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revista política social e desenvolvimento #06

Nem Sempre Foi Assim


As transfigurações do capitalismo

Edição
Especial

Frederico Mazzucchelli

ANO 02_Outubro 2014

plataforma política social


Código ISSN: 2358-0690
Apo
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Índice

04
Apresentação
Eduardo Fagnani e Thomas Conti

06
Nem sempre foi assim!
Frederico Mazzucchelli

26
A Grande Depressão dos
Anos 1930 e a Crise Atual:
Contrapontos e Reflexões
Frederico Mazzucchelli
apresentação
[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Professor do
Instituto de Economia
da Unicamp, pesquisador
do Centro de Estudos
Sindicais e do Trabalho
Eduardo Fagnani (Cesit) e coordenador da
rede Plataforma Política
Social - Agenda para o
Desenvolvimento

Mestrando em
desenvolvimento
econômico pelo

Thomas Victor Conti Instituto de


Economia da
thomasvconti@gmail.com | www.thomasconti.blog.br Unicamp

Esta edição especial da Revista Política Social e Desenvolvimento traz dois artigos
do professor Frederico Mazzucchelli. Nos dias atuais, apesar de observarmos o
ethos neoliberal rechaçando qualquer alternativa à dominância dos mercados e
uma incipiente capacidade de mobilização da sociedade, a preocupação do autor
é mostrar como esse tempo foi construído, qual foi o movimento que nos trouxe até
essa mentalidade específica com a qual nos defrontamos hoje.

Como diz o título do primeiro artigo desta edição, parafreseando Tony Judt, “Nem
sempre foi assim!”, e em mais de um sentido. O caótico período que vai do início
do século 20, passando pelas duas Guerras Mundiais e a crise de 29, certamente
foram tempos muito piores do que o que vivemos hoje, tempos de crise, desemprego e
violência em massa. Entretanto, daqueles tempos emergiu também, após a Segunda
Guerra Mundial, a necessidade de regular o sistema econômico de modo a atenuar as
mazelas gestadas pelo mercado autorregulado. As respostas keynesianas à incerteza
e à catástrofe promoveram um longo período de crescimento com ganhos salariais
e redução das desigualdades, algo também sem paralelo na história do capitalismo.
Esse desenvolvimento histórico esteve longe de ser linear, e o artigo que inicia esta
edição mostra justamente os percalços históricos pelos quais passaram diversos
países, do início do século 20 até o fim dos Anos Dourados.

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

No segundo artigo, Mazzucchelli tece uma reflexão cuidadosa sobre as semelhanças


e diferenças entre a depressão dos anos 30 e a crise econômica atual. Por um lado,
na crise do início do século, os governos estavam despreparados para enfrentar
um cataclismo econômico da ordem de grandeza do que ocorrera, multiplicando
o impacto da depressão pela demora em tomar medidas anticíclicas efetivas. Por
outro lado, a partir dali, numa série de reações tanto da sociedade civil quanto dos
representantes políticos, muitos passaram a enxergar a necessidade de se contrapor
ao livre jogo dos mercados, embora as formas específicas de fazê-lo tenham sido
amplamente distintas conforme o país – especificidades que o autor também aponta
com atenção, focando nos casos da Suécia, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra
e França.

Na crise contemporânea, a debacle econômica foi de alguma forma atenuada pela


participação ativa do Estado garantindo principalmente a solvência do sistema
bancário (embora isso tenha apenas feito migrar uma crise financeira, para uma
crise das dívidas públicas). Se o cenário atual é pessimista, o mais provável é que
fosse muito pior, se o que foi feito não tivesse sido feito. Já a mudança no paradigma
do livre mercado, embora esteja dentro do panorama mental dos principais agentes
na Europa e nos EUA, não sofreu abalo da mesma magnitude. Os protestos,
descentralizados e sem lideranças, expressaram um descontentamento com a ordem
sem, contudo, oferecer alternativa viável, ou propor um norte para a reorganização
e regulação do sistema econômico.

Em outras palavras, o autor parece nos mostrar como a ideia thatcheriana da


TINA (There Is No Alternative – Não Há Alternativa) sobreviveu à sua época, com
o reino da alta finança e da desregulamentação permanecendo vivo. Muito embora
a crise tenha eclodido nos países do centro capitalista, seus efeitos foram sentidos
principalmente nos países da periferia europeia, possibilitando que as vozes políticas
mais fortes continuassem com o discurso da austeridade.

A dinâmica da crise é substancialmente distinta da que ocorreu no passado, o que


Mazzucchelli nos mostra com muito mais acuidade e erudição do que essa breve
introdução poderia transmitir. Convidamos todos, pois, a mergulhar nos excelentes
artigos desta edição especial.
Boa leitura!
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Nem sempre foi assim


[Notas a partir de uma conferência proferida na FACAMP em 2012]

Doutor em Economia, professor


aposentado do Instituto de
Economia da Unicamp e autor dos
livros “Os Dias de Sol – A Trajetória
do Capitalismo no Pós-Guerra”
Frederico Mazzucchelli (Campinas: Facamp Editora, 2013,
240 páginas) e “Os Anos de Chumbo
– Economia e política internacional
no entreguerras

Introdução a nós mesmos e aos nossos filhos de que


nem sempre foi assim”.
O tema que irei abordar emerge de
uma observação de Tony Judt, um O esforço que hoje farei será o de tentar
grande historiador inglês recentemente esclarecer que, de fato, nem sempre foi
falecido. Em um de seus últimos livros tudo assim...
(“Ill Fares the Land”, “O Mal Ronda a
Terra”, na tradução em língua portugue- Em minha juventude, por exemplo,
sa) – escrito em condições extremamente as coisas se colocavam de outra forma.
difíceis, em face da precariedade de seu Além da preocupação em relação a uma
estado de saúde – Judt revela seu desa- boa formação intelectual, havia uma
lento em relação ao mundo em que vive- atenção permanente quanto às condi-
mos. Ao externar sua decepção quanto ções gerais da sociedade. O sucesso
à busca obsessiva pela riqueza material, profissional de cada um de nós não era
que mobiliza as novas gerações, Judt se entendido com indiferença em relação à
pergunta: “Por onde devemos começar? situação dos outros. O que nos foi trans-
Talvez seja preciso começar lembrando mitido supunha que o aprimoramento

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

de nossas habilidades particulares deve- XX. E esse primeiro volume abrange o


ria se traduzir não apenas em conquis- período que se estende do final do século
tas individuais, mas, também, em bene- XIX até a eclosão da Primeira Guerra
fícios sociais. Foi essa educação que Mundial. É o momento em que se assiste
foi transmitida a mim e a todos nós da ao ocaso da ordem liberal burguesa.
nossa geração. Havia, nos jovens de meu
tempo, a consciência de que não éramos Outro grande livro é o de Scott
seres isolados e em competição frené- Fitzgerald, intitulado “The Great
tica no mundo, mas sim elos de uma Gatsby” (“O Grande Gatsby”, na tradu-
cadeia social. Já hoje, o que se percebe, ção em língua portuguesa). Existe,
é uma exacerbação do individualismo: inclusive, uma versão para o cinema
via de regra, as pessoas pensam apenas deste livro, em um filme estrelado por
em seu próprio êxito, cultivam hedonis- Mia Farrow e Robert Redford. Aí são
ticamente o corpo, almejam o status de descritas, de modo exemplar, as condi-
celebridade e se comprazem com uma ções de vida nos EUA nos anos 1920,
visão acrítica do mundo. Bombardeadas em particular as aspirações e valores
e entorpecidas pelas mesmices e vulga- dos grupos situados no topo da pirâmi-
ridades dos meios de comunicação, de social. Existe, ademais, um romance
submetidas aos percalços do mercado interessante - também sobre os EUA - de
de trabalho, e angustiadas pelas dificul- Philip Roth, um autor que escreve muito
dades de acesso a uma condição digna sobre os EUA, chamado “Complô contra
de vida, as pessoas são arrastadas pela a América”, onde é retratada a perspecti-
correnteza da concorrência. O sucesso va isolacionista de segmentos importan-
material - sem dúvida, uma conquista - tes da sociedade norte-americana, em
passa a ser a medida de todas as coisas. face da escalada da guerra na Europa,
Isto exprime a mesquinhez dos tempos em 1940. Procurarei fazer a exposição
atuais. O espírito público se esvaiu, e foi mais ou menos inspirado nos temas que
essa triste constatação que absorveu as estão por trás desses romances.
reflexões de Judt, já no ocaso de sua vida. A ordem liberal burguesa
Nem sempre foi assim! Uma boa Existe uma platitude, uma obvieda-
forma de se entender a marcha dos acon- de, que merece sempre ser relembrada:
tecimentos é através dos romances. Um sempre somos herdeiros de algo. O desa-
bom romance é aquele que te ilumina fio que se impõe é descobrir e entender
em relação aos distintos momentos da nossas heranças. Pois bem, se voltarmos
humanidade. Recentemente li um livro um pouco no tempo, veremos que a
de Ken Follett, chamado “Fall of Giants” primeira grande estruturação que houve
(“Queda de Gigantes”, na tradução em na vida moderna deu-se no século XIX,
língua portuguesa). Trata-se do primei- com a afirmação e a consolidação do
ro volume de uma trilogia sobre o século capitalismo. Foi o período da chamada

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

ordem liberal burguesa, comandada de com Bismarck (1871) - foram os dos EUA
maneira inquestionável pela Inglaterra, e da Alemanha. A diferença é que estes
e que tinha no padrão-ouro e no livre- países se industrializaram colhendo os
câmbio suas âncoras principais. Esse frutos da Segunda Revolução Industrial
foi o período em que o Marx escreveu - do aço, da química, da eletricidade, do
“O Capital”. “O Capital” (na verdade, motor a combustão. A partir de então,
seu primeiro volume) foi publicado em montaram complexos empresariais mais
1867, no auge da era vitoriana (1837- avançados, quer no âmbito tecnológico,
1901). A Inglaterra era então considera- financeiro, de escalas ou organização
da “the workshop of the world”, a ofici- produtiva. A Inglaterra, gradativamente,
na do mundo. A partir da Revolução foi perdendo espaço na arena da concor-
Industrial, a Inglaterra montou seu rência manufatureira internacional. Não
império, desenvolveu a sua marinha, e que a Inglaterra fosse fraca; ao contrário,
converteu a City no coração das finan- ela era forte, pela força da sua Marinha,
ças internacionais. Essa ordem liberal, pela excelência de sua moeda (que era a
comandada pela Inglaterra, é descrita moeda internacional) e pela extensão de
de modo primoroso no livro “Processo seu Império.
de Industrialização – Do Capitalismo
Originário ao Atrasado”, de autoria do É neste ambiente que se situa o livro de
meu fraternal amigo Carlos Alonso Ken Follett. Ele aponta claramente para
Barbosa de Oliveira. a pujança dos EUA e para as pretensões
dos alemães (sobretudo da elite militar
Essa ordem comandada pela Inglaterra de extração prussiana), que reivindica-
sacudiu o mundo. Marx, ao observar as vam o seu “justo espaço” no tabuleiro
façanhas materiais do capitalismo, não político europeu. É curioso que um dos
hesitou em apontar seu caráter revolu- grandes problemas do mundo no século
cionário, em contraposição à mediocri- XX foi, sempre, o do destino que deveria
dade dos regimes anteriores de produ- caber à Alemanha. Foi assim na Primeira
ção. Do ponto de vista social, o que se Guerra Mundial, na Segunda Guerra
assistiu foi a crescente incorporação das Mundial e na própria Guerra Fria. Não
massas ao processo produtivo, a ruptu- há como negar: a Alemanha esteve,
ra das estruturas arcaicas e autárquicas invariavelmente, no centro das grandes
de produção e de vida, e a formação de convulsões políticas do século XX. Ao
um mercado mundial. Isso, ao mesmo mesmo tempo, tem-se a massacrante
tempo, permitiu que, paralelamente à superioridade econômica dos EUA.
Inglaterra, outros países avançassem
rumo à industrialização. Os EUA, entre a Guerra de Secessão e
o início do século XX, promoveram - do
Os casos mais notórios - passada à ponto de vista material - o maior salto
Guerra de Secessão (1861-1865) e promo- que a humanidade já conheceu. Foi o
vida a unificação dos Estados germânicos período da extraordinária expansão

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das ferrovias e do crescimento vigoroso foram se tornando cada vez mais estrei-
das indústrias associadas à nova revo- tos. Em decorrência, os riscos de “conta-
lução industrial (siderurgia e petróleo, minação”, decorrentes de conflitos
em particular) e, também, das grandes secundários, se ampliaram considera-
bandalheiras (os famosos robber barons velmente (basta lembrar que a eclosão
foram protagonistas cruciais desta da Primeira Guerra decorreu de um
época). Mais ainda, no início do século ultimato do Império Austro Húngaro à
XX, começaram a se montar - com o Sérvia). A Primeira Guerra foi, rigorosa-
apoio do crédito - as bases do consumis- mente falando, um conflito entre impé-
mo norte-americano. rios (imperialista, se preferirem). As
velhas potências imperiais da Inglaterra,
Este é um período, portanto, de França e Rússia foram incapazes de
grandes transformações nos EUA e na absorver, pacificamente, as pretensões
Alemanha. Ao mesmo tempo, havia um - também imperiais - da Alemanha.
equilíbrio aparente na ordem interna- Esta já era uma nação economicamen-
cional. Equilíbrio que se manifestava na te mais forte que a Inglaterra, a França
crença que a velha diplomacia europeia ou a Rússia, e que almejava uma posição
seria capaz de resolver os potenciais política no cenário europeu, compatível
conflitos, e na convicção de que a Belle com sua grandeza material.
Époque do início do século XX esta-
ria inaugurando uma era de progresso A Primeira Guerra Mundial foi uma
ininterrupto no mundo ocidental. Para experiência absolutamente trágica. Meu
muitos, que acreditavam na estabilida- pai lutou a Primeira Guerra, e dele ouvi
de da ordem internacional, a eclosão algumas coisas horríveis (os homens nas
da Primeira Guerra foi um raio em céu trincheiras, por exemplo, em busca de
azul... ratos para aplacar a fome...). Foi uma
experiência dramática, que envolveu o
Nuvens negras I (Primeira Guerra conjunto da sociedade. Este foi um fato
Mundial) novo. A experiência mais recente havia
O equilíbrio, contudo, era apenas sido a da Guerra Franco-Prussiana de
aparente. As transformações – sobretu- 1871, quando a Alemanha derrotou a
do na Alemanha – haviam desencadea- França. Esta última, contudo, foi uma
do ambições políticas de difícil manejo. guerra que não mobilizou toda a socie-
O sistema de alianças montado (com a dade, e que teve um desfecho rápido.
Inglaterra, a França e o Império Russo, O mesmo se esperava quando eclodiu
de um lado, e o Império Germânico, o a Primeira Guerra: todos foram orgu-
Império Austro-Húngaro, o decadente lhosos para os campos de batalha, com
Império Otomano e a Itália, de outro) suas bandeiras, entoando cânticos (“It’s
terminou engessando as opções políti- a long way to Tipperary / It’s a long way
cas. Os raios de manobra da diplomacia to go ...”), na expectativa de que a guerra,

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Novo no Front”, do escritor alemão Erich


Maria Remarque. As marcas da guerra se
“Quando os norte-america- projetaram nos sobreviventes: os gueu-
nos ingressaram no conflito (em les cassées (rostos partidos), na França,
tornaram-se a imagem viva da tragédia
abril de 1917), o pêndulo da da guerra moderna. Com suas faces desfi-
guerra definitivamente se alte- guradas, em decorrência dos ferimentos
recebidos, os mutilados muitas vezes
rou contra os alemães. Em virtu- tinham que recorrer ao uso de máscaras
de do bloqueio naval, o país já e próteses para ocultar a extensão dos
vinha sendo progressivamen- danos sofridos (as cirurgias plásticas de
reconstituição facial eram, então, precá-
te asfixiado, o que resultou em rias). Hobsbawm menciona, na “Era dos
uma sucessão de greves e levan- Extremos”, que um quarto dos alunos
de Oxford e Cambridge com menos de
tes contra as severas medidas 25 anos, que foi para a guerra, terminou
de racionamento (sobretudo de morrendo. No cômputo geral, a Primeira
alimentos) adotadas pela admi- Guerra deixou mais de nove milhões
de mortos. A humanidade jamais tinha
nistração do Kaiser.” assistido a tamanha devastação.
A revanche de Versailles
que se iniciou em agosto de 1914, termi- Pois bem! Finda a guerra, realizou-
nasse antes do Natal. se, em Paris, a conferência que resul-
tou no Tratado de Versailles (Keynes
Sucede que a Primeira Guerra incor- era, então, o representante do Tesouro
porou os avanços da tecnologia da britânico na conferência). Foi então que
Segunda Revolução Industrial, com ocorreu um dos maiores disparates da
todo seu potencial destrutivo. O confli- história moderna: a tentativa de tute-
to se arrastou de uma maneira dramá- lar e subjugar a Alemanha. Os france-
tica, matando e mutilando milhões de ses, diga-se, foram os maiores respon-
pessoas. Os combatentes permaneciam sáveis por tamanha asneira. Keynes, ao
meses a fio nas trincheiras, e quando perceber o rumo dos acontecimentos,
procuravam avançar eram massacrados retirou-se indignado da conferência e
por rajadas de metralhadoras, bombar- escreveu um livro profético intitulado
deios ferozes e ataques de gás mostarda, ‘As Consequências Econômicas da Paz’,
que os obrigavam a recuar, deixando denunciando os termos insensatos de
milhares de mortos nos campos inóspi- Versailles. A Alemanha foi severamente
tos da “terra de ninguém”. Um romance punida. Mais que isto, ela foi humilhada:
que descreve esses horrores é “Nada de além das perdas territoriais e materiais,

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impôs-se ao país uma carga absurda adotadas pela administração do Kaiser.


de reparações, que deveriam ser pagas O ambiente social tornou-se explosi-
ao longo do tempo. Não bastando, os vo, o que precipitou a radicalização das
alemães foram coagidos e constrangidos forças políticas, tanto à esquerda quanto
a reconhecer sua culpa pela precipitação à direita. A exaustão e, na sequência, a
da guerra. derrota e a humilhação, foram o fermen-
to das agitações que marcaram a vida da
Quando os norte-americanos ingres- Alemanha entre 1917-1919.
saram no conflito (em abril de 1917),
o pêndulo da guerra definitivamente De sua parte, a situação do Império
se alterou contra os alemães. Em virtu- Russo tornara-se crítica durante a
de do bloqueio naval, o país já vinha guerra. A Alemanha impôs sérias perdas
sendo progressivamente asfixiado, o que aos russos e forneceu apoio àqueles que
resultou em uma sucessão de greves e se opunham à ordem czarista. Não é
levantes contra as severas medidas de nenhum exagero dizer que a Revolução
racionamento (sobretudo de alimentos) Russa é filha da Primeira Guerra. Na

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

ausência da Primeira Guerra, dificil- mundial deveria ser entendido como a


mente os nomes de Lênin ou Trotsky última guerra entre os homens (the war
tornar-se-iam conhecidos do grande to end all wars), e seu maior empenho
público. Stálin, simplesmente, não teria nas negociações de Versailles foi o de
existido! A Primeira Guerra, ao impor assegurar a criação da Liga das Nações,
uma carga enorme de sacrifícios aos uma instância supranacional que deveria
russos – em meio ao despotismo e aos buscar a solução pacífica para os proble-
privilégios do regime imperial – precipi- mas entre os países. Suas propostas para
tou a queda do czarismo em fevereiro de a paz foram consubstanciadas nos famo-
1917, e a tomada do poder pelos bolche- sos 14 Pontos, que evocavam o direito à
viques em outubro do mesmo ano. Os autodeterminação dos povos, a liberdade
dois eventos contaram com o beneplácito de navegação nos mares, a redução dos
dos alemães. Um dos pontos centrais da armamentos e, inclusive, o fim das hosti-
proposta bolchevique era o de por um fim lidades à Rússia bolchevique. Wilson,
à guerra. De fato, já no início de 1918, foi na verdade, foi devorado pela sede de
firmado o Tratado de Brest-Litovsk, por vingança dos franceses (que insistiram
meio do qual o antigo Império Russo (já nas cláusulas punitivas de Versailles),
em mãos bolcheviques) estabelecia a paz e pelo isolacionismo tosco dos repu-
com a Alemanha, em troca de inúme- blicanos, que retomaram o controle do
ras concessões territoriais (Finlândia, Congresso nas eleições parlamentares de
Estônia, Letônia, Lituânia, Ucrânia, 1918. O resultado é que os EUA não rati-
Polônia, Bielorússia etc). ficaram o Tratado de Versailles e, para
o desencanto de Wilson, não tomaram
Os EUA, de início, não se envolve- assento na Liga das Nações.
ram com o conflito europeu. A força
dos acontecimentos, contudo, terminou A era da incerteza
conduzindo-os à guerra. O sucessivo
ataque dos submarinos alemães, entre O fato é que, a saída da Primeira
1915 e 1917, vitimou cidadãos norte-a- Guerra, inaugurou um período de incer-
mericanos e embarcações envolvidas tezas e instabilidade. Esta foi uma trágica
no transporte de alimentos, matérias ironia: nove milhões de pessoas morre-
primas e munições para a Inglaterra, ram em um conflito sangrento, que se
o que terminou forçando o Presidente arrastou por cinco anos intermináveis,
Woodrow Wilson a declarar guerra à para que se inaugurasse uma era de
Alemanha, no início de 1917. O peso desencontros, suspeitas, desconfianças,
da participação norte-americana, como retaliações e medo. Na Alemanha, já em
falei, foi decisivo para definir o curso das janeiro de 1919, eclodiu o levante da Liga
hostilidades. Destaque-se que o propó- Spartacus, esmagado com a morte de
sito de Wilson nunca foi o de estabele- Karl Liebknecht e de Rosa Luxemburgo.
cer um rosário de punições às potências Outras rebeliões ocorreram, como o
centrais. Em seu entendimento, o conflito Putsch de Munique, em 1923, liderado

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por Hitler e Ludendorff. A violência Os EUA - a maior economia do mundo


pontilhou os anos iniciais da República - não pretendiam mais se imiscuir nos
de Weimar (1919-1933), com inúmeros assuntos políticos europeus, e fecharam-
assassinatos patrocinados pelos grupos se em si mesmos. Deram as costas para
de extrema direita (e possível ter uma o Atlântico, e passaram a viver o transe
visão bem clara deste período turbulen- comemorativo dos roaring twenties: o
to da vida alemã na exposição perma- extraordinário crescimento da indústria
nente do Museu Alemão de História, em automobilística, a expansão dos subúr-
Berlim). O pano de fundo das agitações bios, o aumento excepcional na produ-
políticas foi o inconformismo em rela- ção do petróleo, do aço e da energia
ção aos termos do Tratado de Versailles, elétrica, o erguimento de arranha-céus,
associado às terríveis dificuldades a difusão dos bens de consumo durável
econômicas que assolaram o país até entre as famílias (facilitada pela amplia-
1923 (com destaque para a hiperinflação, ção do crédito e estimulada pelo avanço
associada à queda da produção indus- da propaganda), o uso generalizado do
trial e à ampliação do desemprego). Na rádio, o frenesi do cinema falado, a revo-
Rússia, a tentativa de derrubar Lenin e lução musical do jazz e a graça picante
o regime recém-instaurado resultou em das flappers (com seus vestidos sensuais
uma cruenta guerra civil até 1921, com e suas longas piteiras) – faziam crer que
as forças do Exército Branco (em oposi- o país se achava no limiar de uma pros-
ção ao Exército Vermelho dos bolchevi- peridade que se imaginava duradoura. É
ques, liderado por Trotsky) sendo apoia- exatamente este ambiente que é retrata-
das por tropas enviadas pela Inglaterra, do no romance de Scott Fitzgerald, a que
França, Estados Unidos e mais uma antes fiz referência. Os EUA queriam
série de países. O objetivo (frustrado) apenas saborear o seu progresso e se
era o de esmagar o comunismo em seu abraçaram a uma perspectiva isolacio-
berço... A saída da guerra assistiu, assim, nista e protecionista.
à continuação da violência na Alemanha
e na Rússia. Um péssimo começo! Do ponto de vista das relações finan-
ceiras internacionais, não é exagerado
Quando se constata que nem os EUA, afirmar que as iniciativas de seus bancos
nem a Alemanha, e nem a Rússia (URSS, de investimento - em particular, do
ao final da guerra civil), participavam J.P.Morgan - foram muito mais marcan-
da recém-criada Liga das Nações, é tes do que quaisquer ações porventura
possível perceber que os canais diplo- empreendidas pelo governo norte-ame-
máticos construídos na saída da guerra ricano. Ao longo da guerra, a Inglaterra
já nasceram obstruídos. Somente com e França tornaram-se devedoras dos
uma boa dose de sorte, desprendimento EUA. As duas nações desejavam que
e clarividência eles seriam desobstruí- as reparações que esperavam receber
dos. O quadro, contudo, era complexo. da Alemanha fossem descontadas de

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seus débitos com os EUA. O governo projetos imobiliários e ao mercado de


dos EUA - em sua perspectiva míope - valores – se direcionaram ao exterior.
sempre se recusou a discutir esta propos- Por um breve tempo, tudo parecia
ta. Na visão (tipicamente empresarial) correr bem: os bancos emprestavam à
dos governos republicanos dos anos Alemanha, que pagava as reparações à
1920, as dívidas de guerra deveriam França e à Inglaterra, que pagavam suas
ser pagas, e não, compensadas ou dívidas de guerra aos EUA, que supunha
anuladas. Coube ao sistema financeiro que as coisas caminhavam normalmen-
privado tomar a dianteira: a partir de te. Quando a fonte secou (contração
1924, a Europa (Alemanha, em parti- dos empréstimos norte-americanos em
cular) e o mundo foram inundados meados de 1928), o frágil equilíbrio
por uma avalanche de empréstimos. se rompeu como um castelo de cartas
Tangidos pelo otimismo incontido, ao vento. A verdade é que os EUA, ao
característico dos ciclos de crédi- longo dos anos 1920, ao consagrarem
to, os bancos norte-americanos – já a euforia irrefletida da age of business,
envolvidos nas operações domésticas afastaram-se por completo das obriga-
de financiamento ao consumo, aos ções políticas mundiais que lhe cabiam,

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por força de sua massacrante suprema- dominação colonial, com povos intei-
cia econômica. ros submetidos aos desígnios “civiliza-
tórios” das nações imperiais. Nem era
Se os EUA foram incapazes de exercer possível ocultar a discriminação sobre
a liderança nas relações internacionais, a os negros, mestiços e asiáticos. Datam
Inglaterra e a França, de sua parte, tute- desta época os estudos sobre a eugenia,
laram a Liga das Nações. E o fizeram em com vistas à seleção e depuração racial.
consonância a seus objetivos imperiais. É certo que muitos se levantaram contra
Mas, como viveram os homens ao largo a rigidez e o cinismo da moral vitoriana.
deste período? Quais eram seus propó- Muitos se organizaram contra as formas
sitos, suas ambições e suas expectativas? descaradas de exploração econômica.
Na Belle Époque viveram fascinados Muitas mulheres passaram a desafiar
pelo progresso, na esperança que uma os cânones estabelecidos e passaram a
nova era de conquistas materiais havia reivindicar o direito ao voto (as cenas da
sido inaugurada. O entusiasmo com a sufragista Emily Davison lançando-se à
exposição de Paris, em 1900, quando morte sob as patas de um cavalo do rei
foram apresentadas ao mundo impor- George V, em 1913, são impactantes).
tantes inovações (como a luz elétrica, por Muitos povos passaram a sonhar com a
exemplo), suscitou em muitos a expec- emancipação. Ainda havia, contudo, um
tativa de que as transformações vigentes longo caminho a percorrer antes que
conduziriam a humanidade a um novo as conquistas por uma sociedade mais
patamar de realizações. O advento da justa e aberta se materializassem.
sociedade de massas não podia ocultar, O choque entre os impérios, como já
entretanto, a dura realidade das desi- observei, levou à guerra. A humanidade
gualdades sociais. O desemprego e a passou a viver, então, sob o horror e o
exploração ainda não eram entendidos medo. Após a violência e a insensatez do
- a não ser na análise pioneira e contun- conflito mundial, forjou-se a expectativa
dente de Marx - como uma patologia de que os homens e as nações, finalmente,
social, como uma consequência funesta reencontrariam o caminho da compre-
do funcionamento do capitalismo. Eram ensão e da solidariedade. Falei anterior-
percebidos como uma decorrência do mente que era este o desejo de Woodrow
destino ou da falta de aptidão indivi- Wilson e de Keynes. Desgraçadamente,
dual das pessoas para uma vida mais não foi este o caminho escolhido. Os
digna. Nem era possível ocultar a opres- EUA entronizaram o love of money
são sobre as mulheres e, menos ainda, como o altar dos homens. Ao mesmo
sobre os homossexuais (lembrem-se que tempo em que se lançaram à busca
Oscar Wilde, por expressar suas prefe- frenética dos lucros, da especulação e do
rências sexuais, foi condenado, em 1902, consumo, os norte-americanos assisti-
a dois anos de trabalhos forçados). Tão ram, nos anos 1920, às ações truculentas
pouco era possível ocultar a realidade da da Ku Klux Klan, às perseguições contra
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os imigrantes (lembrem-se do famoso se contrapôs à frustração dos margina-


episódio Sacco & Vanzetti), à criminali- lizados. É certo que algumas conquis-
zação do álcool (Lei Seca) e às investidas tas tópicas foram alcançadas nos anos
arbitrárias contra todos que não se ajus- 1920: com os tratados de Locarno, que
tassem ao figurino estúpido do american definiram as fronteiras ocidentais da
way of life. A Inglaterra pretendeu reins- Alemanha, criaram-se as condições para
taurar o status quo anterior à guerra, na o ingresso do país na Liga das Nações
presunção de que suas tradições, sua em 1926. Os alemães, inclusive, graças
moeda e a grandeza de seu império (que ao afluxo dos capitais privados norte-a-
alcançou sua extensão máxima após o mericanos, viveram um breve período
conflito) seriam suficientes para trazer de estabilidade e crescimento entre 1924
de volta seu passado glorioso. A França, e 1928. O envolvimento das mulheres no
prisioneira do ódio, imaginava que sua esforço de guerra, de sua parte, contri-
recuperação econômica pudesse se dar buiu para que se alterassem os termos de
mediante o pagamento regular das repa- sua participação na sociedade. Nos EUA
rações de guerra por parte da Alemanha. e na Inglaterra, o voto feminino foi defi-
Em 1923, inclusive, os franceses invadi- nitivamente consagrado nos anos 1920
ram a região do Ruhr, em retaliação ao (em compensação, o direito de voto aos
não cumprimento das obrigações acor- negros nos EUA somente seria assegu-
dadas pelos alemães, nas discussões rado em 1965). Pode-se até afirmar que
que se seguiram a Versailles. Na URSS, houve um sopro de otimismo nos anos
a morte de Lenin, no início de 1924, 1920, mas não há dúvida que as relações
abriu espaço para a ascensão de Stalin. humanas e internacionais ainda se assen-
Em pouco tempo as lideranças de 1917 tavam em terreno frágil. Afinal, o love of
foram vitimadas, e o dirigente soviético money, a pretensão imperial, o rancor
– isolado da comunidade internacional – e o isolamento não poderiam ser guias
passou a administrar com mão de ferro seguros para a condução dos homens.
a implantação do “socialismo em um só
país”. Na Alemanha, no Japão e na Itália, Nuvens negras II (Grande Depressão e
ao mesmo tempo, cresciam os ressen- Segunda Guerra Mundial)
timentos em relação à ordem mundial A Grande Depressão (1929-1933) se
comandada pela Inglaterra e pela França. incumbiu de sepultar quaisquer esperan-
O que se percebe, assim, é que a saída ças. Pouco mais de dez anos após o final
da Primeira Guerra inaugurou uma era da Grande Guerra, milhões de traba-
de incertezas (a expressão é historiador lhadores nos EUA e na Europa foram
inglês Richard Overy). Do medo e do lançados ao desemprego, em uma crise
horror da guerra, passou-se à prepo- econômica nunca antes presenciada. Se
tência dos vencedores e à indignação a crise permitiu a eleição de Roosevelt
dos derrotados. A soberba dos fortes nos EUA ela permitiu, também, a ascen-
são de Hitler ao poder. Hitler era um

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

político desprezível de extrema-direita,


que somente ascendeu ao poder graças
aos efeitos devastadores da depres- “Do medo e do horror da
são sobre a Alemanha. Se a revolução
russa, como falei, foi filha da Primeira guerra, passou-se à prepo-
Guerra, o nazismo foi o filho maldito da
Grande Depressão. Enquanto Roosevelt, tência dos vencedores e à
em meio ao permanente bombardeio
da guerrilha conservadora, introduziu indignação dos derrota-
mudanças fundamentais destinadas a
disciplinar o funcionamento do capita-
dos. A soberba dos fortes
lismo norte-americano, Hitler submeteu
a economia a seu comando direto, ao
se contrapôs à frustração
mesmo tempo em que desferiu golpes dos marginalizados.”
mortais aos sindicatos, iniciou a perse-
guição aos judeus e eliminou as alas do
nacional-socialismo que ameaçavam
seu comando despótico (Ernst Röhm, invadido a miserável Etiópia em 1935,
líder das temidas SAs, e mais uma cente- e o Japão se lançado sobre a China em
na de simpatizantes foram sumariamen- 1937. Na URSS, a patologia insana de
te executados no famoso episódio da Stálin promoveu a vergonhosa onda de
Noite das Facas Longas, em 1934). Em expurgos de 1937-1938, que resultou na
sua Batalha Pelo Emprego, Hitler expan- prisão e na morte de milhares e milhares
diu vigorosamente o gasto público, e em de dirigentes e funcionários soviéticos.
menos de três anos reduziu o desempre- É praticamente desnecessário lembrar
go a níveis insignificantes. Quando teve que o medo novamente se incrustou
início a reconstrução das forças arma- nas almas. Na sequência da invasão da
das, em 1936, a Alemanha – ao contrá- Polônia, a Inglaterra e a França decla-
rio dos EUA – não exibia mais as marcas raram guerra à Alemanha. Em meses o
da depressão. mundo iria se incendiar. Hitler ocupou
Mas Hitler pretendia muito mais. o sudeste e o norte da Europa, invadiu a
Em seu afã de rever os termos vergo- França, bombardeou a Inglaterra, e, após
nhosos de Versailles, Hitler ocupou a invasão da URSS em junho de 1941,
militarmente a Renânia, promoveu a estendeu a mancha da ocupação nazista
unificação com a Áustria, incorporou ao leste até as portas de Moscou. Quando
os Sudetos, avançou sobre Praga e, por os japoneses atacaram Pearl Harbor, em
fim, em aliança com Stálin, invadiu a dezembro de 1941, os EUA declararam
Polônia. A Itália (comandada pelo paté- guerra ao Japão. Na mesma semana
tico Mussolini desde 1922) já havia os norte-americanos (para o alívio de
Churchill e Stalin) já se encontravam

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

em guerra contra a Alemanha e a Itália. 1914-18. Basta recordar que ela deixou
Durante três anos e meio, os Aliados e o mais de 50 milhões de mortos! Não é
Eixo se envolveram em uma sucessão de necessário entrar em detalhes sobre os
batalhas fatídicas, em que as mortes se horrores dos bombardeios às cidades
contavam aos milhares, e até centenas de vitimando crianças e idosos, da matan-
milhares. Apenas a aniquilação total do ça organizada dos judeus, das sangrentas
oponente poderia por um fim às hostili- batalhas de Leningrado e Stalingrado,
dades. Assim como ocorreu na Primeira dos enforcamentos, execuções sumárias,
Guerra, a entrada dos EUA no confli- perseguições, torturas, estupros e trai-
to foi decisiva para definir o rumo dos ções, das mortes nas ilhas do Pacífico ou
acontecimentos. Não é uma simplifica- das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki.
ção descabida afirmar que foram a tenaz A Segunda Guerra foi, talvez, a experi-
resistência soviética (com mais de vinte ência mais vergonhosa que a humani-
milhões de mortos!) e o imenso poderio dade já conheceu. Suas marcas e feridas
da fábrica de produção norte-america- se projetaram no tempo e, ainda hoje,
na os fatores cruciais para a derrota do permanecem cravadas nos corações
nazismo. Após a dificílima vitória em daqueles que viveram um pesadelo tão
Stalingrado (fevereiro de 1943), a URSS dramático e terrível.
começou sua marcha implacável rumo a
Berlim. Com o desembarque aliado na A Guerra Fria e a Golden Age
Normandia, em junho de 1944, a sorte da A Grande Depressão e a Segunda
Alemanha foi selada. Sitiados ao leste e a Guerra, pela profundidade e extensão
oeste, e bombardeados impiedosamen- de sua violência, lançaram, contudo, um
te pelos ares, os alemães foram sendo alerta aos homens. Não era mais possí-
progressivamente asfixiados e destroça- vel repetir tamanho desatino. Não era
dos. Em maio de 1945 se renderam. Em mais concebível que homens e mulhe-
agosto do mesmo ano, o Japão capitulou. res permanecessem indefesos frente
Faço aqui um breve parêntese, para aos ventos do mercado. Tão pouco era
retornar à observação inicial de Judt de admissível que as relações internacio-
que “nem sempre foi assim”. É verdade! nais se resolvessem pela força bruta das
Como podem perceber, houve momen- armas, sobretudo em face da existência
tos, ao longo da trajetória do século XX, dos artefatos nucleares (também em
em que as coisas foram muito piores! Na poder da URSS a partir de 1949). Com
verdade, momentos em que a humani- a derrota do nazismo e do militarismo
dade viveu dramas muito mais penosos japonês, o mundo foi dividido em duas
do que a atual busca obsessiva e irrefle- grandes zonas de influência comanda-
tida pela riqueza material. A Segunda das pelos EUA e pela URSS. A Guerra
Guerra Mundial foi um conflito ainda Fria, que daí resultou, foi antes um fator
mais sangrento que a Grande Guerra de de estabilidade do que de instabilidade

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

nas relações políticas mundiais. Havia o pacto tácito de não agressão entre as
o acordo tácito entre as duas grandes duas superpotências. Os EUA e a URSS,
superpotências de que a violência seria se quiserem, agiram como dois grandes
exercida apenas no âmbito das respec- coronéis do sertão: cada qual coman-
tivas zonas de influência. Foi a política dava suas terras a seu modo, e ambos
dos “pastos demarcados”, para usar uma evitavam o conflito entre suas tropas (o
expressão de Guimarães Rosa. Os EUA que, certamente, seria fatal para ambos).
patrocinaram intervenções e golpes
militares em seus “domínios” (no Brasil, O fato é que a Europa e o Japão passa-
por exemplo), e a URSS promoveu inva- ram a gozar de uma estabilidade que há
sões na Europa do Leste (Hungria e muito não conheciam. Resguardados
Tchecoslováquia). As tensões maiores sob o manto protetor dos EUA, lança-
ocorreram na Guerra da Coreia (1950- ram-se às tarefas de reconstrução no
1953), quando soldados norte-ameri- pós-guerra e em pouco tempo – com o
canos e chineses se enfrentaram nos apoio explícito do Estado – moderni-
campos de batalha, e, sobretudo, na zaram as respectivas estruturas indus-
crise dos mísseis de Cuba. Neste último triais. Já na década de 1960 os oligo-
caso, a possibilidade de a URSS insta- pólios japoneses e europeus passaram
lar bases de lançamento de mísseis ao a concorrer em pé de igualdade com as
lado da costa norte-americana repre- grandes corporações norte-americanas
sentava uma ameaça que comprometia nos mercados mundiais.

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

O ponto a ser destacado para o propó- suas vidas, mas não havia um mercado
sito de nossa discussão é que se criaram voraz a espreitá-los na saída dos cursos
as condições políticas e econômicas para secundários ou universitários. O moinho
o funcionamento ordenado e disciplina- satânico da concorrência (para usar a
do do capitalismo. Havia controle sobre expressão de Polanyi) não os aguardava
os fluxos internacionais de capital; havia para mutilar seus sonhos e devorar seus
o direcionamento do sistema de crédito espíritos. Todos sabiam que o talento
para a acumulação produtiva; havia a e o esforço pessoal, de alguma forma,
participação efetiva do Estado na regu- seriam recompensados. Não havia o
lação das relações econômicas; havia desespero pela busca do emprego; eles
um clima de colaboração entre empre- existiam. Não havia angústia em relação
sários e sindicatos; havia compromis- ao futuro; as perspectivas eram promis-
sos inarredáveis com a ampliação e a soras. Não havia a insegurança quanto
consolidação do Welfare State e havia à saúde ou planos milimétricos para
uma defesa comum – quer dos parti- a velhice; havia a proteção do Welfare
dos mais à esquerda ou à direita – com State. A geração do pós-guerra foi educa-
a busca de níveis máximos de ocupação. da, assim, em um contexto de maior
Se quiserem um exemplo, na década de segurança. Isto permitiu que forjassem
1960 a taxa de desemprego na Alemanha uma visão mais abrangente e crítica
e no Japão foi sempre inferior a 2%. Mas do mundo. Os jovens não eram meros
o mesmo ocorreu nos demais países. átomos isolados expostos aos ventos da
Cresceu a produtividade, cresceram concorrência, mas sim seres dotados
os salários reais, cresceram os lucros, de vitalidade, com esperança em um
aumentou a oferta de empregos, melho- futuro que imaginavam cada vez mais
raram as condições de saúde, educação justo e livre. Eram seres essencialmente
e trabalho, ampliaram-se os direitos dos sociais e transformadores! Não poderia
cidadãos, a inflação permaneceu baixís- haver contraste maior com o desalento
sima e não houve qualquer desequilíbrio da Grande Depressão, com o horror da
estrutural nas contas públicas (os gastos guerra ou com a mesquinhez alienan-
públicos cresciam, mas as receitas públi- te dos tempos atuais. Na letra de Anos
cas também, por conta do crescimen- Dourados (composta em parceria com
to econômico e do aumento da base de Tom Jobim), Chico Buarque escreve que
tributação). A Golden Age se estendeu, “na fotografia estamos felizes (...) mas
grosso modo, de 1947 a 1973. quando me lembro são anos dourados”.
Esta frase tem duplo sentido: desde uma
Voltemos, então, a Tony Judt: nem perspectiva estritamente individual ela
sempre foi assim! Os jovens do pós- representa a singela lembrança nostálgi-
guerra foram educados e criados em um ca de um tempo encantador que se foi, e
ambiente em que os nexos de solidarie- que não volta mais. Em uma perspecti-
dade social eram muito mais sólidos. É va mais ampla, contudo, ela indica uma
claro que todos se preocupavam com
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

mudança radical nas condições de vida econômicas. Entretanto, o esgotamento


da própria sociedade. É esta mudança da onda de inovações e o estreitamento
que quero assinalar, em consonância das oportunidades de investimento no
com as observações de Judt: as condi- pós-guerra formaram, ao se abrirem os
ções de vida pioraram nos últimos trinta anos 1970, o pano de fundo a partir do
ou quarenta anos, o que se refletiu no qual se processaram outras importantes
comportamento dos jovens. transformações.
O fim dos Anos Dourados Especial destaque coube à erosão da
confiança no dólar, a moeda interna-
O fim dos Anos Dourados – ou a cional. A conversibilidade do dólar no
ruptura do chamado consenso keyne- ouro havia sido consagrada nos Acordos
siano, se assim preferirem – decorreu de de Bretton Woods. De início, a Europa
uma série de circunstâncias. Em primeiro e o Japão sofreram as agruras da escas-
lugar, é claro que, após duas décadas de sez de dólares (dollar shortage). A partir
crescimento e investimento contínuo, era de meados dos anos 1950, o déficit do
previsível que houvesse uma redução da balanço de pagamentos dos EUA (decor-
taxa de acumulação nos países capitalistas rente da progressiva anemia de seu saldo
centrais. Os referidos países – com desta- comercial, dos gastos militares e do
que para o Japão e a Alemanha, os pop investimento direto no exterior) termi-
stars da expansão da expansão capitalista nou produzindo a abundância de dóla-
do pós-guerra – haviam modernizado as res por todo o mundo (dollar glut). A
respectivas matrizes industriais e expan- conversibilidade do dólar no ouro ficou
dido seus mercados internos, passando sob suspeita: havia muitos dólares espa-
a competir com os EUA nos mercados lhados nos países e pouco ouro em Fort
mundiais. Após a vigorosa expansão – Knox. Os países da aliança ocidental
os batizados “milagres econômicos” da passaram a se ressentir das facilidades
Alemanha, Japão, França, Itália etc. – com que os EUA financiavam o seu défi-
deu-se lenta reversão do ritmo de inves- cit do balanço de pagamentos (bastava
timento. Isto redundou no declínio do que emitissem mais dólares!). Por dispo-
crescimento da produtividade. A possibi- rem da moeda internacional, os EUA
lidade de proporcionar ganhos continua- incorreram em sucessivos déficits que
dos para os salários reais viu-se, portan- terminaram ameaçando a estabilidade
to, mais limitada. Não foi esta, contudo, monetária dos demais países. Isto, além
a razão para o fim do ciclo virtuoso do do mais, assegurou às multinacionais
pós-guerra. Inflexões no ritmo de cresci- norte-americanas um enorme raio de
mento dos ganhos – lucros ou salários – manobra na condução de suas operações
são fenômenos até certo ponto normais no exterior: as empresas americanas
(porém nem sempre facilmente absor- aportavam à Europa carregadas de dóla-
víveis!), incapazes de produzir – por si res e – como as taxas de câmbio eram
sós – a radical mudança das condições fixas – lançavam-se à soberba aquisição
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

dos ativos locais. O General De Gaulle


denunciou o “privilégio exorbitante”
dos EUA, e muitos passaram a alertar “As turbulências econômicas
sobre os riscos do “desafio americano”.
A França passou a converter seus saldos
dos anos 1970 - que não fize-
de dólares em ouro e a conversibilidade ram senão aumentar o contin-
foi sendo progressivamente questionada.
Ao mesmo tempo, eram cada vez maio- gente dos marginalizados e
res nos EUA as queixas em relação ao vitimados pela ordem econô-
protecionismo dos europeus e, particu-
larmente, dos japoneses. Os EUA haviam mica existente (com o desem-
ajudado a recuperação da Europa e do
Japão, aberto seu enorme mercado aos
prego e a inflação em alta) –
produtos estrangeiros e viam as portas explicitaram definitivamente
fechadas para seus produtos e seus negó-
cios no exterior. O que quero chamar a
o esgarçamento das normas de
atenção é que começaram a se processar coesão social.”
fraturas no interior da aliança ocidental.
Nem os países estavam satisfeitos com
a conduta “imperial” dos EUA, e nem
este aprovava as práticas restritivas dos tornado mais complexas. Em março de
países ou os questionamentos “injustos e 1973 foi definitivamente implantado o
ingratos” à hegemonia norte-americana. regime de taxas flutuantes de câmbio,
e o dólar foi mais uma vez desvalori-
Em agosto de 1971 Nixon deu um
zado. A desvalorização do dólar teve
tiro de grosso calibre nas convenções
uma consequência importante: a reação
de Bretton Woods. Foi anunciado ao
dos países produtores de petróleo. Com
mundo o fim da conversibilidade da
suas receitas denominadas na moeda
moeda norte-americana e imposta uma
americana, a receita dos referidos países
sobretaxa de 10% às importações norte
sofreu uma redução real. Motivados
-americanas. O objetivo foi se desvenci-
pelo apoio explícito dos EUA a Israel
lhar das pressões sobre o dólar e forçar
na Guerra do Yon Kippur (outubro de
os demais países a aceitar a desvaloriza-
1973), os países árabes reagiram, o que
ção da moeda americana. Na estratégia
resultou na quadruplicação dos preços
de Nixon (e Connally, o inspirador das
do petróleo. A “era do petróleo barato”
medidas), a depreciação do dólar resul-
havia terminado. O “choque do petró-
taria no crescimento das exportações
leo” atingiu em cheio os EUA, a Europa
e, portanto, na expansão do emprego
e o Japão: a inflação disparou e no
nos EUA. A desvalorização foi consa-
biênio 1974-1975 as economias entra-
grada e os demais países perceberam
ram em forte recessão.
que as relações com os EUA haviam se
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Duas questões centrais devem ser – explicitaram definitivamente o esgar-


adicionadas: a Guerra do Vietnã (que çamento das normas de coesão social.
custou a Johnson a possibilidade da Os sindicatos pretendiam evitar a erosão
reeleição e se prolongou na administra- real dos salários, os empresários busca-
ção Nixon) foi um elemento catalisador vam recompor as margens de lucro, os
que deu vazão a inúmeras insatisfa- desempregados cresciam em proporção
ções. Enlaçados com as reivindicações alarmante, a rede de proteção social se
dos negros e das mulheres nos EUA, encontrava ameaçada e os jovens cada
ou combinados com a mobilização dos vez mais desconfiavam das promessas do
jovens europeus na busca de condições capitalismo (lembrem que na Itália e na
mais democráticas e livres de ensino – e Alemanha eles enveredaram pelo desati-
mesmo de vida! – os protestos contra a no da luta armada!). Assim, às fraturas no
Guerra do Vietnã representaram um polo interior da aliança ocidental, a que antes
de aglutinação que serviu para eviden- fiz referência, acrescentaram-se as fratu-
ciar fissuras não desprezíveis no interior ras no âmbito das próprias sociedades.
das sociedades ocidentais. Sobretudo Nem os países capitalistas estavam coesos
no que se refere aos jovens, os protestos - como na saída da guerra, na década de
revelavam o inconformismo em relação 1950 ou mesmo na primeira metade da
aos padrões políticos, morais, familiares década de 1960 – e nem o quadro social
e sexuais então vigentes. O acordo de exibia a estabilidade outrora observada.
paz com o Vietnã foi firmado em janeiro
de 1973, mas nem por isso a insatisfa-
ção em relação aos rumos da expansão
capitalista foi revertida. Recordem que
Nixon, entre tantas façanhas, se incum-
biu de arquivar a agenda reformista
inaugurada por Roosevelt, e seguida
por Truman, Eisenhower, Kennedy e
Johnson. Os pobres, os negros, as mulhe-
res “libertárias”, os jovens “drogados” e a
elite intelectual do Leste deveriam ceder
espaço à Nova Maioria (conservadora)
idealizada por Nixon. Isto ocorreu nos
EUA, mas também, à sua maneira, ocor-
reu na Europa.
As turbulências econômicas dos anos
1970 - que não fizeram senão aumentar
o contingente dos marginalizados e viti-
mados pela ordem econômica existente
(com o desemprego e a inflação em alta)
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

O outro ponto que desejo sublinhar é o coronéis do sertão, a que antes me referi,
arrefecimento da Guerra Fria. Esta havia baixaram, então, o tom de suas amea-
sido um elemento unificador dos países ças. Os pastos já estavam demarcados e
capitalistas. Desde 1947 os EUA e a URSS não havia razão para o estranhamento
haviam dividido o mundo em duas gran- hostil. Afinal, eram os dois muito pare-
des áreas de influência. O bloqueio de cidos: a URSS assistiu impávida à escala-
Berlim por Stalin (1948-1949), a conquis- da da Guerra do Vietnã (como assistiria,
ta do poder por Mao Tsé Tung (1949), a mais tarde, ao sangrento golpe militar
invasão da Hungria (1954), o lançamento no Chile, em 1973), assim como os EUA
do Sputnik (1957), a Revolução Cubana observaram apenas à distância a inva-
(1959), o voo pioneiro de Yuri Gagarin são da Tchecoslováquia (1968). Quando
(1961), a construção do Muro de Berlim Nixon, em 1971, anunciou ao mundo as
(1961) e a crise dos mísseis de Cuba visitas à China e à URSS – dando início à
(1962) foram eventos que assustaram o détente – tornou-se claro que as relações
Ocidente. Por mais de duas décadas o internacionais haviam ingressado em
espectro da “ameaça comunista” pairou uma nova fase. O que importa desacatar,
sobre os países capitalistas, e induziu para os fins de nosso argumento, é que a
os EUA a patrocinarem uma sucessão Guerra Fria deixou de ser um elemento
de intervenções e golpes militares pelo unificador no âmbito dos países capita-
mundo afora. Na perspectiva norte-ame- listas. Se estes - como antes observei - já
ricana, era fundamental que a Europa e o se encontravam divididos nas questões
Japão exibissem capitalismos triunfantes econômicas (moeda internacional, taxas
de modo a neutralizar o “vírus” comu- de câmbio, protecionismo), a política
nista. Foi por isso que reviram o proje- mundial não representava mais o seu
to punitivo para a Alemanha e para o elo de união. Não havia mais o “inimi-
Japão, lançaram o Plano Marshall, apoia- go comum” a ser combatido. Cada país
ram a integração europeia, abriram seus deveria formular sua linha específica de
mercados, toleraram o protecionismo de atuação nas questões internacionais, a
seus parceiros, arcaram com os custos da partir do pressuposto que o alinhamen-
defesa ocidental e estabeleceram alianças to automático aos EUA (e, portanto, a
estratégicas nos organismos internacio- contraposição à URSS) deixara de ser o
nais. Sob o manto protetor dos EUA, a ponto de partida comum na definição
Europa e o Japão alcançaram um desem- das opções estratégicas.
penho extraordinário nas duas décadas
que se seguiram à guerra. O declínio endógeno da taxa de
acumulação, o questionamento à centra-
Em fins dos anos 1960, contudo, as lidade do dólar, a insatisfação norte-a-
relações entre os EUA e a URSS entraram mericana em relação ao protecionismo
em fase de distensão. O acirramento dos de seus pares, os protestos quanto às
ânimos tornara-se - politica e financeira- normas de sociabilidade vigentes nos
mente - penoso para ambos os lados. Os países capitalistas (família, hierarquias
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

institucionais, vida sexual, canais de Com a estagflação dos anos 1970, as


participação política, valores morais), a normas e consensos dos Anos Dourados
revolta dos negros nos EUA, as mani- se viram questionados: a economia
festações contra a Guerra do Vietnã, as passou a se vingar da política. Na
desvalorizações do dólar, a restauração percepção dos críticos, havia Estado
conservadora de Nixon, a quadruplica- demais, regulamentação demais, contro-
ção dos preços do petróleo, a disparada les demais, sindicatos demais, prote-
da inflação, o mergulho na recessão, a ção social demais, intervenção demais.
escalada do desemprego e a aproxima- Enfim, política demais! O diagnósti-
ção entre os EUA e a URSS – a combi- co liberal – de início, com Friedman à
nação desses fatores decretou o fim dos frente – ganhou terreno, ajustando-se
consensos estabelecidos no pós-guer- perfeitamente ao interesse dos gran-
ra. Keynes faleceu em 1946, mas seus des negócios. Para as corporações era
ideais permaneceram vivos por mais de conveniente “flexibilizar” o mercado de
duas décadas. Eles morreriam, também, trabalho; para os bancos era importan-
nos anos 1970. Somente após a recente te fugir às restrições que inibiam suas
tragédia do neoliberalismo é que, com operações; para os ricos era ótimo redu-
muito custo, ainda tentam renascer. zir a carga tributária. O suposto (sempre
o mesmo!) era que se, ao se dar liberda-
A vingança da economia (neoliberalismo) de aos “de cima”, os “de baixo” sempre
As dificuldades dos anos 1970 deter- seriam beneficiados.
minaram a rearticulação das forças A desorganização econômica dos
conservadoras. No pós-guerra – como anos 1970 facilitou o triunfo da “ode aos
lembram os professores João Manuel mercados”. Os mercados seriam o locus
e Belluzzo – a economia permaneceu insubstituível de harmonização dos
tutelada pela política. Quer pela defesa interesses, o mecanismo mais eficien-
do pleno emprego, pela ampliação da te de alocação dos recursos. O credo
proteção social (condições de trabalho, liberal é conhecido: se o Estado não se
seguro-desemprego, sistema de aposen- intrometer, a concorrência e o sistema
tadorias, extensão das redes públicas de de preços se incumbirão de produzir
saúde e educação), pela disciplina do resultados “ótimos”. Limite-se, portan-
sistema de crédito, pela limitação aos to, o poder dos sindicatos, de modo a
fluxos internacionais de capital, pela restaurar a “liberdade” do mercado de
ação anticíclica da política fiscal ou pela trabalho; reduzam-se os gastos públi-
atuação vigilante do Estado, as socieda- cos (sobretudo nos “onerosos” sistemas
des procuraram (e, em grande medida, de saúde, previdência e educação), para
conseguiram!) conter o ímpeto desagre- que, paralelamente, possam ser redu-
gador das forças de mercado. A experi- zidos os impostos; privatizem-se as
ência traumática da Grande Depressão empresas públicas, de modo a ampliar
ainda não havia sido esquecida. a oferta e a acessibilidade aos bens e
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

serviços essenciais; desregulamente-se o Bem, havia “Estado demais” para os


sistema financeiro, de modo a melhorar a outros, e não para a oligarquia financei-
distribuição das “poupanças”; eliminem- ra. O triste é que, na ausência da inter-
se as restrições ao fluxo internacional de venção estatal, as consequências seriam
capitais, de modo a assegurar a todos o muito mais dramáticas para todos. Os
acesso facilitado à “poupança externa”. desempregados seriam contados às cente-
nas e centenas de milhões. E assim vamos!
Não pretendo me estender sobre os
resultados do neoliberalismo, até porque O ponto que pretendo sublinhar, para
eles são bastante conhecidos. Sua ascen- uma última vez voltar a Judt, é que a
são política deu-se com as eleições de restauração neoliberal dos anos 1980
Thatcher e Reagan. Seus resultados trouxe consigo o corolário inevitável de
práticos foram medíocres. Em trinta que nada deve se opor ou se sobrepor à
anos (grosso modo, entre 1980 e 2010), liberdade dos homens. É claro que não
o capitalismo se viu pontilhado por uma se trata dos “homens” em abstrato, mas
sucessão de crises e episódios de aguda sim das grandes corporações e dos gran-
instabilidade; as taxas de crescimento des bancos. Mas os homens e as mulhe-
do produto foram sensivelmente mais res existem, e o preceito que lhes foi
reduzidas em comparação à Golden recomendado é que apenas a vitória na
Age; a taxa de desemprego em muitos arena da concorrência permite a seleção
casos ultrapassou a casa dos dois dígitos dos “fortes”. Reinstaurou-se uma visão
(como na atual conjuntura); a insegu- darwinista da sociedade. Todos regressa-
rança passou a afetar a vida de milhões ram à América dos anos 1920! Reviveu-
de pessoas por todo o mundo, em nítida se a dicotomia estúpida winners vs. losers
contraposição à estabilidade social e proclamou-se a rematada imbecilidade
dos Anos Dourados; a distribuição da de que the winner takes it all. A exacer-
renda sofreu uma piora assustadora; a bação do individualismo e a mercantili-
incerteza converteu-se em uma norma zação de todas as relações produziu os
universal recorrente que afeta de modo neo-idiotas contemporâneos. Aí reside a
negativo as decisões de investimento. A decepção de Judt!
“alta finança”, como é do conhecimento
geral, converteu-se na rainha dos novos Não é possível desconsiderar o papel
tempos. Em nome da desregulamenta- da mídia na fabricação dos ogros moder-
ção, o sistema financeiro internacional nos. A vulgarização do conteúdo divul-
transformou o mundo em uma gigan- gado – reality shows, programas de audi-
tesca Las Vegas. Quem assistiu ao docu- tório, MMA etc. – contribui de maneira
mentário de Charles Ferguson, Inside óbvia para o entorpecimento dos espíri-
Job, sabe bem a que estou me referindo. tos. Mas não se trata apenas da brutali-
É claro que sempre, após o estouro das zação do “baixo clero”, potencializado
sucessivas “bolhas”, todos correm para o pela retroalimentação permanente das
Estado. Mas, não havia “Estado demais”? redes sociais na internet. O “alto clero”

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

também é submetido a um permanente é submetido a um permanente processo


bombardeio. Um bombardeio mais sutil de cooptação. Uma cooptação “ilustra-
e insinuoso. É o bombardeio suposta- da”, por parte daqueles que comandam
mente sofisticado e bem comportado as decisões cruciais no que se refere à
das generalidades vazias, dos precon- criação e à reprodução da riqueza.
ceitos dissimulados, das mentiras mal
forjadas, dos argumentos mancos e da Tão pouco as Universidades estão
ideologia disfarçada (igualmente caca- imunes a este processo. Em um livro
rejados nas redes sociais). Quem assiste recente - The Return of the Master (O
aos noticiários das grandes emissoras Regresso do Mestre na edição em língua
de televisão ou lê as revistas de maior portuguesa) - Robert Skidelsy, o grande
circulação semanal sabe bem a que estou biógrafo de Keynes, chama a atenção
me referindo! O alto clero não percebe para o virtual monopólio exercido pelas
(ou, talvez, não queira perceber!) que universidades de Chicago, Harvard e
ele também, assim como o baixo clero, MIT no domínio das disciplinas econô-
micas . Monopólio direcionado para
27
[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

do entrevistador – na empolada tese de


que “o preço dos ativos não está corre-
“Vista desde uma pers- lacionado”, e que, portanto, os episó-
dios de especulação financeira nunca
pectiva mais ampla, a era podem levar à crise. Sendo consultor de
um importante banco de investimentos,
do neoliberalismo repre- nosso professor se retirará da entrevista
apressado e satisfeito.
sentou um inegável retro- Vista desde uma perspectiva mais
cesso histórico. Ao relançar ampla, a era do neoliberalismo repre-
sentou um inegável retrocesso históri-
os homens às engrenagens co. Ao relançar os homens às engrena-
gens impiedosas da concorrência, a onda
impiedosas da concor- neoliberal reinstaurou a guerra de todos
contra todos. Todos se lançaram à busca
rência, a onda neoliberal frenética do sucesso, o que produziu uma
reinstaurou a guerra de legião de “perdedores”. Os “fracassos”
passaram a ser individualizados, levan-
todos contra todos.” do à decepção e à desilusão. Espremidos
pela voragem da competição, os que
não tiveram acesso a condições dignas
de educação e saúde na infância e na
adolescência, ou aqueles mais tímidos,
divulgação de modelos que proporcio-
mais recatados, mais sonhadores, mais
naram a base “científica” de sustentação
dispersivos, e até mesmo mais íntegros,
da excelência dos princípios liberais.
foram deslocados para as franjas do
Fecha-se assim o cerco: os detentores da
sistema de êxitos.
riqueza, em contubérnio com a mídia
e as grandes universidades, formulam Assim as coisas ainda hoje permane-
as estratégias de defesa de seus inte- cem. Mas não existe nenhuma razão
resses particulares, apresentando seus inevitável para que as coisas sejam
argumentos como verdades universais assim. Os Anos Dourados mostraram ao
para o aturdido público espectador. Se mundo que a disciplina do capitalismo
quiserem um exemplo simples, imagi- é essencial para a difusão do bem estar
nem uma entrevista de um professor de social. Por mais que Keynes desprezas-
Chicago, na Fox News, discorrendo de se Marx (na verdade, como observou
modo elegante sobre a excelência dos Joan Robinson, Keynes nunca entendeu
“mercados eficientes”, antes – é claro - da Marx!), há uma convergência notória
hecatombe financeira de 2008. O profes- entre suas visões sobre o funcionamen-
sor insistirá - com a anuência perplexa to do capitalismo, e até mesmo sobre a

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

sociedade que ambos sonharam. Nela, ação racional da mão visível do Estado.
o grilhão da necessidade não aprisiona- Os homens não nasceram para se
ria mais aos homens. O imenso poten- enfrentar como cães no terreno sórdi-
cial produtivo e tecnológico desenvol- do da concorrência desimpedida. Como
vido no último século permite que se lembra Gilles Dostaler em sua magnífi-
imagine um futuro em que as carências ca interpretação de Keynes (Keynes et
mais gritantes sejam minoradas, ou ses Combats; Keynes and his Battles, na
até mesmo suprimidas. Um futuro em versão em língua inglesa), os homens
que o acesso universal à educação e à foram enviados à Terra para usufruir
saúde, a proteção na velhice e a garan- a beleza, o conhecimento, a amizade
tia de empregos permita que os homens e o amor. É esse o espírito que deveria
vivam sem sobressaltos. Para que isto se nortear nossas ações.
torne possível, é essencial regulamentar
as finanças e orientar os investimentos,
o que somente será possível através da

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

A Grande Depressão dos


Anos 1930 e a Crise Atual:
Contrapontos e Reflexões

Doutor em Economia, professor


aposentado do Instituto de
Economia da Unicamp e autor dos
livros “Os Dias de Sol – A Trajetória
do Capitalismo no Pós-Guerra”
Frederico Mazzucchelli (Campinas: Facamp Editora, 2013,
240 páginas) e “Os Anos de Chumbo
– Economia e política internacional
no entreguerras

Os desdobramentos da crise interna- frouxa regulamentação existente sobre


cional inaugurada em 2008 permitem o mundo das finanças. Não por acaso,
que se estabeleçam contraposições mais em ambos os casos, foram os percalços
nítidas com o terremoto que varreu o do sistema financeiro os fatores centrais
mundo entre 1929-1933. Cabe destacar, de desencadeamento e propagação da
de início, que a origem dos distúrbios, crise. Não resta dúvida que a especu-
em ambos os casos, foi a proliferação de lação desenfreada dos anos 1920 e o
operações financeiras de lastro duvido- “festival dos derivativos” da crise atual
so, alavancadas pela expansão desmesu- foram construções endógenas do siste-
rada do crédito, em meio à ausência de ma financeiro norte-americano e euro-
regras eficazes de regulação e disciplina peu - criaturas típicas de um ciclo de
para o sistema financeiro. Tanto naquela crédito, que envolveu bancos, interme-
oportunidade como na recente crise, a diários financeiros, empresas, famílias
raiz da tormenta foi a ação desimpedi- e nações, e que resultou na montagem
da dos agentes privados, propiciada pela de uma complexa e intrincada teia de
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

endividamento. A inflação de ativos – avançado do capitalismo mundial (EUA,


em ambos os casos - foi incensada pelo Alemanha e Inglaterra), daí transbor-
crédito farto, na expectativa, sempre dando para o resto do mundo, a crise
otimista, de ganhos futuros. Com a atual vitimou, com maior intensida-
reversão das expectativas, o castelo de de, a periferia europeia (notadamente,
apostas ruiu, restando apenas o rastro Grécia, Espanha, Irlanda e Portugal).
das dívidas. Uma vez desencadeada a É óbvio que a atrofia do circuito do
crise, a carga de compromissos assumi- gasto, o endividamento das famílias e
dos e a contração do crédito se incum- a incerteza ainda afetam as economias
biram de promover a desaceleração dos avançadas, vitimando particularmen-
gastos em consumo e investimento, com te os imigrantes, os despossuídos e os
impactos negativos sobre a produção e jovens, quer nos EUA, na Alemanha, na
o emprego. Este é um traço comum das Inglaterra, na França ou na Itália. Mas
duas crises, na verdade um roteiro que não resta dúvida que, hoje, a dramati-
está incrustrado no próprio modo de ser cidade da crise é sentida, em sua maior
da realidade capitalista. crueza, pelas populações da franja do
continente europeu.
A diferença entre os dois processos
reside na resposta dos governos à crise: Daí decorrem implicações políticas
enquanto no início dos anos 1930 a distintas: em 1929-1933, a intensidade
intervenção governamental foi tardia, da crise no coração do capitalismo ense-
insuficiente e reiteradamente equivoca- jou a busca de rupturas, mais ou menos
da, na atual crise a intervenção foi pronta contundentes, em relação às práticas e
e contundente, destinada – acima de ensinamentos do saber convencional.
tudo – a socorrer as grandes instituições Afinal, populações inteiras em âmbito
em apuros. Este ponto merece ser subli- dos países capitalistas centrais se viram
nhado: foi unicamente em decorrência submetidas aos azares da crise econô-
injeção da maciça de recursos públi- mica. A política econômica do nazis-
cos – direcionados ao salvamento das mo, o New Deal, a experiência sueca e
instituições financeiras à beira da insol- as iniciativas do Front Populaire, foram
vência - que a crise atual não se trans- ações inovadoras destinadas a resgatar
figurou em uma tragédia de proporções os países das profundezas da Depressão.
incalculáveis. O resultado, previsível, foi A ruptura, entretanto, somente iria se
a expressiva elevação da dívida pública materializar - de maneira consistente -
nos EUA e na Europa. após o final da Segunda Guerra, através
da formação de coalizões políticas refor-
A distinta natureza das respostas, mistas na Europa Ocidental e mesmo
de sua parte, redundou em trajetórias nos EUA. Seu objetivo precípuo foi o de
distintas sobre o curso dos aconteci- disciplinar e orientar o funcionamento
mentos: enquanto a Grande Depressão dos mecanismos de mercado, mediante
dos anos 1930 atingiu em cheio o núcleo

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

a ação racional do Estado, sobretudo em do padrão-ouro. Em seus mandamen-


um ambiente internacional condiciona- tos, as ações expansionistas (sobretudo
do pela existência da Guerra Fria. fiscais) eram vistas com suspeição por
– supostamente - alimentar a inflação
Já na crise atual, o fato de as piores e precipitar, dessa forma, a desvaloriza-
agruras serem sentidas pelos margi- ção cambial. Câmbio fixo e orçamentos
nalizados do centro e pela periferia da equilibrados conformavam, em verda-
Europa – e na ausência de um “inimigo de, uma unidade indissociável. A defesa
comum” a ser detido – favorece a intro- do câmbio era o objetivo supremo, que
dução de políticas acomodatícias, volta- condicionava a política monetária e,
das tão-somente a evitar a implosão do na prática, anulava a política fiscal. A
sistema financeiro. É fraca, em consequ- verdade é que corações e mentes – tanto
ência, a adesão dos atores sociais e polí- à direita, quanto à esquerda2 - professa-
ticos no centro capitalista às propostas vam, naquela conjuntura histórica, sua
de reforma e disciplina do regime econô- crença mítica nas virtudes das finanças
mico. Occupy Walt Street e suas inúme- saudáveis.
ras variantes não têm o entusiasmo e o
apoio popular dos projetos transforma- O aprofundamento da crise nos anos
dores do New Deal, do Plano Beveridge 1930, contudo, vitimou milhões e milhões
ou de Bretton Woods, por exemplo. de trabalhadores por todo o mundo, em
particular no núcleo central das econo-
É sobre esses temas que se preten- mias capitalistas: a taxa de desemprego
de discorrer. Com o intuito de ordenar em 1932 alcançou as cifras dramáticas
a discussão, não serão tecidas maiores de 30,1% na Alemanha, 23,6% nos EUA
considerações sobre as origens e a morfo- e 15,6% na Inglaterra. Neste mesmo ano,
logia das duas crises. É sobre a natureza a queda da produção industrial – em
das respostas, o curso dos acontecimen- relação aos níveis de 1928 – foi próxi-
tos e as consequentes implicações políti- ma a 40% na Alemanha e nos EUA. Era
cas que iremos nos deter, buscando esta- impossível que os países continuassem
belecer um contraponto entre a Grande a assistir passivamente o desenrolar dos
Depressão e a crise atual. acontecimentos, na vã esperança de que
Peculiaridades da questão fiscal a “correção automática” dos mecanismos
de mercado relançasse as economias à
Comecemos pela questão fiscal. senda do crescimento. A profundidade
Observamos em outra oportunidade1, da crise ensejou a formação de novas coli-
que uma intervenção vigorosa - como gações políticas, dispostas a se libertar –
a empreendida recentemente no resga- cada qual à sua maneira – dos grilhões do
te ao sistema financeiro - seria impen- saber convencional. Afinal, a operação
sável em 1929. Não se deve esquecer espontânea das forças do mercado havia
que o saber convencional nos anos lançado o mundo ao desastre, e nada fazia
1920s era determinado pelas regras supor que, sem a intervenção vigorosa do
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Estado, o quadro pudesse ser revertido. biênio 1934-35 - não pode ser negligen-
ciada. Mais ainda: por terem resultado
Foi somente na Alemanha de Hitler - de uma percepção teórica inovadora –
e, em menor medida, na Suécia - que a contraposta ao credo deflacionário do
política fiscal (no caso, a expansão dos saber convencional -, indicaram moda-
gastos públicos) foi utilizada como um lidades de atuação que seriam utilizadas
mecanismo intencional e explícito de no futuro. O caráter inovador da experi-
estímulo às atividades econômicas. No ência sueca é tão maior quando se cons-
caso da Alemanha, os resultados foram tata que, em 1936, Roosevelt ainda era
espetaculares: entre 1932 e 1936, o cres- adepto dos orçamentos equilibrados, a
cimento real do produto foi da ordem Inglaterra cultuava reverências monó-
de 40%. O contingente de desemprega- tonas à prudência fiscal, e a França (até
dos, cerca de 5,6 milhões em 1932, caiu setembro) permanecia fervorosamente
para 1,6 milhão em 1936, e 430 mil em atada às regras rígidas do padrão-ouro.
1938. Na avaliação de Bleaney3 (1985:
72), a experiência alemã sob o nazis- As necessidades da guerra, obviamen-
mo configurou o “mais bem-sucedido te, sepultaram os pruridos em relação à
exemplo de uma resposta keynesiana ortodoxia fiscal. O financiamento dos
à depressão”. É claro que o sucesso dos gastos militares resultou na brutal eleva-
nazistas na assombrosa recuperação da ção da dívida pública (nos EUA, a título
economia alemã esteve umbilicalmente de exemplo, o estoque da dívida cresceu
ligado ao controle despótico exercido cerca de 400% entre 1940 e 1945) e na
sobre a economia e a sociedade, mas não expansão monetária. As pressões infla-
há como negar o papel crucial exercido cionárias, inevitáveis em um contex-
pelos gastos comandados pelo Estado. to atípico de desequilíbrios de oferta,
Na Suécia, sob a inspiração teórica dos aumento da liquidez e elevação agregada
trabalhos de Gunnar Myrdal, os social- do poder de compra, foram contornadas
democratas (em coalizão com os agrá- – com maior ou menor sucesso - através
rios) recorreram intencionalmente do racionamento, do controle de preços,
aos gastos governamentais e ao déficit das limitações ao crédito e da tributa-
público como armas (circunstanciais) ção seletiva. O crescimento do produto
de combate à depressão. Os resultados foi extraordinário, sobretudo nos países
foram auspiciosos: a produção industrial que não tiveram seus territórios invadi-
cresceu cerca de 50% entre 1932 e 1936, e dos: entre 1939 e 1943, a variação real
a taxa de desemprego se reduziu em cerca do PIB na Inglaterra foi superior a 25%.
de 40%. Ainda que os gastos públicos – Nos EUA a expansão foi ainda maior,
ao contrário da Alemanha – não tenham alcançando a excepcional cifra de 72%
sido os principais responsáveis pela no período 1939-1944. O desemprego,
recuperação (comandada, no caso, pelos em consequência, se reduziu de maneira
investimentos privados e pelas exporta- impensável nos tempos de paz: em 1939
ções), sua importância – sobretudo no havia 1,5 milhão de desempregados na
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Inglaterra. Em 1943 eles eram apenas 82 a implantação do National Insurance


mil. Nos EUA, o número de desempre- System e do ambicioso National Health
gados caiu de 9,5 milhões em 1939, para Service na Inglaterra, a consolidação do
670 mil em 1944. Welfare State nos EUA e no conjunto da
Europa, e a gama de subsídios concedi-
Se a Segunda Guerra Mundial foi, certa- dos à agricultura e aos setores econo-
mente, a experiência mais vergonhosa micamente mais frágeis – indicaram
que a humanidade já assistiu (deixando uma modalidade de intervenção abso-
em seu rastro 50 milhões de mortos), lutamente distinta daquela até então
um de seus poucos legados positivos foi prevalecente. Os orçamentos públicos
a demonstração cabal de que o direcio- se ampliaram, com a consequente eleva-
namento consciente do gasto publico é ção das despesas públicas na criação
o instrumento mais eficaz para erguer as e composição do produto. Entre 1950
nações dos escombros de uma depres- e 1973, a título de exemplo, a despesa
são econômica. A demência de Hitler dos governos cresceu de 28 % para 39%
obrigou Roosevelt e Churchill a aderi- do PIB na França, de 30% para 42% na
rem ao keynesianismo bélico, replicando Alemanha Ocidental e de 34% para 42%
a experiência do Fürher nos anos 1930. no Reino Unido. Como lembra Judt4, “a
Com a paz, forjou-se o consenso que o história de sucesso do capitalismo euro-
manejo apropriado da política fiscal era peu do pós-guerra foi por todo o lado
um fator essencial de estabilidade, funda- acompanhada por um papel crescente
mental para a atenuação das flutuações do setor público”.
cíclicas: o fiscalismo tosco dos “orçamen-
tos (sempre) equilibrados” cedeu lugar à Importa destacar que daí não resul-
percepção de Myrdal e Keynes, de que as tou qualquer desequilíbrio fundamental,
finanças realmente “saudáveis” devem ser já que se promoveu, ao mesmo tempo, o
deficitárias nos anos difíceis, e superavi- aumento da carga de impostos e contri-
tárias nas conjunturas de expansão. buições do setor privado (empresas e
famílias), em relação aos níveis anteriores
A estruturação virtuosa que se implan- à guerra. Ademais, o crescimento conti-
tou nas economias capitalistas do pós- nuado do produto expandiu, de manei-
guerra teve no gasto público – para não ra sistemática, a base de receitas do setor
mencionar o crédito comandado pelo público. Como destaca Belluzzo5, ao longo
Estado, essencial para explicar o impul- do pós-guerra “não havia déficit público
so econômico do Japão, da Alemanha, ‘estrutural’, salvo nos períodos de suave
da Itália e da França - um de seus pilares flutuação do nível de atividade, sendo logo
fundamentais. Os estabilizadores auto- tais desequilíbrios absorvidos pela reto-
máticos (seguro-desemprego, transfe- mada do crescimento. Isto porque o conti-
rências aos indivíduos, sustentação de nuado aumento da renda e do emprego
preços mínimos) nos EUA, os investi- fazia crescer a receita dos governos.”
mentos públicos na França e na Itália,

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Há uma peculiaridade nos recentes quadro ainda nebuloso em relação à


rounds de resgate do sistema financeiro, solvência dos potenciais devedores). O
que tornam a intervenção estatal essen- resultado é que os dispêndios públicos
cialmente distinta em relação aos tempos não se materializaram em novos gastos.
da Grande Depressão e do pós-guerra. A despesa pública tornou-se, assim,
No auge da Depressão, as ações de Hitler, prisioneira da armadilha da liquidez: os
dos suecos e mesmo de Roosevelt, obje- recursos saíram do Tesouro, migraram
tivaram a recuperação da produção e do para os bancos privados, e não se tradu-
emprego. Os gastos públicos direciona- ziram em novos empréstimos. É exata-
dos à infraestrutura e à indústria de base mente por essa razão que os países que
na Alemanha, a proteção aos trabalha- dispõem de sistemas públicos de finan-
dores na Suécia, ou os inúmeros progra- ciamento (o caso da China é exemplar)
mas do New Deal - todas essas iniciativas têm melhores condições de se contrapor
tinham por base o suposto de que cabia à crise.
ao dispêndio público a tarefa primordial
de reanimar a economia. Neste sentido, Mas não há dúvida que os desem-
seu sucesso foi inegável: ao se inscreve- bolsos públicos foram essenciais para
rem em um processo de restauração e evitar o aprofundamento da crise, que
recuperação do circuito gasto-produ- inevitavelmente ocorreria com a implo-
ção-emprego-renda, as despesas patro- são do sistema financeiro. Dessa forma,
cinadas pelo Estado contribuíram (com enquanto a função dos gastos públicos
maior ou menor sucesso) para mitigar nas iniciativas de combate Depressão e na
os efeitos devastadores da Depressão.
O mesmo pode ser dito dos gastos do
governo no pós-guerra, quer com o “Se a Segunda Guerra Mundial
investimento ou com o Welfare State:
eles representaram componentes impor- foi, certamente, a experiência
tantes de sustentação e estabilidade da mais vergonhosa que a huma-
demanda agregada.
nidade já assistiu (deixando em
Já os atuais aportes ao sistema financei-
ro norte-americano e europeu em nada seu rastro 50 milhões de mortos),
contribuíram – ou contribuem – para a um de seus poucos legados posi-
recuperação das economias. Os recur-
sos empoçaram no caixa dos bancos e tivos foi a demonstração cabal de
instituições financeiras que - avessos ao que o direcionamento consciente
risco, após as tropelias que culminaram
com a crise de 2008 – tornaram-se extre- do gasto publico é o instrumen-
mamente parcimoniosos na concessão to mais eficaz para erguer as
de novos créditos (sobretudo em um
nações dos escombros de uma
depressão econômica.” 35
[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

estruturação do pós-guerra foi a de rege- no crescimento das importações. Como


nerar e expandir o circuito do gasto, sua lembra Belluzzo6, “nos tempos de eufo-
função na presente crise – notadamen- ria, os “gastadores” apresentavam contas
te no que se refere aos países do centro correntes amplamente deficitárias e
capitalista - foi a de, na medida do possí- resultados fiscais superavitários”. A
vel, evitar a sua atrofia. É por essa razão Espanha, por exemplo, exibiu superá-
que a recente elevação da dívida pública vits fiscais entre 1% e 2% do PIB entre
não se traduziu na expansão do produto 2005 e 2007, com déficits em transa-
e na redução expressiva do desempre- ções correntes entre 7% e 10%. Com a
go. Os EUA, por exemplo, tinham uma eclosão da crise, o socorro do governo
taxa de desemprego de 4,6% em 2007. aos bancos resultou – assim como nos
Com a eclosão da crise, esta se elevou países centrais – na deterioração das
para níveis próximos a 10%. O socorro contas públicas. No caso da Espanha,
aos bancos fez com que a dívida pública os superávits se transfiguraram em défi-
líquida, como proporção do PIB, saltas- cits fiscais da ordem de 10% do PIB no
se de 43% em 2007 para 78% em 2012. biênio 2009-2010, o que fez com que
A taxa de crescimento, que foi negativa a dívida pública saltasse de 26,5% em
no biênio 2008-9, teve um desempenho 2007, para níveis superiores a 55% em
bastante modesto entre 2010-2 (média 2011-2. O socorro aos bancos – é impor-
de 2,1%), o que redundou em uma tante destacar - se fez acompanhar da
redução apenas discreta do desemprego concomitante contração do crédito: em
(9,0% em 2012). O mesmo fenômeno consequência, o produto despencou e a
se repetiu na Inglaterra: a dívida públi- taxa de desemprego se elevou para níveis
ca líquida dobrou entre 2007 e 2012 alarmantes, superiores a 20% (50% no
(de 38,2% para 77,0% do PIB), enquan- caso dos jovens). Estima-se que a virtu-
to a variação média do produto foi de al paralisia do crédito, desde o início da
1,4% entre 2010-12, com o desemprego crise, vitimou cerca de 450 mil pequenas
permanecendo ao redor de 8,0% (5,4% e médias empresas espanholas7.
em 2007).
Cabe, aqui, uma consideração: os
Já na periferia da Europa a situação níveis relativos de endividamento públi-
é outra. Ancorados no euro, os países co (dívida/PIB) da Espanha são equiva-
da “franja” europeia foram envolvidos lentes aos da Alemanha, e inferiores aos
pela expansão do crédito intraeuropeu da Inglaterra, EUA, França ou Japão. O
nos anos 2000, o que suscitou a forma- problema maior, contudo, não é o esto-
ção de bolhas imobiliárias e a explo- que, mas sim o fluxo da dívida. O que
são do consumo. Não houve, de início, está em questão é a capacidade de o país
nenhum desajuste fiscal: o crédito farto honrar a solvência de seus títulos sobe-
irrigou as economias, o que se traduziu ranos (denominados na moeda euro-
na elevação do endividamento privado e peia), o que remete às possibilidades

36
[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

– no caso, limitadas – de obtenção dos em relação à capacidade de os governos


recursos destinados ao pagamento dos honrarem seus compromissos. O default
débitos. É por essa razão que a contra- somente foi evitado (não na Grécia, onde
partida exigida pelas autoridades inter- os tomadores foram obrigados a arcar
nacionais (Banco Central Europeu, com perdas) graças aos aportes emer-
União Europeia e FMI) no aporte de genciais das autoridades internacio-
recursos emergenciais – de modo a nais. Em contrapartida, os países foram
impedir o default - foi a imposição de constrangidos a buscar superávits fiscais
um rigoroso ajuste fiscal. É este também a qualquer custo, de modo a obter os
o caso dos demais países da periferia recursos destinados ao pagamento das
europeia: a garantia de sobrevivência dívidas. É claro que a geração de supe-
dos bancos locais e da solvabilidade dos rávits em meio a um contexto recessivo é
títulos soberanos (em muitos casos em uma tarefa inglória, mas este é um rotei-
poder de tomadores do núcleo central) ro que, em derradeira análise, já esteve
foi condicionada à aplicação deliberada presente nas inúmeras atribulações dos
de severas políticas deflacionárias. anos 1920 e 19308 e, mais recentemente,
nas sucessivas condicionalidades impos-
A sequência dos acontecimentos tas pelo FMI aos países vitimados pela
praticamente obedeceu a um padrão crise da dívida externa. Os resultados,
comum: as economias mais acanhadas como se sabe, foram melancólicos.
do continente europeu que aderiram ao
euro foram capturadas – na expansão Chega-se, dessa forma, ao resultado
dos anos 2000 – pelas delícias do crédi- singular de que, na periferia europeia,
to barato (proporcionado pelos bancos a elevação dos gastos públicos (o socor-
alemães, austríacos, franceses e ingle- ro aos bancos) não esteve associada à
ses). Os bancos locais foram a correia regeneração, expansão ou sustentação
de transmissão do crédito. As famílias da demanda agregada, mas sim à sua
se endividaram, expandiram o consumo contração. A ampliação do déficit e da
e o preço dos imóveis disparou. É claro dívida pública, nesse caso, transformou-
que a continuidade do processo passou a se na porta de entrada para a imposição
depender da manutenção do fluxo regu- forçada de políticas deflacionárias, que
lar de empréstimos. Com a reversão, o resultaram na manutenção de níveis
crédito minguou, o preço dos imóveis extremamente elevados de desemprego.
despencou e os bancos locais se viram
às voltas com devedores inadimplentes. As tabelas das páginas seguintes ilus-
Os governos saíram, então, no socorro tram as três situações expostas:
aos bancos: captaram recursos através
da emissão de títulos soberanos e os
transferiram às instituições financeiras.
Começaram, na sequência, as suspeitas

37
[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Tabela 1 - Dívida e Crescimento

* Os dados referentes à dívida alemã estão subestimados, em virtude da não inclusão das MEFO
bills. Fontes: PIB: Maddison (1991); Desemprego: Mitchell (1992; 1993); Overy (1996); Barkai
(1990); Stein (1994).

Observe-se a extraordinária redução do desemprego na Alemanha a


partir de 1934. A elevação do desemprego e a contração do PIB nos
EUA em 1938 deveram-se à tentativa (frustrada) de Roosevelt de equi-
librar as contas públicas. Em ambos os casos, as variações positivas do
PIB se associaram – em maior medida na Alemanha – ao aumento dos
gastos públicos (expresso na elevação da relação dívida /PIB).

Tabela 2 - Dívida e Estagnação

Fonte: FMI
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Tabela 3 - Dívida e Contração

Fonte: FMI

Da mesma forma que nos países mais avançados, a elevação da relação


dívida/PIB na Espanha e na Irlanda decorreu, basicamente, do socorro
dos governos aos bancos. A contração do crédito resultou na virtual
paralisia do sistema econômico e na explosão do desemprego. As reco-
mendações das autoridades internacionais apontam para a permanên-
cia do estado de prostração econômica da periferia europeia.

O socorro aos bancos foi, tanto nos EUA como na Inglaterra, o


principal responsável pela elevação da relação dívida/PIB a partir de
2008-9. Evitou-se, assim, a débâcle generalizada. O PIB passou a ter
variações modestas, mas o desemprego permaneceu em níveis ainda
elevados. As vítimas são os imigrantes, os inferiorizados na escala
social (déclassés) e os jovens. A rede de proteção social ainda garan-
te benefícios mínimos, mas a precarização das relações trabalhistas
tende a avançar.

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

As reações à Grande Depressão dos anos uma plataforma política pluriclassista, os


1930 socialdemocratas foram especialmente
habilidosos no enfrentamento da crise. Ao
As crises sempre suscitam respostas. atrelarem a krona à libra (pegging policy),
Elas tanto podem ser audazes e inventivas, não sem antes promoverem uma discre-
quanto parciais e paliativas, ou simples- ta desvalorização, os suecos asseguraram
mente inócuas. É a correlação política que, a competitividade de suas exportações à
em derradeira análise, estabelece os limi- Inglaterra (seu principal mercado consu-
tes e possibilidades das distintas alternati- midor). Evitou-se, assim, ao contrário do
vas. Ao se observar as reações à crise atual, que ocorreria na França, a valorização da
contrapondo-as às iniciativas empreen- moeda local. Mais ainda, em oposição ao
didas nos anos 1930 e no pós-guerra, é que ocorreu na Alemanha de Brüning, os
possível perceber a existência de padrões suecos defenderam – mesmo em meio à
de comportamento essencialmente díspa- escalada do desemprego, que atingiu seu
res. Na esteira da Grande Depressão, as auge no início de 1933 - a manutenção
respostas foram nitidamente diferencia- dos salários nominais para o conjunto da
das, variando da ousadia do experimento economia. Através de um acordo político
nazista, passando pela inovação do New cuidadosamente articulado - que resultou
Deal e do Acordo de Saltsjöbaden, pelo na aliança formal com os representantes
reformismo contido dos ingleses, ou pelo da agricultura (cow trade) -, os socialde-
imobilismo da França. Já nos pós-guerra, mocratas, mediante a regulação de preços
estabeleceu-se um amplo consenso que e a compra de estoques, buscaram preser-
resultou – guardadas as especificidades e var o poder de compra dos agricultores.
desafios nacionais - em ações uniformes, Compreende-se a importância econômica
visando a sustentação de níveis máximos e política desta iniciativa quando se cons-
de ocupação e a consolidação do estado tata que, em 1930, mais de 35% da popu-
de bem-estar social. Já na crise atual, o lação economicamente ativa se encontra-
que se observa é uma uniformidade nega- va ocupada na agricultura. Foi, contudo,
tiva, marcada pela resignação em relação a utilização consciente da política fiscal
à dominação das finanças e pela timidez – através de um programa de gastos que
no enfrentamento das questões cruciais. privilegiou o investimento público – a
Apresentam-se, na sequência, as princi- grande inovação dos suecos. Segundo
pais respostas à depressão dos anos 1930. Arndt9, “a principal inovação do Governo
Suécia Trabalhista [socialdemocrata] (...) foi a
adoção de uma política de utilização deli-
Em janeiro de 1933, no mesmo mês em berada do orçamento do Estado como um
que Hitler chegou ao poder, os socialde- instrumento de recuperação. (...) A polí-
mocratas passaram a comandar o governo tica fiscal compensatória foi extremamen-
sueco. Munidos de uma reflexão teórica te bem-sucedida na Suécia”. Myrdal, já se
inovadora nos assuntos econômicos e com mencionou, entendia que os orçamentos

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

deveriam ser deficitários nas conjunturas a nação. A hegemonia social democrata


de baixa, e superavitários nas conjunturas na Suécia se prolongou por 44 anos inin-
de alta do ciclo econômico. terruptos. Wigforss, familiarizado com
os escritos de Keynes, permaneceu no
Os resultados foram amplamente satis- Ministério das Finanças de 1932 a 1948.
fatórios: o PIB cresceu a uma taxa média Tage Erlander exerceu o cargo de Primeiro
anual de 6,0% entre 1934-7, a expansão Ministro de 1946 até 1969. Não apenas os
da produção industrial foi de 66,0% entre representantes da agricultura foram envol-
1933-37, o volume de exportações se vidos nas negociações com os socialdemo-
ampliou em 60% entre 1932-7, e a taxa de cratas. Através do Acordo de Saltsjöbaden
desemprego – mesmo tendo ainda perma- de 1938, os industriais – de início, receosos
necido em níveis próximos a 10% no final – aderiram a uma plataforma econômica
da década – se reduziu de modo significa- e política que incluía a proteção aos traba-
tivo. A experiência sueca, por seu ineditis- lhadores, o exercício de políticas fiscais
mo, suscitou uma sucessão de pondera- compensatórias, os estímulos ao investi-
ções e críticas: o impacto da política fiscal mento e a implantação do Estado de Bem
teria sido desprezível na explicação da Estar Social mais avançado do mundo.
recuperação; a retomada do crescimento Não sem razão a experiência sueca – gesta-
da Inglaterra entre 1933-7 – e não neces- da e implantada ao longo dos anos 1930 –
sariamente a política cambial – é que teria converteu-se em um exemplo marcante e
permitido a expansão das exportações pioneiro no pós-guerra.
suecas; o cow trade teria resultado na eleva-
ção dos preços dos bens-salário, compro- Alemanha
metendo, portanto, o poder de compra real
dos trabalhadores; o investimento privado Na Alemanha, a tentativa inicial de
e as exportações – e não os gastos públicos combater a recessão com a deflação
- é que teriam relançado a economia sueca (Brüning) resultou na depressão selva-
a partir de 1933; a Segunda Guerra, e não a gem. As angústias dos alemães passaram a
socialdemocracia, é que teria eliminado o clamar por soluções radicalmente distintas
desemprego; a experiência sueca teria sido das preconizadas pelo figurino ortodoxo.
sobrevalorizada pela publicidade e noto- Essas últimas haviam levado ao aprofun-
riedade de seus economistas etc. etc. damento da crise. Neste contexto, é impor-
tante assinalar dois equívocos estratégicos:
Algumas qualificações podem até ser o primeiro foi o do Partido Comunista
verdadeiras, mas é necessário - como Alemão (KPD) que, em reverência às dire-
sempre - reter o fundamental: através de trizes emanadas de Moscou, insistia em
um acordo social abrangente, e libertos qualificar a socialdemocracia (SPD) como
dos grilhões obtusos do saber convencio- a representação política do “social fascis-
nal, os socialdemocratas souberam não mo”. Este, obviamente, era o momento
apenas se contrapor à crise, como cons- em que as forças democráticas - incluído
truir uma rota segura e duradoura para o centro católico - deveriam ter se unido

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

na defesa da República e na promoção de 1933, Hitler desde logo percebeu que era
um programa emergencial de combate à fundamental alterar o rumo dos aconteci-
depressão. O sistemático avanço da vota- mentos. Paralelamente ao esmagamento
ção conseguida pelos comunistas entre dos sindicatos e à perseguição cruel aos
1924 e 1932 (saltando de 9,0% para 17,0%) comunistas e socialdemocratas, empreen-
pode ter ensejado a falsa percepção de que deu uma cruzada destinada a reabilitar a
estes se converteriam no principal polo economia alemã. A “Batalha do Emprego”
de aglutinação na resistência ao nacional foi travada através da mobilização dos
socialismo (NSDAP). Este foi um erro recursos do Reichsbank, do enquadra-
palmar, já que, nas duas eleições de 1932, mento do fragilizado sistema bancário
a soma dos votos obtidos pela socialde- privado alemão, da criação de moeda
mocracia e pelas forças do centro (36,3% privada com garantia oficial (MEFO bills)
em julho e 35,2% em novembro), foi equi- e da utilização das receitas do Tesouro, de
valente à alcançada pelos nazistas (37,% e modo a promover a expansão dos gastos
33,1%). A pretensão dos comunistas em públicos. Somente a partir de 1936, uma
liderar a oposição ao nazismo terminou vez consolidada a recuperação, é que os
por facilitar os planos de Hitler. De outra
parte, como já mencionado, a recusa dos
socialdemocratas em subscrever o plano
de expansão dos gastos públicos (WTB) “Ao contrário do New
elaborado pelos sindicatos, jogou por
terra uma possibilidade efetiva de mitigar Deal, da experiência sueca,
os efeitos devastadores da depressão. A
ilusão de que o “ciclo de negócios” deveria
das iniciativas dos ingleses
seguir seu curso normal, somada à para-
noia de que a ampliação do déficit público
ou dos franceses - que trans-
pudesse ressuscitar o fantasma da hiperin- correram em um ambiente
flação, gerou – na social democracia alemã
- um imobilismo político e propositivo, de preservação dos rituais
inadmissível nas terríveis condições que o
país atravessava. O enfrentamento da crise democráticos – a resposta
exigia soluções enérgicas, mas os social-
democratas aparentemente permanece- nazista à crise foi imen-
ram aferrados à ingênua e tosca esperança
de que, em algum momento no tempo,
samente beneficiada pela
as condições estariam maduras para a
implantação do socialismo na Alemanha.
implantação de um regime
Ao ser escolhido por Hindenburg para de terror.”
chefiar o governo alemão em janeiro de

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

gastos militares passaram a ocupar posição comércio exterior, a captação dos recursos
determinante na composição do dispêndio e o direcionamento dos gastos. O aspecto
público. O êxito do programa empreendi- a ser destacado, contudo, é que – munido
do, já se observou, foi inegável. Mais ainda, de poderes ditatoriais – Hitler empreen-
ao reduzir dramaticamente o desempre- deu uma bem-sucedida ruptura com os
go, Hitler obteve – apesar do fechamento cânones da gestão convencional da polí-
dos sindicatos - a simpatia de milhões de tica econômica, conseguindo reerguer a
trabalhadores: os deserdados do merca- economia alemã dos dramas da depres-
do converteram-se nos Soldados da Nova são. Com o final da guerra, as lideranças
Ordem; ao garantir a preservação do poder ocidentais perceberam que algumas de
de compra dos agricultores (29% da popu- suas iniciativas – desde que dissociadas de
lação economicamente ativa em 1933), sua forma opressiva de execução - pode-
sedimentou sua base de sustentação no riam ser úteis, e até mesmo necessárias,
campo; ao garantir encomendas à indústria na recuperação e expansão das economias
e reanimar a demanda agregada, contou nacionais. Foi assim, por exemplo, com o
com o entusiasmo de setores empresariais controle de preços na própria Alemanha,
relevantes; ao salvar os bancos da estati- com o comércio exterior no âmbito da
zação pretendida por Gottfried Feder (o União Europeia de Pagamentos (evocan-
teórico nazista que denunciava a “escravi- do os “contratos de compensação” de
dão dos juros”), submeteu-os às priorida- Schacht) e com a montagem dos vigoro-
des do nacional-socialismo; ao assassinar sos sistemas públicos de financiamento
– na Noite das Facas Longas - as lideranças na Europa e no Japão.
das SAs (Ernst Röhm), conseguiu a obedi-
ência do Exército. Hitler obteve, desta EUA
maneira, uma vasta base social de apoio a A resposta do New Deal foi de natu-
suas políticas. reza distinta. Os EUA não foram o palco
É certo que a economia, no estado nacio- um acordo social tão amplo como o que
nal socialista, foi convertida em um ramo observou na Suécia, e nem a economia
da política, e esta na expressão da vonta- norte-americana foi escravizada pela polí-
de do Führer. Ao contrário do New Deal, tica, como na Alemanha nazista. Na verda-
da experiência sueca, das iniciativas dos de, Roosevelt teve que se mover em águas
ingleses ou dos franceses - que transcorre- turvas, enfrentando a todo instante a guer-
ram em um ambiente de preservação dos rilha republicana, a resistência do mundo
rituais democráticos – a resposta nazis- dos negócios, os obstáculos políticos e as
ta à crise foi imensamente beneficiada decisões (nem sempre sábias) da Suprema
pela implantação de um regime de terror. Corte. Mais do que um experimento
Somente através da violência do Estado econômico, o New Deal foi, acima de tudo,
foi possível estabelecer um sistema férreo uma construção política no seio de uma
de controles sobre os salários, os preços, o nação marcadamente conservadora. A
violência da depressão nos EUA encontrou

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

em Roosevelt uma liderança destemida, comerciais e os bancos de investimen-


pronta a enfrentar os problemas e disposta to, o seguro para os depósitos bancários
a correr riscos com iniciativas audazes. (FDIC) e a proibição para o pagamento de
juros sobre os depósitos à vista, de modo
Sua primeira missão foi a de estancar a evitar a concorrência predatória entre
o derretimento do sistema financeiro. os bancos (Regulation Q). A criação da
O país assistira a três ondas de quebras Securities Exchange Commision (SEC),
bancárias (estima-se que 11 mil bancos em 1934, tornou mais rígidos os critérios
fecharam suas portas ao longo da depres- para a emissão de ações. A criação, no
são), e qualquer ação de combate à crise mesmo ano, da Federal and Saving Loan
deveria ter por princípio o fortalecimen- Insurance Corporation (FSLIC) propor-
to do sistema financeiro. Suas iniciativas, cionou segurança para os depósitos em
neste particular, não apenas foram bem- poupança e normatizou o funcionamen-
sucedidas, como duradouras. Através do to das companhias de seguro. Com o
Banking Act de de 1933 – no âmbito do Banking Act de 1935 o poder do Fed se
Glass-Steagall Act – estabeleceram-se fortaleceu, o que resultou na centralização
normas de regulação rígidas para o siste- do comando sobre a política monetária. A
ma bancário, com destaque para a separa- legislação do New Deal, se foi crucial para
ção (muro de contenção) entre os bancos

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

conter a propagação da depressão, redefi- sociedade norte-americana. Não é difí-


niu, ao mesmo tempo, o desenho institu- cil imaginar a reação enfurecida dos
cional do sistema financeiro norte-ameri- setores conservadores às iniciativas
cano e forjou um novo marco regulatório sociais do Presidente.
para o setor. Neste sentido, sua contribui-
ção foi permanente. Já a política fiscal do New Deal foi essen-
cialmente contraditória. Ao contrário do
As iniciativas no âmbito da agricultura que ocorreu na Alemanha e na Suécia –
foram igualmente exitosas. Através das onde o gasto público foi explícita e inten-
políticas de sustentação e elevação dos cionalmente utilizado como uma arma
preços agrícolas (acreage allotments), do essencial no combate à depressão – a
refinanciamento das dívidas, do financia- expansão dos gastos públicos no EUA de
mento oficial com garantia de preços míni- Roosevelt foi uma decorrência inevitá-
mos, da introdução de modernas técnicas vel das ações emergenciais que se fizeram
de utilização do solo (combate à erosão) e necessárias para mitigar os efeitos da crise.
da difusão da eletrificação rural – a agri- Os inúmeros programas do New Deal
cultura norte-americana se reergueu do demandavam recursos públicos, eleva-
violento abatimento a que fora submetida vam o dispêndio e acarretavam déficits nas
nos anos da depressão. Entre 1933 e 1937 contas do governo central, mas a intenção
a renda dos agricultores cresceu 60%, fato dos New Dealers (à exceção de Marriner
de extrema importância em um país em Eccles, do Fed) e de Roosevelt sempre foi a
que quase um quarto da população ainda de - em algum momento no tempo - retor-
se dedicava às atividades agrícolas. nar ao equilíbrio orçamentário. Em poucas
palavras, Roosevelt era conservador em
De sua parte, a legislação social implan- matéria fiscal. Após a eleição de 1936,
tada no New Deal, em 1935, foi de extraor- convencido por seus assessores que a recu-
dinária importância: O Wagner Act asse- peração se encontrava consolidada e que
gurou aos trabalhadores o amplo direito à a inflação estaria just around the corner,
sindicalização e o Social Security Act esta- o Presidente consentiu com a reversão
beleceu o sistema de aposentadoria para da política monetária e o aperto fiscal. O
os trabalhadores que alcançassem 65 anos, resultado foi desastroso: a produção indus-
além do seguro desemprego. O embrião trial despencou e 2,7 milhões de trabalha-
do Welfare State de Roosevelt nasceu da dores foram lançados ao desemprego. A
convicção de que os cidadãos não pode- recessão na depressão de 1938 demonstrou
riam permanecer eternamente expostos que era impossível ao New Deal permane-
aos ventos do mercado, e desamparados na cer prisioneiro do dogma dos orçamentos
velhice. A relevância deste compromisso equilibrados. A partir de então, e com as
é tão maior quando referida, não apenas nuvens da guerra cada vez mais próximas,
ao contexto cruel da depressão, mas às Roosevelt abandonou de vez suas convic-
tendências individualistas e dissolven- ções fiscalistas.
tes que sempre estiveram presentes na

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

O resultado dos programas do New que houve percalços e falhas na execução,


Deal não pode ser subestimado: calcula- e até mesmo na concepção do New Deal,
se que, em média, cerca de três milhões de mas ele só pode ser criticado pelo que fez,
trabalhadores por ano (5,7% da força de jamais pelo que deixou de fazer.
trabalho) foram retirados do desemprego
em decorrência das ações, entre outras, da Inglaterra e França
Public Works Administration (PWA), da Se a Alemanha, os EUA e a Suécia promo-
Civilian Corps Corporation (CCC) e da veram respostas inovadoras, o mesmo não
Works Progress Administration (WPA) pode ser dito da Inglaterra e, sobretu-
– para não mencionar o impacto extra- do, da França. Com a desvalorização da
ordinário das obras da Tennessee Valley libra, em setembro de 1931, a Inglaterra
Authority (TVA). Milhões e milhões de pôde usufruir do dinheiro barato, já que
trabalhadores devorados pela depressão as amarras douradas deixaram de cons-
somente viriam encontrar algum alento tranger o exercício da política monetária.
para suas vidas graças aos programas Paralelamente à redução da discount rate,
emergenciais do New Deal. Entretanto, foi promoveu-se uma exitosa operação de
apenas com a eclosão da Segunda Guerra troca de títulos públicos, que redundou
Mundial que o desemprego selvagem viria na diminuição do serviço da dívida inter-
desaparecer. A conclusão que daí decorre na. No front externo, a Inglaterra promo-
(ao contrário do que supõem alguns críti- veu a elevação das tarifas de importação e
cos) é que a política fiscal foi, sim, expansi- aprofundou as relações comerciais com o
va ao longo do New Deal. A verdade é que Império. Desvalorização, dinheiro barato
ela poderia ter sido mais expansiva, não e protecionismo formaram o tripé sobre o
fossem os constrangimentos ideológi- qual se apoiou a recuperação do país nos
cos, políticos e intelectuais que inibiram anos 1930. Uma recuperação modesta
intervenções mais ousadas no âmbito da quando comparada à da Alemanha e dos
ação estatal. EUA, mas ainda assim superior à marcha
Vistas como um todo, as iniciativas do letárgica dos países que formavam o bloco
New Deal revelaram-se fundamentais do ouro (França, Bélgica e Holanda, entre
para retirar a economia norte-americana outros). Apesar de o impacto da depressão
do atoleiro da depressão. A regulamen- ter sido menos dramático na Inglaterra
tação do sistema bancário, a defesa da (onde os bancos não foram fulminados), e
agricultura, os dispêndios das agências de a retomada ter se dado com antecedên-
governamentais e a montagem do siste- cia em relação aos demais países (centra-
ma de proteção social, permitiram a recu- da na construção residencial e nas new
peração quase sistemática do consumo industries – química, eletricidade, bens de
pessoal (crescimento de 46% entre 1933 consumo durável), o desemprego alcan-
e 1939), em meio à introdução de meca- çou proporções elevadas - sobretudo entre
nismos e conquistas institucionais que 1931-5, mas também até o final da década.
iriam remodelar a face da nação. É claro
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Isto se explica pela recusa dos ingleses foi prontamente abortado pela depres-
em praticarem uma política fiscal expan- são mundial e o país ingressaria em uma
sionista. Ao longo dos anos 1930 os orça- desoladora rota de estagnação. Basta um
mentos permaneceram rigorosamente dado para ilustrar a decadência francesa
equilibrados. A força da City e do Treasury nos anos trinta: nos seis anos que trans-
View eram por demais evidentes na correram entre 1930 e 1935, o crescimen-
Inglaterra, e inibiram quaisquer iniciativas to do PIB foi negativo em cinco deles (a
mais ousadas em termos da política fiscal. exceção foi 1933). Por detrás deste resul-
Os lideres trabalhistas britânicos (Ramsay tado encontra-se a devoção dos franceses
Mac Donald e Philip Snowden), no poder ao ouro. Defender a paridade tornou-se
desde junho de 1929, converteram-se em sinônimo de defesa da nação. Nada que
defensores e executores das sound finances pudesse ameaçar a paridade sagrada pode-
recomendadas pelos círculos conservado- ria ser sequer cogitado. O equilíbrio orça-
res. De nada adiantaram as pregações de mentário, em decorrência, tornou-se a
Keynes em 1929, 1931 e 1933, ou a pres- pièce de résistence da gestão econômica
são dos sindicatos e de outros proemi- do país. O déficit público seria a antes-
nentes trabalhistas (Ernst Bevin) em prol sala da tão temida inflação, e esta poria
da expansão dos gastos públicos. Alguns, por terra a paridade consagrada em 1928.
inconformados com a timidez das políti- Reversivamente, a desvalorização – no
cas de combate ao desemprego, rompe- entendimento dos franceses – resultaria na
ram com o Partido Trabalhista - como inflação, o demônio a ser exorcizado. Esta
Oswald Mosley, que em 1932 fundou o concepção estreita e simplista – sobretudo
Partido Fascista da Inglaterra. A força em um contexto de depressão e deflação
do establishment impediu que se forjas- – não foi partilhada, apenas, pelos círcu-
se a aliança Lib-Lab (Liberals e Labor), a los conservadores. Também a esquerda
única que teria condições de levar adiante (à maneira da socialdemocracia alemã de
um programa consistente de redução do Hilferding) aferrou-se ao dogma dos orça-
desemprego. Com as lideranças trabalhis- mentos equilibrados e à defesa da pari-
tas emasculadas, a reação britânica à crise dade cambial. Na observação de Kemp10,
foi limitada, com a precaução se sobrepon- “um sólido bloco, dos diretores do Banco
do à inovação. da França ao Comitê Central do Partido
Comunista, clamava pela preservação da
O caso da França foi mais melancólico. paridade de 1928”.
Desde a implantação do Franc Poincaré
em dezembro de 1926, a nação perma- Em setembro de 1931 a Inglaterra desva-
neceu fervorosamente atada ao ouro. Em lorizou a libra, e já em março de 1933
junho de 1928 deu-se a desvalorização teve início a desvalorização do dólar. O
formal do franco frente ao dólar e à libra, franco, em consequência, se valorizou.
o que fazia supor que as condições econô- Com a valorização do franco, as expor-
micas tornar-se-iam mais promissoras. Tal tações francesas, que já vinham de uma
não foi o caso: o crescimento de 1928-9 modesta trajetória de queda desde 1927,
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

simplesmente desabaram: entre 1929 e


1936 sua queda – sistemática ao longo
dos anos – foi da ordem de 70%. É claro “Os desdobramentos da
que parte deste declínio é explicada pela
contração do comércio internacional, mas Segunda Guerra criaram
não resta dúvida que a valorização cambial
foi desastrosa para as exportações france- as condições para uma
sas. Mais ainda, ao empreenderem polí-
ticas deflacionárias destinadas a “salvar o
radical reversão do quadro
franco”, os sucessivos gabinetes franceses político, tanto em âmbito
(Flandin e Laval, em particular) afunda-
ram o país na recessão. A recessão contraía mundial como no plano
as receitas públicas, o que elevava o déficit
das contas governamentais. A alternativa das nações.”
que restava era o corte dos gastos públicos,
fato que só aprofundava a recessão.
Quando os franceses, cansados da do franco, em setembro de 1936, foi de
inocuidade das políticas deflacionárias, grande valia. A França – ao contrário da
conduziram o Front Populaire de Léon Suécia – convertera-se em uma sociedade
Blum ao poder (em junho de 1936), as convulsionada: as únicas bandeiras que
divisões políticas impediram a adoção de uniam o país eram a defesa da República
qualquer alternativa coerente de resposta à e o temor à Alemanha. A “restauração da
crise. Nem o Front Populaire resultou de confiança”, com a queda do Front Populaire
um acordo social estruturado como o que em abril de 1938, tão pouco foi suficiente
se assistiria em Saltsjöbaden, e nem Blum para ensejar perspectivas mais otimistas
tinha a sustentação política e popular de ao país. Vitimada pela insensatez das polí-
Roosevelt. Sitiado pelo mur d’argent, que ticas deflacionárias em meio à depressão,
prontamente promoveu a fuga de capitais pela radicalização política interna e pela
– repetindo o que já fizera durante o Cartel desgraça da ocupação nazista, a França –
des Gauches, entre maio de 1924 e julho por vinte anos - foi palco de uma espantosa
de 1926 -, Blum converteu-se no árbitro regressão econômica: em 1948 o nível de
impotente face às disputas incandescentes seu PIB ainda era inferior ao de 1929.
que opunham trabalhadores a proprietá-
rios. O Acordo de Matignon (que resultou As coligações reformistas do pós-guerra
na elevação dos salários e na introdução da Como se pode observar, foram as
jornada de 40 horas, em troca da desocu- circunstâncias políticas, em derradeira
pação de fábricas que haviam sido toma- análise, as principais responsáveis pela
das pelos operários) em nada contribuiu natureza diferenciada das respostas nacio-
– antes o contrário - para assegurar a reto- nais à crise nos anos 1930. As condições
mada da economia. Nem a desvalorização
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

políticas da Suécia, por exemplo, eram resolvessem pela força bruta das armas.
distintas das prevalecentes na França. Em Este foi um sentimento comum, que
consequência, o Acordo de Matignon percorreu todo o Ocidente. A luta contra o
jamais poderia ter tido o alcance e a trans- nazismo e o militarismo japonês acendeu
cendência do Acordo de Saltsjöbaden. Da a esperança de que a democracia política,
mesma forma, a prevalência da City no a proteção aos cidadãos e o funcionamen-
espectro político da Inglaterra jamais teria to ordenado das economias deveria pautar
permitido a tutela do setor bancário, à a organização das nações. As propostas
maneira do que se observou na Alemanha. de Lord Beveridge (Full Employment in
Hitler criou condições políticas que favo- a Free Society) para a implantação do
receram a expansão contínua dos gastos Welfare State na Inglaterra, ou as sugestões
públicos, o que não ocorreu na Inglaterra, de Keynes para a constituição de uma nova
na França e nem mesmo nos EUA. Havia, ordem monetária internacional foram,
nestes países, poderosos grupos de inte- inclusive, anteriores ao final da guerra. Elas
resse que defendiam encarniçadamente exprimiam um estado de espírito latente
o equilíbrio orçamentário. Os programas e difundido. A luta heroica da resistência
do New Deal, de sua parte, introduzidos na França e na Itália, da mesma forma,
em meio a disputas acirradas nos EUA, não objetivou apenas a derrota militar do
seriam impensáveis no contexto atrasado nazismo e do fascismo, mas, também, a
da França, onde as pequenas empresas e criação de condições para a formação de
as pequenas propriedades rurais eram a sociedades mais justas. Em todos os países
norma da vida social. O que se assistiu, do Ocidente forjou-se a convicção de que
assim, foi a um conjunto de ações inde- o final da guerra abriria um novo capítulo,
pendentes e descoordenadas, exercidas de prosperidade e justiça social, no âmbito
em meio às variadas limitações políticas das nações.
locais, em um ambiente internacional cada
vez mais carregado pela ameaça da guerra. É claro que as tarefas imediatas de recons-
trução eram dramáticas e imperiosas, e
Os desdobramentos da Segunda Guerra que havia, ainda, um penoso caminho a ser
criaram as condições para uma radi- percorrido. Os desafios eram enormes: se o
cal reversão do quadro político, tanto final do prolongado conflito foi um alívio,
em âmbito mundial como no plano das a dura realidade da escassez de alimentos,
nações. A guerra, na verdade, criou novos do racionamento de carvão, da destruição
consensos e sepultou vários mitos. Após das habitações, do colapso dos transportes,
os longos anos de depressão e da trágica das perseguições, do drama dos refugiados
experiência do conflito mundial, não era e das desgraças vividas – esta dura realida-
mais admissível que os homens perma- de ainda inibia o aflorar da esperança. Nas
necessem indefesos frente aos ventos do palavras de Lowe11, “a história da Europa
mercado, subjugados por ditaduras impie- no imediato pós-guerra (...) não a é da
dosas, ou que as relações internacionais se reconstrução e reabilitação – ela é, antes

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

de tudo, a história do mergulho na anar- de modo semelhante ao que ocorreu após


quia”. Mais ainda, não havia clareza e niti- a Primeira Guerra Mundial, os republica-
dez política em relação aos passos a serem nos retomaram o controle das duas casas
dados: a Alemanha encontrava-se partilha- legislativas nas eleições de 1946 e deram
da pelas forças de ocupação (EUA, URSS, início a uma cruzada obscurantista voltada
Inglaterra e França), estas em desacordo à perseguição da esquerda e à tentativa de
interno quanto às medidas que se deveria anular as conquistas do New Deal.
implementar. Os soviéticos exigiam repa-
rações, os franceses pretendiam enfraque- O que se pretende salientar é a complexi-
cer o rival histórico, os norte-americanos dade do quadro que emergiu no imediato
pretendiam desestruturar o sistema bancá- pós-guerra. Não havia, ainda, um consen-
rio alemão, enquanto os ingleses buscavam so sedimentado em relação às formas de
normalizar as relações com a Alemanha. O condução da economia e da política. Havia,
Japão, de sua parte, ocupado pelas forças sim, uma esperança difusa em relação ao
do General Mac Arthur, encontrava-se futuro, mas as dificuldades materiais e os
acuado, submetido a um projeto punitivo desentendimentos políticos inibiam pers-
que inibia qualquer perspectiva de recupe- pectivas mais promissoras para os países.
ração. Na França e na Itália, a intensa parti- Dois fatos interligados contribuíram, de
cipação dos comunistas nos movimentos modo central, para a alteração no rumo
de resistência credenciava-os como atores dos acontecimentos: a massacrante supe-
políticos legítimos e relevantes, e os gover- rioridade econômica dos EUA e a eclo-
nos mal conseguiam se sustentar (De são da Guerra Fria. Os aportes norte-a-
Gaulle, por exemplo, sentiu-se compeli- mericanos através da United Nations
do a renunciar já em janeiro de 1946). As Relief and Rehabilitation Administration
nacionalizações na França, na Itália e na (UNRRA – criada em 1943, por inspiração
Inglaterra exprimiam uma nova percep- de Roosevelt, e especialmente ativa entre
ção em relação ao papel do Estado na 1945-7) foram absolutamente decisivos
economia, mas as dificuldades ainda eram para que a Europa não mergulhasse no
notórias. Na Inglaterra, onde os trabalhis- desconhecido. Foram apenas as doações da
tas de Attlee destronaram Churchill em UNRRA que permitiram que as carências
julho de 1945, a situação do balanço de mais gritantes fossem superadas. De outra
pagamentos era crítica, e o rigoroso inver- parte, o anúncio da Doutrina Truman e
no de 1946-7 tornou as condições de vida do Plano Marshall, em março e julho de
ainda mais difíceis. O sonho da construção 1947, respectivamente, definiram o novo
do Welfare State parecia condenado pela marco político das relações internacionais
miséria da economia: Laqueur12 observa e asseguraram aos países ocidentais um
que “o grande problema enfrentado pelo fluxo regular de recursos que se estende-
Partido Trabalhista em 1945 era o de cons- ria até 1952. Em uma palavra: as nações
truir um estado de bem-estar social em alinhadas aos EUA gozariam de tratamen-
um país praticamente falido”. Nos EUA, to privilegiado. Em troca, deveriam pres-
tar obediência aos desígnios geopolíticos

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

de Washington: não por acaso, em maio de entre os EUA e o Japão: este deixou de ser
1947 os comunistas foram excluídos das visto como um inimigo derrotado e passou
coligações de poder na Itália e na França. A a ser considerado como o principal aliado
sucessão dos fatos em 1948-9 deu contor- estratégico dos interesses norte-america-
nos finais à Guerra Fria e firmou a base nos no Pacífico13.
política sobre a qual deveria se assentar a
recuperação econômica da Europa e do As implicações da nova configuração
Japão: em fevereiro de 1948 os comunistas política internacional foram decisivas. O
tomaram o poder na Tchecoslováquia; em ambiente tornou-se propício à formação de
junho de 1948 teve início o bloqueio de coalizões políticas reformistas em âmbito
Berlim (se estendendo até maio de 1949); dos distintos países. Forjou-se um amplo
em 1948 começaram os desembolsos do campo de entendimento do qual partici-
Plano Marshall e os países passaram a param democratas cristãos (Alemanha
exibir índices razoáveis de crescimento da e Itália), social democratas (Alemanha
produção industrial; em março de 1949 e Suécia), socialistas (Itália), gaullis-
foi formalizada a criação da OTAN; em tas e não gaullistas (França), trabalhis-
agosto do mesmo ano a URSS anunciou a tas e conservadores (Inglaterra), liberais
posse da bomba atômica; em setembro de democratas (Japão), democratas e repu-
1949 deu-se a criação formal da República blicanos (Estados Unidos), e até mesmo
Federal da Alemanha, e em outubro as os comunistas (França e Itália). Talvez o
forças de Mao Tsé Tung tomaram o poder ponto central das referidas coalizões foi a
na China. Por fim, a eclosão da Guerra da convicção – por todos partilhada – de que
Coreia, em junho de 1950, alterou defini- era necessário domesticar o funcionamen-
tivamente os termos do relacionamento to do capitalismo. Liberto da regulação e
do controle público, o capitalismo havia

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

produzido o desastre dos anos 1930, e era da guerra – as oportunidades de inversão


essencial reter as lições positivas das estra- haviam se ampliado consideravelmente na
tégias de defesa bem-sucedidas. Não por Europa Ocidental e no Japão. Em particu-
acaso, as experiências da Suécia, do New lar, a possibilidade de mimetizar o padrão
Deal, e até mesmo do nazismo, tornaram- manufatureiro norte-americano, com base
se objeto de particular consideração. nos esforços locais, tornara-se uma reali-
dade plausível.
No que se refere à direção econômica
dos países, três aspectos devem ser desta- Não menos importante foi a convicção,
cados: em primeiro lugar, a ordem inter- partilhada pela maior parte das correntes
nacional que emergiu de Bretton Woods políticas de opinião, de que o destino dos
(de inspiração nitidamente reformista) indivíduos não poderia mais ser defini-
facilitou o exercício das políticas econômi- do – como em tempos anteriores – tão-
cas nacionais. A existência de restrições à somente pelas vicissitudes do mercado.
livre movimentação dos capitais, em parti- Estas, de um lado, deveriam ser atenuadas
cular, permitiu que os sistemas nacionais pela busca permanente do pleno emprego,
de crédito fossem direcionados para suas através do manejo adequado da política
finalidades precípuas, vale dizer, o finan- fiscal. De outra parte, caberia ao Estado a
ciamento ao investimento, à produção e responsabilidade pela vida dos cidadãos.
ao consumo.14 A ausência de flutuações Após as agruras da depressão e da guerra,
cambiais mais intensas (sobretudo a partir firmou-se o entendimento de que a sorte
do realinhamento das taxas de câmbio em dos homens, mulheres, idosos e crianças
1949) e a possibilidade de praticar baixas deveria se dissociar das intempéries da
taxas de juros favoreceram enormemen- concorrência. Daí resultaria a teia de bene-
te a acumulação produtiva. Em segundo fícios incorporada aos programas univer-
lugar, como já se destacou, a participação sais de educação, saúde e previdência; a
do Estado na economia passou a ser enten- proteção pública à infância, à maternida-
dida como essencial. Construiu-se um de e à velhice; a regulamentação da jorna-
novo consenso, a partir do qual a presença da e das condições de trabalho; a defesa
do Estado - no planejamento industrial e de padrões mínimos de remuneração e o
macroeconômico, na gestão de parcela do amparo do seguro-desemprego, que iriam
setor produtivo, no provisionamento da beneficiar milhões de trabalhadores por
infraestrutura, no financiamento direto ao todo o Ocidente. As tendências dissolven-
investimento e na estruturação dos siste- tes do regime de produção capitalista se
mas de bem-estar social – tornar-se-ia submeteriam, doravante, à tutela da mão
vital para o direcionamento das inversões do Estado: a espada de Lord Beveridge se
privadas e para a sustentação da demanda voltaria agora contra os “cinco gigantes”
agregada. Em terceiro lugar, é importante que, por tanto tempo, afligiram as socieda-
assinalar que - em face dos quinze anos des avançadas – O Desalento, A Ignorância,
consecutivos de atribulações que trans- A Doença, A Miséria e A Ociosidade15.
correram do início da depressão ao final
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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

As nações, desde logo, tinham desafios políticas de stop and go (Butskellism16).


específicos. No caso dos EUA, por exem- Isolada da integração europeia, a Inglaterra
plo, a questão central que se colocou no rendeu-se à supremacia da City e implan-
pós-guerra não foi, propriamente, a da tou um avançado e abrangente estado de
reconstrução ou da recuperação, mas sim bem-estar social. Suas pretensões polí-
a do exercício da hegemonia mundial. ticas mundiais se esvaíram na desastra-
Dotados de uma supremacia econômica da ocupação do Canal de Suez em 1956,
e militar incontrastável, os norte-america- quando foram intimados por Eisenhower
nos – em meio às disputas da Guerra Fria a se retirar do Egito.
– trataram de estimular a expansão capita-
lista em sua esfera de influência. O Plano No caso da Alemanha, superados os
Marshall, a abertura de seus gigantescos percalços políticos e institucionais em
mercados, o apoio à integração europeia 1949, a missão da democracia cristã de
e a aceitação do protecionismo japonês se Adenauer e Erhard foi a de se livrar do arse-
inscreveram exatamente nesta perspectiva. nal de restrições impostas pelos nazistas, e
Ao mesmo tempo, a liderança militar do libertar a gigantesca máquina de produção
Ocidente gerou obrigações e intervenções, alemã. Dotados de uma estrutura indus-
com o propósito de conter a expansão trial mais robusta e diferenciada do que
mundial do comunismo. Internamente, seus parceiros europeus, os alemães conce-
o liberal consensus das reformas incre- deram prioridade e incentivos explícitos
mentais (que se estendeu até a eleição de às exportações. O demônio exportador
Nixon) tinha por base a esdrúxula associa- alemão passou a exibir saldos comerciais
ção entre reformismo e anticomunismo. consistentes a partir de 1952. Os milhões
Seu exemplo mais conspícuo foi Johnson, de refugiados foram progressivamente
que lançou os ambiciosos programas absorvidos pelo mercado de trabalho, e o
domésticos da Great Society paralelamen- princípio da co-determinação assegurou a
te à escalada da guerra do Vietnã. paz nas relações trabalhistas. A economia
social de mercado, longe de configurar
Já para Inglaterra, que se viu despojada uma reinvenção do laissez-faire, represen-
de seu outrora glorioso Império, as tarefas tou uma exitosa experiência de estímulo e
do pós-guerra se concentraram na defesa controle das forças propulsoras do capita-
da libra e na defesa de seus cidadãos. A lismo local.
busca do pleno emprego e a consolida-
ção do Welfare State converteram-se em Já os desafios que se impunham ao
objetivos consensuais de trabalhistas e Japão, à França e à Itália no pós-guerra
conservadores. Ultrapassados na arena eram distintos. Tratava-se, nesses países,
da concorrência internacional, os ingleses de empreender um autêntico salto de
enfrentaram o recorrente constrangimento modernização. Para tanto, foi fundamen-
do balanço de pagamentos no pós-guerra, tal contar com a participação decisiva do
responsável pela aplicação sistemática das Estado. A eclosão da guerra da Coreia
sepultou os preceitos deflacionários da

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Missão Dodge enviada ao Japão no ano com a introdução do Plano Monnet, entre
anterior, e impulsionou as exportações para 1947 e 1952. Através do controle público
os EUA. Através da atuação discricionária sobre o crédito foi possível estimular os
do Ministério da Indústria e do Comércio ramos industriais eleitos pelo planejamen-
Exterior (MITI), a entrada do capital to central como estratégicos em termos do
estrangeiro foi rigorosamente disciplinada, desenvolvimento nacional. A normaliza-
e estabelecidos critérios seletivos para as ção das relações econômicas com o pode-
importações. O Banco do Japão, ao mesmo roso vizinho alemão deu-se com a criação
tempo, se incumbiu de prover recursos aos da Comunidade Europeia do Carvão e
bancos privados, fortalecendo a posição do Aço em 1952, um cartel europeu que
dos grandes blocos de capital (keiretzu). estabeleceu metas de produção e acesso
Os investimentos foram direcionados para comum às duas matérias-primas essen-
os setores considerados prioritários, e em ciais da indústria. A legião de pequenas
1966 o Japão se afirmou como a segunda e médias empresas não foi abandonada
economia capitalista mundial. Na França, à própria sorte, já que a política adapta-
um país onde a norma eram os pequenos tiva de “apoio aos grandes e proteção aos
estabelecimentos, a modernização veio pequenos” foi uma marca característica da

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

gestão econômica do país. Na Itália, onde nos anos 1970. Quando confrontada com
42% da população ativa ainda se encon- o quadro atual da submissão passiva aos
trava na agricultura em 1954, a expansão desígnios das finanças, a experiência do
capitalista concentrou-se no norte (Turim pós-guerra revela-se não apenas surpreen-
e Milão, basicamente). A descoberta dos dente, mas, também, uma possibilidade já
depósitos de gás natural no Vale do Pó, hoje praticamente inalcançável.
a construção de hidroelétricas, os inves-
timentos públicos da IRI – Instituto per As reações possíveis à crise atual: uma
la Ricostruzione Industriale e da ENI – breve digressão
Enti Nazionale Idrocarburi, os avanços A violência da crise inaugurada em
da indústria automobilística local (Fiat), 2007-8 não pode ser subestimada. Como
a atuação inovadora de grandes empresas já se observou, foi apenas em decorrência
(Pirelli e Olivetti), os investimentos estran- do socorro do Estado que ela não se trans-
geiros, o turismo e a integração europeia - figurou em uma depressão profunda. Em
deram um novo alento ao capitalismo local tese, a profundidade da crise deveria ter
e redefiniram o facies até então acanhado ensejado reações mais contundentes. Seria
da sociedade italiana. previsível que houvesse uma aglutina-
O grande acordo social do pós-guerra ção de forças políticas em escala mundial
foi coroado com a exuberante expansão exigindo uma reestruturação no modo de
econômica. O crescimento fez-se acom- funcionamento da economia. Em particu-
panhar da elevação da produtividade e lar, a necessidade de restaurar a regulamen-
dos salários reais, da perceptível melhoria tação do sistema financeiro apareceu como
das condições de vida das populações, da uma necessidade imperiosa. Ouviram-se,
difusão dos programas de proteção social, por todo o mundo, vozes influentes em
da sustentação de baixos níveis de desem- âmbito da reflexão acadêmica, da impren-
prego e da ausência de flutuações pronun- sa, dos organismos internacionais, dos
ciadas da atividade econômica. Mesmo em partidos políticos, e até mesmo dos círcu-
meio às diferenças nas trajetórias nacio- los íntimos de poder, denunciando os
nais houve um consenso político maior, “excessos” cometidos pelas finanças desre-
do qual participaram todas as correntes de guladas. Todas apontavam para a urgência
opinião em todos os países, de que era, sim, em retornar ao regime de disciplina para o
possível – e, ademais, necessário - discipli- mundo das finanças. O alentado relatório
nar o funcionamento do capitalismo de da Financial Crisis Inquiry Commission
modo a alcançar o objetivo estratégico do chegou a afirmar, em letras garrafais, que
pleno emprego e do bem-estar social. As “as falhas generalizadas na regulamenta-
atribulações econômicas internacionais, e ção financeira e na supervisão demons-
a própria mudança dos rumos da Guerra traram-se devastadoras para a estabilidade
Fria, fizeram com que o grande acordo do dos mercados financeiros nacionais”17. Era
pós-guerra fosse progressivamente desfeito plausível que esta discussão avançasse.

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

Entretanto, os avanços têm sido exces- a alcançar o pleno emprego e o bem estar
sivamente tímidos. A dominação das social. A concentração dos efeitos dissol-
finanças parece ser mais profunda, e não ventes da crise atual nas economias mais
se observam no horizonte atores políticos débeis parece, assim, legitimar as políticas
suficientemente fortes e relevantes para acomodatícias nos países centrais.
forçar mudanças essenciais em seu modo
de funcionamento. Tudo parece indicar Existem certas determinações estru-
que a reconhecida perda de prestígio de turais que apontam nesta direção. Em
Walt Street não se traduziu na correlata primeiro lugar, cabe destacar que a indús-
perda de poder político. O aporte de recur- tria e a agricultura não são mais as mesmas.
sos públicos salvou as instituições finan- Em relação a esta última, sua importância
ceiras, impediu o aprofundamento crise, na estrutura econômica, social e política
mas serviu, também, para neutralizar as do núcleo central do capitalismo é hoje
críticas. Passada a tormenta inicial, veio a notoriamente reduzida. Amparada por
acomodação. É certo que as taxas de cres- subsídios e tarifas protecionistas, sua parti-
cimento do produto são medíocres, que cipação no emprego é irrisória. Tão pouco
o desemprego se elevou, e que as condi- ela parece ter sido afetada de maneira mais
ções para uma retomada consistente ainda profunda pela crise. Quanto à indústria, a
estão distantes. Mas nada disso parece migração para as regiões onde os custos de
suscitar uma mobilização efetiva destinada produção são mais baixos alterou sensi-
a alterar o modo de ser do regime econô- velmente seu posicionamento no quadro
mico. Nada equivalente às respostas dos nacional. Belluzzo & Almeida18 observam
anos 1930 ou ao consenso do pós-guerra que a “mudança na configuração espacial
se observa nas atuais circunstâncias. da indústria (...) [foi] acompanhada de um
grande esforço das corporações transna-
Uma razão - já assinalada - para este cionais para concentrar suas estratégias
desfecho, é que a intensidade da crise foi na atividade principal (core business)”. A
sentida de maneira mais dramática na China e o complexo asiático, na verda-
periferia europeia, e não no núcleo das de, converteram-se na nova oficina do
economias centrais. Uma crise profun- mundo. A “‘exteriorização’ dos segmen-
da na Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda, tos produtores de peças, componentes
Islândia ou Chipre tem implicações obvia- e bens finais sob o comando ‘inteligen-
mente distintas de uma crise nos EUA, te’ da chamada ‘empresa integradora’”, a
Alemanha, Inglaterra, França ou Japão. que os autores fazem referência, resultou
Não foi assim nos anos 1930, quando a crise não apenas na redução dos custos e no
atingiu em cheio as economias centrais, aumento da eficiência, mas também no
e também não foi assim no pós-guerra, esvaziamento dos parques produtivos
quando todos os países ocidentais envolvi- nacionais. Se forem excetuadas as indús-
dos no conflito se empenharam na tenta- trias associadas à tecnologia de informa-
tiva de disciplinar as finanças e de impul- ção e comunicações, a química e farma-
sionar a acumulação produtiva, de modo cêutica, os segmentos ligados à defesa e a
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“inteligência das empresas integradoras”, a credo liberal, suas ações alimentam a cons-
indústria mundial se acha, hoje, localizada trução dos temas de mobilização e atuação
na Ásia. É lá que se encontra a vanguarda política. Os temas são particulares, eleitos
da produção automobilística, da siderur- a partir de aspirações de parcelas da socie-
gia, da eletrônica, da construção naval, e dade. Seu somatório passa a definir o que
de uma série de outros setores. seria a correção do comportamento polí-
tico. Nesta operação, o que é politicamen-
As consequências deste processo não são te correto é, também, politicamente frag-
triviais. Uma de suas dimensões cruciais é mentado. Os temas são específicos, e daí
a exportação de empregos e a decorrente
debilitação dos sindicatos industriais, cuja
vocalização política tornou-se mais tíbia.
As grandes corporações industriais, de sua
parte, não apenas estreitaram suas relações “A ausência de atores polí-
com a Ásia – o que, por si só, torna-as soli-
dárias à livre movimentação dos capitais -, ticos capazes de se contrapor
como submeteram a gestão de seus exce-
dentes financeiros a critérios e práticas não à dominação das finanças
necessariamente distintos da lógica das
finanças desregulamentadas. Isso signifi-
se projeta na própria socie-
ca que sua adesão à disciplina financeira dade. Uma característica
tende a ser, no mínimo, cautelosa.
A ausência de atores políticos capazes
marcante das sociedades
de se contrapor à dominação das finan- de massa contemporâneas
ças se projeta na própria sociedade. Uma
característica marcante das sociedades de é o esmagamento da razão.
massa contemporâneas é o esmagamento
da razão. Na luta incessante pela sobrevi- Na luta incessante pela
vência, a percepção que os indivíduos têm
das conexões internas do mundo que os
sobrevivência, a percep-
circunda é severamente limitada. Quem ção que os indivíduos têm
supostamente orienta suas ações racionais
é mídia. É ela que age como o centro nervo- das conexões internas do
so produtor de ideias, valores e consen-
sos. Suas articulações com as estruturas mundo que os circunda é
de dominação e poder são por demais
evidentes e dispensam maiores considera-
severamente limitada.”
ções. Sob o disfarce da informação, a mídia
se ocupa, também, da formação da agenda
política. Além da propagação diária do

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

resultam lutas apenas específicas. dos anos 1970, mudou o patamar das taxas
de desemprego no centro capitalista: nos
Dessa forma, o sentimento de cidadania EUA, a título de exemplo, a taxa média
tende a ser afirmado em resposta a deman- de desemprego nos anos 1960 foi inferior
das fragmentadas. A legalização do aborto, a 5,0%. Em outras palavras: as sociedades
a defesa do casamento gay, a proteção aos avançadas de há muito convivem com um
animais, a garantia aos ciclistas, a preser- nível mais elevado de desocupação, o que
vação da natureza, a causa indígena, a não traz maiores transtornos políticos e
descriminalização da maconha, o combate nem suscita reações mais exaltadas.
à violência policial, o direito das minorias
raciais, o clamor pela transparência e o No que se refere à periferia - submetida
repúdio à corrupção – são bandeiras meri- às políticas de austeridade –, o quadro é
tórias, que devolvem aos cidadãos isolados desolador. A aventura da adesão ao euro
e desprotegidos a sensação de pertinência cobra hoje um preço amargo. Suas popula-
cívica. A questão não está, propriamente, ções estão desprotegidas, humilhadas pela
no conteúdo das demandas, mas sim no lógica do corte dos gastos públicos e pela
exercício particular de sua execução. As contração do crédito privado. Seu futuro
demandas são tópicas e pontuais e, via de é incerto, e a possibilidade de substituição
regra, não estão inscritas em um projeto dos governos empenhados em promover
abrangente. Existe, assim, uma tendên- a austeridade por forças nacionalistas da
cia à formação de guetos monotemáticos extrema-direita não pode ser descartada.
reivindicatórios (não necessariamente
progressistas), incapazes de compreender Em conclusão, as circunstâncias no
a totalidade que os circunda, e de lutar por centro capitalista - perda de importância
transformações mais profundas na estru- da agricultura, mudanças na morfologia
tura da vida social. da grande empresa industrial, enfraque-
cimento dos sindicatos, fragmentação
As vítimas, de sua parte, não têm capaci- das demandas sociais, concentração dos
dade de mobilização política. Aqueles que efeitos da crise nos estratos inferiorizados
sofrem os efeitos da crise nos países capi- da escala social – e a projeção das agruras
talistas centrais – já se mencionou – são, para a periferia europeia favorecem a reite-
acima de tudo, os imigrantes, os jovens e os ração de políticas estritamente acomodatí-
cronicamente despossuídos. É duvidoso, cias. A luta pelo pleno emprego e o bem
contudo, que os porto-riquenhos ou mexi- estar social tornou-se uma reminiscência
canos nos EUA, os turcos na Alemanha, do passado. Mais que uma quimera, ela
os argelinos na França ou os jamaicanos transformou-se numa heresia.
na Inglaterra tenham qualquer capacidade
de articulação política. Antes o contrário:
passam a ser estigmatizados e responsabi-
lizados pelo estreitamento das oportunida- NOTAS
des de emprego. Ademais, desde meados 1. F. Mazzucchelli, :“A Crise em Perspectiva: 1929 e

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[ revista política social e desenvolvimento #06 ]

2008”. Novos Estudos Cebrap, Novembro 2008. O resultado foi o aprofundamento da depressão, sobre-
tudo após as quebras bancárias de meados de 1931. Em
2. Antes da ascensão do nazismo em 1933, Rudolf 1932 o desemprego atingiu um terço da força de trabalho,
Hilferding - o renomado economista marxista da Social sem que fossem alcançados os almejados superávits fiscal
Democracia Alemã – ao repudiar de modo veemente e externo. Ver F. Mazzucchelli, “Os Anos de Chumbo –
um plano de expansão dos gastos públicos elaborado Economia e Política Internacional no Entreguerras”.
pelos sindicatos (Plano WTB), dogmaticamente asse- Campinas: Editora Unesp & Edições Facamp, 2009, pp.
verou que “se [os formuladores do Plano] pensam que 157-177. Como se vê, as más lições são sempre úteis,
podem mitigar uma depressão através de obras públi- sobretudo quando se trata de recomendá-las aos vizinhos
cas, eles simplesmente estão demonstrando que não são mais pobres!
marxistas (...)”. Ver S. Berman, “The Primacy of Politics –
Social Democracy and the Making of Europe’s Twentieth 9. H.W. Arndt, “The Economic Lessons of the
Century”. Cambridge University Press, 2006, pp.112-4. Nineteen-Thirties”. London: Frank Cass and Company
Limited, 1972, pp. 209; 219.
3. M. Bleaney, “The Rise and Fall of Keynesian
Economics”. New York: St. Martin’s Press, 1985, p.72. 10. T. Kemp, “The French Economy 1913-39 – The
History of a Decline”. Londres: Longman, 1972, p.103.
4. T. Judt, “Pós-Guerra – História da Europa Desde
1945”. Lisboa: Edições 70, 2005, pp.418-9. 11. K.Lowe, “Savage Continent – Europe in the
Aftermath of World War II”. New York: St.Martin’s Press,
5. L.G.M. Belluzzo, “Os Antecedentes da Tormenta – 2012, p.xvii.
Origens da Crise Global”. Campinas: Editora Unesp &
Edições Facamp, 2009, p.101. 12. W.Laqueur, “Europe Since Hitler – The Rebirth of
Europe”. Penguin Books, 1972, p.42.
6. L.G.M. Belluzzo, “Salve-se Quem Puder”. Carta
Capital, 30/11/11. 13. F. Mazzucchelli, “Os Dias de Sol – A Trajetória do
Capitalismo no Pós-Guerra”. Campinas: Facamp Editora,
7. Valor 04/04/13, p.14: ‘Aperto no crédito continua e 2013, p.60.14.
dizima PMEs na Espanha’.
14. Ver Belluzzo (2009: 75-6; 155-6; 283).
8. Cabe aqui uma breve referência à Alemanha, hoje
a principal defensora das políticas de austeridade para 15. Em uma caricatura da época, Lord Beveridge
a periferia europeia. Com o Plano Dawes de 1924, a aparece brandindo sua espada contra os referidos “gigan-
Alemanha - em troca de um empréstimo emergencial tes”, por ele considerados os maiores males da Inglaterra.
- viu-se obrigada a abandonar a gestão soberana de sua Ver M. Lynch, “Britain 1945-2007”. London: Hodder
política econômica: as contas públicas e as contas exter- Education, 2008: 9.
nas passaram a ser monitoradas pelo Agente Geral de
Reparações enviado a Berlim, e o Reichsbank foi subme- 16. Acrônimo resultante da fusão dos nomes de R.A.
tido a uma gestão partilhada. O objetivo do Plano era o Butler (Conservador, Ministro da Fazenda entre 1951-
de, através do corte dos gastos públicos e da contenção 5) e H.Gaitskell (Trabalhista, Ministro da Fazenda entre
da demanda agregada, alcançar o superávit fiscal e o 1950-1), destinado a ilustrar a semelhança essencial da
saldo comercial externo destinados a cumprir o paga- política econômica conduzida pelos dois partidos no
mento das reparações fixadas em Versailles. O Plano, pós-guerra.
contudo, foi elaborado em uma conjuntura internacional
17. “The Financial Crisis Inquiry Report – Final
de abundante liquidez, e os títulos alemães logo passa-
Report of the National Commission on the Causes of the
ram a despertar o apetite dos investidores internacio-
Financial and Economic Crisis in the United States”. New
nais (sobretudo norte-americanos), ansiosos por yields
York: Public Affairs, p.xviii.
generosos. A Alemanha foi inundada por empréstimos
externos e, entre 1924 e 1928, navegou em águas aparen- 18. L.G.M. Belluzzo & J.S.G. Almeida, “A Indústria
temente tranquilas. Quando - no final de 1928 - houve Brasileira e as Cadeias Globais”. Carta Capital, 27/02/13,
a reversão no fluxo de empréstimos, os compromissos p.28.
internacionais tornaram-se insuportáveis. Brüning, atra-
vés de uma sucessão de decretos deflacionários (corte
de salários, demissões, elevação de impostos), procurou
gerar o ansiado superávit nas contas públicas e externas.

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