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Texto de Waldemar Magaldi Filho produzido em 1992
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ARQUÉTIPO, SÍMBOLO E ENERGIA


Prof. Dr. Waldemar Magaldi Filho

ARQUÉTIPOS

O termo vem de Platão, representando um modelo ou protótipo.


Na filosofia de Platão é a idéia original a partir da qual foram modeladas
todas as coisas materiais existentes. A idéia arquetípica deve existir
como um modelo, nada substancial pode existir sem ela.
Jung conceitua o arquétipo de vários modos ao longo de suas
obras, como "...um padrão instintivo de comportamento que existe no
inconsciente coletivo...", eles são transcendentes, indo além do
inconsciente pessoal de um indivíduo, tendo uma forma independente
da existência do nível coletivo.
Jung diz que os arquétipos se parecem como um cristal em sua
forma, ou como recipientes vazios, que contem em sí modos de
comportamentos idênticos em todos os lugares e em todos os
indivíduos. Porém um indivíduo sadio pode dar forma ao arquétipo,
decidindo se vai permitir o fluir da energia no sentido construtivo ou
destrutivo que existe em todos os arquétipos.
O arquétipo é inevitável e ubíquo, suscetível de variação infinita e
herdado pela psique. É uma entidade hipotética, irrepresentável em sí
mesma e evidente somente através de suas manifestações.
O arquétipo é uma cunhagem primordial que interfere diretamente
no modo de percebermos e de nos relacionar com o mundo. É um
conceito psicossomático, que une o corpo com a psique, o instinto com
as imagens, assim todas as imagens psíquicas compartilham de
arquétipos.
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Todos os arquétipos portam uma forte carga de energia, suscitam


os afetos cegando o indivíduo para a realidade, pois toma posse da
vontade. São ativados compulsivamente, contra qualquer razão e
vontade, como os instintos.
Os arquétipos se manifestam principalmente nos sonhos, surgem
sempre de forma involuntária e espontânea, o que aparece, na verdade,
são as imagens arquetípicas. Um arquétipo sempre tem um caráter
universal, aparecendo nos mitos, religiões, nos delírios de vários
doentes mentais, nos sonhos do início da infância, enfim é de domínio
da humanidade.
Existe um arquétipo para cada situação típica da vida, pois as
repetições destas situações ficaram gravadas no psiquismo e, esta
"memória" vai nos possibilitar uma certa reação frente a estas mesmas
situações, em nossa vida pessoal e individual. Assim os arquétipos são
formas sem conteúdo, que vão registrando todas as percepções e
conseqüentes ações que temos diante das experiências da vida. Desta
maneira é que são formadas as imagens arquetípicas, que representam
a expressão de um determinado tema ou sentimento existencial.
Com o nosso amadurecimento as formas de expressão também
vão mudando, por isso percebemos as modificações que vão surgindo
ao longo da vida, nas diversas expressões das imagens arquetípicas.
Por exemplo a imagem arquetípica do self pode ser representada por
quadrados, casas, etc, mas percebemos que cada vez mais ela vai se
aproximando da mandala, que é denominado círculo mágico, mas como
tudo evolui, atualmente esta imagem de self também pode ser muito
representada por discos voadores.
Os arquétipos são possibilidades herdadas, como formas
instintivas de pensar, que ganham consistência com as experiências
pessoais. É um nódulo de concentração de energia psíquica que vai
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tomando forma através da imagem arquetípica. O arquétipo é virtual e a


imagem arquetípica é real.
Os arquétipos garantem uma base psíquica comum à todos os
humanos e, por isso compreendemos porque, apesar das diferenças de
culturas, distâncias e épocas, encontramos temas idênticos.
A imagem arquetípica não é um símbolo, mas os arquétipos são
símbolos universais que não perderam seu caráter individual e subjetivo
por sí só. O símbolo é mais complexo, por representar uma tentativa do
encontro entre os opostos, sendo uma tendência de totalização.
Os arquétipos não podem ser explicados à nível racional e
intelectual, pois uma definição lógica iria dar um fim ao seu caráter vital
e instintivo. Os arquétipos estão ligados ao modo de apreensão das
ocorrências da vida, enquanto os instintos estão ligados aos modo de
ação.
Os principais arquétipos, que foram herdados devido as
constantes repetições de experiências típicas de vida, são o da sombra,
do animus ou anima, do self, do velho sábio, da persona, da criança, da
mãe, do pai, etc.
Como já foi dito, o que vem para a superfície da consciência são
as figuras arquetípicas, mas além das figuras existem os temas
arquetípicos. Nós também sofremos as influências dos temas
arquetípicos, seus principais conteúdos são as situações de mudança e
de iniciação que passamos durante a nossa evolução, como o
renascimento, a morte, a construção, o sacrifício, a necessidade de
redenção, etc. Assim os arquétipos podem representar alguns modelos
para as nossas várias situações de vida, pois ao longo de toda a viagem
do processo de humanização, foram sendo "gravados", em nosso
inconsciente coletivo, muitas idéias e muita sabedoria. Essa sabedoria
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milenar pode nos trazer uma grande ajuda, contribuindo para o nosso
crescimento e evolução, basta identifica-la e, segui-la.
A noção de arquétipo sempre foi motivo de discordância entre os
seguidores de Jung e alimentou seus críticos, pois para compreendê-la
é necessário que se conheçam os estágios de sua elaboração.
Em l910 Jung dizia que o ser humano possui muitas coisas que
nunca adquiriu por si mesmo e sim que herdou dos ancestrais. Ao
nascer, traz sistemas organizados especificamente humanos prontos a
funcionar como resultado dos milhares de anos da evolução humana.
Assim como também traz o desenho fundamental de seu ser – não só
de sua natureza individual mas de sua natureza coletiva. Estes sistemas
herdados correspondem às situações humanas que prevalecem desde
tempos imemoriais: juventude, velhice, nascimento, morte, pais, mães,
filhos, filhas, acasalamento, etc. A consciência individual experimenta
estas situações como pela primeira vez, porém para o corpo e para o
inconsciente, isto não é novidade.
Herdamos sistemas especificamente humanos prontos a funcionar
em resposta às solicitações do meio, como condições a priori para a
experiência atual, constituídas no decorrer da história.
Observando a produção de imagens suas e de seus pacientes (o
pênis do sol e a ave a devorar a própria asa, por exemplo) que surgiam
expontâneamente ou em sonhos e se repetiam nas lendas, nos mitos e
nos contos de fadas das diversas culturas, ele passou a lidar com tais
disposições herdadas como imagens primordiais („existem temas cujo
rastro podemos encontrar na história e até na pré-história. . . trata-se do
modo de pensar primitivo e analógico vivo ainda em nossos sonhos e
que nos restitui essas imagens ancestrais‟).
Por outro lado, chegou à conclusão de tais imagens não serem
estáticas, bidimensionais mas sim que fomentam e orientam a ação,
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preparando o comportamento do indivíduo mesmo ele não estando


consciente disto. E mais ainda, possui a qualidade de buscar no meio
os elementos necessários à sua manifestação.
Por isto ao falar em arquétipo pela primeira vez em 1919 - tomado
de empréstimo a Filon de Alexandria e posteriormente incorporada no
pensamento cristão através de Agostinho que dizia tratar-se de uma
espécie de marca (tipo), impressão definida e arcaica de motivos
mitológicos – sabe que o termo é inadequado em virtude da noção de
fixidez evocada.
O arquétipo é uma estrutura funcional que exprime não só a forma
da atividade a ser exercida como a situação típica em que esta atividade
se realiza. Por exemplo, o arquétipo mãe implica em um comportamento
que leva a buscar o elemento filial no meio à volta e tudo indica
existirem estes elementos prontos a lhe corresponderem.
Portanto, arquétipo é tanto considerado pela ação fomentada
como pela imagem que o representa.
Com isto, o instinto é uma manifestação do arquétipo: ao construir
sua casa o joão-de-barro busca no meio a substância específica para
isto; o pássaro ao nascer, „sabe‟ como conhecimento a priori que deve
bicar a casca do ovo que o contém; em situação de pânico, age-se de
modo instintivamente adaptado como se já se conhecesse de antemão
o que fazer, ou seja, reage-se como a humanidade sempre reagiu.
Para explicar a transmissão destas imagens ou representações
não basta a cultura ou a educação pois „observam-se mitologemas
típicos no caso de indivíduos nos quais está excluída qualquer
possibilidade de conhecimentos adquiridos a respeito (como o caso do
paciente que se referia ao pênis do sol) e que são incapazes de deduzi-
los de conceitos religiosos conhecidos ou temas tradicionais ... que nos
obriga a supor tratarem-se de recriações autóctones independentes de
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qualquer tradição e daí que devam existir elementos constitutivos


„mitógenos‟ (fonte de mitos) no psiquismo inconsciente‟.
Estas imagens primordiais seriam herdadas junto com a estrutura
do cérebro, pois não passa pela cabeça de nenhum biólogo que cada
indivíduo adquira cada vez ao nascer, seu modo geral de
comportamento, sendo muito mais aceitável por exemplo que o pássaro
tecelão jovem construa seu ninho característico porque é um pássaro
tecelão e não um coelho e também mais verossímel que o ser humano
nasça com seu modo específicamente humano de comportamento e
não como o de um hipopótamo.
Daí concluiu que o que se herda não são as imagens ou as
representações mas sim as estruturas capazes de produzi-las.
Considera então, os arquétipos, estruturas congênitas.
Em 1938 aprenderá com a biologia a noção de esquemas de
comportamento („‟pattern of behaviour‟‟) e a utilizará dizendo que os
sistemas herdados correspondem às situações humanas que
prevalecem desde tempos imemoriais, daí dar o nome de arquétipo a
este protótipo congênito, este esquema de comportamento, que não é
uma representação herdada e sim uma disposição inata para engendrar
representações análogas ou seja, estruturas universais idênticas da
psique que mais tarde classificou como integrantes do inconsciente
coletivo.
Com isto, Jung diferenciou arquétipo de imagens arquetípicas: o
esquema de comportamento é transmitido geneticamente (i. é, a
capacidade em criar as imagens), porém são as circunstâncias que irão
engendrar a imagem em função dos aspectos pessoais e culturais.
Daí atinge uma conclusão definitiva: as representações
arquetípicas (imagens arquetípicas) não devem ser confundidas com o
arquétipo em si, por se tratarem de formações extremamente variadas
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que se referem a uma forma fundamental não representável em si


mesma.
A essência do arquétipo não é suscetível de conscientização.
A teoria dos arquétipos surgiu quando Jung compreendeu que a
“mixórdia caótica de imagens que encontrava no curso da terapia e
certos temas e elementos formais bem definidos, repetiam-se de
maneira idêntica ou análoga em indivíduos os mais diferentes”.
Buscou o embasamento para isto entre os filósofos (a quem Jung
sempre reconheceu o débito, apesar de negar enfaticamente atribuir-se
este papel, afirmando-se apenas um cientista, sem conseguir no
entanto, evitar as „extensões‟ metafísicas e antropológicas de sua
teoria). Assim, os arquétipos podem ser comparados às Idéias de
Platão – que afirmava ser o conhecimento das coisas do mundo uma
espécie de recordação de Idéias ou Formas transcendentes ao homem,
aprendidas antes do nascimento e atualizadas mediante a experiência
sensorial. Na verdade, a concepção de arquétipo encontra-se mais
próxima à Substância de Aristóteles, para quem a Idéia de algo
encontra-se potencialmente neste algo. Porém, a legítima inspiração
para sua teoria, Jung encontrou em Kant (até o fim da vida, intitulou-se
um kantiano).
Imanuel Kant, filósofo alemão (1724-1804) foi quem melhor
explicou o mecanismo intrínseco do conhecimento humano, que por sua
vez fundamenta a noção de arquétipos. Assim, o conhecimento é uma
relação entre dois seres: o sujeito e o objeto, relação esta na qual o
sujeito apreende o objeto, sendo determinado por ele, pois algo é
modificado no sujeito em conseqüência do conhecimento, ou seja, nele
surge a imagem. A imagem interpõe-se entre o sujeito e o objeto do
conhecimento. Para Kant, o indivíduo ao deparar com o objeto, tem os
sentidos afetados por estímulos, um caos de informações, que nada
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significariam se nele não existissem a priori, elementos indutores à


formação de determinada imagem. Tais elementos indutores seriam as
formas de sensibilidade (o espaço e o tempo) e as formas do
pensamento (as categorias). Daí, o objeto nunca ser apreendido no seu
verdadeiro significado, sendo resultado do conhecimento apenas a
imagem obtida. Ele denomina o objeto de “nôumeno” (a coisa em si) e a
imagem de “fenômeno” (o que se apresenta).
Portanto, nunca entramos em contato com a “coisa em si”, apenas
com o “fenômeno”.
Jung transpõe este conceito para a psicologia, aplicando-o às
suas observações e concluindo também possuirmos elementos
psíquicos a priori que induzem a formação da imagem. Por exemplo,
uma criança ao receber determinado tipo de atenção da parte de uma
mulher, terá aos poucos na sua consciência formada a imagem de mãe.
Imagem resultante dos estímulos recebidos e “organizados” com o
significado de “mãe” por meio de indutores psíquicos que a criança já
traz consigo ao nascer. E assim com tudo que entrará em contato em
sua vida. Para Jung, tais indutores que formam imagens e fomentam a
ação seriam transmitidos geneticamente.
Kant considera, os elementos indutores da imagem são estruturas
imemorias, constituintes da natureza da psique; Jung vai além,
acreditando que tais estruturas evoluiram ao longo da história humana,
talvez como reação à experiência concreta (suposição de nítido sabor
darwiniano). Assim, o homem ao se relacionar com a mulher no
decorrer dos séculos, “constrói” em sua mente, a imagem de uma
mulher às custas de suas próprias características, dos afetos que é
obrigado a reprimir pelo fato de ser homem, etc., constituindo-se a
contra-partida de sua masculinidade; o mesmo acontecendo com a
mulher no seu relacionamento com o homem. Então, se para Kant,
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existe a priori, indutores na mente do homem e da mulher para construir


as respectivas contra-partidas sexuais, Jung diz ser isto resultado da
experiência comum de ambos.
A filosofia existencialista de Heidegger evoca a idéia de arquétipo
ao se referir ao aspecto ontológico e ôntico do Ser. O aspecto
ontológico refere-se justamente à intuição que obtemos de algo (do
Ser), aliás jamais alcançada, enquanto o aspecto ôntico é sua
manifestação conhecida (ao escutarmos a palavra „alguém‟, intuímos
algo incompletamente definido para nossa consciência, porém, ao ser
acrescentado „um indivíduo baixo e moreno, etc já conseguimos
formular uma imagem. „Alguém‟ constitui o aspecto ontológico e
„indivíduo baixo e moreno‟, a manifestação ôntica). Portanto, arquétipo é
a condição virtual que possibilita o Ser ser.
Devemos estar sempre atentos que aquilo que queremos significar
como arquétipo será sempre uma ilustração ou concretização
pertencente à esfera da consciência, por ser irrepresentável em si
mesmo, porém possuindo efeitos que são as imagens, os complexos, as
representações arquetípicas (no caso acima, a anima e o animus), ou
os denominados símbolos.
Portanto, os arquétipos são fôrmas sem forma, virtualidades,
potencialidades só atualizadas a partir de elementos psicológicos do
indivíduo ou do meio. Por se tratar de algo pertencente a toda a
humanidade, não possui representação específica para determinado
indivíduo até adquirir a „roupagem‟ pessoal de acordo com sua historia
de vida, quando então torna-se um complexo. O complexo lida com a
dimensão pessoal e o arquétipo com a universal do ser humano.
Observamos então dois tipos de potencial energético inconsciente:
pessoal e coletivo. Um correspondendo à soma das experiências
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pessoais durante a história do indivíduo, o outro, à experiência da


espécie em toda sua evolução.
Quando uma representação adquire particular valor para
determinada pessoa ou um grande número de pessoas (especialmente
em função de seu caráter numinoso), falamos de símbolo, como será
visto adiante.
O arquétipo é uma parábola lingüística pois sempre contém mais
algo mais que permanece desconhecido e não formulável, daí toda
interpretação ou conceito forçosamente encontrar limite no „‟como se‟‟.
Possui duas vertentes: uma em direção ao instinto e outra em
direção às imagens.
Que os patos voem em formação triangular na qual os da
dianteira desenvolvam maior número de batimentos de asas, passando
gradativamente à retaguarda, diminuindo os batimentos até atingirem a
linha do fundo, quando planam com as mesmas imobilizadas, deixando-
se conduzir pelo empuxo e depois de descansados, assumirem
novamente a posição dianteira; que a vespa saiba exatamente a
localização do gânglio neurológico da lagarta onde ao picá-la, a
imobilizará, tudo isto sem que ninguém a tenha ensinado; assim como o
fato do ser humano buscar o denominado sagrado como forma de lidar
com a dimensão espiritual de que é dotado, elegendo para tanto um ser
abstrato, outro ser humano, um animal, um objeto, um astro, ou uma
idéia, ou então, por outro lado, nunca se mostrar como é realmente aos
semelhantes, são todos fenômenos arquetípicos.
Os arquétipos existem em número infinito e permeiam todas as
nossas ações: pelo fato de sermos humanos não há como agir de outra
forma! “Há tantos arquétipos quantas são as situações típicas na vida”.
Jung compara-o ao olho: as representações arquetípicas são tão
diferentes do arquétipos quanto as imagens ópticas são diferentes do
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olho. Portanto, o arquétipo seria o órgão que engendra as imagens


arquetípicas.
Outra comparação são os cristais que possuem um sistema axial
característico em sua formação: cristais de cloreto de sódio vistos ao
microscópio apresentam configuração hexagonal que é o sistema axial
indutor da formação deste cristal. Dissolvidos em água e examinada ao
microscópio a solução resultante, não se detectam mais as formações
hexagonais; evaporada a água, reexaminados os cristais, ressurgem as
configurações. No que concluímos que „algo‟ induziu os cristais a se
reagruparem daquela maneira – este algo, esta força indutora, esta
fôrma virtual seria o arquétipo e os cristais, as suas representações.
Jung refere-se aos arquétipos, sucessivamente como forma, estrutura,
esquema de comportamento, sistemas vivos de reação e
disponibilidade, entidades vivas, órgãos da psique pré racional,
organizadores inconscientes.
Na verdade, como nos fala muito bem Elie Humbert, o que Jung
busca é um conceito que não dispunha ainda em seu tempo, o de
informação, pois conforme a teoria da informação:
1- os arquétipos condicionam, orientam e sustentam a formação
do psiquismo individual em função de um programa;
2- os arquétipos intervêm nas perturbações do psiquismo a partir
das informações que recebem, seja do próprio psiquismo seja
do meio ambiente;
3- os arquétipos asseguram a troca de informações com o meio.
Portanto, os arquétipos estão inscritos no corpo como órgãos de
informação da matéria viva sendo genética a sua transmissão.
Com isto, Jung realiza uma revolução coperniciana na psicologia
profunda quando afirma que não nascemos psicologicamente como
“tabula rasa” (segundo Locke, mais tarde aproveitado por Freud) mas
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sim já trazemos inscritas em nosso inconsciente as matrizes de todos


nossos atos e modo de pensar, daí não aprendermos como agir e
pensar ao entrarmos em contato com as coisas.
Por outro lado, o arquétipo necessita da „roupagem‟ da história
pessoal ou cultural para se manifestar como ação ou imagem, senão é
um elemento vazio, apenas uma possibilidade energética.
Por sua realidade objetiva, por conter os reais objetos de toda
nossa atividade, por sua atividade criativa, por seu saber a priori, o
inconsciente coletivo foi denominado por Jung, psique objetiva,
enquanto o pessoal por seu caráter específico, psique subjetiva.
Caráter psicóide dos arquétipos:
Jung vai mais longe que Kant ao considerar nossa percepção
incapaz de apreender todas as formas de existência, daí estabelecer o
postulado de toda configuração arquetípica – um evento psíquico por
excelência - se apoiar em um fundamento psicóide (semelhante ao
psíquico), ou seja, o arquétipo é psíquico sob certas condições,
entretendo ligações com outras formas do ser. A realidade do universo
assim como os arquétipos não podem se tornar conscientes, tudo se
passando como se a psique não pudesse assumi-los inteiramente,
como se estivessem aquém ou além do psíquico. Em outras palavras, a
energia potencial do arquétipo alcança inclusive o mundo físico.
Assim, a coincidência muitas vezes observada entre um evento
externo e o estados psíquico e afetivo daquele exato momento
provavelmente esteja relacionada com a natureza psicóide
(transcendente ao psiquico) dos arquétipos. Deu a isto o nome de
sincronicidade. Na realidade, o que se vivencia no fenômeno
sincronístico é uma experiência do tempo: trata-se da coincidência no
tempo de dois ou mais eventos não relacionados entre si de modo
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causal e que encerram o mesmo sentido ou um sentido semelhante.


Trata-se das coincidências significativas.
As circunstâncias concretas e os fenômenos psíquicos parecem
ser coordenados por um centro situado fora do psiquismo individual.
Como explicação, ele propõe a existência de um continuum psico-
físico. O psíquico e o físico se inter-relacionam e se transmutam um no
outro. É o denominado Unus Mundus.
Comparada à nossa submissão individual ao tempo, o arquétipo é
atemporal e tem duração ilimitada. „A nossa vida é a mesma desde a
eternidade. Os mesmo processos fisiológicos e psicológicos peculiares
ao homem há milênios, ainda continuam e dão ao sentimento interno
uma profunda intuição da eterna continuidade do ser vivo. O nosso eu
como essência do nosso sistema vivo, não apenas contém o sedimento
e a soma de toda vida vivida como é o ponto de partida, matriz grávida
de toda a vida futura, cujo pressentimento é fornecido ao nosso
sentimento interno com a mesma clareza de uma continuidade histórica.
Daí surgir legitimamente a idéia de imortalidade‟.
Bipolaridade arquetípica:
Tudo que é psicologicamente vivo possui a característica da
bipolaridade.
Daí o arquétipo unir em si, orientado para trás e para diante, todas as
possibilidades do que já era e do que ainda está por vir a fim de obter
uma integridade plena de sentido, assim como conter os opostos em
sua estrutura. Muitas vezes funciona como orientador nos conflitos da
alma, antecipando a solução sob a forma de sonho, de fantasia,
intuição. „Todos os arquétipos possuem um caráter positivo, favorável,
claro, orientado para cima (aliás, outra situação arquetípica: o encima e
o embaixo...), assim como um caráter orientado para baixo, em parte
negativo e prejudicial e em parte apenas terreno‟. Na dinâmica dos
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arquétipos não existe “isto ou seu oposto”, mas sim, “isto e seu oposto”,
e dependendo do momento da vida, prevalecerá um dos deles com o
outro sempre presente como possibilidade.
Arquétipos e mitos – O mito individual
Para se obter modificações válidas e construtivas em nossa vida,
temos que transformar os complexos potencialmente perturbadores e
utilizarmos a energia neles contida em nosso benefício. Isto se
consegue quando tentamos nos compreender a partir de uma dimensão
universal. E para tanto nos auxiliam os sonhos e as fantasias.
Analisando-se o núcleo quer dos complexos quer dos sonhos e das
fantasias, observamos que sob algum aspecto, repetem-se imagens que
existem de forma recorrente nos mitos, nos contos de fadas, nos relatos
religiosos tradicionais, em histórias de todas as épocas. São os
mitologemas.
Eles se manifestam de modo importante nos sonhos e fantasias
em três circunstâncias:
1- na análise, quando os complexos já foram exaustivamente
compreendidos e “esvaziados” de sua energia perturbadora porém
sente-se a necessidade de se ir além de uma compreensão
pessoal, pois as figuras que surgem são inexplicáveis a partir da
história do indivíduo.
2- nos estados psíquicos emergenciais: diante de acontecimentos
interiores ou exteriores violentos, poderosos, ameaçadores que
precisam ser encarados (um indivíduo na crise da meia idade,
sonhou que dois cães, um idoso e um jovem, deveriam ser
sacrificados em nome da ciência; o cão velho aceitava
filosoficamente seu fim, ao passo que o jovem revoltava-se
energicamente, querendo prosseguir vivendo; uma voz afirmava
ao sonhador que apenas ele poderia evitar que isto ocorresse. O
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sonho evoca o tema do sacrifício da instintividade em função de


esquemas racionais e frios e revela a necessidade do sonhador
de atender seus aspectos instintivos ainda com vitalidade).
3- nas psicoses agudas ou iminentes, nos casos de possessão
demoníaca ou religiosa quando então os elementos inconscientes
coletivos assumem o controle do ego. As imagens que surgem
transcendem em termos de espaço e tempo, os referenciais
pessoais, concretos e racionais.
Exemplo foi um paciente esquizofrênico que Jung tratou: indivíduo
de pouca instrução, sua fantasia alucinatória era existir um tubo ou
pênis a pender do sol, movendo-se de um lado para o outro, dando
origem ao vento. Anos após a morte do paciente, estudando a tradução
de uma liturgia mitraica, a partir do grego original, acessível apenas a
especialistas, Jung encontrou que o iniciado no rito mitraico enxergava
um tubo pendular que descia do sol e de onde se originava o vento.
Edward Whitmont, seguidor de Jung, vai mais além, citando o artigo do
New York Times com informações da espaçonave Mariner 2 em sua
trajetória rumo a Vênus, revelando existir um vento permanente de
partículas carregadas que sopra da superfície do sol para o espaço
interplanetário. O mesmo jornal diria no ano seguinte que o cometa
abana a cauda em um ritmo de quatro dias que pode ser associado ao
vento solar que obrigaria a cauda a se movimentar sempre em direção
oposta ao sol, independente da direção em que o cometa se mova.
A correspondência entre um mito de cem anos antes de Cristo, as
visões de um doente no início do século vinte e as observações
astronômicas dos anos sessenta, apontam para a existência de uma
configuração energética abrangendo a estrutura da psique, a matéria e
o comportamento do objeto, assim como acontecimentos pessoais e
transpessoais. Não podemos lidar com estas ligações de um modo
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racional, apenas simbólico: por exemplo, a imagem apontaria para uma


entidade vista como princípio espiritual a se estender para baixo,
produzindo força, vida e luz e cuja conexão terrestre redundaria em
estímulo, criação, fertilidade e inspiração.
Jung acreditava também que o significado central de nossas vidas
pode ser apreendido através da conscientização de nossos próprios
mitos individuais. Isto porque „tudo no inconsciente busca uma
manifestação exterior e a personalidade também deseja expandir-se
além de suas condições inconscientes e vivenciar a si mesma como um
todo‟. Muitas vezes em função de circunstâncias traumáticas ou
conflitos, um arquétipo pode não encontrar um modo adequado de
transmitir seu significado, ficando obstruído por complexos
perturbadores, quando então seu significado é distorcido ou não é
assimilado. Quantas criaturas passam a vida inteira desenvolvendo o
mito da „eterna criança‟, da „eterna vítima‟, do „cordeiro inocente‟, do
„bode expiatório‟, do „herói‟, do „salvador‟, etc.? Cada um que pretenda
conhecer melhor o significado de sua vida, seria útil tentar descobrir seu
mito individual, para onde apontam seus complexos positivos sob a
influência de determinados arquétipos (não se trata aqui um
determinismo imutável e sim de potencialidades).
Os arquétipos buscam se realizar nas diversas etapas da vida,
também denominadas ritos de passagem. Assim na infância,
determinadas representações têm lugar; na adolescência, outras (como
a passagem da pequena família para a grande família que é o mundo);
a maturidade com o sacrifício dos aspectos infantis e dependentes da
personalidade (arquétipo do sacrifício), a meia idade (a crise da persona
com a conseqüente preparação para a velhice e para a morte), a
velhice, a morte. Todas estas etapas exprimem-se através de
representações próprias que se assemelham nos diversos povos e
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Texto de Waldemar Magaldi Filho produzido em 1992
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culturas, em todas as épocas. Quando estas imagens atingem um


grande número de indivíduos com seu caráter numinoso, podem se
tornar símbolos.
Resumindo:
Arquétipos são estruturas primordiais que possuem capacidade
“orientadora” ou “atratora”, impulsionando os indivíduos na direção
evolutiva da psique. Porque os arquétipos estão para o psiquismo da
mesma forma que os instintos estão para a viabilidade e realização
biológica. Os arquétipos são inomeáveis e irrepresentáveis,
metaforicamente são como continentes de termos psíquicos universais
à espera de conteúdos advindos das experiências de cada existência.
Por isso, suas representações são subjetivas e parciais e surgem,
conscientemente e simbolicamente, na forma de imagens. Desta forma,
um mesmo arquétipo possui infinitas imagens arquetípicas, com
antagonismos, paradoxos, ambivalências e antinomias geradoras de
tensão, crise e conflitos, que são capazes de impulsionar a evolução,
destruir, paralizar ou ativar os complexos. Por exemplo, no arquétipo da
mãe/mulher/anima/feminino temos as seguintes antinomias:
Filha e mãe
Casada e solteira
Velha e jovem
Cuidadora e cuidada
Rainha e vassala
Santa e promíscua
Pura e impura
Fada e bruxa
Helena e Maria
Sophia e Alienada
Assexuada e puta
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Doadora e devoradora
Frigida e sensual
Bela e feia
Feminina e Animus

Símbolo

O símbolo ocorre quando o arquétipo surge no aqui e no agora,


podendo de algum modo, ser percebido pela consciência. Todo símbolo
tem que ser bem fundamentado em um arquétipo e apesar de nem todo
arquétipo ser um símbolo, ele sempre o é como possibilidade. Daí
nunca podermos lidar com o arquétipo diretamente, apenas
indiretamente através do núcleo do complexo e do símbolo.
O símbolo é a melhor formulação possível de algo desconhecido.
Quando conseguimos explicar alguma coisa através de analogias ou por
sua designação abreviada, estamos falando de sinal e não de símbolo
(esta é uma diferença fundamental entre Jung e Freud). Que a cruz
representa o amor de Jesus pela humanidade trata-se de uma
explicação e portanto estamos aqui lidando com um sinal; porém, se ao
depararmos com a cruz nos acometer um afeto insondável, capaz
inclusive de modificar nossa vida, então estamos falando de um
símbolo.
O símbolo contém sempre algo inapreensível que aponta para
adiante. Reflete a existência como projeto (pro-jetar).
Por outro lado, se algo é ou não um símbolo, depende do ponto de
vista da consciência que o contempla. Daí um mesmo fenômeno ser
sinal para um e símbolo para outro. Um caminho que se perde no
horizonte pode misteriosamente evocar uma continuidade em direção
ao infinito, como apenas significar um mero trajeto real e concreto. Uma
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ponte sobre um abismo pode representar o único meio de transporte de


um lugar para outro como também inexplicavelmente pode remeter à
imagem de uma ligação, da solução de um problema, do término de um
isolamento, etc.
Há porém representações cujo caráter simbólico independe do
ponto de vista consciente mas que se revela a partir de si próprio no
efeito sobre quem as contempla. São produtos de tal forma
estabelecidos que não têm sentido a não ser sob seu aspecto simbólico:
um olho dentro de um triângulo pode ser visto concretamente como algo
absurdo.
Quanto menos individual ou mais universal a camada da alma de
onde brota o símbolo, mais forte será sua expressão. Por exemplo, a
água, o fogo, a terra, a madeira, são todos fenômenos já
experimentados pela humanidade em sua realidade singela e concreta,
que porém adquiriram um inexplicável caráter imaterial, transcendental.
A casa como a personalidade, o sangue como vida e paixão, os animais
como os instintos e seu grau de desenvolvimento, servem de exemplo
disto.
Um símbolo é vivo quando é a expressão de algo que não possui
uma expressão melhor e só é vivo enquanto estiver prenhe de sentido.
Mas quando se torna explicável, ou encontra uma expressão que lhe
exponha o significado de modo satisfatório, então morre e passa a ser
um signo convencional. Como quando se tenta explicar tudo através da
ciência, como exige a visão cartesiana, o positivismo, o materialismo,
quando a doença é considerada apenas no seu caráter anátomo-
fisiológico, etc., temos ai a falência dos símbolos. Porém como a mente
humana está sempre produzindo símbolos, uns substituem os outros,
nem sempre com bom resultado.
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Um símbolo pode influenciar toda uma era, uma época (o espírito


da época de Hegel), uma nação, um agrupamento ou um único ser
humano. Quanto menos alcançável o seu significado, maior força terá.
O que muitas vezes é designado por espírito pode ser representado por
um símbolo: é a égide que comanda determinado grupo, determinado
pessoa, etc. como se observa em todas as modalidades de fanatismo.
Assim como o arquétipo que o engendra, o símbolo também
apresenta uma bipolaridade, apontando para trás e para adiante. As
categorias de tempo e de espaço ficam gradativamente mais relativas à
medida que se afastam da consciência e vão se dissolvendo no
inconsciente, quando então ocorre sua total independência em relação
ao acontecimento para permanecer apenas a sua essência, o seu
significado universal.
Como bipolar, o símbolo serve de unificador de pares opostos: a
consciência e o inconsciente (conforme veremos na função
transcendente). A palavra alemã para símbolo „sinnbild‟, literalmente
„imagem do sentido‟, vem a calhar pois contém „sentido‟ (sinn) como
elemento consciente e „imagem‟ (bild) que é a matéria prima do
inconsciente coletivo que, unida ao primeiro, adquire significado e
forma.
Com isto, observa-se também a união entre o masculino (forma) e
feminino (matéria prima) como „coincidentia oppositorum‟, daí os
alquimistas lidarem com o símbolo como „conjunctio‟ ou „casamento‟ –
mas apenas quando os opostos se fundem de tal maneira inseparáveis
a ponto de se transformarem no hermafrodita.
Enquanto existir equilíbrio entre os opostos que o símbolo une, ele
permanece vivo, porém, como no matrimônio real, quando um dos lados
domina ou prevalece sobre o outro, ocorre o desequilíbrio, também
neste caso o símbolo se torna sintoma de doença (como será visto ao
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estudarmos a natureza da psique) e no caso de um despedaçamento


completo, ele morre. Observa-se isto também no fanatismo: um dos
lados apontado pelo símbolo vai anulando o polo oposto compensador
para apenas uma direção prevalecer (os extremamente espirituais
esquecem-se do corpo físico, os extremamente materialistas, da alma,
etc.).
O símbolo é um elemento mediador entre opostos em qualquer
situação de vida, em qualquer cultura, em qualquer época. Os animais
lidam com sinais e não com símbolos. Comparado a eles, o homem vive
uma realidade mais ampla assim como uma nova dimensão da
realidade – ao lado da dimensão física, vive também a dimensão
simbólica. O homem é um animal simbólico. Tudo o que o cerca
representa algo como já dizia Schoppenhauer.
Estamos sempre em busca de algo em nossa atividade da qual
não temos muita clareza de suas origens nem de sua finalidade; ou
seja, algo sempre continuamente nos escapa da total compreensão.
Estamos continuamente elaborando símbolos. Para explicar estar eu
aqui escrevendo ao invés de fazer outra coisa, posso me utilizar do
argumento dos complexos dos quais ingenuamente presumo estar
consciente, assim como também posso fornecer muitas outras
explicações: dinheiro, prestígio, dar um sentido à vida, uma realização
espiritual e coisas semelhantes de que os manuais de auto ajuda estão
repletos à borda. Porém algo me escapa nesta motivação que
permanecerá para sempre um mistério e encerro as especulações,
respondendo: porque gosto e pronto!
Que a vida nunca seja compreendida inteiramente é um dos
atributos que a tornam interessante.
Segundo Jolande Jacobi, quando o arquétipo aparece no aqui e
no agora, podendo de algum modo ser percebido pela consciência,
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falamos de símbolo. No plano individual, o arquétipo pode se manifestar


também como complexo ou sintoma enquanto o símbolo trata-se de
uma imagem que em geral afeta muitas pessoas. Todo símbolo tem que
ser bem fundamentado em um arquétipo e apesar de nem todo
arquétipo ser um símbolo, ele sempre o é como possibilidade. O
arquétipo em si é energia psíquica aglomerada que em função do
caráter formativo da consciência (segundo Kant), pode adquirir „corpo‟,
„matéria‟, „forma plástica‟ e manifestar-se como imagem, representação
arquetípica ou seja, um símbolo. Daí nunca podermos lidar com o
arquétipo diretamente, apenas indiretamente através do núcleo do
complexo, do sintoma e do símbolo.
O símbolo é a melhor formulação possível de algo desconhecido.
A palavra provém de symbolon (do verbo grego symballo = trançar,
amontoar) e designa sempre um sentido profundo e invisível por trás do
que é percebido pela consciência. O símbolo refere-se tanto à união
quanto à separação: duas pessoas mesmo separadas encontram-se
unidas pelo símbolo da aliança, cujo significado transcende o de um
anel.
Ao se explicar alguma coisa através de analogias ou por sua
designação abreviada, estamos falando de sinal e não de símbolo;
diferença fundamental entre Freud e Jung para quem o símbolo contém
sempre algo inapreensível que aponta para adiante, refletindo a
existência como projeto (pro-jetar = lançar para diante). Assim a
fechadura pode representar um sinal vaginal; entretanto, considerando-
se que ao penetrar nela sua „chave‟ fálica, o homem ingressa em um
universo desconhecido e misterioso para ele, com tudo o que isto
implica, então, a fechadura é um símbolo.
Por outro lado, algo ser ou não um símbolo depende
exclusivamente do ponto de vista da consciência que o contempla. Daí
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um mesmo fenômeno ser sinal para uma e símbolo para outra. Um


caminho a se perder no horizonte pode misteriosamente evocar
continuidade rumo ao infinito, como apenas significar um trajeto real e
concreto. Uma ponte sobre o abismo pode representar o meio de
transporte de um local para outro como também inexplicavelmente pode
remeter à imagem de ligação, da solução de problema, término do
isolamento, etc.
A condição de bipedestração alcançada pela espécie humana, por
exemplo, serve de base à simbologia do „alto‟ e do „baixo‟, enquanto o
umbigo, por sua posição central, separa o „superior„ do „inferior‟, cuja
analogia com o céu (morada dos deuses) e a terra (ambiente dos seres
ctônicos e ligados à natureza) promove a localização do espírito e dos
instintos, respectivamente. O que se amplia a partir daí, pode inclusive
adquirir caráter temerário: semelhantes ao sol que habita as alturas, os
indivíduos claros, loiros, „solares‟, para determinadas ideologias, são
associados ao „superior‟, enquanto os escuros, morenos, ao carnal e ao
„inferior‟... (nas configurações iconográficas cristãs, os seres próximos a
Deus, com freqüência, são apresentados como claros e os relacionados
às forças infernais, escuros e sombrios).
Por sua vez, o umbigo („omphalos‟), ao mesmo tempo que se
associa ao „centro‟ por sua posição no corpo humano, também é
resquício da ligação com nossa primeira fonte de energia, daí a idéia de
„centro‟ simbolizar igualmente a ligação com fontes cósmicas e
transcendentais, sob determinadas imagens: montanhas, árvores, torres
– em especial, de igrejas – ou seja, lugares altos que possam configurar
a ligação do céu com a terra.
Neste mesmo raciocínio, a cruz, a roda, a estrela podem ser
usadas para designar marcas de firmas, bandeiras, luto, filiação
religiosa, etc. mas dependendo do contexto podem representar um
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símbolo. Que a cruz testemunhe o amor de Jesus pela humanidade é


uma explicação e portanto, um Sinal; porém, se ao depararmos com a
cruz nos acometer um afeto insondável, capaz inclusive de nos
transformar a vida, então estamos às voltas com um símbolo. Quanto
mais convencional, formal, for o espírito de alguém, levando tudo ao pé
da letra, mais fechado estará para acolher algo como símbolo, para ele
não passando de mero sinal (os intelectuais estão especialmente
incluídos entre eles, necessitando sempre da „tranqüilidade‟ da
explicação racional para tudo).
O símbolo sempre implica algo por se descobrir, em outras
palavras, remete ao futuro. Há porém representações cujo caráter
simbólico independe do ponto de vista consciente mas que se revela no
efeito sobre quem as contempla. São produtos de tal forma
estabelecidos que não têm sentido a não ser sob seu aspecto simbólico:
um olho dentro de um triângulo pode ser visto concretamente como algo
absurdo.
Quanto menos individual ou mais universal a camada da alma de
onde brota o símbolo, mais forte será sua expressão. Por exemplo, a
água, o fogo, a terra, a madeira, são todos fenômenos já
experimentados pela humanidade em sua realidade singela e concreta,
que porém adquiriram caráter imaterial, transcendental. A casa como a
personalidade, o sangue como vida e paixão, os animais como os
instintos e seu grau de desenvolvimento, são exemplos.
Algo perfeitamente explicável em suas origens pode ser um sinal,
sintoma (como nos delírios) ou complexo, jamais um símbolo.
Um símbolo é vivo quando expressão de algo que não possui
expressão melhor e só é vivo enquanto prenhe de sentido. Mas ao se
tornar explicável ou encontrar o que lhe exponha o significado de modo
satisfatório, então morre e passa a ser um signo convencional. Como
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por exemplo, ao se tentar explicar tudo através da ciência, como exige a


visão cartesiana, o Positivismo e o Materialismo, quando a doença é
considerada apenas no seu caráter anátomo-fisiológico, etc., temos ai a
falência dos símbolos. Porém como a mente humana está sempre
elaborando símbolos, uns substituem os outros (nem sempre com bom
resultado).
Bipolaridade do símbolo
Como o arquétipo que o engendra, o símbolo também apresenta-
se bipolar, apontando para trás e para adiante, as categorias de tempo
e de espaço gradativamente mais relativas à medida que se afastam da
consciência e se dissolvem no inconsciente, até ocorrer sua total
independência em relação ao acontecimento, permanecendo apenas
sua essência, seu significado universal.
Como bipolar, o símbolo serve de unificador de pares opostos: a
consciência e o inconsciente (conforme veremos na função
transcendente). A palavra alemã para símbolo „sinnbild‟, literalmente
„imagem do sentido‟, contém „sentido‟ (sinn) como elemento consciente
e „imagem‟ (bild) que é a matéria prima do inconsciente coletivo que
unida ao primeiro, adquire forma e significado.
Com isto, observa-se também a união entre o masculino (forma) e
o feminino (matéria prima) como „coincidentia oppositorum‟, dos
alquimistas lidarem com o símbolo como „conjunctio‟ ou „casamento‟ –
mas apenas quando os opostos se fundem de tal modo inseparáveis a
ponto de se transformarem no hermafrodita.
Enquanto existir equilíbrio entre os opostos unidos pelo símbolo,
ele permanece vivo, porém, como no matrimônio real, quando um dos
lados domina ou prevalece sobre o outro, ocorre o desequilíbrio e
também neste caso o símbolo se transforma em sintoma de doença
(como será visto na dinâmica da psique) e no caso de um
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despedaçamento completo, ele morre. O que se observa no fanatismo:


um dos lados apontado pelo símbolo anula o polo oposto compensador
para apenas uma direção prevalecer (os extremamente espirituais
esquecem-se do corpo físico, os extremamente materialistas, da alma,
etc.).
Elemento mediador
O Símbolo é um elemento mediador entre opostos em qualquer
situação de vida, em qualquer cultura, em qualquer época.
Os animais lidam com sinais não com símbolos. Comparado a eles, o
homem vive uma realidade mais ampla assim como uma nova dimensão
desta realidade – ao lado da dimensão física, vive também a dimensão
simbólica. Para Cassirer o homem é um animal simbólico e tudo que o
cerca representa-lhe algo, como dizia Schoppenhauer.
O símbolo é um mediador entre a incompatibilidade do consciente
e do inconsciente, entre o revelado e o oculto („ele não é nem abstrato
nem concreto, nem racional nem irracional, nem real nem irreal, é
sempre ambos‟), colocando-se „além do bem e do mal‟, ou seja,
contendo ambos os significados como possibilidades em sua estrutura,
dependendo somente da disposição da consciência e do modo como é
assimilado, para ser acionado um deles.
A capacidade da psique em produzir símbolos, isto é, de unir
opostos em síntese fornecedora de energia ao prosseguimento da vida,
Jung denomina função transcendente da psique, nome emprestado da
matemática, onde designa a união dos números reais com os
imaginários, sem caráter metafísico, apenas o de „transcender‟ de um
lado para o outro.
O símbolo transforma a energia psíquica no sentido de orientar,
curar e restaurar. Os elementos dos sonhos podem, inclusive, serem
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analisados tanto ao nível do objeto (quando considerados tais como


surgem) e ao nível do sujeito (simbolizando partes de quem sonha).
Símbolos individuais e coletivos
Assim como existem símbolos resultantes da evolução histórica do
espírito humano, existem os que possuem significado especial para
determinado indivíduo, tornando-se muitas vezes o único bem deste
indivíduo ou de alguns poucos, auxiliando-os a lidarem com o
inexplicável, o obscuramente intuído, aliviando-lhes o isolamento. No
trabalho psicoterápico, observa-se quanto uma pessoa, situação, um
fenômeno, enfim, é capaz de fascinar, perturbar, estimular, paralisar a
ação psíquica de alguém, simbolizando algo inatingível em seu
significado (o que, obviamente remete ao complexo, porém aqui com um
caráter particularmente insondável em seu efeito).
Os símbolos não são inventados: nascem espontaneamente,
como os símbolos religiosos ou hierofanias, que são produtos
espontâneos da atividade inconsciente desenvolvidos no correr dos
séculos e cujo „caráter revelador‟ promove sua propagação e efeito na
história humana.
Os mais impressionantes símbolos coletivos encontram-se na
mitologia, assim como contos e fábulas da maioria dos povos que
apresentam semelhanças estruturais flagrantes, os temas básicos
ressurgindo de modo autônomo e autóctone. Os deuses e protagonistas
das lendas não são mais que elementos da psique projetados,
possibilidades arquetípicas de cada indivíduo que lhe permitem assim
elevar-se da condição comum em direção à grandiosidade cósmica. Um
símbolo pode influenciar toda uma era, uma época (o espírito da época
de Hegel), uma nação, um agrupamento ou um único ser humano.
Quanto menos alcançável o seu significado, maior força terá. O que
muitas vezes é designado por Espírito pode ser representado por um
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símbolo: a égide que comanda determinado grupo, uma pessoa, etc.


como se observa em todas as modalidades de fanatismo.
Cabe aqui enfatizar a separação entre arquétipos do inconsciente
coletivo (elementos que atuam sobre o Ego no sentido de um
comportamento específicamente humano, tanto biológico-instintivo
como ideativo-espiritual) dos arquétipos do consciente coletivo (normas,
regras, costumes, idéias típicas de determinada cultura). Enquanto os
primeiros são carregados de numinosidade, fornecendo sentido à base
instintiva do ser humano, estes aglomeram-se em montanhas de
opiniões que podem se tornar perigosos „ismos‟ (capitalismo,
socialismo, fascismo, nazismo, etc.), subjugando o homem e afastando-
o de sua verdadeira natureza. Tratam-se de fenômeno arquetípico, pois
é próprio do homem opor aos poderes do inconsciente coletivo, os
poderes do consciente coletivo, os quais, apesar de racionais, baseiam-
se em arquétipos, funcionando muitas vezes como símbolos. O Estado
absoluto é exemplo disto, onde a figura do tirano constitui ou reconstitui
de modo longínqüo, uma hierarquia social de caráter numinoso.
E entre estas duas esferas – o inconsciente coletivo e o
consciente coletivo – situa-se o Ego, ameaçado de ser tragado ou
subjugado, tentando funcionar como mediador entre ambos. Se
absorvido pelo consciente coletivo, surge o „Ego massificado‟; se pelo
inconsciente coletivo, o Ego utopista, individualista ou até psicótico.
Atuamos e pensamos, automaticamente de acordo com a nossa
herança cultural, sem reflexão crítica a respeito. Repetimos o que nos
foi ensinado, o que escutamos como se fossem nossos (quantas vezes,
repetimos o mesmo erro a vida inteira e apelidamos isto de
„experiência‟!) até o consciente coletivo e o inconsciente coletivo
entrarem em conflito e percebermos o quanto é difícil nos libertarmos
dessas duas esferas. A condição para a libertação é o máximo possível
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de uma consciência individual capaz de discernir um Ego ciente de suas


limitações e sua necessidade de estabelecer uma relação recíproca
entre ambas as esferas.
Convém citarmos aqui os símbolos que surgem no denominado
processo de individuação que é um processo parcialmente consciente
de desenvolvimento psíquico, inerente a cada ser humano a fim de
ampliar a própria consciência, podendo, inclusive, ser promovido pela
análise. Estes símbolos marcam o desenvolvimento do processo,
apresentando-se sob a forma de fantasias, visões, sonhos e até
fenômenos considerados „estranhos‟. Entre eles destacam-se o Velho, a
Velha, a Criança, a Mãe, o Pai, as respectivas contra-partidas sexuais
do homem e da mulher, o aspecto sombrio da personalidade e muitos
outros. Assim como a „totalidade do ser‟ está contida em cada semente,
a alma humana também é orientada para seu desenvolvimento a fim de
obter o máximo possível de inteireza, mesmo sem conhecimento disto e
inclusive resistindo a tanto.
A transformação dos símbolos
Junto à atividade produtora de símbolos que lhe permite
prosseguir a vida para diante, a psique possui igualmente a capacidade
de transformá-los (ponto fundamental da psicologia de Jung, tema do
importante trabalho que deflagrou sua separação de Freud).
Assim como é ilimitado o número de arquétipos (correspondem a
todas situações típicas da vida), infinitamente maior deve ser o número
de símbolos dada a capacidade em serem transformados como
resultado dos acréscimos individuais da consciência e variações sem
conta.
Exemplo comum: a família. Para alguns, símbolo dos mais
poderosos, a ponto de se sacrificarem para sua manutenção – o
„martírio‟ de mães e pais – mas que também se transforma, pois os
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filhos crescem e abandonam o lar. Caso os „maritizados‟ não se


adaptem à modificação, acabam por perder o símbolo e com freqüência,
experimentam depressão (síndrome da „locomotiva parada‟). Igualmente
no casamento, quando os cônjuges trazem símbolos das respectivas
famílias que devem ser transformados por eles em um terceiro, pois
caso insistam em manter os costumes ancestrais, fatalmente, um dos
cônjuges abrirá mão dos seus e a nova família permanece sem
símbolos próprios. Daí as conhecidas tradições familiares
representarem regressão ou aniquilamento simbólicos quando impedem
modificações de seus cânones ou manifestações expontâneas dos
novos membros.
Pois em qualquer tempo, o mágico e o numinoso, o misterioso e o
irracional são sempre oferecidos, porém raramente reconhecidos. Cada
época fornece ao numinoso, a „roupagem‟ adequada (por exemplo, os
corredores de bigas romanas ressurgem na atual Fórmula Um assim
como nos amaldiçoados „rachas‟, sempre na tentativa do homem em
superar uma de suas mais incômodas limitações: a velocidade - aliás,
símbolo extremamente importante em nosso tempo, a ponto de, à
maneira de Hegel, quase estabelecer um autêntico „Espírito de época‟).
Por outro lado, os mitos devem se renovar com uma linguagem
psicológica acessível ao seu tempo. Hoje, o herói viaja através do
espaço (um seriado cinematográfico mostra isto de modo oportunista e
inteligente), o monstro a ser vencido é o desafio dos computadores, e
assim por diante, cada época fornecendo nova vestimenta à „verdade
eterna‟ no que os símbolos continuam a nos impressionar de modo
revigorante e rejuvenescedor.
No fundo, estamos em busca de novos mitos, isto é, a melhor
tradução simbólica para as „verdades eternas‟, além de perseguirmos
algo em nossa atividade da qual não temos muita clareza da origem
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nem da finalidade; ou seja, algo sempre continuamente nos escapa da


total compreensão. Estamos continuamente elaborando símbolos. Para
explicar estar eu aqui escrevendo ao invés de fazer outra coisa, posso
me utilizar do argumento dos complexos dos quais ingenuamente
presumo ser consciente, assim como também posso fornecer outras
explicações: dinheiro, prestígio, dar sentido à vida, realização espiritual
e coisas semelhantes de que os manuais de auto ajuda estão repletos à
borda. Porém algo me escapa nesta motivação que permanecerá para
sempre um mistério e encerro minhas especulações, respondendo
simplesmente: porque gosto e pronto!
Que a vida nunca seja compreendida inteiramente é um dos
atributos que a fazem interessante.

A SOMBRA

No Dicionário Crítico de Análise Junguiana, ( Andrew Samuels e


col., ed. IMAGO, 1988) temos:
Em 1945, Jung deu uma definição mais direta e clara da sombra:
"a coisa que uma pessoa não tem desejo de ser" ( CW 16, parág. 470).
Nesta simples afirmação estão incluídas as variadas e repetidas
referências à sombra como lado negativo da personalidade, a soma de
todas as qualidades desagradáveis que o indivíduo quer esconder, o
lado inferior, sem valor, e primitivo da natureza do homem, a "outra
pessoa" em um indivíduo, seu próprio lado obscuro. Jung era
perfeitamente consciente da realidade do MAL na vida humana.
Vezes e mais vezes enfatizou que todos nós temos uma sombra,
que toda coisa substancial emite uma sombra, que o EGO esta para a
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sombra como a luz para a penumbra, que é a sombra que nos faz
humanos.
Todos nós temos uma sombra, e quanto menos ela está
incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é.
Se uma inferioridade é consciente, sempre se tem uma oportunidade de
corrigi-la. Além do mais, ela está constantemente em contato com
outros interesses, de modo que está continuamente sujeita a
modificações. Porém, se é reprimida e isolada da consciência, jamais é
corrigida, e pode irromper subitamente em um momento de
inconsciência. De qualquer modo, forma um obstáculo inconsciente,
impedindo nossos mais bem intencionados propósitos. ( CW 11, parág.
131)....Visto a sombra ser um arquétipo, seus conteúdos são
poderosos, marcados pelo afeto, obsessivos, possessivos, autônomos-
em suam, capazes de alarmar e dominar o ego estruturado. Como todos
os conteúdos capazes de se introduzir na consciência, no início
aparecem na projeção e, quando a consciência se vê em uma condição
ameaçadora ou duvidosa, a sombra se manifesta como uma projeção
forte e irracional, positiva ou negativa, sobre o próximo. Aqui Jung
encontra uma explicação convincente não só das antipatias pessoais,
mas também dos cruéis preconceitos e perseguições de nosso tempo.
Analisar e admitir a sombra é romper com as influências compulsivas e
invasivas que ela produz.
Em Aion e o simbolismo do sí mesmo de C. G. Jung, ed. Vozes,
temos:
A figura mais facilmente acessível à experiência é a sombra, pois
é possível ter um conhecimento bastante aprofundado de sua natureza.
A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a
personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar
consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta
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tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos


da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base
indispensável para qualquer tipo de auto conhecimento e, por isso, via
de regra, ele se defronta com considerável resistência.
Uma pesquisa mais acurada dos traços obscuros do caráter, isto
é, das inferioridades do indivíduo que constituem a sombra, mostra-nos
que esses traços possuem uma natureza emocional, uma certa
autonomia e, conseqüentemente, são do tipo obsessivo, ou melhor,
possessivo. Os afetos, via de regra, ocorrem sempre que os
ajustamentos são mínimos e revelam, ao mesmo tempo, as causas da
redução desses ajustamentos, isto é, revelam uma certa inferioridade e
a existência de um nível baixo da personalidade. Nesta faixa mais
profunda o indivíduo se comporta, relativamente às suas emoções
quase ou inteiramente descontroladas, mais ou menos como o primitivo
que não só é vítima abúlica de seus afetos, mas principalmente revela
uma incapacidade considerável de julgamento moral.
A sombra pode ser integrada de algum modo na personalidade,
enquanto certos traços, opõem obstinada resistência ao controle moral,
escapando portanto a qualquer influência. De modo geral estas
resistências ligam-se a projeções que não podem ser reconhecidas
como tais e cujo conhecimento implica um esforço moral que ultrapassa
os limites habituais do indivíduo.
Não é o sujeito que projeta, mas o inconsciente. Não se cria a
projeção; ela já existe de antemão. A consequência da projeção é um
isolamento do sujeito em relação ao mundo exterior, pois em vez de
uma relação real o que existe é uma relação ilusória. As projeções
transformam o mundo externo na concepção própria, mas
desconhecida. Por isso, fundo, as projeções levam a um estado de auto
erotismo ou autismo, em que se sonha com um mundo cuja realidade é
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Texto de Waldemar Magaldi Filho produzido em 1992
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inatingível. O "sentimento d'incomplétude" ( sentimento de


incompletude) que daí resulta, bem como a sensação mais incômoda
ainda de esterilidade são explicados de novo, como maldade do mundo
ambiente e, com este círculo vicioso, se acentua ainda mais o
isolamento. Quanto mais projeções se interpõem entre o sujeito e o
mundo exterior, tanto mais difícil se torna para o eu perceber suas
ilusões.
Como arquétipo a sombra também é uma entidadew distinta, com
uma tendência a se personificar, hierarquicamente temos o costume de
começar de fora para dentro, iniciando-se com a persona, que indica a
máscara ou fachada social que assumimos para enfrentarmos o mundo,
onde podemos ter os nossos papeis sociais. A sombra é o próximo
arquétipo, representando aquilo que nego, desprezo e não aceito de e
em mim mesmo, podendo ser também o resultado de inibições ou de
tendências esquizóides. Muitas vezes a instintividade esta na sombra, e
através do processo de análise se torna mais aceitável para o indivíduo.
Em geral, as atitudes em relação a sombra são uma mistura de
julgamento, aceitaçã/o e integração, se possível nesta ordem.
J.J.Clarke, no livro Em busca de Jung, cita:
A vida civilizada exige hoje um funcionamento consciente,
concentrado, dirigido, e isso acarreta o risco de uma considerável
dissociação do inconsciente. Quanto mais conseguimos nos afastar do
inconsciente através de funcionamento rígido, mais prontamente uma
poderosa contraposição pode formar-se no inconsciente e, quando
explode, talvez provoque desagradáveis consequências.

ENERGIA PSÍQUICA
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A energia psíquica foi um dos principais fatores que


contribuíram para o rompimento entre Freud e Jung. Porque para Jung
a energia psíquica não pode se expressar em um único sentido, de
caráter exclusivamente sexual.
A energia psíquica, ou libido, é limitada em quantidade, além
de ser indestrutível. O seu sentido é neutro em caráter, podendo se
expressar sob vários aspectos.
O conceito de energia psíquica é uma metáfora que hoje
pode incorporar muitos dos conceitos da física moderna. Onde tudo é
energia, o que vai variar é a intensidade de vibrações ou movimentos e,
que esta energia pode se manifestar sob muitos aspectos como, o
elétrico, mecânico, térmico, nuclear, solar, etc. Assim não é coerente
nem lógico, que a energia psíquica se manifeste apenas na forma de
pulsão sexual.
Entre os vários canais que a energia vital pode fluir e se
expressar, temos o moral, o biológico, o psíquico, o espiritual, etc. E,
quando um canal, por razões diversas como repressões ou defesas,
estiver bloqueado para o livre fluxo da energia, ela se desviará para os
outros canais livres, pois seu fluir não pode parar. Assim percebemos as
diferenças interpessoais, pois o investimento energético de uma pessoa,
nunca será igual ao investimento de uma outra pessoa, variando em
graus quantitativos, canais e etc.
Os símbolos são as "usinas" que vão transformar a energia
psíquica, redimensionando-a e direcionando-a mas, pela empiria, Jung
percebeu que o sentido final da energia psíquica é na direção
teleológica, como se cada vida tivesse um objetivo a ser alcançado,
diferenciado e integrado.
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Jung sempre enfocou a energia psíquica, como um meio de


transformação, onde sua orientação é no movimento ascendente, porém
analógico e circular, partindo dos impulsos mais instintivos e primitivos
para as áreas da espiritualidade e da transcendência.
A totalidade do psiquismo é formada como um sistema
energético relativamente fechado, permanecendo o mesmo em
quantidade. Assim, se ocorrer o abandono de um investimento da
energia em um campo, este investimento irá reaparecer sob outra
forma, no mesmo psiquismo. Desta forma a psique esta em constante
dinamismo, onde as correntes de energia cruzam continuamente, em
todas as direções possíveis.
A progressão da libido é resultante da necessidade vital, que
todos nós temos, para a adaptação ao meio externo, gerando
conquistas, crescimento social, expansão, etc. Já o retrocesso da
energia vai reativar os conteúdos do mundo interior, provocando
introspecção, melancolia e até depressão. Assim percebemos que esta
energia está em permanente e inacabável movimento de fluxo e refluxo,
como a tábua das marés, as estações do ano, o dissolve e coagula da
alquimia, ondas e partículas quânticas, etc.
A progressão e a regressão, da energia psíquica, não pode
estar diretamente proporcional à evolução e involução do
desenvolvimento da personalidade como um todo. Com isso
percebemos que é igualmente frágil, tanto aquele indivíduo que vive
investindo toda a sua energia no sentido progressivo e externo, pois vai
ficando "vazio" de conteúdos internos e de auto conhecimento, como
aquele que fica constantemente melancólico e depressivo, pois toda a
sua libido esta no mundo interior, não se permitindo à troca e ao
crescimento que a relação com o meio externo trará.
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Para Jung, o constante confronto entre a natureza e o


espírito, é que vai promover e contribuir para o crescimento, a auto
regulação e ao equilíbrio psíquico.
Os símbolos transformam a energia, deslocando-a do
inconsciente ao consciente. Com este movimento vão ocorrendo as
transformações, o casamento de opostos que nominamos de coniunctio,
que representa o símbolo alquímico de uma união de substâncias
desiguais. Onde temas como a morte, o novo nascimento, a perda e a
transformação vão surgindo. Os símbolos sempre vão ter alguma coisa
desconhecida e inesgotável, com isso eles promovem a transcendência,
pois fazem a síntese do consciente com o inconsciente.