Anda di halaman 1dari 12

Psico-USF

ISSN: 1413-8271
revistapsico@usf.edu.br
Universidade São Francisco
Brasil

da Costa Araújo, Luciene; Leal Vieira, Kay Francis; da Penha de Lima Coutinho, Maria
Ideação suicida na adolescência: um enfoque psicossociológico no contexto do ensino
médio
Psico-USF, vol. 15, núm. 1, abril, 2010, pp. 47-57
Universidade São Francisco
São Paulo, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=401036078006

Como citar este artigo


Número completo
Sistema de Informação Científica
Mais artigos Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal
Home da revista no Redalyc Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto
Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010 47
Ideação suicida na adolescência: um enfoque psicossociológico no
contexto do ensino médio

Luciene da Costa Araújo – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil


Kay Francis Leal Vieira 1 – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil
Maria da Penha de Lima Coutinho – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil

Resumo
Objetivou-se apreender as representações sociais da ideação suicida elaboradas por adolescentes do ensino
médio, bem como investigar a presença deste fenômeno nesta população, considerando-se que a ideação suicida
tem um importante valor preditivo para o ato suicida. Participaram 90 estudantes do ensino médio, os quais
responderam ao Teste de Associação de Palavras, ao Inventário de Ideação Suicida de Beck e a um questionário
sociodemográfico. Observou-se um índice de 22,2% de adolescentes com ideação suicida, havendo significativas
diferenciações entre as representações elaboradas pelos grupos com e sem ideação suicida. Os adolescentes que
apresentaram ideação se autorrepresentaram como pessoas sozinhas, associando a ideação a sentimentos de
desesperança e solidão, ao mesmo tempo em que expressaram um pedido de ajuda diante de seu sofrimento. Os
achados enfatizam a importância dos fatores sinalizadores, que podem permitir uma melhor compreensão sobre a
problemática do suicídio.
Palavras-chave: Ideação suicida, Adolescência, Representação social, Ensino médio.

Suicidal ideation in adolescence: a psychosociologic view in the high school context

Abstract
The purpose of this study was to grasp the social representations about suicide amongst adolescents in high
school context, as well as, to measure suicidal ideation levels among them, considering that suicide ideation
brings a strong predictive role in suicide risk evaluation. Ninety high school students took part in the study. The
inclusion criteria in the sample were: high school students aged between 14 and 22 years old. As instruments, the
Free-Word Association Test, the Beck Scale for Suicide Ideation (BSI) and a sociodemographic questionnaire
were used. A level of 22.2% of suicidal ideation sample and significant differences in social representations of
suicidal behaviors were observed among adolescents with and without suicidal ideation. Adolescents with suicidal
ideation self represented themselves as lonely, linking suicide ideations to hopelessness and loneliness, while
requesting help for their suffering. Findings lay emphasis on factors that may allow a better understanding of the
problem of suicide.
Keywords: Suicidal ideation, Adolescence, Social representation, High school.

Na 1 literatura específica, com frequência o a própria vida, mas sim modificar o ambiente no
comportamento suicida é classificado em três qual o indivíduo está inserido. Esses
categorias: ideação suicida, tentativa de suicídio e comportamentos são característicos da
suicídio consumado. Segundo Werlang, Borges e adolescência e de pessoas imaturas, como forma
Fensterseifer (2005), apesar de haver poucos dados de reação a um conflito, sendo diagnosticados, em
disponíveis, alguns estudos clínicos e numerosas ocasiões, como transtornos de
epidemiológicos sugerem a presença de possível personalidade e denominados de “chamadas de
gradiente de severidade e de heterogeneidade entre atenção”, e em algumas ocasiões têm caráter de
essas diferentes categorias. Assim, num dos chantagem emocional.
extremos tem-se a ideação suicida (pensamentos, Suicídio é uma palavra originada no latim,
ideias, planejamento e desejo de se matar) e, no derivada da junção das expressões sui (si mesmo) e
outro, o suicídio consumado, com a tentativa de caederes (ação de matar). Num sentido geral,
suicídio entre eles. significa o ato voluntário por meio do qual o
Segundo Vega Piñero, Blasco, Baca-Garcia & indivíduo possui a intenção e provoca a própria
Diaz (2002), utiliza-se o termo parassuicídio, que morte (Vieira, 2008). Apesar de não existir uma
significa condutas cuja intenção não é acabar com definição única aceitável, sabe-se que implica
necessariamente um desejo consciente de morrer e
a noção clara do que o ato executado pode
1 resultar.
Endereço para correspondência:
Rua João Soares Padilha, nº 21 apto. 1103 – Bessa – João Segundo dados da OMS (2000), a taxa
Pessoa-PB mundial de suicídio é estimada em torno de 16 por
E-mail: kayvieira@yahoo.com.br 100 mil habitantes, com variações conforme sexo,
48 Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência
idade e país. Calcula-se que as tentativas sejam 20 Segundo Stevenson (1992), há uma tendência
vezes mais frequentes que o ato consumado. para o sub-relato de suicídios, que reflete,
Botega (2007) ressalta que, em termos globais, a indubitavelmente, em algum grau, a tentativa de
mortalidade por suicídio aumentou 60% nos poupar aos membros da família um trauma
últimos 45 anos; neste período, os maiores emocional desnecessário. Além disso, a morte por
coeficientes mudaram de faixa etária – da mais suicídio pode ter impacto sobre certos temas
idosa para a mais jovem, sendo esta considerada o legais, tais como benefícios obtidos por seguros.
grupo de maior risco em 30 países. A morte por Mais ainda, Prieto e Tavares (2005) evidenciam
suicídio passou a ocupar a terceira posição entre as que, desde o ano de 1975, a Organização Mundial
causas mais frequentes de falecimento, na de Saúde já ressaltava a possibilidade de que as
população de 15 a 44 anos de idade, em alguns diferenças entre as taxas de incidência de suicídio,
países. entre os diversos países devessem-se, em grande
No Brasil, até há pouco tempo, o suicídio não parte, à falta de uniformidade nos procedimentos
era visto como um problema de saúde coletiva, de notificação. Segundo a OMS (2000), se os
pois entre as causas externas de mortalidades, mesmos métodos e regras para verificar se uma
encontrava-se na sombra dos elevados índices de morte ocorreu ou não por suicídio fossem
homicídio e de acidentes de trânsito, 7 e 5 vezes aplicados em todos os países, poder-se-ia assegurar
maiores, respectivamente, em média (Botega, com confiança que as diferenças dos índices
Werlang, Cais & Macedo, 2006). Neste país, a taxa refletem variações da incidência do fenômeno.
oficial de mortalidade por suicídio é estimada em De acordo com Holmes (2001), as mulheres
4,1 por 100 mil habitantes para a população como são três vezes mais propensas a tentarem o
um todo, estando, para o sexo masculino, em suicídio do que os homens, embora estes sejam
torno de 6,6 e em 1,8 para o sexo feminino, o que três vezes mais bem-sucedidos em suas tentativas.
o deixa no grupo de países os quais apresentam A razão para essa diferença ainda não está bem
baixas taxas de suicídio. No entanto, por tratar-se definida, mas acredita-se que, no primeiro caso,
de um país populoso, encontra-se entre os dez isso se deva a elas serem mais tendenciosas a
com números absolutos nesses casos, sofrer de depressão do que eles, reconhecendo-se,
configurando um total de 7.987 casos em 2004 assim, o importante papel desempenhado pela
(Brasil, 2006). depressão diante dos atos suicidas. Porém, no
Entretanto, sabe-se que as estatísticas sobre segundo caso, a hipótese destacada para explicar a
os atos suicidas são falhas e subestimadas, uma vez diferença entre mulheres e homens é que estes
que o número que consta nas estatísticas oficiais é usam técnicas mais violentas (revólveres, saltos de
extraído das causas de morte assinaladas nos prédio) do que aquelas (overdose, corte dos pulsos,
atestados de óbito. Porém, estes nem sempre são ingestão de medicamentos), aumentando assim, as
confiáveis, pois tanto a família quanto a própria chances das tentativas por eles utilizadas serem
sociedade, comumente, pressionam para que a bem-sucedidas.
causa seja falsificada. De acordo com Cassorla Conforme Barros, Coutinho, Araújo &
(1998), certamente a subestimação estatística será Castanha (2006), tem-se observado, nas últimas
mais intensa quando se trata de crianças e décadas, que o comportamento suicida tem
adolescentes, em que os atos autodestrutivos serão aumentado entre os jovens, sendo a adolescência
negados ou até escondidos pela família, diante de uma fase bastante associada à morte por causas
maiores sentimentos de culpa e/ou vergonha pelo violentas. É um período do desenvolvimento
ato. marcado por diversas modificações biológicas,
A subestimação das estatísticas sobre atos psicológicas e sociais; e essas mudanças,
suicidas deve-se a vários fatores, principalmente, geralmente, são acompanhadas de conflitos e
às dificuldades de conceituação. Dentre estas, por angústias. Às vezes, quando expostos às intensas e
exemplo, destacam-se as de identificar com prolongadas situações de sofrimento, de
precisão: quando um acidente automobilístico foi desorganização, os adolescentes podem
uma fatalidade ou tentativa de suicídio; ou quando desenvolver patologias e tornar-se mais
um usuário de drogas falece por over dose; assim vulneráveis ao suicídio (Teixeira & Luís, 1997). É,
como, quando um paciente nega-se a realizar o também, nesse período que tanto as ideações
tratamento de suas patologias; ou quando se quanto às tentativas ganham uma maior
recusa a comer, podendo ser compreendido como proporção, quando associadas ao quadro
abandono da vida.

Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010


Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência 49
depressivo, embora essa situação não se restrinja evitar novas tentativas (Botega & cols., 2006). Já as
somente à adolescência. pessoas com histórico de suicídio na família são
Igualmente nesse período há uma melhor mais propensas a se matar. De acordo com
compreensão a respeito da morte pelo Solomon (2002), isso ocorre porque esse ato torna
desenvolvimento do pensamento abstrato; o impensável pensável e a dor de viver quando
portanto, é importante que se verifique a presença alguém que se ama aniquilou-se pode ser quase
da ideação suicida, já que esta pode ser intolerável.
considerada como um antecedente a uma a A ideação suicida, objeto de análise da
possível culminância do ato suicida (Turecki, 1999; presente pesquisa, também é considerada um fator
Silva & cols., 2006). Assim diante de um jovem de risco para o comportamento suicida. Alguns
que pensa, faz ameaças, tenta ou consuma o ato estudos a associam ao risco de tentativas e estima-
suicida, observa-se um colapso nos seus se que 60% dos indivíduos que consumaram o ato
mecanismos adaptativos, os quais visam aliviar o tinham-no idealizado previamente (Silva & cols.,
sofrimento (Borges & Werlang, 2002). 2006). Werlang, Borges e Fensterseifer (2005) a
A prevenção do suicídio, tanto no nível consideram uma característica frequente no
individual quanto coletivo, dá-se mediante o período da adolescência, pois faz parte do
reforço dos fatores ditos protetores, bem como processo de desenvolvimento de estratégias, que
pela diminuição dos de risco. Risco, segundo são forma de lidar com problemas existenciais
Benincasa e Rezende (2006), é um conceito da como, por exemplo, compreender o sentido da
Epidemiologia Moderna e refere-se à vida e da morte.
probabilidade da ocorrência de algum evento No que se refere aos fatores de proteção do
indesejável. Os fatores de risco são elementos com suicídio, destacam-se os seguintes: pessoas que
grande probabilidade de desencadear ou associar- possuem bons vínculos afetivos; sensação de estar
se ao desenvolvimento de um evento indesejado, integrado a um grupo ou comunidade;
não sendo, necessariamente, o fator causal. Já os religiosidade; estar casado ou com companheiro
fatores de proteção são recursos pessoais ou fixo; ter filhos pequenos. A religiosidade
sociais que atenuam ou neutralizam o impacto do representa um importante papel na prevenção do
risco. suicídio, pois foi comprovado que os indivíduos
Na literatura científica, os fatores de proteção com maior envolvimento religioso apresentam
são pouco mencionados, enquanto os de riscos são menores taxas de suicídios; ela também é apontada
mais abordados e, dentre estes, os principais, como auxiliar no enfrentamento de doenças
segundo Botega e cols. (2006), são: transtornos graves. Entre os muçulmanos, as taxas de suicídio
mentais, perdas recentes, ou de figuras parentais são mais baixas quando comparadas às outras
na infância; dinâmica familiar conturbada; religiões, provavelmente por causa do pesado
personalidade com fortes traços de impulsividade julgamento moral sobre o suicídio e consequente
e agressividade; certas situações clínicas (como senso de punição, além de outras características
doenças crônicas incapacitantes, dolorosas, culturais, como, por exemplo, a proibição do
desfigurantes); ter acesso fácil a meios letais. consumo de álcool (Botega & cols., 2006).
Alguns fatores sociodemográficos indicam Entende-se que a ideação suicida prediz o ato
que os indivíduos com probabilidade de maior e por isso faz-se necessário não só a detecção
risco de suicídio são: do sexo masculino, na faixa precoce desses pensamentos, como também um
etária entre 15 e 35 anos ou acima de 75 anos, em maior entendimento a respeito dos motivos
condições econômicas extremas (muito ricos ou causadores do seu surgimento e das características
muito pobres), residentes em áreas urbanas, peculiares desse período. A intensidade desses
desempregados (principalmente perda recente do pensamentos, profundidade, duração, contexto em
emprego), aposentados, ateus, solteiros ou que surgem e a impossibilidade de desligar-se
separados e migrantes (WHO, 2003). Um dos deles são fatores que distinguem o indivíduo
grupos de maior risco é o dos indivíduos que já saudável de um que se encontra à margem de uma
tentaram cometer suicídio em algum momento de crise suicida (WHO, 2003).
suas vidas, e estima-se que a probabilidade seja Para o desenvolvimento do presente estudo,
100 vezes maior nesse grupo do que na população utilizou-se o aporte teórico/metodológico da
em geral. Estudos têm demonstrado que a adesão Teoria das Representações Sociais (TRS)
desses indivíduos ao tratamento é baixa, mas que, desenvolvida pelo francês Serge Moscovici,
por outro lado, existem estratégias eficazes para partindo-se do pressuposto de que o grupo

Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010


50 Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência
pesquisado, no caso os estudantes do ensino assegura o elo entre a função cognitiva de base da
médio, tem um conhecimento socialmente representação e a social, bem como fornece à
construído que o permite elaborar um objetivação os elementos imaginativos para servir
conhecimento prático acerca do suicídio. Estudar na elaboração de novas representações.
essa temática, na perspectiva das representações Inicialmente, conforme o modelo proposto
sociais, significa analisá-la não apenas através dos por Moscovici, as representações sociais possuíam
aportes teóricos, normativos e científicos, mas duas funções: formação de condutas e orientação
com vista a um novo olhar, voltado para a das comunicações sociais. Posteriormente, Abric
construção de um conhecimento prático e (1994) acrescentou outras duas funções às
compartilhado por um determinado grupo de representações, demonstradas pela evolução das
pertença. Sendo assim, será possível perceber pesquisas realizadas a propósito das cognições e
como essas representações emergem os práticas sociais; foram elas: a função identitária,
significados e as relações que estabelecem entre si, que permite salvaguardar a imagem positiva do
e em que medida uma determina a outra grupo e sua especificidade; e a função
(Coutinho, 2005). justificadora, que permite aos atores manterem ou
A Teoria das Representações Sociais é uma reforçarem os comportamentos de diferenciação
forma sociológica de psicologia social, originada social, nas relações entre grupos (Nóbrega, 2001).
na Europa por Serge Moscovici (1961), através da Segundo Vala e Monteiro (2004), as
publicação de seu estudo La psychanalyse: son image representações sociais apresentam uma dimensão
et son public. Segundo Farr (1998), ela difere, funcional e prática, que acaba por ser evidente na
marcadamente, das formas psicológicas de organização dos comportamentos das atividades
psicologia social, que são atualmente comunicativas, na argumentação e explicação
predominantes nos Estados Unidos da América. cotidianas, e na diferenciação dos grupos sociais.
Esse contraste ocorre entre uma tradição de Enquanto uma modalidade de conhecimento
pesquisa europeia e uma americana de psicologia particular, a representação social tem por função a
social moderna. Conforme Jodelet (2001), a orientação de comportamentos e a facilitação da
representação social é uma forma de comunicação entre os indivíduos; considerando a
conhecimento socialmente elaborada e partilhada indissociabilidade entre a experiência subjetiva e a
com um objetivo prático, que contribui para a inserção social dos sujeitos. Por conseguinte, as
construção de uma realidade comum a um representações sociais dos adolescentes
conjunto social. Igualmente, designada como saber pesquisados, sobre os transtornos psicoafetivos
de senso comum ou ainda saber ingênuo, natural, podem ser compreendidas como uma
essa forma de conhecimento é diferenciada, dentre interpretação coletiva da realidade vivida e falada
outras, do conhecimento científico. por aquele grupo social, direcionando
A representação social refere-se à maneira do comportamentos e comunicações.
indivíduo pensar e interpretar o cotidiano, ou seja, Desse modo, identificar as representações
constitui-se em um conjunto de imagens, dotado sociais acerca do comportamento suicida é
de um sistema de referência que o permite compreender as formas que as pessoas utilizam
interpretar sua vida e a ela dar sentido. A para criar, transformar e interpretar essas
elaboração e funcionamento de uma representação problemáticas vinculadas à sua realidade, como
podem ser compreendidos por meio dos processos também, conhecer seus pensamentos, sentimentos,
de objetivação e ancoragem, que compreendem a percepções, experiências de vida compartilhadas e
imbricação e a articulação entre a atividade destacadas nas modalidades diferenciadas de
cognitiva e as condições sociais em que são comunicação; de acordo com o contexto cultural e
forjadas as representações. a classe social a que pertencem, e as instituições às
Jodelet (2001) afirma que a objetivação é o quais se está vinculado; prolongando-se para além
processo pelo qual o indivíduo reabsorve um das dimensões intrapsíquicas e concretizando-se
excesso de significações, materializando-as; ou em fenômenos sociais palpáveis de serem
seja, é a construção formal de um conhecimento identificados e mapeados (Coutinho, 2005).
pelo indivíduo. Já a ancoragem, como instrumento O presente estudo teve como objetivo
do saber, é uma modalidade que permite apreender as representações sociais acerca do
compreender como os elementos de representação comportamento suicida elaboradas por estudantes
não só exprimem relações sociais, mas também do ensino médio matriculados em escolas
contribuem para construí-las. Portanto, ela públicas do estado da Paraíba; bem como

Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010


Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência 51
investigar o índice epidemiológico da ideação quanto à seriedade da intenção de morrer na
suicida entre a população estudada. última delas (Cunha, 2001).
A BSI foi estruturada de forma a permitir que
Método os cinco primeiros itens pudessem ser usados
como triagem da ideação suicida. Assim sendo, se
Trata-se de uma pesquisa de campo, ancorada a resposta do participante for 0 ao grupo de
em uma abordagem multimétodo de cunho afirmações 4 – “indicando ausência de intenção ativa” –
qualitativo e quantitativo, fundamentada nos ou ao grupo de número 5 – “indicando evitação de
aportes teóricos e metodológicos das morte, se confrontado com uma situação ameaçadora para
representações sociais. A amostra foi intencional e a vida” – ele deverá ser orientado a passar
acidental, do tipo não-probabilística, constituída imediatamente ao item 20, deixando de dar
por 90 (noventa) estudantes do ensino médio, resposta aos 14 seguintes. Estes, segundo a citada
regularmente matriculados em uma escola da rede autora, são mais específicos, a respeito de planos e
pública de ensino do município de João Pessoa- atitudes, com uma intenção suicida subjacente.
PB. A escolha dos participantes ocorreu pelo fato Caso contrário, o examinando fará escolhas
de ser o período da adolescência caracterizado por referentes aos grupos de afirmações dos itens 6 a
um alto e crescente índice de ideação suicida, 19. Quanto ao item 20, deve ser respondido por
conforme demonstra a literatura especializada já todos os examinandos, tenham ou não preenchido
descrita anteriormente. As idades dos participantes os 14 anteriores. Já o item 21 só será respondido
variaram entre 14 e 18 anos (M=16,67; DP=1,29), por sujeitos com história de alguma tentativa
sendo a maioria desses do sexo feminino (57,7%). prévia de suicídio.
O desenvolvimento da pesquisa seguiu a O Teste de Associação Livre de Palavras,
orientação da Resolução CNS/Ministério da originalmente desenvolvido por Jung na prática
Saúde, nº 196, de 10 de outubro de 1996. Para clínica, teve como objetivo realizar diagnóstico
tanto, obteve-se a aprovação do Comitê de Ética psicológico sobre a estrutura da personalidade do
do Centro de Ciências da Saúde, da Universidade sujeito. Esse teste foi adaptado, no campo da
Federal da Paraíba (CCS/UFPB), com o cadastro psicologia social, por Di Giacomo (1981) e desde
no Sistema Nacional de Informações sobre Ética então vem sendo amplamente utilizado nas
em Pesquisas envolvendo Seres Humanos, do pesquisas sobre as representações sociais. Nóbrega
Ministério da Saúde, sob o protocolo nº 1.086/07. e Coutinho (2003) destacam que, diferentemente
Foi realizado contato prévio com o diretor da dos objetivos clínicos de Jung, os pesquisadores
instituição, apresentando-lhe os objetivos da em representações sociais visam identificar as suas
pesquisa. Depois de recebida a autorização dimensões latentes, mediante a configuração dos
oficialmente assinada pela instituição, também foi elementos que constituem a trama ou rede
solicitado que os pais dos estudantes assinassem o associativa dos conteúdos evocados em relação a
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de cada estímulo indutor. É um tipo de investigação
acordo com as normas da resolução 196/96 sobre aberta, que se estrutura por meio da evocação de
pesquisa envolvendo seres humanos, sendo respostas dadas a partir de um ou mais estímulos
previamente informados a respeito dos objetivos e indutores. Estes devem ser definidos previamente
procedimentos da pesquisa, bem como da em função do objeto a ser pesquisado ou objeto
confidencialidade dos dados e do anonimato dos da representação, levando em consideração
participantes. também às características da amostra ou sujeitos
Para a obtenção dos dados utilizou-se a da pesquisa.
Escala de Ideação Suicida de Beck – BSI, a Para a análise dos dados coletados através do
Técnica de Associação Livre de Palavras e o segundo instrumento, foi elaborado inicialmente
Questionário Biossociodemográfico. O primeiro pelos pesquisadores um dicionário construído a
instrumento é uma versão de autorrelato partir das respostas dos participantes referentes
constituída por 21 itens, dos quais 19 apresentam aos quatro estímulos indutores. As evocações
três alternativas de respostas e refletem gradações foram organizadas em categorias, com base em
da gravidade dos desejos, das atitudes e dos planos critérios de similaridade semântica entre as
suicidas. Já os dois últimos, de caráter informativo, palavras. Esse procedimento teve como finalidade
não incluídos no escore final, fornecem evitar a redundância e tornar as evocações
importantes subsídios sobre o paciente a respeito estatisticamente significativas. Neste estudo foram
do número de tentativas prévias de suicídio e utilizados quatro estímulos: (1) Ideação suicida, (2)

Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010


52 Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência
suicídio, (3) eu mesmo e (4) futuro. As variáveis sendo dado a esses casos um encaminhamento
fixas utilizadas foram: sexo, faixa etária e presença para a Clínica-Escola de Psicologia da UFPB.
da ideação suicida. Os participantes foram
solicitados a escrever palavras após cada estímulo Resultados e Discussão
dado, tendo no máximo um minuto para cumprir
tal tarefa (para cada estímulo). Por fim, o Os resultados obtidos – por meio da Escala
questionário biossociodemográfico objetivou de Ideação Suicida de Beck /BSI – apontam a
apreender o perfil dos participantes da pesquisa, presença da ideação suicida em 22,2% dos
coletando informações como: idade, sexo, série, adolescentes pesquisados, número significativo
estado civil, habitação, renda familiar, religião e o quando comparado com outros estudos, a exemplo
conhecimento acerca da tentativa de suicídio por do realizado por Vieira (2008), com 233 estudantes
outras pessoas. do ensino superior, o qual apresentou um índice
A coleta de dados foi realizada nas salas de de 11%. Faz-se necessário ressaltar que a amostra
aula, de forma coletiva, com duração média de analisada nesta pesquisa é constituída por
vinte minutos. No momento da aplicação dos adolescentes, e, de acordo com Borges e Werlang
instrumentos os estudantes foram informados a (2002), os jovens nessa fase apresentarem a
respeito dos procedimentos éticos e do anonimato ideação suicida como forma de expressar um
de sua colaboração. sofrimento geralmente associado a um conflito
Não foi realizado um encaminhamento interno, encarando a possibilidade da morte como
individual aos estudantes que manifestaram uma solução. Ainda conforme os autores acima
ideação suicida, visto que a pesquisa assegurava o citados esses pensamentos podem estar apontando
anonimato dos participantes, não sendo possível algo mais, que de fato ultrapassa as características
identificá-los. No entanto, foram realizadas próprias da adolescência. Pela análise do
palestras na escola sobre essa temática, nas quais questionário biossociodemográfico, foi possível
os estudantes eram informados que poderiam traçar um perfil dos participantes que
entrar em contato com os pesquisadores caso apresentaram ideação suicida, o qual se encontra
desejassem um acompanhamento psicológico, descrito na tabela a seguir.

Tabela 1 – Perfil biossociodemográfico dos estudantes com ideação suicida


Variável Níveis N %
Masculino 9 45
Sexo
Feminino 11 55
14-16 anos 4 20
Faixa etária 17-19 anos 11 55
20-22 anos 5 25
1º ano 5 25
Série escolar 2º ano 9 45
3º ano 6 30
Solteiro 19 95
Estado civil
Casado 1 05
Mora com os pais 17 85
Moradia Mora com companheiro 1 05
Mora com familiares 2 10
Trabalho Não 20 100
Católica 14 70
Evangélica 4 20
Religião
Espírita 1 05
Nenhuma 1 05

Observou-se que dos 22,2% com ideação moram com os pais; 70% afirmaram ser católicos;
suicida, 55% são do sexo feminino e encontram-se e 100% disseram não possuir trabalho
na faixa etária entre 17 e 19 anos; 45% cursam o remunerado.
2º ano do ensino médio; 95% são solteiros; 85%
Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010
Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência 53
Os dados coletados através da Técnica de modalidades. É possível também apreender a
Associação Livre de Palavras foram processados atração entre as variáveis fixas (sexo, faixa etária e
pelo software Tri-Deux Mots e analisados pela presença de ideação suicida) e as de opinião, que
Análise Fatorial de Correspondência (AFC), que correspondem às palavras evocadas pelos sujeitos
oferece uma leitura gráfica das variações para cada um dos estímulos indutores (ideação
semânticas na organização do campo espacial, suicida, suicídio, eu mesmo, futuro).
revelando aproximações e oposições das

falta-amor1 ─────────────────────┬──────────────────────────────────┐
│ ¨ │
│ ¨ │
│ ¨ │
│ ¨ deus3/amável3 │
│ ¨ jamais2 │
│ ¨ │
│ luta4 │
│ ¨ │
│ ¨ dor2 │
│ ¨ │
│ carinho3/objetivo4 ¨ │
│ ¨estudioso3/NÃO-IDEAÇÃO/deus4 bom4 │
│ ¨ │
│ ¨ fraqueza1 │
│ │
│ tragédia2/sincera3 ¨ │
│ FEMININO ¨ brincalhão3│
│ ¨ │
├¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨+¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨feliz4¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨┤
│ ¨ │
│ ¨ │
│ morte1 ¨ MASCULINO │
│ ¨ desespero1 │
│ desespero2 ¨ problema1 │
│ saudade2 ¨ │
│ ¨ saúde4/ruim2
│ raiva1 ¨ alívio2/atraente3 │
│ família4 │
│ IDEAÇÃO ¨ │
│ ¨ │
│ sozinho3/solidão1 ¨ │
│ ajuda1/tragédia1 ¨ │
│ ¨ bens4 │
│ ¨ cemitério2 │
│ ¨ │
│ ¨ │
└──────────────────────────--───14-16 ANOS──────────────────────────┘
Figura 1 – Análise fatorial de correspondência das representações sociais da ideação suicida

A descrição da Figura 1 faz-se pela leitura das variância, que junto ao fator 1, explica 58,5% da
modalidades que correspondem às palavras variância total das respostas.
evocadas ou representações, que se encontram Em relação ao fator 1 (F1) no lado superior
distribuídas de maneira oposta sobre os eixos ou esquerdo do gráfico em negrito, emerge o campo
fatores (F1 e F2). semântico correspondente às respostas evocadas
O primeiro fator (F1), em negrito, revela as pelos estudantes do sexo feminino. Para esses, a
mais fortes modalidades ou representações, que ideação suicida foi representada pelo elemento
explicam 33,9% da variância total das respostas. O “falta de amor”; indicando que a carência afetiva
segundo fator (F2), em itálico explica 24,6% dessa contribui para os pensamentos ou ideias de morte
autoprovocada. Ainda nesse mesmo eixo fatorial,
Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010
54 Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência
verificam-se as palavras em negrito com direção de falha ou defeito como: covardia, falta
terminação 2, que se referem às representações de obstinação, ou seja, o lado fraco do caráter de
sociais do suicídio elaboradas por elas, as quais o um ser, o que revela uma propensão a ceder a
veem como decorrente de uma atitude de sugestões, imposições ou impressões e, nesse
“desespero” perante a vida, caracterizando uma sentido, devendo ser encarada como manifestação
“tragédia”. A “saudade” também foi lembrada e psicológica.
enfatizada pelas participantes, indicando ser esse o Em relação ao suicídio consumado, observou-
sentimento predominante após o ato suicida. Em se a existência de uma ambiguidade nas
relação ao terceiro estímulo – eu mesmo –, representações sociais desse fenômeno, ao qual
verificou-se que as evocações mais representativas atribuíram valores positivos e negativos. De forma
foram “sincera” e “carinhosa”, enquanto o semelhante, encontraram-se ambiguidades no
estímulo indutor futuro foi representado pelo estudo de Vieira (2008), onde o fenômeno foi
elemento “objetivos”. descrito como um ato de coragem e covardia ao
Observou-se que as representações do mesmo tempo, representando o fim não só da
comportamento suicida (ideação e suicídio vida, mas, principalmente, do sofrimento
consumado) ancoraram-se nos fatores vivenciado pelo indivíduo. Pode-se inferir, então,
desencadeantes do ato, focalizados na ausência de que a representação do indivíduo suicida para este
amor, no estado de sofrimento psíquico e grupo de pertença, ou seja, para a amostra de
desesperança do ser suicida. O sentimento de estudantes pesquisados, corresponde a um ser
saudade enfatizado pelas participantes remete ao corajoso, que atenta contra sua própria vida, mas
sofrimento dos que ficam; a dor da saudade dos ao mesmo tempo, é alguém que está fugindo dos
amigos e familiares, que sentem a perda oriunda seus problemas, vendo na morte a saída mais fácil,
do ato suicida. As autorrepresentações desse caracterizando, assim, um ato de covardia.
grupo de afiliação emergem de forma positiva, As autorrepresentações dos estudantes do
bem como as referentes às expectativas futuras, sexo masculino também emergiram de forma
caracterizadas pelo desejo de atingir alguns positiva, enfatizando características peculiares da
objetivos. adolescência. A respeito de suas expectativas, esses
Em contraste com essas evocações, os adolescentes destacaram seus desejos, suas
participantes do sexo masculino representaram a esperanças em relação ao futuro no intuito de
ideação suicida como uma atitude de “desespero”, serem saudáveis e felizes.
um ato de “fraqueza” diante de algum “problema”, Em relação ao fator 2, na parte superior do
o que pode ser observado à direita do fator 1, na gráfico, emergiu o campo semântico elaborado
parte inferior em negrito. O suicídio foi descrito pelos participantes, que, segundo a Escala de
de forma ambígua, pois ao mesmo tempo em que Ideação Suicida de Beck – BSI, não apresentaram
é visto como algo “ruim”, também traz “alívio”. a ideação suicida. Esta foi representada, por esse
Em relação ao estímulo indutor eu mesmo, as grupo de afiliação, como “fraqueza”, sendo o
representações mais significativas foram suicídio algo que representa “dor” e que,
“atraentes” e “brincalhões”; já as evocações mais provavelmente por isso “jamais” o cometeriam.
significativas, para o estímulo indutor futuro, foram Esses atores sociais se autorrepresentaram como
as palavras “saúde” e “feliz”. pessoas “amáveis”, “estudiosas” e que possuem
Percebe-se que esse grupo de afiliação grande fé em “Deus”. Para o estímulo indutor
apresentou a ideação suicida ancorada nos motivos futuro, a palavra “Deus” também foi evocada,
ou razões pelos quais um indivíduo viria pensar juntamente, com as evocações “bom” e “luta”.
em pôr um fim à própria vida; ou seja, diante de Observou-se que, para o grupo de estudantes
um problema, fraqueja e desesperadamente pensa que não atingiu o ponto de corte (16) no BSI, o
em provocar a própria morte. Ao atribuir uma comportamento suicida é representado mediante
condição de fraqueza ao individuo, os evocações, as quais indicam que essas atitudes, seja
participantes podem estar sinalizando dois o pensamento de morte ou mesmo a morte
sentidos diferentes e possíveis para o ser fraco. O propriamente dita, não fazem parte de suas
primeiro como sinônimo de falta de força, de vivências. O suicídio foi descrito como algo
vigor, de solidez, de energia, provavelmente inaceitável, que eles nunca chegariam a praticar,
associado a um quadro depressivo, sendo uma pois ocasiona dor; esta expressão “dói tanto” pode
manifestação predominantemente orgânica. O ser entendida como oriunda do ser suicida, que
segundo, significando uma avaliação negativa na estaria ocasionando o ato por esse sofrimento,
Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010
Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência 55
como também pode ser a dor dos amigos e conhecimento socialmente difundido. Dessa
familiares, que sentem a perda. Percebe-se, nesse forma, tornou-se possível conhecer os
grupo, a presença forte da religiosidade, pensamentos, sentimentos e percepções dos
independentemente da crença, traduzida tanto nas participantes acerca dos fenômenos pesquisados.
autorrepresentações quanto nas expectativas As representações sociais da ideação suicida e
futuras, ambas representadas por meio de do suicídio consumado giraram em torno,
evocações positivas. principalmente, das razões ou motivos pelos quais
Por fim o último campo semântico, localizado levariam o indivíduo a apresentar esses
no fator 2 em itálico, refere-se às representações comportamentos, havendo significativas diferenças
sociais dos participantes com idades entre 14-15 entre os grupos que apresentaram ou não ideação
anos que apresentaram ideação suicida segundo a suicida. Estes demonstraram de certa forma sua
BSI. Para esse grupo de pertença, ela foi rejeição ao comportamento suicida mediante
objetivada através dos elementos “morte” e evocações de caráter negativo, enquanto aqueles
“tragédia”, enfatizando-se ainda os sentimentos de apresentaram uma descrição mais detalhada dos
“raiva” e “solidão” sentidos pelo ser que apresenta sentimentos vivenciados pelo suicida, indicando,
esses pensamentos. Também foi ressaltada a provavelmente, uma maior familiaridade com os
necessidade de “ajuda”, seja de um profissional, da temas pesquisados, já que são vividos e sentidos
família ou dos amigos. O ato suicida foi objetivado por eles.
pelo elemento representacional “cemitério”, Em relação à variável sexo, não houve
enfatizando-se, dessa forma, o local para onde vão diferenças significativas entre as representações
os indivíduos que o cometem. As sociais da ideação suicida e do suicídio
autorrepresentações desse grupo foram propriamente dito, mas no que tange às
objetivadas na solidão, uma vez que os autorrepresentações, algumas diferenças
participantes definiram-se como pessoas importantes foram observadas: os adolescentes do
“sozinhas”; enquanto para o estímulo indutor sexo masculino ancoraram em atributos externos
futuro as palavras “família” e “aquisição de bens” (atraentes e brincalhões), enquanto elas nos
foram as mais representativas. aspectos subjetivos de sua personalidade
Verificou-se uma quantidade maior de (carinhosas e sinceras). Diferenças também são
evocações para o estímulo indutor ideação suicida – percebidas entre os grupos com e sem ideação,
por parte desse grupo de pertença –, se sendo o primeiro constituído por evocações de
comparado aos demais, caracterizando-se, caráter negativo, diferentemente do segundo. No
provavelmente, por apresentar um maior consenso entanto, as expectativas futuras, de um modo
e uma maior facilidade em expor seus sentimentos geral, emergiram de forma positiva mesmo diante
e opiniões ante algo vivenciado. Os resultados do grupo que apresentou ideação suicida, não
assemelham-se aos encontrados por Araújo (2007), havendo diferenças representativas.
onde a ideação suicida foi representada como algo O alto índice de adolescentes que
consistentemente associado a fatores relacionados apresentaram a ideação suicida (22,2%) caracteriza
à solidão, tragédia, raiva e também a palavra ajuda um dado bastante preocupante, pois esse tipo de
como elemento representativo desse fenômeno. comportamento representa um fator de risco para
o suicídio consumado. Por ser um ato definitivo e
Considerações finais irreversível, a prevenção do suicídio faz-se por
meio da tentativa de diminuição dos fatores de
No desenvolvimento desta pesquisa, risco, tanto em nível individual quanto coletivo.
pretendeu-se verificar as representações sociais Sendo assim, enfatiza-se a relevância desta
acerca da ideação suicida elaboradas e pesquisa com o objetivo de detectar precocemente
compartilhadas por adolescentes inseridos no a ideação suicida para que possam ser traçadas
contexto do ensino médio, bem como investigar a estratégias de intervenção direcionadas a essa
presença desse fenômeno entre a população população. O significativo índice encontrado, na
estudada. Os dados obtidos possibilitaram a amostra pesquisada, demonstra a necessidade de
realização de uma análise científica do que se maior atenção a esses jovens estudantes, por meio
denomina senso comum, baseando-se no de serviços de apoio psicológico em sua formação
pressuposto de que o conhecimento do senso escolar.
comum propicia a compreensão do Por fim, acredita-se que esta pesquisa veio a
comportamento suicida a partir de um contribuir de forma parcimoniosa para a

Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010


56 Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência

compreensão das representações sociais da ideação Cunha, J. A. (2001). Manual da versão em português
suicida, tema este bastante carente de das Escalas de Beck. São Paulo: Casa do
investigações. É válido assinalar a necessidade de Psicólogo.
novas pesquisas, que possam complementar ou até Di Giacomo, J. P. (1981). Aspects
mesmo modificar as representações sociais aqui méthodologiques de l’analyse des
apreendidas. Reconhecendo as limitações représentations sociales. Cahiers de Psychologie
concernentes ao presente estudo, espera-se, Cognitive, 1, 397-422.
contudo, que o mesmo sirva para subsidiar Farr, R. M. (1994). Representações sociais: a teoria
políticas públicas educacionais voltadas para a e sua história. Em P. Guareschi & S.
saúde mental dos jovens estudantes. Jovchelovtih (Orgs.). Textos em representações
sociais (pp. 31-55). Petrópolis: Vozes.
Referências Holmes, D. S. (2001). Psicologia dos transtornos
mentais (2ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
Abric, J. C. (1994). Pratiques sociales et représentations. Jodelet, D. (2001). Representações sociais: um
Paris, PUF. domínio em expansão. Em D. Jodelet (Org.).
Araújo, L. C. (2007) Ideação suicida: jovens no contexto As representações sociais (pp.17-41). Rio de
escolar. Monografia do Curso de Psicologia, Janeiro: Editora UERJ.
Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa. Moscovici, S. (1978). A representação social da
Barros, A. P. R., Coutinho, M. P. L., Araújo, L. F. psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
& Castanha, A. R. (2006). As representações Moscovici, S. (2003). Representações sociais:
sociais da depressão em adolescentes no investigações em psicologia social. Petrópolis:
contexto do ensino médio. Estudos de Vozes.
Psicologia, 23(1), 19-28. Nóbrega, S. M. (2001). Sobre a teoria das
Benincasa, M. & Rezende, M. M.(2006). Tristeza e representações sociais. Em A. S. P. Moreira
suicídio entre adolescentes: fatores de risco e (Org.). Representações sociais: teoria e prática (pp.
proteção. Boletim de Psicologia, 124, 93-110. 55-87). João Pessoa-PB: Editora Universitária
Borges, V. R., & Werlang, B. S. G. (2006). Estudo UFPB.
de ideação suicida em adolescentes de 15 a 19 Nóbrega, S. M. & Coutinho, M. P. L. (2003). O
anos . Estudos de Psicologia, 11(3), 345-351. Teste de Associação Livre de Palavras. Em M.
Botega, N. J. (2007). Suicídio: saindo da sombra P. L. Coutinho (Org.). Representações sociais:
em direção a um Plano Nacional de abordagem interdisciplinar (pp.67-77). João
Prevenção. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Pessoa-PB: Editora Universitária UFPB.
Paulo,29(1), 7-8. Oliveira, A., Amâncio, L. & Sampaio, D. (2001).
Botega, N. J., Werlang, B. S. G., Cais, C. F. S. & Arriscar morrer para sobreviver: olhar sobre o
Macedo, M. M. K. (2006). Prevenção do suicídio adolescente. Análise Psicológica: (4),
comportamento suicida. Psico, 37, 213-220. 509-521.
Brasil (2006). Ministério da Saúde. Diretrizes OMS. (2000). The World Health Report 2000.
brasileiras para um plano nacional de prevenção do Suicide. Genebra. Obtido em dezembro de
suicídio. Portaria nº 1.876, de 14 de agosto de 2006 do World Wide Web
2006. http://www.who.int/topics/suicide/en/.
Cassorla, R. M. S. (1998). Do suicídio: estudos Pietro, D. & Tavares, M. (2005). Fatores de risco
brasileiros. 2ª ed. São Paulo: Papirus. para o suicídio e tentativa de suicídio.
Cassorla, R. M. S., & Smeke, E. L. M. (1994). Incidência, eventos estressores e transtornos
Auto-destruição humana. Caderno de. Saúde mentais. Jornal Brasileiro Psiquiatria, 54(2), 146-
Pública, 10 (supl. 1), 61-73. 154.
Cibois, P. (1998) L’analyse factorielle. Paris: PUF. Silva, V. F., Oliveira, H. B., Botega, N. J., Marin-
Coutinho, M P. L. (2005). Depressão infantil e León, L., Barros, M. B. A. & Dalgalarrondo,
representação social (2ª ed.). João Pessoa-PB: P. (2006). Fatores associados à ideação suicida
Editora Universitária UFPB. na comunidade: um estudo de caso-controle.
Coutinho, M. P. L. & Saldanha, A. A. W. (2005). Caderno de Saúde Pública, 22(9), 1835-1843.
Representações sociais e práticas em pesquisa. João Solomon, A. (2002). O demônio do meio dia. Rio de
Pessoa: Editora Universitária UFPB. Janeiro: Objetiva.

Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010


Araújo, L. C., Vieira, K. F. L., Coutinho, M. P. L. Ideação Suicida na adolescência 57

Stevenson, J. M. (1992). Suicídio. Em J. Talbott, R. Werlang, B. S. G., Borges, V. R. & Fensterseifer, L.


Halles & S. Yudofsky (Orgs.). Tratado de (2005). Fatores de risco ou proteção para a
Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas. presença de ideação suicida na adolescência.
Teixeira, A. M. F. & Luis, M. A. V. (1997). Suicídio, Revista Interamericana de Psicologia, 39(2), 259-
lesões e envenenamento em adolescentes: um 266.
estudo epidemiológico. Revista Latino-americana WHO – World Health Organization. (2003).
de Enfermagem, 5(nº esp.), 31-36. International Statistical Classification of Disears
Turecki, G. (1999). O suicídio e sua relação com o and Related Health Problems. 10th Revision. Versão
comportamento impulsivo-agressivo . Revista online 2003. Obtido em 9 de junho de 2007 do
Brasileira de Psiquiatria, 21(suppl. 2), 18-22. World Wide Web :
Vala, J. & Mnteiro, M. B. (2004). Psicologia social. www.who.int/classification/apps/icd/icd10on
1ª ed. Lisboa: F.C. Gulbenkian. line.
Vega-Piñero, M., Blasco-Fontecilla, H., Baca-
Garcia, E. & Diaz-Sastre, M. (2002). El
suicídio. Salud Global, 4(2), 1-15.
Vieira, K. F. L. (2008). Depressão e suicídio: uma Recebido em maio de 2009
abordagem psicossociológica no contexto Reformulado em setembro de 2009
acadêmico. Dissertação de Mestrado, Aprovado em fevereiro de 2010
Universidade Federal da Paraíba, Paraíba.

Sobre as autoras:

Luciene da Costa Araújo é discente do Curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba – UFPB
e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Aspectos Psicossociais de Prevenção e Saúde Coletiva /Pós-
Graduação em Psicologia Social.

Kay Francis Leal Vieira é psicóloga Clínica-Hospitalar, mestre em Psicologia Social pela Universidade
Federal da Paraíba e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Aspectos Psicossociais de Prevenção e Saúde
Coletiva/Pós-Graduação em Psicologia Social.

Maria da Penha de Lima Coutinho é docente do Departamento de Psicologia da Universidade Federal


da Paraíba e coordenadora do Núcleo de Pesquisa: Aspectos Psicossociais da Prevenção e de Saúde
Coletiva/Pós-Graduação em Psicologia Social.

Psico-USF, v. 15, n. 1, p. 47-57, jan./abr. 2010