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Modernidade e gestão do território no Brasil:

da integração nacional à integração competitiva


Bertha K. Becker

Frente à.revigoração das teses liberais sobre que tende a superar os Estados e as fronteiras,
a economia neste fim de século, coloça-se_a e o espaço dos lugares, vivido, da experiência
necessidade de reflexão sobre as falências e histórica (Castells, 1985). Nesse contexto,!
os limites das práticas_estatais_ de planeja­ análises e conceitos tradicionais, como sobe­
mento e. sobre o novo papel do Estado na rania, nacionalismo, geopolítica, perdem a força !
gestão do território. O . problema é particular­ explicativa sem considerar o vetor científico- J
g /C — _____r......■ - ....._ .... - . ___ w
m ente importante em p aíses periféricos tecnológico moderno. 1 —'
7 -> marcados p o rjo rte s - desigualdades sociais,
E t i segundo lugar, cabe ressaltar que, embora
L .-P A v O <jP ■ R < - «-Vir A c ! ': IV S > t'J L ’ 'f< í> )0 A l S / ^ onde_ uma economia de mercado pode signi:
a lógica da modernidade seja homogeneiza-
ficar ainda maior exclusão de grandes parcelas
dora, as diferenciações espaciais básicas da
da população.
í— . _ ...< 4 o Á o 'z - E À y í > 4 c 6 ' * r C yT'- ( ~ lv z jy ': 2 acumulação"e como unidades políticas, ainda
que mudando o séu papel regulador e a sua
Neste trabalho procura-se efetuar essa reflexão
natureza. A coexistência de tendências opostas
c- C AQ a a ,o _ j m i através da leitura geopolítica e do território,
de homogeneização/diferenciação e globali-
com uma visão a partir do Brasil. O Estado tem
zação/fragmentação é inerente à sobrevivência
com o. ..território uma relação inextricável e
e expansão do sistema capitalista e, hoje, a
complexa q u e m ü d o u q õ lo n g o d a h istó ria , e
diferenciação se acentua como forma de
a geõpõíítícaéinerente_ao. processo.da cons­
sustentar a própria globalização. Em que pese
trução .do.Estado. E a leitura das práticas de
à emergência de novas territorialidades, são
apropriação e uso de parcelas do território
os Estados-Nação com as suas especificidades
nacional desvenda os interesses em jogo no
que basicamente respondem pelo processo
processo de reestruturação da economia, da
de globalização/diferenciação da economia-
sociedade e do próprio Estado. Ao que.tudo
mundo, processo que não é um fenômeno
indica, _viv.e-se_.hoje urr novo.momento na
resultante do ‘livre jogo das forças de mercado'
relação .entre o Estado e o território, e a questão
e sim da decisão e realização de determinados
que se coloca é qual a nqva coníormação
atores e de suas geopolíticas. •
social e o novólp.apél dó Eslado_e. qual a sua
nova geopolítica. Finalmente, no caso do Brasil, condições espe-.
cíficas historicamente construídas, que incluem
Alguns parâmetros orien am essa leitura. Em o papel peculiar das Forças Armadas e da terri-
primeiro lugar, as redefinições em curso toríalidade na~formação.db"Estado, resultaram
inserem-se na crise/reestruturação do sistema numa v ia " autorjfária ..oara a modernidade,
capitalista mundial iniciada em fins dos anos caracterizadáliustamente pela construcão-do
1960,InaTase B.doIg^ttõ~ctclõ^de]<õndratieff!" Estado.e do.território à frente da construção da
em que rápidas transformações são impulsio­ . nação. Via que conduziu o pais a uma nova
nadas pela internacionalização crescente da posição na economia-mundo como semiperi-
economia-mundo associada à revolução cientí- feria, categoria definida por extrema ambiva-
fico-tecnológica, configurando uma nova fase lê n c a , heterogeneidade e instabilidade.'
da modernidade. O tempo acelerado e ã j Distanciando-se de seus vizinhos latino-
inovação permanente na produção civil e na americanos, o Brasil se configurou como potência
I
máquina de guerra, bem como no tecido social regional, significando maior articulação com a
e na política, tornam-se condição chave da' economia-mundo e também maior vulnerabili­
globalização. Uma nova dialética se estabelece1 dade às rápidas transformações engendradas
entre o espaço de fluxos gerenciais, de vetores, i pelo tempo acelerado da modernidade.
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Espaço & Debates n? 32 -1991 Modernidade e gestão do território no Brasil; da integração nacional à integração competitiva

O Brasil é, pois, um caso exemplar para análise teve continuidade nas disputas pelo controle do novo prqjeto foja intencionalidade de controle desenvolveu envolvendo não só a sua adminis-
do rápido processo de transformação por que das grandes bacias do Prata e do Amazonas do vetõr científico-tecnológico moderno, ou seja, traçãoi em termos econômicos, mas também
passa o Estado e o território nos últimos vinte durante o Império, aprimorou-se com a definição de controle não só do espaçQ. mas-sobretudo as relações de poder. A gestão.do. território,
anos, cujos momentos compõem as seções dos limites territoriais na virada do século e, dojempo. Coatroíe.entendido como..condição entendida como prática estratégica, científico-
deste trabalho. A primeira corresponde ao projeto finalmente, se consolidou na construção de para constituir um novo padrão de inserção do tecnolóaica. do poder para controle do espaco-
geopolítico da modérnidade que tentou efetuar Brasília como base logística para a ocupação país na nova ordem política planetáriaje-para tempo (Becker, 1988 a), foi instrumento essen-
uma modernização conservadora e homoge- definitiva do interior. O Projeto Calha Norte é a modernização acelerada da_sociedads_e_do cial da modernização conservadora, na medida
neizadora da sociedade e do espaço nacional; a manifestação contemporânea dessa mesma território nacional. Condição tambémda conso-, em que consolidou uma cidade m undial.
a fragmentação do território como expressão lógica, retomando posições fortificadas da lidação e ampliação do papel dirigente do Estado;! enguanto nexo com a economia-mundo em
da crise do Estado e do esgotamento do projeto colônia que mantiveram a posse do imenso entendido como único-ator-capaz deíacelerar.
geopolítico na década de 1980, constitui a território amazônico. a modernização _através__do_planejamento os"dom ínios aaromercantis enquanto suporte
segunda seção. Na terceira, à guisa de rácíõnaLainda que sustentado pelo endivida-j
conclusão, se apontam as tendências do Estado Produto e condição dos pactos oligárquicos, o mentaexterDP (Becker, 1988aj. Ós fartos créditos' dentes a áreas consolidadas, cujas estruturas
e da gestão fragmentária do território. Estado brasileiro teve_na geopolítica uma ‘empurrados’ pelos grandes bancos internacio­ põlíticãs~sáo mantidas através de alianças com
condição cháve do.seu .fortalecimento e utilizou nais n ádécidade 70 2 favoreceram a estratégia interessèSTocais e reoionãisT e produziu fron­
o discurso dá unidade nacional para suajegith de_modeynização_ê^a.interaçãodãs_condições teiras, enquanto indutoras de rupturas sem
O projeto geopolítico para a mação áféos.primórdios da industrialização. A externas e internas se^expressaram no ‘tripé’ ameacamosjnteresses estabêlêcidos;
manutenção do equilíbrio precário entre as
modernidade e a homogeneização forças do mercado mundial e os interesses dos
e nos grandes projetos. A articulação da cidade mundial aos domínios
conservadora do território grupos dominantes conferiu atribuições cres­ Não se trata de atribuir onisciência aos militares. e às fronteiras foi feita atravésda imposição pe­
centes ao Estado, que assumiu papel decisivo Gestado ainda em pleno regime liberal de após- lo Estado, de uma vasta malha de duplo contro­
Na busca da especificidade das transforma­ e crescente na industrialização. A incorporação le, técnico e político, correspondente aos progra­
guerra, o projeto não foi fruto apenas das
ções em curso no Brasil, não basta recorrer de ‘espaços vazios’ ao domínio da nação tornou- mas e projetos governamentais que se conven­
Forças Armadas; tampouco se tratou de uma
ao capitalismo tardio e ao autoritarismo como se parte essencial do projeto geopolítico de cionou designar de malha programada e cujo
marcha racional e inteligente e sim de iniciativas
sua dupla face, repressora e populista, feições modernização e de ascensão à potência regional isoladas e decisões possíveis que terminaram traçado atende aos interesses que compõem o
comuns a grande número de Estados do e revela um novo significado do território na 'tripé'. Concretiza-se principalmente: a. na exten­
num projeto gerido pelos militares. Contudo,
continente e que figuram uma via conserva­ mediação entre Estado e sociedade: o território são de redes técnicas— viárias, urbana, de co­
dois aspectos de sua atuação devem ser
dora latino-americana para a modernidade. Via éum recurso simbólico de constituição da ‘nação’ municação, de informação, institucional, bancá­
ressaltados: a. o reconhecimento de que apenas
em que o Estado negocia com os grupos i como indivíduo coletivo em detrimento de uma ria etc.; b. na criação de territórios superpostos
a indústria de bens de capital não era suficiente
privados a manutenção de seus privilégios e L comunidade nacional de cidadãos. à divisão político-administrativa oficial, geridos
para garantir a ‘Segurança Nacional' e requeria
sua inclusão ou exclusão nos benefícios da ' por instituições estatais para onde'foram canali­
também a autonomia tecnológica; b. a instru­
coisa pública em troca do apoio ao projeto de Mas a ‘marcha para o oeste’ no Estado Novo zados os investimentos (Becker, 1988a).
mentalização do território como base da
modernização a partir ‘de cima’. e no nacional-desenvolvimentismo dos anos
.50 foi muito mais um discurso legitimador do acumulação e também da legitimação do Estado. Na ideologia territorial, a fronteira assume um
Trata-se, no Brasil, da expressão mais e la b o -A^Estado do que uma prática concreta, limitada novo significado. Não se resume mais a franjas
Como promover transformações significativas
rada do capitalismo tardio na América Latina, ■*' a poucas iniciativas descontínuas no tempo e de povoamento pioneiro em terras ‘livres’ do
de um autoritarismo marcado por raízes escra­ sem romper com a ordem social hierarquica­
no espaço, a reboque da dinâmica social mente organizada? Ou seja, como promover espaço físico, e tampouco épuramente um tipo
vistas e por burocrefcia estatal em que as espontânea, e que culminou com a construção de periferia. Adquire uma dimensão simbólica
Forças Armadas alcançaram nível de profissio­ j de Brasília, sfmbolo do poder estatal a ser uma acelerada modernização conservadora?
Através da produção do espaço. de âmbito nacional. Incorporando a utopia
nalização maior do que na maioria dos países -estendido por todo o território nacional. pioneira e manipulando o espaço, o Estado se
de continente, e se trata ainda de uma certa apropria e difunde pela mídia o termo fronteira
O espaço tornou-se o mediador entre a nova
territorialidade intimamente associada à geopo- ! E somente com o novo autoritarismo que o economia planetária e a formação social brasi­ para designar a expansão da sociedade e a
lítica, que está na raiz mesmo da formação discurso da integração nacional assume sua
leira. Introduziu as rápidas mudanças do integração territorial. Catalisa e reorienta as
social brasileira. forma mais elaborada e um novo momento
espaço de fluxos conectados à circulação expectativas e as tensões sociais desviando-
crítico se estabelece na relação do Estado com
Historicamente,ji posse e o controle do terri­ > o território. O nacionalismo autoritário se conso- internacional de capitais, mercadorias e infor­ as para os ‘espaços vazios' do interior, atribuindo
tório sustentaram a coristraçâo do; Estado ê 7é , lida como estratégia de desenvolvimento e mações sincronizando-se com estruturas cujo à fronteira a imagem do espaço capaz de
este que passa a produzir o~seupróprip espaço, tempo é definido por rotinas solidamente oferecer à nação novas oportunidades, isto é,
como ideologia do território, e o Estado acelera
enraizadas que atrasam o ritmo acelerado de a mobilidade vertical impossível de ser alcan­
sqçiãlèjjglíticõrxàcionaLatécnico,instrumenta­ ; 0 ritmo e amplia a escala de sua intervenção
lizando o território. 'para controle do espaço e do tempo, se ante-
Í modernidade. Tratou o espaço como parte çada nas áreas estruturadas (Becker, 1988b).
integrante e fundamental da base técnica da A fronteira constitui-se então como um compo­
Na verdade, o território precedeu o Estado Jcipando à própria dinâmica social. As Forças grande empresa oligopólica procurando dotá- nente do patrimônio, tanto material como
brasileiro. O controle de posições estratégicas (Armadas deixam de ser uma burocracia em \ lo de operacionalidade e funcionalidade capazes ideológico que determina as relações da
como instrumento de posse do território está jarmas para se constituir como planejadoras e i T de garantir a integração de porções do terri­ sociedade com o seu espaço, como um conceito
na origem da geopolítica brasileira que estendeu igestoras de um projeto nacional geopolítico, tório nacional enquanto áreas privilegiadas de estritamente ligado ao mito fundador de uma
as fronteiras políticas muito além dos espaços para a modernidade.
valorização da economia-mundo (Egler, 1988).* determinada sociedade (Aubertin & Lena; 1988).
de produção colonial. Geopolítica de lógica As premissas do projeto geopolítico não foram
sempre militar que esteve presente na estra­ determinadas pela geografia do país nem se Nesse contexto, a politização de estrutura Na prática, como campo de manobra privile­
tégia de defesa e expansão do território da resumiram à apropriação física do território, espacial correspondentes a interesses diver­ giado do Estado, a fronteira assegurou a
colônia pela Coroa portuguesa por três séculos, sos, uma complexa regulação do território se extensão do seu poder, definindo-se como o
tônica da geopolítica convencional. CL marco
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Espaço 4 Debates n? 32 - 1991 Modernidade e gestão do território no Brasil: da integração nacional à integração competitiva

retira a autonomia para gerar e controlar os de renda real, seja através da captura clandes­
espaço não plenamente estruturado, onde o Crise do Estado, ‘de-regulação’ e tina das redes, seja através de pressões para
Estado pode mais rapidamente alcançar seus fundos públicos, divididos entre as diferentes
fragmentação do território3 esferas do poder, de modo a não ameaçar a alcancá-las, como é o caso da luta por locali­
objetivos de modernização conservadora. A
trama de privilégios consolidados. zações junto às redes de circulação e energia.
geopolítica do Estado brasileiro construiu não A crise/reestruturação da economia-mundo
apenas uma, mas um muitas fronteiras que baseada em novas tecnologias de produção A crise do território é desnuda nas grandes
Dado o caráter geopolítico do projeto da moder­
deveríam oferecer perspectivas de crescimento e.gestão e no liberalismo como novo quadro metrópoles e na Amazônia. Na década de 70,
nidade, as m an ifestaçõ es da crise da
econômico, de solução das tensões sociais e para as relações éntre o Estado e o mercado cs conflitos fundamentais na grande fronteira
modernização conservadora assumiram uma
de pleno exercício do poder sobre o tempo e mundial afetou mais intensamente as semiperi- se travaram na disputa pela terra entre posseiros
nítida dimensão territorial. Na redefinição das
o espaço. Dentre elas ressaltam a fronteira cien- ferias da econom ia-m undo, que .foram regras do jogo, a materialidade do conflito . e fazendeiros. Nos anos 80, em face da escala
tífico-tecnológica associada à indústria béüca dirétamente atingidas pelo fim do ciclo de cres- dos grandes projetos, a escala dos conflitos
assume expressão na luta por lugares e posi­
implantada na core area, fronteira originária cimento.suste.ntado pelo endividamento externo também se altera, tratando-se de disputas por
ções estratégicas no espaço. O projeto geopolítico
de constituição no país de um novo padrão no início da década de'1980.’4 Mas as raízes tentou completar o controle do território através território. Os Povos da Floresta lutam pela terri-
de inserção na ordem planetária; a Amazônia, da crise não~êstãvam predeterminadas, torialização, enquanto grandes empresas
da imposição de sua malha programada,
expressão máxima das fronteiras no Brasil, dependendo também de componentes internos, mineradoras e o governo criam novos territó­
estendendo as fronteiras além do seu poder
onde se pode acompanhar a implantação da I e a recuperação das semiperiferias tem vela­ rios superpostos à jurisdição oficial, como é o
de mantê-las e controlá-las. O território foi, assim,
malha programada, o processo de transnacio- is cidades de recuperação .diferenciada. caso do programa Grande Carajás.
instrumento de consolidação e crescimento do
nalização da CVRD e os violentos impactos
Estado, mas também expressão de vulnerabili­ Os conflitos de hegemonia nos domínios
sociais e ecológicos decorrentes; e as fronteiras A redefinição do papel do Estado torna-se
dade, e a leitura do território permite desvendar agromercantis retomam, sob nova feição, a
representadas pela conquista de parcelas do particularmente crítica no capitalismo tardio e os interesses em jogo no processo de reestrutu­ questão regional. O lento processo de transição
mercado Internacional para produtos, grande autoritário brasileiro, onde o_Estado assumiu ração da economia e da sociedade. autoritária para o governo civil forçou a reaco-
engenharia e consultoria, particularmente na a modernização conservadora a tal.ponto que
América do Sul, África e Oriente Médio. modação das elites regionais que passam a
à crise se manifesta em seu próprio cerne. A_crise. se manifesta em_diferentes-escalas.
buscar novos mecanismos políticos para
É_ãss[m_que^em.plena recessãQ_mundial. .0 . Ao nívei econômico, trata-se sobretudo da crise Ao nível^ loça|,_naJuta^pelQ_díreitQ_acLÍugar;
garantir o seu poder. Abaladas as formas tradi­
BrasiLse.configuracamo.semiperiíeria, processo financeira de um Estado que se tornou empre­ cionais de fidelidade eleitoral baseadas na
que não lhe foi exclusivo e que resultou.de sário e principal Jinanciador da economia.
propriedade da terra peia mobilidade da força
cópcjlçoes externas é internas. A descentrali­ Significa_o_esgotamento de um padrão de pelo controle do mercado da semiperiferia.
de trabalho e pelas novas territorialidades,
zação industriaLe,o.crédito,.combinados com financiamento da industrialização que contava
Lugares e posições são objeto de verdadeira intensifica-se o clientelismo, mas a escassez
condições específicas, produziram uma profunda com o setor publico para socializar os riscos dos fundos públicos tornou mais acirrada a
do investimento privado assumindo a dívida guerra civil que põe em xeque as estruturas
diferenciação no setor periférico da economia- disputa por sua alocação.
para o crescimento a qualquer custo, sem de poder local institucionalizando e definindo
mundo. O Brasil, como o México, os Tigres
consolidar um sistema financeiro capaz de formas paralelas de gestão. A centralização Novas territorialidades resultam dessa disputa.
Asiáticos, a China_e a fndia experimentaram
garantir sua_reprodução ^mpliada. A veloci­ excessiva do poder governamental combinada A frente formada pelos governadores nordes­
um breve ciclo de crescimento entre 1967-1982 com a ampla extensão de suas operações
Jsustentado.peio -endividámenTõ externo.e por dade do endividamento externo e interno é cortou os laços de comunicações com o espaço
tinos, trocando o apoio concedido ao iento ritmo
vigorosa intervenção.esjatai, emergindo como manifestação clara dessa situação. da democratização, por recursos necessários
vivido, fragmentando a sua malha programada. à recomposição de suas bases eleitorais e seu
1semiperiferias no sistema mundial, embora com
A crise afeta também diretamente o aparelho 0 Estado foi incapaz de controlar a resistência poc er local, expressa-se em grandes conjuntos
\pstilos de crescimento diversos
de Estado que levara a construção do Estado da população excluída e de atender às habitacionais que recriam ‘currais eleitorais'
Em consequência, o Brasil alcançou a posição à frente da construção da nação, eliminados demandas localizadas, que eclodiram em uma nas áreas urbanas e periurbanas. A redefinição
de oitavo PIB do mbndo e passou a exercer os mecanismos de representação e participação frente de conflitos expressa em movimentos dos domínios assume forma elaborada na
influência econômica e política em países peri­ que permitiríam negociar soluções para a crise sociais localizados. Constituição de 1988 com a criação de novos
féricos, enquanto a maioria da população ficou e destituindo de legitimidade o Estado e a Estados na Amazônia Legal e a conquista dos
excluída das benesses do crescimento Sob esses movimentos jaz, em grande parte,
atividade política. A modernização conserva­ seus governos e de sua representação política
econômico e a submissão aos países centrais a intensa expropriação e mobilidade da força
dora cooptou os grupos políticos ao custo de em Brasília torna a Amazônia um palco de
foi mantida principalmente no campo finan­ de trabalho, significando a ruptura da população
internalizar seus conflitos, transformando o disputa entre as elites regionais.
ceiro e tecnológico, pois os avanços em C/T com seus territórios de origem e transformando
Estado na principal arena de luta econômica
se concentraram em setores controlados, não a busca por um lugar em uma reivindicação A disputa pela hegemonia também está presente
e política na recomposição do pacto de poder.
se difundido para a economia e a sociedade. de grande parcela da população. As 'invasões' na descentralização. A reforma tributária,
Configura-se, assim, a crise do Estado que
A_m odernização .c o n s e rv a d o ra -c rio u —um hoje se diferenciam pela velocidade com que proposta pela Constituição, aumentou o poder
se fragmenta política e espacialmente pelo
espaço.tecnicamente-homogeneizãdo — faciji- se criam novas territorialidades; pelo lugar que dos estados e municípios na gestão dos fundos
fortalecimento de corporações crescentemente
tando a interação de lugares e tempos —, ocupam, não mais apenas as franjas de terras públicos, mas a descentralização necessária
autônomas, que diluem os limites entre o
vazias, mas o âmago das grandes cidades e dos recursos não foi acompanhada pela distri­
mas4arnbétn.um-espaço-tragmentada.porquc público e õ privado. Por seu turno, a socie­
de áreas rurais valorizadas; e pela dimensão buição eqüitativa dos encargos sociais que
A a_apropriação-do-território_e_a_alocação_de dade de massas pobre, desprovida de fóruns
do conflito que extrapola a capacidade de permaneceram em grande parte sob a
recursos foi fortemejite-seletiva^iesultarido e canais de representação, projeta suas
controle pelo poder local, desembocando ora responsabilidade da União.
em conflitos que se constituíram em embriões demandas sociais no Estado, de quem espera
d e _novasJ e rrito rialidades ^ em luta armada, ora na legitimação da posse.
respostas concretas para a conquista da cida­ A escala nacional, a questão do território
1 A.conquista do lugar.é também uma-guerra
dania. Na nova Constituição, evidencia-se a
/ questão crucial do Estado: dele se exige um
papel decisivo no desenvolvimento, mas se
de posição .de acesso-Ajnalha_progtamada_e
seletiva do Estado. O objetivo éerguer o patamar
expressa o agravamento das contradições
inerentes ao estilo de crescimento nacional/
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Modernidade e gestão do território no Brasil: da integração nacional à integração competitiva
Espaço & Debates n? 32 - 1991
n gi ip —P-Çee.ç—teóricos não apontaram foi a_'/iHuajsohedecendo ao imperativo de lucro)
transnacional adotado pela semiperiferia, na terntónoconiojnstrumento de negociaçãodire-- relaçãCLentre o paradioma-por eles propostos os processos controlados pelo poder (atividades
medida em que a crise afetou de forma diferen­ ta com capitais transnacionais. estatais orientadas para manter a ordem social
e_a_nova onda liberal associada à.remqção
ciada os membros do tripé. A crescente', Ho nhstániilns. a amola d ilu s ã o das_tlQvascapitalista acima dos interesses individuais)
autonomia da grande empresa e a fragilização', No futuro das empresas estatais reside a (Offe, 1972). A burguesia mundial não neces­
tecnologias (Becker, 1986), assgçiaçãajtue
do Estado tendem a segmentar o mercado e , grande incógnita sobre os rumos da semiperi­ sita mais de garantias legais dus' diieitus "dê
transformaria o novo paradigma em ideário e
o território nacionais. feria. Aquelas que ganharam autonomia relativa pjfnprtgilarfâ mas tão-somente W T im a estru­
instTumentõ de reestruturação da economia-
e consolidaram posições no mercado externo, mundo.no_sentidQdaflexibiüzação_daecooQrnia. tu r a qna garanta o acesso privilegiado à
A emergência do Brasil como semiperiferia encontram-se melhor capacitadas para fazer aJóropriãção continua do exceoente. o g u e lhe
na economia-mundo alterou a dimensão do frente à crise. É o caso da Cia. Vale do Rio Motivações jle^origens . muito diversas _que‘ permite grande flexibilidade (Wallerstein, 1983).
mercado nacional, pois que a consolidação Doce que, como instrumento de política incluem os movimentos sociais, a_crítjça_da
de complexos industriais se deu concomitan­ Mas tal discrepância não significa o fim do
governamental na execução dos grandes
Estado como instituição e área geográfica,
temente à conquista de fatias de mercado projetos de exploração mineral na Amazônia, Hria^sócio^ambiental,'aa^^^enyplw nfiD tQ
externo. A grande beneficiária da política de . em favor do global e do local como acreditam
construiu sua própria territorialidade. Verda­ perseguido pelo Banco Mundial/_convergem
incentivos à exportação foi a corporação ^alguns (Lepietz, 1987). A manuten ção _do sB
deiros enclaves, onde se desvela a face privada para a percepção de que .os efe]tos._d|retos
limites dos territórios nacionaís_para sustentar
transnacional sediada no território nacional e transnacional de uma empresa que articula da-interação de fatores-ecológicos, sociais, adiferenciação_espacialJe^sençialà^mpresa.
que ganhou autonomia crescente e tem diretamente a região criada sob seu controle econômicos e-poTíticos dá~éscala locaLrepte' 0"Estgd^çQntip.ua,a,seL3_úiiidade-espacial
vantagens competitivas sobre as empresas com o mercado mundial. , cn sentam elementos regulitorios^e jnovadpres hásica para a acumulacão-de-capitah-embora
nacionais, utilizando tanto o protecionismo no .O . — •>-*' pãràlQ3ésenvolvirt®ntãIgrô£al. Na interação
mercado interno como os estímulos para cumprindo um novo papej. O processo_.de
conquista de parcelas do mercado externo
histórica das duas tendências opostas de
homogeneização/diferenciação do espaço,
mo<iernizaçâõ~consiste em se_manJe_r_çonti- *
Liberalismo autoritário e integração nüamente moderno jxQue_exige_a_cnaçãQ_de
adquiridas pelo Estado brasileiro. passa-se a privilegiar a última, sem que isto _____ reguladojielo
__
competitiva do território um~c5ntêxtõ~dé modernização
A tendência à segmentação do mercado e do signifique o desaparecimento da homogenei- 'e mbora ele~possa não siTmãTs oJugarj
território está relacionada em grande parte à
perda do poder de decisão do Estado sobre
a localização da empresa. A localização das
As tendências identificadas no movimento de
transformação do sistema capitalista mundial
hoje se acentuam. Esgotam-se as últimas
&nsrssssssgss^
concentração e _centralização_da_capitaLcuja Crescem, assim, as demandas pom m areform a
1
globalização avança através não s ó d a jn c o r- do Estado. Sua configuração prévia é perce­
empresas foi em parte induzida pela malha ‘reservas’ territoriais para a externalização do
pórãção extensiva _de_iiQVQS_espáços_corno, bida como não mais funcional tanto à reprodução
programada e, na medida em que a crise afetou custo do desenvolvimento e da dominação polí­
sobretudo, pela valorização seletiva_daS-diíe- do sistema econômico como à pfõdúsã o jje
diretamente a capacidade do Estado, tanto tica, e solidariedades de base territorial
renças_nuni-processo -combinado. de-centra- bens C
Urfiia e aeiVllyUJ.
serviços, im
no IIUUUWI
interior do Estado. —
Ao
-J-
de expandir como de manter a imensa rede emergem. Exaure-se o ciclo de expansão
ii7noãn/dgsnRntralizacão que afeta os conceitos contrário demanda-se uma organização soçjfll *
implantada, ficaram ameaçadas a velocidade sustentado pelo crédito. O padrão tecnológico
da soberania e naçjoji^sm g. riSvíwõi-rr-ãKerta à internacionalização. Para
de circulação no espaço e a segmentação do dominante desde o após-guerra, que privile­
tãnto. a ideologia liberal propõe a exeçuça.0
mercado. Essa situação reforçou a ameaça giou a produção seriada em grande escala e Frente_às múltiplas pressões e à_tendência_à de uma estratégia de modernjz a jjio _ d g g
decorrente da ubiquidade adquirida pela grande a modernização homogeneizadora, dá sinais economia flexívei. acirra:se a~_competição aparatos institucionais que inclui, como
corporação oligopólica que, já independente de esgotamento e perda do poder de controle, éspãcial e .flexibiliza-se também a gestão do componentes centrais, a desburocratizaçáo, a
de competição de preços, passou a contar apontando para a produção flexível fundada território. Planeiam-se hoje, sobretudo, as dife
dife-) i---gtí i; a?an p riescentralizacão (Becker,
'ainda com os avanços na tecnologia do trans­ na inovação contínua e para o reconhecimento renças, enyolyendQ_as_CDmunidades_lfi£ãls 1986. Mattos,
da importância das diferenças, enquanto alter­ 1982, 1986; Mattos, 1989).
1989).
porte e da produção, esvaziando o poder do em
Cl 11termos
lipri i i diretos e obrigações,
-t em &qrau-maior1
Estado de influir na sua localização. nativas competitivas de desenvolvimento. ou menor de responsabilidade. Dessa forma Mas também esse processo é marcado por
slTpfõcuralítinder às expectativas políticas e diferenciações. A privatização^nas economias
Operando em escala planetária, as grandes cor­ A projeção mundial desse modelo trouxe fortes centrais^émodesta e seletiva e,jp b rg tu jjo jtâ p
sociais, se poupam recursos escassos, se
porações procuram romper os limites territoriais ténSõèsjestrqtQràFs e_ resultou em contraprodu- vem sendo acompanhada de desestatização
incorporam potencialidades, se assegura o
dos Estados-Nação em favor de lugares e posi­ tividade social. Já em fins dos anos de 1970, generalizada (Bursztyn, 1990). Pé,lo_Contrário,
cumprimento do plano estabelecido e se esti­
ções privilegiados, negociando diretamente com oslteóricos do desenvolvimento regional ãpon: no~PrimeTrg-.Muadg>_ajPteKfinçào -do-Estadoi
mula a competição, procurando superar a
frações locais e regionais, cujos interesses nem tavam a falência dq^planejamento centralizado continua de importânciajçentral. ainda que se
contraprodutividade social. Na Europa, regiões
sempre são coincidentes com metas nacionais, e.propunham como novo_paradigma o desen­ altere o conceito de soberania e .se processe
e comunidades ganham autonomia para
dando origem a estruturas regionais diretamen­ volvimento de ‘baixo para ôirha’ (Friedmann & uma mudançã~nã~forma de-SuaJntervençãa
promover o desenvolvimento e ‘coalizões de
te articuladas à economia-mundo. Tais riscos DougTãss, 1978; Stõhr, 1980). A integração i ima re-reniilacão oue incíui aÇfiSSáO-de^obe-
crescimento' comunitárias competem por
referem-se particularmente às empresas de ca­ crescente com afastamento das bases territo­ rania econômica e até mesmo temtonal .Pãra
investimentos, significando que as comunidades
pital nacional, que têm maior dispersão e são riais significou, por um lado, queda da iotenrerên.em orande blOCOS eCOnÔIDiCOS. maS
vizinhas se constituem como grande inimigo
mais dependentes da política governamental, produtividade afetando a própria capacidade « não
nau ...a,o w governo
_________
e mais o central______________
(Taylor, 1990) não a cessão de soberanjajffllilica..
e transparecem na proposta de implantação de inovação, que acusa retorno marginal
das Zonas de Processamento e Exportação decrescente uma vez que se tenha difundido Nesse_conlexto,jjm novo Estado. igualm ente- A t e s ^ a t i z a ç ã o i j ? ^
(ZPE) em vários pontos do território, em espe­ até uma certa extensão (Stohr, 1980); padrões flexível se torna^necessãrio. A internacionali- da_djy[da-extetna a mplia.a pressão exte
cial no domínio agromercantil. Soh.o-discurso de preferência regionalmente diferenciados zacão do capital e a rapliçaçãoJnlénsTiÍJe- p j r t i c u j g i ™ ^ ^
do desenvolvimento regional, que procura dar tornavam-se, assim, essenciais à inovação 7ioWs~fechoTogíãs~~ tendem a acentuaj_â economia-mundg^om_oobjeJivo de desm a ia r
legitimjdadejã!eSe projeto,.jazerninter.esseslo- contínua. Por outro lado, significou impossibili­ disaepânciã estrütürãL existente_fiQtre_QS os_E^ados_çeolraüzados,
caís de se relacionar diretam entexom o merca- dade de atender às novas necessidades sociais processoscontrolados^ejovator(capitajsindi- desenvolvimentojtoCjgnaLpoealespetseg tda_,
dõ mundial7ut!lízando~a cessão de parcelas do e problemas ecológicos gerados.

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A v fV ^ ' A. \ ’s-V r c i_A '
Espaço & Debates n? 32 • 1991 D V Modernidade e gestão do território no Brasil: da integração nacional à integração competitiva

do nacionalismo como estratégiade desenvol­ que é hoje alvo geopolítico da batalha,que se


os mercados e áreas de influência por elas
cgnquiitãããs e, desta torma, criar condições
aposição de semiperiferia hoje, implica resolver I vimento. Ao lado de uma das mais vigorosas trava,nos_fóruns internacionais_para socializar
° dj]ema_éntrg_produzir a custos competitivos os espaços,naturais (Becker, 1990)7
parjTque as~corporãções multinacionais e__os intervenções na economia da história brasileira,
e assegurar a incorporação contínua dejpova-
Estados centrais possam operar mais livre que privilegia a inserção competitiva, visando Os interesses das elites regionais se manifestam !
ções tecnológicas que exigem investimentos
mente. É o caso do MSTco, do brasil pressionado alcançar uma posição no Primeiro Mundo (leia- na continuidade do desenvolvimentismo e na [
de alto risco e custo em P/D semretQrnojnnediato,
também pela questão ecológica, e talvez o se manter-se como periferia), liberam-se as disputa pelos governos dos novos Estados.
em que o Estado tem um papel chave. A redefi-
caso do Iraque, potência regional emergente relações capital-trabalho e se tenta controlar Pressionados, Povos da Floresta, posseiros e
nição do papel dcri Estado na economia exige,
abortada pela guerra, decorrência também do assim, simultaneamente, garantir a competiti­
o corporativismo. garimpeiros lutam por territorialização. y
nacionalismo belicoso adotado como estratégia vidade brasileira para bens e serviços no mercado O terceiro aspecto da questão se refere ao Na materialidade do conflito, envolvendo uma
de desenvolvimento por seus dirigentes. mundial e expandir os investimentos sociais, território. O contexto de fragilização da União multiplicidade de atores com as mais esdrú­
implicando profundas reformas referentes à e diluição dos interesses gerais se revela no xulas coalizões e intensas disputas territoriais,
Mas a_mudaoça_do papel do Estado não é
distribuição da renda e à ampliação do mercado acirramento da competição pelo controle do revela-se a síntese contraditória da articulação
um mero.reflex o d iló a ic a da dominação. Pela
interno. Exige ainda a definição política d as] território, e na nova forma de sua gestão. O nacional/transnacional e dos modelos industria-
primeira vez em séculos, nacionalismos sêpãra-
frações de capital a serem sucateadas, impli-1 projeto geopol ítico._nacionaj^_substituído_poc lismo/ecodesenvolvimentismo dominantes na
tistas ameaçam a integridade territoriaLdos
cando negociação direta entre os membros do fP" uma geopolítica d osEstados.em jjuejjrojetqs economia-mundo no final do século XX. Entre­
Èitados, afetados também por movimentos
‘tripé’, desmontado com a crise financeira do Lí- territorialmêrife fraqmentados são negociados tanto, a Amazônia não é a Antártida, parcelada
sociais, e a íóqica do ‘projeto civilizacionar
Estado. Esse novo papel édificultado na medida ! um a um pelas elites e também pelas Forcas petas grandes potências mundiais, e sim um
desses movimentos e a grqnde variável
em que lhe foi retirada a autonomia para gerar Armadas, que mantêm o controle da fronteira patrimônio da sociedade brasileira que tem
desconhecida dofínaldo século X X . Desafiando
e administrar fundos públicos. tec7iõ-cienfjfica_ e da fronteira setentrional na ainda um longo caminho a percorrer para a
Amazônia. O temor pela perda de controle e. demodratização do território.
O segundo aspecto diz respeito à própria es­ díTsõberania frente à autonomia dos Estados
ÜDi:Jenòmeao._sócio-político fundamentaTriã trutura transacional do Estado. O Estado de­ e à prèssão ecológica intérnàcionál, levouj Bertha K. Becker é professora do Departamento
situapão presente, embora não se saiba qual mocrático se configura como única organiza­ as Forças Armadas a retomar o discurso da de Geografia da Universidade Federal do Rio de
será sua trajetóríaT Popem contribuir parada ção no Brasil capaz de mobilizar recursos e
criação de uma ordem üõcTahsta ou oropnr- unidade nacional e a prática geopolítica, Janeiro-UFRJ.
realizar investimentos e reformas sociais em
cionar envoltura exterior para a lógica da expressa no macrozoneamento ecológico- Este artigo foi aceito para publicação em novembro
grande escala para vencer a miséria e as de­
econômico do território nacional no nível de 1990.
dominação. As estruturas transnacionais dos mandas de uma sociedade de massas pobre,
Estados constituem-se, portanto, como campo macrorregional e regional, com prioridade
e de assegurar a conquista cidadania. A di­
de batalha política chave no processo de rees­ para a'Am azônia Legal (Decreto ri? 99.540,
mensão, soçiaLda. gestão,_excluída. pela .mo­
de 21/9/1990)7
Notas
truturação do sistema capitalista mundial dernização conservadora, constitui,hoje um
(Wallerstein, 1983). desafio básico da sociedade civil na redefini­ 1. Segundo Wallerstein (op. cit.), a estrutura espa­
O macrozoneamento sintetiza, assim, a nova
cial da economia-mundo é constituída por áreas
ção do p ap eld ó Estado. forma de gestão do território, que busca tirar
Nesse contexto, altera-se também hoje o onde dominam processos de centro, áreas onde
partido das diferenças espaciais, liberalizando dominam processos de periferia e áreas, que
nacionalismo. Ele deixa de ser uma estratégia No entanto, persiste o acentuado corporativismo, a competição dos Estados, ao mesmo tempo manifestam combinações particulares de ambos
de desenvolvimento e se manifesta sob dife­ que obliterou a percepção sobre o papel do
em que tenta mantê-los sob o controle gover­ os processos: as semiperiferia?. Significa que as
rentes formas que implicam significados diversos Estado na disputa eleitoral — só evidenciado
namental, configurando a política de integração relações sociais operantes na semiperiferia
da flexibilidade. Uns são de base cultural, em posturas antagônicas no segundo turno —
competitiva do território. envolvem tanto a exploração da periferia como a
como é o caso do movimento pela ‘europei­ e criou condições para o bipartidarismo, com o própria exploração da semiperiferia pelo centro.
zação da Europa’, que propõe a restauração retorno tardio do autoritarismo em sua face A leitura do território na Amazônia é elucidativa Os processos políticos são essenciais na ascensão
de uma comunidade continental a partir dos populista sob o discurso liberal antiestatista. das tendências acima assinaladas. A planeta- e declínio da semiperiferia, categoria mais dinâ­
horizontes culturais comuns, isto é, dos Dentre as nações que se democratizaram rização colocou o desafio ecológico como mica da economia-mundo.
símbolos, da consciência e da memória cole­ recentemente, éno Brasil que as Forças Armadas questão de sobrevivência da humanidade e a 2. Como se sabe, a recessão mundial decorrente
tivos que constituem a história centro-européia, detêm as maiores prerrogativas (Stepan, 1988), Amazônia é um símbolo desse desafio. Mas, dos choques do petróleo na década de 1970 não
e que não se vinculam a uma base territorial mantendo quatro ministérios; empresas e bancos apojêmica_ecológi.ca_envolve J a m b é m jn te - afetou os grandes bancos que diante do problema
nacional (Steger, 1982). Outros têm trajetória pressionam obstinadamente por seus interesses, resses te cnológicos—e _ g a o politicos que de onde investir seus petrodólares numa economia
conservadora que vai ao encontro dos inte­ e as elites regionais retornam com todo o vigor. recessiva, encontraram como uma alternativa o
i transformam a questão regional numa questão
resses da lógica da dominação. financiamento aos países latino-americanos entre
A situação se acentuou com a crise do Estado tecnoiecóTIogíça, manifesta em duas frentes
outros.
que é também uma crise de padrão de nego­ de expansão contraditórias, De_um_lado1_a_
É nesse contexto que se colocam o dilema e a 3. Esta seção se baseia nos trabalhos de Becker e
ciação com as elites que competem mais frenie.energétlca,cjue dá continuidade ao projeto
ambiguidade do novo Estado e do novo território de Becker & Egler (no prelo).
livremente, numa verdadeira guerra para manter geopolítico de exploração de recursos na fron-
no Brasil; qual o sentido da flexibilização do 4. Forte recessão cíclica, autonomização da dívida
posições privilegiadas, ressuscitando os regio­ terrárfffag~dúé~sm face da crise dolEstado.se
Estado em face da tradição autoritária? E como externa decorrente da súbita elevação da taxa
nalismos. É ainda a crise do padrão de re tra te se torna seletiva, resumindo-se—à
essa flexibilização se relaciona ao território? de juros de 1-2% para 6% ao ano, queda de
enfrentamento das organizações sindicais, cujo expansão d as e m p re s a s ^ e s ta ta is ^ ^ V B D - e preços das matérias-primas e retratação do fluxo
alvo principal era o Estado. Eletrõnorte. De outro iado, a frente biotecnoló- de capitais, tornaram a América Latina uma região
A questão se coloca sobtrêsaspectos, Primeiro,
quajPJ?adrão de inserção dó país na nova divisão gicãj^reveladora d a v a lo ri/a ç ã o da biodiver­ exportadora de capitais. Esses fatores somados
O liberalismo autorjtário populista.se manifesta sidade, como-capital dêTealização futura cuja à crise social e institucional, configuraram uma
intemacjgriird õ lrã b a lh o , que tende _a.passar então numa flexibilização s u ig e n e ris do Estado. preservação significa a possibilidade de.controlar 'década perdida’ para o continente. No entanto,
Pê!^teimação_dos-mercados_supiianacioxiais, A ausência de um projeto nacional, substituído a característica mais marcante da América Latina
o desenvolvimento_da ,eogenharia. genética,_e
capazes de sus|entamQvas_tecnoioaias. Manter por medidas provisórias indica o esgotamento
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54 i
Espaço & Debales n? 32 - 1991

nessa década foi a sua diferenciação, o Brasil STOHR, W. 1980. 'Development from below: The
mantendo sua posição como economia mais bottom-up and periphery inward development
avançada (Hirschman, 1986). paradigm’. Diskussion, 6, Viena: IRR.
TAYLOR, P. 'Political Geography'. In (ed.) Rogers,
Bibliogi afia Goudie, A. e Viles H. The Students Companion
to Geography. Londres: Basil Blackwell (no prelo).
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BECKER, B.K. 1982. fo uso políiico do território: Londres: Cambridge University Press. Estagnação e territorialidade
questões a partir de uma visão do Terceiro -------------------- ' 1983. 'La crisis como transicion'. In
Mundo’. In Becker, B.K. Costa, R.H. e Silveira, (org.) Amin, S„ Arrioghi, G., Frank, A.G. e Roberto Smith
C. Abordagens políticas da espacialidade, Rio Wallerstein, I. Dinamica de Ia crisis global.
de janeiro: Dep. Geografia (UFRJ). México: Siglo Veintiuno.
------------------- 1986. ‘A crise do estado e a região —
a estratégia da descentralização em questão’.
Rev. Bras. Geografia, 48 (1). cer um esforço de diagnóstico do que vem ocor­
Existe em evidência um debate a respeito da
------------------- 1988a. ‘A Geografia e o resgate da aceitação ou não de uma tendência manifesta, rendo no Brasil desde os anos 80 — a 'déca­
Geopolítica'. Rev. Bras. Geografia, Ano 50, n? da perdida’, para arriscar prognósticos sobre
reveladora de uma convergência de padrões
especial, tomo 2, IBGE. a dinâmica da nova territorialidade no pós-80.
capitalistas típicos no esoaço das regiões do
------------------- 1988b. 'Significância contemporânea país, cujo fio condutor seria o avanço progres­
da fronteira: uma visão geopolítica a partir da Neste texto, pretendo encadear o seguinte:
Amazônia Brasileira’.* In. Aubertin, C. & Lena, sivo de relações de produção com base no primeiramente alinhavar algumas considera­
P. (orgs.), Fronteiras, Brasileira: UnB. assalariamento e estruturação de um mercado ções a respeito de como penso a década de
de trabalho integrado. 80 em tetmos econômicos. Em seguida expor
------------------- 1990. Amazônia. São Paulo: Ática
------------------- & Egler, C.A.G. Brazil, new regional que condicionantes gerais são projetados sobre
Em complementação com a identificação dessa
powerin the wortd-economy. Londres: Cambridge a estruturação territorial no sentidò da inte­
tendência há a recorrência aos argumentos
University Press (no prelo). gração ou não nesse período, a meu ver
adicionais da integração dos mercados, da
BURSZTYN, M. 1990. Brasil: mitos e falácias da necessários a uma reinterpretação empírica.
maior participação do setor terciário, que
razão desestatizante. Paris (mimeo). Por fim, arrisco alguns palpites sobre o futuro,
buscam confirmar trajetórias observadas em
EGLER, C.A.G. 1988. 'Dinâmica territorial recente felizmente incerto, dos anos 90, que parecem
países desenvolvidos, que terminam estabe­
da indústria no Brasil'. In (org.) Becker, B.K., inflados pelos ventos do assim denominado
lecendo um fecho na integração visualizada
Egler, C.A.G., Miranda, M.R. & Bartholo, R.S.| 'neoliberalismo' que tenta se erigir sobre um
sob a ótica da generalização do consumo final,
Tecnologia e gestão do território, Rio de janeiro' Estado destroçado e Imobilizado, e uma
UFRJ. e de um padrão de vida urbano.
Sociedade Civil envolta ainda em apatia.
FRIEDMANN J. & Douglass, M. 1978. 'Agropolitan O que ampara esse tipo de ponto de vista é a
Development: Towards a New Strategy for idáa de que o capitalismo possui forças capazes
. Regional Piauning in Asia'. In Growth Pote Stra­ Considerações sobre a
de impor uma lógica homogeneizadora dos
tegy and Regional Development Policy, ed. Fu-
Chen Io and Kamal Salih, Oxford: Pergamon espaços regionais, aliada, contraditoriamente, ‘década perdida’
Press. à noção de ‘desenvolvimento desigual e
HIRSCHAMN, A.O. 1986. The political economy of combinado’. Essa lógica costuma ser demar­ Entre 1980-89, o PIB do Brasil cresceu a uma
Latin American development: Seven exercises cada por um principio que reunifica histori­ taxa média anual de 2,69% , e a renda p e r
in retrospection. XIII International Congress of cam en te distintos p rocessos sociais, capita a uma taxa de 0,65% ao ano. Com a
the Latin American Studies Association: Boston econômicos, políticos e culturais, tornando-o queda projetada do PIB em 1990, essas taxas
(mimeo). uno, seja na origem, seja no destino, que praticamente se tornam nulas.
LIPIETZ, A. 1987. 'Lo nacional y Io regional: cual muitas vezes parece obedecer analiticamente
Os dados mais recentes da PNAD confirmam
antonomia frente a Ia crisis capitalista mundial?’ a uma ‘necessidade’ teleológica: a destruição
Cuadernos de Economia, Bogotá, vol. VIII ( 1 1 ). um avanço do processo de concentração de
das territorialidades através dos caminhos da
renda na década. Nesse sentido, 10% das
MATTOS, C.A. 1989. ‘La descentralizacion, una sua homogeneização sob o capitalismo.
nueva panacea para impulsar ei desarrollo pessoas ocupadas com rendimentos do trabalho
local’. Socialismo y participacion n? 46. Creio que a aceitação e projeção da hipótese passam a receber 51,5% dos rendimentos
OFFE, C. 1971. ‘La abolicion dei control dei mercado de integração introduz muitos percalços na totas em 1989, quando em 1981 auferiam
y el problema de Ia legitimidade’. In Capitalismo sua rota explicativa, em confronto tanto com 44,9% . Contudo, esse indicador não incorpora
y Estado. Madri: Editorial Revolucion, 1985. elementos de ordem empírica, quanto de ordem o elemento mais decisivo da concentração de
STEGER, H.A. 1982. Fronteras y Horizontes. Conf. analítica.1 renda da década: os rendimentos financeiros
Internacional sobre Ia Problemática de Europa e patrirhoniais.
Central. Ratisbona (mimeo). Sem dúvida, o comportamento da economia
brasileira desde a segunda metade da déca­ Seja década perdida', ou 'década medíocre',
STEPAN, A. 1988. 'As prerrogativas militares nos como prefere a nomenclatura oficial,2 o que é
regimes pós-autoritários: Brasil, Argentina, da de 60, e também na década de 70, pode
ter induzido a extrapolações nesse sentido. preciso destacar, para não se ficar numa adje-
Uruguai e Espanha'. In Stepan, A. (org.) Demo­
cratizando o Brasil, Rio dé Janeiro: Paz e Terra. Contudo, é necessário refletir mais e estabele­ tivaçãoque se esgote em si mesma, éacarac-

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