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Anotações feitas por Vitor Ido – Turma 182-11

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responsabilidade.
Não constitui material oficial do curso.
Falta Aula 08 – Mercantilistas.

Aula 01
APRESENTAÇÃO DO CURSO - PROF. ALESSANDRO
OCTAVIANI
sexta-feira, 9 de março de 2012
18:26

Por que estudar economia política no curso de direito? Uma razão histórica é a
presença desde o decreto que deu origem aos cursos de direito no Brasil. Mas
não é uma razão que eventualmente subsista, pois felizmente muitas delas
saíram da grade. A explicação é de que a forma jurídica só existe por um conflito
social, o direito não é neutro, está na sociedade, em sociedade. Tais conflitos
geram um tipo específico de direito.

"Direito como arte de dar a cada um o que é seu até o limite da liberdade do
outro", "direito é organização". Não são instrumentos sociais neutros. A
escravidão foi plenamente legalizada - está dentro do direito. O último país do
mundo a acabar com a escravidão legal foi o Brasil; isso no mínimo diz algo
sobre nossa sociedade. Uma pessoa qualificada como objeto de direito, e outra
como sujeito de direito. Se isso é neutro, qualquer coisa é neutra. Direito não é
neutro, é instrumento de quem tem força de implementar e dizer o direito, a
partir de sua posição de força social.

Entrar nesse conflito social é fazer a ECONOMIA POLÍTICA DA FORMA


JURÍDICA. É entrar na ossatura que sustenta o organismo; na melodia que está
em qualquer arranjo de execuções, no mais profundo das organizações. A forma
jurídica resulta da economia política em dada sociedade. O CC que estudamos
foi durante anos uma cópia do Código Napoleônico - a consagração da vida
burguesa Europa afora: "aqui chegou a Revolução Francesa". Imagem de uma
vida de transação de mercadorias. Vejam-se dois exemplos:

1. "Os bens rurais herdados serão divididos por igual entre os herdeiros" - É o
fim do feudalismo, quando não mais só um pode herdar. Quando a terra
dividida entre os filhos, e então os filhos exercem o direito sucessório, as terras
tornam-se mercadoria, e não mais bem de família. Mercadoria a ser organizada
como fator de produção.
2. "Nada faz prova contra a palavra do dono da empresa" - Qualquer coisa dita
pelo dono da empresa a respeito de sua relação com os empregados é para o
juiz verdade. Nada que a classe operária arguir será possível de ser interpretado
pelo patrão. Uma espada no coração da classe feudal e outra na classe operária.

Só se consegue entender esse caráter sobre o CC Napoleônico se for feita a


economia política da forma jurídica. Não basta falar dos requisitos de
transferência de propriedade. Compreender a história, a estrutura e a função
exige um passo a mais. É por isso que se estuda Economia Política. Entrar no
fundo do direito e não em sua mera aparência.

ESTRUTURA DO CURSO

MÓDULO I

AULA 01 - INTRODUÇÃO - Leitura de Ítalo Calvino e Ronaldo Porto Macedo.

AULA 02 - DIREITO E CAPITALISMO - Estudamos a relação porque a sociedade é


capitalista. Fosse sociedade escravagista, seria outra. "Manter-se os mesmos
nomes não é manter as mesmas funções".

AULA 03 - DIREITO E HEGEMONIA - Como a sociedade se organiza em


dominantes e dominados e como o direito mantém a hierarquia social existente
em nossa sociedade. Nossa sociedade planetária é claramente desigual na
medida em que um iPod vale uma tonelada de bananas. Em alguns gramas de
silício há o valor de algumas toneladas (e tempo de trabalho) de outras
sociedades. Há uma hierarquia radical - representada inclusive materialmente:
compare-se as casas californianas e as africanas.

AULA 04 - DIREITO E SUPERAÇÃO DO SUBDESENVOLVIMENTO - Qual o papel


possível para os países subdesenvolvidos (os que não têm internalizados os
centros decisórios sobre a economia e uma sociedade interna dependente)
superarem sua condição? Fazer investimentos na China exige deixar
propriedade intelectual por lá; no Brasil, procura-se apenas como saber
compras novas terras. É nosso desenvolvimento.

MÓDULO II

AULA 05 - ACUMULAÇÃO PRIMITIVA - Como se deu nosso modo de produção?


Um dia, não houve capitalismo. As relações sociais não são eternas, porque as
físicas não são eternas. É possível fazer a história das relações sociais, do modo
capitalista de produção, a partir de seu início, a acumulação primitiva.
Compreender o papel da violência e do direito na formação do capitalismo.

AULA 06 - FORMAÇÃO SIMULTÂNEA E ARTICULADA DO CAPITALISMO E DO


ESTADO NACIONAL - Não há capitalismo que se formate e se implemente sem
força política para tal. Nosso Estado Nacional alimenta-se das empresas em que
estão. Estudaremos a gênese da Economia Política.

AULA 07 - MERCANTILISMO - Fundamentalmente, a junção do Estado Nacional


(com as burguesias em competição entre si), fazendo-se a pergunta sobre onde
há riqueza no mundo, e de onde puxar essa riqueza. Pode ser de moeda, de
compra de manufatura, pode ser de ouro, em termos de planta, e também em
termos de pessoas (escravidão). Junção da burguesia com os dirigentes dos
Estados Nacionais para trazer riqueza às suas coletividades.

AULA 08 - FISIOCRATAS - Talvez a melhor forma de organizar a economia não


seja somente com a violência e extração, mas pela realização de um comércio
que seja livre. Mas são eles agricultores franceses, portanto, não são a classe
dominante na França e muito menos no mundo. Quem traduz de forma
cristalina os interesses é Adam Smith.

AULA 09 - ADAM SMITH - Interesses da classe industrial inglesa. Coloca como


deve ser o mundo para que aquela classe organize sua capacidade organizativa.
É o coração do capitalismo.

AULA 10 - DAVID RICARDO - Diz claramente que se deve fazer de tudo para que
os industriais ingleses detenham o poder, pois detêm a racionalidade da
economia e da geração de riqueza.

AUL11 - A INDUSTRIALIZAÇÃO ATRASADA: HAMILTON E LIST -A Ao lado da


Inglaterra, ocorre o pensamento alemão pela industrialização retardatária, a
partir da égide do Estado e da teoria de LIST. Não se contentariam em ficar atrás
da Inglaterra, colocando a indústria como central. E então, nos EUA, HAMILTON
no mesmo sentido.

AULA 12 - KARL MARX - O problema é que quem trabalha são os trabalhadores.


Por que um trabalha 14, 20 horas, em condições das mais precárias, e o que se
recebe mal é possível para a sobrevivência pessoal. Sistematiza-se a economia
política do mundo do trabalho. A crítica da economia política.

AULA 13 - NEOCLÁSSICOS E MARGINALISTAS - Qualquer pensamento que se


funde além da ideia de que o ser humano é racional, maximizador (pensamento
individualismo) é um pensamento cientificamente errado. Trazem muitos
cálculos para colocar que a livre indústria é o caminho para a geração de
riquezas.

AULA 14 - O CAPITALISMO ORGANIZADO - CAPITAL FINANCEIRO E


IMPERIALISMO - As enormes empresas sustentam seus Estados Nacionais para
que eles caminhem a outros mercados e digam: aqui nossas empresas vão
vender. A isso dá-se o nome do imperialismo, momento de organização dos
grandes trusts (capital financeiro, superando a dicotomia capital bancário e
capital produtivo), e como a indústria inglesa disse à indiana: não mais teares
seus, apenas produtos nossos. O capital financeiro tem a faceta econômica da
mega-produção, mas a faceta política que é o imperialismo.

AULA 15 - O CAPITALISMO ORGANIZADO - JOHN M. KEYNES - Contra o


capitalismo, deve-se organizar o capitalismo. Deve-se sempre haver políticas de
equilíbrio do sistema.

AULA 16 - JOSEPH SCHUMPETER - Capitalismo é desequilíbrio. Um capitalista


quer sempre matar o outro, produzindo algo mais novo capaz de tornar aquele
produto anterior inútil, sem vida. Naquele período em que só ele produz algo
novo tem um lucro monopolista. É um sistema de constante desequilíbrio.

AULA 17 - ESTRUTURALISMO LATINOAMERICANO E DESENVOLVIMENTISMO -


É verdade que Alemanha e EUA fizeram teorias diferentes da Inglaterra? E eles
vão responder que não, sempre seguiram o modelo industrial clássico. Negação
de LIST e HAMILTON. Mas alguns foram a esses autores e pensaram: o que nós,
na América Latina, podemos fazer para não ser apenas o café? Esta reflexão dá
origem ao estruturalismo latinoamericano e o desenvolvimentismo. Como fazer
industrialização atrasada depois da industrialização atrasada? O coelho corre
tanto que Alice nunca consegue chegar ao alvo, pois ele é móvel.

AULA 18 - NEOLIBERALISMO - Lembre-se sempre dos neoclássicos, que fala da


economia do agente individual maximizador. Essa ciência econômica dá origem
a uma política econômica. Aposta-se no espírito animal empreendedor. Leva-se
a uma série de prescrições políticas. É bom privatizar, diminuir direitos
trabalhistas, de modo a trazer investimentos. E com eles trazer o
desenvolvimento.

MÓDULO III

AULA 19 - INTRODUÇÃO À ECONOMIA POLÍTICA DA SUPERAÇÃO DO


SUBDESENVOLVIMENTO - Pela razão de ser uma universidade pública e gratuita
(financiada por 10 a 12% do ICMS, que é imposto regressivo - ou seja, os mais
pobres pagam menos), é preciso estudar as condições do povo brasileiro. Daí
um capítulo da economia política da superação do subdesenvolvimento, para
que todos tenham uma educação pública, gratuita e de qualidade. Quando da
superação do subdesenvolvimento a USP será realmente atingível a todos. Filme
"O longo amanhecer", com a história de Celso FURTADO.

AULA 20 - INTERNALIZAÇÃO DOS CENTROS DECISÓRIOS - Todos ouviram o


termo internacionalização, mas quase nenhum (eventualmente nenhum) ouviu
internalização. Não deixa de ser sintomático que se ouça muito uma das
palavras e muito pouco a outra. É certamente critério de pesquisa para
entender o ambiente cultural em que vivemos, o ambiente do
subdesenvolvimento. Daí se estudar a internalização dos centros decisórios. É
algo como quando Obama lembra o momento Sputnik dos EUA, falando do
controle das tecnologias do próximo milênio: nós internalizaremos nossos
centros decisórios - "mandamos nós". Não à toa que, por lá, dinheiro público é
gasto em ciência e tecnologia (120 bilhões de dólares ao ano).

AULA 21 - HOMOGENEIZAÇÃO SOCIAL - Na sociedade subdesenvolvida,


estudaremos a homogeneização social. Assim como na Inglaterra só foi possível
o salto industrializante porque havia um mercado interno a comprar - forçando
a especialização produtiva, e portanto inovação, na economia subdesenvolvida
há heterogeneidade social.

AULA 22 - DEMOCRACIA PARTICIPATIVA QUENTE - A organização política exige


uma certa organização econômica. Se muitos participam, há maior possibilidade
de uma organização mais igualitária. Essa organização que abre espaço, que seja
permeável a diversos interesses, e não somente alguns interesses, é a
democracia de alta intensidade, ou democracia participativa quente, um
instrumento da superação do subdesenvolvimento.

AULA 23 - MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO - Não há mais


espaço para a espécie humana sem recursos naturais. Nos termos da CF, meio
ambiente ecologicamente equilibrado.

AULA 24 - FIM DA ALIENAÇÃO - Qual o papel dos cidadãos no que é produto da


cidadania? Regras jurídicas são regras para o todo, mas aqueles que compõem o
todo não reconhecem serem produtos desse todo. A isso dá-se o nome
alienação. "Quem fazem as leis são os políticos", mas quem os colocou em seu
cargo? O processo político pode fazer com que pessoas votem em pessoas que
defendem interesses que lhes são contrários. O processo da regulação coletiva
faz com que o cidadão não mais se dissocie do produto final. Como se estruturar
e como se desestruturar?

AULA 25 - SUPERAÇÃO DO SUBDESENVOLVIMENTO: O PAPEL DO JURISTA -


Qual o papel do jurista latinoamericano, brasileiro na superação das estruturas
econômicas, políticas, mentais, jurídicas, que organizam essa estrutura muito
maior que é a estrutura da economia política do subdesenvolvimento.

Aula 02
INTRODUÇÃO
sexta-feira, 16 de março de 2012
18:36

O texto do professor RONALDO PORTO MACEDO poderia ser resumido como


humildade. Tem-se diante de si um sistema, um complexo de informações, é
preciso entender o que diz esse complexo de informações, e dizer o que ele diz.
Para isso, é preciso retirar da cabeça o que se acha que o sistema diz, o que se
gostaria dizer, e o jeito que poderia ter enxergado. Compreender o que isto diz,
e não o que outros dizem sobre isso ou o que se gostaria que dissesse. É preciso
recodificar esse sistema e o retransmitir. No primeiro momento, o texto sabe
mais do que o leitor sabe sobre o texto. A ideia é dar atenção ao sistema, e não
a partir de elementos externos. Uma vez de fato compreendido esse conjunto
de informações, pode-se então emitir opiniões sobre esse sistema. Não
conhecendo tudo desse sistema, qualquer consideração será inválida. E além
disso, há uma sugestão de método.

O texto de ÍTALO CALVINO trata dos caminhos para usar aquele método. Por
que um curso de economia política no curso de direito? Os clássicos trazem um
ruído ou silêncio de um tempo longínquo, os quais, na verdade, clareiam o
tempo presente. Se há muito barulho e um clássico traz silêncio, pode ser uma
boa opção. O que diz, então, Calvino? Não há lições do passado que iluminam o
presente? O presente chegou de algum outro lugar que não o passado? Os
homens escrevem sua história, mas não da maneira que querem, e sim sob as
condições que encontram (18 de Brumário, de Karl MARX).

Todos almejam coisas. Mas o fato de que alguns conseguem e outros não
mostra como os homens, ainda que façam sua história, a escrevem pelas
condições materiais que existem. No plano de JK, havia 30 metas. A meta-
síntese era a construção de Brasília. Conseguiu porque as condições materiais
permitiram - outros não foram capazes.

E por que trazer um método do 18 de Brumário para o curso de economia


política? Porque as estruturas jurídicas não chegaram do céu. São resultado de
um conflito social do pretérito que modularam as atuais estruturas jurídicas
com a forma que têm hoje. Nosso presente é resultado de sua economia
política. E então é preciso compreender como a economia política, e portanto,
como os conflitos sociais, estruturaram o que hoje é o presente. E para realizar
esse percurso, perguntas feitas no passado que trazem suas características
dentro de nossas estruturas podem ser úteis para nossa compreensão.

O núcleo do mundo visto por MARX chama-se capital. Por mais que coisas
tenham mudado, o caráter ainda existe. É nota de sua historicidade. E por isso
entender com devoção o que cada um dos que estiveram antes de nós disseram
sobre capitalismo. Ver a articulação entre poderes econômicos, políticos e
culturais determinando estruturas jurídicas. Dentre elas, direito de propriedade.
É mesmo um conceito romano? É mesmo igual falar em sociedade em que a
produção era feita por escravos e em sociedade na qual se vende a força de
trabalho? Se há escravo, não há consumidor, e portanto, não há capitalismo.
Escravagismo gera um tipo de direito, capitalismo gera outro.

Portanto, olhar os clássicos e a conformação das estruturas econômicas e


políticas que deram origem ao capitalismo na história é o que permite a
compreensão do capitalismo hoje. E portanto, das estruturas jurídicas de hoje.
Por que nosso presente é determinado pelas correlações de força do passado? É
assim que se entrará com humildade em cada intérprete. Este é o percurso a ser
feito. E daí o recurso a Ítalo Calvino e ao texto do Ronaldo.

Aula 03
DIREITO E CAPITALISMO - PROF. ALYSSON MASCARO
sexta-feira, 16 de março de 2012
21:46

Professor compartilhou com o professor Alessandro o período de faculdade. E


sempre discutiam os grandes temas do mundo. E se os dilemas do nosso povo
mudaram, também a necessidade de agir permanece a mesma.

Análise de uma relação muito profunda que existe entre DIREITO e


CAPITALISMO. Há dois grandes termos que nos acompanharão pelo resto da
vida. E tais termos não são termos aos quais os juristas deparam-se em alguma
ocasião. Se relacionássemos direito e arte, é verdade que existe uma relação,
mas muitos são do direito e não trabalham com arte. O mesmo com direitos
humanos: nem todos trabalham com direitos humanos. Porém, há uma relação
profunda entre direito e capitalismo. Estamos todos mergulhados em uma
sociedade capitalista.

Embora talvez haja aqui uma relação fundamental entre esses dois termos,
ocorre que a maioria dos juristas não conseguem entender o nexo existente
entre os dois conceitos. Principalmente porque o direito nos é dado como um
termo bruto, e ninguém sabe como surgiu - presumimos que apareceu, e
porque evitamos quase sempre entender a estrutura econômica da sociedade.
Em essência, evitamos entender o próprio capitalismo.

Muitas pessoas, no senso comum, dizem que o direito é um dado bruto, que aí
está, e o capitalismo usa isso em seu favor. E então, a relação seria de
externalidade. Há um encontro ao acaso, uma ligação externa. Por um acaso, o
direito e o capitalismo conversam, e leis em favor do capital são feitas. Mas é
preciso investigar de maneira mais profunda essa relação: o jurista tem
idealismos e ideias vagas sobre o direito. Mas é preciso compreender os nexos
da própria sociedade. Muitos, na história do pensamento jurídico, e também da
história e da economia, tentaram estabelecer esses nexos.

IDEALISMO - Por que o direito está ligado ao capitalismo? Porque a riqueza vem
de Deus, que protege os ricos. E então o direito protege o rico. Ou então, que
alguém é mais rico porque é mais forte - o que é dito até hoje por muitos
economistas. É resposta idealista que presume que todos são iguais, que todos
estão no mercado e agem com sua capacidade, e não necessariamente é isso.
Nenhuma dessas visões vai à concretude, à materialidade das relações sociais.

E com isso, muitos filósofos, economistas, pensadores da sociedade e juristas


mais recentes em termos históricos começaram a pensar sobre os nexos da
sociedade. MARX está nesse âmbito. E também PACHUKANIS, um grande
filósofo do direito na Rússia soviética. Não só eles, claro, e até hoje muitos
trabalham com essas reflexões.

Para entender como se desenvolve essa questão do direito com o capitalismo, a


primeira ferramenta é a HISTÓRIA. Por que a sociedade é assim? A primeira
questão é dizer se a ordem econômica é a mesma em todos os tempos ou se é
variável. É fundamental entender que a organização social do mundo é
histórica, e muda conforme os tempos. Se pressupomos que o mundo tem uma
história, e não é sempre o mesmo, entendemos que mudanças ocorrem.

CAPITALISMO é um modo de produção que não existe desde sempre. E isso


desmonta um argumento falacioso do senso comum que afirma que todos, em
todos os tempos, são capitalistas, pois todos querem levar vantagem em tudo. É
uma mentira na medida em que, ainda que queiram levar vantagem em tudo, o
"levar vantagem" do capitalismo tem um tipo próprio de vantagem. Outros
modos de produção tinham outros modos de "levar vantagem". Dizer que todos
os indivíduos são iguais é dizer que não têm história, pois são sempre iguais.
Capitalismo não é da concepção biológica do ser humano. É de uma fase
específica da humanidade.
Se não se quer remontar ao passado para observar alguns modos de produção
mais primitivos ou modos de produção muito incidentais, peculiares, remete-se
à origem do capitalismo, que se dá na IDADE MODERNA, tendo seu apogeu na
IDADE CONTEMPORÂNEA. É modo de produção desses dois períodos históricos.
Em outros tempos, a organização dos modos de produção era outra: na Idade
Média, pelo feudalismo, e na Idade Antiga, pelo escravagismo. São os modos de
produção puros.

Se o capitalismo tem um começo, também tem um fim - ainda que não se veja o
fim, ele existe no curso histórico.

O que é um MODO DE PRODUÇÃO? Ao se olhar para as relações entre pessoas,


costumam ser vinculadas de pessoa a pessoa. Alguém veio até o Largo São
Francisco, alguém limpou a sala, outro dirigiu o metrô, entre outros. Vemos
sempre em relações individuais, pequenas. Mas em uma perspectiva de todo o
sistema, vê-se que há funcionários da faculdade, o professor é funcionário da
USP, posso ser aluno porque a USP tem verba arrecadada do povo de São Paulo.
Isto é: as relações humanas aproximam-se da forma de produção na sociedade.
Todos produzem e consomem de acordo com a ordem do capital: quem tem,
compra, quem não tem, se vende (venda a força de trabalho). E isso é lógico.

Há certa intuição de que todas as coisas no mundo são compráveis e de que


todos nós nos vendemos. Olhe-se a Fuvest, que tem alta procura por medicina,
direito e engenharia. Mas 10 anos atrás, quase ninguém queria engenharia. Por
que isso? Pelo gosto pela matemática? Não, mas hoje engenharia dá dinheiro.
Outras não são procuradas. Por que se quer tanto ficar em um escritório e ir aos
fóruns por 20 horas e não fazer um filme ou um quadro? A razão é simples.
Ainda que não se saiba o conceito de modo de produção, pensa-se que ser
poeta, produtor, artista significa não ter dinheiro, e sendo advogado, tem-se.
Não pensam na beleza do que produzem, e sim pelo que pagam. Este é um
modo de produção: não se articulam pela beleza, e sim pelo que pagam.

O escravagismo também não se articula da mesma forma que o capitalismo.


Falamos em modo de produção como grande sistema que domina e articula
toda a sociedade. Modo de produção escravagista é algo que se põe na Idade
Antiga, que acaba 400 anos antes de Cristo. Mas não havia escravos no Brasil
até o século XIX? Sim, mas os escravos eram bens do capitalismo. É diferente de
um modo de produção escravagista, em que é um modo total de produção.

E depois surge o capitalismo, inclusive como um longo período de transição.


Quando surge a Idade Moderna, o capitalismo ainda não está pleno. Alcança
seu auge apenas na Idade Contemporânea - esta sim totalmente capitalista.
Quais as grandes estruturas de produção?
1. No escravagismo, a relação entre senhor e escravo. Ou é um ou é outro.
2. No feudalismo, senhor feudal e servo. Não é escravo: a forma de exploração é
outra.
3. No capitalismo, o capital explora um tipo de trabalho, o trabalho assalariado.
No senso comum, costumamos falar apenas em "trabalho", mas se refere a um
trabalho de tipo assalariado.

Aqui são três formas muito distintas de articular a sociedade. No escravagismo,


escravo não é só uma pessoa. Nele, dá-se na sorte de um povo: um povo era
senhor e outro escravo. Praticamente todas as relações articulavam-se dessa
maneira, e não de modo individual - tanto é que várias passagens da Bíblia
remetem a isso. Todo um grupo torna-se escravo ou senhor: hebreus foram
senhores dos filisteus e escravos dos egípcios.

O que fez um povo ser senhor e outro escravo? Qualquer coisa, menos o direito.
Hebreu estava na terra que chamava de prometida, e o egípcio o tomou.
Desconhecia-se um direito de propriedade sobre aquelas terras. A relação que
deu causa à escravidão é de força bruta, direta: a guerra. A força, o engenho, a
habilidade. Daí Alexandre, o Grande conseguir dominar tantas terras. Quando o
Império Romano perdeu sua força, foi invadido pelos bárbaros. Qual o papel do
direito? Nenhum. São relações de exploração que não passam por nenhum
instituto jurídico.

DIREITO ANTIGO - Muito parente da religião do que hoje é o direito. Vejam-se


os 10 mandamentos da Bíblia, hoje vistos como regras religiosas. Não são
antecessores do Código Civil, são outra coisa. Portanto, as questões do direito -
se é que existem - são incidentais no escravagismo. São laterais, perfunctórias.
Daí se dizer ser um direito incidental. Existe, mas não toca na relação
fundamental de exploração, na questão estrutural. A exploração é direta: quem
tem força é senhor, quem não tem é escravo. Não passa pelo direito essa
exploração. Tanto que o direito romano não trata (ou no máximo muito pouco)
da relação entre escravo e senhor: trata das relações entre senhores.

DIREITO FEUDAL - Por que o servo é servo do senhor feudal? Não foi pego à
força, nasceu filho do servo - e portanto é servo, assim como o filho do senhor é
senhor. Nasceu lá e morre lá. Por que não sai do feudo? Porque sai de um e
entra em outro feudo. A desgraça da servidão é que ocorre em todo lugar.
Quem é senhor é quem tem a posse do feudo, quem não tem é servo. O senhor
tem tudo para a sobrevivência: a terra, a água, a palha para esquentar. E quem
não tem, precisa ter. O servo submete-se ao outro. Não que queira ser servo:
precisa sê-lo para sobreviver. Esta submissão tampouco tem a ver com o direito.
O senhor feudal manda do jeito que quiser - não tem terceiros para
regulamentar, não tem normas gerais e abstratas. Portanto, se há direito,
também será um direito incidental.

Diz-se muito da existência do direito canônico, que fala no casamento nulo da


mulher que não casa virgem, em não comer carne na sexta-feira santa, entre
outros. Mas sem esse direito, o feudalismo desaparece? Não, pois não passa
pelas questões fundamentais. Novamente, trata-se forma de exploração direta,
baseada na força.

DIREITO CAPITALISTA - A sociedade capitalista é distinta das demais. Quantos


escravos teve Alexandre, o Grande? Quantos conseguiu dominar. O limite está
nas suas forças. Quantos trabalhadores pode ter um burguês sob seu domínio,
sua exploração? Quantas agências pode ter um banco no mundo? O dono
precisa fiscalizar as agências? Não, pode ter infinitas agências. Isso mostra que o
capital organiza-se de modo diferente das terras do senhor feudal e das forças
do escravagismo.

Quem garante o capital do capitalista? É ele próprio, mas acima de tudo, o


ESTADO. O HSBC tem 5000 agências no mundo, sem chicotear seus
trabalhadores. Se um ladrão rouba um banco, quem vai atrás e o pune? Não é o
próprio burguês, é o Estado. Para o capital existir, é preciso o Estado. E então se
entende a matéria de Teoria Geral do Estado. Dá-se o que as pessoas costumam
considerar um milagre: surge o capitalismo e surge o Estado. Mas não é
coincidência: quando surge o capitalismo, é preciso de um Estado.

O primeiro povo a deixar o feudalismo e se articular como Estado foi Portugal,


justamente o primeiro povo a comerciar na Ásia. E logo em seguida a Espanha. E
então, as cidades-estado italianas. O que aconteceu para que fossem Estados?
Não foi nenhum gênio intelectual, foi o fato de que comerciavam, foi resultado
da atividade capital.

A exploração do capitalismo é direta e indireta, do capitalista e do Estado. E isso


faz diferença. O banco tem seu patrimônio. Quem defende seu patrimônio? Seu
próprio banco, em alguma medida. Mas fundamentalmente, é o Estado. É um
terceiro que garante.

E esse terceiro garante de que modo? Suponha-se um furto a banco. O ladrão


passa a ser dono de R$40.000,00. Pode acontecer de o banco ter um guarda, e
ele corre atrás - defende-se diretamente. Mas isso é o que menos conta. Quem
defende é o Estado, por meio do DIREITO. E está aí o direito.

Esse direito é completamente diferente do que antes existia. Quem corria atrás
do ladrão? O policial, depois o delegado, depois o escrivão para lavrar o auto de
prisão, entre outros. Mas é o direito que sustenta essa estrutura. A questão é: o
direito protege incidentalmente ou diretamente? O DIREITO É ESTRUTURAL AO
CAPITALISMO, tem uma razão de ser total do capitalismo.

Aqui já desmonta, logo de início, o argumento de que o direito vem de Deus, de


que é a paz, de que é o bem comum. Historicamente, concretamente, o direito
é a defesa do capital. Não foi feito para dar dinheiro a quem não tem. O pobre
cuja mãe está doente e que rouba um banco será preso e ficará sem dinheiro. O
direito também somos nós: atuamos de forma insensível, atuando pelo que diz
a norma.

E se vê aonde vai nossa organização: o direito surge para defender o capital. O


escravagismo defende-se pela força do senhor; o feudalismo defende-se pela
posse; mas o capitalismo não se defende da força física do capitalista. As
questões do direito passam a ser estruturais da sociedade. Se antes havia 5000
seminários de padre, hoje há milhares de faculdades de direito. É a estrutura
jurídica que defende o capital. E vivemos disso: vivemos da mazela humana -
dos crimes, dos contratos não cumpridos, da concorrência desleal, entre outros.
São estas coisas que pagam a conta.

Falou-se que o capitalismo precisa do direito estruturalmente, ao contrários dos


sistemas anteriores de modo de produção. Agora é preciso olhar a relação na
articulação entre capital e trabalho assalariado. O direito, por todos os lados, é
estrutural ao capitalismo. Um hebreu pego como escravo pelo egípcio precisava
querer sê-lo? Claro que não, independe da vontade. Um servo que nasce servo
também não escolheu.

Mas no capitalismo, José mora em favela, acorda às 4 da manhã para bater


ponto nas indústrias reunidas Matarazzo às 7 da manhã, para ganhar R$622,00
mensais. E o jurista, de modo muito hipócrita, afirma que acha isso certo. Por
quê José veio trabalhar? Porque quis. O dono da indústria nunca foi à casa de
José para obrigá-lo a força a trabalhar. Quer trabalhar porque quer. Por que a
faxineira limpa banheiros do Largo São Francisco? Porque ela quis. Se não
quisesse, faria outra coisa: venderia lanches, seria professora da USP. É isso para
as pessoas. As pessoas não acordam e escolhem se vão trabalhar ou se vão para
Paris. Ao comprar o bilhete da CPTM, para pegar um trem lotado, faz um
contrato. E por que contrata? Porque quis, ainda que não tivesse como escolher
outra coisa.

Assim, o trabalho, para ser explorado da forma capitalista, tem um novo


elemento, que é a VONTADE de trabalhar.

E MARX e PACHUKANIS mostram que o que está no cerne do direito é o fato de


que todos são tornados SUJEITOS DE DIREITO, são sujeitos com direitos,
indivíduos com direitos. Que direito tem o morador da favela? O mesmo do
dono da indústria, responde o jurista. Se não quiser contratar José, o dono não
precisa. E o contrário também se aplica. No capitalismo, as pessoas só fariam o
que querem, e isso seria um mundo perfeito.

Só faltou afirmar que o capital está concentrado em pouquíssimas pessoas. A


maior parte das pessoas não têm outra opção que não se venderem para a
exploração. Vez ou outra, podem escolher para quem vão se explorar. A
faxineira não pode escolher muito fazer outra coisa. Para José, só há a CPTM.

Estas figuras foram inventadas: sujeito de direito, direito subjetivo (o meu


direito, o seu direito), o contrato, o acordo de vontade, a autonomia da
vontade, entre outros. Então se observa até onde vai o nível das coisas no
direito. Até a origem do capitalismo, havia uma relação de exploração e
submissão, uma entrega de direito. No capitalismo, todos são sujeitos de
direito, e o direito passa a ser a peça do jogo.

O que não vem em contrato, que é a PROPRIEDADE, é garantido pelo direito. E


se importunada, haverá punição. Quando se fala em direito canônico, 12
tábuas, 10 mandamentos, entre outros, pode ser muito bonito, mas são de
sociedades com lógicas muito diferentes. O direito trata das questões
estruturais da sociedade.

Faz 500 anos que tem capitalismo, e 500 anos que pobre não tem casa, não tem
bom hospital, não pode comprar remédios, é explorado. Esse direito não é o
bem comum. Prova há 500 anos que é o bem do capital.

E então uma questão fundamental que é inclusive objeto de estudo do


marxismo, que é a grande vertente teórica que leva ao socialismo. Conseguem o
Estado e o direito acabar completamente com a exploração, sendo que são as
ferramentas de exploração do tipo socialista? Estado e direito têm relação
intrínseca com o capital. Estado alimenta o capital.

E quando Estado aumenta o salário mínimo? Não está acabando com o


capitalismo? Pelo contrário, estão o reforçando. No final das contas, o pobre
gasta mais dinheiro no consumo. Quanto mais se regula as migalhas em favor
do trabalhador, mais o capitalismo se sustenta. As relações do Estado e do
direito são centrais em relação ao capitalismo. Inclusive, nem existe Estado
propriamente dito na Idade Média ou na Idade Antiga. Há organizações
políticas, mas não Estado.

JOACHIM HIRSCH - Se haver maior poder de consumo é melhor para os


burgueses, então por que o direito não aumenta substancialmente o salário
mínimo? Porque cada burguês pensa em seu interesse pessoal, e não na
burguesia em geral. Pois o capitalista sozinho não é o capitalismo em geral. Vez
ou outra pensa assim o Estado, na faceta intervencionista, como GV, Lula,
Dilma, e até Geisel.

E se inverte o jogo. Os trabalhadores não se organizam coletivamente. Pensam


no interesse individual, e não geral. Por isso, quando os faxineiros entram em
greve, os professores não apoiam. E depois ocorre o contrário também. Isso
porque o capitalismo faz uma PULVERIZAÇÃO DOS INTERESSES, uma
atomização das relações sociais: é um burguês contra seu trabalhador.

Por isso, FIESP, FEBRABAN e outros dirão que não querem aumentar os salários.
E os trabalhadores da Europa não vão organizar uma revolução, querem apenas
aumentar seu salário. Não pensam na lógica geral do sistema. O capitalismo não
deixa ver a grande lógica.

Assim como o Estado, o direito é um bem do capital. E então, se consegue ter


uma PERSPECTIVA CRÍTICA. O olhar sobre o direito passa a ver as mazelas sobre
o direito. Deixa-se de ver o direito como algo sempre bom. Vê-se um olhar
diferente.

Sempre houve dominação? Foram três dominações entre os modos de


produção, completamente diferentes entre si. Existe uma pré-história da
dominação, do homem das cavernas, que não se confunde com as outras. É
entender as coisas de uma perspectiva histórica.

O antecessor de MARX na filosofia foi HEGEL. Foi este que percebeu que, em
termos de lógica, só há três jeitos de explorar alguém, e a humanidade
experimenta os três. Quais sejam: (i) força, (ii) posse e (iii) vontade. Qualquer
coisa que a sociedade venha a construir, se for exploração, será uma das três.
Qualquer coisa que não seja uma das três é SOCIALISMO. Há uma lógica: é a
não-exploração.

É possível acabar com o capitalismo, e ainda haver uma lógica de exploração.


Será uma das explorações já vivenciadas pela sociedade. Se for algo novo, não-
exploração, será socialismo.

Aula 04
DIREITO E HEGEMONIA
sexta-feira, 23 de março de 2012
18:27
O objetivo da aula é perceber o Direito como resultado da disputa política. Na
aula passada, tratamos da relação entre direito e economia, modo de produção
capitalista. Vários caminhos são possíveis para se chegar nestes temas: faz-se
aqui um corte.

GRAMSCI - Um teórico do poder no capitalismo, como o poder é organizado. Diz


que a sociedade é hierarquizada, ela não é horizontal. Alguns grupos detêm
alguns recursos, outros não. Existem os que mandam e os que obedecem. Esta
não é necessariamente uma lei ou condição eterna, mas é a condição
contemporânea. Como é possível isto acontecer? No sistema capitalista, como
tantos subordinam-se a tão poucos que o detém? É fato da natureza, da lógica?
Não, é EXERCÍCIO DA HEGEMONIA.

"Os 45 cavaleiros húngaros": Gramsci analisa o fato de que 45 cavaleiros


húngaros da Idade Média chegaram até a Espanha durante as Cruzadas, e
passaram a governar mais de 4000 espanhóis. Como 45 pessoas, falando idioma
tão diverso, conseguem governar? É a pergunta que funda a ciência política
moderna. Como haver um governando em detrimento de tantos.

MAQUIAVEL analisa quais as regras que o príncipe deve manejar para ter todos
a seus pés, ou então, como é possível que um tenha tantos a seu governo?
Como o soberano, sendo um, governa tantos.

ÉTIENNE DE LA BOETIE: Feitiço, mistério de que um tem muito mais poder do


que outros.

CONCEITOS BÁSICOS

1. HEGEMONIA - Critério de subordinação social de um grupo a outro grupo.


Quais os critérios paralelos ao de hegemonia, que auxiliam para se chegar a ela?
A partir de WEBER, pode-se falar do poder e da dominação legítima.

2. PODER - Capacidade de impor sua vontade a outrem independente da


resistência oferecida (WEBER).

3. DOMINAÇÃO LEGÍTIMA - Manter, entretanto, uma sociedade ou uma classe


social o tempo inteiro sob essas condições tem um largo custo. Olhe-se para o
modo de produção escravagista: os escravos submetem-se a imposições, pois
há poder. Não estão ali por sua livre e espontânea vontade: o tempo todo
tentam sair de sua condição. Porém, o custo social para esse arranjo com o
poder é elevado, e outras formas são desenvolvidas. Daí a dominação legítima:
mais do que a imposição da vontade, é a aceitação da vontade de outro, que se
dá em três tipos: (i) tradicional, (ii) carismática e (iii) racional-legal.
Um contrato foi assinado, e precisa ser respeitado. Não o sendo, haverá
execução, e isso já ocorreu em outros casos. Por que assinou contrato? Porque
todos assinam, como não seguir a lei? Isso quer dizer que há uma aceitação
dessa dominação racional-legal, que é eficiente.

GRAMSCI - Há ainda assim forma mais eficiente de dominação do que a


dominação legítima. Não é meramente a força nem aceitar a dominação do
outro, mas querer ativamente para si, o que é melhor para aqueles que
subordinam. Os vírus reescrevem o patrimônio genético da vítima de maneira
que reproduza. O hegemonizado quer a ordem, que é a melhor ordem, a ordem
que garante a sobrevivência e o aprofundamento da relação social que garante
a expansão do que me subordina.

Quais as condições para isso? A relação de hegemonia tem uma regra clara: os
interesses são os dos que subordinam; os que subordinam aprofundam as
relações sociais, de modo que os subordinados tenham algumas de suas
pretensões atendidas, desde que não ultrapassem os interesses fundamentais
dos que subordinam. Isso se dá, no plano concreto do capitalismo, por uma
dinâmica de forças, de relações de força.

TRÊS MOMENTOS DAS RELAÇÕES DE FORÇA

1º momento - Medição de recursos com critérios quase advindos das ciências


exatas. O local para a hegemonia é neste prédio, que é de madeira, há tantas
pessoas, há luz elétrica, que vem daquele usina. Esta sociedade é esta
sociedade, e não outra. Não estão aqui as usinas hidrelétricas chinesas. Há
alguma relação? Se tiver conexão física, sim. Se não tiver, não. O mapeamento
desse primeiro momento das relações de força está até onde há comunicação. É
a FISICALIDADE da sociedade que leva a análise das relações de força. Quais os
recursos, como estão dispostos?

2º momento - Quais as relações sociais e políticas que organizam a disposição


daqueles recursos materiais. Um amontoado de prédios pode ser várias coisas.
Como normalmente dizemos, pode ser: cada um destes apartamentos pertence
a uma pessoa, alguns pertencem a empresa. É dizer: todos esses prédios são
objeto de propriedade privada, ou do indivíduo, ou da empresa que explora a
atividade econômica. Se tiver ocorrido mutação social, como quando o PCC
realizou seus ataques, passa-se a falar: compra-se o imóvel, e tem que dividir
com os traficantes, dividir seu esforço pessoal. A propriedade privada precisa
ser compartilhada com o submundo do crime. É um novo olhar. Ou se pode
olhar e ver que todos os prédios, antes da revolução, era dos imperialistas
capitalistas, e agora é do povo - "nesta noite, mais de 10.000 crianças no mundo
vão passar frio, nenhuma em Cuba". A mesma estrutura física pode ter vários
arranjos políticos. Dentro desse momento está a disputa pelo direito. Colocar
as forças sociais diante dos recursos sociais é ver qual colocará o direito em
favor de seus interesses.

Só se fala que 30% dos prédios são de especulação imobiliária e os outros


pertencem a pessoas porque uma classe social específica, com capacidade social
para tal, escreveu o contorno jurídico e político de seu interesse. O contorno
social deu essa estrutura.

3º momento - Momento militar. Se é possível subornar pessoas nas


universidades, na política, nas empresas, talvez o regime mafioso possa
preponderar. Mas o Estado de Direito prevalece, é o uso legítimo da força. O
momento militar aprofunda o segundo momento. A instituição da coletivização
dos meios de produção também só ocorre em um momento militar.

Poder, dominação política e hegemonia só se dão in concreto, de fatos


concretos da vida social. E se dá a partir desses três momentos: dos recursos
materiais da sociedade, da inscrição das regras políticas desses recursos e do
teste para manter essa inscrição. São mecanismos de manutenção (sempre
tensa) da subordinação de uns a outros.

Quando o Estado se vale da força, exerce poder. Se o subordinado aceita, tem-


se dominação política. Mas se a isso se acrescenta o elemento de que isso é
bom para o subordinado ("isto é assim, e assim será bom para você"), tem-se
hegemonia. O direito que garante a expropriação dos recursos materiais é o
melhor direito para você também.

E é preciso fazer a distinção entre GRANDE POLÍTICA e PEQUENA POLÍTICA.


Alguns interesses, no quadro estabelecido dos subordinados, são realizados por
eles, como ganhar o direito de usar a roupa que se quer. Entretanto, se os
subordinados disserem que não se quer mais ordenamento que coloque a
propriedade privada como central, e se busca a coletivização, então se está
falando da grande política.

Aula 05
DIREITO E SUPERAÇÃO DO SUBDESENVOLVIMENTO
sexta-feira, 23 de março de 2012
19:45

Vimos anteriormente a divisão da sociedade em classes. Estuda-se agora uma


outra divisão dada pelo capitalismo: a divisão entre países. Há países
colonizadores (metrópoles) e colonizados, o que leva à distinção entre países
centrais e países periféricos. E isso assume uma dimensão muito maior na
questão da endogeneização da capacidade tecnológica, o que amplifica essa
distinção. E isso leva a distinção entre os próprios países centrais: Portugal
exportava vinho, e Inglaterra tecidos e industrializados. DAVID RICARDO - A
melhor coisa foi o tratado entre Inglaterra e Portugal, tornando este um país-
fazenda.

Quem sai na frente na industrialização, na INDUSTRIALIZAÇÃO ORIGINÁRIA,


cria mercados para si e faz a renda dos mercados voltarem-se para si. Outros
países produzem renda para comprar os produtos industrializados. E então,
deter endogeneização é, em realidade, produzir a mercadoria socialmente
necessária. Quando a Inglaterra consegue uma jaqueta que esquenta melhor,
aquela mercadoria torna-se socialmente necessária: ou seja, quem não a produz
a quer ter, pois representa um estágio superior da civilização humana. E ocorre
o aprofundamento dessa hierarquia.

Os países de industrialização originária são os PAÍSES DESENVOLVIDOS, que


tem a endogeneidade técnica, possibilitando que seus habitantes, na longa luta
por direitos, tenham poder aquisitivo para que os produtores especifiquem seus
produtos. Ser país central é capacidade técnica, endogeneização da técnica
superior e homogeneização social. As mercadorias produzidas no mercado
interno são também emuladas no mercado externo.

Capacidade técnica Incapacidade


técnica
Endogeneização da técnica superior Não
endogeneização
Homogeneização social Desigualdade social

Qual o problema no que diz respeito aos PAÍSES SUBDESENVOLVIDOS? A


jaqueta inglesa tem técnica superior ao dos produtores brasileiros. O produto
inglês será emulado, e isso aprofunda a divisão dos países. Sendo o lado
contrário do que ocorre nos países desenvolvidos, há não endogeneização do
progresso técnico, senão consumo do que é produzido no exterior. E para que
uns possam comprar, é preciso subordinar todos os demais. E então, há
desigualdade social: quanto mais desigual for a economia, mais dinheiro para
que poucos consumidores. São faces articuladas de um mesmo sistema.

A teoria econômica surgida na Inglaterra trata dessa estrutura capitalista como


algo natural. É racional, natural que a Inglaterra, boa em industrialização,
especialize-se em seus produtos; e é natural que Brasil exporte matéria-prima.
Essa teoria foi naturalizada até que HAMILTON e LIST contestem nos EUA e na
Alemanha: daí necessidade de proteção, com atuação do Estado para fortalecer
a economia.
Em 1800 em diante, os países ainda subdesenvolvidos encaram sua condição
como natural. E não só pela teoria econômica dos países centrais como
daqueles, na periferia, que se beneficiam dessas teorias: vale dizer, no Brasil, os
latifundiários de café. E isso quer dizer também, portanto, Faculdade de Direito
do Largo de São Francisco: todos os presidentes franciscanos todos
pertenceram à elite do café com leite, e todos pertencia, à Bucha, captando os
melhores estudantes e ajuda mútua para solidariedade política na disputa
interna da elite. Que interesses defendem esses intelectuais orgânicos? O de
sua classe social, dos cafeicultores e exportadores de matéria-prima.

Espera-se até o século XX para que se veja que não é natural que toda uma
sociedade organize-se para que um grupo exporte para os países centrais. Por
isso, o liberalismo brasileiro é fora de lugar (ROBERTO SCHWARZ): como ser
liberal e escravista ao mesmo tempo? Apenas o movimento industrialista acaba
com a ideia da condição natural. A Revolução de 1930 tem por objetivo destruir
a oligarquia cafeeira. Trata-se de um momento inteiro de reorganização da
divisão internacional de trabalho, e Getúlio Vargas está nesse contexto.

Daí a criação da CSN, a Vale do Rio Doce, o BNDE para financiar os projetos,
entre outros. Para disputar com a naturalidade do curso normal da condição
periférica, é preciso um rompimento forte. É impossível que qualquer
empresário, individualmente falando, consiga superar essa condição. Para fazer
frente ao enorme poder privado e público estrangeiro, a organização dos entes
compete ao mais forte, o Estado. Nesse período, os empresários não eram
proibidos de criarem ou terem sua indústria, mas não poderiam fazê-lo. GV
busca uma estrutura para uma economia em escala industrial capaz de realizar
a INDUSTRIALIZAÇÃO RETARDATÁRIA.

De situação análoga, NEHRU e GANDHI na Índia. Foi o Estado indiano que


investiu em hidrelétricas e universidades, por exemplo. No Egito, as grandes
obras de infraestrutura ocorreram com NASSER. Na China, MAO TSÉ TUNG
expulsa os japoneses (eliminando o primeiro inimigo, as forças externas) e
então, busca o fim da elite interna, contrária à industrialização. Na Coreia do
Sul, o general PARK no pós-guerra também forçou a criação de uma indústria
naval e automobilística, inclusive com planos quinquenais - e tudo sendo um
país capitalista. No mesmo sentido a URSS, com posição política absolutamente
diversa. Ou seja, há um enorme movimento de endogeneizar a capacidade
técnica.

Mas só isso não é superação do subdesenvolvimento: pode ser apenas


modernização da capacidade produtiva. Além da capacidade técnica, é preciso
homogeneizar a sociedade. Daí se falar em MODERNIZAÇÕES
CONSERVADORAS: o parque produtivo é modernizado, mas a sociedade não
muda nada. Construiu-se uma indústria automobilística forte, mas houve
arrocho salarial. A ditadura tem opção clara por não conceder direitos. Daí a
discussão, durante a redemocratização, de direitos como custos (crescer o bolo
para depois crescer).

É a isso que o direito econômico da superação do subdesenvolvimento


responde, por meio da Constituição Federal de 1988: combate a uma economia
contrária ao internacionalismo, fundamentalmente baseada nos EUA e na
Alemanha. Daí se falar, em artigo próprio (Art. 219, CF), que mercado interno
integra o patrimônio nacional. Daí o Art. 3º: por que estabelecer sociedade
justa, livre e solidária são objetivos da República Federativa do Brasil? Porque a
sociedade injusta, dentre outras coisas, impede opiniões divergentes; porque
sociedade livre permite a circulação de ideias; porque a solidária esgarça os
efeitos do desenvolvimento. Afinal, é preciso construir algo porque antes não
existia.

Assim como na Inglaterra o mercado interno é tido como patrimônio nacional, e


portanto, tem autonomia para decidir sobre seus grandes setores, o Brasil
também passa a ter. E é algo ainda muito significativo, até porque as duas
grandes guerras têm a ver com quem decide sobre os setores da economia
interna. A Alemanha enfrentava seus inimigos: (i) comunismo, (ii) imperialismo
financeiro - judeus e (iii) imperialismo industrial da Inglaterra. E é preciso de um
líder - daí Hitler.

É preciso viabilizar a autonomia tecnológica do país. Ou seja, deve-se produzir


aqui a mercadoria socialmente necessária a este país. Portanto, a economia
política da superação do subdesenvolvimento, essa disputa que vem de
bastante tempo, na Constituição de 1988, esta forma de encarar a economia e a
forma jurídica cristaliza-se em regras que dizem que o país determinará a
capacidade de seus recursos e, simultaneamente, será um país de
homogeneidade social, que erradica a pobreza e reduz as desigualdades entre
regiões, que veda a discriminação de gêneros.

Da mesma forma que a economia capitalista hierarquiza classes sociais e países,


se há resistência política de classes, também é possível se falar em resistências
dos países, das sociedades que podem levar a história a um lado ou outro. O
direito recolhe as capacidades políticas de mais polêmica. No caso brasileiro,
isso não há dúvida: a direção de solidariedade e soberania é a prevista pela
Constituição Federal.

Aula 06
ACUMULAÇÃO PRIMITIVA
sexta-feira, 30 de março de 2012
19:09

Por que o texto está aqui? Porque vamos estudar nossa economia
contemporânea, nosso modo de produção, a essência do nosso direito. A partir
de hoje, vemos textos de história e de metodologia de história do capitalismo.
Compreendemos três movimentos: (i) transformações da vida material, levando
à vida que temos hoje, (ii) os interesses das classes que fizeram nossos
interesses serem o que são hoje e (iii) os discursos teóricos sobre a reprodução
da vida material.

Esse amálgama (vida material, interesses e discursos) são substrato da forma


jurídica que temos hoje. MARX e FIORI traz, cada um, sua metodologia. Um
trata do tipo puro, onde tudo começou.

Para isso, o primeiro conjunto de textos tem um corte metodológico. MARX nos
propõe ir ao início de onde tudo começou. Que tudo? Nós, o tanto de
mercadoria que compramos, nossas relações com as forças de trabalho, nossas
leis. É a relação entre as classes sociais no tipo puro do capitalismo, na
caricatura, o que mais exprime a contradição de seus elementos constitutivos: o
surgimento do capitalismo na Inglaterra. Os demais seguem o fluxo dessa força.
Por isso, a história do Ocidente reescreve a história do mundo. O Japão, antes
fechado, torna-se consumidor de um sistema.

Essa história é relevante porque é a história dos que venceram as várias


possibilidades de modos de produção. Surge de uma parte do planeta que
organiza o planeta inteiro, com suas contradições. A importância do texto é que
trata de nossa gênese.

MARX - Há várias formas de olhar essa gênese.

Inclusive, poder-se-ia dizer que, na história, sempre houve ricos e pobres. Logo,
a história é uma história na qual as desigualdades econômicas sempre existiram.
Talvez sempre tenham existido porque alguns sempre foram agraciados por
Deus - já foram escolhidos para serem os que serão salvos. E como já serão
salvos quando da volta de Jesus à Terra, aqui na Terra, já exprimem sinais dessa
salvação. Como estão destinados a serem salvos, são os predestinados, e sinais
de sua riqueza marcam essa predestinação. E é o que dizem os calvinistas. Essa
história levou WEBER a mostrar o efeito real desse pensamento. O calvinista
não gastava, e reinvestia em sua fábrica. Austeros em seu consumo, eram
grandes capitalistas, criando indústrias potentíssimas a partir de suas crenças.
Para ele, o capitalismo surge desse empuxo das crenças protestantes ("Ética
protestante e o espírito do capitalismo").
ADAM SMITH - Aqueles que foram capazes de organizar a produção, assumindo
seus riscos, merecem, por conta dessa assunção de riscos, os benefícios que
disso decorre. São os mais corajosos, mais austeros.

MARX - Depois de SMITH e RICARDO, a economia política perde a investigação


série, e torna-se louca legitimação da divisão social entre ricos e pobres, de
modo a tratar a divisão entre os que detêm e os que não detêm os métodos de
produção. Muitos seguem nessa linha, como Bentham.

Mas no texto, a ideia é de que, para olhar sua gênese, é preciso deixar de lado a
história justificadora do capitalismo, que olha de frente pra trás. Abandona-se a
ideia de que há vencedores e então tudo sempre foi igual. Muito pelo contrário.
É uma caixa de Pandora cognitiva: nem tudo é bonito. Percebemos que o modo
de produção no qual estamos imersos tem uma história, que independe de
nossa vontade. É isso que MARX pretende desnaturalizar. Em algum momento,
o capitalismo não estava aqui.

Nosso próprio planeta também não estava aqui em algum momento. Por isso,
modos de produção certamente não são eternos no sentido do passado. E assim
como o Sol vai destruir a Terra, nada dentro da Terra pode ser considerado
eterno. As relações sociais, então, são conflitivas, históricas, e não podem ser
consideradas perenes.

1. "O segredo da acumulação primitiva"

O segredo do capitalismo não está em sua reprodução, senão no empuxo que


permitiu que fosse produzida a acumulação primitiva. Daí se analisarem os eixos
dessa acumulação primitiva, permitindo instalar uma lógica que se mantém por
si.

2. "Expropriação do povo do campo de sua base fundiária"

É preciso chegar em algo que é histórico, mas para isso, é preciso partir de suas
relações internas. O que se busca é nosso modo de produção atual, cuja
característica fundamental é a estrutura por uma divisão de classes: quem
detém os modos de produção e quem precisa vender sua força de trabalho. Daí
MARX reconstruir o surgimento de um dos polos dessa relação, a força de
trabalho assalariada.

Há um local da empresa capitalista, com o proprietário e quem não é. O gerente


não detém a propriedade, é um trabalhador do mesmo jeito. Está-se falando de
uma condição objetiva - independe do gerente ser um bom assalariado, a favor
do sistema, pode até ter ótima renda, e até com imóvel. Mas os bens de
produção dos meios que serão consumidos em larga escala não.
A divisão fundamental está no detentor da grande indústria e no proletariado. E
claro que há toda uma matiz intermediária, das pequenas indústrias, os partidos
conservadores, entre outros. É que não estão no centro da discussão do
capitalismo.

O bem de produção não é só o físico: é uma relação social. É um complexo de


relações sociais. E daí duas discussões mais contemporâneas interessantes, a
serem analisadas mais para a frente no curso: (i) imaterialidade dos bens de
produção (internet, por exemplo) e (ii) democratização dos meios de produção
por participação acionária.

Se os proprietários disserem que não são bens de produção, então o capitalismo


deixa de ter a configuração que tem. Mas se monarquistas deixarem de ser
monarquistas, isso não tem efeitos reais na configuração do capitalismo: a
Apple continua a ser a Apple, com seus acionistas majoritários - exercem
privadamente a propriedade. Do mesmo modo, se os que vendem sua força de
trabalho pararem de vendê-la, também há uma ruputura - sem trabalho, não há
produção.

MARX coloca qual o surgimento da classe dos proprietários dos meios de


produção. E então, analisa sua forma mais cristalina, que é a Inglaterra. Uma
classe pode deter o controle das relações sociais? Não só pode como deteve e
detém. Como é o surgimento da classe operária inglesa? A condessa de
Yorkshire compartilhava as terras com todos os seus vassalos. Mas com a
produção de lã (para roupas) e metal (para navios, canhões, armas), algo muda.
O que diferencia o capitalismo é a subordinação da tecnologia para a produção
dos meios de produção, usando-a para uma específica organização da divisão de
trabalho: organizar todos os fatores de produção (trabalho humano) para a
produção.

Uma vez que existe a possibilidade de usar trabalho humano (puro ou


coagulado - tecnologia) para a realização de comércio com lã em escala nunca
antes vista, toda a matéria-prima torna-se objeto dessa organização. Daí os
cercamentos. Esse é um dos exemplos, mas há vários. E os cercamentos, vasto
movimento político e legislativo, ancoram a violência física. Por isso a discussão
sobre propriedade intelectual está no "segundo cercamento", dos bens mentais.
É o TRIPS, anexo 3 da OMC, que regula esse segundo cercamento.

3. Legislação sanguinária contra os expropriados desde o final do século XV. Leis


para o rebaixamento dos salários.

Ao existir possibilidade de vender ganhando bastante, quem percebe isso e tem


poder para tal, abrem as terras e as cercam. O que ocorre com quem estava lá?
São três as possibilidades: (i) resistem - podem ganhar ou morrem -, (ii) vão para
as florestas (Robin Hood - os que resistiram mas não morreram, mas não
ganharam), (iii) vão para as cidades. Os que vão para a cidade sofrem um
disciplinamento.

Mas nem toda a força produtiva que vai às cidades é acolhida. Ao querer comer,
se vestir, fazer qualquer coisa, não tendo isto vindo de seu salário, começam os
excluídos a cometer ilícito. E daí as leis sanguinárias. Se fez algo irritante, é
marcado no rosto com um V. Na segunda vez, será decepado.

A capacidade de organizar a produção pela lã levou à expulsão das pessoas para


as cidades. A forma de organizar a produção da lã é expulsar. As leis
sanguinárias são a forma jurídica que organizam a produção. Daí o direito como
consequência. E pouco a pouco, até as leis mais brandas são reformadas.

4. Gênese dos arrendatários capitalistas

De um lado, formação da classe trabalhadora. Do outro, o polo de força dessa


relação. Na verdade, a gênese dos arrendatários é a gênese dos industriais. Faz-
se uma espécie de empoderamento entre as várias formas de propriedade, e a
conclusão é o momento em que a terra está submetida ao poder industrial.
Toda a Inglaterra é propriedade da indústria. Tudo o que pode ser produzido
para a indústria será produzido para a indústria.

5. Repercussão da revolução agrícola sobre a indústria. Criação de mercado


interno para o capital industrial.

Não mais é possível alimentar-se do campo que produzem, e os camponeses


precisam comprar. Agora assalariados, precisam alimentar-se. Não mais a
podendo produzir, compram dos locais onde antes produziam. Esta é a
formação do mercado interno. Não mais são os detentores dos bens de
produção de sua comida. Essa classe vende sua força de trabalho e compram o
que outros estão produzindo.

6. Gênese do capitalista industrial

O controle sobre a produção industrial advindo da intensificação da propriedade


que o arrendatário tem. O que distingue um do outro? A capacidade plena de se
impor como ordenamento jurídico para toda a nação. Diferente do arrendatário
rural, que tinha algumas formas de produção ainda baseadas em costumes, o
industrial tem relação plena, imediata e total com sua produção.

7. A tendência histórica da acumulação capitalista


Ponto principal do texto. Por que tudo aquilo deu nisso que vemos hoje? Nesse
trecho, algumas coisas são destacadas, e que se articulam. Quatro são os
elementos: (i) pacto colonial, (ii) dívida pública, (iii) moderno sistema tributário
e (iv) sistema protecionista.

Estamos falando de acumulação primitiva. O objetivo da aula de hoje é


"compreender o papel da violência e do Direito na formação do capitalismo".

Observação: capital não é papel. Capitalismo é um complexo de relações sociais,


o capital é uma relação social de subordinação de parte da sociedade a outra
parte da sociedade. Esta relação social chamada capital expressa-se de diversas
maneiras: com notas, com máquinas, inclusive, por meio da lei das sociedades
anônimas, da Constituição. Nem as notas nem as leis são o capital. É a relação
social de subordinação que os gera.

Esta relação social surge impulsionada por um movimento que elimina outra
relação social, que é a servidão. Para que haja a quebra de algo que
inertemente permaneceria, foi preciso um ponto de violência. E disso, essa
relação social que é o capital se desenvolve e se impõe.

Os quatro pontos acima são a configuração história do objetivo da aula.

Sistema protecionista e pacto colonial significam que em algum lugar do planeta


há alguma riqueza que é comercializada (tal qual no mercantilismo), permitindo
sair de um lugar e ir a outro. Na Inglaterra, com a ajuda dos corsários. O
acúmulo que permite a instalação dessa relação social, com o controle dos
industriais, tem relação com o protecionismo e com o sistema colonial, trazendo
mais metal para a Inglaterra.

Para organizar isso, todo o dinheiro que vem do comércio e da sucção do


protecionista são organizados pelo moderno sistema tributário. O Estado pega o
dinheiro e faz, com racionalidade, investimentos na manutenção e reprodução
desse sistema. Isso é feito com infraestrutura física, militar, política, que garante
a reprodução da relação social surgida daquelas terras.

Finalmente, a emissão da dívida pública, em que o Estado Inglês pergunta ao


mundo: (i) conseguiu-se, diferentemente de todos os outros, organizar a
produção industrial, (ii) conseguiu tirar todos os que atrapalhavam, levando as
pessoas às cidades e trabalhando, (iii) um sistema de tributação moderno
organiza dinheiro, (iv) vem dinheiro de outros lugares. Então, aceitam meu
dinheiro? A partir desse momento, com essa aceitação, essa lógica de cisão
entre as classes segue por conta própria. Não precisa reviver os primeiros
momentos de sua gênese, pois se torna o elemento dominante.
Todos aqueles elementos são pressupostos, mas não são mais necessários. O
sistema pode seguir sozinho. Não é mais preciso expulsar.

Aula 07
FORMAÇÃO SIMULTÂNEA E ARTICULADA
DO CAPITALISMOE DO ESTADO NACIONAL
sexta-feira, 30 de março de 2012
22:25

Pergunta-se para a aula o papel da política na formação do capitalismo. Vimos a


diferença estruturante do capitalismo. Mas a economia moderna não só
introduz essa distinção como constitui e se alimenta de outra distinção, a
distinção entre diferentes posições na divisão social internacional do trabalho.
Países estão em posições diferentes.

Existem países que saíram antes, e produzem algo no sistema. Países que saíram
depois produzem outras coisas.

FIORI traz uma forma de compreensão dessa DIVISÃO SOCIAL INTERNACIONAL


DO TRABALHO. Alguns países exercem poder e outros submetem-se a esse
poder. Essa forma não abandona a divisão de classes: os países condicionam-se
a sua divisão de classes. É um movimento simultâneo e articulado.

Por que estamos conversando? Porque é preciso entender como se organiza a


produção contemporânea. Por que alguns produtos produzidos no Brasil o são à
sua forma, por que compramos alguns carros e não outros? Organizamos essa
forma jurídica. Há três formas de análise, três grandes hermenêuticas das
formas de economia. Este texto, pois, organiza o modo pelo qual se reconstrói a
história econômica até nossos dias. Quais são elas?

1. ESCOLA LIBERAL - Representante maior em ADAM SMITH. Existe propensão


natural ao comércio. Se respeitada, gera riqueza. Essa constatação gera uma
política econômica, que é a política liberal. E em segundo lugar, gera uma
interpretação sobre a economia e como ela se dá.

2. ESCOLA MARXISTA - As classes estão em conflito, e uma delas comercializa o


que detém (advinda dos bens de produção). A outra detém a força de trabalho.
Uma evolução dessa escola é o imperialismo, mas esta segunda forma de
compreender também exclui da gênese de riqueza o poder. Salvo a segunda
fase, que seria o TEOREMA DE BUKHARIM: as classes dividem-se entre si, mas
também os países.
Qual o papel do Estado dentro da teoria marxista? Pergunta de grande
dificuldade. OCTAVIANI ainda não tem certeza. FIORI afirma que tem dificuldade
em colocar o Estado como formador da riqueza (a dominação riqueza como
formadora da riqueza), mas é uma das interpretações possíveis.

3. ESCOLA NACIONALISTA - Inspiração mercantilista, dada por LENIN. A riqueza


é produzida, gerenciada e articulada à política. O modo capitalista de produção
surge porque existe Estado Nacional que o permita surgir. E para FIORI, esta é a
mais relevante.

Essas três escolas nos referenciarão ao longo do curso.

As teorias, quando informam atores sociais com força para fazer ação social
relevante jogam o mundo para um lado ou outro. Daí se estudá-las. Ao se crer
em uma teoria ou outra, e fazê-la ser realidade, o direito será um ou outro. É o
que se faz aqui: arqueologia das premissas de conhecimento que geram atores
relevantes, capazes de atuação econômica. E saímos de discursos mais passíveis
de controle externo.

GIOVANNI ARRIGHI - "O longo século XX", em 1996, contrapondo-se a


HOBSBAWN com "O breve século XX", segundo o qual teria começado em 1914,
terminando em 1989. O resultado da contestação à Alemanha foi a URSS. Para
ARRIGHI, não é isso. O século XX é longo, começando no século XIII. Por quê? É
um século a mais do capitalismo. O capitalismo são os séculos desde o XIII:
funciona em uma sucessão de hegemonias. No início, havia um pedaço do
planeta que comercializada economia monetizada (na África, na Oceania, não
havia moeda).

De onde veio o capitalismo? É constante expansão geográfica, negocial e militar,


escudada e alavancada por um ponto forte no sistema, um hegemon. O
primeiro ponto forte na ECONOMIA-MUNDO são as cidades-estado italianas:
Gênova, Veneza e Milão. Em um espaço de sua influência, comercializam,
pegam mercadorias de um lugar e são entreposto de trocas de moedas
diferentes. Se houver venda e alguém as comprar, e não houver pagamento, as
cidades garantem militarmente a fruição dos contratos. Onde a cidade é
hegemônica, pode-se trazer a mercadoria - quem não pagar há de se ver com a
cidade. O polo hegemônico vende mais, produz mais e assegura mais.

Em dada hora, esse polo hegemônico sofre contestação de outro polo, a


Holanda. Tinha maior capacidade de negociar, por ter maior expansão marítima
e maior capacidade de juntar crédito e garantir militarmente seu comércio por
meio de tropas mercenárias. Por sua vez, tal hegemonia é contestada e
substituída pela Inglaterra, por meio da Revolução Industrial.
Revolução Industrial, imperialismo inglês e marinha inglesa são, portanto, um
movimento de contestação de um mundo já capitalista - o que é uma outra
chave teórica em relação a MARX, que trata de escravismo, feudalismo e
capitalismo.

E então, a Inglaterra é substituída em sua hegemonia pelos EUA. Como se


percebe que uma é substituída por outro? Quando o hegemon faz sua riqueza
ser principalmente a riqueza financeira. E ARRIGHI trata de cada hegemonia,
para questionar se seria por acaso que a principal fonte de riqueza dos EUA a
partir da década de 1990 seja a financeira. Em 1996, o FMI já disse que a China
ultrapassaria a economia americana em 20 anos. Será o sudeste asiático o
próximo ponto hegemônico? China, Japão e Coreia? E surgem novos conflitos
pela hegemonia: conflitos militares, políticos.

Os EUA já foram o maior importador do Brasil. E os EUA também já foram o


principal mercado exportador do Brasil. Israel seguia exatamente o que
determinavam os EUA. O que se quer dizer com esses assuntos? Eventualmente,
o argumento de ARRIGHI traz reflexões para pensar as transformações
contemporâneas. Como mais de uma vez os hegemons são desafiados, podem
suplantar os desafios e continuar em sua posição.

Aqui, é importante compreender a sucessão de hegemonias. Há razão direta


com a possibilidade de eficácia de nossa Constituição. Se ARRIGHI está correto,
é possível ou não ter a Constituição vigorando.

A cada sucessão de hegemonia, existe simultaneamente, internamente aos


países, uma divisão do trabalho que se expressa em uma organização financeira.
Uma organização produtiva entre as classes com uma dimensão financeira. Daí
o argumento de POLANYI: a expansão da Inglaterra como ponto hegemônico do
sistema é resultado de sua divisão interna de classes, cuja consequência é o
padrão-ouro. A Inglaterra só é hegemônica porque a classe burguesa subordina
a classe trabalhadora inglesa, inclusive impondo um padrão financeiro
internacional, refletindo sua configuração interna e externa. Internamente, o
padrão-ouro quer dizer que há muitas reservas a uma libra que vale algum ouro,
e será Estado com muito ouro é econômico em suas políticas sociais, tem muito
ouro para garantir sua moeda. É Estado que tributo e não devolve. É uma
específica correlação de forças internas: ausência de políticas sociais e
liberalismo.

Externamente, o padrão libra-ouro significa que para a libra manter-se


valorizada, a Inglaterra valer-se-á de todos seus instrumentos. Livre comércio de
um lado, imperialismo de outro. Padrão libra-ouro é resultado de complexo de
forças internas e externas da Inglaterra. E o padrão libra-ouro é substituído pelo
padrão dólar-ouro e hoje dólar-flexível.

A história não está parada, pois há um DUPLO MOVIMENTO. Onde há padrão


libra-ouro houve pessoas jogadas para o livre mercado, perdendo suas
proteções sociais. E são jogadas no chamado "moinho satânico": acabou o reino
dos céus na Terra. Se houvesse fome, e se recorresse a Cristo, a sociedade daria
de comer. No liberalismo, quem tem fome terá a resposta de que terá a
liberdade de vender sua força de trabalho. Mas não há empregos? E a resposta
será que é outro problema: o problema do liberalismo é garantir a liberdade.

O primeiro que ouviu isso ignorou. O segundo revoltou-se, mas não fez nada. O
terceiro não se conformou e mata o mais rico da região. A primeira coisa é a
relação de violência. Eventualmente, pegam os padres - que falavam que
sempre era assim. Essas diversas formas de violência desorganizada passam a
ganhar sistematicidade. E então há a grande transformação, o ORDENAMENTO
DAS POLÍTICAS DE PROTEÇÃO CONTRA O LIBERALISMO, o chamado
ORDENAMENTO SOCIAL.

O ordenamento social pelo qual a sociedade se protege do moinho satânico é


ter direitos sociais: direito à saúde, à alimentação, à moradia. As sociedades são
moídas até o fim, mas resistem e reagem. E formatam um novo direito. É uma
nova disputa sobre o excedente econômico e social. Dão origem não mais a um
padrão libra-ouro. O movimento de expansão da economia capitalista mundial
tem relação com as relações internas.

E é por isso que POLANYI é trazido por FIORI. Se as disputas entre as classes
estão se fazendo, tencionando-se, isso ocorre.

Quando o padrão libra-ouro será plenamente contestado? Internamente, com a


formação do Estado Social, a partir de Winston CHURCHILL, que era um
conservador oriundo da grande elite inglesa (e portanto, da grande elite
mundial), tinha um parlamento com maioria do Partido Trabalhista. Os
trabalhistas, analfabetos, abusivos, etc, ainda que o fossem, exercem pressão
contra o moinho satânico. E surgem as grandes leis previdenciárias.

E quando a França não ofereceu resistência nenhuma, Rússia com o pacto


Stalin-Hitler, EUA sem querer entrar na Guerra, CHURCHIIL profere sua grande
frase: "Esta é a nossa hora". Estamos falando de um ator enorme na política
mundial, que combateu Hitler. E conta ele que houve a contestação do padrão
libra-ouro, e teve que seguir o movimento histórico.

A segunda contestação do padrão libra-ouro é o fim da Guerra. EUA tem bomba


atômica. KEYNES, o maior economista inglês da época, leva à criação do Banco
Mundial e sugere a criação de moeda mundial, o BANCOR. Mas EUA impõe-se e
a nova moeda mundial é o dólar. Esta contestação do padrão libra-ouro
substitui um novo padrão mundial, o padrão dólar-ouro (em Bretton-Woods).

E vão os 30 anos de ouro do capitalismo, até a crise do petróleo. O que era o


padrão dólar-ouro? "Confie no dólar", para além da bomba atômica e da
capacidade industrial, o dólar vale certa quantia de ouro: o Fort Knox dava ouro
pelo dólar. Mas uma série de contestações surgiram disso também.

O resumo é que enviado do general DE GAULLE passou a sacar dinheiro, e vários


países começaram a trocar suas reservas em dólar por reservas de ouro. Os EUA
eram governados pelo maior anticomunista de sua história (o que, diga-se de
passagem, é muita coisa: é preciso competir com REAGAN e EISENHOWER):
NIXON, que havia sido assistente de Mc Arthur. Portanto, nada de esquerdismo,
nada de comunismo. Somente ele poderia se aproximar da China, pois ninguém
o acusaria de comunista.

Mas NIXON, submetido à crise, faz duas coisas: (i) promulga congelamento de
preços nos EUA por 90 dias (não há liberdade econômica para os preço nos
EUA) e (ii) o padrão dólar-ouro acaba, e unilateralmente é rompido, passando a
ser o padrão dólar-flutuante, referenciado pelo FED, sem lastro no ouro.

Por que falar disso? Ao se finalizar o padrão libra-ouro, substituído pelo padrão
dólar-ouro, é substituído pelo padrão dólar-flexível, que é nosso atual padrão
financeiro. Essa discussão é simultaneamente discussão sobre polos produtivos
militares e organização interna. Os EUA organizam e planejam uma série de
políticas na finança internacional, que determina paulatina uma série de
reformas nos ordenamentos jurídicos nacionais. Isso vai ser o ponto de nosso
curso ao final: voltamos para trás, e se chega, passo a passo, a como esta
remodelação do padrão financeiro mundial pelos EUA impacta a economia
brasileira e nosso ordenamento jurídico.

E para onde foi o ouro, sumiu?

Não, continua como um elemento relevante. No pós-crise de 2008, se não se


podia confiar nos derivativos, olhou-se para a moeda. E a própria moeda sofreu
pressões. E a garantia do valor eventualmente retorna ao ouro. Mas como
envolve defesa militar, moeda e produção ao mesmo tempo, é uma questão
mais complexa.

Aula 09
FISIOCRATAS
sexta-feira, 13 de abril de 2012
21:45

CONTRAPOSIÇÃO ENTRE MERCANTILISTAS E FISIOCRATAS

A partir do que pensam uns e pensam outros, surge: (i) quais suas analíticas (por
que analisam de certa forma), (ii) quais suas políticas.

(Aula desenvolvida a partir dos comentários dos próprios alunos)

VIDA MATERIAL - O que havia? Havia propriedade, excedente de produção,


oposição entre agricultura feudal e moderna, mercantilismo, lucro pelo trabalho
e não só pelo comércio.

INTERESSES DE CLASSE - Agricultores, proprietários de terras, classe burguesa (o


excedente da terra tem por objetivo beneficiar os capitalistas do comércio e das
manufaturas, colocando-os como interessados).

OCTAVIANI: Não há dúvidas de que o mercantilismo é obra e graça da


burguesia, e não dos trabalhadores ou dos feudais. Ao lado dos feudos, surgem
os burgos. E trabalharam tanto que ficam mais ricos, compram armas e até
títulos. E então, os burguesas com a monarquia contra a nobreza: o Estado
Nacional suprime as diversas suseranias em favor de uma soberania. Essa
soberania centraliza as políticas, e também centraliza o mercantilismo. Dois
interesses se forjam e se aglutinam: (i) centralização do poder - interesse das
monarquias e (ii) defesa do comércio - interesse da burguesia.

Algo muda no período dos fisiocratas. O lucro eventualmente adviria do


trabalho. Há o excedente. Para os fisiocratas, quando se olha e tudo parece
igual, e no momento seguinte há mais valor, isso vem de algum lugar, e no caso,
a agricultura, pois se coleta o excedente. Portanto, para gerar excedente, é
preciso trabalho. Esses interesses, esta forma de conceber, gera um discurso
lógico, com sua sistematicidade. O que se fala para defender tudo isso, quais os
DISCURSOS TEÓRICOS?

Ordem natural. E o que é? Uma ordem divina, a lei natural. Por quê? Qual a
lógica dessa sequência? Primeiro a lei natural, depois a lei física (para expressar
a lei natural na sociedade) e então, a lei moral. Qual a conclusão dessas várias
leis, o que elas protegem? A propriedade. Propriedade que vem de Deus. A lei
natural determina uma manifestação aqui que é a lei física, esta, por sua vez,
leva a uma organização das nossas relações, que é nossa lei moral. Tudo isto é a
forma de proteger. A conclusão lógica é: para melhor conseguir dar vazão a
nossa forma física, e portanto, seguir os desígnios de Deus, a propriedade
privada é protegida. O discurso teórico é: a propriedade privada que acaba de
surgir (diferente da propriedade feudal), passa a, discursivamente, ser
legitimada pela vontade de Deus. Não à toa que na Revolução Francesa haverá
os direitos naturais, que são, portanto, uma criação histórica, produto de um
arranjo social.

Onde se diferenciam os mercantilistas dos fisiocratas quanto ao que gera o


valor?

MERCANTILISTAS - No comércio. A analítica dos mercantilistas diz: gera-se valor


na circulação.
FISIOCRATAS - No trabalho humano da terra. Gera-se valor na produção.

Destas duas diferentes analíticas surgem duas diferentes políticas. A política dos
mercantilistas, há que o que gera valor é a circulação, é de organizar todo o
fluxo de riquezas para dentro. A política dos fisiocratas é melhorar a forma de
produção desse excedente. E isto é seguir a vontade de Deus, da lei natural. A
garantia da propriedade privada é a vontade de Deus. A forma jurídica da
proteção da propriedade privada deriva-se logicamente da arquitetura do
Universo da vontade suprema. É o que colocam os fisiocratas.

Fisiocratas são, portanto, um ponto de produção que prestam tributo ao


feudalismo mas que abre portas ao capitalismo. Para eles, tudo é vontade de
Deus, mas esta não é que haja apenas sacerdotes, guerreiros e trabalhadores.
Em realidade, é a vontade a que sigamos o que libera as satisfações de nossas
necessidades individuais. Há um giro radical na interpretação da vontade de
Deus. É diferente interpretá-la no feudo e no burgo, onde se transita
livremente. O indivíduo é uma construção histórica, com disseminação
historicamente determinada, capacidade normativa historicamente
determinada. No feudalismo, não há indivíduos, há direitos de estamento.
Ainda não se contesta Deus, não é possível colocar toda a vontade humana
sobre os ombros da vontade divina, mas é reinterpretada. Legitima o que já
acontece.

A vontade divina ainda tem força social e discursiva enorme, sendo


reinterpretada para mostrar o choque concreto visto aqui. Na próxima aula,
vemos uma formatação mais sofisticada, porque as relações sociais ficam mais
complexas, adensam-se. É a leitura mais aderente ao contexto. E daí Adam
SMITH e David RICARDO.

Aula 10
sexta-feira, 20 de abril de 2012
18:29
ADAM SMITH
Expressões e teses genéricas serão testados a prova nos casos concretos.

A ideologia da globalização, a sustentação legitimadora desse projeto não está


desancorada de ideias.

DIVISÃO DO TRABALHO, LIVRE MERCADO E LIBERALISMO ECONÔMICO

Para o sistema de pensamento de Adam Smith, o que é essencial? Temos aqui


uma antropologia otimista, presente também nos fisiocratas. Do ponto de vista
histórico, MARX baseou-se nisso? Sim, justamente: MARX estudava muito a
filosofia alemã, a filosofia política francesa e a economia política britânica. E o
mesmo fez LENIN, na mesma cadeira do British Museum.

O que é isso que estudamos aqui? A formação do modo de produção capitalista,


e quais suas principais características. No caso de ADAM SMITH, que era
estudado já por MARX e também por nós, tem-se alguém que estudou o cerne
da industrialização, que é a divisão social do trabalho. E é o que acontecia na
Inglaterra e que se transmitiu ao mundo.

Para o ESTRUTURALISMO, são as macroestruturas e as microbiografias, em que


estas se dão naquelas. Isso gera um pessimismo na político, pois não há o que
se fazer nas macroestruturas. Essa estrutura de modo de produção capitalista
independe da vontade dos indivíduos.

O ser humano tem a propensão natural à troca. Está no centro de seu sistema
lógico. O que isso significa? Nos fisiocratas, esta lei natural que nos compele à
máxima utilidade tinha seu fundamento em Deus; em ADAM SMITH, a troca não
precisa se justificar em Deus, é propensão natural da espécie. Porque temos
essa propensão, queremos trocar mais, pois há outra propensão, a da busca do
bem-estar. O primeiro arranjo entre essas duas propensões leva a ter mais do
que trocar, levando à necessidade de organizar melhor o que trocar. E daí a
divisão social do trabalho.

Esse texto é clássico para o taylorismo e para o just in time da Toyota.

O exemplo para a confirmação da propensão natural para a troca, organizando


a divisão social do trabalho é da fábrica de alfinetes. Exemplo empírico de
crianças que fazem pipas: se casa criança fizer sua própria pipa, ter-se-á uma
quantidade de pipas. Então alguém faz com que cada uma faça apenas uma
parte da pipa (um cola, um corta os papéis, e assim por diante). A produção será
aumentada significativamente. É exemplo do potencial da organização social do
trabalho. A divisão social aumenta o trabalho acumulado de que a sociedade é
capaz de dispor. É uma evolução do que os fisiocratas haviam dito, quanto ao
deslocamento do enfoque no comércio para a produção. E para estes, na esfera
específica da agricultura que haveria o excedente.

ADAM SMITH, ao analisar as fábricas em volta das cidades inglesas, vê que


trazem coisas antes inexistentes. E elas também traziam um excedente para a
sociedade. É aqui que reside a possibilidade de aumento de riqueza, da
produção que gera o valor, cuja causa é a divisão social do trabalho.

(i)Há uma propensão natural para a troca (não é da boa vontade do padeiro que
há pão: ele quer ter lucro, por isso há pão)
(ii) Aumenta-se a possibilidade de troca por uma correta produção onde não
havia, com mais trabalho acumulado;
(iii) Uma série de políticas devem ser tomadas (arranjo social a ser tomado) para
que o que seja produzido (o trabalho que se conseguiu acumulado, que nos dá
maior possibilidade de troca, garantindo maior satisfação das necessidades) seja
livremente trocado. E daí o regime liberal, que permite tudo o que é feito ser
trocado. Ou seja, o liberalismo é natural. Ao liberalismo corresponde um
direito natural.

Ou seja, a partir de uma analítica da natureza humana, uma proposição política.


Há algo além do mercantilismo, que via na geração de riqueza um aspecto da
circulação de mercadorias, a qual poderia dar-se de diversas formas:
manufatura escrava ou não, e assim por diante. ADAM SMITH conseguiu
determinar a mecânica da geração do valor.

Outros dirão que jamais se poderia ter abdicado do poder presente no


mercantilismo, abandonado por ADAM SMITH.

CRÍTICAS

A propensão natural à troca, falando de um ser humano que vive o tempo todo
entre a dor e o prazer, por ser parte da natureza humana, precisa ser mantida
pelo direito. O comportamento racional é atacado por três críticas,
desnaturalizando a troca:

1. ANTROPOLOGIA - Por que os índios não trocavam, se era natural? A troca,


portanto, não é natural, e sim cultural. A troca não é biologia, senão cultura.
Muitos povos organizaram-se por outros princípios: colaboração, entre outros.

2. FREUD - Esse ser humano racional, base estruturante dessa base teórica, é
uma ficção. Nossa consciência é apenas uma parte de nossa articulação mental.
Há vários outros níveis, e poucos têm a ver com maximização da utilidade. Por
isso temos esquizofrenia, pois o ser humano, querendo mover-se em um
caminho, move-se em sentido contrário - dois comandos diferentes. Os níveis
de articulação da mente humana não são a caricatura vista nesse texto.

3. BEHAVIORAL ECONOMICS - Analisam se os bancos de investimentos tinham


comportamentos racionais. Veem que começam movimentos de investimentos,
e repentinamente vão para caminhos diferentes, com uma competição para ser
o macho-alfa, e veem os níveis de hormônios dos investidores. Ou seja, haveria
inúmeros exemplos de um comportamento de gênero que, não
surpreendentemente, vêm de investidores com comportamento sexista
(homens são mesmo melhores para o mercado financeiro).

Aula 11
DAVID RICARDO
sexta-feira, 20 de abril de 2012
21:45

VALOR-TRABALHO

O que é valor-trabalho? O que significa isso? O que o conceito de excedente


para os fisiocratas se associa com a divisão do trabalho para Adam Smith e o
valor-trabalho de RICARDO?

Porque falamos dos fisiocratas e de Adam Smith? Porque falam do modo


capitalista de produção, se debruçaram sobre a nossa realidade e para a qual
nós trabalhamos.

Qual a percepção que evolui analiticamente dos fisiocratas até a teoria do valor-
trabalho? Para os fisiocratas, é preciso a produção de um excedente, o que é
realizado exclusivamente pela agricultura (onde não havia nada, surge uma
planta, uma flor, uma árvore). Independentemente disso estar correto ou não,
Adam Smith analisa o sistema afirmando que o princípio do excedente dos
fisiocratas está correto, pois é preciso saber onde uma energia aplicada traz
valor. Entretanto, não somente só na agricultura, e também na indústria. O
mundo em que se inseria é um mundo que tem uma indústria, algo antes
inexistente. E RICARDO afirma que é isso que faz surgir o valor. Por isso, o ponto
mais importante da sociedade é o surgimento do valor, que é, em realidade, a
agregação de valor. Daí a agregação do valor-trabalho.

Uma mesa porta em si todo o trabalho anterior nela. Ela custará todo o tempo
social gasto para fazê-la. Isso significa que o tempo social gasto para fazer a
ferramenta a ser utilizada, para cortar a madeira e outros - todo o trabalho
social acumulado - é o valor da mesa. E isso tende a ser seu preço - talvez não o
seja por algumas variações. Para RICARDO, é importante entender que é na
esfera da produção que se gera o valor.

A economia política que lê o capitalismo - e portanto, essa escalada fisiocratas,


Adam SMITH e RICARDO - mostra que é na manufatura o segredo da sociedade
capitalista que está se formando. É na subordinação de todas as forças que
contribuem seu trabalho que se encontra o valor das coisas. Para isso
acontecer, para que haja um dado valor nas coisas capaz de ser apropriado,
diferentes classes se apropriam - e se alguma ganha, outra perde.

A classe dos proprietários de terra, herança do feudalismo, apropriam-se do


valor sob a função da renda, pois a terra gera renda, a qual é apropriada por seu
dono. A classe dos capitalistas apropria-se do valor-trabalho sob a função lucro.
E os operários a apropriam pelo salário. As três são formas de apropriação do
valor-trabalho, de acordo com a posição ocupada pelo jogo social. Ou seja,
valor-trabalho é apropriado por funções distintas, de acordo com sua posição
social.

LIVRE MERCADO

O que RICARDO diz do livre mercado? A força que traz harmonia serão os
capitalistas, pois que capazes de produzir mais, acumulando mais trabalho,
organizando mais trabalho acumulado, e ao final, gera-se mais riqueza para a
sociedade toda. Portanto, todos os fatores, para que ocorra este aumento de
ofertas para a sociedade, que harmonizarão a sociedade, o ideal é que exista a
livre circulação que permita que o lucro aumente. E mais lucro, significa mais
trabalho acumulado, vendido. Assim, a função que livre mercado joga na teoria
de RICARDO é simultaneamente permitir maior produção para produzir maior
bem-estar de toda a população.

TEORIA DAS VANTAGENS COMPARATIVAS

Entretanto, esse jogo para nas fronteiras nacionais. E por isso, a teoria das
vantagens comparativas. Naquilo que conseguimos acumular melhor, haverá
um preço mais barato. E então, haverá preço mais barato, e será melhor para a
sociedade comprar o que outras sociedades conseguiram acumular mais
eficientemente e então vender mais baratos.

A OMC se autorreconhece como ricardiana, na medida em que reconhece a


teoria das vantagens comparativas. Ou seja, é melhor que as mercadorias fluam,
pois produzem-se de modo mais barato, sendo mais vantajoso comprar a
mercadoria mais barata em outros lugares. Tão lógico que RICARDO defendeu
no Parlamento que nada teria sido mais sábio do que o Tratado de Methuin,
pelo qual Portugal (sendo mais capaz de produzir vinhos mais baratos) vendia
vinhos para a Inglaterra, e esta vendia manufaturas para Portugal. E assim,
todos aumentariam seu bem-estar.

Na prática, Portugal se endividou com a Inglaterra, se desindustrializou e hoje


não é nada. E daí a importância da tecnologia, na qual tem um valor agregado
muito maior do que produtos manufaturados, os quais, por sua vez, têm mais
valor agregado que a matéria-prima.

Aula 12
ALEXANDER HAMILTON
sexta-feira, 4 de maio de 2012
18:59

MADISON - Criador da Constituição


WASHINGTON - Independência dos EUA
HAMILTON - Criador do Estado norteamericano

Trata-se de figura do calibre de alguém que está na nota de $10,00. Em todos


os lugares pelos quais passou, HAMILTON era considerado a pessoa mais
inteligente do lugar. Nasceu em alguma ilha nas Antilhas. Um padre o ajudou a
estudar direito em Columbia. Lá, encontrou GEORGE WASHINGTON, decidido
em fazer os EUA tornarem-se independentes da Inglaterra, a maior potência
econômica, política e militar da época. Aos 34 anos, HAMILTON foi escolhido,
logo após a Independência, o primeiro secretário do tesouro norteamericano
(equivalente a ministro da Fazenda no Brasil). E lembre-se: por suas políticas, os
EUA tornaram-se a nova maior potência do mundo.

Quando ocorrem as lutas pela independência e WASHINGTON se torna o


primeiro presidente, HAMILTON, na condição de secretário do tesouro, lança
dois textos. E muito mais importantes para a compreensão de seu pensamento,
são fundamentais para a história dos EUA. Um dos textos é Report on
Manufactures (o que lemos hoje), o outro é o Report on Public Credits. É um
retrato da política de países de industrialização atrasada.

HAMILTON percebe o que importa para uma nação produzir riqueza e ter como
posicionar-se perante outras nações é a indústria. Simultaneamente, gera
riqueza e poder. Não há como ter projeção internacional sem capacidade de
forjar armas. E para isso, é preciso uma série de meios para a industrialização.
HAMILTON é profundo leitor de Adam SMITH. Fala em divisão social do
trabalho, mas como as relações internacionais são desiguais, os países atrasados
terão políticas para impulsionar sua indústria. As teorias que tratam os agentes
como iguais não se aplicam aqui.

O que deve fazer um Estado em um país sem industrialização? Se a Inglaterra


está 100 anos a frente, o que pode ser feito? "O Estado deve suprir as
deficiências do setor privado".

Essa política de suprir as deficiências é percebida por HAMILTON em um lugar


com protestantes fugidos, índios a eles submetidos e negros escravos, onde não
há capital. Quer-se a indústria para ter soberania econômica. Ao mesmo tempo
que ao setor privado falta capacidade de realização de setores produtivos, é
preciso também do setor financeiro (daí o Report on Public Credit), em que
organiza a emissão de capital por parte do Estado, para financiar a
industrialização.

Simultaneamente, há um protecionismo industrial norteamericano, e copia da


Inglaterra um esquema da dívida pública, possibilitando a indústria. Ou seja, é
algo absolutamente contrário a SMITH e RICARDO, seus mentores intelectuais.

FURTADO: Quanta diferença entre os americanos e brasileiros liberais. O


americano nota que estava no momento manufatureiro, ao passo que o
brasileiro entende que está no momento do livre comércio. É a diferença entre
HAMILTON e VISCONDE DE CAIRU, em que aquele é antiperiférico e
industrializante, e este justamente o contrário.

Após WASHINGTON, entra na presidência THOMAS JEFFERSON, criador do


partido Republicano, em oposição a HAMILTON. Considerava-o um monarquista
que minava as instituições republicanas americanas, com o objetivo de ter o
outro presidente como o novo rei. Isto porque HAMILTON era de fato muito
elitista. JEFFERSON era latifundiário, senhor de escravos e, paradoxalmente, fã
de jacobinos.

Seu vice, chamado BURN (sic) (também um aristocrata rural), que havia sido
auxiliar direto de WASHINGTON, afirma que HAMILTON o ofendera de maneira
profunda, desafiando-o a um duelo. A ideia de duelo ainda era reminiscência da
Idade Média entre os nobres. Uma vez enfrentados, a honra estaria redimido. A
prática era de dar tiros ao alto. Mas o vice não segue a regra e assassina
HAMILTON com um tiro no peito.

E então, mesmo com isso, o caminho industrial norteamericano não parou. O


industrialismo dos EUA se objetiva e segue seu próprio rumo. Portanto,
transcende seus criadores. Enfrenta a possibilidade de existir, e vencida a
possibilidade, ultrapassa a força de seus criadores. O Estado norteamericano
torna-se industrialista, independente da presença de HAMILTON no governo e
até de opositores na gestão.

FRIEDRICH LIST, um nacionalista alemão, visita os Estados Unidos. Em 1840,


publica o livro "Sistemas Nacionais de Economia Política". Estuda HAMILTON e
seu experimento, tendo a prova cabal de que países de industrialização atrasada
(em relação à Inglaterra), há apenas uma coisa a se fazer: proteger a
manufatura com tudo o que for possível - armas, tarifas, entre outros. E com
esse livro, dá as bases para o industrialismo alemão.

EUA e Alemanha são os maiores exemplos do chamado CATCHING-UP, de


alcançar os que estavam na frente. Partiram na corrida industrializante muito
depois, mas conseguem ultrapassar a industrialização originária, e tudo com
fortíssima intervenção estatal para criar, proteger e financiar a indústria.
Quando as indústrias estiverem fortes nacionalmente, passam a vender
também no exterior. E o encontro dessas grandes indústrias e políticas vão para
fora da nação. E vêm as colônias dos impérios.

BRASIL

Então, Inglaterra, EUA e Alemanha industrializam-se. No Oriente, com a reforma


Meiji, o Japão faz o mesmo. O país atrasado quer correr para ter a principal
forma de reprodução do poder, que é a indústria. Se HAMILTON escreve em
1790, e portanto, atrasado em relação à Inglaterra, na América Latina algo
parecido é forjado ainda mais atrasado, na década de 1930.

COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE (CEPAL) - Diz


basicamente o mesmo que HAMILTON: (i) riqueza é igual a indústria e (ii) país
atrasado precisa de força para quebrar a distância, e esta força é o Estado. Ou
seja, precisa-se de políticas fortes de industrialização: criação, financiamento e
proteção da indústria. O fortalecimento da mente das pessoas leva à
endogeneização das capacidades técnicas. Daí a CEPAL falar em políticas para
indústrias latinoamericanas, com fortalecimento da capacidade intelectual
humana na América Latina, superando a condição de dependência, a condição
periférica, a condição subdesenvolvida. E daí a preocupação com o mercado
interno.

A industrialização atrasada acaba na nossa própria Constituição, pelo Art. 219:


"o mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a
viabilizar o bem-estar social, o desenvolvimento cultural e a autonomia
tecnológica do país, nos termos de lei". O mercado interno, todas as relações
econômicas, será incentivado de modo a alcançar esses objetivos. Não há
portanto livre mercado, senão mercado funcionalizado, vertido a um fim.
Governo vem do grego cubernare, que é o leme do navio. O mercado será
governado de modo a viabilizar objetivos que transcendem, que são mais
importantes do que a existência do mercado. E isso deve reorganizar o que está
na economia.

De fato, o Art. 219, CF tem origem em HAMILTON.

Se a OMC é ricardiana, como já foi falado anteriormente, na medida em que


tem no livre comércio o maior benefício possível a todos os países, a China e os
EUA são claramente hamiltonianos. Para OBAMA, por seu recente discurso,
trata-se de lançar o novo momento Sputnik. Todos os anos, os EUA investem 1,2
de seu PIB, se recurso estatal, em inovação tecnológica. Na realidade, é apenas
a continuação de algo que sempre existiu.

E é dessa realidade que a professora Maria da Conceição Tavares chama o


arranjo econômico americano de KEYNESIANISMO MILITAR, nunca acaba a
intervenção do Estado norteamericano. Mas os republicanos não diminuem os
gastos públicos? Não exatamente. A estrutura que alimenta a economia é a
estrutura do Estado, é a que garante a existência do modo capitalista de
produção. E se aplica a LEI DE WAGNER, de que os gastos públicos apenas
aumentam. Código Civil é a proteção do direito de propriedade, o que exige
polícia. E para que ela exista, aumentam gastos públicos. Mas a proteção da
propriedade acirra conflitos sociais, que são incorporados na racionalidade do
Estado, o que exige também mais gastos públicos. E no longo prazo, os gastos
públicos sempre aumentam.

Deste contexto que surgem os investimentos para a criação da bomba-atômica,


do microondas e até da internet, originalmente rede do exército
norteamericano. Tudo veio de dinheiro público. Por isso a internet é
caracterizada como um experimento militar com cultura hippie. Software, no
início, é sempre livre. Mas depois isso passa a ser protegido por direitos de
propriedade intelectual. É um enorme experimento caucado na racionalidade
do Estado em uma estrutura para aumentar sua economia.

Toda essa volta para analisar os gastos militares dos EUA e ver que,
historicamente, eles sempre aumentam. São o que garantem impulsos na
economia norteamericana.

CONCLUSÃO

Um país de industrialização atrasada, se quiser ter chance de negociar no


conserto internacional das nações, precisará de recursos, o que será capacidade
produtiva e defensiva ao mesmo tempo, de modo a vencer da metrópole. No
caso dos EUA, HAMILTON é o organizador mental. No Japão, suas dinastias. Na
Alemanha, LIST. Em alguns países, nada.
No Brasil, em 1930, depois de muitos positivistas gaúchos prevendo a indústria,
e de muito tempo de exportação de café como a atividade plausível, aparece
GETÚLIO VARGAS. Há países que fizeram muito pouco: na Argentina, todo o
experimento peronista foi desmontado pelos militares. E daí em 2012 Cristina
Kirchner nacionalizar a indústria de petróleo, tentando imitar a Petrobrás.
Tentativa extremamente atrasada.

Estamos vendo o que a China está fazendo. É o Partido Comunista que governa.
O que é? Uma enorme máquina de criação estatal. Alguns investimentos são
abertos a estrangeiros, pois há um enorme mercado interno potencial, o que
atrai inúmeros investidores. E então, o Partido Comunista exige que aquele que
fizer pesquisa, desenvolver manufatura dado por seu plano quinquenal de
metas, poderá investir.

Já vimos uma economia política liberal. Este foi retrato de uma segunda
economia política, de cunho nacionalista. Na aula seguinte, com MARX, teremos
uma terceira via, baseada no mundo do trabalho.

Aula 13
KARL MARX
sexta-feira, 4 de maio de 2012
22:32

Temos por objetivo na aula compreender o método da crítica da Economia


Política, o conceito de relações sociais de produção. Nota: claro que é feita aqui
uma grande simplificação.

Que sociedade é esta que está sendo construída? Os fisiocratas, Adam SMITH e
RICARDO falaram em divisão social do trabalho, enfocaram seu estudo na
produção. Crianças divididas em trabalho fazem mais pipas do que cada um
individualmente. HAMILTON coloca a necessidade de um artefato industrial
com divisão social do trabalho tão relevante quanto os que a Inglaterra tinha.
MARX também olha nessa esfera, mas como?

MARX tem um triplo e articulado olhar: (i) a filosofia alemã, (ii) a economia
política inglesa e (iii) a teoria política francesa, divisão considerada uma grande
simplificação, mas que foi usada por muitos, como LENIN. É no centro do
capitalismo que MARX se assenta e realiza seus estudos, após rodar vários
lugares de perseguição por sua atuação política.

I - ECONOMIA POLÍTICA INGLESA, o ápice da economia no mundo, com Adam


SMITH e RICARDO, que faz a tradução do capitalismo.

II - FILOSOFIA ALEMÃ, a mais alta forma de abstração de como se forma o


conhecimento em nossas mentes sobre o mundo. Como se dá a forma de
relação conflituosa entre uma espécie e todos os produtos que tal gera para
conseguir sobreviver. HEGEL está em um nível de organização idealista, e MARX
põe a fórmula do movimento conflituoso, reconhecendo-o, mas não das ideias,
e sim um movimento conflituoso dos homens, e contra os homens, que os
envolve por completos. Se como espécie não fomos capazes de subordinar o
ambiente às nossas necessidades, o ambiente subordina o homem. Se não se
doma o tigre, ele nos come. É a materialidade das coisas, nossa biologia. Sai de
um idealismo, de um materialismo empírico, para a criação de MARX do
MATERIALISMO HISTÓRICO. Traduz o conflito social.

III - TEORIA POLÍTICA FRANCESA - É ali que se fala na ideia de que a vontade
geral importa para definir quem nos governa, como muitos republicanistas
franceses o fizeram. Lembre-se até hoje da importância da República na França
até hoje. Dentre os republicanistas, cita-se Rousseau, mas também as várias
seitas revolucionárias. É nelas que MARX faz sua teoria política. Pega os
elementos anteriores e os coloca para a prática.

________

Por estudar a economia política inglesa, MARX sabe que se deve analisar a
esfera da produção. É sempre outra coisa também. A totalidade do sistema, os
homens produzindo as condições de sua sobrevivência. Os homens fazem a
história, e não da maneira que querem, senão das condições que encontram.
Caso não partamos da produção de nossa história, não a realizamos. É preciso
produzir as condições de nossa história, submeter o ambiente a nossas
necessidades.

Ao se fazer isso, gerando a primeira produção, extraímos desse ambiente um


excedente que paira, o resultado dessa produção. Tal excedente está para ser
objeto da distribuição. Mas quem tem um jato de 56 milhões? Sem o jato,
certamente não se pertence ao Saint Paul Club, onde alguns investidores
norteamericanos domiciliados em NYC podem entrar quando um puder ser
comprado. Talvez trabalhe lá, caso tenha muitos contatos, pois, afinal, "é uma
honra lá trabalhar". E mais ainda, o filho de Warren Buffett, a filha de Bill Gates
poderão ter o jato que deu sua entrada. Portanto, a distribuição é dada
socialmente, e de modo coletivo. É dado pela classe social. Qual a capacidade
que tal classe social de pertencer tais bens? Não sendo parte de certa classe
social, onde se herdam jatos de 56 milhões, não se herdarão jatos. É a
distribuição pela classe social.

Um computador que dá suporte à IBM com valor de 46 milhões está à


distribuição de quem tem 46 milhões. Quem tem a quantia está no circuito de
distribuição. Mas nem é preciso ir tão longe. Na porta da faculdade, R$600,00 é
quase um salário mínimo. Não há lógica de pegar tudo o que se recebe por mês
para comprar um computador. Neste caso, somente participa da distribuição
quem tem condições de pagar entre R$600,00 e R$3.000,00. Distribuição tem
como pressuposto a classe social.

Sem fazer parte do circuito de distribuição, jamais haverá a troca, pois a


condição de classe é outra, não atinge a detenção daqueles bens. Se houver,
realiza-se o ato individual de troca, e se consume. Consumindo, produz-se
também.

______

Por que de toda a totalidade orgânica é a produção a ser olhada? Porque é a


partir da produção que se tem o consumo.

Hoje, muitos têm iPad. Há quatro anos, isso nem sequer existia. E no começo,
era extremamente restrito. O iPad tornou-se "indispensável". "A Apple cria a
necessidade", tão bons os produtos que se gera necessidade, afirmou Steve
Jobs, o que revela muito sobre o capitalismo.

Suponha-se que se crie terapia para prevenir doenças genéticas de crianças.


Talvez tenha a doença, talvez não. Hoje não há a terapia, mas quando ela existir,
pode haver um consumo. Produziu-se uma terapia, e então o consumo. Sem a
produção, o consumo é impossibilidade lógica.

______

Se a produção é o núcleo da totalidade orgânica, quem realiza a produção?


Aqueles que colocam seu trabalho ali. Em uma loja de calçados, há todo um
sistema para pegar os sapatos. Se apenas o detentor do modo de produção
remanescer, não haverá funcionamento. É o trabalho que se realiza. Professor
cita o fato de empregados brasileiros serem tratados como empregados
asiáticos quando na Ásia, e a dificuldade que têm nisso. Força de trabalho é
pressionada com gritos, humilhação, tapas e trancar na sala. E há várias
denúncias no MPT sobre produção de empresas asiáticas no Brasil. A riqueza
está na capacidade de entregar ou não a produção.
Por isso, MARX coloca a necessidade de olhar para essas relações.

Para chegar nessa conclusão, o que teria de fazer? Colocar a realidade em outra
perspectiva. A realidade se nos apresenta de maneira abstrata. O que vemos, o
que captamos com nossos conceitos é como a realidade nos apresenta. Mas é a
aparência da realidade, e não a essência. Para chegar à essência, é preciso de
uma ciência. E que ciência é essa? O materialismo histórico. É preciso ir ao
concreto, às múltiplas determinações que fizeram gerar a figura que vemos, e
diante delas, recorre-se a outro abstrato, mas fruto do materialismo histórico-
dialético.

Quando se vê a matéria de direito romano, há vários conceitos. A análise


aparente responde afirmando que matérias têm programas na USP. Como tem
um programa, há alguns conceitos a serem tratados. O conceito tratado é
ensinado porque está no programa. O que a forma da economia política
analisaria? Vai-se para trás da aparência ("está no programa"), e se faz a crítica
da economia política, olhando as múltiplas determinações das coisas estarem
aqui. Pode-se então dizer que se estuda direito romano pela recepção do direito
romano com o ressurgimento do comércio na Europa. A burguesia ganha sua
luta de classes com a classe feudal. Então, por que temos aula sobre simulação e
erro? Para que os títulos circulem com certeza, para que a maisvalia consagre-se
nas relações de produção.

De um abstrato fomos a um concreto, e retornamos com um novo patamar de


abstração.

O salto do senso comum é ir além do primeiro patamar de abstração. "Há muito


me preocupam os efeitos deletérios do óbvio", afirmou ALAÔR CAFFÉ. É
prejudicial acreditar na aparência, pois a realidade é muito maior do que a
aparência. E disso MARX afirmar que quem produz a riqueza são os
trabalhadores, e não os detentores dos meios de produção. E começa a luta
prática, real, para a mudança da realidade e da vida material.

Aula 14
MARGINALISTAS E LÊNIN
sexta-feira, 11 de maio de 2012
18:47

NEOCLASSICISMO, MARGINALISMO OU UTILITARISMO


Se retomarmos o que conversamos até agora, falamos em uma economia
política (i) liberal, burguesa, uma (ii) nacionalista e uma (iii) do mundo do
trabalho. A chamada revolução (ou restauração) marginalista é uma
reconstrução da primeira economia política. Não se dá no vácuo, não é um
mero dado matemático. É um prosseguimento, um ponto de chegada de uma
série de reflexões ancoradas no mundo social, de uma disputa da burguesia
para colocar a seu favor a compreensão das instituições sociais. A cognição do
mundo é gerida pelas relações de poder.

Assim, ao nos aproximarmos dos neoclássicos ou marginalistas, já sabemos que


isso deriva de uma tradição cuja origem está nos fisiocratas, como esta figura do
agente individual maximizador de seus interesses é desenvolvida teoricamente
até esse indivíduo que aqui vemos. Este indivíduo racional e maximizador passa
a ser o centro nesta teoria de toda a organização social e da compreensão sobre
ela. É porque derivado, dentre outros, de BENTHAM, de que procuramos
maximizar o prazer e evitar nossa dor (uma psicologia binária, então
transformada em uma enorme tabela), que somos capazes de fazer o cálculo da
utilidade marginal mais apropriada. É porque queremos maximizar a obtenção
dessas utilidades que vamos a outros, que, por sua vez, a estão produzindo, mas
não de todas as necessidades. Porque as demais necessidades são melhores de
ser produzidas por outros. É melhor que cada um de nós se especifique em dada
forma de produção.

Para que maximizemos, buscaremos no mercado a satisfação de nossas


utilidades. E no mercado nos encontramos com outros indivíduos
maximizadores de nossas utilidades. Vou ao mercado e quero comprar uma
caneta, algo útil para mim. É algo que eu quero, portanto. Quem tem caneta
para vender? Eventualmente, alguns terão canetas para vender. Um dará o
preço de R$12,00, se todos darem o preço de R$12,00, será preciso calcular se a
utilidade que a caneta tem para mim vale R$12,00. A partir do momento em
que não se reconhece esse valor, e o máximo que se permite pagar por aquela
utilidade marginal é R$11,00, o máximo do preço para obtenção da utilidade, o
preço significa, em seu reverso, o máximo preço passível de ser cobrado por
aquele que produziu.

Portanto, uma unidade de preço que exceda aquele preço que o consumidor
deu para aquele produto ultrapassa o que o consumidor quer pagar, e não vai
comprar. Portanto, o máximo de custos que aquele pode vender é aquilo que o
comprador está disposto a pagar. Isto porque se disser a ele que o máximo a
pagar será de R$12,00, e os custos são de R$13,00, será retirado do mercado. E
então, terá de adequar seu custo marginal (o último custo ao qual os
consumidores vão comprar).
1. Racionalidade máxima de todos os indivíduos, que fazem cálculos para
maximizar sua utilidade.
2. Em busca dessa maximização, os indivíduos encontram-se no mercado e se
equilibram a partir do máximo que o consumidor está disposto a ir, e portanto,
o máximo que o produtor pode ir para se manter no mercado.

Daí as sucessões dos equilíbrios: o primeiro do indivíduo consumidor, e o


segundo do indivíduo produtor. E disso, o equilíbrio setorial, do mercado das
canetas. E desse segundo equilíbrio, um equilíbrio geral, entre todos os
mercados.

Disso, há três derivações possíveis, pois é a ortodoxia vigorante em nossos


tempos. Ela escreve parte considerável de nossas vidas. Esta forma de
compreensão das relações econômicas está nessa teoria.

APLICAÇÕES DO CONCEITO NEOCLÁSSICO

Quando se julga no antitruste, é preciso definir o mercado relevante, no qual o


vendedor pode aplicar um aumento razoável e não transitório dos preços de
maneira a não ser contestado por outro. É a definição do espaço daquele
produto. Faz-se utilização exatamente da forma neoclássica. Consegue
aumentar o preço? Qual o impacto disso? Qual o impacto dos consumidores na
definição dos preços? Outra aplicação está na substituibilidade dos produtos
dentro desse mercado. Se há dois produtos, um é Coca-Cola e outro é Gatorade,
se a Coca aumentar seu preço, migra-se para o consumo de Gaterade? Se o
custo marginal da produção da Coca não for mais R$10,00, senão R$12,00, e se
passa a cobrar o novo preço, se os consumidores disserem que não, e migram
para o Gatorade, coloca-se no mesmo mercado os dois produtos. Compõem o
mesmo mercado relevante. Os vários produtos que o consumidor, raciocinando
de maneira utilitarista para maximizar seus interesses, exerce pressão
competitiva para os preços.

2. Porque os indivíduos são racionais e se equilibram, obtendo maiores


utilidades, podendo realizar um círculo virtuoso da economia, deriva-se uma
política. Da analítica da escola, tem-se uma política. Se os indivíduos são
racionais, é preciso de políticas de desregulamentação dos mercados, pois é a
melhor forma dos indivíduos inter-relacionarem-se, e assim, reequilibrar a
economia. Desta analítica, deriva-se toda uma política jurídica de
resregulamentação, dos vários serviços. Isso significa o que? Privatizar os
serviços públicos, pois não têm mais os preços administrativamente regulados,
senão privadamente regulados.

Na Bolívia, privatizou-se o preço da água. As pessoas podem utilizar a água que


desperdiça água, o que constitui uma ineficiência. Se há privatização da água,
usarão os indivíduos o máximo de sua utilidade para melhor gerir a água. Foi
essa a sugestão do Banco Mundial. O que ocorreu na prática? Os preços foram
aumentados pela empresa, as pessoas passaram a recolher água em baldes, o
governo proibiu, e houve protestos. Acabamos com Evo Morales eleito.

3. De todos os indivíduos racionais, os mais racionais são aqueles que estão


estruturados tecnologicamente para ir à busca de seus interesses financeiros.
Dos que têm cálculos financeiros e matemáticos, que são os bancos e fundos de
investimento. Portanto, sempre que um banco age, que é racional, busca a
maximização de seus interesses. Ele nunca incorrerá em erro, portanto. A
melhor política é de liberar os fundos de investimento e bancos para realizarem
o que quiserem entre si. Se sempre maximizadores de seus interesses, e
dotados dos melhores cálculos, não incorreriam em erros. Logicamente, não
seria possível um erro. Essa foi a política de Adam Greenspam.

O problema da teoria é a realidade. A aplicação radical das políticas de


desregulação levou justamente à crise de 2008.

LÊNIN

O primeiro passo da análise é o mesmo dos utilitaristas: a economia de livre


concorrência, que entre 1840 e 1870 teria ocorrido na Inglaterra. Para os
utilitaristas, concorrência é o espaço no qual os indivíduos maximizadores de
seus interesses encontram os demais, limitam-se os ganhos, e tudo está em
equilíbrio. Estando em equilíbrio, vai-se para uma segunda rodada de
interesses. Como é a melhor forma de regular interesses, é preciso ao máximo,
por esta analítica, propor uma política de desregulação de preços, do caminho
das mercadorias, do trânsito do capital, e assim por diante.

LENIN sai da mesma análise. Onde se pode ver livre concorrência, de fato se
observa que uma pessoa concorre com outra. Mas o resultado não era esse
equilíbrio que esta apologia fala sobre si mesma. Em um ambiente nacional
como o que temos aqui, dois são os principais produtores naquele país, que são
famílias. Vendem para satisfazer a maximização dos lucros dos que compram, e
lucram. Um dos produtores vendem em alguma parte, e outro vende em outro
espaço. Por alguma razão, um vende mais do que o outro - talvez porque haja
mais pessoas em um lugar. A família produtora que vendeu mais investe mais
para que ganhe mais. E o outro também o faz, passando a vender nos lugares
onde somente um vendia.

Mas uma família acaba vendendo muito mais do que a outra. Uma delas passa a
conseguir vender não apenas onde já vendia, mas também em outros lugares:
conseguiu comprar caminhões e outras coisas para expandir seu mercado. E a
outra permanece restrita em seu lugar. E eventualmente, a família que vendia
para todos vende também naquele local restrito. Talvez alguns, neste lugar, não
comprarão do novo produtor, pois compram há muito tempo do antigo. Mas o
consumidor, ainda que leal, acaba comprando do novo produtor, que vende a
preços muito mais baixos. Afinal, o consumidor também tem vários problemas.

Em algum momento, pela competição, o produtor regional sucumbe e


desaparece para o grande produtor. Esta foi a origem dos grandes
conglomerados na Alemanha, com a origem da Bayer, por exemplo. É o
processo de monopolização visto em várias economias.

Mas LENIN coloca a consequência. A família que adquiriu o monopólio vende


para todo mundo. Gerações depois, é possível até que um gerente da empresa
seja um dos familiares daquele antigo produtor. Vende para todos. E para
aumentar seus ganhos, atinge novos mercados, que é um outro país. O
produtor alemão começa a vender os tecidos no mercado inglês.

Mas na Inglaterra, se ainda em vigor os atos de navegação da rainha, melhor


que os navios voltem, ou serão afundados. Se não estiver mais em vigor, até
podem tentar, mas não vão conseguir, pois a indústria inglesa, consolidada por
muito mais tempo, com mais tecnologia e mais logística, é muito mais forte, e
consegue vender a preços menores. No começo, nem entravam pela Marinha,
quando houve possibilidade de negociação, os preços eram muito mais baratos.

Então, vão para outros mercados. São a África, a Ásia e a América Latina. E os
alemães encontram nesses lugares com os ingleses. E então, conclui-se que não
vender na Inglaterra é adequado, mas não poder vender nesses outros lugares,
inaceitável. E disso, a elaboração de uma estrutura política militar que garanta
as vendas mundo afora.

Esta política, derivada de uma necessidade da livre concorrência, é a força


estatal do imperialismo. Por isso, o imperialismo e as guerras mundiais
decorrem logicamente do processo de livre concorrência do capitalismo.

Os produtores recorrem ao Estado. O Estado financia - e precisa de mais


impostos para isso. E treina muito bem seus cidadãos. A Alemanha cria seu
exército. LENIN escreve no entre-guerras. Já prevê que vai haver outra guerra
pela divisão dos mercados, pois é esta a lógica do sistema. Quando os mais
maximizadores tomam conta da atividade industrial, que são os bancos, fazem
gerar uma nova natureza de capital: não mais o capital industrial, senão o
bancário, financeiro. A junção de capital financeiro e imperialismo é o que
caracteriza a lógica mais profunda do capitalismo.

Portanto, logicamente, para LENIN, da livre concorrência advém: imperialismo,


capital financeiro, guerras, e portanto, o colapso do modo capitalista de
produção. BERNSTEIN concorda que da livre concorrência haja supressão de
concorrência pelo poder econômico, e até que haja guerra, mas não haverá
destruição dos serviços do mundo. Ao final, haverá um condomínio, uma gestão
compartilhada das potências imperialistas a serviço de suas empresas. Por
exemplo, criarão instituições de estabilização monetária, como um Fundo
Monetário Internacional. Ou um banco que financie programas de
desenvolvimento mundial, o Banco Mundial. No limite, este condomínio pode
inclusive criar uma instituição que leve ao gerenciamento mundial das relações
de comércio, que é a OMC.

Assim, do período de 1840 a 1870, temos duas análises distintas. Dos


utilitaristas, chega-se à ideia do indivíduo maximizador. Do marxismo, os
conflitos e as nações, tendo por consequência a supressão do sistema ou o
condomínio nesse sistema.

Aula 15
JOHN MAYNARD KEYNES
sexta-feira, 11 de maio de 2012
21:55

O príncipe Harry não é o primeiro a nutrir simpatias com os nazistas, afinal,


ficavam contra os comunistas. Mas alguém na Inglaterra afirmou que o
problema não eram os comunistas, senão Hitler: trata-se de Winston
CHURCHILL. No auge da crise, quando evidentemente os nazistas se tornaram
um problema, CHURCHILL tornou-se primeiro-ministro. KEYNES era da grande
elite burguesa, seus pais eram professores da mais alta elite educacional
inglesa.

O mundo que KEYNES vê é o mundo do laissez-faire. O mundo no qual a


justificativa predominante é a de que os indivíduos de que os indivíduos são
racionais, conseguem ter as melhores decisões, e isso equilibrará a economia. É
a parte mais leve do laissez-faire. Ocorre que, eventualmente, alguns indivíduos
podem não se sustentar, não se adaptar. Em termos mais concretos, podem não
ter conseguido seus empregos, e não ter conseguido seus salários. Estes são os
incompetentes, os fracos. São aqueles que não conseguem equilibrar o produto
que têm para vender com alguém que queira comprar. O valor de sua força de
trabalho não é equilibrado com quem quer pagar. É portanto natural sua
seleção adversa, que sejam selecionados para fora, e não para dentro. Herbert
SPENCER, membro do parlamento inglês, tem teoria caucada na realização de
um liberalismo que é, em realidade, darwinismo social: a economia, para os que
não se adaptam, é processo de seleção natural. Tão importante foi que carrega
o caixão de DARWIN em seu funeral na Abadia de Westminster, juntamente
com NEWTON.

É claro que a literatura simbolizou esses tempos por meio dos miseráveis e
Oliver Twist. O tempo de Sherlock Holmes, Jack o Estripador são reflexos
culturais da brutal condição daquele tempo. O livro de ENGELS sobre a situação
do trabalho é paradigmática nesse sentido, mostrando a quantidade absurda de
pessoas morando em locais minúsculos, sem banheiros e cheios de insetos.
Quando um homem de 40 anos morre, é substituído por uma força jovem de
trabalho, que começa, por sinal, logo aos 3, 4 anos. Se não adaptados, segundo
o darwinismo social, é melhor que sejam retirados, pois isso tornará o corpo
social mais forte, a economia mais forte.

É neste ambiente social e teórico para o qual olha KEYNES. E além disso, é
preciso mostrar que é formado na economia neoclássica. Por ela, é possível
determinar o custo marginal pelo qual o empresário será remunerado por sua
produção, e por cálculos matemáticos, consegue-se regular as expectativas de
investimento.

No meio dessa história, algumas coisas ocorrem. Em seu doutorado, KEYNES faz
uma migração em sua TEORIA DAS EXPECTATIVAS da matemática das certezas
para a matemática das expectativas. A maior contribuição da matemática para a
economia, portanto, diferentemente dos neoclássicos, não é uma teoria da
certeza, senão das expectativas.

Outro elemento de crítica a si mesmo é a divergência de sua classe social, o que


o leva a uma crítica contumaz dos costumes da época. Juntamente com Virginia
WOLFF e outros autores, e sua tendência contrária aos costumes de seu
período, e até sua sexualidade, rompe com os conservadores ingleses (os
tories, o povo para quem, os que não são descendente dos guerreiros saxões
que conquistaram a liberdade da ilha não são nada), ainda que não se alie ao
partido trabalhista - que, à época, tinha uma origem popular. Foi o partido
trabalhista que levou à união dos tories e dos whigs, formados em um único
partido conservador (posteriormente, houve um racha, criando o sistema inglês
atual: trabalhistas, conservadores e liberais).

Quando termina a primeira guerra mundial, havia uma severa crítica às


chamadas medidas gerais para a reorganização da Europa. Sobretudo acerca
das políticas de estrangulamento da Alemanha. Isso faz com que as reparações
de dívida gerassem uma situação econômica cuja consequência foi, como
sempre, recaída sobre os ombros dos pobres, levando à força do regime nazista
(mas que se lembre: regime que teve amplo apoio dos industriais alemães). Na
Alemanha, dois eram os grandes "inimigos": os operários, na forma da social-
democracia, no âmbito interno, e os detentores do capital financeiro
internacional, que eram os judeus.

Pensando na não repetição desse caso, KEYNES, como representante da


comissão inglesa sobre o pacto pós-guerra, na cidade de BRETTON-WOODS,
propõe uma moeda mundial, que seja gerenciada por uma instituição mundial.
A esta moeda deu-se o nome de BANCOR. Proposta esta que foi recusada. A
ideia seria de instrumento de estabilização globais, que venham de fora dos
agentes individuais. De onde tirava isso? De sua teoria econômica.

Para ele, o empresário investe se houver expectativa de ganho. Quando há


expectativa de ganho? Se houver demanda. Se alguém disser que vai comprar.
Suponha-se uma cerveja. O empresário vai investir na fabricação dos bens
quando achar que alguém vai comprar, mas alguém só vai comprar os bens
quando houver capacidade de consumo (a chamada função consumo). As
unidades familiares só realizam função consumo quando estão empregadas.

Por outro lado, o empresário individual somente pensa em si, e por razão óbvia.
Não pensará em benefício do concorrente: o empresário que não se preocupa
consigo acaba, ou não tem mais recursos. Como disse LENIN, a economia
capitalista é uma constante disputa de um contra outro, sendo que sempre se
unem contra os trabalhadores. E o empresário, pensando em diminuir custos,
diminui os empregos. Aquela unidade de produção acaba vendendo mais,
gastando menos.

Qual o problema? O pensamento que traz vantagens individuais gera


coletivamente uma situação ruim. Por isso, KEYNES considera o laissez-faire é
uma falácia. Todos pensando em seu interesse geram interesse à coletividade?
Não, gera em realidade uma crise. Que o laissez-faire tem uma lógica clara não
há dúvidas. O problema é que o mundo não funciona assim. As premissas são
lógicas, mas o resultado só pode ser correto se o corpo social for compartilhado
na prática.

KEYNES analisa justamente isso em sua teoria das expectativas. Como busca o
fim de seus custos individuais, elimina unidades de produção. Isso faz com que a
capacidade de função consumo seja diminuída. E então, quando o empresário
for vender, em uma segunda rodada, não há mais quem compre. Então, a
estabilidade deste sistema que tende ao desequilíbrio está na função demanda:
é preciso que o trabalhador consuma.

Desta analítica, uma política econômica: garantir o poder de consumo dos


trabalhadores. Quem o fará? Se um empresário simultaneamente dispensar
alguns empregados, e, no meio da crise, distribuir seu dinheiro, duas coisas
acontecerão: (i) não resolverá a crise, pois a proporção é muito maior do que o
empresário pode atuar e (ii) ele mesmo irá à falência. Daí a única entidade
capaz de resolver o problema da estabilização da demanda ser o Estado, por
meio de políticas de incentivo da demanda.

É esta mesma lógica de um ente superior da economia acima das racionalidades


individuais leva à proposta de criação de entidade que faça a gestão da
economia mundial. E daí o BANCOR. Assim como nas economias nacionais, seria
possível internacionalmente gerir a economia. Mas foi uma proposta
completamente derrotada. A Inglaterra não era mais a potência mundial.

Os EUA eram o novo império. Não haveria uma moeda mundial gerida por um
banco mundial. Haveria sim uma moeda mundial, mas gerida pelo governo dos
EUA. Um dólar equivale a certa quantia de ouro - é o padrão dólar-ouro. Os
anos pós-guerra, chamado de "Era de Ouro do capitalismo" por HOBSBAWN,
que corresponde à estruturação do Estado de Bem-Estar Social, de 1945 a 1973,
é, em realidade, o período das políticas keynesianas.

Políticas reguladores (ou interventoras) do Estado na economia marcam a


época. Na acumulação primitiva que vimos em MARX, o Estado intervém na
economia para constituir o sistema, expropriando alguns e obrigando-os às
fábricas. Depois, o Estado intervindo para a industrialização, como vimos em
HAMILTON. O que diferencia KEYNES é a atuação do Estado para a formação do
Estado de Bem-Estar Social.

Quem ia para a guerra? Os filhos de pobres. Ainda que o príncipe Harry vá para
a guerra, fica protegido. Como voltam os pobres da guerra? Mutilados,
traumatizados, ou talvez não voltam. Quando voltam da Segunda Guerra,
alguma coisa é aprendida. Se são mais cristãos, alguns se organizam para dizer
como tudo o que estava acontecendo não seria de Deus. Guerra não poderia ser
obra divina, tampouco a situação de miséria. E se é da vontade de Deus que o
pobre nasça pobre, não é possível. Esses socialistas cristãos ou socialistas
faabianos alastram-se, sobretudo na Inglaterra.

Outros dirão que até simpatizam com esses socialistas fabianos, mas os
consideram utópicos. Falam em tomar as fábricas e dividir as pessoas. Era o
socialismo científico, o socialismo trabalhista ou socialista inglês. Por um
pensamento ou outro, criam o Estado de Bem-Estar Social, as massas passam a
compor os governos, e há redistribuição.

Quaisquer políticas dos Estados de Bem-Estar Social são políticas de ativação da


demanda, e assim, de estabilização do sistema. Quando não se precisa gastar
com a escola pública, pois os gastos vem do orçamento público, o dinheiro
sobra para o consumo. Daí a atualidade de KEYNES.
OUTRAS CONSEQUÊNCIAS MENOS ÓBVIAS

O (1) ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL é uma das formas de aplicação das


políticas de KEYNES. Outras também existem:

2. KEYNESIANISMO MILITAR

Em 1985, em Brasília, a professora Maria da CONCEIÇÃO TAVARES estava ao


lado do embaixador soviético quando REAGEN anunciou na TV o programa
"Guerra nas Estrelas". A professora cita como o embaixador soviético terminou
pálido ao fim do discurso: a União Soviética acabara, para seu entendimento.
Foi o maior anúncio de gastos militares feitos até então para um escudo
defletor de ataques e uma nova leva de mísseis nucleares. Uma vez disparados,
poderiam destruir a Terra de 60 a 80 vezes. O que estava por trás disso? Os EUA
usam, para estabilizar sua função demanda, os gastos militares de forma
estrutural. Sempre estão em guerra, financiam uma guerra ou estão em guerra.
Até pouco tempo atrás, eram os iraquianos, hoje os afegãos, já foram os
panteras negras, Nasser no Egito, os comunistas do terceiro mundo, os
mexicanos, os índios.

ORTEGA Y GASSET - "Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos EUA". Os
EUA tomaram um terço do território mexicano.

Os EUA nunca ficaram sem envolvimento em guerra no último século. Por quê?
Porque são uma nação ruim? Não, "americanos são pessoas muito legais". O
problema não é esse, não está na subjetividade individual. Está na estrutura
objetiva, que supera as subjetividades individuais. O keynesianismo militar, para
a professora, sempre tem o empresário em vista. O Estado faz uma mega
compra de seu produto: o complexo militar investe, porque sabe que vai
vender. Ao investir, contrata, e ao contratar, alivia o desemprego e faz a
economia continuar andando. A guerra é um momento da função consumo
dentro da estratégia estrutural da economia norteamericana.

E inclusive, o comandante-cheque das forças de libertação mundial, general


EISENHOWER cita uma grande ameaça (quem libertou o mundo dos nazistas): a
ameaça à democracia é o complexo industrial militar, pois leva a política a seus
interesses. O pós-segunda guerra mostra que a objeção do general tinha razão.
Falamos dos EUA porque são um exemplo de keynesianismo.

3. MEDIDAS KEYNESIANAS NO MERCADO FINANCEIRO

De 2008 para cá, há um modelo interessante. MINSK diz que, em economias


com tendência à estagnação, seja as que não tenham inovação como as com
excesso de inovação, ou seja, com muita concorrência, há tendência ao acúmulo
no sistema financeiro (a diferença de KEYNES entre empreendedor e
investidor). Os riscos dos meios financeiros tornam-se cada vez maiores, para
que os riscos sejam maiores. Quem não segue esse modelo acaba com menos
dinheiro. Há o espírito de manada, segundo KEYNES: é mais sábio errar com
todo mundo do que acertar sozinho.

Nos momentos de aquisição de riscos cada vez maiores e mais pobres, em dado
momento o sistema financeiro precifica e apita: era falso. Assim como no
sistema produtivo também, em dado momento a busca do autointeresse
individual diminuía os custos da empresa, mas gerava grande massa de
desemprego, no sistema financeiro, a busca do interesse pode não gerar um
benefício coletivo, senão uma verdadeira tragédia coletiva.

Não apenas adquirem títulos, como os transmitem. A crise de 2008 surge no


chamado MOMENTO MINSK: adquirem títulos pobres e vendem ativos ainda
mais podres. Não é porque um título podre unido com outro título pobre deixa
de sê-lo. Pelo contrário. Professor sugere o filme Inside Job.

Ninguém sabia? Não há nada claro na manada. Alguém poderia identificar o


absurdo, e a consequência é que não teria lucro, ao contrário de todos os
demais. Alguém não ganha nada, e os demais ganham tudo. Seus acionistas
analisariam: como alguém não ganha nada, e os outros têm lucros
extraordinários? Eventualmente, anos depois, reconhece-se como não existia.
Todos sabem que a música parou de tocar, mas quem vai ser o primeiro a
sentar na cadeira? Saber isso é muito difícil.

Quando vem esse momento, alguém precisa vir de cima e estabilizar o sistema.
E quem vem é o Estado. Sete trilhões de dólares foram colocados para
estabilizar o sistema financeiro pelo Estado Norteamericano.