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Dossiê Dossiê

•Ii\',lc altivo prétende-


sr a l u m i a r o autismo e
PSICOSES E Gostaria de iniciar afirmando que uma comunicação m > | > l u . i
ordenação, ordenação d e palavras, d e tempo, d e respiração, > l <
.i.', psicoses infantis
como quadros clínicos,
como estruturas psíqui-
AUTISMO NA pontuação... enfim, falar implica falar a um Outro, e temos ,ií < l i i , r ,
posições: a do emissor da fala e a do receptor. Agora, neste m < >
cas em que figuram im-
passes na relação de co-
nvuuicaçâo cora c Ou- INFÂNCIA: mento mesmo, espero estar estabelecendo esta relação entre q u e m
fala e quem escuta, para, mais tarde, no debate, quem sabe, i n v e i
tro. A noção de consti-
tuição do sujeito em psi-
canálise é eixo da discus-
são teónco-ciínica. Como
IMPASSES NA termos estas posições.
Pretendo abordar o autismo e as psicoses infantis como moda
ilustração de uma inter-
venção institucional com
crianças autistas e psicó-
CONSTITUIÇÃO DO lidades, quadros clínicos, ou ainda como estruturas psíquicas cm
que figuram, escancaradamente, impasses na relação de comunicação
ticas, serão apresentados
os principais fundamen-
tos iccnce.s ^h! Pré-Ksco
SUJEITO com o outro. Veremos mais adiante as diferenças entre um quadro
e outro. Como entrada ao assunto, pergunto: de que lado estará o
Ia Terapêutica Lugar de
Vida, além de fragmen- problema de comunicação? Do lado de quem fala ou do lado de
tos clínicos de um caso quem escuta? A psicanálise nos permite formular esta questão ao
(com hipótese diagnosti-
ca de psicose) atendido atribuir à comunicação um laço entre, pelo menos, dois sujeitos.
nesta instituição. Cjislene J ardim Durante muito tempo o autismo e as psicoses infantis foram
Autismo; psicose infan-
til; constituição do su- estudados pela neurologia e pela psiquiatria. Hoje temos estudos e
jeito; problemas de co- experiências valiosos a partir da fonoaudiologia, da psicopedagogia,
municação; tratamento
institucional da psicomotricidade e da psicanálise; isto porque estes quadros
THE AUTISM AND THE "... hora da palavra, trazem enigmas para cada uma destas disciplinas.
INFANTILE PSYCHOSES:
quando não se diz nada, A minha proposta nesta comunicação é abordar o autismo e
IMPASSES IN THE
CONSTITUTION OF fora da palavra, as psicoses infantis com base em uma leitura teórico-clínica da
THE SUBJECT psicanálise lacaniana. Por que a psicanálise lacaniana? Porque foi
This article intends quando mais dentro aflora,
to broaching the autistn Lacan quem formulou, a partir de Freud, que "o inconsciente é
tora da palavra..."
and the infan tile estruturado como linguagem", seguindo, o inconsciente, duas leis
psychoses as clinicai Milton Nascimento/Caetano Veloso
profíles such as psychic de linguagem: a lei da metáfora e a da metonírnia. Em outras pa-
structures where lhere is lavras, quando falamos, revelamos algo de mais íntimo, mais subje
an impasse within the
communication with the tivo que temos, mostramos nosso estilo de ordenar palavras, pon-
Other. The knowledge ot tuações, sentidos... e, por mais que tentemos nos p r o t e g e r ,
the constitutioii of the tema que pretendo desenvolver - psico-
subject in psychoanaly-
ses e autismo na infância - parece bastante pertinen- revelamo-nos ao Outro, ao ouvinte, revelamos a nossa expectativa
sis is the tn a infra m e of de sermos compreendidos, ao mesmo tempo em que contornamos
the theoretical-clinical te a uma jornada sobre "Psicopatologias da Comu-
discussion. To illustrate
nicação", pois encontramos nesses quadros modos uma pergunta que sempre nos fazemos em uma relação de língua
the institutional inter-
vention with autistic gem: o que o Outro quer de mim? Esta questão existe aqui, neste
muito particulares de comunicação.
and psychotic children, momento, e também nos nossos consultórios com nossos pacientes,
there will b e p fés ente d A minha transmissão, penso ser uma contribui-
the theoreticat funda- em nossas famílias, com nossos amigos... etc.
ments o f the Pré-Esco-
ção modesta, que estará referida aos estudos e traba-
Entender a relação de linguagem como uma relação com o
la Terapêutica Lugar lho que desenvolvo na Pré-Escola Terapêutica Lugar
de Vida, besides clini- outro nos permite, também, estabelecer uma outra relação, que é .1
cai fragments o f an de Vida, uma pequena instituição que funciona jun-
relação primordial de um bebé com o Outro (como Lacan postu
specifíc case (with a to ao Instituto de Psicologia da Universidade de
psychosis hypothetical
São Paulo e que oferece tratamento integrado - o lou, Outro como "tesouro dos significantes", como a própria hn
díagnosis) attended at
this institution. que chamamos "educação terapêutica" - a crianças guagem, como uma referência, como o senhor de um desejo c de
Autism; infantilc uma imagem, como Outro primordial); é esse Outro que fará sm
psychoses; constitution com Distúrbios Globais de Desenvolvimento.
o f the subjcct; commu- gir no bebé um sujeito, um sujeito desejante, um sujeito de lini>,u,i
nication problems; ins- • Psicanalista, doutoranda no Instituto de Psicologia da gem. Ou seja, um sujeito que consiga dizer EU e saber, mel,1(011
titutional treatment
Universidade do Seio Paulo, camente, que está se representando neste pronome, eu; que e:,i.i
palavrinha represente e signifique seu urn:i r r r l a n o ç ã o dr inconsciente, um determinado F u n c i o n a m e n t o
corpo e sua história, uma história d i l c ri-n 111 d a q u e l a c o n c e b i d a por m e n t a l . E s c u t a n d o ,is li i s i n n .r.
única, particularmente sua, própria, Freud, que toma o inconsciente na Freud percebeu que a q u i l o ( | i i r | « i
apesar da universalidade do prono- perspectiva do material recalcado, diam falar do que se passava n < > < m
me pessoal eu. l'.ir.i Lacan, a noção de inconsciente pó remetia a uma certa com•(•[><,.n >,
O que acontece com as crianças i n c l u i n constituição de um sujeito, a uma representação do s o f r i m c n i u
autistas e psicóticas que hoje estão 11,1 medida em que está estruturado do corpo. Inicialmente, a hipólese
referidas no Código Internacional como uma linguagem. O inconscien- de Freud era que parte do que pen
das Doenças (CID 10, 1994) como te é, portanto, a soma dos efeitos savam não podia ser falado e eslava,
crianças com Distúrbios Globais de de fala, no nível em que o sujeito portanto, recalcado no inconsciente,
Desenvolvimento? Estas crianças reve- constitui-se pelos efeitos do signifi- manifestando-se como doença no
lam, pelo modo como estabelecem cante. A possibilidade de ser tocado corpo. O corpo, para Freud, era,
uma relação de linguagem, e portan- pelo significante é o que diferencia então, um corpo legível, no sentido
to uma relação ao Outro, que tive- a espécie humana de outras espécies de que algo sobre ele estava escrito
ram tropeços no processo de consti- animais. Um significante, no código para além de um mecanismo funcio-
tuição subjetiva. O que falhou aí da língua, está sempre remetido e nal, tão bem estudado pela medici-
para que não falem ou para que fa- remetendo a outro significante, man- na. E s t u d a n d o a histeria, Freud
lem de uma maneira absolutamente tendo entre eles uma relação de opo- constatou que o corpo humano é
estereotipada, ecolálica, claudicante? sição. Esta leitura do significante faz um corpo de sentido, de representa-
Por que nelas o EU mostra-se sem Lacan (1964) afirmar que "um signi- ções, lugar de metáforas, portanto.
sentido? ficante é aquilo que representa um A noção de pulsão vem funda-
Voltemos um pouco o olhar sujeito para outro significante". Ou mentar questões teóricas cruciais
para a noção de sujeito em psicanáli- seja, o sujeito é, então, efeito da lin- acerca dos limites entre o corpo e o
se, do ponto de vista de sua consti- guagem. O sujeito começa no lugar psiquismo. Freud (1915) considerou
tuição. O que está em jogo na cons- do Outro, aí onde surge o primeiro a pulsão como um "representante
tituição do sujeito? significante. representativo" (Vorstellungreprãsen-
Sabemos que a psicanálise é Mas voltemos um pouco a Freud, tanz), que faz com que o acesso ao
uma práxis orientada para o sujeito. nos primórdios da psicanálise, para corpo primeiro já sejam representa-
A noção de sujeito vem da filosofia, questionarmos essa relação entre corpo, ções deste corpo próprio. Há, por-
e Lacan (1964) propõe uma releitura subjetividade e linguagem (garanto que tanto, desde o início, uma represen-
da fórmula cartesiana "Penso, logo aos poucos chegaremos às crianças au- tação de corpo na qual se assentará
existo!" ao afirmar que "... o sujeito tistas e psicóticas). uma subjetividade.
está aí para ser reencontrado, aí Voltemos a Freud em dois mo- A partir dos estudos sobre a
onde está o real". E o real, para mentos de sua obra: os estudos so- histeria, Freud demonstrou como
Lacan (1964), "é aquilo que retorna bre a histeria e os artigos sobre a funciona o aparelho psíquico, na
sempre ao mesmo lugar, a esse lugar sexualidade infantil. Os estudos so- medida em que afirma ser o sinto-
onde o sujeito, na medida em que bre a histeria, ao mesmo tempo em ma no corpo resultado do recalque
cie o cogita, não o encontra". Pode- que consolidaram a prática psicanalí- de uma ideia. Ou seja, um sintoma
mos considerar, então, que a experi- tica, permitiram uma formulação di- tem o estatuto de uma substituição,
ência psicanalítica é uma proposta ferente daquelas veiculadas pela me- de uma troca, em que uma ideia a
de encontro com o real, real que dicina da época. E o que diziam os ser escondida é "mostrada" no cor-
csi.'i sempre a escapulir. sintomas das histéricas a Freud? Dizi- po, cuja produção discursiva produ-
A ( ( i n s t i t u i ç ã o do s u j e i t o é am que as manifestações no corpo do zida sobre o sofrimento do corpo
um.i formulação lacaniana atrelada a doente histérico faziam referências a desvelará o que antes fora escondi-

ll l l ! > llll ( llMK II


do. Assim surgiu n talking cure, ou a ca um primeiro momento em que pai, a função materna e a função paterna, respectivamente. A i-.s.s.i
M i r a pela palavra - nome dado por um eu se arma em torno de um cor- dupla que desempenha a função materna e a função paterna, Laia n
uma das pacientes de Freud à psica- po próprio como um objeto, e, no (1969) denominou "família conjugal" na constituição do sujeito.
nálise. momento seguinte, este investimento É a partir da função materna que se arma um sujeito no bebé.
Nos artigos em que trata da se- passará para outros objetos do mun- Se pensarmos na metáfora do espelho, o Outro primordial está
xualidade infantil - outra bombástica do. Caso esta passagem não ocorra, colocado como um espelho para o bebé, para o qual reenvia uma
teorização freudiana -, Freud conside- haverá a instalação de uma patologia imagem de corpo, um nome e um desejo. À função materna cabe,
ra que a sexualidade h u m a n a é psíquica. primordialmente, transmitir um desejo de existência, de pertença a
construída, desde que um bebé nasce, Lacan (1949) faz a leitura da uma história, transmitir ao bebé um desejo que não seja anónimo.
a partir da relação da criança com o passagem do bebé de um estado de E como ocorre esse "exercício" da função materna?
meio. E é a mãe, ou alguém nesta ser para um estado de subjetividade A função materna é operante desde o início da vida de um
posição, quem demarca bordas no e denomina este momento Estádio bebé; podemos até pensá-la antes mesmo que o bebé esteja nos bra-
corpo da criança, dando-lhe sentido, do Espelho, e aí ele situa os primei- ços da mãe. É antecipando um nome para a criança, imaginando sua
recortando este corpo de modo que ros tempos da emergência do sujeito. aparência, confeccionando-lhe roupinhas que uma mãe antecipa um
se produzam zonas erógenas. É pela A passagem pelo Estádio do Espelho filho. Quando isto tudo está impedido de acontecer, certamente
relação com a mãe que um circuito possibilita ao bebé partir da insufici- veremos consequências psíquicas na criança que nascerá. Mas, se
pulsional poderá ser ativado no bebé. ência à antecipação, ou seja, antes toda essa antecipação for possível, uma mulher estará se preparando
E como se dá essa incorporação de mesmo que tenha autonomia para para acolher, no sentido mais simbólico possível, seu bebé. Diante
sentido? falar, andar etc., a criança pode reco- dele, seu choro e seu grito terão sentido se assim puder interpretar
No início há "pura carne" - ex- lher uma imagem psíquica de si mes- a mãe, que estará tocada como a pessoa a "resolver" o desconforto
pressão que até nos soa como incon- ma da imagem que um outro lhe do bebé. Também estará fazendo função materna a mãe que conse-
cebível, já que se trata de um corpo oferece - para Lacan, este que oferta guir supor que no corpinho daquele bebé que tem à sua frente está
humano, e não do corpo de um ani- um nome, uma história, uma ima- uma subjetividade diferente da sua, mas totalmente ligada à sua
mal qualquer -, há um corpo mítico, gem, um lugar social, etc. é o Outro própria subjetividade. Por fim, a função materna pode se cumprir
perdido para sempre, como diz primordial. Este lugar de Outro ga- naqueles momentos em que uma mãe consegue saber e não saber
Freud. As primeiras relações, as pri- rante a transmissão ao bebé de um sobre seu bebé, em que alterna entre A sua presença e a sua ausência
meiras experiências marcam um limite código discursivo do qual ele pode- diante do bebé, em que permite que outros possam "saber" sobre
do corpo da criança na imaginária rá se utilizar mais tarde. Na posição seu bebé. Isto pode parecer lógico e comum, no entanto, na clínica
extensão com o corpo da mãe. Desde de Outro primordial, a mãe trans- com crianças autistas e psicóticas, por retroação, sabemos que muitas
o início, o bebé já recebe da mãe mite ao seu bebé a linguagem, pois, vezes o previsto à função materna não se cumpriu.
uma noção da posição do seu pró- ao pegá-lo, ao trocá-lo, ao amamentá- A função p a t e r n a - em exercício desde o início, mas
prio corpo em relação ao corpo do lo, ao dirigir-lhe palavras, a mãe ofe- operativamente importante quando se instala a função materna -
outro. Ao mesmo tempo, a partir rece marcas ao bebé, marcas que lhes tem a incumbência, entre outras, de barrar, de mediar a relação
das primeiras experiências, há uma dizem respeito, já que ela própria desejante estabelecida entre uma mãe e seu bebé. A função paterna
diferenciação das partes do corpo do está submetida à linguagem. Uma barra não somente o desejo materno estendido sobre o bebé, como
bebé pela fala e pelo toque da mãe, mãe transmite ao bebé aqueles signi- barra, também, o bebé em apreender-se como único objeto de de-
que toca de modo diferente o órgão ficantes que a tocam, ao mesmo tem- sejo de uma mãe, que, por sua vez, é também mulher. A função
genital e as bochechas do seu bebé. po em que demarca, no corpo da paterna porta consigo a lei, a lei da castração, se quisermos.
Em "Sobre o narcisismo: uma criança, a falta fundamental inerente Podemos abordar, ainda, a constituição do sujeito do ponto
introdução" Freud (1914) admite que ao sujeito. de vista de um movimento dialético entre a alienação e a separa-
"o eu tem de ser desenvolvido", lan- Na travessia da constituição de ção. Para isso, partamos do pressuposto de que a criança é um
ç a n d o a hipótese de que não existe um sujeito no bebé estamos diante sujeito à espera e que há de haver uma operação de causação do
nu indivíduo uma unidade compará- de duas funções fundamentais exerci- sujeito; o sujeito deverá ser provocado, invocado no bebé. Lacan
vel ,10 eu. Para ele, o narcisismo mar- das, comumente, pela mãe e pelo (1964) considera dois tempos desta causação: o tempo da alienação
i1 (i Icnipo J.1 separação. Vejamos: o no começo deste século, a partir das lhos, relação que nem sempre se susicu
Irmpo d.i alienação pode ser entendi- discussões médicas dos quadros de ta. Por outro lado, a psicanálise nos
do i n u m o t e m p o em que a mãe adultos esquizofrênicos. Uma criança leva a relativizar a participação dos pais
"rmpiesl.r ,10 seu bebé uma imagem autista para um psicanalista nem na definição de quadros como o autis-
piópn.i, um desejo, um signifícante, sempre é uma criança autista para mo e as psicoses infantis; importa-nos
um l u g a r discursivo, portanto. É o um psiquiatra; o mesmo vale para muito mais a relação fantasmática que
momento em que a criança é falada, as psicoses infantis. os pais estabelecem com seus filhos. A
<• desejada, em que ela é aquilo que O marco inaugural para os es- própria escuta psicanalítica dos pais de
desejam que ela seja, e a isto ela res- tudos específicos nessa área data de crianças autistas e psicóticas oferece a
ponde. O momento seguinte, o da 1943, com Leo Kanner (1943), que possibilidade de que recuperem, na re-
<eparação, é o do deslocamento das descreve e denomina um quadro es- historização da relação com seus filhos,
marcas maternas e da possibilidade pecífico da infância, o "autismo pre- a responsabilidade que têm sobre eles,
.lê impressão de outras marcas, a pa- coce", defendendo ser este quadro e não a culpa de tê-los como se apre-
erna, por exemplo. A possibilidade uma patologia de base orgânica. Kan- sentam.
lê surgimento de um sujeito - dife- ner notou que em todas as crianças Sabemos da descrença freudiana
•ente da mãe e diferente do pai, ape- que observara a linguagem não estava em tratar pacientes psicóticos. Lacan
;ar das profundas marcas de ambos - posta para comunicar: uns não fala- (1957-8) clamou aos psicanalistas: não
iparece exatamente no intervalo entre vam, e aqueles que falavam falavam recuem diante das psicoses! Mas aler-
i alienação e a separação. Lacan con- de modo estereotipado, com ecolalias tou: "O psicótico é aquele que ignora
idera que o primeiro momento da e trocas pronominais. Outros sinais a língua que fala". A leitura lacaniana
ilienação é o tempo de estabelecimen- estavam presentes nas histórias das do inconsciente e do sujeito conside-
o do primeiro signifícante e o tem- crianças que acompanhara. São eles: rou a possibilidade de tratar psicóticos,
>o da separação é o momento do 1) o quadro se apresentava nos pri- mas não de curá-los. Limites existem e
urgimento do segundo signifícante, meiros meses de vida, ou até os 2 devem ser considerados na condução
|ue possibilitaria ao sujeito formar anos de idade; 2) nessas crianças, de um tratamento psicanalítico.
ua cadeia signifícante e, portanto, havia uma marcante tendência ao iso- Foi a partir da fala do psicótico
'cupar, ele próprio, um lugar dis- lamento; 3) existência de problemas que Lacan (1955-6) apostou poder tratá-
ursivo. E o momento em que pode- em relação à linguagem, desde o lo. É exatamente porque o psicótico
ia dizer: "O que posso ser daquilo atraso na aquisição até a ausência fala que podemos reconhecer um modo
ue fizeram de mim?" Infelizmente, total de linguagem e 4) insistência na particular de estruturação linguística,
em todos podem formular tal ques- permanência de situações. em que muitas vezes o pronome eu
ío. Chegamos, então, à problemática Kanner relacionou parte dos está excluído da frase. E também pela
0 autismo e das psicoses infantis sintomas apresentados pelas crianças presença de neologismos e de fenóme-
:c é que abandonei esta questão pelo avaliadas por ele aos perfis dos pais nos elementares (delírios e alucinações)
íeio do caminho. Penso que não!). dessas crianças; descreveu-os frios, que podemos detectar uma fala deliran-
O que se passa com as crianças intelectuais, mais interessados no te. Neste tipo de fala, na maioria das
.itistas e com as psicóticas? mundo das ideias do que no mundo vezes, o interlocutor - podemos dizer
Há controvérsias acerca do diag- das relações. Sem dúvida, alguma re- o Outro - está excluído. A posição do
óslico diferencial entre o autismo e lação há entre pais e filhos no que analista aí é a de re-enviar uma posição
1 psicoses infantis. Sabemos que, tange à subjetividade destes últimos; discursiva ao psicótico, para que ele se
x-sar de sempre existirem crianças porém, Kanner propõe uma ligação aproprie do que diz.
ilislãs e psicóticas, a discussão diag- causal linear entre escolha profissio- Como pensar, então, em uma es-
ú s l i c a do autismo e das psicoses nal e personalidade dos pais, por truturação psíquica autista e em uma
i l . m l i s é bastante recente; teve início exemplo, e a subjetividade dos fi- estruturação psicótica?
N.1 clíllU.i mm uianç.is, ,10 es- seus gritos como algo dirigido a ela uma contribuição do trabalho in.sli
i i i l . n mus os |>,iis sabemos cm que c que nem suponha que naquele cor- tucional da Pré-Escola T e r a p e u t a .1
lug.ii 1'si.ío seus filhos, sejam os fi- pinho de bebé haja um sujeito, de Lugar de Vida. Como já a d i a n t e i , .1
lhos imaginados, sejam os filhos da lato ali não haverá um sujeito, mas Lugar de Vida é uma pequena i n s t i -
iv.ilid.ule. A partir do discurso dos sim traços dele, e não uma unidade. tuição montada para o atendimento
p.us reconhecemos o lugar que um O fracasso da função materna impede de crianças com Distúrbios Globais
íilho pode ocupar ou não no desejo que, a partir da imagem de corpo de Desenvolvimento. Esta instituição
materno; temos balizas, também, so- próprio da criança, se organize um está ligada ao Instituto de Psicologia
bre a incidência ou não da lei por- circuito pulsional. E imagem de cor- da USP e teve seu início na univer-
lada pelo pai em sua função paterna. po fragmentada provoca fracasso da sidade em 1991. A preocupação ini-
Podemos partir da premissa de que instauração do circuito pulsional. cial da Lugar de Vida era abarcar
uma criança fala e se representa no Já nas psicoses infantis, o im- crianças a quem foram negados tanto
que diz quando ocupou lugar no passe está no momento da separação tratamento como escolarização; o
desejo materno e foi devidamente dos significantes do Outro. O bebé, princípio ordenador desta instituição
arrancada daí pela lei paterna. a criança aliena-se ao discurso do - claramente orientada pelo saber
Como pensar o autismo e as Outro e aí permanece, sem poder, psicanalítico - era cumprir com uma
psicoses infantis em relação à consti- também, ocupar um lugar discursi- função pré-analítica.
tuição do sujeito? vo p r ó p r i o . Daí Lacan (1955-6) Compartilhamos a ideia de que
Retomemos os momentos da afirmar que "o psicótico fala a lín- a própria montagem institucional
causação do sujeito: a alienação e a gua materna", pois ele se encontra deva funcionar como ferramenta te-
separação. Para Laznik (1991), no capturado aos desejos e à imagem rapêutica, de acordo com o que pro-
autismo não há entrada no tempo deste Outro primordial, tão devasta- põe Kupfer (1996), diretora da Lu-
da alienação. O bebé fica retido em dor e tão invasivo. No psicótico gar de Vida. A instituição como um
seu próprio corpo, impedindo a fun- parece não haver o corte promovi- todo está posta como uma rede de
ção materna de colocar suas marcas. do pela função paterna. Encontra- linguagem, na tentativa do enlaça-
Poderíamos explicar assim as frequen- mos crianças psicóticas que empres- mento significante das crianças ali
tes estereotipias de crianças autistas: tam seu corpo aos cuidados mater- atendidas. E existem pelo menos três
mãos à boca, balanceio, ausência de nos excessivos e fora de tempo; a redes discursivas: o discurso dos pais,
olhar e ausência de fala, entre ou- entrada de um terceiro na relação o discurso de cada criança nas ativi-
tras. O acesso ao primeiro signifi- aparece anulada. Se, por um lado, dades e o discurso institucional. E é
cante - aquele emprestado do Outro uma criança psicótica pode falar, exatamente do cruzamento entre estas
primordial - também está impedido, por outro, sua fala explicita, tam- três modalidades discursivas que os
impossibilitando o encadeamento de bém, fracassos na c o n s t r u ç ã o de pontos nodais são produzidos. Assim
outros significantes que formariam uma imagem una de corpo próprio. como em outras instituições para
uma cadeia discursiva. Ou seja, a cri- Sua fala surge fragmentada e rechea- tratamento de autismo e psicoses, os
ança autista não consegue forma lin- da 'de significantes do f a n t a s m a pontos cruciais do tratamento de
guística de representação de si. materno, pois alienou-se a eles, por cada criança da instituição são inter-
Noutra perspectiva, poderíamos uma questão estrutural, mas deles não pretados nas reuniões clínicas da
(alar, também, em fracasso da função consegue se libertar, se separar. Efeti- equipe. É no momento da reunião
materna. Pode ocorrer, sim, que não vamente, uma lei paterna não vigora. clínica que são confrontados fatos
se instale entre um bebé e sua mãe a Mas há "substituições" para esta lei... clínicos com a teoria psicanalítica,
(unção materna. Se não há um outro Aqui entramos no assunto trata- abstraindo-se daí elementos norteado-
que encarne um desejo por esta crian- mento para crianças autistas e psicó- res das intervenções com cada crian-
«,.i, que não interprete seus ruídos e ticas. Gostaria de trazer para vocês ça - e, por que não dizer?, com

l stilns dei Clínic


i ji.1.1 (amíliu ali recebida para tratamen- atividades é feita a partir da alter- ças entre unia intervenção clínica psicanalítica c uma ink-ivc
l i i , intervenções que serão feitas nas nância entre as atividades e o atendi- psicopedagógica. Enquanto na primeira intervenção os temas li^.i
diferentes instâncias do dispositivo clí- mento, que ocorre por duas horas dos à aprendizagem são colocados em cena por escolha da criança
nia). A psicanálise, dessa forma, se faz diárias, quatro dias da semana. Aos e a partir daí trabalhados pelo analista, na segunda perspectiva,
presente por meio da escuta de cada pais é oferecida a escuta em grupo, estes mesmos temas são objetos propostos pela intervenção do
profissional que conduz as atividades o "grupo dos pais", duas vezes por psicopedagogo.
nos grupos e na leitura teórico-clínica semana. Após a triagem, existe, ain- No atendimento clínico de crianças gravemente comprometi-
que é feita de cada hipótese diagnosti- da, um outro espaço de escuta dos das parece fundamental ao analista questionar-se acerca do sujeito,
ca formulada na Lugar de Vida pais e da criança: é um trabalho que acerca de um sujeito que aprende e que subjetiva cada momento de
Nessa instituição há, também, denominamos "referência", em que sua aprendizagem. O dispositivo clínico montado com a escuta
uma vertente do t r a t a m e n t o que um profissional da equipe torna-se parece ser um campo fértil para que se construa um sujeito a par-
aposta na possibilidade de inclusão referência da criança para a institui- tir de um novo posicionamento, o que poderá vir a provocar
escolar das crianças ali atendidas. O ção, ao mesmo tempo em que é refe- efeitos em várias direções.
modelo de pré-escola terapêutica é rência da instituição para os pais e O cruzamento entre a problemática clínica e a problemática esco-
uma proposta de educação e trata- para a criança. Nesta intervenção es- lar é sempre espinhoso, pois tem a ver justamente com o cruzamento
mento integrados. Como afirma Ku- tão previstas entrevistas regulares. Em entre dois campos sobre a infância - o cruzamento entre a psicanálise
pfer (1996), nesta proposta "as pala- relação à inclusão escolar, há uma e a educação. Deste cruzamento podem surgir algumas questões, como,
vras do código e as produções da pequena equipe - o grupo "Ponte" -, por exemplo: o que é um problema de aprendizagem?, com qual
cultura estarão sendo apresentadas de que se encarrega de fazer os contatos noção de desenvolvimento trabalhar?, de que sujeito tratamos?
modo a permitir que a criança se com escolas, professores e diretores No caso da criança psicótica tudo isso se complica, pois os
aproprie singularmente deste material interessados na inclusão de crianças problemas que uma criança psicótica apresenta são mais estruturais
e faça advir daí algo que adquira com Distúrbios Globais de Desenvol- que estruturanr.es, e sabemos que a possibilidade da aprendizagem
valor significante". Na Lugar de vimento. Oferecemos, ainda, atendi- em uma criança psicótica nem sempre coincide com a possibilidade
Vida a oferta de conhecimento é mento individual para a criança e de escolarização, no sentido da entrada na escola.
uma oferta de significantes, uma vez escuta dos pais em alguns casos. O material apresentado faz parte do tratamento clínico de
que nossa leitura teórica sustenta Hoje, não só profissionais da equipe uma criança com hipótese de psicose precocemente detectada - por
que, por meio da oferta de ativida- conduzem estes atendimentos, como volta dos 2 anos e meio de idade. Apesar de a escuta clínica não
des que promovam o laço social, ofe- também alguns estagiários. O traba- estar direcionada às questões da aprendizagem, foi a partir de uma
rece-se também o Outro, um Outro lho institucional é garantido com escuta advertida que se pôde acompanhar o processo cognitivo em
tolerante ao modo de subjetivação reuniões clínicas semanais da equipe; curso nesta criança em direção à palavra falada e à palavra escrita.
de cada criança ali atendida. nestas reuniões são tecidas hipóteses O trabalho acontece com base na escuta da criança e dos pais.
O dispositivo institucional da sobre cada uma das crianças atendidas, A queixa inicial trazida pelos pais era que Danilo apresentava
Lugar de Vida prevê intervenção sendo a teoria e a clínica psicanalíticas "problemas de comunicação". Danilo chegou para tratamento com
com as crianças e com seus pais. O o suporte para tais discussões. 3 anos e meio de idade, apresentando ecolalia, agitação motora e
trabalho voltado às crianças está apoi- Por fim, gostaria de trazei frag- um particular interesse por narrações esportivas (como se fosse um
ado em atividades realizadas em gru- mentos de um caso clínico 2 , atendi- locutor de TV ou de rádio). A hipótese da mãe era que Danilo
pos de cinco ou seis delas, e atual- do por mim na Lugar de Vida, foca- não se desenvolvia bem por causa de duas quedas do berço que ele
incntc estão em funcionamento cinco lizando os impasses de uma criança sofrera entre os 7 e os 9 meses de idade. Logo nas primeiras entre-
urupos, coordenados por profissio- psicótica rumo à letra. Com este re- vistas, Danilo mostrou uma peculiar habilidade, a possibilidade de
ii.i is que trabalham em dupla. As ati- corte pretendo ilustrar aquisições leitura de palavras em português e em inglês, uma habilidade que
v i d . i d c s são propostas de acordo cognitivas como efeito do posiciona- os pais vieram a referir, por volta do oitavo mês do tratamento,
mu d perfil de cada grupo: jogo, mento da criança em relação ao Ou- como algo percebido pelas pajens da creche frequentada por ele.
•iliu .u Kin.il, ateliês de artes, recreação tro e à linguagem. Desse modo, faz- O primeiro ano de tratamento de Danilo foi marcado por
I I . I Y M - I U S . A rotina dos grupos de se importante considerar as diferen- forte agitação motora, pela frequência de uma fala repetitiva e de
II.HI.!!,(""• S( 'in tcrcplor e pelo espedaçamcnto de materiais (ele u>r-
l.iv.i, p u n i . i v . i c destruía objetos oferecidos). Instalou-se em m i m
u m < i T l < > desânimo com pitadas de angústia em relação à total
fragmentação que Danilo punha em cena nos atendimentos. O que
l Em uma série de sessões. D,nu
Io propõe jogos com I c t r i n l u i s dr
borracha; com elas ele inventa nm.i
"receita do sushi", a qual eu anoto.
l.i/.ci? - perguntava-me nesse ponto do tratamento de Danilo. Nela, ele diz: "... para se fazer um
Uma intervenção realizada foi a redução da oferta de materi- sushi é preciso duas mil gramas cie
.iis c também a interrupção da sessão após uma ação de Danilo almôndegas, quatro mil gramas de
(|iie pudesse evidenciar um movimento seu que me incluísse. Junto almama, quatro mil gramas de amos
disso, a pergunta para Danilo: "O que você quer fazer hoje?" Um [que Danilo corrige para 'arroz'],
eleito imediato pôde ser notado nele: o surgimento de um olhar oito mil g r a m a s de a l m o m a . O
interrogativo e consequente sustentação do olhar para mim. modo de fazer é: nós colocamos as
Já no segundo ano de tratamento pôde-se perceber uma di- nossas pitadas de bolo..." Danilo me
minuição da agitação motora e um crescente interesse de Danilo entrega dois palitos - os hashis -
pelos materiais por mim oferecidos. Uma cena importante no tra- para comermos os sushis, ou as le-
tamento ocorreu quando ele chegou na sala e logo iniciou um trinhas, como preferirem! Esta cena
jogo de enfileiramento de canetinhas coloridas, arrastando-as para parece ser um modo de incorpora-
a frente e para trás. Ofereci papel sulfite para Danilo, que, por ção das letras, que, na brincadeira
sua vez, recusou. Passei, então, a reproduzir no papel os movi- de Danilo, são as próprias letrinhas
mentos que ele fazia com as canetinhas, agora deixando a marca de borracha.
no papel de cada uma delas. Diante de tal intervenção, Danilo No quarto ano de tratamento,
passou a nomear as cores das canetinhas e, em seguida, dirigiu-se pela primeira vez, Danilo desenha
à janela, ficando de costas para mim e em silêncio cerca de 10 uma sequência de figuras humanas.
minutos. Depois disso, voltou à mesa em que eu estava e com os Ele nada' falou a respeito delas, mas
materiais fez, ele mesmo, traçados semelhantes aos feitos por mim parece tê-las contemplado. Surgiu o
na primeira folha. interesse de Danilo por colagens e
Nas sessões seguintes parece ter ocorrido um efeito-sujeito em construção de objetos em terceira
duas direções: aumento do olhar (que pode ser entendido como dimensão (por exemplo, a construção
uma demanda ao Outro) e diminuição da fala ecolálica. Seguiram- de "caravelas"). Pela sala, Danilo de-
se narrações esportivas, agora acompanhadas de produções gráficas senhou "circuitos de corridas" e
("quadras esportivas", "campos de futebol", etc.). Eu poderia arris- "competições", propondo marcação
car que, nesse momento do tratamento, na nova ordenação de lin- de pontos, que, a princípio, teve
guagem de Danilo, o Outro ao qual ele passa a se dirigir parece anotação "I x II", e depois "O x
não se apresentar - para ele - como um Outro não invasivo, do OO", como forma de representar as
qual nada se quer ou não se pode saber. Danilo pôde experimen- casas decimais, já que não escrevia os
tar uma relação com um Outro consistente - aquele que lhe números, apesar de reconhecê-los.
reenvia um sentido -, uma vez que sua fala passa a prever um Os jogos com as letrinhas de
receptor para ela. Este parece ser o momento da alienação ao cam- borracha prosseguiram. Danilo passa
po do Outro no tempo do tratamento. a formar palavras com as letrinhas,
No terceiro ano do tratamento ocorre um surpreendente au- juntando uma a outra, para, em se-
mento das produções de Danilo, incluindo a mim como analista: guida, misturá-las rapidamente, estan-
ele desenha e nomeia ("pintura traço", "pintura maluca", etc.), bem do tomado por um riso compulsivo
como aparecem em sua fala noções de dentro-fora, dia-noite e eu- dirigido a mim. Danilo parece saber
você. Este momento do tratamento coincide com a entrada de sobre as letras, mas parece querer
Danilo na escola. enganar o outro sobre isso.

I
Estilos da Clínica
Recentemente Danilo chegou di-
Nas sessões, Danilo tem escolhido brincar com "jogo de boli-
/ r i u l o i|iit- qucTi.i "Ia/cr uni presente
che" e com "jogo de bingo". Sem dificuldades faz soma de nume-
p.ii.i .1 mamãe". Ele embrulhou uns
rais, multiplica números simples e subtrai. Em relação à leitura, tem
palitos cm um papel sulfite e sugeri
aceitado com maior facilidade as minhas sugestões de livros infan-
i j i i c de escrevesse um bilhete para
tis, já que sua preferência recai sobre revistas com programação
cl.i; eu disse que poderia ajudá-lo se
esportiva e de TV por assinatura.
quisesse. Escrevi na capa "Para a Ma-
Para finalizai, algumas considerações sobre esse caso. A primeira
mãe", e Danilo desenhou círculos na
hipótese que faço é que o acesso de Danilo à letra - acesso tido
parte de dentro. Pontuei: "Falta es-
precocemente (Danilo já lia aos 3 anos e meio) e de forma mecâni-
crever o seu nome!" Ele me olhou,
ca - parece não ter sido mediado pelo Outro.
íez o gesto de quem iria me entregar
O tratamento de Danilo permitiu um novo posicionamento
o lápis de cor, e eu disse: "Você me
dele em relação à palavra. Minha hipótese é que foi possível, pela
ajuda?" Diz que sim, e naquele mo-
escuta, a conformação de um Outro não-invasivo, um Outro atra-
mento achei importante que sua pró-
vessado pela linguagem e efeito dela (A barrado). A possibilidade
pria mão escrevesse para a sua mãe:
de Danilo estabelecer uma relação de linguagem com referência ao
pus, então, minha mão sobre a sua
Outro como um interlocutor permitiu-lhe, também, produzir com
e dirigi seu gesto para a escrita de
um outro e para um outro.
seu nome. Danilo ficou radiante!
Um efeito importante do tratamento analítico de Danilo em
Em sessões seguintes, Danilo
relação à aquisição da letra falada e escrita são as novas ordenações
propôs a mim "campeonatos de fute-
espaciais e temporais conseguidas por ele em torno de um novo
bol", em que aparecem regras muito
posicionamento subjetivo. Podemos apostar que ele está muito pró-
claras de um jogo de futebol, como
ximo da escrita para o outro. Por outro lado, os pais não se quei-
o sentido do escanteio, da lateral, do
xam mais dos "problemas de comunicação" de Danilo; hoje ele está
pênalti, e dos cartões vermelho e
em franca relação de linguagem.
amarelo. Ele propõe que sejam sedes
Enquanto eu preparava esta apresentação, percebi que a inter-
para os jogos: "Os jogos serão nos
venção que fiz com Danilo - "O que você quer fazer hoje?" - per-
EUA (em Washington), no Canadá
mitiu a ele experimentar e responder à demanda de um Outro
(em Winnipeg) e na Austrália (em
não-invasivo, Outro construído no dispositivo analítico. E, talvez
Sydney)". Em breve ele diz que
mais que isso, um outro - em sua versão imaginária - mais tole-
acontecerá o "campeonato internacio-
rante com as vicissitudes e os tropeços do sujeito. De certo modo
nal da USP". Nesta fase, Danilo se
o recorte que fiz do caso me mostrou, escancarou, a resposta de
despede de mim com "até o próxi-
Danilo a minha demanda. Podemos pensar, ainda, que a escuta
mo amistoso, Gislene!"
analítica abriu espaço para o desejo de Danilo em estar com o
Apesar de todos os avanços conse-
outro e com ele estabelecer um laço de linguagem.
guidos no tratamento, atualmente Da-
Como pensar a clínica psicanalítica com crianças psicóticas e o
nilo está sem escola. Ele permaneceu
lugar da letra aí? Os fragmentos deste caso parecem demonstrar-nos
por quase um ano em uma pré-escola,
que o acesso à letra só é possível a partir das estereotipias da cri-
tendo sido convidado a se retirar pou-
ança. Dito de outro modo, a intervenção nesta clínica parte do
cas semanas antes do final do ano pas-
real para o simbólico, e este parece ser o desafio do psicanalista.
sado. As tentativas que os pais empre-
Por fim, pergunto, arriscando uma resposta: as crianças psicóticas
enderam neste ano fracassaram. Restam-
podem aprender a ler e a escrever? Penso que sim, as crianças psicóticas
nos - a eles e a mim - empreender-
podem aprender, mas de uma forma absolutamente singularizada. E po-
mos novas buscas para a inclusão esco-
dem mais, podem fazer laço social no sentido mais amplo. Mas elas pre-
lar de Danilo no ano que vem.
cisam ser muito bem tratadas e escutadas... Este é o nosso desafio! •

da Clínica
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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deslocar o olhar e supor
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des. In Edição standard brasileira das rentemente ininteligível, o
tro de Estudos Interdisciplinares sobre a da cadeira e estendia a cabeça para fora; isso
obras completas de Sigmund Freud (J. esforço incansável dessas
Comunicação Humana (CEICOMHU) da crianças no contato com era um 'esconderijo de cabeça' [Kopf-verstich].
Salomão, t r a d , ) (Vol. 14, pp. 129-62). os objetos esboça uma
Unesp de M a r í l i a , entre os d i a s 9 e 11 de Se, ao fazer isso, eu me desfigurava e a palavra
Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1989. tentativa de construção
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Th is essíiy outlines
blemas, l (1), 18-33. 16 de o u t u b r o de 1999, e p u b l i c a d o nos
the reflection upon insti-
de maneira semelhante. Essa coerção, as pala-
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Ornicar? Revista do Campo Freudiano, a cushion. Departamento de Letras Modernas da FFLCH-USP, é
Recebido em novembro/2000. Psychosis; children; ins- pesquisadora do Laboratório do Manuscrito Literário dessa
37, abr.-jun., 1986, 13-4.
titutional work; groups;
mesma faculdade e membro da equipe das Oficinas
psychoanalysis
Terapêuticas da PUC-SP.

lEstilos da Clínica