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03/11/2017 Homens negros intelectuais: paradoxos e potências

Henrique Restier da Costa Souza


Sociólogo

Segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Homens negros intelectuais: paradoxos e


potências
1

Abdias do Nascimento. Foto: Reprodução

Eu queria algo que saísse do paradigma das expectativas.[1]

Este texto se debruça sobre um personagem de grande complexidade na paisagem social brasileira: o homem
negro intelectual. Definindo-o aqui, como aquele intelectual considerado negro (por si próprio e pela
sociedade) que influenciado direta ou indiretamente pela luta antirracista, em suas diversas modalidades,
vincula sua atividade acadêmica com a produção de um conhecimento científico comprometido com a
emancipação de seu grupo sócio-racial e, por conseguinte, de toda a sociedade brasileira.

É desse lugar que humilde e orgulhosamente parto para as reflexões aqui propostas. Evidentemente existem
outras maneiras de ser um intelectual negro, e todas elas devem ser respeitadas (pelo menos a grande

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maioria), entretanto esse texto é dedicado a esses homens.

Leia também:

O mal-estar da masculinidade negra contemporânea

Como é ser um homem negro no Brasil?

Minha proposta é pensar os homens negros na educação, sua intelectualidade e relações com as instituições
de ensino brasileiras. Historicamente a população negra enfrentou (e continua enfrentando) graves
dificuldades para se inserir no sistema educacional: analfabetismo, repetência, expulsão, evasão escolar e
baixo rendimento são alguns dos fenômenos que atingem a população negra, sobretudo os homens negros.

É importante nos perguntarmos: quais seriam os processos estruturais e cotidianos, que comprometeriam o
desempenho desses homens nessas instituições?

O homem negro e a educação

Os homens negros são o grupo sócio-racial menos escolarizado, temos um ingresso mais tardio na rede de
ensino, uma saída mais precoce, um nível de aproveitamento ruim, acentuada distorção série-idade, assim
como um baixo retorno aos bancos escolares em idade adiantada[2]. Além disso, possuímos baixíssimos
índices de acesso ao ensino superior na graduação e na pós-graduação.

Uma das possíveis respostas para esse fenômeno seria a sequência de mecanismos discriminatórios
mobilizados quando um menino negro entra na escola e lá permanece. Discursos subalternizantes da história,
cultura e estética africana e afro-brasileira em sala de aula, material didático com imagens estereotipadas de
homens e mulheres negras, aliados à maior rigidez, desinteresse e insensibilidade do corpo administrativo ao
lidar com esse menino, constituem-se como um “método” para o fracasso educacional desse grupo. Quando
não, o simples e cru xingamento racial se torna uma eficiente ferramenta para imobilizar seu alvo nos
momentos das desavenças e competições.

Essas experiências procuram abalar as propriedades psíquicas dos homens negros em suas reações à
discriminação, através de um processo de “socialização subalternizada”. O que pode gerar, em parte do
grupo, uma baixa expectativa sobre si próprio, com projetos e sonhos apequenados para de alguma forma se
adaptar aos estereótipos racistas, reforçando papéis e funções sociais com escasso prestígio, baixo retorno
financeiro e fragilidade de negociação diante do mercado. Havendo, com isso, grandes possibilidades de se
tornarem em algum momento de sua trajetória uma caricatura de si mesmos, criada pelo imaginário branco
de direita, centro ou esquerda.

Fanon sentencia ‘Precisamos ter a coragem de dizer: é o racista que cria o inferiorizado’[3].

Homens negros tendem a ser vistos como pouco promissores socialmente falando. É como se não valesse a
pena o investimento em nossa educação e preparação para uma trajetória profissional repleta de desafios,
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possibilidades e recompensas. A maneira mais usual de lidar conosco é através de uma perspectiva
ideológica e institucional, de receio, contenção e negligência, tendo como combustível a noção de
“desajustado social”, marcante no imaginário brasileiro.

O estereótipo do homem negro rude e ignorante

Não é coincidência que parte considerável de nós desempenha atividades braçais, repetitivas e perigosas, de
pouco status social e valor agregado, como: operários, pequenos trabalhadores rurais, seguranças, policiais
de baixa patente, etc. Vale ressaltar que não há nenhum problema no exercício dessas funções, tão legítimas
quanto qualquer outra e que alimentam milhares de famílias negras pelo país afora, mas sim, no
confinamento dos homens negros nelas, já que as profissões intelectualizadas são vistas como impróprias
para nós, “… lógica que é o motor dinâmico do racismo tal como praticado no Brasil.” (PAIXÃO, 2008,
p.87). Reafirmando incessantemente uma espécie de divisão masculina-racial do trabalho.

Os cientistas sociais Mônica Conrado e Alan Ribeiro, comentando um dos atributos do arquétipo do ghetto
gangsta boy pensado por bell hooks, afirmam que o anti-intelectualismo expressaria um aspecto
estereotipado da masculinidade negra, vinculando-o à conduta do homem negro autêntico[4]. Levando
aqueles inseridos nessa lógica, a “dispensar o trabalho intelectual e minimizar a importância da educação
escolar”.

Nesse sentido, a simples existência de homens negros intelectuais seria uma afronta a esse modelo fechado,
por outro lado, uma referência positiva para jovens negros.

O homem negro e a Academia

A cientista social Nilma Lino Gomes sugere que:

“A entrada dos “diferentes” como produtores de ciência e a chegada dos “ex-objetos” ao mundo da
pesquisa acadêmica configuram um novo campo de tensão epistemológica e política”[5].

O acesso de estudantes negros nas universidades apresentaria consistentes probabilidades de dinamizar o


meio acadêmico, não só com uma maior diversidade étnico-racial, mas potencializando a pluralidade de
visões de mundo e ideias, ou seja, uma produção que pode formar “novos sujeitos, subjetividades e
sociabilidades e superar o epistemicídio…”.

As experiências heterogêneas vivenciadas pelos homens negros, associadas a um arcabouço teórico que
incorpore reflexões para além do cânone acadêmico (eurocêntrico), podem oferecer ângulos inusitados para a
produção de um conhecimento que abandone explicações viciadas e obsoletas sobre si e seu grupo sócio-
racial. Para isso, dedicação, sacrifícios e sinceridade são inegociáveis.

A autonomia intelectual dos homens negros é perigosa.

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Intelectuais do porte de Milton Santos, Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos vivenciaram a


experiência de serem invisibilizados, exilados e preteridos, com suas produções acadêmicas sendo pouco
reconhecidas pelas instituições nacionais. Isso é uma estratégia de matá-los intelectualmente. Nesse caso,
quem deve reconhecê-los somos nós.

A universidade se configura por interações sociais, muitas das vezes danosas para o empreendimento de uma
masculinidade negra positiva. Mas afinal, que instituição não é? Mesmo assim, também é um espaço de
acolhimento, respeito e aprendizado. Aguçando o espírito crítico, sem deslumbramentos e respaldado em
exemplos de intelectuais negros (e não-negros) generosos, inteligentes e bem sucedidos, é possível
desenvolver atributos afirmativos do masculino negro enfatizando

“… Os valores de dignidade, coragem e constância, assim como o princípio de respeito pela


comunidade, e pelos mais velhos em particular.”[6]

A psiquiatra afro-norte-americana Frances Cress Wellsing sustenta que:

“O sistema social racista pode sobreviver apenas se a masculinidade negra for destruída. Ele
constantemente removeu fortes imagens masculinas pretas como aquelas apresentadas por Malcolm X e
Martin Luther King, Jr.”[7].

Isto é, ao contrariar estigmas racistas, homens negros fisicamente fortes, intelectualmente sofisticados e
bem–resolvidos politicamente, desestruturam o status quo masculino branco, logo, de todo o sistema.

Por tudo isso, saúdo todos aqueles que, inseridos ou não na academia, independente das inúmeras barreiras
que o racismo impõe, buscam, à sua maneira e dentro dos seus limites, disseminar e valorizar os
conhecimentos do povo negro, manuseando seu capital simbólico, científico e político para tal.

Vocês honram nossos ancestrais, os “… primeiros humanos, que inventaram a posição ereta, a palavra, a
arte, a religião, o fogo, os primeiros utensílios, os primeiros habitats, as primeiras culturas…” [8]. Somos
intelectuais há milênios.

Um salve especial para o intelectual negro, professor Doutor Wilson Prudente.

Henrique Restier da Costa Souza é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense
(UFF), Mestre em Relações Étnico-raciais pelo Centro Federal Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ) e
Doutorando em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP/UERJ).

[1] Frase do astrofísico afro-norte-americano Neil Degrasse Tyson.

[2] PAIXÃO, Marcelo. A Dialética do Bom Aluno. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2008.

[3] FANON, Frantz. Pele Negra Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

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