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NEWST BOOK – 28-02-2017 “SCORPION MATA” 1-3-2017

SCORPION MATA – por FRED FARIA


CAPÍTULO UM – Três de uma vez...
CAPÍTULO DOIS – As investigações começam...
CAPÍTULO TRÊS – Lucinda...
CAPÍTULO QUATRO – Rubecon se torna Rubens...
CAPÍTULO CINCO – Um giro pela noite...
CAPÍTULO SEIS – Não se mata a galinha dos ovos de ouro...
CAPÍTULO SETE – Desencontro...
CAPÍTULO OITO – Luiz em nova caçada...
CAPÍTULO NOVE – Van vendida...
CAPÍTULO DEZ – O encontro...
CAPÍTULO ONZE – Nem mesmo “bom dia”...
CAPÍTULO DOZE – Que noite!...Precisamos conversar...
CAPÍTULO TREZE – Boas novas...
CAPÍTULO QUATORZE – Enfim sós...

Capítulo um
João Beltrão Fagundes era o investigador mais
velho dentre aqueles lotados naquela delegacia de
polícia. Mas nem por isso era considerado o
melhor, o mais eficiente deles todos. Digamos que
estaria no meio das considerações, não era o
melhor e também não era o pior. O pior, nessa
escala de valores, era um jovem espevitado, recém
admitido no serviço público. E era assim
considerado porque não havia sequer recebido um
caso para resolver. Não tinha sido realmente
avaliado. O melhor era o amigo de João de longa
data, o seu contemporâneo naquele serviço, o Fábio
Acácio. E Fábio era assim considerado por ter
resolvido inúmeros e complicados casos que
apareceram na delegacia. Era sua especialidade
resolver coisa difícil. Resolvia esses casos e
contava sempre com a ajuda de João Beltrão que
atuava como seu assessor não oficial. Como se
fosse um confidente. Ambos trocavam idéias, faziam
sugestões mútuas e muitas vezes resolviam casos
com esse procedimento informal e amigável. João,
já agora nos seus quarenta e cinco, indo rápido
para quarenta e seis anos de idade, não era lá
muito sociável. Não do tipo que facilmente faz
amizades e mesmo no tempo em que estudava, seus
poucos colegas eram aqueles que, como ele, não
eram os “populares”. Mas era aluno dedicado,
responsável e saía-se muito bem nos estudos, de
uma forma geral.
Gostava de vestir-se bem, mais que adequadamente
para um policial. Era, de certa forma, vaidoso com
sua aparência. Só não gostava das entradas
capilares que iam avançando com a idade. Porem
recusava-se a dar maior espaço em sua vida a esse
inconveniente. Aprendera em sua meninice, com seu
avô, que o homem deve apresentar-se com a unha
limpa e cortada, cabelo penteado, sapatos limpos e
engraxados.
Mas o tempo foi mudando tudo isso, não se usava
sapatos como antes, imperava o tênis, não mais se
barbeava todos os dias, enfim, era outra época...
Casou-se cedo, já estava na polícia por essa
época. Havia prestado concurso, conseguido ser
aprovado e fez o estágio na academia de polícia.
Gostava mesmo era dos exercícios de tiro. Embora
fossem poucos tais exercícios, pois falavam da
economia que deviam fazer com a munição. Mas mesmo
assim, quando havia, ele desfrutava com um enorme
prazer. Era bom atirador, tinha um aproveitamento
exuberante na prática de tiro ao alvo.
Tinha muitas habilidades manuais. Pouquíssimas
coisas ele não conseguia consertar. João sentia
enorme prazer nisso, mais ainda quando era
reconhecida sua habilidade. Tanto que para ser
reconhecida essa habilidade, ele consertava o que
aparecesse para quem parecesse.
Futebol era seu esporte preferido. Não jogava
pessoalmente como tantos outros que não deixavam
de comparecer nas “peladas” organizadas pelos
colegas policiais, mas ia assistir e também
acompanhava os campeonatos pela televisão.
Esse novo caso que acabava de aparecer para ser
resolvido, foi entregue diretamente a João
Beltrão. Ele estranhou tal fato porquanto o Fábio
estaria disponível naquele dia e nem mesmo foi
consultado a respeito e esclareça-se que entre os
dois não havia e menor rivalidade ou competição.
Ao saber do caso, Fábio veio conversar com João
Beltrão, desejando obter detalhes, por mera
curiosidade. Após tomar conhecimento do caso,
Fábio aduziu:
- Mais um daqueles! E a coisa não vai parar por
aí...
- Bem..., talvez não haja conexão entre os casos
que você já resolveu e este aqui. Vamos ver com
mais calma e pensar melhor nos detalhes técnicos e
tudo mais que conseguirmos lá no local. Vamos a
campo! Volto a falar com você quando tiver obtido
mais informações, mais detalhes.
Assim dizendo João Beltrão posicionou-se para
deixar a sala dos investigadores no que foi
acompanhado pelo jovem espevitado. O novato dali.
O delegado havia designado o jovem para acompanhar
João até a cena do crime. Essa designação fazia
parte do aprendizado necessário aos jovens recém
admitidos na carreira de investigador policial.
Tendo sido devidamente comunicado de tanto por seu
superior, João na teve dúvidas e aceitar tal
incumbência. Até gostava de poder passar algumas
de suas experiências aos jovens que apareciam.
Dirigindo-se ao jovem, João perguntou-lhe:
- Veja qual viatura está com o tanque cheio ou que
tenha combustível suficiente para irmos e
voltarmos do local.
O jovem movimentou-se alegre e rapidamente,
dirigindo-se ao mecânico responsável pelas
viaturas, vendo na ordem recebida a esperança de
um bom relacionamento com João.
- A viatura que está perto da saída está com o
tanque pela metade. Se não formos andar mais que
duzentos quilômetros esse combustível é mais que
suficiente.
- Creio que não andaremos tanto... --- disse-lhe
João ao tempo em que adentrava no veículo pelo
lado do carona ---.
- Vou guiando?
João observou que o jovem parecia assustado com a
possibilidade de sair dali guiando o veículo.
- Sim, você vai guiando e eu vou observando sua
destreza e responsabilidade ao dirigir... Não
corra, não mate e não morra.
- Tudo bem. Não tenha receio, vou devagar...
- Não tenho receio, realmente tenho medo de que
você nos enfie em baixo de alguma carroceria de
caminhão.
João disse isso em tom de brincadeira, porem o
jovem, sério que permaneceu após essa fala, não
devia ter apreendido o tom correto das palavras.
O jovem, quando se apresentou para o serviço
naquela delegacia, trazia o termo de apresentação
que tinha o seu nome: Rubens Constantino. João
havia lido e guardado tal detalhe.
O veículo já estava em movimento dirigindo-se ao
local onde deveriam eles tomar contacto direto com
o que havia ocorrido lá.
- Como deseja ser chamado? Rubens ou Constantino?
- Tanto faz. Na faculdade me chamavam de Rubecon
em uma analogia ao Rubicon dos romanos, aquele rio
que falam que Julio Cesar atravessou para chegar
em Roma no ano 49 BC. Não sei porque, porem o
apelido pegou e eu passei até mesmo gostar de
assim ser chamado.
- Quer dizer que você fez faculdade... Direito?
- Sim formei-me em direito ou ciências sociais
como querem alguns.
- Muito bom. Dessa forma não vamos ter problemas
com os aspectos jurídicos que eventualmente possam
permear nossas ações. Me corrija se eu estiver
errado em algum procedimento. Tenha toda
liberdade...
Rubens era bastante ativo em todos os aspectos de
sua vida. Conservava um grande número de amizades,
desde os colegas de faculdade quanto aqueles do
tempo de ginásio. Garotas constavam de seu celular
em mais de duas páginas. Sendo rapaz solteiro e
com os dotes de bom interlocutor e bom ouvidor,
nunca lhe faltava companhia feminina. Também os
colegas o procuravam constantemente para juntos
fazerem “programas” com garotas, jogar “peladas” e
para todas as atividades próprias da juventude.
Nos seus vinte e poucos anos, estava começando sua
carreira de policial, de investigador, e era o que
queria no momento. Estudara direito mas não queria
advogar. Pensava que com o diploma de direito,
poderia ter uma carreira promissora na polícia.
Almejava fazer concurso para alçar posição mais
elevada que aquela de investigador, motivo de sua
admissão na polícia.
Era um daqueles que não mais usavam sapatos como
os antigos usavam. Agora só usava sapatenis, calça
jeans e dificilmente usava paletó, somente quando
o tempo esfriava. Então aí o paletó servia de
aquecimento extra. Barba não era problema, pois
não ligava para ela. Porem não deixava crescer
tanto que precisasse de cuidados. Quando achava
que estava alem da moda, a gilete entrava em ação.
Na polícia não havia nenhuma exigência quanto a
qual aparência devia o investigador apresentar,
cada qual era como queria estar.
Olhos verdes, tez morena, com seus um metro e
setenta e cinco de altura, cabelos ondulados,
Rubens se considerava um cara charmoso e não
escondia nem um pouco essa condição, contudo, não
podia ser considerado antipático por isso. Era
visivelmente loquaz e vivaz, sobretudo quando se
tratava de discutir futebol.
Após alguns minutos de silêncio, já estavam
chegando ao local desejado, revelado pelo grande
número de viaturas da polícia militar que estavam
estacionadas, avistadas desde longe pelos dois
investigadores. João foi logo falando:
- Eu não sei qual a sua posição quanto a locais de
crime, o que eu sei é que mais das vezes os
policiais militares não respeitam as regras mais
primárias. Digo isso para que você não pegue
pesado com eles. Eles tem boa vontade, são os
primeiros a serem chamados e quando chegam não
sabem bem o que ocorreu e quais as conseqüências.
Quando se inteiram do assunto, aí então é que vão
tratar de preservar o local. Nem sempre conseguem
fazer isso corretamente devido as circunstâncias.
- Tudo bem. Não pegarei pesado... Mas posso lhe
adiantar que a matéria na faculdade que eu mais
admirava, mais gostava era a que tratava desse
assunto relacionado com as provas que se obtém com
a correta preservação do local do crime.
- Nós não temos, muitas vezes, nem mesmo luvas de
borracha para podermos manusear objetos na cena do
crime. Proteção para os sapatos, nem pensar.
Diante desse quadro, você pode imaginar o porque
somente 5% dos crimes de homicídio são resolvidos
aqui no país.
- Essa estatística nos foi passada na faculdade,
eu sabia dela. Nos estados unidos da América do
norte conseguem resolver perto de 87% dos crimes
de homicídio. É uma diferença brutal. Mas nós
temos as razões dessa diferença bem diante de
nós...
Por toda essa interlocução que João Beltrão teve
com o jovem espevitado, imediatamente passou a ter
uma positiva impressão sobre o mesmo. Deixou de
reparar no espevitamento do outro, considerando
que todos nesse mundo apresentam uma
característica a ser observada. O jovem Rubecon
parecia espevitado, ou seja, era vivo e loquaz.
Mas isso não era nenhum defeito. Muitas vezes João
se perguntava: Qual seria a sua característica aos
olhos dos outros? Nunca obtivera resposta a essa
pergunta.
O local dos fatos estava cercado de policias
militares, um número tão grande de policiais, que
chamava a atenção e que revelava tratar-se de algo
de enormes proporções.
Jaziam inertes, três corpos de mulheres jovens,
todas com sinal de semi degola, ou esgorjamento,
com cortes que pareciam ser profundos na parte
anterior dos pescoços das vítimas, feridas
mutilantes que provavelmente deviam ter atingido a
jugular externa. Era desconcertante o fato de
haver três vítimas com os mesmo sinais de cortes
profundos da jugular. Imediatamente isso revelava
que os crimes não teriam ocorrido no mesmo exato
momento, pois a não ser que existissem três
elementos ativos, um só elemento não poderia ter
agido com aquele resultado.
Trocando idéias com o jovem Rubecon, João obteve
essas mesmas percepções e mais ainda ouviu dele
que seria possível que as vítimas estivessem todas
elas dopadas ao mesmo tempo e o corte da jugular
teria sido feito em uma após outra e assim por
diante. Essa era uma outra possibilidade. O médico
legal resolveria esse detalhe pela análise
toxicológica do sangue das vítimas, além de, na
verificação das feridas mutilantes proferir
constatações outras sobre o crime. Diga-se que a
análise toxicológica seria feita com o sangue que
havia sobrado nas vítimas, tal era a quantidade de
sangue que havia escorrido das vítimas pelo local
do crime.
No local do crime havia muita coisa a ser
observada. Era um local de casa periférica,
pobremente mobiliada e toda ação ocorrera na
saleta apertada de entrada da casa. As vítimas
estavam dispostas pelo chão, ao redor de uma
mesinha de centro onde, num cinzeiro de vidro
barato, viam-se bitucas, bem pequenas, de cigarros
que pareciam ser de maconha e bitucas bem maiores
de cigarros de comércio livre. Isso indicava a
permanência do agente criminoso, ou agentes, no
local do crime por algum tempo.
Havia pegadas no chão provenientes de solado de
sapato ou tênis que havia entrado em contacto com
o sangue. A arma do crime, possivelmente uma faca,
navalha, canivete, ou qualquer lâmina bastante
afiada não havia sido encontrada.
Os demais cômodos da casa, dois quartos com camas
desarrumadas e um pequeno banheiro, não
apresentavam muito interesse à primeira vista.
Poucos móveis existiam ali. Como o local ficaria
interditado por algum tempo, eles poderiam voltar
lá caso fosse necessário.
Afora a pessoa que notou que havia algo estranho
ali naquela casa, um vizinho, que chamou a PM, não
havia mais ninguém, naquele momento, que pudesse
ser relacionado aos fatos que tivesse algum
esclarecimento a dar.
O que chamou a atenção dessa pessoa, desse
vizinho, foi o fato de casa não estar habitada há
já algum tempo e de repente tivesse havido algum
movimento por lá; depois cessou qualquer
movimento. Esse vizinho foi devidamente
identificado e seu endereço e dados anotados.
Parecia que não havia outras testemunhas! Mas pela
sua experiência João sabia que sempre alguém viu
vê alguma coisa. Deveriam voltar e interrogar a
vizinhança, casa a casa se necessário fosse.
Tudo recolhido, fotografado, impressões digitais
levantadas pela polícia técnica, corpos removidos
para o IML, ali naquele local, naquela hora, nada
mais poderiam fazer. João e Rubens voltariam para
a delegacia.
No trajeto de volta para a delegacia João
perguntou a Rubens:
- O que você acha disso tudo? Tem alguma teoria?
- Realmente esse estaria dentre os 95% não
resolvidos... não fosse as pistas que observamos e
que a técnica vai nos fornecer a seguir. Arrisco
dizer que esse nós vamos resolver.
- Você notou que tudo ocorreu na saleta. Nada nos
dois quartos, pelo menos assim parece... é
estranho tal fato porque estavam ali, pelo menos,
quatro pessoas, senão seis, e a saleta era bem
pequena. Porque tudo se concentrou ali? Não é
estranho?
- Não havia pensado nisso, mas concordo com você
que é bastante estranho.
Ao chegarem na delegacia foram direto falar com o
delegado e a ele fizeram um breve relatório falado
dos fatos. Aguardariam as novidades da técnica e
voltariam para interrogar a vizinhança.
Nesse meio tempo, dentro da delegacia, cada um em
sua respectiva mesa, tocava seus assuntos
burocráticos, preenchiam formulários e relatórios.
Todavia, executavam esses afazeres necessários,
quase que automaticamente, pois que estavam com a
mente voltada para os detalhes dos crimes para os
quais foram designados desvendar.
Rubens e João, trocavam olhares entre os momentos
em que paravam de escrever alguma coisa sobre os
papeis, como que indicando que estavam
vislumbrando alguma coisa, algum detalhe havia
perpassado pelas suas mentes, sobre aqueles
assassinatos por atacado.
Ansiavam em receber o relatório do legista que
poderia lhes dar algumas pistas, alguns caminhos a
seguir. Principalmente com relação ao exame
toxicológico que deveria ser realizado no sangue
das vítimas. Estiveram as vítimas dopadas antes de
serem assassinadas? E a passividade que imaginavam
que as vítimas apresentaram no momento de serem
degoladas era proveniente de alguma substância
tóxica que as dopara? Qual substância? Tudo isso,
uma vez esclarecido pela toxicologia, iria dar
indicações importantes aos dois investigadores,
para que eles pudessem seguir adiante.
Contudo, teriam que ser pacientes pois tais
resultados que, dependiam de outras pessoas,
dependiam de outros departamentos, tinham o seu
próprio ritmo que nem sempre era o mesmo ritmo dos
investigadores.
Restava então, enquanto esperavam pelos
resultados, irem para o campo a procura na
vizinhança daquele local de crime, saber se alguém
podia ter visto alguma coisa, ouvido alguma coisa,
algum fato que os pudesse ajudar a consolidar
formar uma teoria sobre aqueles crimes.
Foram dois dias seguidos de bater de porta em
porta na esperança de que alguém pudesse dizer
alguma palavra que viesse ajudar no caminho da
investigação que realizavam. Era um trabalho
cansativo e que não obtinha total apoio e simpatia
dos consultados.
O morador de uma das casas, finalmente, pode
adiantar um pequeno detalhe que, embora assim
parecesse, pequeno, adicionava uma enorme
informação a tudo que já haviam coligido.
Essa testemunha informou que duas ou três noites
atrás, quando chegava em casa por volta de onze
horas da noite, viu uma van preta estacionada em
frente a casa dos fatos. Não teve maiores cuidados
sobre tal visão. Não anotou placa, nem nada.
Somente sabia que era uma van preta, possivelmente
alta, onde caberia um homem em pé dentro dela. A
casa estivera fechada há já algum tempo. Foi só o
que conseguiu dizer. Não sabia, por exemplo, quem
morava ali ou quem seria o proprietário do imóvel.
Teriam eles que descobrir através da prefeitura ou
do cartório de registro de imóveis.
Por outro lado, tal testemunho revelava que as
vítimas foram trazidas para o local onde foram
encontradas, quase certamente, por essa van preta.
Assim, havia possivelmente uma confirmação de que
as vítimas chegaram até ali, ainda vivas e de
alguma forma passivas quanto ao que lhes esperava,
a morte. Confirmava tal fato a quantidade de
sangue encontrada no local, pois que se as vítimas
tivessem encontrado a morte em outro local, e
apenas tivessem sido transportadas para aquela
casa já mortas, não haveria tanto sangue pelo
chão.
Portanto, não foram infrutíferos aqueles dois dias
que passaram batendo de porta em porta.

Capítulo dois
Conseguiram identificar quem era o proprietário do
imóvel. Obtiveram o endereço e foram procurá-lo.
Não foram atendidos no endereço. Casa fechada. Os
vizinhos, que conheciam o casal que ali residia
informaram que eles estavam em viagem de férias.
Rubens passou um cartão de visita por debaixo da
porta, havendo escrito uma mensagem solicitando
que entrassem em contacto com eles na delegacia.
O laudo preliminar da perícia técnica chegou logo.
Ele vinha acompanhado das fotos do local do crime
e das constatações que foram feitas no local e
trouxe um detalhe que eles dois não haviam
observado. A porta de entrada havia sido forçada e
foi assim que o criminoso ou criminosos adentraram
no imóvel. Nos demais cômodos da casa nada a
observar. As impressões digitais pouco viriam a
esclarecer pois estavam bastante borradas e sem
possibilidade de identificação. As vítimas, por
outro lado, puderam ser identificadas por suas
impressões digitais constantes do registro geral,
identificação essa que foi encaminhada ao médico
legista para facilitar a elaboração do seu
prontuário.
As vítimas eram jovens com a idade entre 18, 20 e
23 anos a mais velha, sem passagem pelos órgãos
policiais. Como não tinham nenhum registro de
passagem pelos órgãos policias, poder-se-ia dizer,
até prova em contrário, que não eram viciadas em
substâncias proibidas e também que nunca foram
detidas por crimes contra os costumes ou
prostituição. Pelo menos, se viciadas ou
prostitutas, nunca havia sido flagradas pela
polícia.
Essa revelação colocava um grão de dificuldade a
mais na elucidação dos crimes.
O que estariam essas jovens criaturas fazendo da
vida que lhes teria resultado a morte, naquelas
condições? A quem teriam ofendido, desobedecido ou
traído? Quem poderia ter tido ou estar tendo algum
benefício com aquelas mortes?
Essas eram perguntas que povoavam as mentes dos
dois investigadores e eles ainda não tinham as
respostas.
Nesse ínterim, quase dez dias passados, o casal
proprietário do imóvel do local dos crimes já
havia voltado de viagem e entrara em contacto com
Rubecon, pois foi ele que deixara seu cartão de
visita sob a porta.
Acertado um horário com o casal, eles compareceram
logo em seguida, assustados e curiosos.
Após os cumprimentos iniciais e diante da nítida
ansiedade que o casal demonstrava em querer saber
o que estava acontecendo, João foi o primeiro a
falar:
- Primeira pergunta vocês são os donos do imóvel
situado... --- e João foi passando os dados que
lia no relatório que tinha às mãos ---.
- Sim, somos os donos. O imóvel está para alugar,
está fechado, e até o momento ainda não tivemos
nenhum interessado que fosse aprovado por nós ou
que tivesse demonstrado interesse.
- Bom, houve um crime. Esse crime ocorreu dentro
desse imóvel dos senhores. O imóvel está
temporariamente interditado até que possamos
liberá-lo definitivamente.
- Meu Deus --- esclamou a mulher --- e agora? Que
devemos fazer? Nós não temos nada com crimes...
- Não, nós sabemos. Até porque vocês nem estavam
por aqui, não é? Estavam viajando conforme seus
vizinhos nos informaram.
- Sim --- disse o varão --- chegamos, vimos o
cartão de visita do investigador Rubens e nos
apressamos em saber o que acontecia.
Tendo sido citado, Rubens tomou a palavra:
- Nós sabemos que vocês nada tem a ver com os
crimes. Porém desejamos saber se tem idéia de quem
possa ter tido a ousadia de adentrar no imóvel.
Alguém que soubesse estar fechado para ser
alugado. Alguém que tenha uma van preta. Qualquer
coisa que vocês nos digam pode ser importante na
elucidação dos crimes.
- Crimes? Mais de um? --- perguntou a mulher,
dessa vez mais espantada que nunca ---.
- Sim, foram três jovens mortas lá dentro da
saleta da casa.
O marido interveio:
- Lembro-me de haver mostrado recentemente o
imóvel para uma pessoa que guiava uma van preta.
Isso é importante? Só que não sei de quem se trata
pois ele não se interessou pelo imóvel alegando
que a saleta era muito pequena, que não dava nem
para ter uma televisão grande no local. Foi até um
pouco deselegante nas suas observações.
- Chegou a ver a placa da van? Um número final,
uma letra inicial, qualquer coisa já serve.
- Não havia motivo para eu me ligar nesses
detalhes. Após mostrar o imóvel e ter escutado as
observações do indivíduo eu queria mais era que
ele fosse logo embora.
- Procure lembrar-se de qualquer coisa que lhe
tenha chamado a atenção. Como era o homem?
Descreva-o para nós... Tente visualizar como era
ele, sua altura, cor dos olhos, cor da pele,
formato do rosto, lábios, nariz, queixo, enfim
procure em sua memória esses dados que certamente
lá estão e com um certo esforço você os
encontrará.
Nesse mister ele se saiu bem, revelando detalhes
do tal homem que possibilitaria a feitura de um
retrato falado. Aduziu também que observara que
van preta tinha uma antena da rádio px, comprida e
balançante, na parte traseira. Isso não é usual.
Não se lembrava de mais nada. Se voltasse a se
lembrar de qualquer coisa, qualquer detalhe,
voltaria a falar com eles.
Providenciaram o artista da polícia para fazer o
retrato falado e deixaram o casal entregue àquele
policial.
Já estava na hora de receberem o laudo do médico
legista e como ainda não o haviam recebido, foram
até o IML para fazer uma amigável cobrança dessa
peça que faltava.
- Doutor! Como vai? Viemos ver se já temos o laudo
da autopsia e toxicologia daquelas três jovens que
foram assassinadas há mais ou menos dez dias
atrás.
- Oi João. Já fiz a autópsia e já recebi a análise
toxicológica, porém ainda não tive tempo de
elaborar o laudo por escrito.
- O doutor poderia nos adiantar algum detalhe que
nos ajude nas investigações que estamos fazendo?
- Posso. Extra oficialmente. Pois às vezes ao
elaborar o laudo por escrito surge alguma questão
que de momento não está presente. Serve assim?
- Mas é claro.
- Nos interessa bastante a análise toxicológica
das vítimas. Do sangue.
- Esse é o problema maior. Pedi para repetirem os
exames porque surgiu algo inusitado e necessito de
uma confirmação. Mas posso adiantar que foram
cloroformizadas, todas três. Estavam completamente
anestesiadas quando foram mortas. Não sentiram
nada. Porém apareceu um complicador: HIV. Todas as
três apresentaram estar infectadas com o vírus.
Pedi para refazerem os exames para confirmar ou
descartar a presença do vírus.
- Esses crimes cada vez ficam mais estranhos ---
disse Rubens --- Doutor me informe, é fácil se
adquirir o clorofórmio? Qualquer pessoa pode
adquirir?
- Sim, hoje está à venda até por site da internet.
E não é caro não. Um frasco com um litro custa em
torno de cem.
- E a duração do estado de anestesia? De desmaio,
de inconsciência? É longo...?
- Depende de quanto inalado. É difícil dizer.
Quando era usado na medicina, normalmente, nas
intervenções cirúrgicas, o médico anestesista
ficava observando o paciente, medindo o grau de
inconsciência a partir de sinais que observava.
Quando necessário, adicionava mais clorofórmio na
máscara...
- O doutor diria que uma só aplicação forçada
poderia durar mais de vinte minutos?
- Não creio. Embora minha experiência com
clorofórmio seja pequena, seja de literatura, uma
só aplicação, por só uma aspiração forçada,
acredito que dure mais ou menos dez minutos ou
menos. Depende muito da pessoa e seu estado geral.
- Doutor agradecemos tudo que nos adiantou. Era
basicamente o que queríamos saber. Esperamos o
laudo lá na delegacia, mas sem pressa... Quando o
doutor tiver a confirmação do HIV, por favor nos
informe.
Despediram-se e dirigiram-se à delegacia.
No trajeto trocaram idéias sobre o andamento das
investigações e chegaram ambos a conclusão de que
embora tivessem conseguido uma porção de
informações, ainda não tinham chegado a uma teoria
sobre os crimes. E esse fato da infecção das
vítimas pelo vírus HIV, se fosse confirmada, seria
uma tremenda complicação sem a menor possível
explicação.
Três mulheres jovens com HIV, mortas,
assassinadas. Por quem? Porque? Qual a relação
entre elas serem assassinadas e o HIV? Afinal não
era crime ser portadora do vírus... ou seria? Num
especial compartimento da sociedade seria isso um
crime a merecer a sentença de morte? Trocavam
essas perguntas eles dois, pois esse exercício
levava muitas vezes a trazer luz sobre algo que
antes não vislumbravam.
Procuraram o investigador Fábio Acácio, para saber
dele nos casos em que trabalhara, se havia alguma
relação com o que estavam investigando. Após
levarem ao conhecimento dele os detalhes mais
importantes, dando um panorama geral do caso,
queriam saber se ele via algum ponto de ligação,
algum fato em comum. Só não falaram sobre o HIV
porquanto não havia confirmação e acharam que
seria quase que impossível esse mesmo fato estar
presente em um outro crime. Fabio, com sua
costumeira gentileza, após ouvir atentamente,
respondeu:
- Há uns anos atrás, dois anos para ser exato, eu
tive um caso de esgorjamento e a vítima havia sido
anestesiada com clorofórmio. É bem como o que
vocês estão me falando. Não conseguimos obter
sucesso nas investigações e o caso esfriou. Mas me
lembro bem desses detalhes que lhe falei.
- Esse caso --- interveio Rubens --- ocorreu em
que bairro? Você se lembra?
- Foi aqui por perto. Não mais distante que dez
minutos de carro daqui. A vítima estava em uma
casa que estava para ser alugada, sem móveis,
desabitada, e havia sido morta lá dentro, pelo
volume de sangue que encontramos no local.
João e Rubens se entreolharam e ambos estavam
surpresos com tantos pontos de coincidência
daquele caso que Fábio relatava com aquele que
eles investigavam. O mesmo modo de agir, o famoso
“modus operandi”. Clorofórmio, casa fechada,
esgorjamento.
Fábio continuou:
- A vítima foi identificada facilmente e tinha
passagem pela delegacia de costumes. Alias,
diversas passagens, era prostituta de rua que fora
recolhida pelos policiais por diversas vezes. Mas
não passamos daí, não conseguimos nenhuma
informação adicional que pudesse nos levar a
investigar pessoas ou outras situações
prometedoras.
Esse era um detalhe adicional, ser a vítima
prostituta. Talvez fosse um veio a ser explorado.
Verificar se as vítimas eram prostitutas, muito
embora não constasse nenhuma passagem delas pela
detenção de costumes.
- Bem era isso que eu poderia dizer a vocês ---
finalizou Fábio --- Espero que tenham mais sucesso
que eu.
Agradeceram e combinaram que iriam investigar a
possibilidade de as vítimas estarem se
prostituindo, ou seja, se elas eram prostitutas
profissionais.
Com as fotos das vítimas obtidas no registro
geral, iriam perguntar nos locais que conheciam
ser locais pontos de prostituição, para ver se
alguém as conhecia e podia dar qualquer
informação.
E assim caminhava e caminham as investigações,
sabiam eles, um detalhe aqui um detalhe ali, uma
informação, outra adicional e vai se formando um
quadro que pode ser razoavelmente interpretado por
quem conhece o ramo, que são os policiais,
principalmente os investigadores.
Não foi difícil achar quem conhecesse uma das
vítimas. A mais nova delas. Era nova também no
pedaço. As outras não foram de pronto
reconhecidas, mas à medida em que foram
conversando com diversas profissionais, chegaram
até elas também. A informação era de que elas
pertenciam a uma organização que dava proteção às
profissionais. Tudo muito organizado, funcionava
de verdade essa proteção. Assim, para Rubens e
João, parecia que estavam chegando a algum lugar.
Já viam uma luz no fim do túnel.
Mas não fazia sentido. Porque alguém mataria a
galinha dos ovos de ouro? Se uma organização
existia para dar proteção que, evidentemente
cobravam a peso de ouro, a símile dos cafetões que
vivem à custa de suas mulheres, eliminar qualquer
uma delas era diminuir o rendimento, era dar um
tiro no próprio pé.
O motivo não estava evidente. Mais ainda, não
havia motivo lógico para aqueles assassinatos.
Caminharam até ali e se encontravam em um beco sem
saída, pois um crime não acontece sem um motivo. O
motivo é faz nascer o crime e não ao contrário.
Receberam do médico legista a confirmação que
esperavam: o HIV era realmente positivo nas três
mulheres. A análise do sangue das vítimas
confirmara sem nenhuma dúvida esse fato
científico.
Seria possível, perguntavam-se os dois de comum
acordo, que esse fosse o motivo dos assassinatos?
HIV? Profissional com HIV deve ser eliminada,
assassinada? Não fazia muito sentido porque há
tratamento... Mas, por outro lado, tratamentos
custam dinheiro, e a fonte de renda, a prostituta,
devia ficar afastada até que não mais apresentasse
os nefastos sintomas visíveis da infecção. Se
fossem curadas, poderiam ainda continuar
trabalhando desde que tomassem os devidos
cuidados. Cuidados com elas mesmas e mais e
principalmente com terceiros que com elas tivessem
relações.

Capítulo três
Lucinda e as amigas da pequena cidade somente
tinham um assunto a dominar todas as conversações
naqueles dias: os rapazes de fora que ali
chegaram, dois deles, e que elas consideravam
estonteantemente lindos. Só falavam nisso.
Esses rapazes chegaram ali já havia uma semana, se
tanto, hospedaram-se no único hotel da cidade e
por tudo que aparentavam, trabalhavam como
representantes comerciais de alguma organização de
cidade grande. Não se sabia muito sobre eles.
Chegaram em uma van preta, que mais das vezes
ficava estacionada em frente ao hotel onde
estavam, pois andar pela cidade não exigia veículo
motor, era até melhor andar a pé devido as
pequenas distâncias a serem enfrentadas do hotel
para o restaurante, do restaurante para o bar, do
bar para o hotel. Eventualmente iam a alguma casa
comercial fazer contactos.
Lucinda e as amigas faziam de tudo para serem
notadas pelos rapazes forasteiros, despertando até
mesmo a animosidade dos rapazes locais para com
aqueles.
Não foi de todo sem efeito aquele esforço pois que
um dos rapazes, numa dessas ocasiões, veio ter com
Lucinda. Era de se esperar porque Lucinda, dentre
todas aquelas garotas, era a mais bonita, a mais
saliente de todas formas.
Foi uma abordagem que Lucinda recebeu de bom
grado, pois esperava que isso acontecesse já há
alguns dias, após o flerte sem compromisso que
vinham praticando. Sua esperança de que isso
realmente acontecesse e sua confiança em si mesma
caminharam nesse sentido.
A pergunta que o rapaz lhe fez tinha todo sentido
pois ela estava como que equilibrando-se para
andar pisando somente nos pisos coloridos e isso
ele rapidamente notou. Aproximou-se dela e
atalhou:
- A senhorita está demonstrando que é
supersticiosa... estou enganado?
- E que você tem com isso?
- Realmente nada --- e passando a acompanhá-la em
seu andar, continuou: --- mas como tinha enorme
vontade de conhecê-la, achei que essa era uma
ocasião propícia para tanto.
- Poderia simplesmente ter se aproximado e dito
isso... dito que queria conhecer-me. Eu não
mordo...
- É poderia. Meu nome é Luiz Cláudio e o seu?
Espero que não me prive dessa apresentação.
- Lucinda.
Por sua experiência de tantas outras abordagens
similares que Luiz já fizera anteriormente, sabia
que aquela garota já havia baixado totalmente a
guarda e que dali para a frente ele conseguiria
manter a conversação em termos de seu interesse.
- Belo nome, gostei. Me diga uma coisa, como é
viver aqui nesta cidade. Como uma garota como
você, bonita e inteligente costuma passar seus
dias por aqui? O que há para se fazer para que o
tempo passe e nos traga alegria e felicidade?
- Bem, alegria e felicidade são coisas muito
preciosas e não estão disponíveis para quem
simplesmente as quer. São coisas a serem
conquistadas.
Por essa resposta que Lucinda dera, Luiz pode
sentir e perceber que aquela garota não era
despida de inteligência e possuia uma certa
cultura, até mesmo teria um relativo senso de
moralidade. Luiz pensou que teria que elevar seu
nível de conversa e abordagem se quisesse ter
sucesso em conquistá-la para suas intenções, para
a missão para a qual estava ali.
- Você tem toda razão e eu me penitencio... ---
disse-lhe Luiz, que continuava a acompanhá-la em
sua andada, agora ela não mais escolhendo onde
pisar --- São coisas a serem conquistadas, quanto
a isso não há menor dúvida. Posso continuar a
conversar com você? Posso continuar a acompanhá-
la?
- Sim pode. Estou indo para minha casa, se não se
importa de acompanhar-me somente até o portão.
- Está sendo um prazer acompanhá-la... Pena que
seja somente até o portão de sua casa. Gostaria de
poder conversar com você mais vezes e mais tempo.
Lucinda não deixava de perceber onde o rapaz
queria chegar, ou seja, marcar um encontro para
uma próxima ocasião. Ela, é claro, queria que
assim fosse...
- Bem, tenho agora que atender algumas obrigações
familiares em minha casa. Na parte da tarde
estarei livre, após as dezesseis horas.
- Poderíamos nos encontrar então? Você me diga
onde e em qual horário que lá estarei.
- Sabe onde fica a igreja matriz? Na frente dela
há um jardim, uma pequena praça, estarei lá as
quatro meia...
Como o portão da casa de Lucinda estava próximo,
esse era o momento de se despedirem.
Luiz voltou para o hotel onde encontrou seu colega
que estava deitado na cama a bebericar uma cerveja
na boca da garrafa. Luiz perguntou-lhe:
- Como é? Algum progresso?
- Sim tem uma garota já escolhida e anotada...
- Eu também já tenho uma. Vamos ver no que dá...
Só não quero é que demore muito pois tenho
diversos assuntos pendentes que devem ser
resolvidos ainda este mês.
- Mas o que estamos fazendo é de suma importância.
Nada mais importante que isso...
- É verdade, mas temos que mesclar as prioridades
para não termos nenhum prejuízo, seja num aspecto
ou noutro. Peço a você que cuide do transporte e
deixe a van pronta para a gente se mandar daqui
quando chegar a hora. Fale pelo rádio px com a
organização e passe um relatório preliminar do que
está acontecendo aqui.
Dizendo isso Luiz indicou que iria tomar um rápido
banho e trocar de roupa para estar preparado para
o encontro daquela tarde. Iriam almoçar e depois
voltariam para o hotel onde esperariam o tempo
passar. Ao menos essa era a sua intenção.
Seu colega não informou exatamente em que pé
estava com a garota que havia encontrado e Luiz
também não perguntou. Cada um devia cuidar da sua
missão, independentemente. O que devia acontecer
era que no momento de deixarem a cidade, as coisas
já deviam estar devidamente resolvidas. Não havia
premência de tempo. Havia sim premência de
sucesso.
Essa não era a primeira nem seria a última vez que
Luiz arregimentaria garotas para a organização. Já
tinha uma boa experiência nesse mister, assim como
seu colega.
A coisa se delinearia ali, como em tantas outras
vezes acontecera entre ele e a garota escolhida.
Após encontros e mais encontros, a intimidade
evidentemente cresceria entre eles, promessas
seriam feitas, a total confiança seria conseguida
e finalmente a garota o acompanharia, apaixonada e
submissa como ele queria, como era de se esperar
dadas as circunstâncias, como sua experiência
dizia. Com Lucinda não iria ser diferente. Para
conseguir seu intento, cumprir sua missão, não
havia limite de tempo nem de dinheiro a gastar.
Tudo o que importava era o sucesso da missão era
ter mais uma garota a engrossar as fileiras de
“girls” da organização, a engrossar o veio de
ouro.
Por tudo isso é que Luiz era calmo e executava sua
função na organização com precisão, com elegância
e, até mesmo, com uma certa paixão. É claro que
havia a recompensa material e, também, a
recompensa sexual que fatalmente seria desfrutada.
Assim, nada o impedia de conseguir sucesso nas
suas ações, não havia nenhum limite, quer seja
moral, quer seja de consciência, que viesse ou que
pudesse atrapalhar o objetivo final.
No horário que havia marcado, Luiz foi ter com
Lucinda no jardim que ficava em frente a igreja
matriz. Como ele esperara, ela já lá estava à sua
espera. Esse foi o primeiro de muitos encontros,
muitas oportunidades de Luiz executar a missão
para qual estava ali naquela pequena cidade.
Por primeiro conversaram bastante, ambos sentados
num dos bancos que encontraram no jeito, e
diversos assuntos foram sendo falados para
entretenimento dos dois. Muitos dos assuntos, que
provinham de Luiz, eram no sentido de incutir em
Lucinda de maneira sorrateira a idéia de que
estava perdidamente apaixonado por ela, que era um
rapaz muito rico, que tinha uma posição de
destaque em uma organização, bom salário e que,
solteiro que era procurava incessantemente por sua
metade da maçã, por sua cara metade, seu espírito
gêmeo. Toda essa conversa era exercida por Luiz
com maestria pois já estava habituado a executá-
la. Além de tudo, era enorme conhecedor da alma
das jovens garotas do interior e por isso sabia
exatamente para onde deveria direcionar sua fala.
Seu colega, também era provido dessas mesmas
qualidades (ou defeitos) e, como ele, possuía
vasta experiência nessas missões. Luiz o instava a
progredir na mesma medida em que progredia com
Lucinda, para ambos poderem sair dali quando
chegasse o momento certo.
Lucinda, de seu turno, realmente cada vez mais
apaixonada não media esforços para comprazer Luiz
em tudo aquilo que ele propunha. Nessa caminhada
os dois chegaram a tal ponto de repetidas
intimidades que Lucinda engravidou.
O fato natural de estar grávida era uma tremenda
complicação para ela. Jamais seus familiares, seus
pais iriam aceitar...
Luiz sabia disso, contava com isso...
Quando Lucinda veio ter com ele e lhe disse estar
grávida Luiz já tinha a resposta pré organizada em
sua mente:
- Não tem problema, vamos ter a criança...
- Mas minha família não aceitará tal situação a
não ser que nós nos casemos primeiro.
- Não tem problema.
Para Luiz, mais um casamento não seria realmente
problema, pois que, pensou ele, mais um 235 do CP
em sua vida era o que de menos poderia incomodá-lo
ou preocupá-lo. Mais incomodada e certamente
preocupada ficaria Lucinda em sabendo que a lei
que trata da bigamia também regra que qualquer
pessoa, que sendo solteira, contraia casamento com
alguém já casado está sujeita a pena de detenção
de um a três anos. Luiz era casado... Luiz
garantia que ela disso não sabia e, no entanto,
não poderia provar sua falta desse conhecimento.
Quando Lucinda soubesse de tudo isso, tremeria nas
bases. Causar essa surpresa em Lucinda, esse
espanto, esse temor, fazia parte do plano, contar
com isso era parte do esquema de Luiz para a total
subjugação pretendida.
Casaram-se.
Nesse ínterim seu colega também já havia tido
êxito em sua missão e estava pronto para deixar a
cidade. Ele não precisara se casar, sua garota não
exigiu tanto... Assim, ambos deveriam volta para a
cidade grande.
Alegando necessidade de trabalho, Luiz voltou para
a cidade grande, agora acompanhado de Lucinda.
Forçou que ela fizesse um aborto. Após algum
tempo, entregou-a à vida... entregou-a à
organização Scorpion...
Ela agora era Luci, enganada, subjugada,
prostituída...

Capítulo quatro
Nesse dia quando ambos saiam para o campo bateu a
curiosidade em Rubecon.
- Me diga João, você é casado?
- Já fui... não sou mais.
- Tem filhos?
- Felizmente não tivemos filhos. Eu não saberia
lidar com eles levando a vida que levo. Mas
porque tantas perguntas?
- Mera curiosidade...
- E você? É casado?
- Não, ainda não encontrei quem me quisesse e eu
quisesse. Também não procuro muito. Essa vida que
nós policiais levamos dificulta e muito a procura
da mulher ideal. Aí, quando se pensa que
encontramos, começam as exigências, as cobranças
de afeto, de dedicação por mais tempo... Já
aconteceu comigo.
João, após essa breve troca de palavras, começou a
pensar na vida que levava. Já havia um bom tempo
que não tinha nenhuma companheira, nenhuma
companhia em casa. Às vezes isso era bom, não
tinha que dividir nenhuma decisão com ninguém,
podia resolver tudo dentro de casa por sua própria
vontade, acertando ou errando. Não havia ninguém
por perto para reclamar, favor observações
sarcásticas sobre seus erros. Porem muitas vezes,
em momentos que nada estava fazendo a não ser
pensar, sentia-se muito só e tinha lembranças do
passado. Lembrava-se com carinho de sua esposa,
ex-esposa e não a culpava pela separação. Chegava
a ter vontade de telefonar para ela, só para
ouvir-lhe a voz, só para saber como era sua vida
sem ele. Culpava-se a si próprio pela intolerância
dos últimos tempos, das constantes altercações que
tinham, que a levaram a querer separar-se dele,
embora ele soubesse que ainda havia amor entre os
dois. Um amor nunca morre. Morre a relação por
motivos circunstanciais, porém em algum recanto do
coração o amor permanece para toda a vida... Um
sacolejo do carro tirou-o das suas divagações
sentimentais e voltou ele seus pensamentos ao
trabalho, à investigação.
Estavam eles, em relação a investigação do triplo
assassinato, ainda sem um rumo definido. Estavam
às escuras. Haviam recebido uma informação do
proprietário da casa onde ocorreu o crime que
dizia que lembrava-se que a letra inicial da placa
da van preta era “Z”. Estavam investigando essa
informação, vendo vans pretas que tivessem placa
iniciando pela letra “Z” o que não era fácil. Até
então não haviam encontrado nenhuma. Havia um
razoável número de vans pretas e tinham que
verificar uma por uma. Esse era um serviço que
faziam na delegacia e quando ficavam cansados,
partiam para alguma diligência externa.
Estavam se dirigindo a casa do crime, pela última
vez, porque o proprietário já reclamava pela
liberação do imóvel alegando prejuízo por não
poder alugá-lo. Eles estavam indo lá mais para um
desencargo de consciência pois sabiam que nada
encontrariam de novo.
Estacionaram a viatura bem em frente ao imóvel.
Entraram e deram uma geral para ver se encontravam
alguma coisa. Nada foi encontrado como era
esperado. João tomou a iniciativa de tratar do
assunto e perguntou:
- Acho que podemos liberar o imóvel. O que você
acha?
- É, parece que não tem mais nada aqui que nos
interesse.
- Ok.
- Eu falo com o delegado e com o proprietário.
Rubens ficou encarregado dos trâmites.
Como a porta havia sido forçada, usaram a fita
plástica de “entrada proibida” para deixá-la
fechada. Estavam se acomodando dentro da viatura
para sair quando uma pessoa se aproximou do
veículo.
- Com licença. Ainda estão investigando o crime
que ocorreu aqui? Talvez eu possa ajudá-los...
- Sim ainda estamos investigando --- foi Rubecon
que falou, abrindo a porta do carro para sair ---
você sabe de alguma coisa? Tem alguma informação?
- Eu soube pelo proprietário da casa que vocês tem
interesse em localizar uma van preta. É verdade?
Estive conversando com ele, com o dono da casa,
quando esteve aqui no bairro outro dia. Eu moro
ali --- disse-lhe o senhor, apontando para uma
casa que ficava do outro lado da rua, uma casa
verde claro. ---
- Sabe onde podemos achá-la? A van?
- Eu vi essa van, deve ser ela, ou melhor, pode
ser ela, estacionada por diversas vezes em dias
diferentes lá perto do meu escritório. Chamou-me a
atenção a cor preta, normalmente essas vans são
brancas, prateadas... Ultimamente não a tenho
visto. Já há um mês mais ou menos que não a tenho
visto por lá... Mas me dê um cartão seu que se ela
aparecer por lá eu ligo pra você.
- Se ela aparecer por lá, faça o trabalho
completo. Nos informe e nos dê o número da placa
do veículo. Letras e números...
Rubens passou-lhe seu cartão e agradeceu o
indivíduo que fora prestativo. E não pode deixar
de pensar que se todos cidadãos fossem assim
prestativos a vida dos policiais seria bem fácil e
produtiva. Agradeceu mais uma vez e entrou na
viatura para saírem dali.
João que ficara dentro do veículo perguntou sobre
a conversa que Rubens tivera com o estranho que os
abordara e após ser devidamente inteirado dos
termos da conversa, atalhou:
- Tomara que essa van preta seja a mesma que
trouxe o interessado em alugar a casa. Mesmo não
podendo ligá-la aos fatos, nem mesmo podendo ligar
a pessoa que veio aqui ver a casa, isso nos daria
uma trilha de investigação. Realmente não temos
nada no momento...
- Eu acredito que com o retrato falado, mais o que
pudermos apurar sobre essa van, começamos a ter
alguma coisa, algum resultado. Vamos torcer para a
van aparecer.
Enquanto mais nada tinham que diligenciar em
campo, voltavam para a delegacia e continuavam a
fazer as entediantes verificações sobre o veículo
cuja placa tinha a letra “Z” no início.
Ainda no veículo a caminho da delegacia os dois
ficaram em silêncio por um momento.
João deu seqüência à conversa:
- Sabe que não me sai da cabeça o fato de as três
vítimas serem HIV soro positivo. Uma ter o HIV,
vai lá que seja, mas as três! Isso me cheira a
alguma coisa que não sei ainda o que é. Mas com
certeza tem ligação com as mortes. Quero dizer,
vai ver que foram mortas por isso...
- Não seria de todo impossível. Mas não temos mais
que uma suposição a respeito dessa possível
ligação. Para provar isso não será fácil, somente
quem sabe é quem cometeu o assassinato e ainda não
sabemos quem foi.
- Mas vamos descobrir, tenho certeza disso ---
disse João com convicção em sua voz --- Esse caso
não será incluído na estatística dos crimes sem
solução. Tenho esse palpite pululando em minha
mente.
- Gostaria de voltar ao IML para ter mais algumas
informações --- Rubecon queria mais detalhes sobre
as autópsias --- tenho a impressão que alguns
detalhes importantes deverão estar no laudo que
ainda não nos chegou às mãos.
- Pois vamos até lá!
E os dois se encaminharam para o IML que não
estava longe de onde estavam. Assim que
encontraram o médico legista, João foi logo
dizendo:
- Doutor, voltamos!
- Já foi! Já mandei o laudo das três autopsiadas,
ontem, por e-mail.
- Bem, doutor, nós estávamos fora e ainda não
sabíamos de tanto, por isso viemos. Mais para
obtermos informes paralelos que eventualmente não
constariam do laudo...
- Ok. Pergunte.
- O estágio de infecção pelo HIV era crítico,
aparente? Em que estágio o doutor diria que
estavam?
- Uma delas já estava apresentando alguns sinais
na própria pele o que revela um estágio bem
adiantado sem tratamento, as duas outras ainda
não. Eu diria que estavam num estágio
intermediário que somente elas próprias sabiam,
sentiam. Os sintomas são muitas vezes somente
percebidos pelo portador do vírus e de forma
diferente.
- Eram como bombas humanas... ainda mais na
profissão que elas escolheram! Se é que
escolheram...
- Sim, sem o uso de preservativos o cliente
certamente seria infectado.
- Uma outra questão que nós temos refere-se ao
clorofórmio. Quanto tempo a pessoa fica
desacordada após ter sido obrigada a inalar o
clorofórmio? Parece que já fizemos essa pergunta,
mas por favor, nos informe mais uma vez...
- Não muito tempo. Talvez uns 5 ou 10 minutos.
Depende muito da pessoa, de seu estado de higidez
física geral, da quantidade inalada, da qualidade
do anestésico.
- O doutor diria que para um assassinato triplo
como foi esse, seria necessário mais de uma
pessoa? Mais de duas pessoas?
- Eu diria que no mínimo duas pessoas agiram para
assassinar essas pobres criaturas.
Sendo essas as questões que tinham, despediram-se,
agradeceram mais uma vez e deixaram o IML.
Após o trabalho interno que fizeram na delegacia,
revendo arquivos, pesquisando placas de veículos,
o dia já estava chegando ao seu final. Hora de ir
para casa.
Os dois saíram juntos da delegacia, mas não foram
para casa e sim foram a um bar que ficava ali
perto onde todos policiais costumavam se reunir
para o necessário descanso, enfim para espairecer,
tomar umas e outras e jogar conversa fora.
Era necessário que descarregassem suas frustrações
nesses momentos de descontração, pois a pressão
que sofriam no trabalho era descomunal. Havia
sempre uma cobrança pairando sobre as cabeças dos
investigadores que estavam encarregados de algum
caso ainda não solucionado. Como, por exemplo, no
caso de João e Rubecon que já estavam há quase um
mês às voltas com aquele triplo assassinato e
ainda não tinham nada de positivo para transmitir
ao delegado. Essa situação, muito embora não fosse
culpa deles, pois que não haviam provas técnicas
suficientes para lhes indicar uma linha de
investigação, havia também a demora dos laudos
técnicos e do médico legista. Alem disso tudo,
mesmo não se tratando de algo científico, algo
materialmente palpável, existia em qualquer
investigação o fator sorte. O fator sorte era
importantíssimo porque quando ele existia, de uma
hora para outra, trazia uma luz descomunal sobre
as investigações levando até mesmo à completa
solução do caso. Mas não se podia contar com ele,
ou ficar à sua espera, vez que o fator sorte
aparece de repente, do nada...
Nesse caso que investigavam os dois ainda não
tinham sido bafejados pelo fator sorte.
Depois de algumas cervejas compartilhadas, muita
conversa e risadas, o tempo havia passado, as
horas se escoaram e era chegada a hora de irem
descansar em casa, recolherem-se de verdade.
Aos poucos o bar ia ficando cada vez mais
silencioso, menos pessoas a conversarem, o que
indicava a todos que havia chegado o momento de
irem embora para suas casas.
Rubens e João saíram juntos, porem cada um tomou
uma direção. Um para um lado o outro para outro
lado.
Nessa noite João decidiu que doravante não mais se
dirigiria ao parceiro pelo apelido e passaria a
chamá-lo pelo nome. Afinal, mesmo que ele não se
importasse em ser chamado pelo apelido, para João
parecia pouco amável de sua parte. Assim passaria
a chamá-lo Rubens, que era seu nome.
João não morava longe dali, iria caminhando.
Durante o trajeto pensava na frieza do seu
apartamento, no silêncio que iria enfrentar,
ouvindo tão somente a voz de um locutor distante,
o som de uma interlocução de novela ou de um filme
que a televisão estaria apresentando. Faltava o
ingrediente humano naquele seu apartamento, o
calor que a presença humana irradia. João sentia
essa sensação de ser solitário ali em sua casa,
sentia isso todos os fins de dia... Era quando
mais fortemente se abatia sobre ele o desejo de
telefonar para sua ex-esposa, ouvir a voz dela,
sua risada, poder com ela trocar idéias e
apreensões, tecer comentários e ouvir objeções.
Enfim, ter companhia.
Mas na realidade, não tinha coragem de importuná-
la em sua nova vida. Sabia que não devia.
Rubens, que morava mais longe dali, devia
enfrentar o trânsito de fim de dia e no trânsito,
não teria muito tempo para se deixar levar por
pensamentos, por devaneios. Tinha que manter sua
atenção no trânsito, concentrando-se numa direção
defensiva que não lhe dava nenhum prazer.
Ao chegar em sua casa, após um bom e refrescante
banho, jantaria e em seguida, jovem e cheio de
energia, procuraria encontrar alguma garota que
estivesse disponível para um papo, dentre aquelas
de sua lista de números registrados no seu
celular. Não podia imaginar sua vida se
restringindo a casa trabalho, trabalho casa. Todos
os dias tinha que haver mais alguma coisa
acontecendo em sua vida e sempre encontrava algo
para fazer, alguém com quem sair. Mas era preciso
cultivar esse modo de vida para não ficar
acomodado em casa, diante de uma televisão e nada
fazer. Era preciso até mesmo cultivar as garotas
constantes do celular para sempre ter alguma
garota disposta a sair com ele. Assim sua vida era
bastante corrida e não tinha tempo de ficar
pensando que em seu apartamento não havia ninguém
a sua espera.

Capítulo cinco
Muito embora com uma lista invejável de telefones
de garotas em seu celular, Rubens, por uma dessas
coisas inexplicáveis que acontecem com as pessoas,
resolveu fazer um programa diferente naquela
noite.
Resolveu fazer um giro pela noite, já que era uma
sexta feira e no sábado não estaria obrigado a
trabalhar, ao menos não no ritmo normal, com
horário e tudo mais. Faria um giro pelas boates,
até mesmo para saber como estavam funcionando
aquelas casas noturnas, pois já há algum tempo não
as visitava.
Dirigiu-se ao bairro onde proliferavam as boates,
algumas oferecendo strip-tease aos freqüentadores,
outras shows com cantoras exóticas e eróticas,
enfim, havia uma lista bastante grande e grande
diversidade de entretenimentos a serem visitados.
Após ter assistido alguns shows aqui e ali, ter
visto espetáculos de dança erótica e strip-teases
variados, Rubens resolveu permanecer em uma das
boates onde somente havia uma cantora entoando
canções do momento entremeadas com canções de
tempos atrás. Era um ambiente gostoso e as canções
ajudavam a relaxar.
Em um dado momento, quando já estava no segundo
copo de bebida, dele se aproximou uma garota como
que oferecendo-lhe companhia. A garota, de forma
inocente e usual nessas ocasiões perguntou-lhe:
- Você tem um cigarro?
Rubens que não fumava, sentiu-se frustrado em ter
que responder-lhe negativamente.
- Não fumo. Sinto muito não poder ajudá-la. Mas já
que está aqui, porque não me faz companhia?
A garota, que não fazia mesmo muita questão de
obter um cigarro vez que essa pedida era mesmo
para iniciar uma conversação, uma forma de se
comunicar inicialmente, continuou:
- Sim... Eu gostaria muito. Posso pedir uma
bebida?
Rubens que já esperava por isso, fez sinal a uma
das garçonetes para que atendesse a garota.
Provavelmente traria uma bebida inócua em teor
alcoólico e que nem por isso teria um preço
inócuo...
A garota era realmente atraente. Bonita para dizer
o certo. Estava trajando um vestido curto, preto e
sem alças, estilo tomara que caia. Seu make up era
discreto e, ao contrário das muitas garotas que
Rubens vira naquela noite, tinha um ar também
bastante discreto. Rubens a avaliara como uma
garota novata na noite, novata no ramo...
Trocaram algumas poucas palavras superficiais como
o tempo, a boate, sua decoração, como a cantora
era agradável assim como as musicas que entoava.
- E como é seu nome? Você não me disse...
- Bem, você também não me perguntou.
- Mas nem por isso. Quando a gente de apresenta, é
costume logo ir dizendo o nome. Uma questão
prática de identificação que resolve uma porção de
coisas...
- Luci. Satisfeito?
- Rubens.
Pronto, ambos já se identificaram e já, enfim, se
conheciam como pessoas nominadas. Isso facilitaria
a progressão da conversa que daí para frente ambos
teriam.
- É daqui?
- Não, sou do interior. De uma cidade pequena no
oeste do estado.
- Bem eu sou daqui. Aqui nasci e aqui estou desde
vinte e tantos anos.
- Estou aqui há apenas alguns meses. Ainda não me
acostumei com a cidade e tudo mais.
- O que é tudo mais?
- Ah, tudo mais... As coisas da vida que estou
levando no momento. Em minha cidade as coisas eram
bastante diferente.
Rubens podia entrever e sentir que a garota estava
ali meio deslocada naquele tipo de vida noturna.
Não era como tantas outras que ele conhecera e
observara que, ao menos assim parecia, estavam à
vontade com tudo aquilo. Esta garota, a Luci, que
sentara-se ali com ele, realmente não estava
inteiramente à vontade. Até porque sorvia aquela
“bebida” com vagar, como se a quantidade de bebida
que estivesse no copo é que dimensionasse sua
permanência ali com Rubens. E essa vagareza
demonstrava que ali queria estar, que estava de
alguma forma gostando da conversa que ambos
mantinham. Nada de extraordinário, trivialidades.
- Posso entender quando você diz que em sua cidade
as coisas eram diferentes. E então eu pergunto,
porque veio para a cidade grande?
- É uma longa estória...
- Mas tem um começo! Me conta.
- Em outra ocasião... Hoje eu não estou disposta a
voltar relembrar coisas do passado que não são as
mais felizes de se reviver.
- Respeito isso, mas fico tremendamente curioso e
gostaria de saber sobre esse passado.
Rubens notou que a garota estava se tornando
desconfortável com o rumo que a conversa havia
tomado e resolveu não insistir em saber sobre o
passado que ela não queria revelar ou apenas falar
sobre ele.
Após voltarem a uma conversa menos pessoal e
específica, os assuntos que entabularam,
generalidades, revelaram que Luci era inteligente
e, de certa medida, preparada intelectualmente.
Não era fútil e seus pensamentos imediatos
revelavam aspectos característicos de sua
personalidade. Enfim, causou em Rubens uma
impressão muito positiva, vale dizer, uma
impressão como aquelas que permanecem na memória
das pessoas e que volta e meia faz com que se
visualize a figura da pessoa e suas falas,
maneirismos e sua maneira de ser.
- E você o que faz da vida? Solteiro? Casado? Não
me diga que é casado e que a sua mulher é uma
tremenda chata e que você não a agüenta mais...
por isso está aqui.
- Não, nada disso. Sou solteiro. Não encontrei a
minha cara metade, ainda.
- E qual a sua profissão?
Rubens deu tratos à bola e não queria dizer de
pronto que era policial. Não porque tivesse
reservas quanto a sua profissão ou se
envergonhasse dela, mas sabia que o impacto era
sempre o mesmo. Ser policial é ser diferente do
resto das pessoas comuns e essa realidade Rubens
sabia no seu íntimo. Assim, para não ter que
responder, formulou uma pergunta que não poderia
ficar sem resposta:
- Você mora aqui perto da boate?
- Não. Moro num bairro... dez minutos pelo metrô.
É um lugar sossegado...
Luci estava faltando com a verdade ao responder
àquela pergunta, pois quando acabava seu
“expediente” era constrangida a ir para uma casa
de permanência obrigatória, juntamente com muitas
outras garotas, casa que era vigiada pela
organização à qual estava subjugada. Porem não
diria isso a Rubens ou a qualquer outra pessoa que
conhecesse nas circunstâncias de seu “expediente”
na boate.
De nada adiantaria e isso somente acrescentaria à
sua pessoa uma estória inverossímil como tantas
estórias que as garotas da noite contavam a fim de
obter a simpatia do interlocutor, da pessoa que as
ouvia. Não era o caso de Luci que era consciente
do erro que havia cometido, do erro de julgamento
do qual se lamentava interiormente, apenas em seus
pensamentos, e que de resto ainda estava aturdida
com todo o acontecido.
Luiz, quem a trouxera para aquela vida, pouco era
visto por ela. Pouquíssimas vezes ele aparecera na
boate para vê-la e saber como estava se saindo.
Não porque estivesse preocupado com a pessoa, com
o ser humano que havia arregimentado daquela forma
insidiosa e perversa, mas simplesmente para se
assegurar de que a garota estava em seu posto de
trabalho.
Luci não era chorosa. Não era de ficar se
lamuriando pelos cantos. Era forte e se
compenetrara da sua própria leviandade e inocência
em acreditar naquele belo e insinuante forasteiro
que a enganara de maneira tão mordaz e
inconcebível. Antes de acontecer tudo isso que
acontecera em sua vida, jamais pensara Luci na
possibilidade de haver um ser humano capaz de
mentir, de enganar o próximo, de engendrar uma
situação como aquela por era vivida. Era realmente
inconcebível...
Agora, diante da realidade que enfrentava
diuturnamente, estava cada vez mais forte como
pessoa, deixara de ser a pessoa inocente de meses
atrás e tinha seus planos...
Soubesse Luci que aquele “cliente” com o qual ela
simpatizara e mantinha aquela agradável conversa
fosse um policial... Soubesse Rubens que aquela
garota da noite com a qual simpatizara e com a
qual mantinha agradável conversa estivesse ligada
a van preta... Muitas coisas teriam sido
resolvidas. Mas não é assim que o destino age. Não
de forma simples e direta. Muitas vezes o destino
age por formas tão complicadas que nem o mais
experiente estrategista consegue antever o
resultado das implicadas marchas e contramarchas
que se operam até que finalmente as coisas se
encaixem perfeitamente.
- Você gostaria de sair daqui e irmos para um
motel? Perguntou Luci, como se isso fosse, e era,
um corolário daquela situação que ambos estavam
vivenciando.
Rubens não foi inteiramente apanhado de surpresa.
Esperava que mais tempo menos tempo tal
encruzilhada, tal situação se apresentaria e ele
teria que resolver de pronto.
Agora era a vez de Rubens faltar com a verdade na
resposta que teria que dar a Luci. Rubens
constatou que haviam passado quase três horas
desde que Luci viera sentar-se à sua mesa, já
havia bebido três doses e a noite estava
adiantada. Apesar da boa companhia, da conversa
agradável e tudo mais, Rubens não estava disposto
a mais nada naquela mesma noite. Quem sabe em
outra ocasião...
- Luci, você vai me desculpar... Eu hoje não estou
a fim de mais nada. Saindo daqui vou para casa e
vou descansar pois o dia hoje não me foi leve como
gostaria...
- Tudo bem. A gente se vê...
Rubens não queria que a noite terminasse daquela
forma. Insipidamente: “Tudo bem. A gente se
vê...”, e olhando Luci direta e emocionalmente,
disse com convicção, deixando transparecer que sua
fala era real, que vinha da sua vontade mais
concreta e induvidosa:
- Sim a gente se vê. Eu desejo realmente que isso
aconteça. Quero vê-la novamente. Seria possível
nos encontramos fora desse ambiente? Fora da
boate?
Luci não esperava por aquela pergunta. Não estava
nem mais remotamente preparada para dar uma
resposta no ato. Teve que meditar internamente
para poder responder. Não obstante, em seu íntimo
sabia que desejava vê-lo novamente. Perguntava-se,
seria possível? Como?
- Infelizmente não será possível.
Luci, com estas palavras imaginava que esfriava o
desejo de Rubens de vê-la novamente. Não queria
isso! Mas de imediato não via outra solução.
Rubens apressou-se em perguntar:
- O que não será possível? Simplesmente vê-la
novamente, aqui na boate? Ou fora da boate é que
será impossível?
Com essas perguntas Rubens abriu uma vereda para
que Luci pudesse, sem explicar inteiramente a
situação em que se encontrava, vê-lo novamente, ao
menos na boate...
- Não, não quis dizer... Aqui na boate é claro que
pode vir ver-me quando quiser. Se eu não estiver
ocupada, podemos conversar novamente...
- Então... só para fixar minha idéia: fora daqui é
que é impossível a gente se ver?
- Isso... e não me pergunte porquê!
- Porquê?
- Em outra ocasião eu respondo a essa pergunta.
Ok?
- Promete?
- Prometo.
Rubens pagou a conta, beijou as faces de Luci e
com um forte aperto de mão despediu-se dela,
deixando e levando impressões que tardariam a
esmaecer nos pensamentos de ambos.

Capítulo seis
Rubens rememorava, assim como João também fazia na
quietude de seu apartamento, que da última visita
que ambos fizeram ao médico legista, que de uma
resposta dada pelo esculápio, saltava aos olhos
aquela situação em que uma das vítimas apresentava
sinais exteriores de sua infecção pelo vírus HIV.
Se, nas circunstâncias que ambos imaginavam que
essas garotas assassinadas viviam, se
prostituindo, a condição de estar visivelmente
infectada por uma doença sexualmente transmissível
era fator de depreciação completa da “mercadoria”.
Essa seria a razão, o motivo do assassinato. As
outras que, não obstante ainda estivessem com a
doença apenas incubada, não apresentavam sinais
exteriores da mesma, na prática estavam na mesma
situação e mesmo por isso também foram eliminadas.
Esse era um raciocínio frio e desumano, porem
naqueles assassinatos era o único provável de ter
induzido quem quer que fosse a praticar os crimes.
Porem, para a explicação do ocorrido, não havia
outra motivação à frente dos investigadores.
Nessa trilha de pensamentos que ambos professavam
e trocavam entre si, surgia o fato de que alguém
havia assim resolvido assassinar as garotas e
portanto, havia alguém interessado na
“performance” profissional daquelas garotas.
Assim, ficava bastante claro que eram exploradas
por alguém... E esse alguém é que tinha resolvido
a eliminação do material contaminado.
Estavam, agora ficava bastante claro, diante de
uma verdadeira organização que explorava a
prostituição dessas garotas assassinadas e de
tantas outras garotas que perambulavam pela
cidade, pelas boates, pela vida noturna.
Se fosse o caso de um proxeneta individual que
explorasse algumas garotas, como acontecia também,
seria muito pouco provável que assassinasse, ao
mesmo tempo, três de suas fontes de renda, como
era o caso. Isso afirmava a presunção que ambos
passaram a ter de que se tratava de uma verdadeira
organização. Era coisa grande!
Nem por isso se acovardaram.
Todavia, Rubens não pode deixar de pensar em Luci.
Ela provavelmente estava presa nas teias desse
negócio, por isso as negativas que ouvira dela. Só
assim ficava explicada a negativa de não poder vê-
la fora da boate... assim como as outras
reticências ouvidas.
Uma vez já terem estabelecido o motivo e terem
presumido quem estaria por detrás dos
assassinatos, teriam que traçar uma estratégia
investigativa que realmente viesse a enfrentar a
situação. E assim fizeram.
A van preta despontava entre as melhores opções
que doravante iriam perseguir. A pesquisa
interna na delegacia continuava sem a obtenção de
um resultado positivo, mas continuava. Fora da
delegacia, eles voltaram a falar com o morador nas
vizinhanças de onde ocorreram os assassinatos,
para saber se a van preta aparecera estacionada
onde ele dissera que a havia visto. Não obtiveram
nada de alvissareiro, a van não havia aparecido.
Por certo eles não sabiam que a van preta era
constantemente levada por Luiz e seu colega para
os locais de arregimentação de novas garotas, pelo
interior do estado, onde permanecia por meses a
fio sem voltar para acidade grande. Essa era a
causa do seu não aparecimento naquele local. Devia
estar pelo interior em intensa arregimentação de
novas garotas para a organização Scorpion à qual
pertenciam e eram elementos de máxima importância.
Eles eram a organização...
Contudo, uma idéia surgiu na mente de Rubens.
- João, vamos investigar as redondezas do local
onde o elemento disse que viu a van preta
estacionada. Quem sabe podemos nos deparar com
alguma pista que se relacione com ela. Algum
escritório, algum depósito, enfim, alguma coisa,
qualquer coisa...
- Sim, vamos lá. Se a dona sorte nos ajudar
podemos encontrar alguma coisa. Boa idéia...
Essa pista da van preta, à primeira vista era
tênue como uma serração matinal, mas era a única
que tinham a ser explorada. Era a única pista que
ligava o imóvel onde ocorreram os assassinatos a
alguém, que não era o proprietário, e que
inexplicavelmente tinha desaparecido do mapa.
Ninguém sabia de quem se tratava, de quem era a
van preta que trouxera esse alguém para ver o
imóvel que estava para alugar, enfim, isso era
tudo que tinham até então. Não deixaram de ter em
mente, também, que essa mesma van ou outra van
preta, estivera estacionada à noite defronte do
imóvel local dos assassinatos conforme testemunho
colhido no local no primeiro contato que tiveram
com os fatos. Até por isso, é que ambos se
agarravam a explorar essa linha de investigação
que tratava exclusivamente de encontrar essa van
preta.
O local q ue iriam investigar na tentativa de
encontrarem alguma coisa palpável era amplo e para
haver exclusão sistemática de alguns imóveis e
prováveis lugares onde pudesse existir algo
semelhante a uma organização, era preciso fazer
uma investigação que obedecesse um critério pré
determinado. Bolaram uma forma de irem
perguntando, de imóvel em imóvel, de prédio em
prédio, de sala em sala, se alguém conhecia o dono
de uma van preta que estaria à venda.
Nessa empreitada, evidentemente sem se
identificarem como investigadores policiais, se
defrontaram com alguns imóveis fechados, algumas
salas não ocupadas, porem nas em que conseguiram
fazer a pergunta sobre a van preta, nada de
positivo resultou. Mas, quando perguntavam sobre
se sabiam porque existiam os locais fechados ou
não ocupados, souberam que, em alguns casos que
nem sempre estavam assim, fechados. Era possível
que estivessem sendo ocupados ocasionalmente,
porque às vezes estavam visivelmente ocupados por
pessoas, por motivos desconhecidos daqueles que
assim informavam.
Desta forma, teriam que voltar para ali para
verificar as ocupações ocasionais dos imóveis e
salas. Tinham que relacionar esses imóveis para
posterior verificação, de forma a que não ficasse
nenhum de fora. Um que não fosse investigado
poderia ser aquele exatamente que estavam
procurando. Quem sabe numa dessas ocupações
ocasionais e eventuais encontrassem algo sobre a
van preta. Era o sonho de ambos que alguém
falasse: “A van é minha, mas não está à venda”.
Isso já seria um prêmio àquelas andanças, àqueles
pacientes esforços que estavam fazendo.
O retrato falado que foi feito ao início das
investigações, quando o casal que voltara de
viagem esteve na delegacia, não podia ser mostrado
a todos entrevistados. Mormente àqueles aos quais
se perguntava sobre a van preta e se a mesma
estava a venda, pois uma coisa era obter uma
resposta a tal questão, outra seria se,
afortunadamente se deparassem com alguém
relacionado a van preta, pudessem comparar essa
pessoa com o retrato falado. Ou até mesmo, uma vez
estabelecida uma relação forte entre essa pessoa e
a van preta, perguntar na seqüência se conhecia a
pessoa do retrato falado. Certamente a reação
dessa pessoa, então, ao ver o retrato falado
indicaria, como ambos esperavam, que estavam no
caminho certo, que a coisa estava esquentando por
assim dizer. Estavam progredindo a passos lentos,
mas estavam caminhando para encontrar uma
solução... Quando há a esperança de se obter algo,
muito embora se saiba que não se encontrará nada
sem um enorme esforço, parece que o objetivo final
se encontra possível e não muito longe. Isso
impulsiona qualquer procura de solução, qualquer
procura de objetivo.
Ambos estavam nessa situação. Com os poucos
resultados que estavam amealhando, mesmo sem nada
de positivo e final, sentiam que estavam “quase”
próximos a, pelo menos, obter uma pista quente
sobre os assassinatos.
No fim desse dia, estafados pela busca da van
preta, estiveram na delegacia por poucos momentos
a trabalhar na pesquisa que vinham fazendo sobre
veículos. Era tempo de descansar. Rumo ao bar e a
algumas cervejas...
Rubens continuava a ter pensamentos fugazes sobre
a garota que conhecera: Luci. Esses pensamentos de
certa forma se interligavam com o que vinham
investigando. Talvez por isso. Não sabia bem ao
certo porque ele pensava dessa forma, mas era
nisso que sua mente, volta e meia, se fixava.
João, de seu turno, na sua solidão e modo de vida,
não tinha esse problema ou preocupação parecida.
Simplesmente levava a vida, na solidão que o
angustiava, sem saber que uma preocupação do tipo
que Rubens vinha tendo, era sinal de algo à
frente, novas emoções, era uma forma de estar vivo
e vivendo. Se João passasse a procurar uma
companhia, tão somente no ato da procura e da
preocupação em encontrá-la, já afastaria a sua
solidão. Porem João não se dava conta disso. Com
toda sua experiência de vida pelos anos que tinha,
não conseguia vislumbrar essa regra primária de
vida: companhia. O homem, o ser humano, é gregário
por natureza. Viver só, causa o pensamento de
solidão que causa depressão. Porem João não sabia
disso.
Estava bebericando sua cerveja, imerso em seus
pensamentos, longe dali quando Rubens, vendo a
distância em que João se encontrava, embora
presente, perguntou-lhe:
- João, me diga uma coisa. Você não sente falta de
uma companhia? Sei que durante o dia, estamos, ou
melhor, temos estado juntos. Porem à noite? Não
sente falta de companhia? Alguém para encher o
saco?
- Às vezes sinto. Mas quando penso no “encher o
saco”, no enchimento de saco que é uma companhia
que não é aquela que você imagina no seu
consciente imaginário, eu me refreio e passo a ver
televisão. Mas porque você pergunta? Estou dando a
entender alguma coisa?
- Não. É que como você estava longe, imerso em
seus pensamentos, com toda essa algazarra que aqui
nos circunda, imaginei que estivesse pensando
nisso. Não sei. Me ocorreu.
- Você conhece alguma garota, ou melhor, uma
mulher de cerca de quarenta, quarenta e poucos,
bonita, educada, não precisa ser rica mas que
trabalhe e ganhe o suficiente para suas loucuras
de mulher, e o que é mais importante, que esteja
procurando um investigador de polícia, eu?
- Não conheço, mas vou começar a procurar.
- Se achar me informe que vou atrás.
- Não pense que é impossível! Eu acho chifre em
cabeça de cavalo. Você, depois, não vai me
decepcionar tirando o corpo fora e dando
desculpas. Não precisa casar, morar junto e tudo
mais. Mas tenha alguém com quem conversar nos
momentos em que quiser conversar.
- Estou vendo que você está falando sério.
- É claro que estou.
- Acho até que você já tem uma tia sua solteirona
ou viúva em vista...!?
- Esse é o mistério. Só saberá quando eu a
apresentar a você. Não antes nem depois. O
critério da escolha é meu tão somente. Você só
terá que aceitar e experimentar. Se depois não
quiser, me apresente seus motivos que vou
entender, ou não. Mas tem que tentar.
- Não se esqueça do perfil que eu tracei: uma
mulher de cerca de quarenta, quarenta e poucos,
bonita, educada, não precisa ser rica mas que
trabalhe e ganhe o suficiente para suas loucuras
de mulher, e o que é mais importante, que esteja
procurando um investigador de polícia, eu?
- Deixa comigo. Não me esquecerei.
- Mais uma coisa... Que goste de futebol e que não
torça para aquele time que todos torcem. Assim
poderemos ter assunto aos montes...
João no seu íntimo levava aquilo como uma
brincadeira. Não acreditava possível que Rubens
realmente pudesse estar falando seriamente. Mas,
ainda no seu íntimo, pensava que isso seria bom.
Muito bom. Mas ele mesmo não estava disposto a
encetar tal procura. Esperava que Rubens não
estivesse falando por falar e que realmente
procurasse alguma companhia para ele. Preguiçoso.
Ele iria incentivar... iria dar cordas à
imaginação...
Mas, Rubens, no entanto, realmente falava sério. E
já até mesmo sabia como iria resolver a questão.
Não que já tivesse alguém pré selecionada para
cumprir o prometido, contudo imaginava um meio de
conseguir seu intento de cumprir o trato:
encontraria uma companhia para João. Porem não
iria revelar os caminhos pelos quais encontraria a
companhia para o colega.
Mesmo com tudo isso permeando seus pensamentos,
Rubens não deixava de pensar em Luci.
Quando saísse dali, iria para casa e após um bom
banho e cuidados com sua aparência, voltaria à
boate para ver Luci por mais uma vez. Para falar
com ela e de alguma forma preencher aquele
sentimento que o estava atormentando e que ele não
sabia ao certo o que era. Saudades? Mas ontem
estivera com ela... O que então? O vazio era
inexplicável porquanto não usual em sua vida até
então. Seria isso a atração tipo raio de que falam
os romances de amor? Imaginava também que Luci
estivesse na mesma “freqüência” que ele. E se ela
não estivesse? Estaria ele construindo castelos na
areia? Todavia, para se certificar teria que ir ao
local da boate e verificar pessoalmente. Não
adiantava ficar imaginando coisas, presumindo isso
e aquilo, pois tanto, alem de não resolver nada,
somente criava perda de energia.

Capítulo sete
Luci, de seu turno, de certa forma se deixara
impressionar por aquele rapaz falante que estivera
com ela na noite anterior. Muito embora não
tivessem saído para um programa, porque ele não se
achava disposto a tanto, Luci tinha a intuição que
com ele poderia ter uma boa ligação. Seria uma
relação a não se desprezar. Ele havia dito que
queria vê-la outra vez e ela sentiu que isso teria
sido dito por ele, porque realmente desejava vê-la
outra vez, fora dali, se possível.
Nesses devaneios de pensamentos, Luci
recorrentemente pensava na vida e em como viera
parar ali. Pensava em tudo que ocorrera em sua
existência. Tentava achar alguma explicação que
lhe apaziguasse a alma.
No tempo transcorrido desde sua vinda para a
cidade grande, trazida por Luiz, como esposa dele,
Luci tinha aprendido o bastante sobre os chamados
vigaristas e enganadores para saber que eles não
se encontram somente em lugares especiais, salões
de baile ou em boates. Eles estão em todos os
lugares, nos centros comerciais, nas escolas, nas
cidades, exatamente como nós. Mas como identificá-
los antes que possam vitimar alguém? Com os
animais, isso depende da perspectiva: o gatinho é
um monstro para o passarinho, e o passarinho é um
monstro para a minhoca. Há uma identificação
puramente natural. Com o ser humano, também é uma
questão de perspectiva, porém mais complicada
porque o inimigo pode se apresentar como um
estranho encantador, assim como fora Luiz; o
assassino em potencial pode ser um fã. O predador
humano, ao contrário dos outros, não se apresenta
tão diferente de nós para podermos reconhecê-lo
sempre a olho nu. Se em algumas coisas é preciso
ver para crer, em outras é preciso crer para ver.
O comportamento inicial de Luiz não combinava com
a imagem que Luci fazia de um vigarista, e
portanto ela não podia conscientemente reconhecer
aquilo que não reconhecia, que não conhecia. Final
da estória, estava ali, naquela situação porque
não tinha nem de longe podido imaginar que seria
iludida da maneira que foi. E diga-se, ela se
julgava uma garota esperta.

Longe de seus parentes, que também não mais a
procuravam e nessa falta de interesse demonstravam
que não queriam “saber” da vida que levava, Luci
foi levando a vida, não sem pensar em mudá-la, em
algum momento...

Nessa noite, o movimento na boate onde Rubens
encontrara Luci estava fraquíssimo, para dizer o
mínimo. Por ali apareceram enviados da organização
para realocar as garotas em outras boates. Luci
foi uma delas que foi direcionada para trabalhar
em uma outra boate que ficava em local
diametralmente oposto ao local onde ela conhecera
Rubens. No outro extremo da cidade.

Quando Rubens chegou na boate naquela noite seus
olhos correram por toda ela na expectativa de ver
Luci. Não conseguia encontrá-la não obstante estar
a boate quase vazia, sem muita gente. Esperou uns
quinze minutos, imaginando que ela não havia
chegado ainda. Mais quinze minutos por qualquer
outra situação que não lhe comprazia especular.
Todavia, nada de Luci e então Rubens decidiu
perguntar a alguém sobre ela.

Notou uma garota que estava desacompanhada e que
apoiava-se no balcão do bar. Uma das poucas que
encontrava-se ali.
- Com licença? Estou tentando achar a Luci. Não
consegui... Você sabe onde ela se encontra?

- Foi remanejada!

- O que? Remanejada? O que isso significa?

- Ah. Ela foi para uma outra boate da organização.

- Você sabe o endereço?

- Não saberia dizer porque há muitas boates e eu
não sei exatamente para qual ela foi. Foram
remanejadas muitas garotas daqui.

- E ela volta para esta aqui?

- Também não sei dizer.

- Você teria algum palpite para onde ela teria
ido? Onde eu poderia encontrá-la?

- Palpite?

- Sim palpite...

- Sem responsabilidade?

- Sim.

- Acho que foi para a boate que fica no outro
extremo da cidade --- e a garota foi dando a
Rubens as coordenadas de como chegar lá ---

- Obrigado. Seu nome?

- Sheila.E o seu?

- Rubens. Boa noite.

Deixando o local, carregando seu desapontamento
por não encontrar Luci, parecia para Rubens que a
noite estava fadada ao insucesso.

Tanto que desejava encontrá-la que não deu certo!

Porem criou coragem para cruzar a cidade e,
seguindo as instruções recebidas da garota Sheila,
lá foi ele na busca do encontro que havia
imaginado, esperado e desejado.

Ao chegar no local dessa outra boate, notou de
início o volume de carros parados nas imediações.
Isso revelava que essa boate devia estar lotada,
cheia de gente. Notou também que havia um
porteiro, tipo leão de chácara, que impedia
algumas pessoas de entrarem na boate. Seria por
causa da quantidade de pessoas lá dentro? Ou seria
por uma questão de escolha?

Rubens sabia que não teria o menor problema para
adentrar na boate, era só identificar-se como
policial que era. Mas não queria isso. Preferia
entrar sem ter que identificar-se como policial.
Só em última análise iria identificar-se.

Dirigiu-se a porta da boate e o porteiro fez
menção de abrir-lhe a porta, mesmo sem que ele se
identificasse, quando esta abriu-se de dentro para
fora porque de dentro saía um casal. Luci e mais
alguém que Rubens não conhecia.

Ao se entreolharem a surpresa de ambos foi
instantânea e quase paralisante. Rubens afastou-se
da porta, abrindo passagem ao casal, e Luci passou
tão perto dele que deixou no ar o seu perfume. Ele
não fez nada, nenhum gesto ou locução, que
indicasse que a conhecia. Ela, mesmo deixando
transparecer sua surpresa, também nada fez no
sentido de revelar o conhecimento prévio daquela
pessoa que ali estava e que era Rubens.

Bem, essa não seria a noite que Rubens imaginara.

Rubens fez meia volta e dirigiu-se para o seu
carro, lentamente, pensativamente, tentando
absorver todo o ocorrido. Quando viu Luci naquele
momento em que ela saía e passava tão perto dele
seu coração bateu um pouco mais. Meu Deus! Que era
isso? Parecia um colegial apaixonado! E ela? Teria
ela tido alguma reação emocional ao vê-lo ali?
Surpresa ela ficou, isso ele constatou. Como
poderia ele saber isso? Ele sentiu isso. Foi um
encontro tão casual, tão rápido e inesperado que
não deu para perceber nada alem da surpresa que o
acometeu e a ela também.

Bastante chateado. Essa noite estava acabada.
Rubens fez a “viagem” de volta e como passava por
perto da boate onde pela primeira vez encontrou
Luci, resolveu parar e falar com a garota que deu-
lhe o endereço que ele seguiu para ver Luci.

Encontrou Sheila e, em breves palavras contando o
ocorrido, deixou com ela um bilhete com seu número
de telefone, horário no qual poderia ser
encontrado em casa, e pediu a ela que fizesse
chegar o bilhete às mãos de Luci, pedindo que Luci
lhe ligasse.

Foi para casa, soturno e frustrado. Todavia,
esperançoso pelo telefonema...

Viu um pouco de televisão, noticiário e após
notícias desagradáveis, como sempre, resolveu ir
dormir.

Estava pegando no sono, estava naquele estado em
que não está totalmente acordado, nem totalmente
dormindo. Estava como que sonhando sem saber o que
estava rodando como sonho em sua mente. Eram
sensações e não como normalmente o sonho é
lembrado, como se fosse um filme, com cores,
locais e pessoas. Não havia definição alguma...

Assustado, saiu daquele estado e passou a perceber
a realidade. Era o telefone que tocava. Perguntou-
se quem seria à aquela hora? Seria João? Algum
problema, alguma idéia havia surgido?

- Alô! --- ainda esfregando os olhos para poder
ver melhor o telefone à sua frente ---

- Rubens? --- era uma voz feminina que Rubens
tentou identificar, sem conseguir desde logo,
dentre as tantas vozes femininas que aquele
telefone trazia para dentro de seu apartamento. --
-

- Sim sou eu. Quem fala?

- Esperava que não estivesse dormindo. Me
desculpe...

- Agora já acordei.

- Sou eu, Luci. Você me deixou um bilhete com a
Sheila e quando vim para nosso alojamento ela me
entregou e eu resolvi telefonar. Fiz bem ou mal?

Rubens, agora já totalmente acordado, surpreso e
tremendamente feliz pelo telefonema, sentou-se,
suspirou e, embora não imaginasse que Luci teria
tão pronta resposta ao seu bilhete, respondeu

- Não! Fez muito bem. Estou contente que não tenha
me esquecido.

- Não esqueci.

- Que bom. Esta noite foi um desastre para mim.
Procurei-a e no final encontrei-a daquela forma,
desagradável para mim. Sem poder falar-lhe...

- A Sheila me contou que você passou por lá onde
ela estava e foi ao meu encalço. Sinto muito não
ter podido dar-lhe a atenção que eu gostaria de
ter dado.

- Não importa. O que importa é que você respondeu
ao meu bilhete e vejo nisso que você se interessou
por este ser humano aqui chamado Rubens.

- Mas é claro. Caso contrário não telefonaria. Não
o tiraria da cama.

- Isso não tem importância. Quando posso vê-la? Em
que condições? Me diga.

- Lá na boate onde você me viu esta noite. Amanhã
estarei lá. Você chegando mais cedo deverei estar
completamente livre e poderemos sair de lá para um
programa. Assim seria possível ver-me fora de lá.

- Combinado. Lá estarei. Cedinho...

- Abre às nove, não vá antes...

- Não, nove horas. Em horários sou britânico...

- Ok. Te vejo amanhã então.

Seguiram conversando mais um pouco e Luci, pelo
que Rubens percebeu, foi instada por alguém a
desligar o telefone. Despediram-se.

































Capítulo oito

Luiz e seu colega e companheiro de “caçada” de
garotas pelo interior, estavam de volta, após
quase um mês e meio de atividades. Dessa vez não
foi necessário nenhum casamento pois que
encontraram garotas ávidas para deixar a
cidadezinha onde viviam e se mandarem, sob
qualquer condição, para a cidade grande.

Nesse ínterim haviam trocado a van preta por uma
mais nova. Esta agora era mais condizente com as
vans que rodavam pelo país, era prata ou cinza bem
clarinho. Mais nova, quase zero, o que dava a eles
uma situação melhor para as constantes viagens e
também para quando chegavam nas pequenas cidades
escolhidas para arregimentar novas garotas para
suas boates e seu negócio da exploração dessas
mesmas garotas.

Estavam de volta e necessitavam abrir a sala do
escritório onde mantinham uma espécie de
escritório onde faziam a contabilidade e controle
do negócio como um todo. Todas as vezes que
voltavam de viagem de arregimentação, era
necessário correr todas as boates, saber de todos
os “programas” que as garotas haviam feito, o
movimento da própria boate e tudo isso, nesse
escritório, era contabilizado para as esferas
superiores da organização e para eles próprios
terem pleno controle dos ganhos.

A sala a ser aberta era uma das salas que Rubens e
João em suas investigações haviam encontrado
fechadas. Exatamente aquela em que o vizinho dera
a eles algumas informações genéricas e que,
presumiam, esse vizinho ficara atento para
verificar quando qualquer dos imóveis fechados, ao
seu redor, voltassem a ter movimento, voltassem a
ser ocupados.

Não deu outra. Assim que Luiz e o colega abriram a
sala e estavam esperando que o ar antes estagnado
saísse e deixasse novos ares entrar, o tal vizinho
que havia notado o movimento, aproximou-se,
bisbilhoteiramente. Muito embora não tivesse
conhecimento prévio dos recém chegados, não teve
nenhum acanhamento e foi logo entabulando uma
conversação:

- Oi, boa tarde. Sou aqui do lado, vizinho de
vocês. Estiveram aqui perguntando sobre o veículo
que vocês queriam vender. Acho que se referiam a
uma van... Eram vocês que queriam vendê-la, não é?

A pergunta era um tiro no escuro. O vizinho não
tinha a menor certeza de nada, nem conhecia
aqueles dois que estavam a ocupar a sala.

Luiz e o colega se entreolharam, surpresos, sem
saber como poderia alguém saber que estavam para
se desfazer da van preta. Não haviam anunciado nem
nada. Restabelecendo a frieza, uma característica
marcante sua, Luiz respondeu:

- Nós já a vendemos. Tivemos uma oferta
irrecusável e passamos para a frente. Agradecemos
seu interesse e sua atenção em nos informar.

- De nada. Precisando de alguma coisa, estou aqui
no lado.

E assim a conversa estava terminada.

Luiz ainda pensava no fato de alguém saber que
eles desejavam se desfazer da van preta. Mas como?
Não haviam mencionado a ninguém. E mais pensando
sobre o assunto, uma centelha de desconfiança
brotou em sua mente. Estariam sendo investigados?
A van preta teria sido ligada a algum fato de que
eles haviam participado e que dava margem a uma
investigação? Por outro lado, como a van já estava
nas mãos de terceiros, não conseguia vislumbrar
nenhuma possibilidade imediata de ele e o colega
serem ligados a aquela van. Bem, não era bem
assim, sempre havia uma possibilidade dessa
ligação ser estabelecida por vias mais indiretas.
Porem Luiz não queria perder tempo divagando nesse
campo de pensamentos... Era quando sua frieza
dominava a situação. Precisava mesmo era deter-se
naquilo que viera fazer ali. Verificar números e
situações do negócio.

Não permaneceram na sala mais que duas horas e
como já tinham anotado, visto e cotejado tudo que
era necessário, deveriam voltar para uma das
boates, aquela em que Luci deveria comparecer à
noite, para encontrarem-se com elementos das
esferas superiores.

Era ainda dia quando se reuniram todos naquela
boate, que estava fechada para o público, e
trocaram informes e tramaram novas investidas e
maneiras de obter ganhos.
Luiz trouxera alguns relatórios que elaborara no
escritório, os quais discutidos e aprovados deram
ensejo a um seguimento na pauta de discussão. A
prioridade da Scorpion era ter um enorme número de
garotas fazendo “programas” e nesse campo Luiz e o
colega eram peças de enorme valia, pois eles, e
somente eles é que forneciam a “matéria prima”
para a organização ser lucrativa, cada vez mais
lucrativa.

As boates davam lucros, porém pequenos. Em
comparação com a atividade de exploração das
garotas, devido a enorme necessidade de manutenção
e pessoal para que funcionassem a contento,
necessidade de controles extras, era uma atividade
que servia tão somente para a existência da
atividade exploração das garotas e dos programas
que faziam.

Dessa forma, Luiz e o colega desde logo foram
direcionados a novas incursões de arregimentação
pelo interior. Luiz nem mesmo estava tendo tempo
de verificar como as garotas que arregimentara
estavam se saindo. Essa era uma responsabilidade
que ficava a cargo de uma das garotas que se
dispunha a tanto, contando com algumas vantagens e
benesses da organização. Eram como se fossem
infiltradas...

Assim, Luiz e o colega, saíram em nova viagem...





























Capítulo nove

João e Rubens voltaram ao local dos imóveis
fechados, das salas fechadas. Não porque
esperassem encontrar alguma pista quente, mas
porque fazia parte da investigação. Investigação é
assim mesmo, uma coisa aqui ou ali, uma não dá em
nada, outra também, até que se deparam com algo,
pelo menos, singelamente promissor. A partir dessa
singeleza, vai-se desnovelando o novelo e por fim,
às vezes pode-se encontrar uma pista, leve que
seja, a ser perseguida.

Não procuraram ninguém em especial no local.
Passavam pelo local e, ao que lhes parecia, nada
havia modificado. As salas que estavam fechadas
anteriormente, continuavam assim.
Já estavam de saída, desistindo de mais ali
permanecerem sem que algo de novo lhes chamasse a
atenção, quando:

- Ei! Vocês. --- era aquele ocupante de uma das
salas do local que os chamava. ---
Rubens e João pararam de caminhar e se voltaram
para ver quem os chamava. A pessoa que os chamava
foi reconhecida, era a pessoa com quem havia
falado na vez anterior.

- Olá --- Rubens adiantando-se em direção ao
conhecido. ---

- Vocês é que estavam interessados em comprar um
veículo, não é? Vocês estiveram aqui há algum
tempo atrás...

- Sim, somos nós. Você tem alguma notícia?

- Infelizmente. Eles já venderam a van. Estiveram
aqui ontem. Eles ocupam a sala ao lado da minha.
Falei com eles e me informaram já haver vendido a
van.

Rubens e João trocaram olhares e parece que se
comunicaram telepaticamente no sentido de não ir
mais fundo nessa pista, mostrando o retrato
falado. Ainda seria prematura a revelação de serem
policiais.

- Puxa! Que azar. --- João foi logo dizendo, para
dar a impressão ou reforçar a idéia de que estavam
mesmo interessados na compra do veículo ---
Queríamos tanto o veículo!

- Eles saíram daqui depois de permanecerem por
umas três horas, mais ou menos. Mas logo que
chegaram eu fui ter com eles e perguntei sobre o
veículo.
- Ok. Nem sempre as coisas dão certo. Mas
agradecemos sua intervenção e atenção. Muito
obrigado --- era Rubens sendo gentil para com o
conhecido. ---

Ambos saíram dali, caminhando a passos rápidos e
largos em direção a viatura que deixaram longe do
local, para não chamar a atenção. Assim que se
acomodaram, um olhou para o outro e esboçaram um
leve sorriso. Parecia que as coisas estavam
tomando um rumo. A van preta era mesmo de alguém
daquele local, da sala vizinha do conhecido que
lhe dera todas aquelas informações. Esse já era um
fato que demonstrava que ao menos uma ligação
estava estabelecida. A pessoa daquela sala
fechada, era quem dirigia a van preta. O que eles
não sabiam, e isso era um enorme entrave nas
investigações, era que essa pessoa estaria ausente
pelos próximos dias ou meses. E também não sabiam
onde procurá-lo.

Tal idéia, que ambos compartilhavam, arrefecia um
pouco o ânimo de que estiveram possuídos. Mas, sem
perderem a esperança, teriam que ser pacientes.

Embora, somente no plano de hipóteses e dos
desejos inconfessáveis, ambos conjecturaram sobre
a possibilidade de invadirem aquela sala e
vasculharem o que encontrassem pela frente. Assim
poderiam, quem sabe, obter alguma evidência que
até o momento ainda não tinham. Mas realmente não
tinham coragem, isso mesmo, coragem para tanto.
Coragem que seria fruto de uma quase loucura.
Iriam agir na contra mão da lei e isso não seria
tolerável pela corporação a que pertenciam. Tudo
deve ser feito de acordo com a lei.

Mas mesmo assim pensando, em seriamente não ferir
a lei, também pensavam que se ao feri-la ninguém
ficasse sabendo, ninguém estivesse vendo. O que
aconteceria? Então não teriam ferido a lei? Ou
seja, o ferir ou não ferir a lei depende de
condições e causas externas a aquele que a fere?
Ambos trocavam idéias e como que brincavam com as
possibilidades, com as realidades que envolviam os
conceitos e entendimentos sobre a lei.

Mas, apesar de todas as idéias que perpassaram
pelas mentes dos dois investigadores, eles iriam
ser pacientes, iriam ser virtuosos, pois a
paciência é uma virtude.

No entanto, teriam que imaginar uma maneira de
voltarem ao local da sala fechada, obviamente sem
usar o mesmo motivo do veículo à venda, para assim
poderem manter uma certa vigilância sobre os
indivíduos que ocupavam aquela sala e que estavam
ligados a van preta.

Para não levantar a mínina suspeita que fosse,
João incumbiu Rubens a, sozinho, manter algum tipo
de relação de proximidade com o vizinho da sala
fechada, para que pudessem contar com um olheiro
no local, que avisasse Rubens da chegada de alguém
abrindo aquela sala.

Mas qual seria o interesse que Rubens teria
naquela sala, naquelas pessoas, que pudesse passar
àquele olheiro? Achavam mesmo que teriam que se
identificar como policiais e esperarem que o
olheiro agisse como queriam. Mostrar o retrato
falado e verem se ele reconhecia o indivíduo.
Enfim, abrir o jogo por completo.

Esse era o dilema. Como deveriam agir para não
“melar” aquela pista? Resolveram trazer o delegado
para o dilema. Era o mais simples a fazer... Ele
que resolvesse...E assim fizeram.

Depois de fazer um relatório de tudo o que haviam
conseguido sobre o caso, chegaram a parte da sala
fechada e do dilema em que encontravam. Aí pediram
a opinião do delegado, o que deveriam eles fazer?

O delegado não titubeou e decidiu que deviam abrir
o jogo com o possível olheiro, e fazê-lo sentir-se
importante e de alguma forma responsável pelo
sucesso das investigações e que sua colaboração
permaneceria completamente em sigilo.

Com o peso tirado dos seus ombros, pela decisão
superior, ambos voltaram ao local onde deveriam
contatar o olheiro. Após conversarem detidamente
com ele, o mesmo ficou feliz e deveras possuído de
importância em participar da investigação. Quando
foi-lhe apresentado o retrato falado, ato que
deixaram para o fim da conversa que tiveram, o
olheiro, agora identificado como Carlos Aguirre,
espantado, arregalou os olhos e foi logo dizendo:

- É um deles. O mais importante. Não sei o nome,
mas é ele.

- Bom, até o momento só temos uma leve suspeita.
Nada definitivo. Portanto mantenha-se longe do
indivíduo quando ele por aqui chegar. Avise-nos em
seguida. Somente isso e, não comente esse caso com
ninguém, mantenha a boca fechadíssima.
- Tudo bem. Contem comigo.

Despediram-se e uma vez de volta a delegacia foram
ter com o delegado para darem a notícia da
identificação que obtiveram com relação ao retrato
falado.

Ainda na delegacia, João ligou para o departamento
de trânsito para falar com um superintendente
amigo seu para pedir-lhe que apurasse quantas vans
pretas haviam sido transferidas de propriedade
recentemente. Após fazer o pedido, pedindo
urgência, prometeu pagar uma cerveja para o amigo
assim que se encontrassem para receber o relatório
solicitado.

Era opinião dos dois investigadores que se
pudessem chegar até a van preta, talvez a perícia
em “pente fino” pudesse descobrir algum resíduo
probante relativo às três vítimas de assassinato.
Os dois, contudo, não se esqueciam que toda essa
investigação que estavam fazendo era para resolver
o triplo assassinato. Muito embora houvesse
investigações paralelas em diversas direções, o
objetivo era trazer para a justiça o autor
daqueles assassinatos.

Muitos assuntos que não se referiam ao triplo
assassinato eram resolvidos pelos dois
investigadores. Esses assuntos, mais das vezes se
referiam a investigações fáceis de serem
resolvidas, flagrantes incontestáveis, presença
necessária de policiais em locais de crime, tomada
de depoimentos, interrogatórios, enfim, havia
sempre serviço a ser realizado. Mas nem por isso o
triplo assassinato deixava de estar presente a
cada momento no dia a dia de João e Rubens. Não
queriam deixar o caso “esfriar”.

























Capítulo dez

Naquela noite Rubens deveria ir ter com Luci.
Embora durante o dia os diversos assuntos ocuparam
sua mente, agora, já na hora de ir para casa, Luci
despontava como o assunto mais importante. Iria
vê-la e iria sair com ela. Iria estar com ela fora
da boate. Conversar com ela a sós, em ambiente só
dos dois enquanto estivessem juntos.

Estava nessa freqüência de pensamentos quando João
dirigiu-lhe uma pergunta:

- E a mulher?

- O que? Que mulher? --- Rubens custou a
identificar exatamente o que João estava falando,
pois que pensava na mulher Luci. ---

- Ué! Você me prometeu uma mulher, estou cobrando.

- Bom, não é assim tão fácil achar a mulher ideal
para você depois que você me deu aqueles
parâmetros... No entanto, estou cuidando disso,
peço um pouco de paciência meu amigo.

- Vou ficar esperando e cobrando...

Rubens não via a hora de chegar em casa, cuidar-
se, trajar-se e poder sair para o encontro. Não se
esqueceu de que teria que cruzar a cidade toda
para chegar ao local onde deveria encontrar-se com
Luci. Isso demandaria mais de meia hora de
trânsito intenso. Assim, deveria sair de casa bem
antes para ter quase uma hora de antecedência a
abertura da boate, nove horas, para que não
houvesse a mínima possibilidade de algo sair
errado e falhar aquele encontro tão desejado.

Como havia planejado, chegou ao local da boate
antes de que ela abrisse e ostentasse o leão de
chácara à sua entrada.
Permaneceu em seu carro de onde tinha uma visão
privilegiada da portaria da boate. Olhava
constante e insistentemente para seu relógio à
cada minuto, pois quando o porteiro “leão de
chácara” ali se postasse, revelando que já era
aberta a boate, ele iria entrar.

Os minutos demoravam a passar. Rubens olhava ao
seu redor, por força de sua profissão estava
sempre atento a tudo e a todos. Pelo retrovisor
notou que a alguns carros atrás do seu estava
estacionando um veículo esporte reluzente. Ao
estacionar recolheu os faróis. Era carro de
estilo. Rubens não mais prestou atenção até que o
indivíduo que saíra do carro esporte passou por
ele e, bom fisionomista que era, identificou como
sendo o cara que na noite anterior saíra com Luci
da boate. Epa! Pensou. Isso não era bom sinal.

Exatamente no momento em que o porteiro apareceu,
o cara entrou e Rubens sentiu que algum problema -
-- para atrapalhar seu encontro --- estava sendo
criado naquele instante. Saiu do carro e
imediatamente dirigiu-se a boate. Como na noite
anterior, o porteiro gentilmente abriu-lhe a porta
sem mais indagações e ele entrou na boate. Seus
olhos percorreram cada metro do interior da boate
e ele não conseguia encontrar Luci. Muitas garotas
por todos os lados, somente alguns homens e Rubens
não via Luci.

Como fizera anteriormente, concedeu a si mesmo
quinze minutos de espera para que ela pudesse
aparecer. Caso não aparecesse, iria perguntar por
ela no bar. Estava até mesmo disposto a
identificar-se como policial se algum obstáculo
lhe fosse apresentado por pessoal da boate.

Sua mente analítica percorria pelos fatos
imediatos conhecidos e não podia deixar de fixar-
se na presença, ali na boate, daquele cara que
saíra com Luci na noite anterior. O cara não
estava à vista. Rubens não conseguia vê-lo. Mas
vira que ele entrara na boate, portanto deveria
estar em algum lugar ali dentro. Olhava o relógio
e o tempo estava se esgotando, os quinze minutos
já quase estavam findos. Já estava para levantar-
se quando sentiu uma presença às suas costas.

- Oi! Vamos sair daqui.
- Puxa, você me assustou. Procurei-a com os olhos
por toda a boate e não a vi. Pensei que algo iria
atrapalhar nosso encontro.

- Vamos sair. Depois eu explico.

- Vamos sim.

Luci estava um pouco estranha, exaltada ele diria,
nervosa, sua fala era rápida e seca, sem as
tonalidades que todos gostam de ouvir, macias,
melódicas e douradas. Mas Rubens saberia de tudo
depois e saberia o porquê desse comportamento que
não se coadunava com a Luci do primeiro encontro.

- Você tem algum predileção de local ---
perguntou-lhe Rubens. ---

- Não. Você decide.

Rubens conhecia muitos lugares onde poderiam estar
a sós e, eventualmente, descontraídos. Isso se
Luci se acalmasse e ficasse calma e serena, como
ele queria e esperava.

Sem muito falar, tanto ele quanto ela, Rubens
rumou a um motel que conhecia de longa data, que
não ficava muito longe dali e que oferecia um
local bastante aconchegante, sem interrupções. Por
não estar falando, Rubens pressentia que Luci
estava ruminando alguma coisa em sua mente. Ele
estava atento aos sinais exteriores que dela
emanavam a cada instante e podia perceber que aos
poucos ela estava voltando a perder aquela
excitação, aquele ar nervoso. Ainda sem falar com
ela, Rubens deixando que ela própria fosse se
restabelecendo aos poucos, finalmente chegaram ao
motel.

Uma vez dentro o ambiente que Rubens escolhera
para ambos, Luci já transparecia menos tensa, seu
semblante já apresentava menos rigidez e até um
leve sorriso estava querendo aparecer estampado em
seu rosto. Ela sentou-se na cama, colocou a cabeça
entre as mãos que estavam apoiadas em seus joelhos
e começou a soluçar.

Rubens, ao sentir aquele desespero, de início não
sabia exatamente o que fazer. Sabia, no entanto
que nessas ocasiões, palavras não adiantam muito.
Deixou passar algum tempo, raciocinou e, sentando-
se ao lado dela, passou seu braço por sobre os
ombros dela, enlaçou-a contra seu peito e esperou
um pouco. Ela assim deveria sentir-se protegida
com tal atitude de Rubens e em seguida deveria
recompor-se, parando de soluçar. E foi o que
aconteceu...

- Passou... Me desculpe, não queria envolvê-lo
desta forma em meus problemas existenciais. ---
nesse instante Luci parou de soluçar, recompôs-se
e voltou a ser a Luci que Rubens conhecia. ---

- Estou aqui com você, por razões que você sabe, e
seus problemas são meus também. --- Rubens foi
enfático AP dizer isso para Luci ---

- Mas eu não queria um encontro assim com você...

- Como é que queria que fosse?

- Sei lá, ao menos alegre. Sem choro.

- Pois depende de você. Esqueça o que a está
afligindo ou conte para mim o que seja lá o que
for, desabafe e com isso você vai sentir-se mais
leve e quem sabe até alegre.

- Eu não estou a procura de divertimento. Estou a
procura de soluções para os meus problemas e não
vejo o que fazer para solucioná-los.

- Todo problema tem solução. Esse é o primeiro
mandamento. Agora, que tipo de solução você
deseja? Isso já é outro departamento.

- Quero me livrar desta vida que levo.

- E porque não se livra?

- Esse é o problema...

- Que deve ter uma solução, como já afirmei.
Contudo, dependendo das implicações inerentes ao
problema em si, as soluções podem variar: solução
radical, solução parcial, solução paliativa e por
ai vai.

- Puxa! Você é sabido mesmo... --- Luci disse isso
expontaneamente, sem a menor malícia --- Como vou
saber que solução é a melhor para mim?

- Se você não sabe, você precisa confiar em alguém
que resolva por você. Para isso você terá que
contar sua estória existencial para alguém. Até
mesmo para um psiquiatra ou psicólogo.

- Não. Não é assim. Meus problemas não são de
ordem existencial interna, de minha mente. Não
preciso de psiquiatra. Preciso de amigos, preciso
de quem goste de mim. Trata-se de coisas externas,
adquiridas ou impostas por terceiros.

- Bem. Pra começo de conversa eu me candidato. Sou
seu amigo e gosto de você. Caso contrário eu não
estaria aqui com você e você bem sabe disso.
Agora, você é que tem que resolver se eu posso ser
seu amigo e possa gostar de você. Se você me
rejeita, eu nada posso fazer.

- Eu entendo. Só não sei se devo... não se trata
de confiar, não sei se devo trazer você para
dentro dos meus problemas. Afinal essa e a segunda
vez que estamos perto um do outro. Eu não o
conheço ainda. Não sei nada sobre você. Só sei que
gostei de você mas sou gato escaldado e tenho medo
de água fria.

- Bom, como disse e repito, você é que tem que
resolver. Tem que ser uma decisão inabalável sua,
e nessa decisão você deve por toda sua vida. É uma
decisão que vai ter que tomar, cedo ou tarde. Caso
contrário ficará chorando pelos cantos da vida a
vida inteira.

Rubens estava ciente da encruzilhada em que Luci
se encontrava, porém não havia nada que pudesse
fazer para convencê-la que já não tivesse dito e
apontado com toda a crueza que assunto merece.
Entendia que ela estava indecisa e como ela mesma
havia dito era escaldada, ou seja, já havia sido
enganada de forma que não queria outra enganação
na sua vida. Porem o que fazer? Rubens não sabia
mais o que fazer. Seu repertório de soluções já
havia sido totalmente esvaziado e exposto para
Luci. Só restava aguardar. Assim, distanciou-se um
pouco dela, como que dando espaço para que ela se
situasse melhor diante de tudo que fora falado,
esperando a próxima posição que ela assumiria
diante dele.

- Está bem. Sente-se aqui comigo. --- Luci
demonstrava calma e decisão em suas palavras ---
vou contar-lhe o que me aflige e não o culparei se
você não tiver nenhuma solução para me oferecer.

Luci, em sua narrativa, voltou para o interior de
sua cidadezinha, da espécie de vida que levava, da
chegada do rapaz que com ela se casara, dos
acontecimentos que se seguiram, sua vinda para a
cidade grande, aborto, boates, programas e débitos
para com a Scorpion. Não usava drogas e estavam
sempre tentando viciá-la, era assim que mantinham
as garotas na dependência da organização. Toda a
narrativa era detalhada em seus menores
significados e com isso Luci, de certa forma,
escancarou sua vida para Rubens. Nessa mesma noite
o cara com quem ela saíra na noite anterior, cara
importante na Scorpion, queria que ela se drogasse
e que fossem viajar juntos. Ela não quis, pois
queria ver Rubens, e isso traria demérito para ela
e até mesmo alguma punição.

Diante da narrativa de Luci, até mesmo Rubens
ficou surpreso com a confiança que ela viera a
demonstrar contando tudo o que contara a ele.
Isso, de certa forma, fazia com que ele passasse a
ter uma responsabilidade pessoal para com ela.


Essa responsabilidade incluía não permitir que ela
voltasse a pertencer a organização, que voltasse a
boate.

Era uma decisão que ambos deviam tomar. Mas para
Rubens não havia outra que não fosse essa. Ela
deveria dali ir com ele para a casa dele e lá
permanecer, se quisesse.

Isso, evidentemente, implicava em muitas outras
conseqüências ainda não devidamente equacionadas
por Rubens. Com relação a essas conseqüências que
poderiam advir dessa decisão de não mais trabalhar
para a Scorpion, Luci sabia. Algumas garotas
simplesmente sumiam quando manifestavam algum tipo
de contrariedade às regras da organização. Sumiam
e o sumiço não era de nenhuma forma ocultado das
demais garotas, era, isso sim, propalado de forma
a amedrontá-las: veja o que fazemos a quem não nos
obedece, a quem nos confronta.

Esse entendimento Luci passou para Rubens que, por
ser policial, já tinha conhecimento de que essas
organizações de escravas brancas usam, entre
outras formas, o medo para manter as garotas
subjugadas. Rubens, para acalmá-la, disse-lhe:

- Comigo, creia, você estará segura nesse aspecto.
Nada, ninguém poderá alcançá-la se você seguir
meus e seus instintos de segurança.

Rubens não queria desde logo dizer a ela que era
policial para que isso não servisse de moeda de
troca para trazê-la para perto de si. Enfim,
queria que ela viesse a estar com ele, por ele
como ela o via, e não por ser uma autoridade
policial.

- Como você pode me proteger? Essa é uma
organização criminosa. Tráfico, prostituição,
seqüestros...

- Você tem que confiar em mim. Se eu lhe digo que
posso protegê-la é porque eu posso, embora não
seja bandido.

- Sei que não é... mas me diga que você fará?

- Por primeiro, você estará em minha casa. Eles
não sabem quem eu sou, onde moro e tudo mais. Você
ficara recolhida por uns tempos sem por a cara na
rua. Você consegue?

- É claro que sim. Por quanto tempo?

- Até eu achar que não há mais perigo. Até as
coisas esfriarem e eu tenho meios de saber isso.
Não me pergunte como. Como você já me disse uma
vez, “depois eu explico”.

Com essas palavras Rubens conseguiu arrancar um
belo sorriso de Luci que foi o convite para que
ele se aproximasse dela e beijasse a sua linda e
desejável boca. No que foi plenamente
correspondido.

- E minhas roupas e outras pequenas coisas que eu
tenho lá no alojamento?

- Você vai lá e tenta pegar e aí vai sumir... é
isso que você quer?

- Não, não quero sumir. Mas como vou fazer? Não
tenho nem minhas calcinhas, meus chinelos,
soutiens, nada, escova de dentes, pasta... ???

- Eu dou um jeito. Vou comprar-lhe um soutien
verde, calcinhas verdes, chinelo verde, pasta de
dente com clorofila, escova com cabo verde e que
mais?

- Preciso de vestidos...

- Eu compro, todos verdes...

- Não brinca. Eu devo escolher aquilo que eu
gosto.

- É claro, desde que seja verde.

- Não brinca. Eu devo escolher minha própria
roupa. Olha que eu tenho aqui comigo algum
dinheiro, não é muito mas dá para algumas coisas
que vou precisar comprar.

- Tudo bem, não tem problema. Você paga, você
escolhe. Se eu for ter que pagar eu escolho verde,
tá bem?

- Porque essa obsessão por verde?

- Depois eu explico --- e Rubens caiu na risada. -
--

Brincadeiras a parte, Luci sabia que Rubens iria
tratá-la com respeito e não tinha reservas quanto
a ele. Seu instinto feminino, dessa vez, tinha
perscrutado todas as possibilidades de possíveis
desconfortos e nada havia que, por mais leve que
fosse, estaria a indicar-lhe que estava sendo
enganada, que estava dando um tiro no escuro.
Atirou-se nessa, de corpo e alma...

Rubens de seu turno, com toda aquela empolgação da
véspera e mesmo dessa noite, estava consciente de
que assumia uma tremenda responsabilidade. Ele
também, na realidade fria e crua, não conhecia
Luci. Havia sentido uma enorme atração por ela,
isso ele sabia. Mas não conhecia os recônditos de
sua alma, de sua mente, de seus sentimentos. Mas,
pagava para ver. Seu risco era bem menor que o
dela. Se não desse certo essa união, cada um
seguiria para o seu canto, para sua própria vida;
Rubens, desejava ardentemente que desse bastante
certo.

Assim, do motel para o apartamento de Rubens. Sem
mala e sem cuia, Luci mudava de vida. Seja o que
Deus quiser, pensava ela.

Seja o que Deus quiser, pensava ele.


































Capítulo onze

A primeira coisa que Rubens falou com João, mesmo
antes de desejar-lhe um bom dia, foi contar-lhe
que havia uma garota morando com ele.
- Mas como? Você me promete uma mulher, uma
companheira e é você que arranja uma para você?
Isso não está certo!

- Calma João. A sua virá.

- Mas conte-me mais detalhes. Quem é ela? Como
você a encontrou? Como se chama? É bonita?
- Chama-se Luci. Encontrei-a; eu andando pela
noite e me apaixonei. Nada melhor que estar
apaixonado, você sabe. Ela é linda. Em dois dias,
resolvemos tudo. Aos poucos eu vou lhe contando os
detalhes.

- Estou contente por você meu amigo!

- Eu sabia que ficaria contente, por isso mesmo
que fui logo falando...

- Vou ligar para o trânsito --- arrematou João ---
para ver se o meu amigo já tem alguma coisa para
nós. Estamos perto, estamos perto... eu sinto.

- Acho que mais perto que você possa imaginar.

- O que você sabe que eu não sei?

- Depois eu explico. Explico tudo.

Cada um foi para sua mesa tratar de colocar a
papelada em ordem e Rubens viu João falando ao
telefone. Provavelmente obtendo os dados de
transferência recente de uma van preta. Pela
fisionomia de João, “bingo”. O seu amigo estava
mandando pelo e-mail um anexo com o relatório. Foi
relativamente fácil porque não havia muitas vans
pretas sendo transferidas. Chegando o e-mail:
cinco transferências. Algumas de fora da cidade
grande, que poderiam ser eliminadas. As duas
restantes iriam ser investigadas. Uma delas, a que
seria a primeira a ser investigada, foi
transferida a um proprietário cujo endereço era
ali perto da delegacia. E foi para lá que os dois
foram.

A van estava estacionada na rua. Tinha uma antena
longa atrás. Era ela!

Perguntaram quem era o proprietário --- embora já
soubessem o nome do mesmo --- e surgiu um senhor,
apresentando-se como o novo proprietário da van.
João tratou de informar qual o interesse que eles
tinham com relação ao veículo, e nisso foram
entendidos perfeitamente pelo senhor proprietário
que não apresentou nenhum obstáculo, mesmo sabendo
que a van iria ser removida para um departamento
policial encarregado de fazer uma perícia na
mesma. O novo proprietário só queria saber se ele
perderia o veículo. Garantiram que não e fizeram
um recibo da recepção do veículo que passaram
àquele senhor e levaram a van diretamente para a
perícia. Obteriam um resultado nos próximos dias.

- Tivemos sorte nessa --- murmurou João ---

- É verdade. Na primeira. Agora é torcer para que
a perícia encontre algo que possa ligar esse
veículo aos assassinatos que estamos investigando.
Algo como cabelo, fio de tecido da roupa que
vestiam, enfim algum material que comprove que
qualquer uma das vítimas esteve naquela van.

- Estou esperançoso Rubens. Até mesmo acho que
você vai me encontrar uma companhia feminina.---
João falava assim conquanto na verdade estava
apenas caçoando do parceiro. Não precisava que
alguém lhe arrumasse companhia feminina.

- Lá vem você me cobrando outra vez...

Como estavam perto de onde Rubens morava, ele
resolveu apresentar Luci para João. Iria
apresentá-lo como sócio de confiança em diversos
negócios que tinham juntos --- depois explicaria -
-- e Rubens pediu a João que não se identificasse
como policial. Ele não teria dito a ela, ainda,
que ele mesmo era policial. João achou estranho,
mas concordou com o parceiro. Ele sabia onde
pisava. E, se assim estava agindo é porque tinha
um bom motivo.

Rubens bateu na porta. Achou estranho ter que
fazer isso na sua própria casa, mas foi assim que
combinaram: três toques e depois mais dois. Em
matéria de segurança nunca é demais complicar as
coisas. Demorou um pouco e já Luci abriu a porta,
provavelmente tendo antes visto os dois pelo olho
mágico.

- Ei, já de volta?
- Não, eu estava passando por aqui e queria
apresentá-la para o meu sócio: João, esse aqui.

- Muito prazer Luci. Rubens já falou sobre você.
Nem me desejou um bom dia e foi logo falando que
havia uma pessoa, uma garota morando com ele.

- Muito prazer... --- Luci estava um pouco
surpresa com a aparição de Rubens, ainda mais
trazendo alguém mais junto com ele para que a
conhecesse. ---

- Converse um pouco com ele que vou aproveitar
para tomar um copo d’água na cozinha.

João também não estava muito à vontade mais por
ser mais velho e tudo que era, deu início a uma
conversa:

- Esse rapaz me surpreendeu hoje com essa notícia
sobre você. Quero muito que ele seja feliz, é um
bom rapaz e estamos nos dando muito bem no
trabalho... Trabalho que fazemos juntos ---
atalhou prontamente João. ---

- Como o senhor sabe, eu não conheço Rubens há
muito tempo. Há apenas dois dias para ser exata.
Estou apostando nessa relação.

- Vai dar certo, eu sei. Sou bom conhecedor de
caráter e o seu está bem à mostra...

- Agradeço essa observação.

- Espero que Rubens me fale mais sobre você para
que eu possa ajudar em tudo aquilo que puder.

- Acredito que ele fará isso.

- Ele me falou que esta noite vocês deverão sair
para fazer algumas compras para você e me pediu
para acompanhá-los. Seja sincera, você teria
alguma restrição quanto a isso?
- Não vejo nenhum inconveniente nisso. Será bom
ter mais gente junto. O senhor me perece pessoa
agradável e creio que seremos bons amigos.

Rubens escutava a conversa e não entrava na sala,
observando aqueles dois. Estava contente com as
reações de ambos, pois nessas ocasiões, às vezes,
as pessoas não se entendem, as auras não batem.
Quando o assunto estava praticamente exaurido,
Rubens entrou na sala e foi logo dizendo:

- Após essas considerações, de ambos, vamos
embora.

- Não convido a ficarem para o almoço ---
interveio Luci --- porque nem sei ainda onde estão
as panelas, as coisas... Estou apenas tomando pé
no terreno. Fica para uma próxima vez.

- Não se preocupe com isso. Mas vou cobrar... Tem
um detalhe, me chame de João, nada de senhor.---
foi a fala de João. ---

- Então vamos trabalhar. Eu volto cedo Luci ---
prometeu Rubens --- para depois sairmos para as
compras. Coisas verdes...

Despediram-se e Rubens não sabia como deveria
proceder nessa rápida despedida. A presença de
João, de certa forma, o estava inibindo. Mas mesmo
assim arriscou beijar Luci que estava sorrindo
descontraída devido a brincadeira das coisas
verdes, e obteve um beijo de volta.

- Bonita ela é.

- O que?

- Bonita ela é. Não ache ruim eu dizer isso porque
é verdade. Ela é bonita e desembaraçada.

- Então? Fiz uma boa escolha? Ou fui escolhido...
???

- O tempo dirá meu amigo.

O que ambos não sabiam, nem de longe, nem mesmo
tinham uma vaga suspeita é que Luci, estava de
certa forma ligada aos fatos da investigação em
que trabalhavam. Luci viera da cidade do interior
para a cidade grande, trazida por Luiz, na van
preta, antes do triplo assassinato. Portanto,
sabia, também, do sumiço de três garotas, das
garotas que foram encontradas assassinadas.
Evidentemente não comentaria tais acontecimentos
com Rubens porque nem mesmo imaginava que ele
fosse policial e mais ainda, que era o policial
que investigava o que ocorrera com as garotas que
sumiram.

Se Rubens, de seu turno, tivesse explorado a
memória de Luci, direcionando suas perguntas a ela
para aquilo que investigavam, por certo teria
obtido respostas que até mesmo pudessem levá-los
ao completo esclarecimento dos triplos
assassinatos. Contudo, não podia imaginar que ela
estivesse na posição de fornecer-lhes informações
vitais para o esclarecimento desejado, mesmo
porque não queria se expor como policial. Se
formulasse perguntas pertinentes ao esclarecimento
do triplo assassinato, iria sem dúvida acender uma
centelha de suspeita na mente de Luci e teria que
dar mil explicações que não convenceriam. E nesse
início de relacionamento, Rubens não queria que
entre eles pudesse existir conflitos, assuntos mal
resolvidos e coisas do tipo. Então, por dois
motivos relevantes, embora involuntários, ambas as
partes, nas suas relações até então, não
adentraram no terreno em que vicejavam as dúvidas
relativas ao sumiço de três garotas no âmbito de
conhecimento de Luci, e no triplo assassinato no
âmbito de atuação de Rubens como policial. As
investigações teriam que continuar na sua marcha
atual.

A van preta, antes de ser transferida estava em
nome de Scorpion Entretenimentos e Diversões Ltda.
Em busca na junta comercial verificaram que essa
sociedade era composta de mais de quinze sócios,
nenhum deles, à primeira vista, conhecidos dos
dois investigadores. Mas teriam que ser
investigados, um a um, para a necessária
constatação da existência de eventuais pistas. Não
seria um trabalho muito difícil porque todos os
sócios estavam devidamente qualificados no
contrato da sociedade, com RG e CPF, endereço
etc... Rubens tratou dessa parte e verificou que a
maioria dos sócios nomeados no contrato já tinham
passagens e condenações, enfim, era uma sociedade
predominantemente de pessoas que estiveram em
algum momento à margem da sociedade. Dentre essas
pessoas, algumas tinham mandado de captura em
aberto. Um desses nomes que chamou a atenção de
Rubens, pelo motivo que ensejou a condenação e
conseqüente mandado de captura, era o nome Luiz
das quantas, que estava sendo procurado por
bigamias, “bigamias”, fato que não era usual.
Porem dentre os sócios da Scorpion, somente esse
Luiz estava em débito com a justiça. Os demais,
embora com anteriores passagens e condenações,
pelo menos não estavam sendo procurados para serem
capturados ou por qualquer outra razão.

Rubens conversou com João à respeito dessas
verificações e ambos concordaram que deveriam
manter esse tal Luiz sob foco de suas
investigações. Todavia não sabiam quem realmente
ele era e que ele estava rodando com uma van cinza
prata pelo interior na caça de novas garotas para
a organização.

À noite sairam os três, e foram a um shopping
badalado da cidade fazer as necessárias compras
para Luci, onde Rubens imaginava que Luci estaria
à salvo de ser reconhecida por alguém. Com o
movimento que esse shopping tinha, muita gente
circulando em todos corredores, lojas e praça de
alimentos, Rubens estava tranqüilo e transmitia
essa tranqüilidade pra Luci. Seria muito pouco
provável que alguém, algum cão de caça da
organização estivesse ali com a tarefa de procurar
Luci. Por isso a tranqüilidade de Rubens que,
muito embora tranqüilo, por força do ofício, não
deixava de observar tudo e todos para poder
identificar a menor atitude de alguém que
estivesse fora da normalidade.

João desfrutava inteiramente do passeio, em todos
os sentidos, pois não tinha as preocupações de
Rubens.

Luci, como ela mesma dissera, era gato escaldado,
e com isso também era uma observadora atenta.

As compras necessárias foram feitas, coloridas
como Luci desejara, e já cansados resolveram ir
descansar.













Capítulo doze

Já em casa, Rubens e Luci se deram conta de que
era a primeira vez que eles dois estavam realmente
a sós, sem nenhuma correria anterior, sem nenhuma
preocupação naquele momento a ocupar suas mentes,
ela sentindo-se segura e ele apaixonado. Colocadas
as sacolas de compras no sofá, ambos entraram no
quarto, como que automaticamente, como se
estivessem sendo teleguiados...

Nada precisava ser dito. Troca de olhares e, como
se ali existisse uma força magnética a atraí-los,
se entrelaçaram aos beijos, carinhos e afagos de
intenso prazer.

Que noite!

Com o despertador alucinado a emitir seus sons,
Rubens estava obrigado a abrir os olhos e mais, a
levantar-se da cama, para enfrentar mais um dia de
investigações. Luci também havia acordado.

Tomaram o desjejum juntos e Rubens, para ir
trabalhar, deveria de alguma forma apanhar sua
arma sem que Luci percebesse. Conseguiu. Estava
usando paletó, por força de algumas situações,
principalmente dessa situação, essa da arma. Se
Luci a visse, por certo choveriam perguntas e ela,
escaldada que era, poderia ter pensamentos que ele
não desejava que ela tivesse. Despediu-se e foi
pelo caminho pensando em tudo que estava ocorrendo
ao seu redor, com sua vida. E nessa toada, alguns
dias foram passando, noites de intenso amor e dias
de investigações infrutíferas. Porem nada de novo
no front.

João recebeu uma ligação da perícia, convocando-os
para irem até lá para um laudo verbal preliminar
sobre a van preta. Estariam adiantando algumas
constatações, que posteriormente poriam no papel,
porque sabiam da urgência que eles tinham no
assunto.

Cumprimentos obrigatórios de ambas as partes e o
técnico que atuou na perícia foi logo falando:

- Passamos um pente fino na traseira desse
veículo, em todo o veículo, e vocês não podem
imaginar o que encontramos. Vai desde sangue
humano, sangue animal, esperma, cabelos e até
vestígios de clorofórmio nós encontramos.
Encontramos vírus de HIV. Não se esqueçam de que
as vítimas eram portadoras do vírus de HIV.
Achamos também bitucas de cigarro no cinzeiro que
o novo proprietário da van não chegou a limpar e
vamos comparar com o DNA das bitucas encontradas
no local do crime. A van estava limpa, a olho nu,
nada se via, estava varrida, haviam passado pano
molhado, mas essas coisas das quais falei, elas
persistem existir em lugares onde o olho humano
não enxerga.

- Isso é bom. E há alguma ligação com o DNA das
vítimas daquele triplo assassinato? HIV já prova
que as vítimas estiveram na van...ou pelo menos
pessoas com o vírus lá estiveram.

- O exame de DNA ainda não está pronto. Somente
daqui uns dias, mas estamos caprichando, para nada
escapar.

- O que mais pode nos adiantar?

- Que a van pode voltar para o novo proprietário,
não precisamos mais tê-la aqui e está ocupando
vaga...

- Não, eu digo sobre a perícia.

- Ah, ia me esquecendo. Também está patente que há
cabelos de mais de duas pessoas. Esses cabelos
comparados com os cabelos das vítimas dos
assassinatos têm grande possibilidade de serem
iguais. Isto é, podem ser iguais aos cabelos das
vítimas em questão. O problema é que cabelos
coloridos artificialmente perdem muitas das suas
características e não sabemos por quanto tempo
estiveram lá no interior da van.

- Então temos uma prova de que as vítimas
estiveram no interior da van!?

- Tudo leva a crer que sim. Mas sem o DNA esse
tipo de prova ficaria insuficiente por si só. Mas,
para efeito da continuidade das investigações eu
diria que é quase certo que as vítimas estiveram
dentro dessa van. É algo que vocês investigadores
devem perseguir...

- Ok. Obrigado e por favor, nos avise assim que
obtiverem o resultado do DNA. Me parece que esse
resultado vai resolver a questão.

Os dois deixaram o departamento de polícia técnica
e no caminho da delegacia trocavam idéias sobre o
que souberam até então:

- Você não acha que já temos o suficiente para
darmos uma chegada na tal Scorpion --- perguntava
Rubens a João --- para ao menos mostrar que
estamos investigando algo que se relaciona com um
veículo deles? Quem sabe possam nos dar algumas
indicações, fazer alguma referência a algo que
ainda não vimos, enfim, que acha?

- É uma idéia. Vamos lá. Qual o endereço?
- Preciso ver no contrato social onde fica a sede
da organização, assim de cabeça não me lembro, mas
deve estar no contrato.

- Então vamos até a delegacia e você verifica.
Mudança de rumo!

Constava no contrato um endereço que anotaram e se
dispuseram a se dirigir até lá. Como já estava
perto do meio dia, resolveram almoçar antes. Essas
organizações fecham para almoço ou as pessoas saem
para almoçar fora, enfim, não é um bom horário
para se procurar pessoas, se obter informações.
Depois de almoçarem, vagarosamente, sem atropelos,
sem bebida alcoólica para que não ficassem
sonolentos, já havia passado um certo tempo, certo
para agora irem ver essa organização.

No endereço obtido não havia nenhum prédio. Era um
terreno sem construção alguma, mínima que fosse.
Comentaram, entre eles, como é estranho que essas
organizações obtenham registros oficiais sem uma
prova evidente do endereço e tudo mais. São
realmente organizações fantasmas. Mas ainda havia
a possibilidade de falarem com os sócios. Eles por
certo explicariam alguma coisa.

O escolhido pelo nome e endereço que aparecia no
contrato social, também não foi encontrado. E
assim, perpassaram por mais de sete nomes e
endereços, todos fictícios, pessoas que haviam se
mudado, ninguém conhecia, até que um desses nomes
e endereços revelou ser existente. Nisso o dia já
havia começado a dar sinais de que acolheria a
noite. Muito embora tivessem a confirmação daquela
existência, resolveram deixar para o dia seguinte
qualquer tentativa de entrevistar esse sócio. Pelo
que puderam apurar visualmente, a residência do
endereço era coisa “bacana”, muro alto, pátio
interno, portão fechado sem permitir uma visão
interna do imóvel, isso tudo transmitia aos dois
uma expectativa muito favorável. Nos poucos
minutos que estiveram defronte àquele imóvel,
viram chegar um auto esporte que Rubens, sem dizer
nada a João, identificou como o mesmo que parara
atrás de seu carro quando foi ao encontro de Luci
na segunda boate. E quem dirigia, era o mesmo cara
daquela vez. Seu nome, segundo o contrato social
que Rubens analisara era Luciano Angélick. Rubens
pensava consigo mesmo até onde deveria ir sem
contar a João as particularidades que Luci havia
lhe contado. Como por exemplo, que naquela noite
ela saíra da boate acompanhada desse cara que
agora chegava àquela casa, àquele endereço.

Não eram decisões fáceis de serem tomadas. Mais
ainda porque as investigações estavam apresentando
indicações tão diversas, rumos incertos e sem
prognósticos palatáveis. Não se sabia onde as
coisas iriam parar.

A decisão naquele momento era de encerrarem as
investigações e descansarem até o dia seguinte
quando voltariam até ali para ter uma conversa com
quem ali morasse, provavelmente o tal Luciano
Angélick. E assim cada um foi para seu canto
naquela tarde, sem a menor vontade de irem ao bar
para algumas cervejas.

Rubens porque tinha Luci à sua espera e João por
cansaço mesmo...

Ao chegar em casa Rubens, após as batidas na porta
que haviam combinado, ainda estranhando tê-las
feito pois era sua própria casa, Luci abriu a
porta e recebeu-o com uma certa frieza. Ele não
esperava tal recepção. Alguma coisa acontecera.

- Ei! Cadê meu beijo? Meu abraço? Meu sorriso?

- Precisamos conversar...

Quando uma mulher diz “precisamos conversar” quer
na realidade fazer um monte de perguntas e obter
um monte de explicações. Rubens sabia disso e não
conseguia atinar com qualquer motivo para a reação
de Luci à sua presença.

- Sim, vamos conversar. Que bicho mordeu você?

- Nenhum. Mas gostaria que você me explicasse o
que é isto?

Assim falando Luci desdobrou uma folha de papel
onde estava o retrato falado referente às
investigações em que Rubens e João estavam
trabalhando. Mostrou o retrato falado e, esperando
uma explicação de Rubens, olhava-o de forma direta
e ao mesmo tempo o confrontava, de uma forma
peculiar às mulheres inteligentes.

Rubens não dera pela falta daquele pedaço de papel
que no dia anterior havia dobrado e colocado no
bolso da camisa que usava. Em sua mente o
esclarecimento era o seguinte: havia trocado de
camisa após o banho, para saírem para as compras e
colocara a camisa para lavar. O retrato falado
ficara no bolso da camisa. Provavelmente Luci
querendo agradá-lo entendeu de lavar a roupa do
cesto e veio a encontrar o retrato falado.
Encontrou aquele papel dobrado, desdobrou-o e por
certo achou que não era normal Rubens ter aquele
tipo de esboço facial com ele. Isso é o que Rubens
pensou. Em resposta à pergunta de Luci, disse:

- Ah., isso é um esboço facial feito por uma
pessoa lá do escritório... quase uma caricatura.

- Não, não é. Eu conheço essa pessoa.

- Como assim? Como você conhece? Quem é essa
pessoa?

Rubens soltou essas perguntas enquanto sua mente
rodava para encontrar uma lógica nisso tudo, um
caminho para lidar com essa surpresa, uma
racionalização que pudesse colocá-lo no domínio da
situação.

- Essa pessoa do retrato falado é a pessoa que me
colocou onde você me encontrou. O nome dele é Luiz
e foi ou é casado comigo.

Bigamia explicada. Para Rubens que havia achado
estranho o tal Luiz do contrato social da Scorpion
ter mandado de captura por “bigamias”, a coisa
começava a se delinear.

- É, realmente nós precisamos conversar... E
muito!

Rubens, nessas alturas não mais poderia esconder
nada de Luci e assim queria mesmo conversar e
passar tudo à limpo, tanto sua situação quando a
dela.

Luci estava mais calma, recendia a menos frieza.
Por certo tendo criado a situação, desabafou e
isso foi benéfico, foi um pequeno bálsamo e talvez
a porta de entrada para um compartimento de sua
vida, trazendo Rubens consigo, o que iria
esclarecer muitas coisas que Rubens ainda não
sabia sobre ela. Luci falou:

- Antes ou depois de jantarmos?

- Porque não agora mesmo? Vamos nos sentar no
sofá. Não, nas cadeiras da mesa, na mesa é melhor,
um em frente ao outro, olho no olho, sem meias
palavras, sem mentiras.

- É o que quero, é o melhor para nós...

Sentaram-se um em frente ao outro, a uma distância
que a própria mesa impunha, mais de um metro, e
Rubens começou a dar suas explicações:

- Em primeiro lugar identifico-me como policial.
No fato de eu ser policial, quero que entenda, não
há, nem havia nenhum interesse policial que tenha
influído no nosso relacionamento. Em outras
palavras, somente agora eu me identifico, muito
embora fosse fazê-lo em algum tempo no futuro. Não
poderia continuar escondendo isso de você.

- Se eu não encontrasse o retrato falado, quando
você iria me dizer isso?

- Não sei exatamente quando, mas sei que eu não
estava confortável com a idéia de estar escondendo
isso de você. Por outro lado se eu dissesse a você
logo no nosso primeiro encontro, muito
provavelmente eu não tivesse a sua, digamos,
atenção.

- Você não sabe. Não pode imaginar como eu teria
me comportando se você tivesse dito que era
policial.

- Realmente não sei. Porem já tive algumas
experiências nesse sentido. Como você diz, gato
escaldado tem medo de água fria...

- Rubens conte-me tudo. O que está acontecendo com
você e João, que presumo é seu policial parceiro.
Não é?

- Sim, é meu parceiro. Nós estamos atualmente
investigando um triplo assassinato, já há alguns
meses e estamos, somente agora, chegando a ver uma
luz no fim do túnel. Três garotas de programas
foram encontradas mortas em uma casa que estava
para ser alugada. Esteve interessado em alugá-la e
não alugou, uma pessoa que lá esteve e que dirigia
uma van preta. Essa van foi vista estacionada em
frente a casa à noite. Sabemos que a van pertenceu
a Scorpion uma organização que atua no ramo das
boates, prostituição, drogas e tudo mais.
Aguardamos alguns exames periciais...

- Sim tudo isso é muito técnico. Não quero
detalhes. Mas agora sei onde estou pisando com
relação a você.

- Está dentro ainda?

- É claro, tudo isso não muda meu interesse em
você. Agora entendo quando você disse que podia me
proteger e outras coisas que você me disse.

- Estamos na cola daquele cara que saiu com você
da boate naquela noite: Luciano Angélick. Aí há
uma pontinha de vingança de minha parte. ---
continuou Rubens ---

- O tal Luiz, seu esposo, ou não, tem um mandado
de prisão contra ele, mandado de captura por
bigamia, ou melhor “bigamias”. Isto quer dizer que
já casou algumas vezes... Você poderá, se quiser,
anular seu casamento. E esse tal de Luiz é o nosso
suspeito número um com relação ao triplo
assassinato que estamos investigando.
- Isso de anular casamento, no momento é
irrelevante para mim. Mas Luiz ser um assassino..?

Em seus pensamentos, Luci jamais poderia incluir
um Luiz assassino. Ele parecia normal, como
qualquer pessoa. Não era um psicopata, pelo menos
ela não vislumbrara nada parecido... Era um
safado, mentiroso e enganador de garotas. Isso ele
era, mas assassino...! Luci custava acreditar
nessa possibilidade.
- Bem, essa é a situação... Mais perguntas?

- Sim... Você realmente gosta de mim? Pois eu
continuo a gostar de você.

Rubens levantou-se e fez com que Luci também se
levantasse, abraçou-a e beijou-a carinhosamente.
Permaneceram abraçados por longos minutos.

- E agora jantar! --- arrematou Luci com um belo
sorriso ---

Rubens precisava falar urgentemente com João, pois
achava que todo o mistério estava por um fio para
ser resolvido. Queria contar-lhe as últimas
novidades que soubera por Luci e com certeza João
teria muitas considerações a fazer com relação às
novidades. Mas esperaria até o dia seguinte. Essa
noite era de leveza, Rubens sentia-se mais leve
após ter aberto o jogo com Luci à respeito de ser
policial e tudo mais. Assim, deviam ambos
aproveitar a companhia um do outro nessa noite de
revelações e de outras revelações que deveriam
estar por vir.


















Capítulo Treze

Rubens, logo pela manhã, na primeira oportunidade
que teve, expôs para João todo o novo panorama que
agora, após ter se identificado para Luci como
policial, se imbricava com as investigações que
ambos faziam. Contou-lhe que, também Luci
identificara o tal do retrato falado como sendo
Luiz e que ele é quem se locomovia com a van
preta. Contou-lhe que Luci havia sido enganada por
Luiz e por isso viera para a cidade grande onde
passou ser explorada por ele, pela organização. As
“bigamias” imputadas a Luiz eram provenientes de
sua participação na organização, que era de
conseguir garotas pelo interior. Por isso as
bigamias, ele se casava quando não conseguia por
outros meios, sem medir quaisquer conseqüências,
para conseguir garotas. Luci soubera do sumiço das
três garotas que, provavelmente seriam aquelas
assassinadas.

- É isso aí... --- finalizou Rubens ---

João ouvia todas essas explicações de Rubens sem
nada comentar, porem intimamente estava sabendo
que chegavam ao fim dessas investigações do triplo
assassinado. Sua experiência na polícia assim
indicava, a investigação estava chegando ao fim.
Assim, falou:

- Só nos resta esperar pelo exame do DNA. Até que
o tenhamos, nada mais há para fazer nessa
investigação.

- Mas vamos ter que esperar o nosso “olheiro” nos
ligar para fazer a prisão do tal Luiz que, parece
ser o elo mais importante. Ele preso, creio que
vamos ter muitas informações...

- Antes disso, --- emendou João --- devemos falar
com o cara do carro esporte, o sócio da
organização.

- Creio que não devemos falar com ele agora.
Poderíamos assim levantar a lebre e ter o tal Luiz
avisado e perderíamos a oportunidade de prendê-lo
logo. Esse Brasil é muito grande...

- Concordo --- disse João --- não havia pensado
nisso. Mas você tem razão. Vamos deixar a coisa
rolar e esperar pelo nosso “olheiro”.

- Depois que efetuarmos a prisão desse elemento, o
tal Luiz, aí sim, em seguida, devemos ir falar com
esse cara, o tal do Angélik. Já sabemos como
encontrá-lo. Ele deve ser um sócio deveras
importante da organização e deverá ter muito que
falar para nós.

- Irá negar qualquer envolvimento, no início.
Assim como todos fazem.

- É... mais, tendo um outro sócio sob custódia,
uma vez ele sabendo disso, começará a pensar duas
vezes nas mentiras que irá contar.

- Mas já que esse cara participa do contrato
social e a van preta envolvida pertencia a
organização, e quem a guiava também, não vai ser
difícil fazermos a ligação de tudo.

- Só falta o DNA... Ô coisinha demorada!

- Paciência amigo.

Ambos já haviam delineado com exatidão o
funcionamento da Scorpion. A “matéria prima” era
conseguida no interior por dois elementos da forma
que Luci esclarecera amplamente. Eles tinham ao
todo sete boates em funcionamento. Mais de cem
garotas. As garotas eram totalmente subjugadas,
seja por medo ou seja por se tornarem viciadas em
drogas e assim dependentes ou ainda porque não
tinham outras opções. Quando qualquer garota saía
da linha que a organização impunha, sumiam.
Simplesmente desapareciam do mapa. Deus sabe lá
como! Por uma fatalidade, o triplo assassinato
viera para as mãos dos dois, Rubens e João. Porem,
pensavam, quantos “sumiços” poderiam ter
acontecido sem que a polícia tivesse investigado a
fundo?

Aguardavam pacientemente pelos resultados do
DNA...

Nesse ínterim, fazendo um balanço geral da
situação da investigação, ambos chegaram à
seguinte conclusão com relação ao triplo
assassinato: três garotas infectadas com HIV foram
assassinadas por dois indivíduos que as doparam
com clorofórmio, conforme vestígios encontrados,
para poderem facilmente transportá-las, na van
preta, até a casa onde foram encontradas mortas;
há vestígios do vírus na van preta; os assassinos
deixaram provas (bitucas de cigarro) no local do
crime, que estão sendo analisadas pela técnica e
sendo comparadas com as encontradas no cinzeiro da
van, sendo essa prova de tal contundência se o DNA
das bitucas baterem entre si, pois coloca o
assassino na casa e na van; o motivo dos
assassinatos pode ter sido o HIV, não há certeza.
Pode ter sido por outro motivo qualquer que
confrontasse as regras da Scorpion; quem guiava a
van preta era o tal Luiz e mais um colega seu e
isso perfazia os dois homens necessários à
execução dos assassinatos; o tal Luiz, ou quem
guiava uma van preta, estivera na casa local do
crime, antes da sua perpetração, conforme
testemunho do proprietário que colaborou na
execução do retrato falado que a Luci identificou
como sendo o Luiz; a van preta fora vista
estacionada defronte a casa na noite do crime, há
testemunha disso.

Ou seja, já haviam realmente solucionado o caso.
Já estavam na posse de elementos probatórios mais
que suficientes para um decreto de prisão, mesmo
sem o resultado do DNA. Contudo, com o resultado,
e o resultado revelando que o assassino estivera
na casa onde ocorreram os crimes, não haveria
nenhuma margem para questionamentos futuros.
Assim, continuavam pacientemente na espera...

Luci, nessa altura, já participava da
investigação, pois assim que Rubens chegava em
casa, era uma torrente de perguntas sobre o caso
que Rubens tinha que responder para colocá-la a
par de tudo, apaziguando os ânimos e alimentando a
curiosidade dela. Acompanhava cada detalhe e fazia
comentários que mais das vezes eram totalmente
pertinentes e que até mesmo ajudavam o
esclarecimento de pontos obscuros da investigação.
De seu Rubens gostava de ter essa interlocução com
Luci, pois essa interlocução também ajudava-o a
raciocinar sobre detalhes que perfariam o todo da
investigação.

Comentava com João, na manhã seguinte toda sua
conversa tida com Luci, seus achados e ambos
concordavam que o caso estava solucionado. Agora
seriam os detalhes, as arestas a serem aparadas.

Dependeria do delegado e da promotoria quão
profundamente deveriam eles prosseguir, ou outros
investigadores que fossem designados, a partir da
solução do triplo assassinato. Como seriam
resolvidas as questões envolvendo as boates, as
garotas, a Scorpion, enfim, até onde deveriam as
investigações chegar.

Divagavam sobre tais assuntos quando veio a
informação de que o resultado do DNA estava pronto
e pronto para ser-lhes passado. Deveriam dar um
pulo até o IML para conversarem pessoalmente com
os responsáveis pelos exames técnicos que foram
feitos.

Foi uma alegria receberem tal notícia e ambos se
precipitaram porta a fora para irem ao IML.

- Bem doutor, aqui estamos! Havidos de interesse e
curiosos à beça... --- essa foi a fala de Rubens e
João arrematou:

- Como é doutor bateu?

O médico mantinha uma fisionomia serena com traços
de prazer incontido pois que os cantos de sua boca
denotavam um sorriso que não queria ser revelado.
Antegozava diante da curiosidade dos
investigadores e se deleitava com o poder que
estava tendo por ter os resultados sob sua posse.

- Que vocês acham?

- Doutor! Não judia...diga logo que está tudo OK.

- Pois bem, depois dessa espera toda vocês
merecem: o DNA das bitucas encontradas na van
batem com o DNA das bitucas encontradas no local
do crime. Os fios de cabelos encontrados na van
pertenciam à uma das vítimas; pudemos identificar
o DNA encontrado na raiz de um dos fios.

- Isso é oficial? É o que vai ser relatoriado?

- Sim, estou apenas adiantando para vocês para dar
uma demonstração de boa vontade e auxílio. O
relatório segue logo mais, já determinei a sua
feitura e o esboço é esse.

- Se fosse uma doutora eu daria um beijão! Mas
como é o senhor, aceite o meu muito obrigado.

- O mesmo --- disse Rubens ---.

A partir desse momento, restava a prisão do tal de
Luiz. Onde andaria o homem?

- Vamos falar com o nosso olheiro para ver se há
alguma novidade.

- Vamos lá --- concordou João, tomando o caminho
da saída do IML.

Os deuses estavam do lado deles. Quando chegavam
ao local onde ficava o olheiro, depararam com o
tal do Luiz e seu comparsa. Eles estavam
descarregando alguns pertences da nova van, por
certo estavam chegando de uma viagem... E nem de
longe podiam imaginar que a polícia estava no
encalço deles. Ainda mais, por assassinatos.

Não houve a menor resistência à prisão. Ambos se
sujeitaram a colocar as mãos traz para serem
algemados e não escondiam a surpresa de que foram
colhidos. Denotavam alguma arrogância, por certo
imaginando que os policiais não detinham provas
suficientes para os encarcerar. Mas Rubens e João
já haviam providenciado o devido mandado judicial
de prisão e estavam serenos quanto a legalidade da
prisão, e não se importaram com a arrogância
manifestada.

Passo seguinte era ir ao encontro do Angelik, o
homem do carro esporte e da residência bacana,
sócio da Scorpion. Embora ele não estivesse
diretamente envolvido com o triplo assassinato,
pois não participara de nenhuma ação que tivesse
causado a morte daquelas três criaturas, estava
por traz das ações que a Scorpion promovia e tinha
uma parcela de responsabilidade no esquema
criminoso engendrado.

Mas aí era onde entrava o delegado, superior de
ambos, e o promotor de justiça. Teriam eles que
resolver como seria dali para a frente, pois os
assassinatos estavam resolvidos e os assassinos
estavam sob custódia, e essa era a incumbência
atribuída a João e Rubens, que eles dois haviam
solucionado a contento.






















Capítulo quatorze




João, no final do dia, cansado, não desejava senão
ir para sua casa, tomar um banho, jantar e
descansar solenemente. Estava satisfeito consigo
mesmo. Fora dado a ele uma incumbência das mais
difíceis e ele, é claro, com a ajuda do seu
parceiro Rubens, conseguiu resolver, solucionar
aquele triplo assassinato.

Só faltava, para completar o dia, para preencher
uma lacuna que o afligia, uma companhia feminina
com quem pudesse expressar sua satisfação e
tagarelar sobre os acontecimentos do dia, da sua
profissão, enfim, uma companhia.

Iria se empenhar nisso. Já era tempo de deixar
para trás o passado e permitir que alguém entrasse
em sua vida para compartilhar os momentos bons e
ruins que a vida apresenta.

Prometeu para si mesmo que iria se empenhar nisso.





Ao chegar em casa Rubens foi, como sem pré
acontecia, interrogado por Luci para saber das
novidades do dia. Ele tinha que fazer um relatório
completo dos acontecimentos, e enquanto ela
cuidava do jantar, ele tomava uma cerveja e falava
e falava...

- Por fim, prendemos o Luiz! Ele e seu comparsa.
Sem problemas, nenhuma resistência...

- Puxa que bom! Agora acaba aquela judiação que
fazem com as garotas das boates. Creio que tudo
irá ser melhor agora...

- É..., mas ainda não temos ordem para seguir ou
prosseguir nas investigações. Nossa incumbência
era resolver o triplo assassinato, tão somente. E
isso nós fizemos e prendemos os assassinos. Agora
daqui pra frente quem resolve são os maiorais...o
delegado e o promotor.

- E o João? O que ele diz disso?

- Bom, ele concorda. Resolvemos o assunto que nos
foi dado pra resolver. A seguir uma lógica, nós
deveremos prosseguir, dez vez que já estamos a par
de muitos detalhes das operações e tudo mais.
Porem, as decisões são tomadas com considerações
que as vezes escapam da lógica...

- E você? Como se sente diante de tudo isso?
Satisfeito? Frustrado?

- Eu estou Ok. Conheci você... Você está aqui
comigo. Prendemos os assassinos. Construímos um
futuro processo com provas irrefutáveis. No mais,
vamos aguardar.

E Rubens continuou:

- Agora precisamos cuidar da anulação do seu
casamento. Se você concordar, é claro, tenho quem
possa dar entrada no pedido. Um colega meu da
Faculdade me fará isso sem custo algum. E como o
cara é bígamo, e também está preso por tal crime,
não haverá nenhum problema e a coisa deverá sair
rapidamente.

- E depois? Fico solteira? Amasiada com você?

- Depois a gente resolve. Quem sabe a gente se
casa.

- É uma promessa? Ou o que?

- Depois a gente resolve...

- Você não me perguntou se eu quero me casar com
você.

- É verdade. Você quer?

- Depois a gente resolve...--- disse Luci com um
grande sorriso ---.