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GESTÃO

AMBIENTAL
DE UNIDADES
PRODUTIVAS
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Paulo José Adissi
Francisco Alves Pinheiro
Rosangela da Silva Cardoso
(organizadores)

GESTÃO
AMBIENTAL
DE UNIDADES
PRODUTIVAS

ABEPRO
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ISBN 978-85-352-5159-3

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A181g Adissi, Paulo José
Gestão ambiental / Paulo José Adissi, Francisco Alves Pinheiro
e Rosangela da Silva Cardoso. - 1.ed. - Rio de Janeiro: Elsevier,
2013.
(ABEPRO)

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-352-5159-3

1. Engenharia ambiental 2. Gestão ambiental. I. Pinheiro, Francisco


Alves II. Cardoso, Rosangela da Silva. III. Associação Brasileira de
Engenharia da Produção. IV. Título. V. Série.
12-5759 CDD: 363.7
CDU: 504.06
_________________________________________________________________________
Organizadores

Paulo José Adissi


Paulo José Adissi, Dr. Ing. – DEP/UFPB
Em 1976, formou-se engenheiro de produção pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro e bacharel em Ciências Estatísticas pela Escola Nacional de Ciências Estatísti-
cas. Pela COPPE/UFRJ, diplomou-se mestre e doutor em Engenharia de Produção nos
anos de 1982 e 1997. É professor da Universidade Federal da Paraíba desde 1978, atu-
ando junto ao Departamento de Engenharia de Produção. Coordenou o curso de gra-
duação de Engenharia de Produção Mecânica em seus primeiros quatro anos (1996 a
2000) e o Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção da UFPB de 2005
a 2009. É líder do Grupo de Ergonomia Agrícola e Gestão Ambiental (GEA), que tem
como preocupação o estudo das condições de trabalho de atividades agrícolas e as
condições ambientais de sistemas de produção.

Francisco Alves Pinheiro


Francisco Alves Pinheiro, MSc. – CPROD/UNIVASF
Possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Ceará
(1990), especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho (2004), mestrado em
Engenharia de Produção pela Universidade Federal da Paraíba (2006) e é doutorando
em Segurança e Saúde Ocupacionais pela Universidade do Porto, em Portugal. Atu-
almente é professor assistente 3 da Universidade Federal do Vale do São Francisco
(UNIVASF). Tem experiência na área de Engenharia de Produção, com ênfase em er-
gonomia, atuando principalmente nos seguintes temas: agrotóxico, certificação, tra-
balho agrícola, competitividade e higiene, e segurança do trabalho.

Rosangela da Silva Cardoso


Rosangela da Silva Cardoso, MSc. – DEP/UFPB
Possui graduação em Engenharia Química pela Universidade Federal Fluminense
(1981) e mestrado em Ciência e Tecnologia de Polímeros pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (1997). Em 1984 ingressou no serviço público federal, onde perma-
nece, como Engenheira Química, lotada atualmente na Universidade Federal da Pa-
raíba. Participou de mais de 200 projetos relacionados a indústrias de polímeros, tem
experiência nas áreas de Polímeros e Ambiental, e vem atuando principalmente nos
seguintes temas: polímeros, embalagens, resíduos, gestão ambiental, desempenho
ambiental, logística reversa e logística ambiental.
Os autores

Cássia Maria Lie Ugaya


Cássia Maria Lie Ugaya, Dra. – DAMEC/UTFPR
Possui graduação em Engenharia Mecânica, mestrado em Planejamento de Siste-
mas Energéticos e doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual
de Campinas. Atualmente é professora da Universidade Tecnológica Federal do Pa-
raná, membro dos Conselhos Internacionais da Iniciativa do Ciclo de Vida do PNU-
MA /SETAC e do ecoinvent. Atuou como consultora do PNUMA e é cofundadora da
Rede Ibero Americana de Ciclo de Vida e da Associação Brasileira do Ciclo de Vida.
Tem experiência em Avaliação do Ciclo de Vida, especificamente nos seguintes temas:
análise de inventário do ciclo de vida, avaliação social do ciclo de vida, avaliação da
sustentabilidade do ciclo de vida e projeto para o ciclo de vida.

Electo Eduardo Silva Lora


Electo Eduardo Silva Lora, D.Sc. – NEST/IEM/UNIFEI
Possui graduação em Centrais Termelétricas pela Universidade Politécnica de
Odessa (1981), mestrado em Usinas Termoelétricas pela Universidade Politécnica de
Odessa (1981) e doutorado em Construção de geradores de vapor e reatores pela Uni-
versidade Politécnica de São Petersburgo (1988). Atualmente é professor adjunto da
Universidade Federal de Itajubá. É coordenador do Núcleo de Excelência em Geração
Termelétrica e Distribuída (NEST) e pesquisador 1C do Conselho Nacional de Pesqui-
sas (CNPq). Tem experiência na área de Engenharia Mecânica, com ênfase em gera-
ção termelétrica, atuando principalmente nos seguintes temas: biomassa, cogeração,
bagaço, centrais termelétricas e geração termelétrica.

Elmo Rodrigues da Silva


Elmo Rodrigues da Silva, Dr. Ing – DESMA/UERJ
Graduado em Engenharia Civil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(1979), mestre em Engenharia Ambiental pela Ecole Polytechnique Fédérale de Lau-
sanne (Suíça, 1983) e doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (1998).
Professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e ex-coordenador
VIII Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

adjunto dos programas de pós-graduação em meio ambiente (doutorado multidis-


ciplinar) e de engenharia ambiental (mestrado profissional). Bolsista PQ 2 do CNPq
desde maio de 2008. Área de atuação: Engenharia Sanitária e Ambiental; nos seguin-
tes temas: gestão ambiental, gestão de recursos hídricos, gestão de resíduos sólidos e
educação ambiental.

Francisco Gaudêncio Mendonça Freires


Francisco Gaudêncio Mendonça Freires, Dr. Ing. – DEM/UFBA
Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará (1996),
mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina
(2000) e doutorado em Engenharia e Gestão Industrial pela Faculdade de Engenharia
da Universidade do Porto (2007). Atualmente, é professor na graduação em Engenha-
ria de Produção e no programa de pós-graduação em Engenharia Industrial, ambos
na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Tem experiência na área de Engenharia de
Produção, com ênfase em logística empresarial e gestão de operações, atuando prin-
cipalmente nos seguintes temas: gestão da cadeia de suprimentos, sistemas logísticos
reversos, avaliação de desempenho e gestão de custos, gestão de operações.

Gilson Brito Alves Lima


Gilson Brito Alves Lima, D.Sc. – TEP/UFF
Possui graduação em Engenharia Civil (1988). Especialização em Engenharia de
Segurança do Trabalho (1995) pela Universidade Federal Fluminense e em Estudos de
Políticas e Estratégia pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra
(1996). Mestrado em Engenharia Civil (1992) pela Universidade Federal Fluminense.
Doutorado em Engenharia de Produção (2000) pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Atualmente é professor Associado da Universidade Federal Fluminense. Atua
acadêmica e profissionalmente na área de Engenharia de Produção, com ênfase em
Gerência de Produção, nos seguintes temas: gerência de riscos, manutenção, segu-
rança e gestão ambiental industrial.

José Adolfo de Almeida Neto


José Adolfo de Almeida Neto, Dr. Agr. – DCAA/UESC
Possui graduação, especialização e mestrado em Engenharia Agrícola pela Univer-
sidade Estadual de Campinas (1985, 1987 e 1992), e doutorado em Engenharia Agrí-
cola e Ambiental pela Universidade de Kassel (2006), reconhecido pela USP como
doutor em Energia (2009). Atualmente, é professor adjunto no Departamento de Ci-
ências Agrárias e Ambientais da Universidade Estadual de Santa Cruz e líder do grupo
de pesquisa Bioenergia e Meio Ambiente. Atua como docente responsável pela área
Os autores IX

de Avaliação de Impactos Ambientais dos cursos de graduação em Agronomia, tendo


sido coordenador do curso entre 2007 e 2009. Pertence ao corpo permanente de pro-
fessores no mestrado e doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Tem expe-
riência com pesquisa na área de Energia e Meio Ambiente, com ênfase em tecnologia
de produção de biodiesel e biogás e em métodos e técnicas de avaliação energética e
ambiental, incluindo: balanço energético, avaliação do ciclo de vida, pegadas de car-
bono e de água, e biodiversidade.

Julio Vieira Neto


Julio Vieira Neto, D.Sc. – LATEC/UFF
Graduado em Administração de Empresas e pós-graduado com MBA em Orga-
nização e Estratégia e em Gestão Empresarial. Mestre em Sistema de Gestão pela
Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor em Engenharia Civil pela UFF).
Professor, pesquisador e consultor empresarial com ênfase nas seguintes áreas: Estra-
tégia Empresarial, Finanças Corporativas e Gestão do Ciclo de Vida do Produto. Atuou
como executivo na área de negócio em empresas de grande e médio porte. Atua nas
seguintes áreas: Sustentabilidade, Planejamento Estratégico, Finanças Corporativa e
Qualidade.

Lúcia Helena Xavier


Lúcia Helena Xavier, D.Sc. – FUNDAJ/UFPE
Graduação em Biologia com Bacharelado em Genética pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (1997), mestrado (2001) e doutorado (2005) pelo Programa de Pós-
-graduação em Engenharia de Produção pela UFRJ. Experiência em gestão ambiental,
auditoria ambiental, avaliação de desempenho ambiental (ISO 14031), logística rever-
sa e gestão de resíduos. Bolsista Prodoc/Capes pelo Programa de Pós-graduação em
Engenharia de Produção da UFPB (2006). Pesquisadora associada na Coordenação de
Estudos Ambientais da Fundação Joaquim Nabuco (CGEA/Fundaj).

Luiz Carlos De Martini Junior


Luiz Carlos De Martini Junior, MSc. Ing – De Martini Ambiental
Possui graduação em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (1984) e mestrado em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro (1996). Doutorando em Meio Ambiente pela Universidade Estadual do
Rio de Janeiro (início: 2009). Atualmente é diretor da De Martini Ambiental. Tem ex-
periência na área de Engenharia Ambiental e Engenharia Química, atuando princi-
palmente nos seguintes temas: gestão ambiental, auditoria ambiental e sistemas de
gestão.
X Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Luziléa Brito de Oliveira


Luziléa Brito de Oliveira, MSc. – UESC
Bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
(UESB). Mestra em Bioenergia pela Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), com a
dissertação: Análise de viabilidade financeira do plantio de pinhão-manso no semi-
-árido baiano para produção de biodiesel. Doutoranda em Desenvolvimento e Meio
Ambiente pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Tem experiência na área
de Administração, com ênfase em Administração de Empresas, atuando principalmen-
te nos seguintes temas: contabilidade gerencial, análise e gestão de custos e gestão am-
biental. Orienta trabalhos de conclusão de cursos de graduação e pós-graduação.

Marcelo Jasmim Meiriño


Marcelo Jasmim Meiriño, D.Sc. – UFF
Professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Arquiteto e urbanista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre e
doutor em Engenharia Civil pela UFF. Coordenador no Núcleo de Inovação e Tecno-
logia para a Sustentabilidade NITS/UFF. Especialista em Sustentabilidade e Eficiência
Energética em Edificações, membro da Comissão de Responsabilidade Social do Ins-
tituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), e pesquisador e consultor
NITS/LATEC/UFF.

Márcio Montagnana Vicente Leme


Marcio Montagnana Vicente Leme, MSc. – IEM/UNIFEI
Possui graduação em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Itajubá
(2007) e mestrado em Engenharia da Energia (2010) pela mesma universidade. Tem
experiência na área de Engenharia Mecânica e Ambiental, com ênfase em aproveita-
mento de energia renovável e tratamento de efluentes, atuando principalmente nos
seguintes temas: biomassa, biocombustíveis, cogeração, gestão ambiental com ênfase
na análise do ciclo de vida (ACV) e aproveitamento energético de resíduos. Atualmen-
te, participa como pesquisador do Núcleo de Excelência em Geração Termelétrica e
Distribuída (NEST), participando conjuntamente na elaboração de projetos de P&D,
entre eles: geração de energia a partir de resíduos; geração de energia geotérmica; e
geração de energia a partir dos gases da carbonização da madeira.

Osvaldo Luiz Gonçalves Quelhas


Osvaldo Luiz Gonçalves Quelhas, D.Sc. – TEC/UFF
Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal Fluminense,
mestrado em Engenharia Civil pela Universidade Federal Fluminense e doutorado em
Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPE (1994).
Os autores XI

Atualmente é professor na graduação em Engenharia de Produção e nos programas


de pós-graduação em Engenharia Civil e Sistemas de Gestão, ambos na Universidade
Federal Fluminense (UFF). Tem experiência na área de Engenharia de Produção, com
ênfase em gestão da produção, planejamento e controle da produção (PCP), gestão
sustentável de organizações (produção mais limpa, governança, transparência e res-
ponsabilidade socioambiental empresarial).

Reidson Pereira Gouvinhas


Reidson Pereira Gouvinhas, Ph.D. – DEP/UFRN
Graduado em Engenharia Mecânica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro (1988). Mestre em Engenharia Mecânica pela Pontifícia Universidade Ca-
tólica do Rio de Janeiro (1991). Doutor em Engenharia do Produto pela Cranfield Uni-
versity no Reino Unido (1998). Pós-Doutor pela École Nationale Supérieure d’Arts et
Métiers à Chambéry na França (2010). Atualmente é professor associado IV da Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem larga experiência na área de Enge-
nharia de Produto, com ênfase em Metodologia de Projeto do Produto, atuando prin-
cipalmente nos seguintes temas: gestão do conhecimento aplicado ao processo de
desenvolvimento de produtos, ecodesign e marketing de produtos ambientais, além
de produção mais limpa e design para usabilidade.

Renata Paes de Barros Câmara


Renata Paes de Barros Camara, Dr. Ing – DFC/CCSA/UFPB
Possui graduação em Administração de Empresas pela Universidade de Ribeirão
Preto (1984), graduação em Ciências Contábeis – Instituição Moura Lacerda (1994) e
pós-graduação latu sensu em Controladoria Contábil. Mestre em Administração pelo
Centro Universitário de Franca (2000) e doutora em Engenharia Mecânica pela Escola
de Engenharia Mecânica de São Carlos – USP (2008). Atualmente é Coordenadora do
Curso de Ciências Atuariais da Universidade Federal da Paraíba. Professora Adjunta
II e docente do Programa Multi-institucional e Inter-regional de Pós-graduação em
Ciências Contábeis da UnB/ UFPB/UFRN. Tem larga experiência em perícia judicial
contábil/financeira e na área de Administração, com ênfase na área financeira e con-
tábil, atuando principalmente nos seguintes temas: gestão financeira, custos ambien-
tais, eco eficiência, empresa familiar, sucessão e seus custos.

Ricardo Moreira da Silva


Ricardo Moreira da Silva, Dr. Eng – PPGEP/UFPB
Engenheiro elétrico pela Universidade Federal de Campina Grande (1985) com
mestrado e doutorado (1994 e 2004) em Engenharia de Produção pela Universidade
Federal da Paraíba (UFPB). Doutorado (2011) em Administração pela Universidade
Federal de Pernambuco e pós-doutorado (2009) em Energia e Clima pela KTH – Sué-
XII Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

cia. É docente e pesquisador ligado à pós-graduação em Engenharia de Produção da


UFPB, trabalhando nas subáreas: Gestão Energética, Políticas Públicas no setor elétri-
co brasileiro estudando os atos regulatórios da ANEEL e Cooperativismo. Também de-
senvolve cálculo tarifário e avaliação de ativos também no setor elétrico. Tem experi-
ência em gerenciamento da produção, tendo coordenado 400 homens da montagem
de 12 dos 18 geradores da Itaipu. Foi chefe da montagem elétrica das subestações da
CVRD em São Luis e Diretor de Engenharia do Instituto de Previdência do Estado da
Paraíba responsável pela construção de 5.000 casas populares.

Rita de Cássia Silva Braga


Rita de Cássia Silva Braga, Bióloga MSc. em Desenvolvimento Regional e Meio Am-
biente – PRODEMA/UESC
Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia (2003) e mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente – Prode-
ma – Universidade Estadual de Santa Cruz (2011). Atua como docente da disciplina
Educação Ambiental para o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI/
BA. Atualmente faz parte do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação, Ambiente e
Sustentabilidade (GEPEAS) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Tem ex-
periência nas áreas de Avaliação de Impactos Ambientais, Fiscalização, Licenciamen-
to, Educação Ambiental e com pesquisa na área de avaliação ambiental de bicombus-
tível com ênfase em mudança no uso da terra e perda da biodiversidade.

Ronaldo Seroa da Motta


Ronaldo Seroa da Motta, Doutor Economia, pesquisador do IPEA, UERJ e IBMEC/RJ
Pesquisador do IPEA, Rio de Janeiro. Doutor em Economia pela University College
London (1985). Ex-diretor de Políticas ambientais do Ministério do Meio Ambiente
(1996-1997), ex-coordenador de Estudos de Regulação do Instituto de Pesquisa Econô-
mica Aplicada (IPEA) no Rio de Janeiro (1995- 2007) e ex-diretor da Agência Nacional
de Aviação para as áreas de Pesquisa e Relações Internacionais (2007-2009). É profes-
sor de Economia Ambiental da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e do
IBMEC/RJ. Também leciona Regulação Econômica e Regulação Ambiental em cursos
de MBA da FGV-RJ, PUC-RJ e UFRJ. Atua principalmente nos seguintes temas: regula-
ção econômica e ambiental e análise de custo-benefício.

Rosa Maria Barbosa Matos


Rosa Maria Barbosa Matos, Ph.D., GSMA – Governança Sustentável e Meio Ambiente
Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (1981), mestrado em Agronomia (Ciências do Solo) pela Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro (1995), doutorado em Agronomia (Ciências do Solo) pela Uni-
versidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2000), pós-doutorado pela Universidade
Os autores XIII

Federal do Rio de Janeiro (2005) em Desempenho Ambiental e MBA em Sistemas de


Gestão. Consultora na área de planejamento estratégico ambiental da empresa GSMA
– Governança Sustentável e Meio Ambiente.

Rosires Catão Curi


Rosires Catão Curi, Ph.D. – UAEC/UFCG
Graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal da Paraíba (1981), mes-
trado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Campina Grande (1986), es-
pecialização em Irrigação e Drenagem pela Universidade Federal da Paraíba (1986) e
doutorado em Systems Design Engineering pela University of Waterloo (1993), Cana-
dá. Atualmente é professora Associada da Universidade Federal de Campina Grande,
Bolsista PQ do CNPq e consultora ad hoc do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico. Consultora ad hoc da Revista Gepros – Gestão da produção e
sistemas, do departamento de Engenharia de Produção da Unesp de Bauru e Agriam-
bi, e da Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental. Tem experiência na
área de Engenharia Sanitária, com ênfase em planejamento integrado dos recursos
hídricos, atuando principalmente nos seguintes temas: otimização, modelos de oti-
mização e de simulação de sistemas hídricos, operação de reservatórios, irrigação e
programação linear. Tem atuado também nas áreas de: educação na engenharia, agri-
cultura familiar, resíduos urbanos e responsabilidade social de empresas. Foi coorde-
nadora e vice-coordenadora do programa de pós-graduação em Engenharia Civil e
Ambiental da UFCG e editora assistente da Revista Brasileira de Engenharia Agrícola
e Ambiental. Atua nos programas de pós-graduação em Engenharia Civil e Ambiental
da UAEC/UFCG e Recursos Naturais do CTRN/UFCG.

Sergio Luiz Braga França


Sergio Luiz Braga França, D.Sc. – TEC/UFF
Graduado em Engenheira Civil (UFF). Especialista em Engenharia de Segurança
do Trabalho (UFF). Mestre em Engenharia Civil (UFF). Doutor em Engenharia Civil
(UFF), com ênfase em Gestão, Produção, Qualidade e Desenvolvimento Sustentável.
Auditor líder em Sistema de Gestão Ambiental (BVQI). Avaliador líder do Prêmio Qua-
lidade Rio (PQRio). Professor adjunto I do Departamento de Engenharia Civil (UFF).
Pesquisador e professor do LATEC/UFF. Desde 2006, atua na elaboração e execução
de projetos de P&D nas áreas de Sustentabilidade, Qualidade, Responsabilidade So-
cial, Segurança do Trabalho e Desenvolvimento de Produto.

Thiago Alexandre das Neves Almeida


Thiago Alexandre das Neves Almeida, MSc. Ing – UACC/UFCG
Bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Federal da Paraíba (1997). Es-
pecialista em custos da qualidade pela Universidade Estadual da Paraíba (2001). Mes-
XIV Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

tre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal da Paraíba (2004). Mestre


em Ciências Contábeis pelo Programa de Pós-graduação Multi-institucional da UnB/
UFPB/UFRN (2011). Doutorando em Economia de Empresas pela Universidade de
Salamanca (Espanha) com bolsa da CAPES. Atualmente é Professor Assistente III da
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), atuando principalmente nas se-
guintes áreas: Contabilidade Ambiental e Sustentabilidade, Contabilidade Avançada,
Gestão Financeira e Teoria da Contabilidade.

Ubirajara Aluizio de Oliveira Mattos


Ubirajara Aluizio de Oliveira Mattos, Prof. Dr. DESMA/FEN/UERJ
Possui graduação em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro (1976), mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (1981) e doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade
de São Paulo (1988). Especialista em métodos de engenharia aplicados em melhorias
de condições de trabalho (NIIH/Japão, 1997). Consultor da OMS (1998-2000), da Opas
(2000-2002) e Jica (2002-2006). É professor titular da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro e coordenador nos Programas de Pós-graduação em Engenharia Ambiental
(2006-2010) e em Meio Ambiente (desde 2010), atuando no Departamento de Enge-
nharia Sanitária e Meio Ambiente da Faculdade de Engenharia. Tem experiência nas
áreas de Engenharia de Produção, com ênfase em higiene e segurança do trabalho,
e Engenharia Ambiental, com ênfase em gestão ambiental. Desenvolve estudos nos
temas: saúde do trabalhador, ergonomia, avaliação de riscos, gestão ambiental, coleta
seletiva solidária e trabalho informal.

Wilson Fadlo Curi


Wilson Fadlo Curi, Ph.D. – UAF/UFCG
Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Goiás
(1979), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal da Paraíba (1986)
e doutorado em Systems Design Engineering pela University of Waterloo (1992). Atu-
almente é professor associado da Universidade Federal de Campina Grande (da Uni-
dade Acadêmica de Física, do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil e Am-
biental e do Programa de Pós-graduação em Recursos Naturais), é consultor ad hoc do
CNPq, faz parte do comitê avaliador da revista Reunir e coordenador do grupo GOTA
– Grupo de Otimização Total da Água (www.gota.eng.br). Tem experiência na área de
Engenharia de Recursos Hídricos, com ênfase em Teoria de Sistemas e Otimização,
atuando principalmente nos seguintes temas: otimização (modelagem matemático-
-computacional envolvendo análise multicriterial, programações linear e não linear),
simulação e planejamento integrado em sistemas de recursos hídricos (aspectos mul-
ti-objetivos, quali-quantitativos da água e seus múltiplos usos relativos a operação de
reservatórios, irrigação, geração de energia, piscicultura, redes hidráulicas, etc.).
Prefácio

A gestão ambiental é, hoje, uma função indispensável em toda organização, de


qualquer tipo e porte. Uso eficiente de recursos naturais, gestão de resíduos, pegadas
hídrica e de carbono são alguns temas em pauta.
Organizar a produção – de bens e serviços – requer não apenas a observância de
leis, regulamentos, requisitos de instituições financeiras ou códigos voluntários de
conduta – todos em números sempre crescentes. Organizar a produção também re-
quer, e mais do que nunca, estar atento a riscos e oportunidades futuras: energias
renováveis, mobilidade urbana de baixo impacto, construções mais sustentáveis, lo-
gística reversa e tantos outros conceitos já incorporados ao rol das questões da atuali-
dade e aos quais outros vão sendo continuamente acrescentados.
Entretanto, as empresas, órgãos públicos e organizações do terceiro setor encon-
tram-se em estágios muitos diferentes em suas estratégias de gestão ambiental e de
enfrentamento dos desafios da sustentabilidade. Dentre as empresas – principal foco
deste livro –, ainda há as que tentam burlar a lei, aquelas que não atendem a legisla-
ção por falta de orientação técnica, deficiências de organização ou despreparo para
lidar com situações de emergência. Há também as que estão em conformidade por
mero acaso e aquelas que têm sistemas e controles sofisticados de gestão.
É nesta diversidade que o leitor vai encontrar uma grande contribuição neste livro
organizado pelos professores Paulo José Adissi, Francisco Alves Pinheiro e Rosangela
da Silva Cardoso. São apresentados temas fundamentais de gestão ambiental – emis-
sões atmosféricas, efluentes líquidos, resíduos sólidos e eficiência energética – ao lado
de ferramentas de planejamento e gestão – avaliação de impacto ambiental, análise
de ciclo de vida, análise multicritérios, avaliação de desempenho ambiental, conta-
bilidade ambiental, sistemas de gestão ambiental e valoração econômica – e de uma
discussão sobre motivadores de mercado e estratégias organizacionais para o desen-
volvimento sustentável, tudo precedido de conceitos básicos e de uma síntese da le-
gislação ambiental brasileira.
Uma das riquezas desta obra está na multiplicidade de autores, que provêm de
diversas universidades brasileiras. Mesmo com grande número de autores, o livro
mantém uma linha coesa e apresenta um amplo panorama das questões de atuali-
dade no campo da gestão ambiental. Assim, ao lado de diretrizes que se aplicam a
grandes empresas – como as práticas voluntárias no âmbito dos mercados de valores
mobiliários –, o livro trata de temas que se aplicam a uma variada gama de empresas
– como a gestão dos resíduos sólidos à luz dos requisitos da nova legislação brasileira.
As diretrizes de gestão mais avançadas, embora se apliquem a um número peque-
no de organizações, têm grande importância, na medida em que se trata de grandes
empresas que têm importante poder multiplicador e são capazes de disseminar boas
práticas, uma vez que adotam requisitos ambientais, sociais e de sustentabilidade na
relação com seus fornecedores.
Ferramentas já consolidadas, como a avaliação de impacto ambiental e os siste-
mas de gestão ambiental, são explicadas ao lado de ferramentas cuja difusão no País
ainda é relativamente pequena – como a avaliação do ciclo de vida, a avaliação de
desempenho ambiental e a otimização do uso de recursos naturais.
A gestão de custos ambientais, sua evidenciação e mensuração é outro tema que
demanda avanços, tanto teóricos quanto empíricos, para que se possa ter maior uso
e influência nas decisões tomadas pelas empresas. As normas e recomendações in-
ternacionais já existentes e desenvolvidas no âmbito de iniciativas de organizações
internacionais do sistema das Nações Unidas ainda são pouco difundidas no Brasil.
Na mesma linha, a valoração econômica de bens e serviços ambientais é assunto
que, embora em pauta já há algumas décadas, continua de grande atualidade. O tema
é tratado com rigor conceitual e ilustrado por estudo de caso no último capítulo do
livro.
Finalmente, um tema de gestão ambiental muito relevante para as políticas pú-
blicas e que influencia as ações das empresas é o suprimento de energia, tratado em
sua atualidade em um capítulo dedicado ao tema. A energia permeia todas as ativida-
des produtivas e, ainda que a eficiência energética continue melhorando, o consumo
bruto continua a crescer mais rápido do que as iniciativas de conservação de energia.
Gestão Ambiental de Unidades Produtivas certamente atrairá leitores de várias áre-
as, mas é oportuno observar que interessa particularmente ao estudante e ao profis-
sional da Engenharia de Produção, que atua transversalmente aos demais ramos da
Engenharia e em todo tipo de unidade produtiva.

Prof. Luis Enrique Sánchez


Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP)
Apresentação

A intenção deste livro é facilitar o estudo da Gestão Ambiental (GA) para os estu-
dantes de Engenharia de Produção (EP) e áreas afins. Para tanto, buscou-se delimitar
os assuntos pertinentes à GA de Unidades Produtivas que deve ser vista nos currículos
de Engenharia. Essa delimitação não foi uma tarefa fácil, já que a disciplina Gestão
Ambiental, incluída pela ABEPRO na subárea de Engenharia da Sustentabilidade, ain-
da não segue um padrão curricular nas diversas instituições de ensino. No levanta-
mento realizado, entre os anos de 2010 e 2011, observou-se que a maioria das institui-
ções prioriza as noções de ecologia, não chegando a abordar a GA propriamente dita.
Vencida essa etapa, buscou-se identificar e convidar especialistas nos diversos temas
selecionados. Aqui, a tarefa foi facilitada pela presença de docentes e pesquisadores
de elevada competência que atuam na área ambiental em suas instituições de ensino.
Optou-se por uma estrutura de 14 capítulos. Iniciando pelos principais concei-
tos da ecologia e da GA e os marcos da legislação ambiental brasileira (Capítulo 1,
Conceitos básicos da gestão ambiental, de Adissi e Almeida Neto), seguindo-se pela
apresentação e discussão das motivações e oportunidades do mundo do negócio para
a adoção de medidas de controle ambiental (Capítulo 2, Motivadores mercadológicos
para o desempenho ambiental, de Quelhas, Meriño e Vieira Neto; e Capítulo 3, Estraté-
gias da organização para o desenvolvimento sustentável – motivadores mercadológicos
para o desempenho ambiental, de Gouvinhas). A partir do quadro conceitual, legis-
lativo e negocial, é apresentado, de forma detalhada, o sistema de gestão ambiental
nos moldes da ISO 14001 (Capítulo 4, Normalização e gestão ambiental no contexto da
ISO 14001, de Lima e França) e as técnicas específicas da GA envolvendo a identifica-
ção, avaliação e controle dos impactos ambientais vistas em cinco capítulos: Avalia-
ção de impactos ambientais (Capítulo 5, de Almeida Neto, Oliveira e Braga), Processos
produtivos e a poluição ambiental (Capítulo 6, de Lora e Leme), Gestão de efluentes
(Capítulo 7, de Mattos, Silva e Martini Junior), Os resíduos sólidos e a logística reversa
(Capítulo 8, de Freires e Pinheiro), Avaliação do ciclo de vida de produtos (Capítulo 9,
de Ugaya). Em seguida, retorna-se a uma abordagem de gestão propriamente dita,
através de três capítulos: Indicadores de desempenho ambiental corporativo (Capítulo
10, de Xavier e Matos), A otimização do uso de recursos naturais (Capítulo 11, de Curi
e Curi) e Custos ambientais (Capítulo 12, de Almeida e Câmara). Nos capítulos finais,
discutem-se os impactos das diferentes formas de energia (Capítulo 13, Energia e sus-
tentabilidade ambientais, de Silva) e os métodos de valoração ambiental (Capítulo 14,
Valoração econômica ambiental, de Seroa da Motta).
Contudo, antes de o leitor iniciar o estudo da GA, é importante ter em mente al-
guns aspectos que aqui serão salientados.
É sabido que a EP preocupa-se com todos os aspectos dos sistemas produtivos: se-
jam os ligados às suas funções tradicionais, como o de projetar produtos e processos,
manter e melhorar processos em termos de produtividade, qualidade e custo; sejam
os ligados às suas disfunções, procurando minimizar seus efeitos negativos à qualida-
de ambiental, à saúde dos trabalhadores e dos consumidores de seus produtos. Numa
visão mais ampliada, deve-se englobar esses aspectos definindo a missão da Unidade
Produtiva como sendo a de gerar produtos e serviços que satisfazem necessidades hu-
manas sem agredir o ambiente e sem gerar danos psicofisiológicos aos trabalhadores e
aos consumidores.
Embora se justifique o estudo da disciplina de GA em todos os currículos de En-
genharia, e principalmente nos de EP, é importante perceber que, à semelhança do
que ocorre com a área da Segurança e Saúde Ocupacional, a GA tem um caráter mul-
tidisciplinar e transversal. A transversalidade da GA é necessária, uma vez que as de-
mais disciplinas da EP devem incluir as preocupações ambientais em seus critérios
de análise. Ou seja, uma disciplina de GA é necessária mas não suficiente à boa for-
mação de um engenheiro. A atenção aos danos ambientais deve estar presente em
todas as disciplinas de projeto, manutenção e otimização de sistemas produtivos,
incluindo-se aqui os destinados ao lazer e entretenimentos.
Ligada à questão da transversalidade da GA, que exige sua presença em todas as
áreas da Engenharia, está a necessária unidade da Gestão da Produção. A Gestão da
Produção é uma só. Na academia, diversas disciplinas abordam aspectos específicos
da Gestão da Produção, como qualidade, produtividade, custos e manutenção. Já nas
empresas, essas abordagens podem dar origem a diversos departamentos adminis-
trativos. Mas, ainda assim, visitada por diversas disciplinas e sendo vivenciada por
diversas equipes de controladores, supervisores e gerentes, a Gestão da Produção é
uma só.
Um último aspecto da GA, não menos importante, é a presença de pessoas nos
processos produtivos. Toda gestão envolve pessoas, e, no caso da GA, a complexidade
humana não deve ser negligenciada, sob pena de que boas soluções técnicas de pro-
jeto podem se tornar inviáveis na sua implantação. Os trabalhadores – operadores dos
sistemas produtivos – são quem realizam as ações que podem ou não causar danos
ambientais. Isso pressupõe uma boa integração da GA com a Ergonomia, na finaliza-
ção dos planos operacionais de controle ambiental.
Feitas essas ressalvas, desejamos um bom estudo a todos que buscam formas de
organização da produção de bens e serviços que não causem danos ambientais ao
planeta.
1
Conceitos básicos da
gestão ambiental
Paulo José Adissi
José Adolfo de Almeida Neto

Conceitos apresentados neste capítulo


Este capítulo apresenta os conceitos básicos pertinentes ao objeto central deste livro,
delineando-se seus limites junto à Engenharia Ambiental e sua inserção na Engenharia
de Produção. Uma síntese da legislação ambiental brasileira é apresentada por meio de
uma abordagem histórica e, por último, descreve-se sucintamente os assuntos abor-
dados em cada um dos capítulos desta obra. Dessa forma, neste capítulo introdutório
propõe-se apresentar ao leitor uma visão geral do livro e pontuar aspectos conceituais
relevantes à compreensão da matéria.
2 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

1.1. Introdução
De forma crescente, os desastres ambientais e a discussão sobre suas causas estão
ocupando espaço nos noticiários de todas as mídias atuais. Apesar de divergências entre
cientistas quanto à interpretação da crise ambiental, uma ampla maioria reconhece nas
ações humanas a origem dos principais problemas que têm afetado negativamente os
recursos ambientais e socioeconômicos em diferentes partes do planeta.
Por outro lado, é importante reconhecer que a economia e o setor produtivo ignora-
ram, por muitos anos, os efeitos negativos das atividades antrópicas no meio ambiente.
Pode-se exemplificar essa situação contando uma história vivenciada por uma turma
de graduandos de Engenharia de Produção nos primeiros anos da década de 1970:
O cenário era o de uma mal cheirosa fábrica de artefatos de couro localizada em um
subúrbio carioca, próximo à Baía de Guanabara. E a explicação técnica sobre o canal
mal cheiroso que saía da fábrica e cruzava o bairro em direção à Baia foi a seguinte: um
colega de vocês (engenheiro recém-formado) fez um excelente estudo de viabilidade técnica
e econômica da instalação de uma estação de tratamento das águas residuais da fábrica e a
sua conclusão foi que, embora a empresa fosse obrigada a ter a estação de tratamento, a lei
que a obrigava, previa para os infratores uma multa com valores crescentes. Comparando
esses valores com o investimento necessário para o cumprimento da lei, o jovem engenheiro
concluiu que levaria 15 anos até que a estação de tratamento fosse a opção mais vantajosa
do ponto de vista econômico. Dessa forma, a Baía de Guanabara continuou sendo poluída
pela empresa legalmente constituída.

Deste caso, percebe-se como os empresários e as leis da época tratavam o meio


ambiente. Hoje uma empresa que se arrisca a infrigir as leis ambientais, arrisca-se a
receber elavadas multas e a ter má imagem junto aos seus clientes.
Ainda na comparação entre as épocas, notamos que os próprios cursos de Enge-
nharia, e em particular o de Engenharia de Produção, não davam atenção às questões
ambientais. Hoje a situação é diferente: todos os cursos de Engenharia1 oferecem
alguma disciplina na área, e a Engenharia de Produção considera a gestão ambiental
como uma de suas áreas de atuação.
Mas o que vem a ser gestão ambiental, foco central deste livro?
Recorrendo à etimologia, a palavra gestão advém da expressão latina gestìo como
ação de administrar, dirigir, controlar, gerenciar, enquanto ambiental refere-se a tudo
que seja relativo ao meio ambiente, um conceito que, na língua portuguesa, assumiu
uma forma redundante e controversa, quando investigamos a origem das palavras.
Do ponto de vista etimológico, a palavra meio vem do latim medieu que significa
meio, centro, conduzindo a conotações espaciais, no sentido de estar dentro, cercado,
envolvido por algo ou alguém. A palavra ambiente vem do latim ambire, sendo com-
posta por dois vocábulos, amb, preposição que significa ao redor, à volta, e ire do verbo
ir (Spitzer, 1942).

1
A Resolução CNE/CES 11, de 11/03/2002, inclui as ciências do ambiente no núcleo de conteúdos bá-
sicos para o ensino de Engenharia.
Capítulo 1 s#ONCEITOSBÕSICOSDAGESTáOAMBIENTAL 3

Essa forma composta, tida como redundante, tem seu uso consagrado nos países de
língua portuguesa e espanhola, e busca reforçar o caráter de totalidade e coexistência
entre o ser e o seu ambiente. Em outras línguas, este conceito de totalidade aparece de
forma bem clara em uma única palavra, como na língua francesa com environnement,
apropriada pelo inglês como environment, e no alemão como Umwelt, Um + Welt (à
volta + mundo) (Trepl, 1998).
Neste sentido, esta obra irá priorizar o uso da palavra ambiente, no lugar do conceito
mais usual de meio ambiente.
Na área de planejamento e gestão ambiental, o conceito de ambiente tem sido em-
pregado de forma ampla, englobando tanto os aspectos de natureza ecológica como
os da sociedade humana. Pode-se conceituar ambiente como o conjunto de condições
materiais, culturais, psicológicas e morais que envolve uma ou mais pessoas. Em suma,
é tudo que nos cerca. Assim, fala-se em ambiente físico, ambiente psicológico, ambiente
cultural, entre outras denominações. Como aqui o foco é o da Gestão Ambiental de
Unidades Produtivas, a preocupação maior é com o ambiente físico material, como
solo, águas superficiais e subterrâneas e ar, incluindo também as diferentes formas de
energia, como as vibrações (ruídos inclusive), irradiações, luz e calor.
Por outro lado, a legislação brasileira reafirma, em seus dispositivos ambientais, a
necessidade de considerar, além dos aspectos físicos e ecológicos de uma determinada
proposta, suas consequências em outros aspectos da esfera humana, como o social, o
econômico, o cultural e o estético (Milaré, 2001).
Tal postulação tem sua lógica baseada no fato de a maioria das propostas ditas de
desenvolvimento promover alterações ecológicas com repercussões significativas nas
esferas social, econômica e cultural das comunidades ou populações existentes em
sua área de influência.
Sabe-se que a gestão da produção de bens e serviços deve incluir todos os seus fa-
tores (materiais, pessoas, equipamentos, processos) e todos seus aspectos funcionais
(produtividade, qualidade). Mas, além desses aspectos, há também a necessidade de
se gerir as disfunções do processo produtivo, ou seja, os seus impactos negativos sobre
as pessoas que trabalham (Gestão de Saúde e Segurança do Trabalho) e o ambiente
(Gestão Ambiental), assim como possíveis danos aos consumidores de seus produtos
(Gestão da Satisfação dos Clientes).
Note que, quando se fala de gestão da qualidade, se trata das ações que devem ser
controladas para garantir a existência de determinados aspectos no produto material
fabricado ou no serviço realizado. Desse modo, a gestão da qualidade tem como objeto
o processo produtivo e, como objetivo, o produto com qualidade compatível com as
exigências do cliente. Já as atenções da gestão ambiental voltam-se para esse mesmo
objeto, ou seja, o processo produtivo, só que com o objetivo de minimizar seus efeitos
sobre o ambiente, a fim de garantir padrões ecológica e socialmente aceitáveis de
qualidade ambiental.
A gestão ambiental tem fronteiras e se relaciona com praticamente todas as demais
subáreas da Engenharia de Produção, dependendo das estratégias empresariais ou
interferindo nelas, no projeto do produto, na engenharia de métodos, no planeja-
4 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

mento da produção e na gestão da qualidade, podendo se beneficiar das ferramentas


da engenharia econômica, da pesquisa operacional e dos sistemas de informação do
processo produtivo.
Para facilitar a compreensão do conceito gestão ambiental, será utilizado um
exemplo de situação produtiva: a venda de “picolé da praia”, organizada segundo o
fluxograma da Figura 1.1, adiante.
Em uma primeira análise desse processo, consegue-se identificar aspectos que po-
dem impactar o ambiente, como os decorrentes dos transportes que envolvem o uso de
combustível fóssil (diesel) e suas consequentes emissões, como os gases de efeito estufa
(CO2, NO2) e de monóxido de carbono (CO). No entanto, se o consumo do produto fosse
incluído na análise, seria considerada a geração de resíduos no descarte da embalagem
do picolé (papel com tinta) e do palito (que pode ser de madeira ou plástico). Pode-se
também incluir o processo de produção, propriamente dito, do picolé. Dessa forma, a
análise abrangeria o processo de fabricação, o serviço da venda na praia e o consumo
(Figura 1.2), que fazem parte do ciclo de vida do produto.

Figura 1.1. Fluxograma do processo de venda do “picolé da praia”.


Capítulo 1 s#ONCEITOSBÕSICOSDAGESTáOAMBIENTAL 5

Figura 1.2. Fluxograma dos processos de fabricação, venda e consumo do “picolé da praia”.

Antes de seguir adiante na análise dos aspectos ambientais desse processo produtivo,
serão vistos alguns conceitos importantes para a gestão ambiental.

1.2. Conceitos básicos em gestão ambiental


Na análise da qualidade dos recursos naturais, deve-se incluir seus componentes
vivos (bióticos) e não vivos (abióticos). Sabe-se que os seres vivos se organizam em
ecossistemas, que representam a reunião de todos os organismos vivos de uma área
6 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

determinada e suas inter-relações com o ambiente físico e com os fluxos de energia.


Assim sendo, dependendo da dimensão da área, pode-se referir a macro ou microe-
cossistemas. Para situar melhor o ecossistema como uma das formas de organização
da vida, ver o esquema da Figura 1.3.

Figura 1.3. Sistemas e elementos vitais.

O conjunto de seres vivos de um ecossistema é chamado de biota, e a parte da


Terra habitada pelos ecossistemas chama-se biosfera, que tem seu limite superior na
camada de ozônio da atmosfera terrestre, que alcança cerca de 7 km nos polos e 14
km no equador, e seu limite inferior atinge pequenas profundidades em solo seco e
cerca de 10 km no mar.
Chega-se então à ecologia, palavra que, ultimamente, passou a ser, segundo o senso
comum na comunidade midiática, o cuidado com a natureza ou algo semelhante. Em
termos acadêmicos, a ecologia é definida como a ciência que estuda os ecossistemas, ou
seja, é o estudo científico da distribuição e abundância dos seres vivos e das interações
que determinam a sua distribuição.
Etimologicamente, a palavra ecologia tem origem no grego oikos, que significa
casa, e logos, estudo. Assim, por extensão, seria o estudo da casa, ou, de forma mais
genérica, do lugar em que se vive. O cientista alemão Ernst Haeckel usou este termo,
pela primeira vez, em 1869, para designar o estudo das relações entre os seres vivos e
o ambiente em que vivem.
Para facilitar a compreensão e o processo de avaliação dos efeitos e impactos am-
bientais de um determinado projeto, empreendimento ou atividade, utilizam-se os
conceitos de ambiente natural – englobando os fatores bióticos, também conhecidos
por meio biológico (flora, fauna e microrganismos), e os fatores abióticos, ou do meio
físico (água, ar, rochas, solo) – e ambiente antrópico – englobando os fatores de ordem
social, econômica e cultural, também conhecidos por meio socioeconômico.
Os termos aspecto e impacto ambiental têm sido usados em muitas situações, na
literatura técnica, como sinônimos, porém, nos estudos ambientais, é importante
serem diferenciados.
O conceito de aspecto ambiental tem seu uso associado às normas série ISO
14000, conforme será visto no Capítulo 4, sendo definido por “elemento de atividades,
Capítulo 1 s#ONCEITOSBÕSICOSDAGESTáOAMBIENTAL 7

produtos ou serviços de uma organização que pode interagir com o meio ambiente”
(ISO 14001:2004, item 3.6). Já os impactos ambientais são as alterações induzidas pelas
atividades humanas. O impacto deve ser entendido com uma alteração no valor de um
determinado parâmetro ambiental ao longo do tempo, com relação ao seu valor, caso
nenhuma atividade humana tivesse sido realizada (Figura 1.4).

Figura 1.4. Impacto ambiental adverso e benéfico.


Fonte: Wathern, 2004.

Portanto, a definição de impacto ambiental inclui tanto alterações negativas ou


adversas como positivas ou benéficas, em consequência das ações de determinado
projeto ou empreendimento. Do ponto de vista legal, a Resolução Conama n. 001/1986,
em seu art. 1., define impacto ambiental como:

Qualquer alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas do meio


ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das
atividades humanas, que direta ou indiretamente afetem:
I – a saúde, a segurança e o bem-estar da população;
II – as atividades sociais e econômicas;
III – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente;
IV – a qualidade dos recursos ambientais.

É oportuno aqui diferenciar os conceitos de impacto ambiental e de poluição, uma


vez que, em muitas situações, tais conceitos também têm sido empregados erronea-
mente como sinônimos. O conceito de poluição se refere a grandezas físicas (por meio
de fluxos de matéria ou energia), que podem promover alterações das propriedades
(físicas, químicas ou biológicas) do ambiente, portanto possui uma conotação clara-
mente negativa ou adversa. Já os impactos ambientais não estão vinculados somente
a fluxos energéticos e de materiais, podendo estar associados a fatores de ordem social
ou cultural e assumir conotações benéficas, o que não é o caso da poluição.
8 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Uma das classificações dos tipos de poluição é feita de acordo com o elemento
natural atingido:
(a) Ar – emissões de gases e poeiras.
(b) Solo – deposição de resíduos (sólidos ou líquidos).
(c) Água – despejo de efluentes.
É importante notar que os movimentos e transformações que ocorrem na natureza
fazem que um determinado agente poluidor se propague, se anule ou se potencialize,
seja através das intempéries naturais (irradiação solar, chuvas, ventos etc.), seja por
transformações químicas ou por ações biológicas. Um esquema parcial desses tipos
de propagação pode ser visto na Figura 1.5.

Figura 1.5. Processo de propagação de agentes poluidores.

Dessa forma, para se conhecer o caminho da propagação de um agente poluidor,


é necessário conhecer suas interações e características físicas (dimensão, massa e
energia), químicas (possibilidades de reação com elementos presentes no ambiente)
e biológicas (possibilidades de assimilação por organismos vivos).
Até aqui, foram referidos os impactos ambientais decorrentes das ações humanas
que lançam elementos ou substâncias em qualidade e quantidade incompatíveis com
o funcionamento dos sistemas naturais. Porém, há também os impactos ambientais
decorrentes da utilização dos recursos naturais, comuns a praticamente todas as ati-
vidades econômicas humanas, principalmente as primárias, ou seja, o extrativismo
vegetal, a caça, a pesca, a agricultura, a pecuária e a mineração.
Importante salientar que eventos naturais também provocam efeitos ambientais
adversos, como as fortes chuvas, os deslizamentos de terra, as secas, os terremotos, os
tsunamis e as erupções vulcânicas. Essas intempéries, muitas vezes, têm a participação
humana, seja na origem ou na potencialização dos seus efeitos, caracterizando-se,
dessa forma, propriamente, o que denominamos impacto ambiental.
Agora que os conceitos mais importantes da ecologia e da gestão ambiental já foram
apresentados, a análise ambiental do caso do “picolé da praia” será retomada.
Capítulo 1 s#ONCEITOSBÕSICOSDAGESTáOAMBIENTAL 9

1.3. As ações da gestão ambiental


De forma simplificada, um gestor ambiental de um processo produtivo desenvolve
esforços para: identificar os aspectos ambientais significativos, ou seja, aqueles capazes
de provocar impactos ambientais relevantes; especificar as formas de controle desses
aspectos, considerando custos e eficiência; implantar e manter a solução mais susten-
tável para neutralizar as ações danosas do aspecto identificado.
Na identificação dos impactos significativos, são realizados estudos detalhados
sobre as condições operacionais do processo produtivo, observando-se os aspectos de
entrada, como consumo energético, de água e demais insumos, e os aspectos de saída,
como os resíduos sólidos, os efluentes, as poeiras, os gases e a liberação de energia
(calor, irradiação e vibrações). O estudo das legislações específicas que tratam dos
aspectos observados é sempre necessário, mas, em geral, não suficiente para a tomada
de decisão sobre quais aspectos ambientais deverão ser controlados.
A especificação da solução de controle, em grande parte das situações, não é da
competência exclusiva do gestor ambiental. Dessa forma, deverá se recorrer aos
conhecimentos técnicos das demais áreas da Engenharia Ambiental, já que nem
sempre os gestores ambientais detêm a competência técnica para especificar, por
exemplo, uma estação de tratamento de água ou definir o tipo de filtro e altura de
uma chaminé. O gestor pode e deve participar desse tipo de decisão, já que sabe o
que o sistema de controle deve promover, mas, em geral, a especificação técnica
desse sistema foge de sua competência. A decisão não depende apenas do equacio-
namento técnico das alternativas de solução, mas de análise de investimentos, custos
e resultados ambientais.
Na implantação do sistema de controle, o gestor irá verificar a eficiência da solução
comparando os resultados obtidos com os resultados esperados, verificando os ajustes
técnicos e operacionais necessários, elaborando ferramentas de registros de medições
e promovendo treinamentos.
A manutenção do sistema de controle depende de aferições periódicas de instru-
mentos e identificação de dificuldades operacionais que passam a ser tratadas como
oportunidades de melhoria do sistema, na medida em que novas ações são desenvol-
vidas para superar essas dificuldades.
Para se entender melhor esses conceitos, será feita uma aplicação direta ao caso da
produção, venda e consumo do “picolé da praia”. Uma forma de apresentar graficamente
os impactos ambientais negativos é por meio de um aspecto-fluxograma, ou seja, um
fluxograma do processo como o da Figura 1.6, no qual são identificados os aspectos
ambientais de entrada e de saída.
Dentre esses aspectos destaca-se, pela fragilidade do ecossistema da areia da praia
e do mar, a geração de resíduos do consumo. Para o controle desse impacto, deverá
ser desenvolvido um sistema eficiente de coleta, incluindo coletores em quantidades
e localizações adequadas, o que, em geral, é de responsabilidade da prefeitura e deve
ser acompanhado por uma eficiente campanha de educação ambiental junto aos ba-
nhistas, buscando a necessária adesão ao sistema de coleta.
10 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 1.6. Aspecto-fluxograma dos processos de fabricação,


venda e consumo do “picolé da praia”.
Capítulo 1 s#ONCEITOSBÕSICOSDAGESTáOAMBIENTAL 11

Para a redução dos impactos relacionados ao transporte, é importante o controle


das emissões veiculares, através de revisões periódicas e, se possível, da utilização de
combustíveis menos impactantes, como os biocombustíveis, que possibilitam a redução
de determinados poluentes e reduzem a pressão sobre o uso dos recursos naturais não
renováveis, como o gás natural e o petróleo.
A redução do consumo de energia elétrica do processo pode ser alcançada a partir
da implantação de um programa de eficiência energética. Outra questão relevante a ser
analisada se refere às rotinas de operações, já que uma revisão desses procedimentos
operacionais pode promover reduções significativas no consumo energético.
Para a redução do consumo e descarte de água no processo de fabricação, mesmo
considerando as exigências sanitárias, deve-se estudar a possibilidade de implantação
de um programa de tratamento e reaproveitamento das águas residuárias (recirculação).
No caso dos resíduos sólidos das embalagens dos materiais utilizados na fabricação
do picolé (papel, papelão, plástico e vidro), deve-se implantar um sistema de segrega-
ção e armazenamento para posterior encaminhamento a organizações de catadores
ou diretamente a recicladoras.

1.4. Legislação ambiental (brasileira): histórico e


evolução
O acelerado processo de industrialização e urbanização nos países ocidentais,
especialmente na Europa e na América do Norte, iniciado antes da Primeira Guerra
Mundial e que se estendeu até o período posterior à Segunda Guerra Mundial, provocou
a degradação dos recursos naturais, deteriorando a qualidade de vida das populações
desses países.
Grupos sociais organizados e acadêmicos, primeiramente nos Estados Unidos,
iniciaram um movimento de questionamento dos custos sociais e ambientais resul-
tantes desse modelo de desenvolvimento. O livro Primavera Silenciosa (Silent Spring),
publicado em 1962, é considerado um marco do despertar da sociedade para os efeitos
colaterais das atividades econômicas relacionadas à urbanização e à modernização
agrícola e industrial intensificadas neste período (Carson, 1969).
Este movimento social da década de 1960 é considerado o principal mobilizador
político, que levou o Congresso Americano a formalizar um regulamento específico de
proteção ambiental, o NEPA (National Enviromental Policy Act), aprovado no final de
1969 e publicado em 1. de janeiro de 1970, sendo considerado, internacionalmente,
um marco na instituição da Avaliação de Impactos Ambientais e na proposição de um
Conselho de Qualidade Ambiental (Council Environment Quality – CEQ), com o ob-
jetivo de alavancar o desenvolvimento de critérios e padrões de qualidade ambiental
(Ab'Saber e Müller-Plantenberg, 2002).
O NEPA estabeleceu os princípios e as linhas gerais da política ambiental america-
na, direcionando o estabelecimento dos procedimentos legais para a proposição, em
1973, da Declaração de Impacto Ambiental (Environmental Impact Statement – EIS),
12 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

correspondendo, no procedimento legal nacional, ao Estudo de Impacto Ambiental e


o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA). Em 1968, cientistas reuni-
dos em Roma apresentaram suas preocupações com o destino do planeta, prevendo
a tendência do esgotamento de seus recursos naturais. Esse grupo de cientistas ficou
internacionalmente conhecido como o Clube de Roma, e suas ideias foram sintetizadas
por Dennis L. Meadows, no livro Os Limites do Crescimento (1972), atualizado em Para
Além dos Limites (1992) e em Limits to Growth: the 30 Year Update (2004), constituindo,
até os dias atuais, uma das principais referências para o debates sobre a necessidade
ou não de se estabelecer limites para o desenvolvimento industrial.
Mesmo consideradas na época como alarmistas e visionárias, as ideias desse grupo
de cientistas – de que o congelamento do crescimento populacional e industrial era
imprescindível para se alcançar a estabilidade econômica e ecológica – foram a prin-
cipal motivação para a realização das primeiras discussões sobre o meio ambiente na
Organização das Nações Unidas (ONU).
Ainda em 1972, foi realizada, em Estocolmo, a Conferência das Nações Unidas para
o Meio Ambiente, sendo criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
(Pnuma), em meio à grandes polêmicas sobre a necessidade da preservação ambiental
e sua incompatibilidade com os modelos de desenvolvimento experimentados.
Maurice Strong, que havia presidido a primeira conferência na condição de diretor
executivo do Pnuma, propôs o conceito de ecodesenvolvimento, inserindo junto ao de-
senvolvimento econômico os aspectos ambientais e sociais. Posteriormente, o economista
Ignacy Sachs incorporou ao conceito as dimensões culturais, éticas e de gestão participativa.
A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pela ONU em
1983, sob a presidência de Gro Harlem Brundtland, então primeira-ministra da Dinamarca,
recomendou, em 1987, uma nova declaração sobre proteção ambiental. Em seu relatório
denominado Nosso Futuro Comum, e mais tarde Relatório Brundtland, foi incluída a reco-
mendação às nações de buscarem um desenvolvimento sustentável. Esse conceito, assim
como o de ecodesenvolvimento, indicou a necessidade de se redirecionar os modelos de
desenvolvimento, buscando-se o equilíbrio das dimensões econômica, social e ambiental,
e definiu desenvolvimento sustentável como sendo aquele que atende às necessidades dos
presentes sem comprometer a possibilidade das gerações futuras satisfazerem suas próprias
necessidades.
No caso do Brasil, a proposição de uma política ambiental estruturada foi fruto mais
das pressões internacionais conduzidas através das agências e instituições de financia-
mento do que propriamente do movimento ambientalista interno, tendo como marco
a Conferência de Estocolmo (Bredariol, 2001; Sánchez, 2008). À época, os principais
temas ambientais com interesse político eram: a exploração dos recursos naturais, o
desbravamento do território, o saneamento rural, a educação sanitária e os embates
entre os interesses econômicos internos e externos (Bredariol, 2001).
A organização institucional atual da gestão ambiental no Brasil é fruto de uma série
de políticas públicas propostas nos últimos 77 anos, iniciadas com a promulgação dos
Códigos de Águas, Florestal e de Minas em 1934.2 Os primeiros 40 anos deste processo
2
Ver Decretos-leis n. 24.643/1934 (Código de Águas), n. 1.985/1940 (de Minas) e n. 23.793/1934 (Florestal).
Capítulo 1 s#ONCEITOSBÕSICOSDAGESTáOAMBIENTAL 13

de institucionalização foram marcados por políticas setoriais, voltadas, principalmente,


para o disciplinamento da exploração dos recursos naturais. O amparo legal dessas
políticas isoladas foi formado além dos códigos citados anteriormente, pelos códigos:
florestal (1965) e de caça e pesca (1967) (Bredariol, 2001).
Uma das principais características dessa fase inicial da gestão ambiental no País é a
desarticulação entre suas políticas, que eram vinculadas a órgãos de controle diferentes
e, não raro, a conflitos de interesses políticos e legais, destacando-se aqui o conflito no
uso dos recursos naturais entre os Códigos de Minas e Florestal. Enquanto o primei-
ro – vinculado ao Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM) – permitia
a autorização de exploração de minérios até em áreas naturais preservadas, como os
Parques Nacionais, o segundo – vinculado ao Serviço Florestal, até 1959, ao Departa-
mento de Recursos Naturais Renováveis (DNRN), até 1967, e ao Instituto Brasileiro de
Desenvolvimento Florestal (IBDF), até 1989 – proibia qualquer atividade de exploração
dos recursos naturais nessas unidades de conservação (Sánchez, 2008).
A partir dos anos 1970, começa-se a notar os efeitos ambientais do modelo de ex-
ploração econômica adotado, com destaque para a poluição atmosférica e das águas,
afetando de maneira significativa a qualidade de vida das populações próximas a esses
empreendimentos. Especialmente algumas regiões do país com elevada concentração
industrial, como a região de Cubatão no estado de São Paulo.
Esses impactos ambientais locais, associados a uma crescente preocupação in-
ternacional com as questões ambientais globais, conduziram, em 1973, à criação da
Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), vinculada ao Ministério do Interior, à
época o principal órgão governamental responsável pela implantação dos grandes
projetos de infraestrutura do país, a exemplo da Usina Hidrelétrica de Tucuruí e de
Itaipu (Monosowski, 1990).
Esta fase do processo de institucionalização da gestão ambiental no Brasil foi ca-
racterizada por procedimentos de ordem corretiva e punitiva, ou seja, a definição de
normas e padrões de emissões a serem atendidos pelos empreendimentos industriais
e a aplicação de penalidades no caso de descumprimento dos níveis de emissões
estabelecidos. O Decreto-lei n. 1.413/1975 que regulamentou o controle de poluição
industrial é uma referência legal dessa fase da gestão ambiental no país. O Decreto
n. 76.389/1975, publicado em seguida, indicou as áreas críticas de poluição no país,
ressaltando o caráter restrito corretivo da legislação proposta (Milaré, 2001).
Outra característica marcante dessa fase é o caráter centralizador, não sendo pre-
vista a participação pública, tanto em nível federal quanto em nível estadual, como
nas iniciativas de gestão ambiental em curso nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.
O alcance dessas políticas públicas ambientais era também restrito às áreas urbano-
-industriais, não atingindo os grandes empreendimentos de infraestrutura promovidos
pelo Governo da época, como: as barragens das usinas hidrelétricas, os portos e as
rodovias (Sánchez, 2008).
A partir de meados da década de 1970, o agravamento dos problemas ambientais
de âmbito local, como a poluição atmosférica nas regiões de intensa atividade urbano-
-industrial, conduziram à formulação de políticas voltadas para o planejamento do uso
14 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

do espaço, de caráter mais preventivo, em comparação às políticas implementadas


até esse momento. Destacam-se nesta fase: as Leis Federais n. 6.766/1979, que trata
do parcelamento do solo urbano; 6.803/1980, que abordou as diretrizes para o zone-
amento industrial das áreas críticas de poluição; e 6.902/1981, que previu a criação
de estações ecológicas e áreas de proteção ambiental (Brasil /TUC, 2007).
Do ponto de vista da gestão ambiental, não houve, nessa fase, alterações na con-
dução das políticas públicas, mantendo-se restritas em sua abrangência espacial,
atingindo preponderantemente o meio urbano-industrial, não prevendo a participação
pública no processo e restringindo-se ao setor privado da economia, deixando fora de
controle os grandes empreendimentos estatais, como as grandes siderúrgicas e obras
de infraestrutura nos setores de energia e transporte, como a barragem de Tucuruí (PA)
(Monosowski, 1990).
Em 1981, a publicação da Lei n. 6.938/19813 representou o início de uma nova
fase na política ambiental do país, com diferenças significativas das fases anteriores.
A aprovação da Lei que institui a Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA) trouxe
diversas inovações no campo legal, incluindo novos instrumentos de gestão ambien-
tal e promovendo sua articulação dentro de uma mesma estrutura organizacional, o
Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama), que a nível federal passou a contar
com o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), com a atribuição de formular
diretrizes para a política ambiental brasileira (Figura 1.7).

Figura 1.7. Estrutura do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama).


Fonte: República Federativa do Brasil, 1981.

Os principais avanços possibilitados pela Lei n. 6.938/1981,4 suas alterações e re-


gulamentações foram:

3
Lei regulamentada pelo Decreto n. 88.351/1983.
4
Lei regulamentada pelo Decreto n. 88.351/1983 e modificada pelas Leis n. 87.804/1989, 8.028/1990,
9.960/2000, 9.966/2000, 9.985/2000, 10.165/2000, 11.105/2005 e 11.284/2006.
Capítulo 1 s#ONCEITOSBÕSICOSDAGESTáOAMBIENTAL 15

s !CRIA½áODEMECANISMOSFORMAISDEPARTICIPA½áODASOCIEDADENAGESTáOAM-
biental através do Conama, com representação de diferentes órgãos da esfera
governamental e da sociedade civil, incluindo representantes do meio empre-
sarial, sindical e organizações não governamentais (ONGs);
s !PROPOSI½áODEREALIZA½áODEAUDIãNCIASP¢BLICASCOMORITOFORMALDEDEBATE
dos estudos ambientais previstos no âmbito do Licenciamento Ambiental;
s !LEGITIMA½áODO-INIST£RIO0¢BLICONASA½µESDERESPONSABILIDADECIVILECRIMINAL
por danos ambientais, responsabilidade ampliada através da Lei n. 7.347/1985,
ou Lei dos Interesses Difusos e ratificada pela Constituição Federal de 1988 (Ma-
chado, 2005).
A Constituição Federal de 1988 colocou o Brasil entre os países com legislação mais
avançada na esfera ambiental, dedicando um capítulo exclusivo às questões ambien-
tais. O art. 225 estabeleceu de forma inequívoca o direito fundamental de todos os
cidadãos, das gerações presentes e futuras, a um ambiente sadio e responsabilizou o
Poder Público e a Coletividade a protegê-lo adequadamente.
No mesmo ano da promulgação da Constituição Federal, institui-se, por meio da
Lei n. 7.661/1988, o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, que irá orientar a uti-
lização racional dos recursos naturais, históricos, étnicos e culturais e contribuir para
garantir a qualidade de vida das populações litorâneas (Pulner, 2006).
De 1988 a 2000, são propostos diversos mecanismos institucionais no sentido de
integrar a gestão ambiental no país, com destaque para a criação do Instituto Brasi-
leiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por meio da Lei
n. 7.735/1989, conforme previsto na PNMA. O Ibama é criado a partir da fusão de
quatro órgãos federais: o IBDF, a Sema, a Superintendência de Desenvolvimento da
Pesca (Sudepe) e a Superintendência da Borracha (Sudhevea).
Um marco importante desse período se refere à criação do Ministério do Meio
Ambiente por meio da Lei n. 8.490/1992, influenciada pela realização da Conferência
das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), que ocorreu
no Rio de Janeiro em junho de 1992, consolidando a estruturação institucional da área
ambiental do Governo Federal.
Dentre os desdobramentos da ECO 92, destaca-se a Agenda 21, um documento
consensual entre os Governos das nações participantes da Conferência, constituindo-se
como uma primeira proposta de ação de ampla abrangência sobre as questões am-
bientais, visando subsidiar ações nos diferentes níveis do Poder Público e da Sociedade
Civil em prol do desenvolvimento sustentável (Milaré, 2001).
Em sintonia com esse movimento, foi promulgada a Lei n. 9.605/1998, conhecida
como Lei de Crimes Ambientais, que estabelece critérios gerais para aplicação da nor-
ma penal e administrativa e, principalmente, define normas para responsabilização
perante a prática de infrações no âmbito ambiental, e a Lei n. 9.795/1999, que institui
a Política Nacional de Educação Ambiental, ressaltando o caráter plural das ideias e
concepções pedagógicas, um enfoque humanista, participativo e com visão sistêmica
do ambiente, considerando a interdependência entre seus componentes e uma abor-
dagem articulada entre as questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais.
16 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Completada essa fase da integração de gestão ambiental, a promulgação da Lei


n. 9985/2000 instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza
(SNUC) e estabeleceu critérios e normas para a criação, implantação e gestão das uni-
dades de conservação (UC), unificando os vários diplomas legais instituídos ao longo
da história da legislação ambiental brasileira.
No setor não estatal, esse período foi marcado por iniciativas ambientais voltadas
para a certificação de produtos e processos, também conhecida por certificação ambien-
tal (selo verde), e a padronização de procedimentos com relação à gestão ambiental,
como, por exemplo, os padrões da ISO (International Organization for Standartization),
internacionalmente conhecidos através da série ISO 14000.
A primeira década do século XXI foi marcada por contradições na área ambiental,
enquanto eram promulgados alguns documentos legais em tramitação há anos, apon-
tando para uma continuidade no processo de integração, outras medidas repercutiram
de forma desestruturante no processo de gestão ambiental.
A Lei n. 10.257/2001 instituiu o Estatuto da Cidade, reforçando a atuação municipal
e a necessidade do Plano Diretor como instrumento de administração do ambiente
urbano. A Lei n. 11.105/2005, ou Lei de Biossegurança, regulamentou a manipulação
dos organismos geneticamente modificados na pesquisa e na exploração comercial.
Em 2002, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) inclui na Pesquisa de
Informações Básicas Municipais (Munic) um Suplemento de Meio Ambiente, passando
a ser a primeira fonte oficial de informações ambientais em nível nacional.
Em 2006, foram promulgadas as Leis n. 11.284 e 11.428/2006. A primeira tratava da
gestão de florestas públicas, e a segunda, chamada de Lei da Mata Atlântica, determinou
as condições de proteção do bioma Mata Atlântica.
Já em 2010, foi instituída a Política Nacional de Resíduos Sólidos, por meio da Lei
n. 12.305/2010, com caráter preventivo, promovendo medidas voltadas para minimizar
a geração e os impactos, bem como promover ações de educação ambiental dirigidas
à inclusão social.
Dentre as ações contraditórias, encontram-se a cisão do Ibama, como órgão execu-
tivo do Sisnama, dentro da PNMA, com a criação do Instituto Chico Mendes, a partir do
desmembramento de parte das funções estratégicas do órgão, assim como a concessão
de licenças ambientais a projetos de infraestrutura polêmicos, como o da Transposição
do Rio São Francisco e a Usina de Belo Monte no Pará.

1.5. A sequência dos capítulos do livro


O aprofundamento e detalhamento dos sistemas de gestão ambiental de unidades
produtivas, nos moldes proposto pela norma ISO 4001, será visto no Capítulo 4. An-
tes disso, os Capítulos 2 e 3 discutirão a inserção da gestão ambiental nas estratégias
empresariais, indicando as oportunidades e vantagens competitivas em termos de
distinção no mercado.
Capítulo 1 s#ONCEITOSBÕSICOSDAGESTáOAMBIENTAL 17

Os Capítulos 5, 6, 7, 8 e 9 tratarão das técnicas específicas de identificação, avaliação


e controle dos impactos ambientais. No Capítulo 5, o foco principal é a elaboração
do estudo de impacto ambiental, peça fundamental do processo de licenciamento
ambiental. O Capítulo 6 concentra suas atenções nas emissões atmosféricas, apresen-
tando as técnicas de elaboração de inventário e as formas de controle. Em abordagem
semelhante ao Capítulo 6, o Capítulo 7 trata dos efluentes industriais. Já o Capítulo 8
focaliza os resíduos sólidos, observando a legislação brasileira, os recursos oferecidos
pela logística reversa e as estratégias de não geração, redução, recuperação e tratamento.
Fechando esse grupo, o Capítulo 9 apresenta o estudo da avaliação do ciclo de vida que
busca avaliar os impactos causados pelo ciclo extração-fabricação-consumo-descarte
de um produto, denominado por análise do berço ao túmulo.
Nos Capítulos 10, 11 e 12, retorna-se a uma abordagem de gestão propriamente dita,
iniciando pela construção e análise de indicadores ambientais (Capítulo 10), passando
pelas técnicas de otimização de recursos (Capítulo 11) e pela elaboração e análise de
sistemas de custeio ambiental (Capítulo 12).
No Capítulo 13 é dado um destaque especial às diferentes fontes de energia e seus
impactos sobre o meio ambiente. No Capítulo 14, último deste livro, com uma aborda-
gem mais geral, são apresentados os princípios e os métodos da valoração ambiental.

1.6. Revisão dos conceitos apresentados


Neste capítulo introdutório foram vistos os conceitos básicos da gestão ambiental,
como os de ecologia, ecossistema, aspectos e impactos ambientais, poluição e de-
senvolvimento sustentável. A legislação ambiental brasileira foi apresentada junto ao
contexto histórico do ambientalismo internacional. Por último, o capítulo tratou da
estrutura do livro e demais capítulos.

1.7. Questões
1. A partir de uma situação produtiva simples e de seu conhecimento, identifique
seus aspectos e impactos ambientais. Para melhor entendimento, elabore um
aspecto-fluxograma do processo em questão.
2. Considerando o caso tratado na questão anterior, pesquise as legislações am-
bientais pertinentes, no âmbito federal, estadual e municipal.

1.8. Referências
AB'SABER, A. N.; MÜLLER-PLANTENBERG, C. (Orgs.). Previsão de impactos: o estudo
de impacto ambiental no Leste, Oeste e Sul. Experiências no Brasil, na Rússia e
na Alemanha. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2002.
18 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

BRASIL. Lei n. 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do


Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras
providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Poder Executivo,
Brasília, DF, 9 set. 1981.
BREDARIOL, C. S. Conflito ambiental e negociação para uma política local de meio am-
biente. Programa de Planejamento Energético. Rio de Janeiro: COPPE/UFRJ, 2001.
CARSON, R. Primavera silenciosa. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1969.
MACHADO, P. A. L. Direito ambiental brasileiro. 13. ed. São Paulo: Malheiros, 2005.
MILARÉ, É. Direito do ambiente. 2. ed. São Paulo: RT, 2001.
MONOSOWSKI, E. Lessons from the Tucuruí experience. Water Power & Dam Cons-
truction, v. 42, n. 2, p. 29-34,1990.
_______. O sertão vai virar mar. In: MÜLLER-PLANTENBERG, C.; AB’SABER A. N. (orgs.).
Previsão de impactos: o estudo de impacto ambiental no leste, oeste e sul. São
Paulo: Edusp, 1998. p. 123-41.
SÁNCHEZ, L. E. Avaliação de impacto ambiental: conceitos e métodos. São Paulo:
Oficina de Textos, 2008.
SPITZER, L. Milieu and ambiance: an essay in historical semantics. Philosophy and
Phenomenological Research, Malden (Massachusetts), v. 3, n. 1, p. 1-42, 1942.
TREPL, L. O. O que pode significar “impacto ambiental”. In: MÜLLER-PLANTENBERG,
C.; AB’SABER A. N. (orgs.). Previsão de impactos: o estudo de impacto ambiental
no leste, oeste e sul. São Paulo: Edusp, 1998. p. 329-50.
WATHERN, P. Environmental impact assessment: theory and practice. London and New
York: Routledge, 2004.
2
Motivadores
mercadológicos para o
desempenho ambiental
Osvaldo Luiz Gonçalves Quelhas
Marcelo Jasmim Meiriño
Julio Vieira Neto

Conceitos apresentados neste capítulo


Este capítulo objetiva familiarizar o leitor com as diretrizes de gestão desenvolvidas
pelo mercado, com foco na responsabilidade socioambiental e na sustentabilidade.
São apresentados com relevância os motivadores para a promoção dessas diretrizes,
aplicação, afinidades e diferenças, com destaque para as diretrizes das bolsas de va-
lores de Nova York e de São Paulo (Dow Jones Sustainability Index – DJSI e Índice de
Sustentabilidade Empresarial da Bolsa de Valores de São Paulo/Bovespa), do Instituto
Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), finalizando com as indicações para a Elaboração
de Relatórios de Sustentabilidade da Global Reporting Initiative (GRI). Espera-se que,
ao final deste capítulo o leitor seja capaz de conhecer os conceitos básicos pertinen-
tes a cada uma das diretrizes apresentadas, bem como identificar com clareza de que
forma aplicá-las.
20 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

2.1. O que são diretrizes de gestão?


Entende-se como um conjunto de preceitos orientativos a ser utilizado para aperfei-
çoar a gestão de uma organização. Em tempos de globalização, em que as organizações
se deparam com mercados cada vez mais competitivos, estruturar sua gestão com base
em modelos aceitos vem sendo cada vez mais observado.
A Figura 2.1 adiante ilustra a dinâmica da gestão organizacional. Nos níveis estra-
tégico, tático e operacional, as diretrizes de gestão apresentadas neste capítulo devem
dar base às organizações para planejar, executar, controlar e agir corretivamente,
aprendendo continuamente com o processo de gerenciamento.

Figura 2.1. Dinâmica de gestão organizacional.

2.2. Evolução da gestão organizacional


A constatação de que a Terra enfrenta crise ambiental sem precedentes, que afeta
a sobrevivência da humanidade, é ainda recente e foi introduzida na agenda interna-
cional nas últimas décadas do século passado. O desenvolvimento sustentável passou
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 21

a representar uma expressão utilizada para a necessidade de restabelecer o equilíbrio


entre as dimensões econômica, social e ambiental. Nunca se buscou de forma tão
sistemática concretizar esse objetivo em escala planetária. Paralelamente, as orga-
nizações (empresariais, governamentais e do terceiro setor), pressionadas pela crise
socioambiental, por movimentos sociais e ambientais, começaram a assumir um papel
importante para a sustentação da vida no planeta que se expressa atualmente em pro-
jetos de responsabilidade socioambiental. Dos anos 1990 até hoje, um grande número
de diretrizes e ferramentas de gestão, assim como certificações socioambientais, pactos
inter e intrassetoriais, movimentos e campanhas foram materializados em várias partes
do mundo com o objetivo de consolidar conceitos de responsabilidade organizacional
socioambiental, disponibilizando-os como diretrizes de gestão. Como premissa desse
conceito de responsabilidade organizacional socioambiental presume-se que as or-
ganizações sejam “transparentes” (desenvolvam e mantenham diálogo com as partes
interessadas e impactadas pelo seu processo, continuamente).

Ano Aprox. 1990 Aprox. 1996 Aprox. 2000 Aprox. 2006/2010


Modelo de Gestão pela Sistema de gestão Sistema de saúde e Sistema integrado de
gestão qualidade ambiental segurança do trabalho gestão

Gestão da
sustentabilidade
organizacional
Normas ISO 9001 ISO 14001 + OHSAS 18001 + NBR 16001 +
ISO 9001 ISO 14001 + OHSAS 18001 +
ISO 9001 ISO 14001 + ISO 9001

+ ISO 26000
Foco Mapeamento Levantamento dos Levantamento dos riscos e Integração de sistemas
de processos aspectos e impactos perigos de gestão
ambientais

Qualidade na relação com


as partes interessadas
Beneficiado Clientes + Meio ambiente + Meio ambiente + Meio ambiente +
resultados clientes + clientes + clientes + resultados
econômicos resultados resultados econômicos + econômicos + pessoas +
econômicos pessoas + patrimônio
patrimônio

+ partes interessadas
(principalmente a
sociedade)

Figura 2.2. Evolução dos referenciais da gestão organizacional.


22 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

A Figura 2.2 ilustra o desenvolvimento das práticas e conceitos de gestão ao longo


do tempo.
A gestão contemporânea insere os conceitos de responsabilidade socioambiental
organizacional em sua estratégia de ação. A competência profissional em sustentabi-
lidade organizacional adquire consistência e passa a ser demandada no mercado de
trabalho e na confecção de cenários para planejamento de todas as cadeias produtivas.
Neste capítulo, as iniciativas de responsabilidade socioambiental organizacional são
classificadas como diretrizes de gestão, cuja finalidade é o desenvolvimento sustentável.

Figura 2.3. Desenvolvimento da maturidade de gestão organizacional.


Fonte: adaptado de Ashley, 2001.

Nas organizações existem necessidades e desafios que podem ser resumidos na


questão sobre como incluir as práticas de responsabilidade socioambiental na sua
cultura e nos seus sistemas de gestão. A Figura 2.3 ilustra os níveis de maturidade na
utilização das premissas de responsabilidade socioambiental organizacional. Por isso,
a proposta deste capítulo é apresentar a ampla gama de diretrizes de gestão no cenário
da responsabilidade socioambiental, analisando a diversidade e a convergência entre
as várias diretrizes e ferramentas existentes. Espera-se inspirar leitores e organizações
para o desenvolvimento e implantação de modelos e ações que incluam os conceitos
de responsabilidade socioambiental. O objetivo final é o de utilizá-los em benefício de
suas práticas de gestão e de seus stakeholders.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 23

Stakeholders:

“organizações ou indivíduos cujos direitos nos termos da lei ou de convenções internacionais lhes conferem
legitimidade de reivindicações perante a organização” e podem incluir “tanto as partes diretamente envolvidas
nas operações da organização (como empregados, acionistas e fornecedores) quanto as que são externas a ela
(a comunidade do entorno, por exemplo)”.
(Gri, 2006, p. 10)

Exercício de fixação

1. Acesse http://www.global-change.com/default.asp. Leia textos sobre as mudanças climáticas globais e seus


efeitos na eficácia e eficiência das operações industriais e de serviços. Relacione atitudes e decisões que as
organizações podem assumir para reduzir o impacto em suas operações e beneficiar o planeta.

2. Leia atentamente a “visão” de uma organização incluída no ISE/Bovespa, uma das Diretrizes de Gestão
estudadas neste capítulo: “A Empresa X, por seu comportamento empresarial, pela qualidade das relações
que estabelece e por seus produtos e serviços, será uma marca de expressão mundial, identificada com a
comunidade das pessoas que se comprometem com a construção de um mundo melhor, através da melhor
relação consigo mesma, com o outro, com a natureza da qual fazem parte, com o todo.” Estabeleça
comparação com outras declarações de “Visão” de organizações não incluídas no ISE/Bovespa, pesquisadas
na internet.

2.3. Pontos em comum entre as diretrizes de gestão


Pretende-se, neste ponto do capítulo, apresentar as características comuns dentre
as diversas diretrizes de gestão estudadas. Pretende-se, ainda, detalhar a maneira
como se dão os processos de elaboração e implantação de estratégias, planos, tomada
de decisão e controle organizacionais. Serão relacionadas as declarações de intenção
quanto à responsabilidade socioambiental aos sistemas internos e às influências sobre
os stakeholders e a atuação no mercado.
Segundo Furtado (2003), na atualidade as organizações elaboram e implantam suas
estratégias, planos, decisões e controles conforme três tipos:
1. Predominância de atenção ao cliente e maior relevância ao lucro aferido, expres-
so por Valor Presente Líquido (VPL), para remunerar o investidor ou acionista
(shareholder). Representa o tipo convencional de organização, que se interessa
apenas pela última linha de resultado final (bottom line) do balancete financeiro.
Trabalha nos limites da conformidade e predominam atitudes reativas. Em geral
utiliza o modelo “fim de tubo”. Está pouco ou nada definida a rever sua estratégia
em relação às questões socioambientais. Classifica as ações socioambientais
como custo e causa de redução de competitividade. Este tipo de organização está
fora das tendências globais e irá encontrar dificuldades no mercado, havendo
grandes possibilidades de desaparecer.
2. Predominância de atenção às partes interessadas (stakeholders), com conse-
quente ampliação do foco das expectativas. Neste tipo de organização torna-se
realidade a adoção das questões sociais e ambientais como elementos competi-
tivos, para aumento da lucratividade econômico-financeira. É característico de
organizações com abordagem de operação dos anos 1990, que passaram a ver o
24 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

planeta em sua dimensão integral e global. Este tipo de organização considera a


utilização de novos paradigmas ou instrumentos socioambientais ou já os estão
usando para decisão de negócios, com foco na cadeia produtiva. Há mudança de
atitude reativa para a proativa. Caracteriza-se pela implementação de sistemas
de gestão ambiental (com ou sem certificação), definição de indicadores de de-
sempenho, sua contabilização e avaliação, e prepara-se para a comunicação do
desempenho alcançado. São organizações avançadas a partir da reorientação
de processos de produção de bens e serviços e da inserção de elementos socio-
ambientais no planejamento estratégico integrado que leva em conta o Sistema
de Produto ou a Avaliação do Ciclo de Vida do Produto (ACV).
3. Predominância de atenção ao desenvolvimento sustentável: leva em consideração
o papel e as responsabilidades econômicas, sociais e ambientais que devem ser de-
sempenhados pelas organizações, tanto individual como coletivamente. É o modelo
da organização do século XXI, caracterizado pela gestão socioambiental estratégica
integrada e segundo os princípios de Resultado Final Tríplice (TBL) do balancete,
expressando os resultados positivos e negativos econômicos, ambientais e sociais,
de maneira clara e transparente. Essas organizações utilizam as ferramentas socio-
ambientais de natureza organizacional e de processos e produtos, com o devido
engajamento das partes interessadas e uso de parcerias estratégicas.
Os componentes principais das diretrizes de gestão para a responsabilidade social
e ambiental são:

Planejamento Transparência e prestação


Avaliação do desempenho
e ação de contas à sociedade
š 9ed^[Y_c[dje[Wd|b_i[ š :[Ód_‚€eZ[_dZ_YWZeh[i$ š :_ifed_X_b_pW‚€eZ[
de impactos ambientais e š C[Z_‚€eZeZ[i[cf[d^e informações.
sociais. em relação a padrões e š 9ecfhec[j_c[dje"febítica
š 9eckd_YW‚€e[cWha[j_d]$ parâmetros estabelecidos. e estratégia de reportar.
š Fh_dY‡f_eiZ[iW‘Z[" š 7b_d^Wc[dje[djh[ š Kj_b_pW‚€eZ[fWZh[i[
segurança e práticas desempenho e estratégia. instrumentos de prestação
trabalhistas. š H[l_i€eZ[c[jWi$ de contas.
š FheY[Z_c[djei][h[dY_W_i$ š 9edj[nje[_dj[hfh[jW‚€e$ š 7Y[ii_X_b_ZWZ[}i
š ?dÔk…dY_WieXh[feb‡j_YWi š H[ikbjWZeiZ[Z[i[cf[d^e informações.
públicas e assuntos versus capacidade dos š GkWdj_ÓYW‚€e[
regulatórios. ecossistemas. comparabilidade dos
š =[ij€e"jh[_dWc[dje š DehcWih[]kbWjŒh_Wiversus instrumentos de prestação
e desenvolvimento de metas regionais e nacionais. de contas.
funcionários. š 7if[Yjeifei_j_lei$ š 9[hj_ÓYW‚€efehj[hY[_hei$
š <[hhWc[djWi[fheY[iiei š Efehjkd_ZWZ[iZ[c[b^eh_W$ š 9WdW_iZ[_d\ehcW‚€e
de engajamento de š :[i[dlebl_c[djeZ[ coerentes aos seus
stakeholders. métricas para avaliação de stakeholders.
š =[h[dY_Wc[djeZ[YWZ[_Wi longo prazo. š ;dj[dZ_c[dje[Z_|be]e
de valor (fornecedores, com stakeholders.
clientes e outros).
š ?dÔkência sobre o setor de
atuação.
š <ehcW‚€eZ[b‡Z[h[i$
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 25

Exercício de fixação

Leia a declaração de um líder empresarial sobre sua visão de responsabilidade organizacional e compare com
outras declarações de empreendedores em jornais, na internet e em relatórios de prestação de contas.
“A decisão de contribuir para a criação de um modelo de desenvolvimento que combine
prosperidade econômica, justiça social e conservação ambiental continuará a exigir um enorme
esforço de aprendizado e inovação. Nessa perspectiva, é plena nossa convicção de que a
participação empresarial na construção de um mundo melhor estará cada vez mais associada
}[l_Z…dY_WZ[gk[ieceijeZeiÅ_dZ_l‡Zkei"[cfh[iWi"ED=i[]el[hdeiÅYehh[ifedi|l[_i
pela qualidade de vida, presente e futura, na Terra.”
Estabeleça uma lista de requisitos de uma organização direcionada pelos princípios do desenvolvimento sustentável.

2.4. Parâmetros norteadores das diretrizes de gestão


para a sustentabilidade
A seguir serão apresentados parâmetros norteadores das diretrizes para a susten-
tabilidade, apresentados de forma panorâmica e descritiva para que o leitor possa
compreender a amplitude e a aplicação de seus conceitos.
Os parâmetros norteadores das diretrizes são compostos por aspectos ambientais,
sociais e econômicos, que são descritos neste tópico para perfeito entendimento do
leitor. A Figura 2.4. ilustra esses parâmetros.

Figura 2.4. Parâmetros norteadores das diretrizes de gestão organizacional.


26 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

2.4.1. Aspectos ambientais


Desenvolvimento de ferramentas que buscam aliar a produção de bens e serviços à
preservação da capacidade dos ecossistemas e serviços ambientais: ar, florestas, solos,
água, energia e alimentos.
Ecoeficiência nos processos produtivos: produzir mais gerando menos impacto
ambiental e consumindo menos recursos naturais e financeiros. Por exemplo:
s /INCREMENTONOUSODEINSUMOS FONTESDEENERGIAEÕGUAPROVENIENTESDERE¢SO
e reciclagem.
s !REDU½áODODESPERD¤CIODEMAT£RIAS PRIMAS ÕGUAEENERGIA
s !CORRETADESTINA½áODOSEmUENTESDOSPROCESSOSPRODUTIVOS
s !CAPACIDADEDECONHECEREREDUZIRON¤VELDEEMISSáODEGASESCAUSADORESDO
efeito estufa (em especial o CO2) nos processos produtivos.
s !REDU½áODOIMPACTODOTRANSPORTEDEBENS PRODUTOSEMATERIAISUSADOSNOS
processos produtivos e no deslocamento de funcionários e fornecedores.
s /DESENVOLVIMENTODEPROGRAMASDEPRESERVA½áOEREDU½áODOIMPACTONA
biodiversidade, tanto em áreas protegidas como em áreas não protegidas.
s )NVESTIMENTOEMINOVA½áOEEMTECNOLOGIASLIMPASPARAODESENVOLVIMENTODE
bens e serviços de qualidade e com alta performance.
s /DESENVOLVIMENTODEPROCESSOSDELOG¤STICAREVERSAPARADESTINA½áOERECICLAGEM
de produtos ao fim do seu ciclo de uso.

2.4.2. Aspectos sociais


Desenvolvimento de ferramentas destinadas a acompanhar a qualidade e a segu-
rança de produtos e serviços, assim como a satisfação e o direito à confidencialidade
de dados dos consumidores.
Os aspectos sociais são norteados pela aderência às leis, padrões regulatórios e códi-
gos voluntários concernentes à comunicação de marketing, comunicação institucional,
promoção e patrocínios, o respeito às convenções internacionais de trabalho e direitos
humanos, trabalho escravo e trabalho infantil, o respeito às leis trabalhistas e ao direito
à livre associação dos funcionários, às condições de segurança e de saúde no trabalho.
Diretrizes sociais também contemplam a utilização das ferramentas de comunicação
e marketing para encorajar os clientes a consumir de forma sustentável (reduzir, reusar,
reciclar), bem como o compartilhamento do processo decisório e o empoderamento
de funcionários e fornecedores para a construção de soluções, ferramentas e processos
para a implantação das estratégias de sustentabilidade.
O respeito às diferenças sociais, culturais, religiosas e a valorização da diversidade
étnica e de gênero dentro da organização e na sua relação com os stakeholders, bem
como o incentivo à seleção e promoção de funcionários e colaboradores unicamente
sob o ponto de vista da meritocracia também deverão ser privilegiados pelos aspectos
sociais.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 27

A promoção e desenvolvimento de programas de nivelamento salarial entre homens


e mulheres, de políticas, procedimentos e treinamentos de funcionários e fornecedo-
res no combate à corrupção, estratégias e programas para a melhoria das condições
de saúde dos empregados e da sociedade, criação de estratégias e de programas para
melhoria da educação e desenvolvimento de mão de obra qualificada, educação e in-
centivo a modos de vida sustentáveis e à responsabilização individual dos funcionários
e demais stakeholders, entendimento de que o engajamento de stakeholders deve ser
utilizado para o direcionamento de ações e compromissos da empresa, são aspectos
que devem ser considerados em diretrizes sociais.
Ainda podem ser citados, como aspectos sociais, os trabalhos em parceria com
Organizações Não Governamentais e governos: existência de programas para maxi-
mização de impactos sociais positivos e minimização de riscos junto a comunidades
vizinhas; o exercício simultâneo do diálogo e da sensibilização e convencimento
sobre fornecedores para que estabeleçam estratégias de sustentabilidade e cumpram
parâmetros relativos a direitos humanos, aspectos sociais e ambientais; a transpa-
rência em interesses, princípios, intenções, atividades e financiamentos destinados
a influenciar políticos, partidos e políticas públicas.

2.4.3. Aspectos econômicos


Aspectos econômicos envolvem o fornecimento de bens e serviços com preços aces-
síveis a um número crescente de consumidores, o desenvolvimento de infraestrutura
para a construção de novos mercados inclusivos e de ações para influenciar e difundir
boas práticas para diferentes setores, bem como o incentivo a atividades de geração
de renda, microcrédito e combate à pobreza na cadeia de valores.
Ainda pode-se citar a promoção das estratégias de sustentabilidade para a criação
de valor na relação com os investidores, o desenvolvimento de programas que evitem
práticas anticompetitivas e monopólio. Ação de influência sobre governos e organismos
de regulação de comércio, em busca de promover a competição e remover subsídios
perversos.

2.5. Diretrizes de gestão para a sustentabilidade


organizacional
Tratam-se de estratégias organizacionais para o desenvolvimento sustentável e a
governança corporativa. São aprovadas por investidores que pretendem associar lu-
cratividade e retorno a seus investimentos com princípios éticos e morais.
28 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

2.5.1. Dow Jones Sustainability Index (DJSI)


O mercado financeiro desenvolve propostas como, por exemplo, os Investimentos
Socialmente Responsáveis (ISR), identificados pela sigla SRI do termo, em inglês,
Socially Responsible Investing. Existem diversas iniciativas que podem ser identifica-
das na categoria de SRI. As mais relevantes são os Fundos Socialmente Responsáveis
ou Fundos Éticos e os Índices da Bolsa. São compostos por ativos de empresas que
buscam se posicionar como socialmente responsáveis, por meio do cumprimento da
legislação, da adoção de práticas de governança corporativa, da operação associada ao
respeito ao meio ambiente, aos trabalhadores e fornecedores, e da preocupação com
o bem-estar e a qualidade de vida da sociedade onde atuam. Esses fundos investem
em ações de organizações consideradas éticas ou responsáveis, sem deixar de focar o
retorno financeiro.

Exemplo de fixação

O caso da gestão ambiental em supermercado


e em empresa do setor de refrigerantes

O exemplo utilizado como referência analisa quais as diretrizes adotadas e como está sendo desenvolvida a
gestão ambiental em duas empresas nos setores de supermercados e refrigerantes.
A pesquisa constatou que a gestão ambiental em ambas as empresas caracteriza-se, principalmente, pela
valorização da imagem da organização e a busca por baixo custo operacional. Existe, em ambas as empresas,
a tendência em educar ambientalmente seus clientes. Embora utilizando ferramentas ambientais distintas, as
empresas estudadas têm em comum a busca pela conscientização dos seus funcionários e clientes, o tratamento
de resíduos e a eficiência energética. Os principais indicadores de desempenho monitorados pela empresa do setor
ikf[hc[hYWZ_ijWZ_p[ch[if[_jeWeih[Ykhiei[d[h]ƒj_Yei"}][hW‚€e[h[Ykf[hW‚€eZeb_ne[WeZ[i[dlebl_c[dje
de produtos sustentáveis. A empresa do setor de refrigerantes, por sua vez, prioriza o consumo de água, energia,
geração e recuperação de resíduos. Ambas as empresas utilizam relatórios de responsabilidade socioambiental
para divulgar suas ações e índices corporativos.

Fonte: Oliveira, R. L.; Machado, A. G. C. Revista de Gestão


Social e Ambiental – RGSA. maio/ago. 2010, v. 4, n. 2, p. 21-391.

Os tipos e categorias desses fundos variam, conforme as motivações e a ideologia dos


investidores. Embora de tamanho reduzido em relação ao mercado de investimentos
tradicional, exerce grande influência e atrai muita atenção do mercado financeiro. A
indústria de fundos socialmente responsáveis tem evoluído, demonstrando o interesse
crescente do investidor por esse mercado. Em abril de 2006 foram criados os Princípios
de Investimento Responsável (Principles for Responsible Investment – PRI), por um
grupo internacional de investidores liderados pela Organização das Nações Unidas
(ONU), sob a coordenação da United Nations Environment Programme – Finance
Initiative (Unep-FI) e Pacto Global. Fundamentou-se na crescente importância das
questões ambientais, sociais e de governança corporativa para as práticas de investi-
mento (Unep-FI, 2006).
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 29

Adicionalmente, os Índices das Bolsas de Valores incorporam conceitos como o TBL,


Governança Corporativa e diversos atributos associados à responsabilidade organiza-
cional socioambiental. Esses índices são ferramentas que os investidores dispõem para
a decisão em aplicar seus recursos, visualizando com equivalente peso os resultados
econômicos, os resultados sociais e os atributos utilizados no processo decisório or-
ganizacional, tais como os valores (ética, respeito ao meio ambiente e à sociedade).

Exemplo de fixação

7ieh]Wd_pW‚[ij…c_dl[ij_ZedW_dYehfehW‚€eZWikij[djWX_b_ZWZ[}][ij€e$;n_ij[egk[ij_edWc[djeieXh[
ei[\[j_leiX[d[\‡Y_eiÓdWdY[_heiZ[iiW[ijhWjƒ]_W$xbŒ]_Yegk[[dlebl[YkijeiXWijWdj[i_]d_ÓYWj_lei$Feh
exemplo: a elaboração de relatórios de sustentabilidade, que tem conduzido as organizações a exageros
significativos em termos de custos.
Determinadas organizações alcançam gastos próximos ao milhão de reais na elaboração do relatório. É
coerente considerar que o tripé econômico da sustentabilidade deve ser ponderado: as atividades e relatórios
desenvolvidos sob este aspecto devem possuir uma correta relação custo-benefício. As organizações estão
incluídas em um sistema capitalista globalizado, onde competitividade e retorno sobre o capital investido são
fatores relevantes no direcionamento da gestão. As organizações devem considerar demandas e expectativas
ZWieY_[ZWZ[[Wii[]khWhWei_dl[ij_Zeh[ieh[jehdeZe_dl[ij_c[dje[Wf[h[d_ZWZ[ZWeh]Wd_pW‚€e$Feh
outro lado, existe um grande número de pessoas e organizações que consideram que valores éticos e morais
são tão relevantes quanto a rentabilidade, na escolha de em quais organizações investirão o seu dinheiro.
Após ler o texto anterior e buscar outros que abordem a articulação entre a comunidade financeira e o conceito
de sustentabilidade, pergunta-se: em sua opinião, qual é o papel desempenhado pela comunidade financeira
para o desenvolvimento sustentável?
?Z[dj_Ógk[\eh‚Wih[ijh_j_lWi"Yece\Wjei"_Z[_Wi"fhe`[jei"[ekjhWi[n_ij[dj[idec[hYWZe[Yedjh|h_Wi}WZ[i€e
das organizações do setor financeiro aos princípios da sustentabilidade.
Identifique forças impulsionadoras, como: exemplos de atitudes e casos reais sintonizados com a sustentabilidade,
adotados pelas organizações do setor financeiro.

2.5.1.1. Histórico do DJSI


O DJSI foi o primeiro modelo de referência mundial para avaliar o desempenho
financeiro dos líderes globais em sustentabilidade. Foi lançado em setembro de 1999
(DJSI World). Em outubro de 2001, foi lançado o DJSI STOXX, orientado para o mercado
europeu.
O objetivo dos índices é avaliar as empresas para fins de investimento, considerando
seu desempenho em sustentabilidade, o que permite uma forma de priorização de
investimento em empresas cujo diferencial seja a capacidade de aproveitar as opor-
tunidades e gerenciar adequadamente os riscos associados a fatores econômicos,
ambientais ou sociais.
A Figura 2.5 permite compreender o modus operandi do índice.
30 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 2.5. Índices Dow Jones de Sustentabilidade (DJSI).


Fonte: Dow Jones Sustainability Indexes, 2011.

Entre as instituições envolvidas na condução do processo encontram-se:


š O SAM Group, grupo de investimentos localizado em Zurique, que se destaca
pela integração entre critérios ambientais, sociais e econômicos de investimento.
š A Bolsa de Valores de Nova York (Dow Jones Indexes), que, em 1999, se tornou
parceira do SAM Group na iniciativa.
š O Provedor de Índices Europeu, STOXX Limited, que também se tornou parceiro,
visando expandir a família DJSI para a Europa.
Pode-se assim descrever os índices que compõem a família DJSI:
š Dow Jones Global Index – Índice Geral da Bolsa de Nova York: negocia papéis de
todas as companhias listadas (universo de papéis disponíveis para investimen-
to), independentemente de seus atributos de sustentabilidade. As 2.500 mais
capitalizadas desse índice irão compor o estoque de onde são selecionadas as
líderes em sustentabilidade.
– DJSI World: seleciona líderes globais em sustentabilidade, tendo como
ponto de partida as 2.500 companhias mais capitalizadas do Índice Geral
Dow Jones, de onde são extraídas 10%.
– DJSI United States e DJSI North America: Estados Unidos e América do Norte,
respectivamente.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 31

š Dow Jones STOXX 600: Índice da Bolsa de Nova York que negocia ativos de um
número fixo de 600 companhias europeias.
– DJSI STOXX: seleciona companhias líderes em sustentabilidade europeias,
tendo como ponto de partida o Dow Jones STOXX 600, de onde são extraídas
20%, a partir de critérios de sustentabilidade.
– DJSI Euro STOXX: específico para os países da União Europeia.

2.5.1.2. Avaliação e classificação das empresas


Categorizadas em 58 setores, as empresas são avaliadas utilizando-se critérios gerais,
bem como requisitos específicos do segmento produtivo ao qual pertencem, ou seja, são
comparadas com seus pares. Tanto no DJSI World quanto no DJSI STOXX, os critérios de
seleção procuram manter um equilíbrio na proporção de empresas em cada setor. Os
critérios de avaliação abrangem aspectos econômicos, sociais e ambientais, com foco
na criação de valor de longo prazo. Cada um deles contribui para cerca de um terço da
pontuação global, podendo existir variações em função das características da indústria
(p. ex.: peso maior em aspectos ambientais para indústria extrativa).
Para esta avaliação, são utilizados, com mesmo peso, dois questionários, um geral e
outro específico para cada indústria. Para fundamentar a análise, podem ser também
utilizados documentos da indústria, informações da mídia e contatos diretos com a
empresa. Alguns exemplos de temas analisados são: as mudanças climáticas, o con-
sumo de água e de alimentos, accountability (prestação de contas), saúde, governança
corporativa, gestão do conhecimento, desempenho ambiental e políticas de direitos
humanos. As empresas recebem um relato resumido sobre seu desempenho, contendo
os pontos de melhoria, bem como dados de benchmark (referencial de boa prática)
detalhados de cada critério de avaliação. O processo é verificado por organização in-
dependente, que avalia a qualidade do trabalho do SAM Group.

2.5.1.3. Monitoramento e revisão


A Família DJSI é revisada anualmente e as empresas selecionadas são monitoradas
continuamente durante esse intervalo. Entre os aspectos analisados, estão:
š Envolvimento e gestão de áreas críticas (práticas comerciais ilegais, abusos
em direitos humanos, conflitos na força de trabalho, grandes acidentes).
Baseia-se em análises da mídia diária em todo o mundo. Quando é identifica-
da uma situação de crise, as análises são aprofundadas, podendo demandar
contato com a empresa. Se a gestão da crise não for considerada adequada,
a empresa é excluída.
š Questões societárias (abertura de capital, fusões, aquisições etc.), podendo gerar
a exclusão a qualquer tempo.
32 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

2.5.1.4. Usuários do DJSI


Os principais usuários desses índices são investidores e gestores de fundos, que pa-
gam para ter acesso às informações das companhias. Assim, dispõem de benchmarking
profissional e de um universo de ativos para composição de seus portfólios, de forma a
embasar suas decisões de investimento.

2.5.1.5. Vantagens para as empresas listadas e para o mercado/sociedade


Os índices de sustentabilidade possuem uma relevante função, que é a de sinalizar
quais são os fundamentos de sustentabilidade nas atitudes e decisões de uma orga-
nização que negocia suas ações no mercado e capitais. Adicionalmente, funcionam
como indutores na evolução em sustentabilidade para as organizações, tanto as lista-
das em bolsa como as demais, pois passam a ser referência para o mercado. Assim, ao
serem incluídas no índice, as companhias têm ganhos que se refletem nos negócios e
na imagem. Em razão disso, empenham-se em não serem excluídas na revisão anual
seguinte, uma vez que isso gera reflexos negativos.

2.5.1.6. Exclusão de setores


A família DJSI abrange todos os segmentos de negócios, não excluindo setores como
os de tabaco, armas etc. Para atender aos investidores que não desejam investir em
setores considerados controvertidos, os índices podem ser customizados de forma a
atender a necessidades específicas, tais como a exclusão de empresas ligadas a álcool,
jogo, tabaco, armas e outros critérios.

Pesquise

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WdWb_iWZei[jY$FWhWcW_i_d\ehcW‚[i"WY[ii[esite: http://www.sustainability-indexes.com.
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porquê.

2.5.2. ISE/Bovespa
Para atender às novas demandas da sociedade quanto a empresas socioambien-
talmente responsáveis, a Bovespa em conjunto com várias instituições – Associação
Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), Associação
Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid), Associação dos Analistas e Profissio-
nais de Investimentos do Mercado de Capitais (Apimec), IBGC, International Finance
Corporation (IFC), Instituto Ethos e Ministério do Meio Ambiente – criaram, em 30 de
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 33

novembro de 2005, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) como referência


para investimentos socialmente responsáveis no Brasil (Bovespa, 2009a).
Esse índice tem por objetivo refletir o retorno de uma carteira composta por ações
de empresas com reconhecido comprometimento com a responsabilidade social e a
sustentabilidade empresarial, além de atuar como promotor das boas práticas no meio
empresarial brasileiro (Bovespa, 2009b). Assim, o ISE foi criado nos moldes de outros
índices internacionais, como DJSI, FTSE4Good Series e Johannesburg Stock Exchange
SRI Index. Esses indicadores têm como objetivo comum propiciar um ambiente de in-
vestimento compatível com as demandas por desenvolvimento sustentável e estimular
a responsabilidade social e ambiental organizacional, considerando aspectos de gover-
nança corporativa e sustentabilidade empresarial (Bovespa, 2009b). As organizações
social e ambientalmente responsáveis e rentáveis são denominadas ISR.
Os investidores interessados em investir seus recursos nessas empresas acredi-
tam que elas geram valor no longo prazo e demandam cada vez mais esses tipos
de produtos dos mercados financeiros (Bovespa, 2009b). Nesse contexto, o ISE
mede o retorno total de uma carteira teórica composta pelas ações das empresas
melhor classificadas em termos de responsabilidade social e de sustentabilidade
organizacional. O critério para seleção das empresas participantes foi definido pelo
Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (CES-FGV ) e
se baseia no conceito do Triple-Bottom-Line (TBL), o qual envolve a avaliação de
elementos ambientais, sociais e econômico-financeiros de forma integrada. A esse
conceito foram acrescentados também indicadores que avaliam a natureza do
produto, as práticas de governança corporativa adotadas e outras características
gerais (Bovespa, 2009c).
O índice tem como avaliação de seu desempenho as empresas listadas na Bovespa
no que se refere aos aspectos de sustentabilidade. Assim, para realizar monitoramento
contínuo dessas organizações, realizou-se a contratação de uma instituição especiali-
zada para consecução desta atividade. Alguns critérios foram criados para facilitar essa
avaliação, sendo então consideradas, a princípio, seis dimensões: ambiental, social,
econômico-financeira, produto, geral e governança corporativa; essas foram subdividi-
das em quatro conjuntos de critérios: (a) políticas (indicadores de comprometimento);
(b) gestão (indicadores de programas, metas e monitoramento); (c) desempenho; (d)
cumprimento legal (Bovespa, 2009c). A seleção das empresas para compor o índice teve
início em 2005 e ocorre anualmente por meio de um questionário encaminhado às em-
presas pré-selecionadas (150 ações mais negociadas). O preenchimento do questionário
– que tem apenas questões objetivas – é voluntário, e demonstra o comprometimento da
empresa com as questões de sustentabilidade, consideradas cada vez mais importantes
no mundo (Bovespa 2009c). Dessa forma, o ISE busca refletir o retorno de uma carteira
do mercado de capitais brasileiro, servindo como referência de desempenho dessas
organizações e atendendo à demanda dos investidores, ao funcionar como um “selo
de qualidade” para organizações sustentáveis. Adicionalmente, pretende estimular as
demais empresas a utilizarem as boas práticas de sustentabilidade (Bovespa, 2009b).
34 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

2.5.2.1. Critérios de inclusão


São integradas à carteira do ISE as ações que, além de ser uma das 150 com maior
negociação nos últimos 12 meses, atendam, simultaneamente, aos seguintes critérios,
conforme mostra a Bovespa (2009a): (a) participação das negociações em, pelo menos,
50% dos pregões realizados nos 12 meses anteriores ao início da reavaliação da carteira;
(b) atendimento aos critérios de sustentabilidade determinados pelo Conselho Deli-
berativo, divididos nas seguintes dimensões: geral, natureza do produto, governança
corporativa, econômico-financeira, ambiental e social.

2.5.2.2. Critérios de exclusão


Conforme mostra a Bovespa (2009a), não poderá compor o ISE a organização que:
a) Deixar de cumprir qualquer um dos critérios de inclusão;
b) Durante o período vigente da carteira, entrar em regime de recuperação judicial ou
falência;
c) No caso de oferta pública, resultando em retirada de circulação de parcela signifi-
cativa de ações do mercado;
d) Durante a vigência da carteira, deixar de cumprir algum critério que altere signifi-
cativamente seus níveis de sustentabilidade e responsabilidade social;
e) Suspensão de negociação da respectiva ação por mais de 50 dias.

Pesquise

š 9ed^[‚WcW_iieXh[e?I;8el[ifW$7Y[ii[esite: http://www.bovespa.com.br.
š FheYkh[_Z[dj_ÓYWhgkW_ii€eeii[jeh[ifheZkj_leicW_ih[fh[i[djWZeide?I;8el[ifW$
š 7dWb_i[egk[ij_ed|h_eWi[hfh[[dY^_Zef[bWi[cfh[iWi[\W‚WYehh[bW‚[i[djh[eigk[i_jei[Wifh|j_YWiZ[
gestão.

2.5.3. Outros índices contendo critérios de sustentabilidade


2.5.3.1. FTSE4Good (Londres)
A FTSE Group (FTSE) é uma organização independente de propriedade do Financial
Times e da Bolsa de Londres, responsável pela criação e gestão de diversos índices, com
clientes em mais de 77 países. As Séries FTSE4Good Index mensuram o desempenho
de empresas com responsabilidade corporativa. Os índices podem ser usados para
investimento, pesquisa, referência ou benchmarking.
A FTSE relaciona os seguintes Índices FTSE4Good:
š FTSE4Good Index Series: abrange quatro índices negociáveis e cinco de benchmark,
representando os mercados global, europeu, americano e japonês.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 35

š FTSE4Good Environmental Leaders Europe 40 Index: lista organizações europeias


com uma gestão ambiental considerada de excelência.
š FTSE4Good IBEX Index: em parceria com a Bolsa espanhola, lista organizações
comprometidas com responsabilidade social, em especial engajamento com
stakeholders e direitos humanos.
š FTSE ET50 Index: inclui organizações cuja atividade principal envolve tecnologias
ambientais (energias alternativas, tratamento de água, controle da poluição e
gestão de resíduos).

2.5.3.2. JSE SRI Index (África do Sul)


O JSE SRI Index (Johannesburg Stock Exchange Socially Responsible Investment
Index), criado em maio de 2004 pela Bolsa de Valores de Joanesburgo, foi o primeiro
índice baseado em atributos de sustentabilidade criado em um país emergente (JSE
SRI Index, 2008).
Está voltado para a indústria extrativa e indústria pesada – em geral, responsáveis
por fortes impactos sociais e ambientais negativos – e foca a viabilidade dos negócios
no longo prazo. A JSE ressalta que as estratégias das empresas devem abordar a promo-
ção ativa da diversidade, empoderamento econômico dos negros, saúde e segurança,
desenvolvimento do capital humano e gestão da pandemia de HIV/Aids. O índice é
revisado anualmente.

2.5.3.3. S&P ESG India Index


Lançado no início de 2008 pela Standard & Poor’s em parceria com a IFC. O S&P
ESG India Index será mantido pela empresa India Index Services Ltd., uma joint ven-
ture entre a Bolsa Indiana (The National Stock Exchange of India) e a empresa Crisil
(Ecofinanças, 2009).
O índice é formado por 50 empresas indianas comprometidas com padrões elevados
de governança e responsabilidade social e ambiental, selecionadas a partir das 500
maiores empresas listadas na Bolsa indiana.

2.5.3.4. Domini 400 Social Index


É um índice de mercado lançado em 1990 pela organização KLD Research & Analytics,
Inc., localizada em Boston, Estados Unidos, e especializada em pesquisa em temas
sociais e índices para investidores institucionais. Visa auxiliar os investidores cons-
cientes a ponderar fatores ambientais e sociais no momento de fazer suas opções de
investimento (Domini, 2008).
36 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Envolve 400 empresas com padrões positivos em temas como relações humanas e
com empregados, segurança de produto, segurança ambiental e governança corpora-
tiva, com ações negociadas no mercado. Abrange ações das empresas componentes
do S&P 500, índice da Standard & Poor’s que inclui as quinhentas maiores empresas
globais. Exclui empresas de setores como: álcool, tabaco, armas de fogo, jogo, energia
nuclear e armas militares.

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2.5.4. Melhores práticas do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa


(IBGC)
O IBGC é uma entidade sem fins lucrativos, fundada em 1995 por um grupo de
empresários, membros de conselhos, executivos, consultores e estudiosos de admi-
nistração. É considerado, nacional e internacionalmente, como o primeiro órgão no
Brasil criado especificamente para tratar e introduzir as questões ligadas à governança
corporativa. Conforme indicado em seu Relatório Anual (IBGC, 2008), o Instituto, que
tem sua sede na cidade de São Paulo, conta com 1.500 associados pessoas físicas e 140
associados pessoas jurídicas.

2.5.4.1. O que é governança corporativa?


O IBGC, conforme descrito em seu website http://www.ibgc.org.br, define gover-
nança corporativa como:
[...] sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolven-
do os relacionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos
de controle. As boas práticas de governança corporativa convertem princípios em reco-
mendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor
da organização, facilitando seu acesso ao capital e contribuindo para a sua longevidade.

2.5.4.2. Por que implantar práticas de governança corporativa?


O que tem levado as organizações a buscarem modelos formais de gestão? De acordo
com Caetano (2003), a profissionalização na gestão é apontada como fator primordial,
fruto da alta competitividade do mercado a cada dia mais globalizado.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 37

Figura 2.6. Motivações para as organizações adotarem modelos formais de governança.


Fonte: Caetano, 2003.

2.5.5. O código de melhores práticas de governança corporativa do IBGC


O IBGC formulou o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa, cuja
divulgação ocorreu em maio de 1999. Em sua primeira edição, concentrava-se principal-
mente no Conselho de Administração, partindo da reflexão sobre a Lei das Sociedades
Anônimas então vigente e das discussões e conclusões de um representativo grupo de
empresários. A partir do lançamento do Código IBGC, observou-se que os principais
modelos e práticas de governança corporativa passaram por intenso questionamento
e houve a evolução do ambiente institucional e empresarial no Brasil, representando
a transição de um tempo onde a expressão “governança corporativa” era praticamente
desconhecida para um tempo em que passa a ser amplamente aplicada.
Em abril de 2001, promoveu-se a primeira revisão do Código, levando em conta os
avanços no âmbito legislativo e regulatório no campo da Governança Corporativa. Em
2009 foi lançada a quarta edição do Código, cuja revisão foi motivada por substanciais
mudanças no cenário corporativo brasileiro, citando-se: o ressurgimento do mercado
de capitais, aumento no número de empresas com capital na Bolsa de valores, fusões
e aquisições etc.
O Código está dividido em seis capítulos: propriedade (sócios); conselho de adminis-
tração; gestão; auditoria independente; conselho fiscal e conduta e conflito de interesses.

2.5.5.1. Compreendendo os princípios básicos


De acordo com o IBGC, os princípios básicos representam a filosofia do código de
melhores práticas. Conforme informações coletadas no próprio código de Melhores
Práticas de Governança Corporativa do IBGC, estes quatro conceitos são assim com-
preendidos:
38 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Transparência
Mais do que “a obrigação de informar”, a Administração deve cultivar o “desejo de
informar”, sabendo que da boa comunicação interna e externa, particularmente
quando espontânea, franca e rápida, resulta um clima de confiança, tanto in-
ternamente quanto nas relações da empresa com terceiros. A comunicação não
deve se restringir ao desempenho econômico-financeiro, mas deve contemplar
também os demais fatores (inclusive intangíveis) que norteiam a ação empre-
sarial e que conduzem à criação de valor.

Equidade
Caracteriza-se pelo tratamento justo e igualitário de todos os grupos minoritá-
rios, sejam do capital ou das demais “partes interessadas” (stakeholders), como
colaboradores, clientes, fornecedores ou credores. Atitudes ou políticas discri-
minatórias, sob qualquer pretexto, são totalmente inaceitáveis.

Prestação de contas (accountability)


Os agentes da governança corporativa devem prestar contas de sua atuação a
quem os elegeu e respondem integralmente por todos os atos que praticarem
no exercício de seus mandatos.

Responsabilidade corporativa
Conselheiros e executivos devem zelar pela perenidade das organizações (visão
de longo prazo, sustentabilidade) e, portanto, devem incorporar considerações
de ordem social e ambiental na definição dos negócios e operações. Responsa-
bilidade Corporativa é uma visão mais ampla da estratégia empresarial, contem-
plando todos os relacionamentos com a comunidade em que a sociedade atua. A
“função social” da empresa deve incluir a criação de riquezas e de oportunidades
de emprego, qualificação e diversidade da força de trabalho, estímulo ao desen-
volvimento científico por intermédio de tecnologia, e melhoria da qualidade de
vida por meio de ações educativas, culturais, assistenciais e de defesa do meio
ambiente. Inclui-se neste princípio a contratação preferencial de recursos (tra-
balho e insumos) oferecidos pela própria comunidade.

Pesquise

š 7Y[ii[esite do IBGC: http://www.ibgc.org.br


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IBGC.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 39

2.5.6. Diretrizes da OCDE


A OCDE é uma organização intergovernamental global que congrega os países mais
industrializados do mundo. Na OCDE, os representantes dos países se reúnem com a
finalidade de compartilhar informações e definir políticas para maximizar seu cresci-
mento econômico e desenvolvimento. A sede é em Paris. A OCDE foi criada, em 1961,
em substituição à Organização para a Cooperação Econômica Europeia, criada após
a Segunda Guerra Mundial com a finalidade de coordenar o Plano Marshall. Original-
mente 20 países firmaram a Convenção em 14 de dezembro de 1960.
Desde então mais países se tornaram membros da Organização. Seus membros
atuais são 30 países, cada um com direito a um voto: Alemanha, Austrália, Áustria,
Bélgica, Canadá, Coreia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França,
Grã-Bretanha, Grécia, Hungria, Irlanda, Islândia, Itália, Japão, Luxemburgo, México,
Noruega, Nova Zelândia, Países Baixos, Polônia, Portugal, República Tcheca, Repúbli-
ca Eslovaca, Suécia, Suíça e Turquia. Apesar de não ser um país membro da OCDE, o
Brasil, assim como Argentina e Chile, na América do Sul, apoia as Diretrizes nos países
industrializados e naqueles em vias de desenvolvimento.
Os objetivos da OCDE são:1
š Realizar a maior expansão possível da economia, do emprego e do progresso da
qualidade de vida dos países membros, mantendo a estabilidade financeira e
contribuindo assim com o desenvolvimento da economia mundial.
š Contribuir com uma expansão econômica saudável nos países membros, assim
como nos países não membros.
š Favorecer a expansão do comércio mundial sobre uma base multilateral e não
discriminatória, conforme as obrigações. Compartilhar informações nas áreas
sensíveis de trabalhos para os países.
š Desenvolver programas de cooperação em nível nacional e regional.
š Dar assistência aos governos e aos cidadãos dos países no aproveitamento dos
benefícios do comércio internacional.
š Promover um bom governo em todos os níveis governamentais e empresariais.
š Estimular a transparência e a igualdade na regulação e nos sistemas e regras de
concorrência.
š Lutar contra a corrupção e a lavagem de dinheiro, bem como promover a conduta
ética.
š Impulsionar o princípio da rentabilidade dos poderes públicos e da participação
dos cidadãos nas tomadas das decisões.
š Incentivar a adoção das medidas que promovam maior estabilidade econômica.
š Favorecer a cooperação entre os governos para trabalhar no fortalecimento do
comércio multilateral.
š Incentivar a expansão dos serviços financeiros e a inversão internacional.
š Promover boas práticas internacionais.

1
Disponível em: http://www.cgu.gov.br/ocde. Acesso em: 09/06/2011.
40 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

2.5.6.1. As Diretrizes
As diretrizes da OCDE foram criadas em 1976, e ocorreram diversas revisões até o
atual formato, lançado em 2000. Faz parte da Declaração da OCDE sobre o Investimento
Internacional e as Empresas Multinacionais:
[...] fornecem princípios voluntários e padrões para uma conduta empresarial responsável
e consistente com as leis adotadas. As Linhas Diretrizes objetivam assegurar que as ativi-
dades destas empresas estejam em harmonia com as políticas governamentais, de modo
a fortalecer as bases de uma confiança mútua entre as empresas e as sociedades nas quais
elas realizam operações, ajudar a melhorar o clima para investimentos estrangeiros e con-
tribuir para um desenvolvimento sustentável produzido pelas empresas multinacionais.2

As Diretrizes são recomendações voluntárias. Não vinculam os governos às empre-


sas. Pode-se afirmar que são moralmente obrigatórias, mas os tribunais não podem
obrigar os agentes envolvidos a cumpri-las. As empresas multinacionais atuantes em
comércio e investimentos internacionais intensificaram as ligações entre as economias
dos países da OCDE com o resto do mundo. Essas atividades empresariais trazem
benefícios substanciais aos países de origem destas empresas, bem como aos países
receptores. Esses benefícios são relevantes quando as multinacionais fornecem produ-
tos e serviços a preços competitivos aos consumidores e quando proporcionam justo
retorno aos investidores.
As atividades de investimento e comércio contribuem para o uso eficiente do capi-
tal, da tecnologia, dos recursos humanos e naturais. Incrementam a transferência de
tecnologia entre os países desenvolvidos e os em vias de desenvolvimento, assim como
o desenvolvimento de tecnologias adaptadas às condições regionais. As organizações,
através da fundamentação teórica e da aprendizagem prática, promovem o desenvol-
vimento do capital humano nos países hóspedes.
[...] A natureza, extensão e velocidade das mudanças econômicas constituíram um novo
desafio econômico para as empresas e as partes interessadas. As multinacionais têm a
oportunidade de implantar melhores práticas e políticas no âmbito do desenvolvimen-
to sustentável, procurando garantir coerência entre os objetivos sociais, econômicos e
ambientais. As capacidades dessas organizações de promoverem o desenvolvimento sus-
tentável são valorizadas quando o investimento e o comércio são realizados em contexto
de mercado aberto, concorrencial e adequadamente regulado.3

2.5.6.2. Explicação das Diretrizes


O documento denominado Responsabilidade Social de Empresas Multinacionais
(2004), organizado por Ciro Torres, Isaías Bezerra e Tânia Hernandes, explica as dire-
trizes da OCDE e que podem ser resumidas da seguinte maneira:

2
Brasil. Disponível em: http://www.fazenda.gov.br/sain/pcnmulti/diretrizes.asp. Acesso em: 10/06/2011.
3
Brasil. Disponível em: http://www.fazenda.gov.br/sain/pcnmulti/diretrizes.asp. Acesso em: 10/06/2011.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 41

Prefácio
“As Diretrizes proporcionam princípios e normas voluntários para uma conduta
responsável”, voltada a potencializar a contribuição que as empresas fazem ao desen-
volvimento sustentável. O prefácio é a única parte das Diretrizes que faz referência a
outros documentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Declaração
da Organização Internacional do Trabalho, a Declaração do Rio e a de Copenhague.

I – Conceitos e princípios
Os conceitos e princípios defendem que as empresas devem cumprir as Diretrizes
onde quer que operem, e que se destinam a todas as entidades (subsidiárias) das em-
presas multinacionais.

II – Políticas gerais
As empresas devem contribuir para o desenvolvimento sustentável, respeitar os
direitos humanos, estimular a geração de capacidade local, criar oportunidades de
emprego, não procurar nem aceitar isenções sobre normas ambientais, de saúde, segu-
rança e higiene, trabalhistas, fiscais e outras regulamentações e abster-se de qualquer
ingerência imprópria nas atividades políticas locais. Isso envolve também a proteção
para os trabalhadores que, de boa-fé, elaboram um informativo para a direção ou para
autoridades públicas sobre práticas contrárias à lei, às políticas da empresa ou às
Diretrizes da OCDE (conhecido em inglês como whisteblower ou toque de apito) e a
referência à responsabilidade ao longo da cadeia de abastecimento.
As empresas também devem apoiar e subscrever princípios e práticas de boa admi-
nistração empresarial e desenvolver e aplicar sistema de gestão eficaz.

III – Publicação de informações


As empresas devem garantir a divulgação de informação pontual, periódica e pre-
cisa sobre suas atividades, estrutura, situação financeira e resultados. Isso também as
impulsiona a oferecer informação sobre políticas sociais, éticas e de meio ambiente.

IV – Emprego e relações trabalhistas


As empresas multinacionais devem respeitar a liberdade de associação e contribuir
para a abolição efetiva do trabalho escravo, do trabalho infantil e da discriminação. Isso
também vale para as normas de emprego e relações trabalhistas que não sejam menos
favoráveis do que as que mantêm empresas análogas no país de acolhida ou anfitrião.
As mudanças que tenham consequências significativas para os trabalhadores
(como o fechamento da entidade ou demissões coletivas) devem ser anunciadas com
antecedência.

V – Meio ambiente
As empresas devem levar em conta a necessidade de proteger o meio ambiente
e contribuir para o desenvolvimento sustentável, estabelecer metas quantificáveis
para melhorar seus resultados nesse quesito e realizar um acompanhamento e veri-
42 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

ficação periódicos de seus avanços (ou falta deles). Devem divulgar de modo pontual
e adequado possíveis consequências ambientais de suas atividades ao longo de todo
o ciclo de vida dos bens e serviços que oferecem, bem como informar e consultar as
comunidades afetadas.
Esse capítulo também envolve o princípio de precaução que implica que as empresas
devem tomar providências para evitar o dano ecológico em caso de risco, até mesmo
se não houver evidência científica dele.

VI – Luta contra a corrupção


As empresas não devem, direta ou indiretamente, oferecer, prometer, dar ou pedir
pagamentos ilícitos para obter ou conservar um contrato ou outra vantagem impró-
pria. A luta contra a corrupção inclui firmar compromissos públicos sobre o assunto
e evitar contas secretas ou outras operações que não estejam apontadas. As empresas
não devem fazer contribuições ilícitas a candidatos a cargos públicos, partidos políticos
ou organizações políticas.

VII – Interesses dos consumidores


As empresas não só devem cumprir todas as normas acordadas ou legalmente
requeridas em matéria de saúde e segurança pública como também devem oferecer
informação precisa e clara sobre o uso seguro, conservação, armazenagem e elimina-
ção de seus produtos para que os consumidores possam decidir com conhecimento
de causa. Igualmente, devem contar com procedimentos transparentes e efetivos para
lidar com a reclamação dos consumidores e respeitar a intimidade deles.

VIII – Ciência e tecnologia


As atividades das empresas devem permitir a transferência e rápida difusão das
tecnologias e do know-how, de modo que contribuam com as expectativas de desen-
volvimento em longo prazo do país anfitrião.

IX – Concorrência
As empresas devem abster-se de fixar preços, fazer ofertas combinadas ou em co-
nivência, dividir-se ou distribuir o mercado repartindo-se os clientes, provedores ou
territórios. Devem conduzir todas as atividades conforme as leis vigentes em matéria
de concorrência.

X – Obrigações fiscais
As empresas devem cumprir pontualmente com suas obrigações fiscais e atuar em
conformidade com a lei e o espírito das disposições legais e regulamentares de caráter
fiscal.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 43

As Diretrizes são reconhecidas, promovidas e adotadas por governos, além de


constituírem uma forma mais simples do que ações judiciais para a solução de queixas
e denúncias em relação às empresas multinacionais. Dentre os seus pontos para me-
lhoria estão o seu caráter voluntário, ausência de monitoramento e uma linguagem vaga
em alguns parágrafos. O país que apoia as Diretrizes estrutura o seu Ponto de Contato
Nacional (PCN), que tem a missão de zelar pela efetiva implementação e divulgação
das Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais. Ele pode consistir em:
[...] um funcionário público, um departamento de governo, um órgão cooperativo que
inclua representantes de outras entidades públicas ou até outro que compreenda re-
presentantes de organizações sindicais, da comunidade empresarial e de outras partes
interessadas (Torres, Bezerra & Hernandes, 2004, p. 24).

No Brasil, o PCN está sob a responsabilidade de um funcionário do Ministério da


Fazenda. Dentre outras atribuições, deve:
[...] contribuir para a resolução de questões concretas que surjam em relação à imple-
mentação das Diretrizes, abrir espaço para debate e assistir a comunidade empresarial,
as organizações sindicais e outras partes interessadas na solução delas de maneira rápida
e eficaz (Torres, Bezerra & Hernandes, 2004, p. 74-5)

Pesquise

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š 7Y[ii[esite: http://www.fazenda.gov.br/sain/pcnmulti/ocde.asp.

2.5.7. Global Reporting Initiative (GRI)


Um “relatório de sustentabilidade” é termo genérico, considerado sinônimo de re-
latório, cujo objetivo é descrever impactos econômicos, ambientais e sociais (TBL) de
uma organização, como o relatório de responsabilidade social empresarial e o balanço
social (GRI, 2006, p. 3).
Elaborar relatórios de sustentabilidade é a prática de medição, divulgação e pres-
tação de contas para stakeholders internos e externos do desempenho organizacional
visando ao desenvolvimento sustentável.
A GRI é uma organização constituída por especialistas de diversos países. Iniciou-se
em 1997 como iniciativa conjunta da organização não governamental Ceres (Coalition
for Environmentally Responsible Economies – Coalizão por Economias Ambientalmen-
te Responsáveis) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Tem o objetivo de melhorar a qualidade, o rigor e a aplicabilidade dos relatórios de
sustentabilidade. Conta com a participação de representantes da indústria, de grupos
ativistas sem fins lucrativos, de órgãos contábeis, de organizações de investidores e
de sindicatos. Os múltiplos intervenientes na GRI trabalham pelo consenso sobre as
diretrizes em relatórios, visando a reputação e credibilidade.
44 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

O objetivo da GRI é tornar factível o reconhecimento de que os relatórios empre-


sariais de desempenho social, econômico e ambiental sejam rotineiros e comparáveis
como os balanços financeiros. A GRI é uma iniciativa com escopo global que visa obter
consenso a respeito das diretrizes de comunicação sobre a responsabilidade social,
ambiental e econômica das empresas” (Louette, 2010, p. 126). O objetivo é garantir a
qualidade dos relatórios a um nível passível de comparação, consistência e utilidade.
A GRI identifica dificuldades para organizações de menor porte para se engajar. Nesse
sentido, propõe que iniciem seus relatórios com base nos seus princípios e, para facilitar,
criou um modelo simplificado de relatório (disponível em seu website).

2.5.7.1. Histórico
O GRI é representado por três gerações de relatórios. A evolução é reflexo do grau
de interesse, de complexas estruturas sociais, econômicas e políticas de pressão que
incentivam a integração da sustentabilidade à estratégia organizacional. A última
versão do GRI considera os indicadores, a transparência dos resultados financeiros,
a comunicação com as partes interessadas e o relato dos acidentes, multas e riscos
correspondentes aos processos organizacionais.
Os conceitos relativos ao desenvolvimento sustentável estão integrados e presentes
em todos os capítulos do relatório. Os indicadores são apresentados integrados em
modelos de gestão e tecnologias adequados para medição. Os relatórios são elabo-
rados com base no diálogo com as partes interessadas para seleção das informações
apresentadas.

2.5.7.2. Elaboração do relatório de sustentabilidade


São senso comum as seguintes diretrizes para a elaboração de um relatório de
sustentabilidade:
š Apresentar a visão do negócio e o compromisso com o desenvolvimento susten-
tável.
š Descrever a realidade da empresa de forma que as questões ambientais e sociais
sejam corretamente definidas e relacionadas com as questões econômicas.
š Apresentar os resultados dos indicadores de sustentabilidade.
š Apresentar as metas e objetivos estabelecidos para o próximo ano.
š Identificar os destinatários dos relatórios (partes interessadas), justificando as
respectivas importâncias e necessidades de informação.
š Descrever as políticas, modelos e sistemas existentes para a gestão dos aspectos
não financeiros e financeiros.
š Apresentar os impactos e riscos ambientais, sociais e econômicos relacionados
com o negocio da empresa, bem como os acidentes e multas realizadas.
š Descrever os principais desafios para manter a empresa direcionada aos prin-
cípios do desenvolvimento sustentável e engajar a cadeia produtiva.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 45

š Descrever as principais iniciativas para mitigar os impactos e promover melho-


rias.
š Apresentar os valores e atitudes que atendam às necessidades de informação
das partes interessadas.
A falta de destaque do público-alvo para o qual o relatório de sustentabilidade se
direciona é uma oportunidade de melhoria comum nas organizações. Objetivos e estra-
tégias claras, com partes interessadas definidas que ajudem na integração do conceito
nos diversos setores da organização, são importantes na lapidação dos relatórios. A
elaboração do relatório demanda esforço coletivo para chegar às estratégias, objetivos
e planos de ação, representando a sistemática para a incorporação de princípios do
desenvolvimento sustentável.
Esse processo integra os níveis organizacionais, viabilizando compartilhar expe-
riências e inovações, bem como identifica oportunidades em áreas que necessitam de
melhoria. Quando uma organização declara externamente o seu desempenho, causa
impacto em seu ambiente interno. Ao expor a organização, empregados e gestores são
motivados a garantir que o desempenho seja melhor no próximo relatório. A divulga-
ção do relatório de sustentabilidade pode proporcionar mudanças na estratégia das
organizações.

2.5.7.3. Ganhos para a organização provenientes do relatório de


sustentabilidade
O relatório apoia a comunicação de oportunidades e desafios econômicos, am-
bientais e sociais para a organização. Responde às necessidades de informação das
partes interessadas. Elaborar um relatório socioambiental consiste em um processo
que propicia amadurecimento à gestão da organização. Não existe análise da relação
custo-benefício entretanto, a aceitação desse tipo de relato ou prestação de contas
indica que pode gerar benefícios internos e externos que superam os custos reais ou
percebidos.
A organização, considerando o mercado onde está inserida, valoriza de forma diferente
os benefícios de se elaborar o relatório de sustentabilidade. Por exemplo, como o suces-
so mercadológico de uma organização depende da reputação de sua marca, o relatório
apresentado de forma transparente e ética pode ser utilizado para alavancar o negócio.
Outra motivação para a elaboração e divulgação do relatório de sustentabilidade
está relacionada com razões para atrair e reter talentos: são os compromissos de
desempenho socioambiental da organização. Isto se torna diferencial em relação
aos concorrentes (por meio dos valores, do clima organizacional, dos princípios e
do desempenho relatados). A elaboração do relatório permite uma espécie de alerta
acerca de problemas repetitivos e identifica oportunidades na cadeia produtiva e na
comunidade em que a organização atua. Igualmente identifica responsabilidades em
relação aos órgãos reguladores e à gestão da reputação e da marca. Os relatórios de
sustentabilidade auxiliam no gerenciamento dos riscos de operação e permitem vá-
46 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

rios benefícios, com destaque no fortalecimento do diálogo e da confiança das partes


interessadas, na aproximação com investidores e o engajamento da força de trabalho,
constituindo-se em aperfeiçoamentos para a gestão da organização.

2.5.7.4. Verificação do relatório de sustentabilidade


A verificação externa do conteúdo dos relatórios de sustentabilidade traz benefícios
internos e externos à organização: (a) benefícios internos – oportunidades de integra-
ção na gestão, o engajamento da força de trabalho nas relações interdepartamentais
e o fortalecimento dos sistemas de indicadores; (b) benefícios externos – melhoria da
reputação, da confiança e da credibilidade junto às partes interessadas.
A verificação torna-se necessária em função da exigência da consistência das in-
formações contidas no relatório de sustentabilidade. Essa etapa está sendo cada vez
mais importante no âmbito da sustentabilidade organizacional. Nota-se que algumas
organizações produzem relatórios de sustentabilidade apenas pelo aspecto da rele-
vância comercial. As organizações que apresentam maturidade na gestão consideram
extremamente importante levar em conta a opinião externa para obter confiabilidade
e consistência dos dados.
A GRI exemplifica o escopo de verificação de relatórios de sustentabilidade, através
dos seguintes quesitos:

Completude do relatório
š Apresenta os principais produtos, serviços e operações da empresa e os respectivos
impactos nas partes interessadas?
š Identifica e promove formas satisfatórias de diálogo com as partes interessadas?
š Apresenta resultados financeiros satisfatórios?
š Apresenta com transparência os acidentes e riscos pertinentes às suas atividades?

Período e abrangência do relatório


š É divulgado com regularidade definida?
š Apresenta respostas aos riscos e acidentes relatados no relatório anterior?

Explicação da sustentabilidade do relatório


š Apresenta como a política de sustentabilidade se integra ao negócio?

Gestão da empresa
š O relatório descreve os sistemas de gestão implantados, considerando os indicadores
de desempenho e os seus respectivos resultados?
š Apresenta as práticas de governança corporativa?

Indicadores do relatório
š Demonstra, por meio de indicadores, o desempenho socioambiental?
š Apresenta resultados comparativos para os indicadores?
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 47

Auditoria do relatório
š Apresenta os procedimentos internos de validação do conteúdo descrito no
relatório?
š Apresenta os procedimentos externos de validação do conteúdo descrito no
relatório?

Comunicação e acesso
š O relatório apresenta como e para quem foi distribuído e divulgado?
š Ele oferece mecanismos de retorno de avaliação?
š Ele apresenta o comprometimento da alta direção com as informações divulgadas?

Impressões gerais do relatório


š Apresenta imagem realista da empresa?

Os relatórios são avaliados segundo escala de 1 a 5 por questão, facilitando as respos-


tas pelas partes interessadas. O resultado final é definido pela somatória das notas de
cada questão. O peso de cada tópico é definido em função do número de questões. Após
a análise dos resultados da verificação de um relatório, o gestor identifica qual aspecto
necessita ser desenvolvido para melhoria contínua do desempenho organizacional.

2.5.7.5. O futuro do relatório de sustentabilidade


As tendências dos relatórios de sustentabilidade para os próximos anos podem ser
sintetizadas em:
š Normalização, com aceleração da aplicação de padrões globais. São normalizados
desenvolvimentos setoriais, novas diretrizes e protocolos técnicos que permitam
maior homogeneidade no estabelecimento do sistema de indicadores para as or-
ganizações.
š Consolidação da linguagem que é utilizada nos relatórios, atribuindo credibilidade
ao conteúdo. Sistemas de coleta de informação são fundamentais para a versatili-
dade e modos similares de proceder.
š Necessidade de regulação para a realização de relatórios.

2.5.7.6. Modelos de relatórios de sustentabilidade


As Diretrizes para Elaboração de Relatórios de Sustentabilidade da GRI são apresen-
tadas em duas partes e compreendem os princípios, as orientações e os indicadores de
desempenho, todos esses elementos têm o mesmo peso e importância (GRI, 2006, p. 4):

Parte 1 – Definição de conteúdo, qualidade e limite do relatório


Tem a finalidade de ajudar a determinar o que relatar e abrange dois tipos de prin-
cípios: os princípios de materialidade, de inclusão dos stakeholders, que são utilizados
para determinar os temas e indicadores a serem divulgados; e os princípios de equi-
líbrio, comparação, exatidão, periodicidade, confiabilidade e clareza, que podem ser
48 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

usados em favor da qualidade das informações relatadas. Inclui, ainda, orientações para
as organizações relatoras sobre como definir as unidades de negócios contempladas
no relatório.

Parte 2 – Informações relevantes e essenciais a serem divulgadas


São divididas em três categorias de conteúdo:
a) Perfil: estabelecem o contexto geral para a compreensão do desempenho organi-
zacional, tais como sua estratégia e governança.
b) Forma de gestão: modo como a organização trata determinado conjunto de temas
para fornecer o contexto do desempenho em uma área específica.
c) Indicadores de desempenho: informações comparáveis sobre o desempenho eco-
nômico, ambiental e social da organização.

Figura 2.7. Visão geral das diretrizes da GRI.


Fonte: GRI, 2006, p. 4.
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 49

A Figura 2.7 apresenta o modelo mental que orienta a construção do relatório


GRI; primeiramente a identificação das orientações e requisitos que irão compor o
relatório; num segundo estágio os dados da organização que devem ser incorporados
ao relatório.
No desenvolvimento do relatório baseado nas Diretrizes GRI, utiliza-se abordagem
mercadológica e multi-stakeholder. Tem como base o consenso, com a finalidade de
divulgar resultados obtidos dentro do período relatado, no contexto dos compromissos,
na estratégia e na gestão da organização. Pode ser utilizado como:
š Padrão de referência (benchmarking) e avaliação do desempenho de sustentabi-
lidade com relação a leis, normas, códigos, padrões de desempenho e iniciativas
voluntárias.
š Demonstração de como a organização influencia e é influenciada por expectativas
de desenvolvimento sustentável.
š Comparação de desempenho dentro da organização e entre organizações diferentes
ao longo do tempo (GRI, 2006, p. 33).

Pesquise

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Acesse a página Doing Business, http://portugues.doingbusiness.org/ e faça uma pesquisa sobre os fatores que
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Técnicos, os Suplementos Setoriais e os Níveis de Aplicação. Cada item dessa estrutura foi pensado de forma a
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maior comparabilidade e relevância de informações nos relatórios publicados.

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a compilação e outras informações destinadas a auxiliar as organizações relatoras e assegurar coerência
na interpretação dos indicadores de desempenho. Seu uso é fundamental para garantir consistência e
comparabilidade longitudinal dos indicadores.

2.6. Revisão dos conceitos apresentados neste


capítulo
São apresentadas cinco diretrizes de gestão, estabelecidas pelo mercado. A aplicação
dessas diretrizes é consenso entre as organizações, pois permitem a comparabilidade
dos resultados obtidos com seu uso. São elas:
š DJI.
š ISE/Bovespa.
š Melhores práticas do IBGC.
50 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

š Diretrizes da OCDE.
š Diretrizes para Elaboração de Relatórios de Sustentabilidade da Global – Reporting
Initiative (GRI).
Em princípio buscou-se responder à questão principal deste capítulo: o que são
diretrizes de gestão? Em seguida foram apresentadas as diversas fases que compõem
a evolução da gestão organizacional até a tendência contemporânea da gestão orga-
nizacional para a sustentabilidade.
A partir deste ponto, o capítulo apresentou os parâmetros norteadores das diretri-
zes de gestão para a sustentabilidade: pontos em comum entre as diversas diretrizes
estudadas.
Foram detalhadas as diretrizes de gestão para a sustentabilidade organizacional,
já citadas neste resumo final. Além das cinco diretrizes foram descritos outros índices
contendo critérios de sustentabilidade. Dessa forma, o leitor pode estabelecer com-
parações entre as diretrizes e escolher qual delas aplicar em sua organização, visando
prepará-la para o desempenho segundo os princípios do desenvolvimento sustentável.

Sugestões para sites de pesquisa:


š http://www.balancosocial.org.br
š http://ec.europa.eu/social/main.jsp?catId=331&langId=en
š http://www.ethos.org.br
š http://www.globalreporting.org.
š http://www.fbds.org.br

2.7. Questões
1. Para aprimorar o aprendizado, utilize-se das questões abaixo. Elas estimulam a discus-
são e pesquisas em temas relevantes sobre Diretrizes de gestão empresarial.
a) Que exemplos de novas estratégias e práticas de gestão responsável devem ser
utilizados pelas organizações para que se coloquem de forma competitiva no
ISE/Bovespa?
b) Quais novos negócios você identifica que incorporam conceitos estudados neste
capítulo, tanto em organizações do sistema financeiro como nas organizações
em geral?
c) Quais são os objetivos da elaboração, pelas organizações, do Relatório de Sus-
tentabilidade nos aspectos estabelecidos pelo GRI?
d) Como uma organização é impactada pela pressão da sociedade em sua prestação
de contas?
e) Como o valor intangível da organização é influenciado pela qualidade de sua
prestação de contas à sociedade?
f) As estratégias organizacionais devem ser preparadas baseadas apenas em dados
financeiros e econômicos? Quais os demais dados e informações necessários à
formação de uma estratégia organizacional?
Capítulo 2 s-OTIVADORESMERCADOL˜GICOSPARAODESEMPENHOAMBIENTAL 51

g) Como uma empresa deve se organizar para elaborar o relatório de sustentabili-


dade?
h) Quais são as principais etapas que devem ser previstas para elaboração de um
relatório de sustentabilidade?
i) Quais são as principais barreiras para a elaboração de um relatório de sustenta-
bilidade?
j) Que instrumentos ou estratégias podem ser utilizados pelas organizações para
promover o diálogo com as suas “partes interessadas”?
k) Como a organização pode ser transparente e engajar as partes impactadas pelo
seu processo utilizando o diálogo?
l) Identifique outros tipos de modelos de relatórios que são utilizados pelas em-
presas para demonstrar os seus resultados econômicos, ambientais e sociais.
m) Qual é o modelo de relatório de sustentabilidade que atualmente é referência
no mercado? Aproximadamente, quantas empresas no mundo estão adotando
esse modelo? Por quê?
n) Qual é a importância da verificação dos relatórios de sustentabilidade?
o) Atualmente, como se comporta o movimento de adesão das empresas na ela-
boração do relatório de sustentabilidade?

2. Acessar o endereço www.gecko.com.br e estudar o exemplo de oportunidade de


negócio advinda da ideia da sustentabilidade. Refletir sobre o tema, estudar os
“produtos e serviços” oferecidos pela Gecko.
3. Você sabia que as empresas em geral disponibilizam seus relatórios de sustentabili-
dade em seus websites? Acesse os websites de algumas empresas. Baixe seus relatórios
e faça uma análise comparativa entre eles.

2.8. Referências
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http://www.undp.org
http://www.pnud.org.br
http://www.naturalstep.org
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3
Estratégias da organização para
eZ[i[dlebl_c[djeikij[dj|l[bÅ
motivadores mercadológicos para o
desempenho ambiental
Reidson Pereira Gouvinhas

Conceitos apresentados neste capítulo


Este capítulo discute as estratégias empresariais impostas pelas novas perspectivas
da sociedade moderna, na qual as questões ambientais estão cada vez mais presentes
no mundo coorporativo, apresentando conceitos como consumo sustentável, marke-
ting verde, ecodesign e produção mais limpa e instrumentos normalizadores para a
incorporação do desenvolvimento sustentável no mundo coorporativo.
56 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

3.1. Introdução
Atualmente, as empresas vêm sofrendo pressões de vários setores da sociedade tais
como as Organizações Não Governamentais (ONGs) de cunho ambientalista como o
Greenpeace, as novas legislações ambientais (como a destinação de resíduos sólidos
eletroeletrônicos na Europa e a nova política de resíduos sólidos no Brasil), os tratados
internacionais (Protocolo de Quioto, por exemplo), além de demandas de mercados
consumidores cada vez mais exigentes e preocupados com os impactos ambientais,
sociais e éticos que podem ser gerados pelo seu padrão de consumo.
Dessa forma, a preocupação com relação a aspectos da sustentabilidade chegou
a tal ponto que as empresas precisam avaliar o impacto gerado por seus processos e
produtos ao longo de todo o ciclo de vida. De fato, algumas empresas já perceberam que
existe uma oportunidade de realizar bons negócios utilizando-se de uma gestão mais
sustentável, por meio da incorporação de práticas relacionadas à proteção ambiental e
à responsabilidade social. Por exemplo, já se percebe que práticas como o aumento da
eficiência energética, o destino de forma ambientalmente correta de peças e componen-
tes no que tange à reciclagem, à remanufatura e à reutilização, além de maximizarem
o uso de recursos naturais, podem aumentar a lucratividade das empresas.
Outras estratégias como o uso de processos produtivos mais “limpos” e eficientes,
além de inovações no design e a busca de produtos mais sustentáveis, também têm
trazido diversos benefícios. Assim, uma vez que a sustentabilidade começa a permear
o mundo dos negócios corporativos e a compor novos valores para as empresas, a
constituição de uma imagem sustentável se torna uma estratégia importante para que
elas se tornem realmente competitivas.
Como consequência, as empresas necessitam integrar a sustentabilidade em seus
procedimentos, em todos os níveis de tomada de decisão: o estratégico, o tático e o
operacional. Entretanto, tem-se observado que, para muitas delas, especialmente as
pequenas e médias empresas (PMEs), existem algumas dificuldades para que se possa
colocar essa sustentabilidade em prática.
De fato, as empresas se comunicam com seus clientes através do oferecimento de
seus produtos e serviços. Portanto, para que se possa criar uma imagem corporativa
sustentável, é necessário que elas utilizem um modelo de gestão que possa integrar o
negócio como um todo, com aspectos de marketing e estratégia de desenvolvimento
de produtos e serviços de uma maneira eficiente. Em outras palavras, acredita-se que,
para ser mais eficiente, o processo de desenvolvimento de produtos (PDP) deveria
integrar-se a uma estrutura mais abrangente em que as estratégias de negócio e de
marketing fossem tomadas em consideração. Estes três aspectos – o PDP, a estratégia
de negócio e a estratégia de marketing – deveriam estar integrados, a fim de trocarem
informações, colaborando com o processo de tomada de decisão através de todos os
departamentos. Ou seja, decisões tomadas durante o processo de desenvolvimento de
produtos deveriam ter um forte elo com as estratégias de marketing e de negócio. Isto
significa dizer que tais decisões devem ser tomadas de forma simultânea.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 57

Por exemplo, uma empresa que decide estrategicamente se colocar para o mercado
como uma empresa “ecologicamente correta” deve adotar tal postura estratégica tam-
bém no processo de desenvolvimento de seus produtos e nas suas ações de marketing.

3.2. O consumo sustentável e o desenvolvimento


de produtos
A história do desenvolvimento econômico da humanidade parte da formação de
uma sociedade baseada essencialmente no extrativismo e na economia de subsistência
associados ao atendimento às necessidades vitais de sobrevivência, para ser substituída
por uma sociedade atual de consumo surgida com o advento da revolução industrial.
Esta sociedade de consumo se baseia inteiramente na produção e consumo exa-
gerado de produtos para satisfazer não somente as necessidades básicas de cada um,
mas associa o nível do consumo à aceitação do indivíduo perante a sociedade e a sua
própria felicidade. Ou seja, quanto mais consome, mais aquele determinado indivíduo
é bem aceito na sociedade e mais feliz ele será.
Como consequência, é o padrão de consumo de produtos e serviços que define
a forma de como ocorre o desenvolvimento econômico dessa sociedade. Nesse
contexto, a adequada oferta de produtos e serviços à sociedade é que irá definir a
capacidade de sobrevivência de uma determinada empresa e, consequentemente,
do seu desenvolvimento econômico. Portanto, produtos e serviços passam a ser as
condições sine qua non de sobrevivência de uma empresa. É através dos produtos
e serviços oferecidos pela empresa que ela se comunica com seus clientes. Assim,
a imagem que uma determinada empresa tem perante o mercado se reflete pelos
produtos e serviços oferecidos por ela.
De fato, os clientes só consomem os produtos e os serviços daquela empresa se os
mesmos atenderem às suas necessidades. Dessa forma, se uma empresa desejar ter
sucesso, seus produtos e serviços devem agregar mais valor (por exemplo, ser mais
conveniente, mais barato, mais fácil de ser utilizado, consumir menos energia, entre
outros) do que aqueles oferecidos pela concorrência.
Ocorre que muitos dos problemas relacionados ao padrão de consumo e de produ-
ção atuais estão associados às seguintes categorias ou à combinação delas:
š A filosofia de vida baseada na “economia de escala” e na “produção em massa”
tem dominado as políticas e os procedimentos das empresas e da economia no
mundo. É a política do “quanto mais consumo melhor”. Estratégias de vendas,
como “compre um e leve dois” ou “na compra de X, ganhe Y de graça”, estimulam
o consumo e fazem que os indivíduos consumam muito além de suas necessi-
dades. O consumo excessivo tem como consequência a exploração exagerada
dos recursos naturais e o aumento do volume de resíduos gerado, combinados
com uma gradual redução da vida útil dos produtos.
58 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

š Os bens são usados cada vez com menos frequência e a visão da sociedade é a
de que quanto mais bens um indivíduo possuir, maior é a sua ascensão social.
Ou seja, os bens são uma identidade de quem o indivíduo é perante a socieda-
de, traduzida em forma de status. Como consequência, as pessoas se definem
e definem as outras em função dos bens que possuem. Ainda, muitas pessoas
consideram que “ir às compras” é uma forma de terapia contra o estresse do
dia a dia. Todas essas visões fazem que se estimule cada vez mais o consumo de
produtos e serviços, mesmo que não haja necessidade para tal.
š A cultura do uso descartável onde, de fato, muitos dos produtos são projetados
para que quebrem ou não funcionem adequadamente após pouco tempo de
uso. São produtos que não se pode reparar, seja por falta de peças de reposição,
por não haver mais o serviço de reparo ou até mesmo porque tais produtos não
podem ser desmontados sem que haja qualquer tipo de dano. Em alguns casos,
o custo do reparo do produto é igual ou superior ao custo de substituí-lo por um
novo. Tais estratégias estimulam que o consumidor retorne para a compra de um
novo produto. Como consequência, a troca de produtos é muito mais frequente e
a evolução tecnológica faz que produtos “novos” se tornem rapidamente obsoletos.
Isto é particularmente destacável no setor de informática, no qual produtos com
pouco tempo de uso se tornam obsoletos. Não importa quais funções os produtos
possam oferecer e em que condições de funcionamento eles estão, o estímulo é
para que os produtos “antigos” sejam descartados e substituídos rapidamente por
produtos “novos” (Kang e Wimmer, 2008).

Nesse contexto, percebe-se que o modelo tradicional de produção em massa e foca-


do na venda do produto se contrapõe a visão ambientalmente correta. Assim, existe a
necessidade de se buscar formas alternativas para gerenciar os negócios. Faz-se neces-
sária a criação de novas estratégias de negócio, novas formas de relação com o cliente
que não o levem para o caminho do consumo desenfreado e do descarte excessivo,
com consequentes danos ao meio ambiente. É necessário que se encontre uma nova
forma de gerenciar negócios frente às questões da sustentabilidade e que, ao mesmo
tempo, continue a gerar lucratividade para as empresas.
Assim, é imprescindível a busca de novos modelos gerenciais de negócios que inte-
grem no seu bojo novas formas de estratégia competitiva, o aprimoramento da relação
empresa-mercado consumidor em uma perspectiva sustentável e o desenvolvimento
de novos produtos/serviços que estejam em consonância com essa nova perspectiva
mercadológica.
Destaca-se que o ato de consumir permite às pessoas formatar, através de suas
diversas escolhas e preferências, uma prática de comportamento ambiental, político,
cultural, social e econômico. Portanto, é através do ato de consumo responsável que as
pessoas começam a se tornar “cidadãos ambientalmente conscientes” ou “cidadãos do
mundo”. Dessa forma, muito embora ainda não esteja claro o que seja um “consumo
sustentável”, a forma como as pessoas fazem suas escolhas, seu comportamento de
consumo e seu estilo de vida dão uma forte indicação se caminhamos para o desen-
volvimento sustentável ou não (Jackson, 2004).
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 59

Em termos de iniciativas individuais, o consumo sustentável pode ser expresso nos


seguintes elementos (Marchand et al., 2005):
š Abstinência: deixar de consumir ou, em alguns casos, consumir menos.
š Atitude: considerar o consumo exagerado, ou seja, aquele que excede as neces-
sidades do indivíduo, como algo nocivo.
š Conscientização: escolher produtos baseando-se em suas qualidades ambientais
(é o exemplo do detergente biodegradável).
š Alternativa: identificar substitutos para o consumo tradicional de maneira a
buscar a sustentabilidade (p. ex.: troca de produto por serviço).

De fato, estudos indicam que os consumidores estão cada vez sensíveis à forma com
que consomem os produtos, aumentando sua preocupação com aspectos ambientais e
sociais dessa decisão (Unep, 2002; ERSCP, 2004). Ressalta-se que o “consumo sustentá-
vel” não é sinônimo de “consumo verde”. Este se refere ao consumo de “produtos verdes”
(ou seja, restringe-se aos ambientalmente corretos), enquanto aquele trata também
da quantidade de produtos que são consumidos e da preservação dos aspectos sociais
incorporados na sua produção (ou seja, a não utilização de mão de obra escrava ou
infantil). Assim sendo, infere-se que todo produto sustentável é também um produto
verde, mas nem todo produto verde é um produto sustentável.
O caminho do consumo sustentável ainda é incerto. Entretanto, pode-se argumentar
que, para se desenvolver soluções “mais sustentáveis”, é importante o papel do desen-
volvimento de produtos na busca de novas alternativas de consumo. Esforços no sentido
de mudar o comportamento do consumidor dependem do entendimento de qual é o
impacto do consumo, do conhecimento sobre as estruturas existentes, das potenciais
alternativas, das motivações, dos incentivos existentes para a mudança e da capacidade
para mudança em termos de recurso e infraestrutura (Robins e Roberts, 1998). Neste
contexto, soluções sustentáveis podem influenciar positivamente a escolha do consu-
midor, o uso e a disposição dos produtos e o uso dos serviços. De fato, a liberdade de
escolha do consumidor, no seu estilo de vida e na escolha de produtos, está limitada
pela forma com que a vida de cada um está organizada, pelos seus hábitos e expecta-
tivas sociais e pela variedade de produtos disponíveis para consumo (Hertwich, 2005).

3.3. Marketing verde


Polonsky (2001) explica que “o marketing ambiental ou verde consiste em todas
as atividades desenhadas para gerar e facilitar trocas de forma a satisfazer os desejos
e necessidades humanas, resultando um impacto mínimo sobre o meio ambiente.”
Para Da Silva et al. (2008),
O marketing verde tem como finalidade orientar, educar e criar desejos e necessidades
nos consumidores sempre visando causar um menor impacto ambiental, além de atingir
os objetivos de comercialização das organizações. Como consequência, pode ser visto
como um grupo de políticas utilizadas estrategicamente para a comunicação de forma a
conquistar um determinado público, através da diferenciação de seus produtos e servi-
ços oferecidos, obtendo então um aumento na participação de mercado e firmando seu
posicionamento.
60 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Assim o marketing verde é uma ferramenta importante para se promover não so-
mente o desenvolvimento de produtos ambientalmente corretos, como também todo o
conceito de desenvolvimento sustentável. Através do uso dessa ferramenta, a empresa
poderá estimular seus agentes internos (alta direção, gerência e funcionários de uma
forma geral) e agentes externos (fornecedores, consumidores, governo e sociedade) a
aumentarem seu grau de conscientização no que se diz respeito às questões ambientais.
Seu público-alvo é, portanto, aquele indivíduo que percebeu que o seu comportamento
de consumo está associado à sua qualidade de vida.
Motta e Rossi (2002) argumentam que
[...] o processo de decisão de compra inicia-se quando o consumidor percebe que há
um hiato entre seu estado real (a situação atual do consumidor) e um estado desejado (a
situação em que o consumidor quer estar) e este hiato é suficientemente relevante para
fazê-lo agir; essa discrepância entre dois estados convencionou-se chamar de necessidade
e é provocada por estímulos internos e externos.

Completam ainda que, “para que a ação de compra ocorra é necessário que o con-
sumidor perceba esta necessidade como realmente importante”.
Particularizando para o consumo de produtos ambientalmente corretos, pode-se
definir o consumo relacionado ao meio ambiente a partir do comportamento dos
consumidores que (Dobscha, 1993):
a) escolhem por produtos e serviços considerados seguros ambientalmente;
b) evitam produtos/serviços que não agridam o meio ambiente;
c) descartam apropriadamente os produtos.

Dessa forma, pesquisas indicam que são os próprios consumidores que procuram
adotar atitudes e comportamentos de compra coerentes com a preservação ambiental
(Cuperschmid e Tavares, 2001).
Entretanto, apesar de se perceber um crescimento do mercado consumidor para
produtos ecologicamente corretos, observa-se que ainda existe uma grande diferença
entre o discurso ambientalista dos consumidores e suas ações de consumo. Ou seja,
há uma dicotomia entre aqueles consumidores que relatam a sua intenção de adquirir
produtos ambientalmente corretos com aqueles que o fazem no momento da aquisição
do produto (Penna da Rocha, 2009).
Semples e Vandercammen (2009) apresentam algumas razões para explicar essa
dicotomia argumentando que o ser humano possui a capacidade de não fazer tudo
aquilo que ele diz que faz ou tudo aquilo que ele diz ter intenção de fazer. Em muitos
casos, as pessoas prometem, por exemplo, parar de fumar ou realizar atividade física
quando da entrada de um ano novo, mas acabam não cumprindo tais promessas. As
preocupações sociais ou ambientais não escapam desta postura. Se uma pessoa se
propõe a ser um consumidor responsável, também é longo o caminho até que ela
realmente se torne um.
Essa forma de comportamento humano é um verdadeiro problema para aqueles
envolvidos na formatação de estratégia de marketing dos produtos/serviços oferecidos
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 61

pela empresa. Por conseguinte, as intenções de compra de um determinado produto/


serviço, nem sempre seguem a efetiva realização da compra. Há uma grande diferença
entre a nossa intenção de agir e a nossa ação propriamente dita.
Em outros casos, mesmo que possa existir o desejo de agir de uma determinada
forma, não existe a possibilidade de se realizar tal ação da maneira desejada. São os
fatores externos e contextuais que não permitem a realização de uma determinada
intenção de agir. Por exemplo: “eu gostaria de instalar em minha residência um sistema
de energia limpa (digamos, solar), mas não há condições técnicas para a a instalação
de tal equipamento”. Ou ainda, existem condições técnicas para realizar tal ação, mas
o seu custo é inviável.
Certos fatores pessoais são também impeditivos para que determinado indivíduo
se comporte da maneira que inicialmente ele intencionava (aspectos psicológicos ou
motivacionais, por exemplo).
Assim, fatores como a limitação de recursos (financeiros, tempo, espaço, competên-
cia ou conhecimento) são parte de uma bagagem pessoal de vida que contribui para
mais ou para menos a sua possibilidade de escolha de consumo.
Outros fatores são aqueles associados à personalidade do indivíduo. Primeiro,
quando ele recebe uma informação contrária às suas crenças já preestabelecidas, reage
de duas formas: ou nega esta nova informação ou a minimiza a fim de preservar suas
crenças e atitudes. Entender esta sistemática interna do indivíduo é importante para,
por exemplo, compreender como um consumidor recebe uma nova informação e de
que forma poderá reagir a ela. Um segundo fator está relacionado ao controle que o
indivíduo procura dar a sua vida. Há uma tendência de os indivíduos atribuírem a
felicidade ou infelicidade de certos eventos de sua vida a fatores externos ou internos.
Ou seja, as pessoas tendem a associar seu sucesso ou fracasso à sua própria capaci-
dade (fatores internos) e/ou fatores externos como o destino ou o acaso. Nessa última
situação, percebe-se que, ao não se conseguir ter um controle sobre sua própria vida,
o indivíduo acaba tendo uma postura de resignação perante os fatos. Portanto, frente
à perspectiva do aumento do aquecimento global, por exemplo, o indivíduo pode
apresentar duas posturas distintas. Ou se engajar e mudar o seu comportamento, ou
achar que uma mudança em seu comportamento de nada irá influenciar em algo que
já está destinado a acontecer.
Existem ainda os fatores motivacionais, ou seja, aqueles que fazem que um indivíduo
aja de uma determinada forma. Aqui, os valores do indivíduo são os que fazem que ele
se manifeste de uma determinada maneira: valores egocêntricos, valores pró-sociais
e valores biosféricos.
Os valores egocêntricos são aqueles associados aos valores íntimos do indivíduo.
Eles estão intimamente ligados aos seus desejos vitais, biológicos e psicológicos. Ou
seja, estão associados ao bem-estar de cada indivíduo.
Já os valores pró-sociais ou altruístas transcendem o indivíduo, pois estão associa-
dos ao bem-estar de outro indivíduo. Ou seja, é a sua sensibilização com o bem-estar
de seu semelhante.
62 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Por fim, os valores biosféricos se reportam ao meio ambiente natural e ao seu entor-
no. Eles visam reconhecer e respeitar os limites naturais do planeta em vistas a preservar
a harmonia e o equilíbrio de nosso meio ambiente em um sentido mais abrangente.
Importante ressaltar que esses valores estão presentes em cada um de nós em grau
de importância diverso.
Como consequência, a motivação de cada indivíduo está associada diretamente
a essa estrutura de valores. Mais especificamente, a motivação para adotar ou não
um comportamento de compra, por exemplo, está associada à forma como tal com-
portamento irá colaborar ou ir de encontro a este sistema de valores. Dessa forma,
ao escolher adquirir um veículo 4 X 4, por exemplo, determinado indivíduo poderá
entrar em conflito ou não com seus diversos valores. Poderá considerar que a compra
desse veículo contribuirá para a sua segurança e conforto, mas, ao mesmo tempo, se
questionará sobre a alta emissão de poluentes que o veículo poderá trazer ao meio
ambiente.
Entretanto, o consumo não é apenas uma ação do indivíduo, mas também um sím-
bolo de comportamento. A maneira como consumimos produtos e serviços retrata a
identidade de cada indivíduo e de como somos vistos por um grupo social. Afinal, o ser
humano é um ser social, pois desejamos, em grau diverso, relacionarmo-nos com os
diversos grupos sociais existentes e comportarmo-no segundo as regras estabelecidas
pela sociedade. Ou seja, influenciamos e somos influenciados pela nossa relação com
a sociedade.
O consumo ocupa um papel importante nessas interações com a sociedade.
Podemos assim renunciar temporariamente a nossos valores e nossas opiniões em
favor de valores ou preferências sociais com o intuito de sermos aceitos pela socie-
dade de uma forma geral. Portanto, o grau em que se dá aos valores sobre questões
socioambientais, por exemplo, pode ser alterado de acordo com o grupo social em
que o indivíduo está inserido naquele determinado momento. Ou seja, para que tal
indivíduo possa ser aceito por um determinado grupo social, ele pode, inclusive,
modificar o grau de seus valores.

3.4. Projetando alternativas sustentáveis


A necessidade de se adotar um consumo mais sustentável é o grande desafio para os
projetistas que desenvolvem seus produtos de forma tradicional. Assim, a sustentabili-
dade fornece uma excelente oportunidade para os projetistas criarem e desenvolverem
novos projetos. Como citado por Cooper (2000), o consumo sustentável engloba um
repensar sobre a concepção dos produtos e como as necessidades dos consumidores
podem ser satisfeitas. Os procedimentos tradicionais, focados somente no produto, já
não são capazes de fornecer a mudança necessária. É preciso que haja uma intervenção
mais radical nos projetos que almejam ser ecologicamente responsáveis, socialmente
relevantes, tecnologicamente apropriados e que atendam aos desejos dos consumi-
dores.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 63

Muitas estratégias de projeto que abordam a questão da necessidade de um consumo


sustentável estão surgindo (Fletcher et al., 2001). De uma forma geral, tais estratégias
se referem a:
š reprojetar aquilo que é consumido (consumo mais “verde”);
š reorganizar a forma como o consumo ocorre (consumir de forma diferente);
š redescobrir a natureza das necessidades e associá-las com a satisfação dos con-
sumidores (consumo apropriado).

De acordo com esses autores, as estratégias citadas podem focar tanto na qualidade
quanto na quantidade de consumo e podem ser organizadas em três aspectos:
š foco no produto – fabricando produtos mais eficientes;
š foco no resultado – produzindo o mesmo resultado de uma forma diferente (e
mais sustentável);
š foco na necessidade – questionando a necessidade satisfeita pelo objeto, serviço
e sistema, e como esta pode ser alcançada.

Mintzberg e Quinn (2001) definem estratégia como um “padrão ou plano que in-
tegra as principais metas políticas e sequências de ações de uma organização em um
todo coerente”. Como consequência, percebe-se que uma estratégia bem formulada
requer uma adequada coordenação dos diversos departamentos de uma organização.
Rumelt (1980) apud (Mintzberg e Quinn, 2001) classifica a estratégia em: (a) genérica
e (b) competitiva. A estratégia genérica é maneira pela qual a organização se relaciona
com seu ambiente, enquanto a estratégia competitiva é aquela por meio da qual a
organização procura competir com as outras organizações.
Porter (1986) diz que existem apenas dois tipos de vantagem competitiva: preços
baixos ou diferenciação que combinam com o escopo de operação da organização. Já
Mintzberg e Quinn (2001) fazem uma distinção entre escopo e diferenciação. Esta se
identifica com o que seja fundamentalmente distinto sob a ótica do cliente, enquanto
aquele se identifica com os mercados em que a empresa pretende atuar, ou seja, trata
da visão da organização. Em resumo: a diferenciação é tudo aquilo que é analisado sob
a ótica do cliente, e o escopo é tudo aquilo que é analisado sob a ótica do produtor.
A principal forma de se alcançar a diferenciação é através de investimentos no
design do produto ou serviço (Kotler, 2002; Baxter, 2000; Hooley e Saunders, 1996). Esta
estratégia contribui para enfatizar as razões pelas quais o consumidor deve comprar
o produto da empresa, e não o do concorrente, criando uma vantagem baseada no
mercado.
Como consequência, a atividade de desenvolvimento de produtos é potencialmente
importante para os propósitos de desenvolvimento dos negócios, pois contribui para
se alcançar seus objetivos-chave (Johne, 1995).
Para tanto, tal atividade deve ser realizada de forma a proporcionar à empresa
uma vantagem competitiva nos mercados-alvo, aumentando sua fatia de mercado e
construindo uma boa reputação diante dele. Portanto, uma das principais funções de
uma empresa de sucesso é fazer que o seu processo de desenvolvimento de produtos
64 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

(PDP) seja realizado de forma a entregar ao cliente aquele tipo de produto ou serviço
que ele estava buscando.
Portanto, melhorias no PDP implicam melhorias e mudanças radicais no desempe-
nho dos produtos e serviços. Infelizmente, de uma forma geral, esse processo ocorre
de forma heurística, baseado em experiências anteriores e diretrizes gerais que podem
guiar o projetista na direção correta, mas sem a garantia de que ele obterá algum re-
sultado expressivo (Cross, 1994). Conclui-se, portanto, que a atividade de desenvolvi-
mento de um novo produto é bastante arriscada e requer o devido planejamento por
parte da empresa.
De fato, Gouldson e Murphy (1998) consideram que a relação entre desenvolvi-
mento econômico, inovação e desempenho ambiental empresarial está baseada nas
seguintes perspectivas:
š Tecnológica: destacando a importância de se deslocar do uso de tecnologias de
controle para tecnologias proativas, como a Produção mais Limpa (PmL).
š Organizacional: observando a necessidade de deslocar a perspectiva ambiental
de algo periférico na empresa para algo como o núcleo central da tomada de
decisões do negócio.
š Estratégica: estabelece que, além de focar em melhorias incrementais, deve-se
também avaliar a possibilidade de mudanças radicais em termos de inovação.

Assim, inovações incrementais referem-se a pequenas mudanças ou melhorias de


tecnologias existentes, enquanto que inovações radicais envolvem o desenvolvimen-
to ou a aplicação de novas tecnologias ou ideias, no sentido de se encontrar formas
totalmente inovadoras de se produzir produtos ou serviços (Moors et al., 1998). Há,
portanto, uma variação no nível de inovação que pode ser adotado por uma empresa
que deseja considerar os aspectos de sustentabilidade em seus negócios.
Estudos revelam que tais inovações podem ser classificadas em quatro níveis (Brezet,
1998; Rathenau Institute, 1996):
š Melhorias no produto, o que envolve pequenas mudanças e melhorias nos pro-
dutos já existentes. De uma forma geral, o produto e suas técnicas de produção
permanecem os mesmos.
š Reprojeto do produto, em que, apesar de o projeto conceitual permanecer o
mesmo, algumas peças e componentes do produto são significantemente me-
lhorados ou substituídos no sentido de atingir uma melhora no desempenho
ambiental.
š Inovação na função do produto, que não está restrita aos produtos existentes.
A estratégia adotada aqui é a de atender as funções do produto, mas de forma
sustentável.
š Inovações do sistema em que todo o sistema tecnológico (produto, cadeia de
produção e infraestrutura associada) é substituído por um novo sistema.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 65

Para que sejam realizadas de maneira eficiente, é importante que as atividades


inovadoras de desenvolvimento de produtos sustentáveis ocorram integradas com as
estratégias de negócio da empresa e que suas atividades diárias sejam realizadas de
forma dinâmica, no sentido de proporcionar uma contínua melhoria na empresa no
que se refere ao seu desempenho ambiental (Brezet e Rocha, 2001).
Hart (1995) sugere que o sucesso de novos produtos requer a consideração de vários
aspectos, que atuam em dois níveis organizacionais. O primeiro, relacionado a um pro-
jeto específico de desenvolvimento de novos produtos, ou seja, avaliação da maneira
que cada produto será desenvolvido. O outro, relacionado à maneira pela qual uma
empresa inovadora desenvolve seus produtos. Tais aspectos dizem respeito a:
š Gestão empresarial – o desenvolvimento de novos produtos requer um forte
comprometimento da alta direção como primeiro passo para implantação de
uma cultura organizacional voltada para a inovação. É necessário, ainda, que
haja uma gestão orientada na busca de um equilíbrio entre os aspectos técnicos
e o marketing.
š Processos – o processo de desenvolvimento de produtos envolve atividades e
tomadas de decisão que vão desde as primeiras ideias sobre o novo produto até
o momento em que ele é comercializado. A forma como esse processo será en-
caminhado depende diretamente da forma que as pessoas desenvolvem as suas
atividades. Assim, as pessoas devem ser adequadamente orientadas para que
esse processo ocorra da melhor maneira possível; para isso, é importante que haja
uma forte interligação entre o desenvolvimento de novos produtos e a atividade
de marketing.
š Informação – pode ser um elemento facilitador do processo de desenvolvimen-
to de produtos para se alcançar uma adequada coordenação entre os diversos
departamentos da empresa. Isto porque a adequada informação irá ajudar no
processo de tomada de decisões durante o desenvolvimento do produto, cola-
borando com a redução de incertezas e encorajando melhor coordenação entre
os diversos departamentos.
š Estrutura organizacional – deve ser flexível, de tal forma a permitir que inovações
possam ser incorporadas mais facilmente às atividades da empresa. É importan-
te que a empresa tenha regras flexíveis, com uma participação informal entre
seus membros e que as opiniões sejam colocadas e respeitadas. É necessário
que haja uma comunicação direta, sem intermediários e que as equipes sejam
interdisciplinares, dando-se ênfase na criatividade.
š Estratégia – é a estratégia empresarial que dita como a empresa irá operar in-
ternamente e como irá se apresentar para o mundo exterior. O PDP deve ser
guiado por objetivos corporativos, que, na sua essência, são oriundos da estra-
tégia corporativa. Trata-se, portanto, de uma adequada orientação estratégica
guiando o desenvolvimento de produtos, enfatizando a fusão entre marketing
e desenvolvimento tecnológico, tendo-se uma postura proativa e buscando a
diferenciação dos produtos. Para tanto, é importante que haja uma sinergia entre
as novas atividades e as atividades que já existiam na empresa, de forma a não
66 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

afetar o dia a dia da empresa. É importante também que a empresa entenda que
o desenvolvimento de novos produtos incorre em riscos para o negócio e que
não há garantias para o seu sucesso.
š Pessoas – as pessoas envolvidas no processo de desenvolvimento de produtos e
a forma como são organizadas têm uma grande influência no sucesso de produ-
tos inovadores. É importante que haja um clima organizacional de colaboração
entre os profissionais dos diversos departamentos envolvidos. Nesse contexto,
acredita-se também ser relevante a participação daqueles envolvidos no de-
partamento de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e o pessoal de marketing,
aproximando, assim, o desenvolvimento tecnológico do mercado consumidor.

Portanto, empresas que desejarem ter sucesso no desenvolvimento de novos pro-


dutos devem estar atentas a tais aspectos. Estudos revelam que a busca por soluções
técnicas (produtos ou processos), com uma perspectiva voltada para a sustentabi-
lidade, tem trazido um ganho de competitividade para as empresas (Triebswetter e
Wackerbauer, 2008).

3.5. O desenvolvimento sustentável e o mundo


corporativo
A visão comum de desenvolvimento sustentável é que ele incorpore três princípios
fundamentais: a proteção ambiental, a estabilidade econômica e a responsabilidade
social, formando o conhecido tripé da sustentabilidade (Castro et al., 1998).
Seguindo essa mesma linha, o desenvolvimento sustentável corporativo nada mais
é do que gerenciar os negócios levando-se em consideração os aspectos que envolvem
o desenvolvimento sustentável. Ou seja, “assegurar o sucesso do negócio ao longo do
tempo enquanto se contribui para o desenvolvimento econômico e social das comu-
nidades em um ambiente sadio e uma sociedade igualitária” (Gruninger, 2008).
Embora existam diversas razões pelas quais as empresas deveriam se engajar ao mo-
vimento de uma corporação sustentável, Hart e Milstein (2004) apresentam quatro delas:
a) a crescente industrialização e suas consequências, como o aumento do consumo de
recursos naturais e a geração de poluição e resíduos. Portanto, a adoção de formas
mais eficientes de gerenciamento dos recursos naturais e a prevenção da poluição
e geração de resíduos é crucial para se alcançar o desenvolvimento sustentável;
b) a ligação entre as “partes interessadas” e a sociedade civil. ONGs e outras formas de
organização civil devem exigir das empresas a devida proteção ao meio ambiente e
sua atuação com responsabilidade social no sentido de se construir uma consciência
em direção à sustentabilidade;
c) o desenvolvimento de tecnologias emergentes que assegurem a sustentabilidade;
d) o crescente aumento da população, da pobreza e das desigualdades sociais asso-
ciadas à globalização, que contribuem para o aumento da violência, da degradação
social, do caos político e do terrorismo.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 67

Dupraz-Lagarde e Poimboeuf (2009) explicam que existem várias estratégias que


uma empresa pode adotar para considerarem aspectos de sustentabilidade no contexto
dos negócios. Essas estratégias devem se basear em três eixos principais.
O primeiro está relacionado à melhoria da performance ambiental das plantas
industriais e seus produtos. Significa dizer que as empresas devem desenvolver seus
negócios baseando-se na ecoeficiência, levando em consideração a melhor eficiência
na utilização dos materiais e energia. Assim, as empresas melhoram a sua produtividade
(fazem mais com menos) e também seu gerenciamento ambiental.
Além disso, as empresas devem usar tecnologias adequadas que possibilitem a
melhoria do desempenho do seu sistema produtivo, e também criem uma simbiose
industrial com seus fornecedores. Finalmente, as empresas devem desenvolver novos
produtos e serviços que as permitam atender aos desejos dos consumidores, utilizando
menos recursos e gerando menos poluição.
O segundo eixo está relacionado à sinergia com relação aos aspectos ambientais,
econômicos e sociais entre as empresas e a região em que estão localizadas. Isto pode
ser feito desde que as empresas criem empregos, melhorem a performance econômi-
ca da região e seus padrões sociais. Para que tais objetivos possam ser alcançados, as
empresas deveriam melhorar a sua comunicação com seus parceiros locais (governo,
sociedade e ONGs).
O último eixo está relacionado com a melhoria global do desempenho da empresa.
Isto significa que o desenvolvimento sustentável de uma empresa requer uma gestão
global baseada em uma estratégia de longo prazo objetivando a valorização dos recur-
sos humanos, a eficácia de suas funções, a otimização do uso dos recursos naturais e
a segurança de seus processos.

3.5.1. Fatores inibidores ao desenvolvimento sustentável corporativo


O movimento em direção ao desenvolvimento sustentável corporativo ainda é
muito tímido, mas de tendência mundial. Hart e Milsten (2004, p. 66) argumentam que
[...] já existem algumas poucas empresas que começam a incorporar a sustentabilidade
como uma oportunidade para seus negócios abrindo caminho para a redução de custos
e riscos, ou mesmo aumentando seu faturamento e a sua participação no mercado con-
sumidor através da inovação.

Alguns fatores contribuem para isso, como a falta de entendimento do que realmente
seja uma “organização sustentável” (Hart e Milsten, 2004). Isso ocorre devido à falta de
informação sobre o assunto. Portanto, os empresários deveriam ser informados sobre
os conceitos, as práticas, os benefícios e riscos que envolvem o desenvolvimento sus-
tentável corporativo e a partir daí tomarem as suas próprias decisões.
No Brasil, muitas empresas veem o desenvolvimento sustentável como um fator
inibidor para o desenvolvimento de seus negócios, apontando no sentido de que
deveria haver mais integração entre o setor empresarial, o governo, a sociedade e os
movimentos de proteção ambiental a fim de promover o desenvolvimento sustentável
corporativo (CEBDS, 2002).
68 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

3.5.2. Fatores indutores ao desenvolvimento sustentável corporativo


Apesar das dificuldades apontadas, existem fatores indutores para a incorporação
de variáveis ambientais nos negócios. Isto vem ocorrendo através de um processo de
mudança na conscientização, atitude e comportamento no ambiente governamental,
na própria sociedade em geral e no mercado consumidor que culminou com a Con-
ferência de Estocolmo, realizada em 1972, estabelecendo-se um novo entendimento
na relação entre o meio ambiente e o desenvolvimento (Andrade e Chiuvite, 2004).
Ou seja, o próprio governo em conjunto com a sociedade percebeu a necessidade
de se estabelecerem novas formas de desenvolvimento que estimulem as empresas a
se adequarem a essas novas modalidades produtivas. Isto é geralmente feito através
de um grupo de legislações que apontam caminhos para que as empresas se adaptem
ao desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o governo tem estimulado entidades
financeiras a apoiar empreendimentos que possuam, em seu bojo, características que
respeitem o meio ambiente.
Além da pressão legal, dois outros fatores são também responsáveis pela indução
de questões ambientais no mundo corporativo (Barbieri, 2004). O primeiro deles é a
própria sociedade civil organizada que questiona, impõe pressões políticas aos legisla-
dores e órgãos executivos de controle no sentido de forçar as empresas a se engajarem
nesse novo contexto de desenvolvimento. Em segundo lugar, é o próprio mercado que
influencia investidores a se associarem a empreendimentos socioambientais minimi-
zando os seus riscos e criando valor em toda a cadeia de suprimento.

3.6. Ecodesign
O ecodesign ou design for environment (DFE) nada mais é do que a integração sis-
temática de aspectos ambientais no desenvolvimento de produtos. Por oferecer uma
nova perspectiva para as empresas, o ecodesign pode ser uma ferramenta importante
para torná-las mais competitivas e inovadoras, como também mais responsáveis nas
questões do meio ambiente.
O ecodesign está baseado em dois princípios fundamentais: (a) abordagem holística
ou abordagem de ciclo de vida; (b) abordagem multicritério (Le Pochat, 2005).
A abordagem do ciclo de vida de um produto considera todos os mecanismos ne-
cessários para se atender as fases de desenvolvimento, uso e descarte do produto, ou
seja, desde a extração e fabricação de materiais utilizados na composição do produto
até o final de sua vida útil e os tratamentos necessários ao seu adequado descarte. Neste
livro, o tema descarte será visto detalhadamente no Capítulo 9.
Já a abordagem multicritério considera o ciclo de vida completo do produto e todas
as categorias de impacto ambiental relevantes a ele associadas. No entanto, em qual-
quer caso, a abordagem multicritério requer a consideração simultânea dos problemas
ambientais associados ao consumo de energia, ao consumo de recursos naturais, às
diversas formas de poluição emitidas e à produção de dejetos gerados durante o ciclo
de vida dos produtos.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 69

O ecodesign oferece a oportunidade para a empresa aprimorar sua performance


ambiental. De fato, alguns benefícios podem ser obtidos decorrentes da aplicação do
ecodesign, tais como:
a) Redução do impacto ambiental de seus produtos/processos, permitindo à empresa
operar de acordo com as legislações ambientais vigentes, reduzir as incertezas com
respeito a futuros requisitos ambientais, melhorar seu acesso a financiamento e
apólices de seguro, alcançar melhor relação com a comunidade em que está inserida,
contribuir para uma melhoria ambiental local, regional e global.
b) Obtenção de uma perspectiva sistemática, uma vez que o ecodesign está focado em
todo o ciclo de vida do produto, ajudando as empresas a criarem elos entre o desen-
volvimento de produtos, a cadeia de fornecedores e vendas/marketing melhorando
a visão sistemática das operações da empresa, além de desenvolver um mecanismo
de grupos de trabalhos interligados, proporcionando uma melhoria contínua dos
produtos desenvolvidos.
c) Motivação para o desenvolvimento de bons projetos de produto e impulsiona a ino-
vação, já que, no desenvolvimento de seus produtos e processos, a empresa ganha
novas perspectivas no estabelecimento de suas práticas, resultando em novas ideias
e soluções (novas concepções para seus produtos/serviços; desenvolvimento de
novas técnicas alternativas de produção, aumento do envolvimento do funcionário
nas decisões da empresa e estímulo à criatividade).
d) Redução de custos, uma vez que o ecodesign trabalha sistematicamente na redução
dos custos de produção, no aumento da qualidade do produto, no retorno contínuo
do investimento aplicado e na otimização do consumo de matéria-prima e energia.
e) Superação das novas necessidades/desejos dos consumidores, excedendo as suas
expectativas com relação a preço, performance e qualidade, além de diferenciar
seus produtos daqueles da concorrência, melhorar a imagem da empresa e chamar
a atenção do mercado consumidor, atraindo novos investimentos e melhorando o
marketing de seus produtos.

A literatura sugere diversos níveis em que se pode incorporar questões ambientais


no desenvolvimento de produtos. Por exemplo, Milet et al. (2003) categorizam três
níveis distintos para a incorporação de aspectos ambientais em produtos:
a) Quando as iniciativas de ecodesign nos produtos ainda são feitas de forma parcial.
Ou seja, quando a questão ambiental é percebida como mais um parâmetro a ser
incorporado ao desenvolvimento do produto tornando-se, portanto, um parâme-
tro suplementar àqueles diversos aspectos normalmente considerados quando do
desenvolvimento do produto (qualidade, custo, ergonomia etc.). Tomem-se como
exemplo estratégias como o “projeto para reciclagem”, quando se procura desen-
volver produtos visando ao aproveitamento de peças e componentes para a reci-
clagem ao final da vida útil do produto, ou o “projeto para desmontagem” que visa
projetar produtos que sejam fáceis de serem desmontados facilitando o processo
de reaproveitamento de suas peças e componentes.
70 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

b) Quando a incorporação de questões ambientais em produtos é feita de forma cor-


riqueira. Neste caso, a abordagem ambiental em produtos é percebida de forma
sistêmica. São exemplos os “produtos verdes”.
c) Quando a vertente ambiental é percebida como um valor de desenvolvimento.
A iniciativa não recai necessariamente em peças e componentes do produto ou
no próprio produto em si, mas foca no serviço que o produto deverá fornecer ao
seu utilizador. Esta iniciativa visa à melhoria ambiental radical, e as empresas
atuarão com a visão global do desenvolvimento sustentável (“produtos susten-
táveis”).

Uma empresa que pretenda investir em ecodesign deve antes escolher precisa-
mente o nível que pretende alcançar com base em sua estratégia. Este é o primeiro
passo na formatação de uma empresa que se preocupa em desenvolver produtos
ambientalmente corretos, independentemente do tamanho e natureza do setor
econômico em que atua. Uma política ambiental clara, baseada em objetivos rela-
cionados ao desenvolvimento sustentável de produtos, é um fator-chave no sucesso
do estabelecimento do ecodesign.
A política ambiental tem como objetivo melhorar as práticas de concepção am-
biental dos produtos na empresa. Pode envolver elementos, tais como (Johansson e
Magnusson, 2005):
š Definir objetivos claros e um plano de ação para implementação do ecodesign;
š Identificar produtos e parâmetros ambientais prioritários;
š Considerar as demandas do cliente, os requisitos regulamentares e os recursos
dos fornecedores;
š Estabelecer recursos humanos e financeiros para realizar as práticas de ecodesign;
š Criar uma rede de ecodesign dentro da empresa;
š Assegurar uma abordagem de comunicação interna e externa que permita va-
lorizar as ações de ecodesign desenvolvidas pela empresa;
š Desenvolver ferramentas e métodos em ecodesign. Pode-se utilizar instrumen-
tos existentes dentro do mesmo setor de atividade ou ferramentas específicas
adaptadas às necessidades das empresas;
š Proporcionar formação em ecodesign para todas as partes envolvidas nessa
atividade (projeto, compras, marketing, comunicação, produção etc).

3.6.1. Formas de aplicação do ecodesign


Otimizar a performance do produto em termos ambientais significa estabelecer
um equilíbrio entre aspectos funcionais, econômicos e ambientais. Com isso, diversas
estratégias para se implementar o ecodesign nas empresas podem ser adotadas.
A primeira estratégia é o desenvolvimento de um novo projeto conceitual para o
produto. Aqui se procura direcionar mudanças revolucionárias na redução do impacto
ambiental de produtos e/ou serviços. Ou seja, é um novo repensar do produto desde
sua concepção básica. Nesse sentido, pode-se reavaliar as premissas básicas com re-
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 71

lação à função do produto, determinar as necessidades do consumidor final a partir


de uma visão global dos novos valores da sociedade no que se diz respeito à questão
ambiental, além de estabelecer como o produto irá atender a essas novas necessidades.
Por exemplo, pensar na desmaterialização do produto. Ou seja, a troca de um
produto físico por outro produto não físico ou serviço (utilizar sistemas de e-mail ou
intranet como alternativa para o uso de correspondências internas). Isso permitirá à
empresa reduzir a sua produção e a dependência do consumidor final por produtos
físicos. Ao se implementar essa estratégia, a empresa poderá observar uma redução
em matéria-prima, energia, transporte e necessidade de gerenciar eventuais produtos
rejeitados após a vida útil e/ou a reciclagem de produtos.
Outro exemplo é o estimulo ao uso compartilhado de produtos/serviços. Quando
várias pessoas fazem uso de um mesmo produto sem serem os donos do mesmo, o
produto é usado de forma mais eficiente. Assim, ao se adotar a estratégia de “uso com-
partilhado” de um produto, este não é mais considerado como propriedade exclusiva de
um único usuário. Pelo contrário, o produto continua sendo propriedade da empresa,
que então permite o seu uso por múltiplos consumidores.
É o caso do sistema de compartilhamento de automóveis ou car sharing, em que
o indivíduo se associa a uma empresa e faz sua reserva de automóvel por telefone ou
pela internet. No estacionamento, ele abre o carro aproximando o cartão de um sen-
sor instalado no para-brisa. O computador de bordo instalado no carro faz perguntas
sobre as condições do veículo e só libera a chave do carro após esse questionário ser
respondido. Durante o uso, o motorista aciona o motor e trava as portas com a própria
chave do veículo. O modelo deve ser devolvido no mesmo estacionamento de onde foi
retirado. No Brasil, a empresa Zazcar (http://www.zazcar.com.br) oferece este serviço na
cidade de São Paulo, disponibilizando sua frota em estacionamentos 24 horas perto de
estações de metrô. A empresa cobra uma taxa de adesão de 60 reais e mensalidade que
vai de 15 a 600 reais: quanto mais alto o valor fixo, maior o desconto na tarifa de uso.
Um terceiro exemplo é a adoção de uma estratégia de ofertar um serviço em vez de
um produto. Em muitos casos, empresas conseguem aumentar seus lucros e agregar
valor a seus produtos, focando mais na venda do serviço associado ao produto do que
no produto propriamente dito.
Ao adotar tal estratégia, a empresa assume toda a responsabilidade pela manuten-
ção, reparo, disposição do produto após a vida útil e/ou sua reciclagem. É a chamada
“economia da funcionalidade” (também conhecida como “sistema produto-serviço”),
ou seja, vende-se a função que o produto exerce, e não o produto em si. Este sistema
opera na base do pagamento por unidade de serviço ofertado. Para se adotar essa
estratégia, é importante que a empresa realize uma análise profunda das necessidades
dos clientes, reorganize o processo de desenvolvimento de seus produtos e produção,
de forma que deixem de ser orientados para vendas e passem a ser orientados para o
serviço, além de aprimorar o contato com seus clientes. É o caso da empresa Xerox,
onde não se adquire a máquina fotocopiadora, mas paga-se pela sua utilização; toda
a sua manutenção fica a cargo da Xerox.
72 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Os benefícios desta estratégia são:


š Constante informação sobre as necessidades de seus clientes e suas preocupa-
ções;
š Oportunidade de responder rapidamente às mudanças do mercado;
š Melhor controle sobre a distribuição do produto, manutenção, descarte após
uso e reciclagem;
š Oportunidade de gerar recursos durante o uso do produto e na fase final de vida
útil do produto.

A segunda estratégia trata da otimização dos aspectos físicos do produto. Ou seja, ela
engloba aspectos de forma, estética e materiais, como também a relação do usuário com
o produto. As atividades dessa estratégia devem ser realizadas durante as fases prelimi-
nares do desenvolvimento de produtos. Para implementar essa estratégia, a empresa
deverá ter um completo entendimento da posição do seu produto no mercado, com
respeito aos aspectos ambientais e ao conhecimento das necessidades dos usuários.
Esta estratégia está focada em dois aspectos principais: primeiro, na melhoria das
funções do produto e do seu ciclo de vida agregando valores ambientais; segundo,
projetando suas características físicas ou componentes, com o objetivo de agregar
valor ao produto para o consumidor final. Um exemplo seria o desenvolvimento de
um produto que se apresente ao mercado consumidor como um produto inovador,
mesmo após um longo período de sua utilização por este mercado.
Projetistas devem balancear e otimizar a análise dos requisitos técnicos e estéticos
para o ciclo de vida do produto de forma a reduzir o consumo de energia e de mate-
riais. Em alguns casos, isso pode significar projetar um produto para um ciclo de vida
curto ou longo.
Uma empresa pode preferir que seu produto apresente um ciclo de vida curto caso
ela esteja desenvolvendo, por exemplo, um produto mais eficiente – mais econômico
e menos poluente – e que ela tenha certeza que este novo produto terá boa aceitação
no mercado.
Em outros casos, a empresa poderá oferecer um produto com ciclo de vida mais longo,
em que é importante analisar aspectos econômicos e de uso do produto. Por exemplo, a
empresa poderá decidir desenvolver produtos de alto desempenho. Tais produtos pode-
rão ser mais caros, mas deverão oferecer alto benefício para o usuário durante um longo
período de vida útil, como, por exemplo, um baixo valor de manutenção.
Material e espaço podem ser economizados ao integrarem-se diversas funções ou
produtos em um único produto, utilizando-se de componentes comuns, tais como:
fontes de energia, teclados, chassis etc. Ao analisar as funções primárias e secundárias
do produto, pode-se descobrir que alguns componentes são desnecessários. Projetar
um produto de tal forma que ele possa exercer a sua função, de maneira confiável e
consistente, pode garantir um ciclo de vida longo para o produto.
Para que se possa obter um produto mais confiável e consistente, é importante que
a confiabilidade e durabilidade estejam inter-relacionadas ao produto. Para garantir
confiabilidade, deve-se analisar o desempenho dos componentes do produto em
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 73

funcionamento, que estão sujeitos ao desgaste, e encontrar uma forma de que estes
sejam mais duráveis.
Já a durabilidade refere-se à habilidade do produto em continuar funcionando ade-
quadamente, mesmo em condições severas de uso (por exemplo, ambiente corrosivo
ou uso inadequado do produto). Outro fator é a facilidade de manutenção e reparo. Ou
seja, garantir uma manutenção adequada ao produto no seu devido tempo aumenta
a usabilidade do produto e sua vida útil. Essa manutenção pode ser feita pelo próprio
usuário ou pelo fabricante.
Com isso, a estrutura modular facilita esse processo de manutenção, bem como
permite uma revitalização do produto do ponto vista técnico e estético, permitindo ao
produto manter-se em conformidade com as necessidades do usuário final.
Da mesma forma, a estrutura modular permite que os benefícios de novas tecno-
logias sejam incorporados a um produto antigo. Como consequência, um produto de
estrutura modular pode passar por várias atualizações durante o seu ciclo de vida,
reduzindo a necessidade de que novos produtos tenham de ser adquiridos de uma
forma mais frequente.
Há também a necessidade de uma forte relação entre o usuário e o produto. O obje-
tivo dessa estratégia é evitar o desenvolvimento de produtos que façam que o usuário
o descarte tão logo perceba que o produto está “fora de moda”.
A terceira estratégia está relacionada à otimização do material usado. Ou seja,
trata-se da seleção de materiais, substâncias e tratamentos superficiais mais apro-
priados com respeito à questão ambiental.
A quarta estratégia diz respeito à otimização da produção através da implementação
de práticas de produção “limpa”. Ou seja, o uso contínuo de processos industriais e
produtos que aumentem a eficiência; previnam a poluição do ar, água e solo; e mini-
mizem o risco à saúde humana e ao meio ambiente.
A quinta estratégia é a otimização da distribuição, garantindo que os produtos sejam
transportados do produtor para o distribuidor, varejista e consumidor final, da forma
mais eficiente possível.
A sexta estratégia trata da redução do impacto ambiental durante o uso do produto.
Significa dizer que se devem projetar produtos de tal forma que o consumidor final
esteja apto a fazer uso eficiente dos consumíveis, como energia, água, detergente, além
de outros produtos secundários como baterias, refis e filtros.
A sétima e última estratégia objetiva reusar os componentes do produto e assegurar
um gerenciamento adequado de rejeitos quando da etapa final do ciclo de vida do pro-
duto. A empresa deve considerar vários cenários de estágios finais desse ciclo de vida.

3.7. Produção mais limpa (PmaisL)


O princípio básico da metodologia da Produção mais Limpa (PmaisL) é eliminar, ou
pelo menos reduzir, a geração de resíduos durante o processo produtivo de uma deter-
minada empresa. Isto porque os resíduos que a empresa gera implicam desperdício de
74 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

matéria-prima e insumos como água e energia. Assim, uma vez gerados, representam
um valor monetário investido na empresa que não gera qualquer lucro para a mesma.
Além disso, a geração de resíduos implica na possibilidade de imposição de multas,
com consequentes danos à imagem e reputação da empresa.
Por conseguinte, a PmaisL, através da realização de balanços de massa e de ener-
gia (Capítulo 6), foca na avaliação dos produtos e processos de uma empresa com o
intuito de otimizar o emprego de matérias-primas, de modo a não gerar ou reduzir
a geração de resíduos, minimizando os riscos ambientais e trazendo benefícios
econômicos para a empresa.
Basicamente, a metodologia da PmaisL pode ser dividida em 15 etapas:
1a – comprometimento da direção;
2a – sensibilização dos funcionários;
3a – formação do ecotime;
4a – aprendizado da metodologia;
5a – pré-avaliação;
6a – identificação de indicadores;
7a – avaliação dos dados coletados;
8a – foco e prioridades;
9a – balanço de massa e de energia;
10a – identificação das causas;
11a – avaliação técnica, ambiental e econômica;
12a – seleção da melhor opção;
13a – implementação;
14a – monitoramento;
15a – continuidade.

A primeira etapa se baseia no comprometimento da alta direção da empresa. Ou seja,


a empresa tem de deixar claro e explícito que tem interesse na implementação dessa
metodologia e deverá apoiar seus funcionários para que esse objetivo seja atingido. Na
prática, em muitos casos, verifica-se que no início há um engajamento da alta direção,
mas, posteriormente, conforme o processo de implementação, caminha, este compro-
metimento já não se mostra tão efetivo. Assim, recomenda-se que a empresa designe
um representante que tenha liderança perante os funcionários, e este indivíduo seja
responsável em “puxar” o programa PmaisL na empresa. Na verdade, este indivíduo
deverá fazer parte do ecotime, ou seja, do grupo de trabalho da implementação da
PmaisL. Este assunto, posteriormente, será descrito de forma mais detalhada.
Uma segunda etapa é a sensibilização dos funcionários. Todos deverão ser comu-
nicados da decisão da empresa sobre a necessidade e importância da implementação
da metodologia PmaisL. Neste sentido, é importante reunir os funcionários, motivá-los
a participar e explicar com clareza a importância do programa para a empresa e que,
portanto, é fundamental a colaboração de todos para o seu sucesso. Uma forma de es-
tímulo é inscrever a empresa em prêmios ambientais para que os funcionários possam
ter orgulho de participarem deste processo.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 75

Posteriormente, na terceira etapa, passa-se para a formação do ecotime. O ecotime


nada mais é que um grupo de funcionários que irá “puxar” o programa na empresa. Este
grupo deverá ser formado por um funcionário de cada setor. Se um mesmo funcionário
desenvolver mais de uma atividade, ou se sua empresa for de pequeno porte, pode-se
escolher dois ou três “funcionários-chave”. Em suma, o ecotime é o grupo responsável
por repassar a metodologia aos demais colegas e fazer acontecer sua implementação na
empresa. É importante que haja um coordenador para o ecotime, o qual terá a respon-
sabilidade de mantê-lo informado sobre o desenvolvimento das atividades. É possível
que ocorram problemas de relacionamento entre os funcionários que participam do
ecotime e os que não participam. O coordenador deverá saber gerenciar essas crises de
“ciúmes” para o bem do programa. Em muitos casos, aqueles que não estão participando
do ecotime tendem a boicotar o processo por se sentirem desprestigiados pelo processo.
Sendo assim, a escolha dos membros do ecotime deve ser feita com muito cuidado. Na
escolha dos funcionários que farão parte do ecotime, deve-se dar preferência a pessoas
que tenham influência positiva sobre os colegas, que sirvam de exemplo e possam mo-
tivar os outros a participarem do processo de forma propositiva.
A próxima etapa, quarta, é a de transferência do conhecimento da metodologia
PmaisL ao ecotime. Assim, inicia-se uma série de reuniões técnicas com a finalidade
de apresentar os objetivos de cada etapa da metodologia e como atingi-los. É impor-
tante repassar a metodologia cuidadosamente, garantindo que todos os membros do
ecotime entenderam como a metodologia deve ser aplicada, bem como os objetivos a
serem alcançados em cada etapa.
Passa-se então à quinta etapa, de pré-avaliação. Nessa pré-avaliação, procura-se
analisar questões como o licenciamento ambiental da empresa, a observação por parte
do ecotime na identificação da possibilidade de resíduos na área externa da empresa,
bem como a avaliação do seu aspecto interno identificando o seu layout. Em seguida,
faz-se o fluxograma do processo produtivo da empresa. Este fluxograma deve descrever
as entradas e saídas de cada etapa do processo, qualitativa e quantitativamente. Ou seja,
descreve-se quais insumos (incluindo matéria-prima, água e energia), subprodutos ou
produtos serão gerados em cada etapa do processo, bem como seus respectivos quan-
titativos. Quanto mais detalhada for a análise, maior a possibilidade de se encontrar
oportunidades para redução/eliminação/reaproveitamento de resíduos, mas também
mais trabalhoso e custoso será para se desenvolver o processo.
Uma vez levantados estes dados, passa-se para a sexta etapa, de identificação de
indicadores, que poderão ser utilizados para monitorar o desempenho da empresa.
Para tanto, pode-se utilizar indicadores como consumo de energia por quilo de produto
produzido (kW/kg).
A próxima etapa, sétima, é a avaliação dos dados coletados. Portanto, nesta eta-
pa, procura-se fazer um levantamento quantitativo de todos os resíduos gerados,
observando-se a sua quantidade e toxicidade, as normas legais vigentes para seu acon-
dicionamento, bem como os custos envolvidos nesse processo (acondicionamento,
tratamento e possíveis multas). Deverão também ser avaliados os valores gastos com
as matérias-primas, a água e a energia consumidas na empresa.
76 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Deve-se atentar ao fato de que algumas barreiras podem ser encontradas neste
processo, como, por exemplo, a dificuldade que o ecotime teve para executar as me-
dições, seja por não contar com a infraestrutura necessária ou com o envolvimento
efetivo da empresa com a proposta de trabalho. O ecotime pode ainda ter dificuldade de
assimilar os conceitos e a metodologia do PmaisL ou para conseguir os equipamentos
de medição (p. ex.: balanças).
A seguir, na etapa oito, ocorre a seleção do foco de avaliação e priorização das ações
a serem implementadas. Ou seja, é quando ocorre a definição das etapas, processos,
produtos e/ou equipamentos que serão priorizados para as efetivas medições e reali-
zação dos balanços de massa e/ou energia.
Posteriormente, na etapa nove, é planejada a realização do balanço de massa e/ou
de energia. Assim, define-se: (a) o setor, equipamento ou processo que será analisado;
(b) o período representativo para a realização do balanço (início e fim) e ajusta-se tais
valores para o período de 1 (um) ano; (c) os equipamentos necessários para medição
e a contabilização desses dados.
Em seguida, na etapa dez, procura-se identificar as causas da geração de resíduos.
Deve-se perguntar o porquê, como, quando e onde os resíduos foram gerados. Como
consequência, a próxima etapa é avaliar uma forma de eliminar/reduzir ou mesmo re-
aproveitar tais resíduos. Este reaproveitamento pode ocorrer dentro do próprio sistema
produtivo ou em um sistema produtivo diverso. No Capítulo 8 deste livro a gestão dos
resíduos sólidos será melhor detalhada.
Na etapa onze ocorre a avaliação técnica, ambiental e econômica da aplicação da
metodologia. Na avaliação técnica, consideram-se as propriedades e requisitos que
as matérias-primas e outros materiais devem apresentar para o produto que se deseja
fabricar, de maneira que se possam sugerir modificações. Já na avaliação ambiental
deverão ser observados os benefícios ambientais que poderão ser obtidos pela empresa.
E na avaliação econômica faz-se um estudo de viabilidade considerando aspectos como
período de retorno do investimento, a taxa interna de retorno e o valor presente líquido.
Feito este estudo, passa-se para a etapa doze, de seleção da melhor opção. Ou seja,
procura-se optar pelo caminho que ofereça a melhor condição técnica, com os maiores
benefícios ambientais e econômicos. Finalizando, entra-se na fase treze, de implemen-
tação, seguida pelas fases quatorze, de monitoramento, e quinze, de continuidade.
Deve-se optar por iniciar tal implementação pelas ações mais simples e que apresen-
tem resultados rápidos. Isto dará uma grande visibilidade para as ações e mostrará aos
demais funcionários da empresa que a metodologia realmente funciona. Posteriormen-
te, seguem-se as ações que possam demandar mais tempo, seja por sua complexidade,
seja por seu custo mais elevado.
Todas as implementações devem seguir um plano de monitoramento para avaliar
o seu desempenho ambiental. Este plano deve ser composto de ações como análises
laboratoriais, medições e documentação para acompanhamento do programa. Assim,
os indicadores estabelecidos no início do trabalho e medidos na realização dos balanços
serão as ferramentas para a realização deste acompanhamento.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 77

3.8. Proposições de incorporação da sustentabilidade


no mundo corporativo
Nesta seção serão apresentadas diversas proposições de como a questão ambiental
pode ser introduzida no mundo corporativo. Uma delas está baseada em normas
técnicas, enquanto outras são modelos de implementação dos aspectos ambientais
em empresas. O que vale ressaltar é que qualquer que seja o mecanismo utilizado para
este fim, para se obter resultados positivos é extremamente importante o real desejo
da empresa em considerar tais aspectos, o que se traduz pelo comprometimento da
alta direção e de todos os funcionários. Somente através do engajamento de todos é
que é possível obter um resultado positivo.

3.8.1. Norma SD 21000 (Association Française de Normalisation – Afnor)


A Associação Francesa de Normalização (Afnor) propôs um modelo para a incor-
poração do ecodesign às empresas. A norma considera que esta implementação é um
“processo de aprendizado que se inicia pela condução de uma análise estratégica e
inventário do mercado/empresa”.
A primeira etapa do modelo proposto é o desenvolvimento de uma estratégia de
implementação. Esta estratégia deve ser baseada nos princípios e práticas atuais de
governança corporativa. Isto significa uma mudança nos valores e políticas adotadas
pela empresa no que diz respeito à sua relação com o desenvolvimento sustentável.
Ou seja, o desenvolvimento sustentável deve ser usado como o principal guia para
se estabelecer a nova visão da empresa. Isto requer um comprometimento da alta
direção. Tal estratégia também inclui um aprimoramento na relação da empresa
com todas as partes interessadas (stakeholders). Para tanto, faz-se necessário esta-
belecer uma identificação de quem são estes stakeholders (externos e internos), e se
eles podem ser afetados pelos procedimentos da empresa (processos, fornecedores,
produtos e serviços). Além disso, a estratégia objetiva avaliar os riscos e identificar
suas consequências. Uma vez que os riscos e a análise das oportunidades tenham
sido realizados, a empresa terá condições de estabelecer sua nova visão e conse-
quentemente reavaliar sua estratégia política e objetivos, de forma a estabelecer um
planejamento plurianual.
Estabelecido esse planejamento estratégico, então é hora de implementá-lo. Esta
implementação está baseada no forte comprometimento da alta direção aliada com a
melhoria contínua. O modelo propõe um programa plurianual de implementação pro-
gressiva, considerando-se os princípios do desenvolvimento sustentável. Dessa forma,
a alta direção é responsável por verificar a coerência na sequência do planejamento de
cada ano e periodicamente avaliar até que ponto os objetivos foram atingidos ou não,
o que significa a adoção de métodos de monitoramento e controle para a implemen-
tação do modelo através da medição dos resultados obtidos nos “processos-chave” em
consonância aos indicadores correspondentes.
78 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Em outras palavras, a implementação do plano obedece às regras básicas para o


estabelecimento de qualquer projeto que se apoia nas informações, na alocação dos
recursos e na adequada implementação dos “processos-chave” e que se atenham aos
objetivos fixados para aquele ano fiscal ou em objetivos intermediários programados
para planejamentos subsequentes no que se diz respeito aos “gargalos” do processo.
Tal planejamento é comunicado a todos os gerentes nos diversos níveis hierárquicos
da organização.
O modelo chama a atenção para a necessidade da mudança cultural dentro da orga-
nização. A alta direção deve estabelecer e implementar ações para aumentar o nível de
consciência dos envolvidos, estimular a mudança nos seus comportamentos e práticas
(especialmente para os novos valores, a ética e a estratégia a ser adotada). Além disso,
a alta direção deve também incentivar a implementação de ações que possam explicar
os novos objetivos da empresa, ações de treinamento (transferência de conhecimento,
know-how e especialmente àquelas voltadas à conduta profissional), o aprimoramento
das habilidades, o compartilhamento de informações, a solidariedade e o trabalho em
equipe. O modelo ainda sugere o uso de ferramentas tais como a Análise do Ciclo de Vida
(ACV) e a Análise de Risco ao se desenvolver novos produtos e serviços pela empresa.
Essa norma também considera que a política de compras da empresa é um com-
ponente essencial na sua estratégia global de ação. Assim, a política de compras junto
a fornecedores deve se basear nos princípios da sustentabilidade, tais como: uma me-
lhor definição de respeito ao meio ambiente dos produtos a serem adquiridos (p. ex.:
produtos que usem substâncias recicláveis); a seleção dos fornecedores com base nas
suas habilidades de se adequarem à política do desenvolvimento sustentável; o com-
portamento ético dos fornecedores na realização dos negócios; o estabelecimento de
regras de compras baseadas na responsabilidade socioambiental; o estabelecimento
de um sistema de ranqueamento dos fornecedores considerando-se os papéis desem-
penhados junto às comunidades onde estão inseridos.
Por último, o modelo também considera o adequado gerenciamento da comunica-
ção interna e externa da empresa. A comunicação interna está relacionada ao aumento
do nível de conscientização sustentável dos empregados no que se refere aos objetivos
e funções da empresa. Ademais, há a identificação das expectativas dos funcionários
no que se refere à troca de informações e da necessidade de treinamento, cujo trabalho
possa ter impacto significativo (direto ou indireto) nos objetivos e na definição dos
recursos requeridos para a implementação do referido modelo.
Gerenciar a comunicação externa é de fundamental importância para os stakehol-
ders. As empresas devem, periodicamente, comunicar o desempenho de seus indicado-
res de performance de desenvolvimento sustentável, mostrando como tais indicadores
evoluíram quando comparados aos objetivos preestabelecidos. Como consequência,
as informações socioambientais devem ser divulgadas de forma clara, correta e trans-
parente. Tais informações devem também ser apresentadas de forma que seus dados
e fatos possam ser posteriormente verificados caso haja necessidade.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 79

3.8.2. Modelo “empresários para o meio ambiente”


A EPE (sigla em francês para Empresários para o Meio Ambiente – http://www.
epe-asso.org) é uma coalizão de quarenta grandes empresas que atuam na França,
unidas pelo comprometimento ao desenvolvimento sustentável e que se baseiam
em quatro principais objetivos:
a) Desenvolver procedimentos efetivos para solucionar problemas ambientais;
b) Motivar as empresas;
c) Expressar seus pontos de vista nesses aspectos;
d) Promover suas habilidades e dinamismo no campo do desenvolvimento sustentável.

A EPE desenvolveu um guia chamado Guia para Contribuição das Empresas ao


Desenvolvimento Sustentável. O guia apresenta uma metodologia passo a passo para
ajudar as empresas a implementar os princípios do desenvolvimento sustentável nos
seus procedimentos gerenciais.
O primeiro passo desse modelo está relacionado ao estabelecimento de uma estreita
relação com os stakeholders (internos e externos). Portanto, devem-se identificar, pri-
meiramente, os stakeholders principais (por exemplo, clientes/consumidores, ONGs,
comunidade científica, fornecedores, parceiros financeiros, sociedade, acionistas
e governo). Uma vez que tais stakeholders tenham sido identificados, as empresas
devem aprimorar a sua relação com os mesmos. Como consequência, ao melhorar o
diálogo com seus stakeholders, as empresas podem melhor lidar com os aspectos do
desenvolvimento sustentável. Vale ressaltar que essa prática de diálogo com as partes
interessadas também está prevista em outras normas, como a AA1000.
A partir daí, um diagnóstico pode ser desenvolvido com o intuito de:
a) Identificar quais são os principais aspectos que podem contribuir para as organiza-
ções alcançarem impactos (positivos e negativos) com respeito às suas atividades
negociais, produtos, local, clientes, entre outros.
b) Ajudar essas empresas a estabelecerem suas posições estratégicas baseadas nesses
aspectos em termos de suas forças e fraquezas. Sugere-se que o diagnóstico seja
apoiado por uma consultoria externa (p. ex.: diálogo com stakeholders externos) e
também por uma consultoria interna (p. ex.: identificar as visões dos stakeholders
internos).

A partir dos resultados do diagnóstico, a organização deve definir a sua política


de promoção do desenvolvimento sustentável. Esta política objetiva reduzir os riscos
para a organização (o trabalho deve estar concentrado nas fraquezas e ameaças), bem
como ajudar as empresas a estabelecer uma série de ações inovadoras (neste momento,
forças e oportunidades devem ser abordadas). O resultado final é uma mudança na
cultura organizacional da empresa. Esta nova política deve estar alinhada à estratégia
da empresa e aos stakeholders externos (principalmente os fornecedores) que deverão
também incorporar essa política de desenvolvimento sustentável adotada pela empresa
principal.
80 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

A implementação dessa nova política deve envolver os stakeholders (internos e exter-


nos). Esta política inicia-se com o comprometimento da alta direção e o estabelecimento
de um orçamento adequado para que as ações possam ser implementadas. Portanto, é
necessário identificar os principais atores deste processo (p. ex.: alta direção, departa-
mento financeiro, jurídico, marketing, recursos humanos, pesquisa e desenvolvimento,
compras, produção, cadeia de suprimentos e comercial) e informá-los. O líder do processo
informará cada um dos atores sobre seu papel em todo o processo, estabelecendo suas
próprias responsabilidades.
Deve-se prestar especial atenção a possíveis barreiras, tais como aspectos culturais,
falta de comprometimento, interesse local versus interesse global e falta de integração.
Como consequência, é necessário implementar uma metodologia “ganha-ganha”, na
qual os benefícios (operacional, imagem corporativa, coalizão social, redução de risco)
são bem estabelecidos.
Em uma segunda etapa, essa política é implementada através da introdução de um
processo educativo sobre o desenvolvimento sustentável (p. ex.: Higiene e Segurança
do Trabalho e Meio Ambiente, ISO 9001 e ISO 14001). Conferências internas, intranet,
trocas de experiências e outras fontes podem ser usadas para aumentar o nível de
conhecimento dentro das empresas.
Alguns “fatores-chave” podem contribuir para a implementação dessa política. Estes
são, por exemplo, compromisso da alta direção, formalização da política da empresa
de forma documentada, conhecimento e compromisso dos trabalhadores e o apoio de
diferentes setores da empresa, além de uma estratégia de “ganha-ganha”.
A próxima etapa é o controle e divulgação da política de desenvolvimento sustentá-
vel dentro da empresa. Algumas ferramentas podem ser usadas para a divulgação dos
resultados, tais como planilhas em Excel e balanços contábeis. Além disso, indicadores
também podem ser usados para apresentar a implementação da política de sustentabi-
lidade dentro da empresa. Exemplos de indicadores podem ser o GRI (Global Reporting
Initiative) e o Global Compact, conforme apresentados no Capítulo 2 deste livro.
A última etapa é o estabelecimento de uma nova estrutura de gestão organizacional
em consonância com os princípios do desenvolvimento sustentável. A escolha dessa
estrutura de gestão depende da cultura e do perfil da empresa. Entretanto, em razão da
tripla dimensão do desenvolvimento sustentável a requerida estrutura organizacional
deve ser transversal.
As principais tarefas da função desenvolvimento sustentável, preconizadas pela
EPE, são:
a) Melhorar o diálogo entre os stakeholders e identificar aspectos da empresa relacio-
nados à sustentabilidade;
b) Definir a política de desenvolvimento sustentável de forma a acatar tais aspectos;
c) Colocar em prática essa política de desenvolvimento sustentável;
d) Controlar e relatar a implementação dessa nova estrutura.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 81

Além disso, o know-how de apoio à função do desenvolvimento sustentável é ba-


seado em:
a) Conhecer a localização, o setor industrial e aspectos culturais sobre as quais a em-
presa está operando;
b) Conhecer como convencer a alta direção;
c) Comunicar os resultados a todos os stakeholders;
d) Estar apto a lidar com as críticas;
e) Propor tecnologias alternativas inovadoras;
f) Estabelecer uma rede de parceiros diversos em uma área geográfica definida.

Finalmente, os fatores determinantes à função do desenvolvimento sustentável são:


a) Identificar os problemas ambientais associados aos produtos;
b) Melhorar o diálogo entre a organização e seus stakeholders;
c) Divulgar para a imprensa os problemas de desenvolvimento sustentável em seu
sítio industrial;
d) Concentrar a regulação ambiental e social de acordo com a atividade da empresa;
e) Tamanho da empresa e localização;
f) Complexidade da organização;
g) História da empresa, sua cultura e seus valores;
h) Tipo de capital da empresa (sociedade anônima, companhia aberta, companhia
mista etc).

3.8.3. Modelo de gestão do Conselho Empresarial Brasileiro para o


Desenvolvimento Sustentável (CEBDS)
O CEBDS (http://www.cebds.org) é uma coalizão dos maiores e mais significantes
grupos empresariais no Brasil. Como representante do World Business Council for
Sustainable Development (WBCSD), o CEBDS integra uma rede global de mais de 50
conselhos que estão trabalhando para difundir uma nova forma de se fazer negócios
no mundo.
O modelo do CEBDS tem início com a fase de autoavaliação. A autoavaliação en-
volve: a visão da empresa, o comprometimento, os valores e a implementação desses
valores, stakeholders, avaliação dos impactos socioambientais; política da companhia;
objetivos, comunicação, auditoria, sistema de reavaliação e suporte (informação e
suporte para implementação).
A segunda fase é o desenvolvimento da estratégia que se baseia nos seguintes passos;
a) Introdução ao conceito de desenvolvimento sustentável por parte da alta direção.;
b) Identificação da implementação do desenvolvimento sustentável na empresa.;
c) Posicionamento (como posicionar a empresa diante dos aspectos ambientais?);
d) Desenvolvimento: planejamento e desenvolvimento de uma estratégia ambiental;
e) Implementação: colocar a estratégia em prática;
f) Monitoramento: avaliar a performance, relatar e revisar a estratégia.
82 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

A terceira fase está relacionada ao comprometimento dos stakeholders (quem são


eles? Por que deveríamos falar com eles?). Indicadores são estabelecidos, e, finalmente,
passa-se à fase de divulgação (externa e interna).

3.8.4. ISO 14062 (Integração de aspectos ambientais no processo de


desenvolvimento de produtos)
A ISO 14062 é uma norma internacional para a integração de aspectos ambientais
no desenvolvimento de produtos. A norma é dividida nas seguintes etapas:
a) Considerações estratégicas – nesta fase alguns aspectos são considerados, tais como:
competidores; necessidade dos consumidores; fornecedores; relacionamento com
investidores, financiadores e outros stakeholders; aspectos e impactos ambientais
de organizações; atividades de reguladores e legisladores; atividades da indústria e
associações de negócios.
b) Considerações gerenciais – esta fase envolve: melhoria contínua da performance
ambiental de produtos; gestão da cadeia de suprimentos; ativa participação no
programa por parte de empregados; incentivo à criação de novas ideias e inovação;
definição da política e da visão ambiental; definição dos objetivos para garantir o
atendimento à legislação ambiental e reduzir a adversidade ambiental dos produtos;
alocar recursos e delegar responsabilidades. Os procedimentos de gestão devem ser
proativos, apoiar o atual sistema de gestão, multidisciplinar, e gerenciar a cadeia de
suprimentos.
c) Considerações do produto – a introdução de aspectos e impactos ambientais nos
produtos ao longo de seu ciclo de vida deve considerar as seguintes características:
integração realizada o mais cedo possível; ciclo de vida do produto; funcionalida-
de do produto; conceito multicritérios e trade-offs, ou seja, “compensações” (as
“compensações” são características que produzem efeitos opostos e que devem ser
levados em consideração quando do desenvolvimento do produto como peso do
produto versus consumo de combustível).
d) Estratégia de produto relacionada aos objetivos ambientais – estes objetivos são
a conservação dos recursos, a reciclagem e recuperação energética, bem como a
prevenção da poluição, dos rejeitos e outros impactos. Além disso, a norma também
recomenda alguns procedimentos de design tais como: melhoria da eficiência do
uso de materiais; melhoria na eficiência energética; pouco uso da terra; projeto para
produção mais limpa; projeto para durabilidade; projeto para reúso, recuperação e
reciclagem; evitar o uso, em produtos, de substâncias e materiais que sejam poten-
cialmente danosos ao meio ambiente.

3.8.5. Considerações gerais dos modelos


Considerando os modelos de gestão apresentados, pode-se enumerar algumas
características comuns baseadas em duas grandes áreas: estratégia e gestão.
Capítulo 3 s%STRAT£GIASDAORGANIZA½áOPARAODESENVOLVIMENTOSUSTENTÕVEL 83

a) Estratégia – relação com os stakeholders; diagnóstico (visão atual, valores, políticas e


estratégias); análises sobre como os aspectos ambientais afetarão (de forma positiva
e/ou negativa) os negócios, bem como suas relações com seus stakeholders; mudança
cultural (visão, valores, políticas, estratégias); estabelecimento de metas, indicadores
socioambientais (como medi-los), bem como o diálogo com stakeholders.
b) Gestão – comprometimento da alta direção, mudança cultural, comunicação (in-
terna e externa), estímulo à participação dos empregados, estímulo às novas ideias
e inovação, criação de valores ambientais para os empregados, estabelecimento
de objetivos, metas e seus respectivos cronogramas, uso da comunicação para es-
timular os empregados e consumidores, alocação de responsabilidades, relatos de
resultados e progressos.

3.9. Considerações finais


O estudo sobre como incorporar as questões do desenvolvimento sustentável nas
empresas ainda é muito recente. Portanto, há ainda muito que ser feito no estabele-
cimento de novas estratégias de negócios e modelos de gestão capazes de incorporar
questões da sustentabilidade nas decisões estratégicas das empresas e gerenciamento,
dentro do atual contexto de competitividade em que vivemos.
A busca de modelos gerenciais de desenvolvimento de produtos sustentáveis asso-
ciada a um modelo de negócio capaz de facilitar às empresas a incorporação de aspectos
de sustentabilidade em seus procedimentos empresariais, e que não seja afetada por
restrições acarretadas por danos causados à sustentabilidade do planeta, é um grande
desafio para este século.
Esta questão global pode ser desmembrada em outros aspectos igualmente rele-
vantes tais como:
s !VALIAROhESTADODAARTEvNOQUESEDIZRESPEITOà influência da sustentabilidade
nos negócios e como o processo de desenvolvimento de novos produtos e ino-
vação se encaixa nesse novo contexto de competitividade.
s %NTENDERCOMOASEMPRESASLIDAMCOMODESAlODECRIARUMAIMAGEMCOR-
porativa sustentável, bem como identificar quais os métodos, metodologias,
ferramentas ou modelos utilizados por elas.
s )DENTIlCARON¤VELDECONSCIãNCIADASEMPRESASCOMRELA½áOAOSASPECTOSRELA-
cionados à sustentabilidade e associados aos seus procedimentos de negócio.
s $EMONSTRARCOMOOUSODEUMMODELOGERENCIALQUEINCORPOREAQUESTáODA
sustentabilidade pode melhorar a performance das empresas.

3.10. Revisão dos conceitos apresentados


Aspectos associados à sustentabilidade vêm impondo mudanças estruturantes
no mundo dos negócios. Enquanto algumas empresas encerram suas atividades em
virtudes das restrições ambientais, outras nascem justamente por conta desse novo
paradigma que se impõe.
84 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Este capítulo procurou discutir a nova visão empresarial que necessita incorporar
aspectos de sustentabilidade quando da tomada de decisões estratégicas e operacio-
nais. Técnicas de implementação da questão ambiental nos negócios são discutidas,
e alternativas são apresentadas. Mais do que apontar tais soluções, este capítulo bus-
cou estimular o leitor a refletir sobre as mudanças empresariais necessárias para se
enfrentar a nova realidade.

3.11. Questões
1. Discursivas:
a) Qual é a relação existente entre o ecodesign e a PmL?
b) Como o ecodesign e o PmL podem ajudar para que as empresas incorporem as
questões ambientais em seus procedimentos?

2. Tópicos para discussão:


Ao se considerar as questões ambientais em seus procedimentos, as empresas irão
incorporá-las gradualmente e nem todas alcançarão o mesmo nível de maturidade
simultaneamente. Ou seja, cada empresa irá incorporar os aspectos ambientais em
níveis distintos. A questão que se apresenta é como avaliar o nível de maturidade
de uma determinada empresa com relação à incorporação de aspectos ambientais
em seus procedimentos. Quais são as características de uma empresa madura com
relação à questão ambiental? Como se transpõe um nível de maturidade para outro?

3.12. Referências
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práticas de gestão ambiental. São Paulo: Tocalino, 2004.
BARBIERI, J. C. Desenvolvimento e meio ambiente: as estratégias de mudança da agenda
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4
Normalização e gestão ambiental
no contexto da ISO 14001
Gilson Brito Alves Lima
Sergio Luiz Braga França1

Conceitos apresentados neste capítulo


Este capítulo apresenta uma discussão sobre a estrutura básica de um Sistema
de Gestão Ambiental, segundo a abordagem proposta pela norma ISO 14001:2004,
discorrendo de forma sistêmica (ciclo PDCA): planejamento, implementação e opera-
cionalização, verificação e análise crítica pela administração. Busca-se discorrer que,
para além do potencial alcance social obtido pela adoção de um SGA na melhoria do
desempenho ambiental de uma organização, a manutenção e revisão do seu processo
podem resultar em investimentos geradores de lucro a curto, médio e longo prazo. Neste
aspecto, para cada tópico, apresenta-se tanto o conteúdo normativo quanto alguns
exemplos, a partir das práticas de mercado e da experiência dos autores.

1
Os autores gostariam de registrar o agradecimento ao graduando em Engenharia Rafael T. Pinto, pela
contribuição no suporte à editoração e organização do texto.
90 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

4.1. Introdução
O atual cenário das organizações tem exigido profissionais mais qualificados e pre-
parados para os desafios do mercado. O mundo globalizado permite a transferência de
informação e conhecimentos exigindo dos gestores uma visão sistêmica, conhecimento
e habilidade para solução dos problemas.
Como foi visto nos capítulos anteriores, o conceito de sustentabilidade nos negó-
cios é reconhecido como um diferencial competitivo. E com isso, além das dimensões
econômicas, empresas buscam incorporar na gestão de seus negócios as dimensões
ambientais e sociais.
Identificar as necessidades e expectativas das partes interessadas é uma boa prática
para a organização levantar oportunidades e mapear os impactos do seu negócio no
meio ambiente e na sociedade. A sustentabilidade nos negócios tem relação direta com
o atendimento dos interesses das partes interessadas (Figura 4.1).

Figura 4.1. A organização e seus grupos de interesse.


Fonte: adaptado de Lima, 2010.

De forma genérica, no processo de relacionamento e comunicação socioambiental,


a abordagem de diálogo das organizações com seus grupos de interesse, têm buscado
refletir a atenção com o contexto da aplicação do chamado Princípio da Precaução.
A adoção desse princípio inverte práticas comuns dos negócios como nos casos de
lançamentos de produtos, utilização de processos e matérias-primas sem a devida
investigação de possíveis danos que possam causar aos trabalhadores, aos consumi-
dores, à saúde pública e ao ambiente.
No caso de haver perigo de dano, grave ou irreversível, a falta de uma certeza ab-
soluta não deverá ser utilizada para se postergar a adoção de medidas eficazes em
função do custo para eliminar ou reduzir significativamente riscos de degradação do
meio ambiente.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 91

Uma abordagem do Princípio da Precaução aplicado à tomada de decisão ambiental


e de saúde pública inclui cinco componentes especificados:
š Agir com precaução antes que haja certeza científica de causa e efeito.
š Estabelecer metas. O Princípio da Precaução encoraja o planejamento baseado
em metas bem definidas, ao invés de cenários futuros e cálculos de riscos que
podem ser prejudicados pelo erro e pela parcialidade. Planejar, ao invés de pro-
ver um futuro incerto, é um tipo de ação que cria poucos cálculos incorretos e
apressa soluções inovadoras.
š Procurar e avaliar alternativas. Em vez de perguntar qual nível de contamina-
ção é seguro, a abordagem do Princípio de Precaução indaga como reduzir ou
eliminar danos e considera todos os meios possíveis para atingir determinada
meta, inclusive antecipando atividades propostas.
š Mudar o ônus da prova. Os responsáveis por uma atividade devem provar que
esta não causará dano indevido à saúde humana ou aos ecossistemas, e devem
informar ao público e às autoridades quando um impacto potencial for identi-
ficado.
š Desenvolver métodos e critérios mais democráticos para as tomadas de decisões
de um produto. Este considera que o público tem o direito de saber exatamente
sobre as atividades existentes e participar das decisões quanto aos planejamentos
futuros.

Uma das mais importantes expressões do Princípio da Precaução internacional é a


declaração feita na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desen-
volvimento, que foi realizada em julho de 1992, no Rio de Janeiro, que rege: “com fim de
proteger o meio ambiente, os Estados devem aplicar amplamente o Princípio da Precaução,
conforme as suas capacidades”.
No Brasil, a Lei n. 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente, denominada
Lei da Poluição) se aplica a qualquer organização onde possa ocorrer degradação da
qualidade ambiental, resultante de atividades que direta ou indiretamente:
š Prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população.
š Criem condições adversas às atividades sociais e econômicas.
š Afetem desfavoravelmente a biota.
š Afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente.
š Lancem matéria ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabe-
lecidos.

Neste contexto se insere a contribuição de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA)


que forneça um processo estruturado para atingir a melhoria contínua da qualidade
ambiental, cujo ritmo e amplitude sejam determinados pela organização à luz de cir-
cunstâncias econômicas e demais condicionantes.
A integração das questões ambientais com o sistema de gestão global da organiza-
ção (Figura 4.2.) pode contribuir para a efetiva implementação do Sistema de Gestão
Ambiental, bem como para sua eficiência e clareza de atribuições.
92 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 4.2. Integração do SGA com demais funções organizacionais.


Fonte: adaptado de França, 2010.

A implantação e operação do Sistema de Gestão Ambiental, por si só, não resultará,


necessariamente, na redução imediata de impactos ambientais adversos.

4.2. Normalização e certificação


Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI, 2011):
Uma norma técnica é um documento estabelecido por consenso e aprovado por um
organismo reconhecido que fornece, para uso comum e repetitivo, regras, diretrizes ou
características para atividades ou para seus resultados, visando à obtenção de um grau
ótimo de ordenação em um dado contexto. As normas técnicas são aplicáveis a produtos,
serviços, processos, sistemas de gestão, pessoal, enfim, aos mais diversos campos.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 93

Existem quatro níveis de normalização: norma empresarial, nacional, regional e


internacional. As normas internacionais são menos exigentes e mais genéricas (emitin-
do princípios de aplicação); entretanto, no âmbito corporativo empresarial as normas
costumam ser mais detalhadas, exigentes e restritivas.
Diferente das normas técnicas, as normas legais alocam sanções correspondentes caso
a mesma não seja atendida ou seguida.
O Sistema Brasileiro de Certificação (SBC) foi instituído pelo Conselho Nacional de
Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro) pela Resolução n. 08/1992
(revista pela Resolução n. 02/1997), a fim de estabelecer uma estrutura de certificação
de conformidade adequada às necessidades do Brasil.
A certificação é um indicador para os consumidores de que o produto, processo ou
serviço atende a padrões mínimos de qualidade. A livre circulação de bens e serviços só
se viabiliza integralmente se os países envolvidos mantiverem sistemas de certificação
compatíveis e mutuamente reconhecidos.
Segundo o SBC, o credenciamento é o reconhecimento formal, concedido por um
organismo autorizado, de que uma entidade tem competência técnica para realizar
serviços específicos. O organismo de credenciamento do SBC é o Inmetro, cabendo às
entidades por ele credenciadas (organismo de certificação) a condução das atividades
de certificação de conformidade e de treinamento de pessoal.
A Certificação de Conformidade é o documento emitido pelo organismo de certifi-
cação, de acordo com as regras de um sistema de certificação e que atesta a qualidade
de um sistema, processo, produto ou serviço. O documento é emitido com base em
normas elaboradas por entidades reconhecidas no âmbito do Sistema Nacional de
Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Sinmetro) ou com base em regula-
mentos técnicos emitidos por órgãos regulamentadores oficiais.
A Certificação Compulsória, no âmbito do SBC, é um serviço prestado pelo SBC aos
órgãos regulamentadores oficiais. A certificação compulsória dá prioridade às questões
de segurança, de interesse do país e do cidadão, abrangendo as questões relativas aos
animais, vegetais, proteção da saúde, do meio ambiente e temas correlatos.
A Certificação Voluntária é decisão exclusiva do solicitante e tem como objetivo
garantir a conformidade de processos, produtos e serviços às normas elaboradas por
entidades reconhecidas no âmbito do Sinmetro.
Por fim, para a Avaliação do Fornecedor, as empresas que desejarem ter seus for-
necedores certificados, no âmbito do SBC, incluindo requisitos adicionais próprios,
devem utilizar os diversos organismos credenciados no âmbito do Sinmetro e utilizar
metodologias, critérios e procedimentos compatíveis com aqueles estabelecidos no
âmbito do SBC.
No contexto atual, vários são os tipos de sistemas de gestão organizacionais e muitas
são as normas, nacionais e internacionais, utilizadas como referência em processos de
implementação e de certificação de sistemas. No capítulo 3 alguns modelos de sistemas
de gestão que incluem a questão ambiental em suas abordagens já foram apresentados.
Ao se realizar uma análise histórica percebe-se clara tendência na evolução e dis-
seminação dos sistemas de gestão normalizados, conforme Figura 4.3.
94 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 4.3. Evolução dos sistemas de gestão normalizados – “ISO”.


Fonte: Soratto et al., 2006.

A Organização Internacional de Normalização (ISO), da sigla em inglês, International


Organization for Standardization, é a instituição que tem como finalidade desenvolver
normas técnicas para formação de padrões internacionalmente aceitos, favorecendo
o livre comércio entre as nações. Reúne organizações de normalização de mais de 100
países do mundo, entre os quais o Brasil, representado pela Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT).
Como resultado desse movimento em torno do desenvolvimento sustentável, as
empresas, pelo menos as com maior potencial de degradação ambiental, passam a lidar
com essa questão com uma diversidade de partes interessadas e de normas, de forma
que, para se manterem competitivas no mercado, vêm buscando implantar propostas de
Sistema de Gestão Integrado (SGI), que abranja o Sistema de Gestão da Qualidade – ISO
9001, o Sistema de Gestão Ambiental – ISO 14001, o Sistema de Gestão de Segurança e
Saúde Ocupacional – OSHAS 18001 (do inglês, Occupational Health and Safety Assessment
Series) e, mais recentemente, o Sistema de Gestão em Responsabilidade Social – ISO 26000.

4.3. O sistema de gestão ambiental segundo a ISO


14001
A ISO 14001 é a norma internacional sobre sistema de gestão ambiental, pertencente
à Série de Normas ISO 14000. A área da ISO responsável pela Série ISO 14000 é o Comitê
Técnico Ambiental 207, chamado ISO/TC207, fundado em 1993. Seu correspondente,
na ABNT, é o Comitê Brasileiro de Gestão Ambiental, o CB-38.
Em 2004, a norma internacional sobre Sistema de Gestão Ambiental foi revisada e
atualizada e é nesta versão que este capítulo se fundamenta, ou seja, a ISO 14001:2004,
já publicada em português pela ABNT, como NBR ISO 14001:2004.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 95

É esperado que o SGA permita a uma organização:


š Estabelecer uma política ambiental apropriada para si.
š Identificar os aspectos ambientais decorrentes de atividades, produtos ou ser-
viços da organização, passados, existentes ou planejados, para determinar os
impactos ambientais significativos.
š Identificar os requisitos legais e regulamentares aplicáveis.
š Identificar prioridades e estabelecer objetivos e metas ambientais apropriados.
š Estabelecer uma estrutura e programa(s) para implementar a política e atingir
os objetivos e metas.
š Facilitar as atividades de planejamento, controle, monitoramento, ação corretiva,
auditoria e análise crítica, de forma a assegurar que a política seja obedecida e
que o sistema de gestão ambiental permaneça apropriado.
š Ser capaz de adaptar-se às mudanças das circunstâncias.

Normas Internacionais como a ISO 14001:2004 não são criadas para serem utilizadas
como barreiras comerciais não tarifárias, conhecidas também como barreiras técni-
cas ao comércio entre nações, nem para ampliar ou alterar obrigações legais de uma
organização, mas para prover às organizações os elementos de um sistema de gestão
eficaz, passível de integração com outros requisitos de gestão.

4.3.1. Conceitos importantes


Para a compreensão do contexto de aplicação deste capítulo é importante o enten-
dimento de alguns conceitos apresentados pela ISO 14001:2004 (Quadro 4.1).

Quadro 4.1. Conceitos apresentados pela ISO 14001:2004

š Política ambiental: declaração da organização, expondo suas intenções e princípios em relação ao seu
desempenho ambiental global, que provê uma estrutura para ação e definição de seus objetivos e metas
ambientais.
š Sistema de gestão ambiental: a parte do sistema de gestão global que inclui estrutura organizacional,
atividades de planejamento, responsabilidades, práticas, procedimentos, processos e recursos para
desenvolver, implementar, atingir, analisar criticamente e manter a política ambiental.
š Aspectos ambientais: elementos das atividades, produtos, ou serviços de uma organização que podem
interagir com o meio ambiente. Como visto no Capítulo 1.
š Impacto ambiental: qualquer modificação do meio ambiente, adversa ou benéfica, que resulte, no todo
ou em parte, das atividades, produtos ou serviços de uma organização. Como visto no capítulo 1.
š Auditoria ambiental: processo sistemático e documentado de verificação, executado para obter e avaliar,
de forma objetiva, evidências que determinem se o sistema de gestão ambiental de uma organização
está em conformidade com os critérios de auditoria do sistema de gestão ambiental estabelecido pela
eh]Wd_pW‚€e"[fWhWYeckd_YWheih[ikbjWZeiZ[ij[fheY[iie}WZc_d_ijhW‚€e$
š Objetivo ambiental: propósito ambiental global, decorrente da política ambiental, que uma organização
se propõe a atingir, sendo quantificado sempre que exequível.
96 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

š Meta ambiental0h[gk_i_jeZ[Z[i[cf[d^eZ[jWb^WZe"gkWdj_ÓYWZei[cfh[gk[[n[gk‡l[b"Wfb_Y|l[b}eh]Wd_pW-
ção ou partes dela, resultante dos objetivos ambientais e que necessita ser estabelecido e atendido para que tais
objetivos sejam atingidos.
š Desempenho ambiental: resultados mensuráveis do sistema de gestão ambiental, relativos ao controle de uma
organização sobre seus aspectos ambientais, com base na sua política, seus objetivos e metas ambientais.
š Parte interessada (grupos de interesse): indivíduo ou grupo interessado ou afetado pelo desempenho ambiental
de uma organização.
š Prevenção da poluição: uso de processos, práticas, materiais ou produtos que evitem, reduzem ou controlem
a poluição, os quais podem incluir reciclagem, tratamento, mudanças no processo, mecanismos de controle,
uso eficiente de recursos e substituição de materiais (os benefícios potenciais da prevenção de poluição in-
cluem a redução de impactos ambientais adversos, a melhoria da eficiência e a redução de custos).

4.4. Requisitos básicos de um SGA


A ISO 14001:2004 especifica os requisitos relativos a um SGA que uma organização
deve levar em conta ao desenvolver e implementar uma política ambiental e cumprir
os objetivos ambientais decorrentes.
Os requisitos são o que é necessário fazer para se ter um SGA implementado e
funcionando, cumprindo a política ambiental, praticando a prevenção da poluição e
comprovando a melhoria contínua do desempenho ambiental, adotando-se a abor-
dagem do ciclo “PDCA” conforme descrito na Figura 4.4.

Figura 4.4. Estrutura do SGA segundo o modelo PDCA.


Fonte: adaptado de Lima, 2010.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 97

Os requisitos também estão relacionados à regulamentação legal e/ou técnica


aplicável aos aspectos ambientais significativos de uma organização. Podem ser obri-
gatórios, como no caso dos requisitos legais e podem ser de adoção voluntária, como
no caso do atendimento às necessidades locais ou de mercado (Fiesp, 2007).
Nos itens a seguir serão detalhadas cada uma das etapas previstas na Figura 4.4.

4.4.1. Etapa de planejamento do SGA


A norma ISO 14001:2004 apresenta os fatores mínimos que devem ser levados em
consideração no momento do planejamento do sistema, dentre os quais: aspectos
ambientais, requisitos legais e objetivos e metas.

a) Análise crítica inicial


É recomendado para uma organização que ainda não possua sistema de gestão
ambiental que estabeleça, inicialmente, sua posição atual em relação aos aspectos
ambientais através de uma avaliação ambiental inicial.
Recomenda-se que o objetivo seja considerar todos os aspectos ambientais da
organização como uma base para o estabelecimento do sistema de gestão ambiental.
As organizações que já dispõem de um sistema de gestão ambiental em operação não
precisam proceder tal avaliação. Em todos os casos, deve-se levar em consideração as
operações normais e anormais da organização, bem como as potenciais condições de
emergência.
Uma abordagem apropriada da avaliação ambiental inicial pode incluir listas de
verificação, entrevistas, inspeções e medições diretas, resultados de auditorias ante-
riores ou outras análises, dependendo da natureza das atividades.
A etapa de Análise Crítica Inicial visa identificar a posição atual da empresa em
relação ao meio ambiente e deve cobrir as seguintes áreas:
š Legislação e outros instrumentos legais.
š Identificação de aspectos ambientais críticos.
š Exame de todas as práticas e procedimentos de gestão ambiental.
š Avaliação dos incidentes/acidentes prévios.

No desenvolvimento da análise crítica, as organizações podem utilizar a abordagem


DID (determinar, identificar, definir), de forma a garantir:
98 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Tabela 4.1. Matriz de análise crítica


Determinar Identificar Definir
š Fedjei\ehj[i[\hWYeiZW š Fh_dY_fW_iWY_Z[dj[i š CeZ[beZ[I=7[
[cfh[iWYech[bW‚€e} ambientais. estabelecer estratégias
legislação. š FWii_leWcX_[djWb$ para integrá-lo.
š Fh_dY_fW_iZ[cWdZWi š I[b[Y_edWhfh|j_YWi š 7b_d^Wc[djeZeI=7Yec
de partes interessadas exemplares os básicos de liderança
externas e internas. X[dY^cWha_d]$ da organização: valores,
š Fh_dY_fW_iWif[Yjei% visão e missão, códigos
impactos. de ética etc.

b) Definição da política
A política ambiental é o elemento motor para a implementação e o aprimoramen-
to do sistema de gestão ambiental da organização, permitindo que seu desempenho
ambiental seja mantido e potencialmente aperfeiçoado. A política deve refletir o com-
prometimento da alta administração em relação ao atendimento às leis aplicáveis e à
melhoria contínua, constituindo a base para o estabelecimento dos objetivos e metas
da organização e, ainda, ser suficientemente clara para seu entendimento pelas partes
interessadas, internas e externas, permitindo sua periodica analise e revisão.
A norma ISO 14001 especifica temas que devem estar presentes na política ambiental
da empresa, a saber:
š Seja apropriada à natureza, escala e impactos ambientais de suas atividades,
produtos ou serviços.
š Inclua um comprometimento com a melhoria contínua e com a prevenção de
poluição.
š Inclua o comprometimento em atender aos requisitos legais aplicáveis e outros re-
quisitos subscritos pela organização que se relacionem a seus aspectos ambientais.
š Forneça uma estrutura para o estabelecimento e revisão dos objetivos e metas
ambientais.
š Seja documentada, implementada, mantida.
š Seja comunicada a todos que trabalhem na organização ou que atuem em seu
nome; e esteja disponível para o público.

A Figura 4.5 apresenta um exemplo de Política Ambiental de uma organização.

KcW[cfh[iWb‡Z[hdeZ[i[dlebl_c[dje"\WXh_YW‚€e[YWb_XhW‚€eZ[_dijhkc[djeifWhWec[hYWZeikbWc[h_YWde
e no fornecimento de instrumentos para o mercado internacional, é comprometida com a proteção do meio
ambiente e assume:
š 7j[dZ[heih[gk_i_jei[ij_fkbWZeif[bWb[]_ibW‚€e[Wekjheih[gk_i_jeih[bWY_edWZeiWi[kiWif[YjeiWcX_[djW_i1
š ?Z[dj_ÓYWh[XkiYWhWfh[l[d‚€eZWfebk_‚€eZ[Yehh[dj[ZWief[hW‚[i\WXh_i"Yec…d\Wi[dWc_d_c_pW‚€e
da geração de resíduos e redução do consumo de recursos naturais;
š 9edi_Z[hWheiWif[YjeiWcX_[djW_idW[n[Yk‚€eZ_|h_WZWijWh[\Wi1
š 8kiYWhWc[b^eh_WYedj‡dkWZeZ[i[dlebl_c[djeWcX_[djWb"fehc[_eZ[_dY[dj_le}h[Y_YbW][c[Weh[kie"
e ao envolvimento de seus colaboradores na conscientização ambiental, despertando o interesse pelo meio
ambiente, por meio de processos educativos.

Figura 4.5. Exemplo de texto de uma política ambiental.


Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 99

c) Levantamento de aspectos e impactos ambientais


É recomendado que as organizações determinem quais são seus aspectos am-
bientais, levando em consideração as entradas e saídas associadas às suas atividades,
produtos e/ou serviços atuais e passados, se pertinentes.
A identificação de aspectos ambientais de uma organização é o primeiro passo
no planejamento de um sistema de gestão ambiental. Em seguida, identificam-se os
impactos ambientais associados aos aspectos, sendo necessário determinar se são ou
não significativos.
Neste sentido, a organização deve estabelecer, implementar e manter procedimento(s)
para:
š Identificar os aspectos ambientais de suas atividades, produtos e serviços den-
tro do escopo definido do seu sistema de gestão ambiental, que a organização
possa controlar e aqueles que ela possa influenciar, levando em consideração
os desenvolvimentos novos ou planejados, as atividades, produtos e serviços
novos ou modificados.
š Determinar os aspectos que tenham ou possam ter impacto(s) significativo sobre
o meio ambiente (isto é, aspectos ambientais significativos).

A organização deve documentar essas informações, mantê-las atualizadas e asse-


gurar que os aspectos ambientais significativos sejam cobertos no estabelecimento,
implementação e manutenção do sistema de gestão ambiental.
A Figura 4.6 apresenta uma perspectiva do Levantamento de Aspectos e Impactos
(LAI):

Figura 4.6. Abordagem sistêmica do LAI.


Fonte: adaptado de Lima, 2010.

A norma ISO 14001 apresenta orientações práticas para prover um processo que
permita a uma organização identificar os aspectos ambientais significativos a serem
priorizados pelo seu sistema de gestão ambiental.
100 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Muito embora não exista uma abordagem única para se identificar aspectos am-
bientais, a abordagem poderia, por exemplo, considerar: (a) emissões atmosféricas; (b)
lançamentos em corpos d’água; (c) lançamentos no solo; (d) uso de matérias-primas e
recursos naturais; (e) uso da energia; (f) energia emitida (por exemplo, calor, radiação,
vibração); (g) resíduos e subprodutos; (h) atributos físicos (por exemplo, tamanho,
forma, cor, aparência), dentre outros.
Adicionalmente aos aspectos ambientais que podem ser controlados diretamente, a
organização deve também considerar aspectos que possam influenciar, como aqueles
associados a bens e serviços por ela utilizados e produtos e serviços que ela forneça.
Como exemplos genéricos de aspectos citam-se: (a) distribuição e uso da água;
(b) lixo produzido; (c) descarte de embalagens; (e) efluentes sanitários; (f) emissão de
gases poluentes; (g) uso de material de papelaria; (h) qualidade do ar; (i) descarte de
produtos químicos, dentre outros.
Na identificação dos aspectos significativos, como na avaliação inicial, é necessário
que a investigação considere as condições normais de operação e as de parada e partida,
bem como o potencial de impactos significativos associados a situações razoavelmente
previsíveis ou de emergência.
O processo deve ter por objetivo identificar aspectos ambientais críticos associados
às atividades, produtos ou serviços, não sendo sua intenção exigir uma avaliação de-
talhada de ciclo de vida. As organizações não precisam avaliar cada produto, compo-
nente ou matéria-prima utilizada. Podem selecionar categorias de atividades, produtos
ou serviços para identificar aqueles aspectos com maior possibilidade de apresentar
impacto significativo.
Recomenda-se que sejam considerados aspectos associados às atividades, produtos
e serviços da organização, tais como (Pimentel, 2010):
š Projeto e desenvolvimento.
š Processos de fabricação.
š Embalagem e transporte,
š Desempenho ambiental e práticas de prestadores de serviços e fornecedores.
š Gerenciamento de resíduo.
š Extração e distribuição de matérias-primas e recursos naturais.
š Distribuição, uso e fim de vida de produtos.
š Vida selvagem e biodiversidade.

O controle e a influência sobre os aspectos ambientais dos produtos fornecidos à


uma organização podem variar significativamente, dependendo da situação de mer-
cado e dos seus fornecedores. Uma organização que é responsável pelo projeto de seu
próprio produto pode influenciar tais aspectos significativamente através da alteração,
por exemplo, de um único material de entrada, enquanto que uma organização que
necessite fornecer de acordo com especificações de produto externamente determi-
nadas, pode ter pouca escolha.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 101

Figura 4.7. Ilustração típica de aspecto ambiental.


Fonte: adaptado de Lima, 2010.

Apesar de se reconhecer que as organizações podem ter controle limitado sobre o


uso e a disposição final de seus produtos, recomenda-se que elas considerem os meios
apropriados de manuseio e disposição final. Estas medidas não pretendem alterar ou
aumentar as obrigações legais das organizações.
A seguir, algumas exemplificações de categorias de impactos ambientais:
š Ecotoxicidade.
š Fumaça fotoquímica oxidante.
š Redução da camada de ozônio.
š Consumo de recursos naturais.
š Consumo de energia.
š Efeito estufa.
š Contribuição para a ruptura da camada de ozônio.
š Acidificação.
š Toxicidade humana.
š Alteração da qualidade do ar, do solo, das águas superficiais, subterrâneas.
š Degradação do ecossistema.
š Assoreamento de cursos d’água.
š Contribuição para o esgotamento dos recursos naturais não renováveis.
š Incômodo ou desconforto.

Apresenta-se na Figura 4.8 uma ilustração de um impacto ambiental.


102 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 4.8. Ilustração típica de impacto ambiental.


Fonte: adaptado de Lima, 2010.

Um dos mais eficientes meios de proteger uma comunidade e ecossistemas sensí-


veis contra os riscos de instalações industriais é mantê-las suficientemente afastadas.
A falta de zoneamento do uso do solo como também de planejamento ambiental leva
a proximidades perigosas, que foram a causa de vários acidentes graves.
Uma vez que uma organização pode ter muitos aspectos ambientais e impactos
associados, é recomendado que ela estabeleça critérios e um método para determinar
aqueles impactos que serão considerados significativos. Não há um método único para
que os aspectos ambientais significativos sejam determinados.

d) Avaliação da importância dos impactos


A importância de cada impacto ambiental identificado pode variar de uma orga-
nização para outra. A quantificação pode auxiliar no julgamento. A avaliação pode ser
facilitada, levando-se em conta:
d1) Considerações estruturais
– Escala de impacto.
– Severidade do impacto.
– Probabilidade de ocorrência.
– Duração do impacto.
d2) Considerações organizacionais
– Potencial exposição legal e regulamentar.
– Dificuldade de alterações de projeto.
– Custo para alteração do impacto.
– Efeito de uma alteração sobre outras atividades e processos.
– Preocupações das partes interessadas.
– Efeitos na imagem pública da organização.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 103

Uma das maneiras de realizar esta identificação pode ser a construção de uma matriz
que relacione os aspectos e impactos ambientais, caracterizando os efeitos adversos
potenciais da exposição a perigos ambientais. Esta ferramenta auxilia também na
classificação e determinação de sua significância.
Os Quadros 4.2 e 4.3 exemplificam alguns critérios típicos da abordagem frequência
vs. severidade para avaliação da significância.

Quadro 4.2. Avaliação da frequência do aspecto

Categorias de frequências

Frequência
Categoria Descrição Cenário esperado
média
Extremamente Conceitualmente possível, mas extremamente improvável
1 f < 10-4
Remota de ocorrer durante a vida útil da instalação.
2 Remota 10-3 > f > 10-4 Não esperado ocorrer durante a vida útil da instalação.
-2 -3
3 Improvável 10 > f > 10 FekYefhel|l[bZ[eYehh[hZkhWdj[Wl_ZW‘j_bZW_dijWbW‚€e$
Esperado ocorrer até uma vez durante a vida útil da
4 Fhel|l[b 10-1 > f > 10-2
instalação.
Esperado ocorrer várias vezes durante a vida útil da
5 Frequente f > 10-1
instalação.

Quadro 4.3. Avaliação da severidade do aspecto

Categoria de severidade

Categoria Denominação Descrição das consequências

I[cZWdeiekZWdei_di_]d_ÓYWdj[iWei[gk_fWc[djei"}fhefh_[ZWZ[[%ek
1 Desprezível
ao meio ambiente.
:Wdeib[l[iWei[gk_fWc[djei"}fhefh_[ZWZ[[%ekWec[_eWcX_[dj[ei
2 Marginal
danos materiais são controláveis e/ou de baixo custo de reparo).
:Wdeii[l[heiWei[gk_fWc[djei"}fhefh_[ZWZ[[%ekWec[_e
WcX_[dj["b[lWdZe}fWhWZWehZ[dWZWZWkd_ZWZ[[%eki_ij[cW$
3 Crítica
Exige ações corretivas imediatas para evitar seu desdobramento em
catástrofe.
:Wdei_hh[fWh|l[_iWei[gk_fWc[djei"}fhefh_[ZWZ[[%ekWec[_eWcX_[dj["
4 Catastrófica b[lWdZe}fWhWZWZ[iehZ[dWZWZWkd_ZWZ[[%eki_ij[cWh[fWhW‚€eb[djWek
impossível).

Da combinação dessas avaliações (frequência e severidade) pode-se compor uma matriz


consolidada de classificação de risco (Quadro 4.4).
104 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 4.4. Exemplo de matriz para avaliação de significância

Frequência
1 2 3 4 5
4
3
Severidade
2
1
Severidade Frequência Risco

*Å9WjWijhŒÓYW +Å<h[gk[dj[ Desprezível

)Å9h‡j_YW *ÅFhel|l[b Menor

(ÅCWh]_dWb )Å?cfhel|l[b Moderado

'Å:[ifh[p‡l[b (ÅH[cejW Sério

'Å;njh[cWc[dj[ Crítico
remota

Fonte: adaptado de Lima, 2010.

É importante notar que os exemplos de valoração apresentados e sugeridos para


obtenção da significância de aspectos/impactos ambientais são apenas uma indicação,
podendo cada organização decidir por outros métodos, eventualmente mais adequados
às respectivas particularidades de suas operações, atividades e/ou serviços.
Outros exemplos de critérios de análise:
š Critérios combinados:
Significância (severidade “S” ou frequência “F” =3) ou
importância (S+F > =4), sendo o resultado consolidado como:
desprezível (1), tolerável (2), significativo (3), moderado (4) ou crítico (5).
š Extensão: isolado (só na área da atividade); restrito (dentro e fora da unidade de
trabalho); abrangente (para fora da empresa).
š Incidência: relaciona o aspecto/impacto ambiental levantado com a atividade
exercida no local. A incidência pode ser direta (quando se refere àquele aspecto
sobre o qual a organização exerce ou pode exercer controle efetivo, causando-se
ou podendo-se causar um impacto ambiental direto); ou indireta (aquele aspecto/
impacto sobre o qual a organização pode apenas exercer influência, não tendo
controle efetivo, causando-se ou podendo-se causar um impacto indireto).
š Abrangência: procura expressar a capacidade de interferência do aspecto/im-
pacto no meio ambiente. Pode ser classificada em local (quando se encontra nas
dependências da organização), regional (quando o impacto afeta o entorno da
organização e a região onde a mesma se encontra) ou global (quando o impac-
to atinge um componente ambiental de importância coletiva, nacional ou até
mesmo internacional ou global).
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 105

Nota: deve-se, ainda, levar em consideração na análise de significância, todos os


eventuais aspectos críticos potencialmente associados a requisitos legais.
É importante também salientar que um aspecto pode ter um ou mais impactos
ambientais associados e que isso precisa ser sistematizado e avaliado, individual e/
ou conjuntamente, com os demais aspectos e impactos ambientais da organização.
O Quadro 4.5. apresenta um exemplo de formulário que pode ser adotado para
avaliação da significância de aspectos ambientais.

Quadro 4.5. Matriz de consolidação de critérios de significância


IDENTIFICAÇÃO DA EMPRESA/DEPARTAMENTO
ATIVIDADE:
7IF;9JE ?CF79JE COMENTÁRIOS
Situação

Temporalidade
Classe
Incidência
Consequência

Frequência

Legislação

FWhj[i?dj[h[iiWZWi
š FeZ[#i[_dYbk_hd[ij[YWcfe0
Ÿ controle operacional
Ÿ Identificação da legislação
(N) Normal (R) Risco Sim ou Não
FFWiiWZe77jkWb<<kjkhe Sim ou Não
Benéfico (A) Adverso (3) Alta
(D) Direto (I) Indireto (2) Média
(1) Baixa

A qualidade das informações adquiridas a partir da avaliação dos aspectos e impac-


tos ambientais é determinante para o sucesso das etapas subsequentes da implantação
de um SGA. No Capítulo 5 são apresentados conceitos e outras técnicas para avaliação
de impacto ambiental.
Com o conhecimento prévio dos impactos ambientais potenciais associados aos
aspectos ambientais da organização, por meio de instrumentos de planejamento e ava-
liação de impacto ambiental, podem ser adotadas medidas que evitem ou minimizem
tais impactos, reduzindo, consequentemente, os custos envolvidos na sua mitigação e
controle, na recuperação de áreas degradadas e/ou na remediação de solos e aquíferos
contaminados. O Quadro 4.6 apresenta um exemplo de matriz de levantamento de
aspectos e impactos ambientais e respectivo grau de significância.
106 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 4.6. Exemplo de LAI com definição do potencial de significância


Üh[W0Kj_b_ZWZ[i LAI n. 000.051
Informações adicionais: SEL I :WjWZWFkXb_YW‚€e0)&%&+%'' Revisão: 5.0
Identificação Avaliação
Etapa/Tarefa Aspecto Impacto G F SIG. FR Fef#IIC7
Emissão
:khWdj[eFheY[iie
7jcei\ƒh_YWÅ Contaminação
Operacional no SAO, 3 2 5 6.11.18 Fef&(
Vapores de do Ar
7F?[<beYkbWZeh
Hidrocarbonetos
:khWdj[WKj_b_pW‚€e Geração de Contaminação 6.11.18.24.3
2 2 4 Fef*-
Z[IWd_j|h_e[F_Wi ;Ôk[dj[B‡gk_Ze do Solo e Água 75.214.217
Degradação
DWKj_b_pW‚€eZ[ Consumo de
de Recursos 2 2 4 Fef&+
Equipamentos Energia Elétrica
Naturais
Consumo de Água Degradação
Concumo de
para diluição de de Recursos 1 1 2 24 Fef'/
Água
Floculante Naturais

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007

d) Requisitos legais e outros requisitos


Após a identificação dos aspectos e impactos ambientais e definida sua importância
relativa, a organização deve levantar os requisitos legais aplicáveis às suas atividades,
e outros requisitos, tais como normas, códigos e princípios setoriais. No caso de não
haver requisitos legais e/ou outros regulamentos aplicáveis, a organização deve esta-
belecer critérios de desempenho ambiental.
A organização deve estabelecer, implementar e manter procedimento(s) para:
š Identificar e ter acesso a requisitos legais aplicáveis e a outros requisitos subs-
critos pela organização, relacionados aos seus aspectos ambientais.
š Determinar como esses requisitos se aplicam aos aspectos ambientais.

A organização deve assegurar que esses requisitos legais aplicáveis e outros requi-
sitos subscritos pela organização sejam levados em consideração no estabelecimento,
implementação e manutenção de seu sistema de gestão ambiental.
Exemplos de outros requisitos com que uma organização pode subscrever são:
š Códigos de prática da indústria.
š Acordos com autoridades públicas.
š Diretrizes de natureza não regulamentar.

Segundo a ISO 14001:2004, a legislação aplicável deve estar sempre atualizada, para
que a organização não corra risco de deixar de cumprir algum requisito legal aplicável,
seja por falta de conhecimento, ou por desorganização de seus registros. É aconselhável
que haja um setor responsável por identificar as alterações nos requisitos legais e outros
requisitos aplicáveis ao desempenho ambiental da organização. Este mesmo setor deve
criar um banco de dados com essas informações, permitindo o acesso rápido a esses
requisitos. Devem ser indicados, ainda, a que aspectos ambientais da organização os
requisitos legais estão associados.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 107

Quadro 4.7. Monitoramento e avaliação de requisitos


MAR – Monitoramento e Avaliação de Requisitos
Empresa : XXXX
Contato : XXXX
Validade : 30/01/2007
Data da
Geração : 20/12/2006
Aspecto
Documentação/
Documento Ano Instância Ambiental Histótico Assunto Ação Responsável
Registro
Relacionado
1. Verificar se a
empresa realiza
transporte terrestre
de produtos
perigosos ou se
contrata terceiros
2. Em qualquer
caso, obervar e Fh[[dY^_c[dje
Aprova as documentar o Z[Y^[Yab_ij
Altera o
instruções cumprimento de inspeção
Anexo da
Complementares Resolução ANTT em veículos de
Transporte Resolução
Resolução ao Regulamento 1.644 de 2006 Transportes/
2006 Federal de produtos n. 420, Maria
ANTT 1.644 do Transporte )$FWhW[cfh[iWi Verificação de
perigosos de 12 de
Terrestre de contratadas, observar Y^[Yab_ijZ[
fevereiro
FheZkjei e documentar inspeção em
de 2004
F[h_]eiei dWFehjWh_We veículos de
cumprimento das Transportes
obrigações legais
pelas empresas
transportadoras de
Resíduos perigosos
e cargas perigosas
(Resolução ANTT
1.644 de 2006

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.

e) Objetivos e metas
Os objetivos ambientais são os propósitos, determinados pela organização, com
relação aos seus aspectos e impactos ambientais significativos e ao atendimento aos
requisitos legais e outros requisitos, à luz da política ambiental estabelecida e tendo
em vista as opções tecnológicas e os recursos humanos, materiais e financeiros dis-
poníveis (Fiesp, 2007).
De acordo com a norma ISO (14001:2004), “objetivos e metas ambientais devem ser
estabelecidos, implementados, documentados e mantidos por uma organização, em funções
e níveis relevantes de responsabilidades, definidos no SGA.”
Metas ambientais são os resultados esperados e, sempre que possível, determinados
ou estimados de modo quantitativo, quanto ao atendimento dos objetivos definidos no
âmbito do SGA da organização. As metas devem ter a capacidade de indicar claramente
se os objetivos foram ou não alcançados. Ao final, o atendimento às metas estabele-
cidas levará às conclusões sobre melhoria do desempenho ambiental da organização,
demonstrando se o SGA está funcionando.
108 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Ao estabelecer e analisar seus objetivos e metas, uma organização deve considerar


os requisitos legais e outros requisitos por ela subscritos, e seus aspectos ambientais
significativos. Deve também considerar suas opções tecnológicas, seus requisitos
financeiros, operacionais, comerciais e a visão das partes interessadas. Devem ainda
ser específicos e mensuráveis, quando possível, e coerentes com a política ambiental,
incluindo todos os comprometimentos nela expressos. É recomendável, ainda, a indi-
cação de objetivos e metas de curto, médio e longo prazos.
Apresentam-se no Quadro 4.8., exemplos de objetivos e metas ambientais.

Quadro 4.8. Exemplos de objetivos e metas ambientais


Objetivos Metas
Redução de 50% do volume e do custo da cota mínima
Diminuição do Consumo de água
estabelecida pelo DAE.
Manejo do solo e vegetação, incluindo plantio de
Recomposição da vegetação mudas de espécies nativas em pelo menos uma área
da empresa.
Divulgação da política de proteção do meio ambiente Divulgação na comunidade e, no mínimo, em cinco
`kdje}Yeckd_ZWZ[ escolas.
Fomentar maior participação, incentivando no sentido
Fhecel[hW‚[iZ[_dY[dj_le[ch[bW‚€eWei_ij[cWZ[
de que todos os departamentos tomem medidas
gestão ambiental
responsáveis com relação ao meio ambiente.
Distribuição de 1001 mudas de arvores para
Fhecel[hW[ZkYW‚€eWcX_[djWb`kdje}Yeckd_ZWZ[$ colaboradores, clientes e/ou comunidade no decorrer
do ano.

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.

f) Programa de gestão ambiental


O programa de gestão ambiental deve ser estabelecido e mantido, de modo a
atender os objetivos e metas fixadas pela organização, incluindo: (a) a atribuição de
responsabilidades para atingir os objetivos e metas em cada função e nível pertinente
da organização; (b) os meios, envolvendo aplicação de técnicas e operações, e os prazos
envolvidos; (c) o alcance dos objetivos e metas ambientais.
Ainda, quando apropriado e exequível, deve ser observado o seguinte:
š No caso de atividades, produtos ou serviços atuais ou futuros da organização,
considerações relativas às fases de planejamento, projeto, produção, comer-
cialização, final de vida dos produtos e, quando for o caso, a desativação das
operações.
š No caso de produtos, podem ser abordados projetos, materiais, processos pro-
dutivos, uso e disposição final.
š No caso de instalações ou de processos significativos, podem ser abordados o
planejamento, projeto, construção, comissionamento, operação e, na ocasião
apropriada, determinada pela organização, o descomissionamento ou a desa-
tivação das instalações ou de processos.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 109

Deve-se sempre associar as atividades e os parâmetros dos programas com os obje-


tivos e metas, por sua vez associados aos aspectos e impactos ambientais significativos
que se pretende tratar e reduzir.
No Quadro 4.9, tem-se um exemplo de programa de gestão ambiental.

Quadro 4.9. Exemplos de programa de gestão ambiental


Comprometimento e
Planejamento Exemplo
política
Compromisso de política
Conservar recursos naturais.
ambiental
Minimizar o uso de água sempre que técnica e
Objetivo
comercialmente exequível.
Reduzir o consumo de água em 15% em relação
Meta aos níveis atuais, em locais selecionados, dentro de
um ano.
Fhe]hWcWWcX_[djWb Reutilização de água.
Instalar equipamento para reciclar água de lavagem
Ação
ZeFheY[iie7fWhWeFheY[iie8$

Fonte: adaptado de ISO 14001:2004.

A ISO 14001:2004 recomenda que este processo interativo seja repetido para todos
os compromissos da política, objetivos e metas.

4.4.2. Etapa de implementação e operação


Segundo a Fiesp (2007), a fase de execução ou implementação do SGA de acordo
com a ISO 14001:2004, envolve várias etapas, como segue:
š Indicação de representante da alta administração (denominado usualmente
de RA) para assegurar o estabelecimento, a implementação e a manutenção do
SGA, para relatar o desempenho ambiental alcançado e fazer recomendações
de melhoria. A atribuição de sua função, responsabilidade e autoridade para o
exercício da função deverá ser documentada e comunicada internamente e às
partes interessadas, entrando de preferência previsto no organograma da orga-
nização.
š Alocação de recursos humanos, formação ou aquisição de profissionais com
habilidades especializadas ou, ainda, a contratação de serviços especializados,
se for o caso, para implementar os programas ambientais, essência do SGA. Este
comprometimento da alta administração deverá estar expresso, documentado
e comunicado, internamente e às partes interessadas.
š Atribuição de responsabilidades, autoridades e funções, para implementação e
manutenção do SGA, a serem claramente definidas dentro do organograma da
organização, sendo documentadas e comunicadas.
110 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

š Criação ou disponibilização de infraestrutura e aquisição de tecnologia, dispo-


nibilização de recursos financeiros, para a execução dos programas ambientais
e para atender os requisitos da norma ISO 14001:2004, nesta fase.
š Identificação da necessidade e provimento de treinamento e conscientização de
todos na organização e também daqueles que a representem, formando compe-
tências para a implementação e manutenção do sistema de gestão ambiental.
š Definição, implementação e documentação de procedimentos para que, no
mínimo todas as pessoas que trabalhem na organização e atuem em seu nome
tenham consciência de que e do porquê:
– é importante estar em conformidade com a política ambiental e com os re-
quisitos do SGA da organização;
– a melhoria do desempenho pessoal traz benefícios ambientais e cada função
está potencialmente associada a aspectos ambientais significativos e seus
respectivos impactos;
– suas funções e responsabilidades, atribuídas pela administração, implicam
ficar em conformidade com os requisitos do SGA;

– a não observância de procedimentos especificados para sua função, no âmbito


do SGA, pode trazer consequências.
š Identificação, planejamento e definição de procedimentos documentados
daquelas operações da organização que estejam associadas aos aspectos e im-
pactos ambientais significativos, de modo a implementar controle operacional
como elemento do SGA, diminuindo a possibilidade de ocorrência de desvios
em relação à política, aos objetivos e às metas ambientais. Esses procedimentos
devem ser definidos também para produtos e serviços fornecidos à organização,
comunicando a necessidade de cumprimento dos requisitos de controle de certas
operações, aos fornecedores e prestadores de serviços.
š Estabelecimento, implementação e manutenção de procedimentos documen-
tados para identificar, prever e responder às reais e potenciais situações de
emergência e acidentes, relacionados aos seus aspectos e impactos ambientais
significativos. A resposta deve envolver ações de prevenção ou mitigação dos
impactos ambientais adversos. A organização deve periodicamente analisar e
rever procedimentos, além de realizar testes e simulações de acidentes e situa-
ções de emergência.
š Determinação, implementação e documentação de procedimentos para co-
municação interna e às partes interessadas, sobre os aspectos ambientais e o
SGA da organização; e decisão documentada sobre se e como a organização vai
providenciar a comunicação externa, ao público em geral.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 111

š A documentação deve ser controlada, ou seja, planejada, analisada, aprovada,


revista e aprovada novamente, sempre que necessário, de modo a evitar a incor-
reta implementação, manutenção, verificação e revisão dos elementos do SGA,
por causa de desatualização, obsolescência, erro de aplicação ou inadequação
ao objetivo a que se propõe, entre outros problemas.

a) Estrutura, recursos, funções, responsabilidades e autoridades


A administração deve assegurar a disponibilidade de recursos essenciais para esta-
belecer, implementar, manter e melhorar o sistema de gestão ambiental. Esses recursos
incluem recursos humanos e habilidades especializadas, infraestrutura organizacional,
tecnologia e recursos financeiros.
š A organização deve definir, documentar e comunicar os papéis, as responsabi-
lidades e autoridades para facilitar uma efetiva gestão ambiental;
š A alta administração deve prover recursos humanos, tecnológicos e financeiros,
que sejam essenciais à implantação e o controle do sistema de gestão ambiental.
š A alta administração da organização deve indicar representante(s) específico(s)
da administração, o(s) qual(is), independentemente de outras responsabilidades,
deve(m) ter função, responsabilidade e autoridade definidas para:
– assegurar que um sistema de gestão ambiental seja estabelecido, implemen-
tado e mantido com os requisitos desta Norma;
– relatar à alta administração o desempenho do sistema de gestão ambiental,
para análise, incluindo recomendações para melhoria.

O Quadro 4.10. ilustra alguns exemplos.

Quadro 4.10. Exemplo de matriz de responsabilidade


CARGO/DEDICAÇÃO
ATIVIDADE FREQUÊNCIA
À ÁREA AMBIENTAL
Acompanhar a legislação 1 vez p/mês
Levantamento e acompanhamento
1 vez p/mês
de impactos ambientais
Gestor da Qualidade Acompanhamento das licenças 2 vezes p/ano para aterro
(70% do tempo ambientais 1 vez p/ano para curtume
alocado na área Monitoramento das fichas de
1 vez p/semana
ambiental) segurança e emergência
Manutenção 1 vez por dia
Implantação e manutenção da
(implantação ocorre só
implementação da ISO 14001
uma vez)
Controle ambiental da estação de
Engenheiro Químico Diário
jhWjWc[djeZ[[Ôk[dj[i
(60% do tempo
Controle ambiental do aterro de
alocado em controle Semanal
resíduos industriais
ambiental e 40% em
representação em fórum: Comite de
projetos ambientais) Mensal
bacia hidrográfica

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.


112 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

b) Treinamento, conscientização e competência


É recomendado que a organização estabeleça e mantenha procedimentos para a
identificação das necessidades de treinamento.
A organização deve assegurar que qualquer pessoa que para ela ou em seu nome,
realize tarefas que tenham o potencial de causar impactos ambientais significativos
identificados pela organização, seja competente com base em formação apropriada,
treinamento ou experiência, devendo reter os registros associados.
š Identificar necessidades de desenvolvimento de recursos humanos.
š Todas as pessoas da organização que possam criar um impacto significativo ao
meio ambiente devem receber treinamento apropriado.

A organização deve requer que prestadores de serviço que estejam trabalhando em


seu nome sejam capazes de demonstrar que seus respectivos empregados tenham o
treinamento requerido.
Deve também determinar o nível de experiência, competência e treinamento
necessários para assegurar a capacitação do pessoal, especialmente daqueles que
desempenham funções especializadas de gestão ambiental.
A organização deve identificar as necessidades de treinamento associadas com seus
aspectos ambientais e seu sistema de gestão ambiental. Ela deve prover treinamento
ou tomar alguma ação para atender a essas necessidades, devendo manter os registros
associados.
A organização deve estabelecer e manter procedimentos para conscientização dos
seus empregados, em todos os níveis, sobre:
š A importância da política ambiental.
š A significância dos impactos ambientais.
š Os papéis e responsabilidades no cumprimento da política ambiental.
š As consequências da violação de procedimentos operacionais especificados.

Deve ser implementado um procedimento para receber e documentar as informa-


ções pertinentes e atender as solicitações das partes interessadas. Esse procedimento
pode incluir um diálogo com as partes interessadas e a consideração de suas preo-
cupações pertinentes. Em certas circunstâncias, o atendimento às preocupações das
partes interessadas pode incluir informações pertinentes sobre os impactos ambientais
associados às operações da organização. Estes procedimentos devem abordar, também,
as comunicações necessárias com as autoridades públicas, em relação ao planejamento
de emergências e outras questões pertinentes.
Todas as pessoas da organização que desenvolvem tarefas que possam criar um
impacto significativo ao meio ambiente, devem ser competentes, possuindo educação
apropriada, treinamento e/ou experiência.
O Quadro 4.11 apresenta uma exemplificação genérica de matriz de treinamento.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 113

Quadro 4.11. Exemplificação genérica de matriz de treinamento


TIPO DE TREINAMENTO PÚBLICO PROPÓSITO
Conscientização sobre a Obter o comprometimento e
importância estratégica da gestão Gerência Executiva harmonização com a política
ambiental ambiental
Obter o comprometimento com a
Conscientização sobre as questões política ambiental, seus objetivos
Todos os empregados
ambientais em Geral e metas, e fomentar um senso de
responsabilidade individual
Melhorar o desempenho em áreas
Empregados com
específicas da organização tais
Aperfeiçoamento de habilidades Responsabilidades
como operações, engenharia,
ambientais
pesquisa e desenvolvimento.
Empregados cujas
Assegurar que os requisitos legais
ações possam afetar
Cumprimento dos Requisitos e internos para treinamento sejam
o cumprimento dos
cumpridos
requisitos

Fonte: adaptado de ISO 14001:2004.

c) Comunicação
A organização deve estabelecer procedimentos para:
š Manter comunicação interna entre os diversos níveis e funções da organização.
š Receber, documentar e responder a iniciativas de comunicação relevantes de
partes interessadas externas.

A organização deve considerar a comunicação externa sobre seus aspectos ambien-


tais significativos. Com relação aos seus aspectos ambientais e sistema de gestão am-
biental, a organização deve estabelecer, implementar e manter procedimento(s) para:
š Comunicação interna entre os vários níveis e funções da organização.
š Recebimento, documentação e resposta a comunicações pertinentes oriundas
de partes interessadas externas.

A organização deve decidir se realizará comunicação externa sobre seus aspectos


ambientais significativos, devendo documentar sua decisão. Se a decisão for comuni-
car, a organização deve estabelecer e implementar método(s) para esta comunicação
externa.
É recomendado que as organizações implementem um procedimento para
receber e documentar as informações pertinentes e atender as solicitações das partes
interessadas. Esse procedimento pode incluir um diálogo com as partes interessadas
e a consideração de suas preocupações pertinentes. Em certas circunstâncias, o
atendimento às preocupações das partes interessadas pode incluir informações
pertinentes sobre os impactos ambientais associados às operações da organização. É
recomendado que estes procedimentos abordem também as comunicações necessárias
com as autoridades públicas, em relação ao planejamento de emergências e outras
questões pertinentes.
114 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

O Quadro 4.12 apresenta uma exemplificação de comunicação ambiental.

Quadro 4.12. Exemplo de programa de comunicação ambiental


Comunicação Interna
Estão estruturados diversos canais de comunicação internos, gerenciados pela “Assessoria de comunicação e
Responsabilidade Social”, com o apoio do “Comitê de Comunicação”, que é contituido por representantes de
diversas áreas, atendendo aos objetivos de:
š Fhecel[hWZ_ii[c_dW‚€eZ[_d\ehcW‚[iZ[_dj[h[ii[YehfehWj_Ye"jW_iYeceW_Z[dj_ZWZ[eh]Wd_pWY_edWb"
a política de gestão, os objetivos e as metas do sistema integrado de gestão, as estratégias e planos da
organização, os indicadores de desempenho e as conclusões da análise crítica;
š Feii_X_b_jWheÔkneZ[_d\ehcW‚[i[cjeZeieid‡l[_iZWeh]Wd_pW‚€eWfe_WdZeeifheY[iieiZ[Wd|b_i[[
tomada de decisão, de realização das atividades e de melhoria dos seus processos internos;
š H[\eh‚WhW9ediY_[dj_pW‚€eZ[jeZeieiYebWXehWZeh[ifWhWWgkWb_ZWZ[ZeifheZkjei[i[hl_‚ei1[
š :_ii[c_dWheiYedY[_jei[fh|j_YWiZ[][ij€eWcX_[djWb"iW‘Z["i[]khWd‚W[h[ifediWX_b_ZWZ[ieY_Wb$

Comunicação Externa
Como forma de estreitar o relacionamento com as partes interessadas externas, estão estruturados diversos meios
fWhWeh[Y[X_c[dje"ZeYkc[djW‚€e[h[ifeijW}icWd_\[ijW‚[i"YeceYWdW_ij[b[\Žd_Yei&.&&Å9eckd_ZWZ[
e site na internet, atendendo aos objetivos de:

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.

d) Documentação e controle de documentos


É recomendado que as organizações tenham como foco principal de sua atenção a
efetiva implementação do sistema de gestão ambiental e o seu desempenho ambiental,
e não um complexo sistema de controle de documentação.
š A organização deve estabelecer e manter a documentação relativa ao sistema de
gestão ambiental.
š A documentação deve descrever os elementos centrais do sistema de gestão
ambiental e suas inter-relações.
š A documentação pode estar integrada ou compartilhada com outros sistemas
de gestão, implantados na organização.

Segundo a ISO 14001:2004, os documentos requeridos pelo sistema de gestão am-


biental devem ser controlados. As organizaçôes devem estabelecer, implementar e
manter procedimento(s) para:
š Aprovar documentos quanto à sua adequação antes do uso.
š Analisar e atualizar, conforme necessário, e reaprovar documentos.
š Assegurar que as alterações e a situação atual da revisão de documentos sejam
identificadas; que as versões relevantes de documentos aplicáveis estejam dispo-
níveis em seu ponto de uso; que os documentos permaneçam legíveis e pronta-
mente identificáveis; que os documentos de origem externa determinados pela
organização como sendo necessários ao planejamento e operação do sistema
de gestão ambiental sejam identificados e que sua distribuição seja controlada.
š Prevenir a utilização não intencional de documentos obsoletos e utilizar iden-
tificação adequada nestes, se forem retidos para quaisquer fins.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 115

É recomendado que o nível de detalhamento da documentação seja suficiente


para descrever os elementos principais do sistema de gestão ambiental e sua
interação, fornecendo orientação sobre fontes de informações mais detalhadas
sobre o funcionamento de partes específicas do sistema de gestão ambiental. Essa
documentação pode ser integrada com as de outros sistemas implementados pela
organização, não precisando estar na forma de um único manual.
A documentação correlata pode incluir:
š Informações sobre processos.
š Organogramas.
š Normas internas e procedimentos operacionais.
š Planos locais de emergência.

A documentação do sistema de gestão ambiental deve incluir, ainda:


š Política, objetivos e metas ambientais.
š Descrição do escopo do sistema de gestão ambiental.
š Descrição dos principais elementos do sistema de gestão ambiental e sua inte-
ração e referência aos documentos associados.
š Documentos, incluindo registros, requeridos por esta Norma.
š Documentos, incluindo registros, determinados pela organização como sendo
necessários para assegurar o planejamento, operação e controle eficazes dos
processos que sejam associados com seus aspectos ambientais significativos.

A organização deve estabelecer e manter procedimento para controlar todos os


documentos requeridos pelo sistema de gestão ambiental, devendo garantir que se-
jam/estejam:
š Localizados, revisados e disponíveis em todos os locais, onde as operações
acontecem.
š Legíveis, datados e facilmente identificados.
š Deve haver procedimentos e responsabilidades referentes à criação e alterações
dos vários tipos de documentos.

e) Controle operacional
A organização deve identificar e planejar todas as operações que estejam associadas
com os aspectos ambientais significativos, identificados de acordo com sua política,
objetivos e metas ambientais para assegurar que elas sejam realizadas sob condições
especificadas, por meio de procedimentos documentados para abranger situações onde
sua ausência possa acarretar desvios em relação à política ambiental e aos objetivos e
metas. O Quadro 4.13 apresenta uma exemplificação.
116 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 4.13. Exemplos de matriz de controle operacional


Número:
Data: 07/05/07 Revisão: 4.0 Pág/Pág. Total 32/71
POP/000.004
Título: PLANEJAMENTO OPERACIONAL DE SSMA
7if[Yje%F[h_]e0 Efluentes Líquidos – Esgoto Oleoso
Elementos Referências
FheY[Z_c[dje Olefinas:
Operacional ?DI#&&&$'*,ÅH[j_hWZWZ[Ef[hW‚€e[H[YebeYW‚€eZe:9(&'[cYedZ_‚[iJhWdi_[dj[i
(exemplos ?DI#&&&$'*-ÅH[j_hWZWZ[Ef[hW‚€e[H[YebeYW‚€eZe:9(&([cYedZ_‚[iJhWdi_[dj[i
das olefinas, ?DI#&&&$'*.ÅH[j_hWZWZ[Ef[hW‚€e[H[YebeYW‚€eZe:9(&)[cYedZ_‚[iJhWdi_[dj[i
apenas) ?DI#&&&'+,ÅH[][d[hW‚€eZei:9(&)[(&(

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.

f) Preparação e resposta a emergência


A organização deve estabelecer e manter procedimentos para identificar e res-
ponder a acidentes e situações de emergência, prevenindo e mitigando os impactos
ambientais associados, devendo: (a) simular periodicamente, seus planos de ação de
emergência; (b) revisar seus procedimentos de preparação e resposta para emergência,
após a ocorrência de acidentes e situações emergências.

Quadro 4.14. Exemplos de matriz de resposta a emergência


Atividade Quem Quando e Como Onde Por que
Após a constatação
da emergência,
WY_edWdZeeII?Å
O Colaborador Sistema Supervisor FWhWZ[i[dYWZ[Wh
Em local seguro,
ou Contratado de Segurança eFheY[iieZ[
1 fhŒn_ce}
que observou a Industrial, via telefone Atendimento a
emergência
emergência de emergência das Emergência
áreas, rama ou rádio,
informando os dados
sobre a emergência
Colaboradores Após a constatação
próximos ao local e/ou acionamento
da emergência da emergência,
Na área onde FWhW_d_Y_Whe
ou Operadores de efetuando as ações
a situação de controle da
2 Campo da Área iniciais necessárias
emergência está situação de
em emergência para o controle
ocorrendo emergência
(quando for da emergência,
emergência em preservando sua
áreas operacionais integridade física

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.

A organização deve ter procedimentos de resposta às situações reais de emergên-


cia e aos acidentes. Os procedimentos devem ser periodicamente testados e, quando
necessário, revisados, em particular após a ocorrência de acidentes ou situações
emergenciais.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 117

4.4.3 Estrutura de verificação e ação corretiva

Após a etapa de planejamento, implementação e operação a norma ISO 14001:2004,


especifica uma etapa de Verificação. Nesta fase, os Programas Ambientais já estarão em
operação, gerando registros regulares que pertimirão o monitoramento contínuo da
performance ambiental da organização a luz das metas e objetivos definidos.
Pode-se destacar três objetivos básicos desta etapa:
š Verificar se as atividades e os resultados cumprem os requisitos da Norma ISO
14001:2004.
š Verificar se os processos/procedimentos, planejados e documentados foram
implementados.
š Verificar se o SGA mostra-se adequado para atingir os objetivos e metas ambientais.

Para essas verificações, parte-se da necessária coleta de informações em campo, com


o formato de auditorias internas. De um modo geral, os resultados dessas auditorias
são analisados pela alta administração da organização, permitindo que se decida sobre
os passos do novo ciclo PDCA, por exemplo, ou sobre mudanças que podem alcançar
a própria política ambiental da organização.
Apresentam-se a seguir, alguns detalhes sobre os aspectos especificados:
a) Monitoramento e medição
š A organização deve estabelecer e manter procedimentos para medir e verificar,
regularmente, as principais características das suas operações e atividades, que
possam ter um impacto significativo ao meio ambiente.
š Os equipamentos devem estar calibrados e o registro desse processo deve ficar
arquivado, de acordo com os procedimentos da organização.
š A organização deve estabelecer e manter procedimentos para avaliar o cumpri-
mento da legislação ambiental vigente.

O(s) procedimento(s) deve(m) incluir a documentação de informações para moni-


torar o desempenho, os controles operacionais pertinentes e a conformidade com os
objetivos e metas ambientais da organização.
A organização deve assegurar que equipamentos de monitoramento e medição
calibrados ou verificados sejam utilizados e mantidos, devendo-se reter os registros
associados.

b) Avaliação do atendimento a requisitos legais e outros


De maneira coerente com o seu comprometimento de atendimento a requisitos,
a organização deve estabelecer, implementar e manter procedimento(s) para avaliar
periodicamente o atendimento aos requisitos legais aplicáveis.
118 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

A organização deve manter registros dos resultados das avaliações periódicas e deve
avaliar o atendimento a outros requisitos por ela subscritos.
A organização deve assegurar que sejam feitas as mudanças necessárias na docu-
mentação do sistema de gestão ambiental.

c) Não conformidade e ações corretivas e preventivas


A organização deve estabelecer e manter procedimentos para definir responsabi-
lidade e autoridade para investigação, prevenção e correção das não conformidades
detectadas.
š As ações para prevenção e correção das não conformidades devem ser compa-
tíveis com o tamanho dos impactos ambientais encontrados.
š A organização deve implementar, registrando na sua documentação ambiental,
as modificações advindas das ações preventivas e corretivas das não conformi-
dades detectadas.

Ao estabelecer e manter procedimentos para investigar e corrigir não conformi-


dades é recomendado que a organização inclua os seguintes elementos básicos: (a)
identificação da causa da não conformidade; (b) identificação e implementação da
ação corretiva necessária; (c) implementação ou modificação dos controles necessários
para evitar a repetição da não conformidade; (d) registro de quaisquer mudanças em
procedimentos escritos da ação corretiva.

Quadro 4.15. Exemplo de relatório de não conformidade


Ano Elaborador Aprovador Emissão Rev.
2007(1. ciclo) nome Nome 12/4/2007 5

F;H Itens Normas


FheY[iie Gestor
Data ISO OHSAS Auditores Situação N. RAI
M T (S) (ES) SA. 8000
9001 18001
7.5.1.
Resinas/
7.5.3
Controle
7.5.5
X de produto 4.5.1 - Realizada 219
7.6
não
8.2.4
conforme
19/03/07 Nome 8.3 Nomes
F?8%9edjheb
e de
X produto - 4.5.1 - Realizada 220
não
conforme

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.

Dependendo da situação, este processo pode ser efetuado rapidamente e com um


mínimo de planejamento formal, ou pode constituir uma atividade complexa e de
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 119

longo prazo. É recomendado que a documentação associada seja apropriada para o


nível da ação corretiva.
Devem ser gerados relatórios de não conformidade que permitam o registro, análise
sistemática e controle informatizado das ocorrências não desejadas e suas causas, de
modo a proporcionar ações corretivas e preventivas e um adequado controle gerencial,
além de garantir uma redução significativa dos custos de produção, a qualidade dos
produtos e serviços prestados, a minimização dos riscos de danos materiais e pessoais
existentes e o resguardo da imagem da empresa.
O tratamento das não conformidades deve observar os seguintes aspectos:
š Disposição: permitir resolver com rapidez.
š Abrangência: identificar a extensão da não conformidade.
š Causa: verificar a origem da não conformidade.
š Ação Corretiva: ação proposta para corrigir a não conformidade.
š Eficácia: permitir avaliar o resultado da ação corretiva.

d) Controle de registros
A organização deve estabelecer e manter registros, conforme necessário, para de-
monstrar conformidade com os requisitos de seu sistema da gestão ambiental e desta
norma, bem como os resultados obtidos.
A organização deve estabelecer, implementar e manter procedimento(s) para iden-
tificação, armazenagem, proteção, recuperação, retenção e descarte de registros. Os
registros devem permanecer legíveis, identificáveis e rastreáveis.
É recomendado que os procedimentos para identificação, manutenção e descarte
de registros sejam focalizados naqueles necessários à implementação e operação do
sistema de gestão ambiental e para registro do nível de atendimento aos objetivos e
metas planejados.
Os registros ambientais podem incluir:
š Informações sobre a legislação ambiental aplicável ou outros requisitos.
š Registros de reclamações.
š Registros de treinamento.
š Informações sobre processos.
š Informações sobre produtos.
š Registros de inspeção, manutenção e calibração.
š Informações pertinentes sobre prestadores de serviços e fornecedores.
š Relatórios de incidentes.
š Informações relativas à preparação e atendimento a emergências.
š Registros de impactos ambientais significativos.
š Resultados de auditorias.
š Análises críticas pela administração.

É recomendado que as informações confidenciais da organização sejam tratadas


de forma apropriada.
120 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

e) Auditoria interna
Em intervalos apropriados, deverá ser efetuada uma avaliação crítica da eficácia do
sistema de gestão ambiental implantado.
A organização deve desenvolver um Programa de auditoria, que leve em considera-
ção a importância ambiental das operações pertinentes e os resultados de auditorias
anteriores. Deve abordar necessidade de alterações na: (a) política; (b) objetivos; (c)
outros elementos de SGA.
Procedimento(s) de auditoria deve(m) ser estabelecido(s), implementado(s) e
mantido(s) para tratar:
š Responsabilidades e requisitos para se planejar e conduzir as auditorias, para
relatar os resultados e manter registros associados.
š Determinação dos critérios de auditoria, escopo, frequência e métodos.

É recomendado que o programa e os procedimentos de auditoria abranjam:


š As atividades e áreas a serem consideradas nas auditorias.
š A frequência das auditorias.
š As responsabilidades associadas à gestão e condução de auditorias.
š Comunicação dos resultados de auditorias.
š Competência dos auditores.
š De que forma as auditorias serão conduzidas.

As auditorias podem ser executadas por pessoal da própria organização e/ou por
pessoal externo por ela selecionado. É recomendado que, em qualquer dos casos, as
pessoas que conduzam a auditoria tenham condições de exercer suas funções de forma
imparcial e objetiva.

Quadro 4.16. Exemplo de lista de verificação


LISTA DE VERIFICAÇÃO
Tipo de Auditoria: Sistema de Gestão Ambiental NBR ISO
Auditor Líder: Nome
14001:2004
Área / Setor auditado: Resp.:
Área / Setor auditado: Resp.:
Equipe de Auditores:
ATENDIMENTO E8I;HL7wÂ;I%
ITEM REF GK;IJÂ;I
TOTAL F7H9?7B DKBED9 H[\$HF7 EVIDÊNCIAS
Existe um Sistema de
O SGA encontra-
Gestão Ambiental
se planejado e
estabelecido,
4.1 X documentado
Implementado e
no Manual de
mantido nos moldes
Gestão, R. 14
da ISO 14001?
7Feb‡j_YW
A alta administração
se encontra
definiu a política
4.2 X declarada no
ambiental da
Manual de
organização?
Gestão

Fonte: adaptado de Fiesp, 2007.


Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 121

A organização deve assegurar que as auditorias internas do sistema de gestão am-


biental sejam conduzidas em intervalos planejados para:
š Determinar se o sistema de gestão ambiental está em conformidade com os ar-
ranjos planejados para a gestão ambiental e foi adequadamente implementado
e é mantido.
š Fornecer informações à administração sobre os resultados das auditorias.

4.4.4. Etapa de análise crítica pela administração


Para manter a melhoria contínua, adequação e eficácia do sistema de gestão am-
biental, e consequentemente o seu desempenho, é recomendado que a administração
da organização analise criticamente e avalie o sistema de gestão ambiental em inter-
valos definidos. É recomendado que o escopo dessa análise crítica seja abrangente,
uma vez que nem todos os componentes do sistema de gestão ambiental precisam
ser abordados ao mesmo tempo, e que o processo de análise crítica possa se estender
por um período de tempo.
De acordo com a ISO 14001:2004, a alta administração deve analisar periodicamen-
te o SGA, para assegurar sua continuidade, de forma pertinente, eficaz e adequada à
organização. Esta análise deve identificar oportunidades de melhoria e necessidades
de alterações no SGA.
Os resultados da análise pela alta administração devem ser registrados e esses
registros devem ser mantidos, assim como outros vários registros obtidos nas várias
fases do SGA.
Algumas informações críticas devem subsidiar à alta administração para permitir
a análise e decisão sobre o SGA e como fazer para promover a tão desejada melhoria
contínua, dentre elas (Fiesp, 2007):
š Resultados de auditorias internas.
š Avaliações de atendimento a requisitos legais e outros requisitos.
š Comunicações advindas das partes interessadas externas à organização.
š Dados e informações sobre o desempenho ambiental da organização, por meio
da demonstração do alcance dos objetivos e metas ambientais, por exemplo, ao
longo de um período, e do cumprimento da sua política ambiental.
š Situação das ações preventivas e corretivas relativas a não conformidades me-
didas, observadas ou verificadas ao longo da aplicação dos procedimentos de
verificação e/ou ao longo das auditorias internas.
š Ações de acompanhamento de análises anteriores da alta administração.
š Circunstâncias diversas que podem ter introduzido modificações que afetaram
o desempenho ou levaram a ações emergenciais para não gerar não conformi-
dades, como por exemplo, mudanças nos requisitos legais ambientais aplicáveis
à organização, entre outras.
š Recomendações para melhoria dos diversos responsáveis pelo funcionamento
do SGA, para uma ou várias partes da organização.
122 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

A alta administração da organização deve analisar o sistema de gestão ambiental,


em intervalos planejados para assegurar a continuidade de sua pertinência e eficácia.
Análises devem incluir a avaliação de oportunidades de melhoria e a necessidade
de alterações no sistema de gestão ambiental, inclusive na política ambiental e nos
objetivos e metas ambientais. Os registros das análises da administração devem ser
mantidos.
As entradas para análise pela administração devem incluir:
š Resultados de auditorias internas e das avaliações do atendimento aos requisitos
legais e outros subscritos pela organização.
š O nível de atendimento aos objetivos e metas.
š Comunicação(ões) proveniente(s) de partes interessadas externas, incluindo
reclamações.
š O desempenho ambiental da organização.
š Extensão na qual foram atendidos os objetivos e metas.
š Situação das ações corretivas e preventivas.
š Ações de acompanhamento das análises anteriores.
š A contínua adequação do sistema de gestão ambiental em relação a mudanças
de condições e informações, incluindo desenvolvimentos em requisitos legais
e outros relacionados aos aspectos ambientais.
š As preocupações das partes interessadas pertinentes.
š Recomendações para melhoria.

As saídas da análise pela administração devem incluir quaisquer decisões e ações


relacionadas a possíveis mudanças na política ambiental, nos objetivos, metas e em
outros elementos do sistema de gestão ambiental, condizentes com o comprometi-
mento com a melhoria contínua.
Neste sentido, o que se espera como resposta da alta administração, para que, de
fato, haja um novo ciclo PDCA no SGA da organização são decisões e ações relaciona-
das a possíveis mudanças em um ou diversos elementos do SGA, tais como a Política
Ambiental, objetivos e metas ambientais e demais elementos do SGA, de modo que
haja coerência com o princípio da melhoria contínua do sistema e do desempenho
ambiental da organização. As ações podem até envolver a alocação de mais recursos,
de modo a promover o novo ciclo PDCA.
É recomendado que as observações, conclusões e recomendações sejam
documentadas, para que as ações necessárias sejam empreendidas.
Capítulo 4 s.ORMALIZA½áOEGESTáOAMBIENTALNOCONTEXTODA)3/ 123

4.5. Revisão dos conceitos apresentados


A integração das questões ambientais com o sistema de gestão global da organização
pode contribuir para a efetiva implementação do sistema de gestão ambiental, bem
como para sua eficiência e clareza de atribuições.
O sistema de gestão ambiental fornece um processo estruturado para atingir a
melhoria contínua, cujo ritmo e amplitude são determinados pela organização à luz
de circunstâncias econômicas e outras.
A política ambiental é o elemento motor para a implementação e o aprimoramen-
to do sistema de gestão ambiental da organização, permitindo que seu desempenho
ambiental seja mantido e potencialmente aperfeiçoado.
A criação e o uso de um ou mais programas são elementos essenciais para a imple-
mentação bem-sucedida de um sistema de gestão ambiental. É recomendado que o
programa descreva de que forma os objetivos e metas da organização serão atingidos,
incluindo cronogramas e pessoal responsável pela implementação da política ambiental
da organização. O programa deve prever procedimentos de análise ambiental mesmo
para futuras atividades decorrentes de decisões que alteram o sistema produtivo da
organização (novos produtos, novas tecnologias, novos materiais; é recomendado que
o programa inclua uma análise ambiental para novas atividades).
O nível de detalhamento e complexidade do sistema de gestão ambiental, a ampli-
tude da documentação e os recursos a ele alocados dependem do porte da organização
e da natureza das suas atividades (que, por exemplo, pode ser o caso, em particular, de
pequenas e médias empresas).
Embora alguma melhoria no desempenho ambiental possa ser esperada devido à
adoção de uma abordagem sistemática, entende-se que o sistema de gestão ambiental
é uma ferramenta que permite à organização atingir, e sistematicamente controlar, o
nível de desempenho ambiental por ela mesma estabelecido.

4.6. Questões
1. Discorra sobre as etapas de um SGA e suas formas de correspondência com o ciclo
PDCA.
2. Analise uma política ambiental de uma empresa de livre escolha e verifique sua
consistência, à luz dos elementos apresentados neste capítulo.
3. Discuta os desafios de negócios que você visualiza na exploração das questões
ambientais pelas organizações (utilize, como apoio, a análise SWOT).
4. Você foi indicado como gestor ambiental da empresa Meio Ambiente Legal S.A.
Descreva algumas ações que você adotaria para abordar os desafios ambientais.
Discuta os obstáculos que você provavelmente encontrará na empresa e como irá
administrá-los.
5. Pesquise sobre um processo de uma organização (livre escolha) e, a partir da iden-
tificação de seus processos, produtos e/ou serviços, apresente uma proposta de
estruturação das etapas de um SGA.
124 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

4.7. Referências
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. http://www.abnt.org.br. Acesso em:
10 de junho de 2011.
BARBIERI, J. C. Gestão ambiental empresarial: conceitos, modelos e instrumentos. 2.
ed. São Paulo: Saraiva, 2007.
BRASIL. Lei n. 6938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional de Meio
Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação e dá outras provi-
dências. DOU de 02/09/1981, Brasília, DF, 1981.
CNI – Confederação Nacional da Indústria. http://www.normalizacao.cni.org.br. Acesso
em: 10 de junho de 2011.
CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMEN-
TO. Agenda 21. Rio de Janeiro, 1992. Disponível em: http://www.mma.gov.br.
DONAIRE, D. Gestão ambiental na empresa. São Paulo: Atlas, 1995.
FIESP. Melhore a competitividade com o sistema de gestão ambiental. Departamento
de Meio Ambiente/Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, São Paulo,
2007.
FRANÇA. S. L. B. Notas de aula da disciplina Sistema de Gestão Ambiental. Mestrado
Profissional em Sistema de Gestão. Universidade Federal Fluminense, Rio de
Janeiro, 2010.
GAZETA MERCANTIL. Gestão ambiental. Compromisso da Empresa. 24/04/96, SP, 1996.
INMETRO – Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial.
http://www.inmetro.gov.br. Acesso em: 10 de junho de 2011.
LIMA, G. B. A. Tópicos especiais: gestão ambiental no processo industrial. Notas de aula
da disciplina Curso de Graduação em Engenharia de Produção. Rio de Janeiro:
UFF, 2010.
NBR ISO 14001:2004. Sistemas de gestão ambiental. Requisitos com orientação para
uso. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2004.
PIMENTEL, D. L. da C. S. Notas de aula da disciplina de Sistema de Gestão Ambiental.
MBA Gestão de Negócios Sustentáveis. Rio de Janeiro, 2010.
SORATTO, A. N.; MORINI, A. A.; ALMEIDA, M. A. S. et al. Sistema da gestão de responsa-
bilidade social: desafios para a Certificação NBR 16001. Revista Gestão Industrial,
São Paulo, v. 2, n. 4, p. 13-25, 2006.
5
Avaliação de impactos ambientais
José Adolfo de Almeida Neto
Luziléa Brito de Oliveira
Rita de Cássia Silva Braga

Conceitos apresentados neste capítulo


Este capítulo apresenta o escopo, os objetivos e limites da Avaliação de Impactos
Ambientais (AIA), caracterizando o seu sentido de Previsão de Impactos Ambientais
dentro do processo de Licenciamento Ambiental (LA) e demarcando os seus limites
com relação aos demais instrumentos de Planejamento, Gestão e Avaliação de Impactos
Ambientais. Ele inicia com os principais conceitos e definições de interesse específico
da área de Avaliação de Impactos Ambientais, abordando os seguintes temas: ambiente
natural e socioeconômico ou antrópico, aspecto, dano, degradação, diagnóstico, efeito,
fator, impacto, monitoramento da qualidade, recuperação e viabilidade ambientais.
Segue com os fatores determinantes e históricos da AIA em níveis internacional e na-
cional e o contexto da sua adoção como instrumento do processo de LA de atividades
e empreendimentos com significativo impacto ambiental. Contextualiza a AIA como
instrumento da Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), apontando os princi-
pais documentos e sua relação com o LA e com os Estudos Ambientais. Apresenta os
objetivos e o processo de AIA, incluindo a estrutura, a organização, os procedimentos
e etapas formais, destacando a caracterização do empreendimento a ser implantado,
a definição do escopo dos estudos ambientais necessários; a elaboração dos estudos
ambientais, a análise técnica, a consulta pública, a decisão sobre a implantação do
empreendimento, as medidas ambientais, o monitoramento e a gestão ambiental no
âmbito da AIA. O capítulo conclui com a apresentação dos principais métodos e téc-
nicas utilizados nas diferentes fases do processo de AIA.
126 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

5.1. Introdução
A AIA tem sua origem associada ao ano de 1969 nos Estados Unidos, representando
um despertar mundial para a necessidade de que a sociedade humana regulamentasse
as ações e intervenções de empreendedores públicos e privados sobre o ambiente. As
próximas duas décadas seguintes marcaram o avanço internacional desta tomada de
consciência. No Brasil, analogamente, menciona-se o ano de 1981, com a aprovação da
PNMA (Lei n. 6.938/1981), como um marco neste processo de inclusão da componente
ambiental na gestão de políticas públicas.
A expressão “avaliação de impacto ambiental” é utilizada hoje em muitos sentidos,
contemplando variações no tempo e na abrangência, incluindo ações que ocorreram
no passado, ou estão ocorrendo no presente, além dos que podem ocorrer no futuro,
devido à uma determinada atividade de empreendimentos, planos ou programas.
Apesar da origem comum entre todas estas modalidades da avaliação de impactos
ambientais, o seu desenvolvimento nos últimos 40 anos conduziu a diferentes abor-
dagens, metodologias e ferramentas para atender a objetivos específicos.
Neste sentido, pode-se diferenciar a avaliação de impacto ambiental nas seguintes
vertentes:
š A que se ocupa da identificação das consequências futuras de estratégias de de-
senvolvimento com elevado grau de incerteza (políticas, planos ou programas),
conhecida como avaliação ambiental estratégica.
š A que se ocupa da identificação das consequências ambientais adversas de-
correntes de uma determinada ação ou atividade no presente ou no passado,
sendo especificamente denominada neste contexto por avaliação do dano ou
do passivo ambiental.
š A identificação e avaliação dos impactos ambientais de um produto ou serviço,
denominada avaliação do ciclo de vida (Capítulo 9), ou em uma organização
ou instituição com o objetivo de definição de estratégias de gestão ambiental
traduzidas por um Sistema de Gestão Ambiental – SGA (Capítulos 3 e 4), ambas
voluntárias e definidas nos termos das normas série ISO 14000.
š A que se ocupa com a previsão dos impactos potenciais, que as atividades de um
determinado projeto ou empreendimento poderá provocar caso venha a ser
implantado.

Assim, este capítulo abordará esta última modalidade da avaliação de impactos


ambientais, que tem como objetivo prever e avaliar as consequências ambientais e
sociais que podem resultar de um projeto ou empreendimento a ser implantado em
uma determinada região ou local, com o objetivo de contrapor os potenciais benefícios
socioeconômicos com os custos sociais e ambientais, auxiliando o tomador de decisão
na escolha da alternativa mais favorável do ponto de vista da sociedade atual e futura.
Dois conceitos centrais se sobrepõem: o de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o
de Avaliação de Impactos Ambientais. A relação entre eles vincula o EIA com o estudo
que enquadra a AIA no processo de LA (Sánchez, 2008).
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 127

Outra visão ressalta o caráter instrumental do EIA dentro do processo de LA, em


situações nas quais a AIA identifica ações e atividades com elevado potencial de alte-
ração adversa das condições ambientais.
Durante décadas a força motriz da Revolução Industrial, como instrumento de pro-
moção do progresso material humano, permitiu que os problemas ambientais fossem
considerados um “mal necessário”, entendendo que a degradação da qualidade am-
biental poderia ser “contornada” ou “compensada” pelo avanço científico e tecnológico.
A AIA só chegou ao Brasil em 1981, no “embalo” dos grandes projetos de infraestru-
tura financiados com recursos internacionais, aparecendo lado a lado com o LA entre
os instrumentos de implementação da PNMA.
Nesta curta trajetória de regulamentação e de aplicação da AIA, vários avanços
metodológicos, legais e institucionais têm sido alcançados, como:
š a descentralização das atividades de LA para os níveis estadual e municipal, a
produção de conhecimento sobre o funcionamento e a interferência nos ecos-
sistemas e a capacitação dos atores sociais envolvidos no LA;
š a formação de especialistas para atuarem nas diversas áreas do conhecimento
necessárias à realização dos EIA;
š maior transparência no processo de LA, por meio da disponibilização de canais
de informações democráticos e acessíveis à sociedade em geral e a ampliação
da participação social nas Audiências Prévias e Públicas.

Por outro lado, avanços ainda são necessários, no sentido de garantir a efetividade
de sua ação como instrumento capaz de conter a crescente degradação ambiental
associada ao modelo de desenvolvimento vigente, destacando-se a capacitação de
recursos humanos para o trabalho interdisciplinar de identificação e avaliação de
impactos ambientais, a garantia da melhoria qualitativa dos estudos ambientais e a
descentralização do licenciamento (gestão ambiental compartilhada), com a estrutu-
ração e qualificação dos órgãos ambientais em nível municipal e estadual.

5.2. Contextualizando conceitos básicos


Ao contrário da maioria dos ramos da ciência, a área de Planejamento e Gestão
Ambiental, e mais especificamente a área de Avaliação de Impactos Ambientais,
apropriou-se de muitos termos de outras áreas do conhecimento e mesmo do voca-
bulário comum.
Termos como: “meio ambiente”, “impacto”, “diagnóstico” e “degradação” foram con-
ceitualmente redefinidos para servir aos propósitos específicos deste campo emergente
do conhecimento e das atividades humanas.
Esta sessão tem, portanto, o objetivo de revisar e contextualizar dentro da avaliação
de impactos ambientais, os principais conceitos apresentados nos capítulos anteriores
e introduzir alguns específicos da área de AIA.
128 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

5.2.1. Ambiente
Na área de Planejamento e Gestão Ambiental o conceito de ambiente tem sido em-
pregado de forma ampla, englobando tanto os aspectos da natureza ecológica como
os da sociedade humana.
No campo específico da AIA, esta abrangência do conceito tem especial importância,
na medida em que ele definirá o alcance dos estudos, das medidas, dos planos e pro-
gramas ambientais associados à determinado empreendimento ou ação humana, bem
como influenciará no grau de exigência postulado pelo órgão ambiental responsável.
Neste sentido, a legislação brasileira reafirma, em seus dispositivos ambientais, a
necessidade de considerar além dos aspectos físicos e ecológicos de uma determinada
proposta, suas consequências em outros aspectos da esfera humana, como o social, o
econômico, o cultural e o estético (Milaré, 2001). Tal postulação tem sua lógica baseada
no fato de que a maioria das propostas, ditas de desenvolvimento, promovem alterações
ecológicas com repercussões significativas em todas as esferas, nas comunidades ou
populações existentes em seu entorno.
No sentido amplo da avaliação de impactos ambientais, dentro de uma visão in-
terdisciplinar, que inclua o interesse e as contribuições dos vários campos do saber na
sociedade, pode-se definir ambiente, considerando as múltiplas acepções resultantes
desta visão, devendo ser incluídos tanto os objetos materiais e o seu meio, quanto suas
relações, condições e limites, que devem ser conhecidos e interpretados pela sociedade
(Sánchez, 2008).
Para facilitar a compreensão e o processo de avaliação dos efeitos e impactos
ambientais de um determinado projeto, empreendimento ou atividade, utiliza-se os
conceitos de ambiente natural, englobando os fatores bióticos, também conhecido por
meio biológico (flora, fauna e microorganismos) e os fatores abióticos ou do meio físico
(água, ar, rochas / solo) e o ambiente antrópico, englobando os fatores de ordem social,
econômica e cultural, também conhecido na área de AIA por ambiente socioeconômico.

Quadro 5.1. Exemplos de aspectos ambientais e fatores considerados em AIA


Ambiente Fatores Exemplos de aspectos em AIA
Natural do meio físico (água, hidrologia superficial, qualidade das águas,
ar, rochas e solos) oceanografia física, clima, condições
metereológicas, qualidade do ar, geologia
e geomorfologia,
do meio biologico FefkbW‚[iZ[cWc‡\[hei"Z[Wl[i"Z[
\WkdW"ÔehW[ h[fjƒ_i"|h[WiZ[Ôeh[ijWdWjkhWb"|h[WiZ[
microrganismos) manguezais, populações de zooplancton e
fitoplancton.
Antrópico do meio socio- Kie[eYkfW‚€eZeiebe"[ijhkjkhW
econômico produtiva, de serviços e patrimônio
histórico, cultural e arqueológico e
organização social.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 129

5.2.2. Impacto, efeito e aspecto ambiental


Os termos impacto, efeito e aspecto ambiental, definidos no capítulo 1, estão as-
sociados no contexto da AIA, de tal forma que uma atividade humana impactante
atua sobre determinado aspecto ambiental, podendo resultar em impactos benéficos
ou adversos.

Aplicando conceitos em sutuações práticas: impactos adversos e benéficos

Ikfed^WkcW|h[Weh_]_dWbc[dj[eYkfWZWfehÔeh[ijWjhef_YWbZ[diW"gk[\e_fWhY_Wbc[dj[Z[icWjWZW[
Ykbj_lWZWYecYWYWkfeh*&Wdei[gk[i[[dYedjhWfheY[iieZ[h[][d[hW‚€edWjkhWb^|Z[pWdei$Kcfhe`[je
para construção de um porto pleiteia o uso da área para implantação do retroporto (instalações portuárias
em terra firma), desmatando parte da área para construção dos equipamentos de infraestrutura. Enquanto
eh]Wd_pW‚[iWcX_[djWb_ijWifhef[cWh[Ykf[hW‚€eZW|h[W"WjhWlƒiZeh[Ôeh[ijWc[djeYec[ifƒY_[i
nativas e a implantação de um parque ecológico. A qualidade ambiental desta área pode ser definida, por
exemplo, por parâmetros como: o número espécies arbóreas ou o índice de diversidade de espécies. As duas
Wbj[hdWj_lWi"fehjWdje"h[Ô[j[cZ_\[h[dj[iY[d|h_eifWhWelWbehZefWh~c[jheWcX_[djWbWebed]eZej[cfe"
com a atividade de implantação do retroporto, o índice de diversidade de espécies tenderia a cair, indicando
um impacto adverso"fehekjhebWZe"YWieW|h[W\eii[h[Ôeh[ijWZWYec[ifƒY_[idWj_lWi"ei[kfheY[iieZ[
h[Ykf[hW‚€edWjkhWbi[h_WWY[b[hWZegkWdZe[cYecfWhW‚€e}i_jkW‚€eZ[WXWdZede"_dZ_YWdZekc_cfWYje
benéfico"[ch[bW‚€e}i_jkW‚€eZ[h[\[h…dY_W"YWieW|h[WYedj_dkWii[[ci[kfheY[iieZ[h[][d[hW‚€edWjkhWb"
sem a interferência humana. Em muitos casos, porém, existem dificuldades na aplicação deste conceito na
avaliação de impactos ambientais, optando-se pelo uso da qualidade atual como referência na comparação
com a qualidade ambiental esperada com a implantação do projeto, em detrimento da qualidade futura caso
o empreendimento não fosse implantado.

5.2.3. Qualidade, degradação, recuperação e dano ambiental


Sánchez (2008), com base em reflexão de Johnson et al., 1997, definiu o termo
degradação ambiental como “qualquer alteração adversa dos processos, funções ou
componentes ambientais”, ou ainda, como uma alteração adversa da qualidade am-
biental. Sendo a qualidade ambiental uma medida realizada com base em indicadores,
da condição de um determinado ambiente com relação aos requisitos e necessidades
humanas e de outras espécies.
Desta forma o conceito de degradação ambiental se aproxima do conceito de im-
pacto ambiental adverso, porém tem uma conotação mais geral e ampla. Define-se
recuperação ambiental, como a ação humana que visa restituir os níveis de qualidade
de determinado componente ambiental, quando o grau de degradação ultrapassou os
limites de autorrecuperação do sistema ambiental.
130 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 5.1. Representação esquemática dos principais conceitos utilizados na AIA.

A Figura 5.1 propõe uma relação entre os conceitos apresentados anteriormente,


ressaltando de que forma as atividades de um empreendimento impactante provocam
efeitos ou aspectos que resultam nos impactos ambientais adversos propriamente ditos,
refletindo na degradação dos recursos ambientais, os quais demandam a interferência
humana por meio da recuperação ambiental, ou pelos impactos benéficos que podem
incrementar a qualidade ambiental.
O conceito de dano ambiental, por outro lado, aparece relacionado à área jurídica,
assumindo a conotação de uma lesão aos recursos ambientais, com a consequente
degradação da qualidade ambiental (Milaré, 2001). É importante salientar que para se
caracterizar como dano ambiental, o recurso ambiental passível de ser lesado, necessita
estar protegido por uma regulamentação legal.

5.2.4. Avaliação de impactos ambientais


A expressão AIA é uma tradução da expressão Environmental Impact Assessment,
que ganhou significado na área ambiental a partir da publicação da lei de política
ambiental dos Estados Unidos em 1970.
Neste contexto, foi proposta uma definição clássica por Munn (1979) para AIA,
como sendo:
[...] uma atividade projetada para identificar, prever e interpretar os impactos sobre o
ambiente biogeofísico e sobre a saúde e o bem-estar humanos, das políticas, programas,
projetos e procedimentos operacionais, comunicando o resultado aos atores antes da
tomada de decisão.

Este conceito foi mais tarde ampliado, incluindo os aspectos socioeconômicos


(Davies; Muller, 1983).
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 131

A Associação Internacional de Avaliação de Impactos (IAIA) atualizou essa definição


nos seguintes termos:
[...] um processo de identificação, previsão, avaliação e mitigação dos efeitos biofísicos,
sociais e outros relevantes, de propostas de desenvolvimento antes das decisões funda-
mentais a serem tomadas e dos compromissos entre os atores serem assumidos (IAIA,
1999).

Considerando as diversas visões com relação a AIA, será adotado neste capítulo o
seguinte conceito:
[...] um instrumento com métodos e procedimentos próprios, adequados para prever
as consequências sociais e ambientais de atividades humanas com potencial de afetar
negativamente o ambiente e comunicá-las de forma adequada aos atores sociais,
instrumentando a participação social no processo de decisão (PNC/MMA, 2009).

5.3. Aspectos históricos, político-institucionais e


legais
O Nepa (Nacional Environmental Policy Act) é reconhecido como pioneiro na
definição de diretrizes e responsabilidades para os estudos de impacto ambiental, bem
como um agente propagador dessa nova perspectiva de abordagem dos projetos de
desenvolvimento em outros países.
No Brasil, o reflexo dessa política ambiental americana foi percebido logo em se-
guida, por meio das agências multilaterais de financiamento, que passaram a exigir a
realização de um EIA para aprovação dos financiamentos, especialmente para projetos
de infraestrutura.
Neste sentido, o primeiro estudo com características semelhantes realizado no Brasil
foi o EIA da Barragem de Sobradinho, realizado em 1982, tendo sido, porém, realizado
já na fase final do projeto de construção da hidrelétrica (Goodland, 1990).
A AIA surgiu no Brasil dentro de um contexto político diferente do existente nos Esta-
dos Unidos e nos países da Europa. Enquanto nestes países a preocupação e a defesa das
causas ambientais já gozavam de uma relativa importância na sociedade, no Brasil, com
raras exceções de grupos do meio acadêmico-intelectual e artístico, a sociedade ainda não
havia se sensibilizado para estas questões, seja pela desinformação vigente no período
político dos governos militares ou pela própria dimensão, ainda restrita e localizada, dos
problemas ambientais no país.
O projeto da hidrelétrica de Tucuruí, inciado em 1976 e concluído em 1984, teve
uma relevância histórica para a AIA no país, tendo sido durante a sua implantação
que houve a decisão governamental de institucionalizar procedimentos formais para
avaliar as consequências ambientais dos grandes projetos públicos e privados (CMB,
1999; Monosowski, 1990).
132 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

A repercursão nacional e internacional dos potenciais efeitos ecológicos e sociais


do projeto da barragem de Tucuruí, principalmente nas comunidades científicas e
em grupos com interesse na preservação da Amazônia, associado às exigências dos
órgãos financiadores internacionais, como o Banco Mundial, pressionaram o Governo
brasileiro, que por meio de uma portaria interna do Ministério das Minas e Energia
(MME), motivou a Eletronorte (Centrais Elétricas do Norte do Brasil) a realizar estudos
ambientais para o projeto, iniciados em 1977 e concluídos em 1984, com o enchimento
da barragem (Monosowski, 1990).
Efetivamente, foi com a criação do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Cona-
ma), que a AIA e o licenciamento e revisão de atividades efetivas ou potencialmente
poluidoras, passaram a ser formalizados como instrumentos preventivos na PNMA.
Em janeiro de 1986, o Conama publica a Resolução n. 001/1986 que irá definir o
arcabouço geral e as responsabilidades com relação aos estudos de impacto ambiental,
que serão exigidos como prerrequisito para a implantação de novos empreendimentos
com significativo potencial de impacto ambiental.
Um aspecto relevante do processo histórico do surgimento da AIA refere-se à in-
clusão da sociedade civil no processo de tomada de decisão pelos órgãos ambientais,
via audiências públicas, tendo como fatores determinantes o grau de politização e de
esclarecimento de uma parte da sociedade americana naquele momento.
Em 1981, a publicação da Lei n. 6.938/1981,1 representou o início de uma nova
fase na política ambiental do país, com diferenças significativas das fases anteriores.
A aprovação da Lei que institui a PNMA trouxe diversas inovações no campo legal, in-
cluindo novos instrumentos de gestão ambiental e promovendo sua articulação dentro
da mesma estrutura organizacional, o Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama).

Figura 5.2. Esquema do Sistema Nacional de Meio Ambiente.


Fonte: Brasil, 1981.

1
Lei regulamentada pelo Decreto n. 88.351/1983.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 133

Os principais avanços alcançados com a promulgação da Lei n. 6.938/1981,2 suas


alterações e regulamentações foram:
š A criação de mecanismos formais de participação da sociedade na gestão am-
biental instituídos pelo Conama, com representação de diferentes órgãos da
esfera governamental e da sociedade civil organizada, incluindo representantes
do meio empresarial, sindical e organizações não governamentais (ONGs).
š A proposição de realização de audiências públicas como rito formal de debate
dos estudos ambientais previstos no âmbito do Licenciamento Ambiental.
š A legitimação do Ministério Público nas ações de responsabilidade civil e criminal
por danos ambientais, responsabilidade ampliada através da Lei n. 7.347/1985,
ou Lei dos Interesses Difusos e ratificada pela Constituição Federal de 1988 (Ma-
chado, 2005).

A Constituição Federal de 1988 inseriu o Brasil entre os países com legislação mais
avançada na esfera ambiental, dedicando um capítulo exclusivo às questões ambien-
tais. O art. 225 estabeleceu de forma inequívoca o direito fundamental de todos os
cidadãos das presentes e futuras gerações, a um ambiente sadio e responsabilizou o
Poder Público e a Coletividade de protegê-lo adequadamente.
Do ponto de vista jurídico, a Constituição Federal consolidou o papel da AIA den-
tro da PNMA, adotando o instrumento jurídico de prevenção do dano ambiental ao
exigir a realização de “Estudo Prévio de Impacto Ambiental”, para instalação de obra
ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação ambiental, ao qual
deverá ser dada publicidade (Machado, 2005).
Os documentos legais que se seguiram, possibilitaram a regulamentação e o deta-
lhamento da AIA, bem como aprimoraram a sua relação com os demais instrumentos
da PNMA (Sánchez, 2008). Destacam-se nesta fase de aperfeiçoamento da legislação
ambiental a Lei n. 9.605/1998, Lei de Crimes Ambientais, conhecida como “Lei da
Vida”, que prevê pena de detenção e, ou multa para pessoas físicas e, ou jurídicas que
exerçam atividades de construção, instalação, reforma de estabelecimentos ou obras
potencialmente poluidores sem licença ou autorização dos órgãos ambientais com-
petentes.
O Quadro 5.2 apresenta os principais documentos na legislação federal que nor-
matizam a AIA e LA, restringindo-se aos de caráter geral. Muitos outros instrumentos
legais têm sido editados para tratar de aspectos específicos do ponto de vista setorial
e geográfico, podendo ser consultados nos sítios oficiais mencionados no final deste
capítulo.

2
Lei regulamentada pelo Decreto n. 88.351/1983 e modificada pelas Leis n. 7.804/1989, 8.028/1990,
9.960/2000, 9.966/2000, 9.985/2000, 10.165/2000, 11.105/2005 e 11.284/2006.
134 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 5.2. Principais instrumentos legais com relevância para a AIA e o LA


Instrumento legal Relevância
Constituição Federal Determinou a realização de estudo prévio de impacto ambiental (EIA) para obra ou
de 1988 atividade potencialmente causadora de significativa degradação ambiental
Lei n. 6.803 de
Fh_c[_hWc[d‚€edWb[]_ibW‚€e\[Z[hWb}d[Y[ii_ZWZ[Z[WlWb_W‚€eZ[_cfWYjeWcX_[djWb$
2/7/1980
?dij_jk_kW7?7[eB7Yece_dijhkc[djeiZWFDC71[ijWX[b[Y[kdehcWi[Yh_jƒh_eifWhW
Lei n. 6.938 de o licenciamento de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras; e determinou a
31/8/1981 realização de estudos ambientais e de alternativas de projetos públicos ou privados com
atividades com significativa degração ambiental.
A Lei dos Interesses Difusos ampliou o conceito de dano ambiental para além dos
Lei n. 7.347 de
interesses individuais e geracionais e disciplinou a ação civil pública de responsabilidade
24/7/1985
por danos ao ambiente
Lei n. 10.257 de ;ijWjkjeZW9_ZWZ["_dYbk_ke;?7[e;ijkZeFhƒl_eZ[?cfWYjeZ[L_p_d^Wd‚W;?L[djh[
10/6/2001 ei_dijhkc[djeiZWFeb‡j_YWKhXWdW
H[]kbWc[djekWB[_Z[FDC7":[Ód[Z_h[jh_p[ic‡d_cWifWhWe;?7[fWhWefheY[iie
Dec. n. 99.274 de
de LA a forma de participação pública na AIA, institui o principio do poluidor-pagador
6/6/1990
[b[]_j_cWeC_d_ijƒh_eF‘Xb_YedWiW‚[iZ[Z[\[iWWcX_[djWb
Res. n. 001/86 de Definiu os critérios básicos e as diretrizes gerais para o EIA/RIMA (Relatório de Impacto
23/1/86 Ambiental)
Res. n. 011/86 de FhefŽiWbj[hW‚[idWH[i$d$ 001/86, incluindo projetos agropecuários na lista de
18/3/1986 empreendimentos com obrigatoriedade de realização de EIA/RIMA.
Res. n. 009/87 de Normatizou definindo os critérios e procedimentos das audiências públicas no âmbito
3/12/1987 do processo de LA
Res. n. 237/97 de Revisou e complementou os procedimentos e critérios do licenciamento ambiental
19/12/1997 [ijWX[b[Y_ZeidWFDC7B[_d$ 6.938/81 e Decreto n. 99.274/90)
Res. n. 378/06 de definiu os empreendimentos potencialmente causadores de impacto ambiental nacional
19/10/2006 ou regional no âmbito da Lei n. 4.771/65 (Código Florestal)
Nota: Alguns dos instrumentos legais foram alterados por documentos posteriores, as versões atuais podem
ser consultadas no sítio oficial do Conama.

5.4. O processo de licenciamento ambiental


O licenciamento ambiental federal tem sua institucionalização associada à PNMA
(Lei n. 6.938/81), que em seu art. 9., IV, indicou “o licenciamento e a revisão de atividades
efetiva ou potencialmente poluidoras” como um de seus instrumentos.
O Decreto n. 99.274/90 em seu capítulo IV, art. 17, determinou:

A construção, instalação, ampliação e funcionamento de estabelecimentos e ativi-


dades utilizadoras de recursos ambientais, considerados efetiva e potencialmente
poluidores, bem como os capazes, sob qualquer forma, de causar degradação
ambiental, dependerão de prévio licenciamento de órgão estadual competente,
integrante do Sistema Nacional do Meio Ambiente – SISNAMA, sem prejuízo de
outras licenças exigíveis.

O Licenciamento Ambiental é, portanto, de incumbência compartilhada entre a


União e os Estados da Federação, o Distrito Federal e os Municípios, de acordo com as
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 135

respectivas competências, tendo objetivo de regular as atividades e os empreendimen-


tos que utilizam os recursos naturais e podem causar degradação ambiental.
Neste mesmo instrumento jurídico, discriminou as licenças que serão expedidas
pelos órgãos ambientais competentes no processo:
š Licença prévia (LP): a ser expedida na fase preliminar do planejamento da ati-
vidade, contendo os requisitos básicos que deverão ser atendidos nas fases de
localização, instalação e operação do empreendimento e ressaltando a necessi-
dade de serem considerados os planos municipais, estaduais ou federais de uso
do solo, sendo que o EIA pode ser exigido ou não nesta fase do processo.
š Licença de instalação (LI): autoriza o início da implantação do empreendimento,
de acordo com as especificações constantes do Projeto Executivo aprovado e
após verificar o atendimento das condicionantes da licença prévia.
š Licença de operação (LO): autoriza, após a verificação do atendimento das con-
dicionantes impostas nas licenças anteriores e dos planos e medidas ambientais
previstos no EIA, o início das atividades licenciadas.

Outro passo importante na institucionalização do licenciamento foi a sua vincula-


ção à aprovação de financiamento e incentivos governamentais para projetos (art. 23
do mesmo decreto).
A vinculação entre o LA e a AIA se dá por meio dos estudos e seus respectivos relató-
rios exigidos no processo de licenciamento, em função da dimensão e da significância
dos impactos relacionados às atividades do empreendimento. Este vínculo é reforçado
no decreto regulamentador da PNMA, que estabeleceu em sua forma final que:

§ 1. Caberá ao Conama fixar os critérios básicos, segundo os quais serão exigidos


estudos de impacto ambiental para fins de licenciamento, contendo, entre outros,
os seguintes itens:
a) diagnóstico ambiental da área;
b) descrição da ação proposta e suas alternativas; e
c) identificação, análise e previsão dos impactos significativos, positivos e negativos.
§ 2. O estudo de impacto ambiental será realizado por técnicos habilitados e
constituirá o Relatório de Impacto Ambiental RIMA, correndo as despesas à conta
do proponente do projeto.
§ 3. Respeitada a matéria de sigilo industrial, assim expressamente caracterizada a
pedido do interessado, o RIMA, devidamente fundamentado, será acessível ao público.
§ 4. Resguardado o sigilo industrial, os pedidos de licenciamento, em qualquer das
suas modalidades, sua renovação e a respectiva concessão da licença serão objeto
de publicação resumida, paga pelo interessado, no jornal oficial do Estado e em
um periódico de grande circulação, regional ou local, conforme modelo aprovado
pelo Conama.
(Art. 17, Decreto n. 99.274/1990)

O licenciamento ambiental é do ponto de vista legal de competência comum,


cabendo ao Ibama, com base na Lei da PNMA, detalhada e especificada pela Reso-
lução Conama n. 237/1997, o licenciamento de “empreendimentos e atividades com
significativo impacto ambiental, de âmbito nacional e regional” nos seguintes termos:
136 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

I – localizadas ou desenvolvidas conjuntamente no Brasil e em país limítrofe; no


mar territorial; na plataforma continental; na zona econômica exclusiva; em terras
indígenas ou em unidades de conservação do domínio da União;
II – localizadas ou desenvolvidas em dois ou mais Estados;
III – cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites territoriais do País
ou de um ou mais Estados;
IV – destinados a pesquisar, lavrar, produzir, beneficiar, transportar, armazenar e
dispor material radioativo, em qualquer estágio, ou que utilizem energia nuclear
em qualquer de suas formas e aplicações, mediante parecer da Comissão Nacional
de Energia Nuclear – CNEN;
V – bases ou empreendimentos militares, quando couber, observada a legislação
específica.
(Art. 4., Resolução Conama n. 237/1997)

A mesma Resolução relaciona ainda os empreendimentos e atividades cuja com-


petência é dos Estados e do Distrito Federal:

localizados ou desenvolvidos em mais de um município ou em unidades de con-


servação de domínio estadual ou do Distrito Federal;
localizados ou desenvolvidos nas florestas e demais formas de vegetação natural
de preservação permanente relacionadas no art. 2. da Lei n. 4.771/65 e em todas
as que assim forem consideradas por normas federais, estaduais ou municipais;
cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites territoriais de um ou
mais municípios;
delegados pela União aos estados ou ao Distrito Federal por instrumento legal
ou convênio.
(Art. 5., Resolução Conama n. 237/1997)

Na outra ponta do licenciamento encontram-se os municípios, que por delegação do


Estado podem licenciar empreendimentos e atividades de menor porte e com potencial
de impacto ambiental local, cujas alterações ambientais restringem-se aos limites do
município (art. 6., Resolução Conama n. 237/1997).
Aos estados da federação caberia, portanto, no âmbito do Sisnama, a maior parcela de
responsabilidade no licenciamento ambiental, o que na prática, por razões diversas, não
tem ocorrido, sendo o Ibama ainda responsável por uma parcela significativa dos licen-
ciamentos que legalmente poderiam ser de competência dos estados (Brasil/TCU, 2007).

5.5. Fases e procedimentos formais da AIA


Este item apresenta os objetivos da AIA e o processo de avaliação de impactos ambien-
tais, a estrutura, a organização, os procedimentos formais e as etapas definidas em lei ou
em outros instrumentos jurídicos, incluindo: (i) a caracterização do empreendimento a
ser implantado; (ii) definição do escopo dos estudos ambientais necessários; (iii) elabo-
ração dos estudos ambientais (EA); (iv) análise técnica dos EA; (v) consulta pública; (vi)
decisão sobre a implantação do empreendimento; (vii) monitoramento e fiscalização.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 137

5.5.1. Contextualizando
Para atender a finalidade de previsão dos impactos sociais e ambientais voltados
para assessorar a decisão do poder público na autorização de implantação de novas
atividades socioeconômicas, a AIA organiza-se através de um sistema, visando aten-
der a sua aplicação nas mais diferentes situações e contextos políticos, econômicos e
socioculturais, preservando, porém, a sua essência definida anteriormente.
O conjunto dessas atividades e procedimentos, organizados e estruturados para
atender a determinada finalidade, é conhecido como processo de AIA, sendo específico
para cada jurisdição (por exemplo, um país, um estado federativo ou um município)
e para cada tipo de atividade ou empreendimento.

5.5.2. Objetivos da AIA


A partir da finalidade definida anteriormente, pode-se mencionar os seguintes
objetivos para a AIA (IAIA, 1999):
š Assegurar que o ambiente seja considerado e explicitamente incorporado no pro-
cesso de decisão de novos empreendimentos e propostas de desenvolvimento.
š Antecipar, evitar e minimizar ou compensar os efeitos sociais e ambientais ad-
versos.
š Proteger a produtividade e a capacidade dos sistemas naturais e dos processos
ecológicos que mantêm as suas funções.
š Promover um desenvolvimento com otimização no uso dos recursos e oportu-
nidades de gestão ambiental visando a sua sustentabilidade.

Na prática, porém, a AIA possibilita ao poder público incluir na análise de viabili-


dade, os aspectos ambientais e os econômicos. Fica evidente, portanto, a limitação do
alcance deste instrumento para evitar a degradação ambiental oriunda de deficiências
de planejamento e fiscalização e de lacunas da legislação ambiental.
É importante mencionar que a viabilidade ambiental assim como a viabilidade eco-
nômica devem ser consideradas de maneira relativa, uma vez que nos dois casos existe
um nível de incerteza associado aos pressupostos e inferências sobre o comportamento
futuro das condições ecológicas e socioeconômicas do ambiente no qual determinado
projeto ou empreendimento será implantado.
Outra característica importante a ser mencionada com relação à viabilidade
ambiental de determinado empreendimento ou atividade é o seu caráter subjetivo.
Quando se considera a diversidade de interesses dos atores sociais envolvidos, a
distribuição entre os custos e os benefícios do projeto pode variar significativamente
de um ator para o outro, podendo resultar que, para um determinado grupo social
predominem os efeitos benéficos, enquanto que para outros sejam mais evidentes
os efeitos adversos.
138 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

5.5.3. Estrutura básica do processo de AIA


Apesar de existirem variações do processo de AIA em função de particularidades
de cada jurisdição, alguns elementos podem ser identificados na maioria dos sistemas
encontrados internacionalmente, constituindo-se no que pode ser denominado de
estrutura básica da AIA. A Figura 5.3 apresenta um fluxograma simplificado com as
três principais etapas do processo de AIA.

Figura 5.3. Fluxograma do processo de AIA no licenciamento ambiental.


Fonte: modificado de Wathern (2004) e Sánchez (2008).
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 139

Essa estrutura genérica, definida em três etapas no fluxograma de processo da


Figura 5.4, é composta de diversas fases, correspondendo a atividades específicas,
envolvendo os diferentes atores sociais do processo de AIA.

5.5.4. As principais etapas da AIA


A Resolução Conama n. 01/1986 é referência na regulamentação da AIA no Brasil,
tendo orientado a definição dos procedimentos adotados nos níveis federal, estadual e
municipal. Destaca-se que embora normas e resoluções do próprio órgão colegiado e
de regulamentos nas esferas estaduais e municipais tenham detalhado e estabelecido
condições e elementos adicionais, a essência do processo permanece a mesma.
a) Definição e apresentação de uma proposta
Esta etapa deflagra o processo, constituindo-se no fato motivador das demais etapas.
Um agente público ou privado interessado em empreender uma proposta (projeto,
plano ou programa) necessita formalizar esta iniciativa numa instância decisória, no
Brasil, um órgão governamental da área ambiental. Dependendo da atividade, seu
porte e sua localização o processo será conduzido em instância federal, estadual ou
municipal, conforme competências indicadas na seção 5.4.

b) Triagem ou enquadramento
Nesta etapa devem ser definidas, dentro do universo das ações humanas, aquelas
que deverão ser objeto de análise, ou seja, passíveis do processo de AIA. Dois critérios
são apontados como centrais nesta definição: o valor ambiental do local e o potencial
de impacto das atividades do empreendimento, mensurado pela importância e pela
vulnerabilidade do meio. O que na AIA tem sido sintetizado no conceito de “signifi-
cância” dos efeitos ou impactos ambientais.

Compreendendo a significância dos impactos ambientais

KcWgk[ij€eY^Wl[defheY[iieZ[7?7"dWi\Wi[iZ[jh_W][c[Z[Z[Ód_‚€eZe[iYefe"ƒWb_d^WZ_l_iŒh_W
entre os “impactos significativos” e “impactos não significativos”. Beanlands (2004) comenta que qualquer
abordagem sobre a significância dos impactos ambientais necessita considerar que a avaliação de impactos
ambientais é intrinsecamente um conceito antropocêntrico, envolvendo um julgamento de valor pela sociedade
Yech[bW‚€e}_cfehj~dY_W[}i_]d_ÓY~dY_WZ[ij[i[\[_jeiieXh[eWcX_[dj[$Egk[YedZkpdWfh|j_YW"We
uso de critérios socioeconômicos e culturais no julgamento, correlacionando importância e significância com
conceitos subjetivos como: aceitação, desejos, percepção e expectativasZWieY_[ZWZ["ck_jWil[p[iYedÔ_jWdj[i
entre os diferentes atores sociais. A definição da significância delimita o campo de aplicação deste instrumento
ZWFDC7"hWY_edWb_pWdZeeih[Ykhiei^kcWdei[ÓdWdY[_heidWh[Wb_pW‚€eZei[ijkZeiWcX_[djW_i$7ii_c"W
d[Y[ii_ZWZ[Z[h[Wb_pW‚€eZ[[ijkZeiWcX_[djW_iYecfb[jeifWhWeb_Y[dY_Wc[djeWcX_[djWbÓYWh[ijh_jW}i
atividades que tenham potencial de afetar um grande número de indivíduos, utilizem recursos naturais de
elevado valor para a sociedade ou apresentem sensibilidade e vulnerabilidade que possam ser afetados de
forma irreversível ou permanente.
140 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

O potencial de impacto de um empreendimento ou atividade está diretamente


associado ao tipo de processo e tecnologia envolvidos e ao porte do empreendimento.
Na prática são utilizadas listas predefinidas legalmente, indicando quais deles neces-
sitam de estudos ambientais completos no processo de LA (listas positivas). Algumas
jurisdições têm adotado listas para indicar empreendimentos que prescindem de estu-
dos ambientais mais detalhados para o seu licenciamento (listas negativas). No Brasil
adota-se o critério das listas positivas, sendo que a Resolução Conama n. 01/1986, em
seu art. 2., definiu uma lista positiva como referência (Quadro 5.3). É importante con-
siderar que se trata de indicação preliminar da legislação, representando um universo
limitado frente à diversidade de ações humanas. O órgão ambiental pode, portanto,
em função de especificidades do empreendimento e do ambiente enquadrar projetos
que não constam das listas positivas, ou que constem nas negativas.
O valor ambiental, do ponto de vista ecológico, pode estar expresso tanto na vul-
nerabilidade do meio devido aos efeitos cumulativos de atividades anteriormente
implementadas, quanto em especificidades que lhe conferem características impor-
tantes de serem preservadas, visando garantir as funções do ecossistema e a qualidade
ambiental. Entre os aspectos socioculturais devem ser considerados: o patrimônio
cultural, arquitetônico e arqueológico, relativos à paisagem e aos bens naturais de valor
local (Puzatchenko, 1998).
A partir de informações como: localização, abrangência, porte e custos, fornecidos
pelo empreendedor (público ou privado), o órgão ambiental, com base na legislação
vigente e no conhecimento técnico especializado da equipe interna de analistas, de-
cide pelo enquadramento da proposta entre: iniciativas com risco elevado de causar
impactos significativos ou com impactos não significativos ou de baixa significância.
Na dúvida, o órgão pode solicitar informações adicionais, ou a realização de estudos
preliminares,3 que possibilitem ao técnico responsável o enquadramento final do
empreendimento.

Quadro 5.3. Lista dos empreendimentos que dependerão de estudos ambientais


completos no licenciamento ambiental
?Å;ijhWZWiZ[heZW][cYecZkWiekcW_i\W_nWiZ[hebWc[dje
??Å<[hhel_Wi
???ÅFehjei[j[hc_dW_iZ[c_dƒh_e"f[jhŒb[e[fheZkjeigk‡c_Yei
?LÅ7[hefehjei"Yed\ehc[Z[Ód_Zeif[be_dY_ie'"Whj_]e*."Ze:[Yh[je#B[_d$ 32, de 18.11.66
LÅEb[eZkjei"]WieZkjei"c_d[heZkjei"jhedYeiYeb[jeh[i[[c_ii|h_eiZ[[i]ejeiiWd_j|h_ei
L?ÅB_d^WiZ[jhWdic_ii€eZ[[d[h]_W[bƒjh_YW"WY_cWZ[()&AL
L??ÅEXhWi^_Zh|kb_YWifWhW[nfbehW‚€eZ[h[Ykhiei^‡Zh_Yei"jW_iYece0XWhhW][cfWhWÓdi^_Zh[bƒjh_Yei"WY_cW
de 10MW, de saneamento ou de irrigação, abertura de canais para navegação, drenagem e irrigação, retificação
de cursos d’água, abertura de barras e embocaduras, transposição de bacias, diques
L???Å;njhW‚€eZ[YecXkij‡l[b\Œii_bf[jhŒb[e"n_ije"YWhl€e
?NÅ;njhW‚€eZ[c_dƒh_e"_dYbki_l[eiZWYbWii[??"Z[Ód_ZWide9ŒZ_]eZ[C_d[hW‚€e
NÅ7j[hheiiWd_j|h_ei"fheY[iiWc[dje[Z[ij_deÓdWbZ[h[i‡ZkeijŒn_Yeiekf[h_]eiei

3
O estado do Rio de Janeiro, por exemplo, introduziu o Relatório Ambiental Preliminar (RAP) para sub-
sidiar a decisão na etapa de triagem.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 141

N?ÅKi_dWiZ[][hW‚€eZ[[b[jh_Y_ZWZ["gkWbgk[hgk[i[`WW\edj[Z[[d[h]_Wfh_c|h_W"WY_cWZ['&CM
N??Å9ecfb[ne[kd_ZWZ[i_dZkijh_W_i[W]he#_dZkijh_W_if[jhegk‡c_Yei"i_Z[h‘h]_Yei"Ybehegk‡c_Yei"Z[ij_bWh_Wi
de álcool, hulha, extração e cultivo de recursos hídricos)
N???Å:_ijh_jei_dZkijh_W_i[pedWi[ijh_jWc[dj[_dZkijh_W_iÅP;?
N?LÅ;nfbehW‚€e[YedŽc_YWZ[cWZ[_hWekZ[b[d^W"[c|h[WiWY_cWZ['&&^[YjWh[iekc[deh[i"gkWdZe
atingir áreas significativas em termos percentuais ou de importância do ponto de vista ambiental
NLÅFhe`[jeikhXWd‡ij_Yei"WY_cWZ['&&^W$ek[c|h[WiYedi_Z[hWZWiZ[h[b[lWdj[_dj[h[ii[WcX_[djWbWYh_jƒh_e
da SEMA e dos órgãos municipais e estaduais competentes
NL?ÅGkWbgk[hWj_l_ZWZ[gk[kj_b_pWhYWhl€el[][jWb"Z[h_lWZeiekfheZkjeii_c_bWh[i"[cgkWdj_ZWZ[ikf[h_eh
a dez toneladas por dia
NL??ÅFhe`[jei7]hef[Yk|h_eigk[Yedj[cfb[c|h[WiWY_cWZ['$&&&^W$ekc[deh[i"d[ij[YWie"gkWdZei[
tratar de áreas significativas em termos percentuais ou de importância do ponto de vista ambiental, inclusive
nas áreas de proteção ambiental
Fonte: Art. 2. da Resolução Conama n. 01/86, alterado pela Resolução Conama n. 11/86.

c) Definição do escopo do estudo


A definição do escopo é o processo de identificação, dentre uma gama de potenciais
problemas associados ao empreendimento ou atividade, os quais deverão prioritaria-
mente ser considerados nos estudos ambientais (Wathern, 2004).
A partir desta etapa, só serão considerados os empreendimentos ou atividades que
forem enquadrados pelo órgão ambiental como projetos com “potencial de causar
impactos significativos”.
As seguintes ações estão associadas a esta fase do processo:
š Definir as alternativas tecnológicas e locacionais a serem analisadas.
š Delimitar a abrangência, os limites e os aspectos prioritários do estudo ambien-
tal, focando o uso de tempo e recursos materiais e humanos.
š Colaborar no planejamento e direcionamento do levantamento de dados e de
pesquisas no diagnóstico ambiental.

Em sua origem, nos Estados Unidos, a AIA previa a participação de diversos atores
sociais nesta fase do processo, incluindo: o empreendedor, a população local, a comu-
nidade científica e o órgão ambiental. Na legislação federal brasileira a definição do
escopo é determinada como de responsabilidade do órgão ambiental, porém, existe
uma tendência, em algumas jurisdições estaduais, a exemplo da Bahia, onde são pro-
movidas audiências prévias, com a participação do empreendedor, representantes das
organizações da sociedade civil e da população local.
Em última instância, caberá ao órgão ambiental, após ouvir os diferentes atores so-
ciais, definir a abrangência, as diretrizes e o conteúdo mínimo dos estudos ambientais
aprofundados. O final desta fase do processo se encerra com a entrega ao empreende-
dor, de um documento, com as orientações para elaboração dos estudos ambientais,
sendo usualmente denominado por termo de referência (TR).
142 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

d) Elaboração dos estudos ambientais


Encontra-se em vigor no Brasil diferentes tipos de estudos ambientais, sendo o mais
conhecido e completo, o Estudo de Impacto Ambiental e seu respectivo Relatório de
Impacto Ambiental (EIA/RIMA). O Quadro 5.4 apresenta os principais tipos de estudos
ambientais utilizados no país.

Quadro 5.4. Principais tipos de estudos ambientais utilizados no processo de LA no Brasil


Instrumento
Denominação Campo de aplicação
legal
;?7%H?C7Å;ijkZe[ O licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente,
Res. Conama
Relatório de Impacto como as listadas nos incisos de I a XVII do Art. 2. da referida
n. 01/86, Art. 2.
Ambiental resolução.
F87ÅFhe`[je8|i_Ye Res. Conama Obtenção de licença de instalação para empreendimentos do
Ambiental n. 06/87 setor de geração de energia elétrica
FH7:ÅFbWdeZ[ Deve ser incorporado ao EIA para obtenção da licença prévia
Dec. Fed.
Recuperação de Áreas Zei[cfh[[dZ_c[djeigk[i[Z[ij_dWc}[nfbehW‚€eZ[h[Ykhiei
n. 97.632/89
Degradadas minerais.
Obtenção de Licença de prévia de empreendimentos do setor
H97ÅH[bWjŒh_eZ[ Res. Conama
de extração mineral classe II e de perfuração de poços para
Controle Ambiental n. 09/90; 23/94 e
exploração de jazidas de combustíveis líquidos e e gás natural
Obtenção da licença prévia de produção para pesquisa na
;L7Å;ijkZeZ[ Res. Conama
exploração e lavra das jazidas de combustíveis líquidos e gás
Viabilidade Ambiental n. 23/94
natural
H77ÅH[bWjŒh_eZ[ Res. Conama Obtenção de licença de instalação para ampliações na exploração
Avaliação Ambiental n. 23/94 e lavra das jazidas de combustíveis líquidos e gás natural
Obtenção de Licenças de instalação de empreendimentos
Res. Conama do setor de extração mineral classe I e II; de operação para
F97ÅFbWdeZ[9edjheb[
n. 09/90; 23/94; exploração e lavra das jazidas de combustíveis líquidos e gás
Ambiental
284/01 e 312/02 natural, empreendimentos de irrigação e de instalação de
empreendimentos de carcinocultura em região costeira
H7IÅH[bWjŒh_e Res. Conama Obtenção da licença prévia para empreendimentos do setor
Ambiental Simplificado n. 279/01 elétrico com pequeno potencial de impacto ambiental
FbWdeiZ[9edj_]…dY_W"
Res. Conama Licenciamento ambiental para implantação e desativação de
de Emergência e de
n. 316/02, Art. 26. sistemas de tratamento térmico de resíduos e
Desativação

Nota: a definição legal do termo “estudos ambientais” aparece no Inc. III do art. 1. da Res. Conama n. 237/97:
Çi€ejeZei[gkW_igk[h[ijkZeih[bWj_leiWeiWif[YjeiWcX_[djW_ih[bWY_edWZei}beYWb_pW‚€e"_dijWbW‚€e"ef[hW‚€e[
ampliação de uma atividade ou empreendimento, apresentado como subsídio para a análise da licença requerida,
tais como: relatório ambiental, plano e projeto de controle ambiental, relatório ambiental preliminar, diagnóstico
ambiental, plano de manejo, plano de recuperação de área degradada e análise preliminar de risco”.

A elaboração do EIA/RIMA é a atividade mais dispendiosa e de maior duração no


processo de AIA, sendo constituída pela identificação, previsão e avaliação dos impactos
ambientais da proposta, incluindo a análise dos impactos de ordem socioeconômica,
ecológica e cultural e a proposição de medidas ambientais que minimizem ou com-
pensem os impactos adversos e que potencializem os benéficos.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 143

Na legislação brasileira a realização do estudo está sob responsabilidade do em-


preendedor e deve ser realizado por equipe técnica multidisciplinar habilitada junto
ao órgão ambiental competente, com diretrizes para elaboração e conteúdo mínimo
definidos no termo de referência (TR).
Sánchez (2008) propõe que a elaboração de um estudo de impacto ambiental seja
dividida em duas fases principais: a de planejamento e a de execução do estudo. A
Figura 5.4 apresenta um fluxograma com as principais atividades previstas em cada
uma das fases.

Figura 5.4. Fluxograma com as atividades previstas na elaboração do EIA.


Fonte: modificado de Sánchez (2008).
144 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

No planejamento, identificam-se uma sequência de atividades descritas de forma


sintética a seguir:
š Caracterização das alternativas: esta obrigatoriedade legal de que o estudo seja
desenvolvido considerando alternativas locacionais e tecnológicas tem seus
fundamentos associados à necessidade de explorar um leque de situações que
permitam fornecer ao responsável pela decisão, a avaliação de aspectos favo-
ráveis e desfavoráveis de cada uma das alternativas, justificando a escolha da
melhor opção em tecnologia disponível e a localização ambientalmente mais
adequada, considerando a hipótese, inclusive, de não realização do projeto. Este
preceito legal tem o objetivo de assegurar que as propostas demonstrem relações
benefícios/custos favoráveis quando comparadas com a situação atual.
š Análise da legislação ambiental aplicável: refere-se à atividade de avaliação das
restrições legais nos níveis federal, estadual e municipal, considerando o tipo e
o porte do empreendimento e sua adequação às localizações propostas e ana-
lisando a sua compatibilidade com a legislação incidente.
š Reconhecimento ambiental preliminar: a partir da caracterização do empreendi-
mento proposto e de suas alternativas é importante um reconhecimento preli-
minar do(s) local(is) proposto(s) para o empreendimento, com o uso de mapas,
fotografias aéreas, imagens de satélite, visitas exploratórias ao(s) local(is) e seu
entorno, levantamentos de estudos e de informações sobre a região, disponíveis
em órgãos públicos, ou ainda, entrevistas ou conversas informais na área do pro-
jeto. A partir deste conjunto de informações é possível um reconhecimento pre-
liminar das características ambientais que poderão ser afetadas pelas atividades
impactantes. Dependendo do tipo e localização do empreendimento, podem ser
reconhecidos aspectos ambientais como: estado e estágio da vegetação natural,
ocupação e uso do solo, atividades socioeconômicas, bens naturais, entre outros
aspectos relevantes ao estudo.
š Identificação preliminar dos impactos: esta atividade consiste na preparação
de listas com os aspectos ambientais que poderão ser afetados pelas diferentes
atividades do empreendimento. Estas interações entre o ambiente e o empreen-
dimento podem ser identificadas inicialmente a partir da analogia com situações
similares, informação científica sobre as atividades e opinião de especialistas
com experiência relacionada às áreas do conhecimento envolvidas no problema,
com formulação de hipóteses sobre o comportamento do meio em relação às
solicitações impostas pelo empreendimento. Os principais métodos utilizados
nesta fase são as listas de verificação de impactos (checklists) encontradas na
literatura especializada. Os impactos identificados preliminarmente aqui serão
objeto de aprofundamento e validação nas atividades subsequentes do estudo.
š Determinação do conteúdo e abrangência do estudo: com base nas informa-
ções acumuladas nas atividades anteriores, especialmente sobre os impactos
ambientais identificados, mais o TR fornecido pelo órgão ambiental, a equipe
responsável pela condução dos estudos poderá determinar o seu conteúdo e sua
abrangência, direcionando o foco e elegendo as questões mais relevantes para
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 145

serem aprofundadas. Um aspecto a ser considerado neste momento, é que tanto


por razões de ordem científica quanto de ordem social, os efeitos ambientais de
empreendimentos tecnologicamente similares podem apresentar-se em formas
e intensidades bastante diferenciadas; o exemplo a seguir ilustra este aspecto
intrínseco aos impactos ambientais.

Importância da determinação do escopo: exemplo em projetos de barragens

A construção de uma barragem de grande porte em um curso d’água na Região Amazônica ou na Região do
Semi-Árido ilustra a importância desta atividade do processo. Mesmo utilizando o mesmo porte e tecnologia em
ambos os projetos, estes poderão apresentar efeitos ambientais bastante diferenciados, tanto pelas diferenças
Z[YecfehjWc[djeZei[Yeii_ij[cWi\h[dj[}i_dj[h\[h…dY_WiZWiWj_l_ZWZ[iZe[cfh[[dZ_c[dje"gkWdjef[be
contexto socioeconômico e cultural diferenciado em cada caso, o que irá demandar escopos diferenciados
fWhWYWZWkcZei[ijkZei$DW7cWpŽd_W"eiWif[Yjei[YebŒ]_Yeih[bWj_lei}_dkdZW‚€eZWÔeh[ijW"Ze[d‚Wi
Z[l[_YkbW‚€e^‡Zh_YW[eiYedÔ_jeiYec]hkfei_dZ‡][dWiZ[l[cWiikc_hkcWfei_‚€eZ[Z[ijWgk[de[ijkZe"
[dgkWdjegk[WfhefeijWdeI[c_#Üh_ZeZ[l[Yedi_Z[hWhWif[YjeiYece0h_iYeiZ[iWb_d_pW‚€e"YedÔ_jeidekie
da água (consumo humano, industrial ou agropecuário) no escopo do estudo.

š Definição do plano de execução: refere-se a um documento interno, que os


responsáveis pela realização do EIA (equipe multidisciplinar) preparam para a
organização sobre a sequência de atividades necessárias na condução e execução
das próximas fases do trabalho. O plano ou proposta de execução ou de trabalho
define as informações que serão coletadas, os dados primários ou secundários
necessários, a escala temporal e espacial dos levantamentos e os métodos de
coleta, análise (de campo ou laboratoriais), tratamento e interpretação dos dados.

Com base no plano definido no final do planejamento, a equipe executora do estudo


irá conduzir as etapas que se seguem:
š Diagnóstico ambiental: também denominado diagnóstico de base, é uma ativida-
de central nos estudos de impacto de ambiental, sendo em geral a atividade que
consome maior volume de recursos e tempo, o que torna seu planejamento de
extrema importância. Ele deverá descrever e analisar as informações necessárias
às outras fases do estudo, incluindo fatores ambientais dos meios físico, biótico e
antrópico (ou socioeconômico). A definição de inclusão ou exclusão dos fatores
ambientais se baseia nos critérios utilizados para definir o foco do estudo. Uma
definição importante desta fase é a área de estudo, que delimita o local que será
objeto dos diferentes levantamentos. Esta delimitação parte, em geral, da própria
área física ocupada pelo empreendimento, conhecida como área diretamente
afetada (ADA), podendo se estender por áreas ao redor do empreendimento, em
dimensões que dependem do porte e do tipo das atividades.
Considerando que o ambiente possui propriedades sistêmicas, em algumas si-
tuações será necessário optar arbitrariamente por incluir determinado aspecto
ambiental em algum dos três compartimentos definidos no Capítulo 1: abiótico,
146 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

biótico ou antrópico, apesar da possibilidade de apresentar características de


dois ou mais compartimentos (Quadro 5.5).
Para cada um dos meios existem diferentes métodos e técnicas que podem ser
utilizados nos levantamentos do diagnóstico ambiental, destacando-se (IAIA,
2003; Stopl, 2006; Sánchez, 2008): (a) meio físico: mapeamentos temáticos, fo-
tografias aéreas, imagens de satélite, e cartografia geotécnica; (b) meio biótico:
mapeamento de biótopos e seus hábitats, estudos fitosociológicos e o proce-
dimento de avaliação de hábitats; (c) meio antrópico: censos e levantamentos
socioeconômicos, pesquisas de opinião, pesquisa documental, mapeamentos e
inventários do patrimônio histórico, arquitetônico, arqueológico e natural (ge-
ológico, paleontológico e fisiográfico), avaliação social de impacto e avaliação
dos valores dos cidadãos.
Existe uma corrente internacional que defende a incorporação do conhecimento
das populações tradicionais, ao lado do conhecimento científico do ambiente,
possibilitando a incorporação de questões relevantes para as comunidades, ou
mesmo complementares às informações levantadas com base nos métodos
científicos convencionais (Schuh, 2005).
Concluindo, o diagnóstico ambiental de um EIA deve descrever e analisar
criticamente a situação atual da área do estudo, identificando as fragilidades
e as principais forças que influenciam sua qualidade ambiental e a tendência
de evolução dos diferentes aspectos ambientais no caso da alternativa de não
implementação do empreendimento.

Quadro 5.5. Componentes ambientais e esferas da Terra segundo


divisão arbitrária utilizada no diagnóstico ambiental
Ambiente
Meio físico Meio biótico Meio antrópico

Litosfera
Esferas da
Terra

Atmosfera
Biosfera Antroposfera
Hidrosfera
F[Zei\[hW
Componentes

Litologia
ambientais

Fauna
Solos Economia
Flora
Relevo Sociedade
Microorganismos
Ar Cultura
Ecossistemas
Recursos hídricos

Fonte: modificado a partir de Sánchez, 2008

š Identificação e previsão dos impactos: o aprofundamento do conhecimento sobre


o empreendimento e sobre os fatores ambientais na área de estudo, compilados
no diagnóstico ambiental, possibilitam que os impactos identificados preliminar-
mente na fase de planejamento possam ser revistos, atualizados e aprofundados
nesta atividade.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 147

Do ponto de vista dos objetivos primordiais da AIA, como um instrumento da


PNMA, voltado para a previsão e avaliação das consequências ambientais e so-
ciais associadas a um projeto ou empreendimento, a atividade de identificação
e previsão de impactos é fundamental nos EIA. Apesar de constituírem etapas
conceitualmente distintas, a identificação e a previsão dos impactos podem, na
prática, ocorrer simultaneamente.
Enquanto na identificação busca-se enumerar prováveis consequências a partir
de hipóteses, a previsão de impactos utiliza-se da aplicação sistemática de méto-
dos e técnicas específicos a cada disciplina envolvida nas questões ambientais,
na previsão da dimensão destas interferências no ambiente, a partir da formu-
lação de hipóteses sobre as diferentes possibilidades de interação entre as ações
e atividades do empreendimento e o ambiente na área de estudo.
A identificação dos impactos inicia-se, em geral, com a elaboração de listas
detalhadas das ações e atividades, incluindo todas as etapas do ciclo de vida do
empreendimento: fase de planejamento, implantação, operação e destinação
final ou desativação, quando forem necessárias. Os impactos identificados
devem ser descritos de maneira sintética e autoexplicativa, evitando possíveis
interpretações ambíguas.
As incertezas são inerentes à previsão de impactos, sendo muitas vezes necessário
o aprofundamento interativo do diagnóstico em determinado aspecto ambiental,
para melhorar a qualidade das previsões, conforme indicado na Figura 5.5.

Figura 5.5. Hierarquia das medidas ambientais no processo de AIA.

Existe uma gama de métodos e técnicas que podem ser utilizados na previsão
de impactos, em função de qual aspecto ambiental e qual ação ou atividade
do empreendimento está sendo considerada. Alguns dos métodos e técnicas
frequentemente utilizados nestas atividades são:
– na identificação: listas de verificação (check lists), matrizes de identificação (ati-
vidades do projeto versus componentes ambientais), diagramas de interação.
– na previsão: modelagem matemática, simulação computacional, técnicas
de cenários, comparação e extrapolação, consulta a especialistas (método
Delphi), testes e ensaios de laboratório.
148 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Concluindo, a identificação e a previsão são atividades da análise dos impactos,


tendo seus parâmetros qualificados e o prognóstico do seu comportamento anali-
sado por meio de indicadores ambientais, representativos da qualidade ambiental.
š Avaliação dos impactos: é a atividade que caracteriza e define os resultados
esperados na AIA. Enquanto na identificação e previsão de impactos obtêm-se
informações sobre a magnitude ou intensidade dos impactos significativos, na
avaliação determina-se a importância atribuída às alterações previstas. A ava-
liação da importância dependerá em grande medida da avaliação preliminar da
equipe multidisciplinar que conduz o estudo, a qual deverá descrever com obje-
tividade os procedimentos e critérios utilizados nesta atribuição de importância.
Nesta atividade a equipe multidisciplinar contará com o auxílio dos documentos
legais, sendo, porém, em última instância, uma atribuição subjetiva e que deverá,
portanto, nas fases subsequentes ser exposta ao exame minucioso dos analistas
ambientais responsáveis pela avaliação técnica do EIA e aos questionamentos
durante a fase de consulta pública. A Resolução Conama n. 01/1986 discrimina
parâmetros mínimos de análise a serem considerados nos estudos de impactos
ambientais:

Análise dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, através


de identificação, previsão da magnitude e interpretação da importância dos
prováveis impactos relevantes, discriminando os impactos positivos e negativos
(benéficos e adversos), diretos e indiretos, imediatos e a médio e longo prazos,
temporários e permanentes; seu grau de reversibilidade; suas propriedades
cumulativas e sinérgicas e a distribuição dos ônus e benefícios sociais.

š Análise de risco: conceitualmente, a análise de risco identifica as possíveis conse-


quências negativas para a sociedade, utilizando-se para isto de dois parâmetros
universais, a probabilidade de ocorrência de determinado evento e a magnitude
das alterações provocadas no ambiente. Enquanto que para alguns dos impactos
de elevada magnitude previstos para um determinado empreendimento, pode-se
associar uma elevada probabilidade de ocorrências, para outros não, o que de
certa forma deve ser considerado na avaliação da importância dos impactos. O
cruzamento destes dois parâmetros (magnitude e probabilidade de ocorrência)
tem como resultado uma matriz de riscos que apontará o grau de criticidade dos
riscos avaliados. A aplicação do método da análise de risco contribui na avaliação
das consequências e das vulnerabilidades do empreendimento, bem como, no
gerenciamento dos riscos e na proposição de medidas para sua redução.
š Proposição de medidas e programas ambientais: entende-se por medidas ambien-
tais, todas as ações do empreendimento que visam: evitar, minimizar, mitigar os
impactos ambientais adversos significativos, compensar os adversos de caráter
permanente e que provocam danos irreversíveis ao ambiente e potencializar os
impactos benéficos do empreendimento. Estas medidas possuem uma hierar-
quia na sua aplicação na AIA, a Figura 5.6 ilustra esta ordem de prioridades das
medidas ambientais.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 149

Figura 5.6. Diagrama de rede das consequências e dos impactos ambientais da urbanização.
Fonte: modificado de Amorin, 2011.

O conjunto destas medidas, incluindo medidas adicionais de gestão ambiental, de


monitoramento e de capacitação de recursos humanos, constitui o que se pode de-
nominar por Plano de Gestão Ambiental, sendo a principal ferramenta para garantir a
eficácia da AIA na manutenção da qualidade ambiental, no desenvolvimento social e
econômico da comunidade e da região sob influência do empreendimento.
Silva (1994b) propõe uma classificação qualitativa para os atributos dos impactos
ambientais mencionados na Resolução Conama n. 001/1986:
š Critério de valor: o impacto pode ser positivo, ou benéfico, quando uma ação
causa melhoria da qualidade de um fator ambiental; e negativo, ou adverso,
quando uma ação reduz a qualidade de um fator ambiental.
š Critério de ordem: impacto direto, primário ou de primeira ordem, quando re-
sulta de uma simples relação de causa e efeito; e impacto indireto, secundário
ou de enésima ordem, quando é uma reação secundária, em relação à ação, ou
quando é parte de uma cadeia de reações.
š Critério de espaço: impacto local, quando a ação fica restrita ao próprio sítio
e às suas imediações; impacto regional, quando o efeito se propaga por uma
área além das imediações do sítio; e impacto estratégico, quando é afetado um
componente ambiental de importância coletiva, nacional ou internacional.
š Critério de tempo: impacto em curto, médio e longo prazo, quando o efeito surge,
respectivamente, no curto, médio e longo prazo.
š Critério de dinâmica: impacto temporário, quando o efeito permanece por um
tempo determinado, após a ação; impacto cíclico, quando o efeito se faz sentir
em ciclos, constantes ou não; e impacto permanente, quando cessada a ação,
os efeitos não cessam num horizonte de tempo conhecido.
150 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

š Critério de plástica: impacto reversível, quando cessada a ação, o fator ambiental


retorna às suas condições originais; e impacto irreversível, quando cessada a
ação, o fator ambiental não retorna às suas condições originais, num horizonte
de tempo conhecido.
š Critérios de cumulatividade e sinergia: impactos cumulativos possuem a pro-
priedade de se somarem no tempo e os sinérgicos são aqueles que interagem
com impactos já existentes, resultando na multiplicação ou neutralização das
alterações ambientais.

Esses atributos têm sua aplicação associada às três atividades da análise de impacto
(identificação, previsão e avaliação), sendo que, na avaliação dos impactos são rele-
vantes além da magnitude, os critérios de plástica, de dinâmica e de cumulatividade
e sinergia e a importância relativa do impacto.
A magnitude, neste caso, é uma grandeza absoluta, de medida extensiva do grau ou
escala do impacto, podendo ser definida como a medida de alteração no valor de um
fator ou parâmetro ambiental, em termos quantitativos ou qualitativos. Enquanto a
importância é uma medida relativa e refere-se à significância da causa sobre o efeito,
em outras palavras, é a ponderação do grau de significância de um impacto em relação
ao fator ambiental afetado e a outros impactos da atividade.
A sistematização da avaliação de impactos pode utilizar os critérios dos atributos
isoladamente, combinar em análise multicriterial, ou ainda ponderar numericamente,
possibilitando quantificar a importância e adotar valores diferenciados para os critérios.
O Quadro 5.7 exemplifica o uso destes critérios na avaliação qualitativa da impor-
tância de um impacto ambiental.

Quadro 5.6. Exemplo do uso dos critérios na avaliação da importância de impactos ambientais
Identificação do impacto Atributo Detalhamento
Fator Ambiental Sócio Econômico
Localização ADA
Valor adverso
Interferência no patrimônio
Magnitude grande
histórico e arqueológico
Dinâmica permanente
Fb|ij_YW irreversível
Significância alta

Essa sequência de atividades e etapas conduz e se materializa no EIA, de conteúdo


aprofundado e linguagem técnica e no RIMA, uma síntese do estudo, em linguagem
coloquial, que tem a função de informar à população impactada e interessada, quali-
ficando sua participação na etapa de consulta pública.

a) Análise técnica
Esta etapa é normalmente realizada por equipe técnica adequada ao escopo do
estudo e sob a responsabilidade do órgão ambiental responsável pelo licenciamento. A
análise técnica verifica se a proposta está adequadamente descrita, se a identificação, a
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 151

previsão e a avaliação dos impactos ambientais, suas respectivas medidas mitigadoras


e compensatórias estão adequadas, se os programas de monitoramento propostos são
suficientes e se as conclusões sobre a viabilidade ambiental do empreendimento estão
bem fundamentadas.
Para conduzir esta análise técnica, o órgão responsável deverá se orientar por re-
gulamentações próprias de cada jurisdição, pelo TR elaborado e emitido pelo próprio
órgão licenciador e por critérios de ordem técnico-científica de qualidade, incluindo:
rigor metodológico, descrição adequada e objetiva do empreendimento e do ambiente
e isenção e consideração de valores e aspectos sociais da comunidade na avaliação da
importância dos impactos.
A análise de conteúdo e o julgamento dos EIA têm se orientado na prática pelo cri-
tério de comparação com o TR, o que facilita o trabalho, porém limita o seu alcance,
por não considerar aspectos que podem estar ausentes do próprio TR.
Tendo em vista o caráter público da AIA, a análise dos estudos pode ser conduzida
por outros atores sociais com interesse no processo, destacando-se: o próprio em-
preendedor, associações da sociedade civil (ONGs, associações de moradores, entre
outros), o Ministério Público e a comunidade científica. Aspectos como: alternativas
locacionais e tecnológicas adicionais, deficiências no diagnóstico ambiental ou na
análise dos impactos, medidas ambientais adicionais e outros itens não esclarecidos
no estudo podem ser apontados e debatidos durante a consulta pública do processo.

b) Comunicação e consulta pública


Os mecanismos de participação pública são inerentes à origem da AIA, tendo sido
ratificados constitucionalmente no Brasil. A sua função no processo é possibilitar aos
interessados a oportunidade de esclarecer dúvidas junto ao empreendedor e à equipe
técnica responsável pelo EIA/RIMA, bem como, o de possibilitar a manifestação dos
diferentes atores sociais quanto às suas expectativas e eventuais objeções ao empreen-
dimento. A Resolução Conama n. 001/1986 determina a divulgação pública do RIMA,
estabelecendo um período para consulta e manifestação escrita ou oral dos interes-
sados, durante ou após um determinado período à realização da audiência pública.

c) Decisão
Esta etapa envolve critérios técnicos (análise ambiental) e políticos, podendo
assumir modelos diferenciados em cada jurisdição. Em geral, a decisão final sobre a
implementação de um empreendimento cabe à autoridade ambiental ou a um órgão
colegiado com representação governamental e da sociedade civil, os denominados
Conselhos de Meio Ambiente. A decisão pode:
(i) aprová-lo incondicionalmente;
(ii) aprová-lo com condições a serem cumpridas pelo empreendedor;
(iii) reprová-lo nas condições propostas, podendo neste caso, solicitar alterações
de localização ou tecnológicas no empreendimento que possibilitem uma nova
análise pelo órgão ambiental.
A vinculação do processo de AIA ao LA conduz o poder de decisão aos órgãos licen-
ciadores, que deverão contar com equipes técnicas compatíveis com as demandas dos
empreendimentos, capazes de emitir pareceres técnicos fundamentados e observando
152 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

princípios éticos que norteiam a atividade pública, atentos à responsabilidade civil e


criminal a que estão sujeitas suas decisões (Brasil/TCU, 2007; Machado, 2005).
Do ponto de vista político, prioridades e interesses socioeconômicos podem ser
divergentes entre os atores sociais, podendo conduzir a diferentes pontos de vista sobre
a viabilidade ou inviabilidade de uma proposta. Como mencionado anteriormente,
existem etapas do processo de AIA em que os resultados estão sujeitos a certo grau de
subjetividade e que podem, em situações extremas de conflito de interesses, ser palco
para disputas políticas, ou mesmo judiciais.

d) Acompanhamento
A implementação das medidas ambientais, às quais a aprovação do empreendi-
mento está vinculada, pode, por dificuldades ou limitações técnicas, administrativas
ou econômicas, não corresponder ao que foi proposto no EIA. Podem-se distinguir as
atividades de supervisão e auditoria, sob responsabilidade do empreendedor e a de
fiscalização, sob responsabilidade das autoridades ambientais.
Esta etapa tem a função de identificar e corrigir possíveis irregularidades, ou mesmo,
em situações extremas, revogar a licença, caso não seja possível garantir as condições
de qualidade ambiental que a fundamentaram (Milaré, 2001).

5.6. Principais métodos e técnicas de AIA


Este item dedica-se a apresentar os principais métodos e técnicas aplicados: (a) na
identificação prévia das causas (ações e atividades impactantes); (b) na determinação
da área de influência do empreendimento impactante; (c) no diagnóstico do sistema
ambiental (caracterização do ambiente afetado); (d) na previsão e avaliação da mag-
nitude, da importância e das consequências (impactos) ambientais.

5.6.1. Contextualizando
Enquanto os procedimentos formais de condução da AIA podem ser considerados
universalmente similares, os métodos e técnicas de condução dos estudos variam lar-
gamente. Especialmente, quando consideramos as especificidades e a complexidade
das inter-relações dos ambientes socioeconômico e ecológico.
Em realidade existe uma infinidade de possíveis interações entre as atividades de
um empreendimento e o ambiente, sendo que caberá aos responsáveis pela condução
dos estudos: (a) identificar as interações mais relevantes; (b) prever a magnitude dos
potenciais impactos; (c) avaliar a sua significância e importância.
A realização destas tarefas exige uma variedade de métodos e técnicas próprias ou
que foram apropriadas para o uso em AIA. A decisão sobre qual método utilizar é uma
tarefa que exigirá da equipe condutora do estudo, conhecimento e experiência, consi-
derando sempre o equilíbrio entre os aspectos técnicos, administrativos e financeiros.
Esta escolha deve se orientar por alguns elementos característicos da AIA e conside-
rar a importância de garantir um processo sistemático e transparente, descrevendo com
clareza as suposições, origem e qualidade das informações e os critérios de atribuição
de importância utilizados.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 153

5.6.2. Principais métodos e técnicas utilizados em AIA


No estudo dos métodos e técnicas é importante elucidar a diferença entre estes
conceitos. O conceito de método está mais associado aos procedimentos de condução
do processo em si, enquanto o de técnica encontra-se mais associado a uma ferramenta
específica (Wathern, 2004).
Os métodos e técnicas de AIA são instrumentos utilizados para coletar, analisar,
avaliar, comparar, organizar e apresentar informações qualitativas e quantitativas sobre
os impactos ambientais de uma atividade antrópica (Silva, 1994a).
Podem ser aplicados, segundo Ibama (1995) para: ordenar (por exemplo, listas de
controle), agregar (por exemplo, matrizes, diagramas), quantificar (por exemplo, mo-
delos de simulação, análise multicritérios) e representar graficamente informações.
É importante mencionar que não existe uma metodologia única para todas as fases
de realização de um EIA. Durante o processo várias técnicas e métodos são combina-
dos, sendo as escolhas condicionadas à disponibilidade de dados, recursos humanos e
financeiros, tipo de empreendimento, tempo, dentre outros. A seguir são relacionados
alguns dos principais métodos utilizados.

a) Listas de checagem (check lists)


Consiste numa relação de fatores e parâmetros ambientais que podem ser pontuais
ou descritivos e podem envolver valores quantitativos e ponderações.
Foram os primeiros métodos utilizados em AIA e continuam sendo utilizados, no-
tadamente na fase de diagnóstico. Os seguintes tipos de listagem se destacam:
š Controle simples: são o tipo mais comum, enumeram fatores ambientais e em
alguns casos os parâmetros para serem utilizados na avaliação da magnitude dos
impactos. Ao longo dos anos foram sendo elaboradas listagens específicas para
muitos tipos de projeto, como por exemplo, hidroelétricas, estradas e portos;
š Controle descritivas: são semelhantes às listagens simples, porém possibilitam
uma descrição dos impactos, colaborando na fase de análise dos impactos. Em
muitos casos podem assumir a forma de questionários;
š Controle escalares: são classificadas como um tipo de método quantitativo, pois
permitem atribuir valores numéricos ou símbolos para os fatores ambientais,
possibilitando classificações e comparações de alternativas locacionais ou tec-
nológicas do projeto;
š Controle escalares ponderadas: permitem a ponderação entre os diferentes im-
pactos, a partir da inclusão da importância do impacto através de pesos distintos.

b) Matrizes de Interação
As matrizes interativas ou de causa-efeito são métodos qualitativos e preliminares
para valorar as diversas alternativas de um mesmo projeto (Fdez-Vítora, 1997). Consiste
em um quadro de dupla entrada, matriz, no qual duas listas distintas são organizadas
ao longo dos eixos perpendiculares. Nas linhas são listados os fatores ambientais e nas
colunas, as ações do projeto. A matriz resume e exibe as interações entre uma lista de
ações e as características ambientais. Cada célula de interseção representa a relação
de causa e efeito geradora do impacto.
154 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

A mais conhecida é a Matriz de Leopold (1971) que serviu de base para a formação
de outros modelos. Desenvolvida pela Sociedade Geológica Americana, a Matriz de Le-
opold, tem como objetivo identificar as interações possíveis entre os componentes do
projeto e os elementos do meio. Nesta matriz constam cem ações humanas que podem
causar impactos ambientais, e 88 componentes ambientais que podem ser afetados
por ações humanas. São, portanto, 8.800 interações possíveis onde cada intersecção
causa-efeito é avaliada em termos de magnitude e importância.
Para o cálculo da magnitude devem ser considerados o grau de intensidade, a pe-
riodicidade e a amplitude temporal do impacto, conforme o caso. Pode ocorrer que
numa avaliação, um impacto tenha uma magnitude elevada, porém, seja considerado
pouco importante quando comparado a outros impactos, que por sua vez, podem ter
uma magnitude menor.
A interação entre estes dois elementos (magnitude e importância) é marcada na
célula comum a ambos. Quando uma ação tem efeito em uma das características am-
bientais, na célula apropriada da matriz, são marcadas a magnitude e a significância
do impacto (Shopley e Fuggle, 1984).
Segundo Tommasi (1993), o método da Matriz de Leopold permite uma rápida
identificação, ainda que preliminar, dos problemas ambientais envolvidos num dado
projeto. É abrangente, pois envolve aspectos físicos, biológicos e socioeconômicos.
Apresenta, porém, desvantagens como não permitir avaliar a frequência das intera-
ções nem fazer projeções no tempo, apresentar elevada subjetividade sem identificar
impactos indiretos.
Sua operacionalização se dá da seguinte forma: os avaliadores devem indicar nas
células que representam impactos, um traço diagonal. Na parte superior é atribuída
pontuação referente a magnitude atribuída ao impacto, usando uma escala de 1 (me-
nor magnitude) a 10 (maior magnitude), classificando o impacto positivo com sinal
de mais (+) e o impacto negativo com sinal de menos (–); na parte inferior anota-se o
valor da importância do impacto.
Segundo Leopold et al. (1971) apud Sánchez (2008), a matriz tem também a função
de comunicação, pois apresenta um resumo da avaliação ambiental e possibilita aos
leitores identificarem rapidamente os impactos significativos.
Tommasi (1993) cita como limitação do método a possibilidade de um impacto
poder ser considerado duas vezes, já que este método não estabelece o princípio da
exclusão e não relaciona os fatores segundo seus efeitos finais. Além disso, não esta-
belece um sistema para centralizar a atenção nos aspectos mais críticos do impacto e
não distinguem efeitos em curto e médio prazos.
Sáchen e Hacking (2002), apud Sánchez (2008), propõem uma construção semelhan-
te à Matriz de Leopold inovando na adoção do conceito de aspecto ambiental, ou seja,
direcionado para novos empreendimentos propostos por instituições que possuam um
sistema de gestão ambiental. Assim, durante a preparação do EIA já são identificados
aspectos e impactos ambientais, possibilitando o planejamento de medidas corretivas
e/ou mitigadoras.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 155

c) Redes de Interação (diagramas de sistemas)


De acordo com Sanchez (2008), os diagramas de interação ou redes de interação,
indicam as relações sequenciais de causa e efeito a partir de uma ação impactante,
empregando o raciocínio lógico dedutivo, no qual, a partir de uma ação, são inferidos
seus possíveis impactos ambientais.
As redes de interação são formas gráficas, representando cadeias de impactos ge-
rados pelas ações do projeto em diagramas. Identificam os impactos indiretos ou de
ordem inferior, relacionando o conjunto de ações que contribuem direta ou indireta-
mente para a magnitude de um impacto (Braga et al., 2005).
Permitem associar as ações de um empreendimento às características ambientais de
sua área de influência, por meio de uma listagem bidimensional. Em um dos eixos são
relacionadas as características do ambiente e, no outro, as ações do projeto, em suas
diversas fases. Na interseção dos dois eixos, são assinalados os impactos que devem
ocorrer, avaliando magnitude, importância, natureza e duração.

Figura 5.7. Etapas do apoio multicritério à decisão.


Fonte: Lupatini, 2002
156 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Utilizando as redes de interação é possível relacionar uma sequência de impactos,


a partir de determinada ação.
Neste método são utilizados diagramas, gráficos ou fluxogramas que permitem
evidenciar impactos diretos e indiretos sem limites, mas isso pode resultar em figuras
complexas e de difícil compreensão, devendo nestes casos, subdividir em mais de um
diagrama. A Figura 5.7 apresenta um exemplo de diagrama de rede simplificado.
Outra limitação das redes refere-se à simplificação das interações, o que dificulta
uma abordagem adequada para os aspectos sociais e de alguns processos ecológicos
na identificação de impactos.

d) Método da análise benefício-custo


Trata-se de um método que busca valorar os benefícios (fatores positivos) e custos
(fatores negativos) dentro de um mesmo padrão monetário. A limitação deste método
está na necessidade de valoração monetária de indicadores qualitativos ao lado de
quantitativos.
A proposta deste método é valorar todos os impactos: ambientais, financeiros, so-
ciais, dentre outros, e compará-los numa base incremental, considerando a diferença
entre o cenário do projeto e um cenário alternativo sem o projeto.
Para comparação das alternativas com base no benefício/custo ou benefício líquido
(diferença entre benefícios e custos), deve-se calcular o valor da expressão a seguir
(Braga et al., 2005), optando por aquele que obtiver o melhor resultado.

T ( B t – Ct )
VP( BL ) = ∑
t =0 (1 + r )t

Em que:
s VP(BL) = valor presente da alternativa em análise;
s T = período de tempo correspondente a extensão da análise;
s Bt e Ct = valores computados para os benefícios e custos de cada alternativa em
análise previstos no tempo t;
s r = taxa de desconto ou de atratividade;
s 1/(1 + r)t = fator de atualização a ser aplicado ao BL no tempo t para trazê-lo a
valor presente a uma taxa de desconto r;

No entanto, por se tratar de valoração ambiental, é inerente uma parcela de risco, pois
se trabalha com estimativas e/ou julgamentos de valor de cunho subjetivo e, na maioria
das vezes, de elevada complexidade. Esse assunto será objeto do Capítulo 14 deste livro.

e) Análise multicriterial
Segundo Kimura e Suen (2003), a análise de decisão multicriterial envolve quatro
elementos comuns:
(i) um conjunto finito de alternativas;
(ii) relações de compromisso entre atributos relevantes;
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 157

(iii) unidades incomensuráveis (de naturezas distintas) e


(iv) matrizes de decisão.

Assim, os modelos baseados em múltiplos critérios são úteis em situações que


envolvem características qualitativas e quantitativas e que podem eventualmente
contraporem-se entre si, tais como:
(i) critérios financeiros relativos ao empreendimento;
(ii) critérios financeiros relativos à empresa executora;
(iii) critérios ambientais;
(iv) critérios econômicos,
(v) critérios sociais, entre outros.

Esta metodologia é indicada na avaliação de projetos que buscam atender as ne-


cessidades de múltiplos usuários e, na maioria dos casos, para os quais os benefícios
são difusos ou intangíveis.
Dentre os modelos múltiplos critérios, um dos mais aplicados é o Analytic Hierar-
chy Process (AHP). Desenvolvido na Wharton School of Bussines por Thomas A. Saaty,
possibilita aos tomadores de decisão modelarem problemas complexos numa estrutura
hierárquica, mostrando as relações entre metas, objetivos (critérios), subobjetivos e
alternativas, auxiliando-os a encontrar a melhor resposta (Betencourt, 2000).
Para Freitas et al. (1997), o método AHP pode ser utilizado como suporte nas fases de:
(i) definição de alternativas, quando os tomadores de decisão determinam crité-
rios de avaliação, comparando elementos quantitativos e qualitativos;
(ii) escolha da melhor alternativa, quando se avaliam quantitativamente as alternati-
vas, verificam-se os impactos não quantificáveis e seleciona-se a mais adequada.

Luz, Sellito e Gomes (2006) chamam a atenção para o fato de que indicadores quan-
titativos não expressam a realidade, mas possibilitam através de um modelo empírico
melhor comunicação pública de um assunto complexo. No entanto, Melo e Pegado
(2006) citam algumas vantagens da quantificação de indicadores:
(i) síntese e comunicação da complexa informação exigida para a gestão de sis-
temas ambientais;
(ii) identificação de prioridades de ação; e
(iii) medição das diferenças entre o desempenho atual e as metas.

O modelo multicritério pode ser representado por um conjunto de passos e


algoritmos, associados aos objetivos propostos (Figura 5.8). A sequência de passos
consiste em: definir o conjunto de ações (alternativas) que serão avaliadas, definir
os critérios de avaliações, a ponderação dos critérios, avaliar e agregar os resultados
em uma modelagem matemática predefinida e realizar análises de sensibilidade
(Soares, 2006).
158 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

f) Modelos matemáticos
Modelos são simplificações matemáticas que visam explicar um determinado aspec-
to da realidade. Os modelos matemáticos ou modelos de Simulação representam o que
há de mais moderno em termos de métodos de AIA, apesar de terem sido desenvolvidos
no final da década de 1970 (Souza, 2004). Funcionam como modelos matemáticos de
simulação, regressão, probabilidade, dentre outros, permitindo simular a estrutura e o
funcionamento dos sistemas ambientais, buscando considerar as relações biofísicas e
antrópicas mais relevantes para explicação do funcionamento do sistema.
Em AIA, os modelos têm sido frequentemente usados na avaliação da dispersão de
poluentes nos meios atmosférico e hídrico (superficial e subterrâneo).
Nesta abordagem, inicialmente obtém-se o potencial de emissão na fonte poluido-
ra, que pode ser calculado por meio de um balanço de massa ou estimado a partir de
fatores de emissão encontrados em estatísticas ambientais. Em seguida, a dispersão
aérea o no corpo hídrico é simulada com o auxílio de modelos matemáticos previamen-
te validados para determinada situação ambiental. Os resultados obtidos expressam
o potencial de dispersão e a concentração dos poluentes em função da variação das
condições ambientais possíveis (por exemplo, a intensidade e direção dos ventos ou
das correntes e estabilidade atmosférica). O modelo propriamente dito é constituído
pelo conjunto de equações que permitem a simulação.
Um dos modelos clássicos para avaliar a dispersão de poluentes atmosféricos são
os modelos gaussianos de dispersão atmosférica, desenvolvidos nas décadas de 1960 e
1970, que ainda hoje são utilizados na avaliação de impactos ambientais, especialmente,
na modelagem da dispersão de poluentes atmosféricos de uma fonte fixa, como uma
chaminé de uma fábrica (Seinfeld, 1986).
A equação a seguir expressa a distribuição de poluentes em condições de terreno
plano e emitidos a taxa constante.

⎛ y2 ⎞ ⎡ ⎛ ( z – Heff ) ⎞ ⎤ ⎛ ( z + Heff ) ⎞
2 2
Q
C ( x , y , z ,t ) = .exp ⎜ – 2 ⎟ . ⎢exp ⎜ – ⎟ + exp ⎜ – ⎟⎠
2π .u.σy.σz ⎝ 2σ y ⎠ ⎣ ⎝ 2σ z
2
⎠ ⎥⎦ ⎝ 2σ z
2

Em que:
s #X Y Z CONCENTRA½áODEPOLUENTENOPONTOX Y Z 
s u = velocidade do vento, em metros por segundo;
s Vy, Vz = coeficientes de dispersão na direção y e z, em metros;
s 1TAXACONSTANTEDEEMISSáO EMGRAMASPORSEGUNDO
s HALTURAEFETIVADAFONTEEMISSORA EMMETROS

g) Método Delphi – consulta a especialistas


A consulta a especialistas, em geral, é utilizada quando se tem pouco conhecimento
acerca do objeto de estudo ou quando requer a opinião de profissionais de diversas áreas
do conhecimento na resolução de problemas complexos, especialmente nos aspectos
específicos referentes a Avaliação de Impactos Ambientais em que prever os potenciais
impactos em médio e longo prazos nem sempre se constitui numa tarefa simples.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 159

Nesse contexto, destaca-se o Delphi, um dos métodos de consulta a especialistas


que tem se difundido cada vez mais. O método, técnica ou consulta Delphi surgiu na
década de 1950 na RAND Corporation, Califórnia, para fins militares na Força Aérea
Americana. Logo após popularizou-se ao ser aplicado em previsões tecnológicas e no
planejamento corporativo (Dalkey, 1969).
A escolha dos especialistas deve considerar a área de formação e o contexto da
análise, sendo a consulta realizada por meio de um questionário, sem a necessidade de
contato presencial com os entrevistados, garantindo o anonimato e a possibilidade de
interação entre os participantes. O método prevê a busca de um consenso após retornos
sucessivos das respostas às questões formuladas no questionário.
De forma simplificada a sequência de aplicação do método Delphi consiste em:
(i) delimitação do problema;
(ii) escolha dos especialistas;
(iii) envio do questionário;
(iv) feedback (retorno) aos respondentes;
(v) análise das repostas;
(vi) reenvio dos questionários aos respondentes até que haja um consenso ou não
para, a partir daí, proceder com a análise e avaliação das respostas e fechamento
da consulta Delphi.

O Delphi é um método de baixo custo e de caráter subjetivo e em geral, qualitativo,


devendo em determinadas situações ser associado a métodos quantitativos, como
forma de obter resultados mais consistentes na previsão dos impactos.

h) Sistemas de informações geográficas


Os sistemas de informações geográficas (SIG) são ferramentas computacionais que
permitem armazenar, integrar, analisar, construir modelos espaciais a partir de dados
digitais e apresentá-los graficamente. Os primeiros sistemas desenvolvidos no final
da década de 70 foram empregados em estudos de impacto ambiental de linhas de
transmissão, estradas e barragens (Haklay et al.,1998).
O potencial desta ferramenta está na possibilidade de lidar com propriedades espaciais,
o que coincide com as propriedades de muitos atributos ambientais de natureza espacial.
Nos últimos anos, uma maior disponibilidade de informações espaciais em formato
digital, tem possibilitado a redução de custos e de tempo pela utilização de SIG em AIA,
ampliando o potencial de uso desta ferramenta, apesar de que em muitos casos, os cus-
tos elevados e o tempo necessário ainda constituem um fator limitante ao uso do SIG.
Apesar do potencial de uso ser elevado, os usos mais frequentes do SIG na AIA ainda
estão limitados, sendo os mais comuns a produção e sobreposição de mapas.
O uso mais extenso do SIG depende de vários fatores, com destaque para: qualifi-
cação dos especialistas que atuam nos EIA, maior disponibilidade, melhor qualidade
e redução dos custos das informações espaciais digitais (Haklay et al., 1998).
Conforme mencionado anteriormente, existe uma infinidade de métodos próprios
à AIA, bem como, novos métodos têm sido frequentemente propostos e incorporados
ao arsenal de métodos de AIA.
160 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

5.7. Revisão conceitual


Neste capítulo foi introduzida a AIA, como um dos instrumentos de Gestão Am-
biental associada ao LA de empreendimentos e atividades, podendo ser definida como:
[...] um instrumento com métodos e procedimentos próprios, adequados para prever
as consequências sociais e ambientais de atividades humanas com potencial de afetar
negativamente o meio ambiente e comunicá-las de forma adequada aos atores sociais,
fundamentando e motivando a participação social no processo de decisão.

Os conceitos de ambiente, impacto, efeito e aspecto ambiental foram contex-


tualizados no âmbito da AIA, apontando para o entendimento de que o ambiente
relacionado a um determinado empreendimento, engloba o ambiente natural
(biótico e abiótico) e antrópico (sociais, econômicos e culturais). Alguns conceitos
básicos foram revisados e outros relacionados de forma mais específica à AIA foram
introduzidos, com destaque para o conceito de impacto adverso e benéfico, dano e
degradação ambientais.
Em sequência foram apresentados o histórico da AIA, relacionando os avanços
internacionais, especialmente nos Estados Unidos, e os reflexos na Política Nacional
de Meio Ambiente (PNMA), culminando com a promulgação da Lei n. 6.938/1981 que
definiu o Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama), propondo a criação do Conse-
lho Nacional de Meio Ambiente (Conama). A publicação da Resolução n. 001/1986 pelo
Conama é um marco no processo de institucionalização da AIA no Brasil, seguida de
outras resoluções e decretos específicos, com destaque para o Decreto n. 99.274/1990
e a Resolução n. 237/1997. Na sequência, o Licenciamento Ambiental Federal é deta-
lhado, apresentando os três principais tipos de licença – prévia (LP), instalação (LI) e
operação (LO) –, principais etapas e procedimentos formais da AIA.
Destacam-se as etapas de triagem, a definição do escopo do estudo, a elaboração dos
estudos ambientais. Apresenta-se o principal e mais completo dos estudos, o Estudo
de Impacto Ambiental (EIA) e seu respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA),
descrevendo o seu conteúdo, com destaque para: a caracterização das alternativas
tecnológicas e locacionais do empreendimento, incluindo a identificação e análise
preliminar dos impactos, o diagnóstico ambiental, a identificação e previsão dos im-
pactos, a avaliação dos impactos e a proposição de medidas e programas ambientais.
O processo de AIA tem sequência na apresentação e discussão pública do EIA/RIMA e
na análise e decisão técnica pelo órgão ambiental competente. No caso e aprovação, o
órgão ambiental é responsável pelo acompanhamento da implementação das medidas
e programas ambientais.
O capitulo conclui com a apresentação de alguns dos principais métodos e técnicas
utilizados na AIA, com destaque para: listagens, matrizes de interação, diagramas de
sistemas, análises custo-benefício e multicriterial, modelos matemáticos e o método
Delphi.
Capítulo 5 s!VALIA½áODEIMPACTOSAMBIENTAIS 161

5.8. Questões para estudo e aprofundamento


1. Discuta o que caracteriza e delimita o espaço de ação da AIA como instrumento da
PNMA.
2. Pesquise e reflita sobre a efetividade da AIA e a sua relação com os demais instru-
mentos de Gestão Ambiental em diferentes contextos socioeconômicos e culturais.

A partir de pesquisa direta no sítio do Sistema Informatizado de Licenciamento


Ambiental Federal (SisLic) (Ibama, 2012) na internet, responda as seguintes perguntas:
3. Qual a estrutura atual do Sistema de Licenciamento Ambiental no Brasil?
4. Como estão distribuídas as competências do LA entre os níveis federal, estadual e
municipal?
5. Quais as características do Licenciamento Ambiental Federal? Compare-a com as
características do Licenciamento Ambiental no seu Estado e Município.

Consulte o SisLic e obtenha as seguintes informações:


6. Escolha um período (em anos) e um estado da Federação e pesquise quantos em-
preendimentos foram licenciados. Classifique-os por estágio do Licenciamento,
seguindo a classificação utilizada pelo SisLic. Discuta o resultado por tipologia de
empreendimento (portos, rodovias, mineração, petróleo e gás etc.). Faça um gráfico
mostrando a evolução da demanda anual por licenciamento federal por categoria
nos últimos 10 anos. Discuta a evolução do LAF.
7. Escolha um empreendimento em fase final de LA, baixe todos os documentos dis-
poníveis para consulta e faça uma síntese do conteúdo e da sua função no processo
de LA. Para Análise de Impacto Ambiental são definidos atributos que permitem
avaliar os potenciais impactos de um projeto e suas interações com o ambiente.
De acordo com essa afirmação, discorra sobre a importância dos atributos do EIA/
RIMA selecionado anteriormente na AIA.
8. Leopold et al. (1971) desenvolveram um método de AIA que relaciona 4 (quatro)
parâmetros. Qual a sua opinião sobre a escolha destes parâmetros para a AIA?

5.9. Referências
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6
FheY[iieifheZkj_lei[W
poluição atmosférica
Electo Eduardo Silva Lora
Márcio Montagnana Vicente Leme

Conceitos apresentados neste capítulo


Neste capítulo são estudados os principais conceitos que ligam os processos pro-
dutivos à poluição atmosférica. Balanços de massa e energia aplicados aos processos
produtivos são apresentados através de diferentes exemplos. As fontes e efeitos dos
principais poluentes atmosféricos e os fundamentos básicos das tecnologias utiliza-
das no controle da poluição são também objeto deste capítulo. Depois, estudam-se
os padrões de qualidade do ar e como inventários de emissão podem ser elaborados
com alguns exemplos. Por fim, discutem-se os problemas ambientais de abrangência
global enfrentados pelo homem: o esgotamento da camada de ozônio, a chuva ácida e
o aquecimento global, e sobre as medidas de mitigação adotadas e propostas.
166 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

6.1. Introdução
É de conhecimento geral que a poluição atmosférica está diretamente ligada aos
processos produtivos, estabelecidos para suprir as necessidades humanas na forma de
produtos ou energia. Por exemplo, para produzir o papel no qual este livro está impresso,
uma árvore teve de ser cortada e processada através de mecanismos físicos e químicos
no interior de uma indústria. Durante este processo, consumiram-se recursos natu-
rais escassos como o diesel utilizado para cortar e transportar a madeira; geraram-se
poluentes atmosféricos, na forma de particulados, óxidos de nitrogênio e dioxinas no
processo de branqueamento da celulose; além de efluentes líquidos como o licor negro,
um composto de alta carga orgânica, produzido pela dissolução da lignina da madeira.
Para cada produto podem existir diferentes processos produtivos que geram maior ou
menor grau de impactos ambientais. Ou, então, um processo já existente pode ser melho-
rado para que apresente uma melhor eficiência ambiental. Voltando ao exemplo anterior,
para reduzir seus impactos, as fábricas de papel e celulose substituíram o cloro elementar
utilizado no clareamento por dióxido de cloro para minimizar a formação de dioxinas e o
licor negro passou a ser queimado em caldeiras para recuperação da energia contida neste
resíduo, o que por sua vez diminuiu uma série de outros problemas ambientais.
Sempre que economizamos energia ou a recuperamos como no caso do licor ne-
gro, evitamos diversos impactos ao meio ambiente, como será visto no Capítulo 13.
Isto ocorre porque a geração de energia está atrelada à degradação ambiental, ou seja,
qualquer processo de geração e utilização de energia é, de alguma forma, nocivo à
manutenção das condições ambientais. Usinas hidrelétricas provocam o alagamento
de grandes regiões, com consequente modificação da fauna e da flora, e a inundação de
cidades, ocasionando o deslocamento de populações. Isto além de emissões de metano,
decorrentes da degradação da matéria orgânica retida no reservatório da usina. Usinas
termelétricas queimam combustíveis fósseis produzindo CO2, reponsável pela maior
parte das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) na atmosfera, além de óxidos de
nitrogênio, enxofre, particulados e traços de mercúrio, que tem impactos negativos na
saúde humana e causam as chuvas ácidas.
A questão que fica é: como suprir as necessidades do homem por produtos e manter
o desenvolvimento econômico sem degradar o meio ambiente? Diversas ferramentas de
gestão ambiental estão sendo desenvolvidas para responder e solucionar esta questão.
O balanço de massa e energia dos processos produtivos é utilizado nesse contexto como
ferramenta para auxiliar o entendimento dos processos produtivos em relação às suas
entradas e saídas e, consequentemente, sobre seus impactos no ambiente. Esta análise
constitui a base para a implementação de medidas mitigatórias.
Nos processos produtivos, boa parte destas saídas dizem respeito às emissões de
poluentes atmosféricos que alteram negativamente a qualidade do ar se não forem
propriamente controlados. Todos os dias, em média, uma pessoa inala 20.000 litros de
ar, e com ele inúmeras substâncias tóxicas emitidas pelos mesmos processos produtivos
estabelecidos para suprir suas necessidades. A poluição atmosférica gerou grandes
preocupações no século passado e, desde então, medidas foram tomadas para previnir
seus impactos. Hoje, rigorosas legislações limitam as emissões de poluentes e inúmeras
tecnologias foram desenvolvidas para controlá-las. Ainda assim, hoje, a poluição do
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 167

ar é um problema crítico em extensas regiões do mundo. A Organização Mundial da


Saúde – OMS afirma num relatório recente que a poluição do ar em ambientes externos
é a causa da morte de 1,3 milhão de habitantes no mundo anualmente (Who, 2011).

6.2. Balanços de massa e energia no controle da


poluição atmosférica
O balanço de massa e energia é uma ferramenta básica no controle da poluição e
é fundamentado no princípio da conservação de massa e energia. De uma maneira
simples, os princípios dizem que, em qualquer processo, não se pode criar nem destruir
matéria ou energia, apenas se pode transformá-los de uma forma em outra. Portanto,
dizemos que a massa e a energia sempre se conservam.
O primeiro passo no balanço de massa e energia é definir as fronteiras do sistema a
ser avaliado, ou seja, decidir qual parte do processo será estudado e onde ele começa e
termina. Os limites de um sistema aberto (onde existe saída e entrada de massa e energia)
são definidos utilizando o termo “volume de controle” (VC). Depois é necessário desco-
brir o que ocorre com a massa e energia quando passam por ele. Para isso, desenha-se
um fluxograma de suas operações e avaliam-se os fluxos de matéria e energia em seu
interior. As substâncias que entram no sistema têm três destinos possíveis: saírem inal-
teradas, acumularem-se no sistema ou serem convertidas em outras substâncias.
A Figura 6.1 mostra os limites de um VC
definido para um lavador de gás. Como entra-
das, temos o gás sujo e a água, e como saída
temos gás limpo e um efluente líquido. Dois ou
mais equipamentos podem estar inseridos no
interior de um VC, normalmente, constrói-se
os limites do sistema de maneira à maximizar
o uso das informações disponíveis.
Assim, se conhecemos a quantidade de
material e energia que entra em uma cadeia
de processos, definida pelo VC, e podemos
calcular as transformações que ocorrem em
seu interior, podemos definir as quantidades
de materiais e energia que são emitidos por
nosso sistema.
Figura 6.1. Lavador de gás.

Para um VC, estes princípios são expressos pelas seguintes equações:

Massaentra – Massasai = 'MassaVC (6.1)

Energiaentra – Energiasai = 'EnergiaVC (6.2)


168 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Para um volume de controle em regime permanente tem-se que a variação da


energia ('Energiavc) e a variação da massa (Massavc) no seu interior são iguais a zero.

Estes balanços são utilizados em uma grande variedade de cálculos para controle
da poluição, por exemplo, para avaliar as seguintes situações:
š Quantidade de materiais requeridos para um processo produtivo.
š Formação de produtos da combustão em caldeiras, turbinas ou fornos.
š Taxas de vazão de gases de fontes múltiplas.
š Taxas de infiltração de ar em sistemas de controle de poluentes.
š Taxas de coleta de cinzas em sistemas de controle da poluição do ar.

E, para se estabelecer balanços de massa e energia, as seguintes etapas devem ser


seguidas:
1. Desenhar o fluxograma do processo.
2. Identificar e rotular todos os fluxos de entrada e saída.
3. Definir os limites do sistema através de linhas tracejadas (parte do processo que
fará parte do balanço o VC, como já definido).

Exemplo 6.1

O problema a seguir ilustra como um balanço de massa pode ser utilizado em um teste de emissões. Neste
[n[cfbe"WjhWlƒiZ[c[Z_‚[i"Z[j[hc_dek#i[gk[eÔkneZ[[djhWZWZ[]|i[ckcÓbjheZ[cWd]WƒZ[
99.000 m³/min com 1 g/m³ de concentração de particulados e a saída de gases é de 108.000 m³/min com
0,05 g/m³ de particulados não removidos.
Deve-se determinar a quantidade de cinzas (particulados removidos pelo filtro) que serão retiradas por hora
no aparelho.

99.000 m3/min. 108.000 m3/min.


1 g/m3 0,05 g/m3
Filtro de manga

Solução:
Neste volume de controle temos:

c ] ⎛ 'a] ⎞ ⎛ ,&c_d ⎞
Massa = 99.000 ×1 × ×
entra min m³ ⎜⎝ 1000g ⎟⎠ ⎜⎝ 1h ⎟⎠

c ] ⎛ 'a] ⎞ ⎛ ,&c_d ⎞
Massa = 108.000 × 0,05 × × + Cinzas
sai min m³ ⎜⎝ 1000g ⎟⎠ ⎜⎝ 1h ⎠⎟

Através do Balanço de massa (equação 6.1) temos,

9_dpWi = CWiiW Å CWiiW o Cinzas = 5.616 a]


entra sai h
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 169

4. Classificar toda informação pertinente em um registro.


5. Selecionar uma base de referencia adequada para os cálculos (unidade do pro-
duto, ou do insumo, unidade de volume do gás etc.).

O uso de energia requer transformações em sua forma e controle de seus fluxos. Por
exemplo, quando carvão é queimado em uma usina, a energia química presente no
carvão é convertida em calor (energia térmica), em energia potencial de vapor supe-
raquecido (alta pressão e temperatura), que é então convertido em energia mecânica
numa turbina a vapor e energia elétrica nos geradores da usina.

Exemplo 6.2

Na empresa em que trabalha, você foi designado a estimar as emissões de GEE geradas pela produção de 1t
de Carbeto de Silício (SiC).
O SiC é um composto sintético largamente usado como abrasivo. Em sua produção CO2 é gerado como um
subproduto da reação entre a sílica e o carbono. Coque de petróleo é utilizado como fonte de carbono e a
fórmula descrevendo a equação é dada a seguir.
O2
SiO2 + 3C ⎯⎯→ SiC + 2CO ⎯⎯⎯ → 2CO2

O coque usado na reação contém 90% de carbono fixo, e parte do carbono, cerca de 1/3, é sequestrada pelo
produto.

Solução:
Com uma tabela periódica podemos encontrar a massa molecular dos compostos:

SiO2 = 30 g/mol ; C =12 g/mol ; SiC = 26 g/mol ; CO = 20 g/mol ; CO2 = 28g/mol.

:[WYehZeYecWYecfei_‚€e_d\ehcWZW"[c'jZ[Yegk[j[cei/&&a]Z[YWhXedefkhe"egk[Yehh[ifedZ[W-+
acebZ[9$:[WYehZeYeceXWbWd‚ecebWhZWh[W‚€e"Yec[ijWgkWdj_ZWZ[Z[YWhXede"j[ceiW\ehcW‚€eZ[0

(+acebZ[Z[I_9[+&acebZ[9E2.

Kj_b_pWdZeWcWiiWceb[YkbWhZeiYecfeijei\ehcWZeifeZ[cei[dYedjhWhWcWiiWZ[I_E[9E2 formada:

-+acebSiC * 26 g/mol = 1,95 t de SiC


+&acebCO2 * 28 g/mol = 1,4 t de CO2

A relação entre a formação dos produtos pode ser encontrada da seguinte maneira:

mCO 1, 4
R= 2
= = 0,75 [tCO2/tSiO]
mSiO 1,95

Deste modo, a cada tonelada de SiO produzida são formados aproximadamente 0,75 t de CO2.

Podemos acompanhar os fluxos da energia e as mudanças na sua forma usando


balanços de energia, que são análogos aos da massa discutidos anteriormente. Fazemos
isso baseados na 1a lei da termodinâmica ou lei da conservação da energia. A mesma
afirma que a energia não pode ser produzida nem destruída (princípio da conservação
de energia) e pode ser assim expressa:
170 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

W – Q = 'Esistema (6.3)

Em que:
W – Q = o calor (Q) e o trabalho (W) trocados entre um sistema termodinâmico;
'Esistema = a variação de energia do sistema

Deste modo, para um sistema em regime permanente, a energia total que entra
nos limites de um sistema deve ser igual à energia que sai, menos a geração líquida de
energia em seu interior. Observe a Figura 6.2. Assumindo que o sistema encontra-se
em regime permanente, podemos escrever o balanço de energia como:

 a (Ua + ECa + EPa ) = W – Q + m


m  b (U b + ECb + EPb ) + m
 b (Pb Vb ) – m
 a (Pa Va ) (6.4)

Figura 6.2. Balanço de energia em um sistema de controle de poluentes atmosféricos.


Fonte: Cooper e Alley, 2002.

Em que:
Ua, Ub = energia interna do fluído nos pontos a e b [kJ/kg];
EPa, EPb = energia potencial do fluído nos pontos a e b [kJ/kg];
ECa, ECb = energia cinética do fluído nos pontos a e b [kJ/kg];
W = trabalho mecânico realizado sobre o sistema (positivo por convenção) [kW];
Q = calor cedido pelo sistema (negativo por convenção) [kW];
m a ,m
 b = fluxo de massa nos pontos a e b [kg/s];
PaVa, PbVb = trabalho realizado pelas fronteiras do fluído ao entrar e sair do sistema
respectivamente [kW];
Pa, Pb = pressão nos pontos a e b [kPa];
Va, Vb = volume específico nos pontos a e b [m³/kg].
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 171

Note que, para definir o balanço de energia na equação (6.4), o termo 'E da equação
(6.3) foi simplesmente detalhado em três tipos de energia: potencial, cinética e interna.
Pode-se expressar a Eq. (6.4) de uma forma mais usual incorporando-se o conceito
de entalpia H, em que:

H = U + PV (6.5)

Entalpia é uma grandeza física que mede a máxima quantidade de energia de um


sistema termodinâmico que, teoricamente, pode ser removida dele na forma de calor.
De acordo com a definição (Eq. 6.5), a entalpia engloba a energia interna do sistema (U)
e a energia armazenada no conjunto sistema-vizinhança (PV). A entalpia de algumas
substâncias pode ser encontrada em tabelas termodinâmicas (Moran e Shapiro, 2002).
Aplicando o conceito de entalpia podemos reescrever a equação (6.4):

 a (Ha + ECa + EPa ) = W – Q + m


m  b (Hb + ECa + EPa ) (6.6)

Próximo às condições ambientes o ar comporta-se aproximadamente como gás ideal,


e sua entalpia independe da pressão. Deste modo, a grandeza pode ser calculada por:
Tb

ΔH = H b – Ha = ∫ CpdT (6.7)
Ta

Onde:
Cp = calor específico a pressão constante [kJ/kg ºC]
T = Temperatura absoluta [ºC]

Para temperaturas abaixo dos 150 ºC, pode-se utilizar a seguinte aproximação:

ΔH = Cp(med)( ΔT) (6.8)

Exemplo 6.3

DW<_]khW,$*"Whi[YeW'&&aFW[()&±9fWiiWWjhWlƒiZ[kciefhWZehZ[.aM[kcjheYWZehZ[YWbehW
kcWjWnWZ[*"+a]%i$EWhiW_ZejheYWZehZ[YWbehW'(&aFW[+&±9$7l[beY_ZWZ[cƒZ_WZeWhdW[djhWZW
do soprador é de 45m/s, e a velocidade na saída do trocador é de 76m/s. A eficiência do soprador é de 50%.
7iikc_dZegk[ei_ij[cW[ijWX[c_iebWZe"Z[j[hc_d[WjWnWZ[h[ce‚€eZ[YWbehdejheYWZeh[caM$:WZei0
CFWh'*&±93'$&'+a@%a]±9

Solução:
FWhWiebkY_edWhefheXb[cW"fh_c[_hWc[dj["Z[l[ceiZ[i[d^Wheib_c_j[iZei_ij[cW[c[ijkZe"YececeijhWZe
na Figura 6.4, e depois realizar o balanço energético do VC criado, já montado na equação (6.6).
Como a diferença de altura entre os pontos a e b é pequena, podemos assumir: EFW =EFX e desconsiderar este
termo. Além disso, como o sistema está em regime permanente, m a = m
b = m
 , deste modo o balanço energético
do VC fica:
GÅM3m  ('HXÅW + 'E9XÅWEjhWXWb^eWZ_Y_edWZeWeÔkneZ[WhfeZ[i[hYWbYkbWZeZWi[]k_dj[cWd[_hW0

M3&$+ Å.aM3Å*aM
172 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

FehZ[Ód_‚€eejhWXWb^eh[Wb_iWZeieXh[kci_ij[cWƒd[]Wj_le$FWhWYWbYkbWhWlWh_W‚€eZ[[djWbf_W[djh[ei
pontos a e b podemos usar CFc[Z.

()&± 9 + +&± 9
Jmed = = '*&± 9
2

Δ>XÅ W = 9Fc[Z JX Å JW  = '"&'++& Å ()& = Å'.($-a@ % a]

A variação da energia cinética é dada por:

⎛ l 2 Å l 2a ⎞ ⎛ -,2 Å *+2 ⎞
Δ;9XÅ W = ⎜ b = ⎟⎠ = '.-+ @ % a] = '".-+a@ % a]
⎝ 2 ⎟⎠ ⎜⎝ 2
Assim temos:

G3Å*!*$+'".-+Å'.("-
G3Å.'-"-aM

FehZ[Ód_‚€e"ei_dWbd[]Wj_le_dZ_YWgk[ei_ij[cWf[hZ[.'-"-a@%ia@%i3aMZ[YWbehfWhWikWih[ZedZ[pWi$

6.3. Principais poluentes atmosféricos


Poluentes atmosféricos consistem em gases, líquidos ou sólidos presentes na at-
mosfera em concentrações suficientes para prejudicar a saúde do ser humano, outros
organismos ou mesmo danificar materiais. Apesar dos poluentes atmosféricos também
serem emitidos por fontes naturais, como erupções vulcânicas, as atividades humanas
liberam diferentes tipos de substâncias na atmosfera e representam a maior contribui-
ção para a poluição do ar nos dias atuais.
Mais significante que a contribuição global, do ponto de vista humano, é o fato de
a maior parte dos poluentes produzidos pelos processos produtivos estarem concen-
trados em áreas urbanas e de grande concentração populacional, o que agrava nossa
percepção em relação ao problema.
Antes de iniciarmos, é importante diferenciar os poluentes tóxicos, que alteram a
qualidade do ar local e regionalmente, dos não tóxicos, que causam outros problemas
em escala global como o aquecimento da Terra e a destruição da camada de ozônio.
Por exemplo, o dióxido de carbono (CO2) é um gás relativamente inerte nas condições
ambientes e não é prejudicial à saúde do homem, entretanto é o maior responsável
pelo aquecimento global.
Deve-se sempre ter em mente que o efeito de um poluente na saúde depende de
três fatores: a concentração do poluente na atmosfera; sua toxicidade; e o tempo de
exposição a este poluente. Por exemplo, ficar exposto a um poluente altamente tóxico
em baixa concentração e por um curto período, pode ser menos grave do que o contato
com um poluente pouco tóxico, mas em alta concentração e por um longo período.
Devem se distinguir os poluentes primários e secundários, os primeiros emitidos
diretamente da fonte para a atmosfera e os segundos resultantes de reações químicas
entre poluentes primários. Exemplos de poluentes primários são o ozônio, nitrato de
peroxiacetilo, acido sulfúrico e nítrico e outros.
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 173

Hoje, as duas principais fontes dos poluentes atmosféricos são o transporte (fon-
tes móveis) e os processos industriais (fontes estacionárias), apesar de incêndios
florestais, propositais ou acidentais, também contribuírem significantemente para
o agravamento da poluição. Os principais poluentes emitidos por estas fontes são os
óxidos de nitrogênio (NOx), os óxidos de enxofre (SOx), o monóxido de carbono (CO),
o material particulado (PM), os compostos orgânicos voláteis (COVs) e, finalmente, o
chumbo (Pb). Estes poluentes são os mais importantes, em termos legislativos, e serão
abordados neste capítulo.

6.3.1. Material particulado (PM)


Esta categoria de poluente compreende partículas sólidas ou gotas de líquido (aeros-
sóis) pequenas o suficiente para permanecerem suspensas no ar. O material particulado
é emitido através de processos como a movimentação de materiais (i.e. carregamentos
e armazenamento de materiais secos a granel) e, principalmente, na combustão que
libera pequenas partículas através da queima incompleta do combustível e/ou pela
presença de material inerte no mesmo, as cinzas.
Este poluente não possui uma composição química definida e, de fato, pode apre-
sentar variadas composições. Exemplos incluem fumaça, fuligem, poeira, fibras de
amianto, agrotóxicos, assim como alguns metais (incluindo Hg, Fe, Cu e Pb).
A pesar das diferentes composições, o material particulado é caracterizado apenas
por seu tamanho, determinado, comumente, pelo seu diâmetro esférico médio em μm
(dpi), conhecido como diâmetro médio de Sauter. Partículas menores que 10μm, são
chamadas de PM10 e as menores que 2,5μm são conhecidas como PM2.5. Partículas aci-
ma de 10μm geralmente não penetram nos pulmões e, no ser humano, são interceptadas
pela ação dos pelos e muco nasais. Partículas entre 10μm e 0,1μm, também chamadas
de partículas inaláveis, podem ficar depositadas nos brônquios e alvéolos pulmonares
e, portanto, causam os maiores impactos sobre a saúde humana.
Os efeitos dos particulados são muitos. Alguns podem ser tóxicos ou carcinogênicos
(como pesticidas, chumbo ou arsênio) e causar sérias doenças. Os emitidos por vulcões
podem alcançar a estratosfera e alterar significativamente a incidência de radiação
e o balanço térmico da atmosfera, causando alterações no clima global. Diferentes
autores mostram uma estreita relação entre a concentração de partículas inaláveis e a
mortalidade. Assim por exemplo um acréscimo na concentração de PM 2,5 em 10μg/
m3 aumenta a mortalidade em 6% (Acid Rain, 2006).

6.3.2. Óxidos de nitrogênio (NOx)


Óxidos de nitrogênio são formados durante a queima de combustíveis a partir da
oxidação do nitrogênio presente no ar ou, em menor quantidade, daquele presente na
composição química do combustível. Em altas temperaturas o N2 do ar ou do com-
bustível reage com o O2 do ar e forma o monóxido de nitrogênio (NO) ou o dióxido de
174 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

nitrogênio (NO2). O termo NOx se refere a uma mistura destas duas substâncias, po-
rém sabe-se que a formação de NO é predominante na combustão, atingindo valores
acima de 90% do total de NOx produzido, contudo, na atmosfera parte do NO oxida e
forma NO2.
Embora comparativamente pequenos, óxidos de nitrogênio também são emitidos
em processos industriais como na produção de ácido nítrico. Todavia, a maior parte é
emitida pela queima de gasolina e diesel utilizados no transporte e pela queima estacio-
nária de combustíveis para geração de calor útil (usado nas indústrias) ou eletricidade.
Além de causar a chuva ácida e serem precursores do ozônio troposférico, óxidos
de nitrogênio são imunotóxicos e, assim sendo, podem aumentar a suscetibilidade a
infecções no trato respiratório. Plantas podem apresentam necrose em concentrações
de 2 ou 10 ppm de NO2 e retardo no crescimento em 0,5 ppm. No homem são neces-
sárias concentrações de 10 a 30 ppm para causar irritação e desconforto. Entretanto, a
exposição prolongada pode causar fibrose ou enfisema pulmonar.

6.3.3. Óxidos de enxofre (SOx)


A emissão de óxidos de enxofre decorre da oxidação do enxofre ou de qualquer ma-
terial que o contenha. A maior parte das emissões deriva da queima de combustíveis
fósseis no transporte e na geração de energia. Por exemplo, o carvão pode conter até
6% de enxofre em sua composição. Fundições e refinarias de petróleo também emitem
quantidades significativas de SO2. O poluente primário normalmente é o SO2, porém
ele é vagarosamente oxidado em SO3 na atmosfera.
Os óxidos de enxofre são os maiores precursores da chuva ácida, pois hidrolisam
com a água e formam o ácido sulfúrico (H2SO4), causando sérios danos ao ambiente.
Eles ainda aumentam a susceptibilidade a doenças pulmonares e irritam as vias aére-
as. No homem, os limites para odor e paladar são de 0,3 a 0,5 ppm. Em concentrações
acima de 1ppm pode ocorrer broncoconstrição; acima de 10 ppm ocorre a irritação
dos olhos e vias aéreas. O SO2 pode estar adsorvido nos particulados e alcançar partes
mais profundas do pulmão, agravando seus efeitos a saúde.

6.3.4. Monóxido de carbono


O monóxido de carbono (CO) é um gás incolor, inodoro e insípido gerado pela
combustão incompleta de qualquer combustível que contenha carbono e permanece
na atmosfera, aproximadamente, por um mês antes de ser oxidado em CO2.
Usinas que produzem energia pela queima de combustíveis são projetadas cuida-
dosamente para garantir a queima completa do carbono e não emitem quantidades
significativas de CO. A principal fonte do poluente é o setor de transportes. O uso de
conversores catalíticos nos carros reduz sua geração em até 90%, porém emissões
significativas podem ocorrer até que o catalisador esquente e passe a funcionar. Mo-
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 175

tores com ciclo Diesel apresentam emissões de CO significantemente menores que os


motores com ciclo Otto a gasolina (motores de ignição por centelha).
O CO é inerte para plantas e outros materiais, entretanto causa sérios efeitos na
saúde humana, pois reage com a hemoglobina do sangue, formando um composto
denominado carboxihemoglobina, impedindo que a mesma faça o transporte de oxi-
gênio. Dependendo da concentração e do tempo de exposição, os efeitos podem levar
a náuseas, dores de cabeça e até a morte.

6.3.5. Oxidantes fotoquímicos e compostos orgânicos voláteis


Os compostos orgânicos voláteis (COVs) definem um grupo de substâncias orgânicas
que se vaporizam facilmente nas condições ambientes em razão de sua baixa pressão
de vapor, dentre eles destacam-se os hidrocarbonetos leves como aldeídos, cetonas e
o Metano (CH4), dentre outros. O CH4 é o mais abundante dos COVs na atmosfera e é
um dos causadores do aquecimento global. Os COVs, também incluem o benzeno e
seus derivados, que são comprovadamente carcinogênicos, além de hidrocarbonetos,
precursores de oxidantes fotoquímicos como o ozônio, um poluente na baixa atmosfera.
Estes hidrocarbonetos são também gerados naturalmente pela decomposição da
matéria orgânica e por algumas plantas, como os pinheiros e alguns arbustos (um
exemplo destas substâncias são os terpenos). De fato, esta contribuição natural é re-
presentativa e compõe 6/7 do total de COVs emitido no planeta. Em algumas cidades
que se situam perto de florestas a ocorrência de smogs fotoquímicos é gerada por esta
fonte natural. Entretanto, a principal causa deste efeito nas grandes cidades é a alta
concentração de veículos.
O smog fotoquímico é resultante na alta concentração de oxidantes fotoquímicos na
atmosfera. Estes poluentes são gerados por uma cadeia complexa de reações químicas
que ocorrem na atmosfera. Estas reações envolvem COVs e NOx e são iniciadas pela
absorção da luz ultravioleta proveniente do sol. O principal produto desta reação é o
ozônio, um gás altamente reativo e oxidante, portanto prejudicial à saúde na troposfera.
Este é um poluente secundário e raramente é emitido diretamente por uma fonte. Em
razão dos COVs e dos NOx serem emitidos em grandes quantidades por veículos, os
oxidantes fotoquímicos são muito comuns nas grandes cidades.
O ozônio e outros oxidantes fotoquímicos irritam os olhos e as vias aéreas. A
irritação dos olhos ocorre quando a concentração atinge 100 ppb, e a tosse severa
ocorre com 2 ppm. A exposição prolongada pode levar a danos irreparáveis nos pul-
mões. Outros efeitos incluem a deterioração de couros sintéticos, tecidos, pinturas
e outros materiais.
Em dias ensolarados nas grandes cidades, o smog fotoquímico atinge seu pico no
começo da tarde, à medida que o tráfego e a radiação solar aumentam, e causa nas
pessoas os efeitos descritos anteriormente. A maioria das grandes cidades moder-
nas sofre este efeito, porém, ele é mais comum em cidades ensolaradas com climas
quentes e secos.
176 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

6.3.6. Chumbo
O chumbo (Pb) é altamente tóxico e seus efeitos no ser humano são reconhecidos
há séculos. Ele pode causar insuficiência crônica na formação do sangue e afetar o
desenvolvimento neurológico infantil. Este poluente atingiu seu pico na década de
1970, quando aditivos de chumbo eram introduzidos na gasolina para melhorar o
rendimento dos carros. Porém, apesar de sua proibição, o poluente continua presente
no solo, principalmente em ambientes urbanos mais antigos.
Hoje as principais fontes são as tintas baseadas em chumbo (de casas antigas), a
manufatura de chumbo, as baterias de chumbo, sendo ainda utilizado como aditivo
na gasolina em alguns países em desenvolvimento. O Brasil eliminou completamente
o chumbo dos combustíveis usados nos automóveis em 1992. Isto ocorreu em favor
da introdução dos catalisadores (usados para reduzir as emissões de CO, NOx e COVs
dos gases de escape) que não permitiam a utilização do composto e também em favor
do uso do álcool como aditivo à gasolina.

6.4. Medidas de controle da poluição atmosférica


Devemos sempre ter em mente que a poluição é gerada por nossa crescente ne-
cessidade de produtos e energia. Portanto, a forma primária de evitar os impactos
ambientais é sempre consumir menos energia e recursos. Por isso, podemos utilizar
o conceito dos 3 Rs (reduzir, reutilizar e reciclar) também para o controle da poluição
atmosférica.
Entretanto, produzir menos levaria a um grande impacto econômico e social, pois
isto afetaria, por exemplo, a criação de novos empregos e também o bem-estar so-
cial. Por este motivo, nas últimas décadas, existe uma pressão crescente para que os
processos industriais produzam mais, consumam menos recursos e emitam menos
poluentes. E deste modo, se tornem mais eficientes do ponto de vista ambiental e de
uso de recursos.
Por exemplo, na década de 1970 a eficiência média das termoelétricas a carvão era
de 20%, ou seja, a cada 100 GJ de energia contida no carvão produzíamos 20 GJ de ele-
tricidade. Hoje, este valor está na média de 30%, portanto com uma mesma quantidade
de carvão produzimos 50% mais energia. E desta maneira, as emissões específicas de
poluentes (por kWh gerado) são duas vezes menores. Além disso, hoje geramos menos
poluentes ainda, pois contamos com melhores tecnologias de controle de poluentes
atmosféricos.
Estas tecnologias foram desenvolvidas para controlar a emissão das substâncias
nocivas na atmosfera, reduzindo-as a níveis considerados seguros ao ambiente,
garantindo assim que as concentrações dos poluentes na atmosfera fiquem abaixo
dos níveis aceitáveis e se mantenha a qualidade requerida do ar. Estes níveis, esta-
belecidos pela legislação, são conhecidos como padrões de qualidade do ar e serão
explicados adiante.
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 177

Apresentaremos aqui, brevemente, os principais equipamentos usados no controle


dos particulados, assim como as principais formas de se controlar as emissões de NOx
e SOx.

6.4.1. Controle de particulados


Existem diferentes classes de equipamentos utilizados no controle de particulados,
os mais utilizados são os separadores mecânicos (como as câmeras de sedimentação e
ciclones), os filtros de manga, os precipitadores eletrostáticos e os lavadores de gases.
As câmaras de sedimentação são simplesmente seções de dutos onde a velocidade
do gás é diminuída, permitindo-se que as partículas possam sedimentar pela ação
da gravidade. Os separadores ciclônicos, removem as partículas fazendo com que o
fluxo de gás gire em um padrão espiral dentro de um tubo. Devido à força centrífuga,
as partículas se movimentam até as paredes do equipamento, escorregam e caem no
fundo do ciclone para serem então removidas (Figura 6.3).

Figura 6.3. Princípios de funcionamento dos separadores ciclônicos.

Os filtros de manga operam sob o mesmo princípio que um aspirador de pó. O ar


carregado de partículas é obrigado a passar através de um pano (Figura 6.4). À medida
que o gás passa pelo tecido, a sujeira se acumula gerando o que é conhecido como
torta de filtro, liberando o gás limpo. A torta deve ser frequentemente removida por
agitação ou fluxo reverso.
178 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 6.4. Princípios de funcionamento de um filtro de manga.

Os precipitadores eletrostáticos (Figura 6.5) aplicam uma força elétrica para separar
as partículas do fluxo de gás. Um potencial elétrico é estabelecido entre os eletrodos, e
as partículas que passam por ele adquirem carga. As partículas são então atraídas por
uma placa com carga oposta e o gás limpo flui através do dispositivo. Periodicamente
as placas devem ser limpas por agitação e raspagem.

Figura 6.5. Princípio de operação de um precipitador eletrostático.

Os lavadores de gás utilizam como princípio o impacto e intercepção da poeira por


gotículas de água. As gotículas, agora maiores e mais pesadas, são facilmente separa-
das do gás por gravidade. A poeira deve ser separada da água por outros métodos de
tratamento, e a água pode ser reutilizada ou descartada (Figura 6.1 e Figura 6.6).
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 179

Figura. 6.6. Lavador de gás do tipo Venturi com spray


pré-formado por bocais pneumáticos.

Embora generalidades devam ser evitadas, algumas considerações podem ser uti-
lizadas para a seleção destes equipamentos.
Os coletores mecânicos são tipicamente mais baratos que os outros, entretanto
apresentam eficiências moderadas. Eles funcionam muito bem para partículas de gra-
nulometria grossa, mas nem tanto para os particulados finos. São muito utilizados no
pré-tratamento, antes dos dispositivos mais eficientes, especialmente quando a carga
de particulados é alta. Filtros de manga possuem uma alta eficiência e podem lidar com
diferentes diâmetros de partículas, porém possuem um alto custo e são limitados para
trabalhar em condições secas e de baixa temperatura.
Os precipitadores eletrostáticos suportam altas vazões de gás e geram baixas que-
das de pressão com altas eficiências de remoção, porém são caros e pouco flexíveis
caso ocorram mudanças nos padrões de operação. Podem ocorrer incêndios neles.
Os lavadores de gás também atingem altas eficiências e têm a vantagem de remover
outros tipos de poluentes simultaneamente, porém possuem altos custos de operação
(em razão da alta queda de pressão), e geram um efluente poluido que representa um
problema adicional a ser resolvido.
A Figura 6.7 sintetiza essas características, indicando os separadores apropriados
às diversas granulometrias de particulados.
180 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 6.7. Relação entre separadores de partículas e a granulometria das mesmas.


Fonte: cortesia da Lodge Sturtevant Ltda.

É importante sempre ter em mente que cada problema de poluição é único e de-
manda uma solução de engenharia específica. Durante a seleção de um equipamento
devem ser considerados os seguintes fatores: eficiência, padrões de emissão, consumo
de energia, custo de investimento, custos de operação e manutenção, natureza física e
química dos particulados e sua periculosidade.
Cada equipamento tem sua eficiência (E) determinada por seu balanço de massa,
ou seja, a relação entre a massa de partículas que sai (ms) e quantidade de partículas
que entra (me). Isto é medido, inversamente, através da taxa de penetração do sistema
(Pt), ou seja, a fração de massa que não é coletada por ele:

Pt= ms/me
E = 1 – Pt (6.9)
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 181

Caso o sistema apresente dispositivos em série, tem-se:


n
Pt 0 = ∏ Pt i (6.10)
i =1

Em que:
Pt0 = taxa de penetração global;
Pti = taxa de penetração do dispositivo i.

A eficiência de coleta global do sistema é simplesmente:

E0 = 1 – Pt0 (6.11)

A eficiência total pode ser calculada também a partir da eficiência por frações como:

Efi = 1 – Ptfi (6.12)

Em que:
Efi = Eficiência de separação das partículas com diâmetro dpi;
Ptfi = Taxa de penetração das partículas com diâmetro dpi.

Outro conceito importante é o diâmetro de corte (dpc), que representa o diâmetro


das partículas que são separadas com 50% de eficiência, ou seja, Efi = 0,5. Este parâmetro
indica que as partículas com diâmetro maior que dpc são recolhidas com eficiência no
mínimo superior a 50%, já que a eficiência dos dispositivos aumenta com o aumento
do tamanho das partículas.

Exemplo 6.4

Os seguintes dados foram obtidos de uma amostragem de particulados resultante de um processo industrial:

Dpi 2 6 10 20 40 50
Massa [mg] 25 125 100 75 30 5

KcY_Ybed[YecWii[]k_dj[iYWhWYj[h‡ij_YWiZ[[ÓY_…dY_Wfh[j[dZ[i[hWfb_YWZefWhWYedjhebWh[ijWi[c_ii[i0

Dpi
(0-2) (2-4) (4-7) (7-10) (15-25) (10-15) (25-40) (40-60) (>60)
(Pm)
E(%) 10 25 45 70 85 95 97 98 100

Com base nas informações, estime a eficiência global mínima deste sistema.
182 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Solução
FWhWh[iebl[hefheXb[cWj[ceiZ[Z[j[hc_dWhWjWnWZ[f[d[jhW‚€eZ[YWZW_dj[hlWbeZ[fWhj_YkbWZei"fWhW
isto podemos construir a seguinte tabela:

dpi me (mg) E ms (mg)


50 5 98% 0,10
40 30 98% 0,60
20 75 95% 3,75
10 100 85% 15,00
6 125 70% 37,50
2 25 10% 22,50
TOTAL 360 - 79,45

ms 79, 45
Fj = = = (("&-
me 360
E = 'Å Fj = 'Å &"((&- = --"/)
Desse modo, temos que a eficiência global do sistema é de 77,93%.

6.4.2. Controle de óxidos de nitrogênio e óxidos de enxofre


Os óxidos de nitrogênio podem ser formados tanto pelo nitrogênio contido no ar
quanto pelo nitrogênio contido no combustível. O primeiro caso possui dois meca-
nismos de formação conhecidos como “NOX térmicos” e “NOX rápidos”, e o segundo
apenas um conhecido como “NOX do combusível”.
Os NOX térmicos são formados pela reação do nitrogênio presente no ar com
oxigênio livre. A formação de NOX nesta reação é exponencialmente proporcional à
temperatura na zona de reação, quanto maior a temperatura, maior será a quantidade
de NOX térmico produzido.
Os NOX do combustível são formados pela reação entre o nitrogênio contido nas
moléculas do combustível com o oxigênio. Esta reação depende pouco da temperatura
e aumenta com o incremento de ar na combustão.
Os NOX rápidos são formados na frente da chama de combustão. Este mecanismo
de formação é pouco dependente da temperatura e parece estar mais relacionado com
os parâmetros da chama e da relação ar/combustível.
A Figura 6.8 mostra a fração de óxidos de nitrogênio obtida através de cada um dos
mecanismos analisados na faixa de temperatura presente em fornalhas de geradores
de vapor.
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 183

Figura 6.8. Formação dos óxidos de nitrogênio nas fornalhas de geradores de vapor.
Fonte: Sigal, 1988.

Obs.: Nota-se que na zona de altas temperaturas a formação de óxidos de nitrogênio pelo
mecanismo térmico é predominante. Nas zonas de temperaturas baixas predomina a
formação dos óxidos de nitrogênio do combustível. A linha superior na figura corresponde
ao valor total das emissões de NOX.

A emissão de óxidos de nitrogênio pode ser evitada atuando-se sobre os fatores


que determinam a sua formação, ou seja, na temperatura máxima de reação e sobre
a concentração de oxigênio nesta região. Métodos que atuam desta maneira são cha-
mados de métodos pré-combustão, o contrário, métodos pós-combustão (Tabela 6.1).

Tabela 6.1. Classificação dos métodos de controle das emissões de óxidos de nitrogênio

Tipo de método Denominação do método Fundamentação


Recirculação dos produtos da combustão
Combustão por etapas. Diminuição da temperatura e
concentração de oxigênio no
Queimadores com baixa emissão de NOx. núcleo da chama
Métodos pré-combustão Injeção de água e vapor
(preventivos)
Temperaturas de combustão
menores que em sistemas
9ecXkij€e[cb[_jeÔk_Z_pWZe
convencionais para combustíveis
sólidos pulverizados.
184 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Redução do NOx até N2 por


Redução seletiva não catalítica (SNCR) injeção de amônia sem a
Métodos pós-combustão utilização de catalisadores
(corretivos) Redução do NOx até N2 por
Redução catalítica seletiva (SCR) injeção de amônia com a
utilização de catalisadores

Fonte: Lora, 2002, p. 307.

Assim como nos particulados, normalmente utilizam-se vários destes métodos


simultaneamente para aumentar a eficiência global do sistema.
Os óxidos de enxofre são resultado exclusivamente da oxidação do enxofre contido
nas moléculas do combustível. Portanto, o principal método para se reduzir as emissões
de SOx é remover o enxofre do combustível antes que ele seja queimado, ou substituí-
-lo por um combustível com menor teor de enxofre. O segundo método consiste na
remoção dos óxidos de enxofre nos gases de exaustão. Considerando estas duas abor-
dagens, foram desenvolvidos diversos métodos para controlar este poluente. Os mais
utilizados tem como reagentes cal e calcário, que neutralizam os ácidos formados na
combustão. Este método possui eficiência de 98% e ainda apresenta bons indicadores
econômicos. Outros métodos incluem a utilização de magnésio e a combustão em leito
fluidizado com adição de calcário.

6.4.3. Padrões de qualidade do ar


Os padrões de qualidade do ar são definidos em legislações através de concentra-
ções máximas dos poluentes na atmosfera para determinados períodos de exposição
com o intuito de proteger a saúde das pessoas, animais e plantas. Estes padrões são
estabelecidos por meio de estudos científicos que relacionam os efeitos produzidos por
poluentes específicos e a sua relação com a saúde ambiental, deste modo são estabe-
lecidos limites de concentração que garantem uma margem de segurança adequada.
Em nível nacional, os padrões são estabelecidos através das resoluções do Conselho
Nacional do Meio Ambiente (Conama). A Resolução Conama n. 003, de 28/06/1990,
estabeleceu, em nível nacional, os padrões de qualidades do ar. Nela, foram definidos
os padrões primários e secundários de qualidade do ar.
Os primários são as concentrações de poluentes que se ultrapassadas poderão afe-
tar a saúde da população. Podem ser entendidos como níveis máximos toleráveis de
concentração de poluentes atmosféricos, constituindo-se em meta de curto e médio
prazo. Os padrões secundários de qualidade do ar são as concentrações de poluentes
atmosféricos abaixo das quais se prevê o mínimo efeito adverso sobre o bem estar da
população, assim como o mínimo dano à fauna, flora, materiais e ao meio ambiente
em geral. Podem ser entendidos como níveis desejados de concentração de poluentes,
constituindo-se em meta de longo prazo.
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 185

Tabela 6.2. Padrões nacionais de qualidade do ar (Resolução Conama n. 003/1990)

Padrão Padrão
Tempo de
Poluentes primário, secundário, Método de medição
amostragem
μg/m3 μg/m3
FWhj‡YkbWijejW_i 24 horas (1) 240 150 Amostrador de
em suspensão MGA (2) 80 60 grandes volumes
Dióxido de 24 horas (1) 365 100
FWheiWd_b_dW
enxofre MAA (3) 80 40
40.000 40.000
Monóxido de 1 hora (1) (35 ppm) (35 ppm) Infravermelho não
carbono 8 horas (1) 10.000 10.000 dispersivo
(9 ppm) (9 ppm)
Ozônio 1 hora (1) 160 160 Quimioluminescência
24 horas (1) 150 100
Fumaça H[Ô[j~dY_W
MAA (3) 60 40
FWhj‡YkbWi 24 horas (1) 150 150 Separação inercial/
inaláveis MAA (3) 50 50 filtração
Dióxido de 1 hora (1) 320 190
Quimioluminescência
nitrogênio MAA (3) 100 100

(1) Não deve ser excedido mais que uma vez ao ano.
(2) Média geométrica anual (MGA).
(3) Média aritmética anual (MAA).

Para garantir os padrões de qualidade são fixados os padrões de emissão. Estes


padrões são definidos para fontes poluentes prioritárias, através de outras resoluções.
As principais são:
š Resolução n. 08/1990 – Conama: define os limites máximos de emissão de po-
luentes do ar (padrões de emissão) para processos de combustão externa em
fontes novas fixas de poluição com potências nominais totais até 70 MW (setenta
megawatts) e superiores, para óleo combustível e carvão mineral.
š Resolução n. 264/2000 – Conama: define os limites de emissão atmosférica para
sistemas de coprocessamento de resíduos em fornos de clínquer.
š Resolução n. 316/2002 – Conama: define os limites de emissão atmosférica para
sistemas de tratamento térmico de resíduos.
š Resolução n. 382/2006 – Conama: define os limites de emissão atmosférica para
fontes fixas.

6.4.4. Inventários de emissões


O inventário de emissões atmosféricas compreende uma listagem que contém o
agrupamento das informações que caracterizam o potencial poluidor de uma região
ou de um setor específico. As principais informações de um inventário são a listagem
dos poluentes que são foco da avaliação, suas fontes emissoras, o nível de atividade de
186 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

cada fonte, os fatores de emissão adequados para o setor em foco, a faixa de incerteza
associada às estimativas de cada fonte e as estimativas das emissões de cada poluente.
As estimativas de emissões de uma fonte podem ser obtidas através de medições
diretas, porém, esta é uma atividade custosa, e caso não seja necessária às estimativas
podem ser obtidas através de cálculos ou fatores de emissão. Os fatores de emissão
representam a razão entre a quantidade de um poluente e uma unidade padrão. Por
exemplo, para um incinerador de lixo urbano temos um fator de particulados de 0,3 kg
por tonelada de lixo incinerada. Estes valores podem ser determinados para diferentes
fontes, diferentes poluentes e diferentes sistema de controle de poluição. A Agência
Ambiental dos Estados Unidos disponibiliza uma recopilação de fatores de emissão
de poluentes gasosos que é continuamente atualizada (EPA, 2011).
No Brasil, em São Paulo, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental
(Cetesb) produz relatórios sobre a qualidade do ar em diferentes regiões urbanas.
Neles são definidos fatores de emissão para fontes móveis e computadas as emissões
totais de fontes pontuais industriais de relevância para a região. O nível de atividade
de um setor produtivo, assim como o fator de emissão, tem papel fundamental para a
obtenção das estimativas de emissão.
Deve-se ter cautela ao utilizar os fatores de emissão, pois eles se referem a valo-
res típicos de emissão e sempre existe um nível de incerteza associado aos mesmos,
portanto, eles são normalmente utilizados em inventários gerais que englobam, por
exemplo, um setor ou uma região.
Os inventários de emissões são classificados de acordo com os procedimentos
adotados para sua elaboração. Basicamente, existem duas abordagens:
š Top-down: esta é uma abordagem mais geral, e utilizada como dados de entrada
o total de consumo de um dado insumo e o associa a um fator de emissão. Esta
abordagem é utilizada em situações cujas informações são escassas ou não estão
disponíveis; ou, quando os custos de coleta são elevados ou, ainda, o uso final
do inventário não justifica o investimento.
š Bottom-up: esta abordagem considera maiores detalhes da fonte avaliada e é
utilizada para fontes pontuais. Esta modalidade solicita mais recursos para a
coleta de informações do local específico. Portanto, suas informações são mais
precisas, pois utilizam informações diretamente relacionadas à fonte.

O GHG Protocol (http://www.ghgprotocolbrasil.com.br), desenvolvido pela World


Resources Institute (WRI) e World Business Council for Sustainable Development
(WBCSD), é amplamente utilizado por governos e empresas de todo o mundo para
calcular seus inventários de emissão. Trata-se de uma ferramenta de contabilidade
internacional que permite uma simples compreensão e quantificação dos GEE. Ele
disponibiliza uma metodologia bem aceita em âmbito internacional e orienta o con-
trole e registro de emissões de GEE de forma a garantir informações confiáveis para
a empresa e partes interessadas. A metodologia provê um quadro para a medição os
principais GEE e seus padrões de conversão para tonelada de CO2 equivalente.
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 187

O IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) é a principal referência de


metodologias de cálculo adotadas nos inventários de GEE. No seu banco de dados
encontramos, junto com estas metodologias, inúmeros fatores de emissão para o
consumo de combustíveis e para os mais diferentes setores produtivos, dentre eles
podemos destacar:
š Combustão estacionária: 2006 IPCC, Chapter 2, v.2 – Stationary Combustion –
Tier 1.
š Combustão móvel – transporte terrestre: 2006 IPCC, Chapter 3 – Mobile Com-
bustion.
š Combustão móvel – transporte aéreo de carga: Defra 2008 – Average Emission
Factors for All Air Freight Services.
š Combustão móvel – transporte marítimo de carga: Defra 2008 – Marine freight
transport.
š Consumo de energia elétrica: WRI/WBCSD GHG Protocol Initiative calculation
tool (January 2007).

Exemplo 6.5

Kc^ej[b"beYWb_pWZe[cI€e@eWgk_cI9"fh[j[dZ[Z[j[hc_dWhikWi[c_ii[iWdkW_iZ[=;;[Yec_iieeXj[h
resultados para elaboração de seu inventário de emissões. No estudo foram encontradas três fontes prioritárias
Z[[c_ii[i0kieZ[Z_[i[bfWhWejhWdifehj[Z[fhel_c[djei1Wgk[_cWZ[=BFfWhWWgk[Y_c[djeZeiWcX_[dj[i
e em sua cozinha; e o consumo de eletricidade por suas instalações.
Na análise, a empresa encontrou os seguintes resultados:
š Gk_bec[jhW][cWdkWbf[hYehh_ZWf[beiYWc_d^[ikiWZeidejhWdifehj[0*,$+,/ac
š 9edikceWdkWbZ[=BF0.&Xej_`[iZ[*+a]
š 9edikceWdkWbZ[[b[jh_Y_ZWZ[0,&$&&&aM^
š :WZei0EYedikcecƒZ_eZeiYWc_d^[iƒZ[,ac%bZ[Z_[i[b$

Solução:
D[ij[YWiej[ceijh…i\edj[iZ[[c_ii€e0eYedikceZ[Z_[i[b"Z[=BF[[b[jh_Y_ZWZ[$Dei_j[Ze?F99mmm$
_fYY$Y^feZ[cei[dYedjhWhei\Wjeh[iZ[[c_ii€eZ[=;;h[bWj_leiWeYedikceZeiYecXkij‡l[_i[e=MFZWi
Yecfed[dj[i[c_j_Zei$@|e\WjehZ[[c_ii€ecƒZ_eZW[b[jh_Y_ZWZ[][hWZWf[bei_ij[cW[d[h]ƒj_YeXhWi_b[_heƒ
[dYedjhWZedei_j[ZeC_d_ijƒh_eZ[9_…dY_W[J[Ydebe]_WiC9JÅmmm$cYj$]el$Xh$

Fator de Emissão (F)


t CO2/l t CH4/l t N2O/l
Diesel
2,63E-03 1,39E-07 1,39E-07
t CO2%a] j9>4%a] jD2E%a]
=BF
2,93E-03 2,88E-06 9,29E-09
t CO2/MWh
Eletricidade
0,0512
188 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

=MF100
CH4 21
N2O 310

FWhWeYedikceZe:_[i[bj[cei0

( ) ( ) (
;Diesel = 9edikceDiesel ⎡⎣ <CO2 + <CH4 =MFCH4 + <N2 ) =MFN2O ⎤⎦)
EDiesel = 20,32 tCO2eq

FWhWe=BF0

( ) ( ) (
;=BF = 9edikce=BF ⎡⎣ <9E2 + <9>4 =MF9>4 + <D2  =MFD2E ⎤⎦ )

6.5. Aquecimento global


O efeito estufa é indispensável para a vida na Terra, sem ele as temperaturas seriam
menores em aproximadamente 30 oC. O problema atual consiste na intensidade
excessiva do efeito, que gera o aquecimento anormal do planeta, causado pela ação
do homem no meio ambiente.
A temperatura efetiva de um planeta sem sua atmosfera é simplesmente função
de seu albedo (parcela de radiação solar que é diretamente refletida ao espaço) e sua
distância orbital. A Terra, com um albedo de 30%, teria uma temperatura média de
–18 ºC comparada com –57 ºC de Marte e –44 ºC de Vênus. Entretanto, alguns gases
presentes na atmosfera são capazes de mudar este quadro, principalmente o vapor de
água, o CO2, o CH4 e o N2O. Estes gases, conhecidos como os Gases do Efeito Estufa
(GEE), possuem a capacidade de absorver a radiação de ondas longas (infravermelho,
na faixa de 8 a 20 μm) emitidas pela superfície da Terra, causando o acúmulo de calor
na baixa atmosfera.
Nos planetas vizinhos da Terra é o CO2 que gera a maior parte do efeito estufa. Em
Vênus, onde a atmosfera é 97% CO2, a temperatura média é de 480 ºC e Marte, que
essencialmente não possui atmosfera, a mesma tem um valor médio de –60 oC. Na Terra
o efeito estufa aumenta a temperatura em cerca de 33 ºC passando para uma média de
15 ºC, portanto, podemos dizer que o efeito estufa é indispensável para a manutenção
da vida na terra como a conhecemos.
Em nosso planeta o vapor de água é o maior responsável pelo efeito estufa com 2/3
de contribuição sobre o efeito, seguido pelo CO2 com 1/4.
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 189

Figura 6.9. Balanço de energia anual médio para o sistema terra-atmosfera.


Fonte: Schneider, 1989, p. 27.

Nos últimos quatro bilhões de anos este efeito foi responsável por manter tempera-
turas na Terra que permitiram o desenvolvimento da vida. Apesar do vapor da água ser
o principal gás do efeito estufa, acredita-se que ele não é o responsável por desestabi-
lizar o clima, pois as quantidades de vapor de água na atmosfera são mais ou menos
constantes. A evaporação de água diminui à medida que a Terra esfria e aumenta à
medida que a Terra esquenta. Estudos sugerem que o responsável por esta estabilidade
é a concentração de CO2 na atmosfera. Porém, este mecanismo de compensação ainda
não está bem esclarecido pela ciência.
O efeito estufa foi identificado pelo francês Jean Fournier no início do século XIX. As
possíveis interferências humanas no mesmo foram identificadas pelo cientista Suedes
Svante Arrhenius, um dos primeiros ganhadores do prêmio Nobel, no fim do mesmo
século. Suas conclusões continham os fundamentos para o entendimento moderno do
fenômeno: um aumento geométrico nas concentrações de CO2 irá produzir aproxima-
damente um aumento aritmético na temperatura da atmosfera; o aumento será maior
nos polos e menor no equador; o hemisfério sul será o menos afetado; e as diferenças
de temperatura entre o dia e a noite serão menores.
No ano 1938, em um artigo titulado The artificial production of carbon dioxide
and its influence on temperature, o cientista Callendar G. chegou à conclusão que a
utilização dos combustíveis fósseis tem a propriedade de aumentar as concentrações
atmosféricas de CO2, com consequentes mudanças no clima. Porém, a possibilidade
de um aquecimento global causado pelo homem se tornou público apenas nos anos
1980 e hoje é a maior preocupação global em termos ambientais.
190 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

A teoria física envolvida no aquecimento global é relativamente simples e bem


conhecida há muitas décadas. O efeito estufa causa um aumento na capacidade da
Terra em acumular energia na forma de calor, sendo este valor conhecido como força
radiativa e será explicado adiante. Nos níveis atuais de concentração de GEE, esse
aquecimento corresponde a cerca de 1,6 Watt (J/s) por metro quadrado, ou seja, a Terra
ganha 1,6 Joule de calor por segundo por m². Com este dado pode-se estimar o aumento
de temperatura, que é igual ao total de energia acumulado durante um período dividi-
do pela capacidade calorífica do objeto que está sendo aquecido. No caso do planeta
Terra, podemos fazer aproximações e considerar que o solo é mau condutor de calor e
que serão aquecidos essencialmente a água do mar (CGEE, 2008).
Entretanto, a relação entre a temperatura global e a concentração dos gases do
efeito estufa não se mostra linear como na teoria, pois, na verdade, está sujeita a uma
complexa rede de eventos ainda não conhecida totalmente pela ciência.
Por exemplo, o aumento da concentração de CO2 causa o chamado efeito fertilizante
nas plantas, que faz com que as mesmas produzam mais matéria vegetal e sequestrem
mais CO2. Além disso, outros fenômenos que não estão relacionados ao aumento dos
GEE podem mudar o clima da Terra. Esses efeitos incluem as erupções vulcânicas; a
variabilidade da radiação solar na Terra; e a emissão de particulados antropogênicos.
O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanca do Clima (IPCC) prevê
um aumento das temperaturas médias globais entre 2 ºC e 4,5 °C, até o final do século.
Apesar de estes valores parecerem pequenos, com um decréscimo de 6 ºC teríamos
uma temperatura média do planeta semelhante a da última era glacial, que colocou
boa parte da Europa, Estados Unidos e Canadá debaixo do gelo. Também, a última vez
que a Terra aqueceu mais de 4,5 ºC os seres humanos não existiam no planeta.
De acordo com Parry et al. (2001) a partir de um acréscimo da temperatura média
terrestre de aproximadamente 1,4 oC deve-se observar um acréscimo considerável
da população afetada por estresse hídrico, malaria e fome, como consequência das
mudanças climáticas decorrentes do efeito estufa.
A preocupação atual é que os padrões de chuva e de correntes marítimas sejam
significantemente alterados em razão da maior retenção de energia na atmosfera o
que pode aumentar o número de eventos extremos na atmosfera, como furações, tem-
pestades e enchentes. Min et al. (2011) demostram a partir da utilização de modelos
climatológicos a relação existente entre as mudanças climáticas antrópica e o acréscimo
na intensidade das precipitações observado nos últimos anos. Além disso, são previstas
quebras de safra; ameaças à biodiversidade; mudança nos regimes hidrológicos, com
impactos sobre a capacidade de geração hidrelétrica; expansão de vetores de doenças
endêmicas; e o derretimento das calotas polares, que pode levar à elevação do nível do
mar e afetar regiões da costa, em especial as metrópoles litorâneas.

6.5.1.Causas do aumento da concentração de GEE e do GWP


Apesar das divergências entre os cientistas em relação às causas e os efeitos da
mudança climática global, a maioria defende que o homem está mudando o clima da
Terra e que a emissão de GEE é a responsável. O gráfico da variação da temperatura
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 191

média global da Terra no período entre 1880 e 2011 mostra que, neste intervalo, hou-
ve um aquecimento de 0,5 ºC, e que a década de 1980 foi a mais quente dentre elas
(Figura 6.10).

Figura 6.10. Variação da temperatura média anual da terra de 1880 a 2011.


Fonte: Giss, 2012.

Mediante as análises de bolhas de ar retidas no gelo glacial na Antártida e na Gro-


elândia, a concentração de CO2 na atmosfera pode ser determinada para os últimos
650.000 anos. Durante este tempo as concentrações de CO2 nunca foram menores que
180 ppm e nunca foram maiores que 300 ppm (Figura 6.11).

Figura 6.11. Concentração atmosférica de CO2 nos últimos 650 mil anos.
Fonte: Siegenthaler, 2005.
192 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Mais importante, durante a ascensão das primeiras civilizações, cerca de 5500 anos
atrás, e o começo da revolução industrial, os níveis de CO2 na troposfera variaram
entre limites de 250 a 290 ppm. Para se ter uma ideia, as primeiras medidas modernas
de CO2, que começaram a ser realizadas em 1958, já mostraram níveis de 315 ppm.
Em 2005 este nível já havia chegado a 380 ppm, um crescimento de 20% em 47 anos
(Blasing and Smith, 2006). Uma evidência forte de que o homem está influenciando
no balanço de CO2 na atmosfera.
Cenários de emissões recentes (assumindo diferentes taxas de queima de com-
bustíveis fósseis) chegam a conclusão que a concentração de CO2 na atmosfera estará
entre 540-970 ppm até o ano de 2100. Se isto se tornar realidade, esta será a maior
concentração de CO2 nos últimos 24 milhões de anos.
Apesar de já parecer preocupante, o CO2 é apenas metade do problema. A força ra-
diativa efetiva dele na troposfera é de 1,66 W/m² dos 3W/m² atuais, o restante é devido
aos outros GEE como o CH4, CFCs, O3 e N2O.
O IPCC define o termo “força radiativa” como a medida de influência que um fator
possui em alterar o balanço de energia no sistema atmosférico da Terra e é um indica-
dor da importância deste fator como um potencial mecanismo de mudança climática.
O conceito de força radiativa é bem simples. Energia chega constantemente a Terra
através da radiação solar, parte desta energia (cerca de 30%) é refletida novamente ao
espaço e o restante é absorvido pelo planeta. E assim, como qualquer objeto quente
cercado por um ambiente frio (no caso, o espaço), uma parcela desta energia é perdida
na forma de radiação infravermelha (calor). No balanço de energia deste sistema, se
o valor for diferente de zero significa que ou o objeto está aquecendo (se o valor for
positivo) ou esfriando (se o valor for negativo). A força radiativa é a medida direta do
balanço de energia na Terra.

Figura 6.12. Força radiativa global em 2005 para diferentes GEE


e outros mecanismos antropogênicos.
<edj[0?F99"(&&-$
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 193

Apesar de ser um conceito simples, determinar este indicador é algo bem trabalhoso
e complexo, devido aos motivos explicados nos parágrafos anteriores. O cálculo mais
preciso deste balanço foi publicado pelo IPCC em 2007, onde foi encontrado o valor
de 1,6 Watt por metro quadrado; deste modo, foi concluído que o balanço energético
da terra é positivo e que o planeta está esquentando.
A mudança do equilíbrio radiativo na superfície da Terra ('Ts) em razão de uma
variação da força radiativa ('F) de um determinado componente é determinada pela
seguinte equação:

ΔTs = λΔF [W/m²] (6.13)

Onde, O [K/(W/m²)] é a sensibilidade climática da força radiativa em questão. Este


valor estima a resposta do sistema climático em relação à mudança da 'F analisada.
Para um GEE, como o dióxido de carbono, 'F é definido da seguinte maneira:
C
ΔF = 5.35 × ln [W/m²] (6.14)
C0
Onde C é a concentração em ppmv e C0 é a concentração de referência. Este valor
é medido em relação às condições da era pré-industrial (1750). Estas equações podem
ser encontradas para todos os GEE em IPCC (2001).
A relação entre os GEE é dada pelo Potencial de Aquecimento Global (GWP), sigla
em inglês para Global Warming Potential. Este fator é definido pela relação entre o
aumento da força radiativa devido à emissão de 1 kg da substância (i) e o aumento
da força radiativa devido à emissão de 1 kg de CO2 ambos integrados ao longo de um
mesmo período de tempo t (anos):
t

∫ a [c (t)]dt
i i

GWPt,i = t
0
[tCO2 eq.] (6.15)
∫ a [c
0
CO 2 CO 2(t)]dt

Onde, ai é a eficiência radiativa da substância, definida como a força radiativa


por massa do incremento na concentração atmosférica do componente (i) expressa
em (W/m²)/ppm e [ci(t)] é o fator que determina a concentração da substância i na
atmosfera em relação ao tempo, entre o instante inicial de emissão (0) e seu tempo de
permanência na atmosfera (t).
Para cálculos de inventários ou reduções de emissão de GEE o IPCC recomenda o
uso do GWP100 do CO2, onde número 100 se refere ao tempo de residência de 100 anos
do gás na atmosfera (ou seja, a Eq. 6.15 é integrada de 0 a 100). Horizontes de tempos
longos (100 e 500 anos) são utilizados para o efeito cumulativo, enquanto horizontes
de tempo curto (20 anos) traduzem uma indicação dos efeitos de curto prazo das
emissões. As incertezas em relação ao valor do GWP aumentam com a extensão do
horizonte temporal.
194 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Tabela 6.3. Característica de alguns GEE na atmosfera


Concentração na era GWP
GEE Concentração atual Força radiativa
pré-industrial (1750) 20 anos 100 anos
CO2 280 ppm 388ppm 1 1 1,66
CH4 -&&FF8 '-*+FF8 72 21 0,48
N2O (-&FF8 )'*FF8 289 310 0,16
CFC-12 0 533 ppt 11000 8100 0,17
SF6 0 6,99 ppt 16300 23900 0,0029

<edj[0?F99"(&&-$

Existem inúmeras fontes de GEE; a seguir descreveremos as principais fontes dos


maiores causadores do aquecimento global.
a) Dióxido de carbono: o CO2 entra na atmosfera principalmente através da queima
de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural, carvão), resíduos sólidos, árvores e
produtos de madeira e também como resultado de reações químicas (por exemplo,
produção de cimento). Ele também é removido da atmosfera quando é absorvido
pelas plantas no ciclo biológico do carbono (sequestro de carbono).
b) Metano: é emitido durante o transporte e na extração de carvão, gás natural e petróleo.
Grandes emissões são decorrentes da agropecuária e cria do gado (digestão entérica
do gado) e outras atividades agrícolas e pela decomposição de resíduos sólidos.
c) Óxido nitroso: é emitido durante atividades industriais e agrícolas, assim como na
combustão de combustíveis fósseis e resíduos sólidos.
d) Gases fluoretados: hidrofluorcarbonos, perfluorcarbonos e hexafluoreto de enxofre
são GEE sintéticos e com alto GWP. Eles são emitidos por uma ampla variedade de
processos industriais. Estes gases são comumente utilizados como substitutos às
substâncias que provocam o esgotamento da camada de ozônio (por exemplo, CFCs).

6.5.2. Protocolo de Kyoto e mercado de emissões de GEE


O Protocolo de Kyoto é um acordo internacional que estabeleceu metas para 37
países industrializados objetivando a redução de emissões de GEE no globo. Este valor
foi estabelecido como 5,2% em relação às emissões de 1990 no período de 2008-2012.
Reconhecendo que os países desenvolvidos (listados no Anexo I do acordo) são os prin-
cipais responsáveis das atuais concentrações de GEE na atmosfera, como resultado de
mais de 150 anos de atividade industrial, o acordo estabeleceu uma maior carga a estes
países baseando-se no princípio das “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”.
O acordo foi adotado na cidade de Kyoto (Japão) em 11 de dezembro de 1997 e en-
trou em vigor em 16 de fevereiro de 2005. As regras detalhadas para sua implementação
foram adotadas na 7ª Conferência das Partes (COP 7), realizada na cidade de Marrakesh
em 2001, e são conhecidas como os “Acordos de Marrakesh”.
Nos termos do tratado, os países signatários devem atingir a maior parte de suas
metas primeiramente através de medidas e projetos de caráter nacional. Entretanto, ele
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 195

oferece a estes países meios suplementares para que possam atingir suas metas por três
mecanismos: o mercado de emissões, a Implementação Conjunta (IC) e o Mecanismo
de Desenvolvimento Limpo (MDL).

6.5.2.1. Mercado de emissões


As partes com compromissos assumidos no Protocolo de Kyoto aceitaram metas para
limitar ou reduzir suas emissões. Estas metas são expressas em “emissões permitidas”
durante o período de comprometimento (2008-2012). Estas permissões são emitidas
através de certificados chamados de Unidades de Quantidade Atribuída (UQA). Juntas,
estas UQAs totalizam a meta de redução estabelecida para todas as partes. Cada país
determina como suas UQAs serão distribuídas entre seus setores, de acordo com planos
nacionais de redução de emissões.
O comércio de emissões, tal como estabelecido no art. 17 do protocolo de Kyoto,
permite às instituições que têm UQAs de sobra a vendê-las para as que não consegui-
rem atingir suas metas. Desta forma, o modelo permite um benefício mútuo, onde as
instituições que apresentam um custo mais baixo para reduzir suas emissões de GEE
podem vender suas UQAs para aquelas que têm custos mais altos de redução em relação
às permissões por elas compradas. Assim, uma nova commodity foi criada na forma de
emissões reduzidas. Como o dióxido de carbono é o principal GEE e as unidades são
expressas em kg de CO2 equivalente, as pessoas falam simplesmente em “Mercado de
Carbono” e “Créditos de Carbono”.

6.5.2.2. Implementação conjunta


Basicamente, o mecanismo conhecido como “implementação conjunta” definido
no art. 6 do Protocolo de Kyoto, permite aos países com limites de emissão a adquiri-
rem Unidades de Redução de Emissão (URE) através de um projeto em outro país com
limites. Este mecanismo permite a estes países atingirem suas metas de maneira mais
barata, enquanto o país sede do projeto ganha em investimentos e transferência de
tecnologia. As UREs também são comercializadas no mercado de emissões.

6.5.2.3. Mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL)


O MDL, definido no art. 12 do protocolo, permite aos países com limites de emissão
implementarem um projeto de redução de emissões de GEE em um país em desenvol-
vimento. Estes projetos rendem os chamados Certificados de Emissão Reduzida (CER)
que podem ser contabilizados para o cumprimento de suas metas. Este mecanismo é
visto por muitos como pioneiro, pois é considerado o primeiro investimento ambiental
em regime de créditos de caráter global.
Um projeto MDL pode envolver, por exemplo, projetos de eletrificação rural com
a utilização de painéis fotovoltaicos, ou a instalação de caldeiras mais eficientes que
consomem menos combustíveis e emitem menos GEE. O mecanismo obriga que o
projeto contemple as premissas do desenvolvimento sustentável no país sede, a redução
196 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

de emissões e, ainda, dá aos países industrializados a chance de atingirem suas metas


de maneira mais flexível e barata.
O Protocolo de Kyoto é visto como um primeiro passo importante para um verda-
deiro sistema de reduções de emissão em nível global, pois proveu uma arquitetura
para qualquer acordo deste tipo no futuro. No fim do acordo em 2012, um novo acordo
internacional deve ser negociado e ratificado. Para que isto ocorra, está em negocia-
ção a entrada do antes maior emissor de GEE, os Estados Unidos, que não ratificou o
Protocolo de Kyoto, e também o estabelecimento de metas junto aos países em desen-
volvimento como Brasil, China e Índia, locais onde as emissões de GEE mais crescem.
Recentemente, a China superou os Estados Unidos como o maior emissor global de GEE.
No Brasil, o MDL teve grande impacto, e diversos projetos foram estabelecidos no
país desde 2005. Os projetos de MDL são divididos basicamente nas seguintes categorias:
š Fontes renováveis e alternativas de energia.
š Eficiência / conservação de energia.
š Reflorestamento e estabelecimento de novas florestas.

Para a obtenção de CERs ou créditos de carbono é necessária a submissão de um


projeto seguindo os trâmites do mecanismo. Obrigatoriamente, este projeto deve esta-
belecer sua adicionalidade e sua linha de base, além da metodologia de monitoramento
que será utilizada para verificar o cumprimento das metas de redução de emissões e/
ou de sequestro de carbono.
As atividades de um projeto de MDL são consideradas adicionais se as emissões
antropogênicas de GEE forem menores que as que ocorreriam na ausência do projeto
e/ou se o sequestro de carbono for maior que aquele que ocorreria na ausência do
projeto. A linha de base de um projeto de MDL é o cenário que representa as emissões
de GEE que ocorreriam na ausência do projeto (Figura 6.13).

Figura 6.13. Conceito de adicionalidade no MDL.


Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 197

Por exemplo, quando é realizado o aproveitamento energético da biomassa, uma


fonte de energia fóssil pode estar deixando de ser utilizada. Como não existe nenhum
país independente dos combustíveis fósseis na geração da energia, comumente a
parcela deslocada evitará o consumo de combustíveis fósseis, e consequentemente,
vai reduzir as emissões de GEE.
No que diz respeito ao aproveitamento energético dos Resíduos Sólidos Urbanos
(RSU), no Brasil houve a proliferação de projetos de queima de biogás de aterro com e
sem geração de energia envolvida. Já em países como China e Índia, podem-se encon-
trar, também, muitos projetos de incineração para geração de energia.
Os créditos de carbono, obtidos por projetos de disposição dos resíduos sólidos
urbanos (RSU), derivam de duas vertentes: a destruição ou a prevenção da formação
de gás metano, que possui GWP 21 vezes maior que o gás carbônico (considerando-se
um horizonte de 100 anos); e a geração de eletricidade livre de CO2 fóssil por proces-
sos de queima de biogás ou incineração dos resíduos. No Brasil, apenas os projetos de
queima de metano são explorados.
Hoje existem diferentes metodologias de linha de base aprovadas no âmbito do
MDL que preveem a utilização de diversas tecnologias para a redução de GEE. Elas
podem ser encontradas no portal do Ministério de Ciência e Tecnologia com versões
em português, ou então diretamente no portal da Convenção – Quadro das Nações
Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).
O gráfico a seguir mostra os principais setores onde o MDL é aplicado no Brasil.

Figura 6.14. Contribuição dos setores envolvidos no projeto de MDL no Brasil.

O setor de geração de energia e de eficiência energética inclui projetos de geração


de energia renovável, onde os combustíveis fósseis são substituídos ou, então, são
198 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

utilizados com maior eficiência. Projetos de aterros sanitários e de produção de bio-


gás a partir dos rejeitos da suinocultura preveem a destruição do metano gerado pela
decomposição anaeróbia de resíduos. Já os projetos relacionados com o N2O fazem
uso da destruição desta substância ou de medidas para evitar sua formação em setores
industriais para conseguirem os CERs.

Exemplo

A seguir apresentaremos um cálculo simplificado das emissões resultantes de um processo energético, a geração
de calor a partir do Gás Natural (GN). A produção de calor é necessária em diversas atividades industriais, como
secagem, cozimento, esterilização, entre outros.
Em uma indústria de processamento de laticínios esta energia é obtida através da queima do GN em uma
caldeira, que transforma a energia química contida no gás através da combustão em calor.
Esta indústria deseja reduzir suas emissões de GEE através da substituição do GN por biogás produzido em
kcW[ijW‚€eZ[jhWjWc[djeZ[[Ôk[dj[ifhŒn_cW"gk[Yedjƒc,&Z[c[jWde[cikWYecfei_‚€e$;ij_c[W
quantidade de GEE que podem ser reduzidos através deste procedimento. Dados: Considere que o gás natural
j[ckc\WjehZ[[c_ii€eZ[+,"'a]9E(feh=@Z[[d[h]_Wjƒhc_YWb_X[hWZW[cikWYecXkij€eYecfb[jW"
[gk[eX_e]|i"Yec,&Z[c[jWde"Wfh[i[djWkcFeZ[h9Wbeh‡ÓYe?d\[h_ehF9?Z[('")C@%c$7cWiiW
[if[Y‡ÓYWZec[jWdeƒZ[&"-.*a]%c$

Solução

D[ij[fhe`[je"W[c_ii€eZ[=;;ƒh[Zkp_ZWfehZkWicWd[_hWi$Fh_c[_he"f[bWikXij_jk_‚€eZe=Dfehkc
combustível renovável (Biogás), lembramos que o GN é um combustível fóssil e, portanto, sua queima leva a
emissão de GEE. Entretanto, quando queimamos o biogás estamos reduzindo também o metano a dióxido de
YWhXede"kc]|iYec=MF('l[p[ic[deh$
FWhWikXij_jk_h'=@Z[=Dfh[Y_iWh[ceiZ['=@Z[X_e]|i[fWhW_iiefh[Y_iWh[ceiZ[*-cZ[X_e]|i$FWhW
estimar as emissões reduzidas deste projeto faremos o seguinte cálculo:

;c = [;cGN ] + ⎡⎣;cbiogás × dCH4 × ρCH4 × =MFCH4 ⎤⎦

Em que:
Em = emissões reduzidas no projeto [t CO2 eq.]
EmGN = emissões evitadas pela substituição do GN [t CO2 eq.]
Embiogás = emissões de biogás [m³]
nCH = porcentagem de metano no biogás
4
UCH = massa específica do metano
4
=MFCH = potencial de aquecimento global do metano = 21
4

Assim temos,

=[ ]+[
ååååååååååå × × × ]= [tCO2[g%=@S

Deste modo, a cada Gj substituído por biogás neste projeto estaremos evitando aproximadamente a emissão
de 520,4 tCO2 eq. de GEE na atmosfera.
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 199

6.6. Esgotamento da camada de ozônio


O esgotamento ou depleção do ozônio estratosférico é outro problema ambiental de
caráter global. Este fenômeno está relacionado com o aquecimento global como con-
sequência do próprio ozônio, e alguns gases que provocam o esgotamento do ozônio,
serem também gases de efeito estufa. Por outro lado, o esgotamento do ozônio leva à
redução da temperatura na troposfera.
A preocupação com o esgotamento da camada de ozônio emergiu no início dos
anos 1970, quando estudos indicaram que uma possível frota de transporte por aviões
supersônicos poderia emitir NOX suficiente para prejudicar a camada de ozônio. O que
foi determinante para o fim deste plano.
Na metade dos anos 1970, a preocupação mudou de uma possível interferência
para um problema real. Descobriu-se que os clorofluorcarbonetos (CFCs) usados
como refrigerantes, propelentes, compostos de limpeza e a espuma para isolamento
poderiam estar esgotando a camada de ozônio troposférica, formando o chamado
“buraco” nitidamente observado na Antartida.
Para as substâncias que provocam o esgotamento da camada de ozônio existe um
indicador semelhante ao GWP para os GEE. Trata-se do Potencial de Esgotamento
do Ozônio – ODP (Ozone depletion potencial). Neste caso a referência está dada pelo
impacto do CFC-11.
O estudo intensivo dos efeitos dos CFC no ozônio estratosférico levou os Estados
Unidos a banir em 1979 a utilização destes compostos como propelentes em latas de ae-
rossóis. O aumento do uso de CFCs globalmente, em conjunto com o aumento no buraco
da camada de ozônio sobre a Antártida, convenceu 24 países industrializados a assinar o
Protocolo de Montreal em 1987 e 1990, que obrigou os países a se comprometer a zerar
a produção de CFCs até o ano 2000. Como resultado da implementação deste acordo,
e a consequente redução de compostos clorados na atmosfera, o buraco na camada de
ozônio aparentemente vem diminuindo nos últimos anos (Laat e Weele, 2011).
Entretanto, o tempo de vida das moléculas de cloro na atmosfera é de várias déca-
das, portanto o problema da destruição do ozônio ainda é uma grande preocupação
mundial, e as medições do buraco na camada de ozônio persistem até os dias atuais.
Ainda, especula-se que outros compostos emitidos pelo homem podem estar interfe-
rindo no esgotamento da camada.
A depleção da camada de ozônio levantou sérias preocupações em relação à
manutenção da saúde humana e ecológica se este problema continuasse. O ozônio
estratosférico absorve a luz ultravioleta (UV), diminuindo a quantidade que atinge os
organismos na superfície. Nos humanos, o aumento na radiação UV leva ao aumento
de câncer de pele, incluindo o melanoma. Outros organismos também são sensíveis ao
UV, por exemplo, o fitoplâncton declinou cerca de 6-12% na área próxima à Antártida,
afetada pelo buraco.
O ozônio é um elemento químico presente na atmosfera que apresenta uma contra-
dição. Na estratosfera sua presença é importante, pois absorve a radiação ultravioleta,
sendo que nela se concentra quase 90% de todo o ozônio atmosférico. Entretanto, na
troposfera o ozônio é um poluente, como visto na seção 6.2, por provocar irritação nos
olhos, deterioração das funções pulmonares e danos nas árvores e culturas agrícolas
(Figura 6.15).
200 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Satélites e medidores de superfície mostraram que existe um decaimento tempo-


rário da concentração de O3 (50-75% do total) na Antártida, entre 1 de outubro e 30
de novembro de cada ano. A concentração de O3 na atmosfera pode ser medida em
mPa (pressão parcial de ozônio na mistura de gases que constituem a atmosfera, em
partes por milhão – ppm (concentração volumétrica) e em unidades Dobson (Dobson
units – DU). Uma unidade Dobson se refere a uma coluna de gás que teria 10 μm de
espessura sob condições normais de temperatura e pressão (0°C e 1 atm). Por exemplo,
100 DUs trazidos para a superfície da terra iriam ocupar uma coluna de apenas 1 mm
de espessura. Antes da primavera, na Antártida, a leitura comum é de 275 DUs.
As reações químicas que levam a formação do ozônio estratosférico (O3) começam
com a fotodissociação da molécula de oxigênio pela radiação UV, que divide o oxigê-
nio (O2) em duas moléculas de oxigênio (O+O), os quais recombinam com o O2 não
dissociado (na presença de outra substância química, M) para formar o O3.

Figura 6.15. O ozônio troposférico e estratosférico.


Fonte: WMO, 1998.

(1) O2 + UV o O + O
(2) 2O2 + 2O2 + M o 2O3 + M
_________________________
(1)-(2) 3O2 + UV o 2O3

As duas moléculas de O3 rapidamente se convertem em O2 através das reações:


(3) O3 + UV o O + O2
(4) O3 + O o 3O2
__________________
(3)-(4) 2O3 + UV o 3O2
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 201

O processo de ganho e perda de moléculas de O 3 por fotodissociação é muito


importante, pois ajuda a prevenir que a radiação UV alcance a superfície da Terra. O
problema ocorre quando outras espécies químicas como o cloro (Cl), o monóxido de
cloro (OCl), ou o NO e o N2O entram na reação e reagem com o O3 diminuindo sua
concentração na estratosfera.
Equações da destruição do ozônio estratosférico, exemplo com o Diclorofluorome-
tano (R-12) (CCl2F2):

(1) CCl2F2 + UV o Cl + CClF2

(2) Cl + O3 o ClO + O2
(3) ClO + O o Cl + O2
_________________________
(2)-(3) O + O3 o O2 + O2

Os CFCs são inteiramente antropogênicos, não são produzidos naturalmente, já os


óxidos de nitrogênio são gerados pelas duas vias (Figura 6.15).

Figura 6.16. Causas e consequências do esgotamento na camada de ozônio.


202 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Entretanto, o N2O não foi banido pelo acordo de Montreal. E com a diminuição das
emissões dos CFCs ele se tornou a maior ameaça à camada de ozônio atual. Ravishanka-
ra et al. (2009) calcularam pela primeira vez o potencial de destruição de ozônio pelo
N2O. Foi concluído que em 2050 esse gás sozinho representará 30% do potencial de
destruição da camada de ozônio que todos os CFCs (e há dezenas desses gases) somados
em seu pico, nos anos 1980. Estima-se que, em média, um aumento de 20% no N2O
leva a um decréscimo de 1,1% para 2,6% da camada de ozônio.

6.7. A chuva ácida


O termo deposição ácida foi popularizado pela mídia como chuva ácida, que é
menos abrangente, pois as deposições ou precipitações ácidas podem ocorrer na
forma de chuva, neve ou até mesmo como precipitação de materiais sólidos ou
gasosos.
A deposição ácida ocorre devido à emissão de óxidos de enxofre e de nitrogênio
gerados pela queima de combustíveis que contém enxofre e/ou nitrogênio em sua
composição (ver seção 6.2). A principal fonte destas emissões é a queima de carvão
mineral em termoelétricas. As substâncias ácidas permanecem na atmosfera por 2
a 14 dias o que depende basicamente do regime de ventos, chuvas e outros padrões
climáticos. Durante este período elas podem ser levadas à superfície de duas formas,
a deposição úmida ou seca.
A deposição úmida ocorre quando os aerossóis atuam como núcleos de condensação
para formação de gotas de água, neve ou neblina. Já a deposição seca ocorre quando
os aerossóis se depositam diretamente nas superfícies. Em qualquer caso, quando eles
entram em contato com a água, os óxidos de enxofre ou de nitrogênio formam o ácido
sulfúrico ou o ácido nítrico, respectivamente.
Convencionalmente, é considerada ácida a chuva que apresenta valores de pH
menores que 5,6 (Figura 6.17, adiante). Este valor expressa o equilíbrio químico esta-
belecido entre o dióxido de carbono (CO2) atmosférico e sua forma ácida solúvel, o íon
bicarbonato (HCO3) em água pura. O decréscimo de uma unidade de pH significa um
aumento de dez vezes na concentração do íon hidrogênio.
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 203

Figura 6.17. A escala de pH e valores comumente encontrados na chuva ácida e na água


dos lagos acidificados.
Fonte: Harte, 1988.

Esses ácidos causam a acidificação dos solos de florestas, lagos e rios, afetando a
fauna e a flora destes ecossistemas. Eles também causam dano em estruturas feitas
pelo homem, como prédios, estátuas, superfícies pintadas e contribuem para doenças
respiratórias. A maioria da deposição seca ocorre dentro de 2-3 dias em locais próximos
às fontes de emissões, enquanto a deposição úmida ocorre dentro de 4-14 dias em
locais mais distantes, na direção predominante dos ventos.
As precipitações ácidas foram reconhecidas como um problema de poluição do
ar desde o início da revolução industrial. Com base em medições realizadas na Grã-
-Bretanha, de 1840 a 1870, mostrou-se que as concentrações de SO4-2 na chuva eram
maiores nas áreas industriais e foi observada a corrosão das paredes de pedra próximas
a estas áreas. Isto foi notado especialmente em regiões próximas das grandes plantas
de queima de carvão mineral.
A deposição ácida é um problema regional, principalmente em áreas que estão na
direção de ventos vindos de locais com indústrias que queimam carvão ou de locais
altamente urbanizados e com tráfego intenso. A Figura 6.18 a seguir mostra as regiões
do globo onde a deposição ácida já é um problema e os locais em que ela poderá vir
a se tornar.
204 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 6.18. Áreas de risco e afetadas pela deposição ácida no globo.


Fonte: Miller, 2006, p. 351.

Em algumas áreas, os solos contêm componentes básicos como o carbonato de


cálcio (CaCO3) que tamponam (neutralizam) os ácidos, o que não é o caso do Brasil,
onde existe a predominância de solos ácidos. Este fato agrava o problema, pois a acidez
no solo inibe os mecanismos que promovem a absorção de nutrientes pelos vegetais.

6.7.1. Principais efeitos do problema


A deposição ácida causa danos de várias maneiras. Ela contribui para doenças
respiratórias e, ainda, pode aumentar a solubilidade de metais pesados presentes na-
turalmente nos solos e rochas (como mercúrio e chumbo), aumentando a lixiviação
dos mesmos para rios e lagos que são usados como fonte de água potável. Nos Estados
Unidos, 45 estados lançaram alertas para que as pessoas, principalmente mulheres
grávidas, deixassem de consumir peixes de alguns rios e lagos devido a contaminação
por mercúrio.
No Brasil, a utilização do carvão mineral como insumo energético é minoritário, e
as grandes regiões industrializadas são o principal foco de preocupação, caso de Cuba-
tão, SP. Nesta região ocorre a morte na floresta Atlântica que recobre a Serra do Mar. As
árvores de maior porte morrem e/ou perdem as folhas e geram a abertura de clareiras,
e o Sol, antes bloqueados pela copa das árvores, que agora incide diretamente sobre
espécies mais sensíveis, matando-as. A destruição assume uma gravidade significativa
por causa do papel que as árvores possuem. Elas fixam a camada de solo que reveste
a Serra do Mar, impedindo o deslizamento desse terreno. Sevá (1991) identifica várias
regiões no Brasil com enormes emissões de SO2 e, portanto propensas ao fenômeno
da chuva ácida:
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 205

š São Paulo, Cubatão, Paulínia e São José dos Campos (300 mil toneladas de SO2/ano);
š Zona carbonífera do Sul de Santa Catarina (100 mil toneladas de SO2/ano);
š Vitória, Espírito Santo (23 mil toneladas de SO2/ano).

6.7.2. Tendências do problema e controle


A melhor maneira de se evitar o problema é reduzir as emissões de NOx, SOx e parti-
culados nas fontes (ver seção 6.4.2). Isto é especialmente difícil, pois os locais afetados
estão distantes dos precursores do impacto. Também, países com grandes reservas de
carvão, como China, Índia, Rússia e Estados Unidos, incentivam a utilização do car-
vão como insumo energético em suas termoelétricas. Isto pode ser solucionado com
a aplicação de tecnologias limpas na queima do carvão mineral, que contemplam a
remoção do enxofre presente no carvão antes de sua queima e o controle das emissões
atmosféricas.
A seguir são exemplificadas algumas medidas de prevenção e controle da deposição
ácida:
š Redução na utilização de carvão mineral.
š Queima de carvão com baixo teor de enxofre.
š Aumento no uso de fontes renováveis de energia.
š Remoção do NOx e SOx dos gases em processos industriais.
š Redução da emissão de NOx de motores veiculares.
š Taxar as emissões de SO2.
š Reduzir a poluição do ar através da eficiência energética.

6.8. Revisão dos conceitos apresentados


Neste capítulo, em primeiro momento, foram estudados os balanços de massa e
energia em processos industriais, que utilizam as leis da conservação de massa e energia
para estudar as emissões e a eficiência destes processos:
š Balanço de massa:
– Massaentra – Massasai = 'MassaVC

š Balanço de energia:
– Energiaentra – Energiasai = 'EnergiaVC
– W – Q = 'Esistema (1. lei da termodinâmica)

Depois, avaliou-se os principais poluentes atmosféricos que afetam a saúde do


homem: particulados, óxidos de enxofre e nitrogênio, o monóxido de carbono, com-
postos orgânicos voláteis e oxidantes fotoquímico, e o chumbo. Bem como as principais
tecnologias de controle dos poluentes atmosféricos; entre elas, deu-se destaque aos
sistemas de controle de particulados, como os ciclones, filtros de manga e os preci-
206 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

pitadores eletrostáticos. Comumente estes equipamentos são colocados em série de


modo a diminuir custos, atingir maiores eficiências e garantir os padrões de emissão
e consequentemente a qualidade do ar.
Ao final do capítulo estudou-se o aquecimento global e suas causa e consequências
ambientais. A queima de combustíveis fósseis é responsável pelo aumento de GEE
no planeta e suas possíveis consequências são foco de grande preocupação nos dias
atuais. Ao ver de muitos cientistas enfrenta-se o maior desafio ambiental na história
da humanidade.
Finalmente, foi abordada a depleção da camada de ozônio, a qual controla a radiação
UV na Terra e, portanto graves consequências à saúde. O problema parecia controlado
com o estabelecimento do protocolo de Montreal, porém novos compostos como o
N2O surgiram como possíveis ameaças ao equilíbrio da camada. Também, estudou-se
a chuva ácida e suas principais consequências no ambiente, que incluem a destruição
da fauna e flora e de patrimônios e cuja causa são os NOX e SOX emitidos pela queima
de combustíveis fósseis.

6.9. Questões
1. No Exemplo 6.2, determine a quantidade de GEE formados caso o coque de petróleo
seja substituído por carvão vegetal como fonte de carbono na produção de SiO.
2. No Exemplo 6.4, considere que um precipitador eletrostático, com as características
de eficiência da tabela abaixo, é adicionado para melhorar a eficiência de remoção
das partículas do fluxo que sai do ciclone. Determine a eficiência global deste novo
sistema.

Dpi (mm) (0-2) (2-4) (4-7) (7-10) (10-15) (15-25) (>25)


E(%) 50 80 95 97 98 99 100

3. Descreva sucintamente um método para se remover particulados dos gases de


exaustão de uma fonte pontual. Qual a importância de se realizar esta tarefa?
4. Descreva os mecanismos de formação dos óxidos de nitrogênio na combustão.
5. Quais são as principais causas do acréscimo da concentração dos gases do efeito
estufa na atmosfera? Quais são as possíveis consequências deste aumento para o
planeta?
6. Descreva uma maneira de mitigar as emissões dos gases do efeito estufa na atmos-
fera.
7. Qual a importância de se preservar a camada de ozônio? Porém, por qual razão o
mesmo é considerado um poluente?
8. Quais são os poluentes precursores da chuva ácida? Porque o Brasil é pouco afetado
por este problema?
Capítulo 6 s0ROCESSOSPRODUTIVOSEAPOLUI½áOATMOSF£RICA 207

6.10. Referências
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/factsheets/factsheet20.pdf.
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sobre mudança do clima e projetos de mecanismo de desenvolvimento limpo
(MDL). Brasília, DF: 2008.
COOPER, C. D.; Alley, F. C. Air pollution control a design approach. Waveland Press, 2002.
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gov/ttnchie1/ap42/, 2011.
GISS – Goddard Institute for Space Studies. Research News: NASA Finds 2011 Ninth
Warmest Year on Record. Jan. 19, 2012. Disponível em: http://www.giss.nasa.gov.
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and the Human Predicament. Texas: A&M University Press, 1988.
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dominant ozone – depleting substance emitted in the 21st Century. Published
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project-report No. 44. Geneva, 1999; and the Center for International Earth
Science Information Network (CIESIN). Disponível em: http://www.ciesin.org/
index.html.
7
=[ij€eZ[[Ôk[dj[i
Ubirajara Aluizio de Oliveira Mattos
Elmo Rodrigues da Silva
Luiz Carlos De Martini Junior

Conceitos apresentados neste capítulo


Este capítulo descreve a gestão de efluentes provenientes de atividades ou pro-
cessos e o seu lançamento em corpos de água receptores. A gestão de efluentes visa
à minimização dos impactos socioambientais e ao atendimento às exigências legais.
Apresentam-se os aspectos históricos e conceituais relativos aos recursos hídricos e
aos impactos ambientais dos efluentes não tratados, os processos de tratamento de
efluente, bem como a evolução da legislação brasileira relacionada ao assunto, além
das etapas básicas de gestão de efluentes visando ao uso eficiente da água, à melhoria
da qualidade de efluentes gerados e à reutilização do efluente tratado.
210 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

7.1. Introdução
A aglomeração de pessoas, desde a Antiguidade, levou o homem a se ver confron-
tado com problemas ecológicos e de saúde pública, dentre eles os relativos à água:
captação, distribuição, consumo, esgoto. Para enfrentar as dificuldades ambientais,
ele desenvolveu a criatividade e a engenhosidade no uso de ferramentas e tecnologias
rudimentares. Descobertas feitas por arqueólogos no Egito, na Índia e na Mesopotâmia
mostram que eles contruíram canalizações de água para os múltiplos usos.
Outras obras hidráulicas foram realizadas pelos gregos e o romanos, os quais já intu-
íam haver doenças relacionadas à contaminação hídrica, então para manter saudáveis
as populações, necessitavam dispor de água limpa e afastar os esgotos das cidades,
apesar de desconhecer como se davam os processos saúde-doença. Tais processos só
foram possíveis com as descobertas científicas e experimentações em microbiologia
ocorridas a partir do século XIX (Silva, 1998).
Costuma-se atribuir que o incremento do impacto ambiental se deu com o adven-
to da Revolução Industrial no final do século XVIII. Desde então, o desenvolvimento
científico e tecnológico associado à industrialização crescente passou a influenciar o
estilo de vida nas metrópoles no século XX. O vertiginoso crescimento econômico e
populacional teve o aporte de grandes investimentos em novas técnicas de produção
voltadas ao atendimento de demandas por bens e serviços.
A necessidade crescente de energia fóssil e água para alimentar esse sistema levou
os países a investirem maciçamente em obras de infraestrutura, como a construção
de barragens destinadas à geração de hidroeletricidade e à captação de água para o
abastecimento, interferindo assim no ciclo hidrológico das bacias hidrográficas. Tal fato
resultou na intensificação da exploração dos recursos naturais, da água em particular,
bem como no aumento de poluentes lançados no solo, nos ambientes hídricos e na
atmosfera. Dessa forma, o controle da poluição por meio de processos tecnológicos
de tratamento e de instrumentos econômicos e legais tornou-se um enorme desafio
para toda a sociedade atual.
O controle da poluição em um corpo receptor (como rio, lago, mar etc.) reflete
diretamente na melhoria da qualidade da água e está relacionada com as con-
centrações de substâncias ou outros indicadores presentes que determinam os
usos possíveis com segurança adequada, tais como consumo humano, industrial,
recreativo, agrícola etc.
Alguns parâmetros selecionados como representativos da qualidade da água são:
cloreto, coliforme, coloração, condutividade, demanda bioquímica de oxigênio (DBO),
demanda química de oxigênio (DQO), fenol, ferro total, fósforo total, nitrogênio
amoniacal (amônia), nitrogênio kjeldahl total, nitrogênio nitrato, nitrogênio nitrito,
nitrogênio total (amônia, nitrato, nitrito e nitrogênio orgânico), oxigênio dissolvido
(OD), pH (potencial hidrogeniônico), resíduo total, tensoativos, temperatura, toxi-
cidade e turbidez.
Esses parâmetros possuem requisitos quantitativos estabelecidos por diplomas
legais que definem valores limites permitidos no efluente gerado por uma atividade
Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 211

ou empreendimento. Por exemplo, a Resolução Conama n. 430/2011 estabelece


limites para lançamento de efluentes (Brasil, 2011) e a Portaria n. 518/2004 do
Ministério da Saúde estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos
ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu pa-
drão de potabilidade (Brasil, 2004), cabendo a cada estado da Federação aplicá-las
na íntegra ou complementá-las com outros parâmetros que tornam mais restritivos
os padrões já estabelecidos.
Vale destacar que existe uma diferenciação das definições dos termos “efluente” e
“afluente”. Enquanto “afluente”, além de denominar um curso d’água que desemboca
em outro rio, também é comumente definido como a água residuária ou outro líquido
que flui para uma instalação de tratamento, ou seja, é um líquido ainda não tratado, o
“efluente” pode ser entendido como o que flui a partir de uma estação de tratamento,
já tratado. Porém, o termo efluente já está amplamente reconhecido para ambos os ca-
sos e será o adotado neste livro, sendo a sua definição, conforme a Resolução Conama
n. 430/2011: “Efluente é o termo usado para caracterizar os despejos líquidos provenientes
de diversas atividades ou processos”.

7.2. Uma breve história da água e do saneamento


Diversas obras relacionadas ao uso da água e ao seu esgotamento foram descobertas
por arqueólogos, tais como: as galerias de esgotos encontradas em Nippur, na Índia, por
volta de 3750 a.C.; o abastecimento de água e a drenagem encontrados no Vale do Indo,
ruas e passagens com canais de esgotos e casas com banheiras e privadas, lançando o
efluente diretamente nesses canais (Liebmann, 1979).
No Egito, em 2000 a.C, já se fazia uso de tubos de cobre; para a clarificação da água
de abastecimento, utilizava-se o sulfato de alumínio; o acondicionamento da água era
feito em vasos de cobre, com a sua exposicão ao sol e filtragem através do carvão, ou
ainda, pela imersão de barra de ferro aquecida, bem como o uso de areia e cascalho
para filtração da água.
Na Grécia, a captação e distribuição de água eram feitas com a aplicação do princípio
dos vasos comunicantes e pressão hidroestática nos encanamentos. Nas partes mais
altas das cidades, coletava-se a água pluvial em cisternas e canalizações rudimentares
transportavam a água até às regiões mais baixas. O grau de sofisticação do sistema
grego pode ser demonstrado pelas descargas em vasos sanitários encontradas em
Atenas (Silva, 1998).
No século IV a.C., os romanos construíram importantes obras hidráulicas. Os esgotos
eram conduzidos por canalizações, evitando o lançamento de águas servidas nas ruas.
O transporte de água potável das montanhas para as cidades era concebido através dos
aquedutos em pedras, e foram também construídos na Europa, Ásia Menor e África do
Norte. Um exemplo mais recente desse tipo de técnica é o Aqueduto da Lapa, o primeiro
a ser construído no Brasil, em 1723, no Rio de Janeiro (Telles, 1984).
212 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

No auge do Império Romano, havia abundância de água transportada por adutoras


e distribuída em cisternas, fontes públicas e casas de banho. Roma era abastecida dia-
riamente com cerca de 1.000 litros de água por habitante. Contudo, esta preocupação
foi reduzida durante a época medieval, havendo um declínio das condições sanitárias,
bem como o avanço das epidemias. Tal fato pode ser comprovado pelo baixo consumo
de água que, em algumas localidades europeias, chegava a menos de 1 litro diário por
habitante.
A água foi uma das grandes questões na Idade Média, a ponto de ser considerada
a Idade da Água (Leray, 1982). Nos séculos X e XI, as cidades se formavam às margens
dos cursos d’água. A água foi se tornando, cada vez mais, elemento vital para o de-
senvolvimento econômico com a implantação dos moinhos d’água para fornecer a
força motriz utilizada nas atividades pré-industriais. A concentração das habitações e
a infraestrutura artesanal eram possibilitadas pelo abastecimento de água feito com
a captação direta nos rios.
No século XII, as fontes artificiais eram mantidas coletivamente pelos cidadãos,
sendo parte do consumo garantido através da compra de água transportada pelos
“carregadores”. A população escavava poços no interior das casas, mas a presença de
fossas e adubos em suas proximidades contaminava as fontes de água subterrânea,
contribuindo assim para o avanço das doenças.
Em algumas dessas cidades medievais, as administrações regulamentaram normas
para rios, como no caso do Tibre (em Roma) e do Sena (em Paris), proibindo o lança-
mento de animais mortos em seus cursos d’água, solicitando aos curtidores não lavar
peles de animais nas águas ribeirinhas e impedindo os tintureiros de jogar corantes
em suas águas.
Ao fim da Idade Média, o conhecimento sobre as relações entre o saneamento do
meio e o processo da doença, embora empírico, foi sendo estabelecido através de
normas legais. O Acto inglês, promulgado em 1388, foi considerado a lei britânica mais
antiga sobre poluição das águas e do ar. Essa lei proibia o lançamento de excrementos,
lixo e detritos em fossas, rios e outras águas (Pompeu, 1976).
As cidades medievais introduziram no meio ambiente um conjunto de perturbações,
tais como: poluição com modificação do equilíbrio das águas fluviais, contaminação
dos lençóis freáticos, acumulação dos riscos epidêmicos, além da destruição de flores-
tas, reduzindo-se as vazões das águas superficiais e subterrâneas, provocando “uma
primeira grande transformação dos ecossistemas” (Roche, 1990, p. 115).
Na Idade Média, os hábitos higiênicos eram pouco considerados, visto a dimensão
dos problemas sanitários, com a deposição de restos orgânicos e lixo nas vias públicas,
nas instalações sanitárias insuficientes ou ausentes, e nas reduzidas possibilidades de
banho. A peste negra no século XIV demonstrava um período de crise em que cerca
de 1/3 da população europeia teria sido dizimada.
A partir do século XV, início do período conhecido como História Moderna, grandes
transformações ocorreram nas técnicas propiciadas pelo incipiente método científico.
Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 213

A tecnologia hidráulica necessitava de um salto em função da demanda crescente de


água e do crescimento urbano. Para isso, foi preciso impulsionar o conhecimento para
o abastecimento público de água e o esgotamento sanitário.
Já na Idade Contemporânea, a Revolução Industrial, ao final do século XVIII, foi um
marco na história ocidental ao introduzir mudanças tecnológicas com forte impacto no
processo produtivo, na economia e na sociedade da Inglaterra, expandindo-se para o
resto do mundo. Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores,
como o liberalismo econômico, a acumulação de capital e uma série de invenções, tais
como o motor a vapor.
Neste período, destacam-se algumas tecnologias da época que foram importantes
para a melhoria da qualidade da água: introdução da tubulação em ferro fundido para
as canalizações (Inglaterra, 1746); uso do sulfato de alumínio para limpeza das águas
(Inglaterra, 1767); descoberta do cloro (Suécia, 1774); construção do primeiro filtro
lento (Escócia, 1804); primeira grande estação de tratamento de água (Paris, 1800);
aplicação do cloro para oxidação da matéria orgânica (1830). No Brasil, algumas dessas
tecnologias foram incorporadas, posteriormente, como a construção da estação de
tratamento de água (no município de Campos dos Goytacazes/RJ, em 1880) e o uso de
filtros lentos (no município de Campinas/SP, em 1891) (Azevedo Netto, 1984).
Em 1855, o Rio de Janeiro foi assolado por um surto de colera morbus que causou
a morte de quase cinco mil pessoas. Essa doença matou cerca de 200 mil pessoas no
Brasil, entre 1855 e 1867 (Silva, 2002). Nessa época, iniciou-se, na cidade imperial, a
implantação do saneamento, bem como a administração pública e legislação destes e
de outros serviços, sendo o Rio de Janeiro a quinta cidade do mundo a adotar, em 1864,
um sistema de coleta de esgoto baseado no modelo inglês (Silva, 1998).
No século XX, em função da poluição ambiental, houve o crescimento do saneamen-
to nas cidades e a ampliação dos sistemas de água e esgoto, bem como da demanda por
processos de tratamento, os quais sofreram mudanças conceituais e tecnológicas em
todo o mundo. Apesar desse avanço, há ainda muito a ser feito, sobretudo nos países
em processo de desenvolvimento tardio.

Segundo o documento final da Conferência Internacional sobre Água e Desenvolvimento Sustentável, ocorrido
[cFWh_i0WgkWhjWfWhj[ZWfefkbW‚€eckdZ_Wbd€ej[cWY[iie}|]kWfej|l[b"cW_iZWc[jWZ[ZWfefkbW‚€e
mundial carece de um saneamento adequado, a baixa qualidade da água e a falta de higiene figuram entre as
principais causas de enfermidade e morte, as inundações e as secas, a pobreza, a contaminação, o tratamento
inadequado dos rejeitos e a insuficiência de infraestrutura, representam sérias ameaças ao desenvolvimento
[YedŽc_Ye[ieY_Wb"}iW‘Z[^kcWdW"}i[]khWd‚WWb_c[djWhckdZ_Wb[Wec[_eWcX_[dj[$EWY[iieb_c_jWZe
}|]kW"[cj[hceiZ[gkWdj_ZWZ[[gkWb_ZWZ["feZ[h|\h[WheZ[i[dlebl_c[djeikij[dj|l[bInternational
Conference on Water and Sustainable Development, 1998)

A seguir, serão abordados alguns aspectos conceituais a respeito da poluição hídrica


e de alternativas para seu tratamento.
214 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

7.3. Conceitos sobre poluição e processos de trata-


mento de efluentes
A qualidade da água resulta tanto dos fenômenos naturais como da atuação do
homem na natureza. Neste sentido, mesmo que a bacia hidrográfica seja preservada
nas suas condições naturais, a qualidade das águas superficiais e subterrâneas é
afetada pelo escoamento superficial e pela infiltração no solo, resultantes das chu-
vas, existindo grande influência da cobertura vegetal e da composição do solo. A
interferência humana, quer de forma concentrada, como nos despejos domésticos
ou industriais, quer de forma dispersa, com a aplicação de defensivos agrícolas no
solo, contribui com a introdução de compostos na água, afetando a sua qualidade.
Portanto, a maneira como se usa e ocupa o solo tem uma implicação direta sobre os
recursos hídricos (Von Sperling, 1996).
A poluição é essencialmente antrópica e está relacionada aos processos de indus-
trialização e urbanização. Esses dois fatores podem explicar, em parte, os atuais índices
de poluição hídrica, principalmente porque o desenvolvimento vem se efetivando em
detrimento ao meio ambiente, sem um planejamento adequado ou uma política de
crescimento sustentável pelos países.
No planejamento das atividades humanas, visando às estratégias de controle
da poluição da água, é fundamental conhecer os diferentes usos do solo da bacia
hidrográfica em que tais atividades se desenvolvem. Para efeitos de minimização ou
correção dos impactos ambientais, algumas técnicas e ações são recomendadas, a
saber: a implantação de sistemas de coleta e o tratamento de esgotos domésticos e
industriais, bem como de seus resíduos sólidos; o controle da erosão e dos agrotó-
xicos e fertilizantes nas áreas agrícolas; a recuperação de rios, objetivando o retorno
ao seu equilíbrio dinâmico.
Quanto à recuperação dos rios, podese adotar as seguintes técnicas:
1. não estruturais, as quais não requerem alterações físicas no curso d’água, mas
incluem as políticas administrativas e legais e os procedimentos que limitam,
ou regulamentam, algumas atividades produtivas;
2. estruturais, as quais demandam algum tipo de alteração física no corpo d’água
que incluem reformas nas estruturas existentes com a restauração de suas
condições naturais, manutenção da proteção das faixas marginais dos rios e
recuperação das matas ciliares dos mananciais (Brasil, 2006).
Do ponto de vista do conhecimento sobre os efluentes, é preciso conhecer bem
a qualidade das águas segundo as suas características físicas, químicas e biológicas,
conforme apresentado na Figura 7.1. Da mesma forma, há que se identificar os dife-
rentes usos da água no contexto da bacia hidrográfica, a fim de se projetar os sistemas
de tratamento e controlar a eficiência dos mesmos para regular os diferentes usos
conflitantes e preservar as fontes de água potável.
Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 215

Figura 7.1. Características dos efluentes líquidos.


Fonte: Lora, 2002, p. 100.

Na Tabela 7.1 são enumerados os principais poluentes que devem ser considerados
durante o tratamento dos efluentes gerados nos diferentes processos, bem como os efei-
tos nocivos que podem causar nos reservatórios de água e na biota, em termos gerais.

Tabela 7.1. Poluentes considerados no tratamento de efluentes


Poluente Efeitos a considerar
FheleYWc W \ehcW‚€e Z[ Z[fŒi_jei Z[ beZe [ YedZ_‚[i WdW[hŒX_YWi We
Sólidos em suspensão
Z[iYWhh[]Wh#i[e[Ôk[dj[d€ejhWjWZedkch[i[hlWjŒh_eZ[|]kW$
São compostos principalmente de proteínas, hidrocarbonetos e gorduras. A sua
Orgânicos biodegradáveis estabilização (destruição) biológica pode levar ao esgotamento do oxigênio natural
em reservatórios de água.
Refere-se principalmente ao nitrogênio e ao fósforo, nutrientes indispensáveis para
Nutrientes eYh[iY_c[djeZ[c_Yheh]Wd_icei[ZWl[][jW‚€e$;Ôk[dj[id€ejhWjWZeiYecWbje
teor de nutrientes podem provocar a eutrofização de rios e lagos.
Compostos orgânicos e inorgânicos caracterizados pela sua conhecida ou
Febk[dj[ifh_c|h_ei ikif[_jWZWYWdY[h_][d_Y_ZWZ["ckjW][d_Y_ZWZ[[WbjWjen_Y_ZWZ[$Feh[n[cfbe"ei
^_ZheYWhXed[jeifeb_Y‡Yb_YeiWhec|j_YeiF7>"X[dp[deiYbeh_dWZei[jY$
7bjWc[dj[jŒn_Yei[YedY[djhWc#i[}c[Z_ZWgk[i[WlWd‚WdWf_h~c_Z[Wb_c[djWh$
Metais pesados
;n[cfbei0>]"FX"9h"Pd"7h[jY$
Compostos orgânicos resistentes aos métodos convencionais de tratamento
Orgânicos refratários biológico.
Exemplos: surfactans, fenóis, pesticidas.
Compostos orgânicos O sulfeto de hidrogênio e outros orgânicos voláteis desprendidos durante o
voláteis jhWjWc[djeZ[[Ôk[dj[ii€ejŒn_Yei[Yh_WcfheXb[cWiZ[febk_‚€eZeWh$
Microrganismos patogênicos Transmitem doenças contagiosas.
Fonte: Lora, 2002, p. 100.
216 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Os processos de tratamento dos efluentes, que visam ao controle dos poluentes


descritos, são classificados em função das seguintes etapas de tratamento:
a) Tratamento preliminar: prepara o efluente não tratado para o tratamento subse-
quente. Nesta etapa ocorre a remoção de sólidos grosseiros e areia.
b) Tratamento primário ou físico-químico: nesta etapa é realizada, principalmente, a
estabilização e a remoção dos sólidos em suspensão, além de parte de substâncias
coloidais. Esta etapa não remove substâncias dissolvidas.
c) Tratamento secundário ou biológico: nesta etapa os microrganismos consomem a
matéria orgânica coloidal ou dissolvida por processos biológicos de tratamento.
d) Tratamento terciário: é uma etapa de polimento após o tratamento secundário.
Nele são removidos os nutrientes, como fósforo e nitrogênio, que poderiam causar
a eutrofização, a qual provoca o surgimento desordenado de microalgas no corpo
receptor, gerando um efluente com alta qualidade ambiental.
A Tabela 7.2 resume os principais processos de tratamento de efluentes.

Tabela 7.2. Processos de tratamento de efluentes


TRATAMENTO TIPO OBJETIVO
Gradeamento
Remoção de sólidos grosseiros.
F[d[_hWc[dje
Fh[b_c_dWh Desarenação Remoção de areia.
Homogeneização das características
Equalização
físico-químicas e vazão.
Ajuste de pH
Coagulação
Fh_c|h_eek
Floculação Remoção de sólidos sedimentáveis.
físico-químico
Decantação
Flotação
Lagoa de estabilização
Secundário ou
Filtro biológico Redução de matéria orgânica.
biológico
Lodo ativado
Filtração
Ozonização Remoção de nutrientes como
Terciário
Absorção fósforo e nitrogênio.
Osmose reversa

Para a seleção da tecnologia mais apropriada para a estação de tratamento de águas


residuárias, Philippi Jr. e Malheiros (2005, p. 203) fazem as seguintes observações quanto
aos critérios que devam ser considerados:
a) Eficiência: depende das características dos efluentes, da bacia hidrográfica e do
corpo receptor, de opções de reúso, aspectos legais e dos anseios dos seus usuários.
b) Confiabilidade: o sistema deve funcionar atendendo aos valores de eficiência ne-
cessários à proteção da saúde pública, aos padrões legais e à proteção ambiental.
c) Risco: escolha por processos de tratamento menos suscetíveis às mudanças qualitativas
e quantitativas dos efluentes enviados ao sistema de tratamento.
Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 217

d) Resíduos sólidos: geração qualitativa e quantitativa de lodo no processo de tratamento


depende da tecnologia.
e) Custo da área requerida pelo sistema: pode influenciar a escolha da tecnologia quando
o terreno é altamente valorizado, implicando maior investimento.

7.4. Legislação brasileira sobre efluentes


A Lei n. 6.938/1981 (Brasil, 1981), que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambien-
te (PNMA), em seu art. 3. define, de forma ampla, a poluição como sendo: a degradação da
qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente: (a) prejudiquem
a saúde, a segurança e o bem-estar da população; (b) criem condições adversas às ativida-
des sociais e econômicas; (c) afetem desfavoravelmente a biota; (d) afetem as condições
estéticas ou sanitárias do meio ambiente; (e) lancem matérias ou energias em desacordo
com os padrões ambientais estabelecidos. Para os fins previstos nessa Lei, entende-se por
poluidor a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou
indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental.
No Brasil, o gerenciamento de recursos hídricos tem como seu marco legal o Decreto
n. 24.643/1934, Código das Águas (Brasil, 1934). Ele estabelecia que as propriedades
industriais poderiam lançar efluentes no corpo receptor, contanto que não prejudi-
cassem as propriedades à jusante do lançamento, “mas os agricultores ou industriais
deverão providenciar para que as águas se purifiquem, por qualquer processo, ou sigam
o seu esgoto natural”, sendo previstas indenizações caso haja prejuízos a terceiros pela
alteração da qualidade da água.
No Código das Águas não existiam valores máximos de lançamentos de efluentes,
somente estabelecidos em 1976, através da Portaria n. 13 do Ministério do Interior
(Brasil, 1976).
Assim, a legislação ambiental brasileira foi baseada no instrumento de Comando
e Controle, definindo padrões comuns a serem seguidos por todas as atividades po-
tencialmente poluidoras, como a Resolução Conama n. 430/2011, que dispõe sobre
as condições e padrões de lançamento de efluentes, em todo o país, independente da
qualidade ambiental da bacia hidrográfica onde o efluente é lançado (Brasil, 2011).
Usualmente, este tipo de legislação é atendido com a inclusão de equipamentos ou
serviços no final do processo produtivo para o controle dos efluentes gerados, sem mo-
dificação ou interferência na produção. Este controle é conhecido em inglês como end of
pipe, ou seja, final da tubulação. Por esta estratégia de controle, a geração de efluentes é
proporcional à produção. Um aumento da capacidade de produção deve ser acompanhado
com a substituição do equipamento de controle ambiental por outro de maior porte ou a
inclusão de mais equipamentos ao já existente para conseguir controlar e tratar a maior
geração de efluentes. O correto é desacoplar a geração de efluentes da produção, através da
sua redução, pois beneficia a qualidade ambiental e promove retorno financeiro à empresa.
Diferentemente do instrumento de Comando e Controle, a Lei n. 9.433/1997 (Brasil,
1997), que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, está alinhada com um me-
canismo de incentivo de mercado que leva as empresas para a economia do consumo
da água. Esta lei, ao estabelecer a cobrança pelo uso da água captada em rios e poços,
218 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

por exemplo, fomentou a alteração do comportamento vigente ao valorar os custos das


externalidades ambientais, relacionadas com a captação de um bem público, para criar
uma taxação que estimule a intervenção no processo industrial. Esta racionalização de
consumo é necessária, pois, apesar de o Brasil, ao lado da Rússia e do Canadá, possuir a
maior reserva de água do mundo, com 15% da reserva hídrica da superfície do planeta,
ocorre 46% de desperdício da água coletada e má distribuição: a Amazônia, com 12%
da população nacional, concentra 70% dos recursos hídricos. No Nordeste, Sudeste e
Sul estão 70% dos habitantes e apenas 16% dos recursos.

7.5. A gestão de efluentes


A gestão de efluentes deve administrar os recursos disponíveis visando ao uso efi-
ciente da água, à melhoria da qualidade dos efluentes gerados, redução da geração e à
reutilização, sempre considerando a disponibilidade de recursos hídricos para captação
e uso, os aspectos socioambientais e a viabilidade técnica e econômica.
Por recursos disponíveis entendem-se a mão de obra, os equipamentos, os processos
de tratamentos de efluentes, os financeiros, tanto diretos quanto indiretos (fornece-
dores e receptores).
Uma abordagem sistemática de gestão de efluentes pode ser adotada com base na
metodologia PDCA, do inglês Plan-Do-Check-Act, traduzido por Planejar-Executar-
-Verificar-Agir e cuja representação é apresentada na Figura 7.2.

Figura 7.2. Modelo de PDCA para a gestão de efluentes.


Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 219

A seguir são detalhadas algumas atividades de cada etapa ilustrada nas Figuras 7.3
a 7.6.

7.5.1. Etapa de planejamento


P – Planejar: etapa de planejamento (Figura 7.3), na qual são definidos os objetivos,
analisadas as informações e identificadas as oportunidades.

Figura 7.3. Etapa de planejamento da gestão de efluentes.

Na etapa de Planejamento são definidos os objetivos, reservados os recursos e de-


finidos os processos necessários para gerar resultados que cumpram com os padrões
exigidos pela legislação ambiental específica e atendam às expectativas das partes
interessadas, como órgãos ambientais e sociedade.
O planejamento é crítico para o sucesso da gestão de efluentes e, por isso, deve ser
realizado com critério, analisando-se as informações disponíveis sobre o efluente ge-
rado nas atividades ou processos. Para o seu lançamento em corpos receptores, devem
ser verificados se seus aspectos, tanto seus quantitativos como qualitativos, estão ade-
quados à legislação ambiental aplicável. É recomendável avaliar alternativas possíveis
quanto aos efluentes, tais como a redução na sua geração ou o seu reaproveitamento/
reúso. Seguem alguns itens relacionados com esta etapa.
Os efluentes somente podem ser lançados diretamente nos corpos receptores (como
rio, lago, mar etc.) após o seu tratamento, desde que atendam aos padrões estabelecidos
nos diplomas legais federais, estaduais e municipais, incluindo o lançamento direto de
efluentes oriundos de sistemas de tratamento de esgotos sanitários. O atendimento a
padrões mínimos para lançamento também é aplicável em casos particulares como o
uso da infraestrutura sanitária existente, por meio de emissários submarinos, envio de
lixiviados de aterros sanitários, efluentes de sistemas de disposição final de resíduos
sólidos de qualquer origem e efluentes oriundos de serviços de saúde. Da mesma forma,
devem ser verificadas se há exigências do órgão ambiental estadual ou municipal, pois
220 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

este poderá incluir outros padrões para o lançamento de efluentes, ou torná-los mais
restritivos ou exigir tecnologia específica para o tratamento dos efluentes.
Caso o efluente não seja tratado no empreendimento, mas direcionado para uma
rede coletora antes de atingir o corpo receptor, esse despejo é chamado de lançamento
indireto, devendo atender as diretrizes da concessionária ou operadora dos sistemas
de coleta e tratamento de esgoto sanitário.
Assim, para se definir e projetar os processos mais adequados de tratamento de
efluente ou reúso é necessário conhecer as características do efluente, como as suas
propriedades físicas e químicas, já que o efluente gerado por uma atividade ou pro-
cesso varia em termos de vazão e/ou composição, o que definirá o tipo de tratamento
necessário e as dimensões dos equipamentos.
Os sistemas de tratamento e disposição final de efluentes devem possuir licença
ambiental, bem como a outorga de direito de uso de recurso hídrico para captação e
lançamento de efluentes.
Podem acontecer situações de reúso do efluente que provoquem o aumento da
concentração de substâncias presentes no efluente em valores acima dos valores má-
ximos de lançamento permitido pela legislação ambiental. Neste caso, está previsto na
legislação (Resolução Conama n. 430/2011, incisos II, III e IV do art. 6.) que o órgão am-
biental competente poderá estabelecer condições e padrões específicos de lançamento.
A legislação ambiental não permite a diluição do efluente antes do seu lançamento
para o controle das condições de lançamento, como diluir o efluente com águas de
melhor qualidade, tais como as águas de abastecimento, do mar e de sistemas abertos
de refrigeração sem recirculação.

Estudo de caso – etapa de planejamento

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Œh]€eZ[Yedjheb[WcX_[djWbYecf[j[dj[Wc[b^ehWheZ[i[cf[d^eZ[ikW;ijW‚€eZ[JhWjWc[djeZ[;Ôk[dj[
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estavam contaminando uma lagoa que o recebia.
A diretoria da empresa, ao orçar o investimento para a ampliação da capacidade de tratamento da Estação para a
Z[cWdZWd[Y[ii|h_WZ['))c%Z_W"Yedi_Z[hekeYkijeWbjeZ[cW_i"Y[hYWZ[KI)&&c_b"fh_dY_fWbc[dj[[c\kd‚€e
da delicada situação financeira pela qual a empresa estava passando, em que a prioridade era a redução de custos.
Após reunião específica para se tomar uma decisão sobre o assunto, optou-se em não ampliar a Estação e
_cfb[c[djWhkcFhe]hWcWZ[H[Zk‚€eZ[H[i‡ZkeiYecWc[jWZ[h[Zk‚€eZ[++fWiiWdZeZ['))c%
Z_WfWhW,&c%Z_WZei[k[Ôk[dj[b‡gk_ZeiWd_j|h_e[cgkWjhec[i[i$7ei[Wj_d]_hWc[jWZ[,&c%Z_W"W
;ijW‚€e[n_ij[dj[Yedi[]k_h_WjhWjWhe[Ôk[dj[iWd_j|h_e][hWZeZ[djheZeifWh~c[jheiZWb[]_ibW‚€e"d€ei[dZe
necessário, portanto, uma ampliação da Estação.

7.5.2. Etapa de implementação


D – Executar: etapa de implementação, na qual é executado o que foi planejado.
Na gestão de efluentes, a principal atividade é o tratamento do efluente e reúso, tendo
como resultado o efluente tratado (Figura 7.4).
Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 221

Figura 7.4. Etapa de implementação da gestão de efluentes.

Neste momento, o efluente lançado deve estar enquadrado nos limites e condições
para lançamento determinado pelos dispositivos legais aplicáveis.
Para que haja a implementação efetiva das atividades definidas na etapa de pla-
nejamento, é fundamental que os recursos estejam disponíveis para se desenvolver a
capacitação e os mecanismos de apoio necessários.
A implementação só terá efeito se for respaldada por um programa intensivo de
treinamento. Para isto, a empresa deve identificar, em todos os níveis hierárquicos,
as competências requeridas e realizar os treinamentos que sejam necessários para o
pessoal cujas tarefas possam influenciar na gestão de efluentes.

Estudo de caso – etapa de implementação

DW_dZ‘ijh_Wgk‡c_YWZe[ijkZeZ[YWieZW[jWfWZ[FbWd[`Wc[dje"WfŒijh…ic[i[iZ[ikY[iiedW_cfbWdjW‚€e
de ações de redução do consumo de água nos vestiários e cozinha, predominantemente ações voltadas para a
conscientização e mudanças de alguns hábitos no banho dos empregados, uso dos vasos sanitários e práticas
na elaboração de alimentos, atingiu-se a meta pretendida de 60m³/dia antes do prazo final.
Fehƒc"degkWhjec…i"WlWp€eikX_kfWhW'&&c%Z_W"fh[`kZ_YWdZeejhWjWc[djedW;ijW‚€e$7ei[_dl[ij_]Wh
o ocorrido, percebeu-se o seguinte fator externo: durante o quarto mês foi realizada uma parada da produção
da fábrica para manutenção geral dos equipamentos, quando se contratou uma empresa prestadora de serviços
de manutenção que alocou na fábrica cerca de 300 trabalhadores, os quais utilizavam os vestiários e restaurante
da empresa.

7.5.3. Etapa de monitoramento


C – Verificar: etapa de monitoramento e medição do processo através de informações
obtidas do processo e de partes interessadas, como o órgão ambiental e a comunidade. É
feita a análise dos resultados e proposição de melhorias e avalia-se o atendimento da etapa
de implementação (Figura 7.5).
222 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 7.5. Etapa de monitoramento da gestão de efluentes.

O efluente lançado no corpo receptor deve ser monitorado qualitativa e quantita-


tivamente com o objetivo de avaliar o seu enquadramento aos parâmetros exigidos.
O monitoramento é um aspecto importante a ser abordado para a avaliação do
desempenho do tratamento de efluentes, preferencialmente com indicadores que
permitam a quantificação deste desempenho.
A legislação federal (Resolução Conama n. 430/2011) define que os responsáveis
pelas fontes poluidoras dos recursos hídricos devem realizar o automonitoramento para
controle e acompanhamento periódico dos efluentes lançados nos corpos receptores,
com base em amostragem representativa dos mesmos. O órgão ambiental competente
poderá estabelecer critérios e procedimentos para a execução e averiguação do auto-
monitoramento de efluentes e avaliação da qualidade do corpo receptor.
Para assegurar resultados válidos, os instrumentos de medição e monitoramento
devem ser adequados para execução das medições (resolução e incertezas compatíveis
com os requisitos de medição). Para isto, a Resolução Conama n. 430/2011 exige que
as análises devam ser realizadas por laboratórios acreditados pelo Instituto Nacional
de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) ou por outro organismo
signatário do mesmo acordo de cooperação mútua do qual o Inmetro faça parte ou em
laboratórios aceitos pelo órgão ambiental competente, devendo os laboratórios terem
um sistema de controle de qualidade analítica implementado. Da mesma forma, as
coletas de amostras e as análises de efluentes líquidos e em corpos hídricos devem ser
realizadas de acordo com as normas específicas, sob responsabilidade de profissional
legalmente habilitado.
Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 223

Estudo de caso – etapa de monitoramento

DeH_eZ[@Wd[_he"W:_h[jh_p:P#/*([ijWX[b[Y[WiZ_h[jh_p[iZeFhe]hWcWZ[7kjeYedjheb[Z[;Ôk[dj[i
B‡gk_ZeiÅFheYedÜ]kW"YecWi[]k_dj[i_ij[c|j_YW$
š Eih[ifedi|l[_if[bWiWj_l_ZWZ[ifebk_ZehWi_d\ehcWch[]kbWhc[dj[We?dij_jkje;ijWZkWbZe7cX_[dj[
?D;7"feh_dj[hcƒZ_eZ[kcH[bWjŒh_eZ[7YecfWd^Wc[djeZ[;Ôk[dj[i"WiYWhWYj[h‡ij_YWigkWb_jWj_lWi[
gkWdj_jWj_lWiZ[i[ki[Ôk[dj[ib‡gk_Zei"YecefWhj[_dj[]hWdj[ZeI_ij[cWZ[B_Y[dY_Wc[dje7cX_[djWb$
š ;ijWh€eik`[_jWiWeFhe]hWcWZ[7kjeced_jehWc[djeZei;\bk[dj[ijeZWiWiWj_l_ZWZ[i[\[j_lWiek
potencialmente poluidoras de água.
š DWeYWi_€eZWl_dYkbW‚€eZWWj_l_ZWZ[WeFhe]hWcWZ[7kjeced_jehWc[djeZei;Ôk[dj[i"e?D;7[if[Y_ÓYW
os parâmetros que deverão ser monitorados e reportados através do Relatório de Acompanhamento de
;Ôk[dj[i$DeleiFWh~c[jheifeZ[h€ei[h_dYbk‡ZeigkWdZeYedijWjWZWWd[Y[ii_ZWZ[fehfWhj[Ze?D;7$

A criação de indicadores para avaliação dos resultados de análises do monitora-


mento é fundamental por fornecerem informações sobre a eficiência da organização
em tratar o efluente. As principais finalidades do acompanhamento quantitativo do
efluente, através da utilização de um indicador de desempenho ambiental, são:
š Monitoramento do tratamento e da sua evolução ao longo do tempo.
š Avaliação do desempenho dos projetos, programas de reúso e redução da geração
de efluente.
š Controle gerencial do processo visando melhorias.
š Demonstração da melhoria contínua ao público e a outros interessados.
š Auxílio no desenvolvimento de planos futuros.

Quanto às características dos indicadores de desempenho ambiental, também


devem ser considerados os seguintes aspectos:
š Simplicidade: os indicadores devem ser fáceis de obter e documentar, facilidade
de compreensão por todo o pessoal envolvido e interessado e de baixo custo na
mensuração.
š Utilidade: os indicadores devem assegurar uma avaliação compreensiva dos
aspectos ambientais, levar a identificação de aspectos críticos e relevantes da
performance ambiental, medir diferentes etapas dos sistemas e auxiliar o pro-
cesso decisório.
š Credibilidade: os indicadores devem ser consistentes, confiáveis para as partes
interessadas (acionistas, trabalhadores, órgãos ambientais, comunidade e pú-
blico em geral) e, se possível, baseados em dados de domínio público.

O responsável pela fonte potencial ou efetivamente poluidora dos recursos hídricos


deve emitir uma Declaração de Carga Poluidora a ser apresentada ao órgão ambiental
até o dia 31 de março de cada ano, referente ao ano anterior. A Declaração de Carga
Poluidora deve conter a caracterização qualitativa e quantitativa dos efluentes, baseada
em amostragem representativa dos mesmos.
A guarda dos registros do automonitoramento, tais como os relatórios, laudos e
estudos que fundamentam a Declaração de Carga Poluidora devem ser mantidos em
arquivo, bem como uma cópia impressa da declaração anual subscrita pelo admi-
224 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

nistrador principal e pelo responsável legalmente habilitado. Essa documentação,


acompanhada da respectiva Anotação de Responsabilidade Técnica, deverá ficar à
disposição das autoridades de fiscalização ambiental.

7.5.4. Etapa de análise crítica


A – Agir: momento de decidir mudanças e disponibilizar recursos. Nesta etapa
(Figura 7.6) é feita a análise crítica das informações obtidas na etapa anterior (moni-
toramento) para avaliar se a etapa de implementação foi realizada conforme estabe-
lecida na etapa de planejamento e iniciar o planejamento para a melhoria contínua,
reiniciando o ciclo PDCA.

Figura 7.6. Etapa de análise crítica da gestão de efluentes.

A análise crítica dos resultados do monitoramento deve ser feita em intervalos pré-
-definidos, preferencialmente com a mesma frequência do recebimento dos resultados.
Para a realização da análise crítica, as seguintes informações devem ser conside-
radas:
š Resultados e desempenho da Estação de Tratamento de Efluente.
š Acompanhamento das ações definidas em análises críticas anteriores.
š Mudanças que possam afetar o desempenho da Estação de Tratamento de Efluente,
como novos parâmetros de controle (exemplo: toxicidade).
š Recomendações para melhoria.
š Reclamações.
š Notificações do órgão ambiental.

O resultado da análise crítica deve ser registrado em relatório (ata) de reunião e


divulgado a todo o pessoal envolvido. As ações resultantes da análise crítica devem se
relacionar, entre outras, a:
š Melhoria da eficácia e eficiência do tratamento de efluentes.
š Necessidade de recursos.

Temporariamente, o órgão ambiental poderá autorizar o lançamento de efluentes


com um ou mais parâmetros em desacordo com os limites e condições estabelecidos
na legislação ambiental aplicável, desde que observados os seguintes requisitos:
(i) comprovação de relevante interesse público;
(ii) atendimento ao enquadramento do corpo receptor;
(iii) realização de estudo ambiental;
Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 225

(iv) estabelecimento de tratamento e exigências para este lançamento;


(v) fixação de prazo máximo para o lançamento;
(vi) estabelecimento de medidas que visem neutralizar os eventuais efeitos do
lançamento excepcional.

Estudo de caso – etapa de análise crítica

9edj_dkWdZee[ijkZeZ[YWieZejhWjWc[djeZ[[Ôk[dj[iWd_j|h_eZW_dZ‘ijh_Wgk‡c_YW"WWd|b_i[Yh‡j_YWh[Wb_pWZW
YeceiZWZeiZ[ced_jehWc[djeY^[]ek}ii[]k_dj[iYedYbki[i0
'$ 7dj[iZWcWdkj[d‚€e][hWb"elebkc[Z_|h_eZ[[Ôk[dj[iWd_j|h_efehf[iieWfWiiekZ['))b_jheifehZ_W
por pessoa (133 m³/d/1.000 pessoas) para 60 litros por dia por pessoa (60 m³/d/1.000 pessoas).
($ DegkWhjec…i"YecW_dYbki€eZ[cW_i)&&jhWXWb^WZeh[i"elebkc[Z_|h_eZ[[Ôk[dj[iWd_j|h_efeh
pessoa passou para 77 litros por dia por pessoa (100 m³/d/1.300 pessoas). Assim, as ações foram eficazes
gkWdZei[WlWb_WW][hW‚€eZ[[Ôk[dj[fehf[iieW[elWbehWdj[iZe_d‡Y_eZefhe]hWcW'))b_jheifeh
Z_Wfehf[iieW$Fehƒc"Yeceh[ikbjWZef_ehZegk[ei,&b_jheifehZ_Wfehf[iieWgk[`|j_d^Wi_Ze
atingido.
3. Ao avaliar a causa do problema, concluiu-se que o mesmo ocorreu pela falta de treinamento dos
empregados da empresa terceirizada de manutenção.
*$ FWhW[l_jWhed€eWj[dZ_c[dje}b[]_ibW‚€edejhWjWc[djeZ[[Ôk[dj[iWd_j|h_e"dWfhŒn_cWcWdkj[d‚€e
geral foram programadas as seguintes ações:
š 7Ze‚€eZ[XWd^[_heigk‡c_YeifWhWei[cfh[]WZeiZW[cfh[iWZ[cWdkj[d‚€efh[l_ijedeYedjhWje$
š 9ediY_[dj_pW‚€eWcX_[djWbfWhWei[cfh[]WZeiZW[cfh[iWZ[cWdkj[d‚€el_iWdZe}ckZWd‚WZ[
hábitos ao tomar banho.
š 7kc[djWhed‘c[heZ[[cfh[]WZeiZW[cfh[iW[c\ƒh_WiYeb[j_lWiZkhWdj[WcWdkj[d‚€e][hWb$
š 9edj_dkWheced_jehWc[djeZWlWp€eZ[[Ôk[dj[[ikWh[bW‚€efeh[cfh[]WZec[icei[Wj_d]_dZeW
meta, para se verificar a efetividade das ações propostas para resolver o problema.

7.6. Revisão dos conceitos apresentados


O capítulo descreveu a gestão de efluentes provenientes de atividades ou proces-
sos e o seu lançamento em corpos de água receptores. A gestão de efluentes permite
a redução dos impactos socioambientais e o atendimento às exigências legais. Para
tal é preciso conhecer o contexto em que essa temática se insere. Inicialmente, foram
abordados alguns aspectos históricos e conceituais relativos aos recursos hídricos.
Destaca-se que os impactos ambientais têm sua origem, sobretudo, a partir da Revo-
lução Industrial, que impulsionou o crescimento urbano e populacional, agravando a
poluição e o desequilíbrio ambiental no planeta.
Por outro lado, para o controle da poluição hídrica, faz-se necessária a criação
de instrumentos normativos e legais, como a Resolução Conama n. 430/2011, que
dispõe sobre as condições e padrões de lançamento de efluentes, em todo o país, in-
dependente da qualidade ambiental da bacia hidrográfica onde o efluente é lançado.
Destaca-se também a Lei n. 9.433/1998, que instituiu a Política Nacional de Recursos
Hídricos e estabeleceu o princípio do poluidor-pagador, tornando-se um importante
instrumento econômico e normativo para o disciplinamento dos usos conflitantes dos
recursos hídricos.
226 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

No planejamento das atividades humanas visando ao controle da poluição da água,


é fundamental conhecer os diferentes usos do solo e a qualidade das águas da bacia
hidrográfica em que tais atividades se desenvolvem. Para efeitos de minimização ou
correção dos impactos ambientais, algumas técnicas e ações são recomendadas, a
saber: a implantação de sistemas de coleta e tratamento de esgotos domésticos e in-
dustriais, bem como de seus resíduos sólidos; o controle da erosão e dos agrotóxicos
e fertilizantes nas áreas agrícolas; a recuperação de rios objetivando o retorno ao seu
equilíbrio dinâmico.
Os processos de tratamento são classificados em função das seguintes etapas de
tratamento: preliminar; primário ou físico-químico; secundário ou biológico; terciário.
A gestão de efluentes deve administrar os recursos disponíveis (mão de obra, equi-
pamentos, processos de tratamentos de efluentes, financeiros, tanto diretos quanto
indiretos) visando ao uso eficiente da água, à melhoria da qualidade dos efluentes
gerados, à redução da geração e à reutilização, sempre considerando a disponibilidade
de recursos hídricos para captação e uso, os aspectos socioambientais e a viabilidade
técnica e econômica. Uma abordagem sistemática para a gestão eficiente de efluentes
foi apresentada e pode ser adotada, com base na metodologia bastante conhecida – o
ciclo PDCA (Planejar-Executar-Verificar-Agir).

7.7. Questões
1. Apresente os principais aspectos relacionados à poluição hídrica e as formas de
controlá-la.
2. Você é o gestor ambiental de uma indústria que recebeu reclamações da comuni-
dade vizinha sobre odor com características de ovo podre emanando do efluente
que sai da Estação de Tratamento de Efluentes da empresa. Cite pelo menos cinco
ações relacionadas com a sistemática apresentada de gestão de efluentes que você
faria para resolver este problema.
3. Explique as razões que levaram a legislação ambiental brasileira a se basear no ins-
trumento de comando e controle. Discuta esse tema com os seus colegas de turma
e as formas alternativas em relação ao controle de fim de linha (end of pipe).
4. Faça uma visita a (estação de tratamento de efluente ETE) existente na empresa em
que você trabalha ou de uma empresa que você conheça, e pesquise quais são os
efluentes gerados, os tratamentos realizados e os parâmetros utilizados para avaliar
a qualidade da água tratada pela ETE visitada.

7.8. Referências
AZEVEDO NETTO, J. M. Cronologia do abastecimento de água até 1970. Revista DAE,
v. 44, n. 37, jun. 1984, p. 106-11.
BRASIL. Decreto 24643, de 10 de julho de 1934. Decreta o Código de Águas. Disponível
em: http://www.planalto.gov.br.
Capítulo 7 s'ESTáODEEFLUENTES 227

BRASIL. Deliberação CECA 1.995, de 10 de outubro de 1990, aprova a DZ 942 R.7. Esta-
belecer as diretrizes do Programa de Autocontrole de Efluentes Líquidos – Procon
Água. Disponível em: http://www.inea.rj.gov.br.
BRASIL. Lei n. 9433, de 8 de janeiro de 1997. Institui a Política Nacional de Recursos
Hídricos, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Dis-
ponível em: http://www.planalto.gov.br.
BRASIL, Fundação Nacional de Saúde. Manual de saneamento. 3. ed. 2004, 408p. (ISBN:
85-7346-045-8).
BRASIL. Portaria Ministério do Interior n. 13, de 15 de janeiro de 1976. Institui a clas-
sificação das águas. Disponível em: http://www.planalto.gov.br. Acesso em: 4
jun. 2011.
BRASIL. Portaria n. 518, de 25 de março de 2004. Estabelece os procedimentos e
responsabilidades relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para
consumo humano e seu padrão de potabilidade.
BRASIL. Resolução Conama n. 430, de 13 de maio de 2011. Dispõe sobre as condições e
padrões de lançamento de efluentes, complementa e altera a Resolução n. 357,
de 17 de março de 2005, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
Disponível em: http://www.mma.gov.br/conama.
DE MARTINI Jr., L. C.; FIGUEIREDO, M. A. G. de; GUSMÃO, A. C. F. de. Redução de resí-
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LERAY, G. Planète eau. Paris: La Villette Presses Pocket, 1982.
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228 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

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VON SPERLING, M. Introdução à qualidade das águas e ao tratamento de esgotos. 2.
ed. Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental. Universidade Federal
de Minas Gerais, 1996, v. 1.
8
Os resíduos sólidos e a
logística reversa
Francisco Gaudêncio Mendonça Freires
Francisco Alves Pinheiro

Conceitos apresentados neste capítulo


Este capítulo discute a gestão dos resíduos sólidos, regulada pela Política Nacional
de Resíduos Sólidos (PNRS), suas estratégias e tecnologias de controle, como: não ge-
ração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e disposição final ambientalmente
adequada dos rejeitos. Apresenta ainda a logística reversa como instrumento necessário
para viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para
reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação
final ambientalmente adequada. Ao final do capítulo são apresentados três casos de
estudo de logística reversa de: pneus-resíduo, embalagens vazias de agrotóxicos e re-
torno de paletes para reuso na indústria de bebidas.
230 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

8.1. Introdução
Em geral, consideramos lixo tudo o que para nós é inservível. Porém este conceito é
extremamente subjetivo, pois o que é lixo para um, pode ser útil para outro. Quando algum
produto se torna inservível para você, o caminho natural é o descarte do mesmo em algum
destino ambientalmente adequado. Neste momento estamos falando de um resíduo.
Segundo a Lei n. 12.305/2010, os resíduos sólidos são externalidades negativas re-
sultantes da atividade humana, nos estados sólidos ou semissólidos, bem como gases
contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lança-
mento na rede pública de esgotos ou em corpos d’água, ou exijam para isso soluções
técnicas ou economicamente inviáveis em face da tecnologia disponível.
O crescente processo de urbanização e o nível de industrialização alcançado pela
sociedade tem agravado a problemática dos resíduos sólidos. Estima-se que em 2050, a
população urbana mundial terá ultrapassado os 6,2 bilhões de habitantes (ONU, 2009).
Boa parte dos resíduos sólidos pode e deve ser restituída à indústria para ser
reaproveitada em um novo ciclo produtivo, seja por recuperação direta ou por pro-
cessamento. A coleta e reaproveitamento de vasilhames de bebidas representa uma
forma de recuperação direta (reuso se usada para o envase do mesmo tipo de bebida
e reutilização se usada para envase de outro produto), enquanto a reciclagem do alu-
mínio presente nas latas de bebidas é um exemplo claro de recuperação por processo.
Ao processo de restituição dos resíduos à indústria dá-se o nome de Logística Reversa
(LR). Portanto, a logística reversa concentra-se nos fluxos onde existe certo valor a ser
recuperado nos resíduos e estes podem entrar novamente em uma cadeia de abaste-
cimento, podendo também ser aplicada para evitar que determinado resíduo perigoso
tenha um destino final inadequado ao ambiente.
Os resíduos sólidos, portanto, demandam uma gestão adequada para minorar seu
impacto ao ambiente e à saúde pública, numa inter-relação entre aspectos administra-
tivos, financeiros e legais, cujas soluções são interdisciplinares, envolvendo ciências e
tecnologias provenientes da engenharia, economia, sociologia, administração, saúde
pública, demografia, comunicação social, entre outras.

No Paraná, 53% dos municípios ainda jogam lixo em qualquer lugar

CW_iZWc[jWZ[Zei)//ckd_Y‡f_eiZeFWhWd|W_dZWd€ej[cWj[hheiiWd_j|h_ei$I[]kdZee?dij_jkjeFWhWdW[di[
de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), apenas 47% das cidades possuem um local adequado para
destinação dos resíduos sólidos. Em 27% dos municípiosW_dZWi€ekiWZeiWj[hheiYedjhebWZeiÅYedi_Z[hWZei
kcWiebk‚€e_dj[hc[Z_|h_WfWhWefheXb[cWÅ[deiekjhei(,"ek'&/ckd_Y‡f_ei"W_dZWi€ekiWZeib_n[i$
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o estudo do Ipardes, os lixões estão localizados em municípios pequenos, com menos de 20 mil habitantes. No
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dos gestores é o custo de manutenção dos aterros sanitários.
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recursos não é desculpa para a presença de lixões. “Quanto menor a cidade, mais barato o custo de manutenção.
EZ[iYkcfh_c[djeZWb[]_ibW‚€eWcX_[djWb"dWc_d^Wef_d_€e"Z[l[h_Wb[lWhe][ijehfWhWWYWZ[_W$Fh_i€e
preventiva obrigatória para todos os prefeitos que descumprissem a lei”, opina.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 231

Segundo o coordenador de Resíduos Sólidos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de Recursos Hídricos
(Sema), Laerty Dudas, o problema dos lixões é cultural e não depende apenas dos gestores. “O objetivo deve ser
minimizar e reduzir a geração de resíduos. Apenas 15% do que produzimos é lixo, todo o resto é reaproveitável.
Separando, evitamos a criação dos lixões e aumentamos a vida útil dos aterros”, afirma.
Das 170 mil toneladas de lixo produzidas no Brasil por dia, 40% são depositadas em lixões municipais, segundo
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produzidas 20 mil toneladas de lixo por dia.

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com.br/.

8.2. Resíduos sólidos


A problemática dos resíduos sólidos vem se agravando na maioria dos países de-
vido ao aumento populacional e ao acentuado crescimento urbano que, associados à
evolução dos costumes, criação ou mudanças de hábitos, melhoria do nível de vida,
desenvolvimento industrial, novos métodos de embalagem dos produtos consumidos e
o crescente acesso a produtos industrializados, trazem como consequência, o aumento
da geração de resíduos sólidos no campo e nas cidades.
Além disso, o problema agrava-se pela disposição inadequada destes resíduos na
maioria das cidades brasileiras principalmente pela substituição gradativa na compo-
sição destes resíduos, de uma fração orgânica por outra não biodegradável e ambien-
talmente insustentável.
A norma ABNT NBR 10.004/2004, define resíduo sólido como:
[...] resíduos nos estados sólido e semi-sólido, que resultam de atividades de origem indus-
trial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Ficam incluídos
nesta definição os lodos provenientes de sistemas de tratamento de água, aqueles gerados
em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos
cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou
corpos de água, ou exijam para isso soluções técnica e economicamente inviáveis em face
à melhor tecnologia disponível.

Os resíduos sólidos são classificados, pela NBR 10.004/2004, quanto à sua pericu-
losidade, em:
a) Resíduos classe I – Perigosos: são os que requerem maior atenção pelo risco à saúde
pública e ao meio ambiente. Estes resíduos podem ser incinerados, ou dispostos
em aterros sanitários próprios para receberem resíduos perigosos.
b) Resíduos classe II – Não perigosos:
š resíduos classe II A – Não inertes, podem ser dispostos em aterros sanitários ou
reciclados, entretanto, devem ser observados os componentes destes resíduos
(matérias orgânicas, papeis, vidros e metais), a fim de que seja avaliado o po-
tencial de reciclagem.
š resíduos classe II B – Inertes, podem ser reciclados ou dispostos em aterros sa-
nitários.
232 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Para os resíduos perigosos, a NBR 10.004/2004 classifica-os quanto a uma das ca-
racterísticas abaixo:
š Inflamabilidade: entram em combustão.
š Corrosividade: ácidos ou básicos elevados.
š Reatividade: reagem de forma violenta e imediata com outras substâncias po-
dendo ocorrer a liberação de energia (explosão).
š Toxicidade: ação tóxica sobre organismos vivos.
š Patogenicidade: ação patogênica capaz de produzir doenças em homens,
animais ou vegetais. Destaque-se que os resíduos de serviços de saúde deverão
ser classificados conforme ABNT NBR 12808 e que os resíduos gerados nas
estações de tratamento de esgotos domésticos e os resíduos sólidos domiciliares,
excetuando-se os originados na assistência à saúde da pessoa ou animal, não
serão classificados segundo os critérios de patogenicidade.
š Radiatividade: emitem radiações ionizantes. Os resíduos radioativos não são
objeto desta Norma, pois são de competência exclusiva da Comissão Nacional
de Energia Nuclear.

Os resíduos sólidos podem ainda serem classificados de acordo com o grau de


degradabilidade em:
š Facilmente degradáveis (FD): restos de comida, sobras de cozinha, folhas, capim,
cascas de frutas, animais mortos e excrementos.
š Moderadamente degradáveis (MD): papel, papelão e outros materiais celulósicos.
š Dificilmente degradáveis (DD): trapo, pano, osso, couro, borracha, cabelo, penas
de galinha, plástico.
š Não degradáveis (ND): metal não ferroso, vidro, pedras, cinzas, terra, areia, ce-
râmica.

Quanto à origem, os resíduos sólidos são classificados em:


š Domiciliar: aquele originado do dia a dia das residências.
š Comercial: aquele proveniente dos diversos estabelecimentos comerciais e de
serviços.
š Público: os originados dos serviços da limpeza pública.
š De serviços de saúde e hospitalar: constituem os resíduos sépticos, ou seja, que
contém, ou potencialmente podem conter, germes patogênicos.
š De portos, aeroportos, terminais rodoviários e ferroviários: constituem os resídu-
os sépticos, que contêm, ou potencialmente podem conter germes patogênicos,
trazidos aos portos, aeroportos, terminais rodoviários e ferroviários.
š Industrial: aqueles, originados nas atividades dos diversos ramos da indústria:
metalúrgica, química, petroquímica, papeleira, alimentícia, entre outros. O
resíduo sólido industrial é bastante variado, podendo ser representado por cin-
zas, lodos, óleos, resíduos alcalinos ou ácidos, plásticos, papel, madeira, fibras,
borracha, metal, escórias, vidros, cerâmicas etc;
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 233

š Agrícola: resíduos sólidos das atividades agrícolas e da pecuária, como embala-


gens de adubos, defensivos agrícolas, ração, restos de colheita etc.
š Entulho: resíduos da construção civil: demolições e restos de obras, solos de
escavações, entre outros.

Já a condição de reciclabilidade depende do desenvolvimento tecnológico, mas a


reciclagem depende das condições locais. Uma vez que resíduos como os de embalagem
de PET, podem dar origem a um grande número de novos produtos (fios, dutos, placas,
dentre outros), mas por muitos anos a maior parte das regiões brasileiras não contava
com recicladoras. Ainda hoje, plásticos de copos descartáveis, embalagens metalizadas
e de isopor, entre outros materiais, dificilmente participam de processos de reciclagens.

Materiais Recicláveis Não recicláveis


papel vegetal;
papéis de escrever: cadernos, papéis de papel celofane,
escritório em geral; papéis encerados ou impregnados com
papéis de impressão: jornais, revistas; substâncias impermeáveis;
papéis de embalagem: papéis de embrulho papel-carbono;
em geral, papel de seda papéis sanitários usados;
FWfƒ_i
cartões e cartolinas: caixas de papelão e papéis sujos, engordurados ou contaminados
cartolinas em geral; YecWb]kcWikXij~dY_WdeY_lW}iW‘Z[1
fWfƒ_i[if[Y_W_i0fWf[bahW\j"fWf[b papéis revestidos com algum tipo de parafina
heliográfico, papel filtrante, papel de ou silicone;
desenho. fotografias;
fitas adesivas e etiquetas adesivas.
todos os tipos de embalagens de xampus,
detergentes, refrigerantes e outros produtos
domésticos; plásticos termofixos, usados na indústria
tampas plásticas de recipientes de outros eletroeletrônica e na produção de alguns
materiais; computadores, telefones e eletrodomésticos;
Fb|ij_Yei
embalagens de plástico de ovos, frutas e plásticos tipo celofane;
legumes; embalagens plásticas metalizadas muito
utensílios plásticos usados, como canetas utilizadas em alimentos.
esferográficas, escovas de dentes, baldes e
artigos de cozinha.
espelhos;
vidros de janelas;
garrafas de bebida alcoólica e não alcoólica; vidros de automóveis;
frascos em geral ( molhos, condimentos, lâmpadas,
Vidros remédios, perfumes, produtos de limpeza); tubos de televisão e válvulas;
potes de produtos alimentícios; ampolas de medicamentos,
cacos de qualquer dos produtos citados. cristal;
vidros temperados planos ou de utensílios
domésticos .
Metais todos -

Fonte: Instituto Gea, 2011.


234 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Um dos grandes problemas da gestão dos resíduos sólidos é a sua sustentabilidade


econômica. Atualmente existem três modelos básicos de cobrança de tributos em re-
lação aos Serviços de Limpeza Urbana prestados à população (Pinheiro, 2005):
š O primeiro deles é o lançamento e a cobrança através da Taxa de Limpeza Ur-
bana (TLP) que tem como base de cálculo um percentual do valor lançado no
IPTU. No entanto, por ter a TLP a mesma base de cálculo do Imposto Predial e
Territorial Urbano (IPTU), é considerada inconstitucional;
š O segundo modelo é o lançamento deste tributo sobre forma de tarifa cobrada
juntamente com a conta de água do município.
š Um terceiro modelo é o lançamento e cobrança através de Taxa de Coleta de
Resíduos (TCR). Esta taxa leva em consideração parâmetros que buscam apon-
tar os custos destes serviços desvinculando este tributo do IPTU. Este modelo
foi desenvolvido e atualmente é adotado pelo município de João Pessoa, na
Paraíba, entre outros.

Outro fator a ser considerado diz respeito aos catadores, tanto os que vivem e tra-
balham nos lixões quanto os de rua, que encontram nos resíduos sólidos o único meio
de sobrevivência, onde separam os materiais recicláveis para serem comercializados
com intermediários até chegarem à indústria recicladora.
Estudos apontam que os catadores são responsáveis por 90% do material que
alimenta as indústrias de reciclagem no Brasil; além disso, eles contribuem para
redução dos resíduos a serem tratados pela municipalidade, evitando que resíduos
virem rejeitos. Estes “trabalhadores invisíveis” garimpam nos resíduos sólidos os des-
perdícios de recursos naturais que retornam ao processo produtivo como matérias-
-primas secundárias.
A atividade de catação, em geral, é desenvolvida em condições de trabalho bastante
inadequadas, acrescida da exploração dos intermediários da reciclagem, do preconceito
da população e da falta de incentivo e de apoio do poder público. No Brasil, nos últimos
anos, várias cooperativas de catadores foram organizadas e têm atuado em parceria
com administrações locais na coleta seletiva para projetos de reciclagem. Como por
exemplo, a Coopamare de São Paulo, a Asmare em Belo Horizonte, Astramare em João
Pessoa, entre outras.
Nas últimas décadas do século passado e na primeira deste, diversos programas
do Governo Federal, passaram a condicionar o repasse de recursos aos municípios à:
erradicação dos lixões; elaboração de planos de gestão integrada de resíduos sólidos
urbanos (com especial atenção ao componente social); apoio à organização dos cata-
dores e parceria com os mesmos na coleta seletiva (Dias, 2007).
Até que em 2010, em consonância com as melhores práticas e políticas públicas
mundiais para a questão dos resíduos sólidos, o Brasil estabeleceu a Política Nacional
de Resíduos Sólidos (PNRS).
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 235

8.3. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)


O manejo de resíduos sólidos faz parte do conjunto de serviços, infraestruturas e
instalações operacionais do saneamento básico. Com a publicação da Lei n. 12.305, de
02/08/2010 (Brasil, 2010) e seu regulamento através do Decreto n. 7.404, de 23/12/2010,
o Brasil passou a ter um marco regulatório para a questão dos resíduos sólidos. A Política
Nacional de Resíduos Sólidos integra a Política Nacional do Meio Ambiente e articula-
-se com a Política Federal de Saneamento Básico, nos termos da Lei n. 11.445/2007,
e com a Política Nacional de Educação Ambiental, regulada pela Lei n. 9.795/1999.
Harmoniza-se ainda com a Lei de Consórcios e com as Políticas Nacionais de Recursos
Hídricos, de Saúde, Urbana, Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior, e as que
promovam a inclusão social (Figura 8.1).

Figura 8.1. Articulações da PNRS.

A PNRS tem como objetivos, na ordem de prioridade apresentada, a não geração, a


redução, a reutilização e o tratamento de resíduos sólidos, bem como a disposição final
ambientalmente adequada dos rejeitos. Reduzir o uso de recursos naturais no processo
de produção, intensificar ações de educação ambiental, aumentar a reciclagem no país,
promover a inclusão social, a geração de emprego e renda de catadores de materiais
recicláveis são metas a serem implementadas.
A inclusão socioprodutiva de catadores de materiais recicláveis é uma estratégia
inovadora adotada pela PNRS com o objetivo de produzir efeitos sociais, econômicos
e ambientais para toda a sociedade. O material reciclável destinado às organizações de
catadores constitui-se num lastro financeiro e em aval para acesso a linhas de finan-
236 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

ciamento para a organização e o funcionamento das cooperativas ou outras formas de


associação de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis formadas por pessoas
físicas de baixa renda.
Entre os principais instrumentos instituídos pela PNRS, destacam-se: os planos de
resíduos sólidos, o inventário e o sistema declaratório anual de resíduos sólidos, a co-
leta seletiva, o incentivo a cooperativas de catadores; o monitoramento e a fiscalização
ambiental, sanitária e agropecuária, a cooperação técnica e financeira entre os setores
público e privado para o desenvolvimento de pesquisas de novos produtos, métodos,
processos e tecnologias de gestão.
Retornemos ao exemplo do fluxograma do processo de fabricação, venda e consu-
mo de picolé do capítulo 1, onde estão identificados os pontos de geração de resíduos
sólidos. A geração pode ocorrer na embalagem do picolé, ainda na fábrica, e no pós-
-consumo com o descarte do papel de embalagem e do palito de madeira ou plástico.
Portanto, a empresa precisa manter um plano de resíduos sólidos interno para tratar
e dar destinação ambientalmente adequada aos seus resíduos, e o município, onde o
consumo do picolé ocorre, deverá também manter um plano para a gestão dos resíduos
produzidos pelos munícipes, inclusive os resíduos do picolé.
Para a PNRS, a logística reversa se constitui num instrumento essencial à implemen-
tação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, abrangendo
fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, consumidores e titulares
dos serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos. No exemplo do
picolé do Capítulo 1, os resíduos de papel, madeira e plástico podem ser selecionados
e fazer o processo de retorno, através da LR, a novos ciclos produtivos.
Os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de produtos cujos resí-
duos se constituam em perigo à saúde pública e ao meio ambiente deverão, de forma
compulsória, estruturar e implementar Sistemas de Logística Reversa (SLR), devendo
dar destinação ambientalmente adequada ao resíduo e disposição final ambientalmen-
te adequada ao rejeito. Porém, a definição dos SLR considerará a viabilidade técnica
e econômica e o potencial de impacto danoso à saúde pública e ao meio ambiente.
Inicialmente, a PNRS, em seu art. 33, considerou apenas seis produtos e embalagens,
sendo eles:
š agrotóxicos;
š pilhas e baterias;
š pneus;
š óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens;
š lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e luz mista;
š produtos eletrônicos e seus componentes.

8.4. Inventário de resíduos industriais


O inventário de resíduos industriais é um instrumento de política de gestão de resí-
duos, no qual as atividades industriais devem fornecer informações aos órgãos ambien-
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 237

tais estaduais sobre a geração, características, armazenamento, transporte, tratamento,


reutilização, reciclagem, recuperação e disposição final dos resíduos sólidos gerados.
Para a aplicabilidade deste instrumento, são utilizados formulários padronizados pela
Resolução 313/2002 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).
Na prática, as empresas obrigadas a prestarem estas informações (tipologias listadas
no art. 4. da Resolução Conama n. 313/2002), deverão manter uma coleta mensal de
dados e relatá-las em, no máximo vinte e quatro meses, conforme determinação do
órgão ambiental estadual (Figura 8.2).

Figura 8.2. Fluxo de informações do inventário de resíduos.


Fonte: adaptada de Resolução Conama n. 313/2002, Anexo 1.

O Inventário de Resíduos Industriais, conforme a Resolução Conama n. 313/2002,


vai além dos resíduos perigosos ou de Classe I, indicando a importância atribuída a este
tema na agenda ambiental. A gestão dos resíduos industriais requer uma abordagem
gerencial que identifique, além das fontes e dos tipos de resíduos, os processos indus-
triais que reduzam a sua geração e seu melhor aproveitamento em outros processos,
requerendo dos setores público e privado maior eficiência na ação de controle e na
divulgação permanente da informação ambiental, de forma a possibilitar a participa-
ção direta da população e da sociedade organizada no processo de gestão ambiental.
238 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

7i_jkW‚€eWjkWbZe;ijWZeZeH_eZ[@Wd[_he"i[]kdZee_dl[dj|h_eZ[h[i‡Zkeih[\[h[dj[W(&&."_dZ_YWkcW
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toneladas de resíduos perigosos. A maior parte deste tipo de resíduo é produzida na região metropolitana da
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ZeH_eZ[@Wd[_he$

Geração de Resíduos
Bacia Hidrográfica Percentual
Industriais
3.294.967,09 27,25
Baía de Guanabara
8.650.569,48 71,55
FWhW‡XWZeIkb
Baía de Sepetiba 15.918,60 0,14
BW]eWZ[@WYWhƒFW]k| 85.140,48 0,70
Oceânicas
43.144,20 0,36
Total
12.089.739,85 100%

Classe de Periculosidade Quantidade (T/Ano) Percentual


666.832,21 5,51
Classe I
Classe II A 8.831.705,76 73,05
Classe II B 2.591.201,88 21,43
Total
12.089.739,85 100%

FkXb_YWZef[be?dij_jkje;ijWZkWbZe7cX_[dj[Å?D;7[c0
http://www.inea.rj.gov.br/fma/gerenciamento-residuos-objetivo.asp.

8.5. Estratégias de gestão e tecnologias de controle


de resíduos sólidos
Um dos objetivos da PNRS é o estímulo à adoção de padrões sustentáveis de produ-
ção e consumo de bens e serviços. Este objetivo demonstra a percepção do legislador
de que a problemática dos resíduos sólidos não pode ser vista numa visão reducionista,
cuja solução passa apenas pelo desenvolvimento de tecnologias de controle dos mes-
mos, mas pela mudança de padrões de consumo das sociedades. Portanto antes de
pensarmos nas tecnologias de controle e tratamento dos resíduos sólidos, precisamos
ficar atentos aos aspectos de não geração e redução dos mesmos.
A minimização da produção de resíduos é um grande desafio que pressupõe a
conscientização dos agentes políticos e econômicos e das populações em geral para
que todos se sintam responsáveis pela implementação de medidas tendentes à redução
dos resíduos na fonte geradora.
Estima-se que uma pessoa utiliza 150 sacolas plásticas por ano. Se adotarmos a
prática de levarmos uma sacola de tecido (retornável) para o supermercado a cada
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 239

compra, estaremos contribuindo com uma redução substancial de resíduos plásticos


que demoram, em média, 100 anos para se decompor na natureza.
A redução da produção de resíduos nas fábricas se dá através de alterações do
processo industrial, que podem ocorrer por meio de alterações das matérias-primas
utilizadas, melhorias tecnológicas, alterações de procedimentos e práticas operacionais
e redução das embalagens.
Soluções alternativas à não geração e redução de resíduos ainda são escassas e
passam pelo conceito de ecoeficiência. A ecoeficiência é alcançada mediante o for-
necimento de bens e serviços a preços competitivos, que satisfaçam as necessidades
humanas e tragam qualidade de vida, ao mesmo tempo em que reduz progressiva-
mente o impacto ambiental e o consumo de recursos ao longo do ciclo de vida, a
um nível, no mínimo, equivalente à capacidade de sustentação estimada da Terra
(CEBDS, 2011).
As empresas ecoeficientes são aquelas que conseguem reduzir os desperdícios de
água, energia e materiais, reduzindo de forma progressiva a geração de resíduos sólidos,
efluentes líquidos e emissões atmosféricas, traduzindo-se em ganhos econômicos e
ambientais. Em outras palavras, a ecoeficiência expressa a competência da empresa
em operar sem contaminar o ambiente e consumir recursos naturais de forma racional.
A gestão dos resíduos passa pela efetividade dos planos de resíduos sólidos es-
tabelecidos nos níveis nacional, estadual e municipal privilegiando a participação
social. As empresas industriais, comerciais e de serviços, de acordo com o definido na
PNRS, deverão estabelecer o plano de gerenciamento de resíduos sólidos como parte
integrante do processo de licenciamento ambiental do empreendimento ou atividade.
Sempre que possível, as soluções consorciadas ou compartilhadas com outros geradores
devem ser incentivadas.
A coleta de resíduos urbanos é normalmente responsabilidade da administração
direta (vinculada a uma secretaria municipal). Esta atividade pode também ser dele-
gada às prestadoras de serviços para a Prefeitura ou autarquias, fundações, empresas
públicas ou de economia mista. Existem, ainda, situações menos comuns onde a coleta
de resíduos urbanos é executada por concessões e livre concorrência.
A gestão de resíduos urbanos engloba a coleta de lixo domiciliar e comercial; coletas
especiais (podas, animais mortos); varrição (vias públicas, praças e eventos); limpeza
das praias; limpeza de terrenos e jardins e utilização de aterros sanitários.
O processo de LR normalmente se inicia com a coleta nos pontos de consumo por
catadores ou são levados pelos próprios consumidores finais a pontos de recolha em
postos de entrega voluntária (PEV), para serem encaminhados a centros de triagem,
onde ocorrem as fases de separação, embalagem e expedição para o estabelecimento
empresarial que realizará o processamento e recuperação de valor dos resíduos sólidos
e estes poderão entrar em uma nova cadeia de abastecimento.
As estratégias de recuperação de valor dos resíduos estão divididas em recuperação
direta e recuperação indireta ou por processo (Figura 8.3):
240 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Figura 8.3. Níveis de recuperação de produtos.


Fonte: Freires, 2007, p. 46.

8.5.1. Recuperação direta


A recuperação direta envolve as seguintes opções: revenda, reutilização e redistri-
buição. A venda de materiais de segunda mão, também chamada de revenda, é uma
das primeiras opções de destino dos materiais recolhidos.
Essa venda pode ocorrer no mesmo canal dos materiais novos, contudo normalmen-
te acaba recaindo em canais específicos que conseguem tratá-los mais adequadamente
e agregar maior valor ao bem, ao mesmo tempo em que preservam o canal de venda
original. Assim, além do canal original, podem-se vender materiais de segunda-mão
(recuperados) através de revendedores especializados em materiais secundários (antes
ou após algum tipo de processamento). Exemplos de revenda são os carros seminovos
ou semivelhos, as lojas de móveis e eletrodomésticos usados e os brechós e sebos para
venda de roupas e livros usados, respectivamente.
Considerando a reutilização como o processo de aproveitamento dos resíduos
sólidos sem sua transformação biológica, física ou físico-química, sendo empregado
diretamente com a mesma finalidade para a qual foi concebido originalmente. Na
reutilização os processos realizados se resumem à seleção e limpeza dos produtos,
mantendo suas características e funções originais. A redistribuição é uma etapa com-
plementar da reutilização. O caso das embalagens, contentores e garrafas de vidro são
produtos que podem ser reutilizados sem muito trabalho, sendo usados para conter
outros bens, sendo caracterizados como redistribuição.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 241

8.5.2. Recuperação por processo


A recuperação por processos ou reprocessamento envolve uma série de operações,
tais como limpeza, desmontagem e remontagem. Apesar das operações anteriormente
mencionadas, pode-se dizer que a recuperação por processos acontece em diferentes
níveis:
a) Reparação
O conserto, ou reparação, é o tipo de interferência mais brando que o material
recuperado pode receber. O produto sempre sofre interferência com a intenção de
melhorar ou recuperar suas caraterísticas originais, e assim aumentar a possibilidade
de reutilização ou venda do mesmo.
Após sofrer reparação, a qualidade do produto é geralmente inferior à qualidade de
um mesmo produto novo. As intervenções no produto restringem-se a consertar ou
trocar peças que estejam avariadas. Os produtos recondicionados, quando vendidos,
normalmente são negociados sob alguma forma de garantia, porém, normalmente
com um prazo menor que os produtos novos. No Brasil, é comum a comercialização
de produtos reparados, tais como: peças de veículos, equipamentos eletrônicos, ele-
trodomésticos e utensílios domésticos.

b) Reforma
A intenção da reforma é elevar a qualidade de produtos usados numa nova especi-
ficação. Essa especificação de recondicionamento é normalmente um pouco inferior
a dos produtos novos.
Algumas vezes os produtos sofrem alguma atualização através da substituição de
módulos por outros de tecnologia mais moderna, como no caso de atualização de
computadores através da troca ou adição de placas. É comum também que equipa-
mentos industriais (tornos e fresas, por exemplo) sofram reforma, normalmente com
a inserção de módulos de controle eletrônicos.

c) Refabricação
Reforma e refabricação são semelhantes. Normalmente chama-se de reforma a
refabricação de grandes máquinas ou equipamentos, enquanto que a refabricação
ocorre em produtos que podem ser facilmente transportados e usualmente são itens
de consumo. Como exemplo de refabricação temos pneus, motores, bobinas elétricas,
cartuchos de impressão, etc.
A refabricação é tipicamente aplicada para equipamentos complexos ou maqui-
naria com diversos módulos e componentes, sendo normalmente uma atividade
intensiva de mão de obra. No caso da recuperação de componentes, um produto é
desmontado e suas partes/componentes podem ser reutilizadas na fabricação de
um novo produto.
242 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Os produtos refabricados atingem a mesma qualidade dos produtos novos e mui-


tos são entregues aos clientes sob as mesmas condições de garantia dos novos e/ou
vendidos no mesmo canal de distribuição. Fleischmann (2001) faz uma distinção entre
os casos de cadeias reversas geridas pelo fabricante do equipamento original e por
fabricantes independentes. Em cadeias geridas pelo OEM (Original Equipment Ma-
nufacturer) existe uma integração entre os fluxos de distribuição (diretos) e de recolha
(reversos), constituindo um circuito fechado, no segundo caso não existe nenhuma
integração com a cadeia direta.

d) Canibalização
A canibalização de partes ou componentes de um produto ocorre quando a reutili-
zação ou recuperação do produto na sua integridade não pode ser realizada ou torna-
-se desvantajosa financeiramente. O benefício do aproveitamento de peças pode, em
alguns casos, ser maior que o obtido pela recuperação do produto, especialmente se
as oportunidades de revenda do produto recuperado forem incertas (Fleischmann et
al., 2000).
O objetivo da canibalização é recuperar peças a partir de produtos usados ou de-
feituosos (pós-utilização) e, eventualmente, até mesmo de produtos novos que não
tenham mais mercado, ou seja, se tornaram obsoletos.
Muitas vezes, fabricar peças simplesmente para o mercado de reposição pode
não ser econômico devido à falta de escala. Nestas situações, a canibalização de
peças é uma alternativa bastante interessante. Essas peças podem ser utilizadas
em reparações, reformas ou refabricação de outros produtos ou módulos e as suas
especificações de qualidade dependem de quais processos as utilizarão (Thierry
et al., 1995).
Exemplos bem sucedidos de canibalização é a recuperação de peças de aeronaves
e de veículos automotivos. Outro exemplo de canibalização ocorre com a recuperação
de componentes eletrônicos. O desmonte de produtos demanda aplicações de técni-
cas da engenharia de métodos com uma visão distinta da tradicional e consiste em
determinar a sequência mínima de operações capaz de separar as partes desejadas
com a qualidade esperada.

e) Reciclagem
A técnica da reciclagem consiste em quatro fases: a desmontagem do produto e
remoção de materiais perigosos; a redução do produto em pequenas partes; a seleção
destas partes e o seu processamento final. Estas fases são genéricas e, dependendo do
tipo de produto e características, nem sempre serão necessárias. Para entender melhor
estas fases, daremos o exemplo da reciclagem de baterias de veículos.
Inicialmente desmonta-se a bateria e separam-se os seus componentes (plástico,
metais e fluidos). Em seguida, o ácido e alguns metais perigosos são acondicionados
de forma adequada; por último, são selecionados o plástico da carcaça e os metais das
placas, os quais são destinados para empresas recicladoras de plástico e de metal. Há
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 243

também exemplos de placas eletrônicas, onde o objetivo da reciclagem é recolher os


metais preciosos (ouro e platina).
A fase posterior a estas quatro etapas constitui normalmente um processo tecnolo-
gicamente difícil e caro que provavelmente será centralizado. Para ser economicamente
viável, devem ser processados volumes suficientemente elevados.
A seguir serão apresentadas as técnicas de reciclagem mecânica, química e ener-
gética.

e1) Reciclagem mecânica


Consiste no processo de fragmentação de um determinado material para sua re-
dução de tamanho. Os mecanismos usados normalmente são a britagem e moagem
do material.
Como exemplos de reciclagem mecânica de resíduos, destacam-se as resinas plás-
ticas, cujo objetivo é o reaproveitamento do plástico descartado, transformando-o em
grânulos para a fabricação de outros produtos.
Para os vidros, a reciclagem mecânica visa a produção de pó que será usado na
produção de vidro novo, com a vantagem de ter um rendimento de 100%, ou seja, 1
kg de vidro triturado e reciclado dá origem a 1 kg de vidro novo, com economia de 1,3
kg de matéria-prima. Além disso, o vidro pode ser reciclado infinitas vezes sem perder
suas propriedades.

e2) Reciclagem Química


Consiste no processo de tratamento químico do material para recuperação
de componentes a serem agregados como matéria-prima na produção de novos
produtos.
Podemos aplicar a reciclagem química, por exemplo, para o desmonte de pneus-
-resíduo e para as resinas plásticas. No caso da reciclagem química de resinas plásticas,
também chamada terciária, tem-se o reprocessamento de plásticos transformando-os
em monômeros ou misturas de hidrocarbonetos que entrarão como matéria-prima
para a obtenção de novos produtos. A reciclagem química pode ocorrer a partir de
quatro processos:
š Hidrogenação: processo de quebra das cadeias de hidrogênio através do trata-
mento com hidrogênio e calor.
š Gaseificação: processo de produção de gás de síntese contendo hidrogênio e gás
carbônico a partir do aquecimento dos resíduos plásticos na presença de ar ou
oxigênio.
š Quimólise: processo de quebra parcial ou total da estrutura química dos resíduos
plásticos em monômeros na presença de glicol/metanol e água.
š Pirólise: O processo de pirólise pode ser genericamente definido como sendo
a decomposição química da matéria orgânica por calor, em torno de 900 ºC,
na ausência de oxigênio. Os resíduos que alimentam o reator pirolítico podem
ser provenientes do lixo doméstico, de resíduos plásticos e outros resíduos
industriais (Oda, 2003).
244 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

No caso das resinas plásticas, o processo de decomposição química das moléculas


do resíduo plástico pela ação do calor, gera frações de hidrocarbonetos para serem
processados pelas refinarias. Salientamos que o seu balanço energético é positivo, ou
seja, produz mais energia do que consome.

e3) Compostagem
A compostagem é um processo de reciclagem da matéria orgânica presente nos
resíduos sólidos urbanos. Trata-se de um processo aeróbio controlado da fração pu-
trescível dos resíduos sólidos urbanos, com vantagens econômicas e ambientais, pela
produção do composto, aplicável como adubo na agricultura. Cabe destacar que nem
todos os resíduos orgânicos são compostáveis, como as fezes e urina de humanos e
animais domésticos e restos de carnes e ossos.

BENEFÍCIOS DA RECICLAGEM
Benefícios econômicos
š 7h[Y_YbW][cZ[fWf[b[l_jWeYehj[Z[|hleh[i$
š 7h[Y_YbW][cZ['a]Z[l_Zhe][hW'a]Z[l_Zhedele"[Yedec_pWdZe'")a]Z[cWjƒh_W#fh_cWc_dƒh_e$
š 7h[Y_YbW][cZ[Wbkc‡d_e[Yedec_pW/+ZW[d[h]_Wd[Y[ii|h_WfWhWWfheZk‚€eZ[Wbkc‡d_efh_c|h_e$
š 7h[Y_YbW][cZ[b_neeh]~d_Ye"fehc[_eZWYecfeijW][ch[ikbjW[cWZkXeZ[[nY[b[dj[gkWb_ZWZ[fWhW
a agricultura.
š KcW‘d_YWbWj_d^WZ[Wbkc‡d_eh[Y_YbWZW[Yedec_pW[d[h]_WikÓY_[dj[fWhWcWdj[hkcWfWh[b^eZ[JL
ligado por 3 horas.

Benefícios ambientais
š +&a]Z[fWf[bh[Y_YbWZe[l_jWceYehj[Z[kcW|hleh[Z[-WdeiZ[_ZWZ[$
š 9WZWjed[bWZWZ[fWf[bh[Y_YbWZefeZ[ikXij_jk_hebWdj_eZ[Wjƒ)+&c(Z[cedeYkbjkhWZ[[kYWb_fje[
economiza 20 mil litros d’água e 1.200 litros de óleo combustível.
š 7YWZWgk_beZ[Wbkc‡d_eh[Y_YbWZe"+a]Z[XWkn_jWc_dƒh_eYecgk[i[fheZkpeWbkc‡d_ei€e
poupados.

Benefícios sociais
š 7h[Y_YbW][cgera milhares de empregos de agentes de reciclagem (catadores) nas empresas
intermediárias e recicladoras;
š 7h[Y_YbW][cZ[fb|ij_Yede8hWi_b][hWY[hYWZ[(&c_b[cfh[]eiZ_h[jei[c)&&_dZ‘ijh_WiZ[h[Y_YbW][c$
š De8hWi_b"[ij_cW#i[gk['&&c_bf[iieWil_lWc[nYbki_lWc[dj[Z[Yeb[jWhbWjWiZ[Wbkc‡d_efWhW
reciclagem, conseguindo um rendimento mensal, cada uma, de três salários mínimos.
š E9[cfh[9ecfhec_iie;cfh[iWh_WbfWhWH[Y_YbW][c\ehd[Y[cWdkW_i[YWhj_b^Wigk[eh_[djWcYece
montar um programa de coleta seletiva.

Fonte: http://www.fazfacil.com.br/materiais/reciclagem.html.
Acesso em 30/06/2011.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 245

f) Recuperação energética
Também conhecida como reciclagem energética, consiste na obtenção de energia
pela queima controlada de materiais na presença de oxigênio. Esta é uma opção viável
para o caso de produtos e materiais cujo valor de mercado é muito baixo ou até mesmo
negativo.
A recuperação energética é realizada em diversos países da Europa, Estados Uni-
dos e Japão e utiliza equipamentos de alta tecnologia, cujos controles de emissão são
rigidamente seguros, anulando riscos à saúde ou ao meio ambiente.

g) Incineração
É o processo de destruição térmica por combustão controlada dos resíduos, em
fornos e usinas tecnologicamente apropriadas, permitindo a redução em peso e
volume dos resíduos sólidos em cerca de 70 a 90%, respectivamente. A incineração é
recomendada na eliminação de lixos perigosos como resíduos hospitalares e tóxicos.
Nos países de clima temperado a incineração é usada na recuperação energética de
resíduos.

g1) Coincineração
Também chamada coprocessamento de resíduos perigosos é levada a cabo em
cimenteiras, para a produção de calor na fabricação de cimento.

g2) Plasma pirolítico


É outra tecnologia de tratamento térmico de resíduos, também conhecido por
plasma térmico, que decompõe totalmente a matéria orgânica, reduz a emissão total
de gases e também favorece a viabilização de equipamentos móveis para o tratamento
térmico de resíduos perigosos. O plasma é produzido instantaneamente pela passagem
do gás através de um arco elétrico.
No Brasil, foi instalada em 2005 a primeira usina para reciclagem de embala-
gens longa vida em Piracicada/SP. O plasma térmico usa energia elétrica para sua
operação atingindo os 15 mil graus Celsius, suficientes para ultrapassar a barreira
da oxidação do alumínio (alumina) e separar esse material do plástico contido nas
embalagens longa vida, recuperando 50 kg de alumínio por tonelada de embalagem
reciclada.
Com relação ao valor econômico de cada uma destas opções, este irá depender da
existência e/ou consolidação de um mercado. Isto porque após a recolha, os produ-
tos, materiais e mesmo energia podem entrar no mercado. O Quadro 8.1 apresenta as
caracterizações das etapas e opções de recuperação.
246 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 8.1. Estratégias de recuperação de resíduos


Estratégia de recuperação de resíduos
Processos Opções de recuperação
Recuperação direta
Revenda
Reuso
Redistribuição
Recolha Recuperação por processo
Seleção
Reparação
Classificação
Recuperação Reforma
Refabricação
Canibalização
Reciclagem
Recuperação energética

h) Disposição em aterros
Se nenhuma das opções de recuperação anteriores ocorre, temos então o rejeito
que segue para uma disposição ambientalmente adequada em aterros.
Porém, um conceito que tem sido cada vez mais difundido na análise de sistemas
de tratamento de resíduos é o de levar para aterro apenas os “resíduos últimos”. A
noção de “resíduo último”, empregada inicialmente na França, está contida na de-
finição de rejeito da PNRS como resíduos sólidos que, depois de esgotadas todas as
possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis e
economicamente viáveis, não apresentem outra possibilidade que não a disposição
final ambientalmente adequada.
Podemos classificar os aterros em:
š Aterros comuns – o lixo é apenas descartado no solo, a céu aberto, sem qualquer
tratamento; são também denominados lixões, lixeiras, vazadouros etc. Este
método de disposição é o mais prejudicial ao homem e ao meio ambiente.
š Aterros controlados – neste tipo de disposição, o lixo descartado no solo recebe
uma cobertura diária de material inerte, porém não há controle e monitoramento
dos efluentes líquidos e gasosos.
š Aterros sanitários – definidos como um local utilizado para a disposição de
resíduos sólidos no solo, fundamentado em critérios de engenharia e normas
operacionais específicas, permitindo uma confinação segura, em termos de
controle da poluição ambiental e proteção ao meio ambiente (Figura 8.4)
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 247

Figura 8.4. Aterro sanitário (ilustração do sítio São José Recicla).


Fonte: Ecodebate: cidadania & meio ambiente (Roberto Naime).
(http://www.ecodebate.com.br/2010/06/22/saiba-mais-aterros-sanitarios-artigo-de-roberto-naime/)

Uma classe especial de aterros são os aterros industriais, usados como alternativa
de disposição final de rejeitos industriais. Essa técnica consiste em confinar os rejeitos
industriais na menor área e volume possíveis, cobrindo-os com uma camada de material
inerte na conclusão de cada jornada de trabalho ou intervalos menores, caso necessário.
Podemos classificar os aterros industriais nas classes I, II ou III, conforme a peri-
culosidade dos resíduos a serem dispostos: os aterros Classe I podem receber resíduos
industriais perigosos; os Classe II, resíduos não inertes; e os Classe III, somente resíduos
inertes (ABNT, 2004).
O Diagnóstico do Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos (2009) identificou 1.706
unidades de processamento de resíduos sólidos cadastradas no Sistema Nacional de
Informações sobre Saneamento (SNIS).
O Quadro 8.2 adiante traz a distribuição destas unidades por região (SNSA, 2011).

8.6. Logística reversa: caracterização e conceitos


A logística reversa (LR) estuda os fluxos de materiais que vão do usuário final do
processo logístico original (ou de outro ponto anterior, caso o produto não tenha
chegado até esse), a um novo ponto de consumo ou reaproveitamento. Exemplos de
processos logísticos reversos são: a recolha de vasilhames de bebidas, a devolução de
mercadorias e a recuperação e/ou reciclagem de materiais.
248 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 8.2. Unidades de processamento de RSU cadastradas por regiões do Brasil, 2009
Quantidade de unidades de processamento
Tipo de unidade de Região
processamento * Centro- Total
Norte Nordeste Sudeste Sul
oeste
Área de reciclagem de RCD
1 1 12 1 1 16
(un. rec. de entulho)
Aterro Controlado 11 29 151 58 27 276
Aterro Sanitário 23 34 153 126 23 359
Lixão 40 217 34 31 49 371
Kd_ZWZ[Z[jhWdiXehZe 0 4 25 11 7 47
Área de transbordo e triagem de
2 2 42 2 1 49
RCD e volumosos (ATT)
Aterro de resíduos de construção
1 6 32 10 3 52
e demolição
Aterro industrial 0 0 3 3 0 6
Kd_Z$jhWjWc[djefehc_YheedZWi
1 1 10 4 0 16
ou autoclave
Kd_ZWZ[Z[YecfeijW][cf|j_e
1 3 20 9 3 36
ou usina)
Kd_ZWZ[Z[cWd[`eZ[]Wb^WZWi
1 6 11 8 0 26
e podas
Kd_ZWZ[Z[jhWjWc[djefeh
1 7 8 2 3 21
incineração
Kd_ZWZ[Z[jh_W][c]Wbf€eek
2 45 152 107 11 317
usina)
Vala específica de RSS 7 9 14 1 6 37

Queima em forno de qualquer tipo 0 1 2 0 0 3

Outra 3 10 40 16 5 74
94 375 709 389 139 1706
Total
5,5% 22,0% 41,6% 22,8% 8,1% 100,0%

Fonte: SNIS, Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (SNSA, 2011, p. 29).

As atividades principais na LR são a recolha dos produtos a serem recuperados e sua


inserção na mesma cadeia ou em outra cadeia de suprimentos após o reprocessamen-
to. Embora este problema se assemelhe ao problema clássico da distribuição, existem
algumas diferenças: normalmente, existem muitos pontos de onde os bens precisam
ser recolhidos; a recolha da embalagem dos produtos é geralmente uma questão pro-
blemática; a cooperação do consumidor é, em muitos casos, bastante necessária; e os
bens tendem a possuir um baixo valor.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 249

As diferenças entre LR e direta não se resumem apenas no sentido do fluxo de mate-


riais, ou seja, dos movimentos dos clientes para os fornecedores, mas vão muito além.
Caso contrário, pode-se simplesmente dizer que esses são fluxos “normais” que começam
no cliente (nesse caso fazendo papel de fornecedor) e terminam no começo de outro
fluxo logístico qualquer, num fornecedor que irá aproveitar aqueles insumos (nesse caso,
um cliente desse processo). Porém, na logística reversa, muitas vezes os canais logísticos
utilizados diferem dos canais da distribuição direta devido principalmente:
š Às velocidades diferentes, sendo que uma empresa pode reabastecer seus dis-
tribuidores em 24 horas enquanto promete devolver um produto reparado em
10 ou 15 dias.
š Ao número de pontos de recolha na LR também é muito mais elevado.
š A LR tem necessidades específicas de manipulação, como por exemplo, necessi-
dade de acondicionamento e transporte especial. No caso do retorno de garrafas
PET, especificamente, estas devem ser compactadas de forma a aumentar o
espaço de acondicionamento nos caminhões.

Para caraterizar a LR, Rogers e Tibben-Lembke (1999, p. 2) partem do conceito de


logística, sendo que para eles:
Logística é o processo de planejamento, implementação e controle eficiente, inclusive
em custos, de matérias-primas, materiais em processo, produtos acabados e informações
relacionadas do ponto de origem para o ponto de consumo para atender às necessidades
dos clientes.

Então, LR é o processo de planejamento, implementação e controle eficientes (in-


clusive em custos) de matérias-primas, materiais em processo, produtos acabados e
informações relacionadas do ponto de consumo para o ponto de origem para atender
às necessidades de recuperação de valor e/ou obter uma disposição ambientalmente
correta/controlada.
Uma visão holística sobre cadeias de suprimento, combinando ambos os fluxos
diretos e reversos, é abordada pelo conceito de cadeias de circuitos fechados (closed
loop supply chains). A denominação cadeias de circuito fechado enfatiza a importância
da coordenação entre os fluxos diretos e reversos (Guide et al., 2000).
Importa salientar que as informações correm em ambos os sentidos nos dois casos.
Por outro lado, operações extras como refabricação, algum tipo de preparação para
deposição e até mesmo mudanças na logística direta ou nos desenhos dos produtos
para facilitar ou diminuir custos posteriormente (na fase reversa) são normalmente
incluídos no campo da logística reversa.
Por ser a logística reversa uma área de investigação relativamente nova e de caráter
prático, podem ser encontrados na literatura outros termos, tais como: logística de
retorno, logística invertida, distribuição reversa e retro logística. Todos eles abordam
o mesmo assunto, de maneira aproximada.
A LR também difere da logística verde. Esta considera os aspectos ambientais de
todas as atividades logísticas e é mais focada na logística direta. As questões de maior
250 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

relevância para a logística verde são o consumo de recursos naturais não renováveis,
emissão de poluentes, utilização de vias, poluição sonora e disposição ambientalmente
adequada de resíduos.
Outro campo que possui relação com a LR é a ecologia industrial. Ela se dedica a
estudar as interações existentes entre os sistemas industriais e o meio ambiente, com
o objetivo de modificar a linearidade dos sistemas industriais, das matérias-primas aos
resíduos, para um sistema em ciclo fechado envolvendo a recuperação de produtos e/
ou materiais. Neste contexto, a LR desempenha um papel importante para o alcance
deste objetivo.
Finalmente, LR pode ser visualizada como parte do desenvolvimento sustentável.
De fato, pode-se considerar a logística reversa como a execução, ao nível das empresas,
dos processos que garantem que a sociedade utiliza e reutiliza, de forma eficiente e
eficaz, todo o valor que for posto nos produtos.

8.7. Gestão da logística reversa


Após a vida útil dos produtos, a LR tem a função estratégica de minimizar o im-
pacto ambiental de alguns produtos, coletando-os e dando-os uma destinação final
ambientalmente adequada. Neste caso, eles podem ser remanufaturados, reciclados
ou dispostos de forma ambientalmente adequada: se material orgânico, compostagem;
se não, aterros sanitários ou incineração.
A gestão da LR está estruturada segundo três abordagens: razões e tipos de retorno;
estruturas e cadeias logísticas reversas; e, relacionamento entre os atores (Fleischmann
et al., 1997; De Brito, 2002, 2004).

8.7.1. Razões e tipos de retorno


Produtos, componentes, materiais e equipamentos podem realizar um fluxo inverso
em suas cadeias de suprimentos. Durante algum tempo, familiarizou-se com produtos
que são refeitos durante o seu processo de fabricação devido a aspectos insatisfatórios
de qualidade, ou com materiais e componentes que retornam à produção pela simples
necessidade de se obterem resultados financeiros positivos ao final do período (lucros
industriais).
Produtos defeituosos podem ser descobertos após a sua entrada na cadeia de su-
primentos, o que resulta em uma retirada deste produto em um ponto posterior de sua
cadeia (exemplo, recall de veículos avariados). Nesta fase há mais atores envolvidos na
cadeia com os fluxos inversos. Processos comerciais, como os acordos de devolução
para levar de volta produtos obsoletos, ganham dimensão. Além disso, no cenário das
relações com consumidores, podem ser mandados de volta produtos devido ao mau
uso por parte dos clientes ou falhas na qualidade esperada.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 251

Os produtos podem inverter sua direção na cadeia de suprimentos por uma va-
riedade de razões (Dekker & Vander Laan, 2002), como: retornos industriais, retornos
comerciais, recall de produto, retornos de garantia, retornos de serviço, retornos de
final de uso (por exemplo, garrafas de cerveja retornáveis e cartuchos de impressora)
e retornos de final de vida (pilhas e baterias, por exemplo).
De uma forma geral, os produtos são retornados ou depositados por não funcionarem
de uma maneira adequada ou porque suas funções já não são mais necessárias. As razões
para estes retornos são a seguir apresentadas conforme as etapas usuais de uma cadeia de
abastecimento, iniciando com a fabricação, passando pela distribuição até os produtos
atingirem os consumidores finais. As razões de retorno são classificadas em: retornos
de fabricação ou manufatura, retornos de distribuição e retornos dos consumidores.

8.7.1.1. Retornos de fabricação


Define-se retorno de fabricação qualquer retorno no qual exista a necessidade de
recuperação de produtos ou componentes durante a fase de fabricação. Estes retornos
ocorrem por uma variedade de razões: a matéria-prima pode tornar-se inadequada
para utilização; podem ocorrer falhas na qualidade durante a manufatura dos produtos,
acarretando retrabalho; ou o próprio produto acabado pode possuir falhas, retornando
ao fabricante para correções. As razões anteriormente citadas constituem a categoria de
retornos por falha no processo de manufatura. Os produtos e matérias-primas também
podem retornar à fabricação devido ao excesso de produção, neste caso, tem-se uma
categoria de retornos por excesso de produção.

8.7.1.2. Retornos de distribuição


São os retornos que ocorrem após o início da distribuição dos produtos. Referem-se
aos B2B – retornos comerciais (produtos não vendidos e falha na entrega), recall de
produtos, ajustes de estoque e retornos funcionais.
Os retornos comerciais acontecem na perspectiva das relações atacadista –varejista
ou varejista – cliente, onde o comprador tem o direito de devolver o produto, normal-
mente dentro de certo período. A razão da opção de retorno difere entre os casos. Na
primeira situação (atacadista – varejista), o varejista enfrenta o problema de quanto
pode vender e se lhe é dada a opção de retorno dos bens não comercializados. No
segundo caso (varejista – cliente), a razão para a opção de retorno pode ser o fato de o
cliente não estar seguro se o produto realmente satisfaz suas exigências. De uma forma
resumida, os retornos comerciais são os tipos de retorno onde um comprador tem a
opção contratual de retornar o produto ao vendedor. Estes retornos podem se referir
às falhas na entrega dos produtos ou a produtos não vendidos.
O código de Defesa do Consumidor brasileiro (Lei n. 8.078/1990, art. 49), prevê
o direito de arrependimento caso o consumidor adquira produto ou serviço fora do
estabelecimento comercial, como web, telefone ou a domicílio, no prazo de sete dias a
252 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

contar da assinatura do contrato ou do ato de recebimento do produto ou serviço. No


caso de compra presente no estabelecimento comercial a devolução só se concretiza
em caso de avaria.
O recall de produtos acontece quando estes são retornados devido a falhas na se-
gurança ou problemas de saúde. Geralmente, o processo de retorno é iniciado por um
fornecedor ou pelo próprio fabricante, e não pelos consumidores finais. Um exemplo
deste tipo de retorno é a ocorrência de recalls por parte de fabricantes de veículos.
Quando os fabricantes de automóveis verificam que uma determinada peça está re-
tornando da rede de distribuidores autorizados repetidas vezes com defeitos, podem
analisar as séries de fabricação das peças e terminar por descobrir que serão obrigados
a substituir toda uma série antes que problemas maiores possam ocorrer. O recall de
produtos é iniciado na fase de distribuição, sendo, portanto incluído na categoria dos
retornos de distribuição.
Com relação aos ajustes de estoques, acontecem quando um membro da cadeia
redistribui seus estoques para outros pontos de venda. Este tipo de retorno ocorre entre
armazéns ou lojas com relação a produtos sazonais. Um exemplo destes ajustes ocorre
no setor das confecções, onde excessos de estoque são distribuídos para outros pontos
de venda ou retornados a um armazém central (De Koster et al., 2002). Desta forma,
os ajustes de estoques se diferenciam dos retornos comerciais, pois estes envolvem
mais de uma empresa, enquanto aqueles ocorrem dentro de uma mesma companhia.
Finalmente, existem produtos cujas caraterísticas fazem com que retornem e de-
pois sigam adiante na cadeia de abastecimento. Recipientes, embalagens e garrafas
são tipicamente artigos que podem ser reutilizados sem muito trabalho. No mercado
industrial muitas vezes estes artigos são trocados. Sugere-se que este tipo de retorno
seja chamado de retornos funcionais, sendo aqueles nos quais os produtos retornam
por conta de caraterísticas inerentes à sua função, tais como itens de distribuição (ra-
zões para retornar e tipos de produtos). Um exemplo claro é o caso dos contentores
retornáveis: sua função é conter produtos e retornar para novo carregamento, servindo
a este propósito várias vezes.

8.7.1.3. Retornos dos consumidores


O terceiro grupo de retornos consiste nos retornos dos consumidores, ou seja, são
aqueles iniciados uma vez que os produtos chegam aos consumidores finais. Nova-
mente, existe uma variedade de razões para este tipo de retorno, tais como: retornos
comerciais (retornos por garantia, reembolso e outras formas), retornos de serviço
(reparação, peças componentes etc.), retornos de final de uso e retornos de final de vida.
Resumindo, um produto é desenvolvido e entra em produção seguindo sua cadeia
de suprimentos com o propósito de atingir um cliente. Porém, em qualquer momento,
o produto pode voltar à cadeia. Neste momento, a cadeia não se trata mais só de supri-
mento, mas também passa a incorporar atividades relacionadas à recolha/recuperação.
Logo, chama-se a isto Loop da Cadeia de Suprimentos. Esta denominação sublinha a
possível integração de fluxos diretos e reversos.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 253

8.7.2. Tipos de cadeias logísticas reversas


A atividade principal na logística reversa é a coleta dos produtos a serem recupera-
dos e sua (re)distribuição após reprocessamento. Existem basicamente dois tipos de
cadeia logística reversa, as quais são apresentadas a seguir.

8.7.2.1. Cadeias para produtos reutilizáveis


Recipientes, embalagens e garrafas são tipicamente artigos que podem ser reu-
tilizados sem muito trabalho. Eles são usados para conter outros bens. Atualmente
o mercado tem valorizado materiais oriundos de demolição de edificações como,
esquadrias, telhas e até pisos.
Kroon e Vrijens (1995) discutem o modelo de um sistema de logística para transporte
de embalagens reutilizáveis. Os autores discutem o papel de todos os agentes envolvi-
dos no sistema; as questões relacionadas com a economia de escala; a quantidade de
recipientes necessária para dar suporte ao sistema; os custos de distribuição envolvidos;
e a localização dos depósitos de recipientes. Fundamentalmente, estas questões tem
uma relação com a concepção da cadeia no que diz respeito a integrar a distribuição dos
produtos com a sua coleta. Por exemplo, o mesmo caminhão que distribui as cervejas
para os bares e restaurantes deve retornar com os recipientes vazios sem que essa fase
de recolha cause prejuízos às atividades de distribuição.

8.7.2.2. Cadeias para remanufaturados


A remanufatura é tipicamente aplicada para equipamentos complexos ou maquina-
ria com diversos módulos e componentes. Normalmente é uma atividade intensiva de
mão de obra. Fleischmann (2001) faz uma distinção entre cadeias montadas pelo OEM
(Original Equipment Manufaturer) e por independentes ou subcontratados, no último
caso não existe nenhuma integração com a cadeia direta. Algumas questões precisam
ser avaliadas na montagem de uma cadeia de remanufatura: em primeiro lugar, onde
deve ser localizada a unidade de remanufatura? Outro fator seria, uma vez decidida a
localização, como se pode assegurar um volume sustentável de produtos para serem
remanufaturados? E, finalmente, como é possível reduzir a incerteza no fornecimento
dos produtos para remanufatura? (Dijkhuizen, 1997).

8.7.3 Etapas da logística reversa


Uma vez percebida a oportunidade e necessidade da reintrodução de um produto
ou componente em uma cadeia produtiva, os passos da logística reversa a serem se-
guidos serão:
254 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

1. Caracterização do resíduo: os aspectos principais a serem considerados são a


periculosidade e o valor econômico; essas características nortearão os procedi-
mentos de coleta e manipulação.
2. Quantificação dos volumes gerados por unidade de tempo: nesta etapa devem
ser revistos os procedimentos de segregação, ou seja, se o resíduo a ser coletado
está ou não acompanhado de materiais indesejáveis.
3. Definição dos equipamentos (coletores) e procedimentos de guarda: envolvendo
capacidade, materiais, design e manipulação.
4. Definição da quantidade e localização dos equipamentos de guarda: com proxi-
midade dos locais de geração.
5. Definição dos equipamentos (veículos), volumes, periodicidade e procedimentos
da coleta: especificação dos veículos e rotinas de coleta coerentes com as normas
de transportes de cargas perigosas (quando for o caso).
6. Definição de rotas: considerando os fatores e econômicos e de segurança.
7. Definição de equipamentos e procedimentos de transbordo: rotinas para retirada
dos resíduos dos veículos.
Uma solução logística pode viabilizar economicamente um processo de recicla-
gem e de reaproveitamento de materiais, como no exemplo da reciclagem de copos
descartados onde um coletor eficiente foi capaz de reduzir a 10% o volume a ser
transportado.

COPOS DESCARTÁVEIS: DO CAFEZINHO PARA A RECICLAGEM

Como são necessárias e revigorantes as pausas para cafezinhos, chás, águas... Mas qual seria o melhor
Z[ij_defWhWeiYefeikiWZeigk["Z[fWkiW[cfWkiW"l€eWlebkcWdZeeib_neiZWi[cfh[iWi577F7;
CWk|"MehbZ9_YbW[FbWij_YehWWfeijWcgk[ec[b^ehYWc_d^efWhWeiYefeiZ[iYWhj|l[_iZ[feb_[ij_h[de
é a reciclagem e, para isso, entidade e empresas vêm cumprindo trabalhos específicos e complementares. A
MehbZ9_YbW"i[Z_WZW[cI€e9W[jWdeZeIkb"IF"_dl[ij[dWYeb[jWZ[YefeideibeYW_iZ[jhWXWb^e$DeÓdWb
de 1998, lançou os coletores-redutores de volume de descartáveis. Wagner Canhoella, diretor da empresa,
explica que os copos jogados dentro desses coletores vão formando uma espécie de colméia, ocupando
muito menos área do que se fossem descartados aleatoriamente. Os coletores permitem que, num saco de
Y[cb_jhei"feiiWci[hYebeYWZeiWjƒZe_ic_bYefeifb|ij_YeiÅYedjhW(&&deceZejhWZ_Y_edWb"][hWdZe
]hWdZ[[Yedec_W[c[cXWbW][di[[ifW‚ei$;ij[i_ij[cW\WY_b_jWejhWXWb^eZW7F7;"gk[h[Yeb^[ecWj[h_Wb
Z[\ehcWeh]Wd_pWZWdeibeYW_iZ[Yeb[jW"jh_jkhW#ei[eil[dZ[fWhWWFbWij_YehW"[cfh[iW[if[Y_Wb_pWZW
na produção de resinas recicladas.
DWFbWij_YehW"WiY[hYWZ[Z[pc_bjed[bWZWi%WdeZ[h[i‡ZkeiZ[feb_[ij_h[de"fhel[d_[dj[iZ[WfWhWi_dZkijh_W_i[
ZW7F7;"i€e[ij[h_b_pWZWi"i[YWZWi[jhWdi\ehcWZWi[c]h~dkbeifehkcfheY[iieZ[[njhki€e$:[ii[fheY[iie
resultam novas matérias-primas que serão usadas na confecção de porta-cds, carcaças de lanternas, suporte de
fitas de impressão, cabides, brindes e outros.
7fedjWZWYecekcWZWicW_eh[i[cfh[iWiZ[h[Y_YbW][cZ[YefeiZ[iYWhj|l[_i"WFbWij_YehW"f_ed[_hWdW
pigmentação de resinas plásticas recicladas, vem se preparando para obter a ISO 14.000. Seu crescimento anual
do mercado de reciclagem é da ordem de 5%.
<edj[0FbWij_l_ZWD[mi"@ehdWbZeifb|ij_Yei"'///$
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 255

8.7.4. Relacionamento entre os atores


O grupo de atores envolvidos nas atividades logísticas reversas, tais como recolha e
processamento, são geralmente intermediários independentes, companhias específicas
de recolha, empresas de reciclagem, prestadoras de serviços logísticos, municípios e
organizações privadas criadas para gerir a recolha. Cada ator possui objetivos distin-
tos, como exemplo, um fabricante pode realizar atividade de reciclagem de forma a
impedir que outras companhias (empresas de reciclagem) revendam seus produtos a
preços inferiores.
Os atores envolvidos com a cadeia logística reversa executam basicamente as se-
guintes atividades: gestão, execução e acomodação. Ao nível da gestão, os membros
são responsáveis pela organização da cadeia ou sistema logístico inverso. Outros
membros simplesmente executam as atividades dentro do sistema. O último papel é
o de acomodador, desempenhado tanto por quem inicia o processo de recuperação
bem como pelo mercado secundário, sem o qual a recuperação não teria muito sentido
(Fuller & Allen, 1997).
Quando se fala de relacionamento entre os atores, um ponto fundamental é definir
políticas e incentivos para a prática da LR. Inicialmente, deve ser feita uma distinção
entre duas categorias de incentivos:
š Incentivos que podem ser usados para adquirir bens que uma companhia gos-
taria de recuperar;
š Incentivos que podem ser usados para influenciar outros parceiros a aceitar os
bens que uma companhia deseja que sejam descartados.

De forma concreta, um produtor de cartuchos de toner pode interessar-se por


incentivos para ter de volta seus cartuchos; uma companhia que compra substâncias
químicas em barris para produzir seus produtos, pode querer coletar estes barris e
desejar que os mesmos sejam processados por seu fornecedor de uma maneira am-
bientalmente responsável de forma a evitar os altos custos associados à disposição dos
mesmos quando estiverem vazios.
Definir incentivos para influenciar o comportamento desejado dos parceiros ex-
ternos e internos a uma empresa requer perspicácia dos mesmos com respeito aos
produtos recuperados e aos custos (tempo, dinheiro, espaço) e benefícios relacionados
a cada uma das alternativas.
Os incentivos encontrados na literatura podem ser subdivididos em econômicos
e não econômicos. A seguir descrevem-se os incentivos para influenciar a aquisição.
Todos eles podem também ser usados para estimular outros a aceitarem bens para
recuperação.
256 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

8.7.4.1. Incentivos econômicos


Nesta categoria podem ser identificados quatro diferentes incentivos:
a) Taxa de Depósito: esta taxa pode dizer respeito ao próprio produto ou a em-
balagem utilizada para sua distribuição, como uma garrafa, caixa, palete ou
contentor.
b) Opção da recompra: no momento em que um produto é vendido, ao comprador é
oferecida a possibilidade de revenda ao produtor por um preço prefixado quando o
produto atende a algumas exigências estabelecidas no momento de retorno, como
quilômetros rodados;
c) Preço reduzido na aquisição de um “novo”: um comprador recebe uma redução
de preço na aquisição de um produto semelhante ou diferente quando entrega
um produto usado que cumpre certas exigências durante determinado período de
tempo. Um exemplo bem conhecido é o dos negociantes de carro, quando, na aqui-
sição de um veículo novo, oferecem um reembolso mais alto pelo veículo recebido
(dependendo do que é entregue e o do ano de fabricação).
d) Taxa: esta taxa é paga quando um produto é entregue para recuperação. Normal-
mente a taxa depende da condição e configuração do produto entregue, contudo
às vezes também depende do momento em que um produto é entregue porque isto
pode determinar as possibilidades de usá-lo novamente. Exemplos são encontrados
no mercado de cartuchos de impressoras ou fotocopiadoras, onde os fabricantes ou
empresas de recarga de cartuchos pagam uma quantia por cada cartucho de toner
devolvido.

8.7.4.2. Incentivos não econômicos


Os incentivos não econômicos são:
a) “Novo por velho”: este incentivo é usado pela Daimler-Benz, divisão europeia, para
os motores de furgões e veículos de passageiros que eles produzem (Driesch et al.,
1998). Os proprietários de um furgão ou veículo de passageiros Mercedes-Benz (MB),
podem se dirigir a um revendedor autorizado para terem seus motores substituídos
por um recondicionado. O revendedor Mercedes-Benz remove o motor presente
e o envia a um depósito central, onde é recondicionado. Deste depósito, o motor
recondicionado é novamente enviado ao revendedor no prazo de 24 horas. Neste
caso o recondicionamento funciona como se fosse uma garantia, sem custos, da
Mercedes-Benz para seus clientes.
b) Leasing ou aluguel: neste caso, os produtos não são vendidos, mas arrendados ou
alugados. No momento da contratação são declaradas a data de fim e a duração
do contrato. Normalmente a configuração e a condição do produto arrendado ou
alugado são bem conhecidas. De acordo com a duração do contrato, o momento
e a condição de retorno do produto pode ser variável. A operação de retorno não
gera custos para o consumidor.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 257

c) Legislação: restrições à disposição de certos produtos e altos custos associados a


esta atividade podem incentivar uma forma barata de recepção e recuperação de
tais produtos por companhias que promovem a sua reciclagem. Um exemplo disto
é o caso da recolha de recipientes de vidros nos Países Baixos e Escandinávia. No
Brasil, por meio da aplicação da PNRS, é esperado que os percentuais de coleta
de certos produtos, como eletroeletrônicos e lâmpadas fluorescentes aumentem
consideravelmente.
d) Poder: como sempre, pode ser usado poder para forçar um comportamento de-
sejado. Um exemplo é o da companhia Windsor, que produz espumas sintéticas.
Um dos clientes desta companhia, a Walden Paddlers usa seu poder como cliente
para forçar a empresa Windsor a levar de volta as caixas de papelão utilizadas para
distribuir seus assentos acolchoados e seus carpetes de espuma (Farrow e Johnson,
2002).
e) Apelo à consciência ambiental: este incentivo normalmente requer muito esforço
publicitário e não é, em geral, muito seguro.. Alguns exemplos são encontrados
na indústria de telecomunicações, é o caso, por exemplo, da coleta de baterias de
telefones celulares.
f) Apelo à consciência social: para cada produto recebido para recuperação, uma
organização sem fins lucrativos recebe uma quantia monetária. Este incentivo foi
usado pela HP de forma a promover o retorno dos seus cartuchos de toner. Antes
de recorrer a este tipo de incentivo, a Hewlett Packard não havia conseguido atingir
um número economicamente satisfatório de retornos (McGavis, 1994).

8.8. Casos de logística reversa


O objetivo desssa seção é apresentar e discutir alguns casos práticos de gestão da
LR. Você poderá ter uma percepção em cada um desses casos do problema a ser abor-
dado, do enquadramento na legislação e do modelo de gestão adotado. Os casos que
serão apresentados compreendem três produtos, os quais, por suas características,
representam grandes desafios em nível global para a gestão da LR. O primeiro caso
apresenta o problema dos pneus-resíduo; o seguinte aborda a questão do retorno de
embalagens de agrotóxicos, e o último a LR de produtos eletrônicos.

8.8.1. O problema dos pneus-resíduo


O processo de vulcanização de borracha foi concebido casualmente por Charles
Goodyear, em 1839, ao deixar cair enxofre em uma amostra de borracha que estava
sendo aquecida. Com isso, foi descoberto um material mais resistente e elástico, cuja
demanda multiplicou-se por todo o mundo. Uma das principais aplicações da borracha
vulcanizada sempre foi como pneu de veículos rodoviários. No decorrer do desen-
volvimento da indústria automobilística no século XX, o consumo de pneus atingiu
quantidades extraordinárias.
258 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quando não podem mais ser reutilizados, os pneus passam então à fase de final de
vida. Ao chegarem nessa fase, os pneus são chamados de pneus-resíduo, pneus em fim
de vida ou ainda pneus inservíveis. A maior dificuldade na gestão de pneus-resíduo é
resultante da disposição ilegal do material. Pneus que não possuem mais condições de
recuperação são largados em qualquer lugar, o que constitui um problema ambiental e
de saúde pública. Centenas de milhões de pneus, o equivalente a milhões de toneladas
de borracha, são descartados anualmente sem nenhum controle em todo o mundo.
Quando abandonados em locais inadequados, os pneus-resíduo servem como lo-
cal para procriação de mosquitos e outros vetores de doenças. Representam um risco
constante de incêndios e quando dispostos em terrenos ao ar livre segregam um óleo
que se infiltra e contamina o lençol freático. Além disso, a disposição de pneus em fim
de vida em aterros sanitários é problemática, pois os pneus quando compactados e
enterrados voltam à superfície após um determinado tempo. Tal fato diminui a área
utilizada nos aterros e consequentemente reduzem a sua vida útil.

8.8.1.1. Legislação ambiental


O problema dos pneus-resíduos ou pneus em fim de vida está relacionado aos as-
pectos empresariais, tecnológicos, ambientais, sanitários e da sociedade em geral. A
legislação sobre a gestão dos pneus-resíduos é recente. Na União Europeia, a legislação
está associada a duas diretivas que ajustam a gestão dos pneus-resíduos à realidade
de cada estado membro (Douglah & Everett 1998; Serumgard 1998; Shulman, 2000).
A Diretiva 99/31/CE sobre disposição de resíduos em aterros sanitários e a Diretiva
00/53/CE relacionada com o problema dos pneus-resíduo é a que aborda a questão
dos veículos em fim de vida (VFV). Esta última diretiva foi aprovada em 2000 e deter-
mina que os fabricantes de veículos retomem os veículos em fim de vida e removam
os pneus, garantindo que não sejam depositados em aterros.
No Brasil, a Resolução Conama n. 258/1999, estabelece o conceito de que o produ-
tor é o responsável pelo destino final do produto. Desde janeiro de 2002, produtores
e importadores de pneus estão sendo forçados a coletá-los e dispô-los em locais am-
bientalmente adequados; além disso, devem comprovar o destino dado a cada pneu
recolhido para reciclagem.

8.8.1.2. O sistema de gestão da logística reversa dos pneus-resíduo


A coleta de pneus é considerada uma etapa distinta no ciclo de vida. Os pneus são
descartados quando trocados por um novo ou quando os próprios veículos passam ao
estágio de fim de vida. Em muitos países, os pneus são levados para centros de coleta.
Em alguns países, como a Holanda, os consumidores são obrigados a pagar para deixar
os pneus nesses centros. A Figura 8.5 apresenta um esquema simplificado do sistema
de gestão e coleta de pneus-resíduo.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 259

Figura 8.5. Sistema de gestão e coleta dos pneus-resíduo.


Fonte: Freires, 2007, p. 62.

Os pneus chegam nestes centros de coleta como um destino final. O ciclo de vida do
material terminou. A partir deste ponto, verifica-se para qual finalidade cada pneu servirá.
Pneus que apresentarem alguma condição de uso serão enviados para a recauchutagem.
Aqueles que não tiverem essa característica serão aproveitados como fonte energética, ou
reciclados mecanicamente. A reciclagem pode se dar na forma de utilização do produto
para outras aplicações (recuperação do produto) ou aproveitamento de matéria-prima
(recuperação material) para outras indústrias. No caso dos Estados Unidos, e de certos
países da Europa, alguns pneus são encaminhados para exportação, normalmente para
países em desenvolvimento, onde a legislação permite a compra do material.
Outra aplicação da reciclagem de pneus-resíduo é a adição de borracha à pavimentos
asfálticos. A borracha obtida da trituração ou moagem dos pneus (reciclagem mecânica),
quando misturada com o ligante asfáltico, acaba produzindo um material de melhor
qualidade em termos de resistência, elasticidade e durabilidade. A adição de borracha
em pó irá proporcionar um material com custo mais elevado quando comparado com
o material “puro”, sem borracha. Apesar desse custo adicional, pode-se esperar um (este
aumento no custo pode ser compensado pelo) aumento da vida útil dos pavimentos cons-
truídos com o asfalto-borracha, além da redução da espessura final da camada asfáltica.
Como os materiais constituintes do pneu são considerados grandes fontes ener-
géticas, existe a tendência dos pneus-resíduo serem aproveitados como combustível,
260 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

principalmente em fornos de cimenteiras. No Brasil, os principais usuários de pneus em


caldeiras são as indústrias de papel e celulose e as fábricas de cal e cimento, que usam
a carcaça inteira e aproveitam alguns óxidos contidos nos metais dos pneus radiais.
Por fim, a borracha triturada dos pneus-resíduo, depois de passar pelo processo de
desvulcanização e com a adição de óleos aromáticos, resulta uma pasta. Com a pasta
resultante deste processo, as indústrias produzem tapetes de automóveis, solados de
sapato, pisos industriais e borrachas de vedação, entre outros. Outra forma de reapro-
veitamento é a utilização da borracha, cortada em pedaços de 5 cm, na aeração de
composto orgânico (suporte estrutural). Essas partículas devem ser retiradas do adubo
antes da sua comercialização. Podem ser empregados também na sinalização rodoviária
e para-choques de carros, diminuindo os gastos com manutenção.
Existem ainda aterros que contêm somente pneus. Esses são mais aceitáveis do que
os aterros comuns, pois permitem melhor recuperação energética e de matéria-prima
do produto. Podem, futuramente, até se tornar centros de coleta de pneus. Entretanto,
devido às substâncias inflamáveis presentes no produto, esses depósitos correm riscos
de incêndio, podendo gerar danos à sociedade e ao meio ambiente.
Da estrutura genérica da cadeia de suprimentos dos pneus-resíduo podem ser feitas
algumas observações. A geração de pneus-resíduo pode ser reduzida por meio de inves-
timentos no projeto de pneus com maior durabilidade (melhor projeto da carcaça e da
estrutura). Outra alternativa seria realização de investimentos em melhores tecnologias
de recauchutagem. Entretanto, como a indústrias de pneus e de recauchutagem são
competitivas, verifica-se que a legislação exerce um poder limitado.
A capacidade atual dos mercados para pneus-resíduo é limitada. As legislações de
distintos países tentam elevar a capacidade destes mercados através da criação ou sub-
sídios à procura de produtos derivados de pneus-resíduo. Outro aspecto relacionado
com o incentivo à criação e desenvolvimento de mercados são os incentivos financei-
ros para o desenvolvimento de processadores e novas tecnologias de processamento
de pneus-resíduo. Finalmente, pode-se verificar que os coletadores de pneus-resíduo
direcionam pneus usados aos recauchutadores, mercados de pneus-resíduo ou aterros
sanitários. A legislação tenta regular a coleta de pneus-resíduo de modo que sejam
alcançados os melhores benefícios financeiros e ambientais possíveis.
Existem várias opções de reciclagem de pneus. As reciclagens cujos processos não
alteram as propriedades químicas do material são chamadas de reciclagens mecânicas,
como é o caso da reforma e da recuperação material. Já os processos que alteram as
composições químicas do pneu são chamados de reciclagem química ou industrial.
São exemplos desse tipo a desvulcanização e a pirólise. A seguir serão listados alguns
dos processos recicladores de pneus mais utilizados.

8.8.1.3. Recauchutagem
A recauchutagem pode também ser conhecida por recuperação do produto. Os
pneus deixam de serem utilizados quando a banda de rodagem, a camada externa de
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 261

borracha que entra em contacto com a superfície, se desgasta. Os pneus usados podem
então ser recauchutados quando a carcaça, que constitui a construção interna dos
pneus, ainda possui suas propriedades estruturais.
A recauchutagem basicamente é a substituição da banda de rodagem de um pneu
em fim de uso por uma nova. O processo de recauchutagem consiste na inspecção da
carcaça dos pneus usados, raspagem da banda de rodagem usada e aplicação de uma
nova banda de rodagem por meio da vulcanização. De acordo com Shulman (2000)
existem duas tecnologias para este processo: recauchutagem a frio (aplicação de uma
banda de rodagem pré-curada à carcaça) e recauchutagem por cozimento (onde uma
banda de rodagem é aplicada à carcaça e prensada à altas temperaturas).
Os pneus recauchutados sofreram de uma má reputação no que se referia à sua
qualidade e também suportaram a concorrência de fabricantes asiáticos. Estes fatos
limitaram a procura por pneus de veículos ligeiros recauchutados. Entretanto, no mer-
cado dos pneus de veículos pesados (caminhões e autocarros) a utilização de pneus
recauchutados é uma prática constante.

8.8.1.4. Recuperação material


A recuperação consiste na simples trituração dos pneus e moagem dos resíduos,
reduzidos a pó fino (Figura 8.6). A borracha contida nos resíduos, na forma vulcanizada,
não sofre modificação e não é separada dos demais compostos.

Figura 8.6. Esquema de trituração e moagem dos pneus-resíduo.


Fonte: Freires, 2007, p. 64.
262 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Os pneus recuperados geralmente seguem dois tipos de utilização:


š Na mistura com asfalto para a pavimentação de vias e pátios de estacionamento.
Da trituração, as partículas não maiores que 5 mm e com umidade de no máximo
2% são misturadas ao asfalto na proporção de 1% a 3% em peso.
š Nas fábricas de cimento, o produto da moagem, com partículas de 1 a 6 mm,
podendo chegar a 50-500 micras, é incinerado no forno como combustível e a
fumaça proveniente dos gases produzidos pela queima é incorporada ao cimento.
Este tipo de recuperação é também conhecido por valorização energética.

A borracha recuperada e triturada, por já se encontrar no estado vulcanizado, não


pode ser utilizada como substituta da borracha crua na produção de artefatos. Entre-
tanto, devido ao seu custo reduzido e baixo peso específico, pode ser empregada como
elemento de carga na produção de saltos e solados de calçados, mangueiras, tapetes
para automóveis, entre outros.

8.8.1.5. Regeneração ou desvulcanização


As carcaças dos pneus se enquadram na classificação de resíduos que contêm fibras
em elevadas proporções. A regeneração é feita por vários processos – alcalino, ácido,
mecânico e vapor superaquecido. Na regeneração, os resíduos passam por modifica-
ções que os tornam mais plásticos e aptos a receber nova vulcanização, mas não têm
as mesmas propriedades da borracha crua, sendo geralmente misturado a ela para a
fabricação de artefatos. No processo de regeneração, a borracha é separada dos outros
componentes e desvulcanizada, o arame e a malha de aço são recuperados como su-
cata de ferro qualificada, o tecido de nylon é recuperado e utilizado como reforço em
embalagens de papelão.
Nesse processo, o pneu é picado em pedaços e colocado num tanque com sol-
vente para que a borracha inche e se torne quebradiça. Em seguida, os pedaços
são pressionados para que a borracha se desprenda da malha de aço e do tecido
de nylon, e um sistema de imãs e peneiras separa a borracha, o aço e o nylon. A
borracha é moída e separada num sistema de peneiras e bombas de alta pressão,
passando para um reator ou autoclave onde ocorre a desvulcanização da borracha,
recuperando cerca de 75% de suas propriedades originais. A borracha segue para
um tanque de secagem onde o solvente é recuperado, retornando ao processo
(Fukumori et al., 2002).
Diversas são as formas de utilização da borracha regenerada de pneus, como
tapetes, pisos industriais e quadras desportivas, sinalizadores de trânsito, rodízios
para móveis, carrinhos etc. Até mesmo na recauchutagem de pneus, no revestimento
de tanques de combustível, e como aditivo em peças de plásticos, aumentando-lhes
a elasticidade.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 263

8.8.1.6. Pirólise genérica


A pirólise é, desde meados da década de 1990, o processo mais utilizado na recicla-
gem de pneus-resíduo nos países desenvolvidos. Considerada uma destilação destru-
tiva, visa reaproveitar cada componente material (borracha, fibras sintéticas e aço) do
pneu como matérias-primas ou combustíveis. O processo consiste na trituração destes
resíduos previamente seleccionados. Após esta etapa, são levados ao reator pirolítico
onde, através de uma reacção endotérmica, ocorrerão as separações dos subprodutos
em cada etapa do processo.

8.8.2. O problema das embalagens de agrotóxicos


Com a implementação do modelo agrícola da revolução verde, ao mesmo tempo
em que a produtividade das maiores culturas aumentou, o uso de agrotóxicos também
foi intensificado. O uso intensivo de agrotóxicos, uma tônica neste modelo produtivo,
tem acarretado inúmeros impactos negativos, como a eliminação de inimigos naturais
dos insetos com potencial de praga, e o desenvolvimento de resistência aos agrotóxicos
por insetos e ervas, além da contaminação ambiental e de pessoas.
Dados apontam a consolidação do Brasil como maior mercado e com maior ritmo
de expansão no consumo de agrotóxicos em todo mundo. Ao longo desta década, o
mercado brasileiro cresceu 176%, quase quatro vezes mais do que a média mundial
(Pelaez et al., 2010). O uso indiscriminado afeta não só as lavouras, mas também solos,
rios e oceanos.
Outro sério problema ambiental e de saúde gerado pelo uso de agrotóxicos é o des-
carte e a reutilização das embalagens vazias, haja vista que alguns tipos de embalagens
vazias, devido ao tamanho e resistência, são atraentes para serem reutilizadas como
depósito de água, grãos, farinhas, entre outras utilizações e demandam tempo para
sua degradação no meio ambiente, e o descarte de forma irresponsável oferece riscos
de contaminação (Ferraz, 2000).

8.8.2.1. Legislação sobre destinação final de embalagens de agrotóxicos


Devido às pressões de organizações não governamentais (ONGs) ambientalistas
e de associações de engenheiros agrônomos, alguns estados se adiantaram e elabo-
raram leis que regulamentavam a comercialização, uso e o descarte das embalagens
de agrotóxicos. Um marco em relação aos agrotóxicos foi a edição da chamada lei dos
agrotóxicos (Lei n. 7.802, de 11/07/1989), que disciplinou a produção, comercialização
e uso dos agrotóxicos, incluindo a obrigatoriedade do Receituário Agronômico, para a
venda e o uso de todos os agrotóxicos.
Apesar de sua grande importância, a lei dos agrotóxicos era omissa em rela-
ção à destinação das embalagens contaminadas. Somente com a Lei n. 9.974, de
06/06/2000, ficou estabelecido que as empresas produtoras e comercializadoras
de agrotóxicos, seus componentes e afins, são responsáveis pela destinação das
264 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

embalagens vazias dos produtos por elas fabricados e comercializados, após a de-
volução pelos usuários. Determina ainda que os usuários de agrotóxicos deverão
efetuar a devolução das embalagens vazias dos produtos aos estabelecimentos
comerciais em que foram adquiridos, no prazo de até um ano, contado da data de
compra, podendo a devolução ser intermediada por postos ou centros de recolhi-
mento, devendo antes da devolução, para as embalagens rígidas que contiverem
formulações miscíveis ou dispersíveis em água realizarem a operação de tríplice
lavagem para descontaminá-las.

8.8.2.2. O sistema de gestão da logística reversa de embalagens vazias


de agrotóxicos
Segundo a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef ), as embalagens mais
comuns que acondicionam agrotóxicos são:
a) Embalagens rígidas
– Metálicas: tambores de 50, 100, 200 litros, baldes de 10, 20, 25 kg, latas de 1 litro,
0,5 mL, 2 litros.
– Plásticas: bombonas de 10, 20 litros, botijas de 5 litros, garrafas de 1 litro.
– Vidros: garrafas de 250 mL, 500 mL, 1 litro.
– Fibrolatas: embalagens de 5 e 20 kg.

b) Embalagens flexíveis
– Sacos plásticos de 0,5 a 30 kg.
– Sacos de papel de 1 a 30 kg.
– Cartuchos de cartolina de 1/2 a 2 kg.
– Caixas coletivas de papelão de 1 a 50 unidades.

Além dessas, há as grandes embalagens tipo farm-pack retornável, as embala-


gens fixas para abastecimento a granel, tipo bulk, comporta até 50 mil litros, e as
embalagens hidrossolúveis. As embalagens rígidas de plástico podem ser fabricadas
com polietileno de alta densidade (PEAD), polietileno coextrudado (COEX), ou po-
lietileno tereftalato (PET); as tampas plásticas das embalagens são normalmente de
polipropileno (PP).
São passíveis de reciclagem 95% das embalagens vazias de agrotóxicos colocadas
no mercado. São incineradas as embalagens não laváveis (sacos plásticos, embalagens
de produtos para tratamento de sementes etc.), que correspondem a 5% do total, e as
embalagens que não foram tríplice-lavadas pelos agricultores (InpEV, 2011).
Antes da legislação anteriormente citada, todo produto comercializado chegava às
mãos do agricultor com uma bula que o orientava como acondicionar essas embalagens
no ambiente rural. O mais comum era o enterro, seguindo uma série de procedimen-
tos técnicos pouco aplicados pelos agricultores, e a incineração. Atualmente, face às
obrigações legais, a organização logística do processo de destinação de embalagens
vazias de agrotóxicos segue o fluxo apresentado na Figura 8.7, adiante.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 265

O sistema logístico reverso (SLR) apresentado na figura anterior pode ser desmem-
brado em vários atores e seus relacionamentos, dando origem a uma cadeia. Aqui
vamos tratar das conexões ou relações com foco no reciclador ou recuperador de pri-
meira ordem, decompondo o SLR em dois subsistemas ou etapas: sistema de recolha
e sistema de pós-recolha (Figura 8.8 adiante).

Figura 8.7. Processo de logística reversa de embalagens vazias de agrotóxicos.

Figura 8.8. O SLR e os subsistemas de recolha e pós-recolha.


Fonte: Freires, 2007, p. 97.

Partindo-se do modelo genérico de fluxo circular de materiais (Figura 8.5), o sis-


tema estudado é posicionado entre o consumidor final e a cadeia de abastecimento
266 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

tradicional ou direta. O sistema de pós-recolha pode finalizar com um produtor de


matéria-prima, um fabricante de produto final (caso as partes sejam reutilizadas), um
valorizador energético (utiliza frações de um produto como combustível) ou outro
reciclador. O sistema de pós-recolha é iniciado após a seleção e desmontagem dos
produtos a serem reciclados. Passados estes processos, o sistema de pós-recolha passa
a ser tratado como uma cadeia de abastecimento regular.
Desde que se tornou obrigatória em junho de 2002, a devolução de embalagens
vazias de agrotóxicos vem crescendo no país, tendo sido recolhidos até dezembro de
2010 em torno de 252.000 toneladas. Com isso, o Brasil já é o país que mais recolhe
embalagens de agrotóxicos no mundo (InpEV, 2011).
Atualmente, segundo o InpEV (2011), a logística reversa de embalagens vazias de
agrotóxicos está estruturada com mais de 223 unidades de recebimento, sendo refe-
rência mundial, com a seguinte estatística:
š 95% das embalagens primárias (aquelas que entram em contato direto com o
produto) são retiradas do campo e enviadas para a destinação ambientalmente
correta.
š 94% das embalagens plásticas são destinadas.
š 80% do total das embalagens comercializadas são destinadas.

Ainda segundo o InpEV, o SLR de embalagens vazias de agrotóxicos brasileiro está


estruturado com mais de 223 unidades de recebimento (entre centrais e postos).
A logística reversa utiliza o mesmo caminhão que leva as embalagens de agrotóxi-
cos cheias para os distribuidores e cooperativas do setor para retornar as embalagens
vazias (a granel ou compactadas), armazenadas nas unidades de recebimento. Esse
processo apresenta como vantagem a segurança para o meio ambiente e a saúde, já
que recorre a uma transportadora capacitada para realizar esse tipo de transporte,
e economia, uma vez que o caminhão tem parte dos custos pagos quando levou
embalagens cheias.
As unidades de recebimento são responsáveis pelo recebimento, seleção, acondi-
cionamento e expedição das embalagens comercializadas na sua área de abrangência.
A sua construção é de responsabilidade dos revendedores de agrotóxicos. As emba-
lagens devolvidas pelos agricultores são inspecionadas, uma a uma, para comprovar
as condições da devolução, lavadas e não lavadas, emitindo, após a verificação, um
comprovante de entrega para os agricultores. A prensagem é feita para redução do
volume, facilitando o transporte até o local de reciclagem das embalagens laváveis e
incineração das não laváveis.
A partir das unidades centrais de recebimento, cabe às indústrias a responsabilida-
de legal pela coordenação dos transportes, pela incineração, pelo local de reciclagem,
pela fabricação de artefatos que usam como matéria-prima, material proveniente das
embalagens lavadas devolvidas e, ainda, cabe-lhes a responsabilidade social de instruir
revendedores e agricultores, tanto sobre o uso do produto quanto sobre a importância
do processo de logística reversa (Sato, Carboni, Moori, 2006).
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 267

8.8.3. A prática da logística reversa na indústria de cervejas e refrigerantes

Extraído do artigo Logística Reversa: Oportunidade para Redução de Custos através do


Gerenciamento da Cadeia Integrada de Valor. Cecílio Elias Daher, Prof. Edwin Pinto de la
Sota Silva, D.Sc., Profa. Adelaida Pallavicini Fonseca, D.Sc.1

O setor de refrigerantes é um setor interessante para se estudar a Logística Reversa


devido não ao retorno de vasilhames à indústria, mas principalmente pelo retorno de
paletes e chapatex. Até o surgimento das embalagens feitas com polietileno tereftalato
(PET), os vasilhames retornáveis representavam uma barreira de entrada forte. Os custos
logísticos eram elevados devido à necessidade das indústrias operarem com estoques
de garrafas de vidro, altos o suficiente para que o sistema funcionasse corretamente.
Havia também a necessidade de que as empresas engarrafadoras possuíssem um nú-
mero maior de plantas, para que estivessem mais próximas dos clientes, possibilitando
um melhor controle de estoques de vasilhames.
Estas garrafas tinham um custo superior ao próprio produto, inibindo compras por
impulso e mantendo os varejistas dependentes daquelas empresas cujas embalagens
eles possuíam. Outro fator importante também é a elevada margem de lucro propor-
cionada por estas embalagens retornáveis, apesar de que hoje elas representam menos
de 4% das vendas. Com o surgimento das embalagens descartáveis (PET), no início da
década de 1990, todas estas barreiras desapareceram, propiciando um grande cresci-
mento das engarrafadoras de tubaínas. A participação de mercado destas empresas
menores cresceu de 9% em 1988 para 33% em 1999, de acordo com o relatório Seae
(ato de concentração Brahma/Antártica).
Com embalagens descartáveis, o principal fator de Logística Reversa a ser estudado
nesta indústria poderia parecer que havia desaparecido à primeira vista. No entanto,
este setor enfrenta atualmente um problema bastante grave e com custos muito eleva-
dos cuja solução parece bem distante. As empresas chamadas tradicionais, principal-
mente as franqueadas do sistema Coca-Cola e a Ambev, utilizam em suas embalagens de
embarque paletes e os chamados chapatex. Estes últimos são chapas feitas em madeira,
colocadas entre cada fileira vertical de garrafas PET ou latas com a finalidade de propi-
ciar maior estabilidade à pia e evitar o atrito entre elas. Estas pias são então colocadas
em paletes não descartáveis e despachadas aos clientes. A necessidade da utilização de
chapatex é tanto maior quanto mais quente a região em que atua a engarrafadora. O
calor dilata as garrafas PET, caso não haja a chapa de madeira entre elas, com o atrito
elas tendem a estourar. No caso de latas, o atrito pode provocar microfuros, deixando
vazar o gás ou mesmo todo o produto. Vazamentos de produtos podem resultar em
devoluções de toda a carga por parte do cliente, resultando em maiores prejuízos com
transporte para a engarrafadora.
Todo este material de embalagem tem um custo elevado, representando cerca de 7%
a 8% dos custos totais do produto. São normalmente ativados na engarrafadora como

1 Publicado in: VIII Congreso Internacional de Costos. Punta del Este, Uruguay. Del 26 al 28 de noviem-
bre de 2003.
268 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

patrimônio e deveriam retornar após a entrega do pedido aos clientes. Em termos de


valores, um palete padrão tem um custo aproximado de R$ 15,00 e um chapatex R$
3,00. Cada embalagem de embarque tem pelo menos dois chapatex e um palete, de-
pendendo do tipo de produto (lata ou PET).
Normalmente, o ciclo de produção em uma indústria de refrigerantes é bastante
dinâmico. Muitas vezes, o caminhão faz duas ou até três viagens no mesmo dia. Ao
chegar à indústria, ele tem que fazer o acerto rapidamente e carregar novamente para
outra viagem. Isto leva ao estabelecimento de sistemas logísticos normais e reversos
estarem sob um mesmo responsável, geralmente o setor de transportes. Este setor
faz o acerto com o motorista, controla as embalagens que deveriam retornar e des-
pacha a nova carga. A orientação dada pela indústria às engarrafadoras é o de ativar
estes paletes e chapatex e depreciá-los em função de um número pré-estabelecido
de retornos previstos. Estes materiais são considerados essenciais à produção e sua
falta pode paralisar todo o processo. Estima-se que pelo menos 50% desses materiais
sejam perdidos por falta de retorno às indústrias. Esta perda fez com que a ativação de
paletes e chapatex deixasse de ocorrer e estes passassem a ser lançados como despesa.
O controle numérico, entretanto continua a ser feito.
Pelo lado dos clientes, principalmente as grandes redes varejistas, estes materiais,
após o abastecimento dos produtos nas gôndolas são considerados como sucata ou
entulho, não lhes sendo dados os cuidados que a indústria gostaria. Existe também um
amplo mercado paralelo para estes materiais e certa participação de funcionários das
grandes redes no repasse. Para evitar paradas indesejadas na produção, a engarrafado-
ra recorre ao mercado paralelo para a aquisição de paletes e chapatex de modo mais
rápido, já que os principais fornecedores ficam localizados em São Paulo e necessitam
um prazo razoável entre o pedido e a entrega. Como a produção é planejada levando-
-se em conta o retorno dos paletes e chapatex para reaproveitamento, a não devolução
por parte de grandes redes tem como consequência possível, paradas devido a falta de
materiais. O mais interessante é que aqueles materiais que deveriam ter sido devolvidos
acabam retornando à indústria recomprados no mercado paralelo.
Como tentativa de diminuir a perda desses materiais, a engarrafadora já tentou
emitir notas de empréstimo que seriam cobradas caso a devolução não ocorresse. Al-
guns empecilhos ocorreram. Em primeiro lugar, o sistema de informações não estava
preparado para controlar este tipo de operação e seria preciso montar uma estrutura
de controle paralela. Depois houve uma resistência enorme por parte das grandes re-
des varejistas que não reconheciam o débito. O êxito em receber aconteceu apenas em
aproximadamente 30% dos clientes (principalmente médios) e só pôde ser feito devido
a um acordo tácito com o segundo maior concorrente, que sofre do mesmo problema,
tendo sido deixado de lado devido o elevado custo de controle e pequeno retorno.
Talvez o fracasso tenha ocorrido principalmente pela falta de controles integrados
aliados à atribuição de responsabilidade de cobrança que foi dada ao setor de vendas.
Com receio de perder grandes clientes, o setor de vendas não está preparado para
enfrentar resistências em setores que tradicionalmente não representam seu prin-
cipal produto. Vendas se sente responsável pelo produto final e é cobrada por cotas
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 269

sobre eles. Materiais de embalagem são deixados de lado, caso possam interferir em
grandes negociações. Outra tentativa de superação do problema foi a substituição de
paletes padrão por paletes descartáveis, com custo equivalente a um terço do outro
e do chapatex por papelão. A diferença de qualidade dos paletes é visível e obrigou a
engarrafadora a montar uma pequena marcenaria dentro de suas instalações apenas
para consertar os paletes descartáveis que retornam à indústria. Já a substituição de
chapatex por papelão foi uma medida que ainda é bastante questionável.
Os refrigerantes saem da linha de produção gelados e assim são embalados. Ocorre
então a condensação que molha toda a embalagem. Com o chapatex isto não é proble-
ma, já que a madeira não sofre com a água. Já o papelão se deteriora, deixando a carga
bastante insegura. Isto pode acarretar em tombamento da carga, já que os caminhões de
entrega são abertos nas laterais. O atrito também é maior com o uso do papelão. Assim,
o chapatex continua a ser utilizado para entregas em raio superior a 40 km da engarra-
fadora, sendo utilizado o papelão em entregas próximas. Por fim, esta engarrafadora
em particular decidiu por aumentar o preço do seu produto de modo a incorporar o
custo total destas embalagens, a princípio retornáveis, repassando as perdas ao longo
da cadeia. Os custos com estes tipos de materiais representam o segundo maior custo
de distribuição da engarrafadora, perdendo apenas para o combustível.
Tudo isto mostra grandes oportunidades de melhoria de todo o processo. No caso da
empresa pesquisada, as perdas com paletes e chapatex chegam a valores aproximados
de 2 milhões de reais anuais. Como estes valores são de apenas uma engarrafadora e
sabendo-se que este é um problema da indústria como um todo (com exceção dos
fabricantes regionais de tubaínas que, por operarem normalmente em um pequeno
raio de distância, não se utilizam deste tipo de embalagem de embarque), os valores
poderiam atingir montantes consideráveis, já que representam quase 2% do faturamen-
to bruto da empresa. Em um mercado de 11 bilhões de litros anuais, com quase 70%
do mercado nas mãos das duas maiores empresas que têm este problema específico e
com um valor de venda aproximado de R$ 1,00 por litro, basta multiplicar para termos
ideia dos números globais.
O estabelecimento de alguns acordos entre os principais concorrentes mostra que é
possível maior integração de toda a cadeia produtiva. O envolvimento da outra ponta
(grandes varejistas) e o desenvolvimento de maiores controles gerenciais de logística
reversa se faz necessário e altamente lucrativo, já que os custos são repassados por
toda a cadeia.

8.9. Revisão dos conceitos apresentados


Para a PNRS, os resíduos sólidos são externalidades negativas resultantes da ativida-
de humana, nos estados sólido ou semissólido, bem como gases contidos em recipientes
e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de
esgotos ou em corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnicas ou economicamente
inviáveis em face da tecnologia disponível.
270 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Como externalidade negativa, deveríamos desenvolver tecnologias para a não


geração e redução na fonte, principalmente nas empresas produtoras de bens e
serviços. Para tanto devemos aplicar o conceito de ecoeficiência nas empresas,
procurando fazer mais e melhor com menos. Sabemos que grande parte dos re-
síduos retém ainda certo valor econômico que pode e deve ser recuperado. Esta
recuperação pode se dar de forma direta, ou seja, sem transformação biológica,
física ou físico-química do produto, através da revenda, reutilização e redistribui-
ção do mesmo, ou passar por processos de acordo com as características e estado
em que se encontra o produto. Estes processos podem ser a reparação, reforma,
refabricação, canibalização, reciclagem, recuperação energética e compostagem.
Se nenhuma destas formas de destinação final ambientalmente adequada for vi-
ável técnica e economicamente, sua disposição final na forma de rejeito se dará,
normalmente, em aterro sanitário.
Em todos os casos de recuperação, a logística reversa entra como ferramenta capaz
de garantir a destinação e disposição ambientalmente adequada dos resíduos sólidos.
Cabe destacar que a logística reversa é vista como instrumento essencial à implemen-
tação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, abrangendo
fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, consumidores e titulares dos
serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos.

8.10. Questões
1. Segundo a PNRS, qual a ordem de prioridade das ações de gerenciamento dos re-
síduos sólidos? Comente a ordem de prioridade de ações estabelecida.
2. Como viabilizar a não geração e redução dos resíduos sólidos nas empresas?
3. Quais as diferenças entre a logística reversa e a logística direta?
4. Quais são as duas estratégias de recuperação de produtos ou materiais na logística
reversa?
5. Em termos de complexidade de operações, quais as diferenças entre a recuperação
direta e por processo?
6. Dentre as diversas opções de recuperação por processo apresentadas no capítulo,
qual é a que representa a menor interferência nas características do produto recu-
perado? Justifique sua resposta.
7. Analise a gestão dos resíduos sólidos de sua instituição de ensino.

Tópicos para discussão


8. Discuta em grupo as diferenças e semelhanças dos sistemas logísticos reversos para
Pneus-resíduos e de embalagens de agrotóxicos.
9. Analise o caso de estudo sobre a indústria de cervejas e refrigerantes e faça uma
comparação em termos de complexidade com o sistema logístico reverso para
embalagens de agrotóxicos.
Capítulo 8 s/SRES¤DUOSS˜LIDOSEALOG¤STICAREVERSA 271

Sugestões de pesquisa
10. Levante junto ao seu município, o estágio de implantação do plano de gestão de
resíduos sólidos, os tipos de aterros existentes, quais as ações de inclusão socio-
produtiva dos catadores e quais dos resíduos sólidos gerados pela comunidade são
objeto de coleta seletiva e reciclagem.

Leitura complementar
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9
Avaliação do ciclo
de vida de produtos
Cássia Maria Lie Ugaya

Conceitos apresentados neste capítulo


Este capítulo apresenta uma introdução à técnica de Avaliação do Ciclo de Vida
(ACV) na ótica ambiental. Inicialmente, aborda-se a relevância da ACV, seguida pelas
fases a serem observadas em sua execução. Finalmente, no final do capítulo, são abor-
dadas as perspectivas da ACV, sugestões para leitura e exercícios.
276 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

9.1. Introdução
Cada vez mais os consumidores se preocupam com questões relacionadas à sustenta-
bilidade, necessitando tomar decisões acerca do melhor produto a ser adquirido, como
por exemplo, aquele provindo de material renovável ou fóssil. A quantidade de informa-
ções contraditórias e o fato de que qualquer opção apresenta vantagens e desvantagens
confundem os consumidores. A defesa do biodiesel, por exemplo, é acompanhada pelo
discurso da renovabilidade. Por outro lado, ocupa áreas extensas, em alguns casos,
inclusive implicando em desmatamentos e competindo com a produção alimentícia.
A verdade é que não há uma única e absoluta resposta para essas questões, que são
altamente dependentes de cada caso. Existe, contudo, desde a década de 1960, uma
técnica que permite obter informações para auxiliar a tomada de decisões a partir de
uma avaliação sistêmica, em que se consideram os diversos estágios pelo qual o pro-
duto atravessa (desde a extração até o descarte final) e os vários impactos ambientais:
a ACV (Setac, 1993).
Este capítulo está organizado de forma que uma ACV siga os requisitos gerais estabe-
lecidos nas normas NBR ISO 14040 e 14044 (ABNT, 2009a e 2009b) que, muito embora
sejam de aplicação voluntária, são reconhecidas internacionalmente e têm sido cada
vez mais demandadas por grandes consumidores, como governos e organizações.
A realização da ACV compreende quatro fases: a definição do objetivo e escopo, a
análise de inventário, a avaliação de impacto e a interpretação, que serão apresentadas
em cada uma das seções subsequentes.

Diferenciação da ACV

A ACV é uma técnica que fornece informações acerca dos


impactos de um produto desde a extração de recursos ao descarte
final de produto (Setac, 1993).
Kj_b_pWZW"Wfh_dY‡f_e"fWhWWlWb_Whei_cfWYjeiWcX_[djW_i"ƒXWi[
para a ACV Social (ACV-S) e para a Avaliação da Sustentabilidade
do Ciclo de Vida (ASCV).

9.2. Definição do objetivo e do escopo


“Quem não sabe aonde quer chegar, não sabe o caminho a traçar”, diz o Gato à
Alice no livro de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Na ACV, isto é refletido no
objetivo do estudo, que deve conter a aplicação, as razões, o público ao qual se destina
o estudo e a intenção de divulgação pública dos resultados. De forma geral, os objeti-
vos mais comuns em uma ACV consistem na geração de informações para auxiliar a
tomada de decisão, seja para o planejamento estratégico, seja para o desenvolvimento
de produtos, estabelecimento de políticas públicas ou para o marketing (ABNT, 2009a).
Logo após definido o objetivo, deve-se estabelecer o escopo, que consiste nos limites
em que o estudo é válido, dentre os quais serão destacados neste capítulo: a unidade
funcional, o fluxo de referência, as fronteiras e o sistema de produto. As informações
Capítulo 9 s!VALIA½áODOCICLODEVIDADEPRODUTOS 277

relativas aos dados, como alocação, requisitos dos dados, e à avaliação de impacto do
ciclo de vida, como a seleção de categorias de impacto, serão apresentadas respecti-
vamente nas Seções 9.3 e 9.4.
A ACV é baseada na unidade funcional, que nada mais é do que a quantificação da
função. Um exemplo de determinação da unidade funcional é mostrado no box a seguir,
a de embalar 21 kg de compras por semana em um ano. Observe que, para atender à
demanda estabelecida na unidade funcional, foram estabelecidas duas alternativas:
156 sacolas de plástico ou três sacolas de pano. Esta quantidade de produto que supre
a unidade funcional é denominada de fluxo de referência.

Exemplo de função, unidade funcional e fluxo de referência

Função: embalar de modo que facilite o transporte de compras do


supermercado até a residência.
Kd_ZWZ[\kdY_edWb0[cXWbWh('a]Z[YecfhWifehi[cWdWZkhWdj['Wde$
Fluxo de referência: 156 sacolas de plástico ou 3 sacolas de pano.

Note ainda que apenas a função de embalar as compras foi levada em consideração,
apesar de que muitos consumidores afirmam que após o uso das sacolas de plástico
como embalagem de compras, as mesmas são utilizadas novamente para embalar
resíduos. Existe a possibilidade de incluir essas múltiplas funções em uma ACV, ao se
definir, por exemplo, que a unidade funcional apresentada no box fosse adicionada por
embalar 780 kg de resíduos ao longo do ano. Neste caso, o fluxo de referência para as
sacolas de plástico não seria alterado, contudo, para as sacolas de pano, seria necessário
adicionar a quantidade de sacos necessária para cumprir a função adicional. De forma
similar, poderia ser considerado que, após um ano de uso, as sacolas de pano seriam
utilizadas para limpar o chão e assim sucessivamente. Em suma, é importante definir
a unidade funcional e o fluxo de referência para a realização de uma ACV, base para a
determinação do sistema do produto (os processos incluídos no estudo).
Uma ACV de produto contém muitos processos elementares, em que os dados são
coletados. Ao se utilizar bases de dados, por exemplo, esses estudos podem atingir
atualmente mais de 4.000 processos. A tendência é de que cada vez mais haja maior
número de processos envolvidos, tendo em vista que praticamente todos os processos
no mundo têm alguma conexão.
Para facilitar a determinação dos processos elementares que serão incluídos no estudo,
pode-se utilizar fluxogramas. Por exemplo, para produzir a sacola de pano, é necessário
conhecer informações acerca da produção das matérias-primas como a produção do
tecido, do fio que será utilizado para costura e da tinta da estampa. Cada um desses
processos, contudo, está conectado a outros. A produção de tecido, por exemplo está
conectado à produção de algodão, e esta à produção de fertilizantes, e assim sucessi-
vamente. Toda a logística também é realizada com uso de caminhões, que consomem
diesel, pneus, freios, baterias, entre outros, e também precisam ser produzidos. Além
disso, são necessários materiais auxiliares e energia em cada um desses processos, como
eletricidade, que, por sua vez, precisa ser gerada e, como qualquer outro processo, resulta
em impactos ambientais.
278 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Para evitar que todos os processos antropogênicos sejam incluídos, podem ser uti-
lizados critérios de cortes físicos, econômicos ou ambientais para delimitar o sistema
do produto. No caso das sacolas de pano, o sistema do produto também seria extenso.
Sendo assim, para simplificar o exemplo, utilizou-se o critério de corte de massa. Dessa
forma, qualquer massa que entrar no processo e corresponder a menos que uma dada
porcentagem (p. ex.: 1%) da massa total do produto foi eliminada. Como decorrência,
os processos que englobam desde a extração dos recursos até a produção da tinta não
foram contabilizados no estudo, sendo que o sistema de produto foi restrito aos pro-
cessos apresentados na Figura 9.1.

Figura 9.1. Exemplo simplificado de sistema de produto.

Ainda em relação à simplificação deste exemplo, os processos de transporte,


construção da infraestrutura e geração de eletricidade foram considerados cada
um como um único processo elementar. Na prática, deve-se procurar descrever
processos elementares o mais desagregado possível, garantindo a transparência,
porém mantendo a confidencialidade das informações (Frischknecht et al., 2007).
Dessa forma, em vez de inserir a unidade de processo “eletricidade”, teríamos os
seguintes processos elementares no fluxo principal de produção para o caso da
geração de energia elétrica por gás natural: extração do gás natural, transporte
do gás natural, geração de eletricidade, distribuição e uso da eletricidade e fluxos
secundários, como os relacionados aos materiais auxiliares, energia, infraestru-
tura etc. Essa desagregação poderia ser ainda mais detalhada, no nível de cada
Capítulo 9 s!VALIA½áODOCICLODEVIDADEPRODUTOS 279

equipamento utilizado. Na prática, recomenda-se que o processo elementar tenha


ao menos um produto vendável. Idem para os processos de transporte e infraes-
trutura apresentados na Figura 9.1.

9.3. Análise de inventário do ciclo de vida


A Análise de Inventário do Ciclo de Vida é a segunda fase da ACV e engloba a coleta
de dados em cada processo elementar e posterior processamento de dados ao longo
do ciclo de vida, resultando no Inventário de Ciclo de Vida (ICV). O ICV resulta na so-
matória dos fluxos elementares (fluxos provindos do ou destinados ao meio ambiente).
Exemplos de fluxos elementares são mostrados na Figura 9.2.

Figura 9.2. Fluxos elementares no ciclo de vida do produto.

As informações de cada processo elementar devem conter os processos englobados,


com clareza, especialmente acerca dos processos iniciais e finais, no caso de incluir mais
de um processo. Devem também ser incluídos os dados acerca de cada fluxo corres-
pondente a quantidade, unidade, período, meio do qual o recurso provém, meio para o
qual os poluentes são destinados, ano, região, tecnologia, forma de coleta, entre outros.
No exemplo, a unidade de processo “produção da sacola” poderia incluir: o trans-
porte do algodão até a indústria que fabricará os fios, o tecido e, por fim, as sacolas
de pano.
No Quadro 9.1 é apresentado um exemplo acerca das opções de alguns desses
itens.
280 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 9.1. Exemplos para caracterização dos fluxos

Item Exemplo
Ar
Meio do qual o recurso provém Água: rio, lago, mar, subterrâneo
Solo
Ar: alta densidade populacional,
Meio para o qual o poluente é baixa densidade populacional
destinado Água: rio, lago, mar, subterrâneo
Solo
Globo
FW‡i
Região
Estado
Coordenadas GIS
Forma de coleta Medido, calculado, estimado

Para facilitar a coleta de dados, pode-se identificar, para cada processo elementar, os
fluxos de entrada e saída por meio visual, conforme mostrado na Figura 9.3. Note que
a diferença entre os fluxos apresentados nesta figura e os da Figura 9.2 é o fato de
que, neste caso, há fluxos intermediários (fluxos que provêm ou seguem para outros
processos elementares dentro do sistema de produto avaliado) e fluxos de produtos
(fluxos que provêm ou seguem para outros processos elementares fora do sistema de
produto avaliado).

Figura 9.3. Fluxos do processo de produção de sacolas de algodão.

Os resultados da coleta de dados da produção de 1 t de sacolas de algodão são apre-


sentados no Quadro 9.2. Considerou-se que a massa de cada sacola é de 50 g. Note que
os dados precisam ser categorizados, uma vez que os impactos variam em função dos
fluxos serem entradas ou saídas e ainda, por exemplo, da densidade populacional na
região em que ocorrem as emissões atmosféricas.
Capítulo 9 s!VALIA½áODOCICLODEVIDADEPRODUTOS 281

Quadro 9.2. Fluxos do processo de produção industrial

Subcategoria
Categoria *

Método de
Tecnologia

coleta de
Industria
Unidade

Região
Fluxos

dados
Ano
Entradas
Algodão t 3,4 FI Brasil Kj_b_pWZW 2010 Nota fiscal
3
Água m 1,1 R Rio Brasil Kj_b_pWZW 2010 Medidor interno
Eletricidade MWh 225,0 FI Brasil Kj_b_pWZW 2010 Nota fiscal
2
Área transformada m 0,000 R Solo Brasil Kj_b_pWZW 2010 Compra de terreno
2
Área ocupada m .a 0,00225 R Solo Brasil Kj_b_pWZW 2010 Escritura
Equipamentos p 0,113 FI Brasil Kj_b_pWZW 2010 FheZk‚€e
Caminhão jac 0,002 FI Brasil Kj_b_pWZW 2010 Contrato
Saídas
Sacola p 20000 F Brasil Kj_b_pWZW 2010 FheZk‚€e
Tecido m2 10000 F Brasil Kj_b_pWZW 2010 FheZk‚€e
CO2 t 45000,0 Ar 8:F Brasil Kj_b_pWZW 2010 Estequiometria
CH4 a] 1575,0 Ar 8:F Brasil Kj_b_pWZW 2010 Fator de emissão
DQO a] 22,5 E Rio Brasil Kj_b_pWZW 2010 Medição
Fósforo a] 2,3 E Rio Brasil Kj_b_pWZW 2010 Medição

<?ƒe<bkne_dj[hc[Z_|h_e"H0h[Ykhie"F0fheZkje";0[c_ii[i[c[Ôk[dj[ib‡gk_Zei$
:GE0Z[cWdZWgk‡c_YWZ[en_]…d_e"8:F0XW_nWZ[di_ZWZ[fefkbWY_edWb$

Em muitos casos, o processo elementar apresenta mais de um produto. No exemplo,


os produtos do processo industrial são as sacolas e o tecido de algodão. Como distri-
buir os fluxos entre estes dois produtos? Existem algumas formas para fazê-lo, sendo
que aqui será apresentada a divisão dos fluxos por critérios físicos ou econômicos, isto
é, a alocação.1 A alocação é dada por:

fi = pi f

Em que:
f = qualquer fluxo do processo, exceto os produtos;
p = participação do produto i, seja em termos físicos ou econômicos [%],
dado por:
x 1, j
p1, j = n
∑ x1, jj =1

1
Para técnicas de evitar a alocação, consulte ABNT (2009b).
282 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Em que :
x = critério escolhido, dado tanto em termos físicos quanto econômicos.

No caso da produção industrial do tecido e das sacolas de algodão, seja o custo de


produção de 10.000 m2 do tecido de R$ 1.020,00, e o custo da produção das sacolas,
de R$ 450,00. Neste caso, o critério econômico foi utilizado, e os resultados para
cada um dos fluxos, relativos à produção de sacolas de algodão, são apresentados
no Quadro 9.3.

Quadro 9.3. Fluxos do processo industrial para 1 t de sacolas de algodão

Fluxos Unidade Indústria


Entradas
Algodão t 1,5
3
Água m 0,5
Eletricidade MWh 0,1
2
Área transformada m 0,001
Área ocupada m2.a 0,00001
Equipamentos p 0,05
Disel m3 0,007
Caminhão jac 0,001
Saídas
Sacola p 20.000
CO2 t 0,0245
CH4 a] 0,5
DQO a] 50
Fósforo a] 2

Considerando que o mesmo foi realizado para os demais processos elementares,


os resultados obtidos estão apresentados no Quadro 9.4. Observe que os dados qua-
litativos correspondentes ao Quadro 9.2 não foram incluídos, visando tão somente à
simplificação do exemplo. Note que nem todos os fluxos foram considerados (como
o sabão, para a etapa de uso, entre outros), por se tratar de uma simplificação. É bom
lembrar-se de utilizar os critérios de corte anteriormente citados para a exclusão dos
fluxos. O consumo de energia elétrica e a água, referentes ao uso da sacola são decor-
rentes da lavagem da sacola. Já no descarte considerou-se o consumo de eletricidade
para as instalações do aterro.
Capítulo 9 s!VALIA½áODOCICLODEVIDADEPRODUTOS 283

Quadro 9.4. Dados quantitativos dos processos elementares


Uni- Agri- Produção Eletri- Tran- Infra-
Fluxos Uso Aterro
dade cultura da sacola cidade porte estrutura
Eletricidade aM^ 0 -5,00E-03 -20 -2 1 0 -5
Transporte jac 0 -5,00E-08 0 0 0 1 -10
Sacola p 0 1 -1 0 0 0 0
Sacola usada p 0 0 1 -1 0 0 0
Sacola aterrada p 0 0 0 1 0 0 0
Infraestrutura p 0 -5,00E-25 0 0 -1,00E-15 0 1
Algodão p 1 0 0 0 0 0 0
Diesel a] 0,6 0 0 0 0 -0,011 0
Equipamentos p 1E-10 0 0 0 0 0 0,00E+00
Área transformada m2 -5 0,00E+00 0 0 -0,0001 0,00E+00 0
Área ocupada m2.a -5 -5,00E-08 0 0 -0,01 0 0
Água m3 -0,005 -2,50E+05 -7 0 -10 0 -3
CO2 a] 0,5 1 0 0 1,00E-01 3,73E-02 0
CH4 g 4 0,035 0 5 1,00E-03 0 0
DQO g 4 5,00E-04 1 0 0 0 0
Fósforo g 2 5,00E-05 0,5 0 0 0 0

Os dados apresentados no Quadro 9.4 estão relacionados a uma unidade de produto,


sendo que os dados em negative representam as entradas, e os em positive, as saídas.
Para a ACV, contudo, é necessário que os mesmos refiram-se à unidade funcional
(embalar 21 kg/semana), que, por sua vez, correspondem a três sacolas de algodão,
conforme apresentado no Quadro 9.5.

Quadro 9.5. ICV de três sacolas de algodão


Infraestrutura
Eletricidade
Agricultura

Transporte
Indústria
Unidade

Aterro
Uso

Fluxos

Entradas
Água litros 0,001125 0,075 21.000 660.150 '"/.;Å'&
Área
m2 0,001125 0,0066015
transformada
Área ocupada m2.a 0,001125 '"+&;Å&- 0,66015
CO2 a] 0,0003375
Saídas
Algodão a] 0,000225
CO2 a] 0,00045 3,00E + 00 6,6015 +",&;Å&/
CH4 g 0,0009 '"&+;Å&' 15 ,",&;Å&(
DQO g 0,0009 '"+&;Å&) 3,00E + 00
284 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Como os resultados apresentados têm unidades diferentes, cada fluxo deve ser ana-
lisado separadamente. Para facilitar a análise, veja o gráfico logarítmico mostrado na
Figura 9.4 para o exemplo das sacolas de algodão, em que se nota que os processos de
uso e de geração de eletricidade são os principais responsáveis pelo consumo de água
e o aterro, pelas emissões de metano. O uso também é a etapa de maior contribuição
na Demanda Química de Oxigênio (DQO), enquanto a área transformada é devida à
agricultura e à produção de eletricidade.

Figura 9.4. Resultados do ICV de três sacolas de algodão.

A dificuldade na análise do ICV é que uma pequena quantidade de um determinado


fluxo pode ter maior relevância em termos ambientais do que uma grande quantidade
de outro fluxo. Além disso, a quantidade de fluxos elementares pode aumentar signifi-
cativamente (por exemplo, no Ecoinvent, há mais de 600 fluxos elementares e poderia
haver ainda mais), o que dificulta significativamente a análise. Como decorrência, houve
a necessidade de realizar a Avaliação de Impacto do Ciclo de Vida (AICV).
Capítulo 9 s!VALIA½áODOCICLODEVIDADEPRODUTOS 285

9.4. Avaliação de Impacto do Ciclo de Vida


A fase seguinte da ACV é a AICV, cujas subfases são mostradas no Quadro 9.6. A AICV
consiste em relacionar os resultados dos ICVs às categorias de impacto (p. ex.: mudanças
climáticas, acidificação, perda de biodiversidade, entre outros).
De acordo com a NBR ISO 14044 (ABNT, 2009b), a obtenção dos valores até a ca-
racterização é obrigatória, entretanto, para facilitar a avaliação, elementos opcionais,
como a normalização, o agrupamento e a ponderação podem ser utilizados, salvo
que os resultados obtidos com uso da ponderação NÃO DEVEM ser divulgados para o
público no caso de afirmações comparativas.

Quadro 9.6. Etapas da avaliação de impacto do ciclo de vida

Seleção das categorias de impacto,


Indicadores de categoria e
modelos de caracterização

Correlação dos resultados do ICV


(classificação)

Cálculo dos resultados dos indicadores


de categoria (caracterização)

Resultados dos indicadores


de categoria (perfil da AICV)

Normalização
Agrupamento
Ponderação
Análise de qualidade dos dados

Fonte: ABNT, 2009b.

Para realizar uma AICV, deve-se primeiramente selecionar as categorias de impacto


que sejam relevantes ao estudo.
No exemplo das sacolas de pano, as categorias de mudanças climáticas e eutrofiza-
ção2 foram selecionadas. É importante destacar que seria relevante considerar ainda
outras categorias de impacto, como as decorrentes da geração de resíduos sólidos e do
consumo de água, caso se comparasse esta alternativa com a de sacolas plásticas. Com
a finalidade didática, contudo, o exemplo é restrito a essas duas categorias de impacto.
Em seguida, devem-se identificar os indicadores de categoria (indicadores de com-
paração entre os diversos fluxos elementares) e escolher modelos de caracterização
cientificamente comprovados, que estabelecem fatores da contribuição dos fluxos
elementares às categorias de impacto.
2
Eutrofização é o aumento da carga de nutrientes em um corpo aquático.
286 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Para o exemplo, no caso das mudanças climáticas, selecionou-se o modelo de carac-


terização do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) do Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da Organização Meteorológica
Mundial (OMM), que utilizou como indicador de categoria o Forçamento Radiativo
Infravermelho (FRI), base da comparação dos diversos fluxos elementares causadores
desta categoria de impacto. No caso da eutrofização, optou-se pelo modelo do Instituto
de Ciências Ambientais dos Países Baixos, o CML (Institute of Environmental Sciences).
Apesar de fazer parte da AICV, a seleção das categorias de impacto, dos indicadores de
categoria e dos modelos de caracterização é definida no escopo, na primeira fase da ACV.
A próxima subfase consiste em determinar os fatores de comparação entre os fluxos
elementares, denominados de fatores de caracterização.
O mais conhecido fator de caracterização é o Potencial de Aquecimento Global, do
inglês, Global Warming Potential (GWP). O IPCC apresentou no modelo de 2001 que,
para um período de 100 anos, 1 kg de metano (CH4) causa 23 vezes mais mudanças
climáticas que 1 kg de dióxido de carbono (CO2). Para determinar estes fatores de ca-
racterização, o IPCC utilizou-se do FRI de cada substância causadora das mudanças
climáticas e comparou os resultados com o CO2iv.
O método de AICV do CML (Guinée et al., 2002), por exemplo, apresenta os fatores
de caracterização para as mudanças climáticas, conforme o IPCC e utilizou um outro
modelo para eutrofização, tomando como referência o PO43-. Os valores desses fatores
apresentados no Quadro 9.7.

Quadro 9.7. Fatores de caracterização do método CML (2000) para mudanças


climáticas (100 anos) e eutrofização
Fluxos Mudanças climáticas Eutrofização
Unidade [kg eq. CO2] [kg eq. PO43–]
CO2 1
CH4 23
DQO 2,2
Fósforo 3,06

Outro item a ser contemplado na AICV consiste em classificar os fluxos elementares


obtidos no ICV, as categorias de impacto. Na Figura 9.4, apresentam-se os exemplos de
ambos em que o CO2 e o CH4 poderiam ser classificados como causadores de mudanças
climáticas, o NOx e o SOx à acidificação e assim por diante. Note que alguns dos fluxos
elementares obtidos na coleta de dados não afeta nenhuma das categorias de impacto
de interesse, de acordo com o método CML. Caso haja interesse em verificar como o
consumo de água influencia na eutrofização (a redução de água de um corpo hídrico)
ou a área transformada nas emissões de gases de efeito estufa (emissão de CO2 devido
à alteração do uso do solo), os fatores de caracterização deveriam ser incluídos no
método. Para o exemplo apresentado, estes e outros fluxos elementares foram apenas
analisados até a segunda fase da ACV.
Capítulo 9 s!VALIA½áODOCICLODEVIDADEPRODUTOS 287

Figura 9.5. Inventário de ciclo de vida e categoria de impactos


para o exemplo das sacolas de algodão.

Uma vez que se tem em mãos o ICV, a classificação de cada fluxo elementar nas
correspondentes categorias de impacto e os fatores de caracterização, para obter os
resultados da caracterização de cada categoria de impacto, basta utilizar a equação:

c = ∑ cj = ∑ ij fj

Em que:
ij = o valor obtido no inventário para cada fluxo j;
fj = o fator de caracterização de cada fluxo j.

Para o ICV das sacolas de algodão apresentado no Quadro 9.5 e com o uso dos fatores
de caracterização do Quadro 9.6, então, os resultados para as sacolas de algodão são
apresentados na Tabela 9.1, implicando em uma contribuição de 10,1 kg eq. CO2 nas
mudanças climáticas e 11,2 kg eq. PO43- para a eutrofização.

Tabela 9.1. Resultados da caracterização do ciclo de vida das sacolas de algodão

Categorias de impacto Mudanças climáticas Eutrofização


Unidade [kg eq. CO2] [kg eq. PO43–]
Agricultura )"(&;Å&* )"),;Å&)
Indústria 3,02E + 00 )"-,;Å&)
Kie 0,00E + 00 1,12E + 01
Aterro 3,45E + 00 0,00E + 00
Eletricidade 6,62E + 00 0,00E + 00
Transporte +",&;Å&/ 0,00E + 00
Infraestrutura 0,00E + 00 0,00E + 00
Total 1,31E + 01 1,12E + 01
288 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Na Figura 9.6 apresenta-se a comparação dos resultados da caracterização para as sa-


colas de algodão e as sacolas de plástico, em que se percebe que as primeiras têm maior
impacto para a eutrofização, contudo menor impacto para as mudanças climáticas.
Para a realização de uma ACV de acordo com a ABNT (2009a), as comparações só
podem ser utilizadas caso as suposições e a contextualização para os produtos avalia-
dos sejam equivalentes.

Figura 9.6. Resultados da caracterização do ciclo de vida de sacolas


de algodão e sacolas de plástico.

Este tipo de variações dificulta a avaliação, em especial quando o número de catego-


rias de impacto aumenta. A fim de auxiliar a tomada de decisão, podem ser utilizados
elementos opcionais, como a normalização, o agrupamento e a ponderação.

Comparação de ACVs

Tenha certeza de que todo o conjunto, o estudo e todas as suposições são as mesmas ao fazer comparações
de ACVs. Não se compara bananas com chinelos, e, portanto, qualquer diferença existente entre os estudos
de ciclos de vida de produtos pode favorecer ou prejudicar um dos produtos avaliados.
Caso se deseje divulgar os resultados de comparações, a ABNT (2009b) não permite o uso de ponderação e
necessita-se de revisão de especialistas de terceira parte.
Capítulo 9 s!VALIA½áODOCICLODEVIDADEPRODUTOS 289

A normalização consiste em avaliar os resultados da caracterização em relação a uma


referência. O método CML (2000), por exemplo, utiliza o quanto um cidadão europeu
ou no mundo foi responsável por uma dada categoria de impacto em um determinado
ano. Então, os valores normalizados N para cada categoria de impacto são dados por:
C
N =
R
Em que:
R = valor da referência para a categoria de impacto.

Já o agrupamento consiste na agregação dos resultados das categorias de impacto e


a ponderação implica a atribuição de pesos dos resultados das categorias de impacto.
Os valores ponderados P para cada categoria de impacto podem ser dados por:

P=Np

em que:
p = valor do peso atribuído para cada categoria de impacto.

No exemplo das sacolas de algodão, sejam as referências utilizadas de cada cate-


goria de impacto dadas no Quadro 9.8 e os pesos das categorias de impacto como no
Quadro 9.9, então os resultados normalizados e ponderados para as sacolas de algodão
são apresentados no Quadro 9.10.

Quadro 9.8. Referências de normalização das categorias de impacto


Categorias de impacto Unidade Referência
Mudanças climáticas Qa][g$9E2] 500
Eutrofização Qa][g$FE4)Å] 100

Quadro 9.9. Pesos das categorias de impacto


Categorias de impacto Unidade Pesos
Mudanças climáticas % 70
Eutrofização % 30

Observe que a normalização é adimensional e convencionou-se denominar os


resultados da ponderação na unidade pontos (do inglês, points, representado por pt).
Os resultados da normalização indicam que as sacolas de algodão têm uma maior
contribuição na eutrofização que as mudanças climáticas em relação à referência, já
que, enquanto a primeira representa 2,6% da contribuição da referência, a segunda,
representa 11,2%.
290 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 9.10. Resultados da normalização e da ponderação para o ciclo de vida


das sacolas de algodão
Categorias de impacto Normalização Ponderação [pt]
Mudanças climáticas 0,026 1,83
Eutrofização 0,112 3,36

Uma possibilidade é a de agregar os resultados ponderados em uma única pon-


tuação, e, dessa forma, a contribuição das mudanças climáticas representa 35,5% do
impacto total.
Apesar de a pontuação única facilitar a análise, cabe ressaltar que a caracterização
tem embasamento científico, e a normalização, agrupamento e ponderação dependem
da escolha de valores do praticante de ACV.

9.5. Interpretação
A última fase da ACV é a interpretação, na qual, entre outros, verifica-se os resulta-
dos em relação ao escopo. Um dos itens mais comuns nesta fase consiste em avaliar a
contribuição, seja dos processos, seja dos fluxos elementares, no resultado final. No caso
das sacolas de algodão, nota-se na Figura 9.7 que o processo elementar que mais contri-
bui para a mudança climática é a geração de eletricidade no descarte final das sacolas
de pano, enquanto o estágio de uso é o que tem maior contribuição na eutrofização.

Figura 9.7. Contribuição dos processos nas mudanças climáticas e


eutrofização no ciclo de vida de três sacolas de algodão.
Capítulo 9 s!VALIA½áODOCICLODEVIDADEPRODUTOS 291

Já na Figura 9.8 encontram-se os resultados dos fluxos elementares que mais contri-
buem para a mudança climática e a eutrofização, que são, respectivamente, as emissões
de dióxido de carbono e a DQO.

Figura 9.8. Contribuição das emissões nas mudanças climáticas e


eutrofização no ciclo de vida de três sacolas de algodão.

Outros métodos utilizados para identificar a significância são a análise de dominân-


cia, influência e anomalias. Exemplos do uso desses métodos podem ser encontrados
tanto na ABNT (2009) como também em Ugaya (no prelo).
Outro item importante a ser considerado é a análise da qualidade dos dados. Na
existência de dados quantitativos, pode-se averiguar a variabilidade por métodos tra-
dicionais, como o cálculo da média, identificação da distribuição, amplitude, máximo
e mínimo ou desvio padrão.
A falta de dados, contudo, fez com que uma avaliação qualitativa fosse proposta
por Weidema e Wesnaes (1996), a Matriz Pedigree, conforme apresentada no qua-
dro 9.11. Os autores agruparam alguns dos requisitos, resultando em seis critérios:
confiança, completeza, correlação temporal, correlação geográfica, correlação tec-
nológica e amostra.
A pontuação do dado é realizada para cada um dos critérios, considerando-se
cinco níveis, sendo que a menor pontuação (1) representa a melhor qualidade do
dado. Por exemplo, ainda que um único dado possa ser utilizado no estudo de ACV,
a qualidade do dado relacionado a este critério é baixa e, portanto, recebe a menor
pontuação.
292 Gestão Ambiental de Unidades Produtivas ELSEVIER

Quadro 9.11. Matriz Pedigree


Correlação Correlação Correlação
Produção Confiança Completeza
temporal geográfica tecnológica
Dados
Dados representativos Diferença
Dados Dados da
verificados e de um número máxima de 3
1 provenientes da empresa em
baseados em suficiente de anos face ao ano
área de estudo estudo
medições empresas durante de estudo
um período
Dados
parcialmente Dados
Dados médicos Dados relativos
verificados e representativos
respeitantes a aos mesmos
baseados em de um pequeno
Menos de 6 anos uma área maior processos/
2 hipóteses ou número de
de diferença do que a área materiais,
dados não empresas, mas
em estudo, mas mas de outras
verificados mas para o período
que a engloba empresas
baseados em adequado
medições
Dados Dados dos
Dados não Dados de
representativos mesmos
verificados e Diferença uma área com
de um número processos/
3 parcialmente máxima de 10 condições
adequado de materiais, mas
baseados em anos de produção
empresas, mas diferentes
hipóteses semelhantes
para períodos tecnologia
Dados
representativos,
Estimativas Dados de Dados relativos
mas de um
verificadas ou uma área com a processos/
número pequeno Diferença
estimativas condições materiais
4 e de períodos máxima de 15
qualificadas de produção semelhantes,
reduzidos, ou anos
(realizadas por com algumas mas tecnologia
incompletos mas
peritos) semelhanças análoga
de um número
adequado
Representatividade
desconhecida,
Dados de área Dados relativos
ou dados
Estimativa dos Idade dos dados desconhecida, a processos/
incompletos de
dados não desconhecida ou de área com materiais
5 um pequeno
qualificados e ou superior a 15 condições de semelhantes,
número de
não verificados anos produção muito mas tecnologia
empresas e/ou
diferentes diferente
de reduzidos
períodos
Fonte: Weidema e Wesnaes, 1996

Ao utilizar esta avaliação para os dados do processo industrial de produção das sa-
colas de algodão, a pontuação seria conforme mostrado no Quadro 9.12. Nota-se que
os dados de menor confiança são os referentes às emissões de CO2 e CH4, responsáveis