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Tive de fazer: o bacalhau de páscoa

Certa vez um homem de bem - quatro filhas, casado, casa imensa e de muito vigor vazio
argumentativo a torto e à direita - me disse em plena hora sagrada do petisco antes do
almoço pascoal: “Nunca demiti nenhum funcionário em 30 anos de empresa”, grave e
orgulhoso, em pleno interior de SP, no auge da espoliação de território por
micropoderes de compadrio, demonstrava-se, “nenhum funcionário!; mas, parou
enquanto observara o cozimento do bacalhau azeitado até o rabo, agora tive de fazer
isso...”. “Tive de fazer isso”, continuou e espezinhou ao lado a esposa afável e de traços
sujeitados à beleza da força, além de também capitalista bem-sucedida, “amor, tá dando
certo! Quem disse que a mistura sem receita não dá certo, heim?!”. De fato, ele sabia
dessa receita sem receita. Era autodidata, embora tinha sido bom vendedor na indústria
de cigarros, desculpe-me pela redundância. Business is feeling, like always. A primeira
parte ele dizia com um sotaque de desprezo de toda racionalidade urbana, com grande
porte de aprendizado e didatismo do que seria a vida real. Aliás, seu porte era grande.
Parrudo de 2 metros, um breve passado político cuja promessa era limpar a política
local, vinha de fora e quebraria os compadrios. Fora taxado como “o diabo”. Ninguém
quer ser o diabo, mas tem um monte por aí e ninguém vê, ele dizia. Era homem de moral
íntegra, homem de partido. A voz corpulenta retumbava pelos cômodos brancos e
reverberantes da casa, construída para o conforto de todos os que quisessem visitá-lo,
até os empregados. Orgulhava-se a todo vapor de sua fabriqueta de panelas, de sua
ética do capital abotoada até o último argumento desesperado: “E o Che Guevara matou
um monte de civis inocentes! Coreanos, cubanos, islâmicos, eles acabam com o mundo,
porra!”. E, de fato, nunca despediu. Fez acordos, como todos fazem. Diz ter sido coagido
por funcionários e diz que a justiça do trabalho era vendida para sindicatos para fazerem
esses acordos contra os patrões. E ainda: gente, para com essa ideia de que lucro é
pecado, e ressoava na mesa de jantar a mão grave e a voz de cinco dedos. “Tive de fazer
isso”. “Tive de fazer porque as duas eram, e apontou a lista da eficiência nos dedos:
senhoras, mães, avós, faltavam demais, trabalhavam na cozinha duas horas e o resto do
tempo na feitura de panelas. Não dão mais conta. Não carregavam nada... Tive de fazer
isso. E sabe quanto elas me custavam? 2 mil por mês”, repetiu calmo e grave como um
surdo afinado em chamas por três vezes fazendo um samba dolente. Eu queria
redarguir, mas cá estou: frígido, arrepiado, como Eneias gemendo, apenas alcei as
palmas e exclamei: “Afortunados Oh! três e quatro vezes, d'Ílio às abas, os que aos olhos
paternos feneceram!”. Merda, me senti um ridículo, um bosta diante da figura
porculenta; nenhuma cruzada da eficiência tem a ver com isso. Pra mim, cinco anos de
Sociologia e o que me vem são os malditos versos da Eneida. Para ele, 30 anos de
empresa, família, casa meio direita nas cores meio pós-moderna na decoração e um
rústico forjado nos móveis, parecendo herdado; mas não, tudo conquistado com o meu
suor, diria o homem de bem.
Estou cá dentro desse recinto, não consigo sair dos argumentos tutelares; sinto-me bem
no menor lugar da casa. Aqui ainda deparo com o único livro inteiramente lido por ele:
7 hábitos das pessoas altamente eficazes. Ok, ele ainda leu a biografia de Getúlio Vargas.
Uma combinação irreversível. Redundantemente tupiniquim, não?
Mas veja: meu arrepio foi tacanho perto das duas senhoras, mães, avós, cozinheiras,
operárias e que ainda sustentavam a casa. E o parrudo continuou: “Faça as contas:
quanto por ano elas me valiam? 40 mil! 40 mil mais os calangos que eu tinha que
contratar pra descarregar o caminhão, levar as caixas pro caminhão. Não dá, entende?
A gente precisa de gente que faz tudo hoje em dia...e mulher, você sabe...é foda.”. Riu
com relincho agudo e patada de cavalo selvagem. Aos olhos daquele pater, idiotio da
urna política, feneci. Havia esperança para aquele bacalhau? Em plena Páscoa. Ai doze
anos de petismo, prosperidade e plena sujeira para aquelas panelas que, ainda malgrado
o canto da coruja, se espraiavam pelas janelas da classe média e, só o detalhe, da
ascensão econômica. Fiz por meu esforço, tonitruava a batida no peito com a mão
espalmada. Malfadado fui eu, tinha eu doze anos de idade quando minha mãe me
presenteou com ovos de páscoa. Vomitei-os de páscoa em plena era FHC. Minha mãe
tinha apenas 12 reais na carteira para passar o mês. Doze parece místico no histórico
brasileiro, assim como o 10, os 48, os 64, os 68, os 79, os 88, e assim vai. Aqui temos
facilidades para a metafísica e para a vadiagem. Na era petista ganhei muitos ovos,
inclusive importados. Vinham até surpresinhas, como várias outras desse período. E a
má digestão sempre me afligiu. Talvez essa seja a verdadeira antropofagia: digerir
sucedido de diarreia. Ao fundo da sala, o papagaio de pirata a cabo da Globo passava a
manchete de terninho e cabelo escovado: Recessão e desemprego derrubam inflação e
devolvem poder de compra aos brasileiros. Ainda não entendo a equação, mas me
apercebi do cheiro do bacalhau. Não havia como dar errado...muito azeite de primeira,
umas fatias de bacalhau que o trouxa comprou mais caras que lascas do mesmo bicho
no supermercado menos pomposo ao lado, muito povão, diria ele, embora se sentisse
também do povo, mas não do povão; muita batata orgânica de pequenos agricultores
da região, temos de incentivar os pequenos, diria ele novamente; uns 650m2 de
território livre para plantio de sua horta de estimação cuja cebolinha, salsinha e couve
estavam rendendo nos pratos diários – nenhum deles fora usado na receita; cervejas do
povão; e alho, muitíssimas cabeças de alho. Muitas. Comemos mais ou menos uma
cabeça cada um. E ainda ele tinha fôlego, após baforadas de alho quente na cara da
mulher e da filha caçula de 23 anos que chegava ao lado do fogão, e sem titubear disse:
“fazendo as contas, era pra eu estar uns 48, 51 ou 52 mil mais rico neste ano! E ainda
tem gente que não quer trabalhar, fio!”, mirando-me. Mas, pai, disse a pobre menina
rica, e agora você está sem funcionário! Não foi ruim pra elas? O parrudo virou-se como
um pescador de Moby Dick e apontou para seu feito cristão: “Olha esse bacalhau, se
ainda quiser comer ele, tem que ver que isso aqui se conquista com trabalho!”. “E, aqui,
vagabundo não entra!”. Um silêncio e a mãe perfilou: “Colorido e cheirosíssimo!”.

Uma turba desfilava os louvores de um homenageado patrão de escola de samba. Tinha


índio, tinha estudante, tinha operário, tinha anarquista, comunista, bicha, travesti,
mendigo, tinha refugiado e mais uma penca de párias. E, no interim do regime de
exceção narrativo, ainda me assolaram uns versinhos de valsa de Casimiro de Abreu:

Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída,
Sem vida
No chão!
Ainda houve tempo para uma mão pesada bater pelicamente em meu rosto: você é
trabalhador, fio. Continue assim. Sustento pra mulher é bacalhau e cervejinha, tá
vendo? Mais direito que nós. E tornou ao tema, como se volta ao círculo vicioso do
controle: tem muita gente boa por aí, é só pensar positivo. Sem crise, mas a gente tem
que se segurar onde dá.

Segurei os talheres até os músculos se contraírem ao máximo. Queria mesmo era


brincar de faca entre os dedos e cantar doce e gringamente:

Oh, I have all my fingers, the knife goes chop chop chop
If I miss the spaces in between, my fingers will come off
And if I hit my fingers, the blood will soon come out
But all the same, I play this game, cause thats what its all about
Oh, CHOP CHOP CHOP CHOP CHOP CHOP CHOP
Im picking up the speed
And If I hit my fingers then my hand will start to bleed

Segurei a faca na mão esquerda, fechei os olhos e vi a cena trágica ocorrer. Ritmo que
embala a morte, a morte embalada nos bolsões rentistas. Quem aposta, quem dá mais
para a mutilação? Dedos automutilados, ensanguentados até a brancura do osso.
Aposte meu homem de bem! Quem iria trabalhar nessas condições, seu desgraçado?!
CHOP CHOP CHOP, the blood will soon come out. Então, senti a derradeira verdade
escorrendo. Mais uma vez Eneias e agora sem dedos, sem família - e ainda louco.
Fatalmente, e do neto de 5 anos vinha a sanguinolência de muita docilidade.
Desgraçado, pensei! Suco de uva em minhas mãos. Olhei extasiado por um instante para
meus dedos da mão direita enquanto Augusto retumbava de dois metros, “maldito!
Desgraçado! Saia já desta mesa!”
Peço desculpas pela falha na trama. Ele é tão grande que nem o apresentei.
Sucintamente: mantenedor da gestão punitiva e familiar-compensatória de seu
mercado interno cuja convulsão se dá por artroses e pedras nos rins. Imagina o golpe de
dois metros quando cai o homem? Chop chop chop, oh I have all my fingers.
Bacalhau servido e comido por todos. Silêncio, pois o pater se retira.
E assim fora dias de alho e de fartura rondando o meu estômago.

Epílogo:
Ainda não sei, de fato, se foi o alho ou a valsa de Casimiro de Abreu, mas ando meio
cruento, batido, caído, qual pálida menina de 23 anos, branca, vegana que adora ler
livrinhos holísticos, corpos sagrados, fazer yoga e jogar tarô. O neto de Augusto, quase-
rei, continua a derrubar tudo ao chão, a empregada limpa, a avó limpa, eu limpo;
fiquemos, no entanto, calmos. Como diria Sofia Poliana, o melhor está no porvir: o
futuro do menino está garantido: ele está numa escola construtivista; assim como o
bendito Brasil. Os futuros se encontram logo ali, onde a vingança histórica não atrapalhe
o povo, o bem do povo e para o povo. CHOP CHOP CHOP, the blood will soon come out.
Epílogo 2:
Dada a eficiência e desempenho e méritos, declaro: tirei a primeira lasca da cabeça da
falange, ontem mesmo. Não sei o quanto me restará de articulação para uma próxima
bacalhoada.