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SAMBA DO ANO

Arthur Xéxeo
O Globo, 11/12/2018

"Presta atenção. Ela será a terceira escola a entrar hoje à noite na Avenida.
Não é uma das favoritas. Na verdade, espera-se pouco dela. É uma daquelas
agremiações chamadas de ioiô porque, como o brinquedo, estão sempre
descendo e subindo, entre a Série A e o Grupo Especial.

Manteve-se no Grupo Especial por acaso. Ficou em último lugar no ano


passado, o que a faria voltar para a Série A. Mas, devido aos acidentes com
carros alegóricos do desfile, a Liga das Escolas de Samba decidiu não rebaixar
escola alguma em 2017. Por isso, a Tuiuti ficou entre as grandes. Pelo
segundo ano consecutivo. É isso.

Estou falando da Paraíso do Tuiuti. Não é das escolas com maior torcida da
cidade. Fundada em 1954, tem as cores de duas escolas que a antecederam
no Morro do Tuiuti, em São Cristóvão: o azul, da Unidos do Tuiuti, e o ouro, da
Paraíso das Baianas. Mas quem liga para cor nas escolas de samba de hoje?

Dizem que o gigantismo vem matando o desfile carioca. Imagino que a crítica
se refira ao excesso de número de componentes em cada escola. Não estou
muito certo disso. Mas tenho certeza de que o gigantismo está matando o
samba-enredo. E, aqui, refiro-me ao excesso de compositores de cada samba.

É quase inacreditável, mas a Império Serrano, que este ano comemora sua
volta para o grupo de elite das agremiações do Rio com um enredo sobre a
China, vai cantar um samba composto por... uma dúzia de autores. Isso
mesmo, são 12 os compositores de "O império do samba na rota da
China". Desse jeito, é difícil manter coerência na linha melódica ou
alguma'surpresa poética. Os sambas dão sempre a impressão de estarem
correndo para encontrar um refrão forte, e a pressa não permite que eles
narrem o enredo com alguma beleza.

É por isso que estou falando da Tuiuti. Ela não vai ganhar, é bem capaz de
voltar para a Série A, vai continuar sendo uma daquelas escolas para as quais
os jurados não temem dar notas baixas. Mas, de alguma maneira, seus cinco
compositores conseguiram driblar as dificuldades de se elaborar uma obra com
tantos donos. O resultado é que a escola vai apresentar um dos sambas mais
bonitos dos últimos tempos e, certamente, o mais bonito deste ano: "Meu Deus,
meu Deus, está extinta a escravidão?" de Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona
Zezé, Jurandir e Aníbal.

Não é o enredo mais original a ser exibido no Sambódromo. A escravidão é um


dos temas que mais costumam seduzir as escolas de samba. E as
apresentações que contam a trajetória do negro, dos reinos da África ao
trabalho escravo no Brasil até a libertação pela Lei Áurea, costumam ser um
desfile de ráfia, palha e muitas fantasias simples, como exige o vestuário dos
escravos. A Tuiuti parece inovar, ampliando o período de escravidão para
muito depois da lei assinada pela Princesa Isabel. É disso que trata o belo
samba da escola.

"E assim, quando a lei foi assinada Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro na bandeira Fui rezar na cachoeira contra a bondade cruel"
O samba é arrepiante. Cada vez que as vozes de Nino do Milênio, Celsinho
Mody e Grazzi Brasil se entrelaçam numa nova estrofe, aparece uma rima
surpreendente, uma imagem inesperada e um recado para os dias de hoje.

"Não sou escravo de nenhum senhor Meu paraíso é meu bastião

Espero que melhor sorte contemple a Tuiuti este ano. Mas indo para as
cabeças ou voltando a ser uma escola ioiô, a Tuiuti já garantiu seu lugar de
honra no carnaval
Meu Tuiuti, o quilombo da favela É sentinela da libertação" É um refrão bem
mais sofisticado do que, por exemplo, o refrão da Grande Rio na sua exaltação
quase simplista a Chacrinha, só para citar outro samba de hoje à noite: "Meu
iaiá, quando a sirene tocar A massa toda cantar Vai para o trono ou não vai?
Vem chacrete o bumbum rebolar Eu vou brilhar na TV, ouvir de novo dizer Oh
Terezinha! Oh Terezinha! Vai começar mais um cassino do Chacrinha Oh
Terezinha! Oh Terezinha! A Grande Rio é o cassino do Chacrinha" É até
covardia comparar o samba da Tuiuti com o da Grande Rio.

Como todo mundo sabe, samba não ganha desfile. A maior prova está no
carnaval de 1976, ainda no tempo do desfile na Avenida Presidente Vargas,
quando a Em Cima da Hora chegou à Passarela cantando "Os sertões" de
Edeor de Paula (era um tempo em que bastava um compositor para se compor
um samba-enredo), reconhecidamente um dos sambas mais bonitos das
História do carnaval. A escola ficou em penúltimo lugar e foi rebaixada!

Espero que melhor sorte contemple a Tuiuti este ano. Mas indo para as
cabeças ou voltando a ser uma escola ioiô, a Túiuti já garantiu seu lugar de
honra no carnaval deste ano.

"Ê Caluga! Ê ê Calunga! Preto Velho me contou, Preto Velho me contou Onde
mora a Senhora Liberdade Não tem ferro, nem feitor"

É carnaval, mas a cidade continua abandonada.

FONTE: Jornal O Globo, 11/02/2018