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A EXPANSÃO DA SILVICULTURA SOBRE O BIOMA PAMPA: IMPACTOS ALÉM DOS CAMPOS

Frank Gonçalves Pereira


Universidade Federal do Rio Grande
frank.geo@hotmail.com

Introdução

O presente trabalho representa uma reflexão sobre o tema de pesquisa de dissertação de mestrado, cujo estudo
encontra-se ainda em fase inicial. O tema abordado neste artigo refere-se à problemática que envolve a degradação e
descaracterização das áreas campestres no Rio Grande do Sul, mais especificamente na área compreendida pelo bioma
Pampa. Como principais causadores desse problema temos os monocultivos de soja, de arroz, o plantio de pastos exóticos e
a silvicultura. Esta última é a que mais tem suscitado debates, devido os grandes investimentos que as empresas
florestadoras fizeram e vem fazendo no estado e devido os impactos sobre a paisagem do pampa. A expansão da silvicultura
sobre este bioma se mostra como uma resultante de forças exógenas e de uma política de estado. O apelo do
desenvolvimento econômico que os investimentos nesta atividade poderiam gerar para a região do Pampa gaúcho foi o carro
chefe para os esforços governamentais do estado em atrair grandes empresas da área de papel e celulose. Soma-se a isso a
fragilidade sócio-econômica da dita “metade sul” do Rio Grande do Sul, tão atrelada ao latifúndio e às atividades tradicionais
do campo, e ao mesmo tempo a ânsia por novos investimentos nesta região.
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Os reflexos dos processos derivados dos novos usos e ocupações dados sobre o bioma Pampa, especificamente
neste caso no âmbito da silvicultura, serão considerados sobre a dimensão da paisagem visual pampeana. Paisagem esta
vista como patrimônio cultural, dotada de valores materiais e imateriais, atrelada ao imaginário social construído
historicamente que culminou na identidade regional do gaúcho. As ponderações sobre essa atmosfera gerada pela silvicultura
no bioma Pampa devem examinar as justificativas econômicas de desenvolvimento e as prerrogativas que a paisagem
pampeana possui.

O tema será analisado em seus fatos sob o enfoque dos teóricos que discutem a técnica. Há aqueles que defendem
que as novas técnicas ou vetores técno-produtivos numa determinada aplicabilidade são profícuas e há aqueles que
abominam a técnica, considerando-a causadora da deterioração dos valores sócio-ambientais. Estes estudiosos nos ajudarão
a nortear a análise e pontuar os pontos positivos e negativos, objetivando uma consideração a respeito da problemática.

Silvicultura

A silvicultura é a ciência destinada ao estudo dos métodos naturais e artificiais de regenerar e melhorar os
povoamentos florestais, visando às necessidades do mercado e à manutenção, ao aproveitamento e ao uso racional das
florestas (nativas ou comerciais). Este tipo de uso no estado do Rio Grande do Sul teve seu começo pautado no provimento
de lenha, naquelas áreas com escassez de madeira, e também como edificação de abrigo para o gado nas propriedades dos
estancieiros, visando a proteção das intempéries do tempo, são os chamados capões.
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A principal espécie cultivada é o eucalipto que é nativo da Austrália, do Timor e da Indonésia. Apresenta mais de 600
espécies que se adaptam facilmente a diversas condições de solo e clima (CIB, 2008 apud BINKOWSKI, 2009, p. 28). Sua
madeira é utilizada principalmente para produção de lâminas, compensados, aglomerados, carvão vegetal, madeira serrada,
celulose e móveis, além de outros produtos extraídos como óleos essenciais e para a produção de mel. Os primeiros plantios
dessa espécie foram realizados no início do século XVIII na Europa, Ásia e África. A partir do século XIX começou a ser
cultivado também nos países da América do Sul (PRYOR, 1976).

No Brasil, os primeiros plantios comerciais da espécie, para fins comerciais foram a partir do início do século XX,
direcionados mais especificamente à construção de ferrovias. Em 1903, o Engenheiro Agrônomo Edmundo Navarro de
Andrade inicia pesquisas com o eucalipto para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. No Rio Grande do Sul as
primeiras mudas de eucalipto cultivadas datam do final do século XIX (BINKOWSKI, 2009). A atividade pouco se despontou
nestes tempos, sem grandes pretensões numa realidade econômica que tinha sua estabilidade na pecuária.

Nosso foco é o impacto sobre as áreas campestres do bioma Pampa, oriundo dos danos causados sobre as
características fitogeográficas e geomorfológicas das pradarias. Claro que a silvicultura não é a única atividade que
compromete este sistema, no entanto é aquela que mais impacta por substituir a vegetação natural herbácea por outra do
tipo florestal. Somam-se a isso as ampliações das áreas de plantio e os incentivos para novos adeptos dos florestamentos.
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O Pampa

Antes de contarmos como a silvicultura surge como ameaçadora dos campos pampeanos, há necessidade de uma
breve exposição sobre a realidade dos Campos Sulinos (Pampa). O Pampa gaúcho está situado na metade sul do Rio
Grande do Sul, e é reconhecido pela atividade pecuária realizada de forma extensiva sobre estruturas latifundiárias e com
custos muito baixos. A formação do estado e sua identidade regional estão associados à pecuária produzida sobre a
paisagem campestre. O gado fora introduzido no território gaúcho primeiramente nas Missões jesuíticas espanholas,
destruídas por disputas territoriais entre Portugal e Espanha desde o século XVII. As grandes estâncias têm sua gênese na
distribuição de terras feita pela coroa portuguesa às famílias abastadas e de militares. Estes foram os primeiros latifúndios e
as primeiras cercas que aprisionaram o gado que antes gozava “liberdade”. Os rebanhos e a agricultura atraíram outros
grupos étnicos, de espanhóis, portugueses e outros europeus, além de indígenas e negros descendentes de escravos. Esta
salada étnica e cultural, sobre esse espaço singular, dá forma ao que conhecemos como gaúcho.

“A paisagem cultural que resulta disso é fruto da relação entre esta forma de viver do gaúcho, quer seja ele platino ou
brasileiro, “ladrão de gado”, nômade, guerreiro ou peão “domado” de estância. Estas e várias outras podem ser
interpretações da figura do gaúcho. De qualquer forma, o pano de fundo deste personagem é sempre a paisagem campestre”
(CRAWSHAW et al, p. 244, 2007).

Apesar do gado e dos campos vastos e propícios a esse tipo de economia, a pecuária foi perdendo sua força ao
passar dos anos. Segundo Fontoura (2000), um dos fatores é a incapacidade dos atores sociais na adoção de uma nova
racionalidade para a pecuária, o que culminou na falência de muitos pecuaristas por um lado, e na diversificação das
atividades por outro. Outros acontecimentos, como o início da atividade charqueadora e frigorífica que marcam o inicio da
industrialização e a formação de centros financeiros no estado, e o fato dos filhos de estancieiros irem á cidade em busca de
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estudos, mostram as mudanças que plasmam a passagem de um atividade tradicional para uma do tipo empresarial e
moderna. A modernização das atividades, seja da própria pecuária ou na agricultura, reflete uma relação com o campo onde
o epicentro das decisões está na cidade

O que observamos é que a atividade que deu origem a paisagem cultural, predominantemente baseado num sistema
extensivo de pastagens, vem perdendo espaço para as áreas de agricultura. Conforme observamos na tabela do anexo 1
retirada de Crawshaw, et al (2007, p. 245) :

A tabela do anexo 1 nos revela uma diminuição das áreas de pastagens naturais e um considerável aumento nos
cultivos. Nos últimos anos essa tendência se repete. Recentemente a silvicultura tem se mostrado a mais ameaçadora às
áreas campestres, muito disso se deve aos incentivos governamentais na forma de programas de fomento.

A partir dos anos 2000, o Governo Federal iniciou uma política de incentivos aos florestamentos, via programas e
crédito. Em 2000 lançou o Programa Nacional de Florestas (PNF), em 2002 o Programa de Plantio Comercial e Recuperação
de Florestas (PROFLORA) e o Programa Nacional de Agricultura Familiar - PRONAF Florestal, todos com a finalidade de
oportunizar linhas de crédito e custeio para os plantios florestais. Na mesma linha existe o Financiamento Direto a
Empreendimentos (FINEM), onde a instituição financiadora é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES), que entre 1991 e 2001 investiu cerca de US$ 435 milhões na silvicultura (BINKOWSKI, 2009).

Na origem das políticas públicas estaduais de incentivo às atividades florestais no RS está o “Programa Floresta-
Indústria”, subsidiado por profissionais da área de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Santa Maria. Nesse
contexto, o governo estadual criou também programas de incentivo financeiro, voltados para o cultivo de eucalipto,
principalmente, voltados para os produtores da “Metade Sul” do estado. O Programa de Plantio Comercial e Recuperação de
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Florestas (PROFLORA), através da Caixa RS é um dos exemplos de fomento à produção de eucalipto por parte do Governo
Estadual da época (BINKOWSKI, 2009). As empresas florestadoras foram atraídas pelos incentivos fiscais generosos e pelas
condições edafo-climáticas da região. Nesse contexto, três grandes empresas florestadoras passaram a investir diretamente
na “Metade Sul” do RS: a Votorantin Celulose e Papel (VCP), a Stora Enso e a Aracruz Celulose S.A.

Comparando os mapas do anexo 1 e do anexo 2, constatamos facilmente que praticamente todas as áreas de cultivos
comerciais de eucalipto se dão sobre o bioma Pampa. A respeito do conceito de bioma, esse termo é usado para indicar cada
uma das unidades fundamentais que compõem os sistemas ecológicos maiores (HEINRICH, 1986). Conforme o IBGE (2006),
um bioma é um conjunto de vida (vegetal e animal) constituído pelo agrupamento de tipos de vegetação contíguos e
identificáveis em escala regional, com condições geoclimáticas similares e história compartilhada de mudanças, o que resulta
em uma diversidade biológica própria.

O nome dado a um bioma depende do tipo de vegetação predominante ou ao relevo. No caso, o bioma Pampa,
conhecido também como Campos Sulinos, é definido por sua vegetação de campo e relevo de planície, caracterizado por
planícies vastas e abertas, vegetação densa, arbustiva e arbórea, nas encostas e ao longo dos cursos de água, além de
haver a ocorrência de banhados (CHOMENKO, 2008). São áreas amplas que oferecem pastagens naturais para animais de
pastoreio, onde as principais espécies agrícolas alimentares foram obtidas das gramíneas naturais através da seleção natural
(ODUM, 2004).

Os avanços da silvicultura sobre o Pampa, fazem da região um pólo florestal, causou diferentes percepções sobre o
tema. De um lado, se considerou os investimentos das empresas, a geração de empregos e a incorporação de pequenos,
médios e grandes produtores no plantio de florestas. O governo, como provedor de financiamentos, através da política de
governo, atuou nos meios de comunicação para defender o desenvolvimento econômico que os investimentos trouxeram
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para a região. Por outro lado, temos as opiniões de ambientalistas, organizações não-governamentais (ONG’s) e movimentos
sociais, preocupados com a perda da biodiversidade que o plantio de eucalipto em grande escala poderia acarretar ao bioma
Pampa.

O debate a luz dos autores que discutem a técnica

No conflito ambiental gerado pela expansão da silvicultura no bioma Pampa existem duas vertentes de opinião. Um
vertente se mostra a favor da silvicultura, pautada no desenvolvimento econômico da região e a vertente oposta com uma
opinião contrária sustentada na conservação do bioma Pampa, na sua dimensão ambiental e cultural. A partir desse debate,
iremos relacionar essas visões divergentes com o debate sobre a técnica, pois a mudança de uma base pecuarista extensiva,
feita sob pastagens naturais, para uma base florestal em grande escala sob a batuta de atores globais é também uma
mudança que tem a gênese na técnica de apropriação do espaço. Numa dimensão maior, consideremos essa relação como
aquela entre homem e natureza, sob a forma como lidamos e transformamos a matéria dada, nos apropriando e
transformando-a através da técnica.

Segundo Santos (2008), a técnica refere-se ao conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem
realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço. A concepção da filosofia tradicional a respeito da técnica reproduz
aquela noção de desprezo a técnica, valorizando o saber oriundo da contemplação, ou seja, a teorização é valorizada em
detrimento da atividade prática e técnica. As idéias platônicas de separação entre mundo sensível e mundo das idéias
(SARDI, 1995), subsidiam as noções que separam ciência e técnica. Apenas após o movimento das luzes que ocorre a
ruptura desse dogma e a técnica é então vista como ciência aplicada (HOTTOIS, 2002).
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As divergências sobre os empreendimentos de silvicultura no Rio Grande do Sul serão comparadas as divergências
decorrentes da técnica. Aqueles que abominam a técnica são os adeptos da tecnofobia (medo da técnica), e se fundamentam
na concepção platônica metafísica. No cenário gaúcho de discussão aqueles que mais se aproximam dessa corrente são os
contrários a silvicultura, partidários da conservação do meio ambiente, relacionando-a diretamente ao bioma Pampa. Não
podemos dizer que há uma tecnofobia por parte destes porque eles não condenam a técnica em si, mas sim como ela é
empregada. O discurso tecnófobo é mais filosófico e atrelado a metafísica. “A humanidade deve, fundamentalmente, aceitar a
condição biofísica que a natureza (ou deus) lhe atribui” (HOTTOIS, 2002 p. 482). Entretanto podemos afirmar que há sim uma
tecnofobia aplicada a silvicultura.

“A substância tradicional da História vai sendo destruída pela forma tecnológica de viver, que se expande pelo mundo todo. O
meio ambiente se degrada e se torna máquina. A idade da tecnologia faz surgirem condições sob as quais nada do passado
pode subsistir” (JASPERS, 1993 p. 30).

Chamo atenção para essa citação de Karl Jaspers, pois apesar de seu contexto histórico, nos parece muito atual, pois
cada vez mais subjugados à técnica, todos nós travamos uma relação de dependência e parasitismo sobre a natureza. A
natureza se torna matéria prima ou detrito, e mesmo quando não manipulada em sua essência também se torna mercadoria
pela mão do homem. “A fé que se aninha no coração não mais encontra linguagem eficaz para expressar-se. Tornam-se
vazias as dimensões da alma e o mundo se faz um deserto ou um triste teatro de prazeres” (JASPERS, 1993, p. 30).

A preservação da identidade regional construída sobre os campos nativos e as atividades agropastoris tradicionais
depende da preservação e permanência dessa paisagem. No entanto mudanças no uso e ocupação, devido ao
empobrecimento do campo, modernização agrícola, silvicultura e arenização põem em risco essa paisagem e sua qualidade
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visual tão representativa da identidade gaúcha. É nessa prerrogativa cultural da paisagem e na dimensão ambiental
conservacionista que os “tecnófobos da silvicultura” atuam.

Do outro lado temos os que defendem o pólo florestal gaúcho sobre o bioma Pampa. Estes podemos chamar de
tecnófilos, ou seja, consideram a técnica positivamente. O governo gaúcho, os representantes das empresas florestadoras e
a mídia de grande circulação têm se mostrado “tecnófilos da silvicultura”. A tecnofilia se baseia na melhoria das técnicas
objetivando a melhor eficácia. O desenvolvimento econômico da região é considerado um problema técnico, havendo a
necessidade de uma nova técnica de uso da terra, que por sua vez criaria uma melhor eficácia.

Existem dois tipos de tecnofilia; a humanista e a evolucionista. No humanismo tecnófilo se considera os problemas
sociais derivados de problemas técnicos. O espaço é formado por objetos técnicos, que por sua vez distribuem-se de forma
heterogênea. Quem determina estes objetos é o espaço, segundo uma lógica que se confunde com a lógica da história.
Milton Santos (2008) cita Gilbert Simondon, um humanista tecnófilo, que afirma que quanto mais um objeto é tecnicizado,
mais perfeito ele é, permitindo maior sucesso ao comando do homem. Simondon em Hottois (2002), defende que técnica,
natureza e cultura devem se comunicar e ser valorizadas no que chama de cultura tecnocientífica. No, anexo 4 está
representado um esquema da tecnofilia humanista, que parte da antropologia para conhecer a verdadeira natureza humana e
pela técnica se chegar ao florescimento humano ou a cultura tecnocientífica universal. Sob o ponto de vista destes, o grande
desafio está na universalização do acesso a todas as técnicas.

A tecnofilia evolucionista trabalha numa perspectiva da evolução da espécie humana, onde o futuro depende da
capacidade e vontade de intervenção no universo (no nosso caso entendemos no universo como espaço). Dessa forma as
sociedades estão evoluídas diferentemente quanto a técnica. Podemos afirmar que o grupo defensor da silvicultura considera
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que as atividades empregadas historicamente são as responsáveis pela fragilidade econômica, portanto faz-se necessário
mudar as técnicas e o tipo de atividade.

Considerações finais

A formação do pólo florestal gaúcho se dá graças às condições criadas pelo estado que garantiu incentivos fiscais e
autorizações emitidas dos órgãos ambientais, como a FEPAM. Esse discurso que se aproxima de uma tecnofilia, se distancia
quando esse desenvolvimento ocorre de forma exógena, pois não há uma diferenciação, não desta ordem, que ocorra pela
evolução dos saberes e técnicas da sociedade gaúcha. As comparações de opiniões a favor da silvicultura aos tecnófilos e
dos contrários a esse tipo de atividade aos tecnófobos é mais uma forma de tentar entender a dimensão e a importância
dessa discussão que traz a tona as raízes da formação da identidade regional gaúcha, ao mesmo tempo que ameaça a
permanência dos referenciais que lhe deram origem.

Segundo Crawshaw et al (2007): “A paisagem que deu origem ao gaúcho só existe sobre a paisagem natural
campestre”. Nesse sentido tanto a paisagem quanto o próprio gaúcho tendem a perder espaço frente às transformações
decorrentes da modernização e urbanização do campo. O mesmo autor chama atenção para a necessidade de se angariar
esforços para conservação da paisagem dos campos e pradarias sul-riograndenses, como forma de preservação da
identidade regional e da dessa paisagem.

A falta de identificação de quais paisagens mais representam sua cultura e identidade é um ponto negativo e uma falta
de argumento no que tange a preservação dessas paisagens naturais e culturais. Dessa forma há a necessidade de se
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identificá-las e conhecer seu nível de relevância enquanto representação da região sul bem como discutir formas de uso e
ocupação que priorizem a preservação, entre outras, da qualidade visual dessa paisagem. “Hoje busca-se um conceito de
paisagem mais holístico compondo-se os mais diferentes olhares sobre a paisagem, de forma a compreende-la desde
diversos pontos de vista, complementares e indispensáveis” (DEL RIO, 1996, p. 22 ).

A necessidade de um enfoque mais abrangente também se torna necessária, pois num mesmo espaço coexistem
elementos técnicos provenientes de épocas diversas. O entendimento da técnica, como um todo, passa pelo conhecimento
da história da produção, embutida naquela, revelando no lugar as condições históricas. Sobre tal questão disse Milton Santos
(1997, p. 46): “O trabalho realizado em cada época supõe um conjunto historicamente determinado de técnicas”. A respeito
da idade dos lugares, o autor diz que as técnicas são fenômenos históricos, portanto passíveis de se identificar o momento de
sua origem. No entanto, no lugar, as idades se inter-relacionam devido a heterogeneidade de técnicas no espaço e no tempo.
De um modo geral, podemos afirmar que quando a técnica se incorpora a uma sociedade, deixa de ser ciência e vira técnica.

Acreditamos que se deve conciliar desenvolvimento e qualidade de vida, tradição e modernidade. De modo que se
possa também explorar as potencialidades suscetíveis a silvicultura, desde que traga benefícios para a população local e que
coexista com os campos nativos que caracterizam a paisagem pampeana, sem sobreposições. O chamado humanismo
tecnófilo e as idéias pregadas por aqueles que pertencem a essa corrente são as que mais se aproximam dessa intenção,
onde primeiro são consideradas as humanidades, dependentes da técnica como meio e não como fim.

“... no caso particular da terra gaúcha, não se trata apenas de valorizar os exíguos ecossistemas naturais primários
remanescentes (...). Existe algo mais relacionado com as raízes do povoamento – áreas culturais fortemente imbricadas – e
com a dinâmica dos agroecossistemas...” (AB’ SABER 2003, p. 112).
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Referências

AB’SABER, A. N. Os Domínios de Natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

BINKOWSKI, P. Conflitos ambientais e significados sociais em torno da expansão da silvicultura de eucalipto na


“Metade Sul” do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Ciências
Econômicas, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural, Porto Alegre, 2009.

CHOMENKO, L. Pampa: um bioma em risco de extinção. Revista Instituto Humanitas Unisinos - IHU On Line, São
Leopoldo, n.247, p.4-7, 10 dez. 2007. Disponível em: <http://www.unisinos.br/ihu_online/>.

CRAWSHAW, D., DALLAGNOL, CORDEIRO, J. L. P. & HASENACK, H. Caracterização dos campos sul-rio-grandenses:
uma perspectiva da paisagem. In: Boletim Gaúcho de Geografia. / Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Porto
Alegre. Vol. 33, (2007) – Porto Alegre: AGB, 1973. p. 233-252.

DEL RIO, V. Paisagens, realidade e imaginário: percepção do cotidiano. In: Cadernos paisagem paisagens 1: Uma visão
interdisciplinar sobre o estudo da paisagem. Bauru, 1996.

FONTOURA, L. F. M. Macanudo Taurino: uma espécie em extinção? – um estudo sobre o processo de modernização na
pecuária da Campanha gaúcha. São Paulo, FFLCH-USP, São Paulo, 2000.

FUNDAÇÃO ECONOMIA E ESTATÍSTICA – FEE. Mapa de localização dos cultivos comerciais de eucalipto no Rio
Grande do Sul. Impactos dos Investimentos na Cadeia Florestal sobre a Economia do Rio Grande do Sul. 2008. Disponível
em: <http://www.fee.tche.br/sitefee/pt/content/publicacoes/pg_impactos_dos_investimentos.php>.

HEINRICH, W. Vegetação e zonas climáticas: tratado de ecologia global. São Paulo: EPU, 1986.

HOTTOIS, Gilberto. História da filosofia. Traduzido por Maria Fernanda Oliveira. Lisboa, Portugal: Instituto Piaget, 2002.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Dados e Mapas bioma Pampa. 2004. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=169>
A EXPANSÃO DA SILVICULTURA SOBRE O BIOMA PAMPA: IMPACTOS ALÉM DOS CAMPOS 101

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Bioma do Brasil. 2006. Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=169>.

JASPERS, Karl. Introdução ao Pensamento Filosófico. Tradução de Leônidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São
Paulo: Cultrix, 1993.

ODUM, E. P. Fundamentos de ecologia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekuian, 2004.

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SARDI, Sérgio Augusto. Diálogo e Dialética em Platão. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.

PRYOR, L. D. The Biology of Eucalyptus. London: Edward Arnold, 1976.


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ANEXOS

Anexo 1 - Comparação entre os dados dos censos de um período de 26 anos quanto à evolução das áreas de pastagens no
RS (IBGE, 2004).
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Anexo 2 - Mapa de localização dos cultivos comerciais de eucalipto no Rio Grande do Sul. Fonte: Fundação de Economia e
Estatística – FEE (2007).
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Anexo 3 - Localização do bioma Pampa no estado do Rio Grande do Sul. Fonte: Adaptado de Mapa de Biomas do Brasil –
IBGE (2004).
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Anexo 4 - Esquema representativo do humanismo tecnófilo.

Florescimento
do ser humano

Técnica

Verdadeira
natureza humana

Antropologia