtos que valorizam a transparência e nos induzem a crer que estamos mais co- espaço privado, seja o espaço privado do mercado, seja o espaço da vida privada”.
nectados com o exterior – o público, e que o público está mais conectado conosco. Observa-se assim um tipo de redesenho urbano que retraça os caminhos dos
O uso do vidro tem sido vendido sob a justificativa de que o material pro- pedestres e corrobora para a afirmação de que o espaço público tem encolhido,
porciona integração. Contudo, as barreiras urbanas continuam presentes e mais não só fisicamente como também do seu sentido ético essencial. A hostilidade do
intransponíveis, fazendo com que a dita integração seja estritamente visual, se li- mercado às estéticas dos “mundos do passado” certamente se funda na sua corres-
mitando a uma simulação. A permeabilidade visual que o vidro oferece contrasta pondência à outra ética.
com a definitiva separação física, que impossibilita qualquer contato real entre os Nota-se também que a aplicação do vidro encontra um campo fértil na au-
dois lados, pois, como afirma Bernadette Panek (2010), o que se forma é “um espaço sência de normatização, em todas as escalas de poder. A despeito da Lei Municipal
acessível apenas à tentação do olhar”. A autora, complementarmente, afirma ainda Carioca de nº 5119/2009 que determina a “instalação de sinalização nas vitrines e
que “a fronteira concretizada pelas enormes vidraças impõe um território, enquanto portas de vidros translúcidos nos imóveis”, e abre precedente para a regulação, ainda
pretende deixar a vista tudo o que ali se passa – a transparência mostra-se como a que tímida, do uso de portas de vidro de edifícios residenciais multifamiliares, o mu-
própria simbologia da hipocrisia”. nicípio de Niterói não dispõe de qualquer legislação que trate do tema. A cartilha,
Essa tamanha ambiguidade do vidro tem sido também explorada no campo recentemente publicada pela Secretaria Municipal de Urbanismo, que traz diretrizes
das artes, como por exemplo, na obra recente do artista americano Robert Morris, de projeto e trata da ocupação de passeios públicos, em nenhum momento men-
exposta na Praça Cinelândia da cidade do Rio de Janeiro, onde o visitante é con- ciona o uso do vidro como muro. O método “caso-a-caso”, adotado pela secretaria
vidado a penetrar num labirinto de vidro. O comentário de Ryan Roa sobre a obra na aprovação de projetos de instalação de elementos de delimitação dos lotes, e as
em que chama atenção para a qualidade refletiva do vidro e pela desorientação no observações empíricas levam a questionar até onde a segurança do pedestre e o
espaço que ele provoca nos ajuda a melhor perceber o significado do uso dos muros respeito ao dimensionamento do passeio público têm sido levados em consideração.
de vidro na cidade: Conclusivamente, o conjunto de ideias aqui apresentado leva a crer que a
substituição das grades por vidros desvela, mais uma vez, o papel do mercado imo-
Um aspecto realmente legal do vidro é a sua boa qualidade refletiva. Além
disso, obtem-se uma espécie de filtro, por ter uma peça de vidro aqui,
biliário como lugar de representação simbólica e de imposições da sociedade de
depois outra peça ali e a próxima peça de vidro aqui, e isso começa a criar mercado, apontando para a intensificação de uma sociabilidade urbana excludente
um pouco de desorientação no espaço. A ideia por detrás de um labirinto como mais uma expressão da “arquitetura da violência”.
é que, ao caminhar por ele, você está vivenciando o espaço. Mas com a
transparência você não apenas vivencia o espaço, com também vivencia
todo o espaço ao redor do labirinto. 4 Referências bibliográficas
A fala expõe o enorme potencial oferecido pelo uso do vidro em um contexto Davis, M.: A escobazo limpio, 2005. Disponível em: <http://www.sinpermiso.info/textos/
artístico e experimental, mas também os riscos inerentes à sua aplicação em um index.php?id=277> (Acesso em: 25 de outubro 2011).
contexto urbano, que não se limita à experiência singular da obra de arte, conside- Duayer, J.: Lukács e a Arquitetura, Niterói, Editora da Universidade Federal Fluminense, 2008.
rando aspectos referentes à legibilidade urbana, clareza e facilidade de orientação, Featherstone, M.: Cultura de consumo e pós-modernismo, São Paulo, Studio Nobel, 1995.
como nos lembra Kevin Lynch. Ferraz, S. M., Brondani, D.& Guimarães G.: Arquitetura da violência: Medo individual e nova
Quando observamos um lote envidraçado, aquilo que percebemos é uma coletividade, resumo publicado nos Anais do 13º Seminário de Iniciação Científica e
imagem distorcida do real. O que se forma é um espaço que sobrepõe o privado Prêmio Vasconcellos Torres, Niterói/RJ, 2003.

4. (Online) Disponível em: <http://www.thecreatorsproject.com/blog/agenda-creators-%E2%80%93-as-boas-de-arte- 5. (Online) Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=KrN_Lee08ow> (Acesso


-e-tecnologia-para-o-fim-de-semana-21-2309> (Acesso em: 25 de outubro 2012). em: 8 de novembro 2012).

210 Arquitetura da violência Sonia Maria Taddei Ferraz | Bruno Amadei Machado | Juliane G. Baldow 211
Ferreira, L. P. & Cardoso N. P.: Arquitetura da violência: cidade limpa e segura para turista
ver, resumo publicado nos anais do III Seminário Internacional de Derechos Humanos, Projeto, ideologia e hegemonia
Violencia y Pobreza, Montevidéu, 2010.
Ferraz, S. Furloni, C. & Madeira, C.: Arquitetura da Violência – Os (des)caminhos da
arquitetura moderna, resumo publicado nos Anais do 16º Seminário de Iniciação
na cidade brasileira contemporânea
Científica e Prêmio Vasconcellos Torres, Niterói/RJ, 2006.
. & Possidônio, E. dos R.: Violência, medo e mercado: uma
Pedro da Luz Moreira
análise da publicidade imobiliária. RevistaImpulso, 15, 87-97, 2004.
. & Santiago A., Gonçalves C. & Miranda F.: Arquitetura da
Violência: A cidade é uma casa. A casa é uma cidade. Resumo publicado nos Anais do
17º Seminário de Iniciação Científicae Prêmio Vasconcellos Torres, Universidade Federal Resumo | O presente artigo se utiliza dos conceitos de plano, projeto, ideologia e hege-
Fluminense, Niterói, 2007. monia para construir uma proposição concreta para as cidades brasileiras. O texto preten-

Lynch, K. A imagem da cidade, São Paulo, Martins Fontes, 2006. de apontar a necessidade de reversão dos condicionantes que hoje determinam a maneira
como a cidade brasileira vem sendo construída, notadamente: dispersão urbana, constru-
Muñoz, J. A. J. & Massera, C. A.: La transparencia y la exclusión: ver pero no estar. Revista
arquitetura, 6, 27-36, 2010. ção de novas habitações sem mistura de classes, mobilidade baseada no automóvel e des-
consideração com relação a biomas naturais complexos próximos ou inseridos nas malhas
Norberg-Schulz, C.: Los Principios de la Arquitectura Moderna: Sobre la nueva tradición del
urbanas. Pretende-se dar protagonismo ao plano e ao projeto a partir da sua caracterização
siglo XX, Barcelona, Editorial Reverté, 2005.
como o instrumental mais apropriado para avaliar custos e benefícios.
Panek, B.: Estética dos reflexos: a amplitude mas também a hipocrisia da transparência.
Palíndromo, 3, 171-189, 2010. Abstract | This article uses the concepts of: plan, design, ideology and hegemony to build
Sennet, R.: O declínio do homem público: as tiranias da intimidade, São Paulo, Ed. Companhia a concrete proposal for Brazilian cities. The paper aims to highlight the need for reversing
das Letras, 1988. the conditions that now determine how the Brazilian city has been built, notably, urban
Severiano, M. de F. V. & Benevides, P. S.: A lógica do mercado e as retóricas de inclusão: sprawl, new housing construction without mixture of classes, mobility-based on automo-
articulações entre a crítica Frankfurteana e a Pós-Estruturalista sobre as novas formas tive and disregard in relation to complex natural biomes next or inserted in urban networks.
de dominação. Estudos e Pesquisas em Pscicologia, 11, 2011, 103-124. It is intended to give prominence to the plan and the project from its characterization as the
Virilio, P.: O espaço crítico e as perspectivas do tempo real, Rio de Janeiro, Editora 34, 1993. most appropriate instrument to assess costs and benefits.

Haug, W. F.: Crítica da estética da mercadoria, São Paulo, Fundação Editora da UNESP, 1997. Resumen | En este artículo se utilizan los conceptos de plan, proyecto, ideología y hege-
Jornais diários monía para construir una propuesta concreta para las ciudades brasileñas. El texto tiene
como objetivo poner de relieve la necesidad de revertir los condicionantes que ahora deter-
Folha de São Paulo, O Globo e O Fluminense – diversas edições impressas e online.
minan la forma en que la ciudad brasileña viene siendo construida, en particular, la expan-
sión, la construcción de nuevas viviendas sociales sin mezcla de clases, la movilidad basada​​
en el automóvil y desconsideración en relación a complejos biomas naturales próximos o
insertados en redes urbanas. Se pretende dar protagonismo al plan y al proyecto a partir de
su caracterización como el instrumento más adecuado para evaluar los costes y beneficios.

212 Arquitetura da violência Pedro da Luz Moreira 213


1. Projeto, ideologia e hegemonia1 nas Ciências Sociais. Essa variação está vinculada à construção específica do conhe-
cimento social por um grande número de autores que se utiliza de acepções parti-
Num primeiro momento é preciso destacar a presença do projeto, da ideologia culares para suas estruturações. No campo mais específico da atividade profissional
e da hegemonia em nossa sociedade contemporânea, no meu entendimento essas do arquiteto, Tafuri dedicou-se ao termo qualificando muitas vezes essa atuação
três dimensões determinam a forma como a cidade brasileira vem se construindo. como uma ordenação ideológica que aponta para um esforço de cooptação social
Em sua origem, a palavra projeto é composta pelo prefixo pro, que denota das ideias, de modo que estas ganhem permeabilidade social ou aceitação geral.
antecipação, previsão e por jactar, que significa lançar, arremessar. O projeto, por- Realmente o termo ideologia possui uma das mais complexas evoluções no campo
tanto, pretende ser a antecipação de uma ação concreta, uma obra, buscando da sociologia, ele pode ser definido: de forma negativa, como uma distorção do real,
prever as complexas relações entre os benefícios e os custos de uma determinada a partir da perspectiva da inserção social dos indivíduos, ou de forma positiva, como
ação, transformação, reforma, construção, etc. Importante aqui assinalar a distinção um sistema de ideias, crenças e pensamentos que estruturam nossas práticas coti-
existente entre as ações de projeto e do plano2, que apesar de algumas semelhan- dianas. O mundo moderno tendeu a uma valorização da ideologia, pois os sistemas
ças se referem a um tempo distinto e a um grau diferente de precisão. O projeto se de crenças e discursos já instalados tenderam a ser desacreditados e reconstruídos
refere e descreve um objeto concreto e preciso com uma previsão de realização de a partir da interpretação do indivíduo3. O reconhecimento da presença da ideologia
mais curto prazo, enquanto o plano possui maior grau de imprecisão e pretende é um ato de modéstia diante da complexidade da totalidade e da parcialidade de
alcançar objetivos mais difusos, com uma definição de tempo mais longa. O projeto nossas visões condicionadas por nossas formações limitadas.
e o plano podem ser encarados como a crítica operativa do real, pois pretendem A hegemonia é a dinamização do conceito de ideologia, é o objetivo destas
não apenas uma simples descrição de um problema, mas sua mudança. Em sua formulações de conquistar o metabolismo social, transformando-se em hipóteses
busca por operatividade, o plano e o projeto pretendem a materialização de suas teóricas com capacidade de modificar o real, por serem amplamente aceitas. A he-
proposições, adequando e conciliando interesses diferenciados. O projeto e o plano gemonia é uma ideologia com ampla aceitação social. O conceito de hegemonia
são, portanto, discursos que visam convencer a sociedade de que aquela é a melhor foi elaborado por GRAMSCI4 e se referia, na perspectiva histórica, à capacidade de-
direção, intervenção ou proposta a ser empreendida naquele contexto específico. monstrada pela ideologia burguesa de valorização do individualismo, da meritocra-
Importante salientar que o projeto e o plano, apesar de críticos, não refundam de cia, da supressão da hereditariedade na definição dos governos, em ser aceita por
forma completa o meio construído pelo homem, mas consideram e trabalham com outras classes e se generalizar como objetivo e ideal generalizado. O mesmo autor
pré-existências, que são valoradas e consideradas. Isto é, o projeto e o plano não fazia uma importante distinção entre ideologias arbitrárias e ideologias historica-
tratam o real como uma tábula rasa a ser fundada ou inventada, mas consideram as mente orgânicas. As ideologias arbitrárias pretendiam a manutenção do status quo,
pré-existências humanas ou naturais como presenças a serem consideradas. sendo representações da manutenção das formas de operar já instaladas e meca-
Sendo um discurso que pretende a operatividade, isto é, atuar sobre o real, nizadas. Enquanto as ideologias historicamente orgânicas buscavam a superação
podemos vinculá-lo à questão da ideologia, pois esta pode ser encarada como uma das formas de operar do mundo mecânico, realizando avanços da ciência e da ob-
teoria com capacidade de transformar o real. Aqui definimos ideologia como um jetividade. Na sua perspectiva revolucionária, o conceito de hegemonia se referia
conjunto de crenças, ideias, pensamentos, doutrinas de um indivíduo ou grupos so- à ideologia do operariado de valorizar o trabalho, socializar os meios de produção,
ciais que estruturam sua prática, seu agir, sua concepção de bem viver. Qual o senti- conquistar outras classes para suas causas. Há na hegemonia uma complexa relação
do desse termo que, invariavelmente, perpassa nosso cotidiano de forma, ao mesmo dialética entre coerção e consenso, uma vez que os variados agentes aceitam seus
tempo, marcante e dissimulada? O conceito de ideologia encerra uma grande po- preceitos como dados concretos, com os quais operam na vida cotidiana.
lissemia e uma variedade de sentidos que poucos termos na história da sociologia Portanto, o projeto e o plano são discursos persuasivos que pretendem con-
moderna carregam. Autores como Michael Löwy, Norberto Bobbio, Marilena Chauí, vencer a sociedade da melhor relação entre custo e benefício das transformações
Vilfredo Pareto e Leandro Konder destacam essa imprecisão ou variação do termo propostas, como tal, estes muitas vezes manipulam preceitos e proposições que se
envolvem com a temática da ideologia e da hegemonia. Portanto, o arquiteto e ur-
banista seria um ideólogo do habitar que possui propostas para a cidade e a casa
1. MOREIRA, Pedo da Luz. Projeto, Ideologia e Hegemonia, em busca de uma conceituação operativa para a cidade brasilei-
ra – Tese de doutorado defendida em 2007 na UFRJ/FAU/PROURB.
2. PORTAS, N. Urbanismo e Sociedade: construindo o futuro em Cidade e Imaginação – org MACHADO, D. P.Rio de Janeiro: 3. HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade –São Paulo: Martins Fontes, 2002.
UFRJ/FAU/PROURB, 1996. Nuno discute os tempos e os graus de precisão do projeto e do plano. 4. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere volume 4 –Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

214 Projeto, ideologia e hegemonia na cidade brasileira contemporânea Pedro da Luz Moreira 215
de forma convincente e persuasiva para a sociedade, convencendo-a de que suas antes depois

propostas pretendem a materialização de ideologias, que buscam se tornar hege-


mônicas. O arquiteto Manfredo Tafuri5, crítico italiano atuante nos anos de 1980, já
acreditava que a profissão tende a ser um ordenamento ideológico, que busca con-
vencer a sociedade de suas proposições referentes à construção do espaço humano.

2. O ofício e a cidade

A arquitetura e o urbanismo é uma profissão única, o arranjo institucional


do ofício no Brasil tendeu a abarcar as duas atividades. Neste ofício generalista, a
dimensão propositiva é uma presença constante. O arquiteto estuda para propor. O
diagnóstico se estrutura para construir um prognóstico, numa linguagem médica.
Os arranjos formais nascem da análise de como está estruturado o real, a mudança
sempre leva em conta o existente e o já construído. A cidade, horizonte de atuação
do arquiteto, é o contexto que forma, informa e conforma o projeto. Como no exem-
plo da Praça do Campidóglio em Roma desenhada por Michelangelo em 1538. As
adições e supressões são pensadas de forma a se atingir a melhor relação de custo
e benefício, a autonomia do indivíduo renascentista pretende convencer a socieda-
FIGURA1 Praça do Campidóglio em Roma desenhada por Michelangelo em 1538
de que a construção do futuro programado e controlado é possível. A praça renas-
centista, com artifícios de perspectiva emerge do mundo medieval que o precede, de, nasce a dimensão simbólica da cidade de preservação da história comunitária.
querendo acabar com a desconexão e a irracionalidade da construção do ambiente Muito tempo transcorreu para que as cidades passassem a abrigar uma variedade
humano. O ofício de arquiteto e urbanista possui uma dimensão operativa, na qual o de atores e profissões, mas a estrutura da cidade antiga já apresenta a mesma or-
habitar e o habitat humano são pensados de forma integrada, a casa e a cidade são denação de nossas cidades contemporâneas, o espaço da intimidade da família e
matéria de estudo e proposição. o espaço público, onde se dão as trocas, a convivência e a noção de comunidade,
A cidade é uma das mais brilhantes invenções humanas. Ela na verdade é capaz de garantir a reprodução. A cidade da antiguidade clássica, grega ou romana,
consequência da própria constituição do homem enquanto espécie, um ser frágil onde se destacam edifícios públicos como o fórum, o teatro, as termas, onde a vida
quando isolado, mas poderoso quando articulado comunitariamente. Desde tempos social ganha intensidade e sofisticação. A cidade obriga o indivíduo em seu cotidia-
imemoriais, o homem enquanto espécie buscou adaptar o meio em que vive às suas no a conviver com a diversidade de pensamentos, de forma de agir e de crenças.
condições. O homo sapiens desde sua constituição como espécie se demonstrou Nesse sentido ela domestica a individualidade humana, adquirindo um caráter di-
como ser incompleto ou separado do natural, propenso a criar outra natureza que dático inequívoco que fortalece a humanidade.
o abrigue. A cidade, por exemplo, nasce do horror sentido pelo homem primitivo, A cidade sofre um desenvolvimento histórico linear até a emergência da Re-
que observa animais violarem túmulos de seus antepassados. A cidade dos mortos volução Industrial, que reforça a capacidade da coletividade de autodeterminar seu
precede a dos vivos6. Os primeiros assentamentos humanos são partes do territó- futuro. A cidade industrial explode a dimensão do urbano7, não existe mais uma só
rio, onde essa espécie enterra seus antepassados, edificando e protegendo contra comunidade, mas um universo de comunidades variadas. A partir deste momento
a violação de animais silvestres. O primeiro habitante vivo dessas aglomerações é se materializa na prática a diferenciação entre comunidade e sociedade. Na cidade
o sacerdote, que abandona o nomadismo e se fixa para proteger a memória dos industrial, o território explode em extensão e a dimensão entre oferta e procura da
que morreram. Nesta primeira divisão social do trabalho, o sacerdote e a comunida- habitação se problematiza, surge uma massa significativa de pessoas pobres, ávidas
por empregos e oportunidades, que se concentram em bairros específicos. Emer-
5. TAFURI, Manfredo.Teorias e História da Arquitetura – Editorial Presença Lisboa, 1979. Tafuri identifica numa parte da
crítica uma dimensão propositiva, que a aproxima da projetação.
6. COULANGES, Fustel de.A Cidade Antiga –São Paulo: Martins Fontes, 1987. 7. LEFEBVRE, Henry.A revolução urbana.Belo Horizonte: UFMG, 2004.

216 Projeto, ideologia e hegemonia na cidade brasileira contemporânea Pedro da Luz Moreira 217
gem também os bairros ricos e sofisticados, onde a presença de infraestrutura varia- A ideologia do morar moderno contamina todas as partes do mundo, de-
da garante padrões de vida urbana adequada e salubre. Há nesse desenvolvimen- senvolve-se a ideia de um progresso unidirecional, capaz de superar o arcaísmo.
to um problema de escala, tamanho e de tempo de desenvolvimento. As cidades A ideologia modernista torna-se hegemônica, colonizando mentalidades em todas
perdem seu caráter comunitário e assumem o caráter de federação de comunidades. as partes da terra. A redenção propiciada pela padronização, estruturada pelo de-
Desenvolvem-se padrões de salubridade que determinam o substancial declínio da senvolvimento de uma indústria moderna e autônoma contamina as vanguardas
taxa de mortalidade infantil e a ampliação da expectativa de vida, desenvolvem-se modernistas no Brasil. Desenvolve-se a crença de que a industrialização do país pos-
diferentes concepções do que é o bem viver. A cidade aumenta numa escala popu- sibilitará a ruptura com um passado recente colonial e escravagista impulsionando
lacional jamais vista, numa aceleração cada vez mais intensa. Manchester cresce em uma mudança estrutural. A presença dessa ideologia pode ser sentida no texto do
90 anos de 12 mil para 400 mil habitantes no século XIX. São Paulo cresce no espaço então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, a respeito do novo bairro
de 70 anos, de 900 mil para 20 milhões de habitantes no século XX. Nos próximos 20 da Pampulha em 1944, no qual fica claro o compromisso de construir o “domínio
anos está previsto que a China terá um êxodo rural de 800 milhões de pessoas, ou do homem sobre a natureza”. O texto também é testemunho da constante melan-
seja, o correspondente a quarenta São Paulos. colia mineira que vive apartada do mar, pois faz uma analogia da Pampulha com
um “sonho Atlântico entre as montanhas”, que ao final também denota esta mesma
capacidade de transformar a natureza em favor dos desígnios humanos...
3. A ideologia modernista
“Centro geográfico de Minas, Belo Horizonte condensa a vida econômica,
política e social do Estado. Entre menina e moça, caracteriza-se pela mo-
Para enfrentar este cenário que se iniciara na Inglaterra do século XIX, mas que
dernidade de suas linhas e relevos. Com efeito, delineada há quarenta e
se generalizara pela Europa na passagem do século XIX para o XX, e na Europa Central
cinco anos, à beira do sertão virgem, é tão nova que ainda se lhe percebe
assumira uma dinâmica particular, emerge um conjunto ideológico de proposições o cheiro da terra lavrada de pouco. Mas já exubera em realizações: grande
que pode ser caracterizado como a síntese modernista. A síntese inteligente da ide- cidade povoada de cerca de duzentos e cinquenta mil habitantes, agita-
ologia modernista, gestada pelas vanguardas no centro da Europa, notadamente na -se, produz, estuda, diverte-se, amplia-se e prospera.
Alemanha, proclamam que a arquitetura não deve mais se restringir aos monumen- Obra de audácia e tenacidade, Belo Horizonte assenta-se no  domínio do
tos, mas deve projetar a casa do operário, o conjunto habitacional, a casa anônima. A homem sobre a natureza, que a emoldura de híspidas montanhas de ferro. Os
arquitetura e o urbanismo devem se voltar para a produção do cotidiano, da cidade elementos essenciais, de que já dispõe a fartar a cidade azul e verde, foram
extensiva, da moradia, e não mais apenas ao edifício monumento, da exceção. A lin- acumulados e disciplinados pela energia de suas administrações,e não re-
presentamumadádiva fácildas circunstâncias naturais.
guagem empostada do ecletismo, que havia se reduzido a um conjunto de receitas
automáticas, numa mera montagem mecanicista da história, pretende ser substituída A dez quilômetros do centro da cidade, a Pampulha corresponde a uma
por uma nova objetividade que deixe transparente as formas do construir. Desenvol- destas concepções do gênio e do esforço dos homens que a edificaram:
um lago artificial circundado por uma avenida de quase vinte quilômetros
ve-se uma crença ingênua na capacidade produtiva da indústria como redentora das
de extensão, ali rebrilha, como uma placa de cristal, à luz do céu – espelho
mazelas da humanidade, que passa a ser agrupada em tipos padronizados. O discurso do mar longíquo – com uma dupla função utilitária e decorativa.
das vanguardas mais radicalizadas determina que a prioridade do projeto passe a ser
Reserva de milhões de litros d´água para a cidade que se agiganta, a Pam-
as periferias intermináveis, um homem tipo, um standart, um padrão. O monumento
pulha realiza, ali, um sonho do Atlântico entre as montanhas. O Cassino, o
passa a ser o túmulo da arquitetura8, os padrões mínimos de existência passam a ser Baile, o Iate Golfe Clube e o Parque em construção, em meio das viven-
estudados, o canteiro de obra passa a ser encarado como o local da montagem de das que se debruçando sobre o lago, completam, no soberbo conjunto,
uma série de componentes pré-fabricados. A construção passa a ser a possibilidade o núcleo turístico, em função do qual os homens submetem, por fim Belo
de reunião de todas as artes. Há uma crença desmedida no industrialismo e sua capa- Horizonte, integralmente, ao seu signo de modernidade”.9
cidade de tornar acessível uma série de bens e confortos, generalizando seu acesso.
Esta nova esperança do Brasil acaba mudando a capital federal de lugar no
final da década de 1950, cravando no coração do país uma cidade moderna, onde a

8. LOOS, Adolf.Ornamento y Delito.Barcelona: Gustavo Gilli, 1989. 9. KUBISTCHECK, Juscelino. Pampulha. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 1944.

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que chega e chegará às nossas metrópoles. Agora as principais metrópoles procu-
radas estão localizadas no Terceiro Mundo, dominadas pela autoconstrução e pelas
favelas. Portanto, os desafios colocados para os arquitetos – ideólogos do habitar
humano – são a customização da casa urbana, uma ideia de interação mais positiva
com o meio ambiente, certa consciência da diversidade e da multiplicidade de pos-
sibilidades do desenvolvimento, que deixou de ser unidirecional.
Aqui cabe também uma pequena consideração sobre as formas tradicionais
de operar da política e da própria arquitetura contemporânea, em que se perce-
be nos últimos tempos uma clara hegemonia da sociedade do espetáculo10, frente
ao cotidiano. As revistas especializadas consagraram um time de arquitetos do star
sistem, que agem como pop star, repetem-se em formulações consagradas, diante
de contextos locais que demandam pensamentos particularizados. Os megaeven-
tos globais, que estão para ser realizados em nosso país nos próximos anos, pre-
cisam ser geridos a partir da busca de uma infraestrutura urbana transformadora
FIGURA 2 Getulio Vargas, Benedito Valadares e Juscelino Kubitcshek sobem a rampa do Iate Clube na Pam-
pulha e planta e imagem da superquadra em Brasilia do cotidiano das nossas cidades. Os interesses da macro escala global, e da micro
escala comunitária podem ser acomodados no projeto e no plano, desde que os
superquadra idealizada por Lucio Costa é a nova referência do morar brasileiro.
agentes dessas vertentes atuem de forma transparente, com a premissa da nego-
O progresso parece assumir uma dimensão unidirecional, uma sucessão linear de
ciação incansável. Esses megaeventos globais estão no âmbito do espetáculo de-
etapas, que alinham práticas e países arcaicos e modernos num etapismo linear.
mandando a construção de monumentos. O habitar, o trabalho, a mobilidade das
pessoas, o lazer, a educação e a cultura estão no âmbito do cotidiano. Ambas as
4. Sociedade contemporânea esferas demandam a construção do bem viver. Um faz parte do excepcional e está
vinculado à economia global, o outro conforma o corriqueiro e está vinculado à
Ao final da Segunda Guerra Mundial, essa crença desmesurada na capaci- economia local. Em nosso mundo há uma constante tensão entre as formas de es-
dade redentora da industrialização começa a demonstrar certo esgotamento. As truturação dos estados nacionais, a emergência de comunidades étnico-locacionais
bombas de Nagasaki e Hiroshima demonstram a enorme capacidade destrutiva e, ainda, uma forma de operar impulsionada pelas novas tecnologias de informação
dessa mesma lógica industrial. Os desequilíbrios ambientais e variados acidentes e comunicação e que se utiliza de vínculos transnacionais. Uma tensão clara entre
ecológicos começam a provar a limitação dos recursos do planeta. A padronização universalismo e culturalismo, que só poderá ser superada na medida em que os dois
é substituída pela emergência da especificidade de cada ser humano, uma maior polos sejam vistos como funcionais, como mutuamente inerentes para sua própria
valoração da alteridade. Há um declínio do vanguardismo e a emergência de uma definição, como contrapontos mútuos que devemos apreender na medida em que
sociedade de massas, onde o acesso à cultura e informação se generaliza de forma postulamos o seu oposto. O universalismo é um importante fórum para reafirmar a
marcante. Portanto, a sociedade contemporânea sofre algumas mudanças de para- absoluta centralidade da sustentabilidade do planeta e da vida, é a única possibi-
digmas, notadamente a descrença na industrialização, a emergência da alteridade lidade de todas as comunidades garantirem a permanência da espécie. Enquanto
e da sociedade de massas. Desenvolve-se a consciência da finitude dos recursos da o culturalismo, além de fornecer o sentimento de pertença, é a forma de regular o
terra, um impulso no tema da sustentabilidade, uma descrença com relação à pa- macro poder, desenvolvendo vínculos orgânicos entre comunidade e suas repre-
dronização, uma emergência da ideia de alteridade, um incrível desenvolvimento sentações. O legado mais importante é a construção da ponte de interligação entre
da acessibilidade à cultura e informação. Apesar dessas mudanças, a cidade perma- universalismo e culturalismo.
nece sendo o destino de grande parte da humanidade, que se urbaniza rapidamen-
te, conserva-se ainda que de maneira perplexa o reconhecimento da incompletude
do projeto moderno. Essa imcompletude se manifesta principalmente na incapaci-
dade da arquitetura contemporânea de responder a imensa demanda populacional, 10. DEBORD, Guy.A sociedade do espetáculo.Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

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5. Princípios luntarista, que privilegia a empreitada não dirigida pelo plano ou pelo projeto. As
obras para a Copa do Mundo foram realizadas a partir de planilhas orçamentárias
A crítica da jornalista americana Jane Jacobs11 da década de 1960 ainda per- que geram projetos, quando deveriam ser projetos de arquitetura e urbanismo que
manece operando, talvez por que estejamos diante de um mundo pós-hegemônico, geram planilhas. É papel da universidade a crítica dessa forma de operar, para rever-
onde os modelos únicos não são mais possíveis. Ganhamos a consciência de que ter essa dimensão perversa da prática de nossas construções e das nossas cidades.
nossas realidades são particulares e exigem formas de pensar independentes, em A partir dessas reflexões e no contexto da cidade brasileira, torna-se de suma
que o projeto busca uma autojustificativa que seja socialmente compartilhada. A importância definir para o campo do projeto e do plano uma série de objetivos
partir da crítica da jornalista americana, identificamos princípios norteadores que claros a serem atingidos. A explicitação desses objetivos coloca-os sobre debate,
nos auxiliam a formular uma agenda contra as formas de operar das cidades brasi- confrontando formas de habitar particulares, que devem ser constratadas com
leiras. Um conjunto ideológico de princípios capaz de fazer frente ao modus operan- interesses gerais. A habitação representa um papel fundamental, uma vez que a
di tradicional da cidade brasileira, que procura romper com sua inércia construtiva cidade é constituída em sua maioria pelo morar. Quais ordenações ideológicas his-
instalada. toricamente orgânicas possuem capacidade para se transformarem em hipóteses
1. A dimensão do cotidiano, sua concretude na determinação da nossa quali- convincentes e persuasivas? Quais as hipóteses de caráter científico que podem ser
dade de vida, a práxis como critério da verdade. verificadas pelo estágio atual de desenvolvimento das nossas cidades, e que pos-
2. A convivência entre classes sociais, como valor, como fator de segurança e suem potência para assumir um caráter educativo inequívoco para mudar a inércia
de aprendizado efetivo, que restaura o sentido da cidade como oportunidade didá- instalada? Os nossos projetos e planos para a cidade precisam ser claros e objetivos
tica de perceber a diferença. oferecendo à sociedade um discurso sintético, capaz de convencer esta mesma so-
3. A compreensão do valor da mobilidade, como possibilidade de acessar ciedade de sua operacionalidade. No meu entendimento quatro princípios claros e
novas oportunidades que transformam nossos condicionamentos e pré-diposições. objetivos devem nortear o projeto da cidade brasileira no século XXI:
A noção de que a emergência da hegemonia do carro a partir da década de 1950/60 Cidade compacta e densa, que inicie o combate a sua dispersão interminável,
pode determinar a congestão completa de nossas cidades. enfatizando o papel articulador do antigo Centro da cidade.
4. A cidade onde a convivência de funções e usos demonstra sua vitalidade Cidade baseada na convivência da diversidade de classes, que combata a ten-
econômica e de acessos à oportunidades. Habitar junto a uma diversidade de usos, dência de gerar guetos da cidade brasileira.
comerciais e industriais, muitas vezes significa a ampliação do horizonte de oportu- Cidade de mobilidade ampliada, que combata a exclusão determinada a
nidades. partir da ausência ou tarifação cara do transporte público.
5. A cidade densa, onde o solo urbano – isto é, solo infraestruturado – adota Cidade que amplie a visibilidade e a aproximação dos seus biomas naturais
padrões de vizinhança que compense os investimentos da sociedade em infraestru- particulares com seus cidadãos.
tura. Portanto, a mística da casa urbana isolada deve ser combatida de forma siste- Acredita-se, portanto, que a ordenação do espaço urbano pode garantir
mática, porque ela é a forma de operar que privilegia a especulação da terra urbana maior acessibilidade à cultura, às infraestruturas, à educação e ao emprego, pro-
e, além disso, gera contínuos urbanos onde o controle social é impossível. vocando transformações efetivas no social, melhorando inclusive a distribuição de
6. Por último, o projeto e o plano precisam ser utilizados como forma de renda. É claro também que a cidade em seu estágio atual está conformada pelo
debate, em que acesso diferenciado às vantagens e desvantagens do construído, e que é papel do
os agentes atingidos tomam consciência das transformações. poder público equilibrar estas no seu território. Portanto, o que se pretende neste
Neste quesito, precisamos reconhecer que a sociedade brasileira ainda misti- debate é formular uma imagem/mensagem simples do vir a ser das cidades brasilei-
fica o improviso. Ainda não temos o plano e o projeto como protagonistas de nossas ras, que seja capaz de ser compreendida pelo conjunto da sociedade.
obras, como formas privilegiadas de avaliação da adequação entre transformações, Existe nessa construção uma clara vinculação com uma premissa operativa,
benefícios e custos. As transformações só podem ser corretamente avaliadas onde que reconhece que os instrumentos atuantes sobre as cidades brasileiras são evolu-
opera o protagonismo do plano e do projeto, únicos instrumentos capacitados para ídos e eficientes, isto é, não há necessidade de criação de novas leis. O desafio neste
avaliar os benefícios e os custos. Ainda estamos governados por uma vertente vo- momento é colocá-los em operação, convencendo a sociedade com exemplos con-
cretos da sua capacidade de construir o bem viver. Na dimensão do plano temos
11. JACOBS, Jane.Morte e Vida de Grandes Cidades.São Paulo: Martins Fontes, 2000.

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de emprego, lazer, cultura não sejam acessíveis. Os modais de grande capacidade
como trens, barcas e corredores de ônibus articulados devem estar implantados de
forma a construir uma rede interdependente, que possibilite a população transi-
tar entre eles de forma articulada, rápida e segura. Há necessidade de se promover
ações de glamourização do transporte coletivo, pois este possui um potencial ci-
vilizatório inestimável, que demonstra o esforço de promover maior equidade de
oportunidades.
Por último, no campo da aproximação positiva com diferenciados biomas é
muito importante garantir visibilidade dos arranjos ecológicos próximos ou inseri-
dos na cidade. Pois, na medida em que se promove essa aproximação, a população
passa a lutar por sua conservação e a compreender as dinâmicas ali instaladas. A