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Paidéia

ISSN: 0103-863X
paideia@usp.br
Universidade de São Paulo
Brasil

Gnatos Lima Bilbao, Giuliana; Engler Cury, Vera


O artista e sua arte: um estudo fenomenológico
Paidéia, vol. 16, núm. 33, enero-abril, 2006, pp. 91-100
Universidade de São Paulo
Ribeirão Preto, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=305423752012

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Paidéia, 2006, 16(33), 91-100
91

O ARTISTA E SUA ARTE: UM ESTUDO FENOMENOLÓGICO1

Giuliana Gnatos Lima Bilbao2


Vera Engler Cury
Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Resumo: Este estudo tem por objetivo apreender a estrutura do vivido do artista e sua arte e as
decorrências para a Psicologia. Foram gravados 9 (nove) depoimentos de artistas de diferentes áreas, posteri-
ormente submetidos aos passos do método fenomenológico, incluindo leitura inicial para apreensão do todo,
releituras para apreensão de unidades de significado, compreensão psicológica das unidades de significado,
síntese específica de cada depoimento e, por fim, síntese geral dos depoimentos. A síntese geral, abarcando as
vivências de todos os participantes, delineou aspectos positivos da arte: auto-conhecimento; integração da
personalidade; transformação de valores e afetos; transcendência da realidade cotidiana. Os resultados apon-
tam para uma consideração da criatividade como componente da saúde e da prática de uma atividade artística
como facilitadora do desenvolvimento psicológico, abrindo perspectivas para novos estudos sobre arte, que
vem sendo associada a processos psicoterapêuticos na atualidade.

Palavras-chave: arte; artista; arte-terapia; pesquisa fenomenológica.

THE ARTIST AND HIS ART: A PHENOMENOLOGICAL STUDY

Abstract: The objective of this research is to describe the elements which are part of the experience of
artists, comprehending the structure of experiences and the consequences for Psychology. Nine depositions
have been recorded from artists of different areas and they were all submitted to the steps of the phenomenological
method, including a first reading in order to get a general sense, further readings aiming the apprehension of
meaning units within a psychological perspective, a synthesis of each deposition and, finally, a synthesis of all
depositions. The results show positive aspects of art: self-knowledge; integration of personality; transformation
of values and affections; transcendence of the quotidian reality. These data point to a consideration of creativeness
as health and the practice of an artistic activity promoting psychological growth, opening perspectives for new
researches in art, which has been lately associated to psycotherapeutic processes.

Key words: art; artist; art therapy; phenomenological research.

Introdução: É preciso ter em mente que, na deiro dar-se-ia através das Idéias existentes num
filosofia antiga, as reflexões que versavam sobre a mundo à parte. A arte, se pudesse refletir, ainda que
Arte consideravam não só suas relações com a Be- não plenamente, a Beleza que era uma Idéia, única,
leza e a realidade natural, como também com a mo- imutável, presente nesse mundo à parte, poderia ser-
ral e a evolução espiritual (Bosi, 1991; Lacoste, 1986; vir de “degrau” na escalada espiritual. Contudo, de
Nunes, 1966). maneira geral, ela refletia a natureza propriamente
A arte tinha justificativa em suas relações com dita, uma cópia denegrida do mundo imutável e, por-
a moral e valia na medida em que possibilitasse ao tanto, acabava por atrelar o homem ao mundo corri-
homem uma evolução espiritual, cujo alcance verda- queiro, mutável – chamado Sensível pelos filósofos
1
Artigo recebido em 10/10/2005 e aceito para publicação em 29/ – impedindo sua ascensão espiritual. A arte estava,
12/2005. então, de maneira indireta, relacionada a outros va-
2
Endereço para correspondência: Giuliana Gnatos Lima Bilbao, Av. lores na sociedade grega, não sendo vista e refletida
Dr. Francisco Mais, 426 , Bairro Novo Chapadão , Campinas – SP,
CEP: 13066-330, E-mail: lgglima@uol.com.br em si mesma.
9 2 Giuliana Gnatos Lima Bilbao

Numa direção oposta, o filósofo Schiller (1995) A segunda definição afirma que arte é expri-
traz uma concepção interessante sobre o fazer arte, mir. Bosi (1991) utiliza três termos para diferenciar
desvinculando o impulso lúdico (inerente ao fazer ar- os níveis de expressão: efusão, símbolo e alegoria. Se
tístico) da moral ou de qualquer outro valor, fazendo alguém chora pela perda de um amigo, sua expres-
a arte valer por si: são está no nível de efusão; se escreve um poema,
sua expressão está no nível do símbolo e, se constrói
“pois a beleza não oferece resultados
uma estátua com o desenho de uma águia como sím-
isolados nem para o entendimento nem para a
vontade, não realiza, isoladamente, fins
bolo de força e ousadia – virtudes do amigo- então,
intelectuais ou morais, não encontra uma sua expressão está no nível da alegoria. Em todos os
verdade sequer, não auxilia nem mesmo o modos de expressão há um sentimento, mas ele é
cumprimento de um dever, e é, numa palavra, diretamente expresso no nível da efusão, indiretamente
tão incapaz de fundar o caráter quanto de no da alegoria e intermediário no simbólico.
iluminar a mente. Pela cultura estética, Cabe ressaltar essa questão da distância entre
portanto, permanecem inteiramente o resultado da expressão (signo exterior) e a força
indetermina-dos o valor e a dignidade pessoais
correspondente (sentido interno, que pode ser emo-
de um homem, à medida que estes só podem
depender dele mesmo, e nada mais se alcançou ção, idéia). Quanto maior a distância, maior a dificul-
senão o fato de que, a partir de agora, tornou- dade em fazer uma correspondência direta. Em de-
se-lhe possível pela natureza fazer de si mesmo corrência disso, existe uma relação assimétrica entre
o que quiser – de que lhe é completamente o signo exterior e o sentido interno, isto é, um mesmo
devolvida a liberdade de ser o que deve ser exterior pode ter vários sentidos internos e um mes-
.”(p.110) mo interno pode corresponder a vários externos, de
Num sentido contrário ao da filosofia antiga, modo que não se pode derivar a forma poética dire-
que apregoava que o fazer artístico distanciava o ho- tamente dos sentimentos do poeta (Bosi, 1991;
mem do Bem e da Verdade, das Idéias e da perfei- Focillon, 1983).
ção, Schiller (1995), ao contrário, enfatiza que a pró- Pelo fato de a arte ser composta de símbolos,
pria humanidade é decorrente da liberdade conquis- para chegar ao sentido interno, é necessário um tra-
tada pelo impulso lúdico. Ele afirma que a humanida- balho de decodificação que possa, com propriedade,
de já existe como predisposição, mas na medida em estabelecer o sentido interno correspondente ao sig-
que o homem perde a liberdade, desenvolvendo de no externo, um processo que anule a distância e per-
maneira unilateral a sensação ou o pensamento, per- mita uma correspondência plausível, que seria a in-
de também sua humanidade. Somente o impulso lúdico terpretação.
pode reconstituí-la. Porém, segundo Bosi (1991), no momento da
Sob outro aspecto, o estudo da filosofia traz realização da obra, a força e a forma, a emoção e o
três definições tradicionais da arte: arte é fazer, arte signo, não estão dissociados, e “a necessidade de in-
é exprimir e arte é conhecer (Bosi, 1991; Pareyson, terpretar decorre da distância que medeia o fenôme-
1966; Frayze-Pereira, 1994). no simbólico e suas raízes emotivas” (p.52)
Com relação à primeira definição, pode-se ave- Então, compreendendo o fenômeno expressi-
riguar que a dimensão do fazer encontra-se presente vo dessa maneira, a unificação inerente a ele dispen-
desde o aspecto etimológico das palavras que desig- saria interpretação, pois ela própria fornece a com-
nam arte. A palavra tekné, denominação grega da preensão. De fato, segundo Pareyson (1966), o que
arte, significa modo exato de fazer uma tarefa (Bosi, acontece em arte é que não há forma que não seja
1991); a palavra póiesis, significando produção, cria- conteúdo, e conteúdo que não seja forma; o resultado
ção, traz implícito um fazer; e a Ars, matriz latina do artístico é um conteúdo expresso em forma e, “preci-
português arte, está na raiz do verbo articular, deno- samente porque o artista resolveu toda vontade ex-
tando a ação de fazer junturas entre as partes de um pressiva, significativa e comunicativa no fazer, no gesto
todo (Bosi, 1991). formativo, na atividade operativa... por isso tudo, em
O Artista e sua Arte 9 3

arte, até a coisa aparentemente irrelevante diz, signi- Em 1912, dois psiquiatras europeus, Emil
fica, comunica alguma coisa” (p.61) Kraepelin e Karl Jaspers, observaram que os dese-
Passando à concepção da arte como conheci- nhos dos pacientes podiam auxiliar a entender a sua
mento tem-se, segundo Pareyson (1966), que esse psicopatologia, o que, na verdade, já havia sido
aspecto não é tão importante quanto o do fazer, e é operacionalizado com os estudos de Simon (Malchiodi,
lamentável que, a partir do Renascimento, a tarefa 1998). Até então, o interesse psiquiátrico voltava-se
da arte tenha sido enfatizada como contemplação, aos produtos artísticos e suas relações com o funcio-
desviando as atenções para esse aspecto menos re- namento mental que, supostamente, estaria revelado
levante que seu ato executivo. Diz ele : “O quanto nas obras. Em vista disso, alguns começaram a fazer
esse “espiritualismo artístico” é inadequado, sabem- pequenas coleções das obras dos pacientes, mere-
no bem os artistas, às voltas com a matéria e a técni- cendo destaque a de Prinzhorn, psiquiatra alemão, que
ca de sua arte, e com a obra que exige ser feita, exe- reuniu 5000 produções de internos de vários hospitais
cutada, realizada”(p.31). da Áustria, Suíça, Itália, África.
Segundo Pareyson (1966) e Nunes (1966), não Prinzhorn e Wilmanns, diretor da clínica psi-
podem ser feitas abstrações sobre o conhecimento quiátrica de Heidelberg, onde trabalhavam, diferen-
oriundo da arte ignorando sua característica ciaram-se de outros psiquiatras da época em dois
essencial:a forma. Na concepção desses autores, se aspectos: primeiro, eles se interessaram pelo que ti-
há um conhecimento que advenha da arte, ele não nham a dizer os pacientes sobre suas produções e
deve se encontrar separado da própria forma, mas assim chegaram mais perto do significado das artes
existir enquanto forma particular, sensível e concre- para eles; segundo, pelo fato de Prinzhorn ser artista
ta. Há analogia entre o processo do conhecimento e e historiador de arte, além de psiquiatra, seu interes-
o da criação artística, unindo fazer e conhecer. se voltou-se para as origens da arte propriamente,
não se interessando tanto pela Patologia ou Psicolo-
Arte, doença mental e saúde mental gia (Claussen, 1997).
Em fins do século XIX, quando psiquiatras re- De qualquer forma, historicamente, as corres-
velaram interesse pelas produções plásticas dos pondências entre arte e mente continuaram a ser
insanos e começaram a estudá-las, iniciou-se a cone- investigadas pelos estudiosos da saúde mental. Em
xão entre arte e doença mental. Dentre os que se 1900, Freud publicou a Interpretação dos Sonhos,
destacaram por um período de quase duas décadas dizendo que as imagens oníricas remeteriam ao fun-
nesses estudos, podem ser citados os franceses cionamento psicológico inconsciente na medida em
Ambroise Tardieu, Paul-Max Simon, Marcel Reja. que fossem traduzidas em termos de pulsões incons-
Segundo Malchiodi (1998), esse movimento come- cientes, desejos reprimidos, pela técnica psicanalítica
çou em 1872, quando Ambroise Tardieu publicou um da interpretação. Ainda que não pretendesse tratar
livro sobre doença mental em que relatava quais eram, da arte em sua teoria, Freud transpôs tal concepção
no seu modo de ver, as características do trabalho para a apreensão da pintura, escultura e poesia, ana-
artístico produzido pelos então chamados insanos. lisando pormenorizadamente a Gioconda de Leonar-
Um pouco mais tarde, entre os anos de 1876 e do da Vinci (1910), depois, o Moisés de Michelângelo
1888, Paul-Max Simon publicou uma série de estu- (1914), não fazendo distinção entre arte, fantasia,
dos sobre os desenhos de doentes mentais. Ele tem sonho e devaneio, considerando todos eles como pro-
sido considerado “pai da arte e da psiquiatria”; foi um jeções do inconsciente.
dos primeiros psiquiatras a reunir uma coleção de Para Freud (1976), a arte é fruto de um me-
desenhos e pinturas de pacientes psiquiátricos. Ele canismo através do qual os impulsos sexuais reprimi-
acreditava que os sintomas se associavam ao con- dos, por não serem aceitos, são desviados para uma
teúdo do trabalho artístico, apontando para uma dire- meta alternativa de satisfação, socialmente aceita, pelo
ção diagnóstica dos desenhos. mecanismo da sublimação. Essa concepção fica cla-
9 4 Giuliana Gnatos Lima Bilbao

ra na interpretação do sorriso da Mona Lisa, que, para com situações psíquicas profundas, havendo supera-
ele revelava o inconsciente de Leonardo da Vinci, ção que envolveria transcendência das memórias,
sua obsessão por esse sorriso, que se repetia em vá- desejos, egocentrismo, condicionamentos. O artista
rios quadros, evidenciando conflito não resolvido dos ficaria numa atmosfera psíquica em que não haveria
seus impulsos eróticos primitivos para com sua mãe. espaço para mágoas, paixões e frustrações; Trinca
Antes mesmo de 1910, Freud postulava que a (1995) sugere que há uma libertação dos limites de
base da poesia era a fantasia do escritor e esta, por espaço e tempo e impregnações sensoriais, um alar-
sua vez, era decorrente das insatisfações com o mundo gamento da consciência e “a realidade pode se mos-
externo. Suas considerações partiam da premissa de trar tal qual é, livre o mais possível da interferência
que “ a pessoa feliz nunca fantasia, somente a insa- de nossos próprios vértices de pensar” (p.19).
tisfeita’’, pois, “As forças motivadoras das fantasias Nesse silêncio da base sensorial, origina-se a
são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é realiza- experiência de imaterialidade, que provê uma aber-
ção de um desejo, uma correção da realidade tura da mente para a ressignificação da realidade,
insatisfatória” (p. 152). disposição para nova relação espiritual, suprapessoal
Assim, pode-se deduzir que, na sua visão, tan- (Trinca, 1995). A arte, assim permitiria liberdade e o
to um pintor quanto um escritor criativo estão proje- contato com “o sagrado que reside nas profundezas
tando em sua arte significados pessoais inconscien- do mundo” (p.20). Relacionando a arte à experiência
tes e tentando corrigir uma realidade frustrante. Tal de imaterialidade, e colocando-a como possibilidade
apreensão é criticada, posteriormente, pelo filósofo de se alcançar uma realidade verdadeira, ampliada e
Bachelard (1989), que assinala: “A imagem poética suprapessoal, existe aproximação de seus pensamen-
não está sujeita a um impulso. Não é o eco de um tos com concepções filosóficas da arte que ressal-
passado”(p. 2) bem como por psicólogos que aponta- taram justamente esses aspectos.
ram para o caráter progressivo - e não regressivo – Ressaltam-se outros autores, além de Trinca
dos símbolos (May, 1975; Naumburg, 1966). (1995), que contribuíram para uma visão da arte mais
Alguns avanços foram feitos do ponto de vista ligada à saúde. Winnicott (1990) é uma figura de des-
teórico psicanalítico no sentido de compreensão da arte. taque nesse sentido. Ele concebe que a vida cultural
Trinca (1995) classifica vários tipos de arte, segundo o do homem – em que a arte se encontra - é o equiva-
funcionamento mental subjacente: a arte do esquizo- lente adulto dos fenômenos transicionais da criança,
frênico, que traz embutida a cisão e a fragmentação fazendo, a relação da arte com o brincar. No decorrer
do self; a da fusão, em que existe um amálgama de de sua obra, ele elabora várias considerações sobre a
aspectos objetivos e subjetivos, e pode ir do fantasioso importância do brincar e da criatividade para a saúde
ao alucinatório; a oriunda da sublimação, em que há mental, dando um passo além das considerações psi-
transformação de tendências recalcadas em canalíticas, cuja abordagem sobre esses aspectos re-
estetizantes; a da posição depressiva, em que o mundo duzia-se à noção de sublimação de instintos.
interno, repleto de objetos mortos e estragados é refei- Na visão desse autor, a importância do brincar
to, transformando-se em obra de arte. reside no inter-jogo entre a realidade psíquica e a
Partindo do pressuposto teórico kleiniano da externa, uma atividade em área intermediária de ex-
posição depressiva, além dos tipos supracitados, o periência, que mescla subjetividade e objetividade.
autor propõe outro elevado e nobre, não comprometi- Winnicott (1975) interessava-se pela experiência em
do com as turbulências da mente, que estaria além da si, e não pelos produtos ou conteúdo da brincadeira
posição depressiva. Em níveis regredidos, a arte se ou da arte, como faziam os psicanalistas de seu tem-
ligaria à dor mental, na medida em que o artista esta- po, fato que critica, e afirma que “o brincar é por si
ria sujeito às oscilações permanentes das posições mesmo uma terapia” (p.74) e “uma terapia de tipo
esquizo-paranóide e depressiva; já o tipo elevado de profundo pode ser efetuada sem trabalho
arte seria resultado de uma superação da dor mental, interpretativo” (p.75), mostrando a importância do
alcançada pelo fato de ele ter lidado interiormente brincar em si mesmo. Do ponto de vista da criatividade,
O Artista e sua Arte 95

ele compreendia que ela deve ser considerada como pode ser equiparado a “uma visita a um Céu pessoal-
“uma coisa em si” (p.100), necessária a um artista mente definido, do qual retorna depois à Terra (p.131)”.
mas presente em toda pessoa que se inclina criativa- A pessoa, nessas experiências, sente felicidade e rea-
mente na apreensão da realidade externa. lização supremas, sente-se no auge de seus poderes,
Vale lembrar que Jung (1997) também descre- livre de bloqueios, medos, autocríticas, sendo, conse-
veu o valor artístico em si e utilizou as representa- qüentemente, mais espontânea e auto-confiante, ca-
ções produzidas por seus pacientes nas sessões. Se- racterísticas essas usualmente encontradas em pesso-
gundo Philippini (1995), a abordagem junguiana parte as capazes de individuação, segundo observações clí-
da premissa de que o homem é orientado por símbo- nicas de Maslow (1973).
los, a arte-terapia facilitaria a compreensão e resolu- Dentre os psicólogos contemporâneos que se
ção de estados afetivos conflituosos ao permitir a cri- ativeram a questões da criatividade e arte, Rollo May
ação; por ela o homem entraria em contato com os (1975) explorou o tema com profundidade; ele partiu
símbolos a serem compreendidos e transformados; de seu contato com obras de artistas e com os artis-
assim a arte é uma função psíquica natural, com pa- tas para formular suas considerações, o que é uma
pel estruturante. aproximação diferente das citadas anteriormente. Ele
Já na visão de Carl Rogers (1999), psicólogo critica dois aspectos das teorias psicanalíticas de seu
humanista e fundador da Abordagem Centrada na tempo sobre a criatividade: primeiro, o fato de essas
Pessoa, a criatividade está relacionada à tendência teorias reduzirem a criatividade a outro processo qual-
atualizante, força inerente ao organismo em direção quer (como “regressão a serviço do ego”); segundo
à saúde; para ele quando um indivíduo encontra-se a consideração da criatividade como expressão de
aberto à experiência, podendo experimentar idéias, padrões neuróticos. O autor discorda “enfaticamen-
emoções que antes se encontravam rigidamente ne- te” dessas duas abordagens; ele diz que por existi-
gadas à consciência, quando encontrou um centro rem artistas com sérios problemas psicológicos isto
interior de avaliação, sendo o juiz das suas ações e não leva, necessariamente, que a arte seja um produ-
emoções, lidando livremente com idéias e conceitos, to da neurose. Pelo contrário, o processo criativo deve
ele é um ser criativo. ser estudado como “representação do mais alto grau
de saúde emocional” (p39).
Maslow (1973), outro psicólogo humanista, en-
tende a criatividade humana como decorrente da saú- May (1992) afirma que a vivência da beleza
de, num sentido semelhante ao de Rogers (1999). As desperta qualidades que transcendem a morte e nos
pessoas sadias satisfazem suas necessidades básicas projetam para além do tempo e do espaço: “A beleza
de segurança, filiação, amor, respeito e amor próprio, é a eternidade vinda à luz dentro da experiência” (p83);
de modo que passam a ser motivadas para a realiza- os artistas bem o sabem, criando obras que são eter-
ção de suas capacidades e talentos; no processo de nas, e a arte, ao permitir essa vivência de eternidade,
individuação, o auge seria um funcionamento mais ple- de transcendência, modifica a qualidade de vida e
no do indivíduo com conseqüente aumento da oportuniza a conscientização. Ela seria um ato lúdico
criatividade. No entanto, Maslow (1973), diferentemen- integrador que, ao mesmo tempo, revela sua forma
te de Rogers (1999), define a criatividade em termos de ver o mundo. De sua vivência enquanto pintor,
mais episódicos do que como característica de deter- sente que participa do universo, sente prazer e vê-se
minada etapa alcançada e, nesse sentido, sua concep- como transmissor de nova visão da realidade.
ção é ainda mais abrangente, não se restringindo às Há vários profissionais de renome internacio-
pessoas saudáveis. Partindo desses pressupostos, abor- nal que utilizaram recursos artísticos – pintura, escul-
da a criatividade e a atividade artística pelo estudo do tura, música, dança, teatro - em contexto terapêutico.
que denominou experiências culminantes. Surge, pois, em meados do século XIX, a arte-tera-
De fato, Maslow (1973) define as experiências pia, campo que abrange diversos tipos de práticas,
criativas, artísticas, como aquelas em que o indivíduo baseadas em teorias psicológicas diversas e diferen-
experimenta um “episódio de individuação” (p.127), que tes concepções de arte.
9 6 Giuliana Gnatos Lima Bilbao

Dentre as existentes sobre o poder terapêutico nuiu. Ele, então assinala a possibilidade de mudanças
do processo criativo, uma primeira é de que a arte é no estado de consciência provocadas pela arte.
curativa, cicatrizante, restabelecedora.3 Segundo Para Allen (1995), a arte é um meio de auto-
Malchiodi (1998), fazer arte gera auto-estima, enco- conhecimento; não cura ou conserta, mas restabe-
raja a experimentação, desperta novas habilidades e lece a conexão do indivíduo com o aspecto mais pro-
enriquece a vida, o que, por si só, já seria terapêutico. fundo de si: a alma. O caminho da arte possibilita
Além disso, o processo criativo conduz à individuação, maior vivacidade e contato com emoções e intui-
ao desenvolvimento dos potenciais e flexibilidade, além ções, mas requer coragem e curiosidade para
de oferecer oportunidade para crescimento e mudança contatar a imaginação. A arte permitiu-lhe a solu-
de forma agradável. ção de problemas, amenização de sofrimentos,
Para Natalie Rogers 4 (1993) o processo enfrentamento de perdas, e também um profundo
psicoterápico e criatividade são ligados: o que é cria- conhecimento de si . Andrade (1993, 1995), psicólo-
tivo geralmente é terapêutico e vice-versa. A autora, go que realizou um extenso estudo sobre a prática
utilizando os princípios da Abordagem Centrada na da arte-terapia, também cita a arte como possibili-
Pessoa e também recursos artísticos diversos reuni- dade de auto-conhecimento.
dos sob a denominação de Person-Centered A conexão com a alma, como possibilidade ine-
Expressive Therapy, parte da premissa de que men- rente à arte, é assinalada, também, por McNiff (1988).
te, corpo, emoção e espírito devem estar integrados Ela expressa, engaja e reestrutura a alma, asseme-
no indivíduo saudável e, portanto, o processo lhando-se à terapia, ao xamanismo e à religião. Exer-
terapêutico precisa oportunizar experiências que en- cendo a mesma função de um sacramento, ela faz a
volvam todos esses aspectos. alma acessível a sentidos, permite consciência dos
Outra personalidade de destaque no campo das propósitos coletivos. A alma, a seu ver, é algo de mis-
arte-terapias5 é Rhyne (1996) que seguindo os prin- terioso e profundo, próximo ao que se passou a cha-
cípios da Psicologia da Gestalt e da Gestalt-Terapia, mar “inconsciente” na Psicologia.
pratica o que denominou Experiência Gestáltica de Para este autor o processo criativo permite a
Arte, em contexto terapêutico e educacional. Ele acre- livre experimentação, exercitando a imaginação; por
dita que a experiência de criar em arte contribui para sua vivência como artista e pesquisador, admite que o
a clareza de insight. Partindo do pressuposto que é processo criativo traz benefícios e pode modificar o
naturalmente humano fazer arte, ele busca recuperar criador e afirma que este implica em mergulho no des-
essa parcela humana que é, muitas vezes, abafada e conhecido, requer confiança do criador, que é, sobre-
bloqueada no processo natural de crescimento. tudo, dinâmico, surgindo a partir do próprio fazer e não
Pereira (1976) afirma que, na atividade artísti- de um planejamento pré-concebido. McNiff (2000)
ca, o artista sintetiza elementos de sua percepção e atribui à arte um poder de conhecimento do mundo,
intuição e preocupa-se esteticamente com a escolha diferente do intelectual. Por isso, o fazer artístico, a
dos modos de expressão que mais favoreçam sua imaginação, as metáforas, podem ser utilizados como
mensagem. Então, ao contrário de fortuito e ocasio- meio de conhecimento de certos fenômenos humanos.
nal, o processo artístico é controlado pelo intelecto, Nesse sentido, a arte é, pois, um método.
segundo exigências estéticas. Assim, ao mesmo tem- Em uma pesquisa feita por McNiff (1977), in-
po em que há o desprendimento de padrões antigos e vestigando as motivações dos artistas com relação à
mergulho em associações novas, há um rigor estéti- arte, foram entrevistados 100 artistas, adultos e crian-
co. Ele diz que seus pacientes relataram mudanças ças; ele constatou que a motivação para a arte está
no sono depois da arte-terapia: para uns, os pesade- vinculada a impulso de competência dentro do contex-
los deixaram de existir e para outros a insônia dimi- to de um meio material específico, para explorar novas
3
situações, por desejo de prazer estético, de usar a arte
Traduções possíveis para o termo healing, frenqüente na bibliogra-
fia estrangeira.
como veículo para mudança social, estabelecendo pa-
4
Natalie Rogers é filha de Carl Rogers.
drões éticos, de usá-la como meio de confrontar o medo
5
O termo é usado no plural devido à adversidade do campo e à falta
e o sofrimento, intensificação da vida, de alcançar a imor-
de especifidade do termo arte-terapia em sua forma singular. talidade através de seu trabalho, pela necessidade de
O Artista e sua Arte 9 7

comunicação de sentimentos e interação com outros, de cebida como uma atividade fundamental e necessária.
reconhecimento social; por propósitos espirituais. A experiência artística, tal como vivenciada na
pesquisa, tem relações com o que Maslow (1973)
Método denominou de culminante, na medida em que é auto-
Os participantes deste estudo foram artistas validada e semelhante a uma “visita ao céu”. A sen-
adultos, 4 do sexo masculino e 5 do sexo feminino, sação de aumento de poder, força ou energia, relaci-
com idades entre 27 e 57 anos, cujo envolvimento ona-se à descrição das experiências culminantes em
com a modalidade artística fosse fundamental em suas que o indivíduo sente-se no “auge dos seus poderes”.
vidas, portanto, todos tinham contato profundo com a Dentre as funções que os artistas atribuem à
arte; então, a fama ou o tempo como artista não fo- arte, o auto-conhecimento, mencionado por vários
ram critérios relevantes para a participação na pes- autores da arte-terapia (Allen, 1995; Rhyne, 1996;
quisa, mas sim a arte vivenciada como algo funda- Naumburg, 1966; Halprin, 2000; McNiff, 1998;
mental, sendo provenientes das modalidades: teatro, Rogers, 1993; Andrade, 1995) parece ser relevante e
pintura, dança, escultura, poesia e música. parte natural do exercício da própria arte, bem como
a compreensão de aspectos criativos, da auto-ima-
O primeiro contato com os artistas aconteceu
gem, das limitações, dos valores, idéias, sensações e
por telefone ou pessoalmente, momento em que se
emoções seriam inerentes à vivência da arte, ainda
fez uma breve apresentação do trabalho e o convite que cada artista o faça de forma particular.
à participação.
Com relação à superação e ao movimento de
Os depoimentos foram colhidos no habitat de aperfeiçoamento constantes, buscando o esteticamen-
cada artista, ou seja, no local onde acontecem suas te coerente e melhor, pode-se pensar em auto-desen-
produções. Houve uma pergunta disparadora: “Como volvimento e superação de si mesmo como caracte-
você vive a arte ?” e o participante discorria livre- rísticas da pessoa metamotivada, conforme assinala
mente sobre sua experiência em relação ao tema. Maslow (1973); ela estaria motivada à auto-realiza-
Os depoimentos foram gravados, transcritos ção e ao desenvolvimento de seus potenciais através
e procedeu-se, posteriormente, aos passos da arte. Por isso esta é vivenciada como uma neces-
metodológicos descritos por Giorgi (1985) para aná- sidade, ainda que não básica.
lise: 1- leitura dos depoimentos integralmente para De certa forma, também Jung (1997) concebe
apreensão do todo; 2- releituras dos depoimentos, o próprio processo de auto-desenvolvimento, deno-
tantas vezes quantas necessárias, com o objetivo de minado individuação, como envolvendo a criatividade
apreender Unidades de Significado, que, vale res- e a concretização de imagens que possibilitam um
saltar, não se encontram prontas no texto, mas refe- contato mais profundo com o inconsciente pessoal e
rem-se aos significados que se aproximam do inte- coletivo, favorecendo o crescimento.
resse do pesquisador, tendo em vista o fenômeno Do ponto de vista filosófico, vale questionar
estudado. Elas se diferenciam umas das outras na se esse movimento de aperfeiçoamento não poderia
medida em que existe mudança de significado, com ser compreendido como característico da evolução
foco no fenômeno estudado; 3-elaboração de uma espiritual que se consegue alcançar através da bele-
Compreensão, transcrevendo o significado em lin- za, uma asserção desenvolvida por filósofos que viam
guagem psicológica, com ênfase ao fenômeno in- como possível, através da arte, alcançar a perfeição,
vestigado; 4-elaboração de uma Síntese Específica a verdade, a essência das coisas.
do depoimento, que traduz a essência do fenômeno. Com relação à característica integradora da
Após esses passos, procedeu-se à elaboração de arte, presente na estrutura do vivido dos participan-
uma Síntese Geral baseada nas específicas, buscan-
tes, pode-se afirmar que filósofos como Pareyson
do contemplar os significados comuns aos artistas e
apreender a essência do fenômeno. (1966), que concebem a arte como conteúdo
formatado, acabam por juntar os aspectos racional e
Resultados e Discussão emocional, objetivo e subjetivo dela, concentrando-
A estrutura do experienciado, em relação ao fe- os. Esse ponto integrador também está de acordo com
nômeno de vivência do artista, revelou que a arte é per- as formulações de Winnicott (1975), May (1975) e
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do filósofo Schiller (1995), quando mencionam a ple- A característica transformadora parece rele-
nitude humana alcançada pelo impulso lúdico. vante na vivência da arte e é confirmada por alguns
Cabe salientar a arte usada para alívio de ten- autores. De forma genérica, a arte associada à evo-
são, ou de algum tipo de mal-estar psicológico. Tais lução espiritual, conforme concepções filosóficas,
traz implícita a idéia de transformação. Na Psicolo-
vivências relacionam-se com o relato de arte-terapeutas
gia, autores citam que o fazer arte modifica o mun-
como McNiff (1998), Rhyne (1996) e Allen (1995),
do interior (Jung, 1997; McNiff, 1998; Rhyne (1996);
que declaram utilizá-la para benefício próprio e de seus
May, 1992; Andrade, 1993, 1995; Pereira, 1976;
pacientes. Num mesmo sentido, May (1992) discorre
Allen, 1995). Para alguns, a vivência de transfor-
sobre a exposição às potencialidades de cura que a
mação é sentida de maneira intensa, profunda, dan-
arte promove e McNiff (1977) constata entre artistas
do à arte um caráter de salvação. Salienta-se que a
a possibilidade de tê-la como meio de confrontar o medo
arte foi um meio que os participantes desta pesqui-
e o sofrimento. De fato, a palavra “remédio” foi, inclu-
sa encontraram para estar no mundo de maneira
sive, referida por alguns artistas da pesquisa.
adaptada e feliz. Uns encontraram nela um meio de
Com relação ao prazer da experiência, obser- expressão de características represadas, outros de
va-se que este se mostra inexorável na vivência dos auto-desenvolvimento, de preservar suas caracte-
artistas, aproximando-se de Maslow (1973), com sua rísticas espontâneas e infantis e, ainda, uma forma
descrição das experiências culminantes. de sobreviver num mundo considerado desagradá-
Quanto à possibilidade de exercer a própria li- vel e hostil.
berdade, Schiller (1995) afirma que só através do Assim, houve uma transformação adaptativa
exercício do impulso lúdico, o homem pode ser livre, e, ao mesmo tempo, prazerosa. Pode-se, pois, com-
sendo incontestável a liberdade proposta nos contex- preender esses movimentos como saudáveis,
tos de arte-terapia. atualizantes, no sentido descrito por Rogers (1999).
Com relação aos obstáculos enfrentados pelos Certamente, isso vem ao encontro das afirmações
participantes para a realização da arte, impostos pela que mostram como a criatividade é saudável, que
família, pela marginalização social ou pela própria arte, seu exercício exerce papel importante na saúde do
que exige superação de limites pessoais e contato com indivíduo (Winnicott, 1975; May, 1975; Maslow,
o desconhecido, pode-se dizer, de maneira geral, que 1973; Rogers, 1999; Andrade, 1995; Allen, 1995;
arte envolve coragem, nos termos de May (1975) e Rogers, 1993; McNiff, 1998; Rhyne, 1996; Halprin,
Allen (1995). Face à não aprovação social da arte, 2000) e que sua ausência pode estar associada à
discute-se a questão da sublimação, pois os resulta- doença psicológica (Winnicott, 1975; Rhyne,1996;
dos da pesquisa parecem apontar para um possível McNiff, 1998).
rechaço social, em dissonância com o conceito de A questão da consciência através da arte pa-
sublimação, pelo qual a arte seria uma satisfação al- rece relevante em dois níveis: primeiro, pela altera-
ternativa de impulsos sexuais com decorrente apro- ção de estados de consciência; segundo, pela maior
vação social e adaptação ao processo civilizatório. conscientização de si e dos outros. A alteração do
Existe, de fato, na vivência de alguns artistas, a cana- estado de consciência aparece nas afirmações sobre
lização de aspectos pessoais, não expressos na vida insônia posterior à criação, aumento da energia, po-
real, por dificuldades ou por desaprovação. Contudo, der ou lucidez com a criação, maior velocidade de
tais aspectos referem-se à criatividade, espontanei- raciocínio, abertura sensível face à realidade e a sen-
dade e auto-expressão e não propriamente à sexuali- sação de uma outra atmosfera em que a densidade
dade. Questiona-se se seria a criatividade a expres- ou o tempo são diferentes.
são pessoal rechaçada pela sociedade. A frase de Quanto à ampliação da consciência, alguns au-
Pereira (1976)diz: “E o que se reprime no homem tores creem que a arte a possibilita, num nível pessoal
talvez não seja a sexualidade, nem a agressão, mas a (Rhyne, 1996; Allen, 1995; McNiff, 1998; Rogers, 1993;
essência de sua natureza: uma vida pregnante de li- Halprin, 2000); outros enfatizam o nível coletivo e su-
berdade e de consciência cósmica”(p11). pra-pessoal (Rogers, 1993; Pereira, 1976; May, 1975;
O Artista e sua Arte 9 9

Trinca, 1995), que se pode chamar de trans-pessoal, e nesses termos. Talvez se possa dizer que os filósofos
que seria o equivalente ao metafísico, na linguagem captaram algo verdadeiro sobre o fenômeno e elabo-
filosófica. Segundo a vivência dos artistas, essa cons- raram suas asserções.
ciência implica o conhecimento de uma nova realida-
No que tange a intimidade e familiaridade com
de, seja ela pessoal, coletiva ou, ainda, metafísica.
aspectos fantasiosos, imaginativos, caóticos, absurdos
De forma geral, as características de auto-co- do ponto de vista lógico-racional, vividos pelos artitas,
nhecimento, transformação e ampliação da consci- ressalta-se que o caos é apontado por alguns como
ência evidenciadas pela pesquisa parecem condizer
inerente ao próprio processo criativo, pois é de onde
com as afirmações de arte-terapeutas, ainda que o
contexto de suas observações tenha sido prioritaria- emergirá o novo, que é a obra (May, 1992; Pereira,
mente o terapêutico e os que deram origem às 1976) e a imaginação também é vista como ingredien-
asserções eram pacientes e não artistas. Assim sen- te essencial (Allen, 1995; May, 1975; McNiff, 1998;
do, a constatação de tais características na vivência Rhyne, 1996). Rogers (1999) fala da abertura à expe-
da arte justificaria sua inclusão no processo riência em indivíduos criativos; o que concorda com a
terapêutico com o intuito de favorecê-lo e esclarece abrangência de elementos imaginativos, fantasiosos,
cientificamente os pressupostos dos arte-terapeutas sem rigidez perceptual, numa congruência entre as-
segundo os quais ela tem, por si só, poder terapêutico. pectos sensoriais e sua simbolização na consciência.
No entanto, pergunta-se se a arte não é assim Esse lado, que parece desenvolvido pela arte, remete
vivenciada pela profundidade que a arte assume. Essa a reflexões sobre aspectos do ser humano saudável.
hipótese é pertinente, suscita questões para pesqui- Pergunta-se se não se estaria relegando isto a um se-
sas posteriores que possam estabelecer diferencia- gundo plano nas escolas e no contexto social mais
ções no poder terapêutico da arte segundo variações amplo, o que condiz com afirmação de May (1992) de
na profundidade de sua vivência, levando-se em con- que “O futuro de nossa civilização, sua sobrevivência
ta as diferenças pessoais.
e sua saúde, é inseparável do futuro de sua arte”
Com relação ao aspecto da consciência (p.171).
metafísica, que para os filósofos antigos era a apre-
ensão das essências no Mundo Inteligível, deve-se
ressaltar que a estrutura do vivido, conforme a pes- Referências
quisa, aponta a arte como forma de conhecimento de
uma outra realidade, diferente da habitual, o que co- Allen, P. (1995). Art is a Way of Knowing.
incide com as afirmações filosóficas. Essa realidade Boston: Shambala.
diversa pode ser vivenciada como captação de uma
verdade cósmica, ou o transporte para outro mundo, Andrade, L. Q. (1993). Terapias Expressi-
ou contato com o Todo ou Deus. Esse é um aspecto vas: Uma Pesquisa de referenciais Teórico-Prá-
de transcendência. ticos. Tese de Doutorado – IP USP, São Paulo.
Além disso, o processo que desfocaliza o eu, Andrade, L. Q. (1995). Linhas teóricas em arte-
direcionando a maior consideração com o outro em terapia. Em A Arte Cura? Recursos Artísticos em
virtude da percepção do poder transformador da arte,
Psicoterapia. São Paulo: Editorial Psy II.
pode ser compreendido como um aspecto ético inte-
ressante. É-se levado a pensar que uma intimidade Bachelard, G. (1989). A poética do espaço.
com a arte conduziria ao exercício do bem e a uma São Paulo: Martins Fontes.
preocupação social. Um estudo anterior (McNiff,
1977) aponta para o desejo de artistas de usarem a Bosi, A. (1991). Reflexões sobre arte. São
arte como veículo para mudança social, estabelecen- Paulo: Ática.
do padrões éticos. Nesse sentido, a afirmação dos Claussen, B. (1997). Beyond Reason: Art and
filósofos sobre a interdependência da tríade Bem, Psychosis. Los Angeles: University of California Press.
Beleza e Verdade parece ter respaldo na vivência
dos artistas, considerando-se que beleza e arte cami- Focillon, H. (1983). A vida das formas. Rio
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100 Giuliana Gnatos Lima Bilbao

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