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AGROECOLOGIA NA CONSTRUÇÃO DO

DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVEL1

Rodrigo Machado Moreira2


Maristela Simões do Carmo3

RESUMO: Neste artigo faz-se um apanhado sobre as origens e a evolução histórica do pensamento agroecológi-
co, ressaltando as principais concepções teóricas e suas bases epistemológicas e metodológicas, construídas sobre
a crítica ao modelo convencional de desenvolvimento e agricultura. Propõem-se ainda as diretrizes para a cons-
trução de programas de desenvolvimento rural sustentável com enfoque agroecológico. O apanhado histórico da
agroecologia identifica duas correntes de pensamento agroecológico exercendo forte influência sobre cientistas e
agricultores redor do mundo. Expõem-se diversas definições de agroecologia, sendo retratada como uma ciência
em plena construção a qual exige dos cientistas vinculados ao seu desenvolvimento uma postura aberta e pouco
dogmática. Definem-se e comentam-se os diversos conceitos inerentes à agroecologia, como o agroecossistema, a
co-evolução e o potencial endógeno. As reflexões sobre as bases metodológicas mostram os caminhos percorridos
pelo pensamento sistêmico nas ciências agrícolas convencionais e definem três perspectivas agroecológicas de
pesquisa, sendo a Investigação/Ação Participativa o método central da agroecologia. Considera-se que deve ha-
ver uma disposição permanente em promover esse enfoque nos centros de pesquisa e desenvolvimento por meio
de esforços interdisciplinares que integrem, na prática, as disciplinas que foram separadas pelo desenvolvimento
da ciência convencional. A pesquisa agroecológica, finalmente, deve articular ONGs, movimentos sociais, seto-
res públicos e empresariais para aumentar o espaço da agroecologia na construção do desenvolvimento rural
sustentável.

Palavras-chave: agroecologia, agricultura sustentável, sustentabilidade, desenvolvimento rural.

AGRO-ECOLOGY TOWARD SUSTAINABLE RURAL DEVELOPMENT

ABSTRACT: The paper traces the origins and history of the agro-ecological thought, highlighting main
theoretical concepts and their epistemological and methodological foundations. Departing from criticisms
of conventional development and agriculture models, we propose a few guidelines for building sustain-
able rural development programs. The historical perspective indicates two theoretical traditions that have
been influencing scientists and farmers worldwide. We expose several definitions related to agro-ecology,
portraying it as a science-in-construction and demanding open and less dogmatic epistemological e meth-
odological approaches from committed scientists. We define and comment a number of concepts of agro-
ecology, such as: agro-ecosystem, co-evolution and endogenous potential. The review on the methodologi-
cal foundations brings a reflection on the paths taken by the systemic thought in the context of the con-
ventional agricultural sciences. We define three agro-ecological research perspectives, Participatory Ac-
tion Research being the core method in agro-ecology.) Through a permanent willingness to promote this
approach, scientists in public research centers should make efforts towards interdisciplinary projects able
to integrate, in the practice, subjects separated by conventional science. Finally, agro-ecological research
efforts should articulate non-governmental organizations, social movements and public and private sec-
tors to enhance the agro-ecological space in its construction of sustainable rural development.

Key-words: agro-ecology, sustainable agriculture, sustainability and rural development.

JEL Classification: Q1, Q16, Q18.

1Artigo desenvolvido a partir da dissertação de mestrado do primeiro autor: “Transição Agroecológica: conceitos, bases sociais e a localida-

de de Botucatu-SP/Brasil”. Pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES). Registrado
no CCTC n. ASP-04/2004.
2 Médico Veterinário, Mestre, Área de Concentração, Planejamento e Desenvolvimento Rural Sustentável (FEAGRI/UNICAMP).
3Engenheira Agrônoma, Doutora, Professora Adjunta do Departamento de Gestão e Tecnologia Agroindustrial, Setor de Economia e Socio-

logia Rural (FCA/UNESP), Professora Participante da FEAGRI/UNICAMP.

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1 - INTRODUÇÃO mentos ecologistas, principalmente nos últimos 30


anos, não poderia ser desassociado da internaciona-
Está cada vez mais evidente, para a agroeco- lização da agricultura industrializada como forma
logia, que a transformação da agricultura rumo à hegemônica de manejo dos recursos naturais. A crise
sustentabilidade está intimamente relacionada aos ecológica planetária é associada, na atualidade, ao
processos de transformação da sociedade como um “manejo industrializado dos recursos naturais que rompe
todo, premissa que não condiz com a simples substi- as taxas de re-acomodação e reposição dos resíduos, produ-
tuição de insumos industriais - vinculados aos mo- zindo um crescente incremento da entropia” (CASADO;
delos da Revolução Verde - por insumos mais ecoló- SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 38).
gicos, modelo característico das chamadas agricultu- A internacionalização do capital teve a ciência
ras empresariais do recém-criado agronegócio orgâ- como grande aliada, subordinando seus interesses
nico. O processo de construção de uma agricultura aos da Revolução Verde (RV)4. Como ressalta Casa-
realmente sustentável, embora implique a substitui- do; Sevilla-Guzmán; Molina (2000, p. 157), a penetra-
ção inicial de insumos, não se resume a isso, deven- ção do capitalismo “se introduziu também no âmbito
do passar, necessariamente, pelo fortalecimento da acadêmico-científico, mercantilizando as universidades e os
agricultura de base familiar, por profundas modifi- institutos de pesquisa”, obviamente com exceções; mas
cações na estrutura fundiária do País, por políticas talvez um fenômeno decisivo tenha sido o parcela-
públicas consistentes e coerentes com a emancipação mento do conhecimento científico e a corporativiza-
de milhões de brasileiros da miséria e pela revisão ção da ciência como instrumentos do binômio capi-
dos pressupostos epistemológicos e metodológicos tal-estado na promoção da modernização conserva-
que guiam ações de pesquisa e desenvolvimento. dora. A compartimentalização da pesquisa científica
Este artigo realiza um apanhado teórico sobre a produziu e reforçou a separação artificial entre as
agroecologia, abordando seus aspectos históricos, ciências sociais e naturais, dificultando, dessa manei-
premissas filosóficas e metodológicas, principais au- ra, a consolidação de um enfoque mais holístico dire-
tores e sua contribuição para a conformação de estra- cionado ao manejo dos recursos naturais.
tégias de desenvolvimento rural sustentável. Inicia-se O fato de que as tecnologias convencionais
com a compreensão dos caminhos tomados pelo con- aumentaram a produtividade agrícola de cultivos
ceito de desenvolvimento sustentável e suas incon- (ainda que isoladamente) e contribuíram para o au-
gruências com a visão agroecológica de sustentabili- mento de divisas pela exportação das monoculturas
dade, para então aprofundarem-se as bases históricas, é fato que não se pode negar. Em sua interpretação
conceituais e metodológicas da agroecologia. Assim, é co-evolucionista do desenvolvimento agrícola con-
intenção deste artigo reforçar que a contribuição da vencional na América Latina, na qual este artigo se
agroecologia vai além da questão técnica na agricultu- aterá com maior cuidado ao seu final, Norgaard e
ra, pois traz reflexões fundamentais para a transfor- Sikor (2002) ressaltam que os agricultores, cujas ter-
mação das Ciências Agrárias e para o redireciona- ras e posição sócio-econômica eram compatíveis com
mento da co-evolução entre sociedade e natureza. as tecnologias agrícolas convencionais, integraram-

4A Revolução Verde (RV), fenômeno já extensamente estudado,


2 - AGROECOLOGIA NA RE-CONSTRUÇÃO refere-se ao conjunto de políticas e ações que levaram à inexorável
DO DESENVOLVIMENTO RURAL SUS- modernização conservadora da agricultura nos países do então
TENTÁVEL terceiro mundo, a partir da Segunda Guerra Mundial. Porém, as
conseqüências políticas, sócio-econômicas e ecológicas dessa
“pseudo-revolução” ainda permanecem ocultas aos olhos daque-
O agravamento da crise ecológica e social que les que atualmente capitaneiam a revolução duplamente verde,
tendo ela a biotecnologia como portadora do elemento que repara-
vem sendo exposto à sociedade global pelos movi- rá os males causados pela RV.

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Agroecologia na Construção do Desenvolvimento Rural Sustentável 39

se totalmente à economia de mercado, porém, a vimento (CMMAD)5, tem-se observado a “ecologiza-


modernização também representou a ruptura cultu- ção” geral dos mais distintos discursos em caráter pla-
ral, ecológica e social de suas comunidades. Em no- netário, dando-se a impressão de que o novo (ou o
me do progresso, os agroecossistemas foram trans- sustentável) levará a todos, acima dos interesses de
formados, as culturas tradicionais foram distorcidas classe, à salvação e à integração ao desenvolvimento.
e as estruturas sociais tiveram suas bases modifica- Trata-se de um suposto acordo para uma grande
das. Os agricultores que não tinham suficiente aces- variedade de concepções, das quais muitas conver-
so à terra e a outros recursos produtivos não se ajus- gem ainda para o entendimento de Desenvolvimento
taram às condições ecológicas e sócio-econômicas da Sustentável como um sinônimo de crescimento eco-
agricultura convencional e permaneceram fora da nômico sustentável. E apesar de um aparente consen-
dinâmica do desenvolvimento rural. so sobre as três dimensões da sustentabilidade (ecoló-
Não é novidade que a modernização industrial gica, social e econômica), na prática, “mais parece um
da agricultura brasileira foi denominada conservado- diálogo de surdos, o qual somente favorece segmentos soci-
ra, pois não foi capaz de alterar a estrutura agrária do ais apoiados na elite dirigente, mais voltada a sua própria
País, cabendo à agricultura um crescimento desigual e reprodução e ampliação” (CARMO, 1998, p. 218).
parcial, com elevada concentração de terra e de renda Em uma breve análise do conceito “oficial” de
(CARMO, 1996). Aqui começa a fazer mais sentido o sustentabilidade pode-se notar que ele assume dife-
caráter social da crise ecológica associada ao manejo rentes facetas quando consideram nações mais e me-
industrial dos recursos naturais, pois a própria indus- nos industrializadas, mas de mesma natureza. Para as
trialização brasileira, como um todo, assim como em mais industrializadas, onde o alto nível de consumo já
outros países subdesenvolvidos, necessitava de amplo excedeu a produção doméstica e a “capacidade de
contingente populacional à disposição para a concre- suporte ecológico”, o desenvolvimento sustentável
tização do modelo urbano-industrial. De fato, a partir permite a realização contínua do potencial de cresci-
de meados do século XX, não faltariam ex-assalaria- mento, desde que não seja às custas dos outros, sendo
dos rurais e ex-pequenos produtores para engrossa- tal crescimento de natureza industrial, pois, de acordo
rem as filas nas fábricas urbanas, servindo como repo- com a CMMAD (1987), a produção industrial é de “fun-
sitórios utilitaristas da injustiça social herdada do damental importância para as economias das sociedades
processo colonizador brasileiro. modernas e motor indispensável para o crescimento”. Para
A industrialização agrícola e urbana foi a justa os países menos industrializados, desenvolvimento
medida para a manutenção do poder conquistado sustentável significa primeiramente fortalecer o po-
pela elite agrária brasileira no fim do século XIX. E a tencial para o crescimento econômico naquelas áreas
partir da ditadura militar ela teria todos os instrumen- onde as necessidades básicas ainda não foram atingi-
tos estatais, entre eles, crédito e tecnologia, necessários das e, em um segundo momento, promover o cresci-
para a consolidação dos complexos agroindustriais, mento generalizado do consumo para um crescimen-
tudo sob o comando da internacionalização do capital to econômico sustentado, desde que não exceda a
orquestrada pelas instituições de Bretton Woods. “...capacidade de suporte ecológico”, é claro. Sobre a agri-
A opção pelo Desenvolvimento Sustentável, cultura, o relatório expressa-se extremamente vincu-
que surgiu em parte como resposta às conseqüências lado aos paradigmas que deram base para a Revolu-
negativas sobre os sistemas sociais e ambientais gera-
das pelo modelo “moderno” de desenvolvimento, foi 5Segundo a CMMAD, o Sustentável deve ser economicamente
amplamente discutida e refinada no seio dos próprios viável, socialmente justo e ecologicamente equilibrado. “O Desen-
volvimento Sustentável é um processo de transformação, no qual a explo-
organismos oficiais de desenvolvimento. Desde 1987, ração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação tecnológica e
quando foi difundido o termo sustentável pela Co- a mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial presente e
futuro, a fim de atender as necessidades e aspirações humanas”
missão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvol- (CMMAD, 1987).

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ção Verde, sem se dar conta que a industrialização da tendo como parâmetro evolutivo a modernização e o
agricultura poderia estar na base dos problemas ge- crescimento econômico, a Ciência perde uma grande
rados nos países do terceiro mundo, a partir da impo- oportunidade de revisão profunda do paradigma
sição de tal modelo agrícola. Assim, para a CMMAD dominante, postergando uma mudança que já deve-
(1987), as deficiências do modelo industrial agrícola ria estar sendo realizada. Porém, antes de se concei-
poderiam ser superadas “por novas técnicas de cultura tuar que tipo de desenvolvimento rural se quer, a
de tecidos e engenharia genética que gerarão, em breve, va- partir da agroecologia, é importante refazer rapida-
riedades de plantas resistentes a pestes e doenças, serão mente os caminhos do termo desenvolvimento rural
capazes de fixar nitrogênio atmosférico e reduzirão as amea- até a atualidade.
ças da poluição por agroquímicos”. Portanto, parece que O termo Desenvolvimento Rural foi cunhado
o Desenvolvimento Sustentável inclui estratégias nos anos 70s como estratégia para contrabalançar os
ambientais baseadas no desenvolvimento contínuo de efeitos negativos sobre os países do terceiro mundo,
atividades industriais supostamente sustentáveis e do modelo de “desenvolvimento comunitário” am-
vinculadas à globalização do capital. Essa é, em pou- plamente aplicado pelas agências internacionais de
cas palavras, a essência do discurso ecotecnocrático desenvolvimento durante as décadas de 1950 e 1960.
de sustentabilidade, que a agroecologia rejeita e para O desenvolvimento comunitário estava baseado na
a qual busca alternativas (SEVILLA-GUZMÁN e WOOD- tradição sociológica da vida rural (Rural and Farm
GATE, 1997). Life Studies)6 e contou com a ajuda das agências in-
A agroecologia não se restringe ao manejo ternacionais de fomento fortemente vinculadas aos
dos recursos naturais em bases ecológicas e vem se interesses norte-americanos. O primeiro programa de
constituindo em uma importante estratégia para a desenvolvimento comunitário foi aplicado na Índia e
análise dos impactos sócio-ambientais mencionados financiado pela Fundação Ford em 1948. Após resul-
e para a implementação de programas de desenvol- tados expressivos nos primeiros anos, em 1952 o go-
vimento rural em bases “realmente sustentáveis”, verno indiano lançou o Plano de Desenvolvimento
que ofereçam alternativas aos modelos tecnológico e Comunitário que, apesar de pretender ser uma estra-
de desenvolvimento da “nova” revolução verde tégia participativa nas comunidades rurais e com fins
(biotecnologia associada ao lobby petro-agroquími- de estimular a organização comunitária para a melho-
co). A necessidade de se explicitar a concepção agro- ria da agricultura, saúde, educação e infra-estrutura
ecológica de sustentabilidade e desenvolvimento de- nas zonas rurais, revelou-se uma tentativa de ociden-
ve-se ao fato de que há um discurso hegemônico talizar as comunidades rurais hindus, para que assim
também para a sustentabilidade, um discurso, como pudessem introduzir os pacotes tecnológicos da agri-
se viu, com características ecotecnocráticas e que foi cultura industrializada. O que se gerou com o tempo,
rapidamente incorporado às estratégias de desen- não somente na Índia, mas em outros 60 países, onde
volvimento implementadas pelos mesmos organis- as agências internacionais vinculadas ao Banco Mun-
mos de desenvolvimento que, nos últimos 40 anos, dial se estabeleceram e intervieram, foi o aumento da
promoveram a modernização conservadora da agri-
cultura nos países periféricos. 6A tradição sociológica da “Vida Rural” surgiu nos Estados Unidos,

A adequação do discurso da sustentabilidade no final do século XIX e início do século XX, e deu os primeiros
passos para o suporte das teorias de modernização agrária após a
à continuidade do modelo “moderno” de desenvol- Primeira e a Segunda Guerra Mundial, tendo como trabalho precur-
vimento rural promove alguns ajustes tecnológicos à sor o de Charles Galpin intitulado The Rururban community (SEVILLA-
crise social e ecológica na agricultura e impõe novas GUZMÁN; WOODGATE, 1997, p. 89). Essa tradição, vinculada à cor-
rente teórica dos Rural Life Studies, foi uma tentativa teórica e meto-
“verdades científicas” como portadoras (mais uma dológica de eliminar as diferenças rural-urbano “para evangelizar se-
vez) de soluções milagrosas para o problema da fo- cularmente o campo a partir das cidades, sentando as bases para industriali-
zá-lo tanto econômica quanto culturalmente” (CASADO; SEVILLA-GUZ-
me e da pobreza no mundo. Porém, ao continuar MÁN; MOLINA, 2000, p. 120).

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diferenciação entre zonas ricas e zonas pobres, com a Por sua vez, o discurso ecotecnocrático da
infra-estrutura servindo apenas para que as elites sustentabilidade foi incorporado às estratégias de
locais circulassem seus produtos (CASADO; SEVILLA- desenvolvimento rural integrado para então se me-
GUZMÁN; MOLINA, 2000). tamorfosear, nos anos 90s, em programas de desen-
Já na década de 1970, ficou patente o fracasso volvimento rural sustentável, agora mediante a “in-
dos programas de desenvolvimento comunitário para dustrialização sustentável da agricultura”. E continua
aliviar a pobreza e a desigualdade nos países periféri- sendo o equívoco central dessa estratégia sustentável,
cos pelo aumento da produtividade agrícola. Tomou continuar a tornar hegemônica e extensível a todo o
fôlego, então, outro intento modernizador, agora por planeta o manejo industrial dos recursos naturais. Tal
meio de técnicas e estruturas de difusionismo mais forma de manejo é incompatível com o conceito de
agressivas e integradas. Era o Desenvolvimento Rural sustentabilidade ecológica, pois a agricultura indus-
Integrado que surgia a partir de teorias sociológicas, trializada transforma os ciclos naturais e os processos
antropológicas e econômicas da modernização agrá- biológicos, forçando as bases da reprodução biótica
ria, com base nas seguintes premissas: 1) a causa da do ar, da água e da terra. A agricultura industrializa-
pobreza rural nos países subdesenvolvidos era a ca- da, baseada no monocultivo, transforma a “trama da
rência de tecnologias adequadas às suas circunstân- vida” e provoca uma irreparável erosão genética
cias e à falta de capital humano para realizar a mu- (GLIESSMAN, 2001 e ALTIERI, 2002).
dança tecnológica; 2) o responsável por essa carência Para o desenvolvimento rural sustentável, a
de capital humano era a falta de investimentos em partir da agroecologia, que não pretende ser hegemô-
pesquisa, experimentação agrícola e educação rural; e nica para todas as comunidades rurais do mundo, pe-
3) a falta de investimentos devia-se às políticas nacio- lo contrário, a sustentabilidade e a estratégia de de-
nais que não valorizam a agricultura. Foi então que se senvolvimento rural devem ser definidas a partir da
constituíram, no Brasil, a partir de fins dos anos 60s e participação e da identidade etnoecossistêmica de
início dos 70s, todos os aparatos estatais (crédito, pes- cada localidade a ser considerada. Tal estratégia, para
quisa e extensão rural) para a intensificação do mode- tanto, deve “nascer desde dentro”, ou seja, de forma
lo tecnológico da Revolução Verde e a consolidação endógena, pelo fortalecimento dos mecanismos de
dos Complexos Agroindustriais. resistência ao discurso hegemônico da modernização
Tanto a estratégia de Desenvolvimento Co- agrária, tão comum nas zonas rurais.
munitário (anos 50s e início dos 60s), como o Desen- Assim, o conceito de desenvolvimento rural
volvimento Rural Integrado (fim dos anos 60s, 70s e proposto baseia-se no descobrimento, sistematiza-
80s) são enfoques de desenvolvimento uni-linear ção, análise e fortalecimento desses elementos de re-
vinculados ao pensamento econômico liberal e que sistência específica de cada identidade local ao pro-
deram sustentação à modernização agrária. Ela defi- cesso modernizador agrário, fortalecendo as formas
niu, utilizando o conhecimento científico ocidental, de ação social coletiva que possuam um potencial
como “progresso para as zonas rurais a homogeneização endógeno7 transformador. Portanto, não se trata de
sócio-cultural, e com ela, a erosão do conhecimento local
gerado mediante a interação homem/natureza em cada 7Potencial endógeno é o conjunto de recursos localmente disponí-

específico agroecossistema”. Portanto, constitui-se num veis que podem ser potencializados, gerando estratégias diversas
que promovam o desenvolvimento local em bases sustentáveis
erro generalizar um projeto de desenvolvimento (BORBA, 2002). Segundo Casado; Sevilla-Guzmán; Molina (2000), o
para todas as regiões rurais do planeta pela “imposi- potencial endógeno tem duas dimensões, uma social e outra
ção paulatina das pautas de relações econômicas, sociais, ecológica. A dimensão social é representada pelos seguintes ele-
mentos: a força e a organização social do trabalho, a identidade
políticas e ideológicas vinculadas à modernização, definida local, a autonomia, a cooperação e outras formas de ação social
esta a partir da identidade sócio-cultural ocidental” (CA- coletiva. Já a dimensão ecológica é representada pela agricultura
de baixos “inputs”, pela a escala de produção, pela base energética
SADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 138). e pelos agroecossistemas.

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levar soluções prontas para a localidade, senão de se definir os seguintes princípios: 1) integralidade: ainda
detectar as que ali existem (a exemplo das experiên- que o manejo dos recursos naturais seja o elemento de
cias de manejo ecológico dos recursos naturais) e de partida para o esquema de desenvolvimento a ser
“acompanhar os processos de transformação” numa construído, deve-se levar em conta o aproveitamento
dinâmica participativa (SEVILLA-GUZMÁN e MOLINA, dos distintos elementos existentes na região. O estabe-
1993b e CASADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. lecimento de atividades econômicas e sócio-culturais
139). deve abarcar a maior parte dos setores econômicos
Constitui-se numa ferramenta fundamental para permitir o acesso aos meios de vida pela popula-
da estratégia agroecológica de desenvolvimento ção; 2) harmonia e equilíbrio: os esquemas de desen-
rural sustentável a construção participativa de tecno- volvimento rural, gerados a partir dos recursos natu-
logias agrárias, o que permite “...fortalecer a capacida- rais locais, devem contrabalançar crescimento econô-
de local de experimentação e inovação dos agricultores com mico e qualidade do meio ambiente, buscando sem-
os recursos naturais específicos de seus agroecossistemas” pre o equilíbrio ecológico; 3) autonomia de gestão e
(CASADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 139). controle: os próprios habitantes da localidade devem
Com isso criam-se e avaliam-se tecnologias autócto- gerar, gerir e controlar os elementos-chave do proces-
nes, articulando-as a tecnologias externas apropriá- so de desenvolvimento; 4) minimização das externa-
veis mediante o ensaio e a adaptação, para serem lidades negativas nas atividades produtivas: consiste
incorporadas ao acervo cultural dos saberes e ao no estabelecimento de redes locais de produção, troca
sistema de valores próprios de cada comunidade, de insumos e consumo de produtos ecológicos, como
buscando sempre a autonomia e o "empoderamento" forma de enfrentar o poder exercido pelo mercado
da comunidade. convencional de insumos de origem industrial e sinté-
Não se trata de substituir a experimentação tica; 5) manutenção e fortalecimento dos circuitos
científica e desdenhar sobre as tecnologias desenvol- curtos de comercialização: consiste na elaboração de
vidas pelas ciências agrárias convencionais, mas sim estratégias que fortaleçam ao máximo os mercados lo-
de transferir o núcleo de poder baseado no conheci- cais e possibilitem aos agricultores aprenderem e te-
mento científico para o núcleo do conhecimento rem controle sobre os processos de comercialização,
local, que geralmente responde diretamente às prio- quando se deve então passar aos mercados micro e
ridades e capacidades das comunidades rurais em macrorregionais. Se os grupos locais assim decidirem,
questão, “...aceitando que estas são capazes de desenvol- devem então tentar conquistar mercados externos
ver agroecossistemas eficazes, rentáveis e sustentáveis” vinculados às redes globais de mercado solidário;
(CASADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 140). 6) utilização do conhecimento local vinculado aos sis-
A estratégia agroecológica não pode ser gene- temas tradicionais de manejo dos recursos naturais:
ralizada, pois conta com a participação ativa de cada essa característica é central para o enfoque agroecoló-
contexto e aposta mais na heterogeneização do que na gico de desenvolvimento rural, pois é o conhecimento
homogeneização. E reconhece que não há desenvol- local, em interação horizontal com o conhecimento
vimento rural se este não estiver baseado na agricul- científico, que pode aportar soluções realmente sus-
tura como forma de articulação entre o sistema sócio- tentáveis para a região considerada; e 7) pluriativida-
cultural local e a manutenção dos recursos naturais de, seletividade e complementaridade de rendas: a
locais. Essa estratégia, portanto, possui um caráter pluriatividade difere da simples introdução de ativi-
agrário e de natureza agroecológica, e poderia ser dades não agrícolas no meio rural, tão característica
definida como integral, endógena e sustentável. dos programas de desenvolvimento rural integrado.
Assim, na elaboração de um plano de desen- Não se trata de substituir, portanto, a atividade agrí-
volvimento rural em bases agroecológicas, pode-se, a cola pela atividade turística desordenada e controlada
partir de Casado; Sevilla-Guzmán; Molina (2000), por grupos externos a comunidade e que se apro-

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priam do potencial endógeno da localidade. A idéia é vas nos fluxos de materiais e energia, e que permitam
fortalecer o turismo rural como uma das rendas com- o funcionamento do ecossistema; 5) o estabelecimento
plementares (à renda agrícola), por meio de estruturas dos mecanismos bióticos de regeneração dos materi-
associativas dos agricultores locais, gerando laços de ais deteriorados, para permitir, no longo prazo, a
solidariedade, e tomando especial cuidado com a manutenção da capacidade produtiva do agroecossis-
valorização da cultura local. O caráter de seletividade tema; 6) a valorização, recuperação e/ou criação de
está relacionado à escolha coletiva e, portanto, parti- conhecimentos locais para a sua utilização como ele-
cipativa, de que tipo de atividade produtiva comple- mento de criatividade, com intuito de melhoria da
mentar se introduzirá na localidade. qualidade de vida da população, definida a partir da
Esses princípios, para um programa de desen- identidade local; 7) o fortalecimento dos circuitos
volvimento rural, com enfoque agroecológico, escla- curtos de produção e de consumo de mercadorias que
recem as suas adjetivações de integral, endógeno e permita uma progressiva expansão espacial, a partir
sustentável. O Desenvolvimento Endógeno é o ingre- dos acordos participativos alcançados pela sua forma
diente fundamental dessa estratégia, pois parte da de ação social coletiva; e 8) a potencialização da diver-
valorização dos recursos e processos locais, mediante sidade biológica e sócio-cultural.
a participação ativa dos habitantes na gestão e contro-
le do desenvolvimento, como forma de re-criar a hete-
rogeneidade no meio rural e de criar soluções tecno- 3 - ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS
lógicas específicas para cada agroecossistema (CASA- DA AGROECOLOGIA
DO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000).
O potencial endógeno tem uma natureza so- O termo agroecologia sugere uma série de de-
cial e outra ecológica, e cabe aos agroecólogos des- finições relacionadas semanticamente à palavra e de
cobrirem, juntamente com os agricultores locais, fato tem sido utilizado para dar sentido a diferentes
qual é esse potencial e quais os rumos que querem concepções do que se convencionou chamar de Agri-
dar ao desenvolvimento de uma dada área rural. cultura Sustentável. Com freqüência, a agroecologia é
Para o enfoque agroecológico, a sustentabili- denominada de disciplina agroecológica, transdisci-
dade não pode ser considerada um conceito absoluto, plina agroecológica, agricultura sem agrotóxicos ou
pois somente existe mediante contextos gerados a abordagem agrícola sustentável, sendo crescente a
partir da articulação de um conjunto de elementos utilização do adjetivo “agroecológico” acompanhan-
que permitem a durabilidade, no tempo, dos meca- do um produto ou um processo de produção agrícola.
nismos sociais e ecológicos de reprodução etno- A intenção não é criar uma “nova verdade”
ecossistêmica (CASADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, sobre o termo em questão, pois a agroecologia, como
2000). Assim, um contexto de sustentabilidade pode abordagem científica e popular, repousa sobre um
ser definido como: 1) a ruptura das formas de depen- marco teórico e metodológico que questiona justa-
dência ecológica, socioeconômica e/ou política que mente a concepção de verdade científica universal. O
ameaçam os mecanismos de reprodução etnoecossis- dogma que se estabeleceu no seio da sociedade mo-
têmica; 2) a utilização dos recursos que permitem que derna ocidental, que é constantemente utilizado com
os ciclos materiais e energéticos nos agroecossistemas o intuito de tornar ilegítimas outras formas de saber
sejam os mais fechados possíveis; 3) a utilização dos menos sistematizadas e racionalmente compreendi-
impactos benéficos derivados dos ambientes ecológi- das, geralmente vinculadas à sabedoria popular, é
co, econômico, social e político existentes nos níveis questionado pelos autores que trabalham com o te-
de propriedades rurais até o da “sociedade maior”; 4) ma focalizado neste artigo. Assim, circunscreve-se a
a não alteração substantiva do meio ambiente, mesmo agroecologia por meio de uma coletânea de defini-
quando estão implicadas transformações significati- ções que tem colaborado mais expressivamente na

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construção dessa nova abordagem científica. palmente após a Segunda Guerra Mundial, com o
É possível identificar duas correntes mais impulso das ciências agrárias convencionais imbuí-
expressivas que vêm se dedicando, nos últimos 30 das no desenho dos pacotes tecnológicos vinculados
anos, ao desenvolvimento da agroecologia, a norte- à Revolução Verde (RV).
americana, com forte concentração de cientistas no Nas décadas de 1960 e 1970 recomeça o inte-
estado da Califórnia, e a européia, em especial na resse em aplicar conceitos ecológicos na agricultura,
Espanha, com a presença de cientistas nas áreas em decorrência da pesquisa da ecologia de popula-
sociais e biológicas. O interessante é que ambas pos- ções e de comunidades, da influência crescente das
suem suas raízes na América Central, precisamente abordagens sistêmicas e do aumento da consciência
no México, a partir do legado teórico de Angel Pa- ambiental, principalmente após a publicação da “Pri-
lerm e Efrain Hernandez Xolocotzi, cujos estudos mavera Silenciosa”, de Rachel Carson, em 19648. Um
seriam posteriormente refinados e desenvolvidos pe- importante sinal desse interesse foi o desenvolvimen-
lo mexicano Victor Manuel Toledo e cientistas norte- to de um relatório intitulado “Análise de Agroecos-
americanos como Stephen Gliessman, que passaram sistemas”, apresentado em 1974 no primeiro Con-
tempo considerável estudando e ensinando no Mé- gresso Internacional de Ecologia. Com o amplo co-
xico (SEVILLA-GUZMÁN e WOODGATE, 1997). Os au- nhecimento dos impactos da RV, já no fim dos anos
tores revelam ainda que excelentes contribuições à 70s, a perspectiva ecológica ganhou novamente força
sistematização dessa nova corrente teórica deram-se, entre agrônomos e ecologistas, consolidando-se no
nos Estados Unidos, por meio de trabalhos como início dos anos 80s como metodologia e estrutura
Agroecology, de Miguel Altieri e Agroecology and Small básica conceitual para o estudo dos agroecossistemas.
Farm Development, de Miguel Altieri e Suzana Hecht. Foi acompanhada pela forte influência dos estudos de
Da Espanha, também influenciados pelos mexica- agroecossistemas tradicionais de países em desenvol-
nos, vieram, um pouco mais tarde, os trabalhos do vimento como exemplos importantes do manejo eco-
Instituto de Sociologia e Estudos Campesinos da logicamente fundamentados.
Universidade de Córdoba. Para Gliessman (2001, p. 55), a partir de mea-
dos dos anos 80s, a agroecologia passou a ter crescen-
te influência sobre o conceito de sustentabilidade na
3.1 - Escola Norte-Americana agricultura, sendo a publicação de “A sustentabilida-
de agrícola em uma ordem mundial em transforma-
Para Gliessman (2001), vinculado à escola ção” (Quadro 1) um marco importante na solidifica-
agroecológica norte-americana e fortemente atrelado ção da relação entre a pesquisa agroecológica e a
aos estudos da agricultura tradicional mexicana, a promoção da agricultura sustentável. A agroecologia,
agroecologia deriva da ecologia e da agronomia, como abordagem científica, continua a fazer conexões
áreas do conhecimento que, apesar de terem acumu- entre fronteiras, sendo que, por um lado, “... é o estudo
lado um relacionamento tenso durante o século XX, dos processos econômicos e de agroecossistemas” e por
tiveram alguns cruzamentos férteis. Primeiro, na outro, “... é um agente para as mudanças sociais e ecológi-
década de 1920, com o campo da ecologia dos culti- cas complexas que tenham necessidade de ocorrer
vos e, depois, na década de 1930, quando alguns
ecologistas propuseram o termo agroecologia como 8Com o título original em inglês Silent Spring, Rachel Carson ques-

a ecologia aplicada à agricultura. À medida que a tionou contundentemente, pela primeira vez, os impactos secun-
ecologia aplicada à agricultura foi sendo deixada dários no ambiente causados pelas substâncias tóxicas utilizadas
nos pacotes tecnológicos da Revolução Verde, especialmente os
pelos ecologistas (mais afetos a uma ciência experi- inseticidas. Segundo Hecht (2002), este livro foi traduzido para o
mental de sistemas naturais), aos agrônomos o ter- português numa pequena edição de 1969 (Editora Melhoramen-
tos), que rapidamente se esgotou e, inexplicavelmente, nunca foi
mo agroecologia parece ter sido esquecido, princi- reeditado.

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Agroecologia na Construção do Desenvolvimento Rural Sustentável 45

Quadro 1 - Trabalhos Importantes na História da Agroecologia, 1928 a 1984


Ano Autor Título
1928 K. Klages Ecologia e geografia ecológica de cultivos no currículo agronômico
1938 J. Papadakis Compêndio de ecologia de cultivos
1939 H. Hanson Ecologia na agricultura
1942 K. Klages A geografia do cultivo ecológico
1956 G. Azzi Ecologia agrícola
1962 C. P. Wilsie Adaptação e distribuição de cultivos
1965 W. Tischler Agrarökologie
1973 D.H. Janzen Agroecossistemas tropicais
1974 J. Harper A necessidade de um enfoque em agroecossistemas
1976 INTECOL Relatório de um programa internacional para análise de agroecossistema
1977 O.L. Loucks A emergência da pesquisa sobre agroecossistemas
1978 S. Gliessman Memorias del Sem. Regional sobre la Agricultura Tradicional
1979 R.D. Hart “Agroecossistemas: conceitos básicos”
1979 G.Cox e M. Atkins Ecologia agrícola: uma análise de sistemas mundiais de produção de alimentos
1981 S. Gliessman, R. Garcia-Espinosa e M. A base ecológica para a aplicação de tecnologia agrícola tradicional ao manejo
Amador de agroecossistemas tropicais
1983 M. Altieri Agroecologia
1984 R. Lowrance, B. Stinner e G. House Ecossistemas agrícolas: unificando conceitos
1984 G. Douglas (ed.) A sustentabilidade agrícola em uma ordem mundial em transformação
Fonte: Gliessman (2001, p. 57).

no futuro a fim de levar a agricultura para uma base ver- tos sobre a produção agrícola foi praticamente des-
dadeiramente sustentável”. considerada nas ciências agrárias convencionais.
Pelo histórico apresentado, observa-se que a Segundo a autora, três processos históricos foram
agroecologia recebe contribuições valiosas da ecolo- fundamentais para obscurecer e denegrir os conhe-
gia, da qual utiliza conhecimentos e métodos mo- cimentos agronômicos desenvolvidos por povos e
dernos construídos sobre os aspectos de conservação culturas nativas vinculadas às sociedades não oci-
dos recursos da agricultura tradicional local. Como dentais, a saber: 1) destruição dos mecanismos po-
abordagem aglutinadora, ainda pode ser definida pulares de codificação, controle e transmissão das
como a aplicação de conceitos e princípios ecológicos práticas agrícolas; 2) modificações dramáticas nas
no desenho e manejo de agroecossistemas sustentá- populações tradicionais através do colapso demo-
veis (GLIESSMAN, 2001). gráfico, da escravidão e por processos de coloniza-
Segundo Hecht (2002, p. 21), “o uso contempo- ção e de mercado; e 3) ascensão da ciência positivis-
râneo do termo agroecologia data dos anos 70s, mas a ta. Tais processos, intimamente relacionados como
ciência e a prática da agroecologia têm a idade da própria parte do processo civilizatório capitalista, não dei-
agricultura”. Nesse sentido, cada vez mais se torna xaram espaço para que abordagens agrícolas mais
evidente, a partir do estudo da agricultura indígena holísticas penetrassem na ciência formal. A con-
como testemunho modificado das primeiras formas quista desses espaços é difícil dados os preconceitos
de agricultura, que muitos sistemas agrícolas desen- históricos de pesquisadores da área agronômica com
volvidos localmente por populações tradicionais relação aos fatores sociais como: classe, etnia, cultura
incorporam práticas e mecanismos para a adaptação e gênero.
das culturas às variações ambientais e proteção con- A agroecologia representa uma forma de
tra predadores e competidores. Com isso, lançam abordar agricultura que incorpora cuidados espe-
mão de recursos renováveis disponíveis na região e ciais relativos ao ambiente, aos problemas sociais e à
de características ecológicas e estruturais do meio sustentabilidade ecológica dos sistemas de produ-
agrícola local. Mas essa rica herança de conhecimen- ção. O pensamento agroecológico recebeu influência

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46 Moreira; Carmo

das ciências agrícolas (através das interações eco- para combater as pragas, doenças ou deficiências do solo, o
logia/agronomia/sociologia), de diferentes abor- agroecólogo luta para devolver ao agroecossistema sua
dagens metodológicas para as análises agroecológi- elasticidade e força. Se a causa das doenças, pragas, degra-
cas dentro das ciências agrárias, do ambientalismo dação do solo, etc, for atribuída a um desequilíbrio, então a
como contribuinte intelectual, da ecologia, dos siste- meta do tratamento agroecológico será restaurar o equilí-
mas de produção indígenas e camponeses, dos tra- brio. Na agroecologia, incremento e manutenção da biodi-
balhos antropológicos e de geógrafos e dos estudos versidade é a técnica principal para restaurar a auto-
de desenvolvimento rural por meio das análises dos regulação e a sustentabilidade” (ALTIERI, 2002, p. 16).
impactos sociais da tecnologia, dos efeitos pernicio- Ainda que a influência da corrente norte-ame-
sos da expansão do mercado de commodities, das ricana sobre as práticas agroecológicas ao redor do
implicações nas mudanças das relações sociais, das mundo seja expressiva, o surgimento, um pouco mais
transformações nas estruturas de posse da terra e da tarde, da vertente agroecológica européia abriu a
crescente dificuldade de acesso aos recursos comuns possibilidade de um rico diálogo não só entre disci-
pelas populações locais (HECHT, 2002, p. 26). plinas científicas de uma mesma área, mas entre ciên-
Ainda sobre a escola norte-americana, foram cias diferentes, naturais e sociais, na busca tanto de
marcantes e decisivos para a consolidação da agroe- um entendimento mais amplo dos impactos causados
cologia como enfoque científico os trabalhos de pelo paradigma da RV, quanto dos marcos alternati-
Miguel Altieri, pesquisador latino-americano, natu- vos para a conformação de programas de desenvol-
ral do Chile, já há mais de 20 anos professor e pes- vimento rural em bases realmente sustentáveis.
quisador da Universidade Berkeley/EUA. Miguel
Altieri foi durante 10 anos assessor técnico do Con-
sórcio Latino-Americano de Agroecologia e Desen- 3.2 - Escola Européia
volvimento (CLADES) e foi coordenador geral do
Sustainable Agriculture Networking and Extension Para a escola européia, especificamente a ibé-
Program (SANE), um subprograma do Programa das rica, a agroecologia surgiu, concretamente, de uma
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). interação entre as disciplinas científicas e as próprias
Para Altieri (2002), a agroecologia é uma ciência que comunidades rurais, principalmente da América La-
fornece os princípios ecológicos básicos para estu- tina, não sendo de se estranhar que penetrou na Eu-
dar, desenhar e manejar agroecossistemas produti- ropa por aquelas zonas onde a modernização agrária
vos e conservadores dos recursos naturais, apropria- havia se atrasado, como é o caso da Andaluzia/Espa-
dos culturalmente, socialmente justos e economica- nha. No fim dos anos 80s, a Andaluzia contava com
mente viáveis. uma realidade na qual se conjugavam situações pró-
A agroecologia engloba um entendimento dos prias de uma modernização agrária recente e territo-
níveis ecológicos e sociais da co-evolução, da estru- rialmente incompleta, com todos os problemas ambi-
tura e do funcionamento dos agroecossistemas, en- entais característicos das sociedades pós-industriais.
corajando os pesquisadores a conhecerem a sabedo- Essa coincidência favoreceu a emergência dos primei-
ria e as habilidades dos agricultores e a identificar o ros estudos agroecológicos na Universidade de Cór-
potencial, sem limites, de agregar biodiversidade aos doba e Granada e mais especificamente junto ao Insti-
sistemas produtivos, como forma de criar sinergis- tuto de Sociologia e Estudos Camponeses (ISEC), da
mos úteis que dotem os agroecossistemas da capaci- Universidade de Córdoba. Esses estudos representam
dade de manter-se ou voltar a um estado inato de o surgimento da Agroecologia na Espanha como um
estabilidade natural. “A agroecologia fornece as diretri- produto da confluência entre o ascendente movimen-
zes para um manejo cuidadoso dos agroecossistemas, sem to ecologista, a força que ainda tinha o movimento
provocar danos irreparáveis. Simultaneamente ao esforço camponês em sua luta contra a marginalização, e a

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Agroecologia na Construção do Desenvolvimento Rural Sustentável 47

continuidade das reflexões da Nova Tradição dos situação, corre-se o risco de mascarar seu real poten-
Estudos Camponeses, abrindo caminho para uma cial como enfoque científico baseado em premissas
caracterização agroecológica do campesinato (CASA- filosóficas alternativas e como estratégia para o dese-
DO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000). nho de programas de desenvolvimento rural susten-
Para essa corrente européia de “veia mais so- tável.
ciológica”, a agroecologia se estabelece, frente ao dis- Em resumo, o enfoque agroecológico corres-
curso científico convencional aplicado à agricultura, ponde à aplicação interativa de conceitos e princí-
em franca oposição ao isolamento da exploração agrá- pios da ecologia, da agronomia, da sociologia, da
ria dos demais fatores circundantes, reivindicando, antropologia, da comunicação, da economia ecológi-
como ressalta Casado; Sevilla-Guzmán; Molina, (2000, ca e de outras áreas do conhecimento científico, no
p. 85), a necessária unidade entre as distintas discipli- redesenho e manejo de agroecossistemas que sejam
nas naturais entre si e com as ciências sociais, a fim de sustentáveis ao longo do tempo, constituindo-se em
compreender as interações existentes entre os proces- um campo de conhecimentos que “proporciona as ba-
sos agronômicos, econômicos e sociais, “reivindicando ses científicas para apoiar o processo de transição do mode-
por fim a vinculação essencial que existe entre o solo, a plan- lo convencional para estilos de agriculturas de base ecoló-
ta, o animal e o ser humano”. A partir de Sevilla-Guz- gica ou sustentável, assim como do modelo convencional
mán (2001, p. 11), autor central da escola espanhola e de desenvolvimento a processos de desenvolvimento rural
fundador do Instituto de Sociologia e Estudos Cam- sustentável” (CAPORAL e COSTABEBER, 2002, p. 14). O
poneses da Universidade de Córdoba, juntamente enfoque agroecológico, para esses autores, considera
com Manuel Gonzáles de Molina, a agroecologia a sustentabilidade como portadora de seis dimen-
pode ser definida como “o manejo ecológico dos recursos sões a se considerar: ecológica, econômica, social,
naturais através de formas de ação social coletiva, que repre- cultural, política e ética.
sentem alternativas ao atual modelo de manejo industrial
dos recursos naturais, mediante propostas surgidas de seu
potencial endógeno. Tais propostas pretendem um desen- 4 - BASES EPISTEMOLÓGICAS E METODOLÓ-
volvimento participativo desde a produção até a circulação GICAS DA AGROECOLOGIA
alternativa de seus produtos agrícolas, estabelecendo formas
de produção e consumo que contribuam para encarar a 4.1 - Conceito de Agroecossistema e Problemas
atual crise ecológica e social”. Energéticos da Agricultura Convencional
A agroecologia ainda pode ser definida, a
partir de Altieri apud Casado; Sevilla-Guzmán; Mo- Um dos conceitos chave para a orientação
lina (2000, p. 85), como “aquele enfoque teórico e meto- teórica e metodológica da agroecologia é o de agroe-
dológico que, utilizando várias disciplinas científicas, pre- cossistema. Entendido como uma unidade de análi-
tende estudar a atividade agrária desde uma perspectiva se, é considerado como um ecossistema artificializa-
ecológica...” tendo como “vocação a análise de todo tipo do pelas práticas humanas por meio do conhecimen-
de processos agrários em seu sentido amplo, onde os ciclos to, da organização social, dos valores culturais e da
minerais, as transformações da energia, os processos bioló- tecnologia. Ou seja, a estrutura interna dos agroecos-
gicos e as relações sócio-econômicas são pesquisados e sistemas “resulta ser uma construção social produto da
analisados como um todo”. co-evolução entre as sociedades humanas e a natureza”
Mais recentemente, a agroecologia vem sendo (CASADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 86).
entendida como uma “agricultura sem veneno” ou De fato, a agroecologia ultrapassa a visão tecnicista
como “agricultura orgânica”, mas, apesar de estar re- dos agroecossistemas - genética, agronômica e eda-
lacionada a essas duas denominações, não pode ser fológica - incluindo a análise das dimensões ecológi-
reduzida a um estilo de agricultura ecológica. Em tal cas, sociais e culturais (ALTIERI, 2001 e 2002).

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48 Moreira; Carmo

Os ecossistemas são sistemas biológicos vivos mas artificializados parcial ou completamente atra-
em equilíbrio dinâmico capazes de se auto-regularem, vés da manipulação humana) são mais instáveis,
se auto-manterem e se auto-renovarem independen- necessitando de aportes externos de energia (na
temente da sociedade humana, ou seja, se considera- forma de trabalho) para a sua manutenção e repro-
dos sob princípios naturais. Porém, esse “naturalis- dução, já que se remove pesadamente grande quan-
mo” pouco se aplica na realidade do século XXI, pois tidade de energia na forma de material colhido. Essa
uma grande parte dos seres humanos já não vive mais maior instabilidade dos agroecossistemas, ou seja,
como parte integrante das “florestas sociais”. Assim, sua maior tendência à entropia, é o fio condutor para
os seres humanos artificializam os ecossistemas para entender as origens da “insustentabilidade” dos
obter alimentos e outros recursos naturais, respeitan- sistemas agrícolas convencionais.
do ou não os mecanismos e fluxos através dos quais a A modernização agrícola, como elucida
natureza se renova continuamente. As sociedades Gliessman (2001), tem sido basicamente um proces-
produzem e reproduzem suas condições de existência so de introdução de quantidades cada vez mais cres-
a partir de sua relação com a natureza, que pode ser centes de energia na agricultura para aumentar o
compreendida pelo conjunto de ações nas quais os rendimento, sendo que a maior parte desse aporte
“seres humanos se apropriam, produzem, circulam, trans- energético adicional é proveniente (direta ou indire-
formam, consomem e excretam materiais e/ou energia pro- tamente) de fontes não renováveis de energia (com-
venientes do mundo natural” (Toledo apud CASADO; SE- bustíveis fósseis). De fato, em muitos cultivos agríco-
VILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 87). las investe-se mais energia do que se retira como
Os ecossistemas são capazes de manter seu produto, ou seja, para que o processo produtivo
equilíbrio dinâmico pelo aporte energético da luz ocorra é necessário um grande montante de energia
solar, criando ordem a partir da desordem e arma- que é dissipado na forma de calor, não estando, por-
zenando na biomassa energia potencial para realizar tanto, disponível para realizar trabalho. Uma parte
trabalho. Sempre que essa energia é utilizada pela ainda se converte em contaminação ou resíduos
biodiversidade para suas funções naturais, ela é acumulados no meio ambiente. Para aquele autor,
perdida do ecossistema na forma de calor, ocasio- uma forma de agricultura com uso intensivo de
nando um aumento da entropia9 no ecossistema, que energia externa, proveniente de fontes não renová-
é, por sua vez, contrabalançada pelo aporte energéti- veis, não pode ser sustentável às gerações futuras.
co solar (GLIESSMAN, 2001). Os aportes energéticos adicionais na agricultu-
Portanto, o ecossistema exercita sua capaci- ra podem ser divididos em ecológicos (da energia
dade de se auto-regular, se auto-manter e se auto- solar) e culturais (derivados de fontes humanas). Os
renovar pelo movimento contínuo de energia solar, culturais, por sua vez, são divididos em biológicos e
por meio dos processos naturais de transformação industriais, que são, respectivamente, a energia pro-
energética. Já os agroecossistemas (como ecossiste- veniente de organismos (incluindo o trabalho huma-
no, animal e esterco) e a proveniente de combustíveis
9A energia dentro do ecossistema move-se, constantemente, de um
fósseis, fissão radioativa e fontes geotérmicas e hidro-
lugar para outro, mudando de forma. A partir da primeira lei da
termodinâmica a energia não é criada nem destruída, ela simples- lógicas. O ponto-chave para se entender a sustentabi-
mente muda de uma forma para outra, ou de um lugar para outro, lidade de um agroecossistema, de acordo com Gliess-
ou é utilizada para realizar trabalho, podendo toda ela ser contabili-
zada. Já a segunda lei da termodinâmica explica que quando parte
man (2001), é a forma como a energia cultural (bioló-
dessa energia é transferida ou transformada, apesar de poder ser gica e industrial) é utilizada para direcionar a conver-
contabilizada, não pode ser passada adiante ou utilizada para reali- são de energia ecológica em biomassa. Para manter
zar trabalho, pois se degrada em forma de calor como um movimen-
to desorganizado de moléculas. Essa segunda lei, segundo Gliess- um agroecossistema com baixa diversidade é necessá-
man (2001, p. 511), “significa que sempre há uma tendência na direção da rio gastar energia para que se controlem as condições
ordem para a desordem, ou entropia. Para opor-se à entropia - para criar
ordem, em outras palavras -, é necessário gastar energia”. ótimas de crescimento e desenvolvimento dos culti-

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Agroecologia na Construção do Desenvolvimento Rural Sustentável 49

vos, e quanto maior o aporte energético cultural maior a agricultura industrial é ecologicamente insustentá-
pode ser a produtividade. Porém, essa relação não é vel. Não somente porque depende de fontes energé-
de um para um, ou seja, quando o aporte de energia a ticas não renováveis e finitas, mas também porque a
um agroecossistema é muito alto (como na agricultu- utilização dos pacotes tecnológicos da modernização
ra intensivamente industrializada) o retorno da ener- ignora os processos ecológicos dos agroecossistemas,
gia “investida” geralmente é bem menor. aparecendo como conseqüência os danos ambientais
A eficiência do uso energético em agroecossis- comuns nessa forma de apropriação da natureza11.
temas não mecanizados (roçado ou pastoreio como A insustentabilidade dos sistemas agrícolas
energia cultural biológica) está no retorno de cada convencionais não se limita aos aspectos ecológicos
caloria de energia cultural investida, variando de 5 a como sabemos, mas se estende às esferas econômicas
40 calorias de alimentos produzidos. Já na produção e sócioculturais. Os danos econômicos à produção são
mecanizada de milho e trigo, ainda que possibilitem facilmente identificados quando há crise do petróleo
alta produtividade, podem render de 1 a 3 calorias com conseqüente aumento dos custos de produção,
de energia de alimentos para cada caloria de energia como aquela de 1973, e em menor grau durante a
cultural investida. Na produção mecanizada de hor- Guerra do Golfo. Com o crescente consumo mundial
taliças e frutas, freqüentemente, o balanço energético de combustível fóssil, os riscos de uma agricultura
é negativo ou, no máximo, a quantidade de energia química tornam-se ainda mais preocupantes em ter-
cultural investida é igual ao seu investimento. Nos mos econômicos. Os danos sócioculturais, por sua
Estados Unidos, a produção animal é ainda mais vez, estão relacionados também a um estilo de desen-
preocupante, pois a produção de carne bovina chega volvimento rural imposto pelo binômio capital-
a exigir 5 calorias de energia cultural para cada calo- estado, que privilegia a mecanização em larga escala,
ria obtida. Porém, os alimentos de origem animal, força o êxodo rural e rompe sistemas culturais incom-
embora mais valorizados pelo seu teor protéico do patíveis com a territorialização do capital vinculada
que pelo seu teor energético, não impedem a aos interesses da agroindústria transnacional.
constatação de que cada caloria de proteína do leite, Por acreditar que as ciências agrárias conven-
carne suína ou bovina, produzida em confinamento, cionais, com seus métodos e técnicas, respectivamen-
requer de 30 a 80 calorias de energia cultural. Em te, reducionistas e utilitaristas, não foram capazes de
sentido comparativo, uma caloria de proteína vege- solucionar os problemas gerados com a moderniza-
tal (em forma de grãos) pode ser produzida com ção da agricultura, a agroecologia centrou, durante
apenas 3 calorias de energia cultural ou, no caso de os últimos 30 anos, grandes esforços para entender a
fontes protéicas vegetais concentradas (p.e. o tofu), forma com que as culturas tradicionais vêm mane-
não se gasta mais que 20 calorias de energia por jando seus agroecossistemas através de séculos de
caloria de proteína (GLIESSMAN, 2001). co-evolução entre o homem e a natureza. Os agricul-
Altieri (2002) revela que a eficiência energética tores tradicionais captaram o potencial agrário dos
diminui à medida que a dependência de combustí- ecossistemas utilizando processos de tentativa, erro,
veis fósseis aumenta10. As lentes da energia dão, em seleção e aprendizagem cultural, que durou séculos,
boa medida, os caminhos à compreensão do porquê

11Esses danos se expressam na diminuição da fertilidade dos solos,


10Altieri (2002) revela que a eficiência energética em diferentes perda de matéria orgânica, lixiviação de nutrientes, degradação e
níveis de intensificação de cultivo de milho apresenta essa mesma aumento da erosão dos solos, contaminação e esgotamento de
tendência: a) o sistema pré-industrial intensivo em mão-de-obra fontes hídricas, aumento de pragas e doenças, contaminação de
no México possui uma relação energética (energia de produ- ambientes agrícolas e ecossistemas naturais, danos à saúde de
to/energia de insumo) de 30,6/1; b) o sistema pré-industrial agricultores e assalariados agrícolas, destruição de insetos e mi-
intensivo em mão-de-obra na Guatemala mostra uma relação croorganismos benéficos, diminuição drástica da biodiversidade
energética de 13,60/1; c) o sistema semi-industrial com tração regional e desequilíbrios no ciclo global de nitrogênio com conse-
animal no México possui uma relação de 4,87; e 4) o sistema qüente agravamento dos problemas na camada de ozônio
industrial nos Estados Unidos uma relação de 2,58/1. (GLIESSMAN, 2001).

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50 Moreira; Carmo

diferentemente da cultura ocidental que, em sua o controle da água, posse da terra e trocas de traba-
curta história, minou consideravelmente a base de lho. Os sistemas sociais e ambientais evoluíram em
renovação dos recursos naturais (SEVILLA-GUZMÁN e conjunto, cada um refletindo o outro e, da mesma
WOODGATE, 1997). forma, selecionaram-se tecnologias, novos valores e
novas formas de conhecimento.
A perspectiva co-evolucionista, no entanto,
4.2 - Abordagem Co-evolucionista coloca as populações e sua forma de pensar no cen-
tro do processo co-evolutivo, pois, por meio do co-
Outro conceito chave para a agroecologia é o nhecimento humano, podemos influenciar decisi-
de co-evolução entre os sistemas naturais e sociais. vamente como devem co-evoluir os sistemas sociais
Os seres humanos têm co-evoluído desastrosamente e ambientais. Exatamente por isso os agroecossiste-
com a natureza a partir da aproximação ocidental ao mas modernos refletem as premissas científicas que
manejo industrial dos recursos naturais. De acordo deram base para o desenvolvimento da agricultura
com Geogescu-Roegen apud Casado; Sevilla-Guz- moderna. Os cientistas, ao assumirem, por exemplo,
mán; Molina (2000, p. 92), a função de produção uti- que as pragas podem ser consideradas isoladamente
lizada pelos economistas agrários convencionais se do sistema como um todo (atomismo), preconizam a
parece com “uma lista de ingredientes que compõe um aplicação de pesticidas que, por sua vez, co-evoluem
determinado produto sem se dar conta do tempo de coc- com as pragas, interferindo ainda na forma como o
ção”, ou seja, na visão mecanicista da produção pare- agricultor vê o processo produtivo. De fato, os cien-
ce estar ausente a dimensão “tempo”, o que remete tistas podem ser considerados como agentes que
ao fato da finitude dos recursos naturais quando influenciam e aceleram o processo co-evolutivo, in-
consumido pelos processos industriais. troduzindo múltiplas mudanças tecnológicas que
A abordagem co-evolucionista ajuda a enten- muitas vezes não se adequam à complexidade social
der que qualquer agroecossistema é produto das rela- e ambiental das comunidades rurais. Apesar de os
ções de mútua determinação entre os sistemas natu- sistemas sociais e ambientais co-evoluírem constan-
rais e sociais. Os sistemas naturais co-evoluem com os temente, nem sempre as mudanças constituem um
sistemas sociais, sendo estes divididos em um conjun- benefício às populações e ao meio ambiente das fu-
to de subsistemas de conhecimento, valores, tecnolo- turas gerações (NOORGARD e SIKOR, 2002).
gias e organizações. Os subsistemas sociais relacio- Uma das características mais importantes des-
nam-se e exercem uma pressão seletiva sobre a evolu- sa abordagem é a de que confere legitimidade aos
ção dos outros, fazendo com que co-evoluam (NOR- conhecimentos dos agricultores, pois, afinal, esses
GAARD e SIKOR, 2002). Quando uma inovação aconte- co-evoluíram com a natureza de forma mais harmô-
ce nos sistemas de conhecimento, por exemplo, sua nica e melhoraram, em muitos casos, seus sistemas
adequação ou apropriação dependerá das influências produtivos ao longo dos milênios. Com essa pers-
seletivas sobre os valores, as organizações, as tecnolo- pectiva, dedicamos um verdadeiro respeito pela sa-
gias e o ambiente e, embora estejam em constante bedoria dos agricultores e despertamos para o fato
mutação, tudo está conectado (Figura 1). de que a ciência formal não é a única fonte legítima
As transformações ambientais ocorridas nos de saberes.
sistemas agrícolas tradicionais de arroz no sudeste Uma grande parte dos agroecólogos já introje-
asiático, onde a prática extensiva da agricultura ba- taram que há a necessidade de um diálogo horizon-
seada no corte e queima, foram sendo gradativa- tal de saberes entre cientistas e agricultores. Com
mente substituídas por diques, terraços e sistemas de abordagens participativas de pesquisa buscam inte-
abastecimento de água ao longo dos séculos, sendo grar “ambas as formas de conhecimentos e trabalhar efeti-
sustentadas por complexas organizações sociais para vamente em conjunto”, pois sabem que em um mundo

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Agroecologia na Construção do Desenvolvimento Rural Sustentável 51

Conhecimento

Valores Organização social

Sistema biológico Tecnologia

Figura 1 - Co-evolução entre Sistemas Sociais e Naturais.


Fonte: Noorgard; Sikor (2002, p. 59).

co-evolutivo, “os improvisadores são mais eficientes que monopólio sobre a verdade, dessa vez pela aliança
os grandes planejadores” (NORGAARD e SIKOR, 2002, p. tácita entre conhecimento científico e burguesia capi-
61). O conhecimento social e biológico obtido dos talista. Nas palavras de Karl Marx apud Casado;
sistemas agrários tradicionais, bem como aquele de- Sevilla-Guzmán; Molina, (2000, p.149) “a agricultura é
senvolvido pelas ciências agrárias convencionais, o pecado original que introduz a riqueza ao mundo”.
podem combinar-se para melhorar tanto os agroe- A industrialização da agricultura, ovacionada
cossistemas tradicionais como os modernos, a fim tanto pelos marxistas ortodoxos quanto pelo pen-
de torná-los mais ecologicamente sustentáveis (CA- samento liberal, foi considerada então a única forma
SADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000). de produzir excedentes para liberar mão-de-obra e
Para tanto, é preciso que a Ciência Moderna, introduzir a atividade industrial como a nova forma
vinculada à pesquisa e ao desenvolvimento de sis- de criação de valores e de poder. Foi o início da
temas agrícolas, questione em profundidade seus supremacia da teoria da economia convencional
paradigmas, procurando incorporar outros conhe- sobre todas as outras formas de se encarar os cami-
cimentos e métodos mais ajustados aos desafios da nhos do desenvolvimento. As explicações teóricas,
sustentabilidade. Trata-se, como alerta Gomes principalmente a liberal, deixavam nas “mãos” do
(1999), de submeter a atividade científica a um pro- mercado - como mecanismo socialmente construído,
cesso de abertura epistemológica e enriquecê-la com mas que se postula natural - “a regulação e o controle
o pluralismo metodológico. Premissas filosóficas dos mecanismos de reprodução biótica e social”. Essa
dominantes da Ciência Moderna e algumas alterna- construção sócio-histórica ilustrada da natureza
tivas que têm guiado os agroecólogos, em maior ou seria o “pecado original que introduz na Ciência os me-
menor grau, segundo suas formações (Quadro 2), canismos de degradação dos recursos naturais” (CASA-
mostram como a agroecologia se contrapõe ao de- DO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 150).
senvolvimento das ciências agrícolas convencionais. A atividade científica, porém, não pode ser
A Ciência Moderna surgida do movimento vista como uma atividade independente acima de
ilustrado europeu, sob os desígnios da liberdade, qualquer suspeita, pois toda “construção epistemológi-
igualdade e fraternidade, não cumpriu suas promes- ca é o resultado de uma situação sócio-cultural de nature-
sas de resgatar a humanidade da escuridão por meio za histórica”, e o método científico não pode garantir
das luzes da razão. Na realidade, estabeleceu outro “a separação entre razão e paixão”, ou seja, a ciência

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52 Moreira; Carmo

Quadro 2 - Premissas Dominantes na Ciência Moderna e suas Alternativas


Premissas dominantes Premissas alternativas
Atomismo Holismo
Os sistemas são formados pela soma das partes, que são As partes não podem ser compreendidas separadamente do
imutáveis. todo, que é diferente da soma de suas partes, pois há uma intera-
ção permanente e transformadora entre elas, podendo desenvol-
ver novas características ou mesmo surgir outras totalmente
novas.
Mecanicismo Sistêmico
A compreensão dos fenômenos naturais é feita de forma Os sistemas não são previsíveis ou contínuos, porque são caóti-
mecânica. Pretende-se a previsibilidade e o controle da natu- cos. Também podem ser evolucionários.
reza. As relações entre as partes são fixas, os sistemas movem-
se de um ponto de equilíbrio a outro.
Universalismo Contextualismo
Os fenômenos complexos e diversos são o resultado de prin- Os fenômenos dependem de um grande número de determina-
cípios universais subjacentes, que são em número reduzido e dos fatores, especialmente ligados ao tempo e ao espaço. Fenô-
não se modificam no tempo ou no espaço. menos semelhantes podem ocorrer em tempos e lugares distin-
tos, devido a diferentes fatores.
Objetivismo Subjetivismo
Podemos permanecer à parte do que tentamos estudar ou Os sistemas sociais e especialmente os naturais não podem ser
pesquisar. Pretensa neutralidade científica e objetificação compreendidos separadamente de nossas atividades, valores,
(coisificação) da realidade e dos sujeitos. cultura e história, ou seja, toda realidade existe a partir de um
sujeito que a compreende (subjetividade).
Monismo Pluralismo
Tende a explicar sistemas complexos com conceitos, regras e Os sistemas complexos só podem ser conhecidos mediante pa-
leis únicas. Formas separadas e individuais de entender sis- drões múltiplos de pensamento, sendo cada um deles necessa-
temas complexos estão fundindo-se num todo coerente. riamente uma simplificação da realidade.
Fonte: Adaptado de Norgaard; Sikor (2002).

se vê afetada pelo contexto e práxis intelectual e curecido pela produção de riscos sócio-ambientais.
política daqueles que a produzem (CASADO; SEVIL- Enquanto se afirma que a ciência e a tecnologia indus-
LA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 155)12. trial foram capazes de manter a taxa de produção de
A capacidade do método científico convencio- alimentos compatível com o crescimento da popula-
nal, baseado em tais pressupostos, de prever proble- ção mundial - embora haja cerca de 750 milhões de
mas inerentes à sua forma de produzir conhecimen- famintos no mundo (ROSSET; LAPPÉ; COLLINS, 1998) -
tos, é bem menor do que acreditam os cientistas. Com as conseqüências ambientais parecem ameaçar as
efeito, o aumento do poder a partir do “progresso” bases ecológicas da própria vida (CASADO; SEVILLA-
técnico e econômico está sendo crescentemente obs- GUZMÁN; MOLINA, 2000).

12Como afirma Angel Palerm apud Casado; Sevilla-Guzmán; Moli-


na (2000), a “história de qualquer ciência, no entanto, pode ser escrita - e
de fato se escreve - como se tratasse de um fenômeno independente, como 4.3 - Bases Metodológicas da Agroecologia
se fora a história de uma progressão do intelecto humano. É claro que as
inter-relações da ciência com a sociedade não negam um certo grau de
autonomia à atividade científica e afirmam, por outro lado, sua capacidade
Como em outras instituições dogmáticas, a
de exercer uma ação crítica e transformadora sobre a sociedade. Como exemplo da igreja, as mudanças de paradigma cos-
conseqüência, constitui um erro de igual medida entender a história da
tumam ser lentas, principalmente se estão submeti-
ciência como um mero reflexo das pressões, de exigências e dos conflitos
da sociedade. O que é mais peculiar da ciência, definitivamente, é que das às estruturas de poder econômico e social, como
acaba por transformar o objeto mesmo de seu estudo e de sua atividade: a foi o caso do controle exercido pelo binômio igreja
natureza e a sociedade”.

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Agroecologia na Construção do Desenvolvimento Rural Sustentável 53

católica-monarquia sobre o monopólio da verdade multidisciplinar adotado não alcança a realidade da


na Idade Média. Porém, as mudanças na ciência interdisciplinaridade, não há como perceber a im-
oficial, apesar de lentas, vêm acontecendo. As ciên- portância da transdiscliplinaridade; 4) ainda que as
cias agrícolas convencionais vêm se transformando pesquisas sejam realizadas nas propriedades, a rela-
em nichos acadêmicos mais reflexivos, ainda que ção entre pesquisador e agricultor é muito vertical,
graduais e insuficientes para o real enfrentamento da ou seja, do tipo sujeito (que sabe) - objeto (que não
crise sócio-ambiental atual. Como conseqüência das sabe), carecendo, portanto, de uma relação do tipo
teorias de sistemas, na década de 1970, certo contin- sujeito-sujeito (horizontal), característica do movi-
gente de pesquisadores iniciou o questionamento de mento pela Investigação Ação Participativa; 5) a
que muitas “verdades científicas laboratoriais” não abordagem de Sistemas Agrários tem uma grande
eram realmente “verdadeiras” a campo, pois a con- aderência às premissas filosóficas da Ciência Con-
dição controlada das estações experimentais não era vencional. Para os autores, “ironicamente, a construção
capaz de reproduzir os contextos físicos, naturais, de modelos de sistemas agrícolas mecanicistas e lineares
sócio-econômicos e culturais, em que as tecnologias baseados em dados de média padronizada obscurece nossa
eram aplicadas. Passaram, então, a ouvir mais os apreciação de suas naturezas dinâmicas”, e a “riqueza e
agricultores e a realizar pesquisas nas propriedades vitalidade dos agroecossistemas se baseiam na existência
rurais, surgindo a corrente dos Sistemas Agrários, de uma grande diversidade de elementos culturais e natu-
principalmente entre ingleses e franceses (On Farm rais que não podem ser entendidos em termos de média”.
Research, Farming Systems Research, On Farm Client Vale registrar aqui que, nas décadas de 1980 e
Oriented Research e Farmer Participatory Research). 1990, surgiu uma série de enfoques mais ou menos
O enfoque de Sistemas Agrários, no entanto, participativos como decorrência do esforço de con-
obteve resultados moderados na superação dos pro- textualização da pesquisa agrícola, embora a “parti-
blemas tecnológicos, uma vez que não aprofundava cipação” tenha sido facilmente colocada em prática
a associação desses problemas às premissas filosófi- por processos de desenvolvimento lineares e meca-
cas de seus métodos e práticas. Apesar do esforço de nicistas e pode ser, na realidade, uma forma de “par-
contextualização da pesquisa agrícola em Sistemas ticipulação” (participação manipulada). Ainda que o
Agrários, não está sendo possível aos cientistas “es- estilo de interação possa ter mudado em alguns
cutar verdadeiramente” o que os agricultores têm a casos, muitos princípios da pesquisa e extensão rural
dizer, porque suas premissas filosóficas aderiam-se participativos não mudaram, pois freqüentemente os
àquelas dominantes na Ciência Convencional, as atores envolvidos não estão convencidos dos argu-
quais não conferem legitimidade aos conhecimentos mentos pragmáticos e nem do comprometimento
e às formas de aprendizagem dos agricultores (NOR- político de devolver poder para as pessoas locais
GAARD e SIKOR, 2002). (CORNWALL; GUIJT; WELBOURN, 1994).
Alguns problemas enfrentados pelos promo- Do rico debate entre esses vários enfoques,
tores do enfoque de Sistemas Agrários, tanto da cor- surge a Agricultura Participativa, a qual, a partir de
rente francesa como da inglesa, são sintetizados por Chambers apud Casado; Sevilla-Guzmán; Molina
Sevilla-Guzmán e Woodgate (1997): 1) embora tanto (2000), pretendia: 1) a revalorização do conhecimento
a corrente francesa como a inglesa clamem res- popular do agricultor, local ou indígena; 2) a adesão
ponder aos problemas vivenciados nas propriedades aos princípios da Investigação Ação Participativa na
rurais, pouco se faz para liberar os produtores de pesquisa agrícola; 3) a crítica ao desenvolvimento ru-
sua dependência em relação às transnacionais e aos ral empreendido pelos organismos internacionais de
combustíveis fósseis; 2) ainda há falhas em encarar desenvolvimento; e 4) o desenvolvimento de tecnolo-
as pessoas e os recursos naturais como elementos de gias agrárias participativas, aproximando-se episte-
sistemas vivos e em co-evolução; 3) se o enfoque mológica e metodologicamente da agroecologia.

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54 Moreira; Carmo

As perspectivas de pesquisa em agroecologia perspectiva tem um papel fundamental para a agroe-


gravitam em três níveis de indagação, o distributivo, cologia, à medida que ajuda a introduzir técnicas cada
o estrutural e o dialético, os quais não são excluden- vez mais participativas como forma de aumentar a
tes entre si e se constituem em níveis cumulativos interação entre o pesquisador (externo) e o sujeito
que permitem um aprofundamento da compreensão (interno). Dentro das ciências agrárias convencionais,
da realidade. Tais níveis respondem às seguintes tal perspectiva responde diretamente ao problema da
reflexões: 1) como se desenvolve o manejo dos recur- produção científica de conhecimentos descontextuali-
sos naturais e que tipo de conhecimento permite zados das estações experimentais, que provocam a
levá-lo a cabo? (nível tecnológico ou empírico); 2) perda da percepção de unidade dos agroecossistemas
porque se desenvolve assim o manejo e quem decide e de seus problemas locais. Perdem-se ainda, com a
as formas de conhecimento que permitem a sua postura convencional, os contextos temporais, sociais,
implementação? (nível metodológico); 3) para que e políticos e econômicos das realidades pesquisadas, ou
para quem se desenvolve esse tipo de manejo? (nível seja, o enfoque estrutural possibilita ao cientista rom-
epistemológico) (CASADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLI- per em grande parte com a postura convencional e
NA, 2000). aderir às premissas participativas de pesquisa (CASA-
A perspectiva distributiva adequa-se mais à DO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000).
pesquisa quantitativa e utiliza técnicas de coleta de Porém, é na perspectiva dialética que a Agroe-
dados que permitem a caracterização sistemática da cologia encontra sua maior aderência, na qual busca
realidade com fins de entendimento da situação pes- não somente conhecer a realidade estudada (pers-
quisada, tendo papel importante a análise estatística pectiva distributiva) como explicar as relações existen-
dos dados obtidos com a finalidade de contrastar tes entre suas partes a partir das visões dos sujeitos
hipóteses previamente estabelecidas. Situam-se, nes- implicados no processo (perspectiva estrutural) e,
se nível, os conhecimentos das ciências agrícolas, pe- também, intervir e articular-se ao objeto investigado,
cuárias e florestais relacionados aos seus aspectos “incidindo de forma crítica no curso de sua transformação”
técnicos a respeito do funcionamento dos recursos (CASADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000, p. 169).
naturais, geralmente produzidos em situações con- Tendo como postura metodológica central a Investi-
troladas nas estações experimentais e posteriormente gação Ação Participativa13, a perspectiva dialética
repassados aos agricultores. Podemos ter ainda a permite à Agroecologia transformar o objeto de pes-
perspectiva distributiva aplicada às pesquisas mais quisa em sujeito da mesma, reconhecendo o saber
sistêmicas nas propriedades rurais, porém ela neces- popular como válido e base para a construção de um
sariamente se atém à quantificação dos aspectos
tecnológicos, a fim de correlacioná-los com outras 13Para Alberich em Villasante (2000, p. 70), a Investigação Ação

variáveis e entendê-los de forma padronizada (CA- Participativa (IAP) originou-se da confluência das escolas críticas
de pesquisa social e da pedagogia social, decorrentes da Pedago-
SADO; SEVILLA-GUZMÁN; MOLINA, 2000).
gia da Libertação de Paulo Freire com as bases epistemológicas
Na perspectiva estrutural, o pesquisador busca comuns européias que buscavam uma sociologia sócio-práxica e
entender e explicar as relações existentes entre os dialética. O primeiro encontro internacional sobre IAP se deu em
1977 e, 20 anos depois, realizaria-se, em 1997, um Congresso Mun-
fenômenos analisados a partir das visões dos sujeitos dial sobre IAP, ambos os eventos em Cartagena na Índia. Autores
implicados no processo, bem como de seus discursos. importantes na América Latina, entre tantos outros em enfoques
semelhantes, são: Orlando Fals Borda, Anisur Raman, Carlos
Geram-se, portanto, informações qualitativas no pro-
Rodrigues Brandão e Michel Thiollent, além da corrente dos países
cesso de pesquisa que revelam o sentido sócio- de idioma inglês (Participatory Action Research) e de grupos em
cultural da realidade. Nas ciências sociais, exemplos toda Europa central e do norte. Também são importantes os traba-
lhos realizados por Tomáz de Villasante junto aos colaboradores
de técnicas de coletas de dados, utilizadas tradicio- na Universidad Complutense de Madrid. Para ele, IAP é “um
nalmente para ilustrar a perspectiva estrutural, são as método de estudo e ação que busca obter resultados confiáveis e úteis para
melhorar situações coletivas, baseando a pesquisa na participação dos
discussões, entrevistas e reuniões de grupos. Essa próprios coletivos a se pesquisar”.

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Agroecologia na Construção do Desenvolvimento Rural Sustentável 55

conhecimento novo e transformador. Na Investigação da atualidade, buscando cada vez mais soluções re-
Ação Participativa, tudo dialoga com tudo, a neutra- almente sustentáveis. Pressupõe, ainda, um enfren-
lidade científica inexiste e o pesquisador assume a tamento político com os interesses econômicos que
postura de um “facilitador” do processo de transfor- dominaram o desenvolvimento do capitalismo indus-
mação profunda da realidade. trial na agricultura durante os últimos 130 anos.
A agroecologia, como marco científico pluri- A agroecologia não é uma ciência acabada,
metodológico que confere ao pesquisador um alto pelo contrário, ela é recente e se encontra em plena
grau de envolvimento com a realidade pesquisada, construção, o que exige dos cientistas vinculados ao
vem sendo considerada nas suas formas de fazer seu desenvolvimento uma postura aberta (epistemo-
pesquisa e adaptação de métodos e técnicas de dis- lógica e metodológica) e pouco dogmática. Por meio
tintas disciplinas científicas, com o intuito de romper de uma disposição permanente em promover esse
com o reducionismo verificado nas ciências agrárias enfoque nos centros de pesquisa e desenvolvimento,
convencionais. Para tornar o alto nível de abstração os cientistas dos organismos públicos deverão ser
mais operacional no desenho de pesquisas agroeco- cada vez mais desafiados a realizar esforços interdis-
lógicas, é necessário explicitar alguns níveis de análi- ciplinares que integrem, na prática, as disciplinas
se apontados por Casado et al (2000): 1) exploração que foram separadas pelo desenvolvimento da ciên-
agrícola (propriedade rural); 2) estilos de manejo dos cia convencional. Ademais, instituições não gover-
recursos naturais; 3) comunidade local; 4) sociedade namentais, movimentos sociais e os setores empresa-
local; 5) sociedade “maior”. Em todos esses níveis a riais comprometidos com a real sustentabilidade
agroecologia procura aplicar o marco metodológico econômica, social e ecológica do País, podem articu-
da Investigação Ação Participativa, com distintas lar-se com a pesquisa agroecológica para ocupar os
técnicas adaptadas a cada nível da pesquisa. espaços e aumentá-los, na direção da construção do
Desenvolvimento Rural Sustentável.

5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
LITERATURA CITADA

Em resumo, a agroecologia é um corpo de ALTIERI, M. Agroecologia: bases científicas para uma agri-
conhecimentos científicos e populares derivados do cultura sustentável. Guaíba: Agropecuária, 2002.
esforço de cientistas naturais e sociais e de agriculto- ______. ______: a dinâmica produtiva da agricultura sus-
res que se recusaram a admitir a modernização in- tentável. 3. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2001.
dustrial da agricultura como a única forma de mane-
BORBA, M. La marginalidad como potencial para "outro"
jar os recursos naturais em um mundo submetido à desarollo: el caso de Santana da Boa Vista - RS/Brasil.
globalização do capital. De fato, tal recusa acontece 2002. Tese (Doutorado en Agroecologia, Sociologia y Estu-
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BURG, A. Para pensar outra agricultura. Curitiba: UFPR,
dará com facilidade, visto que ela pressupõe a cons- 1998. p. 218.
trução de uma nova ciência comprometida com os
______. (Re) estruturação do sistema agroalimentar no
interesses sociais e ecológicos dos movimentos popu- Brasil: a diversificação da demanda e a flexibilização da
lares e com a articulação entre ciências sociais e natu- oferta. São Paulo: IEA, 1996.
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56 Moreira; Carmo

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Recebido em 17/03/2004. Liberado para publicação em 16/09/2004.

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