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Notícias e conhecimento

Teun A. van Dijk


Tradução de Luciano Bottini,
Heloiza Herzcovitz e Eduardo Meditsch

Resumo Abstract
Neste artigo analisamos o papel do conhecimento nas In this paper I examine the role of knowledge in
notícias da imprensa, sua produção e compreensão. news, news production and news comprehension in
A complexa base teórica deste estudo parte de meus the press. The complex background of this study is
trabalhos anteriores sobre a psicologia do processa- my earlier work on the psychology of text processing,
mento de textos, as notícias e a ideologia. A análise do my previous studies on news and on ideology. The 13
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conhecimento levada a cabo aqui faz parte dos pri- analysis of knowledge undertaken here is intended
meiros esforços de uma pesquisa maior que estudará as part of my first attempts to study in more detail
o papel da ideologia na cognição social em geral, e em the role of ideology in social cognition in general, and
relação com o conhecimento em particular. Parte deste in relation to knowledge in particular. Part of this
esforço é uma tipologia elementar do conhecimento na endeavor is an elementary typology of knowledge as it
forma como se expressa ou é pressuposto no discurso is expressed or presupposed by news discourse.
noticioso.

Palavras-chave: Keywords:
Conhecimento, discurso, notícias, ideologia, cognição social Knowledge, news, discourse, ideology, social cognition
Não há notícia sem conhecimento “O estudo do do” os jornalistas precisam ter conheci-
Nada pode parecer tão trivial quanto a mento prévio do mundo. Qual a natureza
tese de que sem conhecimento não have- conhecimento desse conhecimento, e como ele é adquiri-
ria notícia alguma. Se os jornalistas não nas notícias do e representado mentalmente?
conhecessem os eventos ou os atores das - Os jornalistas usualmente sabem muito
notícias, como poderiam escrever sobre
é vital para o mais dos eventos noticiosos e dos agentes
isso nos jornais ou comentar sobre eles na entendimento noticiosos do que aquilo que escrevem no
televisão? Ainda assim, esta óbvia relação papel. Como eles selecionam qual conheci-
entre conhecimento e notícia tem sido pou-
de muitos mento incluir, e qual conhecimento excluir
co explorada de forma mais detalhada aspectos daquilo que reportam nas notícias?
Neste artigo, examino o papel do conheci- - Como o conhecimento que os jornalistas
mento nas notícias, tanto na produção noti-
fundamentais têm sobre os eventos noticiosos se reflete
ciosa quanto na compreensão da notícia da da produção e nas várias estruturas (manchetes, tópicos,
imprensa. A base teórica deste estudo, bas- esquemas noticiosos, significados, pressu-
compreensão posições, implicações, ordenamen-tos etc.)
tante complexa, se apóia em meu trabalho
anterior em psicologia do proces-samento noticiosa.” das notícias?
textual, meus estudos prévios sobre notí- Essas são apenas algumas perguntas
cias e meu recente trabalho sobre ideolo- básicas entre outras tantas. Questões se-
gia (VAN DIJK, 1987a; VAN DIJK, 1987b; melhantes podem ser feitas para os leito-
VAN DIJK, 1998; VAN DIJK & KINTS- res de jornais: o que precisam saber para
14 CH, 1983). A análise do conhecimento fei- compreender as notícias? Como e quanto
ta aqui faz parte de minhas primeiras in- eles compreendem e como a estrutura da
cursões no estudo mais detalhado do papel notícia contribui para o seu conhecimento
da ideologia na cognição social em geral, e sobre o mundo?
na relação com o conhecimento em parti- Infelizmente, mesmo os estudos con-
cular. Parte deste esforço inclui uma tipo- temporâneos sobre as notícias, que são
logia elementar do conhecimento na forma mais sociológicos do que cognitivos, rara-
como se expressa no e é pressuposto pelo mente se ocupam em profundidade de tais
discurso da notícia. questões (TUCHMAN, 1979; BELL, 1991;
O estudo do conhecimento nas notícias é BELL & GARRETT, 1997). Alguns outros
vital para o entendimento de muitos aspec- estudos tratam de fato da psicologia do
tos fundamentais da produção e compre- processamento da notícia, mas não vão
ensão noticiosa. Como foi sugerido acima, além do que está sendo produzido na psi-
os jornalistas dificilmente podem produzir cologia a respeito do conhecimento (GRA-
notícias sem algum tipo de conhecimento BER, 1984).
“do mundo”, e especialmente de novo co- Uma resposta mais aprofundada para
nhecimento do mundo. Esta consideração estas questões envolveria grande parte
bastante óbvia, no entanto levanta muitas dos estudos da contemporânea psicologia
questões complexas, tais como: cognitiva do processamento textual, mas
- Para entender novos eventos “no mun- nossa meta será muito mais modesta, e

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somente destacará alguns aspectos princi- Denúncias
pais da interface conhecimento-notícia.
As denúncias sobre violência doméstica in-
dicam uma tendência em alta. No ano pas-
Um exemplo
sado, houve 30.202 denúncias de maus tra-
Antes de examinarmos a natureza do co-
tos a mulheres no ambiente familiar, das
nhecimento, consideremos o texto seguin-
quais 75%, isto é 22.385 casos, referiam-se
te: (El País, 5 de fevereiro de 2001): a agressões produzidas por cônjuges ou ex-
cônjuges. O número de denúncias de agres-
64 mulheres foram assassinadas por
sões a mulheres cresceu 2,7% em relação a
seus companheiros no ano passado na
1999, quando se registraram 21.778 casos.
Espanha
Em 2000, os homens apresentaram 9.402
EP, Madri denúncias por maus tratos, das quais pouco
Um total de 64 mulheres foram assassina- mais de um terço, 3.247, estavam relaciona-
das no ano passado na Espanha por seus das a agressões de suas cônjuges.
companheiros ou ex-companheiros, segun-
Por regiões, Andaluzia, Madri e Catalunha
do balanço realizado pelo Ministério do
foram as que registraram maior número de
Interior. Esta cifra indica que ocorreram
denúncias de maus tratos contra mulheres
mais duas vítimas fatais em 2000 do que
e homens no ano passado. Concretamente,
as contabilizadas em 1999.
6.612 mulheres e 2.177 homens na Anda-
No ano passado, 44 homens foram mortos lu-zia; em Madri, 5.122 mulheres e 1.398
homens; e na Catalunha, 2.424 mulheres e
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por algum membro de suas famílias, sendo
que sete foram assassinados por suas com- “Uma 1.021 homens. Já o País Basco é de longe a
panheiras ou ex-companheiras. região com menor número de denúncias re-
resposta mais gistradas: 17 mulheres e três homens mal-
tratados.
Entre as regiões do país, Andaluzia e Ma- aprofundada
dri são as que mais registraram mulheres
assassinadas no ano passado. A Andaluzia para estas Janeiro e Junho foram os meses com maior
registrou 14 mulheres mortas pela família, número de mulheres assassinadas, nove e
oito das quais pelas mãos de seus cônjuges
questões dez respectivamente, enquanto em Feve-
ou ex-cônjuges. Em Madri, morreram 13 envolveria reiro e Maio houve apenas três e dois, res-
mulheres, onze das quais pelas mãos de pectivamente. O período de Maio a Agosto
seus cônjuges
grande parte registrou o maior número de denúncias de
mulheres, chegando a quase três mil a cada
dos estudos da mês, sendo que em todos os meses do ano
Quanto aos homens, a Andaluzia e a Cata-
lunha são as comunidades com mais vítimas contemporânea as denúncias superaram as 2000. Em rela-
fatais no ambiente doméstico, com 11 e sete ção aos homens, as denúncias foram mais
mortos, respectivamente. No entanto, as regi-
psicologia frequentes no mesmo período, sendo 834
ões onde mais homens morreram no ano pas- cognitiva do em Maio e 967 em Agosto; nos outros meses
sado pela ação de companheiras e ex-compa- rondaram as 700.
nheiras foram a Catalunha, as Astú-rias e a
processamento
Para compreender ao menos o primeiro
Extremadura, com dois casos em cada região. textual” parágrafo desta matéria, o leitor precisa
- As mulheres podem ser assassinadas; “Logo, a de conhecimento com o objetivo de produ-
- Algumas mulheres têm (ex)compa- zir ou compreender até mesmo a mais sim-
nheiros; notícia é uma ples história infantil (CHARNIAK, 1972).
- Os companheiros são normalmente ho- complexa No mesmo caminho, alguns anos depois,
mens; ainda na década de 1970, pesquisado-
- Os homens algumas vezes matam suas interação entre res da Inteligência Artificial e psicólogos
companheiras; conhecimento produziram as primeiras idéias sobre for-
- Os Ministérios do Interior mantêm es- matos de representação do conhecimen-
tatísticas de assassinatos; conhecido e to em termos, por exemplo, de scripts ou
- O ano passado é um período de tempo; desconhecido, estruturas esquemáticas semelhantes
- A Espanha é um país; (SCHANK; ABELSON, 1976).
- A Espanha é o país onde vivemos;
e será nossa Ao mesmo tempo, a teoria dos mode-
- Vítimas fatais são o resultado de as- tarefa examinar los mentais (representações mentais de
sassinatos; eventos, veja abaixo) ensinou-nos como
- 1999 e 2000 são designações de anos
essa e outras o conhecimento de um evento específi-
etc. distinções em co usado para processar discurso pode
Ao longo deste artigo, vamos exami- ser derivado de, assim como generaliza-
nar com mais detalhe que tipos de co-
mais detalhes.” do para, conhecimento geral, proporcio-
nhecimento os jornalistas e leitores têm, nando, portanto, uma ponte teórica fir-
e como tal conhecimento é expresso ou me entre conhecimento e discurso, e um
16 pressuposto pelo discurso (noticioso). insight sobre pelo menos um aspecto do
Uma porção de conhecimento novo, não problema clássico de “aprender do texto”
pressuposto, mas colocado no texto, é (JOHNSON-LAIRD, 1983; VAN DIJK &
que 64 mulheres foram assassinadas por KINTSCH, 1983; VAN OOSTENDORP &
seus (ex)companheiros no último ano na GOLDMAN, 1999).
Espanha. Essa é a proposição que forma Portanto, podemos ler uma matéria de
a manchete e a primeira sentença, temá- jornal sobre um caso específico de violên-
tica, do relato noticioso. Logo, a notícia é cia doméstica, e nossa compreensão de tal
uma complexa interação entre conheci- história forma um modelo daquele even-
mento conhecido e desconhecido, e será to. Lendo com mais freqüência sobre tais
nossa tarefa examinar essa e outras dis- eventos no jornal, construimos outros mo-
tinções em mais detalhes. Devemos fa- delos de eventos, e após algum tempo po-
zer isso concentrando-nos em especial no demos inferir um conhecimento mais geral
papel do conhecimento no processamento sobre violência doméstica pela generaliza-
cognitivo do discurso. Mas antes vamos a ção e abstração a partir desses modelos es-
um pouco de teoria. pecíficos. O contrário também ocorre: uma
Conhecimento e discurso vez que já temos certo conhecimento geral
Pelo menos desde a tese de doutorado de sobre o tema, usamos isso para construir
Eugene Charniak em 1972, sabemos que modelos mentais sobre casos mais especí-
as pessoas precisam de um grande volume ficos de violência doméstica. Isso permite

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que os jornalistas formulem apenas as in- to (porém veja o estudo original de Paul
formações que os leitores ainda não têm, Werth, 1999).
de modo que as notícias (como em geral os Da mesma forma, o “conhecimento do
discursos) sejam incompletas em muitos mundo” considerado nos trabalhos de
aspectos simplesmente porque os leitores processamento de texto é visto como so-
conseguem preencher os detalhes necessá- cialmente compartilhado e, portanto,
rios com ajuda de seu conhecimento geral. de certa maneira caracteriza melhor os
Em outras palavras, podemos precisar de grupos ou comunidades do que os indi-
modelos mentais específicos para construir víduos. E, apesar disso, raramente en-
conhecimento geral, da mesma forma que contramos referências a estudos sobre
precisamos do conhecimento geral para conhecimento na Psicologia Social (BAR-
construir modelos mentais específicos. TAL & KRUGLANSKI, 1988; FRASER &
Não sabemos, entretanto, quanto co- GASKELL, 1990), na Sociologia (CAMP-
nhecimento geral é preciso inferir, “ati- “Em outras BELL & MANICOM, 1995; CHOO, 1998;
var” ou “aplicar” na construção de mode- KNORR-CETINA, 1999; MANNHEIM,
los, se basta um mínimo ou se algo é mais
palavras, 1952) e na Antropologia (BATESON,
relevante para entender um discurso em podemos 1972; FARDON, 1995; GEERTZ, 1983;
profundidade. Este é um debate muito precisar de SHORE, 1996). Mesmo dentro da Psico-
importante na psicologia do processamen- logia Social, que seria a disciplina mais
to de texto contemporânea (BRITTON & modelos óbvia para o estudo do conhecimento, é
17
GRAESSER, 1996; GRAESSER & BO- mentais difícil encontrar estudos sistemáticos so-
WER, 1990). bre a natureza das notícias, preteridos
A maior parte deste trabalho na área específicos por estudos sobre “atitude”, por exemplo.
de Inteligência Artificial, na Psicologia para construir O reverso também é verdadeiro. Na Fi-
e na Lingüística, não tem feito muitas losofia, Sociologia e Antropologia do Co-
perguntas sobre a natureza mesmo do conhecimento nhecimento, raramente se encontra refe-
conhecimento. Na Psicologia Cognitiva, geral, da rências, se há alguma, às pesquisas sobre
por exemplo, raramente se encontra uma o conhecimento na Psicologia do Processa-
referência aos estudos da Teoria do Co-
mesma mento de Texto. Podemos concordar todos
nhecimento realizados na Epistemologia. forma que com o fato de que a maior parte do apren-
Com freqüência, psicólogos usam a noção dizado é feita através do processamento
de “crença” (“belief”’), mas dificilmente
precisamos do de discurso, mas muitos aspectos do pro-
são levados a responder à questão pere- conhecimento cesso de aquisição de conhecimentos são
ne, pelo menos desde Platão, sobre a di- ainda desconhecidos. O trabalho sobre co-
ferença entre “conhecimento” e “crença”
geral para nhecimento e discurso de Foucault (1972)
(ver, por exemplo, HINTIKKA, 1962; PO- construir é citado por muitos nas Ciências Sociais e
JMAN, 1999; WILKES, 1997; GRECO & modelos na Área de Humanas, mas é tão ignorado
SOSA, 1999). Mesmo na Lingüística e na na Psicologia do Discurso quanto o pró-
Análise do Discurso, são raros os relatos mentais prio Foucault ignorou o estudo psicológico
detalhados sobre o papel do conhecimen- específicos.” do conhecimento.
Na Inteligência Artificial, muita pesqui- “A maior parte ítens (proposições, etc)? Um milhão? Dez
sa tem sido realizada sobre os formatos de milhões?
representação do conhecimento (MARK- do aprendizado é Em suma, o que necessitamos é de uma
MAN, 1999), mas se compararmos o que é feita através do teoria do conhecimento ampla e multidis-
conhecido hoje e o que era conhecido há 20 ciplinar, e baseada nela uma sofisticada
anos, uma das conclusões é de que progre- processamento teoria sobre o papel do conhecimento na
dimos muito pouco. Temos visto um vasto de discurso, mas produção e compreensão do discurso. Esta
interesse e muitos recursos empregados teoria deveria definir muito claramente
em ciências cognitivas e neu-rociências, muitos aspectos o conceito de conhecimento e especificar
mas por enquanto não sabemos quase do processo de suas relações com outras crenças social-
nada sobre como o conhecimento se rela- mente compartilhadas.
ciona com as estruturas neurobiológicas
aquisição de Um dos produtos desta teoria, como em
do cérebro. conhecimentos qualquer disciplina incipiente, deveria ser
Obviamente, o conhecimento se rela- uma tipologia adequada das formas de co-
ciona com várias crenças, como opiniões,
são ainda nhecimento. Em segundo lugar, ela deveria
atitudes e ideologias, entre outras (VAN desconhecidos.” obviamente detalhar as estruturas das re-
DIJK, 1998). O processamento do discurso presentações mentais do conhecimento e de
também envolve estas outras crenças, seja outras crenças, e as maneiras pelas quais
num breve passar de olhos sobre o jornal, tais estruturas de crenças são empregadas
no acompanhamento de uma sessão par- nas várias formas de processamento, espe-
18 lamentar ou na audiência de um comício cialmente no uso da linguagem discursiva,
político. interação e comunicação. Em terceiro lugar,
Num jornal não apenas encontramos no- esta teoria deveria explicar como os vários
tícias sobre violência doméstica, mas tam- tipos de conhecimento são adquiridos, re-
bém editoriais, cartas ao editor e artigos lacionados com os tipos de conhecimento
opinativos nos quais o tema é condenado, existentes e integrados dentro do sistema
assim como a política de combate à violên- do conhecimento. Por fim, esta teoria deve-
cia doméstica é negativamente avaliada. ria explicar também quais são as condições
Mas apesar dos milhares de estudos so- sociais, culturais e políticas, as estruturas
bre o conhecimento e outras crenças, uma e os processos envolvidos na reprodução do
análise detalhada da relação entre eles conhecimento em grupos e culturas, de tal
continua em pauta. Ou pior: ela ainda não forma que este conhecimento possa ter um
está na agenda. Há inúmeras questões so- papel no processamento do discurso de todos
bre o conhecimento que não são feitas na os membros do grupo.
Psicologia do Processamento do Discurso De toda esta vasta teoria, tratarei aqui
ou em qualquer outra área para resol- brevemente de apenas alguns aspectos,
ver isso. Temos, por exemplo, uma idéia que têm sido negligenciados, sobre o papel
aproximada de quanto conhecimento tem do conhecimento nas teorias do processa-
um membro medianamente competente mento do discurso, para então aplicá-los
de uma comunidade epistêmica? Cem mil no estudo das notícias.

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Tipos de Conhecimento conhecido.
Tanto na linguística como na psicolo- Igualmente, podemos ter conhecimento
gia do discurso, é geralmente feita uma sobre eventos específicos ou sobre as pro-
referência um tanto vaga ao “conheci- priedades gerais que caracterizam um tipo
mento do mundo” (“world knowledge”). de evento (por exemplo acidentes de carros
Para estabelecer a coerência global e local, ou inflação), sobre eventos historicamente
produzir ou compreender tópicos gerais ou proeminentes e complexos como o holo-
macroestruturas, montar infe-rências “de causto, por um lado, e conhecimento social
ligação”, ou construir modelos mentais, é e político, mais abstrato, sobre ge-nocídio,
dito que leitores de notícias e usuários da por outro.
língua em geral têm e aplicam alguma for- Em nosso texto de exemplo, lemos sobre
ma de “conhecimento do mundo” (para de- um fato específico, nomeadamente o assas-
talhes, ver VAN DIJK & KINTSCH, 1983 sinato de 64 mulheres em 2001 na Espa-
e os trabalhos em VAN DIJK, 1997). O nha, incluindo comparações com o número
problema é que tal “conhecimento do mun- de homens assassinados e as variações pe-
do” pode ser de muitos tipos diferentes, e las regiões do país. Ao mesmo tempo, tais
eles não se aplicam ao processamento do fatos (estatísticos) generalizados permitem
discurso da mesma maneira. Vamos, por- inferir sobre o problema geral da violência
tanto, começar fazendo algumas observa- doméstica.
ções sobre os modos com que a vasta quan- Mesmo essas breves observações infor-
mais já parecem sugerir o seguinte critério 19
tidade de conhecimento usado no proces-
samento do discurso pode ser catego-riza- tipológico para uma categorização do co-
da em diferentes tipos. nhecimento:
Na psicolinguística, há referências à
“O problema A - Conhecimento pessoal x social
B - Conhecimento social/grupal x cultu-
noção de “base compartilhada” (“common é que tal
ground”), isto é, o conhecimento ou outras ral
crenças que os participantes de um diálogo
‘conhecimento C - Conhecimento sobre eventos especí-
precisam ter em comum para compreen- do mundo’ pode ficos x sobre propriedades gerais dos even-
der um ao outro. (CLARK, 1996). Note-se, tos
porém, que mesmo essa “base comparti-
ser de muitos D - Conhecimento sobre eventos históri-
lhada” pode ser de diferentes espécies, va- tipos diferentes, cos x sobre estruturas sócio-políticas.
riando do conhecimento sobre experiências A distribuição do conhecimento
e eles não se Vamos tentar tornar essa tipologia um
compartilhadas, objetos contextualmente
presentes até propriedades socialmente aplicam ao pouco mais explícita. Os critérios tipo-
conhecidas do “mundo” natural e social. ló-gicos A e B são baseados nas pessoas
processamento que têm ou compartilham conhecimen-
Além disso, grupos específicos, tais como
acadêmicos ou outros especialistas, podem do discurso to, enquanto os mencionados em C e D
nos dizem algo sobre os objetos do conhe-
ter conhecimento que compartilham com da mesma cimento. O critério A meramente indica
membros do seu grupo, mas que fora des-
se grupo é desconhecido ou só parcialmente maneira.” se o conhecimento é compartilhado ou
não com os outros, no sentido de que o co- “Já o os leitores competentes sabem o que signifi-
nhecimento pessoal por definição é priva- cam mulheres, violência doméstica, assassi-
do, e portanto não acessível aos outros a conhecimento nato, polícia, etc. Algum conhecimento pode
estar limitado especialmente ao país (Espa-
menos que a pessoa o comunique a eles. cultural, por nha), tal como os nomes das várias regiões.
No critério B, ambas as formas de conhe-
cimento são compartilhadas, mas a distri- seu turno, Num determinado sentido, as estatísticas da
violência doméstica são especializadas, por-
buição é diferente. pode então tanto conhecimento de grupo, mas por meio
Isto implica que o conhecimento pessoal
assim é até ser expresso em um discurso ser definido da publicação na imprensa se tornam larga-
mente compartilhadas, e conseguem tomar
(ou outros tipos de comunicação e intera- como todo o um aspecto mais cultural. Se pensarmos nos
ção que permitam aos receptores atribuir
um conhecimento específico a alguém), e
conhecimento leitores desse artigo, podemos admitir não
apenas que mais mulheres estarão interessa-
que esse conhecimento pessoal precisa ser que pode ser das no assunto, mas também que geralmente
expresso em asserções, e nunca é pressu- saberão mais sobre ele do que os homens. Fe-
posto.
pressuposto em ministas podem ser especialistas na questão
O conhecimento social/grupal, por outro todas as formas da violência doméstica, trazendo uma outra
lado, é tipicamente pressuposto no discur- perspectiva. Neste artigo não há expressões
so, embora tal conhecimento possa apenas
de discurso de conhecimento pessoal, como é comum no
ser pressuposto no discurso interno ao gru- público.” caso de reportagens sobre eventos concretos
de violência doméstica, por exemplo, quando
po, e não externamente.
20 Já o conhecimento cultural, por seu tur- os vizinhos escutam o choro da mulher.
no, pode então ser definido como todo o
conhecimento que pode ser pressuposto Devemos analisar mais profudamente
em todas as formas de discurso público. o critério A distinguindo entre conheci-
Vamos chamá-lo de “conhecimento de base mento pessoal e interpessoal. Conhecimen-
compartilhada” (“common ground know- to pessoal foi definido acima; conhecimen-
ledge”), ou simplesmente “conhecimento to interpessoal não é simplesmente conhe-
comum” (CC). cimento “socia”’, como especificado mais a
Em outras palavras, a tipologia proposta frente em B, mas conhecimento dividido
não tem apenas implicações sociais no sen- apenas entre algumas poucas pessoas e
tido de caracterizar a natureza da distri- tipicamente em formas de discurso inter-
buição do conhecimento, mas também tem pessoal, como conversas. E, uma vez sen-
relação com algumas propriedades semân- do compartilhado, ele pode ser pressupos-
ticas e pragmáticas do discurso, tais como to (sob algumas condições especiais, como
a natureza de implicações e pressuposições. disponibilidade) ou relembrado em discur-
Em outras palavras, começamos a observar so entre as mesmas pessoas. Ou seja, as-
aqui as primeiras manifestações da interfa- serções diretas de conhecimento pessoal
ce discurso-conhecimento. ou interpessoal constituem atos de fala
inapropriados.
Portanto, em nosso exemplo, muito do conhe-
Com certeza, no mundo real, interlocu-
cimento pressuposto é geral, cultural. Todos

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tores geralmente repetem asserções do ra inteira, exceto crianças ou estrangeiros
“mesmo” conhecimento, mas irão tam- que ainda precisam adquirir tal conheci-
bém, de algum modo, sinalizar que eles mento. Este tipo de conhecimento é tão di-
sabem que os receptores já compartilham fundido e já faz parte do que é geralmente
esse conhecimento, para que a asserção chamado de ‘senso comum’, de forma que
tome a forma de um lembrete. Ou podem é geralmente pressuposto ou lembrado no
não sinalizá-lo e ficar sujeitos a reações discurso público. Os membros de uma cul-
do receptor do tipo “Sim, eu sei”, que po- tura adquirem esse conhecimento inicial-
dem funcionar como um desafio à adequa- mente por meio de discursos so-cializantes
ção da asserção. no lar ou na escola, e mais tarde em maior
O conhecimento de grupo pode ser ad- escala pela mídia.
quirido em instâncias repetitivas de co- Devemos assumir que esse conhecimen-
municação interpessoal, especialmente “Esse to cultural compartilhado é base de toda
em grupos pequenos em que a maioria a cognição social. Qualquer conhecimento
dos membros interage face-a-face. Sob
conhecimento de grupo ou pessoal em última instância
diferentes condições, essa é também a cultural tem raízes nesse conhecimento comum,
forma de aquisição interpessoal de co- compartilhado mesmo o conhecimento do perito altamen-
nhecimento de grupo na família, entre te especializado. Precisamos de teorias de-
amigos ou em situações profissionais é base de toda talhadas sobre a produção e a distribuição
como, por exemplo, entre jornalistas de a cognição social do conhecimento para compreender
21
um jornal ou enfermeiras de um hospi- os mecanismos precisos desse processo de
tal. Em muitas situações, no entanto, social. Qualquer aprendizagem social. Abaixo, vamos retor-
a aquisição e a distribuição do conheci- conhecimento nar às propriedades cognitivas dessas for-
mento grupal são mais ou menos públi- mas de conhecimento social e suas funções
cas, e acontecem em encontros, univer- de grupo no discurso.
sidades, igrejas, manifestações políti- ou pessoal Conhecimento sobre o quê?
cas, ou por meio de publicações. Desta
forma, o conhecimento se expressa para
em última O outro critério que utilizamos
para esta tipologia do conhecimento
- e é adquirido por - um grupo mais ou instância tem foi a “natureza” dos objetos sobre os
menos extenso de receptores, como pro-
fissionais, membros de uma igreja ou
raízes nesse quais as pessoas, os grupos e as cul-
turas têm conhecimento. Talvez tri-
partido político, ou estudantes de um conhecimento vialmente, os indivíduos tendem a
ramo acadêmico específico. Note-se que
entre interlocutores de diferentes gru-
comum, mesmo possuir conhecimento pessoal sobre
eventos e ações autobiográficos, tais
pos, tal conhecimento grupal não é tipi- o conhecimento como a miríade de episódios que defi-
camente pressuposto, ou o é apenas par- do perito nem suas vidas privadas cotidianas, e
cialmente. conhecimento interpessoal dos even-
Conhecimento cultural, ou base compar- altamente tos em que interagem com os outros.
tilhada, é compartilhado pela maioria ou especializado.” Tais eventos são definidos por parâ-
por todos os membros aptos de uma cultu- metros específicos de tempo, lugar,
ocorrências e participantes, e são, portan- “Modelos o conhecimento (e as opiniões) sobre uma
to, de uma certa maneira, únicos. situação específica com seus próprios pa-
Se uma só pessoa participa ou testemu- mentais râmetros de tempo, espaço, ações/eventos
nha tais eventos, isso tipicamente dá ori- representam e participantes. Modelos mentais repre-
gem a conhecimento pessoal, como no caso sentam como as pessoas subjetivamente
de muitos eventos da vida diária, desde como as constroem os eventos do mundo através de
o momento em que nos levantamos, pela pessoas suas experiências.
manhã, até irmos dormir à noite. Quando Muitas notícias são baseadas em tais
tais eventos são interessantes por alguma subjetivamente modelos mentais. Notícias geralmente tra-
razão (pessoal ou social), transformam-se constroem tam de eventos específicos, e interpretar
em objetos de narração em conversas do tais eventos significa construir modelos
dia a dia, ou, por outro lado, em notícias
os eventos mentais para eles. Em tais modelos men-
na imprensa. do mundo tais, leitores não apenas representam sua
Precisamente porque muitos eventos interpretação pessoal do texto e dos even-
na vida diária voltam a ocorrer várias ou
através de suas tos, mas também suas opiniões, suas as-
muitas vezes, as pessoas podem também experiências. sociações pessoais, e assim por diante. Em
inferir generalizações e abstrações, isto nosso exemplo, temos a manifestação de
é, conhecimento menos específico como,
Muitas notícias uma forma intermediária de conhecimento
por exemplo, minha experiência geral de são baseadas – não é um fato único, mas uma generali-
fazer compras aos sábados, ou meu co- em tais modelos zação estatística de vários casos: os “fatos”
22 nhecimento geral sobre as característi- de um ano.
cas de minha companheira, meus filhos, mentais.” Mas já vimos que as pessoas tipicamen-
familiares, amigos ou colegas de trabalho. te formam muitos modelos mentais sobre
É esta também a maneira pela qual mui- o mesmo evento ou eventos semelhantes,
tas pessoas aprenderam sobre violência tais como as rotinas diárias de ir ao traba-
doméstica. lho, fazer compras ou encontrar os amigos.
Precisamos apenas generalizar e abstrair
Modelos Mentais a partir dos parâmetros únicos de espa-
Esse tipo de conhecimento, pessoal e ço-tempo e as propriedades únicas de um
interpessoal sobre eventos, é tipicamente evento específico, para então formar mo-
representado em modelos mentais guar- delos (ainda pessoais!) generalizados de
dados na memória episódica. Na verdade, tais eventos. Esses modelos generalizados
a memória episódica tem esta designação são ainda pessoais, porque eu sou ainda
porque está ligada à memória específica o protagonista principal de tais modelos
que as pessoas possuem de eventos vividos mentais. Eles representam conhecimen-
e interpretados, e que forma o que chama- to generalizado sobre a minha vida coti-
mos de “suas experiências”. Modelos men- diana: Como eu vou (ia) ao trabalho, faço
tais incorporam as construções de algumas (fazia) minhas compras ou saio (saía) de
das propriedades do evento a que se refe- férias, com quais pessoas me relaciono,
rem: são únicos e pessoais, e determinam quem (também em geral) são essas pesso-

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as, e quais características elas têm. Em ou- em esquemas como pacotes, tais como os
tras palavras, a memória episódica é única scripts que organizam o conhecimento so-
e pessoal, mas não registra apenas modelos bre convenções sociais, como o de como fa-
mentais de eventos singulares, mas tam- zer compras ou comer em restaurantes. O
bém modelos generalizados de eventos pes- mesmo pode ser verdade para estruturas
soais, como também outras representações de objetos, animais e pessoas.
esquemáticas que incluem conhecimento e Mas com exceção de algumas outras
opiniões sobre as pessoas que conheço. especulações sobre as estruturas de tais
scripts ou outros esquemas de conheci-
Conhecimento do Mundo mento, isto é tudo o que sabemos a res-
O próximo passo no processo de abstra- peito. Mesmo que as convenções sociais
ção e generalização nos leva dos modelos sejam representadas mentalmente em
mentais pessoais de eventos específicos ao esquemas como scripts, ignoramos o que
conhecimento geral socialmente compar- acontece num nível mais alto. A mente
tilhado e outras crenças. Se modelos de agrupa as convenções sociais? Agrupa os
ações e eventos são generalizados de tal “O próximo esquemas sobre todos os animais ou so-
forma que não apenas o tempo e o lugar, bre pessoas? É mais fácil ir, através das
ou algumas características da ação, mas passo no fronteiras das espécies, do conhecimento
também os participantes foram abstra- processo de sobre cabeças de pessoas para cabeças
ídos (mas crucialmente o Self), então os de animais, do que ir das cabeças aos
modelos podem tomar a forma de scripts abstração e 23
pés dos humanos? Como se relacionam e
socialmente compartilhados ou outro es- generalização se agrupam esses milhões de esquemas
quema de conhecimento como, por exem-
plo, sobre tipos de objetos, animais, pes- nos leva dos mentais? Como os acessamos e os ativa-
mos? Como os desativamos?
soas, grupos ou estruturas sociais. Jun- modelos Estas e muitas outras questões precisam
tos, tais tipos de conhecimento são tradi-
cionalmente chamados de “conhecimento
mentais de respostas se queremos descrever e ex-
plicar esta extraordinária façanha de como
do mundo”. pessoais mentes/cérebros encontram informação es-
A despeito da vasta quantidade de estu-
dos em muitas disciplinas, esse “conheci-
de eventos pecífica entre milhões de ítens do conheci-
mento em poucos milésimos de segundos.
mento do mundo” é ainda um campo con- específicos ao Ao lermos nos jornais sobre um terrí-
fuso. Não há certezas sobre virtualmente
nada. Trabalhos psicológicos, assim como
conhecimento vel terremoto na Índia (como em janeiro
de 2001), imediatamente acessamos uma
a intuição, sugerem que o grande corpo geral quantidade enorme de conhecimento rele-
de conhecimento que possuímos é organi- socialmente vante, sobre muito do qual nunca tivemos
zado, e provavelmente forma uma grande aprendizado explícito.
rede baseada nos neurônios, da qual algu- compartilhado A explicação tradicional para isso é que,
mas das ligações são usadas e requisitadas e outras ao ler os jornais e assistir televisão, gra-
mais freqüentemente do que outras e, em dualmente adquirimos um script sobre
consequência, tornam-se mais acessíveis. crenças.”
terremotos, e é ele que organiza e geren-
Supomos que o conhecimento é organizado
cia o acesso a todas as informações. Mas é “Queremos to (desde as categorias gerais aos scripts
difícil aceitar que scripts de conceitos cor- para proposições individuais ou outros
rentes (e abstratos) possam controlar o descrever e ítens de conhecimento básico) e eles estão
vasto e inesperado agrupamento de ítens explicar esta todos conectados de forma relevante entre
de conhecimento que as pessoas sabem so- si, então a rede resultante precisaria de
bre isso quando lêem sobre terremotos e extraordinária tantas ligações que mesmo os trilhões de
eventos similares. façanha de conexões de neurônios em nosso cérebro
É específica do script do terremoto a in- não estariam preparados para “represen-
formação de que se pode morrer sob as ru- como mentes/ tá-los”. Isso sem falar na tarefa cognitiva
ínas de uma casa, ou é uma representação cérebros que consiste em gerenciar essa quantidade
mais geral de conhecimento, que pode ser enorme de conhecimento, quais rotas aces-
inferida de um script sobre possíveis cau-
encontram sar e fortalecer, quais espaços demarcar, e
sas de morte? Devemos supor que vastas informação quais mudanças fazer quando em algum
quantidades de conhecimento mais geral lugar algumas alterações são feitas dentro
(como, por exemplo, sobre a morte) são re-
específica da grande rede.
plicadas num grande número de scripts no entre milhões Penso que simplesmente não podemos
qual elas são relevantes, dos acidentes de ainda começar a imaginar a complexidade
carro aos terremotos?
de ítens do da tarefa de um levantamento para uma
Ou será que tais ítens de conhecimento conhecimento teoria cognitiva do conhecimento – sem
geral armazenados e organizados sepa- em poucos mencionar suas dimensões neurobiológi-
24 radamente (por exemplo “causa da mor- cas, linguísticas e socioculturais. As teorias
te” em algum tipo de conjunto) e reto- milésimos de em vigor de scripts e esquemas são apenas
mados somente quando necessitados em segundos.” pequenos passos para colocar ordem nessa
roteiros mais específicos? E se tivermos rede gigante, e sobre como utilizá-la nas vá-
mesmo scripts de terremotos, como tais rias tarefas em nossas práticas sociais diá-
roteiros são relacionados a uma categoria rias, incluindo o discurso. Muito, mas muito
de um nível mais elevado, tal como “desas- mais pesquisa e esforços multidisciplinares,
tres naturais”, que controlaria também os incluindo vastos projetos de investigação
scripts sobre vulcões, enchentes e muitos empírica sobre o que as pessoas realmente
outros? As mortes por terremotos estão as- conhecem, serão necessários para vislum-
sociadas na mente àquelas por acidentes brar o universo mental – diante do qual o
de carro e ataques de tubarões? Ou asso- universo “real”, em vários aspectos, pode
ciamos os terremotos a todos os outros co- ter uma estrutura simples.
nhecimentos que temos sobre a terra, que
são relevantes para inferirmos possíveis Conhecimento e processamento do
mudanças na paisagem, ou para explicar- discurso da notícia
mos o fenômeno em termos de movimento Que papel têm os diferentes tipos de co-
de placas geológicas? Ou com todo o conhe- nhecimento na produção e compreensão
cimento que temos sobre casas? das notícias, e como eles se manifestam na
Se temos milhões de ítens de conhecimen- estrutura do discurso noticioso?

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Resumiremos o que sabemos e faremos lizado pelos leitores quando relacionam a
algumas conjeturas sobre o que não sa- informação transmitida pela notícia com
bemos. Para simplificar esta tarefa, en- suas experiências pessoais, seja como víti-
foca-remos a compreensão que os leitores mas, agressores ou como testemunhas em
têm da imprensa e não a produção dos tais eventos.
jornalistas. Como exemplo concreto, uti- Conhecimento Comum e Pessoal: são
lizaremos mais uma vez a notícia sobre utilizados na formação de modelos mentais
violência doméstica. de eventos (estados ou situações) relacio-
Conhecimento Comum: é necessário nados a esta notícia, como sobre o número
para entender o significado geral das pa- de assassinatos por violência doméstica no
lavras, sentenças e parágrafos do discurso ano passado.
noticioso, para estabelecer coerência local Velhos Modelos: de eventos anterio-
e global e, portanto, para construir uma res (baseados no noticiário de jornais)
representação textual significativa de uma podem ser ativados e utilizados por lei-
matéria jornalística. A questão é quanto tores como, por exemplo, aqueles que
deste conhecimento é necessário para to- acompanham a contagem de vítimas
das as tarefas cognitivas que devem ser pela imprensa ou cada vez que uma mu-
realizadas. Por exemplo, obviamente não lher é morta por seu (ex-)companheiro.
precisamos ativar tudo que sabemos sobre Conhecimento social/situacional:
mulheres, homens e assassinatos, ministé- “Muito, mas é importante na construção dos modelos
rios ou regiões da Espanha para compre- de contexto. Saber que a notícia está no 25
ender o texto sobre violência doméstica.
muito mais jornal El Pais, que tipo de jornal é esse,
Conhecimento lingüístico: é necessá- pesquisa que tem uma cobertura extensiva e crí-
rio para decodificar os ítens léxicos e a sin- tica sobre violência doméstica, e tam-
taxe do texto e para construir (seqüências
e esforços bém o conhecimento do leitor sobre si
de) preposições. multidisciplinares mesmo, sobre o cenário (tempo, espaço,
Conhecimento do gênero de discur- etc.).
so: é necessário para interpretar o texto
(...) serão Aprendizado: envolve vários tipos de
como notícia, e algumas de suas caracte- necessários para conhecimento geral, por exemplo sobre
rísticas (manchete, etc) como elementos do vislumbrar o violência doméstica, gênero, ministérios,
gênero em questão. polícia, e o papel da mídia, que podem ser
Conhecimento especializado de universo mental formados ou modificados diretamente pela
objeto: (violência doméstica, no nosso – diante do informação (geral) do texto em questão, ou
exemplo) pode ser utilizado por grupos pela generalização e abstração a partir de
de leitores (trabalhadores sociais, femi- qual o universo alguns modelos de eventos que se formam
nistas, etc) ao interpretarem o contexto ‘real’, em vários com base neste texto.
da notícia, e possivelmente em respon- A partir desta lista, temos já uma primei-
sabilizarem instituições específicas pelo aspectos, pode ra impressão de quanto conhecimento está
problema. ter uma estrutura envolvido na leitura trivial de uma notícia
Conhecimento Pessoal: pode ser uti- na imprensa. Fica também claro quantos
simples.”
diferentes tipos de conhecimento estão en- “A partir desta objetivos, etc. O conhecimento sobre o jor-
volvidos em todos esses processos, desde nal, o conhecimento pessoal sobre objeti-
conhecimento que emerge de experiências lista, temos já vos, etc.
pessoais (por exemplo, de mulheres que ex- uma primeira Reconhecimento de gênero: tentativa
perienciaram violência doméstica) até co- de identificação experimental de gênero, a
nhecimento social e cultural largamente impressão partir do formato geral, localização no pa-
compartilhado sobre mulheres, homens, e de quanto pel, diagramação, tipografia, colunas, etc.
violência masculina contra as mulheres. Conhecimento sobre gêneros do discurso
Há, no entanto, alguns outros aspectos conhecimento (noticiosos).
desses processos que precisam ser desta- está envolvido Identificação do tópico e estabele-
cados: cimento de coerência global: ocorre
Variação: os processos de ativação e
na leitura trivial por meio de interpretação da manchete.
uso do conhecimento são pessoal e con- de uma notícia Conhecimento de discurso/gênero sobre
tex-tualmente variáveis. Algumas pessoas manchetes e suas funções; conhecimento
lêem apenas superficialmente e rápido, e
na imprensa. comum sobre o conteúdo do tópico (exem-
ativam apenas um mínimo de conhecimen- Fica também plo: violência doméstica).
to, enquanto outras lêem o texto cuidado- Interpretação das palavra e das
samente, ativam muitos conhecimentos e
claro quantos sentenças: a construção de proposições e
constroem um modelo mental muito mais diferentes estruturas proposicionais. Conhecimento
detalhado. Além disso, as leituras pela tipos de comum, conhecimento contextual e atuali-
26 mesma pessoa podem ser mais superficiais zação.
em uma situação do que em outra. conhecimento Estabelecimento de coerência local:
Monitoração: o gerenciamento do co- estão conhecimento comum sobre o que é possí-
nhecimento no processamento do discur- vel no mundo, modelo mental sobre seqü-
so é monitorado por modelos contextuais. envolvidos em ência de ações, eventos, etc.
Eles modelam as crenças dos locutores/es- todos esses Estrutura aparente/decodificação
critores sobre o conhecimento dos recep- de formas: paralelamente a essas várias
tores, tanto quanto os objetivos e outras processos” fases, encontramos leituras sistemáticas
características do contexto comunicativo. de palavras, sentenças e textos completos.
A cada etapa (palavra, frase, etc) de um Conhecimento lingüístico da linguagem.
texto, escritores/locutores avaliam o que a Compreensão: formação ou atualiza-
outra pessoa já sabe, e o quanto do próprio ção de modelos mentais. Conhecimento
conhecimento precisa ser expresso na pró- comum, conhecimento registrado na me-
xima etapa do texto. mória.
Ordem Processual: as várias formas de Expressão/formulação: na produção de
conhecimento descritas acima aparecem notícias, modelos de eventos (conhecimento
necessariamente em todos os processos de pessoal, etc), modelos contextuais (conhe-
compreensão e seu seqüenciamento. cimento situacional) e representações se-
Construção do modelo contextual: mânticas os elementos de informação para
preocupações dos leitores ao ler um jornal, compor os vários níveis de expressão e for-

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mulação são: (I) lexicalização, (II) estrutu- - Entonação crescente (em perguntas):
ras sintáticas, (III) expressão fonológica e expressa informação desejada (desconhe-
gráfica/visual, e (IV) esquema geral do dis- cida).
curso para o ordenamento geral do texto (Para outras estruturas de discurso que
ou da fala. A lexicalização dependerá, por expressam ou sinalizam conhecimento, ver
exemplo, do conhecimento a respeito do
esperado conhecimento léxico dos recepto- van Dijk, 1997).
res (representado no modelo contextual), Comentários Finais
do conhecimento sobre o suposto conheci- Vimos que, em todos os níveis de produ-
mento do objeto pelos receptores, e de seu ção e compreensão da notícia, existe um
presumido conhecimento contextual (em dinâmico e complexo processo de controle
contextos formais, mais palavras formais de estruturas variáveis, que é uma função
serão empregadas), etc. Mesmo a produção dos vários tipos de conhecimento dos parti-
de estruturas sintáticas pode depender do cipantes, incluindo o conhecimento de uns
conhecimento do interlocutor sobre o co- sobre o conhecimento dos outros.
nhecimento lingüístico do receptor tanto Uma teoria explícita sobre o processa-
quanto sobre o entendimento do receptor mento da notícia precisa levar em conta
a respeito da situação comunicacional. Em este tipo de gerenciamento do conhecimen-
tese, qualquer estrutura do discurso pode to, para conseguir descrever e explicar mais
variar em função dos constrangimentos “Em tese, qual- adequadamente como jornalistas e leitores
contextuais, incluindo o conhecimento a adaptam seus discursos ao próprio conhe- 27
respeito do conhecimento dos receptores
quer estrutura cimento e àquele dos outros participantes.
sobre a situação comunicativa e o gênero. do discurso pode Crucial em tal teoria é a integração de mo-
Mais importante para nossa discussão, delos contextuais que representam tais esta-
variar em fun- dos de conhecimento (mútuos), assim como
entretanto, é a complexa sinalização do co-
nhecimento assumido ou presumido na: ção dos cons- uma teoria sofisticada sobre os vários tipos
- Hierarquia das orações e posição: por trangimentos de conhecimento pessoal, interpessoal, social
exemplo, orações iniciais geralmente ex- (grupal) e cultural envolvidos.
pressam conhecimento presumido; contextuais,
- Posição da sentença inicial (topicali- incluindo o co- Sobre o autor:
zação): normalmente sinaliza informação Teun A. van Dijk é doutor em linguísti-
conhecida; nhecimento a ca pela Universidade de Amsterdam, onde
- Posição inicial do texto (manchetes, respeito do co- também foi professor até 2004. Atualmente
sumários): tende a expressar informação trabalha na Universitat Pompeu Fabra de
nova e importante;
nhecimento dos Barcelona. Foi professor visitante de diver-
- Posição final do texto (resumos, conclu- receptores sobre sas universidades brasileiras e latino-ame-
sões): tende a expressar (con)textual-men- ricanas, e é autor de vários livros sobre dis-
te a informação importante;
a situação co- curso, notícias e ideologia. Suas referências
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