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FACULDADE CASTRO ALVES

CURSO DE PSICOLOGIA

LÚCIA MARIA DA SILVA BARBOSA

ESTRATÉGIAS PARA O ATENDIMENTO HUMANIZADO DAS


PESSOAS TRANS NA ATENÇÃO BÁSICA

Salvador
2017
LÚCIA MARIA DA SILVA BARBOSA

ESTRATÉGIAS PARA O ATENDIMENTO HUMANIZADO DAS


PESSOAS TRANS NA ATENÇÃO BÁSICA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a


Faculdade Castro Alves como requisito básico para a
obtenção do título de bacharel em Psicologia.

Orientador (a): Prof. Me. Gilmaro Nogueira

Salvador
2017
LÚCIA MARIA DA SILVA BARBOSA

ESTRATÉGIAS PARA O ATENDIMENTO HUMANIZADO DAS


PESSOAS TRANS NA ATENÇÃO BÁSICA

Trabalho Monográfico apresentado a Faculdade Castro Alves – UNIRB – como


requisito necessário para obtenção do título de bacharel em Psicologia.

Aprovada em / / .

Banca Examinadora

Gilmaro Nogueira – Orientador

___________________________________________________________________
Mestre em Cultura e Sociedade – UFBA, Pós-Graduado em Estudos Culturais – UNIJORGE,
Pós-Graduado em Atenção a usuários de álcool e outras drogas – UFBA.

Yasmin Cunha de Oliveira

_______________________________________________________________
Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia – UFBA /2013
Graduada em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia – UFBA

Avaliador 2

_______________________________________________________________
Titulação
Dedico este trabalho a todas as pessoas trans, que com suas vidas doam a
sociedade heteronormativa a oportunidade do aprendizado da diversidade,
e de ser quem se é.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a Espiritualidade que me guia e que conspira para o surgimento de


pessoas tão significativas neste importante momento de minha vida.

Ao meu orientador, Gilmaro Nogueira, pela paciência e excelência na orientação


deste trabalho, por quem tenho muita admiração.

Ao Coletivo “Famílias Pela Diversidade”, por permitir que eu me aproximasse das


questões vivenciadas pelas pessoas trans e pudesse perceber que precisava sair da
“zona de conforto” e buscar estratégias para minorar o sofrimento dessas pessoas.

Ao Campo Temático de Saúde LGBT da Secretaria Municipal de Saúde Salvador


(SMS), do qual faço parte, pela possibilidade de poder me aprofundar no tema,
enquanto desenvolvia minhas atividades profissionais.

À minha família, por compreenderem as minhas ausências e inquietações do dia a


dia, diante desse desafio. Por torcerem e me apoiarem, mesmo sem compreender
as razões que me levaram a fazer outra graduação nesta fase da minha vida.

Aos amigos e colegas, em especial Luciano Menezes e Verônica Menezes pelo


convívio repleto de aprendizado mútuo e amizade ao longo dessa jornada.

À Priscylla Steffen pelas importantes contribuições e revisão durante a escrita deste


trabalho.

Enfim, agradeço a todos que, de alguma forma, contribuíram direta ou indiretamente


para a concretização desse sonho.
Que nada nos defina, que nada nos sujeite.
Que a liberdade seja a nossa própria substância,
já que viver é ser livre.

Simone de Beauvoir
BARBOSA, Lúcia Maria da Silva. Estratégias para o atendimento humanizado das
pessoas trans na atenção básica. 51 f. 2017. Trabalho de Conclusão de Curso –
Curso de Psicologia, Faculdade Castro Alves, Salvador, 2017.

RESUMO

No trabalho que se segue foram analisadas as estratégias para o atendimento


humanizado das pessoas trans na Atenção Básica de Saúde. Foi realizado mediante
pesquisa bibliográfica sobre o tema a fim de investigar de que maneira funciona
esse atendimento e que medidas estão sendo implementadas para oferecer uma
assistência qualificada a essa população. Ressalta-se que os profissionais de saúde
exercem um importante papel na efetivação das políticas públicas destinadas às
pessoas trans, visto que atuam nesse contexto, em seus cotidianos profissionais.
Discute, portanto, como promover a conscientização e formação dos/das
trabalhadores/as de saúde em relação à diversidade sexual e de gênero, conforme
diretrizes da Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais. Ao longo dos três capítulos foram abordados temas como a
transgeneridade, um conceito multidimensional; esclarecimentos conceituais a
respeito da definição de gênero; contribuições da teoria queer e conexões do
movimento transgênero com o feminismo. Além disso, foram apresentadas as
principais políticas públicas de saúde voltadas para população trans e os desafios
enfrentados pela população LGBT no acesso à saúde. Por fim, foram destacadas as
publicações do Ministério da Saúde e suas estratégias para implantação da Política
Nacional de Saúde Integral LGBT nas Redes de Atenção à Saúde. Conclui-se que a
pesquisa a respeito desse tema ainda é insipiente e que é preciso investir na
capacitação dos profissionais de saúde a fim de oferecer um atendimento mais
humanizado para as pessoas trans.

Palavras-chave: transgeneridade, pessoas trans, saúde, Políticas LGBT, atenção


básica.
BARBOSA, Lúcia Maria da Silva. Strategies for the humanized care of trans people
in basic care. 51 f. 2017. Trabalho de Conclusão de Curso – Curso de Psicologia,
Faculdade Castro Alves, Salvador, 2017.

ABSTRACT

The following work analyzed the strategies for the humanized care of transgender
people in Primary Health Care. It was carried out through bibliographic research on
the subject in order to investigate how this care works and what measures are being
implemented to offer care Qualified to this population. It should be emphasized that
health professionals play an important role in the implementation of public policies
aimed at trans people, since they act in this context, in their professional lives. It
discusses how to promote the awareness and training of health workers in relation to
sexual and gender diversity, in accordance with the guidelines of the National Policy
for the Integral Health of Lesbian, Gay, Bisexual, Transvestite and Transsexual.
Throughout the three chapters, themes such as transgeneracy, a multidimensional
concept; Conceptual clarifications regarding the definition of gender; Contributions of
queer theory and connections of the transgender movement with feminism. In
addition, the main public health policies aimed at the transgender population and the
challenges faced by the LGBT population in access to health were presented. Finally,
the publications of the Ministry of Health and its strategies for implementing the
National LGBT Comprehensive Health Policy in Health Care Networks were
highlighted. It is concluded that the research on this subject is still insipient and that it
is necessary to invest in the training Of health professionals to provide more humane
care for transgender people.

Keywords: transgender, trans people, health, LGBT policies, basic care.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 9
2 TRANSGENERIDADE: UM CONCEITO MULTIDIMENSIONAL ............................ 14
2.1 DESCONSTRUINDO EQUÍVOCOS ENTRE IDENTIDADE DE GÊNERO E
SEXUALIDADE...................................................................................................... 16
2.2 CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA QUEER ........................................................ 18
2.3 UM OLHAR TRANSFEMINISTA ..................................................................... 20
3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE VOLTADAS PARA A POPULAÇÃO TRANS 23
3.1 O CUIDADO À SAÚDE DAS PESSOAS TRANS NA ATENÇÃO BÁSICA .. ....28
3.2 DESAFIOS VIVENCIADOS PELOS USUÁRIOS TRANS PARA O ACESSO À
REDE DE SERVIÇOS DAS UNIDADES BÁSICAS DE SAÚDE ............................ 30
4 CAPACITAÇÃO DOS TRABALHADORES DE SAÚDE PARA O ATENDIMENTO
HUMANIZADO ÀS PESSOAS TRANS NA ATENÇÃO BÁSICA............................35
4.1. ESTRATÉGIAS EDUCACIONAIS UTILIZADAS PELO SUS PARA
CAPACITAR OS TRABALHADORES SOBRE O CUIDADO À SAÚDE DAS
PESSOAS TRANS..................................................................................................38
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... ........45
6 REFERÊNCIAS ................................................................................................... ...47
9

1 INTRODUÇÃO

Relatórios de diversos países indicam que a saúde das travestis e transexuais tem
recebido crescente atenção mundial. Dados do projeto TransPULSE (2012)1,
realizado em Ontario, no Canadá, motivaram uma pesquisa2 na Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), sobre a saúde de pessoas
trans, demonstrando que os profissionais de saúde, em geral, não têm experiência
para lidar com esse público. Isso, somado às barreiras institucionais, faz com que
essa parcela da população não acesse aos serviços de saúde com receio de
sofrerem discriminação.

No Brasil, configura-se um cenário de exclusão em relação ao atendimento integral à


saúde no Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas trans. O primeiro passo para
modificar esse quadro é reconhecer que transexuais e travestis vivenciam situações
de extrema vulnerabilidade social para prestar-lhes a assistência de que necessitam.
Sobre isso Lionço (2009) acrescenta que:

Os agravos decorrentes das precárias soluções encontradas para


lidar com o sofrimento relativo ao estranhamento em relação a seus
corpos biológicos ou de nascimento dizem respeito,
fundamentalmente, à omissão ou restrição da ajuda médica,
atualmente possível em termos bio-tecno-científicos (LIONÇO, 2009,
p. 56).

Algumas conquistas do movimento trans, contudo, precisam ser registradas, tais


como, em 2006, a inserção na Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde o direito ao
uso do nome social, tanto nos serviços destinados às pessoas trans quanto nos
serviços disponíveis para a população em geral na rede pública (BRASIL, 2006).
Ainda que tal documento preveja “o direito básico ao ingresso digno nos sistemas de
saúde”, o que se pode notar no dia-a-dia dessas pessoas é o preconceito e o
constrangimento, que faz com que muitos deixem de procurar os serviços de saúde
que têm direito.

Assim, apesar dos direitos que vão sendo aos poucos conquistados, e do esforço
dos movimentos sociais nesse sentido, registra-se, segundo Rocha et al (2010), a
1
Disponível em: http://transpulseproject.ca/. Acesso em 08/06/2017.
2
Pesquisa realizada na PUCRS com 626 pessoas trans. Disponível em:
http://www.pucrs.br/blog/pesquisa-alerta-sobre-saude-de-pessoas-trans/. Acesso em: 08/06/2017.
10

discriminação sofrida por travestis, transexuais e transgêneros nos serviços de


saúde. Os autores registraram, mediante estudo de caso, com base nos relatos das
informantes, o fato de os profissionais de saúde não utilizarem, como seria de
direito, o nome social quando se reportam a essas pessoas durante o atendimento.
Isso pode causar, além do desconforto por parte desses usuários, um problema
identitário, e contribuir para problemas relacionados à saúde mental das mesmas.

Esse cenário revela uma triste realidade sobre o Brasil: apesar da diversidade ética
e cultural histórica de que se constituiu o país, o preconceito e a falta de
conhecimento ainda se impõem como obstáculos à convivência pacífica entre os
indivíduos na sociedade, mesmo nos serviços de saúde, onde essas pessoas
deveriam ser acolhidas com a devida atenção.

A discriminação que impera nos diversos núcleos sociais faz com que essa
população sofra com a falta de acesso à educação, à saúde, ao mercado de
trabalho, dentre outros. Assim, muitos desses indivíduos sentem-se desamparados
pelo governo, e, sobretudo, pela sociedade em que vivem3.

No caso específico do acesso à saúde, a situação torna-se ainda mais complexa.


Segundo Rocon (et al, 2016), são inúmeros os desafios enfrentados pela população
trans no que diz respeito aos tratamentos de patologias gerais e específicas. Assim:

As pessoas travestis e transexuais são as que mais enfrentam


dificuldades ao buscarem atendimentos nos serviços públicos de
saúde – não só quando reivindicam serviços especializados, como o
processo transexualizador, mas em diversas outras ocasiões nas
quais buscam atendimento – pela enérgica trans/travestifobia que
sofrem atrelada à discriminação por outros marcadores sociais
(ROCON, et al., 2016. p 2518).

A luta pela garantia desses direitos, no entanto, não cessa. A cartilha da “Política
Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais”,
publicada pelo Ministério da Saúde apresenta não apenas as Leis e Políticas
adotadas em defesa dessa população, como também reafirma o compromisso do
Sistema Único de Saúde com a “eqüidade, universalidade, integralidade e efetiva
participação dos diversos setores da sociedade”. Ressalta, ainda, a importância da
Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e

3
Idem
11

Transexuais, que “tem como marca o reconhecimento dos efeitos da discriminação e


da exclusão no processo saúde-doença da população LGBT” (BRASIL, 2012, p. 4).

O que ocorre, no entanto, é que a efetiva aplicação dessas políticas tem esbarrado
em incontáveis fases burocráticas e preconceito por parte das pessoas que
deveriam garantir seu funcionamento (ROCON, et al., 2016). O modo de pensar e
agir dos profissionais de saúde mantém relação direta com as transformações das
redes de saúde para o melhor atendimento das pessoas trans. A assistência
prestada pelos profissionais de saúde a essa população, portanto, é influenciada de
modo subjetivo, pelas questões culturais oriundas de uma concepção
heteronormativa4 de sociedade que impõe o binarismo de gênero.

Tudo isso foi possível observar no dia a dia do meu trabalho enquanto Técnica de
Referência do Campo Temático LGBT da Secretaria Municipal de Saúde de
Salvador. É evidente o despreparo dos profissionais de saúde que atuam junto ao
atendimento dessa população, o que evidencia a necessidade de tornar efetiva as
políticas que se propõem a mudar esse quadro.

Com essa reflexão em mente, questiona-se: Como atender às demandas de saúde


das pessoas trans, proporcionando-lhes um atendimento humanizado na rede de
serviços da Atenção Básica? Importante ressaltar que os profissionais de saúde, têm
um papel fundamental na implementação das políticas públicas de saúde, pois lidam
com esse público no dia a dia.

Assim, as estratégias para o atendimento humanizado das pessoas trans na


Atenção Básica é o foco desse trabalho. Discute-se como promover a
conscientização e formação dos trabalhadores da saúde, em relação à diversidade
sexual e de gênero, assim como estimular o reconhecimento dos direitos das
pessoas trans quanto ao atendimento qualificado no âmbito da Atenção Básica,

4
Por heteronormatividade entende-se a regulação do sexo, do gênero, do desejo e das práticas
sexuais nas categorias binárias masculino e feminino, distintas, complementares e hierarquizadas. In:
LEITE, M. S. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Programa de Pós-graduação Educação:
Currículo Revista e-curriculum ISSN: 1809-3876. Disponível em:
https://revistas.pucsp.br/index.php/curriculum/article/view/5647. Acesso em 07/06/2017.
12

conforme diretrizes da Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays,


Bissexuais, Travestis e Transexuais.

Para tanto, foi preciso: descrever a multidimensionalidade do conceito de


transgeneridade; refletir sobre o descompasso entre a Política Nacional de Saúde
LGBT e a prática dos trabalhadores de saúde na Atenção Básica; realizar um
levantamento das principais publicações, impressas e online, dirigidas aos
trabalhadores do SUS, para qualificar o atendimento das pessoas trans nas
unidades de saúde.

Dessa maneira, torna-se relevante pesquisar as estratégias para o atendimento


humanizado das pessoas trans na Atenção Básica, a fim de contribuir para a
redução dos agravos de saúde decorrentes da discriminação e do preconceito
institucional. Além disso, acredita-se na possibilidade de fomentar a discussão a
respeito do tema no tocante à efetividade da Política Nacional de Saúde Integral
LGBT, com vistas a perceber de que maneira ela pode ser implantada, de fato, na
Atenção Básica de Saúde.

O trabalho foi desenvolvido mediante revisão bibliográfica a respeito do tema.


Através da pesquisa qualitativa foi possível tratar os dados de maneira particular,
adequada ao objeto de análise deste trabalho. Para efeito de organização, o
trabalho foi dividido da seguinte maneira:

No primeiro capítulo nomeado, Transgeneridade: um conceito multidimensional,


discute-se a variedade de leituras feitas sobre esse tema, alguns esclarecimentos
conceituais a respeito da definição de gênero, além das contribuições da teoria
queer para a especificidade dos estudos transgêneros e as conexões do movimento
transgênero com o feminismo.

No segundo capítulo intitulado, Políticas Públicas de Saúde voltadas para a


população trans, relaciona-se as principais políticas propostas para as pessoas trans
a fim de refletir sobre o cuidado à saúde oferecido a essas pessoas na Atenção
Básica, bem como os desafios enfrentados pelos usuários trans para que tenham
acesso aos serviços de saúde.
13

E no último capítulo: Capacitação dos trabalhadores de Saúde para o atendimento


humanizado às pessoas trans na Atenção Básica, são apresentadas publicações
diversas do Ministério da Saúde (MS), como Portarias e o Plano Operativo da
Política Nacional de Saúde Integral LGBT e as estratégias utilizadas para a sua
devida aplicação, tais como o Programa de Educação Permanente que atualmente
oferece um “curso de Política Nacional de Saúde Integral LGBT” na modalidade
educação à distância, além de uma Campanha realizada pelo MS, voltada à saúde
integral da população trans com o objetivo de promover o acesso e atendimento
humanizado no Sistema Único de Saúde – SUS.
14

2 TRANSGENERIDADE: UM CONCEITO MULTIDIMENSIONAL

“Aceita-me tal como sou. Só então poderemos descobrir-nos um ao outro”. Foi


assim que o cineasta italiano Frederico Fellini (1942-1993) reagiu às duras críticas
sobre o seu trabalho, que versavam sobre o amor e reforçam as características
particulares de cada indivíduo, suas idéias, suas escolhas, diante de uma sociedade
dominada pelo medo do fascismo, pela exclusão e pela intolerância.

Muito mais que lutar contra o preconceito e a intolerância, as pessoas trans


convivem com um sistema social excludente e investem na tentativa de discutir a
transgeneridade de uma maneira mais ampla, que não analise a condição
transgênera apenas em relação aos rígidos padrões sócio-culturais das normas
binárias de gênero ou, ainda, o caráter patológico imposto pela sociedade às
pessoas que não se enquadram nesse padrão.

Partindo do incômodo no que diz respeito a essa restrição de análise sobre a


transgeneridade, Lanz (2014) propõe uma leitura sobre a transgeneridade muito
mais ampla, que não esteja condicionada a um desvio ou transgressão das normas
de conduta estabelecidas pelo dispositivo binário de gênero, e que fazem com que
essas pessoas sejam consideradas gênero-divergentes, reforçando a exclusão e o
preconceito.

Lanz (2014) afirma que é importante que os estudos de gênero sustentem sua
análise não apenas no que está dentro das normas estabelecidas, mas que se
permita também discutir a transgeneridade sob a ótica dos fenômenos observáveis
na prática de transição e aceitação da identidade trans. A retomada sobre os
estudos de gênero, portanto, é necessária.

A questão de gênero pode ser observada a partir de muitos vieses, no entanto boa
parte da pesquisa realizada a esse respeito se concentra, preponderantemente, em
uma abordagem estática e categórica. Desse modo, a dimensão do gênero, na
sociedade, está relacionada, também, a uma dimensão social, se concentrando,
sobretudo, em questões identitárias.
15

A esse respeito, Connell (2016) esclarece que, quando o assunto é gênero, sempre
foram envolvidas, em geral, questões relacionadas à diferença entre duas
categorias: o masculino e o feminino. Desse modo, predominam as pesquisas
quantitativas sobre gênero, outras relacionadas às políticas públicas, mas dentro
dessa abordagem.

No caso da pesquisa biomédica, o gênero é considerado uma diferença reprodutiva


biológica. No entanto, tal visão é contestada pela sociologia da saúde (KULMANN E
ANNANDALE, 2010 apud CONNELL, 2016). Fato é que a tendência a essa busca
por categorias ainda é presente também nas ciências sociais e pode ser percebida
nas discussões acerca dos papéis sexuais. As duas categorias, distintas, são
estudadas, nesse caso, a partir de normas sociais binárias (CONNELL, 2016).

A pluralidade e a inclusão, segundo Connell (2016) tem sido objeto da luta do


movimento feminista, que busca uma avaliação menos sexista sobre essas
questões. A proposta da referida autora é tratar desse assunto a partir da percepção
de “ordem de gênero”, com dimensões múltiplas, que incluem poder, produção e
catexia. É preciso, portanto, “um conceito sociológico de ação, que opere num lugar
central da teoria de gênero” (CONNELL, 2016. p. 22).

A discussão sobre as diferenças entre sexos na percepção binária


masculino/feminino vem sendo aos poucos revista. Na contemporaneidade, por isso
parte-se do conceito de gênero, mais apropriado no que diz respeito à compreensão
das diversas identidades de que o sujeito se compõe.

Para Berenice Bento, é na infância que todo o contexto é criado para a fabricação de
corpos sexuais e que é estabelecido um grande projeto de preparação de corpos
para a vida heterossexual. A experiência transexual5, no entanto, denuncia os
valores que estruturam os gêneros da sociedade (BENTO, 2003).

Desse modo:

5
Mulher transexual é aquela que reivindica o reconhecimento social e legal como mulher; homem
transexual é aquele que reivindica o reconhecimento social e legal como homem (JESUS, 2012a).
16

A experiência transexual revela a possibilidade de ressignificar o


masculino/feminino, mostrando seu caráter performático. As/os
mulheres/ homens biológicos também, em suas ações cotidianas
interpretam o que é mulher/homem “de verdade”, isto porque a
verdade dos gêneros não está no corpo – já nos diz a experiência
transexual – mas nas possibilidades múltiplas de construir novos
significados para os gêneros (BENTO, 2003, p. 7).

A questão de gênero está atrelada, portanto, a um conjunto de valores que vão


sendo constituídos ao longo da vida. Assim, o sistema binário de gênero
corresponde a uma determinação inicial de sexualidade, repetições de citações
sobre verdades estabelecidas, fundamentadas na idéia de que a natureza os
determina.

Outro ponto que reforça esse argumento é a reiteração das instituições sociais que
buscam materializar, nos corpos, essas “verdades da natureza”. O sistema, portanto,
rejeita as fissuras, as transgressões às normas, as instabilidades que caracterizam a
experiência transexual. Isso, na realidade, só reforça a ideia de que essa verdade é
construída (BENTO, 2003).

Uma das tentativas de evitar essa instabilidade em relação aos gêneros, segundo
Bento (2003) é a patologização, que funciona como uma tentativa de dar
manutenção as verdades que definem as características de tudo o que é
supostamente “saudável” dentro da normalidade social.

2.1 DESCONSTRUINDO EQUÍVOCOS ENTRE IDENTIDADE DE GÊNERO E


SEXUALIDADE

As distinções entre identidades de gênero e identidades sexuais constituem um dos


temas do estudo realizado por Louro (1997). A autora ressalta as diversas formas de
o sujeito exercer a sua sexualidade, afirmando que as maneiras através das quais
os sujeitos exercem suas identidades sexuais estão relacionadas a como eles a
vivem diante de relacionamentos com parceiros/as do mesmo sexo (homossexuais),
do sexo oposto (heterossexuais), de ambos os sexos (bissexuais) ou sem
parceiros/as (assexuais).

Do ponto de vista social e cultural, no entanto, os sujeitos se identificam como


masculino e feminino construindo, assim, suas identidades de gênero. Esses
17

sujeitos podem ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais, mas, ao mesmo


tempo, também podem ser de diferentes etnias e condições econômicas. Dessa
forma, seja em relação ao gênero, seja em relação à sexualidade, identidades são
sempre construídas (LOURO, 1997).

Nesse mesmo viés, Deborah Britzman argumenta que:

Nenhuma identidade sexual — mesmo a mais normativa — é


automática, autêntica, facilmente assumida; nenhuma
identidade sexual existe sem negociação ou construção. Não
existe, de um lado, uma identidade heterossexual lá fora,
pronta, acabada, esperando para ser assumida e, de outro,
uma identidade homossexual instável, que deve se virar
sozinha. Em vez disso, toda identidade sexual é um constructo
instável, mutável e volátil, uma relação social contraditória e
não finalizada (BRITZMAN, 1996. p. 74). (grifos da autora)

Desse modo, os sujeitos, em suas relações sociais, vão se construindo como


masculino ou feminino, sempre influenciados pelos diferentes discursos, símbolos,
representações e práticas, reorganizando, ao longo da vida, seus lugares sociais.
Isso acontece porque as identidades de gênero estão sendo construídas e
modificadas a todo momento (BRITZMAN, 1996).

Sobre a formação da identidade de gênero, Jesus (2012) afirma que se trata de um


fato que não é biológico, mas social, construído pelas diferentes culturas. Assim: “o
que importa, na definição do que é ser homem ou mulher, não são os cromossomos
ou a conformação genital, mas a auto-percepção e a forma como a pessoa se
expressa socialmente” (JESUS, 2012. p. 8).

As inversões temporárias de papeis de determinado gênero são, segundo Jesus


(2012) normais ao longo da vida, pois estamos a todo momento vivenciando
experiências corporais diferentes, o que nos leva a uma percepção singular sobre o
gênero em diferentes situações.

O problema conceitual é apontado por Jesus (2012) como uma das grandes
dificuldades em se discutir o tema sem reforçar antigos discursos. Nem sempre,
inclusive, as definições se encaixam em quaisquer reconhecimentos dos indivíduos,
ainda que hajam nomenclaturas utilizadas justamente para aqueles que não se
encaixam em nenhuma designação existente.
18

Nota-se essa dificuldade na diferença de definição entre cisgênero e transgênero6.


Para Jesus (2012) cisgêneros são “pessoas que se identificam com o gênero que
lhes foi atribuído quando do nascimento” (p. 10). Os não-cisgêneros, por sua vez,
são as pessoas “que não se identificam com o gênero que lhes foi determinado”. A
autora ressalta, que ainda não há, no Brasil, consenso sobre o uso do termo, pois há
aqueles, por exemplo, que não se identificam com qualquer gênero e retomam
antigas denominações, como andróginos.

Os estudos de gênero surgem, portanto, com a proposta de suscitar a discussão


sobre a transgeneridade, nesse contexto, em que o binarismo homem/mulher passa
a não mais comportar a variedade de gêneros dos indivíduos. Marca-se o início dos
estudos transgêneros nos anos de 1990, nos EUA, apoiado nos estudos feministas e
na teoria queer. Segundo Lanz (2014) o campo dos estudos transgêneros:

É a pesquisa e a análise sistematizada das diversas dimensões do


fenômeno transgênero considerado como transgressão das normas
de conduta do dispositivo binário de gênero, que configura o
surgimento da pessoa gênero-divergente ou “transgressora de
gênero” (LANZ, 2014. p. 34).

Tendo sido consolidado como campo de conhecimento autônomo, os estudos


transgêneros passaram a contribuir para a visibilidade das identidades transgêneras
através dos estudos sobre temas diversos, como identidades e expressões gênero-
divergentes, assim como caminham junto com as novas conquistas alcançadas no
âmbito político e no cenário social em vários lugares do mundo (LANZ, 2014).

2.2 CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA QUEER

A teoria queer, utilizada pela primeira vez no final dos anos 1980, nos Estados
Unidos, ganhou destaque nas pesquisas sobre identidades trans e, aos poucos,
estabeleceu seu objeto de estudo: a dinâmica da sexualidade e do desejo nas
organizações sociais (MISKOLCI, 2009).

Uma das grandes referências sobre o assunto é a filósofa pós-estruturalista


estadunidense Judith Butler, que desenvolveu pesquisas questionando os

6
Transgênero é um conceito guarda-chuva que abrange o grupo diversificado de pessoas que não se
identificam, em graus diferentes, com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero que lhes foi
determinado socialmente (Jesus, 2012a).
19

pressupostos do feminismo da maneira como eram vistos até então, propondo uma
forma mais ampla de se compreender o tema. Com a publicação de Problemas de
Gênero, nos anos 90, Butler discute as noções de essência do feminino ou do
masculino, propondo um empoderamento dos corpos subalternos (VIEIRA, 2016).

Sara Salih (2015) identifica Judith Butler como grande investigadora das questões
relacionadas a gênero e que dialoga com muitas áreas do conhecimento. Ao se
dedicar a instabilidade dos termos com os quais as identidades são construídas,
Butler propõe a reconstrução daquilo que o sujeito sempre vai consolidando e
entendendo como identidade. Assim:

O trabalho de Butler se envolve numa questão dialética com as


categorias pelas quais o sujeito é descrito e constituído, investigando
por que o sujeito é hoje configurado do modo como é, e sugerindo
que é possível fazer com que modos alternativos de descrição
estejam disponíveis dentro das estruturas existentes de poder
(SALIH, 2015. p. 13).

De certo modo, é a partir de Butler que a questão de gênero passa a ser discutida,
partindo do feminismo, desconstruindo verdades absolutas e refletindo sobre as
mais diversas teorias e críticas sobre a formação do sujeito no contexto social. Além
disso, é na teoria queer que ela começa a questionar o sujeito feminino como uma
entidade estável e evidente (SALIH, 2015).

É preciso destacar, contudo, que o queer, como aponta Salih (2015), não está
preocupado em conceituar, com definições, fixidez ou estabilidade. Pelo contrário, é
transitório, múltiplo e avesso à assimilação. O principal objetivo da teoria queer,
portanto, é investigar e desconstruir categorias, propondo a desestabilização e
desconstrução de identidades sexuadas (SALIH, 2015).

Em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, Butler (2003) trata


do tema pelo viés da construção discursiva sobre os gêneros, observando de que
maneira a linguagem constrói as categorias de sexo. A autora defende que os
discursos produzidos pelos vários regimes de poder constituem a linguagem fictícia
de “sexo” que sustentam esses mesmos regimes.

Mas outra importante questão é trazida no texto e diz respeito a maneira como as
fronteiras e a superfície dos corpos são politicamente construídas. Para além da
20

estrutura binária, Butler (2003) propõe um rompimento com as categorias de corpo,


sexo, gênero e sexualidade, ressignificando-as.

Assim, todas as linguagens que se interpenetram e os discursos construídos sobre o


binarismo de gênero precisam ser superados para a aceitação de outros gêneros e
uma compreensão sobre a transgeneridade. Há, portanto, uma subversão interna e
não a construção de um novo gênero. Além das categorias de identidade, trata-se
de “uma luta erótica para criar novas categorias a partir das ruínas das velhas,
novas maneiras de ser um corpo no campo cultural, e linguagens inteiramente novas
para descrevê-las” (BUTLER, 2003. p. 183).

Atualmente, a Teoria Queer é amplamente discutida por outros pesquisadores,


inclusive no Brasil, tais como Berenice Bento (2006; 2008; 2012; 2014), e está
fundada no desconforto em relação à sociologia, à época, que tratava a ordem social
como sinônimo de heterossexualidade (MISKOLCI, 2009).

Com o tempo, os estudos relacionados à Teoria Queer revelaram-se produtivos e


legítimos para a discussão a respeito da exclusão social vivenciada pelas pessoas
trans. No Brasil, a produção acadêmica ainda é escassa, mas surgem, a todo
momento novos leitores de obras conceituadas desse campo. Os estudos
transgêneros abordam, dentre outras questões, transgressão e conformidade de
gênero, transição de gênero, travestilidade, dentre outras (LANZ, 2014).

2.2 UM OLHAR TRANSFEMINISTA

Jesus e Alves (2010) discutem o movimento transgênero com o propósito de


estabelecer conexões entre este e o feminismo. Afirmam que as distinções entre
homem e mulher têm a finalidade de marcar as diferenças de cunho social entre
homens e mulheres, uma tendência à subalternização das mulheres. Para
fundamentar essa discussão, as autoras buscam a precisão de conceitos como
gênero, desde as primeiras tentativas de definição realizada por John Money (1955
apud JESUS; ALVES, 2010) até Berenice Bento (2006, 2008 apud JESUS; ALVES,
2010).
21

No tocante ao feminismo transgênero ou transfeminismo, as autoras estabelecem as


diferenças entre o tratamento oferecido a essas mulheres em relação às mulheres
cisgêneras e trazem exemplos da discriminação cissexista. Defendem, por fim, o
empoderamento das pessoas transexuais mediante inclusão em processos sociais
em todas as suas esferas: seja relacionado a políticas públicas quanto ao próprio
discurso sexista (JESUS; ALVES, 2010).

A origem do transfeminismo é discutida por Jaqueline de Jesus, um termo que


surgiu, segundo a autora, “no contexto do movimento intelectual e político da
população transgênero – composta majoritariamente por travestis e mulheres e
homens transexuais – norte-americana” (JESUS, 2014. p. 25).

Na América Latina, no entanto, o conceito ainda é recente e aparece em discussões


femininas acerca do gênero. Em alguns casos, o transfeminismo pode ser conhecido
como feminismo transgênero, pois se trata de uma linha de pensamento e de prática
feminista que se propõe a movimentar o debate em torno da subordinação
morfológica do gênero (como construção psicossocial) ao sexo (como biologia),
ambos influenciados e sujeitos a processos históricos (JESUS, 2014).

O transfeminismo critica essa subordinação, enfatizando a tentativa de justificar a


opressão em relação àqueles que não correspondem, do ponto de vista biológico, à
norma binária homem/pênis e mulher/vagina. Nesse grupo estão incluídos homens e
mulheres transgênero; mulheres cisgênero histerectomizadas e/ou
mastectomizadas; homens cisgênero orquiectomizados e/ou emasculados; e casais
heterossexuais com práticas e papeis afetivossexuais divergentes dos
tradicionalmente atribuídos, dentre outros (JESUS, 2014).

Assim, o transfeminismo pode ser considerado uma categoria do feminismo em


construção, que surge como alternativa ao feminismo que se concentra na questão
biológica, ou seja, no reconhecimento do gênero com uma categoria, diferente da
construção estereotipada que distingue o sexo pelos corpos (JESUS, 2014).

Ainda segundo Jesus (2014), o texto de Aline de Freitas (2008), intitulado “Ensaio de
Construção do Pensamento Transfeminista”, pode ser citado como percussor na
22

constituição do pensamento transfeminista no Brasil. Nele, Freitas (2008 apud


JESUS, 2014) trata da construção do papel social das pessoas e seus gêneros.

O transfeminismo, nesse sentido, representa a necessidade de preservação da livre


expressão de gênero, uma exigência do direito universal pela auto-definição, pela
auto-identidade, e pela livre orientação sexual: de homens e mulheres trans e
cissexuais e das pessoas andrógenas em seu legítimo direito de não serem nem
homens nem mulheres. Desse modo, o transfeminismo:

[...] propõe o fim da mutilação genital das pessoas intersexuais e luta


pela autonomia corporal de todos os seres humanos. O
transfeminismo é para todxs que acreditam e lutam por uma
sociedade onde caibam todos os gêneros e todos os sexos (Freitas,
2005, p. 1 apud JESUS, 2014).

O transfeminismo, portanto, é uma proposta ampla de entendimento sobre o


feminismo, embora seja dele derivado. O estudo transfeminista vem cobrir uma
demanda não suprida – e legítima – relacionada à falta de visibilidade e exclusão às
pessoas transgêneros. Desse modo, expande-se a luta daqueles que, dentro de um
grupo que já está à margem, também precisa ser ouvido.
23

3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE VOLTADAS PARA A POPULAÇÃO TRANS

O preconceito institucional, a discriminação e a exclusão social, nos dias atuais, têm


sido vistos como os principais obstáculos para o acesso à saúde de lésbicas, gays,
bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), e isso vem ganhando destaque no
Ministério da Saúde (MS), que busca implementar políticas públicas de saúde para
essa população (Brasil, 2008a; 2008b; 2009; 2011; 2013).

Contudo, o atendimento oferecido, ainda está longe de alcançar a integralidade e


equidade previstas no Sistema Único de Saúde (SUS). A vulnerabilidade maior tem
recaído sobre as pessoas trans (transexuais e travestis), devido, em parte, à
complexidade de suas demandas de saúde, além do contexto de invisibilidade que
se encontram na sociedade.

A preocupação com as questões de saúde da população LGBT começaram de fato


a serem discutidas na década de 80, momento em que o Ministério da Saúde
passou a adotar, em parceria com os movimentos sociais, estratégias para enfrentar
a situação endêmica do vírus HIV. Mas as necessidades de saúde da população
LGBT não estão restritas, apenas, ao combate à AIDS. Os movimentos, então, se
organizaram para solicitar, ao poder público, ações de prevenção e promoção da
saúde integral de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais através da
formulação de políticas voltadas para outras demandas desse segmento.

Em resposta às reivindicações históricas do movimento social de lésbicas, gays,


bissexuais, travestis e transexuais, surge a Política Nacional de Saúde Integral
LGBT, instituída pela Portaria nº 2.836, de 1º de dezembro de 2011, e pactuada pela
Comissão de Intergestores Tripartite (CIT), conforme resolução nº 2 do dia 6 de
dezembro de 2011. Trata-se de um documento importante, que reconhece os efeitos
da discriminação e do preconceito no processo de saúde-doença. Suas diretrizes e
objetivos referem-se às mudanças nos determinantes sociais da saúde que afetam
esta população (BRASIL, 2011).

A política Nacional de Saúde Integral LGBT é “uma política transversal com gestão e
execução compartilhadas entre as três esferas de governo e, na qual a articulação
com as demais políticas do Ministério da Saúde se torna imprescindível” (BRASIL,
24

2013, p. 27). Além disso, com essa política busca-se ampliar e garantir o acesso da
população LGBT aos serviços de saúde. Desse modo, é possível contribuir para o
combate à discriminação e ao preconceito institucional, além de oferecer o cuidado e
o acolhimento necessários, desde a atenção básica à especializada. (BRASIL,
2013).

Possui, ainda, diretrizes que, para serem viabilizadas, precisam de ações que dizem
respeito à qualificação profissional dos trabalhadores da área e de campanhas de
conscientização e informação para combater os principais obstáculos para o acesso
à saúde: o estigma e a discriminação. Nas diretrizes constam, dentre outros
quesitos:
III - inclusão da diversidade populacional nos processos de
formulação, implementação de outras políticas e programas voltados
para grupos específicos no SUS, envolvendo orientação sexual,
identidade de gênero, ciclos de vida, raça-etnia e território;
V - implementação de ações, serviços e procedimentos no SUS, com
vistas ao alívio do sofrimento, dor e adoecimento relacionados aos
aspectos de inadequação de identidade, corporal e psíquica relativos
às pessoas transexuais e travestis;
VII - inclusão da temática da orientação sexual e identidade de
gênero de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais nos
processos de educação permanente desenvolvidos pelo SUS,
incluindo os trabalhadores da saúde, os integrantes dos Conselhos
de Saúde e as lideranças sociais (BRASIL, 2013).

O Ministério da Saúde, através das Portarias nº 1.707 e nº 457 de agosto de 2008,


instituiu o Processo Transexualizador7 no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)
para atender especificamente as pessoas trans, sendo, posteriormente ampliada e
redefinida pela portaria nº 2.803, de 19 de novembro de 2013, a fim de consolidar as
normas de atendimento a travestis e transexuais no SUS.

O Processo Transexualizador visa garantir o atendimento integral de saúde às


pessoas trans, incluindo acolhimento e acesso com respeito aos serviços do SUS,
desde o uso do nome social, passando pelo acesso a hormonioterapia, até a cirurgia
7
Na publicação Transexualidade e Travestilidade na saúde consta que: “No Brasil, no âmbito do
Sistema Único de Saúde (SUS), dá-se o nome de Processo Transexualizador ao conjunto de
procedimentos médico-cirúrgicos a que – de maneira consciente, esclarecida e voluntária – se
submete uma pessoa diagnosticada como portadora do chamado “transtorno de identidade sexual” e
que deseja ajustar sua genitália à sua identidade de gênero. (BRASIL, 2008; 2013) Disponível em:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/transexualidade_travestilidade_saude.pdf. Acesso em:
20/05/2017.
25

de redesignação sexual. O SUS disponibiliza também, outros procedimentos como:


histerectomia (retirada de útero e ovários), mastectomia (retirada das mamas),
tireoplastia (cirurgia que permite a mudança no timbre da voz), plástica mamária e
inclusão da prótese de silicone e outras cirurgias complementares (BRASIL, 2013).

Para o (a) usuário (a) ter acesso aos procedimentos do processo transexualizador,
necessita ter a idade mínima de 18 anos, sendo que, no caso das cirurgias, somente
a partir de 21 anos, com indicação específica e acompanhamento prévio de 2 (dois)
anos por equipe interdisciplinar e multiprofissional. Após a cirurgia, o paciente deve
ser acompanhado por mais um ano (BRASIL, 2013).

Apesar da extrema importância do processo transexualizador para as pessoas trans,


existem hoje no país apenas cinco Centros de Referência habilitados pelo Ministério
da Saúde para realizar todas as etapas desse processo – o atendimento
ambulatorial e hospitalar – conforme Portaria nº 2.803/2013. São eles: Hospital das
Clínicas da Universidade Federal de Goiás/ Goiânia (GO); Universidade Estadual do
Rio de Janeiro - Hospital Universitário Pedro Ernesto/ Rio de Janeiro (RJ); Hospital
de Clínicas de Porto Alegre - Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ Porto
Alegre (RS); Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina FMUSP/Fundação
Faculdade de Medicina MECMPAS – São Paulo (SP); Hospital das
Clínicas/Universidade Federal de Pernambuco – Recife (PE).

Na Bahia, o ambulatório transexualizador do Hospital Universitário Professor Edgar


Santos (HUPES) foi credenciado pelo Ministério da Saúde desde setembro de 2016,
e, apesar de já ter realizado a capacitação de todos os profissionais que estarão
envolvidos no atendimento, aguarda a habilitação para poder funcionar.

O processo está sendo analisado pelo Ministério da Saúde desde novembro de


2016. Contudo, existem pendências burocráticas, relacionadas ao alvará sanitário e,
segundo o Ministério da Saúde, não há previsão para que o procedimento seja
concluído. Em entrevista ao Correio 24 horas, a médica endocrinologista Luciana
Barros Oliveira, responsável pela implantação do ambulatório Transexualizador do
HUPES afirma que:

Não há endocrinologista na rede SUS para orientar a


hormonioterapia de forma segura e individualizada, assim como não
26

são realizados procedimentos cirúrgicos previstos na portaria do


Ministério da Saúde sobre o processo transexualizador para travestis
e transexuais. O ambulatório que será implantado no Hupes irá suprir
essas deficiências na atenção à saúde desta população do nosso
estado8.

A falta de ambulatórios especializados para esse atendimento força as pessoas


trans a buscarem formas alternativas e clandestinas para realizar a adequação do
corpo à identidade de gênero, como a automedicação, o uso indiscriminado de
hormônios e a aplicação de silicone industrial, que é altamente tóxico. Dentre os
seus efeitos nocivos, segundo consta no Dossiê A geografia dos corpos das
pessoas trans, estão: “necrose das células, embolia, reações alérgicas,
deslocamento do silicone para outras áreas do corpo, trazendo deformações
severas, levando muitas vezes ao óbito”9.

Segundo Santos (2013), a tentativa de se adequar a um gênero mediante


modificação corporal faz com que essas pessoas busquem uma série de interdições
que contribuem para agravar os seus problemas de saúde. Trata-se de uma
intervenção complexa que, carente de segurança, pode causar sequelas
irreparáveis, ou até mesmo a morte do indivíduo.

Desse modo, é bem comum que pessoas trans procurem os serviços de saúde por
esse motivo, a fim de tratarem dos danos causados pelas práticas clandestinas de
reconstrução corporal. E, por esse motivo, a Política de Saúde LGBT prevê a
hormonioterapia, um método considerado seguro para realizar essa mudança. O que
ocorre, segundo Santos (2013), é que esse recurso está indisponível na maioria dos
serviços de saúde no Brasil.

Conforme Mello (ET AL, 2011), dentre a população LGBT, as pessoas travestis e
transexuais são as que mais enfrentam dificuldades ao buscarem atendimentos nos
serviços públicos de saúde. Isso acontece não só quando reivindicam serviços
especializados, como o processo transexualizador, mas em diversas outras ocasiões
nas quais buscam atendimento. Essas pessoas sofrem pela agressiva

8
Disponível em: http://blogs.correio24horas.com.br/mesalte/burocracia-atrasa-ambulatorio-para-trans-
e-travestis-na-bahia/#sthash.jIdpNAhm.dpuf. Acesso em: 20/05/2017
9
Disponível em: http://redetransbrasil.org/uploads/7/9/8/9/79897862/redetransbrasil_dossier_1.pdf
. Acesso em: 20/05/2017
27

trans/travestifobia atrelada à discriminação por outros marcadores sociais, como


pobreza, raça/cor, aparência física.

A inclusão do nome social de travestis e transexuais no Cartão do Sistema Único de


Saúde (Cartão SUS), por exemplo, é um dos grandes entraves no atendimento a
essas pessoas. Embora não seja respeitada pela maioria dos serviços públicos de
saúde, a Portaria nº 1.820, que dispõe sobre os direitos e deveres dos usuários da
saúde, foi instituída pelo Ministério da Saúde em 13 de agosto de 2009, e diz o
seguinte, no art. 4º, item I:

I - identificação pelo nome e sobrenome civil, devendo existir em todo


documento do usuário e usuária um campo para se registrar o nome
social, independente do registro civil sendo assegurado o uso do
nome de preferência, não podendo ser identificado por número,
nome ou código da doença ou outras formas desrespeitosas ou
preconceituosas (BRASIL, 2009).

Assim, é preciso que as pessoas trans tenham acesso e também pleno


conhecimento dos seus direitos, para que não fiquem reféns do sistema ou dos seus
agentes. O nome social não é apenas um direito das pessoas trans, mas diz respeito
a sua história, a sua identidade, à percepção que essas pessoas têm de si mesmo,
daí a importância do seu reconhecimento.

As conquistas institucionais são inúmeras, mas o trabalho realizado nessas


unidades, no dia a dia, ainda precisa ser aperfeiçoado. Assim, é fundamental
compreender conceitos como sexo, identidade de gênero, orientação sexual, dentre
outros, além dos direitos que essas pessoas possuem, bem como as ações
necessárias para o acolhimento humanizado, em atenção às ações de saúde
previstas nas políticas de saúde para travestis e transexuais.

Outro aspecto importante no reconhecimento dos direitos das pessoas trans está
relacionado ao seu avanço, contudo, a sua pouca efetivação. Isso porque, ainda que
se reconheça seus direitos, há uma barreira social, cultural e institucional que,
lastreada no desconhecimento, ainda faz com que os trabalhadores da saúde não o
pratiquem efetivamente. O preconceito e a discriminação são apenas duas facetas
desse problema.
28

Por esse motivo, as pessoas trans não só se sentem constrangidas no atendimento


oferecido pelos serviços de saúde como também deixam de procurá-los. Essa foi a
conclusão a que chegou Santos (2013), na sua investigação sobre o acesso e o
acolhimento de travestis e mulheres transexuais nos serviços de saúde.

A proposta de Santos (2013) é “desenvolver novas atividades de monitoramento


das atividades nos Serviços de Saúde visando à obediência por parte dos
trabalhadores e profissionais de saúde às ações previstas na política LGBT”. O
atendimento humanizado pode contribuir para o atendimento adequado dessa
população, bem como a prevenção de possíveis transtornos psicológicos.

3.1 O CUIDADO À SAÚDE DAS PESSOAS TRANS NA ATENÇÃO BÁSICA

Atenção Primária à Saúde (APS) refere-se a um conjunto de práticas integrais em


saúde, direcionadas a responder necessidades individuais e coletivas, é considerada
internacionalmente a base para um modelo assistencial de sistemas de saúde que
tenham em seu centro o usuário-cidadão. Giovanella e Mendonça (2012, p. 8) frisam
que se trata “dos serviços do primeiro contato do paciente com o sistema de saúde,
de fácil acesso e direcionados a cobrir afecções e condições mais comuns e a
resolver a maioria dos problemas de saúde de uma população”.

No Brasil, o Ministério da Saúde adotou a nomenclatura de Atenção Básica (AB),


com o objetivo de diferenciá-la de propostas e concepções que reduziram o
potencial da APS a uma cesta básica de serviços. Atualmente, a Política Nacional de
Atenção Básica (PNAB) adota os termos Atenção Básica (AB) e APS, como
equivalentes (BRASIL, 2011). De acordo com a Portaria n. 2488, de 21 de outubro
de 2011 do Ministério da Saúde a Atenção Básica (AB) caracteriza-se como:

[...] um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo,


que abrange a promoção e a proteção de saúde, a prevenção de
agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, redução de
danos e a manutenção da saúde com o objetivo de desenvolver uma
atenção integral que impacte na situação de saúde e na autonomia
das pessoas e nos determinantes e condicionantes de saúde das
coletividades (BRASIL, 2011).
29

Segundo a PNAB, “a Atenção Básica é desenvolvida com o mais alto grau de


descentralização e capilaridade, ocorrendo no local mais próximo da vida das
pessoas.” (BRASIL, 2012, p. 9). Conforme essa política, Atenção Básica deve ser a
principal porta de entrada e centro de comunicação com toda a Rede de Atenção à
Saúde. Por isso, é fundamental que ela se oriente pelos princípios da
universalidade, da acessibilidade, do vínculo, da continuidade do cuidado, da
integralidade da atenção, da responsabilização, da humanização, da equidade e da
participação social (BRASIL, 2012).

De acordo a Portaria nº 2.488, a atenção básica deve cumprir algumas funções para
contribuir com o funcionamento das Redes de Atenção à Saúde, dentre elas:

II - Ser resolutiva: identificar riscos, necessidades e demandas de


saúde, utilizando e articulando diferentes tecnologias de cuidado
individual e coletivo, por meio de uma clínica ampliada capaz de
construir vínculos positivos e intervenções clínicas efetivas, na
perspectiva de ampliação dos graus de autonomia dos indivíduos e
grupos sociais;
III - Coordenar o cuidado: elaborar, acompanhar e gerir projetos
terapêuticos singulares, bem como acompanhar e organizar o fluxo
dos usuários entre os pontos de atenção das RAS. Atuando como o
centro de comunicação entre os diversos pontos de atenção
responsabilizando-se pelo cuidado dos usuários em qualquer destes
pontos através de uma relação horizontal, contínua e integrada com
o objetivo de produzir a gestão compartilhada da atenção integral;
IV - Ordenar as redes: reconhecer as necessidades de saúde da
população sob sua responsabilidade, organizando as necessidades
desta população em relação aos outros pontos de atenção à saúde,
contribuindo para que a programação dos serviços de saúde parta
das necessidades de saúde dos usuários (BRASIL, 2011).

Em relação às pessoas trans, a Portaria MS nº 2.803 que regulamenta o Processo


Transexualizador, reitera que:
[...] a Unidade Básica de Saúde (UBS) deve ser a porta de entrada
para o acolhimento com qualidade, reforçando a importância do
respeito ao uso do nome social para travestis e transexuais. A UBS
deverá referenciar para a Unidade Ambulatorial Especializada ou a
Unidade Hospitalar Especializada no Processo Transexualizador
mais próximas quando houver interesse manifesto ou indicação para
o atendimento específico do Processo Transexualizador. Dessa
forma, é possível implementar uma rede de referência e
contrarreferência dentro dos estados ou entre os estados (BRASIL,
2013).

A cartilha “Cuidar bem da saúde de cada um. Faz bem para todos. Faz bem para o
Brasil”, publicada pelo Ministério da Saúde (Brasil, 2016), traz os componentes da
30

linha de cuidado que foi estruturada para os(as) usuários(as) trans, com demanda
para a realização do Processo Transexualizador:
1 - Atenção Básica: é o componente da Rede de Atenção à Saúde
(RAS) responsável pela coordenação do cuidado e por realizar a
atenção contínua da população que está sob sua responsabilidade,
adstrita, além de ser a porta de entrada prioritária do(a) usuário(a) na
rede;
1.1 - As Unidades Básicas de Saúde devem realizar o acolhimento, o
cuidado, o acompanhamento e, quando necessário, conforme
identificação prévia de suas demandas, o encaminhamento aos
serviços especializados no Processo Transexualizador (Atenção
Especializada).
2 - Atenção Especializada: é um conjunto de diversos pontos de
atenção com diferentes densidades tecnológicas para a realização
de ações e serviços de urgência, ambulatorial especializado e
hospitalar, apoiando e complementando os serviços da atenção
básica de forma resolutiva e em tempo oportuno.
2.1 - Os serviços especializados no Processo Transexualizador
(Atenção Especializada) devem realizar o acolhimento, o cuidado, o
acompanhamento dos(as) usuários(as) com demanda no Processo
Transexualizador, para realização de procedimentos ambulatoriais
e/ou cirúrgicos, contemplados pela Portaria nº 2.803, de 19 de
novembro de 2013 (BRASIL, 2016, p. 20) (grifos do autor).

Sendo a Atenção Básica, a porta de entrada para os atendimentos de saúde, ela


desempenha, portanto, um papel central na garantia de acesso ao cuidado integral
de saúde pela população trans. Os profissionais que atuam neste nível devem ser os
primeiros a ser conscientizados quanto ao acolhimento das demandas específicas, e
importância dessa atenção para a qualidade de vida dessas pessoas. Desse modo:
“a universalidade do direito à saúde requer que se proponham estratégias de
acolhimento e atenção específicas, de acordo com as particularidades dos sujeitos
que buscam os serviços de saúde” (LIONÇO, 2008, p. 19).

3.2 DESAFIOS VIVENCIADOS PELOS USUÁRIOS TRANS PARA O ACESSO À


REDE DE SERVIÇOS DAS UNIDADES BÁSICAS DE SAÚDE

O acesso à saúde passa, inevitavelmente, pelo atendimento oferecido pelos


profissionais de saúde. Esse primeiro contato, no entanto, nem sempre acontece de
maneira humanizada e acolhedora, como preveem as políticas de acesso a saúde
voltadas para as pessoas trans. O não reconhecimento do nome social, por
exemplo, apontado nas várias pesquisas (MORAES, 2014; TAGLIAMENTO, 2012) é
31

uma forma agressiva de iniciar um atendimento, já que se refere a negação da


identidade daquele que quer ser tratado com o devido respeito.

A prática qualificada dos profissionais de saúde precisa ser priorizada desde o


primeiro atendimento realizado nas unidades básicas de saúde, sem o qual a
pessoa trans pode abandonar a procura pelo serviço a que tem direito e do qual
necessita. Garcia (ET AL, 2016), analisando a procura pelos serviços do SUS
oferecidos à população LGBT, destacam a necessidade de discussão de temáticas
que envolvam a sexualidade e identidade de gênero para que as políticas públicas
voltadas para essa população sejam eficientes. A atenção básica, nesse sentido:

[...] é a porta de entrada do SUS, pois ela é o serviço de saúde


público que está ligado diretamente com o indivíduo e a comunidade.
É através dela e da equipe multiprofissional que a compõe que é
possível identificar precocemente fatores de riscos, desenvolver
ações para promoção, proteção e recuperação da saúde individual e
coletiva. (GARCIA, ET AL, 2016. p. 120)

A equipe multiprofissional, que atua para viabilizar a efetivação da Política Pública


de Saúde LGBT, precisa, no entanto, estar preparada para lidar com o atendimento
ético e humanizado dessas pessoas. Isso porque, independente da construção
cultural sobre gênero e sexualidade que o profissional possua, é preciso que sua
formação profissional contemple essas questões.

Os relatos das pessoas trans que precisam se submeter a algum tipo de


atendimento nas unidades de saúde demonstram o medo, a vergonha, o
constrangimento e o descaso com que são tratadas desde o primeiro momento,
agravando a vulnerabilidade e deixando-as com a sensação de não pertencerem a
sociedade e, por isso, não possuírem os direitos concernentes a qualquer outra
pessoa.

Guaranha (2014) destaca, a partir da análise dos relatos de travestis e pessoas


transexuais no que diz respeito ao acesso e utilização dos serviços oferecidos pelo
SUS, que eles sofrem preconceito e discriminação, o que revela a transfobia
presente nesses locais que deveriam, pelo contrário, oferecer-lhes o acolhimento
que precisam.
32

Os problemas não são apenas em relação ao atendimento oferecido pelo


profissional de saúde. O estudo de Guaranha (2014) torna evidente que a situação
atinge todo o sistema de saúde de maneira institucional, de modo que o cotidiano de
discriminações e preconceitos se torna comum e agrava a vulnerabilidade que essas
pessoas já sofrem. Além disso, não se pode perder de vista que o profissional de
saúde detém o poder de decisão sobre o atendimento, o que faz com ele seja
realizado a partir de escolhas que nem sempre resguardam os direitos das pessoas
trans. Desse modo:

Os serviços de saúde não ficam imunes aos processos de


discriminação. Ao agir de forma preconceituosa e/ou discriminatória,
o sistema de saúde informa – de forma explícita ou implícita –
quando o/a usuário é ou não é bem vindo/a, não sendo este/a
último/a quem define se vai acessar ou não o sistema: é o/a
profissional que decide quando, onde e de que forma se dará o
atendimento (GUARANHA, 2014. p. 18).

Trata-se de uma violência estrutural que restringe a possibilidade de o indivíduo


satisfazer, segundo Parker (2013 apud GUARANHA, 2014), suas necessidades
fundamentais, fazendo com que eles se tornem ainda mais vulneráveis. É evidente
que tais práticas discriminatórias afetam a condição de saúde das pessoas trans,
aumentando a possibilidade, inclusive, do surgimento de psicopatologias e ideação
suicida.

O tratamento de saúde, por vezes, é abandonado pela pessoa trans, visto que o
sistema não lhe fornece as vias necessárias para um atendimento acolhedor e que
ofereça a possibilidade de que o acesso à saúde seja feito sem que ele precise se
sentir envergonhado pela forma que é recebido nas unidades. Às vezes, isso
acontece pela rejeição da identidade de gênero com a qual a pessoa se identifica,
direito que é negado por alguns profissionais de saúde.

Guaranha (2015) destaca que essas circunstâncias são comuns e acontecem, via de
regra, por causa do “jogo desigual de forças” que, diante do “poder biomédico, que
controla os recursos terapêuticos”, que possuem aqueles que têm a prerrogativa de
decidir quem deve receber tratamento e quando e como isso deve acontecer.

A discriminação pode acontecer de diferentes formas, mas, sem dúvida, o


preconceito é uma violência silenciosa, que afeta porque parece ser comum, quando
33

na realidade é uma atitude desrespeitosa que está disfarçada em uma expressão ou


em um sinal feito ao colega da estranheza quando da chegada de uma pessoa trans
para o atendimento. Esses comportamentos, verbais e não verbais, afetam pessoas
que só estão em busca de um lugar que possa acolhê-las, já que os direitos de
quaisquer cidadãos se estendem, também, aos transgêneros.

Em pesquisa realizada sobre o atendimento a travestis na atenção primária na


cidade de Natal – RN, Moraes (2014) chama atenção para a falta de conhecimento
da população em geral sobre o que significa ser transgênero. Muitas vezes, o
preconceito advém justamente de reações do senso comum, como a associação
direta das pessoas trans às pessoas que possuem o vírus HIV, por exemplo. Na
análise das entrevistas realizadas pela sua pesquisa Moraes (2014) constata que:

Uma das maiores dificuldades enfrentadas no atendimento à saúde


das travestis relatadas nas entrevistas é a ligação com o vírus HIV.
Ao ver a figura de um travesti em um espaço de saúde, algumas
pessoas associam logo a idéia de que estaria ali por ser portadora do
vírus HIV (MORAES, 2014. p. 124).

Outras questões que revelam o preconceito e a discriminação contra pessoas trans


são levantadas por Moraes (2014). No que diz respeito ao atendimento realizado
nas unidades básicas de saúde, o autor destaca que, a partir dos resultados
colhidos das entrevistas realizadas no serviço de atenção primária a saúde na
cidade de Natal-RN, foi possível identificar a percepção das travestis em relação aos
profissionais de saúde.

Os profissionais de saúde são apontados, pelas travestis entrevistadas, como


desrespeitosos em relação a várias questões: “o não uso do nome social, os olhares
discriminatórios, a indiscrição e julgamentos preconceituosos quanto às suas
doenças, a resistência dos profissionais em realizar o seu tratamento hormonal”
(MORAES, 2014. p. 130).

Vê-se que a percepção das pessoas trans em relação à atenção primária à saúde,
no recorte realizado, é de que os profissionais não estão devidamente preparados
para oferecer um atendimento humanizado e respeitoso. Ora, o nome social é o
primeiro impasse criado nesses casos, pois já no momento do primeiro contato, na
realização do cadastro, essas pessoas têm dificuldade de serem aceitas.
34

Além disso, muitos são os casos em que as pessoas trans terminam “se
acostumando” com esse tipo de atendimento discriminatório, e nem sentem mais
que possuem o direito de serem tratadas de outra forma. Tal condição só aumenta a
condição social excludente, em que as mesmas estão expostas.

Tagliamento (2012) realiza pesquisa semelhante, enfocando a percepção das


mulheres trans no acesso à saúde integral. Partindo de entrevistas realizadas com
mulheres trans que buscam atendimento nos serviços de saúde em Curitiba-PR, a
autora construiu um cenário baseado nas vivências dessas mulheres, observando
que elas têm uma trajetória na área de saúde marcada pela violação de direitos
humanos, e encontram barreiras individuais, sociais e programáticas que aumentam
a sua vulnerabilidade ao adoecimento.

A dimensão social é intersubjetiva; a dimensão social diz respeito ao contexto


sociocultural; a dimensão programática refere-se à forma como políticas e
instituições aumentam as condições de vulnerabilidade do indivíduo. É preciso, na
análise em questão, levar em conta as três dimensões no atendimento às pessoas
trans (TAGLIAMENTO, 2012). Assim:

Ao almejarem se enquadrar nas normas de gênero, elas acabaram


abrindo mão dos seus direitos, criando uma barreira para o seu
acesso à saúde integral. Ao permitirem que não fosse efetivado o
seu direito ao uso do nome social, nos serviços de saúde, elas
passaram por situações constrangedoras, produzidas pela
estigmatização, sustentando a sua vulnerabilidade social
(TAGLIAMENTO, 2012. p. 128).

Outro ponto que não deve ser ignorado pelos profissionais nos serviços de saúde da
atenção básica, é que a pessoa trans não precisa só de hormonioterapia, de cirurgia
redesignação sexual, mamoplastia e afins. Pessoas trans também têm doenças
crônicas, como a hipertensão arterial e diabetes, têm gripes, precisam se vacinar, ou
seja, são seres humanos com necessidades básicas de atendimento. O grande erro,
segundo Kruger (2016), é focar demasiadamente nos aspectos relacionados ao
processo transexualizador, esquecendo-se que existe todo um sistema de atenção
primária que deve ser contemplado de acordo com suas necessidades individuais.
35

4. CAPACITAÇÃO DOS TRABALHADORES DE SAÚDE PARA O ATENDIMENTO


HUMANIZADO ÀS PESSOAS TRANS NA ATENÇÃO BÁSICA

O atendimento humanizado às pessoas trans na atenção básica, como já foi dito,


demanda, inevitavelmente, uma capacitação mais intensiva e qualificada para os
profissionais de saúde que atuam junto a essa população. Uma das vias possíveis
para aprimorar o trabalho desenvolvido nessa área é a educação.

A Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), regida pelas


portarias GM/MS nº 1.996 de agosto de 2007 e nº 278 de fevereiro de 2014, foi
instituída pelo Ministério da Saúde (MS) a fim de propor uma política de qualificação
contínua para os trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS). Dentre as suas
estratégias, pode-se citar a reorganização do sistema de ensino em saúde, visando
aproximar o cotidiano do profissional com as necessidades do sistema, a fim que de
que se reflita sobre a prática de trabalho, gerando consciência, responsabilidade e
compromisso (BRASIL, 2014).

A Educação Permanente (EP) em saúde está prevista na portaria nº 198/GM/MS de


13 de fevereiro de 2004 e deve ser utilizada para propor ações que tenham como
prioridade a formação e o desenvolvimento de trabalhadores no SUS. Dentre as
diretrizes que compõem o anexo II da referida portaria, destacam-se, principalmente:

A educação permanente é aprendizagem no trabalho, onde o


aprender e o ensinar se incorporam ao quotidiano das organizações
e do trabalho. Propõe-se que os processos de capacitação dos
trabalhadores de saúde tomem como referência as necessidades de
saúde das pessoas e das populações, da gestão setorial e do
controle social em saúde, tenham como objetivos a transformação
das práticas profissionais e da própria organização do trabalho e
sejam estruturados a partir da problematização do processo de
trabalho (PORTARIA Nº 198/GM/MS).

Vê-se, a partir desse excerto, que a preocupação do Estado no que se refere à


educação permanente dos trabalhadores do SUS está concentrada naqueles
profissionais que lidam, no dia a dia, com as necessidades de saúde das pessoas.
Além disso, a educação permanente mantém, como parte de suas metas, que os
processos de capacitação dos trabalhadores sejam realizados a partir de uma
reflexão e problematização dos seus processos.
36

A implantação da Educação Permanente é extensiva a todo o sistema básico de


saúde, contempla, portanto, os profissionais que trabalham junto à atenção básica
de saúde e, sobretudo, os agentes comunitários de saúde que podem ser a via de
contato com a comunidade.

Tais medidas, que visam qualificar o atendimento e o acesso à saúde, podem


melhorar o atendimento às pessoas trans, que são vítimas de preconceito e
discriminação desde o momento inicial, quando procuram o serviço de saúde para
atender suas diferentes demandas, até a luta pelos procedimentos
transexualizadores a que têm direito e que são previstos em Lei.

A Portaria nº 278, de 27 de fevereiro de 2014, por sua vez, institui novas diretrizes
para a implementação da Política de Educação Permanente em Saúde no SUS.
Além de reiterar os princípios e diretrizes da EP como estratégia para formação e
desenvolvimento dos trabalhadores da Saúde.

Tal normativa prevê, ainda, a expansão do conceito de Educação Permanente em


Saúde: “aprendizagem no trabalho, onde o aprender e o ensinar se incorporam ao
cotidiano das organizações e ao trabalho” (Portaria nº 278/2014. p. 40). No art.4º
uma diretriz chama a atenção: “contribuir para a mudança cultural e institucional
direcionada à gestão compartilhada e ao aprimoramento do SUS”.

Esse entendimento, contudo, não corresponde ao que acontece na prática. Nota-se


que, apesar de representar uma grande conquista, apenas a existência de
Regimentos, Leis e Portarias que prevejam o aprimoramento do atendimento e dos
próprios serviços de saúde não é suficiente para que atuação desses profissionais,
em seus cotidianos, seja revista.

É importante promover ações voltadas à qualificação de multiplicadores e


formadores para que sejam protagonistas nas ações de implantação da Política
Nacional de Saúde Integral da População LGBT em seus territórios, e, ocorra de
fato, a efetivação dessa política e a integralidade do cuidado em saúde da
população LGBT.

A necessidade de formação dos trabalhadores de saúde é frisada no Plano


Operativo da Política Nacional de Saúde Integral LGBT. Essa formação, conforme
37

consta no documento, deve priorizar o acesso à atenção integral à saúde da


população LGBT e está inserida nos processos de educação permanente
desenvolvidos pelo Sistema Único de Saúde.

É importante destacar que o Plano Operativo da Política de Saúde LGBT10 objetiva


apresentar estratégias para as gestões nos diferentes âmbitos: federal, estadual e
municipal. Sua proposta de enfrentamento das iniquidades e desigualdades em
saúde tem como foco a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e
transexuais a fim de reforçar a proposta de universalidade, integralidade e equidade
do Sistema Único de Saúde.

Pactuado na Comissão Intergestores Tripartite (CIT), e publicado na Resolução nº 2,


de 6 de dezembro de 2011, esse plano é organizado em 04 (quatro) eixos
estratégicos:
I - acesso da população LGBT à atenção integral à saúde;
II - ações de promoção e vigilância em saúde para a população
LGBT;
III - educação permanente e educação popular em saúde com
foco na população LGBT;
IV - monitoramento e avaliação das ações de saúde para a
população LGBT (BRASIL, 2011) (Grifos nossos).

Além de ações como a ampliação do processo transexualizador e a qualificação do


atendimento adequado à população LGBT, o plano contempla ações pactuadas no
que diz respeito à educação permanente e educação popular em saúde com foco na
população LGBT. Essas ações visam garantir a educação em saúde para
gestores/as e profissionais de saúde, voltadas para o tema do enfrentamento às
discriminações de gênero, orientação sexual, raça, cor, etnia e território e das
especificidades em saúde da população LGBT11.

Quanto às ações pactuadas previstas no Eixo 3 do Plano Operativo da Política


Nacional de Saúde Integral LGBT, prioriza-se:
1. Inserção das temáticas referentes à saúde LGBT nos processos
de educação permanente dos(as) gestores(as) e profissionais de
saúde do SUS;

10
Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/1174-
sgep-raiz/lgbt/19324-plano-operativo. Acesso em: 01/06/2017.
11
Disponível em: http://www.conass.org.br/biblioteca/wp-content/uploads/2011/02/NT-54-2011-
LGBT.pdf. Acesso em: 01/06/2017.
38

2. Produção de materiais e estratégias educativas destinadas à


promoção, proteção e recuperação da saúde da população LGBT;
3. Fomento ao desenvolvimento de pesquisas com foco nas
prioridades em saúde da população LGBT;
4. Inserção da temática LGBT no Módulo de Educação a Distância
(EAD), para cursos de formação voltados para profissionais de saúde
e Una-SUS;
5. Inserção da temática LGBT nos cursos de Educação a Distância
(EAD) para conselheiros(as) de saúde e lideranças sociais, em
parceria com o Conselho Nacional de Saúde (CNS);
6. Articulação para garantir que estratégias como o Programa
Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde –
Pró-Saúde, o Programa Telessaúde Brasil – Telessaúde e o
Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde – PET Saúde
considerem as questões desta política12.

O grande problema, contudo, reside na aplicação dessas políticas, que encontram


inúmeras resistências, que vão desde questões relacionadas à estrutura de
atendimento, passando por problemas relacionados à gestão desses serviços, e até
mesmo a discriminação e preconceito que insistem em prevalecer acima do respeito
à diversidade no conjunto de crenças individuais dos trabalhadores de saúde que
atendem a população trans.

O que se observa, na realidade, é que articulação entre as políticas públicas ainda é


precária, visto que não oferece, de maneira satisfatória, o diálogo necessário entre
as diferentes instâncias da saúde e a estruturação adequada dos seus programas
para orientar corretamente seus trabalhadores a oferecerem um atendimento
humanizado para essa população.

4.1. ESTRATÉGIAS EDUCACIONAIS UTILIZADAS PELO SUS PARA CAPACITAR


OS TRABALHADORES SOBRE O CUIDADO À SAÚDE DAS PESSOAS TRANS

“Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas


transformam o mundo”.
Paulo Freire

O caminho para aperfeiçoar o serviço de acesso a saúde é a educação. Sensível a


essa necessidade, o Ministério da Saúde procura desenvolver ações e programas

12
Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/1174-
sgep-raiz/lgbt/19324-plano-operativo. Acesso em: 01/06/2017.
39

que articulem saberes e práticas para que atenção integral atinja seu principal
objetivo: ser integral, resolutiva e humanizada.

A educação, contudo, é efetivada a partir de inúmeros processos, sociais e


individuais, que atravessam questões de ordem cultural, ligadas a valores e crenças
consolidados e que só através da conscientização e de um trabalho desenvolvido
conjuntamente podem ser modificados.

Pensando no poder transformador da educação, ações foram desenvolvidas


amparadas nos programas, diretrizes e planos já citados, orientadas pelo Ministério
da Saúde, no sentido de preparar os profissionais de saúde para desenvolver um
trabalho de excelência que ofereça o suporte necessário para a população que
busca atendimento nos serviços de saúde.

Sarreta (2009) destaca a importância da conscientização dos profissionais de saúde


do SUS com vistas a observar de que maneira a Educação Permanente é conduzida
nos seus diferentes âmbitos. A EP é compreendida “como uma necessidade para
melhorar a relação entre os sujeitos envolvidos na saúde e ampliar a relação dos
atores sociais da saúde” (SARRETA, 2009. p. 172).

A formação, segundo Sarreta (2009), parte da necessidade dos sujeitos, por isso
contém elementos que podem aprimorar o processo de trabalho. No entanto, há
alguns avanços e contradições nesse processo, que dizem respeito à própria
concepção que se tem, no contexto brasileiro, sobre educação, que em geral
priorizam o mercado, que tem uma perspectiva quantitativa, e não qualitativa.

Transformando o atendimento a saúde em números e estatísticas, foge-se da


premissa básica de acolhimento humanizado: a observação individual dos
problemas e da demanda de cada um que busca alívio e conforto. Assim, é preciso
ampliar o conceito de educação, mas, antes, é preciso rever o conceito de saúde. A
educação em saúde, no programa de educação permanente, está associada ao
processo de ensino-aprendizagem, em que a prática em educação é incorporada ao
cotidiano do trabalho desses profissionais.

Uma medida implementada como estratégia para efetivação da Educação


Permanente em Saúde e que atende ao Eixo 3 do Plano Operativo da Política
40

Nacional de Saúde Integral LGBT, é o curso da UNA-SUS, que tem como objetivo
contribuir com a eficácia dessa Política, e foi promovido pelo Ministério da Saúde,
em parceria com a Secretaria Executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS)
e a UNA-SUS da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UNA-SUS/UERJ).

O curso, intitulado “Curso de Política Nacional de Saúde Integral LGBT” na


modalidade educação a distância” (EaD) foi lançado em 2015, e representa,
segundo Seixas (2011. p. 24), “uma possibilidade de expansão do acesso a
processos educacionais”. Ainda segundo o autor, é importante articular as diferentes
tecnologias às estratégias educacionais existentes, sendo este o grande desafio da
EaD dentro do Sistema de Educação Permanente para o SUS. O formato adotado
para o curso é o autoinstrucional, em que não há mediação de um tutor on line e o
aluno é responsável pelo seu aprendizado.

No relato de experiência realizado por Mercês (ET AL, 2016) sobre as estratégias na
área de educação realizadas a partir da Política Nacional de Saúde Integral LGBT,
os autores enfatizam a importância do curso realizado pelo UNA-SUS no programa
de Educação Permanente estruturado a partir de situações do cotidiano dos
profissionais de saúde e da população LGBT.

A metodologia utilizada pelo curso, pensada a partir dessa estrutura, revela uma
preocupação no que diz respeito ao desenvolvimento de competências diversas
para atuação profissional e humanização do atendimento oferecido na área de
saúde a fim de aprimorar a relação entre teoria e prática e garantindo à população
LGBT acesso à saúde integral (MERCÊS, ET AL, 2016).

O curso é organizado em três unidades:


Unidade 1: Gênero e Sexualidade: Diversidade sexual e relações de
gênero; Sexualidades; Travestilidade e transexualidade;
Determinantes sociais da saúde e a população LGBT; A dimensão de
gênero e da diversidade sexual pelos profissionais de saúde.
Unidade 2 – O Estudo da Política LGBT e seus Marcos: Introdução
aos estudos da política LGBT; A participação da comunidade LGBT
no SUS; Nome social; Interface com outras políticas de saúde;
Intersetorialidade; Compreendendo a política de saúde integral
LGBT.
Unidade 3 – Realizando o Acolhimento e o Cuidado à População
LGBT: Refletindo sobre acolhimento e cuidado à população LGBT;
Acesso e acolhimento nos serviços de saúde; Violência contra a
população LGBT; Saindo da teoria e transformando a prática;
41

Orientações para o atendimento profissional e institucional da


população LGBT; Modificações corporais; HIV/Aids, Hepatites virais
e outras DST (MERCÊS, ET AL, 2016).

O curso propõe, portanto, uma reflexão acerca dos direitos da população LGBT na
medida em que incentiva a discussão a respeito das suas origens e busca um
acolhimento humanizado nas unidades de saúde. Além disso, sua expectativa é
gerar conhecimento científico, humanístico e ético-social, a fim de proporcionar
qualidade de vida para essa população e garantir o respeito aos direitos humanos
através das reflexões que suscitará.

O levantamento realizado pelo Comitê LGBT da UNA/SUS ligado ao Ministério da


Saúde registra uma procura acentuada pelo curso. Em maio de 2015 foi
disponibilizada a sua primeira oferta, incluindo a capacitação como módulo
obrigatório nos cursos de formação dos profissionais dos Programas ‘Mais Médicos’
e de ‘Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab)13.

Outro dado importante diz respeito à quantidade de inscritos: 34.537 sendo eles, em
parte, trabalhadores de unidades básicas e centros de saúde. Entre as categorias
profissionais da área de saúde que mais buscaram o curso estão os enfermeiros
(21%), psicólogos (17,3%) e assistentes sociais (15,2%), seguidos pelos técnicos de
enfermagem. Trata-se de um resultado expressivo para um curso à distância14.

Ainda que seja voltado para os profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde
(SUS), especialmente os que atuam na Atenção Básica, ele está disponível para a
população em geral, o que muito o enriquece, visto que muitos outros profissionais,
em todas as áreas, podem também ter acesso a informações tão importantes.

Além do “Curso de Política Nacional de Saúde Integral LGBT” oferecido pela


UNA/SUS, o Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério das Mulheres,
Igualdade Racial e Direitos Humanos lançou, em janeiro de 2016, uma campanha
voltada à saúde da população trans com o objetivo de promover saúde integral, com
acesso e atendimento humanizado no Sistema Único de Saúde (SUS)15.

13
Disponível em: http://u.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/261-sgep?start=40.
Acesso em: 31/05/2017.
14
Idem.
15
Disponível em: http://www.conasems.org.br/ministerio-da-saude-lanca-campanha-voltada-a-saude-
da-populacao-trans/. Acesso em: 31/05/2017.
42

A referida campanha visa informar e conscientizar a sociedade brasileira, em


especial os profissionais de saúde, trabalhadores e gestores do SUS sobre o direito
à saúde, observando as demandas específicas dessa população a fim de
oferecerem um atendimento qualificado, sem preconceitos e discriminações, além
da garantia do direito ao uso do nome social.

Dentre as ações desenvolvidas pela Campanha destacam-se a distribuição de 200


mil cartilhas, voltadas aos trabalhadores do SUS, e 100 mil cartazes destinados às
unidades de saúde, secretarias estaduais, conselhos de saúde, Comitês de Saúde
LGBT, entre outros. Nas redes sociais, o objetivo seria sensibilizar a população em
geral para as demandas dessa população, além de oferecer informações a esse
respeito, através de mensagens e vídeos, chamando a atenção para o Dia da
Visibilidade Trans, comemorado em 29 de janeiro.

Outra ação importante desta campanha foi o lançamento do livro “Transexualidade e


Travestilidade na Saúde”. Nele, são apresentados artigos que falam do desafio da
promoção da equidade em saúde para a população de travestis e transexuais a
partir do olhar de movimentos sociais, da academia, do serviço e da gestão. O livro
está, inclusive, disponível gratuitamente na internet16.

No lançamento do livro, no dia 27 de janeiro de 2016, foi reproduzido um vídeo


documentário sobre a saúde de pessoas transexuais, produzido a partir de
depoimentos de travestis e transexuais usuários do SUS e de movimentos sociais,
além de gestores e profissionais que atendem em ambulatórios específicos. Essas
campanhas têm dupla função: formar e informar. Forma profissionais mais
capacitados a lidarem com a população trans e informa a sociedade acerca das
políticas públicas oferecidas para os mesmos.

Além disso, as campanhas de conscientização geram uma reflexão de natureza


social sobre os serviços de saúde, bem como a qualidade da assistência e da
atenção prestada pelos profissionais. Tais práticas podem diminuir o preconceito e a
exclusão naturalizados em nossa sociedade relacionados às vulnerabilidades dos
diferentes sujeitos que a compõem.
16
Disponível no link:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/transexualidade_travestilidade_saude.pdf
. Acesso em: 02/06/2017.
43

Em 2016, o Ministério da Saúde publicou a cartilha “Cuidar bem da saúde de cada


um. Faz bem para todos. Faz bem para o Brasil” em que apresenta conceitos
referentes à transgeneridade, além de orientações, especialmente para os
profissionais de saúde e trabalhadores do SUS, acerca de questões fundamentais
para o atendimento às pessoas trans17.

Sobre a identidade de gênero e a orientação sexual, por exemplo, o profissional de


saúde é instruído a perguntar a pessoa como ele ou ela se vê e se relaciona com o
mundo. Sobre o nome social, a cartilha orienta que se adote o nome impresso no
cartão SUS, mas também que a pessoa seja ouvida sobre como deseja ser
chamada18.

Essa cartilha é esclarecedora, pois traz, passo a passo a maneira como o


atendimento deve ser realizado, partindo do reconhecimento dos direitos das
pessoas trans, o respeito às diferenças, a construção de uma relação de confiança
entre o profissional de saúde e o usuário e o encaminhamento para equipes
multiprofissionais, quando for o caso.

No âmbito estadual, visando estruturar uma linha de cuidado mais humanizada, e o


acolhimento na Rede SUS, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB) está
promovendo através do Telessaúde Bahia¹, uma série de webpalestras, com a
temática: transexualidade na rede SUS², para os trabalhadores da Atenção Básica,
cujo palestrante é Ailton Santos, especialista em gênero e sexualidade.

Na publicação constam explicações de natureza conceitual, portarias e resoluções


que contemplam a população trans no SUS, além de orientações sobre o
atendimento que deve ser oferecido a essas pessoas, como a garantia do uso do
nome social, e demais espaços segregados por gênero e a oferta de ações de
saúde voltadas para travestis e transexuais (SANTOS, 2017).

Palestras como essas são úteis para informar e alertar os profissionais de saúde
sobre o procedimento a ser executado no atendimento às pessoas trans, evitando
possíveis constrangimentos e o aumento da vulnerabilidade a que já estão expostos
17
Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cuidar_bem_saude_cada_um.pdf.
Acesso em: 02/06/2017.
18
Idem.
44

na procura por outros serviços públicos e no próprio convívio social. Ainda que a
modificação cultural das pessoas que lidam com esse atendimento seja lenta, é
preciso persistir nessa mudança19.

Instrumento fundamental para corrigir o descompasso entre a prática dos


profissionais de saúde e as diretrizes da Política Nacional e Saúde Integral LGBT, a
educação pode viabilizar, através dos seus instrumentos, como cursos e campanhas
de conscientização, um atendimento adequado à população trans. É possível
promover ações direcionadas aos trabalhadores da saúde através da Educação
Permanente que articulem as competências individuais aos objetivos institucionais a
fim de proporcionar acesso à saúde e bem-estar para essa população que já convive
com tanta exclusão e preconceito.

19
O Telessaúde Bahia é um componente do Programa de Requalificação das Unidades Básicas de
Saúde (UBS) que visa a ampliar a resolubilidade da Atenção Primária e promover sua integração com
o conjunto da Rede de Atenção à Saúde. Disponível em:
http://telessaude.ba.gov.br/evento/webpalestra-transexualidade-na-rede-sus-a-partir-da-atencao-
basica/. Acesso em 21/05/2017.
45

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora muitas mudanças ainda sejam necessárias, foi possível, nos últimos anos
algum avanço no que diz respeito às Políticas Públicas referentes às propostas para
oferecer, à população trans, um acesso à saúde mais adequado e humanizado.

A proposta da Política Nacional de Saúde Integral LGBT está focada na construção


de um atendimento mais igualitário para essas pessoas no Sistema Único de Saúde,
haja vista a situação de vulnerabilidade, discriminação e exclusão a que estão
sujeitas. A proposta prevê, ainda, a qualificação dos trabalhadores do SUS no que
diz respeito ao atendimento de suas necessidades e especificidades de saúde.

A política e todos os dispositivos legais que fazem parte dela, elaborada pelo
Ministério da Saúde, bem como as campanhas de conscientização, demonstram o
interesse em mudar esse cenário, no entanto o caminho para a implementação,
garantia e consolidação dos direitos da população LGBT no Brasil ainda é longo.

Os direitos e deveres dos usuários de saúde estão previstos na Portaria nº


1.820/GM/MS, de 13 de agosto de 2009, do Ministério da Saúde, onde se destaca o
direito a um atendimento humanizado e acolhedor, livre de discriminações,
assegurando o acréscimo do nome social em todos os documentos do SUS,
devendo o/a/e usuário/a/e ser identificado como preferir e não ser identificado por
qualquer número, nome ou código de doenças.

Muitas equipes de saúde, contudo, ainda não estão preparadas para atender a
demanda dessa população, pois apresentam dificuldades no tocante ao uso do
nome social, causando inclusive constrangimentos a essas pessoas. Essa é primeira
grande dificuldade que a pessoa trans encontra ao procurar as unidades de saúde.

Tendo em vista toda essa dificuldade porque passa o usuário trans no acesso à
saúde esse trabalho discutiu a promoção de ações para capacitar os trabalhadores
da Atenção Básica, ressaltando os conceitos de gênero, sexualidade,
transgeneridade, que em geral são utilizados de maneira equivocada durante o
atendimento, e as propostas de modificação desse quadro, com políticas públicas
46

diversas e a conscientização, através da informação, fornecida pelo Programa de


Educação Permanente (EPS).

Ao problematizar essas questões, foi possível perceber que a pesquisa a esse


respeito ainda é insipiente, e que o trabalho voltado para os profissionais de saúde
que atendem a população trans ainda tem muito a evoluir. Persiste, em nosso meio,
uma cultura baseada em uma noção cisheteronormativa, que influencia o
atendimento e mesmo os próprios procedimentos realizados por esses profissionais.

O desconhecimento dos profissionais de saúde sobre os direitos das pessoas trans


e a falta de experiência no que se refere ao atendimento de suas singularidades,
causa-lhes uma série de transtornos para acessar aos serviços de saúde, muitos
atendimentos chegam a ser negados por desconhecimento dos direitos que essa
população possui, o que pode ser observado, por exemplo, na ignorância quanto à
diferença entre identidade de gênero (o gênero pelo qual a pessoa se reconhece) e
orientação sexual (para quem a pessoa direciona seu desejo afetivo-sexual –
heterossexual, homossexual, bissexual).

Como a formação acadêmica desses profissionais ainda não os prepara


adequadamente para atender esse público, torna-se um desafio oferecer um serviço
mais acolhedor e humanizado para a população LGBT, o que sugere que eles
precisam ser preparados com uma formação tão técnica quanto humana, que
compreenda as modificações e conquistas sociais que essas pessoas obtiveram,
através dos movimentos sociais, ao longo dos últimos anos.

É preciso que toda a sociedade, de maneira mais ampla, esteja pronta para aceitar a
diversidade de gênero como uma realidade nos diferentes meios sociais, através de
uma visão sem preconceitos e que agregue, ao invés de excluir, que reconheça os
seus direitos como legítimos, a fim de proporcionar um mundo mais receptivo à
diversidade.
47

6 REFERÊNCIAS

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da Atenção Básica, para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Programa de
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