Educação técnica de nível médio: como avançar?
http://www.schwartzman.org.br/sitesimon/?p=5307&lang=pt-br
Simon Educaçao Profissional 2015-11-09
Participei, no dia 5 de outubro, de uma Audiência Pública
da Comissão de Educação da Câmara de Deputados
sobre o tema da educação técnica e profissional no
Brasil. Na semana anterior, tive também a oportunidade
de participar, em Manaus, de reunião do Conselho
Nacional de Secretários de Educação (CONSED), aonde
foi elaborada uma proposta de revisão do Projeto de Lei
6840 de reforma do ensino médio. O que observo é que
há um consenso crescente sobre a necessidade de
reformar o ensino médio brasileiro em quatro pontos
fundamentais:
- ao invés de um currículo uniforme e carregado de matérias, deve haver um currículo diferenciado, com
uma base comum e opções de formação e aprofundamento em diferentes áreas;
- o ensino técnico de nível médio deve ser uma destas opções, e não, como é hoje, um curso adicional;
- o ENEM precisa ser modificado para refletir esta mudança, passando a ter uma parte comum e
avaliações opcionais diferentes para as diferentes áreas;
- e a base nacional curricular comum, hora em discussão, tem que refletir este formato. O texto abaixo
resume os principais pontos que procurei apresentar na Audiência Pública sobre educação técnica e
profissional, para discussão:
Diagnóstico e Perspectivas para a Educação Técnica e Profissional do Brasil: Pontos para
Discussão
Conceito: A expressão “educação técnica e profissional” pode significar coisas muito distintas, desde a
formação inicial de curta duração (160 horas) em atividades simples até formação especializada em nível
de pós-graduação, e inclui também a formação proporcionada por cursos não regulamentados e empresas
privadas. No Brasil, “educação técnica” é o termo utilizado para a formação profissional de nível médio,
que tem uma duração de 800 a 1200 horas, independentemente do conteúdo, e é neste sentido que o
termo será usado aqui.
A Educação Técnica no Brasil e no mundo: Em todo o mundo, a educação técnica e profissional é uma
das opções de formação de nível médio, ao lado de outras opções de formação geral ou de preparação
para estudos universitários. No Brasil, diferentemente do resto do mundo, a educação técnica é uma
capacitação adicional ao ensino médio regular. O ensino médio regular requer atualmente 2.400 horas de
estudo em três anos: o estudante que desejar obter uma qualificação técnica terá que cumprir 2.400 mais
800 ou 1.200 horas de formação conforme sua área de estudo. Esta é uma situação absurda que
necessita ser urgentemente corrigida.
Consequências do modelo brasileiro de educação técnica e profissional
A atual legislação permite que a educação técnica seja feita de forma integrada, concomitante e
subsequente ao ensino médio regular, mas não como alternativa. Pelos dados mais recentes, do censo
escolar de 2014, haviam 1.784 mil estudantes matriculados em cursos técnicos, 16,4% do total de
matrículas neste nível. Destes, um milhão estavam em cursos subsequentes, ou seja, já haviam terminado
o ensino médio regular e agora voltavam para obter uma certificação profissional que deveriam ter obtido
durante o próprio ensino médio. O principal provedor de educação técnica é o setor privado, 693 mil
alunos, seguido dos sistemas estaduais, 536 mil, com destaque para o sistema Paula Souza de Sao
Paulo, e depois o Sistema S e o governo federal, com cerca de 300 mil cada um. No atual formato, a
educação técnica integrada ao ensino médio regular. considerada como preferida, só ocorre em
instituições públicas federais e estaduais, e só atende a 366 mil estudantes em total, uma pequena
maioria.
As consequências do atual sistema brasileiro são:
Para a grande maioria dos jovens, o ensino médio nem permite acesso ao ensino superior (que não
chega a absorver 20% dos jovens) nem qualifica para o mercado de trabalho;
para os que conseguem uma qualificação técnica de ensino médio, a obrigação de completar o currículo
da educação regular é uma exigência burocrática desmedida, que traz pouco ou nenhum benefício,
devido à sua má qualidade, sobretudo nas redes estaduais;
O Brasil nao consegue formar técnicos especialistas de nível médio na quantidade e qualidade
necessários para a sua economia.
Para superar esta situação, é preciso alterar a atual legislação sobre o ensino médio, modificar o atual
sistema da avaliação do ensino médio – o ENEM – e alterar a base nacional curricular comum que está
sendo proposta pelo Ministério da Educação. Os pontos principais são:
Alterar o currículo obrigatório do ensino médio. No atual formato, o currículo do ensino médio exige um
total de 13 a 15 matérias obrigatórias, entre as quais sociologia, filosofia e espanhol. No formato
proposto:
Metade das horas destinadas ao ensino médio (1.200 das 2.400 obrigatórias) seriam para a formação
geral, comum a todos, com ênfase em matemática e linguagem; e metade seria em áreas opcionais de
aprofundamento, em linguagens, matemática, ciências naturais, ciências humanas, e formação técnica
profissional.
Os temas regionais dos diferentes estados devem ser incluídos na parte comum, e não pa parte opcional
de aprofundamento e especialização.
Dentro destas áreas as únicas matérias obrigatórias seriam o português, matemática e inglês. As demais
seriam dadas conforme as orientações das redes escolares e das propostas educacionais das escolas.
Mudar o projeto da Base Nacional Curricular Comum que está sendo elaborado. O proposta da Base
Nacional é muito extensa e detalhista, inclusive para o ensino médio, não considera o tempo necessário
para ensinar tudo isto, e não abre espaço para opções e aprofundamento. Para o ensino médio, ela
deveria se limitar aos conteúdos comuns, que poderiam depois ser aprofundados ou nao pelos
estudantes conforme suas opções.
Alterar o ENEM. O atual ENEM, como uma prova enciclopédica em todas as áreas, impõe o mesmo
currículo para todo o ensino médio, e é incompatível com um sistema diferenciado e modular como o que
está sendo proposto.
Um ENEM reformado deveria:
Ser dividido entre uma parte geral, com ênfase em competências no uso da lingua portuguesa e do
raciocínio matemático, e provas específicas e opcionais em ciências físicas, biológicas, sociais,
linguagem, etc.
Todos os alunos deveriam fazer a parte comum, e optar por uma das provas específicas.
A aplicação das provas deveria ser distribuída no espaço e no tempo, fazendo uso das modernas
técnicas de avaliação em larga escala disponíveis
As universidades, ao selecionar seus alunos deveriam ser estimuladas a combinar os resultados destas
provas com outros critérios regionais e associados a seus projetos pedagógicos.
Criar sistemas específicos de certificação profissional para os cursos técnicos. De forma análoga, o
desempenho dos alunos nos cursos técnicos poderia ser objeto de certificação profissional, dada por
instituições devidamente autorizadas, como associações profissionais, o Sistema S, ou sistemas de
ensino como os Institutos Federais de Ciência e Tecnologia e o Sistema Paula Souza em São Paulo.
Fortalecer o sistema de formação técnica através de parcerias com o setor produtivo e com
instituições especializadas, e fazendo uso da Lei de Aprendizagem. O ensino técnico profissional,
para ter bons resultados, necessita de experiência prática. O Brasil tem pouca experiência de ensino
profissional em larga escala, e dificilmente as atuais escolas da rede estadual teriam condições, por elas
mesmas, de criar cursos técnicos de qualidade a curto prazo. Por isto, é necessário desenvolver
diferentes formas de cooperação das escolas com o setor produtivo, incluindo serviços como hospitais,
com o sistema S e outras instituições especializadas, que possam ajudar tanto na definição dos
currículos quanto no compartilhamento de recursos e na oferta de estágios sob supervisão.
Implicações financeiras. Existem várias implicações financeiras neste novo modelo, que precisam ser
consideradas:
Ao ser incluído como parte opcional dentro dos cursos médios regulares, a educação profissional passa a
ser coberta pelo FUNDEB. Em caso de cursos dados em parcerias com outras instituições públicas ou
privadas, estes recursos poderiam ser compartidos conforme a carga horária de cada um;
Para os alunos que já concluíram ou concluam o ensino médio e desejam obter uma certificação
profissional adicional haverá um custo extra não coberto pelo FUNDEB, e será necessário um
financiamento adicional.
De maneira geral, por requerer equipamentos e instalações adequadas, a educação técnica é mais cara
do que a educação geral, e por isto mesmo é necessário ter mecanismos específicos de financiamento,
na linha do PRONATEC.
Implicações quanto aos professores. Em termos gerais, a reorganização do ensino médio como está
sendo proposta poderá tornar alguns professores sem função, e exigir professores com competências
específicas que hoje não existem em número suficiente. Isto requer políticas adequadas de transição e de
formação de professores, que são importantes mas de tipo administrativo, e não requerem legislação
especial.
A situação é ainda mais didicil para o ensino profissional, que requer que os professores tenham
experiência concreta de trabalho, e não necessariamente as licenciaturas requeridas pelo ensino médio
regular. É importante que os professores não deixem o setor produtivo para trabalhar nas escolas, sob o
risco de se desatualizar. Isto requer um sistema flexível de contratação temporária, e mais autonomia
para a redes selecionarem os professores segundo critérios próprios e diferentes dos utilizados para o
ensino geral.
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