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FARIA, Ludmilla Feres. Uma política de defesa social ao céu aberto.

Revista Curinga, Belo


Horizonte, v. 22, p. 183-188, 2006.

FICA VIVO! : UMA POLÍTICA DE DEFESA SOCIAL A CÉU ABERTO.

(LUDMILLA FÉRES FARIA - Psicanalista , Aderente da EBP, Diretora do Programa de Fica Vivo do Estado de Minas Gerais)

Resumo : o texto apresenta a construção de uma nova política pública de defesa social, que
tem como objetivo reduzir o número de homicídios em algumas regiões do Estado de Minas Gerais. O
Programa Controle de Homicídios, mais tarde denominado Fica Vivo vai demonstrar as modificações
necessárias para abordamos a violência que se apresenta de forma exacerbada em algumas favelas.
Trata-se de discutir uma nova política para lidar com a violência, e que leve em conta o singular de
cada um.

Palavras-chaves: violência, homicídios, jovens, Fica Vivo!

Que os psicanalistas não tenham pelos números o mesmo encantamento dos cientistas sociais,
isso não nos impede, entretanto de tomá-los como uma escritura na qual é possível ler os efeitos
mortíferos do declínio do ideal e das exigências de gozo. Os dados nos mostram que as guerras
urbanas têm matado mais jovens do que qualquer das grandes guerras mundiais. As estatísticas
revelam também que dia a dia um número maior de jovens, cada vez mais novos, tem-se entregue a
situações onde a morte é um risco iminente. Se o encontro com a morte tem aparecido de várias
maneiras, seja na compulsão a comida, no uso desenfreado dos tóxicos, nas overdoses do trabalho e na
busca incessante pela juventude, é na violência urbana que ela mostra sua face mais pungente.

Um tratamento do mal estar – os dados


Nos últimos vinte anos, o Brasil pôde contabilizar 198.267 assassinatos, números que
assumiram proporções avassaladoras em alguns Estados. Belo Horizonte, esteve durante longo tempo
distante deste quadro conservando sua imagem de “pacata cidade mineira”, o que lhe dava também o
lugar de uma das melhores capitais do país para se viver. No entanto, a partir do final dos anos 90 este
quadro começa a mudar. A polícia civil registrou 325 homicídios em 1997, números que saltaram para
1.150 em 2003 (BEATO, 2005:03), levando Belo Horizonte para o quinto lugar entre as capitais mais
violentas do país, atingindo uma posição semelhante a São Paulo ou Rio de Janeiro.
Esses dados nos apresentam uma cidade que tem em algumas de suas favelas, e não em todas
como se pode pensar, a morte como parte do cotidiano. E ainda mais, que os homicídios têm como
alvo preferencial os jovens do sexo masculino de 14 a 24 anos. No entanto, nada nos dados chama
mais atenção do que o fato de que a grande maioria das mortes acontece entre vizinhos – o “inimigo”
na verdade é o mais familiar. Alguns estudiosos adotam, então, a expressão implosão da criminalidade
e não explosão (BEATO, 2005).
Esses dados estão, entre vários outros, apontados em um diagnostico realizado pelo Centro de
Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais – CRISP, no
ano de 20021. Se as estatísticas são uma forma de dar tratamento ao que escapa a qualquer
organização – o encontro com a morte – são também, em especial, necessárias para o planejamento e
execução de novas políticas públicas. Em resposta ao perigo desorganizado que ronda todos os
cidadãos, ao medo em seu mais alto grau, temos a construção de uma membrana de defesa. Com os
dados pode-se saber previamente onde se concentra o maior perigo e ali intervir.
No estado de Minas Gerais, assim como em quase todo território brasileiro, as políticas
voltadas para a segurança pública estavam ancoradas num sistema de repressão feito pelas polícias e
pelo sistema penitenciário. A criminalidade era tratada como “caso de polícia”, que na maioria das
vezes acabava por gerar mais violência.
Era preciso, portanto, construir um novo modelo de intervenção que levasse em conta o
assustador número de morte dos jovens que vivem nas favelas de Belo Horizonte. Foi assim que um
grupo de profissionais2, coordenado pelo CRISP, se reuniu e concebeu o Programa de Controle de
Homicídio. Este programa vai dar origem, um ano mais tarde, em 2003, à política de prevenção à
criminalidade da Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais.
A proposta central dessa política de prevenção foi estabelecer uma nova metodologia de
intervenção na realidade social, que pudesse quebrar o imaginário coletivo de considerar a
criminalidade um assunto circunscrito à polícia e justiça. Inicia-se um novo enfoque no qual procura-
se desvincular a violência e o crime. Sendo assim, outros saberes passam a ter lugar nesse debate, o
que é uma inovação no contexto brasileiro. Os pilares da nova prática instalada em Belo Horizonte são
orientados pelo diagnóstico produzido por profissionais de diferentes áreas e pela troca de experiência
entre parceiros, o que culminou na proposta da implantação de dois grupos articulados de intervenção.
O primeiro grupo, de Intervenção Estratégica, é composto pelos órgãos de Defesa Social do
Estado: policia militar, policia civil, ministério público e poder judiciário. Este grupo inicia um
processo de interação de informações, de continuidade nos processos e de priorização dos casos, com
o objetivo de incrementar a resolução dos casos de homicídios que, até então, ficavam aguardando a
morosidade e desarticulação do poder público, que regra geral levava à população dos aglomerados da
capital mineira ao descrédito com relação à justiça. Conforme Beato (2005, 15) “os homicídios dos
quais tratamos aqui, por estarem confinados às zonas mais pobres da cidade, eram tratados como parte
do cotidiano das autoridades envolvidas”.
Outra ferramenta para incrementar as ações deste grupo foi a instalação de um Grupamento
Especial de Policiamento em Áreas de Risco (GEPAR), criado para atender as comunidades com
1
CRISP. Pesquisa de vitimização em Belo Horizonte. 2002. Ver resultados em www.crisp.ufmg.br
2
Faziam parte deste grupo inicial: policia militar, policia civil, ministério publico, poder judiciário, prefeitura
municipal de BH, membros da sociedade civil.
maior índice de homicídios da cidade. A relação entre a polícia e a população sempre foi algo
conflituoso em Minas Gerais, como em todo país. Nesses locais ela se torna ainda mais difícil se por
um lado às comunidades solicitam a presença da policia para coibir a ação das gangues e do tráfico,
por outro prefere que esta se mantenha distante, pois suas ações são quase sempre muito violentas.
Desta forma, o GEPAR se propõe a fazer o policiamento participando do cotidiano das comunidades.
Ao fazer um estudo detalhado destas regiões, o diagnóstico geralmente aponta uma
coincidência entre áreas mais violetas e as de maior vulnerabilidade social, que é medida pelo padrão
de acabamento das residências, taxa de ocupação, taxa de mortalidade infantil, anos de estudo, taxa de
analfabetismo da população, índice de infra-estrutura e índice de oferta de proteção social, os quais
apresentam indicadores desfavoráveis em todas as regiões violentas.
Para dar tratamento a estes problemas foi criado o segundo grupo do Programa, o de Proteção
Social. A tarefa desse grupo é construir, junto com a comunidade local, uma rede de proteção formada
por órgãos que trabalham com crianças e adolescentes: escolas, postos de saúde, conselhos tutelares e
lideres comunitários. A principal meta da Proteção Social é desenvolver com os jovens envolvidos
com a criminalidade uma outra saída, através da oferta de vários serviços – saúde, educação, inclusão
produtiva, esporte, lazer, etc.

O Programa de Controle de Homicídios nas favelas – Fica Vivo!


Quando o Programa chegou às favelas encontrou violência a valer em vários locais. Grupos de
jovens armados mesmo durante do dia, famílias sendo expulsas pelo tráfico de drogas, troca de
tiroteios entre gangues, casas sendo invadidas, população amedrontada e mortes, muitas mortes.
Mortes de jovens rapazes, porque passou na hora errada, no lugar errado; por uma dívida de alguns
trocados; porque levou a droga e não pagou; porque olhou para o outro de forma estranha, por uma
namorada...
As favelas apontavam, ainda, o fracasso do planejamento urbano, fundamentado na utopia de
cidades sem males (ROLNIK,2001). Localizadas nas franjas da cidade, os aglomerados criam seus
próprios mapeamentos de acordo com as suas leis. Ruas fechadas para o transito de carros, becos que
terminam em casas amontoadas, horário de funcionamento do comércio, uma população submetida a
um determinado horário e espaço para circular. O jovem de uma vila não pode atravessar a rua tal, não
pode freqüentar qualquer escola, alguns não podem sequer sair de suas casas, ficam ali confinados.
São guetos dentro de guetos, cada vez mais fechados em si.
O Programa encontrou também um clima de hostilidade de vários seguimentos do poder
público: escolas com arame farpado, para que os de dentro não saiam e os de fora não entrem;
policiais na porta de postos de saúde; uma policia agressiva e despreparada; programas de geração de
renda excludentes, onde apenas aqueles que respondem a certo ideal podem entrar – jovens que
cursam a série tal, têm direito à determinado curso de profissionalização e ao mercado de trabalho, os
que não estudam ficam mais uma vez de fora.
Por outro lado, encontrou parceiros dispostos a trabalhar para construir alternativas
que verdadeiramente pudessem incluir os jovens. E, o que é mais importante, muitos desses jovens
estavam dispostos a escolher uma outra forma de vida. Eles buscavam uma escolha que permitisse
uma parada nesse movimento de repetição da violência no qual estavam inseridos
Nesse momento os diagnósticos quantitativos, que até ali orientavam o trabalho, já não são
servem para responder ao que se apresentava de variadas formas em cada local onde o Programa
chegava. A substituição do único pelo típico, criada pelos processos de avaliação estatística, acabaria
por gerar mais segregação. Era necessário abandonar o um por um da enumeração e passar a observar
o único em sua singularidade (MILLER,2005). Para tanto foi preciso criar uma nova denominação
desse trabalho, que estivesse mais próxima do que se pretendia. O Programa Controle de Homicídios
recebeu, então, o nome de “Fica Vivo”. Este significante passou a orientar o trabalho e permitiu
agregar a, cada dia, mais um jovem.
Era preciso se perguntar qual política o Fica Vivo estava disposto a oferecer a estes sujeitos?
Como construir uma política que estivesse disposta a “não excluir, não cancelar, não rechaçar, não se
calar, não obturar, não sufocar, não atormentar”?(RECALCATI,2004). Iniciamos pela oferta de
oficinas de esporte, lazer, arte e cultura para todos os jovens, tentando envolvê-los em um laço
possível com o Programa. Nesse contexto, as regras são mínimas, não importa a idade, funciona em
diversos horários e locais, para que seja possível a participação de cada um.
A atração exercida pelo trabalho vai conquistando a cada dia mais jovens, eles chegam de
quase todos os lugares da favela, começam a circular por ruas que antes estavam impedidos, procuram
os técnicos do programa pedindo novas oficinas, elas vão crescendo. Eles vão chegando e falando
como podem da vida do crime, das mortes, da falta de trabalho, da falta de escola, do sucesso e do
fracasso com as meninas, da família. Alguns logo de início vão dizendo que vão participar, mas não
estão dispostos a largar o seu “negócio”; outros chegam a dizer: “ontem não pude vir, estava no
movimento”. Criam questões: “como vou participar de uma oficina, preciso andar armado, posso levar
a arma”?
A presença da polícia como parceira do programa também causa estranhamento. “Será o Fica
Vivo um programa para descobrir os “marginais” da favela”?
Até que ponto eles podem confiar nos técnicos do programa? Vão entrando com cuidado.
Pedem escolas, querem estudar. Querem fazer um jornal, querem circular por Belo Horizonte. Alguns
nunca foram ao centro da cidade. Iniciam torneios entre favelas do programa. Participam de eventos
nas casas de show da cidade. Vão alargando seus espaços, cada um fazendo um uso possível do Fica
Vivo.
Trata-se, no entanto, de um trabalho que impõe muita cautela, pois sabemos que a
violência é um dos efeitos da desagregação da coletividade. Portanto, uma política que vise tratar da
realidade do coletivo só é possível ao não se deixar levar pelo engodo da completude, ao não se
pretender única e totalizante.
A política de defesa social precisou inventar um sistema novo ao sair de dentro dos
muros das penitenciarias e dos centros de internação, ao abandonar os arsenais de guerra dos quartéis.
O Fica vivo é uma pratica que se faz a céu aberto, ali onde os conflitos aparecem, onde o ilimitado da
causa dos homicídios coloca em cheque os limites dos diagnósticos, da técnica policial, das
informações baseadas nas evidencias.
Os jovens das favelas, mais do que em quaisquer outros espaços da cidade, nos
ensinam que uma nova política que pretenda desembaraçá-los do excesso de gozo deve sustentar um
trabalho que leve em conta o domínio do “para todos”, mas não fique cega ao ponto de impasse de
cada um. Como bem lembra Miller, o valor profético e poético, da recomendação técnica de Freud
está em escutar cada paciente como se fosse a primeira vez, esquecendo a experiência adquirida, ou
seja, sem compará-lo e sem pensar que alguma palavra vinda de sua boca tem o mesmo uso que aquela
vinda de um outro, e até de si mesmo, e instalar-se, na experiência analítica, na estranheza do
único( MILLER, 2005 ).

Referencias Bibliograficas
BEATO, C. Estudo de caso Fica Vivo - Projeto Controle de Homicídios em Belo Horizonte –
In : Programa de Gestão Local de Prevenção do Crime e da Violência em Áreas Urbanas da América
Latina - Publicação do Banco Mundial. São Paulo. (2005) inédito.
Boletim Informativo nº 01 Centro de Estudos em Criminalidade e Segurnaça Pública da
Universidade Federal de Minas Gerais – CRISP, Belo Horizonte, 2003.
MILLER, J.- A. O Homem sem qualidade . In: Revista do Núcleo Sephora- Nº 01.
Novembro/2005. RJ. www.nucleosephora.com/asephallus.
RECALCATI, M . A questão preliminar na época do Outro que não existe. In: Latusa nº 07-
Revista digital da Escola Brasileira de Psicanálise – RJ – www.latusa.com.br .
ROLNICK, R . O que é a cidade (1988). São Paulo: Editora Brasiliense, 2001.
Endereço para correspondência ludffaria@uol.com.br, tel 91336866