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TRISTEZA

Houve um tempo em que a Filosofia esteve fora do circuito, mas é bem interessante,
então, que ela seja revitalizada no nosso tempo para que possa realizar a sua natureza de
promotora do diálogo entre as diversas áreas, entre as diversas pessoas, entre os diversos
interesses. Me parece que a tarefa da Filosofia é justamente a tarefa fundamental, essencial
sem a qual ela não se constitui, mais do que a reflexão é promover o diálogo no qual a reflexão
se torna, então, o sentido.

Quero conversar com vocês, hoje, sobre o tema TRISTEZA.

QUEM NUNCA SE SENTIU TRISTE?

Não devemos ter tido noticias a respeito disso, até os animais as vezes consideramos
que são tristes, então, a tristeza enquanto sentimento, enquanto afeto tem uma história, quero,
então, apresentar alguns traços dessa história e tentar construir com vocês um conceito que
toque no núcleo essencial, um núcleo atemporal dessa questão, digamos assim. Então, me
parece bem coerente começar a trabalhar alguns momentos da história a respeito desse
sentimento, desse afeto, pensando em primeiro lugar no fato substancial de que a tristeza
enquanto sentimento de abatimento, de pesar, de dificuldade com a vida; esse sentimento que
nos prostra, que nos deixa para baixo, vai estar sempre acompanhado do luto, vai se relacionar
com o luto ou vai se relacionar com a melancolia, Num momento mais presente caracterizando
até uma doença da nossa época que é a depressão. Assunto este bastante comum.

Esses três momentos em que aparecem o sentimento da tristeza ajudam, então, a


defini-la e ajudam, também, na medida em que os compreendemos ajuda com que nos
acostumemos com ela, ou seja, com a tristeza.

Acredito que o grande motivador de qualquer maneira em qualquer um desses três


momentos seja o fato de que nós não a aceitamos como sentimento. A tristeza começa a se
tornar algo suportável na medida que aprendemos que ela pertence a todos, que é um
sentimento que não diz respeito apenas à vivencia pessoal ontogenética, usando um termo que
Freud usa bastante, a um sentimento que é particular de cada um, mas um sentimento que vai
presidir a nossa história e a nossa cultura.

ONDE APARECE A TRISTEZA NA HISTÓRIA?

Vou citar alguns momentos que são interessantes, a partir daí creio que teremos vários
dados para a nossa discussão.

Um dos primeiros momentos que poderemos registrar, até porque é o grande suporte
da filosofia que é a sua história nascida na Grécia Antiga, um dos momentos é o que os gregos
vão fazer com a tristeza.

Tristeza nos gregos e é aí que ela aparece para a filosofia vai se localizar pelo menos em
dois momentos bem específicos que julgo interessantes. Um deles é no filósofo chamado
Heráclito. Lembram-se daquele sujeito que falava que nós nunca iremos tomar banho duas
vezes na mesma água do mesmo rio. Então, essa era para os gregos e depois a tradição da
recepção trabalhou essa imagem dele. Heráclito era o filósofo que chorava, era um filósofo
triste. E a questão do Heráclito, filósofo que funda a primitiva noção da dialética, aquela ideia
de que os opostos conduzem o caminho da história e da realidade. A ideia que vai presidir essa
tristeza do Heráclito é a ideia de que nós não podemos reviver. Nós vivemos, experimentamos,
funcionamos com a vida, mas não podemos repetir aquilo que vivemos, ou seja, estamos sempre
submetidos ao presente e submetidos a impossibilidade de retornar a esse presente vivido.
Então, na verdade não tocamos nem no passado e nem no futuro, e ao mesmo tempo, talvez,
não possamos tocar no próprio presente; estamos o tempo inteiro submetidos a essa sensação
de finitude de que tudo o que está acontecendo se foi. Isso pode causar ao sujeito uma vertigem,
uma sensação de que ele não está em lugar nenhum; nem no tempo e talvez nem mesmo no
espaço. Conquanto isso configure uma noção que vai ser importante para a Física e sem dúvida
para outras áreas é o que atinge em cheio a experiência que o sujeito faz, então, com a vida. A
experiência da dor com o caráter passageiro e efêmero DA EXISTÊNCIA.

Ficar triste nesse contexto é justamente se deparar com a dor de morrer, de daqui a
pouco não existir mais; e de morrer a conta-gotas a cada momento, a cada instante. Um outro
filósofo antagonista do Heráclito que é conhecido como o filósofo que ri, que é o filósofo
Demócrito; várias pessoas contam a história dele. Mas existe uma figura muito importante que
escreve o livro a respeito desse riso de Demócrito, que é o Padre Antônio Vieira, só que o nome
do livro é A Lágrima de Heráclito. Ele conta a história de que Demócrito, filósofo eu ri, ri porque
rir também é uma maneira de chorar, vai dizer o Pe. Antônio Vieira. Mas é uma maneira de
chorar, vai dizer ele, das mais absurdas. Quando extrapolamos a possibilidade de chorar, quando
já não se tem mais lágrimas, quando não podemos fazer mais nada, quando a dor nos secou de
tal maneira que sobrou só o riso. É o riso que não é o riso do gozo, cômico, mas o riso que
ultrapassa até mesmo o escárnio e atinge a condição de sabedoria em relação à nossa miséria.
É um negócio horroroso. Demócrito ri pelo mesmo motivo do qual chora Heráclito. Heráclito
chora porque somos seres miseráveis dentro do nosso tempo e da nossa experiência com o
tempo. E Demócrito ri pela mesma coisa, porque os seres humanos além de tudo são burros
sobre essa condição, e são tão animais quanto os outros animais. E o animal que mais significa
esse ser humano é o verme e a pobreza dessa condição. E o saber necessários para ultrapassar
essa condição seria o saber-se verme e o ser humano não consegue enxergar-se nunca nesse
lugar. O que sobre para Demócrito, então, depois de ter comparado o ser humano com um
verme, sobra rir. E rir no sentido da secura de não ter nem mais lágrima para chorar. Então,
trata-se de uma coisa muito horrorosa.

Aristóteles um pouco depois vai mencionar um pouco disso também, tem um livro que
tem tradução para o português, que é do pseudo Aristóteles, não se sabe direito se foi ele que
escreveu que é O Problema XXX que é sobre a melancolia. Daí, Demócrito já falava de melancolia
e Aristóteles vai fazer um texto mais organizado, porque o do Demócrito sobraram fragmentos.
Mas vai fazer um texto bem organizado para explicar que tipo de sentimento é este que atinge
o ser humano da tristeza extrema, um aprofundamento extremo dentro da sensação da dor,
cair no abismo da dor, e ao mesmo tempo, por outro lado, e nesse momento ele junta a teoria
do Demócrito com a teoria do Heráclito. E ao mesmo tempo passar por essa sensação de
extrema alegria, de insuportável alegria, de alegria maníaca. Daí ele vai dizer que os seres
humanos, vocês sabem que Aristóteles divide os seres humanos: Uns só servem para serem
escravos e um povo que ele considera o suprassumo da maravilha que é o ser filósofo. O ser
filósofo será chamado de homem de exceção que vive na oscilação entre sentir-se tudo e sentir-
se nada. E ele se sente tudo e nada justamente porque está à flor da pele com a sua existência.
Então, ele vai sentir o mais nobre dos sentimentos, que para a teoria do Aristóteles se
agrega debaixo do nome do trágico, e também vai sentir muitas vezes o sentimento do resto do
chão que ele vai agregar debaixo da ideia do cômico.

Então, a melancolia para Aristóteles já é, nesse texto, essa sensação de sentir-se de


repente a um total vazio de sentido. Só que para Aristóteles isso de jeito nenhum é horrível, até
porque a tragédia para ele não é uma coisa horrível. Por exemplo, no teatro a tragédia é só a
relação que nos podemos estabelecer no nível das representações, no nível da arte, a relação
que nós podemos estabelecer com a morte, com a nossa finitude, e cabe ao humano aprender
a estabelecer uma relação com isso. Temos que amadurecer nesse sentido.

Aí, o homem de exceção, esse que vai ter essa oscilação entre o resto do chão e as
alturas e o filósofo vai ser especialista, vai ser o grande condenado, por outro lado, a viver esses
dois tipos de sentimentos. Então, quando ele está debaixo do tapete se sente um lixo, se sente
um nada, faz a experiência do animal, deslocado do mundo, sem linguagem, sem estrutura, sem
saber; compreendendo-se apenas através da experiência desse esvaziamento que é a própria
condição miserável da existência, que vai ser, então, representada na comédia e quando ele está
na outra posição, na posição maníaca, vai se tornar um ser produtivo, capaz, então, de criar. De
inventar a obra de arte, de inventar a filosofia.

O filósofo para Aristóteles é um tanto superior ao artista, o filósofo é na teoria de


Aristóteles a única pessoa que pode ser feliz porque ele consegue contemplar, consegue viver
uma vida teorética, vamos dizer assim, uma vida voltada para a contemplação, voltada para a
teoria.

Então, a vantagem do filósofo, diante do resto da humanidade, é que este consegue


compreender. Agarrado nesse mastro, carregando essa bandeira ao mesmo tempo da reflexão
e da compreensão, o filósofo consegue alçar um patamar mais alto do que o resto dos seres
humanos. Daria para dizer que é o filósofo que realiza aquilo que é o melhor no ser humano,
mas realiza isso não porque tem a passado pela compreensão da desgraça geral que atinge a
humanidade, a desgraça de repentinamente sentir-se vazio, abandonado a uma existência reles,
mas justamente atinge essa posição avançada, maior, a posição da felicidade, que Aristóteles
vai chamar de Eudaimonia, justamente porque ele compreende e ele explica.

Tudo isto, então, na teoria do Aristóteles vai, um pouco depois, render para os medievais
algumas reviravoltas que farão com que os medievais trabalhem o tema da tristeza de dois
modos: Por um lado vão considerar que a tristeza é um pecado porque sente-se triste aquele
ser humano que abandonou Deus, então, trata-se de um pecado; sentir-se triste não é uma coisa
permitida pela igreja no período medieval, e por outro lado, para os monges vai ser uma virtude,
e aí sim, os monges eram grandes estudiosos da idade média; conheciam os textos de Aristóteles
e é bem provável que tenham resgatado, mesmo as figuras que não eram monges, São Tomás
que era um aristotélico na idade média, mas que recuperem, então, esse caráter bom da
tristeza. Então, a tristeza vai ser aquilo que nos faz voltar para dentro de nós mesmos para
procuramos uma compreensão da nossa própria interioridade. Algo do tipo, encontrar por meio
da tristeza a solidão que nos leva, que nos encaminha até um conhecimento verdadeiro, que
naquela época não era nunca um conhecimento do mundo, mas sim um conhecimento de Deus,
do qual o mundo só podia ser uma manifestação. A tristeza então vai ter esse caráter ambíguo
nessa época e vai se tornar uma coisa muito importante no período que vem logo depois, no
período que surge a gravura de um alemão chamado Albrecht Dürer, sujeito que pintava,
desenhava, e fez a gravura que ficou muito conhecida, que quando falamos de tristeza,
melancolia ou coisa do gênero, todos os livros mostram essa imagem da tristeza denominada
Melancolia I. Essa imagem que é de 1517, depois teve melancolia II e melancolia III, mas quando
Albrecht faz essa imagem, está tentando fazer justamente uma alegoria da tristeza, Vocês
sabem que na idade média a obra de arte tem uma intenção pedagógica, mesmo nessa época a
imprensa já surgiu, as pessoas já podem ler, mas ler, ainda, não era uma coisa para todos, e
nesse caso, tenho a impressão que a imagem como todas as imagens alegóricas foram criadas
na intenção de passar uma ideia complexa sem a necessidade que as pessoas precisassem ler,
não é? Então, isso é um resquício, ainda, de um projeto que é bem medieval que está dentro do
período renascentista.

Aí, essa imagem diz muitas coisas, vai ficar bem importante dentro da filosofia com os
estudos que Walter Benjamim em seu livro Origem do Drama Barroco Alemão, onde ele gasta
um tempão analisando esta imagem de Albrecht Dürer. A imagem vai ficar muito importante
também para o século XX como alegoria da melancolia, ou seja, essa textualidade desenhada
que vem a significar uma ideia.

O QUE ELA SIGNIFICA?


Tem muitas coisas dentro desta imagem. Não vou fazer uma análise exaustiva disso, tem
muitos livros que fazem a análise dessa imagem, mas quero falar apenas de alguns tópicos
essenciais que vão definir o porquê que a melancolia aparece com tanta força num período
renascentista.

Na imagem vemos o famoso anjo melancólico com asas, cabelos longos, e esse anjo
talvez seja uma mulher, segundo o escritor Panofsky, com uma cabeça ornada de louros; uma
mulher com alguma vitória, prostrada, sentada com o rosto amparado com a mão sobre o
joelho, na outra mão segura um compasso, não foi uma invenção coloca-la com o rosto
amparado pela mão, porque na época era muito comum, aliás, fosse representada por figuras
de mulheres, representada por uma mulher velha em acabada, destruída, se sentindo mal,
passando, caminhando e de repente numa estrada ela senta em cima de uma pedra e joga as
mãos pra baixo por estar realmente mole, tomada pela prostração, neh, pelo abatimento, sem
ânimo algum, cabelos desgrenhados, toda horrorosa. No caso da imagem, a mulher não está tão
ainda assim com a vida desgraçada, ela tem o rosto escurecido com o olhar parado em algum
lugar que não sabemos bem. Seria óbvio que ela estivesse olhando para o compasso e que
fizesse alguma coisa com esse instrumento, mas a atenção dela não está voltada para aquilo que
seria óbvio pelo que ela tomasse atenção. Há também a ideia de que ela está sentada sobre uma
pedra. Ela carrega uma bolsa e há uns pregos fora da bolsa, tem também alguns instrumentos
de marcenaria, tem um cachorro; essa bolsa significa provavelmente a avareza, porque segundo
a tradição, todos os melancólicos são avarentos, e todos os melancólicos também possuem um
cachorro. O cachorro sempre aparece nos quadros, nas imagens ao longo da história da arte,
definindo esse ícone melancólico. Ele é um animal que os gregos já achavam, aliás quem inventa
a história é Hipócrates. A medicina hipocrática que vai levantar essa questão da teoria dos
quatro humores dentro da qual o humor melancólico é produzido pela bílis negra, a bílis negra
é também uma especulação, porque ela não existia no corpo, o que existe é uma bílis amarela,
então a atra bílis/bílis negra, segundo os hipocráticos vai atingir não apenas os seres humanos,
mas ao suposto melhor amigo que é o cachorro. Cá entre nós, não seria amigo do ser humano
apenas por afinidade, mas também por não gostar nada de si. Por isso, então, o cachorro
acompanha o ser humano. Por não gostar de si. Senão escolheria companhia melhor.

Este cachorro da imagem, está ali abandonado a si, prostrado, caído, acabado,
destruído, sabe-se lá o que esse animal não viveu. É claro que ele vai acompanhar esse anjo,
então, que também está nessa condição. Mas para onde o cachorro olha? No canto da imagem
tem um Querubim, tem o poliedro que é aquela pedra com vários lados, tem um quadrado
mágico lá em cima que configura o número 34, o tempo inteiro qualquer somatória que se faz
dá 34, tem um sino, uma ampulheta, uma balança, uma escada, atrás especula-se que tem uma
capela, ao longe um sol que nasce, ou um sol que morre, um arco-íris e um morcego carregando
um emblema: melancolia.

Podemos dizer que tudo isso são símbolos do conhecimento, símbolos do tempo,
símbolos da morte, símbolos da noite, do dia, símbolos da dicotomia. Esse olho é um tópico
central, porque esse olho que olha para um lado que não sabemos qual é, define o olhar do
melancólico. Então, PARA ONDE OLHA O MELANCÓLICO?

Ele pode brincar de ampulheta, brincar de tempo, economiza o tempo, tempo é


dinheiro; ou ele pode brincar com a balança, símbolo da justiça, quanto da medida, equilíbrio;
pode brincar até com seu cachorro, quem sabe o bicho se torne até mais feliz, ou ele pode pegar
aqueles instrumentos que estão em baixo e fazer alguma coisa, pode também esculpir aquele
poliedro, ou pode se aproximar do morcego e tentar com uma rede de caçar borboleta e pegar
o morcego para estuda-lo, enfim, ele pode fazer alguma coisa, mas ele não faz nada e, também,
não olha para lugar nenhum.

A partir dessa imagem o que se coloca é que o melancólico por não olhar para lado
nenhum está perdido e a pergunta é: QUAL É O SENTIDO DA SUA VIDA? QUAL A OPÇÃO QUE
PODE TER DE FAZER ALGUMA COISA PARA ALCANÇAR UM SENTIDO PARA A SUA VIDA? Ele está
simplesmente refletindo.

Então, mais tarde Goethe vai dizer que a melancolia é uma doença do pensamento.
Assim, os filósofos que são os pensadores, aqueles sujeitos que gastam o seu tempo pensando,
que se dão ao trabalho do conceito como dizia o Hegel, que se dão ao trabalho de viver
refletindo, tentando compreender as coisas, os filósofos sofrem de uma doença do pensar.

Freud quando escreve um texto chamado Luta e Melancolia vai levantar essa mesma
questão que Goethe levantava. Como que alguém pode ficar doente de tanto pensar?

Mas eu penso que a questão que o Aristóteles colocava, de que não se trata de uma
doença e sim de uma determinada relação com a própria existência; essa colocação do
Aristóteles nos coloca numa outra relação justamente com a própria sensação dessa tristeza
incomensurável daquele que pensa. Então, antes de ser uma patologia a melancolia é um modo
de existir. Antes do sujeito pensar que tem que se livrar dela, tomando um remédio ou fazendo
alguma coisa alegre, ou tomando uma bebedeira ou coisa parecida, que ele pode simplesmente
acostumar-se a ela e a partir daí ver se ela pode produzir coisas boas.

Nessa época do desenho, já começa a aparecer essa questão de que a melancolia não
sendo, assim, defronte do suicídio, pode ela ter um outro significado nos abrindo para um
determinado tipo de experiência com a vida. Esta experiência que tem uma relação justamente
com a noção do trágico que aparecerá depois na obra do Nietzsche, século XIX, que tem a ver
com o fato de você compreender como a vida se dá e ir criando dentro dela saídas. O herói
trágico é aquele que aprende dentro do rebanho a levantar a cabeça e olhar como funciona, não
deixa de ser um filósofo, que aprende a compreender os mecanismos da sociedade na qual ele
vive. Então, nesse olhar que se levanta sobre os outros, aprende também o significado mais
próprio da reflexão.

Nesse período um outro texto que, também, nos ajuda a pensar um pouco a respeito
dessa imagem que vimos é Hamlet de Shakespeare. Hamlet não é o príncipe melancólico, o
príncipe triste? O seu padrasto e a sua mãe não se preocupam com ele por ser um sujeito
bastante triste? E a tristeza do Hamlet é uma tristeza que se deve ao fato de que havia perdido
seu pai, e ele descobre com esse pai que vem contar para ele que foi assassinado e ele descobre
um crime terrível. Esse crime o entristece ainda mais, e ao mesmo tempo ele não sabe para que
lado ir, não sabe o que fazer com esse segredo que descobriu. É como essa figura do anjo
melancólico que não sabe o que fazer. Ele tem a possibilidade de fazer muitas coisas, não está
parado num deserto onde não pode fazer nada que não fosse apenas caminhar seguir adiante.
Ele poderia fazer alguma coisa com o monte de coisas que está à sua volta, tipo, conversar com
o Querubim, brincar com o cachorro [...] enfim, desenvolver alguma ação, mas ele está
justamente nessa posição de impasse, de indecidibilidade por não saber para que lado ele vai.
Então, no caso de Hamlet acontece o mesmo, ele não sabe que direção tomar na hora em que
se torna conhecedor de um segredo que vem lá do fundo abismal revelado pelo fantasma do pai
que vem e conta para ele, dando-lhe uma ordem, uma sentença, é até um sentido para a vida
de Hamlet. Vai lá, agora, e vinga a minha morte.
O pai é assassinado pelo tio, irmão dele. Casando-se, então, com a rainha, mãe do
Hamlet, e Hamlet fica indignado. Mas tem uma hora, que é muito bonito no Hamlet, aliás Hamlet
não se salva porque ele não olha direito para a pobre Ofélia que fica perambulando na frente
dele, apaixonada por ele e ele não consegue nunca enxergar direito aquela mulher e esquecer
daquela maldita mãe, que não está nem aí, nem dá bola para ele, mas ele não consegue se livrar
disso, e isto é um outro assunto. Tem um momento muito bonito em que Hamlet resolve
escrever uma peça de teatro para contar o segredo que ele sabe. Nesta hora, Hamlet se torna
alguém maníaco, fica muito tomado pela produção dessa obra. O tio dele veste a carapuça
porque era a história do assassinato do rei, pai de Hamlet. Nesse momento, então, dessa peça
o personagem do Hamlet é tomado por uma outra energia que o torna sujeito produtivo. Um
sujeito capaz de criar para sair da amarra terrível e um tanto perversa dessa tristeza insuportável
que tem, também, um ordenamento, um mandamento que diz: Faz, age, faz alguma coisa! E
vingue-se da tristeza.

Não estou querendo tocar muito na questão da psicanálise porque me parece que tem
uma riqueza muito, assim, fora da filosofia que estou tentando trazer para vocês, mas também
de vez em quando é bom ir buscando os conceitos de Freud, de Lacan. Conceitos que são
aproveitáveis do ponto de vista filosófico. Aliás, as questões da psicanálise são questões
filosóficas. A Psicanálise é uma filosofia.

Na ideia do que aconteceu com Hamlet temos que é possível fazer alguma coisa. E até
nesse ponto dá pra gente pensar que a grande diferença que há entre depressão e melancolia,
uma diferença epistemológica, vamos dizer, da definição das próprias coisas, é que na depressão
o sujeito fica abatido, submetido a uma tristeza podendo chegar até num suicídio por meio dessa
tristeza porque ele não consegue criar um elo, um laço, uma relação qualquer com o mundo, ou
seja, ele não consegue atingir o campo da representação.

Hamlet acaba morrendo no final da peça, num duelo, numa situação trágica, porque não
existe tragédia sem morte, não é? Alguém tem que morrer ou todo mundo, mas nesse momento
em que ele cria a peça, se torna artista, mesmo sem a figura de Ofélia já poderia ter se dado
muito bem, sobrevivido, mas aí, claro, a peça não falaria da condição humana na sua
profundeza. Apenas na sua mediocridade de continuar vivendo.

Então, a depressão faria com que o sujeito ficasse prostrado, caído, submetido à nuvem
negra da dor, enquanto que na melancolia podemos ver nesses poucos exemplos citados, no
caso do Aristóteles que era um melancólico se quisermos trazer à tona novamente, essa ideia
de que é preciso constituir o campo da representação, ou seja, a obra de arte, o livro.

Na época do Shakespeare tem um sujeito, Roberto Burton, que escreve o livro Anatomia
da melancolia. É o livro mais engraçado do mundo e ao mesmo tempo que mais triste. É um
compêndio, um tratado em que ele cita todos os livros que tinham falado da melancolia até
1620. Ele conta que a motivação que ele teve para escrever o livro foi para que ele mesmo
pudesse se livrar da melancolia.

Foi a mesma motivação que levou Julia Kristeva a escrever o livro Sol Negro. Segundo
Kristeva falar da melancolia só é possível se a escrita brotar de dentro da própria melancolia. A
mesma coisa nos diz Roberto Burton: Eu só posso escrever sobre esse assunto porque quero me
curar disso, isso me atinge, e só posso construir a minha obra em cima daquilo que é o meu
sentimento, a minha dor mais profunda.

COMO ROBERTO BURTON FAZ PARA SE LIVRAR DA MELANCOLIA?


Ele precisa trabalhar, e trabalhar muito. Ele substitui um tanto dessa dor e essa
melancolia pela obra, e substitui aquilo que seria o deprimir-se pelo agir até mesmo compulsivo.
Só o Sêneca ele vai citar 3000 vezes. Então, trabalha que nem um condenado. Escreve esse que
é o livro da sua vida, ele viveu em Oxford e passa o tempo dentro da biblioteca lendo todos os
livros e compondo essa obra. Ele está, então, marcado, e a partir desse elemento nós podemos
fazer uma conexão com a questão do olhar da imagem mostrada anteriormente do anjo
melancólico; ele está completamente demarcado por uma ausência, de alguma coisa. O anjo
melancólico não olha para lugar nenhum ou a gente não sabe pra onde está olhando e o Roberto
Burton começa o texto dele dizendo que ele é o Demócrito Júnior, o filho de Demócrito, o seu
herdeiro, e conta de um jeito muito engraçado que quer se esconder atrás desse gigante que é
o Demócrito, sendo ele um anão, porque as vezes um anão pode subir nas costas de um gigante,
podendo até enxergar mais longe, mas que ele se sabe como um sujeito muito metido e ao
mesmo tempo muito corajoso, usando um grande pseudônimo, usando um grande nome da
história filosófica para servi-lhe de paternidade.

O QUE FALTA PARA ELE, ENTÃO, AO ASSUMIR ESSE PSEUDÔNIMO?

A mesma coisa que falta ao Fernando Pessoa que é um tremendo de um melancólico,


também. Falta um “eu”.

Se a gente pega um texto fazendo uma conexão, assim, séculos depois. O texto de Freud:
Luto e melancolia vai dizer: quando a gente se sente enlutado, ou quando caímos no luto,
estamos diante da perda de um objeto específico; morreu alguém que gostávamos ou perdemos
alguma coisa que era absolutamente importante para as nossas vidas. Perdemos um amor,
perdemos um emprego, perdemos alguma coisa que sem a qual nossa vida fica mais pobre. E
quando estamos debaixo da melancolia a coisa é ainda mais grave porque aí nós nem sabemos
o que nós perdemos. Porque o melancólico não perdeu nada que possa ser encontrado, ele
perdeu desde sempre com uma certeza precoce o seu próprio “eu”. Então, ele não tem nada
por dentro, está vazio. O esforço do melancólico é produzir alguma coisa, e isto é muito
parecido, também, com o deprimido, que possa preencher esse vazio terrível.

Então, Roberto Burton vai produzir uma obra, Dostoievski também vai produzir uma
obra, ele é um dos exemplos mais conhecidos quando se vai falar de tristeza na história da
literatura porque contam os seus estudiosos, biógrafos, etc. que ele era alguém que procurava
o tempo inteiro o pesar e as pessoas pesarosas como personagens para escrever os seus livros.
Ele estava totalmente voltado para uma experiência com a dor e acreditava que essa experiência
com o sofrimento e com a dor poderia ser trazida para dentro da literatura como tópico
relevante da existência.

Alguém bem importante no século XIX que vai ser muito influenciado por Dostoievski,
vai ser o Nietzsche. Dostoievski apesar de toda dor, da doença epilepsia, ele vai escrever e ser
um dos maiores escritores da história. Nietzsche, um dos maiores filósofos da história vai dizer
que aprendeu com Dostoievski a Psicologia. Psicologia como investigação da alma. Nietzsche
não falava em melancolia e poucas vezes, também, falou da tristeza. Falou muitas vezes da
doença. Nietzsche falava que a nossa civilização, que a nossa sociedade era doente; que o ser
humano é doente. No modo como ele fala dessa doença, que muitas vezes ele designa como
ressentimento podemos pensar a tristeza como sendo um sinônimo disso. (41:07)

Ele vai falar num livro dele chamado Gaia a Ciência, no prefácio, duma figura que o faz
sair, poderia ser o aporte, a representação, ou da saída dessa doença, Nietzsche é outro
considerado louco pela recepção do século XX, enfim, que constrói uma imagem desse
pensador, e na mesma época um sujeito que viveu a própria experiência da doença física, essa
história da doença degenerativa cuja especificidade não sabemos qual é Nietzsche, então,
escreve nesse prefácio da Gaia a Ciência que é a Ciência Alegre que poderemos falar de Balbó
para entender o que é a tristeza e o que que é a alegria que nos faz superar, então, a condição
doente da existência.

Nietzsche fala isso porque ele conseguiu escrever a Gaia a Ciência num período em que
a doença não estava incomodando, então, é como se ele tivesse saído da total depressão e
alcançado o momento alegre no meio desse mar da depressão, é uma ilha. A Gaia a Ciência é
uma ilha, um conhecimento alegre. Nietzsche vai ser pra muita gente, exatamente esse filósofo
da alegria. Vocês sabem que ele faz apologia do Dionísio, o Baco, o deus alegre, o deus que
dança, o deus da embriaguez, da extrapolação, do extravasamento, da ausência de limite, da
superação da condição humana, da condição miserável do humano, mas ele vai falar dessa figura
de Balbó que já é uma figura lá dos gregos, também, e aí voltando aos gregos para falar um
pouco do Nietzsche; pensem só, essa figura de Balbó quem vai contar a história, quem explica
não é Nietzsche, mas Jean Pierre Vernant em que ele conta da seguinte forma: Que Balbó é uma
mulher velha muito feia e que quando Deméter fica sozinha enlutada porque Perséfone foi
roubada pelo Adis, no rapto de Perséfone, ela fica sozinha, chorando, entristecida e não há deus,
não há criatura, não há quem exista para o mundo de Deméter que a faça sair daquela situação
de choro, lamento e perda. É aí que Balbó vem e simplesmente levanta a saia e Demeter cai na
gargalhada. Começa a rir muito porque viu a genitália de Balbó. Então, Jean Pierre Vernant faz
uma associação dessa figura de Balbó com a figura da Gorgona, pois na Gorgona o que acontece
é que nós nos petrificamos quando olhamos direto para os olhos da Medusa, porque ela é uma
máscara que nos faz no espelho que ela representa, nos faz ver a verdade do nosso próprio
rosto. Porque aquela máscara é sempre um espelho, para os gregos.

E nós temos que encontrar outros espelhos, como faz o Perseu para nos protegermos
se queremos olhar para ela, então, temos que encontrar o espelho de outras representações,
então, quando se olha para a máscara de Balbó, ao invés de encontrarmos a face terrível que
nos petrifica, o que nós encontramos é a face ridícula que nos liberta, então, aquilo que nos faz
rir, nos liberta. E Nietzsche fala a mesma coisa, a alegria que seria o sentimento cuja
manifestação sintomática é o riso nos liberta, seria uma espécie de sentimento revolucionário;
enquanto que do outro lado a tristeza seria um sentimento que nos debilitaria e nos tornaria
incapazes de agir, de superar de alguma forma essa situação. Mas o próprio Nietzsche vai dizer
que sem isso não há alegria, ou seja, não existe uma alegria assim como não existe um bem sem
conhecer o mal, não existe uma alegria sem conhecer a tristeza.

O sentimento da alegria se torna importante, fundamental e emancipatório, podemos


dizer, apenas no momento em que o sujeito reconhece o seu valor como algo que se contrapõe
a tristeza extrema. Então, o sofrimento não é algo onde devemos morar vai dizer Nietzsche, por
isso ele vai brigar com o professor dele que era o Shopenhauer, porque Shopenhauer achava
que a vida se resolvia no sofrimento. Para Nietzsche o sofrimento é inevitável, temos que passar
por ele caso queiramos continuar vivendo, mas se queremos continuar vivendo também não
podemos permanecer apenas nele, porque ele não representa a totalidade da experiência
humana.

Tenho a impressão que no Nietzsche daria para dizer o que que é a vida humana, não é.
A vida humana é uma grande aventura, é uma experiência. No Walter Benjamim que era um
leitor de Nietzsche, a vida também é uma experiência, nesse sentido mesmo da aventura, do
voo, do abismamento, da entrega que temos que ter com a vida a cada momento. Então, se as
coisas nos fazem sofrer, devemos nos entregar a esse sofrimento, mas devemos saber que tudo
aquilo que nós vivemos é passageiro e os sentimentos que as coisas provocam também são
passageiros tanto quanto as coisas.

Neste sentido, no próprio Walter Benjamim tanto quanto em Nietzsche também, haverá
uma promoção, uma provocação do sofrimento como algo que, enfim, nos define uma
experiência com a vida, mas que é sempre ultrapassável, nos leva a desejar a ultrapassagem

Em Freud também, no século XX, outra figura que Walter Benjamim lia, vai aparecer
essa questão da sublimação. A sublimação nada mais é do que criar linguagem para aquilo que
não tem linguagem. Ora, quando estamos tristes, a tristeza mesmo é aquilo que nos torna
mudos, não queremos falar. Aquelas coisas que realmente nos tornam tristes, quando ficamos
tristes ficamos mudos, sem querer falar; ou com dificuldade de explicar o que está se passando.
É difícil dizer para um amigo, é difícil escrever, é difícil fazer qualquer coisa, mas é de dentro
dessa experiência, a partir disso, do reconhecimento da substância ou do miasma que está
envolvido nessa experiência que nos tornamos capazes de produzir algo depois. Essa produção
no Freud tem o nome de sublimação. Esta é no Freud um desvio daquilo que podia, enfim, nos
matar, mas produzimos esse desvio naturalmente desde que não estejamos casados, em
núpcias, felizes com o sofrimento. Que é aquela situação que leva as pessoas ao suicídio, quando
acreditam que a felicidade se encontra no casamento feliz com a morte. E isso as vezes acontece.
Quer dizer, quando a pessoa perdeu completamente o laço com outra linguagem que não seja
a linguagem do sofrimento.