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Jean-Michel Quinodoz

Le !FREUD
Guia de
leitura
da obra
de S. Freud
1
BIBLIOTECA ARTMED
PSICANÁLISE

A b e r a s t u r y , A. - Psicanálise da
criança
Aberastury & Knobel -
Adolescência n o r m a l
Bergeret, J. - Personalidade
n o r m a l e p a t o l ó g i c a [3.ed.) Artmed* Editora S.A.
Av. Jerônimo de Orneias, 670
Bergeret, J. - Psicopatologia:
90040-340 Porto Alegre, RS, Brasil
t e o r i a e clínica Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070
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P s i c a n á l i s e da a l f a b e t i z a ç ã o
Bleichmar & Bleichmar - A
p s i c a n á l i s e d e p o i s de F r e u d :
t e o r i a e clínica
Corso & Corso - Fadas no divã:
a psicanálise nas histórias
infantis
Costa, G.P. - C o n f l i t o s da vida
real
Costa, G.P. - O a m o r e s e u s
labirintos
Eizirik, Aguiar, Schestatsky &
c o l s . - P s i c o t e r a p i a de
o r i e n t a ç ã o a n a l í t i c a (2.ed.)
Eizirik, Kapczinski & Bassols
- 0 c i c l o da vida h u m a n a
Etchegoyen, R . H . -
F u n d a m e n t o s da t é c n i c a
p s i c a n a l í t i c a (2.ed.)
F r e u d , A. - 0 ego e os
m e c a n i s m o s de d e f e s a
Freud M u s e u m London -
D i á r i o de S i g m u n d F r e u d
Gabbard; Beck & Holmes -
C o m p ê n d i o de Psicoterapia de
Oxford
H a n n a h , B. - J u n g - vida e
o b r a : u m a m e m ó r i a biográfica
K e r n b e r g , O.F. - A g r e s s ã o nos
t r a n s t o r n o s de p e r s o n a l i d a d e
e nas perversões
K e r n b e r g , O.F. - I d e o l o g i a ,
conflito e liderança e m grupos
e organizações
M a h l e r , M. - O n a s c i m e n t o
p s i c o l ó g i c o da c r i a n ç a
M a r c e l l i , D. - A d o l e s c ê n c i a e
psicopatologia (6.ed.)
M a r c e l l i , D. - M a n u a l de
p s i c o p a t o l o g i a da i n f â n c i a de
Ajuriaguerra
Person, Cooper & Gabbard -
C o m p ê n d i o de p s i c a n á l i s e
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DEJMREfTOS REPROGRÁf ICOS

Q7L Quinodoz, Jean-Michel


L e r F r e u d : guia d eleitura da obra de S . F r e u d / Jean-Michel Quinodoz ;
tradução Fátima M u r a d . - P o r t o A l e g r e : A r t m e d , 2 0 0 7 .
328 p. : il. ; 2 5 c m .

ISBN 978-85-363-0866-1

1 . Psicanálise. 2 . F r e u d , S i g m u n d S . I . Título.

C D U 159.964.2(036)

Catalogação n a publicação: Júlia A n g s t C o e l h o - C R B 10/1712


LER FREUD Guia de leitura da obra de S. Freud

Jean-Michel Quinodoz
Membro Didata da Sociedade Suíça de Psicanálise.
Membro Honorário da Sociedade Britânica de Psicanálise.

Tradução:
Fátima Murad

Consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição:


David E. Zimerman
Médico psiquiatra. Membro efetivo e psicanalista didata da Sociedade
Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA). Psicoterapeuta de grupo.

Reimpressão

2007
O b r a o r i g i n a l m e n t e p u b l i c a d a s o b o título:
Lire Freud
I S B N 2-13-053423-6

© Presses Universitaires de France, 2004

Capa
Gustavo Macri

Preparação d o o r i g i n a l
Rúbia Minozzo

Leitura final
Carla Rosa Araujo

Supervisão e d i t o r i a l
Mônica Ballejo Canto

P r o j e t o gráfico
Editoração eletrônica

artmecT
EDITOPRÁFICA

R e s e r v a d o s t o d o s o s d i r e i t o s d e publicação, e m língua p o r t u g u e s a , à
ARTMED® E D I T O R A S . A .
A v . Jerônimo d e O r n e i a s , 6 7 0 - S a n t a n a
90040-340 Porto Alegre R S
Fone (51)3027-7000 F a x(51) 3027-7070

É p r o i b i d a a duplicação o u reprodução d e s t e v o l u m e , n o t o d o o u e m p a r t e ,
s o b q u a i s q u e r f o r m a s o u p o r q u a i s q u e r m e i o s (eletrônico, mecânico, gravação,
fotocópia, distribuição n a W e b e o u t r o s ) , s e m permissão e x p r e s s a d a E d i t o r a .

SÃO P A U L O
A v . Angélica, 1 0 9 1 - Higienópolis
0 1 2 2 7 - 1 0 0 São P a u l o S P
Fone (11)3665-1100 F a x(11) 3667-1333

SAC 0800 703-3444

IMPRESSO N O BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
SUMÁRIO

Nota explicativa 07
Ler Freud ; 09
Quadro cronológico 15

I. D E S C O B E R T A D A P S I C A N Á L I S E ( 1 8 9 5 - 1 9 1 0 )

Estudos sobre a histeria, p o r S. F r e u d e J . B r e u e r ( 1 8 9 5 d ) 19


Cartas a Wilhelm Fliess (1887-1902) 31
"Projeto para u m a psicologia científica" (1950c [1895]) 35
"As n e u r o p s i c o s e s d e d e f e s a " ( 1 8 9 4 a ) , " S o b r e o s f u n d a m e n t o s (...)
'Neurose de angústia'" (1895b), "Observações adicionais sobre as neuropsicoses
d e d e f e s a " ( 1 8 9 6 b ) , "A s e x u a l i d a d e n a e t i o l o g i a d a s n e u r o s e s " ( 1 8 9 8 a ) ,
" L e m b r a n ç a s e n c o b r i d o r a s " (1899a) 41
A interpretação dos sonhos ( 1 9 0 0 a ) , Sobre o sonho (1901a) 47
Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901 b) 57
Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905c) 63
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905d) 71 ^
" F r a g m e n t o d a análise d e u m c a s o d e histeria (Dora)" (1905e) 81
Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen (1907a) 89
" A n á l i s e d e u m a f o b i a e m u m m e n i n o d e c i n c o a n o s (O p e q u e n o H a n s ) " ( 1 9 0 9 b ) 95
" N o t a s s o b r e u m c a s o d e n e u r o s e o b s e s s i v a (O h o m e m d o s r a t o s ) " ( 1 9 0 9 d ) 105

u
- — f ~ -
II. O S A N O S D A M A T U R I D A D E ( 1 9 1 1 - 1 9 2 0 )

" N o t a s p s i c a n a l í t i c a s s o b r e u m relato a u t o b i o g r á f i c o d e u m c a s o d e p a r a n ó i a
(O c a s o d e paranóia: O presidente S c h r e b e r ) " (1911c) 117
Escritos sobre a técnica psicanalítica (1904-1919) 125
Totem e tabu (1912-1913a) 137
" I n t r o d u ç ã o ao narcisismo" (1914c) 145
Artigos sobre metapsicologia ( 1 9 1 5 - 1 9 1 7 ) , Lições de introdução à psicanálise (1916-1917) . j ^ . . . . 153 . \ ^
" H i s t ó r i a d e u m a n e u r o s e infantil (O h o m e m d o s l o b o s ) " ( 1 9 1 8 b ) 1 7 5 ^
O estranho (1919h) 185
" U m a c r i a n ç a é e s p a n c a d a " ( 1 9 1 9 e ) , "A p s i c o g ê n e s e d e u m c a s o
d e h o m o s s e x u a l i d a d e n u m a mulher" (1920a) 191
vi Sumário

III. N O V A S P E R S P E C T I V A S ( 1 9 2 0 - 1 9 3 9 )

Além do princípio do prazer (1920g) 205


Psicologia de grupo e a análise do ego (1921c) 215
O ego e o id ( 1 9 2 3 b ) 225
"O p r o b l e m a e c o n ó m i c o d o m a s o q u i s m o " (1924c) 233
Inibições, sintomas e ansiedade (1926d) 239
O futuro de uma ilusão ( 1 9 2 7 c ) , A questão da análise leiga (1926e) 249
O mal-estar na civilização (1930a), Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933a) 257
" N e u r o s e e p s i c o s e " ( 1 9 2 4 b ) , "A p e r d a d a r e a l i d a d e n a n e u r o s e e n a p s i c o s e " ( 1 9 2 4 e ) ,
"A n e g a t i v a " ( 1 9 2 5 h ) , " A l g u m a s c o n s e q u ê n c i a s p s í q u i c a s d a d i s t i n ç ã o a n a t ó m i c a
e n t r e o s s e x o s " ( 1 9 2 5 j ) , " F e t i c h i s m o " ( 1 9 2 7 e ) , "A d i v i s ã o d o e g o n o p r o c e s s o
d e d e f e s a " ( 1 9 4 0 e [ 1 9 3 8 ] ) , Esboço de psicanálise (1940a [1938]) ..(J$LJ 265 ^
"Análise t e r m i n á v e l e i n t e r m i n á v e l " ( 1 9 3 7 c ) , " C o n s t r u ç õ e s n a a n á l i s e " ( 1 9 3 7 d ) 277
Moisés e o monoteísmo (1939a) 287
Ler F r e u d h o j e ? 297

Anexo 299
Bibliografia 301
índice o n o m á s t i c o 315
índice remissivo 319
NOTA EXPLICATIVA

TÍTULOS

O s l i v r o s são apresentados e m itálico, O s artigos são apresentados c o m letra


por exemplo: n o r m a l , entre aspas, por exemplo:

Sobre a psicopatologia da vida cotidiana o u "Introdução a o n a r c i s i s m o " o u " I N T R O -


SOBRE A PSICOPATOLOGIA DA VIDA CO- DUÇÃO A O N A R C I S I S M O "
TIDIANA

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

O n o m e d e Freud é seguido d adata d a Q u a n d o a d a t a d e publicação não c o r -


p r i m e i r a edição d a o b r a e s t u d a d a , c o m r e f e - r e s p o n d e à data e m que f o i escrita, i n d i q u e i
r ê n c i a à c r o n o l o g i a p u b l i c a d a e m Freud- e m p r i m e i r o l u g a r a d a t a d a publicação, s e -
Bibliographie mit Werkkonkordanz (I. Meyer- g u i d a d a d a t a d e redação e n t r e c o l c h e t e s , p o r
P a l m e d o e G . Fichter, S. Fischer V e r l a g , 1989) e x e m p l o : Esboço de psicanálise (1940a [1939])
e n a Standard Edition, p o r e x e m p l o : Sobre a
psicopatologia da vida cotidiana ( 1 9 0 1 b )

C I T A Ç Õ E S : P Á G I N A S DE R E F E R Ê N C I A À S O B R A S DE FREUD

A s p á g i n a s d e referência c o n t ê m e m g e r a l r e n t e d e t e x t o s f r e u d i a n o s , a s e g u n d a - [132] -
d u a s c i f r a s : ( p . 2 3 5 [132]). A p r i m e i r a c i f r a - p . r e m e t e a o s t o m o s j á l a n ç a d o s d e CEuvres
2 3 5 - r e m e t e às páginas d e u m a tradução c o r - Completes de Freud, Psychanalyse [OCF.P].

QUADROS

• B I O G R A F I A S E Hl i T Ó R I A

E l e m e n t o s d a v i d a pessoal d e Freud e m relação à o b r a e s t u d a d a , a s s i m c o m o a biografia d e a l g u n s d e


seus primeiros discípulos, situados no contexto histórico d a é p o c a .

PÓS-FREUDIANOS

Principais c o n t r i b u i ç õ e s pós-freudianas inspiradas na o b r a e s t u d a d a .


8 Jean-Michel Quinodoz

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

M e n ç ã o a o s principais c o n c e i t o s introduzidos por Freud à m e d i d a q u e v ã o a p a r e c e n d o n o c u r s o d e suas


obras, d e m a n e i r a a fazer sobressair u m a história d a s ideias.

EVOLUÇÃO D O S C O N C E I T O S FREUDIANOS

Estudos l o n g i t u d i n a i s d e a l g u n s c o n c e i t o s freudianos essenciais q u e se d e s e n v o l v e r a m a o l o n g o d e várias


d é c a d a s , c o m o o c o m p l e x o d e É d i p o o u a transferência.
LER FREUD

O R E S U L T A D O D E UM T R A B A L H O P E S S O A L E COLETIVO

Ler Freud c o n s t i t u i o r e s u l t a d o d e u m l o n g o é ainda u m a obra fundada e m m e u conhecimen-


percurso, a om e s m o t e m p o pessoal e coletivo. t o d a língua alemã. A l e i t u r a d o s t e x t o s o r i g i -
Trata-se, antes d etudo, d eu m a obra f u n d a d a nais d eF r e u d m e permite saborear a simplici-
e m m e u e n c o n t r o p e s s o a l c o m a psicanálise e d a d e d a língua q u e e l e u t i l i z a , p o r q u e p r i v i l e -
e m m i n h a l o n g a experiência d e p s i c a n a l i s t a n a g i a a s expressões c o r r e n t e s e e v i t a o s n e o l o g i s -
prática p r i v a d a , c o m p a c i e n t e s q u e b u s c a m u m a mos. N a verdade, procurei escrever n o m e s m o
c u r a clássica, n o divã, g e r a l m e n t e à r a z ã o d e espírito a f i m d e t o r n a r a s i d e i a s d e F r e u d a c e s -
q u a t r o sessões s e m a n a i s . M i n h a experiência clí- síveis a o m a i o r público possível, c i e n t e d e q u e é
n i c a m o s t r o u - m e q u e a s i d e i a s d e F r e u d são t e o - possível e s c r e v e r c o m c l a r e z a e r e s p e i t a n d o a o
rias v i v a s que esclarecem o trabalho cotidiano m e s m o t e m p o a complexidade das ideias que
c o m nossos pacientes e que ainda hoje i n s p i r a m s e e x p õ e m . F i n a l m e n t e , Ler Freud é o d e s f e c h o
o s p s i c a n a l i s t a s . Ler Freud é i g u a l m e n t e u m a o b r a d e u m seminário d e l e i t u r a cronológica d a o b r a
f u n d a d a e m m e u conhecimento d e diferentes d e F r e u d , q u e t e v e início n o c o n t e x t o d a f o r m a -
c o r r e n t e s psicanalíticas pós-freudianas c o n t e m - ção d e f u t u r o s p s i c a n a l i s t a s n o C e n t r o d e P s i c a -
porâneas. T i v e a o p o r t u n i d a d e d e c o n s t a t a r s u a nálise R a y m o n d S a u s s u r e , e m G e n e b r a , a t i v i d a -
d i v e r s i d a d e e r i q u e z a graças a o s c o n t a t o s q u e d e q u e p r o s s i g o até h o j e . V i s t o q u e e s s e s e -
e s t a b e l e c i c o m vários c o l e g a s n o c o n t e x t o d e minário m e s e r v i u d e b a s e t a n t o p a r a o conteú-
m i n h a a t i v i d a d e d e r e d a t o r d o The International d o da obra quanto para sua forma, pareceu-me
Journal ofPsychoanalysis p a r a a E u r o p a . Ler Freud i m p o r t a n t e r e l a t a r e s s a experiência d e g r u p o .

V Á R I A S MANEIRAS DE LER FREUD

A obra de Freud é imensa e complexa. Seus ç^s t e x t o s d e F r e u d s e p r e s t a m p a r t i c u l a r m e n -


t r a b a l h o s psicanalíticos p r e e n c h e m s o z i n h o s 2 4 t e b e m a u m a l e i t u r a " t a l m ú d i c a " , i s t o é, a u m a
v o l u m e s , s e m c o n t a r s e u s t r a b a l h o s pré-psica- análise d o s e n t i d o d e c a d a f r a s e , o u m e s m o
nalíticos e s u a correspondência, q u e p r e e n c h e m de cada palavra, relacionando-as c o m outros
m a i s d e u m a centena d e v o l u m e s . C o m o ter textos. C o n t u d o , c o m esse t i p o de a b o r d a g e m ,
u m a v i s ã o d e c o n j u n t o d e u m a o b r a tão r i c a ? o l e i t o r precisará d e m u i t o s a n o s p a r a c o n c l u i r
H á várias m a n e i r a s d e l e r F r e u d , c a d a u m a esse p r o g r a m a .
c o m suas vantagens e seus inconvenientes, P o d e - s e l e r F r e u d também d e m a n e i r a c r o -
m a s e l a s são c o m p l e m e n t a r e s . P o d e - s e l e r n o l ó g i c a , i s t o é, l e r s u c e s s i v a m e n t e s e u s p r i n -
F r e u d d eu m a m a n e i r a p o n t u a l , s e l e c i o n a n d o c i p a i s e s t u d o s psicanalíticos, d o s Estudos sobre
"à la carte" u m a r t i g o o u u m l i v r o , o u e s c o - a histeria, p u b l i c a d o s e m 1 8 9 5 , até Esboço de psica-
l h e n d o u m t e m a e a sobras relacionadas a ele. nálise, r e d i g i d o e m 1 9 3 8 , u m a n o a n t e s d e s u a
U m a abordagem de tipo pontual t e m a vanta- morte. Ler asobras d e F r e u d na o r d e m de p u -
g e m d eexaminar u m a obra nos detalhes, d e blicação, s e m s e d e t e r d e m a i s , p e r m i t e a o l e i -
se d e t e r m u i t o t e m p o n e l a , n a m e d i d a e m q u e t o r p e r c e b e r a evolução d e s e u p e n s a m e n t o a o
10 J e a n - M i c h e l Quinodoz

l o n g o d a s décadas. P a r a r e a l m e n t e t i r a r p r o - Q u e r se l e i a F r e u d d e m a n e i r a p o n t u a l , q u e r
v e i t o d e u m a l e i t u r a cronológica, c o n s i d e r o s e l e i a d e m a n e i r a cronológica, e s s a s d u a s a b o r -
i m p o r t a n t e q u e , d e s d e o início, s e estabeleça d a g e n s não s e opõem, a o contrário, c o m p l e -
u m limite d e t e m p o , m e s m o q u e esse tipo d e m e n t a m - s e , pois elas m o s t r a m , cada u m a a seu
a b o r d a g e m não p e r m i t a c o n s a g r a r a c a d a o b r a m o d o , c o m o F r e u d revisa constantemente suas
a análise d e t a l h a d a q u e e l a m e r e c e . O o b j e t i v o f o r m a s d e v e r , a p r o v e i t a s u a s hesitações e l e v a
é q u e o l e i t o r n ã o p e r c a a visão d e c o n j u n t o , e m c o n t a a experiência clínica p a r a a p r o f u n d a r
pois, q u a n d o se consegue ter u m a vista p a n o - suas descobertas. É claro q u e u m a pessoa p o d e
râmica d a o b r a f r e u d i a n a , d e s c o b r e - s e q u e , lançar-se s o z i n h a e m u m a t a l e m p r e i t a d a , m a s
m u i t a s v e z e s , a s d i v e r s a s c o r r e n t e s psicanalíti- i s s o e x i g e m u i t o t e m p o e p e r s e v e r a n ç a até c o m -
cas p r i v i l e g i a m c e r t o s a s p e c t o s e m d e t r i m e n t o p l e t a r o c i c l o e c h e g a r a u m a visão d e c o n j u n t o
de outros. Constata-se a i n d a que essa focali- d a evolução d o p e n s a m e n t o d e F r e u d . E p o r
zação t e n d e a s e e s t r e i t a r à m e d i d a q u e é t r a n s - i s s o q u e , a m e u v e r , e s s a experiência n o âmbi-
m i t i d a d e geração a geração, c o m o r i s c o d e o b s - t o d e u m g r u p o d el e i t u r a , q u e p e r m i t a u m es-
curecer cada vez m a i s outros aspectos da obra forço s u s t e n t a d o a l o n g o p r a z o , é m u i t o m a i s
de F r e u d i g u a l m e n t e preciosos. estimulante.

LER FREUD: MODO DE USAR

Uma empreitada insana? G . F i c h t e r e S . F i s c h e r V e r l a g , 1 9 8 9 ) e n a Standard


Edition. Q u a n d o a d a t a d e publicação não
D u r a n t e m u i t o t e m p o , não m e o c o r r e u a corresponde à data e m q u e f o i escrita, segui a
ideia d e escrever u m livro apresentando o prática q u e r e c o m e n d a i n d i c a r a n t e s a p r i m e i r a
c o n j u n t o d ao b r a d eF r e u d , o q u e m e parecia e d e p o i s a d a t a d e redação e n t r e c o l c h e t e s , p o r
u m a e m p r e i t a d a d e s c o m u n a l . Além d i s s o , e u e x e m p l o : Esboço de psicanálise (1940a [1939]).
não i m a g i n a v a c o m o s e p o d e r i a t r a n s p o r a u m A l e r t o o s l e i t o r e s q u e n a t r a d u ç ã o e m língua
texto escrito a a b o r d a g e m que constitui a ori- f r a n c e s a d a s CEuvres Completes de Freud, Psycha-
g i n a l i d a d e d o seminário q u e c o o r d e n o - u m a nalyse, a d o t o u - s e a o r d e m i n v e r s a , o q u e m o d i -
abordagem dos textos freudianos a o m e s m o f i c a a o r d e m cronológica m a i s u s u a l .
t e m p o cronológica e e m r e d e . Até q u e u m d i a
pensei e m utilizar simultaneamente a tipogra-
f i a , o g r a f i s m o , a paginação e a c o r p a r a r e - Texto introdutório

p r e s e n t a r v i s u a l m e n t e a combinação d e u m a C a d a c a p í t u l o é i n t r o d u z i d o p o r u m subtí-
a b o r d a g e m e m r e d e e d e u m a visão cronoló- t u l o e v o c a t i v o e p o r u m a b r e v e apresentação
g i c a d a o b r a d e F r e u d . E s s a m a q u e t e gráfica d a o b r a e s t u d a d a . M i n h a intenção é o f e r e c e r
m e p e r m i t i u a p l i c a r a c a d a capítulo o módulo u m a p a n h a d o d o conteúdo d o capítulo e s i t u a r
d e u m a sessão c o n s a g r a d a à o b r a . a o b r a s i n t e t i c a m e n t e e m relação a o c o n j u n t o
dos trabalhos freudianos.

O módulo de organização de cada capítulo


Biografias e história
Título do capítulo
Esse q u a d r o apresenta o s elementos refe-
C a d a capítulo, s a l v o exceção, c o n t é m o títu- r e n t e s à v i d a p e s s o a l d e F r e u d e m relação à
lo de apenas u m a obra de Freud. Para diferenciar o b r a e s t u d a d a , a s s i m c o m o o c o n t e x t o históri-
entre u m livro e u m artigo, coloquei o s artigos c o . D e s t a q u e i a s p r i n c i p a i s influências q u e c i r -
entre aspas. O n o m e de F r e u d é seguido d a data c u n d a r a m a redação d a o b r a . I n c l u i n e s s a r u -
d a p r i m e i r a edição d a o b r a e s t u d a d a , e m r e f e - brica u m a curta biografia dos mais i m p o r t a n -
rência à c r o n o l o g i a p u b l i c a d a e m Freud-Biblio- t e s discípulos contemporâneos d e F r e u d , a s -
graphie mit Werkkonkordanz ( I . M e y e r - P a l m e d o e s i m c o m o d eseus principais pacientes.
Ler Freud 11

Descoberta da obra Desatar o fio condutor da obra


Referências C o m o apresentar u m a o b r a s e m ser s i m p l i f i -
Para cada obra estudada, indiquei quase cador a o resumi-la e, a o m e s m o t e m p o , s e m
s e m p r e d o i s t e x t o s d e referência e n t r e a s t r a d u - s e r enciclopédico, a b a r r o t a n d o o l e i t o r d e r e f e -
ções disponíveis e m língua f r a n c e s a . O p r i m e i - rências? D i a n t e d e s s e d i l e m a , o p t e i p o r a p r e -
r o t e x t o d e referência é a q u e l e d e o n d e extraí a s sentar cada obra de maneira a despertar a curio-
citações d e F r e u d i n d i c a d a s e m itálico: t r a t a - s e sidade d o leitor,para que deseje ler o texto c o m -
d e traduções p u b l i c a d a s n a "Bibliothèque d e p l e t o , o u n o o r i g i n a l , o u e m u m a tradução. P r o -
Psychanalyse" (Presses Universitaires d e F r a n - c u r e i também c o m u n i c a r o e s s e n c i a l , e x p r e s -
c e ) , n a coleção " C o n n a i s s a n c e d e r i n c o n s c i e n t " sando-me e m u m a linguagem simples e o mais
e "Folio, Essais" (Gallimard),e ainda n a "Petite p r ó x i m a possível d a c o t i d i a n a .
Bibliothèque P a y o t " . Q u a n d o o t e x t o e s t u d a d o A c o m p a n h a n d o o texto d eFreud, encon-
a p a r e c e e m u m d o s v o l u m e s já l a n ç a d o s d a s t r a - s e u m p e n s a m e n t o e m c o n s t a n t e evolução,
CEuvres Completes de Freud, Psychanalyse (ou q u e a b a n d o n a u m a ideia a n t e r i o r p o r u m a
OCF.P), i n d i q u e i e n t r e c o l c h e t e s u m s e g u n d o nova e depois retorna à primeira, m e s m o que
t e x t o d e referência. e s s a s posições s e j a m contraditórias. A l e i t u r a
A s s i m , a s p á g i n a s d e referência c o n t ê m e m d o t e x t o o r i g i n a l n o s f a z p e r c e b e r também a
g e r a l d u a s c i f r a s : ( p . 2 3 5 [132]). A p r i m e i r a c i - q u e p o n t o a o b r a d e F r e u d e s t i m u l a n o s s a pró-
f r a - p . 2 3 5 - r e m e t e às p á g i n a s d e u m a t r a d u - p r i a s reflexões e e v o c a o u t r a s e c o n s t i t u i v e r -
ção c o r r e n t e d e t e x t o s f r e u d i a n o s , a s e g u n d a - dadeiramente u m a obra "aberta" n o sentido
[132]- r e m e t e a o s t o m o s j á l a n ç a d o s d e CEuvres d e e c o , c o m o m o s t r o u A . F e r r o (2000). F r e u d
Completes de Freud, Psychanalyse [OCF.P]. escreve c o m o u me x p l o r a d o r q u e descobre
O l e i t o r encontrará n a b i b l i o g r a f i a a s r e f e - paisagens desconhecidas, anota suas impres-
rências c o r r e s p o n d e n t e s a o s v o l u m e s d e sões d e p a s s a g e m , f a z u m esboço e m s e u c a -
Sigmund Freud, Gesammelte Werke ( F r a n k f u r t d e r n o e , às v e z e s , s e d e t é m p o r m a i s t e m p o
a m M a i n : F i s h e r V e r l a g ) e d e The standard para a r m a r seu cavalete e fixar a paisagem e m
edition of the complete psychological works of u m a obra-prima.
Sigmund Freud ( L o n d o n : T h e H o g a r t h P r e s s
and the Institute o f Psychoanalysis).
Privilegiar uma abordagem clínica
A o r e d i g i r Ler Freud, p r i v i l e g i e i i g u a l m e n -
Que textos de referencia eu
t e u m a a b o r d a g e m clínica t a n t o n a m i n h a p r ó -
deveria escolher? 1
p r i a l e i t u r a d e F r e u d c o m o n o sdiversos e s -
P a r a c a d a o b r a , e x i s t e m m u i t a s traduções clarecimentos. A c h o importante ter sempre
disponíveis e m língua f r a n c e s a e m d i v e r s a s e m m e n t e q u e a psicanálise n ã o é s i m p l e s m e n -
edições, c o m d a t a s d i f e r e n t e s , p o r t r a d u t o r e s t e u m a t e o r i a e u m método d e p e s q u i s a d o
d i f e r e n t e s . A l é m d i s s o , a s CEuvres Completes p s i q u i s m o h u m a n o , m a sé s o b r e t u d o u m a
estão e m f a s e d e publicação p e l a s P r e s s e s a b o r d a g e m clínica e t é c n i c a q u e a i n d a h o j e
U n i v e r s i t a i r e s d e F r a n c e , e até a g o r a só f o i p e r m i t e a inúmeros p a c i e n t e s r e s o l v e r c o n f l i -
lançada p o u c o m a i s d a m e t a d e . P a r a f a z e r e s s a t o s i n c o n s c i e n t e s q u e não c o n s e g u i r i a m r e s o l -
difícil e s c o l h a , a p o i e i - m e n a e x p e r i ê n c i a a d - ver por outros meios.
q u i r i d a c o m o seminário, l e v a n d o e m c o n t a a
constatação d e q u e o s p a r t i c i p a n t e s u t i l i z a v a m Cronologia dos conceitos freudianos
p r e f e r e n c i a l m e n t e o s l i v r o s d eb o l s o e a s e d i -
ções e m b r o c h u r a , p o r razões económicas, m a s A o f i n a l d e c a d a capítulo, m e n c i o n e i o s
também p o r q u e e l a s têm u m a l i n g u a g e m m a i s principais conceitos q u e a p a r e c e m n ao b r a es-
acessível. t u d a d a , n a m e d i d a e mq u e F r e u d l h e s a t r i b u i
14 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

p o m u i t o c u r t o d e d i c a d o a c a d a sessão c o n s t i - nhecimentos, pois o trabalho coletivo permite


tui, paradoxalmente, u m fator estimulante, que cada participante aprenda a seouvir e a
p o i s a sp e s s o a s p r e c i s a m p e n s a r antes e e x p o r ouvir o que o outro tenta expressar e que evo-
d e f o r m a c o n d e n s a d a a s reflexões q u e d e c i - lua n o conta to c o m todos. E u m a maneira d e
dam comunicar a o grupo. estar m a i s à escuta de F r e u d e de p o d e r avaliar
a d i v e r s i d a d e d ep o n t o s d e v i s t a .
T i v e a demonstração d o p a p e l e s t i m u l a n t e
Exigências elevadas: fator dinâmico q u e d e s e m p e n h a m a s exigências r e l a t i v a m e n t e
e l e v a d a s e m f a v o r d ob o m f u n c i o n a m e n t o d o
T e n h o consciência d e q u e n ã o é p o u c o p e d i r
g r u p o q u a n d o r e n u n c i e i a i m p ô - l a s p o r ocasião
a o s p a r t i c i p a n t e s q u e não a p e n a s l e i a m a m a i o r
d o s e g u n d o c i c l o d e três a n o s . N a p r i m e i r a s e s -
parte das obras d e F r e u d cada u m p o r si, c o m o
são d e s s e s e g u n d o c i c l o d e seminário, u m p a r t i c i -
t a m b é m e x p o n h a m s u a s reflexões e f a ç a m a s
p a n t e opôs-se à f o r m a d e t r a b a l h o q u e e u p r o p u -
p e s q u i s a s necessárias p a r a a redação d e u m a d a s nha, criticou-a veementemente e se recusou a
r u b r i c a s . A p r e p a r a ç ã o d a s sessões r e q u e r u m a entrar e m u m a tal " m a r a t o n a " , c o n f o r m e seus
grande disponibilidade, retirada d ot e m p o re- t e r m o s . E ua i n d a não e s t a v a c o n v e n c i d o d a
s e r v a d o a u m a v i d a p r o f i s s i o n a l e m g e r a l já pertinência d a s exigências d o seminário e s u b -
m u i t o cheia, a s s i m c o m o d av i d a p r i v a d a e f a - m e t i a questão a o v o t o . A o p o s i ç ã o d e a p e n a s
m i l i a r . E s s e esforço só é possível s e o s e n c o n t r o s u m c o n s e g u i u a adesão d e o u t r o s , e a c a b e i a c e i -
são t a m b é m u m m o m e n t o d e p r a z e r c o m p a r t i - tando, acontragosto, que os participantes deixas-
l h a d o . Além d i s s o , p a r a q u e s e conheçam m e - s e m de realizar u m trabalho pessoal de elabora-
l h o r f o r a d a s reuniões d e t r a b a l h o , p r o p o m o s ção d e r u b r i c a s ; o único t e x t o e s c r i t o q u e c o n s e -
u m e n c o n t r o t o d o f i n a l d e a n o e m u m " b u f e ca- g u i o b t e r f o r a m a s " m i n u t a s d o seminário".
n a d e n s e " , u m a r e u n i ã o f e s t i v a p a r a a q u a l são C o n t u d o , m a n t i v e o seminário. D u r a n t e e s s e s
c o n v i d a d o s cônjuges e p a r c e i r o s . três a n o s , a discussão g e r a l f o i a m a i s p r e j u d i c a -
A s exigências i m p o s t a s p e l a participação da, pois geralmente d e m o r a v a a se instalar:
ativa de todos revelaram-se u m fator decisivo m e s m o que todos tivessem lido atentamente os
n a dinâmica q u e v a i i n s t a l a n d o - s e a o l o n g o t e x t o s d e F r e u d , e u s e n t i a q u e p a r a c r i a r u m es-
d o s e n c o n t r o s . E s s e "plus" d e p a r t i c i p a ç ã o a pírito d e g r u p o f a l t a v a a e s t r u t u r a d e p e n s a m e n -
serviço d a c o n s t r u ç ã o d o s e m i n á r i o c r i a u m to que v a i construindo-se pouco apouco ao lon-
clima afetuoso n o tempo delimitadoque com- g o d o t e m p o , graças p r i n c i p a l m e n t e a o esforço
partilhamos, sabendo que v a m o s nos separar p e s s o a l q u e r e q u e r a redação d e u m a r u b r i c a e
d a l i a três a n o s . E m ú l t i m a a n á l i s e , o s e m i n á - s u a exposição. S e v o l t a s s e atrás h o j e , e u n ã o c e -
rio p r o p o r c i o n a m a i s q u e u m a u m e n t o dos co- d e r i a c o m o n a época, p o r f a l t a d e experiência.

AGRADECIMENTOS

D e v o agradecer e mp r i m e i r o lugar a o s tin Jeanneau, Christoph Hering, Juan Manza-


p a r t i c i p a n t e s d o "Seminário d e L e i t u r a no e Paco Palacio, que se d e r a m a o trabalho
Cronológica d a O b r a d e F r e u d " . S u a p a r t i c i - de comentar m e u manuscrito, assim como a
pação a t i v a d u r a n t e a s discussões e a s c o n t r i - M a u d Struchen que preparou a bibliografia.
buições p e s s o a i s a c u m u l a d a s d e s d e 1 9 8 8 m e E n f i m , last but not least, d e d i c o Ler Freud a
s e r v i r a m d ebase e m parte para redigir a r u - Danielle, que foi q u e m primeiro m e encora-
b r i c a " B i o g r a f i a s e história" e a q u e l a d e d i c a d a j o u a m e lançar n e s s a a v e n t u r a .
a o s "Pós-freudianos". S e n t i - m e o b r i g a d o a Para concluir, desejo u m a boa jornada a o
mencionar seus n o m e s e m anexo para expres- leitor, l e m b r a n d o que ler u m guia jamais subs-
s a r - l h e s m e u r e c o n h e c i m e n t o . Agradeço i g u a l - titui a viagem!
m e n t e a H a n n a S e g a l , André H a y n a l , A u g u s -

Jean-Michel Quinodoz
£ Q U A D R O C R O N O L Ó G I C O - S I G M U N D FREUD (1856-1939)

Referências biográficas Publicações

1856: no dia 6 de maio de 1856, nascimento de Freud em Freiberg (atual Repú-


blica Tcheca)
1860: chegada a Viena da família Jakob Freud
- 1873: início dos estudos de Medicina de Sigmund
1876-1882: assistente no Instituto de Psicologia de Viena (Pr. E. Brúcke) Publicação sobre a descoberta dos testículos da enguia (1877)

1880: encontro com Dr. Joseph Breuer


15 1881: título de doutor em medicina - Breuer trata Anna O.
1882: noivado com Martha Barnays
X>. 1883-1884: pesquisas sobre a cocaína Publicações sobre a cocaína (1884)
> 1885: título de Privat-Docent - estadia com Charcot em La Salpétrière, Paris
ò i 1886: instalação em consultório privado em Viena - casamento com Martha Barnays
- 1887: nascimento de Mathilde - encontro com Wilhelm Fliess, Berlim Cartas a Wilhelm Fliess (1887-1902)
V . 1888: 1877-1883: Publicações sobre células nervosas (peixe)
1889: nascimento de Martin - estadia em Bernheim, Nancy 1888-1893: Diversos artigos sobre a hipnose

1890-1891: mudança para Berggasse 19, Viena - nascimento de Oliver "Estudo sobre a afasia" (1891b)
1892: nascimento de Ernst "Paralisias cerebrais infantis" (1891c)
1893: nascimento de Sophie "Comunicação preliminar" (Freud e Breuer, 1893)
1894: "As neuropsicoses de defesa" (1894a)
1895: nascimento de Anna - primeiro sonho ("a injeção de Irma") Estudos sobre a histeria (1895d) - "Sobre os fundamentos para destacar da
neurastenia uma síndrome específica denominada 'Neurose de angústia'" (1895b)
1896: morte de Jakob Freud, pai de Freud - ruptura com Breuer "Projeto para uma psicologia científica" (1950c [1895])
1897: início da auto-análise (1896-1902) - abandono da teoria da sedução "Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa" (1896b)
• • 1898: Édipo Rei, Hamlet "A sexualidade na etiologia das neuroses" (1898a)
?.:} 1899: "Lembranças encobridoras" (1899a)

1900: tratamento de Dora (Ida Bauer) A interpretação dos sonhos (1900a)


1901: primeira viagem a Roma, com seu irmão Alexander Sobre o sonho (1901a)
Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901b)
1902: funda a Sociedade das Quartas-Feiras - encontro com W. Steckel e A. Adler
^} 1903: título de Professor extraordinário, Faculdade de Medicina, Viena
f 1904: começa a ser reconhecido internacionalmente Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905c)
r
1905: encontro com O. Rank Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905d)
d)
50 1906: "Fragmento da análise de um caso de histeria (Dora)" (1905e) Tl
H
ç f 1907: encontro com C. G. Jung, K. Abraham, M. Eitigon Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen (1907a) CO
C
; 1908: encontro com S. Ferenczi. E. Jones, H. Sachs, R Federn a
Continua (
£ Q U A D R O C R O N O L Ó G I C O - S I G M U N D FREUD (1856-1939) (Continuação)

Referências biográficas Publicações

1909: Sociedade Psicanalítica de Viena - encontro com o pastor O. Pfister "Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (O pequeno Hans)" (1909b)
"Notas sobre um caso de neurose obsessiva (O homem dos ratos)" (1909d)
1910: fundação da Associação Psicanalítica Internacional (API) Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci (1910c)
1911: conflito na Sociedade de Viena - defecção de Adler "Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia
(O caso de paranóia: o presidente Schreber)" (1911c)
1912: fundação do "Comité secreto" - defecção de Steckel Escritos sobre a técnica psicanalítica (1904-1919)
1913: encontro com Lou Andreas-Salomé - ruptura com Jung Totem e tabu (1912-1913a)
1914: início da Primeira Guerra Mundial - mobilização de Martin e Ernst "Introdução ao narcisismo" (1914c)
1915: análise de Ferenczi com Freud (em três partes, 1914-1916) Artigos sobre metapsicologia (1915-1917)
1916: mobilização de Oliver Lições de introdução à psicanálise (1916-1917)
1917:
"História de uma neurose infantil (O homem dos lobos)" (1918b)
1918: fim da guerra - 1 análise de Anna com seu pai
9
O estranho (1919h)
"Uma criança é espancada" (1919e)
1919: suicídio de Tausk - morte do mecenas A. von Freund "A psicogênese de um caso de homossexualidade numa mulher" (1920a)

1920: morte de sua filha Sophie - Jones funda The International Journal ofPsychoa- Além do princípio do prazer (1920g)
nalysis Psicologia de grupo e a análise do ego (1921c)
1921:
1922:
1923: primeira operação do câncer Oegoeoid (1923b)
1924:: Rank publica O traumatismo do nascimento "O problema económico do masoquismo" (1924c)
1925: morte de Abraham - morte de Breuer
1926: 70 anos de Freud - defecção de Rank - chegada de M. Klein à Londres Inibições, sintomas e ansiedade (1926d)
A questão da análise leiga (1926e)
1927: Congresso de Innsbruck O futuro de uma ilusão (1927c)
1928:
1929: início da Grande Depressão económica mundial

1930: morte da mãe de Freud aos 95 anos - Freud recebe o Prémio Goethe O mal-estar na civilização (1930a)
1931: crescimento do anti-semitismo na Áustria e na Alemanha
1932: Congresso de Wiesbaden
1933: morte de Ferenczi - ascensão ao poder de Hitler A/ovas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933a)
1934:
1935: Escritos sobre a negação da realidade e clivagem do ego (1924-1938)
1936: 80 anos de Freud - encontro com R. Rolland
1937: falecimento de Lou Andreas-Salomé "Análise terminável e interminável" (1937c)
1938: ajudado por Jones e Marie Bonaparte, Freud deixa Viena rumo a Londres "Construções na análise" (1937d)
1939: morte de Freud em Londres em 23 de setembro de 1939, aos 83 anos Moisés e o monoteísmo (1939a)
Esboço de psicanálise (1940a [1938])
PARTE I
3ERTA DA PSIC/
(1895-1910)
ESTUDOS SOBRE A HISTERIA
S. FREUD e J. BREUER (1895d)

Uma descoberta essencial: os sintomas histéricos têm um sentido

V a m o s c o m e ç a r p e l o s Estudos sobre a histe- era u m a f o r m a de psicoterapia que p e r m i t i a a o


ria, o b r a f u n d a d o r a d a p s i c a n á l i s e , n a q u a l d o e n t e e v o c a r a lembrança d e a c o n t e c i m e n t o s
F r e u d e B r e u e r a p r e s e n t a m o s êxitos q u e o b t i - traumáticos o c o r r i d o s n o p a s s a d o , q u a n d o d a
v e r a m n o t r a t a m e n t o d e s i n t o m a s histéricos, aparição d o s p r i m e i r o s s i n t o m a s histéricos;
a s s i m c o m o s u a s p r i m e i r a s hipóteses. A h i s t e - Breuer, e depois F r e u d , o b s e r v a r a m q u e esses
r i a e r a u m a afecção b a s t a n t e d i f u n d i d a n o f i m sintomas desapareciam àmedida que a pacien-
d o século X I X , e i n d a g a v a - s e s o b r e s u a o r i g e m : t e c o n s e g u i a e v o c a r e s s a lembrança e r e v i v i a
e r a o r g â n i c a o u psíquica? O s m é d i c o s e s t a v a m c o m i n t e n s i d a d e a e m o ç ã o originária l i g a d a a o
desconcertados diante d aimpossibilidade d e acontecimento. F r e u d relata que, e m u m p r i m e i -
e n c o n t r a r s u a v e r d a d e i r a c a u s a . O s fenómenos r o m o m e n t o , r e c o r r e u à h i p n o s e e à sugestão,
d e c o n v e r s ã o histérica r e p r e s e n t a v a m u m d e - c o m o Breuer, para ajudar a doente a reencon-
s a f i o p a r a a ciência m é d i c a , p o i s o s s i n t o m a s t r a r s u a s lembranças patogênicas. M a s l o g o
não c o r r e s p o n d i a m a u m a lesão anatómica a b a n d o n o u e s s a s técnicas e m p r o v e i t o d e u m a
localizável; a l é m d i s s o , e l e s a p a r e c i a m e d e s a - mudança r a d i c a l d e p e r s p e c t i v a : F r e u d p e r c e -
p a r e c i a m d e m a n e i r a t o t a l m e n t e aleatória. A b e u que sepedisse ao paciente para dizer livre-
i m p o s s i b i l i d a d e d e c o m p r e e n d e r esses sinto- m e n t e t u d o o q u e l h e v i n h a à m e n t e - método
mas, quase sempre espetaculares, irritava o s c h a m a d o d e associação l i v r e - , o c u r s o e s p o n t â -
médicos, q u e a c a b a v a m p o r r e j e i t a r e s s e s d o e n - neo seguido por seus pensamentos lhe permiti-
tes - n a m a i o r i a das v e z e s m u l h e r e s -, p o r r i a n ã o a p e n a s r e m o n t a r às l e m b r a n ç a s p a t o -
considerá-los l o u c o s o u s i m u l a d o r e s . gênicas até então r e p r i m i d a s , c o m o t a m b é m
É a p a r t i r d e 1882 q u e F r e u d , encorajado pe- i d e n t i f i c a r a s resistências q u e s e o p u n h a m a q u e
l o s êxitos o b t i d o s p o r s e u c o l e g a v i e n e n s e B r e u e r , o p a c i e n t e e n c o n t r a s s e s u a s lembranças a f i m
p a s s a a s e i n t e r e s s a r , p o r s u a v e z , p e l a sugestão d e superá-las. E s s a n o v a a b o r d a g e m técnica l e v a
e a h i p n o s e n o t r a t a m e n t o d edoentes c o m sin- a u m interesse cada v e z m a i o r pelo papel q u e
t o m a s atribuídos à h i s t e r i a . E m Estudos sobre a d e s e m p e n h a m a s resistências, a transferência, a
histeria, o b r a q u e c o n s t i t u i o r e s u l t a d o d e m a i s simbólica d a l i n g u a g e m , a s s i m c o m o a e l a b o r a -
d e 1 0 a n o s d e t r a b a l h o s clínicos, o s d o i s p e s q u i - ção psíquica, e l e m e n t o s próprios a t o d a c u r a p s i -
sadores descrevem detalhadamente o tratamen- canalítica, q u e j á e n c o n t r a m o s e s b o ç a d o s p o r
t o d e c i n c o d o e n t e s , e c a d a u m d e d i c a u m capí- F r e u d n o Capítulo I V d e Estudos sobre a histeria.
t u l o teórico às s u a s hipóteses. O q u e f o i e s c r i t o Q u a n t o à ab-reação, e l a f o i s e n d o a b a n d o n a d a
por Freud, intitulado " A psicoterapia da histe- pouco a pouco; contudo, a descarga emocional
r i a " , p a s s o u p a r a a p o s t e r i d a d e não a p e n a s p o r p e r m a n e c e u c o m o u m e l e m e n t o indissociável
s e u v a l o r histórico, m a s t a m b é m p o r q u e n e l e d e t o d a a psicanálise.
F r e u d a s s e n t a a s b a s e s clínicas e teóricas d e u m a E s s a s hipóteses a p r e s e n t a d a s e m 1 8 9 5 e s -
n o v a d i s c i p l i n a : a psicanálise, e l a própria d e r i - tão s u p e r a d a s a t u a l m e n t e ? À q u e l e s q u e f a z e m
v a d a d o m é t o d o catártico. U t i l i z a d o e n t r e 1 8 8 0 e s s a objeção, e u r e s p o n d e r i a q u e n ã o f a z e m
e 1 8 9 5 , o " m é t o d o catártico", c r i a d o p o r B r e u e r , p a r t e d a psicanálise c o m o t a m b é m d e o u t r a s
20 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

d e s c o b e r t a s e s s e n c i a i s : d e f a t o , n o f i m d o sé- I s s o e x p l i c a o g r a n d e i n t e r e s s e d e começar p e l o
c u l o X I X , s u r g i r a m inúmeras invenções c o n - e s t u d o d a p r i m e i r a o b r a p s i c a n a l í t i c a q u e são
temporâneas d a psicanálise, q u e d e p o i s f o r a m o s Estudos sobre a histeria, p o i s até h o j e e s s a
aperfeiçoadas, m a s , p o r o r a , n e n h u m a n o v a a b o r d a g e m terapêutica p r e s e r v a t o d o s e u v a -
d e s c o b e r t a revolucionária v e i o substituí-las. l o r n o s e u c a m p o próprio.

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA

A v i d a d e F r e u d a t é a p u b l i c a ç ã o d e Estudos sobre a h i s t e r i a , e m 1895


E m 1895, Freud t i n h a 3 9 a n o s , era c a s a d o , pai d e vários filhos, e j á t i n h a atrás d e si u m a carreira m é d i c a
r e c o n h e c i d a d e p e s q u i s a d o r e m n e u r o p a t o l o g i a e n e u r o l o g i s t a prático. N a s c e u e m 1 8 5 6 e m Freiberg
(Moravia), filho d e pais j u d e u s ; e m b o r a se declarasse liberal e ateu, s e m p r e m a n t e v e u m a ligação afetiva
c o m o j u d a í s m o . E m s u a família, as relações entre g e r a ç õ e s e r a m c o m p l e x a s . O pai d e F r e u d , J a k o b ,
casou-se a o s 4 0 a n o s e m s e g u n d a s n ú p c i a s c o m u m a m o ç a d e 20 a n o s , A m á l i a N a t h a n s o n , q u e tinha a
m e s m a i d a d e q u e o s d o i s filhos d o primeiro c a s a m e n t o d e s e u m a r i d o . Isso p e r t u r b a v a o p e q u e n o Freud,
q u e i m a g i n a v a e n t ã o ser filho d e u m casal j o v e m - s u a m ã e e u m d e seus m e i o - i r m ã o s - , e n ã o d e s s e pai
idoso. S e n d o o m a i s v e l h o d e oito irmãos, Freud era o favorito d e s u a m ã e , o q u e , s e m d ú v i d a , contribuiu
para reforçar s u a c o n f i a n ç a n o s u c e s s o . E m 1860, s u a família instalou-se e m Viena. Ali S i g m u n d e s t u d o u
m e d i c i n a e t r a b a l h o u c o m professores d e prestígio, c o m o o fisiologista Ernst B r ú c k e , m é d i c o positivista.
Este foi o r e s p o n s á v e l p e l o e n c o n t r o d e Freud c o m J . Breuer, fisiologista e prático v i e n e n s e e m evidência,
14 a n o s mais v e l h o d o q u e ele e q u e se interessava pelo t r a t a m e n t o d a histeria.
No p l a n o científico, o olhar inovador d e Freud j á se manifestara e m diversas p e s q u i s a s q u e c h a m a v a m a
a t e n ç ã o p a r a ele. A s s i m , s e u t r a b a l h o pioneiro s o b r e a u n i d a d e m o r f o l ó g i c a e fisiológica d a s células e das
fibras n e r v o s a s fez d e l e u m precursor r e c o n h e c i d o d a teoria neuronal e l a b o r a d a p o s t e r i o r m e n t e por Walder,
e m 1 8 9 1 . Q u a n t o às p u b l i c a ç õ e s d e Freud s o b r e a afasia e s o b r e as paralisias infantis, l a n ç a d a s e m 1 8 9 1 ,
seu valor é r e c o n h e c i d o até hoje, e m particular s u a c o n c e p ç ã o f u n c i o n a l d a afasia, q u e r o m p e u c o m a
teoria d a s l o c a l i z a ç õ e s corticais e m vigor. Ele e s t u d o u a i n d a os efeitos f a r m a c o l ó g i c o s d a c o c a í n a , inclusi-
ve s o b r e ele m e s m o , m a s a n o t o r i e d a d e d e s u a d e s c o b e r t a foi u s u r p a d a por u m c o l e g a . O b t e v e o título
honorífico d e Privat-Docent e m 1895.
Freud a p a i x o n o u - s e por Martha Bernays e m 1882, q u a n d o tinha 26 a n o s e ela 2 0 . O n o i v a d o d u r o u quatro
anos, d u r a n t e o s q u a i s eles t r o c a r a m cartas q u a s e q u e diárias: nelas Freud se m o s t r a q u a s e s e m p r e u m
noivo a n s i o s o , a p a i x o n a d o e tirânico, e Martha u m a noiva forte e discreta, u m a m u l h e r " n o r m a l " , c o m o dirá
mais t a r d e s o b r e ela E. J o n e s , q u e a admirava. Casaram-se e m 1886, p o u c o d e p o i s d e F r e u d ter aberto seu
consultório. T i v e r a m seis filhos. E m 1 8 9 1 , m u d a r a m para a B e r g g a s s e 19, e m Viena, o n d e viveram até partir
para o exílio e m L o n d r e s , e m 1938, para escapar as p e r s e g u i ç õ e s nazistas.

Freud e Breuer: u m a colaboração decisiva


A atenção d e Freud foi atraída pela primeira vez para as possibilidades d a hipnose no tratamento de pacientes
histéricos ao ouvir, e m 1882, o relato d e seu amigo e colega vienense J o s e p h Breuer sobre os êxitos obtidos no
tratamento d e sintomas histéricos d e u m a jovem paciente, Anna O. Quatorze anos mais velho d o que Freud,
Breuer teve u m papel determinante no nascimento d a psicanálise. Médico d e origem judaica, era u m eminente
fisiologista e u m brilhante especialista e m clínica geral, dotado de u m a grande cultura. Era t a m b é m amigo e
m é d i c o d e família d e numerosas personalidades d a sociedade vienense, c o m o o filósofo Franz Brentano e o
compositor Johannes Brahms. Freud conheceu Breuer por intermédio de seu professor, Ernst Brúcke, fisiologista
de grande reputação junto ao qual realizou pesquisas e m neurofisiologia d e 1876 a 1882. Depois d e instalar seu
consultório privado, Freud aplicou a técnica de Breuer a vários pacientes e ficou impressionado ao constatar
q u e as observações d e Breuer se confirmavam c o m sua clientela. Mas Freud, cujo espírito investigativo estava
s e m p r e e m busca d e novas descobertas, logo procurou seguir seu próprio caminho.

Continua £
Ler Freud 21

Q Continuação

Freud estuda c o m precursores: Charcot e Bernheim


Para aprender mais, decidiu fazer u m estágio c o m Charcot e m Paris, entre 1885 e 1886, e depois c o m Bernheim
e m Nancy, e m 1889. Durante alguns meses, seguiu o s ensinamentos d e Charcot, q u e se ilustrara tentando
resolver o problema que à histeria colocava para a medicina. A b a n d o n a n d o as teses d a Antiguidade e d a Idade
Média q u e atribuíam à histeria a u m a excitação d e origem uterina o u à estimulação, Charcot conferiu a essa
afecção o estatuto d e u m a entidade nosológica b e m delimitada e fez dela u m objeto d e estudos e pesquisas.
Classificou a histeria entre as doenças nervosas funcionais o u neuroses para distingui-las das afecções psiquiátri-
cas d e origem orgânica. Estabeleceu essa distinção observando q u e a distribuição das paralisias histéricas era
aleatória e diferente d a distribuição radicular observada nas paralisias neurológicas. Charcot procurava demonstrar
q u e o s distúrbios histéricos eram d e natureza psíquica, e não orgânica, e m p r e g a n d o a sugestão hipnótica para
reproduzir os sintomas histéricos e fazê-los desaparecer. Ele lançou a hipótese d e u m a "lesão dinâmica" cere-
bral d e origem traumática, q u e poderia ser a causa d a histeria tento e m mulheres c o m o e m homens.
M a s C h a r c o t e m p r e g a v a a s u g e s t ã o h i p n ó t i c a mais para fins d e d e m o n s t r a ç ã o d o q u e d e t r a t a m e n t o .
A s s i m , e m 1889, Freud d e c i d i u aperfeiçoar s u a própria t é c n i c a j u n t o a B e r n h e i m e m Nancy. Este último
havia d e m o n s t r a d o q u e a h i p n o s e era u m a s u g e s t ã o q u e passava antes d e t u d o pela palavra, e n ã o p e l o
m a g n e t i s m o d o olhar, o q u e fez d e s s a a b o r d a g e m u m a verdadeira t é c n i c a psicoterapêutica q u e Freud
p a s s o u a aplicar d e s d e q u e retornou a Viena.

Estudos sobre a h i s t e r i a : quinze anos d e gestação


Freud levou muitos a n o s para c o n v e n c e r Breuer a reunir e m u m a o b r a c o m u m as o b s e r v a ç õ e s clínicas q u e
t i n h a m feito d e s d e 1 8 8 1 , assim c o m o suas respectivas hipóteses. C o m e ç a r a m a publicar c o n c l u s õ e s p r o -
visórias s o b r e o s resultados d o m é t o d o catártico e m " C o m u n i c a ç ã o preliminar" (1893), q u e foi r e p r o d u z i d a
e m 1895 e m Estudos sobre a histeria, c o n s t i t u i n d o s e u primeiro capítulo.
A p u b l i c a ç ã o d e Estudos sobre a histeria m a r c a , p o r é m , o f i m c o l a b o r a ç ã o d o s dois autores, e a partir d e
1896 Freud p r o s s e g u i u s o z i n h o suas p e s q u i s a s , d e c e p c i o n a d o c o m a falta d e a m b i ç ã o d e Breuer. U m a d a s
c a u s a s d o afastamento d e a m b o s foi o fato d e q u e Breuer n ã o estava c o n v e n c i d o d a i m p o r t â n c i a d o s
fatores sexuais n a o r i g e m d a histeria, q u e Freud enfatizava c a d a vez mais. M a s Breuer c o n t i n u o u a c o m p a -
n h a n d o d e l o n g e o d e s e n v o l v i m e n t o d a s ideias d e Freud. Este s ó ficou s a b e n d o disso, para s u a s u r p r e s a ,
por o c a s i ã o d a morte d e Breuer e m 1925, q u a n d o s e u filho Robert Breuer, e m resposta à carta d e c o n d o -
lências d e Freud, falou-lhe d o interesse p e r m a n e n t e d o pai p o r s e u s trabalhos (Hirschmúller, 1978).

D E S C O B E R T A DA O B R A

A s páginas i n d i c a d a s r e m e t e m a o t e x t o p u b l i c a d o e m S . F r e u d e J . B r e u e r ( 1 8 9 5 d ) , Etudes
sur Vhystérie, trad. A .Berman, Paris, P U F , 1956.

O MECANISMO PSÍQUICO E s s a c a u s a e s c a p a a o s i m p l e s e x a m e clínico e o


DOS FENÓMENOS HISTÉRICOS próprio d o e n t e já n ã o s e r e c o r d a d e s s e aconte-
por J . Breuer e S. Freud c i m e n t o . A a j u d a d a h i p n o s e c o s t u m a s e rn e -
cessária p a r a d e s p e r t a r n o p a c i e n t e a s l e m b r a n -
O capítulo introdutório r e t o m a o t e x t o d e ças d a época e m q u e o s i n t o m a f e z s u a p r i m e i -
"Comunicação p r e l i m i n a r " , já p u b l i c a d a e m r a s a p a r i ç ã o : "É só depois disso que se consegue
1893, n a q u a l o sa u t o r e s d e s c r e v e r a m a s e t a p a s estabelecer da forma mais nítida e mais convincente
s u c e s s i v a s d e s u a s c o n d u t a s clínicas e q u e f a z a relação em questão" ( p .1).N a m a i o r i a d a s v e -
p a r t e d e s u a s p r i m e i r a s hipóteses. E m g e r a l , z e s , a c o n t e c i m e n t o s o c o r r i d o s n a infância é q u e
d e c l a r a m e l e s , é u m a observação f o r t u i t a q u e p r o v o c a r a m p o s t e r i o r m e n t e manifestações p a -
permite descobrir acausa o u , mais precisamen- tológicas m a i s o u m e n o s graves.
te, o i n c i d e n t e q u e p r o v o c o u p e l a p r i m e i r a v e z
E s s a s observações m o s t r a m q u e e x i s t e u m a
o s i n t o m a histérico e m u m p a s s a d o longínquo.
a n a l o g i a e n t r e a h i s t e r i a e a n e u r o s e traumática,
24 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

POS-FREUDIANOS • Continuação

encaminhou a paciente a Ludwig Binswanger, diretor d o sanatório d e Kreuzlingen, para q u e prosseguisse o


tratamento, e d e lá ela saiu curada e m outubro d o m e s m o ano. Depois, A n n a O. foi viver e m Viena, o n d e ainda
foi tratada a l g u m a s vezes, e mais tarde mudou-se para Frankfurt. Na Alemanha, teve u m a vida muito ativa c o m o
escritora e dedicou-se a obras sociais. À luz desses novos dados, R. Britton (2003) lançou u m a série d e hipóte-
ses convincentes sobre a natureza d o conflito histérico partindo d o reexame desse primeiro caso.
A l g u n s detratores d a psicanálise s e a p o i a r a m n o fato d e o s pacientes descritos e m Estudos sobre a histeria
não t e r e m se livrado c o m p l e t a m e n t e d e seus s i n t o m a s para contestar s u a v a l i d a d e , a c u s a n d o Freud e
Breuer d e mistificação e A n n a O. d e s i m u l a ç ã o . É v e r d a d e q u e , e m s e u e n t u s i a s m o , Breuer e Freud florea-
ram u m p o u c o o relato d e s e u s c a s o s clínicos, pois s u a p u b l i c a ç ã o destinava-se e m parte a d e m o n s t r a r
q u e suas p e s q u i s a s e r a m anteriores às d e Janet. M a s , para isso, n ã o era preciso tapar o s o l c o m a peneira,
pois q u a l q u e r q u e t e n h a s i d o o resultado relativo d e s s a cura, o t r a t a m e n t o d e A n n a O. p e r m a n e c e r á n o s
anais c o m o o p r i m e i r o êxito d o m é t o d o c h a m a d o d e catártico e q u e d e u a Freud o p r i m e i r o i m p u l s o e m
direção à d e s c o b e r t a d a psicanálise.

"Sra. Emmy von N." (Freud): Freud utiliza u t i l i z a r c o m e s s a p a c i e n t e . E l a própria i n s i s t i a


o método catártico pela primeira vez c o m F r e u d p a r a q u e n ã o a t o c a s s e q u a n d o às
vezes era t o m a d a de terror diante de suas lem-
D o m e s m o m o d o que sesituou a descober- b r a n ç a s : "Fique tranquilo!", d i z i a e l a . "Não fale
t a d o m é t o d o catártico n a c u r a d e A n n a O . p o r nadai... não toque em miml", e d e p o i s s e a c a l -
Breuer, situou-se na cura de E m m y v o n N . por m a v a . F r e u d concluiu que, n o caso d e E m m y
F r e u d o a b a n d o n o d ah i p n o s e e m f a v o r d o v o n N . , não s e t r a t a v a d e u m a h i s t e r i a d e c o n -
método d e associação l i v r e . E s s a m u l h e r d e v e r s ã o , m a s d e s i n t o m a s p s í q u i c o s histéricos
41 anos - cujo verdadeiro n o m e era F a n n y c o m angústias, depressão e f o b i a s . Q u a n t o à
M o s e r - e r a viúva d e u m r i c o i n d u s t r i a l c o m origem dessa histeria, F r e u d considerou que
q u e m teve duas filhas e sofria de graves fobias a repressão d o e l e m e n t o s e x u a l t e v e u m p a -
de animais. A o longo dessa cura, que come-
p e l d e t e r m i n a n t e , p o i s e l a e r a "mais capaz do
çou n o d i a I d e m a i o d e 1 8 8 9 e l e v o u s e i s s e -
o

que outras causas de traumatismos" ( p . 8 0 ) .


manas, F r e u d fez entrevistas c o m finalidade
catártica, a c o m p a n h a d a s d e m a s s a g e n s e d e
sessões d e h i p n o s e p a r a e s t i m u l a r a r e m e m o - "Miss Lucy R." (Freud): Freud
ração. M a s e l e p e r c e b e u , n a s e n t r e v i s t a s , q u e abandona progressivamente a
bastava que a paciente falasse espontanea- hipnose pela sugestão
m e n t e p a r a t r a z e r à t o n a a s lembranças s i g n i -
f i c a t i v a s e p a r a q u e o e f e i t o catártico v i e s s e E m d e z e m b r o d e1892, F r e u d tratou p o r
d o simples fato de ela sedescarregar esponta- n o v e s e m a n a s d eu m a j o v e m g o v e r n a n t a i n -
n e a m e n t e p o r m e i o d a p a l a v r a : "É como se ela glesa que sofria de u m a perda de o d o r e de alu-
tivesse se apropriado do meu procedimento"', e s - cinações o l f a t i v a s e q u e e r a p e r s e g u i d a p o r c h e i -
c r e v e F r e u d . "Ela parece utilizar essa conversa r o d e q u e i m a d o e p o r distúrbios c o n s i d e r a d o s
aparentemente interrompida como complemento da s i n t o m a s histéricos. D e p o i s d e t e r t e n t a d o e m
hipnose" ( p . 4 2 ) . A l g u n s d i a s d e p o i s , i r r i t a d a vão u t i l i z a r a h i p n o s e c o m e l a , F r e u d d e s i s t i u e
c o m a s perguntas d eF r e u d , a paciente lhe p a s s o u a a p l i c a r o c h a m a d o m é t o d o d e "associa-
p e d i u q u e n ã o a i n t e r r o g a s s e s e m p a r a r e "que ção livre", a j u d a n d o às v e z e s c o m u m a l e v e p r e s -
a deixasse contar o que ela tinha a dizer" ( p . 4 8 ) . são n a t e s t a d a p a c i e n t e c o m a m ã o q u a n d o a s
Freud concordou e acabou constatando que l e m b r a n ç a s d e m o r a v a m a s u r g i r : "e apoiava a
c o n s e g u i a a rememoração d e s e j a d a m e s m o mão na testa da paciente ou segurava sua cabeça
s e m a h i p n o s e q u e , n oe n t a n t o , c o n t i n u a v a a com as duas mãos dizendo: 'Você se lembrará sob a
Ler Freud 25

pressão das minhas mãos. No momento em que a surge em cada traumatismo sexual" ( p . 1 0 6 ) . E m
pressão parar, você verá alguma coisa à sua frente u m a n o t a acrescentada e m 1924, F r e u d r e v e l a
ou passará uma ideia por sua cabeça que é preciso q u e n ã o s e t r a t a v a d o "tio" d a m e n i n a , m a s d e
captar, é ela que vamos perseguir. E então, você viu s e u próprio p a i ( p . 1 0 6 , n . 1 ) .
ou pensou?'" ( p . 8 6 ) . E s s e t r a t a m e n t o c o n f i r m o u
a hipótese d e q u e a lembrança d e u m i n c i d e n t e
esquecido, m a s fielmente conservado n a m e -
"Srta. Elisabeth von R." (Freud): Primeira
m ó r i a , está n a o r i g e m d o e f e i t o p a t o g ê n i c o d o s
análise completa de um caso de histeria
s i n t o m a s histéricos. T r a t a - s e d e u m c o n f l i t o O quarto caso descrito por F r e u d é od e
psíquico, q u a s e s e m p r e d e n a t u r e z a s e x u a l , c u j o u m a moça d e o r i g e m húngara, d e 2 4 a n o s ,
e f e i t o patogênico s e d e v e a q u e u m a i d e i a i n - Elisabeth v o n R .- cujo verdadeiro n o m e era
c o m p a t í v e l é "reprimida do consciente e exclui a I l o n a W e i s s -, q u e ele t r a t o u d o o u t o n o d e 1892
elaboração associativa" ( p . 9 1 ) . N e s s e c a s o , o s s i n - a j u l h o d e 1 8 9 3 . A moça s o f r i a há d o i s a n o s d e
tomas foram eliminados no m o m e n t o e m que d o r e s v i o l e n t a s n a s p e r n a s e d e distúrbios i n e x -
Freud descobriu que Miss Lucy R .se apaixo- plicáveis d a m a r c h a , distúrbios q u e t i n h a m
n a r a s e c r e t a m e n t e p o r s e u patrão e e m q u e e l a aparecido pela p r i m e i r a vez q u a n d o ela cuida-
a d m i t i u t e r r e p r i m i d o e s s e a m o r p o r q u e não v a de seu pai doente. Pouco antes da m o r t e d e
t i n h a esperança. s e u p a i , s u a irmã f i c o u d o e n t e e também m o r -
reu, e essas d u a s perdas t i v e r a m u m p a p e l
determinante n acausa d asintomatologia. O
"Katharina" (Freud)J Relato de uma t r a t a m e n t o s e d e s e n v o l v e u e m três f a s e s , s e g u n -
breve terapia psicanalítica d o F r e u d . A p r i m e i r a fase f o i d o m i n a d a pela
i m p o s s i b i l i d a d e d eestabelecer c o m essa p a -
N e s s e r e l a t o , F r e u d f a z u m a demonstração
c i e n t e u m a relação e n t r e s e u s s i n t o m a s e a c a u -
curta ebrilhante sobre opapel dos t r a u m a t i s m o s
s a d e s e n c a d e a n t e . E l a s e m o s t r o u refratária à
s e x u a i s n a o r i g e m d o s s i n t o m a s histéricos. E s s e
h i p n o s e e F r e u d s e c o n t e n t o u e m mantê-la d e i -
tratamento desenvolve-se e m f o r m a de u m a en-
tada, c o m os olhos fechados, m a s c o m os m o v i -
trevista d ea l g u m a s h o r a s e n t r e F r e u d e essa
mentos livres. A despeito das tentativas d e
moça d e 1 8 a n o s , a q u e m e l e c o n c e d e u u m a c o n -
sulta i m p r o v i s a d a durante u m passeio e m suas F r e u d , n ã o s e p r o d u z i a o e f e i t o terapêutico e s -
férias n a m o n t a n h a , e m a g o s t o d e 1 8 9 3 . K a t h a r i - p e r a d o . Então e l e r e c o r r e u a o p r o c e d i m e n t o p o r
na era filha d ad o n a d aestalagem e, sabendo pressão d a m ã o s o b r e a cabeça, p e d i n d o - l h e q u e
q u e F r e u d e r a médico, p e r g u n t o u - l h e s e p o d e - falasse o q u e lhe viesse à m e n t e . O p r i m e i r o
r i a ajudá-la a r e s o l v e r s i n t o m a s d e s u f o c a ç ã o p e n s a m e n t o d e E l i s a b e t h v o n R . f o i a lembrança
a c o m p a n h a d o s d a visão d e u m r o s t o a s s u s t a - de u m rapaz por q u e m seapaixonou q u a n d o
d o r . E m s e u s diálogos, r e p r o d u z i d o s f i e l m e n t e seu pai estava doente. D e v i d o à gravidade d o
por Freud, Katharina l e m b r o u que seus sinto- estado de seu pai, ela renunciara d e f i n i t i v a m e n -
m a s t i n h a m começado d o i s a n o s a n t e s , q u a n d o t e a e s s e a m o r . E l a s e l e m b r o u também q u e n o
p r e s e n c i o u u m a relação s e x u a l e n t r e s e u " t i o " e m o m e n t o e m que apareceu o conflito interno,
sua p r i m a Franziska, o que a deixara profunda- surgiu a d o r nas pernas - m e c a n i s m o caracte-
m e n t e c h o c a d a . E s s a lembrança r e c o r d o u a rístico d a c o n v e r s ã o histérica, s e g u n d o F r e u d .
K a t h a r i n a q u e e s s e " t i o " já t e n t a r a s e d u z i - l a vá- O despertar desse fracasso a m o r o s o l e v o u a q u e
rias vezes, q u a n d o ela t i n h a 1 4anos. F r e u d ob- a própria p a c i e n t e d e s c o b r i s s e o m o t i v o d e s u a
s e r v a q u e , após o r e l a t o d o s f a t o s , a moça s e s e n - p r i m e i r a c o n v e r s ã o : "A doente surpreendeu-me
te a l i v i a d a , pois, s e g u n d o suas palavras, a histe- primeiro ao dizer que agora sabia por que razão as
r i a f o i "em grande medida ab-reagida" ( p . 1 0 4 ) . dores partiam sempre de um determinado ponto da
F r e u d v i u n i s s o a confirmação d e s u a t e s e : "A coxa direita e eram sempre mais violentas ali. Era
angústia que Katharina sente nesse acesso é uma an- justamente o lugar onde todas as manhãs seu pai
gústia histérica, isto é, a repetição da angústia que repousava sua perna muito inchada quando ela tro-
T A /r: „ I i r^.
CARTAS A WILHELM FLIESS
S. FREUD (1950a [1887-1902] e 1985c [1887-1904])

Um te stemunho das primeiras pesquisas e da auto-análise

A s cartas q u e F r e u d escreveu a seu amigo B o n a p a r t e e m 1 9 3 6 d e u m antiquário v i e n e n s e .


W . Fliess d u r a n t e 1 5anos, entre 1 8 8 7e1904, E m 1950, e l a e d i t o u c o m A n n a F r e u d e E r n e s t
c o n s t i t u e m u m a v a l i o s a f o n t e d e informação: Kris extratos cuidadosamente selecionados d e
não a p e n a s a p r e n d e m o s m u i t o sobre s u a v i d a 1 6 8 c a r t a s d e u m t o t a l d e 2 8 4 , s o b o título O nas-
privada e profissional n o dia-a-dia, c o m o tam- cimento da psicanálise, acompanhadas d e u m
b é m a s s i s t i m o s à evolução d e s e u p e n s a m e n t o m a n u s c r i t o inédito d e " P r o j e t o p a r a u m a psico-
a o l o n g o d e s s e período p a r t i c u l a r m e n t e fecun- l o g i a científica", q u e F r e u d n ã o q u e r i a p u b l i c a r .
d o e a o d e s e n v o l v i m e n t o d e auto-análise. D e s - A t o t a l i d a d e d a s c a r t a s só f o i p u b l i c a d a e m 1 9 8 6 ,
sa a b u n d a n t e correspondência, r e s t a m apenas depois d am o r t e d eA n n a F r e u d , q u a n d o ven-
as cartas d eFreud, adquiridas p o r M a r i e ceu o prazo d e confidencialidade.

BIOGRAFIAS E HISTORIA

A a m i z a d e apaixonada entre Freud e Fliess


Freud conheceu Wilhelm Fliess e m 1887, graças a Breuer. Fliess era médico otorrinolaringologista estabelecido
e m Berlim, defensor d e teorias biológicas e matemáticas audaciosas e muito confiante e m suas hipóteses. Nessa
época, Freud era mantido à margem d o meio médico vienense e m razão d e suas teorias sobre a etiologia sexual
das neuroses, e acabou encontrando e m Fliess u m interlocutor privilegiado e estimulante. A amizade c o m Breuer
foi p o u c o a pouco substituída pela amizade c o m Fliess, q u e se tornou durante muitos anos o confidente mais
íntimo d e Freud. Além d e trocarem cartas, o s dois amigos se encontravam eventualmente e m "congressos", e m
q u e confrontavam suas hipóteses e elaboravam suas teorias. Freud fez assim d e seu "queridíssimo Wilhelm" o
testemunho ativo d e suas descobertas e d e suas contribuições científicas no momento entre a preparação d e
Estudos sobre a histeria até a publicação de A interpretação dos sonhos, e m 1900. Na verdade, o encanto c o m e -
ç o u a se desfazer em 1897, Freud desidealizou progressivamente seu amigo, tornou-se menos dependente dessa
relação intensa e reconheceu mais tarde o lado homossexual dessa amizade. No desenvolvimento d e sua auto-
análise, Freud descobrira paralelamente seu ódio pelo pai e seu ódio dissimulado por Fliess. Os dois amigos se
desentenderam e m u m último "congresso", e m 1900, Freud criticando a teoria d a periodicidade d e Fliess, e este
acusando Freud d e ler e m seus doentes seus próprios pensamentos. A relação se deteriorou, as trocas d e cartas
se tornaram mais raras, até que ocorreu a ruptura definitiva e m 1906. Depois disso, Freud destruiu todas as cartas
de Fliess, tenha reconhecido posteriormente q u e devia a ele suas ideias sobre a bissexualidade.

D E S C O B E R T A D A oO. B R A

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1950a [1887-1902]), La naissance de la


psychanalyse, Lettres à Fliess, Notes et Plans (1887-1902), t r a d . A . B e r m a n , Paris, PUF, 1 9 5 6 .

A leitura d a s cartas d eF r e u d a Fliess, à ções f r e u d i a n a s , e l a s são u m a f o n t e apaixonante


p r i m e i r a vista, t e m u minteresse l i m i t a d o , m a s d e informações. E n c o n t r a m - s e ali, e m estado
p a r a u m l e i t o r já f a m i l i a r i z a d o c o m a s c o n c e p - n a s c e n t e , a s questões q u e F r e u d s e c o l o c a a p r o -
32 J e a n - M i c h e l Quinodoz

pósito n ã o a p e n a s d a h i s t e r i a , m a s t a m b é m d a s recém-adquirida; é e n t ã o q u e a l e m b r a n ç a s o f r e
n e u r o p s i c o s e s , d a p a r a n ó i a e d a depressão ( q u e a repressão e m u m a posteriori, n o ç ã o q u e terá
ele c h a m a d e m e l a n c o l i a ) . S e g u i n d o p a s s o a pas- u m l u g a r c e n t r a l n a psicanálise.
s o o r e l a t o d e s u a s preocupações c o t i d i a n a s , d e C o n t u d o , n o d e c o r r e r d e s u a s investigações
s e u s comentários s o b r e s e u s p a c i e n t e s e m t r a t a - clínicas, F r e u d c o m e ç o u a d u v i d a r d a v e r a c i d a -
m e n t o o ud es e u s p r o b l e m a s f a m i l i a r e s , s u r - d e d a s c e n a s d e sedução q u e s e u s p a c i e n t e s l h e
preendemo-nos ao descobrir u m a de suas intui- relatavam, conforme revelou a oseu a m i g o
ções d e c i s i v a s q u a n d o , p o r e x e m p l o , e l e m e n c i o - W i l h e l m e m s u a célebre c a r t a d a t a d a d e 2 1 d e
n a p e l a p r i m e i r a v e z a existência d o c o m p l e x o s e t e m b r o d e 1 8 9 7 : "Preciso confiar-lhe imediata-
d e Édipo. D e i x a r e i q u e o l e i t o r d e s c u b r a e s s a c o r - mente o grande segredo que, nestes últimos meses, foi
respondência, m a s v o u m e d e t e r e m três m o - se revelando aos poucos. Não acredito mais em mi-
m e n t o s decisivos: o m o m e n t o e m q u e F r e u d des- nha neurótica" ( p . 1 9 0 ) . F r e u d a p r e s e n t a vários
c o b r e o p a p e l d a s f a n t a s i a s d e sedução, a q u e l e a r g u m e n t o s e m a p o i o a e s s a mudança. P r i m e i -
e m q u e t e m a intuição d o c o m p l e x o d e É d i p o ro, ele d u v i d a q u e atos p e r v e r s o s c o n t r a crian-
d u r a n t e s u a auto-análise, e a q u e l e e m q u e r e - ças s e j a m tão f r e q u e n t e s a s s i m ; d e p o i s , p o s t u l a
nuncia a construir u m a teoria que desse u m a e x p l i c i t a m e n t e q u e , m a i s d o q u e a vivência r e a l ,
b a s e c i e n t í f i c a à psicanálise.
// ,,
é a f a n t a s i a d a sedução q u e d e s e m p e n h a o p a -
p e l d e t e r m i n a n t e : "Há sempre uma solução possí-
vel, que é dada pelo fato de que a fantasia sexual gira
Sedução real e fantasias de sedução sempre em torno do tema dos pais" ( p . 1 9 1 ) ; f i n a l -
m e n t e , e l e c h e g a à conclusão d e q u e é difícil s e -
C o m o v i m o s n o capítulo a n t e r i o r , F r e u d a t r i -
p a r a r a r e a l i d a d e e a f a n t a s i a : "(...) não existe no
b u i u a o r i g e m d a h i s t e r i a a u m a sedução r e a l -
inconsciente um 'indicador de realidade', de modo que
mente sofrida por parte d eu m a pessoa adulta
é impossível distinguir entre a verdade e a ficção
d o s e u círculo o u v i n d o s e u s p a c i e n t e s r e l a t a r e m
investida de afeto" ( p . 1 9 1 ) .
a lembrança d e c e n a s r e a i s d e s e d u ç ã o o c o r r i d a s
d u r a n t e s u a infância n o m o m e n t o e m q u e a p a -
r e c e r a m o s p r i m e i r o s s i n t o m a s histéricos. E s s a O papel da sexualidade infantil
hipótese - c h a m a d a d e " t e o r i a d a s e d u ç ã o " -
f o i e l a b o r a d a e m 1 8 9 3 e a s s u m i d a p o r e l e até C o m o F r e u d c h e g o u a a t r i b u i r às f a n t a s i a s
1 8 9 7 . N e s s e período, F r e u d a m p l i o u s u a hipó- u m papel mais determinante que à realidade, a
t e s e , não m a i s l i m i t a n d o - a a p e n a s à h i s t e r i a , m a s p o n t o d e r e n u n c i a r e m g r a n d e p a r t e às s u a s
f a z e n d o dela a causa das neuropsicoses e m ge- hipóteses i n i c i a i s ? F o i o u v i n d o o s r e l a t o s d e l e m -
r a l . E m s u a m e n t e , n o e n t a n t o , e s s a t e o r i a não s e branças e d o s s o n h o s d e s e u s p a c i e n t e s e a n a l i -
destinava s i m p l e s m e n t e a estabelecer u m a rela- s a n d o o s s e u s q u e F r e u d d e s c o b r i u q u e as c r i a n -
ção d e c a u s a e e f e i t o e n t r e a sedução r e a l e o s ças t a m b é m t ê m e m o ç õ e s , sensações e p e n s a -
sintomas, e s i m a explicar o mecanismo d a re- m e n t o s d e conteúdos s e x u a i s , e q u e e m g e r a l é
pressão, c o m o a s s i n a l a m c o m m u i t a p r o p r i e d a - difícil p a r a e l a s d i s t i n g u i r e n t r e r e a l i d a d e e f a n -
d e J. L a p l a n c h e e J . - B . P o n t a l i s ( 1 9 6 7 ) . É p o r e s s a t a s i a : "Assim, por trás dessas fantasias, a vida sexual
razão q u e F r e u d p a s s a a i d e i a d e q u e e s s e p r o - da criança revelou-se em toda sua amplitude" ( F r e u d ,
cesso se p r o d u z e m dois m o m e n t o s , separados 1 9 1 4 d , p . 2 7 5 ) . A o contrário d o q u e s e p e n s a v a
pela puberdade: e m u m primeiro m o m e n t o , a até então, e s s e d o m í n i o n ã o e r a r e s e r v a d o a p e -
p e s s o a é i n c a p a z d e s e n t i r u m a emoção s e x u a l , nas aos adolescentes e adultos. M a s , e m b o r a a
v i s t o q u e a i n d a não a t i n g i u a m a t u r i d a d e s e x u a l d e s c o b e r t a d a importância d a s e x u a l i d a d e i n -
s u f i c i e n t e , d e m o d o q u e a c e n a não é r e p r i m i d a ; fantil na etiologia das neuroses o tenha levado a
e m u m s e g u n d o m o m e n t o , q u e F r e u d s i t u a após a b a n d o n a r sua teoria inicial, é preciso esclare-
a puberdade, u m n o v o acontecimento v e m des- cer q u e ele c o n t i n u o u a f i r m a n d o d u r a n t e t o d a
p e r t a r a l e m b r a n ç a a n t i g a , o q u e c a u s a então u m s u a v i d a q u e c e n a s d e sedução r e a l m e n t e v i v i -
i m p a c t o traumático m u i t o m a i s i m p o r t a n t e q u e d a s p e l a s crianças t i n h a m u m p a p e l patogênico,
o incidente inicial, d e v i d o à m a t u r i d a d e sexual e q u e a n e u r o s e q u e r e s u l t a v a d i s s o não p o d i a
Ler Freud 33

s e r atribuída e x c l u s i v a m e n t e a f a n t a s i a s . A i n d a ocasião de uma viagem de Leipzig a Viena que fiz


h o j e , a questão está l o n g e d e s e r r e s o l v i d a , p o i s , com ela e durante a qual dormi em seu quarto e,
e m m u i t o s c a s o s , é difícil e s t a b e l e c e r a p a r t e d o com certeza, pude vê-la inteiramente nua" ( p . 1 9 4 ) .
r e a l e d a imaginação t a n t o p a r a o próprio p a c i e n - D i z a i n d a , n a m e s m a c a r t a : "Tudo me leva a
te c o m o p a r a o psicanalista. crer também que o nascimento de um irmão um
O q u e se e n t e n d e p o r " s e x u a l i d a d e i n f a n t i l " ? ano mais novo do que eu suscitara em mim desejos
É p r e c i s o e s c l a r e c e r d e s d e já e s s a noção, p o i s g e - cruéis e uma verdadeira inveja infantil, e que sua
r a l m e n t e ela é m a l c o m p r e e n d i d a . O que os psi- morte (ocorrida alguns meses depois) deixara o
c a n a l i s t a s e n t e n d e m p o r s e x u a l i d a d e i n f a n t i l não germe do remorso" ( p . 1 9 4 ) .
i n c l u i a p e n a s a s a t i v i d a d e s eróticas m a i s d i v e r - U m a s e m a n a depois, ele evoca pela p r i m e i -
s a s q u e s e p o d e m o b s e r v a r n a s crianças p e q u e - r a v e z e m s u a auto-análise, a q u i l o q u e d e s i g n a -
nas, a s s i m c o m o o sp e n s a m e n t o s e o s desejos rá, m a i s d e 1 0 a n o s d e p o i s , p e l o n o m e d e "com-
q u e elas expressam n a m a i s tenra idade; o que plexo de Édipo" ( 1 9 1 0 h , p . 5 2 ) : "No momento, mi-
se e n t e n d e p o r s e x u a l i d a d e i n f a n t i l d e s i g n a nha auto-análise é realmente o que há de mais essen-
igualmente o conjunto do processo de transfor- cial e promete ser da maior importância para mim, se
m a ç õ e s psíquicas e c o r p o r a i s q u e s e d e s e n v o l - eu conseguir concluí-la. (...) Encontrei em mim, as-
v e m até a p u b e r d a d e e a adolescência. E s s e p r o - sim como por toda parte, sentimentos de amor em
c e s s o c o m e ç a c o m a s p r i m e i r a s emoções s e n s u a i s relação à minha mãe e de inveja em relação a meu pai,
s e n t i d a s p e l o recém-nascido q u e s u g a o s e i o d e sentimentos que acredito que sejam comuns a todas
s u a m ã e d u r a n t e a amamentação e c o n t i n u a s e as crianças pequenas (...) Se isso é verdade, compre-
o r g a n i z a n d o e t a p a p o r e t a p a até a t i n g i r a m a t u - ende-se, a despeito de todas as objeções racionais que
ridade genital que caracteriza a idade adulta, se opõem à hipótese de uma fatalidade inexorável, o
assim como a personalidade do h o m e m o u d a efeito impressionante de Édipo R e i " ( p . 1 9 8 ) . N e s -
m u l h e r . É o conjunto desse processo durante o sa carta, F r e u d s e refere u n i c a m e n t e à f o r m a
qual a sexualidade desempenha u m papel d i r e t a d o c o m p l e x o d e Édipo t a l c o m o s e m a n i -
organizador determinante que chamamos d e festa n o m e n i n o , desejoso de u s u r p a r o l u g a r d o
p a i j u n t o à mãe. E m s e g u i d a , e l e descreverá
s e x u a l i d a d e i n f a n t i l , e n t e n d e n d o - s e a noção d e
i g u a l m e n t e o c o m p l e x o d e Édipo d i r e t o n a m e -
sexualidade e m u m sentido mais amplo. A l g u n s
n i n a - d e s e j o s a d e t o m a r o l u g a r d amãe j u n t o
a n o s m a i s t a r d e , F r e u d fará u m a síntese d a s r e -
ao p a i - e,m a i s tarde ainda, a f o r m a inversa d o
flexões já esboçadas n a correspondência c o m s e u
c o m p l e x o d e Édipo t a n t o n o m e n i n o c o m o n a
a m i g o F l i e s s e m Três ensaios sobre a teoria da sexua-
m e n i n a . A descoberta de que existe s i m u l t a n e a -
lidade ( 1 9 0 5 d ) .
m e n t e , e m u m m e s m o indivíduo, u m c o m p l e x o
d e É d i p o d i r e t o , responsável p e l a identificação
A auto-análise e a kescoberta c o m o p r o g e n i t o r d om e s m o sexo, e u m c o m -
do complexo de Éqipo p l e x o d e É d i p o i n v e r s o , responsável p e l a i d e n -
tificação c o m o p r o g e n i t o r d o s e x o o p o s t o , p e r -
P o u c o d e p o i s d am o r t e d e s e u p a i , o c o r r i - mitirá a F r e u d , e m O ego e o id ( 1 9 2 3 b ) , a p l i c a r a o
d a e m 1 8 9 6 , F r e u d e m p r e e n d e u s u a própria p l a n o d a f a n t a s i a a n o ç ã o d e b i s s e x u a l i d a d e psí-
psicanálise, d u r a n t e u m período q u e s e s i t u a quica q u e t o m a r a e m p r e s t a d o de Fliess. F o i este
a p r o x i m a d a m e n t e entre 1896 e 1899. S u a último, d e f a t o , q u e a t r a i u a atenção d e F r e u d
"auto-análise" - c o m o ele a qualifica e m suas para opapel desempenhado pela bissexualidade
cartas a Fliess - f u n d a m e n t a - s e essencialmente n a i d e n t i d a d e m a s c u l i n a e f e m i n i n a , não a p e -
n a análise d e s e u s próprios s o n h o s , e f o r a m n a s n o nível anatómico e biológico, m a s i g u a l -
e l e s q u e o l e v a r a m a p e r c e b e r não a p e n a s o m e n t e n o nível psicológico
p a p e l d o s s o n h o s n a v i d a psíquica c o m o t a m - E m b o r a a auto-análise t e n h a p e r m i t i d o a
b é m a importância q u e t e v e a s e x u a l i d a d e e m F r e u d transpor etapas decisivas n o conheci-
s u a p r ó p r i a i n f â n c i a . "Descobri igualmente que, m e n t o d es ie a p r o f u n d a r suas pesquisas so-
mais tarde (entre 2 anos e 2 anos e meio), minha b r e o f u n c i o n a m e n t o d op s i q u i s m o h u m a n o ,
libido tinha despertado e se voltara à m a t r e m , por e l e p e r c e b e u q u e e s s e t i p o d e introspecção s e
34 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

c h o c a v a c o m l i m i t e s intrínsecos q u e n ã o c o n - depois. Por exemplo, o " M a n u s c r i t o E "(p. 80)


seguia ultrapassar. Julgou q u ee r a indispen- é d e d i c a d o à o r i g e m d a angústia. F r e u d a t r i b u i
sável q u e u m f u t u r o p s i c a n a l i s t a r e c o r r e s s e e m a angústia a u m a acumulação d e tensão s e x u a l
p r i m e i r o l u g a r à p e s s o a d eu mo u t r o psicana- física q u e n ã o é d e s c a r r e g a d a - é s u ap r i m e i r a
l i s t a p a r a s u p e r a r s u a s próprias resistências t e o r i a d a angústia, m a s e l e já p e r c e b e u m meca-
i n c o n s c i e n t e s e e l a b o r a r a transferência. F i n a l - n i s m o q u e , n o c a s o d e tensão e x c e s s i v a , f a z i n -
m e n t e , F r e u d a f i r m a q u e , após c o n c l u i r a aná- tervir a incapacidade d o p s i q u i s m o d e "ligar"
lise, t o d o psicanalista d e v e r i a p r o s s e g u i - l a m e - a angústia, c o m o mostrará e m 1 9 2 6 e m Inibições,
d i a n t e u m a auto-análise a o l o n g o d e t o d a v i d a . sintomas e ansiedade. O " M a n u s c r i t o G " é d e d i c a -
d o àmelancolia, enele F r e u d sugere que o afeto
de luto q u ea c o m p a n h a u m a perda d e objeto
Manuscritos anexos p o d e s e r a t r i b u í d o a u m a "perda da libido" ( p .
9 2 ) . S e g u n d o e l e , "uma aspiração, poderíamos
Várias d a s c a r t a s d e F r e u d são a c o m p a n h a -
dizer, realiza-se no psiquismo (...)" (p. 97), p r o -
das d eu manexo d e n o m i n a d o " M a n u s c r i t o " ,
c e s s o s e m e l h a n t e a u m a "hemorragia interna",
s e g u i d o d e u m a l e t r a maiúscula. N e s s a s c o m u -
m e c a n i s m o q u e e l e aprofundará e m 1 9 1 7 e m
nicações c u r t a s , e l e a p r e s e n t a u m a primeira
" L u t o e m e l a n c o l i a " . Já o " M a n u s c r i t o H " é d e -
a b o r d a g e m teórica d e t e m a s q u e serão r e t o m a -
d i c a d o a u m e s t u d o d a projeção c o m o defesa.
d o s p o s t e r i o r m e n t e , às v e z e s m u i t a s décadas

PÓS-FREUDIANOS

Polémicas e m torno d a teoria freudiana da sedução


Em 1984, J.-M. Masson, q u e teve acesso aos Arquivos Freud e editou a íntegra das cartas a Fliess, publicou The
Assaulton Truth: Freud's Suppression ofthe Seduction Theory, u m a obra polémica sobre as supostas "verdadei-
ras" razões q u e teriam levado Freud a abandonar a teoria d a sedução. S e g u n d o Masson, o único objetivo
visado por Freud a o abandonar a teoria d a sedução real seria ocultar a verdade e inventar u m a teoria d a sedu-
ção fantasiada para proteger o s pais d e acusações legítimas por parte d e suas filhas.

Um acerto d e contas salutar


Em sua revisão crítica d a obra provocadora d e J.-M. Masson, C. Hanly (1986) não apenas demonstra q u e os
argumentos d o autor são tendenciosos, c o m o t a m b é m q u e Freud nunca a b a n d o n o u completamente sua teoria
da sedução; ele se referiu a ela até o final d e sua vida, assinalando q u e geralmente era difícil separar a realidade
e a fantasia.
Nessa revisão crítica, C. Hanly faz u m acerto d e contas que reflete a opinião compartilhada atualmente pela maioria
dos psicanalistas: 1) u m a fantasia infantil particularmente intensa pode ter u m impacto sobre o desenvolvimento
psíquico comparável a o d e u m a experiência real; 2) experiências reais p o d e m ter pouco o u n e n h u m efeito no
momento e m q u e se produzem, e m geral antes d a puberdade, mas adquirem u m poderoso efeito retroativo a
partir d a adolescência, e m consequência d o desenvolvimento sexual; 3) durante a análise, às vezes é difícil saber
se u m a reconstrução sugerida pelo material associativo e pela transferência corresponde a u m a fantasia fortemente
investida, o u se é u m a experiência alucinatória infantil; 4) u m analista pode muito b e m acreditar que fragmentos d e
cenas, restos d e sonhos, etc. correspondem a experiências reais, quando na verdade elas provêm d e alucinações
ou d e defesas contra desejos infantis perigosos; 5) é possível que u m paciente sujeito a desejos infantis onipotentes
e a fantasias agressivas tenha vivido t a m b é m experiências reais d e sedução patogênica; 6) a tarefa d a análise
consiste e m ajudar o paciente a estabelecer u m a diferença entre o que é fantasia e o que é realidade d o passado.

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

A n g ú s t i a - auto-análise - bissexualidade - bissexualidade psíquica - fantasias d e s e d u ç ã o - m e l a n c o l i a


(depressão) - s e d u ç ã o real - teoria d a s e d u ç ã o
"P 30JET0 PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA"
S. FREUD (1950c [1895])

Uma tentativa de fundar a psicanálise em dados científicos mensuráveis

Entre a s cartas que F r e u d e n v i o u a o seu c o , hipóteses o r i g i n a i s q u e d a r ã o l u g a r a i m -


a m i g o W . Fliess, descobre-se esse m a n u s c r i t o p o r t a n t e s d e s e n v o l v i m e n t o s psicanalíticos p o s -
inédito q u e i n d i c a v a a intenção d e F r e u d d e t e r i o r e s . E m s e g u n d o l u g a r , a redação d o " P r o -
"introduzir a psicologia no âmbito das ciências na- jeto" d e m o n s t r a aos olhos de F r e u d que o p r o -
turais" ( 1 9 5 0 a [ 1 8 8 7 - 1 9 0 2 ] , p . 3 1 5 ) , a m b i ç ã o q u e j e t o d e d a r u m a b a s e científica à psicanálise l e -
será u m a d e s u a s p r e o c u p a ç õ e s c o n s t a n t e s . O v a v a a u m i m p a s s e , razão p e l a q u a l e l e n u n c a
" P r o j e t o " não é u m t e x t o e s s e n c i a l , m a s é i n t e - quis publicar esse texto. M a s esse m a n u s c r i t o
ressante sob dois aspectos principais. E m pri- será p r i m o r d i a l n a evolução d e s u a s i d e i a s , p o i s ,
m e i r o lugar, o leitor descobre ali, ainda e m for- ao renunciar aprosseguir nesse caminho, F r e u d
m a d e e s b o ç o , a l g u m a s intuições n o v a s e f u n - t e v e a g e n i a l i d a d e d e i n s t a l a r a psicanálise e m
d a m e n t a i s r e f e r e n t e s a o f u n c i o n a m e n t o psíqui- u m c a m p o q u e l h e é próprio.

D E S C O B E R T A DA O B R A

A s p á g i n a s indicadas r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1950a [1887-1902]), La naissance de la


psychanalyse, Lettres à Fliess, Notes etplans (1887-1902), t r a d . A. B e r m a n , Paris, PUF, 1956.

Intuições geniais disseminadas Em busca de um modelo integrado


em um texto inacanado de funcionamento psíquico
E m " P r o j e t o p a r a u m a p s i c o l o g i a científica", A i n d a fortemente influenciado por sua for-
F r e u d j u s t a p õ e n o ç õ e s extraídas d a n e u r o f i s i o - mação d e p e s q u i s a d o r , F r e u d t o m a c o m o p o n -
l o g i a , c o m o a d o s neurónios - d e s c o b e r t o s e m to d ep a r t i d a o s conhecimentos n e u r o f i s i o -
1 8 9 2 - e d e t r a n s m i s s ã o sináptica, a f a t o s d e lógicos d e s u a é p o c a s o b r e o s n e u r ó n i o s e o s
o b s e r v a ç ã o clínica t i r a d o s d e s u a experiência i n f l u x o s n e r v o s o s c o m a intenção d e c o n s t r u i r
recente n o t r a t a m e n t o d a histeria, d eo n d e de- u m m o d e l o i n t e g r a d o d e f u n c i o n a m e n t o psí-
d u z hipóteses o r i g i n a i s . I s s o e x p l i c a o i n t e r e s - q u i c o f u n d a m e n t a d o e m d a d o s mensuráveis.
se p a r t i c u l a r d e s s e m a n u s c r i t o d o p o n t o d e v i s t a A s s i m , a concepção q u e e l e propõe n o " P r o j e -
d a história d o d e s e n v o l v i m e n t o d a s i d e i a s e m t o " é construída e s s e n c i a l m e n t e c o m b a s e n a
F r e u d . S e m d ú v i d a , várias p a s s a g e n s d e s s e t e x - noção d e q u a n t i d a d e d e e n e r g i a c i r c u l a n t e e n -
to que p e r m a n e c e r a m inacabadas parecem obs- t r e a s c a d e i a s d e neurónios, o q u e l h e p e r m i t e
c u r a s o u anacrónicas, m a s o l e i t o r também t e m t r a n s p o r e m t e r m o s energéticos f a t o s d e o b s e r -
o p r a z e r d e d e s c o b r i r instituições f u n d a m e n - v a ç ã o psicológica a c u m u l a d o s até e n t ã o . P o r
tais, q u e c o n t i n u a m atuais depois de c e m anos. exemplo, F r e u d considera que, nos casos pato-
36 J e a n - M i c h e l Quinodoz

lógicos, a s q u a n t i d a d e s d e e n e r g i a física q u e níveis: d e u m l a d o , e s s e "ego" f u n c i o n a n o nível


circulam n o o r g a n i s m o p o d e m escolher vias de fisiológico s o b a f o r m a d e u m g r u p o d e
d e s c a r g a d i f e r e n t e s , psíquica o u somática, e m neurónios i n v e s t i d o s d e f o r m a p e r m a n e n t e q u e
função d o g r a u d e resistência o u d e facilitação m a n t ê m a "energia ligada" e , d e o u t r o , e s s e "ego"
e x i s t e n t e n a s r e d e s . E s s a hipótese p e r m i t i r i a f u n c i o n a n o nível psicológico c o m o u m a instân-
e x p l i c a r q u e a c o n v e r s ã o histérica e o s a t o s c o m - cia encarregada d eestabelecer u m a p r e p o n d e -
pulsivos obsessivos s e r i a m o resultado da des- rância d o s p r o c e s s o s secundários s o b r e o s p r o -
carga n oc o r p o d e u m a q u a n t i d a d e excessiva c e s s o s primários. U m a o u t r a f u n ç ã o e s s e n c i a l d o
d e excitação q u e s e t o r n a incontrolável. "ego" c o n s i s t e n a "prova da realidade" q u e p e r m i -
F r e u d e s t a b e l e c e e m s e g u i d a u m a série d e t e a o indivíduo d i f e r e n c i a r e n t r e p e r c e p ç ã o p r o -
equivalências e n t r e o s f e n ó m e n o s fisiológicos e v e n i e n t e d o e x t e r i o r d e u m a alucinação o u d e
psicológicos. A s s i m , n o nível fisiológico, e l e c o l o - u m a lembrança p r o v e n i e n t e d o i n t e r i o r . M a s , a
c a c o m o princípio f u n d a m e n t a l d a função d o s n o ç ã o d e "ego" a q u e F r e u d s e r e f e r e e m 1 8 9 5
neurónios o "princípio de inércia": o s neurónios e m Estudos sobre a histeria é a d e u m e g o c o n s -
t e n d e m a liberar o sexcessos d e energia, que se c i e n t e ; a i n d a n ã o t e m o s i g n i f i c a d o q u e passará
t o r n a m então "energia livre". T r a n s p o s t o a o nível a t e r m a i s t a r d e e m O ego e o id ( 1 9 2 3 b ) , q u a n d o
d o a p a r e l h o psíquico, o princípio d e inércia e v o - postulará interações i n c o n s c i e n t e s e n t r e e g o , i d
c a a n o ç ã o d e "processo primário", p r o c e s s o psí- e s u p e r e g o d e n t r o d o a p a r e l h o psíquico.
quico caracterizado pelo escoamento livre e s e m
retenção d a e n e r g i a psíquica. M a s o a p a r e l h o
psíquico n ã o p o d e r i a f u n c i o n a r u n i c a m e n t e c o m Plano geral sobre "a prova da satisfação"
b a s e n o princípio d a d e s c a r g a , p o i s é p r e c i s o q u e
V a m o s f o c a l i z a r n o s s a atenção p o r u m i n s -
e l e t o l e r e u m a c e r t a q u a n t i d a d e d e excitação.É
t a n t e e mu m p o n t o p a r t i c u l a r , q u a n d o F r e u d
p o r i s s o q u e F r e u d p o s t u l a a existência d e u m
d e s c r e v e "a prova da satisfação", o q u e n o s p e r -
sistema r e g u l a d o r d o p s i q u i s m o capaz de resistir
mitirá s e g u i r s u a c o n d u t a científica p a s s o a p a s -
à d e s c a r g a d o e x c e s s o d e e n e r g i a psíquica e q u e
s o . O q u e é "a prova da satisfação"! F r e u d e n t e n -
tenha apropriedade de transformar os processos
de p o r isso o processo c o m p l e x o q u e parte d a
primários e m p r o c e s s o s secundários. E s t e s últi-
tensão i n t e r n a d e s e n c a d e a d a p o r u m a n e c e s s i -
m o s caracterizam-se p o r sua capacidade de ligar
dade pulsional, como, por exemplo, a fome e m
a e n e r g i a e d e i n i b i r o s "processos primários". O
u m a criança p e q u e n a o u o d e s e j o s e x u a l n o a d u l -
conjunto desse sistema regulador corresponde
t o . E l e começa p o r d e s c r e v e r o s fenómenos e m
a o "princípio de constância", c u j a função é g e r i r
t e r m o s d e tensão e d e d e s c a r g a , t a l c o m o s e d e -
o s "processos secundários". P o r e x e m p l o , n a h i s t e -
s e n v o l v e m n o arco reflexo, e considera que o s
r i a , é o "processo secundário" q u e p e r m i t e a o histé-
f e n ó m e n o s neurofisiológicos ( f ) t ê m s e u e q u i -
rico conter e m seu p s i q u i s m o acarga emocional,
v a l e n t e n o nível psíquico ( y ) . A m e d i d a q u e a
graças à p o s s i b i l i d a d e e n c o n t r a d a d e r e m e m o r a r
n e c e s s i d a d e a u m e n t a , a tensão física e psíquica
e d e v e r b a l i z a r a l e m b r a n ç a traumática, o q u e
a u m e n t a também, c r i a n d o a e x p e c t a t i v a d e u m a
e v i t a q u e o e x c e s s o d e excitação s e c o n v e r t a e m
d e s c a r g a a f i m d e o b t e r a satisfação. C o n t u d o ,
u m a c o n v e r s ã o somática sintomática. A s n o ç õ e s
e s t a n ã o p o d e s e r e a l i z a r s e m a intervenção d e
d e " p r o c e s s o p r i m á r i o " e " p r o c e s s o secundário",
u m a pessoa d efora, alertada pelo grito d o re-
i n t r o d u z i d a s e m 1 8 9 5 , s e tornarão d a l i e m d i a n -
cém-nascido: "Essa intervenção exige que se produza
t e n o ç õ e s f u n d a m e n t a i s n a concepção f r e u d i a n a
uma certa modificação no exterior (por exemplo, ofer-
d e f u n c i o n a m e n t o psíquico.
ta de alimento, proximidade do objeto social)..." ( p .
3 3 6 ) . D e p o i s q u e e s s a p e s s o a e x e c u t a a ação e s -
pecífica, a v i a d e d e s c a r g a a d q u i r e u m a i m p o r -
Esboço da função do "ego"
tância p a r t i c u l a r e m d o i s níveis: p o r u m l a d o ,
Q u e p a p e l d e s e m p e n h a o indivíduo n e s s e s estabelece-se n o p e n s a m e n t o d o sujeito u m a co-
p r o c e s s o s ? F r e u d p r o p õ e c h a m a r d e "ego" u m a n e x ã o e n t r e a supressão d o d e s p r a z e r e a i n t e r -
instância q u e f u n c i o n a s i m u l t a n e a m e n t e e m d o i s v e n ç ã o d a p e s s o a , c r i a n d o o s e n t i m e n t o d e "com-
Ler Freud 37

preensão mútua" ( p . 3 3 6 ) ; p o r o u t r o l a d o , o i n d i - t a m e n t e l i g a d a s à intervenção d o o b j e t o e d e t e r -


v í d u o r e a l i z a n o nível c o r p o r a l a q u i l o q u e é n e - m i n a m u m a divisão p r i m o r d i a l e n t r e a f e t o s n e -
cessário p a r a a supressão d o d e s p r a z e r e p õ e e m g a t i v o s e a f e t o s p o s i t i v o s . E m 1 9 1 5 , e m "Pulsões
a ç ã o s u a m o t r i c i d a d e . "Assim, a satisfação leva a e d e s t i n o s d a s p u l s õ e s " , retomará a i d e i a d e q u e
umafacilitação entre as duas imagens mnemónicas..." e x i s t e d e s d e o início u m a divisão f u n d a m e n t a l
( p . 3 3 8 ) , i s t o é, a d o o b j e t o d e s e j a d o e a d o m o v i - d e a f e t o s , i n t r o d u z i n d o a noção d e " e g o d e p r a -
m e n t o r e f l e x o . C o n t u d o , "desde o desaparecimen- z e r p u r i f i c a d o " , e prosseguirá c o m s u a s i n v e s -
to do estado de tensão ou de desejo, a carga é transmi- tigações s o b r e a s v i c i s s i t u d e s d o a m o r e d o ó d i o
tida também às duas lembranças e as reativa. É bem e m relação às sensações d e p r a z e r e d e d e s p r a z e r
provável que essa imagem mnemónica do objeto seja e m u m c o n t e x t o d e relações d e o b j e t o .
a primeira a ser atingida pela reativação" ( p . 3 3 8 ) .
O conjunto desse processo é c h a m a d o por
F r e u d d e "fato de satisfação", e e s s a experiên- A noção de a posteriori e "próton-pseudos"
cia d e s e m p e n h a u m p a p e l d e t e r m i n a n t e n a
Para concluir, vale lembrar que F r e u d i n -
instauração d a c a p a c i d a d e d e u m indivíduo
t r o d u z i g u a l m e n t e o c o n c e i t o d e "a posteriori"
de gerir suas necessidades pulsionais. Segun-
n o "Projeto", quando sepergunta por que, n a
d o F r e u d , é n e s s e nível q u e i n t e r v é m o "ego",
h i s t e r i a , a repressão i n c i d e p r i n c i p a l m e n t e s o -
c u j o p a p e l é t r a t a r d e s e l i v r a r d a s tensões b u s -
b r e a s e x u a l i d a d e . A p a r t i r d e u m e x e m p l o clí-
c a n d o a satisfação, c o m o t a m b é m e v i t a r a r e -
nico, o caso d e E m m a , ele m o s t r a q u e a repres-
petição d e experiências e d e a f e t o s d o l o r o s o s
são s e r e a l i z a e m d o i s m o m e n t o s . O p r i m e i r o
p o r m e i o d em e c a n i s m o s inibidores.
m o m e n t o é o r e s u l t a d o d eu m a cena d e s e d u -
ç ã o s e x u a l q u e o c o r r e n a infância - a o s 8 a n o s ,
E m m a t i n h a s i d o b o l i n a d a n o armazém - , m a s
As ligações entre prazer/desprazer,
e s s e a c o n t e c i m e n t o não t e m s i g n i f i c a d o s e x u a l
afetos, ego e objetos
t r a u m á t i c o p a r a a criança. O s e g u n d o m o m e n -
F r e u d complementa seus pontos d e vista t o v e m m a i s t a r d e e d e s e n c a d e i a u m a emoção
e x a m i n a n d o "a prova da dor": e l e m o s t r a q u e o sexual, porque o i m p u l s o sexual ligado à p u -
a u m e n t o d e tensão d a n e c e s s i d a d e q u e p r o d u z berdade surge n ointervalo e desperta a l e m -
o d e s p r a z e r n ã o e v o c a a p e n a s a lembrança d a brança d o p r i m e i r o a c o n t e c i m e n t o , q u e a s s u -
i m a g e m d ap e s s o a q u e p r o p o r c i o n o u a satisfa- m e então u m s i g n i f i c a d o s e x u a l traumático -
ção, m a s o d e s p r a z e r d e s e n c a d e i a i g u a l m e n t e cinco anos m a i s tarde, aos 1 3anos, E m m a t e v e
s e n t i m e n t o s h o s t i s e m relação a e s s a p e s s o a v i s - u m a reação d e f u g a d i a n t e d o s o r r i s o d e d o i s
t a c o m o f r u s t r a n t e e "geradora da dor". D o m e s - v e n d e d o r e s d eu m a loja. S e m p o d e r s e defen-
m o m o d o , acrescenta F r e u d , q u a n d o a satisfa- d e r d e s s e s a f e t o s intoleráveis, o e g o u t i l i z a a
ção i n t e r v é m , o p r a z e r é atribuído à p e s s o a q u e repressão. P o r t a n t o , é o s e g u n d o a c o n t e c i m e n -
está n a o r i g e m d a satisfação: "A aparição de um t o q u e d e t e r m i n a o caráter p a t o g ê n i c o d o p r i -
objeto que veio substituir o objeto inimigo pode ter m e i r o , e F r e u d c h a m a e s s e f e n ó m e n o d e "a
servido para nostrar que a experiência dolorosa ter- posteriori": "Estamos sempre descobrindo que uma
minou, e o sistema [símbolo] instruído pela experiên- lembrança reprimida transformou-se a p o s t e r i o r i
cia biológica busca reproduzir em [símbolo] o estado em traumatismo. A razão desse estado de coisas en-
que marcou o fim da situação dolorosa" ( p . 3 4 0 ) . A o contra-se na época tardia da puberdade em compa-
e v i d e n c i a r a ligação e n t r e o s s e n t i m e n t o s a g r e s - ração com o restante da evolução dos indivíduos"
s i v o s e a f e t u o s o s e m relação à p e s s o a a q u e m s e ( p . 3 6 6 ) . E l e q u a l i f i c a d e "primeira mentira do
a t r i b u i a frustração o u a satisfação, F r e u d i n t r o - histérico" o f a t o d e q u e o p a c i e n t e n ã o t e n h a c o -
d u z u m a d i m e n s ã o a f e t i v a n a relação d e o b j e t o nhecimento d anatureza sexual d oprimeiro
q u e c o m p l e t a o princípio p r a z e r / d e s p r a z e r . traumatismo, eutiliza otermo "próton-pseudos"
E m resumo, Freud mostra aqui que, desde o q u e não s i g n i f i c a u m a " m e n t i r a i n i c i a l " , c o m o
início d a v i d a , a experiência d a d o r e d a s a t i s f a - s e c o m p r e e n d e às v e z e s , m a s q u e t e m o s e n t i -
ção n ã o s ã o vivências i s o l a d a s , m a s estão e s t r e i - d o d eu m " e r r o inicial".
38 J e a n - M i c h e l Quinodoz

Um exemplo da conduta científica de Freud 1 9 1 7 ) . Porém, c o m u m a diferença: após t e r r e -


d i g i d o o " P r o j e t o " , F r e u d renunciará d e f i n i t i -
A leitura d o"Projeto" n o spermite acom- vamente a f u n d a r a psicanálise c o m b a s e n a
p a n h a r m a i s d ep e r t o a r i g o r o s a c o n d u t a cien- n e u r o f i s i o l o g i a , e , p o r t e r t i d o a audácia d e r e -
tífica a d o t a d a p o r F r e u d , q u e p a r t e d e f a t o s d e n u n c i a r a i s s o , pôde i n s t a l a r a psicanálise n u m
observação neurofisiológicos e psicológicos c a m p o próprio, c o m o r e s s a l t o u A . G r e e n ( 1 9 9 2 ) .
p a r a t i r a r conclusões d e a l c a n c e g e r a l . E m s e - Quanto à ligação indissolúvel e n t r e c o r p o e
guida, encontraremos essa m e s m a atitude cien- psiquismo, Freud continuou sustentando esse
tífica a o l o n g o d e t o d a s u a o b r a e , p a r t i c u l a r - ponto d evista, m a sadotou u m a perspectiva
m e n t e , e m Artigos sobre metapsicologia (1915- diferente.

PÓS-FREUDIANOS

Modelos científicos contemporâneos e psicanálise


C o m o seria se, c e m a n o s d e p o i s d o "Projeto", o s psicanalistas utilizassem o s m o d e l o s científicos d o fim d o
século XX p a r a s e g u i r u m a c o n d u t a a n á l o g a à d e Freud n o f i m d o s é c u l o XIX, e m 1895? A l g u n s psicanalis-
tas c o n t e m p o r â n e o s n ã o hesitaram e m refazer o exercício. V e j a m o s o q u e eles d i z e m .
Beneficiando-se d e u m a d u p l a formação e m neuropsicologia e e m psicanálise. M. Solms é particularmente
qualificado para aprofundar o estudo d a s correlações entre psicanálise e neurociências (M. Solms e K. Kaplan-
Solms, 2000). Suas pesquisas, fundadas na utilização d a psicanálise c o m o m é t o d o d e investigação e m pacien-
tes c o m lesões neuroanatômicas, lhe permitiram situar os fenómenos psíquicos no nível d e u m sistema funcio-
nal localizado n o interior d e u m a constelação d e estruturas anatómicas cerebrais. Esses trabalhos destacados
não privilegiam o s m o d e l o s neuroanatômicos e m relação aos modelos psicológicos, a o contrário d e numero-
sas pesquisas c o n t e m p o r â n e a s q u e tentam aproximar psicanálise e neurociências, c o m o risco d e q u e essas
disciplinas p e r c a m s u a especificidade.
Os estudos d e S o l m s t ê m a vantagem d e não "reificar" o psiquismo, porque não o restringem unicamente ao
funcionamento d o cérebro, c o m o assinala J . Roiphe (1995). Para Solms, o s neurónios n ã o s ã o mais reais d o
que o s p e n s a m e n t o s e as sensações, e por essa razão o conceito d e inconsciente transcende o dualismo
cartesiano corpo-espírito. Por exemplo, para Solms, assim c o m o para Freud, a consciência é u m ó r g ã o sensorial
que apresenta d u a s superfícies d e percepção, u m a voltada para o m u n d o externo e a outra para o m u n d o
interno. Se partimos d e u m modelo freudiano, nossa consciência subjetiva é produzida pelo psiquismo inconscien-
te s e g u n d o u m processo análogo àquele q u e resulta d a percepção d e objetos d o m u n d o exterior, isto é, "coisas
que estão no mundo de fora" (Freud, 1915e). Na perspectiva d e Solms, as duas superfícies perceptivas registram
u m a realidade incognoscível q u e se situa a q u é m d a percepção consciente d e duas maneiras qualitativamente
diferentes, m a s hierarquicamente equivalentes. E m outros termos, aquilo q u e p e r c e b e m o s c o m o nossa realida-
de psíquica subjetiva, isto é, nosso consciente, é correlativo à maneira c o m o p e r c e b e m o s nosso corpo físico
c o m o se ele fosse visto d e fora. Existem, portanto, dois tipos d e percepções q u e c h e g a m à nossa consciência:
as primeiras p r o v ê m d e objetos externos concretos, incluído o corpo d e outro, e constituem as percepções d a
realidade externa; as outras provêm d e experiências internas subjetivas, incluídos o s psiquismos d e outro, e
constituem as p e r c e p ç õ e s d a realidade psíquica. Assim, as pesquisas originais d e Solms v ã o n o sentido d e
u m a c o n c e p ç ã o psicanalítica unitária d o psiquismo e d o corpo, abrindo assim perspectivas promissoras.
G. Pragier e S. Faure-Pragier (1990), por s u a vez, a d o t a r a m u m a c o n d u t a diferente. D e i x a n d o d e lado o s
m o d e l o s d a física clássica, esses autores s e a p o i a r a m n o s trabalhos recentes d a física e d a biologia para
p r o p o r " n o v a s m e t á f o r a s " c a p a z e s d e d a r c o n t a d o f u n c i o n a m e n t o psíquico, tal c o m o s e o b s e r v a na psica-
nálise. Por e x e m p l o , G. Pragier e S. Faure-Pragier p r o p u s e r a m u m a série d e paralelos sugestivos entre, p o r
u m lado, o s f e n ó m e n o s ligados à aparição d o " n o v o " n a e v o l u ç ã o d e u m s i s t e m a b i o l ó g i c o q u e s e a u t o -
o r g a n i z a e m fases sucessivas e, p o r o u t r o lado, a e m e r g ê n c i a d o " n o v o " q u e s u r g e d e n t r o d a s a s s o c i a ç õ e s
livres e m psicanálise. D o m e s m o m o d o , esses autores p r o p u s e r a m estabelecer paralelos entre o caráter
imprevisível d o s f e n ó m e n o s o b s e r v a d o s n o s sistemas c o m p l e x o s e a natureza imprevisível d e f e n ó m e n o s
p s í q u i c o s . De fato, n o s sistemas c o m p l e x o s e m q u e o n ú m e r o d e variáveis é e x t r e m a m e n t e elevado - é o
c a s o d o p s i q u i s m o h u m a n o - , o d e t e r m i n i s m o linear c l á s s i c o n ã o f u n c i o n a m a i s , e a t e o r i a d o c a o s
d e t e r m i n i s t a m o s t r o u q u e , n o s sistemas c o n s i d e r a d o s c o m p l e x o s , t o d a previsão é r a p i d a m e n t e f a l s e a d a
pela s o b r e v i v ê n c i a inevitável d e a c o n t e c i m e n t o s m e n o r e s .
Continua 0
Ler Freud 39

0 Continuação

Q u a n d o se aplicam essas novas teorias à situação criada por u m traumatismo psíquico, por exemplo, entende-
se por q u e não é possível prever se u m traumatismo terá consequências a longo prazo sobre o psiquismo, o u
se terá poucas consequências ou nenhuma. Só é possível saber a posteriori. Por cautela, sem dúvida, G. Pragier
e S. Faure-Pragier consideraram que suas comparações constituíam metáforas, situando-as e m u m plano estri-
tamente linguístico, o que, a m e u ver, limita seu valor. Creio q u e essas comparações emergem de " m o d e l o s
analógicos", e se pretendermos considerar o fato de que o funcionamento psíquico fundamenta-se e m u m
funcionamento biofisiológico, é válido recorrer à noção de abertura de caminho, introduzida por Freud e m 1905
(J.-M. Quinodoz, 1997a). Esse ponto de vista orienta-se no sentido de u m a concepção unitária psique-soma
postulada recentemente por M. Solms.

PÓS-FREUDIANOS

As neurociências substituíram a psicanálise?


Freud preservou por toda a vida a ideia de que, e m u m futuro mais ou menos próximo, os progressos na
biologia e nas neurociências permitiriam esclarecer melhor o funcionamento psíquico, tal c o m o o c o n c e b e a
psicanálise, e triunfar onde ele fracassou e m seu "Projeto para u m a psicologia científica": "Sem dúvida, um dia
haverá efetivamente uma 'bioanálise'...", diz ele (1933c, p. 313). Ele evoca inclusive o advento de tratamentos
psicotrópicos: "O futuro nos ensinará, esperamos, a agir diretamente com a ajuda de certas substâncias quími-
cas sobre as quantidades de energia e sua distribuição no aparelho psíquico" (1940a [1939], p. 51).
E o q u e t e m o s c e m anos após o "Projeto"? A descoberta de medicamentos psicotrópicos a partir d o s anos d e
1950 e o entusiasmo que a c o m p a n h o u o progresso na pesquisa e m biologia e nas neurociências certamente
t ê m contribuído para o declínio vivido pela psicanálise e m t o d o o m u n d o no m o m e n t o atual. Depois d e ter
conquistado u m a posição de relevo entre os métodos psicoterapêuticos e no ensino universitário, particular-
mente nos Estados Unidos, a psicanálise passou a sofrer pressões crescentes. Não apenas a mentalidade geral
evoluiu, exigindo métodos de tratamento cada vez mais rápidos e avaliações fundadas e m resultados mensuráveis,
c o m o t a m b é m se produziu u m a articulação de pressões de o r d e m social, política e económica para impor os
tratamentos medicamentosos e m detrimento das diversas abordagens psicoterapêuticas. A esses fatores, so-
maram-se as promessas vindas d o meio científico, anunciando q u e as pesquisas e m curso sobre o cérebro e a
m e m ó r i a estavam prestes a enterrar definitivamente as abordagens fundadas na relação psicoterapêutica, pes-
quisas q u e ainda estão longe de ser aplicáveis na prática clínica.
E m 1998, Nancy Andreassen, cientista de renome mundial, lançou u m grito de alerta para denunciar a e n o r m e
carência de psicoterapeutas enfrentada atualmente pela população dos Estados Unidos, depois de descobrir
q u e as terapias medicamentosas t a m b é m t ê m seus limites: "(...) precisamos fazer um pesado investimento na
formação de uma nova geração de verdadeiros especialistas na ciência e na arte da psicopatologia. Sem isso,
nós, cientistas de alta tecnologia, corremos o risco de despertar daqui a 10 anos e descobrir que estamos diante
de uma "primavera silenciosa". Aplicar a tecnologia sem que ela seja acompanhada por clínicos
1
esclarecidos,
com uma experiência específica em psicopatologia, se tornará uma tarefa solitária, estéril e provavelmente infru-
tífera" (1998, p. 1659).

1
A l u s ã o à o b r a Silent spring, d e R a c h e l C a r s o n (1962), n a q u a l a h u m a n i d a d e d e s p e r t a e m u m a m a n h ã d e p r i m a v e r a e
n ã o o u v e o c a n t o d o s p á s s a r o s , q u e d e s a p a r e c e r a m d a superfície d a terra.

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

A posteriori - p r o v a d a ealidade - p r o v a d a satisfação - m o d e l o s científicos - p r o c e s s o primário, p r o c e s s o


s e c u n d á r i o - princípio le c o n s t â n c i a - princípio d e inércia - " p r ó t o n - p s e u d o s " - ciência
"AS NEUROPSICOSES DE DEFESA"
S. FREUD (1894a)

i 3RE OS FUNDAMENTOS PARA DESTACAR DA


NEURASTENIA UMA SÍNDROME ESPECÍFICA
DENOMINADA 'NEUROSE DE ANGÚSTIA'"
S. FREUD (1895b)

"OBSERVAÇÕES ADICIONAIS SOBRE AS


NEUROPSICOSES DE DEFESA"
S. FREUD (1896b)

"A SEXUALIDADE NA ETIOLOGIA DAS NEUROSES"


S. FREUD (1898a)

"LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS"
S. FREUD (1899a)

Um novo olhar sobre a psicopatologia

E n t r e 1895 e 1899, F r e u d esclarece e m e s p e c í f i c a - é o ataque de pânico d e h o j e - d i f e -


d i v e r s o s a r t i g o s a l g u m a s noções já a p r e s e n t a - r e n c i a n d o - a d an e u r a s t e n i a ; o q u a r t o a r t i g o
d a s e m f o r m a d e esboço e m s e u s t r a b a l h o s s o - d e s t i n a - s e a c o n v e n c e r o c o r p o médico
bre a histeria; o p r i m e i r o e o terceiro artigo v i e n e n s e d a v a l i d a d e d e s u a hipótese s o b r e a
f a z e m u m a sequência e o f e r e c e m u m a e x c e - etiologia sexual das neuroses-, f i n a l m e n t e , o q u i n -
l e n t e demonstração d a m a n e i r a c o m o F r e u d t o a r t i g o i n t r o d u z a noção d e lembranças
evolui e msua pesquisa d o mecanismo que encobridoras, l e m b r a n ç a s d a i n f â n c i a a p a r e n -
p r o d u z o s s i n t o m a s histéricos, a s f o b i a s e a s temente banais, m a s que ocultam outras que
obsessões; o s e g u n d o a r t i g o d e l i m i t a p e l a p r i - foram reprimidas e que conservam seu poder
m e i r a v e z a neurose de angústia c o m o a f e c ç ã o patogênico n o i n c o n s c i e n t e .

D E S C O B E R T A DAS OBRAS

• "AS N E U R O P S I C O S í E S D E D E F E S A " (1894a)


• " O B S E R V A Ç Õ E S ADICIONAIS S O B R E A S N E U R O P S I C O S E S DE DEFESA" (1896b)

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud, "Les p s y c h o n e v r o s e s d e d e f e n s e " (1894a)


e " N o u v e l l e s r e m a r q u e s sur les p s y c h o n e v r o s e s d e defense (1896b), in Névrose, psychose etperversion,
t r a d . J . Laplanche, Paris, PUF, 1973, p. 1-14 e p. 61-81 [as páginas indicadas entre colchetes remetem às
OCF.P, ///, 1-18 e 121-146].
42 J e a n - M i c h e l Quinodoz

N o artigo p u b l i c a d o e m 1894, F r e u d revela do catártico de Breuer", d i z e l e , "consiste em pro-


l o g o d e início u m a g r a n d e p a r t e d o m e c a n i s m o vocar intencionalmente o retorno da excitação do cor-
q u e está n a o r i g e m d o s s i n t o m a s histéricos, d a s poral no psíquico, a fim de obrigar a que a contradi-
f o b i a s e d a s obsessões; e l e c o m p l e m e n t a s e u s ção seja regulada pelo trabalho de pensamento e a
p o n t o s de vista n o artigo de 1896 e os a r r e m a t a excitação descarregada pela palavra" ( p . 5 18]).
e m 1 9 1 5 , e m u m c a p í t u l o d e Artigos sobre
metapsicologia i n t i t u l a d o " R e p r e s s ã o ' ' ( 1 9 1 5 d ) .
Transformação de pensamentos
patogênicos em fobias, obsessões
Os sintomas histéricos: conversão ou alucinações
somática da energia psíquica
F r e u d e s t u d a e m s e g u i d a s u a hipótese a c e r -
E m " A s neuropsicoses d e defesa" (1894a), c a d e formação d e f o b i a s e obsessões, a s s i m c o m o
Freud t o m a c o m o m o d e l o a histeria e v a i mais d a p s i c o s e alucinatória. N a s neuropsicoses
l o n g e d o q u e s e u s a n t e c e s s o r e s q u e se l i m i t a r a m fóbicas e o b s e s s i v a s , a aptidão à conversão
a c o n s i d e r a r o e s t a d o d e dissociação o b s e r v a d o somática q u e c a r a c t e r i z a a h i s t e r i a está a u s e n t e ,
n o s histéricos c o m o a c a u s a primária d o s s i n t o - d e m o d o q u e a representação e n f r a q u e c i d a s u b -
m a s , q u e J a n e t c h a m o u d e "clivagem de consciên- s i s t e n o d o m í n i o psíquico s o b a f o r m a d e p e n s a -
cia" e B r e u e r d e "estado hipnóide". F r e u d lança mentos tormentosos que substituem o s pensa-
s u a s próprias h i p ó t e s e s , d e m o n s t r a n d o q u e a m e n t o s patogênicos: "A representação enfraquecida
dissociação n ã o é e s p o n t â n e a e q u e o p a c i e n t e permanece na consciência, à parte de todas as associa-
p r o d u z a t i v a m e n t e e s s e e s t a d o d e dissociação ções, m a s seu a f e t o l i b e r a d o se l i g a a o u t r a s r e -
d o p s i q u i s m o p o r u m "esforço de vontade". A presentações, em si mesmas não-inconciliáveis,
dissociação histérica p o d e o c o r r e r e m u m a p e s - que se t r a n s f o r m a m p o r essa ' f a l s a conexão' em
s o a q u e até e n t ã o s e e n c o n t r a v a "em bom estado representações t o r m e n t o s a s " ( p . 6 [9]). Q u a n t o
de saúde psíquica" ( p . 3 15]), e s o b r e v ê m q u a n d o à p s i c o s e alucinatória, e l a o b e d e c e a o m e s m o m e -
e l a é c o n f r o n t a d a d e súbito c o m "representações" canismo que o das neuropsicoses, mas, nesse
intoleráveis q u e d e s p e r t a m "afetos" d o l o r o s o s c a s o , a dissociação é a c o m p a n h a d a d e u m tipo
q u e g o s t a r i a d e "esquecer": "A pessoa decidiu es- m u i t o m a i s enérgico e e f i c a z d e d e f e s a : "Ela con-
quecer a coisa por não ter força para resolver median- siste em que o ego rejeita ('vervirft') a representação
te o trabalho de pensamento a contradição entre essa insuportável ('unertrãglich') ao mesmo tempo em que
representação inconciliável e seu ego" ( p . 3 [5]). seu afeto, e se comporta como se a representação nun-
C o m o o ego c o n s e g u e "esquecer" essas repre- ca tivesse chegado ao ego. M a s no m o m e n t o em que
sentações intoleráveis? A e s s a p e r g u n t a , F r e u d isso se r e a l i z a , a pessoa se e n c o n t r a em u m a p s i -
r e s p o n d e q u e o e g o t e n t a a t e n u a r a força d e s s a s cose que só pode ser c l a s s i f i c a d a como u m a ' c o n -
representações c o m u m o b j e t i v o d e d e f e s a - daí fusão alucinatória'" ( p . 1 2 [15]). C o n s t a - s e q u e ,
a d e n o m i n a ç ã o "neuropsicoses de defesa" - s e m d e s d e o início d e s u a o b r a , F r e u d e x a m i n a o s
c o n s e g u i r s u p r i m i - l a . A excitação r e s i d u a l r e s - m e c a n i s m o s d a n e u r o s e e d a p s i c o s e , c o m o fará
s u r g e então s o b a f o r m a d e s i n t o m a s patológi- e m seguida.
c o s e , n o c a s o d a h i s t e r i a , e s s a excitação é c o n -
A q u i é p r e c i s o f a z e r d u a s observações. D e
v e r t i d a e m s i n t o m a somático: "A soma de excita-
u m l a d o , F r e u d f a l a d o "esforço de vontade" q u e
ção é reportada no corporal, processo para o qual eu
o p a c i e n t e r e a l i z a p a r a "esquecer", "recalcar"
proporia o nome de conversão" ( p . 4 [7]).
o u "reprimir" a s r e p r e s e n t a ç õ e s i n c o n c i l i á v e i s ,
F r e u d d e m o n s t r a assim que os sintomas das e , e m b o r a t e n h a a intuição d e q u e o p r o c e s s o
n e u r o p s i c o s e s s ã o a e x p r e s s ã o d e u m distúrbio s e d e s e n v o l v e f o r a d a consciência d o p a c i e n -
s i t u a d o n o nível p s í q u i c o e q u e e l e s n ã o r e s u l - t e , a i n d a não f a l a d o p r o c e s s o d e repressão
t a m d e u m a "degenerescência" p e s s o a l o u h e - p r o p r i a m e n t e d i t o : " ( . . . } trata-se de processos que
reditária c o m o s e a c r e d i t a v a até e n t ã o . S u a h i - ocorrem sem consciência" ( p . 7 [4]). E l e i n t r o d u -
pótese e x p l i c a i g u a l m e n t e a r e v e r s i b i l i d a d e d o zirá a n o ç ã o d e r e p r e s s ã o n o a r t i g o d e 1 8 9 6 .
p r o c e s s o e o e f e i t o terapêutico: "A ação do méto- D e outro lado, Freud afirma que a necessida-
Ler Freud 43

d e d e r e c o r r e r a "abstrações psicológicas" para p o r u m m e c a n i s m o inconsciente. M a s , segun-


d a r c o n t a d e s u a s observações e m t e r m o s g e - d o F r e u d , a ação d o t r a u m a t i s m o p o r s i só n ã o
r a i s , a b o r d a g e m q u e e l e qualificará m a i s t a r - é s u f i c i e n t e p a r a e x p l i c a r a repressão; e l e f a l a
d e d e p o n t o d e v i s t a "metapsicológico". de u m processo e m dois tempos que d e n o m i -
n a d e "a posteriori" ( n . 2 , p . 6 5 [128]), n o ç ã o j á
m e n c i o n a d a n o " P r o j e t o " . A formação d a s o b -
O papel do a pos sessões t a m b é m p a s s a p e l o p r o c e s s o d e r e p r e s -
são, s e g u i d o d o r e t o r n o d o r e p r i m i d o , d e p o i s
N a s "Observações a d i c i o n a i s s o b r e a s
p e l a criação d e representações d e c o m p r o m i s -
n e u r o p s i c o s e s d e d e f e s a " , lançadas e m 1 8 9 6 ,
so. E l e t e r m i n a a p l i c a n d o suas ideias a u m caso
F r e u d c o m p l e t a s u a s ideias a n t e r i o r e s . E l e r e -
d e p a r a n ó i a crónica q u e c o n s i d e r a c o m o u m a
t o m a a h i p ó t e s e a p r e s e n t a d a n o s Estudos sobre
"psicose de defesa" e que obedece aos m e s m o s
a histeria ( 1 8 9 5 d ) , p u b l i c a d o s u m a n o a n t e s , s e -
m e c a n i s m o s que a s neuropsicoses d e defesa.
g u n d o a q u a l a s representações histéricas
V i n t e a n o s m a i s t a r d e , e m "Repressão"
p a t o g ê n i c a s estão l i g a d a s a u m t r a u m a t i s m o
( 1 9 1 5 d ) , F r e u d e s c l a r e c e r á q u e a n o ç ã o d e "re-
s e x u a l q u e r e m o n t a à infância. A c r e s c e n t a q u e
pressão" s e a p l i c a e s p e c i f i c a m e n t e à r e p r e s e n -
o n ú c l e o d a h i s t e r i a está e m q u e a p e s s o a "es-
t a ç ã o , e n q u a n t o a n o ç ã o d e "recalque" s e r e l a -
quece" a experiência t r a u m á t i c a "reprimindo-a"
ciona a o afeto.

"SOBRE O S FUNDAMENTOS PARA DESTACAR DA NEURASTENIA U M A SÍNDROME ESPECÍFICA


DENOMINADA 'NeJrOSE DE ANGÚSTIA'" (1895b)

As p á g i n a s indicadas r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1895b), "Qu'il est justifié d e séparer d e la


neurasthénie un c o m p l e x e s y m p t o m a t i q u e s o u s le n o m d e "névrose d ' a n g o i s s e " " , in Névrose, psychose et
perversion, trad. J . Laplanche, Paris, PUF, 1973, p. 1-14 e p. 61-81 [as páginas indicadas entre colchetes
remetem às OCF.P, ///, 29-58].

A síndrome c o n h e c i d a c o m o n o m e d e " n e u - acesso de vertigem, com ou sem angústia, manifesta-


rastenia" apareceu d u r a n t e os anos d e 1880 p a r a ções que fazem parte dos sintomas mais graves da
d e s c r e v e r u m a afecção c a r a c t e r i z a d a p o r u m a neurose" ( 1 8 9 5 b , p . 2 0 [36-37]). N a época e m q u e
f a d i g a d e o r i g e m "nervosa" e o s s i n t o m a s m a i s F r e u d reúne e s s e s d i v e r s o s s i n t o m a s s o b u m a
v a r i a d o s . A p r i m e i r a contribuição d e F r e u d n e s - m e s m a denominação, e l e c o n s i d e r a q u e o s s i n -
se s e n t i d o d i z r e s p e i t o à o r i g e m d a n e u r a s t e n i a : t o m a s d a n e u r o s e d e angústia e s e u s e q u i v a l e n -
ele a f i r m a que, n af o n t e d aneurastenia, a s s i m t e s , incluída a v e r t i g e m s o b s u a s d i f e r e n t e s f o r -
c o m o e m o u t r a s afecções d i t a s " n e r v o s a s " , e n - m a s , n ã o d e r i v a m d e u m a f o n t e psicológica ( D .
c o n t r a - s e u m distúrbio s e x u a l . S u a s e g u n d a c o n - Q u i n o d o z , 1 9 9 4 ) . F r e u d s u p u n h a então q u e a s
tribuição i n o v a d o r a c o n s i s t e e m r e u n i r s o b o m a n i f e s t a ç õ e s d e angústia p r o v i n h a m u n i c a -
n o m e d e " n e u r o s e d e angústia" u m g r u p o d e m e n t e d e u m a e n e r g i a física, inacessível n o s e n -
s i n t o m a s q u e m e r e c e m u m l u g a r m a i s específi- t i d o simbólico e à análise, a o contrário d a h i s t e -
c o d e n t r o d a n e u r a s t e n i a , q u a d r o nosológico q u e r i a , e m q u e a e n e r g i a psíquica p o d e s e r c o n v e r -
recobria u m a e n o r m e diversidade de entidades t i d a e m s i n t o m a somático ( p a r a l i s i a , e t c ) , m a s
clínicas. N a n e u r o s e d e angústia, o p r i n c i p a l s i n - reversível q u a n d o s e u s i g n i f i c a d o simbólico c h e -
t o m a é a angústia, a s s i m c o m o s e u s e q u i v a l e n t e s g a à consciência e s e t o r n a analisável.
somáticos, i s t o é, o s t r e m o r e s , palpitações, o p r e s - Q u a l p o d e ser a o r i g e m d an e u r o s e d e a n -
são, e t c , e a i n d a a v e r t i g e m q u e , s e g u n d o e l e , gústia? F r e u d o b s e r v o u e m s e u s p a c i e n t e s q u e
c o n s t i t u i u m e q u i v a l e n t e i m p o r t a n t e d a angús- o s s i n t o m a s d e angústia e r a m a c o m p a n h a d o s
t i a : "A ' v e r t i g e m ' ocupa um lugar eminente no con- d e u m a diminuição d a l i b i d o , e a t r i b u i u a o r i -
junto dos sintomas da neurose de angústia; em suas g e m d e s s e t i p o d e n e u r o s e a u m a acumulação
formas mais leves, é mais correto chamá-la de 'atur- e x c e s s i v a d e excitação s e x u a l i n s a t i s f e i t a - c o m o
dimento'; em suas manifestações mais severas, é o n o c a s o d a prática d o c o i t o i n t e r r o m p i d o - , t e n -
44 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

são p u r a m e n t e física q u e s e t r a n s f o r m a r i a t a r d e p o r s u a " s e g u n d a t e o r i a d a angústia". A


d i r e t a m e n t e e m angústia, p o r n ã o p o d e r s e r e l a - p a r t i r d e 1 9 2 6 , e l e afirmará q u e a angústia é d e -
b o r a d a n o p l a n o psíquico. F r e u d sustentará e s s a terminada essencialmente pelo t e m o r d a perda
teoria, conhecida pelo n o m e d e " p r i m e i r a teo- e d a separação d o o b j e t o , p a s s a n d o a s i t u a r s u a
ria d a a n g ú s t i a " , até substituí-la 3 0 a n o s m a i s o r i g e m n o nível d o p s i q u i s m o .

• "A S E X U A L I D A D E N A E T I O L O G I A D A S N E U R O S E S " ( 1 8 9 8 a )

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m ao texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1898a), "La sexualité d a n s Tétiologie des


névroses", in Resultais, idées, problèmes /, trad. J. Altounian e col., Paris, PUF, 1984, p. 75-97 [as páginas
indicadas entre colchetes remetem às OCF.P, ///, 215-240].

N e s t e a r t i g o , q u e f o i também o b j e t o d e u m a s i g n i f i c a q u e o p o d e r patogênico d e u m a c o n t e -
conferência q u e e s c a n d a l i z o u o m e i o m é d i c o c i m e n t o traumático d a infância p o d e não s e
vienense, F r e u d a f i r m a pela p r i m e i r avez a exis- m a n i f e s t a r n o m o m e n t o e m q u es ep r o d u z , m a s
tência d e u m a s e x u a l i d a d e i n f a n t i l a u t ó n o m a , retroativamente, q u a n d o se atinge u m a etapa
r e u n i n d o a s ideias e l a b o r a d a s n o a n o a n t e r i o r . posterior d odesenvolvimento sexual (puberda-
A p a r t i r d e 1897e l e r e v i s o u s u a t e o r i a d a s e d u - d e , adolescência).
ção d e p o i s d e t e r e s c r i t o a F l i e s s q u e r e c o n h e c i a F r e u d l e uesse t r a b a l h o e m 1898 p e r a n t e o
q u e e l a e s t a v a e r r a d a ("Não acredito mais na mi- Colégio d o s m é d i c o s v i e n e n s e s , l e i t u r a q u e c h o -
nha neurótica", c a r t a d e 2 1 d e s e t e m b r o d e 1 8 9 7 ) , c o u seus colegas, apesar d o r i g o r estritamente
e q u e a q u i l o q u e t o m a r a p o r u m a sedução s e x u a l científico c o m o q u a l e x p ô s s e u p o n t o d e v i s t a ,
d a criança p e l o a d u l t o e r a n a v e r d a d e a p e n a s a i l u s t r a n d o - o c o m e x e m p l o s clínicos. S u a s i d e i a s
expressão d e d e s e j o s i n c e s t u o s o s d a s crianças e m f o r a m q u a l i f i c a d a s d e " c o n t o d e f a d a científi-
relação a o s p a i s . P o r força d e s s a s d e s c o b e r t a s , c o " p o rK r a f f t - E b i n g ,q u e n o e n t a n t o e r a espe-
F r e u d considerou i m p o r t a n t e i n f o r m a raos seus cialista e m psicopatologia sexual. F r e u d , q u e
c o l e g a s médicos q u e a e t i o l o g i a d a s n e u r o p s i - e s p e r a v a d e s s a comunicação u m r e c o n h e c i -
c o s e s não r e p o u s a u n i c a m e n t e e m f a t o r e s d e s e n - m e n t o oficial d e suas descobertas, saiu dali
cadeantes, c o m o o s abusos sexuais reais, m a s d e s e n c a n t a d o e reforçado e m s e u p e s s i m i s m o .
t a m b é m e m experiências f a n t a s i o s a s l i g a d a s às A h o s t i l i d a d e c o mq u e s u a s ideias f o r a m rece-
forças p u l s i o n a i s s u r g i d a s d u r a n t e a infância e b i d a s t e v e c o m o consequência, e n t r e o u t r a s ,
a o l o n g o d a p u b e r d a d e . N e s s a contribuição, e l e a d i a r s u a s nomeação a o c a r g o d e p r o f e s s o r d a
a p r e s e n t a t a m b é m a n o ç ã o d e a posteriori, q u e Universidade.

• "LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS" ( 1 8 9 9 a )

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m ao texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1899a), "Sur les s o u v e n i r s - é c r a n " , in


Névrose, psychose etperversion, trad. D. Berger e col., Paris, PUF, 1973, p. 113-132 [as páginas indicadas
entre colchetes remetem às OCF.P, ///, 253-276].

A l e m b r a n ç a e n c o b r i d o r a é u m c o n c e i t o iné- t i c i p a m o p r o t a g o n i s t a , n a época c o m 2 o u 3
d i t o : t r a t a - s e d e u m a l e m b r a n ç a d e infância q u e a n o s , a l é m d e o u t r a s crianças d a m e s m a i d a d e
f i c o u g r a v a d a n a memória c o m u m a i n t e n s i - e u m a l i n d a p r i m a . E s s a c e n a f i c o u e ms u a
d a d e p a r t i c u l a r , a p e s a r d e u m conteúdo a p a - m e n t e c o m o u m a l e m b r a n ç a i n d i f e r e n t e até q u e
r e n t e m e n t e insignificante. C o m o explicar esse u m d i a a lembrança d e t e r s e a p a i x o n a d o p o r
paradoxo? Usando oexemplo deu m a lembran- u m a moça d e 17 a n o s v e i o e s c l a r e c e r a l e m b r a n -
ça q u e e l e a t r i b u i u a u m d e s e u s p a c i e n t e s - ça d e infância e d e s p e r t a r u m a i n f i n i d a d e d e
q u e é a p e n a s u m f r a g m e n t o autobiográfico - , o u t r a s l e m b r a n ç a s r e p r i m i d a s até e n t ã o , d e s -
Freud analisa minuciosamente u m a lembran- c r i t a s c o m u m t a l e n t o literário incontestável. A
ça e n c o b r i d o r a c u j a e l a b o r a ç ã o l h e p e r m i t e l i - e v o c a ç ã o d a c a r g a patogênica i n c o n s c i e n t e c o n -
vrar-se d e u m afobia passageira. Trata-se d a t i d a n e s s a s lembranças r e p r i m i d a s p e r m i t e a
lembrança d e u m a c e n a n o c a m p o d a q u a l p a r - c u r a d e s s a f o b i a . E s s e e x e m p l o clínico, r e d i g i -
Ler Freud 45

d o c o m o u m a o b r a literária, é t a m b é m a d e - fantil, mas verdadeiramente todo o essencial. Só é


monstração m a g i s t r a l d e q u e a lembrança preciso saber explicitá-las com a ajuda da análise.
e n c o b r i d o r a r e s u l t a d e u m compromisso e n t r e Elas representam os anos esquecidos da infância com
d u a s forças psíquicas, u m a g u a r d a n d o a l e m - a mesma precisão com que o conteúdo manifesto dos
brança b a n a l n a memória e a o u t r a p o n d o e m sonhos representa os pensamentos" ( F r e u d , 1 9 1 4 g ,
prática u m a resistência q u e o c u l t a o s i g n i f i c a - p. 107).
d o patogênico i n c o n s c i e n t e : a s d u a s forças A noção d e lembrança e n c o b r i d o r a t e m u m
o p o s t a s não s e a n u l a m , m a s p r o d u z e m u m alcance geral, pois implica u m questionamento
compromisso que compensa asduas lembran- d o v a l o r d a s l e m b r a n ç a s d e infância, q u e n ã o
ças, c o n d e n s a ç ã o q u e s e e x p r i m e j o g a n d o c o m p o d e m s e r t o m a d a s a o pé d a l e t r a . É s o b r e e s s e
a p o l i s s e m i a d a s p a l a v r a s : "E a expressão verbal, p o n t o q u e F r e u d c o n c l u i : "Nossas lembranças de
sem dúvida, que estabelece uma ligação entre a lem- infância nos mostram os primeiros anos de nossa
brança encobridora e a que é encoberta", o b s e r v a vida, não como eram, mas como apareceram ao ser
F r e u d ( p . 1 2 9 [273]), d a m e s m a m a n e i r a q u e evocados em épocas posteriores..." ( 1 8 9 9 a , p . 1 3 2
descreverá p o s t e r i o r m e n t e o m e s m o fenóme- [276]). E m o u t r a s p a l a v r a s , a c r e s c e n t a e l e d e
n o nos lapsos o u atos falhos. f o r m a h u m o r a d a , j o g a n d o c o m as p a l a v r a s , não
p o d e m o s nos fiar demais e m nossas l e m b r a n -
M a i s t a r d e , e l e reafirmará a i m p o r t â n c i a d a
ças, p o i s a s l e m b r a n ç a s c o n s c i e n t e s q u e t e m o s
lembrança e n c o b r i d o r a , q u e c o n d e n s a n u m e r o -
"de" n o s s a infância n ã o s e r i a m n a v e r d a d e l e m -
sos e l e m e n t o s infantis ao m e s m o t e m p o reais e
b r a n ç a s q u e t e m o s "sobre" n o s s a infância, q u e
f a n t a s i o s o s : "As lembranças encobridoras contêm
estamos permanentemente retocando?
não apenas alguns elementos essenciais da vida in-

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Afeto - a posteriori - c o r ipromisso - neurose - neurose d e angústia - primeira teoria d a angústia - neuropsicose -
repressão - representa» ão - sexualidade infantil - lembrança encobridora - traumatismo - vertigem
(J

A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS


S. FREUD (1900a)

SOBRE O SONHO
S. FREUD (1901a)

"A interpretação dos sonhos é a via régia que conduz ao conhecimento


do inconsciente da vida psíquica" (Freud, 1900a, p. 517 [663]).

E m A interpretação dos sonhos, F r e u d l a n ç a o b j e t i v o e o s i g n i f i c a d o d o s s o n h o s f o i o méto-


a s ideias i n o v a d o r a s q u e não a p e n a s vão r e - d o psicanalítico d a associação l i v r e , o q u e l h e
v o l u c i o n a r a compreensão d o s s o n h o s q u e s e p e r m i t i u f a z e r a s e g u i n t e afirmação, c i t a d a c o m
t i n h a até então, c o m o t a m b é m p r o p o r c i o n a - frequência: "A interpretação dos sonhos é via ré-
rão u m e s c l a r e c i m e n t o inédito s o b r e o f u n c i o - gia que conduz ao conhecimento do inconsciente da
namento d o pensamento e d alinguagem. vida psíquica" ( 1 9 0 0 a , p . 5 1 7 [663]). P o r t a n t o , e s s a
F r e u d d e f e n d e ali a tese de q u e o s o n h o é u m a obra fundamental,que Freud considerou por
a t i v i d a d e psíquica o r g a n i z a d a , d i f e r e n t e d a toda vida como sua obra mais importante, se-
a t i v i d a d e d a vigília, e q u e t e m s u a s p r ó p r i a s g u n d o s e u biógrafo E . J o n e s , v a i além d e u m a
l e i s , o p o n d o - s e t a n t o às c o n c e p ç õ e s p o p u l a - explicação d o s o n h o n o t u r n o . A o p r o p o r e m A
r e s c o m o à o p i n i ã o científica. D e u m l a d o , e l e interpretação dos sonhos u m a c o n c e p ç ã o g e r a l d o
s e d e m a r c a d o s m é t o d o s clássicos e p o p u l a - f u n c i o n a m e n t o psíquico, s e j a n o r m a l o u p a t o -
res u t i l i z a d o s para interpretar o ssonhos des- lógico, F r e u d e s t a b e l e c e o s f u n d a m e n t o s d a
d e a A n t i g u i d a d e , q u e r e c o r r i a m à decifração psicanálise s o b s e u s d i f e r e n t e s a s p e c t o s - clíni-
e m função d e c h a v e s simbólicas c u l t u r a i s , v i - c o , técnico e teórico.
s a n d o a p r e v e r o f u t u r o . D eo u t r o , ele s e de- M a i s d o q u e centenária a t u a l m e n t e , a c o n -
m a r c a d o s c i e n t i s t a s d e s u a época p a r a q u e m cepção d e v i d a onírica lançada p o r F r e u d e m
o s o n h o n ã o t e m n e n h u m s i g n i f i c a d o psicoló- 1 9 0 0 c o n t i n u a s e n d o a referência indispensá-
g i c o e q u e vêem n e l e u n i c a m e n t e u m a p r o d u - v e l e m s e u c a m p o próprio, o d a psicanálise.
ç ã o d e s o r g a n i z a d a , d e s e n c a d e a d a p o r estímu- D e s d e 1 9 0 0 até o p r e s e n t e , o s d e s e n v o l v i m e n -
los físicos - o p i n i ã o q u e c o r r e a i n d a h o j e e n t r e t o s psicanalíticos pós-freudianos, a s s i m c o m o
certos cientistas. o s p r o g r e s s o s científicos e m d i v e r s o s d o m í -
F r e u d traz u m outro aspecto inovador e m n i o s , e m p a r t i c u l a r n o d a s neurociências, a m -
A interpretação dos sonhos, q u e é a d e m o n s t r a - pliaram nosso conhecimento dos mecanismos
ção d e q u e o s o n h o é u m a produção própria d e e n v o l v i d o s n a formação d o s s o n h o s , m a s n e -
q u e m s o n h a e q u e não provém d e u m a f o n t e n h u m a n o v a teoria veio substituirainterpre-
e s t r a n h a a ele, i m p o s t a d e fora. P o r m u i t o t e m - tação f r e u d i a n a d o s s o n h o s n o s e u c a m p o pró-
po, acreditou-se que o sonho era u m a mensa- p r i o d e aplicação, o c a m p o psicanalítico. A l é m
g e m a u s p i c i o s a o u nefasta d i r i g i d aà p e s s o a q u e d i s s o , s e f o s s e o c a s o , o s próprios p s i c a n a l i s -
s o n h a , v i n d a d e forças s u p e r i o r e s , d e u s e s o u t a s não t e r i a m s i d o o sp r i m e i r o s a s e d a r e m
demónios. O q u e l e v o u F r e u d a d e s c o b r i r o conta disso?
48 J e a n - M i c h e l Quinodoz

BIOGRAFIAS E HISTÓRIA

O livro d o s é c u l o
A partir de seus próprios sonhos
Freud parece ter-se interessado por seus sonhos desde a infância e menciona u m caderno d e anotações onde
registra suas reflexões sobre esse t e m a e m u m a carta d e 18 d e julho d e 1883 à s u a noiva Martha. Mas seu
interesse pelo estudo científico d o s sonhos data d a é p o c a e m q u e passou a aplicar seu m é t o d o d e associação
livre e m pacientes histéricos, pois essa a b o r d a g e m lhe permitiu descobrir as estreitas ligações existentes entre
sonhos, fantasias e sintomas. Freud t a m b é m estabeleceu aproximações entre seus próprios s o n h o s e os de
seus pacientes e assim conseguiu dimensionar a importância d o papel q u e a vida onírica d e s e m p e n h a não
apenas na psicopatologia, mas t a m b é m no funcionamento psíquico normal. No m ê s d e julho d e 1895, ele fez a
análise c o m p l e t a d e u m d e seus sonhos, "a injeção d e Irma", primeiro s o n h o q u e examinou detalhadamente e m
A interpretação dos sonhos. Entusiasmado c o m as novas perspectivas abertas pelo estudo d o s s o n h o s e pela
recente descoberta d o s neurónios, Freud tentou fazer u m a síntese d e t u d o isso, e e m 1895 lançou-se à redação
d o manuscrito d e "Projeto para u m a psicologia científica". Pressentindo q u e esse tipo d e c o n d u t a levaria a u m
impasse, a b a n d o n o u a ideia d e fundar u m a teoria geral d o p s i q u i s m o c o m base e m d a d o s quantitativos
mensuráveis e renunciou a publicar esse manuscrito. Virando as costas deliberadamente à neurofisiologia,
optou por u m a perspectiva q u e circunscrevia os fenómenos psíquicos ao c a m p o d a experiência subjetiva, q u e
se tornou o d a psicanálise. Por isso, situa-se o nascimento d a psicanálise entre o s anos d e 1896 e 1899, período
que coincide c o m a auto-análise d e Freud e a gestação d e A interpretação dos sonhos.

A morte do pai de Freud e o início da auto-análise


A i n d a q u e a s ideias d e Freud s o b r e o s s o n h o s j á estivessem b e m presentes e m s u a m e n t e e m 1895, a
e l a b o r a ç ã o d a o b r a p r o p r i a m e n t e dita levou q u a s e q u a t r o a n o s . Foi a p ó s a m o r t e d e s e u pai, J a k o b Freud,
ocorrida e m 1 8 9 6 , q u e ele iniciou p e s q u i s a s sistemáticas nesse d o m í n i o , a n a l i s a n d o e m particular seus
próprios s o n h o s , t r a b a l h o d e e l a b o r a ç ã o q u e serviu d e f e r m e n t o para s u a auto-análise. O t e m a d a morte d e
seu pai e as i n ú m e r a s l e m b r a n ç a s relacionadas a ele a p a r e c e r a m d e m a n e i r a recorrente e m s e u s s o n h o s
durante o s m e s e s q u e s e s e g u i r a m . Foi u m período difícil, e p o d e - s e s u p o r q u e Freud e s c r e v e u essa o b r a
não a p e n a s c o m u m objetivo científico, m a s i g u a l m e n t e para tentar superar a crise interior e m q u e esse luto
o s u b m e r g i u . M a s foi u m período f e c u n d o , pois, graças à s u a auto-análise e i n t e r p r e t a n d o s e u s s o n h o s ,
Freud d e s c o b r i u a t é c n i c a d e interpretação específica d a psicanálise.
Sua relação c o m Fliess teve igualmente u m papel importante nesses anos. Por u m lado, as cartas q u e Freud
endereçava regularmente a o s e u a m i g o constituem a posteriori u m t e s t e m u n h o valioso d a s etapas q u e ele
percorreu d u r a n t e s u a auto-análise, por e x e m p l o , q u a n d o anuncia ter e n c o n t r a d o c o n f i r m a ç ã o d e q u e o
motivo d o s o n h o é a realização d e u m desejo: "Antes de ontem, escreveu ao seu amigo, um sonho me
ofereceu a confirmação mais curiosa de que o motivo do sonho é uma realização de desejo" (carta d e Freud
a Fliess d e 2 3 d e s e t e m b r o d e 1895). Mas, além d e ter sido u m t e s t e m u n h o privilegiado, Fliess foi t a m b é m u m
interlocutor n o qual Freud p o d i a projetar suas fantasias e seus afetos transferenciais. C o n t u d o , essa relação
de transferência e contratransferencia inconsciente q u e se dava à revelia d e a m b o s - e m b o r a Freud a tenha
intuído - conduziria inevitavelmente a u m impasse, por não ter se efetuado e m c o n d i ç õ e s q u e permitissem
analisá-la e elaborá-la, isto é, c o m a ajuda d e outro psicanalista. Essa foi, s e m dúvida, u m a d a s causas d a
ruptura entre Freud e Fliess q u e ocorreria p o u c o depois, q u a n d o ele terminou o período d e auto-análise.

A interpretação dos sonhos (1900a)


Freud c o n c l u i u a r e d a ç ã o d a o b r a e m s e t e m b r o d e 1899. Viveu m o m e n t o s d e inibição e momentos de
exaltação, c o m o a q u e l e e m q u e redigiu e m d u a s s e m a n a s , e m a g o s t o d e 1899, o f a m o s o capítulo VII,
d e d i c a d o à p s i c o l o g i a d o s o n h o . A o b r a foi l a n ç a d a e m 4 d e n o v e m b r o d e 1899, m a s foi p ó s - d a t a d a d e
1900 pelo editor. Freud e s p e r a v a m u i t o d e s s a p u b l i c a ç ã o , p r i n c i p a l m e n t e o r e c o n h e c i m e n t o d o valor d e
s u a o b r a , m a s o s 6 0 0 e x e m p l a r e s d a t i r a g e m inicial levaram oito a n o s para s e r e m v e n d i d o s . P o u c o a
p o u c o , o s u c e s s o d e s p o n t o u , e o e s t u d o d o s s o n h o s foi u m a p r e o c u p a ç ã o c o n s t a n t e p o r t o d a s u a vida.
A s s i m , ele fez várias m o d i f i c a ç õ e s n a o b r a à m e d i d a q u e f o r a m s e n d o lançadas as oito e d i ç õ e s e m língua
a l e m ã q u e a p a r e c e r a m e n q u a n t o estava vivo, a última e m 1930.

Continua £
Ler Freud 49

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A o b r a - p r i m a q u e c o n s t t u i A interpretação dos sonhos c o n t é m 7 0 0 p á g i n a s n a s u a edição c o m p l e t a . Nelas


F r e u d analisa q u a s e 2 0 0 s o n h o s , d o s quais 4 7 s ã o s e u s , e o s outros p r o v ê m d e s e u círculo e d e c o l e g a s .
Mas, e m b o r a o n ú m e r o d e s o n h o s e a d i v e r s i d a d e d e hipóteses d e s e n v o l v i d a s nessa o b r a v o l u m o s a f a ç a m
d e l a a i n d a hoje u m a o b r a indispensável, essas q u a l i d a d e s a t o r n a m i g u a l m e n t e u m a o b r a d e difícil a c e s s o
p a r a o leitor não-esclarecido. N ã o p o d e r í a m o s descrever m e l h o r d o q u e D. Anzieu a impressão q u e p o d e
d a r a o neófito a leitura d e A interpretação dos sonhos. A s s i m , p a s s o a palavra a ele: "D/e Traumdeutung é
u m livro inspirado", escreve ele, " c h e i o d e ardor, intrépido, m a s q u e s e t o r n o u difícil pela originalidade d a s
ideias q u e reúne, pela c o m p l e x i d a d e d e s u a arquitetura, pelo rigor e a multiplicidade d e suas articulações
t e ó r i c a s , pela n o v i d a d e d o s c o n c e i t o s , pela a b u n d â n c i a d e e x e m p l o s , pela c o n c i s ã o d e s e u e s t u d o o u ,
i n v e r s a m e n t e , pela d i s p e r s ã o d e s t e s e m diferentes capítulos, pela mistura d e auto-observações d e F r e u d
e d e o b s e r v a ç õ e s d a vida onírica d e o u t r o , pela incerteza s o b r e o g é n e r o literário a d o t a d o pelo autor:
t r a t a d o científico, diário íntimo, confissão, c h a v e d o s s o n h o s , v i a g e m fantástica, b u s c a iniciática, e n s a i o
s o b r e a c o n d i ç ã o h u m a n a e, mais ainda, vasto afresco a l e g ó r i c o d o inconsciente..." (1988a, p. 10)

Sobre o sonho (1901a)


A fim d e tornar mais acessíveis a o público as ideias inovadoras contidas e m A interpretação dos sonhos, o editor
pediu a Freud q u e fizesse u m resumo. Ele hesitou u m pouco, m a s a c a b o u aceitando escrever Sobre o sonho,
u m a o b r a curta d e vulgarização redigida e m u m estilo acessível, e m u m t o m quase coloquial, e associando o
leitor à b u s c a d o sentido d o s sonhos à maneira d e u m a s o n d a g e m d e romance policial. Freud acrescenta ali
vários s o n h o s novos, d o s quais o mais c o n h e c i d o é o d a " m e s a d e albergue", assim c o m o u m sonho q u e revela
u m a agressividade inconsciente e m relação a Fliess, anunciando a ruptura próxima c o m seu amigo.
C o m o assinala c o m muita p r o p r i e d a d e A n z i e u , a escrita psicanalítica s e c o l o c a d e imediato c o m o s d o i s
p r i m e i r o s livros d e Freud, pois essas o b r a s t ã o diferentes m o s t r a m q u e a escrita psicanalítica oscilará
s e m p r e entre dois pólos: u m p ó l o inspirado, c o m o é A interpretação dos sonhos - o b r a "aberta" n o s e n t i d o
d e U m b e r t o Eco, escrita e m u m estilo " b a r r o c o " - e u m p ó l o didático, c o m o é Sobre o sonho - e x p o s i ç ã o
d e s t i n a d a a o ensino, escrita e m u m estilo "clássico" (Anzieu, 1988a, p. 34)

D E S C O B E R T A DAS OBRAS

Para o leitor neófito, a c o n s e l h o a c o m e ç a r l e n d o Sobre o sonho (1901a), antes d e A interpretação dos


sonhos (1900a), a i n d a q u e isso signifique inverter a c r o n o l o g i a . Depois d e ler Sobre o sonho, o leitor s e
orientará mais facilmente n a o b r a i m e n s a e c o m p l e x a q u e constitui A interpretação dos sonhos.

SOBRE O SONHO (1f01a)

A s p á g i n a s indicadas r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1901a), Surle rêve, prefácio d e D. A n z i e u ,


t r a d . C. H e i m , Paris, Gallimard, 1988.

O sentido dos sonheis é dado pelas da pensam q u e o sonho possui unicamente


associações livres da pessoa que sonha u m a função biológica e q u e s e u conteúdo n ã o
t e m n e n h u m s i g n i f i c a d o psicológico.
Freud lembra q u eapenas recentemente o E v e r d a d e q u e ,q u a n d o s e t e n t a compre-
sonho passou a serconsiderado como u m a e n d e r o conteúdo d e u m s o n h o t o m a d o i s o l a -
produção psíquica própria à p e s s o a q u e s o - d a m e n t e , é difícil c a p t a r s e u s e n t i d o , prosse-
n h a e d e i x o u d es e r v i s t o c o m o u m a mensa- g u e F r e u d . A o contrário, i s s o é possível q u a n -
g e m auspiciosa o u n e f a s t a "de forças superio- d o s e a p l i c a o n o v o método d e investigação
res, deuses ou demónios", c o m o n o st e m p o s m i - que elea p r i m o r o urecentemente e a q u e d e u
tológicos ( p . 4 5 ) . E l e d i z , n o e n t a n t o , q u e m u i - o n o m e d e " m é t o d o d e associação l i v r e " . P o r
t o s c i e n t i s t a s e n t r e s e u s contemporâneos ain- e s s e método, d e s c o b r i u q u e o ss o n h o s têm u m
50 J e a n - M i c h e l Quinodoz

sentido, d o m e s m o m o d o que descobrira que n h o tal c o m o é relatado e cujo sentido geral-


o s s i n t o m a s histéricos, a s f o b i a s , a s obsessões m e n t e é o b s c u r o , e o conteúdo latente do sonho,
e o s delírios t ê m u m s e n t i d o e p o d e m s e r i n - c u j o s i g n i f i c a d o só a p a r e c e c o m t o d a s u a c l a r e -
terpretados. z a d e p o i s q u e o s o n h o é d e c i f r a d o à l u z d e as-
E m Sobre o sonho, F r e u d o p t o u p o r a n a l i s a r sociações d o p a c i e n t e . C o n t e ú d o m a n i f e s t o e
e m d e t a l h e o s o n h o d a "mesa de estalagem" q u e conteúdo l a t e n t e e s t a b e l e c e m conexões e s t r e i t a s
h a v i a t i d o r e c e n t e m e n t e , e m o u t u b r o d e 1900. a partir d o significado que liga u m a ooutro e
Começa p o r r e l a t a r s e u s o n h o t a l c o m o s e l e m - q u e a análise c o n s e g u e r e v e l a r . F r e u d s e i n d a -
b r a v a : u m a m u l h e r está s e n t a d a a o s e u l a d o e g a e n t ã o s o b r e a n a t u r e z a d o p r o c e s s o psíquico
p o u s a a mão f a m i l i a r m e n t e s o b r e o j o e l h o d e q u e t r a n s f o r m a o c o n t e ú d o l a t e n t e e m conteú-
q u e m s o n h a ; este afasta a mão d e s u a v i z i n h a , d o m a n i f e s t o e o t o r n a irreconhecível, e t a m b é m
que declara q u e ele t e m belos olhos. A o acor- s o b r e a o p e r a ç ã o i n v e r s a r e a l i z a d a p e l a análise
dar, F r e u d fica surpreso, pois o s o n h o lhe pa- d o sonho que decifra o sentido manifesto para
rece obscuro e a b s u r d o , visto que fazia m u i t o d e s c o b r i r s e u s e n t i d o l a t e n t e . E l e c h a m a d e "tra-
t e m p o q u e não v i a e s s a p e s s o a . E l e p r o c u r a balho do sonho" o c o n j u n t o d e o p e r a ç õ e s psíqui-
então c a p t a r o s p e n s a m e n t o s q u e l h e v ê m à c a s q u e t r a n s f o r m a m o conteúdo l a t e n t e e m
cabeça e s p o n t a n e a m e n t e q u a n d o e v o c a c a d a c o n t e ú d o m a n i f e s t o c o m o o b j e t i v o d e torná-lo
d e t a l h e d os o n h o , f i a n d o - s e e m s u a s associa- irreconhecível, e d e "trabalho de análise" a o p e -
ções l i v r e s : "mesa de albergue... dever dinheiro... ração i n v e r s a , q u e v i s a a e n c o n t r a r s e u s e n t i d o
fazer isso por seus belos olhos... ter gratuitamen- o c u l t o a p a r t i r d o c o n t e ú d o m a n i f e s t o : "A tare-
te..., etc.". A p a r t i r d e i n ú m e r o s f r a g m e n t o s fa da interpretação dos sonhos é desfazer Cauflõsen)
d i s p e r s o s , F r e u d n o s f o r n e c e a s ligações q u e o que o trabalho do sonho teceu" ( p . 6 0 ) .
estabeleceu entre imagens, pensamentos e
lembranças q u e s e e n c a d e i a m sucessivamen-
te e g a n h a m s e n t i d o p a r a ele. A s s i m , p a s s o a O sonho é a realização de um
passo, o leitor é instado a c o m p a r t i l h a r c o m desejo inconsciente
q u e m s o n h o u a convicção d e q u e e s s e s o n h o ,
à p r i m e i r a v i s t a tão incompreensível, a c a b a A s e g u n d a t e s e c e n t r a l d e F r e u d está c o n t i -
p o r a d q u i r i r u m s e n t i d o q u e só a s associações d a e m u m a afirmação q u e já t i n h a s i d o f e i t a
d e q u e m s o n h o u p o d e m n o s r e v e l a r : "Seguin- e m A interpretação dos sonhos: "O sonho é a reali-
do as associações ligadas aos elementos isolados do zação (dissimulada) de um desejo (reprimido,
sonho, arrancados de seu contexto, d i z e l e , che- recalcado)" ( 1 9 0 0 a , p . 1 4 5 [196]). D e s s e p o n t o d e
guei a uma série de pensamentos e lembranças em v i s t a , e x i s t e m s o n h o s límpidos e m q u e a r e a l i z a -
que devo reconhecer expressões valiosas de minha ção d o d e s e j o a p a r e c e c l a r a m e n t e c o m o já c o n -
vida psíquica" ( p . 5 7 ) . M a s F r e u d n ã o v a i a t é o sumada, o que ocorre e m particular nas crian-
f i m e m s u a demonstração e d i z q u e s e m p r e ças, e m a i s r a r a m e n t e n o a d u l t o . F r e u d c i t a
que analisa u m d eseus sonhos s u r g e m pen- e x e m p l o s q u e h o j e s e t o r n a r a m clássicos, c o m o
s a m e n t o s í n t i m o s difíceis d e c o n f e s s a r , m e s - o da m e n i n a que sonha c o m o smorangos que
m o a e l e próprio. N e n h u m s o n h o e s c a p a a e s s e lhe recusaram n odia anterior, o u d o m e n i n o
fenómeno, a c r e s c e n t a e l e , e é p o r i s s o q u e , q u e g a n h o u u m c e s t o d e c e r e j a s : "Na véspera,
q u a n d o relata u m s o n h o , seja s e u o u d e q u a l - ele tinha ganhado de seu tio um cesto de cerejas fres-
q u e r o u t r a pessoa, ele seobriga a respeitar seu cas, mas só lhe permitiram saborear algumas. Ao
caráter c o n f i d e n c i a l . acordar, ele diz todo contente: 'Hermann comeu to-
das as cerejas" ( 1 9 0 1 a , p . 6 6 ) . M a s , n a m a i o r i a
d a s v e z e s , o conteúdo d o s s o n h o s p a r e c e i n c o e -
Conteúdo manifesto e conteúdo r e n t e e à p r i m e i r a v i s t a não t e m n e n h u m s e n t i -
latente do sonho d o , p o i s a realização d o d e s e n h o é d i s s i m u l a -
d a : n e s s e c a s o , o trabalho do sonho t r a n s f o r m o u
F r e u d i n t r o d u z e m s e g u i d a u m a distinção os pensamentos d os o n h o d e tal m o d o que a
e n t r e o conteúdo manifesto do sonho, i s t o é, o s o - realização d o d e s e j o n ã o a p a r e c e n o r e l a t o d o
Ler F r e u d 51

s o n h o , e c a b e a o trabalho de análise e f e t u a r a O deslocamento - G r a ç a s a o m e c a n i s m o d e


operação i n v e r s a p a r a r e c u p e r a r o s e n t i d o d o s deslocamento, o trabalho do sonho substi-
pensamentos do sonho. tui o spensamentos mais significativos d e
u m s o n h o p o r p e n s a m e n t o s acessórios, d e
m o d o q u e o conteúdo i m p o r t a n t e d e u m
Os mecanismos em ogo na sonho é desfocado e dissimula a realiza-
formação do sonho ção d o d e s e j o . P o r e x e m p l o , a impressão
de que u m sonho traz u m elemento alta-
Q u a i s são o s m e i o s u t i l i z a d o s p e l o t r a b a -
m e n t e s i g n i f i c a t i v o p o d e s e r substituída
l h o d o s o n h o p a r a d i s s i m u l a r a realização d o
p o r u m a impressão o p o s t a , c o m o a i n d i f e -
d e s e j o a f i m d e q u e e l e n ã o apareça n o c o n -
rença. O s m e c a n i s m o s d e condensação e
teúdo m a n i f e s t o ? S e g u n d o F r e u d , o s o n h o u t i -
de deslocamento p o d e m combinar-se para
liza cinco mecanismos principais para atingir
formar u m compromisso que é ilustrado
seus objetivos, a saber:
n o s o n h o "da injeção de Irma" q u e F r e u d
evoca aqui. Nesse sonho, que trata de u m a
A condensação - A condensação c o n s i s t e e m
i n j e ç ã o d e propileno, e l e e s t a b e l e c e u u m a
r e u n i r e m u m único e l e m e n t o vários e l e m e n -
a p r o x i m a ç ã o s i g n i f i c a t i v a e n t r e o amileno
t o s - i m a g e n s , p e n s a m e n t o s , etc. - p e r t e n c e n -
e a l e m b r a n ç a d o s Propileus q u e v i u e m u m
t e s a d i f e r e n t e s c a d e i a s d e associação. É e f e -
m u s e u . E s s e e x e m p l o e s c l a r e c e a formação
t u a n d o a análise d e u m s o n h o q u e s e d e s c o b r e
d o c o m p r o m i s s o c r i a d o p e l o t e r m o pro-
o f e n ó m e n o d e "compressão" o u "condensação"
pileno, f r u t o d e u m a c o n d e n s a ç ã o e d e u m
que o trabalho do sonho realizoupara reunir
deslocamento.
fragmentos disparatados e m u m a unidade:
O procedimento de representação ou representa-
"Se comparamos, em um exemplo tomado ao aca-
bilidade ("Darstellbarkeit") - T r a t a - s e d a o p e -
so, o número de elementos de representação ou a
ração p e l a q u a l o t r a b a l h o d o s o n h o t r a n s -
importância de anotações a que conduz a análise,
f o r m a o sp e n s a m e n t o s d os o n h o e m i m a -
quando se anota um sonho ou os pensamentos dos
gens, s o b r e t u d o visuais. Eis c o m o ele des-
quais encontramos alguma posta nos sonhos não
c r e v e e s s e s p r o c e s s o s : "Imaginemos, por exem-
podemos duvidar que o trabalho do sonho realizou
plo, que alguém nos pede para substituir as fra-
uma compressão ou condensação significativa"
ses de um editorial político ou de uma defesa pe-
(p. 77). Q u a n d o se a n a l i s a u m s o n h o e m d e t a -
rante um tribunal por uma série de desenhos;
l h e , o b s e r v a - s e q u e o p r o c e s s o d e condensação
com isso compreenderemos facilmente as modi-
se p r o d u z p a r a t o d o s o s e l e m e n t o s d o s o n h o ,
ficações que o trabalho do sonho precisa fazer para
de maneira que cada elemento t o m a d o e m
captar a representabilidade do conteúdo do so-
p a r t i c u l a r d e c o r r e d e u m a série d e e l e m e n t o s
nho" ( p . 9 2 ) . F r e u d c i t a d i v e r s o s m e i o s u t i l i -
q u e p o d e m p e r t e n c e r a domínios d i f e r e n t e s ,
zados pelo trabalho d osonho para trans-
o q u e significa que cada elemento d o s o n h o é
f o r m a r os pensamentos n a f o r m a de expres-
sobredeterminado. E o m e c a n i s m o d e c o m p r e s -
são v i s u a l p r ó p r i a d o s o n h o .
são q u e t o r n a difícil a l e i t u r a d o r e l a t o m a n i -
A elaboração secundária - A elaboração s e -
f e s t o d o s o n h o . A condensação c o n s t i t u i u m
cundária c o n s i s t e e m a p r e s e n t a r o conteú-
dos mecanismos fundamentais do trabalho do
d o onírico s o b a f o r m a d e u m cenário c o e -
sonho, m a s aencontramos igualmente n a for-
r e n t e e inteligível. T r a t a - s e d e u m m e c a -
mação d e s i n t o m a s , d e l a p s o s o u d e c h i s t e s .
n i s m o q u e a c o m p a n h a a formação d e u m
N e s t e s últimos, a condensação c r i a a t a l h o s e n -
s o n h o e mcada etapa, m a s o efeito desse
tre d i f e r e n t e s p e n s a m e n t o s , p r o c e d e n d o a
p r o c e s s o é m a i s visível n o e s t a d o d e vigí-
aproximações i n e s p e r a d a s , j o g a n d o , p o r
lia, q u a n d o a p e s s o a t e n t a l e m b r a r o q u e
e x e m p l o , c o m a s semelhanças e n t r e a s p a l a -
s o n h o u o ur e l a t a r o s o n h o . Q u a n d o p r o -
v r a s p a r a c r i a r "pensamentos intermediários, em
curamos lembrar-nos de u m sonho, tende-
geral bastante espirituosos" ( p . 7 7 ) .
m o s a d e f o r m a r s e u conteúdo p a r a l h e d a r
52 J e a n - M i c h e l Quinodoz

m a i s coerência e c r i a r u m a f a c h a d a r a c i o - c o m p r o m i s s o , não é e x c l u s i v o d o s o n h o , m a s
n a l . M a s a distorção q u e r e s u l t a d a e l a b o - o c o r r e e m várias situações psicopatológicas
ração secundária n ã o é anódina, p o i s a c a - o n d e s e e n c o n t r a a ação d a condensação e d o
b a m o s d e s c o b r i n d o a l i o cenário q u e t e m a deslocamento.
m a r c a d a realização d e u m d e s e j o r e p r i m i - Além d i s s o , e m razão d a irrupção d e d e s e -
do, verdadeira causa d o sonho. j o s i n c o n s c i e n t e s não-censurados q u e p o d e m
A dramatização - F i n a l m e n t e , F r e u d acres- despertar apessoa, u m s o n h o c o n s u m a d o cons-
centa e m 1901 o m e c a n i s m o de dramatização, t i t u i t a m b é m a realização d o d e s e j o d e d o r m i r .
que consiste e m t r a n s f o r m a r u m p e n s a m e n - P o r i s s o , F r e u d c o n s i d e r a q u e o u t r a função d o
t o e m u m a situação, p r o c e d i m e n t o análogo s o n h o é s e r o g u a r d i ã o d o s o n o : " O sonho é o
ao trabalho que realiza o diretor d e teatro guardião do sono, e não um perturbador" ( p . 1 2 5 ) .
q u a n d o transpõe u m t e x t o e s c r i t o p a r a a r e -
presentação.
A censura do sonho incide sobre os desejos
sexuais infantis reprimidos
Os restos da véspera
S e n o s a p r o f u n d a m o s n a análise d o s s o -
A formação d e u m s o n h o r e s p o n d e i g u a l - nhos, prossegue Freud, descobrimos quase
m e n t e a u m princípio f u n d a m e n t a l s e g u n d o o s e m p r e q u e s e u conteúdo l a t e n t e r e v e l a a r e a -
q u a l o cenário d o s o n h o s e a r t i c u l a s e m p r e e m lização d e d e s e j o s eróticos. E s s a observação
t o r n o d e a c o n t e c i m e n t o s o c o r r i d o s n a véspera, confirma o papel desempenhado pela censu-
q u e F r e u d c h a m a d e "restos diurnos": "Quando r a q u e i n c i d e s o b r e conteúdos s e x u a i s , m a i s
então se recorre à análise, pode-se demonstrar que precisamente sobre o sdesejos sexuais infan-
todo sonho, sem exceção possível, está ligado a uma tis r e p r i m i d o s , p r o v e n i e n t e s d a s e x u a l i d a d e
impressão que se teve dias antes - sem dúvida, seria i n f a n t i l , q u e "fornecem as forças pulsionais mais
mais correto dizer: do último dia antes do sonho (o numerosas e mais poderosas que concorrem para a
dia do sonho)". E s s e s r e s t o s d i u r n o s t ê m u m a formação dos sonhos" ( p . 1 3 4 ) . A d e s p e i t o d o
relação m a i s o u m e n o s p r ó x i m a c o m o d e s e j o papel desempenhado pela sexualidade, salien-
inconsciente q u e s erealiza n o sonho. t a F r e u d , d i f i c i l m e n t e o conteúdo m a n i f e s t o
d e u m s o n h o p e r m i t e q u e a realização d e u m
d e s e j o d e caráter s e x u a l apareça c o m o t a l ; g e -
O papel da censura r a l m e n t e é d i s s i m u l a d o , e c a b e a ot r a b a l h o d e
a n á l i s e d e d e s v e n d á - l o . E m Sobre o sonho,
Para Freud, o principal motivo d a defor-
F r e u d não f a l a d o c o m p l e x o d e Édipo, e m b o -
m a ç ã o d o s o n h o p r o v é m d a censura. E l e a f i r -
r a e l e já t e n h a s i d o m e n c i o n a d o u m a n o a n t e s
m a q u e s e t r a t a d e u m a instância p a r t i c u l a r ,
e m A interpretação dos sonhos a p r o p ó s i t o d e
situada na fronteira entre consciente e incons-
s o n h o s típicos e n v o l v e n d o "a morte de pessoas
ciente, q u e deixa passar u n i c a m e n t e o que lhe
queridas" ( 1 9 0 0 a , p . 2 2 9 [303]).
é agradável e retém o r e s t o : o q u e é e v i t a d o
pela censura encontra-se assim e m estado d e
repressão e c o n s t i t u i o reprimido. E m c e r t o s e s -
O papel dos símbolos nos sonhos
tados, c o m o o sono, a censura sobre u m rela-
xamento, d e m o d o que o r e p r i m i d o pode sur- A criação d o s símbolos d e s e m p e n h a u m
g i r n a consciência e m f o r m a d e s o n h o . M a s , p a p e l c e n t r a l n a formação d o s o n h o , p o i s o sím-
v i s t o q u e a c e n s u r a não é t o t a l m e n t e s u p r i m i - bolo permite à pessoa que sonha contornar a
d a , m e s m o n o s o n h o , o r e p r i m i d o deverá s o - c e n s u r a d e s p o j a n d o a s representações s e x u a i s
f r e r modificações p a r a não s e c h o c a r c o m a de sua inteligibilidade. Desse ponto d e vista,
c e n s u r a , o q u e c o n d u z à f o r m a ç ã o d e compro- F r e u d d i s t i n g u e d o i s t i p o s d e símbolos: d e u m
misso. O p r o c e s s o d e r e p r e s s ã o , s e g u i d o d e u m l a d o , o s símbolos u n i v e r s a i s q u e d e c o r r e m d a
r e l a x a m e n t o d a c e n s u r a e d a formação d e " c h a v e d o s s o n h o s " u t i l i z a d a d e s d e a Antigúi-
Ler Freud 53

d a d e e , d e o u t r o , o s símbolos i n d i v i d u a i s , q u e s e m r e c o r r e r às associações d a p e s s o a . M a s i s s o
d e c o r r e m d a simbólica própria d e q u e m s o n h a , n ã o b a s t a , c o m o j á d i s s e r a F r e u d e m A interpre-
t a l c o m o m o s t r o u F r e u d . N o q u e se r e f e r e à s i m - tação dos sonhos, p o i s s e o p s i c a n a l i s t a q u i s e r
b ó l i c a u n i v e r s a l , F r e u d e n u m e r a vários s í m b o - e v i t a r a s interpretações arbitrárias, é e s s e n c i a l
los u n i v e r s a i s q u e s ep o d e t r a d u z i r d e m a n e i r a q u e ele recorra a u m a d u p l a a b o r d a g e m e leve
q u a s e u n í v o c a : "A maior parte dos símbolos do e m c o n t a a o m e s m o t e m p o a simbólica u n i v e r -
sonho serve para representar pessoas, partes do cor- s a l e a s associações l i v r e s d a p e s s o a : "Isso nos
po e atividades marcadas por um interesse erótico; conduzirá a combinar duas técnicas: tomaremos
as partes genitais, em particular, podem ser repre- como base as associações de ideias da pessoa e
sentadas por um grande número de símbolos em suplementaremos o que faltar com o conhecimento
geral bastante surpreendentes, e os objetos mais di- dos símbolos por parte do interpretador. Uma críti-
versos são utilizados para designá-los simbolicamen- ca prudente do sentido de símbolos, um estudo atento
te" ( p . 1 3 6 ) . A p r i m e i r a v i s t a , p o d e - s e i m a g i n a r deles a partir de sonhos particularmente nos permi-
que basta possuir u m b o m conhecimento d a tirão descartar qualquer acusação de fantasia e de
simbólica u n i v e r s a l p a r a i n t e r p r e t a r u m s o n h o , arbítrio da interpretação" ( 1 9 0 0 a , p . 3 0 3 [398]).

• A INTERPRETAÇÃO ÈOS SONHOS (1900a)

Por m o t i v o s didáticos, inverti a o r d e m c r o n o l ó g i c a d e s s a s d u a s o b r a s , a p r e s e n t a n d o e m p r i m e i r o lugar


Sobre o sonho (1901 a), para q u e essa o b r a mais curta sirva d e i n t r o d u ç ã o à d e s c o b e r t a d e A interpretação
dos sonhos (1900a), d a qual apresentarei e m s e g u i d a a p e n a s o p l a n o , p o r falta d e e s p a ç o .
As páginas indicadas remetem a o texto publicado e m S. Freud, Uinterprétation des rêves, trad. I. Meyerson, rev.
D. Berger, Paris, PUF, 1967 [as páginas indicadas em itálico e entre colchetes remetem às OCF.P, IV, 756 p.].

Uma obra em três p; irtes d o s o n h o . N o Capítulo I I I , F r e u d d e m o n s t r a


sua tese central, s e g u n d o a q u a l u m s o n h o
O Capítulo I , q u e c o n s t i t u i a p r i m e i r a p a r t e , é e x p r e s s a a realização d e u m d e s e j o i n s a t i s f e i -
d e d i c a d o a u m a revisão d o s p r i n c i p a i s t r a b a l h o s t o . M a s , m u i t a s v e z e s , a realização d e u m d e -
científicos s o b r e o s o n h o p u b l i c a d o s até então. s e j o não a p a r e c e c o m o t a l n o conteúdo onírico,
T r a t a - s e d e u m a compilação e x a u s t i v a , q u e F r e u d p o i s está s u j e i t a a d e f o r m a ç õ e s . S o m e n t e o t r a -
realizou a contragosto, m a s que serve para de- b a l h o d e análise p e r m i t e i d e n t i f i c a r a r e a l i z a -
m o n s t r a r q u e s e u s p r e d e c e s s o r e s não c h e g a r a m ção d e u m d e s e j o . E m s e g u i d a , n o Capítulo V ,
a d e s c o b r i r o mistério d o s e n t i d o d o s s o n h o s . F r e u d e x a m i n a asfontes d o sonho, para saber
A s e g u n d a p a r t e é f o r m a d a p e l o s Capítu- s e s e u conteúdo r e s o l v e r i a e n i g m a s até então
l o s I I a V I . N o Capítulo I I , F r e u d começa d e s - não-resolvidos. N o Capítulo V I , e l e m o s t r a
c r e v e n d o o método d e interpretação d o s s o - c o m o o t r a b a l h o d o s o n h o s ee f e t u a p o r m e i o
n h o s q u e a p r i m o r o u a ol o n g o d esua auto- d e m e c a n i s m o s d e condensação, d e d e s l o c a -
análise, e i l u s t r a s u a s t e s e s a n a l i s a n d o e m d e - m e n t o , d e inversão e d e elaboração secundá-
t a l h e o s o n h o "da injeção de Irma", q u e h o j e s e r i a e também d a representação p o r símbolos.
t o r n o u célebre. E l e a p l i c a à interpretação d e s - A terceira parte constitui u m ensaio p o r s i
se s o n h o o p r o c e d i m e n t o q u e u t i l i z a p a r a a n a - só, o f a m o s o C a p í t u l o V I I , n o q u a l F r e u d e s t r u -
l i s a r o s vários o u t r o s s o n h o s e x e m p l i f i c a d o s t u r a u m a concepção g e r a l d o a p a r e l h o psíqui-
nessa obra: ele a n o t a c u i d a d o s a m e n t e o m a - co e de seu f u n c i o n a m e n t o . Trata-se de u m p r o -
terial d os o n h o tal c o m o f o i relatado a o des- jeto ambicioso que visa explicar o f u n c i o n a m e n -
p e r t a r ; e m s e g u i d a , decompõe-no e m vários t o m e n t a l , t a n t o n o r m a l c o m o patológico, a p a r -
e l e m e n t o s ; d e s t a c a a s associações q u e s u r g e m t i r d e s u a s o b s e r v a ç õ e s clínicas s o b r e o s s o n h o s
l i v r e m e n t e a propósito d e c a d a f r a g m e n t o e a sn e u r o s e s . A q u i , é a i n d a o F r e u d c i e n t i s t a
onírico e a s a n o t a ; a p a r t i r daí, e s t a b e l e c e l i g a - que ressurge, m a s u m n o v o Freud, que aban-
ções e n t r e o s d i f e r e n t e s e n c a d e a m e n t o s que d o n a r e s o l u t a m e n t e o t e r r e n o neurohsiológico
s e imporão c o m o a s possíveis interpretações d o "Projeto" para p r o p o r u m m o d e l o espacial
54 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

d o a p a r e l h o psíquico. P e l a p r i m e i r a v e z , e l e A evolução das concepções freudianas


d e f i n e o inconsciente, o pré-consciente e o conscien- do sonho após 1900
te c o m o l u g a r e s (topos, e m g r e g o ) específicos
e m q u e s e l o c a l i z a m o s f e n ó m e n o s psíquicos, F r e u d permanecerá f i e l à concepção d a t e o -
q u e s e d e s i g n o u c o m o a " p r i m e i r a tópica" o u ria d o s s o n h o s t a l c o m o a f o r m u l o u e m 1900,
p r i m e i r a d i v i s ã o t o p o g r á f i c a d o a p a r e l h o psí- modificando-a muito pouco posteriormente,
q u i c o . É e n t r e o i n c o n s c i e n t e e o pré-conscien- a o contrário d e o u t r o s a s p e c t o s d e s u a s t e o r i a s .
t e q u e e l e s i t u a a a ç ã o d a censura, p r e c u r s o r d o E n t r e o s p r i n c i p a i s a c r é s c i m o s q u e F r e u d fará
conceito d esuperego, que controla a progres- à A interpretação dos sonhos, d e s t a c a m o s q u e ,
são e n t r e i n c o n s c i e n t e , pré-consciente e c o n s - d e p o i s d e t e r i n t r o d u z i d o a s e g u n d a tópica e m
c i e n t e . E n t r e a s hipóteses f u n d a m e n t a i s q u e 1 9 2 3 , e l e s u b s t i t u i u a n o ç ã o d e "censor" d o s o -
F r e u d i n t r o d u z n e s s e capítulo c e n t r a l q u e já n h o p e l a d e superego, c o n c e b e n d o o p a p e l d o
a n u n c i a a Metapsicologia, ele d e s e n v o l v e t a m - s o n h o , a p a r t i r d e então, c o m o o d e r e c o n c i l i a r
b é m s u a s i d e i a s s o b r e a o p o s i ç ã o e n t r e processo a s exigências d o i d e d o s u p e r e g o ( F r e u d ,
primário e processo secundário e ainda sobre a 1933a, [1932]). M a s , e m b o r a t e n h a i n t r o d u z i -
n o ç ã o d e repressão, a n u n c i a d a n o s Estudos sobre d o s u a s e g u n d a t e o r i a d a s pulsões a p a r t i r d e
a histeria. D e v i d o à r e g r e s s ã o , o s d e s e j o s r e p r i - 1 9 2 0 , F r e u d não desenvolverá a i d e i a d e q u e
m i d o s d e p o s i t a d o s n oi n c o n s c i e n t e j u n t a m - s e o t r a b a l h o d o s o n h o t e m c o m o f i n a l i d a d e não
às cenas infantis reprimidas, e p o r i s s o o c o n t e ú - apenas reconciliar o desejo proibido c o m o
d o d e s t e s últimos p o d e r e a p a r e c e r n o s s o n h o s , s u p e r e g o o u o e g o , m a s também e n c o n t r a r u m
q u a n d o a c e n s u r a está e n f r a q u e c i d a , o u a i n d a c o m p r o m i s s o o u u m a solução p a r a o c o n f l i t o
s o b a f o r m a d e c o m p r o m i s s o n a formação d e f u n d a m e n t a l e n t r e a s pulsões d e v i d a e d e
s i n t o m a s neuróticos. m o r t e , c o m o seconcebe a t u a l m e n t e ( H . Segal,
1991; J.-M. Q u i n i d o z , 2001).

POS-FREUDIANOS

Um estudo psicanalítico da auto-análise de Freud


E m s u a o b r a intitulada Uauto-analyse de Freud et la découverte de la psychanalyse, D. A n z i e u (1988b)
a d o t o u u m p r o c e d i m e n t o original, utilizando a própria a b o r d a g e m psicanalítica p a r a e s t u d a r as c o n d i ç õ e s
d o trabalho c r i a d o r q u e levou Freud à d e s c o b e r t a d a psicanálise entre 1895 e 1902. Para isso, a p o i o u - s e na
a b u n d a n t e d o c u m e n t a ç ã o p r o p o r c i o n a d a por Freud, e m q u e ele oferece, explicitamente o u à revelia, u m a
rica p r o d u ç ã o i n c o n s c i e n t e suscetível d e ser analisada: s o n h o s , l e m b r a n ç a s d e infância, atos falhos, es-
q u e c i m e n t o s o u l a p s o s . G r a ç a s a u m a investigação m i n u c i o s a , Anzieu c h e g o u a datar a m a i o r i a d o s so-
n h o s q u e F r e u d relata e m A interpretação dos sonhos e a estudá-los na o r d e m c r o n o l ó g i c a , à luz d e vários
d o c u m e n t o s auto-analíticos. Esse t r a b a l h o permite a Anzieu revelar o p r o c e d i m e n t o interior s e g u i d o por
Freud d u r a n t e e s s e s a n o s decisivos nos quais ele d e s c o b r i u s u c e s s i v a m e n t e o s e n t i d o d o s s o n h o s , o
c o m p l e x o d e É d i p o , a fantasia d a c e n a primária e a angústia d e castração (D. A n z i e u , 1959, 1988b)

A interpretação dos sonhos na clínica hoje


A interpretação dos sonhos suscitou e ainda suscita u m a quantidade tão g r a n d e d e p u b l i c a ç õ e s psicanalíti-
cas e não-psicanalíticas a partir d e Freud q u e é impossível relacioná-las aqui. Mas, apesar d e s u a riqueza e
diversidade, as contribuições pós-freudianas sobre os s o n h o s jamais relegaram ao s e g u n d o plano a o b r a
f u n d a m e n t a l d e Freud, c o m o salienta A. Green. "De todas as descobertas de Freud, a do sonho é provavel-
mente aquela em que as aquisições dos psicanalistas que deram continuidade ao trabalho a partir de A
interpretação d o s s o n h o s são menos importantes" (1972, p. 179). É v e r d a d e q u e , q u a n d o se ensina a técnica
d e interpretação aos futuros psicanalistas, essa é a primeira o b r a a q u e se recorre, e não tanto por razões
históricas, m a s p o r q u e ela continua s e n d o u m a o b r a singular, a única até hoje q u e apresenta u m a visão d e

Continua Q
Ler Freud 55

0 Continuação

c o n j u n t o sobre a questão. M e s m o assim, eu mencionaria, entre as obras gerais, a de E. Sharpe, Dream


Analysis, q u e constitui u m a introdução à interpretação d o s s o n h o s na cura psicanalítica e que, e m b o r a t e n h a
s i d o p u b l i c a d a e m 1937, não perdeu e m n a d a sua atualidade. Se as obras d e alcance geral são raras, a
maioria das contribuições pós-freudianas sobre a interpretação d o s s o n h o s trata de aspectos parciais d a
teoria e d a técnica, e as e n c o n t r a m o s s o b a f o r m a d e artigos d e revista. Alguns artigos mais marcantes f o r a m
reunidos e m obras coletivas, c o m o Essential Papers on Dreams (R. Lansky, 1992), The Dream Discourse
Today (S. Flanders, 1993), Dreaming and Thinking (R. J. Perelberg, 2001). Essas seleções d e textos refletem
os p o n t o s d e vista de psicanalistas ligados a diversas correntes psicanalíticas contemporâneas.
T e m o s d e reconhecer, no entanto, q u e se l a n ç a m o s u m olhar retrospectivo s o b r e o c o n j u n t o d o s t r a b a l h o s
p ó s - f r e u d i a n o s sobre os s o n h o s , v e m o s u m n ú m e r o relativamente p e q u e n o d e contribuições d e d i c a d a s à
análise d o s s o n h o s nas últimas três o u q u a t r o d é c a d a s . S e g u n d o Flanders, essa evolução se explicaria por
u m p r o g r e s s i v o afastamento d a t é c n i c a : d u r a n t e os a n o s d e 1920 e 1930, os primeiros psicanalistas t e n d i a m
a privilegiar a análise d o s s o n h o s , e n q u a n t o a partir d o s a n o s d e 1930 eles p a s s a r a m a dar u m a i m p o r t â n -
cia c r e s c e n t e à análise d a transferência. Flanders r e s u m e sutilmente essa evolução nos seguintes t e r m o s :
"A transferência tornou-se a via régia para a compreensão da vida emocional e psíquica do paciente ' 1
(1993,
p. 13). A d e s p e i t o de u m a d i m i n u i ç ã o d o n ú m e r o d e p u b l i c a ç õ e s d e d i c a d a s aos s o n h o s , é u m a alegria
constatar q u e a análise d o s s o n h o s preserva t o d o s e u valor na prática psicanalítica, c o m o t e s t e m u n h a o
fato d e q u e a maior parte d o s e x e m p l o s clínicos p u b l i c a d o s a t u a l m e n t e é ilustrada pela análise d e u m o u
vários s o n h o s relatados pelo paciente.

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Censura - compromissc - condensação - conteúdo manifesto, conteúdo latente - deslocamento - dramatização


- elaboração secundária - representabilidade (ou processo de representação) - resto diurno - sobredeterminação
- simbólica d o sonho - abalho d e análise - trabalho d o s o n h o
SOBRE A PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA
S. FREUD (1901b)

Os atos falhos: manifestação do inconsciente no dia-a-dia do indivíduo normal

A o redigir essa obra, F r e u d p r e t e n d e tra- que t e m avantagem de reuni-lose m u m mes-


z e r a o c o n h e c i m e n t o d o g r a n d e público a e x i s - m o c o n j u n t o : "das Vergessen (esquecimento), das
tência d o i n c o n s c i e n t e , t a l c o m o s e p o d e e n - Versprechen ( l a p s u s l i n g u a e ) , das Verlesen (erro
trevê-lo n o s " d e s l i z e s " d a repressão q u e são de leitura), das Verschreiben ( l a p s u s c a l a m i ) , das
os "atos falhos". O que é u m ato falho? Trata- Vergreifen (engano da ação), das Verlieren (fato
s e d e u m a manifestação não-intencional q u e de perder um objeto)" ( L a p l a n c h e e P o n t a l i s ,
sobrevêm n a v i d a d e q u a l q u e r indivíduo n o r - 1967, p. 6).
m a l , e não a p e n a s e m u m neurótico. F r e u d E m Sobre a psicopatologia da vida cotidiana,
salienta que, para pertencer a essa categoria, F r e u d descreve asdiferentes f o r m a s de atos fa-
e s s e t i p o d e manifestação não d e v e r i a u l t r a - l h o s e i l u s t r a - o s c o m vários e x e m p l o s . A d e s -
p a s s a r "aquilo que chamamos de limites do esta- p e i t o d e s u a d i v e r s i d a d e , t o d o s e s s e s fenómenos
do normal", "apresentar o caráter de um distúr- o b e d e c e m a u m m e c a n i s m o psíquico c o m u m ,
bio momentâneo" e "ter-se realizado anteriormente s e m e l h a n t e àquele q u e d e t e r m i n a o s o n h o : e l e s
de maneira correta" ( p . 2 7 5 ) . N a l í n g u a a l e m ã , c o n s t i t u e m a expressão m a n i f e s t a d e u m d e s e -
o conceito d eato falho t e m u m sentido mais j o q u e até então e s t a v a r e p r i m i d o n o i n c o n s c i e n -
a m p l o d o q u e n a língua f r a n c e s a ; e l e i n c l u i t e , d e s e j o q u e p o d e s e r d e s c o b e r t o graças à s a s -
u m v a s t o l e q u e d e fenómenos d e aparência sociações l i v r e s . O s u c e s s o d a o b r a u l t r a p a s s o u
anódina, c o m o o s g e s t o s d e s e n c o n t r a d o s , o s d e l o n g e a s e x p e c t a t i v a s d e F r e u d , e a s ideias
l a p s o s , o s e s q u e c i m e n t o s , a s negações o u o s q u e e l e e x p õ e a l i s ã o , s e m dúvida, a s c o n c e p -
e n g a n o s , e não s el i m i t a a a t o s m o t o r e s c o m o ções psicanalíticas m a i s c o n h e c i d a s a i n d a h o j e .
a p e r d a o u a q u e b r a d eu m objeto significati- Q u e m nunca r i u d e u m lapso o u de u m ato fa-
v o , c o m o p r e t e n d e o u s o e m língua f r a n c e s a . lho, m o s t r a n d o que percebe na m e s m a h o r a que
A l é m d i s s o , e m língua a l e m ã , t o d o s e s s e s d e s - u m t a l " a c i d e n t e " t r a i u m a intenção s e c r e t a d e
l i z e s d o i n c o n s c i e n t e t ê m o p r e f i x o "Ver-", o s e u a u t o r , expressão d i r e t a d e s e u i n c o n s c i e n t e ?

B I O G R A F I A S E Hl i T O R I A

A o b r a mais popular e mais lida d e Freud


E m 1899, q u a n d o Freud concluiu a redação d e A interpretação dos sonhos, c o m e ç o u a acumular d o c u m e n -
tos q u e resultaram e m três obras q u e e x p a n d e m suas descobertas sobre o s o n h o a d o m í n i o s p r ó x i m o s :
Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901 b), Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905c) e Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905d). A auto-análise lhe permitira superar suas inibições pessoais e
lhe p r o p o r c i o n a r a u m maior equilíbrio e m o c i o n a l . Freud passou então a analisar sistematicamente seus pró-
prios atos falhos, isto é, seus e s q u e c i m e n t o s o u seus lapsos, d a m e s m a maneira q u e havia analisado seus

Continua A
58 J e a n - M i c h e l Quinodoz

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA •Continuação

sonhos. Ele m e n c i o n a pela primeira vez a questão d o s "deslizes" d o inconsciente e m u m a carta a W. Fliess
de 26 de a g o s t o d e 1898, a propósito d o e s q u e c i m e n t o d o n o m e d o poeta Julius M o s e n ; e m u m a carta
posterior, d a t a d a d e 22 d e s e t e m b r o d e 1898, ele cita o e x e m p l o d o e s q u e c i m e n t o d o n o m e d e Signorelli -
q u e é substituído e m s u a l e m b r a n ç a pelos n o m e s d e Botticelli e de Boltraffio - , e s q u e c i m e n t o q u e o c u p a u m
lugar importante n o primeiro capítulo d e Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. A o b r a é a b u n d a n t e e m
casos pessoais extraídos d a vivência familiar e profissional d e Freud, mas s u a redação parece t a m b é m estar
intimamente ligada à deterioração d e sua relação c o m Fliess, c o m q u e m ele r o m p e e m 1902, a o m e s m o
t e m p o e m q u e t e s t e m u n h a o papel q u e este d e s e m p e n h o u e m sua vida até então: "Há nesse livro um monte
de coisas que lhe dizem respeito, coisas manifestas para as quais você me forneceu materiais e coisas ocul-
tas, mas cuja motivação matou" (Freud a Fliess, carta d e 7 d e agosto d e 1 9 0 1 , p. 297).
A o b r a a p a r e c e u p r i m e i r o e m 1 9 0 1 , e m f o r m a d e artigos, q u e posteriormente, e m 1904, f o r a m r e u n i d o s e m
u m livro. A s ideias q u e ele d e s e n v o l v e ali sofreram duras críticas d o s p s i c ó l o g o s , o q u e n ã o i m p e d i u q u e
c o n q u i s t a s s e o p ú b l i c o d e i m e d i a t o , a tal p o n t o q u e Sobre a psicopatologia da vida cotidiana p a s s o u a ter
u m p o d e r d e d i v u l g a ç ã o d a psicanálise b e m superior a o d e A interpretação dos sonhos. A o b r a teve dez
e d i ç õ e s e n q u a n t o F r e u d viveu, e foi s e n d o e n r i q u e c i d a p r o g r e s s i v a m e n t e por a c r é s c i m o s d o p r ó p r i o autor
e por c o n t r i b u i ç õ e s p r o v e n i e n t e s d e s e u s alunos. E n q u a n t o a e d i ç ã o d e 1904 c o n t i n h a 6 6 e x e m p l o s d e
atos falhos, d o s q u a i s 4 9 f o r a m o b s e r v a d o s por Freud, a e d i ç ã o atual, d a t a d a d e 1924, r e ú n e 300, d o s
quais a m e t a d e foi f o r n e c i d a por outros o b s e r v a d o r e s além d e Freud, o q u e q u a d r u p l i c a o t a m a n h o d a o b r a
inicial. E m 1905, d u r a n t e s u a v i a g e m para os Estados U n i d o s , Freud p ô d e confirmar a p o p u l a r i d a d e d e seu
livro, q u a n d o teve a feliz s u r p r e s a d e d e s c o b r i r u m maitre d o navio m e r g u l h a d o na leitura d e Sobre a
psicopatologia da vida cotidiana.

D E S C O B E R T A DA OBRA

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud ( 1 9 0 1 b ) , Psychopathologie de la vie


quotidienne, t r a d . S. J a n k é l é v i t c h , Paris, Payot, 1922, 1967, 298 p.

O primeiro exemplo: o esquecimento do n o m e d e Boltraffio o f e z r e m e m o r a r a c i d a d e


nome de Signorelli d e Trafoí, d u a s localizações g e o g r á f i c a s i n t i m a -
m e n t e a s s o c i a d a s a lembranças d o l o r o s a s a c e r -
O capítulo i n i c i a l é d e d i c a d o a o e s t u d o m i - ca d a s e x u a l i d a d e e d a m o r t e . E l e p e r c e b e u
n u c i o s o d o e s q u e c i m e n t o d e u m n o m e próprio, então q u e s e x u a l i d a d e e m o r t e e r a m o s t e m a s
o d o p i n t o r S i g n o r e l l i , a u t o r d o a f r e s c o d o Juízo p r i n c i p a i s d e u m a f r e s c o d o Juízo final d e
final d a c a t e d r a l d e O r v i e t o , e s q u e c i m e n t o q u e Signorelli! O esquecimento d o n o m e d e
já t i n h a s i d o o b j e t o d e u m a p e q u e n a p u b l i c a - Signorelli era, p o r t a n t o , o resultado de u m c o m -
ção a n t e r i o r ( 1 8 9 8 b ) . F r e u d r e l a t a q u e , e m u m a p r o m i s s o q u e p e r m i t i r a q u e a lembrança d e s a -
c o n v e r s a , e l e não s e l e m b r a v a m a i s d o n o m e gradável f i c a s s e p a r c i a l m e n t e e s q u e c i d a , m a s
de Signorelli, m a s que os n o m e s de outros dois não v e r d a d e i r a m e n t e , p o i s e l a r e a p a r e c e u d i s -
p i n t o r e s s ei m p u s e r a m e m s u a m e n t e , B o t t i c e l l i s i m u l a d a sob os n o m e s de Botticelli eBoltraffio:
e Boltraffio, q u e ele reconheceu c o m o incor- "Os nomes de substituição, c o n c l u i F r e u d , já não
retos. R e f a z e n d o o c u r s o d es e u s p e n s a m e n t o s me pareciam tão injustificados quanto antes da ex-
e d e s u a s associações a p r o p ó s i t o d e s s e s d o i s plicação: eles me advertem (a partir de uma espécie
últimos n o m e s , s e g u n d o o p r o c e d i m e n t o de compromisso) tanto para o que eu tinha esqueci-
a d o t a d o n a análise d e u m s o n h o , c o n s e g u i u do quanto para o que eu gostaria de lembrar, e me
d e s c o b r i r o m o t i v o d a repressão d e s e u e s q u e - mostram que minha intenção de esquecer qualquer
c i m e n t o . D e dedução e m dedução, o n o m e d e coisa nem se cumpriu totalmente, nem fracassou
B o t t i c e l l i a c a b o u p o r l h e r e c o r d a r a Bósnia, e o totalmente" ( p . 1 1 ) .
Ler Freud 59

Um estudo sistema ico de diversas quico desempenha u m papel central, n a m e -


formas de atos falh dida e m que o ato falho é o p r o d u t o d e u m a
i n t e n ç ã o inconsciente q u e s u b s t i t u i u m a i n t e n -
A p ó s e s s e capítu o d e d i c a d o a o e s q u e c i - ç ã o consciente.
m e n t o d e n o m e s próprios, F r e u d p a s s a e m r e -
v i s t a o u t r a s f o r m a s d ee s q u e c i m e n t o d e pala-
v r a s p e r t e n c e n t e s a línguas e s t r a n g e i r a s , o e s - Como se forma um ato falho?
q u e c i m e n t o d e n o m e s e d e sequências d e p a -
l a v r a s e o e s q u e c i m e n t o d e impressões e d e A d e s p e i t o d e s u a v a r i e d a d e inesgotável, o s
p r o j e t o s . E m s e g u i d a , r e t o m a a questão d a s a t o s f a l h o s s eb a s e i a m e m u m m e c a n i s m o co-
lembranças d e infância e d a s "lembranças m u m : t o d o s s ã o a expressão d e u m d e s e j o r e -
e n c o b r i d o r a s " , c u j a formação é s e m e l h a n t e à p r i m i d o n oinconsciente a oq u a l s e p o d e ter
d o s a t o s f a l h o s : q u a n d o o conteúdo d e u m a a c e s s o graças a o t r a b a l h o d e análise. S e g u n d o
l e m b r a n ç a d e infância e n c o n t r a r e s i s t ê n c i a s , Freud, u m ato falho resulta de u m c o m p r o m i s -
e l a é r e p r i m i d a e não a p a r e c e c o m o t a l , m a s s o e n t r e u m a intenção consciente d o s u j e i t o - n o
s o b a f o r m a s u b s t i t u t i v a d e u m a "lembrança e x e m p l o a c i m a , "abrir u m a s e s s ã o " d o P a r l a -
e n c o b r i d o r a " , d e s p r o v i d a d eafetos p e r t u r b a - m e n t o e r a a intenção c o n s c i e n t e d o p r e s i d e n t e
d o r e s . O Capítulo 5 , q u e s e s e g u e , é d e d i c a d o d a Câmara d o s D e p u t a d o s - e u m d e s e j o i n -
a u m l o n g o e s t u d o d o s l a p s o s , fenómeno b e m c o n s c i e n t e l i g a d o a e l e - "fechar a s e s s ã o " , q u e
conhecido n o qual u m a palavra é trocada por s e impôs à s u a r e v e l i a e m s e u d i s c u r s o m a n i -
outra. V a m o s citar u m e x e m p l o , entre m u i t o s festo. Desse p o n t o de vista, t o d o ato f a l h o apre-
o u t r o s , extraído d e u m a r t i g o q u e t i n h a s i d o senta u m a d u p l a face, c o m o s a l i e n t a m L a p l a n -
p u b l i c a d o n o j o r n a l v i e n e n s e Neue Freie Presse. c h e e P o n t a l i s : " ( . . . ) nota-se que o chamado ato fa-
O jornal relatou u m lapso d opresidente d a lho é um ato exitoso em um outro plano: o desejo
Câmara d o s D e p u t a d o s d a Áustria q u e t i n h a inconsciente se realiza ali de uma maneira quase sem-
"aberto" s o l e n e m e n t e a s e s s ã o d e c l a r a n d o - a pre muito evidente" ( 1 9 6 7 , p . 6 ) .
"fechada": "A gargalhada geral provocada por essa O s m e c a n i s m o s e n v o l v i d o s n a formação d e
declaração fez com que ele percebesse de imediato u m a t o f a l h o são, p o r t a n t o , o s m e s m o s q u e d e -
seu erro e o corrigisse. A explicação mais plausível t e r m i n a m a formação d o s s o n h o s e d o s s i n t o -
nesse caso, a c r e s c e n t a F r e u d , seria a seguinte: em mas, mecanismos que f o r a m descritos por
seu foro íntimo, o presidente d e s e j a v a poder en- F r e u d e m A interpretação dos sonhos: c o n d e n -
fim fechar essa sessão da qual não esperava nada de sação, d e s l o c a m e n t o , substituição o u t r o c a p e l o
bom" ( p . 7 1 - 7 2 ) . s e u contrário. A l é m d i s s o , d o m e s m o m o d o q u e
n a análise d e u m s o n h o o u d e u m s i n t o m a , d e s -
N o s capítulos p o s t e r i o r e s , F r e u d e x a m i n a
cobre-se o sentido oculto d eu m ato falho re-
sucessivamente o serros d eleitura e d e escri-
c o r r e n d o à l i v r e associação. Q u a n t o à relação
ta, o se n g a n o s e o sg e s t o s d e s a s t r a d o s , o s atos
entre a palavra intencional e apalavra emitida
s i n t o m á t i c o s , a s s i m c o m o a s associações d e v á -
p o r substituição, e l a s e e s t a b e l e c e graças a d i -
r i o s a t o s f a l h o s . O capítulo f i n a l é d e d i c a d o
versos procedimentos, por exemplo, por conti-
a o d e t e r m i n i s m o , à crença n o a c a s o e à s u p e r s -
g u i d a d e - "fechar" e m l u g a r d e "abrir" - o u p o r
tição. F r e u d d e s e n v o l v e a i d e i a d e q u e o s a t o s
c o n s o n â n c i a - o n o m e Signorelli t e m u m a s e -
f a l h o s não são f r u t o d o a c a s o o u d a d e s a t e n -
m e l h a n ç a fonética c o m o s n o m e s d e Botticelli e
ção, c o m o o s u j e i t o é t e n t a d o a p e n s a r , m a s
Bósnia, de Boltraffio e Traffio. E s s a relação p o d e
q u e são p r o d u z i d o s p e l a intervenção d e u m a
ser estabelecida i g u a l m e n t e a p a r t i r d e associa-
ideia r e p r i m i d a q u e v e m p e r t u r b a r o d i s c u r s o
ções r e f e r e n t e s à história i n d i v i d u a l d o s u j e i t o .
o u a c o n d u t a q u e a p e s s o a e m questão c o s t u -
m a levar ab o m termo. Esse p o n t o de vista leva
Freud a concluir que existem dois tipos d e De que fontes provêm os atos falhos?
acaso, u m "acaso externo", ligado a causas que
não p e r t e n c e m a o domínio psicológico, e o S e g u n d o F r e u d , n o s s o espírito é p e r m a n e n -
" a c a s o i n t e r n o " , n o q u a l o d e t e r m i n i s m o psí- temente percorrido p o r pensamentos e associa-
60 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

ções d o s q u a i s e m g e r a l n ã o t e m o s c o n h e c i m e n - o domínio do desejo, não podia manifestar-se a não


t o , e q u e são f o r m a d o s p o r c o m p l e x o s p e r t u r b a - ser por um lapso, um esquecimento, uma impotên-
d o r e s q u es ed e s t i n a m a s e r r e p r i m i d o s n o i n - cia psíquica" (p. 27).
consciente, m a s e s t e s p o d e m i r r o m p e r d e sú- F r e u d conclui m o s t r a n d o q u e existe u m a
b i t o s o b a f o r m a d e a t o s f a l h o s . Resistências c o n t i n u i d a d e e n t r e o s fenómenos q u e s e o b s e r -
i n t e r i o r e s s e opõem a s e u e s c l a r e c i m e n t o , e s e v a m n a v i d a psíquica n o r m a l e n a p s i c o p a t o -
a s i d e i a s r e p r i m i d a s s ã o à s v e z e s fáceis d e i n - l o g i a : "Ao colocá-los [ o s a t o s f a l h o s ] na mesma
t e r p r e t a r , o m a i s c o m u m é q u e e l a s só s e t o r - categoria que as manifestações das neuropsicoses, que
n e m decifráveis a o f i n a l d e u m a análise d e t a - os sintomas neuróticos, damos um sentido e uma
lhada. Acrescentemos q u e seu m ato f a l h o cos- base a duas afirmações que ouvimos com muita
t u m a n o s t r a i r , F r e u d dá vários e x e m p l o s e m frequência, ou seja, que entre o estado nervoso nor-
q u e e l e p o d e s e m o s t r a r útil: "Esse exemplo nos mal e o funcionamento nervoso anormal não existe
coloca em presença de um desses casos que, de resto, um limite claro e rígido, e que todos somos mais ou
não são muito frequentes, nos quais o esquecimento menos nervosos [ n e u r ó t i c o s ] ,,
( p . 320).
se coloca a serviço de nossa prudência, quando C r e i o q u ea s i d e i a s e ,s o b r e t u d o , o s n u m e -
estamos a ponto de sucumbir a um desejo impulsi- rosos exemplos apresentados e m Sobre a
vo. O ato falho assume então valor de uma função psicopatologia da vida cotidiana não p o d e r i a m
útil. Uma vez desiludidos, vivemos esse movimento ser r e s u m i d o s m a i s q u eisto. A s s i m , d e i x o a o
interno que, durante o tempo em que estivemos sob leitor o prazer d e descobri-los.

PÓS-FREUDIANOS

O s a t o s f a l h o s e a s reli
Os esquecimentos, lapsos e outras formas d e atos falhos são unicamente manifestações d a vida ordinária d o
indivíduo normal o u eles t ê m u m lugar no tratamento psicanalítico d a s neuroses? E m b o r a Freud tenha concluí-
do sua o b r a fazendo u m a aproximação entre o s atos falhos e o s distúrbios d e origem neurótica, ele não fala
explicitamente sobre a maneira c o m o o s interpreta na situação psicanalítica. Porém, ele a b o r d a indiretamente a
questão aos mostrar as semelhanças q u e existem entre o mecanismo d e formação d o s atos falhos e o mecanis-
m o d e formação d o s s o n h o s . Assim, ao mostrar q u e o s atos falhos são a expressão d e u m desejo inconsciente
reprimido e q u e o trabalho d e análise permitia desvendar o significado latente, Freud abria c a m i n h o para a
interpretação d o s atos falhos n a relação d e transferência, d o m e s m o m o d o q u e a interpretação d o s sonhos e
dos sintomas.
Atualmente, o s psicanalistas clínicos atribuem u m a grande importância à interpretação d o s atos falhos q u e
surgem na relação d e transferência e d e contratransferencia, seja na forma d e "deslizes" n o c o m p o r t a m e n t o d o
paciente, seja d e esquecimentos, lapsos o u erros d e sua parte. Às vezes, esses atos falhos revelam d e maneira
ostensiva o desejo inconsciente d o paciente - e às vezes t a m b é m o desejo d o psicanalista, a o revelar aspectos
de s u a contratransferencia. Denomina-se correntemente acting in as ações falhas, no sentido estrito d o termo,
q u e ocorrem durante a sessão - c o m o n o caso e m q u e o paciente c h e g a atrasado o u d o r m e n o divã - , e acting
out os atos falhos q u e o c o r r e m fora d a sessão, q u e d e v e m ser c o m p r e e n d i d o s c o m o d e s l o c a m e n t o s e m cone-
xão c o m a transferência. A s angústias d e separação e d e perda d e objeto constituem u m a d a s fontes mais
frequentes d e atos falhos n o q u a d r o d a relação entre analisado e analista (J.-M. Quinodoz, 1991). Por exemplo,
u m paciente falta a u m a sessão depois d e ficar perturbado involuntariamente diante d e u m a reação afetiva
ligada a o analista: u m a vez explicitado, o sentido desse ato falho p o d e revelar diversos sentimentos reprimidos,
c o m o u m a hostilidade d o paciente e m relação ao psicanalista devido a u m a decepção, q u e p o d e se manifestar
s o b a f o r m a d e u m atraso n a sessão. Somente as associações feitas pelo paciente estão aptas a indicar o s
verdadeiros motivos d e u m ato falho, se quisermos evitar interpretações arbitrárias e inapropriadas. Quanto aos
lapsos q u e ocorrem durante a análise, q u e J. Lacan apontou reiteradamente, eles d e s v e n d a m particularmente
as relações entre estrutura d a linguagem e estrutura d o inconsciente, e constituem u m a das vias q u e permitem
ter acesso a o conhecimento d o estado m o m e n t â n e o d a transferência inconsciente.

Continua 0
Ler Freud 61

0 Continuação

D e v e m o s reservar a psicanálise unicamente àqueles q u e t ê m a c e s s o ao sentido s i m b ó l i c o ?


A t o m a d a d e c o n s c i ê n c i a d o s e n t i d o s i m b ó l i c o d e u m ato falho o u d e u m lapso não está a o a l c a n c e d e
t o d o s : d e fato, u m ato falho o u u m lapso t e m u m sentido s o b r e t u d o para o círculo d a p e s s o a , m a s n ã o
n e c e s s a r i a m e n t e para ela m e s m a , o q u e c o r r e s p o n d e à p r ó p r i a definição d o inconsciente: é i n c o n s c i e n t e
o q u e e s c a p a à c o n s c i ê n c i a d o sujeito. E m geral, s o m e n t e a p ó s u m l o n g o trabalho d e análise é q u e u m a
p e s s o a c o n s e g u e ir d e s c o b r i n d o p o u c o a p o u c o o significado d e u m ato falho o u d e u m lapso q u e lhe
e s c a p o u , e d e associá-lo às e m o ç õ e s ligadas à relação c o m o psicanalista.
A p o s s i b i l i d a d e d e t o m a r c o n s c i ê n c i a d o significado d e u m ato falho o u d e q u a l q u e r p r o d u ç ã o d o i n c o n s -
c i e n t e t e m a ver, e m parte, c o m a f o r ç a q u e as resistências o p õ e m à t o m a d a d e consciência, m a s e m parte
t a m b é m c o m a c a p a c i d a d e d e u m indivíduo d e ter a c e s s o a o sentido s i m b ó l i c o d e seu d i s c u r s o e d e s e u s
atos s i n t o m á t i c o s . De fato, essa c a p a c i d a d e d e ter a c e s s o a o s e n t i d o s i m b ó l i c o varia c o n s i d e r a v e l m e n t e d e
u m indivíduo a outro, o q u e levanta a q u e s t ã o d a analisabilidade d e u m a p e s s o a , isto é, d e avaliar e m q u e
m e d i d a u m a p e s s o a será acessível a o t r a b a l h o d e interpretação e, mais ainda, à interpretação d a relação
transferencial. Desse p o n t o d e vista, as p o s i ç õ e s d o s psicanalistas v a r i a m : para a l g u n s deles, e m particular
n a França, a c u r a psicanalista seria reservada e s s e n c i a l m e n t e às p e s s o a s q u e p o s s u e m d e a n t e m ã o o
s e n t i d o s i m b ó l i c o d e seu d i s c u r s o , o u seja, às p e s s o a s q u e a p r e s e n t a m u m a o r g a n i z a ç ã o d e t i p o n e u r ó t i c o
(Gibeault, 2000). A o contrário, para o u t r o s psicanalistas, c o m o a q u e l e s pertencentes à corrente kleiniana,
e x i s t e m d o i s níveis d e s i m b o l i z a ç ã o ; u m nível primitivo, d o m i n a d o pelo p e n s a m e n t o c o n c r e t o - nível e m
q u e o p s i q u i s m o f u n c i o n a e m " e q u a ç ã o s i m b ó l i c a " - , e u m nível evoluído, d o m i n a d o pela c a p a c i d a d e d e
r e p r e s e n t a ç ã o s i m b ó l i c a - nível q u e c o r r e s p o n d e à o r g a n i z a ç ã o neurótica. Para estes últimos, h á u m vai-
v é m incessante entre o nível primitivo e o nível evoluído d e s i m b o l i z a ç ã o , d e m o d o q u e é possível abrir o
l e q u e d e possibilidades d a c u r a psicanalítica não a p e n a s aos pacientes neuróticos, m a s i g u a l m e n t e a o s
p a c i e n t e s borderline e psicóticos, s e m contar a parte d e f u n c i o n a m e n t o primitivo q u e se e n c o n t r a e m
q u a l q u e r indivíduo, neurótico o u n o r m a l (M. J a c k s o n e P Williams, 1994).

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

os - condensí ç ã o - d e s l o c a m e n t o - lapso - e s q u e c i m e n t o d e n o m e s - substituição


1.1
OS CHUTES E SUA RELAÇÃO COM O INCONSCIENTE
S. FREUD (1905c)

O que desencadeia o riso em um chiste?

F r e u d e r a u m c o l e c i o n a d o r d echistes - e m s u r a e x e r c e s o b r e o s conteúdos a g r e s s i v o s o u
a l e m ã o "Witz" -, a s s i m c o m o d e histórias j u - sexuais reprimidos, a om e s m o t e m p o e m q u e
daicas, e tinha u m grande senso d e h u m o r . P o r possibilita seu retorno sob u m a outra f o r m a ;
i s s o , não é d e s e s u r p r e e n d e r q u e e l e t e n h a p r o - finalmente, reconhecemos nele o procedimen-
c u r a d o descobrir os lugares secretos q u e desen- t o d e representação, que modifica a forma das
cadeiam o riso. Nessa obra, ele passa e m revis- palavras, criando duplos sentidos o u jogos d e
t a d e m a n e i r a sistemática a g r a n d e v a r i e d a d e palavras, o u transforma o pensamento crian-
d e f o r m a s d o cómico e n g l o b a d a s n a noção g e - d o nonsense o u s u b s t i t u i n d o u m p e n s a m e n t o
r a l d e c h i s t e e lança a hipótese d e q u e o c h i s t e p o r s e u contrário. M a s , d i f e r e n t e m e n t e d o s o -
r e v e l a o domínio i n c o n s c i e n t e q u e g o v e r n a s u b - nho, que Freud considera c o m o u m p r o d u t o
repticiamente a palavra e a linguagem. Nele, psíquico a s s o c i a i , o c h i s t e c o n s t i t u i a m a i s s o c i a l
o s m e c a n i s m o s q u e p r o d u z e m o e f e i t o cómico d a s a t i v i d a d e s psíquicas: é u m j o g o e l a b o r a d o
a p r e s e n t a m inúmeras semelhanças c o m o t r a - que busca extrairu mganho de prazer, de m o d o
b a l h o psíquico q u e s e r e a l i z a n o s s o n h o s : o b - q u e não s e e n c o n t r a n e l e o m e c a n i s m o d a r e -
s e r v a - s e a condensação, e m o u t r o s t e r m o s , o d i - gressão, c o m o n o s o n h o . É c e r t o q u e n o s o n h o
zer pouco para exprimir muito; encontra-se persiste u m abusca d e prazer, m a s ele o e n c o n -
i g u a l m e n t e o p r o c e d i m e n t o d e deslocamento, t r a e m u m a regressão à satisfação alucinatória,
q u e p e r m i t e c o n t o r n a r a s proibições q u e a c e n - a f i m d ee v i t a r o d e s p r a z e r .

B I O G R A F I A S E Hl* T O R I A

Semelhanças entre sonhos, atos falhos e chistes


Freud, um homem muko bem-humorado
Fliess foi provavelmente o instigador dessa obra, pois q u a n d o leu as provas d e A interpretação dos sonhos q u e
Freud lhe enviara, constatou q u e os j o g o s d e palavras retornavam c o m muita frequência nos sonhos. Freud lhe
respondeu: T o d o s os que sonham são igualmente galhofeiros insuportáveis, e isso por necessidade, pois se
encontram em situação embaraçosa e a via direta está fechada para eles. [...] O caráter de pilhéria de todos os
processos inconscientes está intimamente ligado à teoria do chiste e do cómico" (Freud a Fliess, carta d e 11 d e
setembro d e 1899, p. 263). Em Estudos sobre a histeria, Freud revelara pela primeira vez o papel d e s e m p e n h a d o
pela simbolização e pela polissemia e m u m s o n h o d e Frau Cécile M. (1895d, p. 145, n. 1), e em A interpretação
dos sonhos d á vários exemplos disso. A publicação e m 1898 d a obra Komik and Humor, d e Theodor Lipps,
t a m b é m ajudou Freud a tomar a decisão d e escrever. A redação dessa obra densa e c o m p l e x a s o b vários
aspectos levou muito t e m p o , ainda mais porque ele redigiu simultaneamente Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade e Os chistes, c a d a obra disposta e m u m a mesa diferente. A m b a s foram lançadas ao m e s m o t e m p o ,
e m 1905.
Continua £
64 J e a n - M i c h e l Quinodoz

0 BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

Mas o interesse d e Freud pelos chistes n ã o era u n i c a m e n t e científico, pois ele p r ó p r i o e r a u m h o m e m


muito e s p i r i t u o s o , e s u a c o r r e s p o n d ê n c i a era p r ó d i g a e m c a s o s humorísticos. Muitos d e s e u s c o n t e m p o r â -
neos d e s t a c a r a m s u a c a p a c i d a d e d e achar g r a ç a n a maior parte d a s situações. E m 1938, q u a n d o Freud
deixou a Áustria p a r a s e refugiar e m Londres, o c o m e n t á r i o q u e escreveu n a d e c l a r a ç ã o exigida pelas
autoridades, c e r t i f i c a n d o q u e n ã o t i n h a s i d o maltratado, t e s t e m u n h a o h u m o r q u e ele c o n s e g u i u d e m o n s -
trar: "Posso cordialmente recomendar a Gestapo a todos."

As "Witz" são facilmente expatriadas


Mais d o q u e qualquer outra o b r a d e Freud, Os chistes e sua relação com o inconsciente c o l o c a dificuldades de
tradução, o q u e explica e m parte q u e seja u m a d a s m e n o s lidas, fora o público d e língua alemã. J á o próprio
termo "Witz" - cuja consonância evoca e m alemão "Blitz", isto é, relâmpago - não t e m correspondência na
maioria d a s outras línguas. E m francês, por exemplo, foi traduzida por " m o t d'esprit" pelo tradutor D. Messier:
"Esse termo d e s i g n a tanto a palavra espirituosa, c o m o o espírito, isto é, a faculdade d e 'ser espirituoso'" (1988,
p. 423). O s tradutores d a s CEuvres Completes de Freud, a o contrário, julgaram incorreta a tradução anterior, e
preferiram o t e r m o "trait d'esprit" - tradução d e "Witz" proposta por Lacan - pois " m o t " n ã o existe e m "Witz" e
"mot d'esprit" cria confusão c o m o alemão "Wortwitz" e "Gedankenwitz" (Bourguignon et al., 1989, p. 150). Além
disso, c o m o traduzir j o g o s d e palavras q u e fazem rir e m língua alemã q u a n d o não existem palavras equivalentes
e m outras línguas, o q u e torna grande parte dessa obra intraduzível? A maioria d o s tradutores o p t o u por acres-
centar as explicações necessárias e m notas d e rodapé, na tentativa d e tornar o mais acessível possível o pensa-
mento d e Freud, t ã o expressivo q u a n d o o descobrimos na língua alemã original.

D E S C O B E R T A DA O B R A

As páginas i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S . Freud (1905c), L e mot d'esprit et sa relation à


1'inconscient, trad. D. Messier, Paris, Gallimard, 1988, 4 4 2 p.

A o b r a s e d i v i d e e m três p a r t e s : a p r i m e i r a é papel desempenhado pelo prazer do ponto d e


d e d i c a d a à técnica d o c h i s t e , i s t o é, a o s d i f e r e n - v i s t a d a e c o n o m i a psíquica; a t e r c e i r a p a r t e e s -
tes p r o c e d i m e n t o s u t i l i z a d o s p e l o p s i q u i s m o t u d a a s relações e n t r e c h i s t e s e s o n h o à l u z d a
p a r a p r o d u z i r o e f e i t o cómico; a s e g u n d a p a r t e n o ç ã o e "realização d e d e s e j o " e t e r m i n a c o m
e x a m i n a os m o t i v o s d o s chistes, e m particular o u m b r e v e e n s a i o s o b r e a s v a r i e d a d e s d e cómico.

• AS T É C N I C A S S U B J A C E N T E S A O EFEITO C Ó M I C O D O S CHISTES

O e f e i t o cómico d o s c h i s t e s é o b t i d o p o r d u a s O p r i m e i r o p r o c e d i m e n t o consiste e m
técnicas d i s t i n t a s , s e g u n d o F r e u d : a p r i m e i r a condensar duas palavras o u d o i s fragmentos de pala-
s e f u n d a m e n t a n a s p r ó p r i a s palavras e d e p e n - vras, d e m o d o a c r i a r u m n e o l o g i s m o a b s u r d o à
d e d a expressão v e r b a l ; a s e g u n d a s e f u n d a - primeira vista. M a s a palavra mista assume u m
m e n t a n o pensamento c o n t i d o n o c h i s t e , e e s s a s i g n i f i c a d o cómico p a r a u m o u v e . P o r e x e m p l o ,
técnica é i n d e p e n d e n t e d a e x p r e s s ã o v e r b a l . F r e u d cita o chiste c r i a d o e mt o r n o d o t e r m o
"familionãria", p a l a v r a insólita p r o n u n c i a d a p o r
u m p e r s o n a g e m tirado d eu m r o m a n c e d e
As técnicas fundamentadas nas palavras H e i n e . N e s s e r o m a n c e , o a u t o r põe e m c e n a u m
N o que serefere aos chistes f u n d a m e n t a - h o m e m d o p o v o q u e s e g a b a d a s relações q u e
d o s n a s p a l a v r a s , F r e u d i n d i c a três p r o c e d i - mantém c o m o r i c o barão R o t h s c h i l d . V a n g l o -
m e n t o s d i f e r e n t e s q u e u t i l i z a m u m a técnica r i a n d o - s e d i a n t e d o p o e t a d e s e u convívio p r e s -
c o m u m , a condensação, m e c a n i s m o caracterís- t i g i o s o , o h o m e m d o p o v o l h e d i z : "(..) eu estava
tico d o trabalho d o sonho. sentado ao lado de Salomon Rothschild e ele me tra-
Ler Freud 65

tou totalmente como um igual, de uma maneira total- enunciar, graças a certas circunstâncias, dois tipos
mente familionâria" ( p . 5 6 ) . N e s s e c a s o , o cómico de sentidos" ( p . 9 1 ) . F r e u d i l u s t r a e s s a técnica
s e d e v e à palavra f o r m a d a p e l o e n u n c i a d o : a téc- c o m o e x e m p l o "o primeiro voo da águia", que
nica utilizada é o encurtamento d eduas pala- e l e r e l a t a n o s s e g u i n t e s t e r m o s : "Como se sabe,
v r a s - " f a m i l i a r " e "milionária" - q u e não t e r i a m um dos primeiros atos de Napoleão III, depois de
n a d a d e cómico s e f o s s e m t o m a d a s s e p a r a d a - sua ascensão ao poder, foi confiscar os bens da
m e n t e . E m seguida, essas p a l a v r a s s o f r e m u m a Maison d'Orléans. Nessa época, alguém fez o se-
condensação para formar u m a palavra mista - guinte jogo de palavras: E o p r i m e i r o v o o d a
"familionâria" - a p a r e n t e m e n t e incompreensível. águia"** ( p . 9 1 ) .
M a s o so u v i n t e s que c o n h e c e m o contexto cap- S e g u n d o F r e u d , o q u e p r e s i d e a formação d a
t a m d eimediato o sentido, o que provoca sua condensação n o s três p r o c e d i m e n t o s é a e c o n o -
g a r g a l h a d a . F r e u d dá o u t r o s e x e m p l o s d e m i a d e m e i o s , c o m o n o e x e m p l o a c i m a : "vol",
c ó m i c o l i g a d o à técnica d e condensação s e g u i d a diz F r e u d , significa tanto "voo" como "roubo". Nesse
d a formação d e u m s u b s t i t u t o , c o m o o d a p a l a - caso, não haveria algo que foi condensado, economi-
v r a "Cléopold" q u e e l e d e c o m p õ e d a s e g u i n t e zado? Com certeza: a segunda ideia, que se lançou
m a n e i r a : "Dizem que um dia as más línguas da Euro- sem trocá-la por um substituto" ( p . 1 0 0 ) . E l e c o n -
pa mudaram o nome de um potentado chamado Léo- c l u i n o s s e g u i n t e s t e r m o s : "Todas essas técnicas
p o l d para Cléopold, por causa das relações que ele são dominadas por uma tendência à concentração
mantinha com uma mulher chamada Cléo..." ( p . 6 4 ) ("zusammendrãngende Tendenz") ou, mais exata-
O s e g u n d o p r o c e d i m e n t o c o n s i s t e e m empre- mente, por uma tendência à economia" ( p . 1 0 0 ) , i s t o
gar uma única palavra com uma dupla utilização. é, u m a e c o n o m i a e m m e i o s d e expressão.
F r e u d dá u m e x e m p l o b a s e a d o n a h o m o f o n i a Q u a n t o a o s t r o c a d i l h o s , e l e s são, s e m dú-
e n t r e o n o m e "Rousseau" e a s p a l a v r a s "roux" e v i d a , o s c h i s t e s m a i s c o r r e n t e s , porém, c o n s t i -
"sot".* E s s e c h i s t e o c o r r e u a u m a d o n a d e c a s a , t u e m "a variedade mais pobre do chiste fundamen-
r e v o l t a d a c o m a f a l t a d e educação d e u m r a p a z tada em palavras ("Wortwitze"), provavelmente
a q u e m c o n v i d a r a . E l a s e d i r i g i u a esse sujeito porque permitem fazer piada "barata" com o míni-
grosso, que tinha o n o m e d e seu ancestral Jean- mo de esforço possível" ( p . 1 0 4 )
Jacques R o u s s e a u e ostentava u m a cabeleira rui-
v a , e l h e d i s s e d e f o r m a b e m h u m o r a d a : "Você
me permitiu conhecer um jovem roux e sot, e x c l a m o u As técnicas fundamentadas no pensamento
e l a , mas não um R o u s s e a u " ( p . 7 9 ) . A q u i , a técnica
Freud prossegue seu estudo detalhado d e
d o c h i s t e c o n s i s t e e m q u e u m a única p a l a v r a -
d i v e r s a s técnicas p a s s a n d o e m r e v i s t a o s
"Rousseau" - a p a r e c e e m u m a d u p l a utilização,
c h i s t e s f u n d a m e n t a d o s n o pensamento, i s t o é,
primeiramente inteira e depois decomposta e m
a q u e l e s q u e não têm a v e r c o m a p a l a v r a p r o -
s u a s sílabas, à m a n e i r a d e u m a c h a r a d a .
p r i a m e n t e , m a s c o m a condução d o p e n s a -
O terceiro procedimento utilizado pelo
m e n t o , e q u e i n d e p e n d e m d a expressão v e r -
c h i s t e c o n s i s t e e m t o m a r o duplo sentido o u o
b a l . N e s s e c a s o , o trabalho do chiste - c o m o e l e
múltiplo sentido d e u m a m e s m a p a l a v r a , t a l
o denomina, e m analogia o trabalho do sonho
c o m o s e e m p r e g a n o s jogos de palavras. O s j o -
- s e serve d ec o n d u t a s d ep e n s a m e n t o q u e
g o s d e p a l a v r a s são c o n s i d e r a d o s p o r F r e u d
e s c a p a m a o raciocínio n o r m a l c o m o m e i o s téc-
c o m o o c a s o i d e a l d e utilização m ú l t i p l a d e u m
n i c o s p a r a p r o d u z i r a expressão e s p i r i t u a l ; e l e
m e s m o m a t e r i a l : "(...) aqui, não se comete nenhu-
c i t a vários p r o c e d i m e n t o s , p o r e x e m p l o , o d o
ma violência contra a palavra, nenhuma fragmen-
deslocamento, q u e u t i l i z a a lógica p a r a e n c o b r i r
tação que destaque as diversas sílabas que a com-
u m e r r o d e raciocínio, o u a i n d a o p r o c e d i m e n -
põem (...); é à palavra como tal e exatamente como
t o q u e u t i l i z a o nonsense p a r a c r i a r u m c h i s t e .
se apresenta na estrutura da frase que se permite

* N . d e T . E m português, r u i v o ("roux") e bruto ("sot").


* * N . d e T . N o o r i g i n a l francês: "Ceste le premier vol d\ le".
66 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

O q u e f a z c o m q u e o nonsense s e t o r n e u m O c h i s t e t e n d e n c i o s o t e m u m a dimensão s o -
chiste? F r e u d s e diverte r e s p o n d e n d o que c i a l q u e o cómico não p o s s u i , p o i s o p r i m e i r o
"num tal nonsense espiritual encontra-se um sen- n e c e s s i t a d e três p e s s o a s : u m a p r i m e i r a q u e l a n -
tido, e esse sentido no nonsense cria um chiste" (p. ça o c h i s t e , u m a s e g u n d a q u e é t o m a d a c o m o
1 2 3 ) . P o r t a n t o , a técnica a q u i c o n s i s t e e m di- o b j e t o d e agressão h o s t i l o u s e x u a l e , f i n a l m e n -
z e r u m a c o i s a e s t ú p i d a , u m nonsense, q u e tem te, u m a terceira q u e o u v e o chiste e u s u f r u i d o
c o m o s i g n i f i c a d o t o r n a r perceptível u m a ou- p r a z e r c o n t i d o n a i n t e n ç ã o . P o r q u e a presença
t r a c o i s a e s t ú p i d a , u m o u t r o nonsense. d e u m a t e r c e i r a p e s s o a é indispensável? S e g u n -
d o F r e u d , o chiste visa a p r o p o r c i o n a r prazer
simultaneamente a o autor e à terceira pessoa
Chistes inocentes e tendenciosos q u e o u v e : "Assim, o chiste é em si um patife de
duas caras que serve a dois mestres ao mesmo tem-
E m função d a d i v e r s i d a d e d e reações q u e
po" ( p . 2 8 2 ) . M a s o p r a z e r d o a u t o r d o c h i s t e é
suscitam e m q u e m o so u v e , pode-se estabele-
d i s s i m u l a d o , p o i s e m g e r a l e l e próprio não r i ,
c e r u m a d i s t i n ç ã o e n t r e o s c h i s t e s inocentes e
a n ã o s e r "por tabela" através d a p e s s o a q u e e l e
o s c h i s t e s tendenciosos. O c h i s t e i n o c e n t e é u m
fez r i r (p. 283).
f i m e m s i m e s m o e não s e p r e s t a a n e n h u m a
intenção p a r t i c u l a r . A o contrário, o c h i s t e t e n -
d e n c i o s o s e c o l o c a a serviço d e u m a intenção • ESPÍRITO, S O N H O E V A R I E D A D E S D O C Ó M I C O
que obedece a diversos motivos, como a hos-
t i l i d a d e ( a g r e s s i v i d a d e , sátira, c i n i s m o ) , a o b s - A terceira parte c o m p a r a o s o n h o e o chiste
c e n i d a d e ( q u e v i s a pôr a n u ! ) , a l i c e n c i o s i d a - e t e r m i n a c o m u m e n s a i o s o b r e o cómico, o
de, que acentua o sexual, e o ceticismo, sendo h u m o r e o chiste.
q u e e s t e último, n a opinião d e F r e u d , c o n s t i -
tui o pior dos motivos. Sonho, chiste e retorno ao
inconsciente infantil
O chiste como fonte de prazer e Freud compara inicialmente o sonho e o
como vínculo social c h i s t e p r o c u r a n d o e x p l i c i t a r a s semelhanças
e a s diferenças. O s o n h o é a n t e s d e t u d o a e x -
N a segunda parte, F r e u d indaga-se sobre
pressão d a realização d e u m d e s e j o c o m o
o papel desempenhado pelo prazer no meca-
objetivo d eevitar o desprazer, e n q u a n t o que
n i s m o dos chistes. O s m e c a n i s m o s q u e suben-
o chiste serve p a r a a d q u i r i r prazer. O chiste
tendem o efeito d e prazer seobservam mais
e n c o n t r a e s s e p r a z e r não a p e n a s p o r m e i o d e
facilmente dos chistes tendenciosos d o que nos
d i f e r e n t e s técnicas, m a s t a m b é m e m u m r e -
chistes inocentes, p o r q u e nos p r i m e i r o s u m a torno ao inconsciente infantil, que é sua fonte
tendência é s a t i s f e i t a : a satisfação q u e é f o n t e originária. N a época e m q u e a criança c o m e -
d e p r a z e r . M a s e s s a tendência s e c h o c a c o m ça a m a n e j a r a l i n g u a g e m , n o t a - s e q u e e l a j o g a
obstáculos q u e o c h i s t e p e r m i t e c o n t o r n a r , c o m a s p a l a v r a s e a sreúne s e m s e p r e o c u p a r
q u e r s e t r a t e d e obstáculos e x t e r n o s ( m e d o d a c o m seu sentido, buscando essencialmente o
pessoa a q u e m sedirige o insulto secreto) o u p r a z e r l i g a d o à s s o n o r i d a d e s . E s s e p r a z e r será
obstáculos i n t e r n o s l i g a d o s à educação. N o s p o u c o a p o u c o i n i b i d o p e l a crítica i n t e r i o r - a
d o i s c a s o s d e utilização d o c h i s t e t e n d e n c i o s o c e n s u r a - , e só serão a u t o r i z a d a s a s reuniões
obtém-se p r a z e r p o r q u e u m g a n h o d e p r a z e r de palavras c o m u m sentido. M a i s tarde, o
c o r r e s p o n d e a u m a "economia realizada nos gas- a d u l t o utilizará e s s e r e t o r n o a o s j o g o s d e p a -
tos de inibição ou de repressão" ( p . 2 2 6 ) . N o c h i s t e lavras para reencontrar oprazer infantil e con-
i n o c e n t e , é a própria técnica d o c h i s t e q u e tornar a censura, e mu m m o v i m e n t o d e re-
constitui a fonte d eprazer, como n o jogo d e v o l t a c o n t r a a s imposições d o p e n s a m e n t o e
palavras. da realidade.
Ler Freud 67

As variedades do c< mico n o s s o próprio e g o . A o b r a t e r m i n a c o m u m


ensaio d e d i c a d o a oh u m o r , q u e ele d i s t i n g u e
F r e u d p r o s s e g u e s u a s reflexões c o m u m e s -
d a i r o n i a , t e x t o q u e terá u m p r o l o n g a m e n t o
t u d o d a s d i f e r e n t e s f o r m a s d o cómico, c o m o
20 a n o s m a i s t a r d e e m u mc u r t o a r t i g o
a imitação, a paródia, a c a r i c a t u r a , e t c . E l e a t r i -
i n t i t u l a d o " O h u m o r " (1927d), n oq u a l i n t r o -
b u i a o r i g e m d op r a z e r e m certas f o r m a s d o
duzirá a noção d e s u p e r e g o .
cómico à comparação e n t r e a o u t r a p e s s o a e

PÓS-FREUDIANOS

Lacan: o chiste e os "relâmpagos" de tomada de consciência


" R e t o r n o " a o s p r i m e i r o s escritos d e Freud
N o início d o s a n o s d e 1950, J a c q u e s Lacan c o n c l a m o u os psicanalistas a efetuar u m retorno a Freud. O q u e
significava esse retorno a Freud? Na v e r d a d e , n ã o se tratava d e refazer u m a leitura d o c o n j u n t o d a o b r a d e
F r e u d , m a s d o s primeiros escritos teóricos f r e u d i a n o s q u e articulam o inconsciente e m t o r n o d a lingua-
gem: A interpretação dos sonhos, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana e Os chistes e sua relação com
o inconsciente. Escritas entre 1900 e 1905, essas três o b r a s q u a s e c o n t e m p o r â n e a s a c e n t u a m particular-
m e n t e a l i n g u a g e m c o m o expressão d i s s i m u l a d a d o inconsciente, e é d e s s a trilogia q u e Lacan extrai s e u s
p r i n c i p a i s c o n c e i t o s , particularmente o chiste, a o q u a l conferirá "o estatuto de um verdadeiro conceito
psicanalítico" (Roudinesco e Plon, 1997).
O p r o c e d i m e n t o d e Lacan desenvolveu-se e m várias etapas. E m 1953, e m seu "Discours d e R o m e " , ele
c o m e ç o u por preconizar u m retorno ao s e n t i d o : " O sentido de um retorno a Freud é um retorno ao sentido
de Freud", d e c l a r o u então j o g a n d o c o m as palavras d e f o r m a b e m h u m o r a d a (1955, p. 406). Insistindo
s o b r e o s e n t i d o , Lacan visava restaurar a experiência psicanalítica d o inconsciente naquilo q u e c o n s i d e r a -
v a c o m o a originalidade mais p u r a m e n t e freudiana, pois j u l g a v a q u e seus c o l e g a s c o n t e m p o r â n e o s t i n h a m
abandonado "o sentido da palavra" (1953, p. 243).

O inconsciente estruturado c o m o uma linguagem


D e s d e 1956, Lacan centrou a experiência d o inconsciente na d i m e n s ã o simbólica, à luz das contribuições d a
linguística, e m particular na distinção das n o ç õ e s d e "significante" e "significado", introduzidas pelo linguista
suíço F. d e Saussure. Esse esclarecimento permitiu a Lacan evidenciar a "primazia do significante sobre o
significado", proposição q u e ele vê c o m o u m d o s ensinamentos fundamentais tirados de A interpretação dos
sonhos. De fato, a aplicação d o m é t o d o d e associação livre c o n d u z p o u c o a p o u c o a cadeias d e p e n s a m e n t o
que, por sua vez, levam a cadeias d e palavras, u m a técnica q u e permite identificar a pista d o significado
p e r d i d o "Para além dessa palavra, está toda a estrutura da linguagem que a experiência analítica descobre no
inconsciente" (Lacan, 1957, p. 494-495). A d o t a n d o u m a perspectiva estrutural, Lacan reexaminou igualmente
a n o ç ã o d e c o n d e n s a ç ã o c o m u m ao s o n h o e a o chiste - traduzindo este último c o m o "traço de espírito" -, e
c o n c l u i u q u e o chiste era u m significante q u e revelava através d o j o g o d e linguagem u m a verdade inconsciente
q u e o sujeito tentava esconder.
A revisão feita por Lacan d a s n o ç õ e s d e c o n d e n s a ç ã o e d e d e s l o c a m e n t o c o n d u z i u - o a enunciar s u a
f a m o s a p r o p o s i ç ã o s e g u n d o a qual "o inconsciente é estruturado como uma linguagem". Nessa p r o p o s i -
ç ã o está c o n d e n s a d a a h i p ó t e s e lacaniana central, s e g u n d o a qual os m e c a n i s m o s d e f o r m a ç ã o d o i n c o n s -
ciente s ã o estritamente a n á l o g o s a o s m e c a n i s m o s d e f o r m a ç ã o d o sentido na l i n g u a g e m , c o m o d e s t a c a
Joel Dor: "Podemos inclusive considerar essa hipótese como a mais fundamental para toda a elaboração
teórica lacaniana, não apenas pelo que essa proposição pressupõe, mas também porque ela encarna o
sentido do retorno a Freud que Lacan sempre prescreveu desde que começou a lecionar" (1985, p. 17).

Divergências sobre a técnica, a teoria e a formação


O s t r a b a l h o s psicanalíticos d e Lacan e, m u i t o particularmente, a q u e l e s q u e tratam d a l i n g u a g e m suscita-
ram e s u s c i t a m a i n d a hoje u m interesse q u e vai m u i t o a l é m d o s círculos psicanalíticos. C o n t u d o , d e s d e o

Continua Q
68 J e a n - M i c h e l Quinodoz

PÓS-FREUDIANOS • Continuação

primeiro m o m e n t o s u r g i r a m divergências s o b r e p o n t o s f u n d a m e n t a i s entre Lacan e s e u s c o l e g a s perten-


centes à A s s o c i a ç ã o Psicanalítica Internacional (API). Esses d e s a c o r d o s c u l m i n a r a m c o m u m a cisão e m
1953, e e m 1964 L a c a n f u n d o u " s o z i n h o " a e s c o l a francesa d e psicanálise, q u e resolveu dissolver p o u c o
antes d e s u a m o r t e , e m 1980. A partir d e então, o m o v i m e n t o lacaniano f r a g m e n t o u - s e e m vários g r u p o s .
Do p o n t o d e vista t é c n i c o , creio q u e o "retorno a F r e u d " p r e c o n i z a d o por Lacan e m 1953 focalizou a
atenção s o b r e t u d o n a n e u r o s e e na c o m u n i c a ç ã o verbal, e m d e t r i m e n t o d o s t r a b a l h o s f r e u d i a n o s posterio-
res a 1915, j u s t a m e n t e a q u e l e s e m q u e Freud explora as possibilidades d e t r a t a m e n t o d o psicanalítico d e
pacientes q u e a p r e s e n t a m distúrbios d a c o m u n i c a ç ã o verbal e d a s i m b o l i z a ç ã o , c o m o o s d e p r e s s i v o s e os
psicóticos (J.-M. Q u i n o d o z , 2 0 0 0 , 2 0 0 2 ) .
Além disso, Lacan concentrou sua atenção, c a d a vez mais, somente na palavra d o analisado, essencialmente
nos " r e l â m p a g o s " * d e t o m a d a d e consciência d o sentido simbólico d o discurso d o sujeito, q u e ele c h a m a de
"buracos significantes do inconsciente". C o m o risco de usar e abusar dos jogos d e palavras d e valor interpretativo,
essa técnica t a m b é m fez c o m q u e Lacan encurtasse a duração das sessões, s e m levar e m conta o t e m p o
necessário à elaboração d a transferência e d a contratransferencia. Contudo, sobre esse p o n t o fundamental,
creio q u e a t o m a d a d e consciência d o sentido não é d a d a de antemão a c a d a pessoa, longe disso: trata-se de
u m processo lento, q u e se desenvolve progressivamente e q u e exige na maioria das vezes t o d o rigor d o setting
psicanalítico clássico para se desenvolver e m u m ritmo que deve ser respeitado até seu término.
A q u e s t ã o t é c n i c a l i g a d a à prática d e s e s s õ e s mais curtas está l o n g e d e ser o ú n i c o p o n t o d e divergência
entre psicanalistas l a c a n i a n o s e psicanalistas pertencentes à A s s o c i a ç ã o Psicanalítica Internacional (API).
C o m o a f i r m o u r e c e n t e m e n t e D. W i d l ó c h e r (2003), a i n d a persistem divergências i n c o n t o r n á v e i s s o b r e vários
outros p o n t o s , e m particular s o b r e a utilização d a contratransferencia, c u j o u s o era f o r t e m e n t e rejeitado por
Lacan e é a i n d a hoje p o r a q u e l e s q u e se a p o i a m nele (F. Duparc, 2001).
No q u e se refere à f o r m a ç ã o d e futuros psicanalistas, Lacan se o p u n h a r a d i c a l m e n t e à m a n e i r a c o m o a
f o r m a ç ã o era o r g a n i z a d a d e n t r o d a API; ele contestava e m particular a " p r é - s e l e ç ã o " e a análise pessoal
prévia c h a m a d a d e "análise d i d á t i c a " . A seu ver, a avaliação e m diferentes etapas d o p r o c e s s o e a organi-
zação hierárquica m a n t i n h a m s e u s c o l e g a s e m u m e s t a d o d e p e r m a n e n t e s u b m i s s ã o . Q u a n d o f u n d o u sua
própria e s c o l a , e m 1963, e s t a b e l e c e u c o m o princípio q u e esta n ã o autorizava n e m proibia, e q u e a respon-
sabilidade d a c u r a era u m p r o b l e m a exclusivamente d o psicanalista, e daí o s e n t i d o d e s u a afirmação: " O
psicanalista só busca autorização em si mesmo". Essa recusa d e q u a l q u e r avaliação por o u t r o s q u e não ele
próprio t e m c o m o c o n s e q u ê n c i a multiplicar o n ú m e r o d e p e s s o a s q u e se a u t o d e n o m i n a v a m "psicanalis-
tas" r e p o r t a n d o - s e a L a c a n e s e m q u e se s o u b e s s e qual era s u a f o r m a ç ã o .
Alguns psicanalistas pertencentes à corrente lacaniana desejavam retornar à Associação Psicanalítica Internacional
fundada por Freud. C o n t u d o as posições teóricas e técnicas d e uns e outros m e parecem muito distantes.

A escola inglesa: d o simbolismo primitivo à representação simbólica


A extensão d a c u r a p a r a além d a neurose
Os psicanalistas p e r t e n c e n t e s à escola inglesa t a m b é m a b o r d a r a m a q u e s t ã o d o s i m b o l i s m o , m a s e m u m a
perspectiva diferente, o q u e t o r n o u possível o t r a t a m e n t o psicanalítico d e pacientes q u e apresentavam
dificuldades d e se c o m u n i c a r v e r b a l m e n t e , s e n d o a verbalização u m a f o r m a d e s i m b o l i s m o altamente
evoluída. De t o d o m o d o , a c u r a psicanalítica não é reservada a p e n a s aos pacientes n e u r ó t i c o s , capazes de
se c o m u n i c a r c o n s i g o m e s m o s e c o m outro por m e i o d e palavras, m a s i g u a l m e n t e a o s p a c i e n t e s nos quais
p r e d o m i n a o p e n s a m e n t o c o n c r e t o e q u e m e s m o assim c o n s e g u e m desenvolver s u a f u n ç ã o simbólica e
sua c a p a c i d a d e d e se c o m u n i c a r v e r b a l m e n t e , graças ao trabalho d e e l a b o r a ç ã o .
J á e m 1916, E. J o n e s retomara a q u e s t ã o d o s i m b o l i s m o no p r o l o n g a m e n t o d a s ideias e x p r e s s a d a s por
Freud e m A interpretação dos sonhos (1900a). J o n e s diferenciou o s i m b o l i s m o c o n s c i e n t e d o s i m b o l i s m o
inconsciente e c o n s i d e r o u a criação d e u m s í m b o l o c o m o o resultado d e u m conflito intrapsíquico e o
p r ó p r i o s í m b o l o c o m o representante d o q u e foi r e p r i m i d o .
M. Klein introduziu p o u c o a p o u c o u m a n o v a a b o r d a g e m d a q u e s t ã o d o s i m b o l i s m o partindo d e seu traba-
lho c o m as crianças e d e s u a c o m p r e e n s ã o d o j o g o na sessão c o m o expressão s i m b ó l i c a d o s conflitos
inconscientes. E m s e u artigo "A i m p o r t â n c i a d o s í m b o l o na f o r m a ç ã o d o e g o " (1930), b a s e a d o na o b s e r v a -

Continua 0
Ler Freud 69

0 Continuação

ç ã o d e Dick, u m m e n i n o autista d e 4 a n o s , M. Klein d e m o n s t r a q u e a f o r m a ç ã o d o símbolo p o d e ser inibida


e s p e c i f i c a m e n t e , e q u e o s efeitos d e s s a inibição t ê m c o n s e q u ê n c i a s graves para o d e s e n v o l v i m e n t o p o s -
terior d o e g o . Ela conclui q u e q u a n d o n ã o o c o r r e o p r o c e s s o d e s i m b o l i z a ç ã o , o c o n j u n t o d o d e s e n v o l v i -
m e n t o é retido; e atribui essa inibição a u m a a n g ú s t i a excessiva ligada às fantasias agressivas d a c r i a n ç a
e m relação a o c o r p o d a m ã e e c o m u m s e n t i m e n t o crescente d e c u l p a .

Transição e n t r e simbolização p r i m i t i v a e simbolização evoluída


O fato d e q u e o processo d e f o r m a ç ã o d o símbolo p o s s a ser interrompido ao longo d o desenvolvimento
infantil levou H. Segal e W. R. Bion a se a p r o f u n d a r e m nas pesquisas iniciadas por M. Klein. C o m isso, esses
autores n ã o apenas estabeleceram u m a distinção entre u m a f o r m a primitiva d e simbolismo e u m a f o r m a
evoluída, c o m o t a m b é m revelaram o s processos d e transição entre essas d u a s formas d e simbolização,
c o n s i d e r a d o s os conceitos d e posição esquizoparanóide e d e posição depressiva. Retomaremos d e maneira
mais detalhada seus pontos d e vista e x a m i n a n d o o s d e s d o b r a m e n t o s d o estudo q u e Freud d e d i c o u às par-
ticularidades d a linguagem d o esquizofrénico e m " O inconsciente" (Artigos sobre metapsicologia, 1915e).
O s t r a b a l h o s d e Segal e d e Bion, assim c o m o o s d e H. Rosenfeld, s o b r e a transferência narcisista estão n a
o r i g e m d o tratamento psicanalítico d e pacientes psicóticos, narcisistas e borderline q u e hoje e n c o n t r a m o s
c o m mais f r e q u ê n c i a e m n o s s o s divãs d o q u e o s pacientes neuróticos.

* A l í n g u a a l e m ã p e r m i t e u m j o g o d e p a l a v r a s d i v e r t i d o a p r o x i m a n d o a s p a l a v r a s "Blitz" ( r e l â m p a g o ) e 'Witz" ( j o g o d e
p a l a v r a s ) , c o n d e n s a ç ã o e d e s l o c a m e n t o q u e n ã o t ê m u m e q u i v a l e n t e e m l í n g u a f r a n c e s a p a r a exprimir o m o m e n t o d e
"EinfaH", s e g u n d o o t e r m o d e F r e u d ( e m i n g l ê s "insight").

£ CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

ção, deslocamento, realização de desejo) aplicados ao chiste, ao


^ TRE$ ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE
S. FREUD (1905d)

A desc oberta da sexualidade infantil: revolução e escândalo

P u b l i c a d a e m 1 9 0 5 , a o b r a Três ensaios sobre aos educadores e aos escritores q u e o t e m p o


a teoria da sexualidade é c o n s i d e r a d a p o r m u i t o s t o d o o b s e r v a m e d e s c r e v e m a s manifestações
como a mais importante de Freud depois de A d a s e x u a l i d a d e i n f a n t i l . D e r e s t o , a s descrições
interpretação dos sonhos ( 1 9 0 0 a ) e a m a i s da sexualidade que F r e u d apresenta nessa obra
marcante sobre a sexualidade. N e l a Freud de- estão m u i t o aquém d a s i m a g e n s o b s c e n a s
s a f i a a b e r t a m e n t e a opinião p o p u l a r e o s p r e - p u b l i c a d a s a l g u n s a n o s a n t e s p o r sexólogos c i t a -
conceitos vigentes sobre a sexualidade: por u m dos por Freud, como Krafft-Ebingo u Havelock
l a d o , e l e e s t e n d e u a noção d e s e x u a l i d a d e p a r a E l l i s , m a s e s s a s publicações n ã o d e s e n c a d e a r a m
além d o s l i m i t e s e s t r e i t o s e m q u e e r a m a n t i d a o m e s m o a l a r i d o . D e f a t o , o público r e a g i u e s -
p o r s u a definição c o n v e n c i o n a l ; p o r o u t r o l a d o , c a n d a l i z a d o à l e i t u r a d o s Três ensaios, q u e t o r -
r e p o r t o u o início d a s e x u a l i d a d e à p r i m e i r a i n - n a r a m F r e u d "universalmente impopular", s e g u n -
fância, i s t o é, a u m p e r í o d o m u i t o m a i s p r e c o c e d o J o n e s . A o b r a comprometerá p o r l o n g o t e m -
q u e s e i m a g i n a r a até e n t ã o . E l e d e m o n s t r a a s - p o a s relações d e F r e u d c o m o público. A p a r t i r
s i m q u e a s e x u a l i d a d e não começa n a p u b e r d a - dela, F r e u d p a s s a a ser v i s t o c o m o u m a m e n t e
d e , m a s d e s d e a infância p r e c o c e , e q u e e l a s e - obscena eperigosa, emais ainda depois de cho-
g u e u m d e s e n v o l v i m e n t o e m fases sucessivas c a r o m u n d o médico v i e n e n s e a o p u b l i c a r n o
até c u l m i n a r n a s e x u a l i d a d e a d u l t a . A l é m d i s - m e s m o a n o o c a s o Dora s e m a autorização d a
s o , e l e lança p o n t e s e n t r e a s f o r m a s a n o r m a i s p a c i e n t e . P o r q u e se d e s e n c a d e o u t a m a n h a h o s -
de sexualidade e a sexualidade dita normal. t i l i d a d e ? S e m dúvida, F r e u d , q u e é u m médico
Utilizando u m a linguagem simples eu m vo- b u r g u ê s e p a i d e família, a s s u m e g r a n d e s r i s -
cabulário d o d i a - a - d i a , F r e u d lança a l g u m a s cos a b a l a n d o a m o r a l q u a n d o s e recusa a fazer
proposições s o b r e a s e x u a l i d a d e q u e ninguém u m juízo d e v a l o r s o b r e a s perversões. P o r é m ,
e s t a v a d i s p o s t o a o u v i r . Porém, não há n a d a q u e a l h e i o às críticas, F r e u d p a r e c e m a i s d e t e r m i -
e l e r e v e l e n e s s a o b r a q u e já não s e j a c o n h e c i d o , n a d o d o que n u n c a a fazer c o m que o conheci-
e m p a r t i c u l a r , não e n s i n a n a d a d e n o v o a o s p a i s , m e n t o científico t r i u n f e s o b r e o o b s c u r a n t i s m o .

B I O G R A F I A S E Hlí i T O R I A

O m o m e n t o d a descoberta da sexualidade infantil


E m s e u s t r a b a l h o s a o l o n g o d o s a n o s d e 1890, Freud j á suspeitava q u e fatores d e natureza sexual q u e
r e m o n t a v a m à infância p o d i a m estar na o r i g e m d o s s i n t o m a s histéricos. Entretanto, ele i m a g i n a v a q u e era
u n i c a m e n t e e m c o n s e q u ê n c i a d e u m ato d e s e d u ç ã o p o r u m adulto q u e a s e x u a l i d a d e d e s p e r t a v a p r e m a -
t u r a m e n t e e m u m a criança. M a s , a p ó s a d e s c o b e r t a d o c o m p l e x o d e É d i p o d u r a n t e s u a auto-análise e m

Continua Q
72 Jean-Michel Q u i n o d o z

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

1897, ele c h e g o u à c o n c l u s ã o q u e o s i m p u l s o s sexuais estavam presentes d e s d e m u i t o c e d o e m t o d a s as


crianças e q u e s e m a n i f e s t a v a m i n d e p e n d e n t e m e n t e d e q u a l q u e r e s t i m u l a ç ã o e x e r c i d a p o r u m terceiro.
Em 1899, a n u n c i o u a Fliess q u e s u a p r ó x i m a o b r a trataria d e u m a teoria d a s e x u a l i d a d e e q u e pretendia
apenas q u e "uma faísca venha pôr fogo no material reunido" (Freud e Fliess, carta d e 11 d e n o v e m b r o d e
1899). S e m d ú v i d a , Freud p r e c i s o u superar fortes resistências internas antes d e admitir a universalidade d a
sexualidade infantil e d e realizar seu projeto, q u e d e s e n v o l v e u paralelamente à r e d a ç ã o d e O s chistes e sua
relação com o inconsciente, o b r a q u e t a m b é m foi l a n ç a d a e m 1905.
Esse foi u m p e r í o d o d e g r a n d e p r o d u t i v i d a d e p a r a ele, m a r c a d o pela r u p t u r a definitiva c o m Fliess. A
clientela p r i v a d a p r e e n c h i a t o d o s e u t e m p o , e a maior parte d e s e u s p a c i e n t e s v i n h a d a E u r o p a Oriental.
Ele p r o s s e g u i u d u r a n t e três a n o s s u a s c o n f e r ê n c i a s n a U n i v e r s i d a d e e o círculo d a S o c i e d a d e d a s Quar-
tas-Feiras s e a m p l i o u . O a n o d e 1905 c o r r e s p o n d e i g u a l m e n t e a o início d e s u a f a m a i n t e r n a c i o n a l . Ele
p a s s o u a viajar t o d o a n o e m c o m p a n h i a d e s u a c u n h a d a M i n n a B a r n a y s e d e s e u i r m ã o A l e x a n d r e , o u
para a Itália o u p a r a a G r é c i a .

Freud: u m pansexualista?
Em Três ensaios, Freud atribui u m papel central à sexualidade infantil, afirmando principalmente q u e as pulsões
reprimidas n o s neuróticos s ã o d e natureza sexual e q u e a sexualidade d o adolescente e d o adulto f u n d a m e n -
ta-se n a sexualidade infantil. M a s ele foi m a l c o m p r e e n d i d o , e o acusaram d e " p a n s e x u a l i s m o " , isto é, d e
pregar u m a teoria simplificadora s e g u n d o a qual t o d a s as c o n d u t a s h u m a n a s se explicam pelo sexo, o u seja,
pela sexualidade n o sentido mais estrito d o termo. E m b o r a tenha m o s t r a d o a importância d a sexualidade na
natureza h u m a n a , Freud s e m p r e s e d e f e n d e u d a a c u s a ç ã o d e p a n s e x u a l i s m o . E m u m a carta a o Pr. E.
Claparède, d e G e n e b r a (Freud, 1921 e), ele protestou contra as críticas d e pansexualismo q u e lhe eram dirigidas
a propósito n ã o a p e n a s d a teoria sexual, m a s igualmente d e s u a teoria d o s s o n h o s : 'Jamais afirmei que todo
sonho tem o significado da realização sexual, e muitas vezes refutei isso. Mas não adiantou nada, e não
cansam de repetir isso" (Carta d e Freud a Edouard Claparède, 25 d e d e z e m b r o d e 1920).

D E S C O B E R T A DA OBRA

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1905d), Trois essais surla théorie sexuelle,


trad. P. K o e p p e l , Paris, G a l l i m a r d , 1987.

A o b r a é d i v i d i d a e m três p a r t e s : a p r i m e i r a são u m a t a r a c o n s t i t u t i v a . E l e propõe b u s c a r


é d e d i c a d a às perversões, d e s i g n a d a s p e l o n o m e a v e r d a d e i r a o r i g e m n a infância, i s t o é, n o ní-
d e aberrações s e x u a i s , a s e g u n d a à s e x u a l i d a d e vel d od e s e n v o l v i m e n t o psicossocial. Come-
i n f a n t i l e a t e r c e i r a às metáforas d a p u b e r d a d e . ça p a s s a n d o e mrevista o s desvios sexuais
listados pelos sexólogos d a época, e n t r e o s
quais K r a f f t - E b i n ge H a v e l o c k Ellis, e consi-
• PRIMEIRO E N S A I O : A S A B E R R A Ç Õ E S S E X U A I S d e r a e s s e s d e s v i o s d e u m ângulo inédito, o d a s
r e l a ç õ e s d e s t e s c o m a n o r m a a c e i t a , i s t o é, c o m
A origem infantil das perversões
a sexualidade dita "normal".
N o p r i m e i r o ensaio, F r e u d critica o s pre- Partindo d a s n o ç õ e s d e "pulsão" e d e
c o n c e i t o s p o p u l a r e s e c o n t e s t a a opinião p r e - "objeto" - c o n c e i t o s q u e t e r ã o u m a i m p o r t â n -
d o m i n a n t e e n t r e o s c i e n t i s t a s d a época s e g u n - c i a d e c i s i v a n a psicanálise - , F r e u d introduz
d o a q u a l a sperversões, c o m o a h o m o s s e x u a - u m a distinção d e n t r o d a s perversões: e l e d i -
l i d a d e , r e s u l t a m d e u m a degenerescência o u f e r e n c i a n a v e r d a d e "os desvios sexuais em rela-
Ler Freud 73

ção ao objeto sexual", i s t o é, e m r e l a ç ã o à pessoa ç ã o s e x u a l u m a "zona erógena", d e m o d o q u e


d a q u a l e m a n a u m a a t r a ç ã o s e x u a l , e "os des- a s perversões s e b a s e i a m n a dominação d e
vios em relação a meta sexual", i s t o é, e m r e l a ç ã o u m a pulsão p a r c i a l d e o r i g e m i n f a n t i l . E n t r e
ao ato a q u e l e v a a p u l s ã o . D e v e m o s e s c l a r e c e r a s f o r m a s d e p e r v e r s ã o l i g a d a s às p u l s õ e s s e -
q u e a psicanálise u t i l i z a o t e r m o " o b j e t o " n o xuais, u m a s utilizam partes d ocorpo o u
s e n t i d o d o francês clássico p a r a d e s i g n a r " u m a o b j e t o s f e t i c h e s p a r a f i n s d e satisfação s e x u a l ,
p e s s o a " , e não " u m a c o i s a " , c o m o R a c i n e , c u j o c o m o substituto d ezonas corporais n o r m a l -
h e r ó i d i z : "Eis o objeto de minha chama" o u "o m e n t e d e s t i n a d a s à união s e x u a l . O u t r a s f o r -
único objeto de meu ressentimento". m a s d e perversão c o n s t i t u e m fixações e m
m e t a s s e x u a i s p r e l i m i n a r e s , c o m o a s práticas
e r ó t i c a s l i g a d a s à z o n a o r a l (felação, c u n i l í n -
O papel da bissexualidade gua), o tocar o u olhar, o u ainda o sadismo e o
m a s o q u i s m o . N e s s e c a s o , F r e u d e s c l a r e c e : "A
N o q u e s e r e f e r e a o s "desvios sexuais em re-
tendência se atém aos atos preparatórios e a criar
lação ao objeto sexual", F r e u d r e l a c i o n a e n t r e e s -
novas metas sexuais que podem substituir as me-
s a s perversões a s d i v e r s a s f o r m a s d e h o m o s -
tas normais" ( p . 6 6 ) . R e s u m i n d o s e u p o n t o d e
sexualidade, assim como a pedofilia e a
v i s t a , p o d e m o s d i z e r q u e n a s perversões a
z o o f i l i a . E l e c o n s i d e r a q u e e s s a s perversões
pulsão s e x u a l s e d e s i n t e g r a e m vários c o m -
decorrem d eu m componente adquiridod a
s e x u a l i d a d e h u m a n a , e não i n a t a o u c o n s t i t u - p o n e n t e s c h a m a d o s d e "pulsões p a r c i a i s " ,
t i v a , c o m o s e p e n s a v a até e n t ã o . M a s , s e a h o - e n q u a n t o n a s e x u a l i d a d e n o r m a l a s pulsões
m o s s e x u a l i d a d e r e s u l t a d e u m a evolução q u e p a r c i a i s s e reúnem e s e c o l o c a m a serviço d a
se p r o d u z a o l o n g o d o d e s e n v o l v i m e n t o maturidade genital.
p s i c o s s e x u a l d o i n d i v í d u o , é lícito p e r g u n t a r
q u a i s são o s f a t o r e s q u e l e v a m c e r t a s p e s s o a s
Perversão, neurose e normalidade
a fazer u m a escolha d eobjeto homossexual e
outras a fazer u m a escolha d eobjeto heteros- F r e u d c h e g o u a d u a s conclusões q u e c h o -
s e x u a l . F r e u d r e s o l v e a questão r e c o r r e n d o à c a r ã o p a r t i c u l a r m e n t e o público. E m p r i m e i r o
bissexualidade, predisposição u n i v e r s a l q u e l u g a r , e l e a f i r m a q u e o s s i n t o m a s neuróticos n ã o
fora p o s t u l a d a p o r Fliess, f u n d a m e n t a d a n o s e c r i a m u n i c a m e n t e e m d e t r i m e n t o d a pulsão
d e s e n v o l v i m e n t o embrionário d o s e r h u m a - s e x u a l n o r m a l , m a s e m p a r t e também e m d e -
no. C o n t u d o , se Fliess r e v e l o u a bissexuali- trimento de u m a sexualidade anormal. Ele sin-
d a d e biológica, F r e u d f o i o p r i m e i r o a a p l i c a r t e t i z a i s s o e m u m a f r a s e célebre a o d e c l a r a r : "A
e s s a n o ç ã o a o nível psicológico, p o s t u l a n d o neurose é por assim dizer o negativo da perversão"
q u e tendências m a s c u l i n a s e tendências f e m i - ( p . 8 0 ) , metáfora t i r a d a d a f o t o g r a f i a q u e s i g n i -
n i n a s c o e x i s t e m d e s d e a infância e m t o d o i n - f i c a q u e o q u e é agido p e l o s p e r v e r s o s a t r a v é s
divíduo, d e f o r m a q u e a e s c o l h a d e o b j e t o d e - de seus c o m p o r t a m e n t o s sexuais aberrantes, os
f i n i t i v o d e p e n d e d a predominância d e u m a
n e u r ó t i c o s imaginam e m s u a s f a n t a s i a s e e m
tendência e m relação à o u t r a .
seus sonhos. E m segundo lugar, F r e u d conclui
q u e a p r e d i s p o s i ç ã o às p e r v e r s õ e s n ã o é u m
traço e x c e p c i o n a l , m a s q u e p e r t e n c e i n t e g r a l -
As pulsões parciais m e n t e à constituição d i t a n o r m a l , c u j o e s b o ç o
F r e u d a b o r d a e m s e g u i d a a questão d o s p o d e m o s o b s e r v a r n a criança: "Essa constitui-
"desvios em relação à meta sexual", n o s q u a i s a ção presumida, que contém os germes de toda per-
pulsão s e x u a l s e d e s i n t e g r a e m d i f e r e n t e c o m - versão, só pode ser evidenciada na criança, ainda
p o n e n t e s q u e e l e c h a m a d e "pulsões parciais": que as pulsões não possam se manifestar nela com
a s pulsões p a r c i a i s têm c o m o f o n t e d e e x c i t a - toda intensidade" ( p . 8 9 ) .
74 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

• S E G U N D O E N S A I O : A S E X U A L I D A D E INFANTIL seio materno (ou em seus substitutos)" (p. 105).


D u r a n t e a a m a m e n t a ç ã o , o s l á b i o s d a criança
A amnésia infantil: esquecimento t ê m o p a p e l d e zona erógena q u e está n a f o n t e
dos primeiros anos da infância d a s e n s a ç ã o d e p r a z e r . A s s i m , "a atividade se-
N o segundo ensaio, F r e u d abala ainda xual se apoia inicialmente em uma das funções que
m a i s a crença p o p u l a r , s e g u n d o a q u a l a serve à conservação da vida" ( p . 1 0 5 ) , e s ó m a i s
pulsão s e x u a l está a u s e n t e d u r a n t e a infância t a r d e a satisfação s e x u a l s e s e p a r a d a n e c e s s i -
e aparece a p e n a s n ap u b e r d a d e , c o m o t a m - d a d e d e alimentação e s e t o r n a i n d e p e n d e n -
b é m o s e s t u d o s científicos q u e i g n o r a v a m a te. M a s , s e g u n d o F r e u d , essa p r o p r i e d a d e
existência d e u m a s e x u a l i d a d e n a c r i a n ç a . E l e erógena não s e l i m i t a à z o n a o r a l e p o d e e s t a r
a t r i b u i e s s a ignorância a o q u e c h a m a d e " a m - ligada a qualquer outra parte d ocorpo, que
n é s i a i n f a n t i l " , i s t o é, a o f a t o d e q u e o s a d u l - às v e z e s é d o t a d a d a e x c i t a b i l i d a d e d o s ó r g ã o s
t o s têm p o u c a o u n e n h u m a lembrança d e s e u s sexuais.
p r i m e i r o s a n o s d e infância. P a r a F r e u d , t a n t o P o r t a n t o , o caráter d a s pulsões s e x u a i s é
o e s q u e c i m e n t o d a amnésia i n f a n t i l q u a n t o o e s s e n c i a l m e n t e masturbatório d u r a n t e a infân-
e s q u e c i m e n t o d a amnésia histérica t ê m c o m o c i a . E n t r e a s manifestações s e x u a i s i n f a n t i s ,
c a u s a a repressão: d o m e s m o m o d o q u e o h i s - F r e u d s i t u a não a p e n a s a s a t i v i d a d e s m a s -
térico r e p r i m e a s p u l s õ e s s e x u a i s l i g a d a s à s e - turbatórias o r a i s , m a s t a m b é m a s a t i v i d a d e s
dução, o a d u l t o m a n t é m à m a r g e m d e s u a masturbatórias l i g a d a s à z o n a a n a l ( p r a z e r d a
c o n s c i ê n c i a o s inícios d e s u a v i d a s e x u a l q u a n - retenção o u d a expulsão l i g a d a à função i n -
d o a i n d a e r a criança. testinal, etc), assim c o m o as atividades
S e g u n d o F r e u d , a v i d a s e x u a l d a s crianças u r e t r a i s l i g a d a s a o p r a z e r d a micção ( t a n t o n o
m a n i f e s t a - s e d e u m a f o r m a observável p o r m e n i n o c o m o n am e n i n a ) e a q u e l a s ligadas
v o l t a d o s 3 o u 4 a n o s , m a s a s manifestações às z o n a s g e n i t a i s . E s s a s o b s e r v a ç õ e s l e v a m -
d a pulsão s e x u a l s e c h o c a m c o m obstáculos n o a d i s t i n g u i r três f a s e s n a m a s t u r b a ç ã o i n -
e x t e r n o s , c o m o a educação, q u e é u m f a t o r d e f a n t i l : a p r i m e i r a f a s e é a d o o n a n i s m o d o bebé
civilização, e c o m o b j e t o s i n t e r n o s , c o m o a r e - n a época d o a l e i t a m e n t o , a s e g u n d a a p a r e c e
p u l s a , o p u d o r e a m o r a l , s e n d o q u e e s t e s últi- e m t o r n o dos 3 o u 4 anos e a terceira corres-
m o s c o n s t i t u e m a expressão d a repressão. p o n d e a o o n a n i s m o d a p u b e r d a d e , a única a
D u r a n t e a f a s e d e latência, n o t a - s e q u e a s f o r - ser l e v a d a e m c o n t a d u r a n t e m u i t o t e m p o .
ças p u l s i o n a i s s e x u a i s s e d e s v i a m d a m e t a s
sexuais para sed i r i g i r e m a outras metas, sob
A predisposição perversa polimorfa
a f o r m a d e produções c u l t u r a i s , graças a o p r o -
c e s s o q u e F r e u d c h a m a d e sublimação. M a s e l e A descoberta d op a p e l precoce desempe-
r e c o n h e c e q u e , às v e z e s , a pulsão s e x u a l v o l t a n h a d o p e l a s z o n a s erógenas l e v o u F r e u d a
à t o n a d u r a n t e o período d e latência, s e j a d e c o n s i d e r a r q u e e x i s t e n a criança o q u e e l e c h a -
m a n e i r a episódica, s e j a d e m a n e i r a d u r a d o u - m a d e u m a "predisposição perversa polimorfa".
r a , até a p u b e r d a d e . O q u e q u e r d i z e r i s s o ? A e x p r e s s ã o "predispo-
sição perversa" s i g n i f i c a q u e a s d i f e r e n t e s p a r -
t e s d o c o r p o d a criança p e q u e n a a p r e s e n t a m
A s m a n i f e s t a ç õ e s d a s e x u a l i d a d e infantil d e s d e o início d a v i d a u m a s e n s i b i l i d a d e p a r -
t i c u l a r m e n t e f o r t e à erotização, a g u a r d a n d o
Freud t o m a c o m o m o d e l o das manifesta-
q u e a s z o n a s erógenas s e j a m s u b m e t i d a s à o r -
ç õ e s d a s e x u a l i d a d e i n f a n t i l a sucção q u e a p a -
ganização g e n i t a l d e s t i n a d a a u n i f i c a r a s e x u a -
r e c e n o bebé e p o d e p e r s i s t i r i n c l u s i v e p o r t o d a
l i d a d e . Q u a n d o a o t e r m o "polimorfa", e l e d e s -
a v i d a . S e g u n d o e l e , a criança q u e s u g a b u s c a
t a c a a g r a n d e d i v e r s i d a d e d e z o n a s erógenas
u m p r a z e r j á v i v i d o q u e s e b a s e i a n a "primeira
suscetíveis d e s e r e m d e s p e r t a d a s p r e c o c e m e n -
e mais vital atividade da criança, o aleitamento no
Ler Freud 75

t e à excitação s e x u a l . A existência d e u m a p r e - u m pênis e a s m e n i n a s são d e s p r o v i d a s d e l e .


disposição p e r v e r s a p o l i m o r f a n a criança p e - Outras teorias sexuais infantis d i z e m respeito
quena permitiu a Freud explicar o fato de que às i d e i a s q u e a s c r i a n ç a s f a z e m s o b r e o n a s c i -
u m a perversão o r g a n i z a d a , t a l c o m o s e e n c o n - m e n t o ( o b e b é é e v a c u a d o p e l o m e s m o orifí-
t r a n o a d u l t o , r e s u l t a d a persistência d e u m c i o q u e a s f e z e s ? , e t c ) , o u s o b r e a s relações
c o m p o n e n t e parcial d asexualidade infantil s e x u a i s d o s p a i s (fecundação a o b e i j a r , c o n -
q u e p e r m a n e c e u f i x a d o a u m a fase precoce d o cepção sádica d e s u a s relações, e t c ) . M a s ,
d e s e n v o l v i m e n t o psicossocial. quaisquer que sejam asfantasias conscientes
A n o ç ã o f r e u d i a n a d e "predisposição perversa d a s crianças, e l a s são e s s e n c i a l m e n t e o r e f l e -
polimorfa" é a i n d a h o j e u m a f o n t e d e e s c â n d a l o x o d e s u a organização s e x u a l i n c o n s c i e n t e e
p a r a m u i t o s , p o r s e rm a l c o m p r e e n d i d a . N a d a m a n e i r a c o m o elas i m a g i n a m e m suas f a n -
v e r d a d e , o f a t o d e q u e u m a criança o b t e n h a t a s i a s a s relações c o m a s p e s s o a s d e s e u m e i o .
u m p r a z e r s e x u a l d e s u a s z o n a s erógenas não
significa necessariamente q u e ela seja " p e r v e r -
s a " n o s e n t i d o q u e s ee n t e n d e n o a d u l t o . Esse As fases de desenvolvimento
t e r m o significa p a r a F r e u d q u e a fase infantil da organização da sexualidade
d a d i s p o s i ç ã o p e r v e r s a p o l i m o r f a é u m estágio
E m s e i s edições s u c e s s i v a s , F r e u d i n t r o d u -
precoce d eu m desenvolvimento psicossexual
ziu conceitos n o v o s e fundamentais, e a obra
q u e a i n d a não c h e g o u à f a s e d a s e x u a l i d a d e
p a s s o u d e 8 0 páginas e m 1 9 0 5 p a r a 1 2 0 pági-
g e n i t a l , e m q u e a i n d a não s e e s t a b e l e c e u u m a
n a s n a s e x t a e última edição, lançada e m 1 9 2 5 ,
h i e r a r q u i a d e n t r o d a s z o n a s erógenas q u e a s
q u e e n g l o b a v a t o d o s o s acréscimos f e i t o s . N a
c o l o q u e a serviço d a r e p r o d u ç ã o . É b e m d i f e -
revisão d e 1 9 1 5 , i n t r o d u z i u a noção d e u m a
r e n t e d a perversão n o a d u l t o , q u e c o n s i s t e e m
"organização da libido em fases sucessivas", sen-
u m comportamento fortemente organizado no
d o q u e cada fase corresponderia a o p r i m a d o
q u a l a satisfação p a r c i a l é o b t i d a e m d e t r i m e n -
d e z o n a s erógenas. A s s i m , d e s c r e v e a f a s e
to de u m a plenitude da sexualidade genital do
o r a l , a f a s e sádico-anal a f a s e g e n i t a l . E l e s u -
indivíduo, e o p r a z e r s e x u a l é o b t i d o c o m
g e r e também a ideia d e q u e o d e s e n v o l v i m e n -
objetos sexuais d om e s m o sexo, c o m o n a h o -
t o d a l i b i d o p a s s a p o r u m a sucessão d e f a s e s ,
m o s s e x u a l i d a d e , o u e x i g i n d o condições p a r t i -
cada u m a correspondendo a u m a das zonas
culares, c o m o n o fetichismo. Pode ocorrer que
erógenas p r e v a l e n t e s . E m 1 9 2 3 , a c r e s c e n t a às
a criança a p r e s e n t e u m a v e r d a d e i r a fixação
f a s e s d e s c r i t a s a n t e r i o r m e n t e a "fase de orga-
perversa, m a s trata-se d ecasos excepcionais.
nização fálica", q u e s i t u a e n t r e a f a s e a n a l e a
f a s e g e n i t a l , e e x p l i c a q u e n a f a s e fálica u m
único t i p o d e órgão é r e c o n h e c i d o : o pênis n o
As teorias sexuais Infantis
m e n i n o e s e ue q u i v a l e n t e n a m e n i n a , o
E n t r e a s manifestações d a s e x u a l i d a d e i n - clitóris. O d e s e n v o l v i m e n t o d a s e x u a l i d a d e
fantil, F r e u d evoca a curiosidade intensa que s e g u i r i a u m a progressão a p a r t i r d a s f a s e s pré-
m o s t r a m a s crianças e m s u a s incansáveis p e r - g e n i t a l d e organização d a l i b i d o - o r a l , sádi-
g u n t a s s o b r e a s e x u a l i d a d e . D eo n d e vêmo s c o - a n a l e fálica - a t é a o r g a n i z a ç ã o g e n i t a l ,
bebés? C o m o é q u e o p a p a i e a mamãe o s f a - e s t a última i n s t i t u i n d o - s e n a p u b e r d a d e .
zem? Essas perguntas constantes e m todas as E m b o r a descreva o d e s e n v o l v i m e n t o psicos-
suas f o r m a s p e r m i t e m e n t r e v e r a steorias par- sexual infantil e mtermos evolucionistas,
t i c u l a r e s q u e a s crianças p o d e m f o r j a r a p r o - F r e u d e s c l a r e c e q u e e s s a progressão não é
pósito d a s e x u a l i d a d e , c o m o , p o r e x e m p l o , a completamente linear e que o s agrupamen-
convicção d e q u e e x i s t e a p e n a s u m órgão n a t o s são n u m e r o s o s e a i n d a q u e c a d a f a s e d e i -
o r i g e m d a diferença d o s s e x o s : o s m e n i n o s t ê m x a m a r c a s p e r m a n e n t e s atrás d e s i .
76 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

• TERCEIRO ENSAIO: A S METAMORFOSES DA PUBERDADE

O auto-erotismo infantil oposto à escolha d e relação d e o b j e t o . N a p u b e r d a d e o c o r r e u m a


de objeto pós-puberdade integração p r o g r e s s i v a d a s p u l s õ e s p a r c i a i s q u e
c u l m i n a n a e s c o l h a d e o b j e t o - t o t a l , diríamos
N a edição d e 1 9 0 5 , F r e u d opõe c a t e g o r i c a - n ó s - , característica d a f a s e g e n i t a l : " O conjun-
mente ofuncionamentoda sexualidade infan- to de aspirações sexuais se dirige a uma única pes-
t i l , q u e e l e c o n s i d e r a c o m o auto-erótica, e o soa, na qual buscam atingir suas metas" ( p . 1 6 6 ) .
d a s e x u a l i d a d e pós-pubertária, q u e c e n t r a n a N a sequência, F r e u d dará u m a importân-
"escolha d eobjeto", isto é n aescolha d a pes- cia c a d a v e z m a i o r a o p a p e l q u e d e s e m p e n h a m
soa eleita c o m o objeto de a m o r . D e acordo c o m o s a f e t o s d e a m o r e d e ódio n a s relações d e
a p r i m e i r a versão d a o b r a , a e t a p a p r e c o c e d a objeto ao longo d o desenvolvimento. A s s i m , e m
s e x u a l i d a d e não t e r i a o u t r o o b j e t o a não s e r o 1912, q u a n d o i n t r o d u z o conceito d e a m b i v a -
próprio c o r p o , e n q u a n t o a s e x u a l i d a d e pós- lência e m " A dinâmica d a transferência"
pubertária s e f u n d a m e n t a r i a n a e s c o l h a d e ( 1 9 1 2 b ) , passará a c o n s i d e r a r q u e a a m b i v a -
o b j e t o , i s t o é, a p e s s o a a m a d a e d e s e j a d a d e - lência a m o r - ó d i o c a r a c t e r i z a a r e l a ç ã o d e o b j e t o
p o i s q u e o indivíduo a t i n g i u s u a m a t u r i d a d e n o nível pré-genital. E l e i n t r o d u z i g u a l m e n t e
física e p s í q u i c a . u m a o p o s i ç ã o e n t r e , p o r u m l a d o , u m a corrente
C o n t u d o , F r e u d já d e s c r e v e n a p r i m e i r a e d i - terna, característica d a s p u l s õ e s p a r c i a i s i n f a n t i s ,
ção d e Três ensaios u m a relação d e o b j e t o p a r c i a l e , p o r o u t r o , u m a corrente sensual, característica
e u m a relação d e o b j e t o t o t a l . A s s i m , q u a n d o da escolha d eobjeto d apuberdade. Para que
a f i r m a e m 1 9 0 5 q u e "a figura da criança que suga o s e estabeleça a c o r r e n t e s e n s u a l d a e s c o l h a d e
seio de sua mãe tornou-se o modelo de toda relação o b j e t o , é p r e c i s o q u e a criança t e n h a r e n u n c i a d o
amorosa" ( p . 1 6 5 ) e s e r e f e r e a e s t a c o m o s e n d o aos seus p r i m e i r o s objetos incestuosos repre-
"essa relação sexual que é a primeira e a mais impor- s e n t a d o s p o r s e u p a i e s u a mãe,d e v i d o à p r o i -
tante de todas" ( p . 1 6 5 ) , e l e e v o c a u m a relação d e bição d o i n c e s t o , e a s s i m e l a d i r i g e s u a e s c o l h a
objeto parcial, e m q u e o seio m a t e r n o é t o m a d o d e objeto p a r a o u t r a s pessoas. C o n t u d o , essas
p e l o b e b e c o m o o s u b s t i t u t o d e s u a mãe. F r e u d n o v a s e s c o l h a s d e o b j e t o a i n d a são i n f l u e n c i a -
d e s c r e v e i g u a l m e n t e a m a n e i r a c o m o o bebé, das pelas escolhas precoces, de m o d o que per-
d e p o i s d e r e n u n c i a r a o s e i o - relação d e o b j e t o s i s t e u m a semelhança e n t r e o s o b j e t o s d o d e s e -
p a r c i a l , diríamos h o j e - , d e s c o b r e a p e s s o a d a j o e s c o l h i d o s n o período pós-pubertário e a s
mãe e m s u a t o t a l i d a d e : s e g u n d o F r e u d , e s s a p r i m e i r a s e s c o l h a s d e o b j e t o , i s t o é, o s p a i s . E m
p a s s a g e m s e e f e t u a "na época em que se torna pos- o u t r o s t e r m o s , s e g u n d o F r e u d , ninguém e s c a -
sível a criança formar a representação global da pes- p a à influência d a s p r i m e i r a s e s c o l h a s d e o b j e t o
soa a qual pertencia o órgão que lhe dava satisfação" i n c e s t u o s a s d a infância, q u e persistirá d u r a n t e
(p. 165). F r e u d d e s c r e v e a s s i m a p a s s a g e m d e t o d a a existência: "Mesmo quem conseguiu evitar
u m a relação d e o b j e t o p a r c i a l a u m a relação d e a fixação incestuosa da libido não escapa totalmente
o b j e t o t o t a l , n o ç ã o q u e complementará e m s e g u i - à sua influência" ( 1 9 0 5 d , p . 1 7 2 ) . P o s t e r i o r m e n -
d a a o i n t r o d u z i r o c o n c e i t o d e "pulsão p a r c i a l " t e , F r e u d mostrará q u e a reunião d a c o r r e n t e
e m Artigos sobre metapsicologia, e m 1 9 1 5 . terna e d acorrente sensual seinstala quando
do estabelecimento da sexualidade genital, en-
q u a n t o n o s distúrbios n e u r ó t i c o s a s d u a s c o r -
O papel dos afetos na relação de objeto r e n t e s n ã o c h e g a m a s e r e u n i r : "(...) [correntes]
cuja reunião é a única a garantir um comportamen-
S e g u i n d o o s acréscimos s u c e s s i v o s f e i t o s a
to amoroso perfeitamente normal" ( 1 9 1 2 d , p . 5 7 ) .
Três ensaios, c o n t a t a - s e q u e F r e u d a t e n u a a o p o -
sição e n t r e a u t o - e r o t i s m o i n f a n t i l e e s c o l h a d e F i n a l m e n t e , n o q u e d i z respeito a oa m o r d e
o b j e t o pós-pubertária. A s s i m , q u a n d o i n t r o d u z objeto, F r e u d o considera i g u a l m e n t e e m u m a
e m 1 9 1 5 a noção d e f a s e s d a l i b i d o , d e s c r e v e p e r s p e c t i v a d e d e s e n v o l v i m e n t o e, s e g u n d o ele,
para cada u m a delas u m tipo correspondente a criança a p r e n d e a a m a r o u t r a s p e s s o a s c o m
Ler Freud 77

base e m u ma m o r sexual q u esentiu pelas pes- trapõe o a m o r a o ódio, c o m o mostrará e m 1 9 1 5


s o a s q u e c u i d a r a m d e l a a p a r t i r d o período d e e m " P u l s õ e s e d e s t i n o s d a s p u l s õ e s " : "(...) os ter-
latência. P a r a r e s u m i r o c o n j u n t o d o d e s e n v o l - mos amor e ódio não devem ser utilizados para as
v i m e n t o p s i c o s s e x u a l d a criança, a p u l s ã o s e x u a l relações de pulsões com seus objetos, mas reservadas
se i n s t a l a c o mobjetos parciais d e n a t u r e z a e s - para as relações do ego total com os objetos" ( 1 9 1 5 c ,
s e n c i a l m e n t e pré-genital e , d e p o i s d e u m a l e n t a p. 61). M a s F r e u d reconhece q u ea m a t u r i d a d e
e v o l u ç ã o , c h e g a a u m a síntese d e c o r r e n t e s l i b i - sexual descrita nesses termos r a r a m e n t e é atin-
d i n o s a s e a f e t i v a s e m u m a e s c o l h a d eo b j e t o d e gida e,r e a f i r m a n d o o papel decisivo desempe-
a m o r . Q u a n t o à n o ç ã o d e "escolha de objeto", n h a d o pela sexualidade infantil n o futuro nor-
F r e u d r e s e r v a e s s e t e r m o p a r a a relação d e o b j e t o m a l e p a t o l ó g i c o d o i n d i v í d u o , a f i r m a q u e "to-
de a m o r q u e se dirige au m a pessoa sentida c o m o dos os distúrbios patológicos da vida sexual podem
u m a p e s s o a t o t a l , m o d o d e relação e m q u e i n - ser considerados com razão como inibições do desen-
tervém u m o u t r o p a r d e o p o s t o s , a q u e l e q u e c o n - volvimento" (1905d, p . 144).

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS

O complexo d e Édipo: as etapas sucessivas d e u m a descoberta


E m b o r a a n o ç ã o d e c o m p l e x o d e É d i p o a i n d a n ã o a p a r e ç a c o m o tal n a primeira edição d e Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade e m 1905, m a s a p e n a s e m a c r é s c i m o s posteriores, v a m o s descrever s u a s
principais etapas d e s d e esse m o m e n t o . De resto, essa n o ç ã o foi e v o l u i n d o progressivamente a o l o n g o d e
s u a o b r a , e Freud jamais d e d i c o u u m t r a b a l h o c o n j u n t o a o c o m p l e x o d e É d i p o .
O c o m p l e x o d e Édipo é u m a d e s c o b e r t a f r e u d i a n a essencial q u e a p a r e c e durante o d e s e n v o l v i m e n t o d a
c r i a n ç a e constitui o o r g a n i z a d o r central d a v i d a psíquica e m t o r n o d a q u a l s e estrutura a i d e n t i d a d e sexual
d o indivíduo. Para Freud, esse c o m p l e x o é universal, c o m o afirma e m Três ensaios: "Todo ser humano se vê
confrontado com a tarefa de dominar o complexo de Édipo" (1905d, p. 187, nota 2 a c r e s c e n t a d a e m 1920).
A l é m d i s s o , o c o m p l e x o d e É d i p o n ã o diz respeito a p e n a s a o d e s e n v o l v i m e n t o d o indivíduo n o r m a l , m a s
está presente t a m b é m n o cerne d a p s i c o p a t o l o g i a e f o r m a " o complexo nuclear das neuroses".

O c o m p l e x o d e Édipo e m sua f o r m a s i m p l e s (ou p o s i t i v a )


No decorrer d e sua auto-análise, Freud foi levado a reconhecer o amor por sua mãe e a inveja e m relação a s e u
pai q u e sentiu n a infância, e a estabelecer u m a ligação entre esse conflito d e sentimentos e o mito d o Édipo
"Encontrei em mim e em toda parte sentimentos de amor em relação a minha mãe e de inveja em relação a meu
pai, sentimentos que, suponho, são comuns a todas as crianças pequenas (...) sendo assim (...) compreende-se
o efeito incrível de Édipo Rei" (Freud a Fliess, carta d e 15 d e outubro d e 1897). Esse tema foi retomado e m A
interpretação dos sonhos: "O Édipo que mata o pai e casa com a mãe apenas realiza um dos desejos de nossa
infância" (1900a, p. 229 [303]). N o s anos seguintes, Freud referiu-se c o m frequência à noção d e c o m p l e x o d e
Édipo e m seus trabalhos clínicos, c o m o o caso "Dora" e m 1905 o u o d o "pequeno Hans" e m 1909. Mas apenas
e m 1910, e m " U m tipo especial d a escolha d e objeto feita pelos h o m e n s " (191 Oh), é que a noção d e "complexo
de Édipo" aparece pela primeira vez c o m o tal, s e n d o q u e o t e m o "complexo" v e m d e J u n g .
No início, Freud descobre a forma simples d o c o m p l e x o d e Édipo (chamado t a m b é m d e c o m p l e x o d e Édipo
positivo o u direto) e descreve a evolução desse complexo tal c o m o ocorre durante o desenvolvimento psicossexual
d o menino. Este t e m c o m o primeiro objeto d e afeição s u a m ã e q u e ele deseja ter somente para si, m a s entre 3
e 5 a n o s o a m o r q u e o menino sente por pela mãe o leva a rivalizar c o m o pai q u e ele passa a odiar. Teme então
ser castrado pelo pai - ser privado d e seu pênis - por causa d o s desejos incestuosos q u e sente e m relação à
m ã e e d e seu ódio contra ele. S o b o efeito d a angústia desencadeada por essa a m e a ç a d e castração, o m e n i n o
acaba por renunciar à realização d e seus desejos sexuais incestuosos e m relação à m ã e e entra n o período d e
latência.
Freud p e n s a v a o r i g i n a l m e n t e q u e existia u m a simetria c o m p l e t a entre o d e s e n v o l v i m e n t o p s i c o s s e x u a l d o
m e n i n o e o d a m e n i n a e q u e , d o m e s m o m o d o q u e o m e n i n o s e a p a i x o n a v a pela m ã e e o d i a v a o p a i , a

Continua 0
78 J e a n - M i c h e l Quinodoz

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS • Continuação

menina se a p a i x o n a v a p e l o pai e o d i a v a a m ã e . Mais tarde, p o r é m , p e r c e b e u q u e o p e r c u r s o s e g u i d o pela


menina n ã o era o m e s m o q u e o d o m e n i n o .
Em 1913, e m Totem e tabu, Freud p r o c u r a explicar o caráter universal d o c o m p l e x o d e É d i p o e, particular-
mente, o p a p e l estruturante q u e ele d e s e m p e n h a na constituição d a p e r s o n a l i d a d e d e c a d a indivíduo. Ele
tenta r e s p o n d e r a isso l a n ç a n d o a hipótese d o assassinato d o pai d a h o r d a originária p e l o s filhos, desejo-
sos d e c o n q u i s t a r as m u l h e r e s q u e ele possuía. S e g u n d o Freud, esse c r i m e originário seria t r a n s m i t i d o e m
s e g u i d a d e g e r a ç ã o e m g e r a ç ã o via filogênese, e a c u l p a ligada a esse assassinato inicial reapareceria e m
c a d a indivíduo s o b a f o r m a d o c o m p l e x o d e É d i p o .

A forma completa do complexo de Édipo: uma descoberta tardia


Só muitos a n o s mais tarde, e m O ego e o id (1923b), Freud acrescentou à n o ç ã o d e c o m p l e x o d e Édipo
positivo (ou direto) a d e c o m p l e x o d e Édipo negativo (ou invertido), n o ç ã o f u n d a d a na existência d e u m a
constituição bissexual física e psíquica d e t o d o indivíduo d e s d e a infância. E n q u a n t o no c o m p l e x o d e Édipo
positivo o m e n i n o deseja casar c o m a m ã e a matar o pai, no c o m p l e x o d e Édipo negativo o m e n i n o deseja
casar c o m o pai e eliminar a mãe, q u e é vista c o m o rival. A o contrário d a f o r m a positiva d o c o m p l e x o d e
Édipo, e m q u e o m e n i n o se identifica c o m seu rival e q u e ser "como" seu pai, na f o r m a negativa o u invertida
d o c o m p l e x o , o m e n i n o deseja "ser" sua m ã e por via d e u m a regressão à identificação, q u e constitui, s e g u n -
d o Freud, a f o r m a mais p r e c o c e d e a m o r pelo objeto. Os desejos passivos femininos q u e o m e n i n o sente e m
relação a seu pai levam-no a renunciar aos seus desejos heterossexuais e m relação à s u a m ã e , c o m o t a m -
b é m ao desejo d e identificação masculina c o m o rival paterno, c o m o Freud ilustra e m s e u e s t u d o sobre "O
caso Schreber" e m 1 9 1 1 , o u n o c a s o d o " H o m e m d o s l o b o s " e m 1918. Para Freud, as d u a s formas d o
c o m p l e x o d e É d i p o coexistem no p s i q u i s m o d e t o d o indivíduo, d e f o r m a q u e o c o m p l e x o d e É d i p o completo
implica a g o r a q u a t r o pessoas: d e u m lado, o pai e a mãe, d e outro, a disposição a o m e s m o t e m p o masculina
e feminina d a criança (menino o u menina), f u n d a d a na "bissexualidade psíquica" própria a t o d o ser h u m a n o .
A p r o p o r ç ã o entre essas d u a s tendências varia, e a identidade sexual d e u m indivíduo resulta d a prevalência
de u m a s o b r e a outra, s e n d o q u e o desenvolvimento psicossexual dito normal é o resultado d e u m a predomi-
nância d o c o m p l e x o d e É d i p o positivo sobre o c o m p l e x o d e Édipo negativo.
E m 1923, e m "A o r g a n i z a ç ã o genital infantil" (1923e), Freud a c r e s c e n t a u m a q u a r t a fase pré-genital, a "fase
fálica", q u e v e m se s o m a r às fases oral, anal e genital q u e introduzira e m 1915 e m u m a revisão d e Três
ensaios. A partir d e e n t ã o , ele p a s s a a considerar q u e o d e s e n v o l v i m e n t o psicossexual d a c r i a n ç a se centra
e s s e n c i a l m e n t e n o p r i m a d o d o pênis c o m o z o n a e r ó g e n a d e t e r m i n a n t e e n o c o m p l e x o d e É d i p o n o nível
d e relações d e o b j e t o . Ele esclarece t a m b é m q u e essa c o n t r i b u i ç ã o d o c o m p l e x o d e É d i p o atinge seu
ápice entre 3 e 5 a n o s , isto é, na fase fálica, a o m e s m o t e m p o e m q u e os d e s e j o s sexuais p e l o progenitor
d o sexo o p o s t o s ã o m a i s fortes e a angústia d e castração é mais intensa.
Em 1924, e m seu artigo "A dissolução d o c o m p l e x o d e Édipo" (1924d), Freud descreve a maneira c o m o
complexo d e Édipo "se dissolve" o u "desaparece". Mas, ao contrário d o q u e leva a crer o título d e sua contribui-
ção, o q u e se dissolve é o conflito edipiano tal c o m o se observa e m t o d a a sua acuidade na criança entre 3 e 5
anos. Porém, a situação edipiana propriamente dita subsiste no inconsciente tal c o m o se constituiu, c o m o
organizador central d a vida psíquica d o indivíduo, perdendo, poderíamos dizer, o caráter patogênico ligado à
noção de " c o m p l e x o "
E m 1925, F r e u d r e t o m a a d e s c r i ç ã o d o d e s e n v o l v i m e n t o sexual d a m e n i n a e m u m artigo intitulado "Algu-
m a s c o n s e q u ê n c i a s psíquicas d a distinção a n a t ó m i c a entre os s e x o s " (1925j). N e s s e m e i o t e m p o , ele
constatara q u e se o m e n i n o e a m e n i n a t ê m o m e s m o o b j e t o n o início d a vida, isto é, a m ã e , posteriormente
o d e s e n v o l v i m e n t o d a m e n i n a se diferenciará d o d e s e n v o l v i m e n t o d o m e n i n o ; na v e r d a d e , ela é levada a
m u d a r d e o b j e t o e passar d o a m o r pela m ã e ao a m o r pelo pai. C o n t u d o , c o m o v e r e m o s mais adiante a
p r o p ó s i t o d e suas c o n c e p ç õ e s s o b r e a feminilidade, Freud c o n t i n u a r á s u s t e n t a n d o q u e o d e s e n v o l v i m e n t o
psicossexual d a m e n i n a se faz s o b o d o m í n i o d a inveja d o pênis q u e a criança d e s e j o s a d o pai t o m a c o m o
substituto. Freud p e r m a n e c e r á s e m p r e fiel à s u a teoria c o n h e c i d a pelo n o m e d e " m o n i s m o fálico", q u e
p o d e m o s c o n s i d e r a r c o m o u m resto d e ligação a u m a teoria sexual infantil. Finalmente, e m u m artigo
intitulado " S e x u a l i d a d e f e m i n i n a " (1931b), ele c o n f i r m a r á a i m p o r t â n c i a q u e atribui à ligação p r e c o c e d a
m e n i n a à s u a m ã e e à dificuldade q u e d e c o r r e para a m e n i n a d e m u d a r d e o b j e t o , isto é, d e passar d a m ã e
para o pai d u r a n t e seu d e s e n v o l v i m e n t o psicossexual.
Ler Freud 79

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

r ^
A m n é s i a infantil - auto-e rot s m o - bissexualidade - escolha de objeto - c o m p l e x o de Édipo - desenvolvimento
psicossexual (do menin >, d a menina) - apoio - objeto - objeto total, objeto parcial - perversões - predisposição
perversa polimorfa - pL Isã o - fase d o desenvolvimento: oral, anal, fálica, genital - teorias sexuais infantis -
z o n a erógena
/ rol & ftGW
"FRAGMENTO DA ANALISE
DE UM CASO DE HISTERIA (DORA)"
S . FREUD (1905e)

A descoberta da transferência

O r e l a t o d a c u r a jéicas^ticã^cte^poía t e m deroso auxiliar sempre que se consegue desvendá-la e


u m interesse particular, p o r q u e nele F r e u d Res- traduzir seu sentido para o doente" ( 1 9 0 5 e , p . 8 8 ) .
c r e v e a d e s c o b e r t a d a transferência. Q u a n ) l o C o n t u d o , F r e u d não p a r o u p o r a l i c o m D o r a , e
D o r a c o m e ç o u s u a c u r a , F r e u d p e n s o u t e r erjjeòn- 20 anos mais tarde d e u u m retoque importante
t r a d o n e s s a pacienteVsQnfinnação ç j g ^ g r t o d e n o q u a d r o d e transferência esboçado e m 1 9 0 5 ,
s u a s i d e i a s s o b r e a o r i g e m s e x u a l d o s fenóme- q u a n d o p e r c e b e u q u e a interrupção d e s s a c u r a
n o s histéricos e s o b r e o p a p e l d e s e m p e n h a d o n ã o s e d e v i a u n i c a m e n t e à transferência p a t e r -
p e l o s s o n h o s n a representação d o s s i n t o m a s : f o i n a d e D o r a , m a s t a m b é m à transferência m a t e r -
u m c h o q u e q u a n d o ele assistiu i m p o t e n t e a o n a , i s t o é, à persistência d e u m a f o r t e atração
abandono p r e m a t u r o d eD o r a , depois d e ape- h o m o s s e x u a l d a moça p o r s u a mãe.
nas 11 semanas d e tratamento. M a s Freud teve S e F r e u d r e a l m e n t e d e s c o b r i u a transferên-
a intuição d e t i r a r p a r t i d o d e s s e f r a c a s s o cia e m 1905 c o m D o r a , o d e s e n v o l v i m e n t o des-
terapêutico a o p e r c e b e r d e i m e d i a t o q u e u m a s a i d e i a s e e s t e n d e u p o r v á r i a s décadas a o l o n -
resistência l i g a d a à transferência s e m a n i f e s t a r a go d esua obra. Finalmente, destacamos que a
i n v o l u n t a r i a m e n t e . E m v e z d ep a r a r n i s s o , noção d e c o n t r a t r a n s f e r e n c i a , m e n c i o n a d a a p e -
F r e u d c o n c l u i u q u e , se tivesse i d e n t i f i c a d o a t e m - nas duas vezes p o r Freud, foi objeto de relevan-
p o e s s e obstáculo, p o d e r i a tê-lo i n t e r p r e t a d o e , t e s t r a b a r h o s d e p s i c a n a l i s t a s , pós-freudianos,
s e m dúvida, e v i t a d o q u e a p a c i e n t e i n t e r r o m - q u e a b r i r a m rirjva^ p e r s p e c t i v a s a c e r c a d o s l a -
p e s s e a análise: "A transferencia, destinada a ser o ços indissociáveis q u e u n e m transferência e
maior obstáculo à psicanálise, torna-se seu mais po- contratransferencia.

0 B I O G R A F I A S E HIS T Ó R I A

A genialidade de ter tirado proveito de u m fracasso terapêutico


E m 1 9 0 0 , F r e u d a c a b a r a d e publicar A interpretação dos sonhos e m e r g u l h a v a n a r e d a ç ã o d e Sobre a
psicopatologia da vida cotidiana q u a n d o D o r a , u m a m o ç a d e 18 a n o s - c u j o v e r d a d e i r o n o m e e r a I d a
Bauer - , v e i o c o n s u l t á - l o e n v i a d a p o r s e u p a i . Freud c o m e ç o u s e u t r a t a m e n t o n o m ê s d e o u t u b r o d e
1900, m a s D o r a i n t e r r o m p e u - o b r u s c a m e n t e a p e n a s três m e s e s d e p o i s d e iniciá-lo. N o início Freud f i c o u
m u i t o d e c e p c i o n a d o , m a s s u p e r o u s u a p r i m e i r a r e a ç ã o e n a s e q u ê n c i a redigiu e m d u a s s e m a n a s e s s a
primeira observação sobre a transferência.
Ele e s c r e v e u a Fliess q u e essa breve c u r a foi para ele a o p o r t u n i d a d e d e d u a s d e s c o b e r t a s : a primeira se
referia à i m p o r t â n c i a d o p a p e l d e s e m p e n h a d o pelas z o n a s e r ó g e n a s , particularmente a z o n a oral, n a ori-
g e m d a t o s s e nervosa d e Dora (erotização d a z o n a b u c a l ) ; a s e g u n d a se referia a o papel d e s e m p e n h a d o
pela b i s s e x u a l i d a d e psíquica n o conflito d e Dora, dividida entre a atração pelos h o m e n s e a atração pelas
m u l h e r e s . Foi a primeira vez q u e Freud a p l i c o u n a clínica a n o ç ã o d e bissexualidade q u e devia a Fliess. J á

Continua 0
82 J e a n - M i c h e l Quinodoz

BIOGRAFIAS E HISTORIA • Continuação

no q u e diz respeito à i n t e r r u p ç ã o d a cura, Freud c o n f e s s o u a o s e u a m i g o q u e n ã o c o n s e g u i u controlar a


transferência p o r q u e n ã o foi c a p a z d e percebê-la a t e m p o e d e interpretá-la. M a s as c o n s e q u ê n c i a s q u e
s o u b e tirar d e s s e f r a c a s s o fizeram d e s s a o b s e r v a ç ã o magistral u m d e s e u s principais escritos s o b r e a
transferência. Por m o t i v o s d e c o n f i d e n c i a l i d a d e , Freud retardou s u a p u b l i c a ç ã o até 1 9 0 5 , m a s m e s m o
assim s e u s detratores lhe fizeram d u r a s críticas p o r tê-la t o r n a d o p ú b l i c a s e m a autorização d e paciente.
O q u e a c o n t e c e u c o m D o r a n o s a n o s s u b s e q u e n t e s ? E m 1903, ela se c a s o u c o m Ernest Adler, c o m q u e m
teve u m filho, Kurt Herbert, q u e s e t o r n o u diretor d a c o m p a n h i a d a Ó p e r a d e S a n Francisco. E m 1923, Dora
foi vítima d e crises d e a n g ú s t i a e d e s e n t i m e n t o s d e p e r s e g u i ç ã o e m relação a o s h o m e n s , q u e a levou a
consultar o psicanalista Félix D e u t s c h , q u e r e c o n h e c e u nela a paciente d e F r e u d . D e p o i s d i s s o , ela viveu
e m Viena até o final d o s a n o s d e 1930 e t o r n o u - s e g r a n d e a m i g a d e P e p p i n a - aliás, "Frau K." q u e a p a r e c e
e m 1905 n o c a s o Dora! I m p o r t u n a d a pelos nazistas q u e estavam à c a ç a d e s e u irmão, u m político c o n h e -
c i d o p o r s u a s ideias marxistas e ex-primeiro ministro d a Áustria, Dora e m i g r o u p a r a o s E s t a d o s U n i d o s .
Morreu e m N o v a York, e m 1945. y ^

DESCOBERTA DA OBRA
As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1905e), " F r a g m e n t d ' u n e a n a l y s e d ' h y s t é r i e
(Dora)", t r a d . M. B o n a p a r t e e R. L o e w e n s t e i n , in Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 1 9 5 4 , p. 1-91.

De uma tentativa de sedução real... r a m a i s c e d o d a c i d a d e turística, s e m revelar o


verdadeiro m o t i v o de sua fuga. V e n d o q u e ela
Dora veio consultar Freud depois que seu
p a d e c i a c a d a v e z m a i s d e distúrbios nervosos
pai teve u m caso c o m F r a u K .A intriga teve
e d e depressão, a p o n t o d e ameaçar suicidar-
c o m o c e n á r i o M e r a n o , c i d a d e turística o n d e s e
s e , s u a família e n c a m i n h o u - a a u m a consulta
e n c o n t r a r a m dois casais vienenses pertencen-
com Freud.
t e s a o m e i o burguês: o c a s a l P h i l i p e K a t h e r i n a ,
pais de D o r a , eocasal H a n s ePeppina Zellenka,
aliás H e r r K . e F r a u K . ( " K " p o r c a u s a d e ... à fantasia inconsciente de sedução
Zellenka). Para resumir, recordamos que o pai na transferência
de D o r a teve u m caso c o m F r a u K., e seu mari-
do, furioso p o r ter sido enganado, passou a A e x p o s i ç ã o d a s sessões c o m D o r a r e f l e t e o
cortejar D o r a , filha de seu rival. M a s ela estava interesse de F r e u d p o r u m relato que c o n f i r m e
secretamente a p a i x o n a d a p o r H e r r K., pois ele s u a s hipóteses t a n t o s o b r e a o r i g e m s e x u a l d o s
lhe lembrava seu pai. U m dia, aproximando- s i n t o m a s histéricos q u a n t o s o b r e o p a p e l d o
s e d e D o r a d e s u r p r e s a , H e r r K . abraçou-a e sonho c o m o revelador de conflitos inconscien-
beijou-a n a b o c a . C h o c a d a , ela l h e d eu m t a p a t e s . C o m u m e n t u s i a s m o indisfarçável, F r e u d
e o repeliu. D u r a n t e o t r a t a m e n t o , ela confes- s e lança à análise d e t a l h a d a d e u m a p r o b l e m á -
s o u a F r e u d q u e s e n t i u u m a nítida excitação t i c a neurótica d e D o r a e r e l a c i o n a a s i n t e r p r e -
sexual n ocontato c o m H e r r K .por causa d a tações q u e l h e são t r a n s m i t i d a s s i m u l t a n e a -
"pressão do membro ereto contra ela" ( 1 9 0 5 e , p . mente. D e t e r m i n a d o a convencer sua paciente
19), o q u e a d e i x o u c o n f u s a e e n v e r g o n h a d a . A d a coerência d e s u a s d e d u ç õ e s , F r e u d c o n v e r -
partir desse incidente, D o r a passou a sentir re- s a c o m D o r a c o m u m a segurança c o m o n u n c a
pulsa e h o r r o r pelos h o m e n s , sinais que F r e u d se t i n h a v i s t o a n t e s , s o b r e t u d o s e c o m p a r a m o s
c o n s i d e r o u c o m o s i n t o m a s histéricos c a r a c t e - c o m o t o m c h e i o d e hesitação e d e p r u d ê n c i a
rísticos. P o u c o d e p o i s d o i n c i d e n t e c o m H e r r a d o t a d o e m Estudos sobre a histeria, e m 1 8 9 5 .
K., D o r a t e n t o u seabrir c o m seu pai, m a s este e N a é p o c a d a c u r a d e D o r a , a s interpretações
H e r r K . a a c u s a r a m i n j u s t a m e n t e d eter i n v e n - de F r e u d v i s a v a m essencialmente a reconstruir
t a d o e s s a t e n t a t i v a d e sedução. D o r a f o i e m b o - a cadeia de acontecimentos que t i n h a m levado
Ler Freud 83

ao aparecimento dos sintomas, baseando-se nas t i d o e m s e u i n c o n s c i e n t e não a p e n a s emoções


associações, n o s s o n h o s e n a s lembranças d e a m o r o s a s e eróticas p e r t u r b a d o r a s e m r e l a ç ã o
infância f o r n e c i d a s p e l a p a c i e n t e . F r e u d p r o - a Freud, parecidas c o m asque sentira e m rela-
cede da m e s m a maneira c o m Dora quando, por ção a H e r r K . , m a s também u m d e s e j o d e s e
exemplo, analisa seu p r i m e i r o sonho e m que v i n g a r d es e u sedutor.
e l a f o g e d a c a s a q u e está s e n d o destruída p o r
u m incêndio. F r e u d r e v e l a à p a c i e n t e o s d i v e r -
sos aspectos inconscientes d esuas fantasias, A transferência: deslocamento de uma
tanto a fuga de D o r a para seu pai q u a n d o sen- figura do passado para o psicanalista
te m e d o d o h o m e m q u e a s e d u z q u a n t o a
F o i a s s i m q u e a força d a transferência s e r e -
atração d e l a p o r s e u p a i q u a n d o o s o n h o r e v e -
v e l o u a F r e u d , transferência q u e p o d e m o s d e -
la seu desejo inconsciente de substituir o sedu-
finir c o m o u m d r a m a que serepresenta d u r a n -
t o r p o r ele. P r o c e d e n d o a s s i m , p a s s o a p a s s o ,
te o t r a t a m e n t o c o m u m a f i g u r a i m p o r t a n t e d o
F r e u d procura tornar conscientes as cadeias
passado que é projetada n o presente na pessoa
i n c o n s c i e n t e s q u e s u b e n t e n d e m a formação d o s
d o p s i c a n a l i s t a . N o c a s o d e D o r a , não h a v i a a p e -
sintomas. M a s , m e r g u l h a d o na busca das l e m -
nas u m a figura do passado transferida a Freud,
branças d e D o r a n a s u a reconstrução, e l e n ã o
p o i s e s t e não r e p r e s e n t a v a s o m e n t e H e r r K . ,
p e r c e b e u a s resistências subterrâneas q u e s u a s
mas igualmente a figura d eu m sedutor mais
"explicações" despertavam e msua paciente.
a n t i g o , o p a i d e D o r a , p o r s u a v e z substituído
Então s e d e u c o n t a d e q u e não b a s t a v a c o m u -
por H e r r K. Dessa maneira, n o transcorrer d a
n i c a r a D o r a representações reconstruídas, m a s
análise, u m a c o n t e c i m e n t o r e a l r e c e n t e d a v i d a
era preciso comunicar i g u a l m e n t e afetos v i v i -
de D o r a remeteu-a u m passado anterior a oi n -
d o s n a relação p r e s e n t e c o m e l e .
c i d e n t e , i s t o é, à f a n t a s i a d e t e r s i d o s e d u z i d a
Assim, foi c o m a maior surpresa que Freud
p o r s e u p a i , q u e r e m o n t a v a à infância. E s s e
v i u D o r a i n t e r r o m p e r a s sessões d e p o i s d e a p e -
a c o n t e c i m e n t o l i g a d o à situação e d i p i a n a n a
n a s três m e s e s d e t r a t a m e n t o . U t i l i z a n d o a s
infância d e D o r a t e v e u m a i m p o r t â n c i a i n f i n i -
anotações q u e t i n h a g u a r d a d o , e l e começa a
t a m e n t e m a i o r n a organização d e s e u p s i q u i s -
escrever o relato dessa cura, e encontra n o m a -
m o d o que o incidente real c o m H e r r K.
t e r i a l clínico d a s sessões vários p r e n ú n c i o s d a
interrupção. P o r e x e m p l o , a p a r t i r d o c h e i r o d e
fumaça q u e a p a r e c e u r i o s s o n h o s d e D o r a , e l e Um retoque tardio: a transferência
p e r c e b e u q u e o p a i d e D o r a , H e r r K . e e l e pró- homossexual de Dora
p r i o e r a m três f u m a n t e s i n v e t e r a d o s , e t i r a a
s e g u i n t e c o n c l u s ã o , r e l a c i o n a n d o - a a posteriori Q u a n d o p u b l i c a esse caso e m1905, F r e u d
à transferência q u e l h e e s c a p a r a : "Se eu reunir a t r i b u i a resistência d e D o r a à s u a ligação a m o -
ao final todos os sinais que tornam provável uma r o s a e a o s s e u s d e s e j o s s e x u a i s e m relação a o s
transferência sobre mim, dado que também sou fu- h o m e n s representados por H e r r K., por seu pai
mante, chego a pensar que um dia, durante a sessão, e p o r e l e próprio. N e s s a época, F r e u d i d e n t i f i c a
sem dúvida ela pode ter desejado que eu a beijasse" u n i c a m e n t e a dimensão h e t e r o s s e x u a l d a t r a n s -
(p. 54). D o m e s m o m o d o , F r e u d ser e p r o v a p o r ferência e i m a g i n a q u e D o r a só c o n s e g u e v e r n e l e
n ã o t e r c o n s e g u i d o i n t e r p r e t a r e s s a transferên- u m h o m e m , i s t o é, u m s u b s t i t u t o d e H e r r K . o u
c i a a t e m p o : "Quando ocorreu o primeiro sonho, d e s e u p a i : "No início, e s c r e v e F r e u d , parecia cla-
em que ela me prevenia que desejava abandonar o ramente que eu substituía seu pai no imaginário dela
tratamento, como outrora abandonara a casa de Herr (...)" (p. 88). E n t r e t a n t o , e m u m a n o t a acrescen-
K., eu deveria ficar alerta e lhe dizer: 'Você está fa- tada e m 1923, m a i s d e 20 a n o s d e p o i s d o f i m d o
zendo um transferência de Herr K. a mim. Por aca- tratamento, Freud reconhece que m i n i m i z o u a
so notou qualquer coisa que a fizesse pensar que haja força d a ligação h o m o s s e x u a l d e Dora a Frau
de minha parte más intenções semelhantes às de Herr K . : "Eu falhei ao não descobrir a tempo e comunicar à
K (...)?'" ( p . 8 8 - 8 9 ) . É c o m o s e D o r a t i v e s s e s e n - doente que seu amor homossexual (ginecófilo) por
84 Jean-Michel Q u i n o d o z

Frau K. (...) era sua tendência psíquica inconsciente d a mãe d e D o r a . A s s i m , p a r e c e q u e F r e u d a i n -


mais forte"; e F r e u d c o n c l u i a s s i m s u a n o t a : "Até d a não s e d e u c o n t a v e r d a d e i r a m e n t e d e q u e
que reconhecesse a importância das tendências ho- u m a n a l i s t a , q u a l q u e r q u eseja s e us e x o , pode
mossexuais nos neuróticos, eu fracassava nos trata- representar u m p e r s o n a g e m m a s c u l i n o o u fe-
mentos ou ficava completamente confuso" ( p . 9 0 , n o t a m i n i n o n a transferência. P o r e x e m p l o , u m
1 acrescentada e m 1923). analista h o m e m pode desempenhar o papel
Para concluir, é interessante destacar que, t r a n s f e r e n c i a l d eu m a m u l h e r o ud eu m h o -
n o t r a t a m e n t o d eD o r a , F r e u d estava envol- m e m e , d o m e s m o m o d o , u m aa n a l i s t a m u -
vido apenas c o m o h o m e m e m1905, c o m o lher pode representar u m h o m e m o u u m a
s u b s t i t u t o d eH e r r K .e d o p a id a paciente. m u l h e r e md i f e r e n t e s m o m e n t o s d a t r a n s f e -
M a s , q u a n d o e ms u a d e n s a n o t a d e1 9 2 3 e l e rência. E s s a a i n d a é u m a d i m e n s ã o d a r e l a -
e x p l i c i t a a ligação d e D o r a a F r a u K . , e l e não ção d e transferência e d e c o n t r a t r a n s f e r e n c i a
e n v o l v e a s i próprio c o m o f i g u r a f e m i n i n a d e difícil d e c o m p r e e n d e r p a r a u m j o v e m psica-
transferência, c o m o s u b s t i t u t o d e F r a u K . o u nalista.

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS

A transferência n o s escritos sucessivos d e Freud


Assim c o m o a n o ç ã o d e c o m p l e x o d e Édipo, a n o ç ã o d e transferência apareceu por etapas n a o b r a d e Freud,
ao longo d e vários d e c é n i o s . A s s i m , ela j á está presente e m 1895, e m Estudos sobre a histeria, m a s é a partir
d a o b s e r v a ç ã o d e Dora, e m 1905, q u e a transferência a s s u m e seu verdadeiro significado a o s o l h o s d e Freud.
E m s e g u i d a , ele c o m p l e m e n t a r á suas ideias e m vários artigos curtos d e d i c a d o s a diversos a s p e c t o s d a
transferência. P r o p o n h o fazer u m breve a c o m p a n h a m e n t o d e suas g r a n d e s etapas c r o n o l ó g i c a s .

O c a s o Anna O. e a suposta fuga de Breuer


A transferência, s e m dúvida, t e m seu mito d e origem na maneira c o m o Freud reportou, alguns anos mais tarde,
as condições e m q u e Breuer teria finalizado o tratamento d e A n n a O., e m 1881. De fato, c o m base nos relatos d e
Freud, acreditou-se por muito t e m p o q u e Breuer desistiu bruscamente d o tratamento p o r q u e ela se apaixonou
por ele; s e g u n d o Freud, Breuer teria fugido e m face d o caráter sexual d a transferência d e A n n a O.: "Apavorado,
como qualquer médico não-psicanalista teria ficado em um caso como esse, ele fugiu, abandonando sua paciente
a um colega" (Freud a Stefan Zweig, carta d e 2 d e junho d e 1 9 3 2 , 1 9 8 7 c [1908-1938]). De a c o r d o c o m pesqui-
sas históricas recentes, parece q u e a suposta fuga d e Breuer, tal c o m o é relatada por Freud, s e reporta menos
a fatos reais d o q u e a lembranças q u e ele retocou posteriormente ligadas às relações conflituosas q u e teve c o m
seu colega d a primeira hora a propósito d o papel d a sexualidade na histeria.
A o utilizar pela primeira vez o t e r m o transferência e m 1895, e m Estudos sobre a histeria, ele a c o n s i d e r a c o m o
u m a f o r m a d e resistência entre outras, s e m lhe dar ainda a importância q u e lhe atribuirá mais tarde. Trata-se
então, para ele, d e u m f e n ó m e n o limitado q u e i m p e d e o estabelecimento d a relação d e c o n f i a n ç a necessária
ao b o m desenrolar d o tratamento. C o m o exemplo, ele m e n c i o n a as m á g o a s q u e o paciente p o s s a sentir
involuntariamente e m relação a o m é d i c o o u a ligação excessiva a ele. A c o n s e l h a a trazer à t o n a o s motivos
inconscientes d e s s a s resistências para q u e o paciente possa superá-los, d o m e s m o m o d o q u e s e procede
com qualquer sintoma.

A transferência descoberta após o abandono de Dora


A n o ç ã o d e t r a n s f e r ê n c i a a p a r e c e n o pleno sentido d o t e r m o c o m o c a s o d e Dora, e m 1905, q u a n d o Freud
p e r c e b e q u e a paciente i n t e r r o m p e u s e u t r a t a m e n t o e m razão d e s e n t i m e n t o s a m o r o s o s e eróticos q u e
reportava i n c o n s c i e n t e m e n t e a ele. Ele define então a transferência c o m o u m d e s l o c a m e n t o para a p e s s o a
d o analista d e s e n t i m e n t o s , d e s e j o s , fantasias o u m e s m o d e cenários inteiros q u e s ã o a r e p r o d u ç ã o d e
experiências j á vividas a n t e r i o r m e n t e c o m p e s s o a s i m p o r t a n t e s d o p a s s a d o , e m particular d a infância.
Mas, e m b o r a Freud t e n h a p e r c e b i d o a posterior q u e a transferência teve u m papel decisivo n a ruptura c o m
Dora, ele n ã o a c o n s i d e r a v a a i n d a c o m o o v e r d a d e i r o m o t o r d a d i n â m i c a d o p r o c e s s o psicanalítico. Eis
c o m o ele a define então: " O que são essas transferências? São edições, cópias de tendências e de fanta-

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Ler Freud 85

0 Continuação

sias que devem ser despertadas e tornadas conscientes pelos progressos da análise, e cujo traço caracte-
rístico é substituir uma pessoa que se conheceu antes pela pessoa do médico. Em outras palavras, um
número considerável de estados psíquicos anteriores é revivido não como estados passados, mas como
relações atuais com a pessoa do médico" (p. 87). Freud a c r e s c e n t a a l g u n s e s c l a r e c i m e n t o s q u a n t o à
natureza d a transferência, d e c l a r a n d o q u e "não se pode evitar a transferência" e q u e esta "deve ser desco-
berta sem o concurso do doente" (p. 87).

Ele se dirige a Freud emendo: "Meu capitão!"


E m "Notas sobre u m caso d e neurose obsessiva (O h o m e m d o s ratos)" (1909d), Freud d á u m belo e x e m p l o
d e u m d e s l o c a m e n t o transferencial para sua p e s s o a e d o caráter estereotipado d a transferência: as o b s e s -
sões d e s s e paciente - c o n h e c i d o pelo n o m e d e " H o m e m d o s Ratos" - t i n h a m c o m e ç a d o no exército, no dia
e m q u e ouviu u m capitão descrever c o m deleite u m suplício chinês e m q u e ratos penetravam no ânus d e u m
supliciado. Depois de ter ouvido o relato d e seu paciente, Freud tentou lhe explicar detalhadamente j á na
s e g u n d a sessão q u e seus sintomas t i n h a m u m a o r i g e m sexual, q u a n d o ouviu o " H o m e m d o s Ratos" dirigir-
se a ele várias vezes c h a m a n d o - o d e "Meu capitão!".

Projeçóes no psicanalkta de figuras do passado infantil


í â m i c a d a transferência" (1912b), primeiro artigo d e d i c a d o inteiramente à transferência, Freud adota o
"termo "imago" - n o ç ^ o proposta por J u n g - para designar as figuras interiores d o passado q u e são objeto d e
deslocamentos para a pessoa d o analista. Freud leva e m conta igualmente o papel d o s afetos transferenciais d e
a m o r e d e ódio evidenciados por Ferenczi e m 1909, depois d e observar q u e os pacientes tendiam a colocar o
m é d i c o no p a p e l d a s figuras parentais ao m e s m o t e m p o a m a d a s e temidas. Portanto, não basta falar simples-
óejliransferência", esclarece Freud, mas o psicanalista deve considerar t a m b é m as qualidades afetivas
inerentes à transferência; por isso, ele passa a distinguir u m a transferência "positiva", d o m i n a d a por sentimen-
tos ternos, e u m a transferência "negativa", d o m i n a d a por sentimentos hostis. S e g u n d o ele, os sentimentos
ternos ligados à transferência positiva t ê m u m fundamento erótico, e m parte consciente e e m parte inconscien-
te, pois as primeiras relações d a infância s e m p r e se estabelecem c o m objetos sexuais. Consequentemente, a
transferência para o analista tem sempre u m d u p l o c o m p o n e n t e , positivo e q e g a t i v o , e q u a n d o é a c o m p a n h a d a
d e sentimentos hostis o u d e elementos eróticos reprimidoé, a transferência se transforma em resistência. Essa
d u p l a corrente d e afetos leva Freud a adotar a noção d e ambivalência introduzida por Bleuler e m 1 9 1 1 . Ele
esclarece q u e a ambivalência, evidentemente, p o d e ter itai caráter normal, m&s q u a n d o é excessiva, e m parti-
cular na psicose, p o d e induzir no paciente u m a transfereagia negatjya,,£tfi -elação ao analista suscetível d e
impedir o êxito d o tratamento.

Transferência e repetição
E m "Recordar, repetir e elaborar" (1914g), Freud vai a i n d a mais l o n g e . Ele enfatiza a d i m e n s ã o d e repeti-
ç ã o d a transferência e constata q u e q u a n t o maior a resistência, mais o paciente t e n d e a repetir s u a p r o b l e -
m á t i c a através d e m a n o b r a s , e m vez d e se lembrar; "Vejamos um exemplo: o analisado não diz que se
recorda de ter sido insolente e insubmisso em relação â autoridade parental, mas se comporta dessa manei-
ra em relação ao analista. (...). Ele não se lembra mais de ter sentido uma enorme vergonha de certas
atividades sexuais e de ter ficado com medo que fossem descobertas, mas mostra que tem vergonha do
tratamento a que é submetido e faz de tudo para mantê-lo em segredo, e assim por diante" (p. 109). N e s s e
artigo, Freud c o n s e g u e explicar m e l h o r d o q u e antes o q u e diferencia "as transferências" que encontramos
nas relações d a v i d a cotidiana, particularmente na v i d a a m o r o s a , e "a transferência" p r o p r i a m e n t e dita q u e
a p a r e c e n a c u r a psicanalítica e m relação à p e s s o a d o analista: ele c h a m a esse último t i p o d e transferência
d e "neurose de transferência" e a d e s c r e v e c o m o u m a " d o e n ç a artificial" q u e se d e s e n v o l v e n a situação
analítica. O setting psicanalítico tal c o m o p r e c o n i z a oferece, s e g u n d o ele, as c o n d i ç õ e s d e s e g u r a n ç a q u e
p e r m i t e m a o p a c i e n t e dar livre c u r s o às suas fantasias transferenciais, d a s quais p o d e r á ser c u r a d o pelo
trabalho t e r a p ê u t i c o : "É no manejo da transferência que se encontra o principal meio de conter o automatismo
de repetição e de transformá-lo em uma razão de se lembrar" (p. 113).

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86 J e a n - M i c h e l Quinodoz

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS • Continuação

O amor de transferência: uma forma obstinada de resistência


Em u m outro escrito t é c n i c o , "Observações s o b r e o a m o r transferencial" (1915a [1914]), Freud se indaga
sobre a atitude a adotar q u a n d o u m a paciente se apaixona pelo analista. Interromper o t r a t a m e n t o não seria
u m a s o l u ç ã o , pois, s e g u n d o ele, por se tratar d e u m f e n ó m e n o transferencial, ele tenderia a se reproduzir
inevitavelmente c o m o p r ó x i m o terapeuta, e assim por diante, e m razão d o f e n ó m e n o d e repetição. E o
m é d i c o t a m b é m n ã o p o d e r i a considerar esse a m o r c o m o u m a m o r verdadeiro, e explica: "No que se refere à
análise, satisfazer a necessidade de amor da doente é tão desastroso e temerário quanto sufocá-lo" (1915a p.
124). E m u m a s i t u a ç ã o c o m o essa, Freud alerta o terapeuta para q u e d e s c o n f i e d e u m a possível
"contratransferencia" (p. 118). E m outros t e r m o s , o a m o r d a paciente por seu terapeuta é a expressão d e u m a
resistência q u e se o p õ e ao desenvolvimento d a transferência, e por isso é importante reconduzi-la às suas
origens inconscientes. S e g u n d o Freud, esse estado a m o r o s o n a d a mais é d o q u e u m a reedição d e certas
situações p a s s a d a s e d e reações infantis q u e d e t e r m i n a m seu caráter c o m p u l s i v o e p a t o g ê n i c o , e fazem dele
u m a fonte d e resistências q u e é preciso analisar. Q u a n d o o analista se vê diante d o a m o r d e transferência, é
importante q u e a d o t e u m a atitude feita d e reserva e d e abstinência: "(...) o analista está proibido de ceder.
Qualquer que seja o valor que atribua ao amor, ele deve tentar mais ainda aproveitar a oportunidade que se
oferece para ajudar sua paciente a atravessar uma das fases mais decisivas de sua vida" (p. 129). A p e n a s
nessas c o n d i ç õ e s , c o n c l u i Freud, o analista possibilitará à paciente "adquirir essa maior liberdade interior que
distingue a atividade psíquica consciente (...) da atividade inconsciente" (p. 129).

Transferência, compulsão de repetição e pulsão de morte


Em 1920, e m Além do princípio do prazer, Freud constata e m alguns pacientes q u e a transferência conserva
u m caráter repetitivo insuperável e q u e , e m vez d e progredir, eles c o n t i n u a m a repetir s e u s fracassos o u seus
sintomas, por n ã o r e m e m o r a r e elaborar. O b s e r v a n d o q u e o c o m p o r t a m e n t o desses pacientes está e m c o n -
tradição c o m a primeira teoria d a s pulsões, s e g u n d o a qual o p s i q u i s m o h u m a n o t e m c o m o objetivo essencial-
mente a b u s c a d o prazer e a evitação d o desprazer, Freud p õ e e m q u e s t ã o s u a teoria. E lança a hipótese d e
q u e u m a f o r ç a psíquica inexorável c o n d e n a certos pacientes a cair repetidamente e m situações d e sofrimen-
to e d e fracasso, s e m c o n s e g u i r superá-las. A fim d e distinguir esse f e n ó m e n o clínico d a s i m p l e s "repetição",
ele o chamaópjteórrlpulsao de repéSçãoS-QO\s o paciente d e m o n s t r a i n c a p a c i d a d e d e e s c a p a r a essa força
p u l s i o n a j ^ t r i p u l s i v a q u e qualifica d e "diabofíca". A s s i m , Freud teve a a u d á c i a d e postular a existência, além
d 0 43íipcípio d o prazer, d e u m conflito f u n d a m e n t a l , o u seja, u m conflito entre d o i s g r u p o s d e pulsões, a
pulsão d e v i d a e a p u l s ã o d e morte. Essas novas ideias lhe p e r m i t e m diferenciar entre o s pacientes neuróti-
cos, q u e a p r e s e n t a m u m a "neurose de transferência" e o b e d e c e m ao princípio prazer/desprazer, e os pacien-
tèMiuesofrem d e d e p r e s s ã o , a e ^ r v e f s ã o o u d e psicose, q u e a p r e s e n t a m u m a "neurose narcisista" e u m a
transfer^rrcia-hoGtií, b a G o a d a r i o ^ c o n f l i t o f u n d a m e n t a l pulsão d e vida/pulsão d e morte.

A contratransferencia e m Freud
O c o n c e i t o d e c o n t r a t r a n s f e r e n c i a a p a r e c e raramente n o s escritos d e F r e u d . Ele o d e f i n e e m 1910, e m "As
perspectivas f u t u r a s d a t e r a p ê u t i c a psicanalítica", c o m o "a influência que o paciente exerce sobre os sen-
timentos inconscientes de sua análise"; e p a r a q u e o p r ó p r i o m é d i c o "reconheça e domine essa
contratransferencia", r e c o m e n d a n ã o a p e n a s u m a análise prévia, c o m o t a m b é m q u e p r o s s i g a s u a auto-
análise ( 1 9 1 0 d , p. 2 7 ) . E m u m a carta d e 2 0 d e fevereiro d e 1913 a L. Binswanger, F r e u d s u s t e n t a q u e a
c o n t r a t r a n s f e r e n c i a está "entre os problemas técnicos mais complicados da psicanálise". Ele adverte o
analista c o n t r a a t e n t a ç ã o d e c o m u n i c a r s e u s afetos ao paciente d e i m e d i a t o , e r e c o m e n d a q u e identifique
s u a c o n t r a t r a n s f e r e n c i a a fim d e elaborá-la: " O que se dá ao paciente nunca pode ser justamente afeto
imediato, mas sempre afeto conscientemente consentido, e isso mais ou menos de acordo com a necessi-
dade do momento. Em certas circunstâncias, pode-se conceder muito, mas jamais tirando de seu próprio
inconsciente. Essa seria a fórmula para mim. Portanto, a cada vez é preciso reconhecer sua
contratransferencia, e superá-la." Finalmente, e m s e u artigo s o b r e o a m o r d e transferência, c o m o v i m o s ,
Freud t a m b é m a c o n s e l h a o m é d i c o a "desconfiar de uma possível contratransferencia" (1915a, [ 1 9 1 4 ] ) .
Freud n ã o m e n c i o n a r á mais a contratransferencia, e essa n o ç ã o será para ele e s s e n c i a l m e n t e u m a reação
i n c o n s c i e n t e d o psicanalista " c o n t r a " a transferência d o paciente, isto é, u m a reação q u e se o p õ e a o d e s -
d o b r a m e n t o d a transferência q u a n d o ela n ã o é s u f i c i e n t e m e n t e e l a b o r a d a pelo analista. C a b e r á aos psica-
nalistas p ó s - f r e u d i a n o s d e s e n v o l v e r mais a m p l a m e n t e a n o ç ã o d e contratransferencia, q u e se tornará e n -
t ã o u m i n s t r u m e n t o decisivo n a e l a b o r a ç ã o d a transferência d e n t r o d a relação analítica.
Ler Freud 87

PÓS-FREUDIANOS

O desenvolvimento da contratransferencia após Freud


Paula Heimann e Heinrich Racker: novas perspectivas
A partir d o s anos d e 1950, a n o ç ã o d e contratransferencia a m p l i o u - s e a p o n t o d e se tornar u m a f e r r a m e n t a
essencial na c o m p r e e n s ã o d a c o m u n i c a ç ã o entre paciente e analista, tal c o m o se c o n c e b e n o m o m e n t o
atual. Deve-se e m primeiro lugar a Paula H e i m a n n , d e Londres, e a Heinrich Racker, d e B u e n o s Aires, a
ênfase d a d a ao fato d e q u e as reações contratransferenciais d o analista f o r n e c e m i n d i c a ç õ e s valiosas
s o b r e o q u e o paciente está v i v e n d o . D e v e m o s esclarecer q u e o p o n t o d e partida dessas perspectivas
i n o v a d o r a s é, s e m d ú v i d a , a d e s c r i ç ã o d a identificação projetiva por Klein, e m 1946, e m b o r a ela n ã o t e n h a
feito o m e s m o uso desta q u e se fez p o s t e r i o r m e n t e na análise d a contratransferencia durante a s e s s ã o .
E m 1950, Paula Heimann c h a m o u a atenção para a importância d a resposta emocional d o analista ao pacien-
te e m seu artigo "A propósito d a contratransferencia", m o s t r a n d o q u e esta p o d e se tornar u m verdadeiro
instrumento de pesquisa no interior d o inconsciente d o paciente. Ela distinguia esse uso d a contratransferencia
na situação analítica d a reação inconsciente d a análise ligada a sua própria neurose. Na m e s m a é p o c a ,
Racker mostra q u e os sentimentos contratransferenciais experimentados pelo analista p o d e r i a m constituir
indicadores válidos sobre o q u e se produzia no paciente. Racker distinguia dois tipos de contratransferencia:
d e u m lado, a "contratransferencia c o n c o r d a n t e " , q u e está na base d a empatia, na qual o analista se identifica
c o n s c i e n t e m e n t e a aspectos d a personalidade d e seu paciente; d e outro lado, a "contratransferencia c o m -
plementar", q u e é u m a reação na qual o analista projeta inconscientemente seus objetos internos no pacien-
te, estabelecendo assim u m a transferência na direção d o paciente (1953). É preciso salientar q u e , na m e s m a
é p o c a , a importância d a contratransferencia aparecia igualmente e m alguns outros psicanalistas mais o u
m e n o s próximos d a corrente kleiniana, entre os quais Winnicott (1947) o u M. Little (1951). Finalmente, vale a
p e n a mencionar q u e M. Neyraut (1974) estendeu a n o ç ã o d e contratransferencia para além d o q u e sente o
psicanalista, incluindo o conjunto d e suas referências psicanalíticas pessoais e sua própria metapsicologia.

Contratransferencia "normal" e identificação projetiva: Wilfred R. Bion


N o final d o s a n o s d e 1950, Bion contribuirá para estender a n o ç ã o d e contratransferencia a o revelar u m a
f o r m a n o r m a l de contratransferencia, t o m a n d o c o m o base a distinção q u e estabeleceu entre a identifica-
ç ã o projetiva patológica e a identificação projetiva n o r m a l (1959). Essas contribuições permitirão e x a m i n a r
as t r o c a s entre paciente e analista à luz d e n o v o s c o n c e i t o s , particularmente e m t e r m o s d e "relação c o n t i -
n e n t e - c o n t e ú d o " , assim c o m o a c a p a c i d a d e maior o u m e n o r d e tolerar a angústia e d e transformá-la. A
partir d e então, a transferência e a contratransferencia serão c o n s i d e r a d a s e m u m c o n j u n t o indissociável,
q u e p o d e m o s entender c o m o u m a "situação total" (B. J o s e p h , 1985).

A contra-identificaçãolprojetiva: Leon Grinberg


A p o i a n d o - s e nas distinções estabelecidas por Racker e nas ideias d e Bion, Leon Grinberg (1962) d a r á u m a
c o n t r i b u i ç ã o original ao descrever a "contra-identificação projetiva", q u e é u m a resposta específica i n c o n s -
ciente à identificação projetiva d o paciente, na qual o analista se identifica i n c o n s c i e n t e m e n t e c o m o q u e foi
p r o j e t a d o nele. A c o n t r a - i d e n t i f i c a ç ã o projetiva i n d e p e n d e d e conflitos internos d o p a c i e n t e , s e g u n d o
G r i n b e r g , e é isso q u e a diferencia d a contratransferencia c o m p l e m e n t a r d e Racker. Q u a n d o é s u b m e t i d o
a u m a identificação projetiva excessiva, o analista p o d e c e d e r " p a s s i v a m e n t e " à f o r ç a d a s p r o j e ç õ e s d o
paciente, a c r e d i t a n d o q u e se trata d e fantasias dele, psicanalista. Mas se o psicanalista c o n s e g u e conter as
e m o ç õ e s a s s i m projetadas nele, diferenciá-las e reconhecê-las c o m o s e n d o d o paciente, a contra-identifi-
c a ç ã o projetiva p o d e se tornar u m i n s t r u m e n t o t é c n i c o m u i t o útil para entrar e m c o n t a t o c o m os níveis mais
p r o f u n d o s d o material fantasioso d o s a n a l i s a n d o s .
Os d e s d o b r a m e n t o s q u e teve o conceito d e contratransferencia durante a s e g u n d a m e t a d e d o século XX
influenciaram fortemente a maneira c o m o a técnica é praticada atualmente, não apenas pelos psicanalistas
kleinianos e pós-kleinianos, m a s t a m b é m pela maior parte d o s psicanalistas pertencentes às correntes c o n -
t e m p o r â n e a s ligadas à Associação Psicanalítica Internacional. C o n t u d o , as posições variam bastante q u a n t o
à utilização d a contratransferencia na clínica cotidiana e m f u n ç ã o das preferências d e c a d a psicanalista.

Continua £
88 J e a n - M i c h e l Quinodoz

PÓS-FREUDIANOS • Continuação

Posições extremas em relação à contratransferencia


Eu não p o d e r i a encerrar este breve circuito s e m m e n c i o n a r q u e a contratransferencia d e t e r m i n o u duas
posições e x t r e m a s entre o s práticos.
A primeira diz respeito à t é c n i c a c h a m a d a d e "countertransference self disclosure", que consiste em que o
analista revele (ou d i v u l g u e , d e s v e n d e ) s u a própria vivência para o paciente, a fim d e lhe m o s t r a r a diferen-
ça entre o q u e o analista está v i v e n d o e o q u e o paciente está v i v e n d o . Essa t é c n i c a p o d e ser utilizada para
o m e l h o r , c o m o s a l i e n t a C o o p e r ( 1 9 9 8 ) , m a s t a m b é m p a r a o pior, q u a n d o o q u e s e r e v e l a d a
contratransferencia n ã o é e l a b o r a d o pelo analista antes d e ser restituído a o paciente. A l g u n s psicanalistas
n o r t e - a m e r i c a n o s fizeram d e s s e u s o d a "self disclosure" u m a verdadeira t é c n i c a , m a s isso i m p l i c a u m a
c o n c e p ç ã o diferente d a s t r o c a s entre paciente e analista e m relação à q u e l a e m q u e se situa c l a s s i c a m e n t e
a n o ç ã o d e contratransferencia na relação psicanalítica.
E n c o n t r a m o s u m a o u t r a p o s i ç ã o i g u a l m e n t e extrema e m relação à contratransferencia, m a s t o t a l m e n t e
o p o s t a : é a r e c u s a c o m p l e t a d e levá-la e m c o n t a , p o s i ç ã o a d o t a d a pela maior parte d o s psicanalistas q u e
s e g u e m o p o n t o d e vista d e L a c a n . Para este, d e fato, a contratransferencia é n ã o a p e n a s u m a resistência
ao t r a t a m e n t o , m a s a resistência última d o analista. Essa é u m a d a s principais d i v e r g ê n c i a s t e ó r i c a e técni-
ca entre os psicanalistas lacanianos c o n t e m p o r â n e o s e os psicanalistas pertencentes à A s s o c i a ç ã o Psica-
nalítica Internacional, c o m o ressalta J . A. Miller q u a n d o d e s e u d e b a t e c o m D. W i d l ó c h e r (2003): "(...) se
procuramos descobrir o que separa os lacanianos e os outros, afirma Miller, contatamos o seguinte: o
manejo da contratransferencia está ausente da prática analítica lacaniana, ela não é tematizada, e isso é
coerente com a prática lacaniana da sessão breve e com a doutrina lacaniana do inconsciente."

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Transferência - transferência heterossexual - transferência homossexual - transferência maternal -


transferência p a t e r n a l
D ELIRIOS E SONHOS NA "GRADIVA" DE JENSEN
S. FREUD (1907a)

Um estudo clínico da psicose através de um personagem de romance

Trata-se d o primeiroensaio que F r e u d de- analogia entre o procedimento seguido por


d i c a a o e s t u d o d e u m a o b r a literária, a o q u a l H a n o l d a ol o n g o d a n a r r a t i v a e o t r a b a l h o d e
s e seguirão o u t r o s c o n s a g r a d o s t a n t o à l i t e r a - pesquisa nos estratos d oinconsciente feito
t u r a q u a n t o às a r t e s p l á s t i c a s , i n a u g u r a n d o o pelo psicanalista, trabalho que F r e u d c o m p a -
q u e é c h a m a d o h o j e d e psicanálise a p l i c a d a . r o u m u i t a s v e z e s c o m o d o arqueólogo.
C o m essa o b r a p u b l i c a d a e m 1907, F r e u d p r o - N e s s e t e x t o , d e s c o b r i m o s também o d o m
c u r a a m p l i a r s e u público, c o m a esperança d e d e o b s e r v a ç ã o clínica p a r t i c u l a r m e n t e d e s e n -
e n c o n t r a r u m a a c o l h i d a m a i s favorável a o v o l v i d o e m F r e u d . E m 1907, ele descreve e m
m o s t r a r q u e u m a o b r a literária c o m o Gradiva H a n o l d a l g u n s fenómenos psicopatológicos,
c o n f i r m a m u i t a s d e s u a s o b s e r v a ç õ e s clínicas. c o m o a negação d a r e a l i d a d e e a c l i v a g e m d o
Esse romance se presta particularmente b e m ego, s e m ter c o m p r e e n d i d o a i n d a q u e esses
à demonstração, p o i s a s a v e n t u r a s v i v i d a s p e l o m e c a n i s m o s s ã o específicos d a p s i c o s e e d a
herói, o arqueólogo H a n o l d , através d e s e u s perversão. A p e n a s 2 0 a n o s m a i s t a r d e , e l e d e -
s o n h o s e delírios, p o d e m s e r l i d a s c o m o s e f o s - signará a negação d a r e a l i d a d e e a c l i v a g e m
s e m a e v o l u ç ã o d e u m c a s o clínico, t a l c o m o d o e g o c o m o s e n d o a s d e f e s a s características
u m psicanalista poderia observar e m u m pa- d a p s i c o s e , d i s t i n g u i n d o - o s d a repressão, q u e
c i e n t e . Além d i s s o , f i c a m o s s u r p r e s o s c o m a reservará a p a r t i r d e então p a r a a n e u r o s e .

B I O G R A F I A S E Hlí T O R I A

Freud, Pompeia e a Gradiva


Foi Carl Gustav J u n g q u e c h a m o u a a t e n ç ã o d e Freud p a r a o interesse q u e p o d e r i a ter para a psicanálise
o r o m a n c e p u b l i c a d o e m 1903 por W i l h e l m J e n s e n . Freud ficou e n t u s i a s m a d o c o m a leitura e redigiu s e u s
c o m e n t á r i o s e m 1906, d u r a n t e s u a s férias d e verão; a o b r a foi l a n ç a d a e m 1907. A p r o p ó s i t o d e G r a d i v a ,
r e c o r d a m o s q u e Freud visitara P o m p e i a e m 1902 c o m Alexander, s e u irmão 10 a n o s mais n o v o , e q u e ele
a f i r m o u , j á no fim d a vida, ter lido mais o b r a s d e a r q u e o l o g i a d o q u e d e psicologia. E m s e t e m b r o d e 1907,
p o u c o d e p o i s d a p u b l i c a ç ã o d e s e u livro, Freud v o l t o u a R o m a , o n d e p ô d e ver, n o m u s e u d o Vaticano, o
baixo-relevo q u e tinha inspirado o r o m a n c e d e J e n s e n . A d q u i r i u u m a r e p r o d u ç ã o q u e p e n d u r o u e m s e u
g a b i n e t e , j u n t o ao divã, e q u e levou c o m ele a o emigrar para L o n d r e s e m 1938. O a n o d e 1907 foi particu-
l a r m e n t e m a r c a n t e p a r a a história d a psicanálise, pois Freud teve três e n c o n t r o s decisivos, s e n d o o p r i m e i -
ro c o m J u n g . O s e g u n d o e n c o n t r o foi c o m Max Eitigon q u e , d u r a n t e l o n g o s passeios c o m Freud e m Viena,
e m p r e e n d e u a primeira psicanálise didática. Finalmente, o terceiro e n c o n t r o foi c o m Karl A b r a h a m , q u e
a c a b a r a d e se instalar e m Berlim, d e p o i s d e passar três a n o s no serviço d e E. Bleuler e m Z u r i q u e .

Continua 0
90 J e a n - M i c h e l Quinodoz

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

Carl Gustav J u n g (1875-1961)


Psiquiatra suíço, J u n g foi o f u n d a d o r d a p s i c o l o g i a analítica. N a s c e u e m 1875 e m u m a família protestante
d e Zurique, e s e u pai e r a pastor. E m 1895, iniciou e s t u d o s d e m e d i c i n a e m Bale, e e m 1 9 0 0 ingressou
c o m o assistente n a clínica psiquiátrica d o Burghõlzli e m Z u r i q u e , dirigida p o r E u g e n Bleuler. D e s d e c e d o
se interessou p e l o espiritismo, e p u b l i c o u e m 1902 u m a tese intitulada Fenómenos ocultos. J u n g d e s e n v o l -
veu n e s s a clínica u m teste p s i c o l ó g i c o f u n d a d o nas a s s o c i a ç õ e s d e palavras e introduziu o t e r m o " c o m p l e -
xo" para d e s i g n a r o c o n j u n t o d e i m a g e n s e d e fantasias q u e suscitava nas p e s s o a s q u e e r a m s u b m e t i d a s
a ele. Ele o utilizou t a m b é m c o m pacientes psicóticos, e e m 1907 p u b l i c o u u m a o b r a q u e s e t o r n o u u m
clássico, Psicologia da demência precoce. Foi então q u e e m p r e e n d e u u m a c o r r e s p o n d ê n c i a c o m Freud,
q u e e n c o n t r o u p e l a primeira vez e m fevereiro d e 1907.
Essa relação a s s u m i u d e s d e o início u m a g r a n d e importância, pois Freud e J u n g d i s p u n h a m d e u m intérprete
na clínica d e Bleuler e m Zurique, u m d o s hospitais psiquiátricos mais respeitados d a é p o c a . A l é m disso, a
presença d e J u n g , q u e pertencia a u m a família protestante d e Zurique, evidenciava a d i m e n s ã o não confessional
d a psicanálise. A p r o p ó s i t o d e J u n g , Freud escreverá a Karl A b r a h a m : "Somente após sua chegada, a psica-
nálise escapou do perigo de se tornar uma questão do povo judeu [...] nossos colegas arianos são indispen-
sáveis para nós". Freud sentia u m a forte simpatia por J u n g , e às vezes o c h a m a v a d e seu "herdeiro", conven-
cido d e q u e ele era o h o m e m q u e poderia sucedê-lo. C o m isso, será q u e estaria reportando e m parte a J u n g
a idealização q u e fizera antes d e Fliess? E m 1909, Freud foi para o s Estados U n i d o s a convite d a Clark
University e m c o m p a n h i a d e J u n g e d e Ferenczi. L o g o depois, J u n g foi d e s i g n a d o c o m o primeiro presidente
d a A s s o c i a ç ã o Psicanalítica Internacional e tornou-se redator-chefe d o Jahrbuch. N o m e s m o ano, abriu u m
consultório particular e m Kússnacht, perto d e Zurique, o n d e passaria o resto d e seus dias.
Foi por volta d e 1912 q u e o conflito entre Freud e J u n g s e t o r n o u a g u d o . O s principais p o n t o s d e desacor-
d o referiam-se a o fato d e q u e J u n g recusava a teoria d a libido e o papel d e s e m p e n h a d o p e l a sexualidade
infantil p o s t u l a d o s p o r F r e u d . P o u c o d e p o i s d e publicar Metamorfoses e símbolos da libido, e m 1912, J u n g
a b a n d o n o u definitivamente o m o v i m e n t o psicanalítico e se d e m i t i u d e s e u p o s t o n a U n i v e r s i d a d e d e Zuri-
que. Passou p o r u m a fase d e d e s c o m p e n s a ç ã o d u r a n t e a qual sofria d e angústias e a l u c i n a ç õ e s . D e d i c o u -
se então a u m a auto-análise a p r o f u n d a d a q u e d e n o m i n o u e m s u a biografia d e " c o n f r o n t a ç ã o c o m o in-
c o n s c i e n t e " , e foi n e s s a é p o c a q u e e l a b o r o u a maior parte d a s n o ç õ e s q u e p e r t e n c i a m à s u a própria
c o n c e p ç ã o d e v i d a psíquica: i n c o n s c i e n t e coletivo, a r q u é t i p o s , individuação, interpretação j u n g u i a n a d o s
s o n h o s , a s s i m c o m o s u a p r ó p r i a a b o r d a g e m terapêutica q u e c h a m o u d e " p s i c o l o g i a analítica".
Desde então, J u n g s e g u i u s e u próprio c a m i n h o e, durante s e u período pós-freudiano, foi s e t o r n a n d o p o u c o
a p o u c o chefe d e escola e c o n q u i s t a n d o u m a g r a n d e plateia internacional. E m 1 9 2 1 , p u b l i c o u Tipos psicoló-
gicos, e m q u e p r o p u n h a u m a tipologia d o desenvolvimento psicológico f u n d a d o n o conceito d e individuação.
Mas suas ideias s o b r e a psicologia d o s p o v o s levaram-no a assumir às vezes posições racistas, inclusive anti-
semitas, e a adotar u m a atitude a m b í g u a e m relação às teses nacionais socialistas. Durante a g u e r r a d e 1939-
1945, retirado a maior parte d o t e m p o e m u m a torre q u e m a n d o u construir e m Bollingen, J u n g se d e d i c o u à
sua prática psicoterapêutica, assim c o m o à redação d e suas obras. Suas pesquisas a b o r d a m vários temas d e
investigação, c o m o a alquimia, a espiritualidade e a mística, c a m p o s q u e ele tentou articular c o m s u a c o n c e p -
ção f e n o m e n o l ó g i c a d a evolução d a psique mediante a individuação. J u n g morreu e m 1961 e m Kússnacht.
C o m o situar J u n g e s u a o b r a atualmente? S e g u n d o E u g e n e Taylor (2002), J u n g era visto p e l o s historiado-
res d o s é c u l o XX s o b r e t u d o c o m o u m acólito d e Freud, e a teoria j u n g u i a n a foi c o n s i d e r a d a c o m o u m a
dissidência c o m relação à teoria psicanalítica. C o n t u d o , p e s q u i s a s recentes s o b r e a história d a p s i c o l o g i a
das p r o f u n d e z a s p e r m i t i r a m situar J u n g c o m o u m autêntico representante d a corrente d a " h i p ó t e s e s i m b ó -
lica" e m c o n t i n u i d a d e c o m as psicologias d a t r a n s c e n d ê n c i a d o s é c u l o XIX, a o m e s m o t e m p o e m q u e se
r e c o n h e c e s u a dívida c o m Freud. S e g u n d o Taylor, essa influência c o n t i n u a s e n d o i m p o r t a n t e até hoje:
" P o d e - s e atribuir às s u a s raízes m a i s a n t i g a s o i n t e r e s s e c r e s c e n t e p e l a s ideias d e J u n g d e n t r o d a
contracultura psicoterapêutica d o s países ocidentais. C o n t u d o , o s analistas j u n g u i a n o s r e c o n h e c i d o s ain-
d a c o n s i d e r a m s e u vínculo identitário c o m o u m a variante d e Freud e b u s c a m s u a legitimidade d e n t r o d a
corrente a m p l i a d a d a p s i c o l o g i a e d a psiquiatria, t e n t a n d o colonizar o terreno d a psicanálise, e m b o r a pos-
s u a m u m a h e r a n ç a q u e lhe é própria, m a s q u e a i n d a n ã o reivindicaram" (Taylor, 2002, p. 3 0 0 ) .
Ler Freud 91

DESCOBERTA DA OBRA
A s p á g i n a s indicadas r e m e t e m ao texto p u b l i c a d o e m S . Freud (1907a), Le delire et les rêves dans "La
Gradiva" d e J e n s e n , trad. J . Bellemin-Noèl, Paris, Gallimard, 1986. (Esse v o l u m e é c o m p o s t o d e d u a s
partes: a primeira c o n t é m o texto original d o r o m a n c e d o escritor a l e m ã o Willhelm Jensen, intitulado "Gradiva,
fantaisie pompéienne",* e a s e g u n d a parte c o n t é m o c o m e n t á r i o d e Freud intitulado: Le delire et les rêves
dans "La Gradiva" de Jensen.)

5ré
O argumento de G/fed/Va m i l a n o s ? É então q u e intervém o p a p e l s a l v a -
d o r d e Z o é , aliás, G r a d i v a , c o m o a d e s c r e v e
O herói d o r o m a n c e , H a n o l d , u m arqueólo- Jensen; esta, à m a n e i r a d e u m terapeuta, e n t r a -
g o a p a i x o n a d o p o r s e ut r a b a l h o e q u e a d o r a v a rá e m p a r t e n o delírio d e H a n o l d , m a s s e m s e
viajar, levava u m a v i d a mais o um e n o s n o r m a l , iludir; d e fato, mediante u m discurso d e d u p l o
a i n d a q u e l h e o c o r r e s s e t e r u m "delírio episódico" sentido, e l a conversa c o mele cautelosamente
( p . 2 1 4 ) . N a infância, H a n o l d a m a v a t e r n a m e n - e aospoucos leva-o a enfrentar suas ideias d e -
t e u m a m e n i n a , s u a v i z i n h a Zoé Bertgang l i r a n t e s até a b a n d o n á - l a s . N o f i n a l , o h e r ó i c o n -
("Bertgang" s i g n i f i c a " a q u e l a q u e a n d a " e m a l e - s e g u e r e c o n h e c e r n a G r a d i v a a p e s s o a d e Zoé,
m ã o ) . M a s , e n t r a n d o n a adolescência e p e r t u r - pela q u a l estava apaixonado s e msaber, e d e -
b a d o p o r sua sexualidade crescente, e l ese afas- siste d e deslocar essa a m o r p a r a a m u l h e r r e -
t o u d a m e n i n a e d a sm u l h e r e s e m geral, a p o n - presentada n obaixo-relevo antigo. N ofinal, a
t o d e i g n o r a r s u a existência. C o n t u d o , H a n o l d narrativa d eJensen n o s deixa a surpresa d e
v i r a e m u mm u s e u u mb a i x o - r e l e v o represen- descobrir u melemento particularmente signi-
tando u m a m e n i n a antiga, e ficou fascinado c o m f i c a t i v o d o p o n t o d e v i s t a psicanalítico: a b u s -
s u a p o s t u r a e l e g a n t e e c o m a posição p a r t i c u l a r ca d e H a n o l d e r a d e t e r m i n a d a i n c o n s c i e n t e -
d e s e u pé. A d q u i r i u u m a reprodução q u e p e n - m e n t e p o r u mdesejo infantil ainda m a i s anti-
d u r o u n ap a r e d e d e casa, e b a t i z o u a m e n i n a g o e m a i s e s c o n d i d o , o d e sair à p r o c u r a d es u a
d e "Gradiva" ( a q u e l a q u e a n d a ) . A atração q u e m ã e q u e m o r r e u q u a n d o e l e e r a criança, c o m o
essa j o v e m r o m a n a misteriosa exercia sobre ele s e a lembrança p e r d i d a d a mãe e s t i v e s s e s o t e r -
i n v a d i a c a d a v e z m a i s s e u espírito. U m a n o i t e , rada n o esquecimento desde o cataclismo psi-
s o n h o u q u e estava e mP o m p e i a , p o u c o antes cológico c o m p a r á v e l à e r u p ç ã o d e u m v u l c ã o .
d a erupção d o Vesúvio, e q u e e n c o n t r a v a
G r a d i v a : n o s o n h o , e l e t e n t a v a avisá-la d o p e r i -
g o q u e e l a c o r r i a , m a s e m vão. A o d e s p e r t a r , Personagens de ficção como casos clínicos
m o v i d o p o ru mardoroso desejo inconsciente,
H a n o l d p a r t i u para Pompeia. E m s e u comentário d o r e l a t o d e J e n s e n ,
C h e g a n d o lá, e l e e n c o n t r o u n a s ruínas d a F r e u d e s t u d a o s p e r s o n a g e n s d e ficção c o m o
c i d a d e s o t e r r a d a u m a moça q u e i m a g i n o u s e r s e f o s s e m c a s o s clínicos. A s s i m , e l e m o s t r a q u e
G r a d i v a , m a s q u e n a r e a l i d a d e não e r a o u t r a o s s o n h o s , a s f a n t a s i a s e o delírio d e H a n o l d
s e n ã o Z o é , s u a v i z i n h a e a m i g a d e infância, q u e p o d e m s e r a n a l i s a d o s p e l o m e s m o método
também e s t a v a v i s i t a n d o P o m p e i a . O e s c r i t o r terapêutico q u e o s s o n h o s e a s f a n t a s i a s d e p a -
c i e n t e s e m análise. P o r e x e m p l o , q u a n d o
d e s c r e v e e n t ã o c o m m u i t o t a l e n t o a s peripécias
Hanold sonha q u e encontra Gradiva e m
d o s e n c o n t r o s s u c e s s i v o s e n t r e o s d o i s heróis,
e conduz sutilmente o leitor a compartilhar as
P o m p e i a , o conteúdo d e s e u s o n h o s e r e v e l a
c o m o a realização d o d e s e j o i n c o n s c i e n t e r e p r i -
d ú v i d a s d e H a n o l d , até s e u delírio: e s s a m o ç a
m i d o d e encontrar a m u l h e r a m a d a e deseja-
q u e e l e vê p o r a l g u n s i n s t a n t e s , d e m o d o f u -
d a , c o n f o r m e s u a t e o r i a s u g e r i d a e m A inter-
g a z , s e r i a o u não e s s a G r a d i v a q u e v i v e u há 2

* N . d e T . N a tradução b r a s i l e i r a , Gradiva. Uma fantasia pompeiana, lançada p e l a J o r g e Z a h a r .


92 Jean-Michel Quinodoz

prefação dos sonhos ( 1 9 0 0 a ) . C o n t u d o , s o b o e f e i - lírio e m H a n o l d é a r e p r e s s ã o d e s u a s p u l s õ e s


t o d a repressão d e pulsões s e x u a i s inaceitáveis s e x u a i s . Além d i s s o , F r e u d d e m o n s t r a q u e o s
p a r a s u a consciência, H a n o l d s e a f a s t a daque- s o n h o s q u eo se s c r i t o r e s a t r i b u e m a o s s e u s h e -
l a q u e a m an a r e a l i d a d e , Zoé, p a r a s e v o l t a r a róis p o d e m s e ri n t e r p r e t a d o s d a m e s m a m a -
u m a m u l h e r mítica, G r a d i v a . Posteriormente, n e i r a q u e o s s o n h o s d o s p a c i e n t e s e m psicaná-
o r e t o r n o d e s u a s pulsões s e x u a i s reprimidas l i s e . F i n a l m e n t e , F r e u d r e v e l a a semelhança
levará H a n o l d a e m p r e e n d e r s u a v i a g e m p a t o - e n t r e o p a p e l terapêutico d o p s i c a n a l i s t a e a q u e -
lógica a P o m p e i a , a t e r a a l u c i n a ç ã o d a p r e s e n - l e q u e J e n s e n a t r i b u i a Zoé, p o i s é e l a q u e p e r -
ça d e G r a d i v a e a n ã o r e c o n h e c e r Z o é . E m o u - mite a H a n o l d diferenciar, pouco a pouco, alu-
tras palavras, a tese d oromancista v e m refe- cinação e r e a l i d a d e e a s s u m i r conscientemente
rendar a d eFreud, pois s u anarrativa mostra s e u d e s e j o p o r e l a , Zoé, u m a m u l h e r b e m real,
q u e o q u ed e t e r m i n a t a n t o o s o n h o c o m o o d e - cujo n o m e significa " v i d a " .

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Freud e a criação literária e artística


É e m 1907 q u e , p e l a primeira vez, Freud e x a m i n a u m a o b r a literária à luz d a psicanálise. A s s i m , v a m o s n o s
deter u m instante n a s relações q u e ele m a n t e v e c o m a criação artística. A s o b r a s artísticas, e m particular as
o b r a s literárias, s e m p r e d e s p e r t a r a m o interesse d e Freud e d o s psicanalistas, intrigados c o m a c a p a c i d a -
d e d o artista d e suscitar a e m o ç ã o d o e s p e c t a d o r o u d o leitor. N a s o b r a s literárias, a e s c o l h a d e t e m a s
c o m o o c o m p l e x o d e É d i p o e m Sófocles o u d o p e r s o n a g e m d e Hamlet d e S h a k e s p e a r e p e r m i t i u estabele-
cer paralelos reveladores entre as intrigas descritas n o s p e r s o n a g e n s d e ficção e o s conflitos q u e s e obser-
v a m n o s p a c i e n t e s e m psicanálise. Essas a p r o x i m a ç õ e s permitiram a o s psicanalistas, e m p r i m e i r o lugar
Freud, e x a m i n a r o s p e r s o n a g e n s literários c o m o s e f o s s e m c a s o s clínicos.
Freud se i n d a g o u s o b r e o q u e leva o artista a produzir u m a o b r a d e arte e s o b r e as c a u s a s d o i m p a c t o
e m o c i o n a l q u e esta p r o d u z n o e s p e c t a d o r o u leitor. Para ele, o artista b u s c a a f o n t e d e criatividade e m seu
próprio i n c o n s c i e n t e e projeta s e u m u n d o d e fantasias interior e m s u a o b r a , o pintor e m s u a tela, o escritor
e m seus p e r s o n a g e n s : "Já o escritor procede de outra maneira; é em sua própria alma que ele dirige a
atenção ao inconsciente, que ele perscruta suas possibilidades de desenvolvimento e lhe atribui uma ex-
pressão artística, ao invés de reprimi-la por uma crítica consciente. Assim, ele extrai de si mesmo e de sua
própria experiência aquilo que nós aprendemos com os outros: a que lei deve obedecer a atividade do
inconsciente" (1907a, p. 2 4 3 ) . É isso q u e permite analisar n ã o a p e n a s a o b r a d e arte, m a s t a m b é m o
próprio autor.
Q u a n t o a o i m p a c t o q u e u m a o b r a literária o u artística p r o d u z n o leitor o u espectador, é m e d i a n t e a identi-
ficação, s e g u n d o F r e u d , q u e a o b r a a g e s o b r e ele. Essa identificação seria p r o d u z i d a p e l o s d e s e j o s repri-
m i d o s d o artista, o c u l t a d o s n a f o r m a d a d a à o b r a d e arte, c o m o t a m b é m n a intenção d o artista d e despertar
e m q u e m a c o n t e m p l a a m e s m a atitude e m o c i o n a l q u e o inspirou (1907a, p. 2 4 3 ) .
Depois d e Freud, m u i t o s psicanalistas d e r a m s u a contribuição a o estudo d a s obras d e arte. Entre o s traba-
lhos recentes, e u m e n c i o n a r i a o estudo d e H. Segal (1991), q u e vai mais l o n g e q u e Freud: para ela, o artista
não p r o c u r a s o m e n t e c o m u n i c a r u m desejo inconsciente através d e sua arte, m a s ele t a m b é m está e m busca
de u m a solução fantasiosa para u m p r o b l e m a inconsciente e tenta c o m u n i c a r por m e i o d e s u a o b r a a neces-
sidade de reparação q u e estimula seu impulso criador. Segal ainda estabelece u m paralelo entre o s o n h o e a
o b r a d e arte; p o r é m , diferentemente d o s s o n h o s , as obras d e arte t ê m a p r o p r i e d a d e d e "encarnar" n a
realidade material, e é por isso q u e s e u impacto estético d e p e n d e e m parte d a maneira c o m o o s artistas
utilizam o suporte material concreto para expressar simbolicamente suas fantasias: "[O artista] não é apenas
um sonhador, é um artesão supremo. Um artesão pode não ser um artista, mas um artista deve ser um arte-
são". (Segal, 1 9 9 1 , p. 176).
Ler Freud 93

PÓS-FREUDIANOS

Neurose e psicose justapostas em Gradiva?


Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen t e m interesse n ã o a p e n a s d o p o n t o d e vista d a psicanálise aplica-
d a a u m a o b r a literária, m a s i g u a l m e n t e d o p o n t o d e vista clínico e teórico. No q u e se diz respeito à clínica,
Freud descreve c o m u m d o m d e o b s e r v a ç ã o i n c o m p a r á v e l u m a m p l o leque d e s i n t o m a s q u e atribui à
n e u r o s e , c o m o a inibição d o herói e m relação às m u l h e r e s e seu delírio alucinatório e p i s ó d i c o . C o n t u d o ,
Freud fala u n i c a m e n t e d e "delírio" q u a n d o e v o c a as a l u c i n a ç õ e s d e H a n o l d e n ã o utiliza o t e r m o " p s i c o s e " .
Mas, será q u e se p o d e falar d e p s i c o s e nesse caso?
Os comentários d o s psicanalistas pós-freudianos variam q u a n t o a esse ponto. Para os psicanalistas q u e se
a t ê m a o texto d e Freud, o delírio d e Hanold p r o v é m essencialmente d e u m distúrbio d e consciência passagei-
ro, não-psicótico, q u e se p o d e observar e m u m a personalidade neurótica (Jeanneau, 1990). Para outros
psicanalistas pós-freudianos q u e fazem u m a leitura d e Gradiva levando e m conta os últimos trabalhos d e
Freud sobre a n e g a ç ã o d a realidade e a clivagem d o e g o , pode-se considerar q u e as alucinações d e H a n o l d
p e r t e n c e m à parte d e seu e g o q u e n e g a u m a realidade insuportável, e n q u a n t o q u e a outra parte d o e g o a
aceita. Desse ponto d e vista, a cura ocorre q u a n d o essa última aceita a realidade e t o m a a frente d a parte d o
e g o q u e a n e g a . A s s i m , p a r a F. L a d a m e (1991), o delírio e as a l u c i n a ç õ e s d o herói seriam típicos d a
psicopatologia q u e se encontra na adolescência, q u e qualificaríamos hoje d e u m a d e s c o m p e n s a ç ã o psicótica,
cujos destinos são vários. Por s u a vez, D. Q u i n o d o z (2002) evidenciou a maneira c o m o Freud nos oferece u m
m o d e l o q u e ensina ao psicanalista "como falar aparte "louca" de nossos pacientes sem ignorar o resto de sua
pessoa" (p. 60). S e g u n d o a autora, o fato d e Hanold ter u m delírio e ao m e s m o t e m p o levar u m a vida mais o u
m e n o s normal implica u m a clivagem d o e g o , c o m o se encontra hoje c o m muita frequência e m pacientes q u e
ela c h a m a d e "heterogéneos". A coexistência e m u m a m e s m a pessoa d e u m a parte q u e delira e d e u m a outra
parte q u e leva e m conta a realidade c o n d u z a u m a a b o r d a g e m técnica particular pelo psicanalista. A s s i m ,
e m b o r a Z o é não se deixe levar pelo delírio d e H a n o l d , ela evita lhe dizer imediatamente: Z o é utiliza "um
discurso de duplo sentido" q u e p o d e ser c o m p r e e n d i d o pela parte delirante d e Hanold, mas t a m b é m por s u a
parte q u e leva e m conta a realidade.
Se fizermos u m a leitura d o s textos d e Freud à luz d e s e u s t r a b a l h o s d o último período, p o d e r e m o s obser-
var u m a j u s t a p o s i ç ã o d e m e c a n i s m o s d e c o r r e n t e s d a p s i c o s e e m e c a n i s m o s decorrentes d a n e u r o s e na
maioria d o s c a s o s clínicos q u e ele d e s c r e v e , m a s a i n d a s e m conceituar, d e s d e Estudos sobre a histeria, e m
1895, até " O h o m e m d o s l o b o s " , e m 1918. De fato, Freud m o s t r a e m Esboço de psicanálise (1940a [1938])
q u e a parte d o e g o q u e n e g a a realidade e a parte d o e g o q u e a aceita s ã o e n c o n t r a d a s e m p r o p o r ç õ e s
variáveis não a p e n a s na psicose, m a s t a m b é m na n e u r o s e e m e s m o n o indivíduo n o r m a l .
Finalmente, alguns comentadores enfatizaram a problemática d o fetichismo onipresente nesse texto
f r e u d i a n o , c o m o d e s t a c o u J . Bellemin-Noél (1983), d o fetichismo d o pé a o d o andar d e Gradiva.

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Delírio alucinatório - ali c i n a ç ã o - n e u r o s e - psicanálise a p l i c a d a a u m a o b r a literária - psicose


96 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

pais t i n h a m - s e d i v o r c i a d o e q u e a m b o s t i n h a m se c a s a d o n o v a m e n t e . Finalmente, Freud s e s u r p r e e n d e u


ao constatar q u e o j o v e m n ã o t i n h a g u a r d a d o n e n h u m a l e m b r a n ç a d e s u a c u r a psicanalítica.
Herbert Graf, q u e t i n h a c o m o p a d r i n h o o c o m p o s i t o r Gustav Mahler, se tornaria mais t a r d e u m diretor d e
ó p e r a r e c o n h e c i d o . C o m a n d o u , entre outras, a Metropolitan O p e r a d e N e w York, t e n d o r e t o r n a d o à E u r o p a
o n d e t e r m i n o u s u a carreira c o m o diretor d e G r a n d Théâtre d e G e n e b r a . M a s , apesar d a trajetória profissio-
nal brilhante, s u a v i d a p e s s o a l foi m a r c a d a por fracassos c o n j u g a i s q u e o levaram a retomar u m a psicaná-
lise e m 1970, c o m H u g o S o l m s , e m G e n e b r a . Graf m o r r e u n e s s a c i d a d e e m 1973. C h e g o u a publicar
quatro entrevistas c o m o jornalista F. Rizzo, lançadas c o m o título Memórias de um homem invisível (1972),
e m q u e s e revela p u b l i c a m e n t e c o m o o " p e q u e n o H a n s " . P o r é m , n ã o t e m o m e s m o interesse p e l a psicaná-
lise q u e s e u p a i , M a x Graf, a q u e m se d e v e a p u b l i c a ç ã o p ó s t u m a d e u m artigo d e F r e u d , " P e r s o n a g e n s
p s i c o p á t i c o s n o p a l c o " (1942 [1905-1906]), q u e lhe foi p r e s e n t e a d o e m 1906.

DESCOBERTA DA OBRA
As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1909b), "Analyse d e la p h o b i e d ' u m g a r ç o n
d e c i n q a n s (Le petit H a n s ) " , in Cinq psychanalyses, trad. M. B o n a p a r t e e R. L o e w e n s t e i n , Paris, PUF, 1954,
p. 93-198 [as páginas indicadas entre colchetes remetem ás OCF.R IX, p. 1-130].

A confirmação da importância Manifestações precoces da sexualidade


da sexualidade em uma criança pequena infantil no "pequeno Hans"

O r e l a t o d e F r e u d contém d u a s p a r t e s : u m a F r e u d e n c o n t r a n a s anotações f e i t a s p e l o p a i
c u r t a introdução, q u e reúne a s observações f e i - a confirmação d o i n t e r e s s e p a r t i c u l a r m e n t e i n -
tas p e l o p a i d o " p e q u e n o H a n s " q u a n d o e l e t e n s o d e s s e m e n i n o p o r s e u próprio c o r p o , e
t i n h a e n t r e 3 e 5 a n o s , período q u e p r e c e d e u o s o b r e t u d o p o r s e u pênis q u e e l e c h a m a d e s e u
a p a r e c i m e n t o d afobia; e u m a s e g u n d a parte, "faz-xixi". E s s e ó r g ã o é o b j e t o d e u m a c u r i o s i -
q u e relata o d e s e n v o l v i m e n t o d acura, s e g u i - dade ilimitada e constitui p a r a ele u m a fonte
d o d e comentários d e F r e u d . d e p r a z e r e d e angústia. P o r i s s o , n ã o p a r a d e
Transcritas fielmente por seu pai, as pala- f a z e r p e r g u n t a s às p e s s o a s d e s e u convívio:
v r a s d i t a s p e l o m e n i n o s o b r e questões s e x u a i s "Papai, você também tem um faz-xixi?", indaga
d e m o n s t r a r a m q u e a cabeça d o " P e q u e n o ao pai, que responde afirmativamente.M a s as
H a n s " e s t a v a t o m a d a d e preocupação p e l o s r e s p o s t a s q u e r e c e b e às v e z e s s ã o a m b í g u a s , s o -
e n i g m a s d asexualidade s o btodas a s suas b r e t u d o q u a n d o s e t r a t a d e questões r e l a c i o n a -
f o r m a s . Além d i s s o , o q u e s eo b s e r v o u n e s s a d a s à s u a m ã e e às m e n i n a s . U m d i a , e n q u a n t o
criança p o d i a s e r g e n e r a l i z a d o a t o d a s a s c r i a n - o b s e r v a s u a mãe s e d e s p i n d o , e l a l h e p e r g u n -
ças d e s d e s e u s p r i m e i r o s a n o s , e n ã o s e t r a t a - t a : "O que você está olhando desse jeito?" - "Eu só
v a d e u m c a s o patológico. F i n a l m e n t e , e s s a s quero ver se você também tem um faz-xixi" - "En-
observações f e i t a s e m H a n s v i n h a m f u n d a - tão, r e s p o n d e a m ã e , isso quer dizer que você não
m e n t a r h i p ó t e s e s q u e F r e u d f o r m u l a r a e m Três sabia?" ( 1 9 0 9 b , p . 9 6 [8]). E m s u a r e s p o s t a a m -
ensaios sobre a teoria da sexualidade s o b r e a e x i s - b í g u a , será q u e a m ã e d e H a n s q u i s d i z e r s i m -
tência d e u m a s e x u a l i d a d e i n f a n t i l , h i p ó t e s e s p l e s m e n t e q u e e l a t i n h a u m orifício p a r a u r i -
q u e t i n h a d e d u z i d o essencialmente a partird e n a r , o u d e u a e n t e n d e r q u e também t i n h a u m
l e m b r a n ç a s s u r g i d a s d u r a n t e a análise d e p a - pênis? P a r a F r e u d , é a s e g u n d a p o s s i b i l i d a d e
cientes adultos. q u e t e m m a i s importância a o s o l h o s d o m e n i -
Ler Freud 97

n o , e e s s a i d e i a f o r m a e m s u a m e n t e u m a "teo- "14 de abril. O tema Anna ocupa o primeiro


ria sexual infantil", s e g u n d o a q u a l a s m u l h e r e s plano, e s c r e v e o p a i p a r a F r e u d . Como o senhor
têm pênis c o m o o s h o m e n s . F r e u d f i c o u i m p r e s - deve se lembrar dos relatos anteriores, ele manifes-
s i o n a d o c o m a f i r m e z a d e s s a convicção e m u m a tara uma forte aversão contra a criança recém-nas-
criança p e q u e n a , convicção q u e p o d e s e r r e f o r - cida que lhe roubou uma parte do amor de seus
çada p e l a s p a l a v r a s d e s u a mãe, não o b s t a n t e pais - aversão que ainda não tinha desaparecido
a s a f i r m a ç õ e s contrárias d o p a i , q u e i n s i s t e e m completamente e que fora compensada apenas em
d i z e r q u e a s m e n i n a s não têm pênis. E i s u m parte por uma afeição exagerada. Eleja expressara
t r e c h o d e s s e t i p o d e diálogo e n t r e p a i e f i l h o claramente esse desejo: 'A cegonha não devia tra-
zer outra criança, a gente devia lhe dar dinheiro
"Hans tinha prometido ir comigo a Lainz no para ela não tirar mais nenhuma da c a i x a g r a n d e
domingo seguinte, 15 de março, e s c r e v e o p a i . onde ficam as crianças e trazer para ca" ( p . 1 4 0
No começo ele resiste um pouco, mas acaba indo. [60]). H a n s c o m p r e e n d e u q u e A n n a e s t a v a
(...) No caminho eu\ lhe explico que sua irmã p r e s e n t e e q u e t i n h a saído c o m o u m "lumpf
não tem um faz-xixi como o seu. As meninas e ( t e r m o i n v e n t a d o p o r ele p a r a d e s i g n a r a s fe-
as mulheres não têm faz-xixi, mamãe não tem, zes). N o s m e s e s q u e s es e g u e m a o n a s c i m e n -
Anna também não, e assim por diante. t o d a irmã, H a n s não a p e n a s s e m o s t r a
enciumado c o m o muitas vezes deseja s u a
Hans - E você, tem um faz-xixi?
m o r t e , ao m e s m o t e m p o e m que declara aber-
Eu [ o p a i ] - Claro, o que é que você acha?
t a m e n t e s u a afeição p o r e l a .
Hans [ a p ó s u m silêncio] - Então, como as
meninasfazem xixi se elas não têm um faz-xixi?
Eu - Elas não tem um faz-xixi como o seu. Você A situação edipiana e o conflito de
nunca viu quando a gente dá banho na Anna?" ambivalência em relação ao pai
( p . 1 1 2 [27]).
F r e u d c o m e m o r a p o r v e r c o n f i r m a d o "da
Nesse m e s m o texto, F r e u d estranha que as maneira mais clara e mais perceptível" t u d o o q u e
c r i a n ç a s m a n i f e s t e m tão c o m u m e n t e u m a p e r - a n t e c i p a r a e m A interpretação dos sonhos e e m
cepção errónea s o b r e e s s a questão e não l e v e m Três ensaios sobre a teoria da sexualidade: "É ver-
e m c o n t a o q u e vêem, p o r e x e m p l o , q u e u m a dadeiramente um pequeno Édipo, que queria "dei-
m e n i n a n ã o t e m " f a z - x i x i " , o q u e a s levará a xar de lado" seu pai, livrar-se dele para ficar sozi-
v i v e r s u a s p r i m e i r a s a n g ú s t i a s d e castração. O nho com sua linda mãe, para dormir com ela" ( p .
pai conta que u m dia, q u a n d o H a n s tinha 3 anos 1 7 2 [98]). O d e s e j o d e H a n s d e d o r m i r c o m
e m e i o , a mãe o s u r p r e e n d e c o m a mão n o pê- s u a m ã e e d e r e c e b e r d e l a "pequenas carícias"
n i s : "Se você fizer isso, lhe diz ela, vou chamar o Dr. a p a r e c e u n a s férias d e v e r ã o , d u r a n t e a s a u -
A. e ele vai cortar seu faz-xixi. E aí como é que você sências d e s e u p a i , q u a n d o o m e n i n o e x p r e s -
vai fazer xixi? - Com o meu bumbum!", r e s p o n - s o u o d e s e j o d e q u e s e u p a i "vá embora" e "fi-
d e u o m e n i n o (p. 9 5 (77). D i a n t e d eu m a t a l que lá", c h e g a n d o a m a n i f e s t a r o d e s e j o d e q u e
ameaça, d i z F r e u d , o m e n i n o a d q u i r e u m " c o m - e l e "morra". P a r a F r e u d , e s s e d e s e j o d e m o r t e
p l e x o d e castração", q u e t e m u m p a p e l tão e m relação a o p a i p o d e s e r e n c o n t r a d o e m t o d o
d e t e r m i n a n t e n a aparição d e u m a n e u r o s e . m e n i n o e f a z p a r t e d a situação e d i p i a n a n o r -
Q u a n t o m a i s avançamos n o r e l a t o , m a i s n o s m a l ; m a s q u a n d o é exacerbado, esse desejo
s u r p r e e n d e m o s c o m a pertinência d a s questões p o d e s et o r n a r f o n t e d e s i n t o m a s , c o m o n o c a s o
de H a n s e,sobretudo, c o m sua busca de verda- d e H a n s . A s s i m , o c o n f l i t o d e ambivalência
d e , e m p a r t i c u l a r q u a n d o s e u p a i o u s u a mãe a m o r / ó d i o p a s s a a s e r u m a peça c e n t r a l n a
l h e dá r e s p o s t a s q u e não o s a t i s f a z e m . P o r e x e m - s i t u a ç ã o e d i p i a n a : "Entretanto, esse pai, que
p l o , o n a s c i m e n t o d e s u a irmã A n n a , e m o u t u - Hans não podia deixar de odiar como um rival,
b r o d e 1906, q u a n d o ele t e m 3 anos e m e i o , cons- p r o s s e g u e F r e u d , era o mesmo que Hans sempre
t i t u i o g r a n d e a c o n t e c i m e n t o d es u a v i d a . amara e que continuaria amando; esse pai era seu
98 J e a n - M i c h e l Quinodoz

modelo, tinha sido seu primeiro companheiro de m a l d e u m a angústia i n c o n s c i e n t e d e s e r c a s t r a -


jogo e cuidara dele desde pequeno: eis o que dá ori- d o p o r s e u p a i . M a s , d e o n d e provém e s s a a n -
gem ao primeiro conflito afetivo, à primeira vista gústia d e castração? O m a t e r i a l clínico d e m o n s -
insolúvel" ( p . 1 8 8 [117-118]). t r o u q u e esse t e m o r d e H a n s t i n h a c o m o o r i g e m
F r e u d o b s e r v a também q u e , n e s s a i d a d e , a i m p o s s i b i l i d a d e p a r a ele d e resolver o conflito
H a n s é tão a p e g a d o a o s m e n i n o s q u a n t o às m e - edipiano: por u m lado, H a n s sentia u m forte
n i n a s , e q u e "é homossexual como possivelmente a p e l o i n c e s t u o s o p o r s u a mãe, a p o n t o d e e x -
toda criança é, o que condiz com algo que não de pressar o desejo de d o r m i r c o m ela e de e l i m i n a r
pode perder de vista: ele só conhece u m t i p o de s e u p a i , d e s e j o s intoleráveis p a r a u m a criança;
órgão g e n i t a l , um órgão como o seu" ( p . 1 7 1 [97]). por outro lado, o m e n i n o sentia u m forte apego
Nesse texto, a s s i m c o m o n o s escritos posterio- p o r seu p a i e a om e s m o t e m p o o d i a v a - o c o m o
r e s , F r e u d a t r i b u i u m p a p e l c e n t r a l a o pênis n o u m rival que lhe barrava ocaminho que condu-
d e s e n v o l v i m e n t o psicossocial tanto d o m e n i n o z i a à s u a m ã e , o q u e e r a i g u a l m e n t e insuportá-
c o m o d a m e n i n a ; c o n t u d o , ele e v o c a a q u i a ideia v e l . P a r a F r e u d , f o i a conjunção d o d e s e j o i n c e s -
d e q u e o m e n i n o p o s s a c o n c e b e r a existência d e t u o s o d e H a n s p o r s u a mãe e d e u m s e n t i m e n t o
u m a v a g i n a : "Mas, embora as sensações experimen- d e c u l p a p o r o d i a r u m p a i tão a m a d o q u e d e -
tadas em seu pênis o conduzissem a postular uma s e n c a d e o u o t e m o r d e ser p u n i d o c o m a castra-
vagina, ele não conseguia resolver o enigma, pois não ção p o r s e u s d e s e j o s p r o i b i d o s .
tinha conhecimento da existência de nada semelhan- M a s , será q u e até e n t ã o n ã o s e o b s e r v a u m a
te ao que seu pênis reclamava; ao contrário, a convic- situação e d i p i a n a análoga à d e H a n s e m q u a l -
ção de que sua mãe possuía um "faz-xixi" como o q u e r m e n i n o p e q u e n o , p o r m e n o s q u e s e dê
seu barrava o caminho para a solução do problema." atenção a i s s o ? O q u e é q u e n o s p e r m i t e d i f e -
( p . 1 8 9 [118]). A i n d a q u e F r e u d m e n c i o n e várias r e n c i a r e n t r e u m a situação e d i p i a n a n o r m a l e
vezes nesse texto fantasias ligadas especifica- u m a situação e d i p i a n a patológica, e n t r e u m a
m e n t e à s e x u a l i d a d e f e m i n i n a , e l e não a s a s s o - a n g ú s t i a d e c a s t r a ç ã o n o r m a l e u m a angústia
c i a e x p l i c i t a m e n t e a u m a concepção d a s e x u a l i - d e castração q u e d e t e r m i n a u m s i n t o m a
dade feminina, equivalente à sexualidade mas- fóbico? N a t u r a l m e n t e , p o d e - s e i m a g i n a r q u e
c u l i n a : e s s a t a r e f a caberá a o s s e u s c o n t i n u a - o n a s c i m e n t o d e u m a irmãzinha, q u a n d o H a n s
d o r e s , e m p a r t i c u l a r às p s i c a n a l i s t a s . A c o n c e p - t i n h a três a n o s e m e i o , t e n h a i n t e n s i f i c a d o n e l e
ção q u e F r e u d t i n h a d a s e x u a l i d a d e será s e m - o c o n f l i t o e d i p i a n o , a u m e n t a n d o s e u ciúme e m
p r e " f a l o c ê n t r i c a " , i s t o é, f u n d a d a n a i d e i a d e r e l a ç ã o à i r m ã , c o m o t a m b é m s u a cólera c o n -
q u e a diferença d o s s e x o s r e s i d e e s s e n c i a l m e n - t r a a mãe e o p a i q u e a g e r a r a m .
t e n a p o s s e o u n ã o u m pênis; e s s a c o n c e p ç ã o P a r a F r e u d , o f a t o r patológico q u e c r i a a
e q u i v a l e , a m e u v e r , à persistência e m F r e u d d e f o b i a não d e v e s e rb u s c a d o n o s d e s e j o s d e
u m a t e o r i a s e x u a l i n f a n t i l s o b r e a questão d a m o r t e d e H a n s e m relação à s u a irmã, p o r q u e
diferença d o s s e x o s , c o m o v i m o s m a i s a c i m a . ele o s expressava a b e r t a m e n t e . A v e r d a d e i r a
c a u s a d a f o b i a d e v e ser b u s c a d a n o s desejos
de m o r t e que H a n s experimentava e m rela-
O processo de cura pela psicanálise de ção a s e u p a i , p o i s e s t e s f o r a m r e p r i m i d o s n o
uma fobia infantil i n c o n s c i e n t e : s e n t i r u m t a l ódio p o r u m p a i
a m a d o e r a inaceitável p a r a o c o n s c i e n t e d a
A análise d o p e q u e n o H a n s f o i m o t i v a d a criança, e a s s i m s u a s pulsões a g r e s s i v a s f o r a m
pelo aparecimento d eu m a fobia importante: o r e p r i m i d a s , e a angústia d e s e r c a s t r a d o p e l o
m e n i n o começou a s e r e c u s a r a s a i r d e c a s a e a p a i f o i deslocada sob a f o r m a d o m e d o d e ser
a n d a r n a r u a , c o m m e d o d e ser m o r d i d o p o r m o r d i d o o ud e r r u b a d o p o r u m cavalo. E s s e
u m c a v a l o o ud e s e rd e r r u b a d o p e l o a n i m a l . c o m p r o m i s s o sintomático p e r m i t e então a o
F r e u d e x p l i c a a constituição d e s s e s i n t o m a fóbico pequeno H a n s conservar u m a m o r conscien-
c o m o resultado d eu m c o m p r o m i s s o : segundo t e p o r s e u p a i e e v i t a r s e n t i r u m ó d i o intolerá-
ele, o m e d o d e H a n s d e ser m o r d i d o p o r u m v e l e m relação a e l e , situação q u e l e v a v a a u m
cavalo decorre de u m deslocamento para o ani- i m p a s s e q u e e l e não c o n s e g u i a r e s o l v e r .
Ler Freud 99

Q u a n d o o t r a t a m e n t o c h e g o u a esse p o n t o gústia d e castração a s s i m c o m o a s pulsões i n -


c r u c i a l , a c u r a p a r o u d e avançar, e p o r i s s o F r e u d c e s t u o s a s l i b i d i n a i s o u a g r e s s i v a s estão p r e s e n -
decidiu intervir. A oreceber o m e n i n o e o pai, t e s t a n t o e m u m a criança q u e s o f r e d e f o b i a s i n -
p e r c e b e u q u e a l g u n s d e t a l h e s n a aparência d o s tomática q u a n t o e m u m a criança c u j o desen-
cavalos q u eassustavam o pequeno H a n s c o m v o l v i m e n t o p o d e serconsiderado c o m o n o r m a l .
c e r t e z a l h e r e c o r d a v a m o s óculos e o b i g o d e d e O q u e f a z a diferença e n t r e o patológico e o
seu p a i , e c o m u n i c o u essa descoberta a o meni- n o r m a l é, a n t e s d e t u d o , u m f a t o r q u a n t i t a t i v o :
no. Essa foiu m a guinada decisiva que abriu ca- q u a n d o a situação i n t e r n a p r o d u z u m e x c e s s o
m i n h o para a cura. N a verdade, F r e u d inter- d e angústia q u e n ã o p o d e s e r e l a b o r a d o , isso
v e i o o f e r e c e n d o u m a interpretação d a t r a n s f e - d e t e r m i n a o a p a r e c i m e n t o d eu m c o m p r o m i s -
rência d o m e n i n o p a r a o p a i , e a explicação q u e s o sintomático. F i n a l m e n t e , F r e u d considera
d e u p e r m i t i u q u e e l e t o m a s s e consciência d a s essa n e u r o s e infantil c o m o u mm o d e l o q u e
razões q u e o l e v a r a m a d e s l o c a r p a r a o a n i m a l p o d e s e rg e n e r a l i z a d o , p o i s e l ad e m o n s t r a q u e
t a n t o s e u s d e s e j o s d e m o r t e e m relação a s e u a n e u r o s e d o a d u l t o está e s t r e i t a m e n t e ligada
p a i q u a n t o s e ut e m o r d es e r c a s t r a d o p o r este. ao m e s m o complexo infantil q u e descobrimos
V a l e a c r e s c e n t a r q u e a análise d e s s e c a s o d e n a f o b i a d o p e q u e n o H a n s . E m 1 9 2 6 , e m Inibi-
criança p e r m i t i u a F r e u d m o s t r a r q u e n ã o e x i s - ções, sintomas e ansiedade, Freud reexaminará
t e u m a diferença f u n d a m e n t a l e n t r e a s m a n i - e s s e c a s o e modificará s u a t e o r i a d a angústia à
festações patológicas d a s e x u a l i d a d e i n f a n t i l e l u z d a introdução d a noção d e s u p e r e g o , q u e
s u a s manifestações n o r m a i s . P o r e x e m p l o , a a n - a i n d a não t i n h a c o n c e i t u a l i z a d o e m 1 9 0 9 .

PÓS-FREUDIANOS

A s tendências passivas e as tendências ativas d o " p e q u e n o Hans" reexaminadas a posteriori


O c a s o d o "pequeno Hans" d e u m a r g e m a numerosos comentários d o s quais eu destacaria o s seguintes.
A l g u n s psicanalistas assinalaram c o m razão q u e Freud s ó levou e m conta e m suas interpretações as fantasias
ligadas a o desejo d e Hans d e s e identificar c o m seu pai tornando-se o marido d e s u a mãe e t o m a n d o o lugar
dele, e desse m o d o privilegiou o c o m p l e x o d e Édipo direto o u positivo e m detrimento d o complexo d e Édipo
invertido o u negativo. Porém, para Silverman (1980) e Frankiel (1991), Freud fornece elementos indicativos d e
q u e Hans era t o m a d o igualmente pelo desejo d e s e identificar c o m s u a m ã e c o m o objetivo d e tomar o lugar
dela: por exemplo, o relato revela o a p e g o erotizado d o filho por seu pai, seu desejo d e trazer seus bebés c o m o
a mãe, sua identificação c o m a m ã e grávida e a o m e s m o t e m p o sua cólera e seus sentimentos d e rivalidade e m
relação a esta. Pode-se perguntar por q u e Freud n ã o utilizou esse material, e m b o r a já começasse a perceber a
importância d a bissexualidade e a necessidade d e interpretar n ã o apenas o s desejos e as defesas ligadas a o
c o m p l e x o d e Édipo direto, mas t a m b é m aquelas ligadas a o c o m p l e x o d e Édipo invertido para eliminar a neuro-
se. Entre o s motivos dessa abstenção, vale salientar q u e na é p o c a d o tratamento d o "pequeno Hans", Freud
utilizava a noção d e bissexualidade constitutiva, m a s ainda não havia introduzido a noção d e bissexualidade
psíquica, q u e aparecerá e m 1923, juntamente c o m a d e complexo d e Édipo negativo o u invertido. Além disso,
pode-se presumir ainda q u e se Freud falou p o u c o sobre o conflito d o menino c o m s u a mãe, foi s e m dúvida por
razões d e confidencialidade, pois a m ã e d e Hans tinha feito análise c o m ele. Finalmente, constata-se q u e Freud
descreve d e forma magistral muitos f e n ó m e n o s clínicos q u e s ó posteriormente serão conceitualizados, seja por
ele, seja pelos psicanalistas q u e o sucederam. É por isso q u e o leitor d e hoje mostra u m interesse s e m p r e
renovado pela releitura d e s u a obra.
Examinando detidamente as anotações feitas por Max Graf sobre seu filho durante dois anos, R M a h o n y (1993)
foi o primeiro a se indagar sobre as deformações inevitáveis produzidas pela transcrição desse material clínico.
Ele considera q u e sua redação teve u m papel transferencial determinante na cura d o menino e q u e houve u m a
g u i n a d a decisiva na cura a partir d o m o m e n t o e m q u e o " p e q u e n o Hans" c o m e ç o u a se envolver ativamente n o
processo d e escrita, principalmente q u a n d o passou a ditar a seu pai o q u e desejava transmitir a Freud: "Se eu
escrever tudo ao Professor, será que a minha besteira vai passar logo?" (Freud, 1909b, p. 135). J o g a n d o c o m a
polissemia d o s termos, R Mahony intitula seu artigo "The dictator a n d his cure" para expressar d e maneira
c o n d e n s a d a a determinação autoritária d o menino e s u a participação ativa n a redação d o s relatos, q u e s e
t o r n a m "sua própria atividade" (Mahony, 1993, p. 1250).
100 Jean-Michel Quinodoz

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA

As primeiras psicanalistas de crianças


Hermine H u g - H e l l m u t h (1871-1924)
Hermine H u g - H e l l m u t h é p o u c o c o n h e c i d a ainda hoje, e m b o r a tenha sido historicamente a primeira psicana-
lista d e crianças. E m 1910, d e p o i s d e ter feito u m a psicanálise c o m I. Sadger, ela decidiu a b a n d o n a r seu ofício
de professora d a e d u c a ç ã o infantil para se consagrar inteiramente à psicanálise d e crianças. E m 1913, foi
admitida c o m o m e m b r o d a S o c i e d a d e Vienense e participou das sessões d a S o c i e d a d e d a s quartas-feiras.
Publicou vários artigos e m q u e remontava às primeira s e m a n a s d a vida o início d o d e s e n v o l v i m e n t o intelec-
tual e afetivo d a criança, assim c o m o suas primeiras e m o ç õ e s sexuais e a masturbação. H e r m i n e Hug-Hellmuth
foi t a m b é m a primeira psicanalista a c h a m a r a atenção para o interesse d o j o g o na criança, m a s unicamente
c o m o objetivo d e observar seu desenvolvimento; a utilização d o j o g o na técnica terapêutica propriamente
dita será d e s e n v o l v i d a mais tarde por M. Klein, e d e p o i s por A. Freud. N o C o n g r e s s o d e Haia d e 1920,
Hermine H u g - H e l l m u t h insistiu na necessidade d e considerar a d i m e n s ã o " p e d a g ó g i c a " e "educativa" na
análise d a criança (C. e R G e i s s m a n n , 1992). Morreu e m 1924, assassinada por seu s o b r i n h o Rolf q u e ela
tinha analisado e m razão d e seus distúrbios d e comportamento. Esse assassinato foi destacado pelos detratores
d a psicanálise q u e d e n u n c i a r a m publicamente os riscos q u e ela implicava para crianças e adolescentes.

Melanie Klein (1882-1960)


Perdas, lutos e depressão
Nascida e m Viena e m 1882, Melanie Klein enfrentou o luto d e s d e muito c e d o , aos 4 anos, q u a n d o perdeu sua
irmã mais velha. Ela tinha relações bastante ambivalentes c o m s u a mãe, descrita c o m o possessiva e invasiva,
e atravessou períodos d e p r o f u n d a depressão. E m 1902, aos 20 anos, perdeu t a m b é m s e u irmão E m m a n u e l ,
d e q u e m g o s t a v a muito. U m a n o depois, e m 1903, c a s o u c o m Arthur Klein, u m e n g e n h e i r o , c o m q u e m teve
três filhos: Melitta, n a s c i d a e m 1904, Hans, e m 1907, e Eric, e m 1914, u m a n o a p ó s a m o r t e d a m ã e de
Melanie. E m 1914, ela fez u m a primeira análise c o m Sándor Ferenczi e m Budapeste, e este a encorajou a se
dedicar às fantasias p r e c o c e s e à análise d e crianças. E m 1919, ela apresentou u m a c o m u n i c a ç ã o intitulada
"O desenvolvimento d e u m a criança" (Klein, 1921) q u e relatava suas primeiras o b s e r v a ç õ e s s o b r e u m meni-
no, na v e r d a d e s e u filho Eric, e tornou-se m e m b r o d a Associação Psicanalítica H ú n g a r a . Nesse m e s m o ano,
Melanie Klein d e i x o u a Hungria e m razão d e distúrbios políticos e d o anti-semitismo, e fixou-se e m Berlim c o m
os filhos, e n q u a n t o s e u m a r i d o foi se instalar na Suécia. O casal divorciou-se e m 1923.

A técnica da psicanálise de crianças


Em Berlim, ela aperfeiçoou sua "técnica de observação das crianças de um ponto de vista estritamente psicanalíti-
co", s e g u n d o suas próprias palavras. Fez então u m a s e g u n d a análise c o m Karl A b r a h a m , cujo pensamento
exerceu forte influência sobre ela, e a partir daí sempre o invocou e m seu apoio, c o n s i d e r a n d o sua obra c o m o
u m a continuação d a o b r a dele (H. Segal, 1979). Mas sua análise foi interrompida pela morte d e Karl Abraham
e m d e z e m b r o d e 1925. No m e s m o ano, Melanie Klein foi convidada a fazer u m a série d e conferências em
Londres, o n d e e n c o n t r o u u m grande respaldo, coisa q u e lhe faltava e m Berlim d e s d e a morte d e Abraham.
Assim, e m s e t e m b r o d e 1926, atendendo a u m convite d e Jones para passar u m t e m p o na Inglaterra, deixou
Berlim e decidiu se instalar definitivamente e m Londres. Melanie Klein publicou, e m 1932, A psicanálise de
crianças, o b r a na qual faz u m a exposição d e suas novas ideias sobre o desenvolvimento p r e c o c e d a menina e
d o menino.

Os conflitos c o m Anna Freud


Inicialmente, Melanie Klein foi b e m aceita por seus colegas britânicos. Mas, a partir d e 1927, A n n a Freud
desenvolveu u m a c o n c e p ç ã o diferente d a análise d e crianças e passou a criticar Melanie Klein d e maneira
c a d a vez mais virulenta (R Grosskurth, 1986). Klein, no entanto, era c o n s i d e r a d a c o m o u m a figura d e p r o a e
u m a inovadora por seus colegas d a S o c i e d a d e Britânica d e Psicanálise, tanto q u e s u a maneira d e trabalhar
foi fortemente influenciada por ela (R. H i n s h e l w o o d , 2002). Ela c o m e ç a r a a redigir seu artigo-chave sobre a
d e p r e s s ã o , q u e foi lançado e m 1935, q u a n d o p e r d e u seu filho Hans, c o m 26 anos, e m u m acidente na
m o n t a n h a e m abril d e 1934. Esse foi u m a n o particularmente triste para Klein, ainda mais p o r q u e teve d e

Continua 0
Ler Freud 101

0 Continuação

suportar os violentos ataques d e E. Glover, analista d e s u a filha Melitta S c h m i d e b e r g e t a m b é m dela própria.


Entre outras coisas, Mellita acusava a m ã e d e ter sido a c a u s a d o "suicídio" d e seu irmão, e m b o r a se tratasse
d e fato d e u m acidente. Mas a o p o s i ç ã o mais intensa se organizaria a partir d e 1938 c o m a c h e g a d a e m
Londres de A n n a Freud, q u e tinha f u g i d o c o m seu pai diante d a escalada d o nazismo. A fim d e confrontar as
várias posições teóricas e explicitar as c o n c e p ç õ e s d e c a d a u m , a S o c i e d a d e Britânica organizou em plena
guerra, e m 1943, u m a série d e conferências c o n h e c i d a s c o m o n o m e d e "Grandes controvérsias", q u e sus-
citarão trabalhos notáveis (R King, R. Steiner, 1991). Graças a u m gentleman's agreement, esses d e b a t e s
c u l m i n a r a m c o m a f o r m a ç ã o d e três g r u p o s psicanalíticos dentro d a S o c i e d a d e Britânica: foi criada u m a
escola por A n n a Freud, outra por Melanie Klein e u m terceiro g r u p o reuniu a maioria d o s m e m b r o s d a Socie-
d a d e q u e não t o m a r a m partido, o "Middle Group", q u e se tornaria o " G r u p o d o s Independentes" a p ó s a
morte d e Melanie Klein. Esses g r u p o s subsistem ainda hoje, m a s as divergências científicas entre os m e m -
bros se aplacaram (R King e R. Steiner, 1991).

A técnica inovadora dm análise pelo jogo


Melanie Klein foi a criadora d e u m novo m é t o d o d e psicanálise d e crianças. No plano técnico, trata-se antes
d e t u d o d a técnica d o j o g o q u e ela desenvolveu c o m base na análise d e crianças, e não apenas c o m o t é c n i c a
d e observação. "A genialidade de Klein foi notar que o modo natural de expressão da criança era o jogo, e que
portanto o jogo podia ser utilizado como um meio de comunicação com a criança. Para a criança, o jogo não
é simplesmente um jogo, mas é também um trabalho. Não é apenas um meio de dominar ou de explorar o
mundo exterior, mas também um meio de explorar e de dominar as angústias pela expressão e a elaboração
de fantasias. Pelo jogo, a criança põe em cena suas fantasias inconscientes e, ao fazer isso, elabora e integra
seus conflitos." (H. Segal, 1979, p. 32). E m outras palavras, o j o g o na criança revela as m e s m a s fantasias q u e
o s o n h o , m a s , diferentemente deste último, ele j á é u m a prova d e realidade.
Melanie Klein considera ainda q u e a criança faz u m a transferência imediata e muito intensa para o psicanalista,
e q u e é preciso igualmente interpretar a transferência negativa, ao contrário d e Anna Freud, q u e acha q u e é
necessário primeiro preparar a criança para a análise criando u m a aliança terapêutica. Além disso, afirma q u e
os m é t o d o s educativos preconizados por Hermine Hug-Hellmuth o u A n n a Freud não têm lugar na a b o r d a g e m
psicanalítica d a criança e q u e só servem para perturbá-las. Para ela, u m a verdadeira situação psicanalítica deve
ser realizada por meios analíticos. Pouco a p o u c o , d e 1919 a 1923, Melanie Klein definirá o setting específico d a
análise d e crianças, determinando u m horário estrito, c a d a criança t e n d o sua caixa de jogos c o m p o s t a d e
casinhas, personagens d o s dois sexos d e tamanhos diferentes, animais, massa d e modelar, lápis, barbante,
tesoura. Para Winnicott, essa escolha foi "o avanço mais significativo nesse campo" (H. Segal, 1979, p. 38).
N o p l a n o teórico, a experiência a d q u i r i d a por Melanie Klein c o m a análise d e crianças permitiu-lhe lançar
h i p ó t e s e s q u e a m p l i a r a m c o n s i d e r a v e l m e n t e o c a m p o d e n o s s o s c o n h e c i m e n t o s , e m particular n o q u e diz
respeito às fases p r e c o c e s d o d e s e n v o l v i m e n t o infantil. Desse p o n t o d e vista, era possível afirmar q u e se
Freud havia d e s c o b e r t o a c r i a n ç a n o a d u l t o , c o u b e a Melanie Klein a d e s c o b e r t a d o b e b é na criança.

Comparações entre Freud e Klein


E m muitos aspectos, Melanie Klein situa-se na continuidade d o pensamento freudiano e está d e acordo c o m os
postulados psicanalíticos d e base colocados por Freud, c o m o a existência d o inconsciente, o papel d e s e m p e -
n h a d o pela sexualidade infantil, o c o m p l e x o d e Édipo, a transferência e outros pontos essenciais. Contudo, e m
outros aspectos, as ideias de Klein diferem das d e Freud, e ela c h e g a a conclusões q u e foram contestadas por
muito t e m p o . Hoje, no entanto, numerosos psicanalistas consideram c o m o adquiridas muitas das hipóteses
lançadas por ela.
Vejamos alguns pontos e m q u e Klein difere d e Freud. Por exemplo, ela postulou muito c e d o q u e o objeto é
c o n h e c i d o desde o início d a vida, p o n d o e m dúvida a posição d e Freud, q u e considerava q u e o bebé só
descobria o objeto mais tardiamente (hipótese d o narcisismo primário). Melanie Klein mostrou t a m b é m q u e o
c o m p l e x o d e Édipo operava b e m antes d o q u e Freud imaginava, e q u e existia u m "complexo d e Édipo precoce"
(1928). S e g u n d o ela, esse c o m p l e x o arcaico era baseado nas pulsões orais e anais, e não apenas nas pulsões
genitais, e se constituía d e objetos parciais e não ainda d e objetos totais. Assim, Melanie Klein fazia d o c o m p l e x o
d e Édipo precoce u m elemento importante d e sua teorização das relações d e objeto arcaicas. E/a proporciona

Continua 0
102 Jean-Michel Quinodoz

BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

ainda u m a descrição d o desenvolvimento psicossexual d o menino e d a menina mais c o m p l e t a q u e a d e Freud.


Atribui mais importância d o q u e ele à fixação d o menino p e q u e n o à mãe, fixação q u e Freud vê apenas na
menina. Sua c o n c e p ç ã o d a sexualidade t a m b é m difere d a d e Freud, pois esta não é para ela o equivalente
"castrado" d a sexualidade masculina, mas u m a sexualidade c o m u m a realidade específica, f u n d a d a e m u m
conhecimento precoce d a existência d a vagina nos dois sexos. Klein descreve ainda a angústia fundamental d a
menina, q u e é seu m e d o d e ser despojada e esvaziada d o interior d e seu c o r p o (1932).
Melanie Klein identificou a existência d e u m s u p e r e g o p r e c o c e e x t r e m a m e n t e severo, c u j a c o n s t i t u i ç ã o era
anterior a o c o m p l e x o d e É d i p o , e n ã o posterior, c o m o havia p o s t u l a d o F r e u d . E m u m a n o t a d e 1930, Freud
fez u m a referência explícita ao p o n t o d e vista d e Klein. "A experiência nos ensina, entretanto, que a severi-
dade do superego que uma criança elabora não reflete de modo nenhum a severidade dos tratamentos que
ela recebeu" ( F r e u d , 1930a [ 1 9 2 9 ] , p. 98, n. 1). Isto a levará a p r o p o r n o ç õ e s originais, c o m o a d e p o s i ç ã o
depressiva ( 1 9 3 5 , 1 9 4 0 ) e mais tarde d e p o s i ç ã o e s q u i z o p a r a n ó i d e , s e g u i n d o - s e a d e identificação projetiva
(1946), n o ç õ e s q u e levaram m u i t o t e m p o para s e r e m c o m p r e e n d i d a s e aceitas.
Finalmente, vale d e s t a c a r q u e Klein partilhava as hipóteses d e Freud a c e r c a d a existência de u m a pulsão
d e morte, e a c r e s c e n t o u a elas u m a c o n t r i b u i ç ã o importante c o m o c o n c e i t o d e "inveja p r i m á r i a " , mais
p r e c o c e q u e o c i ú m e (Klein, 1957). A n o ç ã o d e inveja permite aplicar n a prática clínica as consequências
p r o d u z i d a s p e l o conflito entre pulsão d e v i d a e pulsão d e m o r t e , n o ç ã o q u e p e r m a n e c e u essencialmente
teórica até os d e s e n v o l v i m e n t o s kleinianos e pós-kleinianos.

Anna Freud (1895-1982)


A análise com seu pai
A n n a Freud, terceira filha d e S i g m u n d e Martha Freud e a mais nova d e seis irmãos, foi igualmente u m a
pioneira d a psicanálise d e crianças. Desde a adolescência, manifestou forte interesse pela psicanálise, mas
formou-se antes c o m o professora d e primário, f u n ç ã o q u e exerceu até 1920. Na p u b e r d a d e , c o m e ç a r a a ter
fantasias d e fustigação, e esse s i n t o m a foi u m a das razões principais para fazer s u a primeira psicanálise de
1918 a 1922, s e g u i d a d e u m a s e g u n d a e m 1924. Ela e m p r e e n d e u essas curas c o m seu pai, prática q u e não
era excepcional n a é p o c a , pois ainda não se tinha ideia d o s inconvenientes disso para a relação d e transfe-
rência e d e contratransferencia. E m 1922, A n n a Freud apresentou u m relato clínico s o b r e as fantasias de
fustigação e foi a d m i t i d a c o m o m e m b r o d a S o c i e d a d e Vienense d e Psicanálise aos 27 a n o s .

A psicanálise de crianças segundo Anna Freud


E m 1925, A n n a F r e u d a b r e u m seminário c o n s a g r a d o à psicanálise d e crianças e m Viena. Dois a n o s mais
tarde, a p r e s e n t a s u a s ideias pessoais e m u m a o b r a intitulada O tratamento psicanalítico de crianças (1927).
Em s u a t é c n i c a , ela p r e c o n i z a a utilização d e s o n h o s e d e d e s e n h o s d a criança, a s s i m c o m o d o j o g o ,
e s s e n c i a l m e n t e v i s a n d o à o b s e r v a ç ã o . Ela e s t i m a i g u a l m e n t e q u e o analista deveria a d o t a r u m a atitude
educativa a s s o c i a d a à atitude psicanalítica, m a s m o d i f i c o u seus p o n t o s d e vista q u a n d o d e s c o b r i u o papel
d e s e m p e n h a d o p e l o s m e c a n i s m o s d e defesa, o q u e abriu a possibilidade d e interpretar as primeiras resis-
tências n a c r i a n ç a . N e s s e trabalho, A n n a Freud faz t a m b é m suas primeiras críticas a Melanie Klein. Na
é p o c a , as d i v e r g ê n c i a s diziam respeito p r i n c i p a l m e n t e a o a p a r e c i m e n t o d a transferência, q u e Klein consi-
derava c o m o p r e c o c e e n q u a n t o A n n a a via c o m o tardia; outras divergências referiam-se a o j o g o assim
c o m o à n a t u r e z a d o s u p e r e g o , j u l g a d o primitivo e cruel por Klein, e n q u a n t o A n n a Freud avaliava q u e ele
ainda n ã o t i n h a s i d o i n t e g r a d o e m razão d a i m a t u r i d a d e d o e g o .
N o final d o s a n o s d e 1920, A n n a Freud c o m e ç a a se interessar t a m b é m pelos p r o c e s s o s d e maturação do
e g o e pelo p r o b l e m a d a a d a p t a ç ã o , ela trabalha c o m Heinz H a r t m a n n , u m d o s f u n d a d o r e s d a p s i c o l o g i a d o
ego, até ele deixar Viena e emigrar para os Estados U n i d o s . Vale lembrar, n o entanto, q u e A n n a Freud
s e m p r e m a n t e v e distância e m relação à Ego Psychology e q u e ela utilizava e m s e u t r a b a l h o t e r a p ê u t i c o
tanto o primeiro q u a n t o o s e g u n d o t ó p i c o , o r i e n t a n d o s u a e s c o l h a e m f u n ç ã o d o q u e acreditava ser m e l h o r
p a r a o paciente.

Continua Q
Ler Freud 103

$ Continuação

O ego e os mecanismbs de defesa


Para c o m p r e e n d e r o q u e as c o n t r i b u i ç õ e s d e A n n a Freud a c r e s c e n t a r a m à psicanálise, é essencial levar
e m c o n t a certos a s p e c t o s d e s u a p e r s o n a l i d a d e q u e m a r c a r a m p r o f u n d a m e n t e s u a vida profissional. De
fato, a o b r a d e A n n a Freud reflete a o m e s m o t e m p o u m a forte identificação c o m seu pai à qual ela j a m a i s
r e n u n c i o u e u m a c a p a c i d a d e d e desenvolver ideias pessoais e originais (A.-M. Sandler, 1996).
E m s u a o b r a O ego e os mecanismo de defesa (1936), A n n a Freud e x a m i n a a maneira c o m o o e g o entra
e m interação c o m o id, o s u p e r e g o e a realidade externa. Ela d e m o n s t r a q u e , na patologia, o u s o excessivo
d e defesas p o d e causar u m e m p o b r e c i m e n t o d o e g o e d e f o r m a r a p e r c e p ç ã o d a realidade. A l é m d o s
m e c a n i s m o s d e defesa j á c o n h e c i d o s , A n n a Freud d e s c r e v e outras d u a s f o r m a s : "a identificação c o m o
a g r e s s o r " , q u e c o m b i n a u m a identificação e u m a p r o j e ç ã o , e a " r e n d i ç ã o altruísta" (altruistic s u r r e n d e r ) , e m
q u e o sujeito a b a n d o n a seus p r ó p r i o s d e s e j o s e os vive através d e outro. Na m e s m a obra, A n n a Freud
e s t a b e l e c e u m a distinção entre as defesas ditas primitivas e as defesas mais elaboradas, s e n d o q u e estas
últimas exigiriam u m nível superior d e m a t u r i d a d e d o e g o .

A observação direta da criança


E m seus primeiros trabalhos, A n n a Freud atribuiu u m a g r a n d e i m p o r t â n c i a à o b s e r v a ç ã o direta d a c r i a n ç a ,
m e s m o q u e esta se realize através d e u m olhar d e psicanalista. Ela acreditava q u e esse tipo d e o b s e r v a ç ã o
n ã o a p e n a s permitia c o m p r e e n d e r m e l h o r o q u e u m a c r i a n ç a vive d e s d e muita p e q u e n a , c o m o o s resulta-
d o s d e s s a s investigações p o d i a m ser m u i t o úteis para esclarecer a teoria e a técnica psicanalíticas.
A l é m d i s s o , s u a p r e o c u p a ç ã o e m ampliar o c a m p o d a psicanálise d e u o r i g e m à criação d e instituições
psicanalíticas c o m o lugares d e p e s q u i s a e d e t r a t a m e n t o . A s s i m , e m 1925, ela criou u m e s t a b e l e c i m e n t o
p a r a crianças carentes e m c o l a b o r a ç ã o c o m Dorothy B u r l i n g h a m q u e a a c o m p a n h o u ao l o n g o d e t o d a s u a
vida. O s dois filhos desta última f o r a m os dois primeiros c a s o s d e análises d e crianças feitas por A n n a
Freud e m 1923. Em Londres, o n d e se refugiou c o m o pai e c o m t o d a a família e m 1938, A n n a criou t a m b é m
c o m D o r o t h y Burlingham a "War Nurseries", para cuidar d e crianças s e p a r a d a s d e seus pais. A s s i m c o m o
J . Bowlby, A n n a Freud se p r e o c u p o u m u i t o c o m o papel d a s e p a r a ç ã o entre m ã e e criança e, a p ó s a
g u e r r a , lutou para q u e as crianças p e q u e n a s p u d e s s e m receber a visita d e seus pais no hospital e q u e as
m a i s n o v a s p u d e s s e m ter a m ã e a o lado delas. Há razões para acreditar q u e a t e n d ê n c i a a c e n t u a d a d e
A n n a Freud d e cuidar d e crianças carentes e a b a n d o n a d a s estivesse relacionada ao seu s e n t i m e n t o d e ter
s i d o a última criança d a família, r e l e g a d a pelos maiores. Provém daí, provavelmente, sua p r e o c u p a ç ã o d e
realizar u m trabalho d e p r e v e n ç ã o c o m os pais e as p e s s o a s p r ó x i m a s d a s crianças.

A noção de "linha de c esenvolvimento"


A a b o r d a g e m teórica e t é c n i c a d e A n n a Freud está enraizada i g u a l m e n t e e m u m a perspectiva f u n d a d a e m
u m c o n c e i t o d e d e s e n v o l v i m e n t o , m a s c o n s i d e r a d a e m u m a base mais a m p l a d o q u e aquela definida pela
teoria clássica. De fato, p o r muito t e m p o o d e s e n v o l v i m e n t o estava estritamente ligado à n o ç ã o d e fases
libidinais descritas por Freud e m 1905, m a s p o u c o a p o u c o se i m p ô s a n e c e s s i d a d e d e incluir no d e s e n v o l -
v i m e n t o infantil as n o ç õ e s d e agressividade, d e relações objetuais e d e relações entre e g o , id e s u p e r e g o ,
p a r a m e n c i o n a r a l g u n s a s p e c t o s . Nessa perspectiva, A n n a Freud introduziu a n o ç ã o original d e "linhas d e
d e s e n v o l v i m e n t o " e m s u a o b r a O normal e o patológico na criança (1965). Esse c o n c e i t o f u n d a m e n t a - s e n a
ideia d e q u e u m a p e s s o a q u e r e c e b e u u m a f o r m a ç ã o psicanalítica p o d e se basear e m u m a o b s e r v a ç ã o
c u i d a d o s a d o c o m p o r t a m e n t o d e u m a criança para deduzir daí i n f o r m a ç õ e s válidas s o b r e o f u n c i o n a m e n t o
d o m u n d o interno infantil.
A partir d a noção de linha d e desenvolvimento, A n n a Freud se p r e o c u p o u e m c o m o dar conta d a complexidade
de f e n ó m e n o s q u e se desenvolvem simultaneamente durante o desenvolvimento d a criança e d o adolescente
até a idade adulta. Entre essas mudanças, vale mencionar, a título de exemplo, o estudo d a evolução d o s
diferentes tipos d e angústia e m função d a idade, o estudo das transformações associadas às modificações das
funções corporais - alimentação, asseio, etc. - , assim c o m o o estudo d a passagem d a dependência d o recém-
nascido à aquisição d e autonomia. A n n a Freud insistiu na importância de examinar a evolução individual e m seu

Continua Q
104 Jean-Michel Quinodoz

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

conjunto e, para ela, a ideia central d o trabalho psicanalítico era ajudar a criança a encontrar seu lugar no
desenvolvimento normal d o indivíduo.

Formar futuros psicanalistas de crianças


No final d a S e g u n d a G u e r r a Mundial, vários d e seus c o l a b o r a d o r e s das "War Nurseries" d e s e j a v a m ter u m
ensino mais r i g o r o s o p a r a se t o r n a r e m psicoterapeutas de crianças, e por isso A n n a Freud c r i o u e m 1947
seu próprio ciclo d e f o r m a ç ã o . E m 1952, i n a u g u r o u a " H a m p s t e a d Child Therapeutic C o u r s e a n d Clinic",
c o n h e c i d a hoje c o m o n o m e d e "The A n n a Freud Center". Nessa instituição, a o b s e r v a ç ã o se limita a
crianças c o m m e n o s d e 5 a n o s , e constitui u m a parte relativamente m o d e s t a d a f o r m a ç ã o d e futuros
" p s y c h o a n a l y t i c a l l y trained child therapists". E m 1970, a British Psychoanalytical Society r e c o n h e c e u a
f o r m a ç ã o d a d a no "The A n n a Freud Center", q u e é aberta atualmente aos c a n d i d a t o s q u e d e s e j a m se
formar c o m o analistas d e crianças

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Angústia d e castração - curiosidade infantil - neurose infantil - fobia infantil - psicanálise d e crianças
"NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE
OBSESSIVA (O HOMEM DOS RATOS)"
S. FREUD (1909d)

)s sintomas obsessivos também têm um sentido


e podem ser resolvidos pela psicanálise

A c u r a psicanalítica d e E r n s t L a n z e r , a p e l i - d o p s i q u i s m o . M a s o êxito o b t i d o n e s s a c u r a p e r -
dado d e" H o m e m dos Ratos", proporcionou a m i t e a F r e u d d e m o n s t r a r que a neurose obsessi-
F r e u d a confirmação d e q u e g r a v e s s i n t o m a s o b - v a é u m a afecção d e o r i g e m psíquica e q u e , a s -
s e s s i v o s p o d e m s e r c u r a d o s p e l a psicanálise u t i l i - s i m c o m o a histeria, t e m sua o r i g e m e m confli-
zando o mesmo procedimento provado com t o s i n c o n s c i e n t e s d e o r i g e m s e x u a l e a f e t i v a ; além
êxito n o c a s o d e h i s t e r i a . A n e u r o s e o b s e s s i v a - d i s s o , q u a n d o s e c o n s e g u e , m e d i a n t e a análise,
o u "doença d a dúvida", c o m o também é c o n h e - t o r n a r c o n s c i e n t e a lembrança d e c o n f l i t o s s i g -
c i d a - c a r a c t e r i z a - s e p o r distúrbios c o m p u l s i v o s n i f i c a t i v o s s u r g i d o s n a infância, o b t é m - s e a r e -
e s p a n t o s o s q u e p r o d u z e m sérias l i m i t a ç õ e s : solução d o s s i n t o m a s . E s s e t r a t a m e n t o p e r m i t e
ruminações, ideias o b s e s s i v a s , compulsão a a Freud evidenciar igualmente o papel determi-
c u m p r i r a t o s indesejáveis, r i t u a i s v a r i a d o s d e s t i - nante desempenhado pelo erotismo anal na neu-
n a d o s a l u t a r contra esses p e n s a m e n t o s e esses r o s e o b s e s s i v a e p e l o c o n f l i t o amor-ódio q u e será
atos, etc. P o r e x e m p l o , E r n s t L a n z e r v i v i a t e r r i - c h a m a d o d e " c o n f l i t o d e ambivalência" e m 1 9 1 2 .
ficado p e l a i d e i a o b s e s s i v a d e q u e o suplício d o s Vários p s i c a n a l i s t a s c o m e n t a r a m e s s e r e -
r a t o s f o s s e i n f l i g i d o a s e u p a i , e daí o a p e l i d o l a t o clínico, s o b r e t u d o d e p o i s q u e a s a n o t a ç õ e s
q u e r e c e b e u d e F r e u d . E m razão d a n a t u r e z a i n t e g r a i s d e F r e u d s e t o r n a r a m acessíveis. I s s o
i n v a l i d a n t e d o s s i n t o m a s o b s e s s i v o s , até então p e r m i t i u c o n h e c e r m a i s d e p e r t o a técnica d e
e s s a afecção e r a c o n s i d e r a d a c o m o s i n a l d e u m a F r e u d e destacar seus pontos fortes e fracos à
degenerescência o u d e u m a d e b i l i d a d e orgânica l u z d a experiência a t u a l .

B I O G R A F I A S E Hl >TORIA

Ernst Lanzer ou "O H o m e m d o s Ratos"


Ernst Lanzer, u m jurista c o m 29 anos, veio consultar Freud porque sofria d e obsessões múltiplas q u e lhe causavam
sérias inibições. Levou 10 anos para concluir seu curso d e Direito, e estava tendo u m a e n o r m e dificuldade para
se inserir na vida profissional; quanto à sua vida sentimental, insistia muito na ideia d e se casar. Lanzer já tinha
consultado sem sucesso vários psiquiatras famosos antes d e iniciar sua análise c o m Freud, no dia 1 d e outubro 2

d e 1907. Freud c o m p r e e n d e u imediatamente o grande interesse científico q u e poderia ter o tratamento c o m u m


paciente q u e considerava dotado. Além disso, ele parece ter simpatizado muito c o m Lanzer, a ponto d e tê-lo
c o n v i d a d o para u m jantar familiar, fato não usual e q u e rompia c o m as normas éticas q u e preconizava. Durante
essa cura, Freud apresentou e m quatro ocasiões relatórios sobre a evolução d e seu paciente perante seus
colegas d a Sociedade Psicanalítica d e Viena nas reuniões das quartas-feiras. E m 1908, fez u m a outra exposição
notável durante o I Congresso Internacional d e Psicanálise e m Salzburg. Seu biógrafo, Ernest Jones, q u e o
encontrou ali pela primeira vez, relata a forte impressão q u e essa apresentação magistral produziu sobre nele.

Continua Q
106 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

Além d o relato d e s s a cura publicado por Freud e m 1909, d i s p o m o s d e suas anotações cotidianas manuscritas
sobre esse caso, o q u e é excepcional, pois Freud tinha o hábito d e destruí-las. Essas preciosas anotações
evidenciam as qualidades literárias d a escrita d e Freud q u e , para além d o texto propriamente dito, permite ao
leitor sentir as angústias d o H o m e m d o s Ratos, assim c o m o s u a empatia c o m esse paciente. Essas anotações
foram publicadas parcialmente na Standard Edition e m 1955 (S. Freud, 1909d, " A d d e n d u m : Original Record of
the case", SE, X, p. 253-318), e a íntegra d o texto alemão c o m s u a tradução e m francês foi publicada e m 1974
por E. R. Hawelka.
Freud f i c o u m u i t o satisfeito c o m o s resultados terapêuticos o b t i d o s , e o paciente, q u e antes d e vir consultá-
lo estava i n c a p a c i t a d o d e trabalhar, arranjou e m p r e g o a p ó s a cura. E m a g o s t o d e 1914, Ernst Lanzer foi
c o n v o c a d o p a r a lutar n a Primeira Guerra M u n d i a l , caiu prisioneiro d a s t r o p a s russas, e a c a b o u m o r r e n d o
e m n o v e m b r o d e 1 9 1 4 , l o g o a p ó s o início d o s conflitos.

D E S C O B E R T A DA O B R A

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1909d), " R e m a r q u e s sur u m c a s d e névrose


o b s e s s i o n e l l e ( U H o m m e aux rats)", trad. M. B o n a p a r t e e R. L o e w e n s t e i n , in Cinq psychanalyses, Paris,
PUF, 1954, p. 199-261 [as páginas indicadas entre colchetes remetem ás OCF.R IX, p. 131-214].

Uma série impressionante de obsessões c o c e s , a c o m p a n h a d a s d e u m a g r a n d e excitação


e d e u m s e n t i m e n t o d e c u l p a intolerável, c r i a -
Q u a n d o Ernst Lanzer veio consultar Freud, r a m n o espírito d o m e n i n o u m c o n f l i t o psíquico
e l e d e s c r e v e u u m a série i m p r e s s i o n a n t e d e s i n - insolúvel: "Temos assim uma pulsão erótica e um
tomas obsessivos que t i n h a m seagravado p r o - movimento de revolta contra ela; um desejo (não ain-
gressivamente a p o n t o d eimpedi-lo d e traba- da obsessivo) e uma apreensão (já com um caráter
l h a r n o s últimos d o i s m e s e s : m e d o i r r a c i o n a l obsessivo); um afeto penoso e uma tendência a atos de
de que acontecesse algo c o m seu pai a m a d o defesa. É o inventário completo de uma neurose" ( p .
a s s i m c o m o à s u a "mulher" a m a d a , t e m o r d e 2 0 5 [142]).
s e r t o m a d o d o i m p u l s o d e c o r t a r a própria g a r -
g a n t a c o m u m a n a v a l h a , interferências a b s u r -
d a s q u e i n v a d i a m c a d a v e z m a i s s e u espírito, a A grande obsessão dos ratos
p o n t o de paralisar seu p e n s a m e n t o e seus atos.
I n i c i a l m e n t e , F r e u d propôs a E r n s t L a n z e r M a s é a análise d a g r a n d e o b s e s s ã o d o s r a -
s e g u i r a r e g r a d a associação l i v r e , q u e é a i n d a tos que p e r m i t e a F r e u d ir m a i s longe n a inves-
h o j e a r e g r a f u n d a m e n t a l d a análise: "No dia se- tigação d a s v e r d a d e i r a s c a u s a s d e s s a n e u r o s e
guinte, ele concorda em respeitar a única condição obsessiva e das possibilidades de e l i m i n a r seus
proposta para a cura: dizer tudo o que lhe vem à men- s i n t o m a s . T u d o começara r e c e n t e m e n t e , n o
mês d e a g o s t o a n t e r i o r , q u a n d o o p a c i e n t e es-
te, ainda que isso seja penoso, ainda que seu pensa-
t a v a n o exército e o u v i u u m c a p i t ã o r e l a t a n d o
mento lhe pareça sem importância, i n s e n s a t o e sem
u m suplício o r i e n t a l a t r o z , n o q u a l s e f i x a v a n o
relação com o problema. Deixo que ele escolha o tema
traseiro d eu m condenado u m recipiente con-
pelo qual deseja começar" ( p . 2 0 3 [139]). A s s i m ,
t e n d o r a t o s q u e p e n e t r a v a m e m s e u ânus p e r -
d e s d e a p r i m e i r a sessão, F r e u d l i v r o u s e u p a c i e n -
furando-o. Desde o m o m e n t o e mque o u v i u
t e d a obsessão d e v e r m u l h e r e s n u a s e d a i d e i a
esse relato, o paciente f i c o u terrificado c o m a
d a m o r t e d e s e u p a i o u d e s u a "mulher". D e f a t o ,
o paciente relatouespontaneamente aF r e u d que
i d e i a o b s e s s i v a d e q u e e s s a punição f o s s e
infligida aseu pai edepois àsua mulher. E para
e s s a obsessão v o y e u r i s t a começara p o r v o l t a d o s
a f a s t a r e s s e p e n s a m e n t o intolerável, r e p e t i a u m
6 e 7 a n o s , época e m q u e u m a g o v e r n a n t a m u i -
gesto a c o m p a n h a d o d eu m a palavra encanta-
to bonita olevava para sua cama epermitia que
tória: "Vamos ver o que é que você vai achar disso".
e l e a a c a r i c i a s s e . E s s a s experiências s e x u a i s p r e -
Ler Freud 107

Freud revelou ainda q u e a cada m o m e n t o i m - u t i l i z a p o u c o a transferência, e m b o r a r e v e l e e l e -


p o r t a n t e d o r e l a t o , esboçava-se n o r o s t o d o m e n t o s d e s t a e m várias situações, p a r t i c u l a r -
p a c i e n t e u m a expressão b i z a r r a q u e p a r e c i a m e n t e q u a n d o o paciente sonha c o ms u a filha,
t r a d u z i r "o horror de um prazer que ele próprio o u q u a n d o dirige insultos aelee m seus sonhos,
desconhecia" ( p . 2 0 7 [146]). o u ainda q u a n d o sedirige a seu analista e m
E s s e r e l a t o f o i o p o n t o d e p a r t i d a d a análi- u m a sessão d e explicação s o b r e a transferência
s e d e t a l h a d a d o s múltiplos p e n s a m e n t o s e c h a m a n d o - o d e "Meu capitão!".
ações o b s e s s i v a s q u e p e r t u r b a v a m o p a c i e n -
t e , u t i l i z a n d o s i s t e m a t i c a m e n t e o método d e
associação l i v r e . N o f i n a l d e s s e t r a b a l h o d e Interpretações de sintomas e
descondensação m i n u c i o s a , F r e u d c o n s e g u i u de atos compulsivos
e l i m i n a r u m a após a o u t r a c a d a i d e i a e c a d a
C o m o F r e u d a n a l i s o u o sp e n s a m e n t o s e o s
c o n d u t a obsessiva d es e u paciente.
atos c o m p u l s i v o s d es e u paciente? Vamos
t o m a r só u m e x e m p l o , o d a compulsão q u e s e
A luta impiedosa er tre o amor apoderava d o H o m e m d o sRatos d e retirar u m a
e o ódio e o erotisrr o anal pedra d ocaminho onde sua mulher deveria
p a s s a r a f i m d e protegê-la e d e recolocá-la e m
N a análise d o H o m e m d o s R a t o s , F r e u d f o - seguida n o lugar. Para Freud, o gesto c o m p u l -
c a l i z o u s u a s interpretações p r i n c i p a l m e n t e n a sivo d etirar e depois recolocar a p e d r a n oca-
reconstrução d e d o i s c o n f l i t o s f u n d a m e n t a i s : m i n h o parece m u i t o significativo de u m ponto
de u m lado, u m conflito triangular entre ele, d e v i s t a simbólico, p o i s o p a c i e n t e e x p r e s s a p o r
s e u p a i e s u a m u l h e r , c o n f l i t o v i s t o s o b o ângu- e s s e s a t o s contraditórios a dúvida q u e s e n t e
l o d a relação e d i p i a n a c o m s e u p a i ; d e o u t r o quanto a oa m o r p o r s u a m u l h e r : tirar a pedra
l a d o , u m c o n f l i t o e n t r e o a m o r e o ódio, d a d o d o c a m i n h o p a r a protegê-la é u m a t o f u n d a d o
q u e a s o b s e s s õ e s r e s u l t a m d e u m desequilíbrio n o a m o r , e n q u a n t o recolocar a pedra n o c a m i -
a f e t i v o l i g a d o a o f a t o d e q u e o ódio é m a i s f o r - n h o é u m a t o f u n d a d o n o ódio, p o r q u e s i g n i f i -
t e q u e o a m o r : "Nesse amoroso, desencadeia-se uma c a r e c r i a r u m obstáculo n o q u a l s u a m u l h e r p o -
luta entre o amor e o ódio, sentidos pela mesma pes- deria machucar-se. A s s i m , ele descreve clini-
soa" ( p . 2 2 3 [164]). A l é m d i s s o , c o n f l i t o e d i p i a n o c a m e n t e o q u e será d e s i g n a d o m a i s t a r d e p e l o
e c o n f l i t o a m o r - ó d i o estão f o r t e m e n t e e n t r e l a - n o m e d e "anulação r e t r o a t i v a " , e s s e t i p o d e a t o
ç a d o s , f o r m a n d o a r e d e q u a s e inextrincável q u e compulsivo e m dois tempos, e m q u e o segun-
caracteriza aneurose obsessiva eseus sintomas. do anula oprimeiro.
A o longo d orelato dessa cura, F r e u d n o s Assim, segundo Freud, o verdadeiro signifi-
permite acompanhar opercurso complexo que c a d o desses atos v e m d o fato d eq u e o s i n t o m a
s e g u i u p a r a d e s f a z e r e s s e s imbróglios. R e t o - o b s e s s i v o justapõe d u a s tendências contraditó-
m a n d o p a c i e n t e m e n t e u m a a u m ac a d a ideia e r i a s , o a m o r e ódio, d e f o r m a q u e a m b a s e n c o n -
c a d a ação o b s e s s i v a , e l e t e n t a d e s c o b r i r s e u s i g - t r a m s i m u l t a n e a m e n t e s u a realização. M a s o
nificado, geralmente absurdo à primeira vista, c o m p o n e n t e d e ó d i o e s c a p a à consciência d o
d e m o d o a torná-las c o m p r e e n s í v e i s p a r a s e u p a c i e n t e , q u e j u s t i f i c a s u a ação m e d i a n t e r a c i o -
paciente. D e p o i s , elep r o c u r a recolocar cada ele- nalizações, i s t o é, m e d i a n t e j u s t i f i c a t i v a s p o u c o
m e n t o e m u m a r e d e d e significações m a i s a m - verossímeis q u e v i s a m a m a s c a r a r o ódio a f i m
pla, rede q u e seestende à m e d i d a q u e o traba- d e q u e e l e permaneça r e p r i m i d o n o i n c o n s c i e n -
l h o d e análise a v a n ç a , até c h e g a r a u m a v i s ã o te. O q u e caracteriza esse t i p o d e n e u r o s e , c o m o
d e c o n j u n t o d o q u a d r o psicopatológico. F r e u d d i z F r e u d , é q u e : "O amor não extinguiu o ódio,
r e c o r r e p r i n c i p a l m e n t e à reconstrução a p a r t i r mas só o reprimiu no inconsciente, e lá, protegido con-
d e associações l i v r e s d e s e u p a c i e n t e , p r o c u r a n - tra a destruição pela consciência, ele pode subsistir e
d o convencê-lo d o v a l o r d e s u a s d e s c o b e r t a s , e mesmo crescer" ( p . 2 5 4 [206]).
c r i a n d o a s s i m u m a aliança terapêutica q u e c o n - Se o t e m a d oe r o t i s m o a n a l é o n i p r e s e n t e
t o u m u i t o p a r a o êxito d a c u r a . C o n t u d o , e l e ao longo dessa cura, F r e u d selimita a meneio-
108 J e a n - M i c h e l Quinodoz

ná-lo, s e m l h e c o n f e r i r a i n d a o p a p e l q u e será p e n s a m e n t o s d e l i r a n t e s : "Há alguma coisa mais,


atribuído p o s t e r i o r m e n t e n a n e u r o s e o b s e s s i - uma espécie deformação delirante de conteúdo bi-
v a . P o r e x e m p l o , e l es e refere a isso q u a n d o zarro: os pais do menino conheceriam seus pensamen-
e l u c i d a a obsessão d o s r a t o s q u e e v o c a e m s e u tos, pois este os expressava sem que ele próprio conse-
p a c i e n t e a lembrança d e u m i n t e n s o e r o t i s m o guisse entender suas palavras" ( p . 2 0 5 [143]). F r e u d
n a s u a infância, d o p r a z e r q u e t i n h a s e n t i d o u t i l i z a i g u a l m e n t e o t e r m o "delírio" ( p . 2 4 3 [192])
d u r a n t e v á r i o s a n o s p o r u m a irritação d a z o n a q u a n d o d e s c r e v e a compulsão d o p a c i e n t e a i n -
retal causada p o r vermes. F r e u d evoca igual- terromper seu trabalho à noite e a abrir a porta
m e n t e a s m ú l t i p l a s significações simbólicas q u e n a expectativa d achegada d eseu pai, m e s m o
existem entre o dinheiro eoerotismo anal e de- s a b e n d o q u e e l e já t i n h a m o r r i d o há n o v e a n o s .
t e r m i n a m o s traços d e caráter p a r t i c u l a r e s d a s E s s e t i p o d e crença c o n s t i t u i u m a n e g a ç ã o d a
n e u r o s e s o b s e s s i v a s : p o r e x e m p l o , a compulsão r e a l i d a d e característica d o p e n s a m e n t o psicóti-
ao asseio ligada a u m t e m o r obsessivo de u m a co. C o n t u d o , F r e u d hesita e m c o n s i d e r a r c o m o
contaminação, a equivalência e n t r e o d i n h e i r o "um delírio que ultrapassa os limites de uma neuro-
e o s e x c r e m e n t o s , a equivalência e n t r e o s r a t o s se obsessiva" o u c o m o u m a c r e n ç a l i g a d a à m e -
e a s crianças, o u a i n d a a c r e n ç a s e x u a l i n f a n t i l g a l o m a n i a i n f a n t i l , a "onipotência dos pensamen-
d e q u e a s crianças n a s c e m p e l o ânus. tos" ( p . 2 5 1 [201]) q u e e l e i d e n t i f i c a n o H o m e m
d o s R a t o s . E l e d e s c r e v e a i n d a o "alto grau de su-
perstição" q u e c o n s t a t a e m E r n s t L a n z e r , a s s i m
Elementos neuróticos e c o m o s u a crença n o s p r e s s á g i o s e n o s s o n h o s
psicóticos lado a lado proféticos, a o m e s m o t e m p o e m q u e r e s s a l t a q u e
e l e não e r a t o t a l m e n t e s u p e r s t i c i o s o : "Assim,
F r e u d f a l a d e "neurose" a propósito d o d i a g -
sendo supersticioso e ao mesmo tempo não sendo, ele
nóstico d o H o m e m d o s R a t o s , m a s o b s e r v a - s e
se distinguia claramente das pessoas supersticiosas
q u e e m várias o c a s i õ e s e l e d e s t a c a e l e m e n t o s
incultas cuja convicção é inabalável" ( p . 2 4 8 [198]).
que, a m e u ver, d e c o r r e m m a i s d apsicose d o
E m outras palavras, F r e u d assinala que o H o -
que d aneurose, e que, n oentanto, coexistem
m e m d o s R a t o s n ã o a p e n a s acredita e não acredi-
a o l a d o d e e l e m e n t o s neuróticos. P o r e x e m p l o ,
ta s i m u l t a n e a m e n t e n a superstição, c o m o t a m -
q u a n d o o p a c i e n t e i m a g i n a q u e o s p a i s lêem
b é m acredita e não acredita n a m o r t e d e s e u p a i .
s e u s p e n s a m e n t o s , F r e u d s e p e r g u n t a q u e são

£ EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS

A neurose obsessiva segundo Freud: 30 anos de pesquisas


Freud foi o p r i m e i r o a isolar a n e u r o s e o b s e s s i v a c o m o e n t i d a d e p s i c o p a t o l ó g i c a específica d u r a n t e os
a n o s 1895-1896. C o n t u d o , e m 1909, n a é p o c a d a análise d e Ernst Lanzer, c h a m a d o d e " H o m e m d o s
Ratos", ele a i n d a t i n h a u m a visão a p e n a s parcial d a p s i c o p a t o l o g i a d e s s a a f e c ç ã o . E levou 3 0 a n o s para
c o n s e g u i r a p r e s e n t a r u m q u a d r o d e c o n j u n t o desta. R e t o m e m o s b r e v e m e n t e essas e t a p a s sucessivas.
Em 1895, e m u m a carta a W. Fliess, Freud pressente pela primeira vez q u e a o r i g e m d a s ideias e d a s ações
obsessivas d e seus pacientes deve ser b u s c a d a e m u m traumatismo sexual situado n a infância: "Será que já
revelei para você, oralmente ou por escrito, o grande segredo clínico? A histeria resulta de um choque sexual
pré-sexual, a neurose obsessiva, de uma volúpia sexual pré-sexual transformada posteriormente em senti-
mento de culpa" (Freud a Fliess, carta d e 15 d e o u t u b r o d e 1895, p. 113). E m u m a série d e artigos p u b l i c a d o s
entre 1895 e 1896, Freud apresenta suas hipóteses sobre o m e c a n i s m o e m j o g o nas o b s e s s õ e s e c o m e ç a
por demonstrar s u a o r i g e m psíquica (1894a); p o u c o depois, ele reúne s o b o n o m e d e "neurose obsessiva"
u m c o n j u n t o específico d e sintomas (ideias e atos obsessivos, d ú v i d a patológica, etc.) q u e t i n h a m sido rela-
c i o n a d o s até então a patologias diversas, q u e iam d a degenerescência mental à psicastenia (1895c, 1895h,
1896b). A o introduzir o conceito d e neurose obsessiva, Freud r o m p e c o m a tradição psiquiátrica d e s u a

Continua £
Ler Freud 109

O Continuação

é p o c a , atribuindo a o r i g e m d e s s a síndrome a conflitos intrapsíquicos, d o m e s m o m o d o q u e a histeria, a outra


g r a n d e entidade clínica à qual ele foi o primeiro a atribuir u m a o r i g e m psíquica.
E m 1905, q u a n d o introduziu a n o ç ã o revolucionária d e s e x u a l i d a d e infantil e m Três ensaios sobre a teoria
da sexualidade (1905d), Freud m e n c i o n o u o papel q u e d e s e m p e n h a o e r o t i s m o anal na m a s t u r b a ç ã o na
c r i a n ç a , assim c o m o o papel d o s a d i s m o anal q u e p r e d o m i n a na o r g a n i z a ç ã o pré-genital, a m b o s estreita-
m e n t e ligados ao conflito a m o r - ó d i o , q u e será descrito d e p o i s c o m o n o m e d e "conflito d e a m b i v a l ê n c i a " .
A análise de Ernst Lanzer, o H o m e m d o s Ratos, realizada entre 1907 e 1908, é que permitirá a Freud verificar a
pertinência de suas hipóteses sobre a importância central d o conflito entre o amor e o ódio na psicogênese d o s
sintomas obsessivos, abrindo novas possibilidades terapêuticas (1909d). No relato dessa cura, ele descreve o
papel d o erotismo anal nos sintomas e no caráter d e seu paciente. Em dois trabalhos da m e s m a época, Freud
desenvolve temas ligados à neurose obsessiva; d e u m lado, e m "Atos obsessivos e práticas religiosas" (1907b),
ele estabelece u m elo entre a c o m p u l s ã o d a neurose obsessiva e a prática religiosa, ambas p o d e n d o ter o
significado simbólico d e u m cerimonial d e proteção para lutar contra o sentimento de culpa consciente; d e outro
lado, e m "Caráter e erotismo anal" (1908b), Freud estabelece u m vínculo entre o erotismo anal - q u e aparece
q u a n d o as funções corporais associadas à zona anal são fortemente erotizadas durante a infância - e os traços
típicos d e caráter observados e m u m adulto acometido d e neurose obsessiva - necessidade de o r d e m , meticu-
losidade, obstinação o u avareza quanto à retenção de excrementos.
E m 1913, e m u m a d e n d o a Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905d), Freud introduziu u m a n o v a
fase d e d e s e n v o l v i m e n t o q u e c h a m o u d e "fase a n a l " , e m q u e p r e d o m i n a m o erotismo anal e as p u l s õ e s
s á d i c a s , fase q u e ele situa entre a fase oral e a fase fálica: a partir d e então, s e g u n d o ele, a fase anal
constitui o p o n t o d e fixação o u d e regressão característica d a n e u r o s e obsessiva.
E m 1917, e m "As transformações d a pulsão exemplificadas no erotismo anal" (1916-1917e), Freud se indaga
sobre a evolução das pulsões ligadas ao erotismo anal q u a n d o se estabelece o primado d a organização genital.
Por exemplo, o interesse pelo dinheiro resulta d o interesse pré-genital pelo excremento, s e g u n d o ele, enquanto
q u e o desejo de ter u m filho e a inveja d o pênis encontram igualmente seu fundamento no erotismo anal: d e fato,
o paciente estabelece inconscientemente u m a equivalência no nível s i m b ó l i c o entre esses três t e r m o s -
excremento = filho = pênis, d e m o d o q u e esse "símbolo comum" (p. 111 [61]) subsiste no psiquismo na fase
genital.
Finalmente, Freud introduz e m 1923 (1923b) a noção d e superego que, e m sua forma primitiva, se mostra
extremamente severo e m relação ao e g o e d á conta d o sentimento d e culpa excessiva observada e m n u m e r o -
s o s pacientes, e m particular n a q u e l e s q u e s o f r e m d e s i n t o m a s o b s e s s i v o s e se s e n t e m o p r i m i d o s p o r
autocondenações e necessidade d e punição. Ele c o m p l e m e n t o u essas ideias e m 1924 desenvolvendo a noção
d e m a s o q u i s m o erógeno e as relacionou c o m o conflito fundamental entre pulsão d e vida e pulsão d e morte.

PÓS-FREUDIANO s

Neurose ou psicose? Neurose e psicose?


D o m e s m o m o d o q u e a p r o p ó s i t o d o "delírio" d e H a n o l d , o herói d e Gradiva (1907a), c o l o c a - s e a q u e s t ã o
d e saber se u m a parte d a s i n t o m a t o l o g i a d e Ernst Lanzer d e c o r r e d a n e u r o s e o u d a p s i c o s e . M a s , nesse
c a s o , trata-se d e u m paciente autêntico, e n ã o d e psicanálise a p l i c a d a a u m a o b r a literária. C o m o d e s t a q u e i
e m m e u s c o m e n t á r i o s a p r o p ó s i t o d e Gradiva, a l g u n s psicanalistas c o n s i d e r a m essas m a n i f e s t a ç õ e s c o m o
u m distúrbio d e c o n s c i ê n c i a p a s s a g e i r o , não-psicótico, q u e p o d e ser o b s e r v a d o e m u m paciente neuróti-
c o . O u t r o s psicanalistas, a o contrário, c o n s i d e r a m q u e Freud d e s c r e v e n o H o m e m d o s Ratos m e c a n i s m o s
característicos d a n e u r o s e q u e se j u s t a p õ e m a m e c a n i s m o s característicos d a p s i c o s e , c o m o a n e g a ç ã o
d a realidade, a idealização o u a o n i p o t ê n c i a d o p e n s a m e n t o . A m e u ver, p o d e - s e efetivamente constatar a
j u s t a p o s i ç ã o d e s s e s dois t i p o s d e m e c a n i s m o s no material clínico descrito por Freud e m Ernst Lanzer, e o
m e s m o o c o r r e e m o u t r o s c a s o s a p r e s e n t a d o s p o r ele d e s d e Estudos sobre a histeria (1895d) até "A
p s i c o g ê n e s e d e u m c a s o d e h o m o s s e x u a l i s m o n u m a mulher" (1920a). J á e n c o n t r a m o s i n d i c a ç õ e s d e s s a

Continua Q
110 Jean-Michel Quinodoz

PÓS-FREUDIANOS • Continuação

diferenciação e m F r e u d e m " F o r m u l a ç õ e s s o b r e os d o i s princípios d o f u n c i o n a m e n t o m e n t a l " (1911b),


o n d e ele diferencia o princípio d o prazer e o princípio d a realidade, até s e u s últimos escritos, o n d e ele
enfatiza a n e g a ç ã o d a realidade e a c l i v a g e m d o e g o , c o m o e m " F e t i c h i s m o " (1927e) e e m Algumas lições
elementares de psicanálise (1940 [1938]). É c o m b a s e nessas c o n t r i b u i ç õ e s freudianas d o ú l t i m o período
q u e M. Klein e W. B i o n a p r o f u n d a r ã o a distinção q u e se p o d e estabelecer entre o s m e c a n i s m o s d e defesa
ligados à n e u r o s e e a q u e l e s ligados à p s i c o s e .

A técnica de Freud c o m o " H o m e m d o s Ratos": críticas e comentários


Os h o m e n s p r e d o m i n a m n o c a s o p u b l i c a d o por Freud, c o m o d e s t a c a r a m K. H. Blacker e R. A b r a h a m
(1982), e n q u a n t o as m u l h e r e s s ã o onipresentes e m suas notas d e trabalho. Esses autores c o n s i d e r a m q u e
o conflito d e a m b i v a l ê n c i a e m relação a o pai d o paciente, a p o n t a d o por Freud, r e m e t e a u m conflito d e
a m b i v a l ê n c i a e m relação à s u a m ã e , q u e ele n ã o p e r c e b e u b e m d u r a n t e a análise. S e g u n d o eles, certas
p a s s a g e n s a o a t o contratransferenciais d e Freud seriam u m a i n d i c a ç ã o d o p a p e l i m p o r t a n t e q u e teria
d e s e m p e n h a d o e s s a transferência m a t e r n a i g n o r a d a , c o m o por e x e m p l o o fato d e ter c o n v i d a d o o " H o -
m e m d o s R a t o s " p a r a u m jantar familiar, g e s t o essencialmente maternal ligado à o r a l i d a d e .
R M a h o n y (1986, 2002) assinala q u e a d e s p e i t o d a s insuficiências manifestas q u e se p o d e p e r c e b e r poste-
riormente n e s s a c u r a , ela foi u m s u c e s s o terapêutico: "Contudo, diz ele, a o insistir demais e ao negligenciar
todas as reações transferenciais possíveis, sobretudo negativas, ao deixar de lado o papel das mulheres
nessa cura e ao enfatizar essencialmente a relação edipiana que o Homem dos Ratos mantinha com seu
pai, ele [Freud] consegue efetivamente obter resultados terapêuticos de boa qualidade" (2002, p. 1435).
Examinando a técnica utilizada por Freud na é p o c a dessa cura e m 1907, H. R. Lipton (1977) constata q u e ele
adotou a c h a m a d a técnica "clássica", q u e será sua marca durante os 40 anos seguintes, e q u e seus escritos
técnicos publicados entre 1912 e 1914 apenas confirmaram. S e g u n d o Lipton, pode-se considerar q u e a técnica
freudiana "clássica" envolve d e maneira implícita dois elementos distintos: d e u m lado, u m a a b o r d a g e m instru-
mental interna à situação analítica e, d e outro, u m a relação pessoal q u e se estabelece entre paciente e analista,
exterior à situação psicanalítica. Quanto à técnica " m o d e r n a " praticada pelos psicanalistas pós-freudianos atuais,
ela se diferenciaria d a técnica clássica e m relação ao uso extensivo d a transferência e d a contratransferencia,
s e g u n d o Lipton, pois esta última implica a relação pessoal entre paciente e analista e m seu conjunto. Q u a n d o
Lipton fala aqui d e técnica moderna, ele se refere explicitamente à corrente psicanalítica ligada à psicologia d o
Ego, e implicitamente à corrente kleiniana e pós-kleiniana.

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

lação retroativa - caráter anal - conflito a m o r - ó d i o -


3 - onipotência d o pensamento
U M A RECC )RDAÇÃO DE INFÂNCIA DE LEONARDO DA VINCI
S. FREUD (1910c)

Freud no espelho de Leonardo

F r e u d f i c o u f a s c i n aa d o d e s d e o início p e l o n o caso d eLeonardo, a libido se t r a n s f o r m a


enigma que a vida e a obra d eLeonardo d a e m u m a c u r i o s i d a d e i n t e l e c t u a l s e m conteú-
V i n c i , génio u n i v e r s a l d o R e n a s c i m e n t o , r e p r e - do sexual, mediante u m processo que F r e u d
s e n t a v a m p a r a a psicanálise. O e s t u d o q u e d e - c h a m a d e sublimação. F r e u d analisa e m segui-
d i c o u a e l ee m 1910 p e r m i t i u - l h e i n t r o d u z i r d a a ú n i c a l e m b r a n ç a d e infância r e l a t a d a p o r
v á r i o s c o n c e i t o s psicanalíticos f u n d a m e n t a i s , Leonardo, a de u m abutre que teria aberto sua
c o m o d e sublimação e narcisismo, e d e s c r e v e r boca, acariciando-a c o m a cauda, q u a n d o ele
u m a f o r m a particular d e homossexualidade. e s t a v a n o berço. E s s a lembrança p e r m i t e a
E l e t o m o u c o m o p o n t o d ep a r t i d a d e s e u Freud revelar u m a fantasia inconsciente d e
estudo alguns dados surpreendentes sobre felação q u e d a v a c o n t a d a formação p r e c o c e
L e o n a r d o r e l a t a d o s p o r s e u s biógrafos: c o m o do tipo d epersonalidade d eLeonardo e d e
s e e x p l i c a , p o r e x e m p l o , a coincidência e n t r e s e u s m o d o s p a r t i c u l a r e s d e relação. F i n a l m e n -
o d e s e n v o l v i m e n t o d e s m e s u r a d o d es u a p a i - te, c o n s i d e r a n d o o a m o r q u e o artista dedica-
xão d e i n v e n t o r e a renúncia p r o g r e s s i v a d e v a a o s j o v e n s d o s q u a i s s ec e r c a v a , F r e u d d e s -
s u a a t i v i d a d e d e p i n t o r , até a b a n d o n á - l a ? P a r a creveu u m tipo particular de escolha de objeto
Freud, o impulso que leva a o conhecimento h o m o s s e x u a l ; s e g u n d o s u a hipótese, a m a n d o
t e m sua fonte n acuriosidade sexual infantil, e s s e s g a r o t o s à m a n e i r a d eu m a mãe, L e o n a r -
i s t o é, n o d e s e j o q u e t o d o s s e n t e m d e s a b e r d e d o s e i d e n t i f i c a r i a c o m u m a mãe a m o r o s a ,
o n d e v ê m o s bebés e q u e p a p e l d e s e m p e n h a m a m a n d o a s i p r ó p r i o através d e l e s . F r e u d q u a -
o p a i e a mãe. Porém, q u a n d o a s e x u a l i d a d e lifica esse a m o r p o r s im e s m o d e "narcísico",
i n f a n t i l s o f r e u m a repressão e x c e s s i v a , c o m o noção q u e u t i l i z a p e l a p r i m e i r a v e z a q u i .
epr

B I O G R A F I A S E Hl 5TORIA

Afinidades entre dois génios


Freud expressou seu interesse por Leonardo d a Vinci pela primeira vez e m u m a carta a Fliess (carta d e 9 d e
outubro d e 1898), mas só c o m e ç o u a se aprofundar nesse t e m a e m novembro d e 1909, q u a n d o voltou d o s
Estados Unidos. Antes d e iniciar a tarefa, consultou várias obras e se inspirou na leitura d o romance d e Dimitri
Marejkowski, escrito e m f o r m a d e u m diário fictício mantido por u m j o v e m discípulo d o mestre, q u e descrevia
dia a dia a vida atormentada d o criador genial q u e foi Leonardo. Freud publicou s u a obra e m maio d e 1910, m a s
Ferenczi ficou p r e o c u p a d o c o m a acolhida q u e teve, pois achava a coisa mais chocante escrita desde o peque-
no Hans. Até m e s m o seus simpatizantes ficaram horrorizados por ele ter o u s a d o falar e m felação e homossexua-
lidade. Freud ficou satisfeito c o m essa obra. Entretanto, c o n c o r d o u e m substituir o termo homossexualidade por
inversão na edição seguinte. U m a terceira edição foi lançada e m 1923, m a s metade d o s exemplares foi queima-
d a pelos nazistas e m 1938.

Continua A
112 Jean-Michel Q u i n o d o z

0 BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

Quais foram o s motivos q u e levaram Freud a se identificar c o m Leonardo, criador d e génio por q u e m sentia
tanta afinidade? E m primeiro lugar, Freud compartilhava c o m Leonardo d a Vinci a m e s m a paixão pelo conheci-
mento: a m b o s eram pesquisadores incansáveis, sempre e m busca d e novas descobertas e q u e n ã o hesitavam
e m explorar o s d o m í n i o s mais variados, frequentemente e m ruptura c o m seu t e m p o . Por outro lado, esse
período d e vida d e Freud correspondia a u m a evolução interior durante a qual ele t o m o u mais consciência d e
tendências homossexuais e paranóicas inconscientes q u e às vezes se apoderavam dele durante s u a longa
amizade c o m Fliess; mas, a o m e s m o t e m p o , tendências idênticas voltavam a se manifestar nas relações c o m
seus novos alunos, e m particular c o m C. G. J u n g e S. Ferenczi. Vale recordar q u e o trabalho s o b r e Leonardo
antecedeu u m p o u c o o q u e Freud dedicou ao Presidente Schreber e m 1 9 1 1 , n o qual mostrou q u e a paranóia
está f u n d a d a e m g r a n d e m e d i d a e m u m a repressão d a homossexualidade. Freud descobriu t a m b é m na biogra-
fia d e Leonardo semelhanças entre a infância d o artista e s u a própria infância: assim c o m o ele, Freud teve u m a
mãe muito j o v e m e u m pai relativamente mais velho, c o m u m a perturbação d a o r d e m d e gerações. Mas, dife-
rentemente d e Freud, Leonardo era filho ilegítimo, o q u e foi motivo d e sofrimento durante t o d a a vida. Finalmen-
te, Freud observou n a vida d e Leonardo d a Vinci certas manifestações psicopatológicas q u e lhe recordarão as
neuroses obsessivas q u e acabara d e estudar e m " O H o m e m d o s Ratos": ambivalência inata, ruminações até a
obsessão, desejo d e perfeição a tal ponto q u e Leonardo nunca conseguiu concluir suas obras.
Em 1910, q u a n d o c o m p l e t o u 54 anos, Freud saiu d e seu isolamento e s u a f a m a era crescente, e m b o r a suas
ideias ainda f o s s e m muito contestadas. Nesse ano, f u n d o u a Associação Psicanalítica Internacional, q u e teve
c o m o primeiro presidente J u n g . Esse foi t a m b é m o m o m e n t o das primeiras dissensões entre seus alunos,
razão pela qual Freud c e d e u a A. Adler a presidência d o g r u p o d e Viena para tentar aliviar as tensões, mas s e m
sucesso. Esses anos foram igualmente aqueles d e u m h o m e m de u m a força criadora excepcional,
c o m p l e m e n t a d o por sua vida familiar. Mais tarde, ele se referirá a esse período c o m o o mais feliz d e sua existência.

D E S C O B E R T A DA OBRA

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1910c), Um souvenir d'enfance de Leonard


de Vinci, t r a d . J . A l t o u n i a n et al., Paris, Gallimard, édition bilingue, 1991 [as páginas indicadas entre colche-
tes remetem às OCF.R X, p. 79-164].

Um génio de condutas enigmáticas e l e s . Q u a n t o às m u l h e r e s , d e a c o r d o c o m seus


biógrafos, e l e n u n c a t e v e relações s e x u a i s o u
F r e u d começa p o r r e c o r d a r q u e L e o n a r d o amorosas c o m n e n h u m a delas. F r e u d ficou sur-
ficou conhecido primeiramente como pintor preso ainda c o mo fato d e u m grande artista
q u e t e v e u m a g r a n d e influência s o b r e s e u tem- c o m o L e o n a r d o s e m o s t r a r t ã o p o u c o sensível
po, pois seus d o n s d einventor, q u e aparecem
ao erotismo, eleq u e p i n t a v a a beleza f e m i n i n a
e m s e u s Cadernos, permaneceram desconheci-
c o m t a l e n t o , e tão i n d i f e r e n t e a o s s e n t i m e n t o s
d o s d e s e u s contemporâneos. E l e p i n t o u o b r a s -
d e a m o r e ódio, q u e a p a r e n t e m e n t e e r a m s u b s -
p r i m a s c o m o Mona Lisa e a Santa Ceia, m a s com
tituídos p e l o d e s e j o d e c o n h e c i m e n t o .
u m a lentidão p r o v e r b i a l , e r a r a m e n t e concluía
o s q u a d r o s q u e t i n h a começado, s e m s e p r e o -
cupar muito c o m o o f u t u r o deles. Leonardo A sublimação: "Faziam-se investigações,
a c a b o u a b a n d o n a n d o a p i n t u r a , e F r e u d vê n i s - ao invés de amar" (p. 85 [100])
s o u m s i n t o m a d e s u a s inibições. P a r a l e l a m e n -
t e , L e o n a r d o s e n t i a u m a n e c e s s i d a d e insaciá- F r e u d s e p e r g u n t a d e o n d e provém e m L e o -
vel d econhecer tudo, e s u aatividade desme- n a r d o e s s a paixão p e l a p e s q u i s a a ponto d e
s u r a d a d ep e s q u i s a d o r a c a b o u p o re s m a g a r o s u f o c a r o artista, t a n t o e ms u a v i d a a f e t i v a c o m o
a r t i s t a . F r e u d o b s e r v a também q u e L e o n a r d o s e x u a l . E l e p o s t u l a então q u e a e n e r g i a q u e
g o s t a v a d e s e cercar d e b e l o s j o v e n s e f e zd e L e o n a r d o d e d i c o u à s u a paixão p e l o conheci-
u m d e l e s s e u único h e r d e i r o , m a s n a d a indica m e n t o v e m d a persistência n e l e d a c u r i o s i d a -
q u e t e n h a m a n t i d o relações h o m o s s e x u a i s com d e e m relação à s e x u a l i d a d e observada nas
Ler Freud 113

crianças p e q u e n a s q u e q u e r e m s a b e r d e o n d e d u r a n t e seus p r i m e i r o s anos d e v i d a ele f o r a


v ê m o s bebés, c u r i o s i d a d e f r u s t r a n t e p o r q u e c r i a d o a p e n a s p o r s u a mãe e não c h e g o u a s e r
n u n c a é satisfeita. N o a d u l t o , q u a n d o a sexua- reconhecido oficialmente por seu pai. Freud
lidade infantil é r e p r i m i d a de m a n e i r a excessi- c o m p l e t a s u a argumentação m e n c i o n a n d o a
va, c o m o foi o caso de Leonardo, F r e u d acredi- m i t o l o g i a egípcia, e m p a r t i c u l a r a d e u s a "Mut",
t a q u e a pulsão s e x u a l t r o c o u s u a m e t a s e x u a l divindade femininahomossexual, portadora de
p o r u m a m e t a não-sexual p e l o m e c a n i s m o d a u m p ê n i s e m ereção.
sublimação: "Assim, por exemplo, esse homem faria
investigação com o devotamento apaixonado que um
outro dedica ao seu amor, e poderia fazer investiga- Uma forma de homossexualidade funda-
ção ao invés de amar" ( p . 9 3 [102]). Q u a n d o a r e - da em uma identificação narcísica
p r e s s ã o é e x c e s s i v a , três p o s s i b i l i d a d e s s e
A p a r t i r d e s s a f a n t a s i a d e felação d e s c o b e r -
a b r e m p a r a o d e s t i n o d a pulsão s e x u a l : o u a
t a n a lembrança, F r e u d d e s c r e v e a i n d a u m t i p o
p e s q u i s a e a s e x u a l i d a d e c a u s a m u m a inibição
particular de homossexualidade e m Leonardo:
g e n e r a l i z a d a d o p e n s a m e n t o , característica d a
d u r a n t e s u a infância p r e c o c e , u m a ligação e r ó -
n e u r o s e ; o u ap e s q u i s a é " s e x u a l i z a d a " , o u seja,
tica i n t e n s a t r a n s f o r m o u o a m o r p e l a mãe e m
o pensamento erotizado torna-se u m equiva-
i d e n t i f i c a ç ã o c o m e l a , ligação r e f o r ç a d a p e l a
l e n t e d aa t i v i d a d e s e x u a l q u e e l as u b s t i t u i ,
ausência d o p a i ; a s s i m , a o t o m a r o l u g a r d e s u a
c o m o n aneurose obsessiva; o u , finalmente, a
mãe, o i n d i v í d u o a m a a s i m e s m o a m a n d o o s
libido s et r a n s f o r m a e m desejo d e saber, m a s
j o v e n s . F r e u d q u a l i f i c a d e "narcísica" e s s a e s -
evita temas sexuais, o que teria sido o caso d e
colha de objeto homossexual - é ap r i m e i r a vez
Leonardo da Vinci, segundo Freud.
q u e ele utiliza o t e r m o n a r c i s i s m o -, p o i s essa
F r e u d s e i n d a g a e m s e g u i d a s o b r e a infân-
escolha d eobjeto s e realiza c o n f o r m e o m o d e -
c i a d e L e o n a r d o a p a r t i r d e u m a única l e m b r a n -
lo de Narciso, personagem da mitologia grega
ça p r e c o c e d e s c o b e r t a n o s Cadernos, a p r o p ó s i -
q u e s e a p a i x o n a p o r s u a própria i m a g e m
t o d e s e u e s t u d o s o b r e o v o o d o s pássaros: " ( . . . )
r e f l e t i d a n a água, a c r e d i t a n d o e m s e t r a t a r d e
me vem à mente como a lembrança mais remota que
u m outro. Esse tipo particular d e escolha d e
estando ainda no berço, um abutre desceu até mim,
objeto h o m o s s e x u a l parece ter-se c o n f i r m a d o
abriu minha boca com sua cauda e tocou meus lábios
na v i d a de Leonardo, que secercava de jovens
várias vezes com essa mesma cauda" ( p . 1 0 9 [107]).
a q u e m a m a v a c o m o u m a mãe e c o m o s q u a i s
P a r a F r e u d , e s s a lembrança p r o p o r c i o n a u m
n ã o p a r e c e t e r t i d o relações h o m o s s e x u a i s p r o -
esclarecimento altamente significativo sobre a
p r i a m e n t e d i t a s . Além d i s s o , d e s t a c a m o s q u e ,
maneira como apersonalidade de Leonardo se
nesse estudo, F r e u d associa onarcisismo ao p r o -
o r g a n i z o u d e s d e a infância. D e f a t o , e s s a l e m -
c e s s o d e identificação, d e m o d o q u e a p r i m e i r a
brança e v o c a n d o u m a felação r e m e t e a u m a
t e o r i a f r e u d i a n a d o n a r c i s i s m o não i m p l i c a
vivência i n f a n t i l a i n d a m a i s p r e c o c e , q u e r e -
a p e n a s a noção d e a m a r a s i m e s m o , m a s t a m -
m o n t a aos primeiros m o m e n t o s da v i d a , antes
bém a ideia d e se i d e n t i f i c a r c o m a mãe e d e s e
m e s m o q u e a criança p u d e s s e c o n s t i t u i r u m a
a m a r c o m o a mãe o a m a . M a i s t a r d e , F r e u d t e n -
lembrança; s e g u n d o F r e u d , t r a t a - s e d o traço
derá a d e i x a r d e l a d o a dimensão d e " i d e n t i f i -
s e n s o r i a l q u e d e i x a n o b e b é a experiência d e
cação narcísica", noção q u e , e m b o r a c o n s t i t u a
m a m a r n o s e i o d e s u a m ã e : "A impressão orgâ-
u m a s p e c t o d o n a r c i s i s m o , terá u m o u t r o d e s -
nica que esse primeiro gozo vital produz em nós sem
d o b r a m e n t o c o m o c o n c e i t o d e identificação
dúvida permaneceu indelevelmente marcado" ( p .
p r o j e t i v a i n t r o d u z i d o p o r M . K l e i n e m 1946.
1 2 3 [111]). F r e u d a c r e s c e n t a q u e e s s a f a n t a s i a
o r a l - pênis e b o c a - i m p l i c a i g u a l m e n t e u m a
fantasia homossexual passiva, relacionada à O sorriso enigmático da Gioconda
i d e i a d e q u e se t r a t a d e u m a mãe q u e p o s s u i o s
dois sexos. Ele julga ter e n c o n t r a d o n a biogra- P a r a F r e u d , a p i n t u r a d e L e o n a r d o também
f i a d e L e o n a r d o a confirmação d e s s a i d e i a : e x p r e s s a a i n t e n s i d a d e d a relação p r e c o c e c o m
114 Jean-Michel Quinodoz

s u a mãe, o q u e s e r i a c o m p r o v a d o , p o r e x e m - p. 213). M a s , n e m p o risso F r e u d esquece d o


p l o , p e l o s o r r i s o e n i g m á t i c o d a Gioconda, às p a i . A s s i m , e l e e v o c a a identificação d e L e o -
vezes chamado d e"sorriso leonardesco". N o n a r d o c o m s e u p a i , p o r e x e m p l o , n ofato d e que
quadro q u e figura a Virgem e o M e n i n o c o m o pintor negligenciava tanto suas obras quanto
S a n t ' A n a , F r e u d v ê a representação d a s d u a s o pai negligenciara seu filho, c o m base nas fon-
mães d e L e o n a r d o , a mãe v e r d a d e i r a , C a t a r i n a , t e s biográficas disponíveis. F r e u d considera
que o criou durante seus primeiros anos, e a a i n d a q u e a audácia e a independência d o p e s -
j o v e m esposa d es e upai, q u ec u i d o u dele d e - q u i s a d o r são a consequência d a f a l t a d e a p o i o
pois. F o i nesse q u a d r o que, e m 1913,0. Pfister p a t e r n o q u e L e o n a r d o t e v e d ee n f r e n t a r d e s d e
c h a m o u a atenção p a r a a i m a g e m d o a b u t r e n a m u i t o c e d o , c o m o também a manifestação d e
dobra d avestimenta usada p o rM a r i a , o q u e u m a r e b e l d i a c o m relação a s e u p a i e à a u t o r i -
foi i n t e r p r e t a d o p o r ele c o m o u m a "imagem-adi- d a d e e mgeral, p a r t i c u l a r m e n t e n o q u e d i z res-
vinhação" ( n . 1 , p . 2 1 1 [141], v e r t a m b é m F i g . 2 , p e i t o a o s e n s i n o s dogmáticos d a I g r e j a .

PÓS-FREUDIANOS

"Abutre" e m lugar d e "milhafre": consequências d e u m erro d e tradução


U m erro d e tradução invalidaria o conjunto d e hipóteses freudianas? E m 1923, o correspondente d e u m a revista
foi o primeiro a destacar u m erro d e tradução n a lembrança d e infância d e Leonardo d a Vinci, q u e levou Freud
a falar d e "abutre" e m lugar d e "milhafre". Parece q u e Freud se fiou e m u m a versão alemã d a tradução d o s
Cadernos e m q u e a palavra italiana "nibbio" foi traduzida inadvertidamente e m alemão c o m o "Geier" (abutre). O
erro levou esse correspondente a levantar dúvidas quanto à validade d a interpretação feita por Freud. E m 1956,
Shapiro, eminente historiador d a arte, publicou u m estudo d o c u m e n t a d o confirmando o erro d e Freud, q u e ele
atribuiu a u m a leitura superficial d o s Cadernos d e Leonardo; além disso, ele d e m o n s t r o u q u e o t e m a d o quadro
e m q u e Sant'Ana figura c o m o terceira era representado c o m frequência n o Renascimento, contradizendo Freud,
que acreditava tratar-se d e u m a exceção. Esse erro d e tradução foi utilizado posteriormente d e f o r m a abusiva
pelos detratores d a psicanálise q u e se utilizaram dele não apenas para questionar as interpretações d e Freud a
respeito d e Leonardo, m a s t a m b é m para pôr e m dúvida a validade d o conjunto d a psicanálise freudiana. Em u m
estudo publicado e m 1 9 6 1 , K. Eissler, responsável pelos Arquivos Freud, procurou reabilitar a c o n d u t a d e Freud
mostrando q u e a troca d o milhafre pelo abutre não a invalidava e m nada.
Lendo a t e n t a m e n t e u m a n o t a a c r e s c e n t a d a p o r Freud e m 1919, fiquei s u r p r e s o a o constatar q u e ele pró-
prio havia c o n s i d e r a d o a ideia d e q u e talvez n ã o se tratasse d e u m abutre, antes q u e a q u e s t ã o se tornasse
pública e m 1923. E m 1910, Havelock Ellis havia feito u m a crítica a esse respeito, a q u e F r e u d r e s p o n d e u
alguns a n o s m a i s t a r d e n o s seguintes t e r m o s : "Com certeza, o grande pássaro poderia não ser exatamente
um abutre" (1910c, [107, n. 2], p. 9 1 , nota 2, a c r e s c e n t a d a e m 1919). Freud s e q u e s t i o n a , n e s s a m e s m a
nota, s o b r e a p r ó p r i a natureza d a l e m b r a n ç a d e L e o n a r d o : será q u e s e tratava d a l e m b r a n ç a d e u m a c o n -
t e c i m e n t o real, o u seria a m a r c a d e i x a d a e m s u a m e m ó r i a d e u m relato repetido p o r s u a m ã e , q u e d e p o i s
ele teria c o n f u n d i d o c o m a l e m b r a n ç a d e u m a c o n t e c i m e n t o real? Diante d e s s e d i l e m a , Freud s e atém
f i r m e m e n t e à p r e e m i n ê n c i a d a fantasia s o b r e a l e m b r a n ç a real. A t u a l m e n t e , e m razão d a s p o l é m i c a s e m
t o r n o d a l e m b r a n ç a d e infância d e L e o n a r d o , privilegia-se o papel d a fantasia e m d e t r i m e n t o d a l e m b r a n ç a
d e u m a c o n t e c i m e n t o real, m e s m o p o r q u e esta última sofreu incessantes m o d i f i c a ç õ e s a posteriori.

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

E s c o l h a d e o b j e t o h o m o s s e x u a l - h o m o s s e x u a l i d a d e - narcisismo - s u b l i m a ç ã o
PARTE II
OS ANOS DA MATURIDADE
(1911-1920)
NOTAS PSICANALÍTICAS SOBRE UM RELATO
A JTOBIOGRÁFICO DE UM CASO DE PARANÓIA
(O CAS() DE PARANÓIA: O PRESIDENTE SCHREBER)"
S. FREUD (1911c)

Após as neuroses, o estudo das psicoses

D e p o i s d eter-se e m p e n h a d o e m descobrir trou c o m Schreber - lhe permite fazer u m a de-


a o r i g e m das neuroses, e m especial da neurose m o n s t r a ç ã o a d m i r á v e l q u e a angústia p e r s e c u -
histérica e d a n e u r o s e o b s e s s i v a , F r e u d p a r t e tória e o delírio p a r a n ó i c o d e c o r r e m d e u m a
p a r a a p e s q u i s a d e u m m e c a n i s m o específico defesa contra desejos homossexuais reprimi-
n a o r i g e m da psicose. Ele ficou i m p r e s s i o n a d o d o s . Q u a n t o a o m e c a n i s m o d a paranóia, e l e
c o m a s a n a l o g i a s e n t r e o conteúdo p s i c o s s o c i a l s e r i a o p r o d u t o d e u m a transformação d o a m o r
d o s delírios p r o d u z i d o s p e l o s p a c i e n t e s ( h o m o s s e x u a l ) e m ódio, s e g u n d o F r e u d , ó d i o
paranóicos e o conteúdo p s i c o s s e x u a l r e p r i m i - q u e d e p o i s s e r i a d e s v i a d o p o r projeção p a r a u m
d o p e l a s n e u r o s e s , c o m o se os p r i m e i r o s e x p r e s - perseguidor externo.
sassem abertamente asfantasias que o s segun- Visto que o estudo sobre o Presidente
dos o c u l t a m e m seu inconsciente. A partird e S c h r e b e r c o n s t i t u i a p r i n c i p a l e x p o s i ç ã o teóri-
1 9 0 7 , F r e u d s e i n d a g a s o b r e a s possíveis r e l a - co-clínica d e F r e u d s o b r e a p s i c o s e , e x a m i n a r e -
ções e n t r e a paranóia e a demência p r e c o c e o u m o s brevemente as tentativas que realizoua o
e s q u i z o f r e n i a e , n a época d e s u a s discussões l o n g o d e várias d é c a d a s p a r a d e s c o b r i r s e u m e -
c o m K . A b r a h a m e C. G . Jung, ele t o m a conhe- c a n i s m o específico. E m b o r a F r e u d t e n h a d e s -
c i m e n t o d a existência d e Memórias de um doente c r i t o e m S c h r e b e r d i v e r s o s m e c a n i s m o s psíqui-
dos nervos, o b r a autobiográfica d e D a n i e l P a u l c o s r e l a c i o n a d o s à organização psicótica, e l e
Schreber, p u b l i c a d a e m1903. F r e u d e n c o n t r a c o n s i d e r a q u e o s p a c i e n t e s psicóticos n ã o e s t a -
n e s s e t e x t o u m m a t e r i a l clínico p a r t i c u l a r m e n - b e l e c e m transferência e , p o r e s s a razão, n ã o são
t e v a l i o s o , o d e u m delírio p a r a n ó i c o e x p o s t o analisáveis, p o n t o d e v i s t a n ã o - c o m p a r t i l h a d o
c o m t a l e n t o p e l o próprio d o e n t e . O e s t u d o d e hoje principalmentepelos psicanalistas kleinia-
caso baseado unicamente e m u m d o c u m e n t o n o s e pós-kleinianos q u e d e s e n v o l v e r a m a a n á -
autobiográfico - p o i s F r e u d n u n c a s e e n c o n - lise desses pacientes.

B I O G R A F I A S E Hl STORIA

A história d a d o e n ç a d e S c h r e b e r tal c o m o Freud a c o n h e c i a


Freud utilizou u n i c a m e n t e as i n f o r m a ç õ e s biográficas f o r n e c i d a s pelo p r ó p r i o S c h r e b e r e m s u a s Memórias
para redigir s e u e s t u d o e, n ã o o b s t a n t e u m a tentativa j u n t o às p e s s o a s p r ó x i m a s dele, n ã o o b t e v e outras
i n f o r m a ç õ e s s o b r e s u a infância. A p r e s e n t a m o s a seguir u m r e s u m o d o q u e ele sabia.
A primeira afecção e m Daniel Paul Schreber apareceu e m 1884, s o b a forma d e u m episódio depressivo hipo-
condríaco, p o u c o depois d o fracasso d e sua candidatura c o m o d e p u t a d o d o Reichstag, q u a n d o ele tinha 42
a n o s e era u m simples magistrado. Foi tratado na clínica d o Professor Flechsig e m Leipzig, psiquiatra e anatomista

Continua #
118 J e a n - M i c h e l Quinodoz

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

d o cérebro d e r e n o m e internacional, a q u e m se deve a descoberta d o s feixes cerebelares d a m e d u l a espinal


que levam s e u n o m e . A p ó s alguns meses d e tratamento, Daniel Paul saiu curado. A s e g u n d a afecção c o m e ç o u
alguns anos mais tarde, e m 1893, p o u c o após s u a nomeação para o importante cargo d e presidente d a Corte
de Apelação d e Saxe, q u a n d o ela estava c o m 53 anos. Sofrendo d e u m delírio alucinatório a g u d o , foi novamen-
te hospitalizado na clínica d e Flechsig e transferido seis meses depois para Dresden, para u m a outra clínica
dirigida pelo Dr. Weber. Permanecerá ali por oito anos até obter autorização d e saída a d v o g a n d o e m causa
própria junto a o Tribunal d e Dresden. Foi n o âmbito desse procedimento q u e Daniel Paul Schreber escreveu
Memórias de um doente dos nervos (1903), o n d e descreve e m detalhe o curso d e s u a d o e n ç a , d e s e u delírio e
de suas alucinações, para fundamentar seu pedido d e liberação; ele pretendia c o m isso demonstrar a o tribunal
que se tornara socialmente a d a p t a d o e q u e s u a afecção não seria mais u m motivo jurídico suficiente para
manter s u a internação. O pedido foi aceito e m 1902. O juiz observou e m seus considerandos q u e o paciente já
não representava u m perigo para ele próprio e para outros, m a s q u e s u a loucura se mantinha. Daniel Paul
Schreber retirou-se e m Dresde c o m s u a mulher e sua filha adotiva, p o r é m , cinco anos depois teve u m a recaída
depressiva psicótica e precisou ser internado e m u m hospital psiquiátrico e m Leipzig o n d e ficou por quatro
anos, até s u a morte e m 14 d e n o v e m b r o d e 1 9 1 1 , m e s m o ano e m q u e foi lançada a o b r a d e Freud.
E m s e u e s t u d o , F r e u d m e n c i o n a b r e v e m e n t e q u e o pai d e Daniel Paul, o Dr. Daniel Gottlieb Moritz Schreber,
era u m m é d i c o f a m o s o p o r ter e s t i m u l a d o a j u v e n t u d e a manter u m c o r p o s a d i o e p u b l i c a d o u m m é t o d o d e
ginástica t e r a p ê u t i c a . Q u a n t o à m ã e d e Daniel Paul, este n ã o a m e n c i o n a e m suas Memórias, e Freud,
c u r i o s a m e n t e , t a m p o u c o s e refere a ela.

DESCOBERTA DA OBRA
A s p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o t e x t o p u b l i c a d o e m S. F r e u d , " R e m a r q u e s p s y c h a n a l y t i q u e s sur
T a u t o b i o g r a p h i e d ' u n c a s d e p a r a n ó i a (Dementia paranoídes) ( L e P r e s i d e n t S c h r e b e r ) " , in Cinq
psychanalyses, t r a d . M. B o n a p a r t e e R. Loewenstein, Paris, PUF, 1954, 4 2 2 p. [as p á g i n a s i n d i c a d a s entre
colchetes r e m e t e m à s OCF.R X, p. 225-304].

Da angústia de ser transformado em emasculação v i n c u l o u - s e à i d e i a d e q u e h a v i a


mulher à missão redentora a g o r a u m a missão d i v i n a a s e r c u m p r i d a : a i d e i a
obsessiva d eser t r a n s f o r m a d o e m m u l h e r pas-
E m s u a f a s e a g u d a , o delírio paranóico e a l u - s a v a a f a z e r p a r t e então d e u m p r o j e t o místico,
cinatório d e D a n i e l P a u l S c h r e b e r e r a n a s u a o d e ser f e c u n d a d o p e l o s r a i o s d i v i n o s a f i md e
essência u m delírio persecutório m u i t o a n g u s - gerar n o v o s seres h u m a n o s . E l e associava essa
tiante, c e n t r a d o n a ideia d e q u e ele seria i m p e r i o - missão a D e u s , p o r q u e m s e n t i a u m a m i s t u r a
samente emasculado e transformado e m m u -
d e veneração e r e v o l t a , e m p a r t i c u l a r p o r q u e e s t e
l h e r , não p o d e n d o e s c a p a r a e s s e a b u s o s e x u a l .
exigia de Schreber, h o m e m de alta moralidade,
N o início, o p e r s e g u i d o r e r a o P r o f e s s o r F l e c h s i g ,
u m g o z o s e x u a l v o l u p t u o s o c o m o só u m a m u -
médico q u e t r a t a v a d e l e , i n s t i g a d o r d e s s e " a s -
l h e r p o d e e x p e r i m e n t a r . E s s a transformação d o
s a s s i n a t o d a a l m a " e d o complô q u e t r a n s f o r -
delírio l e v o u F r e u d a a f i r m a r q u e "o que vemos
m a r i a seu corpo e m u m corpo d em u l h e r para
como uma produção mórbida, a formação do delírio, é
"(...) ser entregue então a um homem para abusos
na realidade a tentativa de cura, a reconstrução" (p.
sexuais e depois largado, ou seja, abandonado com
315 [293-294]).
certeza à putrefação" ( p . 2 7 1 [241 ]). D e p o i s , o p r ó -
prio D e u s t o m o u olugar de Flechsig. D a n i e l P a u l
S c h r e b e r t e v e a p r o v a d e s s a perseguição a o o u -
A paranóia: uma defesa contra um desejo
v i r v o z e s q u e l h e f a l a v a m e através d e experiên-
homossexual reprimido
c i a s d e destruição d e a l g u n s d e s e u s órgãos,
c o m o o estômago o u o i n t e s t i n o . V i s t o q u e a doença d e D a n i e l P a u l S c h r e b e r
P o s t e r i o r m e n t e , e s s e delírio persecutório d e c o m e ç o u c o m u m delírio persecutório, F r e u d d e -
b a s e s e x u a l t r a n s f o r m o u - s e e m u m delírio d e r e - d u z i u daí q u e o a u t o r d e t o d a s a s perseguições
denção, d e m o d o q u e a f a n t a s i a a n g u s t i a n t e d e seria c o m certeza o Professor Flechsig, que, a o
Ler Freud 119

l o n g o d e t o d a a doença, p e r m a n e c e r á c o m o o vez no terreno familiar do complexo paterno" ( p .


p r i m e i r o sedutor. M a s , indaga-se Freud, por que 3 0 2 [279]). S e g u n d o e l e , a análise r e v e l a q u e o
F l e c h s i g se t o r n o u u m p e r s e g u i d o r , ele q u e h a v i a conflito de Daniel Paul Schreber c o m Flechsig
curado Daniel Paul Schreber d e sua primeira e c o m D e u s está f u n d a d o e m u m c o n f l i t o i n -
afecção e q u e o b t i v e r a s e u p r o f u n d o r e c o n h e c i - fantil c o m seu p a i , d em o d o q u e o q u e deter-
m e n t o ? Para F r e u d , o fato d eque justamente a m i n o u o delírio f o i u m m e c a n i s m o a n á l o g o a o
p e s s o a d e q u e m ele gostava antes, q u e a d m i r a - mecanismo que produz u m a neurose: Freud
v a e a q u e m atribuía u m a g r a n d e influência s e postula que o pai d e Schreber era visto p o r
t o r n e o p e r s e g u i d o r d e c o r r e d e u m a reversão este c o m o u m a f i g u r a severa e i m p o n e n t e q u e
d o a m o r e m ódio. P o r q u e e s s a reversão d e s e n - proíbe a satisfação s e x u a l auto-erótica d o m e -
timentos? Porque o sentimento d e reconheci- n i n o e ameaça p u n i - l o c o m a castração. E m
m e n t o d e S c h r e b e r e m relação a F l e c h s i g e s t a v a o u t r a s p a l a v r a s , o d e s e j o d eser t r a n s f o r m a d o
f u n d a d o e m u m a p e g o erótico i n t e n s o e m r e l a - e m m u l h e r q u e c o m p õ e o núcleo d o delírio
ção à p e s s o a d e s s e m é d i c o : f o i e s s e a p e g o q u e d e D a n i e l P a u l não é senão o p r o d u t o d o m e d o
l e v o u S c h r e b e r a desejar s et o r n a r a m u l h e r d e de sercastrado por seu pai por causa d a
u m s e r tão m a r a v i l h o s o q u a n t o F l e c h s i g : "Como masturbação i n f a n t i l , o q u e l e v a o m e n i n o a
deve ser bom ser uma mulher submetida a uma cópu- a d o t a r u m a posição h o m o s s e x u a l p a s s i v a o u
la" ( p . 2 9 0 [264]). E m o u t r a s p a l a v r a s , "a doença "posição f e m i n i n a " n o c o m p l e x o p a t e r n o ,
de Schreber eclodiu quando da explosão da libido ho- constituído d e u m a m i s t u r a d e submissão e
mossexual" ( p . 2 9 3 [268]). D u r a n t e u m a t r a n s f o r - revolta.
m a ç ã o p o s t e r i o r d o delírio, o p e r s e g u i d o r
F l e c h s i g , p o r s u a v e z , f o i substituído p o r D e u s ,
de m o d o que a fantasia homossexual ficou m a i s A fase narcísica do desenvolvimento infantil
aceitável p a r a S c h r e b e r , p o i s a e m a s c u l a ç ã o e a
transformação e m m u l h e r p a s s a v a m a f a z e r F r e u d r e s s a l t a q u e não é a f a n t a s i a d o d e s e j o
p a r t e d e u m p l a n o d i v i n o graças a u m p r o c e s s o homossexual ligada a ocomplexo paterno que
d e r a c i o n a l i z a ç ã o : "Assim, diz F r e u d , as duas
// ,/
c a r a c t e r i z a a paranóia, p o i s e s s e c o m p l e x o é e n -
partes presentes conseguem se satisfazer. O ego é com- contrado igualmente n a neurose e m estado la-
pensado pelo delírio de grandeza, enquanto que a fan- t e n t e e n o indivíduo n o r m a l , c o m o S c h r e b e r n o s
tasia de desejo feminino emerge e se torna aceitável" período e m q u e e s t a v a b e m . O q u e é p a r a n ó i c o
( p . 2 9 5 - 2 % [2711). nesse caso, s e g u n d o F r e u d , é o fato de o pacien-
t e t e r r e a g i d o c o m u m delírio persecutório p a r a
Freud vai mais longe ainda eatribui a simpa-
se d e f e n d e r c o n t r a u m a f a n t a s i a d e d e s e j o h o -
t i a d e S c h r e b e r p o r F l e c h s i g a u m "processo de
m o s s e x u a l q u e não c o n s e g u i u m a n t e r n o i n c o n s -
transferencia", p o s t u l a n d o q u e e s s a transferência
ciente.
p a r a a p e s s o a d o médico é c o m c e r t e z a o r e s u l t a -
P r o s s e g u i n d o s u a s reflexões, F r e u d f o r m u l a
d o d e u m deslocamento d oa m o r intenso que
u m a o u t r a hipótese, a d e q u e a h o m o s s e x u a l i d a -
D a n i e l P a u l deve ter sentido p o r seu p a i o u p o r
d e s e s i t u a e m u m a fase d a evolução i n f a n t i l q u a -
u m irmão m a i s v e l h o . S e m p o s s u i r n e n h u m a i n -
l i f i c a d a de fase narcísica do d e s e n v o l v i m e n t o ,
f o r m a ç ã o biográfica s o b r e a família d e S c h r e b e r ,
intermediária e n t r e o a u t o - e r o t i s m o e o a m o r d e
F r e u d supôs q u e , s e o d o e n t e t i n h a i n v e s t i d o tão
o b j e t o : "Essa fase consiste no seguinte: o indivíduo
i n t e n s a m e n t e u m p a i o u u m irmão, e r a p r o v a -
em via de desenvolvimento reúne em uma unidade
v e l m e n t e p o r q u e e l e s já t i n h a m m o r r i d o , s u p o -
suas pulsões sexuais, que até então agiam de forma
sição q u e s e confirmará l o g o d e p o i s .
auto-erótica, afim de conquistar um objeto de amor, e
primeiro toma a si mesmo, toma seu próprio corpo
O complexo patern > como objeto de amor, antes de passar á escolha objetal
de uma pessoa estranha" ( p . 3 0 6 [283]). C o n s e q u e n -
A o c h e g a r a e s s e p o n t o d a demonstração, temente, segundo Freud, q u a n d o a escolha d e
F r e u d p o d e i n v o c a r a relação i n f a n t i l c o m o objeto heterossexual é atingida ao longo da evo-
p a i : "Portanto, no caso Schreber, estamos mais uma lução n o r m a l , a s tendências h o m o s s e x u a i s n ã o
120 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

desaparecem c o m p l e t a m e n t e : elas se t o r n a m p o r s u j e i t o , e e n t ã o s e t r a n s f o r m a e m s e u contrário:


"apoio" a b a s e d a a m i z a d e e d a c a m a r a d a g e m "Eu não o amo, eu o odeio!". E mseguida, esse
c o m pessoas d o m e s m o sexo. s e n t i m e n t o d e ódio intolerável é r e p r i m i d o n o
A o contrário, n o s c a s o s patológicos, a f a s e interior e depois projetado e m u m a pessoa n o
narcísica d o d e s e n v o l v i m e n t o i n f a n t i l pode e x t e r i o r : "Eu o odeio" t o r n a - s e e n t ã o "Ele me odeia
c o n s t i t u i r u m "ponto de fixação" o u u m "ponto (ou me persegue), o que justifica então o ódio que
de regressão" e m a l g u n s indivíduos e s e e s t a - tenho por ele". A s s i m , o s e n t i m e n t o i n c o n s c i e n -
b e l e c e r c o m o u m "ponto fraco" d e s u a p e r s o - t e d e ódio p e r t e n c e n t e a o s u j e i t o r e s s u r g e s o b a
n a l i d a d e q u e o s s e n s i b i l i z a à paranóia p r o v o - f o r m a d e u m a p e r c e p ç ã o e x t e r n a : "Eu não o
c a n d o angústias persecutórias. amo! - eu o odeio! - porque ele me persegue!" e
F r e u d a c r e s c e n t a : "A observação não deixa nenhu-
ma dúvida a esse respeito: o perseguidor é sempre
O mecanismo da paranóia um homem antes amado" ( p . 3 0 8 [285]). Ele con-
c l u i a p l i c a n d o e s s a fórmula a t o d a s a s f o r m a s
Freud conclui s e uestudo reunindo asdi-
de delírio q u e i n c l u i n a p a r a n ó i a : o delírio
v e r s a s f o r m a s d e paranóia e m u m a proposição
p e r s e c u t ó r i o , e t a m b é m a e r o t o m a n i a , o delírio
c o m u m : "Eu o amo (ele, o homem)". M a s e s s a p r o -
d e ciúme n o h o m e m e n a m u l h e r , a s s i m como
posição n ã o é aceitável p a r a o c o n s c i e n t e d o
o delírio d e g r a n d e z a .

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANO

Freud e m b u s c a d e u m m e c a n i s m o específico d a psicose


O e s t u d o d o c a s o S c h r e b e r insere-se e m u m a linha d e p e s q u i s a p e r m a n e n t e d e Freud c u j a m e t a é d e s c o -
brir o m e c a n i s m o específico d a p s i c o s e . D e m a n e i r a geral, ele está m e n o s interessado e m determinar
critérios descritivos q u e p e r m i t a m u m a classificação sistemática d a s f o r m a s delirantes d o q u e e m especi-
ficar q u a i s s ã o s e u s m e c a n i s m o s s u b j a c e n t e s . S e m entrar n o detalhe d e s s a s d i s t i n ç õ e s c o m p l e x a s , é
preciso situar a n o ç ã o d e p a r a n ó i a tal c o m o Freud a utiliza e m diferentes m o m e n t o s d e s u a e v o l u ç ã o .

O que Freud entende por "paranóia" ou "delírio paranóico"?


No final d o século XIX, a psiquiatria alemã englobava n o termo "paranóia" o conjunto d e delírios, enquanto
Freud, e m seus primeiros trabalhos, utiliza-o e m u m sentido amplo. Posteriormente, Emil Kraepelin introduziu
u m a distinção fundamental, nas diferentes formas d e delírio, entre a d e m ê n c i a precoce, cuja evolução conduz
à demência, e o delírio sistematizado d a paranóia s e m deterioração mental. N o q u e s e refere à demência
precoce, essa n o ç ã o foi substituída pela d e "esquizofrenia" a partir d o s trabalhos d e Eugen Bleuler q u e mostrou
o papel central d a "dissociação" (Spaltung) nessa afecção. Quanto à paranóia, Freud a g r u p a s o b essa denomi-
nação não apenas o s delírios persecutórios, mas t a m b é m a erotomania, o delírio d e c i ú m e e o delírio d e gran-
deza. D e p o i s d e 1 9 1 1 , F r e u d p e r m a n e c e u fiel à d i s t i n ç ã o feita p o r Kraepelin entre d e m ê n c i a p r e c o c e
(esquizofrenia) e paranóia, discordando d a posição d e Bleuler, seu aluno, q u e não aceitava essa distinção, pois,
para ele, a dissociação podia ser encontrada tanto n a esquizofrenia c o m o n a paranóia. Finalmente, e m seu
estudo d a paranóia d e Schreber, Freud reconheceu a existência d e inúmeras c o m b i n a ç õ e s entre essas formas
de psicopatologia.

O pape/ da projeção
Freud j á a b o r d a r a a q u e s t ã o d a p a r a n ó i a e m s u a c o r r e s p o n d ê n c i a c o m W. Fliess ( R a s c u n h o H. d e 2 4 d e
janeiro d e 1894 e R a s c u n h o K. d e 1 d e janeiro d e 1896) e t a m b é m e m s u a análise d e u m c a s o d e p a r a n ó i a
Q

c r ó n i c a (1896b). E m seus primeiros textos, ele enfatiza s o b r e t u d o o m e c a n i s m o d a p r o j e ç ã o característico


d a p s i c o s e , q u e significa, para ele, p ô r para fora instantaneamente u m a p e r c e p ç ã o interior intolerável, u m a
e s p é c i e d e e v a c u a ç ã o p u r a e s i m p l e s . Mas, p o u c o a p o u c o , e m particular q u a n d o e s t u d a as Memórias d e
Schreber, Freud p e r c e b e q u e a p r o j e ç ã o n ã o é u m a s i m p l e s e v a c u a ç ã o d o c o n t e ú d o r e p r i m i d o para o
exterior, m a s q u e , a o contrário, o q u e retorna "do exterior" t e m c o m o o r i g e m o q u e foi s u p r i m i d o "no

Continua £
Ler Freud 121

4) Continuação

interior": "Não era correto dizer que o sentimento reprimido dentro era projetado para fora", esclarece ele;
"deveríamos dizer, como constatamos hoje, que o que foi abolido dentro vem de fora" (p. 3 1 5 / 2 9 4 / ) . A partir
d o e s t u d o d e Schreber, Freud c o n s i d e r a q u e as diversas m o d a l i d a d e s delirantes d a paranóia t ê m c o m o
b a s e u m a defesa contra a h o m o s s e x u a l i d a d e r e p r i m i d a e q u e a p r o j e ç ã o n ã o é o a p a n á g i o d a p s i c o s e .

D o "desinvestimento ma realidade" à "negação da realidade"


E m 1 9 1 1 , Freud descrevera o papel q u e d e s e m p e n h a o desinvestimento d a realidade exterior na paranóia d e
Schreber, b e m antes de introduzir as noções d e "perda da realidade", e m 1924 e, posteriormente, d e "negação
da realidade", em 1927. A retirada d e investimento q u e Freud descreve e m Schreber e m 1911 se aplica tanto às
pessoas d o seu círculo quanto ao m u n d o real: "O doente retirou das pessoas de seu círculo e do mundo exterior
em geral o investimento libidinal que até então dirigia a eles; com isso, tudo se tornou indiferente e desprovido de
relação para ele (...)" (p. 314 [292-293]). Schreber experimenta assim u m sentimento de fim d e m u n d o q u e
Freud atribui à catástrofe interior q u e significa esse forte desinvestimento sentido c o m o u m a perda d e amor.
A i n d a s e g u n d o Freud, o delírio se constituiria para recuperar esses investimentos exteriores perdidos, o q u e
reforçava a ideia de que o delírio d o paranóico era u m a tentativa de cura, ponto crucial ao qual ele voltará
frequentemente: "O que vemos como a produção da doença, a formação delirante, é na realidade a tentativa de
cura, a reconstrução" (p. 315 [293-294]).

Schreber: uma descritào clínica magistral dos fenómenos psicóticos


C o m o ocorre sempre que descreve pela primeira vez u m conceito, Freud descobre primeiro na psicopatologia
f e n ó m e n o s q u e depois se constata estarem presentes t a m b é m na neurose e no indivíduo normal, e m b o r a e m
m e n o r grau. Por exemplo, b e m antes de introduzir a noção de "clivagem d o e g o " que separa o e g o e m d u a s
partes, u m a q u e nega a realidade e outra q u e a aceita (1940a [1938]), Freud descreve e m Schreber u m f e n ó m e -
n o análogo ao falar de u m a "divisão da personalidade" e m duas partes, u m a delirante e outra adaptada: "Por um
lado, ele tinha construído um engenhoso sistema delirante, que é do maior interesse para nós, diz Freud, e por
outro lado, sua personalidade se reedificara, e se mostrara à altura dos deveres da vida, à parte alguns distúrbios
isolados" (p. 267 [236]). Considerando o delírio e m seu conjunto, Freud observa q u e quanto mais a d o e n ç a
avança, mais "o perseguidor se decompõe", e descreve diferentes modalidades dessas clivagens entre u m
"Deus superior" e u m "Deus inferior", entre "Flechsig" e "Deus", o u ainda entre u m "pai venerado" e u m "pai
odiado". Freud fala explicitamente aqui d e u m f e n ó m e n o d e "clivagem" c o m o u m mecanismo específico d a
psicose paranóica: "Uma tal divisão é efetivamente característica das psicoses paranóides, escreve ele. Estas
dividem, enquanto a histeria condensa. Ou melhor, essas psicoses resolvem de novo em seus elementos as
condensações e identificações realizadas na imaginação inconsciente" (p. 297 [272]).
Entretanto, a i n d a q u e Freud d e s c r e v a c o m u m e n o r m e s e n s o d e o b s e r v a ç ã o vários m e c a n i s m o s q u e e n -
t r a m e m j o g o na psicose, c o m o nesse ensaio s o b r e Schreber, c a b e r á aos psicanalistas p ó s - f r e u d i a n o s
diferenciar melhor os m e c a n i s m o s f u n d a d o s nas defesas primitivas q u e d e c o r r e m d a psicose d o s m e c a -
n i s m o s f u n d a d o s na repressão q u e d e c o r r e m d a neurose. A partir d e s s a distinção, é possível e m p r e e n d e r
o t r a t a m e n t o psicanalítico d e p s i c o s e s , tanto n o s adultos c o m o nas crianças, e obter êxitos t e r a p ê u t i c o s a
d e s p e i t o d a s dificuldades ligadas a esse t i p o particular d e transferência.

PÓS-FREUDIANO!

Reexame das teses lançadas por Freud sobre o caso Schreber


A t r a d u ç ã o e m língua inglesa das Memórias d e Daniel Paul Schreber e m 1955 (I. Macalpine e R. A. Hunter,
1955) permitiu aos psicanalistas anglófonos ter acesso ao texto e m q u e Freud se baseara, e c o m o c o n s e q u ê n c i a
levou a u m reexame d a s teses lançadas por ele e m 1 9 1 1 . Alguns questionaram a hipótese s e g u n d o a qual a
psicose era unicamente resultado d a repressão d a homossexualidade. A s s i m , para R. D. Fairbairn (1956), a
h o m o s s e x u a l i d a d e estaria ligada antes d e t u d o à rejeição agressiva d o progenitor d o sexo o p o s t o - e m
particular a mãe, ausente das Memórias d e Schreber - , e se a criança escolhe c o m o perseguidor o progenitor

Continua £
122 Jean-Michel Quinodoz

PÓS-FREUDIANOS • Continuação

d o m e s m o sexo, s e g u n d o esse autor, é para evitar u m a angústia d e perseguição a i n d a mais forte, provenien-
te d a relação primitiva c o m a m ã e . I. Macalpine e R. A. Hunter (1955) remeteram a psicose a u m a fase ainda
mais precoce, qualificada d e anobjetal, ponto d e regressão q u e afeta a própria identidade d o sujeito. De
maneira geral, o s psicanalistas d e orientação kleiniana a c h a v a m q u e Freud tinha insistido d e m a i s n o c o m p l e -
xo paterno e m Schreber, e n q u a n t o para eles a o r i g e m d a psicose deve ser b u s c a d a antes n a relação precoce
d a criança c o m a m ã e .

A influência d o pai no delírio de Daniel Paul: realidade o u fantasia?


A partir d o s a n o s d e 1950, diversos autores realizaram pesquisas históricas aprofundadas sobre a infância de
Daniel Paul Schreber e sobre sua família. A principal descoberta foi a d e q u e seu pai tinha sido o inventor d e u m a
quantidade imensa d e aparelhos ortopédicos destinados a corrigir a m á postura das crianças, cujas ilustrações,
publicadas e m diversas obras, causavam forte impressão. C o m base nesses novos d a d o s , W. G. Niederland
(1963) considerou, por exemplo, q u e o delírio persecutório de Schreber decorria s e m dúvida d e u m traumatismo
infantil sofrido pelo filho submetido ao sadismo e à sedução d e u m pai d o m i n a d o r e tirânico. Por sua vez, R-C.
Racamier e J . Chasseguet-Smirgel (1966) destacaram o papel d e s e m p e n h a d o pela personalidade psicótica d o
pai, q u e o c u p o u inteiramente o papel d e u m a mãe q u e se deixara absorver por ele, m ã e jamais m e n c i o n a d a nas
Memórias. Mais recentemente, H. Israels (1981) e Z. Lothane (1992) puseram e m questão o papel traumático
que diversos psicanalistas haviam atribuído ao pai d e Schreber, considerando q u e essas conclusões não ti-
nham u m f u n d a m e n t o histórico. Mas, a m e u ver, m e s m o não se d i s p o n d o d e elementos biográficos suficiente-
mente válidos para apoiar a ideia d e q u e o pai d e Daniel Paul foi efetivamente u m e d u c a d o r tirânico, esse
argumento não invalida e m n a d a as hipóteses acerca d a influência exercida pelas fantasias sádicas e sedutoras
presentes das teorias educativas d e Daniel Gottlieb Moritz Schreber e no delírio paranóico d e seu filho, Daniel
Paul Schreber.

A forclusão d o Nome-do-Pai: uma concepção teórica da psicose


Em 1955, J. Lacan, por sua vez, estudou a paranóia de Schreber c o m base na tradução inglesa das Memórias
e, e m seu seminário As psicoses (1955-1956; Lacan, 1981), introduziu dois conceitos e m s u a teorização d a
origem das psicoses, a "forclusão" e o "Nome-do-Pai". S e g u n d o ele, a forclusão consiste e m u m a rejeição
primordial d e u m significante fundamental para fora d o c a m p o d o "Simbólico" que, não p o d e n d o integrar-se ao
inconsciente d o sujeito, retorna ao seio d o "Real" s o b forma d e alucinação. De a c o r d o c o m Lacan, a estruturação
d o sujeito não c h e g a a se estabelecer na psicose, porque o pai não p o d e intervir junto à criança assegurando a
função simbólica paterna q u e lhe compete, a d e lhe dar u m n o m e a fim d e q u e ele adquira s u a identidade. O
significante Nome-do-Pai é então excluído - pois o q u e deveria ser simbolizado não foi - e retorna ao "Real" s o b
a forma d e u m delírio paranóico. Em outras palavras, Lacan considera q u e o delírio persecutório d e Schreber de
ser transformado e m mulher resultou d a incapacidade d o filho d e perceber o caráter simbólico d a ameaça de
castração proveniente d o pai, d e m o d o q u e esta é experimentada c o m o u m perigo proveniente d a realidade
exterior, isto é, d e u m "Real" inacessível à análise. E m b o r a Lacan tenha afirmado q u e a forclusão caracteriza a
psicose, ele n u n c a disse c o m o concebia a transformação inversa d a forclusão. Assim, s u a posição acerca d o
tratamento d a psicose permaneceu puramente especulativa (G. Diatkine, 1997).

Melanie Klein: as bases d o tratamento psicanalítico das psicoses


A partir d a psicanálise d e criança, M. Klein trouxe contribuições clínicas e teóricas decisivas q u e permitiram
desenvolver a análise d a s psicoses: d e u m lado, ela diferenciou os m e c a n i s m o s d e defesa primitivos ligados
à psicose e o s m e c a n i s m o s d e defesa evoluídos ligados à neurose, introduzindo as n o ç õ e s d e posição
esquizoparanóide e d e p o s i ç ã o depressiva; d e outro lado, considerou q u e os pacientes psicóticos estabele-
c i a m u m a transferência e q u e esta era analisável, ao contrário d o q u e pensava Freud. M. Klein considerava
q u e o f u n c i o n a m e n t o psicótico se baseava e m u m a fixação na posição esquizoparanóide e na recorrência a
u m a identificação projetiva excessiva. Ela não se d e u c o n t a d e q u e existe u m a f o r m a normal e u m a f o r m a
patológica d a posição esquizoparanóide, d o m e s m o m o d o q u e existe u m a f o r m a normal e u m a f o r m a pato-
lógica d a identificação projetiva. Mas, d e p o i s dela, Rosenfeld, Segal e Bion examinaram mais d e perto a
psicopatologia d a posição esquizoparanóide, e f o r a m esses psicanalistas q u e distinguiram u m a f o r m a nor-

Continua £
Ler Freud 123

^ Continuação

mal e u m a forma patológica d a posição esquizoparanóide, assim c o m o u m a f o r m a normal e u m a f o r m a


patológica d a identificação projetiva. Assim, diferentemente de M. Klein, q u e via nisso u m a fixação à p o s i ç ã o
esquizoparanóide, esses autores consideram a psicose c o m o u m a regressão a uma posição esquizoparanóide
patológica e q u e é a identificação projetiva patológica q u e caracteriza essa regressão psicótica. O s d e s d o -
b r a m e n t o s d a c o n c e p ç ã o kleiniana das relações de objeto primitivas tiveram repercussões consideráveis
s o b r e a técnica psicanalítica e constituem u m a parte essencial d o trabalho de elaboração psíquica não ape-
nas nos analisandos psicóticos e narcísicos, mas t a m b é m nos analisandos m e n o s perturbados.

£ C R O N O L O G I A DOS> C O N C E I T O S F R E U D I A N O S

Delírio c o m o d e f e s a ( o n t r a a h o m o s s e x u a l i d a d e - n a r c i s i s m o , f a s e n a r c í s i c a d o d e s e n v o l v i m e n t o
psicossexual - paranók - p o n t o d e fixação - p o n t o d e regressão - projeção - racionalização
ESCRITOS SOBRE A TÉCNICA
PSICANALÍTICA (1904 A 1919)
"O MÉTODO PSICANALÍTICO DE FREUD" (1904a)
"SOBRE A PSICOTERAPIA" (1905a)
"AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPÊUTICA PSICANALÍTICA" (1910d)
"PSICANÁLISE "SILVESTRE" (191 Ok)
"O MANEJC DA INTERPRETAÇÃO DE SONHOS NA PSICANÁLISE" (1911e)
"A DINÂMICA DA TRANSFERÊNCIA" (1912b)
RECOMENDAÇÕES AOS MÉDICOS QUE EXERCEM A PSICANÁLISE" (1912e)
"SOBRE O INÍCIO DO TRATAMENTO" (1913c)

"RECORDAR, REPETIR E ELABORAR"


S. FREUD (1914g)

OBSERVAÇÕES SOBRE O AMOR TRANSFERENCIAL


S. FREUD (1915a)

5RESSO NA TERAPIA PSICANALÍTICA"


S. FREUD (1919a)

Uma série de recomendações para a prática

Freud nunca levou adiante seu projeto d e o setting d i v ã / p o l t r o n a , a frequência e l e v a d a


r e d i g i r u m a o b r a i n t e i r a m e n t e d e d i c a d a a o mé- d e sessões e o p r o c e s s o . D e s d e e n t ã o , a técnica
t o d o psicanalítico a f i m d e r e s p o n d e r à d e m a n - s o f r e u u m a e v o l u ç ã o considerável, e s u a s p o s -
d a c r e s c e n t e d e p e s s o a s i n t e r e s s a d a s q u e não s i b i l i d a d e s d e a ç ã o terapêutica e s t e n d e r a m - s e
p o d i a m ir a Viena para aprender diretamente p a r a além d a n e u r o s e , i n c l u i n d o a p s i c o s e e a o
c o m ele. C o n t u d o , e n c o n t r a m o s o essencial d e m e s m o tempo cobrindo todo o leque d e ida-
s u a s i d e i a s s o b r e a técnica e m u m a série d e a r - d e s d a v i d a , d a psicanálise d e c r i a n ç a à p s i c a -
tigos c u r t o s p u b l i c a d o s entre 1904 e 1919. E m nálise d a i d a d e a v a n ç a d a . A d e s p e i t o d a s d e s -
u m t o m f a m i l i a r , F r e u d expõe a l i s e m m u i t a c o b e r t a s r e c e n t e s p r o v e n i e n t e s d a s neurociên-
o r d e m s u a l o n g a experiência d e prático e m f o r - c i a s e d a p s i c o f a r m a c o l o g i a , é forçoso r e c o n h e -
m a d e recomendações. Através d e s s a a b o r d a - cer q u e n e n h u m a descoberta i n o v a d o r a v e i o
g e m prática, a p r e s e n t a o s e l e m e n t o s q u e c o n s - s u b s t i t u i r a psicanálise n o c a m p o d e a t i v i d a d e
t i t u e m o f u n d a m e n t o d o m é t o d o psicanalítico, q u e l h e é p r ó p r i o : aliás, s e i s s o t i v e s s e o c o r r i -
tal c o m o é aplicado ainda hoje, pelo m e n o s p o r d o , o s p s i c a n a l i s t a s não s e r i a m o s p r i m e i r o s a
p s i c a n a l i s t a s f i l i a d o s à A s s o c i a ç ã o Psicanalíti- s e d a r c o n t a e a t i r a r c o n s e q u ê n c i a s terapêuti-
c a I n t e r n a c i o n a l q u e e l e f u n d o u e m 1 9 1 0 . Já e m cas d i s s o ?
1 9 0 3 , F r e u d h a v i a instituído a s b a s e s n e c e s s á - Q u a n d o o leitor atual percorre o s escritos
rias ao estabelecimento e à conduta da cura psi- s o b r e a técnica psicanalítica r e d i g i d o s p o r F r e u d
canalítica, r e u n i n d o e m u m c o n j u n t o c o e r e n t e entre 1904 e 1919, surpreende-se a o constatar
126 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

q u e inúmeras questões l e v a n t a d a s p o r e l e há t o d o s terapêuticos q u e t ê m a p r e t e n s ã o d e s e r


u m século c o n t i n u a m s e m r e s p o s t a até o p r e - m a i s rápidos e m a i s b a r a t o s d o q u e a c u r a p s i -
sente. P o r e x e m p l o , consideradas a s recentes canalítica o f e r e c e m r e s u l t a d o s c o m p a r á v e i s a
aquisições terapêuticas disponíveis, podería- l o n g o p r a z o ? T o d a s e s s a s questões já f o r a m c o -
m o s d i s p e n s a r a psicanálise h o j e ? P o d e m o s o f e - locadas p o r F r e u d , e ele esperava q u e se conse-
r e c e r m a i s d o q u e a n t e s a " p r o v a " científica q u e g u i s s e d a r r e s p o s t a s satisfatórias a e l a s e m u m
d e m o n s t r a r i a a eficácia d a psicanálise? O s m é - f u t u r o não m u i t o d i s t a n t e .

J PÓS-FREUDIANOS

Raros são o s tratados dedicados à técnica psicanalítica


Os psicanalistas pós-freudianos p a r e c e m ter sentido a m e s m a dificuldade q u e Freud para reunir e m u m a
obra as questões ligadas à técnica. De fato, existem p o u c o s tratados d e d i c a d o s a esse t e m a , t e n d o e m vista
o n ú m e r o considerável d e artigos publicados. Entre as obras clássicas mais c o n h e c i d a s , e m b o r a j á antigas,
vale mencionar as d e Otto Fenichel (1941), d e Edward Glover (1955) e d e Ralph R. G r e e n s o n (1967). O
tratado p u b l i c a d o e m 1991 p o r R. Horácio Etchegoyen, The fundamentais of psychoanalytic technique, cons-
titui s e m d ú v i d a u m a contribuição importantíssima d e interesse internacional, pois é a p r e s e n t a d o e m forma
de manual d e g r a n d e erudição e a o m e s m o t e m p o é agradável d e ler e d e consultar. O autor apresenta u m a
visão d e c o n j u n t o d a s contribuições dedicadas à técnica psicanalítica d e s d e Freud até o s autores c o n t e m p o -
râneos, s e g u i n d o d e perto a evolução d a s ideias, desenvolvimento histórico a q u e ele próprio assistiu e d o
qual participou e m a l g u m a m e d i d a . Etchegoyen t a m b é m estuda as diversas técnicas e m f u n ç ã o d a maior
variedade d e p o n t o s d e vista teóricos a d o t a d o s pelos psicanalistas d e Klein a Lacan, p a s s a n d o pelos principais
autores e u r o p e u s , latinos e norte-americanos e p o n d o e m relevo as vantagens e o s inconvenientes d a s res-
pectivas a b o r d a g e n s à luz d e s u a própria experiência clínica.

DESCOBERTA DAS OBRAS


• E S C R I T O S S O B R E A TÉCNICA PSICANALÍTICA ( 1 9 0 4 a 1 9 1 3 )

A s p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o s t e x t o s p u b l i c a d o s e m S. F r e u d ( 1 9 0 4 - 1 9 1 3 ) , La technique
psychanalytique, t r a d . A. B e r m a n , Paris, PUF, 1953 ( 1 éô.)[as páginas indicadas entre colchetes
§
remetem
às O C F . R X e X / y .
" L a m é t h o d e p s y c h a n a l y t i q u e d e F r e u d " ( 1 9 0 4 a , p. 1-8). " D e la p s y c h o t h é r a p i e " ( 1 9 0 5 a , p. 9-22).
"Perspectives d'avenir d e la t h é r a p e u t i q u e p s y c h a n a l y t i q u e " (1910d, p. 23-24 /OCF.R X, 61-73]). "À p r o p ô s
d e la p s y c h a n a l y s e dite ' s a u v a g e ' " (191 Ok, p. 35-42 /"OCF.R X, 205-213]). "Le m a n i e m e n t d e Tinterprétation
des rêves e n p s y c h a n a l y s e " (1911e, p. 43-49 /OCF.R X, 41-48]). "La d y n a m i q u e d u t r a n s f e r i " (1912b, p. 5 0 -
60 /OCF.O, X, 105-116]). "Conseils aux m é d i c i n s sur le traitment p s y c h a n a l y t i q u e " (1912e, p. 61-71 /OCF.R
XI, 143-154]). " L e d é b u t d u traitement" (1913c, p. 80-104).

O método e suas indicações bre a origem das manifestações mórbidas e sobre as


relações existentes entre elas" ( 1 9 0 5 a , p . 1 2 ) . E l e
F r e u d começa p o r r e c o r d a r e m q u e c o n s i s - justifica, assim, seu interesse p r i v i l e g i a d o pela
t e a p s i c a n á l i s e e a f i r m a s e u v a l o r científico. E l e própria a b o r d a g e m e m relação às o u t r a s
e x p l i c a a diferença e n t r e a s d i v e r s a s f o r m a s d e psicoterapias, s e m c o m isso desautorizar estas
p s i c o t e r a p i a e s e u p r ó p r i o m é t o d o , a psicanáli- últimas: "Não rejeito nenhum desses métodos, e os
s e , q u e é, s e g u n d o e l e , "(...) o que penetra mais utilizaria se surgisse uma ocasião favorável. É por
profundamente, o que tem o maior alcance, aquele motivos puramente subjetivos que realmente me con-
mediante o qual os doentes tem maior possibilidade sagrei a uma única forma de tratamento, aquela que
de ser transformados. (...) É, de todos os métodos, o Breuer chamou de "catártica" e que, da minha par-
mais interessante, o único capaz de nos informar so- te, prefiro qualificar de "analítica"" (1905a, p . 12).
Ler Freud 127

Q u a n t o às indicações, F r e u d d i z q u e a p s i - sua c o m p l e x i d a d e , ele escapa a q u a l q u e r des-


canálise s e d e s t i n a p a r t i c u l a r m e n t e a t r a t a r d a s crição e o c o m p a r a a u m j o g o d e x a d r e z : "Aquele
n e u r o p s i c o s e s e e x p l i c a : "Esses doentes não seriam que tenta aprender nos livros o nobre jogo de xadrez
curáveis por medicamentos, mas pelo médico, isto é, não tarda a descobrir que as manobras do início e do
pela personalidade deste, na medida em que, através fim só permitem fazer uma descrição esquemática
desta, ele exerce sua influência" ( 1 9 0 5 a , p . 1 1 ) . E x i - completa, enquanto que sua imensa complexidade,
g e m - s e a l g u m a s condições p o r p a r t e d o p a c i - desde o momento em que a partida se inicia, opõe-se
e n t e , c o m o "uma certa dose de inteligência natu- a qualquer descrição" ( 1 9 1 3 c , p . 8 0 ) .
ral, um certo desenvolvimento moral" ( 1 9 0 4 a , p . F r e u d descreve e m seguida sua m a n e i r a de
7). C o n t u d o , F r e u d d e s a c o n s e l h a e m p r e e n d e r t r a b a l h a r e a s condições e m q u e s e d e s e n v o l -
u m a cura e m u m paciente c o m m a i s de 50 anos, v e a c u r a . A s s i m , n o início d e c a d a t r a t a m e n -
p o i s , s e g u n d o e l e : "As pessoas que já atingiram t o , e l e começa p o r p e d i r a o s e u p a c i e n t e q u e
ou passaram dos 50 anos não têm mais a plasticidade s i g a f i e l m e n t e a "regra fundamental da psicaná-
dos processos psíquicos em que se apoia a terapêuti- lise", i s t o é, q u e c o m u n i q u e a o a n a l i s t a t u d o o
ca (...)" ( 1 9 0 5 a , p . 1 7 - l è ) . E s s a limitação d e i d a - q u e l h e v i e r à c a b e ç a , "renunciando a toda críti-
d e não e x i s t e m a i s h o j e , e a c r i a t i v i d a d e d e q u e ca e a toda escolha". A o m e s m o t e m p o , e l e r e c o -
F r e u d é t e s t e m u n h o até o s 8 3 a n o s d e m o n s t r o u m e n d a a o a n a l i s t a q u e a d o t e u m a a t e n ç ã o "flu-
q u e a i d a d e avançada não p r o v o c a n e c e s s a r i a - tuante" e e v i t e t o m a r n o t a s d u r a n t e a s e s s ã o a
m e n t e u m a diminuição d e p l a s t i c i d a d e psíqui- f i m d e não p e r t u r b a r s u a e s c u t a ( 1 9 1 2 e , p . 6 2
ca, c o m o ele i m a g i n a v a aos 4 8 a n o s a o r e d i g i r [146]). E l e s a l i e n t a q u e n ã o s e p o d e d a r m u i t o
e s s a recomendação. F r e u d r e c o n h e c e t e r u t i l i - v a l o r a o "mais fiel relato estenografado", pois,
z a d o até e n t ã o s e u p r o c e d i m e n t o terapêutico s e g u n d o e l e , a s o b s e r v a ç õ e s analíticas e s c r i -
e s s e n c i a l m e n t e e m d o e n t e s "muito seriamente t a s são forçosamente c o m p r o m e t i d a s p o r u m a
afetados, em casos quase desesperadores", m a s c o m precisão q u e é a p e n a s a p a r e n t e e n ã o s u b s t i -
êxito, o q u e l h e s p e r m i t i u "encontrar uma possi- t u e m "a presença nas sessões de análise" (1912e,
bilidade de viver" ( 1 9 0 5 a , p . 1 6 ) . A l é m d i s s o , e l e p . 6 4 [148]).
a d v e r t e o s t e r a p e u t a s s e m experiência s u f i c i -
e n t e p a r a não s u b e s t i m a r e m a s d i f i c u l d a d e s e n -
c o n t r a d a s n a análise d a s resistências: "de fato, Deixar-se surpreender
não é uma coisa fácil lidar com o instrumento psí-
C o n f o r m e F r e u d a p r i m o r a s u a técnica, c o n s -
quico" ( 1 9 0 5 a , p . 1 5 ) .
tata-se q u e ele t e n d e a confiar m a i s n o c u r s o
n a t u r a l e espontâneo d o s p e n s a m e n t o s d o p a -
O processo e o settlig ciente e que renuncia p o u c o a p o u c o a tirar d o
material associativo aquilo que interessa m a i s
O setting d a c u r a psicanalítica " c l á s s i c a " n ã o a e l e próprio, n a t e n t a t i v a d e c h e g a r a u m a r e -
m u d o u fundamentalmente desde que Freud o construção i n t e r p r e t a t i v a . E l e p a r e c e t e r d a d o
e l a b o r o u n o início d o século X X , p e l o m e n o s e s s a g u i n a d a c a p i t a l q u a n d o d a análise d o H o -
n o q u e d i z r e s p e i t o à prática d a c u r a clássica, m e m d o s r a t o s , e m 1 9 0 7 . E s s a mudança d e p e r s -
i s t o é, a o u s o d a posição " d i v ã / p o l t r o n a " , c o m pectiva implica que o analista renuncia a u m
o p a c i e n t e d e i t a d o n o divã e o a n a l i s t a s e n t a d o r e s t o d e a t i t u d e " a t i v a " , i m p o n d o s u a s próprias
atrás d e l e . F r e u d d e d i c a v a u m a h o r a p o r d i a a r e c o n s t r u ç õ e s a o p a c i e n t e , a o invés d e c o n f i a r
cada u m d eseus pacientes, e o s recebia cinco n o d e s e n r o l a r d o p r o c e s s o psicanalítico. F r e u d
v e z e s p o r s e m a n a . N e s s e s t e x t o s , F r e u d não p r e c o n i z a e s s a mudança d e a t i t u d e n o s s e g u i n -
a b o r d a a q u e s t ã o d a s técnicas d e c o r r e n t e s d a t e s t e r m o s : "Os melhores resultados terapêuticos,
psicanálise, c o m o a s p s i c o t e r a p i a s d e orientação ao contrário, são obtidos quando o analista age sem
psicanalítica e o u t r a s a b o r d a g e n s ; r e f e r e - s e u n i - ter traçado um plano prévio, quando se deixa sur-
c a m e n t e à prática psicanalítica d i t a clássica. preender por qualquerfato inesperado, conserva uma
N o que serefere a o desenrolar d o processo atitude distanciada e evita qualquer ideia preconce-
p r o p r i a m e n t e dito, F r e u d assinala que, dada bida" ( 1 9 1 2 e , p . 6 5 [148]).
128 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

Dar-se todo o tempo necessário exigências p a r t i c u l a r e s . E i s a s q u e F r e u d p r o -


p õ e a o s s e u s p a c i e n t e s : "Dedico a cada um de
N a m e d i d a e m q u e s ec o n f i a e m q u e o p a - meus doentes uma hora de minha jornada de tra-
c i e n t e encontrará p o r s i m e s m o o c a m i n h o q u e balho; essa hora lhe pertence e é debitada em sua
l e v a à solução d e s e u s c o n f l i t o s , c o n c e b e - s e q u e conta mesmo que não faça uso dela" ( 1 9 1 3 c , p . 8 4 ) .
"a psicanálise exige muito tempo - mais do que o F r e u d p e d e a o p a c i e n t e q u e d e i t a n o divã, e s e
doente gostaria" ( 1 9 1 3 c , p . 8 8 ) , c o m o F r e u d r e - s e n t a atrás d e l e . D e d i c a u m a s e s s ã o diária a
p e t e i n s i s t e n t e m e n t e e m s e u s e s c r i t o s técnicos. c a d a p a c i e n t e , o u s e j a , s e i s sessões p o r s e m a -
E l e c o n s i d e r a a i n d a q u e "o desejo de abreviar o n a e , e m b o r a a d m i t a f a z e r exceções, i s s o não
tratamento é plenamente justificável" e a c r e s c e n t a c o s t u m a o c o r r e r : "Para os casos leves ou para
q u e , i n f e l i z m e n t e , "um fator muito importante aqueles cujo tratamento já está bem avançado, três
contraria essas tentativas: a lentidão das modifica- horas por semana são suficientes. De resto, não é
ções psíquicas profundas e em primeiro lugar, sem interesse nem do médico nem do doente que o nú-
dúvida, a "intemporalidade" de nossos processos in- mero de horas seja reduzido, e essa redução deve
conscientes" ( 1 9 1 3 c , p . 8 9 ) . inclusive ser proscrita no início do tratamento"
F r e u d expressa claramente p o r q u e o psica- (1913c, p . 85).
n a l i s t a não t e m o u t r a e s c o l h a a não s e r r e s p e i t a r Q u a n t o à duração d a c u r a , F r e u d e s t i m a q u e
o d e s e n r o l a r d o p r o c e s s o psicanalítico d e p o i s d e é q u a s e impossível determiná-la p o r a n t e c i p a -
i n i c i a d o : "Uma vez desencadeado, o processo segue ção. N a t u r a l m e n t e , o p a c i e n t e t e m t o t a l l i b e r d a -
em frente seu caminho, e sua direção não pode ser de de interrompersua cura a qualquer m o m e n -
modificada nem seu curso desviado, e a ordem das to, a f i r m a , m a s ele corre o risco d eu m agrava-
diferentes etapas permanece a mesma. O poder do m e n t o . F r e u d m e n c i o n a várias v e z e s a s pressões
analista sobre os sintomas é de algum modo compa- q u e vêm d e t o d o s o s l a d o s v i s a n d o a a b r e v i a r a
rável à potência sexual; mesmo o homem mais forte, duração d a psicanálise s o b o s p r e t e x t o s m a i s v a -
capaz de criar um filho inteiro, não poderia produzir r i a d o s : "Como consequência da incompreensão dos
no organismo feminino uma cabeça, um braço ou uma doentes, à qual se alia a insinceridade do médico, re-
perna isoladamente e nem escolher o sexo da criança. quer-se da análise que ela satisfaça às exigências mais
A única coisa que lhe é permitida é deslanchar um desmesuradas no prazo mais curto" ( 1 9 1 3 c , p . 8 6 ) .
processo extremamente complexo, determinado por A questão d o e n c u r t a m e n t o d a d u r a ç ã o d a aná-
uma série de fenómenos e que culmina com a separa- lise é recorrente, l e m b r a F r e u d , q u e r e s p o n d e
ção da criança de sua mãe. A neurose tem a mesma c o m h u m o r a e s s e t i p o d e objeção: "Evidentemen-
característica de um organismo..." ( 1 9 1 3 c , p . 8 9 ) . E l e te, ninguém imaginaria que é possível erguer uma
acrescenta que, e m face d o gasto de t e m p o ed e mesa pesada só com dois dedos, como se fosse um
d i n h e i r o q u e r e p r e s e n t a u m a psicanálise, a l g u n s banquinho, ou construir uma casa enorme no mesmo
s e c o n t e n t a r i a m e m s e l i v r a r d e u m único s i n t o - lapso de tempo que uma pequena cabana de madeira.
m a , m a s c o n s i d e r a q u e o m é t o d o psicanalítico No entanto, quando se trata da neurose (...), mesmo
d e v e ser t o m a d o e m s u a t o t a l i d a d e , v i s t o q u e as pessoas inteligentes esquecem que existe necessaria-
c o n s t i t u i u m c o n j u n t o indissociável: "O psicana- mente uma proporção entre o tempo, o trabalho e o
lista deve dar preferência aos que aspiram a cura total resultado" ( 1 9 1 3 c , p . 8 7 ) . Q u a n t o à c o n f i d e n c i a l i -
na medida em que podem conseguir isso e que dedi- d a d e , F r e u d e s c l a r e c e q u e o t r a t a m e n t o é "um
cam todo o tempo necessário ao tratamento. E preciso assunto entre o médico e a pessoa e que não deve ha-
dizer que são raros os casos em que se apresentam ver a participação de terceiros, mesmo que sejam ínti-
conjunturas tão favoráveis" ( 1 9 1 3 c , p . 9 0 ) . mos ou estejam muito curiosos" ( 1 9 1 3 c , p . 9 6 ) . F r e u d
a b o r d a i g u a l m e n t e a questão d o p a g a m e n t o d e
h o n o r á r i o s e s a l i e n t a a significação s e x u a l i n -
O estabelecimento do setting psicanalítico consciente que o d i n h e i r o c o s t u m a ter nas tro-
cas e n t r e p a c i e n t e e a n a l i s t a ; ele r e c o m e n d a a o
P a r a c r i a r a s condições ótimas p a r a o d e -
analista que exija o p a g a m e n t o r e g u l a r m e n t e e
s e n v o l v i m e n t o d e s s e p r o c e s s o , há a l g u m a s
q u e não d e i x e q u e s e a c u m u l e m a s s o m a s d e v i -
Ler Freud 129

d a s . E l e m e n c i o n a a questão d o s t r a t a m e n t o s g r a - t a n d o o desejo d eque t o d o f u t u r o psicanalista


tuitos que praticou por m u i t o tempo, assinalan- f a ç a p r i m e i r a m e n t e u m a "análise didática"
d o q u e e l e s a u m e n t a m b a s t a n t e a s resistências, ( 1 9 1 2 e , p . 2 7 [67]).
e d i s c u t e a questão d o a c e s s o à análise p a r a a s F r e u d insiste igualmente para que o f u t u r o
p e s s o a s p o b r e s e p a r a a s d e c l a s s e média. a n a l i s t a s e f a m i l i a r i z e c o m a técnica, a f i m d e
e v i t a r e r r o s c o m o a "psicanálise selvagem", q u e
c o n s i s t e e m "jogar bruscamente na cabeça do pacien-
A transferência e a tontratransferência te, na primeira consulta, os segredos que o médico
adivinhou" ( 1 9 1 0 k , p . 4 1 , [212]). E l e e v o c a a i n d a
F r e u d s a l i e n t a q u e a transferência n ã o é o
a tentação d o a n a l i s t a d e p a r t i c i p a r a o p a c i e n t e
a p a n á g i o d a psicanálise, q u e a p a r e c e t a m b é m
s e u s próprios c o n f l i t o s e s u a s próprias deficiên-
e m o u t r a s circunstâncias d a v i d a , ê q u e e l a só
c i a s p a r a a j u d a r a r o m p e r a s resistências: "Todo
p o d e s e r e l a b o r a d a n o setting d a análise. E l e
jovem analista zeloso certamente ficará tentado a pôr
d e s c r e v e d o i s t i p o s d e transferência: a t r a n s f e -
sua própria individualidade em jogo afim de treinar
r ê n c i a "positiva", b a s e a d a e m s e n t i m e n t o s t e r -
o paciente, de elevá-lo acima dos limites de sua es-
n o s , e a transferência "negativa", b a s e a d a e m
treita personalidade. Poderia até parecer admissível,
s e n t i m e n t o s h o s t i s : "Quando liquidamos' a trans-
ou mesmo desejável, que lhe permitíssemos lançar
ferência tornando-a consciente, nós simplesmente
um olhar sobre nossas próprias deficiências psíqui-
afastamos da pessoa do médico esses dois componen-
cas e nossos conflitos, conduzindo-a assim, median-
tes da relação afetiva" ( 1 9 1 2 b , p . 5 7 [114]).
te confidências íntimas, a estabelecer um paralelo"
E m s e g u i d a , e l e c h a m a a atenção d o a n a l i s -
( 1 9 1 2 e , p . 6 8 , [151-152]). M a s , s e g u n d o F r e u d , a
ta para o que designa pela p r i m e i r a vez c o m o a
experiência m o s t r a q u e e s s a técnica n ã o p r o d u z
"contratransferencia" q u e p o d e e s t a b e l e c e r - s e n o
o s r e s u l t a d o s e s p e r a d o s , a o contrário: "O pacien-
m é d i c o "como resultado da influência que o pacien-
te, na verdade, normalmente tenta reverter a situa-
te exerce sobre os sentimentos inconscientes de seu
ção por achar que a análise do médico é mais interes-
analista" ( 1 9 1 0 d , p . 2 7 [67]). O q u e e l e e n t e n d e
sante do que a sua. Do mesmo modo, a liquidação da
p o r contratransferência ? F r e u d t o m a e s s a n o -
// ,,

transferência - uma das tarefas mais importantes no


ç ã o a q u i e m u m s e n t i d o r e s t r i t o c o m relação a o s
tratamento - torna-se mais difícil por causa da inti-
d e s e n v o l v i m e n t o s q u e serão t r a z i d o s m a i s t a r -
midade estabelecida pelo médico. (...) Portanto, não
d e p e l o s p s i c a n a l i s t a s pós-freudianos: p a r a e l e ,
hesito em rejeitar essa técnica errónea. Para o anali-
t r a t a - s e e s s e n c i a l m e n t e d e reações i n c o n s c i e n -
sado, o médico deve permanecer impenetrável e, à
t e s q u e o a n a l i s t a s e n t e " c o n t r a " a transferência
maneira de um espelho, refletir apenas o que lhe mos-
d o p a c i e n t e , e daí o t e r m o " c o n t r a t r a n s f e r e n c i a " .
tram" ( 1 9 1 2 c , p . 6 9 , [152]).
E s s a s reações d e p e n d e m d a p e r s o n a l i d a d e d o
C o m o q u a l q u e r o u t r a técnica médica,
a n a l i s t a e o p õ e m - s e à elaboração d a transferên-
a p r e n d e - s e a psicanálise c o m "aqueles que já a
c i a n a m e d i d a e m q u e não são s u p e r a d a s . É p o r
dominam afundo" ( 1 9 1 0 k , p . 4 1 , [212]). É c o m o
isso q u e F r e u d exige d oanalista u m conheci-
o b j e t i v o d e p r e s e r v a r o s d o e n t e s o máximo p o s -
m e n t o e u m domínio d e s u a c o n t r a t r a n s f e r e n c i a
sível d o s p e r i g o s q u e p o d e r i a m i m p l i c a r p a r a
q u e e l e s ó p o d e a d q u i r i r m e d i a n t e s u a própria
e l e s a s i n t e r v e n ç õ e s p o r p a r t e d e a n a l i s t a s "sel-
experiência d e análise e a auto-análise: "(...) ad-
vagens" q u e F r e u d m e n c i o n a o f a t o d e t e r f u n -
vertimos que um analista só pode levar a bom termo
d a d o e m 1 9 1 0 u m a Associação Psicanalítica
seus tratamentos à medida que seus próprios com-
I n t e r n a c i o n a l ( A P I ) , organização q u e s e d e s e n -
plexos e suas resistências interiores o permitam. É
volveu e t e m u m papel importante e m nossos
por isso que exigimos que ele comece por se submeter
d i a s : "Os membros reconhecem sua filiação a ela
a uma análise e que a aprofunde incessantemente,
autorizando que se publiquem seus nomes, o que nos
mesmo quando estiver tratando de outros. Quem não
permite declinar de qualquer responsabilidade no que
consegue realizar essa auto-análise fará melhor se de-
diz respeito à maneira de proceder daqueles que não
sistir, sem hesitação, de tratar doentes analiticamen-
são os nossos, mas que pretendem dar ao seu método
te" ( 1 9 1 2 c , p . 2 7 , [67]). E l e p r o s s e g u e m a n i f e s -
o nome de 'psicanálise'" ( 1 9 1 0 k , p . 4 2 , [213]).
130 Jean-Michel Quinodoz

PÓS-FREUDIANOS

O setting psicanalítico: u m estabelecimento lento e progressivo


O que é o " s e t t i n g " psicanalítico?
C h a m a m o s d e setting psicanalítico o c o n j u n t o d e c o n d i ç õ e s necessárias para assegurar o desenrolar ótimo
d o processo psicanalítico. Essas c o n d i ç õ e s são estabelecidas e m c o m u m a c o r d o entre paciente e analista,
se possível d e s d e as entrevistas preliminares. Na psicanálise clássica, o paciente deita n o divã e o psicanalis-
ta fica s e n t a d o atrás, fora d o c a m p o d e visão d o paciente, d e maneira q u e este dirija seu olhar para o m u n d o
interno, e n ã o p a r a a p e s s o a real d o analista. R e s p o n d e n d o à "regra f u n d a m e n t a l " d a análise, q u e espera d o
paciente q u e ele c o m u n i q u e ao analista t u d o o q u e lhe v e m à cabeça, essa disposição favorece o curso das
associações livres, a s s i m c o m o as projeções no analista d e papéis variados q u e lhe são atribuídos e m fanta-
sia. A d u r a ç ã o d a sessão geralmente é fixada e m quarenta e 45 o u 50 minutos, e elas são distribuídas à razão
de quatro o u c i n c o e n c o n t r o s semanais, o u e x c e p c i o n a l m e n t e três, e m a l g u m a s regiões; a d u r a ç ã o e a
frequência d a s s e s s õ e s constituem u m fator d e estabilidade psíquica para o paciente na m e d i d a e m q u e
estas, u m a vez fixadas, n ã o d e p e n d e m d o h u m o r o u d a avaliação d o m o m e n t o .
Os c o n t a t o s p e s s o a i s e sociais entre paciente e analista d e v e m ser evitados, m e s m o f o r a d a s sessões.
A l é m d i s s o , p o r razões d e c o n f i d e n c i a l i d a d e , o analista n ã o f o r n e c e n e n h u m a i n f o r m a ç ã o a terceiros e não
entra e m c o n t a t o c o m p e s s o a s p r ó x i m a s d o paciente, salvo e m c a s o e x c e p c i o n a l e d e c o m u m a c o r d o c o m
ele. Desse p o n t o d e vista, u m d o s g r a n d e s p a r a d o x o s d a situação psicanalítica é constatar q u e os limites
éticos estritos q u e p a c i e n t e e analista se i m p õ e m e m s u a relação real c o n s t i t u e m a g a r a n t i a q u e lhes
permite t r a n s p o r livremente esses limites e m p e n s a m e n t o e e m fantasia. A s s i m , o setting constitui u m a
espécie d e " a n t e p a r o " q u e representa n o nível s i m b ó l i c o a p r o i b i ç ã o d o incesto.

O resultado de uma longa evolução


Embora Freud t e n h a pressentido desde o início a necessidade d e instaurar u m setting para a cura e tenha
definido seus principais elementos por volta d e 1903, os psicanalistas levaram muitos anos para compreender
o verdadeiro significado d o setting psicanalítico e m relação ao processo psicanalítico. E m Estudos sobre a
histeria, e m 1895, Freud explica c o m o c o m e ç o u a substituir a sugestão pela técnica d a associação livre, estabele-
cendo assim os primeiros fundamentos d o setting psicanalítico. Depois disso, apesar das r e c o m e n d a ç õ e s que
publicou e m 1904 e e m seus estudos posteriores sobre a técnica, ele cometeu inúmeras infrações às regras
estritas que tinha se imposto sem ainda avaliar seus inconvenientes: por exemplo, ele falava sobre seus analisandos
e m suas cartas d e s i g n a n d o - o s pelo n o m e , s e m ocultar sua identidade, recebia alguns analisandos para jantar
e m sua casa e inclusive analisava pessoas próximas a ele, c o m o Ferenczi e mais tarde s u a própria filha Anna.
Isso mostra q u e os limites d o setting psicanalítico permaneceram p o u c o precisos por u m l o n g o t e m p o ; foi
somente a p ó s a S e g u n d a Guerra Mundial, a partir d o m o m e n t o e m q u e se passou a enfatizar c a d a vez mais a
relação d e transferência e d e contratransferencia, q u e os psicanalistas sentiram a necessidade d e manter um
setting rigoroso a fim d e conter melhor a intensidade das trocas emocionais entre paciente e psicanalista.

As ligações indissociáveis entre s e t t i n g e processo psicanalítico


Os primeiros psicanalistas enfatizaram inicialmente a elaboração d o processo, isto é, a evolução interior segui-
da pelo paciente, s e m se preocupar muito c o m o setting, q u e era visto basicamente d o â n g u l o d a s disposições
materiais a d e q u a d a s para viabilizar o processo. Por volta d o s anos 1950, surgiram as primeiras tentativas de
conferir ao setting psicanalítico u m a base teórica. Assim, os trabalhos de W. R. Bion (1962) permitiram estabele-
cer u m a analogia entre a situação analista-analisando e m sessão e a situação mãe-filho, e considerar que o
setting es\á para o processo assim c o m o o "continente" para o "conteúdo". Por sua vez, J . Bleger (1967)
procurou demonstrar q u e havia u m a etapa anterior à posição esquizoparanóide de Klein, constituída s e g u n d o
ele por "núcleos d e aglutinação" ego-objeto criando u m a ligação simbiótica: s e g u n d o Bleger, essa ligação se
expressa através d a relação íntima q u e o paciente mantém c o m o setting psicanalítico, até conseguir se diferen-
ciar dele. Posteriormente, numerosos autores contribuíram para aprofundar as relações entre setting e proces-
so, entre os quais D. W. Winnicott c o m a noção de "holding" e D. Anzieu c o m a d e "eu-pele".

Continua Q
Ler Freud 131

0 Continuação
Compreender de dento o sentido do s e t t i n g
Essas pesquisas ajudaram a c o m p r e e n d e r melhor o sentido q u e a s s u m e o setting psicanalítico e m relação a o
p r o c e s s o . De fato, o q u a d r o c o s t u m a ser mal c o m p r e e n d i d o , tanto pelas pessoas exteriores à psicanálise
q u a n t o pelos pacientes, e às vezes inclusive pelos próprios psicanalistas. Por exemplo, na visão d o g r a n d e
público, o setting geralmente é assimilado à s u a caricatura, isto é, à c e n a d o paciente deitado n o divã e o
psicanalista sentado e m sua poltrona, d e tal m o d o q u e , esvaziada d e seu verdadeiro sentido, a situação
psicanalítica parece absurda. Os pacientes, por s u a vez, geralmente levam muito t e m p o para c o m p r e e n d e r o
sentido das modalidades d o setting q u e lhe são propostas no início, por exemplo, a necessidade d e sessões
regulares, a frequência elevada d e encontros semanais, o p a g a m e n t o d o s honorários, sobretudo q u a n d o se
trata d e entender por q u e o analista c o b r a pelas sessões e m q u e faltou por qualquer motivo. Essas c o n d i ç õ e s
p a r e c e m totalmente s e m sentido à primeira vista, até q u e o paciente d e s c u b r a por si m e s m o seu significado
e c o m p r e e n d a d e dentro q u e u m setting rigoroso é indispensável para o b o m a n d a m e n t o d o processo.
U m a s p e c t o importante d a f o r m a ç ã o consiste e m q u e o futuro psicanalista c o n s i g a interiorizar o sentido d o
setting psicanalítico e se apropriar dele. Isso c o m e ç a c o m a experiência pessoal adquirida através d e s u a
própria análise e das supervisões posteriores c o m colegas experientes, a fim d e q u e o q u a d r o n ã o seja
sentido c o m o u m conjunto d e regras rígidas impostas arbitrariamente pelo analista o u pela instituição.
Desse ponto d e vista, o setting analítico só t e m valor na m e d i d a e m q u e c a d a u m a das disposições a s s u m a u m
significado no contexto d a situação analítica. Por exemplo, a prática mostra q u e a relação que o paciente m a n -
t é m c o m o setting é muitas vezes u m meio d e c o m u n i c a ç ã o não-verbal entre analisando e analista; e esta p o d e
ser, e m particular, a expressão d e resistências transferenciais inconscientes passíveis de interpretação e d e
elaboração. Assim, c o m o avanço d a cura, o paciente, ajudado pelo analista, consegue descobrir p o u c o a
p o u c o o significado das diferentes modalidades d o setting e relacioná-las c o m o processo de transferência.

O s fundamentos do s i t t i n g da psicanálise clássica


Na m e d i d a e m que setting e processo f o r m a m u m t o d o indissociável, a psicanálise c o m u m a frequência elevada
d e sessões semanais continua s e n d o a referência e m matéria psicanalítica para os práticos pertencentes à API
q u e s e g u e m nisso o ensinamento d e Freud. Encontros frequentes favorecem a tomada de consciência e a
elaboração d e interpretações. As ligações indissociáveis entre setting e processo permitem igualmente estabe-
lecer u m a distinção entre processo psicanalítico e processo psicoterapêutico, distinção que não p o d e ser d e -
m o n s t r a d a c o m base e m d a d o s mensuráveis, d e a c o r d o c o m critérios científicos clássicos. Pessoalmente,
g o s t o d e recorrer a metáforas, c o m o aquela proposta por J. Laplanche (1987) q u e comparava a energia psíqui-
ca e a energia atómica: desejamos q u e ela seja liberada e m forma d e u m a reação e m cadeia incontrolável, o u
q u e r e m o s canalizá-la por meio d e u m cíclotron? Gosto t a m b é m d e comparar a fotografia e o cinema. Essas
duas técnicas fundamentam-se e m u m processo idêntico, a imagem fotográfica, mas a diferença está na frequência
c o m q u e essas imagens desfilam: abaixo d e 18 imagens por s e g u n d o , percebem-se imagens isoladas, e n q u a n -
to a u m a frequência acima d e 18 imagens por s e g u n d o , percebe-se o movimento, característico d o cinema.

Uma "arte" mais do que uma "técnica" no sentido da ciência determinista


A natureza d o trabalho terapêutico d o psicanalista e seu objeto, o psiquismo h u m a n o , fazem c o m q u e o estabe-
lecimento d o setting não seja u m a garantia absoluta d o êxito d e u m processo psicanalítico. Esse fato é u s a d o
c o m o argumento por certos críticos para pôr e m dúvida a validade d o m é t o d o psicanalítico, baseando-se e m
u m m o d e l o científico f u n d a d o no determinismo. A objeção merece q u e nos detenhamos nisso por u m instante.
Eu c o m e ç a r i a a responder d i z e n d o q u e , e m matéria d e p s i q u i s m o h u m a n o , falar e m t e r m o s d e u m a simples
o p o s i ç ã o entre êxito e fracasso revelaria u m a visão reducionista, pois significaria não considerar o p s i q u i s m o
c o m o u m sistema c o m p l e x o . Hoje s a b e m o s q u e nesse tipo d e sistema não se p o d e esperar q u e u m a deter-
m i n a d a ação p r o d u z a u m determinado resultado: as leis d o determinismo linear não se aplicam mais. De u m
p o n t o d e vista científico, l e m b r o q u e u m sistema c o m p l e x o , pelo fato d e ser constituído por u m n ú m e r o
infinito d e variáveis, c o m p o r t a - s e d e maneira "imprevisível" a l o n g o prazo. De fato, a m e n o r perturbação é
c a p a z d e modificar a qualquer m o m e n t o a evolução d o sistema, o q u e torna impossível prever s u a evolução.
A l é m disso, se c o n s i d e r a m o s q u e o p s i q u i s m o h u m a n o se c o m p o r t a c o m base no m o d e l o d e u m sistema
c o m p l e x o tal c o m o o descreve a teoria d o caos determinista, t e m o s motivos para pensar q u e os f e n ó m e n o s

Continua 0
132 Jean-Michel Quinodoz

PÓS-FREUDI/

psíquicos se c o m p o r t a m d e maneira imprevisível a longo prazo e não o b e d e c e m a o m o d e l o científico "clás-


sico", s e g u n d o o q u a l u m a d e t e r m i n a d a ação p r o d u z u m d e t e r m i n a d o resultado (G. Pragier e S. Faure-
Pragier, 1990; J.-M. Q u i n o d o z , 1997a).
No q u e diz respeito à impossibilidade d e prever c o m s e g u r a n ç a o êxito d e u m a cura psicanalítica, p e n s o q u e
se p o d e r e s p o n d e r a essa o b j e ç ã o t a m b é m d e u m p o n t o d e vista m e t o d o l ó g i c o . A s s i m , para G. Vassali
(2001), a t é c n i c a freudiana não é u m a "técnica" tal c o m o se entende hoje, m a s u m a "technè" n o sentido d e
Aristóteles, isto é, u m a "arte". C o n s e q u e n t e m e n t e , o produto q u e resulta d e s s a atividade n ã o é d a o r d e m d a
certeza e d o necessário - c o n f o r m e as leis d o determinismo linear - , m a s d a o r d e m d o " p r o v á v e l " e d o
"possível". O ofício d o psicanalista é, portanto, u m a arte, e não o p e r a c o m base e m provas, m a s c o m base e m
indícios, d e d u ç õ e s , ideias intuitivas, p r o c e d i m e n t o q u e Freud d e s i g n a pelo t e r m o erraten a o tratar d o procedi-
mento d o psicanalista (erraten foi traduzido d e maneira p o u c o satisfatória e m francês c o m o deviner e e m
inglês c o m o to guess). Se a d o t a m o s esse p o n t o d e vista e c o n s i d e r a m o s o trabalho d o psicanalista c o m o
u m a "technè", isso significa, por u m lado, q u e o trabalho d e p e n s a m e n t o interpretativo não se realiza c o n c e b e n -
d o de maneira racional, m a s d e maneira conjetural; por outro lado, significa q u e não se p o d e determinar c o m
certeza se a arte d e curar exercida pelo psicanalista conduzirá necessariamente a o êxito. S e g u n d o Vassali,
isso t e m a ver c o m a própria natureza d o objeto d a psicanálise, cuja c o m p l e x i d a d e torna legítima u m a aborda-
g e m conjetural. A l é m d o mais, a técnica d a interpretação não é por acaso o único meio d e q u e d i s p o m o s para
explorar - c o m g r a n d e e s p e r a n ç a d e êxito - u m objeto q u e jamais p ô d e ser representado: o inconsciente?

0 BIOGRAFIAS E HISTÓRIA

Sándor Ferenczi (1873-1933)


Não p o d e r í a m o s a b o r d a r a q u e s t ã o t é c n i c a s e m evocar o papel pioneiro d e S á n d o r Ferenczi, m é d i c o e
psicanalista h ú n g a r o q u e trouxe c o n t r i b u i ç õ e s clínicas, t é c n i c a s e teóricas f u n d a m e n t a i s . Por m u i t o t e m p o ,
o c u p o u u m lugar privilegiado a o lado d e Freud, m a s n o final d a vida d e Ferenczi e s t a b e l e c e u - s e entre os
dois h o m e n s u m a p r o f u n d a d i s c o r d â n c i a a c e r c a d e q u e s t ã o c o n t r o v e r s a d a t é c n i c a "ativa".
Nascido na Hungria, o n d e passou t o d a sua existência, Ferenczi obteve seu d i p l o m a d e m é d i c o e m Viena, e m
1896. e m 1907, descobriu A interpretação dos sonhos e conheceu J u n g , q u e o apresentou a Freud e m 1908. No
ano seguinte, Ferenczi a c o m p a n h o u Freud e J u n g aos Estados Unidos. Desde então, criou-se u m a relação
complexa entre Freud e Ferenczi, e este último foi se tornando p o u c o a p o u c o o aluno, o a m i g o , o íntimo da
família, o confidente e m e s m o o analisado d e Freud. Desde seu encontro c o m Freud e m 1908, Ferenczi partici-
pou ativamente d a expansão d o movimento psicanalítico não apenas na Hungria, mas e m t o d o o m u n d o , e foi
ele q u e lançou a ideia d e u m a Associação Psicanalítica Internacional, q u e a c a b o u s e n d o f u n d a d a e m 1910,
tendo J u n g c o m o primeiro presidente. A partir d e 1912, fez parte d o "comité secreto" f o r m a d o d e p o i s d a partida
de J u n g c o m o objetivo d e proteger Freud de qualquer envolvimento e m conflitos políticos.
Quanto às suas p u b l i c a ç õ e s , Ferenczi lançou e m 1909 seu artigo mais c o n h e c i d o , intitulado "Introjeção e
transferência", n o q u a l introduziu a n o ç ã o d e introjeção q u e se t o r n o u u m conceito f u n d a m e n t a l na psicaná-
lise. Publicou vários outros textos q u e impressionam por s u a originalidade e s u a riqueza clínica. Ele t a m b é m
compartilhou c o m Freud o interesse pelo papel d e s e m p e n h a d o pela transmissão telepática e pela hipótese
filogenética s e g u n d o a qual lembranças traumáticas datadas d e t e m p o s pré-históricos e transmitidas heredi-
tariamente estariam na o r i g e m das neuroses. A l é m disso, os trabalhos q u e Ferenczi c o n s a g r o u às neuroses
d e guerra contribuíram para popularizar as ideias psicanalíticas durante o pós-guerra 1914-1918.
Ferenczi foi analisado por Freud, m a s teve d e insistir muitas vezes para q u e este o aceitasse, d e p o i s d e muita
vacilação. Essa análise se desenvolveu e m três períodos, o primeiro e m 1914 e os outros dois e m 1916, c a d a
qual c o m u m a d u r a ç ã o m é d i a d e três s e m a n a s , e u m c o m d u a s sessões por dia. O p r o b l e m a d e Ferenczi
girava essencialmente e m torno d e s u a ambivalência, e m particular q u a n d o , durante a análise, ele se envol-
veu e m u m a c o n f u s ã o sentimental, e hesitava entre se casar c o m Gisella, sua amante, e a s e g u n d a filha desta,

Continua %
Ler Freud 133

0 Continuação

Elma. A c a b o u se c a s a n d o c o m Gisella, e m 1919, mas logo se arrependeu d e sua decisão e passou a acusar
Freud d e tê-lo pressionado. Ele c o n d e n a v a Freud s o b r e t u d o por não ter analisado suficientemente s u a trans-
ferência negativa. Este, por sua vez, se defendeu e m seu artigo "Análise terminável e interminável" (1937c).
E m 1918, por ocasião d o V C o n g r e s s o Internacional realizado e m B u d a p e s t e , Ferenczi foi eleito p r e s i d e n t e
d a A s s o c i a ç ã o Psicanalítica Internacional, m a s e m razão d e distúrbios sociopolíticos q u e i r r o m p e r a m na
H u n g r i a , teve d e passar o c a r g o a J o n e s . N o a n o seguinte, e m 1919, Ferenczi se demitiu d e seu p o s t o d e
p r o f e s s o r d e psicanálise d a Universidade e p a s s o u a se dedicar aos s e u s pacientes, assim c o m o a o s s e u s
t r a b a l h o s s o b r e a técnica
Nos a n o s d e 1920, Ferenczi orientou suas pesquisas na direção d e u m a técnica psicanalítica "ativa", q u e levou
ao extremo. Essa a b o r d a g e m visava estimular o desenvolvimento d a dimensão afetiva da transferência e m
pacientes q u e apresentavam u m a forte regressão ligada a traumatismos precoces, o que os colocava e m situa-
ç ã o d e impasse na cura. E m 1924, Ferenczi e Rank, q u e era igualmente u m defensor d a técnica ativa, publica-
ram Perspectivas da psicanálise, obra q u e continha alguns pontos d e vista q u e se antecipavam à sua é p o c a .
Entre estes, Ferenczi e Rank defenderam a importância d a análise d a transferência negativa dentro d a relação
entre paciente e analista, e evidenciaram o papel materno na transferência, enquanto Freud enfatizava sobretu-
d o o papel paterno. Mas os meios propostos para limitar a duração d a cura foram fortemente contestados,
primeiro por Abraham e Jones e depois por Freud. A partir desses trabalhos, Ferenczi elaborou u m p r o c e d i m e n -
to técnico q u e tinha c o m o objetivo proporcionar o amor q u e faltara na infância desses pacientes, aceitando
contatos físicos entre paciente a analista, até a troca d e carícias e beijos, e propôs u m a técnica d e análise mútua
entre os dois parceiros d a relação analítica. Pressentindo o perigo d a transgressão incestuosa na relação
transferencial, Freud acusou seu discípulo d e ultrapassar os limites éticos e d e proporcionar esse amor através
d e gratificações reais, e m contradição c o m o m é t o d o psicanalítico q u e situa as trocas unicamente no nível das
fantasias e dos afetos, e e m q u e paciente e analista se abstêm d e qualquer contato físico.
D u r a n t e os 25 a n o s e m q u e e s t e n d e u s u a relação, Freud e Ferenczi t r o c a r a m mais d e 1.200 cartas até a
m o r t e d e Ferenczi, o c o r r i d a e m 1933, e essa c o r r e s p o n d ê n c i a constitui u m a valiosa fonte d e i n f o r m a ç õ e s
s o b r e u m período decisivo para a história d a psicanálise. M e s m o d e p o i s q u e seu d e s e n t e n d i m e n t o o s
afastou n o final d o s a n o s d e 1920, a ruptura n u n c a foi total, e e m s u a h o m e n a g e m f ú n e b r e a Ferenczi,
F r e u d (1933c) r e c o n h e c e u t u d o o q u e a psicanálise devia a s e u discípulo.
E m c o n s e q u ê n c i a d a p o l é m i c a s o b r e a t é c n i c a ativa Ferenczi foi injustamente e s q u e c i d o d u r a n t e várias
d é c a d a s pela c o m u n i d a d e psicanalítica freudiana, m a s t r a b a l h o s recentes o reabilitaram e m s e u p a p e l
histórico e reavivaram o interesse q u e ele m e r e c e por suas ideias i n o v a d o r a s (Haynal, 1986, 2001). E m b o r a
Ferenczi t e n h a sofrido u m l o n g o eclipse, é preciso esclarecer q u e s u a influência se p e r p e t u o u através d o s
psicanalistas r e n o m a d o s q u e ele analisou, entre os quais J o n e s , Klein, R i c k m a n , Roheim, Balint e G r o d d e k .
A l é m d i s s o , suas pesquisas s o b r e a t é c n i c a ativa influenciaram i g u a l m e n t e os trabalhos posteriores d e
Balint, s e u aluno direto, c o m o t a m b é m os d e Winnicott, K h a n , Kohut e M o d e l l .

• " R E C O R D A R , REPET R E E L A B O R A R " (1914g)

A s p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m ao texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1914g), " R e m é m o r a t i o n , répétition et


é l a b o r a t i o n " , in La technique psychanalytique, trad. A. B e r m a n . , Paris, PUF, 1953 ( 1 é d . ) , 1970, p. 105-115.
§

E s t e a r t i g o técnico é d e u m a i m p o r t â n c i a c a - s e r e p r o d u z e m e m a t o s n a relação c o m o p s i -
p i t a l p a r a a compreensão d a transferência: canalista. E i s u m breve e x e m p l o para ajudar a
F r e u d m o s t r a q u e a l g u n s p a c i e n t e s não têm a compreender o que Freud entende p o r "repe-
capacidade d ese l e m b r a r d o passado e d e co- tir" e m v e z d e"se lembrar": p o d e ocorrer q u e
m u n i c a r v e r b a l m e n t e e s s a s experiências. M a s u m p a c i e n t e q u e f o i a b a n d o n a d o n a infância
e s s a s lembranças a p a r e n t e m e n t e e s q u e c i d a s não s e l e m b r e d i s s o e não f a l e a r e s p e i t o , e q u e
reaparecem sob a forma d e comportamentos e se o b s e r v e q u e n as u a v i d a a d u l t a ele s e m p r e
134 J e a n - M i c h e l Quinodoz

acaba separando-se das pessoas c o m q u e m se m a s "como uma força em ação atualmente" ( p . 1 1 0 ) ,


e n v o l v e , seja u m a m i g o o u u m e m p r e g a d o r ; o a n t e s d e c o n s e g u i r ligá-la c o n s c i e n t e m e n t e a o
p a c i e n t e n ã o t e m consciência d e q u e a l g u m a passado.
c o i s a q u e e l e f a z n e s s a relação levará a q u e s e j a Freud observa ainda que a intensidade d a
a b a n d o n a d o m a i s u m a v e z , s e m s a b e r p o r quê: repetição é p r o p o r c i o n a l à q u a l i d a d e a f e t i v a
a situação d e a b a n d o n o s e r e p e t e c o m b a s e n o d a transferência: q u a n d o a transferência é p o s i -
m e s m o m o d e l o , e o p a c i e n t e não p e r c e b e c o n s - tiva, o paciente tende a selembrar, a o passo
c i e n t e m e n t e q u e s e t r a t a d a repetição d e u m a q u e , q u a n d o a transferência é n e g a t i v a e a r e s i s -
situação j á v i v i d a n o p a s s a d o , e n a d a i m p e d e tência s e reforça, a t e n d ê n c i a à r e p e t i ç ã o e m
q u e e s s a situação s e r e p i t a . O q u e o p a c i e n t e a t o s s e a c e n t u a . N o s c a s o s e x t r e m o s , a própria
" r e p e t e " n e s s e c a s o ? "Bem, d i z F r e u d , ele repete relação d e transferência p o d e e n v e r e d a r n a r e -
tudo aquilo que, emanado de fontes do reprimido, já p e t i ç ã o : " O ato interativo provoca a ruptura do
impregna toda sua personalidade: suas inibições, vínculo que une o paciente ao tratamento" ( p . 1 1 3 ) .
suas atitudes inadequadas, seus traços de caráter C o n t u d o , g r a ç a s a o m a n e j o d a transferência, o
patológicos. Ele repete seus sintomas também du- a n a l i s t a c o n s e g u e "conter o automatismo de repe-
rante o tratamento" ( p . 1 1 0 ) . E s s a "coação à repe- tição e transformá-lo em uma razão dessa lembran-
tição" está l i g a d a à transferência e à resistência: ça" ( p . 1 1 3 ) . M a s n ã o b a s t a q u e o a n a l i s t a "dê
d e u m l a d o , está l i g a d a à transferência n a m e - um nome" à resistência, p o i s "com isso não faze-
d i d a e m q u e e s s a repetição d e u m p a s s a d o e m mos com que ela desapareça imediatamente. E pre-
atos acontece c o m a pessoa d o analista, de for- ciso dar tempo ao doente para que conheça bem essa
m a q u e "a própria transferência é apenas um frag- resistência que ele ignorava, para "elaborá-la inter-
mento da repetição" ( p . 1 0 9 ) ; d e o u t r o l a d o , e s s a pretativamente" ( d u r c h a r b e i t e n ) , para vencê-la e
repetição está l i g a d a à resistência, a t a l p o n t o prosseguir, apesar dela e obedecendo à regra funda-
q u e "quanto maior for a resistência, mais a perpe- mental, o trabalho iniciado" ( p . 1 1 4 ) . E s s e r e s p e i -
tração em atos (a repetição) substituirá a lembran- to d oanalista pelo t e m p o d eq u e o paciente
ça" ( p . 1 0 9 ) . P o r i s s o , o p s i c a n a l i s t a d e v e r á t r a - necessita para realizar p o r s im e s m o o traba-
t a r a doença n ã o c o m o u m a c o n t e c i m e n t o d o l h o d e elaboração c o n s t i t u i u m e l e m e n t o d e t e r -
p a s s a d o - d o q u a l o p a c i e n t e não s e l e m b r a - m i n a n t e d o p r o c e s s o psicanalítico.

• " O B S E R V A Ç Õ E S S O B R E O A M O R T R A N S F E R E N C I A L ' (1915a)

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1915a), " O b s e r v a t i o n s s u r Tamour d e


transfert", in L a technique psychanalytique, trad. A. B e r m a n . , Paris, PUF, 1953 ( 1 ^ ed.), 1 9 7 0 , p. 116-130.

Q u e a t i t u d e t o m a r q u a n t o o a n a l i s t a s e vê calma e situá-la em um nível mais elevado" ( p . 1 2 2 ) .


d i a n t e d e u m a transferência a m o r o s a p a r a n ã o N a v e r d a d e , e s s a a t i t u d e não é i s e n t a d e p e r i -
ter de i n t e r r o m p e r o t r a t a m e n t o ? P o r e x e m p l o , g o , p o i s : "Será que a pessoa está tão segura de si a
c o m o reagir q u a n d o u m paciente experimenta ponto de não ultrapassar os limites que se fixou?".
u m s e n t i m e n t o a m o r o s o e m relação a o s e u a n a - O perigo d eu m a tal atitude estaria e m que a s
l i s t a q u e é a reprodução d o a m o r q u e e x p e r i - investidas d apaciente encontrassem eco n o
m e n t a v a p o r s u a mãe, o u p o r s e u p a i , q u a n d o a n a l i s t a , p o i s i s s o s i g n i f i c a r i a p a r a e l a "traduzir
criança? S e g u n d o F r e u d , n ã o s e t r a t a d e e v o - em atos, reproduzir na vida real, aquilo que ela só
car a m o r a l p a r a c o n d e n a r isso, n e m d e reco- deveria se recordar e que convém manter no terreno
m e n d a r a o p a c i e n t e p a r a "sufocar sua pulsão", o psíquico como conteúdo mental". P o r i s s o , é e s -
q u e s e r i a o o p o s t o d e u m a a t i t u d e analítica; e l e sencial q u e o t r a t a m e n t o seja p r a t i c a d o n a abs-
d e s a c o n s e l h a t a m b é m "(...) pretender comparti- tinência - n o ç ã o q u e e l e explicará n o a r t i g o s e -
lhar os sentimentos ternos da paciente, mas evitan- g u i n t e - e a om e s m o t e m p o d e i x e subsistir n o
do todas as manifestações físicas desta, até que seja p a c i e n t e n e c e s s i d a d e s e d e s e j o s q u e s ã o a s "for-
possível reconduzir a situação em uma trilha mais ças motrizes" q u e f a v o r e c e m a m u d a n ç a .
Ler Freud 135

PÓS-FREUDIANO
5

Q u e s t õ e s d e ética psicanalítica
As questões d e transgressão d o setting psicanalítico é extremamente complexa, pois está ligado a inúmeros
fatores, c o m o mostraram Glen O. G a b b a r d e Eva Lester e m s u a o b r a Boundaries e Boundary Violations in
Psychoanalysis (1995). De fato, durante o processo psicanalítico corre-se o risco d e se deparar não apenas c o m
transgressões d e o r d e m sexual a q u e Freud s e refere e m "Observações sobre o amor transferencial", m a s
t a m b é m c o m transgressões não-sexuais que, segundo esses autores, é preciso minimizar. Estas últimas a s s u m e m
formas variadas e constituem rupturas d o setting ligadas a perpetrações e m ato contratransferenciais: por exemplo,
q u a n d o o analista cobra honorários muito baixos o u , ao contrário, muito elevados, u m a disponibilidade excessiva,
o u q u a n d o ele se torna disponível dia e noite aos c h a m a d o s d o paciente, etc. D o lado d o psicanalista, existe u m a
g r a n d e quantidade d e razões pelas quais ele p o d e não respeitar o setting estabelecido c o m seu paciente, e
esses autores constataram q u e geralmente u m psicanalista passa a o ato por ocasião d e dificuldades pessoais.
G a b b a r d e Lester insistem sobre a necessidade d e estabelecer meios d e prevenção e m diferentes níveis. N o
q u e diz respeito à formação d o futuro psicanalista, trata-se d e estar atento à forma c o m o ele terminou s u a
análise pessoal e d e avaliar s u a capacidade d e analisar suas próprias reações contratransferenciais. N o plano
clínico, a supervisão constitui u m lugar privilegiado para examinar o s problemas técnicos ligados à m a n u t e n ç ã o
d e u m setting rígido, garantia d o b o m andamento d o processo psicanalítico: " O melhor presente e o mais eficaz
que podemos oferecer a um paciente é o próprio setting psicanalítico" (Gabbard e Lester, p. 147). Além disso,
esses autores consideram q u e o isolamento n o qual o psicanalista trabalha e m seu consultório é u m fator d e
risco, e r e c o m e n d a m q u e o psicanalista, por mais experiente q u e seja, d e d i q u e u m t e m p o para discutir c o m u m
c o l e g a gabaritado questões relativas à s u a contratransferencia. Finalmente, Gabbard e Lester consideram q u e
t o d o Instituto e toda Sociedade Psicanalítica deveriam criar u m a comissão ética independente. Esta deveria
estar preparada para acolher c o m t o d a confidencialidade não apenas os pacientes o u terceiros q u e queiram ser
ouvidos, m a s t a m b é m o s psicanalistas e m dificuldades. S e g u n d o s u a experiência, há u m a forte tendência a
encarar o s problemas d e transgressão d o setting psicanalítico s o b o ângulo moral o u ignorá-los, e m b o r a seja
essencial adotar medidas q u e assegurem u m a ajuda terapêutica às pessoas q u e o s enfrentam.

• " L I N H A S D E P R O G R E S S O N A TERAPIA PSICANALÍTICA" (1919a)

A s p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. F r e u d ( 1 9 1 9 a ) , " L e s voies n o u v e l l e s d e la


t h é r a p e u t i q u e p s y c h a n a l y t i q u e " , in La technique psychanalytique, t r a d . A . Berman., Paris, PUF, 1 9 5 3 ( 1 §

ed.), 1970 [as páginas indicadas entre colchetes remetem às OCF.P, XV, p. 97-108].

F r e u d explica nesse artigo o que ele entende Para concluir, F r e u d encara o futuro d a
p o r "conduzir o tratamento psicanalítico em estado psicanálise i m a g i n a n d o u m a evolução d a téc-
de frustração e de abstinência". I s s o não s i g n i f i c a nica q u ep e r m i t i r i a aplicar esse t r a t a m e n t o à
p r i v a r o p a c i e n t e d e satisfação, n e m p r o i b i - l o d e p s i c o s e , e não a p e n a s à n e u r o s e . E l e antevê
q u a l q u e r relação s e x u a l , m a s e v i t a r d o i s tipos i g u a l m e n t e a p o s s i b i l i d a d e d eq u e a s c a m a -
d e p e r i g o suscetíveis d e a m e a ç a r o c u r s o d o d a s s o c i a i s c a r e n t e s d a população p o s s a m por
t r a t a m e n t o : o p r i m e i r o d i z r e s p e i t o à tentação sua v e zt e racesso a u m a f o r m a adaptada d e
d o p a c i e n t e d e b u s c a r satisfações s u b s t i t u t i v a s , t r a t a m e n t o psicanalítico, até m e s m o à s u a g r a -
p o r e x e m p l o , r e a l i z a r c o m u m a p e s s o a d o círculo t u i d a d e : "Tudo leva a crer que, em vista da am-
próximo o q u e e s p e r a d o a n a l i s t a , p o i s t a i s s a t i s - pla aplicação de nossa terapêutica, seremos obri-
fações c o r r e m o r i s c o d e a s s u m i r o l u g a r d o s s i n - gados a misturar o ouro puro da análise a uma
tomas: o s e g u n d o perigo consiste e m encontrar quantidade considerável do chumbo da sugestão
u m a satisfação s u b s t i t u t i v a n a p r ó p r i a relação direta. Em alguns casos precisaremos inclusive,
d e transferência, c o m a p e s s o a d o a n a l i s t a . É p o r como no tratamento das neuroses de guerra, fazer
isso que o analista deve cuidar para que o pacien- uso da influência hipnótica. Contudo, qualquer que
te conserve "suficientes desejos irrealizados" m e - seja a forma dessa psicoterapia popular e de seus
d i a n t e a imposição d e u m c e r t o g r a u d e f r u s t r a - elementos, as partes mais importantes, as mais
ç ã o , m e s m o q u e "nos vejamos obrigados também a ativas continuarão sendo aquelas que foram em-
nos colocar de tempos em tempos como educador ou prestadas da psicanálise estrita desprovida de qual-
conselheiro", a c r e s c e n t a F r e u d ( p . 1 3 8 [105]). quer prejulgamento" (p.141 [108]).
136 Jean-Michel Quinodoz

PÓS-FREUDIANOS

O papel atual da A s s o c i a ç ã o Psicanalítica Internacional


E m 1910, d u r a n t e o C o n g r e s s o d e N u r e m b e r g , Freud f u n d o u a A s s o c i a ç ã o Psicanalítica Internacional (API)
c o m o objetivo d e s a l v a g u a r d a r a psicanálise q u e ele havia criado. C o m p o s t a d e 2 4 0 m e m b r o s e m 1920, a
o r g a n i z a ç ã o c o n t a a t u a l m e n t e c o m p o u c o mais d e 10 mil m e m b r o s distribuídos e m 3 0 países, principal-
mente na E u r o p a , A m é r i c a d o Norte e A m é r i c a Latina. A atividade d a API consiste e m estabelecer diretrizes
c o m u n s p a r a a f o r m a ç ã o , organizar conferências e c o n g r e s s o s internacionais e p r o m o v e r o desenvolvi-
m e n t o d a clínica, d o e n s i n o e d a p e s q u i s a . Ela c o o r d e n a os a s p e c t o s internacionais d a v i d a profissional d a
psicanálise e s u p e r v i s i o n a i g u a l m e n t e a criação d e n o v o s g r u p o s , e m particular n o s países q u e manifestam
u m interesse n o v o p e l a psicanálise, c o m o é o c a s o hoje d o s países d a E u r o p a Oriental e d e m u i t o s outros.
A partir d o s a n o s d e 1920, diante d o crescimento d o número d e centros d e atividade psicanalítica e m todo o
m u n d o , procurou-se estabelecer critérios internacionais a fim d e assegurar a transmissão d a psicanálise nas
melhores c o n d i ç õ e s . A formação é confiada às diversas sociedades q u e c o m p õ e m a API e funciona e m forma
de u m a auto-regulamentação interna à Associação para evitar obstáculo d e u m a avaliação impossível d o futuro
psicanalista por u m a instância "externa". Essa formação se baseia essencialmente e m três vertentes c o m p l e m e n -
tares: a experiência pessoal d a análise - a análise "didática"; a supervisão das primeiras curas psicanalíticas por
u m psicanalista experiente; a aquisição de conhecimentos fundamentais, e m primeiro lugar o d a o b r a d e Freud.
C o m o t e m p o , a Associação Psicanalítica Internacional procurou estabelecer recomendações mínimas referen-
tes às c o n d i ç õ e s a serem preenchidas pelas pessoas q u e desejam ter acesso à formação, c o m o t a m b é m obter
o título d e m e m b r o , e depois d e m e m b r o encarregado d a formação. Em c a d a u m a dessas etapas, a avaliação
é feita e m geral c o m base e m u m a série de encontros d a pessoa interessada c o m analistas experientes que
procuram verificar se ela já adquiriu as qualidades requisitadas, seja para conduzir u m a cura psicanalítica o u , na
outra eventualidade, para formar futuros psicanalistas. Essas recomendações são o resultado d e u m consenso
a que c h e g a r a m as várias sociedades d a API. Por exemplo, as diretrizes publicadas no fim d o s a n o s d e 1980
especificam q u e a análise pessoal d o futuro psicanalista deveria se desenvolver c o m u m a frequência semanal
suficientemente elevada para assegurar o desenvolvimento de u m a experiência analítica aprofundada, c o m o
recomendava Freud e c o m o requer hoje a maioria das sociedades, no mínimo quatro o u cinco sessões sema-
nais (excepcionalmente três e m algumas); recomenda-se ainda q u e o psicanalista tenha realizado c o m sucesso
pelo m e n o s d u a s curas psicanalíticas s o b a supervisão d e u m analista formador. Entretanto, ainda q u e essas
recomendações mínimas continuem a ser seguidas pela maioria das sociedades, há u m a pressão cada vez
maior não apenas d e fora, mas t a m b é m por parte d e m e m b r o s d a própria API, no sentido d e encurtar a duração
da formação e d e q u e as exigências d e acesso à formação sejam menos elevadas, d e maneira a permitir que
mais terapeutas t e n h a m acesso à prática d a psicanálise.
Pessoalmente, a c h o q u e será s e m p r e difícil encontrar u m equilíbrio entre, d e u m lado, a n e c e s s i d a d e d e
manter as a q u i s i ç õ e s f u n d a m e n t a i s d a psicanálise q u e são por si m e s m a s exigentes e m f a c e d a natureza
d o t r a b a l h o d o psicanalista e d o p r o c e s s o psicanalítico, e, d e outro lado, o d e s e j o d e abrir a psicanálise a
u m n ú m e r o m a i o r d e p e s s o a s s e m correr o risco d e q u e a psicanálise p e r c a s u a e s p e c i f i c i d a d e .

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

A b s t i n ê n c i a - a m o r d e t r a n s f e r ê n c i a - setting psicanalítico - c o n t r a t r a n s f e r e n c i a - p r o c e s s o
psicanalítico - r e m e m o r a ç ã o - r e p e t i ç ã o , c o a ç ã o d e r e p e t i ç ã o - t é c n i c a psicanalítica - t r a n s f e r ê n c i a
positiva, t r a n s f e r ê n c i a negativa
TOTEM E TABU
S. FREUD (1912-1913a)

Obra visionária ou obra superada?

C o m essa obra f u n d a m e n t a l ,q u emerece ser geração a o u t r a . P a r a F r e u d , não r e s t a n e n h u -


m a i s v a l o r i z a d a d o q u e f o i até h o j e , F r e u d d e - m a dúvida d e q u e e s s e s e n t i m e n t o d e c u l p a
s e n v o l v e u m a visão psicanalítica a d m i r á v e l d a c o n s t i t u i o r e s í d u o d e u m a f a l t a originária c o -
natureza h u m a n a , abrindo perspectivas mais m e t i d a q u a n d o d e u m a refeição t o t ê m i c a d u -
a m p l a s e m relação a o s s e u s t r a b a l h o s p r e c e d e n - r a n t e a q u a l o s irmãos, r e u n i d o s n o ódio a o s e u
t e s . E l e s e a p o i a e m p e s q u i s a s d e etnólogos e pai, o teriam devorado para ocupar seu lugar.
antropólogos p a r a e s t a b e l e c e r p a r a l e l o s c o m a s D e s s e a t o c a n i b a l e s c o a n c e s t r a l d e c o r r e r i a não
d e s c o b e r t a s psicanalíticas, e m p a r t i c u l a r c o m apenas u m s e n t i m e n t o d eculpa i n d i v i d u a l ,
e l e m e n t o s p e r t e n c e n t e s a o c o m p l e x o d e Édipo, m a s i g u a l m e n t e a sdiferentes fases d a o r g a n i -
c o m o a proibição d o a s s a s s i n a t o d o a n c e s t r a l - zação s o c i a l d a h u m a n i d a d e , d e s d e o t o t e m i s -
o p a i o u s e u r e p r e s e n t a n t e - e a proibição d o m o d o s p r i m i t i v o s até a m o r a l c o l e t i v a q u e a s -
i n c e s t o - i s t o é, d e e s p o s a r a m u l h e r d o p a i . s e g u r a a v i d a e m s o c i e d a d e . A religião s e r i a
C o n t u d o , o c o m p l e x o d e Édipo não p o d e r i a u m a o u t r a f o r m a d e expressão, d e s d e a religião
n a s c e r d e n o v o c o m c a d a indivíduo, a c a d a t o t ê m i c a d a s o r i g e n s até o c r i s t i a n i s m o , e s t e
geração. A s s i m , F r e u d s u g e r e u m a hipótese último f u n d a d o n o p e c a d o o r i g i n a l c o m e t i d o
a u d a c i o s a q u e s u s c i t a p e s a d a s críticas: s e g u n - pelos primeiros h o m e n s contra o D e u s Pai. A s
d o e l e , traços a n c e s t r a i s q u e r e m o n t a m às o r i - d i v e r s a s hipóteses a p r e s e n t a d a s p o d e r F r e u d
g e n s i n f l u e n c i a r i a m a constituição d e s s e c o m - e m Totem e tabu s u s c i t a r a m i n ú m e r a s críticas
p l e x o . F r e u d a c r e d i t a q u e é possível d e s c o b r i r p r o v e n i e n t e s d et o d o s o sh o r i z o n t e s , m a se l e
e s s e s traços a r c a i c o s n o s s e n t i m e n t o s f o r t e m e n - t a m b é m l e v a n t a questões f u n d a m e n t a i s , s u s -
t e a m b i v a l e n t e s q u e t o d o indivíduo e x p e r i m e n - cetíveis d e "tirar o sono dos humanos por muito
t a e m relação a o p r ó p r i o p a i - e l e n ã o f a l a d a tempo", c o m o h a v i a p r e s s e n t i d o . T a l v e z e s s a
mãe - e n o s e n t i m e n t o d ec u l p a i n c o n s c i e n t e s e j a u m a razão s u f i c i e n t e p a r a e x p l i c a r e m p a r t e
que recai pesadamente sobre cada u m , d eu m a o d e s i n t e r e s s e a t u a l p o r Totem e tabu.

O enigma da origem das religiões


A questão d a origem d a s religiões sempre p r e o c u p o u Freud, q u e era u m judeu não praticante. Mas o s trabalhos
d e J u n g sobre a mitologia e o misticismo reativaram seu interesse. A partir d e 1 9 1 1 , Freud m e r g u l h o u e m u m a
a b u n d a n t e d o c u m e n t a ç ã o sobre as religiões e a etnologia, e m particular nas obras d e Frazer e d e W u n d t e ficou
fascinado. Durante quase dois anos, dedicou-se quase q u e exclusivamente à redação d o s quatro ensaios q u e
constituem Totem e tabu, q u e foram lançados e m sequência e m 1912 e 1913, e depois s o b a f o r m a d e livro. A
o b r a foi mal recebida fora d o s círculos psicanalíticos, e m particular pelos antropólogos q u e criticaram Freud p o r

Continua A
138 Jean-Michel Q u i n o d o z

BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

ter interpretado erroneamente o s fatos e contestaram a universalidade d e suas teses. Porém, Freud jamais
renunciou à s suas conclusões e não fez n e n h u m a modificação na obra. A o contrário, retomou as m e s m a s teses
em seus trabalhos posteriores sobre a psicologia coletiva e e m 1939 reafirmou s u a posição: "Mas, antes de
tudo, não sou etnólogo, sou psicanalista, eu tinha o direito de extrair da literatura etnológica tudo o que pudesse
ser útil para o trabalho analítico" (Freud, 1939a, p, 236).

A caminho d a ruptura c o m Carl Gustav J u n g


Em 1911, o m o v i m e n t o psicanalítico c o m e ç a v a a ganhar maior projeção. Dentro d a Sociedade d e Viena surgi-
ram conflitos, à s vezes intensos, ligados a discordâncias e a ciúmes q u e foram se acentuando c o m certos
alunos. Adler demitiu-se e m 1911, d a d o q u e sua evolução teórica o levara a abandonar as noções d e inconsciente,
de repressão e d e sexualidade infantil, imprescindíveis n a psicanálise. E m 1912, foi a vez d e Steckel se retirar,
para o alívio d e Freud. Quanto a J u n g , q u e durante algum t e m p o c h e g o u a ser considerado por Freud c o m o seu
"delfim", o caso foi diferente. A colaboração entre o s dois h o m e n s durou seis anos consecutivos, m a s pouco
depois d e seu encontro e m 1907 j á c o m e ç a r a m a surgir divergências d e opinião. Isso n ã o impediu q u e J u n g se
tornasse o primeiro presidente d a Associação Psicanalítica Internacional e m 1910 e redator-chefe d o Jahrbuch
e q u e a c o m p a n h a s s e Freud e m s u a viagem aos Estados Unidos a convite d a Clark University e m 1909. Na
m e s m a época, J u n g c o m e ç o u a estudar a mitologia, mas sua divergência sobre a questão d o significado que se
deveria atribuir à n o ç ã o d e "libido" se cristalizou: ao contrário d e Freud, q u e via n a libido a expressão apenas
das pulsões sexuais, J u n g acreditava q u e a libido não podia ser reduzida à sexualidade e q u e ela tinha o sentido
de u m a pulsão e m geral, incluindo as pulsões d e autopreservação. J u n g publicou e m 1912 Metamorfoses e
símbolo da libido, o b r a n a qual ele desenvolveu suas ideias sobre a natureza d a libido, sobre a mitologia e sobre
o sentido simbólico d o incesto. Foram as ideias contidas nessa obra, q u e tornavam mais patentes as divergên-
cias científicas, q u e levaram Freud a sugerir q u e J u n g abandonasse o movimento psicanalítico. Vários episódios
anedóticos anteriores j á anunciavam a proximidade d e s u a ruptura, particularmente certos atos falhos por parte
de J u n g e u m d e s m a i o d e Freud e m Munique, n a presença d e J u n g ; este último incidente fez c o m q u e Freud
tomasse consciência d e seus desejos d e morte e m relação ao seu antigo discípulo, e despertou nele a lembran-
ça d e que, a o 19 anos, j á tinha sentido desejos d e morte e m relação a o seu irmão caçula. A ruptura definitiva d e
Freud c o m J u n g ocorreu e m setembro d e 1913, durante o Congresso d e Weimar.

D E S C O B E R T A DA O B R A

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1912-1913a), Totem et tabou, trad. S.


Jankélevitch, 1923, revista e m 1965, Paris, Payot, 1 9 2 3 , 1 9 6 5 , 241 p. [as páginas indicadas entre colchetes
remetem às OCF.P, IX, p. 189-385].

O temor do incesto F r e u d , "(...) segundo a qual os membros de um


único e mesmo totem não devem ter relações sexuais
F r e u d s e propõe n e s s a o b r a a d e m o n s t r a r entre eles, e consequentemente não podem casar
a l g u m a s semelhanças e n t r e a p s i c o l o g i a d o s entre eles" ( p . 1 5 [200]). A transgressão d e s s a
p o v o s p r i m i t i v o s , t a lc o m o e n s i n a a e t n o l o g i a , proibição é s a n c i o n a d a c o m u m a punição s e -
e a p s i c o l o g i a d o s neuróticos, t a l c o m o conce- vera, aparentemente para afastar u m perigo
be a psicanálise. S e u p o n t o d e p a r t i d a o q u e ameaça t o d a a t r i b o . A s s i m , e s s e s povos
totemismo, praticado e mparticular pelos primitivos revelaram u mgrau particularmen-
aborígines d a Austrália, e n t r e o s q u a i s cada t e e l e v a d o d e t e m o r d o i n c e s t o , e F r e u d dá
t r i b o a d o t a o n o m e d e s e ut o t e m , e m g e r a l u m outros e x e m p l o s extraídos d e trabalhos
animal como o canguru o ua ema. O totem é etnológicos. A e s s e t e m o r d a transgressão a s -
hereditário e s e u caráter é a s s o c i a d o a t o d a a s o c i a - s e u m a série d e "costumes" q u e t ê m c o m o
linhagem envolvida. P o rtoda a parte, onde o b j e t i v o e v i t a r a i n t i m i d a d e e n t r e o s indiví-
v i g o r a u m t o t e m e x i s t e também u m a l e i , d i z d u o s p e r t e n c e n t e s a om e s m o t o t e m . O m a i s
Ler Freud 139

difundido e mais rigoroso diz respeito à evi- b é m s e t o r n o u demoníaco. S u a f o n t e é u m a f o r -


tação e n t r e s o g r a e g e n r o . D e u m p o n t o d e v i s - ça d e e n c a n t a m e n t o q u e s e a s s o c i a a p e s s o a s e m
t a psicanalítico, F r e u d c o n s i d e r a q u e e s s a u m e s t a d o d e exceção - r e i s , p a d r e s , m u l h e r e s
e v i t a ç ã o r e c í p r o c a está f u n d a d a e m u m a r e l a - m e n s t r u a d a s , a d o l e s c e n t e s , etc. -, o u a l u g a r e s ,
ç ã o " a m b i v a l e n t e " , i s t o é, s o b r e a c o e x i s t ê n - e, seja q u a l f o r , o t a b u d e s e n c a d e i a a o m e s m o
c i a recíproca d e s e n t i m e n t o s t e r n o s e h o s t i s , t e m p o u m sentimento de respeito e de inquieta-
estreitamente ligados a ot e m o r d o incesto. ção. N a psicanálise, e n c o n t r a m o s p e s s o a s q u e
S e g u n d o ele, o t e m o r d o incesto a s s o c i a d o s e i n f l i g e m t a b u s c o m o o s "selvagens": são o s n e u -
a o t o t e m q u e e n c o n t r a m o s n o s "selvagens" está róticos o b s e s s i v o s . E s s a s p e s s o a s estão c o n v e n -
p r e s e n t e t a m b é m n a v i d a psíquica d o s neuró- c i d a s m t i m a m e n t e - p o r u m a i m p i e d o s a "cons-
t i c o s , n a q u a l c o n s t i t u i u m traço i n f a n t i l : "A psi- ciência moral" - q u e s e t r a n s g r e d i r e m c e r t a s p r o i -
canálise nos mostrou que o primeiro objeto a que se bições enigmáticas, ocorrerá u m a desgraça. O
dirige a escolha sexual do menino é de natureza in- t e m o r l i g a d o à proibição n ã o i m p e d e q u e s e o b -
cestuosa, condenável, pois esse objeto é representa- serve nos povos primitivos, d o m e s m o m o d o que
do por sua mãe ou por sua irmã, e nos mostrou tam- n o s neuróticos, u m "prazer-desejo" d e t r a n s g r e -
bém o caminho seguido pelo menino, à medida que dir o tabu, e F r e u d acrescenta que o desejo d e
cresce, para escapar da atração do incesto" ( p . 3 3 transgredir o proibido é altamente contagioso.
[218]). C o n s e q u e n t e m e n t e , a s fixações o u a s r e - E m seguida, F r e u d procura estabelecer u m a
gressões i n c e s t u o s a s i n c o n s c i e n t e s d a l i b i d o d e - semelhança e n t r e o s t a b u s d e t r i b o s p r i m i t i v a s
s e m p e n h a m u m papel central n aneurose, d e e a q u e l e s d o s neuróticos o b s e s s i v o s , e a e n c o n -
m o d o q u e o d e s e j o i n c e s t u o s o e m relação a o s t r a n a ambivalência d e s e n t i m e n t o s . N o s p r i -
p a i s c o n s t i t u i o "complexo nuclear da neurose". A m i t i v o s , n o t a - s e u m a l t o g r a u d e ambivalência
r e v e l a ç ã o p e l a psicanálise d a i m p o r t â n c i a d o n a s i n ú m e r a s prescrições q u e a c o m p a n h a m o s
t e m o r d o incesto n o pensamento inconsciente tabus. T e m o s exemplos n a maneira de tratar o s
d o s neuróticos c h o c o u - s e c o m a i n c r e d u l i d a d e inimigos quando sua morte é acompanhada d e
g e r a l , o q u e , p a r a F r e u d , é a p r o v a d a angústia prescrições d e expiação, o u n o t a b u d o s s o b e r a -
generalizada que ela desencadeia e m qualquer n o s , e m q u e o r e i v e n e r a d o p e l o s súditos é a o
i n d i v í d u o : "Somos obrigados a admitir que essa m e s m o t e m p o e n c l a u s u r a d o p o r eles e m u m sis-
resistência decorre sobretudo da profunda aversão t e m a c e r i m o n i a l c o e r c i t i v o , s i n a l d e ambivalên-
que o homem sente por seus desejos incestuosos de c i a e m relação a o e n v i a d o p r i v i l e g i a d o .
outrora, hoje completamente e profundamente repri- A presença r e g u l a r d e s e n t i m e n t o s d e
midos. Assim, não deixa de ser importante poder ambivalência n o s t a b u s c o n d u z F r e u d a e x a m i -
mostrar que os povos primitivos sentem ainda de nar mais d eperto o papel que desempenham
uma maneira perigosa, a ponto de se verem obrigados a l g u n s m e c a n i s m o s psíquicos f u n d a m e n t a i s .
a se defenderem contra eles por medidas extrema- P o r e x e m p l o , ele estabelece u m paralelo entre o
mente rigorosas, os desejos incestuosos destinados a s e n t i m e n t o persecutório e x p e r i m e n t a d o p o r u m
p r i m i t i v o e m relação a o s e u s o b e r a n o e o delí-
se perderem um dia no inconsciente" ( p . 3 4 [218]).
r i o d o paranóico: a m b o s s e r i a m f u n d a d o s n a
ambivalência d e s e n t i m e n t o s d e a m o r e d e ó d i o
O tabu e a ambivalc ncia de sentimentos q u e a criança e x p e r i m e n t a e m relação a o s e u
p a i , c o m o e l e j á m o s t r a r a a propósito d o c o m -
F r e u d p r o s s e g u e e x a m i n a n d o a noção d e plexo paterno de Schreber. N o que serefere a o
t a b u , p a l a v r a polinésia c u j o s i g n i f i c a d o é d u p l o , t a b u d o s m o r t o s , F r e u d c h a m a a atenção p a r a o
p o i s e l a contém, d e u m l a d o , a i d e i a d e s a g r a d o , f a t o d e q u e a s acusações o b s e s s i v a s q u e s e i n f l i -
d e c o n s a g r a d o e, d e o u t r o , a d e i n q u i e t a n t e , p e r i - g e o s o b r e v i v e n t e após u m f a l e c i m e n t o , p o r s e
g o s o , p r o i b i d o . A s proibições l i g a d a s a o t a b u n ã o sentir culpado pela m o r t e da pessoa amada, de-
f a z e m parte d eu m sistema m o r a l o u religioso, c o r r e m i g u a l m e n t e d e u m a f o r t e ambivalência:
m a s são proibições e m s i ; o t a b u n a s c e u p r i m e i r o "Encontramos a mesma hostilidade, dissimulada por
d o m e d o d a s forças d e m o n í a c a s , e d e p o i s t a m - trás de um amor terno, em quase todos os casos de
"INTRODUÇÃO AO NARCISISMO"
S. FREUD (1914c)

Um conceito com múltiplas implicações

O t e r m o "narcisismo" foi i n t r o d u z i d on a do, antes d e s edirigir a objetos exteriores. A


psicanálise p a r a d e s i g n a r o a m o r q u e u m i n - capacidade d ea m a r p o r elas m e s m a s pessoas
divíduo s e n t e p o r s i m e s m o , e m relação a o percebidas c o m o separadas e diferentes d e s i
m i t o grego de Narciso. Esse personagem apai- constitui u m progresso na vida relacional, pois
xonou-se por outro sem saber que se tratava o indivíduo c o n s e g u e a m a r a s i m e s m o c o m o
d e s u a própria i m a g e m r e f l e t i d a n a água. r e t o r n o p o r a m a r o u t r o : é esse r e t o r n o d oi n -
F r e u d utiliza pela primeira vez ot e r m o "narci- v e s t i m e n t o sobre si, que F r e u d c h a m a d e
s i s m o " e m1910, p a r a descrever a escolha d e narcisismo secundário. N o desenvolvimento
objeto feita pelos homossexuais que escolhem n o r m a l , o n a r c i s i s m o secundário e s t a b e l e c e o
u m parceiro àsua i m a g e m , de f o r m a que atra- f u n d a m e n t o d aauto-estima e coexiste c o m o
v é s d e s t e "tomam a si mesmos como objeto sexual" a m o r d e o b j e t o . M a s e x i s t e m f o r m a s patológi-
(1905d; n o t a acrescentada e m 1910, p . 50). c a s d o n a r c i s i s m o c a r a c t e r i z a d a s p o r distúrbios
P o u c o depois, F r e u d fez d onarcisismo u m a d a p e r s o n a l i d a d e d e g r a v i d a d e variável, p o -
fase i n t e r m e d i á r i a d o d e s e n v o l v i m e n t o p s i c o s - d e n d o c h e g a r a o delírio d e g r a n d e z a n o c a s o
social infantil, situada entre o auto-erotismo, d a p s i c o s e . A l é m d i s s o , a s implicações d o n a r c i -
c u j o m o d e l o é a masturbação, e a f a s e evoluí- s i s m o p a r a a v i d a r e l a c i o n a l são múltiplas, e
da, caracterizada pelo a m o r d eobjeto (1911c, F r e u d distingue dois tipos principais d e esco-
1912-1913a). l h a d e o b j e t o : a escolha de objeto por apoio, n o
E m 1914, ao escrever esse ensaio, F r e u d v a i q u a l sef u n d a o p l e n o a m o r de objeto reconhe-
b e m além d e i n t r o d u z i r o n a r c i s i s m o ; e l e e x a - c i d o c o m o d i s t i n t o d e s i , e a escolha de objeto
m i n a questões q u e e s s a noção c o l o c a p a r a o narcísico, f u n d a d o n o a m o r q u e o i n d i v í d u o d i -
c o n j u n t o d a t e o r i a psicanalítica. I s s o t o r n a s u a r i g e e s s e n c i a l m e n t e a s i m e s m o . E l e dá vários
l e i t u r a difícil, t a n t o m a i s q u a n t o a n o ç ã o d e exemplos disso.
narcisismo, e m particular a de narcisismo pri- O recolhimento e m s idas personalidades
mário, c o n h e c e acepções m u i t o d i v e r s a s e m narcísicas l e v a F r e u d a p e n s a r q u e e s s e s i n d i -
F r e u d e n o s p s i c a n a l i s t a s pós-freudianos. N e s - v í d u o s s ã o i n a p t o s p a r a a análise p o r q u e n ã o
s a contribuição, F r e u d n ? a f i r m a a n a t u r e z a a p a - e s t a b e l e c e m transferência, a o contrário d o s
rentemente sexual d a libido e descreve u m neuróticos. Porém, t r a b a l h o s d e p s i c a n a l i s t a s
n a r c i s i s m o p r i m o r d i a l , q u e c h a m a d e narcisis- pós-freudianos m o s t r a r a m q u e a transferên-
mo primário, n o q u a l a c r i a n ç a t o m a a s i m e s m a c i a narcísica e r a analisável, a b r i n d o c a m i n h o
c o m o objeto d ea m o r e c o m o centro d o m u n - p a r a u m d o s m a i o r e s avanços d a psicanálise.
146 Jean-Michel Q u i n o d o z

£ EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS

O n a r c i s i s m o : u m c o n c e i t o difícil d e circunscrever e m Freud


Os t e r m o s " n a r c i s i s m o " , " n a r c i s i s m o primário" e "narcisismo s e c u n d á r i o " t ê m a c e p ç õ e s m u i t o diversas, e
isso tanto n a o b r a d e Freud c o m o n a literatura psicanalítica, d e m o d o q u e é difícil defini-los. C o m o obser-
v a m J . L a p l a n c h e e J.-B. Pontalis, o c o n c e i t o d e narcisismo s e c u n d á r i o , tal c o m o a p a r e c e e m F r e u d , ofere-
ce m e n o s d i f i c u l d a d e q u e o d e narcisismo primário. De fato, Freud definiu o n a r c i s i s m o s e c u n d á r i o c o m o
"um retorno ao ego da libido despojada de seus investimentos objetais"; q u a n t o a o n a r c i s i s m o primário,
esse c o n c e i t o d e s i g n a e m Freud "um estado precoce em que a criança investe toda a libido nela mesma"
(1967, p. 2 6 3 ) . Esses a u t o r e s assinalam q u e , q u a n d o s e p r o c u r a especificar o m o m e n t o d e constituição d e
u m tal e s t a d o , e n c o n t r a m - s e g r a n d e s variações e m F r e u d : a s s i m , e m seus textos d e 1910-1915, ele locali-
za a fase narcísica entre a d o auto-erotismo e a d o a m o r d e o b j e t o ; p o s t e r i o r m e n t e , e m s e u s textos d e
1916-1917, ele r e m e t e a n o ç ã o d e narcisismo a u m e s t a d o primitivo d a vida, anterior até m e s m o à consti-
tuição d e u m e g o , c u j o a r q u é t i p o seria a v i d a intra-uterina. L a p l a n c h e e Pontalis d e s t a c a m a i n d a q u e esta
última a c e p ç ã o d o n a r c i s i s m o primário c o s t u m a designar n o p e n s a m e n t o psicanalítico "um estado rigoro-
samente anobjetaT ou pelo menos 'indiferenciado', sem clivagem entre um sujeito e um mundo exterior" (p.
264). E m s u a d i s c u s s ã o a c e r c a d o s diversos p o n t o s d e vista psicanalíticos s o b r e o n a r c i s i s m o , eles obser-
v a m q u e e s s a c o n c e p ç ã o d o narcisismo primário p e r d e d e vista a referência a u m a i m a g e m d e si, alusão à
relação e s p e c u l a r e v i d e n c i a d a n a n o ç ã o d e "fase d e e s p e l h o " p o r J . Lacan.

Para F r e u d , o s p a c i e n t e s n a r c í s i c o s s ã o i n a p t o s à t r a n s f e r ê n c i a
Por s u a t e n d ê n c i a a s e retraírem e m si m e s m o s e a s e e s q u i v a r e m d a s relações c o m p e s s o a s d o meio
exterior, F r e u d j u l g a v a q u e o s pacientes q u e a p r e s e n t a v a m u m a " n e u r o s e narcísica" n ã o e r a m analisáveis,
pois, s e g u n d o ele, n ã o e s t a b e l e c i a m transferência. Entre o s pacientes inaptos à transferência, ele situava
as psicoses e o s e s t a d o s m a n í a c o - d e p r e s s i v o s n a categoria d a s " n e u r o s e s narcísicas" e m o p o s i ç ã o a o s
pacientes n e u r ó t i c o s a p t o s a estabelecer u m a " n e u r o s e d e transferência" suscetível d e ser analisada.
Retrospectivamente, p o d e m o s supor q u e a maneira c o m o Freud concebia a transferência c o m certeza o impedia
de vislumbrar a análise d a transferência negativa. De fato, Freud havia descrito a transferência positiva e a transfe-
rência negativa, m a s via na transferência negativa apenas u m a forma d e resistência q u e se o p u n h a ao desenvol-
vimento d a transferência positiva, e por isso não via possibilidade d e analisar essa resistência c o m o parte integran-
te d a transferência. Mais tarde, o s trabalhos d e psicanalistas pós-freudianos permitiram considerar a transferência
e m sua totalidade e abordar sua elaboração e m função d e suas próprias referências teóricas e técnicas.

DESCOBERTA DA OBRA
As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1914c), "Pour introduire le narcissisme",
trad. D. Berger, J . L a p l n a c h e e i a / . , in La vie sexuelle, Paris, PUF, 2 e d . , 1970, p. 81-105.
?

Do narcisismo primário ao p s i c o p a t o l o g i a , m a s também d u r a n t e o d e s e n -


narcisismo secundário volvimento psicossexual n o r m a l d etodo indi-
víduo, e c o m i s s o a m p l i o u consideravelmente
F r e u d começa p o r d e f i n i r a noção d e n a r c i - o c a m p o d es e ue s t u d o d o n a r c i s i s m o .
s i s m o e m clínica, t a l c o m o t i n h a s i d o introdu-
F r e u d p a r t e então d a experiência psicanalí-
z i d a a l g u n s a n o s a n t e s p o r sexólogos: o n a r c i s i s -
tica q u e m o s t r o u q u e certos pacientes, e m par-
m o d e s i g n a "o comportamento mediante o qual um
t i c u l a r o s esquizofrênicos, m a n i f e s t a m u m
indivíduo trata seu próprio corpo de maneira seme-
"comportamento narcísico" e m relação a o a n a l i s -
lhante a como se costuma tratar o corpo de um objeto
ta: esses doentes r e t i r a r a m s e uinteresse pelas
sexual: contempla-o portanto extraindo dele um pra-
pessoas e pelas coisas d om u n d o exterior, d e
zer sexual, o afago, a carícia, até chegar por essas
m o d o q u eesse r e t r a i m e n t o d el i b i d o o s t o r n a
práticas à satisfação completa". N o e n t a n t o , a p s i -
inacessíveis à análise, c o m o observara K .
canálise m o s t r o u q u e e s s e i n v e s t i m e n t o s e x u a l
A b r a h a m já e m 1 9 0 8 . M a s então, pergunta-se
d o próprio c o r p o não s e e n c o n t r a a p e n a s n a
F r e u d , q u a l é o d e s t i n o d a l i b i d o n o esquizofrê-
Ler Freud 147

n i c o ? S e g u n d o ele, esta s er e t i r a d o m u n d o ex- tuno descobrir que luz pode ser lançada sobre esses
t e r n o e s e r e f u g i a n a m e g a l o m a n i a d o delírio enigmas fundamentais da biologia para uma sínte-
d e g r a n d e z a : "A libido, retirada do mundo exterior, se dos fenómenos psicológicos" (p. 86).
foi transportada ao ego,\ ao mesmo tempo em que
apareceu uma atitude que chamamos de narcisismo"
( p . 8 2 ) . O delírio d e g r a n d e z a , e n t r e t a n t o , n ã o Variedade de manifestações do narcisismo
s u r g i u d o n a d a ; e l e é r e s u l t a d o d a extensão d e
E m b o r a oe x a m e da psicose constitua a prin-
u m e s t a d o q u e já e x i s t i a a n t e s , e x p l i c a F r e u d ,
c i p a l v i a d e a c e s s o p a r a o e s t u d o psicanalítico
q u e d e s i g n a e s s e e s t a d o p e l a e x p r e s s ã o narci-
d o s fenómenos narcísicos, e m p a r t i c u l a r d o
sismo primário. E m o p o s i ç ã o , c h a m a d e narci-
n a r c i s i s m o p r i m á r i o , e l a n ã o é única: p o d e m o s
sismo secundário o r e t o r n o d o s i n v e s t i m e n t o s d e
a s s i m abordá-la através d a d o e n ç a o r g â n i c a , d a
o b j e t o a o e g o : "Esse narcisismo que apareceu cau-
hipocondria eda vida amorosa, segundo Freud.
sando o retorno dos investimentos de objeto, e por-
N a d o e n ç a orgânica, é u m f a t o b e m c o n h e c i -
tanto somos levados a concebê-lo como um estado
d o q u e o indivíduo q u e s o f r e d e u m a d o r orgâ-
secundário construído com base em um narcisismo
nica r e t i r a s e u interesse p e l o m u n d o exterior, as-
primário que foi obscurecido por múltiplas influên-
s i m c o m o seus sentimentos libidinais por seus
cias" ( p . 8 2 ) .
objetos d e a m o r , e q u e o srestabelece d e p o i s d e
N o delírio d e g r a n d e z a d o esquizofrénico, a
c u r a d o . D e m a n e i r a análoga, i s s o o c o r r e n o s o n o :
psicanálise e n c o n t r a características s e m e l h a n t e s " O estado de sono representa um retraimento
às q u e j á h a v i a d e s c o b e r t o n o p e n s a m e n t o p r i - narcísico de posições da libido na própria pessoa ou,
m i t i v o d a criança, c o m o a onipotência d o p e n - mais exatamente, no único desejo de dormir" ( p . 8 9 ) .
samento, a magia e a megalomania. Freud pos-
Q u a n t o a o d o e n t e hipocondríaco, c o n t a t a - s e
t u l a e n t ã o q u e e x i s t e n a criança n o início d a v i d a
q u e e l e também r e t i r a s e u i n t e r e s s e e s u a l i b i d o
u m m v e s t i m e n t o originário d o e g o - c h a m a d o e m relação a o m u n d o e x t e r i o r e o s c o n c e n t r a n o
d e n a r c i s i s m o primário - d o q u a l u m a p a r t e será órgão q u e o p r e o c u p a e q u e o f a z s o f r e r . M a s o
c e d i d a p o s t e r i o r m e n t e a o s o b j e t o s , i s t o é, i n v e s t i m e n t o l i b i d i n a l narcísico d e u m a p a r t e d o
d i r i g i d a às p e s s o a s d o m u n d o e x t e r i o r ; m a s , f u n - c o r p o não é e n c o n t r a d a a p e n a s n a h i p o c o n d r i a ,
d a m e n t a l m e n t e , acrescenta ele, esse i n v e s t i m e n - c o m o também n a n e u r o s e , p e l o f a t o d e q u e q u a l -
t o d o e g o p e r s i s t e d u r a n t e t o d a a v i d a "e se com- quer parte do corpo pode adquirir a proprieda-
porta em relação aos investimentos de objeto como o d e d e u m a z o n a erógena e s e c o m p o r t a r c o m o o
corpo de um animálculo protoplásmico em relação s u b s t i t u t o d e u m órgão s e x u a l : "a cada uma des-
aos pseudópodes que emitiu" ( p . 8 3 ) . O p o n d o a s - sas modificações da erogenidade nos órgãos correspon-
s i m a libido d o ego e a libido d eobjeto, F r e u d de uma modificação paralela do investimento da libi-
e s t a b e l e c e u m balanço e n t r e d u a s direções d e do no ego" ( p . 9 0 ) . D e s s e m o d o , t o d o i n v e s t i m e n -
m v e s t i m e n t o , a f i r m a n d o q u e "quanto mais uma t o l i b i d i n a l d e u m a z o n a erógena c o r r e s p o n d e r i a
absorve, mais a outra se empobrece" ( p . 8 3 ) . a u m mvestimento libidinal d o ego e decorreria
A o reafirmar que a libido tem sempre u m d o n a r c i s i s m o primário.
conteúdo s e x u a l , F r e u d p r o s s e g u e s u a c o n t r o - A aproximação q u e F r e u d e s t a b e l e c e e n t r e
vérsia c o m C G . J u n g , a q u e m c r i t i c a p o r t e r hipocondria e esquizofrenia lhe permite ir mais
e s v a z i a d o o c o n c e i t o d e s u a substância t r a n s - l o n g e a i n d a e i n t r o d u z i r u m a noção n o v a , a d e
f o r m a n d o - o e m u m s i m p l e s i n t e r e s s e psíqui- u m a "estase da libido" c o n s e c u t i v a à s u a "introver-
c o e m g e r a l . E m a p o i o às hipóteses a c e r c a d o são" d u r a n t e a regressão patológica. E s s a e s t a s e
p a p e l c e n t r a l d a l i b i d o n a v i d a psíquica, F r e u d d a l i b i d o e s t a r i a n a o r i g e m d o delírio d e ó r g ã o
insiste m u i t o e m dizer que sua teoria d a libi- n a h i p o c o n d r i a e d o delírio d e g r a n d e z a n a
do é fundada essencialmente na biologia, e m - e s q u i z o f r e n i a . C o m a noção q u a n t i t a t i v a d e
b o r a a ciência d a época não l h e d e s s e a i n d a o estase libidinal, F r e u d acrescenta u m a d i m e n -
r e s p a l d o e s p e r a d o : "Como não podemos esperar são económica à n a t u r e z a d o n a r c i s i s m o , d i f e r e n -
que uma outra ciência nos brinde com argumentos t e d a noção d e n a r c i s i s m o c o m o f a s e e v o l u t i v a
decisivos para a teoria das pulsões, é bem mais opor- d o d e s e n v o l v i m e n t o q u e ele h a v i a i n t r o d u z i d o
148 J e a n - M i c h e l Quinodoz

e m seu e s t u d o sobre Schreber e m 1914, c o m - originário", de m o d o que a m u l h e r g e r a l m e n t e


p l e t a n d o a oposição e n t r e l i b i d o d o e g o e l i b i d o exerce sobre o h o m e m u m encanto d e o r d e m
de objeto. narcísica: "Essas mulheres só amam, no sentido es-
N o q u e d i z respeito àv i d a a m o r o s a , esta ofe- trito do termo, a elas mesmas, quase tão intensamen-
r e c e inúmeros e x e m p l o s d e i n v e s t i m e n t o s te quanto os homens as amam. Sua necessidade não
libidinais f u n d a d o s n o narcisismo. F r e u d l e m - as conduz a amar, mas a serem amadas..." ( p . 9 4 ) .
b r a q u e a s p r i m e i r a s satisfações s e x u a i s d a c r i a n - C o n t u d o , ele s ed i z prestes a a d m i t i r q u e m u i -
ça são v i v i d a s e m relação a o exercício d a s f u n - tas delas a m a m s e g u n d o o t i p o m a s c u l i n o e de-
ções v i t a i s e m q u e s e a p o i a m - s e r a l i m e n t a d a , s e n v o l v e m a superestimação s e x u a l própria d e s -
receber c u i d a d o s , etc. - e q u e m a i s t a r d e esse se t i p o d e e s c o l h a d e o b j e t o . O u t r a s m u l h e r e s
apoio continua a serevelar n ofato d e que a s narcísicas s e a f a s t a m d o s h o m e n s e p r o c u r a m
pessoas que a l i m e n t a r a m e c u i d a r a m d a crian- u m a v i a i n d i r e t a q u e a sc o n d u z a a o p l e n o a m o r
ça s e t o r n a r a m s e u s p r i m e i r o s o b j e t o s s e x u a i s , d e o b j e t o , q u e é o a m o r q u e s e n t e m p e l a criança
c o m o a m ã e o u s e u s u b s t i t u t o . E l e propõe c h a - que t r a z e m ao m u n d o . F r e u d e x a m i n a c o m pers-
m a r d e "escolha de objeto por apoio", o t i p o d e e s - picácia o s m o t i v o s p e l o s q u a i s a s p e r s o n a l i d a -
colha de objeto que, n o adulto, seapoia nas pri- d e s narcísicas e x e r c e m u m a f o r t e atração s o b r e
m e i r a s e s c o l h a s d e o b j e t o d a infância. M a s o u - s e u m e i o e d e d u z q u e as p e s s o a s q u e s e d e i x a m
t r o s indivíduos, c o m o o s p e r v e r s o s e o s h o m o s - f a s c i n a r p o r e l a s s ã o "aquelas que se despojaram
s e x u a i s , não e s c o l h e m s e u o b j e t o d e a m o r a p a r - inteiramente de seu próprio narcisismo e estão em
t i r o m o d e l o d e s u a m ã e , m a s d e s u a própria busca do amor de objeto" ( p . 9 4 ) . E l e e n c e r r a e s s a
p e s s o a , q u e F r e u d c h a m a d e "escolha de objeto p a r t e d o t r a b a l h o e v o c a n d o o n a r c i s i s m o primá-
narcísica". M a s F r e u d l o g o r e l a t i v i z a s e u p e n s a - r i o d a criança, q u e s e d e i x a s e d u z i r f a c i l m e n t e
m e n t o e d e c l a r a q u e a diferença e n t r e e s s e s d o i s pela atitude d o s pais: estes s u p e r e s t i m a m of i -
t i p o s d e e s c o l h a d e o b j e t o n ã o é tão nítida c o m o l h o , a t r i b u e m - l h e t o d a s a s perfeições e d e s e j a m
d i s s e r a , p o i s "as duas vias que conduzem à escolha u m a v i d a m e l h o r p a r a ele, c o n s i d e r a n d o - o c o m o
de objeto estão abertas para todo ser humano, de modo "His Majesty the Baby" ( p . 9 6 ) .
que uma ou outra pode ter a preferência" (p. 94).
C o m o c o n s e q u ê n c i a , a c r e s c e n t a e l e , "o ser huma-
no tem dois objetos sexuais originários: ele próprio e a Do narcisismo infantil à formação
mulher que cuida dele; nisso pressupomos o dos ideais no adulto
narcisismo primário de todo ser humano, narcisismo
F r e u d s ep e r g u n t a e m s e g u i d a o q u e acon-
que eventualmente pode se expressar deforma domi-
tece c o m o a m o r d e s m e s u r a d o p o r si m e s m a q u e
nante em sua escolha de objeto" ( p . 9 4 ) .
c a r a c t e r i z a o n a r c i s i s m o p r i m á r i o d a criança
E m s e g u i d a , F r e u d esboça u m rápido r e t r a - q u a n d o , d e p o i s d e a d u l t a , se d e p a r a c o m as f r u s -
to dos diversos tipos de escolha de objeto. O ple- trações d o m u n d o e x t e r i o r . F r e u d j u l g a q u e o
no a m o r de objeto, s e g u n d o o tipo de escolha de s e r h u m a n o não p o d e d i s p e n s a r o d e s e j o d e p e r -
o b j e t o p o r a p o i o , é característico d o h o m e m . feição narcísico d e s u a infância: e s t e n ã o d e s a p a -
F r e u d p e r m a n e c e f i e l à s u a concepção s e g u n d o r e c e , m a s é substituído p e l a constituição d e u m a
a qual oestado a m o r o s o constitui u m estado pa- instância intrapsíquica, q u e e l e c h a m a t a n t o d e
tológico, q u a n d o a f i r m a q u e a paixão a m o r o s a "ego ideal" ("Idealich") c o m o d e "ideal do ego"
na qual oh o m e m superestima amulher amada ("Ichideal"), n o ç õ e s q u e irá e s c l a r e c e r n o s a n o s
c o n s t i t u i u m "complexo neurótico" q u e c a u s a "um seguintes. E m outras palavras, aquilo que o a d u l -
empobrecimento do ego em libido em proveito do to projeta diante dele c o m o seu ideal nada mais
objeto" ( p . 9 4 ) . Q u a n t o a o t i p o d e e s c o l h a d e é q u e "o substituto do narcisismo perdido de sua in-
objeto n a m u l h e r , ele pensa q u e m u i t a s delas fância; nessa época, ele era seu próprio ideal" ( p . 9 8 ) .
f u n d a m s u a s relações n o m o d e l o d a e s c o l h a d e M a s a formação d e u m i d e a l c o m q u e o i n -
o b j e t o narcísico. E l e reforça s u a t e s e a r g u m e n - d i v í d u o está s e m p r e m e d i n d o s e u s p e n s a m e n -
t a n d o q u e a formação d o s órgãos s e x u a i s n a t o s e s u a s ações p r o d u z u m a u m e n t o d a s e x i -
p u b e r d a d e "provoca um aumento do narcisismo gências e m relação a o e g o , e F r e u d p r e s u m e
Ler Freud 149

q u e esse p a p e l é d e s e m p e n h a d o pela "cons- n o r m a l , p o i s e x i s t e n o espírito d e t o d o s "uma


ciência moral" q u e e l e i d e n t i f i c o u v á r i a s v e z e s força desse tipo que observa, conhece, critica nos-
n a o r i g e m d a r e p r e s s ã o : "Não seria surpreen- sas intenções" ( p . 1 0 0 ) . E s s a consciência moral
dente se encontrássemos uma instância psíquica é f o r m a d a p r i m e i r a m e n t e p e l a influência d a
particular que cumprisse a tarefa de zelar para que crítica d o s p a i s s o b r e a c r i a n ç a , e d e p o i s d o s
seja assegurada a satisfação narcísica proveniente educadores, e estende-se à sociedade e m ge-
do ideal do ego, e que, àpm essa intenção, observe r a l . A "censura do sonho" q u e e l e h a v i a d e s c r i -
permanentemente o ego e o meça com o ideal" ( p . t o e m 1 9 0 0 é o u t r a d e s u a s f o r m a s . Além d e
9 9 ) . S e g u n d o e l e , e s s e t i p o d e exigência e m seu aspecto i n d i v i d u a l , esse i d e a l t e m u m a
relação a o e g o é e n c o n t r a d o n ã o a p e n a s s o b faceta s o c i a l q u eé o i d e a l c o m u m d e u m af a -
u m a forma patológica, c o m o n o delírio d e mília, d e u m a c l a s s e o u d e u m a nação, t e m a
observação, e m q u e o d o e n t e i m a g i n a q u e a s q u e F r e u d desenvolverá l o g o d e p o i s a o e s t u -
pessoas l e i a m seus p e n s a m e n t o s e v i g i e m suas d a r m a i s d ep e r t o o sm e c a n i s m o s e n v o l v i d o s
ações, m a s também e m q u a l q u e r indivíduo n a psicose coletiva.

PÓS-FREUDIANOS

Os fenómenos transferenciais narcísicos revelam-se analisáveis


D e s d e o final d o s a n o s d e 1920, a l g u n s psicanalistas m o s t r a r a m q u e o s pacientes q u e /Freud classificava
entre o s "neuróticos narcísicos" a p r e s e n t a v a m indiscutivelmente f e n ó m e n o s transferenciais, a o contrário
d o q u e p e n s a v a Freud. Esses analistas, entre o s quais R. M a c k - B r u n s w i c k , M. Klein, H. S. Sullivan e R
F e d e r n , sustentaram a ideia d e q u e nesses pacientes a transferência negativa tendia a p r e d o m i n a r s o b r e a
transferência positiva, m a s q u e m e s m o assim eles e r a m acessíveis à análise. A partir d e s s e s t r a b a l h o s
d e s s e s pioneiros, tornou-se possível a a b o r d a g e m psicanalítica d e pacientes dentro d e u m a m p l o e s p e c t r o
p s i c o p a t o l ó g i c o q u e até e n t ã o e r a m c o n s i d e r a d o s inaptos à análise d a transferência. A s s i m , d e s e n v o l v e u -
se n ã o a p e n a s a análise d e p s i c o s e s n a criança e n o adulto, c o m o t a m b é m a análise d e estados m a n í a c o -
d e p r e s s i v o s e d e perversões e a i n d a a análise d e novas a f e c ç õ e s q u e s e situam hoje entre as p a t o l o g i a s
borderline, o s estados-limite e o s distúrbios narcísicos e d e p e r s o n a l i d a d e . De maneira geral, a b a n d o n o u -
se a distinção feita por Freud entre as n e u r o s e s narcísicas e as n e u r o s e s d e transferência, pois se o b s e r v a
q u e o s pacientes c o n s i d e r a d o s a t é então c o m o p u r a m e n t e n e u r ó t i c o s n ã o estão isentos d e d i s t ú r b i o s
n a r c í s i c o s e vice-versa. C o m isso, o p s i c a n a l i s t a s e v ê c o n s t a n t e m e n t e c o n f r o n t a d o c o m p a c i e n t e s
" h e t e r o g é n e o s " (D. Q u i n o d o z , 2 0 0 1 , 2002), c u j a transferência se c o m p õ e a o m e s m o t e m p o d e e l e m e n t o s
e v o l u í d o s d e o r d e m neurótica e d e e l e m e n t o s primitivos, s e n d o q u e estes últimos se c o m p õ e m d e e l e m e n -
t o s psicóticos, perversos o u narcísicos e m p r o p o r ç õ e s variáveis.

O tratamento psicanalítico d o s distúrbios narcísicos: duas grandes tendências


Duas concepções difefentes dos distúrbios narcísicos
Existe a t u a l m e n t e u m a g r a n d e d i v e r s i d a d e n a maneira c o m o s psicanalistas c o n c e b e m o narcisismo, seja
d o p o n t o d e vista teórico o u t é c n i c o , e s u a a b o r d a g e m terapêutica varia e m c o n s e q u ê n c i a disso. N ã o m e
foi possível expor d e t a l h a d a m e n t e t o d a s essas t e n d ê n c i a s q u e r e c o r r e m a t e r m i n o l o g i a s diferentes e a
a b o r d a g e n s clínicas muito diversas. C o n t u d o , p o d e - s e considerar q u e existem d u a s g r a n d e s t e n d ê n c i a s
t e r a p ê u t i c a s entre o s psicanalistas e m f u n ç ã o d a c o n c e p ç ã o d e narcisismo a q u e s e referem. D e u m lado,
e n c o n t r a m - s e psicanalistas q u e s e g u e m Freud n a s u a c o n c e p ç ã o d o narcisismo primário e p e n s a m q u e
existe n o início d a v i d a u m a fase e m q u e a criança a i n d a n ã o c o n h e c e o o b j e t o : trata-se para eles d e u m a
fase n o r m a l d o d e s e n v o l v i m e n t o infantil. De outro lado, estão o s psicanalistas q u e c o n s i d e r a m q u e d e s d e
o início d a v i d a s e estabelece u m a relação d e o b j e t o , e nisso s e g u e m M. Klein; para estes últimos, n ã o
existe n a c r i a n ç a u m a fase narcísica primordial n o sentido e m q u e Freud entendia, m a s a p e n a s "fases
narcísicas". Esses m o d e l o s diferentes d ã o lugar a a b o r d a g e n s técnicas diferentes n o t r a t a m e n t o p s i c a n a -
lítico d o s d i s t ú r b i o s narcísicos.

Continua 0
150 Jean-Michel Quinodoz

PÓS-FREUDIANOS • Continuação

Os defensores de uma fase sem objeto no início da vida


Do p o n t o d e vista t é c n i c o , o s psicanalistas q u e c o n s i d e r a m o narcisismo primário - o u " a n o b j e t a l " - c o m o
u m a fase n o r m a l d o d e s e n v o l v i m e n t o t e n d e m a ver os f e n ó m e n o s narcísicos q u e s u r g e m n a c u r a c o m o
relativamente n o r m a i s , e por isso d ã o p o u c a a t e n ç ã o aos a s p e c t o s conflituosos d a t r a n s f e r ê n c i a narcísica
e m suas interpretações, c o m o o b s e r v o u F. Palácio Espasa (2003). Entre estes, p o d e m o s situar A n n a Freud
e M. Mahler, a s s i m c o m o Winnicott, Balint e Kohut.
A d o t a n d o os p o n t o s d e vista d e seu pai, A n n a Freud (1965) considera q u e o r e c é m - n a s c i d o e a criança
p e q u e n a c o n h e c e m n o início d a vida u m a fase narcísica indiferenciada e m q u e não existe objeto e c h a m a
essa primeira fase d o p s i q u i s m o infantil d e "fase simbiótica". Posteriormente, ao l o n g o d e s e u desenvolvi-
mento, o interesse d a criança se volta progressivamente para o objeto, e o processo d e d e s e n v o l v e por u m a
sucessão d e fases.
M. Mahler t e m u m a o u t r a c o n c e p ç ã o . Para ela, a relação d e o b j e t o desenvolve-se a partir d o narcisismo
infantil s i m b i ó t i c o o u primário e evolui paralelamente à realização d o q u e c h a m a d e "processo de separa-
ção-individuação" ( M . Mahler. F. Pine e A. B e r g m a n , 1975). Ela introduz i g u a l m e n t e o c o n c e i t o d e "psicose
s i m b i ó t i c a " a partir d e s u a s o b s e r v a ç õ e s s o b r e o p â n i c o d e crianças psicóticas e m f a c e d o s e n t i m e n t o d a
p e r c e p ç ã o d e ser s e p a r a d a s ; ela se a p o i a nesse c o n c e i t o para postular a existência d e u m a "fase simbiótica
normal" n o d e s e n v o l v i m e n t o psíquico d e t o d a criança. As ideias d e Mahler f o r a m r e t o m a d a s p e l o s psicana-
listas l i g a d o s à c o r r e n t e d a Ego Psychologie e aplicadas n o t r a t a m e n t o psicanalítico d e c r i a n ç a s e adultos.
Por sua vez, D. W. Winnicott (1955-1956) adere igualmente à ideia d e q u e a identificação primária reina no
início d a vida, e a criança acredita q u e f o r m a u m a unidade c o m sua m ã e e q u e sua m ã e f o r m a u m a unidade
c o m ela, m a s ele raramente utiliza a expressão "narcisismo primário". Nessa fase, o b e b é t e m a ilusão d e que
criou seu objeto, e a f u n ç ã o d a m ã e é manter essa ilusão até q u e a criança seja capaz d e renunciar a ela. Em
caso d e e v o l u ç ã o desfavorável, observam-se distúrbios d o "desenvolvimento emocional primitivo". Assim,
nesses pacientes, a m e t a d a cura psicanalítica consiste e m permitir q u e regressem a u m a fase d e d e p e n d ê n -
cia infantil p r e c o c e , e m q u e analisando e setting se f u n d e m e m u m narcisismo primário a partir d o qual o
"verdadeiro s e / f p o d e r á se desenvolver. Q u a n t o a M. Balint (1952), a necessidade d e c o n t a t o corporal mani-
festada por certos analisandos c o r r e s p o n d e à necessidade d e u m retorno ao "amor objetal primário", que
para ele é o equivalente a u m retorno ao narcisismo primário: o processo psicanalítico permite o retorno a
essa situação d e maneira a "regressar para progredir".
Entre o s partidários d e s s a fase narcísica anobjetal, eu m e n c i o n a r i a a i n d a as p o s i ç õ e s a d o t a d a s por B.
G r u n b e r g e r e H. Kohut. G r u n b e r g e r (1971) c o n s i d e r a q u e o narcisismo é u m a v e r d a d e i r a instância psíqui-
ca, e faz d a " r e l a ç ã o analítica narcísica" u m m o t o r essencial d a cura. J á Kohut (1971) a d o t o u u m a a b o r d a -
g e m original d o t r a t a m e n t o psicanalítico d o s distúrbios narcísicos, d i s t i n g u i n d o d u a s f a s e s na cura d e
pacientes q u e a p r e s e n t a m u m a transferência idealizante: u m a fase inicial d e r e g r e s s ã o a o n a r c i s i s m o pri-
mitivo, s e g u i d a d e u m a fase d e e l a b o r a ç ã o o u d e working through d e s s e t i p o d e t r a n s f e r ê n c i a q u a n d o o
equilíbrio inicial c o m e ç a a se romper.

O s defensores de uma percepção do objeto desde o início da vida


Por sua vez, os psicanalistas q u e sustentam que o e g o d o recém-nascido percebe imediatamente o objeto
consideram os f e n ó m e n o s narcísicos c o m o a expressão de pulsões libidinais e agressivas, e d e defesas que
são erigidas no m o m e n t o e m q u e o objeto é percebido c o m o separado e diferente d e si. Consequentemente, os
psicanalistas q u e pertencem a esse s e g u n d o g r u p o t e n d e m a considerar q u e os f e n ó m e n o s narcísicos p o d e m
ser interpretados d e maneira detalhada no hic et nunc d a relação transferencial, e atribuem u m a importância
particular à interpretação das angústias de diferenciação e de separação q u e surgem na relação c o m o analista
(J.-M. Quinodoz, 1991). Entre os principais defensores dessa tendência, m e n c i o n a m o s M. Klein e os psicanalis-
tas pós-kleinianos H. Rosenfeld e H. Segal, cujos trabalhos foram seguidos e m parte por A. Green e O. Kernberg.
Para M. Klein não existe u m a fase d e narcisismo primário, e o recém-nascido t e m u m a percepção imediata d o
objeto d e s d e o nascimento, p o n t o q u e constitui, s e m dúvida, s u a divergência mais acentuada e m relação a
Freud. C o n t u d o , a n o ç ã o d e narcisismo está presente nela, m a s só aparece e m 1946 c o m a n o ç ã o d e identi-
ficação projetiva, depois c o m a d e c i ú m e (1957): essas n o ç õ e s permitiram esclarecer d e u m a maneira inova-

Continua 0
Ler Freud 151

0 Continuação

d o r a o papel d e s e m p e n h a d o pelo narcisismo c o m o defesa contra a p e r c e p ç ã o de objeto separado e diferen-


te. Esse p o n t o d e vista levou os analistas kleinianos a falar d e "estados" narcísicos, e não de "fase" narcísica,.
É c o m base nessas c o n c e p ç õ e s q u e H. Rosenfeld, H. Segal e W. Bion (1957,1967) e m p r e e n d e r a m d e s d e o
final d o s anos de 1940 os primeiros tratamentos psicanalíticos d e pacientes psicóticos m a n t e n d o u m e n q u a -
d r e estritamente psicanalítico. E m seguida, seus trabalhos clínicos permitiram o desenvolvimento d e u m a
a b o r d a g e m especificamente kleiniana d o tratamento psicanalítico d a d i m e n s ã o narcísica d a transferência.
Creio q u e é importante examinar brevemente a contribuição fundamental d e H. Rosenfeld, q u e teve u m a
g r a n d e influência sobre as possibilidades d e analisar a transferência narcísica. Rosenfeld estima q u e o s
f e n ó m e n o s descritos por Freud c o m o experiências d e narcisismo primário, anteriores à percepção d o objeto,
deveriam ser consideradas c o m o autênticas relações d e objeto d e tipo primitivo. S e g u n d o ele, o narcisismo
se baseia na onipotência e na idealização d o self obtidas por meio d a identificação introjetiva e projetiva c o m
o objeto idealizado. Essa identificação c o m o objeto idealizado levou a negar a diferença e a fronteira entre o
eu e o objeto. Por isso, diz ele, "nas relações de objeto narcísicas, as defesas contra qualquer reconhecimen-
to da separação entre oeueo objeto desempenham um papel determinante" (1964, p. 221). Rosenfeld atribui
igualmente u m papel essencial à inveja nos f e n ó m e n o s narcísicos. Prosseguindo suas pesquisas à luz d o
conflito entre pulsão d e vida e pulsão d e morte, ele introduziu e m 1971 u m a distinção entre o narcisismo
libidinal e o narcisismo destrutivo. Ele revela q u e , q u a n d o a posição narcísica e m relação ao objeto é a b a n d o -
nada, o ó d i o e o desprezo e m relação a este se t o r n a m inevitáveis, pois o paciente se sente h u m i l h a d o a o
perceber q u e o objeto externo possui qualidades. Q u a n d o se c o n s e g u e analisar o rancor, observa-se q u e o
paciente supera sua transferência hostil: " O paciente toma consciência de que o analista é uma pessoa do
mundo exterior preciosa para ele" (1971, p. 213). Mas q u a n d o os aspectos destrutivos p r e d o m i n a m , a inveja
se apresenta c o m o o desejo d e destruir o progresso d a análise e d e atacar o analista, porque ele representa
o o b j e t o q u e é a verdadeira fonte d o q u e é vivo e b o m . S e g u n d o Rosenfeld, qualquer q u e seja a força d a s
pulsões destrutivas, é essencial e m clínica encontrar u m acesso à parte libidinal dependente, d e maneira a
atenuar a influência d o ó d i o e d a inveja e, assim, permitir ao paciente estabelecer boas relações d e objeto.
Pode-se chegar a isso graças à análise detalhada d o vaivém incessante entre posições narcísicas, e m q u e o
o b j e t o é n e g a d o , e posições relacionais objetais, e m q u e o objeto é r e c o n h e c i d o .
O s p o n t o s d e vista d e H. Segal (1986) são p r ó x i m o s a o s d e H. Rosenfeld, e ela considera q u e o c o n c e i t o d e
p u l s ã o d e vida e pulsão d e m o r t e p o d e ajudar a resolver o p r o b l e m a d a hipótese freudiana d o n a r c i s i s m o
primário. Para ela, o n a r c i s i s m o p o d e assumir a f o r m a d e idealização d a m o r t e e de u m ó d i o d a v i d a e m
a l g u n s pacientes, c o m o risco d e p r o v o c a r neles o d e s e j o d e aniquilar n ã o a p e n a s o objeto, m a s t a m b é m
o p r ó p r i o self, desejo q u e s u r g e c o m o u m a d e f e s a c o n t r a a p e r c e p ç ã o d o o b j e t o . C o m o e m e r g i r d o
n a r c i s i s m o ? , pergunta-se H. Segal. A seu ver, n ã o se c o n s e g u e emergir dessas estruturas narcísicas e
estabelecer relações d e o b j e t o estáveis , n ã o narcísicas, a n ã o ser " n e g o c i a n d o " a posição depressiva.
A. G r e e n retomou à sua maneira ideias desenvolvidas por Rosenfeld, e m particular na o b r a q u e intitula
Narcisismo de vida e narcisismo de morte (1983). E m seus trabalhos, Green mostra o efeito d e d e s l i g a m e n t o
q u e p r o d u z a pulsão d e morte e m todas as f o r m a s d e ligação c o m o objeto, efeito q u e c h a m a d e "função
desobjetalizante" d a pulsão d e morte (Green, 1986). Ele mostra ainda q u e , na psicose, a pulsão d e morte
p o d e ser a causa d a extinção d a atividade projetiva e d o desinvestimento na origem d o "branco" d e pensa-
m e n t o . Encerremos este breve a p a n h a d o m e n c i o n a n d o a posição d e O. Kernberg (1975) q u e e m s u a a b o r d a -
g e m teórica d o narcisismo tenta integrar as ideias d e Freud, e t a m b é m as d o s defensores d e relações d e
objeto, c o m o Klein e Bion. Kernberg vê no narcisismo patológico u m a estrutura específica q u e se fixou na
infância, e considera q u e os distúrbios narcísicos d e personalidade t ê m semelhanças c o m os distúrbios d e
personalidade borderline, mas variam e m s u a gravidade. Para ele, as personalidades narcísicas apresentam
u m self g r a n d i o s o mais coerente q u e o das personalidades borderline, mas esse self é patológico e oculta
u m a difusão d o sentimento d e identidade.

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Escolha de objeto por ap oio - escolha de objeto narcísico - ideal d o e g o - narcisismo - narcisismo primário -
narcisismo secundário - ístase d a libido
ARTIGOS SOBRE METAPSICOLOGIA
S. FREUD (1915-1917)

"PULSÕES E DESTINOS DAS PULSÕES" (1915c)


"REPRESSÃO" (1915d)
"O INCONSCIENTE" (1915e)
ENTO METAPSICOLÓGICO À TEORIA DOS SONHOS" (1917d)

"VISÃO DE C( INJUNTO DAS NEUROSES DE TRANSFERENCIA" (1985a, [1915]) i


LIÇÕES DE INTRODUÇÃO A PSICANÁLISE
S. FREUD (1916-1917 [1915-1916])

Jm Ponto de Chegada e um Ponto de Partida

O q u e é a "metapsicologia"? É u mtermo i n - gos sobre metapsicologia, F r e u d s e e x p r i m e e s s e n -


v e n t a d o p o rF r e u d para designar u m ateoria d o cialmente e m t e r m o s gerais e abstratos, o q u e
f u n c i o n a m e n t o psíquico b a s e a d a e m u m a e x - e m g e r a l t o r n a a c o m p r e e n s ã o d e s s e t e x t o difí-
periência psicanalítica d e m a i s d e 3 0 a n o s a n - cil p a r a o sleitores p o u c o f a m i l i a r i z a d o s c o m a
t e s . S e g u n d o s e u s próprios t e r m o s , a m e t a p s i c o - experiência clínica. A s s i m , q u a n d o o a c o m p a -
l o g i a é p a r a a observação d e f a t o s psicológicos n h a m o s e m s u a trajetória, j a m a i s p e r d e m o s d e
o m e s m o q u e a metafísica é p a r a a o b s e r v a ç ã o v i s t a q u e a ligação e n t r e t e o r i a e clínica é u m a
d e f a t o s d o m u n d o físico. F r e u d p a s s a a s s i m d e c o n s t a n t e n o espírito d e F r e u d .
u m nível clínico d e s c r i t i v o p a r a u m nível d e a b s - D o p o n t o d e v i s t a d a evolução d o p e n s a -
tração teórica e p r o p õ e m o d e l o s d e f u n c i o n a - m e n t o f r e u d i a n o , Artigos sobre metapsicologia é
m e n t o d o p s i q u i s m o h u m a n o suscetíveis d e t e r antes d et u d o o r e s u l t a d o d e u m a lenta e v o l u -
u m alcance geral. Vejamos, p o r exemplo, a ç ã o q u e o c o n d u z i u a p r o p o r u m m o d e l o sinté-
noção d e ''pulsão". F r e u d i n t r o d u z o t e r m o t i c o d o f u n c i o n a m e n t o psíquico n o r m a l e p a -
"pulsão" p a r a d e s c r e v e r o s i m p u l s o s q u e c o n - tológico, c o n h e c i d o p e l o n o m e d e " p r i m e i r o t ó -
d u z e m o ser h u m a n o a sea l i m e n t a r e a procriar p i c o " f r e u d i a n o - f u n d a d o n a distinção e n t r e
e c h a m a o s p r i m e i r o s d e "pulsões d e a u t o c o n - i n c o n s c i e n t e , pré-consciente e c o n s c i e n t e - e d e
servação", e o s s e g u n d o s d e "pulsões s e x u a i s " . " p r i m e i r a t e o r i a d a s pulsões" - f u n d a d a n o
D a d o q u e a pulsão é u m a noção a b s t r a t a , n u n - princípio d e p r a z e r - d e s p r a z e r . P o r é m , a meta-
c a e n c o n t r a m o s u m a pulsão c o m o t a l , m a s a psicologia é a o m e s m o t e m p o o p o n t o d e p a r t i -
p e r c e b e m o s i n d i r e t a m e n t e através d o s e f e i t o s d a d e n o v a s p e r s p e c t i v a s q u e vão i m p l i c a r a
q u e e l a p r o d u z o ud a q u i l o q u e a r e p r e s e n t a : c o n s i d e r a ç ã o d e relações d e o b j e t o , d e i d e n t i f i -
a s s i m u m a pulsão s e x u a l p o d e s e m a n i f e s t a r d e cações, d e a f e t o s d e a m o r e d e ódio, e d o s e n t i -
m a n e i r a v a r i a d a através d a s e m o ç õ e s n a s c i d a s m e n t o d ec u l p a inconsciente. Essas n o v a s pis-
d e u m d e s e j o erótico e m relação a u m a p e s s o a , tas c u l m i n a m a l g u n s anos m a i s t a r d e e m u m
através d a s p a l a v r a s p a r a e x p r e s s a r e s s e d e s e - " s e g u n d o tópico" f r e u d i a n o e e m u m a " s e g u n -
j o , o u f i g u r a r n o cenário d e u m s o n h o . E m Arti- d a t e o r i a d a s pulsões".
154 Jean-Michel Quinodoz

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA

Anos difíceis; p o r é m , produtivos


Os a n o s d e g u e r r a (1914-1918)
Durante o s a n o s d a Primeira Guerra Mundial e d o imediato pós-guerra, Freud atravessou u m período difícil,
p o r é m f e c u n d o n o plano científico. Q u a n d o d a declaração d a s hostilidades, e m j u l h o d e 1914, A n n a ficou
m o m e n t a n e a m e n t e b l o q u e a d a n a Inglaterra, m a s ela t a m b é m c o n s e g u i u voltar a Viena graças à ajuda d e E.
Jones. A família Freud ficou muito p r e o c u p a d a c o m a sorte d e seus dois filhos mobilizados, Martin n a Rússia
e Ernst n a Itália. E m n o v e m b r o d e 1915, Freud ficou muito a b a l a d o c o m o falecimento a o s 81 a n o s d e seu
meio-irmão E m m a n u e l , n a m e s m a idade q u e seu pai. N o a n o seguinte, e m 1916, foi a vez d e Oliver ser
alistado n o exército. E m razão d a s dificuldades decorrentes d a guerra, o s pacientes e m tratamento rarearam,
o correio tornou-se irregular e as visitas eram excepcionais; a sobrevivência d o s periódicos psicanalíticos
estava a m e a ç a d a , e Freud teve d e assumi-las. C o n t u d o , ele prosseguiu u m a c o r r e s p o n d ê n c i a intensa c o m K.
A b r a h a m , e m particular a propósito d a melancolia, e t a m b é m c o m Ferenczi e Lou A n d r e a s - S a l o m é .

U m balanço às vésperas dos 6 0 a n o s


Em 1915, Freud c o m e ç o u a redigir o s 12 ensaios teóricos q u e constituem Artigos sobre metapsicologia, como
se fosse estabelecer u m balanço d e s u a obra. Sentindo a proximidade d o s 6 0 anos, ele acreditava q u e lhe
restavam p o u c o s a n o s d e vida. A guerra e as desgraças q u e ela provocou s ó vieram reforçar suas preocupa-
ções c o m relação à morte. Freud pensava e m publicar esses ensaios após o final d a s hostilidades e m u m a obra
intitulada Zur Vorbereitung einer Metapsychologie (Preliminar a uma metapsicologia). Provisoriamente, publicou
e m separado o s três primeiros textos e m 1915 - "Pulsões e destino das pulsões", "Repressão" e " O inconscien-
te" - e e m 1917 publicou o s dois seguintes - " C o m p l e m e n t o metapsicológico à teoria d o s s o n h o s " e "Luto e
melancolia". De a c o r d o c o m s u a correspondência, ele havia redigido os sete artigos restantes m a s desistiu d e
publicá-los, d e m o d o q u e a o b r a q u e projetou jamais veio à luz. Contudo, e m 1983 foi encontrada nos papéis
deixados por S. Ferenczi u m a cópia d o 1 2 texto inédito, intitulado "Visão d e conjunto d a s neuroses d e transfe-
e

rência", a c o m p a n h a d o d a carta d e Freud s u b m e t e n d o seu texto à apreciação d e Ferenczi (I. Gubrich-Simitis,


1985). O s outros textos certamente foram destruídos por Freud.

DESCOBERTA DAS OBRAS


• " P U L S Õ E S E D E S T I N O S D A S P U L S Õ E S " (1915c)

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1915c), "Pulsions et d e s t i n s d e s pulsions",


trad. J . L a p l a n c h e e J.-B. Pontalis, in Metapsychologie, Paris, Gallimard "Folio", 1968 , p. 11-43 [as páginas
indicadas entre colchetes remetem às OCF.R XIII, p. 161-185].

Características gerais das pulsões c o m p a r á v e l a u m a "necessidade" q u e não p o d e


ser s u p r i m i d a a não s e r p e l a "satisfação" q u e
Antes traduzido p o r"instinto", o termo corresponde à finalidade d a pulsão. E l e vê
" p u l s ã o " é a tradução a t u a l e m língua france- modelos d oq u e e n t e n d e p o r "pulsão" n an e -
s a d o t e r m o a l e m ã o Trieb, t e r m o q u e Stranchey c e s s i d a d e d es ea l i m e n t a r e n a b u s c a d e satis-
t r a d u z i u e m inglês p o r " i n s t i n t o " n a S t a n d a r d fação s e x u a l q u e h a b i t a m t o d o indivíduo. S e
Edition. Retomando seus pontos d evista ex- a finalidade d a pulsão é s e m p r e a d e o b t e r a
p o s t o s e m Três ensaios sobre a teoria da sexuali- s a t i s f a ç ã o , o objeto d a p u l s ã o - i s t o é , a q u i l o
dade ( 1 9 0 5 a ) , F r e u d d e f i n e a p u l s ã o c o m o u m e m q u e o u p e l o q u e a pulsão p o d e a t i n g i r s u a
i m p u l s o d i n â m i c o q u e t e m u m a fonte, uma fi- f i n a l i d a d e - é d o s m a i s variáveis: p o d e s e r u m
nalidade e u m objeto e d e s c r e v e s u a s implica- objeto e x t e r i o r , i s t o é, u m a p e s s o a d o m e i o ,
ções. A pulsão a g e c o m o u m a força constante, mas p o d e s e r também u m a p a r t e d o próprio
Ler Freud 155

corpo. D e m a n e i r a geral, constata-se q u e esse n e c e s s i d a d e d e a l i m e n t o , e só m a i s t a r d e o p r a -


o b j e t o é c o n t i n g e n t e , o u s e j a , não é único, m a s z e r s e x u a l l i g a d o à sucção s e s e p a r a d e l a . F r e u d
s u b s t i t u í v e l : "Ele [ o o b j e t o d a p u l s ã o ] pode ser vê i g u a l m e n t e n a oposição e n t r e pulsões d e
substituído à vontade ao longo dos destinos que a u t o c o n s e r v a ç ã o e pulsões s e x u a i s a o r i g e m d o
conhece a pulsão" ( p . 1 9 [168]). Finalmente, c o n f l i t o n a s n e u r o s e s d e transferência, c o m o t i -
c o m o "fonte" d o i m p u l s o p u l s i o n a l "entende- n h a m o s t r a d o antes: s e g u n d o ele, o c o n f l i t o re-
se o processo somático que é localizado em um or- s u l t a d o f a t o d e q u e a s pulsões s e x u a i s q u e p o -
ganismo ou em uma parte do corpo e cuja excita- d e m ser satisfeitas e m f o r m a d e fantasia e obe-
ção é representada na vida psíquica pela pulsão" d e c e r a o princípio d e p r a z e r s e c h o c a m c o m o
( p . 1 9 [168]). E m s u m a , n ã o p o d e m o s c o n h e c e r princípio d e r e a l i d a d e r e p r e s e n t a d o pelas
a f o n t e d a pulsão a não s e r d e m a n e i r a i n d i r e t a : p u l s õ e s d e autoconservação, q u e só p o d e m s e r
"A pulsão, só podemos òonhecer, na vida psíquica, s a t i s f e i t a s através d e u m o b j e t o r e a l : "Uma parte
por suas finalidades" ( p . 1 9 - 2 0 [168]). essencial da predisposição psíquica à neurose reside
C a b e ao sistema nervoso atarefa de d o m i n a r portanto no fato de que, na via que conduz a levar
a s excitações p u l s i o n a i s , i s t o é, "afunção de descar- em conta a realidade, a educação da pulsão sexual
tar as excitações sempre que elas o atingem, de con- sofre um atraso (...)" ( F r e u d , 1 9 1 1 b , p . 1 4 0 [18]).
duzi-las ao nível mais baixo possível" ( p . 1 6 [166]). P o s t e r i o r m e n t e , F r e u d dará m e n o s i m p o r t â n -
N o q u e d i z r e s p e i t o à regulação d o f u n c i o n a - c i a à distinção e n t r e e s s e s d o i s t i p o s d e p u l s õ e s
m e n t o d o a p a r e l h o psíquico, F r e u d a f i r m a n e s - e a oc o n f l i t o q u e r e s u l t a d i s s o n a n e u r o s e .
s e período d e s u a o b r a q u e e l e é s u b m e t i d o a o
princípio do prazer e m o d u l a d o a u t o m a t i c a m e n -
t e p e l a s sensações d a série p r a z e r - d e s p r a z e r : "a A síntese progressiva das p u l s õ e s
sensação de desprazer está relacionada a um cresci-
U m a característica g e r a l d a s pulsões s e x u a i s ,
mento da excitação, e a sensação de prazer com uma
p r o s s e g u e F r e u d , é q u e e l a s são n u m e r o s a s , p r o -
diminuição desta" ( p . 1 7 [167]). A p a r t i r d e s s a s
v ê m d e f o n t e s somáticas múltiplas e p a r c i a i s , e
p r e m i s s a s , F r e u d r e d e f i n i u o c o n c e i t o d e pulsão
v ã o s e u n i f i c a n d o p r o g r e s s i v a m e n t e até a m a -
como"um conceito limite entre o psíquico e o
t u r i d a d e s e x u a l : "Primeiro elas se manifestam in-
somático, como o representante psíquico das excita-
dependentemente umas das outras e só mais tarde se
ções, oriundas do interior do corpo e que chegam ao
reúnem em uma síntese mais ou menos completa. A
psiquismo, como uma medida da exigência de traba-
finalidade perseguida por cada uma delas é a obten-
lho que é imposto ao psíquico em consequência de ção do prazer de órgão; só depois de realizada a sín-
sua ligação com o corporal" ( p . 1 7 - 1 8 [167]). tese é que elas se colocam a serviço da função de re-
produção, e é assim que elas geralmente se revelam
como pulsões sexuais" ( p . 2 3 - 2 4 [171]).
A s p u l s õ e s de a u t o c p n s e r v a ç ã o e
as p u l s õ e s sexuais I
Quais s ã o o s destinos d a s p u l s õ e s s e x u a i s ?
E x i s t e m vários t i p o s d e pulsões, m a s F r e u d
o s r e d u z a d o i s g r u p o s originários: o g r u p o d a s F r e u d esclarece, antes d et u d o , q u e enten-
pulsões do ego o u pulsões de autoconservação - cujo d e p o r "destinos" o s d i v e r s o s m o d o s d e d e f e s a
m o d e l o é a f o m e e a f u n ç ã o d e alimentação - e q u e são e r i g i d o s c o n t r a a s pulsões a f i m d e i m -
o g r u p o d a s pulsões sexuais. Ao l o n g o d o d e s e n - p e d i r s u a ação. A s pulsões s e x u a i s , s e g u n d o e l e ,
v o l v i m e n t o , a s pulsões s e x u a i s s e a p o i a m n a s s o f r e m o s s e g u i n t e s d e s t i n o s : a transformação
pulsões d e autoconservação, q u e l h e f o r n e c e m n o contrário, o r e t o r n o à p r ó p r i a p e s s o a , a r e -
u m a f o n t e orgânica, u m a direção e u m o b j e t o ; pressão e a sublimação. A transformação n o
e l a s só s e t o r n a m autónomas q u a n d o o o b j e t o contrário e o r e t o r n o à p r ó p r i a p e s s o a s ã o p r o -
exterior é abandonado. Por exemplo, n o prazer c e s s o s d i s t i n t o s , m a s é i m p o s s í v e l descrevê-los
s e n t i d o n a s u c ç ã o d o s e i o , a satisfação d a z o n a s e p a r a d a m e n t e , explica ele. O p r i m e i r o d e s t i -
e r ó g e n a - a b o c a - é u m p r a z e r erótico l i g a d o à n o d i z r e s p e i t o à f i n a l i d a d e d a pulsão, q u e p o d e
156 J e a n - M i c h e l Quinodoz

s e t r a n s f o r m a r e m s e u contrário, o s e g u n d o d e s - nas que considero particularmente inspiradas,


t i n o d i z r e s p e i t o a o objeto, q u e p o d e ser u m a e d a s q u a i s não s e p o d e r i a e x t r a i r u m a f r a s e
p e s s o a i n d e p e n d e n t e o u a própria p e s s o a . A s - s e m quebrar seu encantamento. C o n t u d o , apre-
sim, sec o n s i d e r a m o s o r e t o r n o d o s a d i s m o e m sentarei suas linhas gerais.
masoquismo, observa-se que o m a s o q u i s m o
implica u m a passagem da atividade à passivi-
d a d e e u m a inversão d e papéis e n t r e q u e m i n - O amor e o ódio no início da vida
flige o s o f r i m e n t o e q u e m sofre. D a m a n e i r a
Se e x a m i n a m o s o sd e s t i n o s d oa m o r ed o
c o m o c o n c e b e s u a génese, e m 1 9 1 5 , F r e u d a c r e -
ó d i o , p o d e m o s d e s t a c a r três p o l a r i d a d e s q u e
dita que o sadismo é anterior a o m a s o q u i s m o
d o m i n a m n a v i d a psíquica, s e g u n d o F r e u d :
n o c u r s o d o d e s e n v o l v i m e n t o e q u e não e x i s t e
1 . a polaridade ego-não ego ( o u polaridade sujeito-
u m m a s o q u i s m o originário, c o m o postulará e m
objeto) c o n f o r m e a s e x c i t a ç õ e s q u e a t i n g e m o
1 9 2 4 ( 1 9 1 5 c , n . 1 , p . 2 6 [172]). N e s s e t e x t o , e l e
ego t e n h a m u m a origem externa o uinterna;
d e s i g n a o s a d i s m o c o m o u m a agressão e m r e -
2 . a polaridade prazer-desprazer conforme a
lação a o u t r o n o q u a l n ã o e x i s t i r i a p r a z e r s e x u a l ,
q u a l i d a d e d a s e n s a ç ã o ; 3 . a polaridade ativo-
e é s o m e n t e n o m o m e n t o masoquista que o so-
passivo, q u e é s u b j a c e n t e à o p o s i ç ã o m a s c u l i -
f r i m e n t o é a c o m p a n h a d o d e excitação s e x u a l ;
n o - f e m i n i n o , s e g u n d o F r e u d . C o m o e s s a s três
e s e o sádico e x p e r i m e n t a u m p r a z e r s e x u a l e m
p o l a r i d a d e s s e o r g a n i z a m n o início d a v i d a
c a u s a r d o r , é p o r identificação c o m o o b j e t o q u e
psíquica d a criança?
s o f r e : "Então, provocando essas dores em outros, a
N a o r i g e m , o e g o é i n v e s t i d o p e l a s pulsões e
própria pessoa sente prazer deforma masoquista na
e l e próprio s a t i s f a z e m p a r t e s u a s pulsões, o q u e
identificação com o objeto que sofre. Naturalmente,
c o n s t i t u i u m e s t a d o narcísico originário e m q u e
a c r e s c e n t a e l e , nos dois casos sente-se prazer, não
o e g o não t e m n e c e s s i d a d e d o m u n d o e x t e r i o r
pela dor em si, mas pela excitação sexual que a acom-
p o r q u e e l e é auto-erótico: "Nessa época, o ego-sujei-
panha, o que é particularmente cómodo na posição
to coincide com o que é prazeroso, o mundo exterior
do sádico" ( p . 2 8 [174]). F r e u d e x a m i n a i g u a l -
com o que é indiferente (eventualmente com aquilo
m e n t e a s transformações análogas q u e s o f r e o
que, como fonte de excitação, é desprazeroso)" ( p . 3 6
voyeurismo-exibicionismo.
[180]). D e p o i s , q u a n d o o e g o n ã o c o n s e g u e e v i t a r
s e n t i r excitações e x t e r n a s d e s p r a z e r o s a s - c o m o
O amor e o ódio: quais as relações a f o m e e a necessidade d e ser a l i m e n t a d o p o r
com as pulsões? u m a intervenção e x t e r n a - e l e é o b r i g a d o a a b a n -
d o n a r s e u a u t o - e r o t i s m o e i r a oe n c o n t r o d o s
F r e u d a b o r d a a questão d o a m o r e d o ódio objetos. O i m p a c t o q u e os objetos d o m u n d o ex-
através d a a m b i v a l ê n c i a . P o u c o a p o u c o , e l e t e r i o r p r o d u z e m n o e g o l e v a então au m
pôde o b s e r v a r q u e e s s e a f e t o c o m p l e x o d e s e m - r e a r r a n j o f u n d a m e n t a l e m função d a p o l a r i d a -
penha u m papel determinante nos conflitos d e p r a z e r - d e s p r a z e r : "Ele (o ego) acolhe em si, na
psíquicos d e s s e s p a c i e n t e s : "Amor e ódio quase medida em que são fontes de prazer, os objetos que se
sempre se dirigem simultaneamente ao mesmo objeto, apresentam, introjeta-os (segundo a expressão de
e essa coexistência fornece também o exemplo mais Ferenczi) e, ao mesmo tempo, expulsa para fora de si
importante de uma ambivalência do sentimento" ( p . aquilo que, em seu interior, provoca o desprazer" ( p .
3 3 [178]). M a s l o g o l e v a n t a u m a objeção e s s e n - 3 7 [180]).
c i a l : v i s t o q u e o a m o r e o ó d i o s ã o sentimentos e
n ã o pulsões, q u a l é e n t ã o s e u e s t a t u t o e m r e l a -
ção a e s t e s últimos? Q u a i s são t a m b é m o s p r o - Uma divisão primordial a partir
cesso que p r e s i d e m o d e s e n v o l v i m e n t o d o do "ego de prazer" purificado
a m o r e d o ódio? C o m o a s f o r m a s p r i m i t i v a s
d o a m o r c h e g a m a o a m o r c o m o e x p r e s s ã o "da C o n s e q u e n t e m e n t e , o p e r a - s e u m a divisão
tendência sexual total" ( p . 3 4 [178])? E s s a s p e r - p r i m o r d i a l d oe g o , q u e não é m a i s u m a s i m -
g u n t a s l e v a m F r e u d a e s c r e v e r a l g u m a s pági- p l e s divisão e n t r e i n t e r i o r ( e g o - s u j e i t o ) e o e x -
Ler Freud 157

terior (indiferente o u desprazeroso), mas en- N o q u e s e refere a oe m p r e g o d a p a l a v r a


t r e u m "ego de prazer" q u e i n c l u i o s o b j e t o s q u e "ódio", e l a n ã o t e m u m a relação t ã o í n t i m a c o m
t r a z e m a satisfação e u m mundo externo q u e s e o prazer sexual quanto o amor, e apenas a re-
t o r n a u m a f o n t e d e desprazer, p o r ser perce- lação c o m o d e s p r a z e r p a r e c e d e t e r m i n a n t e :
b i d o c o m o e s t r a n h o : " O ego-realidade do início, "O ego odeia, detesta, persegue com a intenção de
que distinguiu interior e exterior com a ajuda de destruir todos os objetos que são para elefantes de
um bom critério objetivo, transforma-se assim em desprazer, que significam uma frustração da satis-
um ego de prazer purificado que situa o caráter fação sexual ou da satisfação das necessidades de
de prazer acima de qualquer outro. O mundo ex- conservação" ( p . 4 0 [183]). S e g u n d o F r e u d , a o r i -
terno se decompõe para o ego em uma parte 'pra- g e m d o ódio d e v e r i a s e r b u s c a d a n a l u t a d o
zer', que ele incorporou, e um resto que lhe é estra- e g o p e l a a u t o c o n s e r v a ç ã o , i s t o é, n o ó d i o s e n -
nho" ( p . 3 7 [180-181]% E m o u t r a s p a l a v r a s , a t i d o e m relação a o o b j e t o q u e não s a t i s f a z a s
intervenção d o o b j e t o n a f a s e d o n a r c i s i s m o pulsões d e autoconservação, m a i s d o q u e n a
p r i m á r i o i n s t a l a e n t ã o o "odiar" q u e s e o p õ e a v i d a s e x u a l . Lá, n o nível d a autoconservação,
"amar": "O exterior, o objeto, o odiado seriam idên- se e n c o n t r a r i a , s e g u n d o F r e u d , a o r i g e m d o
ticos no início. Quando mais tarde o objeto se reve- c o n f l i t o d e ambivalência, p a r t i c u l a r m e n t e m a -
la como uma fonte de prazer, ele é amado, mas tam- nifesta nas neuroses.
bém incorporado ao ego, de modo que, para o ego
de prazer purificado, o objeto coincide de novo com
o estranho e o odiado" ( p . 3 8 [181]). A génese do amor e do ódio ao
longo do desenvolvimento

O amor, expressão d l tendência sexual total N a o r i g e m , d i z F r e u d , o e g o é c a p a z d e sa-


t i s f a z e r e m p a r t e s u a s p u l s õ e s auto-eróticos, e ,
Q u a n d o o objeto é fonte de prazer, dizemos p o r t a n t o , o a m o r é narcísico. D e p o i s , o e g o s e
e n t ã o q u e "amamos" o o b j e t o , e q u a n d o e l e é f o n - d i r i g e p a r a o s o b j e t o s : "Na origem, o amor é
t e d e p r a z e r n ó s o "odiamos". M a s , i n d a g a - s e narcísico, pois ele se estende aos objetos que foram
F r e u d , será q u e s e p o d e d i z e r q u e u m a p u l s ã o , incorporados ao ego ampliado, e expressa a tendên-
n a l i n g u a g e m c o r r e n t e , "ama" o o b j e t o ? C e r t a - cia motriz do ego a esses objetos na medida em que
m e n t e não, r e s p o n d e e l e , a s s i m c o m o não s e eles são fontes de prazer" ( p . 4 1 [183]). F r e u d d e s -
p o d e d i z e r q u e u m a p u l s ã o "odeia" o o b j e t o . E creve e mseguida a s fases p r e l i m i n a r e s d o
p o r i s s o , i n s i s t e a i n d a , q u e "os termos 'amor' e a m o r , começando p e l a p r i m e i r a f i n a l i d a d e , q u e
'ódio' não devem ser utilizados para a relação das é incorporar o u devorar, f a s e a m b i v a l e n t e p o r
pulsões com seus objetos, mas reservados para as re- excelência e m q u e o indivíduo n ã o s a b e s e d e s -
lações do ego-total com os objetos" ( p . 3 9 [182]). N o trói o o b j e t o p o r a m o r o u p o r ódio; d e p o i s , v e m
m á x i m o p o d e m o s u t i l i z a r o s t e r m o s "eu gosto, a f a s e pré-genital sádica a n a l e , f i n a l m e n t e , a
eu aprecio" n o q u e r e f e r e a o s o b j e t o s q u e s e r v e m f a s e a n a l : "Foi só com a organização genital que o
p a r a a conservação d o e g o (alimentação, e t c ) . amor se tornou o oposto do ódio" ( p . 4 2 [184]). E l e
Q u a l é e n t ã o o e s t a t u t o d a p a l a v r a "amar" c o n c l u i q u e o ódio é d e f i n i t i v a m e n t e m a i s a n -
q u a n d o e l aé p l e n a m e n t e realizada? P a r a tigo que o a m o r e que o a m o r aparece depois,
F r e u d , o a m o r aparece i n e q u i v o c a m e n t e n a fase q u a n d o o e g o s et o r n a u m e g o t o t a l .
g e n i t a l , q u a n d o s e e s t a b e l e c e a síntese d a s E i s s o q u e e x p l i c a também a n a t u r e z a d a
p u l s õ e s p a r c i a i s d e n t r o d e u m "ego-total" ( p . 3 9 ambivalência, i s t o é, d o ódio j u s t a p o s t o a o
[182]): "O emprego mais adequado da palavra 'amar' a m o r e m r e l a ç ã o a o m e s m o o b j e t o : "O ódio
encontra-se na relação dq ego com seu objeto sexual: mesclado ao amor provém em parte de fases preli-
isso nos ensina que o emprego dessa palavra para minares do amor, não totalmente superadas, e em
uma tal relação só podelcomeçar com a síntese de parte se funda na recusa das pulsões do ego, reações
todas as pulsões parciais da sexualidade sob o pri- que, nos frequentes conflitos entre os interesses do
mado dos órgãos genitais e a serviço da função de ego e os do amor, podem invocar motivos reais e
reprodução" ( p . 4 0 [1821). atuais. Assim, nos dois casos, esse elemento de ódio
160 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS • Continuaçã

u m "afeto imobilizado" q u e não p ô d e ser descarregado. A finalidade d a ação terapêutica é a descarga dessa
e m o ç ã o c o m a volta d e u m acontecimento traumático esquecido, descarga q u e constitui a ab-reação. Desde
então, Freud atribui dois destinos diferentes à representação e ao afeto, e destacará a d i m e n s ã o e c o n ó m i c a d o
afeto referindo-se a "quantum d e afeto" e m Artigos sobre metapsicologia e m 1915.
Posteriormente, a n o ç ã o d e afeto terá u m a extensão mais a m p l a , p a s s a n d o a e n g l o b a r u m a g r a n d e varie-
d a d e d e afetos, c o m o a a n g ú s t i a , o luto, o s e n t i m e n t o d e c u l p a , o a m o r e o ó d i o , e t c , s o b r e t u d o a partir d e
Inibições, sintomas e ansiedade (1926d). A p e n a s a l g u n s d e s s e s efeitos serão o b j e t o d e e s t u d o s mais
d e t a l h a d o s p o r parte d e F r e u d , q u e estabelecerá u m a estreita relação entre eles e o d e s e n v o l v i m e n t o d o
ego, s e n d o q u e p a r a ele o e g o é v e r d a d e i r a m e n t e o lugar d o afeto. C o n t u d o , se a n o ç ã o d e afeto adquiriu
u m a a c e p ç ã o q u e ultrapassa a m p l a m e n t e a perspectiva energética c o m p r e e n d i d a n a e x p r e s s ã o " q u a n t u m
de afeto", ela a i n d a está l o n g e d e ser explicitada na teoria psicanalítica atual.

• " O I N C O N S C I E N T E " (1915e)

As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1915e), " U l n c o n s c i e n t " , t r a d . J . Laplanche


e J.-B. Pontalis, in Metapsychologie, Paris, Gallimard, 1968, p. 65-121 (os subtítulos a s e g u i r s ã o os
m e s m o s utilizados p o r Freud [as páginas indicadas entre colchetes remetem às OCF.R XIII, p. 203-242].

Justificação do inconsciente tópico" (topos, t e r m o g r e g o q u e s i g n i f i c a l u g a r ,


p o r e x e m p l o , geográfico). M a s F r e u d d e i x a c l a -
F r e u d d e d i c a e s t e capítulo a d e m o n s t r a r a r o q u e e s s a localização e m d i v e r s a s regiões psí-
existência d o i n c o n s c i e n t e , a f i r m a n d o q u e a p s i - q u i c a s não t e m n a d a a v e r c o m a a n a t o m i a .
canálise e v i d e n c i o u p r o c e s s o s psíquicos q u e são O que leva F r e u d a introduzir o conceito d e
"inconscientes em si", e q u a n d o s ã o p e r c e b i d o s pré-consciente ( P c s ) é o f a t o d e q u e u m "ato psíqui-
p e l a consciência p o d e - s e c o m p a r a r s u a p e r c e p - co" p a s s a p o r s u a s f a s e s a n t e s d e s e t o r n a r v e r -
ção à p e r c e p ç ã o d o m u n d o e x t e r n o p e l o s órgãos dadeiramente consciente. Ele observa d e fato
dos sentidos. Ele lembra igualmente que o pro- q u e e n t r e e s s a s d u a s f a s e s i n t e r c a l a - s e "uma espé-
c e s s o d e repressão n ã o c o n s i s t e e m s u p r i m i r u m a cie de prova ( c e n s u r a ) " ( p . 7 6 [212]); a p r i m e i r a
representação d a p u l s ã o , m a s e m i m p e d i r q u e censura seopera entre o inconsciente e o cons-
ela s et o r n e consciente, d em o d o q u e c o n t i n u a c i e n t e e p o d e i m p e d i r o a t o psíquico d e " s e t o r -
p r o d u z i n d o e f e i t o s q u e a t i n g e m a consciência, n a r consciente", m a s seacaso ele chega à cons-
e n q u a n t o e l a própria p e r m a n e c e i n c o n s c i e n t e . ciência, c h o c a - s e c o m u m a s e g u n d a c e n s u r a a n -
tes d e s et o r n a r p l e n a m e n t e consciente. É nesse
nível q u e F r e u d s i t u a o pré-consciente: "Ele [o
O ponto de vista tópico a t o psíquico] ainda não é consciente, mas sim sus-
cetível de se t o r n a r consciente ( . . . ) " ( p . 7 6 [212]).
Até então, F r e u d s e i n t e r e s s a r a s o b r e t u d o
p e l o " p o n t o d e v i s t a d i n â m i c o " , i s t o é, p e l a n a - Freud procura explicar e m seguida o m o d o
t u r e z a d o s c o n f l i t o s n ao r i g e m d a n e u r o s e , d e p a s s a g e m d e u m a representação i n c o n s -
como, por exemplo, quando atribui a fobiad o c i e n t e a u m a representação c o n s c i e n t e e m o s -
p e q u e n o H a n s à angústia i n c o n s c i e n t e d e s e r tra que o processo sedesenvolve e m dois m o -
c a s t r a d o p o r s e u p a i . C o m a introdução d e u m a m e n t o s . D e f a t o , a e x p e r i ê n c i a clínica m o s t r a
distinção e n t r e i n c o n s c i e n t e , p r é - c o n s c i e n t e e q u e não b a s t a q u e u m a representação r e p r i m i -
consciente, ele p a s s a a s einteressar p e l o s p r o - d a a n t e r i o r m e n t e set o r n e consciente p a r a q u e
c e s s o s psíquicos d e u m n o v o â n g u l o , o d e s u a s e u s e f e i t o s s e j a m s u p r i m i d o s : "Se comunica-
localização e m l u g a r e s topográficos d i s t i n t o s d o mos a um paciente uma representação que ele re-
a p a r e l h o p s í q u i c o , e d a í o n o m e "ponto de vista primiu em um determinado momento e que nós
Ler Freud 161

adivinhamos, isso de imediato não muda em nada m e s m o t e m p o e m que considera que as sensa-
seu estado psíquico. E, particularmente, não é por- ções, o s s e n t i m e n t o s e o s a f e t o s estão s u b m e t i -
que a representação antes inconsciente agora se d o s a variações d e o r d e m e s s e n c i a l m e n t e q u a n -
tornou consciente que a repressão é suspensa e seus titativa: seu m afeto o u u m s e n t i m e n t o desapa-
efeitos suprimidos, como talvez se poderia esperar. rece, s e g u n d o ele, é p e r t i n e n t e a f i r m a r q u e é
Ao contrário, não se conseguirá inicialmente se- "desconhecido" o u "recalcado" o u q u e "seu desen-
não uma recusa renovada da representação repri- volvimento foi fortemente impedido", m a s p o d e -
mida" ( p . 7 9 - 8 0 [215]). P a r a F r e u d , o p a c i e n t e s e d i z e r q u e e l e f o i " r e p r i m i d o " ( p . 8 3 [217]).
p o s s u i u m a representação s o b u m a d u p l a f o r - Ele admite, n o entanto, que o afeto pode se
m a , u m a f o r m a acústica q u e s e t o r n a c o n s c i e n - tornar inconsciente, m a s por outras vias, c o m o ,
t e graças à interpretação d o a n a l i s t a , e u m a por exemplo, associando-se a u m a outra repre-
f o r m a i n c o n s c i e n t e , q u e é a lembrança i n c o n s - sentação q u e , p o r s u a v e z , p o d e s o f r e r a r e p r e s -
ciente d oq u e f o i v i v i d o . C o n s e q u e n t e m e n t e , são, o u a i n d a p e l a transformação d o a f e t o e m
"a supressão da repressão não intervém até que a angústia. E m b o r a F r e u d r e a f i r m e q u e "não exis-
representação consciente, uma vez superadas as tem, em sentido estrito, afetos inconscientes como
resistências, tenha estabelecido uma ligação com existem representações inconscientes" ( p . 8 4 [217]),
os traços mnésicos inconscientes. Apenas quando e l e r e l a t i v i z a s u a a f i r m a ç ã o : "Mas pode muito
estes últimos também se tornam conscientes é que bem existir no sistema les formações de afetos que se
se obtém êxito" ( p . 8 0 [215]). C o n t u d o , F r e u d tornam conscientes com os outros. Toda a diferença
não s e s a t i s f a z e m d i s t i n g u i r a representação decorre do fato de que as representações são investi-
c o n s c i e n t e d a representação i n c o n s c i e n t e u n i - mentos -fundados em traços mnésicos - enquanto
c a m e n t e sobre essa base. os afetos e sentimentos correspondem a processos de
descarga cujas manifestações finais são percebidas
como representações" ( p . 8 4 [217]). S e a p o s i ç ã o
Sentimentos incons lientes d e F r e u d q u a n t o a o e s t a t u t o a s e r atribuído a o
afeto é hesitante e m 1915, n o s a n o s seguintes
F r e u d começa p o r l e m b r a r q u e a pulsão j a -
e l e reconhecerá q u e o a f e t o o c u p a u m l u g a r
m a i s p o d e r i a s e t o r n a r o b j e t o d a consciência,
importante n o inconsciente.
p o i s e l a só p o d e s e t o r n a r c o n s c i e n t e d e d u a s
m a n e i r a s , seja e s t a n d o l i g a d a a u m a r e p r e s e n -
t a ç ã o , s e j a e s t a n d o l i g a d a a u m a f e t o : "Se a Tópica e dinâmica da repressão
pulsão não estivesse ligada a uma representação ou
não aparecesse sob a forma de estado de afeto, não F r e u d s ei n d a g a e m seguida sobre o m e c a -
poderíamos saber nada sobre ela" ( p . 8 2 [216]). n i s m o q u e mantém n o i n c o n s c i e n t e o i n v e s t i -
E l e s e p e r g u n t a e m s e g u i d a s e a s sensações, m e n t o d a representação r e p r i m i d a . D e f a t o ,
o s s e n t i m e n t o s e o s a f e t o s p o d e m o u não s e r q u a n d o d a repressão, o b s e r v a - s e u m a r e t i r a d a
i n c o n s c i e n t e s , c o m o n o c a s o d a s representações. d o i n v e s t i m e n t o d a representação, m a s e l a c o n -
S e c o n s i d e r a m o s q u e sensações, s e n t i m e n t o s e t i n u a a s e r a t i v a d e s d e s u a posição i n c o n s c i e n -
a f e t o s são d a o r d e m d o q u e é p e r c e b i d o , F r e u d t e . C o m o e x p l i c a r também q u e a r e p r e s e n t a -
d e d u z q u e e l e s não p o d e m e m n e n h u m a hipó- ção i n c o n s c i e n t e n ã o r e t o r n e n o pré-conscien-
t e s e s e r "inconscientes". M a s , i n d a g a a i n d a , d e - te/consciente? P a r a e n t e n d e r esse processo
c l a r a r q u e o s s e n t i m e n t o s são u n i c a m e n t e c o n s - c o m p l e x o , não b a s t a d a r c o n t a d o s d e s l o c a m e n -
c i e n t e s n ã o e s t a r i a e m contradição c o m o hábi- t o s d a e n e r g i a d e i n v e s t i m e n t o , m a s é necessá-
t o q u e t e m o s e m psicanálise d e f a l a r d e a m o r , rio ter u m a a b o r d a g e m multifocal e se p e r g u n -
d e ódio e d e r a i v a i n c o n s c i e n t e s , c o m o t a m b é m t a r também e m q u e s i s t e m a o c o r r e a r e t i r a d a e
d e "sentimento de culpa inconsciente" F r e u d p r o - a p a r t i d a d oi n v e s t i m e n t o : n o s i s t e m a i n c o n s -
c u r a r e s o l v e r e s s a contradição r e s e r v a n d o e x - c i e n t e , pré-consciente o u c o n s c i e n t e ? F r e u d p õ e
c l u s i v a m e n t e à representação o d e s t i n o d e s e e m j o g o e n t ã o u m o u t r o f a t o r , o "contra-investi-
t o r n a r i n c o n s c i e n t e p o r m e i o d a repressão, a o mento" ( p . 8 8 [220]), q u e é u m a d e f e s a p e l a q u a l
162 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

o s i s t e m a pré-consciente s e p r o t e g e c o n t r a o mória consciente, q u e d e p e n d e t o t a l m e n t e d o pré-


i m p u l s o d a representação i n c o n s c i e n t e . P o r c o n s c i e n t e , e o s traços mnésicos n o s q u a i s s e f i -
e x e m p l o , o m e d o fóbico d o c a v a l o c o n s t i t u i c a m a s experiências v i v i d a s d o i n c o n s c i e n t e .
para o pequeno H a n s u m contra-investimento
c o n s c i e n t e q u e t o m a o l u g a r d e s u a angústia
e m f a c e d o p a i , representação c u j o i n v e s t i m e n -
As relações entre os sistemas les, Pcs e Cs
t o p e r m a n e c e r e p r i m i d o . N o c a s o d a repressão O i n c o n s c i e n t e a s s i m c o m o o pré-conscien-
propriamente dita ( r e p r e s s ã o a posteriori), o t e e o c o n s c i e n t e não são s i s t e m a s i s o l a d o s , m a s
o b j e t i v o d o c o n t r a - i n v e s t i m e n t oé m a n t e r a r e - estão e m e s t r e i t a relação e i n f l u e n c i a m u m a o
presentação r e p r i m i d a , e n q u a n t o , n o c a s o d a outro incessantemente. F r e u d e x a m i n a suas re-
repressão originária, s e u o b j e t o é c o n s t i t u i r a r e - lações m ú t u a s , d e s t a c a n d o o q u e p e r t e n c e e s -
pressão e f a z e r c o m q u e p e r d u r e . pecificamente ao inconsciente e permanece re-
É essa a b o r d a g e m m u l t i f ocal q u e F r e u d cha- p r i m i d o e m o s t r a n d o o s d o i s níveis e m q u e a g e
m a d e "metapsicologia", que é a maneira como a c e n s u r a : "A primeira censura funciona contra o
o p s i c a n a l i s t a e x a m i n a o s fenómenos psíqui- próprio I c s , a segunda contra os derivados Pcs do
c o s d e u m t r i p l o p o n t o d e v i s t a : tópico, e c o n ó - I c s " ( p . 1 0 5 [231 ]). V o l t a n d o à q u e s t ã o d o p r o -
m i c o e dinâmico. N o c a s o d o c o n t r a - i n v e s t i - c e s s o d e t o m a d a d e consciência, q u e n ã o s e r e -
m e n t o , o p o n t o d e v i s t a tópico d á c o n t a d o s s i s - s u m e a u m a s i m p l e s p a s s a g e m d o Ics a o Cs,
t e m a s d e o n d e p a r t e m o si n v e s t i m e n t o s , c o n - F r e u d lança a i d e i a d e q u e a v e r d a d e i r a t o m a -
f o r m e e l e s p a r t a m d o i n c o n s c i e n t e , d o pré-cons- d a d e consciência d a q u i l o q u e a p a r e c e u n o p r é -
ciente o ud oconsciente; o p o n t o d e v i s t a consciente implicaria u m superinvestimento:
económico d á c o n t a d a q u a n t i d a d e d e e n e r g i a "A existência da censura entre Pcs e Cs nos adverte
psíquica e m j o g o ; o p o n t o d e v i s t a dinâmico d á que o tornar-se consciente não é um puro e simples
conta d o conflito entre a energia pulsional- o ato de percepção mas é também verdadeiramente um
d e s e j o - q u e força a representação a e m e r g i r s u p e r i n v e s t i m e n t o , um novo progresso na orga-
f o r a d o i n c o n s c i e n t e - e a d e f e s a q u e provém nização psíquica" ( p . 1 0 5 - 1 0 6 [232]). F i n a l m e n t e ,
de ego e luta contra o surgimento da represen- F r e u d a c r e s c e n t a d u a s observações i m p o r t a n -
tação r e p r i m i d a . F r e u d m o s t r a c o m o e l e a p l i c a t e s : a p r i m e i r a d i z r e s p e i t o à comunicação d e
s e u s p o n t o s d e v i s t a n a s n e u r o s e s fóbicas, h i s - i n c o n s c i e n t e a i n c o n s c i e n t e , fenómeno q u e e l e
téricas e o b s e s s i v a s , d e u m a m a n e i r a m u i t o q u a l i f i c a d e "incontestável" d op o n t o d evista
didática p a r a o clínico. d e s c r i t i v o : "É muito relevante que o I c s de um ho-
mem pode reagir à I c s de um outro homem rever-
tendo o C s " ( p . 1 0 6 [232]); a s e g u n d a o b s e r v a -
As propriedades particulares
ção d i z r e s p e i t o à d i f i c u l d a d e p a r a o c o n s c i e n -
do sistema inconsciente
t e ( C s ) d e i n f l u e n c i a r o i n c o n s c i e n t e (Ics) a o l o n -
N o s i s t e m a i n c o n s c i e n t e , n ã o h á "nem nega- g o d a c u r a psicanalítica, p r o c e s s o q u e d e m a n -
ção, nem grau de certeza" ( p . 9 6 [225]) e a g r a n d e da m u i t o t e m p o e energia.
m o b i l i d a d e d o s i n v e s t i m e n t o s p r o d u z fenóme-
n o s d e d e s l o c a m e n t o e d e condensação q u e c a -
O reconhecimento do inconsciente
r a c t e r i z a m o processo primário; p o r o u t r o l a d o ,
o s p r o c e s s o s i n c o n s c i e n t e s são i n t e m p o r a i s e O inconsciente p o d e ser a b o r d a d o p o r u m a
s u b m e t i d o s a o princípio d o p r a z e r , d e m o d o via ainda mais direta d o que pela via d aneu-
q u e e l e s não dão c o n t a d a r e a l i d a d e e não c o - rose, e é ela q u e m o s t r a a esquizofrenia, pois o
n h e c e m s u a contradição. I n v e r s a m e n t e , o pro- i n c o n s c i e n t e s e r e v e l a a l i s e m o obstáculo c r i a -
cesso secundário r e i n a n o s i s t e m a pré-consciente d o p e l a repressão. F r e u d o b s e r v a d e f a t o q u e
e s e c a r a c t e r i z a p o r u m a inibição d a tendência o s esquizofrênicos a p r e s e n t a m u m a l i n g u a g e m
à d e s c a r g a d a s representações i n v e s t i d a s . F r e u d "maneirista" e u m a alteração p a r t i c u l a r d a l i n -
e s t a b e l e c e t a m b é m u m a distinção e n t r e a me- g u a g e m c u j o conteúdo g e r a l m e n t e t e m a v e r
Ler Freud 163

c o m o s ó r g ã o s c o r p o r a i s , q u e e l e c h a m a d e "lin- zação e a t o m a d a d e consciência. S e g u n d o e l e ,


guagem de órgão" ( p . 1 1 2 [236]). A l é m d i s s o , e l e a representação i n c o n s c i e n t e s e r i a constituí-
n o t a q u e n o s esquizofrênicos a s p a l a v r a s s ã o d a u n i c a m e n t e p e l a representação d a c o i s a , e
s u b m e t i d a s a u m m e c a n i s m o d e condensação isso seria anterior ao aparecimento d a l i n g u a -
análogo a o p r o c e s s o primário q u e p r o d u z a gem, de m o d o que a linguagem verbal passa-
i m a g e m d o s o n h o , d e m o d o q u e "o processo pode rá a t e r u m p a p e l p r i v i l e g i a d o n o p r o c e s s o d o
ir tão longe que uma única palavra, apta para isso tornar-se consciente q u a n d o da cura psicana-
em razão de múltiplas relações, assume a função de lítica. F r e u d e x p r e s s a i s s o n o s s e g u i n t e s t e r -
toda uma cadeia de pensamentos" ( p . 1 1 3 [237]). F i - m o s : "A representação consciente compreende a
n a l m e n t e , n e s s e s p a c i e n t e s , a s palavras t ê m m a i s representação de coisa - mais a representação de
importância q u e a s c o i s a s q u e d e s i g n a m , o u palavra que lhe corresponde - , a representação
s e j a , o b s e r v a - s e n o s esquizofrênicos u m a p r e - inconsciente é a representação de coisa sozinha"
d o m i n â n c i a d a relação d e palavra, d e m o d o q u e ( p . 1 1 7 [240]). D e v e - s e à p r o p r i e d a d e p a r t i c u -
a semelhança e n t r e a s expressões v e r b a i s p r e - l a r d a l i n g u a g e m a transição d o p r o c e s s o p r i -
c e d e a relação d e coisa. P o r e x e m p l o , u m p a c i e n - mário a o p r o c e s s o secundário, a s s i m c o m o a
te d e T a u s k , citado p o r F r e u d , ficava i n i b i d o i n s t a l a ç ã o d o s i s t e m a Pcs q u e F r e u d q u a l i f i c a
c o m a i d e i a d e q u e s u a s m e i a s t i v e s s e m "bura- d e "organização psíquica mais elevada". A s s i m ,
cos": n a v e r d a d e , e m b o r a a p a l a v r a " b u r a c o " n a n e u r o s e d e transferência, é p r e c i s a m e n t e
represente duas coisas diferentes - oburaco das a representação d e p a l a v r a q u e é r e c u s a d a
m e i a s e a a b e r t u r a d o sexo d a m u l h e r -, a s i m - p e l a repressão, d e m a n e i r a q u e o p r o c e s s o d a
p l e s evocação d a p a l a v r a " b u r a c o " s e t o r n a v a c u r a consistirá e m s u b s t i t u i r a s p a l a v r a s p e -
u m a fonte d epavor porque a palavra "bura- los atos: é p o r isso que o p e n s a m e n t o v e r b a l
c o " c o n d e n s a v a o sdois significados. O b s e r v a - constitui a ferramenta privilegiada d a expe-
s e a s s i m q u e u m p a c i e n t e esquizofrénico e x - riência analítica.
p r i m e s e m resistência a significação simbólica
R e t o m a n d o a questão d a e s q u i z o f r e n i a ,
i n c o n s c i e n t e d e s u a inibição, d e m o d o q u e o
F r e u d esclarece que o i n v e s t i m e n t o p r e p o n d e -
p s i c a n a l i s t a t e m a c e s s o d i r e t o a o conteúdo d e
r a n t e d a representação d e p a l a v r a n o s e s q u i z o -
s e u i n c o n s c i e n t e , a o contrário d o s p a c i e n t e s h i s -
frênicos s e r i a o r e s u l t a d o d e u m a t e n t a t i v a d e
téricos e o b s e s s i v o s , c u j o a c e s s o a o s e n t i d o i n -
cura: c o m a retirada de investimento pulsional
c o n s c i e n t e s e t o r n o u difícil d e v i d o à a ç ã o d a
d e representações d e o b j e t o i n c o n s c i e n t e s - c a -
repressão. E m o u t r o s t e r m o s , p o d e - s e c a r a c t e -
racterística d a s n e u r o s e s narcísicas - , h a v e r i a
r i z a r o m o d o d e p e n s a m e n t o d o s esquizofrê-
nesses pacientes u m superinvestimento d e re-
n i c o s "dizendo que eles tratam das coisas concretas
presentações d e p a l a v r a . E s s e p r o c e s s o s i g n i f i -
como se elas fossem abstratas" ( p . 1 2 1 [242]).
c a r i a u m a t e n t a t i v a d e "recuperar os objetos per-
Freud procura compreender e m seguida didos", e , p a r a i s s o , t o m a r i a m "o caminho do objeto
o f a t o d e q u e , n o s esquizofrênicos, a s r e p r e - passando por seu elemento palavra", o q u e s e r i a
s e n t a ç õ e s d a palavra s ã o t r a t a d a s c o m o r e p r e - u m a t e n t a t i v a d e cura. C o n t u d o , acrescenta ele,
s e n t a ç õ e s d e coisa, p o r e x e m p l o , q u a n d o a o s esquizofrênicos s e r i a m l e v a d o s a "se conten-
palavra " b u r a c o " s e t o r n a o e q u i v a l e n t e d a tar com palavras em lugar de coisas" ( p . 1 2 0 [242]).
coisa - " o s e x o d a m u l h e r " - , c o m o v i m o s n o F r e u d t e r m i n a esse ensaio n o s a l e r t a n d o contra
p a c i e n t e d e T a u s k . E l e i n t r o d u z então u m a a tendência a c u l t i v a r u m p e n s a m e n t o e x c e s s i -
n o v a distinção n onível d a representação v a m e n t e a b s t r a t o : "Quando pensamos abstrata-
c o n s c i e n t e e n t r e a representação de palavra e a mente, corremos o risco de subestimar as relações de
representação de coisa: a r e p r e s e n t a ç ã o d e c o i - palavras com as relações de coisas inconscientes, e
s a é e s s e n c i a l m e n t e v i s u a l e a representação não se pode negar que nossa filosofia, em sua expres-
d e p a l a v r a é e s s e n c i a l m e n t e acústica. A r e - são e em seu conteúdo, adquire uma semelhança
presentação d e p a l a v r a é então i n t e g r a d a e m indesejada com a forma como operam os esquizofrê-
u m a n o v a conceituação, q u e l i g a a v e r b a l i - nicos" ( p . 1 2 1 [242]).
164 Jean-Michel Quinodoz

PÓS-FREUDIANOS

A primeira tópica e a primeira teoria das pulsões: especialidades francesas?


A corrente psicanalítica d e língua francesa é, s e m dúvida, a q u e mais se inspirou na o b r a d e Freud d o primeiro
período, d o qual resultaram, entre outras coisas, os três primeiros ensaios d e Artigos sobre metapsicologia. É
por isso q u e essa corrente d e pensamento se caracteriza por u m a a b o r d a g e m d a psicanálise f u n d a d a essencial-
mente nas aquisições d a primeira tópica - inconsciente, pré-consciente e consciente - e d a primeira teoria das
pulsões baseada no princípio d o prazer-desprazer. Esse interesse privilegiado manifestou-se através d e nume-
rosos trabalhos e m continuidade a Artigos sobre metapsicologia, d o qual carregam a marca d o estilo abstrato
adotado por Freud. Sobre esse ponto, as contribuições dos psicanalistas franceses contrastam c o m as contri-
buições d o s psicanalistas anglo-saxões, na m e d i d a e m q u e a referência clínica tende a ser implícita nos primei-
ros, enquanto nos s e g u n d o s geralmente é explícita. S e m dúvida, u m a tradição filosófica m a r c o u a forma de
pensar d o s psicanalistas francófonos, às vezes c o m o risco d e se afastar d a experiência clínica e m proveito da
especulação, c o m o l e m b r o u Pierre Luquet (1985): "A psicanálise é resultado de trabalho cotidiano de reconhe-
cimento de fatos e não de especulações. Em seguida se estuda e se filosofa".
Essa importância atribuída à primeira t ó p i c a e à primeira teoria freudiana d a s pulsões t e m c a u s a s variadas.
U m a das principais decorre, s e m dúvida, d o fato d e q u e as obras d e Freud d o início f o r a m as primeiras a ser
traduzidas e m língua francesa, ainda q u e parcialmente, e n q u a n t o q u e as obras d o s e g u n d o período só foram
mais tarde. A l é m disso, essa preferência pela metapsicologia foi reforçada pela influência d o "retorno a Freud"
preconizado por J . Lacan (1955). C o n t u d o , esse retorno a Freud não foi u m retorno ao c o n j u n t o d a obra
freudiana, m a s a o s seus primeiros trabalhos, centrados essencialmente na neurose, c o m o A interpretação
dos sonhos (1900a) e Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905c). Esse interesse focalizado e m
u m a parte d a o b r a d e Freud teve vantagens e inconvenientes: a v a n t a g e m foi estimular o e s t u d o d o s escritos
d e Freud d o início, e o inconveniente foi minimizar o valor d o s trabalhos freudianos posteriores, e m particular
aqueles d e d i c a d o s à d e p r e s s ã o , à psicose e à perversão. Porém, essas perspectivas inovadoras j á são deci-
fráveis e m 1915, principalmente e m "Pulsões e destinos das pulsões" e e m "Luto e melancolia", e foram elas
q u e c o n d u z i r a m Freud a introduzir u m a s e g u n d a teoria das pulsões e u m a s e g u n d a t ó p i c a .
A partir d o s a n o s d e 1970, u m n ú m e r o crescente d e psicanalistas franceses sentiu a n e c e s s i d a d e d e ampliar
o c a m p o d e a p l i c a ç ã o d a psicanálise além d a neurose e d e se dedicar ao tratamento d e pacientes ditos
"difíceis", cuja p r o b l e m á t i c a p r e d o m i n a no nível narcísico. E então, p o u c o a p o u c o , o interesse voltou-se aos
desenvolvimentos freudianos posteriores a 1915, isto é, à s e g u n d a teoria das pulsões, à s e g u n d a tópica,
assim c o m o a o s m e c a n i s m o s d e defesa primitivos, s e m c o m isso a b a n d o n a r as contribuições freudianas
anteriores. N e s s a perspectiva, vale destacar os trabalhos d e A. Green sobre os estados-limite, d e D. Anzieu
sobre o e g o - p e l e , o s d e J . McDougall e d e J . Chasseguet-Smirgel sobre as perversões, e a i n d a as pesquisas
d e P-C. Racamier s o b r e a psicose, para citar os mais c o n h e c i d o s e m nível internacional.

O afeto indissociável da representação


No final d o s a n o s d e 1960, A. G r e e n reagiu v i g o r o s a m e n t e c o n t r a a e v o l u ç ã o d a s ideias d e J . Lacan q u e , ao
excluir o p a p e l d o s afetos e d o c o r p o d e s u a c o n c e i t u a ç ã o psicanalítica, a m e a ç a v a reduzir a análise a u m
j o g o intelectual d e significantes linguísticos. Por isso, A. Green p u b l i c o u O discurso vivo (1973) c o m a
intenção d e restituir à d i m e n s ã o afetiva e c o r p o r a l d a experiência o lugar q u e ela m e r e c e , n ã o a p e n a s na
teoria m a s t a m b é m n a vivência d a c u r a psicanalítica.
Nessa o b r a , G r e e n c o m e ç a por fazer u m a releitura c r o n o l ó g i c a d a o b r a d e Freud q u e p õ e e m evidência o
papel central o c u p a d o pelo afeto na c o n c e p ç ã o freudiana ao lado d a representação. Green o p õ e seu ponto
d e vista a o d e Lacan, q u e minimizou o papel d o afeto a p o n t o d e lançar a ideia d e q u e n ã o existe afeto no
inconsciente, m a s a p e n a s representações e significantes verbais, d e s p r e z a n d o o papel d e s e m p e n h a d o pe-
los afetos transferenciais-contratransferenciais. Green admite q u e Freud, s e m dúvida, hesita q u a n t o ao esta-
tuto a ser atribuído aos afetos no inconsciente ao escrever Artigos sobre metapsicologia. C o n t u d o , e m traba-
lhos posteriores, o próprio Freud suprimirá progressivamente essas a m b i g u i d a d e s : ele a c a b a por considerar
q u e existem muitos afetos inconscientes - c o m o o sentimento d e c u l p a inconsciente - , mas não lhes atribui o
m e s m o estatuto q u e a representação reprimida. Green vai mais l o n g o ainda ao propor distinguir o "represen-
tante-representação" e o "representante-afeto" d a pulsão. A l é m disso, o afeto t e m u m a d u p l a d i m e n s ã o ,
s e g u n d o ele: d e u m lado, o afeto está p r ó x i m o d o c o r p o - "o afeto é olhar para o corpo emocionado", observa
Green (p. 221) - e d e s e m p e n h a u m papel d e d e s c a r g a d o p o n t o d e vista e c o n ó m i c o ; d e outro lado, o afeto

Continua %
Ler Freud 165

0 Continuação

t e m u m a d i m e n s ã o psíquica e s e d o t a d e u m a "qualidade" ligada a o prazer-desprazer - "o corpo não é o


sujeito de uma ação, mas o objeto de uma paixão" (p. 220). Finalmente, Green distingue a linguagem n o
s e n t i d o puramente linguístico d o t e r m o - q u e "só se refere a ele mesmo (...)", acrescenta parafraseando
Lacan (p. 239) - e o discurso q u e ele descreve c o m o u m "retorno da matéria corporal na linguagem" (p. 239),
d i s c u r s o q u e reúne ao m e s m o t e m p o p e n s a m e n t o s , representações, afetos, atos e estados d o próprio c o r p o .
D e p o i s disso, Green não desenvolverá mais seus pontos d e vista acerca d o papel d o afeto além d a q u e l e s
q u e apresentou e m O discurso vivo e, por isso, s u a c o n c e p ç ã o se inscreve essencialmente n o p r o l o n g a m e n -
to d a primeira tópica freudiana.
O discurso vivo constituiu u m a g u i n a d a i m p o r t a n t e n a psicanálise f r a n c e s a p o r q u e as ideias d e G r e e n
p e r m i t i r a m a n u m e r o s o s psicanalistas q u e s e sentiram t e n t a d o s a seguir i n c o n d i c i o n a l m e n t e as ideias d e
L a c a n a retornarem n ã o s o m e n t e a o seio d e u m a o p o s i ç ã o à prática lacaniana d e sessões curtas, m a s
t a m b é m a u m a tradição freudiana teórico-clínica e n r i q u e c i d a .

• " C O M P L E M E N T O M É T A P S I C O L Ó G I C O À TEORIA D O S S O N H O S " (1917d)

A s p á g i n a s indicadas r e m e t e m a o texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1917d), " C o m p l é m e n t m é t a p s y c h o l o g i q u e


à la théorie d u rêve", waó. J . L a p l a n c h e e J.-B. Pontalis, in Metapsychologie, Paris, Gallimard, 1968 , p. 123-
143 [as páginas indicadas entre colchetes remetem às OCF.R XIII, p. 242-258].

Escrito e m 1 9 1 5e p u b l i c a d o e m 1917, esse j o g o a q u i a prova da realidade q u e p r o p o r c i o n a


quarto ensaio t e mc o m o objetivo integrar n a a o e g o a c a p a c i d a d e d e d i s t i n g u i r percepção e
t e o r i a d o s s o n h o s a s noções r e c e n t e m e n t e d e - representação, i n t e r i o r e e x t e r i o r . E l e e x a m i n a
senvolvidas por Freud. Por exemplo, ele expli- e m seguida como a prova d arealidade pode
c a a distinção q u e propôs e n t r e u m a regressão ser a b o l i d a n a p a t o l o g i a e n o s o n h o . N oq u e s e
temporal ( o u r e g r e s s ã o n a h i s t ó r i a d o d e s e n v o l - r e f e r e a o s o n h o , s u a s características s ã o d e t e r -
v i m e n t o ) q u er e s t a b e l e c e o n a r c i s i s m o primiti- m i n a d a s pelo estado d esono q u ep r o d u z u m
v o - c o m o s e v ê n o d e s e j o d o s o n h o - e a "re- d e s i n v e s t i m e n t o d o s s i s t e m a s c o n s c i e n t e , pré-
gressão tópica", q u e é u m "retorno a fase antiga da consciente e inconsciente, e conduz a o aban-
realização alucinatória do desejo" ( p . 1 3 2 [250-251]). d o n o d a p r o v a d erealidade, a b r i n d o c a m i n h o
M a s então, s e o d e s e j o d o s o n h o é u m a regres- p a r a q u e a e x c i t a ç ã o r e g r e s s e à "psicose alu-
são à alucinação e à crença n a r e a l i d a d e d a r e a - cinatória do desejo do sonho". E s s e t e x t o t r a z e s -
lização d o d e s e j o , q u a l é a diferença e n t r e o clarecimentos suplementares àteoria d o sonho
s o n h o e o u t r a s f o r m a s d e alucinação, a c o n f u - f o r m u l a d a e m A interpretação dos sonhos (1900a),
são alucinatória a g u d a ( d e M e y n e r t ) o u a f a s e mas não u m aconcepção f u n d a m e n t a l m e n t e
alucinatória d a e s q u i z o f r e n i a ? F r e u d põe e m nova.

^ BIOGRAFIAS E Hlí TÓRIA

Karl A b r a h a m (1877-1925): u m pioneiro na pesquisa psicanalítica


As hipóteses q u e Freud apresenta e m "Luto e melancolia" inscrevem-se n o p r o l o n g a m e n t o d o s trabalhos
pioneiros d e Karl A b r a h a m , u m a figura marcante n o s primórdios d a história d a psicanálise. M é d i c o alemão,
A b r a h a m f o r m o u - s e e m psiquiatria e m Berlim, e e m 1907 foi para Zurique para se aperfeiçoar j u n t o a E u g e n
Bleuler, diretor d a clínica d o Búrghõlzli, o n d e C. G. J u n g era chefe d e clínica. A b r a h a m d e s c o b r i u o s trabalhos
de Freud durante s u a estadia n a Suíça. N o m e s m o ano, abriu u m consultório e m Berlim e foi a Viena para se
encontrar c o m Freud. S e u encontro foi o início d e u m a amizade profunda entre o s dois h o m e n s e d e u m

Continua 0
166 Jean-Michel Q u i n o d o z

4) BIOGRAFIAS E HISTÓRIA • Continuação

longo intercâmbio científico, c o m o t e s t e m u n h a u m a a b u n d a n t e c o r r e s p o n d ê n c i a entre 1907 e 1925. De ime-


diato instalou-se u m conflito d e rivalidade entre J u n g e A b r a h a m , conflito e m parte incitado por Freud que, na
é p o c a manifestava s u a preferência por J u n g , a q u e m considerava c o m o seu delfim, e contava c o m ele para
difundir a psicanálise nos meios psiquiátricos internacionais e nos círculos não j u d a i c o s . M a s as relações
entre Freud e J u n g l o g o se deterioraram, pois J u n g rejeitou a teoria freudiana d a libido, e n q u a n t o q u e A b r a h a m
tornou-se seu defensor convicto. Desde então, A b r a h a m c o n q u i s t o u a inteira confiança d e Freud e d e s e m p e -
n h o u u m papel importante n o desenvolvimento d a psiquiatria, e m particular ao fundar e m 1910 o Instituto
Psicanalítico d e Berlim. Posteriormente, s u c e d e u J u n g c o m o presidente d a Associação Psicanalítica Interna-
cional e c o m o editor d e várias revistas psicanalíticas, entre as quais o Jahrbuch fúr Psychoanalyse. Ele foi
t a m b é m analista didático d e vários psicanalistas r e n o m a d o s , c o m o Hélène Deutsch, Edouard Glover, J a m e s
Glover, Karen Horney, Melanie Klein, Sándor Rado e T h e o d o r Reick. Morreu p r e m a t u r a m e n t e d e u m a d o e n ç a
pulmonar, a o s 4 8 a n o s , o q u e representou u m a perda cruel para t o d o o m o v i m e n t o psicanalítico.
Abraham a d o t o u d e imediato as ideias d e Freud, ao m e s m o t e m p o e m q u e trilhou seu próprio caminho, às
vezes c o m o risco d e se o p o r ao mestre. Seus inúmeros escritos impressionam pelo rigor e pela clareza. Vamos
nos deter aqui s o b r e t u d o e m seus trabalhos fundamentais sobre os distúrbios maníaco depressivos e sobre as
fases d o desenvolvimento libidinal. Ele foi d e fato o primeiro psicanalista a tratar d e pacientes c o m distúrbios
maníaco-depressivos e mostrou e m u m artigo d e 1911 q u e os pacientes depressivos apresentavam u m a para-
lisia d e sua c a p a c i d a d e d e amar e m razão d a violência d e suas fantasias sádicas e d e u m a "disposição hostil
excessiva da libido" (1911, p. 104). Ele lançou então a hipótese d e q u e a depressão provém d a repressão d o
sadismo e assinalou q u e melancolia e mania eram oriundas d e u m m e s m o complexo, e m face d o qual o doente
reagia diferentemente. A b r a h a m postulava ainda a ideia d e q u e a depressão d o adulto se fundamentava e m
u m a depressão d e base na criança, mas não c h e g o u a verificar isso; foi Melanie Klein q u e m ofereceu sua
demonstração clínica, descoberta q u e ele c o m u n i c o u imediatamente a Freud (Abraham a Freud, carta 423A de
7 de outubro d e 1923).
Em 1924, Abraham publicou u m a vasta síntese de suas ideias e m que procurava situar os pontos d e fixação das
diversas afecções mentais e m diversas fases d o desenvolvimento libidinal. Para isso, apoiava-se na teoria freudiana
clássica de fases d a libido (Freud, 1905a) e incorporava várias inovações, distinguindo particularmente duas subfases
na fase sádico-anal e duas subfases na fase oral. Segundo ele, a fase sádico-anal se divide, d e u m lado, em u m a
fase anal precoce ligada à evacuação e à destruição d o objeto - ponto de fixação d a depressão - e, d e outro lado,
em u m a fase tardia /igada à retenção e à dominação d o objeto - ponto de fixação d a neurose obsessiva. Na
depressão, o ponto d e fixação pode ser ainda mais precoce que a primeira subfase sádica d e expulsão, e nesse
caso Abraham remonta fixação à fase oral. Na fase oral, ele distingue igualmente duas subfases: u m a fase oral
precoce d e sucção ambivalente pré-ambivalente e u m a fase sádico-oral tardia q u e corresponde ao aparecimento
dos dentes e determina a ambivalência sugar-morder. Paralelamente, Abraham descreveu a evolução dos afetos
de amor e d e ódio e m função das relações d e objeto até chegar ao amor de objeto total q u e surge na fase genital:
"É somente na etapa genital do desenvolvimento da libido que se adquire a plena aptidão ao amor" (1924, p. 260).
Os t r a b a l h o s d e K. A b r a h a m tiveram u m a e n o r m e influência, e m particular s o b r e s u a a l u n a Melanie Klein
"cujas teorias não podem ser compreendidas sem as bases lançadas por Abraham - incidentemente, com
a aprovação e em acordo com Freud", c o m o assinalam A. Haynal e E. Falzener (2002, p. XXVIIIJ.

• "LUTO E MELANCOLIA" (1917e [1915])

A s p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m ao texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1917e [1915]), "Deuil et mélancolie", trad.


J. L a p l a n c h e e J.-B. Pontalis, in Metapsychologie, Paris, Gallimard, 1968, p. 145-171 [as páginas indicadas
entre colchetes remetem às OCF.R XIII, p. 262-278].

Luto normal e luto patológico de u m a pessoa a m a d a o u da perda de u m ideal:


p o r q u e certas pessoas r e a g e m c o m u m afeto
E m "Luto e melancolia", Freud se indaga d e l u t o q u e será s u p e r a d o d e p o i s d e a l g u m t e m -
s o b r e a s reações d o i n d i v í d u o e m decorrência po, enquanto outras s u c u m b e m e m u m estado
d e u m a p e r d a r e a l o u d e u m a decepção v i n d a d e p r e s s i v o ? Esclareço q u e n a é p o c a d e F r e u d
Ler Freud 167

denominava-se "melancolia" o que hoje é cha- S e g u i n d o e m s u a intuição, F r e u d p e r c e b e


m a d o d e depressão, e n q u a n t o o t e r m o " m e - q u e as p a l a v r a s u t i l i z a d a s p e l o paciente m e l a n -
lancolia" é reservado à s u a forma grave, cólico q u a n d o e x p r e s s a s u a s a u t o - a c u s a ç õ e s -
psicótica ( M . B o n a p a r t e , A . F r e u d , E . K r i s , 1 9 5 6 ; q u a n d o a p a c i e n t e d i z , p o r e x e m p l o : "Eu sou
J. S t r a c h e y , 1 9 5 7 ; J . L a p l a n c h e , 1 9 8 0 ) . F r e u d uma incapazl" - r e v e l a m p o n t o p o r p o n t o a e s -
constata que, diferentemente d oluto n o r m a l , t r u t u r a d e s e u c o n f l i t o i n t e r n o : "O que devemos
c u j o p r o c e s s o s e s i t u a p r i n c i p a l m e n t e n o nível reter antes de tudo, p r o s s e g u e F r e u d , é que ele [o
c o n s c i e n t e , o l u t o patológico s e d e s e n v o l v e n o melancólico] nos descreve corretamente sua situa-
nível i n c o n s c i e n t e , p o i s a m e l a n c o l i a , d i z e l e , ção psicológica" ( p . 1 5 2 [264]). C o n s i d e r a n d o o
"não consegue captar conscientemente o que per- f a t o d e q u e a e s t r u t u r a linguística p a r t i c u l a r d a s
deu" ( p . 1 4 9 [263]). O l u t o n o r m a l e o l u t o p a t o - auto-acusações r e m e t e à organização d o c o n f l i -
l ó g i c o t ê m e m c o m u m u m a inibição e u m a a u - t o i n t e r n o d o melancólico, F r e u d c o m e ç a a p a s -
sência d e i n t e r e s s e q u e s e e x p l i c a m p e l o t r a b a - sar e m revista sistematicamente o s diferentes
l h o d o l u t o q u e a b s o r v e o e g o . M a s há a l g o m a i s elementos envolvidos ali, decompondo-os u m
na melancolia, prossegue Freud, que é a a u m : e l e d e s c r e v e s u c e s s i v a m e n t e a introjeção
extraordinária d i m i n u i ç ã o d a a u t o - e s t i m a : "No o r a l d o o b j e t o p e r d i d o , a identificação c o m e l e
luto, o mundo se tornou pobre e vazio, na melanco- p o r regressão d o a m o r a o n a r c i s i s m o , o r e t o r n o
lia foi o próprio ego" ( p . 1 5 0 [264]). N o l u t o p a t o - c o n t r a o próprio s u j e i t o d o ódio d i r i g i d o a o
l ó g i c o , é a aversão d o d o e n t e e m relação a o s e u objeto, etc, o que e x a m i n a r e m o s a seguir. A
próprio e g o q u e a p a r e c e n o p r i m e i r o p l a n o s o b compreensão d e s s e s p r o c e s s o s e x i g e m u i t a a t e n -
a f o r m a d e auto-recriminações e d e a u t o d e p r e - ç ã o p o r p a r t e d o l e i t o r , n a m e d i d a e m q u e a clí-
ciação. C o m o s e e x p l i c a m e s s a s a u t o - a c u s a ç õ e s nica a que F r e u d serefere permanece m a i s i m -
q u e p o d e m l e v a r até à e s p e r a d e l i r a n t e d e u m plícita d o q u e explícita. C o n t u d o , t e n t a r e i a p r e -
castigo? sentar b r e v e m e n t e suas linhas gerais.

Na melancolia, "Eu ;ou um incapaz!" Ruptura com o mundo externo


significa na verdade "Você é um incapaz!" e retraimento narcísico
F r e u d t e v e , então, u m a intuição g e n i a l : e l e F r e u d começa p o r e x p l i c a r o q u e s u b e n t e n -
p e r c e b e q u e a s auto-acusações d o d e p r e s s i v o d e a s u b s t i t u i ç ã o d o "Eu" p e l o "Você" quando
são n a v e r d a d e heteroacusações d i r i g i d a s c o n - a melancólica s e a c u s a e x p l i c i t a m e n t e n e s t e s
t r a u m a p e s s o a i m p o r t a n t e "perdida", g e r a l - t e r m o s : "Eu sou uma incapazl" q u e r e n d o i m p l i -
m e n t e u m a p e s s o a d o s e u círculo ( p . 1 6 0 [270]). c i t a m e n t e a c u s a r o u t r o : "Você é um incapaz!".
A s s i m , d i z e l e : "A mulher que lamenta em voz Q u a i s são o s p r o c e s s o s psíquicos q u e c o r r e s -
alta que seu marido tenha se ligado a uma mulher p o n d e m à s t r a n s f o r m a ç õ e s psíquicas a s s i m e x -
tão incapaz, deseja, na verdade, se queixar contra a pressadas verbalmente? F r e u d explica isso
incapacidade de seu marido em todos os sentidos m o s t r a n d o q u e e mcaso d ep e r d a d e o b j e t o
do termo" ( p . 1 5 4 [267]). E m o u t r a s p a l a v r a s , e x i s t e u m a diferença f u n d a m e n t a l e n t r e o l u t o
q u a n d o essa m u l h e r acusa a s i m e s m a d i z e n - n o r m a l e o l u t o patológico q u e d e c o r r e d a m u -
d o : "Eu s o u u m a i n c a p a z ! " , e s s a a u t o - a c u s a - dança n a direção d o i n v e s t i m e n t o d a l i b i d o :
ção s e r e v e l a c o m o u m a acusação d e s t i n a d a n o luto n o r m a l , o sujeito é capaz de renunciar
i n c o n s c i e n t e m e n t e a o s e u m a r i d o : "Você é u m a o o b j e t o " p e r d i d o " e d er e t i r a r s u a l i b i d o ,d e
i n c a p a z ! " . C o m o F r e u d e x p r e s s a tão b e m e m m o d o q u e a l i b i d o libertada p o d e ser substi-
l í n g u a a l e m ã a o f a l a r d e s s e s d o e n t e s : "Ihre tuída p o r u m n o v o o b j e t o ; a o contrário, n a m e -
Klagen sind Anklagen", i s t o é: " S u a s queixas s ã o l a n c o l i a , o s u j e i t o não r e t i r a s u a l i b i d o d o
queixas contra", j o g a n d o c o m a c o n d e n s a ç ã o objeto p e r d i d o , seu ego "sufoca" esse objeto
d a s p a l a v r a s Klagen ( q u e i x a s n o s e n t i d o d e " s e e m f a n t a s i a p a r a não s e s e p a r a r d e l e e p a r a
q u e i x a r " ) e Anklagen ( a n t i g o t e r m o j u r í d i c o unificar-se a ele, s e g u i n d o p e l a v i a d e u m a
q u e s i g n i f i c a " p r e s t a r q u e i x a contra a l g u é m " ) . identificação narcísica: "A sombra do objeto abate-
168 J e a n - M i c h e l Quinodoz

se assim sobre o ego que pôde então ser julgado por p r ó p r i o e g o u n i f i c a d o a o o b j e t o : "Se o amor pelo
uma instância particular como um objeto, como o objeto, que não pode ser abandonado, enquanto que
objeto abandonado. Dessa maneira, a perda do o próprio objeto é abandonado, refugiou-se na iden-
objeto se transformou em uma perda do ego, e o tificação narcísica, o ódio entra em ação sobre esse
conflito entre o ego e a pessoa amada em uma cisão objeto substitutivo injuriando-o, rebaixando-o, fa-
entre a crítica do ego e o ego modificado por identifi- zendo-o sofrer e extraindo desse sofrimento uma
cação" ( p . 1 5 6 [268]). É e s s a mudança d e satisfação sádica" ( p . 1 5 9 [270]).
direção d o i n v e s t i m e n t o d e o b j e t o p a r a o pró-
prio ego c o n f u n d i d o c o m o objeto que explica
o d e s i n t e r e s s e d o melancólico p e l a s p e s s o a s As auto-recriminações
do seu m e i o e o consequente retraimento manifestas: recriminações
"narcísico" n a própria p e s s o a ; o d o e n t e s e latentes em relação a outro
preocupa tanto consigo m e s m o que é como se
Freud destaca u m outro p o n t o decisivo a o
f o s s e a s p i r a d o p e l o turbilhão d e s u a s a u t o - r e -
d e m o n s t r a r q u e a s auto-acusações d o m e l a n -
criminações.
cólico c o n s t i t u e m s i m u l t a n e a m e n t e u m a
Além d i s s o , e s s e r e t o r n o d a s recriminações
agressão d i r i g i d a a o o b j e t o , o q u e s i g n i f i c a q u e
p a r a a própria p e s s o a i m p l i c a u m a c l i v a g e m
o r e t r a i m e n t o narcísico d o p a c i e n t e n ã o e x c l u i
d o ego, confundindo-se c o m o objeto perdi-
a permanência d e u m a relação d e o b j e t o i n -
d o , e n q u a n t o o o u t r o e x e r c e s u a crítica e r i g i n -
consciente. D ef a t o , F r e u d o b s e r v a q u e o p a -
d o - s e e m u m a instância q u e F r e u d c h a m a d e
c i e n t e melancólico, a s s i m c o m o o o b s e s s i v o ,
"consciência moral": "Vemos nele como uma par-
s e n t e "prazer" e m e x e r c e r s i m u l t a n e a m e n t e
te do ego se opõe à outra, dirige a ela uma aprecia- tendências sádicas e o d i o s a s e m relação a s i
ção crítica, toma-a por assim dizer como objeto" m e s m o e e m relação a o u t r o , s e n d o q u e e s t e
( p . 1 5 3 [266]). E s s a i n s t â n c i a crítica é a p r e c u r - ú l t i m o é g e r a l m e n t e u m a p e s s o a d o s e u círcu-
s o r a d a noção d e s u p e r e g o . l o : "Normalmente, nas duas afecções, os doentes,
pelo retorno da autopunição, ainda conseguem se
vingar dos que o amam e a torturá-los por meio de
O amor regride à identificação narcísica
sua doença, depois se refugiarem na doença para
e o ódio se volta contra o próprio sujeito
não ser obrigados a manifestar diretamente sua hos-
A f o r t e tendência a u t o d e s t r u t i v a d o d e p r e s - tilidade contra eles" ( p . 1 6 0 [270]).
sivo, ainda segundo Freud, resulta d eu m re- A s s i m , a o a s s i n a l a r q u e a s auto-agressões
forço d a a m b i v a l ê n c i a d o a m o r e d o ó d i o e m d o melancólico são u m m e i o d e a g r e d i r s e u
relação a o o b j e t o e a o e g o , a f e t o s q u e s e o b j e t o e d e e x e r c e r u m a v i n g a n ç a e m relação a
dissociam e s o f r e m destinos diferentes. D e u m ele, F r e u d m o s t r a q u e esses pacientes, a o l a d o
lado, o sujeito c o n t i n u a a m a n d o o objeto, m a s d e s e u n a r c i s i s m o , a i n d a m a n t ê m u m a relação
à custa d or e t o r n o a u m a f o r m a p r i m i t i v a d e d e o b j e t o c o m s e u círculo, q u e s e f u n d a m e n t a
a m o r q u e é a identificação n a q u a l " a m a r o n o ódio e n a a g r e s s i v i d a d e . S e m dúvida, o f a t o
o b j e t o " é " s e r o o b j e t o " : "A identificação narcísica d e F r e u d t e r e n f a t i z a d o o r e t r a i m e n t o narcísico
com o objeto torna-se então o substituto do investi- n o s p a c i e n t e s maníaco-depressivos l e v o u - o a
mento de amor, o que tem como consequência que, pensar q u e esses pacientes e r a m incapazes d e
apesar do conflito com a pessoa amada, a relação de e s t a b e l e c e r u m a transferência e q u e n ã o e r a m
amor não deve ser abandonada" ( p . 1 5 6 [268]). T r a - acessíveis à análise, o q u e e x p l i c a s u a d e s i g n a -
t a - s e a q u i d e u m a regressão d a l i b i d o à f a s e ção d e n e u r o s e s narcísicas. O s p s i c a n a l i s t a s p ó s -
oral canibalesca e m que o sujeito incorpora o f r e u d i a n o s m o s t r a r a m que, n av e r d a d e , esses
objeto "devorando-o". D eoutro lado, e m ra- p a c i e n t e s e s t a b e l e c e m u m a transferência e q u e
zão d a identificação narcísica d o e g o c o m o e s s a transferência é analisável, m e s m o q u e s e
o b j e t o a m a d o , o ódio d o s u j e i t o d i r i g i d o a o t r a t e d e u m a transferência e m q u e p r e d o m i n a
objeto n om u n d o externo retorna contra seu a h o s t i l i d a d e e m relação a o a n a l i s t a .
Ler Freud 169

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Os desenvolvimentos posteriores feitos por Freud e m "Luto e melancolia"


Para c o m p r e e n d e r melhor o s m e c a n i s m o s psíquicos d a d e p r e s s ã o descritos por Freud é preciso c o n s i d e -
rar o s importantes d e s e n v o l v i m e n t o s feitos por ele p o s t e r i o r m e n t e . Eis a l g u n s p o n t o s d e referência a o s
q u a i s retornaremos a o a b o r d a r as o b r a s e m q u e s t ã o .

A introdução do c o n f l i t o e n f r e pulsão de vida e pulsão de morte (1920)


O papel central d e s e m p e n h a d o pelas pulsões autodestrutivas nos pacientes depressivos foi u m d o s fatores
q u e c o n d u z i r a m Freud a rever s u a primeira teoria das pulsões f u n d a d a no princípio d o prazer, tal c o m o ele
havia f o r m u l a d o e m 1915: d e fato, se a finalidade d a pulsão é essencialmente a b u s c a d e satisfação, c o m o
explicar q u e u m depressivo seja levado ao suicídio? Para responder a esse tipo d e questão, Freud introduziu
e m 1920 u m a nova teoria das pulsões, b a s e a d a no conflito fundamental entre pulsão d e vida e pulsão d e
morte, c o n c e p ç ã o q u e ele aplicará a n u m e r o s a s situações psicopatológicas, entre as quais a melancolia.

O conflito entre ego, lo' e superego (1923)


E m 1915, e m "Luto e melancolia", Freud atribui as auto-acusações d o melancólico à "crítica" q u e u m a parte d o
e g o exerce sobre a outra, evocando u m a "consciência moral" análoga à "voz da consciência". Em 1923, ela fará
dessa "crítica" u m a verdadeira instância psíquica q u e chamará d e superego, e a colocará e m estreita relação
c o m outras duas instâncias recém-definidas, o ego e o id. S e g u n d o ele, e m condições normais o superego
exerce u m a função reguladora e m relação ao ego, q u e por sua vez se confronta c o m as exigências pulsionais
d o id. Contudo, na melancolia, Freud constata q u e o superego exerce u m sadismo excessivo e m relação ao
ego, pois nessa afecção, s e g u n d o ele, "[o superego] investe contra o ego com uma violência impiedosa, como
se estivesse possuído por todo o sadismo disponível no indivíduo. (...) O que agora reina no ego é, por assim
dizer, uma pura cultura da pulsão de morte, e de fato ela consegue quase sempre levar o ego à morte, se este não
se defender de seu tirano a tempo transformando-o na mania" (1923b, p. 268 [296]).

A clivagem do ego (m27)


A n o ç ã o d e clivagem d o e g o já está presente e m Freud e m "Luto e melancolia", e ele utiliza explicitamente ora
o t e r m o "clivagem", ora*'cisão" d o ego, particularmente q u a n d o descreve a severidade c o m que a "consciência
moral" critica o ego no melancólico. Mais tarde, e m "Fetichismo" (1927e), ele completará suas hipóteses sobre
a clivagem d o e g o considerando que, no caso d a depressão, ela é consequência d a negação d a perda d e
objeto; ele ilustra esse ponto de vista mencionando a análise de dois irmãos que na infância haviam "escotomizado"
a morte d e seu pai, mas q u e não se tornaram psicóticos: "Havia apenas uma corrente de sua vida psíquica que
não reconhecia essa morte; uma outra corrente admitia-a plenamente; as duas posições, a que se fundava no
desejo e a que se fundava na realidade, coexistiam. Essa clivagem, para um de meus dois casos, era a base de
uma neurose obsessiva medianamente grave" (p.137). Em outros termos, no luto patológico, a noção de clivagem
d á conta de que u m a parte d o e g o nega a realidade d a perda, enquanto q u e a outra a aceita. Em seus últimos
trabalhos, Freud atribuirá u m a importância cada vez maior aos fenómenos de negação da realidade e de clivagem
d o ego.

PÓS-FREUDIANOS

O s d e s e n v o l v i m e n t o s k l e i n i a n o s e p ó s - k l e i n i a n o s a p a r t i r d e Artigos sobre metapsicologia


M. Klein c o m e ç o u por desenvolver seus p o n t o s d e vista partindo d a teoria f r e u d i a n a clássica e, posterior-
m e n t e , introduziu s u a s próprias ideias. Entre os c o n c e i t o s f r e u d i a n o s f u n d a m e n t a i s n o s quais se a p o i o u ,
m u i t o s f o r a m e x p o s t o s e m Artigos sobre metapsicologia, particularmente em "Pulsões e destinos das
p u l s õ e s " (1915c), e m " O i n c o n s c i e n t e " (1915e), c o m o t a m b é m e m "Luto e m e l a n c o l i a " (1917e [1915]).
Ela n ã o falou d e " m e t a p s i c o l o g i a " , m a s e s s e n c i a l m e n t e a p r e s e n t o u seus c o n c e i t o s e m t e r m o s clínicos,
atribuindo u m p a p e l central às n o ç õ e s estruturais d e p o s i ç ã o e s q u i z o p a r a n ó i d e e d e p o s i ç ã o depressiva, e
a i n d a ao c o n c e i t o d e identificação projetiva. V a m o s c o m e ç a r por u m a breve r e m e m o r a ç ã o .

Continua 0
172 J e a n - M i c h e l Q u i n o d o z

• "VISÃO DE C O N J U N T O DAS N E U R O S E S DE TRANSFERÊNCIA" ( 1 9 8 5 a , [1915])

£ BIOGRAFIAS E HISTÓRIA

Um m a n u s c r i t o inédito d e s c o b e r t o e m 1983
Esse ensaio o c u p a u m a posição especial, pois foi descoberto casualmente e m 1983 por I. Grubrich-Simitis nos
d o c u m e n t o s confiados por Ferenczi a M. Balint, a c o m p a n h a d o d a carta d e Freud d e 28 d e julho d e 1915 e m q u e
ele pedia s u a opinião. Trata-se d o e s b o ç o d o d é c i m o s e g u n d o ensaio d e Artigos sobre metapsicologia, do
próprio p u n h o d e Freud, o único q u e escapou d o s sete ensaios não publicados d a o b r a q u e ele projetara. Dos
12 ensaios q u e deviam c o m p o r esse livro, Freud s ó lançou os cinco primeiros e m 1915 e 1917, s o b a forma d e
artigos d e revista. Mas s u a correspondência revela q u e ele havia escrito os outros sete e supunha-se q u e os
tivesse destruído. Foi por isso q u e a descoberta d e "Visão de conjunto das neuroses de transferência" causou
surpresa
Nesse ensaio, q u e t e s t e m u n h a s u a estreita c o l a b o r a ç ã o c o m Ferenczi, Freud d á c o n t i n u i d a d e a o t e m a d a
filogênese e s b o ç a d a e m Totem e tabu (1912-1913a), t e m a q u e d e s d e então p e r p a s s a r á t o d a s u a obra.
S e g u n d o ele, a v i d a p s í q u i c a d o h o m e m d e hoje traz m a r c a s indeléveis d e u m a h e r a n ç a arcaica, e aquilo
q u e se c o n s i d e r a c o m o as fantasias originárias d a realidade psíquica n ã o é s e n ã o a m a r c a d e i x a d a por
a c o n t e c i m e n t o s t r a u m á t i c o s reais, q u e r e m o n t a m a é p o c a s pré-históricas c o m o a era glacial.

DESCOBERTA DA OBRA
As páginas indicadas r e m e t e m a o texto publicado e m S. Freud (1985a [1915]), "Vue d ' e n s e m b l e sur les
névroses d e transferi, U m essai m é t a p s y c h o l o g i q u e " , edição bilíngue d e u m manuscrito e n c o n t r a d o e edita-
d o por I. Grubrich-Simitis, trad. R Lacoste, s e g u i d o d e " C o m m e n t a i r e s " d e I. Grubrich-Simitis e R Lacoste,
Paris, Gallimard-NRF, 1986 [as páginas indicadas entre colchetes remetem às OCF.R XIII, p. 279-300].

A p r i m e i r a parte d otexto, escrito e m u m r o s e s : "Porém, temos a impressão aqui de que a his-


e s t i l o telegráfico, é u m b r e v e a p a n h a d o d o s tória do desenvolvimento da libido repete uma
p r i n c i p a i s m e c a n i s m o s e m j o g o n a s três "neu- sequência muito mais antiga do desenvolvimento
roses de transferência": h i s t e r i a d e angústia, h i s - (filogenético) do que a história do desenvolvimento
t e r i a d e conversão e n e u r o s e o b s e s s i v a . F r e u d do ego (...) a primeira possivelmente repete as con-
e v o c a o p a p e l d a repressão, d o c o n t r a - i n v e s t i - dições de desenvolvimento da ramificação dos verte-
m e n t o , d a formação d e s u b s t i t u t o e d e s i n t o - brados, enquanto que a segunda é subordinada à
m a , etc. A s e g u n d a p a r t e d oe n s a i o s e d i s t a n - História da espécie humana" ( p . 3 0 - 3 1 ( p . [290])).
c i a d o c o n t e ú d o a n u n c i a d o p e l o título, p o i s A s s i m , F r e u d s ei n d a g a sobre o i m p a c t o q u e o s
Freud desenvolve alimais d o q u ee m qualquer traumatismos sofridos pelos h o m e n s n o s tem-
o u t r a p a r t e s u a h i p ó t e s e filogenética, q u e e l e p o s originários p o d e r i a m t e r s o b r e a s n e u r o s e s ,
c h a m a à s v e z e s d e s u a "fantasia" filogenética. j u n t a m e n t e c o m f a t o r e s l i g a d o s à pulsão. P o r
Essa parte f o iredigida quase inteira, a o con- e x e m p l o , e l e p e n s a q u e " ( . . . ) algumas crianças
trário d a p r i m e i r a . F r e u d p r o c u r a e s t a b e l e c e r trazem ao nascer a ansiedade que vem do início da
alguns paralelos entre os fatores n a o r i g e m das era glacial e que essa ansiedade induz essas crianças
n e u r o s e s - t a n t o a s n e u r o s e s d e transferência desde cedo a tratar a libido insatisfeita como um pe-
c o m o a s n e u r o s e s narcísicas - e a história d o rigo externo" ( p . 3 5 ( p . [293])). F r e u d t a m b é m
desenvolvimento d ahumanidade, referindo- r e t o m a nesse texto a tese d o assassinato d op a i
se n oc a s o a u m t r a b a l h o p r e c u r s o r d e S . originário p e l a h o r d a p r i m i t i v a , c o n s i d e r a n d o
Ferenczi (1913) sobre esse t e m a . F r e u d revela esse e v e n t o c o m o a o r i g e m d os e n t i m e n t o d e
q u e a i n d a não e x i s t e u m o u t r o m e i o d e p e s q u i - c u l p a e d a civilização, t e m a já p r e s e n t e e m
s a q u e não s e j a p a r t i r d a observação d a s n e u - Totem e tabu e m 1 9 1 2 - 1 9 1 3 .
Ler Freud 173

• LIÇÕES DE INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE (191 1-1917a [ 1 9 1 5 - 1 9 1 6 ] )

D u r a n t e o si n v e r n o s d e1915-1916 e 1916- F r e u d . V i s t o q u e Lições de introdução f a z u m a r e -


1 9 1 7 , F r e u d f a z u m a série d e conferências q u e capitulação d o e s s e n c i a l d a s contribuições d a
a t r a e m u m público considerável e q u e serão psicanálise d e s d e s u a s o r i g e n s até 1 9 1 5 , d e i x e i
p u b l i c a d a s e m Lições de introdução à psicanálise. d e a p r e s e n t a r e s s a o b r a c u j o conteúdo s e s o b r e -
E s s a o b r a , e s c r i t a e m u m e s t i l o oratório, c o n t é m põe e m g r a n d e p a r t e a o d e o u t r a s o b r a s já a b o r -
n u m e r o s o s c a s o s e e x e m p l o s clínicos d e m o n s - d a d a s a q u i , c o m exceção d e a l g u n s acréscimos
t r a t i v o s . L o g o s e t o r n a u m g r a n d e s u c e s s o e é, que t r a z e m esclarecimentos sobre alguns p o n -
s e m dúvida, j u n t o c o m Sobre a psicopatologia da t o s d e i n t e r e s s e d e e x e g e t a s , m a s não c o n c e i t o s
vida cotidiana ( 1 9 0 1 b ) , a o b r a m a i s d i f u n d i d a d e psicanalíticos v e r d a d e i r a m e n t e n o v o s .

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Afetos - ambivalência - imor - auto-recriminações - consciência - crítica, crítica d o ego - luto normal - depressão -
luto p a t o l ó g i c o - ó d k - identificação c o m o o b j e t o p e r d i d o - identificação narcísica - i n c o n s c i e n t e -
incorporação - introjeçã > - linguagem de órgão - mania - masoquismo - melancolia (depressão) - metapsicologia -
"ego d e prazer purifica io" - filogênese - pré-consciente - pulsões - pulsões d o ego - pulsões originárias -
repressão - regress; o temporal - regressão tópica - derivado d o inconsciente - representação -
representante-represen ação - representação d e coisa - representação d e palavra - sadismo - sentimentos -
sentimento de culpabili< lade - s i m b o l i s m o
1<n

"HISTORIA DE UMA NEUROSE INFANTIL


(O HOMEM DOS LOBOS)"
S. FREUD (1918b)

Zoom em uma cena primitiva, núcleo de uma neurose infantil

Essa narrativa apaixonante constitui o rela- F r e u d i n t e r p r e t o u e s s e s o n h o c o m o a reativação


t o d o t r a t a m e n t o psicanalítico m a i s l o n g o q u e a posteriori d e u m a c e n a originária - u m c o i t o a
t e m o s d e F r e u d . T r a t a - s e d a análise d e u m j o - tergo e n t r e s e u s p a i s - q u e e l e a s s i s t i u c o m 1
v e m d e 2 3 a n o s a c o m e t i d o p o r distúrbios psí- a n o e m e i o . P r o s s e g u i n d o s u a investigação,
q u i c o s g r a v e s e s u p o s t a m e n t e incuráveis, q u e Freud examina e m planos aproximativos su-
F r e u d considerou c o m o c o m p l e t a m e n t e resta- c e s s i v o s a s múltiplas f a c e t a s d e s s a c e n a e t e r -
b e l e c i d o após q u a t r o a n o s e m e i o d e u m t r a t a - m i n a c o m u m p l a n o geral n oencontro entre
m e n t o b a s t a n t e difícil. E m s e u r e l a t o , F r e u d f a l a criança e p ê n i s d o p a i n o v e n t r e d a m ã e . E l e
p o u c o d a transferência, m a s o q u e e l e e s c r e v e f a z d e s s a c e n a originária, t a l c o m o e l a a p a r e c e
a F e r e n c z i n o início d a c u r a d i z m u i t o s o b r e a n a s f a n t a s i a s i n c o n s c i e n t e s d a criança, o p o n t o
v i o l ê n c i a d a transferência n e g a t i v a q u e e n f r e n - d e p a r t i d a d a s perturbações q u e condicionarão
t o u : "Um rico jovem russo, que recebi por causa de posteriormente a neurose d o j o v e m a ose tor-
uma paixão amorosa compulsiva, confessou, após a nar adulto. Analisando de forma minuciosa as
primeira sessão, as seguintes transferências: judeu teorias sexuais d eSerguei, F r e u d evidencia o
escroque, ele adoraria me pegar por trás e cagar na c o n f l i t o e n t r e a s tendências p a s s i v a s f e m i n i n a s
minha cabeça" ( F r e u d a F e r e n c z i , c a r t a d e 1 3 d e d o m e n i n o , c o r r e s p o n d e n t e s a oc o m p l e x o d e
f e v e r e i r o d e 1 9 1 0 ) . E m b o r a o s a s p e c t o s psicóti- É d i p o i n v e r t i d o , e s u a s tendências m a s c u l i n a s ,
c o s d a p e r s o n a l i d a d e d e S e r g e i não l h e t e n h a m c o r r e s p o n d e n t e s a o c o m p l e x o d e Édipo p o s i t i -
escapado, F r e u d focaliza seu relato essencial- v o o u d i r e t o . E s s a s tendências m a s c u l i n a s , d e -
m e n t e na neurose infantil, preocupado e m de- p o i s d e t e r e m s i d o e l a b o r a d a s , acabarão p o r s e
m o n s t r a r através d e s s e c a s o q u e a n e u r o s e d o s o b r e p o r à s tendências h o m o s s e x u a i s i n c o n s -
a d u l t o está f u n d a d a e m u m a n e u r o s e i n f a n t i l , cientes, l e v a n d o o paciente à cura. M a s n e m
e que a sexualidade desempenha u m papel p o r i s s o o s a s p e c t o s psicóticos d a p e r s o n a l i d a -
determinante nisso. Ele convida o leitor a de d eSerguei ficaram esquecidos. Eles reapa-
acompanhá-los a o l o n g o d e s u a s d e s c o b e r t a s , r e c e r a m e m 1926, q u a n d o de u m a d e s c o m p e n -
e x p l o r a n d o o p a s s a d o d eS e r g e i c a m a d a p o r sação hipocondríaca d e l i r a n t e , m a s f o i possí-
camada. v e l e l a b o r a r e s s a s tendências e m u m a o u t r a
E l e começa c o m u m p l a n o panorâmico d o s análise c o m R u t h M a c k - B r u n s w i c k , e o d o e n t e
p r o t a g o n i s t a s d e várias c e n a s d e s e d u ç ã o d a - se r e s t a b e l e c e u n o v a m e n t e . N o e n t a n t o , S e r g u e i
t a d a s d e s u a infância, q u e l e v a m o p a c i e n t e a p e r m a n e c e u i d e n t i f i c a d o até o f i m d e s u a v i d a
s e l e m b r a r d e u m s o n h o d e angústia fóbica, o c o m o " of a m o s o paciente d eF r e u d " , m a i s co-
famoso sonho dos lobos que teve c o m 4 anos. nhecido pelo n o m e d e" H o m e m dos Lobos".
176 Jean-Michel Quinodoz

0 BIOGRAFIAS E HISTÓRIA

Sergei C o n s t a n t i n o v i t c h Pankejeff (1887-1979) c h a m a d o d e " H o m e m d o s L o b o s "


A primeira análise com Freud
Sergei C o n s t a n t i n o v i t c h Pankejeff, q u e será c o n h e c i d o mais tarde c o m o H o m e m d o s L o b o s , t i n h a 23 a n o s
q u a n d o foi se c o n s u l t a r c o m Freud pela primeira vez, e m janeiro d e 1910. Esse j o v e m , q u e p e r t e n c i a a u m a
família aristocrática r u s s a m u i t o rica, era u m c a s o s e m e s p e r a n ç a . A afecção q u e m o t i v o u s u a consulta
havia c o m e ç a d o a l g u n s a n o s antes c o m u m a d e p r e s s ã o , s e g u i d a d e u m a b l e n o r r a g i a c o n t r a í d a aos 18
anos. S u a d e p r e s s ã o se agravara s u c e s s i v a m e n t e c o m o suicídio d e s e u pai e m 1906 e o d e s u a irmã A n n a ,
q u e tinha u m p a p e l m u i t o i m p o r t a n t e e m s u a vida, e m 1908. S u a d o e n ç a psíquica o t o r n a v a d e p e n d e n t e e
incapaz a p o n t o d e n ã o se d e s l o c a r s o z i n h o , m a s s ó a c o m p a n h a d o d e u m c r i a d o e d e s e u m é d i c o pessoal.
Havia c o n s u l t a d o e m v ã o os mais e m i n e n t e s psiquiatras d a é p o c a e fora internado várias v e z e s e m h o s p i -
tais psiquiátricos n a A l e m a n h a . Freud iniciou d e imediato s u a análise e m fevereiro d e 1910, r e c e b e n d o - o
c i n c o vezes p o r s e m a n a d u r a n t e q u a t r o a n o s e m e i o . A análise t e r m i n o u n o s m ê s d e j u l h o d e 1914, prazo
q u e foi f i x a d o a n t e c i p a d a m e n t e p o r F r e u d . A l g u n s dias d e p o i s s e u t é r m i n o , e c l o d i u a Primeira Guerra
Mundial. S e r g e i v o l t o u p a r a c a s a e m O d e s s a , c a s o u - s e c o m Teresa e c o n c l u i u s e u c u r s o d e direito. Freud
c o n s i d e r o u q u e a c u r a d o paciente foi c o m p l e t a .

A serviço de uma demonstração brilhante


Satisfeito c o m esse êxito terapêutico, Freud redigiu o relato dessa cura e m n o v e m b r o e d e z e m b r o d e 1914,
centrando s u a narrativa unicamente na neurose infantil d o paciente e no papel pela sexualidade; ele renun-
ciou explicitamente a escrever s u a história c o m p l e t a : "Apenas essa neurose infantil será objeto de minhas
comunicações", escreve ele d e início (p. 6 [6]). Por q u e essa escolha? Porque Freud pretendia fazer desse
caso u m a d e m o n s t r a ç ã o e m a p o i o às suas hipóteses. Ele queria oferecer a prova d a eficácia d a psicanálise
aos olhos d e s e u s detratores, e visava os psiquiatras q u e haviam c o n s i d e r a d o o c a s o d e S e r g e i s e m esperan-
ça, particularmente T h e o d o r Ziehen, d e Berlim, e Emil Kraepelin, d e Munique, q u e figuravam entre os mais
eminentes d a é p o c a . A l é m disso, Freud queria demonstrar a alguns d e seus discípulos q u e d u v i d a v a m disso
o papel d e t e r m i n a n t e d e s e m p e n h a d o pela neurose infantil e pela sexualidade no adulto neurótico. Visava
aqui tanto a J u n g q u a n t o a Adler, q u e d i s c o r d a v a m desse p o n t o c o n s i d e r a d o f u n d a m e n t a l por Freud.

O início das desgraças do Homem dos Lobos


A revolução b o l c h e v i q u e , q u e e c l o d i u e m 1917, arruinou c o m p l e t a m e n t e Sergei, q u e a b a n d o n o u a Rússia
c o m s u a m u l h e r p a r a se instalar e m Viena, o n d e viveu c o m dificuldades até o fim d a vida. D e p r i m i d o , s e m
recursos e s e m t r a b a l h o , ele v o l t o u a se consultar c o m Freud, q u e r e t o m o u a análise d e n o v e m b r o d e 1919
a fevereiro d e 1920. Ele a c a b o u c o n s e g u i n d o u m e m p r e g o m o d e s t o e m u m a e m p r e s a d e s e g u r o s ao
m e s m o t e m p o e m q u e recebia a p o i o financeiro d e Freud e seus c o l e g a s vienenses. M a s s u a s d e s g r a ç a s
não t e r m i n a r a m ali. E m c o n s e q u ê n c i a d e u m a d e s c o m p e n s a ç ã o q u e a p a r e c e u e m 1926 s o b a f o r m a d e
u m a p a r a n ó i a a g u d a , foi e n c a m i n h a d o por Freud a u m a d e suas alunas q u e se interessava p e l a psicanálise
das p s i c o s e s , Ruth M a c k - B r u n s w i c k , q u e tratou dele (ver o Q u a d r o " P ó s - f r e u d i a n o s " ) .

DESCOBERTA DA OBRA
As p á g i n a s i n d i c a d a s r e m e t e m ao texto p u b l i c a d o e m S. Freud (1918b [1914]), "Extraits d ' u n e névrose
infantile ( U H o m m e aux l o u p s " , trad. M. B o n a p a r t e e R. Loewenstein, in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
1954, p. 325-420 [as páginas indicadas entre colchetes remetem às OCF.R XIII, p. 1-118].

Um tratamento de longa duração, cujo psiquiatras diagnosticaram u m a "loucura m a -


término foi fixado por antecipação níaco-depressiva", j u l g a n d o - o incurável. P o r
não e n c o n t r a r e l e m e n t o s q u e c o n f i r m a s s e m
E m s e u preâmbulo, F r e u d n o s o f e r e c e a l - e s s e diagnóstico, F r e u d d e d u z a posteriori q u e
g u m a s reflexões r e t r o s p e c t i v a s . D e s t a c a i n i c i a l - o doente sofria, n averdade, d e u m a neurose
m e n t e o desafio q u e f o i p a r a ele a s s u m i r o tra- o b s e s s i v a q u e s u r g i u n a infância e d e s a p a r e -
t a m e n t o d e u m d o e n t e tão g r a v e , e m q u e m o s c e u p o r v o l t a d o s 8 a n o s , d e m o d o q u e e l e pôde
Ler Freud 177

l e v a r u m a v i d a n o r m a l até o s 1 8 a n o s , q u a n d o
c o m e ç o u a afecção a t u a l . F r e u d e s c l a r e c e d e d e u m a n e u r o s e infantil
início q u e centrará s u a a t e n ç ã o u n i c a m e n t e n a
neurose infantil, renunciando a descrever a F r e u d c o m e ç a p o r d e s c r e v e r a situação t a l
d o e n ç a e m s e u c o n j u n t o : "Assim, minha exposi- c o m o f o i l h e a p r e s e n t a d a p e l o p a c i e n t e n o início
ção será de uma neurose infantil, analisada não en- d a c u r a , r e s u m i n d o a doença i n f a n t i l e s i t u a n d o
quanto ela estava em curso, mas apenas quinze anos o s p r i n c i p a i s p r o t a g o n i s t a s . E l e procederá d e s -
após sua resolução" ( p . 3 2 6 16]). sa m a n e i r a a o l o n g o d e t o d o relato, d e m a n e i r a
Essa cura, que d u r o u quatro anos e m e i o e a nos p e r m i t i r compartilhar suas descobertas,
t e r m i n o u c o m êxito, m e r e c e d a p a r t e d e F r e u d etapa p o r etapa, m a n t e n d o o suspense. F r e u d
d u a s i m p o r t a n t e s o b s e r v a ç õ e s d e o r d e m téc- f i c o u s a b e n d o q u e o j o v e m v i v e r a até o s 5 a n o s
n i c a . A p r i m e i r a d i z r e s p e i t o à duração d o t r a - de idade e m u m a suntuosa propriedade n o cam-
t a m e n t o psicanalítico, q u e é n e c e s s a r i a m e n t e p o c o m s e u s p a i s e s u a irmã A n n a , d o i s a n o s
p r o p o r c i o n a l à g r a v i d a d e : "Só entenderemos o m a i s v e l h a d o q u e e l e , e d e p o i s a família s e m u -
novo mediante análises que apresentam dificulda- d o u para a cidade. Seu pai era depressivo e sua
des particulares, dificuldades que exigem portanto mãe t i n h a u m a n a t u r e z a d o e n t i a , o q u e o p a c i e n -
muito mais tempo para superar. Apenas nesses ca- t e s ó p e r c e b e u d u r a n t e a análise. E l e s e l e m b r o u
sos conseguiremos descer às camadas mais profun- também d e u m a e m p r e g a d a q u e c u i d a v a d e l e
das e mais primitivas da evolução psíquica e en- c o m carinho durante seus primeiros anos d e
contrar as soluções de problemas que nos propõem vida, chamada Nania.
as formações posteriores" ( p . 3 2 7 [7]). N o f i m d a s O p r i m e i r o incidente significativo que cha-
c o n t a s , a paciência d o p s i c a n a l i s t a é r e c o m - m o u a atenção d e F r e u d f o i u m a súbita m u d a n -
p e n s a d a a s s i m p e l a s revelações q u e o p a c i e n - ça d e caráter o c o r r i d a n o m e n i n o q u a n d o e l e t i -
t e a c a b a f a z e n d o : "Por isso, afirma-se que, estri- n h a 3 a n o s e m e i o . A t é então, t i n h a s i d o u m a
tamente falando, apenas uma análise que tenha pe- criança m u i t o d o c e , e d e p o i s s e t o r n o u irritável,
netrado tão fundo merece esse nome" ( p . 3 2 7 - 3 2 8 v i o l e n t o e m e s m o sádico e m relação a o s e u cír-
[8]). A s e g u n d a o b s e r v a ç ã o t é c n i c a d i z r e s p e i - c u l o e e m relação a o s a n i m a i s , m u d a n ç a q u e
t o à n e c e s s i d a d e q u e F r e u d s e impôs d e f i x a r coincidiu c o m a chegada d eu m a governanta
u m término p a r a e s s a análise, o q u e n ã o é u m i n g l e s a . U m a s e g u n d a mudança o c o r r e u p o r
p r o c e d i m e n t o u s u a l ; ele estava i m p r e s s i o n a - v o l t a d o s 5 a n o s : a criança a p r e s e n t o u s i n t o m a s
d o c o m a f a l t a d e participação d o p a c i e n t e : "Ele d e angústia e f o b i a s , a n t e s d e t u d o o m e d o d e
escutava, compreendia - e não se permitia uma s e r d e v o r a d o p o r u m l o b o , m e d o q u e s u a irmã
aproximação maior" ( p . 3 2 8 19]), d e m o d o q u e e x p l o r a v a , e m e d o também d e l a g a r t a s e d e o u -
"os primeiros anos da cura só levaram a uma mu- tros animais. F i n a l m e n t e , u m a terceira m u d a n -
dança insignificante" ( p . 3 2 8 [8]). F r e u d a r r i s - ça s o b r e v e i o q u a n d o o s s i n t o m a s fóbicos f o r a m
c o u - s e , então, a f i x a r c o m u m a n o d e a n t e c e - substituídos p o r manifestações d e u m a n e u r o s e
dência a d a t a d o f i m d a c u r a e não a b r i u m ã o o b s e s s i v a d e conteúdo r e l i g i o s o , a c o m p a n h a d a s
d a decisão. E l e t e v e o p r a z e r d e c o n s t a t a r q u e d e r i t u a i s d epreces q u e s ea l t e r n a v a m c o m i n -
a p r o x i m i d a d e d o p r a z o f e z c e d e r a resistên- júrias c o n t r a D e u s . C o n t u d o , a s obsessões d i m i -
c i a : "(...) e a análise ofereceu então em um curto nuíram e s p o n t a n e a m e n t e , e p o r v o l t a d o s 8 a n o s
período de tempo, desproporcional ao seu ritmo d e s a p a r e c e r a m , d e m o d o q u e a criança p o d e
anterior, todo o material necessário para curar as l e v a r u m a v i d a q u a s e n o r m a l . F r e u d propõe-se
inibições e suprimir os sintomas do paciente" ( p . a s s i m a d e s c r e v e r u n i c a m e n t e a análise d e s s a
3 2 9 [9]). F r e u d m o s t r a o q u a n t o e l e p r ó p r i o neurose infantil.
f i c o u s u r p r e s o c o m o êxito o b t i d o , e d i z c o m -
p r e e n d e r a i n c r e d u l i d a d e d o s l e i t o r e s q u e não
O efeito d o m i n ó d e u m a c e n a d e s e d u ç ã o
t i v e r a m a o p o r t u n i d a d e d econhecer pessoal-
m e n t e e s s a experiência, única m a n e i r a d e s e V i s t o q u e a p r i m e i r a m u d a n ç a d e caráter
convencer disso. do menino coincidiu com a chegada da gover-
178 J e a n - M i c h e l Quinodoz

nanta inglesa, a ssuspeitas d e F r e u d logo se t o , F r e u d a l e r t a p a i s e e d u c a d o r e s p a r a q u e não


d i r i g i r a m a e l a . D u a s lembranças q u e v i e r a m à c a i a m n a a r m a d i l h a lançada p o r c e r t a s c r i a n -
cabeça d o p a c i e n t e p a r e c i a m c o n f i r m a r a h i p ó - ças c u j o s distúrbios d e c o m p o r t a m e n t o o c u l -
t e s e d e u m a sedução p r e c o c e . A p r i m e i r a l e m - t a m às v e z e s u m d e s e j o i n c o n s c i e