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Xenofonte

Hierão ou o Tratado sobre a Tirania

I1.— O poeta Simonide estava de visita um dia na casa do tirano Hierão. Como estavam
ambos descansando [ócio?], Simonide lhe disse: “Hierão, dignar-te-ias a me expor em
detalhe uma questão que, naturalmente, conheces melhor do que eu? — E qual é esta
questão, disse Hierão, que em verdade eu poderia conhecer melhor que tu, um homem tão
sábio? 2. — Eu sei, quanto a mim, disse Simonide, que tu fostes um simples particular e
que agora és um tirano; é pois natural que, tendo a experiência das duas condições, saibas
por isso, melhor que eu, qual diferença há entre a vida do tirano e aquela de um simples
particular no que concerne aos prazeres e às penas que resultam para sua pessoa. 3. — Por
que então, de seu lado, disse Hierão, pois ainda agora és um simples particular, antes não me
recordas o que acontece na vida de um particular. Pois assim penso que eu poderia muito
bem, quanto a mim, mostrar-te as diferenças entre uma e outra condição. 4. — Simonide
falou, então, nestes termos: “Os particulares, por certo — creio, Hierão, havê-lo notado
quanto a mim — recebem prazer ou dor, dos espetáculos pelos olhos, dos sons pelos
ouvidos, dos odores pelo nariz, dos alimentos e das bebidas pela boca e do amor nós
sabemos todos evidentemente por onde. 5. — No que concerne ao frio, ao calor, à dureza, à
moleza, ao peso e à leveza, creio que é por todo o corpo, disse, que julgamos e
experimentamos seja o prazer, seja a dor. Quanto aos bens e aos males, é tanto apenas pela
alma, me parece, que experimentamos prazer e dor, quanto também pela alma e pelo corpo
ao mesmo tempo. 6. — Quanto ao sono, que nos cause prazer, creio perceber, mas como e
por onde e quando, sobre esta questão creio, disse, que sou antes ignorante. E sem dúvida
nada há nisso de surpreendente, pois o estado de vigília nos causa sensações mais claras que
o sono.”
7. — Hierão lhe respondeu então: “Pois bem, Simonide, de minha parte, além disso que
acabas de falar, eu não saberia mesmo dizer como o tirano poderia experimentar uma outra
sensação, de modo que, até agora ao menos, não sei se existe alguma diferença entre a vida
do tirano e a do particular.”
8. — Então Simonide lhe disse: “Pois bem, eis em que consiste esta diferença: o tirano
prova de prazeres bem maiores para cada um destes sentidos, enquanto que tem penas bem
mais fracas.” Então Hierão lhe disse: “Não é desse modo, Simonide, ao contrário, sabes
bem, os tiranos experimentam prazeres bem menores que os particulares que levam uma
existência sem excessos, enquanto que experimentam pesares bem mais numerosos e
maiores. 9. — É uma coisa inacreditável o que dizes, respondeu Simonide. Se, com efeito,
fosse assim, como haveria tantos aspirantes à tirania e isso entre as pessoas que passam
pelas mais capazes? Por que todos invejariam os tiranos? 10. — Por Zeus, disse Hierão,
porque é sem ter a experiência das duas realidades que se examina a questão. Por mim,
tratarei de te ensinar que digo a verdade começando pela visão, pois é por aí que também tu,
creio me lembrar, começaste teu discurso.
11. — “De início, com efeito, no que concerne aos espetáculos que nos proporcionam a
visão, quando reflito, acho que os tiranos estão em um estado de inferioridade. Existem, em
verdade, coisas, umas em um país e outras em um outro, que merecem ser vistas. Todas
estas coisas fazem com que os particulares se encontrem nas cidades onde querem, por
causa dos espetáculos e das grandes solenidades religiosas, em que o que mais parece
merecer ser visto reúne os espectadores. 12. — Os tiranos, eles, não se ocupam de maneira
alguma destas viagens de distração. Para eles, com efeito, não é seguro ir lá onde eles não
podem ser mais fortes que os assistentes e, em suas casas, seus negócios não são tão
solidamente estabelecidos para que eles possam confiá-los a outros e partir em viagem. Eles
têm, de fato, de temer, ao mesmo tempo, serem despojados do poder e de se encontrar
impotentes para se vingar daqueles que lhes tiverem feito dano. 13. — Sendo assim, tu
dirás talvez, por tua parte: “Mas, ao que parece, os prazeres deste tipo vêm aos tiranos,
mesmo quando eles permanecem em suas casas.” Sim, por Zeus, Simonide, mas eles vêm
em pequeno número, enquanto que existem muitos e, tais que são, se os vende caro aos
tiranos; ao ponto que aqueles que lhes fazem ver a menor bagatela têm a pretensão de as
dispensar após haver recebido em pouco tempo bem mais que recebem durante toda sua
vida do restante dos homens.”
14. — Então Simonide lhe respondeu: “Mas se, pelos espetáculos, vós estais em estado de
inferioridade, da parte do ouvido vós tendes certamente vantagem, porque isto que se ouve
como o maior prazer, a saber, o louvor, é uma coisa que a vós não falta jamais. Todo vosso
círculo, de fato, louva tudo o que vós dizeis e tudo o que vós fazeis. Ao contrário, o que há
de penoso a escutar, a saber, a injúria, vós não a escutais jamais. Ninguém, com efeito,
consente em desacreditar um tirano em sua presença.” 15. — Então Hierão lhe respondeu:
“E qual prazer, crês, fazem ao tirano aqueles que não falam mal dele quando sabe-se, de
uma maneira segura, que estas pessoas se calam nutrindo todos maus pensamentos com ele?
Ou ainda, qual prazer lhe fazem, pensas, aqueles que o louvam, quando ele supõe que lhe
endereçaram louvores por adulação?”.
16. — Então Simonide lhe respondeu: Por Zeus, Hierão, eis um ponto, por certo, que te
concedo inteiramente; são os louvores que vêm dos homens mais livres que são os mais
agradáveis; mas, vejas, há ao menos uma coisa de que tu não saberias mais persuadir a
nenhum homem: é que todos os alimentos dos quais nós, os outros homens, nos nutrimos
não nos causam tantos prazeres.”
17. — “Simonide, respondeu Hierão, eu sei em verdade o que faz com que a maior parte
das pessoas julgue que nós encontramos mais prazer que os particulares no beber e no
comer: eles imaginam que eles mesmos encontrariam mais prazer nas iguarias servidas em
nossas casas que naquelas servidas nas casas deles. É, de fato, o que sai do ordinário que
causa o prazer. 18. — Eis a razão que faz com que todos esperem com alegria pelos dias de
festa, à exceção dos tiranos. Suas mesas, de fato, sempre servidas com abundância, não
admitem, nos dias de festa, nenhum complemento. Assim, é a princípio por esta doçura da
espera que eles estão em um estado de inferioridade em relação aos particulares. 19. —
Logo, disse, eu bem sei que tua experiência a ti também ensina: quanto mais se faz servir
iguarias supérfluas, mais rápido sobrevém a saciedade da nutrição. Em conseqüência, para o
que é a duração do prazer igualmente, aquele que se faz servir de numerosas iguarias
encontra-se em um estado de inferioridade em relação àqueles que servem-se de um regime
sem excesso.”
20. — “Mas, por Zeus, disse Simonide, por tanto tempo quanto o apetite o permita, então o
prazer é bem maior para aqueles que se alimentam de festins custosos que para os que se
fazem servir de pratos simples. 21. — Não crês, Simonide, disse Hierão, que cada vez que
se obtém um imenso prazer de uma coisa, experimenta-se também por ela uma paixão
extrema. — Perfeitamente. — Vês pois que os tiranos tenham mais prazer em se aproximar
de iguarias que lhes são preparadas que o têm os particulares em se aproximar das suas? —
Não, por Zeus, longe disso; eu direi mesmo que eles têm mais desgosto, Segundo a
impressão que eles podem dar à maioria das pessoas. 22. — Pois bem! Percebestes pois,
disse Hierão, estes numerosos temperos que são servidos aos tiranos, relevés, picantes,
ácidos e outros do mesmo gênero? — Perfeitamente, disse Simonide, e me parecem, por
certo, inteiramente contrários à natureza humana. 23. — Crês pois, disse Hierão, que estes
pratos sejam outra coisa que os desejos de um gosto amolecido e corrompido? Eu sei bem,
com efeito, de minha parte, que as pessoas que comem com prazer — e o sabes, tu também,
sem dúvida — não têm nenhuma necessidade destes artifícios. 24. — Seguramente, disse
Simonide, por estas essências preciosas com as quais vós vos perfumais, aqueles que
aproximam-se de vós desfrutam, eu creio, mais que vós mesmos, exatamente como os
odores desagradáveis são sentidos, não por aquele que comeu os alimentos, mas mais por
aqueles que se aproximam. 25. —É inteiramente isso, continuou Hierão, e direi, para os
alimentos, que aquele que os tem sempre de todas as maneiras não recebe nenhum com
apetite; mas o que é privado de algum prato, é aquele que se sacia com contentamento
quando ele lhe se apresenta.
26. — São talvez, disse Simonide, os gozos amorosos que vos fazem aspirar à tirania, pois,
uma vez alcançado este estado, tudo o que vedes de mais belo tendes a possibilidade de vos
unir a ele.
27. — Tu acabas de indicar justamente, disse Hierão, o ponto sobre o qual, em verdade,
bem o sabes, nós estamos em estado de maior inferioridade em relação aos particulares. É a
princípio, com efeito, o casamento que se contrata em uma família mais rica e mais
poderosa que passa por ser o melhor e por causar ao noivo uma honra acompanhada de
prazer. O que vem a seguir é o casamento entre iguais. Quanto ao que se contrata em uma
família de condição mais baixa, é julgado inteiramente desprovido de honra e vantagens.
28. — Ora, a não ser que se case com uma estrangeira, o tirano deve necessariamente
contratar casamento em uma família que lhe é inferior, de maneira que, para ele, o
casamento não resulta de todo em satisfação. Por outro lado, os cuidados que vêm das
mulheres mais altivas são, em muito, os mais desagradáveis. Quanto aos que os escravos
proporcionam, quando se os recebe, eles não vos satisfazem de maneira alguma; mas, se
eles têm qualquer pequeno defeito, suscitam cóleras e desgostos violentos. 29. — Se se
trata de prazeres que os jovens proporcionam, o tirano gosta ainda menos dos gozos do que
se se trata dos prazeres voltados à procriação. Com efeito, os prazeres que se acompanham
do amor têm um charme todo particular, nós o sabemos todos, sem dúvida. 30. — Mas o
amor é o sentimento que menos consente se alojar no coração do tirano. Não é na procura
dos prazeres resignados que o amor encontra sua satisfação, mas na dos prazeres esperados.
Um homem que ignorasse a sede não saberia encontrar prazer em beber e do mesmo modo o
que ignora o amor ignora os mais doces gozos.”
31. — Tais foram pois as palavras de Hierão. Simonide se pôs a rir e lhe respondeu: “Que
dizes Hierão? Afirmas que o amor aos jovens não nasce na alma do tirano? Como se dá
contudo que tu ames Daïlochos, denominado o Muito Belo? 32. — Por Zeus, Simonide,
disse, o que eu mais desejo não é o favor resignado que penso obter dele, mas aquele que
cabe menos ao tirano conseguir. 33. — Quanto a mim, com efeito, vês, amo Daïlochos
precisamente por isso que a natureza constrange sem dúvida o homem a pedir aqueles que
são belos, mas é sua amizade e seu consentimento que desejo ardentemente obter. Quanto a
tomá-lo à força, creio que o desejaria menos que fazer mal a mim mesmo. 34. — Tomar,
com efeito, qualquer coisa ao inimigo contra sua vontade é, para mim, o que julgo ser o
mais agradável no mundo; mas, para os jovens, considero que os favores que eles concedem
voluntariamente são os mais doces. 35. — Por exemplo, quando o amado vos corresponde,
encontra-se doçura em seus olhares, doçura em suas perguntas, doçura em suas respostas, e
mesmo uma doçura e um charme extremos nas querelas e nas desavenças. 36. — Mas
usufruir dos jovens malgrado eles, acho, quanto a mim, que isso se parece mais com a
pirataria que com o amor. E ainda o pirata encontra um certo prazer em ter um proveito e em
afligir seu inimigo. Mas quando se ama alguém, se apraz a lhe afligir? Quando se tem afeto
por ele, se fazer detestar e importunar se o toca, não é desde então um infortúnio cruel e
deplorável? 37. — E, com efeito, o particular, por certo, tem de início a prova, quando o
amado tem algum ato de entrega a seus desejos, que é por afeição que ele lhe é agradável;
pois o particular sabe que o amado não cede a nenhum constrangimento; mas o tirano não
pode jamais crer que se tem afeição por ele. 38. — Nós sabemos de fato, tu vês, que
aqueles que cedem por temor imitam o mais que podem as complacências inspiradas pela
afeição. E, aliás, ninguém arma mais armadilhas aos tiranos que os que mais parecem amá-
lo.”

II

!. — Simonide lhe respondeu: “Pois bem! eu acho, quanto a mim, que é verdadeiramente
pouca coisa isso que disseste. Vejo, com efeito, quanto a mim, muitos que passam por serem
homens e que restringem para si, voluntariamente, o alimento, a bebida, os espetáculos e
mesmo abstém-se dos prazeres do amor. 2. — Mas eis, em todo caso, o que faz vossa
grande superioridade sobre os particulares: vós concebeis grandes projetos, vós os executais
rapidamente, vós tendes o supérfluo em abundância, vós possuís cavalos de uma qualidade
superior, armas de uma beleza superior, adornos extraordinários para vossas mulheres,
habitações completamente magníficas e ainda repletas de móveis os mais preciosos, vós
possuís, além disso, servidores distintos por seus caráteres e por seus talentos, vós sois os
mais capazes de fazer mal a vossos inimigos e de prestar serviço a vossos amigos.”
3. — Hierão lhe respondeu: “Pois bem, que a multidão se deixe iludir completamente pela
tirania, não me espanta de todo, pois me parece que é sobretudo de acordo com o que vê que
a turba julga se as pessoas são felizes ou infelizes. 4. — Ora, a tirania, quando se trata dos
bens aos quais se atribui um grande valor, as apresenta a todo mundo ostentadas para que se
as contemple; quanto às penas, é na alma dos tiranos que as tem escondidas, lá onde
precisamente residem a felicidade e a infelicidade dos homens. 5. — Assim portanto, que
este ponto escape à multidão, como eu disse, não me espanta. Mas que vós também o
ignore, vós que passais por ver a maior parte das coisas pela inteligência melhor que pelos
olhos, eis o que me parece surpreendente. 6. — Para mim, que fiz a experiência, eu bem
sei, Simonide, e te afirmo: os tiranos recebem a menor parte dos maiores bens e têm para
eles o maior número dos maiores males.
7. — “Se, por exemplo, a paz passa por ser um grande bem para a humanidade, são os
tiranos que a usufruem menos e se a guerra é um grande mal, são os tiranos que recebem a
maior parte dela. 8. — A princípio, com efeito, os particulares, a menos que seu país
inteiro esteja em guerra, têm a possibilidade de ir onde querem sem temor de serem mortos:
os tiranos, ao contrário, andam todos, em todo lugar, como em país inimigo. O que há [de
menos] seguro [certo] é que eles julgam necessário passar suas vidas em armas e levar
consigo sempre e por toda parte com eles outros homens que portam armas. 9. — Logo,
mesmo se acontece aos particulares de fazer uma expedição em país inimigo, ao menos
quando eles retornam às suas casas, pensam estar em segurança. Ao contrário, quando os
tiranos retornam ao seu país, é então que se sabem cercados do maior número de inimigos.
10. — Se, além disso, um inimigo superior em força ataca a cidade, as pessoas que, se
encontrando fora das muralhas, lhe são inferiores, se julgam em perigo, mas, ao menos, uma
vez no interior do cerco, pensam todos estar em segurança. Ao contrário, mesmo quando o
tirano penetrou no interior de sua habitação, não se encontra ao abrigo do perigo, mas é
então, tu vês, que crê dever se manter em maior vigilância. 11. — Logo, os particulares,
seja em conseqüência de uma trégua, seja em conseqüência de uma paz, vêem a guerra ter
fim para eles; os tiranos, ao contrário, não estão jamais em paz com aqueles que sofrem sua
tirania; jamais o tirano saberia se fiar em uma trégua e estar tranqüilo. 12. — Além disso,
há, tu vês, as guerras que se fazem os Estados e aquelas que os tiranos fazem aos povos
sujeitados pela força. Naturalmente, todos os inconvenientes que comporta a guerra entre
Estados existe também na guerra feita pelo tirano. 13. — Em um caso como em outro, com
efeito, é preciso estar em armas, se manter [-se] em vigilância e correr perigos; e se a derrota
ocasiona um infortúnio, é uma fonte de pesares para uns como para os outros. 14. — Até
aqui, portanto, estas duas espécies de guerra se equivalem. Mas as satisfações que têm os
que defendem sua cidade contra outras cidades não existem mais para os tiranos. 15. —
Quando, de fato, os cidadãos têm em uma batalha superioridade sobre seus adversários, não
é fácil exprimir a alegria que sentem em pôr os inimigos em fuga, sua alegria em lhes
perseguir, sua alegria em matar os inimigos, o orgulho que eles concebem de sua proeza, a
glória brilhante que retiram e o prazer que experimentam da idéia de haver aumentado o
poder de sua pátria. 16. — Cada um se dá o ar de ter participado da elaboração do plano e
de haver morto o maior número de inimigo e é difícil encontrar casos em que eles não vão
até a se atribuir falsamente alguma proeza e a pretender haver matado mais inimigos que
eles realmente mataram, tanto lhes parece belo alcançar uma grande vitória. 17. —
Quando, ao contrário, o tirano tem suspeitas sobre alguns ou, ainda, quando descobre que
eles conspiram realmente, e os faz morrer, ele está seguro de que não aumenta o poder do
Estado inteiro, sabe que diminuirá o número de seus súditos, não pode estar contente e não
se glorifica de seu ato, mas atenua tanto quanto possível o que ocorreu e, tout en agissant,
defende-se de haver cometido uma injustiça. Assim, ele mesmo julga que sua conduta não é
bela. 18. — Pois uma vez mortos todos aqueles que ele receava, longe de estar mais
tranqüilo, ele redobra as precauções. É, pois, uma guerra que o tirano sustenta sem cessar,
tal como eu a descrevo.
III

1. — “Quanto à amizade, em contrapartida, considere atentamente como os tiranos dela


participam. Mas, antes, a amizade é um grande bem para os homens? Examinemos este
ponto. 2. — Quando um homem é amado, aqueles que o amam têm prazer em vê-lo perto
deles e prazer em lhe fazer o bem; eles sentem saudade com sua ausência; é com grande
prazer que eles o acolhem em seu retorno; eles se regozijam todos com sua felicidade e vêm
todos em auxílio se o vêem cair em qualquer desgraça, não é verdade?
3. — Mesmo os Estados não ignoram, por certo, que a amizade é o maior bem e o mais
doce para a humanidade. O que é seguro, ao menos, é que os adúlteros são os únicos,
segundo o costume de um grande número de Estados, que são mortos impunemente, pela
razão, evidentemente, que se julga que eles destroem a afeição das mulheres por seus
maridos; 4. — pois, em verdade, quando uma mulher sofreu acidentalmente as atenções de
um outro homem, seu marido não a estima menos, se todavia lhe parece que sua afeição por
ele permaneceu intacta. 5. — Para mim, vejo como uma felicidade tão grande ser amado
que acho que os benefícios vêm realmente dos mesmos àquele que se ama e da parte dos
deuses e da parte dos homens.
6. — “E agora, este bem tão precioso é aquele do qual os tiranos são privados mais que
todos os homens. Se tu queres estar seguro, Simonide, de que digo a verdade, considere as
coisas assim. 7. — As afeições mais sólidas são aquelas dos pais por seus filhos, dos filhos
por seus pais, dos irmãos por seus irmãos, das mulheres por seus maridos e dos camaradas
por seus camaradas, não é verdade? 8. — Pois bem, pois se queres refletir, acharás que
estas afeições são as mais fortes nos particulares; mas entre os tiranos tu acharás muitos que
fizeram matar seus filhos e muitos que foram mortos por seus filhos; muitos irmãos que
mataram-se uns aos outros pela tirania, muitos tiranos também que pereceram vítimas de
sua própria mulher ou de camaradas pelos quais, por certo, acreditavam-se muito amados.
Assim sendo, como aqueles que são odiados a este ponto pelas pessoas que a natureza
ordena e que a lei obriga a mais amar devem crer que alguma outra os ame?

IV

1. — Por outro lado, como aquele que conhece tão pouco a confiança não é desfavorecido
em relação a um grande bem? Qual sociedade, com efeito, é agradável sem confiança
mútua? Qual intimidade tem charme para o marido e para a mulher sem confiança? Qual
servidor é agradável quando se desconfia dele? 2. — Pois bem, portanto, estas relações de
confiança com as pessoas são uma coisa da qual o tirano participa muito pouco. Ele vive,
com efeito, sem ter confiança em seus alimentos e em suas bebidas, longe disso: antes
mesmo de oferecer as primícias aos deuses ele ordena a seus servidores de prová-las antes,
porque ele desconfia e teme encontrar algum veneno, mesmo no que come e no que bebe.
3. — Por outro lado, a pátria, ela também, é para os outros homens muito preciosa. Os
concidadãos protegem-se, sem soldo, contra os escravos e protegem-se contra os malfeitores
para que nenhum cidadão morra de morte violenta. 4. — Foi-se tão longe na via das
precauções que, na maioria dos países, uma lei foi estabelecida nos termos da qual aquele
mesmo que freqüenta um assassino não deve ser tido por puro. Assim, graças a sua pátria,
cada um dos cidadãos vive em segurança. 5. — Mas, para os tiranos, sobre este ponto
ainda, a situação é inversa. Em lugar de punir o assassino do tirano, as cidades lhe
concedem grandes honras e, em lugar de lhe interditar os sacrifícios como se faz para os
assassinos, as cidades chegam, ao contrário até a erguer estátuas nos templos aos autores de
um ato deste gênero.
6. — Se a ti te figuras que, por possuir mais bens que os particulares, o tirano, por
conseqüência, tenha mais alegrias, saibas, Simonide, que também nesta matéria não é assim.
Quando os atletas são vencedores de amadores, eles não experimentam prazer; em
contrapartida, quando são vencidos por seus concorrentes, então eles sentem desgosto; é o
mesmo do tirano. Quando ele se mostra mais rico que os particulares, ele não experimenta
prazer, mas, quando ele é menos rico que outros tiranos, esta situação o aflige. São estes,
com efeito, que ele considera como seus concorrentes em matéria de riqueza. 7. — Em
verdade, os desejos do tirano não são mesmo satisfeitos um pouco mais rápido que aqueles
do particular. O particular deseja, com efeito, ou uma casa, ou um campo, ou um servidor; o
tirano, ele, deseja cidades, ou um território ampliado, ou portos, ou poderosas cidadelas,
coisas que se adquirem com muito mais pena e perigo do que demandam, para serem
realizados, os desejos dos particulares. 8. — Seguramente, tu o verás, há tão pouco pobres
entre os particulares, quanto há muitos entre os tiranos. Não é, com efeito, o número de
objetos que permite determinar o que é muito e o que é suficiente, é o uso que se faz deles;
por conseqüência, o que é além do suficiente é muito e o que é aquém, é pouco. 9. —
Assim, os recursos muitas vezes tão grandes quanto aqueles do particular bastam menos ao
tirano para as despesas necessárias. Os particulares, com efeito, podem restringir suas
despesas para as compras diárias como eles o entenderem; mas, para os tiranos, a coisa não
é possível. Suas maiores despesas e as mais necessárias são tratar da segurança de sua vida:
as restringir, é, lhe parece, causar sua perda. 10. — E portanto, todos aqueles que podem
prover pelos meios legítimos a todas as suas necessidades, porque os lamentar como
pobres? Aqueles, ao contrário, que a indigência constrange a viver de expedientes
desonestos e desonrosos, como não os considerar a justo título como infelizes ou pobres?
11. — Pois bem, os tiranos são constrangidos muito freqüentemente a despojar
injustamente os templos e os homens porque têm sempre novas necessidades de dinheiro
para as despesas necessárias. Com efeito, como eles se encontram em estado de guerra
perpétuo, são constrangidos a manter um exército ou a perecer.

1. — “Eu te direi ainda, Simonidde, uma miséria difícil de suportar dos tiranos. Com
efeito, eles não conhecem menos que os particulares os homens valentes, os homens hábeis
e os justos. Mas, em lugar de os admirar, eles os temem; os bravos podem fazer alguns
golpes de audácia para a liberdade, os hábeis maquinar um complô; quanto aos justos, a
multidão pode desejar tê-los como chefes. 2. — Quando o medo os faz suprimir os homens
deste gênero, quem lhes resta a empregar senão os criminosos, os devassos e as pessoas
servis? Os criminosos lhe inspiram confiança porque temem, como os tiranos, que as
cidades, um dia tornadas livres, não assegurem a sua pessoa; os devassos por causa da
licença do momento; as pessoas servis porque elas não mais pedem a liberdade. Aí está
ainda uma miséria difícil de suportar, na minha opinião: considerar alguns como pessoas de
bem e ser obrigado a empregar outras.
3. — “É, por outro lado, necessário que o tirano, ele também, ame sua cidade; pois, sem sua
cidade, ele não saberia nem salvar sua vida, nem ser feliz. Ora, a tirania força-o a ser uma
causa das perturbações, mesmo para sua pátria. Os tiranos, com efeito, não têm prazer nem
em inspirar coragem aos cidadão, nem em os bem armar, mas lhe é mais agradável tornar os
estrangeiros mais temíveis que os cidadãos e eles os empregam como guardas pessoais. 4.
— Por outro lado, mesmo quando os bons anos trazem a abundância, mesmo então o tirano
não toma parte na alegria comum. Se, com efeito, os súditos são mais pobres, o tirano
espera encontrar neles mais submissão.

VI

1. — “Eu quero, Simonide, te expor também os prazeres que eu apreciava antes, no tempo
em que era apenas um simples particular e dos quais sinto a privação agora, desde que me
tornei tirano. 2. — Para mim, com efeito, eu vivia com camaradas de minha idade,
contente com eles como eles estavam contentes comigo; vivia comigo mesmo, quando
desejava o repouso; eu passava meu tempo a banquetear, muitas vezes até esquecer todos os
males da vida humana; muitas vezes até deixar meu espírito se absorver nos cantos, nos
festins e nos coros, e muitas vezes até o momento em que o desejo de dormir nos tomava,
meus companheiros e eu. 3. — Agora, eu sou privado destas pessoas que se aprazem
comigo porque eu trato meus camaradas como escravos e não como amigos; eu sou privado,
por outro lado, do prazer que encontrava nas suas conversações porque não vejo neles
nenhuma afeição por mim; quanto à embriaguez e ao sono, eu me guardo como de uma
armadilha 4. — Ora, temer a multidão e temer também os próprios guardas, não querer ser
cercado de pessoas sem armas e não os ver de bom grado armados, não é uma condição
penosa? 5.— Além disso, confiar em estrangeiros mais que em concidadãos e nos bárbaros
mais que nos gregos, desejar ter pessoas livres em escravidão, ser constrangido a dar aos
escravos a liberdade, todos estes sinais não te parecem ser as marcas de uma alma afligida
de terror? 6. — O temor, por certo, não aflige somente por ele mesmo quando habita a
alma, mas ainda, quando ele acompanha todos os prazeres, ele os corrompe. 7. — Se
também tu, Simonide, tens a experiência da guerra, e se já te aconteceu de encontrar-te em
face e muito perto de uma falange inimiga, lembra-te de que espécie de refeição tivestes
naquele momento e qual espécie de sono dormistes. 8. — Em verdade, tais eram tuas
inquietudes então, tais são as do tirano, e mais terríveis ainda; pois essa não é apenas da
frente, é também de todas as partes que os tiranos crêem ver os inimigos.”
9. — A esse respeito, Simonide retomou a palavra e disse: “Tu tens inteira razão, na minha
opinião, sobre certos pontos. A guerra, com efeito, é algo assustador; todavia, Hierão,
enquanto nós estamos em campanha, ao menos colocamos sentinelas nos postos avançados
e comemos e dormimos tranqüilamente.” 10. — Hierão lhe respondeu: “Sim, por Zeus,
Simonide, é porque são elas mesmas vigiadas pelas leis; também elas temem por elas
mesmas e a [em?] vosso lugar. Os tiranos, eles, têm por guardas pessoas assalariadas como
criados de colheita. 11. — É preciso poder fazer de modo que os guardas não tenham
nenhuma qualidade maior que a fidelidade, não é verdade? Ora, é bem mais difícil encontrar
um só guarda fiel que um enorme número de trabalhadores para não importa qual trabalho,
sobretudo sendo dado que aqueles que tomam este serviço de guardas não estão lá senão
pelo dinheiro que podem receber mais em pouco tempo se matam o tirano, o que não
receberiam dele por um serviço de longa duração.
12. — “Quanto à faculdade, que tu nos invejaste, de fazer mais bem a nossos amigos e de
submeter nossos inimigos mais do que ninguém no mundo pode, desta vez ainda [mais uma
vez], não é assim. 13. — Como poderás tu jamais crer que fazes bem a teus amigos
quando bem sabes que aquele que recebe mais de ti terá o maior prazer em se distanciar o
mais cedo de tua vista? Pois o que se recebeu de um tirano, não se considera jamais como
sua propriedade antes de estar fora da dominação deste tirano. 14. — Quanto a seus
inimigos, por outro lado, como poderás dizer que o tirano tem, mais que um outro, a
faculdade de submetê-los quando tem por inimigos — ele o sabe bem — todos aqueles dos
quais é o tirano, e que não lhe é possível nem os fazer perecer, nem os fazer aprisionar a
todos sem exceção (pois sobre quem ele reinaria ainda?). 15. — Quando, ao contrário,
sabendo que são inimigos, ele deve guardar-se deles e ao mesmo tempo é constrangido
também a empregá-los? Saiba bem isso ainda, Simonide: mesmo estes cidadãos que o tirano
teme, se lhe é penoso os ver viver, lhe é penoso os fazer perecer; é, com efeito, como se se
tivesse um cavalo de raça ao qual se temesse algum acidente irreparável; se teria pena de
matá-lo, por causa de suas qualidades. 16. — Mas se teria pena de deixá-lo viver e de
servir-se dele, no temor que ele faça algum desvario irreparável no perigo; é precisamente o
mesmo com todos os outros bens de um emprego difícil, mas úteis: todos fazem igualmente
sofrer quando se os possui, e sofrer quando se desfaz deles.”

VII

1. — Quando Simonide ouviu estas palavras ele lhe disse: “Parece-me, Hierão, que a honra
é uma grande coisa; os homens que procuram ser honrados suportam todos as fadigas e
afrontam todos os perigos. 2. — Vós também, ao que me parece, malgrado os numerosos
inconvenientes da tirania que acabas de enumerar, vós vos conduzis em direção dela com
impetuosidade para que se vos honre, para que todos obedeçam sem desvio a todas as
vossas ordens, para que todo mundo vos olhe com admiração, para que se ergam de suas
cadeiras e que vos cedam a passagem, para que todas as pessoas presentes vos dêem sempre
sinais de deferência, por seus discursos e por suas atitudes; pois é assim, evidentemente, que
os súditos se comportam com respeito aos tiranos e a todas as outras personagens, cada vez
que eles os honram. 3. — Com efeito, Hierão, parece-me que o que faz a diferença entre o
homem e os outros animais é o desejo da honra. Pois, em verdade, no que se refere ao
alimento, à bebida, ao sono e ao amor, todos os animais igualmente parecem encontrar
prazer; mas a natureza não pôs ambição nem nos animais selvagens nem em todos os
homens sem exceção. Naqueles em que existe naturalmente o amor da honra e do louvor,
são estes, por conseqüência, que mais diferem dos animais; se os olham como seres viris e
não mais como simples criaturas humanas. 4. — Assim, é com razão, parece-me, que vós
suportais todo o fardo da tirania, já que justamente vós tendes honras que vos distinguem do
resto dos homens. E, com efeito, nenhum prazer humano parece nos aproximar da divindade
mais que a alegria que provoca as honras.”
5. — Hierão lhe respondeu pois: “Pois bem, Simonide, as honras dos tiranos me parecem,
elas também, ser do mesmo gênero, justamente, que seus prazeres do amor, tais como eu os
descrevi [retratei?]. 6. — Com efeito, as complacências vindas de pessoas que não nos
amam em retorno [por sua vez? Em troca] não nos parecem ser favores, e as fruições do
amor causadas pela violência não nos pareceram ser prazeres. Pois bem, da mesma forma,
as complacências das pessoas que têm medo não são mais honras. 7. — Como poderemos
dizer, com efeito, que as pessoas que se erguem de sua cadeira por força o fazem para
honrar seus opressores, ou que aqueles que cedem a passagem aos mais poderosos que eles
o fazem para honrar seus opressores?
8. — Quanto aos presentes, em verdade, o vulgar os dá àqueles a quem detesta, e isso
quando mais teme ser maltratado. Mas haveria, eu creio, razão de considerar estes presentes
como atos de servilidade; as honras, estas, me parecem , quanto a mim, provir de uma fonte
oposta.
9. — Quando, com efeito, as pessoas crêem que uma personagem é capaz de lhe prestar
serviço, quando pensam gozar de suas benfeitorias [benefícios?] e então que têm sempre seu
nome à boca para o louvar [louvá-lo]; que olham cada um como um bem que lhe é próprio,
que cedem a passagem de pleno grado, que se erguem de sua cadeira por afeição e não por
temor, que o coroam por sua virtude patriótica e por sua beneficência e que lhe fazem eles
mesmos voluntariamente presentes, neste caso, me parecem, quanto a mim, honrar
verdadeiramente este homem para quem eles têm tais atenções e aquele que é julgado digno
é realmente honrado. E, por minha parte, quando um homem é assim honrado, eu o julgo
feliz. 10. — Noto, com efeito, que não se conspira contra ele, mas que se vela para que não
lhe aconteça nenhum mal e que está ao abrigo do temor, da inveja e do perigo, ele leva uma
vida feliz. O tirano, ao contrário, bem o sabes, Simonide, vive noite e dia como se o
universo inteiro lhe houvesse condenado à morte por causa de sua injustiça.”
11. — Após haver escutado todo este discurso até o fim, Simonide respondeu: “Como se
faz, Hierão, se é algo tão miserável ser tirano e se, quanto a ti, estás disso convencido, que
não te livres de um tão grande mal, mas que nem tu, nem jamais nenhum outro,
seguramente, não tenhais voluntariamente renunciado à tirania, uma vez dela tendo se
apoderado? 12. — É porque, Simonide, sobre este ponto ainda, a tirania é a condição mais
miserável, pois nem mesmo se pode desfazer-se dela. Como um tirano bastaria jamais a
[para] reembolsar seu [o] dinheiro a todas as pessoas que ele despojou ou a sofrer
aprisionamentos em compensação a todos aqueles a quem os inflingiu? E por todas as
pessoas que fez perecer, como ofereceria à morte, em troca, um número de vidas
suficientes? 13. — Pois bem , Simonide, se qualquer um tem interesse em enforcar-se, eu
acho, por minha parte, bem sabes, que é sobretudo o tirano quem tem interesse em fazê-lo.
É, com efeito, o único a não ter interesse nem em manter, nem em depor suas misérias.”
VIII

1. — Simonide retomou a palavra e lhe disse: Pois bem, agora, Hierão, o desencorajamento
que tu experimentas, no que concerne à tirania, não me surpreende, pois precisamente
desejas te fazer amar pelos homens e pensas que é ela que o impede. Para mim, entretanto,
creio poder mostrar-te que o poder não impede de modo algum ser amado e mesmo que, a
este respeito há uma grande vantagem, por certo, sobre a condição privada.
2. — Vejamos se assim é, sem estudar ainda a questão de saber se, pelo fato de poder mais,
o chefe não poderia também prestar mais serviços; mas se acontece que o simples particular
e o tirano façam as mesmas coisas, pergunta, qual dos dois, na igualdade dos serviços, atrai
mais reconhecimento. Começarei pelos exemplos menos importantes.
3. — A princípio, com efeito, que um príncipe e um particular vejam alguém e o saúdem
amigavelmente; neste caso qual é aquele cuja saudação causa maior prazer à pessoa que o
recebe, segundo tu? Agora, que todos os dois louvem a mesma pessoa; qual é, crês, aquele
cujo louvor chega a causar maior prazer? Que após um sacrifício um e outro dêem um sinal
de honra a alguém: qual é, segundo tu, aquele que obterá, por este sinal de honra, o maior
reconhecimento? 4. — Que eles dêem igualmente cuidados a um doente, não parecerá
claramente que os cuidados que vêm dos mais poderosos são também os que causam maior
alegria? Que eles façam pois presentes iguais; neste caso, ainda, não parecerá claramente
que os meios favores, que vêm dos mais poderosos, têm mais valor que o presente inteiro de
um particular? 5. — Pois bem, parece-me, quanto a mim, que uma espécie de dignidade e
de graça dada pelos deuses são ligadas à pessoa do príncipe. Não apenas, com efeito, a
autoridade torna o homem mais belo, mas ainda, este mesmo homem, temos mais prazer em
vê-lo quando ele tem poder do que quando é um simples particular; e temos mais orgulho de
conversar com pessoas que têm mais honras que nós que com nossos iguais. 6. — Quanto
aos jovens, em verdade, que precisamente forneceram a ti também o principal motivo de
queixas contra a tirania, eles não são de todo chocados pela velhice do príncipe e sua
fealdade não entra de todo em conta, qualquer que seja aquele a quem esteja ligado. A ele
só, com efeito, a alta posição é um muito grande ornamento, de modo que ele apaga os
detalhes desagradáveis e faz aparecer o que há de mais belo com mais brilho. 7. — Visto
que, seguramente, por serviços iguais, sois vós, os príncipes, quem obtendes maior
reconhecimento, como também não vos caberia serem mais amados — vós, bem mais que
os particulares — quando podeis, em verdade, por aquilo que realizais, tornar-vos bem mais
úteis — vós que estais em condições de oferecer presentes bem maiores?”
8. — Hierão tomou imediatamente a palavra e respondeu: “É que, por Zeus, nós somos
constrangidos também, bem mais que os particulares, a tomar medidas que tornam as
pessoas detestadas. 9. — Precisamos, em verdade, fazer pagar impostos se queremos estar
em condições de prover as despesas necessárias; somos obrigados a fazer guardar tudo o
que precisa ser guardado; devemos punir os malfeitores e reprimir as tentativas de violência;
quando, em verdade, a ocasião de fazer a toda pressa uma expedição sobre terra ou sobre o
mar se apresenta, não se deve permitir a negligência. 10. — Por outro lado, mercenários
são necessários ao tirano e não existe nenhum fardo mais pesado para os cidadãos. Eles
pensam, com efeito, que os tiranos mantêm estes mercenários não para manter a igualdade
de direitos, mas para assegurar sua dominação.”

IX

1. — Simonide retomou então: “Pois bem, que ele precise tomar todos estes cuidados,
Hierão, eu não nego. Todavia, certos cuidados parecem-me conduzir inteiramente à
impopularidade e outros a atrair inteiramente o reconhecimento. 2. — Ensinar, com efeito,
as virtudes que são as mais belas, louvar e honrar aquele que as pratica melhor, eis um
cuidado que atrai o reconhecimento; mas reprimir aquele que comete alguma falta, usar de
constrangimento em relação a ele, puní-lo e castigá-lo, são atos que necessariamente, trazem
impopularidade. 3. — Por mim, pois, afirmo: são outras pessoas que o príncipe deve
encarregar de castigar aquele que tem necessidade de repressão; quanto a outorgar os
prêmios, é ele mesmo quem deve fazê-lo. Este é o bom método e a prova é dada pelos fatos.
4. — “Quando, com efeito, nós queremos fazer um concurso de coros em nossa terra, é o
arconte quem propõe os prêmios, mas ele encarrega os chorèges de reunir esses coros e
outras pessoas de instruí-los e de empregar a repressão com aqueles que cometem alguma
falta. Assim, pois, neste caso, a tarefa agradável é feita diretamente pelo arconte; quanto às
desagradáveis, são a outros que dizem respeito. 5. — O que impede de levar também a
bom fim da mesma forma o resto, isto é, os negócios públicos? Todas as cidades, com
efeito, são divididas, umas em tribos, outras em mores, outras em lockes e há chefes à testa
de cada divisão. 6. — Assim pois, se se propõe a estas divisões também, como aos coros,
prêmios pela beleza das armas, pela disciplina, pela habilidade com cavalo, pela valentia na
guerra e pela probidade nos contratos, é verossímel que, por emulação, se desempenhariam
com ardor em todas essas matérias também.
7. — “E, por Zeus, por desejo de uma recompensa, as pessoas se desprenderiam com mais
urgência onde quer que o dever as chamasse, apressar-se-iam em pagar suas contribuições
no momento requerido; a agricultura, ela mesma que é, de todas as artes, a mais útil, mas
também aquela na qual, de ordinário, menos se age por emulação, faria grandes progressos,
se se propusessem prêmios para domínios ou para burgos para aqueles que trabalhassem
melhor a terra; e aqueles cidadãos (politôn) que se entregassem com energia obteriam, no
fim das contas, numerosos proveitos; 8. — seus rendimentos, com efeito, aumentariam e,
por outro lado, a temperança acompanha bem mais a atividade. Além do mais, a idéia de
fazer mal vem menos às pessoas ocupadas. 9. — Se o comércio também apresenta alguma
vantagem para o Estado, as honras outorgadas àquele que mais se aplicasse fariam mesmo
aumentar o número de comerciantes. Se se tornasse evidente que aquele que conseguisse
algum rendimento sem trazer prejuízo a ninguém seria honrado pelo Estado, esta busca não
mais seria negligenciada.
10. — “Em resumo, se, também em todos os domínios, aparecesse claramente que o autor
de uma proposição útil não permaneceria sem recompensa, esta consideração ainda incitaria
muitas pessoas a dirigir sua atenção para a busca de alguma invenção proveitosa. Em
verdade, quando muitos ocupam-se de coisas úteis, necessariamente mais se encontram e se
realizam. 11. — Se temes, Hierão, que da instituição de prêmio em muitas matérias
resultem despesas consideráveis, pense que não há mercadorias menos caras que todas
aquelas as pessoas compram pelos prêmios. Vês, nos concursos hípicos, de ginástica e
competições de corais, como os prêmios de pouco valor causam grandes despesas,
numerosas fadigas e numerosos cuidados da parte das pessoas?”

1. — Hierão lhe respondeu então: “Pois bem, sobre este ponto, Simonide, o que tu dizes me
parece justo. Mas, a propósito dos mercenários, podes me dizer como eu não me faria
detestar por causa deles? Ou bem pretendes que o príncipe que granjeou a afeição dos
súditos não terá mais nenhuma necessidade de guardas? 2. — Sim, por Zeus, respondeu
Simonide, ele terá esta necessidade, seguramente. Eu sei, com efeito, que há alguns homens
de uma natureza semelhante àquela dos cavalos: mais eles têm o necessário em abundância,
mais são fogosos. 3. — As pessoas deste tipo podem pois ser tornadas mais sábias pelo
temor dos guardas. Quanto às pessoas honestas, parece-me que eu não saberia de nada que
te permitiria prestar-lhes tantos serviços que teus mercenários. 4. — Tu os manténs, com
efeito, eu suponho, tu também, para tua guarda pessoal. Ora, já ocorreu várias vezes que os
mestres tenham sido mortos por seus escravos. Se pois teus mercenários tivessem por
primeira atribuição serem os guardas de todos os cidadãos, de prestar auxílio a todos,
quando eles percebessem um crime deste gênero — existem, com efeito, nos todos o
sabemos, malfeitores nas cidades —[,] se pois teus guardas fossem encarregados de vigiar
também estes indivíduos, os cidadãos veriam que sobre este ponto também os mercenários
lhes seriam úteis. 5. — Por outro lado, os teus mercenários poderiam causar uma
segurança e uma tranqüilidade completas aos agricultores e ao gado, tanto àqueles de teus
domínios privados quanto aos de todo o campo. Eles são seguramente capazes de permitir
também aos cidadãos o lazer para ocuparem-se de seus assuntos, montando guarda nos
pontos favoráveis. 6. — Por outro lado, nos casos de irrupções secretas e secundárias do
inimigo, quem está mais pronto a lhes pressentir e impedir que um exército permanente,
sempre organizado? Além de que [disso], ao curso de uma expedição ainda, o que há de
mais útil aos cidadãos que mercenários? Estes soldados, com efeito, são naturalmente
preparados, os primeiros, a afrontar as fadigas e os perigos e a tomar a guarda. 7. —
Quanto às cidades vizinhas, não é forçoso que elas desejem também a paz ao mais alto grau,
por causa deste exército permanente? As tropas organizadas seriam, com efeito,
inteiramente capazes de proteger os bens dos amigos e de frustrar os desígnios do inimigo.
8. — Seguramente, quando os cidadãos compreendem que os mercenários não causam
nenhum prejuízo àquele que não faz nada de mal, que eles prestam auxílio aos oprimidos,
que tomam precauções e afrontam o perigo para os cidadãos, como não seriam
necessariamente todos dispostos a pagar pela manutenção das tropas? O que é certo, em
todo caso, é que eles mantêm mesmo a título privado guardiães para objetos menos
importantes.

XI
1. — “Não é preciso hesitar, Hierão, mesmo prevalecendo[?] [prélevant, desfalcar] sobre os
teus recursos pessoais, em fazer despesas no interesse geral. Com efeito, parece-me, quanto
a mim, que o dinheiro que se consagra ao Estado constitui uma despesa mais útil que aquela
que se consagra a seus negócios pessoais, quando se é tirano. Examinemos a questão em
detalhe. 2. — A princípio, é uma habitação, embelezada graças a despesas excessivas, que
te fará mais honra, segundo tu, que tua cidade inteira provida de muralhas, de templos, de
pórticos, de mercados e de portos? 3. — Parecerás mais temível ao inimigo se tu estiveres
pessoalmente paramentado de armas as mais formidáveis ou se tua cidade inteira estiver
bem armada? 4. — Quanto aos rendimentos [às rendas], crês que tu terás mais se tu fazes
valer apenas teus bens pessoais ou se encontras o meio de fazer valer aqueles de todos os
cidadãos?
5. — “A ocupação que passa pela mais bela e a mais magnífica de todas é a manutenção de
uma cavalariça para as corridas de carruagens; crês tu pois que haveria maior glória para ti
em ser pessoalmente aquele entre os gregos que manteria e enviaria às grandes festas o
maior número de parelhas de cavalos ou em ter a cidade fornecendo o maior número de
criadores e de competidores? Quanto à vitória, qual será, segundo tu, a mais bela, aquela
que te valeria a excelência de tua parelha de cavalos ou aquela que te valeria a prosperidade
da cidade da qual tu és o chefe? 6. — Para mim, verdadeiramente, afirmo: não convém
mesmo a um tirano concorrer com os particulares. Tua vitória suscitaria, com efeito, não
admiração, mas ódio, porque tu terias feito fazer para ti despesas a muitas famílias; em caso
de derrota, por outro lado, tu serias mais que qualquer coisa objeto de riso.
7. — “Mas sou eu quem te afirma, Hierão; [:] é com outros chefes de Estado que deves
entrar em concorrência. Ser aquele que torna mais próspera a cidade da qual és [é] chefe,
isso será para ti, saiba-o bem, alcançar vitória no mais belo e mais magnífico concurso que
haja [houver?] no mundo. 8. — Em primeiro lugar, tu obterás [conseguirás] a princípio
[imediatamente] te fazer amar por teus súditos, o que é precisamente o objeto de teus
desejos; em seguida [depois], não haveria somente um arauto para proclamar tua vitória,
mas todos os homens celebrariam tua virtude. 9. — Tu atrairias todos os olhares e não
somente os particulares, mas um grande número de cidades te prezariam; serias admirado
não somente em tua casa, mas ainda em público entre todos os homens; 10. — te
encontrando [encontrando-te?] em segurança, poderias em consequência assistir [a] um
espetáculo onde tu quisesses e poderias fazê-lo ficando em tua casa. Sempre, com efeito,
haveria em tua casa uma multidão de pessoas inquietas para te mostrar tudo o que teriam de
engenhoso, de belo e de bom, e pessoas também desejosas de servir-te.
11. — “Todo homem presente seria para ti um aliado, todo homem ausente desejaria ver-te.
Assim, não é somente afeição, é o amor que as pessoas teriam por ti. Quanto aos belos
jovens, tu terias não de solicitá-los, mas sofrer suas solicitações; tu não terias nada a temer,
mas farias temer aos outros que te acontecesse alguma infelicidade; 12. — Terias súditos
que te obedeceriam voluntariamente e os verias velar eles mesmos por ti; em caso de perigo,
encontrarias neles não apenas aliados, mas defensores e mesmo devotados [zelosos]; serias
coberto de presentes e não te faltariam pessoas devotadas com quem os partilhar, todos se
regozijariam de tua prosperidade e todos se bateriam por teus interesses como pelos seus
[deles?] próprios.
13. — “Em matéria de tesouros, seguramente, tu terias todas as riquezas de teus amigos.
Vamos, coragem, Hierão, enriquecei teus amigos, tu te enriquecerás a ti mesmo; acrescei a
prosperidade da cidade, tu aumentarás teu próprio poder; ganhe aliados para ela.
14. — Olhe tua pátria como tua família, teus concidadãos como camaradas, teus amigos
como teus próprios filhos, teus filhos inteiramente como tua vida; esforça-te para vencer
todos pelos benefícios. 15. — Se, com efeito, tu ultrapassares [superares] teus amigos
pelos benefícios, não há perigo de que teus inimigos possam te resistir. Se fazes tudo o que
eu te disse, sabe bem que possuirás o bem mais belo e mais preciosos do mundo: tua
felicidade não fará invejosos.”

Tradução de Patrícia Aranovich, exclusivamente para fins didáticos