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Texto 15:

Sociologia para não-sociólogos


Por Annie Dymetman

Para que serve um curso de sociologia para o estudante que pretende ser técnico em
eletromecânica, biocombustíveis ou informática, como também para aquele que pretende ser
advogado, juiz, delegado, empresário, administrador, consultor de negócios, engenheiro,
fisioterapeuta, educador, assistente social ou mesmo recepcionista/atendente de uma ONG? E por
que esses mesmos profissionais não precisam de um curso de Engenharia para não engenheiros ou
de Física para não físicos, de Medicina para não médicos ou, ainda, de Química para não
químicos?
Seria para preencher a grade acadêmica/curricular? Ou para dar emprego aos sociólogos?
Ou seria simplesmente porque a Sociologia, que lida com as relações entre os homens, é uma
disciplina interessante à formação cultural?
Obviamente, nenhuma das respostas será a verdadeira.
Então, se os futuros profissionais mencionados acima não pretendem fazer o que os
sociólogos fazem, por que o curso de Sociologia é obrigatório no ensino médio integrado ou
aparece com freqüência no ensino pós-médio/subseqüente? E além de obrigatório, ministrado
logo no primeiro ano, juntamente com as outras disciplinas introdutórias específicas?
O que justifica um extenso curso de Sociologia, e que pode não ser óbvio num primeiro
momento, é que o Direito, assim como a Administração e o Comércio Exterior, a Medicina, a
Enfermagem, a Engenharia, a Assistência Social, a Educação são, todas elas, ciências sociais.
Embora, na sua maior parte, sejam disciplinas operacionais, práticas, quase técnicas, todas ocorrem
dentro do contexto social geral. Em outras palavras, nenhuma delas é uma bolha solta no espaço,
nenhum desses saberes é auto-suficiente como, por exemplo, a Aritmética e a Geometria.
Embora, de um lado, o nascimento da Aritmética – as operações simples – se deva à
necessidade de contagem da propriedade – o número de cabras de um rebanho, por exemplo –
para fins de troca e, de outro, os fundamentos da Geometria se devam à necessidade de
demarcação da propriedade territorial, esses corpos de conhecimento foram construídos numa
lógica interna própria, desligada da realidade da natureza e dos homens. Assim, pode-se dizer que
suas verdades independem da época histórica em que foram ditas. A equação 1 + 1 = 2, por
exemplo, dentro do contexto da Aritmética, é sempre verdadeira, assim como na Geometria, a área
de um retângulo é sempre a base multiplicada pela altura.
Eram verdadeiras na Grécia Antiga, na Idade Média, nos tempos da Revolução Francesa,
assim como hoje, na Idade Contemporânea. Tampouco dependem do sistema político em vigor,
seja ele democrático ou totalitário, seja ele monarquia ou república. Nem dependem do tipo de
tecnologia adotada pela sociedade, seja ela a artesanal das tribos antigas ou das sociedades mais
modernas com a energia do vapor, do motor de explosão, da eletricidade ou da atual, a tecnologia
digital, da informática, da Internet.
Sistemas de saber abstratos que, enquanto sistemas, existem apenas na cabeça dos homens,
conservam-se sempre os mesmos, porque não são tocados pela realidade concreta e cotidiana da
vida. O mesmo não ocorre quando os sistemas de saber são resultado da vontade, das opiniões,
dos desejos, dos valores, dos julgamentos, das paixões e dos sonhos dos homens.
Neste sentido, os números da Aritmética ou as leis da Geometria, por não estarem
diretamente relacionados à realidade concreta e empírica, em si mesmos, não têm valor. Eles são
neutros. Não se pode dizer que o número 7 seja mais bonito que o número 8, por exemplo. Ou mais
justo, ou melhor. Os números, em si, não têm valor algum. Se, entretanto, eu os coloco dentro da
realidade concreta, como a nota de uma prova, ou como o preço de um carro novo, como valor,
então sim, o 8 pode ser melhor que o 7 e pior que o 9. Assim, o que transforma o número – que, em
si, não tem valor – em valor é o significado que os homens lhe atribuem.
Outro exemplo, embora exagerado, é a piadinha: “quando é que 1 + 1 = 3?”. Ora, “quando
uma mulher e um homem jovens e saudáveis estão numa ilha deserta”. Em outras palavras, até
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mesmo a verdade absoluta da Aritmética, que 1 + 1=2, quando colocada dentro de um contexto
social específico, pode ser refutada.
É neste sentido que a Sociologia – que trabalha com as relações entre os grupos e as
sociedades humanas – é fundamental para dar contexto e, através do contexto, dar sentido e atribuir
significado específico a todas as disciplinas sobre as quais falamos anteriormente. É a Sociologia que
vai desvendar os contextos sociais gerais, os processos históricos, políticos e econômicos que
desenvolveram e continuam desenvolvendo as técnicas e o modus operandi das diversas profissões,
a fim de torná-las de fato eficientes e trazer resultados cada vez mais positivos e atualizados.
Justamente por isso, a Sociologia, por dever de profissão, está sempre com o dedo no pulso
da realidade social e, portanto, é uma das disciplinas que mais acompanham as mudanças sociais,
atualizando-se constantemente. [...]

Dois paradoxos da Sociologia para aqueles que dela se aproximam pela primeira vez:
O primeiro deles reside no fato de que todos nós, por vivermos em sociedade, conhecemos
de antemão os fenômenos que a Sociologia estuda: a desigualdade, o poder, a violência, a família, a
amizade, o casamento, a educação, o trabalho, a pobreza, e tudo aquilo que é humano e
socialmente significativo. Não só conhecemos, como temos e emitimos opiniões a respeito de todos
eles. Este é o primeiro paradoxo: vamos estudar algo que já sabemos?
Como resolvê-lo? Como transformar algo já “manjado, degustado e deglutido” numa nova
experiência? Pois a resposta está implícita no que até aqui dissemos que é a própria função da
Sociologia: a de encararmos a nossa “velha sabedoria”, nossas opiniões já formadas e cristalizadas
sobre os fenômenos sociais do nosso cotidiano, como uma sabedoria parcial e contingente, fruto de
um determinado momento histórico, de uma determinada sociedade, de uma determinada camada
social, fruto, enfim, da biografia de cada um de nós. A postura que faz a diferença, portanto, é ao
invés de “já sabemos”, passarmos para o “supomos que já sabemos, mas vamos conhecer como é
que pessoas de outros grupos sociais do nosso próprio tempo e da nossa própria sociedade
sabem”.
É como se nós, com nossas crenças, opiniões, julgamentos e desejos, nos tornássemos o objeto
do nosso próprio estudo. Dito de outra forma, a nossa atualidade, o mundo no qual estamos
inseridos, ao invés de ser por nós vivido, torna-se o tema do nosso ponto de partida. Nós nos
debruçaremos sobre nós mesmos, refletiremos sobre nossas próprias vidas, sobre as diversas
formas do nosso viver atual, sobre as nossas instituições, nossas organizações, meios de
sobrevivência, trabalhos/ocupações, e as formas de relações. Trata-se, portanto, de uma atitude
reflexiva, em que somos o sujeito e o objeto do nosso próprio conhecimento.
O segundo paradoxo: por vivermos nossa vida em sociedade, fazemos sociologia antes
mesmo de saber o que ela é.

(Livremente adaptado de DYMETMAN, Annie. Sociologia para não-sociólogos: encontros com a


Sociologia. São Paulo: Editora USJT, 2007.)