Anda di halaman 1dari 16

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ – PUC/PR

MESTRADO EM TEOLOGIA
TEOLOGIA E SOCIEDADE

O MASCULINO E O FEMININO: UMA REFLEXÃO SOBRE O SER HUMANO

CURITIBA
2012
ANGELA NATEL

O MASCULINO E O FEMININO: UMA REFLEXÃO SOBRE O SER HUMANO

Artigo apresentado à Pontifícia


Universidade Católica do Paraná –
PUC/PR, para o curso de mestrado em
Teologia.

CURITIBA
2012
1

O MASCULINO E O FEMININO: UMA REFLEXÃO SOBRE O SER HUMANO

Angela Natel1

Resumo
A identidade humana é entendida dentro de suas limitações físicas, culturais, sociais e
cognitivas. Em toda a história se observa uma busca incessante pela clara delimitação
do que é feminino e do que é masculino, num reconhecimento de que somos diferentes.
Porém, a nossa sexualidade tem um caráter ontológico, vai além das características
biológicas, e envolvem categorias bem mais complexas nos estudos de gênero. Apesar
dos esforços revolucionários em se tentar igualar as funções sociais de homens e
mulheres, a biogênese tem comprovado que as realizações pessoais divergem
naturalmente, sem desmerecer lado algum. Nossas diferentes necessidades sexuais e
realização em diferentes papéis sociais são um exemplo disso. É possível, entretanto,
perceber a ameaça que a mudança do matriarcado para o patriarcado causa na
sociedade, principalmente devido às características essenciais do homem. É por essa
razão que se busca na face materna de Deus e nos relatos da criação do homem e da
mulher uma resposta para essas relações em crise.

Palavras chave: Teologia, Gênero, Masculino, Feminino.

Introdução
O sujeito nasce imerso em um mundo em que os sistemas de relações foram
constituídos ao longo de um processo histórico. Nem por isso se é capaz de anular as
características cognitivas e profundas referentes à identidade do ser humano quanto ao
seu sexo e seu gênero. No entanto, faz-se necessário compreender as implicações que
certas delimitações acarretam até mesmo no que diz respeito aos papéis sociais que o
feminino e o masculino se realizam em assumir. Dentro dessas perspectivas é que se
trabalha para abarcar uma visão do que é gênero, o caráter ontológico da sexualidade e
a face feminina de Deus. Sobre essas postulações é que será realizada uma reflexão, a
fim de nos ajudar a realizar um ajustamento de foco quanto às realidades que nos
cercam e a respeito de nós mesmos.

1
Graduada em Letras Português-Inglês pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR,
graduada em Teologia pela Faculdade Fidelis e mestranda do curso de Teologia da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná – PUC/PR.
2

A construção histórico-social dos sexos: o gênero

Desde os primórdios, a racionalidade, a linguagem e a espiritualidade são fatores


determinantes na construção do ser humano. A partir de agora tudo se historiza; as
forças que constroem sua existência concreta, como homem e mulher, se inter-
relacionam sobre a base ancestral do processo biogênico e sexogênico (OHNO, 1978).
No ser humano há continuidade e descontinuidade. Esta última é a principal
responsável pelas diferenças. O ser humano comparece concretamente na diferença
homem e mulher. A humanidade não é simples, é complexa e biforme.
Para onde quer que orientemos a análise, aparece a diferença dentro da
unidade. Em todos eles, o ser humano aparece sexuado masculino e femininamente
seja em seu corpo que jamais é uma coisa, mas uma situação no mundo com os outros
e diante dos outros, seja fenomenologicamente emergindo como ser-homem e ser-
mulher como duas maneiras não exclusivas de ser dentro da realidade. Uma maneira
de ser aparece como trabalho, agressão e transformação (atribuída ao masculino, mas
pertencendo também ao feminino) e outra, como cuidado, coexistência e comunhão
com a realidade (referida ao feminino, mas fazendo parte também do masculino)
(BUYTENDIJK, 1967).
Todas as diferenças remetem sempre a uma constante antropológica, comum a
homens e mulheres. A diferença resulta da elaboração sócio-cultural desta base
comum. Jamais o ser humano sexuado apresenta-se isolado de seu meio ecológico e
sócio-histórico. Em consequência disso, todo o esforço de dicotomizar a complexa
realidade humana em segmentos, só se justifica como objetivo da análise. Mas nunca
se deve perder a consciência de que o segmento é parte de um todo. Na análise, por
mais distinto que seja o enfoque, deve aparecer continuamente que a existência
humana se articula sob duas formas, a feminina e a masculina. Tanto o homem quanto
a mulher projetam, a seu modo, a existência, têm suas maneiras próprias de tecer as
relações, costurar as rupturas existenciais e sociais e elaborar um horizonte utópico.
Os dados da biogênese influenciam poderosamente na organização da
sexualidade humana. Tomemos, a título de exemplo particular, os hormônios e sua
importância na diferenciação sexual (REINISCH, 1991).
3

Sabe-se que os hormônios, especificamente, andrógenos pré-natais, operam


uma diferenciação masculina e feminina de algumas porções do sistema nervoso
central. Mulheres que sofreram, por exemplo, uma andogrenização fetal, parecem
resistir a uma socialização (considerada) feminina e mostram interesses e níveis de
atividade tidos como adequados aos homens. Homens que sofrem de insensibilidade
congênita aos andrógenos pré-natais, assumem características comportamentais tidas
nitidamente como femininas e se opõem a uma socialização dita masculina.
É próprio do androgênio potenciar a agressão, enquanto o estrogênio a inibe. Os
homens, produtores em maior quantidade de androgênio, são, por isso mesmo, muito
mais predisposto à agressão, possuem uma massa muscular maior e um coração e
pulmões de proporções mais avantajadas. A elaboração sócio-cultural desta diferença
fez com que, por exemplo, se assinalasse aos homens tarefas mais ligadas ao perigo
físico, à conquista territorial, à dominação e ao jogo do poder sobre outros.
Da mesma forma, a estrutura biológico-hormonal da mulher, propendeu-a a
tarefas ligadas à produção, conservação e desenvolvimento da vida. Seu investimento
parental - isso se revela também nas fêmeas animais - é muito maior do que aquele do
homem. Enquanto o homem possui uma sexualidade regionalizada, a mulher é um
corpo integralmente saturado de sexualidade (Foucauld). Esta diferença levou, no nível
sócio-cultural, a outras formas de diferenciação que caracteriza transculturalmente
homens e mulheres.
Assim, por exemplo, as mulheres estão muito mais ligadas a pessoas do que a
objetos. Mesmo quando têm a ver com os objetos, facilmente os transformam em
símbolos e os atos, em ritos. O homem, por sua vez, está mais ligado a objetos que a
pessoas e, no processo de produção, tende a tratar as pessoas como objetos (material
humano). Mais ainda: os homens são inclinados a correr riscos, a conquistar status e
poder com suas iniciativas e a afirmar-se individualisticamente, se possível, no topo da
hierarquia. As mulheres, por sua vez, são mais centradas na teia de relações pessoais,
entregues ao cuidado da vida, sensíveis ao universo simbólico e espiritual, capazes de
empatia e comunhão com o diferente (GUITTON, 1967).
Nas relações sexuais a mulher procura antes a fusão que o prazer, mais o
carinho que o intercurso sexual. Precisa amar para fazer sexo, pois não dissocia amor e
4

sexo. O homem, por sua vez, dissocia, facilmente, amor do sexo, busca antes o prazer
que o encontro profundo. A vestimenta na mulher é um comentário de sua própria
beleza; o que coloca em seu corpo se transforma em objeto de contemplação para si e
para os outros. Para o homem a vestimenta cumpre uma função objetiva de cobrir seu
corpo e de qualificar seu status social, nem sempre associado à expressão estética.
Evidentemente, não se trata nunca de uma dicotomia de comportamentos, mas
de diferença de frequência e de intensidade nesses comportamentos que podem ser
identificados em ambos os sexos. Nesse sentido, a variável do meio sócio-cultural é de
se considerar atentamente, em particular, no que tange à distribuição do poder e das
formas de participação, campo altamente conflitivo, e na história, organizado pelos
homens em detrimento da mulher.
Não se pode falar, propriamente, de uma programação genética fixa, própria
para cada sexo (visão essencialista), mas de matrizes diferentes no homem e na
mulher a partir das quais se opera a síntese com o meio sócio-cutural (construtivismo).
Tanto as matrizes quanto o meio agem como co-causas. Pode-se agir sobre cada um
dos pólos, especialmente, aquele do meio. Assim, por exemplo, se um meio sócio-
cultural favorece a competitividade aberta, pode-se supor que nela o homem domine
em quase todos os setores, marginalizando a mulher. Nossa sociedade, de corte
capitalista e altamente competitiva, oprime, estruturalmente, a mulher. Em sociedades
nas quais se reduz a competitividade e se favorece a cooperação se dão condições de
gratificar mais a mulher e menos o homem. Num meio igualitário, os papéis sexuais são
geralmente mais igualitários e fraternais. Uma divisão social do trabalho menos binária
produz também menores diferenças entre os sexos: os homens podem apresentar
comportamentos mais femininos (marcados pela dimensão de anima) e as mulheres
mais masculinos (marcados pela dimensão do animus). Investigações transculturais
vieram confirmar este tipo de hipótese baseada na interação dialética entre o biológico
e o cultural.
O experimento moderno dos kibbutz israelenses é paradigmático para o
problema em tela (TIGER, 1975). Partia-se de uma crítica severa à distribuição rígida
dos papéis sexuais como se dá no sistema vigente patriarcal e de uma afirmação
corajosa da igualdade entre os sexos. Os diferentes papéis eram tidos como meros
5

artefatos sócio-culturais. O desenvolvimento concreto das relações fez com que se


revertessem os papéis, antes tidos como tradicionais, não porque se negasse a
igualdade dos sexos (ela continua sendo afirmada), mas porque se via em tais papéis,
maneiras de maior realização pessoal e de plenificação, seja para homens seja para
mulheres. Concretamente, uma mulher se sente mais realizada cuidando de crianças
do que manejando tratores e homens sentem mais plenitude construindo casas que
entretendo crianças num jardim da infância. Como se vê, as diferenças acabaram por
se impôr sem negar a igualdade de base entre homem e mulher.
As instituições do matriarcado, datadas de milênios de anos atrás pelos
antropólogos, caracterizadas por grande força integradora, foram tão significativas que
se transformaram em arquétipos e em valores, e como tais deixaram incisões na
memória genética até os dias de hoje. Esses arquétipos e valores não pairam num
imaginário vazio, mas são calcados sobre fatos históricos e políticos que esclarecem a
consistência que guardam até o presente. O fim do matriarcado é situado, atualmente,
por volta de 2000 a. C., variando nas datas de região para região. É fato histórico que a
partir de então, o mundo começou a pertencer aos homens, fundando o patriarcado,
base do machismo e da ditadura cultural do masculinismo (MURARO, 1994). São
obscuras as razões dessa passagem que demorou cerca de 1000 anos para se impor,
perdurando ainda até os dias atuais. Provavelmente a vontade de dominar a natureza
levou o homem a dominar a mulher, identificada com a natureza pelo fato de estar mais
próxima aos processos naturais da gestação e do cuidado com a vida. O grave é que
os homens conseguiram “naturalizar” essa dominação histórica, introjetá-la nas
mulheres a ponto de muitas delas aceitarem tal situação como normal. Simone de
Beauvoir fez de tal acontecimento histórico-cultural a crítica mais radical. A mulher
representaria um caso particular da dialética imposta pelos homens, dialética do
senhor-escravo, impedindo que ela expressasse sua diferença e elaborasse sua
identidade (STARR, 1994). O homem fez dela a encarnação do outro, no qual se
permite descobrir, confirmar e projetar o próprio eu. Todas as formas de antifeminismo
antigas e modernas se baseiam nesta dominação do homem sobre a mulher. Suas
expressões pervadem todos os níveis sociais também no seio das religiões e do
6

cristianismo (GEBARA, 2000), constituindo o patriarcado como realidade histórico-social


e como categoria analítica.
Como categoria de análise, o patriarcado não pode ser entendido apenas como
dominação binária macho-fêmea, mas como uma complexa estrutura política piramidal
de dominação e hierarquização, estrutura estratatificada por gênero, raça, classe e
religião e outras formas de dominação de uma parte sobre a outra (18). Essa
dominação plurifacetada construiu relações de gênero altamente conflitivas e
desumanizadoras para o homem e principalmente para a mulher (FIORENZA, 1996).
As relações de gênero, particularmente no seio da família, vêm marcadas pela
guerra surda e, não raro, gritante dos sexos. Ela marcou os dispositivos psicológicos do
relacionamento, minando a singeleza das relações e carregando-as de tensão, disputa
e vontade de poder. Tais conflitos de gênero são de tal monta que dificilmente podem
ser resolvidos por um casal, por exemplo, pois subjacente trabalha uma pre-história de
sofrimento, de dominação e de tensões com milhares de anos de persistência. Só é
possível uma convivência minimamente harmoniosa do casal mediante uma atitude
vigilante de autocrítica, capacidade de aceitação dos limites de um e de outro, uma
ética transparente de benevolência e compaixão e, não em último lugar, a
espiritualidade como uma fonte permanentemente inspiradora de sublimações e de
novas motivações. Mediante esta última dimensão, profundamente humana (não é
monopólio das religiões) o ser humano reforça seu lado luminoso e melhor, capaz de
integrar e curar seu lado sombrio e menor.
A nova consciência instaurada já há mais de um século pelo feminismo carrega
dentro de si um potencial crítico e construtivo da maior importância. O feminismo
clássico e o pós-feminismo (que incluem na tarefa da libertação os homens e não só as
mulheres) criaram o âmbito das utopias mais promissoras para a humanidade, dentro
de um novo pacto sócio-cósmico, com uma democracia participativa e aberta, com uma
relação mais equilibrada entre os gêneros e com uma integração de boa vontade para
com a Terra.

O discurso ontológico - a vida na dimensão feminina e masculina


7

Quando tratamos do caráter ontológico da sexualidade, estamos postulando a


profundidade de suas relações, ligadas à própria essência do ser humano. Na diferença
sobre os modos de ser está a reflexão ontológica. (BOFF, 2003). Para Leonardo Boff,
“todo ser humano é inteiro, mas inacabado”. Por isso é possível ver o feminino dentro
do masculino e ver o masculino dentro do feminino. A reciprocidade se dá a partir de
dentro de cada um, e a predominância de um deles é que determinará o feminino ou
masculino em cada pessoa.
Abordar esse tema é algo profundamente importante para entendermos o
processo de alta revelação e de manifestação de Deus na humanidade. Por outro lado,
esse é um tema ainda polêmico, e muita das vezes, mal interpretado por vários setores
da teologia. Porém, ninguém pode negar de que a manifestação de Deus passa por
essas duas expressões: Feminino e Masculino. Passa necessariamente pela linguagem
humana! O teólogo Leonardo Boff, no seu livro “O rosto materno de Deus”, trabalha
como ninguém esse tema.
Leonardo Boff, no capitulo IV da obra acima citada, fala da reflexão filosófica
sobre o tema “o feminino”. E lá ele afirma que a grande pergunta da filosofia é sobre o
homem! Quem é o homem? E mostra ainda que essa pergunta continuará sempre
sendo mistério, entendido aqui como o permanente desafio ao conhecer!
O homem não existe como o homem e a mulher existem. Por isso homem e mulher são
dois modos diferentes e relacionados de se realizar o homem; o homem existe como
homem e mulher. (BOFF, 1986). Ou seja, não temos e nem teremos um conceito
cientifico que possa de forma ilimitada delimitar o ser do homem. Assim como o homem
e a mulher também não se esgotam com a ciência que deles temos. Constitui sempre
como pergunta e interrogação para o pensamento. Como bem afirma Leonardo Boff:
não é o esclarecimento que reconhece o mistério, mas é o mistério que esclarece o
conhecimento.
Com isso podemos afirmar que o ser humano, o homem, com toda sua
antropologia, com todo seu mistério de ser no mundo, é no fundo uma identidade que
se realiza em múltiplas diferenças. Ele é essencialmente pólos e múltiplos! Não
podemos engaiolá-lo numa jaula e nem podemos prendê-lo a uma simples definição
fruto de nosso egoísmo e de nossa pretensão de sermos deuses ou de nos colocarmos
8

em Seu lugar. Leonardo Boff chega à conclusão que ser homem ou ser mulher são dois
modos de ser diferentes no mundo. Contudo, somos convidados a nos abrirmos para
algo profundamente real que é o diálogo com o diferente! A relação interpessoal
significa uma abertura radical para a relação com o outro. Pois, o ser humano é um ser
de abertura. Por exemplo, a ética cristã torna o homem refém desse outro que não é
indiferente a ele (Ex. a parábola do bom samaritano). A humanização do ser humano se
dá exatamente pelas relações e experiências que o mesmo faz das coisas. E essa
realidade de encontro com o outro “eu” é o que nos possibilita a sermos nós mesmos.
Lembrando sempre que a alteridade e a dualidade não desaparecem na relação entre
as pessoas. Somos profundamente duais, o que nos basta é buscar a integração de
todas as dimensões humanas. Temos que adquirir um sentimento de profunda abertura
de que o Outro não é um intruso, não é uma ameaça, é um outro. O papel primordial,
por exemplo, do mito da criação (Gênesis 1 e 2) é exatamente possibilitar ao homem
encontrar um outro eu, semelhante a ele, como quem se pudesse relacionar de igual
para igual. Mais que a possibilidade de procriar, nasce ali a vocação de convivermos
como irmãos.
E nessa mesma perspectiva Leonardo Boff mostra que o homem possui a mulher
dentro de si, mas é homem e não mulher; a mulher possui o homem dentro de si mas é
mulher e não homem. Com isso podemos perceber que masculino não é sinônimo de
homem, porque pode haver masculinidade de fora do homem, isto é na mulher. Assim
como também feminino não é o mesmo que mulher, porque pode existir feminino no
homem. O equívoco nesse entendimento foi o que levou a sociedade a profundas
confusões chegando a posturas radicalmente desumanas. Lina Boff, no seu livro
“Mariologia, Interpretações para a vida e para a fé”, diz que falar da dimensão feminina
da vida como contribuição da teologia lucana evoca falar de Maria e das muitas
“Marias” que hoje exprimem o modo feminino com que Deus trata seu povo. Por isso a
presente abordagem sustenta a seguinte posição: O feminino de Deus é uma imagem
do amor total e radical de Deus como comunidade de amor que se revela em Jesus
Cristo pelo Espírito Santo. Dentro das relações humanas este amor pode se expressar
seja no modo de ser feminino, seja no modo de ser masculino da pessoa humana.
Reconhecendo que a linguagem desta dimensão do amor está presente nos homens,
9

nas mulheres, no mundo, na criação e em Deus como comunidade que se relaciona


para dentro e para fora, no amor.

O relato da criação em Gênesis

Hoje é possível afirmar que todo ser humano nasce inteiro, mas não está pronto.
Ainda se encontra em Gênese. Mas é sempre bom voltarmos aos textos que originaram
o entendimento a respeito das diferenças masculino/feminino no ambiente religioso,
como por exemplo, o judaico/cristão.
As Escrituras utilizadas para relatar o surgimento do homem e da mulher na
terra, tanto para judeus, quanto para cristãos, são as mesmas, e encontra-se na
chamada Torah (ensino, em hebraico) ou Cinco livros de Moisés que equivalem aos
cinco primeiros livros da Bíblia cristã.
Em Gênesis há dois relatos da criação, o primeiro no capítulo 1 (mais popular
entre os judeus) e o segundo no capítulo 2 (de tradição sacerdotal). No primeiro relato,
é interessante notar que homem e mulher são criados juntos, sem maiores detalhes na
maneira como se deu:
Então disse Deus: "Façamos o homem à nossa
imagem, conforme a nossa semelhança.
Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as
aves do céu, sobre os animais grandes de toda
a terra e sobre todos os pequenos animais que
se movem rente ao chão".
Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem
de Deus o criou; homem e mulher os criou.
Deus os abençoou, e lhes disse: "Sejam férteis
e multipliquem-se! Encham e subjuguem a
terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre
as aves do céu e sobre todos os animais que se
movem pela terra".
Disse Deus: "Eis que lhes dou todas as plantas
que nascem em toda a terra e produzem
sementes, e todas as árvores que dão frutos
com sementes. Elas servirão de alimento para
vocês.
E dou todos os vegetais como alimento a tudo o
que tem em si fôlego de vida: a todos os
grandes animais da terra, a todas as aves do
céu e a todas as criaturas que se movem rente
ao chão". E assim foi.
E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia
ficado muito bom. Passaram-se a tarde e a
10

manhã; esse foi o sexto dia.


Gênesis 1:26-31 (BÍBLIA).

O termo traduzido para o português como ‘homem’ no versículo 27, em hebraico


(a língua do texto original) é ‫( האדם‬adam - aw-dawm') que significa ‘ser humano’, é um
temo genérico e pode ser usado como coletivo. Nesse sentido, o termo ‘Adam’ (ou
Adão) é humanidade, neste contexto. Já na expressão traduzida como ‘homem e
mulher os criou’, a expressão hebraica para homem e mulher é ‫( זכר ונקבה‬zakar
nqebah) que significa, no sentido sexual, ‘macho e fêmea’, como um hetero par (ISA
2.0). A diferenciação do primeiro relato bíblico é de um par sexuado diferente entre si,
complementar.
No capítulo 2 inicia-se um novo relato da criação, desta vez utilizando um novo
termo para referir a Deus (no capítulo 1 era Elohim, no capítulo 2 é YHWH), e se dá
uma diferenciação na criação de homem e mulher.
Então o Senhor Deus formou o homem do pó
da terra e soprou em suas narinas o fôlego de
vida, e o homem se tornou um ser vivente.
Gênesis 2:7 (BÍBLIA).
Encontramos aqui a descrição somente da criação do homem, de maneira bem
clara e específica. Aqui, o termo ‫( האדם‬adam - aw-dawm') é utilizado com o sentido de
homem, porque no contexto a mulher é criada mais tarde, de uma costela tirada dele.
Interessante é perceber que Deus dá o mandamento de não comer do fruto da árvore
do bem e do mal antes da mulher ser criada. Portanto, ela não teria ouvido diretamente
de Deus essa ordem e não temos relatos de como o homem teria repassado as
informações.
Depois que formou da terra todos os animais do
campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus
os trouxe ao homem para ver como este lhes
chamaria; e o nome que o homem desse a cada
ser vivo, esse seria o seu nome.
Assim o homem deu nomes a todos os
rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos
os animais selvagens. Todavia não se
encontrou para o homem alguém que o
auxiliasse e lhe correspondesse.
Então o Senhor Deus fez o homem cair em
profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-
lhe uma das costelas, fechando o lugar com
carne.
Com a costela que havia tirado do homem, o
11

Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele.


Disse então o homem: "Esta, sim, é osso dos
meus ossos e carne da minha carne! Ela será
chamada mulher, porque do homem foi tirada".
Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e
se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma
só carne.
Gênesis 2:19-24 (BIBLIA).
O contexto no qual a mulher foi criada, segundo este outro relato, tem a ver com
necessidade, complementaridade, companhia, atração e até oposição (uma
contraparte), de acordo com o vocabulário utilizado em hebraico. O homem foi levado a
nomear os animais, mas segundo o texto, “não se encontrou para o homem alguém que
o auxiliasse e lhe correspondesse” (2:20). A tradução ‘correspondesse’ foi dada ao
termo ‫( כנגדו‬neged). Que inclui o sentido de oposição, contraparte, companheira,
alguém contra, que lhe mostre o outro lado, outro ponto de vista. Não pára por aí. O
trocadilho com as palavras homem e mulher em hebraico (ish e ishah) fazem com que a
aliança estabelecida entre eles a fim de originar a humanidade, é bem mais complexa
do que se pode imaginar.
O feminino no homem e na mulher é mistério,
integralidade, profundidade, capacidade de
pensar com o próprio corpo, de decifrar
mensagens escondidas sob sinais e símbolos,
de interioridade, de sentimento de pertença a
um todo maior, de receptividade, de guardar no
coração, de poder gerador e nutridor, de
vitalidade e de espiritualidade. O masculino na
mulher e no homem exprime o outro pólo do ser
humano, de razão, de objetividade, de
exterioridade, de ordenação, de poder, até de
agressividade e de materialidade (BOFF, 2003).

A face materna de Deus

À luz da reflexão do pensamento da comunidade de Lucas, o que de fato


entendemos por “Feminino de Deus”! Uma primeira definição que podemos chegar é
que o feminino de Deus é uma imagem de amor de Deus à raça humana. Ou ainda, é
uma das tantas maneiras que Deus auto se comunica aos seres humanos! E como bem
afirma Lina Boff: esta imagem encontra sua expressão mais alta na pessoa de Jesus
Cristo que nos fala diretamente do amor total e radical de Deus para conosco nos fatos
12

históricos do mistério da Encarnação (Lc 1-2), e a partir do evento Pentecostes (At 2),
momento em que nos doa seu Espírito.
Não podemos esquecer que o ser humano só pode chegar à compreensão ou ao
entendimento do mistério sagrado por meio do sensível, aqui entendido como espaço
do ser do homem no mundo. Deus em nenhum momento tira o ser humano de seu real,
de habitat, do seu meio. Pelo contrário, o ser humano faz experiência profunda e radical
de Deus onde ele se encontra. E Lucas nos ajuda a entender que os dois modos pelos
quais Deus se revela é exatamente pelo aspecto feminino e masculino.
Isso não quer dizer necessariamente que Deus seja homem e mulher ao mesmo tempo.
Mas expressa que esses são os modos pelos os quais a lente humana capta a
experiência de Deus. Podemos ainda dizer que essa é na verdade uma maneira
analógica de falar ou de expressar a experiência do ser humano com o Sagrado. Como
falar do Sagrado sem passar pela linguagem humana? Parece que deparamos com um
profundo desafio. Lina Boff afirma: só se consegue falar do feminino de Deus através
de imagens que apontam para o mistério divino, pois este ultrapassa a nossa limitada
capacidade de compreendê-lo e de assimilá-lo na sua plenitude.
Isso é muito importante para entendermos que Deus não pode também ser limitado às
categorias: feminina e masculina. O seu mistério ultrapassa toda e qualquer categoria
existente e as que ainda possam existir. Nós é que somos limitados, que só podemos
conhecer o mistério de Deus a partir do que Ele mesmo se deixa conhecer. E o
conhecemos dentro de nossa realidade existente, ou seja, por meio de nossas
categorias.

Considerações Finais

Consideramos anteriormente como o ser humano, masculino e feminino, inteiro,


mas inacabado, só descansa plenamente em Deus. Isto significa: por mais que o
homem e a mulher estejam, inarredavelmente, imbricados um no outro, se busquem,
insaciavelmente, eles não encontram a resposta de seu vazio abissal nessa relação.
Antes pelo contrário, quanto mais ela se aprofunda, mais radicalidade ela pede e mútua
ultrapassagem solicita. Ambos, pois, são chamados a se auto-transcender, na direção
13

daquilo que os pode realmente saciar, vale dizer, na direção de Deus. Ai repousam e se
perdem para dentro do absoluto Amor e da radical Ternura, sem deixarem de ser o que
sempre foram e serão, homens e mulheres. É a pátria e o lar da infinita identidade e
realização. O feminino encontrará o Feminino total e o masculino o Masculino eterno.
Dar-se-á o que todos os mitos narram e todos os místicos testemunham: o esponsal
definitivo, o festim sem ruptura e a fusão do amado e da amada no Amado e na Amada
transformados.

Referências

BÍBLIA, Nova Versão Internacional - http://www.bibliaonline.com.br/nvi/gn acessada


em 24/11/2012.

BOFF, Leonardo. Masculino/Feminino: o que é o ser humano? In SOTER (org).


Gênero e Teologia, interpelações e perspectivas. Edições Loyola: São Paulo, 2003.

___. O rosto materno de Deus. Ensaio Interdisciplinar sobre o feminino e suas


formas religiosas. Petrópolis: Vozes, 1986.

BUYTENDIJK, F.Z. J., La femme. Ses modes d’être, de paraître, d’existier, Paris,
Desclée de Brouwer 1967.

FIORENZA, E. Schüsser. O patriarcado: pirâmide de opressões multiplicativas, in


Pero ella dijo, Madrid, Editorial Trotta 1996, 151-159.

GEBARA, I. Rompendo o silêncio, Petrópolis, Vozes 2000.

GUITTON, J., Feminine Fulfillment, N.York, Paulist Press Deus Books 1965, 3-8.
14

ISA 2.0. Interlinear Scripture Analyzer. ISA basic 2.1.4 Copyright © 2011 André de
Mol. All rights reserved.

MURARO, R. M., Homem/mulher. Início de uma nova era. Uma introdução ao pós-
patriarcado, Rio de Janeiro, Artes e Contos 1994

OHNO, S., La base biologique des différences sexeulles, em Soullerot e outros,


em Le Fait Feminin, Paris, Fayard 1978, 57-68.

REINISCH, J. M., e outros, Hormonal Contributions to Sexual Dimorphic Behavioral


Developments in Humans, em Psychoneuroendocrinology 16(l991) 213-278.

RIDLEY, M., Genetic Mutiny and Gender, em The Red Queen. Sex and the
Evolution of Human Nature, Pinguin Books 1993,87-112.

STARR, T., A voz do dono. Cinco mil anos de machismo e misogenia, São Paulo,
Atica 1994

TEPEDINO, A. M., As discípulas de Jesus, Petrópolis, Vozes 1993

TIGER, L. e Shepher J., Women in the Kibbutz, N.York, Harcourt Brace Jovanovich
1975.