Anda di halaman 1dari 6

CIÊNCIAS

“Polibiologia”: manutenção
e colapso da vida, aspectos
práticos e históricos
César Lisboa

Desde a remota Antiguidade, o homem sempre intuiu sobre a existência de um conjunto


organizado de laços que unem os seres vivos e o meio ambiente, e, ao que tudo indica, até
1760, esse conjunto organizado de laços era, na medida do possível, harmônico.

N
o texto “Polibiologia”: origem e evolução Assim, enquanto a vida se sustentava e a balança
da vida, vimos como a vida se originou e parecia não pender para uma única espécie, parecia fácil
evoluiu, mas ela se mantém? Encontramos, compreender o nível 1 (Planeta Físico, o meio ambiente,
atualmente, condições para a sua manutenção? Estas propriamente dito) como uma rede complexa de ciclos
são perguntas às quais tentarei responder com um maravilhosamente intrincados. A água constitui a chuva,
enfoque histórico e pouco mais prático neste texto. a neve, os oceanos, e conduz aos depósitos de sedimen-
Até a Revolução Industrial (1760) e, com ela, as tos. O nitrogênio, nutriente essencial, desloca-se pela
mudanças nos padrões de desenvolvimento e consu- atmosfera, litosfera e hidrosfera. O enxofre, desprezan-
mo da espécie humana (Gino, 2008), as respostas para do suas relações tóxicas, desempenha também papel
essas perguntas ainda poderiam ser imprecisas. Isto crucial no metabolismo proteico. O carbono, talvez
porque, desde a remota Antiguidade, o homem sempre o elemento mais importante para a vida, também se
intuiu sobre a existência de um conjunto organizado move em um ciclo que está interconectado com di-
de laços que unem os seres vivos e o meio ambiente versos outros fenômenos químicos (Schneider, 1997).
(Charbonneau et al., 1979), e, ao que tudo indica, até Todos esses compostos abióticos do meio ambiente,
1760, esse conjunto organizado de laços era, na me- considerando um aspecto harmônico ou equilibrado,
dida do possível, harmônico. Assim, se considerarmos movem-se num ciclo infinito de combinações e trans-
pensar o planeta Terra dividido em três níveis (Pádua, formações através dos chamados ciclos biogeoquími-
1997): (1) Planeta Físico, atmosfera, hidrosfera e litos- cos da matéria, conforme definiu V. Vernadsky, pela
fera (regido pelas leis da física e química), (2) Biosfera, primeira vez, em 1920 (Schlesinger, 1991).
espécies vivas interagindo com o nível 1 (regida pelas Todos esses ciclos são indiscutivelmente cruciais
leis da física e química, bem como da biologia e ecolo- para o surgimento, evolução (texto “Polibiologia”: ori-
gia) e (3) Tecnosfera ou Sociosfera, mundo criado pelo gem e evolução da vida) e manutenção da vida (texto
homem com edificações e máquinas (regida pelas leis “Polibiologia”: manutenção e colapso da vida, aspectos
da física, química, biologia, ecologia e pelas leis dos ho- práticos e históricos). Nessa linha de raciocínio, tudo
mens), há de se pensar que, até a Revolução Industrial, indica que, se continuarmos interferindo drasticamente
prevalecia o domínio dos dois primeiros níveis (Planeta sobre tais relações entre os ciclos, os mesmos também
Físico e Biosfera). Atualmente, há evidente predomínio terão íntima relação com o colapso da vida (texto
do terceiro nível, o qual, criativamente, Pádua nomeia “Polibiologia”: manutenção e colapso da vida, aspectos
de Tecnosfera ou Sociosfera. práticos e históricos). Só que, desta vez, não pelas suas

PROGRAMA DE FORMAÇÃO CONTINUADA FTD EDUCAÇÃO WWW.FTD.COM.BR 1


“POLIBIOLOGIA”: ORIGEM E EVOLUÇÃO DA VIDA CÉSAR LISBOA

maravilhosas interconexões, mas pelos desajustes des- No local, usaríamos os elementos comuns do mé-
sas interconexões. todo científico, ou seja, (1) os estudantes observariam
E o que fazer em pleno século XXI? Segundo o pro- relatando o que viram na pracinha que confirmasse que
fessor Vagner Elis (geólogo – USP) em entrevista con- a mesma não está preservada. Em seguida, formularía-
cedida à jornalista Helena Fruet, o caminho parece ser mos com os estudantes as hipóteses (2): se fizermos
único: educação ambiental, que, para ele, é sinônimo de um mutirão para limpar e confeccionar placas aler-
respeito ao próximo, sinonímia essa à qual acrescento tando para manter o ambiente limpo, conseguiremos
o respeito a todas as espécies e ambientes. No vídeo fazer aquele ambiente ficar limpo por longa data? Para
aprendemos que a educação ambiental é muito mais responder, seria necessário o teste dessas hipóteses
ampla que a preservação da natureza. Não basta culpar (3), isto é, realmente limpar e alertar, e fazer visitas
a indústria e o desmatamento. E o resíduo doméstico? esporádicas no local para ver se a hipótese pode ser
E as nossas atitudes? E a nossa falta de cobrança em confirmada ou refutada. Assim, se a hipótese não for re-
relação às políticas públicas que objetivam a valoriza- futada, haverá o estabelecimento de um conhecimento
ção da educação ambiental? Para os professores Vag- e a possibilidade de desenvolvimento de um plano de
ner Elis e Amélia dos Santos (ecóloga – USP), o local ação – trata-se do princípio da falseabilidade de Karl
para o desenvolvimento dessa temática ambiental Popper (Cabral, 2016). Se o professor desejar um mer-
é na escola. Para a professora Amélia dos Santos, em gulho mais fundo, pode, inclusive, estimular os alunos a
entrevista também concedida à jornalista Helena Fruet, classificar suas hipóteses iniciais, baseados no método
três pontos contribuíram para o desenvolvimento dessa adotado para a confirmação das mesmas, como indu-
temática na escola: (1) a implantação da Lei de Política tivas ou dedutivas.
Nacional do Meio Ambiente, (2) a inclusão da preserva- Outro exemplo de transposição que nos convida a
ção do meio ambiente na Constituição em 1988 e (3) a desenvolver um pouco mais o ponto um: o professor
chegada dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). poderia estimular os alunos a calcular a sua “pegada
Para ela, depois desses pontos, a temática ambiental ecológica”. Pegada ecológica é o termo que me depa-
chegou enfim à escola (ainda que tardiamente). Ao es- rei ao procurar aspectos práticos na Internet que me
timularmos os estudantes a participar e se comprome- permitiram sugerir, nesse texto, alguma transposição
terem, eles acabam virando protagonistas da temática, didática para o assunto. Trata-se do cálculo da emissão
e, nós, professores, os mediadores. pessoal de gás carbônico para a atmosfera, que, como
E como fazer isso? Como despertar a consciência sabemos, é um poluente, bem como um gás que con-
ambiental crítica no estudante? O primeiro ponto é tribui para o efeito estufa (Ferri, 1976). Existem alguns
entender o papel da ciência. Convencer que o conheci- sites na Internet (mais parecem aplicativos) que permi-
mento científico, o que distancia o professor do aluno, tem que qualquer pessoa calcule a sua própria emissão
é fundamental, pois favorece, além da interação com a de carbono e saiba instantaneamente, inclusive, como
natureza, o olhar investigativo sobre o que acontece a compensar suas emissões através do plantio de árvores
nossa volta e sobre nossas próprias atitudes (ver vídeo nativas. Alguns sites fornecem o número exato de mu-
“Importância da ciência”). É a metodologia científica das a serem plantadas e/ou o investimento financeiro,
que fará o aluno desenvolver uma relação de afetivi- que poderia ser doado para associações especializadas
dade com o meio ambiente (Carvalho, 2004). E, nessa nesse plantio compensatório. São exemplos destes:
metodologia, há alguns elementos comuns: (1) a ob- https://www.sosma.org.br/projeto/florestas-futuro/
servação, (2) a proposição de hipóteses e (3) o teste calculadora; http://www.iniciativaverde.org.br/calcula-
dessas hipóteses (Severino, 2007). Foi dessa forma que dora/index.php#casa ou http://www.calculadoracarbo-
a humanidade construiu o conhecimento e avançou. no-cgd.com/.
Isto nos torna seres humanos. Assim, aproveitando a O convite para descobrir quanto cada estudante
situação de aprendizagem sugerida pela professora emite de gás carbônico por mês ou ano e quantas
Amélia dos Santos (vídeo “Ciência e meio ambiente”), árvores de Mata Atlântica eles precisam plantar para
a do canteiro ou pracinha suja, que tal levarmos nossos compensar suas emissões já seria bem atrativo, porém,
alunos realmente a fazer isso? a sugestão é que esse ensaio siga a metodologia de

PROGRAMA DE FORMAÇÃO CONTINUADA FTD EDUCAÇÃO WWW.FTD.COM.BR 2


“POLIBIOLOGIA”: ORIGEM E EVOLUÇÃO DA VIDA CÉSAR LISBOA

Bloom. A Taxonomia de Bloom do Domínio Cognitivo é pensando no desenvolvimento e enriquecimento a qual-


estruturada em níveis de complexidade crescente des- quer custo antes do colapso final ou (2) optar por avan-
ses domínios, ou seja, do mais simples ao mais comple- çar para uma remediação rápida antes que o colapso seja
xo. Isso significa que, para adquirir uma nova habilidade irreversível. É importante convencer os estudantes que a
pertencente ao próximo nível cognitivo, o estudante história mostra que a humanidade parece ter decidido
deve ter dominado e adquirido a habilidade do nível pela opção 2. Isso nos leva ao segundo ponto, convencê-
anterior (Bloom, 1956). Assim, no primeiro acesso a -los de que nem tudo está perdido, que o homem ainda
essas calculadoras de emissão de carbono, o estudante não acabou com tudo e que solidariedade e conheci-
conheceria cada atividade rotineira de impacto para mento científico constituem excelentes parceiros para
qualquer pessoa, apenas identificando-as. Depois, o minimizar os efeitos dessa crise ambiental que vivemos.
professor poderia estimulá-los a entender como cada Crise essa que tanto compromete a manutenção da vida,
atividade de rotina contribui negativamente para as como eles mesmos calcularam em sua própria “pegada
emissões de carbono, dividindo-os, por exemplo, em ecológica”, quanto a encaminha para o colapso.
grupos e sugerindo uma pesquisa para a descoberta Assim, por meio de conhecimento histórico-cientí-
de como e por que cada atividade emite carbono na fico, entendemos que a espécie humana, ao longo da
atmosfera. Após esse segundo nível, os alunos já esta- história, apresentou tentativas que podem refletir a
riam explicando cada impacto das atividades, o que, preocupação com o ambiente e que objetivaram, cada
segundo Bloom, já é um nível hierárquico acima da uma a seu modo, combater essa veloz tendência de
operação cognitiva de apenas identificar. Continuando colapso da vida. Penso que essa preocupação começa
sua proposta, o professor poderia convidá-los a analisar em 1667 quando, segundo Dias (2000), em Grassa, na
como ficaria o gráfico de emissões de carbono de cada Inglaterra, uma epidemia de peste bubônica matou
um deles e solicitar que elaborem um plano de ação um terço da população. Ao mesmo tempo que a peste
para minimizar suas próprias emissões, baseados na dizimava a população inglesa, Isaac Newton (24 anos)
análise consciente de cada atividade rotineira. Agora os desenvolvia suas ideias sobre Gravitação Universal, as
estudantes estariam aplicando o conhecimento adqui- leis básicas da Mecânica, da Ótica e os métodos de cál-
rido e formulando hipóteses, ou seja, sugerindo possi- culo integral e diferencial. Publica os Principia, quando,
bilidades de diminuição de impacto ambiental pessoal. a partir daí, a meu ver, o ser humano, após milênios
Após motivá-los na construção desse plano de ação, o de existência, inicia o seu período de percepção de que
professor pode sugerir a comparação com o plano de existem leis que regem o Universo e a natureza, e que,
ação ou plano de boas práticas, que aparece personali- quando interferimos nessas leis desequilibrando o sis-
zadamente em cada cálculo. A partir do momento em tema, pagamos o preço!
que eles comparassem, por meio de autocorreção, o A partir de agora, no desenrolar deste texto, tentarei,
seu relatório com o relatório que alguns sites emitem, inspirado em Dias (2000), apontar algumas datas em
automaticamente, esses estudantes estariam em outro que, na história, podemos detectar os esforços humanos
nível taxonômico cognitivo, o nível da validação ou re- para garantir a manutenção da vida e impedir seu colap-
futação de suas próprias hipóteses. so. O que acabei percebendo ao organizar essas ideias
Após usarmos a metodologia científica e a pedagó- foi que, junto ou após uma tentativa ou estratégia de
gica como estratégias inquestionáveis para a formação remediação/minimização de impacto ambiental, apare-
do sujeito ecológico (Carvalho, 2004), o estudante deve ce uma tragédia ou crime ambiental expressivo. Pode-se
entender agora que “ciência sem consciência arruína a então sugerir que, no trabalho dessa retrospectiva histó-
alma e pode arruinar uma sociedade inteira” (Françóis rica com o estudante, talvez seja interessante construir
Rabelaris, 1444 a 1553, médico e escritor). Ele deve uma linha do tempo mostrando catástrofe ambiental
entender que a inquietude humana levou ao conheci- versus atitude de remediação ou minimização humana.
mento científico, e as nações, quando descobriram que Outro dado expressivo dessa linha de acontecimen-
a vida estava entrando em colapso (Leff, 2001), ficaram tos pode ser encontrado em 1825, quando a população
diante de um impasse e precisavam tomar uma decisão humana sobre a Terra chegou ao seu primeiro bilhão
(Novaes, 2002): (1) optar por avançar desenfreadamente de habitantes. Aqui no Brasil, dois anos mais tarde, o

PROGRAMA DE FORMAÇÃO CONTINUADA FTD EDUCAÇÃO WWW.FTD.COM.BR 3


“POLIBIOLOGIA”: ORIGEM E EVOLUÇÃO DA VIDA CÉSAR LISBOA

Império delega poderes às províncias para a fiscalização de ensino na Grã-Bretanha, os Estados Unidos explo-
de nossas florestas. Foi só uma questão de tempo para dem as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.
que Dom Pedro, em 1850, editasse a Lei 601, proibin- Dessa forma, desde o período pós-guerra, quando o
do a exploração florestal em terras descobertas. Nesse homem percebeu definitivamente que o mundo estava
contexto, a percepção humana em relação à impor- em tumulto e, por que não, quando Rachel Carson pu-
tância do ambiente pôde ter sido aguçada quando, em blicou o livro Primavera silenciosa, o que viria a se tornar
1859, Charles Darwin publica A origem das espécies, um clássico na história do ambientalismo (44 edições
demonstrando irrefutavelmente que todas as espécies sucessivas), desencadeou-se uma inquietude mundial.
vivas são produtos do trabalho naturalmente seletivo O homem começou a construir modelos da situação
do meio ambiente. planetária. A partir daí, muitos esforços nesse sentido
Os anos foram se passando, e, se a humanidade puderam ser detectados, o Clube de Roma (década de
encontra-se no impasse atual, não foi pela falta de 60), por exemplo. Este, na emissão de um de seus rela-
aviso. Duas publicações quase concomitantes, Thomas tórios, sinalizou os limites do crescimento populacional
Huxley (1863) apontando, em seu ensaio, a interde- e o impacto de tal crescimento; detectou desníveis do
pendência entre seres humanos e demais seres vivos, e desenvolvimento humano nos países pobres e ricos e
George Marshn (1864), cuja publicação foi considerada definiu metas globais e locais para garantir o bem-estar
o primeiro exame detalhado da agressão humana à na- da humanidade (Mesarovic & Pestel, 1975). O interes-
tureza, consistem excelentes exemplos de fortes avisos. sante é que todos esses esforços culminaram no apare-
Assim, nem o exemplo do declínio de civilizações anti- cimento de uma parcela comprometida da sociedade,
gas nem os avisos dos especialistas da época pareciam ou seja, não apenas os especialistas e acadêmicos. Nes-
surtir efeito na interferência dos padrões econômicos e se cenário começam a surgir as ONGs, os Grupos Am-
de consumo que já estavam, desde essa época, se con- bientalistas e as Comissões Mundiais do Meio Ambiente
densando em nossa sociedade. Parecia que não haveria e Desenvolvimento Sustentável de nosso planeta.
mudanças, até que, em 1869, o biólogo alemão Ernest Nesse ponto da história, é possível separar dois po-
Haeckel propõe o termo “ecologia” para designar o es- sicionamentos ambientalistas. Assim, enquanto na dé-
tudo das relações entre espécies e o meio ambiente. A cada de 70 o homem encontrava-se preocupado com o
partir desse ponto, penso que as ações humanas fica- “controle da poluição ambiental”, na década de 80, seu
ram mais intencionadas e concretas. pensamento passou a ser mais proativo, ou seja, ele pas-
Em 1908, por exemplo, Theodore Roosevelt, assu- sou a falar em “planejamento ambiental”. Bem verdade
mindo que a preservação ambiental passa a ser tema é que também foi na década de 80 (1986) que ocorreu
da política americana, sugere sua introdução nas es- o maior acidente da história da energia nuclear: a explo-
colas. Seis anos mais tarde, seu interesse aponta para são do 4º reator da usina de Chernobyl. Sabemos que se
a valorização de florestas brasileiras ao publicar Atra- trata de uma catástrofe que ocorreu na União Soviética,
vés da selva brasileira. Sob influência desse ensaio de mas o interessante é que o problema foi tratado pela
Roosevelt, pouco mais tarde (1920), Epitácio Pessoa ONU como um problema global, e foi mundialmente
(presidente do Brasil na época) declara o pau-brasil sugerido (Comissão de Brundtland sobre meio ambiente
extinto e sugere a construção do primeiro código flo- e desenvolvimento - encerrada em abril de 1987) que se
restal brasileiro. reexaminassem os principais problemas ambientais e de
Em 1923, Henry Ford desequilibra a balança. Adota desenvolvimento para a formulação de propostas realis-
o conceito de produção em massa (linha de monta- tas que os solucionassem. A partir daí, a preocupação foi
gem), e, a partir daí, inicia-se o culto a um dos gran- assegurar que o progresso humano se tornasse susten-
des símbolos de consumo e de geração de problemas tável, ou seja, que assegurasse o usufruto dos recursos
para o ambiente e humanidade: o automóvel. Agora, ambientais pelas gerações futuras. Surge, pela primeira
as remediações precisariam ser mais rápidas e efetivas, vez, o termo desenvolvimento sustentável.
mas não foi bem isso o que aconteceu. Em 1945, por E o Brasil seguiu imerso nesse novo posicionamento,
exemplo, ao mesmo tempo que a expressão “estudos assinando o Protocolo de Montreal (1988), segundo o
ambientais” entra para o vocabulário dos profissionais qual as nações deveriam tomar providências para evitar

PROGRAMA DE FORMAÇÃO CONTINUADA FTD EDUCAÇÃO WWW.FTD.COM.BR 4


“POLIBIOLOGIA”: ORIGEM E EVOLUÇÃO DA VIDA CÉSAR LISBOA

a destruição da camada de ozônio, reduzindo, progressi- de ação local para remediá-los, implantá-los ou melho-
vamente até a suspensão, a fabricação e o uso dos CFCs rá-los me parece um bom começo, não? Os estudantes
até o ano de 2000. Nessa perspectiva, a humanidade mais velhos poderiam encabeçar e definitivamente se
adentra a década de 90 não apenas globalizando os comprometerem com essa causa porque os mais novos,
conceitos sobre preservação ambiental, mas, também, geralmente, preservam o estado das salas de aula e, dia-
sistematizando ações para o planejamento ambiental. riamente, fornecem excelentes exemplos de cidadania.
Assim, nem o acidente com o petroleiro Exxon Valdez A verdade, caro colega professor, é que os seres hu-
(1989) no Alasca, que resultou em uma mancha de óleo manos têm a capacidade única de reconhecer todos
de 250 km2 e danos ambientais incalculáveis, impediu os níveis do ser e suas qualidades misteriosas: vida,
a ONU de declarar o ano de 1990 o ano internacio- consciência e autoconsciência, e, por isso, são, ao que
nal do meio ambiente. Isso pôde ser comprovado, por tudo indica, as únicas criaturas que possuem, percebem
exemplo, pela Conferência Mundial sobre o Clima em e apreciam todas essas qualidades. E é isso, então, que
Genebra, onde se discutiram as questões sobre altera- nos dá a responsabilidade especial de proteger a vida
ções climáticas com compromissos agressivos para a em todos os níveis.
redução desse problema. Para finalizar, penso não haver escapatória para a
Em 1990 ratificam-se também os compromissos nossa sobrevivência, a menos que venhamos a construir
estabelecidos no Protocolo de Montreal. Nessa mesma o que Charbonneau e colaboradores (1979) definiram
década, enquanto 590 poços de petróleo eram incen- como um “mundo de solidariedade planetária”, onde
diados no Kuwait (1991), produzindo nuvens negras de fossem distribuídos, cada vez mais modestamente, mas
fumaça que se alastraram por vários países da região, de maneira igualitária, todos os frutos da terra, todas
o Brasil se preparava para o que, mais tarde, viria a ser as riquezas do subsolo e dos oceanos, bem como o tra-
conhecido como o encontro internacional mais impor- balho necessário para a sua extração. Essa utopia, para
tante desde que o ser humano se organizou em socie- quem lê este texto, pode ser considerada um sonho
dades (Dias, 2000), isto é, a Conferência Rio-92. Dentre inacessível, mas não por muitos anos, porque, se recu-
todos os objetivos desse evento, um merece destaque: sarmos o modelo organizacional do economicamente
a definição da Agenda XXI, uma lista de estratégias viável, porém ambientalmente amigável e socialmente
que todos os países deveriam adotar para garantir o justo, as catástrofes vão multiplicar-se. A solidariedade
desenvolvimento sustentável e a reversão dos proces- humana constituiria apenas o primeiro passo, embora
sos de degradação ambiental. No caminhar da década, essencial, pois ao mesmo tempo é preciso desenvolver
ganham força os sistemas normativos, as certificações também uma solidariedade com tudo o que vive na
ambientais e, com o protocolo de Kyoto, o princípio do Terra sem distanciar-se dos ecossistemas.
“poluidor-pagador”. É aqui que a preservação ambien- Is smarter better? A princípio eu havia pensado em
tal vira lucro. Quer melhor exemplo do que o sistema não responder a esta pergunta. Para organizar um des-
de créditos de carbono? fecho que remeteria o leitor de volta para o vídeo “Im-
E, como consequência desse enredo histórico, nada portância da ciência”, eu iria escrever que dependeria
faremos com os nossos estudantes? Após sugestão de da forma de utilização da ciência, ou seja, dependeria
análise paralela entre atitudes ambientais e catástrofes de se seu uso fosse com consciência. Porém, agora es-
ambientais, não poderíamos fazer um pouco mais para tou convencido de que a resposta é sim, porque apenas
conscientizá-los de nosso papel na reversão desse co- a espécie humana, dotada de racionalidade e solidarie-
lapso ainda remediável da vida? Como estão os projetos dade, é capaz de garantir a manutenção da vida que
de coleta seletiva na sua escola? Desenvolver um plano resta e, consequentemente, reverter o seu colapso!

César Lisboa é biólogo, especialista em Filosofia e História da Ciência (UMESP), mestre e doutor
em Biologia Celular e Estrutural, com ênfase em Botânica (UNICAMP); leciona há mais de 15 anos na
educação básica; atuou também em Curso Superior e na Pesquisa Privada (Suzano, Papel e Celulose
e Natura Cosméticos S.A.).

PROGRAMA DE FORMAÇÃO CONTINUADA FTD EDUCAÇÃO WWW.FTD.COM.BR 5


“POLIBIOLOGIA”: ORIGEM E EVOLUÇÃO DA VIDA CÉSAR LISBOA

Bibliografia
BLOOM, B. S. Taxonomy of educational objectives. New York: David Mckay, 1956.
CABRAL, J. F. P. A concepção de ciência de Karl Popper. Brasil Escola. Disponível em http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/a-con-
cepcao-ciencia-karl-popper.htm. Acesso em 21 de abril de 2016.
CARVALHO, I. C. M. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. São Paulo: Ed. Cortez, 2004.
CHARBONNEAU, M. J. P.; CORAJOUD, C.; DAGET, J.; DAJOZ, R.; DUSSART, M.; FRIELD, H. Keilling, J.; LAPOIX, F.; MOLINIER, R.;
OIZON, R.; PELLAS, P. Ramade, F.; RODES, M.; SIMONNET, D.; VADROT, C. M. Enciclopédia de ecologia. São Paulo: EPU, 1979.
DIAS, G. F. Educação ambiental: princípios e práticas. 6ª ed. São Paulo: Editora Gaia, 2000.
FERRI, M. G. Ecologia e poluição. São Paulo: Editora Melhoramentos, 1976.
GINO, G. F. Meio ambiente & consumismo. São Paulo: Editora Senac, 2008.
LEFF, E. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade e poder. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2001.
MESAROVIC, M.; PESTEL, E. Momento de decisão: o segundo informe do Clube de Roma. Rio de Janeiro: Ed. Agir, 1975.
NOVAES, W. A década do impasse: da Rio-92 à Rio+10. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2002.
PÁDUA, S. M. Cadernos de Educação Ambiental: conceitos para se fazer educação ambiental. 2 ed. São Paulo: A Secretaria, 1997.
SCHLESINGER, S. H. Biogeochemistry: na analysis of global chance. Nova York: Academic Press, 1991.
SCHNEIDER, S. H. Laboratório Terra: o jogo planetário que não podemos nos dar o luxo de perder. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998.
SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 23 ed. São Paulo: Editora Cortez, 2007.
KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Ed. Perspectiva. 1994

PROGRAMA DE FORMAÇÃO CONTINUADA FTD EDUCAÇÃO WWW.FTD.COM.BR 6