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lmmanuel Wallerstein

CAPITALISMO
/
HISTORICO
e
CIVILIZAÇAO -
CAPITALISTA

TRADUÇÃO

Renato Aguiar

REVISÃO DE TRADUÇÃO

César Benjamin
Immanuel Wallerstein

MEClUFFINDC Material: Livro


Preço ~D o N. Fiscal ~~ '51
Fornecedor Pregílo 45f06
Mente Sana Item 3ÇÇ
. Unidade: Bc~ 2007NE901524

(OOTIAPOOTO
Título original: Historical Capitalism and Capitalist Civilization

© Immanuel Wallerstein, 1995

Direitos adquiridos para o Brasil por


CONTRAPONTO EDITORA LTDA.
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ou parcial deste livro sem autorização da editora.

(3 () \, 11 1903 1
Revisão tipográfica: Tereza da Rocha
Projeto gráfico: Regina Ferraz O tIJ.;' 3 a.:6g oA

la edição: março de 2001

la reimpressão: maio de 2007


Tiragem: 2.000 exemplares

CATALOGAÇÃO NA FONTE
DO DEPARTAMENTO NACIONAL DO LIVRO

W198c Wallerstein, Immanuel.


Capitalismo histórico e Civilização capitalista /
Immanuel Wallerstein ; tradução Renato Aguiar;
revisão de tradução César Benjamin e Immanue1
Wallerstein. - Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.
144p.

ISBN 85-85910-38-0

Tradução de: Historical Capitalism and Capi-


talist Civilization

1. Capitalismo. I. Título.

CDD-330.122
SUMÁRIO

CAPITALISMO HISTÓRICO

Introdução ... 9
A mercantilização de tudo: produção de capital ... 13
A política de acumulação: luta pelo lucro ... 41
A verdade como ópio: racionalidade e racionalização ... 65
Conclusão: sobre progresso e transições ... 83

CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA .

Um balanço ... 97
Perspectivas ... 121
CAPITALISMO
, HISTÓRICO
INTRODUÇÃO

DOIS PEDIDOS sucessivos contribuíram diretamente para que


este livro viesse à luz. No outono de 1980, fui convidado por
Thierry Paquot a escrever um pequeno texto para uma coleção
que ele estava editando em Paris. O tema sugerido era "capita-
lismo". Respondi que desejava fazê-lo em princípio, mas gosta-
ria que o assunto fosse «capitalismo histórico".
Marxistas e outros autores de esquerda haviam escrito bas-
tante sobre o capitalismo, mas a maioria desses livros sofria de
carências que podiam ser agrupadas em dois tipos. Parte deles
consistia basicamente em análises lógico-dedutivas; adotavam-
se como ponto de partida definições do que se pensava ser o ca-
pitalismo em essência e então se observava como ele se de-
senvolveu em diferentes tempos e lugares. O segundo grupo
centrava, suas análises em supostas transformações fundamen-
tais do sistema capitalista, tendo como referência uni momento
recente, definidor de uma realidade empírica presente que pas-
sava a ser comparada com um tempo anterior descrito de for-
ma mítica.
Parecià-me urgente ver o capitalismo como sistema históri-
co, abrangendo o conjunto de sua história como realidade con-
creta e única. É a tarefa para a qual, em certo sentido, se dirige
todo o corpus do meu trabalho recente. Assumi então o desafio
de descrever essa realidade; tentando delinear o que sempre es-
teve mudando e o que não mudou (de modo que pudéssemos
abranger toda a realidade sob um só nome).
Como outros autores, acredito qué essa realidade seja um
todo integrado. Mas muitos usam este ponto de vista para ata-
car terceiros, por seu. suposto "eco no mi cismo" ou "idealismo"
cultural, ou por sua ênfase exagerada em fatores políticos "vo-

9
CAPITALISMO HISTÓRICO

luntaristas". Tais críticas, quase por sua própria natureza, ten-


dem a cair por ricochete no pecado oposto. Por isso, tentei
apresentar de forma mais direta e integrada a realidade global,
tratando sucessivamente suas expressões nas esferas econÓmica,
politica e cultural-ideológica.
Pouco depois de ter concordado em fazer este livro, fui con-
vidado a dar uma série de palestras no Departamento de Ciên-
cia Política da Universidade do Havaí. Agarrei então a opor-
tunidade para escrevê-lo, agora tendo em vista as palestras,
. realizadas na primavera de 1982. A primeira versão dos três pri-
meiros capítulos foi apresentada no Havaí. Sou grato aos co-
mentários e críticas feitos por minha animada platéia, que me
permitiram melhorar consideravelmente a apresentação ..
O quarto capítulo - acrescentado depois - foi um desses
aperfeiçoamentos. Ao longo das palestras, percebi um problema
recorrente: a enorme força subterrânea da crença no progresso
inevitável. Esta crença viciava nossa capacidade de compreen-
der as reais alternativas históricas. Decidi, pois, abordar direta-
mente a questão ..
Finalmente, permitam-me uma palavra sobre Karl Marx. Ele
foi uma figura monumental na história intelectual e política
moderna. Deixou um enorme legado, rico do ponto de vista
conceituaI e inspirador do ponto de vista moral. Contudo, de-
vemos levar a sério o fato de ele ter dito que não era marxista, e
não descartar sua frase como um bon moto
Ele sabia e muitos dos seus autoproclamados discípu-
los freqüentemente não sabem ~ que era um homem do sé-
culo XIX e que sua visão estava inevitavelmente circunscrita
pela realidade social de sua época. Sabia, como muitos não sa-
bem, que uma construção teórica só é compreensível quando
observada em relação à construção alternativa com a qual se
confronta, implícita ou explicitamente; ela é inteiramente irre-
levante quando comparadâ> a construções sobre outros próble-

10
INTRODUÇÃO

mas, baseadas em outras premissas. Sabia, como muitos não sa-


bem, que seu trabalho continha uma tensão entre a descrição
do capitalismo como um sistema ideal (que nunca existiu de
fato na história) e a análise da realidade concreta do dia-a-dia
do mundo capitalista.
Usemos, pois, seus escritos da única maneira sensata, tra-
tando-o como um camarada de lutas que sabia tanto quanto ele
sabia.

11
A MERCANTILIZAÇÃO DE TUDO:
PRODUÇÃO DE CAPITAL

o CAPITALISMO É,em primeiro lugar e principalmente, um sis-


tema social histórico~ Para entender suas origens, formação e
perspectivas atuais, precisamos examinar sua configuração real.
Podemos tentar captá-la por meio de um conjunto de afirma-
ções abstratas, mas seria tolo usá-las para avaliar e classificar a
realidade. Por isso, tentarei descrever o que o capitalismo tem
sido na prática, como tem funcionado como sistema, por que se
desenvolveu das maneiras como se desenvolveu e qual é seu
rumo atual.
A palavra capitalismo vem de capital. É legítimo, pois, presu-
mir que o capital seja o elemento-chave do capitalismo. Mas o
que é capital? Em certa acepção, é riqueza acumulada. Porém,
quando usado no contexto do capitalismo histórico, o conceito
tem uma definição mais específica. Não é somente o estoque de
bens consumíveis, de máquinas ou de demandas reconhecidas
(ou seja, que se expressam sob forma de dinheiro) de coisas
materiais. É daroque o capital continua a referir-se, no capita-
lismo histórico, à acumulação dos resultados do trabalho passa-
do, ainda não consumidos; mas se isto fosse tudo, poder-se-ia
dizer que todos os sistemas, desde o do homem de Neanderthal,
teriam sido capitalistas; todos possuíam, em algum grau, esto-
ques qué materializavam o trabalho passado.
Algo distingue o sistema social que estamos chamando de
capitalismo histórico: nele, o capital passou a ser usado (inves-
tido) de maneira especial, tendo como objetivo, ou intenção
primordial, a auto-expansão. Nesse sistema, o que se acumulou
no passado só é "capital" na medida em que seja usado para
acumular mais da mesma coisa. Trata-se de um processo com-
plexo, até sinuoso, como veremos. Usamos a expressão "capi-

13
CAPITALISMO HISTÓRICO

talistas" para nomear essa meta persistente e auto centrada do


detentor de capital (a acumulação de mais capital) e as relações
que ele tem de estabelecer com outras pessoas para alcançá-la.
É claro que esse objetivo nunca foi exclusivo. Outras conside-
rações se intrometem no processo de produção. Contudo, a
questão é identificar que considerações tendem a prevalecer em
caso de conflito. Onde a acumulação de capital tenha tido prio-
ridqde sobre o1;>jetivos alternativos ao longo do tempo, pode-
mos dizer que estamos em presença de um sistema capitalista
em operação.
Um indivíduo (ou grupo de indivíduos) pode decidir em
qualquer tempo que gostaria de investir capital com o objetivo
de adquirir mais capital. Porém, antes de um certo momento na
história, esses indivíduos não tinham nenhuma facilidade em
conseguir isso. Nos sistemas anteriores, o longo e complexo
processo de acumulação do capital era quase sempre bloqueado
num ou noutro ponto, mesmo nos casos. em que a condição,
inicial estava presente: a propriedade, ou concentração, de um
estoque de bens não consumidos nas mãos de poucos. Nosso'
capitalista hipotético sempre precisou usar trabalho; logo, tinha
de encontrar pessoas que pudessem ser atraídas, ou compelidas,
a realizar esse trabalho. Uma vez reWlidos os trabalhadores e
realizada a produção, era necessário comercializar os bens; pre-
cisavam existir um sistema de distribuição e um grupo de pes-
soas dotadas dos meios necessários para efetuar compras. Os
bens tinham de ser vendidos a um preço maior do que os cus-
tos totais desembolsados pelo vendedor (incluindo os custos
de colocá-los no ponto de venda) e, além disSo, a margem (ou,
diferença) precisava ultrapassar as necessidades de subsistên-
cia do vendedor. Em linguagem moderna, tinha de haver lucro.
O agente que se apoderava do lucro tinha de ser capaz de retê-
lo até surgir uma oportunidade razoável de investi-lo, retornan-
do-se assim ao ponto em que todo o processo recomeçava, des-
de a produção.

14
PRODUÇÃO DE CAPITAL·

Antes dos tempos modernos, esse encadeamento de pro-


cessos (às vezes denominado circuito do capital) raramente se
completou. Nos sistemas sociais históricos anteriores, os deten-
tores da autoridade política e moral consideravam irracionais
elou imorais muitos dos elos dessa corrente. Mesmo quando os
que detinham o poder se abstinham de interferir, o processo era
geralmente abortado por causa da não-disponibilidade de um
ou mais elementos: estoque de dinheiro acumulado, rrião-de-
obra disponível para ser utilizada pelo produtor, rede de distri-
buidores, consumidores com poder de compra.
Um ou mais elementos faltavam, porque nos sistemas sociais
históricos anteriores tais elementos não haviam sido transfor-
mados em mercadoria, ou então essa transformação ainda era
incipiente. Não se considerava que os processos descritos pu-
dessem ou devessem resultar de transações realizadas em mer-
cados. Por isso, o capitalismo histórico incluiu a ampla mercan-
tilização de processos não só os de troca, mas também os de
produção e de investimento antes conduzidos por vias não
mercantis. No anseio de acumul;r cada vez mais capital, os ca-
pitalistas buscaram mercantilizar cada vez mais esses processos
sociais presentes em todas as esferas da vida económica. Como
o capitalismo é centrado em si mesmo; nenhuma relação social
permaneceu intrinsecamente isenta de uma possível inclusão.
O desenvolvimento histórico do capitalismo envolveu o impul-
so de mercantilizar tudo.
Não bastava mercantilizar os processos sociais. Os processos
de produção se vinculavam uns aos outros através de cadeias
mercantis complexas. Consideremos, por exemplo, um item de
vestuário, um bem amplamente produzido e vendido ao longo
da experiência histórica do capitalismo. Para produzi-lo, são
necessários, no minimo, tecido, linha, algum tipo de máquina e
força de trabalho. Cada um desses itens, por sua vez, temde ser
produzido, e o mesmo ocorre com os itens que entram. na sua
produção. Não era inevitável e nem sequer comum - que

15
CAPITALISMO HISTÓRICO

todos os subprocessos dessa. cadeia estivessem disponíveis sob a


forma de mercadorias. Sem dúvida, como veremos, o lucro é
freqüentemente maior quando nem todos os elos da cadeia es-
tão de fato mercantilizados. Em cadeias assim, há um grande e
disperso conjunto de trabalhadores que recebem algum tipo de
remuneração, lançada como custo em um registro contábil. Há
também um conjunto de pessoas, muito menor mas também
disperso, que divide de algum modo o excedente criado ao
longo da cadeia mercantil - pela diferença entre os custos to-
tais de produção ea renda total decorrente da venda do produ-
to final. Estas pessoas operam como agentes económicos distin-
tos e não se reconhecem como parceiros.
Considerando que as cadeias mercantis vinculam muitos
processos de produção, a taxa de acumulação para todos os "ca-
pitalistas'; vistos em conjunto, dependia do tamanho da margem
que podia ser criada, margem que podia flutuar considera-
velmente. Porém, a taxa de acumulação obtida individualmen-
te por cada capitalista dependia de um processo de "competi-
ção': com recompensas maiores para aqueles que possuíam mais
perspicácia, maior habilidade no controle de sua força de tra-
balho e maior acesso às decisões políticas que regulamentavam
operações mercantis específicas (conhecidas em geral como
"monopólios").
Isso criou a primeira contradição elementar do sistema.
O interesse de todos os capitalistas, vistos como classe, seria re-
duzir todos os custos de produção, mas na verdade essas redu-
ções favoreciam capitalistas específicos, em detrimento de ou-
tros. Conseqüentemente, eles preferiam agir para aumentar sua
participação em uma margem global menor, em vez de aceitar
uma participação menor em uma margem global maior. Havia
uma segunda contradição fundamental no sistema. Na medida
em que mais capital se acumulava, mais os processos se torna-
vam mercantilizados e mais mercadorias eram produzidas, para .
manter o fluxo era necessário garantir um número crescente de

16
PRODUÇÃO DE CAPITAL

compradores. Contudo, os esforços para reduzir os custos de


produção freqüentemente reduziam também a distribuição e
circulação do dinheiro, inibindo a expansão estável do número
de compradores, necessários para completar o processo de acu-
mulação. Por outro lado, as redistribuições do lucro global, que
poderiam expandir a rede de compradores, freqüentemente re-
duziam a margem global de lucro. Por isso, em seus empreen-
dimentos, os empresários individuais tiveram de agir em uma
mesma direção (por exemplo, reduzindo o custo da mão~de­
obra); ao mesl110 tempo, como membros de uma classe, pres-
sionavam no sentido de aumentar a rede global de compra-
dores (o que exigia aumentar o custo da mão-de-obra, pelo
menos para alguns produtores).
Assim, a economia capitalista tem sido governada pela in-
tenção racional de maximizar a acumulação. Mas o que era ra-
cional para os empresários não o era necessariamente para os
trabalhadores. Mais importante: o que era racional para todos
os empresários, vistos como um conjunto, não o era necessa-
riamente para um empresário individual, visto isoladamente.
Portanto, não basta dizer que todos perseguiam seus interesses.
Com freqüência, o interesse particular levava cada um a reali-
zar, racionalmente, atividades contraditórias com as realizadas
pelos outros. Mesmo se ignorarmos o quanto a percepção do
interesse individual estava obscurecida e distorcida por véus
ideológicos, é preciso levar em conta que a avaliação dos reais
interesses de longo prazo se torna, nesses contextos, muito
complexa. Até aqui, estou supondo provisoriamente que o capi-
talismo histórico tenha de fato criado um homo economicus,
mas estou acrescentando que a posição de cada um era inevita-
velmente confusa.
Uma restrição "objetiva" limitou essa confusão. Se um in-
dividuo comete freqüentes erros de julgamento económico
por ignorância, estupidez ou preconceito ideológico - , esse in-
dividuo (empresa) tende a não sobreviver no mercado. As fa-

17
CAPITALISMO HISTÓRICO

lências têm sido o duro purgante do sistema capitalista, forçan~


do constantemente os atores econômicos a se manter mais ou
menos nos caminhos demarcados e pressionando-os a agir co-
letivamente de modo a gerar mais acumulação de capital.
Assim, o capitalismo histórico é o loeus concreto - integra-
do e delimitado no tempo e no espaço - de atividades prqdu-
tivas cujo objetivo econômico tem sido a acumulação incessan-
te de capital; esta acumulação é a "lei" que tem governado a
atividade econômica fundamental, ou tem prevalecido nela. É o
sistema social no qual aqueles que operaram segundo essas re-
~ras produziram um impacto tão grande sobre o conjunto que
acabaram criando condições às quais os outros foram forçados
a se adaptar ou cujas conseqüências passaram a sofrer. É o siste-
ma social em que o alcance dessas regras (a lei do valor} se am-
pliou cada vez mais, em que sua imposição se tornou cada vez
mais firme e sua penetração no tecido social cada vez maior,
mesmo quando teve de enfrentar uma oposição social mais en-
fática e organizada.
Usando essa descrição do que queremos dizer com capita-
lismo histórico, cada um de nós pode determinar a que loeus
concreto, integrado e delimitado no tempo e no espaço, ela se
refere. Minha opinião é de que a gênese desse sistema social
se situa na Europa no final do século XV; que, de lá para cá, ele
se expandiu no espaço até cobrir todo o planeta no final do
século XIX; e que ainda engloba a Terra inteira. Compreendo
que essa apressada delimitação das fronteiras espaço-temporais
provoque dúvidas de dois tipos. Em primeíro lugar, dúvidas
empíricas. Estava a Rússia dentro ou fora da economia-mundo
européia no século XVI? Quando exatamente o Império Oto-
mano foi incorporado ao sistema-mundo capitalista? Podemos
considerar uma determinada área situada no interior.de um de-
terminado Estado num determinado momento como verdadei-
ramente "integrada" à economia-mundo capitalista? São ques-
tões importantes, tanto em si mesmas quanto porque, ao tentar

18
PRODUÇÃO DE CAPITAL

respondê-las, somos obrigados a tornar mais precisas nossas


análises dos processos do capitalismo histórico. Mas não é hora
nem lugar de tratar dessas numerosas indagações empíricas, su-
jeitas a debate e elaboração contínuos.
As dúvidas do segundo tipo questionam a própria utilidade
da classificação indutiva que acabo de sugerir. Há os que con-
sideram que só existe capitalismo se existir uma forma específi-
ca de relação social no local de trabalho, com um empresário
privado empregando trabalhadores assalariados. Há os que di-
zem que quando um Estado nacionaliza as indústrias e procla-
ma seu compromisso com doutrinas socialistas, através desses
atos e de suas conseqüências ele rompe sua participação no sis-
tema-mundo capitalista. Estas não são indagações empiricas,
mas teóricas: Vamos abordá-las ao longo da nossa discussão.
Mas tratá-las dedutivamente seria irrelevante, pois nos levaria a
um confronto de crenças, e não a um debate racional. Devemos
tratá-las heuristicamente, argumentando que nossa classifica-
ção indutiva é mais útil que as alternativas, pois abrange mais
fácil e elegantemente o que todos conhecemos sobre a realidade
histórica e permite uma interpretação que nos habilita a proce-
der de modo mais eficaz no presente.
Observemos como o ~istema capitalista funcionou realmen-
te. Dizer que o objetivo de um produtor é acumular capital é
dizer que ele vai buscar produzir a maior quantidade possível
de determinado bem, com a maior margem de lucro para si.
Porém, agirá submetido a uma série de restrições econômicas
existentes, como dizemos, "no mercado". Sua produção total
é limitada pela disponibilidade (relativamente imediata) de in-
sumos materíais, mão-de-obra, clientes e acesso a dinheiro vivo
para expandir os investimentos. A quantidade que ele pode
produzir com lucro e a margem de lucro que pode obter tam-
bém são limitados pela habilidade de seus "competidores" em
oferecer o mesmo bem a preços menores; neste caso, não se tra-
ta dos competidores existentes no mercado mundial, mas aque-

19
CAPITALISMO HISTÓRICO

les situados nos mesmos mercados locais e mais delimitados,


nos quais ele de fato atua (não importa como seja definido esse
mercado). A expansão da sua produção também será restrin-
gida pelo efeito de redução de preços que ela poderá gerar no
mercado "local~ ameaçando reduzir o lucro total obtido.
Todas essas restrições são objetivas, ou seja, independem de
qualquer conjunto particular de decisões tomadas por um de-
terminado produtor ou por outros igualmente ativos no merca-
do: Decorrem do processo social total que existe em um tempo
e lugar concretos. Aléni delas, é claro que sempre há outras res-
trições, mais suscetíveis de manipulação. Governos podem vir
a adotar, ou podem ter adotado, regras que de algum modo
influenciam as opções econômicas e os cálculos sobre IUefos;
determinado produtor pode ser beneficiário ou vitima dessas
regras existentes; também pode tentar persuadir as autoridades
políticas locais a mudar as regras para favorecer-se.
Como operaram os produtores para aumentar sua capacida-
de de acumular capital? A força de trabalho sempre foi um ele"
mento central e quantitativamente significativo do processo de
produção. Para acumular, o produtor se preocupa com dois as~
pectos da força de trabalho: disponibilidade e custo. O proble-
ma da disponibilidade tem sido colocado da seguinte maneira:
relações sociais de produção fixas (ou seja, uma força de traba-
lho estável para um determinado produtor) podem ter baixo
custo se o mercado for estável e a quantidade de força de traba-
lho for ótllna em um momento dado. Mas, se o mercado para ó
produto declinar, uma força de trabalho estável aumenta o cus~
to real do produtor; e se esse mercado crescer, uma força de tra-
balho estável impossibilita o produtor de aproveitar aoportu-
nidade de lucro..
Uma força de trabalho variável também apresenta desvanta-
gens para os capitalistas. Por definição, ela não trabalha neces-
sária e continuamente para o mesmo produtor. Para sobreviver,
esses trabalhadores devem preocupar-se com sua remuneração

20
PRODUÇÃO DE CAPITAL

durante um período longo ó bastante para nivelar·as variações


de sua renda real. Eles têm de ser capazes de ganhar o suficien~
te, quando empregados, para cobrir os periodos em que não
recebam remuneração. Logo, uma força de trabalho variável
freqüentemente custa mais (por hora e por individuo) do que
uma que seja fixa.
Uma contradição -:- e aqui temos uma - no coração do
processo de produção capitalista sempre resulta em um com~
promisso historicamente desconfortável. Revisemos o que de
fato aconteceu. Nos sistemas históricos anteriores ao capitalis-
mO,a maior parte da força de trabalho (embora não toda) era
fixa. Em alguns casos, a força de trabalho do produtor era so-
mente ele mesmo ou seu grupo domiciliar; portanto, por defi-
nição, era fixa. Em outros, uma força de trabalho de natureza
não domiciliar ligava-se a um produtor por meio de diferentes
tipos de regulações legais e/ou tradicionais (várias formas de
escravidão, sujeição por dívidas, servidão, acordos permanentes
de arrendamento' etc.). Algumas vezes a sujeição era vitalícia.
Em outras, valia por períodos limitados, com possibilidade de
renovação; é claro que tais limitações de tempo só fariam senti-
do se existissem alternativas realistas no momento da renova-
ção. Ora, o caráter fixo desses arranjos colocava problemas não
só para os produtores particulares, aos quais a força de trabalho
estava sujeita, mas para todos os outros produtores, já que eles
só podiam e~andir suàs próprias atividades na medida em que
existisse força de trabalho disponível, ou seja, não fixada.
Como foi freqüentemente descrito, essas considerações des-
crevem as condições para a ascensão do trabalho assalariado.
Nessa situação, existe um grupo de pessoas permanentemente
.disponível para um emprego, mais ou menos segundo a melhor
oferta. É assim que opera o mercado de trabalho, e as pessoas
que vendem SU;l. força de trabalho são proletários. Nocapitalis-
mo histórico houve uma proletarização crescente da força de
trabalho ~ constatação que não é nova nem surpreendente. As

21
CAPITALISMO HISTÓRICO

vantagens do processo de proletarização, para os produtores,


foram amplamente documentadas. O que surpreende não é que
tenha havido tanta proletarização, mas sim que ela tenha sido
tão pequena. Tal sistema social histórico existe há pelo menos
quatrocentos anos. Apesar disso, não se pode dizer que a força
de trabalho realmente proletarizada na economia-mundo capi-
talista ultrapasse a metade do total.
Essa estatística depende, é claro, de como e o que medimos.
Se usarmos as estatísticas oficiais dos governos sobre a chama-
da população economicamente ativa, principalmente homens
adultos que ficam formalmente disponíveis para o trabalho re-
munerado, a percentagem de trabalhadores assalariados parece-
rá hoje razoavelmente alta (mesmo assim, quando calculada em
escala mundial, é inferior às previstas pelas postulações mais
teóricas). No entanto, se considerarmos todas as pessoas cujo
trabalho foi incorporado de uma maneira ou de outra às cadeias
mercantis abrangendo virtualmente todas as mulheres adul-
tas e uma proporção muito grande de pessoas nas faixas etárias
da adolescência e da maturidade então nossa percentagem de
proletários cai drasticamente.
Vamos dar um passo adicional, antes de fazer nossa ava-
liação. Do ponto de vista conceitual, será proveitoso aplicar o
rótulo de "proletário" a um indivíduo? Eu duvido. Sob o capi-
talismo histórico, assim como sob os sistemas históricos ante-
riores, os indivíduos tenderam a viver suas vidas no interior de
estruturas relativamente estáveis - que podemos chamar de
unidades domiciliares - que partilhavam um fundo comum de
renda corrente e de capital acumulado. As fronteiras desses es-
paços mudavam constantemente por entradas e saídas de pes-
soas, mas eles não deixavam de ser a unidade de cálculo ra-
cional par~ efeito de remuneração e de gasto. Para viver, as
pessoas consideram toda a sua renda potencial, não importa de
que fontes, e a avaliam comparando-a com os gastos reais que

22
PRODUÇÃO DE CAPITAL

têm pela frente. Buscam, pelo menos, sobreviver; aqueles com


renda maior buscam desfrutar um estilo de vida que julgam sa-
tisfatório; por último, os que têm ainda mais entram no jogo
capitalista, tendo em vista acumular capital. Para todos os fins
reais, a unidade domiciliar foi a célula econômica engajada nes-
sas atividades, geralmente - mas nem sempre, ou não exclusi-
vamente - a partir de um grupo formado por laços de paren-
tesco. Ela envolvia também, na maioria dos casos, a coabitação,
mas essa característica tornou-se menos importante na medida
em que a mercantilização progrediu.
Foi no contexto dessa estrutura domiciliar que a distinção
social entre trabalho produtivo e improdutivo começou a ser
imposta às classes trabalhadoras. O trabalho produtivo passou
a ser definido como aquele que recebe remuneração em dinhei-
ro (principalmente, trabalho assalariado) e o não produtivo co-
mo aquele que, embora necessário, constitui uma atividade
de mera «subsistêncià', sem produzir um "excedente" que possa
ser apropriado por alguém. Esse trabalho podia estar totalmen-
te fora da esfera mercantil ou envolver uma produção mercantil
simples (então verdadeiramente simples). A diferenciação entre
tipos de trabalho se ancorou na criação de papéis específicos a
eles vinculados. O trabalho produtivo (assalariado) se tornou
tarefa principalmente do homem/pai adulto e secundariamente
de outros homens adultos mais jovens. O trabalho não produti-
vo (de subsistência) se tornou tarefa principalmente da mulher!
mãe adulta e secundariamente de outras mulheres, além das
crianças e dos idosos. O trabalho produtivo era feito fora da
unidade domiciliar, no "local de trabalho': O trabalho não pro-
dutivo era feito dentro da unidade domiciliar.
As linhas de separação certamente não eram absolutas, mas
sob o capitalismo histórico se tornaram muito claras e coerci-
tivas. A divisão do trabalho por gênero e idade não foi, é cla-
ro, uma invenção do capitalismo histórico. É provável que sem-
pre tenha existido, até mesmo pelo fato de que há requisitos

23
CAPITALISMO HISTÓRICO

e lirílitações biológicos (de gênero e de idade) para certas tare-


fas. Tampouco o grupo hierárquico e/ou a estrutura da unidade
domiciliar foram uma invenção do capitalismo. Eles também já
existiam.
No capitalismo histÓrico, o que houve de novo foi a correla-
ção entre divisão de trabalho e. valorização do trabalho. Homens
e.mulheres (assim como adultos, crianças e velhos) freqüente-
mente realizaram trabalhos diferentes, mas sob o capitalismo
histórico houve uma desvalorização do trabalho das mulhere$
(e dos jovens e velhos) e uma ênfase correspondente no trabalho
masculino adulto. Enquanto, em outros sistemas, homens e mu-
lheres realizavam tarefas específicas (mas normalmente compa-
ráveis), sob o capitalismo histÓrico o homem adulto assalariado
foi classificado como "arrimo" do grupo, aquele que ganha o
pão, e a mulher adulta trabalhadora doméstica como "dona de
casa': Assim, quando as estatísticas nacionais elas mesmas um
produto do sistema capitalista - começaram a ser produzidas,
todos os arrimos. foram considerados membros da população
economicamente ativa, mas o mesmo não ocorreu com as donas
de casa. O sexismo foi institucionalizado. O aparato legal e para-
legal de diferenciação e discriminação de gênero foi quase uma
decorrência lÓgica dessa valorização diferencial do trabalho.
Os conceitos de infância/adolescência estendida e de "apo-
sentadoria" não vinculada a doenças ou a deficiências da força
de trabalho também foram concomitantes às estruturas das
unidades domiciliares emergentes no capitalismo histórico. Fo-
ram freqüentemente encarados como isenções "progressistas"
do trabalho. Mas podem ser considerados, com maior precisão,
como redefinições do não-trabalho. A injúria acrescentou-se o
insulto, quando a atividade infantil nos teares e a miscelânea de
tarefas dos adultos aposentados foram rotuladas como "diverti-
das"; a desvalorização desse trabalho aparecia como uma con-
trapartida razoável da idéia de que estavam liberados do "fardo"
do trabalho "de verdade':

24
PRODUÇÃO DE CAPITAL

. Como ideologia, essas distinções ajudar<Ul1 a garantir que a


mercantUização do trabalho se estendesse mas, ao mesmo tem-
po, permanecesse limitada. Se, na economia-mundo, calculásse-
mos quantas unidades domiciliares obtiveram do trabalho assa-
lariado, realizado fora de casa, mais da metade de seus ganhos
reais (ou de sua renda sob todas as formas), acho que ficaríamos
espantados com o baixo percentual; não me refiro apenas aos sé-
culos passados, mas também ao mundo de hoje, embora essa
percentagem venha crescendo regularmente ao longo da história
da economia-mundo capitalista.
Como explicar isso? Não creio que seja muito difícil. Supon-
do-se que, sempre e em toda parte, um produtor que empregue
trabalho assalariado prefira pagar menos do que mais, o nível
salarial mais baixo que os trabalhadores podem aceitar depende
do tipo de unidade domiciliar em que eles se inserem. Dito de
maneira simples: para trabalhos idênticos, com níveis idênticos
de eficiência, o trabalhador assalariado inserido em uma uni-
dade domiciliar muito dependente da renda de salários (vamos
chamá-la unidade domiciliar proletária) tendeu a buscar um
patamar monetário mais alto (abaixo do qual seria irracional
que ele realizasse o trabalho assalariado) do que o trabalhador
assalariado oriundo de uma unidade domiciliar pouco depen-
dente da renda salarial (vamos chamá-la unidade domiciliar se-
miproletária).
Essa diferença no que podemos chamar de patamar salarial
mínimo aceitável tem a ver com a economia da sobrevivência.
Nas situações em que uma unidade domiciliar proletária de-
pendia principalmente de renda salarial, o salário precisava co-
brir os custos mínimos de sobrevivência e reprodução. Porém,
quando os salários participavam com uma parte menos impor-
tante da renda domiciliar total, tornava~se freqüentemente ra-
cional que o indivíduo aceitasse um emprego que aumentava
sua renda real total em proporção menor do que o aumento de
suas horas trabalhadas, desde que isso resultasse no recebimen-

25
CAPITALISMO HISTÓRICO

to do dinheiro vivo de que necessitava (sendo essa necessidade,


às vezes, imposta por lei) ou permitisse substituir trabalhos que
teriam remuneração ainda menor.
Nas unidades domiciliares semiproletárias, aqueles que pro-
duziam outras formas de renda real (basicamente n~ produção
domiciliar para consumo, para venda no mercado local ou para
ambos), fossem o próprio assalariado (em suas horas livres) ou
out.ras pessoas (de qualquer sexo ou idade), criavam excedentes
que contribuíam para baixar o patamar salarial mínimo acei-
tável. O trabalho não assalariado permitia que alguns produ-
tores diminuíssem a remuneração da força de trabalho, redu-
zindo assim o custo de produção e aumentando a margem de
lucro. Por isso, como regra geral, os empregadores de trabalho
assalariado preferiam recrutar trabalhadores assalariados em
unidades domiciliares semiprciletárias, em vez de proletárias.
A realidade empírica global ao longo de todo o capitalismo his-
tórico mostra uma regularidade estatística surpreendente: os
trabalhadores assalariados vinculam-se mais a unidades semi-
proletárias, e não a unidades proletárias. Nossa questão virou
subitamente de cabeça para baixo: partindo da busca de expli-
cações para a existência da proletarização, tivemos de explicar
por que o processo foi tão incompleto. Agora, porém, temos de
ir ainda mais longe: por que houve proletarização?
Ê muito duvidoso que a crescente proletarização mundial
possa ser atribuída principalmente a pressões sociopolíticas das
camadas empresariais. Bem ao contrário. Parece que elas tive-
ram muitas razões para frear o passo. Antes de tudo, como aca-
bamos de argumentar, a transformação de um número signifi-
cativo de unidades semiproletárias em unidades proletárias em
determinada área tendeu a aumentar o nível do salário mínimo
real pago pelos empregadores de trabalho assalariado. Em se-
gundo lugar, como veremos depois, o aumento da proletariza-
ção teve, para os empregadores, conseqüências políticas negati-
vas e, além disso, cumulativas, terminando por aumentar ainda

26
PRODUÇÃO DE CAPITAL

mais os níveis dos salários em ceitas áreas. Os empregadores


eram tão pouco entusiastas da proletarização que, além de pro-
moverem a divisão de trabalho por gênero/idade, também esti-
mularam, nos padrões de emprego e através da sua influência
na política, a identificação de grupos étnicos definidos, buscan-
do vinculá-los a papéis específicos na distribuição da força de
trabalho, com níveis diferenciados de remuneração real. A etni-
cidade criou uma moldura cultural que consolidou os padrões
estruturais das unidades semiproletárias. O fato de que o ad-
vento dessa etnicidade também tenha contribuído para dividir
as classes trabalhadoras foi um bónus político para os emprega-
dores, mas não foi, creio, o primeiro motor do processo.
Porém, antes de poder compreender como, ao longo do tem-
po, a proletarização aumentou no capitalismo histórico, temos
de retornar à questão das cadeias mercantis que abrigam as
múltiplas atividades produtivas. Precisamos nos livrar da ima-
gem simplista de que o '<mercado" é um lugar onde se encon-
tram o produtor inicial e o consumidor final. Sem dÍlvida, tais
mercados locais existem e sempre existiram. Porém, no capita-
lismo histórico, as transações realizadas nesses mercados locais
constituíram uma pequena percentagem do total. A maioria
das transações envolveu trocas entre dois produtores inter-
mediários situados no interior de uma longa cadeia mercantil.
O comprador estava comprando um "insumo" para seu pro-
cesso de produção. O vendedor estava vendendo um "produto
semi-acabado" (não destinado ao uso final no consumo indivi-
dual direto).
A luta pelos preços nesses "mercados intermediários" exigia
um esforço, por parte do comprador, para arrancar do ven-
dedor uma parte do lucro realizado pelos processos de trabalho
ao longo da cadeia mercantil. Nas conexões espaço-temporais
particulares, oferta e procura determinaram essa luta, mas nun-
ca sozinhas. Em primeiro lugar, oferta e procura podem ser ma-
nipuladas através de práticas monopolistas, muito comuns e

27
CAPITALISMO HISTÓRICO

, nada excepcionais. Em segundo lugar, realizando uma integra-


ção vertical, o vendedor pode influir sobre o preço que se prati-
ca no interior da conexão em que está. Sempre que, em última
análise, «vendedor" e "comprador" fossem a mesma empresa, o
preço podia ser arbitrariamente manipulado para efeito de con-
siderações fiscais e outras; nunca representava a interação da
oferta e da procura. A integração vertical, assim como o "mo-
nopólio horizontal~ não foi um fato raro. Conhecemos bem os
casos mais espetaculares: as companhias privilegiadas dos sé-
culos XVI ao XVII, os grandes comerciantes do século XIX, as
corporações transnacionaÍs do século XX - estruturas globais
que buscavam· abranger tantos elos de uma dada cadeiamer-
cantil quanto possível. Exemplos menores de integração ver-
tical, qUt! cobriam poucos elos (às vezes, dois) de uma cadeia,
foram ainda mais comuns. Parece razoável argumentar que, no
capitalismo histórico, a norma nas cadeias mercantis foi a inte-
gração vertical, e não conexões "de mercado" em que vendedor
e comprador fossem de fato distintos e antagónicos.
Mas as direções geográficas das cadeias mercantis não se es-
tabeleceram de forma aleatória. Se as traçássemos todas em um
mapa, perceberíamos que assumiram uma forma centrípeta.
Seus pontos de origem foram· múltiplos, mas seus pontos de
destino tenderam a convergir para poucas áreas. Vale dizer, elas
tenderam a se deslocar das periferias da economia-mundo ca-
pitalista para seus centros ou núcleos. É difícil contestar isso
como observação empírica. A verdadeira questão é saber por
que foi assim. Falar de cadeias mercantis significa falar de uma
divisão social estendida do trabalho, a qual, ao longo do desen-
volvimento do capitalismo histórico, tornou-se cada vez mais
funcional e mais ampliada geograficamente, e ao mesmo tempo
cada vez mais hierárquica. Essa hierarquização do espaço na es-
trutura dos processos produtivos levou a uma crescente polari-
zação entre as áreas centrais e periféricas da economia-mundo,
não só em termos de critérios distributivos (níveis de renda

28
PRODUÇÃO DE CAPITAL

real, qualidade de vida), mas também, de modo ainda mais im-


portante, nos Zoei da acumulação de capital.
Quando esse processo começou, as diferenças espaciais eram
de fato pequenas e o grau de especialização espacial era limita-
do. No sistema capitalista, contudo, fossem quais fossem os di-
ferenciais existentes (por razões ecológicas ou históricas), eles
foram aumentados, reforçados e cristalizados. Ouso da força
na determinação do preço foi crucial nesse processo. É claro
que o uso da força por uma das partes (para aumentar seu pre-
ço em umatransação de mercado) não foi uma: invenção do ca-
pitalismo. A troca desigual é uma prática antiga. O que é notá-
vel no capitalismo como sistema histórico é a maneira como
essa troca desigual pôde ser escondida; foi tão bem escondida
que até mesmo os oponentes confessos do sistema só começa-
ram a desvelá-la, de forma sistemática, quinhentos anos depois.
A chave para esconder esse mecanismo central está na pró-
pria estrutura da economia-mundo capitalista, na aparente
separação, nesse sistema, entre o espaço da economia (uma di-
visão social mundial do trabalho com processos produtivos in-
tegrados, todos operando em nome da acumulação incessante
de capital) e o espaço da política (organizado ostensivamente
em torno de Estados soberanos e separados, cada qual com res-
ponsabilidade autônoma por decisões políticas no interior da
sua jurisdição, todos dispondo de forças armadas para susten-
tar sua autoridade). No mundo real do capitalismo histórico,
quase todas as cadeias mercantis de alguma importância atra-
vessaram as fronteiras dos Estados. Essa não é uma inovação re-
cente. Aparece nos primórdios do capitalismo histórico. Além
disso, a transnacionalidade das cadeias mercantis descreve tanto
o mundo capitalista do século XVI quanto o do século xx.
Como funciona essa troca desigual? A partir de qualquer di-
ferencial real no mercado, por causa da escassez (temporária)
de um processo de produção complexo oupor uma eventual
escassez artificial criada manu militari, as mercadorias se deslo-

29
CAPITALISMO HISTÓRICO

cam através das regiões de tal modo que a região dotada do ar-
tigo menos escasso vende seus bens para outra região a um pre-
ço que incorpore mais insumo real (custo) do que um bem de .
preço igual que se desloque na direção oposta. Parte do lucro
total (ou do excedente) produzido numa área transfere-se então
para outra.. É a relação que se estabelece entre centro e periferia.
Podemos chamar a área perdedora de "periferia" e a área ga-
nhadora de "centro", nomes que na verdade refletem a estrutura
geográfica dos fluxos económicos.
Logo descobrimos vários mecanismos que historicamente
aumentaram essa disparidade. Sempre que ocorreu uma "in-
tegraçãovertical" de quaisquer dois elos de uma cadeia mer-
cantil foi possivel deslocar na direção do centro uma parte
maior do excedente total, quando comparado com o que ocor-
ria antes. Além disso, o deslocamento de excedentes para o cen-
tro concentrou nele o capital, tornando disponíveis enormes
quantidades de recursos para aumentar o grau de mecanização.
Isso peqnitia que os produtores das áreas centrais ganhassem
novas vantagens competitivas nos produtos existentes e crias-
sem novos produtos, com os quais podiam recolocar o processo
em marcha.
A concentração de capital nas áreas centrais criou tanto a
base fiscal quanto a motivação politica para a formação de apa-
ratos estatais relativamente fortes, dotados da capacidade, entre
outras, de assegurar que os aparatos estatais das áreas perifé-
ricas permanecessem ou se tornassem mais fracos. Por isso, os
aparatos centrais puderam pressionar os periféricos a aceitar
(e mesmo promover) em suas jurisdições uma maior especiali-
zação em tarefas inferiores da cadeia mercantil, utilizando força
de trabalho com menor remuneração e criando (reforçando) as
estruturas domiciliares que permitiam a sobrevida dessa força
de trabalho. Assim, o capitalismo histórico criou diferentes ní-
veis de salário, os quais se tornaram dramaticamente divergen-
tes nas diferentes regiões do sistema-mundo.

30
PRODUÇÃO DE CAPITAL

Dissemos que esse processo tem sido oculto. Com isso que-
remos dizer que, aparentemente, os preços reais sempre foram
negociados em um mercado mundial, com base em forças eco-
nómicas impessoais. O aparato de forças, enorme más dissimu-
lado, esporadicamente usado de maneira aberta em guerras e
na colonização, não teve que ser evocado em cada transação se-
parada para garantir que a troca· fosse desigual. A força só foi
adonada quando determinado nível de troca desigual foi ques-
tionado de modo significativo. illtrapassado o conflito politico
agudo, as classes empreendedoras do mundo podiam voltar a
fingir que a economia se movia,exclusivamente por considera-
ções de oferta e procura. Não precisavam desvendar como a
econornia-mund,o tinha chegado a uma configuração particular
de oferta e pmcura, nem reconhecer que relações de força sus-
tentavam em cada momento os diferenciais "costumeiros" nos
niveis de salário e na real qualidade de vida da força de trabalho
em escala mundial. ,
Podemos agora retomar à questão de saber por que houve
alguma proletarização. Recordemos a contradição fundamental
entre o interesse individual de cada empreendedor e o interesse
coletivo de todas as classes capitalistas. A troca desigual serve,
por definição, aos interesses coletivos, mas não a muitos inte-
resses individuais. Aqueles cujo interesse não era imediatamen-
te contemplado em qualquer momento dado (porque ganha-
vam menos que seus competidores) tentavam alterar as coisas
em benefício próprio. Em outras palavras, tentavam competir
em melhores condições no mercado, tornando sua própria pro-
dução mais eficiente ou usando a influência política para criar
novas vantagens monopolistas para si.
A competição acirrada entre capitalistas sempre foi uma das
dífferentia specifica do capitalismo histórico. Mesmo quando ela
pareceu estar voluntariamente restrita (por arranjos formado-
res de cartel), isso se deveu principalmente ao fato de que cada
competidor percebeu que tal restrição otimizava seus próprios

31
CAPITALISMO HISTÓRICO

ganhos. Em um sistema caracterizado pela acumulação inces-


sante de capital, ~enhum participante pode se dar ao luxo de
abandonar o impulso na direção da lucratividade de longo pra-
zo, sob risco de auto destruir-se.
Assim, práticas monópolistas, e motivação competitiva são
realidades que andam lado a lado no capitalismo histórico. Em
tais circunstâncias, é evidente que nenhum padrão específico de
ligação dos processos produtivos pode ser estável. Pelo contrá-
rio: muitos empreendedores em competição deveriall'J. ter in-
teresse em alterar o padrão específico vigente em um tempo-
lugar determinado, sem se preocupar com os impactos globais
desse comportamento. Sem dúvida, a "mão invisível" de Adam
Smith age para que o "mercado" estabeleça restrições aos com-
portamentos individuais. Mas esta seria uma leitura curiosa do
capitalismo histórico; o resultado dela seria a harmonia.
Em vez disso, o resultado, mais uma vez como observação
empírica, parece ser um ciçlo alternado de expansões e estag-
nações no sistema como um todo. Esses ciclos envolveram flu-
tuações de tal magnitude e regularidade, que fica difícil não
considerá-las intrínsecas ao funcionamento do sistema. Se me
permitem a analogia, elas parecem ser o aparelho respiratório
do organismo. capitalista, inalando o oxigênio purificador e
exalando o refugo venenoso. Analogias são sempre perigosas,
mas esta parece ser pertinente. Os refugos acumulados seriam
as ineficiências económicas que, através dos processos de troca
desigual, acima descritos, em geral se enrijecem em estruturas
políticas. O oxigênio purificador seria uma alocação mais efi-
ciente de recursos (mais eficiente no sentido de propiciar maior
acumulação de capital) do que aquela permitida pela reestru-
turação normal das cadeias mercantis.
O que parece ter acontecido - aproximadamente a cada
cinqüenta anos - é que, pelo esforço de um número cada vez
maior de empreendedores para controlar mais e mais conexões
nas. cadeias mercantis, ocorreram desproporções de investimen-

32
PRODUÇÃO DE· CAPITAL

to, as quais chamamos, de forma um pouco equivocada, super-


produção. A única solução para essas desproporções têm sido
crises no sistema produtivo, crises que resultam em uma dis-
tribuição mais equilibrada. Isso parece lógica e simples, mas
suas seqüe1as sempre foram enormes. Esse processo significou,
a cada vez, uma concentração maior de operações nos elos mais
saturados da cadeia merq.ntil. Ele implicou a eliminação de
empreendedores e de trabalhadores (os que trabalhavam para
empresários que quebra~am e também os que trabalhavam
para aqueles que aulIlentaram a mecanização pára reduzir os
custos de produção). Esse processo também permitiu que al-
guns empreendedores "deslocassem" suas operações na hie-
rarquia da cadeia mercantil, aplicando recursos e esforço para
explorar novos elos das cadeias mercantis, os quais, por ofere-
cerem inicialmente insumos "mais escassos': eram mais lucrati-
vos. O "deslocamento" de processos particulares na escala hie-
rárquica também levou a freqüentes transferências geográficas,
motivadas principalmente pela mudança para regiões em que o
custo da mão-de-obra é inferior (embora; do ponto da vista da
área que recebe a indústria, a implantação desta provoque um
aumento salarial para alguns segmentos da força de trabalho).
Hoje,' por exemplo, assistimos a uma transferência maciça, em
escala mundial, das indústrias automobilística, siderúrgica e
eletrônica. O fenômeno de transferência é parte do capitalismo
histórico desde que ele existe.
São três as conseqüências mais importantes desses rearran-
jos. Uma é a permanente reestruturação geográfica do sistema-
mundo capitalista. Contudo, apesar de as cadeias mercantis te-
rem sofrido reestruturações significativas mais ou menos a cada
cinqüenta anos, preservaram-se as cadeias hierarquicamente
organizadas. Processos produtivos têm decaído na escala hierár-
quica à medida que processos novos são inseridos no topo da
hierarquia. Areas geográficas específicas têm acolhido processos
cujos níveis hierárquicos estão em constante alteração. Deter-

33
CAPITALISMO HISTÓRICO

minados bens experimentaram seus "ciclos de produto': come-


çando como centrais e acabando como periféricos. Além disso,
certos Zoei tiveram seus status modificados para cima e para bai-
xo, em termos do bem-estar relativo dos seus habitantes. Esses
rearranjos s6 poderiam ser chamados de "desenvolvimento" se
fosse possível demonstrar que se associam a uma redução da
polarização global do sistema. Isso não parece ter ocorrido; ao
contrário, a polarização tem aumentado ao longo da história.
Pode-se dizer, por isso, que as transferências geográf!cas e. de
produtos têm sido cíclicas.
Esses rearranjos tiveram uma segunda conseqüência muito
diferente. A equívoca palavra "superprodução" chama atenção
para o fato de que os impasses de curto prazo sempre estiveram
ligados à ausência de uma demanda mundial suficiente para al-
gunsprodutos essenciais do sistema. Em situações desse tipo, os
interesses da força de trabalho coincidiram com os interesses de
uma minoria .de empreendedores. A força de trabalho sempre
buscou aumentar sua participação no excedente, e os momen-
tos de colapso económico do sistema freqüentemente propor-
cionaram um incentivo e algumas oportunidades extras para
levar adiante suas lutas de classes. Uma das maneiras mais efeti-·
vas e imediatas de a força de trabalho aumentar sua renda real
tem sido desenvolver a mercantilização da sua própria mão-de-
obra. A força de trabalho sempre buscou substituir os proces-
sos produtivos domiciliares que produzem pouca renda real-
particularmente os vários tipos de produção de mercadorias
trlVIalS por trabalho assalariado. Um dos impulsos mais im-
portantes à proletariiação vem das próprias forças de traba-
lho mundiais. Elas compreenderam, freqüentemente melhor
do que seus autoproclamados porta-vozes, que a exploração
é bem maior nas unidades domiciliares semiproletárias do que
nas unidades plenamente proletarizadas.
Foi nos momentos de estagnação - em parte, respondendo
à pressão política das forças de trabalho e, em parte, acreditan-

34
PRODUÇÃO DE CAPITAL

do que mudanças estruturais nas relações de produção trariam


beneficios diante de proprietários-produtores competidores -
que alguns proptietários-produtores juntaram forças, tanto na
esfera produtiva quanto na política, para pressionar a favor do
aumento da proletarização de um segmento limitado da força
de trabalho em algum lugar. Esse processo nos dáa indicação
mais importante sobre por que a proletarização aumentou,
apesar de, a longo prazo, ela reduzir os níveis de lucro da eco-
nomia-mundo capitalista.
Ênesse contexto que devemos considerar o processo de
mudança tecnológica, que tem sido menos o motor do que a
conseqüência do capitalismo histórico. Cada "inovação" tec-
nológica fundamental foi criada primariamente para fabricar
produtos novos e "escassos" - . como tal, muito lucrativos - ,
e secundariamente para reduzir de forma mais acelerada o uso
de mão-de-obra. As inovações foram respostas aos momentos
de baixa nos ciclos económicos, foram maneiras de se apropriar
das "invenções" para promover o processo de acumulação de
capital. Elas afetaram, sem .dúvida, a organização da produção.
Historicamente, fortaleceram a centralização de muitos proces-
sos de trabalho (a fábrica, a linha de montagem). Mas é fácil
exagerar o porte real das mudanças. Processos de concentração
das tarefas fisicas da produção foram freqüentemente investi-
gados sem que se levassem em consideração os processos de
descentralização a eles contrapostos.
Isso é especialmente verdadeiro se atentarmos para a terceira
conseqüência dos rearranjos cíclicos. Observem que, dadas as
duas conseqüências já mencionadas, temos um aparente para-
doxo a explicar. Por um lado, dissemos que a histórica polariza-
ção da distribuição teve relação com a contínua concentração
da acumulação de capital. Ao mesmo tempo, contudo, falamos
de um processo lento mas estável de proletarização; co-
mo também mencionamos, ele reduziu os níveis de lucro. Uma
solução fácil seria dizer que o primeiro processo é maior que o

35
OAPITALISMO HISTÓRICO

segundo, o que é verdade. Mas, além disso, até aqui, a redução


dqs níveis de lucro ocasionada pela maior proletarização foi
mais do que compensada por um mecanismo que se desdobra
na direção oposta.
Outra observação empírica fácil de fazer sobre o·capitalismo
histórico é que seu âmbito geográfico cresceu regularmente ao
longo do tempo. Mais uma vez, o ritmo do processo oferece a
melhor pista para explicá-lo. A incorporação de novas áreas à
divisão social do trabalho do capitalismo histórico não ocorreu
de uma só vez, mas em arrancos periódicos. Cada expansão su-
cessiva parecia ter alcance limitado. Parte da explicação está no
próprio desenvolvimento tecnológico do capitalismo histórico.
Melhoras nos transportes, nas comunicações e nos armamentos
tornaram mais barato incorporar novas zonas, cada vez mais
distantes das áreas centrais. Esta explicação nos oferece uma
condição necessária, mas não suficiente, do processo.
Afirmou-se algumas vezes que a explicação estaria na busca
constante de novos mercados aptos a realizar os lucros da pro-
dução capitalista. Isso não está de acordo com os fatos históri-
cos. As áreas externas ao capitalismo histórico sempre foram
compradoras relutantes dos produtos deste, em parte porque
seus próprios sistemas económicos não "precisavam" deles e em
parte porque freqüentemente careciam de meios para comprá-
los. Houve exceções, é certo. Porém, no fim das contas, sempre
foi o mundo capitalista que buscou os produtos das regiões ex-
ternas a ele, e não o contrário. Sempre que um locus particular
era militarmente conquistado, os empreendedores capitalistas
se queixavam da ausência de mercados reais e operavam através
de governos coloniais para "criar gostos".
A busca de mercados não se sustenta como explicação. Uma
explicação muito mais plausível é a busca de força de trabalho
de baixo custo. As novas áreas incorporadas à economia-mun-
do estabeleciam níveis de remuner,ação real que se situavam na
parte mais baixa da hierarquia salarial do sistema. Elas quase

36
PRODUÇÃO DE CAPITAL

não tinham unidades domiciliares completamente proletárias e


não foram estimuladas a desenvolvê-las. Ao contrário: as polí-
ticas dos Estados coloniais (e dos Estados semicoloniais rees-
truturados, naquelas áreas. incorporadas mas não formalmente
colonizadas) pareciam desenhadas para promover o surgimen-
to da unidade semiproletária, a qual, como vimos, viabiliza o
patamar salarial mais baixo possível. As políticas estatais típi-
cas envolviam a combinação de mecanismos fiscais, capazes de
forçar todas as unidades domiciliares a se engajar em algum
trabalho assalariado, e restrições de movimento ou separação
forçada dos membros das unidades, o que reduzia consideravel-
mente a possibilidade de proletarização plena.
Se, a esta análise, acrescentarmos a observação de que as no-
vas incorporações ao sistema capitalista tenderam a ocorrer em
fases de estagnação da economia-mundo, torna-se claro que a
expansão geográfica do sistema serviu para contrabalançar a
queda nos lucros (provocada pelo aumento da proletarização),
através da incorporação de novas forças de trabalho destinadas a
ser semiproletarizadas. O aparente paradoxo desapareceu. Pelo
menos até aqui, o impacto da proletarização sobre o processo de
polarização foi compensado, e talvez mais do que compensado,
pelos efeitos das incorporações. E os processos de trabalho em
fábrica se expandiram menos do que geralmente se diz.
Já despendemos muito tempo delineando como o capita-
lismo histórico operou no estreito âmbito da economia. Agora
estamos prontos para explicar por que o capitalismo emergiu
como sistema social histórico. Isso não é tão fácil quanto fre-
qüenteínente se pensou. Longe de ser um sistema "natural",
como alguns apologistas tentam argumentar, o capitalismo his-
tórico é um sistema patentemente absurdo. Acumula-se capital
para que se possa acumular mais capital. Os capitalistas são co-
mo ratos brancos em uma roda de gaiola, correndo cada vez
mais rápido para poder correr cada vez mais rápido. Nesse pro-
cesso, algumas pessoas vivem bem, mas outras vivem miseravel-

37
CAPITALISMO HISTÓRICO

mente; e por quanto tempo e até que ponto vivem bem aqueles
que vivem bem?
Quanto mais refleti sobre esse sistema, mais absurdo ele me
pareceu. Acredito que a grande maioria das populações do
,mundo esteja - objetiva e subjetivamente - em piores condi-
'ções materiais do que nos sistemas históricos anteriores. Além
disso; como veremos, pode-se argumentar que também estejam
politicamente menos afortunadas. Estamos tão imbuídos da
ideologia autojustificada do progresso, forjada por esse sistema
histórico, que temos dificuldade em reconhecer seus enormes
malogros históricos. Mesmo um crítico tão resoluto do capita-
lismo histórico como Karl Marx deu grande ênfase ao seu papel
historicamente progressista. Eu não acredito nisso, a menos
que, por "progressistà', queiramos dizer que ele é historicamen-
te posterior e que suas origens podem ser explicadas por algo
precedente. O balanço do capitalismo histórico, ao qual devo
retornar, é complexo. Mas, do meu ponto de vista, a avaliação
inicial é muito negativa, tanto em termos de distribuição mate-
rial de bens como de alocação de energias.
Se assim for, por que tal sistema surgiu? Talvez para realizar
precisamente este fim. Será plausível a idéia de que a origem de
um sistema pode ser explicada por sua capacidade de realizar
um fim que já foi de fato alcançado? Sei que a ciência moderna
tem nos desviado da busca de causas finais e de quaisquer con-
siderações sobre intencionalidade (haja vista o quanto são di-
nceis de demonstrar empiricamente). Mas, como sabemos, a
ciência moderna e o capitalismo histórico mantêm uma aliança
estreita; portanto, devemos desconfiar da autoridade da ciência
nessa questão. Permitam-me esboçar uma explicação histórica
das origens do capitalismo histórico sem tentar apresentar aqui
uma base empírica para o argumento.
No mundo dos séculos XIV e XV, a Europa era o locus de
uma divisão do trabalho que, comparada com outras áreas do
mundo; fazia dela - em termos de forças produtivas, da coesão

38
PRODUÇÃO .DE CAPITAL

do seu sistema histórico e do seu estágio relativo de conheci-


mento - uma zona intermediária: nem tão avançada como al-
gumas áreas nem tão primitiva quanto outras. Lembremos que
MarcO Pólo, oriundo de uma das sub-regiões cultural e econo-
micamente mais "avançadas" do continente, ficou muitíssimo
impressionado com o que encontrou em suas viagens asiáticas.
A economia da Europa feudal passava nesse periodo por
uma crise interna muito profunda, que sacudia seus alicerces
sociais; As classes dominantes destruíam umas às outras, em
grande escala. O sistema de propriedade da terra, base da estru-
tura econômica, se desfazia, e a reorganização em curso aponta-
va para uma distribuição muito. mais igualitária. Os pequenos
camponeses demonstravam grande eficiência como produtores.
As estruturas políticas ficavam em geral mais fracas, e a preo-
cupação com a luta fratricida entre os politicamente podero-
sos deixava pouco tempo para reprimir a força crescente das
massas populares. O cimento ideológico do catolicismo estava
sob grande pressão; movimentos igualitários nasciam no seio
da própria Igreja. As coisas estavam de fato desmoronando.
Continuasse a Europa no caminho em que estava, é difícil acre-
ditar que seus padrões medievais feudais, com seu sistema de
ordens altamente estruturado, pudessem .consolidar-se nova-
mente. A estrutura social feudal européia teria mais probabili-
dade de evoluir na direção de um sistema de produtores de pe-
quena escala, relativamente iguais, acabando com a aristocracia
e descentralizando as estruturas políticas.
Se isso foi bom ou ruim, e para quem, é uma questão es-
peculativa e de pouco interesse. Mas é claro que a perspectiva
deve ter assustado e amedrontado os estratos superiores da Eu-
ropa, especialmente quando sentiram que sua armadura ideo-
lógica também se desintegrava. Comparando a Europa de 1650
com a Europa de 1450, podemos ver que as seguintes coisas
ocorreram: em 1650, as estruturas básicas do capitalismo histó-
rico como sistema social viável tinham se estabelecido e conso-

39
CAPITALISMO HISTÓRICO

lidado. A tendência de um nivelamento das recompensas fora


drasticamente revertida; Os estratos superiores estavam nova-
mente firmes no controle político e ideológico. Quando consi-
deramos as famílias integrantes desses estratos em 145U e em
1650, constatamos uma continuidade bastante alta. Mais ainda:
se \substituíssemos 1650 por 1900; descobriríamos que a maio-
ria das comparações com 1450 continuariam a valer. Só no sé-
culo XX se manifestaram tendências significativas em uma dire-
ção diferente, sinal, como veremos, de que o sistema histórico
do capitalismo finalmente entrou em uma crise estrutural, após
quinhentos anos de florescimento.
Embora não tenha havido intenção explícita nesse sentido, a
criação do capitalismo histórico como sistema social reverteu
dramaticamente uma tendência que preocupava os estratos su-
periores, estabelecendo em seu lugar uma outra que servia mui-
to melhor aos seus interesses. Isso é absurdo? Só para aqueles
que foram suas vítimas.

40
A POLÍTICA DE ACUMULAÇÃO:
LUTA PELO LUCRO'

A ACUMULAÇÃO incessante de capital em nome da acumulação


incessante de capital parece, prima fade, umobjetivo absurdo.
Mas teve defensores. Eles geralmente alegaram que o sistema
traz beneficios sociais no longo prazo. Vamos discutir depois
até que ponto isso é verdadeiro. Mas, à parte quaisquer even-
. tuais beneficios sociais, acumular capital cria a oportunidade e
a ocasião para que indivíduos (e/ou pequenos grupos) aumen-
tem muito seu consumo. Se o consumo aumentado melhora de
fato a qualidade de vida dos consumidores são outros quinhen-
tos - também devemos adiar essa questão.
A primeira questãó que devemos tratar é: quem recebe os be-
neficios individuais imediatos? A maio~ia das pessoas não espera
uma avaliação dos beneficios de longo prazo ou da qualidade de
vida resultante desse consumo (para a coletividade e para os in-
divíduos) para decidir se vale a pena tentar obter beneficios in-
dividuais imediatos, visivelmente disponíveis. Esse foi o foco da
luta politica no capitalismo histórico. Por isso dizemos que o cá-
pitalismo histórico é urna civilização materialista.
Em termos materiais, as recompensas foram grandes pa-
ra os que despontaram na frente. Além disso, em termos de
recompensa material, os diferenciais entre o topo e a base têm
sido grandes e crescentes ao longo do tempo, quando obser-
vamos o sistema-mundo como um todo. Já discutimos os
processos econômicos que explicam a distribuição muito de-
sigual da recompensa. Devemos agora tentar ver corno, no in-
terior desse sistema econÓmico, as pessoas manobram para
adquirir vantagens para si e, conseqüentemente, negá-las aos
demais. Também devemos observar como manobram os que
são vítimas dessa má distribuição, em primeiro lugar para mi-
nimizar suas perdas na operação do sistema, e secundariamen-

41
CAPITALISMO HISrÓRICO

te para transformar um sistema responsável por injustiças tão


manifestas.
Como as pessoas, os grupos de pessoas conduzem suas lutas
politicas no capitalismo histórico? Fazer política é mudar as re~
lações de poder numa direção mais favorável ao próprio inte-
resse, alterando a direção dos processos sociais. Para ter êxito,
nesses casos, é preciso encontrar as alavancas de mudança que
permitam a maior vantagem ao menor custo. Dada a estrutura
do capitalismo histórico, as alavancas mais efetivas de ajuste
politico têm sido as estruturas do Estado, cuja própria constru~
ção, como vimos, foi uma das realizações institucionais do ca-
pitalismo histórico. Assim, não é por acidente que o controle do
poder estatal, a conquista do poder de Estado,tenha sido o 6b-
jetivo estratégico central de todos os principais atores da esfera
política ao longo da história do capitalismo moderno .
. A importância do poder estatal nos processos econômicos,
mesmo se estritamente definidos, é visível qUándo se observa
mais de perto como o sistema realmente opera. O primeiro e
mais fundamental elemento do poder estatal é a jurisdição ter-
ritorial. Estados têm fronteiras juridicamente determinadas, em
parte por proclamação do próprio Estado em questão, em parte
por reconhecimento diplomático por parte de outros Estados.
As fronteiras, é claro, podem ser contestadas, e o foram regular-
mente; isto é, os reconhecimentos jurídicos oriundos das duas
fontes (o próprio Estado e outros Estados) podem ser confli-
tantes. Tais diferenças são resolvidas por tribunais ou pela força
(e a aquiescência final resultante de seu uso). Muitas disputas
permaneceram latentes por períodos longos, embora poucas te-
nham sobrevivido mais do que uma geração. O crucial é a pre-
sunção ideológica duradoura, compartilhada por todos, de que
essas disputas podiam e seriam finalmente resolvidas. Pois o
sistema estatal moderno não admite o reconhecimento explíci-
to de jurisdições permanentes justapostas. Como conceito, a so-
berania se baseia na lei aristotélica do terceiro excluído.

42
LUTA PELO LUCRO

Essa doutrina filosófico-jurídica definiu a responsabilidade


pelo controle dos movimentos de entrada e saída na área dos
Estados. Cada Estado tinha jurisdição formal sobre o movi-
menta de bens, dinheiro-capital e força de trabalho através de
suas fronteiras. Conseqüentemente, cada um deles podia afetar
em alguma medida a divisão social do trabalho na economia-
mundo capitalista. Além disso, mudando as regras que gover-
navam o fluxo dos fatores de produção através de suas frontei-
ras, os Estados podiam ajustar os mecanismos dessa divisão.
Costumamos discutir esses controles de fronteira nos termos
de uma antinomia: ausência total de controles (comércio livre)
ou ausência total de movimentos livres (autarquia). Na prática,
na maioria dos países e das épocas, as políticas dos Estados
têm-se situado entre os dois extremos. Além disso, elas têm sido
diferentes para os movimentos de bens, dinheiro-capital e força
de trabalho. Em geral, o movimento da força de trabalho tem
sofrido mais restrições que o movimento de bens e de dinheiro-
capital.
Do ponto de vista de um produtor situado num ponto qual-
quer da cadeia mercantil, a liberdade de movimentos é dese-
jável desde que ele seja - e enquanto ele for - competitivo
diante de outros produtores do mesmo bem no mercado mun-
dial. Quando este não é o caso, restrições de fronteira aumen-
tam os custos dos produtores rivais e beneficiam um produtor
que, sem essa assistência, seria menos eficiente. Como, por defi-
nição, em um mercado em que há muitos produtores de deter-
minado bem a maioria é menos eficiente do que a minoria, há
uma pressão constante por restrições mercantilistas contra o
movimento livre através das fronteiras. Porém, como a minoria
mais eficiente é relativamente rica e poderosa, há uma contra-
pressão constante para abrir as fronteiras ou, mais especifica-
mente, para abrir algumas fronteiras. Por isso, a primeira gran--
de disputa - uma luta feroz e permanente - se deu em torno
da politica de fronteiras dos Estados. É preciso considerar, além

43
CAPITALISMO -HISTÓRICO

disso, que qualquer conjunto de produtores (especialmente os


grandes e- poderosos) é diretamente afetado pelas políticas de
fronteira não só dos Estados em que sua base económica está
fisicamente situada (que pode ser ou não o Estado de que são
cidadãos) mas também por aquelas dos outros Estados, pois,
como produtores, eles têm interesse em alcançar objetivos polí-
ticos em vários Estados, freqüentemente em muitos. A idéia de
que é preciso conter o envolvimento político da pessoa dentro
do que ocorre em seu próprio Estado contradiz a ética daqueles
que buscam acumular capital.
Uma maneira de alterar as regras que especificam o que po-
de e o que não pode cruzar as fronteiras, e sob que condições,
era mudar as próprias fronteiras - através da incorporação de
um Estado por outro (unificação, Anschluss), da tomada do seu
território, de secessão ou de colonização. As mudanças de fron-
teira tiveram impactos diretos sobre a divisão social do traba-
lho na economia-mundo. Este foi um fato central para todos
aqueles que foram favoráveis ou se opuseram a mudanças espe-
cificas de fronteira. Mobilizações ideológicas em torno da defi-
nição de nações podem tornar mais ou menos plausíveis mu-
danças de fronteira. Isso conferiu um conteúdo económico aos
movimentos nacionalistas, na medida em que seus integrantes,
bem como os outros atores, passaram a presumir a probabili-
dade de políticas estatais específicas na seqüência das mudanças
de fronteira projetadas.
O poder estatal apresenta um segundo elemento fundamen-
tal para compreendermos as operações do capitalismo históri-
co. Trata-se do direito legal, reservado aos Estados, de determi-
naras regras que governam as relações sociais de produção no
interior de sua jurisdição territorial. Os Estados modernos se
arrogaram o direito de revogar ou emendar qualquer conjunto
de relações. Os Estados não recophecem nenhuma restrição à
sua liberdade legislativa, exceto aquelas que eles mesmos se im-
põem. Mesmo quando as constituições de Estados específicos

44
LUTA PELO LUCRO

afirmam uma lealdade ideológica insincera a restrições oriun-


das de religiões ou de doutrinas naturais, elas reservam para al-
gum órgão ou pessoa constitucionalmente definidos o direito
de interpretar essas doutrinas.
O direito de legislar sobre os modos de trabalho não é teóri-
co. Os Estados usaram esses direitos regularmente, e com fre-
qUência de maneiras que implicaram transformações radicais
nos padrões existentes. No capitalismo histórico, como era de
se esperar, os Estados legislaram para aumentar a mercantiliza-
ção da força de trabalho, abolindo várias restrições tradicionais
que limitavam o movimento dos trabalhadores de um tipo de
emprego para outro. Além disso, impuseram obrigações fiscais
(em dinheiro) à força de trabalho, as quais freqUentemente for-
çaram os trabalhadores a se engajar num trabalho assalariado.
Por outro lado, a ação legal dos Estados muitas vezes também
desencorajou a proletarização plena, impondo limitações resi-
denciais ou insistindo em que o grupo domiciliar permanecesse
responsável por certos tipos de obrigações de bem-estar social
em relação aos seus membros.
Os Estados controlaram as relações de produção. Primeiro
legalizaram, depois proibiram formas particulares de trabalho
forçado (escravidão, tarefas públicas obrigatórias, contratos de
serviço em país colonial etc.). Criaram regras para as relações
de trabalho assalariado, incluindo garantias contratuais e obri-
gações recíprocas, mínimas e máximas. Decretaram limites para
a mobilidade geográfica da força de trabalho, não só através das
fronteiras mas também dentro delas.
Todas essas decisões estatais tiveram implicações econômicas
para a acumulação de capital. Pode-se verificar isso facilmente
percorrendo o grande número de debates, registrados à medida
que foram ocorrendo, sobre alternativas e escolhas. Além disso,
os Estados despenderam energias consideráveis para impor seus
regulamentos aos grupos recalcitrantes, muito particularmente
às forças de trabalho recalcitrantes. Raramente trabalhadores ti-

45
CAPITALISMO HISTÓRICO

veram liberdade para ignorar as restrições legais que pesavam


sobre suas ações. Bem ao contrário: a rebelião dos trabalhadores,
individual ou coletiva, passiva ou ativa, geralmente provocou
pronta resposta repressiva dos aparatos estatais. Algumas vezes,
os movimentos da classe operária organizada foram capazes de
estabelecer limitações para a atividade repressiva, bem como de
garantir que as regras de governo fossem um pouco modificadas
a seu favor. Mas tais movimentos obtiveram esses resultados, em
grande parte, por causa da sua capacidade de afetar a composi-
ção política dos aparatos estatais.
Um terceiro elemento do poder dos Estados tem sido o po-
der de cobrar impostos. A taxação não foi uma invenção do ca-
pitalismo histórico; estruturas políticas anteriores também a
usaram como fonte de renda para os aparatos estatais. Mas o
capitalismo histórico alterou a cobrança de impostos de duas
maneiras diferentes. A taxação se tornou a principal (e esma-
gadora) fonte regular de renda estatal, em oposição à renda
oriunda de requisições irregulares, feitas pela força, de pessoas
situadas dentro ou fora da jurisdição formal do Estado (in-
cluindo requisições contra outros Estados). Em segundo lugar,
durante o desenvolvimento da economia-mundo capitalista, os
impostos tiveram uma expansão constante, como percentagem
do valor total criado ou acumulado. Isso quer dizer que os Esta-
dos têm sido importantes quando se observam os recursos que
controlam, pois esses recursos permitem promover a acumula-
ção de capital e, sendo redistribuídos, entram clireta ou indi-
retamente em um novo ciclo de acumulação de capital.
Cobrar impostos despertou hostilidade e resistência dentro
da própria estrutura estatal, vista como uma espécie de vilão
desencarnado que se apropria dos frutos do trabalho alheio.
O que devemos ter em mente é que havia forças fora do gover-
no pressionando para.a implantação de impostos específicos,·
pois ou bem o processo resultaria em redistribuição direta para
elas, ou permitiria ao governo Criar economias externas que re-

46
LUTA PELO LUCRO

forçariam sua posição económica, ou penalizaria outros grupos


e seria economicamente favorável àquele primeiro. Em resumo:
o poder de cobrar impostos foi um dos meios mais imediatos
através do qual o Estado ajudou o processo de acumulação de
capital em favor de alguns grupos em vez de outros.
Os poderes redistributivos do Estado têm sido discutidos
pela maioria somente em termos do seu potencial de equaliza-
ção. Este é o terreno do Estado do bem-estar. Porém, essa redis-
tribuição tem sido menos usada para fazer convergir as rendas
reais e mais amplamente usada de modo a tornar ainda mais
desigual a distribuição. São três os mecanismos principais que
aumentam essa desigualdade para acima e além da que resulta
de operações correntes do mercado capitalista.
Em primeiro lugar, através da taxação, os governos têm sido
capazes de reunir grande quantidade de capital, que têm re-
distribuído para pessoas ou grupos, já grandes detentores de
capital, através de subsídios. Os subsídios. ganharam a forma de
subvenção ou doação pura e simples, em geral sob desculpas
esfarrapadas de interesse público, envolvendo pagamentos su-
peravaliados. Mas também ganharam uma forma menosdireta:
o Estado banca os custos de desenvolvimento de certos pro-
dutos, presumivelmente amortizáveis por meio de vendas lu-
crativas posteriores.
Em segundo lugar, os governos também foram capazes de
reunir grande quantidade de capital através de canais de taxa-
ção formalmente legais e freqüentemente legítimos que acaba-
ram se tornando um prato cheio para a rapinagem ilegal em
grande escala e de facto irrestrita de fundos públicos. Esse rou-
bo, bem como seus procedimentos correlatos, tem sido uma
importante fonte da acumulação privada de capital ao longo do
capitalismo histórico.
Por último, os governos redistribuem em benefício dos ricos
quando usam o princípio da socialização do risco e da indivi-
dualização do lucro. Ao longo dà história do sistema capitalista,

47
CAPITALISMO HISTÓRICO

quanto maior o risco - e a possibilidade de perdas - mais


provável se tornou a entrada dos governos nas operações, para
evitar falências e até mesmo restituir prejuízos, de modo aevi-
tar torvelinhos financeiros.
Enquanto essas práticas de redistribuição antiigualitária têm
sido o lado vergonhoso do poder do Estado (vergonhoso no
sentido de que governos têm-se mostrado embaraçados e busca-
do manter escondidas essas atividades), a destinação de capitais
para o financiamento de investimentos sociais tem sido aberta~
mente alardeada, e sem dúvida defendida como uma função es-
sencial do Estado na manutenção do capitalismo histórico.
Gastos cruciais para reduzir os custos dos grupos de pro-
prietários-produtores -'- energia, transportes e redes de infor-
mação da economia-mundo - têm sido amplamente susten-
tados por fundos públicos. Não há dúvidas de que a maioria
das pessoas obteve algum lucro desse capital social, mas não é
verdade que todas elas tenham obtido benefícios iguais. A van-
tagem dos grandes detentores de capital é desproporcional,
enquanto o sistema de taxação que a financia tem sido muito
mais igualitário. As despesas destinadas a construir e manter o
capital social serviram para promover a acumulação de capital
e sua concentração.
Finalmente, os Estados têm monopolizado, ou buscado mo-
nopolizar, as forças armadas. Os contingentes policiais são equi-
pados para manter a ordem interna, garantindo a aceitação,
pela força de trabalho, dos papéis e recompensas a ela atribuí-
dos. Os exércitos, por sua vez, têm sido instrumentos que ga-
rantem aos produtores de um Estado a possibilidade de inter-
ferir na proteção que os outros aparatos estatais oferecem aos
seus próprios produtores, competidores dos primeiros. Este as-
pecto nos traz à última característica crucial do poder estatal.
Os tipos de poder exercidos por cada Estado têm sido seme-
lhantes, mas o grau de poder dos diferentes aparatos estatais
tem variado enormemente. Os Estados situam-se numa hierar-

48
LUTA PELO LUCRO

quia de poder que não pode ser medida nem pelo tamanho e a
coerência das suas burocracias e exércitos nem por suas for-
mulações ideológicas sobre si mesmos, mas sim por sua capaci-
dade efetiva, ao longo do tempo, de promover a concentração
do capital acumulado dentro das suas fronteiras, emcompa-
ração com a capacidade dos Estados rivais. Essa capacidade é;fe-
tiva envolve a habilidade de constranger forças militares hostis;
a habilidade de decretar medidas vantajosas em casa e de impe-
dir outros Estados de fazerem o mesmo; e a habilidade de cons-
tranger suas próprias forças de trabalho e de minar a capaci-
dade dos rivais de fazerem o mesmo. No médio prazo, o que
mede realmente a força dos Estados é o resultado económico.
O uso aberto da força pelo aparato estatal para controlar a força
de trabalho interna uma técnica cara e desestabilizadora é
mais freqüentemente um sinal de fraqueza que de força. Apa-
ratos estatais realmente fortes têm sido capazes, por diversos
meios, de controlar suas forças de trabalho através de mecanis-
mos mais sutis.
De maneiras diferentes, o Estado tem sido crucial como me-
canismo para otimizar a acumulação. Contudo, nos termos da
sua ideologia, espera-se que o capitalismo expresse a atividade
de empreendedores privados, livres da interferência dos apa-
ratos estatais. Na prática, isso nunca foi verdade em lugar ne-
nhum. É ocioso especular se o capitalismo teria florescido sem
o papel ativo desempenhado pelo Estado moderno. No capi-
talismo histórico, os capitalistas confiaram em sua capacidade
de utilizar os aparatos estatais em seu benefício, das várias ma-
neiras que esboçamos acima.
Um segundo mito ideológico foi o da soberania do Estado.
O Estado moderno nunca foi uma entidade política autónoma.
Os Estados se desenvolveram e foram formados como partes de
um sistema interestatal, ao qual correspondia um conjunto de
regras dentro das quais os Estados tinham de operar e um con-
junto de legitimações sem as quais eles não poderiam sobre-

49
CAPITALISMO HISTÓRICO

viver. Para qualquer Estado específico, o sistema interestatal re-


presentou restrições ao seu arbítrio. Essas restrições se manifes-
tam nas prátiCas da diplomacia, nas regras formais que gover-
nam jurisdições e contratos (direito internacional) e nos limites
que definem como e sob que Circunstâncias as guerras podem
ser conduzidas. Todas essas restrições se desdobram em um
sentido contrário ao da ideologia oficial de soberania. Sobe-
rania nunca quis dizer autonomia total. Pretendia indicar ape-
nas que existiam limites à interferência legítima de um aparato
estatal nas operações de outro.
As regras do sistema interestatal não foram, é claro, defini-
das por consentimento ou consenso. Dependeram da disposi-
ção e capacidade dos Estados mais fortes de impô-las, primeiro
aos Estados mais fracos e depois uns aos outros. Não nos es-
queçamos: os Estados situam-se numa hierarquia de poder.
A própria existência dessa hierarquia provê a limitação mais
importante à autonomia dos Estados. Certamente, a situação
global poderia tender ao desaparecimento puro e simples do
poder dos Estados, na medida mesma em que a hierarquia se
construiu em forma de pirâmide, em vez de platô. Essa possi-
bilidade não é hipotética, pois a dinâmica da concentração do
poder produziu impulsos recorrentes no sentido da transfor-
mação do sistema interestatal em um império-mundo.
Por que tais impulsos nunca se concretizaram no capitalis-
mo histórico? Porque a base estrutural do sistema econômico e
os interesses claramente percebidos dos principais acumulado-
res de capital são fundamentalmente opostos à transformação
da economia-mundo em um império-mundo.
Em primeiro lugar, a acumulação de capital é um jogo em
que houve incentivo constante à competição. Sempre houve
alguma dispersão das atividades produtivas mais lucrativas.
Conseqüentemente, em qualquer tempo, numerosos Estados
tenderam a possuir uma base econômica que os tornava rela-
tivamente fortes. Em segundo, os acumuladores de capital de

50
LUTA PELO LUCRO

qualquer Estado específico sempre utilizaram suas próprias es-


truturas estatais no apoio à sua acumulação. Mas eles também
precisavam controlar algumas alavancas para que servissem de
garantia contra suas próprias máquinas estatais. Se estas se tor-
nassem fortes demais, poderiam .sentir-se livres para acatar
pressões igualitárias, por razões de equilíbrio interno. Contra
essa ameaça, os acumuladores de capital precisaram dispor de
uma outra ameaça em seu favor: a de frustrar os desígnios de
seus próprios aparatos estatais através de alianças com outros
aparatos estatais. Isso só seria possível na medida em que ne-
nhum Estado dominasse tudo.
Essas considerações formam a base objetiva do chamado
equilíbriO de poder. Os numerosos Estados fortes e intermediá- .
rios do sistema interestatal sempre tenderam a manter alianças
(ou, caso necessário, a alterá-las) de maneira que nenhum Esta-
do isolado pudesse ter sucesso em conquistar todos os outros.
O fato do equilíbrio de poder ser mantido por mais de uma
ideologia politica pode ser percebido se observarmos os três
exemplos históricos em que Estados fortes lograram levar a ca-
bo um período temporário de relativo domínio, ou hegemonia,
sobre os demais. Os três exemplos são a hegemonia das Pro-
víncias Unidas (Holanda) em meados do século XVII, da Grã-
Bretanha em meados do século XlX e dos Estados Unidos em
meados do século XX.
Em cada caso, a hegemonia adveio depois da derrota dos an-
seios de conquista de algum pretendente militar (os Habsbur-
gos, a França e a Alemanha). Cada hegemonia foi selada por
uma "guerra mundial" - uma disputa militar maciça, terrestre,
altamente destrutiva e intermitente ao longo de trinta anos, en-
volvendo todas as principais potências do momento. Assim fo-
ram, respectivamente, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648),
as Guerras Napoleônicas (1792-1815) e, no século XX, os con-
flitos entre 1914 e 1945, que deveriam ser considerados como
uma única e longa "guerra mundial': Em cada caso, a vitória

51
CAPITALISMO HISTÓRICO

coube principalmente a rima potência que era marítima antes


. da "guerra mundial" e que se transformou em potência terres-
trepara ganhar a guerra contra um poder terrestre historica-
mente forte, que aparentemente tentava transformar a econo-
mia-mundo em um império-mundo.
Em cada caso, a base da vitória não foi militar. A realidade
primária era económica. Baseava-se na capacidade dos acumu-
ladores de capital, situados em certos Estados, de superar com-
petitivamente os demais em três esferas económicas principais:
produção agroindustrial, comércio e finanças. Em momentos
espedficos, os acumuladores de capital do Estado hegemónico
eram mais eficientes do que seus competidores situados em ou-
tros Estados fortes. Por isso, ganhavam mercados até mesmo na
"casa" destes últimos. Cada uma dessas hegemonias foi breve.
Elas terminaram muito mais por razões económicas que polí-
tico-militares. Em cada caso, a tripla vantagem económica -
temporária - bateu contra dois rochedos da realidade capita-
lista. Primeiro: os fatores que possibilitaram maior eficiência
económica sempre podiam ser copiados por outros - não pe-
los realmente fracos, mas pelos de força média - , e os recém-
chegados a processos económicos novos têm a vantagem de não
precisar amortizar o estoque anterior. Segundo: o poder hege-
mónico tinha o maior interesse em manter ininterrupta a: ati-
vidade económica, tendendo portanto a pacificar a força de tra-
balho com redistribuições internas. Ao longo do tempo, isso
diminuía a competitividade e destruía a hegemonia. Ademais, a
conversão do poder hegemónico em poder com enormes "res-
ponsabilidades" militares terrestres e marítimas - envolvia
um dispêndio crescente de recursos por parte do Estàdo hege-
mónico, pondo fim às situações de gastos militares baixos, ante-
riores à "guerra mundial':
O equilíbrio de poder - com suas restrições tanto aos Es-
tados fracos quanto aos fortes - não era um epifenómeno po-
lítico que pudesse ser anulado com facilidade. Ao contrário, en-

52
LUTA PELO LUCRO

raizava-se nos próprios modos de acumulação do capital no


capitalismo histórico. O equilíbrio de poder não era tampouco
um mero relacionamento entre aparatos estatais, pois os atores
internos no seio de um Estado especifico atuavam além das
suas próprias fronteiras, fosse diretamente, fosse por meio de
alianças com atores de outras paragens. Ao avaliarmos a polí-
tica de qualquer Estado, devemos considerar que a distinção
internolexterno é formal e ajuda pouco a compreender como,
de fato, as lutas políticas ocorreram. '
Quem estava lutando contra quem, na verdade? Essa não é
uma pergunta tão óbvia quanto podemos pensar, por causa das
pressões contraditórias que atuam no interior do capitalismo
histórico. A luta mais elementar, e de alguma forma a mais ób- .
via, transcorria entre. o pequeno grupo de grandes beneficiários
do. sistema e o grande gru:go de suas vítimas. Essa luta se desen-
volve sob muitos nomes e de muitas maneiras. Quando se es-
tabeleceram fronteiras claras entre acumuladores de capital e
sua força de trabalho em um Estado específico, esse fenômeno
foi denominado luta de classes entre capital e trabalho. As lutas
de classes ocorreram em dois âmbitos: o econômico (tanto no
loeus de trabalho real como no "mercado" amorfo mais amplo)
e o político. O que ocorre na esfera econômica é um conflito de
interesses imediato, lógico e direto. Quanto maior a remunera-
ção da força de trabalho, menos excedente resta como "lucro".
Este conflito foi suavizado por considerações de longo prazo e
larga escala. O acumulador particular de capital e sua força de
trabalho têm interesses comuns, contra outras parcerias seme-
lhantes à deles em outras áreas do sistema. Sob certas circuns-
tâncias, uma remuneração maior das forças de trabalho podia
retornar aos acumuladores de capital como lucro protelado,
pela presença de um poder de compra aumentado na econo-
mia-mundo. Todavia, nenhuma dessas considerações eliminou
o fato de que a divisão de um determinado excedente é uma
soma em que o ganho de um representa perda para o outro,

53
CAPITALISMO HISTÓRICO

a tensão sendo por isso forçosamente contínua, encontrando


expressão duradoura na competição por poder político no inte-
rior dos vários Estados.
Visto, contudo, como sabemos, que o processo de acumu-
lação de capital levou à sua concentração em algumas áreas
geográficas, visto que a troca desigual que o ,explica se tomou
possível pela existência de um sistema interestatal que mantém
uma hierarquia de Estados, e visto que os aparatos estatais têm
um poder relativo de alterar as operações do sistema, a luta en-
tre os acumuladores mundiais de capital e a força de trabalho
mundial também encontrou considerável expressão nos esfor-
ços realizados por vários grupos para tomar o poder no interior
de certos Estados (mais fracos), tendo em vista utilizar o poder
desses Estados contra os acumuladores situados nos Estados
mais fortes. Sempre que isso ocorreu, nos referimos a lutas an-
tiimperialistas. Não há dúvida, também neste caso, de que
a questão foi freqüentemente obscurecida pelo fato de que as
fronteiras internas de cada um dos Estados envolvidos nem
sempre coincidiam perfeitamente com o impulso subjacente de
luta de classes na economia-mundo como um todo. Alguns
acumuladores de capital no Estado mais fraco e alguns elemen-
tos da força de trabalho no Estado mais forte viam vantagens
de curto prazo em definir questões políticas em termos pura-
mente nacionais, em vez de nacionais e de classe. Mas os gran-
des movimentos "antiimperialistas" nunca foram possíveis
e por isso raramente foram alcançados objetivos limitados - se
o conteúdo de classe da luta não estivesse presente e não fosse
usado, pelo menos implicitamente, como elemento ideológico.
Também podemos observar que ó processo de formação de
grupos étnicos vincula-se integralmente com aquele da forma-
ção da força de trabalho em determinados Estados, servindo
como um código bruto de posição nas estruturas económicas.
Sempre que ocorreu de modo mais severo ou sempre que cir-
cunstâncias forçaram pressões mais agudas e de curto prazo so-

54
LUTA PELO LUCRO

bre a sobrevivência, o conflito entre acumuladores de capital e


segmentos mais oprimidos da força de trabalho ganhou a for-
ma de lutas lingliisticas-raciais-culturais, pois estas característi-
cas mantiveram alta correlação com a pertinência a uma classe.
Onde quer e sempre que isso ocorreu, tendemos a falar de lutas
étnicas ou de nacionalidade; Contudo, exatamente como no caso
das lutasantiimperialistas, elas raramente tiveram sucesso, a me-
nos que tenham sido capazes de mobilizar os sentimentos que
emergiam da luta de classes subjacente, em nome da apropriação
do excedente produzido no interior do sistema capitalista.
Apesar disso, se prestarmos atenção somente na luta de clas-
ses, por ser ela óbvia e fundamental, acabaremos perdendo de
vista uma outra luta política que absorveu pelo menos a mesma
quantidade de tempo e energia no capitalismo histórico. Pois o
sistema capitalista é um sistema que coloca os que acumulam ca-
pital uns contra os outros. A acumulação incessante exige que os
acumuladores realizem os lucros provenientes da atividade eco-
nÓmica, agindo contra os esforços competitivos de outros. Por
isso, nenhum empreendedor individual jamais póde ser mais
do que um aliado inconstante e volúvel de qualquer outro em-
preendedor, sob pena de ser eliminado do cenário competitivo.
Empreendedor contra empreendedor, setor económico con-
tra setor econÓmico, os empreendedores situados em um Es-
tado, ou grupo étnico, contra os situados em outro. A luta -
por definição, incessante - tomou muitas vezes forma politica,
precisamente por causa do papel central dos Estados na acu-
mulação de capital. Essas lutas dentro de Estados se travaram às.
vezes em torno de postos nos aparatos estatais e de políticas
estatais de curto prazo. Outras vezes, contudo, elas se deram em
torno de questões "constitucionais" mais amplas, que deter-
minam as regras que governam a condução das lutas de cur-
to prazo e a possibilidade de prevalecer uma facção ou outra.
Sempre que a natureza dessas lutas foi "constitucional", elas e:x;i-
giram maior mobilização ideológica. Nesses casos, ouvimos fa-

55
CAPITALISMO HISTÓRICO

lar de "revoluções" e "grandes reformas", e os lados perdedores


foram freqüentemente objeto de rotulações ignominiosas (im-
próprias, do ponto de vista analítico). As lutas políticas por, di-
gamos, "democracia" ou "liberdade" contra o "feudalismo" ou a
"tradição" não foram lutas das classes trabalhadoras contra o
capitalismo. Foram essencialmente lutas entre os acumuladores
de capital, travadas em nome da acumulação de capital. Não re-
presentaram o triunfo de uma burguesia "progressista" contra
estratos reacionários, mas lutas intraburguesas.
É claro, o emprego de slogans ideológicos "universalizantes':
que anunciavam o progresso, foi politicamente útiL Foi um
modo de associar a mobilização produzida pelas luta de clas-
ses com um dos lados das lutas travadas entre os acumulado-
res. Mas essa vantagem ideológica tem sido freqüentemente
uma faca de dois gumes, desatando paixões e enfraquecendo
restrições repressivas à luta de classes. Este foi um dos dilemas
permanentes dos acumuladores de capital no capitalismo his-
tórico. Ao mesmo tempo em que lutavam entre si, incessante-
mente, nas esferas econÓmica e política, o manejo do sistema os
obrigava a agir de forma solidária uns com os outros, contra
os esforços da força de trabalho para alcançar objetivos que se
opunham a todos. É isso que queríamos dizer quando mencio-
mimos as contradições no interior do sistema.
Observando que outras lutas, que não a luta de classes, ab-
sorvem grande parte da energia política despendida, muitos
. analistas concluíram que a análise de classe é de relevância dú-
bia para se compreender a luta política. É uma inferência curio-
sa. Seria mais sensível concluir que as lutas políticas não basea-
das na luta de classes, isto é, as lutas entre acumuladores por
vantagens políticas, evidenciam uma severa debilidade política
estrutural da classe dos acumuladores nas lutas de classes em
curso mundialmente.
Essas lutas políticas podem ser apresentadas de forma dife-
rente, como lutas para moldar as estruturas institucionais da

56
LUTA PELO LUCRO·

economia-mundo capitalista de modo a construir um mercado


mundial cuja operação favoreceria atores econômicos parti-
culares.· O "mercado~' capitalista nunca foi um dado, e muito
menos algo constante. Ele é uma criação que precisa ser cons-
tantemente recriada e·ajustada.
Em qualquer tempo, o "mercado" representa um conjunto
de regras ou restrições resultantes da interação complexa de
quatro conjuntos principais de instituições: os múltiplos Esta-
dos vinculados a um sistema interestatal; as múltiplas "nações",
tanto as plena,mente reconhecidas como as que lutam pelo re-.
conhecimento público (incluindo aqui as subnações, os "grupos
étnicos"), numa relação incerta e difícil com os Estados; as clas-
ses, envolvendo fronteiras ocupacionais em graus oscilantes de
consciência; e as unidades que reúnem renda em lares comuns,
que combinam pessoas engajadas em múltiplas formas de tra-
balho, obtendo renda de múltiplas fontes, numa relação difícil
com as classes.
Nessa constelação de forças institucionais, não há estrelas fi-
xas que possam servir de guia. Não houve entidades "primor-
diais" que tenham tendido a prevalecer contra as formas ins-
titucionais desejadas pelos acumuladores de capital, em aliança
e oposição com a luta da força de trabalho para resistir à apro-
priação do seu produto econômico. Ao longo do tempo, as fron-
teiras de cada ator institucional, os "direitos" que cada um foi
capaz de sustentar -legalmente e de fato variaram de região
para região da economia-mundo. Se o analista cuidadoso se
confundir ao observar esse redemoinho institucional, poderá
clarear as idéias lembrando-se de que no capitalismo histórico
os acumuladores não têm objetivos mais altos do que obter mais
acumulação. Logo, as forças de trabalho não podem ter objeti-
vos mais altos do que a própria sobrevivência e a redRção do seu
fardo. Lembrando disso, poderemos compreenderem grande
parte o sentido da história política do mundo moderno.

57
CAPITALISMO HISTÓRICO

Em particular, podemos apreciar em sua complexidade as po-


sições freqüentemente paradoxais OÚ contraditórias dos movi-
mentos anti-sistêmicos que emergiram no capitalismo histórico.
Comecemos pelo dilema mais elementar de todos. O capitalismo
histórico tem operado no interior de uma economia-mundo,
mas não no de um Estado-mundo. Bem ao contrário. Como vi-
mos, pressões estruturais conspiraram contra qualquer constru-
ção de um Estado-mundo. No interior desse sistema, temos de .
sublinhar o papel crucial dos múltiplos Estados que são as es-
truturas politicas mais poderosas, mas têm um poder limitado.
Por isso, a reéstruturação de Estados representou o caminho
mais promissor, mas ao mesmo tempo prenhe de limitações,
para melhorar a posição das forças de trabalho.
O que pretendemos dizer quando falamos de movimentos
anti-sistêmicos? A palavra movimento implica algum impulso
não guiado apenas por interesses monetários. Na verdade, pro-
testos ou insurreições espontâneos ocorreram em todos os sis-
temas históricos conhecidos. Serviram de válvulas de escape
para ódios contidos; ou algumas vezes, um pouco mais efetiva-
mente, como mecanismos que estabeleceram limites mais es-
treitos ao processo de exploração. Mas, falando em termos ge-
rais, a rebelião como técnica só funcionou na ausência de uma
autoridade central, particularmente quando as burocracias cen-
trais atravessavam fases de desintegração.
A estrutura do capitalismo histórico alterou alguns desses
dados. O fato de os Estados agirem dentro de um sistema Ínte-
restatal significava que as repercussões das rebeliões ou insur-
reições eram séntidas, freqüentemente com muita rapidez, além
dos confins da jurisdição política imediata no interior da qual
tinham ocorrido. Por isso, forças chamadas "externas" tinham
motivos fortes para vir ajudar os aparatos estatais atacados. Isso
tornou as rebeliões mais difíceis. Por outro lado, a intrusão de
acumuladores de capital, e conseqüentemente de aparatos esta-

58
LUTA PELO LUCRO

tais, na vida diária das forças de trabalho foi em geral muito


mais intensiva no capitalismo histórico do que em sistemas his-
tóricos anteriores. A acumulação incessante de capital levou a
pressões reiteradas para reestruturar a organização (e a loca-
lização) do trabalho, aumentar o montante de trabalho abso-
luto e promover a reeducação psicossocial das forças de traba-
lho. O transtorno, o desconcerto e a exploração ficaram ainda
maiores para a maior, parte das forças de trabalho do mundo.
Ao mesmo tempo, a ruptura social minou os módos conciliató-
rios de socialização. Em resumo: as motivações para se rebelar
foram reforçadas, apesar das perspectivas de sucesso terem sido
objetivamente enfraquecidas.
Esta solicitação extra produziu, no capitalismo hi~tórico,
uma grande inovação na tecnologia de rebelião: o conceito de
organização permanente. Só no século XIX começamos a ver a
criação de estruturas duradouras e burocratizadas, em suas duas
grandes variantes históricas: movimentos trabalhistas-socialistas
e movimentos nacionalistas. Ambos os tipos de movimentos
usavam uma linguagem universal, essencialmente aquela da Re-
volução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Ambos se
inspiraram na ideologia do Iluminismo: a inevitabilidade do
progresso, a emancipação humana justificada por direitos hu-
manos inerentes. Ambos reivindicavam o futuro em oposiçãO ao
passado, o novo contra o velho. Mesmo quando a tradição era
evocada, o era como base para um renascimento.
Os dois tipos de movimentos tiveram, é verdade, um foco di-
ferente, e conseqüentemente, para começar, um locus diferente.
Os movimentos trabalhistas-socialistas centravam sua atenção
nos conflitos entre trabalhadores assalariados urbanos e sem
terra (o proletariado), de um lado, e proprietários das estru-
turas econômicas nas quais eles trabalhavam (a burguesia), de
outro. Insistiam no fato de que a recompensa pelo trabalho era
fundamentalmente não igualitária, opressiva e injusta. Era natu-
ral que esses movimentos surgissem primeiro naquelas partes

59
CAPITALISMO HISTÓRICO

da economia~mundo que concentravam uma força de trabalho


industrial significativa - em particular, a Europa Ocidental.
Os movimentos nacionalistas centravam sua atenção nos
conflitos entre os numerosos "povos oprimidos" (definidos em
termos lingüísticos e/ou por características religiosas) e os
"povos dominantes" de uma dada jurisdição politica, tendo os
primeiros muito menos direitos politicos,oportunidades eco~
nómicas e formas legítimas de expressão cultural que os últi-
mos. Insistiam no fato de que a distribuição dos direitos era
fundamentalmente não igualitária, opressiva e injusta. Era na-
tural que esses movimentos surgissem primeiro naquelas re-
giões semiperiféricas da economia-mundo, como o Império
Austro~Húngaro, onde era óbvia a participação desigual dos
grupos étnicos-nacionais na hierarquia de distribuição da força
de trabalho.
Em geral, até recentemente, esses dois tipos de movimentos
se consideravam muito diferentes um do outro e às vezes até
mesmo antagónicos. As alianças entre eles eram vistas como tá-
ticas e temporárias. Contudo, desde o começo, é surpreendente
a semelhança estrutural entre ambos. Em primeiro lugar, após
consideráveis debates, tanto o movimento trabalhista-socialista
como o nacionalista tomaram a decisão básica de se tornar
organizações e a decisão decorrente de que seu objetivo políti-
co mais importante era a tomada do poder de Estado (mesmo
quando, como no caso de alguns movimentos nacionalistas, isso
implicasse a criação de novas fronteiras estatais). Em segundo
lugar, sua decisão estratégica - a tomada do poder do Estado
exigia que eles mobilizassem as forças populares com base
em uma ideologia anti-sistêmica, isto é, revolucionária. Esses
movimentos eram contra o sistema existente - o capitalismo
histórico - , que se construía sobre as desigualdades básicas -
capital-trabalho e centro-periferia -:- que eles tentavam superar.
Em um sistema desigual há sempre duas maneiras de o gru-
po rebaixado buscar se ver livre do seu rebaixamento. Ele pode

60
LUTA PELO LUCRO

tentar reestruturar O sistema, de modo que todos passem a ter


uma posição igual. Ou pode simplesmente querer se mudar
para uma posição superior, mantendo a distribuição desigual.
Não importa o quanto se concentrem em objetivos igualitários,
os movimentos anti-sistêmicos sempre incluem elementos cujo
objetivo, inicial ou final, é apenas "ascender" na hierarquia exis-
tente. Os próprios movimentos sempre tiveram consciência
disso. Contudo, tenderam a discutir este problema em termos
de motivações individuais: os de coração puro contra os traido-
res da causa. Mas, ao analisarmos a questão, observamos que os
"traidores da causà' parecem onipresentes em todos os movi-
mentos, tal como se desenvolveram historicamente, o que nos
leva a buscar explicações motivacionais estruturais.
A chave do problema pode estar na decisão estratégica bá-
sica: fazer da tomada do poder de Estado o pivô das atividades
do movimento. Essa estratégia tem duas conseqüências funda-
mentais. Na fase de mobilização, leva ambos os movimentos a
estabelecerem alianças táticas com grupos que não são "anti-sis-
têmicos", em vista de alcançar o objetivo estratégico. Essas alian-
ças modificam a estrutura dos próprios movimentos anti-sistê-
micos, mesmo na etapa de mobilização. Mais importante: em
muitos casos; a estratégia tem êxito. Muitos movimentos con-
quistaram um poder estatal, parcial ou total. Esses movimentos
bem-sucedidos viram-se então confrontados à realidade das li-
mitações do poder do Estado no seio da economia-mundo ca-
pitalista. Descobriram que o funcionamento do sistema inte-
restatal restringia o exercício do poder de maneiras que calavam
os objetivos "anti-sistêmicos" que eram sua raison d'être..
Isso parece tão óbvio que devemos nos perguntar por que
esses movimentos basearam sua estratégia em um objetivo tão
manifestamente auto destrutivo. A resposta é simples: na estru-
tura política do capitalismo histórico, eles não tinham muitas
escolhas. Parece não haver estratégias alternativas mais promis-
soras. Pelo menos, a to.mada do poder estatal prometia modifi-

61
CAPITALISMO HISTÓRICO

car lUll pOUCO O equilíbrio de poder entre os grupos contendo-


res. Quer dizer, a tomada do- poder representava uma. reforma
do sistema. E as reformas de fato melhoraram a situação, mas
sempre ao custo de fortalecer o sistema.
É possível reslUllir a obra dos movimentos anti-sistêmicos
do mundo ao longo de 150 anos como o simples fortalecimento
do capitalismo histórico através do reformismo? Não, mas isso
porque a política do capitalismo histórico foi mais do que a po-
lítica dos seus vários Estados. Também foi a política do siste-
ma interestatal. Os movimentos anti-sistêmicos existiram desde
o começo não só individualmente mas também como um to-
do coletivo, embora nunca burocraticamente organizado. (As
várias internacionais nunca incluíram a totalidade desses mo-
vimentos.) Um fator-chave para o fortalecimento de qualquer
movimento sempre foi a existência de outros movimentos.
A existência de outros movimentos representou três tipos de
apoio para qualquer movimento dado. O mais óbvio é o mate-
rial; útil, mas de pouco significado. O segundo é o apoio· diver-
sionista. Por exemplo, a capacidade de um Estado forte intervir
contra um movimento anti-sistêmico situado em um Estado
.mais fraco sempre_dependeu de quantas outras çoisas estavam
em sua agenda política imediata. Quanto mais um determinado
Estado estivesse preocupado com um movimento anti-sistêmi-
co local, menor era sua capacidade de se ocupar com movimen-
tos anti-sistêmicos distantes. O terceiro e mais fundamental
apoio se dá no nível das mentalidades. Os movimentos apren-
deram com os erros dos outros e foram estimulados pelos su-
cessos táticos dos outros. Os esforços dos movimentos afetaram
o ambiente político mundial - as expectativas, a análise das
possibilidades.
A medida que os movimentos cresceram em número e fo-
ram obtendo sucessos táticos, eles pareceram mais fortes co-
mo fenômeno coletivo. Por parecerem mais fortes, se tornaram
mais fortes. A maior força coletiva mundial serviu como obs-

62
LUTA PELO LUCRO

táculo para as tendências "revisionistas" dos movimentos no


poder de Estado nem mais nem menos que isso - , e seu
efeito de minar a estabilidade politica do capitalismo histórico
foi maior do que a soma dos efeitos de fortalecimento dosis-
tema, gerado pela tomada do poder de Estado por sucessivos
movimentos individuais.
Finalmente, um outro fator entrou em jogo. A medida que
as duas variedades de movimentos anti-sistêmicos se espalha-
ram (os trabalhistas-socialistas, a partir de uns poucos Estados
fortes para todos os outros; os nacionalistas, a partir de umas
poucas zonas periféricas para toda parte), a distinção entre os
dois tipos de movimentos se tornou crescentemente obscura.
Os movimentos trabalhistas-socialistas descobriram que temas
nacionalistas eram centrais para seus esforços de mobilização
e seu exercício do poder de Estado. E os movimentos nacio-
nalistas descobriram o inverso. Para mobilizar e governar, eles
tinham que canalizar as preocupações da força de trabalho
no sentido de uma reestruturação igualitária. A medida que os
temas começaram a se sobrepor pesadamente e os distintos for-
matos organizacionais tenderam a desaparecer ou a fundir-se
em uma estrutura única, a força dos movimentos anti -sistê-
micos, especialmente como um coletivo mundial, cresceu dra-
maticamente.
Uma das forças dos movimentos anti-sistêmicos é que eles
chegaram ao poder em grande número de Estados. Isso modifi-
cou a política no sistema-mundo. Mas essa força também era
uma fraqueza, visto que os assim chamados regimes pós-revo-
lucionários continuaram a funcionar dentro da divisão social
do trabalho do capitalismo histórico. Querendo ou não, eles
sempre operaram sob a pressão do esforço pela acumulação in-
cessante de capital. Internamente, a conseqüência política foi a
exploração continuada da força de trabalho, em muitos casos
sob uma forma talvez reduzida e melhorada. Isso redundou em
tensões internas equivalentes àquelas encontradas em Estados

63
CAPITALISMO HISTÓRICO

que não eram "pós-revolucionários': o que veio a servir, por sua


vez, como caldo de cultura para: novos movimentos anti-sistê-
mico$ no interior desses Estados. Ali, a luta pelo lucro pros-
seguiu tanto quanto em qualquer outra parte, pois, no interior
da economia-mundo capitalista, os imperativos de acumulação
operam em todos os aspectos de todo o sistema. As mudanças nas
estruturas de Estado alteraram a politica de acumulação; mas
não foram capazes de acabar com ela.
No começo deste texto, adiamos as seguintes questões: até
que ponto são reais os beneficios do capitalismo histórico? Qual
a real dimensão das mudanças na qualidade de vida? Agora,
deve estar claro que não há respostas simples para elas. "Para
quem?': devemos perguntar. O capitalismo histórico foi capaz de
criar bens materiais em escala monumental, mas criou uma de-
sigualdade igualmente monumental na distribuição da recom-
pensa. Muitos se beneficiaram enormemente, mas muitos mais
experimentaram uma redução substancial de sua renda real e de
sua qualidade de vida. Como a polarização também se expres-
sou em termos espaciais, em ,algumas áreas ela pareceu não exis-
tir. Isso também foi uma conseqüência da luta pelo lucro. A geo-
grafia do beneficio se alterou freqüentemente, mascarando ,a
realidade da polarização. Mas, no conjunto do espaço-tempo
abrangido pelo capitalismo histórico, a acumulação incessante
de capital representou um crescimento da brecha real.

64
A VERDADE COMO ÓPIO:
RACIONALIDADE E RACIONALIZAÇÃO

O CAPITALISMO HISTÓRICO foi prometéico em suas aspirações.


Embora mudanças científicas e tecnológicas tenham sido uma
constànte na atividade humana, só com o capitalismo histórico
Prometeu, sempre presente, foi "desacorrentado", na frase de
David Landes. Generalizou-se a imagem de que a G:ultura cien-
tífica do capitalismo histórico foi proposta por nobres 'cavalhei-
ros que enfrentaram a resistência obstinada das forças da cultu-
ra não cientifica "tradicional". No século XVII, Galileu contra a
Igreja; no século XX, o "modernizador" contra o mullah. Em to-
dos os casos, fala-se de "racionalidade" versus "superstição", de
"liberdade" versus "opressão intelectual': Presume-se que o pro-
cesso foi paralelo (ou mesmo idêntico) à revolta do empreende-
dor burguês contra o senhor de terras aristocrático no âmbito
da economia política.
A imagem de uma luta cultural mundial teve uma premis-
sa oculta, uma premissa de temporalidade. Presumia-se que a
"modernidade" fosse nova, ao passo que a "tradição" seria ve-
lha, anterior; em algumas versões fortes da imagem, a tradição
era a-histórica, virtualmente eterna. Essa premissa era histori-
camente falsa e fundamentalmente equívoca. As múltiplas cul-
turas, as múltiplas "tradições" que floresceram no interior das
fronteiras espaço-temporais do capitalismo histórlco não eram
mais originais do que as múltiplas estruturas institucionais. Em
grande parte, elas são criações do mundo moderno, integram
sua construção ideológica. É claro, existiram vínculos das várias
"tradições" com grupos e ideologias anteriores ao capitalismo.
histórico, no sentido de que freqüentemente foram construídos
com materiais históricos e intelectuais já existentes. Além disso,
a afirmação desses vínculos trans-históricos desempenhou im-
portante papel na coesão dos grupos em suas lutas políticas e

65
CAPITALISMO HISTÓRICO

económicas no seio do capitalismo histórico. Porém, se quiser-


mos compreender as formas culturais dessas lutas, não pode-
mos nos dar ao luxo de tomar essas "tradições" pelo seu valor
nominal; Particularmente, não podemos afirmar que as "tradi-
ções" são, de fato, tradicionais.
Forças de trabalho foram criadas nos lugares certos, com os
níveis mais baixos possíveis de remuneração, no interesse dos
que desejavam facilitar a acumulação de capital. Já discutimos
como a criação de unidades domiciliares nas quais o trabalho
assalariado desempenhava um papel secundário como fonte de
renda possibilitou níveis inferiores de pagamento nas atividades
económicas periféricas da economia mundial. Uma maneira
,como essas unidades domiciliares foram "criadas", isto é, pres-
sionadas a se estruturar por si mesmas, foi a "etnização" da vida
comunitária no capitalismo histórico. Com a expressão "grupos
étnicos~ queremos dizer o seguinte: grupos dimensionáveis de .
pessoas para as quais se reserva um certo papel ocupacionall
. '
económico, em relação a outros grupos vivendo na proximi-
dade geográfica. A simbolização externa de uma tal alocação da
força de trabalho é a "cultura" distintiva do grupo étnico - sua
religião, sua língua, seus "valores", seu conjunto particular de
padrões de comportamento cotidiano.
É daro, não estou sugerindo que no capitalismo histórico
exista algo como um perfeito sistema de castas. Porém, desde
que utilizemos categorias ocupacionais suficientemente amplas,
estou sugerindo que há, e sempre houve, alta correlação entre
etnicidade e papel ocupacional/económico nas várias áreas es-
paço-temporais do capitalismo histórico. Também estou suge-
rindo que essas localizações da força de trabalho têm variado
ao longo do tempo, e que à medida que variaram, variou tam-
bém a etnicidade, em termos das fronteiras e dos traços cultu-
rais característicos do grupo; e mais, quase não há correlação
entre a atuallocalização da força de trabalho étnica e seus su-

66
RACIONALIDADE E RACIONALIZAÇÃO

postos ancestrais que viveram em períodos anteriores· ao capi-


talismo histórico.
A "etnização" da força de trabalho teve três conseqüências
importantes para o funcionamento da economia-mundo. Em
primeiro lugar, possibilitou a reprodução da força de trabalho,
não no sentido de prover renda suficiente para a sobrevivência
dos grupos, mas no de prover quantidades suficiel?-tes de traba-
lhadores em cada categoria, com expectativas de renda manti-
das em níveis apropriados, tanto em termos dos montantes to-
tais quanto das formas que assumiria a renda domiciliar. Além
disso, precisamente por ser "etnicizada", a localização da força
de trabalho ficou flexíveL A etnicidade gerou mais mobilidade
geográfica e ocupacional em grande escala, não menos. Sob a
pressão de condições econômicas em constante modificação,
para mudar a localização da força- de trabalho bastava que al-
guns ~divíduos empreendedores de um grupo étnico levassem
adiante um reassentamento geográfico ou ocupadonal e fossem
recompensados por isso; isso exercia uma "influência" natural
sobre os outros membros do grupo, no sentido de transferirem
sua localização na economia-mundo.
Em segundo lugar, a "etnização" propiciou um mecanismo
intrínseco de treinamento da força de trabalho, garantindo que
grande parte da socialização nas tarefas ocupadonais fosse de-
sempenhada no interior de unidades domiciliares etnicamen-
te definidas, e não à custa de Estados ou de empregadores de
assalariados.
Em terceiro lugar, e provavelmente o mais importante, a
"etnização" trouxe embutida uma hierarquização de papéis eco-
nômicos, propiciando um código fácil de distribuição global de
renda revestido com a legitimação da "tradição".
Essa terceira conseqüência, elaborada de maneira mais deta-
lhada, formou um dos alicerces do capitalismo histórico, o ra-
cismo institucional. O que queremos dizer com racismo tem
pouco a ver com a xenofobia que existiu em vários sistemas his-

67
CAPITALISMO HISTÓRICO

tóricos anteriores. A xenofobia era; literalmente, medo do "es-


trangeiro': No capitalismo histórico, o racismo nada tem a ver
com "estrangeiros". Ao contrário. O racismo foi o modo como
vários segmentos da força de trabalho foram obrigados a se re-
·lãcionar uns cornos outros no interior de uma mesma estru-
tura económicà. O racismo é a.justificativa ideológica da hie-
rarquização da força de trabalho e da distribuição, altamente
desigual, da recompensa. O racismo é o conjunto de afirmações
ideológicas combinado com o conjunto de práticas duradouras
que resultaram em manter, ao longo do tempo, uma alta corre~
lação entre etnicidade e localização da força de trabalho. Essas
afirmações ideológicas se manifestam sob a forma de alegações,
segundo as quais traços genéticos ou «culturais" duradouros de
vários grupos seriam a causa principal da sua localização dife-
renciada em posições da estrutura económica. Contudo, a cren-
ça de que certos grupos eram "superiores" a outros em traços
relevantes para o desempenho econômico sempre se firmou
depois, e não antes, da localização desses grupos na força de
trabalho. O racismo sempre foi pós-hoc. Afirmou-se que os que
foram económica e politicamente oprimidos são culturalmen-
te "inferiores". Se o lo cus da hierarquia econômica mudasse
por alguma razão, o locus da hierarquia social tendia a acom-
panhá-lo (após um lapso; certamente, pois sempre se necessita
de uma geração ou duas para erradicar os efeitos de uma so-
cialização anterior).
O racismo tem sido uma ideologia abrangente para justifi-
car a desigualdade. Mas tem sido mais. Serve para que gru-
pos sejam socializados dentro dos papéis que devem ocupar
na economia. As atitudes inculcadas (os preconceitos, os com-
portamentos abertamente discriminatórios no dia-a-dia) ser-
viram para estabelecer condutas individuais apropriadas e le-
gitimadas, oc:upando diferentes posições na unidade domiciliar
e no grupo étnico. O racismo, como o sexismo, funcionou co-
mo uma ideologia que cria e delimita expectativas.

. 68
RACIONALIDADE E RACIONALIZAÇÃO

o racismo não é somente auto.-restritivo. É opressivo. Serve


para manter na linha os grupos de baixo escalão e utilizar os de
escalão médio como soldados não remunerados do aparato po-
licial mundial. Assim, não só os custos financeiros das estruturas
policiais foram significativamente reduzidos, mas a capacidade
dos grupos anti-sistêmicos de mobilizar amplas populações foi
obstaculizada, pois o racismo joga vítima contra vítima.
O racismo não é um fenômeno simples. É, em um sentido,
uma linha de demarcação, excluindo status relativos no sistema
mundial como um todo. Tal foi a fronteira da "coi'. O "branco",
ou superior, era um fenômeno social, é claro, e não fisiológico,
como fica evidente pela posição historicamente cambiante, nas
"fronteiras de cor" mundial (nacional) e socialmente definidas,
de grupos como os europeus meridionais, os árabes, os mesti-
ços latino-americanos, os asiáticos do leste. '
Era fácil utilizar a etiqueta da cor (ou da fisiologia), pois é
difícil disfarçá-la. Até onde foi historicamente conveniente, da-
das as origens do capitalismo histórico na Europa, ela foi utili-
zada. Sempre que deixou de ser conveniente, foi descartada ou
modificada em favor de outras características identificadoras.
Em muitos lugares, o conjunto de marcas de identificação se
tornou muito complexo por causa disso. Se considerarmos o
fato de que a divisão social do trabalho está em evolução cons-
tante, revela-se que a identificação étnica/racial constitui uma
base muito instável para delinear as fronteiras dos grupos so-
ciais existentes. Os grupos vão e vêm, alterando com conside-
rável facilidade as definições que fazem de si mesmos (com a
mesma facilidade, são percebidos pelos outros como tendo
fronteiras diferentes). Mas a volatilidade de qualquer fronteira
de grupo não é contraditória com a permanência de uma hie-
rarquia global entre os grupos; ao contrário, é provavelmente
1
uma função dela, da "etnização" da força de trabalho mundial.
O racismo foi um pilar cultural do capitalismo histórico.
O vazio intelectual em que se move não impediu que desenca-

69
CAPITALISMO HISTÓRICO

deasse terríveis crueldades. Entretanto, haja vista o surgimento


dos movimentos anti-sistêmicos mundo afora nos últimos cin-
qüenta ou cem anos, mais recentemente o racismo tem sofrido
alguns ataques severos. Sem dúvida, as variantes mais cruas de
racismo sofrem hoje uma certa deslegitimação no âmbito mun-
dial. Mas o racismo não foi o único pilar ideológico do capita-
lismo histórico. Ele foi importante para criar forças de trabalho
apropriadas, mas não .foi suficiente para permitir a acumula-
ção incessante do capital. Não se pode esperar que as forças de
trabalho pudessem ser eficientes e permanentes, a menos que
fossem administradas por dirigentes. E dirigentes também têm
de ser criados, socializados, reproduzidos. A ideologia primária
que operou para criá-los, socializá-los e reproduzi-los não foi a
ideologia do racismo, mas a do universalismo.
O universalismo é uma epistemologia. É um conjunto de
crenças sobre o que pode ser conhecido e como pode ser· co-
nhecido. A essência desse ponto de vista é a seguinte: há afirma-
ções gerais significativas sobre o mundo o mundo físico, o
. mundo social- que são universais e permanentemente verda-
deiras; o objeto da ciência seria buscar essas afirmações gerais,
de modo a eliminar de sua formulação todos os assim chama-
dos elementos subjetivos, isto é, historicamente limitados.
A crença no universalismo é a pedra fundamental do arco
ideológico do capitalismo histórico. Tanto quanto uma episte-
mologia, <.? universalismo é uma fé. Exige respeito e reverência
em relação a uma verdade indefinida, mas pretensamente real.
As universidades foram as oficinas da ideologia e os templos da
fé. Harvard ostenta Veritas em seu escudo. Sempre se afirmou
que é impossível conhecer uma verdade definitiva.,- suposta-
mente, isso distingue a ciência moderna e a teologia medieval
ocidental - , mas também se afirmou que a busca da verdade
era araison d'être da universidade e, mais amplamente, de toda
atividade intelectual. Para justificar a arte, Keats disse que "ver-
dade é beleza, beleza é verdade". Nos Estados Unidos, uma das

70
RACIONALIDADE E RAClONALIZAÇÃO

justificativas preferidas para as liberdades civis é que a verdade


só pode ser conhecida como resultado da interação que ocorre
no "mercado livre de idéias'~ .
Como ideal cultural, a verdade funcionou· como um ópio,
talvez o único ópio sério do mundo moderno. Karl Marx disse
que a religião era o ópio do povo.. Raymond Aron respondeu
dizend~ que as idéias de Marx eram, por sua vez, o ópio dos in-
telectuais. Há perspicácia em ambas as observações polêmicas.
Mas, perspicácia é verdade? Gostaria de sugerir que a verdade
tem sido o verdadeiro ópio, tanto das 'massas quanto dos inte-
lectuais. O ópio, certamente, nem sempre é mau. Ele possibilita
escapar quando as pessoas temem que o confronto com a dura
realidade só possa precipitar perdas ou decadências inevitáveis.
Todavia, a maioria de nós não recomenda os opiáceos. Nem
Marx nem Raymond Aron o fizeram. Na maioria dos Estados e
para a maioria das propostas, ele é ilegal.
Nossa educação coletiva nos ensinou que a busca da verdade
é uma virtude desinteressada, mas isso é apenas uma raciona-
lização cheia de interesses. A busca da verdade, pedra funda-
mental prodamada do progresso e do bem-estar, tem sido no
mínimo pouco coerente com a manutenção de uma estrutura
social hierárquica e desigual em certo número de aspectos. Os
processos envolvidos na expansão da eConomia mundial capi-
talista a "periferização" de economias, a criação de estrutu-
ras estatais frágeis que participam no sistema interestatal e são
constrangidas por ele - implicaram uma certa quantidade de
pressões no plano cultural: proletarização cristã, imposição das
línguas européias, educação em tecnologias e Costumes espeCí-
ficos, alterações de códigos legais. Muitas dessas mudanças
foram feitas à força. Outras foram levadas adiante pela persua-
são de "educadores" cuja autoridade, em última análise, tam-
bém se apoiava na força militar. A esse complexo de processos
às vezes chamamos "ocidentalização" ou, mais arrogantemente,
"modernização': legitimada pela desejável vantagem de parti-

71
CAPITALISMO HISTÓRICO

lhar tanto OS frutos do universalismo quanto a fé na ideologia


que o acompanha.
Houve dois motivos principais por trás dessas mudanças
culturais impostas. Um foi a eficiência económica. Para que se
possa esperar que certo número de pessoas se comportem de
certa maneira no âmbito da economia, é preciso ensinar as nor-
mas culturais requeridas e erradicar as normas culturais com-
petidoras. O segundo motivo foi a segurança política. Acredita-
va-se que se as assim chamadas elites das zonas periféricas se
"ocidentalizassem", se separariam de suas "massas" e estariam
menos propensas a se revoltar - ademais, seriam menos capa-
zes de arregimentar seguidores para suas revoltas.~ Isso se reve-
lou um monumental erro de cálculo, mas é plausível que tenha
funcionado por um tempo. (Um terceiro motivo terá sido a.in-
solência e arrogância dos conquistadores. Eu não desprezo este
fator, mas não é necessário evocá-lo entre as pressões culturais,
que teriam sido semelhantes mesmo na sua ausência.)
O racismo serviu como mecanismo de controle mundial dos
produtores diretos, enquanto o universalismo serviu para diri-
gir as atividades da burguesia de outros Estados e de váriqs es-
tratos médios mundo afora para canais capazes de maximizar
a integração dos processos de produção e tornar mais suave a
operação do sistema interestatal, facilitando assim a acumula-
ção de capital. Para tal, era necessário criar uma estrutura.cul-
tural burguesa mundial, passível de ser enxertada nas variações
"nacionais': Isso foi particularmente importante em termos de
ciência e tecnologia, mas também no espaço das idéias políticas
e das ciências sociais.
O conceito de uma cultura universal "neutra" pela qual os
gerentes da divisão mundial do trabalho seriam "assimilados" .
(aqui, a voz passiva é importante) passou a servir como um dos
pilares do sistema mundial, tal como evoluiu historicamente.
A exaltação do progresso e posteriormente da "modernização"
sintetizava esse conjunto de idéias, que serviam menos como

72
RACIONALIDADE E RACIONALIZAÇÃO

normas verdadeiras de ação social do que como símbolo de um


status de obediência e participação no estrato superior do mun-
do. A ruptura com a base religiosa do conhecimento, supos-
tamente estreita, em favor de bases científicas transculturais de
conhecimento serviu como autojustificativa para uma forma
particularmente perniciosa de imperialismo cultural. Ela domi-
nou em nome da liberação intelectual e se impôs em nome do
ceticismo.
O processo de racionalização, central para o capitalismo,
exigiu a criação de um estrato intermediário que abrangesse os
especialistas dessa racionalização, como administradores, téc-
nicos, cientistas e educadores. A própria complexidade não só
da tecnologia mas do sistema social tornou essencial que esse
estrato fosse grande e, com o tempo, passível de ampliação. Os
recursos usados para sustentá-lo foram tirados do excedente
global, extraído por empreendedores e Estados. Neste sentido
- elementar, mas fundamental - , esses gerentes são parte da
burguesia, e sua reivindicação de participar na partilha do exce-
dente ganhou forma ideológica precisa no conceito, - do sé-
culo xx: de capital humano. Tendo pouco capital para trans-
mitir como herança aos membros da sua família, esses gerentes
buscaram assegurar sua sucessão garantindo o acesso preferen-
cial dt; seus filhos aos canais educacionais que afiançam sua po-
sição. Esse acesso foi apresentado como uma realização, pre-
tensamente legitimada por uma "igualdade de oportunidades"
estreitamente definida.
Assim, a cultura científica se tornou o código fraternal dos
acumuladores de capital do mundo. Serviu em primeiro lugar
para justificar tanto suas próprias ,atividades como as recom-
pensas diferenciadas de que usufruíam. Promoveu a inovação
tecnológica. Legitimou a eliminação impiedosa de todas ,as bar-
reiras à expansão eficiente da produção. Gerou uma forina de
progresso que seria benéfico para todos - se não imediata-
mente, pelo menos no fim.

73
CAPITALISMO HISTÓRICO

Mas a cultura cientifica é mais do que uma racionalização.


Ela foi a forma de socialização dos gerentes das estruturas insti-
tucionais necessárias. Como sua lingua comum - não direta-
menteacessíve1 à força de trabalho - , ela também se tornou
um meio de coesão de classe para os estratos superiores, limi-
tando as perspeCtivas ou a amplitude de eventuais atividades
rebeldes por parte dos gerentes que pudessem sentir-se tentados
a isso. Foi também um mecanismo flexível para a reprodução
desses gerentes. Ela se prestou ao conceito hoje conhecido como
"meritocracià' e anteriormente como "carreira aberta aos talen-
tos': A cultura científica criou unia estrutura no interior da qual
a mobilidade individual é possível sem ameaçar a estrutura hie-
rárquica dà organização da força de· trabalho. Ao contrário, a
meritocracia reforça a hierarquia. Finalmente, a meritocracia
como operação e a. cultura científica como ideologia criaram
. véus que obstruíam a percepção das operações subjacentes do
capitalismo histórico. A ênfase na racionalidade da atividade,
cientifica serviu para mascarar a irracionalidade da acumulação
incessante.
O universalismo e o racismo podem parecer doutrinas con-
traditórias, se não virtualmente antagónicas: uma aberta, a ou-
trafechada; uma igualitária, êl outra polarizadora; uma convi-
dando ao discurso racional, a outra a encarnar o preconceito.
Contudo, visto que essas doutrinas se disseminaram e preva-
leceram lado a lado.na evolução do capitalismo histórico, pre-
cisamos observar com cuidado de que modos podem ter sido
compatíveis.
O universalismo tem uma peculiaridade. Ele não abriu seu
caminho como uma ideologia flutuante, mas como o discurso
dos que detinham o poder económico e político no sistema
mundial do capitalismo histórico. Assim, o universalismo foi
oferecido ao mundo como um presente dos poderosos para os
fracos. Tímeo Danaos et dona ferentes! Mas o próprio presente

74
RACIONALIDADE E RACIONALIZAÇÃO

abrigava um certo racism.o, pois deixava duas opções aos que o


recebiam: aceitá-lo; aceitando desse modo a existência dos que
estavam situados na parte baixa da hierarquia do saber; recusá~
lo, recusando assim uma arma capaz de reverter a situação de-
sigual de poder.
Não é de se estranhar que mesmo os gerentes que estavam
sendo cooptados pelo privilégio fossem ambivalentes diante da
mensagem do universalismo, vacilando entre a adesão entusiás-
tica e uma rejeição cultural causada por aversão a presunções
racistas. Essa ambivalência se expressou em múltiplos movi-
mentos de "renascimento" cultural. A própria palavra renasci-
mento, amplamente utilizada em muitas áreas,encarnava essa
ambivalência. Ao usá-la, afirma-se a glória de uma era cultural
anterior, mas também se reconhece a inferioridade cultural do
momento presente: A palavra renascimento foi copiada da his-
tória cultural européia.
Pode-se pensar que as forças de trabalho do mundo fossem
mais imunes a essa ambivalência, pois nunca foram chamadas a
cear à mesa dos senhores. Na realidade, contudo, as expressões
políticas das forças de trabalho mundiais, os movimentos anti-
sistêmicos, têm estado impregnados da mesma ambivalência.
Como observamos, eles adotaram a ideologia do Iluminismo,
ela própria, na origem, um produto da ideologia universalista.
Por conseguinte, estenderam para si a armadilha cultural em
que estão presos desde então: tentam minar o capitalismo his-
, tórico usando estratégias e estabelecendo objetivos de médio
prazo decorrentes das "idéias das classes dominantes" que bus-
cam destruir.
Desde o começo, a variante socialista dos movimentos anti-
sistêmicos sempre foi comprometida com o progresso cientifi-
co. Desejoso de se distinguir de outros que ele mesmo criticou
como "utópicos': Marx afirmou estar defendendo o "socialismo
científico". Seus escritos enfatizaram as maneiras como o capi-
talismo era "progressista': O conceito de que o socialismo surgi-

75
CAPITALISMO HISTÓRICO

ria primeiro nos países mais "avançados" sugeria um progresso


mediante o qual o socialismo se desenvolveria a partir do (e em
contraposição ao) avanço do capitalismo. A revolução socialista
emularia e viria depois da "revolução burguesa". Alguns teóricos
posteriores chegaram a argumentar que era dever dos socialis-
tas apoiar a revolução burguesa naqueles países em que ela ain-
da não tivesse ocorrido.
As diferenças posteriores entre a Segunda e a Terceira In-
ternacionais não envolviam qualquer discordância sobre essa
epistemologia, que ambas partilhavam. Tanto os social demo-
cratas quanto os comunistas no poder tenderam a dar grande
prioridade ao desenvolvimento dos meios de produção. O slo-
gan de Lenin "socialismo é igual a sovietes mais eletricidade"
figurava em enormes faixas nas ruas de Moscou. Na medida em
que esses movimentos socialdemocratas e comunistas - ,
uma vez no poder, implementaram os slogans de Stalin "socia-
lismo em um só país", eles passaram a promover a mercantiliza-
ção de tudo, que tinha sido essencial para a acumulação global
de capital. Na medida em que permaneceram no seio do siste-
ma interestatal e lutaram contra todos aqueles que tentaram
expulsá-los - , eles aceitaram e promoveram" a realidade mun-
dial do domínio da lei do valor. O "homem socialista" tinha a
suspeita aparência de um taylorismo irrefreável.
Houve, é claro, ideologias "socialistas" que pretenderam re-
jeitar o universalismo e o Iluminismo, defendendo algumas va-
riedades "indígenas" de socialismo nas áreas periféricas da eco-
nomia-mundo. Na medida em que essas formulações foram
mais do que mera retórica, elas pareceram tentativas de usar,
como unidade de base do processo de mercantilização, não as
novas unidades domiciliares que compartilham a renda, mas
entidades comunais mais amplas, que eram e isso fazia parte
do argumento mais tradicionais. No fim das contas, essas
tentativas, quando sérias, se revelaram infrutíferas. De qualquer
modo, a tendência dominante no mundo dos movimentos so-

76
RACIONALIDADE E RACIONALIZAÇÃO

cialistas foi criticar essas tentativas como não socialistas, como


formas de nacionalismo cultural retrógrado.
A primeira vista, por atribuir centralidade a temas separatis-
tas, a variedade nacionalista dos movimentos anti -sistêmicos
parecia menos comprometida com a ideologia do universalis-
mo. Porém, um exame mais cuidadoso desmente essa impres-
são. O nacionalismo tem um componente cultural que movi-
mentos particulares reivindicaram em nome do fortalecimento
das "tradições" nacionais, isto é, uma língua nacional e freqüen-
temente uma herança religiosa. Mas era o nacionalismo cul-
tural uma forma de resistir às pressões dos acumuladores de ca-
pital? Na verdade, os dois elementos principais do nacionalismo
cultural se moviam em direções opostas. Primeiro, a unidade
escolhida como veículo para conter a cultura tendeu a ser o
Estado, que era membro do sistema interestatal. O mais fre-
qüente era vermos esse Estado investido e encarregado da cul-
tura "nacional'~ Em praticamente todos os casos, isso envolveu
uma distorção, freqüentemente muito severa, das continuida-
des culturais. Em quase todos os casos, a afirmação de uma cul-
tura nacional enquadrada pelo Estado implicou supressão, tan-
to quanto reafirmação, de continuidades. Em todos os casos, as
estruturas do Estado saíram fortalecidas, e com elas o sistema
interestatal e o capitalismo histórico como sistema mundial.
Em segundo lugar, um exame comparativo das afirmações
culturais de todos esses Estados deixa claro que, apesar de va-
riarem na forma, eles tendem a ser idênticos no conteúdo. Os
morfemas das linguas eram diferentes, mas o vocabulário co-
meçou a convergir. Os rituais e teologias das religiões do mun-
do podem ter se fortalecido todos, mas seus conteúdos come-
çaram a ser menos diferentes entre si. E os antecedentes do
cientificismo foram redescobertos sob muitos nomes diferentes.
Em resumo, grande parte do nacionalismo cultural foi uma
gigantesca charada. Mais do que isso, assim como a "cultura
socialista': o nacionalismo cultural freqüentemente sustentou a

77
CAPITALISMO HISTÓRICO

ideologia universalista do mundo moderno, apresentando-a às


forças de trabalho de maneiras que estas pudessem achá-la mais
palatável. Neste sentido,· os movimentos anti-sistêmicos servi-
ram como intermediários culturais dos poderosos diante dos
fracos, viciando- em vez de consolidar suas fontes de resis-:c
tência mais enraizadas.
Articuladas, as contradições inerentes à estratégia de toma-
da do Estado e a aceitação tácita da epistemologia universalista
produziram sérias conseqüências para os movimentos anti-sis-
têrnicos. Eles tiveram de lidar crescentemente com o fenóme-
no da desilusão, para o qual sua principal resposta ideológica
tem sido a reafirmação da justificativa central do capitalismo:
o caráter automático e inevitável do progresso, ou como era
popular dizer na ex-União Soviética, a "revolução científico-
tecnológica".
No século XX, e com veemência crescente desde a década de
1960, o tema do "projeto civilizacional'~ como Anouar Abdel-
Malek gosta de chamá-lo, começou a ganhar força. Para muitos,
a nova linguagem de "alternativas endógenas" servia como va-
riante verbal dos velhos temas culturais nacionalistas e univer-
salizantes; para outros, havia no tema um conteúdo epistemo-
lógico genuinamente novo. O "projeto civilizacional" reabriu a
questão de saber se verdades trans-históricas de fato existiam.
Uma forma de verdade, que refletia as correlações de força e os
imperativos económicos do capitalismo histórico, floresceu e
permeou o planeta. Isso é verdade, como vimos. Mas, quanta
luz essa forma de verdade terá projetado sobre o processo de
declínio desse sistema histórico, ou sobre a existência de alter-
nativas reais ao sistema histórico baseado na acumulação inces-
sante de capital? Eis a questão.
Essa forma mais nova de resistência cultural tem uma base
material. Ao longo do tempo, as sucessivas mobilizações dos
movimentos anti-sistêmicos do mundo recrutaram um número
cada vez maior de elementos económica e politicamente mais

78
RACIONALIDADE E RACIONALIZAÇÃO

marginais ao funcionamento do sistema e menos aptos a usu-


fruir, mesmo que eventualmente, do excedente acumulado. Ao
mesmo· tempo, as sucessivas desmistificações desses movimen..;
tos minaram a reprodução, da ideologia universalista no seu in-
terior. Eles começaram a se abrir para aqueles que questionavam
mais asperamente as suas premissas. Comparado com o perfil
da militância dos movimentos anti-sistêmicos do mundo de
1850 até 1950, seu perfil passou a abranger, a partir de 1950,
mais áreas periféricas, mais mulheres, mais grupos "minoritá-
rios" (das mais diferentes definições) e uma parcela maior do se-
tor menos qualificado e menos remunerado da força de traba-
lho. Isso foi verdade tanto no mundo como um todo quanto no
interior dos Estados, tanto nas bases militantes como nas lide-
ranças. Tal deslocamento da base social não poderia ocorrer sem
alterar as escolhas dos movimentos anti-sistêmicos do mundo.
Até aqui, tentamos descrever como o capitalismo operou de
fato como sistema histórico. Mas sistemas históricos são apenas
isso: históricos. Eles surgem e finalmente deixam de existir, em
conseqüência de processos que exacerbam as contradições in-
ternas e produzem uma crise estrutural. Crises estruturais são
maciças. Levam tempo para se exaurir. O capitalismo histórico
entrou em sua crise estrutural no começo do século XX e pro-
vavelmente morrerá, como sistema histórico, no próximo sé-
culo. É difícil prever o que acontecerá. O que podemos fazer
agora é analisar as dimensões da crise estrutural e tentar perce-
ber para que direções a crise sistémica está nos levando.
O primeiro e talvez mais fundamental aspecto dessa crise
é que estamos perto de mercantilizar tudo. O capitalismo his-
tórico está em crise porque, perseguindo a acumulação in-
cessante de capital, começa a se aproximar daquele estado que
Adam Smith afirmou ser "natural" para o homem mas que
nunca existiu historicamente. A "propensão [da humanidade J
a negociar, barganhar e trocar uma coisa por outra" penetrou
em domínios e zonas antes intocados, e a pressão para expandir

79
CAPITALISMO HISTÓRICO

a mercantilização tornou-se praticamente irrestrita. Marx refe-


riu-se ao mercado como um "véu" que oculta as relações de
produção. Isso era verdade em certo sentido: comparando-se
com a apropriação direta: e local do excedente, a apropriação
indireta e extralocal, pelo mercado, é mais difícil de discernir
e, por isso, de ser politicamente combatida pelas forças de tra-
balho do mundo. Mas o "mercado" opera nos termos de uma
medida geral quantitativa, o dinheiro. Isso explicita, em vez de
mistificar, o quanto está sendo apropriado. Mas, como uma es-
pécie de rede de segurança política, os acumuladores de capital
contavam que só uma parte do trabalho fosse mensurado de§sa
forma. Na medida em que a força de trabalho é cada vez mais
mercantilizada e as unidades domiciliares se tornam cada vez
mais um elo das relações mercantis, o fluxo de excedente se tor-
na cada vez mais visível. Por isso, mobilizam-se cada vez mais
contrapressões politicas e a estrutura da economia se torna, ca-
da vez mais, um alvo direto de mobilização. Longe de acelerar a
proletarização, os acumuladores de capital tentam retardá-la.
Mas não podem fazê-lo inteiramente, por causa dos seus pró-
prios interesses contraditórios, já que são ao mesmo tempo em-
preendedores individuais e membros de uma classe.
Esse tem sido um processo estável e incessante, impossível de
conter enquanto a economia for guiada pela acumulação per-
manente de capital. O sistema pode prolongar sua vida reduzin-
do o ritmo de algumas atividades que o estejam desgastando,
mas a morte permanecerá à espreita no horizonte.
Uma das maneiras usadas pelos acumuladores de capital para
prolongar a vida do sistema foi introduzir restrições ao seu fun-
cionamento. Os movimentos anti-sistêmicos foram empurrados
para criar organizações centradas na estratégia de tomar o poder
de Estado. Eles não tinham escolha, mas sua estratégia está fada-
da a desaparecer, pelo curso natural dos acontecimentos.
Como vimos, as contradições dessa estratégia podem ter
gerado por si mesmas uma crise na esfera política. Esta, po-

80
RACIONALIDADE E RACIONALIZAÇÃO

rém, não seria uma crise do sistema interestatal, que continua


a funcionar muito bem em sua missão primária de manter a
hierarquia e conter os movimentos de oposição. A crise política
em questão é a crise dos próprios movimentos anti-sistêmicos.
Como a distinção entre os movimentos socialistas e naciona-
listas come.çou a se diluir, e como um número cada vez maior
desses movimentos alcançou a tomada do poder de Estado
(com todas as suas limitações), a coletividade mundial dos mo-
vimentos os forçou a reavaliar todas as lealdades definidas a
partir de análises feitas no século XIX. Assim como o sucesso
dos acumuladores em acumular criou uma mercantilização de-
masiada que ameaça o sistema, também o sucesso dos movi-
mentos anti-sistêmicos em tomar o poder fortaleceu o sistema,
que ameaça romper-se por causa da aceitaçãO, pelas forças de
trabalho do mundo, dessa estratégia autolimitadora.
Finalmente, a crise é cultural. A crise dos movimentos anti-
sistêmicos, o questionamento da sua estratégia básica, está le-
vando a um questionamento das premissas da ideologia univer-
salista. Este processo está em curso em dois âmbitos distintos:
há movimentos que, pela primeira vez, buscam a sério alterna-
tivas em termos de civilização; e na vida intelectual, todo o apa-
rato intelectual engendrado desde o século XIV está sendo len-
tamente colocado em dúvida. Em parte, essa dúvida é produto
do próprio sucesso desse aparato. Nas ciências fisicas, os pro-
cessos internos de pesquisa gerados pelo método cientifico mo-
derno parecem levar a um questionamento das leis universais
existentes, que eram sua premissa. Fala-se hoje em introduzir a
noção de "temporalidade" na ciência. Nas ciências sociais, o pa-
radigma desenvolvimentista como um todo está sendo explicita
. e centralmente questionado.
A reabertura de questões intelectuais é, por um lado, o pro-
duto dos sucessos e contradições internas do capitalismohistó-
rico. Mas também é o produto das pressões dos movimentos,
eles próprios em crise, no sentido de que estão à altura e lutam

81
CAPITALISMO HISTÓRICO

mais eficazmente contra as estruturas do capitalismo histórico,


cuja crise éo ponto de partida para toda atividade.
Fala-se freqüentemente da crise do capitalismo histórico em
termos de transição do capitalismo para o socialismo. Eu con-
cordo com a fórmula, mas ela não explica muita coisa. Não sa-
bemos exatamente como operaria uma ordem mundial socia-
lista, uma ordem que diminuísse radicalmente as diferenças de
bem-estar material e a disparidade de poder entre as pessoas.
Os Estados ou movimentos que se autodenominam socialistas
oferecem pouca referência para o futuro. São fenômenos do
presente, isto é, do sistema mundial capitalista, e devem ser ava-
liados dentro dessa perspectiva. Como indicamos, podem ser
agentes do fim do capitalismo, embora não uniformemente.
Mas a ordem mundial futura será construída lentamente, de
maneiras que hoje mal podem ser imaginadas e muito menos
previstas. Acreditar que será bOà, ou mesmo melhor que a que
aí está, é apenas um ato de fé. Sabemos, porém, que o que te-
mos não é bom. Em minha opinião, na medida em que o capi-
talismo histórico percorreu seu caminho - e por seus sucessos
- , ele piorou em vez de meIliorar.

82
CONCLUSÃO:
SOBRE PROGRESSO E TRANSIÇÕES

SE HÁ UMA IDÉIA associada ao mundo moderno, é a noção de


progresso. Isso não quer dizer que todos acreditaram e acredi-
tam no progresso. No grande debate público entre conservado-
res e liberais - que em parte precedeu, mas, mais especifica-
mente, seguiu-se à Revolução Francesa - , a essência da posi-
ção conservadora estava em duvidar que as mudanças ~ Curso
na Europa e no mundo pudessem ser consideradas progresso,
ou mesmo se progresso era de fato um conceito significativo.
Como sabemos, foram os liberais que anunciaram a nova era e
encarnaram o que seria chamado, no século XIX, de ideologia
dominante da longeva economia mundial capitalista.
Não é surpreendente que os liberais acreditem no progresso.
A idéia de progresso justificou a transição do feudalismo para
o capitalismo. Legitimou que a oposição remanescente à mer-
cantilização de tudo fosse destruída e permitiu descartar os as-
pectos negativos do capitalismo com base na noção de que os
benefícios superavam em muito os prejuízos. Logo, não é sur-
preendente que os liberais acreditassem no progresso.
Surpreendente é que seus oponentes ideológicos, os mar-
xistas - antiliberais, representantes das classes trabalhadoras
oprimidas - , acreditassem no progresso com, pelo menos,
a mesma paixão. Não há dúvida: essa crença serviu a um im-
portante propósito ideológico. Justificou as atividades do movi-
mento socialista mundial, com base na noção de que ele encar-
nava a tendência inevitável do desenvolvimento histórico. Além
disso, parecia muito inteligente propor essa ideologia, na medi-
da em que significava usar a ideologia dos burgueses liberais
para confundi-los.
Infelizmente, há duas insuficiências menores no abraço
aparentemente astuto e certa~ente entusiástico a essa fé secular

83
'CAPITALISMO HISTÓRICO

no progresso. Ao mesmo tempo em que a idéia de progresso


justificava o socialismo, também justificava o capitalismo. Era
difícil aclamar o proletariado sem antes prestar homenagens à
burguesia. Os famosos escritos de Mru;x sobre a índia, e tam-
bém o Manifesto comunista, oferecem amplas evidências disso.
Além disso, sendo materialista a medida do progresso (e pode-
riam os marxistas não afumá-lo?), a idéia de progresso podia
voltar-se, como se voltou nos últimos cinqüenta anos, contra
todas as "experiências socialistas'~ Quem não ouviu denúncias
de que na União Soviética os níveis de vida eram inferiores aos
dos Estados Unidos?
A adesão marxista ao modelo evolucionário de progresso
tem sido uina enorme armadilha, da qual os socialistas só co-
meçaram a desconfiar recentemente, como um elemento da cri-
se ideológica que é parte da crise estrutural global da economia
mundial capitalista.
Não é verdade que o capitalismo como sistema histórico te-
nha representado um progresso em relação aos vários sistemas
históricos anteriores que ele destruiu ou transformou. Ao escre-
ver isso, sinto o tremor que acompanha o sentido de blasfêmia
que essa noção comporta. Temo a ira dos deuses, pois fui mol-
dado na mesma forja ideológica de todos os meus companhei-
ros e rezei nos mesmos santuários.
Um dos problemas para analisar o progresso é que todas
as medições propostas são unilaterais. Diz-se que o progresso
científico e tecnológico é inquestionável e empolgante, o que
é verdade, especialmente na medida em que a maior parte do
conhecimento técnico é cumulativo. Mas nunca discutimos se-
riamente quanto conhecimento perdemos na maré mundial da
ideologia do universalismo. Se o fizemos, rotulamos esses co-
nhecimentos perdidos como mero (?) bom senso. Todavia, nos
níveis simples da produtividade agrícola e da integridade bioló-
gica, descobrimos recentemente que muitos métodos de ação
humana descartados há um ou dois séculos (em um processo

84
SOBRE PROGRESSO E TRANSIÇÕES

imposto pelas elites esclarecidas às massas atrasadas) deviam


ser retomados, pois se revelaram mais, e não menos, eficazes.
Mais importante: nas "fronteiras" mais adiantadas da ciência,
estamos descobrindo tentativas de retomar premissas descarta-
das um século, ou mesmo cinco séculos, atrás.
Dizcse que o capitalismo histórico transformou o alcance
mecânico da humanidade. Cada aplicação de esforço humano
foi recompensada com a obtenção de cada vez mais produtos, o
que também é verdade. Mas não calculamos se isso significa
que a humanidade reduziu ou aumentou a energia total apli-
cada por cada individuo (ou por todos, coletivamente, na eco-
nomia mundial capitalista), seja em uma unidade de tempo ou
ao longo da vida. Podemos garantir que o mundo seja menos
oneroso sob o capitalismo histórico do que sob os sistemas an-
teriores? Há muitas razões para duvidar disso. A incorporação,
em nossos próprios superegos, da compulsão ao trabalho com-
prova isso.
Diz-se que em nenhum sistema histórico anterior as pessoas
tiveram uma vida material tão confortável ou um espectro tão
amplo de experiências de vida à sua disposição. Mais uma vez, a
afirmação soa verdadeira, coerente com as comparações regula-
res que fazemos com as vidas dos nossos ancestrais imediatos.
Contudo, as dúvidas sobre isso têm crescido ao longo do sécu-
lo xx, em paralelo a nossas referências cada vez mais freqüentes
à "qualidade de vida" e a nossa preocupação crescente com ano-
mia, alienação e doenças psíquicas. Diz-se, finalmente, que o
capitalismo histórico trouxe um crescimento maciço da mar-
gem de segurança humana - contra danos e morte advindos
de perigos endêmicos (Qs "quatro cavaleiros do apocalipse") e
contra a violência errática. Mais uma vez, isso é incontestável
no nível micro (apesar dos perigos recém-redescobertos da vida
urbana). Mas, será verdade no nível macro, mesmo que pen-
semos no momento presente, e mesmo omitindo a espada de
Dâmocles da guerra nuclear?

85
CAPITALISMO HISTÓRICO

Não é óbvio que haja mais liberdade, igualdade e fraterni-


dade no mundo atual do que havia há mil anos. Pode:-se dizer
que o oposto é verdade. Não estou tentando pintar um mundo
idílico que teria existido antes do capitalismo histórico. Houve
mundos de pouca liberdade, pouca igualdade e pouca fraterni-
dade. A questão é saber se o capitalismo histórico representou
progresso ou regressão quanto a isso.
Não estou falando em medir crueldades comparativas. Se-
. ria dificil e lúgubre imaginá-lo, embora existam poucas razões
para sermos otimistas sobre o registro histórico do capitalismo
nesses assuntos. O mundo do século xx: pode afirmar ter exibi-
do alguns talentos inusuais de refinamento nessas artes antigas.
Tampouco falo do desperdício social crescente - e verdadei-
ramente incrível - que resultou da corrida competitiva pela
acumulação incessante de capital, um nível de desperdício que
pode estar alcançando patamares irrecuperáveis.
Preferiria apoiar minha hipótese em considerações matec
riais, não sobre o futuro social mas sobre o período atual da
economia mundial capitalista. O argumento é simples, mas au-
dacioso. Quero defender uma proposição marxista que mesmo
os marxistas ortodoxos tendem a rejeitar: a tese do empobre-
cimento absoluto (não relativo) do proletariado.
Posso ouvir sussurros amigáveis: você não está falando sério;
com certeza, quis dizer empobrecimento relativo, não é? O tra-
balhador industrial não está hoje muito melhor do que em
180m O trabalhador industrial, sim, ou pelo menos muitos tra-
balhadores industriais. Mas a categoria "trabalhador industrial"
continua a abranger uma pequena parte da população mundial.
A maioria esmagadora das forças de trabalho do mundo, que
vive nas zonas rurais ou se desloca entre elas e aS favelas urba-
nas, está em piores condições do que seus ancestrais que vi-
veram há quinhentos anos. Comem menos bem, e sua dieta é
certamente menos balanceada. Embora tenham maiores pos-
sibilidades de sobreviver ao primeiro ano de vida (um subpro-

86
SOBRE PROGRESSO E TRANSIÇÕES

duto da higiene social empreendida para proteger os privilegia-


dos), duvido que as perspectivas de vida da maioria da popula-
ção mundial a partir de um ano de idade sejam melhores que
antes; desconfio que o oposto é verdade. Eles trabalham inques-
tionavelmente mais mais horas por dia, por ano e ao longo
da vida. Como o fazem em troca de uma recompensa total me-
nor, a taxa de exploração aumentou muito.
São politicamente mais oprimidos ou economicamente
mais explorados? É difícil analisar isso. Como disse certa vez
Jack Goody, as ciências sociais não dispõem de "euforímetros".
As pequenas comunidades nas quais a maioria das pessoas vi-
veu nos sistemas históricos anteriores incluíam uma forma
de controle social que certamente restringia a escolha humana
e a variabilidade social. Esse controle pareceu a muitos como
opressão ativa. Já outros, os mais satisfeitos, pagaram o preço
do seu contentamento: uma visão estreita das possibilidades
humanas.
A edificação do capitalismo histórico envolveu, como sabe-
mos, a diminuição constante, e até a eliminação, do papel dessas
pequenas comunidades. O que surgiu em seu lugar? Em mui-
tas áreas, por longos períodos, o papel anterior das pequenas
comunidades foi assumido pelas plantations, isto é, o controle
opressivo exercido por estruturas politico-económicas de gran-
de porte, dominadas por "empreendedores': Não se pode dizer
que as plantations da economia mundial capitalista - baseadas
na escravidão, no trabalho forçado de prisioneiros, no arrenda-
mento ou no trabalho assalariado - tenham criado mais liber-
dade de movimento para a "individualidade': As plantations po-
dem ser consideradas como um modo excepcionalmente eficaz
de extrair mais-valia. Não há dúvida, elas já haviam existido na
história humana, mas nunca tinham sido usadas tão extensi-
vamente para a produção agrícola - em oposição à mineração
e à construção de infra-estruturas de grande porte, que tendiam
a envolver muito menos pessoas em termos globais.

87
CAPITALISMO HISTÓRICO

Mesmo naqueles lugares em que uma forma ou outra de


controle direto e autoritário da atividade agrícola (o que acaba-
mos de rotular de plantation) não substituiu as estruturas co-
munitárias de controle, mais flexíveis, a desintegração das es-
truturas comunitárias nas zonas rurais não foi experimentada
como uma "libertação': pois foi acompanhada (e, muitas vezes,
causou diretamente) por um controle crescente por parte das
estruturas do Estado emergente, cada vez menos desejoso de
deixar o produtor direto controlar processos autónomos de to-
mada de decisão. O esforço se concentrou em forçar um au-
mento das horas de trabalho e da especialização desse trabalho
(o que, do ponto de vista do trabalhador, enfraqueceu sua capa-
cidade de negociação e aumentou seu fardo).
Mas isso não foi tudo. O capitalismo histórico desenvolveu
uma estrutura ideológica de humilhação opressiva - que hoje
chamamos de sexismo e racismo - que nunca havia existido
antes. Como já observamos, tanto a posição dominante dos ho-
mens sobre as mulheres como a xenofobia generalizada eram
disseminadas, virtualmente universais, nos sistemas históricos
anteriores. Mas, no capitalismo histórico, o sexismo é mais do
que uma posição dominante do homem sobre a mulher, e o ra-
cismo é mais do que xenofobia generalizada.
O sexismo relega a mulher ao reino do trabalho não pro-
dutivo, duplamente humilhante na medida em que sua carga
real de trabalho aumentou e o trabalho produtivo se tornou, na
economia mundial capitalista, pela primeira vez na história, a
base da legitimação do privilégio. Isso estabeleceu uma dupla
submissão que tem se mostrado intratável dentro do sistema.
No capitalismo histórico, o racismo não é ódio ou opressão
de um estrangeiro, de alguém de fora do sistema histórico. Ao
contrário, o racismo é a estratificação da força de trabalho no
interior do sistema histórico, a fim de que os grupos oprimidos
mantenham-se no interior do sistema, e não sejam expulsos de-
le. O racismo justificou a baixa remuneração do trabalho pro-

88
r SOBRE PROGRESSO E TRANSIÇÕES

II dutivo, apesar da primazia deste na definição do direito à re-


compensa. E o fez por definir o trabalho de remuneração mais
baixa como trabalho de menor qualidade. Como isso foi feito
r
ex definitio, nenhuma mudança na qualidade do trabalho signi-
! ficará mais do que uma mudança na forma de acusação, apesar
de a ideologia proclamar que o esforço individual é recompen-
sado por uma mobilidade igualmente individual. Essa dupla
submissão também tem se mostrado intratáveL
Tanto o sexismo como o racismo são processos sociais em
que a "biologia" define posições. Mas, na medida em que a bio-
logia é socialmente imutável, aparentemente estaríamos em
presença de uma estrutura que, apesar de socialmente criada,
não é passível de ser socialmente desmontada. Na verdade, não
é bem assim. A estruturação do sexismo e do racismo não pôde
e não pode ser desmontada sem o desmonte do sistema históri-
co que os criou.
Conseqüentemente, tanto em termos materiais quanto físi-
cos (sexismo e racismo), houve um empobrecimento. No que
diz respeito ao consumo do excedente, abriu-se um fosso cres-
cente entre os estratos superiores da população na economia
mundial capitalista (10% ou 15%) e o restante. Nossa im-
pressão de que as coisas não se passaram assim se baseia em três
fatos. Primeiro, a ideologia da meritocracia funcionou no senti-
do de possibilitar uma considerável mobilidade individual, até
mesmo a mobilidade de grupos étnicos e/ ou ocupacionais espe-
cíficos da força de trabalho. Mas isso se deu sem transformar
fundamentalmente as estatísticas globais da economia mundial,
já que a mobilidade individual (ou dos subgrupos) era contra-
balançada por um aumento no tamanho do estrato inferior, seja
através da incorporação de novas populações à economia mun-
dial, seja por taxas diferenciadas de crescimento demográfico.
A segunda razão pela qual não prestamos atenção nesse fosso
crescente é que nossas análises da ciência histórica e social têm
se concentrado no que acontece nas "classes médias" isto é,

89
CAPITALISMO HISTÓRICO

naqueles 10% ou 15% da população mundial que consomem


mais excedentes do que produzem. Neste setor houve de fato um
nivelamento da curva entre o topo (menos de 1% da população
total) e os segmentos verdadeiramente "intermediários'~ ou os
gerentes (o restante dos 10% ou 15%). Grande parte da política
"progressista" no interior do capitalismo histórico resultou em
uma constante diminuição da desigualdade na distribuição da
mais-valia mundial entre os pequenos grupos que dela parti-
ciparam. Os gritos de triunfo desse setor "intermediário", cuja
renda se aproximou da do estrato superior, têm mascarado o
fosso crescente entre eles e os demais 85% da população.
Finalmente, há uma terceira razão pela qual o fosso cres-
cente não tem sido central nas nossas discussões coletivas. Nos
últimos dez ou vinte anos, sob a pressão da força coletiva dos
movimentos anti-sistêmicos do mundo e da aproximação de li-
mites económicos, a polarização absoluta pode ter diminuído,
mas não a relativa. Mesmo isso deve ser afirmado com cautela e
situado no contexto de um desenvolvimento histórico de qui-
nhentos anos de crescimento da polarização absoluta.
Ê crucial discutirmos as realidades que acompanharam
a ideologia do progresso, pois sem isso não poderemos anali-
sar inteligentemente as transições de um sistema histórico a ou-
tro. A teoria .do progresso evolucionário implica não só a pre-
sunção de que o sistema posterior seja melhor que o anterior,
mas também de que um novo grupo substitua o grupo domi-
nante anterior: Assim, o capitalismo terá sido não só um pro-
gresso em relação ao feudalismo, mas terá sido construído pe-
lo triunfo revolucionário da "burguesia" sobre a "aristocracia
fundiária" (ou o "elemento feudal"). Ora, se o capitalismo não
foi progressista, qual é o significado da revolução burguesa?
Houve uma única revolução burguesa, ou ela se apresentou sob
aspectos múltiplos?
Já argumentamos que está errada a idéia de que o capita-
lismo histórico surgiu quando uma burguesia progressista der-

-90
SOBRE PROGRESSO E TRANSIÇÕES

rubou uma aristocracia atrasada. A correta imagem de fundo


é a de que o capitalismo histórico surgiu através da transforma-
ção da aristocracia fundiária em burgueliia, porque o sistema
velho estava se desintegrando. Em vez de permitir que tal de-
sintegração continuasse em uma direção incerta, a própria aris-
tocracia empreendeu uma cirurgia estrutural radical, tendo em
vista manter e expandir significativamente sua capacidade de
explorar os produtores diretos.
Se essa nova imagem estiver correta, ela modifica nossa per-
cepção da presente transição do capitalismo ao socialismo, de
uma economia mundial capitalista para uma ordem mundial
socialista. Até agora, a "revolução proletária" tem se inspirado,
em maior ou menor grau, na "revolução burguesa'~ Assim como
a burguesia teria derrubado a aristocracia, o proletariado der-
rubaria a burguesia. Essa analogia tem sido a pedra fundamen-
tal da ação estratégica do movimento socialista mundial.
Se não houve revolução burguesa, não houve ou não haverá
revolução proletária? Não, nem do ponto de vista lógico nem
do empírico. Mas isso quer dizer que temos de abordar de outra
forma o tema das transições. Precisamos, em primeiro lugar,
distinguir entre desintegração e mudança controlada, o que Sa-
rnir Amin chamou de distinção entre "decadência" e "revolu-
ção", entre o tipo de "decadência" que ele afirma ter ocorrido na
queda do Império Romano (e que, segundo ele, está ocorrendo
agora) e a mudança mais controlada que ocorreu quando da
passagem do feudalismo para o capitalismo.
Mas isso não é tudo. Pois mudanças controladas não são ne-
cessariamente "progressistas", como acabamos de argumentar.
Conseqüentemente, devemos distinguir entre o tipo de trans-
formação estrutural que deixaria intocadas (ou mesmo reforça-
das) as realidades da exploração do trabalho e um outro que
pudesse eliminar ou pelo menos reduzir esse tipo de explora-
ção. Isso significa que a questão política do nosso tempo não é
, se haverá ou não uma transição do capitalismo histórico para

91

b
CAPITALISMO HISTÓRICO

alguma outra coisa. Isso é certo. A questão política do nosso


tempo é se essa outra coisa, o resultado da transição, vai ser
moral e fundamentalmente diferente daquilo que temos agora,
se vai ser progresso .
. O progresso não é inevitável. Apenas lutamos por ele. Essa
luta não está tomando a forma de socialismo versus capitalis-
mo, mas a de uma transição para uma sociedade relativamente
sem classes versus um modo de produção baseado na divisão
em classes (diferente do capitalismo histórico, mas não necessa-
riamente melhor).
Para a burguesia mundial, a escolha não se dá entre a ma-
nutenção do capitalismo histórico e o suicídio, mas entre a
posição "conservadora", de um lado, que resultaria na desinte-
gração continuada do sistema e sua transformação em uma or-
dem mundial incerta mas provavelmente mais igualitária, e, de
outro lado, uma tentativa ousada de controlar o processo de
transição, com a própria burguesia assumindo uma roupagem
"socialista" e tentando criar um sistema histórico alternativo
que deixasse intacto o processo de exploração da força de tra-
balho mundial, em benefício de uma minoria.
É à luz dessas alternativas politicas abertas para a burguesia
mundial que nós devemos avaliar a história tanto do movimen-
to socialista quanto daqueles Estados e partidos socialistas que,
de uma forma ou de outra, chegaram ao poder.
A primeira e mais importante coisa a lembrar em qualquer
avaliação é que o movimento socialista mundial, óu seja, na ver-
dade, todas as formas de movimentos anti-sistêmicos e todos os
Estados revolucionários e/ou socialistas foram produtos do ca-
pitalismo histórico. Não foram/são estruturas externas ao siste-
ma histórico; resultaram de processos a ele internos. Conseqüen-
temente, refletiram/refletem todas as contradições e restrições do
sistema. Não poderiam ter sido ou ser de outro modo.
Seus erros, suas limitações, seus efeitos negativos são parte
do balanço do capitalismo histórico, não de um sistema históri-

92
SOBRE PROGRESSO E TRANSIÇÕES

co hipotético, de uma ordem mundial socialista, que ainda não


existe. A intensidade da exploração do trabalho nos Estados re-
volucionários elou socialistas, a· ausência de liberdades políti-
cas, a persistência do sexismo e do racismo têm muito mais a
ver com o fato de que esses Estados permanecem inseridos nas
áreas periféricas ou semiperiféricas da economia mundial capi-
talista do que com as propriedades peculiares de um eventual
sistema social novo. As migalhas que couberam às classes traba-
lhadoras no capitalismo histórico sempre se concentraram nas
áreas centrais. Isso continua a ser verdadeiro.
Portanto, a avaliação dos movimentos anti-sistêmicos e dos
regimes de cuja implantação eles participaram não pode ser fei-
ta em termos das eventuais "sociedades boas" que tenham ou
não criado. Para avaliá-los, precisamos nos perguntar até que
ponto contribuíram para a luta mundial voltada para garantir
que a transição do capitalismo se dê na direção de uma ordem
mundial socialista igualitária. Aqui, a contabilidade énecessa-
riamente mais ambígua, pela ação dos próprios processos con-
traditórios. Todo impulso positivo implica conseqüências ne-
gativas e positivas. Cada enfraquecimento do sistema de um
modo o reforça de outros. Mas não necessariamente em graus
iguais! Eis aqui a questão.
Não há dúvida de que a maior contribuição dos movimen-
tos anti-sistêmicos ocorreu em suas fases de mobilização. Orga-
nizando a rebelião, transformando consciências, eles têm de-
sempenhado o papel de forças libertadoras; e as contribuições
dos movimentos individuais foram aumentando com o tempo,
através de um mecanismo de aprendizado histórico.
Mas, desde o momento em que assumiram o poder em es-
truturas de Estados, esses movimentos contribuíram menos,
. por causa do crescimento geométrico das pressões para abafar
seus impetos anti-sistêmicos, externa e internamente. Isso não
significa que o balanço desses "reformismos" e "revisionismos"
seja totalmente negativo. Os movimentos no poder acabaram

93
CAPITALISMO HISTÓRICO

cafido, até certo ponto, na condição de prisioneiros políticos de


sua própria ideologia, estando portanto sujeitos à pressão orga-
nizada dos produtores diretos no seio do Estado revolucionário
e dos movimentos anti-sistêmicos do lado de fora deste.
O perigo real ocorre precisamente agora, quando o capitalis-
mo histórico se aproxima do seu florescimento mais completo
a mercantilização de tudo, a crescente força da família mun-
dial dos movimentos anti-sistêmicos, o progresso na racionali-
zação do pensamento humano. Esse florescimento completo do
capitalismo histórico é, precisamente, o que vai acelerar seu co-
lapso. Ele existiu até aqui porque sua lógica só se realizou par-
cialmente. Enquanto e porque o sistema está desmoronando,
o trem das forças de transição vai ficar cada vez mais atraente,
fazendo com que o resultado se torne cada vez mais incerto.
A luta por liberdade, igualdade e fraternidade foi prolongada,
camaradas, e seu locus estará situado, cada vez mais, dentro da
família mundial das próprias forças anti-sistêmicas.
O comunismo é Utopia, um lugar que não há. É a transfi-
guração de todas as nossas e'scatologias religiosas: a vinda do
Messias, a segunda vinda de Cristo, o nirvana. Não é uma pers-
pectiva histórica, mas uma mitologia corrente. O socialismo,
ao contrário, é um sistema histórico realizável, que um dia po-
derá ser instituído no mundo. Não há interesse em um socialis-
mo que reivindique ser um momento "temporário" da transi-
ção para uma Utopia. Só há interesse num socialismo histórico
concreto, que corresponda às características definidoras mini-
mas de um sistema histórico que maximize a igualdade e a fra-
ternidade, que aumente o controle da humanidade sobre sua
própria vida (democracia) e que liberte sua imaginação.

94
-
CIVILIZAÇAO
CAPITALISTA
UM BALANÇO

o MODERNO sistema-mundo, que é uma economia-mundo ca-


pitalista, surgiu durante o longo século XVI em partes da Eu-
ropa e da América, expandindo-se desde então para ocupár
todo o planeta. O capitalismo histórico tem uma série de carac-
terísticas exclusivas. Uma delas, que raramente recebeu a devida
menção, é que virtualmente desde a origem ele é um sistema
louvado por uns e condenado por outros. Ê verdade: foram
precisos três séculos de desenvolvimento para que seus admira-
dores começassem a parecer numerosos e extrovertidos. Não
consigo me lembrar de nenhum outro sistema que tenha sido
submetido a tantas e tão contraditórias avaliações internas, fei-
tas em massa pelos que participam dele e pelos que se dedicam
a pensá-lo.
A idéia de que, de dentro .do sistema, se possa fazer um ba-
larÍço das suas virtudes e vícios, das suas conseqüências posi-
tivas e negativas - em um debate que tentarei resumir aqui
é provavelmente exclusiva desse sistema e um de seus traços
definidores. Por que só esse sistema histórico ensejou essa dura-
doura controvérsia pública constitui a questão que pretende-
mos explorar.
Esse debate apresenta um aspecto especialmente estranho:
grosso modo, há dois conjuntos de críticas, e eles parecem ser
contraditório~. Um conjunto desanca o capitalismo por ser
igualitário demais, disruptivo da paz social e da harmonia co-
munitária. O outro acha que, por baixo do mito da harmo-
nia de interesses, o capitalismo histórico é essencialmente não
igualitário.
Pode-se ficar tentado a interpretar a existência dessas críticas
opostas como um sinal de que os defensores da civilização ca-
pitalista ocupam um centro estratégico de moderação, contra

97
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

posições obviamente extremistas. É o argumento dos que lou-


vam o sistema. Mas eles não o explicitam. Em vez disso, em res-
posta aos que enfatizam as virtudes de uma ordem social hierár-
quica harmónica, os defensores do capitalismo histórico têm
destacado suas características revolucionárias e progressistas,
que, segundo dizem, tendem a destruir os privilégios. Por outro
lado, para responder aos críticos que vêem o capitalismo como
um sistema de estruturas não igualitárias e opressivas, seus de-
fensores destacam a capacidade do sistema de reconhecere esti-
mular o que chamam de mérito individual, afirmando o aspecto
não só desejável mas também inevitável da recompensa diferen-
cial, dos privilégios adquiridos, por assim dizer.
Assim, os defensores do capitalismo parecem tão contradi-
tórios quanto seus oponentes. Críticos e defensores, denuncian-
tes e louvadores ocupam posições extremas simétricas, sem que
ninguém (ou, parece, virtualmente ninguém) trilhe o caminho
do equilíbrio. É uma anomalia estranha, particularmente estra-
nha por ser persistente. Que sentido pode haver em todos os jo-
gadores assumirem posições tão confusas? É como se existissem
dois times de uniforme igual, distribuídos de maneira caótica
num mesmo campo de jogo em confusas formações.
Nesse caso, pode haver um placar? É possivel realizar um
balanço? Não estou sequer me perguntando se é possível fazer
um balanço imparcial, mas se é possível fazer qualquer balanço.
Acho que não seremos capazes de resolver a questão até termos
compreendido por que e como é possível que uma disputa tão
confusa tenha sido sustentada.

Os quatro cavaleiros do apocalipse, ou necessidades básicas


Ao longo dos últimos 5 mil anos, a humanidade desenvolveu
inúmeras religiões, todas partilhando, pelo menos, uma carac-
terística básica. Elas tentaram dar algum tipo de resposta, al-
gum tipo de consolo, às misérias materiais percebidas no mun-
do. Essas misérias estão bem resumidas na imagem cristã dos

98
UM BALANÇO

"quatro cavaleiros do apocalipse": a guerra (isto é, a guerra en-


tre povos e entre Estados), a guerra civil, a fome generalizada e
a morte por doenças, pestes ou animais selvagens. Os quatro
cavaleiros são os horrores do mundo, os destruidores da paz, do
prazer e da satisfação.
As religiões oferecem todo o consolo que podem, mas o fa-
zem apoia,das na. premissa de que não há solução politica (isto
é, temporal) para esses males. São males inevitáveis, pelo menos
até a chegada de uma era messiânica (no caso de algumas reli-
giões) ou o sl:1rgimento de algum outro caminho que nos con-
duza para além da história.
A civilização capitalista foi extraordinária em sua afirmação
de ser capaz de ir "além da história" dentro da história para
resolver os males inevitáveis e criar um reino de Deus sobre a
Terra, ou seja, superar a ameaça dos quatro cavaleiros. Desde o
começo, séus defensores têm argumentado que, cómo sistema
histórico, o capitalismo conseguiria satisfazer peio menos as
"necessidades básicas" (para usar a terminologia das últimas
décadas) de todas as pessoas colocadas dentro de seus limites .
. Em um sentido, o argumento é muito simples e direto. Ten-
do aumentado a eficiência da produção,. o capitalismo aumen-
tou muito a riqueza coletiva. Mesmo que essa riqueza tenha
sido distribuída de maneira desigual, o aumento foi bastante
para garantir que todos recebessem mais do que o que era pos-
sível em sistemas históricos anteriores. Por causa dessas presu-
midas conseqüências benéficas, os defensores da civilização ca-
pitalista argumentam que ela é distinta e melhor que todas as
outras. Mais ainda: afirmam que o capitalismo é o único sis-
tema "natural~
Que provas apresentaram? Fundamentalmente, uma evi-
dência demonstrativa~ Olhem para o mundo moderno, dizem.
Não é mais rico do que qualquer outro mundo conhecido?
Não são fabulosas as realizações tecnológicas? Não estão todos,

99
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

em algum sentido, numa situação melhor? Especialmente: os


países em que o capitalismo parece ser aceito e praticado de
modo mais pleno não são os mais ricos e mais avançados eco-
nomicamente?
Esses argumentos de demonstração têm sido muito persua-
sivos para grande número de pessoas há cerca de duzentos anos,
e por isso devem ser levados a sério. Apóiam-se pesadamente no
papel central que a ciência aplicada exerce no capitalismo histó-
rico. Usando mais uma vez a demonstração, argumenta-se que
só no interior desse sistema a ciência e a tecnologia realmente
floresceram, já que só nele os cientistas foram libertados das
restrições impostas pelos sistemas anteriores. Isso decorreria
dos subsídios diretos e indiretos que os empreendedores deram
à atividade científica, recebendo em troca recompensas mate-
riais. Vamos avaliar se esses argumentos são plausíveis, tendo
como referência cada um dos quatro cavaleiros, tomados na or-
dem inversa.
Terá a civilização capitalista retardado (é obvio que não po-
deria ter eliminado totalmente) a morte por doenças, pestes ou
animais selvagens? É a questão da saúde pública em sentido
mais amplo. No século XIV, o continente eurasiano sofreu a
peste negra. Nossas estimativas imperfeitas sugerem que cerca
de 1/3 da população das áreas afetadas tenha morrido prematu-
ramente por causa dela. Sem dúvida, não foi o primeiro surto
pandêmico da história, mas parece ter sido o último dessas di-
mensões de que se tem noticia. Por quê? Basicamente por duas
razões. A primeira é a salvaguarda do indivíduo. O conheci-
mento médico avançou de tal modo que aprendemos a evitar o
ataque dessas doenças (por exemplo, por meio de vacinas) e a
minimizar seu impacto, uma vez que tenham sido contraídas
por indivíduos. A segunda razão é a salvaguarda da coletivi-
dade. Aprendemos a criar um ambiente de saúde pública me-
lhor, bem como técnicas para evitar a difusão de doenças. (Uma

100
UM BALANÇO

das mais antigas e mais primitivas é a quarentena, palavra de-


rivada de um isolamento de quarenta dias imposto às pessoas
que chegavam ao porto de Ragusa durante a peste negra).
É necessário acrescentar algum outro tipo de evidência a este
balanço? Sim. Há, pelo menos, três fenômenos que se movem
em direções opostas. Primeiro, houve as conseqüências devasta-
doras do cruzamento de estoques genéticos de organismos para-
sitários, oriundo do avanço tecnológico nos transportes, parte
integrante da expansão da economia capitalista. Isso foi estuda-
do com toda a clareza para o caso dos intercâmbios transoceâ-
nicos eptre 1500 e 1700. Uma proporção muito grande das po-
pulações indígenas das Américas - muito mais do que 1/3 -
foi varrida do mapa nesse processo. Fenômenos semelhantes
ocorreram na Oceania e nas zonas mais remotas da África, Asia
e Europa.
Em segundo lugar, de duas décadas para cá a pesquisa mé-
dica vem esclarecendo quantas doenças surgiram e se expandi-
ram por causa das mudanças ambientais diretamente ligadas às
tecnologias econômicas que integram a civilização capitalista.
Em terceiro, é bem possível que novos padrões de doenças este-
jamsurgindo com a dramática expansão demográfica mundial
(e, em certo sentido, por causa dela). Há indicações de que este
possa ser um fator principal da epidemia de Aids (bem como
de outras doenças imunológicas). Podemos estar às portas de
novas epidemias.
Como comparar o número de vidas "aumentado" através
dos avanços médicos com o número de vidas que "nunca foram
criadas" por causa das mudanças repentinas nos organismos
parasitários? Como as últimas são particularmente difíceis de
quantificar, não há maneiras muito boas de fazer a éomparação.
Devemos observar, porém, que a avaliação não é simples e cer-
tamente não tem um lado só. É claro que a mortalidade infantil
diminuiu significativamente nos Estados mais industrializados

101
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

do sistema-mundo. Ela também parece ter diminuído no Sul


ao longo do século xx, embora não seja tão claro se isso tam-
bém é verdade nos períodos de estagnação, ou se sóvale para os
de expansão. Sabemos que, nos países capitalistas, as pessoas
com sessenta ou mais anos têm mais capacidade de sobreviver a
doenças do que antés, por causa do avanço das tecnologias mé-
dicas. Essas duas mudanças diminuição da mortalidade in-
fantil e aumento da expectativa de vida para os que alcançaram
os sessenta anos - explicam em grande parte, e talvez total-
mente, a longevidade média aumentada. Se aqueles que sobre-
viveram à infância têm hoje maior possibilidade do que antes
de chegar aos sessenta anos, isso é muito menos claro. Não sa-
. bemos se novas epidemias irão ou não mudar até mesmo os
números globais. Mas podemos computar provisoriamente um
ponto positivo para a civilização capitalista, mesmo que geo-
graficamente muito desigual, na luta contra a doença.
E quanto à luta contra a fome? Hoje, é a fome uma ameaça
menor do que foi no passado? Na era pré-moderna, o principal
problema da humanidade eram as mudanças climáticas de cur-
to prazo, que afetavam a produção ano a ano. Diante da fragi-
lidade dos sistemas de transporte, do volume limitado de ali-
mentos duráveis estocados e da quase inexistência de reservas
individuais de dinheiro, qualquer diminuição significativa nos
suprimentos locais causava problemas graves imediatos. Hoje,
os avanços tecnológicos puseram muitas partes do mundo, tal-
vez a maioria delas, ao abrigo dos caprichos de curto prazo da
atmosfera.
E as mudanças de médio prazo nas condições ambientais?
Os mesmos avanços tecnológic?s que nos permitiram control~
condições biosféricas naturais de curto prazo perturbaram as
condições biosféricasde médiú prazo. A derrubada de florestas
e a desertificação das zonas de savana envolvem a destruição
contínua de povos e de seu suprimento alimentar de longo pra-

102
UM BALANÇO

ZOo Ainda não podemos avaliar plenamente o dano oriundo da


poluição químico-biológica, tão acentuada no século xx. Se a
camada de ozónio continuar a diminuir, a destruição de vidas
(diretamente ou através do impacto sobre o suprimento ali-
mentar) pode ser enorme.
Assim, houve, por um lado, uma notável expansão da pro-
dutividade e da produção total de alimentos. Por outro, um sis-
tema de distribuição extraordinariamente distorcido substitui
ameaças de· curto prazo por ameaças de médio prazo para
a maioria da população do mundo, particularmente os 50% a
80% da base da pirâmide.
E as guerras civis? Reduziram-se? Incluo nesta categoria toda
violência entre grupos que não seja formalmente guerra entre
Estados ou povos geograficamente distintos, nem rebelião em
um território conquistado por um domínio imperialista. Em um
sentido, pode-se argumentar que "guerras civis" foram uma ín-
venção da economia-mundo capitalista. Resultam de uma rela-
ção complexa entre o constructo "povo" e o constructo "Estado'~
em um sistema em que, nas zonas urbanas, grupos definidos so-
cialmente como "povos" diferentes permanecem misturados ou
próximos em alto grau. Isso não é acidental. Decorre da estru-
turação intrínseca da economia-mundo capitalista.
Para funcionar de forma ótima, a economia capitalista exi-
giu migrações disseminadas e contínuas, forçadas ou voluntá-
rias, de povos, em vista de satisfazer as necessidades de mão-de-
obra em áreas geográficas específicas. Paralelamente, ocorreu
uma "etnização" da força de trabalho mundial, de modo que
em toda parte se vê a população dividida em vários agrupa-
mentos étnicos (o marcador dessa etnicidade pode ser percebi-
do como cor da pele, língua, religião ou algum outro construc-
to cultural). Em todos os períodos, há uma tendência a uma
correlação alta, no âmbito da unidade domiciliar, entre o estra-
to étnico (tal como. localmente definido) e sua localização de

103
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

classe e ocupacional. Ê claro, os detalhes estão sempre mudan-


do a definição das fronteiras étnicas, a correlação entre gru-
po étnico e tal ou qual estratoocupacional-, mas o princípio
da estratificação é uma característica duradoura da economia-
mundo capitalista, servindo tanto para reduzir o custo da mão-
de-obra quanto para conter os impulsos de questionamento à
legitimidade das estruturas do Estado.
Este processo de "etnização" altera, para pior, qualquer ba-
lanço. Ele constitui o fundamento estrutural de uma luta con-
tínua tanto. entre os estratos étniCos superiores e inferiores.
como dentro dos estratos étnicos do nível inferior. Essas lutas
tendem a se acirrar sempre que se registra uma contração cícli-
ca na economia-mundo, isto é, na metade do tempo histórico.
Freqüentemente degeneram em conflitos violentos, desde dis-
túrbios menores até genocídios indiscriminados.
O elemento crucial é que a "etnização" da força de trabalho
mundial requer uma ideologia racista, cujos termos definem
amplos segmentos da população mundial como subclasse, seres
humanos inferiores e portanto merecedores de qualquer desti-
no que afinal lhes caiba na luta social e política imediata. Essas
"guerras civis" não diminuíram com o tempo e se tornaram, no
mínimo, mais opressivas e mortais no século XX. Este é um
enorme sinal de menos no balanço do sistema-mundo vigente.
Finalmente, há a guerra. Guerras entre Estados e/ou povos
parecem ter existido em todos os sistemas históricos desde o
momento em que se pôde começar a registrar evidências. Ê cla-
ro que a guerra não é um fenômeno particular do sistema-
mundo moderno. Aqui, mais uma vez, as realizações tecnoló-
gicas da civilização capitalista servem tanto ao mal quanto ao
bem. Uma bomba em Hiroshima matou mais gente do que to-
das as guerras do período pré",moderno. A capacidade de des-
truição de Alexandre o Grande em sua conquista do Oriente
Médio não é comparável com o impacto da Guerra do Golfo
sobre o Iraque e o Kuwait.

104
UM BALANÇO

Finalmente, devemos levar em conta a distribuição material,


extremamente desigual, do sistema-mundo. A riqueza material
total cresceu imensamente, se com esta expressão nos referimos
a todos os objetos comercializados e comercializáveis, mesmo
que esse "crescimento" económico tenha causado o esgotamen-
to de materiais naturais. Essa mais-valia tem sido distribuída
entre percéntagens muito maiores da população do que nos sis-
temas históricos anteriores. Antes de 1500, nos vários sistemas
históricos existentes havia quase sempre um estrato rico, ou
mais rico, de dimensões muito reduzidas. Simbolicamente, po-
de-se falar de 1% da população, embora em alguns casos essa
percentagem pudesse ser maior.
Na civilização capitalista, o número de pessoas que divide a
mais-valia é muito maior. É o grupo chamado de classes mé-
dias, que formam um estrato significativo. Mas seria errado
exagerar seu tamanho. Em termos mundiais, este grupo nun-
ca excedeu 1/7 da população. Muitos desses "estratos médios"
se concentram em certas áreas geográficas, e por isso podem
constituir a maior parte da cidadania nos centros da economia-
mundo capitalista. A alta concentração de estratos médios no
interior das fronteiras políticas de um Estado é hoje uma carac-
terística definidora das regiões centrais. Mundialmente, porém,
a percentagem é bem menor. Talvez 85% das pessoas que vivem
dentro da economia-mundo capitalista não tenham padrões de
vida superiores àqueles das populações trabalhadoras do mun-
do há quinhentos ou mil anos. Pode-se argumentar que muitas
delas, a maioria, está em piores condições materiais. De qual-
quer modo, as pessoas trabalham muito mais para se manter;
provavelmente estão comendo menos, mas seguramente estão
comprando mais.
Terá a civilização capitalista derrotado os quatro cavalei-
ros do apocalipse? Na melhor das hipóteses, só parcialmente, e
mesmo assim de maneira muito desigual. Até aqui, só discuti-

105
CIVlLIZAÇÃO CAPITALISTA

mos a questão quantitativamente. Também devemos discuti-la


qualitativamente. Chegamos, pois, às questões que normalmen-
te são discutidas sob a rubrica "qualidade de vida".

A qualidade da vida individual


A primeira questão é a qualidade da vida material. Ela tem a ver
com o conforto e a variedade do consumo além das "necessida- ' .
des básicas" da sobrevivência. Nossa "sociedade de consumo"
do século' XX decorre da ciência e de seus dispositivos. Temos
maquinismos nunca sonhados nas civilizações anteriores: ele-
tricidade, telefones, rádios e televisões, encanamento interno,
refrigeradores, ares-condicionados, automóveis, para mencio-
nar os mais óbvios e mais disseminados. Em 1500, mesmo um
livro era um luxo extraordinário.
Contudo, sabemos que também aqui a distribuição é extraor-
dinariamente desigual. A maioria das famílias americanas tem
carro; famílias indianas e chinesas só têm carto muito raramen-
te, embora a maioria delas possa ter acesso ao rádio, nem que
seja como propriedade coletiva de um povoado. Em um nível
absoluto, até mesmo os estratos mais pobres possuem provavel-
mente mais engenhocas do que seus ancestrais possuíram, mes-
mo que a diferença relativa entre a base e o topo seja não só
imensa mas também crescente. Entretanto, não se sabe ao certo
Se a curva absoluta é ascendente e linear. Pode ser que os 50% a
80% que estão na parte baixa da pirâmide tenham atingido o
seu topo e que estejam diante da possibilidade de uma curva ab-
soluta novamente descendente. A situação é ainda mais crítica
quando observamos uma das mais notáveis invenções da civili-
zação capitalista, o turismo. Em nenhum sistema histórico ante-
rior existiu o conceito de que pessoas, mesmo ricas e poderosas,
pudessem gastar parte do seu tempo isentas do trabalho gerador
de renda para viajar, observar e desfrutar prazeres que não fizes-
sem parte do seu padrão normal de vida. Essa prática, que se
originou no começo dos tempos modernos como forma de di-

106
UM BALANÇO

versão de um punhado de aristocratas, no final do século XX se


transfonnouem uma expectativa normal dos estratos médios
do mundo. Isso se tornou possível, é claro, graças aos mesmos
avanços tecnológicos. Mas observem duas coisas. No máximo
S%a 10% da população mundial podem .empreender de fato
uma viagem turística. Por menor que seja, esse fluxo aumentou
de tal modo a depredação, que ameaça a própria existência dos
objetos mais requisitados pelo próprio turismo. O turismo ex-
cessivo é destrutivo. E já há um excesso, em um momento em
que 80% da população mundial não participam dessa atividade.
Se os números se expandirem, a salvaguarda dos locais turísticos
exigirá algum tipo de sistema de racionalização. No nível indivi-
dual, os beneficios declinariam de maneira acentuada.
O debate sobre o conforto e a variedade das satisfações mate-
riais individuais produz avaliações ainda mais contraditórias. Os
críticos da civilização capitalista apontam para o fosso crescente
entre o que está disponível para 1/7 da população do mundo e
a vida que se vive nas favelas urbanas e zonas rurais pobres do
mundo. O contraste é dramático, aterrador. Os defensores da
civilização capitalista argumentam que o fosso é relativo. Em
termos absolutos, os pobres do mundo são menos numerosos
do que há quinhentos anos. A prova da existência do fosso abso-
luto é sujeita a debate empírico, como sugeri. A questão moral
remete ao debate sobre se é aceitável um fosso, mesmo que ele
seja apenas relativo. Os defensores argumentam que o fosso não
parece estar crescendo e pode desaparecer rapidamente.
Defensores da civilização capitalista também argumentam
que, mesmo que a avaliação de conforto e variedade de consu-
mo individuais seja contraditória, a civilização capitalista criou
e expandiu geometricamente, mundo afora, um beneficio in-
discutível: as instituições educacion.ais. Essa expansão, argu-
mentam, permitiu que todos os indivíduos realizem melhor
o seu potencial. Ao demonstrar suas capacidades, alguns deles
conseguem cruzar barreiras de classe.

107
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

o próprio conceito de educação formal universal é um pro-


duto (relativamente recente) da economia-mundo capitalista.
As instituições educacionais se expandiram de maneira estável
tanto em termos da quantidade de tempo que os estudantes
passam na escola quanto do acesso a elas por parte dos diversos
grupos da população mundial. Essa expansão vem ocorrendo
há dois séculos, mas se acelerou no período posterior a 1945.
Hoje não há virtualmente nenhuma jurisdição política em que
a educação primária não esteja disponível, pelo menos em teo-
ria, para todas as crianças do sexo masculino; na maioria delas,
essa disponibilidade também alcança todas as crianças do sexo
feminino. Houve uma expansão simultânea (apesar de menos
importante) das educações secundária e terciária.
Diz-se que educação expandida significa acesso expandido
a emprego de tempo integral e de níveis mais altos. Isso é ver-
dade em termos relativos. Há alta correlação entre anos de edu-
cação e renda percebida. Como afirmação absoluta, porém, é
algo muito dúbio. A expansão das facilidades educacionais pro-
duziu um enorme aumento dos pré-requisitos educacionais
para certos empregos. A pessoa que concluiu sua educação pri-
mária em 1990 pode estar qualificada e ser escolhida para o
mesmo trabalho que uma pessoa sem nenhuma educação for-
mal fazia em 1890.
Uma conseqüência importante do florescimento das insti-
tuições educacionais foi a saída de certos grupos de idade, du-
rante o dia, dos domicílios e locais de trabalho situados fora de
casa. Grupos inteiros já não produzem mais renda para seus
domicílios, mas, ao contrário, custam às famílias parcelas signi-
ficativas da sua renda, mesmo quando a escola não custa nada.
As famílias são levadas a investir no que foi chamado, um pou-
co pomposamente, de «capital humano': Para a maioria das fa-
mílias dó sistema-mundo, os benefícios disso superam o custo?
Uma segunda conseqüência da educação universal foi o de-
senvolvimento e a consolidação da idéia e da realidade indivi-

108
UM BALANÇO

dual de que há múltiplas "etapas da vida", Nos sistemas históri-


cos anteriores, a vida de uma pessoa era um longo período de
trabalho e participação social, demarcados nos dois extremos
por um curto período inicial de dependência total e um pe-
ríodo final, também curto (se tal fosse o caso), de dependência
relativamente alta. Hoje, passamos um período relativamente
longo na condição de crianças parcialmente dependentes, colo-
cadas fora do mundo da força de trabalho. Essa longa infância
passou a ser dividida em unidades correspondentes àquelas do
sistema escolar: a primeira infância, aos jardins-de-infânCia; a
infância, à escola primária; a adolescência, à escola secundária;
e a primeira juventude, à educação universitária. Agora, esta
última se completa, na primeira maturidade, com a educação
universitária avançada e/ou os primeiros anos de trabalho em
tempo integral. E a história continua nos grupos de idade mais
avançados: maturidade, terceira idade e agora até mesmo quar-
ta idade. A definição de papéis durante a idade madura tendeu
a ser diferente, é claro, para mulheres e homens.
Diz-se que o grande sinal de mais essa diferenciação social
de múltiplos períodos da vida é a atenção e o ajustamento espe-
cializados que ela possibilita em termos de satisfação humana.
Isso é verdade até certo ponto. Deve-se observar que esse sinal
positivo vem junto com um sinal negativo importante: todos
aqueles que não penetram no período que define a maturidade
masculina ficam excluídos de participar plenamente de cer-
tas benesses materiais, decorrentes de relações de poder. Sob o
guarda-chuva das passagens comuns igualitárias pelas etapas da
vida, erigimos uma rígida hierarquia de idades, provavelmente
mais cheia de conseqüências do que as hierarquias de idade
existentes nos sistemas históricos anteriores.
A questão conclusiva, contudo, é em que grau a educação
educa. Voltando à sua origem etimológica, até que ponto a edu-
cação "conduziu as pessoas" (educere) de horizOntes mais res-

109
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

tritos para horizontes mais largos. A hipótese básica é que a


socialização domiciliar e local em conhecimentos e valores é
intrinsecamente paroquial. A educação formal oferece aptidão
literária, saber matemático,. informação empírica e habilidades
analíticas. Os que a recebem podem tninscender suas limitações
paroquiais ecompartilhar algum nível de consciência universa-
lista sobre o potencial humano em geral e o seu próprio em
particular.
Entretanto, desde o momento em que a educação formal se
disseminou, os críticos têm afirmado os "fracassos" de toda e
cada variedade local ou nacional particular. Os críticos sempre·
argumentaram que fracassou precisamente essa função de "con-
duzir as pessoas" para fora da visão paroquial na direção de al-
guma visão mais ampla (alguns a chamam de verdade, outros
de sensibilidade à diversidade). Até que ponto se pode argu-
mentar o contrário? Aeducação certamente não reduziu o fenô-
meno da "guerra civil"; na verdade, pode tê-lo acentuado; pode
até ser sua principal fonte de alimentação. A maior realização
do potencial individual, na medida em que tenha ocorrido, po-
de ser conseqüência do aumento da educação ou da mobilidade
. geográfica. A maioria dos pais vê a educação como uma necessi-
dade econômica urgente para os filhos e, por isso, corre para
acompanhar a escalada de exigências educacionais consideradas
necessárias para obter um lugar profissionaL Mas a maioria das
pessoas que freqüentam a escola a vê como um fardo e uma ex-
clusão do mundo do trabalho. Como podemos nos convencer
de que a apreciação das crianças é tão irracional?

A qualidade da vida coletiva


Os defensores da civilização capitalista afirmam que a realiza-
ção, .ou pelo menos a promessa, do sistema vincula-se a du.as
virtudes supr~mas na construção da nossa vida social: universa-
lismo e democracia. Novamente, os críticos argumentam em

110
UM BALANÇO

sentido contrário. Como vicio supremo da civilização capita-


lista, destacam a ausência desses mesmos dois fenômenos. Co-
mo erhoutras partes do nosso balanço, a avaliação depende de
quem está m~dindo e do que está sendo medido. O que é uni-
versalismo? Ele tem muitos domínios. O universalismo é o ar-
gumento de que há verdades que são racionais, objetivas e eter-
nas ----'- portanto, universais. Hoje, chamamos isso de ciência.
O universalismo também é o argumento de que existe algum
tipo de .lei natural que determina uma ética universal, e conse-
qüentemente algumas práticas sociais que todos devem aceitar e
seguir. Hoje, chamamos isso de direitos humanos. O universa-
lismo também é a crença de que há padrões objetivos de com-
petência, os quais determinam os lugares apropriados para a
força de trabalho. Hoje, charriamos isso de meritocracia. O trio
universalista da ciência, dos direitos humanos e da meritocracia
é o orgulho dos defensores da civilização capitalista. Não é difí-
cil perceber por que há tanta ênfase na ciência: ela se tornou
uma religião secular virtual, com verdades reveladas aos meros
mortais por sacerdotes, detentores exclusivos do acesso ao saber
universal. Pois a ciência moderna é o fundamento da tecnologia
moderna, a qual recebe os créditos pelo êxito de um mundo que
supostamente satisfaz as necessidades básicas da espécie huma-
na e aumenta a qualidade de vida individual. Essa fé na ciência
reflete (reflete, em vez de fundamentar) a confiança na possi-
bilidade expansiva de uma acumulação capitalista incessante.
A visão de que a ciência é um caminho inexorável para que
se formulem leis universais, que nós podemos chamar de vi-
sãobaconiana-newtoniana, predomina há cerca de quinhentos
anos. Porém, desde o final do século XIX, e com força crescente
nos vinte últimos anos, essa visão tem sido submetida a severa
crítica no seio da própria comunidade científica. O fenômeno
tomou a forma de uma "nova ciência", com seus conceitos de
normalidade tanto do caos como de sistema~ abertos longe do

111
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

equilibrio, bem como das estruturas dissipativas que conduzem


a bifurcações em direções inerentemente imprevisíveis (mas,
mesmo assim, ordenadas).
A interrogação básica que a "nova ciência" coloca para nosso
balanço é a seguinte: quais questões científicas não foram for-
muladas nos últimos quinhentos anos? Que riscos científicos
não foram aceitos? Isso coloca outra questão: quem decidiu
quais riscos científicos valia a pena correr, e quais foram as con-
seqüências das escolhas, em termos das estruturas de poder no
mundo? Pode-se querer saber, por exemplo, se nossos dilemas
ecológicos de hoje, resultados diretos da externalização de cus-
tos pelo empreendedor capitalista, não teriam sido pelo menos
diminuídos, se não completamente evitados, se tivéssemos de-
senvolvido uma abordagem científica mais holística, que incor-
porasse O estudo das estruturas dissipativas e das bifurcações
como elemento central de análise, em vez da abordagem que re-
legou esses dilemas à categoria de obstáculos externos inerente-
mente suscetíveis de solução técnica, enquanto supunha que as
tendências lineares vigentes continuariam em vigor.
Fazer a pergunta é respondê-la, pois ela sugere que a chama-
da ciência universalista foi restrita e particularista, apesar de
afirmar o contrário. Se quisermos fazer um balanço de suas rea-
lizações, devemos medir, mais do que simplesmente a tecnolo-
gia que ela permitiu criar, também as alternativas que foram
perdidas ou não levadas adiante. Temos que enumerar não só
os créditos mas também as falhas. Os próximos trinta anos de
atividade científica poderão permitir uma avaliação mais sóbria
dos quinhentos últimos anos.
Se não nos aproximamos da verdade, pelo menos o fizemos
em relação à liberdade? Terá a civilização capitalista oferecido
ao mundo o primeiro florescimento de um modelo universali-
zante de liberdade? O conceito da prioridade legal e moral dos
direitos humanos é invenção do mundo moderno? Sim, não há
dúvida. A linguagem dos direitos humanos intrínsecos repre-

112
UM BALANÇO

sentou um avanço significativo em relação à linguagem das re-


ligiões, haja vista sua aplicabilidade neste mundo. A civilização
capitalista pode receber o crédito de ter legitimado essa lingua-
gem e ampliado sua difusão.
Mas nós sabemos que os direitos humanos estão dolorosa-
mente ausentes nas práticas reais do mundo. É verdade que nos
sistemas históricos anteriores havia pouca pretensão a direitos
humanos. Hoje, todas as entidades políticas afirmam ser seus
defensores. Mas a Anistia Internacional não acha difícil compi-
lar longas listas de violações em todas as partes do planeta. Será
a proclamação dos direitos humanos algo mais do que uma ho-
menagem hipócrita que o vício presta à virtude?
Pode-se argumentar que os direitos humanos são mais ob-
servados em alguns lugares do sistema-mundo que em outros.
É verdade, sem dúvida, embora existam zonas e estratos da
população cujos direitos humanos são regularmente violados,
mesmo nos países onde a questão parece ser menos proble-
mática. Os migrantes - uma parcela crescente, e não decres-
cente, da população em nosso sistema-mundo - são notoria-
mente privados de direitos humanos.
Mesmo reconhecendo que podemos mostrar níveis de ob-
servância dos direitos humanos, caracterizando-se assim a exis-
tência de lugares melhores e piores, o que isso prova? Pois é
fácil ver que existe uma correlação entre Estados mais ricos e
poderosos e menos (ou menos óbvias) violações, de um lado, e
Estados mais pobres e fracos e mais violações, de outro. É pos-
sível usar essa correlação em duas direções opostas. Para alguns,
ela prova que quanto mais o Estado é "capitalista", maior é a
aceitação dos direitos humanos, e vice-versa. Para outros, ela
mostra uma outra face da concentração das vantagens em uma
região do sistema-mundo e a concentração dos efeitos negati-
vos em outra. Tal concentração é vista como produto do capita-
lismo histórico, onde os direitos humanos não são um valor
universal, mas a recompensa do privilégio.

113
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

Com a .ciência universal e os direitos humanos universais


sendo questionados, os defensores enfatizam com freqüência
sua afirmação mais poderosa, o caráter universalista do traba-
lhador, a meritocracia. Segundo a mitologia da civilização capi-
talista, em todos os sistemas históricos anteriores os individuos
nasceram para as posições que ocuparam; só no capitalismo
histórico seu papel passou a ser definido por mérito a "car-
reira aperta aos talentos" proclamada pela Revolução Francesa.
Mais uma vez, é preciso ter cuidado ao comparar o mito
com a realidade. Não é verdade que o progresso social indi-
vidual fosse desconhecido pelos sistemas históricos anteriores.
Ele sempre existiu. Se não, como poderiam ter acontecido as
constantes quedas de aristocracias, o mais das vezes através de
proezas militares, tão difundidas em toda parte? Também as es-
truturas religiosas sempre incorporaram a ascensão social por
mérito, através de proezas neste caso não militares. Mesmo a
ascensão via mercado foi disseminada e comum.
Duas coisas foram diferentes na civilização capitalista. Pri-
meiro, o processo da meritocracia foi proclamado alto e bom
som como virtude oficial, em vez de ser apenas uma realidade
de facto. A cultura era diferente. Em segundo lugar, aumentou a
percentagem da população do mundo para a qual a ascensão
tomou-se possível. Mas, mesmo que tenha aumentado, a ascen-
são meritocrática permanece sendo, na maior parte da§ vezes,
atributo de uma minoria. A meritocracia é um falso universalis-
mo. Proclama uma oportunidade universal que só tem sentido,
por definição, se não for universal. A meritocracia é intrinseca-
mente elitista.
Além disso, devemos investigar até que ponto as instituições
que traduzem.a meritocracia tomam suas decisões, de fato, com
base em méritos. Isso traz de volta a questão do funcionamento
das instituições educacionais. Elas realizam uma triagem perfei-
ta na base do mérito? É claro, têm a capacidade de quantificar o

114
UM BALANÇO

mérito em termos de notas. Mas, visto que os critérios das notas


são estabelecidos localmente, dificilmente elas serão compará-
veis. É provável que o melhor que se possa dizer sobre a nota
meritocrática é que ela pode distinguir facilmente o pequeno
grupo das pessoas excepcionais e aquele das pessoas completa-
mente incompetentes, deixando um grupo muito grande entre
eles, que o processo de avaliação e nota não permite éscolher de
forma confiáveL Contudo, nos termos de uma estrutura empre-
gadora que eventualmente necessite de, no máximo, 114 dos
80% no grupo de competência intermediária para posições com
salários mais altos, escolhas terão de ser feitas. Há evidências de
que os critérios de posição social da fanúlia se intrometem aqui
de modo cabal. O sistema meritocrático institucionalizado ajuda
uns poucos a obterem acesso a posições que merecem, as quais
eles não alcançariam de ou~ro modo. Mas permite a muitos
mais obter acesso a posições na base de atributos de status, sob a
cobertura de o terem obtido por realização.
A segunda afirmação sobre a virtude da civilização capita-
lista é que ela nutriu a democracia e a fez florescer. Definamos
democracia da maneira mais simples, como a maximização da
participação no processo de tomada de decisões em todos os
níveis, em bases de igualdade. "Uma pessoa, um voto" se tomou
um símbolo do Estado democrático, mesmo que isoladamente
só represente o primeiro passo na direção da participação de-
mocrática. O impulso básico da democracia é um impulso
igualitário. Os contra-impulsos são dois: o impulso do privilé-
gio e o impulso do desempenho competente. Ambos os contra-
impulsos resultam em hierarquias.
A existência de dois contra-impulsos em vez de um ajuda a
explicar o profundo fosso que verificamos ao interpretar a rea-
lidade. Os defensores da civilização capitalista argumentam que
ela foi o primeiro sistema histórico a ter acabado com a hierar-
quia de privilégios. É claro, acrescentam, a hierarquia do de-

115
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

sempenho competente foi e teve de ser mantida. Por exemplo,


uma criança não pode ter a permissão de ser igual, digamos, a
seus pais. Os críticos da civilização capitalista denunciam uma
grande farsa. Afirmam que a hierarquia de privilégios se masca-
ra de hierarquia de desempenho competente, e que a hierarquia
que pode ser legitimada em um espectro limitado de situações
sociais (a questão da autonomia soCial da criança) é ampla e
impropriamente aplicada em um espectro muito maior de si-
tuações de trabalho e na comunidade, em que deveriam pre-
valecer normas democráticas (isto é, igualitárias). Aqui vemos
a ligação existente entre os debates sobre meritocracia e sobre
democracia.
Se quisermos fazer um balanço do capitalismo histórico, de-
vemos considerar todos os espaços sociais que existem no siste-
ma-mundo, avaliar cada um deles em termos do grau em que a
hierarquia no processo de tomada de decisão justifica-se ou não
. como necessidade de desempenho competente (oposta à de pri-
vilégios) e resumir essas avaliações do sistema-mundo atual em
comparação com o resumo de avaliações paralelas de sistemas
históricos anteriores. É uma tarefa intimidadora. O principal
argumento em favor da tese da existência de maior democracia
no capitalismo histórico tem sido a difusão dos sistemas de vo-
tação política. Por um lado, não são poucas as vezes em que ou-
vimos expressões de ceticismo sobre o significado substantivo
do sufrágio formal. Mesmo deixando este aspecto de lado, o
principal argumento contra a tese da democratização na civili-
zação capitalista tem sido o que aponta o declínio das institui-
ções comunitárias no mundo moderno, em paralelo à ascensão
dos sistemas de votação. O que se ganhou numa esfera, afirma-
se, foi mais do que perdido na outra.
Isso nos leva à discussão sobre a alienação. Neste ponto,
os críticos da civilização capitalista, conservadores .ou radicais,
unem forças. Alienar é o contrário de satisfazer o potencial ..

116
UM BALANÇO

A alienação diz respeito às maneiras como nos afastamos de


nós mesmos, da nossa "verdadeira natureza~ do nosso poten-
cial. O aspecto central das críticas, conservadoras ou radicais,
à civilização capitalista trata da desumanização próvocada pela
mercantilização, principalmente no que diz respeito à força de
trabalho. Para os defensores da civilização capitalista, trata-se
de uma mistificação que não pode ser comparada com os bene-
fícios materiais trazidos pelo mundo moderno. Eles desafiam
seus opositores, perguntando se é possível tornar operacional,
de algum modo significativo, o conceito de alienação. Para os
críticos, contudo, parece fácil concretizar o conceito. Eles des-
tacam as múltiplas formas de profundo mal-estar psíquico e
sociopsicológico do mundo moderno. Mais uma vez, nossa ca-
pacidade de aferição é fraca. Conhecemos a loucura em nosso
sistema histórico. Temos uma idéia limitada das loucuras co-
nhecidas em outros sistemas históricos. E estamos mal equipa-
dos para compará-las. Contudo, podemos afirmar três coisas.
Um, as demências ou, se preferirem, as formas de mal-estar
do nosso sistema são disseminadas. Dois, é possível apontar
a existência de vínculos claros entre esses problemas psíquicos e
as estruturas sociais específicas do nosso sistema histórico. Três,
com o passar do tempo, a extensão desses problemas psíquicos
parece, no mínimo, ter aumentado em nosso sistema. Mas esta
afirmação pode basear-se, tão-somente, em um monitoramento
mais aprimorado da realidade - por exemplo, da violência ur-
bana sem causa específica. Porém, uma parte do aumento per-
cebido parece ser suscetível de medição rigorosa - por exem-
plo, no que diz respeito à dependência de drogas.
Tampouco devemos nos esquecer das árvores. As belezas na-
turais do mundo físico são parte daquilo que cria a satisfação
humana. A mercantilização produziu uma destruição abran-
gente das belezas naturais. Outras belezas foram construídas, é
claro. Talvez sejam até melhores. Mas essas belezas alternativas

117
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

são mercantilizadas .e, por isso, estão menos democraticamente


disponíveis aos olhos dos apreciadores do que as árvores. As be-
lezas artificiais estão dis~oniveis fundamentalmente para uma
minoria.

Cui bonõ, e por que um debate?


Podemos fechar nosso balanço. Sim, é possível concluir, ao me-
nos de um ponto de vista qualitativo. Em nossa revisão dos ar-
gumentos, ficou claro que o quadro não tem um lado só. Mas
haverá algum fio da meada subjacente, capaz de resumir prós
e contras? Penso que sim. Começo pela hipótese de que todos
os sistemas históricos anteriores conhecidos funcionaram com
base em hierarquias de privilégios. Nunca houve uma época
de ouro. Portanto, a questão não é escolher entre sistemas his-
tóricos bons e maus, mas entre sistemas históricos melhores e
piores. A civilização capitalista tem sido pior ou melhor que os .
sistemas históricos anteriores? (Deixo de lado, por enquanto,
a questão de saber se sistemas futuros podem ser melhores ou
piores, ou se provavelmente serão melhores ou piores.)
Parece-me qtle a única questão pertinente seja: cui bono?
É claro que, no capitalismo histórico, o tamanho do estrato pri-
vilegiado aumentou significativamente. O mundo que essas pes-
soas conhecem é melhor do que qualquer contrapartida ante-
rior. Elas estão mais prósperas em termos materiais, de saúde,
oportunidades de vida e liberdade em relação às restrições arbi-
trárias impostas por pequenos grupos dominantes. Perguntar se
estão psiquicamente melhor é levar a questão longe demais (tal-
vez estejam pior).
Mas, para a outra ponta do espectro os 500/0 a 85%
da população mundial que não têm privilégios - , o mundo
é. quase com certeza pior do que qualquer exemplo anterior.
É provável que estejam pior materialmente, apesar das mu-
danças tecnológicas. Em termos substantivos (ou seja, não for-
mais), as pessoas estão mais, e não menos, sujeitas a constran-

118
UM BALANÇO

gimentos arbitrários, pois os mecanismos sob controle do cen-


tro são mais difusos e eficientes. E elas suportam o fardo de vá-
rios tipos de mal-estar psíquico, bem como da destrutividade
das" guerras civis':
A civilização capitalista mundial é um mundo polarizado e
polarizante. Como sobreviveu tanto tempo? É aqui que irrompe
o debate público sobre o balanço. O que preservou o sistema
até hoje foi a esperança em reformismos incrementais, na supe-
ração final do fosso. O próprio debate alimentou duplamente
essa esperança. A afirmação das virtudes serviu para persuadir
muitas pessoas dos benefícios de longo prazo do sistema. E a
discussão dos vicios fez com que muitos sentissem que podiam
se organizar com eficácia para levar a cabo transformações po-
liticas. A civilização capitalista não tem sido somente uma civi-
lização bem-sucedida. Acima de tudo, tem sido uma civilização
sedutora. Tem conseguido seduzir até suas vitimas e oponentes.
Mas se você acredita, como eu, que todos os sistemas históri-
cos têm vida limitada e, ao fim e ao cabo, dão lugar a sistemas
sucessores, você precisa admitir que o nosso não pode ser está-
vel para sempre. É para este aspecto as perspectivas da civi-
lização capitalista - que vamos olhar a seguir.

119
PERSPECTIVAS

A CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA chegou ao outono da sua existên-


cia. O outono, como nós sabemos, é uma bela estação, pelo me-
nos nas regiões em que a civilização capitalista nasceu. Passada
a primeira florescência da primavera, passada a riqueza plena
do verão, fazemos a colheita no outono. Mas também é verdade
que no outono as folhas das árvores caem. Apesar de sabermos
que há muitas coisas a apreciar no outono, também sabemos
que devemos nos preparar para o frio do inverno, o fim do ci-
clo, o fim do sistema histórico.
Se quisermos compr:eender como o sistema se aproxima do
fim, temos que observar suas contradições internas, pois todos
os sistemas históricos (na verdade, todos os sistemas) têm con-
tradições internas, motivo por que têm vidas limitadas. Discuti-
rei três contradições básicas, cujo peso crescente determina as
perspectivas futuras do capitalismo histórico. Elas são o dilema
da acumulação, o dilema da legitimação política e o dilema da
agenda cultural. Cada dilema esteve conosco desde o começo
do sistema; cada um vem se aproximando do ponto em que a
contradição não poderá mais ser contida, isto é, o ponto· em
que os ajustes necessários para manter o funcionamento nor-
mal do sistema terão um custo alto demais para equilibrá-lo
temporariamente.

o dilema da acumulação
A acumulação incessante de capital é a raison d'être e a atividade
central da civilização capitalista. Nós já vimos, ao revisar nosso
balanço, ql1e a realização bem-sucedida desse objetivo é uma das
suas justificações. Mas quais são seus dilemas, suas contradições?
A tensão básica é que a maximização dos lucros, e portanto da
acumulação, exige estabelecer monopólios relativos de produção.

121
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

Quanto maior o grau de monopolização, maior a possibilidade


de alargar a margem que separa os custos totais de produção e os
preços efetivos de venda. Por isso, os capitalistas buscam obter
monopólios. Porém, como lucros altos são atraentes, outros sem-
pre procuram entrar em mercados onde se possam estabelecer
monopólios. Conseqüentemente, monopólios convidam a con-
corrência, a qual mina simultaneamente monopólios e lucros al-
tos. Mas, cada vez que uma fonte de lucros altos se enfraquece, os
capitalistas (individual ou coletivamente) buscam novas fontes
de lucros altos, isto é, novas maneiras de monopolizar setores da
produção. Essa tensão entre a necessidade de monopolizar e o
caráter autodestrutivo do monopólio explica a natureza cíclica
da atividade económica capitalista e a divisão do trabalho subja-
cente entre os produtos controlados pelo centro (altamente mo-
nopolizados) e os produtos controlados pela periferia (altamente
competitivos) na economia-mundo capitalista.
Monopólios económicos nunca se concretizam no mercado.
Os mercados são inerentemente antimonopolistas. A vantagem
de um produtor sobre outro· é sempre temporária, pois outros
produtores sempre podem copiar, e copiam, os elementos que
deram vantagem a· um determinado produtor. Isso decorre da
necessidade de sobrevivência de todos os produtores, que ten-
tam permanecer como um locus de acumulação. Considerando-
se, contudo, que a acumulação significativa nunca é possível
por muito tempo através de mecanismos de mercado, todos os
produtores são obrigados a ir além do mercado para alcançar
sucesso. Eles buscam duas instituições: o Estado, que é concre-
tíssimo como instituição, e os "costumes", que são uma institui-
ção amorfa mas real.
O que os Estados podem fazer para os produtores? Essen-
cialmente, duas coisas. Podem criar condições que levem à mo-
nopolização das vendas e criar condições que levem à monopo-
lização das compras dos fatores de produção. A maneira mais
simples de fazê-lo é através da legislação formal. Mas qualquer

122
PERSPECTIVAS

legislação formal padece de duas restrições. A primeira: ela


só se aplica no interior das fronteiras do Estado que legisla, ao
passo que o mercado real existe na economia-mundo como um .
todo. A segunda: o.Estado está sujeito a muitas pressões polí-
ticas contrárias à legislação em questão - dos empreendedores
que tenham sido deixados de fora dos seus benefícios e de to-
dos os grupos de não-produtores cuja posição econômica seja
prejudicada por ela. Por isso, a via legislativa plena raramente
foi seguida. E quando o foi, como no caso dos assim chamados
Estados socialistas (agora, em sua maioria, ex-Estados socia-
listas), revelou sua ineficácia como mecanismo de acumulação
de capital a longo prazo. A .via mais usual tem sido a intromis-,
são seletiva, e freqüentemente indireta, dos Estados no merca-
do. Eles se intrometem em primeiro lugar como Estados vis-à-
vis outros Estados, especialmente como Estados fortes vis-à.,.vis
Estados fracos, impondo acessos preferenciais e, o que é mais
importante, prevenindo a negativa de acesso a mercados nos
países mais fracos e dificultando, ao mesmo tempo, que os
competidores desses países se tornem eficientes por conseguir
copiar. Em segundo lugar, os Estados se intrometem através de
decisões orçamentárias, fiscais e redistributivas, desenhadas pa-
ra favorecer grupos de produtores contra toda e qualquer com-
petição. Eles se intrometem, em terceiro, impedindo os ven-
dedores de fatores de produção (especialmente de força de
trabalho) de combater aquelas situações em que só há um com-
prador para uma mercadoria ou serviço particular.
Os atos específicos dos Estados variam constantemente, por-
que as condições do mercado-mundo, o equilíbrio de poder
do sistema interestatal e a situação política interna nos Estados
também variam constantemente. A atitude dos conjuntos de
produtores em relação ao seu próprio Estado também varia, na
medida em que a eventual ação do Estado os ajuda ou atrapa-
lha em contextos específicos. O que é constante é a tentativa
dos produtores poderosos de melhorar sua posição no mercado

123
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

através do Estado, bem como a resposta amplamente positiva


que os Estados têm dado a essa demanda. Não fosse isso uma
constante da economia-mundo capitalista, a civilização capita-
lista não teria florescido.
Mas· os produtores não confiaram somente no Estado. Tam-
bém confiaram nos "costumés': Como observei, trata-se de uma
instituição amorfa, mas nem por isso insignificante. O costume
abrange a criação de mercados através da criação de gostos.
A propaganda e o marketing são evidentes construções de costu-
mes, mas só correspondem a uma pequena parte dessa história.
Uma parte muito maior é a formação de sistemas de valores, tal
como promovidos por todas as instituições de socialização cria-
das e aprimoradas ao longo dos quinhentos anos da história
moderna. É dessa vasta estrutura que estamos falando quando
nos referimos à existência da "sociedade de consumo': A necessi-
dade de adquirir certos tipos (e não outros) de objetos materiais
é uma criação social da civilização capitalista. Sua sustentação é
garantida por um conjunto de outras instituições. Sobre esse
fundamento, conjuntos específicos de produtores podem desen-
volver argumentos para persuadir grandes grupos de compra-
dores a comprar tipos específicos de produtos. Este é um ele-
mento-chave da capacidade de estabelecer monopólios relativos.
Os costumes também funcionam de maneiras mais sutis. Es-
tabeleceram-se canais lingüísticos e culturais amplos que assegu-
ram uma probabilidade maior de que certos grupos económicos
tendam a lidar com certos grupos econômicos, em vez
de outros que seriam indicados pela racionalidade do mercado.
As transaçóes econômicas reais na economia-mundo capitalista
têm dependido, muito mais do que se pensa, dos vínculos de co-
munidade e domicílio, de familiaridade e confiança. Até certo
ponto isso reduz os custos das transações, sendo portanto racio-
nal em termos de mercado, mas este ponto tem sido regular-
mente ultrapassado, levando a uma monopolização "costumeira"
da produção, não determinada por considerações de mercado.

124
PERSPECTIVAS

A competição, dissemos, sempre mina os monopólios. Mas,


para poder fazê-lo, os competidores tampouco podem confiar
só no mercado, pois os Estados e os costumes preparam o mer-
cado contra a competição. Os competidores potenciais têm que
agir no sentido de mudar os Estados e mudar os costumes. Eles
o têm feito usando um conjunto de Estados contra outro, ou
criando coalizões políticas no interior de Estados para alterar as
políticas estatais, ou agindo na arena social para mudar as defi-
nições sociais do comportamento costumeiro e esperado, em
parte mudando as preferências de gosto imediatas, em parte
atacando valores mais fundamentais.
Assim, a política de acumulação tem sido uma batalha cons-
tante. Ela tem enfraquecido os monopólios que têm garantido a
expansão global da economia-mundo capitalista; por mais len-
to que seja, esse solapamento regular dos monopólios, esse grau
repetidamente aumentado de competição tem levado às que-
das de lucros e longas estagnações que chamamos de fases B de
Kondratiev. Cada vez que ocorre uma estagnação desse tipo, o
sistema está fora de equilíbrio. Para permitir que o sistema re-
tome sua expansão - e portanto sua capacidade de garantir a
acumulação incessante de capital alguns ajustes precisam
ser feitos.
Três tipos de ajustes são possíveis, todos servindo para au-
mentar os níveis globais de lucro e conseqüentemente prover
a base de uma expansão renovada da economia-mundo. Um
tenta baixar o custo de produção de produtos competitivos.
Outro tenta encontrar novos compradores para produtos com-
petitivos. E outro tenta descobrir novos produtos para pro-
duzir, os quais estarão sujeitos a monopólios relativos e ainda
terão um mercado significativo a explorar. Esses três tipos de
ajustes foram implementados sempre que ocorreu uma queda
dos lucros globais.
Uma maneira de baixar os custos de produção é reduzir os
custos dos insumos. Mas, ao mesmo tempo em que isso pode

125
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

aumentar OS lucros de um produtor, pode abaixar os de outro.


Globalmente, a mudança que produz é pequena. O modo mais
efetivo de baixar os custos de produção é baixar os custos da
mão-de-obra - através de um aumento na mecanização, de
mudanças de leis ou costumes para reduzir os salários reais ou
por. deslocamento geográfico da.produção para zonas de mão-
de-obra mais barata.
Essas táticas funcionam; de fato, reduzem o custo da mão-
de-obra. Contudo, elas entram em contradição com a outra
maneira de aumentar os.lucros e as taxas de lucro, que é au-
mentar a demanda efetiva. Para aumentar a demanda efetiva,a
recompensa do insumo mão-de-obra tem de subir em temos
absolutos, não descer. Como podem se reconciliar essas duas
necessidades? Historicamente, só houve uma maneira - me-
diante disjunção geográfica. Sempre que, nas regiões mais favo-
recidas do sistema-mundo, passos foram dados no sentido de
aumentar de algum modo a demanda efetiva (aumento do ní-
vel dos salários ou do salário social, pela redistribuição con-
trolada pelo Estado), outros passos foram dados em outras par-
tes do sistema-mundo para aumentar o número de produtores
com baixos níveis de salário. Isso tem assumido duas formas
principais: transformação de trabalhadores rurais em trabalh<1-
dores urbanos assalariados e expansão das fronteiras da econo-
mia-mundo, de modo a incluir forças de trabalho mundiais que
antes estavam lia condição de produtores rurais, amiúde e am-
plamente em economias de subsistência.
A terceira e mais notória maneira de restaurar os níveis de
lucro tem sido, é daro, através de mudanças tecnológicas, isto é,
pela criação de produtos novos, chamados de ponta, os quais
podem servir como locus de operações monopolizadas de alto
lucro. Isso também exige consideráveis intervenções do Esta-
do, além da introdução de novos de "costumes': para garantir a
monopolização. Sem isso, o esforço dos empreendedores imagi-
nativos será provavelmente natimorto.

126
PERSPECTIVAS

Nesse modelo que destaca o dilema da acumulação pelo pa-


, drão recorrente de monopolização, que leva à queda dos lucros
por causa do aumento da competição e à restauração dos mes-
mos lucros Ce assim a um equilíbrio) mediante a implementa.:
ção de ações contrária.$, quais são e como funcionam as restri-
ções à possibilidade de se fazerem ajustes efetivos indefinida-
mente? É provável que as restrições não se situem na esfera da
inventividade tecnológica continuada, embora os produtos no-
vos possam estar se movendo na direção de provocar a exaustão
do equilíbrio ecológico da biosfera. É mais provável que estejam
na esfera do crescimento da demanda efetiva, que exige ações
políticas que solapam a longo prazo Ce de outros modos) a lu-
cratividade. Este será o próximo dilema que discutiremos.
No primeiro mecanismo de ajuste a ampliação do setor
de baixo custo da força de trabaJho - encontramos a restrição
mais forte, pois ela contém dois limites inerentes: o das novas
regiões a serem incluídas na economia-mundo, que parecemos
já ter alcançado, e o da exaustão da reserva de mão-de-obra ru-
ral, baseada na terra, passível de ser trazida à condição de traba-
lhador assalariado urbano, de que nos acercaremos em futuro
próximo. Será possível substituir os trabaJhadores rurais pelo
ex~rcito de reserva dos marginais urbanos (segmento da popu-
lação mundial ~m crescimento muito rápido)? Talvez, mas os
marginais urbanos são uma ameaça muito maior à legitimação
dos Estados do que os trabaJhadores rurais.
É claro que os dilemas da acumulação nos levam diretamen-
te aos dilemas da legitimação das instituições politicas, talvez o
maior calcanhar-de-aquiles da civilização capitalista.

o dilema da legitimação politica


O dilema da legitimação da civilização capitalista é bem direto.
Todo sistema social sobrevive recompensando os que o geren-
ciam. Todos os sistemas históricos conhecidos também tiveram
de manter grande~ massas de população com baixas recompen-

127
CIVILIZAÇÃO. CAPITALISTA

sas so.ciais e materiais, po.rém so.b contro.le: Em geral, este con-


tro.le se exerce pela co.mbinação. de fé e fo.rça - fé na santidade
do.s go.vernantes co.mbinada com a crença na inevitabilidade da
hierarquia.
Po.r vário.S século.s (grosso modo, entre o. final do. século. XV
e o. final do. XVIII), a civilização. capitalista penso.u que po.dia
utilizar o. antigo. mo.do. de legitimação.. Fo.i o. perío.do. da Co.ns-
trução. do.s Estado.s centralizado.s, principalmente através de
mo.narquias abso.lutas, e da co.nstrução. dq sistema interestatal.
Definiram-se então. o.S vencedo.res e se estabeleceu uma hierar-
quia entre o.S Estado.s. Ao.s gerentes do. sistema o.fereciam-se re-
co.mpensas para que criassem um vinculo. estreito. co.m as estru-
turas do.s Estado.s vencedo.res. Para o.S empreendedo.res, co.mo.
vimo.s, sempre fo.i impo.rtante po.der co.ntar co.m o. apo.io. de Es-
tado.s fo.rtes, que receberam o. apo.io. do.s gerentes.
Entretanto., como. vem sendo. repetidamente analisado. no.s
último.s. 150 ano.S, a civilização. capitalista mino.u o.S sistemas
de crenças que garantiam o. relativo. co.nsentimento. da grande
massa da po.pulação.. A co.mbinação. de cientificismo. (ligado. às
exigências da ino.vação. tecno.lógica), buro.cratização. das estru-
turas do. Estado. (ligada à exigência de eficiência do. pro.cesso de
acumulação.) e mo.bilidade sistemática de grandes po.pulações
(ligada às necessidades mutantes de fo.rça de trabalho. na ati-
vidade pro.dutiva capitalista) exigia uma reno.vação. maciça da
cultura po.litica. A Revo.lução. Francesa cumpriu o. papel de ca-
talisado.ra dessa reno.vação.. Seu impacto. fez do. co.nceito.. de So.-
berania po.pular a no.va justificativa mo.ral do. sistema po.lítico.
so.b o. capitalismo. histórico..
O dilema passo.u a ser como. continuar reco.mpensando. o.S
gerentes e ao. mesmo. tempo. garantindo. de algum mo.do. a leal-
dade da grande maio.ria da po.pulação., que se to.rnara depo.sitá-
ria teórica da legitimidade. No. século. XIX, ele se co.lo.co.u so.b a
seguinte fo.rma: co.mo. inco.rpo.rar tanto. as classes trabalhado.ras
como. o.S gerentes nas estruturas do.s Estado.s centrais da econo.-

128
PERSPECTIVAS

mia-mundo capitalista, que nessa época situavam-se principal-


mente na Europa Ocidental e na América do Norte. A questão
transformou-se em dilema. Dado o nível de mais-valia absoluta
na época, se a recompensa das classes trabalhadoras fosse alta
demais, a dos gerentes seria seriamente afetada. Isso resultou na
assim chamada luta de classes, que as classes dominantes conse-
guiram conter historicamente.
Para conciliar a promessa de recompensas crescentes para os
gerentes e a demanda das classes trabalhadoras de um quid pro
quo por sua lealdade ao Estado, era necessário oferecer a estas
últimas uma pequena fatia do bolo. O que foi oferecido não era
bastante para ameaçar a acumulação de capital na verdade,
talvez a tenha aumentado, pela ampliação da demanda efetiva
em escala mundial - , mas a oferta se combinava com a espe,..
rança de que a pequena fatia do bolo aumentasse junto com a
expansão da acumulação de capital.
A solução era encontrar ajustes. Eles resolviam o problema
a curto prazo mas o agravavam a longo, pois criavam uma pres-
são constante para realizar a esperança e aumentar a parte que
cabia às classes
I
trabalhadoras. Ao longo do século XIX, o meca-
nismo de ajuste funcionou notavelmente bem. Durante o pe-
ríodo, dois caminhos se ofereceram às classes trabalhadoras dos
países centrais para alcançar recompensas maiores: o caminho
da participação política em eleições (a lenta e contínua expan-
são do sufrágio) e o caminho da redistribuição imposta pelo
Estado (a lenta e contínua expansão da legislação social e do
salário social, ou do Estado de bem-estar). Junto com o pacote,
havia uma esperança socialmente garantida, encarnada não
apenas na ideologia dominante do liberalismo, mas na ideolo-
gia supostamente alternativa do socialismo.
Por volta de 1914, vimos os resultados: as classes trabalhado-
ras dos países centrais, integradas em seus respectivos Estados,
-tinham se tornado patrióticas e reformistas. Essa solução não
atrapalhou a capacidade dos gerentes de expandir signrncati-

129
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

vamente suas próprias rendas, pois ela se deu. junto com uma
perspectiva de expansão maciça da acumulação mundial, vista
como um todo, e de exploração significativamente acrescida do
que hoje chamamos Sul, ou países do Sul.
A Primeira Guerra Mundial enfraqueceu o domínio dos Es~
tados centrais sobre o Sul. A integração politica de suas popula-
ções tomara-se crucial para o funcionamento estável do siste-
ma-mundo. O dilema da legitimação politica, mais ou menos
esgotado no século XIX nos Estadós centrais, foi ampliado para
o mundo inteiro no século XX. A questão foi então, mais uma
vez, saber como oferecer para os gerentes uma recompensa
sempre crescente e conciliar isso com a entrega de uma pe-
quena parte do bolo, junto com esperanças reformistas, às mas-
sas (do mundo todo); A solução fui o modelo que denomino
wilsonianismo, que se propunha repetir em escala mundial o
que tinha sido feito antes nos Estados centrais. O wilsonianis-
mo oferecia uma analogia entre o sufrágio universal e a autode-
terminação nacional (a igualdade política de todos os Estados
nas estruturas interestatais, paralela à igualdade política de to-
dos os cidadãos no interior de um Estado). Também oferecia
uma analogia entre a legislação social (e o Estado do bem-
estar) e o conceito de desenvolvimento económico das nações
subdesenvolvidas, que receberiam ajuda para o desenvolvimett-
to (um Estado do bem-estar em âmbito mundial).
Inicialmente, essa segunda fase de ajustes pareceu funcionar
tão bem quanto a primeira, culminando com o fim dos impé-
rios coloniais e a chegada ao poder, no período de 1945-1960,
de movimentos de libertação nacional em todo o Terceiro Mun-
do. Porém, à diferença dos ajustes do século XIX, os do sécu-
lo XX não foram e não poderiam ter sido sustentados pela con-
tinuidade da expansão geográfica da economia-mundo 'capi-
talista. Por volta de 1970 atingiram-se os limites .do que podia
ser oferecido na redistribuição mundial sem causar impactos
negativos sérios na parcela do excedente destinada aos gerentes

130
PERSPECTIVAS

do sistema. Desde essa época, o wílsonianismo está em recuo.


A queda -da economia-mundo, a estagnação económica mun-
dial em que temos vivido desde então, já passou por todos os
processos usuais de ajustç, antes discutidos como dilemas de
acumulação. Mas a capacidade de o sistema-mundo fazer os
ajustes necessários para manter legitimados os Estados-nações
tem mostrado fortes sinais de desgaste.
Assistimos, em escala crescente nos anos 1970 e 1980, ao co-
lapso político dos antigos' movimentos de libertação nacional
do Sul, dos partidos comunistas do antigo bloco socialista e da
combinação de keynesianismo e socialdemocracia nos Estados
centrais. Esses colapsos resultam da retirada do apoio de massa
àqueles movimentos que, depois de um século de lutas, tinham
obtido o poder político. Mas essa retirada do apoio popular
também marca o abandono da esperança reformista. Desapare-
ceu uma das forças de coesão do sistema dé Estados, sua legiti-
mação popular. Deslegitimados, os Estados já não podem mais
conter as lutas políticas. Esse colapso da estratégia de esquerda
representa um desastre para o sistema-mundo capitalista, pois,
longe de ser revolucionária, a estratégia clássica da esquerda foi
parte do cimento integrador da civilização capitalista.

o dilema da agenda geocultural


A civilização capitalista também foi construída em tomo de
uma temática geocultural que nunca predominara antes: a cen-
tralidade do indivíduo, considerado o sujeito da história. Mas o
individualismo apresenta um dilema, é uma faca de dois gumes.
Por um lado, ao colocar a ênfase na iniciativa individual, a civi-
lização capitalista atrelou o interesse pessoal ao florescimento e
à manutenção do sistema. O mito prometéico encorajou, pre-
miou e legitimou o esforço de indivíduos - não só dos em-
preendedores,mas também dàs classes trabalhadoras para
maximizar a eficiência e libertar o poder da imaginação huma-
na. O mito prometéico fez ainda mais, pelo que raramente tem

131
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

ganho O çlevido crédito. Ele também é responsável pela inven-


ção do conceito de organizações politicas formais de indiví-
duos, incluindo, paradoxalmente, a criação e expansão dos pr6-
prios.movimentos anti-sistêmicos. Assim, mesmo a consciência
social antiindividualista foi atribuída à soma das energias in-
dividuais e à fé individual na eficácia de uma tal ação social.
Comovirnos, o resultado foi uma esperança socialmente cons-
truída, que por sua vez serviu comó elemento-chave na preser-
vação do sistema-mundo.
Contudo, o individualismo apresenta outra face, motivo pelo
qual existe o dilema da agenda geocultural. Pois o individualis-
mo éstimula uma virulenta corrida de todos contra todos, pois
não a legitima somente para a pequena elite, mas para a espé-
cie humana como um todo. Além disso, a disputa é logicamente
ilimitada. Grande parte do discurso da filosofia e das ciências
sociais dos tempos modernos está centrada nos perigos cole-
tivos e individuais - dessa liberação desatada de egoísmo.
Desde o início, o·problema para a civilização capitalista tem
sido cOmo conciliar as conseqüências positivas e negativas de
ter estabelecido.o indivíduo como sujeito da história. Ê claro, os
ideólogos conservadores sempre alertaram para o desastre imi-
nente, como fizeram. os socialistas, embora na prática nem os
ideólogos conservadores nem os socialistas (e tampouco os mo-
vimentos que eles inspiraram) tenham-se mostrado desejosos,
por muito tempo, de lutar diretamente contra essa agenda geo-
cultural. Eles se acomodaram a ela e buscaram usá-la para seus
próprios fins.
Que mecanismos contiveram então a contradição? Ela foi
contida pela ênfase simultânea em dois temas opostos, com
uma busca simultânea ziguezagueando entre eles. As duas ênfa-
ses, ou práticas, foram o universalismo, de um .lado, e o racis-
mo-sexismo, de outro. Ambos são produtos perfeitos da civili-
zação capitalista: São aparentemente opostos, mas na verdade

132
PERSPECTIVAS

complementares. No estranho e precário vínculo entre os dois,


a civilização capitalista pôde conter o dilema da agenda geocul-
tural do individuo como sujeito da história.
Qual é a práxis do universalismo? Teoricamente, ela impli-
ca a homogeneização moral da espécie humana. Não se trata
apenas da afirmação de que todas as pessoas são dotadas dos
mesmos direitos, mas da afirmação de que, no comportamento
humano, há universais que podemos determinar e analisar.
Conseqüentemente, o universalismo tende a olhar com descon-
fiança para toda e qualquer cristalização, seja de privilégios hu-
manoS, seja da afirmação de que alguns grupos têm desempe-
nho inerentemente melhor que outros.
A práxis do racismo e do sexismo é oposta. É a afirmação de
que as pessoas não são dotadas dos mesmos direitos, estando em
vez disso ordenadas em uma rígida hierarquia biológica ou cul-
tural. Essa hierarquia determinaria direitos, privilégios e o lugar
de cada um no processo coletivo de trabalho.· O racismo-sexis-
mo é explicado e justificado pelo fato de que alguns grupos têm
desempenhos inerentemente diferentes (e melhores) que outros.
O fato mais extraordinário da civilização capitalista ao longo
de quinhentos anos é que a intensidade da crença nesses dois
temas e o grau em que eles foram implementados na prática so-
cial cresceram paralelamente, lado a lado, em parelha. É como
se qualquer aumento em uma das práxis produzisse aumento
equivalente na outra. Se retornarmos às duas faces do indivi-
dualismo - individualismo como incitamento a energia, ini-
ciativa e imaginação, e individualismo como luta incessante de
todos contra todos poderemos ver como universalismo e ra~
cismo-sexismo emergem e limitam_ o impacto desequilibrante
da contradição inscrita na agenda cultural.
Por um lado, o universalismo leva à conclusão de que a con-
tradição não é real. A luta incessante seria, na verdade, um in-
citamento à iniciativa. Assim, o privilégio se justifica como de-

133
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

corrência de um desempenho superior em uma situação em


que todos têm oportunidades iguais. Esse argumento tem sido
codificado no século XX como meritocracia.Para ele, os que es-
tão no topo do processo capitalista. de acumulação mereceram
essa posição.
Por outro lado, o racismo-sexismo explica por que os que
estão na parte baixa da pirâmide chegaram lá Eles tiveram me-
nos iniciativa, mesmo quando a possibilidade lhes foi oferecida.
Perderam a luta de todos contra todos, porque são ineren-
temente (b~ologicamente ou, pelo menos, culturalmente) inca-
pazes de fazer melhor. O universalismo se torna explicação e
justificativa para o balanço favorável da minoria; e o racismo-
sexismo se torna explicação e justificativa para o balanço desfa-
vorável da maioria.
Eis aí o modo como essas práticas contêm uma à outra: sem-
pre foi possível usá-las uma contra a outra, usar o racismo pa-
ra impedir o universalismo de avançar demais, na direção do
igualitarismo; usar o universalismo para impedir o racismo de
avançar demais,. na direção de um sistema com características
de casta que inibisse a mobilidade da força de trabalho, neces-
sária ao processo capitalista de acumulação. Era isso que que-
ríamos dizer quando falamos de processo ziguezagueante.
A restrição a esse processo vem da escalada de demandas aos
Estados, combinada com a impossibilidade inerente de satisfazê-
las o dilema da acumulação levando ao dilema da legitima-
ção política. Como resultado, houve cada vez mais demanda
para realizar ao mesmo tempo o potencial igualitário do univer-
salismo e o potencial não igualitário do racismo e do sexismo.
As duas práticas, longe de conter uma à outra, estão empur-
rando uma e outra a trajetárias cada vez.mais separadas. Pode-
se observá-lo nó debate que emergiu sobre o conteúdo cultural
dos nossos sistemas educacionais, um dos provedores centrais
da agenda geocultural. Se nossas escolas forem universalistas,
tratar-se-ia do universalismo de um grupo particular, do estra-

134
PERSPECTIVAS

to superior mundial? Mas se elas forem "multiculturais': não es~


taríamos promov~ndo a desunião cultural que o sistema educa-
ci,onal teoricamente deveria superar? Se o indivíduo é o sujeito
da história, não devemos garantir sua ascensão pela via do mé-
rito individual? Mas se o indivíduo é o sujeito da história, não
devemos restituir as oportunidades de que os indivíduos dos
estratos inferiores foram sócialmente privados, e de que ne-
cessitampara ter um bom desempenho objetivo? Esse debate
é cada vez mais um diálogo de surdos, em que ambos os lados
estão mobilizados política e culturalmente.

A crise do sistema histórico


Juntemos as três partes. A civilização capit<Vista foi aprimorada
no interior de contradições. Isso não é inusual; todos os sistema
históricos têm contradições. No caso do capitalismo histórico,
há três contradições principais, que tentei descrever sucinta-
mente. Ao longo da história, cada contradição foi contida por
mecanismos de ajuste, mas eles se esgarçaram. A acumulação
dessas fragmentações significa que o sistema-mundo moderno
está se aproximando de uma crise sistêmica. Provavelmente, já
está nela.
'Pode-se descrever uma crise sistêmica como a situação em
que o sistema chegou a um ponto de bifurcação, ou ao primeiro
de sucessivos pontos de bifurcação. Ao se afastarem de seus
pontos de equili'brio, os sistemas chegam a essas bifurcações,
onde múltiplas soluções para a instabilidade, por oposição a
uma única, se tornam possíveis. Nesses pontos, o sistema vê-se
diante de uma escolha entre possibilidades. A escolha depende
tanto da história do sistema como da força imediata de ele-
mentos externos à .sua lógica interna. Esses elementos externos,
chamados "ruídos", são ignorados quando os sistemas estão
funcionando normalmente. Em situações distantes do ponto de
equilíbrio, porém, os efeitos das variações aleatórias provocadas
pelos "ruídos" são ampliados, justamente por causa do aumen-

135
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

to do desequilíbrio. Agindo caoticamente, o sistema se recons-


truirá radicalmente, de maneiras imprevisíveis, mas· que con-
duzem a novas formas de ordem. Nessas condições, pode haver
(e n~rmalmente há) não só uma, mas uma cascata de bifurca-
ções, até que um novo sistema, isto é, uma nova estrutura dota-
da de relativo equilíbrio de longo prazo, se estabeleça e mais
. uma vez entremos em uma situação de estabilidade determinís-
tica. O novo sistema emergente é diferente do velho e, provavel-
mente, mais complexo.
Se usarmos esse esquema geral que se aplica a todos os siste-
mas - desde os sistemas químicos, passando pelos biológicos,
até os sociais - no tema de nossa preocupação imediata, isto é,
nas perspectivas futuras da civilização capitalista, podemos re-
sumir a situação como segue. A economia-mundo capitalista
é um sistema histórico que foi relativamente estável, isto é, ope-
rou segundo a lógica de certas regras durante cerca de quinhen-
tos anos. Tentamos fazer seu balanço e indicar os rompimentos
nos processos de ajuste necessários para manter seu equilíbrio.
Sugerimos razões pelas quais a economia-mundo capitalista
está chegando ou já chegou a pontos de bifurcação. Tem-se a
impressão de que estamos no meio de um processo de bifurca-
ções em cascata, que pode durar talvez mais cinqüenta anos.
Podemos ter certeza de que alguma nova ordem histórica emer-
girá, mas não podemos saber como ela será.
Podemos pensar a primeira bifurcação como um efeito da
revolução mundial de 1968, que prosseguiu até o colapso dos
comunismos em 1989, a segunda bifurcação. Entre as múltiplas
expressões locais da revolução mundial de 1968, tivemos, é cla-
ro, uma rebelião contra a civilização capitalista e suas estruturas
de sustentação mais imediatas, a hegemonia dos Estados Uni-
dos no sistema-mundo, com os quais, acreditava-se, a União
Soviética atuava em conluio. Mas também tivemos uma rejei-
ção de todos os velhos movimentos anti-sistêmicos socialde-
mocratas no Ocidente, partidos comunistas no antigo bloco so-

136
PERSPECTIVAS

cialista, movimentos de libertação nacional no Terceiro Mundo


- , que passaram a ser vistos como fracassados e, ainda pior,
como agentes de legitimação do sistema~mundo existente.
Para os revolucionários de 1968, havia uma relação entre
reformismo, valores iluministas e fé nas .estruturas do Esta-
do como instrumento político de mudança. Eles se opuseram
aos três. A roupagem contracultural dos revolucionários de
1968 não era tanto uma afirmação do individualismo em geral
(como se diz freqüentemente), mas uma afirmação específica
de um dos seus impulsos (aquele na direção da satisfação indi-
vidual) e a rejeição específica do impulso contrário (aquele na
direção do consumismo egoísta).
Os acontecimentos de 1968 seguiram, mundo afora, a for-
ma típica de bifurcações iniciais. As oscilações no sentimento
social eram fortes. Os eventos foram uma ruptura, uma quebra
pioneira e significativa na difusa legitimação das estruturas do
Estado, que é uma importante força estabilizadora na civiliza-
ção capitalista. É daro, as reivindicações imediatas dos revolu-
cionários de 1968 foram parcialmente satisfeitas por ajustes nas
políticas sociais do Estado, em parte propostas pelas autorida-
des. Os ajustes ocorreram mais freqüentemente nas áreas cen-
trais da economia capitalista do que nas periféricas. Foram mí-
nimos nos países socialistas. Ao contrário, a estagnação da era
Brejnev suprimiu as reivindicações de 1968. Poucos ajustes fo-
ram feitos nas zonas periféricas porque o processo de acumu-
lação deixou-lhes menos flexibilidade. Todas as suas estruturas
de Estado sofreram severas restrições financeiras na fase B do
Kondratiev e não estavam em condições de subornar protestos.
Além disso, os governos no poder eram em última análise
aqueles oriundos dos movimentos anti-sistêmicos, o que signi-
fica que as pressões sobre as políticas de governo, normalmente
exercidas por esse tipo de movimento, estavam ausentes.
Um por um, esses governos se arruinaram e caíram sob a tu-
tela do FMI (e em situações de ilegitimidade nacional) por cau-

137
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

sa da evolução dos preços do petróleo, do imbróglio das dívidas


e dos terrrios de intercâmbio desfavoráveis. Os últimos desses
governos foram os regimes comunistas da Europa Oriental, que
agora trilham o caminho de outros países do Terceiro Mundo.
Assim, 1989 é a data que simboliza a segunda bifurcação da cas-
cata. Totalmente diferente de 1968 na aparência, na verdade
essa crise atualizou temas paralelos: desilusão com a via refor-
mista liderada pelo Estado e impossibilidade de alcançar, atra-
vés dela, a igualdade no sistema-mundo.
O colapso do comunismo foi um golpe muito maior para a
estabilidade da civilização capitalista do que os acontecimentos
de 1968. Antes, havia quem pudesse desculpar os fracassos de
alguns movimentos anti-sistêmico~ e sugerir que eles eram ine-
rentemente fracos por terem abraçado de maneira insuficiente
o modelo soviético. Porém, depois do próprio modelo soviético
ter desabado, e a partir de desilusões em seu próprio seio, a
possibilidade de mudanças sociais permanentes e progressistas
pareceu tornar-se muito remota. A perda de esperança no leni-
nismo foi, na verdade, uma perda de esperança no liberalismo
centrista. Os países ex-comunistas simplesmente se reinte-
graram, na condição de zonas não centrais do sistema-mundo.
Essa segunda bifurcação desintegrou as estruturas de Estado,
mas sem o efeito otimista (e estabilizador) do períodonaciona-
lista e de descolonização posterior a 1918 e a 1945. O damor
wilsoniano de autodeterminação talvez ainda não tenha perdi-
do seus poderes, mas definitivamente já deixou para trás sua
fase de florescimento.
Para onde está indo a civilização capitalista? Por um lado,
a economia-mundo vai continuar a percorrer seus velhos trilhos
tão usados - a recriação de pólos de acumulação importantes,
por um lado o Japão, por outro a Europa Ocidental. No início
do século XXI, devemos assistir nessas áreas a uma nova expan~
são da produção mundial, baseada em novos setores monopoli-
zados. Entretanto, por causa da contração da reserva mundial

138
r PERSPECTIVAS

de mão~de-obra, não é certo que elas sejam capazes de manter


I
,
as altas taxas de acumulação quetivemos até hoje.
Essa expansão trará maior concentração da recompensa e
maior polarização das estruturas sociais. Já argumentamos por
que isso exerce pressão excessiva sobre o mecanismo da legiti-
mação· política. Estamos avançando na direção de uma época.
de desordens maciças - locais, regionais e mundiais - , um
tempo de tormentos, que será muito menos estruturado (por-
tanto, menos contido) do que as guerras mundiais Alemanha-
Estados Unidos do século XX e as guerras de libertação nacional
que vieram em seguida.
A pressão sobre os mecanismos de legitimação política, a in-
capacidade de conter o dilema. da legitimação política, está le-
vando à desintegração da fé no progresso, que até aqui tinha
mantido sob· controle o dilema da agenda geocultural. Como
as pessoas não acreditam mais que o indivíduo onipotente seja
o sujeito indiscutível da história, elas têm procurado a proteção
de grupos. O novo tema geocultural já foi proclamado: é o tema
da identidade, identidade que se cristalizou em um conceito
vago chamado "cultura" ou, para ser mais exato, "culturas".
O novo tema apenas cria um novo dilema na agenda geocul-
tural. Por um lado, o clamor de múltiplas identidades é um cla-
mor pela igualdade de todas as "culturas". Por outro, é um
clamor em nome da particularidade e, conseqüentemente, de
uma hierarquia tácita de todas as "culturas". A medida que
as pessoas se deslocarem entre os dois impulsos, haverá uma
constante redefinição nas fronteiras dos grupos que possuem as
"culturas" em questão. Porém, o próprio conceito de "cultura"
se baseia na estabilidade presumida dessas fronteiras .
. Podemos esperar explosões em todas as direções. Aqueles
cuja cultura pareça estar sendo "excluída" de privilégios vigen-
tes irão se voltar para. os três tipos de mecanismos capazes de
oferecer uma saída política à desigualdade entre grupos. Um
mecanismo é o cultivo de uma alteridade radical. O segundo

139
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

mecanismo é a constituição de unidades maiores com poder ar-


mado efetivo. O terceiro é a transgressão individual das fron-
teiras culturais, tendo em vista fugir através de uma ascensão
"cultural" individual. Nenhum desses mecanismos é novo, mas
até aqui todos estiveram subordinados à tentativa reformista e
pseudo-revolucionária de buscar o poder de Estado como via
para as transformações. O poder coletivo dos indivíduos está
sendo substituído pelo poder particular de coletividades.
Nos próximos 25 a 50 anos, poderemos assistir à eclosão de
diferentes formas de desordens no Sul e no Norte. No Sul, pro-
vavelmente não existirão mais os movimentos de libertação na-
cional que dominaram a paisagem ao longo do século XX. Eles
desempenharam seu papel histórico, para o bem ou para o mal.
Poucos acreditam que tenham algum outro papel a desem-
penhar. Em vez disso, vamos assistir às três opções que come-
çaram a se destacar nas últimas duas décadas. Podemos chamá-
las "opção Khomeini': "opção Saddam Hussein" e "opção boat
peopZe". Em termos do equilíbrio da civilização capitalista, todas
são inquietantes.
A opção Khomeini é a opção pela alteridade radical, por
uma completa recusa coletiva a jogar segundo as regras do sis-
tema-mundo. Quando empreendida por um grupo grande
o bastante e com recursos suficientes, pode representar um de-
safio formidável ao equilíbrio sistémico. Um caso isolado pode
talvez ser domesticado, mesmo que com grande dificuldade.
Mas explosões múltiplas simultâneas seriam devastadoras.
A opção Saddam Hussein é diferente, mas igualmente difícil
de lidar. Trata-se do investimento na criação de Estados pesa-
damente militarizados, com o propósito de iniciar uma guerra
contra o Norte. Não é uma opção fácil de empreender, e após a
Guerra do Golfo pode parecer possível que o Norte tenha con-
dições de enfrentá-la confortavelmente. Não nos deixemos en-
ganar pelas aparências. Na medida em que essa opção se torne a
política de cada vez maior número de Estados, cada vez será

140
PERSPECTIVAS

mais complicado enfrentá-la. Não podemos deixar de obser-


var que a derrota militar total não foi suficiente para pôr fim
à opção Saddam Hussein, nem mesmo no Iraque.
Finalmente, há a opção "boat peopld', o impulso maciço e
inexorável de migrar ilegalmente para reinos mais afluentes, fu-
gindo do Sul para o Norte. A gente dos barcos pode ser enviada
de volta, mas com alguma dificuldade; e continuará a chegar.
Ao longo dos próximos 25 a 50 anos, podemos esperar que essa
imigração Sul-Norte registre cifras enormes. O fosso diferencial
das condições materiais e o fosso demográfico tornam muito
difícil que qualquer política de Estado possa ser eficaz para es-
tancar ou minorar esse fluxo.
O que acontecerá com o Norte, ainda flutuante? Lembre-se
de que estamos prevendo um declínio da eficiência das estrutu-
ras de Estado, mesmo no Norte. O fenômeno da "irrupção do
Terceiro Mundo" nas zonas centrais da economia-mundo ca-
pitalista vai se tornar maciço na medida em que o equilíbrio
demográfico for se alterando. Hoje, a América do Norte é a re-
gião que tem o maior contingente de meridionais. A Europa
Ocidental já a está alcançando. O fenômeno está começando
mesmo no Japão, país que erigiu as barreiras legais e culturais
mais fortes entre todos os Estados do Norte.
As mudanças demográficas, relacionadas ao enfraquecimen-
to das estruturas do Estado, irão enfraquecê-las ainda mais.
A desordem social se tornará mais uma vez normal nas áreas
centrais. Houve muita discussão sobre o assunto nos vinte últi-
mos anos~ sob o falso rótulo do aumento das taxas de crimina-
lidade. O que devemos assistir é a um aumento da hostilidade
civil, uma das faces do tempo de tormentos. A luta por proteção
já começou. Os Estados não podem oferecê-la. Por um lado,
não têm dinheiro; por outro, não têm legitimidade. Devemos
assistir à expansão, em seu lugar, de exércitos e estruturas po-
liciais privados, a serviço de múltiplos grupos culturais, de es-
truturas empresariais de produção, de comunidades locais, de

141
CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA

instituições religiosas e, é claro, do crime organizado. O fenô-


meno não merece ser chamado de anarquismo; trata-se, antes,
de um caos determinístico .
. Onde vamos acabar? Do caos surge uma nova ordem. Não
podemos saber com certeza, a não ser uma coisa. A civilização
capitalista terminará;. este sistema histórico específico não exis.- I
tirá mais. Além disso, o máximo que podemos fazer é esboçar
umas poucas trajetórias históricas alternativas possíveis - es-
boçá,.las em grandes pinceladas, sem os detalhes institucionais,
que são imprevisíveis.
A luz da história do sistema-mundo, três tipos de fórmulas
sociais parecem plausíveis. A primeira é uma espécie de neo-
feudalismo, que reproduziria de maneira muito mais equilibra-
da os desenvolvimentos do tempo de tormentos - um mundo
de· soberanias parceladas,·com um número consideravelmente
maior de regiões. autárquicas, sujeitas a hierarquias locais. So-
beranias, autarquias e hierarquias poderão encontrar um ter-
mo de compatibilidade mantendo (mas provavelmente não au-
mentando) o nível corrente, relativamente alto, de tecnologia.
A acumulação incessante de capital poderá deixar de funcio-
nar comb mola mestra do sistema, mas certamente ele não será
igualitário. O que o legitimará? Talvez o retorno a uma crença
em hierarquias naturais.
Uma segunda fórmula pode ser uma espécie de "fascismo
democrático". Ele envolveria uma divisão do mundo em dois
estratos com características de casta, com o superior incorpo-
rando talvez 1/5 da população mundial. No seio desse estrato,
poderia haver um alto grau de distribuição igualitária. Sobre a
base de uma comunidade de interesses assim definida dentro
desse grande grupo, é possível que ele viesse a ter a força neces-
sária para manter os demais 80% da população na posição de
um proletaria,do totalmente desarmado. A visão do novo mun-
do de Hitler tinha esses contornos, mas depois se definiu na
direção de um estrato superior muito mais estreito.

142
PERSPECTIVAS

A terceira fórmula poderia ser ainda mais radical e descen-


tralizada em escala planetária, com uma nova ordem mundial
altamente igualitária. Parece ser a mais utópica das três opções,
mas não deve ser descartada. Esse tipo de ordem mundial foi
prenunciado em muitas ruminações intelectuais dos séculos
passados. A sofisticação política e tecnológica, que temos agora,
a torna factível, mas não indiscutível. Seria preciso aceitar cer-
tas limitações nos gastos com consumo. Mas isso não quer dizer
mera socialização da pobreza, pois neste caso seria impossível
realizá-la.
Existem outras possibilidades? Claro que sim. O importante
é reconhecer que as três opções históricas estão ai, e a escolha
dependerá do nosso comportamento mundial coletivo ao longo
dos próximos cinqüenta anos. Seja qual for a opção escolhida,
não será o fim da história, mas em um sentido real o seu come-
ço. O mundo social humano ainda é muito jovem em tempo
cosmológico.
Em 2050 ou 2100, quando olharmos a civilização capitalista
que ficou para trás, o que pensaremos? Qualquer que venha
. a ser a opção escolhida para um novo sistema, é possível que
sintamos necessidade de falar mal do sistema que' acabou de
passar, o da civilização capitalista.. Enfatizaremos seus males e
ignoraremos o que realizou. Já no 'ano 3000, é possível que nos
lembremos dessa passagem como um exercício fascinante na
história humana - ou como um período excepcional e aber-
rante, mas um momento historicamente importante de uma
longuíssima transição para um mundo mais igualitário; ou co-
mo uma forma de exploração humana inerentemente instá-
vel, apósa qual o mundo terá retornado a formas mais estáveis.
Sic transit gloria!

143