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O TEATRO DE VARIEDADE

(1913)

F. T. MARINETTI

Estamos profundamente enjoados do teatro contemporâneo (verso, prosa e


musical) porque vacila estupidamente entre a reconstrução histórica (pastiche ou
plágio) e a reprodução fotográfica de nossa vida quotidiana; é um teatro
minucioso, lento, analítico e diluído, digno, no todo, de uma idade de lampiões a
querosene.

O FUTURISMO EXALTA O TEATRO DE VARIEDADE porque:

1.O Teatro de Variedade, nascido como nós da Eletricidade, não tem


felizmente tradição alguma, nem mestres, nem dogmas, e se nutre da veloz
atualidade.

2. O Teatro de Variedade é absolutamente prático, porque se propõe a


distrair e divertir o público com efeitos de comicidade, de excitação erótica e de
estupor imaginativo.

3. Os autores, atores e maquinistas do Teatro de Variedade só têm uma


razão para existir e triunfar: a de inventar incessantemente novos elementos de
estupor. Daí a absoluta impossibilidade de deter-se ou repetir-se, daí uma
encarniçada emulação de cérebros e músculos, a fim de superar os vários
recordes de agilidade, velocidade, força, complexidade e elegância.

4. O Teatro de Variedade é o único hoje em dia que utiliza o


cinematógrafo, que o enriquece com um número incalculável de visões e
espetáculos de outro modo irrealizáveis (batalhas, tumultos, corridas, circuitos
de automóvel e aeroplanos, viagens, profundezas de cidades, campos,
oceanos e céus),

5. O Teatro de Variedade, sendo uma vitrina remuneradora de inúmeros


esforços inventivos, gera naturalmente o que eu chamo o maravilhoso futurista,
produto do mecanismo moderno. Eis alguns dos elementos desse maravilhoso:
1) caricaturas possantes; 2) abismos do ridículo; 3) ironias impalpáveis e
deliciosas; 4) símbolos envolventes e definitivos; 5) cascatas de hilaridade
inefreável; 6) analogias profundas entre a humanidade, o mundo animal, o
mundo vegetal e o mundo mecânico; 7) escorços de cinismo revelador; 8)
enredos de frases espirituosas, de trocadilhos e de adivinhações que servem
para arejar agradavelmente a inteligência; 9) toda a gama de riso e de sorriso,
para distender os nervos; 10) toda a gama de estupidezes, imbecilidades,
parvoíces e absurdos que impelem insensivelmente a inteligência até a beira
da loucura; 11) todas as novas significações da luz, do som, do mido e da
palavra, com seus prolongamentos inexplicáveis na parte mais inexplorada de
nossa sensibilidade; 12) um acúmulo de acontecimentos tramitados às
pressas e de personagens empurradas da direita para a esquerda em dois
minutos ("e agora vamos dar uma espiada nos Bálcãs": o Rei Nicolau, Enver
Bei, Dane ff, Vemzelos, golpes na barriga e sopapos entre sérvios e búlgaros,
um couplet e tudo desaparece); 13) pantomimas satíricas instrutivas; 14)
caricaturas da dor e de nossa nostalgia, fortemente impressas na sensibilidade
por meio de gestos exasperadores por sua lentidão espasmódica, hesitante e
cansada; palavras graves ridicularizadas por gestos cômicos, disfarces
bizarros, termos estropiados, micagens, palhaçadas.

6. O Teatro de Variedade é hoje o cadinho em que fervem os elementos de


uma nova sensibilidade que se prepara. Aqui se encontra a decomposição
irónica de todos os protótipos deteriorados do Belo, do Grandioso, do Solene,
do Religioso, do Feroz, do Sedutor e do Espantoso, bem como a elaboração
abstrata dos novos protótipos que irão sucedê-los.
O Teatro de Variedade é, portanto, a síntese de tudo o que a humanidade
refinou até agora em seus nervos para distrair-se rindo da dor material e moral;
é ademais a fusão borbulhante de todas as risadas, de todos os sorrisos, de
todos os arreganhos zombeteiros, de todas as contorções, de todos os trejeitos
da humanidade futura. Aqui se degusta a alegria que sacudirá os homens
dentro de cem anos, sua poesia, sua pintura, sua filosofia e os saltos de sua
arquitetura.

7. O Teatro de Variedade oferece o mais higiénico de todos os espetáculos


em seu dinamismo de forma e de cor (movimentos simultâneos de
prestidigitadores, bailarinas, ginastas, multicores mestres de equitação, ciclones
espirais de dançarinos girando na ponta dos pés). Com seu ritmo de dança
célere e arrebatadora, o Teatro de Variedade arranca à força as almas mais
lentas de seu torpor e obriga-as a correr e saltar.

8. O Teatro de Variedade é o único que utiliza a colaboração do público.


Este não permanece estático como um estúpido voyeur, mas participa com
muitos imprevistos e diálogos bizarros com os atores. Estes, por sua vez,
polemizam burlescamente com os músicos.
O Teatro de Variedade utiliza a fumaça de charutos e cigarros para fundir a
atmosfera do público com a do palco. Ε porque o público coopera assim com a
fantasia dos atores, a ação desenvolve-se a um só tempo no palco, nos
camarotes e na plateia. Ela continua depois, ao fim do espetáculo, entre
batalhões de admiradores, os dândis acaramelados que se apinham à saída
dos artistas para disputar a estrela; dupla vitória final: ceia chique e cama.
9. O Teatro de Vanedade é urna escola de sinceridade instrutiva para o
macho porque exalta seus instintos rapaces e porque arranca da mulher todos
os véus, todas as frases, todos os suspiros, todos os soluços românticos que
deformam e mascaram. Isto faz ressaltar, ao invés, todas as maravilhosas
qualidades animais da mulher, sua garra, sua força de sedução, de perfídia e
de resistência.

10. O Teatro de Variedade é uma escola de heroísmo pelos diferentes


recordes de dificuldades de vencer e de esforços de superar, que criam em
cena a forte e sadia atmosfera do perigo. (Ex. salto mortal, Looping the loop
em bicicleta, em automóvel, a cavalo.)
11. O Teatro de Variedade é uma escola de sutileza, de complexidade e de
síntese mental, por seus clowns, prestidigitadores, adivinhos de pensamento,
calculadores prodigiosos, machiettisti, imitadores e parodistas, malabaristas
musicais e contorcionistas americanos, cuja gravidez fantástica gera objetos e
mecanismos inverossímeís.

12. O Teatro de Variedade é a única escola que se pode aconselhar a


adolescentes e a jovens de talento, porque explica de modo incisivo e rápido
os problemas mais sentimentais, mais abstrusos e os acontecimentos políticos
mais complicados. Exemplo: há um ano, nas Folies-Bergères, dois dançarinos
representavam as sinuosas discussões entre Cambon e Kinderlen-Watcher
sobre questões do Marrocos e do Congo, com uma dança simbólica e
significativa que equivalia a pelo menos três anos de estudos de política
externa. Os dois dançarinos voltados para o público, com os braços
entrelaçados, apertados um contra o flanco do outro, caminhavam fazendo
concessões recíprocas de territórios, pulando para frente e para trás, para a
direita e para a esquerda, sem jamais separar-se, tendo cada um os olhos fixos
no alvo, que era o de embrulhar-se mutuamente. Davam uma impressão de
extrema cortesia, de hábil sinuosidade, de ferocidade, de difidência, de
obstinação, de meticulosidade, insuperavelmente diplomática.
Além do mais o Teatro de Variedade explica luminosamente as leis
dominantes da vida moderna:
necessidade de complicação e de ritmos diversos;
fatalidade útil da mentira e da contradição (ex.: dançarinas inglesas de
dupla face: pastorinha e soldado terrível);
onipotência de uma vontade metódica que modifica e centuplica a força
humana;
simultaneidade de velocidade + transformação (ex.: Fregoli).

13. O Teatro de Variedade deprecia sistematicamente o amor ideal e sua


obsessão romântica, repetindo à saciedade, com a monotonia e o automatismo
de um mister cotidiano, os langores nostálgicos da paixão. Isso mecaniza
bizarramente o sentimento, deprecia e espezinha higienicamente a obsessão
da posse carnal, rebaixa a luxúria à função natural do coito, priva-a de todo
mistério, de toda angústia deprimente, de todo idealismo anti-higiénico.
O Teatro de Variedade dá, ao invés, o senso e o gosto dos amores fáceis,
ligeiros e irônicos. Os espetáculos de café-concerto ao ar livre nos terraços dos
Cassinos oferecem uma divertidíssima batalha entre a luz do luar
espasmódico, atormentado por infinitos desesperos, e a luz elétrica que
ricocheteia violentamente sobre as jóias falsas, as carnes maquiladas, os
saiotes multicores, os veludos, as lustrinas e o sangue falso dos lábios.
Naturalmente, a enérgica luz elétrica triunfa, e a mole e decadente luz do luar é
derrotada.

O Teatro de Variedade é naturalmente antiacadêmico, primitivo e ingênuo,


por isso mais significativo pelo imprevisto de suas buscas e a simplicidade de
seus meios (ex.: o giro sistemático que as chanteuses fazem, ao fim de cada
couplet, como feras na jaula).

O Teatro de Variedade destrói o Solene, o Sacro, o Sério, o Sublime da


Arte com A maiúsculo. Isso colabora com a destruição futurista das obras-
primas imortais, plagiando-as, parodiando-as, apresentando-as com
simplicidade, sem aparato e sem compunção, como um número qualquer de
atrações. Assim, nós aprovamos incondicionalmente a execução do Parsifal em
40 minutos, que está sendo preparada num grande Music-hall de Londres.

O Teatro de Variedade destrói todas as nossas concepções de perspectiva,


de proporção, de tempo e de espaço (ex.: portãozinho e cancelo de 30
centímetros de altura, e pelo qual certos contorcionistas americanos passam e
repassam, abrindo-os e fechando-os com seriedade, como se não pudessem
proceder de outro modo).

O Teatro de Variedade nos oferece todos recordes até agora alcançados:


máxima velocidade e máximo equilibrismo e acrobatismo dos japoneses,
máximo frenesi muscular dos negros, máximo desenvolvimento da inteligência
dos animais (cavalos, elefantes, focas, cães, pássaros amestrados); máxima
inspiração melódica do Golfo de Nápoles e da estepe russa, máximo espírito
parisiense, máxima força comparada das diversas raças (luta romana e boxe),
máxima monstruosidade anatômica, máxima beleza das mulheres.

Enquanto o Teatro atual exalta a vida interior, a meditação professoral, a


biblioteca, o museu, as lutas monótonas da consciência, a análise estúpida dos
sentimentos, em suma (coisa e palavra imunda) a psicologia, o Teatro de
Variedade exalta a ação, o heroísmo, a vida ao ar livre, a destreza, a
autoridade do instinto e da intuição. À psicologia, opõe aquilo que eu chamo
Fisicofolia.

19. O Teatro de Variedade oferece enfim a todo país que não tem uma
grande capital única (como a Itália) um brilhante resumo de Paris considerada
como foco único e obsedante do luxo e do prazer ultra-refinado. O FUTURISMO
QUER TRANSFORMAR O TEATRO DE VARIEDADE EM TEATRO DO
ESTUPOR, DO RECORDE Ε DA FISICOFOLIA.
1. É preciso absolutamente destruir toda lógica nos espetáculos do Teatro
de Variedade, exagerar singularmente o luxo, multiplicar os contrastes e fazer
reinar soberanamente no palco o inverossímil e o absurdo (exemplo: Obrigar as
chanteuses a tingir seu décolleté, os braços e especialmente os cabelos, em
todas as cores até agora descuradas como meios de sedução. Cabelos verdes,
braços violetas, décolleté azul, chignon laranja, etc. Interromper uma cançoneta
dando-lhe continuação com um discurso revolucionário. Cuspir uma romanza
de insultos e palavrões, etc.).
Impedir que uma série de tradições se estabeleçam no Teatro de
Variedade. Combater, portanto, e abolir as Revues parisienses, tão estúpidas e
tediosas quanto a tragédia grega com suas Compère e Commère, que
exercem a função do coro antigo, e seu desfile de personagens e
acontecimentos políticos, sublinhados com frases de espírito, com uma lógica
e uma concatenação fastidiosíssimas. O Teatro de Variedade não deve ser, de
fato, aquilo que desventuradamente ainda é hoje quase sempre: um jornal
mais ou menos humorístico.
Introduzir a surpresa e a necessidade de agir entre os espectadores da
platéia, dos camarotes e da galeria. Algumas propostas ao acaso: espalhar
cola forte sobre algumas poltronas, para que o espectador, homem ou mulher,
que ficar colado, suscite a hilaridade geral. (O fraque ou a toilette danificada
será naturalmente paga à saída.) — Vender o mesmo lugar a dez pessoas;
resultado: obstrução, bate-bocas, brigas. — Oferecer lugares gratuitos a
senhores e senhoras notoriamente amalucados, irritáveis ou excêntricos, que
são capazes de provocar tumultos com gestos obscenos, beliscando as
mulheres ou outras esquisitices. — Aspergir sobre as poltronas pós que
provocam pruridos, espirros, etc.
Prostituir sistematicamente toda a arte clássica sobre o palco,
representando por exemplo em uma única noite toda a tragédia grega,
francesa, italiana, condensada ou comicamente mesclada. — Vivificar as obras
de Beethoven, Wagner, Bach, Bellini, Chopin, introduzindo cançonetas
napolitanas. — Pôr lado a lado no palco Zacconi, a Duse e Mayol, Sarah
Bernhardt e Fregoli. — Exigir uma sinfonia de Beethoven ao revés, começando
da última nota. — Reduzir Shakespeare todo a um só ato. — Fazer recitar
Hernani por atores metidos em sacos até o pescoço. Ensaboar as pranchas do
palco, para provocar tombos divertidos no momento mais trágico.
Encorajar de todo o mundo o género dos clowns e dos contorcionistas
americanos, o seu efeito de grotesco exaltante, de dinamismo espantoso, os
seus grossos achados, a sua enorme brutalidade, os seus coletes de surpresa
e as suas calças profundas como estivas de navios, de onde sairá com mil
outras coisas a grande hilaridade futurista que deve rejuvenescer a face do
mundo.

Posto que não se esqueçam disso, nós futuristas, somos jovens artilheiros em
farra, como proclamamos em nosso manifesto "Matemos a luz do luar" fogo +
fogo + luz contra a luz do luar e contra velhos firmamentos guerra toda noite
grandes cidades brandem reclames luminosos imensa faixa de negro (30m de
altura + 150m de altura da casa = 180m) abrir fechar abrir fechar olho de ouro
(altura 3m) FUMEZ FUMEZ MANOLI FUMEZ MANOLI CIGARETTES mulher
numa blusa (50m + 120 de altura da casa = 170m) retesar afrouxar busto violeta
róseo lilás azul espuma de lâmpada elétrica em uma taça de champanha
(30m) chiar evaporar em uma boca de sombra reclames luminosos velar-
se morrer sob uma mão negra tenaz renascer continuar prolongar na noite o
esforço de uma jornada atividade humana coragem + loucura morrer jamais
fechar-se jamais adormecer reclames luminosos = formação e desagregação
dos minerais vegetais centro da terra circulação sanguínea nas voltas férreas
da casa futurista animar-se empurpurar-se (júbilo cólera sobre sua ainda logo
mais forte ainda) apenas as trevas pessimistas negativas sentimentais
nostálgicas assediam a cidade revivescência fulgurante da rua que
canalizam durante o dia o enxame enfumaçado do trabalho dois cavalos
(altura 30m) fazem rolar uma pata bola de ouro GIOCONDA ÁGUA PURGATIVA
entrecruzar-se de trrr trrr Elevated trrr trrrr sobre a testa
trombeeebeeebeettaa siiiiiilvos sirene de ambulância + carros de bombeiros
transformação das ruas em esplêndidos corredores conduzir empurrar
lógica necessidade a multidão para trepidação + hilaridade + reboliço do Music-
hall FOLIES-BERGÈRE EMPIRE CREME ÉCLIPSE tubos de mercúrio
vermelhos vermelhos vermelhos turquesas turquesas turquesas violetas
enormes letras-enguias de ouro foco púrpura diamante desafio futurista à noite
choramingona derrota das estrelas calor entusiasmo fé convicção vontade
penetração de um reclame luminoso na casa defronte bofetadas amarelas
naquele gotoso bibliófilo em chinelos que cochila 3 espelhos o guardam o
reclame se afunda nos 3 abismos rubrouro abrir fechar abrir fechar 3 bilhões de
quilômetros de profundidade de horrores sair sair depressa chapéu bengala
taxímetro empurrões keee-keee-keee cá estamos maravilha do promenoir
solenidade das panteras-cocottes entre os trópicos da música ligeira
cheiro redondo e quente da alegria Music-hall = ventilador incansável do
cérebro futurista do mundo.

29 de setembro de 1913

Trad.: J. Guinsburg