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Ie ne fay rien
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Gayeté
(Montaigne, Des livres)

Ex Libris
José Mindlin

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DE

CORRECTAS E EMENDADAS

PELO CUIDADO E DILIGENCIA

DE

3. t). $arretxr £tw t 3. <$. ittontetro.

TOMO PRIMEIRO.

NA OFPICINA TYPOGRAPHICA DK LAXGHOFF.


1834.
ADVERTÊNCIA.

A . grande reputa9ão que Gil Vicente adquirio entre


seus comtemporaneos, e a celebridade que ainda hoje
seu nome goza entre os litteratos, junto á singular
raridade de suas obras; parece deverião ter animado
algum zeloso da nossa litteratura a einprehender uma
nova edÍ9ão deste nosso antigo escriptor. Tal comtudo
tem sido a nossa incúria e desleixo pelas cousas pátrias,
que, apezar de duas vezes se ter imprimido esta obra,
estávamos ameaçados de ver perecer os poucos exem-
plares que delia ainda restavão depositados em algumas
bibliotecas da Europa, sem que nos tivéssemos preve-
nido contra a total perda do fundador do nosso Theatro
nacional e de um dos restauradores do Drama moderno,
como ja por indiíFeren9a nossa ou por estúpida avareza
de seus depositários, deixamos vergonhosamente perder
o famoso romance de Amadis de Gaula, de Vasco da
Lobeira, que quasi todas as na9ões cullas possuem,
traduzido ou imitado, excepto aquella que originalmente
o produzio.
iv ADVERTÊNCIA.

Nós bem sentimos a difficuldade que atégora teria


encontrado a reimpressão de um escriptor que foi o
inimigo jurado daquelles mesmos que tinhão de dispensar
todas as licenças necessárias; e que a thesoura fra-
desco-desembargatoria havia de ser mais desapiedada
do que a mesma inquisitoria que em 1586 mutilou e
desfigurou o nosso poeta. Mas ainda restava o recurso
de imprimir fora do Reino, apezar das desvantagens
em que, a outros respeitos, laborão os que em paizes
estrangeiros tomão sobre si taes emprezas.
Movidos do amor que sempre tivemos pelas nossas
cousas e desejosos de revindicar a parte da gloria que
cabe á nossa Pátria pelos excellentes engenhos, que
illustrando-a com seus escriptos, cooperarão para a
grande obra da restaura9ão das lettras, tínhamos medi-
tado a empreza de tirar á luz uma serie de edições de
nossos clássicos, quando nos veio á notícia, que nas
nossas visinhan9as, na rica biblioteca da Universidade
de Goettíngen, existia um exemplar da 1» edição das
obras de Gil Vicente. Sem perda de tempo nos apre-
sentamos naquella cidade, onde em menos de um mez
tiramos uma mui fiel cópia daquelle precioso livro, sobre
que ao depois fizemos a presente edição. Não passare-
mos em silencio os obséquios que do Dr. Antônio Me-
nezes de Drummond recebemos, o qual, pelo seu amor
das hellas lettras, nos procurou, como membro daquella
Universidade, que então cursava, a faculdade de usar-
mos dos livros da Hiblioteca, o qUe a estranhos é
ADVERTÊNCIA. v

vedado; pelo que lhe rogamos queira acceitar esto


público testimunho da nossa gratidão.
Das obras do nosso poeta se fizerão, como dissemos,
duas edições, ambas posthumas. A primeira foi feita em
Lisboa na Imprensa de João Alvares, em 15612, foi.,
com o titulo seguinte: Copilaçam de tódalas obras de
Gil Vicente, a qual se reparte em cinco livros. O
primeiro he de todas suas obras de devaçam. O se^
gundo as Comédias. O terceiro as Tragicomedias.
O quarto as Farças. No quinto as obras metidas.
O editor foi Luiz Vicente, filho do poeta, que nos diz
que seu pae as andava ordenando para as dar á
estampa, quando a morte o arrebatou em meio de sua
tarefa. O alvará de privilegio, comtudo, foi concedido
a Paula Vicente, igualmente filha do poeta, em 1561.
Esta edição impressa com caracteres gothicos, á excepção
dos argumentos, que são impressos em letra romana,
argue incúria e pouco esmero do impressor, não so
pelos erros typographicos de que abunda, mas pela
freqüente falta de espaços entre as palavras, o que
muitas vezes offerece sérios obstáculos á intelligencia
do texto. Algumas gravuras em pau que adornão esta
edição, não são inteiramente destituídas de mérito e de
interesse para a historia desta arte entre nós. A
2* edição foi igualmente feita em Lisboa na imprensa
de André Lobato, 1585, 4? com o mesmo titulo da
precedente, augmentado com a oininosa observação:
Vam emendadas pelo Sancto Officio, como se manda
vi ADVERTÊNCIA.

no Cathalogo deste Regno. O merecimento desta edição


é infinitamente inferior ao da 1? Pois achando-se nella
reproduzidos todos os erros typographicos e indecentes
chocarrices da primeira, bem se pôde conjecturar que
qualidade de emendas temos a esperar do gosto e litte-
ratura daquelle pio tribunal. Versos omittidos, outros
rediculamente em todo ou em parte alterados, copias
cortadas, e finalmente paginas inteiras a eito supprhnidas.
E estes lugares mutilados, como é de suppor, não são
dos menos interessantes de Gil Vicente. Como poderia,
por exemplo, um inquisidor que aspirasse a bispar, ler
sem se alterar, e sem fulminar iminediatamente o formi-
dável veto a similhantes passagens:

E á gente religiosa
Mandae-lhes velas bispaes,
A cera de renda grossa,
Os pavios de casaes,
E logo não porSo grosa.

Fecharemos estas notícias bibliographicas com advertir


que ultimamente sahírão impressos alguns autos e comé-
dias castelhanas do nosso poeta na interessante collec9ão
intitulada: Teatro Espanol anterior d Lope de Vega.
Gotha, 1833.
Ein quanto ao plano que seguimos na presente
edição, depois de devida reflexão, adoptamos o seguinte,
que esperamos mereça a approvação do publico litterario.
Corrigimos todo o logar onde nos pareceo manifesto o
erro typographico, sem nos deixarmos acanhar pela
ADVERTÊNCIA. vii

cega predilecção que tanto voga entre nós pelas antigas


edições,(*) (superstição que o atrazamento em que a
arte typographica se achava então em Portugal, de
maneira alguma authoriza) que faz com que muitos
tenhão pelos logares claramente corrompidos, a mesma
veneração que a mistérios que não podem comprehender.
Emquanto á ortographia, assentamos aproximar-nos da
moderna, nunca porém de maneira que a pronúncia
soffresse alteração, dando uma voz moderna pela antiga.
Conservamos pois sam e som por sou, devação por
devoção, concrusão por conclusão e outras similhantes.
No fim do 3° vol. encontrará o leitor uma taboa
glossaria mostrando a significação conjectural de alguns
termos antiquados e rústicos, portuguezes e castelhanos,
que se não encontrão nos melhores diccionarios das
duas línguas.
Finalmente assentamos nada omittir do que se
achava impresso na 1? ed. E nesta parte não dissimu-
laremos as objeções que contra si tem este systhema.
Rem sentimos que nas obras do nosso poeta se encon-
trão passagens, que por ineptas e despidas de todo o

(*) Ainda não ha muito tempo appareceo em Lisboa uma


edição da Peregrinação de Fernan Mendes Pinto, em
que o editor se preza de ter seguido o texto da
í"? , regeitando a segunda, aindaque correcta e augmen-
tada pelo Autor. Mas que muito, se a sumptuosa
edição dos Lusíadas de Paris 1817, resuscitou e con-
servou como bellezas poéticas, os erros da i-; corregi-
dos por Camões na 2 a !
viu ADVERTÊNCIA.

alento poético, que em outras partes o autor mostrou


possuir em eminente grau, são summainente fastidiosas
á leitura e prejudíciaes em certo modo á reputação do
nosso poeta. Mas outras principalmente, por sua inde-
cência e por peccarem contra as leis do decoro, não
estão em harmonia com os costumes e civilização do
nosso século, supposto que aqucilas indecentes bufone-
rias se representassem no Paço, muitas vezes na Igreja,
e fizessem as delicias de duas brilhantes cortes. Taes
logares muitos estimarião ver inteiramente supprimidos
ou modificados, e esse seria o nosso parecer, a não ser
esta consideração. Obras como as de Gil Vicente Ce
assim é quasi todo o drama cômico do seu tempo) não
se imprimem hoje em dia com o mesmo fim que na
epocha em que forão escriptas. Então Gil Vicente era
lido, representava-se, gostava-se e talvez passagens
bem reprehensiveis fossem as mais applaudidas; emfiin
depois de impresso, tornou-se propriedade do povo, que,
nas horas de ócio, nelle achava um alegre passatempo e
um rico thesouro de rifões e dictados para colorir e ani-
mar suas conversas, e que seus leitores de pães a filhos
transmittirão á posteridade. Agora porém eslas obras
pertencem ao domínio da historia— da historia da litte-
ratura, dos costumes, e so nas mãos dos litteratos é que
tem de andar. E quem não folgará de encontrar nestas
antigualhas um painel verdadeiro dos tempos dos nossos
maiores? O litterato passa por essas indecências que
encontra entre muita belleza verdadeira, e não culpa o
ADVERTÊNCIA. ix

autor, que bem sabe defeito do século era e não seu; e


lie ein similhantes quadros que o philosopho se apraz ein
contemplar as grandes revoluções que a civilização vai
fazendo no modo de pensar e nos costumes dos homens.
Assim preferimos olhar estas obras como um documento
histórico que se deve conservar intacto.
Emfim, julgamos ter feito um importante serviço á
litteralura ein geral, e em particular á Portugueza,
restaurando as quasi perdidas obras de um de seus
mais celebrados engenhos, satisfazendo lambem os desejos
de muitos litteratos distinctos, tanto nacionaes como
estrangeiros, e cumprindo o vaticinio deGarção, quando
no seu drama intitulado O Theatro novo, assim apo-
strophava os manes dos nossos antigos poetas dramáticos:

Vós manes de Ferreira e de Miranda,


E tu, ó Gil Vicente, a quem as Musas
Embalarão o berço e te gravarão
Na honrada campa o nome de Terencio; —
Esperae, esperae, qu'inda vingados
E soltos vos vereis do esquecimento.
ENSAIO SOBRE A VIDA E ESCRIPTOS
DE

GrlL VICEITE.

No glorioso período da nossa historia que abrange o rei-


nado de D.Manuel até meado o de D. Joãolll.,floreceoem
Lisboa o nosso Gil Vicente, por seus cointemporaneos cha-
mado o Plauto Portuguez. As noticias que á posteridade
chegarão sobre seu nascimento e parentela são extrema-
mente escassas e obscuras. De seus pães se diz que erão
de illustre extracçãof); a respeito do logar e anno de seu
nascimento nada se sabe com certeza. Assim como ja
coube em sorte a muitos varões illustres, vários logares
tem sido mencionados como sua pátria. Guimarães,
Harcellos e Lisboa dispUtão entre si esta honra. A
epocha porém deste acontecimento se pôde fixar no
principio do último quartel do XV século. Mas, ou
o nosso poeta fosse realmente nascido em Lisboa, ou da
Província tivesse vindo freqüentar a Universidade, que
então se achava na capital, uma passagem de suas
obras nos induz a crer que élle ja vivia nesta cidade
no reinado de D. João II., isto é antes do anno de 1495;
pois fallando deste grande rei no seu primeiro Auto, na
figura de pastor Gil, diz, recordando-se delle:(**)

(*) Barbosa, Bibliot. Lusit.


(**) Tom. t°_ pag. o-
E N S A I O $c. xi

Conociste á Juan domado,


Que era pastor de pastores?
Yo Io vi entre estas flores
C'n gran hato de ganado,
Con su cavado real.

Seus pães, ou por lhe quererem dar uma educação


liberal, ou por o destinarem a uma solida e proveitosa
profissão litteraria, o puzerão na Universidade, dedi-
cando-o ao estudo do Direito Civil. Porém Gil Vicente,
dotado liberalmente pela natureza de uma vivíssima ima-
ginação e de um espirito eminentemente poético e jovial,
depressa se enfastiou da escabrosa aridez da Jurispru-
dência, e abandonou — se com quebra de seus interesses
materiaes, talvez com vantagens para a sua fama —
estudos que lhe poderião ter defecado em principio o
brilhante engenho que trouxe seu nome á posteridade.
Se esta deserção teve logar ainda em vida de seu pae,
ou se, como aconteceo a um celebre contemporâneo Ita-
liano,^) a morte delle o lançou decedidamente no com-
inercio das musas, sua natural vocação, não sabemos.
Talvez que a estima que seus talentos poéticos lhe
grangeárão na Corte, não influísse pouco para esta sua
feliz resolução, Com effeito elle mesmo ou seu filho
Luiz, seu primeiro editor, nos conservou em suas obras
a historia de seus primeiros ensaios dramáticos, que
parece favorecer esta conjectura. A Rainha Dona Hea-
triz, mulher de Dom Manuel, tendo ficado mui agradada
do monólogo que Gil Vicente, no character de pastor, foi
recitar na sua mesma camera, onde ainda se achava de
cama, de parto do príncipe D.João, depois D. JoãoIII.,

(*) Ariosto. '


xii ENSAIO §c.

congratulando-a pelo feliz nascimento do herdeiro da


coroa, lhe pedio, esperando talvez que o poeta mudasse
as settas em grelhas, que em dia de Natal lhe repetisse
aquella mesma composÍ9ão, endere9ada ao nascimento do
meninoDeos. Gil Vicente julgou dever satisfazer ao pedido
com mais propriedade e compoz para esse dia o pri-
meiro auto que se acha nas suas obras de devo9ão.
Temos pois que os primeiros ensaios dramáticos do
nosso poeta datão de 150!2, anno em que nasceo D.
João III. Desde então vemos sua musa em constante
actividade em similhantes occasiões, durante os dous
reinados de D. Manuel e de seu successor, não havendo
festa de anno, de nascimento ou casamento de pessoa
Real, para cujo esplendor não contribuíssem os brilhantes
talentos de Gil Vicente.
Foi durante o último destes dous reinados que a
fama do nosso poeta cresceo a ponto, que, como observa
um litterato alIemão,(*) não havia por esse tempo em
toda a Europa poeta cômico mais affamado nem mais
querido dos seus, do que o poeta portuguez. Porém
não somente em Portugal se admirava Gil Vicente; o
seu nome ja corria pelos mais cultos paizes da Europa.
Na verdade, se os louvores recebem valia da auctori-
dade da pessoa que os dá, nenhum poeta nesse tempo
podia gloriar-se de seus successos dramáticos como
aquelle a quem Erasmo deu o primeiro logar entre os
cômicos modernos. Este grande restaurador das lettras,
occupado como estava com os mais sérios e multifarios
trabalhos litterarios, não julgou perder o tempo que ap-

(*) Bouterweck, Geschiclile der portug. Poesie und Bered-


samkeit, pag 190.
ENSAIO $c. xm

plicou ao estudo da língua portugueza, o que somente


emprehendêra afim de completar o prazer que uma im-
perfeita intelligencia das bellezas de Gil Vicente lhe
tinha causado. O
Einquanlo a fama do nosso poeta corria entre os
lilteratos estrangeiros, em Portugal a inveja, desprezível
paixão d'almas ineptas, mas presumidas, disputava a
Gil Vicente a honra da invenção de suas peças; e como
acontece quasi sempre com tão miseráveis creaturas,
defraudavão seu compatriota desta gloria para a conce-
derem a estranhos, accusando-o de furto litterario; como
se quizessem affastar para longe de si o brilho do mérito
superior que os incoinmodava. Foi este atrevido insulto
que deu origem á famosa farça de Inez Pereira, da
qual diz o crítico que acima citamos, que a ter ella sido
composta por Gil Vicente no tempo de Moliere, seria
uma das comédias de characler admiradas na Europa.(**)
Gil Vicente querendo responder de maneira que de uma
vez impozesse silencio a seus detractores e confundisse
a inveja, usou de um meio tão novo como efficaz para
o seu intento. Achando reunidos seus admiradores e
seus zoilos, talvez nos mesmos serãos do Paço, declara
que lhe chegarão aos ouvidos as maliciosas insinuações
contra os seus talentos; e para sua desaffronta se offe-
rece a compor uma farça sobre qualquer assumpto que
seus adversários lhe proponhão. O rifão popular, que
ainda hoje voga entre o povo, Antes quero burro que
me leve, que cai:alio que me derrube, foi o lhema que

(*) Bibliot. Lusit. art. Gil Vicente.


(**) Bout. pag. i ( 3 .
xiv ENSAIO $c.

lhe appresentárão. A engenhosa applicação deste pro-


vérbio, as situações verdadeiramente cômicas que se
encontrão nesta farça, a verdade sempre sustentada com
que pinta os characleres de Inez, de Pero, e do Escu-
deiro; a naturalidade, gra9a e fluencia do dialogo, o
inimitável sal, a elegância de estylo, a musica harmo-
nia da versifica9ão, formão a mais victoriosa resposta
que jamais escriptor, em iguaes circumstancias, deu a
seus zoilos.
Não era o talento poético o único que Gil Vicente
possuía. Não só, como se verá em alguns logares de
suas obras, compunha elle a musica das folias e cantigas
que introduzia em suas peças; mas, como o celebre
Moliere, reunia ao talento de auctor o de actor, como
se vê dos seguintes versos do nosso famoso André de
Resende, seu contemporâneo, que por comprovarem este
facto, e serem um documento da estima em que erão
tidas as composi9ões do nosso poeta, aqui deixamos
transcriptos.

Cunctorum hinc acta es concedia plausu,


Çuam Lusitana Galo àuctor et actor in aula
Egerat ante, dicax atque inter vera facetus:
Gdlo jocis levibus doctus prestringere mores;
Qui si non língua componeret omnia vulgij
Sed potius latia, non Grécia docta Menandrum
Ante suum ferret; nec tam Romana theatra,
Plautinave saleSj lepidi vel scripta Terenti
Jactarent: tanto na/n Galo prceiret utrisque,
Quanto illi reliquos inter, qui palpita rore
Oblita Coryceo digito meruoire /aventem.

A pe9a de que Resende aqui falia é a Tragicomedia


de Lusitânia, que Gil Vicente tinha composto para o
ENSAIO #c. xv

nascimento do Infante D. Manuel, que inorreo em tenra


idade, a qual foi representada em Rruxellas em 1532,
em casa do Embaixador Portuguez D. Pedro deMasca-
renhas, na festa que este deu pelo mesmo motivo, e que
Resende descreve no elegante poema latino, donde
extrahimos a citada passagem.
Foi o poeta casado com Rranca Bezerra, de quem
teve Gil Vicente, Luiz Vicente e Paula Vicente, que
herdarão os talentos do pae. Conta-se que estando Gil
Vicente no zenith da sua reputação, seu filho mais velho
começara a desenvolver uin tal talento na poesia cômica,
que ja assombrava e em breve ameaçava eclipsar a
gloria do pae; e que este, roido de uma desnatural inveja,
o fizera embarcar para a índia, onde Gil Vicente filho,
depois de se haver mostrado não menos esforçado sol-
dado que engenhoso poeta, ficara gloriosamente morto
no campo de batalha. Esta anecdota, adoptada por todos
os que tem fallado do nosso poeta, a ter fundamento,
poria uma nodoa indelebil no seu character. Em justiça
porém ao nosso poeta devemos observar que o escriptor
mais antigo onde encontramos este conto, é Manuel de
Faria e Sousa, autor a quem de certo estamos em muita
obrigação pelas muitas noticias litterarias que deixou
espalhadas por suas obras, principalmente nos seus
Commentarios ás Obras de Camões; mas que se deve
consultar com summa desconfiança pela apparente avidez
e irreflexão com que acolhia quantas anecdolas andavão
na boca do vulgo e com que muitas vezes faz os mais
acerbos ultrages á memória daquelles mesmos, cujo
character é seu maior empenho ennobrecer: exemplos
desta leveza se encontrão na sua vida do probo e in-
feliz Camões.
XVI ENSAIO $c.

De suas suppostas composi9ões apenas se conserva


o titulo de um auto chamado de D.Luiz de losTurcos..(*)
O segundo filho do nosso poeta foi Luiz Vicente,
seu editor. João Baptista de Castro conla deste o que
Faria refere de Gil, acrescentando que a Comedia dos
Captivos em que mostrara um grande talento cômico,
causara os ciúmes que o levarão á India.f*) Esta peça
é igualmente attribuida ao Infante D. Luiz; e no Index
expurgatorio de Filippell. a pag. 84 se prohibe o auto
dos Cativos, chamado de D. Luiz e dos Turcos.
Donde se vê que tanto o auto attribuido por Faria e
Sousa a Gil Vicente, filho, como o que J. B. de Castro
attribue a Luiz Vicente, são uma e a mesma cousa com
diversos títulos; e provavelmente composi9ão do Infante
D. Luiz e não dos filhos de Gil Vicente, como o dá a
entender o Index expurgatorio. (***)

(*) Barb. Bibliot. Lusit. art. Gil Víc. filho.


(**) J.B. de Castro, Mappa de Portugal, tom.II, p 32o. 2* ed.
(***) Taes contradicções acerca da peça que deveria ter cau-
sado tão monstruosos ciúmes, não deixão de favorecer
nossas suspeitas sobre a veracidade de Faria e Sousa;
única authoridade em que se fundou o Abbade de
Barbosa para dar três filhos a Gil Vicente; o que se-
guimos por não ir contra a opinião recebida, sem
estarmos munidos de provas positivas para a combater
com successo. O certo, porem, e, que a existência
deste pretendido filho não e' attestada por documento
algum, emquanto Luiz e Paula Vicente são os únicos
filhos que com certeza sabemos que o poeta tivera
como mostrão os dous documentos que se acharão
transcriptos depois deste ensaio. ( I e II) Demais se
Gil Vicente filho, foi tão grande poeta, se teve tão
infeliz sorte, e foi tão valente soldado como diz Faria
ENSAIO $c. xvn

0 último, e mais interessante dos filhos do nosso


poeta foi sua filha,Paula Vicente. Esta illustre Portu-
gueza, com quem a natureza não foi tão pródiga em
attractivos phisicos como em dotes de espirito, que ella
cultivou com muita felicidade, foi Dama da Infanta D.
Maria, filha d'ElRei D. Manuel e da Rainha D. Leonor.
Provavelmente fazia ella parte da academia de mulheres
doutas que aquella illustrada Princeza formou em sua
casa; CHI), em que se tornarão famosas Lutea Sigea,
Anna Vaz e a nossa Paula — ornamentos do sexo, ás
quaes o conhecimento do Latim e Grego era tão familiar
naquelle nosso grande século, como aos Caiados, Rezendes
e Gouveas. Paula Vicente não so coinpoz um volume
de comédias, que julgamos perdido, (*) mas no fim da vida
de seu velho pae, o ajudava em suas composi9ões.(IV)
Consta alem disto que ella desenvolvera um singular
talento histrionico, representando nas comédias de seu

e Sousa j como não achou elle documentos para men-


cionar na sua Ásia as acções e morte de uma tão in-
teressante victima do- desamor paternal? Porque se
não encontra seu nome na Chronica de D. João III. de
Francisco d'Andi-ade, ou em Couto, nas esliradissimas
listas de mortos, que com tanto cuidado compilavão os
nossos Chronistas, não dizemos ja das pessoas distinctas,
mas ainda de gente obscura, que de certo tinha menos
titulos do que elle á posteridade? Porque de tão
bellas composições se não conserva mais que o titulo
de uma peça que ha tão fortes razões para não acredi-
tar sua? Porque o não louvão ou ao menos mencionão
seus coetaneos, nem Portuguez algum ate' Faria? Temos
mui fortes suspeitas de que este tal Gil Vicente e' menos
filho do poeta, que da imaginação de Faria e Sousa.
(*) Bibliot. Lusit.
xvm ENSAIO âfc.

pae com tanta gfaça e natureza, que passava por uma


das melhores actrizes do seu tempo. Provavelmente
seus irmãos não estavão ociosos nestas occasiões.
Ao vermos Gil Vicente e sua família com tanta
entrada no Paço e ter elle mesmo empregado toda a
sua vida em serviço da Corte, seriamos induzidos a crer
que a abundância e o conforto erão o prêmio de seus
talentos e a recompensa de seus trabalhos, se elle, em
suas obras, não deixasse testimunhos do contrário. Em
1523 dizia elle:

E um Gil . . . um Gil . um Gil,


Hum que não tem nem ceitil,
Q u e faz os aitos a EIRei . .

Aito cuido q u e dizia,


E assi cuido que h e ;
Mas. não ja aito bofe',
Como os aiíos que fazia
Quando elle tinha com que.

Desta passagem se vê que Gil Vicente tinha cahido


em pobreza; tendo talvez consumido seu patrimônio,
sem se ter prevenido para o futuro, confiado na muni-
ficencia daquelles a quem tinha dado tantos momentos
de um prazer inteiramente novo; e que talvez o affastárão
de outro modo de vida, senão de tanta fama, ao menos
de mais proveito. Assim, no último quartel da vida e
em uma terrível occasião, com peste dentro de casa, se
vio reduzido á qualidade de desvalido requerente, re-
mettido a ministros, quando não pedia mais que para
matar a fome. São dignas de attenção as trovas que
elle mandou ao Conde do Vimioso, queixando-se da in-
gratidão com que era tractado, quando diz:
E N S A I O $c* XIX

.Que o medrar
Se estivera em trabalhar,
Ou . valera o merecer,
Eu tivera que comer,
E que dar e que deixar. (*)

Mas destes "illustres ingratos" este é o mais certo


galardão.
Porém apezar de não ser elle homem de fortuna,
que em falta de mais sólidos predicados, muitas vezes
é titulo bastante para se adquirir consideração; um interes-
sante documento que se conserva em suas obras, nos
prova que era elle pessoa de mais autoridade do que
se esperaria do gênero de seus talentos e profissão.
O facto é, além disso, uma bella illustração do seu ca-
racter. No anno de 1531 se sentio em diversas partes
do reino um violento terremoto q^ue causou consideráveis
estragos e espalhou o espanto e terror nos ânimos das
populações. Os padres, longe de tranqüilizarem o povo
e lhe inspirarem confiança, servirão-se, como sempre,
do púlpito para augmentarem o terror e confusão, de-
nunciando aqaella infeliz raça proscripta, a quem então
era costume attribuir todas as calamidades públicas,
como única causa da ira do Ceo, que lhes enviava
aquelles castigos por soffrerem entre si os inimigos de
Deos. A denúncia teve o desejado eflèito; os Christãos
novos forão obrigados a abandonar suas casas e a pro-
curar nos montes um asilo contra o cego furor popular.
Esta scena se passava em Santarém: Gil Vicente que
então se achava ahi, apressa-se a acudir ao perigo:
reúne os energúmenos padres no âdro da igreja; exproba-

(*) Tom. III, pag. i82-3.


xx ENSAIO $c.

lhes o abuso de seu ministério, todo de charidade e con-


ciliação e não de contentar a desvairada opinião do
vulgo; e por fim exhorta-os a que de novo subão ao
púlpito a reparar o damno causado por suas sediciosas
harengas. Os padres obedecem; os Christãos novos e
judeos regressão a suas casas, £ o repouso de toda uma
considerável população é restabelecido á voz de Gil
Vicente — do autor de Mofina Mendes, e do Clérigo
da Beira, que n'um lance de necessidade soube arrancar
a mascara de Momo e assumir a gravidade de mode-
rador das tormentas populares que nos descreve o poeta
latino "pietate gravem ac meritis viruin!"(*)
O anno em que falleceo Gil Vicente se ignora. O
abbade Diogo de Barbosa diz que elle morrera antes do
anno de 1557 em Évora, para onde tinha acompanhado
a corte. E claro que o autor da Biblioteca se funda em
que, estando Gil Vicente, como diz seu filho Luiz, a
colligir as suas obras, com tenção de as dedicar a D.
João III., quando a morte lh'o não consentio levar a
eflèito, devia elle ter fallecido antes deste Rei, que mor-
reo naquelle anno. Se porém se considerar que Gil
Vicente ja em 1531 se achava muivisinho da morte (**),.
e que a última composição sua é de 1536, parecerá
demasiado vaga a epocha apontada por Diogo Barbosa.
Com effeito que motivo impediria o poeta da corte de
continuar a divertir seus reaes patronos desde 1636,
quando até então as suas producções erão quasi annuaes,
muitas vezes duas e três por anno? É provável que

(*) Veja-se a carta em que G. V. dá parte deste successo a


D. João III., no tom. III, pag. 385.
(**) Veja-se tom. III, pag. 388.
ENSAIO $c. xxi

Gil Vicente não sobrevivesse muito a este anno, reali-


sando-se assim os seus pressentimentos, e contando pouco
mais de sessenta annos de idade. (*)

A collecção que Luiz Vicente nos deixou das obras


de seu pae, não contém tudo o que sahio da sua penna.
De muitas composições, tanto lyrícas como dramáticas,
nos diz elle não pudera alcançar copia ;(rV) deste número
foi provavelmente a farça intitulada Caça dos segredos,
de que Gil Vicente fallava ao Conde do Viinioso. (**)

Tão longe estamos de reclamar para a nossa pátria


a honra da invenção das composições dramáticas da
moderna Europa, que a consideramos como a última das
nações cultas em que esta arte foi introduzida. As
Eglogas castelhanas de Encina, os Mystertos represen-
tados na Itália pela Companhia Gonfalone em 1440,
os Milagres inglezes desde tempos remotos, e finalmente
as Farças, Moralidades e os Mystertos Francezes re-
presentados em Paris pela Coüfraria da Paixão desde

(*) Na Comedia Floresta de Enganos, ultima composição


do poeta, representada em i 5 3 6 , diz o Doutor Justiça
Maior:
" Y a hice sesenta y seis,
"Ya ini tieinpo es pasado."
Pode bem ser que fosse o mesmo G. V. que desem-
penhasse este papel e que realmente aqui designasse a
sua idade. Sendo assim teria elle nascido em i47°-
(**) Tom. III, pag. 382.
XXII ENSAIO *e.

1380, são factos em presença dos quaes einmudece


qualquer patriótica parcialidade. É so do principio do
século XVI que data entre nós a introducção de compo-
sições dramáticas com os primeiros ensaios de Gil Vicente.
Debalde remontaremos nós até aos mais remotos tempos
da monarchia em procura de alguma cousa que nos dê
uma idea do conhecimento desta arte entre nós antes
daquella epocha.
Sendo isto assim, resta examinar de qual destas
nações veio a Gil Vicente a primeira idea de compo-
sições dramáticas, ou se elle na sua carreira não teve
modelos e foi absolutamente original. Um sábio Acadê-
mico, em uma erudita memória sobre oTheatro Portu-
guez,(*) adinittindo a possibilidade da primeira hypothese,
julga que a representação da vida de Christo por João
Michel, podia hem ter sugerido ao poeta portaguez a
primeira idea de composições dramáticas, e seria o fun-
damento desta conjectura a similhança entre o Mysteriò
do auctor francez, e o auto da Vida de Deos composto'
por Gil Vicente.

Ainda que, em parte, isto assim possa ser, e haja


muita probabilidade de que o poeta conhecesse as com-
posições francezas, como teremos occasião de dizer,
comtudo é necessário convir em que o Castelhano Juan
de Ia Encina, e não os Francezes, foi o modelo sobre
que Gil Vicente compoz as suas primeiras producções.
dramáticas. Embora se diga que as composições de
Encina não passão de umas simples eglogas; o assuinpto,

(*) Metn. da Acad. Real das Sciencias, Tom, V, Parte II,


pag. 42.
ENSAIO ófe. xxii.

a disposição, o estylo, emfim scenas inteiras imitadas,


mostrão que estas eglogas são a mesma cousa que os
Autos Pastoris de Gil Vicente, com diverso nome.
Mas se o poeta portuguez, ao encetar uma carreira in-
teiramente nova para a sua nação, seguio as pisadas do
poeta hespanhol, bem depressa, arrebatado de sua crea-
dora imaginação, sahio do acanhado terreno a que este
o conduzira, deixando não so a perder de vista seu
antecessor e mestre, nas mesmas composições em que o
tinha tomado por modelo, mas abrindo na Hespanha uma
nova carreira neste ramo da liíteratura, em que depois
o famoso Lope de Vega adquirio tão grande reputação.
Que Juan de Ia Encina era muito conhecido em Portugal,
e que os comtemporaneos de Gil Vicente o consideravão
como seu primeiro modelo, mostra por palavras nada
equívocas Garcia de Resende, quando diz na sua Mis-
cellanea:
E vimos singularmente
Fazer representações,
D'estilo mui eloqüente,
De mui novas invenções:
Elle foi que inventou
Isto cá, e o usou
Com mais graça e mais doutrina.
Posto que Joam dei Enzina
O pastoril começou.

Porém nas obras de devação de Gil Vicente ha


visivelmente mais de um gênero de composições dramá-
ticas: pelo menos é fácil distinguir entre os Autos
pastoris, que em si mesmo tem o cunho da poesia
hespanhola, e as peças bíblicas do gênero dosMysterios
de origem franceza ou italiana e deslas nações levados
a toda a parte da Europa.
XXIV ENSAIO #c.

A este último gênero parece pertencer a Historia


de Deos, o Auto da Cananea, o da Alma e talvez as
Barcas. É possível que Gil Vicente, uma vez empe-
nhado na carreira dramática, por suas próprias diligencias
ou por intervenção da Corte, viesse a deparar com as
composições francezas. Com effeito, quem compara*
qualquer destas peças, particularmente a Historia de
Deos com os Mysterios representados em França, poderá
achar algum fundamento para esta conjectura. Assim
estes títulos e dignidades de que o poeta reveste os
differentes diabos que põe em scena, mais parecem for-
mar uma espécie de systhema adoptado por todos aquelles
que tractárão similhantes assumptos, do que casual in*
venção do poeta portuguez. Se nos Mysterios francezes
Lucifer é sempre o Príncipe dos demônios, ein Gil Vicente
é o Maioral do Inferno; na peça portugueza Bélial é
chamado Meirinho da Corte infernal, nos Mysterios."o
vemos designado por Procureur des Enfers, e em ambas
as partes mostra um • character igualmente violento, em
opposição á astucia de Satanás, que assim no auto por-
tuguez como nos mysterios franceses é encarregado por
Lucifer de tentar tanto os homens como a Christo. É
também digno de se notar que na peça de que estamos
fadando, deixa Gil Vicente a versificação nacional e se
aproxima daFranceza.CVI} Se for necessário para tor~"
nar mais plausível esta conjectura acrescentar que Gil
Vicente conhecia a língua franceza, o seu auto ou farça
da Fama o demonstrará.
Em quanto ás outras composições de Gil Vicente,
se ellas forão invenção propriamente sua, ou se teve
modelo a quem imitasse, não nos parece fácil resolver.
E certo que ja em 1517 sahírão impressas em Nápoles'
ENSAIO $c. xxv

algumas comédias de Bartolomeu Torres Naharro, mas


de uma comparação entre as composições destes dous
auctores não resulta convicção de que elles se conhe-
cessem reciprocamente, ou seja que ambos tiverão um
modelo commum, ou que casualmente se encontrassem
no mesmo gênero de composições.
Mas se Gil Vicente não foi o inventor do drama
moderno, se a honra dessa primazia litteraria não per-
tence á nação portugueza, pode ella gloriar-se de ter
produzido um engenho que não so, dentro de alguns
annos a trouxe ao nivel, nesta arte, das outras nações
da Europa, exercitando-se elle so em quasi todos os
gêneros de drama que ein Itália, França, Inglaterra,
Hespanha tiverão suas epochas distinctas e que lenta-
mente se forão succedendo uns aos outros por espaço
de dous séculos, e occupando cada um delles exclusiva-
mente a vida inteira de muitos poetas; mas ainda exce-
deo seus predecessores e cointemporaneos em alento
poético, originalidade, e interesse que soube dar a suas
variadas composições. E nisto consiste a verdadeira
gloria da nossa nação; os Portuguezes o podem pro-
clamar com um nobre orgulho, que não tendo povo al-
gum moderno tão árduas e prolongadas batalhas a pelejar,
nem tão formidáveis inimigos para suas forças a com-
bater, como a nação portugueza, afim de conquistar e
assegurar a sua independência, o que forçosamente lhe
houve de retardar o progresso de toda a litteraria cul-
tura, pôde não so, no espaço de poucos annos, discorrer
as differentes províncias das lettras, de longo tempo
cultivadas n'outras nações, mas ainda de as alcançar na
sua avançada carreira. Que futuro não aguardava uma
nação a quem a Inquisição, os Jesuítas e um tyrannico
xxvi ENSAIO $c.

jugo de sessenta annos não viesse neutralizar tão ge-


neroso impulso!
É tradicção entre os litteratos que Erasmo, que
tinha em grande conta o talento de Gil Vicente, decla-
rara que era elle o poeta do seu tempo que melhor
tinha imitado a Plauto. Pôde bem ser que a prespicacia
de Erasmo achasse grande similhança entre os dous
engenhos, e dicesse que o poeta poríuguez houvera sido
um Plauto se vivesse em Roma no sétimo século da
sua fundação; mas que o philologo de Rotterdam reco-
nhecesse ein Gil Vicente o discípulo do cômico latino, não
é crivei. Com effeito, se a sua inculta e desleixada musa
apresenta muitas vezes admiráveis rasgos d'engenho,
que a arte não cria, mas só pôde moderar, debalde se
procurará nelle o menor rasto das regras dramáticas
observadas pelos cômicos antigos.
Porém esse mesmo desprezo ou antes essa mesma
ignorância dos preceitos d'Aristoteles e Horacio foi por
ventura a fortuna de Gil Vicente. Houvera elle lido e
meditado os modelos da antigüidade, fora sim mais correcto,
mais judicioso, mais regular; mas talvez hoje não sou-
béssemos que os nossos maiores possuirão entre si um
gênio original: a erudição, inimiga da originalidade, lem
deprimido mais de um talento poético. Por isso nós não
estranhamos nem sentimos encontrar em Gil Vicente
essa falta de unidades: ja ellas tiverão mais ardentes,
sectários que hoje. É verdade que o poeta no auto da
Historia de Deos, chama successivãmente a scena todos
os Patriarchas desde Adão até Jesu Christo; que na
comedia de Rubena o espectador vê nascer a heroina
em Hespanha, de cinco annos pastorar gado, de quinze
transportada a Creta e ahi casar: isto são defeitos sem
ENSAIO fc. xxvn

dúvida, mas não daquelles de que a crítica deva ocu-


par-se quando se tracta de um autor do século e situação
de Gil Vicente-- Mas que? não vemos nós nestes tempos
em que vivemos applaudir essas mesmas incongruidades?
A Comedia de Rubena não é outra cousa mais que o
que presentemente os românticos chamão Quadros ou
Painéis dramáticos, e um moderno auctor a teria intitu-
lado: Painéis dramáticos da vida de uma mulher.
Assim é que Johnson julga ter posto Shakspeare a cu-
berto dos tiros da crítica, dizendo que as suas peças
irregulares ( e neste numero entrão as suas mais subli-
mes composições) não são tragédias nem comédias, mas
um gênero de drama distincto, que o seu mesmo auctor
intitulou Historias (histories). (*) Porém o immortal trá-
gico do Avon não carece destas distineções escholasticas
para conservar o seu Jogar acima de todos os clássicos.
Alem disso, em muitas das composições de Gil Vicente,
em que estas incongruidades parecem mais absurdas,
como quando junta em dialogo personagens da historia
pagan ou fabulosas com os Patriarchas e anjos, ou
quando põe em contacto pessoas que viverão em mui
diversos tempos, nunca devemos perder de vista a idea
que occupava o poeta, que era personificar ou symbolizar,
por meio desses nomes alguma idea abstracta e fazer mais
viva impressão no animo dos espectadores. Assim, quando
Heitor, Achilíes, Annibal, Scipião apparecem em scena
para exhortarein os Portuguezes á guerra, a impressão
causada por seus discursos devia ser mui mais pene-
trante do que sendo estes pastos na boca de entes mais
abstractos, como a Fortaleza, o Valor, a Heroicidade;

(*) Johnson, life of Shakspeare.


xxvni ENSAIO fe.

e aqui são taes personagens tão allegoricas como no


auto de Mofina Mendes, a Prudência, a Pobreza, a Hu-
mildade e a Fé. O mesmo acontece no auto daSibyla
Cassandra. O poeta querendo fazer sobresahir a pre-
sumpçosa confiança de Cassandra e seu soberano des-
prezo pelo matrimônio, faz-lhe regeitar com desdém as
proposições do mais rico e do mais sábio de quantos
homens tem existido — de Salomão, que elle não de-
signa com o titulo de rei, mas do pastor Salomão, por-
que o seu fim é so symbolizar neste nome o summo
grão da opulencia e sabedoria. Mas assim como acolá
empregou nomes profanos para um assumpto profano,
aqui emprega um nome bíblico para um objecto religioso.
Mas quereremos nós com isto dizer que não abstra-
hindo do século em que o poeta viveo e do ponto de vista
em que elle eoneebéo suas composições, tocara elle, no
que nos deixou, as raias do seu engenho? De certo
que não; o talento de Gil Vicente foi muito superior ao
mérito, mesmo relativo, de suas composições. A grande
superioridade da sua Farça de Inez Pereira sobre o
resto de suas composições bem manifesta que elle nem
sempre teve obras de empenho e despique a compor.
Nella é verdade se encontrão ainda esses defeitos d'arte,
mas em troco temos characteres traçados com uma ver-
dade e observação, que so ao verdadeiro talento é per-
miltido; temos uma disposição meditada, tendendo a um
desfecho, incidentes e situações cômicas e muito conhe-
cimento do coração humano. Com que arte o não vemos
sahir desses mesmos labyrintos em que elle se metteo?
Outro qualquer teria cahido nas mesmas irregularidades!
quando chegasse a occasião de se descartar do Escu-
deiro, que o embaraçava de chegar ao seu fim, mas talvez
ENSAIO $fc. XX ix

não tivesse a idea de dar o último toque ao character


do covarde rufião, como com uma admirável simplicidade
fez Gil Vicente na carta em que o irmão de Inez lhe
participa a morte do marido:
Sabei que indo
Vosso marido fugindo
Da batalha para a villa,
Meia légua de Arzilla,
O matou um Mouro pastor.

Mas se investigarmos quaes forão as causas que


impedirão o desenvolvimento de que o estro de Gil Vi-
cente era capaz, talvez acharemos as principaes no
gênero de composições que elle se vio obrigado a tractar,
e o circumscrito circulo de seus espectadores. As peças
de Gil Vicente se podem dividir em três classes: dellas,
umas erão compostas para celebrar uma noite de Natal,
outras para. festejar o nascimento ou casamento de uin
principe, outras para servir de entretenimento nos celebra^
dos serãos da Corte de Portugal. A primeira classe, a que
pertencem os autos, deu Gil Vicente toda a latitude de
que taes composições erão capazes, e muitas vezes sahio
fora de seus acanhados limites para entrar na Farça, em
que mais se aprazia; mas este gênero, de si mesmo tênue,
não era campo sufficiente, para desenvolver o seu talento.
Á segunda pertence a maior parte das Tragicomedias,
gênero, assim como o primeiro resistindo a todo o plano
dramático rasoavel, e so similhante a uma certa compo-
sição exdruxela, conhecida entre nós pelo titulo de
Elogios dramáticos. (*) Em taes composições ninguém

(*) Não se falia aqui de Amadis de Gaulaj ou D. DuardoSj mas


da Nao d''Amores, Fragoad'Amor, Templo d'ApoUoítc.
xxx ENSAIO 4c.

se admirará de não encontrar alguma cousa que pertença


ao domínio do drama, e so admira que Gil Vicente,
podesse assim mesmo, por meio de seu incomparavel
'talento faceto e cômico sal, dar tanto interesse a taes
composições que ainda hoje se não podem ler sem nos
porem n'hum continuado fluxo de riso. A terceira classe
emfim pertencem as Farças e Comédias, gênero em que
o poeta melhor podia desenvolver o seu talento. Porém
nestas, bem como em todas as suas outras composições, o
seu principal empenho era divertir e fazer rir a Corte, que
tirada de rizada em rizada por allusões a factos sabidos
e intrigas conhecidas, ja por satyras indirectas ou per-
sonalidades dirigidas a pessoas presentes, não exigia
demasiados exforços da fácil e creadora musa de Gil
Vicente. Tivera elle tido espectadores menos compla-
centes, um público composto de todas as classes da so-
ciedade, emfim um theatro público, o que em Portugal não
houve senão passado muito tempo; talvez mais farças
como a de Inez Pereira, e ainda mais trabalhadas, sub-
stituíssem muitas das suas outras composições. Porém
na situação de Gil Vicente talvez pudera elle dizer com
Lope de Vega:
Sustento' en fin Io que escrebi y conozco
Que autique fueran mejor de otra manera,
No tuvieran ei gusto que han tenido:
Porque á veces lo que es contra ei justo,
Por Ia misma razon deleita ei gusto. (*)

Porém, apezar de todos estes defeitos ja do século,


ja da situação de Gil Vicente, ha ahi muito que admirar,
ou as suas obras se considerem debaixo d'um ponto de

(*) Arte nuevo de hacer comédias.


ENSAIO 4*. XXXI

vista dramático, ou nós attendamos ás bellezas lyricas


de que abundão. Que variedade de characteres esboça-
dos em todas as suas composições, de que, um século
mais tarde, o mesmo pincel poderia ter feito primores
d'arte tão admirados como um Avarento e um Misan-
thropo f Quem lera com indiferença esses autos pastoris,
similhantes aos painéis de Teniers, em que o campo
ostenta toda a graça e louçania, todo o verdor e luxo
da natureza, povoado de ingênuos e contentes pastores,
que respirão a innocencia, a alegria, a satisfação, o ar
do campo, em seus jogos,.em suas danças e cantigas,
e em sua jovial simplicidade? A quem não deleitarão
estas formas livres e fáceis, a gala e soltura desta poesia
eminentemente nacional, em cadentes e harmoniosas re-
dondilhas, que se vão imprimindo na memória ao passo
que se recitão? O pathetico, o pomposo, não é empre-
gado com menos felicidade por Gil Vicente. Nas Tragi-
comedias de D. Duardos e Amadis, assim como no bel-
lissimo monólogo de Rubena se encontrão affectos ex-
primidos com uma tal energia e delicadeza, imagens de
tão extremada galhardia e formosura, que so nos fazem
sentir que o poeta não se entregasse mais a este estylo
e que enriquecesse com taes bellezas uma língua estranha.
Se do mérito litterario das producções do nosso
poeta passamos a olhá-las debaixo d'outros pontos de
vista, pelo lado moral e histórico, ainda o seu merecimento
será muito relevante. Não suppomos que Gil Vicente
considerasse a moralidade dramática como uma condição
dá comedia, antes julgamos que elle so teve em vista o
agradável; porém como o homem é naturalmente mais
inclinado a rir-se que a commiserar-se dos vicios e
defeitos de seus similhantes, tornão-se estes, materiaes
XXXII ENSAIO tf.

indispensáveis da comedia. Assim se encontra no poeta


um usurario logrado por um cavalleiro de industria, um
ministro prevaricador, por uma moça ladina; rediculisado
o pedantismo d'um medico; a astrologia judiciaria, ainda
em todo o vigor no tempo de Gil Vicente, cuberta de
ridiculo com uma graça e sal inimitável; emfim a soberba
dos grandes e poderosos abatida. Na própria presença
da corte se fazem as mais amargas recriminações contra
os Reis por suas tyrannias; e a mesma corte não está
a cuberto de seus sarcásticos gracejos. (*)
Porém classe nenhuma. foi tão perseguida por Gil
Vicente como os Frades. Este foi o foco em que se
concentrou toda a energia, mordacidade, acrimonia da sua
pungente satyra.. Foi esta a única classe que elle atacou
por ódio e por systhema, que procurou e acometteo de to-1
dos os lados. Não é preciso apontar logares; não ha peça
em que elles não sejão o alvo de seus tiros. E aqui
se offerece naturalmente uma observação: — como é que
o fanático D. João III, o introductor dos Jesuítas e da
Inquisição ein Portugal não so tolerava, mas se ria dos
ataques que a lépida Musa de Gil Vicente fazia contra
uma classe que completamente o dominou? O caso é
que os padres ainda se não tinhão tornado omnipotentes;
os homens illustrados ainda ousavão manifestar os receios
que depois se vierão a verificar; mais tarde Gil Vicente
se teria limitado a odiá-los em silencio: ja Camões no
seu tempo achava prudente não se embaraçar demasiado
com elles:

(*) Veja-se na Farça do Clérigo da Beira a falia do Clé-


rigo que principia "Medraria este rapaz" Tom. III,
pag. 32 0.
ENSAIO 4c. xxxm

"Mas passo "esta matéria perigosa"

diz elle nos immortaes Lusíadas. Que chistosas vaias,


que surriadas não daria Gil Vicente se assistisse em
nossos dias á queda deste descommunal colosso!
Alem do interesse litterario que encerrão as obras
de Gil Vicente, é importantíssima a sua conservação como
um documento para a historia de seus tempos. Nellas
se vem retractados melhor que em nenhum dos nossos
antigos escriptores, os costumes, os usos, as crenças e
as superstições de nossos maiores; a cada passo se
achão provas de como o espirito público estava indenti-
ficado com as grandes emprezas que então occupavão
Portugal e o fazião a admiração do mundo: as conquistas
na Ásia e na Africá, o aperfeiçoamento da navegação,
a ousadia de nossos navegantes, o valor heróico de
nossos guerreiros, erão o scopo ordinário das conversas
da praça e da família.
Em quanto ao maquinismo e decorações theatraes
com que se representavão as peças de Gil Vicente,
pouco se alcança de suas obras. Garcia de Resende
diz que a Tragicomedia Cortes de Júpiter fora repre-
sentada com toda a pompa e magnificência. ( T H ) Porém
attendendo ás raras invenções e estupendas maquinas
que se fizerão no reinado de D. João II. por occasião
das festas do casamento do Príncipe D. Affonso, descrip-
tas extensamente por Resende e Ruy de Pina, se pode
fazer uma idea do apparato com que forão postas em
scena algumas das suas composições, como o Triumpho
do Inverno, em que o poeta deu a seus espectadores
uma vista de mar, com navios e com toda a confusão
d'uma tormenta. (VIU)
xxxiv ENSAIO 4c.

Assim lançado o fundamento do nosso theatro por


um engenho tão superior, estava aberta a estrada para
que seus successores, corrigindo progressivamente os
inevitáveis defeitos do século e da novidade, e appro-
veitando o muito que ahi havia a approveitarf levan-
tassem o edifício de um Theatro nacional. E com effeito
alguns apparecêrão que seguirão as pizadas de Gil Vi-
cente, como o Infante D. Luiz, Antônio Prestes, Braz
de Rezende, os dous irmãos Antônio e Jeronymo Ri-
beiro Chiado, Henrique Lopes e Jorge Ferreira de Vas-
concellos: o mesmo Camões se não dedignou de se alistar
debaixo das suas bandeiras. Mas este por empenhado
em mais elevados assumptos, os outros por falta de um
transcendente talento dramático, mais copiarão que cor-
rigirão o seu modelo. Também a eschola clássica appa-
receo então em Portugal representada por dous grandes
poetas, Sá de Miranda e o Doutor Antônio Ferreira;
mas estes com um limitadíssimo numero de producções,
e alem disso demasiado preocupados da douta antigüi-
dade, não puderão exercer considerável influencia sobre
este ramo da litteratura. Oxalá Gil Vicente tivesse appa-
recido depois de todos elles; seria elle o reformador do
nosso theatro, e verdadeiramente o nosso Plauto.
APPENDIX.

Os dous seguintes documentos devem conservar-se como


os únicos authenticos para a historia de Gil Vicente.

I.
PRIVILEGIO.
Eu EIRei faço saber aos que e ste alvara virem, que
Paula Vicente, moça da Câmara da muito minha amada e" pre-
zada tia, me disse que ella queria fazer emprimir hum livro e
cancioneiro de todas as obras de Gil Vicente seu pay, assi as
que até ora andarão empremidas pelo meudo, como outras
que o ainda narri foram. Pedindo-me que ouvesse por bem,
que por tempo de dez annos nam podessem emprimir nem
vender o dito cancioneiro, senam ella, e as pessoas a que ella
pera isso de'sse licença: e que as ditas obras meudas do dito
seu pay que ate ora andarão empremidas se nam podessem
mais emprimir, nem vender pelo meudo. E visto seu reque-
rimento, e por alguns justos respeitos que me a isto movem,
ey por bem, e me praz que fazendo ella emprimir o dito "can-
cioneiro de todas as obras do dito seu pay — Empressor algum,
nem outra algüa pessoa possa em meus Reynos e Senhorios
emprimir, nem vender o dito cancioneiro, nem trazelo de íóra
do Reyno a vender sem consentimento e licença da dita Paula
Vicente, e isto por tempo de dez annos somente, que começa-
ram da feitura deste alvará. Emprimindo, ou vendendo algüa
pessoa o dito cancioneiro nos ditos meus Reynos e Senhorios,
ou,trazenáo-o de fora delles a vender como dito he dentro
no dito tempo de dez annos sem licença da dita Paula Vi-
cente, perderá todos os volumes que delles lhe forem achados,
e paoarão cincuenta cruzados, ametade pera a minha Camera,
e a outra ametade pera quem os acusar. E assi me praz que
daqui em diante polo dito tempo de dez annos se nam possão
xxxvi APPENDIX.

emprimir nem vender polo meudo obras algüas do dito Gil


Vicente que estiverem no dito cancioneiro sob a mesma pena
acima declarada. E mando a todas as minhas justiças, officiaes
e pessoas a que o conhecimento deste pertencer que cumpram
e guardem inteiramente este alvará, como se nelle contem, o
qual ey por bem que valha, e tenha força e vigor como se
fosse carta feita em meu nome, por mi assignada e passada
pela minha Chancellaria sem embargo da ordenaçam do segundo
livro, quarto, vinte, que diz que as cousas cujo effeito ouver
de durar mais de um anno passem por cartas,, e passando por
palavras não valhão. E valerá este outro si, posto que nam
seja passado pola Chancelaria sem embargo da ordenaçam' que
manda que os meus alvarás que não forem passados pela Chan-
celaria se nam gualdem. Jorge da Costa o fez em Lisboa a
três dias de Setembro de mil quinhentos e sessenta e um.
Manuel da Costa o fez escrever. E cada volume do dito
Cancioneiro se nam poderá vender por mais de hü cruzado
E este alvará se trasladaraa e imprimiraa no principio-do dito
Cancioneiro. R A T N R A

II.
PRÓLOGO
dirigido ao mui alto e poderoso Rei nosso Senhor D.
Sebastiam o primeiro do nome por Luís Vicente.
He tão gloriosa cousa, altíssimo Rei e Senhor nosso, a
fama daquelles que a tem e a tiverão, que a toda pessoa
geralmente faz desejo de a acrecentar, e resuscitar suas obras:
e assi o fazem muitos, huns com contarem em pratica suas
cousas, outros com escreverem suas obras, outros trabalharem
que venhão á noticia de todos com as imprimirem, como foi
aquelle que apurou, e alimpou e fez que fossem vistas e acha-
das as cousas de Homero, porque, se elle nam fora, perderam-se,
e outros que tomarão a seu cargo o trabalho de serem pre-
goeiros daquelles que escreverão, e fizerão obras dinas de.
serem apregoadas, sem outra obrigação mais que somente a
curiosidade que tinhão de quererem que se não perdesse a
APPENDIX. xxxvn

fama de grandes homens. Quero dizer, que se estes não lhe


indo nisso nada, o fizerão àssi, que farão aquelles a que bate
á porta a obrigação de seus antepassados, que suas obras são
desejadas virem á noticia de todos? E ainda que as obras de
meu pay não tenhâo tamanho merecimento como tiverão as
d'outros poetas antigos e modernos, tão celebrados em todo o
mundo: todavia, aindaque as deste livro fiquem muito abaixo
destas; por serem cousas algüas dellas feitas por serviço de
Deos e todas em serviço de vossos avós, e de que elles muito
gostarão, era rezão que se imprimissem. E porque sei que ja
agora nessa tenra idade de V. A. gosta muito dellas, e as lê
e folga de ouvir representadas, tomei a minhas costas o tra-
balho de as apurar e fazer imprimir sem outro interesse, senão
servir V. A. com lh'as dirigir, e cumprir com esta obrigação
de filho. E porque sua tenção era que se imprimissem suas
obrus, escreveu por sua mão e ajuntou em hum livro muito
grande parte dellas, e ajuntára todas, se a morte o não consu-
mira. A este livro ajuntei as mais obras, que faltavão e de
que pude ter noticia. E porque o prólogo que adiante vai
dirigido a elRei vosso avô, que haja gloria, não houve effeito;
esse como o livro todo oífereço a V. A. a quem nosso Senhor,
acrecente e prospere a vida e estado por muitos annos.

III.
Desta illustre Princeza diz um seu biographo: "Se dió
á Ia lengua latina, en que hizo tales progresos, que á poço
tiempo, socorrida de su docilidad y talento, Ia escribia y ha-
blaba como si fuera materna; Io mismo le sucedió cou Ia griega."
(Pacheco, Vid. de Ia Inf. D. Maria.)
E Macedo, nas Flores de Espaíía: "En Ia poesia fue
insigne: escribió en Latin y tenia perpetuamente academia de
mugeres doctas."

IV.
Que muitas obras de Gil Vicente se perderão, se vè do
Prólogo dirigido por seu filho Luiz a D. Sebastião; onde diz:
" A este livro ajuntei as mais obras que faltavão, de que pude
ter noticia." A respeito das obras rneudas mais claramente o
XXXVIII APPENDIX.

dizia elle no fim do Liv. V. por estas palavras: "Fim do quinto


livro o qual vai muito carecido destas obras meudas, porque
as mais das que o autor fez desta qualidade se perderão."

V.
Assim a celebra o Padre Reis , nos seus Enthusiasmos
poéticos, No. 66, comparando-a com a mulher de Lucanoí;
Paula parentem
Oegidium sociat nunc celso in vértice MontU,
Quem juvisse feruni, sicut olim Pola maritum
Scríbentem juvit Lucanum.

VI.
A seguinte scena de Encina e visivelmente o modelo de
outra de Gil Vicente, no seu primeiro auto pastoril a pag. i4
do vol.
JlJAS RODRIOACHO.
Asino, qne dígoles pares.
Hora jnguemos! A N T . Jugueiuos. MIGUEIEIO.
MlGUELEJO. Al diabro tales jngares.
Y <i çjué jnego, companones? RODRIOACHO.
RoDP.rGACHO. Hora ganéte bnen caclio.
Jngnemos pares y nones. D o u muchacho,
JüAN. poernito sabes de juegos:
Aliotas, que bien liaremos. no te aprovechan reniegos;
AMTON. cata qne soy hombre macho,
Comenzeinos. JuAN.
JüAN. Nunca acabaremos h o y :
Qné les dices? A N T . Júri á fios, debemos jnego mudar.
Nones digo. J D A . Dá cá dos. RODRIGACHO.
ÁKTON. T ;í qué podreinos jugar ?
Cata, qne no trainpilleinos! ANTON.
RoDRIGACHO. Miafé, á v i v o te Io doy.
Qné les dices, Mignelejo? MlGUELEJO.
Yo no soy
MrouEiEJo.
Pares les digo. R O D . Perdiste! en jugar jnego tan rnin;
JUAN.
mas jugnemo» ai trentin
Al diabro te dó por triste! qne mny desgraciado estoy.
Ta pones ei sobrecejo? Ei. ANGEI,.
Pastores, no hayais temor!
RoDRIGACHO.
qne os anuncio gran placer:
Guando viejo,
sabed qne quiso nacer
inuy m i n gesto lias de tener:
esta noche ei Salvador
por três castafías perder
Redentor
reniegas de san conejo.
en ia cindad de David.
MlSUELEJ.O. T o d o s , todos le servid,
Qné les dices, Rodrigaclio í que es Cristo nnestro Senor &c.
APPENDIX. XXX1X

Compare-se a cantiga com que Gil Vicente fecha a sua


Tragicomedia dos Aggravados, com a seguinte composição
com que finaliza uma das Eglogas de Juan de Ia Encina:

V i 11 a n c i c o.
Gran gasajo siento yo, gran memória quedará,
Jinihó! hnihá!
Yo tainbien soncas que lia, pnes aqnel que nos crio &x.
lmiliá! Vau virgen de qninca anos
pues aqnel que nos crio morenica de tal gala,
por salvamos nació ya: que tan chapada zagala
Hniliá, hnüiá! n'o se halla en mil rebanos:
qne aquesta noche nació. nunca tal cosa se vió,
huihó!
Esta noche ai médio delia
ni jamas fue ni será,
cuando todo estab.1 en calma,
hnihá!
por nos alninbrar ei alma
pues aqnel qne nos crio &c.
nos nació Ia clara estrella:
Váinonos de dos en dos,
clara estrella de Jaca,
aballemos á Belen,
huihó!
porque percancemos bien
alegrar todos qne ha,
quien es ei liijo de Dios:
hnihá!
gran salnd nos envio,
pnes aqnel qne nos crio &c.
huihó!
En Belen nnestro lngax aqnel, que en Belen está,
inuy gran calor relninbrea, hnihá!
yo te juro qne aquesta aldea pnes aqnel qne nos crio ácc.
por ei mundo ha de sonar: Ya rebnlle Ia inanana,
porque tal fruto nos dió agnijeinos que és de dia,
huihó! pregnntemos por Maria
gran honra se le dará una hijá de Santa Ana,
hniháj qne ella ella Io parió,
pues aqnel que nos crio ke. hnihó!
Una virgen concibiera Vamos, vamos andallá,
sin siniiente de vaion, hnihá!
y virgen sin corrupcion pnes aqnel que nos crio,
ai Iiijo de Dios paríera, por salvamos nació ya:
y despues v/rgen quedo, hnihá! huihó!
huihó < . qne aquesta noche nació.

VIL
Eis-aqui alguns extractos dos antigos Mysterios francezes
tpie aqui se transcrevem para habilitar o leitor a fazer o seu
juizo sobre as observações que fizemos no texto; o seguinte
e' de um antigo Mysterio manuscripto, que Bouterweck nos
fornece na sua historia da Poesia e Eloqüência Franceza. Lu-
cifer falia aos espiritos infernaes:
XL APPENDIX.

"Parles-tu point, Sathan Rccnsatenr,


"Persécnteur de tont humain lignaige?
" T o i Bélial nostre Grand Procureur,
" F a n l x rapinenr, infame détracteur,
f'Et inventeur de larcin et pillaige?"

Neste segundo extracto de uma composição mui posterior á


antecedente, e de um comtemporaneo de Gil Vicente, se ob-
serva a mesma divisão de characteres entre os diabos interlo-
cutores: a supremacia de Lucifer, o orgulho, e os títu-
los de Belial ainda aqui são conservados. A composição, 8
de Luís Chocquet, e foi representada em Paris, no Hotel de.
Flandres em i54*> e impressa no mesmo logar e data. Mais
extensos extractos deste raro livro se achão no Diccionario de
Bajle, artigo Chocquet, donde tiramos os seguintes:

Resposta de Satanás a um discurso de Lucifer:


" Prince cPMnfer, tes cris as faict estendre
" S i tresavant qn'ils sont venns descendre
"Jusqnes au fons de noires regions:
" N o s vils manoirs tn as presque faict fendre:
" Q n e te fanlt-ü? Es tu prest de te pendre?
" Diables sout hors par grandes legions &c.

Discurso de Lucifer:
" H a r o , Haro, approche toy grant Dyable,
"Approche toy Notaire mal fiable,
"Fier Belial, Procureur des Enfèrs;
" S i tu ne fais ung fanlx traict desnoyable,
"Nons perdons tout le genre hnmain salnable,
" E t demenrons senls enchaynez en fers.

VIII.
Eisaqui o logar a que se refere o texto:
" E as danças acabadas, se começou huma muito boa e
"muito bem feita comedia, de muitas figuras, muito bem ata-
v i a d a s e muy naturaes, feita e reprezentada ao cazamento e
"partida, da Senhora Jnfante; couza muito bem ordenada, e
"com ella acabada se acabou o seram."
(G. de Resende, Hida da Infante D. Beatriz
para Saboia.)
APPENDIX. XLI

IX.
A seguinte passagem fará conceber uma grandiosa idea
do maquinismo dos nossos antigos. Foi em i48i que se
fizerão estas memoráveis festas.
" E á terça feira logo seguinte, houve na salla da madeira
^"cxcellentes e mui ricos momos, antre os quaes EIRei, pera
"desafiar a justa que havia de manteer, veeo primeiro momo,
"etoyfencionado cavalleiro do cirne com muita riqueza, graça e
"gentileza, porque entrou pelas portas da salla com hüa grande
"frota de grandes naoos, mettidas em pannos pintados de
"bravas e naturaes ondas do mar, com grande estrondo. d'ar-
"telharias que jogavam, e trombetas e atabales e ministrees
"que tangiam, com desvairadas gritas e alvoroços d'apitos, de
"fingidos Mestres, Pillotos e Mareantes vestidos de brecados
" e sedas, e verdadeiros e ricos trajos Alemães."
(Inéditos da Hist. Portug., Chron. de D. JoãoII,
por Ruy de Pina, pag. 126.)
DAS OBRAS DE DEVAÇAO.

>#-
OBRAS DE GIL VICENTE.

LIVRO I.
DAS OBRAS DE DEVAÇÁO,

Porquanto a obra de devação seguinte procedeu de


hüa visitação, que o autor fez ao parto da muito esclarecida
Rainha Dona Maria, e nascimento do muito alto e excel-
lente Príncipe Dom João, o terceiro em Portugal deste
nome; se põe aqui primeiramente a dita Visitação, por ser
a primeira coisa, que o autor fez, e que em Portugal se
representou, estando o mui poderoso Rei Dom Manoel, e a
Rainha Dona Beatriz sua mãe, e a Senhora Duqueza de
Bragança, sua filha, na segunda noite do nascimento do
dito Senhor. E estando esta companhia assim junta, entrou
hum vaqueiro, dizendo:

VAQUEIRO.

Irardiez! siete arrepelones


Mc pegaron á Ia entrada,
Mas yo dí una punada
A uno de los rascones.
Einpero, si yo tal supiera,
No veniera,
Y si veniera, no entrara,
Y si entrara, yo mirara
De manera,
Que ninguno no me diera.
1
Vol. i.
2 LIVRO L

Mas andar, Io heche es liecho:


Per» todo bien mirado,
Ya que entre neste abrigado,
Todo me sale en provecbo.
Rehuélgome en ver estas cosas,
Tan hennosas,
Que está hoinbre bobo en veUas:
Véolas yo; pero ellas,
De lustrosas,
w

A nosotros son danosas.


(Falia i Rainha.-)

Si es aqui adonde vo?


Dios mantenga si es aqui;
Que yo no sé parte de iní,
Ni deslindo donde esto.
Nunca vi cabana tal,
En especial
Tan notable de memória:
Esta debe ser Ia gloria
Principal
Del paraíso terrenal.
O que sea, ó que no sea,
Quiero decir á que vengo,
No diga que me detengo
Nuestro concejo y aldea.
Enviame á saber acá,
Si es verdá
Que parió Vuestra Nobleza?
Mi fe si; que Vuestra Alteza
Tal está,
Que senal dello me da.
Muy alegre y placentera,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 3

Muy ufana y esclarecida,


Muy prehecha y muy lúcida,
Mas mucho que dantes era.
Oh qué bien tan principal,
Universal!
Nunca tal placer se vió!
Mi fe, saltar quiero yo.
He, zagal!
Digo, dice, salte mal"?
Quien quieres que no reviente
De placer y gasagado!
De todos tan deseado
Este príncipe excelente
Oh qué Rey tiene de ser!
A mi ver
Debiamos pegar gritos:
Digo que nuestros cabritos
Dendê ayer
Ya no curan de pacer.
Todo ei ganado retozã,
Toda laceria se quita;
Con esta nueva bendita
Todo ei inundo se alboroza.
Oh qué alegria tamana!
La montaria
Y los prados florecieron,
Porque ahora se complieron
En esta misma cabana
Todas Ias glorias de Espana.
Qué gran placer sentirá
La ffran corte castellana!
Cuan alegre y cuan ufana
1*.
LIVRO I.

Que vuestra madre estará,


Y todo ei reino á monton!
Con razon,
Que de tal rey proeedió
El mas noble que nació:
Su pendon
No tiene comparacion.
Qué padre, qué hijo y qué madre!
Oh qué aguela y qué aguelo.x!
Dendito Dios de los ciclos,
Que le dió tal madre y padre!
Qué tias, que yo me espanto!
Viva ei príncipe logrado!
Qué él es bien aparentado!
Júri á Sanjunco santo.
Si me ora vagara espado.
Y de prisa no veniera,
Júri á nos que yo os diera
Cuenta de su generacio.
Será rey Don Juan tercero,
Y heredero
De Ia faina que dejaron,
En ei tiempo que reinaron,
El segundo y ei primero,
Y aun los otros que pasaron.
Quedáronme allí detrás
Unos treinta companeros,
Porquerizos y vaqueros,
Y aun creo que son mas;
Y traen para ei nacido
Esclarecido
Mil huevos y leche aosadas,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO.

Y un ciento de quesadas;
Y han traído
Quesos, miei, Io que han podido.
Quiérolos ir á Uamar:
Mas segun yo vi Ias senas,
Hanles de inesar Ias grenas
Los rascones ai entrar.

Entrarão certas figuras de pastores e oferecerão ao


Príncipe os ditos presentes. E por ser cousa nova em Por-
tugal, gostou tanto a Rainha velha desta representação,
que pedio ao autor que isto mesmo lhe representasse ás
matinas do Natal, endereçado ao nascimento do Redemptor;
e porque a substancia era mui desviada, em lugar disto
fez a seguinte obra.
FIGURAS.

GIL.
HRAS.
LUCAS.
SILVESTRE.
GREGORIO.
MATHEUS.
ALTO PASTORIL CASTELHANO
endereçado ás matinas do Natal.

Entra primeiramente hum pastor inclinado á vida


contemplativa, e anda sempre solitário. Entra outro, que
o reprehende disso. E porque a obra em si dalli por
diante vai mui declarada, não serve mais argumento.

GIL.
Aqui está fuerte majada;.
Quiero repastar aqui
Mi ganado; veislo allí
Soncas naquella abrigada.
Yo aqui estoy abrigado
Del tempero de fortuna.
Anublada está Ia luna,
Mal pecado,
Lloverá soncas priado.
Quiero aqui poner mi halo-,
Que cumpre estar anaceando,
Y andarme aqui holgando,
Canticando rato á rato.
Hucia en Dios, vendrá ei verano
Con sus flores y rosetas;
Cantaré mil chanzonetas
Muy ufano,
Si allá Uego vivo y sano.
8 LIVRO I;

Riedro, riedro vaya ei ceno,


Aborrir quiero ei pesar:
Comenzaré de cantar,
Mientras me debroca ei sueno.
C Canta.)
u
Menga Gil me quita ei suenoT
'•Que no duermo."
BRÁS.
Dí, Gil Terron, tú qué has,
Que siemprc andas apartado?
GIL. Mi fe, cuido, mal pecado,
Que no se te entiende mas.
Tú, que andas siempre en bodas,
Corriendo toros y vacas,
Qué ganas tü, ó qué sacas
Dellas todas?
Asmo, asmo que te enlodas.
Solo quiero canticar,
Repastando mis cabritas
Por estas sierras benditas:
No ine acuerdo dei lugar.
Cuando, cara ai cielo, oteo?
Y veo tan buena cosa,
No me parece hermosa
Ni deseo
Zagala de cuantas veo.
Andando solo magino,
Que Ia soldada que gano
Se me pierde de Ia mano
Soncas en qualquier camino.
Nesta soledad me énseno;
Que ei ganado con que ando,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 9

No sabre como ni cuando,


Segun sueno,
Quizá será de otro dueno.
Conociste á Juan Domado,*
Que era pastor de pastores?
Yo Io vi entre estas flores,
Con gran hato de ganado,
Con su cayado real,
Repastando en Ia frescura,
Çon favor de Ia ventura:
Dí, zagal,
Qué se hizo su corral?
Vete tú, Brás, ai respingo,
Que yo desclucio dei terruno.
BRA. El crego de Vico-Nuno
Te ensenó eso ai domingo.
Anda, anda acompanado,
Canta y huelga en Ias majadas;
Que este inundo, Gil, aosadas,
Mal pecado,
Se debroca muy priado.
GIL.
Aunque huyo Ia eompana,
No quiero mal á pastor;
Mas yo apriseo mejor
Apartado en Ia montaíía.
De contino siempre oteo,
Ingrillando los oidos,
Si daran soncas gemidos
De deseo
Los corderos que careo.
* Juan Domado dizia por EIRei D. João II.
10 LIVRO I.

L ü C A S . (de longe.)
Hao! carillos! GIL. Á quien hablas?
Luc. Á vosoíros digo yo,
Si alguno de vos ine víó
Perdidas unas dos cabras?
GIL. Yo no. BRA. Ni yo. Luc. Á Dios pliega!
GIL. Como Ias perdiste? dí.
Luc. Perdiéronse por ahi
Por Ia vega,
Ó algun me Ias soniega.
Nel hato de Brás Picado
Andava Marta bailando;
Yo estúvela oteando,
Boquiabierto Irasportado,
Y ai son batlendo ei pie
Estuve dos horas valientes:
El ganado entanamientes,
Á Ia fe,
No sé para donde fue.
GIL.
Y aun por eso que yo sospecho
Me aparto de saliijones;
Que vanas conversaciones
No traen níngun provecho.
Sieinpre pienso en cosas buenas:
Yo me hablo, yo me digo;
Tengo paz sieinpre comigo,
Sin Ias penas,
Que dan Ias cosas agenas.
LUCAS.
No me quiero estar traâ Iras;
Ya perdido es Io perdido.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 11

Que gano en tomar sentido?


Qué dices, Gil, y tú, Brás?
GIL. Tú muy perezoso estás:
Busca, busca Ias cabritas.
Trás que tienes muy poquitas,
No te das
De perder cada vez mas.
Encomiéndalas á Dios.
Luc. Qué podrá eso prestar?
GIL. El te Ias irá buscar,
Que sieinpre mira por nos.
Luc. S Í los lobos Ias comieron
Hámelas Dios de traer?
Harto terna que hacer:
Y si murieron,
Mucho mas que yo perdieron.
Mas quiero Uamar zagales;
Tengamos todos majada.
BRA. Sube naquella asomada,
Y dales gritos mortales.
Luc. Hace escuro; quien verá!
Caeré nun barrancon.
GIL. Toma, lleva este tizon.
Luc. Dalo acá:
Este nunca allá irá. (Chama de longe.)
Ha Silvestre! ha Vicente!
Ha Pedruelo! ha Bastian!
Ha Jarrete! ha Brás Juan!
Ha Pasival! ho Clemente!
SILVESTRE, (deionge.)
Ha Lucas! qué nos quieres? dí.
Luc. Que vengais acá priado:
i2 LIVRO I.

Tomaremos gasajado,
Que Gil Terron está aqui
En abrigado,
Alegre y bien asombrado.
Vem os pastores, e diz.
SILVESTRE.
Ora terrible placer
Teneis vosotros acá.
HRA. Si, tenemos, soncas ha:
Pues qué habemos de hacer?
Quien ai cordojo se dió,
Mas cordojo se le pega.
SIL. Bailemos una borrega.
BHA. Mi fe no,
Que tú bailas mas que yo.
GIL.
Júri á nos que estás chapado!
Qué es esto, Silvestre hermano?
SIL. NO ves que viene ei verano,
Y soy recien desposado?
GIL. Jesus autem intrinsienes!
Quien te trajo ai matrimuno?
SIL. Mi tio Velasco Nuno.
GIL. Chapados parientes tienes.
Quien es Ia esposa que hubiste?
SIL. Teresuela mi damada.
BHA. Dios! que es moza bien chapada,
Y aun es de buen natío,
Mas honrada dei lugar.
GIL. Neso no hay que dudar;
Porque ei herrero es su tio,
Y ei jurado es ahijado
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 13

Del aguelo de su madre;


Y de parte de su padre
Es prima de Brás Pelado:
Saquituerto, Rodelludo,
Papiharto, y Bodonales
Son sus primos caronales,
De parte de Brisco Mudo.
Es nieta de Gil Llorenle,
Sobrina dei Crespillon;
Casaollas Mamilon
Pienso que es tambien pariente:
Mari Roiz Ia Mamona,
Toribilla dei Mendral,
Y Teresa Ia Gabona
Su parienta es natural.
Maricá de Ia Reinonda,
Espulgazorras Cabrera
Y Ia vieja bendicidiera,
Rapiharta Ia Redonda,
La Cenuda, Ia Plaguenta,
Borracalles Ia Negruza,
La partera de Valmuza
Ahotas que es bien parienta.
LUCAS.
Dios! que es casta bien honrada
Esa que hábeis relatado.
BRA. Ahora estás bien honrado:
No te dan con ella nada?
SIL. Danme una burra preííada,
Un vasar, una espetera,
Una cama de madera;
La ropa no está lidada.
14 LIVRO I.

Danme Ia moza vestida


De halillos dominguejos,
Con sus manguitos vermejos,
Y alfarda muy lúcida:
Danme una puerca parida,
Mas anda muy triste y flaca.
BRA. NO te quieren dar Ia vaca?
SIL. Ha três anos que es vendida.
MATHEUS.
Sus, alto, toste priado,
Respinguemos Ia inajada:
Viénese Ia madruga,
Dejemos ei desposado.
BRA. Démosnos á gasajado,
Tomemos todos placer,
Que ya no quiere lloA^er.
GIL. Ya no, Dios sea loado.
LUCAS.
Tengamos algun remédio:
Qué jugamos, Gil Terron ?
GIL. Jugueinos ai abejon;
Mas tengo de estar en médio.
BHA. Tú naciste mas ternprano.
GIL. Ora sus, sus, veisme aqui:
Tú tainbien pásate allí;
Brás hermano, párate ansí.
Ea, sus, pára Ia mano.
He miedo que me darás;
Alza, alza ei brazo mas:
Tú no ves como está Brás?
Dite una de mal ines.
BHA. Ha! Dios te pliega comigo!
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO, 15

Do á rabia Ia jugada:
Ora viste que porrada!
Luc. Tú, amigo,
Ya no consientes castigo.
BRÁS.
Juguemos á adivinar.
Luc. Que ine plaz. BRA. DÍ, compafíero....
Mas comience Gil primero.
GIL. Que me plaz de comenzar.
Coinenzad de adivinar. Luc. Qué?
GIL. Sabello has tú muy mal:
Qual es aquelle animal,
Que corre y corre, y no se ve?
BRA. E S ei pecado mortal.
MATHEUS.
Mas ei viento, mal pecado,
Creo yo que será ese.
Luc. Que no es buen juego este;
Demos este por pasado.
GIL. Bien será via acostar,
Que ya me debroca ei sueno.
Santiguaos dei demueno.
SIL. Yo no me sé santiguar.
GIL. Decid todos como yo:
En ei mes dei padre,
En ei mes dei hijo —
El otro mes se me olvido.
(Dormem e o ANJO os chama cantando.)
u
Ha pastor!
"Que es nacido ei Redentor."
GIL.
Zagales, levantar de ahí,
16 LIVRO I.

Que grande nueva es venida:


Que es Ia Virgen parida,
Á los ángeles Io oi.
Oh qué tônica acordada
De tan fuertes caramillos!
BRA. Cata, que serian grillos.
GIL. Júri á nos
Que eran ángeles de Dios.
LUCAS.
Y nos aqui levantados
Qué le habemos de hacer?
GIL. Mi fe, vamoslo á ver.
BRA. Y ansí despeluzados ?
GIL. Pardiez, que es para notar!
Pues ei Rey de los senores
Se sirve de los pastores?
Nueva cosa
Es esta, y muy espantosa!
Id vosotros ai lugar
Muy priesto, carillos mios,
Y no vamos tan vacíos:
Traed algo que le dar,
Y ei rabel de Juan Javato,
Y Ia gaita de Pravillos,
Y todos los caramillos,
Que hay en ei hato;
Y para ei nino un silbato.
(Partein-se para n presépio, cantando.)
TODOS
u
Aburramos Ia majada,
U
Y todos con devocion
"Vamos ver aquel garzon.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 17

"Veremos aquel ninilo


"De agora recien nacido.
"Asmo que es ei prometido
"Nuestro Mesias bendito.
"Cantemos á voz en grito
"Con hemencia y devocion,
"Veremos aquel garzon."
Chegando ao presépio diz
GIL.
Dios mantenga a vuestra gloria!
Ya veis que estamos acá
Muy alegres, soncas ha,
De vueslra nueble vitoria.
A vos, Virgen, digo yo,
Que ei muchacho que hoy nació
No enliendo que me entiende,
Mas si que todo comprehende,
Del punto que se engendro.
LUCAS.
Que casa lan pobrecita
Escogió para nacer!
BRA. Ya coinienza á padecer
Dendê su ninez bendita.
SIL. De paja es su camacita.
Luc. Y un establo su posada.
BRA. Loada sea y adorada
Y bendita
La su clemência infinita.
GIL.
Senora, con estes hielos
El nino se está teinblando:
De frio veo llorando
2
Vol. I.
18 LIVRO I.

El criador de los cielos


Por falta de panizuelos.
Júri á san si tal pensara,
Ó por dicha tal supiera,
Un zamarro le irujera
De una vara,
Que ahotas que ei callára.
Ora vosotros qué haceis?
Con muy chapada hemencia
Y con vuestra reverencia,
Dalde de eso que traeis.
SIL. Perdonad, senor, por Dios,
Que, como somos bestiales,
Los presenies no son tales
Coino los inereceis vos.
Com tangeres e bailes offerecem, e i despedida cantSo esta

Cançoneta.
"Norabuena quedes, Menga,
"Á Ia fe que Dios mantenga.
"Zagala santa bendita,
"Graciosa y morenita,
"Nuestro ganado visita,
"Que ningun mal no le venga.
"Norabuena quedes, Menga,
"A Ia fe que Dios mantenga."
GIL.
Qué decis de Ia doncella?
No es harto prelucida?
SÍL. Nunca otra fue nacida,
Que fuese muger y estrella,
Sino ella.
GIL. Pues sabes quien es aquella?
DAS OBRAS DE DEVAÇAO. 19

Es Ia zagala hermosa,
Que Salomon dice esposa,
Cuando canticava delia.
Con su voz muy deseosa
En su canticar decia:
"Levántate, amiga mia,
Columba mea formosa,
Amiga mia olorosa;
Tu voz suene en mis oidos,
Que es muy dulce á mis sentidos,
Y tu cara inuy graciosa.
Como ei lilio, plantada,
Florecido entre espinos,
Como los olores finos
Muy suave eres bailada.
Tú eres huerta cerrada,
En quien Dios venir desea:
Tota pulchra amica mea,
Flor de virgindad sagrada."
SILVESTRE.
Á Dios plegue con ei ruin!
Mudando vas Ia pelleja:
Sabes de achaque de ygreja!
GIL. Ahora Io deprendí.
SIL. Con eso hablas latin,
Tan á punto que es placer.
Mas Io preciára saber
Que me daren un florin.
BRÁS.
Dí por vida de tu tio,
Tú sabes de profecias?
GIL. Sé que dijo Malaquias
2*
20 LIVRO I.

"Eis ei mi ángel os einbio


Con tan fuerte poderio,
Que aparejará Ia carrera
Delante mi haz verdadera
En ei sanlo templo mio."
"Tú, Helhlen, pequena eres,"
Diz Miqueas profetando,
"Mas no te caíarás cuando
Serás grande en tus poderes.
Cuando sin cuido estuvieres,
Ternas ei senoreadoí
De Israel en tu favor
Para cuanto tú quisieres."
LUCAS.
De niniío tan bonito
Hablaban soncas letrados.
GIL. LOS Profetas alumbrados
No jugaban á otro hito.
Con muy ahincado esprito
Y con gozoso placer
Todos desearan ver
Su naciiniento bendito.
Porque este es ei cordero
Qui tollis peccata mundo,
El nuestro Adan segundo,
Y remédio dei primero:
Este es ei hijo heredero
De nueslro eterno Dios;
El cual fue dado á nos
Por Mejías verdadero.
Aquel nino es eternal,
Invisible y "visible;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 21

Es mortal y inmortal,
Mobible y inmobible,
En cuanto Dios, invisible;
Es en todo ai Padre igual,
Menor en cuanto humanai:
Y esto no es bnposible.
Hecha ei sol su rayo en Mayo,
Como mil veces verés;
El mismo rayo sol es,
Y ei sol tambien es rayo:
Entrambos visten un sayo
De un envés,
Y una cosa misma se es.
Ansí este descendió,
Quedando sieinpre en ei Padre:
Aunquè vino á tomar madre,
Del padre no se aparto.
HHA. Gil Terron lletrudo está:
Muy bondo te encaramillas!
GIL. Dios hace estas maravilhas.
BRA. YO IO veo, soncas ha.
Quien te viere no dirá,
Que naciste en serrania.
Luc. Cantemos con alegria,
Que en eso despues se hablará.
(Vão-se cantando.)
FIGURAS.
GREGORIO i
> Pastores.
VALERIO )
HUM EHMITÃO.

HUM CAVALLEIRO.

A dita Senhora Rainha, satisfeita desta pobre


(o auto antecedente), pedio ao autor, que para d
Reis logo seguinte lhe fizesse outra obra. E fez a seg
cuja introducção he, que hum pastor determinou de
Belém e errou o caminho: e entra dizendo:
ALTO DOS REIS MAGOS.

GREGORIO.
Asmo, asmo. soncas ha,
Que ine da
Ua fortuna trasquilon.
He dejado mi zurron
Y eslabon,
Y no sé que hago acá.
Dios plegue, quien me dirá
Adó está
Este nino que es nacido?
Que ando bobo perdido,
Sin sentido,
Trece dias per habrá, *
Que no sé que haga ya.
No sé parte ni recado
Del ganado,
Y los perros son perdidos;
Mis corderos dan gemidos
Muy sentidos
Por entrar en ei poblado.
Todo mi hato he dejado
Desmedrado,
por buscar este ninito.
Dicenme que es tan bonito,
Que me aflito
24 LIVRO I.

Por no haberio topado,


Y ando desesperado.
Despepito mi sentido,
Que en olvido
Tengo los ínemoriales,
Saltando por robledales
Y encinales,
Que jota no he dormido,
De aterido.
De todo no me doy nada,
Si topase Ia posada
Muy loada,
Donde está recien nacido
Este nino esclarecido.
Entra Valeria.
VALERIO.
De donde eres pecador?
Dí, pastor.
GRE. Pastor y bien desdichado!
Que ando descarnado,
Hambriado
Por ver nuestro Redentor.
r

Dijo ei Angel dei Senor:


"Pastor, pastor,
Ve y deja tus cabritas,"
Y dejélas solecitas
Muy marchitas;
Y no sé ser sabidor
Adó nació ei Salvador.
Trece dias son pasados,
Bien contados,
Que ando, perdido ei tino,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 25

Sin bailar nengun camino;


Ni soy dino
De Io ver por mis pecados.
VAL. Ora tienes bien librados
Tus cuidados.
Este padre fray Alberto,
Que tope naquel desierto,
Sabrá cierto
Eso, porque los letrados
Son guia de los errados.
GREGOHIO.
Há, fraile, sabes do vais ?
r

O andais
Á desuso como yo?
El nino que nos crio
Do nació?
Qué es Ia nueva que me dais?
Por Dios que me Io digais;
No hagais
Que me inuera de cordojos.
ERM. Pastor, no tomes enojos,
Que tus ojos
Verán quien todos buscais.
GRE. He medo que ine burlais.
Traeis á ende hreviario,
Ó calendário,
Ó sois frayle? Como quiera,
Si alino aqui hubiera
Bien quisiera,
Si sabeis bien de vicario,
Que digais un trintanario
Al rosário,
26 LIVRO I.

Porque Dios me deje ver,


Sin tener
AI demuno por contrario,
Aquel precioso sagrario.
ERMITÃO.
Oh bendito y alabado
Y exalzado
Sea nuestro Redentor!
Que un rústico pastor
Con amor
Lo busca con gran cuidado;
Desampara su ganado
Muy de grado,
Por ver ai nino glorioso!
Qué haré yo religioso
Perezoso,
Que ando tan sin cuidado
Por aqueste despoblado?
Destos pobres labradores
Y pastores
Quiso ser oferecido,
Adorado y conocido
Y servido
Con cantares y loores,
Escuchando sus primores
Y clamores.
La Virgen nueslra Senora
Y Ia vaquilla Io adora
En Ia hora
Que ei Sefíor de los senores
Nació de flor de Ias flores.
Qué descanso y qué placer
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 27

Fuera ver
El resplandor glorioso,
Aquel verbo gracioso,
Tan Uoroso,
Acabando de nacer!
VAL. Buldas deveis de traer
Á vender,
Que os estais chocarreando.
ERM. Harto es eso de desmando,
Pues veis que estoy baldando.
Contemplando
Lo que nos es inenester,
Si suyos queremos ser.
VALERIO.
Decidnos, padre bendito,
Hallais scrito
Si es pecado estornudar?
Mas os quiero preguntar
Y notar;
Esperad ansí un poquito:
Digo que escondo ei cabrito,
Por hacer berrar Ia cabra;
Y remojo Ia palabra
Á cada habla:
Es gran pecado infinito,
Ó es médio pecadito?
GREGOHIO.
Si ei hoinbre, de birra pura,
Por ventura
Adrede despierna un grillo,
Por no vello ni oillo;
Encubrillo
28 LIVRO I.

Es pecar contra natura?


VAL. Otra cosa mas escura
Y mas dura
Quiero, Gregorio, hacer.
Pergúnlale, quiero ver
Su saber,
Que, á segun su gesladura,
Es letrado en Ia scrüura.
Decid, padre, es gran pecado
üenodado
Andar iras Ias zagalejas
Y enchirles Ias orejas
De consejas
Por meterlas en cuidado?
Dejar entrar ei ganado
En Io vedado
Por andarlas namorando?
Estalo Dios oteando
Y asechando?
Si desto tiene cuidado,
Ni punto estará parado.
Que todos en mi lugar
A Ia par
Andan Iransidos de amores;
Los jurados, labradores
Y pastores,
Y aun ei crego á mas andar
lio veo resquebrajar
Y sospirar
Por Turibia dei Corral:
Decidme, fraile, es gran mal
Desigual,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO, 29
r

O se debe perdonar,
Pues se no puede escusar?
ERMITÃO.
Este inundo peligroso
Sin reposo
Nos trae á todos burlados,
Ciegos, mal aconcejados,
Desviados
De aquel reino glorioso.
Quien puede ser mas dichoso
Ni gozoso,
Que tener puesto ei querer,
El amor y su poder,
Sin torcer,
Neste nino inuy gracioso,
Puerto de nuestro reposo?
Quien se viere sojuzgado
Y apretado
De mundano pensamiento,
Contemple su naciinienlo:
Cuan contento
IiO verá desnudo echado,
De los frios traspasado,
Y adorado
De los brutos aniinales!
Luego olvidará los inales
Desiguales,
Que le presenta ei pecado.
GRE. Pecado es ser namorado?
VALERIO.
Crio Dios por Ia ventura
Hermosura
30 LIVRO I.

Para nunca ser amada?


Crióla demasiada
Para nada?
Como decis que es Iocura?
Mirad, ínirad Ia scritura:
Qué cordura
Hallareis mas amadora?
Dendê Adan hasta ahora
Nesta hora
Fue discreta criatura,
Que no siga esta ventura?
Si á Dios deslo pesara
No criara
Zagalas tan relu cientes :
Fueran prielas y sin dientes,
Y Ias frentes
Mas angostas que Ia cara;
Las narices le ensanchára,
Y achicára
Los ojos como hurones:
Nunca nuestros corazones
De pasiones
Nuestras vidas aterrara,
Ni de Dios nos apartara.
Esmeróse su poder
En hacer
Tan graciosas sus hechuras,
Que entre todas hermosuras
Son mas puras,
Mas dinas de obedecer.
Quien dejará de querer
Su valer,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 31

Pues son de nuestra costilla?


Que natura nos ensilla
Que no podemos torcer
De sujetos suyos ser.
Entra hum Cavalleiro, quevinha emcompanhia dos ReisMagos.
CAVALLEIRO.
Mantenga Dios los senores!
ERM. Dios loores!
VAL. Soncas, vengais norabuena.
Tú abaja Ia melena.
GRE. NO me pena.
CAV. Decidme, amigos pastores,
Sois sabidores
Si iré por aqui bien
Para ei lugar de Belen?
GRE. YO allá vo adó vais,
Y ando, asmo, como andais.
VALERIO.
Andad, senor, por aqui
Ó por allí.
CAV. Mira bien, pastor, que dices.
VAL. En frente de Ias narices
Á perdices
Andarás, prometo á mi.
CAV. Qué linage tan bestial!
Animal
Este bruto pastoriego!
VAL. Doy á rabia ei palaciego,
Por san pego
Que quizás por vueslro mal...
ERMITÃO.
Toda Ia descortesia
32 LIVRO I.

Es villanía.
Senor, de donde sois vos?
CAV. De Arábia. ERM. Bendígaos Dios!
GRE. Arábio sos?
CAV. Si, y perdi Ia companía
De una gran cabâlleria,
Que venía
A tino Iras una estrella,
Y ellos van en pos delia
Sin perdella;
Y alcanzarlos queria,
Fortuna me Io desvia.
ERMITÃO.
Y adonde van, si sabeis?
CAV. Van três Reis
Adorar con sentimíenlo
Y muy grande acatamienlu
El nacüniento
Del senor de todas greis.
En nuestra tierra sabreis,
Si quereis,
Que desde Balan se velaba
La serial que se esperaba,
Que mosíraba
El naciiniento que veis
Del senor de nuestras leis.
GREGORIO.
Decid, senor, qué estrella era?
ERM. Quien Ia viera!
CAV. ES muy reluciente estrella,
Y un nino en médio delia,
Muy mas que ella
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 33

Reluciente en gran manera:


Una cruz en su cimera
Por bandera.
GRE. Donde se vió tal senal?
CAV. Del monte vitoriai.
ERM. Oh divinal
Vitoria muy verdadera
De nuestra culpa primera!
O Profeta Isayas,
Bien decias.
Levántate á ser aluinbrado,
Hierosalen visitado
Y acatado!
Recibe tus alegrias,
Que Ia gloria dei Mesias,
Que querias,
Sobre ti es ya venida;
Y los reis de gran partida
Nobrecida,
Nel resplandor de tus dias,
En tus tierras los verias.
David nel salmo setenta ?t->w
Y uno cuenta,
Reis de Tarsis y Sabá,
Y ei de Arábia verná
Con humilda,
Muy gran compana sin cuenta,
Adorar sin mas afrenta
Muy contenta.
CAV. De oro Uevan gran presente,
Incenso, mirra excelente,
Humildemente.
3
Vol. i.
34 LIVRO I.

GnE. Mira bien, Valerio, atenta


Este senor que recuenta.
VALERIO.

Caballero relator,
Yo pecador,
Vilano, necio, bestial,
No pense que érades tal,
Y hablé mal,
De que tengo gran dolor.
CAV. YO te perdono, pastor,
Que ei Senor
Por cualquier culpa mortal
No pide ai ai pecador.
Apparecem os três Reis Magos cantando o seguinte
Vilancete.
"Cuando Ia Virgen bendita
"Lo parió,
"Todo ei mundo lo sentió.
"Los coros angelicales
"Todos cantan nueva gloria;
"Los três Reis Ia vitoria
"De Ias almas humanales.
"En Ias tierras principales
"Se sono,
"Cuando nuestro Dios nació."

E cantando assi todos juntamente, offerecem os Reis seus


presentes; e assi muito alegremente cantando se vão. E
acaba em breve, porque não houve espaço para mais.
F I G L R A S.
CASSANDRA.
SALOMÃO.
ERUTEA.
PERESICA.
CIMERIA.
ESAIAS.
MOYSES.
ABRAHÃO.

A obra seguinte foi representada á dita Senhora^ no


mosteiro de Enxobregas nas matinas do Natal. Tracta-se
nella da presumpção da Sibilla Cassandra, que, como por
espirito prophetico soubesse o mistério da encarnação, pre-
sumia que ella era a virgem de quem o Senhor havia de
nascer. E com esta opinião nunca mais quiz casar.
A Rainha D. Beatriz.

3*
ALTO DA SIBILLA CASSAIXD

Entra Cassandra, em figura de Pastora, dizenc


CASSANDRA.
Quien mete ninguno andar
Ni porfiar
En casainientos comigo!
Pues séame Dios testigo
Que yo digo
Que no me quiero casar.
Cual será pastor nacido
Tan polido
Ahotas que me meresca!
Alguno hay que me paresca
En cuerpo, visia y sentido?
Cual es Ia dama polida,
Que su vida
Juega, pues pierde casando,
Su libertad cautivando,
Otorgando
Que sea sieinpre vencida,
Desterrada en mano agena,
Sieinpre en pena,
Abatida y sojuzgada?
Y piensan que ser casada
Que es alguna buena estrena!
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 37

SALOMÃO.
Casandra, Dios te mantenga;
Y yo venga
Tambien mucho norabuena!
Pues te veo tan serena,
Nuestra estrena
Ya por mi no se detenga:
Y pues ya que estoy acá,
Bien será
Que diga á qué soy venido;
Y tanto estoy de ti vencido,
Que creo que se hará.
CASSANDRA.
No te entiendo. SAL. Anda, ven!
Que por tu bien
Te envian á llamar tus tias;
Y luego de aqui três dias
Alegrias
Ternas tú y yo tambien.
CAS. Que ine quieren?
SAL. Que me veas
Y me creas
Para hecho de casar.
CAS. Lo que de ahí puedo pensar,
Que ellas ó tú devaneas.
SAL. Somos parientes, ó que?
Bien se ve
Que soy yo para valer
Tal, que juro á mi poder
Que de no ser,
Ni esta paja me dé.
Yo soy bien aparentado
38 LIVRO I.

Y abastado,
Valiente zagal polido;
Y aun estoy médio corrido
De haber acá llegado.
Anda, si quieres venir!
CAS. Sin mentir,
Tú estás ruera de ti:
Lo que te dije hasta aqui,
Será ansí,
Aunque sepa de inorir.
SAL. No me ves? CAS. Bien te veo.
SAL. No te creo:
Pues no queres? CAS. No te quiero.
SAL. Casamiento te requiero.
CAS. Ya primero
Dije lo que es mi deseo.
SALOMÃO.
Que me dices? CAS. YO te digo
Que comigo
No hables en casamiento;
Que no quiero ni consiento,
Ni con otro ni contigo.
SAL. Quieres tú estar á cuenta?
CAS. Y nesa afrenta
Tengo contigo de estar?
No me quiero cautivar,
Pues nací horra y isienta.
SALOMÃO.
Tu tia misina me habló,
Y prometió
Muy chapado casamiento.
CAS. Otro es mi pensamiento.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 39

SAL. Pues yo siento


Que bien te meresco yo,
Y por eso vine acá.
CAS. Bien está.
SAL. Segun ei tu no querer,
Á mi ver,
Otro amor tienes allá.
CASSANDRA.
No quiero ser desposada
Ni casada,
Ni monja ni ermitana.
SAL. Díme, qué es Io que te engana;
Que esa sana
Empleas mal empleada.
Toma consejo comigo
O contigo,
Cuando sin pasion te veas;
Y mira lo que deseas,
Que razon trae consigo.
CAS. No pierdas tiempo comigo:
Yo te digo
Bien clara mi intencion.
SAL. Quien te viese ei corazon,
Por mirar mi enemigo,
Y saber porque razon!
CAS. NO tomes desto pasion
Ni alteracion,
Pues que no desprecio á ti;
Mas nació, cuando nací,
Comigo esta opinion,
Y nunca mas Ia perdi.
40 LIVRO I.

SALOMÃO.
Qué te hizo ei casamiento?
Es tonnento,
Que se da por algun hurto?
CAS. Y aun por eso le surto,
Porque es curto
Su triste contentamiento.
Muchos dellos es notório
Purgatório
Sin concierto ni templanza;
Y si algun bueno se alcanza,
No es médio placentorio.
Veo qnejar Ias vecinas
De malinas
Condiciones de maridos:
Unos de ensoberbecidos
Y aborridos,
Otros de médio gallinas,
Otros Uenos de mil celos
Y receios,
Sieinpre aguzando cuchillos,
Sospechosos, amarillos,
Y malditos de los cielos:
Otros á garzonear
Por ei lugar,
Pavonando trás garcetas,
Sin dejar Mancas ni prietas
Ni reprietas;
Y Ia muger? sospirar,
Despues en casa renir
Y grunir
De Ia triste allí cautiva.
DAS OBRAS DE DEVAÇAO. 41

Nunca Ia vida me viva,


Si tal cosa consentir.
Y pues eres cuerdo y sientes,
Para mieníes.
Muger quiere decir molleja;
Es ansí como una oveja
En pelleja,
Sin armas, fuerzas ni dienles;
Y si le falta sentido
Al marido
De Ia razon y virtud,
Ay de nina juventud,
Que en tales manos se vido!
SALOMÃO.
No soy desos, ni seré:
Por mi fe,
Que te tenga en velloritas.
CAS. Y con floritas
Piensas que ine engafiaré?
No quiero verme perdida,
Entristecida
De celosa ó ser celada.
Tirte afuera! no es nada?
Pues antes no ser nacida.
Y ser celosa es lo peor;
Que es dolor,
Que no se puede escusar.
De los vientos hace mar;
Y afirmar
Que ei blanco es de otra color;
De Ias buenas hace malas,
Con sus falas;
42 LIVRO I.

Y de los santos, Iadrones.


No quiero entrar en pasiones,
Pues que bien puedo escusarlas.
SALOMÃO.
Do seso hay no hay celuras,
Sino holguras;
Que ei seso todo bien da.
CAS. El seso es no ir allá.
SAL. Calla ya,
Que te receias á escuras.
CAS. Allende deso, sudores
Y dolores
De partos, llorar de hijos:
No quiero verme en letijos,
Por inas que tú ine namores,
SALOMÃO.
Yo voy llamar ai aldea
Erutea
Y á Peresica tu tia
Y á Cimeria; y tu porfía
Delante dellas se vea.
CAS. Y á mi que se me da!
Quien será,
Que me case á mi pesar?
Si yo no quiero casar,
A mi quien me forzará?
(Canta.)
"Dicen que me case yo;
"No quiero marido, no.
"Mas quiero vivir segura
"Nesta sierra á mi soltura,
"Que no estar en ventura
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 43

"Si casaré bien ó no.


"Dicen que me case yo;
"No quiero marido, no.
"Madre, no seré casada,
"Por no ver vida cansada,
r

"O quizá mal empleada


"La gracia que Dios me dió.
"Dicen que me case yo;
"No quiero marido, no.
"No será ni es nacido
"Tal para ser mi marido;
" Y pues que tengo sabido
"Que Ia flor yo me Ia só,
"Dicen que me case yo,
"No quiero marido, no."
Entra Erutea, Peresica e Cimeria, com o pastor
Salomão, em chacota, ellas d maneira de lavradoras, e
diz Cimeria a Cassandra.
CIMERIA.
Qué te parece ei zagal?
CAS. Ni bien ni mal,
Que no quiero casar, no.
Vosotras quien os metió
Que case yo?
Pues sabed que pienso en ai.
CIM. Tu madre en su testamento
(No te miento)
Manda que cases, que es bueno.
CAS. Otro casamiento ordeno
En mi seno:
Que no quiero ni consiento.
44 LIVRO I.

SALOMÃO.
Loco consejo lias tomado.
Estoy espantado!
Do se halló tal desvarío?
CAS. Mi fe, nel corazon mio;
Y lo fio,
Que no vó camino errado.
No quiero dar mi limpeza
Y mi pureza
Y mi libertad exenta,
Ni mi anima contenta,
Por sesenta
Mil millones de riqueza.
PERESICA.
Si tu madre eso hiciera!..
CAS. Bien, qué fuera?
PER. Nunca tú fueras nacida.
CAS. Yo quiero ser escogida
En otra vida,
De mas perfeta manera.
ERU. Escucha, sobrina mia:
Todavia
No puedes sino casar;
Y este debes tomar
•Sin porfiar,
Que es inuy bueno en demasia.
CASSANDRA.
Como ansí? ERU. E S generoso
Y virtuoso,
Cuerdo y bien asombrado:
Tiene tierras y ganado,
Y es loado
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 45

Músico muy gracioso.


SAL. Tengo pomares y vinas,
Y mil pinas
De rosas para holgares;
Tengo villas y lugares,
Y mas treinta y dos gallinas.
ERUTEA.
Sobrina, este zagal
Es real,
Y para ti está escogido.
CAS. NO lo quiero ni lo pido
Por marido:
Guárdeme ei Senor de mal!
CIM. Tú no ves como es honrado
Y sosegado,
Cuanto otro lo será?
CAS. Qué sé yo si mudará,
O que hará
Cuando se vea casado!
Oh cuantos ha hí solteros
Placenteros,
De inuy blandas condiciones,
Y casados son leones
Y dragones,
Y diablos verdaderos!
Si Ia muger, de sesuda,
Se hace muda,
Dicen que es boba perdida;
Si habla, luego es herida:
Y esto nunca se muda.
SALOMÃO.
Muy entirrada está!
46 LIVRO I.

Hien será
Que no le digamos mas.
Pues tú te arrepentirás,
Y querrás,
Cuando ei diablo no querrá.
ERU. Muy mas ayna quizá
Se hará,
Si Ia servieses de amores.
SAL. Qué moza para favores!
No veis que respuesta da?
PERESICA.
Si tus tios allegasen,
Y le hablasen,
Que son hoinbres entendidos...
CIM. Pardiez son, y bien validos
Y sentidos!
Bien sé yo que lo acabasen.
SAL. Quiérolos ir á Ilamar
Al lugar:
Veremos esto en que para;
Aunque ella se declara
Por tan cara,
Que ha de ser dura de armar.
Traz Salomão Esaias e Moyses e Abrahão
tando todos quatro de folia a cantiga seguinte.
'•'•Que saiíosa está Ia nina!
"Ay Dios quien le hablaria!"
Volta.
"En Ia sierra anda Ia nina
"Su ganado á repastar;
"Hennosa como Ias flores,
"Sanosa como Ia mar.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 47

"Saiíosa como Ia mar


"Está Ia nina:
"Ay Dios, quien le hablaria!"
ABRAHÃO.
Digo qne esteis norabuena!
Por estrena
Toma estas dos inanijas.
MOY. Y yo te doy estas sortijas
De mis hijas.
ESA. Yo te doy esla cadena.
SAL. Dartehía yo bien sé qué,
Mas no sé
Cuanto puede aprovechar.
ERU. Muchas cosas hace ei dar,
Como contino se ve.
CASSANDRA.
Téngome de captivar
Por ei dar?
No me engano yo ansí.
Yo digo que prometi
Solo de iní,
Que no tengo de casar.
MOY. Blasfemas; que ei casamiento
Es sacramento,
Y ei primero que fué.
Yo Moysen te lo diré
Y contaré
Donde hubo fundamento.
En ei principio crio
Y formo
Dios ei cielo y Ia tierra,
Con cuanto en ello se encierra:
48 LIVRO I.

Mar y sierra
De nada lo edificó.
Era vácua y vacía,
Y no habia
Cosa por quien fuese amado.
Ei spírito no criado
Sobre Ias águas lucía.
Fiat luxl luego fue hecha
Muy prehecha,
Sol y Luna y Ias estrellas,
Criadas claras y bellas
Todas ellas
Por regia justa y derecha.
Al Sol dióle compafiera
Por parcera,
De una luz de ambos guarnidos,
Dominados y medidos
Cada uno en su carrera.
Hagamos mas, dijo ei Senor
Criador,
Hombre a nuestrasemejanza,
Angélico en Ia esperanza
Y en lianza,
Y de lo terrestre — senor.
Luego le dió compafiera
En tal manera
De una gracia ambos liados,
Dos en una carne amados,
Como si ambos uno fuera.
El mismo que los crio,
Los caso,
Y troto ei casamiento;
DAS OBRAS DE DEVAÇÂO. 49

Y por su ordcnainiento
Es sacramento,
Que ai inundo estableció.
Y pues fue casamentero
El primero,
Y es lei determinada;
Como estás tú entirrada,
Diciendo que es captivero?
CASSANDRA.
Que cuando Dios los hacía
Y componía,
En esos tales no hablo:
Mas en aquellos que ei diablo
En su retablo
Hace y ordena cadaldia.
Por codicia los ayunta,
Y no pergunta
Por otra virtud alguna;
Y despues que Ia fortuna
Los enfuna,
Toda gloria le es defunta.
Si yo me casase agora,
Dendê á una hora
No querria ser nacida.
No tengo mas de una vida;
Y, sometida,
Diz, Casandra, tirte afuera.
Marido? ni aun sonado,
Ni pintado.
No cureis de porfiar,
Porque para bien casar
No es tiempo concertado.
50 LIVRO I.

ABRAHÃO.
Y si cobras buen marido,
Comedido,
Y nunca apasionado?
CAS. Nunca? estais inuy errado,
Padre honrado,
Porque eso nunca se vido.
Como puede sin pasion
Y alteracion
Conservarse ei casamiento?
Múdase ei contentamiento,
En un momento,
En contraria division.
Solo Dios es perfeccion:
Si en razon
La verdad quereis que hable;
Que ei hombre todo es mudable
Y variable,
Por humanai complision.
Pero yo quiero decir
Y descubrir
Porque virgen quiero estar:
Sé que Dios ha de encarnar,
Sin dudar:
Y una virgen ha de parir.
ERUTEA.
ESO bien ine Io sé yo,
Y cierta só
Que en un presepe ha de estar;
Y Ia madre ha de quedar
Tan virgen como nació.
Tambien sé que de pastores
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 51

Labradores
Será visto y de Ia gente;
Y le traerán presente
Del Oriente
Grandes Reis y sabedores.
CIMERIA.
Yo, dias ha, que hei sofiado
Y barrunlado,
Que via una virgen dar
r

A su bijo de mamar,
Y que era Dios humanado;
Y aun despues ine parecia
Que Ia via
Entre mas de mil doncellas;
Con su corona de estrellas
Mucho bellas,
Como ei sol resplandecia.
Nunca tan glorificada
Y acatada
Doncella se pudo asmar,
Como esta virgen vi estar;
Ni su par
No fue ni será criada.
De sol estaba guarnida,
Percebida,
Contra Lucifer armada,
Con virgen arnés guardada,
Ataviada
De inalla de santa vida.
Con leda cara y guerrera,
Placentera,
El resplandor piedoso,
52 LIVRO I.

El yehno lodo huniildoso,


Y Mater Dei por cimera:
Y ei nino Dios estaba,
Y Ia llamaba,
Madre y madre, á boca llena;
Los ángeles, grafia plena
Muy serena;
Y cada uno Ia adoraba,
Diciendo: "Rosa florida
Esclarecida,
Madre de quien nos crio!
Loado aquel que nos dió
Reina lan santa nacida."
ERU. Peresica, tú nos decias
Que sabias
Desta virgen y su parto.
PER. Mi fe dello sé bien harto
Y reharto:
Llena estoy de profecias.
Einpero son de dolor:
Que ei senor,
Estando á veces mamando,
Tal via de cuando en cuando,
Que no mamaba á sabor:
Una cruz le aparecia,
Que él temia,
Y lloraba y suspiraba.
La madre lo halagaba,
Y no pensaba
Los tormentos que él via:
Y comenzando á dormir,
Via venir
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 53

Los azotes con denuedo;


Estremecia de iniedo.
Y no puedo
Por ahora mas decir.
CAS. YO tengo eu mi fantasia,
Y.juraria
Que de mi ha de nacer;
Que otra de ini merecer
No puede haber,
En bondad ni hidalguía
ABHAHÃO.
Casandra desvaría.
ESA. Yo diria
Que está muy cerca de loca,
Y su cordura es muy poça,
Pues que toca
Tan alta descortesia.
SAL. El diablo ha de acertar
r

A casar;
Por mi alma y por mi vida,
Que quien Ia viera sabida
Y tan leida,
Que se pudiera enganar.
Casandra, segun que mucstra
Esa respuesta
Tan fuera de conclusion,
Tu loca, yo Sáloinon,
Daine razon,
Qué vida fuera Ia nueslra?
CAS. Aun en mi seso esto:
Que soy yo.
ESA. Cállate, loca perdida,
54 LIVRO I.

Que desa madre escogida


Otra cosa se escrevió.
Tú eres delia ai revés,
Si bien ves:
Porque tú eres humosa,
Soberbia y presuntuosa,
Que es Ia cosa
Que mas desviada es.
La madre de Dios sin par,
Es de notar,
Que humildosa ha de nacer,
Y humildosa conceber,
Y humildosa ha de criar.
Las riberas y verduras
Y frescuras
Pregonan su hermosura,
La nieve Ia su blancura
Liinpia y pura,
Mas que todas criaturas:
Lírios, flores y rosas
Muy preciosas
Procuran de seinejalla;
Y en ei cielo no se halla
Estrella mas luminosa.
Antes santa, que engendrada;
Preservada
Antes reina, que nacida;
Eternalmente escogida,
Muy querida,
Por madre de Dios guardada.
Por virtud reina radiosa,
Generosa;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 55

Por gracia emperadora,


Por humildad gran senora,
Y hasta ahora
No se vió tan alta cosa.
ESALAS.
El su nombre es Maria,
Que desvia
De ser tú Ia madre dél:
Y ei hijo Emanuel
Manteca y miei
Comerá como yo decia.
ABR. Dos mil veces Io decias,
Que ei Mesías
Será Dios vivo en persona,
Y aun te juro á mi corona,
Ahotas que no inentias.
MOYSES.
Y tú tambien, Salomon,
Huen garzon,
Los cantares que hacias
Todos eran profecias;
Que decias
Delia y de su perfeccion:
'•'•Formosa columba mea,
Quien te vea,
De vista ó á sentido,
Gócese por ser nacido,
Por fuerte zagal que sea."
ABRAHÃO.

Si hubiésemos de declarar
Y platicar
Cuanto delia está escrito,
56 LIVRO I.

Seria cuenío infinito,


Que ei spiríto
No puede considerar.
Tudo fue profetizado
Por mandado
Daquel hacedor dei inundo,
Hasta aquel dia profundo,
No segundo,
Mas prostero, es divulgado.
ERUTEA.
Deso profetó Africana.
PjEn. Y lú, hermana,
Dese juicío hablaste,
Escrívisté y declarasie
Cuanto baste
Para informa ciou humana;
Pero cuando ha de ser,
Es de saber.
ERU. Las senales os diré,
Porque las sé
Muy cíertas y bien sabidas.
PER. Ansí Dios te dé iníl vidas
Que las digas,
Y yo te Io serviré.
ERUTEA.
Cuando Dios fuere ofendido
Y no temido,
Generabnente olvidado;
No será mucho alongado,
Mas llegado,
El juicío prometido.
Cuando fuere leal Ia d
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 57

Y Ia verdad
Despreciada y no valida,
Cuando vieren que Ia vida
Es abatida,
Del que sigue Ia bondad;
Cuando vieren que justicia
Está en malícia,
Y Ia fe fria, enechada,
Y Ia Iglesia sagrada
Captrvada
De Ia tirana codicia;
Cuando vieren irabajar
Por levantar
Palácios demasiados,
Y los pequenos menguãdos
Desolados;
No puede mucho tardar.
Y cuando vieren perdida
Y consumida
La vergüenza y Ia razon,
Y reinar Ia presuncion;
Nesta sazon
Perderá ei inundo Ia vida.
Y cuando mas segurado
Y olvidado
De Ia fin él mismo sea,
En aquel tiempo se crea,
Que ha de ser todo abrasado.
Abrem-se as cortinas onde está todo o apparato do
Nascimento, e cantão quatro Anjos.
"Ro ro ro
-Nueslro Dios y Redentor,
58 LIVRO I.

"No lloreis, que dais dolor


"Á Ia virgen que os parió.
"Ro ro ro.
"Nino hijo de Dios Padre,
"Padre de todalas cosas,
"Cesen las lágrimas vuesas,
"No llorará vuestra madre,
"Pues sin dolor os parió.
"Ro ro ro,
"No le deis vos pena, no.
"Ora, nino, ro ro ro,
"Nuestro Dios y Redentor,
"No lloreis, que dais dolor
"Á Ia virgen que os parió.
"Ro ro ro."
MOYSES.
Naquel cantar sento yo,
Y cierto só,
Que nuestro Dios es nacido;
Y Hora por ser sabido
Y conocido,
Que es de carne como yo.
CIM. Yo ansí Io afirmaria
Y juraria;
Que lo deben estar brizando,
Y los ángeles cantando
Su divinal melodia.
ESAIAS.
Pues vámoslo adorar,
Y visitar
EI recien nacido á nos:
Verán nuestros ojos dos
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 59

Un solo Dios,
Nacido por nos salvar.
Vão cantando em chacota, e chegando ao presépio diz
PERESICA.
Erutea, ves allí
Lo que vi,
La cerrada flor parida.
ABR. Oh vida de nuestra vida,
Guarecida
Y remediada por ti!
A ti adoro, Redentor,
Mi senor,
Dios y hombre verdadero,
Santo y divino cordero,
Postrimero
Sacrifício inayor!
MOYSES.
Oh pastorcico nacido,
Muy sabido,
De tu ganado cuidadoso,
Contra los lobos sanoso,
Y piedoso
Al rebano enflaquecido!
Por Ia tierna carne humana,
Nuestra hennana,
Que en ese brizo sospira,
Que nos libres de tu ira,
Y las animas nos sana!
SALOMÃO.
Qué oracion, Dios, te harán,
Qué dirán!
Oh gran Rei desde ninito
60 MVRO I.

Por natureza bendito,


Infinito,
Ab eterno capitan,
De celeste império heredero
Por enlero,
De deidad coronado!
Adórote, Dios humanado,
Y por nos hecho cordero!
ESAIAS.
Adórote, santo Mesías!
En mis dias
Y para sieinpre te creo,
Pues con mis ojos te veo
En tal aseo,
Que cuinples las profecias.
Nino, adoro tu alteza
Con firmeza;
Y pues no tengo desculpa,
A tus pies digo mi culpa,
Y confeso mi flaqueza.
CASSANDRA.
Senor, yo, de ya perdida
Nesta vida,
No te oso pedir nada,
Porque nunca dí pasada
Concertada;
Ni debiera ser nacida.
Virgen y madre de Dios,
A vos, á vos,
Corona de las mugeres,
Por vuestros siete placeres,
Que quieras rogar por nos.
DAS OBRAS DE DEVAÇÂO. 61

CIMERIA.
Espejo de generaciones
Y naciones,
De Dios hija, madre y esposa,
Alta Reina gloriosa,
Especiosa,
Cumbre de las perfecciones!
Oh estrada en campos llanos
De humanos
Sospiros á ti comentes,
Oidora de las gentes,
Encomiéndome en tus manos!
PERESICA.
Oh clima de nuestro polo!
Un bien olo,
Planeta de nuestra gloria,
Influencia de vitoria:
Por memória
Nuestro sino laureolo.
ERU. Ave, stella matutina,
Bella y dina!
Ave, rosa, blanca flor!
Tú pariste ei Redentor,
Y tu color,
Del parto quedo mas fina.
Acabada assi sua adoração cantarão a seguinte cantiga, feita e ensoada
pelo atitor.

TODOS.
"Muy graciosa es Ia doncella:
"Como es bella y hennosa!
"Digas tú, ei marinero,
"Que en las naves vivias,
62 LIVRO I.

"Si Ia hâve ó Ia vela ó Ia estrella


"Es tan bella.
"Digas tú, ei caballero,
"Que las armas vestías,
"Si ei caballo ó las armas ó Ia guerra
"Es tan bella.
"Digas tú, ei pastorcico,
"Que ei ganadico guardas,
"Si ei gana do ó las valles ó Ia sierra
"Es tan bella."
Isto bailado de terreiro de três por três: e por despedida o vilancete seguinte.

Vilancete.
"Á Ia guerra,
" Caballeros esforzados;
"Pues los ángeles sagrados
r

"A socorro son en tierra.


"A Ia guerra!
"Con armas resplandecientes
"Vienen dei cielo volando,
"Dios y hombre apelidando
"En socorro de las gentes.
"Á Ia guerra,
"Caballeros esmerados;
"Pues los ángeles sagrados
"A socorro son en tierra.
"A Ia guerra!"
F I G L R A S.

FÉ.
BRAZ.
BENITO.
SYLVESTRE.

A seguinte representação foi representada em Almeirim


ao mui poderoso Rei D. Manuel. Cuja invenção he, que
estando nas matinas do Natal, enlrão dous pastores simpres
na capella; e estando maravilhados no pontificai de todas
aquellas cousas, entra a Fé*, que lhe declara a significação
dellas.
ALTO DA FE.

Entra primeiramente um pastor chamado Brt


assi aquella festa, chama seu companheiro, dizem
BRAZ.
Benito, aqui está Ia boda.
BEN. Ha, no te le dije yo?
Juro á diez que allá me vó.
BRA. Aqui está Ia gente toda.
BEN. Cuantos que estes zotes son,
r

O cregos ó son personas.


BRA. Mas que monton de coronas!
Bendígalos santo Anton.
BENITO.
Quien supiese deslindar
Cual es crego ó sancristan!
BRA. De mil relleas eslan.
BEN. Cata, mas ha hi que mirar:
Qué sinifíca esta mesa
Con tanta retartanilla?
BRA. Bobo, es cama á for de villa,
Chaqueada á Ia francesa.
BEN. Cuerpo de santa Pipía!
Sabes mas que tú ni yo.
BRA. YO atabobado esto
De ver tal negroinancía!
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 65

Sabrásme tú rellatar
Que declinan estas lumbreras?
Son candeias ó bugeras?
IRA. NO lo sé pronunciar.
Son^palos daquel natío,
m Sonçjis nacen no sé donde.
IEN...NÍ jota n,04,se te esconde;
Pelletras mas que tu tio.
JRA. Oh que cosa tan garrida
Es aquello que allí está!
ÍEN. Y aquello qué sara?
JRA. Nunca tal vi en mi vida.
Juro á diez, mas bobo esto
Que ei triste que anda en aprifo.
No te quellotras, Benito?
SEN. Mas que tú bobeo yo:
No hago sino pensar,
Maginando nesta fiesta.
ÍRA. Es aquello ciesto ó ciesta,
O artesã de amasar ? *
BENITO.
Que es aquella sevandija
Amarilla incrucijada?
IRA. Será serpiente encantada,
O es negocio de igrija?
O sabes lo que será?
Donde deslindan los pleitos.
JEN. Ternas inuy grandes respetos,
Si Dios Ia vida te da.
Hideputa, como aciertas!
Y pareces bobillon.
* Pola caldeira da água benta.
5
Vol. I.
66 HVKO 1.

BRA. Está quedo, neciarron:


Siempre andas con gingretas.
BEN. Pelletreinos poço á poço,
Que infinita aqui está gente
Tan alegre y tan contente,
Quellotrada de alvorozo.
BRAZ.
Aquellas inágines seran?
BEN. Qué pegullal tan garrido!
BRA. Parece piado florido,
La inanana de San Juan.
BEN. Hay aqui tanto que ver,
Que me siento atabobado.
BRA. Quien hallár-a algun Uetrado,
Que supiera esto entender.
Vem a Fé, e diz Benito,
BENITO.
Esta que viene repieada,
Quellotrada á Ia morisca,
Nos dirá que senefisca,
Que ella debe ser lletrada.
BRA. Y ella hace revellada.
BEN. Cata, cata como está.
BRA. Quien será que viene acá?
Es imagine sagrada.
BENITO.
Ha! no plaga á nuestros amos,
Y no pese no de nos,
Que no hecimos los dos
Revellencia, cuando entramos.
BR v. Llugo, Hugo te quellotras!
Bien se puede corregir:
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 67

Tornémonos á salir,
Y revelleinos ahotas.
BENITO,
Tú, Brás, harás Ia entrada.
BRA. Mas entremos par á par,
Porque nos cumple animar
Al dar de Ia revellada.
Comenceinos á Ia una.
BEN. Tente, tente sobre ti.
BRA. Si tú te piegas á mi,
Diablo, bestia ovejuna!
lia inesura bien está:
Las manos tambien pongamos.
BEN. Porque no nos asentainos?
BRA. El diablo acertará.
BEN. Tú no ves como está ella?
BRA. Ora ponte tú, veremos.
BEN. Cuinple que nos debloqueinos,
Y tengamos ojo en ella.
BRAZ.
Está hablando entre dientes.
Haces burla dei verano!
BEN. Ya se ine hincha una mano:
Y tú, carülo, qué sientes?
BRA. Las rodüias entumidas,
Las piernas ine estan temblando.
BEN. Ella que está inaginando?
BRA. Tiene las mientes perdidas.
BENITO.
Levantémonos de aqui:
Nosotros bobos estamos.
Vamos á ver nuestros amos.
5*
68 LIVRO I.

HRA. NO ine tengo de ir ansí.


Sepainos desta zagala
Quien es, y lo que fiííita.
O zagaleja bendita,
Quien sois vos de tanta gala?
No hablais? pues no sois muda*
BEN. Espera; ya se levanta.
BRA. Tanta revellencia, tanta!
BEN. Júri á san que es resesuda.
FÉ. Vós outros, que demandais ?
BRA. Nosotros qué os queremos?
Si á nos lo perguntais,
Nosotros no lo sabemos.
FÉ,
A divinal claridade
Seja em vosso entendimento,
E vos dê conhecimento
De sua natividade.
BRA. Mas quien sois vos, ó quien seres?
FÉ. Pastores, eu sain a Fé.
BRA. Ablenuncio Satané!
Fá ni fé no sé que se es.
FÉ.
Fé he crer o que não vemos,
Pela glória que esperamos";
Amar o que não comprendemos,
Nem vemos nem conhecemos,
Para que salvos sejamos.
BRA. Ahora lo entiendo menos:
Rellata eso mas claro;
Que perjuro á Santo Amaro,
Que ni punto os entendemos.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 69

FÉ.
Fé he amar a Deos, so poi? elle,.
Quanto se pode amar,
Por ser elle singular,
Não por interesse delle:
E se mais quereis saber,
Crer na Madre Igreja sanctar
E cantar o que ela canta,
E querer o que ella quer.
BENITO.
El que pergunta no yerra:
Qué es aquella encrucijada,
Que allí está tan replicada,
Que seineja roble en sierra?
FÉ. Aquella he a arvore da vida.
BRA. NO desiludais como ha nombre?
Y qué hace alli aquel hombre
Puesto y Ia color perdida?
FÉ.
AqueHa he a cruz preciosa,
Para sempre esclarecida,
Para os perigos desta vida,
E nao da salvação nossa.
O homem se chama Jesu,
Messias, Rei, Salvador,
Deos e homem, Redemptor;
(Não sei se o entendes t u )
Deos he seu nome maior.
BRAZ.
Mi amo ha nombre tambien
Pero Alonso, y Pero Matos,
Y Perazo lo llainan liados.
70 LIVRO I.

Ansí como á mano vien.


Allá en nuestro lugar,
Si no viene lluvia ni vella,
Toman una como aquella
Nuestros amos* á clamar
Ora pro nubes, ora pro nubes;
Y Ias mugeres ansí
La que mas gritillo tiene:
La lluvia ni va ni viene,
Y Ia cruz estáse ahi.
BEN. Vámonos; anda ca, Brás,
Ya gran rato que aqui estamos;
Bien conoces nuestros amos:
Anda, no cures de mas.
BRAZ.
No sabrás primero, dí,
Aquesta gente baldia
Si dormieron todo ei dia,
O qué noche es esta aqui?
BEN. Ella es noche de alegria;
Ninguno está aqui sonoliento.
FÉ. He noute do nascimento,
Em que Deos mostrou seu dia.
He noute de gran memória,
Noute em dia convertida,
Escuridão consumida
Com gran resplandor de glória:
No meio mais luiniosa
Que no mundo nunca viste,
E de escura, fria e triste,
A mais doce e gloriosa.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 71

Oh noute favorecida
De memorável coroa,
Vista de Deos em pessoa,
Começando humana vida!
Dos anjos toda cercada,.
Dos elementos servidaT
Do Padre e Filho escolhida,.
Do Sprito Sancto espiradal
BRAZ.
Que no os entiendo, no,
Ni sé que cosas baldais.,
Si mas no lo aclarais.
Como estava me esto.
Si es noche de navidá,.
Esa es otra sevandija;
Mas no veo en nuestra igrija
Esto ansí como aqui eslá.
FÉ.
Haveis de crer firmemente
Tudo quanto vos disser
Os que salvos quereis ser
Naquesta vida presente:
Crede o sancto nascimento,
Ser Deos da Virgem nascido,
Verbo de Deos concebido
Para novo testamento.
E que a Virgem gloriosa
Ficou lal como nasceo;
E sem dor appareceo
A nossa flor preciosa,
Deos em toda perfeição,
Homem para padecer,
72 LIVRO I.

E tirar a Lucifer
Toda sua jurdição.
BRAZ.
Qué anos ha que acaeció?
FÉ. Mil e quinhentos e dez.
BRA. Y ahora nace otra vez ?
De mil anos se acordo!
Quizá si hoinbre allá se bailara
FÉ. Tanto monta se agora
Contemplares aquella hora
Como se agora passara.
Pastor, faze tu assi:
Começa de ünaginar
Que ves a Virgem estar
Como se estivesse ahi:
E esta Virgem mui ornada,
De pobreza guarnecida,
De raios esclarecida,
De joelhos humilhada:
E que ves diante delia
Huin menino então nascido,
Filho de Deos concebido
Naquella sancta donzella.
Ve o menino chorar,
E a Senhora affligida,
Sem ter cousa nesta vida,
Nem pannos para o pensar:
Na mangedoura mettido
Em pobre palha chorando,
E os anjos embalando
O menino entanguecido.
BRA. Con eso se me acordo
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 73

Que cuando parió mi ama


Chapuzada allí en Ia cama
Todos los huevos comió.
Y iú, Benito? BEN. Maginava
Que era aquello bien de ver,
Ver á nuestro Dios nacer:
Y en esto me espipitava.
Decidnos, Senora vos,
Porque tan pobre nacia?
Todo ei inundo no tenia
Por suyo, pues era Dios?
FÉ.
Por mostrar que a pobreza
Actual e spritual
He o toque principal
Da celestial riqueza:
Porque he porta da humildade,
Caminho da paciência,
Horto da sancta prudência,
Esteio da sanctidade.
He abrigo dos cuidados,
E de mundanas mudanças,
Forra de vans esperanças
Dos homens desesperados.
Da Fortuna vencedora,
D'adversidades isenta,
Nao segura na tormenta,
Que tem porto cada hora.
Portanto a Virgem real,
Per geração generosa,
Foi a mais pobre e humildosa
De todo o gênero humanai.
74 LIVRO I.

E assi o verbo do Padre


Ecce ancilla concebido
Pobre humilde foi nacido,
Bem parecido á madre.
Sentindo nossa miséria,
Chorava o sancto menino,
Cuberlo, occulto o divino
Daquella fraca matéria.
E porque elle he dado a nós,
Cujo império he eternal,
Faz esta corte real
A festa que vedes vós.
Vós outros também cantai
Por vosso uso acostumado
Como lá cantais co'o gado:
Ambos de dous começai.
BHA. Cantiquemos por San Polo.
BEN. Abrenuncio nos a maio !
Ora pues tenme este paio,
Verás como canto solo.
"No no no no no no
"No no no
Que no quiero estar en casa;
"No me pagan mi soldada
"No no no, que no que no.
"No me pagan ini soldada,
"No tengo sayo ni saya
"No no no, que no que no."
Ha Sylvestre! SIL. Héme aqui,
BHA. Adó diablo estabãs?
SYL. Bien oi lo que hablabas,
Y aun esotra, que está abi.
DAS OBRAS DE DEVAÇAO. 75

BRA. Viste tanto zote ya?


No ha poder que no te asoinbres.
SYL. Mas ha cregos, que no hombres;
Mas á nos qué se nos da.
Yo y estos três companeros,
Pues que es noche de alegria,
Cantaremos melodia,
Mejor que cuatro gaiteros.
BRA. Vos, prehecha Fé sagrada,
Vida de nuestro consuelo,
Pues nos mostrastes ei cielo,
Seais por sieinpre loada.

Cantão a quatro vozes hüa enselada que veio de França,


c assi se vão com ella, e acaba a obra.
FIGLRAS.
VERÃO.
INVERNO.
ESTIO.
OUTONO.
JÚPITER.
HUM SERAPHIM.

Dous ANJOS, e hum Archanjo.

Esta seguinte obra se chama dos Quatro T


representada ao mui nobre e próspero Rei D. J\
cidade de Lisboa, tios paços de Alcaceva, na *
San Miguel, por mandado da sobredita Senhora i
nas matinas do Natal.
ALTO DOS QLATRO TEMPOS.

Entra o Seraphim dizendo ao Archanjo e dous


Anjos, que vem com elle.
SERAPHIM.
Nuevo goso, nueva gloria,
Criada en ei seno eterno,
Es llegada:
Gran mudanza, gran vitoria
Por nuestro Dios sempiterno
Nos es dada.
La clara luz anciana
Mudada, bocha moderna
En nuevo trage,
Y Ia bondad soberana
Se alegra en Ia edad lierna
Sin ultrage.
Nuestro goso se acrecienta,
Nuestra gloria va pujando
Neste dia;
Y Ia infernal serpienta
Ya privando va dei mando,
Que tenia
Los secretos abrazados,
Muy mas que puedo deciros,
Revelados.
78 LIVRO I.

Las paces son acabadas,


Y los antigos sospiros
Son cesados.
Ya ei inundo tenebroso
Reluinbra por las alturas
Dó salió,
Porque ei obrador poderoso
Exalzó las criaturas,
Que crio:
La clara obra infinita,
Infinitamente obrada
Y obradora,
Quiso su bondad bendita
Que fuese manifestada
Nesta hora.
El infinito amador,
Infinitamente amando
Cosa amada
De infinito valor,
Supo donde, quiso cuando
Ser mostrada.
Y ei amor mediante,
Por do ei amador y amado
Son liados,
Es plantado en un infante
Con ei Padre en un estado
Concordados.
Pues vámosle á ver nacido,
Veremos como está puesto
El infinito
De humana carne vestido,
De huesos, niervos compuesto.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 79

Tamafiito
Veremos como se inuestra
Recien nacido de ahora,
Poço ha;
Veremos Ia reina nuestra,
Nuestra gran superiora,
Cual está.
Vamos ver pulcra y decora
Como está, clara y lumbrosa,
Descansada;
Vamos ver nuestra senora,
lia mas bella y graciosa,
D esposada.
Vamos ver Ia clara silla
Eternalmente guardada
En alto grado;
Vamos ver Ia sin mancilla,
Vamos ver Ia preservada
De pecado:
Emperatriz soberana,
De todo cuento dei viso
Angelical,
Reina dei cielo á Ia liana,
Senora dei paraíso
Terrenal:
La gran princesa sin falta
Deste valle lacrimoso,
Donde mora
lia gran Duquesa muy alta
De Ia paz y dei reposo,
Desde ahora.
Vamos ver con que doncellas,
80 LIVRO I.

Con que galas, con que arreos,


La lia liamos,
La madre de las estrellas,
Cumbre de nuestros deseos
Que esperamos.
Llegueinos darle loores,
Vamos servir su Alteza
Esclarecida;
Que no terna servidores,
Segun siempre amó pobresa
En esta vida.
Chegando todos as quatro» figuras, s. o Seraphim,
Anjos e Archanjo, ao presépio, adorão o Senhor, can-
tando o seguinte
Vilancete.
"A ti, dino de adorar,
"A ti, nuestro Dios, loamos,
"A ti, senor, confesamos
" Sanctus, sanctus, sin césar.
"Inmenso Padre eternal,
" Omnis terra honra á ti,
"Tibi omites aiigeli,
" Y ei coro celestial,
"Pues que es díno de adorar
"Querubines te cantamos,
"Arcángeles te bradamos
"Sanctus, sanctus, sin césar.
E depois da adoração dos Seraphins âfc. vem os quatro
Tempos, e primeiramente vem hum pastor, que significa o
Inverno, e vem cantando.
INVERNO.
"Mal haya quien los envuelve
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 81

"Los mis amores:


'•>

"Mal haya quien los envuelve."


Ora pues, ea rabiar,
Grama de Val de Sogar,
Que no ha hi pedernal
Ni aparejo de calentar:
Vienta mas recio que un fuele,
De parte dei reganon;
Enfríame ei corazon,
Que no ama como suele.
"Mal haya quien los envuelve
"Los mis amores;
u
Mal haya quien los envuelve."
La lluvia como desgrana!
Doy á rabia ei mal tempero:
Aquesto no lleva apero
Para que Hegue á ínanana.
Mal grado haya Ia nieve,
Que mis amores, Qtriste yo!)
Cuando yo mas firme esto,
No los hallo como suele.
"Mal haya quien los envuelve
"Los mis amores;
"Mal haya quien los envuelve."
Las unas traigo perdidas,
Los pies llenos de frieras,
Mil rabias de mil maneras
Traigo en ei cuerpo metidas:
Tengo ei hielo en los huesos,
Muérenseme los corderos.
"Los mis amores primeros
"En Sevilla quedan presos:
Vol. I.
82 LIVRO I.

"Los mis amores


"Mal haya quien los envuelve."
Oh qué friasca nebrina,
Graniso, lluvia, ventisco!
Todo me pierdo abarrisco,
El cierzo ine desatina:
Mis ovejas y carneros,
De niebla, no sé qué es dellos.
"En Sevilla quedan presos
"Por cordon de mis cabellos
"Los mis amores:
"Mal haya quien los envuelve."
Todo de frio perece;
Las aves todas se fueron,
Las mas dellas se sumieron,
Que ninguna no parece;
Ni cigueiías, ni milanos,
Ni pitorras, jilgueritos,
Tórtolas y pajaritos,
Y mis amores íamanos.
"En Sevilla quedan ambos
"Los mis amores:
"Mal haya quien los envuelve."
Hideputa! que tempero
Para andar enamorado,
Repicado y requebrado,
Con Ia hija dei herrero!
Los borregos de mis amos,
La burra, hato y cabana,
Con Ia teuipestad tainana,
No sé adó los dejamos.
"En Sevilla quedan ambos,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 83

"Sobre ellos armaban bandos


"Los mis amores:
"Mal haya quien los envuelve."
Quiérome hechar á dormir,
Ver si puedo calentar.
Ora pues, ea rabiar,
Que no tengo de morir.
Por mal trage que me des,
No me ha de matar desmayo.
Oh quien me ora ca mi sayo,
Para cubrirme estos pies!
VERÃO. ( cantando.)
"En Ia huerta nace Ia rosa:
"Quiérome ir allá,
"Por mirar ai ruisenor
"Como cantaba."
Afuera, afuera, nublados,
Neblinas y ventisqueros!
Reverdeen los oteros,
Los valles, sierras y prados!
Reventado sea ei frio,
Y su natío:
Salgan los nuevos vapores,
Píntese ei campo de flores
Hasta que venga ei estío.
"Por las riberas dei rio
"Limones coge Ia virgo:
"Quiérome ir allá,
"Por mirar ai ruisenor
"Como cantaba."
Suso, suso, los garzunes
Anden todos repicados,
6*
84 LIVRO I.

Namorados, requebrados:
Renovar los corazones!
Agora reina Cupido,
Desque vido
La nueva sangre venida:
Agora da nueva vida
Al namorado perdido.
"Limones cogia Ia virgo
"Para dar ai su amigo.
"Quiérome ir allá,
''Para ver ai ruisenor
"Como cantaba."
Como me extiendo á placer!
O hideputa zagal,
Qué tiempo tan natural
Para no adolecer!
Cuantas mas veces me miro
Y me reiniro,
Véome tan quülotrado,
Tan lúcio y bien asoinbrado,
Que nunca lacer me tiro.
"Para dar ai su amigo
"En un sombrero de sirgo.
"Quiérome ir allá,
"Por mirar ai ruisenor
"Como cantaba."
Las abejas cobneneras
Ya me zunen los oidos,
Paciendo por los floridos
Las flores mas placenteras.
Cuán granado vieneíel trigo!
Nuestro amigo,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 85

Que pese á todos los vientos,


Los pueblos trae contentos,
Todos estan bien conmigo.
El sol, que estaba sumido,
Partido deste horizon,
Se sube á septentrion
En este tiempo garrido.
Por eso vengo florido,
Engrandecido,
Dando mal grado á Eneror
Geminis, Toro y ei Carnero,
Me traen loco perdido.
Hago claras las riberas,
El frio hecho en las fuentes,
EI tomillo por los montes
Huele de dos mil maneras.
La luna cuán clara salel
Si me vale,
Tengo três meses floridos,
Y despué^ de estos cumplidos,
Es por fuerza que me calle.
Entra o Es tio, hiia figura muito longa e muita en-
ferma, muito magra, com hiia capella de palha.
ESTIO.
Terrible fiebre efimera,
Ética y fiebre podrida,
Me traen seca Ia vida,
Acosándome que rnuera.
Dolor de inala manera
Traigo en Ias narices mias:
No duermo noches ni dias,
Ardo de dentro y de fuera.
86 LIVRO I.

La boca tengo amargosa,


Los ojos traigo amarillos,
Flacos, secos los carillos,
Y no puedo comer cosa.
La sed es cosa espantosa,
La lengua blanca, s.edienta;
La eabeza me atormíenta
Con calentura rabiosa.
Mi cahna perseverada,
Mis dias duran mil anos:
Los calores son tamanos,
Que es cosa descompasada.
EI água toda ensecada,
Polvorosos los caminos;
Los melones y pepinos
Hacen dolencia doblada.
Câncer, Vírgo y ei Leon,
Los registros de mis dias,
í|aben las cóleras mias,
Y las flemas cuantas son.
Tambien saben Ia razon
Daquesia mi calentura,
Y porque quiere ventura
Que tenga sieinpre sezon.
VERÃO^
O hideputa! qué aseo!
A qué veniste, mortaja?
Sieinpre v ienes hacer paja
Todo cuanto yo verdeo.
Como vienes luengo y feo,
Y chamuscado ei carillo,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 87

Seco, flaco y amariilo,


Vestido de mal aseo!
O malogrado de Estío,
Á qué vienes? vete, vete,
No estío, mas hastío.
EST. CaUa, calla, verdolete,
Que bueno es ei tiempo mio;
Porque asesa tus locuras,
Tus vanas flores y rosas,
Y otras cosas curiosas,
Que en ti no son seguras.
VERÃO.
Este que viene quién es?
INV. E S lo Otono, por mi vida.
OUT. Ora norabuena esteis.
VER. Buena sea tu venida.
OUT. Todos juntos qué haceis?
VER. YO bien tengo trabajado,
Y este cara de ahorcado
Me saco cuanto aqui veis.
OUTONO.
Ya todo está madurado,
Yo vengo coger ei fructo.
VER. Pues si tú no hallas mucho,
Este Estío lo ha estragado.
OUT. Muy bien está, Dios loado.
INV. Abellotas no nacieron.
VER. Muchas fructas se comieron
En estotro mes pasado.
OUTONO.
No quedo fructa ni Dada,
Ni hojas no las verás.
88 LIVRO I.

Tú, Verano, de hoy á mas


Acógete á tu mesnada;
Tú, Estío, á tu posada,
Cura bien tu calentura,
Que, si viene Ia friura,
Ternas cuartana doblada.
Entra Júpiter c diz:
JÚPITER.
O tú, gígantea diesa,
Delante Ia ligereza
De Boreas
Toda Ia tierra atraviesa;
Da combate á Ia tristeza
Do Ia veas.
Dí ai resto de Eneas,
Prosperada Roinulana,
Gran senora,
Que haga fiestas las peleas,
Pues que Latonio y Diana
H*y adora.
Aclara, Febo Iumbroso,
Los pasos peligrinantes
Que cambio;
Porque ei tiempo mentiroso
De los dioses triunfantes
Pierde ei tino.
No se usará ya mas
Venerar templo á Diana.
Ni á Juno;
Ni se verá, ni verás,
Estar Februa ufana
Nel trebuno.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 89

Ni Apoio se verá,
Ni los Bacos adorados
De Romanos:
Ni ei Hímeneo será
Padrino de los casados
Persianos:
Ni las ninfas aguaceras
Traerán águas por raegos
De las gentes:
Ni las hadas hechiceras
Mostrarán fingidos fuegos
De serpientes.
Y Nayades y Dianas,
Las Driades cazadoras,
Y Netuno,
Y las três diesas troyanas,
Dejarán de ser senoras
De consuno:
Y Ia Rhamnusia doncella
Decida de su castillo
Con ultrage,
Y todas estas con ella
Daran ai nino chiquillo
El menage.
La nueva infante Safos
Subió ai monte Parnaso,
Con aliiío
De traer en tierra Dios
De los Alpes en lo raso,
Hecho nino:
La cual infante gloriosa
En Ia Castália fuente
90 LIVRO I.

Se banó;
Porque siendo generosa,
Humildosa por ei monte
Se subió.
La muy escura vision
De Ia caverna Saturna,
Con Ias vidas
De los hijos de Monjergon,
Y de Ia diesa noturna,
Son sumidos.
Los venenos ponzonosos,
Que de Medusa salieron
Goteando,
Sus actos tanto danosos,
Cuando tal mistério vieron,
Van cesando.
lia Hechene venenosa,
Y aquella Estyx laguna
Infernenta,
Desde ahora temerosa
Está su boca importuna,
De contenta.
Creo que oyó los bramidos
De los bregos ancianos
De alegria,
Porque hoy son abatidos
lios infernales tiranos
Neste dia.
Todos van hoy adorar
Al criador poderoso,
Que es nacido;
Las aves con su cantar,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 91

Y ei ganado selvinoso
Con bramido.
Los salvaginos bestiales
Con olicorne pandero
Dan loores;
Y los brutos aniinales
Adoran aquel cordero,
Y los pastores.
Pues qué haceis, Tiempos hennanos,
Descuidados dei amor
Del que nació?
Levantad todos Ias manos,
Vamos ver aquel Senor,
Que nos crio.
INV; NO decís, si puedo yo?
No veis que estoy renegado
Del tempero?
VER. Cuantés yo sudando esto.
EST. Fiebres me tienen cansado,
Pero no os diré de no,
Que ver lo quiero.
INVERNO.
O Júpiter, si en tu ventura
Topásemos allá fuego,
Luego holgaria.
JUP. El criador y criatura
Es ei inundo y es ei huego,
Y él Io envia.
EST. Aquesta dolencia mia
Le tengo de encomendar
De corazon.
VER. Yo cantaré de alegria.
92 LIVRO L

OUT. Comenceinos á cantar


Una cancion.
Até chegarem ao presépio vão cantando hnma cantiga franceza, qne diz:
Ay de Ia noble
Villa de Paris ÓÇc.
JÚPITER.
Alto nino en excelência,
Yo vengo de Ias alturas
A te adorar,.
Y traerte obediência
De todas las criaturas
Sin faltar.
De toda Ia redondeza,
Sin faltar, digo, ninguna,
Se ayuntaron,
Y á adorar tu grandeza,
Tu divindad sola una,
Me enviaron.
Diana y Febo lumbroso,
Márs, Mercúrio, Venus, Juno,
Donde moran,
Y Saturno venenoso,
Todos juntos de consuno
Te adoran.
Castor y Polux unidas,
Y todo ei círculo galajo
Y cristalino,
Y lâs Pleyades lúcidas,
Te adoran en este bajo
De contino.
Planetas, fijas cstrellas,
Y Ia estrella Orion,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 93

Y Ia Canina,
lia inayor y menor dellas,
Con ininensa devocion
Se te inclina.
Y ei tu cielo etereo,
Círculos y Zodíaco,
Y Arcturo sino
Reconocen tu aseo;
No segun ei cuerpo flaco,
Mas divino.
El monte de Ipobnorea,
Y inontaõas de Carmelo,
Y Gelboé,
Y Ia inontana Rifea
Alegres con mucho zelo
Las hallé.
El monte de Selmeron,
Y inontanas de Efrain,
Y de Galaad,
Y las selvas de Frion,
Maridan adorar por iní
Tu deidad.
Y ei noble rio Ganges,
Con oro, piedras, ineíales,
Y arboledas,
Alegre, claro y cortês,
Te ofrecen, con sus iguales,
Cosas ledas.
Eufrates, Tigre, Guijon,
Con cosas muy olorosas
Se te ofrecen
Sin ninguna division.
94 LIVRO I.

En fin que todas las cosas


Te obedecen.
INVERNO.
Senor, yo triste nací,
Y sin ventura ninguna:
Pues me criaste en fortuna,
Cual me soy yo, véisine aqui
Con vientos muy fortunosos
Y rabiosos,
Tempestades y tormentas,
Y con otras mas afrentas,
Y tiempos muy peligrosos.
Con Ia noche me cubriste,
Y dei dia me quitaste;
En tenieblas me formaste:
Esto es lo que me diste.
Con todo esto, que lloro,
Te adoro
Con mi mísero temblar;
Y creo que has de juzgar
Este inundo do me moro.
VERÃO.
Yo Verano, tu vasallo,
Pues me das mejor estrena,
Quiérote dar cuenta buena
De las cosas que en iní hallo,
Y tu bondad Ias ordena.
Hállome fresco y caliente,
Los humore! inucho sanos
De aves, j^erbas, gusanos,
Desta manera siguiente.
Muchas grullas y ciguenas,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 95

Golondrinas, abubillas,
Palomas y tortolillas,
Picapuercos y garcenas,
Zorzales y aveduenas,
Codornices y grideíías,
Milanos y tantaranas,
Muchos gayos y pardenas.
Y tambien los gusanitos,
Hormigas rubias j prielas,
Mariposas y veletas,
Cientopiés y buercitos,
Caracoles y garlitos,
Moscas, ratos y ratones,
Muchas pulgas á inontones,
Y piojos infinitos:
Agriones y rabazas,
Apiopoleo, painpillo,
Mabnequieres amarillo,
Almeirones y margazas,
Florecitas por Ias zarzas,
Madresilva y rosillas,
Jazmines y maravillas,
Rábanos, coles y alfazas:
Puerros, ajos y cebollas,
Mastuerzo,* habas, hervejas,
Gravanizos, granos, lentejas,
Verdolagas y vampollas,
Mil yerbas, fructas y folias,
Untesgina y catasol;
Y ansí hoinbre de prol
Te doy gracias y grollas.
96 LIVRO I.

ESTÍO.
Senor, yo con mi dolencia,
Mis fiebres y mi flaqueza,
Me humillo á tu alteza,
Y adoro tu clemência
De Ia triste vida mia
Dolentía:
Pues te place con ella,
Quiero callar ini querella,
Sufriendo de dia en dia.
Entra D avia, em figura de pastor, e diz.
DAVID.
Pues los ángeles sagrados,
Y los Tiempos y Elementos,
Tocan hoy caramUlos,
Dejen todos los ganados
Los pastores inuy contentos,
Silbemos, demos gritillos.
Yo tambien quiero tocar
Y cantar
Con mi salterio alegrias,
En tono de profecias,
Mientras me vaga lugar;
Y luego os adoraré.
"Levavi óculos meos
"En los montes onde espero
"Aquella ayuda que quiero
"Con ahincados deseos.
" Y Ia ayuda que demando
"Repastando
"En cima daquesta sierra
" Qui fecít caúum y tierra,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 97

"De cuyo ganado ando


"Careando.
"Ecce non dormitabit,
"Ni jamas ei ojo pega
"Aquel que guarda y navega:
"Israel, qui visitabit
"Dominus custodít te.
"k Ia fe,
"No temas cosa ninguna;
"De noche que haga luna,
"Ni de dia ei sol que dé,
"Non uret te.
"Domine, benedixisti
"Terrçtm tuam, y ei ganado,
" Y á Jacob descarnado
" Captivitatem advertisti:
"Al pueblo lleno de males
"Desiguales
"Remisisfí iniquitatem:
"Que te adoren y te acaten
"Los concejos y jarales,
" Y annnales.
"Nuestra rona amara, triste
"De los pueblos apartaste;
"Iram tuam mitigasti,
"Et furor em advertisti.
"Por ventura te pergunto,
"Si barrunto,
"In aternum irasceris?
"No creo, segun quien eres,
" Que hagas ai pueblo junto
"Ser defunto.
Vol. I. 7
98 LIVRO I.

"Bendecid, todalas horas


"Del Senor, ai Senor Dios;
"Bendecid, ángeles vos,
"Bendecid, cielos, mil sobras;
"Benedicite, aquat omnes,
" Y dracones.
"Benedicite sol y luna,
"Tempestates y fortuna;
"Bendecid á Dios, barones,
"Con canciones."
(Adora o presépio,)
No te traigo otro presente,
Quoniam, si voluisses
Sacrificíum, dario hia;
Pero no eres placiente
Por ofertas que aqui vieses;
Ni te causan alegria:
Sacrificíum Deo es.
El espíritu atribulado,
Y ei corazon contrito,
El cual pido que me des,
Andando con mi ganado
Por ei tu poder bendito.
E todos assi juntamente com Te Deum lauda mus se
despedirão, e derão fim a esta representação.

» > « > « > > > C « f <»<•


FIGURAS.

PRÓLOGO.
HUM FRADE.

A VIRGEM.
PRUDÊNCIA.
POBREZA.
HUMILDADE.
FÉ.
O ANJO GABRIEL.
S. J O S E P H .
ANDRÉ.
P A Y O VAZ.
PESSIVAL.
MOFINA MENDES.
B R A Z CARRASCO.
BARBA TRISTE.
TIBALDINHO.
ANJOS.

A obra seguinte foi representada ao excellente Príncipe


e muito poderoso Rei Dom João III, endereçada ás tnatinas
do Natal, na era do Senhor 1534

7*
ALTO DA MOFINA MENDES.

Entra primeiramente hum Frade, e a modo de pregação


diz o que se segue.
FRADE.
Três cousas acho que fazem
Ao doudo ser sandeu;
Hüa ter pouco siso de seu,
A outra, que esse que tem
Não lhe presta mal nem bem:
E a terceira,
Que endoudece ein gran maneira,
He o favor (livre-nos Deos)
Que faz do vento cimeira,
E do toutiço moleira,
E das ondas faz ilheos.
Diz Franciseo de Mairões,
Ricardo, e Bonaventura,
Não me lembra em que escritura,
Nem sei em quaes distinções,
Nem a cópia das razões;
Mas o latim
Creio que ilizia assim:
Nolite vanitatts debemus confidere de
his, qui capita sua posuerunt in ma-
nibus ventorum Sfc.
Quer dizer este matiz
Antre os primeiros que traz:
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 101

Não he sesudo o juiz,


Que tem geito no que diz,
E não acerta o que faz.
Diz Beocio — de consolattonís,
Origenes — Marci Aureli,
Sallusfíus — Catelinarium,
Josepho — speculum belli,
Glosa interliuíarum;
Vicentius — scala caúi,
Magister sententiarum,
Demosthenes, Calistrato;
Todos estes concertarão
Com IScoto, livro quarto.
Dizem: Não vos enganeis,
Letrados de rio torto,
Que o porvir não no sabeis,
E quem nisso quer pôr peis
Tem cabeça de minhoto.
O bruto animal da serra,
r

O terra filha do barro,


Como sabes tu, bebarro,
Quando ha de tremer a terra,
Que espantas os bois e o carro?
Pelos quaes díxit Anselmus,
E Seneca, — Vandaliarum,
E Plinius — Choronicarum,
Et tamen glosa ordinária,
E Alexander — de aliis,
Aristóteles — de secreta secretarum:
Albertus Magnus,
Tullius Ciceronis,
Ricardus, Ilarius, Remigius,
102 LIVRO I.

Dizem, convém a saber:


Se tens prenhe tua mulher,
E per ti o composeste,
Queria de ti entender
Em que hora ha de nascer,
Ou que feições ha de ter
Esse filho que fizeste.
Não no sabes; quanto mais
Commetterdes falsa guerra,
Presumindo que alcançais
Os secretos divinaes
Que estão debaixo da terra.
Polo que, diz Quintus Curfáus,
Beda — de religione christiana,
Thomas — super trinitas alternati,
Augustinus — de angelorum choris,
Hieronimus — ãalphabetus hebraice,
Bernardus — de virgo ascentionis,
Remigius — de dignitate sacerdotum;
Estes dizem juntamente
Nos livros aqui allegados:
Se filhos haver não podes,
Nem filhas por teus peccados,
Cria desses engeitados,
Filhos de clérigos pobres.
Pois tens saco de cruzados,
Lembro-te o rico avarento,
Que nesta vida gozava,
E no inferno cantava:
Água, Deos, água,
Que lhe arde a pousada.
Mandárão-me aqui subir
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 103

Neste sancto amphitheatro,


Para aqui introduzir
As figuras que hão de vir
Com todo seu apparato.
He de notar,
Que haveis de considerar
Isto ser contemplação
Fora da historia geral,
Mas fundada em devação.
A qual obra he chamada
Os mysterios da Virgem;
Que entrará accompanhada
De quatro Damas, com quem
De menina foi criada.
A hüa chauião Pobreza,
Outra chamão Humildade;
Damas de tanta nobreza,
Que tod'alma que as preza
He morada da Trindade.
r

A outra, terceira dellas,


Chamão Fé por excellencia;
A outra chamão Prudência.
E virá a Virgem com ellas,
Com mui fennosa apparencia.
Será logo o fundamento
Tractar de saudação,
E depois deste sermão,
Hum pouco do nascimento;
Tudo per nova invenção.
Antes disto que dissemos,
Virá com musica orphea
Domine lábia mea,
104 LIVRO I.

E Venite adoremus
Vestido com capa alhea.
Trará Te Deum laudamus
D'escarlata hüa libre:
Jam lucis orto sidere
Cantará o benedicamus,
Pola gran festa que he.
Quem terra, pontus, cethera
Virá muito assocegado
N'hum sendeiro mal pensado,
E hum gibão de tafetá,
E hüa gorra d'orelhado.

Em este passo entra nossa Senhora, vestida como rainha,


com as ditas donzellas, e diante quatro anjos com musica:
e depois de assentadas, começão cada hüa de estudar per
seu livro, e diz a
VIRGEM.
Que ledes, minhas criadas?
Que achais escripto hi?
PRÜ. Senhora, eu acho aqui
Grandes cousas innovadas,
E mui altas pera mi.
Aqui a Sibylla Cimeria
Diz que Deos será humanado
De hüa virgem sem peccado;
Que he profunda matéria
Para meu fraco cuidado.
POBREZA.
Eruthea profetiza
Diz aqui também o que sente:
DAS OBRAS DE DEVAÇAO. 105

Que nascerá pobremente,


Sem cueiro nem cainiza,
Nem cousa com que sé aquente.
HUM. E O propheta Isaias
Falia nisso também ca:
Eis a Virgem conceberá,
E parirá o Messias,
E frol virgem ficará.
FÉ.
Cassandra d'elrei Priámo
Mostrou essa rosa frol
Com huin menino a par do sol
A César Octaviano,
Que o adorou por Senhor.
PRU. Rubrum quem viderat Moisem
Sarça, que no ermo estava,
Sem lhe pôr lume ninguém;
0 fogo ardia mui bem,
E a sarça não se queúnava.
FÉ.
Significa a Madre de Deos:
Esta sarça he ella so;
E a escada que vio Jacob,
Que subia aos altos ceos,
Também era de seu voo.
PRU. Deve de ser por rezão
De todas perfeições cheia
Toda, quemquer que ella he.
HUM. Aqui a chama Salomão
Tota pulchra amica mea,
Et macula non est in te.
E diz mais, que he porta cceli
106 LIVRO I.

Et electa ut sol,
Balsamo mui oloroso,
Pulchra ut liltum gracioso,
Das flores mais linda flor,
Dos campos o mais fermoso:
Chama-llie plantatio rosa,
Nova oliva speciosa,
Mansa columba Noe,
Estrella a mais luminosa.
PRUDÊNCIA.
Et acies ordinata,
Fennosa filha d' elrei
De Jacob, et tabernacula
ISpeculum sine macula,
Ornata civitas Dei.
FÉ. Mais diz ainda Salomão:
Hortus conclusus, fios hortorum,-
Medecina peccatorum,
Direita vara de Arão,
Alva sobre quantas forão,
Sancta sobre quantas são.
E seus cabellos polidos
São formosos em seu grado
Como manadas de gado,
E mais que os campos floridos,
Em que anda apascentado.
Pnu. He tão zeloso o Senhor,
Que quererá seu estado
Dar ao mundo per favor,
Por hüa Eva peccador,
Hüa virgem sem peccado.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 107

VIRGEM.
Oh! se eu fosse tão ditosa
'Que com estes olhos visse
Senhora tão preciosa,
Thesouro da vida nossa,
E por escrava a servisse!
Que onde tanto bem se encerra,
Vendo-a ca entre nós,
Nella se verão os ceos,
E as virtudes da terra,
E as moradas de Deos.
Neste passo entra o anjo Gabriel, dizendo:
GABRIEL.
Oh! Deos te salve, Maria,
Cheia de graça graciosa,
Dos peccadores abrigo!
Gosa-te com alegria,
Humana e divina rosa,
Porque o Senhor he cointigo.
VIR. Prudência, que dizeis vós?
Que eu muito turbada sam;
Porque tal saudaçam
Não se costuma antre nós.
PRUDÊNCIA.
Pois que he auto do Senhor,
Senhora, não esteis turbada;
Tornae em vossa color,
Que, segundo o embaixador,
Tal se espera a embaixada.
GAB. O Virgem, se ouvir me queres,
Mais te quero inda dizer.
Benta es tu em mereceres
108 LIVRO I.

Mais que todas as mulheres,


Nascidas, e por nascer.
VIRGEM.
Que dizeis vós, Humüdade;
Que este verso vai mui fundo,
Porque eu tenho por verdade
Ser em minha calidade
, A menos cousa do mundo?
HUM. O anjo, que dá o recado,
Sabe bem disso a certeza.
Diz David no seu tractado,
Qu' esse sp'rito assi humilhado
He cousa que Deos mais preza.
GABRIEL.
Alta Senhora, sab'ras,
Que tua sancta humildade
Te deu tanta dignidade,
Que hum filho conceberás
Da divina Eternidade.
Seu nome, será chamado
Jesu e Filho de Deos;
E o teu ventre sagrado
Ficará horto cerrado;
E tu — Princeza dos Ceos.
VIRGEM.
Que direi, Prudência minha?
A vós quero por espelho.
Pnu. Segundo o caso caminha,
Deveis, Senhora Rainha,
Tomar com o Anjo conselho.
Vin. Quomodo fiat istud,
Quoniam virum non cognosco?
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 109

Porque eu dei minha pureza


Ao Senhor, e meu poder,
Com toda minha firmeza.
GABRIEL.
Spirttus sanctus supervenit in te;
E a virtude do Altíssimo,
Senhora, te cubrirá;
Porque seu filho será,
E teu ventre sacratissimo
Per graça conceberá.
VIR. Fé, dizei-me vosso intento,
Que este passo a vós convém.
Cuidemos nisto mui bem,
Porque a meu consentimento
Grandes dúvidas lhe vem.
Justo he que imagine eu,
E que este muito turbada.
Querer quem o mundo he seu,
Sem merecimento meu,
Entrar em minha morada;
E hüa summa perfeição,
De resplandor guarnecido,
Tomar pera seu vestido
Sangue do meu coração,
Indigno de ser nascido!
E aquelle que occupa o mar,
Enche os ceos e as profundezas.
Os orbes e redondezas;
Em tão pequeno logar
Como poderá estar
A grandeza das grandezas!
GAB. Porque tanto isto não peses,
110 LIVRO I.

Nem duvides de querer,


Tua prima Elisabeth
He prenhe, e de seis meses.
E tu, Senhora, has de crer,
Que tudo a Deos he possível,
E o que he mais impossível,
Lhe he o menos de fazer.
VIR. Anjoi perdoae-me vós,
Que com a Fé quero fallar.
Pedirei sinal dos Ceos.
FÉ. Senhora, o poder de Deos
Não se ha de examinar.
Nem deveis de duvidar,
Pois sois delle tão querida.
GAB. E d'abinicio escolhida:
E manda-vos convidar;
Para madre vos convida.
VIR. Ecce ancilla Domini,
Faça-se sua vontade
No que sua Divindade
Mandar que seja de mi,
E de minha liberdade.
Em este passo se vai o Anjo Gabriel, e os anjos á
sua partida loção seus instrumentos, e cerra-se a cortina.
#
* #

Juntão-se os Pastores para o tempo do nascimento.


Entra primeiro André e diz:
ANDRÉ.
Eu perdi, se s'anoutece,
A asna ruça de meu pae.
O rasto por aqui vai,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 111

Mas a burra não parece,


Nem sei em que valle cai.
Leva os tarros e apeiros,
E o çurrão co' os chocalhos,
Os çamarros dos vaqueiros,
Dois sacos de pães inteiros,
Porros, cebolas e alhos.
Leva as peas da boiada,
As carrancas dos rafeiros,
E foi-se a pascer folhada;
Porque besta despeada
Não pasce nos sovereiros.
E s'ella não parecer
Atas per noite fechada,
Não temos hoje prazer;
Que na festa sem comer
Não ha hi gaita teinprada.
Entra Payo Vaz e diz:
PAYO V A Z .
Mofina Mendes he ca
Chum fato de gado meu?
AND. Mofina Mendes ouvi eu
Assoviar, pouco ha,
No valle de João Viseu.
PAY. Nunca esta moça socega,
Nem samica quer fortuna:
Anda em saltos como pega,
Tanto faz, tanto trasfega,
Que a muitos importuna.
ANDRÉ.
Mofina Mendes quanto ha,
Que vos serve de pastora?
112 LIVRO I.

PAY. Bem trinta annos haverá,


Ou creio que os faz agora:
Mas socêgo não alcança;
Não sei que maleita a toma.
Ella deu o sacco em Roma,
E prendeu elrei de França:
Agora anda com Mafoma,
E pôz o Turco em balança.
Quando cuidei que ella andava
Co' o meu gado onde sohia,
Pardeos! ella era em Turquia,
E os Turcos amofinava,
E a Carlos César servia.
Diz que assi resplandecia
Neste capitão do ceo
A vontade que trazia,
Que o Turco esinoreceo,
E a gente que o seguia.
Receou a guerra crua
Que o César lhe promettia;
Entances per aliam via
Reverte sunt in pátria sua
Com quanta gente trazia.
Entra Pessival.
PESSIVAL.
Achaste a tua burra, Andrel?
AND. Rofá não. PES. Não pôde ser.
Rusca bem, leixa o fardei;
Que a burra não era mel,
Que a haviâo de comer.
ANDRÉ.
Saltarião pegas nella,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 113

Por caso da matadura?


PES. Pardeos! essa seri' ella!
E que pega seria aquella,
Que lhe tirasse a albardura?
PAY. Mas crê que andou per hi
Mofina Mendes, rapaz;
Que, segundo as cousas faz,
Se isto não for assi,
Que não seja eu Payo Vaz.
Ora chama tu por ella,
E aposto-te a carapuça,
Que a negra burra ruça
Mofina Mendes deu nella.
AND. Mofina Mendes! ah Mofina Men!
Mor. Que queres, André? que has? (de longe)
AND. Vem tu ca, e vê-lo-has;
E se has de vir, logo vem,
E acharás aqui também
A teu amo Payo Vaz.
Entra Mofina Mendes, e diz
PAYO V A Z .
Onde deixas a boiada,
E as vacas, Mofina Mendes?
MOP. Mas, que cuidado vós tendes
De me pagar a soldada,
Que ha tanto que me retendes?
PAY. Mofina, dá-me conta tu
Onde fica o gado meu.
MOF. A boiada não vi eu,
Andão lá não sei per hu,
Nem sei que pascigo he o seu.
Nem as cabras não nas vi,
s
Ü4 LIVRO L

Samicas c'os arvoredos;


Mas não sei a quem ouvi
Que andavão ellas per In
Saltando pelos penedos.
PAY. Dá-me conta rez e rez,
Pois pedes todo teu frete.
MOF. Das vacas morrerão sete,
E dos bois morrerão três.
PAYO VAZ.
Que conta de negregura!
Que taes andão os meus porcos?
MOF. Dos porcos os mais são mortos
De magreira e ma ventura.
PAY. E as minhas trinta vitellas
Das vacas, que te entregarão?
MOF. Creio que hi ficarão dellas,
Porque os lobos dezimárão,
E deu olho mao por ellas,
Que mui poucas escaparão.
PAYO VAZ.
Dize-me, e dos cabritinhos
Que recado me dás tu?
MOF. Erão tenros e gordinhos,
E a zorra tinha filhinhos,
E levou-os hum e hum.
PAYO VAZ.
Essa zorra, essa malina,
Se lhe corréras trigosa,
Não fizera essa chacina;
Porque mais corre a Mofina
Vinte vezes qu'a raposa.
MOF. Meu amo, ja tenho dada
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 115

A conta do vosso gado


Muito bem, com bom recado:
Pagae-me minha soldada,
Como temos concertado.
PAYO VAZ.
Os carneiros que ficarão,
E as cabras, que se fizerão?
MOF. AS ovelhas reganhárão,
As cabras engafecêrão,
Os carneiros se afogarão,
E os rafeiros morrerão.
PES. Payo Vaz, se queres gado,
Dá ó demo essa pastora:
Paga-lh'o seu, va-se embora
Ou ma-ora,
E põe o teu em recado.
PAYO VAZ.
Pois Deos quer que pague e peite
Tão daninha pegureira,
Em pago desta canseira
Toma este pote de azeite,
E vae-o vender á feira;
E quiçaes medrarás tu,
O que eu comtigo não posso.
MOF. Vou-me á feira de Trancoso
Logo, nome de Jeso,
E farei dinheiro grosso.
Do que este azeite render
Comprarei ovos de pata,
Que he a cousa mais barata
Qu' eu de lá posso trazer.
E estes ovos chocarão;
a*
116 LIVRO I.

Cada ovo dará hum pato,


E cada pato hum tostão,
Que passará de hum milhão
E meio, a vender barato.
Casarei rica e honrada
Per estes ovos de pata,
E o dia que for casada
Sahirei ataviada
Com hum brial d' escarlata,
E diante o desposado,
Que me estará namorando:
Virei de dentro bailando
Assi desfarte bailado,
Esta cantiga cantando.
Estas consas diz Mofina Mendes com o pote de azeite i cabeça, «,
andando enlevada no bailo, cai-lhe, e diz

PAYO VAZ.
Agora posso eu dizer,
E jurar e apostar,
Qu'es Mofina Mendes toda,
PES. E s'ella baila na voda,
Qu'está ainda por sonhar,
E os patos por nascer,
E o azeite por vender,
E o noivo por achar,
E a Mofina a bailar;
Que menos podia ser?
Vai-se Mofina Mendes, cantando.
MOFINA MENDES.
"Por mais que a dita m'engeite,
"Pastores, não me deis guerra:
"Que todo o humano deleite,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 117

"Como o meu pote d'azeite,


"Ha de dar comsigo em terra."
Entrão outros pastores, cujos nomes são Br az Carrasco,
Barba Triste, e Tibaldinho; e diz
BRAZ CARRASCO.
O Pessival meu vezinho!
PES. Braz Carrasco, dize, viste
A burra desse outeirinho?
BRA. Pergunta tu a Tibaldinho,
Ou pergunta a Barba Triste,.
Ou pergunta a João Calveiro.
TIB. O fato trago eu aqui,
E a burra eu a meíti
Na corte do Rabileiro.
Nós deitemo-nos per hi.
Andamos todos cansados,
O gado seguro está:
E nós aqui abrigados
Donnamos senhos bocados,
Que a meia noite vem ja.

Em este passo se deitão a dormir os pastores; e togo


se segue a segunda parte? que he hüa breve contemplação
sobre o Nascimento.
VIRGEM.
O cordeiro divinal,
Precioso verbo profundo,
Vem-se a hora
Em que teu corpo humanai
Quer caminhar pelo mundo.
Desde agora
118 LIVRO I.

Sahirás ao campo mundano


A dar crua e nova guerra
Aos imigos,
E glória a Deos soberano
In excelsis, et in terra
Pax hominibus.
Sahirá o nobre leão,
Rei do tribu de Judá,
Radix Davíd;
O duque da promissão
Como esposo sahirá
Do seu jardim:
E o Deos dos anjos servido,
Sanctus, sanctus, sem cessar
Lhe cantando,
Vereis em palhas nascido,
Sem candeia e sem luar,
Suspirando.
E porque a noite he quasi meia,
E são horas que esperemos
Seu nascer,
Ide, Fé, por essa aldeia
Accender esta candeia,
Pois outras tochas não temos
Que accender;
E sem serdes perguntada,
Nem lhes vir pela memória,
Direis em cada pousada
Qu'esta he a vela da glória.
Em este passo Joseph e a Fé vão accender a candeii
e a Virgem com as Virtudes, de giolhos, a verst
rézão este
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 119

P s a I m o.
VIRGEM.
O devotas almas felis,
Para sempre sem cessar
Laudate Dominum de coelis,
Laudate eum iii excelsis,
Quanto se pede louvar.
PRUDÊNCIA.
Louvae, anjos do Senhor,
Ao Senhor das altezas,
E todalas profundezas,
Louvae vosso criador
Com todas suas grandezas.
HUMILDADE.
Laudate eum, Sol et Luna,
Laudate eum, stellce et lumen,
Et lauda, Hierusalem,
Ao Senhor que te enfuna
Neste portal de Bethlem.
VIRGEM.
Louvae o Senhor dos ceos,
Louvae-o, água das águas,
Que sobre o ceo sois firmadas;
E louvae o Senhor Deos,
Relâmpagos e trovoadas.
PRUDÊNCIA.
Laudate Dominum de terra,
Dracones et omnes abyssi,
E todas diversidades
De nevoas e serra,
Ventos, nuvens et eclipsi,
E louvae-o, tempestades.
120 LIVRO I.

HUMILDADE.
Bestial et universa
Pecora, volucres, serpentes,
Louvae-o, todalas gentes,
E toda a cousa diversa,
Que no inundo sois presentes.
Vem a Fé com a vela sem lume, e diz
JOSEPH.
Não vos anojeis, Senhora,
Pois estais ein terra alheia,
Ser o parto sem candeia,
Porque as gentes d'agora
São de mui perversa veia.
Todos dormem a prazer,
Sem lhes vir pela memória
Que por força hão de morrer;
E não querem accender
A sancta vela da glória.
HüMttiDADE.
Devíão ter piedade
Da Senhora peregrina,
Romeira da christandade,
Que está nesta escuridade,
Sendo Princeza divina,
Pera exemplo dos senhores,
Pera lição dos tyrannos,
Pera espelho dos mundanos,
Pera lei aos peccadores,
E memória dos enganos,
FÉ.
Não fica por lh'o pregar,
Não fica por lh'o dizer,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 121

Não fica por Ih'o rogar;


Mas não querem acordar,
Com pressa de adormecer.
Delles fazem que não ouvem,
E elles ouvem muito bem;
Delles fazem que não vem,
E delles que não entendem
O que vai nem o que vem.
Sem memória nem cuidado
Dormem em cama de flores,
Feita de prazer sonhado:
Seu fogo tão apagado
Como em choça de pastores;
E vossa divina vela,
Vossa eterna candeia,
Feita de cera mais bella,
Em cidade nem aldeia
Não ha hi lume para ella.
Todo o mundo está mortal,
Posto ein tã,o escuro porto
De hüa cegueira geral,
Que nem fogo, nem sinal,
Nem vontade: tudo he morto.
VIR. Prudência, i vós co'ella,
Que nas horas ha hi mudança:
E accendei ess'outra vela,
Que se chama da esperança,
E lhes convém accendê-Ia.
E dizei-lhe que o pavio
Desta vela he a salvação,
E a cera o poderio
Que tem o livre alvedrio,
122 LIVRO L

E o lume a perfeição.
Jos. Senhora, não monta mais
Semear milho nos rios,
Que querermos por sinaes
Metier cousas divinaes
Nas cabeças dos bugios.
Mandae-lhe accender candeias,.
Que chamem ouro e fazenda,
E vereis bailar baleias;
Porque irão tirar das veias
O lume com que se accenda.
E á gente religiosa
Manda-lhes velas bispaes;
A cera, de renda grossa;
Os pavios, de casaes;
E logo não porão grosa.
PRUDÊNCIA.
Senhora, a meu parecer,
Para esta escuridade
Candeia não ha mister;
Que o Senhor qu'ha de nascer
He a mesma claridade;
Lumen ad revelationem genttum
He profetizado a nós,
E agora se ha de cumprir:
Pois para que he ir e vir,
Huscar lume para vós,
Pois lume haveis de parir?
Nem deveis de estar afflita,
Para lhe guisar manjar;
Porque he fartura infinita,
He chamado Panis vita,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 123

Não tendes que desejar.


E se para seu nascer
Tão pobre casa escolheo,
Não vos deveis de doer,
Porque onde elle estiver
Está a corte do Ceo.
Se cueiros vos dão guerra,
Que os não tendes por ventura,
Não faltará cobertura
A quem os ceos e a terra
Vestio de tal formosura.
Em este passo chora o Menino, posto em hum berço:
as Virtudes cantando o embalão, e o Anjo vai aos
pastoj'es, e diz cantando.
ANJO.
" Recordae, pastores!"
AND. HOU de lá, que nos quereis?
ANJ. "Que vos levanteis."
AND. Para que, ou que vai lá?
ANJ. "Nasceu em terra de Judá
"Hum Deos so, que vos salvará."
AND. E dou-lhe que fossem três:
Eu não sei que nos quereis.
ANJ. "Que vos levanteis."
ANDRÉ.
Quero-m'eu erguer, em tanto
Veremos que isto quer ser.
Sempre in' esquece o benzer
Cada vez que me levanto.
ANJOS, (cantando.)
"Ah pastor! ah pastor!"
AND. Que nos quereis, escudeiros?
124 LIVRO L

ANJ. "Chama todos teus parceiros,


"Vereis vosso Redeinptor."
ANDRÉ.
Não durmaes mais, Payo Vaz,
Ouvireis cantar aquillo.
PAY. Ora tu não ves que he grillo?
Vae-te d'hi, arama vas,
Que eu não hei mister ouvi-lo.
AND. Pessival, acorda ja.
PES. Acorda tu a Braz Carrasco.
BRA. Não creio eu, não, em San Vasco,
Se me tu acolhes lá.
ANDRÉ.
Levanta-te d'hi, Barba Triste.
BAR. TU que has, ou que me queres?
AND. Que vamos ver os prazeres,
Que eu nem tu nunca viste.
BAR. Pardeos, vae tu se quizeres,
Salvo se na refestella
Me dessem bem de comer;
Senão leixa-me jazer,
Que não hei de bailar nella:
Vae tu lá embora ter.
Acorda a Tibaldinho,
E ó Calveiro e outros três,
E a mi cobre-me os pés;
Então vae-te teu caminho,
Que eu hei de dormir hum inez.
ANJO.
Pastores, ide a Belém.
VHD. Tibaldinho, não te digo
Que nos chama não sei quem?
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 125

Tra. Bem no ouço eu, porém


Que tem Deos de ver comigo?
ANDRÉ.
Isso he parvoejar.
Levantae-vos, companheiros,
Que por valles e outeiros
Não fazem nego chamar
Por pastores e vaqueiros.
ANJ. Pera a festa do Senhor
Poucos pastores estais.
PAY. VÓS bacelo quereis pôr,
Ou fazer algum lavor,
Que tanta gente ajuntais?
ANDRÉ.
Vós não sois officiaes
Senão de guardardes gado.
BRA. Dizei, Senhor, sois casado?
Ou quando embora casais?
AND. Oh como es desentoado!
ANJ. Quisera que foreis vós
Vinte ou trinta pegureiros.
PAY. Antes que vós deis três vôos,
Bem ajuntareinos nós
Nesta serra cem vaqueiros.
ANJO.
Ora trazei-os aqui,
E esperae naquella estrada,
Que logo a Virgem sagrada
A Hierusalem vai per hi
Ao templo endereçada.
Tocão os anjos seus instrumentos, e as Virtudes, can-
tando, e os pastores, bailando, se vão.
F I G L R A S.

PRÓLOGO.

VASCO AFFONSO.

CATHERINA.
JOANNE.
FERNANDO.
MAÜANELIiA.
AFFONSO.
INEZ.
MARGARIDA.
CLÉRIGOS.

O seguinte Auto foi representado ao muito alto e p


deroso Rei nosso Senhor Dom João, terceiro em Portug
deste nome, na sua cidade de Évora pelo Natal, era i
Senhor de 1523.
ALTO PASTORIL PORTLGLEZ.

Entra primeiramente hum lavrador, por nome Vasco


Affonso, e diz:
VASCO AFFONSO.
Pois que ja entrei aqui,
Não se me escusa fallar.
Eu sou d'alem de Thoinar,
E casei em Ahneirhn,
Alli mesmo no logar.
Agora, agora, agora
Esta doma que lá vai
Soma que casei embora
Sem licença de meu pae;
E diz que a não quer por nora.
E seu pae er assi,
Porque se casou furtada,
Nem chique nem mique, nem nada
Dão a ella nem a mi,
Assi pola desnevada.
De maneira,
Qu'elles tem birra de nós,
Dizem que nem giesteira,
Pois que nos casamos sos,
Não temos na panasqueira.
Porém amor lhe tenho eu,
E ella samicas a mi,
128 LIVRO I.

Que ella o diz soma assi;


— Porque elle não tem de seu,
Meu pae deu-me, e eu fugi. —
E juramento faço ós ceos,
Que derão tantas a enha esposa,
Qu'he pera dar graças a Deos;
Porque bem como raposa
Lhe tirarão a ella os veos.
Ora o nosso cura er,
Porque se paga d'ella,
E sequaes andou com ella,
Soma vonda que não quer
Receber-nos a mi e a ella.
Mas raivar,
Que ja recebidos seinos:
Dentro bem no meu linhar
Todos os verbos dissemos,
Que se dizem ó casar.
Dizião a mi lá delles,
Que quem casa por amores
Não vos he nega dolores;
Emperol, que sabem elles?
Deos faz dos baixos maiores.
Aguardae.
Digo agora que casei
Sem licença de meu pae
E d'enha mãe: eu herdarei,
Ou sabeis como isto vai?
A mim dizem-me que não;
E s'he daquella maneira,
Não herdo eira nem beira.
Mas não semelha razão,
DAS OBRAS DE DELAÇÃO. 129

Mas sinifica cenreira;


Que -se fora a cachopa peca ou charra,
Ou algüa zanguizarra,
Pjeguiçosa ou coinedora,
Que bradassem muito embora.
Mas taes vos fossem assim
As pulgas da vossa cama.
Soma abonda que muúYama
Me dixe lá em Almeirim,
(Não sei como s'ella chama)
— Vae, sandeu,
A EIvora por alvaral
D'elrei, que te dem o teu,
Como passar o Natal. —
E a isto vinha eu.
E hum Gil... hum Gil... hum Gil...
(Que ma retentiva hei!)
Hum Gil... ja não direi:
Hum que não tem nem ceitil,
Que faz os aitos a elrei,
Elle ine fêz,
E tirou de minha aquella,
Muito inda emque me pez,
Que entrasse ca na capella
Previcar' hum antremez.
Aito cuido que dezia,
E assi cuido que he;
Mas ja não aito, bofé,
Como os aitos que fazia,
Quando elle tinha com que.
Mas o inundo he ja desgorgomelado;
Todo bem se vai ó fundo:
Vol. I
9
130 LIVRO I

0 dinheiro anda acossado,


E o prazer vagabundo.
Abonda: entrarão porém
Treze trolocutores;
Estes são todos pastores;
Da serra d'Estrella vem
Em preito com seus amores.
Atimar.
Entrará Branca fallando
Com Inez, ambas a par
Cantando de quando em quando,
E ás vezes suspirando
Entre cantar e cantar.
Entrará enha sobrinha,
E Constança das Ortigas,
Que ein todo o val das Corigas,
Nem na villa mui asinha,
Não jazem taes raparigas.
E, como entrar,
Sahirá a bailar Valejo,
O galinheiro que em Thomar
Chamava ao coelho — conejo;
Esse mesmo ha de bailar.
E por festa a Rainalhoa
Bailará com Pero Luz,
Vestido no seu capuz;
E farão a entrada boa
Do bailo c'o sinal da cruz.
Pé-de-ferro,
Bofá hum bom escudeiro,
Bom homem lá per seu erro,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 131

Ledo, humilde, prazenteiro,


Salvos nega se m'eu erro;
Este sahirá a terreiro
Com hüa regateira baça,
Que, quando vende na praça,
Tange ás vezes hum pandeiro.
Estes ambos terão graça.
A cristaleira,
E o ahnotacel pequeno
Railarão á derradeira,
E targer-lhe-ha o Moreno,
Que sabe os bailos da Beira.
Frades virão vinte e sete,
Que vem de furtar melões;
E virão três hortelões,
Que trarão preso hum grumete
Sem jaqueta nem calções.
E acabado
Que os frades todos andarem
Hum contrapasso trocado,
E os outros atimarem,
Será o aito atimado.

Entra Catherina pastor a cantando, com o gado.


CATHERINA.
"Tirae os olhos de mim,
"Minha vida e meu descanso,
"Que me estais namorando."
Cha cha cha, raivarão ellas:
Sainicas doudejais vos?
S'eu lá vou, veremos nós
9
132 LIVRO I.

Se sondes cabras, s'aquellas.


O Decho se chantou nellas!
Cha cha cha, reira de morte.
Nem no mato, nem na corte,
Não pode o Decho co' ellas.
"Tirae os olhos de mim,
"Minha vida e meu descanso,
"Que me estais namorando."
"Os vossos olhos, senhora,
"Senhora da formosura,
"Por cada momento de hora
"Dão mil annos de tristura:
"Temo de não ter ventura.
"Vida, não m'esteis olhando,
"Que me estais namorando."
Vem Joanne, e diz
CATHERINA.
A que vens,. Joanne, ca?
JOA. Bofás samicas não sei.
St'outra doma te catei
Casuso, e não eras lá;
Perguntei a ta mãe por ti.
CAT. Tu a minha mãe por mi?
JOA. A bem, digo; — qu'he de Catalina?
E ella estava mofina,
Disse-me; — e que lhe queres assi?
Bem sei eu ja ella aventa
Qu'ando eu comtigo á choca;
Que quando te eu trougue a roca,
J'ella estava rabugenta.
CAT. Não te empaches de mim, não.
Cha cha cha, demoninhadas.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 133

JOA. Pois sicaes te quero a osadas


Grande bem, se vem á mão.
Sempre eu hei de ser comlego
Lá detraz da casa ó soL
CAT. Joanne, vae fazer prol:
Que tens tu de ver comego?
Jesu! como me amofina!
JOA. Ja tu aqui es, Catalina,
Com tua destempera? CAT. Si:
Ora vae-te arama d'hi.
JOA. Alguém t'a ti empipina.
CATHERINA.
Quem m'ha a mim d'empipinar?
JOA. Pôde ser qu'alguém te engane.
CAT. Digo que te vas, Joanne,
Que não te quero escutar.
Cuidas tu que sam menina?
JOA. E dei-t'eu a roca, Catalina,
E subi em cima da pereira,
E tu agora á derradeira
Jogas comego almolina!
CATHERINA.
Que fallas, ou que has comlego,
Que tudo isto não te presta?
JOA. Pardeos, forte birra he esta,
Que toinaste hoje comego!
Porqu'es ma dia entirrada?
Eu não quero de ti nada,
Senão abraçar como amiga.
CAT. Quem te desse hüa gran figa
Nos olhos bem pespegada!
134 LIVRO I.

JOANNE.
He essa a tua saia nova?
Mostra ca a A^er que lan tem.
CAT. Joanne! JOA. Catalina! CAT. Ora bem,
O demo t'a ti faz a cova.
JOA. Toinae lá! esta vos he ella!
CAT. Tal foste com Madanella,
E sempre chufou de ti:
Pois qu'esperas tu de mi,
Que sam mais valente qu'ella?
JOANNE.
O Dexemo que t'eu digo,
Que porque isso he ja sabido,
Ando eu assi franzido,
E o demo anda comego.
Renego ora d'enha mãe,
Porque as lagrimas me sãe
O dia que te não vejo;
E tu tens-ine tal entejo,
Que os esp'ritos se me cãe.
CATHERINA.
Choros mãos chorem por ti:
Quem te manda a ti chorar?
JOA. TU in'has de fazer botar
Mui cedo per esse chão per hi.
Não sejas ora entirrada,
Catalina minha dama;
Que cedo hei d'ir á feira,
E eu farei de maneira
Que tu sejas bem toucada.
Não m'arrarão alfenetes,
E lambem enxaravia.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 135

CAT. Aperfia tu, perfia,


Que c r o Dexemo te mettes.
JOA. Que cachopa esta, e que vida!
CAT. Cuidas que som Margarida,
Que andavas pola chufar?
JOA. E u ? CAT. A bein. JOA. Atiinar.
CAT. Mas vae-te c'o a ma ida.
JOANNE.
Canfeu não sei que te fige,
Que tal escandola ine tens.
CAT. Mas não sei a que ca vens;
Que a ninguém tanto mal quige.
JOA. Por bein querer, mal haver.
CAT. Ora tens bem de comer.
JOA. ISSO he foscas mui asinlia.
Por me metter rebentinha;
Mas perol não fhei de crer.
CATHERINA.
Vae, vae, Joanne, bugiar,
Não andes como alpavardo.
JOA. Viste ja o meu saio pardo?
Se m'o ves has de raivar,
Que m'está tão bem, tão bem...
Que demo he isto? dirás tu.
CAT. Oh como es parvo! Jesu!
Não falles ante ninguém.
JOANNE.
Oh! couimendo ó demo a vida
A que a eu arrepincho!
Catalina, se ine' eu incho,
Por esta que me va de ida.
A índia não está hi?
136 LIVRO I.

Que quero eu de mi aqui?


Melhor será que me va.
CAT. E a ini que se me dá?
Eis Fernando vem alli.
Entra Fernando, e diz
CATHERINA.
Venhas embora, Fernando!
Eu t'esperei á portella.
FER. Parece ca Madanella?
CAT. Spera que a andas buscando!
Ja me tu a mi entejaste?
JOA. Ah si, Catalina? FER. TU vas-te
Andar pólos chavascais.
JOA. Ah si, Catalina? CAT. Ora nó mais;
Abonda que me leixaste.
JOANNE.
Ah si, Catalina? FER. Não diz
Pera hu foi Madanella.
CAT. Porque perguntas por ella?
FER. Porque a fortuna quiz.
CAT. Dores de morte te dem.
JOA. Ah si, Catalina? Ora bein,
Se xe in'eu isso soubera,
Nunca t'eu a roca dera,
Que trougue de Santarém.
MADANELLA. (de ionge.)
Hai Catalina! Catalina!
FER. Aquella te he Madanella.
CAT. HOU! FER. Pera ca vem ella,
JOA. Mui grande he minha mofina!
Olha ca pera ond'estou.
CAT. O diabo que t'eu dou!
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 137

JOA. Ainen que m'eu encommcudo,


E não m' estarei moendo
Na desenteria em que estou.
Vem Madanella e diz:
MADANELLA.
Affonso parece ca?
Eu não sei onde elle anda.
FER. Inda dura essa demanda?
MAD. Inda dura e durará.
FER. Oh caiso mal comedido!
Ando eu por ti perdido,
E andas-me assoviando.
CAT. Queres tu do pão, Fernando?
FER. Estarei bem aviado,
E muito bem corregido.
MADANELLA.
Viste Affonso, Catalina?
CAT. Sabes tu onde elle s'ia?
FER. Não lh'o digas. MAD. Que porfia
De Fernando e de mofina!
FER. Grande ódio me tem.
JOA. E Catalina a mi também.
MAD. Catalina, onde estava elle?
CAT. Ei-lo vem: não he elle aquelle?
JOA. Aquelle he elle, que alli vem.
Vem Affonso, e diz
MADANELLA.
Affonso, venhas embora.
AFF. Nãõ vejo eu Inez aqui.
MAD. Olha, orna para mi,
Que não sam feia ma ora.
AFF. Viste-me Inez ca andar?
138 LIVRO I.

CAT. Casuso a vi eu estar...


AFF. Naquelle outeiro? CAT. A bem.
AFF. Perguntou-te por alguém?
CAT. Por Joanne. AFF. Ora andar.
Por mi não perguntou nada?
CAT. Não. AFF. Raiva moida!
CAT. Por Joanne he ella perdida.
JOA. Está ella logo enganada.
(de longe.y
INE. Catalina! hai Catalina!
CAT. Aquella he ella que retina.
Inez, vem ca, mana, vem.
JOA. Se tu ine quizeras bem,
Não na chamáras, malina;
Mas do malquerer te vein.
Vem Inez, e diz
AFFONSO.
Venhas embora, Inez!
INE. Joanne, queres belotas?
Mais quero eu ás tuas botas
Qu'a dous Affonsos nem ires.
JOA. Oh Catalina! CAT. Oh Fernando!
FER. Oh Madanella! MAD. Oh Affonso!
Oh quando, quando
Me quercras algum bein!
AFF. Oh Inez! quanto mal tem
Esta maleita, em que ando!
INEZ.
Oh Joanne! quão amiga
Que sain do teu bom doairo!
JOA. Se não tens outro repairo,
Canfeu não sei que te diga.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 139

FER. Isto chamão amor louco,


Eu por ti e tu por outro.
Rogo-te arama, Madanella,
Pois ma ora te vi, e nella
Que m'escutes ora hum pouco.
Porque algorrem se m'entende,
Eu a doma que passou
Este braço me ganhou,
Emperol gansei perende
Abonda que hum de cem,
Huin de cem e hum vintém.
Meu pae er tem bein de seu,
E não tem filho, nega eu:
Está attento ca, Madanella,
Vem agora a Pascoella,
Casemo-nos tu e eu.
MADANELLA.
Catalina he minha amiga,
Sei que se paga de ti.
CAT. Fernando, por meu mal te vi,
Como lá diz a cantiga.
JOA. Oh! cominendo ó Decho a praga!
Gingrae lá com taes cachopas,
Leix'as quem de ti se paga.
CAT. E tu porque não faes sopas
Com Inez, pois que te affaga?
INEZ.
Agora lhe fio eu
Hüa camiza de linho.
Queres, Joanne, toucinho
Com pouco de pão do meu?
AFF. E a mi raiva que me aperte.
140 LIVRO I.

INE. Vae-te, que não quero ver-te:


Não tens tu ahi Madanella?
Falia, falia tu co'ella.
O diabo dou a morte:
Como he partuno, Jesu!
MAD.Affonso. AFF. Pezar ora de san Pego!
M A D . E assi o faes tu comego?
Bofá! ansí mao es tu?
Não sei que houveste cointegos.
FER. Mãos lobos m'acabem ja!
CAT. Guarde-te Deos earamá:
Pois que seria de mi!
Mas casemo-nos eu e ti.
JOA. E Joanne raivará?
Pois, pardeos, bem te servi.
Comego seja essa dança,
Não andes assi do vento.
CAT. Toda m'ora eu arrebento
Pola tua maridança.
AFF. Sabes, Joanne, que façamos?
Vamo-nos todos três. JOA. Vamos,
E busquemos outras três.
Eu te farei a ti, Inez,
Que me jejues os ramos.
Vem Margarida, pàstora, que achou hüa imagem
de nossa Senhora, e tra-la escondida n'hum feixe de lenha,
e diz:
MARGARIDA.
Ai, manas, que eu achei!
CAT. Onde? MAR. Na serra em cima.
MAD. Que he, Margarida prima?
MAn.Quasi, quasi não o sei.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 141

INE. Chufas? MVR. Não, pardeos, amigas.


CAT. Rogo-te que nô-lo digas.
MAR.Mas he para adivinhar;
E quemquer que o acertar,
Eu a fartarei de migas.
INEZ.
Será algum cugumelo?
MAR. Não, que tem olhos e mãos.
CAT. São caçapos temporãos.
MAD. Mas samicas pesadelo.
CAT. Onde o trazes? MAR; Na lenha.
CAT. He raposo, Deos mantenha.
MAR.Si raposo; teu pae torto.
INE. Ouriço cacheiro morto.
MAR. Não he cousa que pel tenha.
MADANELLA-,
Mas sabeis que he leitão,
Que tem couro e não tem pelle?
MAR.Leitão? isso vos era elle.
INE. Elle não ha de ser cão.
MAR. Nem ave, nem cousa viva
Nem morta. CAT. O cativa!
E tem pés e mãos e olhos?
M A R . E narizes e giolhos;
Nem he cousa mansa nem esquiva.
CATHERINA.
Rogo-te que digas que he,
Que isso parece patranha.
MAR. Tenho-a eu por façanha,
E não pequena, abofé.
CAT. Não o deffengules mais.
MAR. Se attentegas estais,
142 LIVRO L

Muito asinha vos direi


O que vi e que achei,
Com tanto que me creais.
Chegando á Pena furada,
Áquem da Virgem da Estrella,
Achei ser hüa donzella,
Hofá donzella dourada:
E como a vi, como digo,
Saltou tal tremor comigo,
Porque ella reluzia,
Que estava se fugiria;
Tal claror tinha comsigo.
E hum menino brincando
Com seis ou sete donzellas;
Sanctas paredão ellas.
MAD. Isso seria sonhando.
MAR. Mas antes bem acordada.
Não me quereis vós crer nada?
CAT. Dize, dize, Margarida.
MAR. Pois chufa tu, Madanella,
Que nossa Senhora era ella!
CAT. Oh! M A R . Por minha vida.
Assim seja eu bein casada,
E Deos se lembre de mim.
CAT. Que te dixe, mana, einfiin?
MAR.Chamou-ine, bein assombrada,
E eu queria chorar,
E ella foi-me affagar.
CAT. E que te dixe despois?
MAR. Que deixasse andar os bois,
E que me fosse ao logar.
E fosse ao nosso cura, e digo
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 143

Que vi a Virgem Maria,


E que ella lhe prometlia
De lhe dar hum bom castigo,
Que horas nunca lhe rezou,
Nem delia soes se acordou.
FER. Houveras-lhe de dizer
Que não lhe escapa mulher.
INE. O demo que eu o dou!
Eu vos direi: he elle tal
Que a filha de Janaffonso
Foi-lhe pedir hum responso,
E elle fallava-lhe ein ai.
AFF. Alguns delles vão per hi,
E na estremadela assi
Não lhes fica moça boa.
JOA. Rom machado na coroa,
Que ficasse logo alli!
FERNANDO.
Seixo calvo. AFF. Mas settada.
MAD.Arrocho d'azambugeiro.
CAT. Mas pousada de palheiro,
E fogo, e á porta fechada.
AFF. Mas bom feixe lagariço.
INE. Penedo. MAD. Tranca. CAT. Sumiço.
MAR.EU quero-o ir avisar,
Ca lhe cumpre de rezar,
E tornar-se a seu serviço.
Por esta cruz, manas minhas,
Qu'ella está delle assanhada.
INE. Oh Virgem nossa a vogada
Que os gados encaminhas!
CAT. Quem m'a vira! INE. Quem lá fora!
144 LIVRO I.

MAD. Tu, prima, naceste embora.


MAR.Se viras o cachopinho,
Tão fennoso e sesudinho,
Filho de nossa Senhora!
Tudo eu hei de dizer
Ao nosso cura tá ó cabo,
E ó priol. INE. Esse diabo
Nunca te ha de querer crer.
AFF. E do priol disse algorrem?
MAR. Não fallou nem mal nem bem.
JOA. Também elle he bom piloto.
AFF. Mas he valente minhoto,
Qu' apanha as frangas mui bem.
JOANNE.
Dou ja ó Decho o reixelo.
FER. E Pero Gil, capellão,
Que lhe dizes? JOA. Que varão!
Como lh' ellas vem a pêllo,
Nenhfías lhe escaparão.
AFV. E Janaffonso Altos-pés?
FER. Também esse he bom freguez,
E muito gainenho zote.
JOA. Hontem lhe dei eu hum mote
Sobr'isso, bem portuguez.
Vão-se earamá casar,
E não andar de soticapa.
Juro a Deos, s'eu fora papa,
Eu lhes seccára o cantar.
MAR. Não me bula aqui ninguém
Neste meu feixe de lenha;
Atá que eu va e venha
Não veja ninguém qu'aqui vem.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 145

Porque eu vou a chamar,


Que venhão com devação
Os melhores do logar
A levar em procissão
O que a Virgem me quiz dar.
Vai-se.
AFFONSO.
Canfeu não me posso ter,
Vejamos o que isto he.
JOA. Vejamos por tua fé,
Que gran cousa deve ser.
Desata Affonso o feixe e diz

AFFONSO.
Ella oinagein in'affegura:
Oh Senhora Virgem pura!
CAT. Quem vos trouge a esta serra?
FER. Ponde os giolhos em terra.
AFF. Ponhamo-la nesta verdura.
E posta a imagem, diz
JOANNE.
Pois não sabemos rezar,
Façainos-lhe hüa chacota,
Porque toda a alma devota
O que tem, isso ha de dar.
FER. Façamos, que bem será.
CAT. Joanne, tir'-te tu lá.
Dá-me tu a mão, Fernando.
FER. Nisso estava or'eu cuidando.
Madanella, vem tu ca.
MADANELLA.
Com Affonso quero eu.
AFF. Inez mana, eu condigo,
146 LIVRO I.

Que nunca tão grande amigo


Ein tua vida tens de teu.
INE. Porque andas bugiando?
MAD. Ora fuge lá, Fernando.
JOA. Onde não ha coiipordança,
Não ha hi festa nem dança:
Nem estemos perfiando-
Vem Margarida com gualro Clérigos, c diz
FERNANDO.
Oh corpo de Deos sagrado!
Quanto zote que ca vem!
MAR. Não quizestes vós perem
Condecer no meu mandado?
Ora seja ja embora.
Padres, vedes a Senhora
Que eu achei bem acasuso.
CLE. Jesu! eu estou confuso!
2° C. Deos te salve, Emperadora!

Hymno O gloriosa Domina


rezado i versos pelos Clérigos & imagem de Nossa Senhora,
r

"O gloriosa Senhora do inundo,


"Excelsa princeza do cep e da tierra,
"Fermosa batalha de paz e de guerra,
,i
"Da sancta Trindade secreto profundo!
"Sancta esperança, ó madre d'amor,
"Ama discreta do filho de Deos,
"Filha e madre do Senhor dos Ceo,s,
"Alva do dia com mais resplandor!
"Fermosa barreira, ó alvo e fito,
"A quem os profetas direito atiravão!
•A ti, gloriosa, os Ceos esperavão,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 141*

" E as três pessoas hum Deos infinito.


" O cedro nos campos, estrella no mar,
"Na serra ave phenix, hüa so amada,
"Hüa so sem mácula e so preservada,
"Hüa so nascida, sem conto e sem par!
"Do que Eva triste ao mundo tirou
"Foi o teu fructo restituidor;
"Dizendo-te ave o embaixador,
"O nome de Eva te significou.
"O porta dos paços do mui alto Rei,
"Camera cheia do Spirito Sancto,
" Janella radiosa de resplandor tanto,
" E tanto zelosa da divina lei!
"O mar de sciencia, a tua humildade,
"Que foi senão porta do ceo estrellado?
"O fonte dos anjos, ó horto cerrado,
"Estrada do inundo para a divindade,
"Quando os anjos cantão a glória de Deos,
"Não são esquecidos da glória tua;
"Que as glórias do filho são da madre sua,
"Pois reinas com elle na corte dos Ceos.
"Pois que faremos os salvos por ella,
"Nascendo em miséria, tristes peccadores,
"Senão tanger palmas e dar mil louvores
"Ao Padre, ao Filho e Esprito, e a ella!
(Aqui ordenão sua chacota; e a letra da cantiga he a seguinte.)
TODOS.
"Quem he a desposada?
"A Virgem sagrada.
"Quem he a que paria?
"A Virgem Maria.
"Em Rethlem, cidade
148 LIVRO I.

"Muito pequenina,
"Vi hüa desposada
" E Virgem parida.
"Em Bethlem, cidade
"Muito pequenina,
"Vi hüa desposada
" E virgem parida.
"Quem he a desposada?
"A Virgem sagrada.
"Quem he a que paria?
"A Virgem Maria.
"Hüa pobre casa
"Toda reluzia,
"Os anjos cantavão,
"O mundo dizia:
"Quem he a desposada?
"A Virgem sagrada.
"Quem he a que paria?
"A Virgem Maria."

E com esta chacota se despedirão.


F I G L R A S.

MERCÚRIO. DOROTHEA.
TEMPO. MONECA.
SERAPHIM, GILBERTO.
DIABO. NABOR.
ROMA. MATHEUS.
AMANCIO VAZ. JUSTINA.
DENIZ LOURENÇO. VICENTE.
BRANCA ANNES. LEONARDA.
MARTA DIAS. MERENCIANA.
TESAURA. THEOÜORA.
JULIANA. GIRALDA.

A obra seguinte he chamada Auto da Feira. Foi


representada ao min excellente Príncipe EIRei D. João,
o terceiro em Portugal deste nome, na sua nobre e sempre
leal cidade de Lisboa, ás matinas do Natal, na era do
Senhor de 1527-
A L T O DA FEIRA.

Entra primeiramente Mercúrio, e posto em seu


assento, diz:
MERCÚRIO.
Pera que me conheçais,
E entendais meus partidos,
Todos quantos aqui estais
Affinae bem os sentidos,
Mais que nunca, muito mate.
Eu sou estrella do ceo^
E despoís vos direi qual,
E quem me ca descendeo,
E a qne, e todo o ai
Que me a ini aconteceo.
E porque a estronoinía
Anda agora inuí maneira,
Mal sabida e lisongeira,
Eu á honra deste dia
Vos direi a verdadeira.
Muitos presumem saber
As operações dos ceos,
E que morte hão de morrer,
E o que ha de acontecer
Aos anjos e a Deos,
E ao mundo e ao diabo.
E o que sabem tem por fé;
E elles todos em cabo
DAS OBRAS DE DEVAÇAO. 151

Terão hum cão polo rabo,


E não sabem cujo he.
E cada hum sabe o que monta
Nas estreitas que ornou;
E ao moço que mandou,
Não lhe sabe tomar cottfa
D'hum vintém que Ih' entregou.
Porém quero-vos pregar,
Sem mentiras nem cautelas,
O que per curso d'éstrellas
Se poderá adivinhar,
Pois no ceo nasci com ellas.
E se Francisco de Mello,
Que sabe sciencia avoridó,
Diz que o ceo he redondo,
E o sol sobre amarelló;
Diz verdade, não lh'o escondo.
Que se o ceo fora quadrado,
Não fora redondo, senhor.
E se o sol fora azulado,
D'azul fora sua cor,
E não fora assi dourado.
E porque está governado
Por seus cursos naturaes,
Neste inundo onde morais
Nenhum homem aleijado,
Se for manco e corcovado,
Não corre por isso mais.
E assi os corpos celestes
Vos trazem tão compassados,
Que todos quantos nascestes^
Se nascestes e crescestes,
152 LIVRO I.

Primeiro fostes gerados.


E que fazem os poderes
Dos sinos resplandecentes?
Fazem que todalas gentes
Ou são homens ou mulheres,
Ou crianças innocentes.
E porque Saturno a nenhum
Influe vida contina,
A morte de cada hum
He aquella de que se fina,
E não de outro mal nenhum.
Outrosi o terremoto,
Que ás vezes causa perigo,
Faz fazer ao morto voto
De não bulir mais comsigo,
Canta de seu moto próprio.
E a claridade encendida
Dos raios piramidaes
Causa sempre nesta vida
Que quando a vista he perdida,
Os olhos são por demais.
E que mais quereis saber
Desses temporaes e disso,
Senão que, se quer chover,
Está o ceo para isso,
E a terra pera a receber?
A lua tem este geito:
Ve que clérigos e frades
Ja não tem ao Ceo respeito,
Mingúa-lhes as santidades,
E cresce-lhes o proveito.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 153

Et quantum ad stella Mars, speculum belli, et Ve-


nus, Regina musicai, secundum Joannes Monteregio:
Mars, planeta dos soldados,
Faz nas guerras conteudas,
Em que os reis são occupados,
Que morrem de homens barbados
Mais que mulheres barbudas.
E quando Venus declina,
E retrograda ein seu cargo,
Não se paga o desembargo
No dia que s'elle assina,
Mas antes por tempo largo.
Et quantum ad Taurus et Aries, Câncer, Capri-
cornius positus in firmamento Cceli:
E quanto ao Touro e Carneiro,
São tão mãos de haver agora,
Que quando os põe no madeiro,
Chama o povo ao carniceiro
SENHOR, c'os barretes fora.
Depois do povo agravado,
Que ja mais fazer não pôde,
Invoca o sino 'do Bode,
Capricórnio chamado,
Porque Libra não lhe açode.
E se este não has tomado,
Nem touro, carneiro assi,
Vae-te ao sino do pescado,
Chamado Piseis em latim,
E serás remediado:
E se piseis não tem ensejo,
Porque pôde não no haver,
Vae-te ao sino do Cranguejo,
154 LIVRO I.

Signum Câncer, Ribatejo,


Que está alli a quem no quer.
Sequuntur mirabília Júpiter, Rex regum, dominus
dominantium.
Júpiter, rei das estrellas,
Deos das pedras preciosas^
Mui mais precioso qu'ellas,
Pintor de todalas rosas,
Rosa mais fermosa dellas;
He tão alto seu reinado,
Influencia e senhoria,
Que faz per curso ordenado
Que tanto val hum cruzado
De noite como de dia.
E faz que hüa nao veleira
Mui forte, muito segura,
Que inda que o mar não queira,
E seja de cedro a madeira,
Não preste sem pregadura.
Et quantum ad duodecim domus Zodiacus, sequitur
declaratio operafíonem suam.
No zodíaco acharão
Doze moradas palhaças,
Onde os sinos estão
No inverno e no verão,
Dando a Deos infindas graças.
Escutae bem, não durmais,
Sabereis por congeituras
Que os corpos celestiaes
Não são menos nem são mais
Que suas mesmas grandüras.
E os que se desvelarão,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 155

Se das estrellas souberão,


Foi que a estrella que olharão,
Está onde a puzerão,
E faz o que lhe mandarão.
E cuidão que Ursa maior,
Ursa inínor e o Dragão,
E Lepus, que tem paixão,
Porque hum corregedor
Manda enforcar hum ladrão?
Não, porque as constelações
Não alcanção mais poderes*,
Que fazer que os ladrões
Sejão filhos de mulheres,
E os mesmos pães varões*.
E aqui quero acabar.
E pois vos disse aléqui
O que se pôde alcançar,
Quero-vos dizer de mi,
E o que venho buscar.
Eu sam Mercurioi, senhor
De muitas sabedorias,
E das moedas reitor,
E deos das mercadorias:
Nestas tenho meu vigor.
Todos tractos e contractos,
Valias, preços, avenças,
Carestias e baratos,
Ministro suas pretenças,
Até as compras dos- çapatos.
E porquanto nunca vi*
Na corte de Portugal
Feira em dia de Natal,
156 LIVRO I.

Ordeno hüa feira aqui


Pera todos em geral.
Faço inercador-mor
Ao Tempo, que aqui vem;
E assi o hei por bem.
E não falte comprador,
Porque o tempo tudo tem.
Entra o Tempo, e arma hüa tenda com muitas cousas,
e diz:
TEMPO.
Em nome daquelle que rege nas praças
D'Anvers e Medina as feiras que tem,
Começa-se a feira chamada das Graças,
Á honra da Virgem parida em Belém.
Quem quizer feirar,
Venha trocar, qu'eu não hei de vender;
Todas virtudes qu'houverem mister,
Nesta minha tenda as podem achar,
A troco de cousas que hão de trazer.
Todos remédios especiabnente
Contra fortunas ou adversidades
Aqui se vendem na tenda presente,
Conselhos maduros de sans calidades
Aqui se acharão.
As mercadorias damos e rezão,
Justiça e verdade, a paz desejada,
Porque a Christandade he toda gastada
So em serviço da opinião.
Aqui achareis o temor de Deos,
Que he ja perdido em todos Estados;
Aqui achareis as chaves dos Ceos,
Mui bem guarnidas ein cordões dourados;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 157

E mais achareis
Somma de contas, todas de contar
Quão poucos e poucas haveis de lograr
As feiras mundanas; e mais contareis
As contas sem conto qu'estão per contar.
E porque as virtudes, Senhor Deos, que digo,
Se forão perdendo de dias em dias,
Com a vontade que deste ó Messias
Memória o teu anjo que ande comigo,
Senhor, porque temo
Ser esta feira de inaos compradores,
Porque agora os mais sabedores
Fazem as compras na feira do Demo,
E os mesmos diabos são seus corretores.
Entra hum Seraphim enviado por Deos a petição do
Tempo, e diz:
SERAPHIM.
A feira, a feira, igrejas, mosteiros,
Pastores das almas, Papas adormidos;
Comprae aqui pannos, mudae os vestidos,
Buscae as çamarras dos outros primeiros
Os antecessores.
Feirae o carão que trazeis dourado;
r

O presidentes do crucificado,
Lembrae-vos da vida dos sanctos pastores
Do tempo passado.
r

O Príncipes altos, império facundo,


Guardae-vos da ira do Senhor dos Ceos;
Comprae grande somma do temor de Deos
Na feira da Virgem, Senhora de inundo,
Exemplo de paz,
Pastora dos anjos, luz das estrellas.
158 WVRO I.

Á feira da Virgem, donas e donzellas,


Porque este mercador sabei que aqui traz
As cousas mais bellas.
Entra hum Diabo com hüa tendinha diante de si, como
bufarinheiro, e diz:
DIABO.
Eu bem me posso gabar,
E cada vez que quizer,
Que na feira onde eu entrar
Sempre tenho que vender,
E acho quem me comprar.
E mais vendo muito bem-,
Porque sei bein o que entendo;
E de tudo quanto vendo
Não pago sisa a ninguém
Por tracto que ande fazendo.
Quero-me fazer á vela
Nesta sancta feira nova.
Verei os que vem a ella,
E mais verei quem m'estro va
De ser eu o maior delia.
TEM. E S tu também mercador,
Que a tal feira foffereces?
DIA. EU não sei se ine conheces.
TEM. Faltando eom salvanor,
Tu diabo me pareces.
DIABO.
Fallando com salvos rabos,
Inda que me tens por vil,
Acharás homens cem mil
Honrados, que são diabos,
Que eu não tenho nem ceitil.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 159

E bem honrados te digo,


E homens de muita renda,
Que tem divedo comigo.
Pois não ine tolhas a venda,
Que não hei nada comtigo.
TEMPO. <ao Seraphim.)

Senhor, em toda maneira


Acudi a este ladrão,
Que me ha de danar a feira-
DIA. Ladrão? Pois haj'eu perdão,
Se vos metter em canceira.
Olhae ca, anjo de bem,
Eu, como cousa perdida,
Nunca ine tolhe ninguém
Que não ganhe minha vida,
Como quem vida não tem.
Vendo dessa marmelada,
E ás vezes grãos torrados,
Isto não releva nada;
E em todolos mercados
Entra a minha quintalada.
SER. Muito bein sabemos nós
Que vendes tu cousas vis.
DIA. Hi ha de homens ruis
Mais mil vezes que não bôs,
Como vós mui bein sentis.
E estes hão de comprar
Disto que trago a vender,
Que são artes de enganar,
E cousas para esquecer
O que devião lembrar:
Que o sages mercador
160 LIVRO I.

Ha de levar ao mercado
O que lhe comprão melhor;
Porque a ruim comprador
Levar-lhe ruim borcado.
E mais as boas pessoas
São todas pobres a eito;
E eu por este respeito
Nunca tracto ein cousas boas,
Porque não trazem proveito.
Toda a glória de viver
Das gentes he ter dinheiro,
E quem muito quizer ter
Cumpre-lhe de ser primeiro
O mais ruim que puder.
E pois são desta maneira
Os contractos dos mortaes,
Não me lanceis vós da feira
Onde eu hei de vender mais
Que todos á derradeira.
SER. Venderás muito perigo,
Que tens nas trevas escuras.
DIA. EU vendo perfumaduras,
Que, pondo-as no embigo,
Se salvão as criaturas.
As vezes vendo virotes,
E trago d'Anda!uzia
Naipes com que os sacerdotes
Arreneguem cada dia,
E joguem té os pellotes.
SER. Não venderás tu aqui isso,
Que esta feira he dos ceos:
Vae lá vender ao abisso
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 161

Logo, da parte de Deos.


DIA. Senhor, apello eu disso.
S'eu fosse tão mao rapaz,
Que fizesse força a alguém,
Era isso muito bem;
Mas cada hum veja o que faz,
Porque eu não forço ninguém.
Se ine vem comprar qualquer
Clérigo, leigo ou frade
Falsas manhas de viver,
Muito por sua vontade;
Senhor, .que lh'hei de fazer?
E se o que quer bispar
Ha mister hypocrisia,
E com ella quer caçar;
Tendo eu tanta em porfia,
Porque lh'a hei de negar?
E se hüa doce freira
Vem á feira
Por comprar hum inguenío,
Com que voe do convento;
Senhor, inda que eu não queira,
L'hei de dar aviamento.
MERCÚRIO.
Alto, Tempo, apparelhar,
Porque Roma vem á feira.
DIA. Quero-me eu concertar,
Porque lhe sei a maneira
De seu vender e comprar.
Entra Roma, eantando.
ROMA.
"Sobre mi arma vão guerra;
162 LIVRO I.

"Ver quero eu quem a mi leva.


"Três amigos que eu havia,
"Sobre mi armão porfia;
"Ver quero eu quem a mi leva."
Vejamos se nesta feira,
Que Mercúrio aqui faz,
Acharei a vender paz,
Que me livre da canceira
Em que a fortuna me traz.
Se os meus me desbaratão,
O meu soccorro onde está?
Se os Christãos mesmo me matão,
A vida quem m'a dará,
Que todos me desacatão?
Pois s'eu aqui não achar
A paz firme e de verdade
Na sancta feira a comprar,
Canfa mi dá-ine a vontade
Que inourisco hei de fallar.
DIA. Senhora, se vos prouver,
Eu vos darei bom recado.
ROM. Não pareces tu azado
Pera trazer a vender
O que eu trago no cuidado.
DIABO.
Não julgueis vós pola cor,
Porque em ai vai o engano;
Ca dizem que sob mao panno
Está o bom ^bebedor:
Nem vós digais mal do anno.
ROMA.
Eu venho á feira direita
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 163

Comprar paz, verdade e fé.


DIA. A verdade pera que?
Cousa que não aproveita,
E aborrece, pera que he?
Não trazeis bôs fundamentos
Pera o que haveis mister;
E a segundo são os tempos,
Assi hão de ser os tentos,
Pera saberdes viver.
E pois agora á verdade
Chamão Maria peçonha,
E parvoice á vergonha,:
E aviso á ruindade;
Peitae a quem vo-la ponha,
A ruindade digo eu:
E aconselho-vos mui bem,
Porque quem bondade tem
Nunca o mundo será seu,
E mil canceiras lhe vem.
Vender-vos-hei nesta feira
Mentiras vinta três mil,
Todas de nova maneira,
Cada hüa tão subtil,
Que não vivais em canceira:
Mentiras pera senhores,
Mentiras pera senhoras,
Mentiras pera os amores,
Mentiras, que a todas horas
Vos nasção dellas favores.
E como formos avindos
Nos preços disto que digo,
Vender-vos-hei como amigo
164 LIVRO 1

Muitos enganos infindos,


Que aqui trago comigo.
ROM. Tudo isso tu vendias,
E tudo isso feirei
Tanto, que inda venderei,
E outras sujas ínercancias,
Que por meu mal te comprei.
Porque a troco do amor
De Deos, te comprei mentira,
E a troco do temor
Que tinha da sua ira,
Me deste o seu desamor:
E a troco da fama minha
E sanctas prosperidades,
Me deste mil torpidades;
E quantas virtudes tinha
Te troquei polas maldades.
E pois ja sei o teu geit©^
Quero ir ver que vai ca.
DIA. A S cousas que vendem lá
São de bem pouco proveito
A quem quer que as comprará.
Vai-se Roma ao Tempo e Mercúrio, e diz
ROMA.
Tão honrados mercadores
Não podem leixar de ter
Cousas de grandes primores;
E quanfeu houver mister
Deveis vós de ter, senhores.
SER. Sinal he de boa feira
Virem a ella donas taes;
E pois vós sois a primeira,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 165

Queremos ver que feirais


Segundo vossa maneira.
Ca, se vós a paz quereis,
Senhora, sereis servida,
E logo a levareis
A troco de sancta vida;
Mas não sei se a trazeis.
Porque, Senhora, eu me fundo
Que quem tem guerra com Deos,
Não pôde ter paz e'o mundo;
Porque tudo vem dos ceos,
Daquelle poder profundo.
ROMA.
A troco das estações
Não fareis algum partido,
E a troco de perdões,
Que he thesouro concedido
Para quaesquer remissões?
Oh! vendei-me a paz dos ceos,
Pois tenho o poder na terra.
SER. Senhora, a quem Deos dá guerra,
Grande guerra faz a Deos,
Que he certo que Deos não erra.
Vede vós que lhe fazeis,
Vede como o estimais,
Vede bem se o temeis;
Attentae com quem lutais,
Que temo que cahireis.
ROM. Assi que a paz não se dá
A troco de jubileus ?
MER. O Roma, sempre vi lá
166 LIVRO I.

Que inatas peccados ca,


E leixas viver os teus.
E não te corras de mi:
Mas com teu poder facundo
Assolves a todo o mundo,
E não te lembras de ti,
Nem ves que te vas ao fundo.
ROM. O Mercúrio, valei-me ora,
Que vejo mãos apparelhos.
MER. Dá-lhe, Tempo, a essa Senhora
O cofre dos meus conselhos:
E podes-te ir muito embora.
Hum espelho hi acharás,
Que foi da Virgem sagrada.
Co'elle te toucarás,
Porque vives mal toucada,
E não sintes como estás:
E acharás a maneira
Como emendes a vida:
E não digas mal da feira;
Porque tu serás perdida,
Se não mudas a carreira.
Não culpes aos reis do mundo,
Que tudo te vem de cima,
Polo que fazes ca em fundo:
Que, offendendo a causa prima,
Se resulta o mal segundo.
E também o digo a vós,
E a qualquer meu amigo,
Que não quer guerra coinsigo:
Tenha sempre paz com Deos,
E não temerá perigo.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 167

DIABO..
Preposito Frei Sueiro,
Diz lá o exemplo velho,
Dá-me tu a mim dinheiro,
E dá ao demo o conselho.
Depois de ida Roma, entrão dous lavradores, hum per
nome Amando Vaz, e outro Deniz Lourenço, e diz
AMANCIO VAZ.
Compadre, vas tu á feira?
DEN. A feira, compadre. AMA. Assi;
Ora vamos eu e ti
O longo desta ribeira.
DEN. Bofá, vamos. AMA. Folgo bem
De te vir aqui achar.
DEN. Vas tu lá buscar alguém,
Ou esperas de comprar?
AMANCIO VAZ.
Isso te quero contar,
E iremos patorneando,
E er lambem aguardando
Polas moças do logar.
Compadre, enha mulher
He muito destemperada,
E agora, se Deos quizer,
Faço conta de a vender,
E da-la-hei por quasi nada.
Qu'eu quando casei com ella
Dizião-ine, — hétega he;
E eu cuidei pola abofé
Que mais cedo morresse ella,
E ella anda inda em pé.
E porque era hétega assim
168 LIVRO I.

Foi o que m'a mim danou:


Avonda qu'ella engordou,
E fez-me hétego a mim.
DENIZ LOURENOD.
Tens boa mulher de teu:
Não sei que tu has, amigo.
AMA. S'ella casara condigo.
Benegáras tu com'eu,
E dixeras .o que eu digo.
DEN. Pois, compadre, canfá minha,
He tão mollc e desatada,
Que nunca dá peneirada,
Que não derrame a farinha.
E não põe cousa a guardar,
Que a tope quando a cata;
E por mais que homem se inata,
De birra não quer fallar.
Trás d'hüa pulga andará
Três dias, e oito, e dez,
Sem lhe lembrar o que fez,
Nem tampouco o que fará.
Pera que t'hei de fallar?
Quando hontem cheguei do inalo
Poz hüa enguia a assar,
E crua a leixou levar,
Por não dizer sape a hum gato.
Canfa mansa, mansa he ella;
Dá-me logo canfá disso.
AMA. Juro-f eu que mais val isso
Cincoenta vezes qu'ella.
A minha te digo eu
Que se a visses assanhada,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 169

Parece demoninhada,
Ante San Bartholomeu.
)EN. Ja siquer terá esp'iito:
Mas renega da mulher
Que ó tempo do mister
Não he cabra nem cabrito.
AMANCIO VAZ.
A minha tinir eu em guarda
Para bein de minha prol,
Cuidando que era ourinol,
E tornou-se-me bombarda.
Folga tu que ess'outra tenhas,
Porque a minha he tal perigo,
Que por nada que lhe digo
Logo ine salla nas grenhas.
Então tanto punho sêcco
Me chiinpa nestes focinhos;
Eu chamo pelos vezinhos,
E ella nego dar-*ne em xeco.
DEN. ISSO he de coraçuda;
Não cures de a vender,
Que s'alguein le mal fizer,
Ja siquer tens quem te acuda.
Mas a minha he tão cortez,
Que se viesse ora á mão
Que in'espancasse hum rascão,
Não diria, — mal fazes:
Mas antes s'assentaria
A olhar como eu bradava.
Todavia a mulher brava
He, compadre, a qu'eu queria.
170 LIVRO I.

AMANCIO VAZ.
Pardeos! tanto me faras,
Que feire a minha comtego.
DEN. Se queres feirar comego,
Vejamos que me darás.
AMA. Mas antes in'has de tornar,
Pois te dou mulher tão forte,
Que te castigue de sorte
Que não ouses de fallar,
Nem no mato nem na corte.
Outro bem teras com ella:
Quando vieres da arada,
Conterás sardinha assada,
Porqu'ella jenta a panella.
Então geme, pardeos, si,
Diz que lhe doe a moleira.
DEN. Eu faria por maneira
Que esperasse ella por mi.
AMANCIO VAZ.
Que hVhavias de fazer?
DEN. Amancio Vaz, eu o sei bem.
AMA. Deniz Lourenço, ei-las ca vem.
Vamo-nos nós esconder,
Vejamos que vem catar,
Qu'ellas ambas vem a feira.
Mette-te nessa silveira,
Qu'eu daqui hei d'espreitar.
Vem Branca Armes a brava, e Marta Dias
mansa, e vem dizendo a brava:
HRANCA A N N E S .
Pois casei má hora, e nella,
E com tal marido, prima,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 171

Comprarei ca hüa gamella,


Para o ter debaixo delia,
E hum gran penedo em cima.
Porque vai-se-ine ás figueiras,
E come verde e maduro;
E quantas uvas penduro
Jeita nas gorgoinileiras:
Parece negro monturo.
Vai-se-m'ás ameixieiras,
Antes que sejão maduras;
Elle quebra as cereijeiras,
Elle vendiina as parreiras,
E não sei que faz das uvas.
Elle não vai á lavrada,
Elle todo o dia come,
Elle toda a noute dorme,
Elle não faz nunca nada,
E sempre ine diz que ha fome.
Jesu! posso-te dizer,
E jurar e tresjurar,
E provar e reprovar,
E andar e revolver,
Qu'he melhor pera beber,
Que não pera maridar.
O demo que o fez marido!
Que assi sêcco como he
Beberá a torre da Sé:
Então arma hum arruido
Assim debaixo do pé.
MARTA DIAS.
Pois bom homem parece elle.
DEN. Aquella he a minha froxa.
172 LIVRO I.

MAR. Deu-f elle a fraldüha roxa?


HRA. Melhor lh'esfole eu a pelle.
Que homem ha hi da puxa.
O diabo que o eu dou,
Que o leve em fatieta,
E o ladrão que m'o gabou;
E o frade que me casou
Inda o veja na^ picotã.
E rogo á Virgem da Estrella,
E á sancta Gerjalem,
E ós choros da Madanella,
E á asninha de Belém,
Que o veja eu ir á vela
Para donde nunca vem.
DEN. Compadre, nó mais soffrer:
Sae de lá desse silvado.
AMA. Pera eu ser arrepelado
Não havi'eu mais inester.
DENIZ LOURENÇO.
E não n'has tu de vender?
AMA. Tu dizes que a quês feirar.
DEN. Não qu'ella se me tomar,
Leixar-m'ha quando quizer.
Mas dêmo-las á ma estreia;
E voto que nos tornemos,
E er depois tornaremos
Com as cachopas d'aldeia:
Entonces concertaremos.
AMANCIO VAZ.
Isso me parece a mi
Muito melhor que eu ir lá.
Oh que couces que ine dá,
DAS OBRAS DE DEVAÇAO. 173

, Quando ine colhe sob si!


DEN. Canf aquella si dará.
DIA. Mulheres, vós que me quereis?
Nesta feira que buscais?
MAR. Queremo-la ver, nó mais,
Pera ver ein que <raciais,
E as cousas que vendeis.
Tendes vós aqui anneis?
DIA. Quejandos? de que feição?
MAn.D'huns que fazem de latão.
DIA. Pera as mãos, ou pera os pés?
MAR. Não — Jesu, nome de Jesu,
Deòs e homem verdadeiro!
Foge o Diabo, e Marta diz:
MARTA DIAS.
Nunca eu vi bufalinheiro
Tão prestes tomar o mu.
Branc'Annes mana, cre tu
Que, como Jesu he Jesu,
Era este o diabo inteiro.
BRANCA ANNES.
Não he elle pao de boa lenha,
Nem lenha de bo madeiro.
MAR.Bofá, nunqu'elle ca venha.
BRA. Viagem de Jão moleiro,
Que foi pola cal d'azenha.
MAR. Pasmada estou eu de Deos
Fazer o demo marchante!
Mana, daqui por diante
Não caminhemos nós sos.
BRANCA ANNES.
S'eu soubera quem elle era,
174 LIVRO I.

Fizera-lhe bom partido:


Que me levara o marido,
E quanto tenho lhe dera,
E o toucado e o vestido.
Inda que mais não levara
Desta feira, em extremo
Me alegrara e descançára,
Se o vira levar o demo,
E que nunca mais tornara.
Porque, inda que era diabo,
Fizera serviço a Deos,
E a mim mercê em cabo;
E viera-me dos ceos,
Como vem a frol ao nabo.
Vão-se ao Tempo, e diz Marta:
MAR. Dizei, Senhores de bem,
Nesta tenda que vendeis?
SER. Esta tenda tudo tem;
Vede vós o que quereis,
Que tudo se fará bem.
Conciencia quereis comprar,
De que vistais vossa alma?
MAR. Tendes sombreiros de palma
Muito bôs para segar,
E tapados pera a calma?
SER. Conciencia digo eu,
Que vos leva ao paraíso.
Bn.\. Não sabemos nós qu'he isso:
Dae-o ó decho por seu,
Que ja não he tempo disso.
MARTA DIAS.
Tendes vós aqui borel,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 175

Do pardo de lan meirinha?


BRA. EU queria hüa pucarinha
Pequenina para mel.
SER. Esta feira he chamada
Das virtudes em seus tratos.
MAR.Das virtudes! e ha aqui patos?
BRA. Quereis feirar a cevada
Quatro pares de sapatos?
SER. Oh piedoso Deos eterno!
Não comprareis para os ceos
Hum pouco d'amor de Deos,
Que vos livre do inferno?
BRA. Isso he fallar per pinceos.
SERAPHIM.
Esta feira não se fez
Pera as cousas que quereis.
BRA. Pois canf a essas que vendeis,
Daqui affirmo outra vez
Que nunca as vendereis.
Porque neste sigro em fundo
Todos somos negligentes:
Foi ar que deu polas gentes,
Foi ar que deu polo inundo,
De que as almas são doentes:
E se hão de correger
Quando for todo danado:
Muito cedo se ha de ver;
Que ja elle não pôde ser
Mais torto nem alejado.
Vaino-nos, Marta, á carreira,
Que as moças do logar
Virão ca fazer a feira,
176 LIVRO I.

Ou'estes não sabem ganhar,


Nem tem cousa qu'homem queira.
MARTA DIAS.
Eu não vejo aqui cantar,
Nem gaita, nem tamboril,
E outros folgares mil,
Que nas feiras soem d'estar:
E mais feira de Natal,
E mais de Nossa Senhora,
E estar todo Portugal.
BRA. S'eu soubera qu'era tal,
Não estivera eu ca agora.
Vem á feira nove moças dos montes, e três maneei
todas com cestos nas cabeças cobertos, cantando, e como i
gão, se assentão por ordem a vender; e diz-lhe o
SERAPHIM.
Pois vindes vender á feira,
Sabei que he feira dos ceos;
Por tal vendei de maneira
Que não offendais a Deos,
Roubando a gente estrangeira.
TES. Responde-lhe, Leonarda,
Tu Justina, ou Juliana.
JUL. Mas responda-lhe Giralda,
Tesaura, ou Merenciana.
MERENCIANA.
Responde-lhe, Theodora,
Porque creio que a ti creia.
TES. Responda-lhe Doroteia,
Pois que mora
Junto c'o Juiz d'aldeia.
DOR. Moneca responderá,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 177

Que fallou ja c'o Senhor.


MON. Responde-lhe tu, Nabor,
Comtigo s'entenderá.
Ou Denisio, ou Gilberto,
Qualquer de vós outros três,
E não vos embaraceis nem torvês,
Porque he certo
Que bem vos entenderês.
GIL. Estas cachopas não vem
A feira nego a folgar,
E trazem de merendar
Nesses cestos que hi tem.
Mas pois quanto ao que entendo,
Sois sainica anjo de Deos;
Quando partistes dos ceos,
Que ficava elle fazendo?
SER. Ficava vendo o seu gado.
GIL. Sancta Maria! gado ha lá?
Oh Jesu! como o terá
O Senhor gordo e guardado!
E ha lá boas ladeiras,
Como na serra d'Estrella?
SER. Si. GIL. E a Virgem que faz ella?
SER. A Virgem olha as cordeiras,
E as cordeiras a ella.
GIL. E os Sauctos de saúde
Todos, a Deos louvores?
SER. Si. GIL. E que legoas haverá
Daqui á porta do Paraizo,
Onde San Pedro está?
NABOR.
Lá vem ó redor das vinhas
178 LIVRO L

Compradores a comprar
Sainica ovos e gallinhas.
DOR. Não lhe hei de vender as minhas,
Que as trago pera dar.
Vem dous compradores, hum per nome Vicente, e ou\
Malheus, e diz Matheus a Jus tina.
MATHEUS.
Vós rosa do amareflo,
Mana, tendes hi queijadas?
Jus. Tenho vosso avô marmelo^
Conhecei-lo ?
MAT.Aqui estão einborilhadas.
Jus. Estade ma ora quedo,
Pela vossa negra vida.
MAT.Menina, não hajais medo:
Vós sois mais engrandecida
Que Branca de Figueiredo.
Se trazeis ovos, meus olhos,
Não m'os vendais a ninguém.
Jus. Andar ein burra e ter bem:
Ouvide ora o rasca-piolhos
(Azeite no inicho!) ein que vem!
Vic. Minha vida Leonarda
Traz caça para vender?
LEO. Vossa vida' negra e parda
Não lhe abastará comer
Da vacca com da mostarda?
VICENTE.
E a mesa de meu senhor
Irá sem ave de penna?
LEO. Quem? e vós sois comprador?
Pois nem grande nem pequena
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 179

Não matou o caçador.


Vic. Matais-me vós logo bem
Com dous olhinhos qu'eu digo.
LEO. Mais vos mata a vós o trigo,
Porque não vale a vintém,
E traz mao micho comsigo.
VICENTE.
Vós fazeis de mim rascão.
LEO. Páção vos fizestes vós;
Porém bem vos vimos nós
Guardar bois no Alqueidão.
MAT. Que vindes vender á feira,
Theodora, alma minha,
Minha alma, minha canceira?
Trazeis algüa gallinha?
THE. Som voss'alma gallinheira.
Que ma ora ca vieste
Pera quem vos poz no paço!
MAT. Senhora, eu que vos faço,
Que vos agastais tão prestes?
Dizei-me vós, Theodora,
Trazeis vós tal cousa tal
Deste geito, muito embora?
Mas lá dess'outro metal
Não fallão á lavradora.
VICENTE.
Senhora Moneca, trazeis
Algum cabrito recente?
MON. Não bofé, Senhor Vicente:
Quizera ora trazer três,
De que vós foreis contente.
Vic Jiii-n á saneia cruz de nallta
180 LIVRO I.

Qu'hei de ver o que aqui 'stá.


MON. Não revolvais arama,
Que não trago nemigalha.
VICENTE.
Não me façais descortez,
Nem queirais ser tão garrida.
MON. Pola vossa negra vida!
Olhade como he cortez!
Oh! que lhe saia ma sabida.
MAT.Giralda, eu achar-vos-hei
Dous pares de passarinhos?
GIR. Irei por elles aos ninhos,
Entonces os venderei:
Comereis vós estorninhos?
MATHEUS.
Respondeis como mulher
Muito de sua vontade.
GIR. Pois digo-vo-la verdade:
Pássaros hei de vender?
Olhae aquella piedade!
VICENTE.
Senhora minha Juliana,
Peço-vos que me falleis
Discreta palaciana,
E dizei-me que vendeis.
JUL. Vendo favas de Viana.
Vic. Tendes alguns laparinhos?
JUL. Sim, de porca. Vic. Nem coelhos^
JUL. Quereis comprar dous francelhos,
Para caçardes ratinhos?
Vic. Quero, pólos evangelhos.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 181

MATHEUS.
Vós Tesaura, minha estrella,
Não virieis ca ein vão.
TES. Pois si, vossa estrella vos er'ella:
Como aquillo he de rascão!
MvT.Mas como isso he de donzella!
Porém va ja como vai,
E casemo-nos, senhora.
TES. Pois casae co'el!e, casae.
Casar ma ora, meu pae,
Casar ma ora.
MATHEUS.
Porém trazeis algum pato?
TES. E quanto dareis por elle?
Hui! e elle revolve o fato:
Olho mao se metta nelle.
MAT. Não trazeis vós o qifeu cato.
Vic. Merenciana deve ter
Neste cesto algum cabrito.
MER. Não m'haveis de revolver,
Senão pardeos que dê grito
Tamanho, qu'haveis de ver.
VICENTE.
Eu hei de veí que trazeis.
MER.Se vós no cesto bolis...
Vic. Senhora, que me fareis?
MER. Hum aqui-delrei, ouvis?
Não sejais vós descortez.
Vic. Não quero senão amores,
Pois vosso, senhora, sô.
MER. Amores de vosso avô,
182 LIVRO I.

0 da ilha dos Açores.


Andar arama vós so.
MATHEUS.
Vamo-nos daqui, Vicente.
Vic. Bofá vamos. MAT. Nunca vi tal feira.
Vic. Vamos comprar á ribeira,
Qu'anda lá a cousa mais quente.
Vão-se os compradores, e diz o Seraphim ás moças:
SERAPHIM.
Vós outras quereis comprar
Das virtudes? TODAS. Senhor, não.
SER. Saibamos porque razão.
DOR. Porque no nosso logar
Não dão por virtudes pão;
Nem casar não vejo eu
Por virtudes a ninguém.
Quem tiver muito de seu,
E tão bôs olhos como eu,
Sem isso casará bem.
SERAPHIM.
Pois porque viestes ora
Cansar á feira de pé?
THE. Porque nos dizem que he
Feira de Nossa Senhora:
E vedes aqui porque.
E as graças que dizeis
Que tendes aqui na praça,
Se vós outros as vendeis,
A Virgem as dá de graça
Aos bôs, como sabeis.
E porque a graça e alegria
A madre da consolação
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 183

Deu ao mundo neste dia,


Nós vimos com devação
A cantar-lhe hüa folia.
E pois que ja descansamos
Assi em boa maneira,
Moças, assi como estamos,
Dêmos fim a esta feira,
Primeiro que nos partamos.
Alevantãose todas, e ordenadas em folia cantarão a
eantiga seguinte, com que se despedirão.
1° CÔR&
"Blanca estais colorada,
"Virgen sagrada.

"Em Belém vüla da amor


"Da rosa nasceo a flor:
"Virgem sagrada."
2° Côno.
"Em Belém villa do amor
"Nasceo a rosa do rosai:
"Virgem sagrada."
1° CORO.
"Da rosa nasceo a flor,
"Pera nosso Salvador:
"Virgem sagrada."
2° CORO.
"Nasceo a rosa do rosai,
"Deos e homem natural:
"Virgem sagrada."
F I G L R A S.

ALMA.
ANJO CUSTODIO.
IGREJA.
S. AGOSTINHO.
S. AMBROSIO.
S. JERONIMO.
S. THOMAZ.
Dous DIABOS.

Este auto presente foi feito á muito devota Rainha


Dona Leonor, e representado ao muito poderoso e nobre
Rei Dom Emanuel, seu irmão, por seu mandado, na ci-
dade de Lisboa nos paços da Ribeira, em a noute de en-
doenças; era do Senhor 1508.
ALTO DA ALMA.

ARGUMENTO.
Assi como foi cousa muito necessária haver nos caminhos
estalagens, pera repouso e refeição dos cansados caminhan-
tes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida
houvesse hüa estalajadeira, pera refeição e desanco das
almas que vão caminhantes pera a eternal morada de Deos.
Esta estalajadeira das almas he a Madre Sancta Igreja;
a mesa he o altar, os manjares as insígnias da paixão.
E desta perfiguração tracta a obra seguinte.
Está posta hüa mesa com hüa cadeira. Vem a Madre
Sancta Igreja com seus quatro doctores, San Thomaz, San
Jeronimo, Sancto Ambrosio, Sancto Agostinho; e diz
AGOSTINHO.
Necessário foi, amigos,
Que nesta triste carreira
Desta vida,
Pera mui p'rigosos p'rigos
Dos iinigos,
Houvesse algüa maneira
De guarida.
Porque a humana transitória
Natureza vai cansada
Em várias calmas;
Nesta carreira da glória
186 LIVRO L

Meritoria,
Foi necessário pousada
Pera as almas.
Pousada com mantimentos,
Mesa posta em clara luz,
Sempre esperando
Com dobrados mantimentos
Dos tormentos
Que o Filho de Deos na cruz.
Comprou, penando.
Sua morte foi avença,
Dando, por dar-nos paraizo,
A sua vida
Apressada, sem detença;
Por sentença
Julgada a paga em proviso,
E recebida.
A sua mortal empresa
Foi, sancta estalajadeira
Igreja Madre
Consolar á sua despesa
Nesta mesa
Qualquer alma caminheira,
Com o Padre
E o anjo custodio aio.
Alma que lh'he encoinmendada,
Se enfraquece
E lhe vai tomando raio
De desmaio;
Se chegando a esta pousada,
Se guarece.
Vem o Anjo Custodio com a Alma, e diz:
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 187

ANJO.
Alma humana formada
De nenhüa eousa, feita
Mui preciosa,
De corrupção separada,
E esmaltada
Naquella frágoa perfeita
Gloriosa;
Planta neste valle posta
Pera dar celestes flores
Olorosas,
E pera serdes tresposta
Em a alta costa
Onde se crião primores
Mais que rosas;
Planta sois e caminheira,
Que ainda que estais, vos is
Donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
He ser herdeira
Da glória que conseguis:
Andae prestes.
Alma bem-aventurada,
Dos anjos tanto querida,
Não durmais;
Hum ponto não esteis parada,
Que a jornada
Muito em breve he fenecida,
Se attentais.
ALM. Anjo que sois minha guarda,
Olhae por minha fraqueza
Terreal:
188 LIVRO I.

De toda a parte haja resguarda,


Que não arda
A minha preciosa riqueza
Principal.
Cercae-me sempre ó redor,
Porque vou mui temerosa
Da contenda.
r

O precioso defensor
Meu favor!
Vossa espada lumiosa
Me defenda.
Tende sempre mão em mim,
Porque hei medo de empeçar,
E de cahir.
ANJ. Pera isso sam, e a isso vim;
Mas emfiin
Cumpre-vos de me ajudar
A resistir.
Não vos occupem vaidades,
Riquezas, nem seus dabates.
Olhae por vós;
Que pompas, honras, herdades
E vaidades,
São embates e combates
Pera vós.
Vosso livre alvedrio,
Isento, forro, poderoso,
Vos he dado
Polo divinal poderio
E senhorio,
Que possais fazer glorioso
Vosso estado.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 189

Deu-vos livre entendimento,


E vontade libertada
E a memória,
Que tenhais em vosso tento
Fundamento,
Que sois por elle criada
Pera a glória.
E vendo Deos que o metal
Em que vos poz a estillar,
Pera merecer,
Que era muito fraco e mortal:
E por tal
Me manda a vos ajudar
E defender.
Andemos a estrada nossa;
Olhae não torneis atraz,
Que o imigo
A vossa vida gloriosa
Porá grosa.
Não creais a Satanaz,
Vosso perigo.
Continuae ter cuidado
Na fim de vossa jornada,
E a memória
Que o spirito atalaiado
Do peccado
Caminha sem temer nada
Pera a glória.
E nos laços infernaes,
E nas redes de tristura
Tenebrosas,
Da carreira que passais
190 LIVRO I.

Não caiais:
Siga vossa fermosura
As gloriosas.
Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo e diz:
DIABO.
Tão depressa, ó delicada,
Alva pomba, pera onde is?
Quem vos engana,
E vos leva tão cansada
Por estrada,
Que somente não sentis
Se sois humana?
Não cureis de vos matar,
Que ainda estais ein idade
De crescer.
Tempo ha hi pera folgar,
E caminhar:
Vivei á vossa vontade,
E havei prazer.
Gozae, gozae dos bens da terra,
Procurae por senhorios
E haveres.
Quem da vida vos desterra
A triste serra?
Quem vos falia em desvarios
Por prazeres?
Esta vida he descanso
Doce e manso,
Não cureis d'outro paraizo:
Quem vos põe em vosso siso
Outro remanso?
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 191

ALMA.
Não me detenhais aqui,
Deixae-me ir, que ein ai me fundo.
DIA. Oh descansae neste inundo,
Que todos fazem assi.
Não são em balde os haveres,
Não são em balde os deleites,
E fortunas;
Não são de balde os prazeres
E comeres:
Tudo são puros affeítes
Das criaturas.
Pera os homens se criarão.
Dae folga á vossa passagem
D'hoje a mais:
Descansae, pois descansarão
Os que passarão
Por esta mesma roínagem
Que levais.
O que a vontade quizer,
Quanto o corpo desejar,
Tudo se faça.
Zombae de quem vos quizer
Reprender,
Querendo-vos marteirar
Tão de graça.
Tornára-ine, se a vós fora.
Is tão triste, atribulada,
Que he tonnenta.
Senhora, vós sois senhora
Imperodora,
Não deveis a ninguém nada;
192 LIVRO I.

Sede isenta.
ANJ. Oh! andae; quem vos detém?
Como vindes pera a glória
Devagar!
Oh meu Deos! oh summo bem!
Ja ninguém
Não se preza da victoria
Em se salvar.
Ja cansais, alma preciosa?
Tão asinha desmaiais?
Sede esforçada!
Oh como virieis írigosa
E desejosa,
Se visseis quanto ganhais
Nesta jornada!
Caminhemos, caminhemos;
Esforçae ora, ahna sancta
Esclarecida!
Adianta-se o Anjo, e torna Satanaz:
DIABO.
Que vaidades e que extremos
Tão supremos!
Pera que he essa pressa tanta?
Tende vida.
Is mui desautorisada,
Descalça, pobre, perdida
De remate:
Não levais de vosso nada,
Amargurada.
Assi passais esta vida
Em disparate.
Vesti ora este brial,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 193

Mettei o braço por aqui:


Ora esperae.
Oh como vem tão real!
Isto tal
Me parece bem a mi:
Ora andae.
Huns chapins haveis mister
De Valença: — ei-los aqui.
Agora estais vós mulher
De parecer.
Ponde os braços presumptuosos:
Isso si.
Passeae-vos mui pomposa,
Daqui pera alli, e de lá pera ca,
E fantasiae.
Agora estais vós fermosa
Como a rosa;
Tudo vos mui bem está.
Descansae.
Torna o Anjo á Alma, dizendo:
ANJO.
Que andais aqui fazendo?
ALM. Faço o que vejo fazer
Pelo mundo.
ANJ. Ó Alma, is-vos perdendo;
Correndo vos is metter
No profundo.
Quanto caminhais avante,
Tanto vos tornais atraz
E atravez.
Tomastes ante com ante

13
Vol. I.
194 LIVRO L

Por mercante,
O cossairo Satanaz,
Porque queres.
Oh! caminhae com Cuidado,
Que a Virgem gloriosa
Vos espera.
Deixais vosso prineipado
Desherdado^
Engeitais a glória vossa
E pátria vera!
Deixae esses chapins ora,
E esses rabos tão sobejos,
Que is carregada:
Não vos tome a morte agora
Tão senhora;
Nem sejais com taes desejos
Sepultada.
ALMA.
Andae, dae-me ca essa mão;
Andae vós, que eu irei,
Quanto puder.
Adianta-se o Anjo, e torna o Diabo.
DIABO.
Todas cousas com razão
Tem sazão.
Senhora, eu vos direi
Meu parecer.
Ha hi tempo de folgar,
E idade de crescer;
E outra idade
De mandar e triumphar,
E apanhar
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 195

E acquirir prosperidade
A que puder.
Ainda he cedo pera a ihOrte;
Tempo ha de arrepender,
E ir ao ceo.
Ponde-vos á fór da corte,
Desta sorte
Viva vosso parecer,
Que tal nasceo.
O ouro pera que he,
E as pedras preciosas,
E brocados?
E as sedas pera que?
Tende por fé,
Que p'ra as almas mais ditosas
Forâo dados.
Vedes aqui huin collar
D'ouro mui bein esmaltado,
E dez anneis.
Agora estais vós p'ra casar
E namorar:
Neste espelho vos vereis,
E sabereis
Que não vos hei de enganar.
E poreis estes pendentes,
Em cada orelha seu:
Isso si;
Que as pessoas diligentes
São prudentes.
Agora vos digo eu
Que vou contente daqui.

13
196 LIVRO I.

ALMA.
Oh como estou preciosa,
Tão dina pera servir,
E sancta pera adorar!
ANJ. Oh alma despiedosa
Perfiosa!
Quem vos devesse fugir,
Mais que guardar!
Pondes terra sobre terra;
Qu'esses ouros terra são.
O Senhor,
Porque permittes tal guerra,
Que desterra
Ao reino da confusão
O teu lavor?
Não ieis mais despejada,
E mais livre da primeira
Pera andar?
Agora estais carregada
E embaraçada
Com cousas que, á derradeira,
Hão-de ficar.
Tudo isso se descarrega
Ao porto da sepultura.
Alma sancta, quem vos cega,
Vos carrega
Dessa van desaventura?
ALMA.
Isto não me pesa nada,
Mas a fraca natureza
Me embaraça.
Ja não posso dar passada
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 197

De cansada:
Tanta he minha fraqueza,.
E tão sem graça!
Senhor, ide-vos embora,
Que remédio em mim não sento;
Ja 'stou tal
ANJ. Sequer dae dous passos ora
Até onde mora
A que tem o mantimento
Celestial.
Ireis alli ropousar,
Comereis alguns bocados
Confortosos;
Porque a hóspeda he sem par
Em agasalhar
Os que vem atribulados
E chorosos.
ALM. He longe? ANJ. Aqui mui perto.
Esforçae, não desmaieis;
E andemos,
Qu'alli ha todo concerto
Mui certo:
Quantas cousas querereis
Tudo tendes.
A hóspeda tem graça tanta,
Far-vos-ha tantos favores —
ALM. Quem he ella?
ANJ. He a Madre Igreja Sancta,
E os seus sanctos Doutores
Hi com ella.
Ireis d'hi mui despejada,
Cheia do Spirito Sancto,
198 LIVRO I.

E mui fermosa.
0 Alma, sede esforçada!
Outra passada;
Que não tendes de andar tento
A ser esposa.
DIABO.
Esperae, onde vos is?
Essa pressa tão sobeja
He ja pequice.
Como! vós, que presumisT
Consentis
Continuardes a igreja,
Sem velhice?
Dae-vos, dae-vos a prazer,
Que muitas horas ha nos annos
Que lá vem.
Na hora que a morte vier,
Como se quer,
Se perdoão quantos damnos
A alma tem.
Olhae por vossa fazendas
Tendes hüas escripturas
De huns casaes,
De que perdeis grande renda.
He contenda,
Que leixárão ás escuras
Vossos pães;
He demanda mui ligeira,
Litígios que são vencidos
Ein hum riso.
Citae as partes terça-feira,
De maneira
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 199

Como não fiquem perdidos:


E havei siso.
ALMA.
Cal'-te por amor de Deos,
Leixa-me, não ine persigas;
Bem abasta
Estorvares os hereos
Dos altos ceos:
Que a vida em tuas brigas
Se me gasta.
Leixa-me remediar
O que tu, cruel, damnaste
Sem vergonha:
Que não me posso abalar,
Nem chegar
Ao logar onde gaste
Esta pcçonha.
ANJO.
Vedes aqui a pousada
Verdadeira e mui segura
A quem quer vida.
IGR. Oh como vindes cansada
E carregada!
ALM. Venho por .minha ventura
Amortecida.
IGR. Quem sois? pera onde andais?
ALM. Não sei pera onde vou:
Sou salvagem,
Sou hüa alma que peccou
Culpas mortaes
Contra o Deos que me creou
Á sua imagem.
200 LIVRO I.

Sou a triste, sem ventura,


Creada resplandecente
E preciosa,
Angélica em fennosura,
E per natura,
Como o raio reluzente
Lumiosa.
E por minha triste sorte,
E diabólicas maldades
Violentas,
Estou mais morta que a morte,
Sem deporte,
Carregada de vaidades
Peçonhentas.
Sou a triste, sem mézinha,
Peccadora obstinada,
Perfiosa;
Pola triste culpa minha
Mui mesquinha,
A todo o mal inclinada,
E deleitosa.
Desterrei da minha mente
Os meus perfeitos arreios
Naturaes;
Não me prezei de prudente,
Mas contente
Me gozei c'os trajos feios
Mundanaes.
Cada passo me perdi;
Em logar de merecer,
Eu sou culpada.
Havei piedade de mi,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 201

Que não me vi;


Perdi meu innocente ser,
E sou damnada.
E, por mais graveza, sento
Não poder-me arrepender
Quanto queria;
Que meu triste pensamento,
Sendo isento,
Não me quer obedecer,
Como soia.
Sdccorrei, hóspeda senhora,
Que a mão de Satanaz
Me tocou,
E sou ja de mim tão fora,
Que agora
Não sei se avante, se atraz,
Nem como vou.
Consolae minha fraqueza
Com sagrada iguaria,
Que pereço,
Por vossa sancta nobreza,
Que he franqueza;
Porque o que eu merecia
Bem conheço.
Conheço-me por culpada,
E digo diante vós
Minha culpa.
Senhora, quero pousada,
Dae passada;
Pois que padeceo por nós
Quem nos desculpa.
Mandae-me ora agasalhar,
202 LIVRO L

Capa dos desemparados,


Igreja Madre.
iGn. Vinde-vos aqui assentar
Mui devagar,
Que os manjares são. guisados
Por*Deos Padre.
Sancto Agostinho doutor,
Jeronimo, Ambrosio e Thomaz,
Meus pilares,
Servi aqui por meu amor,
A qual melhor.
E tu, Alma, gostarás
Meus manjares.
Ide á sancta cozinha,'
Tornemos esta alma ein si,
Porque mereça
De chegar onde caminha,
E se detinha:
Pois que Deos a trouxe aqui,
Não pereça.
Em quanto estas cousas passão, Satanaz passeia, fazendo
muitas vascas, e vem outro Diabo, e diz:
2° DIABO.
Como andas dessocegado!
i° D. Arco em fogo de pezar.
2° D. Que houveste ?
1° D. Ando tão desatinado
De enganado,
Que não posso repousar
Que me preste.
Tinha hüa alma enganada,
Ja quasi pera infernaL
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 203

Mui accesa.
2° D. E quem t'a levou forçada?
1° D. 0 da espada.
2° D. Ja m'elle fez outra tal
Bulra como essa.
Tinha outra alma ja vencida,
Em ponto de se enforcar
De desesperada,
A nós toda offerecida,
E eu prestes pera a levar
Arrastada;
E elle fê-la chorar tanto,
Que as lagrimas corrião
Pola terra.
Blasfemei entonces tento,
Qu,e meus gritos, reünníão
Pola serra.
Mas faço conta que perdi,
Outro dia ganharei,
E ganharemos.
1° D. Não digo eu, irmão, assi:
Mas a esta tornarei,
E veremos.
Torna-la-hei a affagar,
Depois que ella sair fora
Da Igreja
E começar de caminhar;
Hei de apalpar
Se vencerão ainda agora
Esta peleja.
Entra a Alma, com o Anjo.
204 LIVRO I.

ALMA.
Vós não me desempareis,
Senhor meu anjo custodio.
O increos
Imigos, que me quereis,
Que ja sou fora do ódio
De meu Deos?
Leixae-me ja, tentadores,
Neste convite prezado
Do Senhor,
Guisado aos peccadores
Com as dores
De Cbristo crucificado,
Rederaptor.
Estas cousas estando a Alma assentada d mesa, e o
Anjo junto com ella em pé, vem os Doutores com quatro
bacios de cozinha cubertos, cantando, Vexilla reçis pro-
deuntj e, postos na mesa, diz Sancto Agostinho:
AGOSTINHO.
Vós, senhora convidada,
Nesta cea soberana
Celestial,
Haveis mister ser apartada
E transportada
De toda a cousa mundana
Terreal.
Cerrae os olhos corporaes,
Deitae ferros aos damnados
Appetitos,
Caminheiros infernaes;
Pois buscais
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 205

Os caminhos bem guiados


Dos contritos.
IGREJA.
Benzei a mesa vós, senhor,
E pera consolação
Da convidada,
Seja a oração de dor
Sobre o tenor
Da gloriosa paixão
Consagrada.
E vós, Alma, rezareis,
Contemplando as vivas dores
Da Senhora:
Vós outros respondereis,
Pois que fosles rogadores
Até 'gora.
Oração
para Sancto Agostinho.
Alto Deos maravilhoso,
Que o mundo visitaste
Em carne humana,
Neste valle temeroso
E lacrimoso
Tua glória nos mostraste
Soberana;
E teu filho delicado,
Mimoso da Divindade
E natureza,
Per todas partes chagado,
E mui sangrado,
Pela nossa infirmidade
E vil fraqueza.
206 LIVRO I.

Oh Imperador celeste,
Deos alto mui poderoso
Essencial,
Que polo homem que fizeste,
Offereceste
O teu estado glorioso
A ser mortal!
E tua filha, madre, esposa,
Horta nobre, frol dos ceos,
Virgem Maria,
Mansa pomba gloriosa;
Oh quão chorosa
Quando o seu Deos padecia!
Oh lagrimas preciosas,
De virginal coração
Estilladâs!
Correntes das dores vossas
Cos olhos da perfeição
Derramadas!
Quem hüa so podéra haver,
Vira claramente nella
Aquella dor,
Aquella pena e padecer,
Com que choraveis, donzella,
Vosso amor.
E quando vós amortecida,
Se lagrimas vos faltavão,
Não faltava
A vosso filho e vossa vida
Chorar as que lhe ficavão
De quando orava.
Porque muito mais sentia
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 207

Pólos seus padecimentos


Ver-vos tal;
Mais que quanto padecia,
Lhe doía,
E dobrava seus tormcntos,
Vosso mal.
Se se podesse dizer,
Se se podesse rezar
Tanta dor;
Se se podesse fazer
Podermos ver
Qual estáveis ao cravar
Do Redemptor!
Oh fermosa face bella,
Oh resplandor divina],
Que sentistes,
Quando a cruz se poz á vela,
E posto nella
O filho celestial
Que paristes!
Vendo por cima da gente
Assomar vosso conforto
Tão chagado,
Cravado tão cruelmente,
E vós presente,
Vendo-vos ser mãe do morto,
E justiçado!
Oh rainha delicada,
Sanctidade escurecida,
Quem nãó chora
Ein ver morta debruçada
208 LIVRO I.

A avogada,
A força da nossa vida!
AMBROSIO.
Isto chorou Hieremias
Sobre o monte de Sion
Ha ja dias;
Porque sentio que o Messias
Era nossa redempção.
E chorava a sem ventura,
Triste de Jerusalém
Homecida,
Matando, contra natura,
Seu Deos nascido em Belém
Nesta vida.
JERONLMO.
Quem vira o sancto cordeiro
Antre os lobos humildoso,
Escarnecido,
Julgado pera o marteiro
Do madeiro,
Seu rosto alvo e fermoso Í
Mui cuspido!
AGOSTINHO, (benze « mesa)
A benção do Padre eternal,
E do Filho, que por nós
Soffreo tal dor,
E do Spirito Sancto, igual
Deos immortal,
Convidada, benza a vós
Por seu amor.
IGREJA.
Ora sus, venha água ás mãos.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 209

AGO. VÓS haveis-vos de lavar


Em lagrimas da culpa vossa,
E bem lavada.
E haveis-vos de chegar
A aUinpar
A hüa toalha fermosa,
Bem lavrada
C o sirgo das veias puras
Da Virgem, sem mágoa nascido
E apurado,
Torcido com amarguras
Ás escuras,
Com grande dor guarnecido
E acabado,
Não que os olhos alimpeis,
Que o não consentirão
Os tristes laços;
Que taes pontos achareis
De face e envés,
Que se rompe o coração
Em pedaços.
Vereis seu triste lavrado
Natural,
Com tormentos pespontado,
E figurado
Deos creador em figura
De mortal.
Esta toalha de que aqui se falia, he a Verônica, a qual
S. Agostinho tira d'antre os bacios, e amostra á Alma;
e a Madre Igreja, com os Doutores, lhe fazem adoração
de joelhos, cantando, Salve, sancta Facies. E acabando,
diz a Madre Igreja:
14
Vol. I.
210 LIVRO I.

IGREJA.
Venha a primeira iguaria.
JER. Esta iguaria primeira
Foi, Senhora,
Guisada sem alegria
Em triste dia,
A crueldade cozinheira
E matadora.
Gosta-la-heis com salsa e sal
De choros de muita dor;
Porque os costados
Do Messias divinal
Sancto, sem mal,
Forão polo vosso amor
Açoutados.
Esta iguaria em que aqui se falia, são os Açoules; e em
este passo os tirão dos bacios, e os presentão .á Alma,
e todos de joelhos adorão, cantando, Ave fia gel htm; e
despois diz
JERONIMO.
Esf outro manjar segundo
He iguaria,
Que haveis de mastigar,
Em contemplar
A dor que o Senhor do mundo
Padecia,
Pera vos remediar,
Foi hum torinento improviso,
Que aos miolos lhe chegou:
E consentio,
Por remediar o siso,
Que a vosso siso faltou;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 211

E pera ganhardes paraizo,


A soffrio.
Esta iguaria segunda de que aqui se falia, he a Coroa
de espinhos; e em este passo a tirão dos bacios, e de joe-
lhos os sanctos Doutores cantão, Ave corona espiniarum;
e acabando diz a Madre Igreja:
IGREJA.
Venha outra do theor.
JER. Est'outro manjar terceiro
Foi guisado
Em três logares de dor,
A qual maior,
Com a lenha do madeiro
Mais prezado.
Come-se com gran tristura,
Porque a Virgem gloriosa
O vio guisar:
Vio cravar com gran crueza
A sua riqueza,
E sua perla preciosa
Vio furar.
E a este passo tira S. Agostinho os Cravos, e todos de
joelhos os adorão, cantando, Dulce lignum, dulcis clavus.
E acabada a oração, diz o Anjo á Alma:
ANJO.
Leixae ora esses arreios,
Qu'esf outra não se come assi
Como cuidais.
Pera as almas são mui feios,
E são meios
Com que não andão em si
Os mortaes.
li*
212 LIVRO I.

Despe a Alma o vestido e jóias que lh'ç inimigo deu,


e diz
AGOSTINHO.
O Alma bem aconselhada,
Que dais o seu cujo he;
O da terra á terra:
Agora ireis despejada
Pola estrada,
Porque vencestes com fé
Forte guerra.
IGREJA.
Venha ess'outra iguaria.
JER. A quarta iguaria he tal,
Tão esmerada,
De tão inunda valia
E contia,
Que na mente divinal
Foi guisada,
Por mistério preparada
No sacrario virginal,
Mui cuberta,
Da divindade cercada
E consagrada,
Despois ao Padre eternal
Dada em offerta.
Apresenta S. Jeronimo á Alma hum Crucifixo, que tira
d'antre os pratos; e os Doutores o adorão, cantando, Do-
mine Jesu Christe; acabando, diz a
ALMA.
Com que forças, com que sprito,
Te darei tristes louvores,
Que sou nada,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 213

Vendo-te, Deos infinito,


Tão afílicto,
Padecendo tu as dores,
E eu culpada?
Como estás tão quebrantado,
Filho de Deos iminortal!
Quem te matou?
Senhor, per cujo mandado
Es justiçado,
Sendo Deos universal,
Que nos creou?
AGOSTINHO.
A fruita deste jantar,
Que neste altar vos foi dado
Com amor,
Iremos todos buscar
Ao pomar
Aonde está sepultado
O Redemptor.
E todos com a Alma, cantando Tc Deum lauda mus,
forão adorar o moimento.

•?€*""
F I G L R A S.
ANJO — Arrais do Ceo. FRADE.
DIABO — Arrais do In- BRIZIDA VAZ Alco-
ferno. viteira.
COMPANHEIRO do Di- JUDEU.
abo. CORREGEDOR.
FIDALGO. PROCURADOR.
ONZENEIRO. ENFORCADO.
PARVO. QUATRO CAVALLEIROS

SAPATEIRO.

Representase na obra seguinte hüa perfiguração sobre


a rigorosa accusação, que os inimigos fazem a todas as
almas humanas, no ponto que per morte de seus terrestres
corpos se partem. E por tractar desta matéria põe o Autor
por figura que no dito momento ellas chegão a hum pro-
fundo braço de mar, onde estão dous batéis: hum delles
passa pera a Gloria, outra pera o Purgatório. He repar-
tida em três partes; s. de cada embarcação hüa scena.
Esta primeira he da viagem do Inferno.
Esta perfiguração se escreve neste primeiro livro nas
obras de devação, porque a segunda e terceira parte forão
representadas na capella; mas esta primeira foi represen-
tada de câmara, pera consolação da muito catholica e sancta
Rainha Dona Maria, estando enferma do mal de que fal-
leceti, na era do Senhor de 1517.
ALTO DA BARCA DO INFERNO.

DIABO.
Á barca, á barca, hou lá,
Que temos gentil maré.
Ora venho a caro a ré:
Feito, feito, bem está.
Vae alli muitieramá,
E atesa aquelle palanco,
E despeja aquelle banco,
Pera a gente que virá.
Á barca, á barca, hul
Asinha, que se quer ir.
Oh que tempo de partir!
Louvores a Berzebu.
Ora sus, que fazes tu?
Despeja todo esse leito.
COM. Em bonora, logo he feito.
DIA. Abaixa arama esse eu.
Faze aquella poja lesta,
E alija aquella driça.
COM. O caça, ó ciça.
DIA. Oh que caravella esta!
Põe bandeiras, que he festa;
Verga alta, âncora a pique.
Ó precioso Dom Anrique!
Ca vindes vós? que cousa he esta?
216 LIVRO I.

FHIALGO.
Esta barca onde vai ora,
Qu'assim está apercebida?
DIA. Vai pera a Ilha perdida,
E ha de partir logo essora.
FID. Pera lá vai a senhora?
DIA. Senhor, a vosso serviço.
FID. Parece-me isso cortiço.
DIA. Porque vedes lá de fora.
FIDALGO.
Porém a que terra passais?
DIA. Pera o Inferno, senhor.
Fm. Terra he bein sem sabor.
DIA. Que! e também ca zombais?
FID. E passageiros achais
Pera tal habitação?
DIA. Vejo-vos eu em feição
Pera ir ao nosso cais.
FIDALGO.
Parece-te a ti assi.
DIA. Em que esperais ter guarida?
FID. Que deixo na outra vida
Quem reze sempre por mi.
DIA. Quem reze sempre por ti?
Hi hi hi hi hi hi hi.
E tu viveste a teu prazer,
Cuidando ca guarecer,
Porque rézão lá por ti?
Embarca, ou embarcae,
Qu'haveis d'ir á derradeira.
Mandae metter a cadeira,
Qu'assi passou vosso pae.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 217

FID. Que, que, que! e assi lhe vai?


DIA. Vai ou vem, embarcae prestes:
Segundo lá escolhestes, «
Assi ca vos contentae.
Pois que ja a morte passastes,
Haveis de passar o rio.
FID. Não ha aqui outro navio ?
DIA. Não, senhor, qu'este fretastes,
E ja quando espirastes,
Me tinheis dado signal.
FID. Que signal foi esse tal?
DIA. DO que vós vos contentastes.
FDDALGO.
A est' outra barca me vou.
Hou da barca! pera onde is?
Ah barqueiros, não in'ouvis?
Respondei-me. Hou lá, hou!
Pardeos, aviado estou:
Canf a isto he ja peor.
Que gericocins, salvanor!
Cuidão ca que sou eu grou!
ANJO.
Que mandais? FID. Que me digais,
Pois parti tão sem aviso,
Se a barca do Paraizo
He esta em que navegais.
ANJ. Esta he; que lhe buscais?
FID. Que me leixeis embarcar:
Sou fidalgo de solar,
He bem que me recolhais.
ANJO.
Não se embarca tyrannia
218 LIVRO I.

Neste batei divinal.


Fn>. Não sei porque haveis por mal
Qu'entre minha senhoria.
ANJ. Pera vossa fantasia
Mui pequena he esta barca.
FID. Pera senhor de tal marca
Não ha hi mais cortezia?
Venha a prancha e o atavio;
Levae-ine desta ribeira.
ANJ. Não vindes vós de maneira
Pera entrar neste navio.
Ess'outro vai mais vazio,
A cadeira entrará,
E o rabo caberá,
E todo vosso senhorio.
Ireis lá mais espaçoso,
Vós e vossa senhoria,
Contando da tyrannia,
De que ereis tão curiosov
E porque de generoso
Desprezastes os pequenos;
Achar-vos-heis tanto menos,
Quanto mais fostes fumoso.
DIABO.
A barca, á barca, senhores!
Oh que maré tão de prata!
Hum ventosinho que inata,
E valentes remadores.
"Vos me veniredes á Ia mano,
r

"A Ia mano me veniredes;


"Y vos veredes
"Peixes nas redes."
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 219

FIDALGO.
Ao Inferno todavia!
Inferno ha hi pera mi?
Oh triste! que eih quanto vivi,
Nunca cri que o hi havia;
Tive que era fantasia;
Folgava ser adorado,
Confiei em meu estado,
E não vi que me perdia.
Venha essa prancha, e veremos
Esta barca de tristura.
DIA. Embarque vossa doçura,
Que ca nos entenderemos.
Tomareis hum par de remos,
Veremos como reinais;
E chegando ao nosso cais,
Nós vos desembarcaremos.
FDDALGO.
Mas esperae-me aqui;
Tornarei á outra vida
Ver minha dama querida,
Que se quer matar por mi.
DIA. Que se quer matar por ti?
FID. Isto bem certo o sei eu.
r

DIA. O namorado sandeu,


O maior que nunca vi!
FIDALGO.
Era tanto seu querer,
Que m'escrevia mil dias.
DIA. Quantas mentiras que lias,
E tu morto de prazer!
FID. Pera que he escarnecer,
220 LIVRO I.

Que não havia mais no bem?


DIA. Assim vivas tu ainen,
Como te tinha querer.
FIDALGO.
Isto quanto o que eu conheço.
DIA. Pois estando tu spirando,
Se estava ella requebrando
Com outro de menos preço.
FID. Dá-me licença, te peço,
Que va ver minha mulher.
DIA. E ella por não te ver
Despenhar-s'ha d'hum cabeço.
Quanto ella hoje rezou
Antre seus gritos e gritas,
Foi dar glórias infinitas
A quem na desabafou.
FID. Canf a ella bem chorou.
DIA. E não ha hi choro d'alegria?
FID. E as lástimas que dizia!
DIA. Sua mãe lh'as ensinou.
Entrae, meu senhor, entrae?
Venha a prancha, ponde o pé.
FID. Entremos, pois que assi he.
DIA. Ora agora descansae,
Passeae e suspirae,
Em tanto virá mais gente.
r

FID. O barca, como es ardente!


Maldito quem em ti vai!
OlABO. ( ao moço da cadeira.)
Tu, seu moço, vae-te d'hi,
Que a cadeira ca sobeja;
Cousa que estava na igreja
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 221

Não s'ha de embarcar aqui.


Ca lh'a darão de marfi,
.Marchetada de dolores,
Com taes modos de lavores,
Qu'estará fora de si.
A barca, á barca, boa gente,
Que queremos dar á vela:
Chegar a ella, chegar a ella.
Chega hum Onzeneiro, e diz:
ONZ. Oh que barca tão valente!
Pera onde caminhais?
DIA. Oh que ma ora venhais,
Onzeneiro meu parente!
Como tardastes vós tanto?
ONZ. Mais quizera eu tardar;
Na safra do apanhar
Me deu. Saturno quebranlo.
DIA. Ora muito m'eu espanto
Não vos livrar.o dinheiro.
ONZ. Nem tamsoes para o barqueiro,
Não ine deixarão nem tanto.
DIABO.
Ora entrae, entrae aqui.
ONZ. Não hei eu hi de embarcar.
DIA. Oh que gentil recear,
E que cousa pera ini!
ONZ. Ind'agora falleci,
Deixae-me buscar batei.
DIA. Pezar de Jam Pimentel!
Porque não irás aqui?
ONZENEIRO.
E pera onde he a viagem?
222 LIVRO I.

DIA. Pera onde tu has d'ir,


Estamos para partir:
Não cures de mais linguagem.
Ox\z. Mas pera onde he a passagem?
DIA. Pera a infernal comarca.
ONZ. Dixe, não m'embarco eu nessa barca;
Est'outra tem a vantagem.
(Vai-se á barca do Anjo.)
Hou da barca, hou lá, hou!
Haveis logo de partir?
ANJ. E onde queres tu ir?
ONZ. EU pera o Paraizo vou.
ANJ. Pois canf eu bem fora estou
De te levar pera lá:
Ess'outra te levará;
Vae pera quem f enganou.
ONZENEIRO.
Porque? ANJ. Porqu'esse bolção #
Tomara todo o navio.
ONZ. Juro a Deos que vai vazio.
ANJ. Não ja no teu coração.
ONZ. Lá me ficão de rondão
Vinte e seis milhões n'hüa arca.
DIA. Pois que onzena tanto abarca,
Não lhe deis embarcação.
( Torna ao Diabo. )
Hou lá, hou demo barqueiro,
Sabeis vós no que me fundo?
Quero lá tornar ao inundo,
E trazer o meu dinheiro,
Qu' aquell' outro marinheiro,
Porque me ve vir sem nada,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 223

Dá-me tanta borregada,


Como arrais lá do Barreiro.
DIABO.
Entra, entra, e remarás;
Não percamos mais maré.
ONZ. Todavia... DIA. Por força he:
Que te pês, ca entrarás;
Irás servir Satanaz,
Pois que sempre f ajudou.
ONZ. Oh triste! quem me cegou!
DIA. Cal'-te, que ca chorarás.
ONZENEIRO. (Entrando no batei, diz ao Fidalgo,)
Sancta Joanna de Valdez!
Ca he Vossa Senhoria?
FID. Dá ó demo a cortezia.
DIA. Ouvis? fallae vós cortez.
Vós, fidalgo, cuidareis
Que estais em vossa pousada?
Dar-vos-hei tanta pancada
Chum remo, que arrenegueis.
Vem hum Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:
PARVO.
HOU d aquella! DIA. Quem he? PAR. EU soo.
He esta naviarra vossa?
DIA. De quem? PAR. Dos tolos. DIA. Vossa;
Entrae. PAR. De pulo, ou de voo?
Oh pezar de meu avô!
Soma vim adoecer,
E fui ma ora morrer,
E nella pera mi so.
DIABO.
De que morreste? PAR. De que?
224 LIVRO I.

Samica de caganeira.
DIA. De que? PAR. De caga merdeira.
Ma rabugein que te dê!
DIA. Entra, e põe aqui o pé.
PAR. HOU lá, não tombe o zambuco.
DIA. Entra, tolaço eunuco,
Que se nos vai a maré.
PARVO.
Aguardae, aguardae, hou lá,
E onde havemos nós d'ir ter?
DIA. AO porto de Lucifer.
PAR. Como? DIA. O Inferno. Entra ca.
PAR. O Inferno ieramá.
Hio hio, barca do corhudo,
Beiçudo, beiçudo,
Bachador d'alverca, huhá!
Sapateiro de Landosa,
Antrecosto de carrapato,
Sapato, sapato,
Filho da grande aleivosa;
Tua mulher he tinhosa,
E ha de parir hum sapo,
Chentado no guardanapo,
Neto da cagarrinhosa.
Furta cebolas, hio, hio,
Excominungado nas igrejas,
Burrela cornudo sejas.
Toma o pão que te cahio,
A mulher que te fugio
Pera a Ilha da Madeira.
Ratinho da Giesteira,
O demo que te pario.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 225

Hio, hio, lanço-te hüa pulha


De pica náquella.
Hio, hio, caga na vela,
Cabeça de grulha,
Perna de cigarra velha,!
Pelourinho da Pampulha,
Rabo de forno de telha.
( Chegando & Barca da Gloria diz: )

Hou da barca! ANJ. TU que queres?


PAR. Quereis-me passar alem?
ANJ. Quem es tu? PAR. Não sou ninguém.
ANJ. TU pássaras, se quizeres.
Porque em todos teus fazeres,
Per malícia não erraste;
Tua simpreza t'abaste
Pera gozar dos prazeres.
Espera em tanto per hi,
Veremos se vem alguém
Merecedor de tal bem,
Que deva d'entrar aqui.
Vem hum Sapateiro carregado de formas, e diz na
Barca do Inferno:
SAPATEIRO.
Hou da barca! DIA. Quem vem hi?
Sancto sapateiro honrado,
Como vens tão carregado!
SAP. Mandárão-me vir assK
Mas pera onde he a viagem?
DIA. Pera a terra dos damnados.
SAP. E os que morrem confessados
Onde tem sua passagem?
DIA. Não cures de mais linguagem,
5
Vol. T. '
226 LIVRO I.

Qu'esta he tua barca — esta.


SAP. Renegaria eu da festa,
E da barca, e da barcagem.
Como pod'rá isso ser,
Confessado e commungado?
DIA. TU morreste excommungado,
E não no quizeste dizer:
Esperavas de viver,
Calaste dez mil enganos.
Tu roubaste, bem trinta annos,
O povo com teu mister.
Embarca-te, eramá para ti;
Qu'ha ja muito que f espero.
SAP. Digo-te que re-não quero.
DIA. Digo-te que si, re-si.
SAP. Quantas missas eu ouvi
Não m'hão ellas de prestar?
DIA. Ouvir missa, então roubar,
He caminho pera aqui.
SAPATEIRO.
E as offertas que darão,
E as horas dos finados?
DLV. E OS dinheiros mal levados,
Que foi da satisfação?
SAP. Oh não praza ó cordavão,
Nem á puta da badana,
S'he esta boa tranquitâna,
Em que se ve Jan'Antão.
Ora j u r o a DeOS.qil'he g r a ç a . (Vai á Barca doPamizo.)
Hou da sancta caravella,
Podereis levar-me nella?
ANJ. A carrega te embaraça.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 227

SAP. Não ha mercê que me Deos faça?


Isto hi xiquer irá.
ANJ. Essa barca que lá está,
Leva quem rouba de praça.
Oh almas embaraçadas!
SAP. Ora eu me maravilho
Haverdes por gran peguilho
Quatro forminhas cagadas,
Que podem bem ir chantadas
No cantüiho desse leito.
ANJ. Se tu vieras direito,
Elias forão ca scusadas.
SAPATEIRO.
Assi que determinais
Que va cozer ao'inferno?
ANJ. Escripto estás no caderno
Das ementas infernaes.
SAP. Pois, diabos, que aguardais?
Vamos, venha a prancha logo,
E levae-ine aquelle fogo:
Pera qu'he aguardar mais?
Entra hum Frade com hüa Moça pela mão, e vem
dansando, fazendo a baixa com a boca, e acabando, diz o
DIABO.
Que he isso, Padre? que vai lá?
FRA. Deo grafias! Sain cortezão.
DIA. Sabeis também o tordião?
FRA. He mal que m'esquecerá.
DIA. Essa dama ha de entrar ca?
FRA. Não sei onde embarcarei.
DIA. Ella he vossa? FRA. Não sei;
Por minha a trago eu ca.
15*
228 LIVRO I.

DIABO.
E não vos punhão lá grosa,
Nesse convento sagrado?
FRA. Assi fui bem açoutado.
DIA. Que cousa tão preciosa!
Entrae, Padre reverendo.
FRA. Pera onde levais gente?
DIA. Pera aquelle fogo ardente,
Que não temeste vivendo.
FRADE.
Juro a Deos que não f entendo:
E este hábito me não val?
DIA. Gentil padre mundanal,
A Berzebu vos commendo.
FRA. Corpo de Deos consagrado!
Pola fé de Jesu Christo,
Qu'eu não posso entender isto:
Eu hei de ser condemnado?
Hum padre tão namorado,
E tanto dado á virtude!
Assi Deos me dê saúde,
Que estou maravilhado.
DIA. Não façamos mais detença;
Embarcae, e partiremos;
Tomareis hum par de reinos.
FRA. Não ficou isso n'avença.
DIABO.
Pois dada está ja a sentença.
FRA. Pardeos, essa seria ella!
Não vai em tal caravella
Minha senhora Florença.
Como! por ser namorado,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 229

E folgar c'hüa mulher,


Se ha de hum frade de perder,
Com tanto psabno rezado?
DIABO.
Ora estás bein aviado.
FRA. Mas estás bem corregido.
DIA. Dovoto padre e marido,
Haveis de ser ca pingado.
FRA. Mantenha Deos esta c'roa!
DIA. O padre Frei Capacete!
Cuidei que Unheis barrete.
FRA. Sabei que fui da pessoa.
Esta espada he roloa,
E este broquel rolão.
DIA. Dê vossa Reverencia lição
D'esgrima, que he cousa boa.
FRA. Que me praz, dêmos caçada, (esgrime)
Então logo hum contra sus,
Hum fendente, ora sus:
Esta he a primeira levada.
Alevantae a espada;
Mettei o diabo na cruz,
Como o eu agora puz.
Sahi c'o a espada rasgada,
E que fique anteparada.
Talho largo, hum revés;
E logo colher os pés,
Que todo o ai não he nada.
Quando o recolher se tarda,
O ferir não he prudente.
Eia, sus, mui largamente,
Cortae na segunda guarda.
230 LIVRO I.

Guarde-me Deos d'espingarda,


Ou de varão denodado;
Mas aqui estou guardado,
Como a palha na albarda.
Saio com meia espada.
Hou lá, guardar as queixadas.
DIA. Oh que valentes levadas!
FRA. Inda isto não he nada:
Dêmos outra vez caçada.
Contra sus, ora hum fendcnte;
E cortando largamente,
Eis aqui a sexta guarda.
Daqui se sai com hüa guia,
E hum revés da primeira:
Esta he a quinta verdadeira.
Oh quantos daqui feria!
Padre que tal aprendia,
No inferno ha de haver pingos?
Ah! não praza a San Domingos
Com tanta descortezia.
Prosigamos nossa historia,
Não façamos mais detença.
Dae ca a mão, Senhora Florença,
Vamos á barca da Gloria.
(Chega á Barca da Gloria.)
Deo grafias! Ha ca logar
Pera minha Reverença?
E a Senhora Florença
Polo meu ha lá d'entrar.
PARVO.
Andar muitieramá:
Furtaste esse trinchão, frade?
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 231

FRA. Senhora, dá-me a vontade,


Que este feito mal está.
Vamos onde havemos d'ir.
Praza a Deos co'a ribeira!
Eu não vejo aqui maneira,
Senão emfim concrudir.
DIABO.
Padre, haveis logo de vir.
FRA. Si, tomae-me lá Florença,
E cumpramos a sentença:
Ordenemos de partir.
Vem hüa Alcoviteira, per nome Brizida Vaz, e che-
gando á Barca do Inferno, diz:
BRIZIDA.
Hou da barca, hou lá!
DIA. Quem me chama? BRI. Brizida Vaz.
DIA. Eia, aguarda-me, rapaz:
Porque não vem ella ja?
COM. Diz que não ha de vir ca,
Sem Joanna de Valdeis.
DIA. Entrae vós, e remareis.
Bni. Não quero eu entrar lá.
DIABO.
Que saboroso arrecear!
Bni. Não he essa barca a que eu cato.
DIA. E trazeis vós muito fato?
BRI. O que me convém levar.
DIA. Qu'he o que haveis d'enibarcar?
BRI. Seiscentos virgos postiços,
E três arcas de feitiços,
Que não podem mais levar.
Três almarios de mentir,
232 LIVRO I.

E cinco cofres d'enIeios,


E alguns furtos alheios,
Assi em jóias de vestir,
Guarda-roupa d'encobrir:
Emfim casa movediça,
Hum estrado de cortiça,
Com dez cochins d'embair.
A mor carrega que he,
Essas moças que vendia:
D'aquesta mercadoria
Trago eu muita á bofé.
DIA. Ora ponde aqui o pé.
Bni. Hui! eu vou par'ó Paraizo.
DIA. E quem te disse a ti isso?
BRI. Lá hei d'ir desta maré.
Eu sou hüa mártel tal,
Açoutes tenho eu levados,
E tonnentos supportados,
Que ninguém me foi igual.
S'eu fosse ao fogo infernal,
Lá iria todo o mundo.
A esf outra barca ca em fundo
Me vou, que he mais real.
( Chegando á Barca da Gloria, diz ao Anjo.)
Barqueiro, mano, meus olhos,
Prancha a Brizida Vaz.
ANJ. EU não sei quem te ca feraz.
BRI. Peço-vo-lo de giolhos.
Cuidais que trago piolhos,
Anjo de Deos, minha rosa?
Eu sou Brizida a preciosa,
Que dava as moças ós molhos;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 233

A que criava as meninas


Pera os conegos da Sé.
Passae-me por vossa fé,
Meu amor, minhas boninas,
Olhos de perlinhas finas:
Que eu sou apostolada,
Angelada, e martelada,
E fiz obras mui divinas.
Sancta Ursula não converteo
Tantas cachopas, como eu;
Todas salvas polo meu,
Que nenhüa se perdeo:
E prouve aquelle do ceo,
Que todas acharão dono.
Cuidais que dormia eu soinno?
Nem ponta; e não se perdeo.
ANJO.
Ora vae lá embarcar,
Não m'estes importunando.
BRI. Pois estou-vos allegando
O porque m 'haveis de levar.
ANJ. Não cures d'importunar,
Que não podes ir aqui.
BRI. E que ma ora eu servi,
Pois não in'ha d'aproveitar!
Hou barqueiro da ina ora,
Ponde a prancha, que eis me vou;
E tal fada me fadou,
Que pareço mal ca fora.
DIA. Ora enjrae, minha senhora,
E sereis bem recebida.
234 LIVRO I.

Se vivestes sancta vida,


Vós o sentireis agora.
Vem hum Judeu com hum bode ás costas, e diz ao
Diabo:
JUDEU.
Que vai lá, hou marinheiro?
DIA. Oh que ma ora vieste!
JUD. Cuja he esta barca que preste?
DIA. Esta barca he do barqueiro.
JUD. Passae-ine por meu dinheiro.
DIA. E esse bode ha ca de vir?
JUD. O bode também ha d'ir.
DIA. Oh que honrado passageiro!
JUDEU.
Sem bode, como irei lá?
DIA. Pois eu não passo ca cabrões.
JUD. Eis aqui quatro tostões,
E mais se vos pagará:
Por vida de Sema Fará,
Que me passeis o cabrão.
Quereis mais outro tostão?
DIA. Nem tu não has de vir ca.
JUDEU.
Porque não irá o Judeu
Onde vai Brizida Vaz?
Ao Senhor Meirinho apraz ? (a0 Fidalgo.)
Senhor Meirinho, irei eu?
DIA. E ao fidalgo quem lhe deu
O mando deste batei?
JUD. Corregedor, coronel,
Castigae este sandeu.
Azará, pedra mentia.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 235

Lodo, chanto, fogo, lenha,


Caganeira que te venha*
Ma currença que f acuda.
Por ei Deu que te sacuda
Com a beca nos focinhos.
Fazes burla dos meirinhos?
Dize, filho da cornuda.
PARVO.
Furtaste a chiba, cabrão?
Pareceis-me vós a mim
Carrapato d'Alcoutim,
Enxertado em camarão.
D n . Judeu, lá te levarão,
Porque hão d'ir descarregados.
PAR. E s'elle mijou nos finados
No adro de San Gião!
E comia a carne da panella
No dia de nosso Senhor;
E mais elle, salvanor,
Cada vez mija náquella.
DIA. Ora sus, demos á vela.
Vós Judeu, ireis á toa,
Que sois mui ruim pessoa.
Levae o cabrão na trella.
Vem hum Corregedor, e diz, chegando d Barca do
Inferno:
CORREGEDOR.
Hou da barca! DIA. Que quereis?
COR. Está aqui o Senhor Juiz.
DIA. O amador de perdiz,
Quantos feitos que trazeis!
COR. NO meu ar conhecereis
236 LIVRO I.

Qu'elles não vem de meu geito.


DIA. Como vai lá o direito?
COR. Nestes feitos o vereis.
DIABO.
Ora pois, entrae, veremos
Que diz hi nesse papel.
COR. E onde vai o batei?
DIA. NO Inferno vos poremos.
COR. Como! á terra dos Demos
Ha de ir hum Corregedor?
DIA. Sancto descorregedor,
Einbarcae, e reinaremos.
Ora entrae, pois que viestes.
Con. Non est de regula júris, não.
DIA. Ita, ita, dae ca a mão,
Remareis hum remo destes.
Fazei conta que nascestes
Pera nosso companheiro.
Que fazes tu, barzoneiro?
Faze-lhe essa prancha prestes.
CORREGEDOR.
Oh renego da viagem;
E de quem m'ha de levar!
Ha aqui meirinho do mar?
DIA. Não ha ca tal costumagem.
COR. Não entendo esta barcagem,
Nem hoc non potest esse.
DIA. Se ora vos parecesse
Que não sei mais que linguagem.
Entrae, entrae, Corregedor.
Con. Hou, videtis qui petatis?
Super jure majestatis
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 237

Tem vosso mando vigor?


DIA. Quando ereis ouvidor,
Nonne aceipistis rapina?
Pois ireis pela bolina
Onde nossa mercê for.
Oh que isca esse papel,
Pera hum fogo qu'eu sei!
COR. Domine, memento mei!
DIA. Non est tempus, bacharel;
Imbarquemini in batei,
Quia judicastis malitia.
Con. Semper ego in justitia
Feci, e bem por nível.
DIABO.
E as peitas dos Judeus,
Que vossa mulher levava?"
COR. Isso eu não no tomava,
Erão lá percalços seus:
Non sunt peccatus meus,
Peccavit uxor mea.
DIA. Et vobis quoque eum ea;
Nemo timuistis Deus.
A largo modo acquiristis
Sanguinis laboratorum,
Ignorantes peccatorum,
Ut quid eos non audistis.
COR. VÓS, arrais, nonne legistis
Que o dar quebra os penedos?
Os direitos estão quedos,
Si aliquid tradidistis.
DIABO.
Ora entrae nos negros fados,
238 LIVRO I.

Ireis ao lago dos cães,


E vereis os escrivães
Como estão tão prosperados.
COR. E na terra dos dainnados
Estão os Evangelistas?
DIA. OS mestres das burlas vistas
Lá estão bem fragoados.
Vem hum Procurador, e diz o Corregedor,-quan-
do o ve:
CORREGEDOR.
O Senhor Procurador!
PRO. Bejo-vo-las mãos, Juiz.
Que diz esse arrais? que diz?
DIA. Que sereis bom remador.
Entrae, bacharel doutor,
E ireis dando á bomba.
PRO. E este barqueiro zomba?
Joga taes de zombador?
Essa gente que hi 'stá^
Pera onde a levais?
DIA. Pera as penas infernaes.
PRO. Dixe, não vou pera lá;
Outro navio está ca,
Muito melhor assombrado.
DIA. Ora estais bem aviado:
Entrae muitierainá.
CORREGEDOR.
Confessastes-vos, doutor?
PRO. Bacharel sou. Dou-me ô demo!
Não cuidei que era extremo,
Nem de morte minha dor.
E vós, Senhor Corregedor?
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 239

COR. EU mui bem me confessei;


Mas tudo quanto roubei
Encubri ao confessor.
Porque, se o não tornais,
Não vos querem absolver;
E he mui mao de volver,
Depois que o apanhais.
DIA. Pois porque não einbarcais?
COR. Quia esperamus in Deo.
DIA. Imbarquemini in barco meo;
Para que speratis mais?
(Vão-se á barca da Gloria.)
CORREGEDOR.
HOU arrais dos gloriosos,
Passae-nOs nesse batei.
ANJ. Oh pragas pera papel,
Pera as almas odiosos!
Como vindes preciosos,
Sendo filhos da sciencia!
COR. Oh! habeatis clemência,
E passae-nos como vossos.
PARVO.
Hou homens dos breviairos,
Rapinastis coelhorum,
Et pernis perdigotorum,
E mijais nos campanairos.
COR. Anjos, não sejais contrairos,
Pois não temos outra ponte.
PAR. Beleguinis ubi sunte,
Ego latinas macairos.
ANJO.
A justiça divinal
240 LIVRO I.

Vos manda vir carregados,


Porque vades embarcados
Nesse batei infernal.
COR. Oh! não praz a a San Marcai
Co'a ribeira nem c'o rio!
Cuidão lá que he desvario
Haver ca tamanho mal.
Venha a negra prancha ca;
Vamos ver este segredo.
PRO. Diz hum texto do Decreto....
DIA. Entrae, que ca se dirá.
(Entrão no batei dos dainnados, e diz o Corregedor a Brizida Vaz:)
COR. Esteis muito arama,
Senhora Brizida Vaz.
BRI. Ja siquer estou em paz,
Que não me leixaveis lá.
Cada hora encoroçada,
Justiça que manda fazer.
COR. I-VOS tornar a tecer,
E urdir outra meada.
BRI. Dizede, juiz d'alçada,
Vem ja Pero de Lisboa ?
Leva-lo-heinos á toa,
E irá desta barcada.
Vem hum Enforcado, e diz o
DIABO.
Venhais embora, Enforcado.
Que diz lá Garcia Moniz?
ENP. EU vos direi que elle diz
Que fui bem aventurado;
Que pólos furtos que eu fiz,
Sou sancto canonizado;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 241

Pois morri dependurado,


Como o tordo na buiz.
DIABO.
Entra ca, e reinarás
Até ás portas do Inferno.
ENF. Não he essa a nao qu'eu governo.
DIA. Entra, que inda caberas.
ENF. Pezar de San Barrabaz!
Se Garcia Moniz diz
Que os que morrem como eu fiz,
São livres de Satanaz!
E disse que a Deos prouvera
Que fora elle o enforcado,
E que fosse Deos louvado,
Que em bo'hora eu nascera;
E que o Senhor m'escolhera,
E por meu bein vi beleguins:
E com isto mil latins,
Como s'eu latim soubera.
E no passo derradeiro,
Me disse nos meus ouvidos,
Que o logar dos escolhidos
Era a forca e o Lünoeiro:
Nem guardião de mosteiro
Não tinha mais sancta gente,
Como Affonso Valente,
O que agora he carcereiro.
DIABO.
Dava-te consolação
Isso, ou algum esforço?
ENF. C O baraço no pescoço
Mui mal presta a pregação.
1 6
Vol. I.
242 LIVRO L

Elle leva a devação,


Que ha de tornar a jentar;
Mas quem ha de estar no ar,
Aborrece-lhe o sermão.
DIABO.
Entra, entra no batei,
Que para o Inferno has de ir.
ENF. E Moniz ha de mentir?
Dixe-ine: — Com San Miguel
Irás comer pão e mel,
Como fores enforcado. —
Ora ja passei meu fado,
E ja feito he o burel.
Agora não sei que he isso:
Não me fallou em ribeira,
Nem barqueiro nem barqueira,
Senão logo ao Paraizo.
E isto muito em seu siso,
E que era sancto meu baraço.
Porém não sei que aqui faço,
Ou s'era mentira isto.
DIABO.
Fallou-te no purgatório?
ENF. Diz que foi o Lünoeiro;
E ora por elle o salteiro,
E o pregão vitatorio;
E que era muito notório
Que aquelles deciprinados
Erão horas dos finados,
E missa de San Gregorio.
DIABO.
Ora entra; pois has d'entrar,
DAS OBRAS DEDEVAÇÃO. 243

Não esperes por teu pae.


ENF. Entraremos, pois assi vai.
DIA. Este foi bom d'embarcar.
Eia, todos apear,
Qu'está em sêcco o batei.
Vós, doutor, bota batei;
Fidalgo, saltae no mar.
Vem quatro Fidalgos, cavalleiros da Ordem de Christo,
que morrerão nas partes d'África, e vem cantando a quatro
vozes a letra que se segue.
"Á barca, á barca segura,
"Guardar da barca perdida:
"Á barca, á barca da vida.
"Senhores, que trabalhais
"Pola vida transitória,
"Memória, por Deos, memória
"Deste temeroso cais.
"Á barca, á barca, mortaes;
"Porém na vida perdida
"Se perde a barca da vida."
DIABO.
Cavalleiros, vós passais,
E não me dizeis p'ra ond'is?
1? C.E vós, Satan, presumis?...
Attentae com quem fallais.
o
2 C. E vós que nos demandais ?
Sequer conhecei-nos bem:
Morremos nas partes d'alem;
E não queirais saber mais.
ANJO.
Ó cavalleiros de Deos,
A vós estou esperando;
16*
244 LIVRO L

Que morrestes pelejando


Por Christo, Senhor dos ceos.
Sois livres de todo o mal,
Sanctos por certo sem falha;
Que quem morre ein tal batalha
Merece paz eternal.

Aqui fenece a primeira scena.


FIGURAS.

ANJO — Arrais do Ceo.


DIABO — Arrais do Inferno.
COMPANHEIRO da Diabo.
LAVRADOR.
MARTA GIL — Regateira.
PASTOR.
MOÇA Pastora.
MENINO.
TAFUL.
TRÊS ANJOS.

Esta segunda seena he attribuida d Embarcação


do Purgatório. Tracta-se per lavradores^ Foi repre-
sentada á muito devota e catholica Rainha D. Leonor no
hospital de todolos Sanctos da cidade de Lisboa, nas ma-
tinas do Natal, era do. Senhor de 1518.
A L T O DA B A R C A DO
PURGATÓRIO.

Primeiramente entrão três Anjos, cantando o romance


guinte, com seus remos.
Romance.
"Remando vão remadores
"Barca de grande alegria;
"O patrão que a guiava,
"Filho de Deos se dizia.
"Anjos erão os remeiros,
"Que remavão á porfia;
"Estandarte d'esperança,
"Oh quão bein que parecia!
"O masto da fortaleza
"Como cristal reluzia;
"A vela com fé cozida
"Todo o inundo esclarecia;
"A ribeira mui serena,
"Que nenhum vento bolia."
Entra o Arrais do Inferno, e diz:
DIABO.
Ah sancto corpo de mi,
Corpo de mi consagrado!
Como está isto assi
Sem ninguém estar aqui
Neste meu porto dourado,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 247

Agora que está breado


De novo o caravellão,
Espalmado, e apparelhado,
E mais largo bô quinhão,
Que o passado?
Quanto mais se chega a fim
Do inundo, a todo o andar,
Tanto a gente he mais ruim:
E juro ó corpo de mim
Que ja canso de remar.
Cumpre-me d'apparelhar
Hum valente barinel,
Ou hüa nao singular,
Ein que possa mais levar
Que n'hum batei.
E não remar senão tal via,
E depois haver carraca;
Que cobiça e sintonia,
Inveja e tyrannia,
Nenhüa dellas afraca.
Ala, ala! saca, saca!
A terra, á terra, mortaes!
Cerrar o leme a esta banda,
E não curar d'outro cais;
Porque a lei dos mundanaes
Isto manda.
ANJO.
Quem quer ir ó Paraizo?
A glória, á glória, senhores!
Oh que noite pera isso!
Quão prestes, quão improviso
Sois celestes moradores!
248 LIVRO I.

Aviae-vos, e partir;
Que vossa vida he sonhar,
E a morte he despertar
Pera nunca mais dormir,
Nem acordar.
Este rio he mui escuro,
Não tendes vao nem maneira:
Entrae em barco seguro^
Havei conselho maduro,
Não entreis em ina bateira;
Que na viagem primeira,
Quantos vistes embarcados
Todos forão alagados:
No mais fundo da ribeira
São penados.
Pois não se pôde escusar
A passada deste rio,
Nem a morte s' estorvar,
Qu'he outro braço de mar
Sem remédio nem desvio.
E o batei dos damnados,
Porque nasceo hoje Christo,
Está, c'os reinos quebrados,
r

Em sêcco. O descuidados»
Cuidae nisto.
Agora que a madre pia,
Frol de toda a perfeição,
Está com tanta alegria;
Pedi a sua Senhoria
Gloriosa embarcação,
Que sua he a barcagein.
Pedi-lhe como avogada,
DAS OBBAS DE DEVAÇÃO. 249

Per lacrimosa linguagem,


Que nos procure viagem
Descansada.
Falla-Ihe com alegria,
Canta-lhe como souberes,
Visita a Virgem Maria,
Nossa via, nossa guia,
Frol de todalas mulheres.
Quando aqui lhe appareceres,
Roga-lhe que f appareça
Com piedosos poderes,
Porque a alma que tiveres
Não pereça.
DIABO.
Quero ora metter á vela,
E deitar a prancha fora,
E arrumar a caravella,
E deitar do junco nella,
Se vier qualquer senhora.
E que he isto na ma ora?
E o batei está em sêcco!
Oh renego de Çamora!
O rio s^encarainelou!
Nunca tal m'aconteceo.
Hou bota, hou bota, hou!
Oh renego de San grou,
E de San pata do ceo!
Arrenego eu do dinheiro
Que ganho nesta viagem,
Arrenego da barcagem,
E do cornudo barqueiro.
250 LIVRO I.

Vem hum Companheiro do Arrais do Inferno,


e diz:
COMPANHEIRO.
Parceiro, gurgurgarao.
DIA. Porque? COM. Porque he assi.
DIA. Ora bota, hou bota, hao.
COM. EU so botara hüa nao
Com este dedo sem ti:
Mas sabe que este serão
He para nós grande praga,
E trabalhamos em vão,
Porque a promessa d'Abrahão
Hoje he a paga.
Vem hum Lavrador com seu arado ás costas, e diz:
LAVRADOR.
Que he isto? ca chega o mar?
Ora he forte cagião.
DIA. Alto, sus, quereis passar?
Ponde hi o chapeirão,
E ajudareis a botar.
LAV. Da morte venho eu cansado,
E cheio de refregereo,
E não posso, mal peccado.
DIA. Põe eramá hi o arado.
LAV. Perem esse he gran inestereo.
S'eu trouguera mais vagar
Sorrira-me eu tamalavez.
DIA. E vós villão, quereis zombar?
Se vos eu arrebatar?
LAV. Dou-f eu muito de mao mez.
Com'eu a morte passeij
Logo o medo ficou finto.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 251

Enha cédula amanhei,


E meus negócios deixei
Como homem de bô retinto.
Nem fico a dever duas favas,
Nem hum preto por pagar.
DIA. E OS marcos que mudavas,
Dize, porque os não tomavas
Outra vez a seu logar?
LAV. E quem tirava do meu
Os meus marcos quantos são,
E os chantava no seu,
Dize, pulga de Judeu,
Que lhe diz ias tu er então?
DIABO.
Foste o mais ruim villão!...
LAV. Bofá, salvanor salvado,
Vós inentis coma cabrão.
Quer me queirais mal, quer não,
Não dou por isso hum cornado.
DIA. Pois porque vens carregado?
LAV. Porque seja conhecido
Por lavrador muito honrado.
E tenho a glória merecido;
Que sempre fui perseguido,
E vivi mui trabalhado.
Ha hi, pezar não de São,
Afficio mais fortunado?
DIA. Pois para que he o villão?
LAV. Todos nós vimos d'Adão.
DIA. Pousa, pousa ahi o arado.
LAV. Juro a San Junco sagrado
Que te chante hum par de quedas.
252 LIVRO I.

DIA. Aqui has d'ir embarcado.


LAV. Vae beijar o meu bragado
Antre as sedas.
DIABO.
Que villão tão descortez!
LAV. E vós sois mui deneguil!
Dou eu ja ora ó Decho o freguez.
DIA. Dom villão, comigo ires
Onde estão de vós dez mil.
LAV. E VÓS Dom rosto de funil,
Cuidareis que sois alguém?
ANJ. Vinde ca, homem de bem;
Pera onde quereis ir?
LAV. Queria passar alem,
Pera a glória do Senhor.
Sainicas de lá seres?
ANJ. E vens tu merecedor?
LAV. E que fez lá o lavrador,
Pera andar ca ó través?
ANJ. Pôde ser mui austinado,
E não querer-se arrepender.
LAV. Bofá, Senhor, mal peccado,
Sempre he morto quem do arado
Ha de viver.
Nós somos vida das gentes,
E morte de nossas vidas;
A tyrannos — pacientes,
Que a unhas e a dentes
Nos tem as almas roídas.
Pera que he parouvelar?
Que queira sçr peccador
O lavrador;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 253

Não tem tempo nem logar


Nem somente d'alimpar
As gotas do seu suor.
Na igreja bradão com elle,
Porqu'assoviou a hum cão;
E logo excoinmunhão na pelle.
O fidalgo maçar nelle,
Atá o mais triste rascão.
Se não levão torta a mão,
Não lhe achão nenhum direito.
Muito atribulados são!
Cada hum pella o villão
Por seu geito.
Trago a propósito isto,
Porque veio a bem de falia.
Manifesto está e visto
Que o bento Jesu Christo
Deve ser homem de gala.
E he rezão que nos valha
Neste serão glorioso,
Qu'he gran refúgio sem falha.
Isto me faz forçoso,
E não estou temeroso
Nem migalha.
ANJO.
Que bens fizeste na vida,
Que te sejão. ca guiantes?
LAV. Ia ao bodo da ermida
Cada sancta Margarida,
E dava esmola aos andantes;
Benzia-ine pela manhan,
Levava o credo até o cabo.
254 LIVRO I.

DIA. Depois tomavas a lan


Da melhor e a mais san,
E davas ao dizimo a do rabo,
Temporan.
E o mais fraco cabrito,
E o frangão offegoso,
Com repetenado esp'rito.
LAV. Oh fideputa maldito,
Triste avezimão tinhoso,
Lano peccador errado!
Não — vai — não me dezimei?
Dize sabujo pellado.
DIA. Tornaste tu o mal levado?
LAV. Si, tornei.
E de tudo fiz aquesta,
Como homem diz, avantairo:
Leixei ó cura a enha besta.
Abonda que nem aresta
Terá comigo o cossairo.
Hum annal e hum trintairo,
Com raponsos, ladainhas:
A Gil fiz todo repairo
Com missas d'anniversairo
Trinta dias.
Perol que dizeis vós lá?
Sejo eu como deve ser,
Ou que modo se terá?
ANJ. He mui caro d'haver ca
Aquelle eternal prazer.
LAV. Ja o eu lá ouvi dizer.
Perol o evangelho diz,
Quem for bautizado e crer
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 255

Salvus es: ora dizer,


Sede juiz.
Pois quia infernus es,
Nulla redencia ha hi;
Vede vós o que dizês,
Qu'a mim ja me pruem os pés,
Pera me passar d'aqui.
ANJ. Digo que andes assi
Purgando nessa ribeira,
Até que o Senhor Deos queira
Que te levem pera si
Nesta bateira. ''
LAVRADOR.
Bofá, logo quizera eu,
Que m'atormenta este arado;
E dera muito do meu,
Pois que ja hei de ser seu,
Tirar-me deste cuidado.
O mundo, mundo enganado,
Vida de tão poucos dias,
Tão breve tempo passado,
Tu me trou veste enganado,
E me mentias!
DIABO.
Inda esta barca não nada?
Que festa esta pera mi!
Nunca tal balcarriada,
Nem maré tão desastrada
Nesta ribeira não vi.
Vem hüa regateira, per nome Marta Gil, e diz:
MARTA GIL.
Hui! que ribeiros são estes?
256 LIVRO I.

DIA. Venhais embora, Marta Gil.


M A R . E donde me conhecèstes?
DIA. Folgo eu bein porque viestes
Oufana e dando ó quadril.
MAR. Vedes outro perrexil!
E marinheiro sois vós?
Ora assim me salve Deos
E me livre do Rrazil,
Que estais sutil.
Emque eu seja lavradora,
Bein vos hei de responder.
DIA. Não vos agasteis vós ora,
Que, ou lavradora ou pastora,
Aqui vos hei de metter.
MAR.Hui mana! e quem no deu?
Ide beber,
Que bem vos conheço eu.
DIA. EU também vos sei nascer,
E vi fateixas fazer;
Que o que trazeis he meu,
E ha de ser.
MARTA GIL.
E que cousas são fateixas?
Fateixado te veja eu.
DIA. OS feitos que feitos leixas,
E o povo cheio de queixas.
MAR. Cal'-te, almareo de Judeu.
DIA. Não sabes tu que viveste
Lavradora e regateira?
MAR. Ora coinêde-Ia, que vos preste.
Hui! e que gaio he ora este
De ribeira?
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 257

Sabedes vós, João Corujo,


Todos fazem seu proveito.
Olhade o frei Caramujo,
Bargante que não tem cujo!
Canf a agora he o feito feito.
Não sabes tu que o respeito
Do inundo he em ganhar?
E sobre isso he seu proveito,
Ou a torto ou a direito
Apanhar.
Fui em tempo de cobiça;
Cada tempo sua usança:
S'eu morrera de preguiça,
Tiveras muita justiça,
E eu pequena esperança.
Vendia minha lavrança,
Hum ovo por dous reaes,
Hum cabrito, se s'alcança,
Té quatro vinténs, nó mais: »
Tendes vós isto em lembrança?
Hum frangão por hum vintém,
E hüa gallinha sessenta;
E acerta-se também
Que ás vezes vem alguém,
Que as leva por setenta.
DIA. E pera que era água no leite,
Que deitavas ierainá?
MAR.Mais azeite:
Ind'hoje o elle dirá!
Vistes ora o diabreite!
O diabo, visses tu,
Bofé asinha o eu direi.
Vol. I. 17
258 LIVRO I.

Como he palreiro, Jesu!


Fora este cucurucu
Bom secretario d'elRei.
Amanhade-lhe o atafal;
Nadar patas, patarrinhas;
Corregêde-lhe o enxoval;
Onças de raiva mortal
Nas badarrinhas.
DIABO.
Valha-te a ti, Marta amiga,
Qu'estamos enfeitiçados.
MAR.Embarcade lá esta figa.
DIA. Passará esta fadiga,
Seremos desembargados.
MAR. Anjos bem-aventurados,
Metterei o canistrel,
Que trago os testos britados?
Carregão estes peccados,
Que fazem lançar o fel
A bocados.
ANJO.
E pera qiferão elles ca?
MAR.Pera o Demo; e que sei eu?
ANJ. Ora pois, embarca lá.
MAR. Melhor creio eu qüe será.
Jesu! Jesu! benzo-ine eu.
O bento Bartholameu,
E vós Virgem do rosairo,
Polo filho que Deos vos deu
Esta noute vosso e seu,
Haja repairo.
Bem sabedes vós, Senhora,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 259

Que venho eu manifestada,


E fui vossa lavradora;
Emque pecasse algum'ora,
Venha a piedosa alçada.
Esta he a noute que paristes:
Benta a hora em que nascestes;
Esqueção meus males tristes,
Polo menino que vestistes,
E envolvestes.
Anjos, ajudade-me ora,
Que vos veja eu bem casados:
Não me deixedes de fora
Por aquella sancta hora
Em que todos fostes creados.
ANJ. Não he tempo ca d'orar,
Canfá para merecer.
MAR. Manos, eu quero provar
Qu'em todo tempo ha logar
O que Deos quer.
Este serão glorioso
Não he de justiça, não;
Mas todo mui piedoso,
Em que nasceo o esposo
Da humanai geração:
E a barca de Satão
Não passa hoje ninguém;.
E per força hei d'ir alem,
Sô pena d'excommunhão,
Que posta tem.
ANJO.
Grande cousa he oração:
Purga ao longo da ribeira,
17*
260 LIVRO X

Segura de damnação,
Teras angústia e paixão,
E tonnento em gran maneira.
Isto até que o Senhor queira
Que te passemos o rio:
Será tua dor lastimeira,
Como ardendo em gran brazio
De fogueira.
MARTA GIL.
Oh esperança, esperança,
A mais certa pena minha
Com toda esta segurança!
Tu es a mesma tardança
Em figura de mézinha.
Oh quem tal arrepender,
Tal maneira de penar,
Lá soubesse no viver!
Oh quem tornasse a nascer,
Por não peccar!
Vem hum Pastor, e diz, olhando pera a barca do imigo:
PASTOR..
Isto he cancêllo, ou picota,
Ou senefica algorrem?
Não lhe marra ella aqui gota
De ser isto terremota
Pera enforcar alguém.
DIA. Queres embarcar, pastor?
PAS. Praz. DIA. Entra neste batei.
PAS. Irra! pulha he isso, salvanor.
S'eu não fora pulhador,
J'ella passava o burel.
Digo, senhor pesadello,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 261

(Vós sabereis isto bem)


Estando em val de Cobello,
Deu-me dor de cotovello,
Einperol morri perem.
E fui-ine per esse chão
A Deos douche alma dizer,
Com meu cacheiro na mão,
Sem soes motrete de pão,
Nem fome pera o comer,
Se vem á mão.
E vinha ora bem descuidado
De topar mar nem marinha.
Avonda, espantalho honrado,
Ao morrer deixei o gado,
E o amo e quanto tinha.
Senão anda que te vas,
Enha mãe nega gritar,.
E chorar que chorarás.
Agora quero passar;
Perem não me levarás.
DURO.
Porque? PAS. Sois busaranha,
E mais féde-vo-lo bafo,
E jogatais de gadanha,
E tendes modão d'aranha,
E samicas sereis gafo.
DIA. Gafo eu? PAS. A bem;
Não hei d'ir per acajuso,
Emque me custe algorrem,
Chinfrão, ou meio vintém,
Ir dereito como o fuso
Pera alem.
262 LIVRO I.

DIABO.
Dize, rústico perdido,
Fizeste tu por saber
O Pater noster comprido?
PAS. E pera que era elle sabido?
DIA. Porque o havias de dizer.
PAS. A quem? DIA. A quem te creou.
PAS. Al tem elle que comer.
DIA. Não fizeste o que mandou.
PAS. Callae-vos, Senhor Jão Grou;
Ja sei quem m'ha de levar,
Sei quem sou.
Esta noite he dos pastores,
E tu, Decho, estás ein sêcco;
E salvão-se os peccadores
Criados de lavradores,
E tu estás coma peco.
DLV. Digo-te, pastor amigo,
Que foste gran peccador.
PAS. Senhor tartarugo, digo
Que inentis como bestigo,
Salvanor.
Falia em tua merencória,
E não falles em passar,
E conta lá outra história;
Porque em festa de tal glória,
Não has ninguém de levar.
Ronca, quês tu pôr comego
Algorrem pera beber,
Que vens de casta de pego,
E neto d'algum morcego?
Pardicas não pôde ai ser.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 263

DIABO.
Não estou "em meu poder,
Pera me vingar de ti.
PAS. Não podes nada fazer
Na noite que quiz nascer
Christo filho de Davi.
DIA. Quem te poz no coração
Fallares cousa tão boa?
Que tu não tens descrição.
PAS. E quem te deu a ti lição
De ser tão ruim pessoa?
ANJO.
Pastor, tu queres passar?
PAS. Este he melhor artezão.
ANJ. Folgarei de te levar,
Se te ajuda o bein obrai-,
Que as obras reinos são.
PAS. Enha mãe in'o bradará,
Que fica no sahiinento,
E o responso do inamento;
E tudo Sa Gil fará
Com bom tento.
ANJO.
Morreste tu bom christão?
PAS. Que sei eu que vós dizeis?
ANJ. Dize ora o krieleison,
Kirieleison, Christeleison.
PAS. O Pater noster quereis?
Ja eu soube hum quinhão delle.
No santo faceto andei ja,
E nunca ine dei por elle;
264 LIVRO I.

E a Ave Maria a par delle


Soube eu laja tempos ha.
E fui assi por ella andando
Nos intes vitus cajuso;
Alli andava eu sandejando,
E suacendo e cansando:
Então dei á treva o uso.
Assaz avonda ao pastor
Crer em Deos, e não furtar,
E fazer bem seu Iavor,
E dar graças ao Senhor,
E fugir de não peccar.
E crer na Igreja assi junta
Com paredes e telhados,
Aliceres e furados;
E não curar de pergunta,
E dar ó Demo os peccados.
Eu nunca matei, nem furtei,
Nega uvas algum'ora;
Nem nunca ínexeriquei,
Como lá se usa agora.
DIABO.
Vae, vae cantar a gamella:
Não andavas tu namorado
Perdido por Madanella?
PAS. E pois que lhe fiz a ella,
Para dizer que he peccado?
Hüa vez armei-lhe o pe
Na chacota em Villarinho,
E ainda pola abofé
Constança Annes, que viva he,
Me mettco naquelle alinho.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 265

DIABO.
Não na foste tu sperar,
Pera a damnares, villão,
E começou de bradar
Que a querias forçar?
PAS. O fideputa cabrão!
Quizera eu e ella não,
Porque a trédora fugio:
E s'isto assi foi, ladrão,
Que peccado se seguio,
Pois não houve concrusão?
Juro ao corpo verdadeiro
Que tu te podes gabar
Que casado nem solteiro,
Não anda tão vil barqueiro
Sôbolas águas do mar.
Soma, Anjo, eu nfenfestei:
Abrenuncio Satanaz!
ANJ. Faze o que f eu direi,
E depois embarcarás,
E eu mesmo te passarei.
Purga ao longo do rio
Em gran fogo, merecendo.
PAS. E quando parte o navio?
Senhor, se eu não tenho frio,
Pera que hei d'estar ardendo?
Vem hüa Pastora menina, e temendo a visão do ini-
migo que lhe appareceo na morte, diz:
MOÇA.
Jesu! Jesu! que he ora isto ?
Ave Maria! Ave Maria!
Qu'he do meu cão qifeu trazia?
266 LIVRO I.

Oh! chagas de Jesu Christo


Vão em minha companhia!
Eu sonho! — triste de mim!
Oh coitada, como treino!
Minha mãe, valei-me aqui,
Que quando de vós parti,
Não cuidei d'achar o Demo.
Mais angústia he o temor
Do imigo, que da morte:
Tomo a Deos por valedor.
Pois me cortas, e dás dor,
Ma mazela que te corte.
DIA. Muchacha, venhas embora.
Moç. Mas na negra, pois te vejo.
Oh! desapparece-me ora,
Que falleci ind'agora
Em mui perigoso ensejo.
Porque era moça e cuidei
Que da velhice gouvíra,
E com tal dor acabei,
Que de ini parte não sei,
Nem tenho ponta de sira.
Não sei quem m'ha d'ajudar,
Não sei quem m'ha de valer,
Não sei quem m'ha de passar,
Não sei se m'hão de matar
Outra vez, ou que ha de ser.
Tir'-te diante de mi,
Verei os anjos de Deos.
DIA. Entrae vós, filhinha, aqui.
Moç. Oh! caP-te: — triste de ini!
DIA. EU VOS levarei aos ceos;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 267

Entrae, minha Polixena;


Não temais nada, Senhora.
Moç. Arre lá! uxte, morena!
r

DIA. O minha Rainha Helena,


Entrae, e vamo-nos ora.
MOÇA.
, Cal'-te, cal'-te na ma ora!
Cuidas que m'has d'enganar,
Porque assi me ves pastora?
DIA. Entrae, minha matadora,
Pois que Deos vos quiz matar.
Moç. Não vedes vós o quebranto,
Que se quer pôr em feição!
DIA. Olhae, flores, não in'espanto
Que ine digais sete tanto:
Padeça meu coração,
O porvir e o presente.
Senhora, por concrusão,
Não quero de vós somente,
Senão dardes-me essa mão,
Se disso fordes contente:
E se m'eu gabar de vós,
Ma pezar veja êu de mi.
E iremos ambos sos
Onde estão vossos avós.
Ora entrae, ireis aqui.
MOÇA.
Jesu! Jesu! raiva na casta!
Cominendo ó Decho a amargura!
Mãe de Deos! como in'agasta!
Ma rabugem na tarasca,
Espezinhada, triste, escura!
268 LIVRO I.

ANJ. Leix'ó, pastora; vem ca.


DIA. Como estou hoje inofino,
E sem dita ieramá!
Mas algum dia virá
Qu'eu estarei mais fino.
MOÇA.
O anjos, minha alegria,
Vista de consolação!
Por virtude e cortezia,
Ensinae-me por que via
Passarei á salvação.
ANJ. Conhecias tu a Deos?
Moç. Muito bem, era redondo.
ANJ. Esse era o mesmo dos ceos.
Moç. Mais ai vinho qu'estes veos,
O vi eu vezes avondo.
Como o sino começava,
Logo deitava a correr.
ANJ. Que lhe dizias? Moç. Folgava,
E toda ine gloriava
Ein ouvir missa e o ver.
ANJ. Pastora, bom era isso.
DIA. Era a mor mexeriqueira
Golosa, que d'improviso,
Se não andavão sobre aviso,
Lá ia a cepa e a cepeira.
E mais quereis que vos diga?
He refalsada e mentirosa.
Moç. Era ainda rapariga.
DIA. Se tu foras minha amiga,
Eu me calara, tinhosa.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 269

MOÇA.
r

O anjos, levae-me ja,


Tirae-me deste ladrão.
ANJ. Não podes ainda ir lá.
Moç. Tão moça, hei de ficar ca ?
Não parece isso rezão.
ANJ. Vae ao longo desse mar,
Que he praia purgatoria;
E quando Deos o ordenar,
Nós te viremos passar
Da pena á eterna glória.
Vem hum. Menino de tenra idade, e diz:
MENINO.
Mãe, e o "coco está alli!
Quereis vós star quedo, quelle?
DIA. Passa, passa tu per hi.
MEN. E vós quereis dar em mi?
w

O demo que o trouxe elle!


DIA. Bé, mé. Filho da puta,
Vós estais muito garrido!
Tirar-vos-hão, Dom perdido,
Dos olhos a marmeluta.
MENINO.
Eu vos tomarei a vós
t

A porta de minha tia;


Entonces veremos nós
Os cães de vossos avós,
Qu'estavão na mancebia.
DIA. Bé. MEN. Mãe, s'elle quer-me comer!
E meu pae não vos dará?
DIA. Bé. MEN. Dona, se hVo eu disser
270 LIVRO I.

E ella matar-vos-ha:
Então ireis a morrer.
DIABO.
Ré. MEN. Aquelle, s'eu chamar
O nosso Joanne! DIA. Bé.
MEN. Não queres senão berrar?
DIA. Onde has d'ir, ou pera que?
MEN. Fica minha mãe chorando,
So porque in'eu vim de lá.
ANJ. Mas fica desvariando,
Que tu es do nosso bando,
E pera sempre será.
Fez-te Deos secretamente
A mais profunda mercê
Em idade de innocente:
Eu não sei se sabe a gente
A causa porqu'isto he.
Cantando, mettem os Anjos o Menino no balei, e entra
hum Taful, e diz o Diabo:
DIABO.
O meu sócio, ó meu amigo,
Meu bem e meu cabedal!
Vós, irmão, ireis comigo,
Que não temeste o perigo
Da viagem infernal.
TAF. Eis aqui flux d'hum metal.
DIA. Pois sabe que eu te ganhei.
TAF. Mostra se tens jogo tal.
DIA. TU perdes o enxoval.
TAF. Não he isto flux com rei.
DIABO.
Baralha o jogo e partamos.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 271

TAF. Paga, qu'eu não jogo em vão.


DIA. Lá no frete descontamos;
Quer ganhemos, quer percamos,
Tudo nos fica na mão.
TAF. Muito me gasto eu aqui,
Que tu tens mui mao sembrante;
E pareces-me emfim
Por da ré muito ruim,
E malino por d'avante.
DIABO.
Mas tomemos a jogar,
Porque tenho saudade
De te ouvir arrenegar,
E descrer e brasfemar
Do mistério da Trindade.
TAF. Arainá, como tu fallas
Tão senhor desta alma minha!
DIA. Não sei como agora calas,
Renegando a soltas alas
De Deos e da ladainha.
Este dia e as oitavas,
Por paços, salas e cantos,
Oh quanta glória me davas,
Quando á hóstia blasfemavas,
E deshonravas os Sanctos!
TAF. Canf eu sempre ouvi dizer,
Quem bem renega, bem cre:
Isto vos faço eu saber;
E quando isto não valer,
Entraremos por mercê.
(Vai-se á Barca do Paraizo, c diz:)
Haverá ca piedade
272 LIVRO I.

D'hum homem tão carregado?


ANJ. Mas a infinda crueldade
Com que offendeste a inagestade,
Renegando seu estado?
TAF. Vede que estava occupado
Na gran perda que perdia.
ANJ. E Deos que culpa fhavia,
Taful mal-aventurado,
Sem valia?
Renegar tão feramente
Da Imperatriz dos Ceos!
O pranta de ma semente,
Arderás no fogo ardente,
Com toda a ira de Deos.
TAF. Ma nova he essa pera mi.
Se assi for como dizes,
Digo qu'eramá ca vim.
Porém esperae-me assi,
Fallarei tainalavez.
Deos não quiz hoje nascer
Por remir os peccadores?
ANJ. E pois que queres dizer?
Que so c'o seu padecer
Se sal vão renegadores?
TAF. A perneta ine forçou,
Que era senhora de mi.
DIA. Mente, qu'elle s'incrinou:
Nunca estrella renegou,
Nem tal ha hi.
Sempre jogava o fidalgo,
Bispo, escudeiro, ou que he.
COM. Mestiço de cão e galgo.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 273

ANJ. Tomae-o, dae-lhe de pé.


DIA, Nosso he.
TAF. Estae, iinigos! — Senhores,
Deste sancto nascimento
Não terei alguns favores?
ANJ. Tafues e renegadores
Não tem nenhum salvamento.

Sahem os Diabos do balei, e, com hüa cantiga muito


desacordada, levão o Ta fui; e os Anjos cantando levão
o Menino, e fenece esta segunda scena.

Vol. I, 18
F I G L R A S.

DIAHO — Arrais do Inferno.


ANJO — Arrais do Ceo.
MORTE.
COMPANHEIRO do.Diabo.
CONDE.
DUQUE.
REI.
IMPERADOR.
BISPO.
ARCEBISPO.
CARDEAL.
PAPA.
ANJOS.

Segue-se a terceira scena, que he endereçada á Em-


barcação da Gloria. Tractase per dignidades altas.
Foi representada ao muito nobre Rei D. Manuel, o pri-
meiro em Portugal deste nome, em Almeirim, era do Re-
demptor de 1519.
ALTO DA BARCA DA GLORIA.

Primeiramente entrão cinco Anjos cantando, e trazem


cinco remos com as cinco chagas, e entrão no seu balei.
Vem o Arrais do Inferno e diz ao seu Com-
panheiro :
DIABO.
Patudo, vé muy saltando,
Llámaine Ia Muerte acá;
Díle que ando navegando,
Y que Ia estoy «esperando,
Que luego vuelverá.
Vem a Morte.
MOR. Qué me quieres?
DIA. Que me digas porquê eres
Tanto de los pobrecitos?
Bajos hombres y mugeres,
Destos matas cuantos quieres,
Y tardan grandes y ricos.
En ei viage primero
Me enviaste oficiales:
No fue mas que un caballero,
Y lo ai, pueblo grosero.
Dejaste los principales
Y villanage
En ei segundo viage,
Siendo mi barco ensecado.
18*
276 LIVRO I.

Á pesar de mi linage,
Los grandes de alto estado
Como tarda n en ini passage!
MORTE.
Tienen mas guaridas csos,
Que lagartos de arenal.
DIA. De carne son y de huesos;
Vengan, vengan, que son nuesos,
Nuestro derecho real.
MOR. Ya lo hiciera,
Su deuda paga me fuera;
Mas ei tieinpo le da Dios,
Y preces le dan espera:
Pero deuda es verdadera,
Y los porné ante vos.
Voyme allá de soticapa
Á ini estrada seguida,
Verás como no me escapa
Desde ei Conde hasta ei Papa.
DIA. Haced prestes Ia partida
En buenora.
COM. Pues ei conde que vendrá ora,
Irá echado, ó de qué suerte?
ANJ. O Virgen nuestra Senora,
Sed vos su socorredora
En Ia hora de Ia inuerte.
Vem a Morte, e traz o Conde, e diz:
MORTE.
Senor Conde prosperado,
Sobre todos mas ufano,
Ya pasastes por ini vado.
CON. O Muerte! cuan trabajado
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 277

Salgo triste de tu mano!


MOR. NO fue nada;
lia peligrosa pasada
Desta muy bonda ribera
Es mas fuerte y trabajada,
Mas terrible en gran manera.
Ved, Senor, si traeis flete
Para aquel barco dei cielo.
CON. Allí iria yo por grumete.
MOR. Primero os sudará ei topete.
CON. Tú no das nunca consuelo.
O Muerte escura,
Pues me diste sepultura,
No me des nuevas de mi.
Ya hundiste Ia figura
De ini <;arne sin ventura,
Tirana, déjame aqui.
MORTE.
Hablad con ese barquero,
Que yo voy hacer ini officio.
DIA. Senor Conde y caballero,
Dias ha que os espero,
Y estoy á vueso servido:
Todavia
Entre Vuesa Senoría,
Que bien larga está Ia plancha,
Y partamos con de dia:
Cantaremos á porfía
"Los hijos de Dona Sancha."
CONDE.
Ha niucho que eres barquero?
DIA. DOS mil anos ha y mas^
278 LIVRO I.

Y no paso por dinero.


Entrad, Senor pasagero.
CON. Nunca tú me pasarás.
DIA. Y pues quién?
Mirad, Senor, por iten
Os tengo acá en mi rol,
Y hábeis de pasar allen.
Veis aquellos fuegos bien?
AUí se coge Ia frol.
Veis aquel gran fumo espeso,
Que sale daquellas penas?
AUí perdereis ei vueso,
Y mas, Senor, os confieso
Que hábeis de inensar las grenas.
CON. Grande es Dios.
DIA. A eso os ateneis vos,
Gosando ufano Ia vida
Con vicios de dos en dos,
Sin haber miedo de Dios,
Ni temor de Ia partida?
CONDE.
Tengo muy firme esperanza,
Y tuve dendê Ia cuna,
Y fe sin tener mudanza.
DIA. Sin obras Ia confiança
Hace acá mu cha fortuna!
Suso, andemos;
Entrad, Senor, no tardemos.
CON. Voyme á estotra embarcacion.
DIA. Id, que nos esperaremos.
CON. O muy preciosos reinos,
Socorrcd mi aflicion.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 279

L i ç ã o .
O parce mihi, Dios mio,
Quia níhil son mis dias:
Porque ensalza tu poderio
Al hombre, y das senorío,
Y luego dei te desvias?
Con favor
Visitas eum ai alvor,
Y súpito Io pruevas luego:
Porquê consientes, Senor,
Que tu obra, y tu hechor,
Sea deshecha nel fuego?
Ayudadme, remadores,
De Ias altas hierarquias,
Favoreced mis temores,
Pues sabeis cuantos dolores
Por mi sufrió ei Mesías.
Sabed cierto
Como fue preso en ei huerto,
Y escupida su hermosura,
Y dendê allí fue, inedio inuerto,
Llevado muy sin concierlo
Al juiçio, sin ventura.
DIABO.
Ahora se os acordo?
El asno muerto cevada.
De vos bien seguro esto:
Pensareis que no sé yo
La vuesa vida pasada?
CON. YO te requiero.
DIA. Vos, Senor Conde agorero,
Fuisteis á Dios perezoso,
280 LIVRO I.

A lo vano inuy ligero,


Á las hembras placentero,
A los pobres riguroso.
Viva Vuesa Senoría
Para sieinpre con querella.
CON. O gloriosa Maria!
DIA. Nunca un hora ni dia
Os vi dar paso por ella.
Vem a Morte, e traz hum Duque, e diz
MORTE.
Vos Senor
Duque de grande prünor,
Pensasteis de me escapar?
Dug. O anima pecador,
Con fortisimo dolor,
Sales de flaco lugar!
Como quedas, cuerpo triste?
Damo nuevas, que es de ti.
Siempre en guerra ine trajiste,
Con dolor me despediste,
Sin haber dolor de mi.
Tu hechura,
Que llainaban hermosura,
Y tú ínisma Ia adorabas,
Con su color y blancura, v
Siempre vi tu sepultura,
Y nunca crédito me dabas.
DIABO.
O mi Duque y mi castillo,
Mi alma desesperada,
Sieinpre fuisteis amarillo,
Hecho oro de martillo;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 281

Esta es vuesa posada.


DUQ. Cortesia.
DIA. Entre Vuesa Senoría,
Senor Duque, y remarás.
DUQ. Hace mucha maresía:
Eslotra barca es Ia mia,
Y tú no ine pasarás. _
DIABO.
Veis aquella puente ardiendo,
Muy lejos allén dei mar,
Y unas ruedas volviendo
De navajas, y heriendo?
Pues allí hábeis de andar
Sieinpre jamas.
DUQ. Retro vaya Satanás!
DIA. Lucifer que me acreciente!
Senor Duque, allá irás,
Que Ia hiel se te reviente.
L i ç ã o .
DUQUE.
Manus fuce, Domine,
Fecerunt me, y ine criaste,
Et plasmaverunt me;
Decídme, Senor, porquê
Tan presto me derrocaste
De cabeza?
Ruégote que no escaeza
Quod sicut lutam me heciste,
No permitas que perezca;
Y si quieres que padezca,
Para qué ine redüniste?
Pel v carne ine vestiste,
282 LIVRO I.

Ossibus, nervis et vita,


Misericórdia atribuiste
Al hombre que tú heciste;
Pues ahora me visita.
DIA. Ralear,
Que os tengo de llevar
A los tormentos que visteis;
Por demás os es resar,
Que lo mio me han de dar,
Y vos mismo á mi os disteis.
DUQUE.
O llaga daquel costado
De Ia pasion dolorosa
De ini Dios crucificado,
Redimid ai desterrado
De su pátria gloriosa.
Embarquemos,
Porque vuestros son los reinos,
Nuestro es ei capitan.
DIA. ESO está en velohemos.
DUQ. O ángeles, qué haremos,
Que no nos deja Satan?
ANJO,
Son las leis divinales
Tan fundadas en derecho,
Tan primas y tan iguales,
Que Dios os quiere, mortales,
Remediar v.ueso hecho.
DIA. Remadores,
Enviadme eses Senores,
Que se tardan mucho allá.
DUQ. En vano hubo dolores
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 283

Christo por los pecadores?


Muy iinposible será.
Pues es cierto que por nos
Fue llevado ante Piato,
Y acusado, siendo Dios;
(Senores, no penseis vos
Que le costainos barato)
Y azotado
Su cuerpo tan delicado,
Solo de virgen nacido,
Sin padre humano engendrado;
Y despues fue coronado,
Y de su corona herido.
Vem a Morte, e traz hum Rei, e diz o
REI.
Cuanto dolor se me ayunta!
MOR. Senor, qué es de vuesa alteza ?
REI. Oh rigurosa pergunta!
Pues ine Ia tienes defunta,
No resuscites tristeza.
Oh ventura,
Fortuna perversa escura!
Pues vida desaparece,
Y Ia inuerte es de tristura,
Adonde estás, gloria segura?
Cual dichoso te merece?
DIABO.
Senor, quiero cambiar,
Vuesa Alteza ha de partir.
REI. Y por mar he de pasar?
DIA. Si, y aun tiene que sudar;
Ca no fue nada ei inorir.
284 LIVRO I.

Pasinareis:
Si mirais, dahi vereis
Adó sereis morador
Naquellos fuegos que veis;
Y llorando, cantareis
"Nunca fue pena mayor."
L i ç ã o .
REI.
Teedet anima mea
Vitai meai muy dolorida,
Pues Ia gloria que desea
.Me quita que no Ia vea
La muy pecadora vida
Que pasé.
Loquar in amaritudine
Palabras muy dolorosas;
De mi alma hablaré
A mi Dios, y le diré,
Con lagrimas piadosas:
Noli me condemnare,
Judica mihi, porque
No me dejas quien me ampare:
Si ai infierno bajare,
Tuyo so, cuyo seré?
Ay de mi!
Cur me judices ansí?
Pues de nada me heciste,
Mándame pasar daqui:
Ampárame, fili Davi,
Que dei cielo descendiste.
Responso.
O mi Dios, ne recorderis
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 285

Peccata mea, te ruego,


Naquel tiempo dum veneris,
Cuando ei siglo destruieres,
Con tu gran sana, per fuego.
Dirige a mi
Vias meas para ti,
Que aparezca en tu presencia.
DIA. Vuesa Alteza vendrá aqui,
Porque nunca acá senti
Que aprovechase adherencia.
Ni lisonjas, crer mentiras,
Ni voluntário apetito,
Ni puertos, ni algeciras,
Ni diamanes, ni zafiras,
Sino solo aquese esprito
Será asado:
Porque fuisteís adorado
Sin pensar serdes de tierra;
Con los grandes alterado,
De los chicos descuidado,
Fulminando injusta guerra.
(Vai-se o Rei ú barca dos Anjos.)
REI.
O reinos de gran valor!
O Uagas por nos habidas!
ANJ. Plega á vuestro Redentor,
Nuestro Dios y criador,
Que os dé segundas vidas;
Porque es tal
La morada divinal,
Y de gloria tanto alta,
Que ei ânimo humanai,
286 LIVRO I.

Si no viene oro tal


En ella, nunca se esmalta.
REI.
Buen Jesu, que apareciste
Todo en sangre bafiado,
Y á Pilato oyiste,
Mostrándote ao pueblo triste,
— Eis ei hombre castigado!
Y reclamaron,
Y con Ia cruz te cargaron,
Por todos los pecadores:
Pues por nos te flagelaron,
Y á Ia muerte te allegaron,
Esfuerza nuestros temores.
Vem a Morte e traz hum Imperador, e diz a
MORTE.
Prosperado Emperador,
Vuesa sacra Magestad
No era bien sabedor
Cuan fortísimo dolor
Es acabar Ia edad?
Y mas vos,
Quasi tenido por dios.
IMP. O Muerte, no mas heridas!
MOR. Pues olra mas recia tos
Es esta. IMP. Sed libera nos
De jornadas doloridas.
Adonde me traes, Muerte?
Quê te hice triste yo?
MOR. Yo voy hacer otra suerte;
Vos, Senor, hacéos fuerte,
Que vana gloria os mato.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 287

IMP. Cuan estraiíos


Males das, vida de enganos,
Corta, ciega, triste, amara!
Contigo dejo los anos,
Entregásteme mis danos
Y volvísteme Ia cara.
Mi triunfo allá te queda,
Mis culpas trayo conmigo;
Deshecha tengo Ia rueda
De las pluinas de oro y seda
Delante ini enemigo.
DIA. E S verdad,
Vuesa sacra Magestad,
Entrará neste navio
De muy buena voluniad;
Porque usastes crueldad
Y infinito des vario.
IMPERADOR.
O maldito querubin!
Ansí como descendiste
De ángel á beleguin,
Querrias hacer á mi
Lo que á ti inisino hiciste?
DIA. Pues yo creo,
Á segun yo vi é veo,
Que de lindo einperador
Hábeis de volver muy feo.
IMP. NO hará Dios tu deseo.
DIA. Ni ei vuestro, ini Senor.
Veis aquellos despefiados,
Que echan daquellas alturas?
Son los mas altos estados
288 LIVRO I.

Que vivieron adorados,


Sus hechos y sus figuras;
Y no dieron,
En los dias que vivieron,
Castigo á los ufanos,
Que los pequenos royeron,
Y por su mal consintieron
Cuanto quisieron tiranos.
L i ç a
IMPERADOR.
Quis mihi hoc tribuat
Ut in inferno protegas me?
Con mi flaca humanidad,
De tu ira y gravedad
Adonde me esconderé?
O Senor,
Pase breve tu terror;
A mis culpas da pasada.
Vocabis me pecador,
Responderte hei con dolor
De mi anima turbada.
Responso.
O libera me, Domine,
De muerte, eterna contienda:
En ti sieinpre tuve fe,
Tú me pone juxta te,
In die illa tremenda.
Quando cwli
Sunt movendi contra mi,
Y las sierras y montaiías,
Por Ia bondad que es en li,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 289

Que te acuerdes que nací


De pecadoras entranas.
Vai-se o Imperador aos Anjos, e diz o Diabo:
DIABO.
Allá vais? acá verneis,
Que acá os tengo escrito.
Por mais que me receleis,
Vos y los otros ireis
Para ei infierno bendito.
IMP. NO he temor;
Piadoso es ei Senor.
Dios os salve, remadores!
ANJ. Bien vengais, Emperador.
IMP. Angélico resplandor,
Considerad nuestros dolores.
Adóroos, llagas preciosas,
Remos dei mar mas profundo!
O insígnias piadosas
De las manos gloriosas,
Las que pintaron ei mundo;
Y otras dos
De los pies, reinos por nos,
De Ia parte de Ia tierra!
Esos reinos vos dió Dios
Para que nos libreis vos,
Y paseis de tanta guerra.
ANJO.
No podemos mas hacer
Que desear vuestro bien,
Vuestro bien, nuestro placer:
Nuestro placer es querer
Que no se pierda alguien.
1 9
Vol. I.
290 LIVRO 1.

DIA. Qué pide allá?


Tuvo ei paraíso acullá,
No le falta sino pena;
La pena prestes está.
IMP. La pasion me librará
De tu infernal cadena.
Vivo es ei esforzado
Gran capitan por natura,
Que por nos fue tan cargado
Con Ia cruz en ei costado
Por Ia calle de amargura;
Y pregones
Denunciando las pasiones
De su muerte tan cercana;
Y llevada con sayones
Al monte de los ladrones
La magestad soberana.
Vem a Morte, e traz hum Bispo, e diz o
BISPO.
Muy crueles vocês dan
Los gusanos cuantos son,
Adó mis carnes estan,
Sobre cuales comeran
Primero ini corazon.
MOR. NO cureis,
Senor Obispo; hecho es:
A todos hago esa guerra.
Bis. O mis manos y mis pies,
Cuán sin consuelo estares,
Y cuán presto sereis tierra!
DIABO.
Pues que venís tan cansado,
DAS OBRAS DE DEVACÃO. 291

Verneis aqui descansar,


Porque ireis bien asentado.
Bis. Barquero tan desastrado
No ha obispos de pasar.
DIA. Sin porfía:
Entre Vuesa Senoría,
Que este batei infernal
Ganaste por fantasia,
Halcones de abanaria,
Y cosas deste metal.
De ahí donde estais vereis
Unas calderas de pez,
Adonde os cocereis,
Y Ia corona asareis,
Y freireis Ia vejez.
Obispo honrado,
Porque fuiste desposado
Sieinpre desde juventud,
De vuestros hijos amado,
Santo bienaventurado,
Tal sea vuestra salud.
L i ç ã o .
BISPO.
Responde míhi cuantas son
Mis maldades y pecados,
Veremos si tu pasion
Bastará á mi redencion,
Aun que mil veces doblados.
Pues me heciste,
Cur fadem tuam escondiste,
Y niegas lu piedad
Al anima que redimiste?
19*
292 LIVRO I.

Contra folium escribiste


Amargura y crueldad.
Responso.
Memento mei, Deus Senor,
Quia ventus est vita mea;
Memento mei, redentor,
Envia esfuerzo ai temor
De mi alma dolorida.
Ay de mi!
De profundis clamavi,
Exaudi ini oraeion.
DIA. Obispo, paréceme á mi
Que hábeis de volver aqui
A esta santa embarcacion.
(Vai-se o Bispo aos Anjos e diz • )
BISPO.
O reinos inaravillosos,
O barca nueva segura,
Socorro de los llorosos;
O barqueros gloriosos,
En vos está Ia ventura.
He dejado
Mi triste cuerpo cuitado
Del vano inundo partido,
De todas fuerzas robado,
Del alma desamparado,
Con dolores despedido.
Bien basta fortuna tanta;
Pasadme esta alma por Dios,
Porque ei infierno me espanta.
ANJ. Si ella no viene santa,
Gran tormenta correis vos.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 293

Bis. Yo confio
En Jesu Redentor mio,
Que por mi se desnudo,
Puestas sus llagas ai frio;
Se clavo naquel navio
De Ia cruz donde espiró.
Vem a Morte e traz hum Arcebispo, e diz a
MORTE.
Senor Arzobispo amigo.
Que os parece de ini?
Bien peleaste comnigo.
Anc. No puede nadie contigo,
E yo nunca te temi.
O muerte amara!
I*a vida nos cuesta cara,
El nacer no es provecho.
MOR. Voy hacer otra eeara.
ARC O facciones de mi cara!
O ini cuerpo tierra hecho!
Qué aprovecha en ei vivir
Trabajar por descansar?
Qué se monta en presumir?
De qué sirve en ei morir
Candeia para cegar?
Ni placer
En ei mundo por vencer
Estado de alta suerte,
Pues presto deja de ser?
Nos morimos por lo haber,
Y es todo de Ia muerte.
DIABO.
LO que da, es lo seguro.
294 LIVRO I.

Senor, venga acá ese esprito.


ARC Oh qué barco tan escuro!
DIA. En él ireis, yo os lo juro.
ARC Como me espantas, maldito,
Indiablado!
DIA. VOS, Arzobispo alterado,
Teneis acá que sudar:
Moristes muy desatado,
Y en vida ahogado
Con deseos de papar.
Quien anduvo á puja larga
Anda acá por Ia bolina:
Lo mas dulce acá se amarga,
Vos caisteis con Ia carga
De Ia iglesia divina.
Los ínenguados,
Pobres y desamparados,
Cuyos dineros lograsteis,
Deseosos, hambreados,
Y los dineros cerrados,
En abierto los dejasteis.
ARCEBISPO.
Eso y mas puedes decir.
DIA. Ora pues, alto, embarcar.
ARC No tengo contigo de ir.
DIA. Senor, hábeis de venir
A poblar nuestro lugar:
Véislo está.
Vuestra Senoría irá
En cien mil pedazos hecho;
Y para sieinpre estará
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 295

En água que herverá,


Y nunca sereis deshecho.
L i ç ã o .
ARCEBISPO.
Spiritus meus, tu hechura,
Atteniiabitur; mis dias
Breviabuntur, y tristura
Me sobra, y Ia sepultura:
No sé porque me hacias.
Non peccavi,
Putredine mea dixi,
Padre y madre mia eres,
Vermibus soror et amici;
Quare fuisti me inimici,
Senor de todos poderes?
Responso.
Credo quod Redemptor
Meus vivit, y Io veré.
DIA. Vereis, por vuestro dolor.
ARC Mas porque es mi salvador,
Yo en él ine salvaré.
Dios verdadero
En ei dia postrbnero
De terra surrecturus sum,
Et in carne mea entero
Videbo Deum cordero,
Christum salvatorem meum.
(Vai-se o Arcebispo aos Anjos, e diz:)
ARCEBISPO.
Dadnos alguna esperanza,
Barquero dei mar dei cielo:
Por Ia llaga de Ia lanza,
296 LIVRO I.

Que nos paseis con bonanza


¥

A Ia tierra de consuelo.
ANJ. Es fuerte cosa
Entrar en barca gloriosa.
ARC Reina que ai cielo subiste,
Sobre los coros lustrosa,
Del que te crio esposa,
Y tú virgen lo pariste;
Pues que súpita dolor
Por San Juan recibiste,
Con nuevas dei Redentor,
Y, mudado lo color,
Muerta en tierra descendiste;
Oh despierta,
Pues es dei cielo puerta!
Levántate, cerrada huerta;
Con tu hijo nos concierta,
Madre de consolacion;
Mira nuestra redencion,
Que Satan Ia desconcierta.
Vem a Morte com hum Cardeal, e diz a
MORTE.
Vos, Cardenal, perdonad,
Que no pude mas ama.
CAR. O guia de escuridad,
Robadora de Ia edad,
Ligera ave de rapina!
Qué ínudanza
Hizo mi triste esperanza!
Fortuna, que me ayudaba,
Peso en mortal balanza
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 297

La firmeza y confianza
Que ei falso mundo me daba.
DIABO.
Domine Cardinalis,
Entre vuestra Preeminencia,
Ireis ver vuessos iguales
A las penas infernales,
Haciendo su penitencia:
Pues moristeis
Llorando porque no fuisteis
Siquiera dos dias papa,
Y á Dios no agradecisteis,
Viendo cuan bajo os visteis,
Y en despues os dió tal capa.
Y no quiero declarar
Cosas mas para decir:
Determinad de embarcar,
Y luego sin dilatar,
Que no teneis que argüir.
Sois perdido:
Oyes aquel gran ruido
Nel lago de los leones?
Despertai! bien ei oido:
Vos sereis allí comido
De canes y de dragones.
L i ç ã o .
CARDEAL.
Todo hoinbre que es nacido
De inuger, tien breve vida;
Que cuasi fios es salido,
Y luego presto abatido,
Y su alma perseguida.
298 LIVRO I.

Y no pensamos,
Cuando Ia vida gozamos,
Como delia nos partimos;
Y como sombra pasamos,
Y en dolores acabamos,
Porque en dolores nacimos.
Responso.
Peccantem me quotidie,
Et non me paynitentem Ctriste!)
Sancte Deus, adjuva me;
Pues fue christiana mi fe,
Succurre dolores, Christe,
O Dios eterno,
Senor, quia in inferno
Nulla est redemptio,
O poderio sempiterno,
Remedia mi mal moderno,
Que no sé por donde vo.
(Vai-se o Cardeal ao batei dos Anjos, e diz o)
DIABO.
Váiste, Senor Cardenal?
Vuelta, vuelta á los Francezes.
CAR. Déjame, plaga infernal.
DIA. VOS visteis por vueso mal
Los anos, dias y meses.
CAR. Marineros,
Remadores verdaderos,
Llagas, reinos, caravela,
Embarcad los pasageros,
Que vos sois nuestros remeros,
Y Ia piedad Ia vela.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 299

ANJO.
Socoréos, Cardinal,
A Ia madre dei Senor.
CAR. 0 Reina celestial,
Abogada general
Delante dei Redentor;
Por ei dia,
Senora Virgen Maria,
En que Io viste llevar
Tal que no se conocia,
Y vuesa vida inoria,
Nos queirais resucitar.
Vem a Morte e traz hum Papa, e diz a
MORTE.
Vos, Padre sancto, pensasteis
Ser iminortal? Tal os vísteis,
Nunca me considerasteis,
Tanto en vos os enlevasteis,
Que nunca me conocisteis.
PAP. Ya venciste,
Mi poder me destrüiste
Con dolor descompasado.
O Eva! porque pariste
Esta Muerte amara y triste
Al pié dei arbol vedado?
Estais viva, y has parido
A todos tus hijos muertos;
Y mataste á tu marido,
Poniendo á Dios en olvido
En ei huerto de los huertos.
Véisuie aqui
Muy triste, porque naci,
300 LIVRO I.

Del mundo y vida quejoso.


Mi alto estado perdi,
Veo ei diablo ante ini,
Y no cierto ei mi reposo.
DIABO.
Venga Vuesa Santidad
En buenora, Padre Santo,
Beatísima magestad
De tan alta dignidad,
Que moriste de quebranto.
Vos ireis,
En este batei que veis,
Conmigo a Lucifer;
Y Ia mitra quitareis,
Y los pies le besareis;.
Y esto luego ha de ser.
PAPA.
Sabes tú que soy sagrado
Vicario en ei santo templo?
DIA. Cuanto mas de alto estado,
Tanto mas es obligado
Dar á todos buen ejemplo,
Y ser llano,
w

A todos manso y humano.


Cuanto mas ser de corona,
Antes muerto que tirano,
Antes pobre que mundano,
Como fue vuestra persona.
Lujuria os deSconsagró,
Soberbia os hizo dano;
Y lo mas que os condanó,
Shnonía con engano.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 301

Venid embarcar.
Veis aquellos azotar
Con vergas de hierro ardiendo,
Y despues atanazar?
Pues allí hábeis de andar
Para siempre padeciendo.
L i ç ã o .
PAPA.
Quare de vulvu me eduxisti
Mi cuerpo y alma, Senor?
En tu silla me subisíe,
En tu lugar ine pusiste,
Y me heciste tu pastor:
Mejor fuera
Que dei vientre no saliera,
Y antes no hubiera sido,
Ni ojo de hombre me viera,
Y como fuego á Ia cera
Me hubieras consumido.
Responso.
Heu mihi! heu mihi! Senor,
Quia peccavi nimis in vita:
Quid fadam, miser pecador?
Ubi fugiam, malhechor?
O piedad infinita,
Para ti.
Amercéate de mi,
Que para siempre no llore:
Mándame pasar daqui,
Que nel infierno no ha hi
Quien te loe ni te adore.
302 LIVRO I.

DIABO.
Que me penan esos puntos,
Despues que pasa ei vivir!
Mirad, Senores difuntos,
Todos cuantos estais juntos
Para ei infierno hábeis de ir.
ANJ. O Pastor,
Porque fuiste guiador
De toda Ia Christandad,
Habemos de ti dolor:
Plega a Jesu Salvador
Que te envie piedad.
PAPA.
O gloriosa Maria,
Por las lágrimas sin cuento
Que lloraste en aquel dia
Que tu hijo padecia,
Que nos libres de tormento,
Sin tardar;
Por aquel dolor sin par,
Cuando en tus brazos lo viste,
No le pudiendo hablar,
Y lo viste sepultar,
Y sin él, dél te partiste.
ANJO.
Vuestras preces y clamores,
Amigos, no son oidas:
Pésanos tales senores
Iren á aquellos ardores
r

Animas tan escog-idas.


Desferir;
Ordenemos de partir:
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 303

Desferir, bota batei:


Vosotros no podeis ir,
Que en los yerros dei vivir
No os acordasteis dél.
Nota que neste passo os Anjos desferem a vela em que
está o crucifixo pintado, e todos assentados de joelhos, lhe
dizem cada hum sua oração. Primeiro começa o Papa,
dizendo:
PAPA.
0 Pastor crucificado,
Como dejas tus ovejas,
Y tu tan caro ganado!
Y pues tanto te ha costado,
Inclina á él tus orejas.
IMP. Redentor,
Echa ei âncora, Senor,
En ei hondon ilesa mar:
De divino criador,
De humano redentor,
No te quieras alargar.
REI.
O Capitan General
Vencedor de nuestra guerra;
Pues por nos fuiste mortal,
No consientas tanto mal;
Manda remar para tierra.
CAR. No quedemos;
Manda que metan los remos,
Hace Ia barca mas ancha.
O Senor, que perecemos!
O Senor, que nos tememos!
Mándanos poner Ia prancha.
304 LIVRO I.

DUQUE.
0 Cordero delicado,
Pues por nos estás herido,
Muerto y tan atormentado;
Cóino te vas alongado
De nuestro bien prometido?
ARC Fili Davi,
Como te partes daqui?
Al infierno nos envias?
La piedad que es en ti,
Cóino Ia niegas ansí?
Porque nos dejas, Mesías?
CONDE.
O Cordero divinal,
Médico do nuestro dano,
Viva fuente perenal,
Nuesa carne natural;
No permitas tanto dano.
Bis. O flor divina,
In adjuvandum me festina,
Y no te vayas sin nos;
Tu clemência á nos inclina,
Sácanos de foz malina,
Benigno hijo de Dios.
Não fazendo os Anjos menção destas preces, começarão
a botar o batei ás varas, e as Almas fizerão em roda hüa
musica a modo de pranto, com grandes admirações de dor;
e veio Christo da resurreição, e repartio por elles os remos
das chagas, e os levou comsigo.
F I G L R A S.
PRÓLOGO.
ANJO.

LUCIFER — Maioral do MORTE.


Inferno. ABEL.
BELIAL — Meirinho da JOB.
sua corte. ABRAHÃO.
SATANAZ —Fidalgo do MOISÉS.
seu Conselho. DAVID.
ANJO. ISAIAS.
MUNDO. BELZEBU.
TEMPO — Seu Veador. S. JOÃO.
EVA. JESU CHRISTO.
ADÃO.

O auto que se segue he intihdado Breve Summario


da historia de Deos. Foi representado ao muito alto e
mui poderoso Rei Dom João, o terceiro deste nome em Por-
tugal, e á Sereníssima e muito esclarecida Rainha Dona
Catherina, em Almeirim, na era do Senhor de 1527-

Vol. I. 20
ALTO DA HISTORIA DE DEOS.

Entra hum Anjo, e a modo de argumento diz o se-


guinte introito.
ANJO.
Ainda que todalas cousas passadas
Sejão notórias a Vossas Altezas,
A história de Deos tem taes profundezas,
Que nunca se perde em ser recontadas.
E porque o tenor
Da resurreição de nosso Senhor
Tem as raizes naquelle pomar,
Ao pé d'aquella árvore que ouvistes contar,
Aonde Adão se fez peccador,
Convém se lembrar.
Portanto o exordio do auto presente
Começa iractando desta creação,
E como Lucifer tomou gran paixão
De Deos crear mundo tão resplandecente.
E assi a inveja
E a sua malícia d'inveja sobeja
Por ver nossos padres assi nobrecidos,
Feitos gloriosos, tão esclarecidos,
Que não pelos olhos lhe armarão peleja,
Mas pelos ouvidos.
Entrará primeiro o muito soberbo
Lucifer, anjo que foi dos maiores,
E Belial e Satanaz, senhores
DAS OBBAS DE DEVAÇÃO. 307

De muita maldade de verbo a verbo.


Agora vereis
O que por diversos doctores lereis
Wab initio mundi até á resurreição;
A qual se endereça a final tenção
Dos versos seguintes. Não vos enfadeis,
Que breves serão.

Entra Lucifer. o Maior ai do Inferno, e com elle


Belial, Meirinho da sua corte, e Satanaz, Fidalgo do
seu Conselho; e depois de assentado diz
LUCIFER.
Venho herege do mundo que fez
O Deos lá de cima tão longo e tão passo,
Feito de nada por tanto compasso,
Tal que pasmado fico eu desta vez.
BEL. Mais he d'espantar
Do homem e mulher que fez no pomar.
Luc. Isso queria eu agora dizer;
Porque daquelles podem proceder
Tantos espritos, que possão ganhar
O que fomos perder.
Hajamos conselho sobre esta façanha,
Que Deos não nos ha de leixar acuar:
Todo seu feito he fazer-nos pesar,
Alem de deitar-nos de sua companha.
BEL. Assi me parece.
SAT. De Adão e Eva que mal nos recrece?
BEL. Dar Deos a elles o que nos tomou.
SAT. Dar Deos a elles o que nos tomou?
BEL. Não cuides tu ai; que este he o alicesse
Em que se fundou.
20*
308 HVRO I.

SATANAZ.
Pois que remédio? que este mal he muito!
Luc Deos lhe mandou mandado mui forte,
Sob pena de dores, trabalhos e morte,
Que não lhe tocassem em hum certo fruito,
Fruito da sciencia;
Porque perderão sua innocencia,
Angélica em parte, subtil e immortal,
E a posição do paraizo terreal:
Isto em peccando, á primeira audiência
Sentença final.
Vae tu, Satanaz, por embaixador,
Eu te dou meu comprido poder;
E vae-te a Eva, porque he mulher,
E dize que coma, não haja temor:
E, como avisado,
Lhe falia cortez e mui repousado,
Mostrando-te alegre com todo seu bem,
E seu muito amigo maior que ninguém:
Minte-lhe largo, e dá-lhe o cuidado
Que agora não tem.
Vem tomar graça, pois has de pregar
Á mais avisada senhora do mundo:
Eu te outorgo meu poder facundo.
Não hajas dó delia, faze-a finar,
Destrue-la asinha;
Nem por formosa, nem por ser rainha,
Não olhes por nada, aperta com ella:
Que como a venceres, sem ti, mesma ella
Fará ao marido cobrir-se de tinha,
E muito mais qu'ella.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 309

SATANAZ.
Em que figura lhe fallarei bem?
Luc Faze-te cobra, por dissimular,
Porque pareças do mesmo pomar,
Que sabes das fructas as graças que tem;
Porque has de dizer:
Senhora fermosa, deveis de saber
Que aquella fructa que vos foi vedada
Oh! quanta sciencia em si tem cerrada.
SAT. Ja vos entendo, não falleis mais nada;
Leixae-me fazer.
Partido o tentador Satanaz, Belial anojado de inveja
porque Lucifer o não mandou a elle, diz:
BELIAL.
Crede hüa cousa, Senhor Lucifer,
Que não ha hi pena que seja igual
Aquella que sente o grande official,
Quando ninguém lhe dá que fazer.
Eu sou dos primeiros -
E o vosso leal entre os cavalleiros,
E mais sou Meirinho desta vossa corte.
Vós não fazeis guerra em que eu faça sorte,
E sendo meirinho sem prisioneiros
Me pesa de morte.
E foste mandar Satanaz agora
Com todo poder de vosso vigor,
Accrescentado por embaixador,
Ao novo Senhor e nova Senhora,
Porém a mim não.
Se lá me mandáras, me houvera por cão,
Se não os fizera per força peccar:
' Logo per força os fizera tragar
310 LIVRO I.

Quantas maçans naquella árvore estão,


Sem as mastigar.
LUCIFER.
Onde força ha perdemos direito;
Que o fino peccado ha de ser de vontade,
Formando desprezo contra a Magestade;
E não serão nossos, se for d'outro geito.
E porque he errar
Mandar o soberbo a negociar
Cousas que hão de ser feitas per manha,
Não te mandei: que a fúria não ganha;
Mas doces palavras e dissimular
Faz toda a façanha.
Satanaz sei que os fará peccar
Per suas vontades, segundo he manhoso
E mui lisongeiro, e falia mimoso,
E sabe mentir com graça e com ar.
E se elle acabasse,
Convém a saber, que ine derribasse
Aquelles monarchas do mundo primeiros,
Tu terias somma de prisioneiros,
Meu fogo também em que se occupasse,
E meus cozinheiros.
Vem o tentador Satanaz com muita alegria porque
leixa acabado seu negócio, e diz:
SATANAZ.
Senhor Lucifer, prazer hi não ha
Que dê pelos pés ao do vencimento:
Alegrae-vos muito e o nosso convento,
Que vosso desejo cumprido está.
Ja são derrubados
Adão e Eva os primeiros casados,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 311

Voltas as vodas em pranto mui forte,


0 gozo em lagrimas, a alegria em morte,
A vida em suspiros, prazer em cuidado,
Ventura sem sorte.
He ja convertida esperança em temores,
Em pena também a seguridade,
Repouso em favor, e a liberdade
Deixo-a captiva em vivas dolores;
E o paraizo
Lhe fica bem longe do seu pouco siso,
E he pera rir de seu desatino:
Porque o fruito era pequenino,
E pera fazerem tal regno diviso
Não era tão fino.
Porém crede vós que são destruídas
Duas creaturas mui maravilhosas,
Muito acabadas, e tão graciosas,
Que tarde verão outras taes nascidas.
Emfim que, Senhor,
Comerão seu pão com grande suor,
Seu mal tem ja certo, o bem duvidoso.
Oh como andava Adão tão mimoso,
E Eva cuberta de grande esplendor!
Mas eu fui ditoso.
LUCIFER.
Faço-te Duque e meu Capitão
Dos regnos do inundo até sua fim.
Pois os pães venceste, os filhos assi
Trabalha e procura que venhâo á mão;
Que poderá ser
Que alguns farão tão grande prazer
Ao Deos-offendido com tanta vontade,
312 LIVRO I.

Que da sua ira farão piedade,


E sua justiça farão converter
Em benignidade.
SATANAZ.
Bofá, meus amigos, ja eu 'stou cevado:
Nenhum que nascer não m'ha d'escapar.
Oh quantas manhas que sei de luctar,
E quantos enganos que tenho estudado!
Venha embora
O rico ou pobre, senhor ou senhora,
Ou seja villão, ou frade ou freira,
De todas as sortes lhe sei a maneira.
Não falleinos nisto jamais per agora,
Que feita he a pesqueira.
Entra hum Anjo com hum relógio na mão, e traz com-
sigo o Mundo vestido como rei, e o Tempo diante como
seu Veador; e diz o
ANJO.
Deus, cui proprium est miserere,
Porque o seu próprio he perdoar,
De todo a sanha não quer executar,
E a summa bondade assim lh'o requere.
Ca Deos he grandeza,
E he poderio e he fortaleza,
E sabedoria, virtude e verdade,
Glória: tudo isto tem de propriedade;
E estas dignidades tem por natureza
Usar de piedade.
E porque o peccado he em si temporal,
E a bondade de Deos he infinda,
Precede em grandeza toda a cousa finda,
E ser poderoso he seu natural.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 313

A justiça porém
Quando executa, não cuida ninguein,
Que he com mil partes o que merecia.
Adão he deitado de sua alegria,
Porque por seu mal não pôde c'o bem
Que Deos lhe queria.
E porém comtudo piedoso tornado,
Manda-te, Mundo, agasalhar Adão
E todos aquelles que procederão
De sua semente, de qualquer estado,
E lhes dês folgança,
E todalas cousas em muita abastança:
Os peixes, que vão per carreiras do mar;
Aves, que andão as vias do ar;
Ovelhas e bois, e toda abondança
Os leixa lograr.
Porque, ainda que são peccadores,
Não tem outro padre senão o Senhor,
Que não quer a morte ao peccador,
Mas antes que viva e lhe dê louvores.
E a ti porém
Manda-te, Tempo, que temperes bem
Este relógio, que te dou, das vidas;
E como as horas forem cumpridas
De que fez mercê á vida d'alguem,
Serão despedidas.
Assi que tu, Mundo, os gasalharás,
E Satanaz os aconselhará,
O Tempo e relógio os despedirá,
A morte será o que tu verás.
Eis aqui vem
O padre Adão, e Eva também;
314 LIVRO I.

E como saudosos do seu paraizo,


Com dor dolorosa de tal improviso,
Assi desterrados de todo seu bem,
Vem fallando nisso.
EVA.
Oh como os ramos do nosso pomar
Ficão cubertos de celestes rosas!
Ó doces verduras, ó fontes graciosas,
Quem nunca vos vira pera se lembrar!
ADÃ. Lembremo-nos ora
De nosso remédio, mulher e senhora,
Porque isto he o que havemos mister.
EVA. Ó senhor, quem pôde cobrar tal perder,
Que possa perder lembrança meia hora
De tanto prazer?
ADÃO.
Poderoso he o Padre na glória dos Ceos,
Poderoso he o Padre no nosso paraizo,
Poderoso he o Padre neste triste abiso,
Em todo logar poderoso he Deos;
E não vos mateis.
EVA. Segundo o que sinto, vós, senhor, quereis
Que queira soflrer, e meu mal não quer;
Minha dor he grande, e eu sou mulher
Tão desconfiada, como vós sabeis
, Que devo de ser.
A dor e tristeza he no meu coração,
No meu coração está minha vida,
E na minha vida está minha ferida,
De que meus cuidados feridos estão.
ADÃ. Leixae-me dizer,
Eu vos direi que haveis de fazer.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 315

Ajuntae-me a somma de vossos cuidados


Aos meus tristes apassionados,
E dae-m'os a mim, porque eu hei d'ir ter
Cuidados dobrados.
EVA.
Senhor, bem o creio; mas vós bem ou vistes
O que me disse o Senhor dos senhores:
Que eu pariria com mortaes dolores,
A mais desterrada na terra dos tristes.
Oh! triste de mi!
Cada huin de nós penará por si;
Vós tereis cuidados e eu muitos cuidados,
Os nossos prazeres serão trabalhados:
Oh quantos trabalhos teremos aqui
Por nossos peccados!
ADÃO.
Dae ora logar, senhora querida,
Que passe esse pranto; e nós descansemos;
Catemos abrigo em que nos abriguemos.
Pois nos obrigamos a inisera vida,
Façamos pendença;
Cumpramos os termos da nossa sentença,
Pois não cumprimos o que nos cumpria.
Paciência, senhora, que o nojo em porfia
Remédio não causa, nem tira doença,
Mas antes a cria.
MUNDO.
De vosso desastre me pesou assaz;
E, como o Anjo aqui o contasse,
Nunca tive cousa de que mais me pesasse.
Porém por engano tudo se faz.
O Diabo he demo;
316 LIVRO I.

Porque he o rapaz tao subtil em extremo^


Que não ha bugio tão mal inclinado.
ADÃ. Quem sois vós, que assi estais ornado?
MUN. Eu sam o Mundo, que remo meu remo
Em vosso cuidado.
Se vós não houvesseis pezar em dizê-Io,
Desejo saber por que via entrou
Aquelle galante que vos enleou;
Não pera usa-lo, mas pera sabê-lo.
EVA. Senhor, sabereis,
Dizendo ein somma o que me requ'reis,
Que eu concebi neste meu spiríto
Aqúelles enganos do anjo maldito;
E assi concebida, agora vereis
O meu aperto.
Digo que, prenhe, minha ahna e vida
Assi concebida do verbo corrupto,
Desejei, de prenhe, fartar-me do fructo
Da árvore sancta por Deos defendida.
E como comi,
(apparece a Morte)
Vedes alli, Senhor, que pari;
Vedes a minha triste paridura:
Essa he a filha da mãe sem ventura,
Isto nasceu da triste de mi,
Por nossa tristura.
ADÃO.
Vedes aqui, Senhor Mundo, a nossa
Parteira da terra, herdeira das vidas,
Senhora dos vermes, guia das partidas,
Rainha dos prantos, e nunca ociosa,
Adela das dores,
DAS OBRAS DE JDEVAÇÃO. 317

A embaladeira dos grandes senhores,


Cruel regateira, que a todos enleia.
MUN. Não vos espanteis de pessoa tão feia,
Porque cada hum desses lavradores
Colhe o que semeia.
Hou] que dizes, Tempo? TEM. Eu não digo nada:
Eu lhes fallarei lá na derradeira;
Agasalha-os tu, que he gente estrangeira.
MuN.Cortae dessa rama, fazei a pousada,
E va Adão cavar:
Semeae das favas, que haveis de suar:
Comei dessa fructa amargosa, monteza,
E fie da lan a primeira princeza,
Até qu'essa Morte vos venha chamar,
E muito depressa.
Apartãose do auto Adão e Eva, e diz o
MUNDO.
Ora venha Abel seu filho carnal,
E não façais conta aqui de Cain,
Que como o homem he homem ruim,
Pera que he delle fazer cabedal?
Abel he pastor
Amigo de Deos e bom servidor,
Por isso lhe crescem a olho seus gados.
TEM. Pois porque tem dias tão abreviados?
MUN. São fundos segredos que tem o Senhor
Pera si guardados.
Entra Abel pastor, cantando o seguinte
Vilancete.
ABEL
"Adorae, montanhas,
"O Deos das alturas,
318 LIVRO I.

"Também as verduras;
^Adorae, desertos
: " E serras floridas,
"O Deos dos secretos,
"O Senhor das vidas:
"Ribeiras crescidas,
"Louvae nas alturas
"Deos das creaturas.
"Louvae, arvoredos
"De fructo presado,
"Digão os penedos,
"Deos seja louvado,
" E louve meu gado
"Nestas verduras
"O Deos das alturas."
SATANAZ.
Oh como cantas tão doce, pastor!
Quanta doçura que nasceu comíigo!
Conselho-te, irmão, senhor e amigo,
Que te estimes muito: pois es tal cantor,
Bem he que te prezes.
Tu es mais formoso que teu pae mil vezes:
E se eu a ti fosse leixaria o gado,
Que andas nos matos mui mal empregado,
Mancebo disposto: e não te desprezes
De ser namorado.
ABEL.
Queria ora mais fartar o meu gado,
Sem fazer nojo nem perda a ninguém.
SAT. Queres que engorde o teu gado bem?
Sempre apascenta em pasto vedado.
ABE. Quem te mette a ti
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 319

A aconselhares outrem, nem menos a mi,


Sem te pedirem conselho nem nada?
SAT. He tanta a virtude que tenho sobrada,
Que sempre isto faço e fiz atéqui
A cada passada.
ABEL.
Oh! e tu gabas-te e fazes-te sancto?
Juro-te, amigo, que hypocrila es.
Torna-te monge, descalça esses pés,
E serás fino nessa arte dez tanto:
A isto te espero.
SAT. Este he o homem que busco e quero.
Muito desejo tua companhia,
E sem mais soldada, com muita alegria,
Prometto servir-te como escravo mero
De noute e de dia.
TEMPO.
Despachae, Abel, parti pola fria,
Que ja vossas horas estão consumidas.
ABE. O Tempo, tão curtas são aqui as vidas?
Senhor, agravais-me, que ainda crescia;
Não ha aqui justiça.
Leixac-ine, Morte. MOR. O Tempo me atiça.
ABE. Onde me levas? MOR. Lá t'o dirão.
ABE. Mundo, não me vales? MUN. Está bem á mão.
TEM. Pois não se t'escusa, não hajas preguiça:
Não tomes paixão.
Entra Abel na escuridade do Limbo e diz:
ABEL.
Despois de viver vida trabalhada,
Despois de passada tão mísera morte,
Este he o abrigo, esta he a pousada!
320 LIVRO I.

BEL. E esse he o sfso;


Despois que vos vedes neste sancto abiso,
Despois que estais fora de guardardes gado,
Despois que cobraste tal valle abrigado,
Despois de vizinho no nosso paraizo,
Nos dais esse grado?
Sus, sus, á corrente. Luc Aperta-o mui
Que nunca Satan o pôde enganar,
Porque elle fora pousar no logar
Onde pera sempre não virá ninguém,
Senão outros taes.
BEL. Has tu saudade de ir ver a teus pães,
Ou por ventura das tuas ovelhas?
r

ABE. O Senhor Deos! pois tal me apparelhas,


Recebe meus gritos^ prantos e ais,
Nas tuas orelhas.
TEMPO.
Vós, padre Adão, e vossa parceira,
Cheguemos á vara, ja sabeis meu mando;
Mil annos ha que estou esperando;
Esta he a vossa hora derradeira.
ADÃ. O Tempo, espera!
TEM. Este relógio não se destempera,
He muito certo e muito facundo.
Ap\. Queria fallar huin pouco c'o Mundo:
Não apparelharei eu o panno e a cera?
Ora he caso profundo!
TEMPO.
Alto, despachae: e vós aguardais?
Fazeis o alforge á hora da ida?
ADÃ. Dá-me siquer hum dia de vida.
TEM. Diz ca o relógio que não tendes mais;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 321

Nem ha hi maneira.
MOR. Não sabeis vós que sou vossa herdeira,
E a vossa filha a primeira gerada?
ADÃ. O triste Morte, como es apertada!
Como es espantosa, em tanta maneira
Desaventurada!
Entrando na casa de sua prisão, e achando Abel, seu
filho, preso naquella infernal estância, fizerão todos hum
pranto, cantando a três vozes; e acabando diz o
MUNDO.
Eis Job vem fatiando ha grande pedaço,
Triste com causa de ter gran tristeza.
TEM. Oh quantos haveres e quanta riqueza
Perde aquelle homem em tão pouco .espaço!
MUN. Infinitos gados
E muitos haveres lhe tenho ja dados,
E tudo lhe foi atravez brevemente;
Porque Satanaz o achou excellente,
Todos seus bens lhe tem assolados;
E Job paciente.
JOB.
Se os bens do mundo nos dá a ventura,
Também em ventura está quem os tem.
O bem que he mudavel não pôde ser bem,
Mas mal, pois he causa de tanta tristura;
E se Deos os dá,
Como eu creio mui bem que será,
E a fortuna tem tanto poder,
Que os tira logo cada vez que quer,
O segredo disto, oh! quem m'o dirá,
Pera o eu saber?
2 l
Vol. i.
322 LIVRO I.

SATANAZ.
Fallemos huin pouco, Job, a de parte
Sobre esse segredo, verás que te digo.
Eu quero-te bem e sou teu amigo,
Sem usar Comtigo cautela nem arte.
Tu saberas,
E não me descubras nem hoje nem eras,
Deos he aquelle que te tracta assi;
Quer-te gran mal e diz mal de ti:
Não cures delle, e logo tomaras
A como te vi.
Tu dás com teus males louvores a Deos,
E elle pesa-lhe por tu nomea-lo:
Renega, renega de ser seu vassalo,
E logo verás tecer outros veos.
JOB. Se o eu leíxar,
Qual he o senhor que in'ha d'emparar?
Qual he o Deos que me pôde valer?
Nos bens desta vida não está o perder,
Que assi como assi ca hão de ficar,
Pois hei de morrer.
Eú creio, Mundo, que o meu rédeinpíor
Vive, e no dia mais derradeiro
Eu o verei Redemptor verdadeiro,
Meu Deos, meu Senhor e meu Salvador.
Eu o verei, eu,
Não outrem por mim, nem com olho seu,
Mas o meu olho, assim como está;
Porque minha carne se levantará,
E ein carne mea verei o Deos meu,
Que me salvará.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 323

SATANAZ.
Prosigue tu embora tua mania,
Que Deos bem de chapa te assenta elle a mão:
Derribou-te agora as casas no chão,
E matou-te os filhos morte supitania.
JOB. Verdade he isso?
SAT. Assim me veja eu rei do Paraizo.
JOB. Bento e louvado seja o Deos dos ceos!
SAT. Se o tu renegasses, temer-t'hia Deos,
E correr-se-hia muito de te fazer isso.
JOB. La, lá aos increos!
SATANAZ.
Assi! ora espera, farei que renegues,
Quero fazer o que Deos me manda.
(Toca Satanaz a Job, e fica çuberto de lepra.)
JOB. Oh chagado de mi, que esta he outra demanda!
Oh Deos meu! e porque me persegues?
Contra mim perfias,
Sabendo que nada são os meus dias!
Minha ahna s'enoja ja de minha vida,
E como a setta he minha partida.
Senhor, meu Senhor! porque te desvias
De tua guarida?
Responde-me, quantas maldades te fiz?
Ou quantas treições obrei contra ti?
Porque assim escondes a face de mi,
Como meu contrário, sendo meu juiz ?
Contra a folha prove,
Que ligeiramente o vento revolve,
Mostras as forças que tu tens comtigo?
Porque te fizeste contrairo comigo?
21*
324 LIVRO I.

Que a tua bondade me escusa e absolve


De ser teu imigo.
Senhor, homem de mulher nascido
Muito breve tempo vive miserando,
E como flor se vai acabando,
E como a sombra será consumido.
Pois porque, Senhor,
Estimas tu cousa de baixo valor
Pera trazê-lo a juizo comtigo ?
E quem me darás que seja comigo
Em o inferno por meu guardador
E por meu abrigo?
Que a minha pelle, as carnes gastadas,
Logo a meu osso se achegará,
E também solamente o que ficará
Os beiços acerca de minhas queixadas.
O meus amigos,
Ao menos vós outros, amigos antigos,
Amerceae-vos de mim que me vou,
Porque a mão do Senhor me tocou:
E vós perseguis-me como inimigos,
Assi como estou?
TEMPO.
Queixae-vos vós bem, que ainda estais peor,
Pois não tendes mais momento de vida:
Alto, despejae, cuidae na partida.
JOB. Oh! bento e louvado seja o meu Senhor!
O que elle mandar.
A vida he sua, póde-a tirar,
A morte he nossa de juro e herdade;
E pois que elle he o juiz da verdade
DAS OBRAS DE DEVAÇÂO. 325

Faça-se logo sem mais dilatar


A sua vontade.
MORTE.
Vinde ca, bom homem, que esta he dor maior.
JOB. Memento mei, Deos Senhor,
Porque vento he a minha vida.
Apressa-te muito asinha,
Favorece meu temor,
E a minha alma encaminha.
Peccante me quotidie,
Et non me pcenitentem,
Meus espíritos ja não sentem;
Timor mortis, confurbas me.
Ubi fugiam, que farei?
Circumdederunt me dolores:
Ajuda-me, Rei dos senhores,
Não te alembrc que pequei,
Esqueção-te meus errores.
Manus fuce fecerunt me,
Oh! não me desfaças ora;
Acorre-me, Senhor, agora,
Que a minha vida ida he,
E a morte he de mi senhora.
BELIAL.
Ora andae, que tudo he nada
Quanto vós podeis dizer.
JOB. Que me queres tu fazer?
BEL. Servir-te e dar-te pousada,
Onde estes a teu prazer.
(Diz Job despois de preso. )

JOB. Quare de vulva me eduxiste?


Antes alli fora consumido.
326 LIVRO I.

Ó minha esperança^ faze-me soffrido,


Pois vida, morte e prisão tão triste
Me fazem pesar-ine porque fui nascido.
MUNDO.
Agora estes quatro bem abastarão,
Quanto aos Padres da lei da Natura;
Logo virão, da lei da Escriptura,
Moysem, Isaias, David, Abrahão.
Fallará primeiro
Abrahão, patriarcha justo, verdadeiro,
Reprendendo os ídolos da antigüidade;
Porque no seu tempo era vaidade,
E pola verdade se fez pregoeiro
Da sancta Trindade.
ABRAHÃO.
O Deos mui alto, ignoto, escondido,
Deinostra-te ás gentes, que ja tempo he;
Que daquelle tempo do justo Noé
Está o teu nome na terra perdido,
E está sonegado
O tributo do mundo, que he teu de morgado.
E adorão as gentes deoses de palmeira,
Deoses de metal, e de pederneira,
Deoses sem vida, deoses de peccado,
Feitos de madeira.
Tem pés e não andão, mãos e não palpão,
Olhos e não vem, orelhas e não ouvem,
Corpo e não sustem, cabeça e não entendem.
Et tu, qui solus es,
Que tens todo o inundo debaixo dos pés,
E teu ouvir e ver he infinito,
Creador dos spirítos, eternal spiríto,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 327

E sendo seu Deos, não sabem quem es,


Sequer por escrito.
MOISÉS.
Eu Mouses direi como elle formou
No princípio o ceo, terra e paraizo.
A terra era vácua, e sobre abiso
Erão as trevas quando a luz creou.
E assentarei
Mistérios profundos no livro da lei,
Tudo figuras da Sancta Trindade,
Tudo mistérios da eternidade,
Que Deos me dirá e eu escreverei
A sua vontade.
E elle estará em pessoa comigo
Aos cinco livros, quando os escrever;
Porque as ceremonias que mandar fazer,
Outras maiores trazerá comsigo.
Tu, homem, penetra,
E dos sacrifícios não tomes a letra;
Que outro sacrifício figurão em si,
Que matar bezerros, nem aves alli:
Outra mais alta ofterta soletra,
E outro Genesi.
DAVID.
O sacrifício a Deos mais aceito
He o spiríto mui atribulado,
E o coração contrito e humilhado;
Este he a ofterta e serviço direito;
E assi Isaias.
ISA. O sacrifício he o Messias,
Que será nascido em Bethlem de Judá,
Porque do tribu de Judá será
328 LIVRO I.

Da parte da Virgem; e eis virão dias


Em que parirá.
MOISÉS.
Virgem prenhada! ISA. E Virgem parida.
Bem viste a sarça que não se queünava;
Pois este mistério nos perfigurava
A Madre de Deos, do mundo e da vida,
E amado cordeiro
Que tira os peccados. DAV. EU no meu salteij
Digo por este mui alto primor:
Cantae cantar novo a vosso Senhor,
Que fez maravilhas, o Deos verdadeiro,
O Duque maior.
ABRAHÃO.
r

O Isaias, que novas tão bellas,


De tanta alegria, que trazes comtigo!
ISA. Outras tão tristes trago eu comigo,
Que ja Jeremias fez pranto com ellas.
Oh triste mazella!
Que o fructo do ventre daquella donzella,
Em pagamento do fructo vedado,
A justiça divina será oftertado,
Cuberto de sangue, com muita querella,
E crucificado!
DAVID.
Eu também o sei, mui certo sabido;
Serão suas mãos e pés mui furados,
E todos seus ossos lhe serão contados,
E deitarão sorte sobre seu vestido.
TEM. Tendes ja dito;
Leixae tudo isso posto por escrito,
E despejae logo, pagae a pousada;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 329

Cumpri com a terra, que quer ser pagada,


E ós elementos dae o spiríto:
Não falleis mais nada.
MUNDO.
Morte, despeja-os, não fique ninguém.
ISA. Oh quem me tivera mais vida alongada
Pera profetar da Virgem sagrada
Cem mil maravilhas que sei muito bem!
MOR.Profetas, nó mais;
Manda o Tempo que logo partais,
Parti-vos comigo, e não mais demoras.
ABR. O Morte, quão cruas são tuas esporas!
Quão lastimeiras! MOR. Não vos detenhais;
Andae, que são horas.
MOISÉS.
Senhor Rei David, não tendes na corte
Cirurgiães e Físicos mores,
Astrologos grandes e muitos doctores,
Que vos dem saúde e livrem da morte?
Mon. Olhae, não vai nisso;
O mal que se cura não he mal de siso.
Andão deitando remendos á vida;
Mas quanto ao despejo, pois não tens guarida,
Lembra-te, homem, com muito aviso
Que es terra podrida.
BELZEBU.
Ó Morte, ó Morte, sejas bein casada,
Que tão limpa gente nos dás ein poder.
Chegae-vos aqui, Senhor Lucifer,
Pois que r%i vem á vossa pousada;
Que não he rezão,
Pois que he rei, que eu lhe ponha a mão,
330 LIVRO I.

Senão Vossa Alteza, e ponha-o aqui.


Luc Perdoae-me vós, Senhor Rei Davi.
DAV. De profundis clamavi, Senhor, redempção!
BELZ.Bein estais assi.
MUNDO.
Da lei da Escriptura e lei natural
Ja temos passados os mais principaes;
Venha a lei da Graça, porque os mortaes
Alcancem a glória de sempre eternal.
Venha primeiro
Glorioso Joannes, sancto pregoeiro,
Sancto sem mágoa, de Deos enviado,
Sancto nascido e sanctificado,
Mostrando ás gentes alto cordeiro,
Com muito cuidado.
S. JOÃO.
O bravas serpentes que em serras andais,
O dragos ferozes que estais nos desertos,
Ouvi os secretos que estão encubertos;
E vós, dromedários, também não durmais;
E tu, mui serena
Fermosa ave phenix, que tanto sem pena
A ti mesma inatas por tua vontade,
Vae ver o Phenix da Saneia Trindade,
Filho da Phenix grafia plena,
Que está na cidade.
E tu, mui soberbo lobo poderoso,
Que trazes as unhas cruéis, e tingidas
No sangue d'ovelhas de pouco paridas,
Aprende de Christo, cordeiro amdl-oso:
E vós, pomba brava,
Que voais isenta, soberba, alterada,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 331

Em essas montanhas viveis branda vida,


Tomae por espelho a pomba escolhida;
A pomba mui mansa, a pomba calçada,
De sol he vestida.
E tu vil raposa, que vives d'engano,
E inatas quem amas, sem nenhum temor,
Aprende de Christo que so por amor
Offerece á morte seu corpo humano.
Tu, águia real,
Que vences os raios do sol natural
Com tua vista per graça divina,
Guarda não te cegue o sol da rapina,
Pois te allumia a luz divinal
Com sua doctrina.
SATANAZ.
Eu fui hontein á cidade,
E estavão os Fariseus
Fallando nos feitos teus
E na tua sanctidade,
De que pasmâo os Judeus.
Dizem que tu es Elias,
Ou profeta enviado,
Ou anjo dissimulado;
Mas eu digo que es Mexias,
E assi o tenho apostado.
S. JOÃO.
Eu te conheço mui bem,
E quein es, ha muitos dias.
Satan, eu não sam Elias,
Nem desejo de ninguém
Nenhüas lisongerias.
Nem sam sancto nem profeta,
332 LIVRO I.

Nem menos anjo encuberto;


Vox clamantis in deserto
Esta he a minha vida certa;
Pois queres saber o certo.
Nem Messias não sam eu,
Nem pera lhe desatar
A correa que levar
No sancto sapato seu.
Antre os Judeus acharás
O bem qu'elles não conhecem,
Nem tu o conhecerás;
Porque elles não no merecem,
Nem tu o merecerás.
Aparta-se Satanaz, e diz
S. JoÃo.
O mortaes, de terra em terra tornados,
Pois são vossas almas de tão fina lei,
Abri vossos olhos, que ecce agnus Dei,
Que veio ao inundo tirar os peccados.
Elle he por certo;
Crede esta voz clamante em deserto,
E levantae-vos do po desta vida;
Pegae-vos com Christo,
Que he certa guarida,
Que de sua mão está o ceo aberto,
E a glória vencida.
TEMPO.
Este relógio he muito forte,
Vós perdoae-me, Senhor San João,
Que vossas horas cumpridas estão,
Segundo buscastes tão cedo a morte,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 333

E por vossa vontade.


Vós não quereis senão pregar verdade,
E ella vos leva da vida presente.
S.Jo. Que sam muito ledo e muito contente,
Porque a verdade he a mesma Trindade
Verdadeiramente.
E pois eu sam voz de nosso Senhor,
Se eu a calar, quem na ha de dizer?
As offensas de Deos quem as ha de soffrer?
Mas clame em deserto qualquer pregador,
E seu thema*seja
Verdade, verdade. Mas o que deseja
Ser bispo, e portanto prega mui modesto,
Calando e cobrindo o mal manifesto,
Não he pregador da sancta Igreja,
Mas ladrão honesto.
Leva-me, Morte; quero-me ir daqui,
Que ja mostrei Christo a todolos vivos;
Irei dar a nova áquelles captivos,
Cujo captiveiro terá cedo fim.
Entrando S. João naquella prisão, com admiração de
grande alegria cantarão os presos o romance seguinte, que
fez o mesmo autor ao mesmo propósito.
Romance.
Vocês daban prisioneros,
Luengo tiempo estan llorando,
En triste cárcel escuro
Padeciendo y suspirando,
Con palabras dolorosas
Sus prisiones quebrantando:
— Que es de ti, Virgen y Madre,
Que á ti estamos esperando?
334 LIVRO I.

Despierta ei Senor dei mundo,


No estemos mas penando. —
Oyendo sus vocês tristes,
La Virgen estaba orando
Cuando vino Ia embajada
Por ei ángel saludando,
"Ave rosa gracia plena,"
Su prenez le anunciando.
Suelta los encarcelados,
Que por ti estan suspirando;
Por Ia muerte de tu hijo *
A su padre estan rogando.
Crezca ei nino glorioso,
Que Ia cruz está esperando.
Su muerte será cuchillo,
Tu anima traspasando.
Sufre su muerte, Senora,
Nuestra vida deseando.
LUCIFER.
Que fazes? SAT. E U não faço nada,
E suo como cão, sem achar bonança.
Luc Todos aquelles que a morte ca lança
Alcanção per força segura pousada.
Pois has-me d'encher
De almas humanas, convém a saber:
A furna das trevas, ponte de navalhas,
O lago dos prantos, a horta dos dragos,
Os tanques da ira, os lagos da neve,
Os raios ardentes, sala dos tormentos,
Varanda das dores, cozinha dos gritos,
Açougue das pragas, a torre dos pingos,
O valle das forcas: — tudo isto arreio.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 335

SAT. Bem certo he que tudo «ha de ser cheio,


Mas França e Roma não se fez n'hum dia.
Luc Temo, Satan, que esta mercadoria,
Que temos aqui, he braza no seio.
Entra a figura de nosso Redemptor; e o Mundo, o
Tempo e a Morte assentão-se de joelho?, e diz o
MUNDO.
Também vós passais, Deos meu,
Por esta vida mesquinha?
Muita dita he a minha!
Mas onde agasalharei eu
A quem tanta glória tinha?
Oh eternal Creador,
Oh temporal creatura, •;»
Que encubres com terra escura
O divino resplandor
E immensa formosura!
E portanto eu não sam dino
Que entreis na minha morada;
Porque he baixa pousada,
E pera ti, Verbo divino,
Quanto tenho não he nada.
CHRISTO.
Não te agastes tu comigo,
Nem me dês pousada a ini,
Que o meu regno não he aqui,
Nem quero nada comtigo:
Mas quatro cousas quero de ti.
Primeira.
Qnando me vires levar
Pela rua d'amargura,
Que olhes minha figura,
336 "VIU> I.

E o sangue que eu derramar


Tome tua alma por cura.
Segunda.
E quando os saiões da cidade
Me pregarem no madeiro
Com fortes pregos d'aceiro,
Que olhes com que vontade
Me entreguei ao carniceiro.
Terceira.
E quando vires spirar
O meu spirito cansado
O meu coração finado,
Que tu te queiras lembrar
Que mouro por teu peccado.
Quarta.
Quando enterrado ine vires
Sem companha nem emparo,
Que do teu coração tires
Suspiros, com que suspires
Minha morte e desemparo.
E não quero de ti mais;
Lá reparte teus cruzados,
Teus impérios e regnados,
E tuas pompas mortaes,
Qu'eu não quero teus morgados.
Seja papa quem quizer,
Seja rei quem tu quizeres;
Que os impérios e poderes
A morte os ha de prover
E tirar a quem os deres.
TEMPO.
Meu Senhor, eu que farei?
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 337

No relógio que me destes


Digo qu'inda que nascestes
Não se entende em vós a lei,
Pois que vós mesmo a fizestes.
CHRISTO.
Modicum videbitís me.
Eu a cumprirei, que a fiz;
Porque rei que he. bom juiz,
Como a lei feita he,
Faz aquillo que ella diz.'
Cedo me despejárás,
Tem tu o relógio certo:
Emtanto vou-me ao deserto,
E veremos Satanaz
Se me falia descuberto.
LUCD?ER.
Digo que este homem nascido em Belém
Parece perigosa cousa pera nós.
BELZ. Senhor Lucifer, isso vede vós,
Porque todo o mal he de quem o tem.
SAT. Dá ó demo a cantiga:
E crede que temos com elle fadiga,
Que passa.de sancto.
BELZ. Parece-o elle.
Luc Vae, Satanaz, e salta com elle:
Emfim elle he homem, por mais que te diga;
Mais podes tu que elle.
Agora que anda assi so no deserto,
Veste este fato, e faze-te monje,
Porque sem isto andarás de longe,
E assi sünulado fallarás de perto.
Ora vae asinha;
22
Vol. I.
338 LIVRO I.

E se tu este trazes á nossa cozinha,


Eu te farei mui gran cavalleiro.
Vai-se Satanaz tentar a Christo, e diz:
SATANAZ.
Que faz o Senhor neste ermo estrangeiro
Tão so, e tão fraco, que por vida minha
Que he grande marteiro?
CHRISTO.
E tu que cousa es, ou que vens buscar?
SAT. Bem ves tu, Senhor, que sam ermitão;
Logo meu trajo denota quem sain;
E he escusado o mais perguntar.
Sam monje, Senhor.
CHRISTO.
Nem porque o sagaz e bom caçador
Se veste no boi por caçar perdizes,
Não he elle boi, como tu me dizes.
( Diz ao povo.)
Julgae pelas obras, e não pela cor,
Sereis bons juizes.
SATANAZ.
Senhor, ja de fraco e debilitado
Deitas a falia cansada com pena,
E eu ouvi dizer ja que se condemna
Quem mata a si mesmo de próprio grado.
Pois porque te inatas,
E a tua vida assi a maltratas,
Sendo seu preço ao dobro de Elias?
Come, Senhor, que ha quarenta dias
Que te desbaratas.
E mais se tu es o filho de Deos,
(Como eu sinto ainda que ine calo,)
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 339

Faras destas pedras todas pão de callo,


Segundo a virtude trouxeste dos ceos.
CHRISTO.
Escripto acharão
Que não vive o homem somente de pão,
Mas da palavra de Deos procedida.
Esta he a que farta, cria e dá vida.
SAT. Oh como Mias! dá-me outra lição,
Que ja essa he sabida.
E se tu, como digo, filho de Deos es,
Segundo a nova por esta terra anda,
Deita-te abaixo daquella varanda;
E nem hajas medo que quebres os pés,
Porque escripto he
Que nenhüa pedra, em perna nem pé,
Te pôde fazer offensâ nem nada.
CHRISTO.
E se eu posso subir e descer pola escada,
Pera que he tentar a Deos sem porque,
Que he cousa escusada?
SATANAZ.
Canta pola escada hum manco fará isso.
Vem-me á vontade fazer-te hum partido.
Todo o homem pobre he aborrecido:
Tu de meu conselho acolhe-te ao siso.
E que hum homem faça
Muitos peccados e erros de praça
Por enriquecer, tudo he muito bem;
Que bem sabe Deos que quem nada tem,
Que tenha mil graças por divina graça,
Não no quer ninguém.
Sabes Rio-frio, e toda aquella terra,
22"
340 LIVRO I.

Aldeia Galega, a Landeira, e Ranginha,


E de Lavra a Coruche? tudo he terra ininh
E desde Çamora até Salvaterra,
E desde Almeirim bem até Herra,
E tudo per alli,
E a terra que tenho de cardos e pedras,
Que vai desde Cintra até Torres Vedras;
Tudo he meu. Olha pera mi,
Verás como medras.
Isto e muito mais te darei,
Que não quero mais senão senta-te ahi,
Posto em giolhos, e adora em mi:
Olha em quão pouco virás a ser rei,
E muito acatado.
CHRISTO.
Retro, retro, malaventurado,
Falso, enorme, cível Satanaz.
Scripto he, não adorarás
Senão hum so Deos, com grande cuidado
A elle servirás.
Luc Que he isso, Satan?
SAT. Venho embasbacado,
E estou mais mofino que hum alfeloeiro.
Dá-me a vontade que aquelle escudeiro
He o pastor daquelle nosso gado.
CHRISTO.
Eis aqui subimos a Hierusalem
Pera tirar o vestido ein que ando;
Porque os açoutes me estão esperando.
Cumpra-se todo o meu mal e meu bem.
Quero ir levar
Minha breve vida a quem m'ha de matar;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 341

E assi entregar a minha cabeça


A cruel c'roa, porque ella padeça
Com tanto de sangue, que quem me olhar
Que não me conheça.
Quero ir levar estes meus cabellos
Onde sejão feitos duzentos pedaços;
Quero ir pregar estes pés e meus braços
Onde os sinta, e não possa ve-los:
E o delicado
Triste meu peito, que seja pisado
Com couces irosos, e minhas queixadas
E dentes, quebrados com mil bofetadas.
E eu virei logo ser sepultado
Em breves passadas.
BELIAL.
Senhor Lucifer, eu ando doente,
Treme-me a cara, e a barba também,
E doe-me a cabeça, que tal febre teint
Que soma sam hetigo ordenadamente,
E doe-me as canellas:
Sai-me quentura per antre as arnellas,
E segundo me acho, muito mal ine sinto;
E algum gran desastre me pinta o destinto.
Até as minhas unhas estão amarellas,
Que he gran labyrintho.
Em este passo vem os cantores, e trazem hüa tumba,
onde vem hüa devota imagem de Christo morto; e despois
de acabada sua procissão, diz
BELIAL.
Ergue-te, Senhor, que segundo creio,
Pois que assi treino e estou amarello,
Que será tomado este nosso castello,
342 LIVRO I.

E o gado que temos ha de ser alheio.


SAT. Isso he o que eu digo.
BEL. Rugem-me as tripas, arde-me o embigo,
E a boca empolada, assi como de figos.
Crede vós, Rei, que tendes imígos;
Porque estas doenças que trago comigo,
Denotão perigos.
Aqui tocão as trombetas e charamellas, e apparect
figura de Christo na resurreição, e entra, no Limbo, <
tara aquelles presos bemaventurados. E assi acaba o
sente auto.
DIALOGO
SOBRE

A RESURREIÇÃO
ENTRE OS JUDEUS

RABI LEVI RABI AROZ e


RABI SAMUEL DOUS CENTURIOS.

Entra Rabi Levi e diz:


LEVI.
Quem com mal anda, dizia Jacó,
Rabina Rabasse, Rabi Mousern,
Não cuide ninguém, que lhe venha bem,
Nem he bem que alguém haja delle dó.
Quem com mal anda, chora e não canta;
Quem so se aconselha, so se depena;
Quem não faz mal, não merece pena;
Quem chora ou canta, fadas más espanta.
Dizia minha mãe Gemilha saborida:
Filho, não comas, não rebentarás;
Se sempre calares, nunca mentiras;
Come e folga, teras boa vida.
Dizia meu pae Mosé Rabizarão:
Não comas quente, não perderás o dente;
Quem não mente, não vem de boa gente;
Não achegues á forca, não te enforcarão.
344 LIVRO I.

Dizia meu dono, cuja alma Deos tem:


Não peques na lei, não temerás rei;
Se tu te guardares, eu te guardarei;
Quem sempre faz mal poucas vezes faz bem.
Dizia meu tio Rabi mallogrado:
Filho Jacob, o que fazes, dizia, Jacob Badear,
Achega-te ca, quero-te ensinar:
Não sejas pobre, morrerás honrado;
Falia com Deu, serás bom rendeiro;
Quando perderes, põe-te de lodo;
Se nada ganhares, não sejas siseiro.
SAM. Que fallas? que fallás? azara te veio?
LEV. Ando cuidando naquelle coitado
Daquelle Mexias que jaz enterrado.
Todo o que dixe foi devaneio:
Dixe que havia de resuscitar.
SAM. Quando, meu dono? LEV. Assi digo eu.
Daquelles guardados nenhum pareceu
Que lá hontem forão pera o guardar.
SAM. Elle dizia que o dia terceiro.
LEV. Que negro chanto, que guarra seria!
SAM. Não fallemos nisso, tudo he bulraria:
Pois elle seria o Deu verdadeiro?
Fallemos em ai, Rabi Samuel.
Oitras lazeiras ha hi que contar;
Leix'o jazer. Queres arrrendar
Comigo hüa renda? Se fores fiel,
Arrenda comigo este anno que vem.
LEV. Que renda? SAM. Hüa renda.
LEV. E não tem nome?
Ve tu se he tal; que o demo me tome,
Se não arrendar, se me vier bem.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 345

Vem dous Centúrias, e diz


LEVI.
Que dolor ha lá? que foi? que quereis?
CEN. Vimos pasmados. LEV. De que? que achastes?
CEN. Vimos... LEV. Que vistes? de que vos pasmasíes?
Que he? que foi? dizei, que dizeis?
CEN. Estando dormindo... LEV. Dou-lhe que fosse.
CEN. Esta madrugada... LEV. Pela manhan cedo,
Estavas dormindo, sonhaste com medo.
Ora ouvi aquillo, — sonhando espantou-se!
CEN. Não quereis ouvir? LEV. Ouvimos, contae:
Ha de ser hum sonho, que vio hum espanto;
Hüa adivinhação, hum conto, hum chanto,
Hüa patranha. Contae, acabae.
Sonhastes esta madrugada,
Estando dormindo... Eu vos lembrarei.
CEN. Ficae-vos embora, ja não contarei.
SAM. Digo que oivamos esta gente honrada.
LEV. Ora dizei. Tudo ha de ser vento.
CEN. Não he senão cousa de que vos pasmeis,
De grande segredo. 0\ivi se quereis,
E sabereis caso de gran perdimento.
LEV. Sonhou que perdia na sisa do trigo;
O demo me dou se foi outra cousa.
Como dormia debaixo da lousa,
Estava abafado. CEN. Olhae o que digo:
Ja Christo desd'hoje... SAM. Que ha de fazer?
CEN. Sahio do sepulcro. SAM. Furtado seria.
CEN. Mas resuscitado com grande alegria:
Vede vós outros como isto ha de ser.
LEV. Que cabeças estas! que chanto nos veio
Pera juizes de Ponte de Loures!
346 LIVRO I.

Tudo isso erão os vossos tremores?


Monta ao todo hum grão de centeio.
CEN. Ouvi os signaes, porque os creais.
Na hora, no ponto que resuscitou,
Toda a cabeça se me depenou,
E venho pellado. LEV. Ha hi mais signaes?
2° CENTURIO.
E eu desdentado; ma ora nasci:
Somente hum dente m'a mim não ficou.
O sancto Diabo m'a mim lá levou.
SAM. Abre essa boca, vejamos se he assi:
Ja cerrou a cava: ó desventurado,
Andaste ás punhadas com algum rascão,
E quebrou-te os dentes, porque es villão,
E cuidas que o outro que he resuscitado.
LEV. Melhor viva eu e meu filho Jacó,
Que s'elle levante daquelle penedo.
Em dias que vivas, não hajas tu medo
Que nunca o encontres com outro, nem so.
CEN. Ser eu muito certo que estou pellado,
E, alem de pellado, tolhido de hum braço.
LEV. Arrepellárão-te á porta do paço:
Olhae que milagre para ser soado!
o
2 . C. E estes dedos — que dizes, Rabi?
Qué nenhüa unha não ficou comigo.
SAM. Mostra, veremos que houveste comtigo.
2°. C. Attenta se minto, que ve-las aqui.
SAM. Digo-te, amigo, que forão unheiros,
Ou foi dor dos cabos nas pontas dos dedos,
E não nos curaste, com medo dos medos.
Mas estes milagres não são verdadeiros;
Não digais nada á nossa communa,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 347

Não façais rumor no nosso casal.


CEN. Pois que diremos que foi este mal?
Ou que remédio á nossa fortuna?
RABI LEVI.
Dirás que arrendaste na sisa dos pannos,
Ou nos azeites do haver do peso;
E que arrepellaste hum homem-dravcsso,
Sobre razões, haverá dous annos;
E que agora te arrepellou,
E mais que festortegou esse braço;
E est'outro, vendo-te em tal embaraço,
Por te acudir, que foi e einpeçou,
E deu c'os focinhos n'hum ferro d'arado,
E quebrou os dentes, unhas e todo.
E assi em todo ponde-vos de lodo,
De chanto e de guaia, todo misturado.
SAM. Entendeis aquillo, homem de bem ?
Toma hum vintém pera a cabelleira.
Tu come das papas, não teras denteira;
E compra hüas luvas, ou furfas a alguém.
Nem digais que he vivo, que pola benção
De Rabi Ascalvado, e de Dona Sol,
Que vos tenchemos dentro, n'hum lençol,
E a capelladas morrereis ou não.
CVão-se os Centnrios.)

RABI SAMUEL.
Fallemos, saltemos no arrendamento.
LEV. Rabi Samuel, mais releva isto.
Quiçais era sancto este Jesu Christo,
Que elle o mostrou em seu finamento:
O sol escurou, e a terra tremeo.
SAM. EU te direi a verdade inteira.
348 LIVRO I.

Tremeo minha casa, cahio cantareira,


Quebrou-se a loiça, todo se perdeo,
Até o pichei que tinha d'azeite;
Fendeo-se-me hum pote, quebrou-me tigelas,
Bacios, candieiros, panellas;
Não ficou vinagre, nem em que o deite.
RABI LEVI.
Vaino-nos ora a Rabi Aroz,
E a Rabi Franco, e a Rabi Zarão:
Far-lhe-hemos menção daquesta razão;
Que se isto he verdade, o demo he na voz.
SAM. Fallemos também a Rabi Mosé,
E a Jacob lendroso, e Abrahão pellado.
Saibamos se he este o nosso esperado,
Vejamos se foi, se he, se não he.
Vem Rabi Aroz, e diz:
RABI AROZ.
Leixae-ine passar.
LEV. Bem venhas, irmão; pera onde vos.
SAM. Ora está quedo, e não sejas grou,
Que voa pelo ar, e anda pelo chão.
Ora attenta nisto.
Tu saberas que á cerca de Christo
Tens bem que ouvir, e nós que fallar.
ARO. Não posso escutar, que vou campear,
E se lhe tardar, bem sabes tu isto
Em que pôde parar;
Porque este bolção não tem cerradouros.
SAM. Aperta-lhe a boca, até qu'isso passe.
ARO. Pois, emque agora um rei me fallasse,
Eu lhe diria, — Senhor, vou-me a Mouros:
Ou lhe diria:
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 349

— Vou despachar hüa mercadoria,


Que está empachada á porta redonda. —
Desta te abasta e isto fabonda
SAM. Disso te fartes de noite e de dia
No tempo da monda.
RABI LEVI.
Pois vamos comtigo e vamos fallando.
Fama he que Christo, depois de enterrado,
De opa netta he resuscitado.
Guai dos tristes que estavão guardando!
Huns ficão pellados,
Outros sem dentes, e braços quebrados,
Outros sem unhas pera fazer prol;
E todos o virão, fora do lençol,
Sair do penedo, todos acordados,
Em saindo o sol.
RABI AROZ.
Pois erão quarenta com armas armados,
Não no podião prender outra vez?
SAM. Que razão essa de siso de pez!
ARO. Pois não no prenderão, merecem matados.
LEV. Quem ha de prender
Aquelle que tem tão grande poder?
Seu corpo açoutado daquella feição,
E hüa lançada pelo coração!
ARO. Sicaes não foi morto, e pôde bem ser...
LEV. Que negra razão!
Se fora doença de que se finara,
E posto na cova se alçara e vivera;
Puderas dizer que esmorecera
E perdera os pulsos, mas a alma ficara.
Mas bem vimos nós,
350 LIVRO I.

E tu bem o sabes, Dom Rabi Aroz,


Que so dos açoutes, que mais não vivera,
E que o soltarão, daquillo morrera;
E so da coroa, também crede vós
Que não guarecêra.
Pois so de levar a cruz tão pesada
Pola serra acima homem tão delgado,
Disto somente ficara matado;
Que são ja três mortes, cada hüa apertada.
E verão os cegos
Que so do tormento que levou dos pregos,
Fora matado hum drago feroz,
Quanto mais a lançada. Cre, Rabi Aroz,
Que fomos ás lebres, tomámos morcegos:
Esta he minha vez.
SAMUEL.
E a minha também, e acabo de crer
Que he este o Mexias nosso desejado;
Porque Isaias, profeta amado,
Fallou deste tudo o que havia de ser;
E Ezechiel,
Amos Salomão, David, Daniel,
Todos fallárão no seu resurgir.
Este he o Messias, sem mais arguir;
Este he o honrado nosso Emanuel;
O ai he mentir.
RABI AROZ.
Meu pae arrendou hüas alcaçarias
Junto do termo de Villa Real,
Com tal condição, que durasse o foral
Ates que viesse o nosso Messias.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 351

Juro pela alma que foi de meu pae,


Que está a cousa bem embaraçada.
Estae ambos quedos, não boquejeis nada,
Não falle ninguém, vereis como vai
Esta emborilhada.
Meu pae era dono d'hüa filha minha,
E minha mãe filha de meu dono torto,
E hum meu irmão, que morreu no Porto,
Era mesmo tio dos filhos qu'eu tinha:
Tudo assi vai.
E minha mulher, nora de meu pae;
E meu pae, marido de sua mulher;
E sua mulher era sogra da minha.
Assi indo fomos, de linha em linha,
Até que meu pae veio a morrer.
Meu pae fallecido,
Vai minha mãe e perdeo o marido,
E fez-se viuva, e as alcaçarias
Forão do pae da mãe de Tobias,
Filha de Dom Donegal dolorido,
Que inorreo nas Pias;
E quando se fez a tomada de Arzila,
Dona Franca Pomba casou ein Buarcos
Com Bento Capaio, capador de gatos,
Que furando alporcas, inorreo ein Tavila.
Ein aquelles dias
Se fez o contracto das alcaçarias,
E David Ladainhas da manga cagada
Leixou assentado, que vindo o Messias
Que as alcaçarias, não tendo ellas nada,
Que fossem vasias.
Segue-se logo, se Christo he Mexias,
352 LIVRO I.

Que he salvador destas alcaçarias,


E ficarão livres, e postas ein cobro:
Porém eu creio que o que me diz meu sogro
He tudo vento, e são fantasias;
E peccais em dobro.
Porque, se fora o que nós esperamos,
Levara os Judeus, povo de Israel,
A terra que mana o leite e o mel,
Que he nossa herança, que de Deos herdamos.
LEV. Não que elle dizia
Que essa herança que não se entendia
Senão que havemos de resuscitar,
Assi como elle, pera nos levar
A mesma herança que Deos promettia,
Lhe ouvi eu pregar.
Porque essas farturas que a terra antremette,
Forão creadas pera os animaes,
E que o Deu poderoso essas cousas taes
Não nas estima, nem dá, nem promette;
E que o Mexias,
Se bem entendermos nossas profecias,
Não vinha a fartar os corpos de mel.
Também tu assi estavas, Rabi Samuel?
Tu, Rabi Aroz, bem vi que dormias,
E Zarababel.
RABI AROZ,
Pois que faremos sobre isto emtanto?
LEV. Que nos calemos em nosso calado:
Quemquer que dixer que he resuscitado,
Dar-lhe-hei hüa figa debaixo do manto:
E leixae estar;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 353

Ter mão na Sinagoga, que nos dá repairo;


Que sabendo-o o povo, he nosso o fadairo:
E se o aventar,
Cada sacerdote lhe cumpre estudar
Pera boticairo.
Tenhamos todos mui bein que comer,
Que farte, e sobeje pera todo o anno.
Tratemos em cousas em que caiba engano,
E se nos perdermos, não pôde mais ser.
ARO. Sabes que receio?
O mal que fazemos he crime tão feio,
Que ja Jeremias o chorou primeiro.
LEV. Fundemo-nos todos em haver dinheiro;
Porque quer seja nosso, quer seja alheio,
He Deu verdadeiro.
E ter mão na burra. Que dizeis, Aroz?
ARO. Façamos tahnud com tantas patranhas,
Coin que embaracemos tamanhas façanhas,
Antes que mettão a frota na foz.
E por simular,
Ordenemos festa com algum cantar,
Porque não entendão que somos vencidos.
Chacota na mão, fender os ouvidos
A quem nos ouvir. Alto, começar
A travar dos vestidos, e cabecear.

Vol. I. 23
F I G L R A S.

SILVESTRA — Lei da Natureza.


HEBREA — Lei da Escriptura.
VEREDINA — Lei da Graça.
SATANAZ.
CHRISTO.
S. THIAGO.
S. PEDRO.
S. JOÃO.
CANANEA.
BELZEBU.

Este auto que diante se segue fez o Autor por rogo da


muito virtuosa e nobre Senhora D. Violante, Dona Abba-
dessa do muito louvado e sancto convento do mosteiro de
Oudivelas; a qual Senhora lhe pedio que por sua devoção
lhe fizesse hum auto sobre o evangelho da Cananea. Foi
representado na era do Senhor de 1534.
ALTO DA CANA1XEA.

Entra Silvestra, Lei da Natureza, cantando.


SlLVESTRA.
"Serra que tal gado tem
"Não na subirá ninguém."
Eu sam Lei da Natureza,
E per nome Silvestra,
Das gentes primeira mestra
Que houve na redondeza.
Dos gentios sam firmeza,
E por pastora me tem.
"Não na subirá ninguém
"Serra que tal gado tem."
Assi que ando a pastorar
Cem mil bandos de veados;
Porque gentios são gados
Mui esquivos de guardar,
E tão bravos d'apriscar,
Que a serra que os tem
"Não na subirá ninguém
"Serra que tal gado tem."
Quando os quero assocegar,
Logo cada huin tresinonta;
De hum so Deos não fazem conta,
Senão correr e saltar.
Todo o seu bem he honrar
Diversos deoses que tem,
23*
356 LIVRO I.

Com que lagrimas me vem.


"Serra que tal gado tem
"Não na subirá ninguém."
Entra Hebrea, Lei da Escriptura, e dk
HEBREA.
Que gado guardas aqui,
Nesta fragosa espessura?
SIL. Guardo per lei de natura
Meu gado: mas vejo em li
Que tu es Lei d'Escriptura.
HEB. SOU pastora de Judea,
Nascida ein monte Sinai,
E o meu nome he Hebrea.
SIL. E o teu gado onde vai?
HEB. Sempre pasce em mesa alheia.
E sabes que gado he?
Tudo raposos e lobos:
E eu te dou minha fé,
Que he a mais falsa relê
Que ha hi nos gados todos.
Nunca ine ouvirão cantar;
Que meu gado he tão erreiro,
Que sempre o verás andar
D'hum peccar n'outro peccar,
De captiveiro em captiveiro.
Que cante, não ha porque,
Com leones e dracones,
Nem prazer nunca me ve:
E se hüa ora canto, he
Super flumína Babilonis.
Depois vou-me a Jeremias,
E lamentamos a par,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 357

E os prantos de Isaias.
Estas são as alegrias
Que meu gado anda a buscar.
SILVESTRA.
Não menos quebro os sentidos
Com meus veados diversos.
HEB. Isso são gados perdidos.
Os meus forão escolhidos,
E fizerão-se perversos.
Os Patriarchas primeiros
Erão gados celestiaes,
Ovelhas, sanctos carneiros,
E os profetas cordeiros,
E os d'agora lobos taes.
Pois tem em mim hüa pastora,
Que nunca foi outra tal.
SIL. Nego eu essa por agora.
HEB. Oh, se tu quizesses ora
Fazer-te minha igual!
SIL. Mas melhor he terdes grandeza.
HEB. Cal'-te, que não dizes nada;
Qu'eu sam per Deos espirada,
E tu pela natureza.
SILVESTRA.
Parece esta que ca vem,
Lei da Graça, sancta e benta.
HEB. Ella assi o representa,
Segundo a graça que tem;
Mas de ti valho eu setenta.
Vem a Lei da Graça, per nome Veredina, e diz
cantando:
358 LIVRO I.

VEREDINA.
"Serranas, não hajais guerra,
"Que eu sam a flor desta serra."
Oh que malhada, e que gado,
E que tempo, e que pastora!
Por sempre seja louvado
Huin so Deos que no ceo mora:
Elle m'enviou agora
Das alturas ca na terra,
"Pera ser flor desta serra.
"Serranas, não hajais guerra."
Ovelhas e cordeirinhos
He o meu gado maior;
Muito humildes e mansinhos,
E pascem pólos caminhos
E montes do Redemptor:
Elle he o summo pastor;
"E vós escusae a guerra,
"Qu'eu sam a flor desta serra.
Outra mais alta pastora
Anda na serra preciosa,
Imperatriz gloriosa,
Principal minha Senhora.
Esta dos anjos se adora
Sancta Rainha na terra;
" E me fez flor desta serra.
"Serranas, não hajais guerra."
Eu repasto suas cordeiras
Virgens e martyrisadas,
Que leixão frescas ribeiras,
E as mundanas ladeiras,
Por serem sacrificadas.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 359

Vós outras sois ja acabadas,


Por demais he vossa guerra,
"Qu'eu sam a flor desta serra.
"Serranas não hajais guerra."
Não he ja tempo de vós,
Porque o tendes ja cumprido,
E se abrirão os ceos,
E lembrou-se o Senhor Deos
Do que tinha promettido:
E cumpria inteiramente,
Como eternal verdade,
Com Abrahão suavemente,
No mesmo tempo presente,
Porque foi sua vontade.
HEBREA.
Como! vindo he o Messias?
VER. Ja veio, e anda pregando,
Ensinando e declarando
As divinas profecias.
HEB. Isso estava eu esperando.
VER. Assi que a Lei da Graça
Ha de ter todo o cuidado,
Pastora mor de seu gado:
Isto he per força que eu faça,
Pois vosso giro he passado.
Na semana que passou,
Pera mais me confirmar,
Satanaz mesmo o tentou
Pelas vias que levou
Com Adão no seu pomar.
E ficou tão comprend|do
Do alto saber eterno....
360 LIVRO I.

Ei-lo vem, que anda fugido,


Porque ha de ser escozido
Dos algozes do inferno.
SATANAZ.
Como rapaz escolar,
Que hYesqueceo a lição,
E sabe que lhe hão de dar;
Assi sei que hei de apanhar
Desta vez hum estirão.
Não porque tenhão razão,
Se for nisto;
Porque eu tentei a Christo
Com muita arte e discrição:
Mas não me ha de valer isto.
Hei de haver tanta pancada,
Porque o não venci de feito;
Tanta negra tiçoada,
Que nunca foi embaixada
Recebida de tal geito.
E segundo o demo he feito,
Vejo a osadas
Estas barbas depennadas,
E os cabellos a eito,
E as orelhas cortadas.
Porém nossas hierarchias
Que culpa me dão aqui,
Se hoje faz oito dias
Fui hum gigante Golias,
Mas topei com elRei Davi?
De temor não lhe fugi,
Nem fiz falha
Em cominetter a batalha,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 361

Nem ficou nada por mi:


Mas não presto nem migalha.
Pude eu melhor pelejar?
Pude eu melhor resistir?
Pude eu mais negociar?
Que mais se pôde arguir?
Na matéria d'enganar
Comecei-lhe de armar,
Per cortezia,
Com piedosa hypocrisia:
Cuidei de o derríbar
Per este erro que sabia.
Ora pois desta feição
Lutei ousado e manhoso,
Que culpa me poerão
Ir topar com Antenhão,
Hercules mui façanhoso?
Porém he tão rigoroso
Lucifer,
Que não quer senão o que quer,
Como menino mimoso;
E a mim não m'ha de crer.
Vem Belzebu, e diz:
BELZEBU.
Como andas dessocegado!
Não sei que diabo has,
Que esta semana não vas
Ter ao nosso povoado,
Nem sabemos onde estás.
SAT. EU muito nas horas más,
Fui d'esperto
Ter com Christo no deserto;
362 LIVRO I.

Mas, desque eu sou Satanaz,


Não me vi em tal aperto.
BELZEBU.
Como! foi teu vencedor?
SAT. EU fiz-me pobre Barbato;
Mas he tão gran sabedor,
Que me conheceo melhor,
Que eu conheço meu sapato:
E ainda que feito pato
Eu lá fora,
Nem convertido em mulato,
Como o rato sente o gato,
Me sentira logo essora.
BELZEBU.
E se he bom ver sem candeia,
He cousa bem innovada:
Mas meu spirito receia,
Porque tenho atormentada
A filha da Cananea.
E se elle he dessa veia,
O cavalleiro,
Deitar-m'-ha, como a sendeiro,
Hüa solta e hüa peia,
E morrerei em palheiro.
Porque a mãe anda apressada
Pera o ir logo buscar,
E eu quero lá tornar,
Que a minha demoninhada
Ha de ser ma de. curar.
SAT. Se sua mãe acabar
Que elle queira,
Eu não te vejo maneira;
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 363

E se te elle hi achar,
Teras inunda carreira.
BELZEBU.
Irmão, quereis ir comigo?
SAT. Vae tu, eramá pera ti,
Qu'eu não posso ir condigo,
E bem m' abasta o perigo
Em que domingo me vi.
Elle ha de vir pera aqui
De rondão
Pera Tiro e Sidão:
Quero ver que faz per hi
Este famoso leão.
BELZEBU.
Eu vou ora atormentar
A filha da Cananea;
E quem a de mim livrar
Fará d'hum rato balea,
E fará secar o mar.
SAT. Vae tu, qu'eu hei d'espreitar
Alguns dias
Se será este o Messias,
Ou o Deos que ha de encarnar,
Como escreveo Isaias.
Porque Abrahão, na verdade,
Nem Elias, nem Moisem,
Não forão da sanctidade,
Nem poderio que este tem,
Nem com grande quantidade.
BEL. Fallas á tua vontade
Eramá;
364 LIVRO I.

Se tu isso dizes ja,


Mao caminho leva o abbade.
Vem Christo, com elle seis Apóstolos, S. Pe
João, S. Thiago, S. Filipe, S. André, S.
e diz
S. THIAGO.
Irmãos, cumpre-vos saber
Como havemos de orar,
E quando houvermos de rezar,
Que havemos de dizer,
Pera nos aproveitar.
E pera s'isto alcançar
Do Redemptor,
Seja Pedro embaixador;
E emquanío elle fallar, >
Adoremos ao Senhor.
S. PEDRO.
Toda esta congregação,
Poderoso Rei sem par,
Te pede com devação
Que os ensines a orar,
E orando que dirão.
Porque estão na região
De ignorantes,
Símprezes principiantes
Perguntão por onde irão,
Como novos mareantes:
E que he o que pediremos,
Quando houvermos de rezar,
E ein que tempo rezaremos,
E as horas e o logar.
E todos estes extremos
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 365

Assi que nos soccorremos


Per tal via
r

A tua sabedoria,
Que nos dê o que não temos.
CHRISTO.
A justiça e boa petição
Traz bom despacho coinsigo;
Mas bento he o varão
Que reza com coração,
E com alma e com sentido:
Que o rezar não he ouvido,
Nem he nada,
Sem alma estar inflamada,
E o spirito transcendido
Na divindade sagrada.
Nem cuideis que arrecadais,
Por rezar muita oração,
Se no coração estais
Fora de contemplação.
Tende prompto o coração
Em seu louvor;
E com lagrimas de amor,
Direis esta oração
A grandeza do Senhor:
Pater noster, qui es in ca>lis, sancti-
ficetur nomen tuum: adveniat regnum
tuum; fiat voluntas tua, sicut in cedo
et in terra.
Com almas limpas e puras,
Direis isto ao Senhor,
Firmando-o por creador,
E padre das creaturas,
366 LIVRO I.

Que he no ceo Imperador.


E direis com grande amor:
Seja louvado
Teu nome e sanctificado,
Neste nosso orbe menor,
Como es no ceo adorado.
E direis a sua Alteza:
O teu reino venha a nós:
Em que pedis fortaleza,
E mais pedis pera nós
Graça e desperta limpeza,
E mais perfeita grandeza
De bondade,
E pedis á Deidade
Que por toda a redondeza
Seja feita a sua vontade.
Panem nostrum quotidianum da no-
bis hodie; etdimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nos-
tris; et ne nos inducas in tentationem,
sed libera nos a maio. Amen.
Direis mais nesta oração,
Sempre com esprito attento,
E com prompta devação:
Faze-nos mercê do pão
De nosso sustentamento;
Porque o certo mantimento,
Mais facundo,
Não se cria ca em fundo,
Nem a neve, nem o vento,
Nem na terra, nem no fundo.
E pedi-lhe, filhos, mais,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 367

Com choros do coração,


Que nos dê hüa quitação
Das dividas em que lhe estais
De vossa condemnação.
Isto com tal condição
Lh'o pedireis,
Que assi perdoareis
Os males que vos farão;
E senão, não no espereis.
E com gemente tenção
Lhe haveis, filhos, de pedir
Que vos não leixe cair
Em nenhüa tentação,
Que vos possa destruir.
Ca não podeis resistir
Ás tentações
Sem Deos, que vence os dragões,
Que vos querem destruir
Per engano os corações.
E mais pedi per final,
Huinildosos e devotos,
Como a padre general,
Que nos perigos ignotos
Vos livre de todo o mal.
Vem a Cananea, cantando.
CANANEA.
"Senhor, filho de David,
"Amercea-te de ini:
"Senhor, filho de David,
"Amercea-te de mi."
Que minha filha he tentada
D'espritos que não tem cabo,
368 LIVRO I.

E minha casa assombrada,


Minha câmara pintada
De figuras do Diabo.
De mal tão accelerado
Quem se livrará sem ti?
"Senhor, filho de Davi,
"Amercea-te de mi."
Triste mulher que faras!
Tanta pena quem t'a deu!
r

O Inferno, que fiz eu,


Que mandaste a Satanaz
Que m'esbulhasse do meu!
Como esbulhada do seu,
Soccorrer-me venho a ti.
"Senhor, filho de Davi,
"Ainercea-te de mi."
Tem os seus braços torcidos,
Os olhos encarniçados,
Os cabellos desgrenhados,
Seus membros amortecidos;
Dá gritos, faz alaridos,
E o soccorro está em ti.
"Senhor, filho de Davi,
"Amercea-te de mi."
Mostra aqui teu poderio,
Manifesta tua grandeza,
E exalça teu senhorio:
Salva-me no teu navio,
No mar de tanta tristeza;
Pois he sobre natureza
Este mal, pois que te vi,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 369

"Senhor, filho de Davi,


"Amercea-te de mi."
S. THIAGO.
r

O Senhor, por piedade


Escuta aquella mulher,
Pois tens de propriedade
Com muito boa vontade
Receberes quem te quer:
E o que te requer
Lhe concede.
Não olhes seu merecer;
Mas ve bem o que te pede
Se se pôde conceder.
S. JOÃO.
Senhor, a tua clemência
Pertence aos atribulados;
Esta dona com seus brados
Chama a tua providencia,
Que he mãe dos desconsolados.
Sejão, Senhor, inclinados
Teus ouvidos
A seus prantos e gemidos,
Porque sejão consolados,
E seus dainnos soccorridos.
S. PEDRO.
Eu creio que es pastor,
E os humanos teu gado,
E o lobo he o Diabo
Seu contrário e matador.
E pois te inata, Senhor,
Esta ovelha,
Incrina-lhe tua orelha;
Vol. I. - '
370 LIVRO I.

Que, segundo seu clamor,


Algum anjo a aconselha.
CHRISTO.
Eu não sam ca enviado
Per piedoso nivel,
Senão soccorrer ao gado,
Que pereceo no montado
Das.ovelhas d'Israel.
Por este vesti borel
De vil terra,
E não por gado de serra,
Que pasce feno infiel,
Sem querer sentir que erra.
CANANEA.
Senhor, não hei de cançar,
Pois ai não posso fazer;
Tu queiras-ine perdoar,
Porque te hei d'importunar,
E tu m'has de soccorrer:
Não que por meu merecer
Tal confio;
Mas peço a teu senhorio,
Que me outorgue o seu querer,
Pois creio o teu poderio.
S, THIAGO,
Oh que fé e que fervor,
E que esforçada vontade!
Bein merece a peccador
Que alcance algum favor
De tua suinma piedade
Mostra a sancta majestade
E perfeição
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 37f

Nas províncias de Canão,


E toda a geralidade
Dos demônios pasmarão.
BELZEBU.
Oh quem vos mette, Senhores,
Em rogardes por ninguém?
Que quando rogardes bem
Por vós outros peccadores,
Ficareis ainda áqtiem.
Que vos vai, ou que vos vem,
Pois d'abinicio
Assombrar he meu oífieio,
E taxados quaes e quem?
S. PEDRO.
¥

O maldito Belzebu,
Quem te deu a ti poder
Que atormentasses tu
Nenhum homem nem mulher,
Sem ter direito nenhum?
BELZEBU.
Senhores Sanctos bemditos.
Hi ha planetas visíveis,
Ha hi outras invisíveis,
Que pertencem aos spirftos,
E causão cousas terríveis.
Qualquer que nascer sujeito
A maldita conjunção,
Sem nenhüa appellação,
Nem estylo de direito,
Pertence á nossa prisão,
Assün como quem nascer
24'
372 LIVRO I.

Na conjunção desastrada
Em que peccou Lucifer.
E quem nasceo na hora tal
E planeta em que peccárão
Os Judeus, quando adorarão
O bezerro de metal,
Pera nossos se gerarão.
Também quem nascer no fito
Da conjunção em que cuido,
Que aftbgou o mar ruivo
Os cavalleiros do Egypto,
São nossas almas e tudo.
Também he da nossa alçada
Toda a pessoa nascida
Na conjunção celebrada
Que Sodoma foi queimada,
E Goinorra sovertida.
E he perdido também
Todo o que nascido for
Na conjunção do item,
Em que com bravo furor
EIRei Nabucodenusor
Destruio Jerusalém.
E esta moça de Canão,
E filha desta Senhora,
Foi nascer na conjunção
Que reinava a nossa hora.
E pois vós rogais por ella
A vosso Mestre, qu'eu temo,
Eu vou chamar outro demo,
E entraremos juntos nella,
E veremos este extremo.
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 373

E vós, Christo, não deveis,


Pois dizem que sois eterno,
Agravar o sancto inferno,
Nem quebrantar suas leis,
E seu sagrado caderno.
S. PEDRO.
Oh que parvo pregador!
Oh que falsa astroloinia!
Que inao siso de doutor!
Que ignorante sabedor,
E que douda fantasia!
w

O mestre da vaidade,
Tu não sabes que es cativo,
E escravo da Trindade?
Quem te deu ter potestade
Sobre nenhum corpo vivo?
BELZEBU.
Não dizem que o Esprito Sancto
Fallava dentro em Davi,
E dos profetas assi?
Porque não farei outro tanto
Nos que tenho pera mi?
E Deos Padre não assombrava
A Moisem com terremoto,
Cada vez que lhe fallava?
Canfeu vi que assombrava
Com temores seus devotos.
S. PEDRO.
Tu queres ser igualado
Com Deos, summa das grandezas?
Como es desavergonhado,
Triste, maldito, austinado,
374 LIVRO I.

Cheio de vans subtüezas!


Não lh'ouçamos vaidades,
Va fallar com quem quizer;
Porque em lhe responder
Honramos suas maldades,
E isso he o qu'elle quer.
CANANEA.
Ó Senhor, escuta a triste,
De todo emparo estrangeira.
Ja, Senhor, viste e ouviste
Em que desastre consiste
A dor da minha canceira.
Não abasta atormentada
Minha filha, e minha dor
Ferida, escalabrada,
Mas agora ameaçada
Pera cada vez peor?
S. Joio.
Supplicainos-te, Senhor,
Que hajas delia piedade.
CHR. Ja vos fallei a verdade;
Meu padre me fez pastor
Do gado da sua vontade,
Das ovelhas de Jacó,
Que procedem de Abrahão:
E dos povos de Canão
Ninguém haja delles dó;
Fazei conta que cães são.
Como aos filhos consentis
Que lhes tire o mantimento,
Polo dar aos cães cevis?
Injusta cousa pedis
DAS OBBAS DE DEVAÇÃO. 375

Com vosso requerimento.


CAN. EU digo, Senhor, que si;
Não tenho disso querella,
Confesso que sou cadella,
E de cadella nasci;
E sou mais perra que ella.
E porém as cachorrinhas
Com os cães deste teor,
E os gatos e gallinhas
Se fartão das migalhinhas
Da mesa de seu senhor:
Quanto mais os seus manjares-.
Que es padre das companhas,
Fartas montes e montanhas.
E desertos e logares,
Até bichos e aranhas.
Com glória, mui sem trabalho,
Fartas os mares e rios,
E as hervas de rocios,
E os lírios de orvalho
Nos logares mais sombrios. À
O Criador liberal,
Que lá nos bosques perdidos
Tens os bichinhos providos,
E a mim so, por meu mal,
Os emparas escondidos!
Pleni sunt cceli et terra
Majestatis gloria; tua>:
Pois inda que seja perra,
Não me leixes tu tão nua
Nesta triste e cruel guerra:
Que se ha remédio sem ti.
376 LIVRO I.

Eu não o posso entender;


E se fesquivas de mi,
Que excommungada nasci,
Quem outrem pôde absolver?
Oh thesouro dos prazeres
E esperanças merecidas!
Pólos teus sanctos poderes
Te peço, Senhor das vidas,
Que' tu não me desesperes.
E se por ser Cananea,
E filha de perdição,
Desprezas minha oração;
A mísera anima mea
Onde achará redempção?
Se perco por mulher ser,
Por meus errores profundos,
Senhor, deves tu de ver
Que nasceste de mulher
Escolhida entre mil mundos.
CHRISTO.
Mulher, muito grande he
O teu bom perseverar,
E muito grande a tua fé;
E he justo que te dê
O que vieste buscar.
Porque tens muito soffrido,
Como constante oradora,
Mando que logo nessora
Se cumpra o que tens pedido,
E sejas san desd'agora.
Em este passo vem fugindo o demônio Belzebu, c topa
com Satanaz, e diz:
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 377

BELZEBU,
Venho saber que isto he.
SAT. Como vens assi turvado?
BEL. Chegou-nos lá hum recado
De Jesu de Nazaré,
Mui terrível e apertado.
SAT. Que recado? BEL.< Eu t'o direi,
Que nenhüa cousa fique.
Não era mais seu repique,
Senão íte maledicti patris mei.
SATANAZ.
Mais que me faz pasmar
Como chegou isso lá;
Que Christo não foi de ca,
Nem se bolio d'hum logar.
BEL. Não sei com'isso será;
Que éramos mil escolhidos
Procedidos das nações
Daquelles coros subidos,
Thronos e Dominações.
A moça com grandes gritos
Ajuntou toda a cidade;
E veio hüa claridade,
Que nos cortou os espritos.
SAT. De fogo, ou que calidade?
BEL. Era assi hum resplandor
Cercado de nuvens pretas;
Os raios erão de seitas,
E o fogo de temor.
No meio logo olhei,
Onde mil espantos vi:
Então sahia dalli
378 LIVRO I.

Esta voz do alto Rei:


Ite, maledicti patris mei.
SAT. Era ahi teu irmão comtigo?
BEL. Meu irmão e teus cunhados,
E Belial teu amigo,
E teu pae era comigo
E os Seraphins desbarbados.
E todos forçosamente
Fomos lançados dalli:
E assi supitainente,
Sem vermos nenhüa gente,
Nos arrastarão per hi.
Pelejar não no ouvi,
Nem chamar aqui-d'elrei,
Senão esta voz assi:
Ite, ite, maledicti patris mei.
Oh que voz pera temer!
Que temor pera sentir!
Que sentir pera doer!
E que dor pera sofirer
A quem tal voz comprender!
SAT. Não estou maravilhado
Senão d'estar hi Hulcão,
E Gerundo bem armado,
E o drago Frei Tropâo,
E não terem coração
Pera se dar a recado.
BELZEBU.
Porque fallas ao desdém,
E me culpas sem concerto,
Poisque viste no deserto
O poder que Christo tem,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 379

Que atégora foi cuberto?


Porém quem adivinhara
Que no inundo visse eu
Nenhum homem que ousara,
E sem temor me lançara
Per força fora do meu?
SATANAZ.
Rogo-te que pratiquemos
Neste homem quem será.
BEL. He hum extremo d'extremos,
Hum caso que não sabemos,
Nem sei se se saberá.
SAT. EU acho no meu caderno,
Qu'isto são desaventuras;
Porque esse homem he eterno,
E ha de roubar o inferno,
E deixar-nos ás escuras.
Vão-se estes, e diz Christo aos Discípulos:
CHRISTO.
Onde o temor sempre atiça,
E o receio melhor cabe,
He no ladrão; porque sabe
Que deve muito á justiça;
Então teme que o pague..
Assi o imigo infernal,
Como peccou por maldade,
Onde enxerga sanctidade,
Tem-lhe temor natural,
E grande ódio per vontade.
Eu vos dei hoje lição
De como haveis de orar,
E quando, e de que feição,
380 LIVRO I.

E o que haveis de fallar


Em vossa sancta oração.
Pois mais haveis de saber,
E notac isto de mim:
Que quem a Deos ha de haver,
Lhe convém permanecer
Nas virtudes até fim.
Porque Deos he duração,
Glória sem acabamento,
E não ha por perfeição
Dous annos de devação,
E trinta d'esquecimento.
Bem viste esta mulher,
E o seu perseverar,
Seu soffrer e o seu crer,
E com isto receber
Quanto quiz arrecadar.
Rogo-vos sem mais latins,
Por alcançardes o preço
Dos anjos e seraphins,
Que sempre os vossos fins
Concertem com o começo.
Notae o soffrer d'Elias,
As paciencias de Job,
As prisões de Jeremias,
As fortunas de Jacob,
E como acabarão seus dias.
Vem a Cananea, e diz:
CANANEA.
Ajudae-me a dar louvores
E graças ao Redemptor,
DAS OBRAS DE DEVAÇÃO. 381

Pois fostes meus rogadores


Até fim de minha dor.
S. PEDRO.
Vere dignum et justum est,.
Pois que a todos fez mercê.
Adoremos nosso mestre
Cheio de graça celeste,
Como por obra se ve.

E cantando C l a m a v a l a u t c m , se acaba o dito auto.

H*~
F I G U R A S .
H U M PORRE.
S. MARTINHO.
PAGENS.

O auto que adiante se segue foi representado á mui


caridosa e devota Senhora a Rainha D. Leonor na Igreja
das Caldas, na procissão de Corpus Christi, sobre a cha-
ridade que o bemavcnturado S. Martinho fez ao Pobre,
quando partio a capa. Era do Senhor 1504.
ALTO DE S. MARTIIXHO.

Entra o Pobre, dizendo:


POBRE.
O piernas, llevadme un paso siquiera;
Manos, pegad os naqueste bordon,
Dcscansad, dolores de tanta pasion;
Siquiera un momento en alguna manera
Dejadme pasar por esta carrera,
Iré á buscar un pan que sostenga
Mi cuerpo doliente, hasta que venga
La muerte que quiero por mi compafiera.
Devotos Cristianas, dad ai sin ventura
Limosna, que pide por verse plagâdo:
Mirad ora ei triste que estoy lastimado
De pies y de manos por ini desventura;
Mirad estas plagas que no sufren cura;
Ya son incurables por mi triste suerte.
Ay! que padezco dolores de muerte,
Y aquesto que vivo, es contra natura.
Mirad ora ei triste con mucho dolor;
Que ante de muerto me comeu gusanos;
Mirad ei tollido de pies y de manos;
Mirad Ia miséria de mi pecador.
Dadme limosna por aquelle Senor,
Que guarde á. vosotros de tantos dolores.
Limosna bendita me dad, mis senores;
Que ya no Ia puede ganar mi sudor.
Haved compasion dei pobre doliente,
Que ya se vió sano manoebo y lúcido.
O mundo que medas, á qué ine has traído!
384 LIVRO I.

Qué recio solia yo ser y valiente,


Cuán alabado de toda Ia gente!
De recio, galan, qué fue de mi bien?
O muerte, qué tardas, quien te detien;
Que yo no me atrevo á ser mas paciente.
O paciência que en Job reposo,
Qué quieres que haja con tantos tormentos?
Perdóname tú, que mis sufrimientos
No pueden callar Ia miséria en que só.
Criante rocio, qué te hice yo,
Que las hiervecitas floreces por Mayo,
Y sobre mis carnes no echas un sayo,
Ni dejan dolores que lo gane yo?
Deje Ia muerte las ninas, las duenas,
Y deje doncellas gala nas vivir:
Deje las aves cantares decir,
Y deje ganados andar por las penas.
Llévame á mi: por qué me desdenas,
Y inatas sin tiempo quien merece vida?
Sácame ya desta cárcel podrida.
Mi anima triste, no quieras mas senas.
Dadme ora limosna por Ia pasion
Del hijo de Dios, que pobre se vido,
Daquel que por nos fue muerto y herido,
Doliente y plagado por Ia redencion.
Mirad ora, ricos, que teneis razon
Dar de sus bienes, pues sois tesoreros,
Sed los suyos buenos dispenseros,
Y vuestras riquezas se os doblaron.
Vem S. Martinho, cavalleiro, com três Pagens, a diz o
r
' '• POBRE.
Devoto Senor, real caballero,
DAS OBBAS DE DEVAÇÃO. 385

Volved vuestros ojos á tanta pobreza,


Que Dios os prospere vuestra gentileza :
Dadme limosna, que de hambre me úmero.
MAR. Hermano, ahora no traigo dinero:
Vosotros traeis que demos por Dios?
PAG. No ciertamente. S. MAR. Entrambos á dos
No traeis que demos á este romero?
POBRE.
NO hay dolor que en mi no lo sienta:
Haved de mis inales, Senõr, compasion.
MAR. Quien ora tuviesse daquella pasion
La parte que tienes que mas te atormenta!
POB. Guárdeos Dios de tan grande afrenta;
Dios lo prospere con mucha salud.
Dadme limosna por vuestra virtud,
Que mi gran pobreza no hay quien Ia sienta.
S. MARTINHO.
No sé que te dé, de dolor de ti,
Ni puedo á tus males ponerte remédio.
Partamos aquesta mi capa por médio;
Pois otra limosna no traigo aqui:
Rógote, hermano, que ruegues por mi.
Pues sufres dolores nesta triste vida,
Tu anima en gloria será recebida
Con dulces cantares, diciendo así.
Emquanto S. Martinho com sua espada parte a capa,
cantão mui devotamente hüa prosa. Não foi mais porque
foi pedido muito tarde.

FIM no LIVRO 1.
ERRATAS.
Pag. lin. CITO emenda
14 12 madruga madrugada
30 21 yo te digo ya te dijo
48 nll. trotrt trato
70 10 jüeaceva Alcaçova
101 4 Beocio Boecio
125 14 ANDRÉ ANJO
131 11 targer tanger
15ü ult. guamidas guarnecidas
191 31 Imperodora Jmperadova
222 27 falia: ONZENEIKO
238 IS J o g a taes Jogntais
348 1!) onde v o s . . . onde r a s ?
I N D E X .

Pag.

ADVERTÊNCIA. ,

ENSAIO SOBRE A VIDA E ESCRIPTOS DE G I L VICENTE-

Visitação i
Auto pastoril Castelhano y
Auto dos Reis Magos 23
Auto da Sibila Cassandra 36
Auto da Fe' 64
Auto dos quatro Tempos nn
Auto da Mofina Mendes ioo
Auto Pastoril Portuguez. 127
Auto da Feira i5l

Auto da Alma i85


Auto da Barca do Inferno 2i5
Auto da Barca do Purgatório 246
Auto da Barca da Gloria 275
Auto da Historia de Deos 3o6
Dialogo sobre a Resurreição 343
Auto da Cananea 355
Auto de S. Martinho 383
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sans
Gáyete
(Montaigne, Des livres)

Ex Libris
José Mindlin
(DLBJBH
DE

#11 15 ^W"
&

CORRECTAS E EMENDADAS

PELO CUIDADO E DILIGENCIA

DE

3. i), Jarreto Mo c 3. <B. Monttm.

TOMO SEGUNDO.

müMBtíri&cEcí)
NA OFFICINA TYP0GRAPI1ICA DE T.ANGHOFF.
1834.
LIV/RÍJ' m.

DAS COMEDIAS.
F I G U R A S DA I a SCENA.
PROLOGO.
H U M L I C E S C E A ü O.

RUBENA.
BENITA — Criada
Hua PARTEIRA.
Hüa FEITICEIRA.
LEGIÁO
PLUTÁO
Díanos.
DRAGUINHO
CAROTO

A seguinle comedia he repartirla cm tres scenas. Foi


feita ao muito poderoso e nohre liei D. Joño / / / , sendo
Principe; era de 1521-
COMEDIA DE RUBENA.

SCEUTA P R I M E I R A .

Primeiramente entra por argumento hum Licenceado,


diz:
LICENCEADO.
En tierra de Campos allá en Castilla
Había un abad, que allí se inoraba;
Tenia una hija que mucho preciaba,
Bonita, hermosa á gran maravilla.
Un clérigo mozo, que era su criado,
Enamoróse daquella doncella;
La conversación acabó con ella
lio que no debiera haber comenzado.
Llamaban á ella por nombre Rubena:
Hallóse preñada, el mozo huyó:
Todos sus meses arreo encubrió,
Que viva persona sabía su pena.
Su padre era fuerte, cruel por nación,
Celoso, muy bravo, sin templa ninguna.
Lloraba Rubena su triste fortuna,
Rompiendo las telas de su corazón.
Estando una noche sin mas compañía
Que sola tristeza sin partirse della,
Saltan los dolores de parto con ella,
Su padre acostado, pero no dormía.
6 LIVRO II.

Sin esperanza de algún abrigo,


Viéndose asida de tanta tristura,
Sufriendo sus penas con mucha cordura,
Empieza diciendo entre sí consigo.

RUBENA.
Ay de mí, de mí robada,
Y no de otros robadores!
Ay de mí desventurada!
Ay! que no puedo cuitada
Decir ay á mis dolores!
Ay! que no oso quejar!
Ay! que no oso decir!
Ay! que no oso querellar;
Ni me puedo ya vingar
Del consentir!
Oh triste de mí Rubena!
A quien me descubriré?
A quien contaré mi pena?
Como porné en mano agena
Mi vida, mi honra y mi fe?
Oh mocedad desdichada,
De falso amor engañada,
Engañada sin sentido!
Qué haré desamparada?
Qué haré triste preñada
Sin marido?
Escuro parto escogí
En peligroso secreto:
Qué será triste de mí!
O Dios! porqué me salí
DAS COMEDIAS.

De mí camino discreto!
Quien tuviera, ó quien hallara
Una preciosa vara,
Que tuviera tal condón,
Que improviso me llevara
A alguno que me sacara
El corazón?
O tristes nubes escuras,
Que tan recías camináis,
Sacadme destas tristuras,
Y llevadme á las honduras
De la mar, adonde vais,
üuélanvos mis tristes hadas,
Y llevadme apresuradas
Aquel valle de tristura,
Donde están las mal hadadas,
Donde están las sin ventura
Sepultadas.
Oh cuanto benditas son
Muchas doncellas que vi,
Que para su proprio varón
Guardaron su perfección,
Y no la triste de mí!
Benditas y bien libradas
Desposadas y casadas,
Corona de sus parientes!
Ay! que me ciercan puntadas!
Mis angustias son llegadas,
Y accidentes.
Yo misma quiero el morir.
Porqué me apertaís, dolores?
Que mas duele arrcpentir
8 LIVRO II.

Dos mil veces, que el parir.


No penséis que sois mayores.
En pensar cuan preciada
Desde niña fui criada,
Y por tan vil paso amaro
Á tal punto soy llegada,
Tan desierta y alongada
Del amparo.
Siempre de mí padre amada,
Siempre de todos querida,
Siempre vestida, arrayada,
Siempre señora llamada,
Siempre adorada y servida,
Siempre horra y muy exenta,
Siempre en puerto sin tormenta,
Mas mirada que la luna,
Siempre leda muy contenta:
Mas ahora me toma cuenta
La fortuna.
Yo si me descubriere
A Benita, decirlo ha:
Si solo en mi cabo pariere,
Y pariendo me muriere,
Muy mas claro se verá.
Sin ventura, qué haré?
Adonde me esconderé,
Que me cíercan los dolores?
O Rubena! di porqué
Creíste la falsa fe
De los amores!
l'em Benita, sita criada, c rir.
DAS COMEDIAS.

BENITA.
Señora, con quien habláis?
Vos veis alguna visión;
No sé de que os quejáis.
RUB. Del mal de ini corazón.
BEN. Las quejadas
Tenéis tan descarílladas,
Y la barriga rellena,
Las espaldas empandadas;
No sois vos esta aosadas:
Con quien trocastes, Rubena?
RUBENA.
Con nadie; no sé que dices.
BEN. Tenéis los ojos sumidos,
Y delgadas las narices.
RUB. TÚ no ves que son lombrices?
BEN. NO entiendo estos partidos.
Ansí será,
Y eso mismo os causará
Tener ojeras y paño.
RUB. Ay! qué gran dolor me da!
BEN. Será de la frialdad
Que cogiste ora ha un año.
RUBENA.
Ay! dolores de pesar!
BEN. Bien entiendo á mi señora,
Y ella quiéreme cegar.
RUB. Qué? BEN. Digo que no se pensar
Que remedio os busque ahora.
RUB. Oh Benita!
BEN. Estávades tan bonita
Nueve meses habrá,
10 LIVRO II.

Blanca, tan coloradíta,


No sé que dolor maldita,
Ó que cosa esta será.
Parece que os salta el bazo
En derecho del ombligo:
No entiendo este embarazo.
RUB. Corrimiento es deste brazo,
Que nunca acaba conmigo.
BEN. Bien está:
Andáis de acá para allá
Descalza por las nieladas,
De corrimientos será.
RUB. Llámame Genebra acá,
Que te haden buenas hadas.
Que me venga á bendecir
Del quebranto mucho presto;
Presto, que quiero morir.
BEN. Paréceme esto parir.
RUB. Qué dices? BEN. Digo que me pesa desío
En gran manera.
RUB. Pues aguija antes que muera.
BEN. Tened, tened sufrimiento,
Y descansareis siquiera.
RUB. Vé por la bendicidera.
BEN. Quiéroos decir un cuento.
Diz que era un escudero,
Tenia la muger tinosa,
Y subiendo en un otero,
Encontró con un vaquero
Desollando una raposa.
El escudero cuitado
Andaba desarrapado.
DAS COMEDIAS. 11

Las nalgas todas de fuera,


Y el haz desamparado,
El cogote trasquilado,
Sin osar decir quien era.
Como persona sentida
Sendo ansí por las montañas...
RUB. Oh! quien no fuera nacida!
Viéndome salir la vida,
Paraste á contar patrañas?
BEN. Pues otra sé yo de un carnero...
RUB. Anda, triste, que me muero.
No ine irás por el vivir?
BEN. Déjame cantar primero.
"Tiempo era caballero,
"Que se me acorta el vestir."
Mas mal ay de lo que suena,
No se puede esto atapar.
Bien vi yo enorabuena
Que las risas de Rubena
Nesto habían de parar.
Tanto burlar y reír,
Y tanto ir y venir
El ojo al clérigo nuevo,
Húbola de bendecir.
Y ella quiérelo encubrir,
Estando ya al rabo el huevo.
RUBENA.
No te entiendo. BEN. Voy resando.
RUB. O dulce Virgen gloriosa,
Á tí pido suspirando,
Que te pases deste bando
De Rubena desdichosa:
12 LIVRO II.

Tú, que tuviste encubierto


Aquel divino secreto;
Encubre mi triste suerte;
No mires mi desconcierto;
Que, sin tí, hago concierto
Con la muerte.
Vem hüa Par te ir a, e diz:
PARTEIRA.
Bento he o Sancto Spiríto,
Rento he o San Miguel,
Bento he o Padre, bento he o Filho,
Benta he a Virgem do Lorilo,
E o anjo San Gabriel.
E vos, donzella,
Que fazedes, minha estrella?
RUB. Estoy mucho afatigada.
PAR. Nao hajades vos aquella:
Bem vejo que estáis pejada.
Isto he cousa natural,
E muito acontecedera.
Se nunca fóra outra tal,
Disseramos que era mal
Por serdes vos a primeira.
Somos eirá de cangrejos;
Ha hi homens táo sobejos,
Que, ma traína que lhes nasca,
Com engaños, coin despejos,
Lá buscad ina ora ensejos
Pera elles tomarem caca.
Reirá de mor te apertada
Liles salte ñas ilhargadas;
Caganeira esforricada,
DAS COMEDIAS 13

Que nao sáiao da privada


A engañar as coitadas.
RUB. Madre, oyís?
PAR. Doem-vos a vos os quadris?
RUB. Mas, en veniendo Benita,
Haced que bendecís.
Chega Benita e diz:
BEN. Señora, como os sentís?
RUB. De muy gran tormento aflita.
( Faz a Parteira que i benze.)
PARTEIRA.
Estava Sancta Anna ó pé do loureiro,
Veio o Anjo por messageiro.
Vae-te á porta do ouro,
Acharas leu parceiro;
Tira a roca, e abraca-o primeiro.
Vae Joaquim apoz o carneíro,
E naquella hora que Déos verdadeiro
Concebeo Anna em liinpo celleiro,
A Sancta María rézao o salleiro,
Que ja o quebranto cahío no ribeiro.
BENITA.
Y como ora es quebranto
Que está metido en la madre,
Busquemos el brizo entanto,
Y algo para la comadre.
Ea dice, bendicidera,
Puede ser mayor ceguera,
Que querer nadie encubrir
El cielo con la juera?
PAR. HUÍ! que diz a chocalheira,
Que nao faz senao grunhir?
14 LIVRO II.

BENITA.
Que quiera Dios que aproveche
Esa cura que hacéis:
Veo yo correr la leche.
RUB. Qué veis? BEN. No veo adó me eche,
Y son las horas que veis.
PAR. Ide-vos, minha donzella,
Trazede-me encenso e macella,
E a névoda. BEN. Demo he.
PAR. E tres oncas de canella.
BEN. Ansí vivas tú y ella,
Como yo acá porné el pie. Oaí-se)
PARTEIRA.
Mostrade ca, filha amiga,
Verei em que pontos stais.
Muí alta está a criancinha;
Nao pariréis tao asinha:
Asinha vos vos agastais.
RUB. Oh cuitada dolorida,
En que extremo está mi vida!
PAR. Mordei neste macapao;
Esforcae, rosa florida.
En venida e vos parida:
Kyrieleison, Christeleison.
Dizei tres vezes passinho:
O verbo caro foto he:
Dou-vos a San Sadorninho.
Saia ca o cordeirinho,
O cóneguinho da Sé.
E como a dor aperlar,
Puxar pera campear.
Va-se o tempo á inaresia,
DAS COMEDIAS. 15

Que o vento he de soprar;


E nao vos ha de leinbrar
Vergonha nem cortezia.
Ora sus, ininlia santinha,
Que se chega a vossa hora.
Empuxae, ininha pombinha,
E veredes quao asinha
Sai o cordeírínho fóra.
Dae de mao ao pousadeiro,
Leixae ir o escudeíro;
Que, como o Acento he de baxo,
Logo a chuva he no terreíro,
E o Tejo faz lameiro
Ñas leziras do Cartaxo.
Leda está Sancta María
Sobre o craro lüar
Em cadeira d'alegría:
Dizei-lhe hüa Ave María,
Emquanto eu vou mijar.
Nao afemenco eu aqui
Bom logar onde me assente.
Nunca ín' em tal pressa vi;
Mas aqui ou alli;
Bem vedes meu accidente.
( F a z que se assenta a hnm canto, e continua:)
Olhade ca, filha amiga,
Feítíceira haveis mister;
Porque, queréis que vos diga,
Ver-vos-hedes em fadiga,
Se vosso pae ca vier.
Eu voda quero ir buscar,
E inandar-vos-ha levar
16 LIVRO II.

Onde pariréis segura.


E, einquanto a vou chamar
Muilo asinha, sem tardar,
Vos detende a criatura, (vai-se)
RUBENA.
Venga ya todo el Infierno
Por esta triste Rubena;
Que yo bien sé y discierno
Que el infernal fuego eterno
No se iguala á esta pena.
Y pues mi suerte lo quiso,
No espero paraíso,
Ni acá sino tristura.
Venga el infierno improviso,
Que lleve á quien sin aviso
Escogió mala ventura.
Representase como Jiüa Feiticeira, a quem a Par-
teira foi dar conta deste negocio, per esconjuracoes e fei-
ticos fez vir quatro Diabos a seu chamado, e entra logo
Juan so, per nome JLegiao, e diz:
LEGIÁO.
O que ha de ser, ha de ser,
Porque sera o que for;
Porém torear hüa mulher
Todo o infernal poder,
Ja nao pode ser peor.
He hüa torta defumada,
Tapadeiro de privada,
Que faz tanta rapazia
Na metade de hfía cncruzilbada,
Que nos trouxe d'arrancada
A fazer-lhe cortezia.
DAS COMEDIAS. 17

Nenhüas pegadas váo


Por aqui dos outros tres:
Aínda elles ca nao sao.
Plutáo faz rasto de cao
Com as unhas ao revez;
Caroto tem pés de grou.
Inda elle ca nao passou
Draguínho rasto de burra;
A torta que me chamou,
Primeiro me nomeou,
E de contino m'accusa.
Eu quero-os ir esperar
No cume daquella serra,
Qu'elles hao-ine de buscar,
E faremos inao pezar
Desta que nos faz a guerra.
Pelo ar irei melhor,
Como peixe voador;
Qu'este mato vai muí basto,
Como quem sabe d'acor:
E por onde quer qu'cu for
Elles me acharáo o rasto.
Vem Plutao, Draguínho, Caroto, e diz
DRAGUÍNHO.

Andae, andae, companheíros;


Ca vaí o rasto de Leglao
Por cima destes outeiros;
Proprios dous malhadeiros
Sao os pés deste ladráo.
CAR. Ha milito? DRA. Agora est'hora
Passou por estes penedos:
Ei-lo aqui fresco d'agora,
2
Yol. II.
18 LIVRO II.

D'agora nao ha meia hora,


Nem creio que ha dous credos.
PLUTAO.
Mostra, mostra, companheiro,
Veremos que rasto faz.
DRA. Nesta lágea está inteiro
A o pé deste sovereiro.
Pi.u. Este he o rasto do rapaz.
DRA. Eis aqui onde einpecou.
PLU. Onde? DRA. Nesta penedia.
CAR. Pouco ha qu'elle passou.
DRA. Eis aqui onde mijou,
Á meia noite sería.
PLUTAO.
Aqui escorregou elle
Na meta do nevoeiro.
CAR. Crede que o deino ia nelle.
DRA. Aquí cocou elle a pelle
No pé deste sovereiro.
Pi.u. O perro ha d'esperar,
Porque elle nao ha de ousar
Ir sem nos á feiticeira.
LEG. Ja m'eu quizera espojar
D'enfadado de esperar
Ao longo desta ríbeira.
CAROTO.
Tomemos muí de vagar
Conselho inuito cuidado;
Que se esta ladra engar,
Nunca nos ha de deíxar
Dormir soinno assocegado.
DRA. TU nao sabes o porque ?
DAS COMEDIAS. 19

CAR. Pois falle Vossa Mercé,


Que sabe os passos da zona.
DRA. Este Caroto treslé.
CAR. Vamos lá, que nao se eré
A malicia desta dona.
Vao-se os Espiritos a chamado da Feiticcira, e diz
RUBENA.
O angustias y pesar,
Dad ya fin á mis gemidos,
Concluid á me matar;
No curéis de dilatar
A mis días consumidos.
Remedio ya no lo quiero,
Que, en comienzo de mi hado,
En alta voz dije — muero —
Que en mal tan demasiado
Tener cura no espero.
Vem a Feiticeira com os Diahos dianle de si, e tra-
zem hnm andor; e diz
LEGI.IO.
Eis-nos aquí; que nos mandas?
PLU. Que nos mandas, aleivosa?
DRA. Aleivosa, que demandas?
CAR. Que demandas, em que andas?
FEI. Que sirváis esta senhora.
Ora sus, remedeáda:
Levae-a muíto escondida
E trazede-m'a parida:
A criancinha engeitá-la
Onde seja recolhida.
Tomárao os Diahos a Rubena, no andor, e apartida
diz Rubena d Feiticeira.
2'
20 LIVRO II.

RUBENA.
Señora, pues consentí
Contra mí tan mala suerte,
Voyme del todo daqui.
Sí perguntaren por mí,
Decid que fui con la muerte:
Y á mi padre señor
Diréis, con algún color,
Que no haya de mí cura,
Y que me voy de temor;
Y me duele su dolor
Mas que mi desaventura.
Leva rao os Diabos a Rubena, e diz o Licenceado que
fez o argumento.
LICENCEADO.
Llevaron nel aire ansí á Rubena
Aquellos espritus á una montaña:
Parió una hija, mas linda de España,
Según trataremos en estotra cena.
Como se vído ya fuera de pena,
Echó sus vestidos en una ribera,
Ciñió su camisa las carnes de fuera,
Hermosa en cabello como una sirena.
Fue la cuitada de tierna edad
Subiendo la sierra, de entonces parida,
Por do la guiaba su mísera vida,
Sin otra compaña sino soledad.
Y por escusarnios la prolijidad,
Dejemos la madre, que es cosa profunda,
Y tratarse ha nesta cena segunda
Daqucsta MI hija de extrema bondad.
FIGURAS DA %\ SCENA.

FEITICEIRA.
DRAGUÍNHO.
CAROTO.
LEGIÁO.
PLUTÁO.
AMA DE CISMENA.

LEDERA ,
Fadas.
MINEA \
CISMENA.
JOANNE.
PEDRINHO
Pastorinhos.
AFFONSINHO
SCENA S E G U N D A .

Nesta segunda scena se conte'm de como Rubena parió,


e de como a Feiticeira mandón criar a menina, a que po-
zerao nome Cismena; e de como tudo aconteceo. Cometa
que, ficando a Feiticeira esperando que os Espiritos Ihe
trouxessem Rubena parida, está dizendo antre si:
FEITICEIRA.
Oh Rubena amarga rada!
Como partió táo sentida,
E táo mal acompanhada!
Quem m'a désse aqui tornada,
Antes que fosse parida!
Que quinqué vulto salmus es
Ante monta opus es.
Hui! tem a gaiola fidem
Cam nisi que antre o grao
E tudo per hi além.
No principio o verbio era
Era do verbio cheio;
O verbio era apodeo.
E nessa mita me era,
Esta voz era luz vera,
Que vai lá no neníenle,
Nao era elle luz luzente,
Como este lume de cera.
E o mundo mundo x'era,
Mundo x'era, e mundo x'he;
E se nisso falo niché,
E elle nisso mita era,
DAS C03IEDIAS. 23

E mundos nao combinaráo


Junto com o missus a Dea,
Testimonio, testimonio meo,
Cu jo nome era Joao.
Ave María Senhora
Cheia de graca plena,
Olhade ora por Rubena,
E trazede-Ihe a boa hora,
Os «tes vintus que inora
A vinta hum grave tive;
Polo que reina, c que vive,
Spiritos, trazede-a ora.
Oh que ma ora venhais,
E louvado seja Déos.
Jesu! quanto ine lardáis!
DRA. Vos, gentil dona, cuidáis
Que tudo he furtardes veos?
FEI. Ora sus, mexeriqueiros,
Onde leixais a parida?
DRA. A parida he fúgida
Lá por cima de huns ouleiros.
E manda pera cueiros
Tudo quanto aqui se monta;
E pois pedís della conta,
Vai nos días derradeíros.
CAU. Vai nos días derradeíros,
Desejando o derradeíro,
Com nojo muí verdadeiro,
E suspiros verdadciros.
DRAGUÍNHO.
Disse que alein dos cueiros,
Manda quantas joias tinha,
5>4 LIVRO II.

E se crie esta menina


Muito bem por seu dinheiro;
E que lhe chamein Cismena.
FEI. Mostrae ca por vida vossa,
E veremos se he fermosa.
Oh quáo propria he Rubena!
Quem lhe poz nome Cismena?
CAR. Cismena, sua máe lh'o poz.
FEI. Cismena! ora vistes vos
Nome novo ein térra agena?
Pi.u. Sancta dona, teinpo he
De nos vos dardes soltura;
J a nao tendes mais costura,
Deixae-nos por vossa fé.
FEITICEIRA.
Levantar ina ora em pé!
S'eu torno o meu alguidar,
Far-vos-hei eu rebentar
Como nilo temporé.
Dous de vos me váo furtar
Allí a par da Trindade
Hum berco que deu hum frade
A Joanna de Aguiar.
E s'este se nao achar,
Ide á Branca da Romeira,
E olhae detraz da esleirá,
E veréis hi hum estar:
Ou ide vos pelo rasto
Desses ministros e curas,
Que todos tem criaturas,
Louvores a Déos, a basto.
Trazede berco dourado
DAS COMEDIAS. 25

Muí!o rico, e muito asinha;


Que se críe Cismenínha
Pera muito alto fado.
CAR. Draguínho, tu a San Vicente de lora.
DRA. E tu? CAR. Á Sé;
Porque crede que allí he
O feito mais commummente.
CAROTO.
Hum berco tem hüa mogueira
Na rúa de Calca-frades
Manceba de dous abbades.
DRA. Melhor lera a linheira.
LEG. Está hüa lavrandeira
lia no bairro sobre Alfama,
Que mais parideira dama
Nao ha hi inais parideira.
FEITICEIRA.
Vos que ficaís, i buscar
Asinha logo nessora
Hüa honrada lavradora
De leite pera criar.
Fazei vos lá outras figuras,
Assi com'ora, escudeiros:
Nao me sejais tardinheiros:
E trazede-m'a ás escuras.
PLUTAO.
Eu vou buscá-la a Carnide,
E lu vae a Sacavem.
LEG. Mas vae tu a Santarem,
E cu irei a Campolide.
Mas eu sera bcm que fique,
26 LIVRO II.

E tu vae a Montaxique
A casa do dedos da murteira.
FEI. Nisso estáis? ma cagananeira
Que vos pique.
Vao, e fica a Feiticeira cantando á Menina.
"Ru ni, menina, ru, ru,
"Mourao as vellias e fiques tu
"C'o a tranca no cu."
Vem os Espiritas com o berco, e com a Ama, e diz
DRAGUÍNHO.
Que vos parece, noss'ama?
Este berco tomos furtar
Ao Paco do Lumear,
Que foi dado a hüa dama
De freí... quero-ine calar.
FEI. Dízei-m'o á puridade.
DRA. Queréis saber? he hum frade,
Huin freí Vasco de Palmella;
Huin que tinha Madanella
Colchoeíra na Trindade.
FEI. Muito me dá na vontade
Que conheco quein he ella.
DRA. Rógo-vos, senhora amiga,
Por aquella dor sagrada
Quando fostes acoutada,
Que nao nos deis mais fadiga.
FEITICEIRA.
Ora ¡-vos ieraniá,
E a ama venha embora.
Ora cntrae, minha senhora,
E.sperac huin pouco lá;
Ora vinde pera ca
DAS COMEDIAS. %?

Primeiro c'o pé direito;


Fazei o signal da cruz no peito.
AMA. Dae-me a críanca, e mamará.
FEITICEIRA.
Primeiro eu saberei
Que leite he o vosso, amiga;
E se tendes ja barriga;
Que días ha que me eu sei.
E se sois agastadica,
Se coméis toda a vianda:
Nao quero andar em demanda,
Nem quería ver justica.
De que tempo sois parida?
AMA. De hum annosínho, nó mais.
FEI. E que cantigas cantáis?
AMA. A criancínha despida —
Eu me saín Dona Giralda —
E tambein — Val-me Lianor —
E — De pequeña matáis Amor •
E — Em París estava Donalda.
Díme tú, señora, di —
Vamonos, dijo mi tío —
E — Llevadme por el rio —
E lainbem — Calbi ora bi —
E — Llevantéme un dia
Lunes de mañana —
E — Muliana, Muliana —
E — Nao venhais alegría.
E outras militas destas taes.
FEI. Deilae no berco a senhora;
Embalae e cantae ora,
Veremos como cantáis.
38 LIVRO II.

AMA, (canta)
"Llevantéme un día."
FEITICEIRA.
O de mais quero eu ver
Que o cantar; perdei cuidado:
Que lhe dades a comer?
AMA. Papínhas de pao relado.
FEI. E depois que aponía a amella?
AMA. Sopasinhas da panella,
E leite fresco coado.
FEI. Diabos, por meu amor,
Filhos meus e meus senhores,
Ide á deosa maior,
Dizei que por seu louvor
Me mande as fadas maiores.
As suas duas fermosas
Com melodía serena,
Que me fadem a Cismena
Sobre todas as ditosas.
Emtanto quero eu benzer
Os caminhos e carreiras
Que vilo daqui pera Oeiras,
Que de lá deveis de ser.
Padre santo San Gíao
Que vcm e vai com os que váo,
San Braz e San Sadorninho,
San Pedro, Paio, Marlinho,
Sancto Ilario e San Joáo.
Entres natos mulleres
Nao sorrexe outro maior
Joáo Baptisla corretor.
Mal me queres, bcm me qucres.
DAS COMEDIAS. S>9

No leu coló ¡reí melhor.


Assi como a rosa bella,
M a d r e s í l v a e a macella,
E o pampilho e rosmaninbo;
Assi floreca o caininho
P e r hu for esta donzella.
Basto se semeia o nabo,
Quando florece o agráo,
E n t a o canta o tíntilhao,
E bate a alvela o rabo.
Allí, allí, Belzabatení,
Quando levardes a virgo,
C a n t a r á o Demo em g r i t o :
De las mas lindas que yo vi.
Vem as fadas Ledera, e Minea cantando, e acabado
de cantar, diz
LEDERA.
Esta nasceu em tal hora,
Que ha de correr gran tormenta
Dolorosa.
Depois sera gran senhora
De toda fortuna isenta,
Muí dítosa,
Mas primeiro inui chorosa
Sem emparo aqui ein Creta
Se verá;
E a poder de fennosa,
E de casta, e de discreta,
Tornaría.
MINEA.
O primeiro perígo he
Que a hito de querer ferrar
30 LIVRO II.

Pera a vender
Por Moura, e ferro no pé.
Aqui a haveinos de fadar,
E de benzer,
Que ella o possa entender,
E se salve na boscagem
D' Arrouchella:
E lhe dará de comer
Hüa bestial salvagem,
De dó della.
FEITICEIRA.
Tudo isso sao carambolas.
Ama, levade-a asinha.
Ora i-vos, minha rain ha,
E inandar-m'heis das cebólas.
Idas todas estas figuras, diz o Licenceado que fez o
argumento :
LICENCEADO.
Hagamos ahora mención y querena,
En esta segunda cena en que estamos,
De como enviaban los villanos amos
Guardar el ganado la niña Cismena,
Y de cinco años muy linda y serena
Su ganadico por sí careaba;
Y con pastorcicos villanos andaba,
Asegun que luego mostrar se os ordena.

Entra Cismena pastorinha, fiando, e diz


CISMENA.
Vos vistes-ine aqui andar
Huns cabritinhos mal liados,
E dous porquinhos cílhados?
DAS COMEDIAS 31

Cant'cu nao nos posso achar.


Fui-me moacha jeítar
A dormir mal-avesinho
A beirínha do camínho,
E forao-m'os acossar.
Dizei, dizei se os vistes.
Bé! como estáo pasmados!
Dous porquinhos trosquíados
Coinchar nao nos ouvistes?
Oh, dou ó Decho am dos tristes.
Amo, vistes-in'os pascer?
O que disserdes, hei de crer,
Porque vos nunca mentistes.
Samica o nosso cadelo
Os fez elle derramar.
Nao sei se os va buscar
Cajuso ao nosso cancelo,
üera eu ora o meu órelo,
E os incus alfenetinhos,
E achasse os meus porquinhos
Cajuso em Val de Cobelo.
Chicos, chíquinhos, chicos.
O Déos bem-aventurado,
Acha-me ora este meu gado,
Acha-ine ora os meus cabritos, (canta)
"Grandes bandos andao na corte,
"Traga-ine Déos o meu bonamore.,'
Vcm hum pastorinho, per nome Joanne, e diz:
JOANNE.

Oh pezar de mi comigo!
Di, rogo-te, Císmeninha,
Yiste-m a ininha burrinha?
32 LIVRO II.

Cis. Viste-m*a minha burrinha?


Jo A. Olha, olha o que te digo.
Cis. Olha, olha o que te digo.
Jo A. Sempre tu has de chufar?
Cis. Que rosto de ina pezar
Pera casarem comtigo!
Sabes onde eu vi a burrinha?
JOA. Onde? Cis. Nao sei. JOA. Nao sei!
Cada seinpre es garredinha.
Cis. Vae-a tu buscar á vinha,
E achá-ladias, que ja lá achei.
Se vai travada, achá-la-has.
JOA. Levava as travas de traz:
Hio, hio, ja t'eu enganeí!
E sabes mais que levava?
Cis. Hüa sorraba na pclle.
Hio, hio, cuidav'elle,
Cuid'elle que m'enganava.
JOA. Vae buscar os cabritínhos.
Cis. Se vires os meus porquinhos,
Dá-lhe lá hüa sorraba,
E torna-me os cabritínhos.
Vem dous pastorinhos, Pedrinho e Affonsinho, c diz
PEDniNHO.
Ta máe nao faz senáo chamar...
E tu ris-te, Císmeninha?
Cis. Rio-me eu da tua tinha.
PED. Outra vez t'ha d'ella dar.
Cis. Toma pera a tua vida.
AFF. Porque davas hontem gritos?
Cis. Porque comeu dous cabritos
Hua raposa parida.
DAS COMEDIAS. 33

PEDRINHO.
Eu comi papas aquesta.
AFF. E ininha máe deu-me hum bolo.
JOA. Qués-ine tu dar delle, tolo?
Cis. Outro levo eu ca na cesta.
PEO. J a parió a nossa bésta.
JOA. E nos temos tanto inel,
Que trouxe a nossa Isabel!
AFF. Mentes, Joanne. JOA. Por esta.
CISMENA.
E a íníin hao-ine de comprar
Hüa coifinha lavrada.
PEO. Temos tanta marmelada,
Que minha mae m'ha de dar!
JOA. E meu pae ha d'ir pescar,
Tomará hum peixe tainanho,
Assi como o nosso tanho,
E nao vo-lo hei de dar.
PEDRINHO.
Olha, Joanne. JOA. Hain?
PED. Dar-in'has tu hum tamaníno?
AFF. NOS temos outro menino,
Que minha mae parió á manham.
Cis. E eu nao tenho no carril
Dous alfinetes que achei?
JOA. Tambem eu er acharei
Algum dia algum ceilil.
PEDRINHO.
E a miin dáo-me sardínha inteira.
A F F . Oh! PED. Pola Virgem Maria.
JOA. Nao t'acouláráo outro dia
Por jurar dessa inaneira?
\ oí. II
34 LIVRO II.

Polos sanctos evangelhos


Que o diga a teu cunhado.
AFF. Ó fideputa pellado!
E tu juras como os velhos.
Pola fé de Jesu Christo
Qu'a teu pac o diga eu.
JOA. Ó fideputa sandeu!
Bein te parece a ti ísto?
Pola hostia consagrada
Que merecías pingado.
A F F . Vamos buscar nosso gado;
Fique Cismena apartada.
As Fadas que fadárao esta Cismena, vendo chegado o
tempo em que lhe havia de acontecer o que em sen nasci-
mento lhe disserao, a vierao avisar disso, andando com o
gado naquelle monte; e vem cantando, c acabando de can-
tar, diz
LEDERA.
Vinde ca, filha Cismena;
Nao queremos consentir,
Nem Déos queira,
Que a fortuna de pequeña
Vos mande assi destruir
Desta maneíra.
Vossa mae era estrangeira;
Esta que vos foráo dar
Quer fazer,
Porque nao be verdadeira,
Como vos possa ferrar
Por vos vender.
CISMENA.
Oh mesqiiinha sem ventura!
DAS COMEDIAS. 35

E minha ináe verdadeíra


Que foí della?
LED. Essa materia he escura:
Mas logo, em toda maneira,
Dae á vela.
MIN. Ir-vosdieis por esta estrada
Até á cidade de Creta,
Onde seréis perfdhada
De hüa senhora honrada
Muí nobre, rica e discreta.
E por seu fallecimento
De quinze annos ficareis
Herdeíra no testamento,
E com grande exalcamenlo
De dezaseis casareis.
frai-se a menina Cismena caminho de Creta, pera onde
as Fadas a encaminhao; c vai dizendo:
CISMENA.
Oh mae da lilha perdida!
Oh filha da mae prenhada,
Sein ventura!
Alma sem vida nascida!
Filha da morte acordada,
Sempre escura!
Ó minha mae! onde estáis?
Minha ináe, onde me vou?
Minha mae, nao me buscáis?
Vos bem sei que suspiráis,
Porque os suspiros que eu dou
Sao os mesmos que vos dais.
F I G U R A S DA 3 a SCE1NA.

CISMENA.
CLITA — sua Criada.
Hüa BEATA.
BRISIDA
SEQUEIRA
ANDRESA
FELICIA \ Lavrandeiras.
SERRANA
ORIBELLA
AUREIJA
FELICIO.
DARÍO LEDO.
CRASTO LIBERAL.
AFFONSO — sen Criado.
PRINCIPE - IrniSo de Felicio.
SCEWA TERCEIRA.

Nesta terceira scena se tracta de como sendo Cismena


de idade de quinze annos, criada em Creta, perfilhada de
hüa nobre dona, ficou delta orphan, porém herdeira de
toda sua fazenda.
Entra primeiramenie Cismena cuberta de dá pola
morte de sua Senhora, e diz:
CISMENA.
Que grande praga he cuidar,
E que tormento entender!
Oh! que gran pena acordar!
Que se nao fosse lembrar,
Muí pouca cousa he perder.
O prazer nao me vem ver
Senáo pera mais tristura;
Nem quer Déos que tenha cura
Meu fortunoso viver:
Tanto nasci sein ventura!
O ineu triste e averso fado
Desde o coló da parteira
Me quiz mal de tal inaneira,
Que nao sei porque peccado
Seinpre me vi eslrangeira.
Escondeu-me a mae priineíra,
Trouxe-ine de p'rigo em p'rigo;
Levou-me a mae derradeira
O primeiro meu abrigo,
Minha honra verdadeira.
38 LIVRO II.

Chorará meu coracao;


Vos olhos, olhae por mim,
Porque veja posto em fim
Meu proposito muí sao,
Casto como seraphim.
E assi como marfiín
Seja clara minlia vida,
E minha honra luzida;
E como fino rubim
Assim seja esclarecida.
CLITA.
Senhora, eu nao saberia
Dizer que tencáo he a vossa:
Vos fermosa como a rosa,
E eu cara de bugia,
Que vida ha de ser a nossa?
Cis. Eu te terei mui mimosa;
Clita, loma tu prazer.
CLI. Fermosa quizera eu ser.
Cis. Mana, se fores ditosa,
Dita faz bom parecer.
Vem hüa mulher a modo de beata, porém grande ala
viteira, e diz a Cismena.
BEATA.
A graca do Salvador
Seja coinvosco, senhora.
Cis. Sejais benta do Senhor.
BEA. Déos sabe por vos a dor
Que nesta alma minha inora.
Oh quáo so ficais agora!
Como o lirio cuberto,
Como o cedro no deserto,
DAS COMEDIAS. 39

Donde a ave pheníx mora;


Tal ficais, mana, por certo.
Eu, minha alma, venho ca
Consolar vossa paixáo
Com dor do ineu coracáo;
Porque o hábito m'o dá,
E tambein a cóndilo.
Cis. Déos vos dé, a salvacáo.
BEA. E a vos, mana, alegría,
Com companha, todavía;
Que nao parece rezáo
Estardes sem companhia.
CISMENA.
Madre, lodo meu cuidado
He ser filha verdadeira
Das castas, e sua herdeira.
BEA. Minha rosa, esse morgado
Nao herdeis dessa maneira:
Sois fermosa e estrangeíra,
Cumpre que vos guarde alguem.
Cis. Nao me fio de nínguem;
Eu sou minha guardadeira,
Que me guardarei muí bem.
Nao ha mister a donzella
Virtuosa, atalajada.
Que olhe nínguem por ella;
Porque aquella que se vela
Tem outra vela escusada.
BEA. Nao se escusa de roubada
Quem em si mesma confia.
Cus. Mas a que d'outrein se fia
Merece ser engañada.
40 LIVRO II.

BEA. Filha, emfim, ser namorada


He grande galantaria.
CISMENA.
Guarde-me Déos dessa dor.
BEA. Nein eu nao vodo requeiro:
Mas rezamos no salteiro
Que fermosa sem amor
He como o sol de Janeiro,
Que sempre anda traz do ouleíro;
Ou como poupa em queimada,
Bem pintada e mal lograda:
Ou he frol de pecegueiro,
Fermosa, e nao presta nada.
E se quizerdes ser freirá,
Mana, eu vos ensinarei
A rezar tudo o que sei,
Da príineira á derradeira;
Porque nisso ine crieh
Cis. Eu, senhora, aprenderei
De muito boa vontade.
BEA. EU tainbem por caridade,
Filha, vos comecarei
Logo as horas da Trindade.
Depois as horas dos finados
Que vos haveis de matar:
E aprenderéis a cantar
Responsos desesperados,
Com que os váo sepultar.
E depois d'isto passar
Ler-vos-hei Cárcel d'amor.
E Peregrino amador.
DAS COMEDIAS. 41

E eu virei inaís devagar,


Prazendo a nosso Senhor.
Filha, vou ein romaria
A gloriosa da Estrella;
Encommendar-vos-hei a ella,
Muí devotamente pia,
Que vos tome por donzella.
Vos enllanto, rosa bella,
Críae bem esse carao,
E ponde-vos em feicáo,
Que quem vos vir á janella
Cegué logo o coracao.
Vai-se a Beata e diz
CLITA.
Olhae aquella mulher
Como vende mesluradas.
Cis. Que me pode ella fazer?
CLI. Infindas calabreadas;
Pois ás damas mais pintadas
Fara aquella mil embolas:
Mistura o ceo com cebólas,
E hüas einburilhadas,
Que fara as discretas tolas.
CISMENA.
Traze ca a ahnofadinha,
E a seda e o didal,
E hum coxim e todo o al
Que está nessa cainarinha
Debaixo do meu brial.
E primeiro sera bem
Que digas a Miraflores
Que me mande os meus lavores,
42 LIVRO II.

E as mostras que me tem,


Logo, que nao sao penhores.
Vai-se a Moca, e torna a Beata, e diz
BEATA.
Ai, como venho caneada!
Meu espelho, como estáis?
Minha rosinha orvalhada,
Lá vos deixo encoimnendada
A Yirgem dos Olívaes.
r

Cis. 0 devota madre minha,


Quando vos merecí tanto?
BEA. Dou-vos ao Spírito sancto,
Meu amor, minha pombinha:
Déos vos guarde de quebranto.
CISMENA.
Madre, isto em confissáo;
Determino de ser freirá,
Que este mundo he todo váo;
E ser freirá he salvacáo
Muito certa e verdadeira.
BEA. Era hüa estalajadeira,
Tinha hüa filha fermosa;
Veio-lhe essa veia vossa,
Ser freirá ein toda a maneira,
Contra lodos perfiosa.
Quando vírao seu doairo,
Detenninárao de a levar;
E ella chegando ao Rosaíro
Houve medo ao cainpanairo,
E fugío pera o logar.
A salvacáo eu me fundo
Xa freirá nao ser segura,
DAS COMEDIAS. 43

Porque está sempre em ventura


Este segredo profundo
Emquanto lhe a vida dura.
Que tambein lá ha peleja
Da razáo com apetito;
E a isto nao vale igreja.
Cis. Pois aínda que isso seja,
Jogáo mais perto do tito.
BEA. Por isso perde dobrado
O que joga de mais perto;
E menos louvor lhe he dado
Que o que joga arredado,
Se atira ao fito certo.
Mais ganhou o Publicano
De longe, que o Levila;
Que a todo o estado humano
O Díabo traz engaño
Per permíssao infinita.
Serdes leiga e casta abasta;
E ainda he bem mister
Haver hi das castas casta;
E quem disto se afasta
Fóra escusado nascer.
CISMENA.
Eu me saberei guardar.
BEA. Como t ¡verdes terceira,
Podeís-vos aproveitar,
E a fama estar inleíra
Coin gentil dissimular.
S'eu, mana, nao fóra freirá.
Porque isto nao me he dado,
Huin senlior muí estimado
44 LIVRO II.

Me rogou que vos requeira,


E me deu disso cuidado.
CISMENA.
Muito ruím passo he esse:
Nao sois vos toda de trigo.
Se ora vos parecesse
Qu'eu isso nao entendesse...
Ora sus, nao mais coinigo.
BEA. Que cousa he a mocidade!
Ando eu por seu proveito,
E por lhe fazer caridade.
Cis. Madre, a freirá de verdade
Nao falla do vosso geito.
BEATA.
Nao caco eu neste covil.
Tomae-vos la com Cismena!
Pois fallcí-lhe táo sutil...
CLI. Ca tomastes, adaíl?
BEA. Que me dizes, Policena?
CLI. Mas dizei por vida vossa,
Quem vos mandou ca entrar?
BEA. Com quem fallas tu, tinhosa?
CLI. Cheirais-me vos a raposa
Que nao acha que cacar.
CISMENA.
Essa madre das peconhas
Nao me venha ella ca inais.
CLI. Je.su! quáo verinelha estáis!
Diría algüas vergonhas —
Vos que assim vos demudáis..
Cis. Vai a Inez de Carvalhaes
Que venha ca estar comigo.
RAS COMEDIAS. 45

E que traga ca comsigo


As lavrandeíras reaes,
Ou que m'as mande comtigo.
Ao Déos Apollo claro, convertida,
Encommendo minha vida
Sem emparo.
Pois nascer me custa caro,
Favorece-me Diana,
Que atéqui
O Ceo me foí seinprc avaro,
E a ventura tyranna
Pera mi.
Brisida, venhas embora:
Qu'he da outra companhia?
BRI. Beijo-vo-las máos, senhora:
Ellas virao logo essora,
E estaremos todo o dia.
Cis. Mostrae ca o que lavrais,
E veremos que fazeis.
BRI. Lacos de pontos reaes.
Cis. Boas fadas vos hajais.
Aqui hao d'ír huns caireis
Ao redor destes bocaes.
CUTA.
Anda hum íidalgo allí
Olhando a nossa janella:
Mana inhiba, nunca vi
Cousa douda como aquella.
Cis. Que dízia? C u . Andava agora
Táo cheio de fantasía,
Dizendo : O minha senhora
Cismena, qual he a hora
46 LIVRO II.

Em que partís alegría?


Porque sempre ando em cuido
Como passarei meu mundo
Seguro.
Entrao as lavrandeiras, s. Sequeira, Andresa, Fe-
licia, Serrana, Aurelia, Oribella; e diz
SEQUEIRA,
Benza-vos o Senhor Déos.
AND. Déos vos dé muíta alegría.
FEL. Déos e a Vírgein María.
SER. Esta he a estrella dos ceos.
Cis. Jesús! quanta melodía!
Donzellas, venhaís embora;
A vida me désles ora.
SEQ. Mais vida dá a comphanhia
De táo discreta senhora.
CISMENA.
Mostrae, Sequeira, o lavor.
Que franzído láo real!
Sera pera algum senhor?
SEQ. Senhora, he penteador
Pera o Bispo do Funchal.
Cis. Muito boa obra he ella.
Andresa, isso que sao?
AND. He d'aljofre hum cabecáo
Pera o Conde de Penella.
Ci.s. He de muí linda feicáo.
E vos, Felicia? FEL. Hum lavor
De perlas e ouro tal
Pera o nosso Embaixador,
Porque veja o Imperador
Que as cousas de Portugal
DAS COMEDIAS. 47

Todas tein grande valor.


Cis. E vos, Serrana? SER. Estes favores
Sao para elle soadeíros
Com pedras de militas cores,
E broslados huns letreiros
Que dizeni — Amores, Amores!
CISMENA.
Moslrae ca vos, Oríbella.
ORÍ. Este he seu csperavél,
Jacintos pela ourella;
E dirá toda Castella
— Déos nos dé oulra Isabel,
Pois táo bem nos foi com ella.
Cis. Senlae-vos a par de mi;
Aquí, aqui, Oríbella,
Serrana, allí a par della;
Andresa, vos, mana, aqui,
Felicia junto com ella.
CUTA.
Emquanto vos outras lavrais,
Quero espreíiar o penado.
AUR. Iiá anda dando mil ais.
FEL. Mas cu creío que sao inais
Que trazem esse cuidado.
AUR. He Felicio discreto,
E Dom Crasto Liberal
E Dario Ledo, despertó,
Gracioso perennal,
E músico grande por certo.
Todos tres andáo perdidos
Por Vossa Merco, senhora.
FEL. Felicio ha de vir ca.
48 1 IVRO II.

AVD. He dos galantes sabidos


Que em todo este reino ha.
Os. Senhoras, se ca vier,
Desenganae-o cantando,
Cantando e desengañando:
E se elle vos entender,
Nao andará mais penando.
Entra Felicio e diz:
¡FELICIO.
Que dírei a mim de mi,
Porque quanto a mi me digo,
Fallo com o mor ¡migo
Que eu nunca conheci?
Tanto mal tenho comigo!
A nínguem nao me descubro,
E a mi nao sei que diga:
Descobre-me minha fadiga
Quantos secretos encubro,
E nao sei que via siga.
LAVRANDEIRAS (cantando)
"Halcón que se atreve
"Con garza guerrera
"Peligros espera."
"Halcón que se vuela
"Con garza á porfía,
"Cazar la quería
"Y no la recela:
"Mas quien no se vela
"De garza guerrera
"Peligros espera.'
FELICIO.
Os perigos que eu espero
«AS COMEDIAS. 49

Nesta caca venturosa,


Real garca rigorosa,
Eu os busco, eu os quero
Proseguir, ave formosa:
E pois voais alterosa,
E táo ligeira,
A victoria toda he vossa:
Segura eslaís na ribeira,
E ñas alturas ditosa.
Canlae, bem-avenluradas,
A cantiga que cantáis,
Porque nella me mostráis
Minhas dores apertadas,
Que seráo cada vez mais.
CLI. E VOS, senhor, que buscáis
A Cismena,
Se por falcáo vos contais,
Pellar-vos-ha penna e penna,
Veremos com que voais.
"La caza de amor
"Es de altanaría;
"Trabajos de dia,
"De noche dolor:
"Halcón cazador
"Con garza tan fiera
"Peligros espera."
FELICIO.
Eu direi isso á fortuna
Com palavras de tristura,
Que sou falcáo sem ventura,
E minha garca s'entona
Sobre a nuvein mais escura.
\ ol. 11.
50 LIVRO II.

Ó extrema formusura,
Garca bella,
Temo que subáis n'altura,
Onde vos tornéis estrella,
Por estardes mais segura.
Nao por tomar claridade,
Antes vos a podéis dar;
Mas por poder enviar
Coriseos e tempestade
Sobre quem vos inais amar.
Pera que he, senhora, usar
Vosso poder,
Que vos deveis d'espantar
Nao leixardes esquecer
Tantos modos de matar.
CUTA.
Que fazeis ca todo o dia?
Vos nao tendes que fazer?
Ella a calar, e elle a dizer:
Pera que he tanta porfía?
Ide buscar de comer.
Cuidáis que a haveis de haver
Logo assi?
Nao m'o quer agora ver
Nem ouvir, e elle allí:
Cuida elle que o háo misíer.
FELICIO.
Porque nao falláis, senhora.
Seja sequer contra mi?
Pois sem ventura nasci,
Nao ín'hei d'espantar agora
Do que sempre padecí.
DAS COMEDIAS. 51

E pois vos aborrecí,


Como sei;
Dizei que me va daqui,
E ao menos vivirei
Em cuidar que vos ouvi.
Vem Dario Ledo e diz:
DARÍO.
Bejo-vos as máos, senhora.
Se eu fóra vereador,
Pozera-vos ja, donzella,
Pena de caso maior.
Que lavrasseis á jámila;
Porque vos honráis a Creta.
Poís que farei eu coitado
De mi que ando atagantado
Por vos, morenica la preta,
E vos mana, sem cuidado?
Respondei, minha senhora;
Dizei — que vos hei de responder?
Digo que venhais einbora,
E folgo bem de vos ver: —
Dizeis assi? Cu. Allí ma ora;
Nao bajáis vos disso medo.
FEL. O Senhora, estae nisso,
Abrí esse paraíso,
Fallae ja a Darío Ledo,
Pois a hum triste negáis isso.
DARÍO.
Trago-lhe aqui mil gaiteiros,
Lampas cada San Joáo,
Carreiras no meu ruao,
Folias de tanoeiros
i
52 LIVRO II.

Em calcas e em jubáo:
E alvoradas de cravo,
E canella vein á máo,
Servíndo-a como escravo,
Cantando a D''amores jago,
Quando as torgo d"1 amores dormo,
E todas reluziráo.
Miiihas lagrimas ausentes,
Meus suspiros sem ventura,
O inhibas dores ardentes,
Agora que estáis presentes,
Alegrae vossa tristura.
Saudades porque caíais,
Angustias, que nao dizeis,
Gemidos, que nao falláis
Os tormentos que ine dais,
Os males que ine fazeis?
FELICIO.
Nao entra mais isso nella
Que prégacáo em Judeu:
Despois que inoro coin ella,
Nem d'albarda nem de sella
Nao me quer haver por sen.
AUR. Darío Ledo, digo eu
Que tanjáis hüa cantiga.
DAR. Nao sei que cantiga diga
Hum liomem de amor sandeu.
(Tempera a viola.)

FELICIO.
Em tudo ha hi temperanca
Por mais que se desteinpera;
Mas meu mal nao se tempera,
DAS COMEDIAS. 53

Porque nao tem concordanca,


Xein comigo nao s'espera.
E o que ine desespera
Com razáo,
Quebrar-me fortuna mera
As cordas do coracáo,
Com que nascer nao devéra.
( Cania e tange Dario.)
DARÍO.
"Consuelo, vete con Dios;
"Pues ves la vida que sigo,
"No pierdas tiempo conmigo."
"Consuelo mal empleado,
"No consueles mi tristura;
"Vete á quien tiene ventura,
"Y deja el desventurado.
"No quiero ser consolado,
"Antes me pesa contigo:
"No pierdas tiempo conmigo."
Entra Crasto Liberal, velho muito loucao, t diz:
CRASTO.

Onde Felicio guerrea,


E Dario Ledo tambeni,
Nao sei se zombará alguem
De o velho Air á tea
Amador mais que nínguem.
E pois, Senhora Cismena,
Pera todos tendes pena,
E a dais em abastanca;
Dae-ine a mím hüa pequeña
De vossa sancta esperanca.
54 LIVRO II.

CISMENA.
Cant'á agora sera bom
Que diga de meu direito.
Que saude ou que proveíto
He o que Cismena tein,
Que a seguís tanto a peito?
De veréis d'ha ver respeíto
Que sois casado e ja velho.
CHA. Com esse ar, com esse geito,
Minha vida e meu espelho,
Me tendes todo desfeíto.
CISMENA.
Muito tarde vos chegáráo
Táo engañados engaños.
CRA. Porque despresais meus annos,
Que a servir-vos me arribáráo
Sem receio de meus dañinos?
Cis. Oh enleios soberanos!
CRA. O Senhora,
Morte e vida dos humanos!
Cis. Se vos visseis ca de fóra
Mudarieis esses pannos.
CRASTO.
Senhora, em concrusáo,
Eu tenho inuita fazenda,
Sem filhos, e grande venda,
E liberal condicáo,
Sein haver quem ine reprenda.
Cis. Senhor, nao estou ein tenda,
Nem ine vendo.
CRA. Vossa Mercó' nao entenda
DAS COMEDIAS. 55

Que eu isso assi entendo.


Mas faco justa offerenda.
Eis aquí cem pecas d'ouro
Pera fruíta ás lavrandeiras:
Porque iráo ser terceiras
Deste vosso leal mouro,
Captivo de mil maneiras.
E depois darei janeiras
De brocado,
Por que canlem as canseiras
De mi triste angustiado
De angustias verdadeiras.
Entra hum parvo seu criado, por nome Affonso, em
busca delle, e diz:
AFFONSO.
Hou noss'amo, diz noss'ama
Qu'está h¡ o mestre esperando
Pera vos curar estando
De gota na A^ossa cama;
E que nao caíais na lama,
Que sois ma ora quebrado.
DAR. Nao he esse bom recado
Pera quein serve tal dama.
AFFONSO.
E que vades vos asinha,
Porque nao vos tome ca
A dor de pedra, eramá,
Porque toméis a mézinha.
CHA. Ácinte, senhora minha,
Mandáo ca estes recados
Huns chimes escusados,
Sendo a ciosa mantona.
56 LIVRO II.

Porém he minha vontade


De vos dar quanto liver,
E nao quero outro haA-er
Senáo a propriedade
Que tenho em vos querer, (vai-se)
DAR. Senhora, vou-ine a perder:
Bou-me ó demo que me leve.
Cis. Quando-Dario se me atreve,
O Déos! pera que he viver!
DARÍO.
Ora andae gastando a vida
Na escola
E em cordas de Aiola,
E A7ÓS mal agradecida!
Piedade merecida
Quizera eu,
E vos nessa despedida
Fázeís de in¡ descaída
D e JudeU. (vai-se)
Vem Affonso de parte de Crasto Liberal com hum
cesto de macans, e diz:
AFFONSO.
Olhae ca, eu venho ca —
Qual de vos he Xirímena?
AUR. Esta he a Senhora Cismena.
AFF. Essa, eramá:
Diz meu amo que aqui está,
Tudo isto que aqui vein,
E como vos vai bem,
Qu'elle Aira logo ca.
Com prazcr da fineta canino as lavrandeiras.
' B i e n quiere el viejo,
DAS COMEDIAS. 57

"Ay madre mía.


"Bien quiere el viejo
"A la niña."
CISMENA.
Dize-Ihe lu, mano, lá
Que por usar cortezía
Fica ca esta iguaria:
E porém o que a dá
Traz errada a fantasía.
AFF. E minha aína he judia
Táo pellada;
Se a vísses em trosquía,
Parece demoninhada
Mettída na ahnotolia. (vai-se)
CISMENA.
Felicio, em toda inaneira
Nao curéis mais de mí nada,
Porque em váo tomáis canseíra.
FEL. Oh minha vida primeira!
Minha morte apressurada!
Eu me Arou pois me mandáis;
Porém pera onde irei?
Cis. Onde mais ine nao vejáis.
FEL. Esse galardáo ine dais?
Cis. Senhor, eu nao vos chamei.
FELICIO.
Nisso se paga o amor?
Cis. Qual amor? nao vos entendo.
FEL. Ó minha preciosa flor!
Cis. Vossa? livre-me o Senhor.
FEL. Ao inferno in'encoinmendo!
Pois assi me mandáis ¡r,
58 LIVRO II.

You-me a térra despovoada,


Sem mais comer nein dormir,
Até que veja partir
Minha alma desesperada.
Hum Principe da Syria veio desconhecido a ver a ci-
dade de Creta, e tanto que vio a Cismena, ficou perdido
por ella, e determinóte de a servir d'amores, e sé poz por
page de Felicio, assi desconhecido, porque indo com elle a
visse. E foi em sua cotnpanhia aquellas montanhas onde
Felicio detenninou de acabar seus dias. Em partindo Fe-
licio com seu page, diz
CLITA.
Deve ser fiiho de rei
Ou d'algum grande senhor
Este page que aqui vem
Com Felicio, e jurarei
Que he mais A-OSSO que nínguem.
Chegando Felicio áquelle deserto com o dito page, e fa-
zendo sitas exelamacoes, respondia-lhe o Eco tía man eirá
seguinte.
FELICIO.
Oh o mais triste onde vou?
Onde A'ou triste de mi?
O dores, matae-me aqui,
Onde nunca hoinem chegou.
Eco. Hou.
FKL. Hou males, quem me vos deu
Deu-\os pera me acabar.
Oh! quem soífreu por amar
Tamanho mal como o meu?
Eco. Eu.
FEL. EU em me matar nao pecco;
DAS COMEDIAS. 59

Nem sei se alguem ine responde.


Que sera, ou quem, ou donde,
Que ande em valle táo sécco ?
Eco. Eco.
FEL. He conveniente quando
A tal tristeza combate,
Que homem per si se mate
Por nao andar mais penando.
Eco. Ando.
FEL. Ando qual nunca foi tal.
O voz, pois que me respondes,
E de mi assi t'escondes,
Que fareí a tanto mal?
Eco. Al.
FEL. Al nao quero, al nao sei.
r

O voz de meu triste grito,


Pois que sabes meu esprito,
Has medo que morrerei?
Eco. Hei.
FEL. Hei por bem morrer por ella:
Poréin damno táo profundo
Qual mulher o fez no inundo,
Servindo-a sem ofFendella?
Eco. Ella.
FEL. Ella me dá triste guerra,
Ella me tein despedido,
Ella me tem convertido
Que moiira por esta serra.
Eco. Erra.
FEL. Quem ine inatasse improviso!
r

O Aida, Arac-te daqui;


3Iorte, lembra-te de mi.
60 LIVRO H.

Que tu es meu paraíso.


Eco. Isso.
FEL. ISSO mata e trespassa,
Que nao me acaba meu mal:
Queima-ine o fogo infernal
Desta cliamma que me abrasa.
Eco. Assa.
FEL. Assa o triste de mi;
E he ja cinza tornado
Meu coracáo lastimado.
Quero-me enterrar aqui.
Eco. Hi.
FEL. Hi tívera eu feitos iaes
Males contra Arós, Cupido,
E fóra de vos ouvido,
Pois que a Aida ine tomáis.
Eco. Mais.
FEL. Mais que a vida? e o porque?
Porque minha alma outrosí
Mata a si, e mata a ini:
Táo profunda he minha fé.
Eco. He.
FEL. He polo mereciinento
Daquella por quem me fino.
Sentes tu que nao sou diño
Desta pena que consento?
Eco. Sentó.
FEL. Sento-me estar nao sei onde,
Vejo-me so acabar.
Por isso quero ir buscar
Esta A'oz que me responde.
Eco. Onde?
DAS COMEDIAS. 61

FEL. Onde está minha alegría,


Que seinpre foge de mi?
Vem ca, nao facas assi,
Que ein ver-te descansaría.
Eco. Iría.
FEL. Iria lá, mas foges mais.
r

O tristes saudades minhas,


Nestas montanhas maninhas
Que descanso he o que dais?
Eco. Ais.
FEL. Ais, leíxae partir a Aida,
E partir-Arosdieis daqui.
Tal estou, triste de mi,
Que nao sei se he ja partida.
Eco. Ida.
FEL. Ida, que a vida se vai
Quando a gloria se parte,
Porque he della a maior parte.
E a ti como te A^aí?
Eco. Ai!
FEL. Ai! que todo ine tresanda
E se \SÁ, porque parece
Que quein me falla padece
E anda nesta demanda.
Eco. Anda.
FEL. Anda? He pera lnwer dó
Como das almas damnadas:
Cuideí que estas tristes fadas
Foráo dadas a mi so.
Eco. Oh!
FEL. Oh que zombas ja de mi;
Pois sabe Déos lá no ceo
«2 LIVRO II.

Que do maior bem nasceo


0 mal de que me perdí.
Eco. Di.
FEL. Di Cpois «áo ha quem s' iguale
A ineu mal neste desterro}
Como chamaráo ao perro
Mouro de mi neste Aballe?
Eco. Alie.
FEL. Alie captivo ine chamo
Sein senhor e sem senhora.
Oh! se tu amasses ora,
Cramarias como eu cramo.
Eco. Amo.
FEL. Amo e mouro, ai de mi!
Vai-se esta alma dolorosa.
r

O voz tambein lacrimosa,


Vou-me do mundo e de ti.
Eco. I.
FEL. Hi! minha afina desespera,
Porque me fallas esquÍAra.
Dize-me se es cousa Aiva;
Se o es, ahí uT espera.
Eco. Era.
FEL. Era pera perguntar
Se tem minhas lagrimas contó;
E se haA^era ahí alguem
Que tantas possa assomar.
Eco. O mar.
FEL. O mar de choros abranjo.
Pois fallas como quem ama,
Que te parece esta dama
Que me faz tal desarranjo?
DAS COMEDIAS. 63

Eco. Anjo.
FEL. Anjo que tu, alma, adoras:
Anjo que ine tira a Aida,
Hora he de seres ida
Do triste corpo ein que moras.
Eco. Horas.
Em este espacio cahido Felicio de todo morto, diz o en-
cuberto Principe:
PRINCIPE.
Quiero ver si desmayó
Felicio, ó como esto va.
Hou Felicio! esforzá!
Pulso no le siento yo.
No cale, mas muerto está.
Oh cuitado!
Como estás desfigurado
Siendo galán tan real,
Muy discreto namorado;
Y de leal
Moriste desamparado.
Oh muerte mal empleada!
Pues tu fe era tan buena,
No debiera ser pensada.
Ni la Señora Cismena
Deja de ser la culpada:
Que el matar
No es cosa de loar,
Cuando sin razón se hace;
Que á Dios place
Que amemos en tal lugar.
Ya que es hecho tal lavor,
Tal IaA'or, y sin porque.
64 LIVRO II.

Porque así murió de amor,


De amor y desamor:
Su ánima por do fue?
Adonde iría?
Que se supiese su vía,
(Hablo como quien se velaj
Saberia de la mía,
Que otra tal muerte recela,
Si dicha no la desvia.
Ya que es muerto en tierra agena
Despreciado del amor,
Quiero ir do está Cismena,
Y veremos si le pena
De perder tal servidor.
Chegando a Cismena, diz:
O Señora, en quien se encierra
Mas perfección que pedisteis —
Cis. Inda Felicio quer guerra?
Pni. Muerto queda en triste sierra
De la muerte que le disteis.
Serviros tomó por AÍCÍO,
Y al cabo morió por AOS
El cuitado de Felicio.
Cis. Pois inorreu em seu offícío;
Que culpa lhe temos nos?
PRI. Pues qué haréis á mí ahora,
Que muy mas Adiestro ine siento?
Cis. Vos tainbein! PRI. Sí, señora.
Cis. Pois quem no ar se namora
Pene, e queixe-se do A*ento.
Ao menos escarmentó
Fóra bem que houvera ahí:
DAS COMEDIAS 65

Se vos vinheis sempre aqui


Com Felicio, seu tormento
Viste-Io vos? P R I . Bien lo vi.
Cis. Pois que esperáis ATÓS de mi?
PRI. Príncipe de Siria, señora,
Que por page me ineti,
Y por vuestro estoy aqui:
Qué haréis de mí ahora?
Piedad de quien nació
Hijo de rey lan preciado,
Mucho exento y adorado;
Y todo cuanto quise yo,
Tanto tuve en mi mandado.
Nunca supe desdichado,
Que era pena;
Y si ahora soy despreciado,
Vos sois quien peca, Cismena,
E yo soy el condenado.
Piedad, señora, espero,
Preso de Aruestra beldad:
O señora, piedad,
Que sois el mí amor primero,
Amor en gran cantidad.
Castigad vuestra beldad
Rigurosa,
Y mirad mi magest'ad,
Y mi pena dolorosa,
Y que muero en tierna edad.
CISMENA.
Senhor, eu nisto me fundo:
Dou-lhe que sejais Alteza;
Vol. H.
66 HVRO II.

Nao darei minha límpeza


Ao maior reí do mundo,
Nem por nenhua riqueza.
PRINCIPE.
Oh qué sobra de firmeza!
Bien merece
Vuestra gran bondad nobleza:
Pues del todo os guarnece
La soberana grandeza,
Quiero que seáis princesa
En Siria, y esposa mía,
Porque acabe *en alegría
La fuerte Aventura vuesa,
Y el mal que me dolía.
Mas alta, dice Platón,
Es la virtud, que el estado;
Y á esta es obligado
El inundo de darle el don,
Y el cetro mas honrado.
Dadme la mano, señora,
Por mi esposa y laureola,
Pues que sois merecedora
Para ser emperadora,
Cuanto mas princesa sola.
CISMENA.
7
Este amor he A erdadeíró:
Isto si, si que ine apraz,
E nao amor de sequeiro,
Que emíiin, por derradeiro,
Quanto faz tanto defaz.
PRI. Quedad, señora, segura,
Y estad aparejada.
DAS COMEDIAS 67

LAVRANDEIRAS.
Senhora, nao mais costura;
Festejemos tal ventura,
Ventura bem empregada,

Alevantáo-se todas as lavrandeiras, e fazem festa á


princeza D. Cismena. E com esta festa se acaba a sobre-
dita comedia.
F I G U R A S .

O VIUVO.
HUM FRADE.
PAULA ,
( Filhas do Vmvo.
MELICIA )
COMPADRE do Viuvo.
D. ROSVEL — Principe disfarcado.
ü. GILBERTO — Seu irmao.
HUM CLÉRIGO.

A comedia seguinte tracta de hum homem mercador,


que morava em Burgos, e linha hüa muito nobre dona por
mxdher, a qual fallecida da vida presente, lhe ficdrao ditas
filhas; hüa per nome Paula, outra Melicia; e de como ca-
sáriío. Foi representada na era do Senhor de 1514.
COMEDIA DO VIUVO.

Entra primeiramente o Viuvo, dizendo.


ViUAO.
Esta desastrada vida
Que perdiera yo en perdella,
Cuando al mundo fue venida?
Pues amara y dolorida
Es toda ini parte della,
Que perdí muger tan bella
Como estrella.
Y pues triste me dejó,
Muriera mezquino yo,
Y no ella.
Pluguiera á Dios que cupiera
La suerte suya por mía;
Pues quedé, que no debiera,
Robada mi compañera,
Consumida mi alegría.
Vida sin lal compañía,
Noche y dia,
Me da tan triste cuidado,
Que jamas seré, cuitado,
El que solía.
Que acordarme su nobleza,
Su beldad, su perfección,
Sus mañas, su gentileza,
Su tan medida franqueza,
ro LIVRO II.

Quebrántame el corazón.
Oh qué humilde condición,
A la razón
Cuan callada, cuan sufrida,
Toda plantada y ingerida
En descricíon!
Alegre con mi alegría;
Con mi tristeza lloraba;
Pronta á cuanto yo decía;
Quería lo que yo quería;
Amaba lo que yo amaba:
Toda su casa mandaba,
Y castigaba,
Sin de nadie ser oida,
Ni de persona nacida
Profazaba.
Amiga de mis amigos,
Amparo de mis parientes;
Muy humilde á mis castigos,
Cruel á mis enemigos;
Placentera á sus servientes;
Tal que con fieras serpientes
Impacientes
Hiciera vida paciente:
No fue muger mas prudente
En las prudentes.
Enemiga de celosas,
De las castas compañera,
Contraria á las maliciosas,
Callada con porliosas,
Para virtud la primera:
Muy honesta y placentera,
DAS COMEDIAS. 71

De manera
Que nunca se desmedía;
Sublimada en cortesía
Verdadera.
Envidia, ni parlería
Jamas la sentí ni oí;
Y sí mal de alguien oía,
Desculpaba y respondía
Como si fuera de sí.
Pues que tanto bien perdí,
Porqué nací?
O muger, flor de las castas,
Donde estás, que tú te gaslas
Y á mí?
En el punto que partiste,
No debiera quedar yo;
Porque la vida que es triste
Mas muere quien la resiste,
Que el muerto que la dejó.
Aquel Dios que la llevó
Pido yo
Muerte luego por victoria;
Pues la vida de mi gloria
Ya pasó.
Vem hum Frade a consolar o f'iuvo, c diz:
FRADE.
La gloria y consolación
Daquel que es padre eterual
Sea en vuestro corazón,
Porque tenéis gran razón
De llorardes vuestro nial.
Viu. O ini padre espritual,
T¿ LIVRO II.

Cuan mortal
Hallareis á vuestro amigo!
Por amparo y por abrigo
Lloro tal.
Tal que nacer no debiera;
Pues sabes como perdí
Mu«rer tanto á mí manera.
FRA. Quien perdió tal compañera
Que llore, digo que sí.
Viu. Oh cuan amiga de mí!
FRA. Bien lo vi.
Viu. Oh mí vida trabajada!
Ay de ini ahna penada,
Y ay de ti!
FRADE.
Tomad un consejo, hermano,
Deste amigo singular:
Pensad como lo humano,
Unos tarde, otros temprano,
Nacimos para acabar:
Y todo nuestro tardar,
A buen juzgar,
Por mas trabajo se cuenta;
Pues no se escusa tormenta
Neste mar.
Quitad el luto de vos,
Y eses paños negregosos;
Que cierto sabemos nos
Negar los hechos de Dios
Todos los que están lutosos.
Que se muestran soberbiosos
De quejosos,
DAS COMEDÍAS ?3

Cargados de paños prietos,


Repugnando los secretos
Gloriosos.
Los que mueren por la leí
Mueren con dulce victoria
Por su leí y por su reí.
Solo con memento mei
Son sus ánimas en gloria;
Su muerte es lan notoria
De memoria,
Que el luto desbarata;
Mas antes la escarlata
Es meritoria.
Tristeza fuerza es tenella,
Y lo al son desA^aríos;
Y algunos bien sin ella
Publican la su querella,
En hábito de judíos.
Son unos usos vasíos,
Y muy fríos,
E yerra quien lo consiente:
Que quedó de la sementé
De gentíos.
Y los que mueren honrados,
Como acá vuestra muger,
Contritos y confesados:
Que hace luto menester?
Lo que, hermano, habéis de hacer,
Ha de ser:
Aquel dador de las vidas
Daldc gracias infinitas
Con placer.
74 LIVRO II.

Vuestras hijas consolad


Con gracia muy amorosa.
Vos, hermanas, descansad;
Á Dios os encomendad,
Y á la Virgen gloriosa.
Inclinaos á toda cosa
Virtuosa,
Terneis Aida descansada;
Que sin esto es la pasada
Peligrosa.
Quedad con nuestro Señor.
Viu. Padre, quedo consolado.
PAD. El vero consolador
Chrísto nuestro Redentor
Esfuerce vuestro cuidado.
PAU. Oh qué padre tan honrado!
Viu. Descansado
Algún poquito me siento,
Y parte del pensamiento
Me ha quitado.
Ora oídme, hijas mías;
lia muerte por mi ventura
Me llevó mis alegrías,
Por que no fuesen mis días
Mas de cuanto es la tristura.
Lo que mas desasegura
Mi holgura,
Temer daño que se os siga.
Esto hace mi fatiga
Mas escura.
Poique esta vida engañosa
En la tierna mocedad
DAS COMEDIAS. 75

Es tan peligrosa cosa,


Que harto bien temerosa
Está mí seguridad.
Acuérdese os la honestidad
Y claridad
De vuestra madre defunta;
Y en tanta bondad junta
Contemplad.
Vem hum sen Compadre visitá-lo, c di:
COMPADRE.
Qué haces, compadre amigo?
Viu. Lo que quiere la tristura,
Sin inuger y sin abrigo.
COM. Bien trocara yo contigo,
Sí supiera tu ventura:
Que tengo inuger tan dura
De natura,
Que se da la vida en ella
Mejor que en sierra de Estrella
La verdura.
PAULA.
Mirad vos qué cosa aquella!
COM. Digo A^erdad, por mi vida.
MEL. Pues muy noble dueña es ella.
COM. Ansí me gozo yo en vella
No con vida tan cumplida:
Alma que no tiene salida,
Allí metida
Ha de estar hasta mi padre:
Gran invidia te he, compadre,
Sin medida.
Á la fe, dígotc, amigo,
76 LIVRO II.

Que te AÍIIO buena estrena:


Eso haga Dios conmigo.
Viu. Oh, calla, que soy testigo
Que es gran mal perder la buena.
COM. 3las cadena
Quieres tu que el hombre tenga,
Que muger con vida luenga,
Aunque rebuena?
No estés, compadre, triste
Por salieres de prisión;
Cuando tu muger perdiste,
Entonces remaneciste;
Mas fáltate el corazón.
Viu. Según va sin conclusión
Esa razón,
Tú estás fuera de ti,
Y aumentas mas en mí
lia pasión.
PAULA.
Oh qué mala condición!
COM. Mas es buena y muy real,
Porque yo tengo razón.
PAU. Mas habla en tí Nerón,
Y parécete muy mal.
COM. S Í yo tengo un animal,
Pese á tal,
Y una sierpe por muger,
Y por mas mi daño ser,
Es inmortal!
Tanto monta dar en ella,
Como dar ncsa pared:
Cuanto mas riño con ella.
DAS COMEDIAS. 77

Tanto mas se goza ella.


Para Dios me hacer merced
No tiene hambre ni sed;
Mas que una red
Siempre harta y aborrida:
Si esta Aida tal es vida
Me sabed.
Cuando con ella casé,
Hallé, norabuena sea,
En ella lo que os diré;
Cuando bien, bien la miro,
Vile un rostro de lamprea,
Una habla á fuer de aldea,
Y de Guinea
El aire de su meneo:
Cuanto mas se pon de arreo.
Está mas fea.
PAULA.
Oh, calla; no digáis eso,
Que es mucho gentil muger.
COM. No le visteis el avieso:
Pone el blanco desto en grueso,
Que diablo habéis de A*er.
Dejemos su parecer
Escaecer,
Y Arengamos á lo al.
No estará sin decir nial,
Y lo hacer.
Ella, por dame esa paja,
Mete la calle en revuelta;
Seso, ni sola migaja;
Dueña que se ATolveo graja,
78 LIVRO II.

Y anda en el aire suelta:


Hallóla muy desenvuelta
En dar vuelta
Dende lo bueno á lo malo:
Lleva infinito palo
Nesta envuelta.
Si algo estoy de placer,
Dice que yerba he pisado;
Si triste, quiéreme comer.
Yo no me puedo valer;
Así me trae asombrado.
Yo si trayo á mí cuñado
Convidado,
Muéstrame un ceño tamaño,
Que me hace andar un año
Renegado.
Miente que es cosa espantosa;
Oh cuantas mentiras pega
Muy porfiada y temosa!
Soberbia, invídiosa,
Siempre urde, siempre trasfiega;
Su lengua siempre navega,
Como pega,
Para todo mal ardida;
Si se halla comprehendída,
Iiuego niega.
PAULA.
Porqué deshonráis ansí
Vuestra muger? COM. Porque es plaga,
Que des que la recebí,
Bien pueden decir por mí
— El marido de la draga. —
DAS COMEDIAS. 79

No hay quien me deshaga


Tan gran llaga,
De toda paz enemiga.
Por Dios que no sé que diga
Ni que haga.
Yo na la puedo trocar,
Yo no la puedo vender,
Yo no la puedo amansar,
Yo no la puedo dejar,
Yo no la puedo esconder:
Yo no la puedo hacer
Entender,
Sino que es ella una rosa,
Y que está muy desdichosa
En mi poder.
Y con todas sus traviesas,
Está tan llena de vida,
Que con dos bombardas gruesas,
Ni con lanzadas espesas
Será en vano combatida.
Viu. O mi muger tan querida
Fallecida,
Toda paz, sin nunca guerra,
No debieras de la tierra
Ser comida.
Yo me voy ora a resar
• ' • * • - *

Sobre aquella tierra dura,


La cual 110 puedo olvidar,
Hasta mi muerte acabar
Este dolor sin ventura.
COM. XO quiso mi desventura,
Tan escura,
8o Livao II.
Que estotra fuera tras dolía:
Que yo le hiciera una bella
Sepultura.
Y le hiciera rosar
lias horas de los dragones:
Y le hiciera cantar
Las misas so el altar.
Alumbradas con tizones,
Ofertadas con melones
Badeones,
Todos Henos de cevada,
Por incienso una ahumada
De bayones.
Diz Mclicia a Paula, ficando sus:
MEUCIA.

O Paula hermana mía,


Quien había de pensar,
Cuando mí madre vivía.
Que la vida que tenia
Estaba para acabar!
PAO. NO ha hi que confiar
Ni descansar
El que por reposo puna;
Pues no se escusa fortuna
Al navegar.
Ahora que mi madre estaba
Mas alegre y descansada,
Cuando mucho sana andaba,
Y mas recia se hallaba,
Cuan presto fue salteada!
MKL. Oh triste desamparada!
PAO. YO cuitada
DAS COMEDIAS. 81

A quien tanto bien quería,


Que su ánima partía,
Yo nombrada.
MELICIA.
Gran secreto es el morir.
PAU. Mas es mucho declarado:
Mayor secreto es Aivir,
Y ser cierto de partir,
Y no estar aparejado.
Cada uno está engañado
Y confiado
Que tiene luenga la vía.
MEL. Ansí fue la madre mía,
Mal pecado.
PAULA.
Ella muy devota era,
Muy prudente, y así regida:
Yo no sé de que manera
Su muerte fue tan ligera,
Que improviso dio la vida.
A la muerte no hay guarida
Conocida;
Y quien mejor se guarece
No escusa, ine parece,
La partida.
Segue-se como D. Ros ve l, principe de Huxonia, se
namorou destas filhas do Viuvo; e porque nao tinha en-
trada nem maneira pera Ihes fallar, se fez como trabalha-
dor ignorante, e fingió que o arrepellárao na rúa, e entrón
acolhendo-se em sua casa. Diz
PAULA.
Qué buscáis? Ros. Vengóme acá.
fi
Val. I I .
82 LIVRO II.

PAU. Á que? Ros. Vengo á quien quiera.


MEL. Donde eres? Ros. Soy de acullá,
Del Villar de la cabrera,
Llámanine Juan de las Brozas,
De en cabito del lugar
Natural,
Hermano de las dos mozas:
Sé hacer priscos y chozas
Y un corral.
PAULA.
Ora pues A*ére en buenora.
Ros. Y si yo soy Juan de las Brozas
Gaitero.
PAU. Eso es menester ahora,
Como están ledas las mozas.
MEL. Vé, cabrero.
Ros. No tengo ahora adonde ir.
MEL. Tienes padre ó madre tú ?
Ros. Eso ha:
Pláceme, quiéroos decir:
Ya mi padre se ha moni;
Nel limbo está.
PAULA.
Y tu madre? Ros. Acá quedó:
Con un fraile está soldada
Muy valiente:
Luego la vestió y le dio
Una faja colorada
De presente.
Cuando retozan la fiesta,
Es mi madre tan aguda
Y tan garrida,
DAS COMEDIAS. 83

Siempre ella urde la siesta,


De sesuda.
PAULA.
Qué vida era la tuya?
Ros. Rascaba la bestia al fraile
Acá y allá,
Y díla al diablo por suya,
Y aprendí hacer un baile,
Y estoyme acá.
Yo quisíéraine casar,
lia nobía, mi fe, no quiso:
Pues ni yo;
Antes quiero acá inorar.
Viuvo.
Qué haces acá, porquero?
Ros. No soy, no. Viu. Pues qué eres?
Ros. Juan de las Brozas,
Ya per soy medio gaitero,
Hago notas y placeres
Á las mozas.
Viu. Donde eres? di, amigo.
Ros. De mí tierra. Viu. Qué lugar
Es el tuyo?
Bos. No es inio, que es de un crigo.
Yr no tengo de negar
Que no es suyo.
Viuvo.
Y ahora qué querías?
Bos. Acogíme de un rabasco
Nigromante,
Que me hizo ñifrerías.
Quien le quebrara aquel casco
6*
84 LIVRO IL

Fuertemente!
Sacudióme un torniscón,
Y sacóme un rifanazo
De la greña:
Corralóme en un rincón,
Y dióme con un palazo
De la leña.
Viuvo.
Algo le harías tú.
Ros. Nada, nada, jurí á san:
Venía yo haciendo
Tu ru ru ru ru,
Viene el liideputa can,
Que lo yo encomiendo.
Viu. Quieres conmigo vivir?
Ros. Si me dais buena soldada,
Trabajar:
Yo bien tiengo de servir
En ganado y en sembrada
Y en caArar.
Ir por leña y al molino,
Traer mato para el horno
Y aun cocer;
Vindimiar y coger lino,
Hacer vino y poner torno,
Si os menester.
No, cuanto es de servicial,
No Arenga el diablo acá
Que mas haga.
Yo os daré un corral,
Que el ganado no habrá
Miedo de plaga.
DAS COMEDIAS. 85

Hagamos luego avenencia.


Viu. Está tú conmigo un año.
Ros. Bien será:
Dejólo á vuestra conciencia:
Como vierdes que me amaño,
Así paga.
Viu. Vé por leña. Ros. Que me place;
Y veréis cuan presto vengo
Y cuan corriendo.
Viu. Trae muy valiente hace,
Y lleva el alijo luengo.
Ros. Bien lo entiendo.
Viuvo.
Habérnoslo menester
Como el pan que nos mantiene.
PAU. E S bien mandado.
MEL. Servicial debe de ser.
Viu. Veamos cuan presto Aiene
Y cuan cargado,
Zurrón luego aparejado,
Y unas dos cabezas de ajos
Y del pan,
Y luego vaya al ganado;
Que quien paga los trabajos
Dé el afán.
Oh que norabuena Arengas!
Ros. Qué mozo Juan de las Brozas!
Ya yo vengo.
Viu. Antes que mas te detengas,
Dalde luego el zurrón, mozas:
Vé corriendo.
Lleva los puercos contigo.
86 LIVRO II.

Y inamenta las cabritas


Mas recientes,
Y mira lo que te digo,
Las Aracas y becerritos
Paramentes.
- Y á la noche de camino
Trae leña para el horno.
Ros. Que me place.
Viu. Muy buena dicha nos AÍHO.
PAU. Viénenos como hecho al torno.
MEL. Bien lo hace.
Viu. Sabed que el buen servidor,
Que lo pesen á oro fino
Es merecido.
PAU. Asegun fuere el señor,
Ansí abrirá camino
A ser servido.
El poco precio al soldado,
Los servicios mal mirados
Del señor,
Por bueno que sea el criado,
Los brazos lleva cansados
Al labor.
Viu. El que es buen servidor
Siempre ha buen galardón,
Si atura.
PAU. Mas antes lo ha peor,
Pues no usa de razón
lia ventura.
Vem Rosvel cantando.
"Arrimárame á ti, rosa,
"No me diste solombra."
DAS COMEDIAS. 87

MELICIA.
Oh como es tan placentero!
Ros. Juan de las Brozas Juan
Me soy yo.
Viu. Y el ganado? Ros. Esperad, diré primero:
Anduve tras un gavillan,
Y allá quedó.
Ora, nuestramo, hablad vos.
Viu. Queda todo en el corral?
Ros. Quien? El ganado
Bueno está, bendito Dios;
No se me perdió ni tal,
Él sea loado.
Viuvo.
Dalde luego de cenar.
Ros. Que no tengo gana yo
De comida;
Mi placer es trabajar
Y hacer doquier que esto
Es mi vida.
Viu. Cena, cena: dalde el pan
Y migas á gran hartura,
Con del ajo:
Y comerás, hijo Juan,
Que el comer es la holgura
Del trabajo.
Voyme á cas del sacristán
Á pagalle las campanas
Que tañió:
Quédate, hijo Juan.
Ros. Ambas á dos sois hermanas?
MEL. Creo yo.
88 LIVRO II.

Ros. Bien lo sé por mi ventura;


Que si yo no lo supiera,
No penara:
Ambas vi por mí tristura:
Antes no nacido fuera,
Que os mirara.
PAULA.
Jesu! Jesu! Jesu!
Mas es esto que pastor.
MEL. Como! ay Dios!
Y nos Uamabámosle tú!
Decidnos por Dios, señor,
Quien sois A'os?
Ros. Soy quien arde en vivas llama.»
Pastor muy bien empleado
En tal poder,
Por serdes, señoras damas,
Hermanas en dar cuidado
T

A mi querer.
Pido á vuestra gran beldad,
Que no os turbéis, señoras,
Por aquesto:
Que en guardar vuesa beldad
Yo seré á todas horas
Mucho presto.
No quiero sino miraros,
No quiero sino serviros
Desta suerte;
Y si os ofendo en amaros,
Bien lo pagan los suspiros
De mi muerte.
Don Rosvel soy, generoso,
DAS COMEDIAS. 89

Hijo de Duque y Duquesa,


Muy preciado.
El amor es tan podroso,
Que me trujo á la defesa
Con cayado.
Mándame ser alquilado,
Ansí lo tengo por gloria
Y lo quiero,
Sin ser de vos remediado,
Ni querer nunca victoria,
Ni la espero.
MELICIA.
Cuanta yo, no sé que diga.
PAU. Nunca tal se acaeció,
Por mi fe:
Tal señor en tal fatiga!
Ros. Que no quiero ser yo, no;
Ya me troqué:
Desde el dia que os miré,
De tal suerte me prendisteis
Improviso,
Que mi muerte ya la sé:
Y pues que Aros me la disteis,
Es paraíso.
Soy vueso trabajador,
Como son los alquilados:
Mas no soy —
Dejadme morir pastor,
Llorando por los collados
Dende hoy!
No sepan parte de mí:
Don Rosvel no quiero ser
90 LIVRO II.

Ni por sueño;
Que otro soy des que os AÍ,
Y por vos es mi placer
Tener dueño.
PAULA.
La merced que nos haréis,
Que somos huérfanas señor,
Y sin madre,
Que os vais y nos dejéis:
No matéis al pecador
De mi padre.
Abatís en vueso estado,
Siendo noble en señoría
Por derecho,
Y queréis ser deshonrado
Por tan pequeña contía,
Sin provecho.
ROSVEL.
No me deja ir amor
Ni las mis andas tamañas,
Que departo;
Que es tan vivo ini dolor
Que me abrasa las entrañas,
Si me parto.
No pude de otra manera,
Para veros y serviros,
Sino ansí:
Hice yo que no debiera,
Porque muchos mas suspiros
Tengo aqui.
PAULA.
Ora eso que aprovecha,
DAS COMEDIAS. 91

Sino para daros pena


Y á nos temor?
Ros. No tengáis de mí sospecha,
Porque eso mas pena ordena
A mi dolor.
MEL. Ora id os con Dios, señor;
Que es raíz de todo mal
Conversación.
Ros. Pues me prendió vuestro amor,
Donde iré, pues está tal
Mi dolor?
PAULA.
Como puede ser querer,
Sin que sea el conversar
Gran peligro?
Ros. Por vos amo el padecer;
No procuro descansar
Neste siglo.
MEL. No queremos tal criado,
Ni queremos tal vaquero
Ni pastor.
Ros. No quiero tal alto grado;
Hacedme vueso porquero,
Que es menor.
Vem o Viuvo e diz:
Qué haces, Juan? Comiste?
Ros. Harto estoy repantigado
De comer.
VIU. Paréceine que estáis triste.
Ros. Mas contento, Dios loado,
Y de placer.
Nuestramo, mirad; 50 estaba
92 LIVRO II.

Acá á mis amas hablando


Del deseo
Y gana que me tomaba
De mi tierra, que mirando
No la Areo.
Suso, qué tengo de hacer?
Viu. Toma aquel azadón
Y la azada.
Ros. Todo eso es mi placer,
Que faltase el galardón
Y soldada.
Viu. Muy bien te será pagada.
Vé, cava la viña luego
Sin reproche,
Hien caA^ada y adobada,
Y trae cepas para el fuego
A la noche.
A la aldea quiero ir,
Y veré nuestro montado
Como está;
Tarde tengo de venir.
Vosotras tened cuidado
En lo de acá:
Estas puertas bien cerradas,
Y no estéis ociosas
En estrado;
Que las mozas ocupadas
Escusan causas dañosas
A l Cuidado. (vai-se)
PAULA.
Qué consejo tomaremos?
Nosotras, si nos callamos,
DAS COMEDIAS. 93

Consentimos:
Estamos en dos extremos,
Porque á él también erramos,
Si decimos :
Son dos extremos sin medio.
MEL. El medio es si nos dejase.
PAU. TU no A'es
Que eso no lleva remedio ?
Si consigo lo acabase,
Cierto es.
MELICIA.
Pues nos que lo publiquemos
r

A mi padre ó á alguien
Es niñería.
PAU. Ningún favor no le demos.
MEL. Y quien por nos sirve tan bien
Qué diría?
PAU. Y pues quien le pagará
La grande soldada suya
Norabuena ?
MEL. Hermana, él se enfadará:
Culpa no es mia ni tuya
De su pena.
Vem D. Rosvel, cantando, carregado.
ROSA T EL.
"Mal herido me ha la niña,
"No me hacen justicia."
Ha, nuestramo! PAU. Fuera es ido.
Ros. Consuelo de mi alegría,
Como estáis?
Mi gloria, mi bien cumplido?
Que la muerte y vida mia
94 LIVRO II.

Vos la dais.
PAU. Señor, porqué os matáis,
Y nos dais vida cuidosa
Sin porque?
Porque en Arano trabajáis?
Ros. O esmeralda preciosa!
Bien lo sé.
Pero este mi sudor
Amata las Aivas llamas
Que amor quiso,
Y el afán de mi labor
Por vos, muy hermosas damas,
Es paraíso.
Y el ganado que apaciento
Como á ángeles del cielo
Lo adoro
Por A^ueslro merecimiento,
A que no pido consuelo,
Sino lloro.
Otra gloria no me siento
Sino desesperar della,
Y desespero:
De mis trabajos contento,
A nadie tengo querella;
Y sé que muero,
Y sé muy cierto que no
Con servicio os enamore
Ya en mis días:
Porque no soy diño yo,
Ni sé como os adore,
I'dolas mías.
DAS COMEDIAS. 95

PAULA.
Por cual de nos lo habéis vos1
Ros. Dos amores se ayuntaron
Contra mí;
IiOs males de dos en dos
Mi cuerpo y alma cercaron,
Cuando os AÍ.
De dos en dos los dolores,
Dos saetas en mí siento,
Y me hierieron:
Ay, que juntos dos amores
En un solo pensamiento
No se vieron!
Sufrir doble padecer,
Padecer doble pasión,
Cual me veis,
No sé como puede ser;
Que mi fuerza y corazón
Vos la leñéis.
La una de Aros bastara
Para que mí poder fuera
Consumido,
Y la vida y alma gastara.
No que mi querer pudiera
Ser perdido.
Vem o Viuvo, e diz
ROSVEL.
Nuestramo, Avenís cansado?
Viu. Mas antes mucho contento
Del casal;
Porque dejo concertado
Para Paula un casamiento
96 LIVRO II

Muy real:
Y aun Melicia esla semana
Le espero de dar marido
De hazaña —
Lloras? Ros. Lloro una hermana,
Que poco ha se ha morido
Supitaña.
Quiero llevar el ganado
Á unos valles sombríos
Y tristoños,
Donde se harte el cuitado
De oir los gritos míos
Muy medoños.
Viu. Limpia el establo primero,
Y lleva el eslércol luego
Al linar.
Ros. Que me place, eso quiero.
Acábame ya, triste muerte,
De matar!
Viuvo.
Qué hablas? Ros. Qué he de hablar?
Digo que voy soñoliento
Y carcomido.
Viu. YO me voy ora á rezar,
Que Dios haga á tu contento
Aquel marido. (vai-se)
PAU. Oh como va lastimado
El triste de Don Rosvel!
MEL. ES de doler.
PAU. De veras es namorado.
MEL. Luego pareció en él
Su querer.
DAS COMEDIAS. 97

PAULA.
Pues no es de los fingidos,
Dame tú la fe, hermana,
Yo doy la mía,
Que no tomemos maridos,
Hasta que él de su gana
Haya alegría.
No hagamos sinrazón
A quien de amores nos trata
En tanta fe.
Perseguillo hasta la mala
Será mala condición
Y sin porque.
Yem D. Rosvel e diz:
A todos das sepultura,
Muerte; díme que es de ti,
Que te amo,
Y por mi gran desventura,
Tú te haces sorda á mí,
Que te llamo.
Pues mi ánima se enoja
Con las tristes ancias mias,
Tan penada;
Rasgada sea la hoja
Adó están escritos mis dias.
Y quemada!
Oh, por Dios, lindas señoras,
En este transo penado,
Tan mortal,
Xd os mostréis consentidoras,
Ni vea yo desdichado
Tanto mal.
V o l . U.
98 LIVRO II.

Que aunque por mi triste hado


Os caséis luego las dos.
Sabed pues
Que no dejaré el ganado,
Aunque lo mandase Dios,
Pues A'uestro es.
Yo lo tomo por guarida;
En pastor quiero servir
Y tener fe.
Y esta será mi vida,
Muy agena deste nombre
Yo lo sé.
PAU. NO os matéis sin porque,
Que muy fuera estamos deso,
Y bien frías.
Ros. Oh preciosa mercé!
Cuando serviré yo eso,
Diesas mías?
Pues tan firme es mi querer,
Que de mas en mas se enciende:
No por tema,
Dejaros no puedo hacer;
Y mirándoos mas so enciendo
El que ine quema.
Con ambas no puede ser
Casar yo, como sabéis;
Echad suertes,
Que quiero satisfacer
La mercé que me hacéis
De mil muertos.
MELICIA.
Burláis os de nos, señor?
DAS COMEDIAS. 99

Paréceme sueño esto.


PAU. Ansí lo es.
Ros. No quiero mas ser pastor,
Echad vuesas suertes presto
Y vello heis.
Tirou D. Rosvel o chapeirao, e ficou vestido como quem
era; e forao-se as mocas a el Reí D. Joiío III, sendo prin-
cipe, (que no serao estova) e lhe perguntárao dizendo:
Príncipe, que Dios prospere
En grandeza principal,
Juzgad vos:
La una Dios casar quiere,
üicid vos, señor Real,
Cual de nos.
Julgou o dito Senhor r/uc a mais velha casasse pri-
meiro, c diz
MELICIA.
En Paula cayó la suerte,
Dios se acordará de mí.
PAU. Has codicia?
Ros. Heme aqui en otra muerte;
Que peno ansí como ansí
Por Melicia.
Andando D. Gilberto, irmao de D. Rosvel, correndo
o mundo em busca de sen irmao, por inculcas veio ter com
elle, e vendo-o lhe diz:
GILBERTO.
El Señor sea loado
Y toda la corte del cielo,
Pues mi hermano y mi consuelo
Tengo hallado.
Todo el mundo he buscado
7*
100 LIVRO II.

Por hallarte muerto ó vivo,


O si eras libre ó cautivo,
O desterrado.
ROSVEL.
Mi padre y madre son vivos?
GIL. Vivos? de lloros dolientes
Diéronle mil accidentes
Tus motivos.
Están tristes, pensativos,
No sabiendo qué es de ti;
Y salen fuera de sí
Con gemidos.
Dijéronle unas hechiceras:
Puercos guarda Don RosA'el,
Y dos mozas contra él
Son guerreras.
Amalas tanto de Aceras,
Que otra cosa no adora;
De noche y de día llora
Por las eras.
ROSA'EL.
Contarte he de mi venida
En dos palabras no mas;
Porque luego sentirás
Mi fatiga.
Estas diesas de la Aida,
Reinas de la fuerza humana,
Me prendieron de mi gana
Oferecida.
No digo ser su vaquero;
Mas merece su valor
Ser un grande emperador
DAS COMEDIAS. 101

Su porquero.
Hermano, yo te requiero,
Por la mucha virtud dolías.
Que nos casemos con ellas,
Yo primero.
Amparemos y honremos
Huérfanas tan preciosas,
Que en las cosas virtuosas
Son extremos.
Villas y tierras tenemos;
Hagamos esta hazaña,
Que quede ejemplo en España,.
Y no tardemos.
Toma esta por muger,
Y á mí darás la vida
Y ternas muger nacida
A tu placer.
Quien casa por solo haber,
Casamiento es temporal.
GIL. Como á hermano especial
Lo quiero hacer.
Tomou D. Rosvel a Paula pola mao, e D. Gilberto a
Melicia. E neste passo veio o pae dellas, e cuidando que
era d'outra maneira, se queixa dizendo:
Viuvo.
Señores, qué cosa es esta
Que hacéis en mi posada
Dolorida y quebrantada,
Descompuesta ?
Qué cosa tan deshonesta
Para señores reales!
102 LIVRO II.

Guardar las huérfanas tales


Qué os cuesta?
Las que debéis amparar,
Las que debéis defender,
De A^uestro oficio Aaler
Y ayudar?
Y viéndolas maltratar,
Socorrer á su flaqueza,
Esta es leí de nobleza
Y de loar.
Pues que batallas A-encísteis,
Que gentes desbaratasteis,
Un triste Alejo matasteis
Y hundisteis;
Flaca casa destruísteis,
Sacasteis triste tesoro:
Y para Aros, hijas, lloro
Consensisteís.
PAULA.
Oh, no riñáis, padre, no,
Mas debéis mucho holgar,
Pues Dios nos quiso amparar
Y nos casó.
GIL. Señor, vuestro yerno só.
Ros. E yo Arucstro yerno é hijo:
Dios y la ventura quiso
Y también ya.
Viuvo.
Loado y glorificado
Sea nuestro Dios podroso.
Que me hizo lan dichoso
Y descansadlo!
DAS COMEDIAS. 10.3

Caso bien aventurado,


Por mi consuelo acaecido,
Sin tenelo merecido
Ni soñado.
Voy á hacelo á saber
r

A mis amados amigos,


Porque sean los testigos
Del placer.
Y también es menester
Que busque mil alegrías,
Y bailen las canas mías:
Esto ha de ser.
Vao-se as mogas vestir de festa, e vcm quatro cantores,
<: andarao hum compasso ao som desta
Cantiga.
"Estanse dos hermanas
"Doliéndose de sí;
"Hermosas son entrambas
"Lo mas que yo nunca vi.
"Hufa! hufa!
"Á la fiesta, á la fiesta,
"Que las bodas son aquí.
"Namorado se había dellas
"•Don Rosvel Tenorí:
"Nunca tan lindos amores
"Yo jamas contar oí.
"Hufa! hufa!
"Á la fiesta, á la fiesta,
"Que las bodas son aqui."
t'em as mogas vestidas de gala, <• entra o Clérigo com
o Viuvo. c diz o Clérigo desposando-os:
104 LIVRO II.

CLÉRIGO.
Este santo sacramento,
Magníficos desposados,
Es precioso ayuntamiento;
Dios mismo fue el instrumento
De los primeros casados,
Por su boca son sagrados:
Serán dos in carne una,
Benditos del sol y luna,
En un amor consei'vados.
El Señor sea con vos:
Las manos aqui pomeis,
Y decid: Nombre de Dios,
Don Rosvel, recibo á vos
Et cetera, ya lo sabéis
Y aquel dicho de Noé;
Le dijo Dios: Multiplicad,
Enchid la tierra y holgad
Con salud, que Dios os dé.
F I G U K A S.

LAVRADOR. MELIDONIO.
CELIPONCIO. COLIMENA.
GALAMENO. BELICRASTA.
LIBERATA. SIL VENDA.
HERIDEA. SOSSIDERIA.
ERMITÁO. PERIGERIA.
MONDERIGON. PEREGRINO.

Comedia representada ao muito alto, poderoso, e nao


menos christianissimo Rei D. Joño terceiro em Portugal
deste nome, estando na sua muito honrada, nobre e sempre
leal cidade de Coimbra. Na qual comedia se tracta o que
deve significar aquella Princesa, Leño, e Serpente, e Calix,
ou fonte, que tem por divisa: e assi este nome de Coimbra
donde procede, e assi o nome do rio, e outras antiguidades
de que nao he sabido verdadeiramente sua origem. Tudo
composto em louvor e honra da sobredita cidade. Feita e
representada era do Senhor de 1527-
COMEDIA SOBRE A DIVISA
DA CIDADE DE COIMBRA.

ARGUMENTO.
PEREGRINO.
Pois que o honor do mundo presente
Se dá coin rezao á antiguidade,
Infinita honra Ion» esta cidade,
Segundo se escreve copiosamente.
E a honra maior
He que o altissiino Imperador,
Vossas Magestades, a Sacra Iinperatriz,
A alta Duqueza Dona Beatriz,
Se sois sacros fructos, daqui foi a flor.
E tambem a Rainha que he d'Inglaterra,
E a verdadeira Rainha de Franca,
A quem Déos, Déos nosso dé tanta bonanca
Como dá Maio ás flores da serra:
O lucido Infante,
Rei Duque d'Austria, Heitor militante,
E o sacrosancto nosso Cardeal,
Os nobres Infantes, bem de Portugal,
Daqui procedestes, e ¡s adianto.
Assi que os principes da Chrislandade,
Que agora reináo, daqui florccéráo:
Aqui jaz o Rei de que procedéráo:
E que o fez rei senáo esta cidade?
DAS COMEDIAS. 107

Porém muito antes,


Ante que houAresse aqui nunca habitantes,
Sendo isto serra de grande montanha,
No tempo que Merida A^eio a Hespanha,
E os montes d'Armenia eráo de gigantes,
Veio de lá aqui habitar
Hum feroz salvagem gigante senhor.
E por ser historia de gósto e sabor,
Ordena o autor de a representar,
Porque vejáis
Que cousas passáráo na serra onde estáis,
Feitas em comedia muí cháa e moral,
E os mesmos da historia polo natural,
E quanto falláráo, nem menos nein mais.
Por ella veréis porque esta cidade
Se chama Coimbra, e donde lhe ATem
O Leáo e Serpe e Princeza, que tem
Por sua divisa ja d'antiguidade:
E flor provas certas
Veréis donde veío e de que planetas,
Que falláo aqui rouquenhos os mocos,
E todalas mocas tein curtos pescocos,
E ináos rebuchudas, e as unhas pretas.
Outro si as causas porque aqui tem
Os clérigos todos ínui largas pousadas,
E niantem as regras das Aidas casadas.
Desta antiguidade procedem tambem,
Sem serom culpados,
Porque sao lois dos antigos fados,
Cousa na (erra ja determinada,
Que os sacerdotes que nao tem multada
De clerigosinhos, sao excoinmungados.
108 LIVRO II.

E a causa porque as muflieres daqui


Sao melhor casadas que as deosas do monte:
Porque esta comedia vos mostrará a fonte
De todalas cousas, que ouvistes aqui.
Ja sabéis, senhores,
Que toda a comedia cometa em dolores;
E aindaque todas cousas lastímeíras
Nao sao muito finas sem outros primores;
Entrará primeiro hum homein lavrador
Qu'em tempo daquelle salvage morava
Ca n'outra serra, onde so lavrava
Com filhos e filhas, e grande dolor.
O qual se lamenta
Da adversa fortuna ein que corre tormenta.
E porque a comedía vai táo declarada,
E táo raso o estylo, nao serve de nada
O inais argumento: e cerro a ementa.

Exclamacao do muito nobre Lavrador, principiando a


comedia procedente.
LAVRADOR.
AA7ante, desdicha mia,
Pues corres en pos de mí,
No á ciegas;
Acaba, que bien seria
La muerte que te pedí,
Y me niegas.
O fortuna sin piedad,
Como eres descompasada
Sin medida!
Pues nací con brevídad.
DAS COMEDIAS. 109

Dame muerte abreAiada


Y no cumplida.
Si el nacer fue en un momento,
Porqué muero en tantos días,
Padeciendo
De suerte que siempre siento
La muerte de Jeremías,
Yo viviendo?
Tú y los cielos y Dios
Me tenéis muy mal tratado:
Y lo peor
No haber siquiera en A^OS
Piedad deste cuitado
Labrador.
Que en esta sierra do inoro
Las aves y animales
Han pesar
Porque grito, porque lloro,
Porque son mis llantos lales
Sin cansar.
Y las braAras espesuras
Me fueron y son piadosas
Hasta aqui;
Y las grutas mas escuras
Desean de ser Iumbrosas
Para mí.
Y lú, fortuna y Dios,
Con todas sus hierarquías,
Adó estáis?
Sin nunca ser contra ATOS,
Con las tristes ansias mías
Os gosaís.
110 LIVRO II.

Oh! reniego de la Aida,


Pues tronos y dominaciones
Y postestas,
Y la orden mas subida,
Con gloria de mis pasiones
Hacen fiestas.
Los spiritos infernales,
Con que ya ine gosaria,
No los veo,
Mas siéntolos en mis males:
Tan mala es la pena mia
Que poseo!
De las ánimas dañadas
Siento las noches y dias:
Sus congojas
En mis entrañas quemadas,
Y las suyas con las mías
Quedan flojas.
Vem hum Ermitao e diz ao Lavrador
ERMITAO.
Hermano, Dios te cousuele,
Y te salve y te aconseje,
Y dé paciencia.
LAV. Consolará como suele;
Que él me roba, y hace herege
Mi conciencia.
En.M. Quisiérate perguntar
Hacia adó caminaría
Por aqui,
Que hallase algun lugar
Áspero sin alegría
Para mí?
DAS COMEDIAS. m

Mas véote tan lloroso,


Que es mejor de perguntarte
Por (i mismo.
LAV. Todo el que nació desdichoso
Cred cierto que no hubo parte
En el baptismo.
Pero cuéntame primero
Porque vas buscar primores
De tristura.
ERM. Eso te diré postrero;
Porque son unos dolores
De otra cura.
Lo tuyo será profundo,
Pues de Dios ansí querellas
Sin recelo.
Quejaste también del mundo,
De los ángeles y estrellas,
Y del cielo.
LAV. Quiero abrirte mis entrañas;
Contarte he, y oirás
De mi llaga
Que cobré nestas montañas,
Y quizá tú me dirás
Lo que haga.
Yo soy hombre generoso
De noble sangre nacido,
Y por huir
Del estado peligroso,
Mudé, por no ser perdido,
Mi vivir,
Escogiendo por mejor,
Para el ánima salvar
112 LIVRO II.

De afrenta,
La vida del labrador,
Que no tiene de que dar
Tanta cuenta.
Casé con una pastora,
Que andaba en esta montaña
Otra tal,
Hija de grande señora
Y del señor de Bretaña,
Mi igual,
Y con la misma intención
Que yo, dejó su estado
Y su tierra,
Y acertó por conjunción
Casarnos entre el ganado
Desta sierra.
Ella cada año paría
De dos en dos las crianzas
Tan hermosas,
Que en ellas se parecía
Y parece que son plantas
Generosas.
Vino Dios ya sin razón,
Estando resando ella
En mi corral,
Consentió que un dragón
Me hiciese viudo della,
Por mi mal.
No bastó: mas va en siete años
Que no cogo pan ni nada
En mis herdades
Con los inviernos tamaños,
DAS COMEDIAS. 113

Que todo asuela la helada


Y tempestades.
Estoy de hijos cargado,
Lloran por mantenimiento
En pos de mí.
La nieve mató el ganado,
La fruta llevóla el viento
Por ahí.
Las hierbas secó el frió,
Las legumbres no nacieron,
Mal pecado,
Ni lleva peces el rio;
Hasta las aves se fueron
Del montado.
Ya me canso de decir,
— Hijos, no sé que os haga:
No lo tengo. —
Señor, queraisme acudir
Con consejo en esta plaga
Que sostengo.
ERMITAO.
Toma tu hijo primero,
Y entrégale su hermana
Mayoral:
Él es muy buen ballestero,
Salválaha de buena gana
Deste mal.
Irán por esas montañas,
Por osas desiertas tierras.
Mataran
De las aves y alunarías;
V ni, I I .
114 LIVRO II.

Y por las breñas y sierras


Vivirán.
El otro un poco menor
Entrégale la mediana,
Que es osado,
Y inui grande pescador.
Manterná muy bien su hermana
Con pescado.
Los pequeños inocentes,
Dios, cuando tú no pensares,
Haberás
De sus celestes presentes:
Y como esto compasares,
Pasarás.
LAA'RADOR.
Celiponcio y Liberata
Son los hermanos primeros.
ERM. Dios testigo,
Que hagan vida de plata
Por esos bosques y oteros,
Como digo.
LAV. El mediano es Galaineno,
Y la mediana, Heridca.
ERM. Bien íran.
LAV. Vale mas consejo bueno
Aquel que virtude ordena,
Que no pan.
Vem Celiponcio c Liberata, sua irman; c diz
CELIPONCIO.
Liberata, hermana mia,
Vamos por hi adelante,
Pues que Dios
DAS COMEDIAS. i 15

Ya no os el que solía,
Mas mudó otro semblante
Para nos.
LIB. Si tú, Celiponcio hermano,
Lo que dijo el ermitaño
Has por seso,
Y mi padre nos da mano,
Luego antes de mas daño
Se haga eso.
Y cumple de caminar,
Sí vieres que de razón
Se ha de hacer;
Porque el buen remediar,
Como pasa su sazón,
No puede ser.
Descarguemos de cuidado
Mi padre, que lanío Hora
Nuestro daño;
Porque, un mal remediado,
Los otros teman su hora
Por el año.
Chegño a tomar a bengao do pae, o qual diz:
LAVRADOR.
O mi hija liiberata,
Discreta, mansa, muy buena,
Despedios;
La mía bendición beata
Os echo con triste pona.
Hijos míos,
Llevareis esta ballesta,
Y esta chuza llevad
Y eslabón.
a'
116 LIVRO II.

Liu. Muy cara partida es esta:


Otra vez, padre, me echa
La bendición.
Vem Galameno e Heridea, e diz
GxVLAMENO.
Pues que ansí es, Heridea,
Quiérome hacer Aventurero
Por el mundo,
En antes que mas mal sea.
Celiponcio es el primero,
Yo el segundo.
Esfuérzate, hermana mia;
Cuidado otro no tendrás
Principal,
Sino tomar alegría,
Y de tu bondad; no mas:
Yo de lo al.
HERIDEA.
Vamos, Galameno hermano,
Que bien dice el ermitaño.
Todavía
Hayamos lumbre á la mano,
No veamos mas mal año
Cadaldía.
Porque quien no se aArentura,
Como dicen comunmente
Por ahí,
No espere por ventura,
Que el bien nunca está presente
Luego allí.
LAVRADOR.
O Galameno y Heridea,
DAS COMEDIAS. u?

Celeponcio y Liberata
Idos son.
En antes que morir os vea.
Partios con mi sacrata
Bendición.
Galameno, hé aqui tu hermana,
Y esta cana de pescar
Y pedernal:
Hijos, quien no anda, no gana.
Yo quedo para llorar
Aun mas mal.
Razoamento do Lavrador com o Ermitao, depois de par-
tidos os filhos, ficando sos.
LAVRAÜOR.
Ora me di tu ventura,
Padre bienaventurado
En el cielo,
Consejo de mi tristura,
Maestro de mi cuidado,
Y mi consuelo.
ERM. YO soy el Rei Ceridon
De Corduba y Andalusía;
Y un selvage,
A que llaman Mondrigon
Cautivó una hija mia,
Por mi ultrage.
Y cautivó un su hermano,
Á que llaman Melidonio,
Y cuatro damas
Me robó el cruel tirano
Por el poder del demonio
Y' de sus llamas,
118 LIVRO II.

Y cuatro hermanas dellas.


La una llaman Sosideria,
Y la otra Belierasta,
Y la otra Perigeria,
La otra ha nome Sihrenda,
Todas de muy noble casta.
Y este Monderigon,
Estando ellas jugando
Descuidadas
A la fuente del balcón,
Las llevó, como volando,
Caut¡ATadas.
Oh mi hija Colimena,
Coliinena la prínceza
Natural!
Donde estás, dulce serena,
Que nunca para esta presa
Hiciste mal?
LAVRADOR.
Ese caso es tan terrible,
Que no os puedo aconsejar
Ni valer;
Y paréceme imposible
Podellas jamas cobrar,
Ni aun ver.
ERM. NO querría sino vellas,
Por A7er como están tratadas.
Quedaos á Dios.
LAV. El os dé noticia dellas,
Y en todas vuesas pisadas
Sea con vos.
DAS COMEDIAS. 119

Saem-se o Rei ermitao, e o Lavrador. e logo se repre-


senta em como Celiponcio e Liberata andáo nesta serra
de Coimbra cacando, e as aventuras que lhe nella aconteceo.
LIBERATA.
Hermano, para cazar
Yo no soy ninfa del cielo,
Ni soy diesa:.
Canso, y no puedo aturar.
CKL. Hermana, tengo recelo
De una cosa:
Si te dejo en las montañas
Sola, y voy con la ballesta
Por la sierra,
Ha hi muchas alimañas.
Luí. Buena chuza será esta
En esa guerra.
Busquemos un lugar tal,
Do pueda estar socegada
De mi espacio.
CEL. Aqui es muí natural
Que fue ya casa poblada
Y un palacio.
Aqui estarás encubierta,
Dentro destas arboledas
Escondida:
Fuente de agua siempre cierta,
Cantan aqui aves ledas —
Tienes vida.
Á la noche yo vendré,
Quédate á Dios, Liberata,
No te enhades.
LIB. Cierto es que cubada re:
120 LIVRO II.

Pero andar: mas mal me trata


Por los valles.
Fica so Liberata, e diz:
En montaña tan terrible
No me conviene dormir.
Quiero pensar,
Por no dormir, el increíble
Caso que nos hizo ahuir
Y derramar.
Soledad tengo de ti,
Heridea, hermana mía
Y mis enojos.
Quien te apartó de mí?
Si te veré algún dia
Ante mis ojos?
Y aquel tiempo pasado
De nuestra conversación
Dulce y bella,
Que ansí fortuna ha llevado,
Si buscará conjunción
Para volvella?
Lo que fue si vuelve á ser
Lo mismo? — creo que no.
Sí, será,
Que el tiempo tiene poder.
No puede — mira en esto.
Quizás podrá.
Vendrá algún año bueno:
Mi padre es de buena edad
Compasada,
Y volverá Galameno
DAS COMEDIAS. 121

Y Heridea á nuestra edad


Deseada.
( De enfadada canta )

"Soledad tengo de ti,


"O tierra donde nací."
O Salvage Monderigon ouvindo cantar Liberata, vem
a ella; « ella de temor chama pelo irmao, dizendo:
LIBERATA.
Celiponcio! 0 hermano,
Mi guardador, donde estás?
Mo.N.Qué habéis?
Luí. Sois drago, y habláis humano!
MON.Señora, hombre soy y mas:
Porqué teméis?
LIB. Vos tened os allá: — oís?
Que yo también nací en sierra.
MON.NO os entiendo:
Y tan valiente os sentís,
Que me queréis hacer guerra?
Yo me riendo.
Queréis que me arriedre mas?
LIB. Ansí cumple á vuestra vida.
MON. lióme aqui.
LIB. Allá, allá, bien atrás!
MON. Doncella tan atrevida
Nunca vi.
LIB. Juro á mi vida mortal
Que si nías aqui llegáis,
Que os haga y o . . . .
3ION.Señora, no tanto mal:
Si muerto me deseáis,
Muerto só.
122 LIVRO II.

Tomad la hacha y escudo,


Y á mí en vuestra prisión
Muy de gana.
LIB. NO enseñéis señas al mundo,
Que yo tengo corazón
De serrana.
MON. Porque sois de serranía,
Me matastes vos de amores».
LIB. NO os entiendo.
MON. Digo que sois alma mia.
LIB. AI diablo tanta arabía,
A que yo lo encomiendo.
MONDERlGON.
Queréis ser mi namorada?
LIB. Namorada qué cosa es?
MON.Linda cosa:
Serdes mansa y moderada,
Hablar risueña y cortés
Y amorosa.
Y pues hermosa nacistes...
LIB. Qué queréis, señor, á eso?
MON. Que escuchéis,
Pues que á mi sierra veniste*¡,
Y creáis cuanto por vueso
Me tenéis.
Que yo bien puedo cautivaros,
Sin mirar en vuestra pena
Ni querellas;
Pero no quiero'enojaros,
Como hice á Colimena
Y sus doncellas.
Porque aquello fue por guerra,
DAS COMEDIAS. 123

Que su padre me hacía,


Sí lo oísteis.
Mas vos, vida, en esta sierra,
Hermosa, sin compañía,
Me prendisteis.
LIBERATA
Id os con Dios norabuena.
Mí hermano vendrá ora;
No tardará,
Receberá mucha pena.
MON. Digo que yo me iré, señora:
Hecho está.
Mandadme vos, rosa inia,
Que este siervo hará luego
Tu mandado.
LIB. NO vengáis mas ningún dia;
Catad, señor, que os lo ruego.
MON. Oh cuitado!
Lo imposible queréis.
Señora, como os llamáis?
LIB. Liberata.
MON. Nombre de libre tenéis.
LIB. Señor, pídoos que os vais.
MON. Eso me mata.
O Liberata, Dios mío,
Líbrame de tu esquivanza
Tan esquiva.
Señora, dadme alvedrío
Que vuelva por esperanza,
Con que viva.
Partido Monderigon, fica Liberata a solas fallando
comsigo, c diz:
124 LIVRO II.

LmERATA.
Es ido: pues por mi fe
Que no sé por qué interese
Deseaba que se fuese,
Y pésame porque se fue,
Como si bien le quisiese.
Y pluguiese al alma mía
Que yo pudiese librarme;
Que esto que hace pesarme
Porque se fue, algún dia
Quizá podrá amargarme.
Mas qué digo?
Por ventura es enemigo,
Que quiere hacerme herege:
Mas no rege,
Que el amor sentó conmigo.
Qué haré?
Si volvíere, mostrarle he
Manso corazón, ó bravo?
Mas él náceseme esclavo,
Para qué me ablandaré?
Todavía
Seguiré la tema mia;.
No me quiero condenar,
Ni pensar
En este hombre hora ni dia.
Bien mirado
Es tan dulce y bien hablado —
Que lo sea norabuena;
Que esta lena
Después da luengo cuidado.
Vcm Celiponcio da caga, e diz.
DAS COMEDIAS. 125

CELIPONCIO.
Ya la caza viene asada.
LIB. Seáis mucho bien venido.
CEL. Hermana, como te ha ido?
LIB. Bien, que ya estoy descansada.
CEL. Dios loado!
Vengo bien aventurado.
LIB. Cómo, Celiponcio? qué?
CEL. Una serpiente hallé,
Y un león muy denodado,
Y dainbos quedan allí.
Guárdanme en esta espesura,
Que animal ni criatura
No osa á llegar á mí.
Ellos veníanme á matar,.
Yo fui los halagar,
Echando la ballesta á mal,
Y tomáronme amor tal,
Que no ine pueden dejar.
LIB. Qué son? qué son?
CEL. Una sierpe y un león.
Dígote, hermana querida,
Que aman tanto ini vida,
Y dambos en tanto extremo,
Que todo el mundo no temo.
Bendita nuestra venida!
LIB. Parece cosa divina.
CEL. Toma, hermana, esta bocina.
Porque la conocen bien;
Y si te enojare alguien,
Toca, y verás cuan aína
Destruen Jerusalen.
126 LIVRO II.

LIBERATA.
Fuerte cosa es esa, hermano!
CEL. Anda, ven acá conmigo,
Y verás lo que te digo
Si te lo pongo en la mano.
LIB. Bien creo que será ansí;
Pero bien me estoy aqui:
Canso mucho por la sierra.
CEL. Si alguno te hiciere guerra,
La bocina queda ahí.
Monderigon nao ousando quebrantar a postura que Li-
berata lhe poz que nao tornasse ahí mais, mandou-lhe hum
recado por Melidonio, irmao da princesa Colitnena; e
porque elle vinha muito desfigurado cnberto de cabello, e
com hüa braga de ferro, diz Liberata, espantada delle:
LIBERATA.
Quien sois? Oh Abálame, Dios!
MEL. Soy captivo sin razón
Del cruel Monderigon,
Que es tan perdido por Aros,
Que pasa de perdición.
Y tiene mi hermana presa,
Colimena la princesa,
Cuatro damas sus hermanas que prendió.
Señora, á ATOS me enAió,
Que os dícese esta empresa.
LIBERATA.
Dejemos eso agora,
Que en después me hablareis.
Mas decidme, ansí gocéis,
Como trata esa señora?
MEL. Tan mal que os espantareis,
DAS COMEDIAS. 127

Sin causa y sin razón.


Luí. Nunca sale de prisión?
MEL. De la prisión ni momento;
Mas para le dar tormento
Busca toda invención.
Señora, por se gosar,
Que cautÍA^ó estas señoras:
Cada dia á aquellas horas
Las hace todas cantar.
Sus llantos son muy continos;
Lloran con ojos divinos;
Y las sus lágrimas son
Arroyos del corazón,
Con que molerán molinos.
Escuchad, que aquellas son.
Aqui canta hüa doce música de longe e, acabada, diz
LIBERATA.
Oh qué gran dolor de oír!
Cuanto mas será de ver.
Cuitada de Cofimena!
MEL. Qué tengo allá de decir?
Ya lo querría saber;
Y si fuese nueva buena...
LIB. YO no entiendo vuestraino,
Ni entender no lo quiero;
Ni ine espere, ni lo espero;
Que si ine ama, lo desamo;
Si ine espera, lo desespero.
MELIDONIO.
Señora, muy malo es eso.
LIB. Decídselo ATOS peor,
Porque no vuelva á mis ojos.
128 LIVRO II.

MEL. Diré que no os hallé,


Que sois ya ida de aqui.
LIB. NO quiero ya, hermano, así:
Decidle por vuestra fe,
Que no cure mas de mí.
MEL. Señora, así lo diré, (vai-se)
LIBERATA.
Si aquel amor es fingido,
Aqui se ha de declarar;
Porque él tiene de aflojar,
Criendo que es tiempo perdido
Conmigo mas porfiar:
Y si afloja,
Cuya será la congoja?
Qué gracia si fuese mía!
Como me arrepentiría,
Si me deja y se enoja!
Torna Monderigon a Liberata, proseguindo sua ten-
gao, dizendo:
MONDERIGON.
Bien veo que me desmando,
Pues paso A7uestro mandado:
Mas qué haré, que soy forzado
De Adiestro amor en que ando,
Que es mucho demasiado!
Y porque esto no miráis,
De veros me desterráis,
Que es quemarme en AriYo fuego.
Señora, por Dios os ruego
Que miréis lo que mandáis.
LIBERAT v.
Ahora quiero yo saber
DAS COMEDIAS. 129

Quien sois, y lo que queréis.


MON. Señora, mercé me hacéis
En quererme conocer.
Y cuanto á lo prünero,
Rei de los desiertos só,
El mas cruel venturero
Que de Armenia salió,
Y mas fino caballero.
Y cuanto, señora inia,
A saber que es lo que quiero,
Tan desacordado muero,
Que no sé lo que querría:
Tanto estimo lo que quiero!
Y es que os vais conmigo,
Terneis el inundo en la mano.
LIB. Guárdeme Dios! y mi hermano?
MON. No es mejor un amigo
Verdadero, amigo sano?
Como yo que os tendré
En el alma de mi vida?
LIB. Id os, señor, por vuestra fe,
Que harto desconocida
A mí hermano seré,
Sí hiciere tal partida.
MON. Pues no queréis ir conmigo,
Yo os quitaré ese abrigo.
LIB. Á mi hermano amenazáis?
MON. Señora, vos ordenáis
Que se haga lo que digo.
Porque haberos, rosa mia.
Forzosamente, os vilesa,
Lo que no tongo de hacer;
Vul. u .
130 LIVRO II.

Mas, muerta la compañía,


Vos amareis mi noblesa
De vuestro propio querer, (mi-se)
LIBERATA.
Oh dudosa confusión!
A quien tendré lealtad?
Al amor, ó al hermano?
Bien siento á cual es razón,
Mas no tengo libertad,
Que amor la tiene en su mano.
Si á mi hermano esto digo.
Matará á Mondrigon
Con la sierpe y el león:
Que es el primero amigo
Que entró en mi corazón.
Si á mi hermano lo callo,
Y lo topare á deshora
Solo y las manos atrás,
Y por Aontura nial al lo,
Yo seré la causadora,
Y traidora, que es mas.
A la ventura sagrada
Lo dejo, y salgóme afuera,
Que esto me es mejor hacer,
Que no estar apasionada;
Que en la cosa Aenidera
Dios sabe lo que ha de ser.
Vem Celiponcio de matar sua caga, e diz:
CELIPONCIO.
Sálvete Dios, Liberata.
LIB. Porque tardas tanto, hermano?
Estoy siempre solitaria.
DAS COMEDIAS i31

CEL. Sábete que amor me mata:


Que yo Atendría temprano,
Mas mi vida es tributaria.
Está qui cerca un castillo,
Donde están cuatro doncellas,
Cada cual mas escogida.
No puedo mas encubrillo,
Que por la señora dellas
Tengo de poner la vida.
Ella sale á una ventana,
Yo miróla de un penar;
Y cuando la veo á deshora,
Juróte por Dios, hermana,
Que prueA'o para A7olar
De loco una grande hora.
Determino de matar
Aquel salvage cruel.
LIB. Y qué mal te hizo él?
Has, hermano, de mirar
Que es la sierra suya del.
Vem o salvage Monderigon, c com suas armas arre-
mete a Celiponcio, e diz:
MONDERIGON.
Confiésate, hombre cuitado,
Que no quiero que mas vivas.
CEL. Tomaisme despcrcebido,
Yr un señor tan esforzado,
Que ganó tales captÍAras,
Me había de hacer partido.
MONDERIGON.
Hace tú con lu hermana,
Que mi' quiera bien, no mas,
9*
132 LIVRO II.

Y que se vaya conmigo.


CEL. Señor, de muy buena gana.
Tú, hermana, lo harás,
Y él hará bien contigo.
Muestra, hermana, el caramillo,
Y tañeré de placer;
Pues Dios te quizo hacer
El bien que no sé decillo.
Toca Celiponcio sua bozina, pela qual a Serpe e o Leño
conhecia sua necessidade; os quaes acodan mui apressada-
mente, e mátao o salvage Monderigon: e logo se vño ao
seu caslello, e tirño a princesa Colimena e suas donzellas
e irmños: e emtanto que vño ao castello, diz o Peregrino
que fez o argumento:
PEREGRINO.
Monderigon morto, segundo se prova
Fizeráodhe a cov^a lá cima n'huin pego,
Pelo qual se chaina este rio Mondego;
E a sepultura se diz Pena-cova.
Fugio Liberata da furia disforme,
E indo fugindo mui fraca e inui febre,
Tornou-se animal que se chama lebre,
Que de Liberata tomou este nome.

Entra Colimena e suas Damas com seus irmños, com


grande apparato de música, e a Serpe e Leño acompa-
nhando a dita princesa; c acabada a música, diz o Pere-
grino do argumento:
PEREGRINO.
Senhoras Donzellas, por vossas nobrezas,
Ouo liña o liña declaréis a nos
DAS COMEDIAS. 133

As antiguidades de quem fostes vos,


Especialmente a Suas Altezas.
Vos, Belicrasta senhora, primeiro.
BEL. EU edifiqueí a villa do Crato,
Que de Belicrasta se chamava o Crasto,
Depois corrompeo-se o nome verdadeiro.
Todos os Crastos procedein de mi.
Foráo d'antigamente muí leaes:
Mui poucos delles veréis liberaes:
Pela maior parte sao bons pera si.
As muflieres de Crasto sao de pouca falla,
Fermosas e firmes, como saberes
Pola triste morle de Dona Inés,
A qual de constante morreo nesta sala.
PEREGRINO.
Sahi a lerreiro, Senhora Silvenda,
Vos que nascestes coin favor dos polos.
SIL. EU edifiqueí a villa de Arraiolos
Ha dous mil anuos, diz a minha leuda.
Daqui procedéráo Silvas e Sílveíras,
Desta Silvenda que vedes aqui.
Sao pera conselho, (vos crede-ine a mi)
Que sao desta casta grandes cabeceiras.
Poréin sao zelosos de mocas de geito,
Porque alguns dos Silvas sahem lá ós Fogacas,
E sao dezedores de súpitas gracas,
E pezadhe muito com pouco proATeito.
Poréin as muflieres Silvas e Sílveíras
Sao asselladas com sello dos Ceos;
Muí castas, discretas, amigas de Déos,
E todas merccein famosas cimeiras.
134 LIVRO II.

PEREGRINO.
Sus, vos, Sossideria, onde repousa
O canto d'antiguidade Romana.
Sos. Eu edifiqueí a villa da Arrifana,
E de mi procedem todos os de Sousa;
Os Sousas que o sao digo eu poréin,
Porém os de Sousa que bein Sousas sao,
Sao homens de paz, poe tudo em rezáo,
Bos caAralleiros ñas partes d'alem.
E sao Aerdadeiros e dissimulados,
Amigos do Rei e bos servidores:
Muito a miude comecáo amores;
Poréin nunca acabáo de ser na morados:
E as muflieres Sousas de nacáo
Sao boas, sao graves, fennosas, inui bellas;
E tanto ATOS monta adorardes nellas,
Como nao lerdes nellas devacáo.
PEREGRINO.

Vos, Perigeria, em todas maneiras,


Dizei o antigo de vossa nacáo.
PER. E U edifiqueí Alégrete e Moncáo,
E de ini procedem todos os Pereiras.
Sao muito fidalgos e bos cavalleiros,
Zelosos do reino, e da causa justa
Mui bos defensores, nao ja á sua cusía;
E depois de casados sao muito caseiros.
Muito querencosos de casaes e eiras,
Amigos dos poA^os que servem de graca;
Nao sao cacadores e estimáo a caca;
Attentáo por casa até ñas peneiras.
Porém as muflieres direítas Pereiras,
Oh que muflieres de tantos primores!
DAS COMEDIAS. 135

Pereiras de rosas, Pereiras de flores,


Pereiras docares, de muitas maneiras.
PEREGRINO.
Senhor Melidonio, dizei ATÓS tambem
Vossa antiguidade, depois Arossa irman.
MEL. EU edifiqueí a villa da Lousain,
S. o castello que tem.
De mhn procedéráo os Mellos direitos:
De Melidonio tomáráo o nome:
Esta he sua alcunha e seu sobrenome,
Fallo nos finos, e nao contrafeitos.
Foráo senhores que antigainente
Na honra do reino eráo os primeíros;
Táo esforzados e bravos cavalleiros,
Que nao se achava casta mais Avalente.
E alein d'esforzados,
Sempre devotos e bem inclinados:
E vcm-lhes por casta de dar quanto tem.
Poréin os d'agora nao cuide ninguem,
Que desejáo tanto de serem gabados.
Mas oh que senhoras as desta linhagein!
Oh que senhoras pera bons senhores!
Seus olhos de garcas e outras d 'acores,
Taes que nao cabem ein nossa linguagem.
Vai dellas a elles táo grande avantagem,
Sendo os de Mello fidalgos de aviso,
Como havera de Panasco a Narciso,
Ou como do vivo a hüa iinagem.
PEREGRINO.
Venha a mui alta princesa serena.
E diga cantando sua antiguidade.
COL. EU asscntei aqui esta cidade:
136 LIVRO II.

E eu sou Coimbra; e A7em de Colimena.


Tomei por devisa aqueste Leáo
E aquesta Serpente, por que fui livrada;
E o calix do meio he cousa errada,
Porque ha de ser torre com hüa prisáo.
E porque fui livre por graca de Déos,
Tomei estas armas, fazendo saber
Que tudo Déos faz e pode fazer,
E as cousas da térra procedem dos Ceos.
E de Colimena Arem os Menezes,
Que foráo e sao muí claros varóes:
Na guerra sao d'aco os seus coracóes,
E ein tudo se mostráo frol de Portuguezes.

E assi fenece esta comedia, saindo-se com sua tnusica.

«^•«—
F I G U R A S .
PROLOGO.
HDM P H I L o S o P H O.
HUM PARVO.

MERCADOR. DOUTOR Justica maior,


ESCUDEIRO disfarcado MOCA.
em Viuva. VELHA.
MOC, A da fingida Viuva. PASTOR.
CUPIDO. DUQUE.
APOLLO. PRINCIPE.
ELREI TELEBANO. A VENTURA.
GRATA CELIA— sua filha

A seguinte comedia foi representada ao muito alto c


poderoso Rei D. Joño o terceiro deste nome, na sua cidade
de Evora, cra do Senhor de 1536.
FLORESTA DE ENGAÑOS.

Entra logo o Philosopho com o Parvo atado ao pé, e diz:


PHILOSOPHO.
Asegun siento mis males,
Al discreto singular
Gran pena le es conversar
Con los necios perenales,
Sin lo poder escusar.
Iios muy antiguos Romanos,
Comenzando á ser tiranos,
Por que Roma se ofendía,
Yo por mi filosofía
Les di consejos muy sanos.
Y porque la reprehencion
A todos es enojosa,
Me vi en grande pasión,
Y me echaron en prisión,
En cárcel muy tenebrosa.
No bastó: mas en después
De aquesto que oído habéis,
Solo por esto que digo,
Ataron ansí conmigo
Este bobo que aqui veis.
Que lo traiga desta suerte
Al comer y al cenar,
Al dormir y platicar:
Esto so pena de muerte
DAS COMEDIAS. 139

Que no lo pueda dejar,


Hasta el morir. PAR. Haste de ir?
PHI. NO me dejarás decir
La causa que me ha Iraido?
PAR. Hasta la mañana.
PHI. Déjame ora ser oído
De esta gente cortesana.
PARVO.
Mí amo, aqui hablaré yo;
Y cuando en casa estuvierdes,
Hablad cuanto vos quisierdes,
Que nunca os diré de no,
Aunque quebréis las paredes.
PHI. Habla, por ver que dirás.
Oh, quien no sentiese mas
De lo malo ni de lo bueno,
De lo suyo y de lo ageno,
De cuanto tú sentirás!
El ini tormento se ve
Por este ejemplo esquierdo:
Si queréis matar al cuerdo,
Atalde un necio al pie.
Y ansí el seso pierdo.
r

O quizá Aino esto a ser


Porque no quise casar,
Con recelo de topar
Muger de flaco entender,
Como se suele acertar.
PARA70 (cant» )
" Llevántate, panadera,
"Si te has de llevantar,
"Que un fraile dejo muerto.
140 LIVRO II.

"No traigo vino ni pan.


"Apihá, apihá, apihá."
Decid, amo, haste de ir hoje,
O abasta la mañana?
Pin. Quien será que no se enoje,
Y todo mal se le antoje,
De una necedad tamaña?
Y no sé quien sofrirá,
Y á quien no enhadará
Los desvarios que aqui A7an.
PAR. Mirad A7OS quien sofrirá
Las muchachas que aquí síaii.
Haste de ir hoy?
PHILOSOPHO.
Deja ya esa necedá.
PAR. Y pensáis que faltará
Otro mi amo garrido?
PHI. Señores, yo soy venido...
PAR. Señores, ahora llegamos.
PHI. Calla, necio dolorido!
Mejor fuera consumido,
El dia que nos juntamos.
PAR. Decid, nuestramo, A7eamos;
Son mejores de comer
Las grajas ó los milanos?
Y mas sabéis qué yo querría?
Dormir cuatro ó cinco meses.
Pin. Ya deseo que dormieses,
Porque la embajada mia
No la impidan tus reveses.
PARVO.
Pues, mi amo, echaos vos.
DAS COMEDIAS. m

Y dormiremos á la una.
Pin. Menguada estaba la luna
Cuando nacimos los dos,
Y contraria la fortuna.
Después dormiré, amigo:
Entanto tú dormirás,
Y no soñarás conmigo;
Mas yo soñaré contigo,
Por cuanta pena ine das.
Porque cualquiera pasión,
Asegun A7eo y entiendo,
Que se siente con razón,
Ni velando ni dormiendo
Se consuela el corazón.
PAR. Pues aborrís la dormida,
No os A7ais por hi andando,
Ni me llevéis arrastrando,
Nuestramo, por vuestra vida,
Por Aros irdes escapando.
Deita-se o Parvo a dormir, c diz o
PHILOSOPHO.
Veis que hago penitencia
Desta suerte, sin pecar;
Y es tanta mi paciencia,
Siendo tal la penitencia,
Que no me quiero ausentar.
Porque la obediencia, amigo,
Las Airludes son sus puentes:
En tu hablar no te exentes,
Porque le vas del abrigo
Al peligro que no sientes.
Aun que el daño sea profano,
142 LIVRO II.

Esto toma por tu guia,


Que yo tengo al Coleo Romano,
Aunque me fue inhumano,
Obediencia todavía.
Y en cuanto la compañía,
Que la fortuna me dio,
Duerme, anunciaré yo
Una fiesta de alegría,
Que de nuevo se inventó.
Y pues ine tiene dejado,
Del autor diré el intento;
Y por ir mas declarado,
Será en prosa el argumento.
Pero, señores, os pido
Que tengáis todo encubierto.
En vuestro seno escondido:
Porque no sepa Cupido
Que descubro su secreto.

La comedia siguiente, altos y famosos señores, su


nombre es Floresta de Engaños. Y el primero engaño
es, que un pobre escudero engañó un mercader, en
figura de muger viuda. El segundo engaño será que,
siendo Cupido enamorado de la Princesa Grata Celia,
la cual era hija del Rei Telebano, rei de Tesalia; por lo
cual siendo Grata Celia hija de este rei, y Señora de la
mas excelencia y extremada hermosura del inundo, no
pudiendo Cupido haber con ella lugar solitario ni tiempo
oportuno, descansó de su angustiada vida, y determinó de
engañar al Dios Apolo, por que el Dios Apolo engañase
el Bei Telebano. Y el Rei Telebano, engañado del Dios
Apolo, llevó Grata Celia engañada á la fierra Minea,
DAS COMEDIAS. 143

adonde con grande angustia su padre la dejó desterrada


y presa; y cuando Cupido hubo alcansado y hecho su
engaño, descendió del cielo á la tierra donde presa
estaba, y fue della engañado dos veces, y ella casada
con el Príncipe de la Gran Grecia.
PARVO.
Habéinosnos hoy de ir?
PHI. Ya ha dos horas que te llamo.
PAR. YO os doy mi fe, nuestramo,
Que es gran trabajo el dormir.
PHI. Nuestro argumento acabado,
El mercader A-ereis entrar,
Y pensando de engañar,
Ha de quedar engañado.

Entra o Mercador. e diz:


MERCADOR.
Determino de fazer
Minhas casas muito bem;
Porque quem dinheíro tem
Fara tudo o que quizer.
Bem contados
Tenho Ainle mil cruzados,
Ganhados d'onzenas taes
Com esses pobres ínisleriaes,
Que estaváo necessítados.
E parece-me agora
Que ATejo desta janella
Vir para ca liña senhora,
E segundo o ar de fóra,
Viuva me parece ella.
144 LIVRO II.

Mor;. Hou da pousada!


Senhor, hüa Dona honrada
'Stá aqui pera A7OS fallar.
31ER. Entre ca, s'ella mandar,
Que eu nao faco agora nada.
VIUVA.
Olha ca, mexeriqueirinha,
Nao me descubras tu a mi.
Moc. Nao farei, por vida minha.
Viu. Porque es a mor palreirinha
Que eu em minha Aida AÍ.
Moc. Que prazer!
E eu havia de dizer
Que eréis pobre escudeíráo,
Sem cavado e sem tostáo,
E em trajos de mulher
Que is engañar hum ladráo?
Guarde-me Déos! e A7ÓS nao vedes
Segredo nao posso ter,
Se achar a quem no dízer,
E senáo essas paredes.
Que o costume
He táo accendido lume,
Depois que está encarnado,
Que, até nao ser acabado,
Nenhüa cousa o consume.
ViUVA (ao Mercador.)
Senhor, embora estojáis.
Mcn. Embora estojáis, Senhora:
Que he o que demandáis?
Viu. EU o direi ora.
Ai coitada,
DAS COMEDIAS. 145

Que venho ora táo cansada


Do corpo e d'outras canseiras.
MER. Sentae-vos nessas cadeiras.
Viu. Esse descanso nao he nada.
Crede que a necessidade
Mui pouco descanso tem.
MER. Assi viva eu que he verdade,
E fallastes muito bem,
Muito á minha vontade.
Viu. Digo, senhor,
Que o thesoureiro mor
Do nobre Rei Dom Telebano
Me deve ja do outro anno
As lencas do meu suor.
MOCA, (á parte)
Tens tu lá tencas de Arento.
MER. O dinheiro quanto he?
Viu. Este papel dará fé,
Que he o seu conhecimento.
MER. Mostrae ca, verei que he.
Bem estáis:
Sao quarenta mil reaes.
Viu. Senhor, eu 'stou enforcada,
E se A'ós nao in'os compráis,
Amanhan sou penhorada.
MERCADOR.
Nao ine falléis nisso mais;
Nao farei eu tal por certo.
Viu. Nao he essa boa resposta.
MER. E a pena que está posta?
Viu. Sera secreto o concertó.
MEH. Nao pode ser.
Vol. II. 10
146 LIVRO II.

Viu. Quem ha isso de saber?


MER. Quando os for arrecadar.
Viu. Nao me queiraís desconsolar;
Vos o sabereís fazer.
MERCADOR.
Ora emfim, quero ser tolo sandeu,
E so por vos soccorrer.
Quanto m'os queréis A7ender?
Viu. Ein A7ossa alma o deixo eu.
MER. Eu vos dírei:
Dez mil reaes A7OS darei,
Estes logo em bons tostñes.
Viu. Ai Jesu! aquedelrei.
MER. EU daqui nao passarei,
Nem passemos mais rezoes.
VIUVA.
A hüa Aiuva amara
Fazeis tamanha crueza?
Oh coitada da pobreza,
Que tudo a desempara!
MER. NÓ mais, Senhora.
Viu. Nao A-OS contentareis ora
Com vinte mil, que he inetadc?
MER. Nein com mais cinco, em verdadc.
Viu. Dae-m'os ja com a ma ora.
Depois da Viuva receber o dinheiro, vai-se dizcndo:
Nao havia ein Portugal
Nos lempos mais ancianos
Tantas maneíras de engaños,
Nem tantos males d'hum mal.
31ER. Va-se einbora:
Trinta mil deixa a senhora
DAS COMEDIAS. 14^

Neste desembargo seu:


Poréin nao na esfolára eu,
Se ella d'outra casta fóra.
Vem a Moga que veio com a Viuva, e diz:
MOCA.

Mercador, queréis saber;


Bein engañado ficasles,
Que a Aiuva que enganasíes
Era home e nao mulher.
E mais he Arento
Esse seu conhecimento:
Elle o assignou e nao mais;
Assi que os dez mil reaes
Leixae-os no testamento.
MERCADOR.
Crede que quem foi tiranno
Tem seu dinheiro perdido.
Vamo-nos, que Arem Cupido
Cominetter o mor engaño,
Que nunca foi commettido:
Ein o qual
Mostra o amor natural
Que a Grata Celia tem.
Poréin veréis que do bein
As A'czcs se segué mal.
Vem Cupido, e diz:
CUPIDO.
A quien contaré mis quejas,
A quien diré mi tormento c
Remedio, porqué lo alejas
De ver Amor, que solo dejas
Neste término momento?
10*
148 LIVRO II.

Oh justa esperanza mia !


Qué fue de mí é de ti?
Si te Aiese algún dia,
Ya no te conocería;
Tanto ha que no te AÜ
Los que ine pintan ciego,
No es ansí como conviene;
Que amor tantos ojos tiene
Como de muertes me ruego,
Y ninguna me coiniene.
Oh Grata Celia, alma inia,
Flor del mas florido huerto!
Pues que á tu Dios tienes muerto,
Arrepiéndete algún día
De tan grande desconcierto.
Hiere tu pecho honrado
Sobre el braA7o corazón:
Contemplando en mi pasión,
Verás que en el fuego en que ardo
Me echaste sin razón.
O ingrata pecador,
Rasga el corazón esquivo,
Que mataste al Dios de amor;
Y, para mas mi dolor,
Me dejaste el amor AÍA7O.
Si aquesto no conocieres,
Mas penitencia no hagas;
Que bien sé el mal que me quieres,
Y los gozos y placeres,
Que recebís con mis llagas.
Penitencia será harta
Pensares en mi tormento,
DAS COMEDIAS. 149

Solo por el merecimiento,


Que al cumplir de mi carta,
Hice en mí tu pensamiento.
Grata Celia es muy guardada
En sus palacios reales,
De su padre muy amada,
Y ella no se le da nada
De mis dolorosos males.
Dios Apolo vendrá ora,
Cúmpleme usar de engaño;
Que el engaño no es estraño,
Antes se usa cada hora,
Y la verdad de año en año.
Chega Apollo, e diz:
APOLLO.
Norabuena estéis, Cupido.
CUP. Apolo, seas loado.
Aeo. Señor, eres enamorado?
CUP. Antes traigo mi sentido
Bien fuera de ese cuidado.
APO. Pues qué haces por aqui
Por esta floresta de engaños?
CUP. Ando esperando por ti.
APO. Qué es lo que quieres de mí?
CUP. Que Aivas cuento de años.
El rei Telebano
Es tu devoto y grande amigo:
Bien en secreto te digo
Que, antes que pase un año,
Terna peligro consigo:
Y el tu templo corre risco,
Porque esta ciudad será
150 LIVRO II.

Toda asolada ab arrisco.


APO. Eso qué lo causará?
CUPIDO.
Tiene hecho tantos males
Grata Celia de secreto
r

A las diosas divínales,


Pecados tan criminales;
Y lo que digo es cierto.
APO. Puédese remediar?
CUP. El remedio está en la mano,
Si hiciere el reí Telebano,
Por tanto mal escusar,
Lo que te diré, hermano.
Lleve su hija de aqui
Aquella sierra Minea,
Adó sin ella se vea,
Y haga penitencia allí,
Porque perdonada sea.
APO. Caro le será de obrar.
CUP. Mas caro es perder su estado,
La vida y el reinar,
Y la reina y su mandar,
Y el pueblo ser abrasado.
Y Grata Celia escondida,
Allí sola desterrada,
Sah7ará también su vida,
Pues que siendo oferecida,
Será libre y perdonada.
APO. Yo lo haré en A7erdad,
Por se escusar tanta muerte.
CUP. Apolo, hace de suerte
DAS COMEDIAS. 151

Que restaures la ciudad;


Que el peligro es muy fuerte.
Tú has se lo de mandar,
Que aqui no cabe ruego;
Porque él lo hará luego,
Aunque será con pesar,
Por escusar mayor fuego.
APO. Luego voy adó está,
r

O él vendrá adó esto.


CUP. Entremientes yo ine vo,
Que tudo se amansará
Con esto que digo yo.
Yo bien sé que erro ahora,
Mas es por sanar un daño.
Perdonadme, mi señora,
Que el mundo triste de agora
Se llama templo de engaño.
Ya el Rei Telebano está
Delante Apolo rezando:
Veamos como saldrá,
O cuando se cumplirá
Lo que yo estoy deseando.
Vai-se el Rei Telebano fazer oragao ao Déos Apollo;
c diz
APOLLO.
Vuestra Alteza rece breve
Y obre obras de santo,
Que el rezar no monta tanto,
Como hacer lo que se debe.
El rezar es como flores,
Y flores las oraciones;
Y el fruto, dicen doctores,
152 LIVRO II.

Las obras son los amores,


Y no las buenas razones.
Tenemos mucho que hablar,
Y vos mucho que hacer
Cosas de vuestro pesar;
Y habéis de perdonar,
Que no puede menos ser.
Vuestro reino está en peligro,
Y mi templo amenazado,
Vuestro palacio juzgado
De las diosas de este siglo,
Que será todo asolado.
Y porque es luengo de decir
Las cosas que esto hicieron,
Yo las quiero resumir:
Pero habéis de sentir
Que de vuestra casa nacieron.
Solíamos en la paz estar
De Verecínta, Julia y Palas,
Ahora están con tan feroces alas,
Que no quieren escuchar
Razones buenas ni malas.
TELEBANO.
O muy precioso Apolo,
Pues siempre s e n i á A7OS,
Ahora es tiempo, mi Dios,
Mi amparo y mi consuelo,
Que os acordéis de nos.
APO. Son diesas muy furiosas:
Ya sabéis que las inugeres,
Cuando eslan mas amorosas,
Mas blandas, mas piadosas,
DAS COMEDIAS. 153

No son menos que crueles:


Qué harán siendo sañosas?
Que solo un remedio tenéis,
Aunque muy caro os sea:
Grata Celia llevareis
r

Aquella sierra Minea,


Y presa la dejareis.
Y llevada por engaño
Por la floresta de engaños
A la sierra, adó en dos años
Vos librará de este daño.
TELEBANO.
En perder mi hija gano.
APO. S Í ; el reino y la ciudad,
Templo y comunidad.
Catad que os será muy sano;
Y por el mal no ser nada,
Os mando que lo hagáis.
TEL. Pues, señor, A7OS lo mandáis,
Grata Celia desdichada
Irá onde la ordenáis.
Vai-se Apollo e fica el Rei Telebano ilizendo:
TELEBANO.
7
Oh graA es angustias inias;
Lágrimas del alma mia!
Oh hija de mi alegría!
Qué tales serán mis dias
Fuera de tu compañía!
Quedarás en las montañas
Naquella Minea sierra,
Y mis bezos y mis canas
Mucho en breve serán tierra.
154 LIVRO II.

Chega a Princesa Grata Celia, e diz:


GRATA CELIA.
Señor mió, porqué andáis
Pensativo y amarillo?
Muy mucho me maravillo:
Qué sentís ó qué pensáis?
TEL. E S pasión.
GRA. NO sé qué lágrimas son
Esas que A7eo asomar:
Algún extremo pesar
Siente vuestro corazón.
Yo contemplo ciertamente
Que caros son los enojos
Que se estilan por los ojos
De un rei tan sabio y prudente.
Padre, Aros
No os congojéis, por Dios,
Que el enojo muerte ordena.
TEL. Por quitar de mi esta pena,
Vamos á cazar los dos.
GRA. Señor, vamos norabuena.
Entra hum Doutor Justiga Maior do Reino, e diz
o Rei:
TELEBANO.
Doctor muy sabio y prudente,
Pues sois Justicia Mayor,
Hacedlo despachadamente
Con tal zelo y hervor,
Como si yo fuese présenle.
Voy en una romaría
Con Grata Celia y no mas;
Haced que no vuelva atrás
DAS COMEDIAS. 155

La justicia que solia


Ser igual.
Por cierto el mayor mal,
Y que en mi reino mas impuerta,
Es la justicia estar muerta,
Y el derecho mortal,
Y la cobdicia despierta.
Buen letrado sin desvío
Sois y siempre cuerdo os vi.
üou. Señor, yo lo haré ansí,
Porque lo tengo de mió.
TEL. Hija, vamos,
Veremos aqui los engaños,
Y quizá me alegraré.
GRA. Padre, yo no sé que he,
Porque cuanto mas andamos,
Voy triste y no sé porque.
Ido el Rei Telebano com sua filha, abre o Doulor hum
livro de leis, e diz, lendo por elle:
ÜOUTOR.
Princeps os sui me nova per delegantem, per no-
vaciones antiquaque.

E estando o Doutor assi estudando, vcio hüa Moga tcr


com elle, á qual elle diz:
DOUTOR.
Qué buscáis acá, señora?
Moc. Senhor, vinha-A os fallar.
Dou. Y pues no habéis de entrar?
Moc. Enlrarei, mas nao ja'gora.
Dou. Y pues cuando?
Moc;. Estáis agora estudando
156 L1VRO II.

So, e eu sou grande ja.


Dou. No sé que estáis recelando.
Moc. Mas sera bem que me va.
Douion.
Si traéis, hija, algún pleito,
Queréis consejo de mí?
Moc. A isso vinha eu aqui,
Por Arer se tenho direíto.
Dou. Si es á eso,
Recontadme el hecho A7ueso,
Y entrad bien sin temor.
Moc. Sabéis que, Senhor Doutor?
Vos pareceis-me travésso.
DOUTOR.
Ya hice sesenta y seis,
Ya mi tiempo es pasado.
Moc. Nao sei que annos haveis,
Mas olhais-me de través,
E com o barrete embicado.
E por isso
Me quero acolher ao siso.
Dou. Oh, entrad acá, señora,
Mi sagrado paraíso.
Moc. Ja disse que nao ja'gora:
Logo assi táo improviso?
E mais vos fallais-ine amores,
E nao ja ora mui frios.
Dou. Pues qué haré yo, mis lloros,
A los ojos matadores
Que me cegaron los míos?
Moc. Quem tal quer
Nao havia de ter mulher,
DAS COMEDIAS. 157

E formosa como a A7ossa.


Dou. O mi perla preciosa!
No ine hagáis entender
Que sin Aros haya hermosa.
MOCA.
Dae-me conselho, vos digo,
N'hüa demanda que trago.
Dou. Y qué me daréis en pago?
Moc. E tanto sois ineu amigo ?
Dou. Yo no quiero
De A7OS plata ni dinero,
Mas privar con vos por cierto
En lugar mucho secreto,
Por deciros cuanto os quiero.
Yo daré, juro á Dios,
La sentencia en vueso hecho;
Y aunque no tengáis derecho,
Todo el saldrá por vos,
Y haréis A7ueso proA7echo.
M09. Muito emhora.
Senhor, minha dona agora
Vai-se muí cedo deítar,
E esta noile hei de ainassar,
E bem sabéis onde mora.
Ide antre as nove e as dez;
Assoviais Arós bem, meu rei?
Ou tossi tainalavez,
Que logo ATOS entendereí.
E eu me AOU,
Que ha ja muito que ca estou.
Dou. É yo también me voy á jantar.
158 LIVRO II.

Moc. Oh! como hei de engañar


Hum doutor qnc se enganou.
Alguidar, ora vem ca,
E fareinos o tormento.
Que negro content amento
Do que lhe ha de sair Arento!
( canta )
"Engañado andáis, amigo,
"Dias ha que A7odo digo."
Assovia o Doutor á porta da Moca, o ella diz
MOCA.
»
Olhae-me aquelle assoAiar!
Como A7ai lindo e secreto
Aquelle dissimular!
Crede que inao he de achar
Huin letrado ser discreto.
(vai-lhe abrir)
Senhor Doutor,
Verdadeiro he vosso amor,
Pois A7OS traz per tal caininho.
Subiréis muito passínho,
E vínde por onde eu for.
Entrae vos e a vara nao,
Que nao quero que ca prenda.
Dou. Sí, que es A7ara de condón,
Que me da gruesa hacienda;
Y aunque ella poco me rienda,
Dame mucha ocasión.
Moc. Nao tussais ma ora agora.
Dou. Aqui amasáis, señora?
Moc. Senhor, sí. Dou. Y adonde dormís ?
DAS COMEDIAS. 159

Moc\ Fallae vos passinho, ouvís ?


Ou vos tornae para fóra.
Tirae a loba e dae-m'a ca,
Luvas c sombreíro e tudo,
E a beca de veludo,
Que tudo se guardará:
E entáo fazeí-vos mudo,
ítem mais,
Guardae-vos que nao tussais;
E vestí esta fraldílha,
E ponde esta beatilha,
E fazei que peneirais.
(Peneira o Doutor.)
MOCA.
Nao peneirais bem, Doutor;
Quero-A7os dar hüa licáo.
Tomae aqui com esta máo —
Ora andae assi ao redor —
Ha, isso vai muito loucáo.
Eu quero ir ver que faz
Minha dona; entáo A7eremos,
Porque ein tudo o que fazemos
Ha mísler inanhas assaz,
Segundo o mundo que temos.
DouTon.
Y si ella de allá me ve?
Moc. Direí que a negra peneira;
E emquanto ella joeira,
Peneira Aossa mercé.
Dou. Paciencia;
Porque juro en mi conciencia
Que este texto yo no lo entiendo:
160 LIVRO II.

Pero si yo estoy cerniendo.


Es en loor y reverencia
Del amor á que ine riendo.
Estas vueltas no sé yo.
Dulcís amor, quid me vis;
Que no se aprende en París
Esto lavor en que esto.
Oh amor!
Moc. Peneirae, senhor Doutor,
Asinha, que Arem minha dona.
Dou. O de las lindas coronas,
Amad á tal servidor.
Chega a Velha, e diz r.
MOCA.
Nao vedes, dona, esta perra
O negro geito que tem?
VEL. Peneirae, ma ora, bem,
Que nao sois nova na ierra.
Huí, cadeh'nha,
Onde jeitas a farinha ?
Nao queres fallar, cadella?
Esta pelle de toninha
Olho mao se metta nella.
DOUTOR.
Porque vos, mía Señora,
Estar tanto destemplada?
Ya tudo estar peneirada:
Que bradar comigo ahora?
Que cosa estar A7OS hablanda?
A mí llama Caterina Furnanda,
Nunca a mí cadeia nao.
DAS COMEDIAS. 161

VEL. S 'eu d 'allí tomo hum ticao...


E vos estáis patorneando?
Olhade a mal entrouxada!
O almadraque bolorento!
Moc. HUÍ, faze asinha o formento,
E amassarás de madrugada,
Estara o torno melhor.
VEL. E qu'he d'aquelle doutor,
Que dizes que tens aqui?
Moc. Perto está elle de mi,
E eu longe do seu amor.
VEL. Está escondido?
Mostra-me esse homem perdido.
Moc. Hi está elle a peneirar,
E elle inesmo ha de amassar,
Porque a negra he c'o marido.
VELHA.
E negro falláo os doutores?
Nunca vi taes düTerencas.
Moc. Pois que hi ha negras sentencas,
Nao havera hi
Alguns negros ouvidores
Ein algüas audiencias?
VEL. Que canseira!
Moc. Eu o puz dessa maneira,
Porque me fallón d'amor.
VEL. Jesu! o quem vio doutor
Em fraldas de panadeíra ?
Dezide, Doutor da ma ora,
E fallae-me per latiin,
Que diz o Bartolo aqui?
Dou. Xo yo solo, señora,
Vul. II. 11
162 LIVRO II.

Que otros muchos hubo ahí.


Yr mis celos...
VEL. Havieis mister farellos,
Ou que peneirada he essa?
Dou. Vuestra niela es muy traviesa.
VEL. Hei-vos de ver os cabellos,
üae-me ca esse toucado —
Olhade aquella honestidade!
Huin doutor daquella ¡dade
Andar táo desarranjado,
Ein tal inaneira.
Dou. Onde porné la peñera?
VEL. Que ma hora ca tornastes,
Que táo tarde comecastcs
A ser doutor e padeira.
No Baldo acharieis, Doutor,
Essa negra amassadtira,
Ou na sagrada Escriplura?
Dize, Bucodonosor.
Que essas cans
Tornáráo-se canas A7ans.
Jesu! que inao estudar,
E que ma livro he o alguidar
E que letras ancians.
E moca querieis vos?
E per rjuam regula, micer,
Cuidou ATOSSO parecer
Que ja a tinheis ñas piós ?
M a n a minha.
E nao abasta a familia
Que fazedes no julgar,
Senáo virdes pcneirar
DAS COMEDIAS. 163

Hüa pouca que aqui tinha


Vo fundo do alguidar?
MOCA.
Bem AOS diz essa fraldilha.
Queréis A7ÓS bailar comígo?
Dou. Que haga esto el enemigo
No es mucha maravilla,
Según es.
Moc. Sabéis que me parecéis ?
Ermitao que endoudeceo:
Melhor vos eslava o veo,
Que quanto ein casa trazeis.
(Foge o Dontor.)
MOCA.
Dona, Dona, vai fugindo.
VEL. Va-se muítieramá.
Moc. A loba lhe fica ca.
Oh como A7a¡ táo corrido!
Torna o Doutor, e diz:
DOUTOR.
Acá me ha quedado todo
Una beca de veludo,
Y loba de contray frisado,
Que se me quedó olvidado.
No Araya todo tan crudo.
Moc. E A7ós, Doutor, hervilhasles ?
Vindes A7ós em Arosso siso?
Que mentira!
Ide pregar a Altemira;
Que s'eu quizesse fallar...
Mais quizereis Arós furtar,
Se ATodo eu consentirá.
11
164 LIVRO II

DOUTOR.
Quien pensara norabuena
Que una rapaza de un año
Hiciera tan grande engaño
Á un doctor hecho en Sena?
Será mas sano
Callar hecho tan profano,
Y olvidar esta guerra,
Y irme á juzgar la tierra,
Que ya el Rei Telebano
Ahora llega á la sierra.
Aqui se representa o que passou el Rei Telebano na
serra Minea com Grata Celia, sua filha.
TELEBANO.
Grata Celia, hija mia,
Esta es la sierra Minea,
La cual vuestra casa sea
De lágrimas sin alegría.
GRA. Porqué, Señor?
TEL. Porque yo. por mi dolor,
Os he traído engañada
De mi casa desterrada.
GRA. Porqué, triste pecador!
Que yo no os hice nada.
TELEBANO.
Mándalo Apolo Dios,
Y me metió neste afán;
Y como hizo Abrahan,
Hago sacrificio de vos.
GRA. Oh triste yo!
Ya sé quien esto ordenó:
Cupido hizo estes daños.
DAS COMEDIAS 16o

Oh mis tristes quince años,


Mal haya quien los mató.
TELEBANO.
Perdonadme, hija, vos,
Que habéis de quedar presa
En medio desta dehesa,
Porque ansí lo manda Dios.
GRA. Oh perdida!
Saquéis, mi padre, la vida
De que fuiste causador,
Que el morir no es dolor,
Mas dolor es la guarida.
Perded mancilla de mí,
Y inatadme, Señor padre,
Que saludad de mi madre
Me mata ansí como ansí.
TEL. Malar!
Aun Dios tiene que dar.
Esfuerce vuestro dolor,
Que vuestra dicha mayor
Por aqui la habéis de hallar.
GRATA CELIA.
Qué dicha puedo yo topar,
Fuera de ATIestro poder?
TEL. Hija, yo os A7erné á \7er,
Cuando lo Apolo mandar, (mise)
GRA. Grata Celia, qué es de ti
Y del AÍCÍO que tenias?
Que las noches y los días
Eran todos para iní.
Quien trajo Cupido aqui,
Á escuchar las ansias mias?
166 LIVRO II.

CUPIDO.
Pues sois remedio del daño
Que consume mis placeres,
Bendito seáis engaño,
Que con tu poder estraño
Todo acabas cuanto quieres:
E n ti inora
Todo el descanso de ahora;
Tú lo das, por ti se da.
Mi vida te la dará,
Pues me la diste, señora.
Perfección de las mugeres,
Vos me quitastes la vida,
Y la tenéis consumida
Y mis bienes y placeres:
Y Aiendoos puesta
E n esta braA7a floresta
Y entre estas espesuras,
Dejé el cíelo á escuras
Por ver la claridad Aruesa.
No por sanar mi pasión,
Ni menguar en mis enojos,
Porque vuesos rayos son
Dolores al corazón
Y lágrimas á los ojos.
GRA. Podéis hablar,
Que yo tengo de escuchar,
Pues, triste, por mi dolor,
Telebano, mi señor,
Me dejó neste lugar,
Así como me hallaste»,
Presa en estos fierros tristes.
DAS COMEDIAS. 167

CUP. Cuantas voces me matastes,


Y cuantas me despreciastes,
Hasta que me despedistes?
Pues ahora,
O princeza mi señora,
Cese vuestra señoría,
Porque el Dios que se enamora,
Si lo adoran, él os adora,
Y siempre os adoraría.
Dadme A7ueso amor real,
Que realmente os servi.
GRA. Qué amor queréis de mí?
Yo misma me quiero mal
Y al dia en que nací.
Y qué hice triste yo,
Que tanto mal me hicieron?
Qué pecado me prendió?
Qué culpa me desterró?
Porqué tal pena ine dieron?
CUPIDO.
Señora, cesen por Dios
Vuestras quejas y rencillas;
Que, pues yo muero por AOS.
Escusadas son decillas.
Amor os pido.
GRA. Pues vos sois el Dios Cupido,
Que todo amor tiene en sí,
Qué amor pedís á mí?
CUP. Mas qué ganáis A7os aqui
En traer un Dios perdido?
GRATA CELIA.
Si amor do mí queréis,
168 LIVRO II.

Aqui está esta cadena;


Si con ella A7OS prendéis,
Señor, vos me cobrareis,
Y os ficaré de pena
En esta hora.
CUP. Que ine place, mi señora:
Vueso cautivo me quiero,
Yr de Aruestra alteza espero
Cumplir lo que dije ahora.
Tira Cupido a prisao a Grata Celia, e ella prende a
elle, e diz
CUPIDO.
Oh qué primores tan tristes
Son los vuesos, mi señora!
GRA. Ha! yo me vengaré ahora
Del mal que vos me hecistes;
Que si fuera
Vueso amor de tal manera,
Como dais á presumir,
Escoguiera de morir
Antes que tal ine hiciera.
Fue una cruda hazaña,
Que hizo el cruel traidor;
Porque el verdadero amor
r

A nadie jamas engaña.


CUP. Vuestro so,
Y si no os tuviera yo
Amor en tanta manera,
Del cielo no descendiera
Al gran peligro en que esió.
O celeste hermosura!
Vos me queráis perdonar,
DAS COMEDIAS. 169

Que para poderos hablar


Me puse en tanta A7entura
Y á vos en tanto pesar.
GRA. NO os dolían
Lágrimas que me corrían,
Que cada hora era un rio?
CUP. Señora mía, yo os fio
Que todas ellas salían
Del triste corazón mío.
GRATA CELIA.
Ora cred aquello vos,
Y veréis qué os saldrá:
El diablo conocerá
Raposo en traje de Dios.
Quedad os ahí,
Que yo me voy por aqui
A oir los ruiseñores:
No quiero escuchar amores,
Pues nunca los conocí.
Bendita sea la muger
Que de los hombres no fia,
Y maldita la que confia
En su dañoso querer;
Y bendita
Toda inuger que se quita
De oir sus dulces engaños;
Que doblados son los daños
Que dello se remerita.
Como rio furioso
Son los hombres sin descanso;
Porque adó corre mas manso,
Allí está mas peligroso,
170 LIVRO II.

Porque es hondo aquel remanso.


Y. según huelo,
Son como sutil anzuelo,
Cuando se viste de engaño :
Que en todo el tiempo del año
De fuera muestra consuelo,
Y de dentro tiene engaño.
CUPIDO.
7
Reniego de la A enida,
Pues doblados son mis daños.
Oh cuantos modos de engaños
Ha hi en esta triste Aida!
Que ansí acaeció
Que Apolo la engañó,
Y fue por industria mia:
3ías el amor que le tenia
Tuve la culpa y no yo.
Oh nitigeres! oh miigeres!
Robadoras de las vidas,
Crueles desconocidas,
Destrucción de placeres!
Curiosas,
Ufanas, desamorosas,
Autorisadas, mobibles,
Y de todo imidiosas,
Que tienen cosas terribles!
Vem hum Pastor rustico, e diz:
PASTOR.
Ora ou slou espantado,
Sondo vos San Sadorninho,
Como errastes o caminho,
Lá abaixo a par do vallado: —
DAS COMEDIAS. 171

Ou ín'engano?
CUP. Allégate acá, hermano.
PAS. Ora m'enganaAra tanto,
Que cuideí qu'ereis vos santo,
E vos falláis castelhano.
Pois que estáis aqui fazendo?
CUP. Qués te lo haga saber?
Tu no lo has de entender,
Que yo mismo no lo entiendo
Por ahora.
PAS. E ATOS estáis preso, ina ora?
CUP. Pastor, esto no es prisión,
Que es cadena de condón,
Que me dio una señora
De mucha veneración.
El que en ella se prendiere
Será libre de tristeza,
Y mil bienes y riqueza
Terna quien nella estuviere,
Por mi fé.
Y pues tu ventura fue
Que tú alcansases vella,
Yo te hago mercé della
Y Dios te hará mercé:
Gózate mucho en tenella.
Quítamela con tu mano.
PAS. Esta veío do Peni:
Ora Déos me Iroux'aqui.
CUP. Dala acá; ponía en ti:
Buena prol te haga, hermano.
P.vs. Oh coitado!
CUP. Qué has? P.vs. Estou namorado.
17a LIVRO II.

CUP. De quien? P A S . Que sei eu de quem,


Senáo que o amor me tem
O coracáo apertado.
E segundo a fortaleza
Com que ine aperta e namora,
Deve ser a mor senhora
Que se criou em Veneza.
Cegó sou
E nao sei quem me cegou,
Por nao ter cura meu mal:
Bofa, A7ÓS sois hum enxoval;
Mas quem em Arós se fiou
Merece ter pago tal.
CUPIDO.
Si de esta pena te sacas,
Tu vivir muy mal se emplea.
PAS. Oh, tirae-me esta cadea,
Que se me perdem as vaccas
Sem pastor;
E somente o amor
Nos mata d'hüa pastora:
Se fóra dest'outra dor
Oh pesar de vos amor,
Que o diabo A7OS trouxe ora!
CUPIDO.
Mueres de amores, hermano.
PAS. Em mi tal amor que monta?
E pois foi erro de conta,
Desfacamodo engaño.
Ora ouvi.
CUP. E S esta que Aiene aqui.
PAS. Pardeos! esta AOS he ella!
DAS COMEDIAS. 173

Ora olhae, corpo de miin,


Que presta a hum villáo ruim
Ir amar táo alta estrella ?
Eu saín indino pastor,
Pobre, vestido de pelle,
De ser preso em A7OSSO amor:
Engaño u-me este Senhor.
Que ma viagem faca elle. —
Que me olhaís?
Hum fraco pastor matáis;
E nao he cousa honesta;
Que a cárrega que lancais
w

A ínula que carregais,


Pesa muito mais que a bésla.
GRATA CELIA.
No os digo, Dios de amor,
Que no os es nada el vuestro amar,
Que para os exprimentar
Os hice aquel desfaA7or,
Y no para os olvidar.
Por mi Aida
Que ahora á eso A7enía,
Y hállovos sin prisión,
Sin congoja y sin pasión:
No pidáis mas alegría.
CUPIDO.
Vuestras crueles rencillas
Y grandes desesperanzas
Y tan braA7as esqurvanzas
Hacen estas maravillas.
Yo no sé que mas os diga.
PAS. Fazeí hüa cousa boa.
1 7 4 LIVRO II.

Eu nao som aqui pessoa,


Soltae-me desta fadiga,
Por vossa vida, senhora.
GRATA CELIA.
Poco ha que dejistes AOS
De las mugeres mil males;
Que eran crudas, desleales,
Y otras mil plagas de nos.
Y vos, Amor,
Debierades sentir mejor,
Que no son nada las faltas
Para las virtudes altas
Que les dan mucho loor.
CUPIDO.
ESO dijo mi pasión;
Porque, cuando ella no mengua,
Hace decir á la lengua
Lo que niega el corazón.
Es tan llano
Las mugeres á una mano
Ser la perfección del inundo,
En la tierra el soberano,
En el cielo el bien segundo.
GRATA CELIA.
Cupido, pues estáis fuera,
Prendeos en mi prisión:
Porque el alto galardón
No se gana en media hora.
Ni es razón
Que estea en \ r uestra prisión
Ese rústico pastor.
DAS COMEDIAS 175

Quitaldo desa pasión,


Y prended á AOS, Amor.
CUPIDO.
Ansí lo quiero hacer,
Aunque por muy cierto hallo
Que del amor y querer
El dulzor es de temer:
Que lo al basta llorallo.
Ya A7eis ahora
Que preso estoy, mi señora.
Oh favor, oh faAror!
Quien te cobrase alguna hora!
Porque el mal que no mejora,
Va de peor en peor.
GRATA CELIA.
FaAor queréis? esperad,
Socega; no se hace ansí.
CUP. Habed mancilla de mí
Por la Adiestra piedad :
Que la ciencia
De mi penosa paciencia
Es aguijar mis placeres:
Dadme hermosa penitencia,
Y usad en todo clemencia,
Corona de las mugeres.
Vem o Duque pelegrino, e diz
DUQUE.
Muchas cosas de no crer
Hallo por esta floresta:
Mas maravilla como esta
No se AÍÓ ni se ha de ver.
Esto es cierto.
1 7 6 LIVRO II.

Y quien trajo á este desierto


Así sola una doncella,
Por sierra tan sin concierto,
Y el Amor preso por ella?
CUP. No soy preso, mas soy muerto.
GRATA CELIA.
Donde camináis acá?
DUQ. Señora, voy pelegrino
Á un templo que acá está,
Y á él es mi camino,
En compañía
Del hijo del Rei de Ungría,
Y Príncipe de la Gran Grecia,
Y el Cónsul de la Venecia
De alta genelogía,
Cinco Duques pelegrinos,
Y él también pelegrino,
Caminando sin camino,
Y dejando los caminos.
GRA. Por qué via
Hizo él su romaría
Por tan áspera montina?
DUQ. Porque IleA'a en compañía
La Ventura pelegrina,
Que lo manda y lo guia.
GRATA CELIA.
Es la mi vida tan fea,
Y mi destierro tan feo,
Y tan cuitada me Areo,
Que no quiero
Que el que me Aido me Area.
CUP. Oh Princeza,
DAS COMEDIAS. **

Lémbreos mi ánima presa!


DUQ. Y princesa es ella, hermano?
CUP. Hija del Rey Telebano,
Y de los príncipes diesa.
DUQUE.
No os vais daqui por Dios,
Ni os escondáis, señora;
Porque yo sé que en buenora
Lo veréis y él á A7OS.
Dichoso hado!
Él es príncipe jurado
Y vos princesa jurada;
Seréis bien aventurada
Y él bien aventurado:
Y bendita tal jornada.
Quiérole ir descubrir
Misterio de tanto peso.
CUP. Señora, y esto vuestro preso.
Sin remedio ha de morir?
GRA. Y porqué?
Que Amor que no tiene fe
No puede morir de amores.
CUP. Porqué no creís mis dolores,
Que mi mal claro se ve?
Vem o Principe de Grecia com os cinco Duques c sen-
hores pelegrinos, e a Ventura pelegrina, cantando todos
esta
Cantiga.
"Muéstranos por Dios, Ventura,
"En esta sierra tan bella
"Las venturas que hay en ella."
, 2
\«i. í i .
178 LIVRO II.

VENTURA.
0 Grata Celia Princesa,
De las princesas mayor,
Qué os hizo el Dios de Amor,
Que tenéis su vida presa?
GRA. Mas holgara
Que Ventura perguntara,
Pues que ya me conocía,
Quien me robó el alegría
Y las flores de mi cara.
VENTURA.
Perdonad, que perdí el norte.
GRA. O Ventura consagrada,
Que siendo de mi adorada,
Vos .me disteis por mi suerte
Ventura desventurada!
Tal ha de ser,
Por ser buena la muger,
Virtuosa sin mudanza.
Dios de amor ha de querer
Tomar tan cruda vinganza?
PRINCIPE.
De quien os quejáis, os pido,
Princesa de hermosura?
GRA. Quejóme de la Ventura
Y de Apolo y de Cupido.
VEN. NO es cordura
Quejaros de la Ventura:
Con Apolo es la demanda:
Que naquello que Dios manda
No erró nada la Ventura.
DAS COMEDIAS. 179

PRINCIPE.
Si vos nada aprovecháis,
Para qué os llevo por guia?
VEN. Yo os guio por la via
Que Dios quiere que vayáis.
Pongo figura:
Dice cualquier criatura,
(Esto bien lo sabéis vos)
Quizo Dios y la Ventura:
Primero se nombra Dios,
Porque es cosa mas segura.
Yo os guio por acá,
Por muy venturosa via,
Por dar nueA'a alegría
r

A la reina que aqui está.


De manera
Que ella es principal heredera
En la gran Persia mayor:
Y A'os, muy alto señor,
\ d la neguéis de parcera.
PRINCIPE.
Si á la Princesa aplace,
Yo lo doy por otorgado;
Pues Dios tiene limitado
Todo aquello que se hace.
GRA. Contenta só:
Mas sin padre qué haré yo?
Que aunque siento mi daño,
La culpa tiene el engaño,
Mas el engañado no.
VENTURA.
Cata, que os viene Dios á ver;
i'2
180 LIVRO II.

Princesa muy soberana,


No os debéis de torcer,
Que lo que se puede hoy hacer
No quede para mañana.
No esperéis mas recado,
Pues os es honra y provecho;
Que el casamiento alongado
Pocas veces se vio hecho.

A Ventura tomou as mños ao Principe e Princeza, e


com sua música se acabou esta comedia, que he a derra-
deira deste segundo Livro, e a derradeira que fez Gil
Vicente em seus dias.

FlM DO LlVRO II.


LIVRO ras,

DAS TRAGICOMEDIAS.
FIGURAS.
ü. DUARDOS.
O IMPERADOR PALMEIRIM.
PRIMALION, seu filho.
FLERIDA.
AMANDRIA i .
\ Damas de Flerida.
ARTADA )
CAMILOTE.
MAIMONDA.
D. ROBUSTO.
OLIMBA, Infanta.
JULIÁO, Horteláo.
CONSTANZA ROIZ, sua mulher.
FRANCISCO i
J seus filhos.
JOÁO )
PATRÁO DE GALERA.

Esta primeira Tragicomedia he sobre os amores de D.


Duardos, Principe de Inglaterra, com Flerida filha do
Imperador Palmeirim de Constantinopola. Foi representada,,
ao Serenissimo Principe e poderoso Rei D. Joño III.
DOM DUARDOS.

Entra atrimeiro a corte de Palmeirim com estas figuras:


*• Imperador, Imperatriz, Flerida, Arfada, Aman-
dria, Primalion, ü. Robusto; e depois destes assentados,
entra D. Duardos a pedir campo ao Imperador com
Primalion, seu filho, sobre o agravo de Gridonia, di-
zendo:
D. DUARDOS.
Famosísimo Señor,
Vuesa sacra Magestad
Sea exalzada,
Y viva su resplandor
Tanto como su bondad
Es pregonada;
Y los Dioses inmortales
Os den gloria en este mundo
Y en el cielo;
Pues sobre los terrenales
Sois el mas alto y facundo
De este suelo.
Vengo, Señor, á pedir
Lo que no debéis negar:
Que vueso estado
Es por la verdad morir
Y la verdad conservar
Con cuidado.
Porque sois suma justicia
Que es hija de la verdad,
184 HVRO 111.

De tal son,
Que por ira ni ainicicia
No deje Vuesa Magestad
La razón.
Porque si con muestra de rey
Vendiéredes después, Señor,
Falso paño,
Vos os quedareis sin ley,
Y será emperador el engaño.
Gridonia, Señor, está
Agraviada en extremo,
Y de manera,
Que de pesar morirá.
Y pues, Señor, esto temo,
Dios no quiera
IMPERADOR.
Esforzado aventurero,
Muestra el razonamiento
Que habéis hecho,
Que sois mas que caballero.
D.Du.No soy mas que cuanto siento
Esto despecho.
Primalion le mató
Á Perequin que ella amaba
Como á Dios;
Ansí que á ella heríó,
Y aunque con uno lidiaba,
Mató dos.
PRIMALION.
Vos venís á demandado?
D.üu.Por ventura sois, Señor,
Primalion ?
DAS TRAGICOMEDIAS. 185

PRI. Yo soy. D. DUA. Pues vengo á vengallo,


Si el Señor Emperador
No ha pasión.
IMP. Caballero, mal hacéis,
Quien quiera que vos seáis.
D.Du.Porqué, Señor?
|MP. Porque razón no tenéis,
Y vuesa muerte buscáis
Y no loor.
ü. DUARDOS.
Mucho sonada es la faina
Del vueso Primalion.
Mas no deja (*)
De ser hermosa la dama
Gridonia que con razón
Del se aqueja.
PRI. Agora lo veréis presto
Si tiene razón, si no.
Ü.Du.Ya se tarda
Que las armas juzguen esto
Pni. Agora ver quiero yo
Quien las aguarda.
Neste passo se combale c eslando-sr tombataido vem a
Princeza Flerida e diz:
FLERIDA.
A paz, á píiz, caballeros,
Que no son para perder
Tales dos;
Y vuestros brazos guerreros
(*) A p.issagem que se segué alé o í)° v. d.t p<tg. l^' 1 e Uiadu tía seg. <»l
de 158Ü, por estar troncado ueste logar o e x e i n p l a r d a priju. da Bibliotec.i
de Gólliuguen de que nos servimos,
186 LIVRO III.

Cesen por me dar placer


Y por Dios.
Y á vos, hidalgo estrangeró,
Pido por amor de mí,
Sin engaño,
Que vos seáis el primero
Que no queráis ver la fin
De este daño.
Descubrios, caballero.
D. DUARDOS.
No mas: vermeha vuestra Alteza
Algún día:
Quiero ir ganar primero
La fama de mi nobleza
A Turquía.
Apartar-se-hüo estas figuras, e entra Camilo te e Mai-
món da, a tnais fea criatura que nunca se vio; e Camilote
louvando-a, diz:
CAMILOTE.
O Maimonda, estrella mia,
O Maimonda, flor del mundo.
Rosa pura;
A'os sois claridad del dia,
Vos sois Apolo segundo
En hermosura.
Por vos cantó Amfiun
Aquellos tristes cantares
Enamorados.
Sus canciones vuestras son.
Y vos le distes mil pares
De cuidados.
DAS TRAGICOMEDIAS. 18T

MAIMONDA.
Todo loor es fastío
En la perfección segura
Y manifiesta;
Bien basta que en ser vos mío
Se prueva mi hermosura
Bien compuesta.
CAM. Bien decís. MAL Mas así es.
CAM. Esperad, señora mia.
MAL Qué señora?
CAM. Diana hermosa es,
Pero quiere cada dia
Su loor.
Y las Reinas soberanas
Muestran señas y terrores
A deshora,
Cuando las lenguas humanas
No publican sus loores
Cada hora.
Pues bien manifiesta y clara
Es la hermosura de ellas
Y la valer.
Pues á vos no se compara
Ni ellas ni las estrellas,
A mi ver.
MAIMONUA.
Así es ello por mi vida.
CAM. Pues dejaos loar, señora.
MAL Para qué?
CAM. Porque es cosa sabida
Que quien alaba colora
Su gran fe.
188 LIVUO III.

No es esto lisonjaros,
Como muchos han mentido
A sus amores.
MAL ASÍ me lo dice el espejo
De esa propia manera
De esos prados.
CAM. Señora es mi consejo
De tomar la delantera
A esforzados.
Á Constantinopla vamos.
Señora, al Emperador
Palmeirin;
Allí quiero ir; veamos
Lo que vuestro resplandor
Obra en mí.
Yo porné esta grinalda
Sobre vuestra hermosura
Que es sobre ella:
Veremos, o mi esmeralda,
Quien dirá que ama figura
Tanto bella.
MAIMONDA.
No os mucho que venzáis
Teniendo tanta razón.
CAM. A eso os vó,
Que solo el aire que dais
Mata de pura afición
Al que os vio.
MAL Vamos adonde queréis:
Celos no los escusais,
Que aquel que ama
Recela como sabeís,
DAS TRAGICOMEDIAS 189

Cuanto mas vos que amáis


A tal dama.
Decidme, señor, yo os pido:
Es mayor dolor celar
Con razón,
O mayor no ser querido?
CAM. NO ser querido y amar
Es gran pasión.
Aqui chegño diante do Imperador Palmeirim e diz
CAMILOTE.
Clarísimo Emperador!
Sepa Vuesa Magestad
Imperial
Que esta doncella es la frol
De la hermosa beldad
Natural.
IMP. Cuya hija es, si sabéis?
CAM. Hija del Sol es por cierto.
IMP. Bien parece.
En que intención la traéis?
CAM. Por mostrar por quien soy muerto
Que merece.
IMPERADOR.
Cobrastes alta ventura.
Qué años habrá ella?
CAM. Daré prueva
Que á poder de hermosura
El tiempo vive en ella
Y la renueva.
La primera A7ez que la vi,
Crea Vuesa Magestad
Imperial,
190 LIVRO III.

Que dije: Oh triste de mí!


Atajada es mi edad,
Por mí mal.
Empero, señor, será
Muchacha de cuarenta años,
Mas no menos.
IMP. Y que es vuesa cuanto habrá?
CAM. Señor, mios son los daños,
No ágenos;
Pero ella no tiene cuyo,
Y aunque A7engo con ella
Como suyo,
Suyo soy y ella suya,
Y en ver cosa tan bella
Me destruyo.
Y demás de su beldá,
Los hados la hicieron dina
De gran fiesta;
De suerte que no está
En el inundo muger divina
Sino esta.
Pedíla á los aires tristes,
Que la ayudaron á criar,
Respondieron
Con las tormentas que vistes,
Cuando las islas del mar
Se hundieron.
A la nieve la pedí,
Que del sol y también della
Se formó;
Dijome: Vete dahí,
Que quien pudo merecella
DAS TRAGICOMEDIAS. 191

No nació.
Xo le hacéis, damas, á esta
lia de vida ceremonia
A vuesa guisa?
AMA. Señoras, qué cosa es esta ?
ART. Esta debe ser Gridonia,
O Melisa.
FLERIDA.
Parece á la reina Oído,
Y Camilote á Eneas.
ART. SÍ, aosadas.
FLE. Espantado es mi sentido!
Quien hizo cosas tan feas
Namoradas ?
IMP. Son los milagros de amores,
Maravillas de Cupido.
Oh gran Dios!
Que á los rústicos pasture*
Das tu amor encendido
Como á nos!
Y á Camilote hace
Adorar en esa muerte,
Por mostrar
Que hace cuanto le place,
Y que nada no le es fuerte
De acabar.
Tales fuerzas no tuvieron
Otros dioses poderosos:
Que hace ser
*
A los que nunca se vieron
Enamorados deseosos,
Sin se ver.
192 LIVRO 111.

Estes son amores finos


Y de mas alto metal;
Porque son
Los pensamientos divinos,
Y también es divinal
La pasión.
Los amores generales,
Si dan tristezas y enojos,
Como sé,
Aunque sean speciales,
Primero vieron los ojos
El porqué.
Mas el nunca ver devisa,
Y ser présenle la ausencia
Y conversar,
Es tan perfecta conquista,
Que traspasa lo excelencia
Del amar.
CAM. Todo eso padeció
Mi corazón dolorido,
Que por fama
Desta dama se perdió,
Y sin verla fui ardido
En viva llama.
MAIMONDA.
Decidme por vuestra vida,
Cuando me vistes, qué vistes?
CAM. Vi á Dios
Y la campana tañida
De la fama que hecistes
Para vos.
DAS TRAGICOMEDIAS. 193

AMA. NO podía menos ser,


Porque es una Policena.
ART. Tal es ella.
CAM. Bien podéis escarnecer,
Mas juro á Dios que ni Elena
Fue tan bella.
ARTADA.
Algo será mas hermosa
Flerida. CAM. Quien? — aquella?
Asaz de mal:
Por Dios vos estáis donosa!
Comparáis una estrella
r

A un pardal.
D.Ro.Mucho os desmandáis vos.
CAM. Quereilo vos demandar?
D.Ro.Sobs caballero?
Si lo sois, juro á Dios
Que os haga yo tornar
Majadero.
Y en Flerida habíais vos?
Nadie es diño de vella,
Ni osamos,
Porque nos defiende Dios
Que no pensemos en ella,
Que pecamos;
Y manda, no sé porqué,
Que por do vaya ó eslé,
La tierra sea sagrada,
Y sea luego adorada
La pisada de su pie.
O herege entre varones!
Puede ser mayor locura,
Vol. I I . 13
194 LIVRO III

Que la excelsa hermosura


Compararla com tizones,
Contra Dios, contra natura?
CAM. Ante que hayamos enojos,
Caballero, abrid los ojos,
Que debéis tener lagaña,
Y veis por tela de araña,
Cúmpleos poner antojos.
D. RORUSTO.
A qué tengo yo de mirar?
CAM. La belleza de Maimonda,
Que en la tierra á la redonda
No se halló nunca su par
Ni señora de su suerte.
D.Ro.Mas cercana os es la muerte
Que la A7erdad, caballero.
CAM. Yro he sido tan certero,
Que os juro que os acierte.
D. RORUSTO.
Decid antes que os conquiste,
Con los genojos hincados,
La oración de los ahorcados,
Que es el anima Christe,
Por A7uesa ánima y pecados.
CAM. O Maimonda mi señora,
Vos me quitáis el recelo.
D.Ro.Yo os juro á Dios del cielo
Que presto la dejéis ora.
CAMILOTE.
Vos ya no sois Don Duardos,
Ni menos Primalion
No seréis.
DAS TRAGICOMEDIAS 195

D.Ro.Ni soy de los mas bastardos


En esfuerzo y corazón,
Como veréis.
Y debéis por honra vuesa,
Pues de morir tenéis cierto
De esta trecha,
Buscar luego antes de muerto
El que os haga la huesa
Muy bien hecha.
CAMILOTE.
Ansí? D. ROB. Sí, don selvage.
CAM. Muy alto, esclarecido
Emperador,
Yo nunca sufrí ultragé,
Sino solo ser vencido
Del amor.
Cogí en bravas montañas
Esta grinalda de rosas,
Por hazaña,
Entre diez mil alimañas
Muy fieras, muy peligrosas:
Cosa estraña!
Y pues á tan peligrosa
Ventura, de buena gana,
Me oferecí,
La doy á la mas hermosa
Que nació en la vida humana
Hasta aqui.
Y cualquiera caballero
De esta corte, que dijere
Que su dama
La merece por entero,
13*
19G LIVRO III.

Salga y muera el que muriere


Por la fama.
Y aun cualquier que dijere
Que á Flerida conviene
Mas que á ella,
Yo le haré conocer
Que miente con cuanto tiene,
Delante ella.
D.Ro.Yo os lo quiero combatir.
CAM. Vos, Señor Emperador,
Dais licencia?
IMP. SÍ, doy, y allá quiero ir
Ver el campo y el loor
Y la sentencia.
Estes se vño todos c entra a Infanta Olimba com D.
Duardos.
OLIMBA.
Cuanto tiempo ha, Señor
Don Duardos, que partistes
De Inglaterra?
D.Du.No le sé, porque el amor
En la cuenta de los tristes
Siempre yerra.
Después que á Flerida AÍ
Cuando con Primalion
Combatía,
Perdí la cuenta de mí,
Y cobré esta pasión,
Que era mia.
Alcanzó paz á su hermano
Trujóme guerra consigo
Solo en vella,
DAS TRAGICOMEDIAS. 197

Tal que no es en mi mano


Haber nunca paz conmigo,
Ni con ella.
Decidme, Señora Ifante,
Flerida como la habré?
OLÍ. Con fatiga;
Porque es su gravedad tanta,
Mi Señor, que yo no sé
Que os diga.
Mas es eso de hacer,
Que vencerdes á Melcar
En Nonnandía,
Ni cuando fuistes prender
Á Zerfira en la mar
De Turquía,
Ni matardes al Soldán
De Babilonia, que malastes,
Y tan presto,
Por líbrardes de afán
Belagrís, como librastes:
Mas es esto.
D. DUARDOS.
Esa guerra es ya vencida:
En esta querría esperanza
De vencer.
OLÍ. NO la tengáis por perdida,
Que lo mucho no se alcanza
Á bel placer.
Muchos son enamorados,
Y muy pocos escogidos:
Que amor
A los mas altos estados.
198 LIVRO III.

Aunque los haga abatidos,


Es loor.
Dígolo, porque si á Flerida
Amáis como habéis contado
Y referido,
Cúmpleos mudar la vida,
Y el nombre y el estado,
Y el vestido,
D.Du.Y aun la ánima mia
Mudaré de mis entrañas
Al infierno.
OLÍ. Si amáis por esa via,
Haréis las duras montañas
Piado tierno.
Irosheis á su hortelano,
Vestido de paños viles,
Con paciencia,
De príncipe hecho villano;
Porque las mañas sutiles
Son prudencia:
Y asentarosheis con él,
Después que le prometierdes
Provecho,
Y avísarosheís del
Que no sienta en lo que hicierdes
Vueso hecho.
Llevad estas piezas de oro,
Y esta copa de las hadas
Preciosas,
Teméis las noches de inoro,
Y las madrugadas
Muv llorosas.
DAS TRAGICOMEDIAS. 199

Haced que beba por ella


Flerida; porque el amor
Que le tenéis
Á ella, os terna ella,
Y perdida de dolor
La cobrareis.
D. DUARUOS
A los Dioses inmortales
Suplico, Señora mia,
Os den gloria,
Y aministren á mis males
Camino por esta via
De victoria.
OLÍ. Amen, y ansí será,
Porque en Venus confio
Mi señora,
Que lo que suele hará,
Y le enviaré el clamor mió
Cada hora.
Vño-se D. Duardos, e Olimba, e vem os hortelóes da
horta de Flerida, Juliño, Constanga Roiz, sua mulher,
e Francisco e Joño, seus filhos, e diz
J U L I A o.
Constanza Roiz amada!
CON. Mi Julián, qué mandáis?
JUL. Que miréis como regáis,
Que estragáis la inesturada:
Que esta huerta
Me tiene la vida muerta.
CON. Amargo estáis.
JUL. Tapad presto.
CON. Mi amor, qué fue ahora esto?
200 LIVRO III.

FRA. NO sé quien llama á la puerta.


JULIAO.
Mi fe, sea quien quisiere,
Monda, acaba norabuena:
Vé, abaja la melena.
FRA. Para al ruin que tal hecíere! —
Vaya Juan.
JUA. Primero vendrá el pan
Y tocino una pieza,
Que yo baje la cabeza.
JUL. Vé apaña el azafrán.
JUA. Cuerpo de Dios con la vida!
Pues tengo el nabo regado,
Y el rosal apañado,
No merezco la comida?
JULIAO.
Es placer:
Mirad, señora muger.
CON. Qué miráis, mi corderito?
JUL. Cuan ufano y cuan bonito
Está el pomar dende ayer!
CON. Oh qué cosa es el verano!
JUL. Mirad, mi alma, el rosal
Como está tan cordeal,
Y el peral tan lozano!
CONSTANCA.
Cuan alegre y cuan florido
Está, señor mi marido,
El jazmín y los ganados,
Los membrillos cuan rosados,
Y todo tan florecido.
DAS TRAGICOMEDIAS. 201

Los naranjos y manzanos,


Alabado Dios!
JUL. Pues mas florida estáis vos.
FRA. Padre, no oís batir
A la puerta ha ya un mes?
JUL. Algo vienen á pedir.
Quien está hi? — D. DUA. De paz es.
Julián, por Dios os ruego
Que abráis. JUL. SÍ, abriría,
Mas Flerida vendrá luego.
D.Du.Pues, Julián, yo os diría
Cosas de vueso sociego
Y descanso y alegría.
JUL. Esperad y llamare
La señora mi muger,
Que, si es cosa de placer,
Solo no lo quiero ver,
Porque no lo gustaré.
Constanza Roiz, viene acá,
Que sin vos soy todo nada.
Catad, señor, que esta entrada
Nunca se dio ni dará,
Que esta huerta es muy guardada.
(Abre-llic a porta e v e n d o - o ein Irages de iraballiador, Iho d i z : )

Pero donde sois, hermano?


D.Du.De Inglaterra. JUL. Y qué mandáis?
Ü.Dc.Querria ser hortelano,
Si vos me lo enseñáis,
Y quiero decirlo llano.
En esta huerta, señor,
Está terrible tesoro
De infinitas piezas de oro,
202 LIVRO III

Y solo yo soy sabidor.


Esto es cierto.
Hagamos un tal concierto,
Que me tengáis simulado,
Y de vos perded el cuidado^
Si tenéis esto encubierto.
JULIAO.
Á la Infanta qué diremos.
Si os viere aqui andar?
CON. Por hijo puede pasar;
Julián le llamaremos.
Vendrá ora,
Y yo le diré: — Señora...
Yo lo mas quiero callar.
Bien podéis aqui andar,
Y vengáis mucho enbucnora.
Entrado D. Duardos na horla, diz.
D. DUARDOS.
Huerta bienaventurada,
Jardín de mi sepultura
Dolorida;
Yo adoro la entrada,
Aunque fuese sin ventura
La salida.
VemFlerida com suas Damas Amandria e Arlada,
e vem praticando pela harta sobre o desafio de D. Duardos
com Primalion.
FLERIDA.
Oh cuanto honran la tierra
Los caballeros andantes
Esforzados!
AMA. Mucho enamora su guerra.
DAS TRAGIC03IEDIAS. 203

Y aborrecen los galanes


Regalados.
FLE. Oh qué grande caballero!
ART. Cual, Señora? FLE. El que herió
¥

A Primalion.
ART. NO vino tal caballero
A la corle, ni se vio
Tal corazón.
AMANDRIA.
Supe, Señora, quien era?
FLE. Nunca se ine quizo dar
A conocer;
Mas, asegun su manera,
Gran señor, á mi pensar.
Debia ser.
ART. Cuan fuertemente lidiaba!
AMA. Oh como se combatía
Apresurado!
FLE. Qué ricas armas armaba,
Y cuan mañoso lo hacía
Y cuan osado!
CONSTANCA.
Dios bendiga Vuesa Altesa,
Y os dé mucha salud,
Y logréis la jiiA'entud.
Sin fatiga ni tristeza.
Estas rosas
Son de las mas olorosas.
FLE. Serán de casta de Ungría:
Mas decidme, no es dia
Hov de hacer afán?
«04 LIVRO 111.

Donde es ido Julián,


Y toda su compañía?
CONSTANCA.

No es día de holgar,
Sino donde ha hi placer.
Un hijo nos vino ayer,
Que nos quitó gran pesar.
FLE. Bendígaos Dios!
Otro hijo tenéis vos?
CON. Veinte años hace este mes.
FLE. Pues que vuestro hijo es,
Decidle que venga á nos.
CON. Viene roto; hasta mañana
No osará aparecer.
FLE. El hombre queremos ver,
Que los paños son de lana.
CONSTANCA.
Julián, mi hijo, mi diamau,
Llámaos la princesa
Flerida. D. DUA. Mas diesa,
Que todos alabarán.
Cual corazón osa ahora,
En tan disforme visage
Y vil figura,
Ir delante una Señora
Tan altísima en linage
Y hermosura!
Y vos mis ojos indinos.
Cuales hados os mandaron,
Siendo humanos.
Ir á ver los mas divinos,
DAS TRAGICOMEDIAS. 205

Que los Dioses matizaron


Con sus manos?
FLE. Ha mucho que eres venido? —
En qué tierras anduviste,
Julián? —
No hablas? ART. Está corrido.
FLE. Cuanto había que fuiste?
ART. Quieres pan?
AMANDRIA.
Bendiga Dios el nimio!
Como es bonito y despierto!
No lo veis?
ART. Busquémosle un pajarito:
Este ni AÍVO ni muerto
Para qué es?
AMA. Él se aprovechará
Para bestia de atahona
Con retrancas.
ART. Cuan de espacio mulera!
AMA. O espulgara la mona
Por las ancas.
ARTADA.
Mas echémosle á nadar
En el tanque.., AMA. Bien será.
7
ART. SUSO, A amos!
FLE. Porqué no quieres hablar?
AnT. Señora, él hablará,
Si lo echamos.
D.Du.Señoras, cuando el corazón
Del esfuerzo tiene mengua,
Ya se piensa
Que de fuerza y con razón
206 LIVRO IH

Será turbada la lengua


Y suspensa.
Porque yo vide á Melisa
Esposa de Recendoz,
Que Dios pintó;
Vi Viceda y Valerisa,
Por quien el Rey Arnedoz
Se perdió;
Vi la hermosa Griola,
Emperatriz de Alemana,
Y sus doncellas;
Vi Gridonia, una sola
Imagen de gran hazaña
Entre las bellas;
Y vi Silveda y Finea,
Graciosísima señora,
Mucho linda;
Vi las hijas de Tedea,
Y AÍ la Ifante Campora,
Y Esmerinda:
Mas con vuesa hermosura
Parecen mozas de aldea
Con ganado;
Parecen viejas pinturas,
Unas damas de Guinea
Con brocado.
Son unas sombras de vos,
Y figuras de unos paños
De Granada;
Y tales os hice Dios
Que aun que esté mudo mil años.
No es nada.
DAS TRAGICOMEDIAS. 207

FLE. Viste á Primalion


En los reinos estrangeros,
Y sus famas?
D.Du.No es de mi condición
De mirar á caballeros,
Sino á damas.
ARTADA.
En ti se entiende mirar?
D.Du.Conozco, señora mia,
Que soy ciego;
Ni también puedo negar
Que ciego sin alegría
Ardo en fuego.
FLE. Debes hablar como vistes,
O vestir como respondes.
D.Du.Buen vestido
No hace ledos los tristes.
FLE. Ojalá tuviesen condes
Tu sentido.
Anda, vete agasajar
Con tus padres y hermanos,
Por los cuales
Holgaré de te amparar.
D.Du.Beso vuestras altas manos
Divinales.
FLE. Yete con la bendición
A comer cebolla cruda,
Tu manjar.
D.Du.Quien tiene tanta pasión
Todo comer se le muda
En suspirar.
208 LIVRO III

ARTADA.
El bobo muy bien asienta
Sus razones, y dirán
Sin letijo,
Si lo mira quien lo sienta,
Que no hizo Julián
Aquel hijo.
AMA. Venida es la noche escura,
Vayase Vuesa Altesa.
FLE. Aquel lal
Que lamenta su ventura
Y exclama su tristeza,
De que mal?
AMANDHIA.
Es un modo de hablar
General, que oís decir
A amadores,
Que á todos veréis quejar,
Y ningún veréis morir
Por amores.
Julián sin saber que es,
Quiere ordenar también
De quejarse,
Y muchos tales veres:
Mas querría ver alguien
Que amase.
Si alguno al Dios Apolo
Hiciese adoración
Por su dama,
Y esto estando solo,
Y llorando su pasión,
Este ama.
DAS TRAGICOMEDIAS. 209

Mas delante son Mancías,


En ausencia son olvido,
Y el querer
Es amar noches y días,
Y cuanto menos querido
Mas placer.
Estas cousas vai Amandria dizendo indo-se Flerida com
ellas recolhendo da horta, e idas, diz D. Duardos a Juliao:
•D. DUARDOS.
Toda esta noche, señor,
Me conviene trabajar,
Que el tesoro
De noche quiere el labor;
Y me voy luego a cavar
Como Moro.
CON. Ora andad con Dios, hermano.
Yo quiero cerrar mi puerta
Bien cerrada;
Las noches son de verano,
Aunque durmáis en la huerta,
No es nada.
O señores tres Reis Magos,
Que venistes de oriente,
Por vuesos santos milagros,
4Jue ayudéis aquel bargante
A buscar muchos ducados.
JUL. Venios acostar, señora.
* Soledad tengo de ti,
"O tierras donde nací."
Co\. Ay, mi amor, cantable ahora.
JULIAO.
"Soledad tongo de ti,
14
Yol. II.
210 LIVRO III

" 0 tierras donde nací."


Bien solía yo musicar
Nel tienipo que Dios querría.
CON. Como' os oigo cantar
Llórame el ánima mia.
JUL. Vamonos ora acostar.
Soliloquio de
D. DUARDOS.
Oh palacio consagrado,
Pues que tienes en tu mano
Tal tesoro,
Debieras de ser lavrado
De otro metal mas ufano
Que no oro.
Hubieron de ser vubines,
Esmeraldas muy polidas
Tus ventanas,
Pues que pueblan serafines
Tus "entradas y salidas
Soberanas.
Yo adoro, diosa inia,
Mas que á los dioses, sagrados,
Tu alteza,
Que eres dios de mi alegría,
Criador de mis cuidados
Y tristeza.
A^ ti adoro causadora
De este AÜ ofieio triste
Que escogí;
A ti adoro, señora,
Que mi ánima quisiste
Para (i.
DAS TRAGICOMEDIAS. 211

No uses de poderosa
Porque diciendo te alabes
Yo vencí!
Ni sepas cuanto hermosa
Eres, que si lo sabes,
Ay de mí!
Oh primor de las mugeres,
Muestra de su excelencia
La mayor;
Oh señora, por "quien eres,
No niegues la tu clemencia
i

A mi dolor.
Por los ojos piadosos
Que te vi neste lugar,
Tan sentidos,
Claríficos y lumbrosos,
Dos soles para cegar
Los nacidos,
Que alumbres mi corazón,
O Flerida, diesa mia,
De tal suerte,
Que mires la devoción
Con que -vengo en romería
Por la muerte.
Tú duermes, yo me desvelo,
Y también está dormida
Mi esperanza:
Yo solo, señora, velo
Sin Dios, sin alma, sin vida,
Y sin: mudanza.
Si el consuelo viene á mí,
Como á. mortal enemigo
U*
212 LIVRO III.

Le requiero:
Consuelo, vete de ahí,
No pierdas tiempo conmigo
Ni te quiero.
Estq^ es ya claro dia,
Darleshé este tesoro,
Porque el mió
Es Flerida, señora mia,
De cuyo Dios* yo adoro
Su poderío.
Vem Juliao e Constanga, e diz Juliao:
JUL. Mala noche habéis llevado
Harto escura sin lunar.
D.Du.Y sin placer.
CON. Vueso almozo está guisado.
D.Du.Trabajar y suspirar
Es mi comer.
Veis aqui lo que saqué
Aquesta noche primera.
JUL. Oh qué cosa!
Pardiez aína diré
Que no es Flerida en su manera
Tan hermosa.
D.Du.Ay, ay! JUL. Venís cansado?
D.üu.Mi corazón lo diría,
Si osase.
CON. Comeréis un huevo asado,
Mi hijo, mi alegría?
r

O queréis que os ase.


D. DUARDOS.
No hablemos en comer;
Dejadme gastar la vida
DAS TRAGICOMEDIAS 213

Eu mi tesoro.
Esta copa ha de haber
Flerida, que es descendida
De un rey Moro.
Esta le A'iene de herencia
De sus agüelos pasados;
Cumple á nos
Dársela por conciencia,
Y los trecientos ducados
Para A7OS.
CONSTANCA.
O mi hijo y mi hermano,
Mi santo descanso mío
Y de mi vida!
Dios os trajo á nuestra mano,
Y fue por él, yo os fio,
La venida.
Su Alteza vendrá ora,
Que ya acabó de jantar
Ha buen rato.
JUL. Oh Dios, quien tuviera ahora
Para os agasajar
Un buen pato.
CONSTAM; v.
Andad acá, hijos míos,
Y porneinos en recado
Lo que hallamos;
Dios sabe ora cuan vacíos
Y sin blanca ni cornado
Nos hallamos.
Vamos, hijo, á la posada,
Y descansareis siquiera
214 LIVRO III.

Ve la noche
Mala que habéis HeA-ada:
"No faltará una estera
En que os- eche.
.Vem Flerida, Artada, Amandria ti borla e diz
FLÉRIOA.
Jesús!- qué cosa es esta?
No hacen hoy labor
Ni ayer?
ART. Terna ochavas la fiesta
De su hijo y su amor
Con placer.
FLE. Amandria, por vida vuestra
Que lo busquéis'y llamaldo.
AMA. Sí, señora.
FLE. Y si os hiciere muestra
De poca gana, dejaldo
Por ahora.
AMANDRIA.
Dice la señora Infanta
Que holgará de (e ver
Trabajar.
D.üu.No será su gana tanta
Cuanto será mi placer
De le agradar.
AMA.Sabéis sembrar toda suerte?
Ü.Ou.Señora, soy singular
Hortelano
Mas esta tierra es tan fuerte,
Que pienso que el trabajar
Será en vano.
Cavaré de corazón,
DAS TRAGICOMEDIAS. 215

Y regaré con mis ojos


Lo sembrado;
No cansará mi pasión,
Porque mis tristes enojos
Son de grado.
AMA. Señora, por mi salud
Que yo no puedo entender
Hombre tal.
D.Du.Oh triste íni juventud,
Tú veniste .á mi poder
. Por mi mal.'
FLERIDA.
De qué te quejas? D. DUA. De Dios,
Porque no nos hizo iguales
Los nacidos;'
Y sin. mancilla de nos
Nos dio* ojos corporales
Y sentidos:
Los ojos para mirar;
Sentir para conocer
Lo mejor;
Alina para desear,
Corazón para querer
Su" dolor.
FLERIDA.
Sabes leer y escribir?
D.Du.Señora, no soy acordado
Si lo sé.
FLE. Haste de tornar á ir.
D.Du.Si me prendió mi cuidado,
Adó iré?
CON. Señora, hace gran siesta:.
216 L1VRO III.

Coma Vuesa Alteza de esta


Fruta mia,
Pues le place con mi fiesta.
FLE. Amandria, hacedme presta
Agua fría.
Trazem a Flerida agua pola copa encantada, e primeiro
diz Amandria quando a ve':
AMANDRIA.

Qué copa tan singular!


Vuesa es esta? CON. Sí, señora
Rosa mía.
AMA. Dios os la deje lograr.
CON. Mi hijo la trujo ahora
De Turquía.
FLE. Oh qué copa tan hermosa!
Tal joya cuya será ?
D.Du.Vuesa, señora;
Y no es tan preciosa
Como es la A7oluntad
Que la dora.
FLERIDA.
Donde la hubiste, Julián?
D.Du.En unas luchas reales
La gané.
FLE. Quiérola, y pagártelahan.
D.Du.Si fuesen pagas iguales
A mi fe!.
( Br.líf F l e r i d a . )

FLE. Oh qué agua tan sabrosa!


Toda se me aposentó
Nel corazón;
Y la copa muy graciosa.
DAS TRAGICOMEDIAS 2Í?

Oh! Dios libre á quien la dio


De pasión.
D. DUARDOS.
Voy, señora, á trabajar,
Dios sabe cuan trabajado.
FLE. Mucho mejor empleado
Te debieras emplear.
Tu figura
En tal hábito y tonsura
Causa pesar en te viendo.
D.Uu.Pues aun quedo debiendo
Loores á la ventura.
FLERIDA.
NO fuera mejor que fueras
Á lo menos escudero?
D.Du.Oh, señora, ansí me quiero
Hombre de bajas maneras:
Que el estado
No es bien aventurado,
Que el preció está en la persona.
ART. Señores, es hora de nona,
Y de os ir á vueso estrado.
FLERIDA.
Quédate á Dios, Julián.
D.Du.Yo, señora, no me quedo;
También vó.
Los cuidados quedarán
Pero yo quedar no puedo:
Tal esto.
FI.K. Adonde le quieres i r ?
No te v7ayas por tu vida:
Tien sociego.
218 LIVRO III.

Si te habías de partir,
Para, que era tu venida
É irte luego ?
Si Julián se partiese,
Por causa de nuestra vega
Pesarmehia,
Como se mucho perdiera.
ART. Si conmigo se aconseja,
No se iría. (^«o-se.)
Depois* de idas diz Juliao a >D. Duardos.
JULIAO.
Queréis ora que os diga?
Hermano, muy bien fiareis.
Que está noche no cavéis,
Ni os deis tanta fatiga.
Ceñaremos,
Y antes que nos echemos,
Tomaremos colación.
D.Du.Ni yo ni mi corazón
No cumple que reposemos.
Hora es que os acogais.
Voy á cavar mi riqueza;
No que descubra tristeza
Los secretos de mis ais.
Soliloquio segundo de
D. DUARDOS.
Oh floresta de dolores,
Arboles dulces, floridos,
Inmortales,
Secáredes vuesas flores,
Si tuviérades sentidos
• Humanales.
DAS TRAGICOMEDIAS. 219

Que partiéndose de aqui


Quien hace tan soberana
Mi tristura,
Vos, de mancilla de mí,
EstuviéráHes mañana
Sin verdura.
Pues acuérdesete, Amor,
Qué recuerdes mi señora
Que se acuerde
Que no duerme mi dolor,
Ni soledad sola un hora
Se ine pierde.
Amor, Amor, mas te pido,
Que cuando ya bien despierto
La verás,
Que le digas al oido:
Señora, la vuestra huerta! —
Y no mas.
Porque .amor yo quiero ver,
Pues que Dios eres llamado
Divinal,
Si tu divjnal poder
Hará subir en brocado
Este sayal;
Que para seres loado,
Á milagros te esperamos:
Que lo igual
Ya sentí se está acabado.
*
Por lo imposible andamos
No por al.
Alvorada, á li adoro,
O mañana, a ti loamos
220 LIVRO III.

De alegría.
Quiero lleA'ar mas tesoro
Y contentar á mis amos
Que es de dia.
Vai-se D. Duardos, e vem Flerida descobrindo a Arlada
o amor que tem a D. Duardos sem saber que era aquelle,
e diz:
FLERIDA.
O Arfada mi amiga,
Llave de mi corazón,
Tal ine hallo,
Que no sé como os diga
Ni calle tanta pasión,
Como callo.
Deciros quiero mi vida:
No, que de tal desvarío
Digo nada.
Mas es una alma perdida,
Que habla en el cuerpo mío
Ya finada.
Bien os podéis santiguar
De mí, que soy atentada
Del amor,
Y amor en tal lugar,
Que no oso decir nada
De dolor.
Esconjuradme y saberes
De esta ánima, que os digo,
Ya difunta,
Quien era, y cuya es;
Dirá que del enemigo
Toda junta.
DAS TRAGICOMEDIAS. 221

ART. NO entiendo á Vuesa Alteza.


FLE. Ni yo quisiera entender
A Julián.
ART. Jesús! Y vuesa grandeza,
Vueso imperio y merecer,
Qué le dirán?
, FLERIDA.
Mas qué haré? AnT. Qué liareis?
Tenéis Príncipe en Ungría
Y en Francia,
Que vos muy bien merecéis,
Y Príncipe en Normandía,
Que es ganancia.
Tenéis Príncipe en Romanos,
Don Duardos en Inglaterra,
Gran señor:
Y todos en vuestras manos.
FLE. Julián me da la guerra
Por amor.
Esta noche lo aseché,
Y dijo que es caballero
Y no hortelano.
Sabed del, por vuestra fe,
Que hombre es; que creer no quiero
Que es villano.
Vem Amandria com as Donzellas músicas, e diz:
AMANDRIA.
La Emperatriz, señora,
Vuesa madre, va á cazar:
Envíaos á perguntar
Si iréis á cazar ahora,
O si holgáis mas nel pomar.
222 LIVRO III

FLE.. No es razón,
Que está en muda mi halcón,
Y el azor desvelado,
Y mas ¡do el mi amado
Hermano Primalion.
Vem Constanga Roiz, e diz, chorando, a Flerida:
- CONSTANZA.
Ha hi azúcar rosado,
Señora, en vuesa casa?
FLE. Para qué?
CON. Mi hijo está maltratado,
Que el corazón se le abraza.
FLE. NO lo sé.
CON. DOS veces se ha amortecido.
ART. S Í lo apalpa la tierra!.
AMA. Quien guardó ganado en sierra,
En el poblado es -perdido.
CONSTANZA.
Es mi hijo muy sesudo,
Nueso Señor me lo guarde:
Suspira de tarde en tarde,
Pero quéjase á menudo
Que el ánima se le arde.
FLE. Qué será?
CON. Señora, no sé que ha;
Sus lágrimas son iguales
A perlas orientales:
Tan gruesas salen de allá.
Vem D. Duardos com sua enchada, e diz:
D. DUARDOS.
Madre, donde iré cavar?
Que no puedo estar parado,
DAS TRAGICOMEDIAS. 223

Ni socicgo:
No se entienda descansar
En mí, porque descansando
Muero luego.
CON. Mas dejad, hijo, la azada,
Y mirad estas doncellas
Que aqui veis.
Requebrad os con Arlada,
Y hablad con todas-ellas,
Y holgareis.
FLERIDA.
Vamos pasar los calores
•'Debajo del naranjal.
D.üu.Señora, ahí es natural,
•Caerá flor "en las flores.
FLE. De manera
Que siempre tienes ligera-
lia respuesta^ enamorada.
No os digo yo, Arlada,
Que va honda esta ribera?
ART. Señora, yo estoy espantada.
FLERIDA.
Tañed vuestros instrumentos,
Que pensativa me siento,
Y de un solo pensamiento
Nacen muchos pensamientos
Sin ningún contentamiento.
Y o so'specho
En el centro de mi pecho,
Y mi corazón sospecha
Que esta cosa va derecha
Para; yo perder derecho.
224 LIVRO III.

Tocao as Damas seus instrumentos, e diz


ARTADA.
Señora, qué cantaremos?
FLE. Julián lo dirá presto.
D.Du.Señora, cantad aquesto:
"Oh mi pasión dolorosa,
Aun que penes no te quejes,
Ni te acabes ni me dejes.
"Dos mil suspiros envío,
Y doblados pensamientos,
Que me trayan mas tormentos
Al triste corazón mío.
Pues amor que es señorío,
Te manda que no me dejes,
No te acabes ni me dejes."
FLERIDA.
Mas cantad esta canción:
"Quien pone su afición
Do ningún remedio.espera,
No se queje porque muera."
D.Du.Mas podéis muy bien cantar:
"Aunque no espero gosár
Galardón de mi servir,
No me entiendo arrepentir."
Canino esta cantiga, e acabada, diz
D. DUARDOS.
No mas por amor de Dios,
Que yo ine siento espirar.
O señoras,
Quien fuese esclavo de vos!
ART. Señora, para mas holgar
No son horas.
DAS TRAGICOMEDIAS. 225

AMA. La música debe ser


La madre de la tristeza.
FLE. Oh cuitada!
Quien me tornase á nacer,
Pues ine tiene la ventura
Condenada.
Holgaré de oir cantar:
"Sí eres para librar
Mi corazón de fadigas,
Ay por Dios tú me lo digas."
D.Du.Por deshecha cantaran:
"El galgo y el gavilán
No se matan por la prea,
Sino porque es su ralea."
FLE. Á Dios, á Dios, Julián,
Esta huerta te encomiendo
Por tu fe.
D.Du.Mis ojos la mirarán,
Mas suspirando y geiniendo
lia veré.
Indo-se Flerida com suas Damas chorando, diz
A R T ADA.
Como vais ansí, señora?
FLE. NO sé; llóranme los ojos
De contino,
Y también mi alma llora,
Y son tantos mis enojos,
Que me fino.
Vendo D. Duardos a pena de Flerida, diz:
D. DUARDOS.
Oh mi ansia peligrosa,
Dolor que no tiene medio,
1 5
Vol. II.
226 LIVRO III.

Pues busqué
Medecina provechosa,
Y con el mismo remedio
Me maté.
Que si Flerida es herida
De tal dolor como yo
Tan estraño,
Oh cuitada de mi vida!
Mi corazón qué ganó
En tal daño?
Oh Olimba qué heciste,
Que para remediarme
De mil suertes,
Heciste á Flerida triste,
Y verla triste es matarme
De mil muertes.
La copa me echó en medio
De un placer que me desplace
Y descontenta.
Pues ahora qué remedio;
Que lo que ine satisface
Me atormenta.
Oh preciosa diesa mia,
Yo confieso que pequé,
Señora, á ti,
Y por eso el alegría
Del remedio que busqué
Es contra mí.
Conozco que fue traición;
Perdona, rosa del mundo,
Al que pecó,
Porque fue mi corazón
DAS TRAGICOMEDIAS. 227

Que con gran querer profundo


Te erró.
Vem Juliao visitar D. Duardos e vem cantando.
JULIAO.
"Este es el calbi ora bi,
"El calbí sol fa melhorado."
D.Du.Quien tuviese el tu cuidado,
Y no del triste de mí!
JUL. Cómo os va, bon ainí? D. DUA. Cansado.
JUL. Parece" que habéis llorado.
D.üu.Nunca tan triste me vi:
No me hallo en esta tierra,
Y este tesoro ine tiene,
Este solo me da guerra:
Que cuando andaba en la sierra,
Hacía vida solene.
JULIAO.
Pues debéisos de avesar
Á vivir entre la gente,
Y será bien de os casar
En este nuestro lugar
Con una moza valiente.
Quiéroos dar
Moza que tiene un lelar
Y arquibanco de pino,
Afuera que ha de heredar
Una burra y un pomar,
Y un mulato y un molino.
No os burléis, hermano, vos,
Que la pide un calcetero,
Y un curtidor ó dos;
Y por aqui placerá á Dios
15"
228 LIVRO III.

Que saldréis de ser vaquero.


Es moza baja, doblada,
Es morena, pretellona,
Graciosa, tan salada,
Que no la mira persona,
Que no quede enamorada:
E s muchacha que habrá
Treinta años que tiene muelas,
Y según holgada está,
A la voluntad me da
Que escusadas son espuelas.
Juróos, hermano mió,
Que os viene Dios á ver;
Que aunque el padre fue judío
Y su padre y su natío,
Tiene muy bien de comer.
Sí, por Dios que no os miento.
DJJu.Id os, Julián amigo,
No habléis cosa de viento,
Que el cansado pensamiento
Harto mal tiene consigo.
JUL. Constanza Roiz, amor mió,
Ah señora Aida mia!
CON. Qué me queréis, señor inio?
JUL. Que sin vuesa compañía
No tengo placer ni brío.
Estoyle diciendo yo
Que case con Grimanesa,
Pues que tanto bien halló,
Y para nos lo cavó,
Que le demos buena empresa.
CON. Si la moza no rehusa,
DAS TRAGICOMEDIAS. 229

Buen casamiento sería;


Mas es una garatusa,
Que de mil otros se escusa,
Que la piden cada dia.
D. DUARDOS.
Fortuna, duelte de mí.
Y hace cuenta conmigo,
No cobres fama por mí
De cruel, porque está aqui
El mi cruel enemigo.
Ahora vienes con esto,
Cuando yo la muerte pido.
Oh mi Dios señor Cupido,
Loado seas por esto,
Que á tal punto ine has traído.
JULIAO.
Qué decís? D. Duv. Yo me entiendo.
JUL. Anda hombre por honraros,
Y ampararos y obrigaros,
Y aun vos estáis gruñiendo?
Por vida dé esta mi amada,
Que es la moza (y qué tal
Moza!) machuela y doblada.
Pescozo corto, amasada,
Salada como la sal.
Y vos aun rehusáis
De casar con Griinanesa ?
Oh qué moza allí dejais!
D.Du.Ruégoos mucho que os vais,
Iré proseguir mi empresa.
Apartase D. Duardos dos hortelóes, e porque a Princeza
Flerida, quercndo-se apartar desta com>ei-sagao. femendo-sc
230 LIVRO III.

do mal que lhe podia seguir, determinan de nao viráhorht:


sobre este passo, neste terceiro soliloqido D. Duardos diz:
D. DUARDOS.
Tres días ha que no viene;
Guisándome está la muerte
Mi señora.
Señora, quien te detiene?
No sé como estoy sin verle
Sola una hora.
Pues de darme eres servida
Despiadosa batalla
Y triste guerra,
Y mi paz está perdida;
Muerte! llévame á buscalla
So la tierra.
Que cuando amor me prendió,
Dijo: Presto has de morir
Por justicia.
Luego me sentenció
Y aluéngame el vivir
Con malicia.
Dios de amor, no te contentas
Que te quiero dar la vida
Neste dia,
La misma que tú atormentas?
Sácame la dolorida
Alma mia.
Qué mas quieres, o huerta?
Deseo verte arrancada
Donde esto:
Quema tu cerca y tu puerta,
Pues estás tan olvidada
DAS TRAGICOMEDIAS. 231

Como yo.
Tu diosa porqué no viene
Ver que esto suyo se va
AI infierno,
Onde por lu amor peno?
Y la gloria será
Que es eterno.
Apertando o amor a Princeza Flerida, e nño podcndo
cumprir o degredo que em si mesma poz, manda primeiro
Artada, e vendo a D. Duardos vir, diz antre si:
D. DUARDOS.
Aqui do viene Artada
Del mal lo menos es bueno.
Ya siquiera
Mi ánima atribulada
Dirá el mal de que peno
Y la manera;
Que no puede ser tan cruda;
La doncella es bien criada,
Per nivel
Que no sea mas sesuda,
Mas secreta y mas callada
Que cruel.
ARTADA.
Constanza Roiz qué os delta ?
D.Du.Señora, qué le queréis?
ART. Quiero rosas.
D.Du.Ya las cogeré sin ella:
De mí no las tomareis?
ART. Cuantas cosas
Quereisme hacer entender?
Quien sois, y lo que buscáis
232 LIVRO III.

Por aqui?
D.Du.Y la que os manda eso saber
Porqué no le perguntaís
Qué es de mí?
Y porqué se ausentó
De dar vista al triste ciego
Estrangero,
Que su alteza cegó?
Y ciego caí en tal fuego
En que muero.
No hay mas piedad ni ley
Que matarme en tierras strañas
Sin ventura?
O Flerida! memento mei,
Que se gastan mis entrañas
Con tristura.
ARTADA.
Como señora tan alta
Cabe ei1 vueso corazón?
D.Du.Nel alma está
Toda sin ninguna falta,
Y en el alma la pasión
Que me da:
Porque el triste corazón
Está ocupado con fuego
Y con fe,
Con suspiros, con razón
Con amores, con ser ciego:
Y esto sé.
Pues do cabrá mi alegría?
Oh mis dolores profundos!
Ay de mí!
DAS TRAGICOMEDIAS. 233

Qué haré, soledad mía?


O señora de mil mundos,
Que es de ti?
ART. Algo debéis descansar
En habíanles con Arlada,
Su querida.
Ü.Du.Porqué no viene á holgar
Ha tres días? ART. De enojada
Y arrepentida.
Llorando le oí decir
Que ha de mandar quemar
Luego la huerta,
Y no ha aqui de venir,
Á ver si puede olvidar
Esta puerta.
D.Du.No verná por vuesa fe?
ART. NO, hasta ser sabidora
Quien sois vos.
D.Du.Señora, eso para qué?
Soy suyo, ella es mi señora
Y mí Dios.
ARTADA.
Ya Flerida es sabidor
Que sois grande caballero,
Y mas barrunta
Que seréis grande señor.
D.Du.Quien tiene amor verdadero
No pergunta
Ni por alto, ni por bajo,
Ni igual ni mediano.
Sepa pues
Que el amor que aqui me trajo,
234 LIVRO III.

Aunque yo fuese villano,


El no lo es.
ARTADA.
Eso queréis vos que baste
Para tan alta Princesa
Y de tal ley ?
Antes que mas ruegos gaste,
Descubrid á aquella díesa
Si sois rey.
D.Du.Qué merced me haría ella,
Si yo fuese su igual?
Sin mas glosa,
Flaqueza se es perdella
Como díesa imperial
Milagrosa.
Para hacer merced se vela?
Para piedad se atalaya
Tal señora?
Para qué busca cautela
Con el triste que desmaya
Cada hora?
Y porqué, señora, me deshace
Y piensa ser yo el señor
Que decís vos,
Sino porque no me hace
De nada por su loor,
Pues es Dios?
Que se me pone en olvido
Por nacer bajo vasallo
Y no señor,
Será correr al corrido,
Y al Moro muerto matallo,
DAS TRAGICOMEDIAS. 235

Que es peor.
AnT. El diablo os trujo acá,
Que esas palabras no son
De villano;
No sé porque os queda allá,
Quien sois, nese corazón
Inhumano.
Voyme y no sé qué diga.
D.Du.Decid que no sé quien só,
Ni qué digo,
Ni qué haga ni qué siga.
Ni sé si soy hombre yo,
Ni estoy conmigo.
Decible que no tengo nombre,
Que el suyo me lo ha quitado
Y consumido;
Y decid que no soy hombre,
Y, si hombre, desventurado
Y destruido.
Soy quien anda y no se muda,
Soy quien calla y siempre grita
Sin sociego;
Soy quien vive en muerte cruda,
Soy quien arde y no se quita
De su fuego,
Soy quien corre y está en cadena,
Soy quien vuela y no se aleja
Del amor,
Soy quien placer ha por pena,
Soy quien pena y no se aqueja
Del dolor.
Y decílde que, si yo soy rey,
236 LIVRO III.

Suspiros son mis reinados


Triunfales;
Y si soy de baja ley,
Basta seren mis cuidados
Muy Reales.
ART. El diablo que lo lleve,
Al diablo que lo doy:
Tan dulce hombre,
El que á tanto se atreve,
Alto es, si en mi estoy,
El su nombre.
Tengo de contar arreo
Á Flerida su pasión del
Que encobria:
Y lo que dice lo creo;
Ella no lo ha de crer
Todavía.
Chega onde Flerida está, c diz
Señora con este termo
Que hizo en apartarse
De la huerta,
Julián de amor enfermo
Determinó declararse;
Y vengo muerta.
Cuanto habló se redunda
Que por vos es hortelano,
Y no reposa.
FLE. Yo no sé en que se funda.
ART. Señora, no es villano,
Mas gran cosa.
FLE. Oh triste! dijéraos ora
Quien es, porque esto sabido,
DAS TRAGICOMEDIAS. 237

Terna medio.
ART. NO dice mas, mi señora,
Sino que es hombre perdido
Sin remedio.
Mas, señora, vaya allá
Sola vuesa Señoría,
Y espere
Si le declarará,
O con que nueva osadía
La requiere.
FLE. SÍ yo hallo que de hecho
Me habla claros amores,
Yo me fundo
Que es ansí como sospecho
Ser príncipe de los mayores
Que hay en el mundo.
Entrando Flerida so polo pomar da horta, vai dizendo:
FLERIDA.
Cuan alegres y contentos
Estes árboles están!
, En esto veo
Que no son graves tormentos
Los que sufre Julián
Con deseo;
Que en la cámara adó esto,
Veo llorar las figuras
De los paños
Del dolor que siento yo,
Y aqui crecen las verduras
Con sus daños.
Y mis jardines tejidos
Con seda de oro tirado
238 LIVRO III.

Se amustiaron,
Porque mis tristes gemidos,
Teñidos de mi cuidado
Los tocaron.
É yo veo aqui las flores
Y las aguas perenales,
Y lo al,
Tan agenas de dolores,
Como yo llena de males,
Por ini mal.
D. DUARDOS.
No sé que viene hablando
La mayor díesa del cielo
Entre sí:
Si mal me viene rogando,
Ya los males son consuelo
Para mí;
Si ruega á Dios que ine dé muerte,
Nadie tiene en mí poder,
Sino ella.
Y dichosa fue mi suerte,
Pues muerte no puede haber
Sino della.
FLERIDA.
Julián, vé tú ahora,
Y cógeme una manzana.
D.Du.Lo que yo digo;
Discordia queréis, señora.
Oh ini guerrera Troyana,
Paz conmigo.
La manzana que queréis,
Aunque vos la merecistes,
DAS TRAGICOMEDIAS. 239

Vida mía,
Es discordia que traéis,
Con que ya me despedistes
De alegría.
FLERIDA.
Qué hablas? estás durmiendo?
Sueñas en la Troya ahora?
D.Du.Mas despierto
El sueño de vuestro olvido,
Con que estos dias, señora,
Me habéis muerto.
FLE. Si supiese bien de cierto
Que eso me dices velando,
Matarme hia.
D.Du.Yo no hago desconcierto
En andaros contemplando
Noche y dia.
Diesa mia, no pequé
En adoraros, señora,
La hermosura,
Como contra ley ni fe
Va aquel que os adora
Por ventura.
Adonde estuvo escondida
Vuesa Alteza, pues que sabe
Mi pasión?
Que piedad merecida
En tales señoras cabe
De razón.
FLERIDA.
Piedad tengo de ti,
Que tu mal para sanar
240 LIVRO III.

No ha hi cura.
D.Du.Porqué, señora? FLE. Porque oí
Que no se puede curar
La locura.
D.Du.Pues qué haré, perdido el seso,
Sin tener en tierra agena
Cura en mí?
Pues pesad injusto peso,
Que por A7OS, reina serena,
Lo perdí.
Y perdí el alma mía,
Si de perder yo ventura
Sois servida,
Perdí de ser quien solía
Por la mayor hermosura
De esta Aida.
FLE. Quien solías tú de s e r ?
D.Du.De mozo guardé ganado
Y araba;
Esto sé yo bien hacer:
Después dejé el arado
Y trasquilaba.
Después estuve á soldada,
Y acarreaba harina
De un molino.
FLE. Paréceme á mí, Artada,
Que este caso no camina
Buen camino.
D.Du.Yo lo veo, alma mia,
Que es camino de dolor
Y de pesar.
FLE. Adonde hallaste osadía?
DAS TRAGICOMEDIAS. 241

D.Du.En el templo del Amor


Sobre el altar.
FLERIDA.
Luego bien sospecho yo
Que no llega ahí villano.
D.Du.Oh mi Dios!
No queráis saber quien só:
Sed vos Roma, yo Trajano
Para vos.
Sed para mí Constantino,
Aquel noble Emperador
Me sed, Señora,
E yo la moza del molino,
La que él hizo por amor
Emperadora.
Oh milagrosa señora,
Oh milagrosa Princesa
Divinal,
No matéis quien os adora,
Que ninguna santa diesa
Hace mal.
FLE. Vamonos de aqui, Arlada,
De esta huerta sin consuelo
Para nos.
De fuego seas quemada,
Y sea,rayo del cíelo,
Plega á Dios!
O hombre, no me dirás,
Pues que me quieres servir,
Quien tú eres?
Dímelo á mí, no mas,
Yo sola te lo quiero oir.
Vul. 11.
10
242 LIVRO III.

Si quisieres.
D.Du.Pláceme, con tal cautela,
Por hacer hechos discretos,
Que estemos
Sin sol, luna, ni candela.
Que descubran los secretos
Que hacemos.
Será á horas y en lugar
Que estén solas las estrellas
De presente,
lias árboles sin lunar,
Y Artada allí con ellas,
Sin mas gente.
Allí os descubriré
Quien soy, y seréis servida,
Pues queréis
No creer quien yo soy: por fe
Que por ATOS tomé esta vida
Que me A7eis.
Y si tenéis desconsuelo,
Pensando que para enojaros
Esto quiero,
Juro á los Dioses del cielo
Que solamente en miraros
Tiemblo y muero.
ART. Señor, mudad el pellejo,
Id á vestir vuesos paños
Naturales.
Ella haberá su consejo,
Que estos pasos traen daños
Inmortales.
Vai-se D. Duardos, e vño Artada e Herida fallando, e diz
DAS TRAGICOMEDIAS. 243

ARTADA.
Señora, qué será aqui,
Si este hombre es caballero
Y no al?
Para qué es, triste de mí,
Dar por la vaca el vaquero
Principal ?
De otra parte qué ha de hacer,
Salvo si es Príncipe él
De Normandía?
FLE. Y quien se había de atrever
A mí, si no fuese aquel
O su valía?
ARTADA.
Paréceme mal, señora,
Quereros hablar á escuras.
FLE. Y á mí.
ART. YO duermo luego en la hora
Que anochece, y sus dulzuras
Bien las vi.
FLE. Qué remedio, que yo me fino
Por saber quien es este hombre?
Soy perdida;
Ardo en fuego de confino,
Con amias que no han nombre
Ni medida.
Camilote emquanto se estas cousas passño, sobre o reto de
Maimonda contra Flerida, matón D. Robusto e outros ca-
vaüeiros; sabcndo isto D. Duardos, armou-se e foi-se ao
campo e malou Camilote, e Amandria entra dizendo:
AMANDRIA.
Camilote es muerto ya.
10*
244 LIVRO III.

FLE. De verdad? AMA. S Í , por cierto.


FLE. Quien lo mató?
AMA. Ninguno lo sabe allá;
Maimonda que lo vio muerto.
Luego ahuyó.
Vay tras della el caballero.
FLE. No es él de nuesa corte?
AMA Para Mayo;
Es un Príncipe estrangero;
Tan presto le dio la muerto
Como un rayo.
FLERIDA.
De qué estatura será?
AMA. Del cuerpo de Julián,
Y ansí hermoso,
Algunos dicen allá
Que es el caballero del can,
El famoso.
FLE. Asentaos y holguemos;
Cantad algo, mis doncellas
Todas vos,
Que cedo al son de los remos
Fenecerán las querellas
De los dos.
Cántao e langem, e acabando, diz
ARTADA.
Acuérdeseos, señora, que el sol es partido
Dentro horizonte, y es noche cerrada,
lia luna ahora es toda menguada,
Y solas estrellas quedan, el partido.
Eis que parece la estrella Polas
Con la bucina sicarrogiando.
DAS TRAGICOMEDIAS. 245

FLK. En eso estaba Artada pensando?


Dejadnos vosotras resar aqui solas.
ARTADA.
Qué caso sería y buena fortuna
Matar Julián aquel fiero hombre!
FLE. Que no es Julián, Artada, su nombre,
Y él lo mató sin duda ninguna:
Y este me afirmo ser mor caballero
De toda la Grecia y de todo el mundo;
Y cada vez mas este caso es profundo,
Que ahora le quiero mas que de primero.
Vem D. Duardos vestido de Principe, com a grinalda
de Maimonda, c diz:
D. DUARDOS.
Oh cuan poquito servicio
Es poner por vos la vida!
Cuan pequeño!
Que no es gran heneficio
Pagar la deuda devida
A su dueño.
Por vos se debe morir
Á vos se debe el orar,
Alta Infanta,
Que sois diesa del vivir,
Y señora del matar,
Siendo santa.
Á vos, señora, son devidas
Flores de mas altas rosas
Y peligro,
Aunque estas fueran cogidas
En las sierras mas hermosas
De este siglo.
246 LIVRO III.

Y aquel que las cogió


Se puso en harta ventura
Con serpientes:
El por Maimonda murió,
É yo por la hermosura
De las gentes.
FLERIDA.
Artada, qué le diré?
ART. Que viene muy gentil hombro.
FLE. Oh quien supiese su nombre!
Oh Dios! porqué no lo sé!
D.Du.Pero quiso A7uesa Alteza
Que deba besar la mano
De mi seda
Y no de vuesa grandeza:
Pues si yo me soy villano,
Ahí se queda.
Yo á Aros amo, y no mas
Por Princesa y por ventura:
No, cuitado,
Que mucho queda detrás
De vuesa gran hermosura
Vueso estado.
Por mí, por mí, y no por vos,
Y no por serdes tan alta
Fui captivo.
Dadme la vida, mi Dios;
Que el hombre adó no hay falta,
Bueno es vivo.
FLERIDA.
Sea de que suerte sea,
Allegada es vuesa teína
DAS TRAGICOMEDIAS. 247

Al engaño.
Queréis vencer mi pelea,
Y no queréis que me tema
De mi daño?
Queréis que pierda el amor
A mi padre y mi señora
Y al sociego,
Y á mi fama y á mi loor,
Y á mi bondad, que se desdora
En este fuego?
D. DUARDOS.
Xo; debéis considerar
Que el lugar y las estrellas
Y el modo,
Y el amor y el callar
Mis dolores, mis querellas.
Vencen todo.
FLE. E U todo cuanto deseo
En iodo os hallo duro
Hasta aqui:
Todo siento, todo veo,
Y lodo se hace escuro
Para mí.
D. DUARDOS.
Si al menor rincón llegáis
De ini ardiente corazón,
Encenderéis
Candela con que veáis
Que os pido galardón
Que me debéis.
FLE. Que será de mí, Artada,
Pues que amar y resistir
248 LIVRO 111.

Es mi pasión?
ART. Señora, estoy espantada,
Y cantando quiero decir
La conclusión.
"AI Amor y á la Fortuna
"No hay defensión ninguna."
FLERIDA.
Aunque nunca se halló
Al Amor y á la Fortuna
Defensión,
Debiera haber, triste yo!
Para mi siquiera alguna
De razón.
O Ventura diesa mia,
Refugio de los humanos
Soberano,
Tú sola tomo por guia,
Y entregóme á tus manos
Por mi mano.
PATRAO.
Señores, es ya plena mar,
Y son horas naturales
De partir,
Por que puedan bien nadar
Las diez galeras reales
Y salir;
Y las otras medianas,
Y las fustas y galeras
Y las naves,
Están y vienen lozanas,
Espalmadas y ligeras
Como aves.
DAS TRAGICOMEDIAS. 249

Parta vuesa señoría,


Pues la noche hace escura
Y es hora.
D.Du.Qué decís, señora mía?
FLE. Ya me di á la Ventura
Mi señora;
Y pues sabe este pomar
Y la huerta mi dolor
Tan profundo,
Quiero que sepa la mar
Que el amor es el señor
De este inundo.
ARTADA.
Por memoria de tal tranco
Y tan terrible partida
Venturosa,
Cantemos nuevo romance
A la nueva despedida
Peligrosa.
Romance.
En el mes era de Abril,
De Mayo antes un dia,
Cuando lirios y rosas
Muestran mas su alegría.
En la noche mas serena
Que el cielo hacer podia,
Cuando la hermosa Infanta
Flerida ya se partía:
En la huerta de su padre
A los árboles decía:
— Quedaos á Dios, mis flores,
Mi gloria que ser solía:
250 LIVRO III.

Voyme á tierras estrangeras.


Pues Ventura allá me guía.
Si mi padre me buscare,
Que grande bien ine quería,
Digan que Amor me lleva,
Que no fue la culpa mia:
Tal tema tomó conmigo,
Que me venció su porfía:
Triste no sé adó vó,
Ni nadie me lo decía.
ART. Allí habla Don Duardos.
Ü.Du.No lloréis mí alegría,
Que en los reinos de Inglaterra
Mas claras aguas había,
Y mas hermosos jardines,
Y vuesos, señora mia.
Terneis trecientas doncellas
De alta genealogía;
De plata son los palacios
Para vuesa señoría,
De esmeraldas y jacintos
De ora fino de Turquía,
Con letreros esmaltados
Que cuentan la vida mia.
Cuentan los AÍVOS dolores
Que me distes aquel dia
Cuando con Primalion
Fuertemente combatía:
Señora, vos me mataste*,
Que yo á él no lo temía.
ART. SUS lágrimas consolaba
Flerida que esto oía;
DAS TRAGICOMEDIAS. 251

Fuéronse á las galeras


Que Don Duardos tenia.
Cincuenta eran por cuenta,
Todas van en compañía:
Al son de sus dulces reinos
La Princesa se adormía
En brazos de Don Duardos,
Que bien le pertenecía.
Sepan cuantos son nacidos
Aquesta sentencia mía:
Que contra la muerte y amor
Nadie no tiene valía.
PATRÁO.
Lo misino iremos cantando
Por esa mar adelante
A las sirenas rogando,
Y Vuestra Alteza mandando,
Que en la mar siempre se cante.
Este romance se disse representado. o depois tornado a
cantar por despedida.
F I G l R A S.
AMADIS.
GALAOR ,
FLORESTAN seus ¡mulos.
GANDALIN )
ELREI LISUARTE.
D. DORIN.
ORÍ ANA.
MABUJA.
CORISANDA.
DINAMARCA.
HUM CORREIO.
HUM ANNÁO. ;
HUM ERMITAO.

Esta tragicomedia representan - se ao muito excellente


Principe e christianissimo Reí D. Joño, o terceiro deste
nome, em a sua cidade d'Evora, era de 1533.
AMADIS DE GALLA.

Determinado Amadis de ir buscar suas aventuras, de-


sejando alcangar gloriosa fama, comega dizendo a seus irmños,
Galaor, Florestan e Gandalin:
AMADIS.
Vos sabréis, Don Galaor,
Y Don Florestan, hermanos,
Que el verdadero loor
Es aquel que sin temor
Se alcanza por las manos;
Y el general morir
Es covardía esperallo,
Y lindeza aventurallo;
Porque hallo
Que en la fama está el vivir.
Y pues A7emos de que suerte
lia honra tanto se aína,
Sigamos tan claro nuerte.
No estimando la muerte
Por ganar vida á la fama.
GAN. Amadis, de esa color
Es el paño en que me fundo,
Porque un pequeño honor
De faina y su resplandor
Es mejor
Que todo el oro del mundo.
254 LIVRO III.

Y mas ya está ordenado


' El compás al carpintero,
Al labrador el arado,
Y al pastor el cayado,
Las armas al caballero,
Al fuerte ser A7enturoso,
Mucha honra al esforzado,
Y al guerrero mañoso
Ser dichoso,
Y al covarde desdichado.
FLORESTAN.
Habla bien y muy profundo.
Yo, hermano Amadis, digo
Que con ánimo facundo
Quiero ir á ver él mundo
Que guerreros tíen consigo,
Digo de los caballeros;
Y no estoy mas esperando,
Porque los que son guerreras
Verdaderos
No descansan descansando.
Y aun nos obligan á esto
Que somos sin división
Hijos del Padre Perion
De Gaula, que es padre nuestro
De alta generación;
Porque somos obligados
A cometer cosas duras
Y casos desesperados;
Que de los altos estado»
Se esperan altas venturas.
DAS TRAGICOMEDIAS. 255

GANDALIN.
Yo también allá iré
Á seguir lo que decís;
No quedaré; y el porqué,
Por ver lo que hará Amadis,
Y saber lo que haré.
Quiero deprender la guerra,
Que como estáis platicando,
El nuestro cuerpo se encierra
Sola tierra,
Y la fama anda volando.
AMADIS.
No me convida la gana
De la faina, aunque es harto,
Sino que siervo á Oriana,
Hermosura soberana,
En cuyo nombre me parto
En dos partes y no en una:
La del alma doy á ella,
La del cuerpo á la Fortuna,
Y á la Luna,
Porque la hizo tan bella.
Si el peligro me convida
Que de las guerras rehuya,
Diré: Oh esclarecida,
Cuan segura está la vida
Que se defiende por tuya!
Voy me á la Gran Bretaña
Al muy soberbio Dardan,
Que ni Francia ni Alemana,
Ni caballeros de España,
Ningunos vida le han.
256 LIVRO III.

Él me tiene amenazado,
Solo de locura Arana;
Mas el triste está engañado,
Que, acordarme de Oriana,
Tengo mi juego ganado.
Vayamos, mas no se espere,
Cada uno por su Aia.
GAL. Yo me A7oy á la Turquía.
FLO. Yo adonde Dios quisiere
Y fuere la dicha inia.
Vao-se estas figuras e vem a Corle delliei Lisuarte,
s. a Rainha Brisena, Oriana, Mabilia, Corisanda,
Dinamarca, Hurganda e D. Dorin; e diz EIRei \
LISUARTE.
Don Dorin, tengo enviado
Mis correos á saber
Daqui á cuanto ha de ser
La guerra que en mi reinado
Siete reís ine han de hacer.
D.üo.Señor, nada se os pene.
Lis. El correo Arbindieta
No sé en que se detiene.
D.üo.Ya me parece que viene,
Que yo siento la corneta.
Entra o Correio tocando a corneta, e diz
LISUARTE.
En buenora seas llegado;
Mas tardaste todavía.
COR. Pues, Señor, yo no dormía;
Barruntaron que era espía,
Y estuve medio ahorcado.
Lis. Dime si vienen ó cuando,
DAS TRAGICOMEDIAS. 257

Sin temor ni intervalo,


Cuenta lo bueno y lo malo,
No ine mientas lisongeando,
Que aunque es dulce es muy remalo.
La verdad sí todavía,
Aunque amargue y dé pesar;
Que mentir por agradar
De contino da lugar
A cosas que yo no querría.
COR. Siete Reis muy principales,
Cada uno de su tierra,
Con trompetas y atabales
Y estandartes reales,
Contra vos pregonan guerra.
Mas bravos que bravos toros,
Mas soberbios que leones,
Mas feroces que dragones,
Y traen solo de Moros
Ciento y treinta mil peones.
Ansí, señor, que yo dígoos
Que son muchos y guerreros,
Y habéis menester dineros,
Y bombardas, y amigos,
Y armas y caballeros.
— Pues que queréis la verdad.
LISUARTE.
Has oído en esas tierras
NueAras del Doncel del mar?
COR. E S cosa para espantar
Sus desafíos y guerras,
Si las supiese contar.
Lis. Cuéntalas sin mas tardar,
Vol. II. f
258 LIVRO III.

Las mayores á lo menos.


Con. Yo no quería enhadar.
Lis. Oh cuan dulce es escuchar
Buenas nuevas de los buenos!
CORREIO.
Después que mató á Dardan,
Muy mal trató Arcalaus,
Y Angriote d'Estravaus,
Que lo tenia el Soldán
En la ínsula llamada
La Firme, mató doscientos,
Quebró los encantamientos
Con la furia de su espada,
Que fuerza los elementos.
Y mató los guardadores
Del arco fuerte encantado
De los firmes amadores,
Adonde fue laureado
Sobre todos los mayores.
Si A'uestra Alteza tuviese
El Doncel del mar consigo,
Que todo el mundo veniese,
Y lidiando se hundiese,
No sentiríades peligro.
Levantase Oriana e Mabilia, e diz
ORIANA.
En cuanto se platicar
En cosas que no entiendo,
Qué tengo de estar haciendo?
Voyme al tanque del pomar
Por ver cuantos peces tengo.
Lis. No holgáis de oir nombrar
DAS TRAGICOMEDIAS. 259

Aquel tan buen caballero,


Vuestro criado primero?
ORÍ. Mas estimo ver nadar
IÍOS peces de mi vivero.
Vai-se Oriana com Mabilia ao tanque, e apartándose
Mabilia com Oriana, diz
ORIANA.
Haced señas, os ruego,
Al correo que es discreto,
Que se venga al pomar luego,
Señas por modo encubierto;
Pero adonde arde el fuego
No sé como esté secreto.
Aceña Mabilia ao Correio e diz EIRei
LISUARTE.
Daqui á cuanto se decia
Que esos reís han de venir?
COR. Tanta gente se hacía,
Que aun no se sabe el dia
Ni el mes que han de venir.
Lis. No está en la mucha gente
La victoria de razón,
Sino en la devoción,
Y resar continuamente
Las horas de la pasión.
CORREIO.
Señor, no os atengáis á eso;
Sabed que en fin de razones
Para el perro que es travieso
Bueno palo, valiente y grueso,
Y no curéis de oraciones.
Lis. A lodo se dará medio;
17*
260 LIVRO III.

Que aunque es recio el intervalo,


No puede ser mal tan malo
Que no tenga algún remedio.
Diz Oriana ao Correio:
ORIANA.
Viste el Doncel del mar?
Con. Sí, señora. ORÍ. Qué hacía?
COR. Hacía cuanto queria.
ORÍ. Dejemos lo pelear,
Cuéntame lo que decia.
COR. Porque es del inundo solo uno,
Señora, hacía y callaba,
Porque aquel que mucho habla
No tiene hecho ninguno.
Cuando la lid comenzaba,
Muy encendido en amor,
No sé porque suspiraba,
Que no era de temor
El mal de que se quejaba:
Y acabada la victoria,
En lugar de dar loores
A Dios que le dio tal gloria,
Decia: Amores, amores,
Memoria de mi memoria!
Y por cimera traía
Una O y el mundo en ella.
Oh cuan bien que parecía!
Y su letrero decia:
Todo es poco para ella.
ORÍ. Por quien tomó esa O?
Será alguna cosa Arana?
COR. La O creo que la tomó
DAS TRAGICOMEDIAS. 261

Por el nombre de Oriana,


El inundo no lo entiendo yo.
MABILIA.
Pues sufre por vos dolor,
Qué haréis á sus dolores?
Que os piden embajadores
De los Romanos Señor
Para ol su Emperador;
Y su sacra Magestad
Os ama cosa sin cuento,
Y es tan alta dignidad,
Que es justa conformidad
A vuestro merecimiento.
ORIANA.
El Doncel del mar, hermana,
Contino vivió conmigo,
Si amores trae consigo,
En su seso está Oriana,
Que yo quiérale como amigo
Y no mas. Mas cierto es
Que muchas veces me hallo
Tocada de no sé que es,
Pero es dolor que callo.
Cuando ahora se partió
A buscar sus aventuras,
Quedé como quien quedó
En un desierto á escuras,
Adó nunca amaneció.
Esto no será de amor,
Sino de buena amistad.
MAB. Amistad que da dolor
262 LIVRO III.

Es amor tan de verdad,


Que no puede ser mayor.
Amadis ama y es amado.
ORÍ. Ay, por Dios que no lo sienta.
MAR. Si el querer es concertado.
Como puede ser negado
Que el concierto no consienta?
ORÍ. Mabilia, tales conciertos
Dios no los quiera por Cierto,
Pues saben AÍVOS y muertos
Que entre concierto y concierto
Nacen muchos desconciertos.
Empero mucho querría
Que lo envíes á llamar,
Y no de la parte mia,
Que no tome fantasía
Que muero por le hablar.
MAR. Correo, cumple que Araís
Por las puestas muy ligero,
Y dad aquel caballero
Esta carta que lleváis,
Y sed nos buen mensagero.
Y luego sé que vendrá
De noche secretamente,
Y hallarnos ha en fronte
En la feniestra que está
Nel pomar cabe la fuente. (.s»i,, o („, m „.j
ORÍ. lia ínsula firme adó está
Es muy lejos de aquí?
MAB. Trecientas leguas habrá.
ORÍ. Que son tros mil para mí.
Diz D. Dorin a EIRei Lisuarte
DAS TRAGICOMEDIAS. 263

D. DORIN.
Señor, ya bien poderán
Cenar Vuestras Magestades.
Lis. No sé las cuantas serán.
D.Do.Nunca ciertas horas dan
Relojes de las ciudades.
Y es perdido en su poder
Las ruedas y la campana.
Pero á mi parecer
Buen relox es del comer
Cuando lo templa la gana.
Levantase EIRei Lisuarte e toda a sua Corle, e váosc
com música; e vem Amadis e entrando no pomar, onde a
carta de Mabilia lhe disse que viesse, diz:
AMADIS.
Si Orfeo por Proserpúia
Tan dulce gloria sentió
Cuando nel infierno entró,
En esta huerta divina
Cuanto mas sentiré yo?
Mas él fue á buscar la vida,
Yo la muerte sin placer;
El cantando en la venida.
Yo llorando la partida,
Porque sé cual ha de ser.
Que Oriana por mi ventura
Ordenó en su consistorio
Que fuese su hermosura
Casa de mi purgatorio,
Paraíso de mi tristura,
Do paso la vida estrecha,
Donde doy gritos al cíelo.
264 LIVRO III.

Donde nadie me aprovecha,


Donde me crece sospecha,
Y nunca falta recelo.
No sé que horas serán;
lia carta dice á la una.
Sí no lo estorA7a fortuna,
Mabilia y ella vendrán
Antes que salga la luna.
Si me dejere bravezas,
Esquivanzas, desfavores
Son unas ciertas certezas;
Porque el principio de amores
Es comienzo de tristeza.
Vem Mabilia fallar a Amadis.
MABILIA.
Señor, antes del hablar
Le pido dos mil perdones
Porque os envié á llamar
Sin dejarme de acordar
De vuesas ocupaciones.
AMA. NO hay perdón que pedir,
Que la carta que fue allá,
Por vos misma la escribir,
En dicha hubieron venir
Los montes de Armenia acá.
Y el papel que allá tenia
Me acordó la hermosura
Que á menudo ver solia,
Y la tinta la tristura
Que tiene el alma mia.
31AB. Yo, señor, no sé latín.
AMA. Ni yo oso hablar romance.
DAS TRAGICOMEDIAS. 265

Ni mi mal fio de mí,


Sino que me quedo ansí,
Y mis esperanzas vanse.
Mis males no sé decillos,
Mis bienes veo difuntos,
Son mis tormentos sofrillos
Como cuando diez martillos
Una fragoa fieren juntos.
En un solo pensamiento
Tengo yo dos mil heridas;
Mi corazón no lo siento;
Cada A7ez que me lamiento
Yo solo lloro dos vidas.
MABILIA.
Si eso son quejas de amor,
Como me han parecido,
Nunca fue tal amador
Ni A7encedor tan vencido,
Si es verdad vuestro clamor.
AMA. Esas dudas son peores,
Eso no creer es peor.
Oh mis angustias mayores!
Que entre dolor y dolor
Me nacen otros dolores.
Pues mi vida está en perdella,
Por demás son mis gemidos,
Por demás es mi querella;
Que la salud de los perdidos
Es no esperar por ella.
Oh Mabilia! ardo en fuego,
Y si no creéis mi penar,
Como triste hereje ciego
266 LIVRO III.

De todo placer reniego,


Y por dios tomo el pesar.
Oh quien me dará razón,
Pues fuego de amor atizo
Como me crece afección;
Si do vive mi servicio
Allí muere el galardón!
MAB. Responda quien os entendiere,
Que eso no sé que será;
Empero no desespere.
AMA. El que no tiene que espere
De qué desesperará?
Que es tan alto el merecer
Del lugar donde me di,
Que visto lo que ha de ser,
No pienso en mi padecer,
Sino eu que será de mí.
Mi dolencia es ya tamaña,
Que el deseo no desea;
Y aunque esperanza ine daña,
La vida es la que me engaña:
Que fenecida se vea!
MABILIA.
Decidme quien ella es,
Diros he lo que será.
AMA. Señora, no perguutós,
Porque en mi vida veres
La muerte y quien me la da.
MAB. Pues á modo de hablar,
Aunque esa fuese Oriana,
Que os soberana sin par,
DAS TRAGICOMEDIAS. 267

A lo que ventura gana


Os debéis de aventurar.
AMADIS.
No sé el desventurado
De que sirve aventurarse,
Ni á sí mismo amarse
El que vive desamado;
Y no puede remediarse
Mis males, dulce señora,
Que en mi ánima están:
Ternia por bien profundo,
Si pensase estar un hora
Donde mis suspiros van
Cada momento del inundo.
Vem Oriana e diz:
ORIANA.
Mabilia, con quien habláis?
MAB. Con el Doncel de la mar;
Yo lo envié á llamar,
Y vino" porque sepáis
Que anda á vuestro mandar'
ORÍ. Y ahora qué le pedís?
MAB. No sino que le pidáis.
ORÍ. NO entiendo que decís.
MAB. Señora, yon no sentís
Las batallas que esperáis?
No oís tes el correo?
ORIANA.
Ya, ya no se me acordaba.
MAR. Pues en peligro vos veo.
ORÍ. El diablo no es tan feo
Como Apeles lo pintaba.
268 LIVRO 111.

MAB. Seiscientos mil de caballo,


Y trecientos mil peones,
Siete reís como leones,
Catad, señora, que hallo
Que son menester A7arones.
Y porque el Doncel del mar
Nunca Dios crió tal hombre.
AMA. Señora, ya mudé el nombre;
Llamóme mar en amar,
Y Amadis por sobrenombre.
ORÍ. Dende cuando se mudó
Vueso nombre que solía?
AMA. Cuando vi que asi crecía
El amor que comenzó
En la muy tierna edad mia.
MABILIA.
Pues amor tal pena os da,
Apartad os del y della.
AMA. Oh señora, quien podrá,
Que amor que nel alma está
No sale sin salir ella?
MAB. Ora pues, ámaos á vos
Por flor de los esforzados,
Pues que tal os hizo Dios,
Que no hay de vos dos,
Ni lo vieron los pasados.
AMADIS.
Mayor triunfo en porfía
Se debe y muy mas facundo
A la que tiene osadía
Para vencer cadal<lía
Las hermosuras del inundo.
DAS TRAGICOMEDIAS. 269

ORÍ. Quien es ella? ansí gocéis,


Pídoos que ine lo digáis.
AMA. Señora, es la que miráis
Cuando al espejo os veis
Tal, que á todos despreciáis.
Ella está adonde estáis;
Yo en esta noche escura,
Adó esto está tristura
Muy leda, porque la dais
Al triste que no fien cura.
El sentimiento de mí
Entre tormento y tormento,
Para siempre lo perdí,
Aunque bien sé que lo di
A A'iieso merecimiento.
Y pues con lloros me atizo
El mal que mi mal me hace,
Socorredme si os place,
Porque esperanza me hizo,
Y ella misma me deshace.
ORÍ- ESO pasa de hardideza;
Amadis, mas cortesía.
AMA. No me culpe Vuesa Alteza,
Porque en su gentileza
Está la desculpa mia.
Y está ini libertad,
Y está el fuego en que esto:
Esperanza ine mató,
Porque Aruesa piedad
Murió primero que yo.
ORÍ. Vuesos leales sentidos
Eran limpios, muy suaA'es,
270 LIVRO III.

Y pues estos son perdidos,


Voy á cerrar mis oidos
Debajo de siete llaves.
AMADrs.
Oh dulce amor verdadero!
No os Arais de esa manera,
Porque el querer que os quiero
No es porque yo espero
Lo que de ATOS no se espera.
ORÍ. Mabilia, muy bien sería
Que nos Abamos de aqui luego.
MAB. Vayase su señoría,
Y repose en su sociego,
Sin pesar ni fantasía.
AMADIS.
r
Pues ansí os A ais de nos
Tan cruel y tan sañosa,
Pídoos, señora, por Dios,
Que rogueis por mí á vos,
Cuando os viéredes piadosa.
Oni. Ansí que todo empeora.
MAB. NO OS congojéis, señora.
AMA. NO tengo razón, señora,
Porque quien su mal adora
Devoto es de su dolor. (v«i-se ownn».)
Conviene que se contente
Mi vida con su pesar,
Pues mi señora consiente
Que se acabe de matar
Lo que amor dejó doliente.
Pensando ganar me viene
La pérdida conocida,
DAS TRAGICOMEDIAS. 271

Porque yo juego la vida


Que tengo con quien ine tiene
La ganancia consumida.
MABILIA.
Yo os diré lo que supiere,
Con tal qne guardéis en ATOS
Esto que ahora os dijere.
Señor, Oriana os quiere,
Que ansí me quisiese Dios;
Y aun que el amor la fatiga,
Su prudencia, su bondad,
Su fama, su honestidad
No consiento que os lo diga,
Mas yo sé su voluntad.
Ella os envió á llamar
Por hablaros y oiros;
Y ahora fuese á llorar
Porque os no osa mostrar
Sus amores y suspiros.
AMA. Pues porqué su disfavor
Da conmigo en el abismo?
MAB. Porque es muy cuerda, señor.
AMA. Harto poco es el amor
Que puede consigo mismo.
MABILIA.
Oh señor, dejad el dudar,
Creed lo que os digo yo,
Que no és poco su amar;
Que amor de alto lugar
Nunca pequeño se vio.
Y como digo, aunque pene,
Disimula sus enojos,
272 LIVRO III.

Como á su estado conviene;


Pero dende niña os tiene
En las niñas de sus ojos.
Ansí gocéis vuesa fama,
Señor, que os acordéis
Della y otra no améis,
Pues ella tanto os ama:
Calad que la perderéis.
AMA. Voyme con esta pasión.
Encomiéndoos mis dolores,
Y cuanto á esa razón,
No puede en ini corazón
Estar diversos amores. (vni-se.)
Torna Oriana e diz:
ORIANA.
Luego Amadis se fue?
MAR. Señora, partido es ya.
ORÍ. Sabéis cuando A7olverá?
MAB.No lo siento ni lo sé,
Pero muy sentido va.
Vuesa Alteza bien comprende
Esta culpa en que ella jace,
Y bien sé que se arrepiende.
ORÍ. Creed que donde amor entiende
Ninguno sabe que hace.
Pero si jo lo ofendí,
Contra mí misma pequé;
Si lo reprendí, no erré.
Sí me fui, bien lo sentí
Y con lágrimas pagué.
Mas él habló amores lales
Y palabras tan odiosas,
DAS TRAGICOMEDIAS. 273

Que pasaban de curiosas,


Y los oidos reales
No han de oir todas cosas.
MABILIA.
Señora, yo le descubrí
Vueso amor y mi secreto,
Y lo mas que le pedí
Que su amor fuese secreto;
Y dijo que será ansí,
Sin querer otra ninguna
Sino á Vuesa Magestad,
Y porque sois sola una,
No hay viento ni fortuna
Que mude su voluntad.
Vem o Anuo de Amadis, e diz
ANAO.
Todo el hombre gentil dispuesto
Como yo, Ríos sea loado,
Ha de ser tan confiado,
Que amores ni nada desto
No lo tenga en un cornado:
Ni Princesa, ni Infanta,
Porque la gran perfección
Que está en mi disposición,
Que sea una dama santa,
Me terna santa afición.
Sí alguien me perguntare
A qué vengo, ó de que parte,
Cierto es vengo á buscar
La corte del Rey Lisuarte,
Adonde espero medrar.
Porque andando con mi señor
Vol. II. 18
274 LIVRO III.

Amadis por esas tierras,


Tan poco con Galaor,
Cada vez medro peor
Con sus peligrosas guerras,
Y acá espero servir
Á Mabilia de amores;
Porque yo, á Dios loores,
Bien pueden decir por mí.
Que nací para faA7ores.
ORÍ. El Enano es aquel
Que Amadis HeA7ó de aqui.
MAB. Aquel me parece á mí.
ORÍ. Cumple que sepamos del
Como lo dejó ansí. —
Amadis adó quedó?
ANA. Con la hermosa infanta niña
Que hizo reina onsobradisa,
De la qual se enamoró,
Y aun trac su devisa.
Ella le dio un caballo
Y una espada; y el porqué,
Es porque le dio la fe
De su caballero y vasallo;
Y á la ínsula se fue.
Ella quedó muy llorosa,
Y á él suspirar le vi.
ORÍ. Como se llama ella? di.
A \ v. Briolanja la hermosa,
Niña hecha de un rubí.
ORÍ. Anda, vete al aposienlo,
Después volverás acá.
Oh triste mi pensamiento!
DAS TRAGICOMEDIAS. 275

MAB. Todo aquello será viento,


Vuesa* Alteza lo A7erá.
ORIANA.
Tal consuelo es mal doblado.
Id os, dejadme adó esto,
Que sola yo y mi cuidado
Tememos, mi mal guardado,
Pues para mí se guardó:
Y sola conmigo ansí,
Pues mi suerte está perdida,
Contaré á mí de mí
Cuantas muertes descubrí
Pensando hallar la vida. (v.,¡ se M..b;u«.)
Oh como se saberia
Si esta nueva es verdadera?
Quizá no, porque él daría
lia fe ansí por cortesía,
Y no será valedera. —
Será; quedos hombres son
Namorados de ligero. —
Quizá no, que es caballero,
Hijo del Rey Perion,
Y debe ser verdadero.
Mas temo que así será,
Porque no hay verdad segura:
Y lo que rige ventura,
De ventura firme está,
Porque ha hi desaventura.
Quizá no será A7erdad,
Porque el amor verdadero
El mas firme es el primero,

18
276 LIVRO III

Y dende su mocedad
Siempre fue mi caballero.
De otra parte bien mirado,
Dice verdad el Enano,
Porque el corazón humano
Cuan improviso es mudado
Y cuan pocas veces sano!
Y quizá no; porque la conA'ersacion,
De luengo tiempo usitada,
No es tan desacordada
Que olvide sin razón
Toda la vida pasada.
Mas ay de mí,
Que creo que será ansí!
El Enano dice verdá,
Porque nunca ausencia vi
Que el amor turase allá.
Ejemplo es verdadero
Que ausencia aparta amor.
Oh traidor caballero!
Caballero traidor!
Quien supiera esto primero!
Y ansí le escriviré
Que hizo como villano,
Y nunca mas lo veré;
Yr sepultaré su fe
Dentro del mar océano,
Y el amor que le tenia
Verdadero y muy sereno,
Y toda el afición mia
Sepultaré neste dia
En el mar inedioterreno.
DAS TRAGICOMEDIAS. 277

Don Dorin, por gentileza,


Que vais á la ínsula Firme,
Adó eslá aquel sin firmeza,
Y dalde esta carta criine
Sellada de mi crimeza.
No le hagáis, acatamiento,
Aunque es Infante, en que cabe;
Porque Príncipe mudable
Es torre sin firmamíento,
Que no puede ser loable.
Representase como D. Dorin deo a carta a Amadis, o
qual a vem lendo e diz:
AMADIS.
La Princesa preciosa
Os dio esta carta, Dorin?
D.Do.ElIa misma. AMA. Para mí?
D.Do.Sí, señor, y tan sañosa.
Que nunca tal la sentí.
AMA. Oh Amadis destruido!
Desamado que haré,
Pues que serviendo gané
Con que perdí lo servido,
Sin perder nunca la fe.
Y pues la muerte á quien sigo
Está muerta para mí,
Voy, señora, sin abrigo
Hacer vida no contigo,
Ni conmigo, ni sin ti.
El mundo quiero dcjallo.
Pues me dejó su señora;
El vivir quiero mudallo.
278 LIVRO III.

Mis armas y mi caballo


Despido luego en la hora.
Tú ini espada guarnecida
De tan hermosas hazañas.
En fuego seas hundida,
Como arden mis entrañas
Consumiéndome la vida.
Y tú, puñal esmaltado,
Fuerte y favorecido
De aventuras peligrosas,
De rayo seas quebrado,
En mil pedazos partido,
Como ahora eslan mis cosas.
Y tú mi ehno lustrante,
Con tu cimera hermosa,
Que por Oriana emprendí,
Plega á Dios que te quebrante
Alguna peña rabiosa
Que del cielo caya en ti.
Y tú arnés y piaslron,
Nel mar Indico cayais
En lo mas hondo de allí,
Donde sin causa y razón
Tales fortunas hayáis
Como acá dejais á mí.
Quijotes, manoplas, grovas.
Mis armas nunca vencidas,
Que os bajan siendas cuevas.
Y de vos vayan las nuevas
Que de mí tengo sabidas.
D.Do.Si yo, señor, tal supiera,
No veniera por mi via
DAS TRAGICOMEDIAS. 279

Nueva tan triste y tan fiera:


Mas hice lo que no debiera
Por hacer lo que debia.
En 11 -a hit m Er mita o, c diz:
ERMITAO.
Loado sea Jesu Cristo.
AMA. Para siempre, padre honrado.
ERM. Dios os dé el paraíso,
Que asegun que tengo visto,
Harto estáis apasionado.
AMA. O padre, cuan abrigado
En la peña pobre y mansa
Estáis horro y descansado
De tormenta que no cansa,
Y deste mundo cansado!
Y pues mi mal entendéis,
Pídoos que ine aconsejáis
En este yermo adó estáis,
En el cual no oís • ni veis,
Ni tenéis ni descansáis.
ERM. Y queréis ser ermitaño?
AMA. Padre, en ese bien me fundo,
Porque el mundo en que me daño
Nunca fue para mí mundo,
Sino una mar de engaño.
ERMITAO.
Señor, no os vais engañar,
Que la vida solitaria
Ha hi lanío que penar,
Tantos mundos de pesar.
Que os es poco necesaria.
AMA. Porqué? qué razón me dais
280 LIVRO III.

Para eso que" decís ?


Pues que nunca os nainoraís,
De qué pasión os quejáis
En él yermo adó vivís?
ERMITAO.
Porque aqui la voluntad
Está presa, está captiva
De la pobre soledad
Adó Auesa mocedad
Es imposible que viva.
Ni nuestra vida ociosa
No tiene ociosos tiempos,
Mas contino es trabajosa,
Perseguida y muy penosa
De infinitos pensamientos.
Unos vienen, otros van,
Otros llegan, otros parlen;
Los tristes contino están,
Los alegres no estaran
Un momento, aunque los maten.
Los enemigos del alma
Son contra la penitencia,
Mancillan la conciencia,
Y dan tormentos sin calma
A la hermosa inocencia.
No tenéis á quien decillo,
Y sí ló* decís á vos,
Vos mismo ahuís de oillo:
Esto para vos sofríllo
No se puede hacer sin Dios.
AMA. Eso no me ha de penar,
Porque os doy, padre, la IV,
DAS TRAGICOMEDIAS. 281

Que busco tiempo y lugar


En que bien pueda pensar
Neste mal que no pensé.
Este mundo no lo quiero,
El pobre hábito quería;
Será el vestido prostrero,
Pues que no vino primero
La prostrera muerte mia.
ERM. Ora, pues ansí queréis,
Quizá Dios será con vos.
De estos mis hábitos dos
Este, señor, vestiréis
Con la bendición de Dios.
Depois de vestido Amadis no hábito, olhando^sc a si
mcsmo diz:
AMADIS.
Ya no me escrívirás, Oriana,
Que á Mabilia conquisto,
Mas dejo, por Jesu Cristo
A ti mas linda Cristiana
Que las Cristianas han visto;
Y dejo, pues me dejaste,
Mi padre y madre y hermanos,
Y el mundo en que me criaste,
Y mataste con tus manos,
Cuando tal carta enviaste.
D. DORIN.
Escrívale vuestra Mercé,
Y responda á su escritura.
AMA. Yo qué le responderé ?
Escrívale su poca fe,
Y mi mucha desA7entura,
282 LIVRO III.

Que ya veis que soy pasado


Á la vida de los muertos;
Muertos no han de escrivir.
Ni el que es tan desterrado,
Tan desierto en los desiertos
No tiene mas que decir.
D. DORIN.
Muy espantado me vó
De estas cosas como van,
Y ansí las contaré yo,
Y bien sé que amargarán
w

A quien la carta escrívio.


AMA. Adó quedo encubrid vros,
Que decillo es cosa mala;
No lo sepa sino Dios,
Pues ya soy Beltenebrós,
Y no Amadis dé Gaula.
D. DORIN.
Muy ageno de placeres,
Yo me pasmo de mil suertes
Cuan fuertes son los poderos
Que Dios dio á las mugeres
Sobre los hombres mas fuertes.
O Amadis, que os hecistes
Esfuerzo de los esfuerzos,
Cuantas glorias merecístes!
Y el Amor á quien servistes
Os paga con los desiertos.
Que adó vuesos pies llegaban.
Si ciudades combatían,
Caballeros desmayaban,
Las fortalezas temblaban
DAS TRAGICOMEDIAS. 283

Y los muros se abatían.


Y sola una muger hermosa
Os hizo encerrar á vos
Y v;uesa fuerza espantosa
En una ermita tenebrosa,
Llamado Beltenebrós. d>"i")
ERMITAO.
Padre nuevo, en las afrentas
De los penosos tormentos,
Resa porque no los sientas;
Que los muchos pensamientos
Piden infinitas cuentas.
Dellas pide Satanás,
Dellas los vanos sentidos:
Con las unas llorarás,
Y con las otras darás
Dos mil suspiros perdidos.
Las otras cuentas escuras
De las meinbranzas pasadas,
Que de pasar son muy duras.
Serán blandas y seguras
Con estas cuentas resadas.
AMA. Escusado fuera lomar
Estas cuentas que no cuento;
Que tantas tengo de dar,
Que me quedan por contar.
Porque sin cuenta las cuento.
Y las que dará Oriana
A Dios, que sabe lo cierto
Serán cuentas sin concierto,
Porque yo no sé que gana
Quien su sier