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Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 1

28, 29 e 30 de agosto de 2006

Perspectivas interseccionais de gênero e classe - ST 17


Maria Isabel de Castro Lima
UFSC
Autobiografia – cânone – Cassandra Rios

Autobiografia: Gênero Feminino? 1

As autobiografias despertam a atenção da crítica e do público por motivos distintos. Por


terem sido relatos considerados exemplares, têm tido seu público fiel em busca de identificação nos
processos de construção do sujeito, com seus percalços, sucessos e insucessos. Considerada no
século XVIII como um gênero nobre, a autobiografia tornou-se gênero menor no século XX, com a
entrada das mulheres no campo literário. Estes relatos, que ajudaram a consolidar a sociedade
ocidental2, têm sido discutidos pelos críticos a partir de uma visão masculinista, enaltecendo as
trajetórias pessoais, a individualidade do sujeito, reafirmando a noção cartesiana do sujeito
humanista universal. Esta visão crítica favoreceu a consolidação da mulher na posição de objeto do
desejo, da perdição ou da salvação do sujeito masculino em busca de sua identidade 3. A crítica
feminista, ao atentar para os relatos de mulheres e olhá-los sob outras perspectivas, desestabilizou
esse sujeito coerente, universal, que luta pela auto-identidade, buscando discutir quem é esse “eu”,
quais contradições essas narrativas do “eu” carregam, uma vez que este sujeito está inserido numa
vasta rede de discursos. Muito além de enaltecer os sucessos de um sujeito coerente, o sujeito
autobiográfico passa a ser questionado por sua incoerência, suas contradições. Como conseqüência
do aumento das narrativas autobiográficas femininas, há uma queda de popularidade desse gênero
dentro do cânone patriarcal, misógino e sexista, ao mesmo tempo em que se valorizam as formas
romanescas. Da mesma maneira em que as mulheres estavam relegadas pela sociedade à esfera
privada, enquanto aos homens pertencia o espaço exterior, a esfera pública, foi a autobiografia
masculina vista como lugar de enaltecimento da vida exterior, enquanto que a autobiografia
feminina como relatos dos espaços domésticos. Com a valorização das histórias de vida das
mulheres, assim ‘feminilizado’ em sua concepção, a autobiografia passou a ocupar um lugar
subalterno, marginal, em relação aos gêneros literários agora considerados nobres pelo cânone;
além disso, dentro do próprio gênero autobiográfico, a autobiografia feminina continuou ocupando
uma posição ainda mais marginal.
Em Autogynography: is the subjetc different?4, Domna C. Stanton apresenta a situação de
invisibilidade da autobiografia de mulheres já nos anos 1970. Atentas a esses relatos principalmente
a partir de então, as teorias críticas feministas fizeram avançar os estudos de relatos autobiográficos
de mulheres, dedicando-se a analisar e discutir a enorme gama de questões que permitem explorar
os espaços controversos, fragmentados, misteriosos e surpreendentes desse tipo de narrativa. O que
a teoria faz é argumentar, a partir dessas perspectivas, que as histórias do “eu” são instáveis, que
essa auto-reapresentação está situada em campos discursivos diversos, algumas vezes coerentes,
outras não5.
Estes aspectos nortearam este trabalho de análise da autobiografia de Cassandra Rios,
pseudônimo de Odete Rios, paulista nascida em 1932, romancista de enorme sucesso de público
entre os anos 1950 e 1980. Rios foi pioneira na literatura brasileira ao publicar romances com
protagonistas lésbicas. A maior parte de sua obra literária contém relações lésbicas, mas também
inclui em sua ficção o transformismo, o sincretismo religioso, a pedofilia, as relações inter-raciais,
as relações inter-classes e as relações de poder na sociedade. Suas personagens não passam pela
narrativa sem questionamento, refletem sobre si e sobre sua atuação no mundo de forma crítica.
Escrevendo de forma coloquial sobre temas silenciados ou proibidos para a época, a
romancista atraiu um grande público leitor e, ao mesmo tempo em que levantou contra si a ira dos
intelectuais - que em seu melhor estilo classista patriarcal a rechaçaram de um legítimo
reconhecimento, também provocou os guardiões da moral social. A igreja católica excomungou sua
obra6 e esta foi sistematicamente processada em nome da moral e dos bons costumes. Rios obteve o
duvidoso elogio – durante os anos de chumbo uma proibição sempre repercutia bem entre a
intelectualidade – de “escritora mais proibida do Brasil.”7
Após um longo silêncio literário de 20 anos, afastada por mágoa e cansaço, Rios retornou
com sua segunda autobiografia, Mezzamaro, flores e cassis: o pecado de Cassandra, dois anos
antes de sua morte, a 8 de março de 2002, ironicamente no dia em que se comemora o dia
internacional da mulher.
Esta autobiografia de Cassandra Rios ocupa um lugar inquietante para a crítica literária.
Parte de sua posição de mulher não confinada à esfera privada, uma mulher escritora, solteira, sem
vínculos familiares que a obrigassem a orbitar na esfera doméstica. Além disso, Cassandra Rios era
branca, de classe média, e lésbica; ainda mais, sua obra literária foi considerada pornográfica e
ignorada pela crítica, pela temática abordada e por seu estilo popular.
Uma discussão crucial dos relatos de vida é sobre a posição que o sujeito autobiográfico
ocupa. De que lugar fala Rios? Que posição assume frente a si mesma em seu relato de vida?
Abraça uma identidade, defende um ponto de vista? Ao mesmo tempo em que seu “eu” vagueia
pelas lembranças da infância, da mãe espanhola, do colégio de classe média, da família estrangeira,
de seu bilingüismo e erudição, Rios escreve sobre si trazendo dois elementos: não apresenta apenas
eventos de sua vida como se recorda deles, também descreve os processos internos de medo,
ressentimento, identificação e não identificação, representação e religiosidade, muitas vezes
deixando seu discurso fluir livremente, sem censura. Seu relato apresenta momentos confessionais
e, confrontando sua prática literária e sua trajetória pessoal corajosa, mostra uma visão fortemente
conservadora e dicotômica do mundo. Oscar Wilde lhe diz, em um sonho: “Escreva a sua
autobiografia, Cassandra, mostre-se como é, para sua própria defesa e verdade.” 8. E é isso que Rios
busca fazer, mostrar-se como é, como nunca se mostrou anteriormente, construindo na narrativa a
imagem que tem de si para si mesma e para seu público.
Quem é esse “eu” de Rios? Afirma a narradora: “[...] sou mesmo um blefe, um desperdício,
antítese de tudo o que escrevi ou escrevo, posso até afirmar que sou assexuada de corpo e alma. E
basta! O resto é ficção!” 9 Se aqui Rios trata de colocar em jogo sua sexualidade, ou melhor, sua a-
sexualidade, é indício da importância que esta toma quanto à sua escrita. Este fato determina, sem
sombra de dúvidas, uma das posições desse sujeito autobiográfico. Rios tem um corpo real, além do
corpo simbólico de sua narrativa, que carrega uma marca histórica, social, que sofre as
conseqüências materiais de seus atos pessoais e de sua obra frente à sociedade normativa,
reguladora da sexualidade.
A autobiografia de Rios é uma mistura de memória e diário, onde a narradora relata fatos de
sua vida de forma não-cronológica, ao mesmo tempo em que dispara reflexões sobre sua condição
de escritora. Corajosamente, contrariando o pressuposto da condição heterossexual do sujeito
autobiográfico, e contrariando à sua própria auto-apresentação como “assexuada”, Rios abraça a
identidade lésbica. Julia Watson argumenta que, nas autobiografias, apenas homossexuais têm
sexualidade; a heterossexualidade não precisa ser nomeada, mantendo, portanto, o poder
disciplinar10. É o que acontece no relato de Rios. Não é um relato autobiográfico de eventos de vida
somente, é um espaço que delineia uma trajetória lésbica de importância para si, assumindo-se
publicamente e portando um discurso missionário e representativo de uma população
homossexual11. Grande parte da autobiografia de Rios é dedicada à defesa de liberdade de expressão
sexual e à censura de seus romances por serem considerados obscenos.
No entanto, sua autobiografia não pode ser considerada apenas por essa perspectiva de
mulher lésbica. A problemática de classe também intersecta o “eu” autobiográfico de Rios.
Incomodada com a pecha de subliterata12 e com os constantes ataques à escritora, e não à sua obra,
Rios procura mostrar ao leitor sua posição de mulher de uma classe privilegiada, educada. A
escritora começa sua obra com considerações sobre a formalidade da língua portuguesa,
combatendo as críticas feitas à sua literatura. A autora chama de antipáticos aos críticos que mais se
preocupam com a correção gramatical que com o valor da obra, mas essa sua queixa é contraditória,
pois mesmo afirmando: “Quanto a mim, não ligo para críticas, sejam boas ou destruidoras, não
submeto meus trabalhos à apreciação de ninguém [...]”13, tenta rebater a elas com ressentimento.
Segundo Rios, “[...] não consigo admitir, que igual à terra que o homem polui, o solo do meu
mundo tenho sido poluído pelas influências nefastas, transformando poesias líricas em dramas
catastróficos!”14. Entristecida, irada mesmo pela ferocidade dos ataques sofridos, a romancista
termina por abandonar a literatura após trinta anos de publicações e sucesso entre o grande público.
O “eu” que fala na autobiografia de Rios negocia com o leitor uma posição de vítima da
sociedade, vítima da moralidade hipócrita, ao mesmo tempo em que se apresenta como aquela que
lutou bravamente, sem medo, para manter seu trabalho, sua temática, para não sucumbir às pressões
sociais, mostrando querer ser reconhecida por sua obra pioneira15:
[...] meus trabalhos foram responsáveis pela tomada de posição de gente que meteu a cara
para viver o que era, como eram e como querida e teriam o Direito. Venceram bloqueios,
medos e traumas. Tomaram coragem e mudaram o sentido da pecha da vergonha! Mais de
milhares de Georgettes e Anas Marias, apareceram, desfilando pelas passarelas da Vida.
Vivendo a própria Vida! Assumindo: sou homossexual! [...] Foi indubitavelmente o
princípio da Libertação.

O “eu” autobiográfico de Rios reivindica uma identidade lésbica, e não só isso, reivindica
também o reconhecimento de sua luta pela visibilidade homossexual. Seu relato, porém, é
essencialista em muitos momentos, compreensível para alguém nascido na década de 1930. Em
relação à personagem Marcelina, de seu livro Marcella, diz: “Marcella é puta sem o gostar ou não
de ser. Nasceu puta!”16, ou quando diz que: “[...] para provar que a Natureza, tal qual nasceram [os
homossexuais], não os fazia diferentes dos seres humanos [normais]”17, Rios se apóia numa visão
naturalizada da homossexualidade e mesmo das possibilidades de suas personagens. Para ela não há
escolha, a natureza é mais forte.
Resistindo às pressões impostas pelo governo militar nos anos 1970, Cassandra Rios,
censurada, proibida, sem possibilidade de ganhar seu sustento, escancara o sexismo da censura
escrevendo e sobrevivendo de uma enorme variedade de romancinhos pornográficos publicados sob
pseudônimos masculinos estrangeiros: Conta Rios18:
Usei pseudônimos estrangeiros, pelo que senti estar sendo obrigada a prostituir minha arte.
Assim descerrei a cortina para que vissem a casa suja da Censura e ouvissem o estrondo do
seu tombo quando lhe puxei o tapete [...] Não eram meus livros que estavam proibindo e sim
a escritora que na época mais vendia. Tanto assim que esses romancinhos intencionais,
gerados por uma grande revolta, igualmente escritos por mim, eram adquiridos na Livrarias e
Bancas de Jornais, afinal não eram Rios, mas eram Rios em outros idiomas, River’s,
Strom’s, Rivier, Fleuve, etcétera!

A singularidade do relato de Rios reside na impossibilidade de fixar seu “eu” autobiográfico


numa identidade única e coerente. Lésbica assumida na vida real19, mostra-se na narrativa
autobiográfica como tal. Dá muita atenção à sua obra e à importância histórica desta, rechaçando as
tentativas de compararem sua vida às suas personagens e resistindo contra a censura sexista
hipócrita; não obstante defensora da sexualidade livre e sem preconceitos, usa um discurso
essencialista e universalizante. Mesmo defendendo não se importar com a crítica, rebate a esta
buscando mostrar erudição e bom gosto, mostrando a importância de se pertencer a uma classe
culta, estando dessa forma apta a receber da crítica uma atenção diferenciada, à altura de sua
posição.
As teorias críticas feministas abordadas neste trabalho, além de outras, defendem a
impossibilidade da análise da autobiografia apenas sob a perspectiva de gênero. Mostrando variados
momentos e posições do sujeito autobiográfico de Rios, observamos que uma análise baseada
apenas sob a ótica de gênero esvaziaria de sentido uma trajetória tão rica historicamente, além de
apagar as outras leituras possíveis de um “eu” contraditório, porém forte; essencialista, porém
questionador.

Referências bibliográficas
RIOS, Cassandra. Mezzamaro, flores e cassis: o pecado de Cassandra. São Paulo: Cassandra Rios
Editora, 2000.
SANTOS, Rick J. A different woman: class, identity and sexuality in Cassandra Rios´s work. Tese
de doutorado defendida na Universidade Estadual de Nova Iorque/ State University of New York
em Binghamton. Fevereiro, 2000.
SMITH, Sidonie. Subjectivity, identity and the body: women’s autobiographical practices in the
twentieth century. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 1993.
STANTON, Domna C. “Autogynography: is the subject different?” In: WATSON, Julia & SMITH,
Sidonie (eds). Women, autobiography, theory: a reader. Wisconsin: The University of Wisconsin
Press, 1998, pp. 131-144.
WATSON, Julia. “Unspeakable differences: the politics of gender in lesbian and heterosexual
women’s autobiographies”. In: WATSON, Julia & SMITH, Sidonie (eds). Women, autobiography,
theory: a reader. Wisconsin: The University of Wisconsin Press, 1998, pp.393-402.
1
Este trabalho é parte da pesquisa de mestrado que desenvolvo na área de Teoria Literária do Programa de Pós-
Gradução em Letras da UFSC, sob orientação da Profa. Dra. Cláudia de Lima Costa.
2
SMITH, Sidonie, 1993, p. 21.
3
SMITH, 1993, p.19.
4
STANTON, Domna C., 1998, pp.131-144.
5
SMITH, 1993, p.21.
6
RIOS, Cassandra, 2000, p. 47.
7
RIOS, p.254.
8
RIOS, p. 141.
9
RIOS, p. 24.
10
WATSON, Julia, 1998, p.394.
11
RIOS, p. 72 e 145.
12
RIOS, P.99.
13
RIOS, p.94.
14
RIOS, p.101.
15
RIOS, p.107.
16
RIOS, p. 120.
17
RIOS, p.107.
18
RIOS, p. 134.
19
SANTOS, Rick, 2000, P.35.