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Editorial
Este primeiro número da revista Serviço Social & Sociedade em 2010
chega ao leitor após a realização, em fins de 2009, de um conjunto de eventos
bastante significativos para o Serviço Social brasileiro, a começar pela come-
moração em novembro de 2009 dos 30 anos do Congresso da Virada, questão
já abordada no número especial da Revista n. 100. Após esse evento seguiram-
-se as Conferências em âmbito nacional marcantes pelo seu potencial de apon-
tar rumos para as Políticas de Proteção Social no país para os próximos anos.
Foram elas: a 8ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescen-
te que realizou-se nos dias 7 a 10 de dezembro de 2009 com o tema “Construin-
do Diretrizes da Política Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e
do Plano Decenal” e a VII Conferência Nacional de Assistência Social (30 de
novembro a 3 de dezembro de 2009) com o tema “Participação e Controle So-
cial no SUAS”. Também ocorreram o Seminário Nacional Preparatório da
Primeira Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento de Sistemas Universais
de Seguridade Social (4, 5 e 6 de dezembro de 2009) e o Seminário Internacio-
nal Sistemas de Proteção Social desafios no contexto latino-americano (8, 9, 10
e 11 de dezembro de 2009).
Neste conjunto de eventos apresentou-se à profissão um cenário extrema-
mente diversificado em termos de desafios e possibilidades colocados ao exer-
cício profissional, seja do ponto de vista de seus fundamentos teórico metodo-
lógicos, seja na perspectiva de sua intervenção.
Assim, compõe esse número um conjunto de textos que em primeiro lugar
nos lembram sobre a importância das bases conceituais encontradas no marxis-
mo, para a análise da profissão e de questões como a subjetividade, o Estado, a
sociedade civil, as políticas públicas. Importa salientar ainda que iniciamos um
ano com grandes desafios às cidades latino-americanas frente às situações vi-
vidas em consequência das catástrofes naturais e da disputa territorial, apenas
para citar os casos de Angra dos Reis no Rio de Janeiro/Brasil, Albina no Suri-
name e Porto Príncipe no Haiti. Tais experiências dramáticas recolocam para
nossas sociedades temas contemporâneos, alguns deles debatidos neste núme-

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ro da revista, tais como a questão socioambiental, o desenvolvimento urbano,
a violência doméstica, o acolhimento familiar.
Dessa forma, a partir dessa conjugação temática é que se buscou configu-
rar o primeiro número da revista Serviço Social & Sociedade de 2010, sob o
foco da “intervenção profissional e os desafios atuais”.
Com esse enfoque a Revista 101 traz artigos que abordam a atitude inves-
tigativa na prática profissional, o diagnóstico na área sociojurídica, a interseto-
rialidade entre as políticas públicas, em particular nas políticas de desenvolvi-
mento urbano, e apresenta ainda os resultados de uma pesquisa qualitativa sobre
a trajetória da vida amorosa de mulheres das classes populares em Aracaju/SE,
temática presente na prática profissional. Finalizamos essa série de artigos com
uma reflexão sobre a fiscalização do exercício profissional e o projeto ético-
político, a partir dos dados do Cress 18ª Região/SE.
Por fim, relatamos os informes das principais Conferências e eventos do
segundo semestre de 2009. Boa leitura.

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ARTIGOS

Subjetividade, marxismo e Serviço Social:


um ensaio crítico*
Subjectivity, Marxism and Social Services: a critical essay

Marco José de Oliveira Duarte**

Resumo: A partir da polêmica teórica e política sobre a relação


entre marxismo e psicanálise, inauguradao pela perspectiva crítica da
Escola de Frankfurt, e tomando como referência o debate acadêmico
e o exercício profissional do Serviço Social contemporâneo em que a
temática da subjetividade vem se apresentando com forte conteúdo
psicologista, o artigo propõe-se a contribuir na superação do tradicio-
nalismo colocando a temática na agenda ética, política e acadêmica no
cenário profissional.
Palavras-chave: Marxismo. Subjetividade. Psicanálise. Serviço Social.
Trabalho profissional.

Abstract: From the theoretical and policy debate about the relation between Marxism and psycho-
analysis — debate that was inaugurated by the School of Frankfurt’s critical perspective — and
taking the academic debate and the professional activity of the contemporary Social Services, in
which subjectivity is presented with a strong psychological content, the article contributes to over-

* Artigo apresentado originalmente na disciplina Trabalho e Serviço Social na América Latina, coorde-
nada pela profa. dra Marilda Villela Iamamoto no curso de Doutorado em Serviço Social, no PPGSS-FSS-
-UERJ e, ao obter nota máxima, indicado para publicação.
** Assistente social, psicólogo e sanitarista, mestre em Serviço Social (UFRJ, 1993), especialista em
Saúde Coletiva (Unicamp, 2002) e doutorando em Serviço Social (UERJ). Professor, pesquisador e exten-
sionista do Departamento de Fundamentos Teórico-Práticos do Serviço Social da Faculdade de Serviço
Social da UERJ e atualmente seu diretor. Coordenador do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em
Saúde Mental e Atenção Psicossocial — Neps da UERJ; supervisor clínico-institucional do CAPS-UERJ
(Centro de Atenção Psicossocial da UERJ) pela Gerência da Atenção Psicossocial da Prefeitura Municipal
do Rio de Janeiro/RJ — Brasil, além de ministrar a disciplina de Estágio Supervisionado em Serviço Social
na área da Saúde Mental e desenvolver atividades de assessoria, consultoria e supervisão na área. E-mail:
psicossocial.uerj@gmail.com

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come traditionalism by setting the theme in the ethical, academic and policy agenda in the profes-
sional scene.
Keywords: Marxism. Subjectivity. Psychoanalysis. Social Services. Professional work.

Introdução

O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o
inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem
duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar
o inferno e tornar-se parte dele, até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é
arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer, de
dentro do inferno, o que não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço. (Calvino,
1990, p. 148)

A
o tomarmos a problemática da subjetividade, tendo como referên-
cia de análise o marxismo para entendermos como se processa esse
debate no âmbito do Serviço Social, foi necessária uma pequena
incursão na revisão da literatura especializada nessas temáticas.
No entanto, entendemos que muito ainda deve ser investigado, dada a enverga-
dura de tal análise, mas que, para atendermos aos objetivos deste trabalho,
apresentaremos alguns elementos introdutórios para um ensaio crítico, crendo
que muito deverá ser aprofundado teórico-metodologicamente.
Nesse processo, nos deparamos e observamos que não há um trato analíti-
co específico em Marx sobre a temática da subjetividade, e isso não o descarta
ou invalida no debate acadêmico, ao contrário. Por outro lado, dizer que há uma
redução nos estudos marxistas sobre o tema é decerto uma crítica superficial da
obra marxiana e da tradição marxista, dada a importância que tem sido dada a
essa temática no debate que vem sendo travado no campo diverso e plural da
teoria social crítica, incluindo aí a própria psicanálise com seus artigos de cunho
social e não só, destaque aqui para os autores da Escola de Frankfurt.1

1. Adorno, Horkheimer, Fromm e Marcuse (primeira geração do Instituto de Pesquisa Social), Habermas
(segunda geração) e Honneth, Benhabib, Cohen e Young como integrantes da terceira e última geração. Alguns

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Pretendemos desenvolver melhor algumas notas introdutórias neste quadro,
que aqui se apresenta de forma extremamente simplificada, a fim de questionar
a versão privada do tema da subjetividade no campo profissional do Serviço
Social e propor que, por meio do significante usuário — cidadão (tão em voga
na atualidade), a psicanálise retome seu lugar na tradição do pensamento críti-
co no Serviço Social no sentido de compreender o mal-estar individual como
sintoma do mal-estar social.

Marxismo e psicanálise: a reafirmação da temática da subjetividade na


teoria social crítica
Aqui, se faz necessário, nessas pequenas linhas, colocar no debate a rela-
ção da psicanálise e o marxismo e posteriormente ressaltar a interlocução do
Serviço Social com essa perspectiva, que desde os seus primórdios de sistema-
tização em terreno americano, em particular, não foi feito com a psicanálise
freudiana, mas sim com o psicologismo americano, denominado psicologia do
ego ou neopsicanálise. Por isso é claro entender certa refutação na produção
intelectual da profissão em sua gênese, também a passos largos e bem distantes
com o legado da teoria social crítica no questionamento sobre a cultura e a ci-
vilização burguesa. Esse mesmo saber profissional restringiu a sua fundamen-
tação na psicologização das relações sociais, tendo em vista que seu paradigma
se baseou no estrutural-funcional de T. Parsons.
No entanto, em toda a tradição crítica do Serviço Social, a partir dos anos
1980, com a sua renovação e rompimento com a perspectiva tradicional da
profissão, esse mesmo Serviço Social relegou a interlocução e a introdução da

desses autores foram comumente identificados como freudo-marxistas, incluindo nesse W. Reich, que não
fez parte do referido instituto alemão. Essa problematização a respeito da relação do marxismo e da psica-
nálise freudiana, começa quando os pensadores da teoria crítica se interessam sobretudo pela “teoria freu-
diana da cultura”, desenvolvida a partir dos anos 1920, quando Freud introduz o conceito de “pulsão de
morte”, pois ela revela a profunda relação que une o desenvolvimento social e a constituição psíquica dos
indivíduos. Mas é bem verdade que poderia ser estendida ao conjunto da teoria crítica, uma vez que todos os
seus integrantes trataram da questão em diversos textos. Esse empreendimento foi realizado no Brasil por S. P.
Rouanet (1989).

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psicanálise, entendendo-a ainda como um pensamento conservador que subsidiou
teórico-metodologicamente a perspectiva tradicional da profissão, traduzida
como Serviço Social de caso, Serviço Social de grupo e até mesmo como Ser-
viço Social clínico, com seu enfoque nas relações humanas, no relacionamento
com o cliente, na resolução do problema social do cliente, para enumerar algu-
mas noções.
Mas cabe sinalizar que a temática da subjetividade, mesmo no interior do
próprio marxismo, também teve essa repulsa por parte de alguns teóricos e
críticos, como bem ressalva Silveira (2002, p. 7),

a temática da subjetividade no campo do marxismo tende a ser tratada com estra-


nhamento, não só porque no âmbito do senso comum difunde-se um antagonismo
entre o campo da singularidade e o dos projetos coletivos, mas porque, igualmen-
te, no interior da própria esquerda, a questão da produção dos sujeitos vem sendo
considerada de forma preconceituosa e/ou reducionista.

A interpretação social da obra de Freud aqui realizada deve ser entendida


no contexto da crítica marxista da sociedade de massas contemporânea, mas de
um marxismo não ortodoxo. Com o desenvolvimento histórico, alguns autores
repensaram e questionaram os conceitos e concepções do marxismo e, nesse
processo, a teoria freudiana adquiriu um papel fundamental.
A relação entre o marxismo e a teoria freudiana deve ser entendida como
sendo dois momentos que se completam e se refutam. Eles se completam na
medida em que o marxismo apresenta o processo objetivo de exploração e
subjugação do indivíduo, no modo de produção capitalista, desmistificando esse
processo social e econômico por meio da “crítica da economia política”: en-
quanto “linguagem do todo”, o marxismo representa o universal. Já a psicaná-
lise representa esse processo social na perspectiva do sujeito, de seu efeito no
processo de subjetivação, que surge da relação dialética com outros sujeitos,
indivíduos, grupos, organizações e instituições: ela representa o particular, isto
é, a dimensão subjetiva do longo processo de dominação e exploração denun-
ciado por Marx.
O marxismo e a psicanálise freudiana expressam os dois lados de um mes-
mo “fato”, digamos assim, duas perspectivas de uma mesma realidade, a do

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indivíduo “cindido”, explorado, assujeitado, hierarquizado e alienado. Neste
sentido, eles se completam. Enquanto o marxismo apresenta a base social deste
processo, a psicanálise apresenta a base psíquica correspondente, que é por ele
produzida, ao mesmo tempo em que o mantém e o reproduz. Assim, a psicaná-
lise é a “linguagem do singular” na qual o todo é passível de ser reconhecido.
O marxismo e a psicanálise se refutam na medida em que não podem ser
unidos numa disciplina totalizante — “essas teorias são o limite negativo uma
da outra, são dois modos de explicar a realidade da sociedade alienada, dois
instrumentos de análise cujo uso é determinado pelas exigências do objeto”
(Rouanet, 1989, p. 76).2
A “fusão do marxismo e da psicanálise constituiria uma traição às intenções
críticas dos seus respectivos autores” (Rouanet, 1989, p. 74). A linha que separa
a psicanálise do marxismo só poderia ser abolida por meio de uma transformação
social efetiva, que eliminasse o antagonismo entre o universal e o particular,
entre as exigências da sociedade repressiva (de sua manutenção e perpetuação)
e as exigências e necessidades individuais — esta separação testemunha um fato
empírico, o da real separação entre o indivíduo e a sociedade.
A relação do marxismo e da psicanálise, na teoria crítica, deve ser com-
preendida na relação dialética entre o universal (dimensão social) e o particular
(dimensão psíquica), entre o indivíduo e a sociedade.

A relação de Freud e Marx [na teoria crítica] é dialógica e não sistemática. No


máximo, são duas falas, que se confirmam, se refutam, se cancelam: dois motivos

2. Em 1921, na Rússia pós-revolucionária, Vera Schmidt fundou um centro educativo que recebeu o
nome de Lar Experimental de Crianças. Era uma instituição pedagógica que aplicava às crianças os princípios
do marxismo e da psicanálise. Nessa escola, o sistema tradicional de castigos corporais foi extinto, o antigo
ideal de família patriarcal foi severamente criticado em prol de valores educativos que privilegiavam a ne-
cessidade coletiva. As crianças, criadas fora de qualquer influência religiosa, eram autorizadas a satisfazer
sua curiosidade sexual. Os próprios educadores eram, por sua vez, instados a não reprimir a masturbação e
a tratar as crianças em relação de igualdade. Ademais, todos os participantes do programa deveriam ser
analisados. Essa primeira experiência do freudo-marxismo durou até 1924, quando, em virtude completa
falta de apoio da conservadora Associação Internacional de Psicanálise, e sabotada pela reação da burocracia
do Estado, Vera Schmidt teve que abandonar o projeto. Esse recuo não se deu só com essa experiência, mas
com várias outras que podemos relatar e em outros campos de intervenção social que o espaço deste trabalho
não nos permite expor.

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em contraponto, no interior de uma sinfonia, mais que duas teorias no interior de
um sistema [...] sua essência está, justamente, nessa relação dialógica entre Marx
e Freud, em que as duas doutrinas funcionam como limites negativos uma da
outra, relativizando-se e relativizando qualquer pretensão totalizante. (Rouanet,
1989, p. 76)

Destaca-se aqui que esse entendimento acima é contrário o que defende a


Psicologia do Ego, como uma neopsicanálise, com seu caráter revisionista da
própria teoria psicanalista, pois eliminou determinados conceitos e enfocou
outros, reforçando-os e revisando-os, como, por exemplo, o seu privilegiamento
da função do ego em oposição ao inconsciente e com isso, a oposição entre in-
divíduo e sociedade. Seria de igual forma, se pensássemos em um neomarxismo
que eliminaria substancialmente do marxismo a luta de classes, “privando tanto
o freudismo quanto o marxismo de seu conteúdo” (Rouanet, 1989, p. 50).
Assim, no revisionismo, a “questão política” referente à transformação da
sociedade se torna em uma “questão moral”, ou seja, “confrontados com o di-
lema entre alterar o freudismo ou a realidade, preferiram alterar o freudismo”
(Idem, p. 222), recaindo, dessa forma, em um revisionismo psicologizante do
ego, o que influenciou todo campo de outros saberes, como o Serviço Social.
O “pessimismo” freudiano implica em uma recusa em compartilhar essa
realidade opressiva e causadora de doenças psíquicas (neuroses, perversões etc.)
e sofrimento humano (angústia, melancolia), elementos tão presentes para a
teoria e a prática psicanalítica. A análise do indivíduo em Freud não pressupõe
referenciais normativos, adaptadores e ajustadores, mas surge da própria me-
diação social.
Apesar das transformações históricas que afetaram o objeto da psicanáli-
se — o sujeito do desejo —, mesmo assim os conceitos freudianos ainda se
mantêm relevantes na compreensão da realidade, uma vez que sua acusação à
civilização não foi ultrapassada por um novo estágio de organização social: os
processos e conflitos psíquicos que a teoria freudiana descreve não desaparece-
ram — eles continuam existindo, mas agora se dão de forma diferente e devem
ser analisados tendo em vista esse fato.
A análise da sociedade contemporânea por meio do instrumento da teoria
freudiana implica assim uma crítica deste instrumento (Rouanet, 1989). Não
somente a teoria freudiana, mas também o marxismo participa dessa lógica. A

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teoria freudiana possui um “limite histórico”, enquanto instrumento de análise
e crítica da sociedade. Esse limite refere-se à ambiguidade presente na psica-
nálise freudiana, entre, de um lado, a crítica avassaladora da civilização (cujas
imposições são fonte de sofrimento humano) e, de outro, a conclusão de que
esse sofrimento é inevitável: a psicanálise “dobra-se diante do princípio de
realidade”, sendo, ao mesmo tempo, “crítica da ilusão” e “perpetuadora da
falsa consciência [...]. Ao mesmo tempo em que mostra que a infelicidade é
produto da cultura, Freud postula a infelicidade como condição inerente à vida
social” (Idem, p. 94).
A teoria freudiana se refere a uma concepção de indivíduo e de civilização
que possibilita seu uso enquanto instrumento de análise e de crítica da socieda-
de. Assim, o “pessimismo freudiano” reflete uma postura essencialmente críti-
ca de Freud para com o processo civilizatório. Partindo da perspectiva individual,
analisando o sofrimento, a angústia, a infelicidade e as várias doenças psíquicas,
Freud chega à conclusão de que esse sofrimento é causado por uma civilização
que nega, pela sua própria estrutura e organização, a satisfação e a felicidade
aos indivíduos.
Ele descobriu, portanto, na análise da “doença individual”, a “doença
geral” da civilização. Preserva em suas concepções e conceitos a realidade tal
como ela se apresenta, e não uma realidade idealizada. O indivíduo em Freud
é infeliz, reprimido, não possui autonomia, sendo determinado, tanto em nível
filogenético (história da espécie) quanto ontogenético (história individual).
Esse “realismo pessimista” (ou “pessimismo crítico”) de Freud permite
romper com a “cegueira” frente a uma realidade opressiva, que se apresenta
como harmônica (Rouanet, 1989). Ao afirmar a oposição entre a satisfação das
necessidades e desejos individuais e as exigências da sociedade, Freud apresen-
ta a realidade tal como ele a vê: em sua forma alienada.
Entretanto, Freud aceitou problematizar a oposição entre felicidade e ci-
vilização burguesa — e aqui a teoria freudiana no seu conceito de mal-estar
aponta criticamente para as contradições e transformações da sociedade indus-
trial moderna. Percebemos um conteúdo crítico presente em seus fundamentos,
o que nos permite pensar sobre as novas políticas de subjetivação assumidas
hoje pela sociedade capitalista que cada vez mais reforçam essas contradições

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nas possibilidades de libertação e emancipação do humano que lhe são intrín-
secas e que ao mesmo tempo são possíveis e reais.

O termo políticas de subjetivação se refere a um processo contínuo de produção


social da subjetividade no que diz respeito à criação, bem como à mortificação,
da vida humana em sua integralidade. Dito de outra forma, a subjetividade não é
uma instância privada e estanque do meio, também não é um receptáculo desse
mesmo meio. Há entre subjetividade e sociedade uma produção que se dá em
conjunto. Assim, determinadas condições de vida criam formas de se estar no
mundo. Os aspectos econômicos e culturais, a cidade, o emprego e o desemprego,
a escolaridade e o analfabetismo, o medo, a violência, a miséria, os fundamenta-
lismos religiosos, as guerras, as etnias, as diferenças, os preconceitos, a solidarie-
dade, os projetos de vida, a falta de perspectiva, as políticas públicas, dentre
tantos outros aspectos, se misturam e dão corpo ao que se chama subjetividade.
Todas as políticas que se encontram em curso no campo social produzem e ex-
pressam, ao mesmo tempo, modos de vida. (Machado, 2008, p. 191)

Desta forma, a nosso ver, podemos afirmar criticamente que as categorias


freudianas que definiam o psiquismo e a sociedade em determinado momento
histórico, assim como a relação entre ambos, não se sustenta mais na nova
configuração da sociedade capitalista mundializada.
Por outro lado, a noção de conflito é central em Freud3 — como a contra-
dição em Marx —, tanto no que se refere à formação psíquica individual,
quanto na relação entre as exigências de satisfação pulsional e a sociedade. Esse
conflito parece que foi contido pela sociedade “unidimensional”, pela sua ca-
pacidade de integrar as forças antagônicas e a negação. Assim, podemos asse-
gurar que as categorias freudianas tornaram-se “obsoletas” na realidade atual.
Entretanto, esta “obsolescência” das categorias freudianas revela maior repres-
são, e não maior liberdade. Se a teoria freudiana não pode mais explicar, a
partir de seus próprios conceitos, como se dá a relação entre o indivíduo e a
sociedade, é porque essa sociedade se transformou.
No entanto, vemos a possibilidade de repensar no seio do próprio marxis-
mo, introduzindo neste uma preocupação com o sujeito: aqui a teoria freudiana
fornece o suporte teórico. Mas, para se tornar uma teoria “crítica”, a teoria

3. A esse respeito ver Fontes, 2008.

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freudiana precisa ser questionada, e este processo se dá por meio da crítica
imanente aos seus conceitos, tendo em vista as transformações históricas ocor-
ridas — essa crítica elucida o “movimento” desses conceitos.
A teoria freudiana possibilita o objetivo de “crítica” somente decifrando
a dialética histórica de seus conceitos. Assim, ela pode dar origem a algo de
novo e sua crítica à civilização pode se tornar construtiva — ao contrário da
interpretação revisionista da neopsicanálise americanista, que imobiliza a sua
“função crítica”.
Essa “função crítica” da teoria freudiana está na denúncia do elo entre
infelicidade e civilização: na medida em que os revisionistas afirmam a possi-
bilidade da felicidade na civilização e não questionam os seus fundamentos,
eles se tornam ideológicos.
Freud foi um crítico feroz da civilização, pois ele tinha consciência do
vínculo que une progresso e infelicidade. Se ele afirma a infelicidade como uma
condição necessária da civilização, é porque é muito mais humano do que
aqueles que creem que é possível a felicidade se realizar nessa sociedade. Se a
felicidade for concebida apenas individualmente, ela é falsa.

O programa de tornar-se feliz, que o princípio do prazer nos impõe, não pode ser
realizado; contudo não devemos — na verdade, não podemos — abandonar nos-
sos esforços de aproximá-lo da consecução, de uma maneira ou de outra. (Freud,
1977, p. 146)

A felicidade e a liberdade são perspectivas, são condições que só podem


ser concebidas quando todos os indivíduos tiverem acesso às riquezas produ-
zidas (Heller, 1982) pela “sociedade da abundância”, e não apenas por um
grupo restrito de pessoas de determinada classe, e, sobretudo, quando a pro-
dução dessa riqueza não estiver mais vinculada ao aumento da exploração e
da miséria, à destruição e ao sucateamento do meio ambiente e dos seres
humanos.
Habermas (1987, p. 109) afirma que

As deformações de um mundo da vida regulamentado, analisado, controlado e


protegido são, certamente, mais refinadas do que formas palpáveis de exploração

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material e empobrecimento. Mas nem por isso os conflitos sociais deslocados e
internalizados no psíquico e no corpóreo são menos destrutivos.

Serviço Social e subjetividade: apontamentos desafiadores


Nesse emaranhado de contradições e perspectivas, somos inclinados a
observar que o Serviço Social, como afirmamos anteriormente, caminhou a
passos largos e bem distantes, tanto nos seus primórdios como na contempora-
neidade, de uma interlocução com a psicanálise em sua fonte original, mas vem
tentando dialogar com alguns representantes do conjunto de obras e autores que
constituem o que se convencionou chamar de teoria social crítica, sejam elas
modernas, pós-modernistas e/ou contemporâneas.
Iamamoto (2007, p. 237) em sua pesquisa sobre o balanço crítico da lite-
ratura profissional sobre os fundamentos do Serviço Social e ao seu exercício,
nas duas últimas décadas, identifica

um significativo avanço no que concerne à crítica teórico-metodológica tanto do


conservadorismo quanto do marxismo vulgar [...]. Esse avanço se expressa na
ultrapassagem da mera denúncia do tradicionalismo profissional ao efetivo en-
frentamento de seus dilemas tanto na construção da crítica teórica quanto na
elucidação de seus limites socioculturais e políticos na condução do trabalho
profissional; no empenho em superar os “metodologismos” a favor de uma pro-
ximidade do Serviço Social com as grandes matrizes do pensamento social na
modernidade, delas extraindo os fundamentos teórico-metodológicos para a ex-
plicação da profissão e para iluminar as possibilidades de sua atuação.

Cabe destacar que Iamamoto aponta para a ampla e diversificada tradição


marxista nessa análise da produção acadêmica no Serviço Social. Assim, a
autora se debruça sobre as elaborações teóricas que “matizam o debate teórico
entre pares de um mesmo projeto profissional” e demonstra que

grande parte das diferenças (mais que antagonismos) entre os autores decorre
tanto da angulação particular pela qual a profissão é abordada quanto da varieda-
de das fontes teóricas — as quais se inspiram, centralmente, em Marx, Hegel,
Lukács, Gramsci, Hobsbawm e Thompson — que iluminam a formulação das
indagações que norteiam as pesquisas dos autores. (Iamamoto, 2007, p. 331)

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Entretanto, as duas teorias gerais abordadas aqui, psicanálise e marxismo,
em momentos diferentes, possuem o mesmo estatuto teórico-metodológico no
Serviço Social. Se a interlocução do Serviço Social com o marxismo, em suas
primeiras leituras, foram de forma enviesada e influenciada pelo positivismo, o
mesmo pode-se dizer da psicanálise de cunho adaptador, ajustador, conservador
e reformista que influenciou o mesmo Serviço Social.
Cabe, assim, nesse lastro dos últimos vinte anos no amadurecimento inte-
lectual da profissão, inaugurar também um debate de ruptura com o resgate do
tema da subjetividade no Serviço Social pelo viés da crítica teórica e metodo-
lógica presente no cenário profissional.
Neste sentido, é necessário registrar, neste texto, um esforço de sistemati-
zação de determinados autores no Serviço Social que vêm investigando e pro-
duzindo sobre esse tema, e demarcando uma diferença por dentro do campo
profissional, como Bisneto (2007), Vasconcelos (2000) e Nicácio (2008).4
O núcleo comum com relação à crítica elaborada por eles e do qual com-
partilho funda-se, principalmente, com o que já introduzimos aqui, mas que
tentamos sintetizar, pois concordamos que o Serviço Social, enquanto ramo do
saber, não tinha a capacidade intelectiva e crítica de fazer naquele momento o
que pode fazer hoje, sem reprodução mecânica do idealismo moral do ser social
burguês na sua intervenção profissional e produção científica, o que só está
sendo possível no contexto da renovação profissional em solo brasileiro.

O Serviço Social nos Estados Unidos se muniu de vários referenciais teóricos para
pautar sua atuação, principalmente o funcionalismo, o estrutural-funcionalismo,
o higienismo e as psicologias. As escolas psicológicas americanas do Serviço
Social (diagnóstica e funcional) absorveram as teorias de várias linhas da psico-
logia clássica. Foi significativa a contribuição da psicanálise no processo de ten-
tativa de elaboração de uma metodologia em Serviço Social [...], em especial na
área de saúde mental. (Bisneto, 2007, p. 19)

Vasconcelos (2000) afirma que a psicanálise absorvida pelo Serviço Social


norte-americano identifica-se com a psicologia do ego, e foi influenciada por

4. No que se refere às referências profissionais, o primeiro é assistente social e os outros dois são psi-
cólogos.

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Otto Rank e Alfred Adler, bem como por Anna Freud e pelo triunvirato nova-
-iorquino Kris, Hartmann e Loewenstein.
Nicácio (2008, p. 3-4) afirma que,

A psicanálise possui suas diferenciações internas. A corrente psicanalítica que


serviu de fundamento teórico para o serviço social de casos foi a americana, au-
todenominada psicologia do ego. Esta corrente psicanalítica advogava o fortale-
cimento do ego para que ele fosse capaz de dominar suas pulsões e, assim, se
adaptar melhor a seu ambiente social. O ideal de cura para esses analistas era o
adulto bem-sucedido na sua vida produtiva, vivendo em harmonia na sua família
e no seu casamento. Em suma, um cidadão bem adaptado. Dentro do próprio
movimento psicanalítico esta corrente foi objeto de duras críticas, desferidas pelo
psicanalista francês Jacques Lacan. A psicologia do ego na sua concepção teria
posto de lado as descobertas fundamentais de Freud sobre o inconsciente [...].
Lacan chegou mesmo a afirmar que esta versão americana da psicanálise se tornou
uma “ideologia” adaptacionista ou mais uma técnica de “human engeneering”.

Por outro lado, se a temática da subjetividade no Serviço Social tradicional,


digamos assim, foi influenciada pelo conservadorismo, a sua reatualização pela
fenomenologia por dentro da área profissional deixou a desejar, pois limitou-se
ao chamado “vivido” da situação interna do “cliente” (ente) sem levar em con-
sideração a transversalidade da política no trabalho profissional, reduzindo a
temática da subjetividade que estamos fazendo à crítica nesse momento.
Cabe destacar que os que se alinham nessa perspectiva são os mesmos que
atualizam o Serviço Social de caso pela nomenclatura do Serviço Social clíni-
co, que em nada tem a ver com as atribuições privativas do assistente social
definidas pelo conjunto da categoria profissional no Brasil. Assim para essa
intervenção profissional, para uma clínica stricto sensu, o referido profissional
precisa de uma formação apropriada em instituições específicas. Então ele
deixa de ser profissional de Serviço Social para ser profissional de outro tipo:
terapeuta de família, psicoterapeuta ou até mesmo psicanalista.
No entanto, quando estamos introduzindo a discussão da temática da sub-
jetividade não estamos pretendendo o retorno à psicologização, como estamos
criticando. Porém entendemos que o conteúdo da relação entre os sujeitos pro-
duz valor de uso na medida em que

16 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 5-24, jan./mar. 2010


sendo a força criadora de trabalho condição vital do trabalhador, alienada como
meio de assegurar sua própria vida, não existe como coisa objetiva, mas como
subjetividade, como capacidade de um ser vivo, cuja manifestação não se faz real
até que o capital a solicite, porque a atividade sem objeto não é nada. Tão logo a
força de trabalho é colocada em movimento pelo capital, converte-se em ativida-
de produtiva — o trabalho —, manifestação de existência vital do trabalhador,
orientada para um determinado fim, o que só ocorre no processo produtivo. Essa
é uma das características distintivas da mercadoria força de trabalho do ponto de
vista de seu valor de uso. (Marx, apud Iamamoto, 2007, p. 180-181)

Essa dimensão de valor é que estamos tentando problematizar, pois a


crítica ao psicologismo com a qual concordamos não pode descartar por com-
pleto toda a dimensão subjetiva do trabalho profissional, que Vasconcelos (2000)
aponta no significante do recalque.
Nesse sentido, Iamamoto (2007), afirma que não existe um processo de
trabalho do Serviço Social, e sim trabalho do assistente social:

O trabalho, força de trabalho em ação, é algo temporal, que só pode existir no


sujeito vivo. Enquanto gasto vital, é um movimento criador do sujeito —, que, no
seu contexto de alienação, metamorfoseia-se no seu contrário, ao subjugar seu
próprio criador à condição de criatura —, impregnando a totalidade de seu ser:
capacidades, emoções, ritmos do corpo, pensamento e valores. Assim, o trabalho
como elemento subjetivo do processo de trabalho é componente da humanidade
dos sujeitos, em processo de realização: é objetivação do sujeito e, simultanea-
mente, subjetivação da realidade pelo sujeito. (p. 429; grifos nossos)

Nesse contexto, podemos dizer que a conceituação de subjetividade pre-


sente na obra de Foucault, Guattari e Deleuze (Duarte, 2000) se coaduna com
uma acepção de histórica que estamos produzindo aqui: desnaturalizada, sem
unidade e sem uniformidade, tendo em vista que os modos de subjetivação
colocam-se como subjetividades sempre em processo de mutação. Modos de
subjetivação seriam antes maneiras, disposições, meios sempre diversos com
que as configurações subjetivas se engendram no contexto sócio, histórico,
político, cultural e econômico para sua compreensão real, e não só na esfera do
trabalho, que, segundo Marx (1985, p. 148), “não produz só mercadoria, produz

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a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na proporção em que
produz mercadorias em geral”.
Quando se fala “a minha subjetividade”, a “minha opinião”, o “meu dese-
jo”, não se trata de algo interno que se revela ao exterior. As formas subjetivas
são compostas socialmente.5 Todo sujeito é sempre coletivo. Assim, quando
falo, muitas vozes falam em mim, muitas histórias atravessam a minha história,
e isso se torna mais complexo quando se pensa no terreno da intervenção e nos
postos de trabalho profissional. Embora haja uma composição singular em mim,
que me difere dos demais, que difere cada um, somente a composição é singu-
lar. Os pedaços de que é feita são partilhados por muita gente.

Nesse sentido, um pressuposto que se impõe diz respeito à consideração de que


a subjetividade é socialmente produzida, operando numa formação social deter-
minada, sob o crivo de um determinado tempo histórico e no âmbito de um cam-
po cultural [...] Marx vai organizar essa vinculação a partir da análise do homem
inserido no processo produtivo e produzindo-se. (Silveira, 2002, p. 104)

Percebe-se, assim, que os regimes de dominação que estão em curso em


nosso tempo produzem o “individualismo” como desejo e como necessidade.6
Demarcar distinções se parece como apólices de seguro de competências e
sucesso, deixando-se de ser solidário. Ao mesmo tempo, cada um de nós se
perde em meio a uma massa homogênea de gente que pensa igual, se veste igual,
deseja igual. As diferenças, ao contrário do que poderíamos supor, são pouco
exercidas, raras são as singularizações desse processo, tanto em grupo como
em coletivos, socialmente instituídas (Duarte, 1999).
Fontes, ao apontar para pontos comuns e diferenças importantes no diálogo
entre Freud e Marx, coloca que o estatuto de conflito em um e outro é radical-
mente diferente, embora ambos admitam a transformação e o princípio da his-
toricidade radical, e esse princípio, segundo a autora, “se encontra exatamente

5. Iamamoto (2001) aborda de outra forma essa questão entre indivíduo concreto e individualidade
social.
6. Rouanet (1993) afirma que uma das críticas da esquerda é chamar Freud de individualista, pois para
Freud o indivíduo foi sempre um inimigo potencial.

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na forma pela qual os indivíduos são constituídos pelo conflito” (2008, p. 120).
No entanto, cabe sinalizar que um enfoca em sua práxis a transformação sin-
gularizada, enquanto o outro, o processo de transformação dos modos de exis-
tência social — ou “das formas de modos de ser” (Marx, 1985).
É importante destacar a compreensão de que o sujeito atual que intenta
plasmar na sociabilidade do mundo contemporâneo é cada vez mais egoico,
autocentrado, descrente das esferas coletivas, competitivo, eficiente, eximido
das responsabilidades sociais e morais. Assim, o projeto societário hoje hege-
mônico — o do capital — é aceito e internalizado pelos sujeitos, através de
mediações institucionais, normatizações e legislações legitimadoras de uma
igualdade anunciada, ainda que formal, para a qual se atribuem regulações e
disciplinamentos democráticos que irão dar sustentabilidade legal à desigual-
dade instituída. Assim, reproduz-se de outra forma, o modo de produção capi-
talista. Neste contexto, o sujeito mesmo, mercadoria, coisifica-se, se fragiliza e
se fragmenta, desfigurando-se na qualidade de produtor de coisas e de sua pró-
pria consciência.
A concepção de subjetividade7 com a qual o marxismo vai romper, e que
está presente no âmbito da hegemonia burguesa, é a que supõe o indivíduo na
qualidade de ente abstrato e idealizado, por conseguinte, exterior às efetivas
relações sociais capitalistas. Por consequência, nessa abstração, ele pode ser
“modelado” (Silveira, 2002, p. 110-111), estratégia de controle e disciplina-
mento do capital.
Atualmente, nas sociedades ocidentais, cada vez mais observamos que a
subjetividade é trocada pelo individualismo, pela privacidade, pela intimidade,
pelo egocentrismo radical, causando a alienação da realidade, uma razão des-
colada da racionalidade emancipatória e social, e “uma apatia mais complexa
com relação às grandes questões de interesse comum” (Rouanet, 1993, p. 22),
que cada vez mais são típicas do neoliberalismo em tempos de globalização:
“intimismo individualista, imaginário introspectivo e a fixação em razões fan-

7. Martins (1992, p. 34) diz que “por mais estranho que isso possa inicialmente soar, parece-nos que a
definição mais básica de subjetividade em Marx é a sua já citada formulação direta e quase truística: a sub-
jetividade é uma determinação do sujeito, enunciado que se tornou necessário diante da pressuposição hege-
liana de uma subjetividade pura, que prescindia de qualquer suporte nos sujeitos humanos reais”.

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tasmáticas e fantasiosas que proporcionam uma regressão psicológica” (Bisne-
to, 2007, p. 186).
Eis o nosso desafio enquanto assistente social no trabalho profissional nas
organizações institucionais diversas: tomar a temática da subjetividade articula-
da com as discussões da agenda política da categoria profissional, tanto no seu
exercício quanto na formação profissionais (Duarte, 2009), principalmente
quando se trava um debate sobre as formas de emancipação humana.8

Traçando algumas considerações (in)conclusivas...


Como o profissional está assujeitado nesse processo social, é parte inte-
grante nessa engrenagem, pois é contratado como força de trabalho especiali-
zada para acionar essas máquinas tecnológicas que operam centralmente na
lógica direta da modelagem das subjetividades humana (Duarte, 2006) e vital
dos sujeitos, já que lida no cotidiano profissional e institucional, ou seja, nas
relações sociais.
Ora, a fabricação social e histórica da subjetividade não é um tema novo
no campo das ciências sociais e humanas. Com certeza, no Serviço Social, há
muito que galgar, principalmente a partir desse novo patamar acadêmico com
a crítica que se operou no passado recente. Mas se muito se fez, é verdade que

8. Semeraro (1999, p. 72-73) tratando do conceito de subjetividade como a contribuição de Gramsci ao


marxismo contemporâneo, aponta que esse autor “não cansa de repetir que as concepções que sustentam a
iniciativa e o desenvolvimento da subjetividade são próprias de um grupo social que se propõe a ser sujeito
e protagonista da história. A subjetividade, de fato, é a típica maneira de ser das classes dirigentes, de quem
exercita uma relação ativa com a realidade. Não se podia, portanto, pensar na emancipação dos trabalhadores
enquanto se mantinha a submissão às regras e aos princípios da classe dominante. Para desenvolver no ope-
rário a ‘psicologia do produtor’ e colocar a nova classe fundamental em condição de dirigir o processo his-
tórico, era necessário desenvolver posições antitéticas à ordem existente. Mas a ruptura, a ‘cisão’, não era
suficiente. Havia, principalmente, necessidade de elaborar e de concretizar um projeto de sociedade superior
ao da classe dominante [...]. Então, o ponto central das reflexões de Gramsci se prende à formação de novos
sujeitos sociais que visam à construção de um projeto de sociedade aberto à participação de todos os traba-
lhadores. Nesse sentido, a consciência e a subjetividade representam uma dimensão fundamental na ação
política, uma vez que se é verdade que não é a consciência que determina o ser social, é também verdade que
só por meio da consciência o homem pode apropriar-se das funções da sociedade e ter condição de realizá-las
lutando contra as pressões externas que condicionam seu comportamento e neutralizam suas aspirações”.

20 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 5-24, jan./mar. 2010


ainda há muito o que fazer, tomando como foco que lidamos com sujeitos reais
e concretos, que sentem, pensam, agem e sofrem os efeitos da desigualdade
social, expressões da questão social, do sucateamento das políticas sociais e das
redes de proteção social operadas pelo Estado.
Diríamos, didaticamente, que há uma corporeidade no usuário dos serviços
sociais, como: etnias, gêneros, raças, sexualidades, sexos, religiosidades enfim,
um todo complexo que não se reduz mas que atravessa as classes sociais, sem,
contudo, desmerecê-las na realidade social brasileira. Nesse bojo, o usuário que
procura e que demanda ajuda ou orientação ao assistente social tem sempre uma
relação “problemática e ambígua com sua situação de fragilidade, de sofrimen-
to, em função de alguma perda ou fragilidade que ele enfrenta, e isso está
marcado no seu psiquismo” (Nicácio, 2008, p. 17).
O que queremos sinalizar nestas linhas é que não é porque o assistente
social tem uma abertura para o outro, quando atende e escuta9 essas problemá-
ticas e conflitos apresentadas pelo sujeito que ele recebe, seja no plantão social,
na entrevista social, na visita domiciliar, e que são sociais, que ele está psico-
logizando as relações sociais, ou mesmo tendo uma atitude de psicoterapia —
atribuição privativa dos psicólogos. Isso tem sido mais um reducionismo do
raciocínio dualista de uma crítica que não dialoga nem mesmo com a sua própria
cultura profissional, já que boa parte de nossas técnicas ou ferramentas inter-
ventivas foi “sequestrada” de outros saberes técnico-científicos socialmente
reconhecidos originalmente.
Afinal, quando lidamos com uma dimensão que não se limita às ações
burocráticas e mesmo idealizadas no cotidiano do trabalho profissional, seja
individualmente ou em grupo, somos afetados nessa relação de intersubjetivi-
dades, como bem demarcou os pensadores freudo-marxistas. Não se pode
manter a neutralidade científica, o distanciamento asséptico da racionalidade
técnica ou recalcar todos os sentimentos, impulsos e emoções que são imanen-
tes. Ao contrário, isso demonstra que há um hiato entre o que se tem produzido

9. Segundo Nicácio (2007), “ato que não é privativo de nenhuma profissão”. No entanto, é necessário
registrar que segundo Freud, definido em sua originalidade, é um ato de atenção flutuante, rompido com a
ordem médica do ouvir pelo ouvir, sentido biológico.

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sobre essa realidade dos usuários das políticas socais e até mesmo sobre essas
políticas sociais e esse lidar no cotidiano do trabalho profissional. Muito em-
bora digamos que podemos ocupar — e ocupamos — os lugares de planeja-
mento e gestão das políticas sociais, isto não significa que nesses postos de
exercício profissional, ou na execução dessas mesmas políticas não sejam afe-
tos a essa dimensão concreta e social que é a subjetividade humana.
Só a título de exemplo, o sofrimento e o adoecimento não são entidades
abstratas, e em quase todos os espaços institucionais e organizacionais em que
se opera a interlocução entre saberes, práticas, políticas, agenciamentos enfim,
racionais e tecnológicos, elas se materializam por intermédio dos sujeitos reais,
no caso, do profissional. É por essa razão que, segundo dados colhidos sobre
saúde mental e saúde do trabalhador, o profissional de Serviço Social é a cate-
goria de trabalhadores que mais sofre na relação de trabalho, no conjunto de
outras categorias profissionais, no campo social e da saúde, com psicopatologia
do trabalho, de fadiga crônica, e não só. Percebe-se, sem muito aprofundamen-
to, por meio de observação empírica ainda, de outros tipos de sofrimento psí-
quico, como em particular a depressão, ou mesmo de doenças psicossomáticas,
como o câncer. Ou seja, somos afetados em todas as atividades humanas e, em
particular, no trabalho produtivo, pelas consequências econômicas e históricas
do modo de produção capitalista que cada vez mais afetam subjetividades e
corporeidades, como expropriação da mais-valia.
A contribuição deste ensaio não se limita às linhas aqui escritas, mas se
fará presente no debate teórico e político sobre o trabalho profissional e nas
organizações em que esse trabalho se encontra, pois no cotidiano profissional
e institucional no contexto das políticas públicas e privadas, na esfera pública
e privada dos sujeitos em relação, estamos implicados com outros, na disputa,
na política, na correlação de forças e nos modos de a(fe)tivação e de produção
de subjetividades contemporâneas.

Não estamos perdidos. Pelo contrário, venceremos se não tivermos desaprendido


a aprender. (Rosa de Luxemburgo, 1983, p. 116)

Artigo recebido em out./2009 ■ Aprovado em jan./2010

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24 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 5-24, jan./mar. 2010


Estado e sociedade civil no
pensamento de Marx
State and civil society in Marx’s thinking

Jamerson Murillo Anunciação de Souza*

Resumo: Este ensaio objetiva realizar um resgate crítico acerca da


construção das categorias Estado e sociedade civil no pensamento de
Karl Marx. Para tanto, debruça-se sobre as linhas mestras das elabo-
rações dos contratualistas, assim como sobre o significado e o alcance
do crivo hegeliano na remodelação teórica destas mediações funda-
mentais da vida social. Esta operação é requisito para explicitar a es-
pecificidade revolucionária do pensamento marxiano.
Palavras-chave: Estado. Sociedade civil. Contratualismo. Emancipação
política. Emancipação humana.

Abstract: This article presents a critical rescue of the construction of the categories State and Civil
Society in Karl Marx’s thinking. To do so, it focuses on the guidelines of the elaboration of contrac-
tualism, as well as on the meaning and scope of Hegel’s thinking to the theoretical remodeling of this
essential mediation of the social life. This is required to express clearly the revolutionary specificity
of Marx’s thoughts.
Keywords: State. Civil society. Contractualism. Political emancipation. Human emancipation.

* Assistente social graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) — Recife/PE — Brasil;
mestre em Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UFPE; membro do GET
— Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho, coordenado pela Profa. Dra. Ana Elizabete Mota. E-mail:
jamersonsouza@gmail.com.

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Introdução

E
nveredar na discussão acerca da relação entre as categorias Estado e
sociedade civil no pensamento de Marx significa apreender a pro-
funda inflexão que o filósofo alemão imprimiu na concepção teórico-
-política desses que são, utilizando uma expressão lukacsiana, dois
complexos sociais fundamentais.
Esta inflexão é o resultado da ampla revisão teórico-crítica operada por
Marx ante as principais elaborações do pensamento social produzido na mo-
dernidade. Sendo assim, a discussão levantada por Marx sobre a relação entre
Estado e sociedade civil está intimamente vinculada à crítica da filosofia do
direito de Hegel, obra que consubstanciava o ponto alto da produção filosófica
alemã.
Hegel, por sua vez, é o representante da ruptura decisiva para com a cor-
rente contratualista. No pensamento hegeliano não há espaço para a concepção
de um eventual contrato, estabelecido de forma voluntária ou compulsória,
entre indivíduos que viveriam, hipoteticamente, um estado de natureza, que
fosse constantemente ameaçado — como para Hobbes —, ou pacífico — como
para Locke e Rousseau.
A essa altura, convém estabelecer a importância das produções contratua-
listas, uma vez que expressavam o confronto, no plano teórico, das relações
entre as classes sociais no interior do regime feudal. O período histórico que
abarca o fundamento social da filosofia contratualista, nos séculos XVII e XVIII,
coincide com a época do que Marx, em O capital, denominou de acumulação
primitiva de capital (1985, p. 261).
Segundo Marx, essa é a quadra histórica na qual a burguesia, como classe
social, começa a adquirir um enorme potencial econômico e político. Para que a
burguesia pudesse gozar livremente desse potencial seriam necessárias profundas
alterações nas relações sociais do período feudal. Essas alterações teriam como
objetivo livrar as relações mercantis das amarras da política do antigo regime.
Os contratualistas estavam comprometidos com o estabelecimento de
um ordenamento social que garantisse direitos à burguesia, direitos esses
cerceados pelo absolutismo feudal: de vida em Hobbes, de propriedade pri-

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vada em Locke, e de liberdade em Rousseau. Assim sendo, é legítimo afirmar
que os contratualistas reclamavam o que posteriormente fora denominado de
Estado de Direito, isto é, uma forma determinada de relação entre Estado e
sociedade civil que garantisse a todos os homens direitos naturais fundamen-
tais inalienáveis.
Posteriormente, em um texto de 1843 intitulado A questão judaica, Marx
deixaria clara a articulação do pensamento liberal-contratualista, presente na
chamada Declaração Universal dos Direitos do Homem, com os anseios priva-
dos da burguesia como classe social (2009, p. 49).
Afirmar a conexão da produção contratualista com o âmbito mais geral
dos anseios da burguesia como classe social não significa escamotear as con-
fluências e diferenças específicas entre cada um dos seus representantes. O
conteúdo do pensamento de Hobbes, por exemplo, que defendia o fortalecimen-
to máximo do Estado, difere significativamente do que postulava os traços ni-
tidamente democráticos da filosofia de Rousseau.
Para clarificar o pensamento de Marx acerca das categorias Estado e so-
ciedade civil vamos resgatar as linhas mestras da filosofia política jusnaturalis-
ta. Este resgate visa acompanhar a construção teórica elaborada por Hobbes,
Locke e Rousseau. Do mesmo modo, vamos nos debruçar sobre a guinada
operada por Hegel. Em seguida reconstruiremos a análise crítico-revolucionária
realizada por Marx.

O legado da filosofia jusnaturalista na elaboração das categorias Estado e


sociedade civil
A continuidade de nossa exposição requer, como referido, a explanação
do núcleo do pensamento dos contratualistas, visando estabelecer a contribuição
que eles forneceram para o debate em torno da relação entre Estado e socieda-
de civil. Para tanto, seguiremos a consecução histórica na qual aparece, em
primeiro lugar, a filosofia hobbesiana. Em seguida, o liberalismo político de
John Locke. Por fim, as tendências democráticas do francês Rousseau, fechan-
do o leque dos principais pensadores jusnaturalistas.

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O inglês Thomas Hobbes pensava o estado de natureza, ou seja, a condição
social em que era inexistente um Estado político instituído, como uma constan-
te ameaça à vida dos indivíduos. Embora não fossem selvagens, os homens no
estado de natureza representavam iminentes ameaças uns aos outros. Para
Hobbes, os homens seriam “opacos” aos olhos uns dos outros.
Esta opacidade tende a gerar suposições recíprocas sobre as possíveis ações
dos indivíduos, o que culminaria, para o autor, em ataques visando a autopre-
servação, isto é, agressão preventiva, mediante possível ofensiva externa. Em
qualquer das situações, a condição bélica está necessariamente posta.
A partir dessas ameaças constantes decorreria a generalização incontrolá-
vel de um estado de guerra de “todos contra todos”, para utilizar uma expressão
hobbesiana. No estado de natureza o “homem é lobo do homem”. Isto porque
a atitude mais adequada para assegurar a autopreservação seria a eliminação
sumária da ameaça, a aniquilação do outro (Hobbes, 2006, p. 56).
Hobbes rompe com a visão antropológica de Aristóteles, segundo a qual
o homem seria um animal social por natureza, tendo suas potencialidades ma-
ximizadas dentro de uma ordem natural imutável, no interior de um Estado.
Para Hobbes, que se aproxima da visão maquiaveliana de natureza humana, esta
socialidade natural não permite visualizar os verdadeiros conflitos decorrentes
da vida em sociedade, seja no estado de natureza, seja no estado fundado a
partir do contrato.
No estado de natureza não haveria limites aos direitos naturais. Cada in-
divíduo seria o árbitro absoluto de suas ações, o que resultaria num caótico
conflito constante que ameaçaria a preservação da vida humana. A solução que
Hobbes aponta para esta situação insustentável de guerra constante é a alienação,
por parte dos indivíduos, aos seus absolutos direitos naturais em função do
estabelecimento de uma instância que seria ao mesmo tempo o guardião da
soberania absoluta e o sujeito responsável pela preservação da vida dos indiví-
duos. Esta esfera, que surge no momento da alienação, é o Estado.
Somente a partir da instauração do Estado é que os homens abandonam o
estado de natureza e passam a viver em sociedade. Não há, na perspectiva
hobbesiana, uma antecessão cronológica do Estado ou da sociedade. Ambas
nascem no momento do contrato social, mas a sociedade civil é fundada a par-

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tir do Estado, o que representaria, em linguagem lukacsiana, uma primazia
ontológica (não necessariamente cronológica) do Estado em relação à socieda-
de civil.
O Estado, fundado a partir do contrato precisa, na visão de Hobbes, gozar
de absoluta soberania; ser inquestionável e ter a liberdade para arbitrar, inclu-
sive, sobre a vida ou morte dos cidadãos. Não pode haver espaço para o ques-
tionamento do Estado por um motivo cristalino: questionar o Estado significa-
ria questionar sua soberania. Por conseguinte, esta soberania deixaria de ser
absoluta, resultando no retorno do estado de natureza, ou seja, um estado de
guerra constante. Nesse estado, os indivíduos não mais reconheceriam autori-
dade absoluta, salvo a sua própria.
A única possibilidade efetiva, não de questionamento do Estado, mas de
rebelião individual, ocorre quando o Estado não cumpre sua função primordial,
ou seja, quando não consegue preservar a vida dos cidadãos. Somente nessa
ocasião o indivíduo que se sente prejudicado pode reservar-se quanto à obedi-
ência ao soberano. Esta possibilidade é dada apenas ao indivíduo em sua sin-
gularidade, não sendo tolerada, portanto, a união de cidadãos em prol de qual-
quer reivindicação. Este indivíduo lesado recuperaria, então, sua liberdade
natural.
Na esfera da vida privada são permitidas relações mercantis desde que a
soberania do Estado permaneça intacta. Isto significava, no tempo de Hobbes, o
direito ao comércio de bens móveis e imóveis, desde que controlado pelo Estado.
Neste particular, nota-se a tensão entre a realidade da burguesia da época, ávida
por obter autonomia nas relações de mercado, e o absolutismo feudal, que limi-
tava a propriedade dos bens imóveis em poder dos aristocratas.
O Estado pensado por Hobbes compromete a propriedade privada dos
cidadãos, pois só ao Estado cabe a propriedade final sobre todos os bens. Ob-
servado em perspectiva histórica, o núcleo do pensamento hobbesiano não
conquistou um desdobramento sociopolítico efetivo. Sem embargo, as necessi-
dades sociais da burguesia viriam a se identificar de forma explícita com as
elaborações teóricas de um autor que produziu sua obra pouco tempo depois de
Hobbes: John Locke. Este último defenderia o direito à propriedade privada
como anterior ao surgimento do Estado, o que a tornaria, portanto, inviolável

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sob quaisquer circunstâncias. Para a burguesia da época, Locke representava o
ponto alto da teoria política liberal moderna.
A obra de Locke intitulada Segundo tratado sobre o governo civil, escrito
por volta do final da década de 1670, é considerada como o marco da formula-
ção teórico-política liberal. À época, o pensamento de Locke estava sendo in-
fluenciado pelas tensões sociopolíticas que antecederam a chamada Revolução
Gloriosa. O Segundo tratado, publicado décadas depois de sua concepção —
1690 — viria a se constituir como fundamentação teórica da deposição de
Jaime II.
A formação em família burguesa e cristã puritana, aliada à influência ide-
ológica de um político liberal inglês de destacada atuação, favoreceram a defe-
sa do autor em prol da liberdade individual e da tolerância religiosa.
Em conformidade com os demais contratualistas, Locke concebe a supe-
ração do estado de natureza mediante o estabelecimento de um contrato social,
que fundaria, então, a sociedade civil. Entretanto, ao contrário do constante
estado de guerra hobbesiano, Locke afirma a vigência da liberdade e igualdade
entre os indivíduos, o que resultaria numa relativa harmonia das relações sociais.
Essa harmonia seria quebrada apenas por eventuais inconvenientes, como a
violação da propriedade alheia. Para Locke, essa seria uma etapa concreta da
história dos homens, muito embora vivenciada em momentos distintos.
No estado de natureza já estariam presentes a Razão e a Propriedade Pri-
vada como direitos naturais dos indivíduos. Isto significa que a passagem ao
estado civil conservaria essas faculdades precedentes dos indivíduos. O Estado
seria a instância privilegiada de defesa desses direitos naturais. Os indivíduos
antecedem o Estado e a sociedade civil (Locke, 2005, p. 69).
Locke ficou conhecido como o teórico do individualismo justamente por
atribuir essa primazia sociopolítica aos indivíduos frente ao Estado e à própria
sociedade civil. Nesta medida, nota-se a profunda diferença teórica com relação
a Hobbes, que concebia o Estado como soberano absoluto, inclusive arbitrando
nas relações de propriedade.
O Estado lockiano tem o dever fundamental de conservar e proteger a
propriedade privada, tanto nos casos de violação interna e singular, quanto com

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relação a ameaças estrangeiras. Ao contrário da submissão absoluta dos súdi-
tos ao Leviatã hobbesiano, Locke pensa o contrato social como um consenti-
mento coletivo em favor da instauração de um corpo político que pudesse, de
maneira mais efetiva, garantir a inviolabilidade dos direitos naturais. A questão
da melhor forma de governo, se monarquia, oligarquia ou democracia, é se-
cundária ante o papel fundamental do Estado: proteger a propriedade privada
dos indivíduos.
Porém, uma vez firmado o contrato, a vigência da sociedade civil não
estaria garantida definitivamente. Se o poder dos governantes fosse exercido
para além do direito, o governo entraria em degeneração tirânica. Isto posto,
aos cidadãos estava reservado o direito de resistência e a contestação da legiti-
midade do governo. Seria o que Locke denominou como direito de resistência.
Nesse momento haveria o retorno ao estado de natureza, onde a justiça divina
seria o árbitro decisivo. Novo contrato seria necessário ao retorno da sociedade
civil. Esta acepção lockiana de um direito de resistência seria impensável na
filosofia hobbesiana.
O pensamento de Locke, ao contrário do de Hobbes, exerceu profunda
influência na constituição de governos civis europeus. Suas ideias foram resga-
tadas pela Revolução Americana e pela decisiva Revolução Francesa. Contem-
poraneamente, o núcleo duro da filosofia liberal lockiana está presente na
constituição política da maior parte dos Estados liberais.
É possível afirmar, a essa altura, que o pensamento de Hobbes e Locke a
respeito do contrato tiveram ampla penetração no seio da filosofia política clás-
sica. Por considerarem, cada um a seu modo, a positividade do contrato como
momento fundador da sociedade civil, confluíram na acepção do pacto social
como ultrapassagem de um estado de natureza para um estado civil-político,
onde a lei e a ordem, garantidos pelo Estado, assegurariam a vida, em Hobbes,
e a propriedade privada, em Locke, como direitos naturais.
Essa concepção positiva do contrato social encontraria sua primeira críti-
ca nas formulações de um francês, filho de um relojoeiro: Jean-Jacques Rous-
seau. Esse pensador, apesar de não romper fundamentalmente com a ideia de
um contrato social, estabelece uma série de problemas nas formulações de
Hobbes e Locke, o que resulta numa visão negativa do pacto social.

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Se nos contratualistas anteriores o pacto social cumpriria a função positi-
va da garantia de direitos naturais, em Rousseau esse pacto representa a aliena-
ção desses direitos, ou seja, ocorre em prejuízo dos indivíduos.
Para superar a negatividade do pacto pensado por Hobbes e Locke, Rous-
seau empreende algumas reformulações conceituais com que trabalhavam seus
antecessores. A primeira delas diz respeito à legitimidade do corpo político.
Essa legitimidade só está assegurada mediante a realização efetiva dos interes-
ses do soberano. A soberania, para Rousseau, está localizada no povo. O Esta-
do precisa estar a serviço do soberano. Isto significa uma inversão com relação
à soberania absoluta do Leviatã hobbesiano. Para o iluminista francês, o Estado
deveria ser limitado e agir em função do soberano, ou seja, seria uma instância
subordinada ao soberano. Para Rousseau, assim como para Locke, a forma
efetiva do governo civil seria uma questão secundária, desde que garantida a
soberania do povo (no caso de Locke, desde que garantido o direito natural da
propriedade privada).
Outra questão latente no pensamento de Rousseau é a da representação
política. Segundo o autor, a soberania do povo é inalienável (Rousseau, 2001,
p. 39). No entanto, existe a necessidade concreta de representantes políticos.
Estes últimos tenderiam, em larga medida, a agir em benefício próprio, usur-
pando a soberania da sociedade civil. Rousseau aponta como possível saída
desse impasse a constante rotatividade dos representantes, minimizando os
riscos de degeneração dos governos.
As noções de soberania da sociedade civil, de um Estado a serviço da
comunidade, da rotatividade representativa e da participação popular na elabo-
ração da legislação colocaram Rousseau na vanguarda do contratualismo. Suas
ideias influenciaram a Revolução Burguesa de 1789.
O contratualismo, originário da Inglaterra do século XVII, vai encontrar
uma primeira reformulação na França do século XVIII. Nesse momento, as
concepções de Estado e sociedade civil assumem importante papel na consti-
tuição concreta do governo civil e na efervescência das lutas de classe entre a
burguesia nascente — mas já poderosa tanto política quanto economicamente
— com a aristocracia feudal em decadência, que limitava a plena liberdade
mercantil burguesa.

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Após a queda da Bastilha e a concretização da Revolução Burguesa, tendo
sua continuidade no período napoleônico, os conceitos de Estado e sociedade
civil seriam profundamente reformulados, prescindindo, inclusive, da ideia de
um contrato social. Essa reformulação será levada a cabo a partir de um país
que não experimentou um processo revolucionário típico da Europa do século
XVIII, mas que no âmbito da filosofia estava conectado com os principais con-
tornos sociais do período revolucionário: a Alemanha (ainda não unificada).

O crivo hegeliano
É a filosofia alemã que imprimirá uma reviravolta na concepção da relação
entre Estado e sociedade civil. Em primeiro lugar, na filosofia idealista de Hegel;
posteriormente, no pensamento revolucionário de Marx.
Hegel rejeita a ideia de um contrato social que viabilizasse a passagem do
estado de natureza para a sociedade civil-política. Para ele, a sociedade pré-
-política, sem a existência do Estado, é marcada por contradições e conflitos
entre diferentes grupos (neste particular, Hegel se aproxima de Hobbes, muito
embora evite a concepção estado de natureza). A presença do Estado na socie-
dade civil representa, no entender hegeliano, a entrada para a sociedade políti-
ca, regida pelos princípios fundamentais da racionalidade e da universalidade.
Esses princípios permitiriam a superação dos conflitos de interesse entre grupos
particulares, sendo efetivados pelo Estado.
Assim, o Estado abriria a passagem do que Hegel chamava de reino da
necessidade (busca egoísta dos indivíduos e grupos pela satisfação de necessi-
dades particulares) para o reino da liberdade (sociabilidade regida pela racio-
nalidade e universalidade). O reino da liberdade teria na burocracia estatal seu
elemento material, ou seja, o corpo coletivo de indivíduos que ocupasse a esfe-
ra estatal seria considerado por Hegel a “classe universal”, capaz de materiali-
zar os princípios fundamentais do Estado. Justamente por incorporar o princípio
universalizante do Estado, a burocracia estatal estaria alheia aos conflitos de
interesses particulares (conflitos de classe, inclusive) e representaria, dessa
forma, os interesses de toda a sociedade.

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Hegel considera o Estado como instância responsável por evitar a desa-
gregação social. Sem a presença do Estado, a sociedade civil ruiria ante o
efeito devastador das lutas de classes. Tomado nessa acepção, o Estado teria a
função de imprimir racionalidade à sociedade civil, fundando a sociedade po-
lítica.
É importante salientar que o termo sociedade civil, em Hegel, é idêntico
à sociedade civil-burguesa, ou seja, o reino da necessidade. Isto significa que
apenas o Estado pode racionalizar as relações da sociedade civil, marcadas por
disputas de interesses particulares. Essas disputas terminam por prejudicar a
moralidade dos indivíduos, levando-os à prática de métodos de corrupção que
comprometeriam suas relações. Desse modo, o Estado teria a atribuição adicio-
nal de moralizar relações individuais e reprimir práticas imorais.
Em termos hegelianos, é possível afirmar que o Estado é o sujeito da his-
tória, cabendo à sociedade civil o papel secundário de predicado. Ora, se o
sujeito da história é o Estado, é lícito afirmar que a história só tem início a
partir do surgimento do Estado e no interior dele. Desta maneira, não haveria
história humana na ausência do Estado. Se o Estado é o momento fundante da
história em Hegel, é também seu limite último. Sem o Estado não haveria his-
tória humana possível. Mais tarde, Marx inverterá esses termos, demonstrando
que a história autenticamente humana ocorrerá apenas com a supressão do
Estado e do modo de produção capitalista.
Para Hegel, a ideia de um contrato (onde indivíduos, voluntariamente ou
não, livres e com direitos absolutos, pactuam alienar sua soberania em prol da
manutenção e defesa da coletividade) seria uma abstração irreal em seu funda-
mento. Apesar da confluência hegeliana com os contratualistas acerca da ne-
cessidade do Estado, este último não seria instituído mediante um pacto, e sim
como princípio racional e universalizante.
Hegel fora adepto dos ideais da Revolução Burguesa de 1789. Até então,
partilhava das principais ideias democrático-burguesas. A ascensão de Napoleão
ao poder, pouco tempo depois da queda da Bastilha, influenciaria diretamente
o pensamento do filósofo. Hegel enxergava a figura de Napoleão como a per-
sonificação do que ele chamava de espírito do mundo, ou seja, o princípio que
move a história dos homens.

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A filosofia hegeliana sofreria a primeira crítica fundamental a partir de
1843-44, momento em que Marx, influenciado pelo pensamento de Feuerbach,
pela complicada situação política da Renânia e pelo início da leitura da econo-
mia política clássica, tomaria a filosofia do direito de Hegel como objeto de
investigação.

Estado e sociedade civil em Marx: as categorias submetidas à historicidade


A obra de Marx inaugura um novo referencial teórico sobre a relação
entre as categorias Estado e sociedade civil. Marx se debruça sobre este tema
influenciado pelo materialismo de Feurbach (que se pretendia uma crítica ao
idealismo hegeliano), pela filosofia do direito de Hegel, pelas leituras dos eco-
nomistas políticos clássicos e pela situação política concreta dos alemães do
século XIX.
O pensamento de Marx em torno do Estado e da sociedade civil pode ser
encontrado no decorrer de sua vasta produção, desde 1843-44 até a publicação
de O capital. Entretanto, os textos produzidos em Paris, conhecidos como Ma-
nuscritos Econômico-Filosóficos, juntamente com a Crítica da filosofia do di-
reito de Hegel — Introdução e A questão judaica, podem ser considerados os
marcos iniciais da crítica marxiana à produção da filosofia idealista e política
da época.
Nesses escritos, Marx já demonstra que as contradições e os fetiches da
sociedade capitalista impregnam a filosofia idealista e política, marcadas pela
não ultrapassagem do nível aparente da realidade. Para Marx, era preciso alcan-
çar o conteúdo essencial da sociedade burguesa. Sua crítica dizia respeito às
operações da filosofia idealista que insistia em tomar o Estado, a população, o
dinheiro e assim por diante, categorias descoladas da totalidade social.
Marx chamou a atenção para a necessária reconstrução histórica das cate-
gorias. Estado, sociedade civil, mercadoria, capital e assim por diante, não
possuem uma essência a-histórica, não fazem parte de uma “natureza humana”
imutável e eterna. São construções históricas e precisam ser analisadas nessa
perspectiva. Nesse momento, Marx descarta toda a herança contratualista, que

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pressupunha a existência abstrata de uma “natureza humana”. Para ele, mesmo
a essência das relações entre os homens é construída historicamente e precisa
ser explicada pela história.
Para demonstrar que o Estado não é um “princípio de universalidade e
racionalidade”, nem uma instância para além dos “interesses particulares”, como
queria Hegel, nem uma esfera instituída a partir da elaboração de um suposto
e abstrato pacto (que nunca fora comprovado), como queriam os contratualistas,
Marx recorre ao estudo do Estado burguês concreto e dos princípios ideológicos
que o orientam — a Declaração dos Direitos do Homem.
Todo o texto de A questão judaica está construído no sentido de crítica aos
valores burgueses edificados na Revolução de 1789. Ali, pode-se observar que o
homem abstrato coincide com a figura do burguês capitalista — é um indivíduo
proprietário privado, preocupado com seus interesses particulares e com a am-
pliação de seus negócios. Na Declaração estão ausentes considerações que pu-
dessem ser o suporte à emancipação de todas as classes sociais. A Declaração
como marco ideal e a Revolução Burguesa como marco histórico-concreto asse-
guram o início do que Marx chama de emancipação política, ou seja, a garantia
de direitos invioláveis para a burguesia e a instauração de um Estado liberal.
Ambos os marcos favoreceram largamente a burguesia enquanto classe
social, pois ela incorporava o imenso acúmulo de riquezas econômicas e poder
político, reunidos durante o período que Marx chamaria, em O capital, de
acumulação primitiva de capital. Esse período decorre entre os séculos XV e
XVIII, quando a burguesia adquire um papel fundamental nas relações mer-
cantis internacionais.
Ora, o Estado político e a sociedade civil-burguesa, dirá Marx, não encer-
ram o “reino da necessidade” hegeliano. Ao contrário, intensifica-o. Marx de-
monstra que as disputas entre os interesses particulares se materializam na
anarquia dos mercados, onde a mercadoria será a mediação universal das rela-
ções sociais. Longe de ser o “reino da liberdade”, a sociedade civil-política
burguesa, regida pela lógica da acumulação de capital, lança milhares de seres
humanos em uma situação de pobreza extremada — será criada uma superpo-
pulação relativa que será sistematicamente expulsa do mercado de trabalho,
única via de manutenção de sua sobrevivência.

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Dito de outra maneira, a sociedade civil-política inaugurada a partir da
revolução de 1789 liberta a burguesia das amarras da aristocracia feudal. A
burguesia, de posse da propriedade privada dos meios de produção, passa a
requerer, ou descartar, a força de trabalho necessária às suas atividades de
acumulação de capital. Isto implica a incorporação e a expulsão sistemática
de trabalhadores do mercado de trabalho.
Os trabalhadores, por sua vez, foram expropriados de suas terras, destitu-
ídos dos meios de produção, no período de acumulação primitiva, restando
apenas a venda da capacidade de trabalho, em um mercado dominado por bur-
gueses enriquecidos, como forma de reprodução de sua vida.
O Estado burguês, observa Marx, vai ter seu principal papel na regulação
dessas que são as relações fundamentais da sociedade civil-política burguesa
— as relações de produção. Sendo assim, o Estado é sempre uma instância em
desfavor dos trabalhadores, já que pode regular, mas nunca extinguir, essa me-
diação fundamental: a exploração do trabalho pelo capital.
O Estado é uma esfera a favor das classes dominantes desde seus primórdios,
nas sociedades escravistas da Antiguidade. Surgiu para proteger os interesses da
classe dominante e controlar as revoltas dos escravos. Inicialmente, havia apenas
alguns traços essenciais do Estado moderno, como a presença de um corpo po-
licial-militar, de uma burocracia hierárquica, cobradores de impostos, escribas
e mensageiros, em suma, um corpo de funcionários públicos. Posteriormente,
novas configurações vão se aglutinando a esses traços essenciais.
Esses contornos do Estado pré-burguês desautorizam as idealizações dos
contratualistas, que viam o Estado como esfera positiva da sociabilidade. O
Estado burguês incorpora essas características. Do mesmo modo, características
inéditas ganham espaço — a incorporação de interesses organizados pela força
de trabalho, por exemplo.
Assim, em Marx, o Estado não inaugura a sociedade civil. Antes, se ergue
a partir dela no interesse de determinada classe social. A recuperação histórica
do surgimento do Estado permite que Marx demonstre a vinculação orgânica
entre Estado e capital. A emancipação política garantida pela Revolução de
1789 não assegura o próximo passo no avanço da emancipação da humanidade.
Para dar esse passo seria necessário extinguir o Estado como esfera alienada

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das relações sociais, extinguir o capital como força centrífuga que domina as
relações humanas.
Temos assim os princípios revolucionários marxianos que deveriam ser
levados a cabo pelo proletariado, única classe social que nada teria a perder com
a radical alteração da sociabilidade burguesa.

Considerações finais
Apesar de Marx não ter elaborado em todas as consequências uma teoria
geral do Estado, sua postura crítica em relação ao jogo formal do poder políti-
co, sob a condução de classe da burguesia, bem como sua concepção histórica
acerca das categorias sociais, certamente autorizam sustentar que o Estado não
se constitui uma esfera social eterna, nem necessária. Estas indicações segura-
mente não esgotam as determinações quanto à questão do Estado e de seu papel
na totalidade social. Contudo, ganham especial relevo no debate com as con-
cepções ingênuas do Estado, que costumam retomar, conscientemente ou não,
os argumentos liberais, idealistas, ou funcional-positivistas, sobre a universali-
dade e imparcialidade do Estado em relação aos interesses da sociedade civil
burguesa.
Para Marx, tanto quanto as formações econômicas pré-capitalistas, o siste-
ma do capital, bem como o poder político que lhe corresponde, são particulari-
dades históricas do desenvolvimento do gênero humano. A contragosto dos
ideólogos da burguesia, esta abordagem sustenta que o sistema do capital e o
Estado não refletem a “natureza humana”, forma abstrata de concepção da es-
sência humana hipostasiada pela consciência de classe da burguesia; antes,
reflete apenas os imperativos irreformáveis de um sistema autoimpulsionado
pela acumulação centralizada de capital. Segundo o pensamento marxiano, a
essência humana é historicamente determinada pelas relações sociais de pro-
dução vigentes. Nas palavras de Lukács, que sustenta também neste particular
argumento marxiano; “o desenvolvimento essencial do homem é determinado
pela maneira como ele produz” (Lukács, 1979, p. 73).
Ao contrário das críticas fugazes que apontam Marx como um “teórico da
economia”, o alemão redigiu textos brilhantes em que analisava minuciosamen-

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te as relações eminentemente políticas da Europa do século XIX, a exemplo do
texto clássico, As lutas de classe na França de 1848 a 1850, onde demonstra
que o intercâmbio entre as personificações do capital e o direcionamento polí-
tico da gestão da res publica tem uma longa história. Todo o esforço marxiano
está ancorado na irredutível historicidade de seu método e no horizonte social
e político da emancipação humana, âncoras que demonstram sua vitalidade e
relevância nesses tempos de crônica contrarrevolução e anacrônica vigência do
sistema do capital.

Artigo recebido em out./2009 ■ Aprovado em jan./2010

Referências bibliográficas
HOBBES, Thomas. Leviatã. In: WEFFORT, Francisco. Os clássicos da política. São
Paulo: Ática, 2006. v. I.
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil. São Paulo: Martin Claret,
2005.
LUKÁCS, Georg. Ontologia do ser social: os princípios ontológicos fundamentais de
Marx. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. 2. ed. São Paulo: Nova Cultural,
1985. Livro I. tomo II.
______. As lutas de classe na França de 1848 a 1850. São Paulo Alfa-Ômega, s/d.
(Obras Escolhidas, v. I.)
______. A questão judaica. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret, 2001.

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A atitude investigativa no
trabalho do assistente social
The investigative attitude in the social worker’s job

Cristina Kologeski Fraga*

Resumo: O artigo trata da atitude investigativa no trabalho do as-


sistente social — AS. Para tanto, discorre sobre os componentes do
trabalho do AS, dando visibilidade às suas competências e especifici-
dades. Na sequência, discute a atitude investigativa no exercício pro-
fissional. Propõe que, além da articulação entre investigação/ação no
cotidiano de trabalho, torna-se fundamental uma atitude interdiscipli-
nar. Finalmente, sugere o trabalho do assistente social envolto numa
equação tensionada pelo pragmatismo — atitude investigativa, media-
da pela intervenção, que só adquire alcance social quando pautada pela
interdisciplinaridade.
Palavras-chave: Atitude investigativa. Pesquisa. Intervenção. Interdis-
ciplinaridade.

Abstract: The article addresses the investigative attitude in the social worker’s job — SW. To do
so, it deals with the parts of the SW’s job, by providing visibility to their competencies and specificities.
Next, it discusses the investigative attitude in the professional activity. After, it shows that, in addition
to the articulation between investigation/action in the daily work, it becomes fundamental an interdis-
ciplinary attitude. Finally, it suggests the SW’s job to be involved in an equation of pragmatism —
investigative attitude, mediated by intervention, that only gets to social reach when it’s guided by in-
terdisciplinarity.
Keywords: Investigative attitude. Research. Intervention. Interdisciplinarity.

* Assistente Social, mestre e doutora em Serviço Social (PUC-RS). Atualmente é professora adjunta do
Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Pampa — Unipampa/Campus São Borja/RS — Brasil.
E-mail: ckfraga@hotmail.com.

40 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 40-64, jan./mar. 2010


1. Considerações introdutórias

É
voz corrente entre os profissionais da área e de outros setores que o
Serviço Social — SS é uma profissão essencialmente interventiva. A
partir dessa noção convencionou-se caracterizar o Serviço Social
como uma profissão de intervenção na realidade social, e o assisten-
te social — AS —, profissional da área, seria, então, aquele profissional imerso
no pragmatismo,1 habilitado para intervir nas diferentes manifestações da ques-
tão social. O objetivo deste artigo é problematizar e desconstruir essa visão
pragmática acerca do trabalho do assistente social com vistas a resgatar sua
dimensão investigativa. Parte-se da premissa de que o exercício profissional do
assistente social exige uma atitude investigativa constante para que não se torne
meramente pragmática, sem intencionalidade e clareza de finalidade.
Tal assertiva remete, necessariamente, às inquietações interrogativas ad-
vindas de um desassossego da experiência da autora como assistente social,
formada há uma década, e de sua posterior inserção na docência em Serviço
Social2 e como pesquisadora da área.3 A relação entre a atitude investigativa e
a pesquisa no trabalho do assistente social aporta um confronto de interrogações
no âmbito profissional e pessoal da autora que, em virtude de sua atuação nos
últimos três anos na formação de graduação em Serviço Social, em diferentes
instâncias pedagógicas, nos espaços formais4 e informais,5 deram origem aos
insumos básicos à elaboração deste texto.

1. Neste texto conceitua-se pragmatismo a partir de Faleiros (1986, p. 5): “O pragmatismo consiste
numa atitude voltada para a solução de problemas imediatos, sem pensar e refletir as consequências teóricas
e históricas desta ação imediata”.
2. Docente nos cursos de graduação em Serviço Social, supervisora acadêmica, coordenadora de estágio
em Serviço Social, orientadora de Trabalho de Conclusão de Curso, coordenadora de curso em Serviço Social.
(N.E.)
3. Muito embora se deva explicitar que o objeto de estudos da autora esteve voltado para “A saúde do
trabalhador, com foco no acidente de trabalho”, é um tema transversal que perpassa a intervenção profissio-
nal do assistente social e foi preciso apreendê-lo como uma forma de violência visível e invisível, contextu-
alizada numa dinâmica construída no seio das relações sociais, econômicas e políticas, culturalmente aceitas
ou não. (N.E.)
4. Para fins deste texto, está se referindo a espaços formais como aqueles constituídos no âmbito de atua-
ção profissional, no espaço universitário, acadêmico, nos espaços de diálogo com as assistentes sociais de
campo, nas reuniões com as colegas docentes AS, nos encontros, seminários e congressos da categoria. (N.E.)
5. Os espaços informais, neste texto, estão sendo referenciados como aqueles constituídos fora do
âmbito de atuação profissional, nos diálogos de “bar”, de intervalos de aula, de confraternização com

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 40-64, jan./mar. 2010 41


Entre as questões que motivaram e mobilizaram a abordagem deste assun-
to, procurou-se dissertar sobre aquelas que pareceram importar ao debate da
categoria em pleno século XXI, como, por exemplo, qual é a relação entre a
atitude investigativa e o trabalho do assistente social na contemporaneidade?
Por outro lado, como o AS pode atuar se não investiga, se é um profissional que
trabalha com a viabilização do acesso aos direitos dos usuários? Como refletir
e construir conhecimento sem a pesquisa do cotidiano de trabalho profissional?
Como atuar efetivamente sem suporte investigativo?
O delineamento desses questionamentos permitiu, também, formular a
premissa básica de que a atitude investigativa é o fomento básico do exercício
profissional do assistente social que se refere ao movimento de desocultamen-
to do real, e também que esse profissional, assim como o de outras áreas, só
investiga aquilo que conhece e o incomoda: “Ou seja, nada pode ser intelectu-
almente um problema, se não tiver sido, em primeiro lugar, um problema da
vida prática” (Minayo, 1999, p. 17).
Em termos de estrutura, o texto está organizado em itens que permitem
elucidar o tema em foco. Assim, primeiramente será abordado aspectos do
trabalho do assistente social. A seguir discorrer-se-á sobre as especificidades
dos processos investigativos no trabalho profissional do assistente social. Na
sequência, será abordada a importância da interlocução do assistente social com
diferentes áreas profissionais, indicando possibilidades a serem consideradas
na busca interdisciplinar para uma atuação com maior alcance social nas dife-
rentes manifestações da questão social. Por fim, serão tecidas algumas consi-
derações em torno do ato/postura de investigação/ação do assistente social.

2. Componentes do trabalho profissional do assistente social


Historicamente o Serviço Social foi considerado vocação, habilidade,
ocupação, ofício ou até mesmo arte. Atualmente é reconhecido como profissão,
uma especialização do trabalho coletivo, inscrita na divisão social e técnica do

os acadêmicos do curso de Serviço Social, com as colegas AS, com as colegas docentes assistentes
sociais. (N.E.)

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trabalho, de nível superior, regulamentada no Brasil pela Lei n. 8.662/9, de 7
de junho de 1993. De acordo com Netto (1999, p. 102),

enquanto profissão, não dispõe de uma teoria própria, nem é uma ciência; isto não
impede, entretanto, que seus profissionais realizem pesquisas, investigações etc.
e produzam conhecimentos de natureza teórica, inseridos no âmbito das ciências
sociais e humanas.

Embora não tendo atingido o patamar de “ciência”, o Serviço Social con-


seguiu se constituir como uma área de produção de conhecimentos, inserida na
grande área de Ciências Sociais Aplicadas (assim é identificada nas agências
de fomento como CNPq, Capes e Fapergs), isto é, constrói conhecimento6
científico. O Serviço Social é uma profissão reconhecida na sociedade na me-
dida em que é socialmente necessária e exercida por um grupo social específi-
co, uma categoria profissional que compartilha um sentimento de pertencimen-
to e possui uma identidade profissional.7
As mudanças na concepção que se tem da profissão de assistente social
são consequências de processos históricos, e dependem do significado social
que se atribui à profissão, que é fruto de movimentos da categoria e também
da sua relação com a dinâmica e o desenvolvimento do conjunto da socieda-
de. Atualmente, além de ser uma profissão, o Serviço Social é considerado
trabalho.
A abordagem do Serviço Social como trabalho foi protagonizada por Ia-
mamoto em 1982 (Iamamoto e Carvalho, 1995), corroborada, posteriormente,
pela Abepss, a partir do processo de revisão curricular de ensino de graduação
em Serviço Social no Brasil, que redundou na proposta de Diretrizes Gerais
para o Curso de Serviço Social, respondendo a uma exigência da Lei de Dire-
trizes e Bases da Educação Nacional (Iamamoto, 1998).

6. O conhecimento concebido conforme proposto por Setúbal (2002, p. 31): “[...] como produto de um
processo metodologicamente construído, ou seja, pelo conhecimento produzido a partir da pesquisa em
Serviço Social [...] uma elaboração intelectual resultante do processo que ultrapassa o plano meramente
sensível, pela mediação do raciocínio lógico, dialético e da consciência sobre a realidade do objeto observa-
do presentes na produção de conhecimento, nas atitudes e no modo de agir do Serviço Social”.
7. Sobre essa discussão, no âmbito do Serviço Social, consultar Martinelli (1997).

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Alguns elementos realçados por Iamamoto também são sinalizados neste
espaço para subsidiar a abordagem do processo de trabalho do assistente social,
pois esse documento aponta a centralidade da categoria trabalho como funda-
mental ao debate contemporâneo do Serviço Social, porque o trabalho é “uma
atividade fundamental do homem, pois mediatiza a satisfação de suas necessi-
dades diante da natureza e de outros homens [...]. O trabalho é, pois, o selo
distintivo da atividade humana” (Iamamoto, 1998, p. 60).
Assim, de acordo com Prates (2003), apreender o Serviço Social como
trabalho significa considerar os elementos que integram o processo de trabalho8
dos assistentes sociais como partes indissociáveis, reconhecendo que o assis-
tente social é um trabalhador que desenvolve um processo de trabalho: “o tra-
balho do assistente social na sociedade capitalista produz um valor de uso (o
serviço oferecido ao usuário, aos grupos, à comunidade, às organizações e às
instituições) e um valor de troca (preço pago por este serviço no mercado de
trabalho)” (Prates, 2003, p. 108).
Sendo assim, desvendar o objeto de trabalho pelo qual o assistente social
atua é essencial para o desenvolvimento de um processo de trabalho consisten-
te. Portanto, conhecer como a questão social se manifesta no cotidiano dos
sujeitos sociais e suas formas de organização e resistência é imprescindível para
que se tenham subsídios para construir coletivamente alternativas para o seu
enfrentamento.
A questão social, considerada pela categoria profissional como a base de
sua fundação na especialização do trabalho do assistente social, precisa ser
apreendida na contradição fundamental da sociedade capitalista:

Questão social que, sendo desigualdade é também rebeldia, por envolver sujeitos
que vivenciam as desigualdades e a ela resistem e se opõem. É nesta tensão entre
produção de desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, que trabalham
os assistentes sociais, situados neste terreno movido por interesses sociais distin-
tos, aos quais não é possível abstrair ou fugir deles porque tecem a vida em so-
ciedade. (Iamamoto, 1998, p. 28)

8. A respeito desta abordagem do processo de trabalho do assistente social é interessante consultar Ia-
mamoto (1998), Almeida (1996), Barbosa, Cardoso e Almeida (1998) e Prates (2003).

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O cerne da questão social está enraizado no conflito entre capital versus
trabalho, suscitado entre a compra (detentores dos meios de produção) e venda
da força de trabalho (trabalhadores), que geram manifestações e expressões.
Estas manifestações e expressões, por sua vez, são subdivididas entre a geração
de desigualdades: desemprego, exploração, analfabetismo, fome, pobreza, entre
outras formas de exclusão e segregação social que constituem as demandas de
trabalho dos assistentes sociais; também se expressa pelas diferentes formas de
rebeldia e resistência: todas as maneiras encontradas pelos sujeitos para se opor
e resistir às desigualdades, como, por exemplo, conselhos de direitos, sindicatos,
políticas, associações, programas e projetos sociais.
Desta forma, a finalidade do trabalho do assistente social está voltada para
a intervenção nas diferentes manifestações da questão social com vistas a con-
tribuir com a redução das desigualdades e injustiças sociais, como também
fortalecer os processos de resistências dos sujeitos (materializados em organi-
zações sociais, movimentos sociais, conselhos de direitos...), na perspectiva da
democratização, autonomia dos sujeitos e do seu acesso a direitos.
Para tanto, o assistente social deverá imprimir em sua intervenção profis-
sional uma direção, sendo necessário, para isto, conhecer e problematizar o
objeto de sua ação profissional, construindo sua visibilidade a partir de infor-
mações e análises consistentes — atitude investigativa. Concomitantemente, o
trabalho do AS deverá ser norteado por um plano de intervenção profissional
objetivando construir estratégias coletivas para o enfrentamento das diferentes
manifestações de desigualdades e injustiças sociais, numa perspectiva histórica
que apreenda o movimento contraditório do real. Isto pressupõe:
a) pesquisar dados de realidade quantitativos, pois de acordo com Marti-
nelli (1994), as pesquisas quantitativas são imprescindíveis para trazer
retratos da realidade, dimensionar os problemas que se investiga;
b) investigar sobre as informações qualitativas da realidade. Conforme
Martinelli (1994), as metodologias qualitativas aproximam pesquisador/
sujeitos pesquisados, permitindo ao primeiro conhecer as percepções
dos segundos, os significados que atribuem a suas experiências, seus
modos de vida, ou seja, oferece subsídios para trabalhar com o real em
movimento, em toda a sua plenitude;

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c) desvendar e problematizar a realidade social, apreendendo os modos
e as condições de vida dos sujeitos com seus condicionantes históricos,
sociais, econômicos e culturais, e também seus anseios, desejos, neces-
sidades, demandas;
d) intervir na realidade social com base na apreensão do movimento
contraditório do real, a partir do seu desvendamento e problematização,
e também de pesquisas sobre dados da realidade dos sujeitos.

O Serviço Social é uma profissão investigativa e interventiva. Portanto, as


análises de seus estudos e pesquisas precisam ser realizadas a partir de situações
concretas e possuir utilidade social, não interessando o conhecimento realizado
apenas com finalidade descritiva e contemplativa. Para que os estudos e pesqui-
sas tenham utilidade social é fundamental, além da clareza do projeto ético-
-político9 construído coletivamente pela categoria, o domínio teórico-metodo-
lógico10 e técnico-operativo,11 alicerçados pelo conjunto de conhecimentos,
habilidades, atribuições, competências e compromissos necessários à realização
dos processos de trabalho, em qualquer espaço ou âmbito de atuação onde o
assistente social o realize.
O AS exerce sua atividade profissional em diversos espaços, âmbitos,
áreas, segmentos populacionais (criança e adolescente, idoso, pessoas portado-

9. O projeto ético-político tem como seus pilares básicos o Código de Ética Profissional dos Assisten-
tes Sociais/Resolução CFESS n. 273/93 de 13 de março de 1993 (Conselho Federal de Serviço Social,
1993a), a Lei de Regulamentação da profissão/Lei n. 8.662/9, de 7 de junho de 1993 e as diretrizes curri-
culares do curso de Serviço Social. Este último pilar possui nortes básicos expressos nos documentos:
Abepss, 1996; Diretrizes..., 1997. Sobre o projeto ético-político, é interessante ver também: Netto, 1999;
Sant’Ana, 2000.
10. Segundo Nogueira (2005, p. 185), a dimensão teórico-metodológica está voltada para o modo, a
maneira de ler e interpretar os fenômenos sobre os quais a profissão se debruça. Na visão de Silva (1999),
o consistente conhecimento teórico-metodológico propicia aos profissionais uma compreensão clara da
realidade social e a identificação das demandas e possibilidades de ação profissional que esta realidade
apresenta.
11. A capacitação técnico-operativa ou técnico-operacional é a dimensão que possibilita, conforme
Silva (1999, p. 113), “a definição de estratégias e táticas na perspectiva da consolidação teórico-prática de
um projeto profissional compromissado com os interesses e necessidades dos usuários, com a defesa dos
direitos sociais, com a ampliação da esfera pública e com a construção de uma nova cidadania social, capaz
de realizar e impulsionar novos direitos, mediante o fortalecimento da consciência de classe e da organização
política, sindical e comunitária”.

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ras de necessidades especiais, família)12 e em diferentes setores (seguridade
social: saúde, previdência social, assistência social; educação, trabalho, habita-
ção e na questão agrária). Dessa multiplicidade de possibilidades de atuação
advém também uma variedade de processos de trabalho, o que exige desse
profissional um arsenal de conhecimentos variados.
Esse arsenal de conhecimentos ético-político, teórico-metodológico e
técnico-operativo do qual o assistente social precisa apropriar-se no seu âmbito
de atuação profissional varia, desde os considerados específicos, decorrente da
área de Serviço Social propriamente dita, como também apropriações sobre
legislações (principalmente a relativa à legislação social voltada para a criança
e o adolescente — ECA; idoso — Estatuto do Idoso; SUS — Sistema Único de
Saúde; Loas — Lei Orgânica de Assistência Social; Sistema Único de Assis-
tência Social — Suas; Suas/RH; Política Nacional de Pessoas Portadoras de
Deficiência — PPD; Lei de Diretrizes e Bases — LDB); políticas sociais, co-
nhecimento e habilidade de trabalhar em equipes, interfaces com poder público
local, articulação de redes e com instâncias locais diversas, o que requer, além
da formação generalista, apropriações aprofundadas dependendo da inserção
sócio-ocupacional.
Na questão dos espaços sócio-ocupacionais, o assistente social pode atuar
em entidades públicas, tais como: prefeituras, Judiciário, Ministério Público,
Instituto Nacional de Seguro Social — INSS, escolas, albergues, abrigos, sis-
tema carcerário (presídios e penitenciárias), Fase, hospitais, e também em en-
tidades privadas: empresas de serviços, de comércio, de indústria. No denomi-
nado terceiro setor, poderá atuar em entidades socioassistenciais, associações
de moradores, Organizações Não Governamentais — ONGs. Além disso, po-
derá atuar também nas áreas de ensino e pesquisa, de maneira autônoma, com
assessoria e consultoria em projetos de gestão e planejamento social.
Diante desse amplo leque de possibilidades de atuação profissional, a Lei
de Regulamentação da Profissão de Assistente Social estabelece as balizas da

12. A respeito da intervenção profissional do assistente social com famílias, é interessante consultar os
estudos de Regina Célia Tamaso Mioto, especialmente o artigo intitulado “Trabalho com famílias: um desa-
fio para os assistentes sociais” (2004).

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ação para esses profissionais, de modo a clarificar as atribuições que lhes são
privativas, como também competências13 adquiridas ao longo de sua constitui-
ção, deslindando o papel do assistente social para a própria categoria profissio-
nal e para seus empregadores.
As competências previstas ao assistente social estão explicitadas no art. 4º
(nos incisos de I a XI) da Lei de Regulamentação da Profissão — Lei n. 8.662/9,
de 7 de junho de 1993, que, de maneira sucinta, prevê ao assistente social as
atividades descritas no Quadro 1, disposto na sequência (CFSS, 1993b).

Quadro 1
Competências previstas ao assistente social no art. 4º, da
Lei de Regulamentação da Profissão — Lei n. 8.662/93

Rol de atividades previstas como competências do assistente social

— planejar, organizar, administrar: benefícios e serviços sociais;

— planejar, executar, avaliar pesquisas (para análise da realidade social e para subsidiar a ação
profissional);

— assessoria/consultoria: órgãos públicos, empresas privadas, outras entidades;

— assessoria, apoio, defesa, exercício de direitos (sociais, civis e políticos): movimentos sociais;

— implementar, elaborar, executar, avaliar: políticas sociais (junto à administração pública, empresas,
entidades, organismos populares);

— elaborar, coordenar, executar, avaliar: planos, programas e projetos juntamente com a sociedade
civil;

— providências: encaminhar, orientar — indivíduos, grupos, populações;

— orientar: indivíduos e grupos a identificar recursos, fazer uso, atender e defender direitos;

— realizar estudos socioeconômicos com usuários: benefícios e serviços sociais;

— planejar, organizar, administrar: serviços sociais/unidades de Serviço Social.

Fonte: Síntese elaborada pela autora, com base no art. 4º da Lei de Regulamentação da Profissão — Lei
n. 8.662, de 7 de junho de 1993 (CFSS, 1993b).

13. Competências são genéricas e expressam capacidade para apreciar ou dar resolutividade a determi-
nado assunto, não sendo exclusiva de uma única especialidade profissional, mas a ela pertencem em função
da capacitação dos profissionais (Iamamoto, 2002). (N.E.)

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Vale ressaltar que, de acordo com Iamamoto (2002), a respeito dos referi-
dos artigos da Lei de Regulamentação da profissão, os incisos II, III, VIII e XI,
do art. 4 º, embora colocados como competências, são, na realidade, atribuições
privativas do assistente social, pois o que delimita o caráter da atividade como
exclusiva do assistente social é a sua qualificação enquanto matéria, área e
unidade14 de Serviço Social. Além disso: “apresentam competências que tam-
bém estão previstas no art. 5º. da referida lei concernente às atribuições priva-
tivas” (Iamamoto, 2000, p. 17).
No que se refere as atribuições privativas15 do assistente social, estão ex-
plicitadas no art. 5º, (nos incisos de I a XIII) da Lei de Regulamentação da
Profissão — Lei n. 8.662, de 7 de junho de 1993 que, sumariamente, prevê ao
assistente social as atividades explicitadas no Quadro 2, a seguir:

Quadro 2
Atribuições privativas asseguradas ao assistente social no art. 5º da
Lei de Regulamentação da Profissão — Lei n. 8.662, de 7 de junho de 1993

Rol de atividades asseguradas como atribuições privativas do assistente social

— realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações, pareceres (em matéria de Serviço
Social);

— magistério de Serviço Social (graduação e pós-graduação): assumir disciplinas e funções que exijam
conhecimentos específicos;

— direção/coordenação de unidades de ensino e cursos de Serviço Social (graduação e pós-graduação);

— supervisão direta de estagiários de Serviço Social: treinamento, avaliação;

— assessoria e consultoria (em matéria de Serviço Social) — órgãos públicos, empresas privadas,
outras entidades;

— associações, núcleos, centros de ensino e pesquisa: dirigir, coordenar;

continua...

14. Sinteticamente Iamamoto (2002) distingue matéria, área e unidade da seguinte maneira: a matéria
é o objeto ou assunto sobre o que particularmente se exerce a força de um agente; a área é o campo delimi-
tado ou âmbito de atuação do assistente social, enquanto unidade pode ser definida como sendo o conjunto
de profissionais de uma unidade de trabalho. (N.E.)
15. Atribuições privativas: são prerrogativas exclusivas, privilégio de uma área, direito e poder de rea-
lizar algo, é exclusiva e designada como atribuição (Iamamoto, 2002). (N.E.)

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continuação

— provas, bancas examinadoras, comissões, concursos/seleção: elaborar, presidir, compor, aferir


conhecimentos;

— estudos/pesquisas, planos, programas, projetos (na área de Serviço Social): elaborar, coordenar,
executar, avaliar, supervisionar;

— fiscalizar o exercício profissional — por meio dos conselhos (Cress e CFESS);

— órgãos e entidades representativos da categoria: ocupar cargos, dirigir, fiscalizar (gestão financeira);

— dirigir serviços técnicos de Serviço Social: entidades públicas ou privadas;

— coordenar seminários, encontros, congressos e eventos de Serviço Social;

— planejar, organizar, administrar: programas e projetos em Unidade de Serviço Social.

Fonte: Síntese elaborada pela autora, com base no art. 5º da Lei de Regulamentação da Profissão — Lei
n. 8.662, de 7 de junho de 1993 (CFSS, 1993b).

A Lei de Regulamentação da Profissão estabelece os parâmetros legais que


asseguram as competências ao assistente social e ampara suas prerrogativas
exclusivas a cada profissional que precisa, então, ter ciência de seu teor para
lançar mão desse aparato legal, nos diferentes âmbitos de atuação profissional.
Isso posto, vale ressaltar que a referida lei é um instrumento que só terá
sua efetividade e alcance no coletivo da categoria, na medida em que cada as-
sistente social tiver clareza de finalidade no seu exercício profissional cotidiano,
visto que quem não sabe onde quer ir, perde-se no caminho e não chega a lugar
nenhum.

3. A atitude investigativa no cotidiano de trabalho do assistente social


A Abepss (1996), na proposta das Diretrizes Gerais para o Curso de Ser-
viço Social, postula como princípios da formação profissional (entre outros), o
estabelecimento das dimensões investigativa e interventiva como princípios
formativos que devem perpassar a formação profissional e da relação teoria e
realidade; recomenda a questão do caráter interdisciplinar nas várias dimensões
do projeto de formação profissional do assistente social. Afirma ainda que
a grade curricular do curso deve possibilitar uma indissociabilidade nas dimen-

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sões de ensino, pesquisa e extensão. Ao ser mencionado o conjunto de conhe-
cimentos indissociáveis, que se traduzem em núcleos de fundamentação cons-
titutivos da formação profissional, vale trazer a lume que o denominado Núcleo
de Fundamentos do Trabalho Profissional sinaliza: “A postura investigativa é
um suposto para a sistematização teórica e prática do exercício profissional,
assim como para a definição de estratégias e o instrumental técnico que poten-
cializam as formas de enfrentamento da desigualdade social” (Abepss, 1996,
p. 67). A Pesquisa16 em Serviço Social, é apresentada como uma das matérias
básicas do curso.
Antes de se problematizar acerca da atitude investigativa no exercício
profissional do assistente social, é importante ter presente que o atual Código
de Ética do Assistente Social prevê como um dos seus onze princípios funda-
mentais a questão do compromisso com a qualidade dos serviços prestados à
população e com o aprimoramento intelectual17, na perspectiva de competência
profissional. Tal princípio remete ao que Battini (1994) propõe a denominada
“atitude investigativa”.
Para se entender o que seria atitude investigativa, pode-se recorrer às me-
táforas do olhar do viajante turista e do viajante expedicionário. O que é um
viajante turista? No Dicionário de Língua Portuguesa Novo Aurélio Século XXI,
turista é aquela pessoa que faz turismo, enquanto turismo seria uma viagem ou
excursão, realizada por prazer, a locais que despertam interesse. O olhar do
turista divaga. O seu objetivo é o de passeio. Já na expedição o objetivo do
viajante está ligado a explorar, pesquisar, estudar uma região, geralmente em
caráter científico.
A questão que se coloca ao profissional, então, seria quando seu exercício
profissional remete ao caráter turista ou expedicionário no cotidiano de trabalho?
Depende da postura e do olhar. Pode-se referir a um profissional turista quando
sua postura, como sujeito, não busca mergulhar no desconhecido; se o seu olhar

16. Em termos gerais concebe-se pesquisa como “a atividade básica da Ciência na sua indagação e
construção da realidade” (Minayo, 1999, p. 17).
17. O que enseja a necessidade de uma formação profissional continuada no âmbito da categoria de
assistentes sociais.

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é ingênuo e acomodado. Nesse caso, seu olhar apenas divaga e vagueia pela
paisagem do seu ambiente de trabalho. Contudo, um profissional que se quer
de expedição possui uma postura investigativa, o seu olhar é crítico, exigente,
seletivo, tem a pretensão de colher informações, saber mais. Nesse segundo
caso, o olhar do profissional será curioso, inquieto e sensível.
Nessa linha, pode-se também referir o personagem John Nasch do filme
intitulado Uma mente brilhante (A beautiful mind — EUA, 2001). É um via-
jante de excursão ou de expedição? Diferente dos outros colegas, ele busca
uma ideia original para compor sua tese. Seu olhar não é acomodado e limita-
do ao que já foi produzido, mas não ignora o que já foi produzido. Pelo con-
trário, busca conhecer para fugir do óbvio. Na sua busca expedicionária, des-
taca-se sua postura investigativa, de humildade, persistência, crise intelectual
e de constante busca. Nasch não tem um tema para sua tese quando chega à
universidade; ele quer elaborar uma excelente tese. Para chegar ao seu objeti-
vo, sua busca é incansável: lê muito, desconstrói conceitos, sofre, observa,
estranha, contesta.
O que seria, então, a propalada atitude investigativa? Remete a uma pos-
tura aberta do sujeito para investigar, a permanente curiosidade, expectativa
para aprender e entender o inesperado, o acaso, o que extrapola suas referências
e o leva a ir além. A atitude investigativa consiste numa postura inquieta e
curiosa, por isso é fundamental na bagagem cotidiana do profissional. A au-
sência dessa postura pode levar à cristalização das informações, à estagnação
do aprendizado profissional, o que, consequentemente, comprometerá o com-
promisso do assistente social com a qualidade dos serviços prestados à popu-
lação usuária.
Nessa perspectiva, Battini refere que a atitude investigativa é a permanen-
te busca do novo pela reconstrução de categorias teórico-metodológicas de
leitura e intervenção na realidade social, pois:

Pensar os fatos, os acontecimentos, as relações exige questionar, investigar a re-


alidade, criticá-la, tornando-a evidente pela contínua recolocação de questões,
fazendo-a emergir de forma cada vez mais rica e viva, recriando-a num contínuo
percurso entre a aparência e a essência, entre a parte e o todo, entre o universal e
o particular, numa visão dialética. (Battini, 1994, p. 144)

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De acordo com a mesma autora, a atitude investigativa torna possível a
superação da visão pragmática na ação profissional, centrada na imediaticidade
dos fatos e que privilegia sequências empíricas. Além disso, no exercício pro-
fissional do AS, a atitude investigativa desmistifica o fato de que só fazem
ciência ou só agem cientificamente aqueles que têm o privilégio de construir o
saber, ou seja, os assistentes sociais que estão inseridos nas academias como
docentes e pesquisadores, uma vez que tal atitude propicia desvendar, pelas
mediações, a realidade aparente.
As ações profissionais dos assistentes sociais, por serem tecidas no cotidia-
no, não podem ser repetitivas, rotineiras e esvaziadas de sentido, ao contrário, é
justamente daí que advém a sua preciosidade, conforme esclarece Martinelli (1994,
p. 13): “uma riqueza de vida que poucas profissões têm, temos uma atividade que
se constrói na trama do cotidiano, que se constrói nas tramas do real”.
O assistente social tem uma ação profissional que se tece no dia a dia dos
usuários, na particularidade de suas vidas, conforme a mesma autora explicita,
transita entre demandas, carências e necessidades que se constituem de ações
múltiplas. Sendo assim, esse profissional é desafiado a superar-se constante-
mente, reconhecendo a realidade sócio-histórica em que vive e trabalha, tornan-
do-se protagonista da construção do projeto ético-político da categoria, que deve
assegurar a ampliação da liberdade, ser atuante na consolidação da democracia,
garantindo a todos os sujeitos maior equidade e justiça social, enfrentando as
contradições e desigualdades socialmente produzidas.
O assistente social possui uma profissão com características muito singu-
lares, pois diferentemente das demais profissões que atuam sob uma área espe-
cífica, tal como o professor, o médico, o enfermeiro, o nutricionista, o advoga-
do e outros, ele tem uma profissão que, como um leque, podem ser ventiladas
muitas possibilidades de atuação, conforme acentua Carvalho (2005, p. 52):

Ela não atua sobre uma única necessidade humana (tal qual o dentista, o médico,
o pedagogo...) nem tampouco se destina a todos os homens de uma sociedade,
sem distinção de renda ou classe. Sua especificidade está no fato de atuar sobre
todas as necessidades humanas de uma dada classe social, ou seja, aquela forma-
da pelos grupos subalternos, pauperizados ou excluídos de bens, serviços e rique-
zas dessa mesma sociedade.

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Muito embora concorde-se com a autora citada sobre a multiplicidade de
territórios e demandas empreendidas ao Serviço Social, discorda-se de sua afir-
mação quanto à especificidade de o profissional dessa área atuar unicamente
numa classe social específica, a dos desprivilegiados economicamente. Isto
porque se considera as expressões da questão social como objeto de trabalho do
assistente social, tanto em suas formas de manifestação das desigualdades sociais,
como nas formas de resistências empreendidas pelos sujeitos. Percebe-se que
são contradições que se materializam de modo diverso em diferentes áreas, para
diferentes segmentos sociais, em diferentes âmbitos da vida social, ainda que de
maneira prioritária (mas não exclusiva): os segmentos sociais subalternos, pau-
perizados e excluídos de bens, serviços e riquezas da sociedade capitalista.
Por outro lado, porém, a dinâmica das relações que forjam a intervenção
do AS não se inscreve na superfície, no aparente; é preciso resgatar o seu mo-
vimento penetrando na sua essência, e isto implica e constitui uma postura in-
vestigativa permanente. Para se apreender o trabalho do AS deve-se situá-lo no
contexto das relações sociais concretas de cada sociedade, pois a ação do AS é
um produto humano construído historicamente. Conforme

O Serviço Social, como as demais profissões, na medida em que se refazem e se


constroem as relações na sociedade, vai se reconstruindo e refazendo, muito
embora nesse processo não supere os limites das relações postas pelo capitalismo,
uma vez que a própria sociedade não os supera. Nesse processo de re-construção,
as ações individuais podem assumir, ao mesmo tempo, as dimensões de síntese
resultante do processo colectivo de elaboração de conhecimentos e práticas de-
senvolvidos pela categoria — e de criação de novas propostas e de novos conhe-
cimentos. (Baptista, 2001, p. 15-16)

Kosik (1995), em Dialética do concreto, usa os termos “claro-escuro”,


“meia-verdade” ao se referir à maneira como a realidade se apresenta, expli-
cando que o mundo real é oculto pela pseudoconcreticidade, apesar de nela se
manifestar. Nesse sentido, há uma contradição essencial na realidade que é
preciso desvendar, pois:

O mundo da pseudoconcreticidade é um claro-escuro de verdade e engano. O seu


elemento próprio é o duplo sentido. O fenômeno indica a sua essência e, ao mesmo

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tempo, a esconde. A essência se manifesta ao fenômeno, mas só de modo inade-
quado, parcial, ou apenas sob certos ângulos e aspectos. (Kosik, 1995, p. 15)

Sabe-se que a realidade não se apresenta no aparente de forma total, ape-


nas parcial, pois se assim o fosse, explica Kosik (1995) valendo-se de Marx,
seria inútil o papel da ciência e da filosofia. Ao contrário, como a essência —
diferentemente dos fenômenos — não se manifesta diretamente, e desde que o
fundamento oculto das coisas deve ser descoberto mediante uma atividade
peculiar, têm de existir a ciência e a filosofia.
A partir das contribuições de Kosik (1995), ter clareza da dubiedade da
qual se reveste a realidade social é essencial para o assistente social, para que,
imbuído de uma visão de homem e de mundo, de apreensão crítica do objeto
de atuação profissional, consiga captar suas contradições. Nessa perspectiva,
também são fundamentais as categorias totalidade18 e historicidade19 inseridas
no movimento do real, de maneira que seja possível conceber a ação profissio-
nal do AS como uma atividade de desvendamento e transformação da realidade,
portanto de investigação e intervenção social: “é na vida real que começa, por-
tanto a ciência real, positiva, a análise da atividade prática, do processo, do
desenvolvimento prático dos homens. Cessam as frases ocas sobre a consciên-
cia, para que um saber real as substitua” (Marx e Engels, 2002, p. 20).
De forma coerente com a perspectiva marxista de apreensão da realidade,
o AS é um trabalhador que parafraseando Marx, atua com o sujeito de “carne e
osso”, com sua história de vida real. A partir do processo de vida real é possível
decifrar as questões que se colocam na singularidade do sujeito, conhecer a
realidade social em que está inserido, apreendendo os seus modos e condições

18. A totalidade, na visão de Kosik (1995, p. 49), não significa apreensão de todos os fatos. Significa a
percepção da realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer pode vir a
ser racionalmente compreendido. Nesse sentido: “Princípio metodológico da investigação dialética da reali-
dade social é o ponto de vista da totalidade concreta, que antes de tudo significa que cada fenômeno pode ser
compreendido como momento do todo”.
19. Historicidade significa reconhecer o processo, o movimento e a transformação dos sujeitos, da re-
alidade e dos fenômenos sociais. Significa apreender os fatos como em permanente desenvolvimento e,
portanto, apreendê-los em cortes históricos. Para além da cronologia dos fatos que marcam a história, busca-
-se resgatar fatos significativos.

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de vida com seus condicionantes históricos, sociais, econômicos e culturais,
porém também os seus anseios, desejos, necessidades e demandas.
Para se apreender o trabalho do assistente social deve-se situá-lo no con-
texto das relações sociais concretas de cada sociedade, pois sua ação é um pro-
duto humano, uma objetivação construída historicamente, o que requer uma
postura investigativa sobre o real, pois esta “é necessária para descortinar as
armadilhas da vida cotidiana, passo crucial e insubstituível para uma intervenção
profissional crítica, propositiva e, portanto, não repetitiva” (Silva, 2007, p. 11).
Nesse sentido, é preciso considerar as mudanças tecidas na sociedade, pois
as transformações que emergem na cena contemporânea e em curso alteram
significativamente o tecido social e, consequentemente, o cenário e o palco onde
são engendradas as relações sociais. Tais alterações produzem novas necessi-
dades na sociedade, pois, diante do quadro caótico do contexto de agudização
da questão social, cada vez mais são imprescindíveis profissionais comprome-
tidos com o enfrentamento das mais variadas expressões da questão social,
profissionais que tenham, conforme sinaliza Iamamoto (1998, p. 80),

uma competência crítica capaz de decifrar a gênese dos processos sociais, suas
desigualdades e as estratégias de ação para enfrentá-las. Supõe competência teó-
rica e fidelidade ao movimento da realidade; competência técnica e ético-política
que subordine o “como fazer” ou “o que fazer” e, este ao “dever ser”, sem perder
de vista seu enraizamento no processo social.

Tal competência sinalizada pela autora dificilmente será capaz de ser con-
templada com o sujeito solitário, pois os desafios são imensos e sempre reno-
váveis. Sendo assim, o próximo item irá abordar a ação do assistente social
tensionada pela postura investigativa e pela busca interdisciplinar.

4. O exercício profissional do assistente social: uma equação tensionada pela


postura investigativa e pela interdisciplinaridade
O trabalho em conjunto tem sido uma tendência discutida como uma pos-
sibilidade em diversas áreas, não somente no Serviço Social. Atualmente os

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profissionais estão cada vez mais se conscientizando de que o trabalho solitário
e isolado compromete as intervenções. No cotidiano de atuação profissional do
AS não parece ser diferente; o que talvez precise mudar é o despertar generali-
zado dos profissionais no sentido de envidar esforços para que seja construída
uma trajetória de trabalho conjunta, cada área oferecendo a sua contribuição e
especificidade. Dada a importância da questão às intervenções na área de Ser-
viço Social, abordar-se-á teoricamente a discussão sobre as relações entre as
áreas do saber.
Inicialmente é preciso destacar que pensar interdisciplinaridade pode en-
sejar alguns equívocos — como a globalização de atividades —, no sentido de
que pode ser realizada por apenas um profissional. Igualmente, e o mais preo-
cupante, é a forma como se exterioriza a tão propalada interdisciplinaridade,
sem que se afaste da hierarquização entre as áreas do saber, colocando-se umas
como mais importantes que as outras, e o uso inconsequente do termo interdis-
ciplinaridade, que o empobrece e banaliza.
A interdisciplinaridade precisa ser pensada como uma necessidade de
interação e busca dos profissionais das diferentes áreas do conhecimento. No
vernáculo pátrio, a palavra interdisciplinar (inter + disciplinar) refere-se ao que
é comum a duas ou mais disciplinas ou ramos do conhecimento, enquanto
multidisciplinar (de mui(i) + disciplina) abrange ou refere-se a muitas discipli-
nas (Ferreira, 1999).
Na maioria das vezes, as diferentes disciplinas estanques não contemplam
as questões emergentes da sociedade; logo, não consideram a complexidade das
múltiplas expressões da questão social. Refrações da questão social, como a
violência, educação, segurança, preconceitos, a saúde do trabalhador e tantas
outras, desafiam os profissionais diariamente, sendo-lhes demandadas questões
que, por sua vez, não são passíveis de abordagens isoladas, havendo necessida-
de do diálogo com profissionais de diversas áreas.
Pode-se dizer que algumas das grandes limitações para se desenvolver um
trabalho interdisciplinar são a falta de tempo, a sobrecarga de trabalho que
demarca esse período em que se vive e a falta de oportunidades para planeja-
mentos em equipe, surgindo, assim, a internet como alternativa para trabalhar
conjuntamente, de maneira virtual.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 40-64, jan./mar. 2010 57


No Serviço Social, a interdisciplinaridade pode ser trabalhada como uma
possibilidade já nos cursos de formação de graduação. Isso pode ser viabiliza-
do na medida em que:
a) há uma profunda articulação do conhecimento advindo de uma forma-
ção que se pretende generalista, voltado para a busca da unidade;
b) o campo de atuação do Serviço Social é múltiplo e amplo, o que o
torna particularmente complexo e promissor na interação, troca e par-
ceria na intervenção profissional;
c) o projeto profissional da categoria prima por princípios profissionais
que enaltecem a liberdade, a defesa dos direitos humanos, a luta pela
ampliação e consolidação da cidadania, a defesa da democracia, o
empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, a garantia
do pluralismo, o compromisso com a qualidade dos serviços prestados
e com o aprimoramento intelectual. Tais princípios só se concretizam
pela necessária articulação com outras categorias profissionais na luta
pela equidade e justiça social que possibilitam o brilho coletivo.

De modo geral, para se exercitar a interdisciplinaridade proposta como


possibilidade a ser investida já nos cursos de formação de graduação, é neces-
sário ao Serviço Social o desenvolvimento de uma atitude interdisciplinar,
conforme propõe Fazenda (2003), que a caracteriza por ser

uma atitude diante de alternativas para conhecer mais e melhor; atitude de espera
ante os atos consumados, atitude de reciprocidade que impele à troca, que impe-
le ao diálogo — ao diálogo com pares idênticos, com pares anônimos ou consigo
mesmo —, atitude de humildade diante do próprio saber, atitude de perplexidade
ante a possibilidade de desvendar novos saberes, atitude de desafio — desafio
perante o novo, desafio de redimensionar o velho —, atitude de envolvimento e
comprometimento com os projetos e com as pessoas neles envolvidas, atitude,
pois, de compromisso em construir sempre da melhor forma possível, atitude de
responsabilidade, mas sobretudo de alegria, de revelação, de encontro, enfim, de
vida. (Fazenda, 2003, p. 82)

Sendo assim, a atitude interdisciplinar exige um exercício que precisa ser


construído e conquistado aos poucos, a cada dia, nas ações cotidianas dos pro-

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fissionais de diferentes áreas, pois são diversas as atitudes propostas pela auto-
ra que precisam ser desenvolvidas: atitude de busca de alternativas, de espera,
de reciprocidade, de humildade, de perplexidade, de desafio, de envolvimento
e comprometimento, atitude de responsabilidade e também de alegria, de reve-
lação, de encontro, enfim, de vida.
No âmbito do Serviço Social, encontra-se em Martinelli (1998b) um aler-
ta para o fato de que, individualmente, não é possível transformar a realidade
social, posto que não é como sujeito solitário que o assistente social vai se
constituir nesse momento para atender a tantas demandas postas no cotidiano.
Por isso é fundamental o sujeito coletivo e a superação da perspectiva do fazer
profissional do sujeito solitário.
Nesse sentido, a mesma autora, em outro momento, chama a atenção para
a divisão e fragmentação de saberes que muitas vezes permeiam a atuação dos
diferentes profissionais e que levam à fragilização de suas intervenções: “Todos
somos trabalhadores, lutamos por causas comuns e das diferenças de nossas
profissões é que devem brotar as possibilidades” (Martinelli, 1998a, p. 150).
Tendo-se clareza de que os saberes são sempre marcados pela incomple-
tude e insuficiência de intervenções, o diálogo entre as diferentes áreas pode
ser um caminho para se consolidar as atitudes necessárias à interação, pois
segundo Fazenda (2003, p. 69-70), “a metodologia interdisciplinar parte de uma
liberdade científica, alicerça-se no diálogo e na colaboração, funda-se no dese-
jo de inovar, criar, de ir além e exercita-se na arte de pesquisar [...] na qual se
desenvolva a capacidade criativa de transformar a concreta realidade”.
A interlocução entre as diferentes áreas do saber constitui-se como um
movimento interno de transformação das ciências, precisa estar aberta para o
diálogo, pois não emerge espontaneamente, mas exige uma luta árdua por mu-
dança de posturas, construídas tanto no plano individual quanto no coletivo, daí
a relevância da interdisciplinaridade.

5. Considerações finais
A atitude investigativa no cotidiano de trabalho do assistente social preci-
sa ser concebida na medida em que possibilita uma ação profissional reflexiva

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nutrida pela intencionalidade e pelo planejamento. A ação planejada define um
horizonte direcionado pelo desbravamento de ações permeadas de intenciona-
lidade, portanto, plenas de sentido. Ações plenas de sentido ressoam como um
tambor forte na pseudonaturalidade que encobre o véu das injustiças sociais
refletidas nas penumbras da acomodação, naturalização e banalização.
Sendo assim, a ação do assistente social precisa ser norteada pela equação
a seguir: postura investigativa + intervenção profissional + interdisciplinarida-
de = ação profissional com alcance social, que, por sua vez, será mediada pela
intervenção nas diversas manifestações da questão social. Tal equação só ad-
quirirá inteligibilidade e alcance social na medida em que for pautada pela
interdisciplinaridade.
Além disso, é fundamental ao assistente social intencionalidade e clareza
de finalidade, edificados com os princípios éticos construídos pela coletividade
da categoria profissional no seu projeto ético-político e fortalecido pelas ações
conjuntas com as diversas categorias profissionais e com os usuários em geral.
A poesia de Fernando Pessoa, a seguir, desafia para um olhar profissional que
vê sem preconceitos, de “saber ver sem estar a pensar”, conforme o poeta:

O essencial é saber ver;


Saber ver sem estar a pensar,
Saber quando se vê
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que
trazemos a alma vestida!)
Isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender.
(Poema, Pessoa, 2006, p. 63)

Para que seja possível ao assistente social fortalecer seus espaços de atu-
ação profissional na contemporaneidade é necessário um aprendizado da inter-
disciplinaridade, apreendida como uma possibilidade no exercício profissional,
em que os esforços conjuntos sejam conjugados em prol da população usuária,
onde seja possível despir a alma dos profissionais de preconceitos e despertá-los

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para “aprender a desaprender” para intervir de forma consistente, crítica, com-
petente e, principalmente, propositiva e coletiva.
Finalmente, a atitude investigativa é o que fomenta uma ação do assisten-
te social consistente, consequente e vice-versa. Enquanto a atitude investigativa
é um movimento constante de busca, questionamentos, debruçamentos, plane-
jamento para atuar na profissão, a ação profissional é consequência e, ao mesmo
tempo, subsídio para essa investigação. Sendo assim, é preciso se desvencilhar
dos limites do pragmatismo e incorporar a postura investigativa na ação do
assistente social. Justamente daí que reside o mote do tensionamento da equação
(postura investigativa + intervenção profissional + interdisciplinaridade = ação
profissional com alcance social) que está posto pela possibilidade da atitude
interdisciplinar que só poderá ser incorporado plenamente com a postura inves-
tigativa.

Artigo recebido em abr./2009 ■ Aprovado em dez./2009

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El diagnóstico social como discurso
experto en el área sociojurídica*
Diagnosis as a specialized discourse in the social-legal area

Carolina González Laurino**


Sandra Leopold Costábile***

Resumen: Como lectura de tercer orden sobre los sistemas exper-


tos, este trabajo analiza la práctica del diagnóstico social en el sistema
de protección social a la infancia y adolescencia en Uruguay, origina-
da a partir de una derivación judicial.
A través de una mirada inicialmente incómoda, se busca promover el
intercambio entre los especialistas que, desde el supuesto de una bio-
grafía que se construye reflexivamente, atribuye al sujeto la responsa-
bilidad y los riesgos de sus conductas.
Palabras clave: Modernidad. Reflexividad. Confianza. Diagnóstico.
Riesgo social.

Abstract: As third order reading on the expert systems, this work analyzes the practice of the social
diagnosis in protection system in Uruguay, judicially originated. By supposing a reflectivity biography,
social diagnosis attributes all responsibility and risks to the subjetc. This work seeks to promote a
debate between specialist about theoretical support of their work.
Keywords: Modernity. Reflexivity. Confidence. Diagnosis. Social risk.

* Revisão de estilo e normatização por Sandra Valenzuela.


** Doctora en Sociología y Ciencias Políticas (opción Sociología). Licenciada en Sociología. Asisten-
te Social. Docente e investigadora del Departamento de Trabajo Social. Facultad de Ciencias Sociales.
Universidad de la República, Montevideo — Uruguay. E-mail: carolsoc@gmail.com
*** Magíster en Trabajo Social. Asistente Social. Cursando Doctorado en Ciencias Sociales con mención
en Trabajo Social. Facultad de Ciencias Sociales. Universidad de la República, Uruguay. Docente e investi-
gadora del Departamento de Trabajo Social. Facultad de Ciencias Sociales. Universidad de la República,
Montevideo — Uruguay. E-mail: sleopold@adinet.com.uy

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010 65


1. Introducción

T
anto en el ámbito judicial como en el sistema de protección a la in-
fancia y adolescencia, el diagnóstico social1 constituye una mirada
de segundo orden frente a una situación problema que se somete a
juicio experto. Esta práctica — que supone analizar situaciones so-
ciales conflictivas a partir de códigos especializados — resulta habitual en los
espacios de inserción profesional tradicionales. Menos familiar, resulta, sin
embargo, la lectura que este trabajo propone; una lectura que se sitúa en el
plano de la observación de la observación, en la expresión de Luhmann.
Por tanto, si el diagnóstico es una mirada de segundo orden sobre la si-
tuación vivenciada, la lectura que aquí se sugiere se ubica en un registro de
tercer orden, que pretende tomar distancia del registro experto y situar el
análisis del analista en el lugar del objeto estudiado.
Este sesgo de la mirada representa un pequeño movimiento que tiene
enormes implicancias. Aunque ya acostumbrados después de tanto ejercicio,
este “mirar atrás de cámaras” que implicó centrar la atención en el proceso de
elaboración de un montaje cinematográfico, fue, al inicio, un tanto incómodo,
tanto para el observado, como para un nuevo público desacostumbrado a deve-
lar los tecnicismos con los que se construían sus ilusiones.
El plano de la observación de la observación del experto es, por tanto,
inicialmente incómodo para el analista y extraño para los sujetos a la mirada
experta, quienes raramente conocen los resultados de un dictamen cuyo desti-
natario final resulta ser otro especialista.
Esta particularidad del destinatario del discurso experto trae consigo una
cierta especialización en el lenguaje y en las categorías conceptuales utilizadas por

1. En el marco de este trabajo, se entiende como “diagnóstico social” a la lectura interpretativa de sín-
tomas y signos de una situación social conflictiva, que se somete al juicio experto. Estos expertos pueden
provenir de distintos ámbitos profesionales que, tanto en el ámbito judicial como en el sistema de protección
social uruguayo, puede ser médico — generalmente médico forense o médico psiquiátrico —, como psico-
lógico o social. El carácter “social” del diagnóstico no tiene pues, origen disciplinar, sino que pretende ser
una calificación del tipo de situación sujeta a interpretación por distintos especialistas. Esta forma de carac-
terización del diagnóstico refiere consecuentemente a los debates acerca de la medicalización y la psicolo-
gización de los conflictos sociales, que están implícitos en este trabajo.

66 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010


el analista. Es lo que ha pasado con la caracterización de situaciones individuales
y familiares bajo la terminología del riesgo social, como surge de las indagaciones
realizadas en el marco de la investigación que da origen a este trabajo.
De esta forma, la especialización técnica en el diagnóstico viene de la mano
de un aumento de precisión en la definición de los problemas por parte de los
expertos y de un afinamiento progresivo en la metodología y en los instrumen-
tos técnicos utilizados en la medición y en el análisis.
Sin embargo, esta mayor claridad y eficiencia en la delimitación de los
asuntos parece correlacionarse positivamente con la opacidad de los supuestos
que sostienen estos instrumentos operacionales, tanto para los profanos como
para los expertos en este tipo de discursos. Por eso, al exponer la trama concep-
tual e ideológica de estos productos técnicos, este trabajo de investigación
pretende plantear un debate que congregue a los especialistas a la discusión de
las pretensiones de validez de sus producciones de saber.
De esta forma, más allá de poner a funcionar la necesaria vigilancia epis-
temológica sobre la producción de conocimiento en el área sociojurídica, un
debate de estas características abre las posibilidades de intercambio al interior
de los sistemas expertos sobre las implicancias políticas de estos discursos
tanto en el sistema jurídico como en el sistema de protección social a la infan-
cia y la adolescencia.2

2. Los supuestos del análisis experto en el área sociojurídica


En un contexto altamente especializado, la esencia de los sistemas exper-
tos es la confianza que supone la convicción en la infalibilidad de los mecanis-

2. Este trabajo parte de una investigación realizada en el contexto de la edición 2008 de los Fondos
Concursables Carlos Filgueira del Programa de Infancia y Familia del Ministerio de Desarrollo Social uru-
guayo, que se orientó al análisis de las prácticas diagnósticas de la institución de asistencia a la infancia y la
adolescencia — producidas u ordenadas desde el ámbito judicial — como fuente de conocimiento acerca de
las familias uruguayas.
A nivel metodológico, se tomaron como unidades de análisis los informes diagnósticos elaborados por
el cuerpo técnico de los Juzgados de Familia Especializados y de la División de Estudio y Derivación del
Instituto de la Niñez y la Adolescencia en Uruguay seleccionados en función de criterios aleatorios de aná-
lisis muestral cuya trayectoria se siguió desde el sistema judicial a la institución asistencial.

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mos que se ponen en juego en todos los sistemas abstractos, independientemen-
te de poder tener a la vista los procesos que conducen a la verificación de los
sistemas. La confianza que supone adoptar en la vida de los sujetos un conjun-
to de decisiones diarias que condicionan la realización de sus acciones condu-
ce a la adopción de la perspectiva del cálculo de los riesgos (Giddens, 1995;
Beck, 1997, 1998, 2001).
Por eso, cuando una persona recurre a un sistema experto como el judicial
para resolver aspectos que hacen al manejo de sus bienes o a la configuración
de su propia vida familiar, está depositando la confianza en que se active un
mecanismo supraindividual de arbitraje de conflictos. Y, una vez activado, se
somete a la decisión institucional que las reglas que administran este complejo
sistema experto imponen, tanto a las acciones individuales, como a la propia
denominación, configuración y ordenamiento de las relaciones sociales que se
han puesto a consideración arbitral.
En el caso de la justicia, como sistema experto de arbitraje de conflictos
personales, institucionales o de otra forma de relaciones y vínculos sociales,
unos saberes especializados (por ejemplo, los jueces) recurren a otros (psicó-
logos, trabajadores sociales, psiquiatras, médicos forenses, calígrafos, ingenie-
ros etc.) para establecer aproximaciones diagnósticas sobre la situación a resol-
ver. En el escenario de la modernidad, la idoneidad en una materia no implica
la experticia en otra aledaña, por lo que Giddens sostiene que “los sistemas
abstractos son opacos para la mayoría” (1995: 46).
En este escenario, los diagnósticos sociales, debido a sus supuestos e im-
plicancias, parecen apoyarse en la perspectiva de la modernidad reflexiva como
soporte en la elaboración de sus dictámenes. Desde la idea de “modernidad
reflexiva”, Giddens habla de tres elementos para explicar el carácter dinámico
de la vida social moderna: la separación entre tiempo y espacio, el desenclave
de las instituciones sociales y la reflexividad generalizada (1995: 28-34).
No obstante, es la tercera de las características anunciadas por Giddens
— el carácter reflexivo de la modernidad — lo que en este momento interesa
subrayar. Tal carácter, supone, por una parte, una revisión constante de la mayo-
ría de los aspectos de la vida social, como consecuencia de la permanente
transformación del conocimiento. Por otra parte, como característica de la mo-

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dernidad tardía, la reflexividad constituye una inflexión en la forma de concebir
los condicionamientos sistémicos o las determinaciones institucionales sobre
el sujeto moderno.
Desde esta perspectiva, los actores sociales son capaces de sopesar las
opciones y las consecuencias de sus actos mediante un proceso de análisis
que los libera de las fuertes determinaciones institucionales y societales que
constreñían sus decisiones. Esta mayor independencia en la búsqueda de
herramientas con las que manejar su biografía otorgaría a los actores indivi-
duales y colectivos de un mayor poder de injerencia en sus asuntos, lo que, a
la vez que más libres, los convertiría en responsables de sus propias decisio-
nes. De este modo, esta capacidad de decisión sobre sus trayectorias perso-
nales y sociales los coloca enfrente a los múltiples riesgos que aparecen con
la vida moderna.3
Partiendo de este nuevo escenario, los teóricos de la modernidad reflexiva
invitan a pensar en la cuota parte que al individuo corresponde en la gestión de
sus propias actitudes y conductas respecto a la eventualidad de distintos tipos
de riesgo. El sujeto es visualizado frente a un abanico de opciones y al cálculo
de sus posibles ganancias y riesgos en la construcción reflexiva de su propia
biografía a la que se atribuye impacto universal.4
Por lo tanto, desde esta perspectiva, la identidad individual se entiende como
el logro de un yo auténtico, internamente referencial, que se encuentra conecta-
do significativamente a través de la íntima lealtad al proyecto reflejo del yo.
Sin embargo, esta perspectiva teórica que habla de un sujeto informado y
autoconsciente en la construcción de su propia identidad, trae aparejadas algu-
nas dificultades a la hora de la individualización de los riesgos en poblaciones

3. Como explica Giddens, el cálculo de riesgos y oportunidades en la vida del sujeto moderno, lo colo-
ca frente a la posibilidad de adoptar una decisión informada y en pleno conocimiento de las consecuencias
de su acción que hace posible la colonización del futuro. Giddens, Anthony. Modernidad e identidad del yo.
Barcelona, Península, 1995. p. 166.
4. “Hasta aquí — sostiene Giddens — nuestro análisis nos lleva al mundo de las relaciones sociales
externas al yo en función, casi siempre de su impacto reflejo sobre la identidad y el estilo de vida. Sin em-
bargo, las decisiones personales afectan también a consideraciones universales (el nexo, en este caso, va de
las personas al planeta)”. (Giddens, 1995: 279.)

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excluidas, si consideramos el contexto de una sociedad heterogénea y desigual
en la que se enmarcan las decisiones de los actores.

3. De seguridades y riesgos: una perspectiva crítica


En la descripción de los teóricos de la modernidad reflexiva no aparecen
limitaciones a ese proceso de creciente reflexividad individual. No obstante, y
pese a sucesivas aclaraciones de Giddens,5 la pregunta por el desarrollo autó-
nomo del yo en condiciones sociales desventajosas aparece nuevamente perti-
nente. ¿Es posible pensar en un sujeto autónomo, comprometido con la decisi-
ón de su propia vida en proyección universal — como se plantea en la
conceptualización de la política de la vida — cuando se habla de personas ex-
cluidas, desafiliadas — en la concepción de Castel — o precariamente incluidas
en la vida social, económica, política y cultural de una sociedad nacional?
Plantear esta pregunta supone un doble riesgo. Por un lado, responder
afirmativamente posiciona al analista en el lugar de la responsabilización indi-
vidual de actitudes, comportamientos y representaciones sociales en las que
habría que indagar cimientos sociales. Por otro lado, la respuesta negativa a la
pregunta, corre el riesgo de comprometer al investigador, no sólo en la búsque-
da mecánica de causas sociales de conductas individuales, sino en la producción
de respuestas prefabricadas y de metas externas a los valores y deseos de per-
sonas pertenecientes a amplios sectores sociales con su consiguiente conside-
ración de sus proyectos en situación de “minoridad” social.
No obstante, partir de la conceptualización que supone que todos los in-
dividuos tienen intrínsecamente la misma posibilidad de hacerse cargo de de-
cisiones adoptadas libremente, aun en contextos de pobreza y exclusión social,
como si esta situación no condicionara seriamente sus opciones de vida, sería

5. Esta objeción se encuentra explicitada en la introducción de Modernidad e identidad del yo: “Podría
pensarse que con la expresión ‘estilo de vida’ nos referimos sólo a los logros de grupos o clases más favore-
cidas […]. Los pobres quedarán más o menos excluidos de la posibilidad de realizar elecciones de estilo de
vida”. Sin embargo, Giddens sostiene que su reflexión abarca a todas las clases sociales, incluyendo contex-
tos de privación social. (Giddens, 1995: 14.)

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caer en la ingenuidad de ignorar la producción social de las desigualdades en
un sistema de clases.
Las opciones individuales, y en este punto puede completarse el análisis
de Giddens, son históricamente situadas y contextualizadas en sociedades mo-
dernas complejas.
Asimismo, desde otras perspectivas teóricas (Castel, 2004) se observa con
preocupación, el carácter deficitario de este proceso de creciente reflexividad
individual, en una época en la que, al mismo tiempo que se incrementa la ge-
neración de riesgos, se fragilizan los soportes colectivos.6
Al debilitamiento de la protección clásica, Castel plantea la irrupción de
una nueva generación de riesgos — riesgos industriales, tecnológicos, ecológi-
cos, sanitarios, naturales etc. — cuya emergencia resulta del devenir de las
ciencias y de las tecnologías que, en su particular desarrollo, parecerían haber-
se vuelto “contra” la naturaleza y el medio ambiente, generando así, un senti-
miento de impotencia.
Castel señala que si consideramos el actual entramado de protecciones ci-
viles y sociales7 que se han dispuesto — por lo pronto en las sociedades de los
países desarrollados — seguramente éstas sean las sociedades más seguras que
jamás hayan existido. Sin embargo, al mismo tiempo, y en forma perturbadora,
las preocupaciones en torno a la seguridad se tornan omnipresentes. La “frustra-
ción sobre la situación de la seguridad” se deriva del hecho de que los programas
de protección no sólo no son absolutamente eficientes, sino que, al mismo tiempo
que dominan — relativamente — ciertos riesgos, hacen emerger otros nuevos.
Es en este sentido que puede comprenderse que “estar protegido es tam-
bién estar amenazado”, como afirma Castel (2004: 13), quien plantea que el

6. En este sentido, afirma Castel (2004) que dos series de transformaciones se conjugan y dan sostén a
la problemática de la inseguridad. En primer lugar, señala la erosión de los sistemas de producción de segu-
ridad “clásicos” que contrarrestaban los riesgos sociales en el marco de la sociedad salarial, sobre la base de
condiciones de trabajos estables. Desde su perspectiva, el debilitamiento del Estado nacional más los cambios
socioeconómicos generados desde mediados de los años 70 han producido un estado de inseguridad frente
al porvenir, en el que también se ve incrementada la inseguridad civil.
7. Robert Castel (2004) distingue dos grandes tipos de protecciones. Las protecciones civiles son las
que garantizan las libertades fundamentales y la seguridad de los bienes y de las personas en el marco de un
Estado de Derecho. Las protecciones sociales “cubren” a los sujetos de los principales riesgos que puedan
suponer una degradación de su situación vital: accidentes, enfermedad, vejez, pobreza.

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incremento de la sensibilidad ante los riesgos configura una búsqueda infinita
y siempre frustrada de seguridad.
No es extraño, entonces, que la noción generalizada e indiferenciada del
riesgo aportada tanto por Beck como por Giddens, contribuya teóricamente para
denunciar el carácter obsoleto de los dispositivos clásicos de protección, preci-
samente en lo que refiere a su dimensión colectiva. A la vez que se insiste en la
proliferación masiva de los riesgos, se efectiviza “una celebración del individuo
aislado de sus inserciones colectivas, ‘desarraigado’ (disembedded), según la
expresión de Giddens” (Castel, 2004: 82).
Por lo expuesto, en relación a los supuestos teóricos que informan los
diagnósticos especializados en el área de la justicia, es pertinente formular al-
gunas preguntas. ¿Es el modelo de hombre moderno y reflexivo, libre de deci-
dir ante una serie de alternativas, quien aparece como supuesto de referencia en
los diagnósticos sociales del sistema judicial y del sistema de protección social
uruguayo? ¿O por el contrario, se expone — desde una perspectiva crítica a la
individualización creciente — la dificultad experimentada por sujetos aislados
en un contexto de fragilización de los soportes colectivos?

4. La definición judicial del diagnóstico: ¿para qué conocer?

Construidas como espacios de producción de conocimiento — cabe recor-


dar que la noción de conocimiento está presente en la etimología de diagnósti-
co — las prácticas sociales del diagnóstico y la observación se construyen so-
cialmente como dominios de saber específicos que engendran nuevas formas
de sujetos y nuevos sujetos de conocimiento (Foucault, 1991: 14).8

8. La mirada de Foucault sobre la producción de los discursos técnicos como fuentes de saber remite
a la discusión sobre la construcción social de la verdad por parte de las ciencias humanas, que el autor ata
a los métodos de indagación en el ámbito de la justicia y desarrolla en sus reflexiones sobre “La verdad y
las formas jurídicas” (Foucault, 1991) o en su planteo sobre la configuración social de “los anormales”
(Foucault, 2007). Dado que un análisis de estos temas excede los propósitos de estas reflexiones, se propo-
ne seguir estas pistas en nuevos trabajos que se enfoquen específicamente en la construcción de estos sabe-
res especializados.

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A su vez, tal como advierte Marcelo Viñar, el diagnóstico no provee un
conocimiento “descriptivo” e “inocuo”, sino que resulta un conocimiento por-
tador de un “poder eficaz de sanción y de consecuencias en cuanto a establecer
el destino de aquellos a quienes se les aplica, que tiene un valor de anticipación,
un valor predictivo [...]. El diagnóstico no sólo es portador de una fotografía del
presente sino de una presunción anticipada sobre el futuro, sobre las consecuen-
cias”. (Viñar, 2004: 34)
Tanto como las resoluciones del juez, los informes diagnósticos elaborados
por técnicos de otras especialidades en la esfera judicial constituyen espacios
socialmente productivos para analizar las formas de arbitraje en los conflictos
privados que buscan legitimidad jurídica.
Los sistemas abstractos refieren unos a otros en la búsqueda de insumos
tecnoburocráticos para legitimar su quehacer y su saber (Giddens, 1995). Como
ya fue dicho, el juez recurre al experto en distintas materias para solicitar su
pericia en ámbitos en los que deberá arbitrar.
Los pareceres técnicos en el área de la salud física, mental o emocional o
en la esfera de lo social, aparecen en los expedientes judiciales como opiniones
calificadas que describen situaciones, analizan vínculos familiares y sociales,
discriminan aspectos saludables y patológicos de las personas y sugieren cami-
nos que recorrer.
En el caso de las instituciones judiciales analizadas, los peritajes técnicos
se enmarcan en la urgencia y la perentoriedad de búsqueda de respuestas por
parte del sistema. Los dispositivos pensados para la descripción de las situacio-
nes, actúan, en este contexto, en forma tal, que queda al descubierto tanto su
lógica de indagación en las historias personales, como las interpretaciones que
estos sistemas expertos hacen de las trayectorias familiares.
La entrevista indagatoria finaliza con un informe dirigido al juez, donde
se describe la situación individual y familiar, en una presentación que sobreex-
pone al sujeto y lo coloca en observación. Esta instancia que moviliza al entre-
vistado como sujeto que pone en juego sus inquietudes, emociones y deseos en
relación a la instancia judicial que lo convoca, no resuelve su situación ni apor-
ta mayor reflexividad a su biografía. No se trata de una instancia terapéutica,
sino de la presentación de su problema ante un cuerpo especializado y burocra-

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tizado de funcionarios técnicos, cuya función se agota en el asesoramiento ju-
dicial. Se produce, de esta manera, un discurso con pretensión de verdad, que
adquiere poder de arbitraje público en una instancia privada, donde el sujeto es
convocado como mero informante (González, 2008).
Esta distancia intercultural que supone la relación con el otro que se pre-
tende conocer, no se establece a partir de un espacio igualitario donde ambos
sujetos tienen el control de la situación y establecen pretensiones de validez que
el otro tiene posibilidad de aceptar o rebatir. En el caso del diagnóstico, es el
técnico quien conoce, evalúa y emite opinión experta, dejando al otro en situa-
ción de subordinación9 (Castel, 1986).
El informe desplaza el discurso del entrevistado a un segundo plano, ya
que su palabra es interpretada y resignificada desde un lenguaje experto que
se aleja cada vez más de la comprensión y control de los sujetos involucrados.
En este sentido, en las relaciones establecidas entre técnicos y entrevistados lo
que prevalece es el poderío del que impone las reglas de juego sobre el otro
(Viñar, 2004).
En este encuentro, de carácter asimétrico, entre técnico y entrevistado, no
hay ni puede haber devolución de la mirada del experto sobre la situación-
problema que el sujeto presenta, sino que ésta reaparece, transfigurada, en la
palabra calificada del juez en la instancia de arbitraje. La palabra del juez ad-
quiere, de esta forma, un significado absoluto como decisión supraindividual,
estatal y pública con consecuencias en el mundo de la vida de los sujetos.
Estas decisiones arbitrales, que se inscriben en la biografía de las personas,
no forman parte de un proceso de análisis compartido que promueva instancias
reflexivas y emancipatorias, como sugieren los analistas del riesgo (Giddens,
1995; Beck, 1998). Se trata de una apelación a la autoridad que inviste la judi-
catura, abstracción que no está sometida a debate ni comparte el proceso de
reflexión que la decisión lleva implícita. Al sujeto corresponde el acatamiento
o la resistencia al mandato judicialmente establecido.

9. Viñar habla de tres ejes presentes en esta especial relación que une al experto que realiza el diagnós-
tico con su entrevistado: “un eje de conocimiento, otro de amor-odio y otro de sumisión y dominio”, que
funcionan entrelazados, y dan cuenta de la particularidad de esta vinculación que evidencia la asimetría de
poder y la distancia cultural (Viñar, 2004: 35).

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5. Descripción y evaluación: el peso del diagnóstico en las trayectorias
institucionales de los niños y adolescentes uruguayos
Cuando un niño o adolescente ingresa a la institución pública responsable
de la asistencia social a través del dispositivo de captación judicial, viene pre-
cedido de un dictamen experto que da cuenta de una serie de factores psicoló-
gicos, económicos y sociales que lo colocan en situación de riesgo social.
Si durante la primera modernidad los dispositivos de regulación de las
situaciones conflictivas se activaban mediante la identificación de un daño o
peligro, en el contexto de la modernidad tardía aparecen una serie de políticas
preventivas para el control de poblaciones que dan cuenta de la detección tem-
prana de determinados factores de riesgo. La presencia de estos elementos,
previamente tipificados por los sistemas expertos, constituyen indicadores que
activan — automáticamente, dirá Castel — una señal de alerta que pone a fun-
cionar una serie compleja de mecanismos de regulación social (1986).
Estas estructuras y dispositivos institucionales de control, que se ponen en
juego mediante la prevención, dan cuenta de lo que Castel llama una “nueva
modalidad de vigilancia” cuyo objetivo es “anticipar e impedir la emergencia
de un suceso no deseable” (1986: 230).
El sujeto es pues, precedido de un conjunto de información que anticipa
su conducta futura, predecible, para los sistemas expertos. Para esta prematura
detección de futuros conflictos, dirá Castel, no hace falta la presencia de indi-
viduos concretos. El diagnóstico habla por ellos. Las lecturas expertas acumu-
lan dictámenes técnicos que constituyen “historiales subterráneos” que antici-
pan la conducta de los sujetos en la “científica” fórmula de la prevención de
futuros daños.
El diagnóstico anuncia y determina los trayectos individuales en una suer-
te de profecía que se autoconfirma mediante el recorrido de los individuos por
instituciones que no los acogen, defienden o amparan, sino que los ratifican en
la estigmatización y segregación social previas a su ingreso. Al final del recor-
rido institucional se comprueba lo que ya se sabía: un individuo caracterizado
en función de determinados factores de riesgo, identificado en su condición de
vulnerabilidad, con un recorrido errático por una institución que lo confina al

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desamparo afectivo, se aleja de la institución de asistencia a la infancia y la
adolescencia cuando cumple su “mayoría de edad” en condiciones similares o
peores a las de su ingreso y es captado por nuevas instituciones de vigilancia
que se sostienen en versiones ideológicas del control similares a las que ya
transitara durante sus primeros años de vida.
En esta política preventiva desaparece el sujeto que queda subsumido en
“correlaciones estadísticas de elementos heterogéneos” a través de los cuales
se “descompone al sujeto concreto de la intervención” que se reconstruye a
partir de la mirada experta en la historia “clínica” de sucesivos diagnósticos que
enumeran y describen su historia de vida por medio de un complejo cálculo de
probabilidades (Castel, 1986: 231 y s.).
Este saber sobre el otro opera a través de un proceso de racionalización
acerca de diferentes causalidades sociales — como el abandono, el maltrato, la
pérdida de la capacidad de juicio de lo que es correcto e incorrecto, el conflic-
to de ciertas conductas con las disposiciones legales — que tiene implicaciones
políticas.
Se trata de estereotipias racionalizadas y pragmáticas que operan en la
actividad diagnóstica — tanto a nivel judicial como de política social — a
través de una discriminación de factores de riesgo que no tiene como objetivo
asistir al sujeto en su vulnerabilidad, sino imprimirle una marca para la elabo-
ración de un perfil de predisposición a la conducta socialmente reprobable o
— como bien lo describe el diagnóstico psiquiátrico en toda su dureza sancio-
natoria — “antisocial”.
Esta señal, técnicamente impresa, acompaña al sujeto durante toda la
trayectoria institucional, confirmándose en cada instancia de evaluación diag-
nóstica como un dispositivo que se activa automáticamente en cada episodio de
la vida del sujeto que requiere de la intervención experta.
La evaluación situacional de los factores de riesgo, que determinan pro-
nósticos acerca de los individuos que ingresan a las instituciones, sustituye el
tratamiento como espacio de continuidad en la asistencia. Como anuncia Cas-
tel, en referencia a las nuevas políticas de prevención, se produce una transmu-
tación de la actividad terapéutica en actividad pericial.

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Si bien la intervención del técnico sigue siendo esencial en el funciona-
miento institucional, ya que el diagnóstico pericial marca las trayectorias indi-
viduales, la intervención experta se convierte en innecesaria respecto al proce-
so de asistencia: “Dicho de otro modo, un número creciente de sujetos deben
seguir siendo vistos por los especialistas de los saberes médico-psicológicos
cuya intervención continúa siendo requerida para evaluar sus capacidades (o su
incapacidad). Pero, una vez vistos los individuos dejan de tener que ser seguidos
por estos especialistas” (Castel, 1986: 236).
La mirada técnica “localiza” al sujeto, le pone una marca que no contribuye
a aumentar su reflexividad — aspiración de los analistas del riesgo — ni lo
acompaña en el proceso de autodescubrimiento, ni en la adaptación al hogar
que lo recibe o en las distintas instancias de conflicto que supone la conviven-
cia. La mirada del otro — portador del saber — reaparece en la biografía del
sujeto cuando es requerida a partir de un desorden, una explosión, un “pasaje
al acto” que requiere nuevamente de un diagnóstico y un pronóstico de su
conducta futura.
Volviendo al planteo de Giddens respecto al proceso de individuación que
trae consigo la reflexividad del yo, el autor hablaba de una construcción de una
trayectoria vital que podría revisarse a través de una sucesión de “momentos”
que forman parte de un itinerario reflejamente activado de autorrealización. La
pregunta que surge es: ¿quién selecciona estos momentos significativos? Tanto
a nivel judicial como en el contexto institucional de la protección social, la
“selección” de estos momentos significativos en la vida de los niños y los ado-
lescentes queda en manos del sistema especializado, que efectúa fotografías
instantáneas donde establece el diagnóstico de situaciones complejas por las
que atraviesa el sujeto en su crecimiento y desarrollo personal.
¿Corresponde a la administración de las instituciones la determinación de
las intervenciones técnicas en la vida de los sujetos y al observador la ilación
de estas situaciones de crisis?
¿Qué queda en pie de este proceso autorreflexivo en condiciones de insti-
tucionalización? ¿Qué ocurre con el acompañamiento terapéutico de estos
procesos de desamparo que se han tipificado como “riesgosos” desde el punto
de vista social? La información empírica parece indicar que la mirada técnica
“no ve” más allá del síntoma.

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6. Judicialización de los problemas sociales
Las tendencias modernas al recurso de los sistemas abstractos como fuen-
te de información para tomar decisiones arbitrales pueden observarse en la
práctica del acceso al sistema judicial para la resolución de conflictos familiares
y sociales.
En referencia a los asuntos familiares que se tratan en el ámbito de la
justicia, se moldea una forma de producción de la verdad que aparece recubier-
ta de abstracción y neutralidad. El sistema de justicia penetra en la vida íntima
de los sectores más pobres regulando sus formas de hacer familia, de armar sus
vínculos, de tomar decisiones acerca de la forma de criar a sus hijos.
El recurso al sistema de justicia se produce mediante la búsqueda de un
arbitraje “imparcial” al que se le asigna la instancia de la deliberación y del
juicio de las conductas en el ámbito privado. Desde la perspectiva de Foucault,
se trata de una forma de producción de saber que no es inocua en la vida de los
sujetos (1991, 2007).
En el caso de los Juzgados de Familia Especializados de Montevideo, es
posible identificar dos caminos mediante los que se lleva a cabo la judicializa-
ción del conflicto familiar. Por un lado, las denuncias de las situaciones conflic-
tivas surgen en instituciones públicas — sanitarias y educativas fundamental-
mente — o en organizaciones de la sociedad civil, que plantean ante el sistema
judicial una situación problemática en el ámbito de las familias a las que atien-
den. Asimismo, una segunda vía de denuncia se origina a nivel intrafamiliar,
cuestionando el rol materno, el lugar del hijo en relación a la aceptación de lí-
mites o en torno al uso problemático de drogas.
Si la primera forma de acceso a la justicia puede explicarse en función del
papel disciplinador de las instituciones que atienden a la infancia, el recurso de
los sujetos a la justicia para resolver sus asuntos más íntimos merece una pro-
blematización de otras características. ¿Cuáles son las expectativas de los suje-
tos frente a la intervención judicial en sus problemas familiares?
¿Se trata de una búsqueda de procesos deliberativos diferentes a los que
puede acceder un sujeto en una vida cotidiana empobrecida por las urgencias

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de supervivencia diaria? ¿Aparece en estos planteos una necesidad de regula-
ción arbitral supraindividual que dirima planteos razonables y justos frente a
otros parciales y centrados en la dinámica de la inmediatez?

Nombre: F
Denuncia: Adolescente que no deja entrar a su madre a la casa.
Esta denuncia “para que el juez se entere de su mal comportamiento”.
No amerita resolución judicial

¿Cuál es la representación social de justicia que traen consigo estos suje-


tos a los que atraviesa la experiencia de la pobreza y de la exclusión social?
¿Existe una expectativa de sanción de conductas que ellos mismos consideran
inaceptables y cuya percepción pretenden legitimar mediante un arbitraje im-
parcial? ¿Puede hablarse de cierta forma de imprevisión o de dificultad de
medición de las implicaciones que estas denuncias intrafamiliares tienen en la
vida de sus miembros?
La judicialización de los conflictos sociales y familiares produce efectos
sobre los sujetos. El más inmediatamente perceptible a través de la lectura de
los expedientes judiciales es una sobreexposición de las familias ante un siste-
ma experto que los juzga, cataloga y etiqueta.
Los miembros de la familia quedan expuestos, de esta manera, ante la
mirada inquisidora del experto que evalúa el “riesgo” de la situación presenta-
da, desde una lectura abstracta de la que el sujeto no participa. El lenguaje del
técnico, oscuro ante una relectura crítica que la familia podría realizar si el
diagnóstico fuera devuelto con fines terapéuticos, cosifica los vínculos familia-
res que — como fotografía del presente — quedan alienados de aquéllos que
los producen.
Al pasar al ámbito de la justicia, la familia pierde el control de la situaci-
ón que atraviesa para verse, más tarde, reflejada en una decisión ajena sobre el
conflicto que fuera expuesto al arbitraje público. Si bien una mirada distinta de
terceros no implicados en un episodio que genera desazón en los miembros de
la familia, podría enriquecer la instancia de elaboración del conflicto — me-

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diante un espacio en el que los sujetos pudieran “ver” de forma distanciada sus
propias dificultades — la forma de “resolución” que se produce en el ámbito
judicial no aporta una mirada crítica sobre la situación, con posibilidades de
discusión para los participantes. Esta enajenación del conflicto puede, en efec-
to, ser iatrogénica para los actores, generando una segunda victimización de los
sujetos por parte del sistema.
En segundo término, la exposición de los asuntos sociales ante la justicia
implica una agudización de la tendencia hacia la individualización de los
riesgos y la privatización de los problemas sociales (Bauman, 2002). Bajo la
lupa del peritaje técnico los conflictos sociales desaparecen y se transforman
en asuntos individuales frente a los que las personas no han logrado una so-
lución satisfactoria.

La Sra. piensa ocupar una casa.


Está embarazada de tres meses. No está controlando. Fue una relación casual.
Ya tiene ocho hijos, este sería el noveno. Ningún padre apoya. Los niños de 11
años y el de 7 piden monedas en la plaza [nombre].
• Se habla a la Sra. de la situación de sus hijos pidiendo.
• Se le explica cual es su responsabilidad.
• Se le explica que debe reclamar pensión alimenticia al padre de sus ocho hijos.

La forma y contenido de los diagnósticos analizados evidencian las parti-


cularidades de una intervención puntual en la vida de los sujetos en los que la
figura de la mujer-madre aparece responsabilizada de la situación de desprotec-
ción en la que se encuentran sus hijos, en una disolución del conflicto que da
origen a la desigualdad social.
Mediante el mecanismo de la individualización y culpabilización de suje-
tos portadores de los signos de la exclusión social, el dispositivo tecnocrático
del diagnóstico deposita en el individuo la carga de una sociedad desigual y
excluyente.
La práctica de judicializar los conflictos sociales va asociada a una natu-
ralización de las desigualdades sociales que, a la vez que culpabiliza y estigma-

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tiza, expone a las personas que viven en condiciones de pobreza, al control y la
supervisión del Estado.

V. [se hace referencia a la madre de estos niños] se encuentra muy negativa y


exigente y no acepta ninguna solución. Se le ofrece Club de niños, de 8:30 a 13:30
por verano y CAIF para febrero para la niña de 2 años.
V. dice que no le sirve porque no le alcanza para alimentar a sus hijos o que tiene
que trabajar muchas horas.
Se habló con [nombre] y acordamos que los tendrá hasta final de diciembre en
[refugio diurno] dado que ni siquiera cobran por estos niños.

El peritaje técnico viene a confirmar, en tono sancionatorio y moralizante,


la incapacidad del sujeto de resolver adecuadamente su vida cotidiana, elimi-
nando todo trazo crítico hacia la sociedad productora de exclusión. En este
esquema, la conducta se juzga desde parámetros sociales externos al sujeto y
desde lógicas sociales productoras de expulsión y marginación.

7. La fugacidad de la alarma social


Una mirada de segundo orden al sistema de los Juzgados de Familia Es-
pecializados da cuenta de la instrumentación de un dispositivo de regulación
que se activa mediante un sistema de alarma que funciona desde la respuesta
de urgencia.
Esta perentoriedad de la respuesta arbitral frente a una situación de con-
flicto se mide a través de la celeridad de los diagnósticos elaborados en este
contexto — en los que habitualmente se ve consignada esta limitación — tanto
como de la presencia de la palabra arbitral del juez.
No obstante, esta premura tempranamente impulsada, que salta como un
resorte apretado en una caja, se disuelve fácilmente cuando algunos de los
mecanismos de búsqueda de información fracasan en la respuesta — no se
encuentra a la persona buscada en su domicilio — o se otorga una “solución”
que, aunque socialmente insatisfactoria, aparece como respuesta mágica que
desactiva el dispositivo por orden del juez.

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Nombre: M.
Informe Servicio de Salud: Niño de 6 años diagnosticado con sífilis.
Por parte del centro asistencial se realiza: citación a la madre, atención médica,
asistente social y psicólogo.
Juez solicita: informe social urgente a domicilio.
Se informa no encontrando el domicilio. Nuevo domicilio.
Informe social. 8/5/07.
El niño está atendido aunque sigue dando positivo el examen de sífilis. La madre
informa que el concubino es de su total confianza.
Se archiva en base al informe social.

Nombre: C.
Denuncia: Recién nacido se encuentra a cargo de la abuela paterna en hospital.
Se cita al padre y a la abuela.
La niña pasa a vivir con sus padres.
La niña muere a los 5 meses por lo que se archiva el expediente.

Nombre: M.
Denuncia: Niño de 16 meses que no recibe cuidados adecuados de su madre, que
no lo alimenta, no lo higieniza. Pulgas, ratas y perros en el domicilio.
Solicitud: Pericia médico forense e informe social a domicilio.
Informe social: No estaban en el domicilio. No concurrieron a entrevista.
Se archiva.

Este hipotético “fracaso” del sistema no lo invalida ante las representacio-


nes sociales de la justicia, ni habla de una flexibilización de sus estructuras
institucionales de asistencia. La aparente inconsistencia en la respuesta del
sistema frente a situaciones conflictivas podría pensarse, en algún sentido, des-
de los procesos de selección que funcionan en todos los dispositivos de control
social: desde la “captura” o la “detección precoz” a la internación.
Las situaciones anteriormente presentadas, en su inmensa mayoría, expo-
nen ante el sistema judicial cuadros de pobreza, donde se destaca inicialmente
y por la vía de la denuncia, la omisión de las responsabilidades adultas con
respecto a los niños.

82 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010


El ámbito judicial en el área de la familia y el sistema de protección, ope-
ra y se reproduce con y a partir de estas circunstancias vitales. Es su materia
hegemónica, si no exclusiva. Sin embargo, algunas de las situaciones que el
sistema capta se disponen hacia los dispositivos de protección y otras se decan-
tan, mayoritariamente, sin resolución y aparentemente desligadas de la gravedad
inicial denunciada. ¿Qué elementos intervienen para que una determinada situ-
ación se inscriba en uno u otro tránsito?
¿Cómo se explica la fugacidad de la alarma social con la que se inicia la
tramitación judicial de ciertas situaciones que irrumpen ante el sistema con
ribetes de gravedad y luego se extinguen sin atención? ¿Es ésta una modalidad
de respuesta de un sistema de control social cuya capacidad administrativa es
inferior a la que requeriría la tramitación de la totalidad de las situaciones irre-
gulares existentes?

8. La institucionalización de niños y adolescentes como respuesta de


protección
Recuerda Marcelo Viñar (2004) que una de las acepciones que se le confie-
re al diagnóstico refiere al saber de una enfermedad a través de sus síntomas y
signos y, por tanto, supone, por extensión, un juicio sobre un estado de cosas.

Nombre: R.
“Historia de uso problemático de drogas, mejoras en las últimas semanas vivien-
do situación de intenso estrés psicofísico presenta episodio de auto y heteroagre-
sividad con ideación de muerte. Se efectúa heridas cortantes en ambos antebrazos
decidiéndose trasladar a otro centro”. [Indicación de medicación].

El diagnóstico que, como ya fue expuesto, no sólo es un conocimiento


sobre el presente, sino que tiene efectos predictivos, se elabora desde una dis-
tancia cultural que no es meramente descriptiva sino que trae consigo “valora-
ciones afectivas y axiológicas” (Viñar, 2004: 35).
La lectura de los informes expertos presenta la peripecia de los niños
atendidos en situación de urgencia e institucionalizados, a los que atraviesa el

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010 83


desamparo social y la ineficacia asistencial. Los sucesivos diagnósticos y deri-
vaciones dan cuenta de la travesía de las familias por los pasillos burocráticos
de una institución que no las protege, sino que muestra, — y, en este sentido,
las intervenciones expertas aparecen reveladoras — su indefensión.
La denuncia de las situaciones familiares conflictivas activa un mecanismo
de responsabilización de los adultos de referencia que, peritaje mediante, son
encontrados incapaces de hacerse cargo de la crianza de los hijos, si se toma el
caso de la maternidad-paternidad. Esta consideración técnica de dificultad de
los adultos en relación al cuidado infantil es respondida con la institucionaliza-
ción de estos niños o adolescentes. “Casos que son noticia diaria de abandono
y mendicidad se repiten en madres que habiendo egresado de institutos ellas
mismas, duplican la condición en sus hijos generando un retorno al circuito de
la minoridad. Esta comprobación amplía la mirada con respecto a la profundi-
dad de la condición de hacerse menor, en el sentido que estructura una subjeti-
vidad perdurable en el tiempo” (Costa y Gagliano, 2000: 85-6).

Situación de A.
Informe social y educativo social (Junio 2003).
Ingresó a la escuela y al (nombre de Centro Barrial), en su barrio de origen.
A partir de la intervención familiar es que se visualizan algunas dificultades para
seguir avanzando en el proceso positivo al cual asistimos.
Algunas de esas dificultades son de orden económico (el padre se encuentra de-
sempleado), mientras que los otros giran en torno a lo vincular. En relación a esto
último consideramos que esta familia necesariamente debe reconstituir sus rela-
ciones filiales y para ello se hace necesario generar un dispositivo que sostenga
la revinculación hijos/as-padre. Para esto se hace necesario una separación de sus
integrantes lo cual oficie de atenuante de las tensiones diarias, por lo que se soli-
cita el ingreso a amparo por un tiempo acotado.
La estrategia sería que los niños de lunes a viernes estén en un hogar, retornando
los fines de semana a su casa. Durante la semana se generará un espacio terapéu-
tico para soporte del proceso.
Se solicita ingreso a (centro de internación).

Opera de esta forma, una mistificación de situaciones sociales comple-


jas, donde la institucionalización es la respuesta y no necesariamente la so-

84 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010


lución, creándose así, la ilusión de solucionar la conflictividad social (Uriar-
te, 1999: 29).
Mediante este documento técnico, los sujetos son puestos, expuestos, en
toda su vulnerabilidad, en un sistema de protección paradójicamente ineficien-
te. A partir del diagnóstico inicial, los niños y adolescentes internados transitan
los corredores institucionales previstos para la minoridad. Costa y Gagliano
identifican en cárceles y psiquiátricos el futuro previsible, la estación terminal
de la minoridad, por oposición a la estación abierta y sin límites de la infancia.
Como explican estos autores: “Los corredores llevan a itinerarios de individu-
alización predeterminados, futuros previsibles” (2000: 77).

Situación de A.
Informe social y educativo social. ONG. (Junio 2003).
A través de sucesivas entrevistas con el padre, hemos podido observar que la si-
tuación que hoy está viviendo esta familia ha llevado a un nivel de angustia que
impide en cierta forma retroalimentarse positivamente.
La internación de A y de sus hermanos es la mejor respuesta que hoy podemos
dar para acompañar una serie de procesos positivos que desde hace un tiempo se
viene generando.
Estamos ante un hogar con ingreso económico 0.

Junio 2003: se registra ingreso a Centro de Niñas del Instituto del Niño y el Ado-
lescente del Uruguay (INAU).
Julio 2003: se entrega a su padre quien no la quería recibir. Ya lo había planteado
en el Centro de Estudio y Derivación (CED).
2005: Reingresa a INAU por factores económicos.
2007: Internación en Centro INAU.

Informe División de Estudio y Derivación (DED antiguo CED) (Octubre 2007)


Se presenta en la DED con 13 años. Hace días se encuentra en situación de
calle. Pernoctó ayer en el Hogar Transitorio. Egresó del centro de internación
con su madre, pero surgieron dificultades de convivencia, sobre todo con una
hermana por lo que se niega rotundamente a volver a su casa. Asiste a la maes-
tra de apoyo de ONG. Dice no contar con referentes familiares, por lo que se
acuerda su reingreso.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010 85


Informe Centro INAU (Junio 2008).
Protagoniza sucesos de heteroagresividad en el Hogar.
Impresiona con bajo nivel intelectual.
No culminó escuela. Hizo hasta 5º año.
Núcleo familiar constituido por ambos padres: madre (ama de casa) y padre (re-
quechero). Tiene 6 hermanos, 3 se encuentran en (nombre centro).
Niega consumo de drogas.
Refiere maltrato físico por parte de la familia por lo que no quiere regresar a su
núcleo familiar.
Joven impulsiva con riesgo para sí misma y/o terceros.
Se dispone internar en Clínica (nombre clínica de atención psiquiátrica)
Sería conveniente pensar en un Hogar que no sea el centro anterior luego del alta,
que pueda tener una atención más personalizada y pueda controlar sus crisis.

Noviembre 2008. Detención por presunción de infracción.


Ingresa al Centro de INTERJ.
Traslado a Centro de Protección de Tiempo Completo.

El tránsito por los corredores y pasadizos de la minoridad, inventa, mode-


la y reproduce10 la figura del menor — construcción devaluada y estigmatizada
de la infancia — de tal forma que “abandono e infracción se transforman en
una impronta personal, en algo que pertenece al ser del sujeto, no se trata tanto
de un adolescente en abandono o en infracción, sino de un abandonado y de un
infractor” (Uriarte, 1999: 27). La situación, se “vuelve él”, sintetiza Uriarte.
Para la doctrina de la situación irregular, “en riesgo social” se encuentran
los menores comprendidos en términos de abandono moral y/o material e in-
fracción. La categoría de abandono — definida como la columna vertebral de
la doctrina — remite a cuadros de pobreza donde las configuraciones familiares
guardan distancia con el modelo nuclear, los niños se ubican más en calle que
en situación de aprendizaje escolar y los adultos incumplen sus funciones pa-
ternas de provisión y protección. Desde esta perspectiva, se consagra además,

10. Las expresiones corresponden a Emilio García Méndez (1994). Ver también Carlos Uriarte (1999)
y (2006).

86 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010


la indistinción entre abandono e infracción, en tanto, el abandono lleva al deli-
to, y este a su vez, es un momento del abandono.
Carlos Uriarte señala que esta definición normativa traduce la preocupación
del legislador, que es moral, pero que también es una preocupación física: “Para
el legislador hay una época escolar y una época laboral y momentos familiares
de fondo, en los intersticios restantes [...] que tienen sus tiempos, pero también
lugares de continencia […]. El abandono moral de la pobreza, paradójicamente,
es también físico porque no hay escuela, porque hay que trabajar y porque no
hay continencia física en el grupo de crianza”. (Uriarte, 1999: 46).
Operar desde el ámbito judicial y el sistema de protección social con la
categoría de abandono, así entendida, supuso para la concepción tutelar, un
posicionamiento que, al unísono, seleccionaba para la atención, ciertos cuadros
de pobreza, los definía en términos de abandono, enunciaba propósitos de pro-
tección, y terminaba actuando desde un enfoque de defensa social, protegiendo
a la sociedad de un sujeto, inicialmente abandonado y finalmente infractor, quien
resultaba colocado en los pasadizos y corredores institucionales de la minoridad
(Erosa e Iglesias, 2000).
Salvar al pobre, — y en particular salvar a la infancia pobre — esa era
la empresa a emprender desde la Doctrina de la Situación Irregular, heredera
del Movimiento de los Reformadores, impulsando el disciplinamiento y con-
denando las prácticas cotidianas y las concepciones morales de los hijos de
la pobreza.11

9. El paradigma opuesto: desinstitucionalizar como consigna de protección


integral
Si la institucionalización funcionó, desde la perspectiva tutelar, como
mecanismo de respuesta estatal frente a dificultades familiares de provisión y
protección de sus miembros más débiles, la década del ’90 vio surgir una pers-

11. Para un análisis del Movimiento de los Reformadores, ver: PLATT, A. Los “salvadores del niño”
o la invención de la delincuencia. México, Siglo XXI. 1982.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010 87


pectiva crítica que buscó rescatar la voz del sujeto en una institución que lo
condenaba al anonimato.12
La búsqueda de las singularidades biográficas y el énfasis en los procesos
de subjetivación iniciaron un camino donde los “menores” se convertían en
“niños y adolescentes” cuyas trayectorias vitales era preciso ubicar en perspecti-
va histórica.
Este énfasis en los derechos de niños y adolescentes de ambos géneros,
propició un redescubrimiento de la relación parental para el desarrollo del su-
jeto sano, reescribió la relación con los técnicos — cada vez más presentes en
las instituciones — y estimuló el ensanchamiento de la visibilización jurídica
de la infancia y la adolescencia.
Leídos como escalones hacia una mirada “integral” de la infancia, estos
nuevos énfasis fueron positivamente percibidos por activistas y organizaciones
sociales, actores públicos y privados que encabezaban la lucha por los derechos
de la infancia.
Sin embargo, paralelamente a estos desarrollos conceptuales en el campo
de la infancia, en la década del ’80 — aunque de tardía influencia en Latinoa-
mérica — se inicia una lectura sociológica que habla de la responsabilidad del
sujeto en su propia vida, que relativiza los condicionamientos estructurales y
recurre a la reflexividad moderna para cambiar destinos individuales que ya no
aparecen socialmente delimitados. Con distintos énfasis, los autores de la mo-
dernidad reflexiva sitúan al sujeto en un marco social y ambiental que deberá
tener en cuenta para calcular oportunidades, desafíos y riesgos en un diseño
biográfico que está llamado a construir individualmente.
Esta nueva lectura de un sujeto que conquista su libertad en un entorno de
creciente reflexividad, trae como contrapartida su responsabilidad en decisiones
cada vez más informadas.
Estas dos lecturas teóricas, — la doctrina de la protección integral y la
perspectiva de la modernidad reflexiva — sustentadas en presupuestos diferen-

12. Cabe aclarar que, desde la perspectiva tutelar, el anonimato se genera como resultado de una cons-
trucción conceptualmente homogeneizadora de la minoridad que, en la práctica, dispone de iguales disposi-
tivos institucionales para su tratamiento, lo que permite hablar de “corredores preestablecidos” para la infan-
cia institucionalizada.

88 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010


tes, tienen su punto de contacto en la centralidad atribuida al sujeto. Por un lado,
la perspectiva de la protección integral pone el acento en los procesos de sub-
jetivación del niño en su crecimiento, en estrecha vinculación con su entorno
familiar de origen. Por otra parte, los analistas del riesgo centran su atención
en la autoconstrucción reflexiva del yo en contextos de incertidumbre.
El punto de contacto entre estas dos miradas ha dado lugar a superposi-
ciones y confusiones en las discusiones conceptuales desarrolladas en el ámbi-
to nacional.
La ubicación del sujeto en el centro del debate de los derechos del niño ha
generado una crítica a las instituciones asistenciales y un movimiento de promo-
ción de la desinstitucionalización de niños y adolescentes que las habitaban.
Los nuevos desarrollos de la doctrina de protección integral tienen a en-
fatizar los derechos del niño a tener contacto cercano y convivir con su familia
de origen. La internación funciona como “último recurso”, a partir de la Con-
vención Internacional de los Derechos del Niño y del Código de la Niñez y la
Adolescencia en Uruguay, configurando un nuevo escenario que “devuelve” a
la familia, cuestionada en el desempeño de sus funciones de protección y cuida-
do, la responsabilidad de su propia reproducción.
Esta vuelta del niño a su familia, considerada ámbito natural de desarrollo
del sujeto por la perspectiva de protección integral, tiene su correlato en la
“política de la vida” de la que habla Giddens (1995), mediante la cual el sujeto
es el único responsable de sí mismo y de aquéllos que de él dependen.
Sin embargo, la celebración de la autoconstrucción de la trayectoria bio-
gráfica por parte de sujetos responsables se superpone también con las nuevas
tendencias a la desresponsabilización pública de la vida de los individuos más
vulnerables.

CED-INAU
Se presenta la Sra. R. planteando que tiene graves problemas económicos y la
están por echar de la pensión. La AS. del hogar [nombre] [le dijo] que desde el
centro le podrían pagar sólo un mes de pensión, que después se tenía que arreglar
por ella misma.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010 89


Plantea que ella está con 4 hijos a su cargo ya que su hijo mayor T. de 8 años está
con su abuela materna.
Su compañero trabaja cuando quiere, a veces solo me trae $ 50 por día. Ella no
trabaja ya que está a cargo del bebé que es un niño muy complicado desde el
punto de vista de la salud.
Mi compañero no se queda a cuidar al niño, yo ya varias veces le he planteado la
separación ya que no coopera en nada. El padre de F. sí me ayuda cuando puede.
Le está haciendo un juicio al papá de la grande para cobrar pensión alimenticia.
No hay ¿? Su compañero, él no consume alcohol ni drogas, estoy con él si no, no
puedo pagar la pensión.
La demanda de la Sra. era internar a sus hijos. Se le explica que no se interna a
los niños que tienen familia y que además están cubiertos por dos instituciones
del INAME.

¿No es esta situación, en cierta forma, ejemplo de lo que Castel identifica


como la estrategia de “asegurarse a sí mismo”, en tiempos en que se celebra al
individuo aislado de sus inserciones colectivas? (Castel, 2005: 85).

10. Consideraciones finales


En contextos de incertidumbre y múltiples alternativas de elección, la
confianza en los sistemas abstractos constituye un requerimiento básico de la
producción y reproducción social moderna, tanto para expertos como para no
especialistas.13 Sin embargo, la reflexividad intrínseca a los sistemas expertos
sólo puede ser garantizada por la revisión continua de sus fundamentos, proce-
dimientos y contenidos a partir de una constante actualización instrumental y
sustantiva.14

13. “La confianza en los mecanismos de desenclave no es sólo cosa de los profanos, pues nadie puede
ser experto más que en una mínima parte de los diversos aspectos de la vida social moderna, condicionada
por sistemas abstractos. Cualquiera que viva en condiciones de modernidad se verá afectado por una multitud
de sistemas abstractos y sólo podrá obtener, en el mejor de los casos, un conocimiento superficial de sus
tecnicismos” (Giddens, 1995: 36).
14. “La modernidad institucionaliza el principio de la duda radical y recalca que todo conocimiento
adopta la forma de hipótesis, de afirmaciones que pueden muy bien ser ciertas, pero que en principio son
siempre susceptibles de revisión y pueden ser abandonadas en algún momento” (Giddens, 1995: 11).

90 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010


Por lo expuesto y con la intención de ser sometido a discusión, este traba-
jo se propone como un ejercicio de reconocimiento de los supuestos de susten-
tación de las prácticas diagnósticas elaboradas en el marco del sistema socio-
judicial uruguayo.
Como ya fuera consignado, el diagnóstico, como práctica social en el
ámbito sociojudicial, surge de un encuentro de carácter desigual entre un suje-
to que expone su trayectoria biográfica y un experto que la decodifica, devol-
viendo una mirada especializada y reinterpretada de sus conflictos.
De esta forma, la descripción y juicio experto expropia de los sujetos su
versión del asunto, que vuelve a ellos en forma de decisión abstracta con conse-
cuencias prácticas sobre su vida privada. Desde una lectura que parece surgir de
la concepción reflexiva de la tardía modernidad, el diagnóstico se elabora como
un juicio ajeno sobre un conflicto privado que resuelve acerca de la capacidad
del sujeto para manejar asuntos en los que se lo considera responsable.
Desde esta perspectiva, los actores sociales son progresivamente liberados
de las determinaciones institucionales y sociales que restringían su capacidad
de tomar decisiones poniéndolos frente a multiplicidad de opciones y riesgos
(Giddens, 1995; Luhmann, 1992; Beck, 1997, 1998, 2001).
El cuerpo de expertos retoma el lenguaje del riesgo a partir del supuesto
de la construcción autorreflexiva de la biografía de sujetos que disponen de la
información necesaria para asumir responsablemente las consecuencias de sus
decisiones y dar cuenta de sus conductas de forma racional. Se concibe enton-
ces, un ser humano que, en palabras de Beck, “es capaz de escoger, decidir y
crear, que aspira a ser autor de su propia vida, creador de una identidad indivi-
dual” (2001: 234).
De esta manera, continúa Beck, los hechos de la vida no se atribuyen a
“causas ajenas”, “sino a aspectos del individuo (decisiones, indecisiones,
omisiones, capacidades, incapacidades, logros, concesiones, derrotas)” (Beck,
2001: 238).
En esta forma de medición de las trayectorias de vida, el desempleo, las
enfermedades, las adicciones, las dificultades en el ejercicio de roles familiares
son exclusiva responsabilidad individual (Bauman, 2002). En estos escenarios de

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010 91


evaluación, la pobreza aparece como un fracaso de la estrategia individual de
conducir la existencia propia y de la familia. Si las vicisitudes que atraviesa la
vida de una familia pobre son producto de decisiones responsablemente asumidas
en función de un cálculo sopesado de riesgos, las desigualdades sociales quedan
invisibilizadas en una mirada tecno-instrumental que se especializa en describir
trayectorias vitales y evaluar la pertinencia de las decisiones adoptadas.
Mediante este sofisticado mecanismo de atribución de responsabilidades,
el informe diagnóstico descontextualiza el análisis de los conflictos sociales que
surgen en una sociedad excluyente, cuya desigualdad no es posible resolver
desde lógicas individuales y voluntarias.
Se borran así vulnerabilidades socialmente inscriptas en una sociedad de
clases, atribuyendo a los sujetos individuales y a los grupos familiares más frágiles
y desestabilizados la responsabilidad de conductas que atentan contra una concep-
ción aséptica de salud pública y de orden social que se define previamente.
De esta forma se estigmatiza la pobreza, que es tratada en función de la
irresponsabilidad social de los sectores excluidos, a los que se culpabiliza de su
situación de minoridad social.
Como argumenta Bauman, contraponiendo la perspectiva de los analistas
del riesgo y su visión de la responsabilidad colectiva en la privatización de los
asuntos sociales, “El poder de licuefacción se ha desplazado del “sistema” a la
“sociedad”, de la “política” a las “políticas de la vida”… o ha descendido des-
de el “macronivel” al “micronivel” de la cohabitación social. Como resultado,
la nuestra es una visión privatizada de la modernidad, en la que el peso de la
construcción de pautas y la responsabilidad del fracaso caen primordialmente
sobre los hombros del individuo” (Bauman, 2002: 13).
En definitiva, la vida propia que enuncia Beck (2001) — y que brega por la
realización y el triunfo individual — supone que el fracaso también es propio.
No obstante, si bien las instituciones sociales son denunciantes de conduc-
tas riesgosas, el acceso a la justicia en el tratamiento de asuntos de familia es
un recurso valorado y buscado — también y fundamentalmente — por los sec-
tores sociales más vulnerables. El trabajo plantea algunas preguntas que pueden
orientar el análisis futuro en estas cuestiones.

92 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010


Asimismo, cabe señalar, la vigencia que se observa en torno al uso del
bagaje conceptual que configuró, en Uruguay y en el continente, la perspectiva
tutelar en el campo de la niñez y adolescencia. En este sentido, cuando el dis-
curso experto explicita el contenido atribuido a la categoría de riesgo social, la
antigua conceptualización de abandono moral emerge con nitidez.
Así, es posible reconocer la sugerencia de institucionalización como res-
puesta a un conflicto vincular en niños y adolescentes que son caracterizados
desde la perspectiva tutelar como menores, a los que les espera un futuro pre-
visto por los “corredores y pasadizos” de las instituciones asistenciales, en el
lenguaje utilizado por Costa y Gagliano.
Pero, por otro lado, en oposición a esta lectura institucionalizadora, la
perspectiva de la desinsititucionalización no aparece más continente o respetu-
osa de la infancia pobre. En una mezcla del paradigma de la protección integral
con la perspectiva de la modernidad reflexiva, los sectores vulnerables son
instados a asumir la responsabilidad de su propia reproducción social, desde
una lectura que contribuye a invisibilizar las desigualdades y alivia la respon-
sabilidad social del Estado.

Artigo recebido em junho/2009 ■ Aprovado em dez./2009

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94 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 65-94, jan./mar. 2010


Reflexões sobre a intersetorialidade
entre as políticas públicas
Reflection about intersecting public policies

Sueli do Nascimento*

Resumo: O objetivo deste artigo é refletir sobre as possibilidades e


limites da intersetorialidade das políticas públicas. Foi utilizada como
método de análise a pesquisa documental quando se identificou as
políticas com maiores tendências à intersetorialidade.
Palavras-chave: Intersetorialidade. Políticas de desenvolvimento
urbano. Política social.

Abstract: The aim of this paper is to discuss the possibilities and limits of intersecting public po-
licies. The research in documents was used as a method of analysis when the policies with major
trends in intersecting were identified.
Keywords: Intersecting. Urban development policies. Social policy.

* Professora substituta da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói/
RJ — Brasil. Mestre em Serviço Social e especialista em Política e Planejamento Urbano e Gestão para a
Educação Ambiental. E-mail: sucacimento@yahoo.com.br.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010 95


Introdução

A
intersetorialidade das políticas públicas passou a ser uma dimensão
valorizada à medida que não se observava a eficiência, a efetivi-
dade e a eficácia esperadas na implementação das políticas setoriais,
primordialmente no que se refere ao atendimento das demandas
da população e aos recursos disponibilizados para a execução das mesmas.
Deste modo, a intersetorialidade passou a ser um dos requisitos para a imple-
mentação das políticas setoriais, visando sua efetividade por meio da articulação
entre instituições governamentais e entre essas e a sociedade civil.
A incorporação da intersetorialidade nas políticas públicas trouxe a arti-
culação de saberes técnicos, já que os especialistas em determinada área pas-
saram a integrar agendas coletivas e compartilhar objetivos comuns. Nesta
perspectiva, a intersetorialidade pode trazer ganhos para a população, para a
organização logística das ações definidas, bem como para a organização das
políticas públicas centradas em determinados territórios. Ao mesmo tempo,
abrem-se novos problemas e desafios relacionados à superação da fragmentação
e à articulação das políticas públicas, sobretudo se considerarmos a cultura
clientelista e localista que ainda vigora na administração pública.
Assim, o objetivo deste artigo será refletir sobre as possibilidades e limites
para a intersetorialidade das políticas públicas, enfatizando a relação entre as
políticas de desenvolvimento urbano e social, bem como as expressões da in-
tersetorialidade presentes nos documentos oficiais das referidas políticas em
âmbito nacional, buscando identificar os instrumentos disponíveis para os mu-
nicípios articularem sua intervenção na cidade.
Neste sentido, o artigo está estruturado em três partes. A primeira apre-
senta o debate teórico acerca da intersetorialidade, cujo objetivo é identificar
a forma como algumas correntes teóricas abordam os avanços, dilemas e de-
safios para a implementação de políticas públicas incorporando a dimensão
intersetorial.
A segunda parte tem por objetivo identificar como a concepção em torno
da intersetorialidade se expressa institucionalmente nos documentos oficiais,
tomando como referência as políticas urbanas e as políticas sociais. Na terceira

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parte serão tecidas considerações sobre os limites e as possibilidades da inter-
setorialidade das políticas de desenvolvimento urbano e social.
Com esta análise, buscamos contribuir para o aprofundamento da discussão
em torno da intersetorialidade entre as políticas, a fim de aprimorar sua efetivi-
dade no atendimento da sua população-alvo, por exemplo, por meio da melhor
articulação entre os atores que elaboram, implementam e executam as políticas
públicas e na construção de novos mecanismos e experiências que valorizem o
saber construído pelos sujeitos envolvidos.

1. Intersetorialidade: um debate teórico ainda aberto


Há uma discussão entre as correntes teóricas que tratam da política públi-
ca sobre o grau de importância das políticas setoriais, neste caso, as econômicas,
sociais e de desenvolvimento urbano. Apesar de não nos aprofundarmos nesta
questão, já que o nosso propósito é discutir a intersetorialidade, entendemos
que é importante expor alguns apontamentos que possam contribuir com o
nosso tema de interesse.
Assim, Koga (2003, p. 223) afirma que há de se constatar o domínio da
política econômica sobre a política social, porque o tratamento subalterno dado
às políticas no Brasil tem resultado na crescente mercantilização dos serviços tido
como básicos à população, quais sejam, os do campo da saúde, da educação ou
da habitação, levando a crer num processo de desresponsabilização do Estado.
No que se refere às políticas urbanas, Garson (2007) argumenta que estas
se caracterizam pelos compromissos de longo prazo, capacidade fiscal e técni-
ca dos entes federativos, substanciais montantes de recursos desigualmente
distribuídos no tempo, incerteza de sucesso e possibilidade de defecções. Já as
políticas sociais, sobretudo a partir da década de 1990, recebem recursos defi-
nidos e determinados — nos referimos aos conselhos, aos fundos, assim como
aos processos administrativos definidos em lei — que garantem maior estabili-
dade na sua implementação
Por outro lado Ribeiro e Cardoso (2003, p. 109) expõem que a política de
investimentos urbanos tem sido orientada, no caso brasileiro, pelos interesses

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do setor econômico, apontando que a agenda de contratação de obras públicas
pelo Estado efetivamente tem atendido com maior prioridade aos interesses
econômicos específicos das empreiteiras de obras públicas, em detrimento das
necessidades da população.
Essas formulações nos levam a considerar que há uma hierarquia de poder
no âmbito das políticas públicas em que se destacam as políticas macroeconô-
micas. Entretanto, dentro da formulação das políticas setoriais também há di-
vergências e interferências econômicas que trazem à tona os interesses e a
forma de conduzir tal e qual política conforme os parâmetros daqueles que
detêm a decisão final. Observa-se que há um grau de importância atribuída às
políticas setoriais, pois atendem à conjuntura e à necessidade dos interesses em
jogo, expressas no financiamento de cada uma delas.
Em segundo lugar, devemos focar na análise dos interesses, pois no âm-
bito das políticas é comum os interesses individuais se sobrepor aos interesses
coletivos. Conforme salienta Lobato (2006, p. 304), na formulação de uma
política interagem mutuamente interesses diversos, representados por vários
setores, entre eles o Estado.
É nesta condição de interesse que emerge o papel dos partidos políticos,
dos movimentos sociais, conselhos de direitos e a própria sociedade que elege
os seus representantes. Os conflitos são expostos e clarificados ou obscurecidos
de acordo com os lobbys realizados pelas partes. Neste aspecto, quando a ges-
tão municipal está submetida ao interesse das elites locais, passa a ser orienta-
da por um único projeto de desenvolvimento. Tal projeto é baseado em dois
elementos: “o uso privado dos equipamentos e serviços públicos em proveito
próprio e de seus pares e a manutenção de seu eleitorado cativo” (Ramos, 2002,
p. 116).
Por fim, é necessário observar como a gestão administrativa nos vários
níveis de governo envolvendo todos os entes federados se coloca diante da
política pública e da intersetorialidade. Neste aspecto, é preciso considerar
tanto os interesses em jogo e os processos de privilegiamento de determinada
política setorial quanto as concepções e formatação das políticas pelos diferen-
tes órgãos públicos. Conforme sustenta Junqueira (2004, p. 5), a nova realidade
criada a partir de um novo conhecimento deve ser partilhada no interior das

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organizações gestoras das políticas, e isso vai depender da mudança das práticas
institucionais e das relações sociais que se estabelecem entre os diversos atores
organizacionais e societários. Essas práticas deverão privilegiar a integração de
saberes e experiências em prejuízo da setorialização e da autonomização.
Por outro caminho, Silva (2008, p. 90) destaca que é possível vislumbrar
novas formas de democratização das relações internas ou do que pode ser cha-
mado “politização” da administração enquanto arte da negociação entre dife-
rentes atores. Para ele o importante é saber se o debate da democratização está
na pauta da agenda do Estado e definir o que representa politizar a questão
administrativa.
Diante dessas diferentes perspectivas, trazemos para o campo de debate a
discussão da articulação entre as políticas de desenvolvimento urbano e social.
Para tanto, lançamos mão das contribuições de alguns autores que analisam a
articulação entre as políticas e que levam em consideração a questão da segre-
gação territorial, as questões socioterritoriais, lugar, local, espaço, assim como
o território. Observa-se que há uma preocupação com a interdisciplinariedade
quando se busca discutir a temática da questão urbana e das cidades a fim de
abranger outros campos de conhecimento, assim como verifica-se nos artigos
do campo das políticas sociais a preocupação com a intersetorialidade.
Entre os autores que chamam a atenção para a dimensão territorial das
políticas abordando a questão da intersetorialidade, destaca-se Ribeiro (2007,
p. 46), quando menciona que há a necessidade de as intervenções governamen-
tais nas metrópoles buscarem a articulação entre os objetivos da assistência
social e a transferência de renda aos grupos mais vulneráveis e os de reconstru-
ção social, habitacional e urbanística dos territórios.
Tanto Koga (2003) quanto Ribeiro (2007) e Sposati (2006) admitem ser o
território local privilegiado para realizar a articulação entre as políticas de de-
senvolvimento urbano e as sociais por considerarem importante a presença dos
sujeitos que são alvo das referidas políticas, bem como a valorização desses
sujeitos no atendimento aos direitos sociais por eles demandados.
A interface, intersetorialidade, articulação entre as políticas passa então a
ser um tema importante para essa pesquisa, já que as políticas setoriais por si
só não solucionam tudo e necessitam se comunicar para identificar as necessi-

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dades da população e os benefícios que pode ou não oferecer. Neste sentido, a
intersetorialidade na gestão pública significa adotar uma decisão racional no
processo de gestão, cuja aplicação pode ser positiva ou não. Ela não pode ser
considerada antagônica ou substitutiva da setorialidade, mas complementar, ou
seja, deve-se realizar uma combinação entre política setorial com intersetorial,
e não contrapô-las no processo de gestão (Sposati, 2006, p. 134).
Para Koga (2003, p. 238), a intersetorialidade sobressai enquanto caminho
de perspectiva para a política pública, a fim de articular as políticas sociais,
urbanas, econômicas de forma a atuarem nos mesmos territórios prioritários da
política da cidade. Isto não significa que suas ações são suficientemente con-
frontadas e realizadas em um projeto global, que é, naturalmente, pluridiscipli-
nar. A ausência de uma dinâmica pluridimensional significa que os diferentes
operadores públicos e associados atuam sobre os serviços que lhes são mais
diretamente afetos.
Essa autora advoga que a intersetorialidade se torna, assim, uma qualida-
de necessária ao processo de intervenção. Programas, projetos, equipes técnicas
são desafiados ao diálogo, ao trabalho conjunto com a perspectiva da inclusão
social. Neste caso, há de se fazer presente a participação dos membros da co-
munidade envolvida, enquanto sujeitos do processo da continuidade da propos-
ta (Koga, 2003, p. 242)
A intersetorialidade para Junqueira (2004, p. 4, 9) constitui uma concepção
que deve informar uma nova maneira de planejar, executar e controlar a pres-
tação de serviços, de forma a garantir um acesso igual dos desiguais. Isso sig-
nifica alterar toda a forma de articulação dos diversos segmentos da organização
governamental e dos seus interesses. Diante disso, a implantação integrada das
várias políticas sociais não depende apenas da vontade política de quem tem o
poder ou os recursos disponíveis, pois cada política setorial tem seus interesses
e práticas.
Desta forma, realizar um projeto articulado das políticas sociais e desen-
volvimento urbano demanda a mudança de práticas, padrões, valores, enfim, da
cultura organizacional das instituições públicas gestoras das políticas públicas,
ou ainda a incorporação de organizações autônomas voltadas para os interesses
coletivos capazes de dar maior eficácia à gestão das políticas.

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Inojosa (2001, p. 4) define a intersetorialidade como a articulação de sa-
beres e experiências para o planejamento, a realização de avaliação de políticas,
programas e projetos, cujo fim é alcançar resultados cooperativos em situações
complexas. Desta forma, uma perspectiva de trabalho intersetorial implica mais
do que justapor ou compor projetos que continuem sendo formulados e reali-
zados setorialmente; de fato, a intersetorialidade traz um conjunto de implicações
para a ação do Estado, entre as quais se destacam dois aspectos: (i) os desafios
relacionados às polícias focalizadas territorialmente, em segmentos da popula-
ção; (ii) os desafios relacionados aos resultados e impactos da intervenção.
A intersetorialidade pode ser combinada a modelos ascedentes ou mais
descendentes de gestão. Entende-se por ascendente o princípio da intersetoria-
lidade aplicado na base da gestão institucional com setorialidade no modelo de
gestão dos órgãos de cúpula, ou seja, a intersetorialidade acontecerá à medida
que diferentes representações da gestão municipal se articulam e se integram a
fim de atingir uma meta comum e o modelo descendente realiza o movimento
contrário, levando em consideração a atuação de diferentes sujeitos/técnicos de
organismos públicos e da sociedade civil na formulação de propostas para
atendimento comum de uma meta, objetivo etc. (Sposati, 2006).
Sposati, realizando uma análise sobre intersetorialidade, menciona que
esta tem dimensões e que precisam ser combinadas, ou seja, a setorial e a in-
tersetorial, como dever do Estado e direito da cidadania. De acordo com ela, o
primeiro princípio que rege essa relação parece ser o da convergência, que é um
conjunto de impulsos para a ação em determinada situação, seja ela um objeto,
um tema, uma necessidade, um território, um grupo, um objetivo, uma perspec-
tiva. Entretanto, considera ser necessário que a intersetorialidade sempre seja
corretiva de irracionalidades entre pessoal, funções ou gastos sobrepostos, pois
é um mecanismo racionalizador da ação porque é uma estratégia de gestão
institucional que busca trazer mais qualidade por permitir ultrapassar limites
que ocorreriam na abordagem somente setorial (Sposati, 2006, p. 137).
A intersetorialidade contribui para a criação e reconhecimento de saberes
resultante da integração entre as áreas setoriais. Sposati (2006, p. 140) vê a
intersetorialidade não só como um campo de aprendizagem dos agentes insti-
tucionais, mas também como caminho ou processo estruturador da construção
de novas respostas, novas demandas para cada uma das políticas públicas.

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Quando se pensa nas questões negativas que a intersetorialidade pode
produzir, Koga (2002, p. 33 e 2003, p. 238) aponta algumas considerações no
que se refere aos limites, pois não é a conjugação de várias ações de diferentes
secretarias que irá configurar a intersetorialidade, mas uma estratégia comum
que a defina; a partir do lugar-comum de ação, quais ou que tipos de intervenção
deverão ser efetuadas. E por outro lado, mesmo que as políticas sociais, de
desenvolvimento urbano e econômicas atuem nos mesmos territórios prioritários
da política da cidade, isto não significa que suas ações sejam confrontadas e
realizadas em um projeto global.
De outra forma, Azevedo (2003, p. 41) menciona que a intersetorialidade,
para ele interface, diz respeito à inter-relação entre as diversas políticas. Neste
contexto, destaca algumas dificuldades para a intersetorialidade no que se refe-
re à crescente especialização do poder público e a tendência de maximização
do desempenho de cada um dos órgãos do setor estatal.
Diante disso, há questões para o avanço da gestão da política pública, mas
também há as dificuldades que as políticas setoriais possuem no processo inter-
setorial, isto por conta da própria cultura, dificuldades político-partidárias e
outras questões que vão incidir sobre a execução das políticas, já que vão se
defrontar interesses e mecanismos lobistas para a sua existência e importância.
Dentro desta perspectiva analítica, passamos aos documentos oficiais, onde
poderemos verificar como a intersetorialidade se expressa a fim de garantir que
uma política setorial seja executada em articulação com outras. Sabemos que a
execução da política pública tem como base os recursos, os arranjos institucionais
e os atores, entre outros aspectos, mas aqui vamos focar nossa análise em torno
das diretrizes que fundamentam as políticas selecionadas, para entender como os
administradores e legisladores públicos federais concebem a intersetorialidade.

2. Expressões da intersetorialidade nas políticas de desenvolvimento


urbano e social
Apresentamos aqui o resultado da análise dos documentos que sintetizam
as diretrizes das políticas urbanas e sociais nacionais, publicadas na forma de

102 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
cadernos do Ministério das Cidades e Assistência Social e Lei n. 8.080/90 de
implantação da política de saúde, em que se buscou identificar as concepções
em torno da intersetorialidade. Neste aspecto, detemo-nos nas partes que men-
cionavam a intersetorialidade ou utilizavam sinônimos que pudessem nos levar
ao entendimento do significado da atuação intersetorial.

2.1 Políticas de desenvolvimento urbano

A partir da criação do Ministério das Cidades, em 2003, a política de de-


senvolvimento urbano passa a ser assumida como uma questão estratégica pelo
governo federal, buscando-se, no seu desenho, a articulação de todas as políti-
cas urbanas. Para expressar essa nova concepção, foram redigidos cadernos para
as políticas de: saneamento ambiental, habitação, planejamento territorial ur-
bano e política fundiária e, por fim, mobilidade urbana sustentável, sistemati-
zando a concepção de cada uma dessas políticas, seus principais instrumentos
e programas.
Nesta perspectiva, busca-se apresentar as expressões da intersetorialidade
em cada uma das políticas, a fim de compreender como aqueles que a elaboraram
e a esboçaram por meio dos cadernos refletem sobre a proposta da intersetoria-
lidade, já que é de extrema importância a articulação setorial das políticas em
questão, assim como com as sociais, que serão analisadas no próximo item.
A intersetorialidade é mencionada no Caderno da Política Saneamento
Ambiental (PNSA), por meio das diretrizes operacionais e organizacionais do
processo de implementação da política quando menciona que

a intersetorialidade responde à necessidade de integração das ações de saneamen-


to ambiental entre si e com as demais políticas públicas, em especial, com as de
saúde, meio ambiente, recursos hídricos, desenvolvimento urbano e rural, habi-
tação e desenvolvimento regional. (MDS, 2004, p.19)

Pode, também, ser observada algumas palavras que atribuem o mesmo


sentido de intersetorialidade como cooperação, ou seja, a “cooperação interins-
titucional entre os órgãos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos

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Municípios com o objetivo de elevar a eficácia das ações e explorar as possibi-
lidades de complementariedade” (MDS, 2004, p. 10).
A questão da integração é sobressaltada no sentido de ser criada uma “visão
justa e integrada da política ambiental urbana e serem vistos como os fundamen-
tos de uma nova forma de gestão do saneamento ambiental no Brasil” (MDS,
2004, p. 19). Além disto, a relação interministerial e interdisciplinar aparecem
na valorização da participação da sociedade e de vários ministérios na elaboração
da política nacional de saneamento ambiental. Como afirma o documento,

após ampla participação da sociedade, o MCidades, juntamente com os demais


ministérios que compõem o Grupo de Trabalho Interministerial do Saneamento,
formulou um ante projeto de lei para a Política Nacional de Saneamento Ambien-
tal que elege o planejamento, a regulação, a fiscalização e controle social como
fundamentos para execução das ações de saneamento. (MDS, 2004, p. 9)

Assim, “o Plano Municipal de Saneamento [...] deve estar ancorado em


uma metodologia capaz de promover o desenvolvimento interdisciplinar e o das
ações, a articulação de diversos órgãos, a participação e controle social” (MDS,
2004, p. 31).
No que se refere a política de habitação, identificamos a intersetorialidade
nas diretrizes e princípios dessa política expressas nos Cadernos quando é afir-
mado que

a implementação da Política Nacional de Habitação implica em um novo desenho


político institucional, a partir dos princípios da descentralização, territorialização,
intersetorialidade, participação e desenvolvimento institucional e na elaboração e
implementação de um Plano Nacional de Habitação. (Min. Cidades, 2006, p. 58)

Além disso, verificamos em todo o texto o emprego das palavras articula-


ção e integração quando da referência de trabalhos com outras políticas setoriais,
instituições, setores privados etc. Tal análise pode ser comprovada em um dos
itens dos princípios da política que expõe a “articulação das ações de habitação
à política urbana de modo integrado com as demais políticas sociais e ambien-
tais” (Min. Cidades, 2006, p. 31); bem como presente em um dos itens dos
objetivos gerais de

104 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
tornar a questão habitacional uma prioridade nacional, integrando, articulando e
mobilizando os diferentes níveis de governo e fontes, objetivando potencializar a
capacidade de investimentos com vistas a viabilizar recursos para a sustentabili-
dade da PNH. (Min. Cidades, 2006, p. 31)

ou ainda quando menciona a

atuação integrada com as demais políticas públicas ambientais e sociais para


garantir a adequação urbanística e socioambiental das intervenções no enfrenta-
mento da precariedade urbana e da segregação espacial que caracterizam esses
assentamentos. (Min. Cidades, 2006, p. 35)

E por fim observamos, também, o uso do termo em conjunto, quando


menciona “a promoção, em conjunto com outros órgãos federais e com os demais
níveis de governo afetos a questão urbana” (Min. Cidades, 2006, p. 35).
No desenho da política de planejamento territorial urbano e política fun-
diária, existem quatro linhas de políticas de trabalho, coordenadas pela Secre-
taria Nacional de Programas Urbanos, que fazem parte da estrutura administra-
tiva do Ministério das Cidades a saber: reabilitação de áreas urbanas centrais,
apoio à elaboração e revisão de planos diretores, apoio à regularização fundiá-
ria e mobilidade urbana sustentável.
Analisando o referido caderno, foi verificado que nenhuma das quatro
políticas menciona a intersetorialidade, mas fazem menções de expressões/
palavras que podem levar à atuação intersetorial, como: estabelecer parceria,
trabalho cooperativo, ações integradas, conciliação, promover integração, inte-
gração/articulação interministerial.
A primeira política do caderno de planejamento territorial urbano e polí-
tica fundiária analisada foi a de reabilitação de áreas urbanas centrais, na qual
não se observou nenhuma menção que levasse a uma atuação ou intenção para
a intersetorialidade, sendo neste caso uma política setorial que tem entre seus
objetivos, de cunho social, a geração de emprego e renda e condições habita-
cionais para as áreas de revitalização, bem como a integração com outras polí-
ticas de desenvolvimento urbano e políticas locais.
Já a segunda política — apoio à elaboração e revisão de planos diretores
— aponta que a “ação da referida política tem buscado estabelecer parcerias

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com os demais órgãos federais envolvidos no tema, de forma a otimizar os re-
cursos e articular as ações do governo federal” (Min. Cidades, 2004, p. 19).
Em outro trecho está exposta a diretriz de desenvolver “uma prática de
trabalho solidário e cooperativo entre Ministério das Cidades, Caixa, municípios
e lideranças locais” (Min. Cidades, 2004b, p. 20).
Na análise da terceira política — apoio à regularização fundiária — foi
verificado “que a realidade fundiária apresenta características extremamente
preocupantes que exigem ações integradas e contemplem iniciativas diversas”
(Min. Cidades, 2004b, p. 44). Por outro lado, nos pressupostos da referida po-
lítica é observada outra indicação de intersetorialidade, ou seja, a

necessidade de conciliação entre regularização urbanística e ambiental, com a


regularização jurídica e patrimonial, bem como aponta que a regularização fun-
diária tem que ser conciliada com a regularização urbanística e ambiental dos
assentamentos com a introdução de programas socioeconômicos e outros progra-
mas. (Min. Cidades, 2004b, p. 46-47)

Na quarta política — prevenção de riscos em assentamentos precários —,


há menção em um dos trechos do referido documento que

é necessário implementar nos municípios um programa específico de redução de


riscos que se articule harmoniozamente e seja complementar aos programas de
urbanização integral e regularização fundiária dos assentamentos precários. (Min.
Cidades, 2004b, p. 64)

Assim como “compatibilizar as intervenções específicas de redução de


riscos com os programas gerais de urbanização e regularização fundiária dos
assentamentos precários” (Min. Cidades, 2004b, p. 65).
Por fim, no último caderno, a Política Nacional de Mobilidade Urbana
Sustentável — PNMUS — não foi encontrada a expressão intersetorialidade,
mas, tal como nas outras políticas analisadas foram observadas expressões que
podem levar à atuação intersetorial, como articulação, integração, associação e
união. Pode ser apontado, nesta direção, conforme o documento, o conceito de
mobilidade que vem sendo construído nas últimas décadas, encontrando “subs-
tância na articulação e união de políticas de transporte, circulação acessibilida-

106 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
de e trânsito com a política de desenvolvimento urbano” (Min. Cidades, 2004c,
p. 14). No mesmo sentido, foi observado no documento a necessidade de ter
garantia de “maior nível de integração e compromisso entre as políticas de
transporte, circulação, habitação e uso do solo” (Min. Cidades, 2004c, p. 15).
Constata-se nas diretrizes da PNMUS um item que estabelece com clare-
za a intencionalidade da intersetorialidade quando expõe a

necessidade de promover e viabilizar associação e coordenação entre a política


nacional de mobilidade sustentável e de transporte e trânsito em consonância com
as políticas de promoção habitacional, desenvolvimento urbano, meio ambiente
e saneamento básico, em especial as de drenagem de águas pluviais e resíduos
sólidos. (Min. Cidades, 2004c, p. 52)

Diante das análises apresentadas, surgem algumas questões no que se re-


fere à concepção de intersetorialidade expressa nas palavras e conceitos utili-
zados no desenho das políticas urbanas a fim de desenvolver uma atuação in-
tersetorial. Percebe-se que, em geral, são utilizadas expressões/palavras no
sentido de compreender a intersetorialidade como: integração, articulação, em
conjunto, associação, união, entre outras. Mas será que utilizando essas expres-
sões estamos falando em intersetorialidade na implementação da política? Será
que essas palavras podem expressar uma proposta intersetorial no plano local?
Como garantir a intersetorialidade a partir da proposição de instrumentos ad-
ministrativos, como diagnósticos, planos e outros? Haverá realmente troca de
saberes ou reuniões institucionais para tratar de assuntos momentâneos?
Vale ressaltar que as expressões em muitos dos casos analisados apenas
configura uma articulação institucional, interministerial, mas não uma atuação
intersetorial que envolva troca de saberes, abranja uma atuação institucional
convergente conforme as indicações de Sposati (2006), ainda que observemos
a menção de outras políticas. Apenas a política de saneamento ambiental ex-
pressa a atuação intersetorial de forma clara e objetiva, expondo articulação
com a política de saúde quando da aprovação da redação da política de sanea-
mento no Conselho Federal de Saúde. A política de habitação aponta conside-
rações para a intersetorialidade, interligando-se à questão social no que se re-
fere a uma política de geração de emprego e renda, bem como as considerações
de gênero e integração com as políticas de desenvolvimento urbano.

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Vale ressaltar que a política de habitação, apesar de compor a política de
desenvolvimento urbano, também deve ser considerada parte das políticas so-
ciais, porque sua intervenção está diretamente vinculada à existência da popu-
lação e às condições de moradia. É uma das políticas sociais mais custosas, pois
edificar uma casa gera gastos elevados para a renda da população empobrecida
e moradora de áreas periféricas dos centros urbanos.
A política de planejamento territorial urbano e a política fundiária tratam de
questões que podem nos levar à intersetorialidade. Entretanto elas apresentam um
desenho eminentemente setorial, tendo em vista que as diretrizes expressas por
meio de parceria, integração, ação em conjunto, podem não levar a uma atuação
intersetorial que considere a interdisciplinaridade, mas tão somente às disciplinas
envolvidas que possam garantir a execução e a implementação da política.
Por fim, cabe mencionar que se observou uma preocupação em articular
as referidas políticas setoriais urbanas com a política nacional de desenvolvi-
mento urbano, neste caso, inclusive com a criação do Conselho das Cidades,
órgão que conta com a participação da sociedade. Além disto, cabe mencionar
a criação de conselhos interministeriais (no caso, vinculado à política de sanea-
mento ambiental), envolvendo a participação de outros ministérios na discussão
e implementação dessa política. Por outro lado, observa-se a menção de arti-
culação das políticas de desenvolvimento urbano com as políticas sociais,
principalmente aquelas voltadas para geração de emprego e renda, condições
de habitabilidade e posse da terra.
Diante das considerações apresentadas é preciso analisar as políticas sociais
no que se refere a sua concepção de intersetorialidade e no sentido de verificar
se suas ações buscam estar articuladas no sentido de planejar, organizar, otimi-
zar e assegurar a troca de saberes entre setores.

2.2 Políticas sociais: assistência social e saúde

As políticas de saúde e assistência social fazem parte do tripé da Seguri-


dade Social no Brasil em que se conjugam com a Previdência Social. Por isso
há uma importância política e de democratização no que se refere ao atendi-

108 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
mento das demandas, universalização e garantia de acesso ainda que cada uma
delas tenha ações setoriais e necessariamente precisem se articular entre si. Por
outro lado, trazem respectivamente como referência a regionalização e o territó-
rio como expressões de implementação e interface entre as políticas setoriais.
Diante disso, é necessário esclarecer o que é a política social. Para tal,
utilizamos as considerações de Behring (1993, p. 17), quando diz que a políti-
ca social é a síntese de múltiplas determinações, ou seja, por ela passam ques-
tões econômicas, políticas, culturais, entre outras, bem como há também uma
densidade histórica, pois busca os traços particulares dos processos sociais
globais na realidade brasileira. Assim, deve se buscar a decifração da especifi-
cidade da formulação sócio-histórica do Brasil em sua relação com esses pro-
cessos gerais e a configuração específica da política social brasileira.
Vendo a política social como produto dos processos históricos, a política
de assistência social na década de 1990 obtém alguns ganhos que traçam a sua
estrutura enquanto política pública e direito social com a Constituição Federal
de 1988 e com a promulgação da Loas (Lei Orgânica de Assistência Social),
desta forma deixando para o passado o cunho assistencialista que a caracteri-
zava, pelo menos do ponto de vista das suas definições formais.
A partir de 2003, a assistência social no Brasil é estruturada administrati-
vamente e passa a ser regida pelo Suas — Sistema Único de Assistência Social
—, que tem como referência a Lei Orgânica da Assistência Social, as Nobs —
Norma Operacional Básicas — e a Constituição de 1988. A gestão proposta
para essa política é o pacto federativo, e a forma de enfrentar a questão social
foi a descentralização, levando em consideração as desigualdades territoriais e
a participação social.
A intersetorialidade passa a ser alvo das discussões no processo de imple-
mentação da política de assistência, muitas vezes expressa por meio de palavras
que têm sentido similar, como, por exemplo, a interface — conexão —, em que
“os serviços de proteção social têm estreita interface com o sistema de garantia
de direito, exigindo, muitas vezes, uma gestão mais complexa e compartilhada”
(MDS, 2004, p. 31).
Observa-se, ainda, no documento um tratamento da interface enquanto
inter-relação, ou seja, “o Plano de Assistência Social expressa a política e suas

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010 109
inter-relações com as demais políticas setoriais e com a rede socioassistencial”
(MDS, 2004, p. 37).
Em outro ponto, a intersetorialidade é sinônimo de integração, ou seja, “a
Política Pública de Assistência Social realiza-se de forma integrada às políticas
setoriais” (MDS, 2004, p. 27). Toma o sentido de extravasar, isto é,

nessa vertente, o objeto da ação pública, buscando garantir a qualidade de vida


da população, extravasa os recortes setoriais em que tradicionalmente se fragmen-
tam as políticas sociais e em especial a política de assistência social. (MDS, 2004,
p. 37)

Verifica-se que a expressão intersetorialidade é marcadamente utilizada


quando se refere “à Assistência Social, enquanto política pública que compõe
o tripé da Seguridade Social, e considerando as características da população
atendida por ela, deve fundamentalmente inserir-se na articulação intersetorial”
(MDS, 2004, p. 36).
Os sentidos da intersetorialidade para a política de saúde não é tão expres-
siva quanto na assistência social, mas na Lei n. 8.080/90 pode-se verificar alguns
pontos que legalmente podem apontar o processo intersetorial entre as políticas
de saúde e as de meio ambiente e saneamento básico.
O debate sobre a saúde para todos, enquanto direito, remonta às lutas da
reforma sanitária no Brasil, o processo de democratização da saúde, do aparelho
administrativo e a conquista do SUS — Sistema Único de Saúde. Por mais que
haja considerações acerca do avanço e do modelo adotado, como sendo o mais
avançado, ainda há problemas a ser enfrentados. Entretanto, a proposta de sis-
tema do SUS é replicada para outras políticas setoriais, como a própria assis-
tência social, habitação dentre outras.
Neste aspecto, as expressões que apontam para uma atuação intersetorial
utilizadas na lei que regulamenta a política de saúde dá outro sentido à interse-
torialidade, o que poderia ser explicado pelo fato de a Lei n. 8.080, de 1990, ter
sido formulada quando o debate da intersetorialidade não tinha tanta expressão,
ganhando vulto após esse período.
Neste caso, a palavra articulação pode ser um dos sentidos da intersetoria-
lidade quando a Lei n. 8.080/90, no seu art. 2º, § 1º, menciona que é

110 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
dever do Estado de garantir a saúde consiste na formulação e execução de políti-
cas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros
agravos e no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e
igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e recuperação.

Observou-se que a questão da participação pode ser outro sinônimo de


intersetorialidade, bem como a palavra colaboração, conforme as ponderações
da Lei n. 8.080/90, no art. 6º, quando faz menção “participação na formulação
da política e na execução de ações de saneamento básico e a colaboração na
proteção do meio ambiente, nele compreendido o da saúde do trabalhador”. Tais
participação e colaboração, de acordo com o artigo, são campo de atuação do
Sistema Único de Saúde.
As diretrizes e os princípios da política de saúde presentes no art. 7º apon-
tam para a intersetorialidade. Entre os itens mais expressivos, o décimo men-
ciona que deve haver “a integração em nível executivo das ações de saúde, meio
ambiente e saneamento básico”.
Realizando uma comparação entre as políticas de assistência e saúde,
pode-se considerar que elas se complementam, ainda que a saúde não faça
menção à política de assistência. As expressões utilizadas para apontar uma
atuação integrada também aparecem em ambas as políticas, dando a entender
que existe uma propensão à atuação intersetorial.
Para se observar a relação entre as políticas, faz-se necessário ter um olhar
mais apurado. Neste sentido, foi proposto no próximo item um quadro analíti-
co de todas as políticas aqui estudadas para verificar a real intersetorialidade
entre elas a partir de fatores retirados da literatura. Desta forma, pode se tecer
maiores considerações sobre a intersetorialidade.

3. Considerações finais: limites e possibilidades da intersetorialidade


As análises sobre a intersetorialidade expressa nas políticas em questão
possibilitaram a produção de um quadro analítico que garantiu uma visão am-
pliada sobre a inter-relação das políticas e, assim, considerar as possibilidades

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010 111
e os limites de uma atuação intersetorial em âmbito local, envolvendo gestores
e técnicos responsáveis pelo seu desenho e implementação.
Os fatores de análise propostos foram retirados da literatura ou produzidos a
partir das leituras e do processo analítico das políticas. Esse processo fortaleceu a
proposta de reflexão sobre a intersetorialidade porque pode se verificar como no
processo de elaboração se pensa e se constroem propostas que podem incluir ou
excluir políticas e incorporar ou se fechar a dimensão intersetorial das mesmas.
Assim, a proposta é ampliar o debate e expor novas possibilidades de
encontros entre as políticas, quebrando os limites e referências postas no plano
da execução e implementação das políticas em questão. Consideramos impor-
tante perceber os entraves que impedem a devida articulação no plano local, já
que os documentos analisados são as referências para os municípios e estados
na execução das políticas.

Quadro analítico da intersetorialidade entre as políticas de desenvolvimento urbano e social


Políticas Públicas Grau Dimensão Outras Políticas Instrumentos

Saneamento Ascendente/ Setorial/ Meio Ambiente, Saúde Plano Municipal


Ambiental Descendente Intersetorial Políticas DU de Saneamento
Ambiental

Mobilidade Urbana Ascendente/ Setorial Políticas DU Plano Diretor


Sustentável Descendente Intersetorial Saneamento Ambiental Plano de
Habitação, Meio Ambiente Transporte Urbano

Política Apoio do Ascendente Setorial Relação Institucional Plano Diretor


Plano Diretor

Política Apoio à Ascendente Setorial Meio Ambiente Plano Diretor


Regularização Habitação
Fundiária Plano Diretor

Política de Ascendente Setorial Relação Institucional Áreas Urbanas


Reabilitação de (Programas de Habitação, Centrais
Áreas Urbanas Transporte e Mobilidade
Centrais Urbana, Fundiário)

Política de Ascendente Setorial Relação Institucional Plano Municipal


Prevenção de (Programas de Regularização de Redução de
Riscos em Fundiária e Habitação) Riscos
Assentamentos
Precárias

112 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
Políticas Públicas Grau Dimensão Outras Políticas Instrumentos
Habitação Ascendente Setorial Saneamento Ambiental Plano Municipal
Social de Habitação
Regularização Fundiária Federal, Estadual,
Políticas de DU Municipal
Políticas de Desenvolvimento
Regional e Local
Assistência Social Ascendente/ Setorial/ Saúde, Educação, Cultura, Planos Municipais
Descendente Intersetorial Esporte, Emprego, Habitação de Assistência
e outras. Social
Saúde Ascendente/ Setorial/ Saneamento Ambiental, Nas comissões
Descendente Intersetorial Meio Ambiente, Educação intersetoriais e
outros fóruns

O grau da intersetorialidade apresentado por Sposati (2006) trata da com-


binação de modelos ascendentes ou mais descendentes de gestão. Neste caso,
o grau ascendente parte da gestão intersetorial de cúpula onde os gestores dos
setores se reúnem e compõem agenda e ações com metas únicas, e o descen-
dente parte da gestão da base a partir da participação de sujeitos/técnicos na
condução das ações.
Vale mencionar que foram encontradas políticas que se caracterizavam por
ascendente e descendente, bem como ascendente/descendente, pois a política da
qual se tratava estava sendo pensada ou implementada a partir do grau ascen-
dente e propunha uma relação intersetorial de grau descendente em âmbito local.
Em outras políticas, como o Plano Diretor e Regularização Fundiária, verificou-
se uma relação setorial em que a intersetorialidade não foi proposta e a articula-
ção ficou na esfera dos gestores, a fim de que implementassem os projetos.
No que se refere ao segundo critério, relativo à dimensão, nos remetemos
novamente a Sposati (2006), quando expõe que a intersetorialidade apresenta
dimensões e que precisam ser combinadas, ou seja, a setorial e a intersetorial,
apresentando um princípio que rege essa relação, ou seja, a convergência para
um conjunto de impulsos para a ação em determinada situação, um objeto, um
tema, uma necessidade, um território, um grupo, um objetivo ou uma perspec-
tiva. Assim, foram identificadas algumas políticas que trazem as dimensões
setorial e intersetorial concomitantemente, a saber: saneamento ambiental,
mobilidade urbana, saúde e assistência social.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010 113
Analisando o quadro, vemos que a maioria das políticas é ascendente, ou
seja, há a intersetorialidade na formulação da política em âmbito federal. Nes-
te caso, busca-se manter articulações com outros setores para a construção das
propostas, mas mantém-se a setorialidade no que se refere à organização insti-
tucional e administrativa, enquanto para implementação e execução busca-se a
articulação com outras políticas.
O quadro apresenta um item denominado “outras políticas”, cujo objetivo
é expor o número de articulações com outras políticas presentes nos documen-
tos. Neste caso, foram evidenciadas as mais importantes. As relações com as
políticas pode ser apenas tanto setorial, para implementar e obter informação,
entre outros aspectos, quanto pode ser de planejamento e articulação conjunta,
levando a uma atuação intersetorial.
As políticas de regularização fundiária, riscos em assentamentos precá-
rios e reabilitação de áreas urbanas centrais não possuem relação direta com
outras políticas, mas relações institucionais no âmbito da sua execução e
implementação.
Ao analisar a relação entre as políticas, buscamos observar o número de
vezes que apareciam no campo “outras políticas”. Assim, constata-se que a
política de meio ambiente é mencionada pelas de saneamento ambiental, mo-
bilidade urbana sustentável, regularização fundiária e saúde. Neste sentido, tal
menção pode expressar o grau de importância e o nível de interesse na referida
política para o processo de elaboração e implementação.
A política de saneamento ambiental se articula com a de mobilidade ur-
bana, habitação e saúde, configurando, neste aspecto, a importante tarefa de
dirimir os impactos da ausência de saneamento no ambiente, assim como para
a saúde da população do país.
A política de habitação se articula com as políticas de mobilidade urbana
sustentável, áreas urbanas centrais, prevenção de riscos em assentamentos pre-
cários e assistência social, podendo-se visualizar uma correlação das condições
habitacionais com as condições urbanas onde se situa a residência e a população
nela inserida.
Na análise da política de saúde, observou-se que ela se relaciona com as
políticas de saneamento ambiental e assistência social. É considerada de extre-

114 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
ma importância a relação dessa política com a habitação, já que as condições
de saúde de um morador também está relacionada às condições de habitação,
ou melhor, de moradia, que abrange todas as demais políticas do quadro. No
entanto, apesar dessa importante articulação, ela não é citada pela política de
habitação.
O interessante no campo de análise é observar que todas as políticas rela-
cionadas ao desenvolvimento urbano se interagem. Foi constatado nos documen-
tos analisados que há espaços de reuniões interministerial, conselho e outros
que favorecem essa integração. Entretanto, não se observou a manutenção des-
sa mesma relação com alguns espaços das políticas sociais, exceto a política de
saneamento ambiental por meio de Conselho de Saúde.
A habitação e apoio à área de reabilitação de assentamentos precários
apontaram em seus documentos de referência a relação e a preocupação com
as políticas de desenvolvimento regional e local a fim de atender as especifici-
dades regionais e locais de implementação das políticas em questão, o que não
se verificou nos demais documentos.
A análise do quadro suscita questões no que se refere à política de assis-
tência, que não são mencionadas por nenhuma das outras políticas para atuação
intersetorial. Foi verificado nos documentos das políticas de habitação, áreas
de reabilitação, saneamento ambiental, que se considera importante as condições
de vida da população no que se refere a geração de emprego e renda, posse da
terra e a relação de propriedade, a dimensão de gênero, mas sem o propósito de
uma atuação intersetorial com a política de assistência social.
Desta forma, questiona-se o porquê da ausência de tal relação. O que os
elaboradores das políticas entendem sobre a política de assistência? Por que a
assistência não é vista como uma política importante a ser articulada na imple-
mentação das demais políticas? Tais questões inquietam, no sentido de procurar
compreender os motivos de tal anulação dessa política, já que ela atende ao
mesmo público das demais políticas em voga, ou seja, a população empobreci-
da e os residentes de áreas precárias.
Trazer essa análise para o centro de discussão é necessário na medida que
os objetivos das políticas em questão é atender uma população afastada dos
benefícios da mobilidade urbana, das condições de habitabilidade e de saúde,

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010 115
bem como de saneamento ambiental e social, neste caso envolvidas nas políti-
cas de desenvolvimento urbano.
Sposati (2006) menciona a importância da intersetorialidade, mas sem
anular a setorialidade. Aqui pode ser observado que a setorialidade pode anular
a intersetorialidade dependendo das concepções e diretrizes que informam as
políticas, sobretudo a da assistência social, e de como ela é considerada pelas
políticas de desenvolvimento urbano. Assim, questiona-se: como os elaborado-
res das políticas de desenvolvimento urbano compreendem e veem a política
de assistência social?
Na lei que implanta o SUS foi observado que não havia planos, mas
mencionavam-se comissões intersetoriais que podem expressar a intersetoria-
lidade, já que a própria política de saúde traz no corpo da lei a relação com a
política de meio ambiente e saneamento ambiental.
Consideramos importante observar que contemporaneamente a organiza-
ção administrativa do SUS sofreu modificações no que se refere à participação
de outras políticas setoriais no processo de discussão de política de saúde, já
que ela é datada de 1990, decorridos, portanto, dezenove anos da sua formula-
ção. Como não nos detivemos nas Normas Operativas da Saúde para verificar
como se apresentava a intersetorialidade, é necessário considerar a possibilida-
de de estar acontecendo a intersetorialidade nas esferas administrativas e,
principalmente, em âmbito local no decorrer desses anos.
No campo dos instrumentos, vale ressaltar que a política de assistência
expressa, no documento analisado, a importância de a intersetorialidade se
exprimir no âmbito local por meio do Plano Municipal de Assistência Social,
mas nas outras políticas não encontramos a concretização operacional da in-
tersetorialidade, e ficou subentendido tal importância. Por isso, em algumas
das políticas apresentadas foi verificada a necessidade de produzir planos locais,
não só para expressar a intersetorialidade, mas organizar e planejar as ações
de cada política.
O Plano Diretor também foi um instrumento mencionado onde poderia se
apresentar a intersetorialidade, principalmente em algumas das políticas de
desenvolvimento urbano. Ressalta-se, neste sentido, por que o Plano Diretor
também não é considerado uma referência para todas as políticas pesquisadas,

116 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
tendo a necessidade criar planos específicos para cada política. Considera-se
importante que haja um planejamento setorial, mas sem perder de vista a ne-
cessidade de comunicação entre os setores e, sobretudo, considerando a cidade
(município) lócus privilegiado de execução da política pública e da interseto-
rialidade, bem como da participação e do controle social.
O Plano Diretor é um dos instrumentos de gestão de uma cidade. Refle-
tindo sobre o seu papel, podemos formular a questão: como pensar a cidade
com um plano global sem fragmentar o olhar sobre a mesma por meio de tantos
outros planos setoriais? Considerando que os planos das políticas em questão
atendem a população de um território, vivendo em determinadas condições
sociais, podemos indagar se há interação entre os planos apontados com o Pla-
no Diretor da cidade?
As análises dos documentos nos auxiliaram a compreender as possibilida-
des e os limites das referidas políticas no plano teórico e reflexivo apresentados
nos cadernos analisados. Constata-se que para haver uma real intersetorialidade
é necessário construir espaços com tais objetivos comuns que possibilitem a
comunicação entre as políticas sociais com as de desenvolvimento urbano, no
que se refere à troca de saberes, interações no processo de elaboração, formu-
lação e execução da política, bem como com a disponibilidade dos técnicos e
gestores das pastas das referidas políticas no processo de planejamento conco-
mitantemente apoio político.
O saber de determinada política setorial é importante, mas também expõe
a necessidade de troca a fim de possibilitar a construção de novos saberes.
Neste caso, a interdisciplinaridade ganha força quando os saberes técnicos
conseguem sair da sua pasta de origem e cunhar possibilidades de construção
de uma política inclusiva e articulada às reais necessidades da população.
Assim, este artigo teve a intenção de refletir sobre a intersetorialidade a
partir de uma análise documental, por isso restrita, o que coloca como necessi-
dade a ampliação da análise para o plano da implementação concreta das polí-
ticas nos municípios, Distrito Federal e estados.
Neste aspecto, é por meio da realidade cotidiana que se pode conseguir
vislumbrar possibilidades e limites para a intersetorialidade, pois o processo
reflexivo é anterior à prática, mas se articula o tempo todo para a construção de

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010 117
novas visões e interações. Aqui, tais visões e interações foram colocadas sobre
as políticas de desenvolvimento urbano e social na forma documental.
Tanto as políticas de desenvolvimento urbano quanto a social trazem em
seu bojo algumas perspectivas de ações intersetoriais, podendo fortalecer as
atuações dos gestores e técnicos, a articulação com a população local, dar base
para a interação de saberes (interdisciplinaridade) ou criação de outros, promo-
ver e consolidar ações políticas e trabalhar com a logística do processo de im-
plementação.
Por outro lado, os interesses dos sujeitos envolvidos também passam a ser
um divisor de águas, na medida em que estes podem ser obscurecidos, e as ações
intersetoriais podem tanto estar voltadas para respostas imediatas, como podem
se reverter em ações contundentes que consigam criar barreiras políticas de
enfrentamento aos interesses.
Assim, buscou-se mostrar que as políticas se comunicam de forma restri-
ta, mas questionou-se a qualidade desta interação, e o que limita tal interação
no plano local só pode ser demonstrado com novas pesquisas e análises. Por
isso, este artigo propõe e incentiva a reflexão sobre a intersetorialidade, expon-
do que no plano analítico das políticas em questão existem bases importantes
a partir das quais é possível construir a intersetorialidade

Artigo recebido em nov./2009 ■ Aprovado em jan./2010

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120 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 95-120, jan./mar. 2010
Com açúcar e sem afeto:
a trajetória de vida amorosa de mulheres
das classes populares em Aracaju/SE
With sugar and without affection: the trajectory of the loving
life of women of the lower social classes in Aracaju/SE

Márcia Santana Tavares*

Resumo: Este artigo pretende discutir as tramas e enredos erótico-


-amorosos de mulheres das classes populares em Aracaju (SE), a
partir de uma perspectiva de gênero. Os dados foram coletados através
de dez relatos biográficos. A análise revela que a cartografia amorosa
das mulheres investigadas é desenhada pela extrema miséria que
acompanha sua trajetória de vida. O amor, portanto, adquire corporei-
dade na figura daquele que sacia sua fome e de seus filhos, mesmo
quando a relação com o parceiro é permeada pela infidelidade, violên-
cia doméstica, ausência de desejo e prazer sexual.
Palavras-chave: Gênero. Amor. Classes populares.

Abstract: This article intends to discuss the loving-erotic life development of women of the lower
social classes in Aracaju/SE, under the gender perspective. The data were collected from ten biogra-
phical reports. The analysis reveals that the loving pattern of the investigated women is drawn by the
extreme poverty that follows their life trajectory. Love, therefore, takes the form of the person who
satisfies both her hunger and her children´s, even when the relationship with the partner is permeated
by infidelity, domestic violence, absence of both desire and sexual satisfaction.
Keywords: Gender. Love. Lower social classes.

* Assistente social, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Católica de Salvador/Bahia — Bra-
sil. Professora do mestrado “Políticas Sociais e Cidadania. E-mail: marciatavares1@gmail.com.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 121-145, jan./mar. 2010 121
Introdução: Breve inventário sobre o amor contemporâneo

O
cotidiano das relações familiares, desde meados do século XX,
vem sendo conduzido por profundas transformações na vida social.
Surgem novas configurações, modelos de conjugalidade, medrados
pela inserção da mulher no mercado de trabalho e ingresso nas
universidades, movimentos emancipatórios feministas, que buscam desmistifi-
car o caráter dual dos papéis sexuais e sociais atribuídos a homens e mulheres;
o acesso a métodos contraceptivos e controle de natalidade reduzem o tamanho
médio do núcleo familiar; tem aumentado também o número de famílias che-
fiadas por mulheres e monoparentais femininas, bem como se acentuado a pe-
renidade das relações, tecida por uma ideologia individualista, desejo de reali-
zação e crescimento pessoal, (re)descoberta de novos códigos e identidades
posicionais.
No amor contemporâneo, espera-se a mais perfeita simbiose com o outro.
No entanto, os parceiros têm dificuldade de conciliar os seus projetos identifi-
catórios, ou seja, a reciprocidade e compartilhamento desejados se encontram
subsumidos ao processo de individualização. Por isso, a dinâmica relacional é
regida pela contingência; se a plena completação emocional entre os pares não
é alcançada, resguardados no amor a si próprios, retoma-se a busca por um
relacionamento especial (Giddens, 1993; Badinter, 1986).
No casamento moderno, a mulher, para ser respeitada, vê-se impelida a
perseguir o crescimento do “eu” e da realização profissional, mesmo que não
tenha um projeto pessoal ou desejo de exercer atividades domésticas. O marido,
por sua vez, incentiva a esposa a estudar ou trabalhar, desde que não interfira
nos serviços domésticos, cuidados com a família e filhos, que permanecem uma
responsabilidade feminina. Afinal, como assinala Porchat (1992, p. 112), “não
acha justo que a família, os filhos, sejam prejudicados! Desde que ela ‘dê um
jeito’ para organizar o seu tempo, tudo bem...”.
Observa-se que as relações entre os sexos são permeadas por mudanças
valorativas, novos referenciais que convivem lado a lado com comportamentos
modelizadores tradicionais, ou seja, o novo/velho, arcaico/moderno compõe o
mosaico afetivo de homens e mulheres que, por isso mesmo, se mostram tan-

122 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 121-145, jan./mar. 2010
tas vezes confusos, pois ao mesmo tempo em que almejam construir uma re-
lação igualitária, não conseguem se desvencilhar totalmente de um modelo
hierarquizado.
Esse novo padrão conducente da relação entre os sexos, entretanto, con-
centra-se nas camadas médias intelectualizadas, que apreenderam mais forte-
mente o viés psicologizante das ideologias individualistas (Velho, 1986). Entre
as classes populares, persiste o modelo familista hierárquico, que, ancorado no
ideário patriarcalista, legitima a dominação do masculino sobre o feminino, dos
mais velhos sobre os mais jovens.
Gueiros (2002), reportando-se a Sarti, argumenta que, ao contrário das
famílias das classes médias, entre as famílias pobres o espaço doméstico torna-
-se locus onde o homem pode exercer sua autoridade, uma vez que suas precá-
rias condições de vida e trabalho o impedem de fazê-lo no âmbito público. Além
disso, a configuração das famílias pobres difere do modelo de organização
nuclear de classe média, pela formação de redes de solidariedade, não necessa-
riamente associadas à ideia de parentesco, o que dilui o processo de individua-
lização, mas assegura a sobrevivência do grupo doméstico.
A dominação masculina está presente no interior do mundo doméstico e,
baseada na diferença biológica entre os sexos, manifesta-se por meio das rela-
ções de gênero, aqui entendidas como relações de poder construídas historica-
mente, por meio de uma hierarquia/antagonismo de gênero, caracterizada por
uma assimetria no que se refere a posições e espaços ocupados por homens e
mulheres, tanto na esfera pública como privada.
Salem (1981) e Quintas (1986) advertem que, diferentemente das mulheres
das classes médias, as mulheres pobres não se deixam enredar pelo romanticis-
mo, filhas do abandono, exploração e desamparo. O casamento é idealizado como
via de libertação, por meio do qual cuidarão da sua casa, do seu homem e dos
seus filhos, e não da casa ou filhos de outros. O homem, portanto, torna-se fon-
te de segurança, suporte, prêmio, recompensa, esperança de melhoria de vida.
“Tudo indica que para a mulher pobre a vida começa quando se ‘casa’, embora
essa união possa vir a representar uma ‘via crucis’...” (Quintas, 1986, p. 147).
Zaluar (1985, p. 120-121) assinala que o bom marido é aquele que, com
seu trabalho, coloca comida em casa e sacia a fome da família. Quando este não

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o consegue, sente-se diminuído. Afinal, mesmo quando a mulher exerce ativi-
dades extradomésticas, seu trabalho deve consistir em “ajuda” relativa a vestu-
ário, material escolar dos filhos, pequenas despesas. Portanto, “o trabalho tem
seu valor moral vinculado ao status do trabalhador como ‘ganha-pão’ do grupo
doméstico e não à execução da atividade propriamente dita”. Daí haver uma
recorrência masculina ao uso excessivo de bebida alcoólica, principalmente
quando os filhos são pequenos e aumentam as despesas, obrigações familiares
ou quando o homem perde seu emprego.
Conforme assinala Safiotti (1999, p. 88), o homem desempregado se sen-
te impotente, porque destituído do principal papel que define sua masculinida-
de, já que não é mais provedor, o que ameaça a hierarquia doméstica. “Neste
sentido, o próprio gênero acaba por se revelar uma camisa de força: o homem
deve agredir, porque macho deve dominar a qualquer custo; e mulher deve
suportar agressões de toda ordem, porque seu ‘destino’ assim determina”.
Safiotti (1999) chama ainda a atenção para a conduta das mulheres que
comparecem à delegacia para denunciar o marido agressor. Elas esperam tão
somente que a delegada repreenda, dê uma “prensa” no companheiro e, dessa
forma, a relação conjugal adquira a harmonia desejada.
Na mesma linha de pensamento, Salem (1981) argumenta que as mulheres,
mesmo infelizes no casamento, dificilmente cogitam uma separação, ancoradas
na preservação da moralidade, ou seja, a necessidade de proteger os filhos e/ou
garantia de subsistência, pois mesmo quando o marido pouco contribui com as
despesas da família, é proprietário do barraco onde residem. Por outro lado, o
abandono do lar pelo homem as obriga a se transformar em chefes de família.
Vitale (2002), reportando-se a Barroso e Bruschini, pondera que as mu-
lheres, como chefes de família, são submetidas a uma dupla jornada de trabalho,
uma vez que continuam cumprindo suas obrigações de mães de família, isto é,
cuidam dos filhos, da casa, além de suprirem as necessidades materiais de seus
dependentes, o que gera um sentimento de culpa, quando não conseguem cum-
prir satisfatoriamente essa dupla responsabilidade.
Vale destacar que, na conjuntura neoliberal, as oportunidades de emprego
para as mulheres com baixa escolaridade se concentram em trabalhos precari-
zados, em tempo parcial, terceirizados ou em domicílio, cujos salários são

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baixos, além de serem temporários e não oferecerem cobertura social. Em outras
palavras, aquelas mulheres autoempregadas, que exercem atividades de baixa
produtividade, concentradas no setor informal, encontram-se desprotegidas,
reféns das mudanças do mercado, sem dispor de uma legislação salarial, Previ-
dência Social, benefícios sociais ou mesmo políticas compensatórias de assis-
tência social, o que sinaliza para o agravamento da “feminização da pobreza”
e, consequentemente, para a preservação da hierarquia de gênero, posição su-
balternizada das mulheres (Butto, 1998).
Por outro lado, Vitale (2002) ressalta que a monoparentalidade feminina
não é uma condição fixa, mas dotada de mobilidade, tecida na trama de encon-
tros e desencontros, expectativas não realizadas, separações, novas tentativas
de união que se sucedem.
Observa-se que nas classes populares as relações familiares vêm se trans-
formando, embora condicionadas à permanência dos modelos arquetípicos
tradicionais atribuídos a homens e mulheres. Novas estratégias de sobrevivência,
redes de solidariedade são tecidas, o que sugere uma nova identidade familiar
e individual em processo de formação. Este artigo, portanto, consiste em tenta-
tiva de resgatar o cotidiano familiar dessas mulheres, procurando identificar a
extensão das mudanças em sua vida afetiva e sexual.

Trilhas e entraves metodológicos


A pesquisa teve como sujeitos dez mulheres, na faixa etária de 20 a 52
anos, mães de crianças e adolescentes inseridos no Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil — Peti, residentes no bairro Santos Dumont, localizado na
periferia de Aracaju (SE), que participavam de um curso de culinária regional,
promovido pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania.
Na ocasião, colegas que coordenavam o curso depararam-se com a resis-
tência de alguns maridos/companheiros,1 que tentavam impedi-las de frequen-

1. Um dos maridos, envolvido com o consumo e tráfico de drogas, algumas vezes invadiu o Centro de
Referência onde o curso era realizado, chegando a ameaçar uma das coordenadoras.

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tar as aulas, delineando-se a partir daí a trama de violência que parecia pontuar
o cotidiano dessas mulheres. Contudo, o curso era ministrado apenas por mu-
lheres, o que findou por diminuir a resistência masculina, além do que as alunas
receberiam durante cinco meses uma bolsa-auxílio.
No decorrer do curso, a convivência diária entre as mulheres construía um
clima de cumplicidade, em que dores, dissabores, desejos e sonhos eram pouco
a pouco compartilhados. Fui então procurada pelas colegas, que me sugeriram
realizar um estudo, buscando apreender de que forma é constituída sua identi-
dade, como pensam e vivem.
Durante nosso primeiro encontro, fui apresentada como professora de uma
universidade, que pesquisava sobre o amor e desejava investigar suas relações
afetivas. Seus olhares perscrutadores, aliados ao silêncio que se instalou na sala,
tornavam quase palpável a distância entre nós — eu, a que sabia, a mestra, e
elas, aquelas que comigo deveriam aprender, seja lá o que fosse.
Assim, apresentei-me como uma mulher, e não professora, que gostaria
de conhecê-las e ouvir sobre sua labuta diária, suas vivências e anseios amoro-
sos. Nos minutos seguintes, respondi a indagações sobre minha vida pessoal, o
porquê do meu interesse em estudar o amor e, finalmente, consegui “me huma-
nizar” diante delas.
Optei por uma abordagem qualitativa, uma vez que me propunha a anali-
sar práticas e representações sociais construídas pelas mulheres investigadas e
priorizei como técnica as histórias de vida, que me possibilitariam apreender,
mais detalhadamente, seus discursos e vivências amorosas.
As entrevistas, realizadas durante duas semanas, foram gravadas, a fim de
permitir uma reprodução fiel de seus depoimentos, e tiveram uma duração mé-
dia de trinta a sessenta minutos. Procurei deixá-las à vontade, pouco interrom-
pendo suas divagações e respondendo-lhes sempre que me perguntavam sobre
minhas próprias experiências.
O processo analítico foi realizado mediante organização do material em-
pírico e decomposição do conteúdo das narrativas, que me indicaram os eixos
temáticos a serem discutidos, de forma a revelar as visões de mundo, experiên-
cias, permanências e mudanças que marcam a trajetória de vida das mulheres
investigadas.

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A ciranda da infância: nem amarelinha, nem boneca de pano
“Tive uma infância boa, uma infância boa é assim, tive meus pais, meus
pais sempre me deram carinho, meu pai me dava muito, até demais, tinha mui-
tos amigos, gostava de me divertir”, afirma Rejane.2 Contudo, as lembranças
prazerosas são uma exceção e soam dissonantes no universo infantil revisitado
pelas demais mulheres, no qual o amor é estrangeiro. Nas famílias numerosas,
com oito, nove, dezessete e até trinta filhos, constantemente ameaçadas pelo
desemprego, a urgência é assegurar o sustento da unidade doméstica. Assim,
fica registrado na memória: “acho que não tive infância nenhuma”.3
A ausência de infância encontra-se marcada por um curto espaço de tem-
po na escola, por falta de “orientação”, “cabeça fraca para o estudo” ou porque,
desde meninas, seu “objetivo” era ajudar nas tarefas domésticas. Conforme
descreve Lúcia: “cuidava dos irmãos mais novos, da casa, lavava roupa, às
vezes duas bacias grandes de roupa, pegava água, antigamente não tinha água
encanada, né? Apanhava muito da minha irmã para fazer as coisas”.
No processo de socialização, ajudar nos serviços domésticos, cuidar dos
irmãos mais novos é assimilado “com raiva, [...] sem querer fazer”, como obri-
gação, responsabilidade da menina que, se não a cumpre, é “relaxada” e deve
ser punida, inclusive por irmãs mais velhas. Diante da dura rotina imposta,
adultiza-se, sobrando-lhe pouco tempo para “brincar de boneca”, para ser crian-
ça. Lugar de menina é em casa, o menino, ao contrário, deve jogar bola, sair:
“Meu irmão também, [...] varria a casa, lavava prato, brincava com a gente
assim de boneca, [...] ele ajudava, inclusive é, foi uma... uma... assim uma... um
convívio tão... grande assim, nosso, próximo que... é... ele até não é, é homos-
sexual” (Rejane).
A dinâmica familiar, desde muito cedo, é estruturada em papéis e respon-
sabilidades distintas, que dão contorno à imagem de virilidade, associada a li-
berdade e autonomia, enquanto a imagem de feminilidade é vinculada à mater-

2. Os nomes das informantes são fictícios, de forma a preservar o anonimato.


3. A partir desta nota, todas as palavras ou frases aspeadas, foram extraídas dos depoimentos das infor-
mantes.

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nagem, ao dever, reprodução do grupo doméstico. Para o menino, há um
universo a ser explorado fora de casa, para a menina, o mundo se encerra no
espaço privado e, qualquer inversão de valores, produz uma feminização ou
virilização, indicativas de desordem, desvio no processo de construção de suas
identidades sociais.
Somente duas das entrevistadas conviveram com o pai, e falar sobre este
se torna doloroso para elas, uma vez que revivem a ausência de diálogo, a ru-
deza de olhares e gestos, acompanhada por xingamentos e agressões físicas,
dirigidas a si mesmas, às suas mães e irmãos, exacerbados pelo consumo de
bebidas alcoólicas. Lícia, voz embargada, lembra que: “O pai bebia, que che-
gava em casa o cavalo levava ele; o pai batia tanto na mãe, que desde pequena
defendia a mãe. Tirei a roupa dele, deixei ele nu, bati, com nove anos, até na
bunda dele, ele quebrou meu dedo, perto do pescoço [provavelmente a vértebra],
já corri muito pelos mato com minha mãe e meus irmãos”.
O chefe de família não consegue, com seu trabalho, transformar o coti-
diano de fome e extrema miséria do grupo familiar, encontrando na bebida
alívio temporário. No espaço doméstico, a legitimação de sua autoridade é
confrontada e, como se para reafirmá-la, recorre à violência. A violência de
gênero se reproduz nas relações familiares e, não raro, manifesta-se no con-
vívio entre mãe e filhos, mas, diante da fragilidade, desamparo, mãe e filha
se irmanam quando, nesses momentos, a menina-mulher se transforma, ganha
forças para proteger a mãe. Entretanto, na memória afetiva, a imagem da mãe,
difusa, dilui-se. Sentimento registrado, só a resignação de ter que trabalhar
precocemente, aos dez, onze anos, para “ajudá-la”. Conforme demonstram
seus depoimentos:

[...] passei muita fome, comecei a trabalhar, com onze anos, em casa de família,
aí tomei uma queda, com a panela de arroz, me queimei toda, [...] saí do colégio
para trabalhar. (Glória)
[...] eu estudei muito pouco, [...] não tive muita cabeça para estudar, certo? Era
que eu pensava em trabalhar para ajudar minha mãe porque a gente comia assim,
muitas vezes, era o que o povo dava. (Rosa)
[...] logo, logo, fui trabalhar nas casas dos outros, tinha dez anos de idade [...]
minha mãe recebia em alimentação o dinheiro. (Alice)

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A “ajuda” é solução guiada pelo estado famélico que as assombra, única
solução vislumbrada para minorá-lo. Na dura realidade em que vivem, não há
lugar para outras fomes. Estudar, brincar, torna-se algo secundário, pois a priori-
dade é sobreviver. Movida pelas circunstâncias, a representação de ajuda adquire
a dimensão de trabalho quando a menina passa a realizar as rotineiras obrigações
domésticas numa casa que não é a sua — mesmo que a patroa seja considerada
uma “segunda mãe” —, aonde muitas vezes vem a residir, cujos serviços podem
ser remunerados sob a forma de gêneros alimentícios, repassados à mãe.4
Além disso, vale destacar que a penúria a que se encontra exposto o grupo
familiar, torna-se ainda maior quando a mulher é “sozinha, sem um homem”
ou, abandonada pelo marido, vê-se forçada a substituí-lo no papel de provedor,
chefe de família. Conforme lembra Glória:

[...] minha mãe, no início, ela ficou assim, sem saber o que fazer, porque ela não
trabalhava, né? Logo quando ela separou do meu pai e ela, começou a varrer rua. [...]
Minha mãe trabalhava, a gente ficava trancado em casa, [...] a noite a gente tomava
um cafezinho assim, se tinha um bolachão ela dividia no meio, para a gente.

As pequenas incursões femininas no espaço extradoméstico se configuram


também como ajuda, complementação do orçamento familiar que, muitas vezes,
o marido finge ignorar. Com a separação, instala-se na mulher um sentimento
de desamparo, uma vez que já não conta com uma figura masculina, cujos
atributos naturais lhe conferem maior capacidade para assegurar o sustento
econômico-financeiro da família. Assim, tornar-se chefe de família, para a
mulher, implica não só a perda do amparo emocional e financeiro do homem,
mas também uma sobrecarga de trabalho, na medida em que mantém as usuais
responsabilidades e assume aquelas até então delegadas ao marido, restando-lhe
pouco tempo para si e para os filhos, o que, por sua vez, pode produzir um es-
garçamento dos tênues vínculos existentes entre estes, sem que as condições de
extrema pobreza sejam superadas.

4. Salem (1981) aponta como uma das estratégias de sobrevivência das famílias faveladas no Rio de
Janeiro o desmembramento da unidade doméstica, quando as meninas se mudam para a casa de parentes e/
ou de outras famílias, onde prestam serviços domésticos em troca de alimentação, moradia e vestuário, sem
receber qualquer espécie de remuneração.

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Na luta pela sobrevivência de cada dia, as “mulheres sozinhas, sem ho-
mem”, muitas vezes percebem os filhos pequenos como um fardo a mais, em-
pecilho de que se desprendem pela via do abandono. Entre as mulheres inves-
tigadas, três foram entregues a outra família. E se a narrativa da sua infância
apresenta similitude com os registros de Salem (1981), no que se refere à rea-
firmação do amor materno daquela que as criou, — “[os irmãos de criação] não
gostavam de mim, porque [...] parecia que ela gostava mais de mim” (Marga-
rida) — ou ainda na ausência de remuneração pelos serviços prestados, suas
falas descortinam outra dimensão:

[...] eu terminei assim, [...] na casa de um e na casa de outro, então [...] não fui
criada com amor, o amor de uma criança, adotada, fui criada como uma escravi-
nha, como aquele tempo da escravidão mesmo, uma criança que foi criada, era
para tomar conta de menino, era fazer tudo, pequenininha, com sete, oito anos,
eu fazia todo o serviço, varria casa, lavava prato, passava pano, eu era tão peque-
na que eu lembro que subia num banquinho para limpar os móveis, móveis altos,
e foi assim, minha infância... (Carolina)

As meninas transitam na órbita do grupo familiar que as acolheu, tal como


pequenas escravas, tempo e espaço coordenados pelo(a) senhor(a) do momento,
serviços cedidos a “irmão de criação”, “sogra do irmão”, “outra família”, em
função das demandas ou situações emergenciais. Sem laços, referências afetivas,
sem família, pai ou mãe, tramam a única estratégia libertária possível: encontrar
um homem, com quem formarão sua família e terão sua casa, transferindo o
servir e cuidar para este e seus filhos. Como escravas, se não lhes concedem a
alforria, só há uma rota a seguir: a fuga. Vale destacar, entretanto, que escravas
ou ajudantes, filhas naturais ou de criação, as mulheres constituem família ainda
adolescentes, com catorze, quinze anos, perseguindo o seu sonho de liberdade.

Em tempo presente: novas vidas, velhas histórias


A liberdade é vislumbrada na figura de vizinhos, amigos de irmãos ou de
cunhados, homens geralmente mais velhos, aparentemente capazes de lhes
oferecer “segurança”, uma “vida melhor”. No entanto, o sonho se esvanece,
tornam-se cativas de um cárcere privado e o marido/companheiro, desidealiza-

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do na vida real, transforma-se em algoz, tirano, do qual dificilmente conseguem
escapar.

Depois passamos a viver juntos, começou a me maltratar, me batia, muito, muito,


muito, depois fiquei grávida e tentei sair dele, mas eu não consegui, porque ele
me ameaçava. [...] Só fazia coisas erradas e dizia que trabalhava, [...] era como se
fosse meu pai, [...] mandava em mim, só fazia tudo que ele queria. [...] Era mau,
[...] me espancava até dentro de uma cadeia mesmo. Ainda dizia: “Se você me
deixar, se prestar queixa aí fora, você sabe que um dia eu saio, [...] se você me
deixar eu mato você e a menina”. [...] Ainda vivi com ele cinco anos, [...] se a
polícia não tivesse matado ele, ele tinha me matado. (Rejane)
Quando me casei, perto dos catorze anos, fiquei muito tempo abaixada no homem,
ao marido, [...] assim muito rebaixada no poder dele. [...] Ele era jogador profis-
sional quando eu me casei, vendia tudo dentro de casa, até me espancava, [...]
quebrava as panelas, tudo, para eu dar dinheiro para ele jogar. (Zélia)
Conheci com doze anos, [...] me perdi com ele, tive esse menino, [...] morei três
anos com ele, [...] não deu certo porque ele era muito preguiçoso, só queria estar
comendo e dormindo, aí deixei... (Alice)

A menina se transforma em mulher guiada pelo modelo hierarquizado de


submissão feminina assimilado no convívio familiar, no qual sua virgindade
simboliza honra, moral a ser preservada e, caso “perdida”, somente é redimida
através de um homem, com o qual forma uma família e a quem deve obediência
e respeito. De menina a mulher, de pai a marido, a dominação se reproduz,
resignação e medo se irmanam. Por exemplo, Alice convive com traficantes,
jogadores, drogados e bêbados, aceita a violência, as agressões físicas ou verbais,
só não suporta a fome, ou seja, o homem pode ser “mau”, “bruto”, “ignorante”,
“péssimo”, “violento demais”, desde que não seja “preguiçoso, ponha comida
em casa”. A fome, portanto, produz o desenlace. A mulher, quando não é aban-
donada, se separa e retoma a busca por emancipação por meio de outros rela-
cionamentos, novos ensaios de um mesmo script. Senão, vejamos:

Aí conheci esse rapaz que eu estou, [...] tem doze anos. Antigamente, quando ele
começava a me agredir, no começo eu corria. Depois eu comecei a bater também,
[...] aí, hoje eu não reajo mais, [...] sexta, sábado e domingo, tem cachaça no ar, é
dia de eu dormir no meio da rua porque todo mundo onde eu moro tem medo dele.

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[...] Fui na Delegacia das Mulheres, [...] não sabia o que era dar parte, [...] aí ele
foi, [...] assinou um termo, [...] nunca mais eu fui, [...] toda vez que ele bebia, [...]
me ameaçava. [...] Realmente, se eu der parte não vai ter como eles ficarem 24
horas comigo. Para onde eu vou? Para onde eu vou? Para onde eu vou? (Rosa)
Depois conheci outro homem, tive um filho, esse não ficou comigo, aí conheci o
velho, já tem treze anos, [...] o velho diz que eu tenho outro. [...] Tem dois anos,
[...] ele disse que eu estava com Aids, tuberculose na vagina, aí eu disse a ele:
você em mim não encosta mais. Ele não aceita e diz que vai me matar, [...] se mata
depois [...], dei parte. [...] O velho não quer sair de casa, [...] eu tinha o terreno e
ele construiu. [...] Meus irmãos do lado dele, machistas, mulher safada tem é que
matar mesmo. (Lícia)

A mulher, para mitigar a fome ou assumir seu “erro”, criação de um filho,


para ela concebido prematuramente, ampara-se na sua rede de relações e conta
com o apoio de familiares, amigos e vizinhos, mas essa solidariedade não se
manifesta nos conflitos e desavenças domésticas, pois implica invasão do espa-
ço privado, da intimidade do casal. Ademais, no imaginário coletivo, permanecem
cristalizadas representações sociais que, ancoradas na desigualdade dogmática
entre os sexos, culpabilizam a mulher pelas agressões sofridas, ao considerar que
ela as incita. Vítima das circunstâncias, digo, da violência de gênero, aos poucos
a mulher vai perdendo a autoestima e, dessa forma, responsabiliza-se por todo
tipo de agressão sofrida — “eu tenho culpa [...] porque não ligo para mim, me
desprezei” —, acomoda-se à relação e não cogita uma separação.
Cabe ressaltar que a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher
— Deam, mesmo respaldada na Lei Maria da Penha, ainda não consegue atuar
como locus de proteção e segurança. Contribui muitas vezes para intensificar a
violência quando, após a denúncia, a mulher retorna à unidade doméstica e à
convivência com o marido agressor, uma vez que em Aracaju não há atendi-
mento sociojurídico especializado, nem tampouco programas ou projetos sociais
que atendam vítimas e agressores. Além disso, a única casa-abrigo existente
consiste em refúgio temporário, cujas ações ainda não contemplam soluções
alternativas da realidade, isto é, não oferecem condições objetivas de inserção
social e estratégias de sobrevivência para essa mulher e os filhos, que a fome
não deixa esperar. Assim, “desgostosa”, “triste”, “rejeitada”, com “depressão”,
“problema de coração, de nervos”, a mulher cala a “revolta, sofrimento”, atri-

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buindo aos filhos a decisão de manter o casamento. Conforme relatam em seus
depoimentos:

Eu não me separo porque eu não tenho condições, [...] com ele, pelo menos eu
tenho condições de dar o que meus filhos gostam, [...] sem ele eu sei que [...] a
renda vai ser muito pouca. (Rosa)
Valdo é “jogolô”, não presta para nada. [...] O negócio dele é dinheiro, quando
vem dinheiro do Peti ele fica na cola, aí fica bonzinho, fica obediente [risos]! [...]
Não separo por causa dos filhos, porque mesmo que ele não goste dos filhos, mas
os filhos gostam dele, os filhos dizem: “Mãe, a senhora pode ficar nova ou ficar
velha, mas outro homem aqui não entra”. (Zélia)
Eu peço a separação, e ele não autoriza ir para casa, se eu for para a casa de minha
mãe, vai lá e me pega à força. (Maria)

As mulheres investigadas, quando exercem um trabalho formal, são per-


suadidas pelos maridos a abandoná-lo, o que não é difícil, pois são papéis for-
temente internalizados: as mulheres cuidam e ajudam, enquanto os homens
sustentam a casa e a família. Contudo, elas permanecem desenvolvendo ativi-
dades extralar, comercializam produtos de beleza, cosméticos, confeccionam
artesanato, fazem faxina ou lavam “roupa de ganho” para complementar o or-
çamento doméstico e sempre dão um “jeito”, ou seja, elaboram estratégias para
enfrentar o cotidiano de privações e incertezas.
Não raro, os homens passam períodos desempregados, não têm emprego
fixo ou ainda se recusam a cumprir sua “responsabilidade” como provedores,
o que leva suas mulheres e amigas a considerá-los gigolôs, porque são alimen-
tados por elas. Por outro lado, vale registrar que algumas informantes são
proprietárias do terreno onde o marido construiu a casa ou moram em cômodos
dispostos nos fundos da residência da família, o que lhes dá mais segurança.
Apesar de ponderarem que é “melhor só mesmo, [...] porque só qualquer
pessoa ajuda, com homem ninguém ajuda não”, as mulheres mantêm o casa-
mento, pois homem é homem e mulher é mulher. Se esta “pede” a separação,
aquele não a “autoriza”, sejam maridos ou filhos. Resignadas, pressagiam que
“ruim com ele, pior sem ele” porque mulher sozinha “todo mundo quer mano-
brar”, ou seja, o espectro da solidão traz consigo o desrespeito, a desvalorização,

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que se agudiza entre as mulheres sem vínculos familiares, conforme evidencia
o depoimento abaixo:

Não tinha família, não tinha pai, não tinha mãe, não tinha ninguém, só tinha Deus,
é aí que aconteceu, eu fiquei, arrumava outro, sabe, que ajudava, e era isso, se ia
melhorar minha vida, e arranjava filho de um, quando tinha filho [...] ia embora e
eu arranjava outro, assim, achava que eu não podia viver sozinha, que era despro-
tegida. (Carolina)

De fato, refém da incerteza, das difíceis condições materiais e existenciais,


a mulher elabora uma autoimagem de desamparo, desproteção e fragilidade, daí
não poder prescindir da tutela masculina. Sente-se incapaz de conduzir a própria
vida e embora considere que “homem só quer saber de engravidar a mulher”,
continua trafegando entre uniões sucessivas, perseguindo “a sorte de ter um dono
de casa”. Vale ressaltar, entretanto, que casadas ou sozinhas, a linguagem do sexo
e do amor é conjugada em consonância com a possibilidade do abandono que
permanentemente as espreita. Segundo revelam as informantes:

Logo no início estava bem, mas agora ele sai, [...] passa três dias sem vir em casa,
deixar de dar as coisas, isso ele não deixou não. [...] Quando ele volta, eu tento
não querer nada com ele por causa que ele [...] não gosta de usar camisinha, para
não botar doença em mim. Aí quando eu digo isso a ele, ele faz: “Deixe de ser
tola, besta, caralho, na sua cabeça só tem cocô”. [...] Ele, apesar das diferenças
que nós temos, das brigas, nunca houve tapa, agressão, [...] ele é muito carinhoso
comigo. (Glória)
Saí de um emprego por esse homem, [...] ele é bom amigo, mas ele tem que ser
bom comigo, como se fosse, [...] nas feiras. Que ninguém vive só de amor, [...]
de amizade, carinho, [...] ele quis dizer que eu não era nada, que a mulher não
sabe nem que eu existo, [...] eu disse a ele: “Não me incomodo que você fique
com sua mulher não, contanto que você não me deixe passar fome, que se você
não quiser me dar mais nada, [...] deixe o meu caminho livre que eu vou arrumar
outro”, [...] eu fiquei muito magoada com ele, fiquei até sem tesão para ter sexo
com ele mais. (Alice)
[...] já chegou momentos que eu não quis e ele ficava com raiva, sabe, dizia que
eu tinha outro. Não me forçou não, mas eu ia dormir, quando acordei, ele já esta-
va fazendo comigo mesmo. Aí, não gostei dessa atitude dele, conversei com ele,

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só que ele disse: “Vai ser sempre assim, quando você não quiser, eu vou quando
você dormir”. (Maria)
A relação é meio fria, sabe, [...] ele relatou que gosta muito de mim, mas ele sabe
que eu não gosto dele, [...] até para dormir também, [...] é muito difícil mesmo,
[...] a gente não anda brigando, mas [...] ele não é um homem de chegar e conver-
sar comigo, não conta os problemas dele, [...] não sei onde ele trabalha, [...] rece-
be dinheiro eu não sei quanto. [....] Assim, eu acho que a mulher com o homem
é um só, dentro de casa. [...] A gente faz parte do grupo da Igreja, [...] eu vejo
assim a relação dos casais: quando saem eles pegam na mão, ele chama ela de
filha, ela chama também, aquele carinho um pelo outro, conversam, uma coisa
que eu sinto, eu preciso também, eu não tenho. [...] Eu sinto muita falta disso, de
um diálogo. (Aurora)

Para as mulheres investigadas, o duo amoroso é regido por uma moral


sexual que, baseada nos moldes patriarcalistas, traduz-se em construções ima-
géticas distintas do que é ser homem e ser mulher. Desde o processo de socia-
lização, sua sexualidade é normatizada a partir da vocação natural dos gêneros,
em que cabe ao homem dominar e à mulher se submeter ao poder masculino.
Assim, ao usar da sedução, sua própria conjugação de poder, a mulher finda
por legitimar sua dependência, submissão ao homem, quando para ela o dese-
jo é negado e o sexo adquire uma funcionalidade, ou seja, satisfazer o desejo
masculino. Para ela, não há outra escolha possível: se o homem é sujeito ativo
do desejo, a mulher é objeto passivo.
Por conseguinte, na vida sexual e afetiva das informantes, não há lugar
para arrebatamentos eróticos e sentimentalidade. A intimidade se inscreve sob
outros códigos, o sexo perde o caráter relacional e se transforma em ato mecâ-
nico e rotinizado a que se entregam para evitar conflitos, esquivarem-se da fome
e do abandono.
Embora a ausência de emoção gere desprazer, mágoa, e a recusa do parcei-
ro em usar preservativo cause temor, as mulheres não conseguem se furtar de
suas obrigações. Seus corpos socializados não pressentem a submissão consen-
tida. Tornam-se receptáculos em que seus homens aliviam as tensões sexuais,
mesmo contra sua vontade. Na intimidade, portanto, mulher e homem não são
um só, pois mantêm relações impessoais, em que se desconhecem, não há diá-
logo, comunicação. Por isso, a relação é “fria”, “muito difícil”. Para suportá-la,

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elas calam a revolta, o desamor e, refugiadas no silêncio e na submissão, buscam
construir um modelo aproximativo entre a relação vivida e aquela desejada.
E se a inércia e a passividade parecem indicar a certeza do destino selado,
que recusa mudanças em suas vidas afetivas, as mulheres buscam preencher
vazios e, revolta incontida, encontram alento temporário algumas vezes na
bebida, outras tantas na religião e quase sempre nas novelas televisivas. De
volta ao mundo real, o desalento as domina e, conforme relatam:

Tem horas que eu saio, vou mundo a fora, vou botar na pista, vou num canto assim
e sento, fico lá, dou para chorar, desabafo, depois eu volto. (Zélia)
[...] tem dias que amanheço com tanto desgosto que me dá aquela crise de choro,
sabe? Chorar, chorar, chorar, [...] tem horas que dá vontade de morrer. (Alice)

Horas, dias meses ou anos, a vida dessas mulheres parece se arrastar,


imutável, a mesma dor indizível, entranhada às fomes do corpo e da alma que
as visitam, sem espaço de expressão. Contudo, a aridez da realidade concreta
as sufoca, as lágrimas deságuam palavras não ditas, desejos mutilados, que
morrem mansamente e, de novo, o desarmônico se faz ordem, guardam seus
queixumes, retornam ao cativeiro e relativizam o sofrimento, (re)construindo
um significado para suas vidas por meio dos filhos.

Na verdade mesmo, a felicidade que tenho no momento é só minha mãe e meus


filhos. (Maria)
[...] tem coisas que eu preciso, de uma mãe, [...] sempre eu fui rejeitada, [...]
minha mãe nunca gostou de mim, [...] tentei conseguir que ela ficasse comigo,
tentei resgatar, pelo menos visse que eu precisava muito dela. [...] Por isso, eu não
consigo deixar meus filhos, [...] o que eu sofri eu não quero que os meus filhos
passem. [...] Quando eu estou doente, eu choro muito porque eu tenho medo de
deixar meus filhos sozinhos. [...] Por mais que eu passe, eu prefiro passar com
eles juntos... (Rosa)
Eu dei muito amor aos filhos, o amor que eu não tive eu passei para eles. [...] Por
sinal, esses filhos que eu tenho me dão muito amor, esse rapaz mesmo, que é
evangélico, eu tenho carta lembrando da infância dele, no dia das mães mesmo,
ele faz cada carta linda, que aí eu choro me lembrando. [...] Ele se lembra quando
[...] a gente muitas vezes não tinha o que comer, mas, brigava, fazia tudo questão
de dormir numa cama [...] comigo. [...] Coisas que eu nem me lembro e ele lem-
bra, daqueles momentos bons, [...] do carinho que eu tinha com eles. (Carolina)

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Os relatos reafirmam o essencialismo que cinge a maternidade. Para elas,
ser mãe é vocação natural, e o amor materno sentimento imanente, do qual pro-
vém seu devotamento aos filhos. A construção imagética da boa mãe obscurece
a mulher, cuja preocupação consigo mesma se configura como abandono da
família.
Se suas mães, repisando o viés da maternidade, tornam-se apoio concreto
na dura realidade cotidiana, como filhas partilham com elas gêneros alimentícios,
o parco rendimento obtido por meio de atividades extradomésticas e bolsas-
-auxílio dos programas governamentais. Como mães, assumem a criação de
netos, constroem cômodos nos fundos da casa para que filhos e filhas residam
com suas novas famílias, tal qual suas mães o fizeram. As filhas, mesmo depois
de casadas, conservam a responsabilidade de ampará-las na fome ou velhice que
está por vir. Já os filhos, quando menores, porque “trabalho é honra”, se as aju-
dam a complementar o orçamento doméstico, quando casados são eximidos
dessa obrigação, devem cumprir o papel de provedores de uma nova casa e fa-
mília, cabendo à mãe, mais uma vez, ajudá-los, pois “sabe como é mãe, né”?
Por sua vez, o amor que as mulheres não recebem dos maridos é transfe-
rido para os filhos, e aquelas que foram abandonadas e criadas por outra famí-
lia redobram seu amor e zelo, pois desejam salvaguardá-los da rejeição que
ainda as atormenta. Nas uniões que se sucedem, entre o parceiro e os filhos, os
últimos são os escolhidos, porque é amor garantido para toda vida. A filha, à
medida que se aproxima da puberdade, gera outra preocupação, o estupro, o
abuso sexual, o que provoca alterações no cenário doméstico, ou seja, o homem
assegura o seu sustento, visita-a frequentemente, mas não reside no mesmo
espaço que ela e seus filhos. Deserdados da sorte, mãe e filhos protegem uns
aos outros, os laços que os unem são fortalecidos pela fome, pela violência e
pelas carências.
Diante das necessidades imediatas, as diferenças de gênero que conduzem
as relações intrafamiliares passam despercebidas, mas ganham nitidez em suas
narrativas: a mulher/mãe/filha que se manifesta com gestos, palavras e através
do “medo de morrer e deixar os filhos sozinhos” e os homens/maridos/filhos,
cuja mensagem é o silêncio/indiferença ou grito/agressividade e, o amor, silen-
ciados pela voz que não consegue exprimi-los, mas enunciados, por poucos, por

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 121-145, jan./mar. 2010 137
meio de cartas5 lidas sem sua presença, o que parece não comprometer o mo-
delo arquetípico de racionalidade imposto, uma vez que a expressão dos senti-
mentos se resguarda no distanciamento construído pela ausência.
Em um bairro onde morrem de “dez a onze” por mês, seus filhos são vicia-
dos em drogas, já foram presos por tentativa de homicídio, envolvimento com o
tráfico ou estão marcados para morrer, “a felicidade é ter os filhos vivos”. Dessa
forma, quando culpam os filhos pela agudização do sofrimento, logo pedem
perdão a Deus. Estes são ungidos de inocência, o amor materno se renova, e, elas
não medem esforços: lutam porque “espero deles, de mim não espero mais nada”.
O curso de culinária regional, porém, parece gestar um novo desassossego.

Mudanças (in)curso
Inicialmente, as informantes foram atraídas pela possibilidade de quebra-
rem a monotonia e a mesmice das responsabilidades e tarefas diárias, mas
também exercitarem seus dotes culinários, aprenderem algo novo que pudessem
incorporar nas atividades domésticas e extralar já realizadas, bem como pela
bolsa-auxílio oferecida que, sem dúvida, durante os cinco meses do curso,
contribuiria para complementar o orçamento doméstico. No entanto, as aulas
ministradas trouxeram-lhes algumas revelações. Conforme destacam:

Eu vim porque queria aprender, [...] e também é uma ajuda para mim, em tudo,
pagar água, luz, [...] comigo mexeu, e é interessante, [...] é sobre quem eu sou,
em primeiro lugar, você tem que descobrir quem de fato você é mesmo, que eu
não descobri ainda, mas tenho que descobrir, [...] pensar. [...] Tenho que pensar
em mim primeiro, depois nos filhos e por último no marido. Tô conseguindo, tô
pensando mais em mim, me ajeitando mais, tentando ser mais liberal, sair, não
deixar que homem fique mandando em mim... (Alice)
Comecei a me conhecer mais, [...] tô tendo mais respeito pelo outro, e tô assim
conseguindo impor mais respeito no lugar, [...] eu nunca fui assim de [pausa]
parar para pensar, [...] uma mulher completamente diferente de antes. (Maria)

5. Um dos maridos costuma expressar por carta o quanto gosta da esposa, responde a suas queixas e
reivindica cuidados e atenções. Propositadamente, deixa as cartas à vista quando sai para o trabalho. Ao re-
tornar, indaga à esposa se as leu. Da mesma forma, redige cartas, bilhetes para declarar o amor pela mãe.

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[...] Ser mais econômica, aproveitar a comida, [...] essas coisas que eu nem imagi-
nava de saber, [...] quem sou eu [risos], na verdade eu não sabia mesmo, porque [...]
eu só fazia o que ele queria, [...] tá abrindo, tá, tá, [pausa] porque ter esse curso, eu
tenho certeza, se fosse antigamente, nada disso tinha acontecido. (Rejane)
Esse curso está [...] sendo muito bom para mim, porque estou dando valor a mim,
porque vivia de qualquer jeito, [...] é um curso que a gente aprende a trabalhar co-
zinha, aprende a lidar com nossa saúde e alimentação da gente [...] dentro de casa.
Aí faço uma comida, ele fica olhando assim, eu digo, e aí? “É, tá bom.” Quer dizer,
né?, já tô mostrando que estou modificando. [...] Bom, eu estou tendo assim [...]
uma certa facilidade de me expressar mais, [...] a gente mesmo às vezes é ignoran-
te, [...] mas vai conseguindo mudar [...], a ter mais noção de nós mesmo. (Aurora)

De fato, as informantes, cuja luta pela sobrevivência diária as afastou da


escola ainda muito cedo — “já velha, [29 anos] foi que vim sonhar meus estu-
dos” — com o curso descortinam a possibilidade de concretizar esse sonho,
algumas proibidas e outras incentivadas pelos maridos — “vai ser melhor para
você, porque você não se valoriza”. Nas aulas práticas, descobrem que ainda
são capazes de aprender noções de higiene, nutrição e economia doméstica,
como preparar, conservar e reaproveitar as sobras dos alimentos.
Com a blusa padronizada do curso, que chamam de “farda”, vestem-se
pela primeira vez de autoconfiança, talentos recém-descobertos, surpreendem
a mãe — “quem te viu quem te vê” — e encantam os filhos pequenos com os
bolos que fazem. O marido, curioso, finalmente parece enxergá-las e, embora
monossilábico, também expressa sua aprovação. Quem sabe assim, consigam
adoçar o relacionamento, abrandar-lhe o gênio irascível e romper a muralha de
silêncio e indiferença que os separa.
A bolsa-auxílio, recebida mensalmente, é utilizada para pagamento de
água, luz, compra de botijão de gás, lanches para as crianças, coisas nem sem-
pre possíveis de adquirir. As dificuldades materiais têm diminuído também, por
meio da comercialização dos alimentos que aprendem a preparar, constituindo-
-se em mais uma estratégia alternativa para autossustentação do grupo familiar,
uma vez que as rendas complementares obtidas pelos programas governamen-
tais, como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil — Peti, são tempo-
rárias, ao contrário de suas necessidades, sempre imediatas.
Os encontros diários são um tempo-espaço único, aguardado ansiosamen-
te, em que as mulheres se sentem livres para falar, brincar, desabafar, conversar

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 121-145, jan./mar. 2010 139
— “era bom que fosse direto a vida toda”. O curso, principalmente, gesta mu-
danças subjetivas, quando as instiga a refletir sobre suas vidas. O pensar torna-
-se uma aprendizagem para a descoberta de si mesmas, uma outra ainda desco-
nhecida, mas de quem já gostam e cuidam porque, desperta a autoestima,
respeitam-se, passam a considerar os outros e, com isso, sentem que adquirem
respeitabilidade. Assim, esboçam uma reação contrária à abnegação e submis-
são consentidas, pois, até então eram alienadas.
O curso faz revivescer a esperança de as mulheres conseguirem “arrumar
um trabalho certo, de carteira assinada de trabalho”, “prosperar”, “melhorar de
vida”, ajudar seus filhos a “estudarem e serem alguém”. E mesmo para aquela
cuja narrativa devassa o desalento e reafirma as velhas construções imagéticas,
como prenúncio de mudanças a esperança se insinua:

Espero que algum dia eu esteja aqui na sua presença lhe dizendo algumas coisas
que eu falei ao contrário, por exemplo, que eu sou feliz, tenho um dono de casa,
toma conta de mim e de meus filhos, [...] estou falando pra senhora aqui que eu
não tenho esperança de ser feliz, mas também eu volto atrás, esperança é a última
que morre. Espero estar aqui um dia [bate na madeira] ou de qualquer outro lugar
que eu encontrar a senhora e lhe falar, hoje estou feliz. (Margarida)

As aulas, entretanto, não duram a vida toda. Lentamente, a vida retomará


seu curso, a fome e o abandono permanentemente as espreitam; a opressão e a
violência dos maridos, agora ainda mais doída, porque não mais as aceitam com
fatalismo, naturalidade. Se antes, sina inarredável da mulher, revolta calada pela
autocomiseração, conformismo, agora, metamorfose inconclusa, percebem que
a vida pode ser diferente. Acalentam sonhos, vislumbram uma esperança que,
fugidia, torna-se difícil de alcançar, pois o parceiro, este permanece o mesmo.
Então, se a vida real mais uma vez as cobre de desalento, “se aqui mulher,
noutra geração eu queria era ser homem...”.

Considerações finais: algumas inquietações


A emoção, por tanto tempo represada, conduz as narrativas das mulheres
investigadas. Revela-se nos ombros curvos, nas lágrimas furtivas, no rosário

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de mágoas e lamentos que desfiam, longos silêncios a que se entregam, na
revolta que ocultam, com a qual não conseguem lidar diante do medo da soli-
dão que as aprisiona ou ainda, na tentativa de rirem da própria dor e revestirem
seus companheiros de qualidades, culpabilizando-se pelas agressões e violên-
cia sofridas.
Sua trajetória de vida é permeada pela extrema pobreza, abandono, rejei-
ção e violência de gênero a que se encontram submetidas. A felicidade, busca
incessante, define-se por momentos fugazes — “tá aqui na sua frente agora,
conversando com a senhora, tá me fazendo bem, que eu estou desabafando”.
Reconfigura-se, portanto, em alívio, consolo e atenção que nunca encontram.
De fato, suas memórias falam de um tempo-espaço iniciático da aprendi-
zagem de ser mulher: a família, com quem aprendem a esquecer de si mesmas
e a cultivar a submissão e a infância perdida nas incontáveis tarefas domésticas
e cuidados com as crianças menores do grupo familiar. Tempo-espaço de pri-
vações, desafeto, sob o jugo de pais e irmãos mais velhos, elaboram a única
estratégia libertária sabida, o casamento, por meio do qual se tornam mães e
donas de casa, cuidadoras do que é seu, e não de outrem. A formação do casal
é determinada por um viés utilitário-pragmático — o desejo de “melhorar de
vida” —, desprovida, portanto, de romanticidade.
O amor é sonho acalentado por intermédio das novelas que, na dura rea-
lidade cotidiana, adquire corporeidade na figura do homem provedor, que sacia
sua fome e a de seus filhos, ou seja, o amor se inscreve sob os signos da depen-
dência financeira, submissão e circunstancialidade. A infidelidade, a indiferença
e a violência do parceiro é sina que suportam porque, sem um homem, tornam-se
mulher sem dono, ninguém as respeita.
O sexo transforma-se em ardil para preservar o parceiro, cedem ao desejo
masculino mesmo contra sua vontade, com receio de contrair doenças sexual-
mente transmissíveis ou mesmo sentindo “nojo” do marido porque este é infiel.
A relação sexual se reveste, portanto, de dever, obrigação. A repulsa e dificul-
dade de obter satisfação sexual, assunto sigiloso, somente é revelado após a
entrevista, com o gravador desligado.
As mulheres se ressentem da falta de carinho, diálogo e maus-tratos sofri-
dos, mas dificilmente cogitam uma separação. Mesmo quando exercem ativi-

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dade extralar e são provedoras da unidade doméstica, atribuem aos filhos, às
dificuldades materiais e a outras contingências a preservação do casamento.
Seus relatos, contraditórios, evidenciam a tentativa de se resguardarem da so-
lidão, do desamparo, pois, baseadas nos referenciais tradicionais, o homem
ainda representa segurança, proteção. Assim, mesmo entre aquelas que transitam
por uniões sucessivas, permanece a busca por um “dono de casa”, por intermé-
dio do qual são valorizadas e adquirem respeito.
Suas narrativas delineiam as mudanças no tecido social, que têm gestado
ressignificações nos sistemas simbólicos operantes em nossa sociedade, ainda
que suas reverberações se deem bem mais lentamente que nas camadas médias.
De fato, a inserção das mulheres no mundo do trabalho, a formação de redes de
ajuda mútua, mesmo que impulsionadas pelas precárias condições de vida,
produzem novas formas de sociabilidade, estratégias de autossustentação do
grupo familiar.
Deste modo, o papel masculino de provedor principal da unidade domés-
tica, ao ser confrontado com a realidade cotidiana em tempos neoliberais, tem
produzido tensões nas relações intrafamiliares, sugerindo descontinuidades em
curso. Da mesma forma, as intersecções midiáticas, particularmente por meio
da teledramaturgia, levam as mulheres a agregarem novos valores a suas relações
erótico-amorosas, tais como fidelidade, diálogo, companheirismo e satisfação
sexual, embora os modelos emergentes sejam encenados ocultamente, no cam-
po do imaginário e, os padrões tradicionais permaneçam fortemente arraigados,
conduzindo as relações entre os sexos.
Por isso, no jogo afetivo, a separação ainda é prerrogativa masculina,
materializada no abandono do lar pelo marido, ameaça indelével na dinâmica
familiar. Em outras palavras, o futuro é algo difuso, impreciso, “sua vida é o
que é”. Se as trilhas até então perseguidas têm confluência na negação dos de-
sejos, e para si já não guardam esperança, reconstroem-na por meio dos filhos,
sob a crença de que possam lhes assegurar uma vida mais “sossegada”, sem
tantas privações. Dessa forma, projetam sonhos e expectativas nos filhos, sua
única fonte de felicidade, sem a qual a vida perde sentido. Se elas são “nada”,
estes podem ser “alguém”.
Contudo, o curso revoluciona o cenário cotidiano, as mulheres se deslocam
do espaço doméstico onde se encontram encerradas e, numa sala de aula, ex-

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ploram seus dotes culinários, descobrem talentos insuspeitados de que se valem
para complementar a renda familiar. Entre conversas, desabafos e brincadeiras,
renasce a esperança e, autoestima fortalecida, elas vislumbram uma perspectiva
de transformação. Aventuram-se no aprendizado do autoconhecimento e na
descoberta do amor por si mesmas, recusam-se a reprisar o conformismo e a
submissão, pressentem que é preciso mudar, “tomar uma atitude para que me-
lhore”, ainda que não saibam como fazê-lo.
Na cerimônia de encerramento do curso, quando foi oferecido um jantar
feito por elas, pude identificar a esperança nos olhares e sorrisos ansiosos. Com
suas melhores roupas, momentaneamente felizes, acreditavam que, talvez da-
quele dia em diante, sua vida poderia ser diferente, quem sabe um emprego,
mais respeito por parte do marido; uma que finalmente conseguira se separar,
após treze anos de sofrimento, outra que teve de se desfazer de sua única com-
panheira, a televisão, para ajudar um filho ameaçado de morte.
Em meio à festa, enquanto ensimesmada buscava encontrar um sentido
para minha presença ali, fui abordada por uma desconhecida que, demonstran-
do desapontamento, tentou persuadir-me a também entrevistá-la. Lembrei-me
então de Aurora, que, ao concluir seu depoimento, afirmou: “Senti que tirei um
peso de dentro [...], é bom falar, saber que sou ouvida”. Naquele instante, pude,
de fato, compreender o quanto é importante fazer ecoar as vozes de tantas mu-
lheres invisíveis. Eu e outras(os) pesquisadoras(es) podemos fazer a diferença,
ao rompermos a malha de silêncio que envolve suas vidas e denunciarmos a
violência e a opressão a que se encontram submetidas.
Ao mesmo tempo, pude confirmar a relevância de se criar espaços de
discussão coletiva sobre as construções de gênero que estruturam as relações
sociais entre homens e mulheres, instigando-os a refletir sobre si mesmos, papéis
sociais e sexuais a que se encontram condicionados no exercício da sexualida-
de, da maternidade/paternidade, a ausência de diálogo e a violência que compõem
a dinâmica familiar. Ou seja, o planejamento e a operacionalização de ações
devem enfocar homens e mulheres, de forma a também produzir transformações
pessoais no universo masculino, sem o que o relacionamento entre os pares
continuará condicionado aos modelos tradicionais, trazendo mais sofrimento
que libertação às mulheres, permanecendo os danos físicos, emocionais e sociais
que pontuam sua trajetória de vida.

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Torna-se imprescindível a articulação entre as políticas setoriais, a formu-
lação e a implementação de serviços sociais voltados para orientação, apoio e
proteção de mulheres vitimizadas pelas diversas expressões da violência. Cabe
também alertar para a necessidade de formação especializada dos profissionais
que integram núcleos e redes de serviços, de forma a possibilitar o desenvolvi-
mento de práticas sociais de cunho emancipatório. Portanto, é preciso refletir
sobre o alcance dos cursos de geração de renda como mecanismos potenciali-
zadores de inclusão social. Somente assim essas e outras mulheres poderão
conquistar o direito de ser felizes.

Artigo recebido em jul./2009 ■ Aprovado em dez./2009

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 121-145, jan./mar. 2010 145
Fiscalização do exercício profissional
e projeto ético-político
Supervision of professional activities and ethical-political project

Josiane Soares Santos*


Maria da Conceição Vasconcelos Gonçalves**
Débora Rodrigues Santos***
Elma Santos de Jesus****
Fábio dos Santos*****
Gleide Celma Souza Dórea******
Raquel de Oliveira Mendes*******

Resumo: Este artigo sistematiza parte dos resultados preliminares


de um projeto de pesquisa em andamento sobre a temática da fiscali-
zação das profissões pelos conselhos, enfocando especificamente o
Conjunto CFESS/Cress com campo empírico situado no Cress 18ª
Região/SE. Além da análise dos dados, que contribui para entender o

* Assistente social, professora-adjunta e atual coordenadora do curso de graduação Serviço Social da


Universidade Federal de Sergipe — Aracaju/SE — Brasil. Doutora em Serviço Social pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro — UFRJ e vice-presidente regional da ABEPSS na gestão 2009/2010. E-mail:
josisoares@hotmail.com.
** Doutora em Serviço Social, professora-adjunta do Departamento de Serviço Social da Universidade
Federal de Sergipe — Aracaju/SE — Brasil.
*** Assistente social, professora substituta do Departamento de Serviço Social da Universidade Fede-
ral de Sergipe — Aracaju/SE — Brasil.
**** Estudante de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe — Aracaju/SE — Brasil. Bolsis-
ta do Programa de Educação Tutorial (PET)/Serviço Social.
***** Estudante de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe — Aracaju/SE — Brasil. Bol-
sista de pesquisa CNPq/PIBIC/UFS.
****** Estudante de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe — Aracaju/SE — Brasil.
Bolsista voluntária de pesquisa.
******* Geógrafa e estudante de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe — Aracaju/SE
— Brasil. Bolsista voluntária de pesquisa.

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perfil do exercício profissional a partir dos aspectos que constam nos “relatórios de visita” da fiscali-
zação, traz um debate acerca da concepção de fiscalização do conjunto CFESS/Cress e sua relação com
o projeto ético-político profissional.
Palavras-chave: Política Nacional de Fiscalização. Projeto ético-político. Serviço Social.

Abstract: In this article, part of the preliminary results of a developing research project on the issue
of supervision of professional activities by councils is systematized. It focuses on the group CFESS/
Cress with empirical field located in the 18th Cress/SE region. Besides the analysis of the data, which
helps to understand the profile of the professional work from the aspects that are in the “visit reports”
from the supervision people, it discusses the conception of supervision in the group CFESS/Cress and
its relation with the ethical-political project.
Keywords: National Supervision Policy. Ethical-political project. Social Services.

Introdução

A
s reflexões aqui sistematizadas fazem parte dos resultados prelimi-
nares de uma pesquisa em andamento1 que tem como objetivo
analisar o exercício profissional do assistente social a partir dos
dados obtidos pela Comissão de Fiscalização do Cress 18ª Região
(estado de Sergipe). A referida pesquisa está vinculada ao do grupo de pesquisa2
do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe (DSS/
UFS), por meio da linha “trabalho, Serviço Social e formação profissional”.
O Serviço Social, por ser regulamentado como uma profissão liberal, traz
a necessidade de regulação do seu exercício profissional por meio dos conselhos.
Atualmente, além do Conselho Federal de Serviço Social, existem, no Brasil,
25 conselhos regionais e dois seccionais. Ao Conselho Federal compete criar
normas para regular e fiscalizar o exercício profissional e aos conselhos regio-
nais cabe a operacionalização dessa fiscalização em cada região. O conjunto
CFESS/Cress,3 tem como atribuição precípua a fiscalização do exercício pro-

1. A pesquisa mencionada intitula-se “O perfil profissional do assistente social sob a ótica da sua fisca-
lização pelo Cress 18ª Região/SE, no período 2002-2008” e é desenvolvida no interior do Programa de Ini-
ciação Científica (Pibic) da Universidade Federal de Sergipe, com financiamento de bolsa pelo CNPq.
2. Trata-se do grupo de pesquisa “Serviço Social, Políticas Públicas e Movimentos Sociais”, cadastrado
na base do CNPq.
3. Assim é denominada a unidade existente entre as ações do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS)
e dos Conselhos Regionais de Serviço Social (Cress).

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fissional do assistente social e trabalha de forma democrática e articulada.
Desta forma, vale ressaltar que esta atividade (a fiscalização) passou por um
processo de ampliação e renovação da sua concepção, pois deixou de ter um
caráter meramente disciplinador, adquirindo uma dimensão político-pedagógi-
ca que evidencia o compromisso da categoria com a qualidade dos serviços
prestados enquanto direitos sociais historicamente conquistados e evidencia
compromissos coletivos e públicos com as demandas sociais, sobretudo no que
se refere à preocupação com a qualidade dos serviços prestados. A concepção
diferenciada de fiscalização adotada no Serviço Social reflete na intervenção
profissional no campo das políticas públicas e do controle social também com
uma análise diferenciada, pois percebe esses espaços como locus privilegiado
para a disputa de projetos societários e a democratização do acesso aos direitos
pelas demandas provenientes do trabalho. Essa preocupação torna-se salutar
quando considerada a conjuntura de reestruturação do mundo do trabalho a
partir de parâmetros neoliberais. Em face de tais questões a Política Nacional
de Fiscalização (PNF) é considerada aqui como mais uma das expressões do
projeto ético-político do Serviço Social, a exemplo das Diretrizes Curriculares
Nacionais para a formação do assistente social.
A metodologia adotada para a realização dessa pesquisa, de cunho explo-
ratório, parte de uma abordagem qualitativa, já tendo sido iniciadas as pesquisas
bibliográfica e documental. Em relação à primeira, realizamos um levantamen-
to da produção teórica acerca da fiscalização do exercício profissional. Identi-
ficamos que somente no Serviço Social esse tema tem sido objeto de reflexões
mais sistemáticas. Portanto, no caso específico da fiscalização, o levantamento
baseou-se nas produções do Conselho Federal de Serviço Social. Dentro desse
mesmo processo, foi realizado o estudo de outras bibliografias sobre a história
da profissão no contexto das transformações societárias, bem como sobre as
mudanças ocorridas no mundo do trabalho e da produção capitalista. A pesqui-
sa documental, autorizada pela diretoria do Conselho Regional de Serviço
Social 18ª Região, constituiu-se da análise dos relatórios de visita de fiscaliza-
ção, realizados pela agente fiscal da Comissão de Fiscalização da entidade.
Foram analisados, até o momento, dados de treze relatórios que documentam a
totalidade das visitas realizadas no ano de 2008, predominantemente na área da
saúde. A seguir serão tratados alguns dos aspectos sistematizados pela pesqui-

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sa em questão, relativos à contextualização teórica do tema e também à análise
de parcela dos dados que constam nos relatórios da fiscalização, focalizando a
questão das condições de trabalho, da capacitação profissional e da organização/
participação política dos assistentes sociais.

1. O processo de renovação do Serviço Social brasileiro: o protagonismo do


conjunto CFESS/Cress na constituição do projeto ético-político
O Serviço Social é uma profissão inserida na divisão social e técnica do
trabalho como sendo especializada. Atua no enfrentamento das expressões da
“questão social”, oriundas da relação capital/trabalho, que refletem o conjun-
to das desigualdades sociais engendradas pelo processo de produção e explo-
ração capitalista. Na extensa bibliografia sobre a gênese e o desenvolvimento
do Serviço Social no Brasil é sabido que o marco de histórico para a efetiva-
ção da ruptura entre protoformas e profissão se deu no contexto do capitalis-
mo dos monopólios.4 Em meio a esse processo, o crescimento das mobilizações
e consolidação das organizações dos trabalhadores, exigia uma resposta do
poder estatal.

[...] a profissionalização do Serviço Social não se relaciona decisivamente à “evo-


lução da ajuda”, à “racionalização da filantropia”, nem à “organização da caridade”;
vincula-se à dinâmica da ordem monopólica [...]. Na emergência profissional do
Serviço Social, não é este que se constitui para criar um dado espaço na rede sócio-
ocupacional, mas é a existência deste espaço que leva à constituição profissional.
[...] não é a continuidade evolutiva das protoformas ao Serviço Social que esclare-
ce a sua profissionalização, e sim a ruptura com elas. (Netto, 2007, p. 69-70)

É no bojo da prestação desses serviços sociais que o Serviço Social emer-


ge, tendo, desde a ditadura varguista, o Estado como o seu principal empregador.
Alvo de profunda legitimação por parte das classes dominantes e suas forças
políticas presentes no âmbito do Estado, não por acaso esta profissão teve tão
precocemente sua primeira regulamentação — através da Lei n. 3.252, de 27

4. Ver a esse respeito especialmente Iamamoto e Carvalho (2007) e Netto (2001).

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de agosto de 1957 —, tendo sido caracterizada, juridicamente, como uma pro-
fissão liberal. Este processo impulsionou a criação dos conselhos Federal e
regionais da profissão, como representações legais e legítimas perante o Estado,
diante da necessidade de normatização e fiscalização do exercício profissional.
Nesse mesmo período e entrando na década de 1960, segundo Netto (2007), o
mercado de trabalho do assistente social se expande e se consolida, em decor-
rência das novas manifestações da “questão social”, engendradas pelo processo
de “industrialização pesada” ocorrido no governo JK e durante a ditadura mi-
litar. É nesse último período, por sua vez, que se constitui o processo de reno-
vação do Serviço Social brasileiro. Sobre esse período histórico para a profissão,
Netto afirma que

no âmbito das suas natureza e funcionalidade constitutivas, alteram-se muitas


demandas práticas a ele colocadas e a sua inserção nas estruturas organizacional-
-institucionais (donde, pois, a alteração das condições do seu exercício profissional);
a reprodução da categoria profissional — a formação dos seus quadros técnicos
— viu-se profundamente redimensionada (bem como os padrões da sua organi-
zação como categoria); e seus referenciais teórico-culturais e ideológicos sofreram
giros sensíveis (assim como as suas autorrepresentações). (2007, p. 115)

Do final da década de 1960 até o início da de 1970, o exercício profissio-


nal permanece — nos termos do próprio autor — vinculado às práticas do
Serviço Social tradicional, regido pelo empirismo e pela burocratização e
orientado pela ética liberal-burguesa, inspirada em uma concepção positivista-
-funcionalista. O processo de “modernização conservadora” do ciclo ditatorial
interfere tanto no exercício quanto na formação profissional do assistente social.
O grande salto nacional da industrialização, dado durante o regime militar,
intensificou o processo de produção e reprodução da “questão social”, provo-
cando suas novas formas de se manifestar na realidade. O Estado brasileiro,
como centralizava cada vez mais o seu poder interventivo, teve que intensificar
as formas de enfrentamento às novas expressões da “questão social” por meio
do investimento também em políticas sociais.
A reforma do Estado, já em fins da década de 1960, redirecionou ainda
mais o sentido das políticas setoriais em favor do grande capital. O Estado

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brasileiro mudava a sua estrutura e seu funcionamento organizacional, alteran-
do, por sua vez, a relação dos assistentes sociais com as respectivas instituições
empregadoras, com os recursos disponibilizados para execução das políticas
sociais, bem como sua relação com outros profissionais no espaço de trabalho
e com os próprios usuários dos serviços. Essas novas demandas profissionais
passaram a exigir do assistente social novas competências e capacitações, tan-
to no exercício quanto na sua formação profissional. Conforme afirma Netto
(2007, p. 123):

A racionalidade burocrático-administrativa com que a “modernização conserva-


dora” rebateu nos espaços institucionais do exercício profissional passou a requi-
sitar do assistente social uma postura ela mesma, “moderna”, no sentido da
compatibilização no seu desempenho com as normas, fluxos, rotinas e finalidades
dimanantes daquela racionalidade.

Desta forma, as modernas requisições no campo do trabalho causaram uma


“erosão” na base humanista do Serviço Social tradicional, provocando uma
mudança em seu perfil, que passou a ser permeado por uma nova “racionalida-
de” nos procedimentos utilizados.
É nesse contexto geral de “renovação” (Netto, 2007) que se dá a inserção
do Serviço Social nas instituições de ensino superior, pois até então a formação
dos assistentes sociais se dava em escolas confessionais ou agências de forma-
ção específica. Em 1976, o curso de Serviço Social já era ofertado em todo país,
entre universidades ou faculdades, públicas e privadas. A inserção do Serviço
Social nas universidades foi decisiva para consolidar o seu processo de renova-
ção. A relação direta com o centro da produção do conhecimento, incluindo a
abertura dos programas de pós-graduação na área, impactou a formação do
assistente social com

[...] a instauração do pluralismo teórico, ideológico e político no marco profissio-


nal [...]; a crescente diferenciação das concepções profissionais (natureza, funções,
objeto, objetivos e práticas do Serviço Social), derivada do recurso a matrizes
teórico-metodológicas alternativas [...]; a sintonia da polêmica teórico-metodoló-
gica profissional com as discussões em curso no conjunto das ciências sociais,
inserindo o Serviço Social [...] como protagonista que tenta cortar com a subal-

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ternidade (intelectual); a constituição de segmentos de vanguarda [...] voltada para
investigação e a pesquisa. (Netto, 2007, p. 135-136)

Nos marcos históricos do Serviço Social tradicional, os conselhos Federal


e regionais de Serviço Social, não distantes da mesma perspectiva conservado-
ra, apenas exerciam o seu papel de controle, em nome do Estado, sobre os
profissionais. Eram conselhos corporativistas, com função meramente burocrá-
tica e disciplinadora do exercício profissional (CFESS, 1996). Até então, a le-
gislação profissional era resguardada por princípios neotomistas e positivistas,
haja vista os Códigos de Ética de 1947, 1965 e de 1975 (Barroco, 2001).
Foi a partir da inserção do Serviço Social no contexto universitário e do
avanço nos debates promovidos pelas entidades da categoria em meio às lutas
pelas liberdades civis e políticas, favorecidas pela crise do “milagre econômico”
— reflexo da crise mundial capitalista iniciada nos anos 1970 — que emergiu,
no seio profissional, a direção de “intenção de ruptura” com o tradicionalismo.5
Sob a égide de um novo embasamento teórico-metodológico, de inspiração
marxista, do estímulo à pesquisa científica — incluindo projetos de extensão e
estágio supervisionado orientados pelos novos referenciais — é que se torna
possível vislumbrar o redimensionamento do significado social da profissão e a
construção de um novo projeto profissional em oposição ao que estava posto.
Esse processo, de renovação e de ruptura com o conservadorismo, provo-
cou um redirecionamento também das entidades representativas da categoria.
Em 1979, o Serviço Social, já sob influência desse processo, vivencia um mar-
co histórico para a profissão, o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais
(CBAS), mais conhecido como o “Congresso da Virada”. O evento ficou assim
conhecido “pelo seu caráter contestador e de expressão do desejo de transfor-
mação da práxis político-profissional do Serviço Social na sociedade brasileira.”
(CFESS, 1996, p. 175). Nesse momento, as forças políticas progressistas do
país, entre elas movimentos sociais e sindicais, partidos políticos, clamavam
pela redemocratização. Assim,

5. Não cabe aqui aprofundar esse debate, mas segundo Netto (2007), no processo de renovação consti-
tuem-se mais duas vertentes dentro da profissão: a reatualização do conservadorismo e a perspectiva moder-
nizadora.

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sintonizada com as lutas pela democratização da sociedade, parcela da categoria
profissional, vinculada ao movimento sindical e às forças mais progressistas, se
organiza e disputa as direções dos Conselhos Federal e Regionais, com a perspec-
tiva de adensar e fortalecer esse novo projeto profissional. (CFESS, 2008, p. 163)

Desta forma, os profissionais comprometidos com as lutas democráticas


do conjunto da classe trabalhadora passam a disputar o espaço dos conselhos
profissionais de Serviço Social, imprimindo-lhes uma nova direção política,
articulada com os movimentos sociais e de outras categorias. A partir de 1983,
o CFAS6 impulsiona amplos debates no interior da categoria, vislumbrando a
reformulação do Código de Ética vigente, datado de 1975. Esse processo vai
corroborar na negação do princípio da neutralidade e coadunar na elaboração
do Código de Ética do Assistente Social de 1986, superando a perspectiva
a-histórica e acrítica do Serviço Social e admitindo um profissional com
competência teórica, técnica e política.
A década de 1990, marcada no Brasil pelo processo de reestruturação pro-
dutiva do capital, instaura o neoliberalismo como orientação da regulação estatal.
Em decorrência disso, inicia-se a “reforma” do Estado, exata e contraditoriamen-
te, no marco da redemocratização e das conquistas sociais asseguradas na Cons-
tituição brasileira de 1988. Diante das mudanças ocorridas no mundo do trabalho
e no campo dos direitos sociais, o conjunto CFESS/Cress desencadeia debates
para impulsionar a reformulação da legislação profissional, como forma de ga-
rantir o comprometimento de uma profissão voltada para os princípios da equi-
dade social e da defesa intransigente dos direitos. Desta maneira, é a partir da
década de 1990 que o projeto ético-político do Serviço Social7 começa a tomar
forma, tendo como marco o novo Código de Ética Profissional (1993) e a nova
Lei de Regulamentação da profissão (1993), mas sem esquecer que possui suas
bases ineliminavelmente ligadas à “intenção de ruptura” anteriormente mencio-
nada, sendo, em relação a ela, uma espécie de “desenvolvimento”.

6. O CFAS (Conselho Federal de Assistentes Sociais) passou a chamar-se CFESS (Conselho Federal
de Serviço Social) em 1993, com a aprovação da lei de regulamentação atualmente em vigor.
7. Sobre o projeto ético-político profissional já possuímos uma bibliografia relativamente extensa.
Referência fundamental, entretanto, para definir os termos deste debate, deve ser feita a Netto (1999).

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O Código de Ética do assistente social de 1993 representa um grande
avanço em relação aos códigos anteriores, visto que rompe com a base filosó-
fica tradicional e define a liberdade, a justiça social e a democracia como valo-
res fundamentais na luta por um novo projeto societário.

A democracia é assumida como valor ético central na medida em que constitui o


único padrão de organização político-social capaz de assegurar a explicitação
daqueles valores. A democracia é concebida aqui como socialização da política,
mas também da riqueza socialmente produzida. (CFESS, 1996, p. 174)

A lei de regulamentação da profissão (Lei n. 8.662/93) também é consi-


derada um grande avanço para o Serviço Social. Ela regulamenta o exercício
profissional do assistente social e estabelece as competências e as atribuições
privativas do mesmo, previstas, respectivamente, nos seus artigos 4º e 5º. De
acordo com Terra (2007), as competências dizem respeito às atividades que
podem ser exercidas tanto pelo assistente social, quanto por outros profissionais;
já as atribuições privativas são as atividades profissionais exclusivas dos assis-
tentes sociais.
O processo de afirmação dessa profissão com uma formação crítica e
comprometida com os valores democráticos e universais de justiça e equidade
social foi potencializado pela criação e aprovação das Diretrizes Curriculares
para o curso de Serviço Social em 1996. Vale ressaltar que no caso desta última,
o processo foi impulsionado pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa
em Serviço Social (Abepss), em articulação com as instituições de ensino, o
conjunto CFESS/Cress e a Executiva Nacional de Estudantes de Serviço Social
(Enesso).
No processo de construção do projeto ético-político do Serviço Social
ganham relevância as entidades representativas dos assistentes sociais, espe-
cialmente o conjunto CFESS/Cress, o qual, em sintonia com o avanço teórico-
-político vivenciado pelo Serviço Social, também passou por um processo de
renovação, por meio da superação de suas características iniciais pautadas no
corporativismo e no burocratismo. Assim, houve uma ampliação das atribuições
assumidas pelo conjunto CFESS/Cress, pois, a partir da fiscalização do exercí-
cio profissional, constituída como sua função precípua, passou a investir na

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qualificação teórico-política dos profissionais, na defesa das políticas públicas
e na preocupação com a qualidade dos serviços prestados aos usuários. As
propostas e ações das referidas entidades passaram a ser pautadas pelo aprimo-
ramento dos instrumentos normativos necessários à regulamentação e à fiscali-
zação do exercício profissional; pelo investimento na participação nos fóruns de
discussão, formulação e controle social das políticas públicas, além da articula-
ção com os movimentos sociais que lutam pela superação das desigualdades
sociais e a efetivação de direitos, conforme trataremos a seguir.

2. Política Nacional de Fiscalização (PNF) como estratégia de enfrentamento


aos desafios contemporâneos e defesa da profissão
Em consonância com o processo de renovação vivenciado pelo Serviço
Social, suas entidades representativas desencadeiam uma reestruturação de suas
ações objetivando sintonizá-las com o novo direcionamento presente em suas
gestões:

É na década de 1980 que o conjunto CFESS/Cress inicia o processo de organiza-


ção do serviço público de fiscalização do exercício profissional com adoção e
aprimoramento de um sistema de inscrição e cadastro; instituição das Comissões
de Orientação e Fiscalização; estruturação da fiscalização dos espaços ocupacio-
nais; mapeamento de espaços de trabalho; profissionalização pela contratação de
agentes fiscais, e unificação de procedimentos. (Silveira, 2007, p. 11)

O conjunto dessas modificações incidiu, inclusive, na estrutura das enti-


dades, que passou a funcionar de modo colegiado, por meio de comissões,8 “que
[aglutinam] frentes de luta a partir das temáticas atinentes às políticas sociais,
bem como aquelas vinculadas à dinâmica da fiscalização do exercício profis-
sional” (CFESS, 1996, p. 179). Vale destacar ainda o caráter democrático do
conjunto CFESS/Cress, visto que as deliberações são frutos de debates empre-

8. O Cress/18ª Região possui as seguintes comissões: Comissão de Ética, de Comunicação, Políticas


Públicas, Formação Profissional e Orientação e Fiscalização.

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endidos pela categoria em encontros e assembleias, a exemplo do valor da
anuidade (estabelecido em assembleia, em suas respectivas jurisdições) assim
como o processo de eleição direta para as diretorias regionais e federal.9
No bojo desse processo, a fiscalização do exercício profissional do assis-
tente social também passou por um processo de ampliação. Essa ampliação está
consolidada na Política Nacional de Fiscalização (PNF) que foi elaborada em
1999, fruto de um processo histórico de organização do conjunto CFESS/Cress,
afirmando, assim, a centralidade que a fiscalização tem nas ações do conjunto.
A partir de então passa a ser orientada pelas seguintes dimensões:

I — Dimensão afirmativa de princípios e compromissos conquistados — expres-


sa a concretização de estratégias para o fortalecimento do projeto ético-político
profissional e da organização política da categoria em defesa dos direitos, das
políticas públicas e da democracia e, consequentemente, a luta por condições
condignas e qualidade dos serviços profissionais prestados;
II — Dimensão político-pedagógica — compreende a adoção de procedimentos
técnico-políticos de orientação e politização dos assistentes sociais, usuários,
instituições e sociedade em geral, acerca dos princípios e compromissos ético-
políticos do Serviço Social, na perspectiva da prevenção contra a violação da le-
gislação profissional;
III — Dimensão normativa e disciplinadora — abrange ações que possibilitem,
a partir da aproximação das particularidades socioinstitucionais, instituir bases
e parâmetros normativo-jurídicos reguladores do exercício profissional, coibin-
do, apurando e aplicando penalidades previstas no Código de Ética Profissional,
em situações que indiquem violação da legislação profissional. (CFESS, 2007,
p. 49-51)

Desta forma, a PNF traz, por meio da dimensão político-pedagógica, a


afirmação do compromisso da categoria com o constante aprimoramento inte-
lectual dos profissionais, na perspectiva de orientação quanto aos princípios
éticos e políticos da profissão, tendo assim um caráter preventivo e indo além
da dimensão normativo-reguladora. Destaca-se também a dimensão afirmativa

9. Cabe enfatizar que a eleição direta da diretoria do Conselho Federal não ocorre em nenhum outro
conselho profissional (Terra, 2007).

156 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 146-176, jan./mar. 2010
de princípios que expressam o compromisso com as lutas mais gerais dos tra-
balhadores, com a qualidade dos serviços prestados à população usuária e,
portanto, com a defesa e o fortalecimento do projeto ético-político profissional
do Serviço Social.
Desta maneira, a partir das referidas dimensões, percebe-se que a concep-
ção de fiscalização assumida na PNF supera a perspectiva corporativa da orga-
nização política quando investe na defesa das políticas públicas e na preocupa-
ção com a qualidade dos serviços prestados à população, o que, por sua vez,
impacta as condições e relações de trabalho em que se inserem os assistentes
sociais. Esta relação pode ser ilustrada, de acordo com o CFESS (1996, p.178-
179), conforme abaixo:

[...] nós, militantes dos conselhos de fiscalização, compreendemos que a partici-


pação nos fóruns de discussão, formulação e controle social das políticas públicas
constitui hoje uma estratégia fundamental. Trata-se de uma perspectiva de inves-
timento e reforço nos espaços propositivos e reivindicatórios delineados na pauta
de defesa da cidadania. [...] São necessidades profissionais, assim, que dizem
respeito ao acesso às condições de trabalho condignas e à garantia de qualidade
dos serviços prestados à população. É sabido ainda que a ação profissional do
assistente social possui seu locus prioritário, posto pela divisão sociotécnica do
trabalho, no planejamento e na execução de políticas sociais [...].

Ainda como parte dessa preocupação a PNF contempla a qualificação


teórico-política dos profissionais e o seu processo de participação e organização
política como pré-requisitos fundamentais ao alcance do objetivo supracitado.
Esses pressupostos fazem da fiscalização, no interior do conjunto CFESS/Cress,
um instrumento essencial na ampliação de suas funções que, na atualidade,
adquirem uma explícita tonalidade ídeopolítica sem descartar as dimensões
normativas próprias a essas entidades.
A operacionalização da fiscalização do exercício profissional do assisten-
te social é competência dos Cress’s em suas respectivas regiões. Em cada um
deles existe uma Comissão de Orientação e Fiscalização (Cofi) que deverá de
acordo com a Resolução CFESS n. 512, de 2007, art. 6º, ser composta por no
mínimo três membros:

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I. Um conselheiro, a quem caberá a coordenação;
II. Agentes fiscais concursados;
III. Assistentes sociais inscritos no Cress, em pleno gozo de seus direitos, a con-
vite da direção do CRESS.

O agente fiscal é o membro da Cofi que, preferencialmente,10 realiza as


visitas de fiscalização às instituições, tendo como instrumento o relatório de
fiscalização. Este passou por uma reformulação recente junto com alguns outros
aspectos da PNF. Tais reformulações ocorreram em 2007, fruto de debates
empreendidos com toda a categoria profissional, tendo em vista “o aprimora-
mento dos procedimentos e a sedimentação dos avanços obtidos” (CFESS, 2007,
p. 49). Desse modo, a resolução CFESS n. 512/2007, ao mencionar as compe-
tências da Cofi, estabelece que os relatórios de visita de fiscalização devem ser
objeto de discussão e avaliação por parte de seus membros. Entende-se que será
a partir das informações obtidas nos relatórios que surgirão as demandas, não
somente para a Cofi,11 mas, também, para outras comissões existentes no âmbi-
to da entidade.
É importante destacar que a ampliação da concepção de fiscalização con-
cretizada na PNF, assim como a reformulação dos instrumentos que a opera-
cionalizam, é fruto da necessidade da defesa da profissão frente ao contexto
atual, pautado no neoliberalismo, que, de acordo com Silveira (2007), vem
interferindo diretamente na formação e no exercício profissional do assistente
social, trazendo como tendência a desregulamentação da profissão e a redefini-
ção do perfil da categoria.
O neoliberalismo consolida-se, no Brasil, a partir da década de 1990 com
a abertura da economia brasileira ao mercado internacional, demarcando um
contexto em que o Estado cada vez mais se desresponsabiliza pela “questão
social”, em que o mercado surge como regulador da vida social, onde as con-

10. De acordo com a Resolução CFESS n. 512/2007, todos os membros da Cofi podem realizar visitas
de fiscalização.
11. Terra enfatiza que as comissões de fiscalização têm que estar sempre assessoradas juridicamente,
no sentido de ser orientadas sobre os procedimentos cabíveis e sobre as ações sequenciais em cada situação
apresentada (Terra, 2007, p. 29).

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dições e relações de trabalho estão cada vez mais precarizadas e os trabalhado-
res estão perdendo direitos historicamente conquistados. Tal quadro tem como
característica uma forte investida na intensificação da exploração do trabalho,
principalmente por meio do surgimento de ocupações precarizadas. Deste modo,
os profissionais de Serviço Social também vêm sendo consideravelmente im-
pactados por esses fenômenos, que devem ser tomados com centralidade na
análise das dificuldades que se avolumam no âmbito do trabalho profissional,
dada a sua condição de assalariamento. Com isso, nota-se a importância de
aprofundar os princípios preconizados no projeto ético-político profissional e,
nesse sentido, urge articular possibilidades de enfrentamento dessa conjuntura.
É justamente sob essa perspectiva que emerge, no interior da profissão, a Polí-
tica Nacional de Fiscalização. No que se refere a esse debate, é necessário
elencar a importância dos instrumentos normativos para regular e fiscalizar o
exercício profissional nesse momento em que é colocada em xeque a hegemo-
nia conquistada profissionalmente dentro de uma perspectiva crítica e de trans-
formação social.12
As profundas transformações econômicas, políticas e sociais em curso
modificam de forma substancial a “questão social”. Historicamente considera-
da “matéria” do Serviço Social, apesar de ter sua gênese nas relações sociais
capitalistas, apresenta-se na cena contemporânea “com novas roupagens, novas
expressões em decorrência dos processos históricos que a redimensionam na
atualidade, aprofundando suas contradições” (Iamamoto, 2002, p. 8). As polí-
ticas sociais, como resposta articulada do capitalismo monopolista a tais ex-
pressões, têm sido tratadas a partir de uma lógica seletiva e fragmentária, longe
dos padrões de universalidade, negando profundamente os compromissos as-
sumidos pela profissão em seu projeto ético-político. Isso interfere diretamente
na dinâmica do trabalho do assistente social, pois reformula demandas, redi-
mensiona os espaços sócio-ocupacionais e impõe novas competências a esse
profissional, o que torna ainda mais difícil estabelecer, no âmbito da fiscalização,
o que seja “área”, “matéria” e “unidade” de Serviço Social, conforme designa
a lei de regulamentação em vigor.

12. Sobre esse debate, ver Braz, 2007.

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Uma pesquisa realizada pelo CFESS 7ª Região com assistentes sociais que
trabalham em empresas (apud Iamamoto, 2002) demonstrou que, na maioria
delas, o Serviço Social não ocupa lugar específico na estrutura organizacional,
pois os profissionais passam a atuar em projetos mais amplos, de caráter inter-
disciplinar, executando funções que muitas vezes não são por eles reconhecidas
como atribuições privativas. Assim, “é comum os profissionais se identificarem
com os cargos nomeados pelas organizações [...], confundindo cargo ou função
com profissão” (Iamamoto, 2002, p. 40).
O grande desafio para o Serviço Social é, diante de um contexto tão re-
gressivo, conseguir concretizar seu projeto ético-político comprometido com a
garantia dos direitos sociais dos trabalhadores, com a defesa de políticas sociais
universais, com a luta por condições de trabalho adequadas para o exercício
profissional e, consequentemente, com a qualidade dos serviços prestados à
população usuária.
Silveira (2007) enfatiza, na mesma direção, que o momento é também de
resistência das entidades representativas da profissão, especialmente do conjun-
to CFESS/Cress, sustentadas nos avanços teóricos e ético-políticos construídos
coletivamente. Desta maneira,

a fiscalização do exercício profissional, como função precípua do conjunto CFESS/


Cress, deve ser implementada cotidianamente em sintonia com o projeto profis-
sional construído democraticamente pela categoria profissional e requer o envol-
vimento nas lutas sociais para fortalecer a organização política da classe traba-
lhadora e contribuir para o enfrentamento das ofensivas conservadoras que
cotidianamente impõe desafios à nossa intervenção profissional, política e à con-
solidação do projeto ético-político profissional. (CFESS, 2008, p. 167-168)

Conclui-se, então, que a atual conjuntura, marcada pela ascensão do pro-


jeto neoliberal, demonstra a necessidade de potencialização da Política Nacional
de Fiscalização, visto que esta se constitui como um instrumento de consolidação
do projeto ético-político profissional na defesa do Serviço Social.
Situada a PNF em sua gênese e desafios contemporâneos, seguimos ana-
lisando os dados do perfil profissional dos assistentes sociais em Sergipe. Tra-
zemos, neste momento, reflexões em torno de suas condições/relações de tra-

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balho, capacitação e participação/organização política, tomando por referência
os pressupostos e eixos da PNF.

3. Alguns dados da fiscalização do trabalho do assistente social em Sergipe


Dos profissionais fiscalizados no ano de 2008, 69,2% trabalham na área
da saúde, 15,4% estão inseridos na área da assistência social, e 7,7% estão
atuando em empresas. Outros 7,7% estão estão inseridos em instituições que
prestam serviços relacionados a mais de uma área de política social. Esse dado
apresenta relações entre as áreas de educação e saúde e entre as áreas de edu-
cação, empresa, saúde, provenientes do conjunto de instituições do chamado
“Sistema S”, que também foi visitado pela fiscalização no ano referido.
O fato de a maioria dos profissionais estar inserida na área de saúde reve-
la um dado frequente nas pesquisas já realizadas sobre o mercado de trabalho
dos assistentes sociais. Porém, neste caso, o índice elevado decorre, possivel-
mente, do fato de que, no ano de 2008, a Cofi priorizou esta área na atividade
de fiscalização. Esse é um procedimento comum entre os conselhos regionais
em face do grande número de instituições e profissionais a serem visitados pela
fiscalização, e do pouco número de agentes fiscais e membros das Cofi’s envol-
vidos nessa atividade. É importante aqui ratificar que no Cress/SE existe apenas
uma agente fiscal, sendo a Cofi composta, além desta, por um assistente social
da base e duas conselheiras da diretoria. Segundo dados dos relatórios de visi-
ta da fiscalização de 2008, a maioria dos assistentes sociais (46,2%) está inse-
rida em instituições de natureza pública municipal.
No que concerne à posição do Serviço Social no organograma das insti-
tuições, 61,5% dos profissionais confirmaram a existência de um setor especí-
fico de Serviço Social. Esse dado revela, pois, um reconhecimento das compe-
tências do trabalho profissional ao longo dos anos e confirma uma tendência
em Aracaju/SE, se comparado à pesquisa sobre o mercado de trabalho profis-
sional no município, realizada entre 2005 e 2006 (Aranha, 2005), que aponta,
em média, que 67,5% das instituições (públicas, privadas e do terceiro setor)
possuem um setor específico de Serviço Social. Essa tendência contraria, no

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entanto, outras pesquisas, que sinalizam como característica do mercado de
trabalho impactado pela reestruturação produtiva a “diluição” de setores espe-
cíficos vinculados às profissões, substituindo-os por uma estruturação organi-
zacional vinculada aos cargos ou funções. É o caso, por exemplo, da pesquisa
sobre mercado de trabalho nas empresas realizada no Rio de Janeiro (apud
Iamamoto, 2002) anteriormente mencionada.
Os relatórios questionam se os profissionais possuem ou não cursos de
pós-graduação. Dos profissionais visitados no ano de 2008, 76,9% possuem
pós-graduação, a maioria correspondendo à especialização. Os dados da pes-
quisa de Santos (2006) e Jesus (2006) sobre o exercício profissional em Sergi-
pe revelam que 60% possuem curso de pós-graduação. Os dados nacionais in-
dicam uma porcentagem, no Nordeste, de 38,3%, e no país, de 36,2%, para
aqueles que possuem especialização (CFESS, 2005). Nesse aspecto, constata-se
que os profissionais de Sergipe visitados pela fiscalização em 2008, em sua
maioria da área de saúde, têm investido mais em estudos posteriores à gradua-
ção, numa comparação com os dados das pesquisas locais e nacional mencio-
nadas. Entretanto, verifica-se que há uma sobreposição da pós-graduação latu
sensu em detrimento da stricto sensu. A insuficiência de profissionais mestres
e doutores, na medida em que contribui para o aumento do número de profes-
sores apenas graduados nas instituições de ensino superior de Serviço Social,
tende a comprometer a qualidade da formação profissional. Isso se reflete no
exercício profissional, podendo contribuir, juntamente com outros fatores, para
a reprodução de uma série de entraves à garantia da implementação do projeto
ético-político na academia, na intervenção profissional, nas entidades organi-
zativas da categoria, entre outros espaços. A esse respeito, é pertinente mencio-
nar que o curso de Serviço Social, transferido para a Universidade Federal de
Sergipe desde 1968, ainda não conseguiu implantar uma pós-graduação stricto
sensu. Este pode ser um dos fatores que dificulta o acesso a esse nível da pós-
-graduação, posto que a condição feminina da maior parte dos profissionais
(Jesus, 2006; Santos, 2005; Cfess, 2005) dificulta que saiam do estado para
cursar esse tipo de pós.
Ainda quanto à pós-graduação as justificativas daqueles que não possuem
essa titulação residem basicamente de falta de oportunidade (50,0%), ou de

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considerarem que não era necessário por terem terminado a graduação há pou-
co tempo (50%). Tem-se, em consonância com este panorama, a necessidade
de ampliação da oferta de cursos de nível superior nas duas modalidades, latu
e stricto sensu, assim como desenvolver um trabalho político-pedagógico de
sensibilização dos profissionais no que se refere à necessidade da formação
continuada.
Em relação ao número de assistentes sociais existentes nas instituições
visitadas pela fiscalização em 2008, a maioria (53,8%) registra que existe ape-
nas um profissional atuando; 30,8% possuem dois assistentes sociais, e 15,4%
possuem três assistentes sociais no quadro de funcionários. Esses dados confir-
mam, em comparação com a pesquisa sobre o mercado de trabalho dos assis-
tentes sociais em Aracaju/SE, a tendência de cada instituição manter em seu
quadro de pessoal apenas um profissional da área de Serviço Social. Ademais,
revela ainda uma contradição: existem setores específicos de Serviço Social
funcionando, em sua maioria, com apenas um assistente social o que pode ser
expressão da reforma do Estado, sob orientação neoliberal, nas instituições de
natureza pública municipal, principalmente pela ausência de concursos públicos.
Essa última inferência é reforçada pelos dados presentes em Jesus (2006) na
medida em que constatam a precarização dos vínculos dos assistentes sociais
do setor público municipal em Aracaju, registrada com o percentual de 60%
desses profissionais tendo ingressado nas instituições por meio de indicação ou
convite, e apenas 11,4% por meio de concurso público. A carga horária semanal
de trabalho dos assistentes sociais visitados é, na sua maioria (46,2%) de qua-
renta horas; 38,5% trabalham trinta horas e 15,4% trabalham mais de quarenta
horas. Esses resultados coincidem com os obtidos na pesquisa nacional do
CFESS sobre o perfil profissional (2005) que demonstrou que mais da metade
(50,7%) dos assistentes sociais têm uma carga horária de trabalho de quarenta
horas semanais.
No que diz respeito à referência salarial (Gráfico 1), apenas um profissio-
nal deixou de responder a esse questionamento. Entre os demais, a grande
maioria (49,9%) admite receber entre R$ 1.250,00 e R$ 1.500,00; 25% recebem
entre R$ 3.000,00 e R$ 3.500,00; 16,7% têm uma remuneração que varia entre
R$ 1.800,00 e R$ 2.500,00; 8,4% recebem um salário inferior a R$ 1.000,00.

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Gráfico 1
Referência Salarial

8,4%
25%
até R$ 1.000,00

entre R$ 1.250,00 e R$ 1.500,00

entre R$ 1.800,00 e R$ 2.500,00

entre R$ 3.000,00 e R$ 3.500,00

49,9%
16,7%

Se fizermos uma análise articulada desses dados com os apresentados


anteriormente, perceberemos que a remuneração desses assistentes sociais não
condiz com a referência salarial prevista na tabela de honorários do CFESS,
disposta na Resolução n. 467/2005. Levando em conta que a maioria dos pro-
fissionais trabalha quarenta horas semanais, os mesmos deveriam receber, no
mínimo, o equivalente a R$ 2.600,00. Esse cálculo tem por base o valor da hora
de trabalho para graduados em Serviço Social, que equivale a R$ 65,00. Con-
siderando que o perfil dos profissionais visitados é, na maioria, de especialistas
(76,9%), o cálculo eleva o patamar salarial para R$ 2.920,00, pois é calculado
com base no valor de R$ 73,00 por hora de trabalho. Evidencia-se, portanto,
um quadro de precarização das condições e relações de trabalho expresso pelo
baixo nível dos salários percebidos quando pensados sob a ótica da demanda
de trabalho relacionada à quantidade de profissionais que tende a indicar uma
sobrecarga de atividades na dinâmica dessas instituições. Vale chamar a atenção
dessa situação como parte integrante de um processo mais amplo em que estão
inseridos os trabalhadores assalariados no contexto contemporâneo da crise
capitalista recente.
No que se refere às principais ações dos assistentes sociais, o relatório de
visita da fiscalização nomeia algumas das competências previstas no artigo 4º

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da Lei de Regulamentação da profissão. Os resultados demonstram que a ação
mais presente entre as atividades profissionais é o atendimento direto à popu-
lação usuária, feito por 85,7% dos profissionais (Tabela 1). Assim, esses resul-
tados reafirmam o assistente social enquanto profissional que trabalha direta-
mente com a população usuária, ou, nos termos de Netto (2001), como
“executor terminal de políticas sociais”. A essa tendência devem se somar ain-
da 14,3% dos profissionais visitados pela fiscalização que trabalham com a
administração de benefícios. Esses dados são compatíveis com a pesquisa rea-
lizada no setor público de Aracaju, que evidencia um percentual de 84,3% dos
profissionais que se inserem nesse perfil, realizando atividades como “orienta-
ção quanto aos direitos e benefícios sociais” (Jesus, 2006, p. 22). Entretanto,
como afirma Iamamoto (2002, p. 37),

embora este ainda seja o perfil predominante, não é mais exclusivo, sendo abertas
outras possibilidades. O processo de descentralização das políticas sociais públi-
cas — com ênfase na sua municipalização — requer dos assistentes sociais, como
de outros profissionais, novas funções e competências. Estão sendo requisitados
e devem dispor de competências para atuar na esfera da formulação e avaliação
de políticas, assim como do planejamento e gestão.

Tabela 1 — Principais ações

Realiza Não realiza Total da


Ações Frequência Frequência
(%) (%) frequência

Atendimento direto à população 85,7 11 14,3 2 13


usuária

Assessoria e apoio a movimentos 42,9 6 57,1 7 13


sociais e populares

Planejamento e coordenação de 21,4 3 78,6 10 13


políticas e programas sociais

Assessoria e consultoria em 14,3 2 85,7 11 13


políticas sociais

Administração de benefícios 14,3 2 85,7 11 13

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Além do atendimento direto e da administração de benefícios, os dados da
fiscalização atestam que 42,9% dos profissionais realizam assessoria e apoio a
movimentos sociais e populares. Vale destacar que, em relação à pesquisa de
Jesus (2005) e Santos (2005/2006), esta atividade obteve uma frequência média
de 86% nos três setores (público, privado e ONGs) em Aracaju/SE. Como já
referido, estando os profissionais visitados vinculados predominantemente ao
setor público municipal na área de saúde, este fato parece indicar uma presença
acentuada do trabalho dos assistentes sociais no reforço à dinânica do controle
social. Essa reflexão tem por base as indicações de Iamamoto (2002), que rela-
cionam o espaço de potencialização dos conselhos ao fortalecimento das enti-
dades e organizações populares. Os dados são compatíveis com a afirmação
dela de que a atividade profissional tradicionalmente referenciada como “tra-
balho de base, educação e mobilização popular”, apesar da mudança da nomen-
clatura — assessoria e consultoria a movimentos sociais —, mantém-se como
demanda no exercício profissional, muito embora tenha perdido espaço no
campo da formação acadêmica e do debate teórico.
Devemos considerar ainda que, embora com um percentual minoritário
(14,3%), a assessoria e consultoria em políticas sociais também foi menciona-
da entre as ações realizadas pelos profissionais visitados. Percebendo a interfa-
ce das duas ações, destacamos o seu caráter de assessoria, bem como o “objeto”
sob o qual as mesmas são exercidas, isto é, as políticas sociais. Consideramos
que o acúmulo da produção teórica do Serviço Social sobre a temática das
políticas sociais, pode estar contribuindo para que essa demanda se apresente
aos profissionais em atividades, como, por exemplo, a formação e capacitação
de conselheiros no âmbito das políticas e direitos sociais. Outro dado que re-
força esta análise é a sua interface com a participação/organização política dos
assistentes sociais. Um número significativo entre os profissionais visitados pela
fiscalização em Sergipe no ano de 2008 (75%) se manifestou engajado no
acompanhamento das discussões das entidades do Serviço Social no tocante à
política pública. Este mesmo percentual (75% dos profissionais) mostrou-se
engajado nas discussões de políticas públicas na sua instituição de trabalho,
bem como tem participado de algum tipo de conselho.
O debate sobre as políticas públicas fomenta a análise dos dados que se
referem ao controle social e ao debate, a ele associado, da descentralização

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política preconizada tanto pelo neoliberalismo quanto pelos movimentos sociais
e pela Constituição Federal de 1988 nos seus artigos 198 e 204. Sabemos da
diferença existente na abordagem de cada um desses segmentos (Estado neoli-
beral e movimentos sociais). O ideário neoliberal entende os mecanismos dos
conselhos como tentativa de transferir as responsabilidades do Estado para a
sociedade civil. Já os movimentos sociais defendem a descentralização enquan-
to mecanismo que viabiliza a sua participação no planejamento, implementação
e avaliação das políticas públicas. Assim, a descentralização política represen-
ta uma possibilidade de disputa de projetos societários e, nesse sentido, pode
ser revestida para beneficiar segmentos da sociedade civil provenientes de de-
mandas do trabalho. Ratificando o debate da descentralização na última direção
citada, Raichelis (2007, p. 79) considera a relação entre publicização e esfera
pública entendendo a primeira “como um movimento de sujeitos sociais que
requer um locus para consolidar-se” e a segunda como locus de consolidação
daquela. Consideram-se, assim, esses espaços (os conselhos) enquanto palcos
de disputa entre diferentes projetos societários representando possibilidades de
construção da democracia nas políticas sociais, ao passo que permite o envol-
vimento da sociedade civil na sua definição e implementação.
Esta discussão torna-se relevante para disputa de diferentes projetos so-
cietários no interior do Serviço Social. Isso se dá na medida em que a inserção
de setores organizados da sociedade e de profissionais comprometidos com o
projeto ético-político profissional do Serviço Social nesses espaços pode ser
favorável para formulação, gestão e controle das políticas públicas voltadas para
a classe trabalhadora. Partindo dessa perspectiva, o conjunto CFESS/Cress
construiu frentes de trabalho articuladas à elaboração da política nacional de
fiscalização profissional (PNF), entendendo os espaços de controle social das
políticas públicas enquanto lugar que pode propiciar a melhoria na qualidade
dos serviços prestados à população, além de oportunizar à fiscalização o levan-
tamento das condições de trabalho dos assistentes sociais diante dos desafios
colocados pelo contexto neoliberal.
Ainda referindo-nos aos dados pertinentes aos mecanismos de controle
social e suas relações com a profissão, notou-se, em Sergipe, a predominância
de profissionais nos conselhos locais de Saúde (60%), seguidos do Conselho

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 146-176, jan./mar. 2010 167
Municipal de Assistência Social e do Conselho Municipal de Direitos da Crian-
ça e Adolescente, que ficaram tecnicamente empatados (10%). Foram consta-
tados ainda 20% de participação no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa
com Deficiência. Desse modo, identificamos, nessas atividades, um importante
indicador do compromisso ético-político assumido pelo assistente social na
defesa da esfera pública e da consequente democratização dos serviços presta-
dos à população usuária pela via do controle social.
Sob outro ângulo, porém, os dados sobre a participação/organização
política dos assistentes sociais provenientes dos relatórios de visita da Cofi/SE
em 2008 trazem preocupações que precisam ser enfatizadas. No que se refere
ao envolvimento com as atividades do Cress/SE, os dados mostraram-se com
uma leve vantagem para os profissionais que disseram não participar das ati-
vidades dessa importante entidade profissional (53,8%). Entre os que partici-
pam, 50% restringem essa participação às atividades da “semana do assisten-
te social”, tradicionalmente organizada, pelos Cress’s de todo o país. Sobre sua
vinculação a alguma entidade organizativa aparece um dado ainda mais preo-
cupante: os assistentes sociais visitados não percebem o Cress enquanto enti-
dade organizativa. Isto significa afirmar que quando perguntados sobre vincu-
lação com alguma entidade organizativa, o Cress não foi sequer mencionado
nas respostas dos profissionais, sendo que 8,3% dos que declararam ter vincu-
lação a alguma entidade organizativa identificaram apenas o Sepuma (Sindi-
cato dos Servidores Públicos Municipais). O restante dos profissionais respon-
deu não estar vinculado a entidades organizativas, dado que pode ser
visualizado no gráfico a seguir.
Essa questão é preocupante por duas razões. Primeiro pelo fato de que o
conjunto CFESS/Cress vem se constituindo como uma importante referência
na organização política dos assistentes sociais, desde o redirecionamento de sua
dinâmica de trabalho em consonância com o debate profissional dos últimos
trinta anos, conforme já mencionado (item 1). Deste modo, pergunta-se: como
será que os assistentes sociais percebem o Cress, já que não o referenciam como
entidade organizativa? Este dado fica a reclamar posteriores aprofundamentos
na realidade do estado de Sergipe, por parte dos diferentes sujeitos envolvidos
neste debate, mas principalmente, pela gestão do Cress-SE, podendo constituir-
-se num “alerta” aos demais Cress’s.

168 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 146-176, jan./mar. 2010
Gráfico 2
Vinculação a alguma entidade organizativa

8,3%

sim

não

92,7%

A outra razão das preocupações que este dado revela relaciona-se à fra-
gilidade da participação sindical dos assistentes sociais, num momento em que
observamos um movimento de retomada dos sindicatos da categoria dos assis-
tentes sociais. Dessa forma, é importante lembrar que a maioria dos sindicatos
dos assistentes sociais foi extinta quando a categoria decidiu se organizar em
seções sindicais por ramo de atividade como estratégia política de somarem-se
à luta aos demais trabalhadores ligados à sua área de atuação. Pensamos que
a discussão do retorno ao sindicato dos assistentes sociais revela rastros de
uma postura neoconservadora dentro do Serviço Social, colocando em xeque
a hegemonia do projeto ético-político da profissão, conforme analisa Braz
(2007, p. 7):

Aqui o projeto profissional corre sério risco. Outras expressões políticas da pro-
fissão — de variados tons neoconservadores — mais ou menos organizadas podem
ganhar espaço e terreno em meio à degradação das condições de trabalho profis-
sional. Podem se tornar atraentes os segmentos mais corporativistas da categoria
que se evidenciam, não exclusivamente, em algumas associações sindicais dos
assistentes sociais [...] que pululam no Serviço Social.

O próximo item analisado se refere à opinião sobre o Cress. É importante


explicar que, segundo os dados coletados, tudo indica que essa pergunta levou
a dois tipos de entendimento pelos profissionais visitados pela fiscalização: uma
parte deles elabora, de fato, opiniões a respeito do Cress, e outra parte, em vez

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de formular opiniões, citou algumas ações desenvolvidas pela entidade. Houve
ainda quem fizesse ambas as coisas ao mesmo tempo. Quando os profissionais
foram questionados acerca da opinião que tinham sobre o Cress, 30% não res-
pondera e o restante do percentual (70%) evidenciou respostas que se dividiram
entre emitir opiniões e/ou citar ações realizadas pelo Cress. No que diz respei-
to aos assistentes sociais que formularam opiniões acerca da entidade, vale
dizer que 60% emitiram opiniões positivas a respeito da entidade e os outros
40% evidenciaram opiniões positivas com ressalvas.
No gráfico abaixo relacionamos as ações que foram citadas pelos assisten-
tes sociais, enquanto atividades do Cress.13

Gráfico 3
Ações do Cress

22,2%
44,4% Capacitação
Promover discussões
22,2% Lutas relativas a espaço ocupacional
Elaboração de documentos
Fornecimento de informações
11,1% 22,2%

A maioria dos profissionais (44,4%) relatou que o Cress realiza ações no


campo da capacitação profissional. Isso provavelmente está relacionado com o
fato de a formação continuada ser uma ação que perpassa dimensão político-
-pedagógica da PNF, o que tem levado o conjunto CFESS/Cress a dar priorida-
de à qualificação do exercício profissional por meio de uma “política de capa-
citação continuada”, que se materializa em ações como a do curso de
Especialização à Distância — organizado, atualmente na sua segunda versão,
pelo CFESS — e o Curso Ética em Movimento.

13. É relevante explicar que os percentuais acima apresentados ultrapassam o valor de 100% por ter
sido detectado que uma mesma pessoa citou mais de uma ação do conselho.

170 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 146-176, jan./mar. 2010
Além disso, a atual formulação ética vigente no Serviço Social possui,
entre seus princípios fundamentais, o “compromisso com o aprimoramento
intelectual, na perspectiva da competência profissional”. Esse princípio se ma-
terializa tanto na formação como no exercício profissional. É uma das caracte-
rísticas presentes na profissão desde o currículo mínimo de 1982, “alçada [...]
ao patamar de dimensão constitutiva tanto da formação quanto do exercício
profissional” (Almeida, 2000, p. 10). O novo projeto de formação profissional,
materializado nas Diretrizes Gerais para o curso de Serviço Social de 1996,
mantém, assim, “a dimensão investigativa como um dos [seus] componentes
centrais” (Idem, p. 22).
O Serviço Social é uma profissão que está articulada conjuntural e estru-
turalmente à forma de organização social capitalista. Inscrita na divisão socio-
técnica do trabalho, sua atuação ocorre, como já foi dito, no âmbito das políti-
cas sociais, no enfrentamento das expressões da “questão social”. “Trata-se de
uma atuação essencialmente interventiva, porém conectada ao conhecimento
da realidade na qual trabalha” (Pontes, 2000, p. 43). Desse modo, a relação
entre a realidade e a profissão ocorre incessantemente, pois a premissa é mar-
cada por transformações contínuas. Portanto, sua compreensão e enfrentamen-
to numa perspectiva crítica dependem não somente da fundamentação teórico-
-metodológica e técnico-operativa. É preciso assumir uma postura investigativa,
tomando sempre como referência o projeto ético-político da profissão.
O processo de investigação, tanto do objeto de trabalho, como das suas
determinações histórico-estruturais, pressupõe uma formação constantemente
atualizada, o que torna a qualificação profissional, portanto, um elemento fun-
damental para um trabalho comprometido, não somente com os princípios e
compromissos éticos da profissão, mas também com as exigências da socieda-
de em geral. Ela possibilita que o trabalho profissional extrapole o planejamen-
to e a execução de políticas sociais e adentre em espaços de democratização
dessas políticas, que viabilizam o alargamento das funções e a potencialização
dos princípios defendidos. Tal postura das entidades tem sido muito importan-
te para a categoria, não só pelo fato de oferecer uma formação continuada, mas
por representar um posicionamento político de compromisso para sintonizar a
profissão com as novas configurações da “questão social”, que, inseridas num

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 146-176, jan./mar. 2010 171
contexto histórico adverso, reflete nas atribuições profissionais ao redimensio-
nar os espaços sócio-ocupacionais e as demandas profissionais, fazendo com
que o assistente social assuma novas competências diante dessa conjuntura.
Sobre essa discussão, Iamamoto (2002, p. 19) considera que:

Os espaços ocupacionais e as fronteiras profissionais, enquanto resultantes histó-


ricos — e, portanto móveis e transitórias — sofrem significativas alterações. [...]
Pensar o projeto profissional supõe articular [...] de um lado, as condições ma-
crossocietárias que estabelecem o terreno sócio-histórico em que se exerce a
profissão, seus limites e possibilidades; e, de outro lado, as respostas técnico-
-profissionais e ético-políticas dos agentes profissionais nesse contexto, que tra-
duzem como esses limites e possibilidades são analisados, apropriados e projeta-
dos pelos assistentes sociais.

Ainda no tocante ao conteúdo do gráfico que expõe as ações citadas pelos


profissionais visitados, observa-se que as atividades relacionadas à promoção
de discussões, elaboração de documentos e fornecimento de informações apa-
recem com percentual empatado (22,2%), seguidos de 11,1% dos profissionais
que citaram como ações do Cress as lutas relativas à conquista de espaço sócio-
-ocupacional. Entre esses dados notamos, porém, que os profissionais não
mencionaram a ação fiscalizatória do Cress, o que parece indicar a baixa visi-
bilidade — junto aos profissionais de Sergipe — da fiscalização como ativida-
de principal do Cress. Esse dado é bastante preocupante, tendo em vista a
centralidade da fiscalização em virtude do caráter liberal da profissão, mas
também da perspectiva que reflete (para além dos limites normativos) o com-
promisso ético-político com o projeto profissional da categoria.

5. Considerações finais
A discussão do trabalho profissional sob a ótica da sua fiscalização ainda
é um tema pouco explorado na produção bibliográfica do Serviço Social.
Considerando-se a natureza das profissões regulamentadas como liberais, os
conselhos têm na fiscalização do exercício desses profissionais a sua razão de
existir. No caso do Serviço Social, além dessa centralidade, o atualmente

172 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 146-176, jan./mar. 2010
conhecido conjunto CFESS/Cress tem na PNF um decisivo instrumento para a
propagação do projeto ético-político profissional. Nela temos clareza de que a
defesa da profissão e sua imagem socialmente reconhecida passa por múltiplos
condutos da vida social que nada têm a ver com a defesa corporativa dos espa-
ços ocupacionais por questões de “reserva de mercado”. A defesa da profissão
tem a ver com a competência teórica e ético-política capaz de maximizar a luta
pela superação das desigualdades tendo como mediações os direitos sociais
numa perspectiva democrática e de universalidade. Isso pode, inclusive, levar
a ações dos conselhos contra os profissionais considerados individualmente, em
nome do projeto profissional coletivamente construído e suas balizas éticas e
normativas.
No interior dessa concepção de fiscalização, a defesa das políticas públicas
como estratégia de consolidação do projeto profissional ocorre em face do
quadro configurado na década de 1990, marcado pela implementação do pro-
jeto neoliberal. Este trata, no âmbito do Estado, de medidas de reestruturação
do capitalismo, com vistas à recuperação da lucratividade, com uma política
econômica que se sobrepõe às políticas de proteção social, relegando a último
plano as contrapartidas sociais e tornando-as mínimas. É esse quadro de flexi-
bilização do trabalho, da produção e do consumo, assim como de reconfigura-
ção dos espaços ocupacionais, que submete o exercício profissional a um pro-
cesso de desregulamentação e de reconfiguração do seu perfil (Iamamoto, 2002).
Esse contexto exige das entidades organizativas da categoria alternativas e ca-
minhos de afirmação dos princípios e compromissos do projeto ético-político
profissional do Serviço Social em defesa de determinada perspectiva para o
exercício profissional. Por isso a fiscalização passa a incluir a luta pela demo-
cratização das políticas sociais públicas como forma de enfrentamento das
condições adversas ao exercício profissional e, consequentemente, a defesa da
universalização do acesso a bens e serviços por parte dos usuários, que compõe
o que há de mais significativo nas condições de trabalho do assistente social.
Entre as iniciativas do conjunto CFESS/Cress para fiscalização e defesa
do exercício profissional mediante uma concepção ampliada, de cunho educa-
tivo e politizado, estão inseridas várias atividades que perpassam o debate das
condições de trabalho, mas também da capacitação profissional e da organiza-
ção política da categoria.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 146-176, jan./mar. 2010 173
Neste sentido, os resultados preliminares dessa pesquisa, tendo como
fonte os relatórios de visita da fiscalização feita pelo Cress no estado de Ser-
gipe, constituem material de grande relevância, tanto para a formação quanto
para o trabalho profissional. Sua sistematização possibilita captar como a PNF
está sendo operacionalizada pelo Cress 18ª Região, na perspectiva de contribuir
com um mapeamento de situações que se revelam preocupantes, como a baixa
visibilidade da fiscalização enquanto atividade do Cress por parte dos assis-
tentes sociais ou a sua dificuldade em identificá-la como entidade organizativa.
Por outro lado, permite-nos visualizar a consolidação da intervenção da cate-
goria na dinâmica do controle social — tomada com destaque entre as ativi-
dades desenvolvidas pelos assistentes sociais fiscalizados em 2008, em Sergi-
pe —, o que revela a capilaridade dos princípios ético-políticos na dinâmica
do trabalho profissional, sintonizado com o debate e os esforços do conjunto
CFESS/Cress.

Artigo recebido em jun./2009 ■ Aprovado em dez./2009

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176 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 146-176, jan./mar. 2010
INFORME-SE

Participaram na 8ª Conferência DCA


Conferência de direitos ou 1.800 delegados, sendo que seiscentos
plano decenal? eram adolescentes. O Conanda publicou
em dezembro de 2008 o texto-base para
Lecture on rights or decennial plan? orientar os municípios e estados, mas esse
documento trazia, simultaeamente a refe-
rências sobre o conteúdo a ser tratado em
Aurea Satomi Fuziwara* forma de eixos, e aspectos operacionais,
como cronogramas, gerando dificuldades
de entendimento, o que foi alvo de críticas
Introdução por parte dos municípios e estados.
Os municípios com conselhos de di-
O presente informe tem o objetivo de
reitos e sociedade civil mais organizados
problematizar a 8ª Conferência Nacional
dos Direitos da Criança e do Adolescente buscaram alternativas para superar estes
(que chamaremos aqui Conferência DCA), entraves, construindo procedimentos par-
realizada de 7 a 10 de dezembro de 2009 ticulares, que, por sua vez, acarretam difi-
com o tema “Construindo Diretrizes da culdades na consolidação do relatório re-
Política Nacional dos Direitos da Criança gional ou estadual.
e do Adolescente e do Plano Decenal”. No
número 93 desta mesma revista problema-
tizamos questões conceituais sobre a Conferência ou plano decenal?
conferência e não nos ateremos a este as-
pecto, aprofundando outros elementos que
O aspecto negativo mais ressaltado por
nos parecem complementares e conjuntu-
ralmente relevantes. Para as reflexões ora grupos críticos à 8ª Conferência Nacional
apresentadas consideramos a trajetória das DCA foi o fato de não ter havido efetiva
conferências municipais e estadual de São avaliação das políticas voltadas para a
Paulo e o resultado da nacional, por meio infância, que foram ou deveriam ter sido
de acompanhamento enquanto membro da efetivadas pelos municípios, estados e o
Comissão Organizadora1 e contato com próprio governo federal, bem como os
participantes. processos e resultados, ao longo dos últi-
mos dois anos. O objetivo da Conferência
foi “analisar, definir e deliberar as diretri-
* Assistente social, funcionária do TJ/SP licen- zes da Política Nacional dos Direitos da
ciada, presidente do Cress 9ª Região-São Paulo/SP
— Brasil, na gestão 2008-11, militante e pesquisa-
dora do FEDDCA-SP, docente de graduação e pós- -SP para compor a Comissão Organizadora, o que foi
graduação. E-mail: aureafuziwara@yahoo.com.br. aceito com vistas a acompanhar, contribuir e fiscali-
1. O Conselho Estadual de Direitos da Criança e zar este processo. É público que o FEDDCA-SP é
do Adolescente de São Paulo convidou o FEDDCA- crítico histórico da atuação do Condeca-SP.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 177-183, jan./mar. 2010 177
Criança e do Adolescente, com vista à cesso que poderia trazer um bom debate
elaboração do Plano Decenal da Política sobre o papel das conferências acabou
dos Direitos da Criança e do Adolescente”. tensionado pelo receio de municípios e
Diante disso, a centralidade da Conferên- estados não terem seus delegados aceitos
cia, que é conferir e avaliar, para então na instância nacional, como no caso de São
propor, ficou prejudicada. Em todas as Paulo.
fases houve muito conflito de entendimen- Segundo Tatiane Cardoso,2 delegada de
to: enquanto a população tentava falar de São Paulo pelo segmento Fórum Estadual
sua realidade, das ausências do Estado, das dos Direitos da Criança e do Adolescente,
demandas por direitos, a conferência vol- “a política posta não foi conferida de fato,
tava-se para a aprovação das diretrizes para estabelecermos as prioridades e saber-
conforme, os cinco eixos delimitados pelo mos quais os pontos fundamentais dos quais
Conanda: devemos estrategicamente partir”.
• promoção e universalização de di- O dr. Paulo Garrido de Paula reafir-
reitos em um contexto de desigual- mou, em sua palestra, que os conselhos de
dades; direitos são órgãos deliberativos e têm o
• proteção e defesa no enfrentamento dever de deliberar sobre política direcio-
das violações de direitos humanos nada à criança e ao adolescente. A decisão
de crianças e adolescentes; política deve ser adequada, e para isto
• fortalecimento do sistema de garan- devem ser respeitadas as especificidades
tia de direitos; de cada local. Enfatizou que ter direito
• participação de crianças e adoles- significa ter interesses juridicamente pro-
centes em espaços de construção da tegidos, ou seja, trata-se de uma necessi-
cidadania; dade que o Estado resolveu proteger. In-
• gestão da política. daga o ilustre jurista: “Mas por que eles
não se realizam? Por duas razões: pela
Ao analisarmos os processos e resul- negativa de sua existência, negada não na
tado das conferências, verificamos a insu- retórica, mas no cotidiano e também pela
ficiência dos debates e da legitimação das negativa de sua eficácia”. Vale salientar
demandas populares. Em muitos relatórios que nessa Conferência não foi debatida a
estaduais podemos observar a ausência de inconstitucionalidade das “doações casa-
diretrizes, deixando hipóteses de que as das” aos fundos municipais, tão em práti-
orientações básicas do Conanda não foram ca no país sem o pronunciamento de
compreendidas ou foram rejeitadas. Em- conselhos e do Ministério Público. Em tal
bora os relatórios expressem o acatamento
das orientações, o conteúdo dos resultados 2. Advogada atuante no Cedeca em São Paulo,
evidencia que não há compreensão ade- militante do FEDDCA-SP, que contribui para este
quada do que sejam diretrizes. Este pro- artigo.

178 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 177-183, jan./mar. 2010
situação, os conselhos de direito são avil- 1999 o Fórum Estadual de Defesa dos
tados em seu poder deliberativo, e as Direitos da Criança e do Adolescente
pessoas jurídicas condicionam onde o re- (FEDDCA-SP) vem construindo a propos-
curso público será destinado (em geral em ta da conferência lúdica, no qual o intuito
áreas de seu próprio interesse). é que não apenas sejam aplicadas metodo-
Neste sentido, a questão central que logias para garantir a participação dos
temos alertado ao debater criticamente as meninos e meninas, mas que eles sejam
conferências é quanto à distorção de seu efetivamente ouvidos e considerados, legi-
caráter participativo e de controle social timando suas avaliações e proposituras.
(da sociedade sobre o Estado), tendo por Nos anos seguintes, realizamos duas con-
efeito negar a importância e a necessidade ferências lúdicas estaduais independentes,
da participação popular nos rumos da no qual adolescentes participaram de ofi-
própria sociedade. cinas e nessas foram sendo identificadas as
lideranças que conduziriam todo o proces-
so: organização e condução das atividades.
Cidade dos Direitos da Criança e do A divulgação e a mobilização ficaram por
conta dos adultos, mas sob o comando dos
Adolescente jovens líderes. No estado de São Paulo, o
Condeca-SP passou a assumir as conferên-
Foi construída com 6 mil metros para cias lúdicas, mas alterando a metodologia
receber até 8 mil crianças e adolescentes do FEDDCA-SP. Pudemos, contudo, ga-
durante a 8ª. Conferência DCA, com es- rantir que nesse ano duas de suas diretrizes
paços para interação, apresentando as priorizadas pelos adolescentes fossem au-
instituições responsáveis pela promoção e tomaticamente acolhidas no relatório esta-
defesa dos direitos de crianças e adoles- dual. Cabe aos conselhos criar as resolu-
centes, pretendendo que os visitantes co- ções para efetivar as deliberações das
nhecessem os papéis e o funcionamento conferências. Contudo, o que tem ocorrido
do Conselho Tutelar e de Direitos, do atualmente na maioria de municípios e
Ministério Público, da Delegacia e da Vara estados são miniatividades, mas sem valo-
Especializada da Infância e da Juventude, rizar a capacidade expressiva e a particula-
da Prefeitura e da Defensoria Pública. ridade da construção de ideias de crianças
e adolescentes. A maioria das atividades
oferece materiais pedagógicos e os adultos
A participação dos adolescentes continuam conduzindo todo o processo.
Afirmamos que o lúdico compõe a
Houve grande presença de adolescen- construção do sujeito social, mas atual-
tes, mas o processo desencadeado ainda é mente temos outros processos de sociabi-
insuficiente e inadequado. No estado de lidade marcada pelo capital: competitivi-
São Paulo, é importante salientar, desde dade, mecanicidade e ausência de relações

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 177-183, jan./mar. 2010 179
fraternas em que todos sejam vistos em sua Moções: saldo político da conferência
importância. É preocupante que não se
tome o devido cuidado para que os adoles- As moções são utilizadas de formas
centes não sejam preparados para cometer bastante interessantes. Conforme o regi-
os mesmos erros e condutas questionáveis mento, deveriam ter a aprovação de 10%
dos adultos que atuam nas conferências. dos participantes. Observamos que em
Conforme o dr. Paulo Garrido de Pau- geral tratam de assuntos que não puderam
la, a política de atendimento dos direitos ser contemplados nas deliberações, trazen-
da criança e do adolescente prevista no do conteúdos tanto estruturais quanto
ECA (art. 86) é explicitada por meio de conjunturais. Por se tratar de uma confe-
linhas de ação (art. 87) e de diretrizes (art. rência que aprovou pretensas diretrizes,
88), que trazem as indicações de percurso, observa-se que as 21 moções aprovadas
as instruções para o combate aos desvios tiveram, em sua maioria, caráter político,
e procedimentos de organização. o que é positivo. Dentre as moções, pode-
Quando o Conanda definiu que a so- mos destacar a ênfase contra o agravamen-
ciedade civil estaria representada pelas to da violência, sendo que foi repudiado o
entidades com assento nos conselhos e Projeto de Lei n. 5.524/2009 proposto pelo
reduzindo as vagas para os fóruns estaduais deputado federal Márcio Franca (PSB),
DCAs, afetou a construção histórica e a luta para que os conselheiros tutelares tenham
em defesa de que a conferência é espaço direito a porte de arma de fogo. Outras
da população, nos termos constitucionais. moções importantes referem-se às concep-
Houve conferência em que garantimos 70% ções: houve novamente repúdio à implan-
tação da metodologia de depoimento sem
de sociedade civil.3 Wanderlino Nogueira
dano sem o devido debate com a socieda-
Neto, renomado defensor de direitos hu-
de e a favor da regulamentação da propa-
manos da criança e do adolescente, alerta
ganda de alimentos voltados para a crian-
que a sociedade civil não se restringe às
ça, respectivamente moções 21 e 4.
entidades (sejam ONG ou Oscip), havendo
um sério problema a ser enfrentado. O A moção 8, muito polêmica, exige a
ECA, salientemos, trata de “organizações “alteração do art. 166, § 5º, da Lei de
representativas”, sendo flagrante o erro Adoção n. 12.010/09,4 que prevê a possi-
reiterado em todos os espaços, inclusive na bilidade de retratação, até a publicação da
composição do Conanda. sentença, dos genitores que entregarem o
filho para adoção, na Vara da Infância e
Juventude, em audiência. Este dispositivo
3. Vale anotar que os movimentos sociais estão
tão desarticulados que nem mesmo as boas conquis-
tas nas diferentes áreas são compartilhadas, e vemos 4. A “nova Lei da Adoção” é ainda muito deba-
que cada área faz conferências muito diferentes entre tida e questionada, por ter resgatado questões já su-
si, em especial na composição dos delegados. peradas na concepção do ECA e outras legislações.

180 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 177-183, jan./mar. 2010
privilegia os pais em detrimento das crian- de Diretrizes Orçamentárias e na Lei Or-
ças e adolescentes”. Outras foram bastan- çamentária Anual, o que implicitamente
te consensuais: a moção 1, contrária às exige que o próprio calendário das Confe-
propostas de redução da maioridade penal; rências tenha o intuito de incidir sobre tais
e a moção 5, de “repúdio às decisões judi- orçamentos (devendo ser planejado para
ciais que restringem ou violam o direito anteceder o debate e ser determinante na
constitucional das crianças e dos adoles- aprovação de tais orçamentos).
centes de ir e vir, a exemplo do toque de Há ênfase em diretrizes que visam a
recolher”. articulação de ações, que possivelmente
Sobre o orçamento, a moção 14 aprova levará à consolidação no Plano Decenal
a “recomendação” ao Conanda, à Frente das principais diretrizes já existentes em
Parlamentar pelos Direitos da Criança e do outros planos temáticos.5 Retoma-se a
Adolescente e demais atores do SGDCA relevância do Sistema Único de Assistên-
para fazer gestões políticas junto ao Con- cia Social, Suas, da saúde, via SUS e da
gresso Nacional e aos governos federal e educação para a cidadania, garantindo-se
estaduais para apoio à Emenda Aditiva de período integral com atividades programa-
Plenário ao Projeto de Lei n. 5.938, de das junto com outras políticas sociais
2009, para destinação de 1% dos royalties (esporte, lazer, cultura, saúde etc.). Há
do Pré-Sal aos fundos nacional, estaduais ênfase na questão da gestão, monitoramen-
e municipais dos direitos das crianças e to e avaliação de forma permanente, com
adolescentes. A dra. Irene Rizzini afirmou participação da criança e do adolescente.
esta questão em sua palestra, salientando Assim, abordou-se a necessidade de que
que não tem como efetivar a política sem sejam criados indicadores, análises situa-
conectá-la diretamente ao orçamento”. cionais e gerenciais, contemplando as di-
versas realidades culturais e regionais.
Novamente há grande preocupação com
Diretrizes
5. O FEDDCA-SP já vinha tensionando há mui-
Houve polêmica em torno da criação to que a ausência de uma política efetiva, a partir do
de “secretarias nacionais, estaduais e mu- ECA, é a questão central para este debate. Em 2008,
quando o Comissariado da ONU que visitou o Brasil
nicipais dos direitos das crianças e dos
para aferir a implementação da Convenção Interna-
adolescentes”, o que não foi aceito, mas cional dos Direitos da Criança e do Adolescente,
aprovado em forma de moção, defendida estivemos na mesa final com a representante Rosa
em especial pelo grupo de adolescentes. Maria Ortiz, que confirmou nossa posição, alertando
que o Brasil não tinha um órgão central que estives-
Uma das diretrizes mais relevantes
se articulando essas ações. Sabemos que a Secretaria
exige a garantia da prioridade absoluta para Especial de Direitos Humanos tem esta função
a criança e o adolescente no ciclo orça- executiva, mas efetivamente não está a cumprindo
mentário, tanto no Plano Plurianual, na Lei de modo articulado.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 177-183, jan./mar. 2010 181
estudos, pesquisas e qualificação dos pro- políticos, com o objetivo de que eles assi-
fissionais, exigindo-se inclusive seleção nem um termo de compromisso. Pretende-
pública, construção de carreiras e valori- -se que essa entrega seja precedida de um
zação dos trabalhadores. É importante encontro com os conselhos estaduais e
observar aqui o valor da sistematização das municipais e também de uma consulta
experiências e pesquisas relacionadas ao pública, para que possam ser agregadas
trabalho profissional, às metodologias e mais sugestões. A crítica que o movimen-
aos direitos trabalhistas, posto que todas to de defesa dos direitos da criança e do
estas matérias afetam diretamente a efeti- adolescente tem feito é que a consulta
vação dos direitos. pública é um aparente instrumento demo-
Ao mesmo tempo em que duas pro- crático, pois no resultado final são incluí-
postas tratam da necessidade de política das questões aprovadas pelos representan-
de atendimento e apoio à família, inclusi- tes dos ministérios e consultores, portanto,
ve garantindo-se os princípios traçados no pela vontade governamental. Será funda-
ECA e no Plano de Convivência Familiar mental que sejam garantidas não apenas
e Comunitária, não se aborda a participa- as deliberações dessa Conferência, mas de
ção da família na gestão da política. Por- todas as que as antecederam, ainda que
tanto, há evidência de que o tema partici- atualmente tentem afirmar que apenas a 7ª
pação aparece nesta 8ª Conferência muito e a 8ª foram deliberativas.
mais como resposta à provocação (era um A luta do movimento de defesa dos
dos eixos), mas focando crianças e adoles- direitos da criança e do adolescente não é
centes. Falou-se das diversas instituições, apenas por um segmento geracional, mas
conselhos, mas não há uma diretriz que para afirmar que é com a construção da
trate do efetivo direito da família em ser democracia real, da participação, do con-
protegida em seus direitos, princípio para fronto de ideias, do enfrentamento de dife-
proteção integral das crianças e adolescen- renças e respeito à diversidade que pode-
tes, independentemente do tipo de laço que remos nos construir como sujeitos capazes
a legitima enquanto família. de alterar os rumos da sociedade. Reiteran-
do práticas que impedem esse exercício tão
novo e, por isso mesmo, tão necessitado de
Os próximos passos radicalidade (indo às causas, às raízes dos
problemas), não avançaremos.
A partir das propostas de diretrizes Embora tenha sido nauseantemente
aprovadas na Nacional, o grupo de traba- visível a busca dos adultos em manipular
lho, que envolve nove ministérios e con- os adolescentes, a grande maioria deles
sultores do Conanda, fará, em julho de não se deixou influenciar por tais atitudes.
2010, a entrega do documento para o pre- Garantir a participação dos adolescentes
sidente Lula e outros candidatos a cargos é uma conquista da luta do movimento

182 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 177-183, jan./mar. 2010
social, pois acreditamos e apostamos na social são meras expressões de linguagem.
juventude. Acreditamos que somente a Aos municípios, além da tarefa de manter
democracia real poderá auxiliar na ruptura o debate, caberá consolidar as deliberações
dos rumos de um país que, apesar de ser em resoluções dos seus conselhos de di-
extremamente rico, possui gravíssima reitos e de políticas setoriais. É necessário
desigualdade social e injustiça. que as deliberações se materializem for-
Os próximos passos não precisam malmente e que se traduzam em política
aguardar ordem oficial: o conteúdo de de Estado (e não meros programas de
todas as conferências devem ser resgata- governos). Assim, poderemos afirmar que
das, alimentando a construção do Plano a democracia é possível e que está sendo
Decenal, mas possibilitando construir uma construída.
política para o país que efetive a proteção
integral à criança e ao adolescente. Não
consolidar em ações concretas é afirmar Artigo recebido em dez./2009
aos participantes, em especial aos adoles- ■

centes, que o controle e a participação Aprovado em jan./2010

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 177-183, jan./mar. 2010 183
Proteção Social, VII Conferência Nacional de
Assistência Social
Seguridade Social e
Em meio a uma conjuntura marcada
Assistência Social: por contundentes debates a VII Conferência
Nacional de Assistência Social se consa-
informes acerca dos debates que grou como um marco divisor de águas na
história desta política. Sob o tema Partici-
marcaram o final de 2009 pação e Controle Social no SUAS foram
mobilizados municípios, estados, Distrito
Federal e União1 numa tentativa explícita
de concatenar o controle social — que em
Renato Francisco dos Santos Paula*
nosso entendimento só se efetiva com
ampla participação popular — aos avanços
A presente nota tem como objetivo obtidos na gestão e no financiamento nestes
informar acerca da realização de três quatro anos de implementação do Sistema
importantes e significativos eventos que Único de Assistência Social (Suas).
marcaram o final do ano de 2009 no O processo operacional das Conferên-
campo da proteção social latino-ameri- cias já é de domínio público, logo, nos cabe
cana e que prospectam perspectivas para relatar o diferencial desta VII Conferência
os próximos anos. Trataremos da VII que ao tratar do controle social coloca em
Conferência Nacional de Assistência xeque não apenas os limites e possibilida-
Social (30 de novembro a 3 de dezembro des dos Conselhos de Assistência Social,
de 2009), do Seminário Nacional Prepa- mas também das próprias Conferências
ratório da Primeira Conferência Mundial como espaços desse controle nas três es-
sobre o Desenvolvimento de Sistemas feras de governo.
Universais de Seguridade Social (4, 5 e
De modo inédito CNAS e MDS2 con-
6 de dezembro de 2009) e do Seminário
vocaram conjuntamente conselheiros e
Internacional Sistemas de Proteção So-
gestores para empreender processos de
cial desafios no contexto latino-america-
no (8, 9, 10 e 11 de dezembro de 2009) mobilização com os usuários da assistência
respectivamente.
1. Foram realizadas 4.583 Conferências Munici-
* Doutorando em Serviço Social pela PUC-SP, pais, 26 Conferências Estaduais e 1 no Distrito Fe-
São Paulo — Brasil, conselheiro do Conselho Nacio- deral culminando na Conferência Nacional realizada
nal de Assistência Social (CNAS), gestão 2008-2010; de 30 de novembro a 3 de dezembro de 2009.
assessor da Secretaria Nacional de Assistência Social 2. Conselho Nacional de Assistência Social e
do Ministério do Desenvolvimento Social e Comba- Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à
te à Fome. Fome.

184 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 101, p. 184-190, jan./mar. 2010
social que deveriam anteceder as confe- Suas: composição, dinâmica, caráter da
rências municipais. Tais mobilizações ti- representação e processo de escolha; bases
veram o intuito de sensibilizar para as para garantia do financiamento da assis-
conferências, mas principalmente identi- tência social: a justiça tributária que
ficar e levantar junto aos usuários quais queremos; democratização da gestão do
os entraves que dificultam sua participa- Suas: participação e articulação intergo-
ção nos conselhos e conferências. Sugeriu- vernamental; entidades de assistência
-se ainda, que os municípios realizassem social e o vínculo Suas: controle social,
reuniões/encontros com grupos de usuários participação popular e gestão interna; o
nos territórios onde estão instalados os trabalhador do Suas e o protagonismo dos
Centros de Referência da Assistência So- usuários: bases para uma atuação demo-
cial (Cras) trabalhando questões como: crática e participativa.
perfil do usuário da assistência social nos
Diante da vastidão de temáticas, os
dias de hoje; o significado da participação;
conselhos municipais, estaduais, do DF e
a importância do controle social; formas
nacional rearranjaram a organização dos
de participação na vida pública nas três
temas para debates em conformidade as
esferas; possibilidades e identificação das
suas possibilidades concretas evidencian-
formas de organização dos usuários com
do pontos fortes e fracos relativos a imple-
vistas a sua inserção nestes espaços; estra-
mentação do SUAS em seus âmbitos.
tégias para participação qualificada na
Conferência Municipal e discussão de sua Ao trazer a temática da participação
representação e representatividade nas popular como eixo estruturante, o proces-
demais esferas e elaboração de propostas so de conferências em 2009 induziu ao
para ampliação da participação dos usuá- enfrentamento do debate sobre o papel dos
rios nas Conferências e nos conselhos. diferentes atores que compõem o Sistema,
Isto significa que o debate sobre o em especial, o papel das entidades de as-
tema geral Participação e Controle Social sistência social e suas formas de inserção
no Suas foi subsidiado pelos resultados e participação no controle social e na
desse processo de mobilização, e, dele gestão pública. Debate este que ocorreu
decorreram as discussões e deliberações em paralelo a efervescência democrática
em torno dos oito subtemas assim elenca- em torno dos trâmites do Projeto de Lei
dos: processo histórico da participação n. 3.021/2008, apensado ao Projeto de Lei
popular no país: nossa cidade e territórios n. 7.494/2006 e finalmente convertido na
em movimento; trajetória e significado do Lei Federal n. 12.101/2009,3 bem como
controle social na política de assistência
social: a diretriz constitucional em debate;
3. Lei n. 12.101, de 27 de novembro de 2009.
protagonismo do usuário, o seu lugar Dispõe sobre a certificação de entidades beneficentes
político no Suas: uma construção inadiá- de assistência social; regula os procedimentos de
vel; os conselhos de assistência social e o isenção de contribuições para a seguridade social;

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do debate em torno do Projeto de Lei n. Como todo processo de mudanças
3.077/20084 que até o fechamento deste causa desconfortos e estranhamentos, o
texto não havia sido aprovado pelo Con- reordenamento jurídico-institucional da
gresso Nacional. assistência social citado acima não tem
Consideradas como parceiras funda- sido promovido sem embates. De um lado,
setores da sociedade que buscam manter
mentais para a estruturação da rede de
o status quo dos processos de prestação
proteção social, as entidades prestadoras
serviços filantrópicos como estruturantes
de serviços socioassistenciais passam, com
da rede socioassistencial sobrepondo o
as propostas legislativas explicitadas, a ter
privado ao público/estatal e se benefician-
uma definição mais precisa acerca de sua do de renúncias fiscais e de particularis-
área de atuação, considerando que com o mos de gestão6, e, de outro lado, uma
Suas a assistência social define categorial- tentativa explícita de fazer com que o
mente seus conteúdos próprios diferen- Estado brasileiro assuma suas responsa-
ciando-se da saúde e da educação, princi- bilidades no enfrentamento da questão
palmente.5 social utilizando do próprio poder que lhe
é conferido pela sociedade para conduzir
a política pública a partir dos interesses
altera a Lei n. 8.742, de 7 de dezembro de 1993; re-
voga dispositivos das Leis ns. 8.212, de 24 de julho das maiorias. Ao convergir para a Confe-
de 1991, 9.429, de 26 de dezembro de 1996, 9.732, rência Nacional tal debate trouxe interfe-
de 11 de dezembro de 1998, 10.684, de 30 de maio rências relevantes ao processo de delibe-
de 2003, e da Medida Provisória n. 2.187-13, de 24 ração com propostas que foram desde a
de agosto de 2001; e dá outras providências.
revisão do processo de eleição dos repre-
4. PL n. 3.077/2008 que altera a Lei n. 8.742, de
7 de dezembro de 1993, que dispõe sobre a organi-
sentantes da sociedade civil nos conselhos
zação da Assistência Social. O referido projeto de até a definição mais precisa sobre a legi-
Lei faz incorporar à Loas os avanços obtidos com a timidade das representações. O mérito,
implementação do SUAS. neste caso, não reside na deliberação em
5. Tal diferenciação tem sido construída sem si, pois não houve registro de avanço no
prejuízo da intersetorialidade, e, conforme Resolução
n. 109, de 11 de novembro de 2009 (DOU
formato “deliberação” neste item, mas sim
25/11/2009), do Conselho Nacional de Assistência o apontamento da necessidade do apro-
Social (CNAS) os serviços de proteção social básica,
de proteção social especial de média e alta comple-
xidade passam a ser tipificados com a descrição das da assistência social, ao mesmo tempo aprimora sua
seguintes características: nome do serviço, descrição, relação com as demais políticas públicas.
usuários, objetivos, provisões, aquisições dos usuá- 6. Não que a renúncia fiscal a que nos referimos
rios, condições e formas de acesso, unidade de não seja uma “contrapartida” adequada pelo Estado
atendimento, período de funcionamento, abrangência, a prestação de serviços de interesse público, contudo,
articulação em rede, impacto social esperado e regu- ao receber recursos públicos as entidades passam a
lamentações. Tais definições contribuirão para dar ter responsabilidade pública o que implica em equi-
concretude aos serviços socioassistenciais próprios paração ética aos serviços estatais.

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fundamento e enfrentamento deste debate, da conferência, ampliando e qualificando
não sendo possível mais postergá-lo. a participação.
O número recorde de 282 delegados As oficinas também ratificaram o seu
nacionais identificados como “usuários” papel político de formação ao trazerem os
da política de assistência social e o apontar temas mais relevantes para o processo de
de uma aliança estratégica com movimen- implementação do Suas na conjuntura
tos sociais populares7 sustentou a necessi- atual.
dade premente de repensar os mecanismos Por fim, outros dois pontos relevantes
de participação popular nos Conselhos e merecem destaque. O primeiro deles se
Conferências liberando os usuários da refere a preocupação do CNAS e do MDS
subalternização e da tutela de organizações com as questões relativas a acessibilidade,
privadas e/ou estatais.8 e, o segundo se refere ao aperfeiçoamento
As mesas temáticas bem como o painel (que se nota constante desde a IV Confe-
de abertura iniciaram com uma síntese do rência Nacional) do sistema de relatoria.
conjunto de deliberações, relativas aos te- Duas questões centrais que colocaram a
mas em tela, vindas dos Estados. Na se- Conferência de Assistência Social na van-
quência, os expositores abordaram os temas guarda das 66 conferências nacionais
propostos sob as diferentes óticas.9 realizadas em 2009.
Os grupos de trabalho, também de A VII Conferência Nacional de Assis-
modo inédito, foram organizados de ma- tência Social se encerra com o saldo posi-
neira que todos os grupos puderam discutir tivo da mudança qualitativa. Reconhecidas
e deliberar sobre todos os eixos temáticos as imperfeições do Sistema e valorizados
os seus avanços, a assistência social brasi-
leira sai do Centro de Convenções Ulisses
7. Participaram da Conferência importantes Guimarães com o compromisso de conso-
movimentos sociais como Central de Movimentos
lidar os eixos democráticos que a susten-
Populares (CMP); Movimento Nacional dos Traba-
lhadores Rurais Sem-Terra (MST); Central Única de
tam reafirmando a participação popular e
Favelas (Cufa); Associação Brasileira de Lésbicas, o controle social como seus elementos
Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBTT); intrínsecos. Dentre as moções aprovadas
Pastorais: Carcerária, do Migrante, da Mulher Mar- destacamos aquela que aponta que a VIII
ginalizada, da Criança, da Terra, entre outras; Movi-
Conferência Nacional tenha como temáti-
mento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua
(MNMMR); União Nacional de Estudantes (UNE);
ca central os “trabalhadores do SUAS”.
entre outros. Oportunidade de avançar na Política Na-
8. É importante que aqui se diferencie prestação cional de Gestão do Trabalho do SUAS,
de serviços com qualidade, transparência e outros conforme preconiza a NOB-RH.10
atributos éticos daquilo que estamos chamando de
relação de tutela.
9. A programação completa pode ser encontrada 10. Norma Operacional Básica de Recursos Hu-
no sítio do CNAS www.mds.gov.br/cnas manos do Suas.

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Seminário Nacional Preparatório para o intuito de aprofundar os debates no âm-
a I Conferência Mundial sobre o bito de cada país bem como preparar as
respectivas delegações para o evento mun-
Desenvolvimento de Sistemas Universais dial. No Brasil, a preparação nacional
de Seguridade Social aconteceu de 4 a 6 de dezembro de 2009
em Brasília e teve como objetivos analisar
Considerando que a decisão do II a situação da universalização da segurida-
Fórum Social Mundial da Saúde realizado de social no Brasil, identificando suas
em janeiro de 2007 em Nairóbi no Quênia concepções, obstáculos, avanços e desafios
culminaria na realização da I Conferência e apontando os elementos de agenda polí-
Mundial sobre o Desenvolvimento de tica para o seu desenvolvimento e conso-
Sistemas Universais de Seguridade Social lidação; identificar e criar canais e instân-
o Ministro de Estado da Saúde lançou cias para o desenvolvimento dos debates e
oficialmente durante o Fórum Social Mun- mobilizações em torno do tema do Semi-
dial, em janeiro de 2009, em Belém do Pará nário Nacional e da Conferência Mundial;
o processo convocatório e de organização elaborar documento que expresse de forma
da referida Conferência. A partir de então sistemática os aportes de governo e da
Ministério da Saúde, Conselho Nacional sociedade brasileira para os debates da
de Saúde e um contingente cada vez maior Conferência e eleger a delegação da socie-
de parceiros vem envidando esforços para dade civil para a I Conferência Mundial.
a realização da Conferência. Incorporados O evento aconteceu por meio da realização
como membros fundamentais ao processo, de painéis, grupos de trabalho e plenária
o Conselho Nacional de Assistência Social final. Desde o início percebeu-se equilíbrio
e o Ministério do Desenvolvimento Social e razoabilidade na configuração dos pai-
e Combate à Fome e Conselho Nacional néis e das mesas entre as três áreas que
de Previdência Social e o Ministério da compõem a seguridade social brasileira
Previdência Social constituem o tripé es- (saúde, previdência e assistência social).
truturante da perspectiva que sustenta a Reiteradas menções aos dispositivos cons-
iniciativa, qual seja: “relançar as ambições titucionais que tratam da seguridade social
de um universalismo integral e equitativo permearam quase que a totalidade das
com a consequente construção de uma apresentações. Consenso também houve
seguridade social universalizada e abran- no entendimento de que o arranjo consti-
gente, conforme os princípios emanados tucional brasileiro para a seguridade não
da Constituição Federal de 1988”. foi concretizado e necessita, além disto,
Com uma média de mais de duzentos ser ampliado abarcando áreas como edu-
países participantes a Conferência Mundial cação e habitação, por exemplo.
que será realizada de 22 a 26 de março de Vale ressaltar que o Seminário Nacio-
2010 em Brasília tem sido precedida de nal teve como pressuposto mobilizações
eventos mobilizatórios e preparatórios com em eventos estaduais, que respeitando a

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paridade entre governo e sociedade civil, áreas levou em conta, além da necessidade
redundaram na eleição de delegados para de representações em iguais condições, o
o evento nacional. O número de represen- acúmulo de cada uma delas sobre o deba-
tantes em cada estado foi definido a partir te da seguridade social e seus trânsitos
de critérios demográficos e contou com os institucionais próprios, ficando desta for-
conselhos de saúde como agentes mobili- ma distribuída: 16 delegados mundiais da
zadores locais. área da saúde, 16 delegados mundiais da
O pouco tempo para mobilização, área da assistência social e seis delegados
dentre outros fatores, como, por exemplo, mundiais da área da previdência social.
a realização das conferências municipais Em que pese as incongruências do
e estaduais de assistência social dificulta- processo de interação entre as três áreas
ram e em alguns casos até mesmo impedi- demonstradas na eleição da delegação
ram uma mobilização mais concisa e ativa brasileira no Seminário Nacional, o even-
de atores externos aos quadros e militância to se encerra com três importantes apon-
da saúde. Fatos que culminaram na pre- tamentos para o avançar da seguridade
sença maciça de delegados da área no social brasileira. O primeiro deles é a
Seminário Nacional. Se de um lado houve própria Carta do Brasil, que de maneira
equilíbrio e consenso nas “falas” das três sintética, porém densa, analisa as dificul-
áreas nas mesas temáticas, por outro lado, dades conjunturais colocadas ao processo
o desequilíbrio quantitativo entre os dele- mundial de ampliação de direitos e situa
gados presentes no Seminário Nacional nesse processo os entraves brasileiros
impediu que propostas, para eleição da considerando os importantes avanços
delegação brasileira, sustentadas na lógica conquistados desde a redemocratização. E
da paridade entre as áreas tivessem resso- os apontamentos seguintes se referem a
nância na plenária. Descartadas as propos-
necessidade de convocação da Conferência
tas de divisão igualitária de vagas ou algo
Nacional de Seguridade Social e da refun-
próximo disto, após longos e desgastantes
dação — sob novas bases — do Conselho
debates decidiu-se compor a delegação
Nacional de Seguridade Social.
nacional a partir dos delegados presentes
no Seminário, ficando aprovada a seguin-
te distribuição: 21 delegados mundiais da
área da saúde, cinco delegados mundiais Seminário Internacional Sistemas de Proteção
da área da assistência social, dois delega- Social desafios no contexto latino-americano
dos mundiais da área da previdência social
e 10 delegados mundiais representantes de Com uma extensa pauta de debates e
entidades nacionais afetas a seguridade composta por Conferências e painéis si-
social, totalizando as 38 vagas disponíveis multâneos o Seminário Internacional
para a sociedade civil. No campo gover- Sistemas de Proteção Social desafios no
namental, a divisão das vagas entre as contexto latino-americano promoveu o

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diálogo entre especialistas e implementa- Formulação de políticas, seus contor-
dores de políticas brasileiros e latino- nos institucionais, de um lado, e, avaliação
-americanos sobre desafios para a constru- e monitoramento, de outro, foram debati-
ção de sistemas de proteção social. De 8 a dos por especialistas do Brasil, Argentina,
11 de dezembro de 2009 o Seminário or- Uruguai, México, Estados Unidos, Espa-
ganizou-se em torno de três grandes eixos nha, Chile, Canadá e Costa Rica.
temáticos: Eixo I Intersetorialidade e In- Conclui-se que a necessidade de ins-
tegração; Eixo II Gestão, Institucionalida- titucionalização das políticas públicas é
de e construção de capacidades governa- premente, ao mesmo tempo em que é
mentais e Eixo III Avaliação de programas necessário universalizá-las (Yazbek);11 a
sociais. avaliação e o monitoramento das políticas
Com a participação de 18 países, den- públicas devem expressar o movimento
tre eles Argentina, Canadá, Costa Rica, da realidade, para tanto, a qualidade das
Chile, Colômbia, Espanha, Estados Uni- pesquisas precisa ser posta em xeque
dos, México, Uruguai e Brasil o Seminário (Vaistman)12 e a integração latino-ameri-
promovido pelo Ministério do Desenvol- cana pode contribuir para a construção de
vimento Social e Combate à Fome (MDS) uma agenda social que seja incorporada a
e o Banco Interamericano de Desenvolvi- ossatura dos diferentes estados nacionais
mento (BID) reuniu pesquisadores e ges- (Veiga).13
tores da área social induzindo a explicita- O Seminário se encerra com a propos-
ção de consensos sem se furtar das ta de intercâmbio permanente entre os
polêmicas. Gestão e produção de conheci- países para troca sistemáticas de experiên-
mento “formal” foram tratados como im- cias sobre os diferentes sistemas de prote-
portantes aliados para o enfrentamento da ção social.
pobreza e de desigualdades.
O protagonismo brasileiro na constru-
ção da proteção social foi evidenciado em Artigo recebido em dez./2009
quase todos os painéis com destaque para ■

o painel 1.1. Metodologias de trabalho com Aprovado em jan./2010


famílias que induzam o enfrentamento de
situações de vulnerabilidade, a proteção
11. Profa. dra. Maria Carmelita Yazbek foi respon-
integral e a garantia de direitos (Brasil,
sável pela sistematização do Eixo I.
Argentina e Colômbia) e no painel 1.3. A 12. Profa. dra Jeni Vaitsman foi responsável pela
contribuição dos programas de transferência sistematização do Eixo III.
de renda para o fortalecimento dos Sistemas 13. Profa. dra Laura da Veiga foi responsável pela
de Proteção Social (Brasil, Cepal e BID). sistematização do Eixo II.

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