Anda di halaman 1dari 125

Olhar v i t r i n a s , da forma comum, não seduzia Miss M ar pl e ;

e l a porém d i v e r t i a - s e imenso descobrindo novos modelos de


t r i c ô , novas variedades de l ã para t r i c o t a r , e o u t r a s
prec i osi dades i d ê n t i c a s . Fez uma excursão e s p e c i a l a Richmond
a f i m de r e v e r a casa onde morara seu t i o - a v ô Thomas, o
a l m i r a n t e reformado. O b o n i t o t e r r a ç o ainda e x i s t i a , mas
parece que a casa f o r a transformada em apartamentos. Mais
penoso ainda f o i o caso de Lowndes Square, onde v i v e r a com
r e l a t i v o esplendor uma sua prima d i s t a n t e , Lady M er r i d e w : l á
se e r g u i a agora um vas t o arranha-céu de aspecto m o d e r ni s t a .
Miss Marple abanou a cabeça t r i s t e m e n t e e d i s s e com f i r m e z a de
s i para s i : “ S e i que p r e c i s a haver pr o g r es s o . Mas a prima
E t h e l est r em ecer i a na s e p u l t u r a se soubesse d i s s o ” .
Numa t a r d e especialmente amena e a g r a d á ve l , Miss Marple
embarcou num ônibus que a levou a B a t t e r s e a B r i d g e . I a
e nt r e g ar - s e ao duplo pr az e r de dar uma espiada s e n t i m e n t a l em
P r i n c e s Terrace Mansions, onde v i v e r a o u t r o r a uma a n t i g a
governanta s u a, e v i s i t a r B a t t e r s e a P a r k . A p r i m e i r a p a r t e do
programa f r a c a s s o u . A a n t i g a r e s i d ê n c i a de Miss Ledbury
desaparecera sem d e i x a r v e s t í g i o s e f o r a s u b s t i t u í d a por um
grande monte de c on cr et o r e l u z e n t e . Miss Marple d i r i g i u - s e
então para B a t t e r s e a P a r k . Sempre f o r a boa a n d a r i l h a , mas
devi a c onf essar agora que a sua capacidade de caminhar j á não
era mais a mesma. Bastava meia m i l h a para a f a t i g a r . Pensou,
porém, que poderia dar conta da t r a v e s s i a do parque, chegando
at é a Chelsea B r i d g e e l á descobrindo uma l i n h a de ônibus que
l h e s e r v i s s e ; aos poucos, porém, seus passos iam-se tornando
mais l e n t o s , cada vez mais l e n t o s , e f o i com pr a z er que Miss
Marple descobriu uma casa de chá s i t u a d a num caramanchão à
margem do l a g o .
Apesar da f r i a g e m do outono, ainda serviam chá a l i ; mas
hoje não havi a muit a g e nt e : c e r t a quantidade de mães com os
seus bebês nos c a r r i n h o s e alguns pares de namorados. Miss
Marple r e u n i u numa bandeja uma x í c a r a de chá e duas f a t i a s de
p ã o - d e - l ó . Levou cuidadosamente a bandeja para uma mesa e
s e nt o u - s e . Era de chá que estava pr ec i s a n d o . F o r t e , quente,
reanimador, Reanimada, e l a olhou em t o r n o , e a vi s t ando de
repente uma c e r t a mesa, empertigou-se na c a d e i r a . Que estranha
c o i n c i d ê n c i a ! E s t r a n h í s s i m a ; p r i m e i r o na Army & Navy S t o r e s e
agora a l i . Que l uga r es mais inesperados aqueles d o i s
es c o l hi am ! Mas não! H avi a engano. Notava-se uma c e r t a
semelhança, c l a r o — o cabelo l o u r o , com prido, mas não era Bess
S ed g wi c k, era alguém mais jovem. C l a r o ! Era a f i l h a d e l a ! A
mocinha que e n t r a r a no B e r t r a m ’ s com o amigo de Lady S e l i n a
H az y, o C oronel Luscombe. Mas o homem era o mesmo que almoçara
com Lady Sedgwick em Army & Navy S t o r e s . Quanto a i s s o não
havi a a menor d ú v i d a : o mesmo p e r f i l b o n i t o , a q u i l i n o , o mesmo
corpo esguio e r i j o , a mesma obsti nação p r e d a t ó r i a e… s i m , a
mesma atraç ão f o r t e e v i r i l .
— Não es t á bem! — d i s s e consigo Miss M a r pl e . — Não es t á
nada bem! C r u e l ! I n e s c r u p u l o s o . Não gosto de v e r essas c o i s a s .
P r i m e i r o a mãe, agora a f i l h a . Que s i g n i f i c a i s s o ?
C oisa boa não s i g n i f i c a v a . D i s s o Miss Marple t i n h a c e r t e z a .
Raramente Miss Marple concedia a alguém o b e n e f í c i o da d ú v i d a ;
i n v a r i a v e l m e n t e pensava o p i o r e , nove vezes em dez — assim
af i r m a va e l a i n s i s t e n t e m e n t e , — t i n h a r a z ã o . Aqueles
e nc o n t r o s , estava c e r t a d i s s o , eram mais ou menos s e c r e t o s .
Notou e l a então o modo como aqueles d o i s se debruçavam sobre a
mesa, at é quase tocarem as cabeças; e a seriedade com que
f a l a v a m . O r o s t o da moça — Miss Marple t i r o u os ó c u l o s , limpou
cuidadosamente as l e n t e s e tornou a p ô - l o s . S i m , aquela moça
estava apaixonada. Perdidamente apaixonada, como só os j ovens
podem e s t a r . Mas como é que os t u t o r e s del a consentiam que a
menina andasse a s s i m , s o l t a , pela cidade de Londres, e
mareasse esses encontros c l a n d e s t i n o s em B a t t e r s e a Park? Uma
moça t ã o bem c r i a d a , t ã o bem educada. Bem c r i a d a demais, sem
d ú v i d a ! O pessoal del a com c e r t e z a a imaginava em l o c a l muit o
d i f e r e n t e . E l a provavelmente t i v e r a que m e n t i r .
Ao s a i r , Miss Marple passou pela mesa onde estavam os
namorados — tã o lentamente quanto podia f a z ê - l o sem se t r a i r .
I n f e l i z m e n t e os d o i s falavam em voz t ã o bai xa que e l a não pôde
e s c u t a r o que d i z i a m . O homem f a l a v a , a menina e s c ut a va, meio
f e l i z , meio assustada. ”Quem sabe estão planejando f u g i r ? ”
pensou Miss Mar pl e . “ E l a ainda é menor”.
Miss Marple atravessou um pequeno port ão aberto na c e r c a , o
qual dava para a calçada do parque. H avia automóveis
estacionados ao longo da c a l ç a d a , e Miss Marple se deteve ao
chegar a um d e l e s . Não era muito entendida em automóveis, mas
um c a r r o como aquele não l h e apar ecia com f r e q ü ê n c i a ; por
i s s o , e l a r epar ar a nele e não o esquecera. Um s o b r i n h o - n e t o ,
que “ e r a f ã das c o r r i d a s de automóvel, l h e dera algumas
informações sobre esse t i p o de v e í c u l o s . Era um c a r r o de
c o r r i d a s . De marca e s t r a n g e i r a . — Agora não conseguiu lem br ar
o nome. Mas não era só i s t o : v i r a esse c a r r o , ou um exatamente
i g u a l , ainda ontem, numa rua l a t e r a l p e r t o do H o t e l B e r t r a m ’ s .
P r e s t a r a atenção nel e não só por causa do tamanho e da
aparência poderosa e incomum, mas porque o número despert ara
alguma vaga recor daç ão, algum v e s t í g i o de associação de i d é i a s
em sua memória. FAN 2266. F i z e r a - a pensar na prima Fanny
G o df r e y. A pobrezinha da Fanny, que d i z i a gaguejando: “Tenho d
— d — d — d — uas m — m — m — m — eias…
Caminhou um pouco mais e olhou o número do c a r r o . S i m ,
estava c e r t a . FAN 2266. — Era o mesmo c a r r o . Miss M a r pl e ,
s ent i ndo a cada passo aumentar-lhe a f a d i g a , chegou,
mergulhada em profundos pensamentos, ao o u t r o lado da Chelsea
B r i d g e ; estava t ã o exausta que chamou com decisão o p r i m e i r o
t á x i que passou. S e n t i a - s e i n q u i e t a , preocupada, com a
impressão de que d e ve r i a tomar uma p r o v i d ê nc i a com r e l aç ã o
àquelas c o i s a s . Mas que c o i s a s e que f a z e r a r e s p e i t o delas?
Era tudo t ã o i n d e f i n i d o . Fi xou 03 o l h o s , d i s t r a í d a , nas
manchetes dos j o r n a i s :
“Novidades s ens aci onais no a s s a l t o ao t r e m ” — d i z i a uma. “ A
h i s t ó r i a do m a q ui n i s t a ” — d i z i a o u t r a . Que c o i s a ! pensou Miss
M ar p l e, quase todos os d i a s havi a a s s a l t o s a bancos, t r e n s ,
c arr o s- paga dor es.
O c r i m e p ar ec i a t e r passado dos l i m i t e s .
TREZE

L um abelhão, o I n s p e t o r - C h e f e Fred Davy zanzava


EMBRANDO VAGAMENTE

pel as s a l a s do Departamento de I n ve s t i g a ç õ es C r i m i n a i s ,
cantarolando b a i x i n h o . Era uma conhecida mania s u a , que não
causava maior i n t e r e s s e e apenas dava m oti vo a que alguém
comentasse que “ P a p a i andava o u t r a vez f ar e j a n d o c a ç a ” .
O f a r e j a r do I n s p e t o r - C h e f e l e v o u - o a f i n a l à s a l a onde se
achava o I n s p e t o r C ampbell , sentado à sua mesa, com expressão
a b o r r e c i d a . O I n s p e t o r Campbell era um rapaz ambicioso e
considerava extremamente t e d i o s a a m a i o r i a das suas ocupações.
I s s o não o impedia de dar conta das t a r e f a s que l h e eram
e nt r eg ues, e at é r e a l i z á - l a s com c e r t o b r i l h o . As autori dades
do Departamento viam-no com bons o l h o s , gostavam do que e l e
f a z i a e , de vez em quando, l h e di z i am algumas p a l a vr i n h as de
e s t í m u l o ou e l o g i o .
— Bom d i a , I n s p e t o r - C h e f e , — d i s s e respeitosamente o
I n s p e t o r Campbell quando Papai entrou em seus do m í ni os . C l a r o
que nas c os t a s dele Campbell também chamava Davy de Papai como
o faziam t o d o s ; mas ainda não t i n h a idade s u f i c i e n t e para l h e
f a l a r assim de c a r a .
— Em que l h e posso s e r ú t i l , I n s p e t o r ? — per guntou.
— L á , l á , l á , bum, bum — c a nt a r ol a va o Inspetor-Chefe,
levemente des af i n ad o. — Por que me chamam de Mary quando o meu
nome é Miss Gibbs? — Após essa inesperada r e s s u r r e i ç ã o de uma
esquecida comédia m u s i c a l , Davy puxou uma cadeira e sentou-se.
— Ocupado? — perguntou e l e .
— Não m u i t o .
— Às v o l t a s com um caso de desaparecimento não é i s s o ?
o c o r r i d o num h o t e l . Como é mesmo o nome do h o t e l ? B e r t r a m ’ s .
Está certo?
— E s t á , sim sen hor . H o t e l B e r t r a m ’ s .
— I n f r a ç ã o do h o r á r i o de venda de bebidas? Lenocínio?
— Oh, não s en ho r, — respondeu o I n s p e t o r Campbell levemente
chocado ao o u v i r mencionar t a i s c o i s a s a p r o p ó s i t o do H o t e l
Bertram’s.
— O l u g a r é m uit o agradável e calmo, à moda a n t i g a .
— Será? — d i s s e P a p a i . — Será mesmo? Bom, é i n t e r e s s a n t e !
O I n s p e t o r Campbell g o s t a r i a de saber por que a c o i s a s e r i a
i n t e r e s s a n t e . Não q u i s f a z e r p erg u nt as , j á que a a l t a
h i e r a r q u i a andava toda de mau humor desde o a s s a l t o ao trem
p o s t a l , o qual r epr es e nt ar a um ê x i t o es p et a c ul a r para os
c r i m i n o s o s . Campbell olhou para o r o s t o l a r g o , b o v i n o , de
Papai e pensou c o n s i g o , como j á o pensara uma ou o u t r a vez
a n t e s : como é que o I n s p e t o r - C h e f e Davy chegara à a l t a posição
que ocupava e por que f aziam dele t ã o bom j u í z o , no
Departamento? “Deve t e r s i d o bom no tempo d e l e ” , pensava o
i n s p e t o r Campbell, “mas agora há por cá muito s u j e i t o a t i v o
que bem merece uma promoção, se os v e l h o t e s desocupassem o
c aminho”. Mas o v e l h o t e começara o u t r a c a n t i g a , entremeada com
uma p a l a vr i n h a aqui e a l i .
“ D i z e - m e , l i n d a e s t r a n g e i r a , há por l á o u t r a s como t u ? ”
entoou P a p a i , e logo em r e p e nt i n o f a l s e t e : “Algum as, meu bom
s enh or , e moças t ã o meigas j am ai s c onh eces t es” . Não, vejamos,
acho que c onf un di os s e xos . F l o r a d o r a . F o i também um belo
espetáculo.
— C r e i o que o u v i f a l a r a r e s p e i t o , I n s p e t o r - C h e f e , — d i s s e
o I n s p e t o r C ampbell.
— Sua mãe deve t e r cantado essa c a n t i g a para embalar você —
f a l o u o I n s p e t o r - C h e f e D a v y. — Mas que é que es t á havendo no
H o t e l B er t r a m ’ s ? Quem desapareceu, como e por quê?
— Um c e r t o Cônego P e n n yf a t h e r . Um c l é r i g o i d o s o .
— Caso c h a t o , não?
O I n s p e t o r Campbell s o r r i u :
— Sim s en hor, de c e r t o modo é bem c h a t o .
— Como é ele?
—Quem? O Cônego Pennyfather?
— Sim… Você tem uma d es c r i ç ã o d e l e , não?
— C l a r o . — Campbell remexeu nuns papéis e l e u : — A l t u r a
1,72 m. Cabelo br anco, meio corcunda…
— E desapareceu do H o t e l Bertram’s… quando?
— Cerca de uma semana atrás… a 19 de novembro.
— E só agora e l e s deram p a r t e . Levaram tempo, não?
— Bem, parece que esperavam que o vel ho v o l t a s s e a qualquer
momento.
— Tem alguma i d é i a do que e s t á por t r á s diss o? — indagou
P a p a i . — Será que um homem decente e temente a Deus sumiu de
repente com a mulher de um dos curadores da i g r e j a ? Ou será
e l e um desses v e l h o t e s d i s t r a í d o s que não sabem por onde
andam?
— Bem, I n s p e t o r - C h e f e , c r e i o que se t r a t a da ú l t i m a
h i p ó t e s e . O Cônego j á se perdeu a n t e s .
— Como? Desapareceu de um r e s p e i t á v e l h o t e l do West End?
— Não, i s s o ainda não f e z , mas j á tem deixado de v o l t a r
para casa no d i a esperado. Às vezes v a i se hospedar na casa de
amigos num d i a em que não o convidam ou dei xa de i r quando o
esperam. Essas c o i s a s .
— Sim — d i s s e Papai — tudo parece muito n a t u r a l , d i r e i t i n h o
e de acordo com um p l a n o , não? Quando f o i exatamente que e l e
desapareceu?
— Q u i n t a - f e i r a , 19 de novembro. D e ve r i a comparecer a um
congresso em… — C ur vo u - s e, examinou uns papéis sobre a mesa —
ah s i m , Lucerna. Sociedade de Estudos H i s t ó r i c o s B í b l i c o s .
Esse é o nome i n g l ê s da sociedade que, segundo c r e i o , é alemã.
— E o congresso se r e a l i z a v a em Lucerna? O velhote… suponho
que é um v e l h o t e .
— Sessenta e t r ê s anos, pelo que s e i .
— O v e l h o t e , e n t ã o , não deu mais as caras?
O I n s p e t o r Campbell puxou para s i os papéis e forneceu a
Papai os f a t o s comprováveis na medida em que tinham s i d o
comprovados.
— Não dá a impressão de t e r f u g i d o com um menino do coro —
observou o I n s p e t o r - C h e f e D a v y.
— Espero que no f i m e l e apareça — e x p l i c o u C am pbell. — mas
estamos i n v e s t i g a n d o , n a t u r al m e nt e. Será que o senhor… es t á
especialmente i nt er e s s a d o no caso? — Mal podia r e f r e a r a
curiosidade.
— Não — respondeu D a vy, p e n s a t i v o . — Não estou i nt e r es s a d o
no c as o. Não v e j o nele nada que desperte i n t e r e s s e .
Houve uma pausa, pausa em que evidentemente estavam
i m p l í c i t a s as p a l a vr a s “Bem, e então?” seguidas de um ponto de
i n t e r r o g a ç ã o , mas que o I n s p e t o r Campbell sabia que não devia
a r t i c u l a r audivelm e nt e.
— O que realmente me i n t e r e s s a — continuou Papai — é a
data. E o Hotel Bertram’s, é c l a r o .
— É um h o t e l muito bem a d m i n i s t r a d o . Nunca houve queixas a
seu r e s p e i t o .
— I s s o é ó t i m o , sem dúvida — d i s s e P a p a i , e ac r esc ento u,
p e n s a t i v o : — Mas eu g o s t a r i a de dar uma olhadel a no l o c a l .
— Certamente — acudiu o I n s p e t o r C ampbell. —Quando q u i s e r .
Eu estava pensando em dar um pulo a t é l á .
— Nesse caso eu poderia i r com você — propôs P a p a i .
— Não é para me i n t r o m e t e r , não. G os t a r i a só de dar uma
olhad ela no l o c a l , e esse seu Arcediago desapar ecido, ou quem
quer que e l e s e j a , é um bom p r e t e x t o . Não p r e c i s a me chamar de
“ s e n h o r ” quando es t i v er m os lá… você é quem e s t a r á mandando,
S e r e i seu s e c r e t á r i o .
O I n s p e t o r Campbell começou a i n t e r e s s a r - s e .
— Acha o senhor que há alguma c o i s a por lá… que se l i g u e
com o u t r a coisa?
— A t é agora não há razão para t a i s conclusões — d i s s e
P a p a i . — Mas você sabe como são essas c o i s a s . A gente tem… nem
s e i que p al a v r a empregue… a gente tem um p a l p i t e , digamos. E o
H o t e l B e r t r a m ’ s parece bom demais para s e r v e r d a d e i r o .
V o l t o u a p e r s o n i f i c a r o abelhão, cantarolando o “Vamos
todos descer o S t r a n d ” .
Os d o i s d e t e t i v e s saíram j u n t o s , Campbell muito elegante no
seu t e r n o f a z i a e xc el ent e f i g u r a e o I n s p e t o r - C h e f e
D a vy, com uma roupa vel ha de t w e e d , p ar ec i a recém-chegado
do campo. Combinavam m uito bem os d o i s . Mas o o l h a r a s t u t o de
Miss G o r r i n g e , ao se erguer do r e g i s t r o de hóspedes, logo os
i d e n t i f i c o u , dando o seu ao seu dono. Desde que e l a mesma dera
p a r t e do desaparecimento do Cônego Pennyfather e t i v e r a
c o nt a t o com um elemento s u b a l t er n o da p o l í c i a , e s t i v e r a
aguardando uma v i s i t a dessa n a t u r e z a .
Um cochicho sussurrado à sua a u x i l i a r , que estava a l i
p e r t o , f e z com que es t a ú l t i m a se pusesse em p r i m e i r o p l a n o ,
pr onta a atender a quaisquer s o l i c i t a ç õ e s dos hóspedes,
enquanto Miss Gorringe d e s l i z o u discr etament e para o canto do
balcão e encarou os d o i s homens. O I n s p e t o r Campbell depôs seu
c a r t ã o na mesa, d i a n t e de Miss G o r r i n g e , e e l a l h e f e z um
aceno de cabeça. Alongando o o l h a r at é o v u l t o gordo metido
num p a l e t ó de tweed a t r á s de C ampbell, e l a notou que e l e se
v i r a r á um pouco de l a d o , e observava a s a l a e os seus
ocupantes, entregue ao pr a z er aparentemente ingênuo de
contemplar o espetáculo daquela gente a r i s t o c r á t i c a e bem
educada em ação.
— Querem v i r at é ao e s c r i t ó r i o ? — indagou Miss G o r r i n g e . —
Lá t a l v e z possamos conversar mais à vontade.
— S i m , c r e i o que será m el h or .
— B o n i t o l o c a l e s t e — comentou o grandalhão gor do, de a r
b o v i n o , volvendo a cabeça para o lado de Miss G o r r i n g e . —
Muito c o n f o r t á v e l — acr escent o u, olhando com aprovação para a
enorme l a r e i r a . — Bom c o n f o r t o à moda a n t i g a .
Miss Gorringe s o r r i u , v i s i v e l m e n t e s a t i s f e i t a .
— De f a t o . Orgulhamo-nos de f a z e r com que os nossos
hóspedes gozem de c o n f o r t o — d i s s e e l a . E v o l t o u - s e para a sua
a s s i s t e n t e : — Assuma o meu l u g a r , s i m , A l i c e ? E s t á a l i o l i v r o
de r e g i s t r o . Lady J oc el yn chegará daqui a pouco. Com toda a
c e r t e z a v a i querer t r o c a r de q u a r t o , assim que v i r o que l h e
demos, mas você e xp l i q u e que estamos com a casa c h e i a . Se f o r
n e c e s s á r i o , mostre a e l a o 340, no t e r c e i r o and ar, e proponha
a t r o c a . O 340 não é dos melhores, e garanto que e l a f i c a r á
s a t i s f e i t a com o a t u a l , logo que v i r esse o u t r o .
— S i m , Miss G o r r i n g e . F a r e i o que me d i z , Miss Gore.
— E lembre ao C oronel Mortimer que o b i n óc u l o dele es t á
a q u i . E l e me pediu para o guardar hoje de manhã. Não o dei xe
s a i r sem o b i n ó c u l o .
— S i m , Miss G o r r i n g e .
Cumpridas essas o br i g aç õ es , Miss Gorringe olhou para os
d o i s homens, passou por baixo do balcão e encaminhou-se para
uma p o r t a l i s a de mogno que não ostentava nenhum l e t r e i r o .
A b r i u a p o r t a , e as v i s i t a s entraram num pequeno e s c r i t ó r i o de
aspecto um pouco t r i s t e .
— O hóspede desaparecido é o Cônego P e n n yf a t h er , pelo que
s e i , — f a l o u o I n s p e t o r C ampbell, olhando para as suas n o t a s :
— Tenho aqui o r e l a t ó r i o do Sargento W a d e l l . Quer t e r a
bondade de me d i z e r , com suas p r ó p r i a s p a l a v r a s , o que f o i que
ocorreu?
— Não c r e i o que o Cônego Pennyfather tenha desaparecido no
s e n t i d o usual da p a l a v r a , — e x p l i c o u Miss G o r r i n g e . — O senhor
sabe, eu penso que e l e deve t e r - s e encontrado com alguém, em
algum l u g a r , um vel ho amigo ou c o i s a p a r e c i d a , e f o i com e l e
para alguma reunião de e r u d i t o s , ou c o i s a a s s i m , no
Continente… E l e é t ã o d i s t r a í d o !
— A senhora o conhece há muito tempo?
— S i m , e l e vem se hospedando aqui… deixe-me ver… pelo menos
há c i n c o ou s e i s anos, c r e i o .
— A senhora também j á es t á aqui há bastante tempo, não? —
i n t e r v e i o de repente o I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
— Estou aqui… deixe-me ver… há quatorze anos, — respondeu
Miss G o r r i n g e .
— É um b o n i t o l o c a l — r e p e t i u D a vy. — E o Cônego
P ennyf ather costumava hospedar-se aqui quando vi nha a Londres,
não é?
— S i m , sempre nos p r o c u r a . Escreveu a n t e s , mandando
r e s e r v a r um q u a r t o . Por e s c r i t o e l e é muito menos vago do que
na v i d a r e a l . Reservou o quart o do d i a 17 ao d i a 2 1. Durante
esse período esperava e s t a r ausente uma ou duas n o i t e s , e
e x p l i c o u que q u er i a f i c a r com o qu arto enquanto e s t i v e s s e
f o r a . Freqüentemente f a z i s s o .
— Quando a senhora começou a se preocupar com a ausência
dele? — perguntou C am pbell .
— Bem, na verdade eu não me pr e oc u p e i . Mas a s i t u a ç ã o era
embaraçosa. O quarto estava reservado para o u t r o hóspede a
p a r t i r do d i a 23 e quando me d e i conta… a p r i n c í p i o não notei…
de que e l e não t i n h a v o l t a d o de Lugano…
— Lucerna, segundo as minhas notas… — interrompeu
Campbell
— S i m , s i m , c r e i o que era Lucerna. Algum congresso
a r q u e o l ó g i c o . De qualquer f o r m a , quando me d e i conta de que
e l e não v o l t a r a , e de que a bagagem del e ainda estava
esperando no q u a r t o , v i que era uma a t r a p a l h aç ã o . O senhor
compreende, estamos com a casa c hei a por es t a época do ano e
tínhamos um c l i e n t e para o q u a r t o . M r s . Daunders, r e s i d e n t e em
Lyme R e g i s . E l a sempre f i c a com esse q u a r t o . F o i então que a
governanta dele t e l e f o n o u . Estava preocupada.
— Segundo a informação do Arcediago Simmons, o nome da
governanta é M r s . McCrae. A senhora a conhece?
— Não, pessoalmente não, mas j á f a l e i com e l a pelo t e l e f o n e
uma ou duas vez es . Parece uma mulher de toda c o nf i an ç a e
t r a b a l h a há m uit os anos para o Cônego P e n n yf a t h e r .
Naturalmente es t á preocupada. C r e i o que e l a e o Arcediago
Simmons j á f al ar a m com amigos e p a r e n t e s , mas ninguém sabe por
onde anda o Cônego. E uma vez que o Cônego P ennyf ather estava
esperando a chegada do A r c e d i a g o, que vi nha passar uns d i a s em
sua c as a, é e s q u i s i t í s s i m o realmente que não tenha v o l t a d o .
— O Cônego é habitualmente assim d i s t r a í d o ? — indagou
Papai.
Miss Gorringe não respondeu. Aquele homenzarrão,
presumivelmente o sargento acompanhante, p a r e c i a - l h e um pouco
saliente.
— E agora s e i — continuou Miss Gorringe em voz a b orr ec i da —
e agora s e i , pelo Arcediago Simmons, que o Cônego não
compareceu à C onf er ência de Lucerna.
— E l e mandou a v i s a r que não i r i a ?
— Acho que não…’ não d a q u i . Não passou telegrama nem enviou
qualquer o u t r o a v i s o . A l i á s , nada s e i a r e s p e i t o dessa
C onfer ênci a de Lucerna. O que me preocupa nessa questão é a
p a r t e que se r e f e r e a n ó s . Saiu nos vespertinos… # n o t í c i a de
que e l e desapareceu. Não disseram que estava hospedado a q u i , e
espero que não o digam. Não queremos a Imprensa no h o t e l ,
nossos hóspedes não gostariam d i s s o . Ficaríamos g r a t í s s i m o s ao
s enh or , I n s p e t o r , se pudesse manter os j o r n a l i s t a s longe de
n ós . A f i n a l , não f o i daqui Que o Cônego desapareceu.
— A bagagem dele ainda es t á aqui?
— S i m . No d ep ós i t o de bagagens. E se e l e não f o i para
Lucerna, os senhores j á encararam a hi p ót es e de um
atr op elam ento , ou c o i s a parecida?
— Não l h e aconteceu nada d i s s o .
— De f a t o , parece m u i t o , muito c u r i o s o — d i s s e ” Miss
G o r r i n g e , com um l e v e tom de i n t e r e s s e na v o z , em s u b s t i t u i ç ã o
ao a b or r ec i m ent o. — A gente f i c a pensando para onde t e r i a i d o
e l e e por quê?
Papai encar ou-a, compreensivo.
— É j u s t o — d i s s e e l e . — A senhora só e s t á pensando no caso
do ponto de v i s t a do h o t e l . Muito n a t u r a l .
— Pelo que s e i — d i s s e o I n s p e t o r Campbell consultando
novamente as suas notas — o Cônego Pennyfather s a i u daqui por
v o l t a das s e i s e meia da t a r d e de q u i n t a - f e i r a , 1 9. Levava
consigo uma pequena v a l i s e , e p a r t i u num t á x i , pedindo ao
p o r t e i r o que desse ao m o t o r i s t a o endereço do cl ube Athenaeum.
Miss Gorringe balançou a cabeça, concordando.
— S i m , j a n t o u no Athenaeum. O Arcediago Simmons me contou
que f o i l á que o vi r am pela ú l t i m a v e z .
H avi a c e r t a f i r m e z a na voz de Miss Gorringe quando e l a
t r a n s f e r i u do H o t e l B e r t r a m ’ s para o cl ube Athenaeum a
r espo ns abi l i dade de v e r o Cônego pela ú l t i m a v e z .
— Nada melhor que o b t e r os f a t o s corretamente — d i s s e
P a p a i , com voz calma e cavernosa. — E cá estão os f a t o s ,
corretamente e xp os t os : o Cônego s a i u daqui com a sua sacol a
a z u l da B . O . A . C . , ou c o i s a p a r e c i d a , — era uma s ac ol a a z u l da
B . O . A . C . , não era? S aiu e não v o l t o u , e p r o n t o .
— Como os senhores vêem, não os posso a j u d ar — d i s s e Miss
G o r r i n g e , mostrando-se d i s p o s t a a l e v a n t a r - s e e v o l t a r ao
trabalho.
— A senhora parece que não nos pode a u x i l i a r — f a l o u Papai
— mas t a l v e z alguma o u t r a pessoa possa — acr esc en to u .
— Outra pessoa?
— S i m , o u t r a pessoa, — d i s s e P a p a i . — Um dos empregados,
talvez.
— Não c r e i o que alguém sai ba de alguma c o i s a . Se soubessem,
t e r i a m vi ndo me f a l a r .
— Tal vez vi es sem. T al vez não. O que eu quero d i z e r é que
t e r i a m contado à senhora se soubessem i n d i s c u t i v e l m e n t e de
qualquer c o i s a . Mas eu estava pensando mais em alguma c o i s a
que o Cônego poderia t e r d i t o .
— Que t i p o de coisa? — indagou Miss G o r r i n g e , p e r p l e x a .
— Oh, uma p a l a vr a c a s u a l , que nos desse uma p i s t a . Por
exemplo: “ e s t a n o i t e vou v i s i t a r um vel ho amigo, a quem não
v e j o desde que nos encontramos no A r i z o n a ” . Uma c o i s a a s s i m .
Ou: “Na próxima semana pretendo i r à casa de minha sobrinha
para a c r i s m a da f i l h a d e l a ” . Quando se t r a t a de gente
d i s t r a í d a , p i s t a s como es t as são de grande a j u d a . Indicam em
que é que a pessoa estava pensando. É p o s s í v e l que depois do
j a n t a r no Athenaeum, e l e tenha tomado um t á x i e pensado: “ E
agor a, para onde é que eu vou?” e digamos, com a h i s t ó r i a da
c r is m a na cabeça, t e r i d o para a casa da s o b r i n h a .
— Estou compreendendo o que o senhor quer d i z e r — f a l o u
Miss Gorringe com a r de d ú vi d a . — Não me parece p r o v á v e l .
— Oh, a gente nunca sabe quando tem s o r t e nesses c as os , —
f o i o comentário bem humorado de P a p a i . — Há também os v á r i o s
hóspedes do h o t e l Provavelmente o Cônego Pennyfather conhecia
a l g u n s , j á que era c l i e n t e as s í d u o .
— A h , sim — concordou Miss G o r r i n g e . — Vejamos… Já o v i
conversando com… s i m , com Lady S e l i n a H az y. E também com o
Bispo de N o r w i c h . C r e i o que são vel hos amigos, foram colegas
em O x f o r d . E M r s . Jameson e as f i l h a s . Vêm da mesma r e g i ã o . É
verdade, uma porção de g e n t e ,
— E s t á vendo? — i n s i s t i u Papai — o Cônego pode t e r
conversado com alguma dessas pessoas. Pode t e r f e i t o
r e f e r ê n c i a a qualquer pequeno nada que nos f or neç a uma p i s t a .
Haverá aqui alguém, no momento, que o Cônego conhecesse bem?
Miss Gorringe f r a n z i u o cenho, pensando:
— Bem, c r e i o que o General Radley ainda es t á a q u i . E temos
também uma senhora i dos a que v e i o do campo… e que se hospedava
aqui quando menina, segundo me c o n t o u . No momento não recordo
o nome d e l a . mas posso d e s c o b r i - l o Para os senhores. A h, s i m ,
Miss M ar pl e, esse é o nome d e l a . Acho que e l a conhece o Cônego
P e n n yf a t h e r .
— Bem, poderemos começar por esses d o i s . E deve haver uma
c a m a r e i r a , suponho.
— C l a r o — d i s s e Miss G o r r i n g e . — Mas e l a j á f o i i n t e r r o g a d a
pelo Sargento W ade l l .
— Eu s e i . Mas não t a l v e z sob e s t e p r i s m a . E o garçom que
s e r v i a a mesa dele? Ou o m aître?
— A h , s i m , H e n r y , naturalmente — lembrou-se Miss G o r r i n g e .
— Quem é Henry? — perguntou P a p a i .
Miss Gorringe pa r ec i a quase o f e n d i d a . Para e l a , era
i m p o s s í v e l que alguém não conhecesse H e n r y .
— Henry es t á aq ui há t a n t o tempo que nem s e i d i z e r
— e x p l i c o u . — Quando o senhor e n t r o u , deve t ê - l o v i s t o a
s e r v i r o c h á.
— T r a t a - s e então de uma personalidade — d i s s e D a vy.
— Lembro-me que o v i .
— Não s e i o que s e r i a de nós sem H e n r y , — d i s s e Miss
Gorringe com emoção. — E l e é realmente m a r a vi l h o s o . Como que
dá o tom à c a s a, compreende?
— Tal vez e l e me quisesse s e r v i r um c h á, — f a l o u o I n s p e t o r -
C h e f e D a vy. — Já v i que têm m u f f i n s . G o s t a r i a de comer de novo
um bom m u f f i n .
— Certamente — respondeu Miss Gorringe com c e r t a f r i e z a . —
Querem que l h e s mande s e r v i r o chá na s a l a de entrada? —
acrescentou e l a , vi r a n d o - s e para o I n s p e t o r Cam pbell .
— Seria… — começou a d i z e r o I n s p e t o r , quando de repente
a b r i u - s e a p o r t a e apareceu M r . H u m f r i e s , na sua maneira
olímpica.
Pareceu levemente s u r p r e s o , depois olhou indagador para
Miss G o r r i n g e . Miss Gorringe e x p l i c o u :
— E s t es d o i s c a v a l h e i r o s são da S c ot l and Y a r d , M r .
Humfries.
Campbell apr esentou-s e:
— D e t e t i v e - I n s p e t o r Campbell
— Oh, s i m , s i m , é c l a r o — d i s s e M r . H u m f r i e s . — O caso do
Cônego P e n n y f a t h e r , não? Caso dos mais e x t r a o r d i n á r i o s . Espero
que não tenha acontecido nada ao pobre v e l h o .
— O mesmo digo eu — a j u n t o u Miss G o r r i n g e . — Um senhor t ã o
bondoso.
— É um dos da vel ha guarda, — acrescentou aprobativamente
Mr. Humfries.
— Parece que os senhores recebem aqui um bom c o nt i n g e nt e da
vel ha guarda — comentou o I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
— S i m , c r e i o que sim — d i s s e M r . H u m f r i e s . — Sob m uitos
as p e c t os , somos s o b r e vi v e nt es de o u t r o s tempos.
— Temos os nossos hóspedes c e r t o s — d i s s e Miss Gorringe com
o r g u l h o - — As mesmas pessoas, que vêm para cá ano após ano.
Recebemos m uitos americanos… de Boston e Washington. Gente
f i n a , educada.
— Apreciam nossa atmosfera i n g l e s a , — e x p l i c o u M r .
H u m f r i e s , e xi bi n d o num s o r r i s o os seus dentes a l v í s s i m o s .
Papai obser va va- o, p e n s a t i v o . O I n s p e t o r Campbell f a l o u :
— O senhor tem c e r t e z a de que não chegou aqui nenhum recado
do Cônego? Um recado recebido por alguém que se esquecesse de
a n o t a r , ou passar adiante?
— Os recados t e l e f ô n i c o s são sempre cuidadosamente
anotados, — d i s s e Miss Gorringe com gelo na v o z . — Não posso
nem conceber a p o s s i b i l i d a d e de um recado não s e r t r a n s m i t i d o
a mim, ou à pessoa que e s t e j a de s e r v i ç o . — Encarou f i r m e o
Inspetor.
Campbell f i c o u um i n s t a n t e desconcertado. E M r . H um f r i es
acrescentou também com um toque de gelo na v o z :
— O senhor sabe que j á respondemos a essas perguntas a n t e s .
Fornecemos ao seu sargento… — não recordo o nome d e l e , agora…
todas as informações de que dispúnhamos.
Papai mexeu-se um pouco e d i s s e num tom meio f a m i l i a r :
— Bem, o senhor compreende, as c o i s a s f i c a r a m um pouco mais
s é r i a s . Parece que não se t r a t a apenas de um caso de
d i s t r a ç ã o . É por i s s o que me parece ú t i l a gente t r o c a r
algumas p al a v r as com essas duas pessoas que a senhora
mencionou: o General Radley e Miss M ar p l e.
— Quer que eu… a r r a n j e uma e n t r e v i s t a com eles? — M r .
H um f r i es p ar e c i a m uito mal s a t i s f e i t o . — O General Radley é
muito s u r d o .
— Não c r e i o que s e j a necessário marcar uma e n t r e v i s t a
f o r m a l — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e D a vy. — Não queremos
atorm entar ninguém. Pode d e i x a r tudo conosco. Basta que nos
aponte as duas pessoas i n d i c a d a s . Há t a l v e z a p o s s i b i l i d a d e de
t e r o Cônego Pennyf ather mencionado algum plano,?u alguma
pessoa que i r i a e nc o n t r ar em Lucerna, ou que!na com e l e at é
Lucerna. P elo menos, v a l e a pena t e n t a r ,
M r . H um f r i es estava agora mais a l i v i a d o .
— — E em que mais poderemos s e r v i - l o ? — perguntou.
Tenho c e r t e z a de que o senhor sabe que o nosso desejo é
a j u d á - l o em tudo… pedimos apenas que compreenda o nosso r e c e i o
de p u b l i c i d a d e pela imprensa.
— C l a r o — respondeu o I n s p e t o r C am pbell.
— E eu quero dar uma p a l a v r i n h a com a c a m a r e i r a , — d i s s e
Papai.
— P o i s não, quando q u i s e r . Mas duvido muito que e l a l h e
possa d i z e r alguma c o i s a .
— Provavelmente não. Mas t a l v e z haja algum pequeno d e t a l h e ,
alguma observação do Cônego a r e s p e i t o de uma c a r t a , ou de um
compromisso, Nunca se sabe.
M r . H um f r i es olhou o r e l ó g i o .
— E l a e n t r a no s e r v i ç o às s e i s — d i s s e e l e . — Segundo
a nd ar. E enquanto esperam, querem tomar um chá?
— Com pr az er — d i s s e prontamente P a p a i . Saíram j u n t o s do
escritório.
Miss Gorringe d i s s e : — O General Radley deve e s t a r na s a l a
de f u m a r . A p r i m e i r a s a l a , ao longo desse c o r r e d o r , à
esquerda. Deve e s t a r d i a n t e da l a r e i r a , com o Times. E é capaz
— acrescentou discr etam ent e — que e s t e j a c o c h i l a n d o . Não
quererá que eu…
— Não, não, eu me a r r a n j o — d i s s e P a p a i . — E a outra? A
senhora idosa?
— E s t á sentada a l i , j u n t o à l a r e i r a - r - m o s t r o u Miss
Gorringe.
— Aquela do cabelo f o f o , que e s t á fazendo t r i c ô ? —
perguntou P a p a i , dando uma es pi ad a. — Poderia e s t a r num p a l c o .
É a p r ó p r i a encarnação da t i a - a v ó de todos n ós .
— As t i a s - a v ó s de hoj e em d i a não se parecem com e l a . —
observou Miss G o r r i n g e . — Nem as a vós , nem as b i s a v ó s . Ainda
ontem esteve aqui a Marquesa de B a r l o w e , que j á é b i s a v ó . Juro
que não a r e c o n h e c i , quando e n t r o u . V o l t a v a de P a r i s , o r o s t o
muito maquiado em branco e r o s a , o cabelo p l a t i n a d o , uma
f i g u r a i n t e i r a m e n t e a r t i f i c i a l , suponho… mas estava
m ar a vi l h os a .
— Ah — comentou P a p a i , — eu por mim p r e f i r o as da moda
a n t i g a , Bem, muito o br i g a d o, minha senhora. — V i r o u - s e para
C amp bell. — O senhor não quer d e i x a r o caso comigo? S e i que
tem um compromisso i m p o r t a n t e .
Campbell pegou a d e i x a : — É verdade, Não c r e i o que se
consiga grande c o i s a , mas v a l e a pena t e n t a r .
M r . H um f r i es desapareceu no i n t e r i o r do seu gabinete
p a r t i c u l a r , diz end o:
— Miss Gorringe… um momento, por f a v o r .
Miss Gorringe seg uiu-o e fechou a p o r t a a t r á s de s i .
H u m f r i e s , caminhava dum lado para o u t r o . Perguntou
rispidamente:
— Para que é que e l e s querem f a l a r com Rose? Wadell j á f e z
todas as perguntas n e c e s s á r i a s .
— Acho que são só as perguntas de r o t i n a — d i s s e Miss
G o r r i n g e , em d ú v i d a .
— É melhor você f a l a r com e l a a n t e s .
Miss Gorringe p a r ec i a um t a n t o assustada.
— Mas seguramente o I n s p e t o r Campbell…
— Não estou preocupado com C am pbell. Mas com o o u t r o . Sabe
quem é ele?
— Acho que não d i s s e como se chamava. Um sargento q u al q u e r ,
penso e u . Tem j e i t o de c a i p i r a .
— C a i p i r a uma ova — d i s s e M r . H u m f r i e s , abandonando sua
e l e g â n c i a . — Esse a í é o I n s p e t o r - C h e f e D a vy, uma raposa vel ha
e das mais e s p e r t a s . É muit o conceituado na S co t l and Y a r d . Só
q u er i a saber o que f o i que e l e v e i o f a z e r a q u i , f ar e j a n d o e se
fazendo de boa p r a ç a . Não estou gostando d i s s o , nem um pouco.
— Não vá pensar…
— Não s e i o que pensar. Mas estou l h e dizendo que não gosto
nada d i s s o . E l e pediu para v e r alguém, além de Rose?
— Acho que v a i f a l a r com H e n r y .
M r . H um f r i es r i u , Miss Gorringe também.
— Com Henry não precisamos nos pr eoc upar.
— É verdade.
— E os hóspedes que conheciam o Cônego Pennyfather? M r .
H um f r i es tor nou a r i r .
— Que se d i v i r t a com o vel ho R a d l e y . Terá que b o t a r a casa
a b a i x o , aos g r i t o s , e não conseguirá nada. Que t i r e bom
p r o v e i t o de Radley e de Miss M ar p l e, aquela gat i nha v e l h a . Mas
s e j a como f o r , não gosto de v ê - l o enfiando o n a r i z por aqui…
QUATORZE

—S ABE, NÃOGOSTO muito desse t a l de H u m f r i e s , — d i s s e p ensat i vo


o I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
— Que f o i que o senhor v i u nele? — indagou Campbell,
— Bem… — Papai p ar ec i a p e d i r desculpas — você sabe, é a
impressão que a gente t em . S u j e i t o meloso. Queria saber se e l e
é o dono ou só o g e r e n t e .
— Posso p e r g u n t a r . — Campbell deu um passo em di r eç ã o à
recepção.
— Não, não pergunte a e l e . Descubra… d i s c r e t a m e n t e .
Campbell o l h o u - o , c u r i o s o .
— Em que é que o senhor es t á pensando?
— Nada de e s p e c i a l . Só que eu g o s t a r i a de t e r muito_ mais
informações a r e s p e i t o d i s t o a q u i . G o s t a r i a de saber quem es t á
por t r á s desse n e g óci o, qual é a s i t u a ç ã o f i n a n c e i r a da f i r m a .
Essa c o i s a t o d a .
Campbell abanou a cabeça.
— P o i s se me perguntassem se e x i s t e em Londres algum l u g a r
absolutamente acima de qualquer suspeita…
— Eu s e i , eu s e i — r e t r u c o u P a p a i . — É como é ú t i l t e r uma
reputação dessas!
Campbell abanou a cabeça e s a i u . Papai seguiu pelo c o r r e d o r
at é à s a l a de f u m a r . O General Radley estava acordando. O
Times l h e escorregou dos j o e l h o s e se d esint egr ou um pouco.
Papai apanhou o j o r n a l , arrumou as f o l h a s desarranjadas e o
entregou ao v e l h o .
— Muito o br i g a d o. M uita bondade sua — d i s s e o general numa
voz r o u c a .
— General Radley?
— Sim.
— Queira d e s c u l p a r , — d i s s e Papai elevando a voz — mas
q u er i a f a l a r com o senhor a r e s p e i t o do Cônego P e n n yf a t h e r .
— Eh… como? — O General chegou a mão à o r e l h a .
— Cônego P e n n yf a t h e r , — berrou P a p a i .
— Meu pai? Morreu há muitos anos.
— O Cônego P e n n y f a t h e r .
— A h ! Que houve com ele? V i - o o u t r o d i a ; estava hospedado
aqui.
— E l e t i n h a que me dar um endereço; d i s s e que o d e i x a r i a
com o s enhor.
I s s o j á era mais d i f í c i l de f a z e r compreender, mas a f i n a l
Davy o conseguiu:
— Não me deu endereço nenhum. Deve t e r confundido com o u t r a
pessoa. É um v e l h o t e maluco. Sempre f o i . E r u d i t o , sabe? Gente
assim é sempre d i s t r a í d a .
Papai perseverou mais um pouco, mas logo entendeu que a
conversa com o General Radley era pr aticam ent e i m p o s s í v e l e ,
com toda c e r t e z a , i n t e i r a m e n t e i m p r o d u t i v a . F o i para a s aí a de
entrada e sentou-se a uma mesa adjacente à de Miss Jane
M ar p l e.
— Chá, senhor?
Papai l e vant o u os o l h o s . I m pr e s s i on o u- o, como a todo o
mundo, a personalidade de H e n r y . Apesar da majestosa
c o r p u l ê n c i a , p a r e c i a , por assim d i z e r , uma vas t a encarnação de
A r i e l , capaz de m a t e r i a l i z a r - s e e s um i r à vontad e. Papai pediu
c h á:
— Eram m u f f i n s que v i você s e r v i r ? — perguntou.
Henry s o r r i u b e a t í f i c o :
— Eram, sim sen h or. São e xc el en tes os nossos m u f f i n s , se me
p er m i t e d i z ê - l o . Todos os apr eciam. Quer que mande v i r
m uf f i n s ? Chá da í n d i a ou da China?
— Da í n d i a — respondeu P a p a i . — Ou do C e i l ã o , caso vocês
tenham.
— C l a r o que temos.
Henry f e z um l e v e gesto com um dedo e o p á l i d o jovem que
era o seu a u x i l i a r p a r t i u , em busca de chá do C e i l ã o e
m u f f i n s . Henry deslocou-se graciosamente para o u t r o l u g a r .
“Você é Alguém, g a r a n t o ” , pensou P a p a i . “ G o s t a r i a de saber
onde é que e l e s o de sc obri r am, e quanto l h e pagam. Uma n o t a ,
a p os t o , e você m er ec e’ . Pôs-se a o l h a r Henry que se i n c l i n a v a
de modo p a t e r n a l para uma senhora i d o s a . Que pensaria Henry —
se é que pensava alguma c o i s a — a r e s p e i t o d e l e , Papai? Papai
achaVa que não destoava do ambiente do H o t e l B e r t r a m \ s :
poderia s e r um a g r i c u l t o r r i c o , ou mesmo um par do r e i n o que
se parecesse com um bookmaker. Conhecia d o i s pares do r e i n o
que eram assim mesmo. Em suma, pensou, t a l v e z o t i v e s s e
convencido, mas também achou p o s s í v e l não t e r enganado H e n r y .
“ S i m , você é Alguém, você é ” , torn ou a pensar P a p a i .
Chegaram o chá e os m u f f i n s . Papai deu uma boa dentada e a
manteiga l h e escorr eu pelo q u e i x o . Limpou-a com um l enço
enorme. Tomou duas chávenas de c h á , com bastante a ç ú c a r .
Depois i n c l i n o u - s e para a f r e n t e e f a l o u com a senhora sentada
na c a d ei r a ao l a d o :
— D es c ul pe, mas a senhora não é Miss Jane Marple?
Miss Marple t r a n s f e r i u o o l h a r do t r i c ô para o I n s p e t o r -
C h e f e D a vy.
— S i m , sou Miss M ar pl e.
— Espero que não se aborreça por eu l h e f a l a r . Quero que
s aiba que sou um p o l i c i a l .
— Realmente? Espero que não tenha acontecido nada de s é r i o
aqui.
Papai apressou-se em t r a n q ü i l i z á - l a do modo mais p a t e r n a l .
— Não se a s s u s t e , Miss M ar pl e, não é nada do que a senhora
es t á pensando. Nada de f u r t o ou c o i s a p a r e c i d a . Apenas um
pequeno problema com um cônego d i s t r a í d o , só i s s o . C r e i o que é
um amigo s e u. O Cônego P e n n yf a t h e r .
— Oh, o Cônego P e n n yf a t h er . E l e estava aqui ainda o u t r o
d i a . S i m , conheço-o mais ou menos, há m uit os anos. Como o
senhor d i z , é um homem muito d i s t r a í d o . — Acr esc ento u, com
algum i n t e r e s s e :
— Que f o i que e l e f e z agora?
— Bem, pode-se d i z e r que desta vez e l e não sabe onde anda.
— Santo Deus! — exclamou Miss Marple — Onde e l e d e v e r i a
estar?
— Na cidade d e l e , no cabido da c a t e d r a l , — respondeu P a p a i .
— Mas não es t á l á .
— E l e me contou — d i s s e Miss Marple — que i a a uma
c o nf e r ê nc i a em Lucerna. Parece que a reunião d e ve r i a t r a t a r
dos Manuscrit os do Mar M o r t o , c r e i o . O senhor sabe que e l e é
um grande conhecedor de hebraico e aram aico.
— S e i , sim — d i s s e P a p a i . — A senhora tem r a z ã o . Era para
Lucerna que ele… bem, é para l á que se esperava que e l e f o s s e .
— Quer d i z e r então que e l e não apareceu l á ?
— Não, não apareceu.
— Oh, então — comentou Miss M ar pl e, — imagino que se
enganou nas d a t a s .
— Provavelmente, muito provavelmente.
— I n f e l i z m e n t e — continuou Miss Marple — não f o i a p r i m e i r a
vez que t a l c o i s a l h e aconteceu. Um d i a f u i tomar chá com e l e
em C hadmi nster. P o i s não estava em c as a. A governanta me
contou que e l e era extremamente d i s t r a í d o .
— E e l e , quando a encontrou a q u i , não l h e d i s s e nada que
nos pudesse dar uma p i s t a ? — perguntou P a p a i , f a l an do de
maneira f l u e n t e e c o n f i d e n c i a l . — A senhora sabe o que quero
d i z e r , algum vel ho amigo que e l e esperava e n c o n t r a r , algum
o u t r o programa, além da C onf er ênci a de Lucerna?
— Não. Apenas mencionou a C onfer ência de Lucerna. C r e i o que
me d i s s e que se r e a l i z a r i a no d i a 1 9. C or r et o ?
— Essa era a data da C onf erência de Lucerna, exatamente.
— Não p r e s t e i muita atenção à d a t a . Quero dizer… — como a
m a i o r i a das damas i d o s a s , Miss Marple nesse ponto f i c o u meio
atrapalhada — penso que e l e f a l o u em 1 9 , e deve t e r d i t o 1 9 ,
mas pode t e r f a l a d o em 19 querendo se r e f e r i r ao d i a 2 0 . I s t o
é , e l e pode t e r pensado que o 20 era o 1 9 , ou que o 19 era o
2 0.
— Bem… — d i s s e Papai l i g e i r a m e n t e c o nf u s o.
— Estou me explic ando mal — declarou Miss Marple — mas o
que eu quero d i z e r é que pessoas como o Cônego P e n n yf a t h e r ,
quando falam que vão a t a l p a r t e na q u i n t a - f e i r a . a gente não
se admira ao v e r i f i c a r que e l a s não queriam d i z e r q u i n t a -
f e i r a , mas realmente quart a ou s e x t a - f e i r a . Geralmente
descobrem o engano em tempo, mas às vezes não. Naquele momento
parece-me que deve t e r acontecido uma c o i s a a s s i m .
Papai estava levemente i n t r i g a d o .
— A senhora f a l a , Miss M a r pl e , como se j á soubesse que o
Cônego Pennyfather não f o r a a Lucerna.
— S e i que e l e não estava em Lucerna na q u i n t a - f e i r a , —
e x p l i c o u Miss M ar p l e . — E l e passou o d i a todo aq ui ou quase
t o d o . F o i por i s s o , é c l a r o , que eu pensei que e l e me t i v e s s e
f a l a d o em q u i n t a - f e i r a querendo d i z e r s e x t a - f e i r a . E e l e s a i u
daqui na q u i n t a - f e i r a à t a r d e , levando uma sacol a de mão da
B.E.A.
— I s s o mesmo.
— C a l c u l e i que e l e se d i r i g i a ao a e r o p o r t o ; e por i s s o
mesmo f i q u e i muito surpresa quando o v i de v o l t a .
— Perdão, mas que quer d i z e r esse “quando o v i de v o l t a ? ”
— Bem, que e l e v o l t a r a para c á , é o que quero d i z e r .
— Vamos e s c l a r e c e r i s s o d i r e i t i n h o — d i s s e P a p a i ,
procurando f a l a r em voz a g r a d á v e l , p r o p í c i a às r e m i n i s c ê n c i a s ,
e não como se o caso f os s e realmente i m p o r t a n t e . — A senhora
v i u o vel ho idio… i s t o é , a senhora v i u o Cônego s a i r daqui
como se f os s e para o a e r o p o r t o , com a v a l i s e , à n o i t i n h a . E s t á
certo?
— S i m . Por v o l t a de s e i s e meia, t a l v e z , ou um quart o para
sete.
— Mas d i z que e l e v o l t o u .
— Tal vez tenha perdi do o a v i ã o . É a e x p l i c aç ã o que
encontro.
— Quando f o i que e l e v o l t o u ?
— Bem, não s e i d i z e r . Não o v i v o l t a r .
— Oh! — exclamou P a p a i , desapontado. — Pensei t e r ouvido a
senhora d i z e r que o t i n h a v i s t o .
— Oh, eu o v i mais t a r d e , — e x p l i c o u Miss M a r pl e. — O que
eu q u i s d i z e r é que não o v i e n t r a r no h o t e l .
— A senhora o v i u mais tarde? Quando? Miss Marple pensou.
— Deixe-me v e r . Eram cerca das t r ê s da madrugada. Eu não
conseguia d o r m i r d i r e i t o . Uma c o i s a qualquer me acordou. Algum
b a r u l h o . Há t a n t o s barulhos e s q u i s i t o s , em Londres. O l h e i para
o meu r e l o g i n h o , eram t r ê s e d ez . Por um moti vo qualquer… não
s e i bem por que… sentime i n q u i e t a . Passos, t a l v e z , d i a n t e da
minha p o r t a , Quem mora no campo, se escuta passos no meio da
n o i t e , f i c a n er vos o . De forma que a b r i a minha p o r t a e o l h e i
para f o r a . V i o Cônego Pennyfather saindo do quarto d e l e , que
é contí guo ao meu, e descendo a escada, v e s t i d o com o
s obr etu do.
— Quer d i z e r que e l e s a i u do quarto e desceu a escada,
v e s t i d o com o s obr e t udo, às t r ê s horas da manhã?
— S i m , — d i s s e Miss M ar pl e . E ac r esc ento u: — Na hora eu
ache i a c o i s a e s t r a n h a .
Papai encarou-a por uns momentos.
— Miss M ar pl e , por que a senhora não contou i s s o antes a
ninguém?
— Ninguém me perguntou — d i s s e Miss Marple com
simplicidade.
QUINZE
P A P A I SOLTOU um s u s p i r o f u n d o.
— É , sim — d i s s e e l e — suponho que ninguém l h e p e r g u n t a r i a .
Simplesmente i s s o .
E v o l t o u ao s i l ê n c i o .
— O senhor acha que aconteceu alguma c o i s a ao Cônego, não?
— perguntou Miss M ar p l e.
— Já se passou uma semana — e x p l i c o u D a vy. — E l e não t e ve
nenhum ataque na r u a . Não es t á em nenhum h o s p i t a l em
conseqüência de a c i d e n t e . E então onde está? Os j o r n a i s
n o t i c i a r a m o desaparecimento do Cônego, mas at é agora não
apareceu ninguém com nenhuma i nf or m aç ã o.
— Tal vez nem todo mundo tenha l i d o a n o t í c i a do
desaparecimento. Eu não l i .
— Parece até… parece até… — Papai seguia a sua l i n h a de
pensamento — que e l e tencionava desaparecer, saindo daqui
a s s i m , em plena n o i t e . A senhora tem a b sol ut a c e r t e z a de que
era ele? — perguntou de r e p e n t e . — Não f o i um sonho?
— Tenho a bsol ut a c e r t e z a , — d i s s e Miss Marple com
segurança.
Papai l e va nt o u- s e pesadamente.
— É melhor eu i r e n t r e v i s t a r a camareira — d i s s e e l e . Davy
encontrou Rose Sheldon em a t i v i d a d e , e perc or r eu com um o l h a r
a pr o b a t i v o a bela f i g u r a da moça.
— Lamento incomodá-la — d i s s e e l e . — S e i que j á conversou
com o nosso s a r g e n t o . É a r e s p e i t o do c a v a l h e i r o desaparecido,
o Cônego P e n n yf a t h e r .
— A h , s i m , s en hor , um c a v a l h e i r o m uito d i s t i n t o . Sempre se
hospeda a q u i .
— Muito d i s t r a í d o — lembrou P a p a i .
Rose Sheldon p e r m i t i u que um s o r r i s o d i s c r e t o aparecesse na
r e s p e i t o s a máscara do r o s t o .
— Deixe-me v e r . — Papai f i n g i u c o n s u l t a r umas n o t a s . — A
ú l t i m a vez que você v i u o Cônego Pennyfather foi…
— Na manhã de q u i n t a - f e i r a . Q u i n t a - f e i r a 1 9. E l e me d i s s e
que não v o l t a r i a naquela n o i t e nem possivelmente na n o i t e
s e g u i n t e . Acho que i a v i a j a r para Genebra, ou qualquer o u t r o
l u g a r da S u í ç a . Deu-me duas camisas para mandar l a v a r e eu
pr o m et i que e s t ar i a m pr ontas no o u t r o d i a de manhã.
— E es t a f o i a ú l t i m a vez que você o v i u .
— F o i , sim s enh or. Não estou de s e r v i ç o na p a r t e da t a r d e .
V o l t o só às s e i s h o r a s . Nesse í n t e r i m e l e j á de vi a t e r i d o
embora, ou pelo menos descera para as s a l a s do p r i m e i r o andar.
Não estava no q u a r t o . E deixou l á duas mal as.
— E s t á c e r t o — d i s s e P a p a i . O conteúdo das malas f o r a
examinado, mas não f or n ec er a nenhuma p i s t a ú t i l . E l e
c o n t i n u o u : — Você o chamou na manhã seguinte?
— Se eu chamei? Não s en h or, e l e estava f o r a .
— Como é que você f a z i a comumente? Levava um chá simples? O
pequeno almoço?
— Chá s i m p l e s . E l e tomava o p r i m e i r o almoço no s a l ã o , l á
embaixo.
— Quer d i z e r que você não entr ou no quarto d ele durante
todo o d i a seguinte?
— E n t r e i , s i m . — Rose pareceu chocada. — E n t r e i no quarto
d e l e , como de costume. Apanhei as camisas e , é c l a r o , espanei
o q u a r t o . Espanamos todos os quart os d i a r i a m e n t e .
— E a cama? Algum s i n a l de que houvesse dormido nela?
Rose enc ar ou-o. — A cama? Não s en hor.
— Não estava desarrumada… ou pelo menos amarrotada?
Rose abanou a cabeça.
— E o banheiro?
— E n c o n t r e i uma t o a l h a de r o s t o úmida, que f o r a usada,
c r e i o e u, na t a r d e a n t e r i o r . Provavelmente antes de s a i r e l e
lavou as mãos.
— E não havi a nada que i n d i c a s s e que o Cônego Pennyfather
v o l t a r a ao quarto… t a l v e z muito tarde… depois de m ei a- noit e?
A moça t or nou a o l h a r para D a vy, espantada. Papai a b r i u a
boca, mas fechou-a novamente. Ou e l a não sabi a nada a r e s p e i t o
da v o l t a do Cônego, ou era uma a t r i z e x í m i a .
— E o que me d i z da roupa dele… dos t ernos ? Estavam
arrumados nas malas?
— Não penhor, estavam pendurados no guarda-roupa. E l e t i n h a
f i c a d o com o q u a r t o , como o senhor sabe,
— Quem f o i que f e z as malas dele?
— Miss Gorringe deu ordem. Quando f o i p r e c i s o desocupar o
quar to para a mulher que o t i n h a r es er v a d o .
Um r e l a t o honesto e c o e r e n t e . Mas se a vel ha senhora não
m e n t i r a ao d e c l a r a r que v i r a o Cônego Pennyfather deixando o
quar to às 3 horas da madrugada de s e x t a - f e i r a , então e l e
v o l t a r a àquele quarto em alguma o c a s i ã o . Ninguém o v i r a e n t r a r
no h o t e l Será que, por algum m o t i v o , o Cônego e v i t a r a
deliberadamente que o vissem? Não d e i xa r a s i n a i s de sua
presença no q u a r t o . Nem sequer se d e i t a r a na cama. Será que
Miss Marple sonhara com aquela h i s t ó r i a toda? Na idade d e l a ,
era p o s s í v e l . Davy t e ve uma i d é i a :
— E a sac ol a da companhia aérea que e l e carregava?
— Como? Não estou entendendo.
— Uma b o l s a , a z u l - e s c u r o , da B . E . A . ou da B . O. A . C….
você não v i u ?
— Oh, a b o l s a , v i , sim s enh or . Mas naturalmente e l e a levou
consigo quando v i a j o u .
— Mas e l e não v i a j o u . Acabou não indo à S u í ç a . P o r t a n t o ,
deve t e r deixado a sac ol a a q u i . Ou então v o l t o u e deixou-a
aqui com o r e s t o da bagagem.
— Sim… acho… não tenho bem certeza… c r e i o que d e i x o u .
Inesperadamente, o pensamento a f l o r o u ao cér ebro de P a p a i :
E l e s não l h e deram nenhuma i n s t r u ç ã o sobre i s s o , não f o i ?
Rose Sheldon m o str ara-s e calma e competente a t é e n t ã o. Mas
a ú l t i m a pergunta a a b a l a r a . Ignorava a r es pos t a que d e ve r i a
d a r , Mas e l a d e v e r i a s a b e r .
O Cônego l e v a r a a s ac ol a para o a e r o p o r t o , e v o l t a r a de l á .
Se e s t i v e r a o u t r a vez no B e r t r a m ’ s devi a t r a z e r consigo a
s a c o l a . Mas Miss Marple não a mencionara ao c o n t a r que v i r a o
Cônego s a i r do quart o e descer a escada.
Presumivelmente a sac ol a f o r a largada no q u a r t o , mas não
f o r a posta j u n t o com as malas no de pós i t o de bagagem. Por quê?
S e r i a porque se pr e t e n di a que o Cônego f o r a à Suíça?
Papai agradeceu j o v i a l m e n t e a Rose e desceu a escada.
Cônego P en nyf a t h e r ! Um enigma, o Cônego P e nn yf a t h e r . Falou
um bocado a r e s p e i t o da viagem à S u í ç a , embaralhou tudo de
modo a não i r à S u í ç a , v o l t o u ao h o t e l em t a l segredo que
ninguém o v i u e t or nou a s a i r em plena madrugada. ( I a para
onde? Fazer o quê?)
P oderia a s i m pl e s d i s t r a ç ã o e x p l i c a r tudo i s s o ?
Da escada Papai lançou um o l h a r despeitado aos ocupantes do
saguão, e perguntou a s i mesmo se alguém a l i era o que todos
pareciam s e r . E l e mesmo chegara àquele e s t á g i o ! Gente i d o s a ,
gente de m eia -i da de , (não havi a ninguém j o v e m ) , , gente
s i m p á t i c a à moda a n t i g a , quase todos de posse, todos
r e s p e i t a b i l í s s i m o s . F u n c i o n á r i o s , advogados, e c l e s i á s t i c o s ;
j u n t o à p o r t a , um c a s a l americano; p e r t o da l a r e i r a , uma
f a m í l i a f r a n c e s a . Ninguém que chamasse a atenção, ninguém
deslocado a l i ; a m a i o r i a degustando, f e l i z , um chá das c i n c o
à i n g l e s a . P oderia haver algo de errado num l u g a r onde se
s e r v i a o chá das c i n c o à moda a nt i ga ?
O f r a n c ê s f e z para a mulher um comentário que se enquadrava
bem no ambiente:
— Le f i v e - o ’ - c l o c k ! — d i z i a e l e . — C ’ e s t bien a n g l a i s ç a ,
n ’ e s t ce pas? — E olhou em v o l t a com aprovação.
“Le f i v e - o ’ - c l o c k ” , pensou Davy enquanto atravessava a
p o r t a de vaivém e chegava na r u a . “Aquele camarada não sabe
que “ l e f i v e - o ’ - c l o c k es t á t ã o e x t i n t o quanto a ave D o d ô !”
Do lado de f o r a , v á r i a s malas e v a l i s e s americanas estavam
sendo t r a ns p o r t a d a s para um t á x i . P ar ec i a que M r . e M r s . Elmer
Cabot estavam a caminho do H o t e l Vendôme, em P a r i s .
Ao lado de M r . C a b ot , no m e i o - f i o , M r s . Cabot dava suas
o p i n i õ es ao m ar i d o:
— Os Pendleburys tinham razão quanto a e s t e l o c a l , E l m e r . É
de f a t o a vel ha I n g l a t e r r a . Lindamente Eduardiano! Eu t i n h a a
impressão de que a qualquer momento Eduardo V I p oderia e n t r a r
na s a l a e s e n t a r - s e para tomar o chá das c i n c o . Estou
r e s o l v i d a a v o l t a r no ano que vem… r e s o l v i d a mesmo.
— Se você t i v e r um milhão de d ó l a r es para g a s t a r —
respondeu secamente o m ar i d o .
— O r a, E l m e r , não f o i t ã o caro a s s i m .
Arrumada á bagagem, o p o r t e i r o a l t o ajudou os c l i e n t e s a
subirem no t á x i , murmurando “ M u i t o obri gado” quando M r . Cabot
f e z o esperado g e s t o . O t á x i p a r t i u . O p o r t e i r o t r a n s f e r i u
suas atenções para D a vy.
— Táxi ?
Papai examinou o homem.
Mais de um metro e o i t e n t a de a l t u r a . Bem-apessoado. Um
t a n t o desmazelado. Ex-combatente. Um monte de medalhas —
provavelmente genuínas. Esperto? Bebe demais. Em voz a l t a ,
Papai perguntou:
— Ex-combatente?
— Sim s en hor. Guarda I r l a n d e s a .
— Medalha m i l i t a r , estou vendo. Onde a ganhou?
— Birmânia.
— Como se chama?
— Michael Gorman. S arg e nt o .
— Bom emprego aqui?
— O l u g a r é sossegado.
— Não p r e f e r i r i a o H i l t o n ?
— Não. Gosto d a q u i . A c l i e n t e l a é gente f i n a , com muit os
t u r f i s t a s que vêm a s s i s t i r às c o r r i d a s de A s c ot e Newbury. De
vez em quando me dão bons p a l p i t e s .
— A h , então é i r l a n d ê s e j o g a d o r , hem?
— O r a ! Que s e r i a a v i d a sem um joguinho?
— Pacata e chata — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e D a vy. — I g u a l à
minha.
— Verdade?
— É capaz de a d i v i n h a r a minha p r o f i s s ã o ? O i r l a n d ê s
sorriu:
— Não me l e v e a m a l , mas eu d i r i a que é um t i r a .
— Ac ertou em c h e i o . Lembra-se do Cônego Pennyfather?
— Cônego P e n n yf a t h e r , não recordo bem o nome…
— Um p a s t o r i d o s o . Michael Gorman r i u :
— Bem, p a s t o r é o que mais dá a í d e n t r o .
— Mas esse desapareceu d a q u i .
— A h , aquele — O p o r t e i r o pareceu levemente d es c onf i a d o.
— Você o conheceu?
— Não me l e m b r a r i a dele se t a n t a gente não me f i z e s s e
perguntas sobre e l e . Tudo o que eu s e i é que o embarquei num
t á x i e que e l e f o i para a S u í ç a , mas o u v i d i z e r que não chegou
l á . Parece que se perdeu.
— Não o v i u mais t a r d e , naquele dia?
— Mais tarde… Não s en hor.
— A que horas d ei xa o s e r v i ç o ?
— Onze e m eia.
O I n s p e t o r - C h e f e Davy f e z um aceno de cabeça, recusou um
t á x i e pôs-se a caminho l entam ent e, ao longo de Pond S t r e e t .
Um c a r r o passou roncando ao seu l a d o , r e n t e ao m e i o - f i o , e
parou d e f r o n t e ao H o t e l B e r t r a m ’ s , com um ranger de f r e i o s . O
I n s p e t o r - C h e f e Davy v i r o u a cabeça calmamente e reparou no
número da p l a c a : FAN 2266. Aquele número l h e lembrava qualquer
c o i s a , embora no momento não l h e f os s e p o s s í v e l d i z e r o quê.
Vagarosamente, v o l t o u para o ponto de onde v i e r a . Mal
alcançara a entrada do h o t e l , quando o m o t o r i s t a , que
at r a v es s ar a a p o r t a um momento a n t e s , tor nou a s a i r . Combinava
muito bem com o c a r r o , que era um modelo de c o r r i d a , br anco,
de l i n h a s alongadas e b r i l h a n t e s . O rapaz t i n h a o mesmo a r
i n q u i e t o de um g a l g o , r o s t o b o n i t o e , no c o r p o , nem uma
polegada de carne s u p é r f l u a .
O p o r t e i r o segurou a p o r t a aberta do c a r r o , o moço s a l t o u
para d e n t r o , a t i r o u uma moeda ao p o r t e i r o e arrancou com uma
explosão do possante m o t o r .
— Sabe quem é ele? — perguntou Michael Gorman a P a p a i .
— Um s u j e i t o p e r i g o s o , na c e r t a .
— L a d i s l a us M a l i n o w s k i . Ganhou o Grand P r i x d o i s anos
atrás… f o i campeão m u n di a l . No ano passado deu uma b a t i d a
f e i a , mas dizem que j á es t á em f o r m a .
— Não me diga que e l e es t á hospedado no B e r t r a m ’ s . Não
combina.
Michael Gorman s o r r i u com m a l í c i a .
— Não s enh or, não es t á hospedado a q u i , não. Quem es t á
hospedada aqui é uma amiga d e l e . — E pisc ou o o l h o .
Um s er ve nt e do h o t e l , de a v e n t a l l i s t r a d o , apareceu com
novo carregamento de bagagem americana, de l u x o .
Papai a s s i s t i u d i s t r a í d o à acomodação da bagagem num
D a i m l e r de a l u g u e l , enquanto procurava r e c o r d a r - s e do que
s abi a a r e s p e i t o de L a d i s l a us M a l i n o w s k i . Um s u j e i t o aloucado
— d i z i a - s e que t i n h a uma l i g a ç ã o com uma mulher bastante
conhecida — como se chamava ela? Ainda contemplando uma
elegante mala-camarote, i a dar meia v o l t a quando mudou de
i d é i a e t or nou a e n t r a r no h o t e l .
F o i à recepção e pediu a Miss Gorringe o r e g i s t r o d o. s
hóspedes. Miss Gorri nge estava ocupada com os americanos que
p a r t i a m , e empurrou o l i v r o na di r eç ã o dele por cima do
b a l c ã o . Davy f o i vi r a n d o as pá gi na s: Lady S e l i n a H az y, L i t t l e
C o t t a g e , M e r r y f i e l d , H a n t s . Mr.e M r s . Hennessey K i n g ,
E l d e r b e r r i e s , E s s e x. S i r John Woodstock, Beaumont C r e sc ent 5 ,
Cheltenham. Lady S e dg wi ck, H u r s t i n g s House, Northumberland.
M r . e M r s . Elmer C a b o t , C o n n e c t i c u t . General R a d l e y, The
Green, 1 4, C h i c h e s t e r . M r . e M r s , Wolmer P i c k i n t o n , Marble
Head, C o n n e c t i c u t . La Comtesse de B e a u v i l l e , Les S a p i n s , S t .
Germain en Laye. Miss Jane M ar pl e , S t . Mary Mead, Much Benham.
Coronel Luscombe, L i t t l e Green, S u f f o l k . M r s . C a r p e n t e r , Hon.
E l v i r a B l a k e , Cônego P e n n yf a t h e r , The C l o s e , Ch adminst er. M r s ,
H o l d i n g , Miss H o l d i n g , Miss Audrey H o l d i n g , The Manor House,
Carmanton. M r . e M r s . R y e s v i l l e , V a l l e y F or ge, P e n ns yl v a ni a .
Duque de B a r n s t a b l e , Doone C a s t l e , N . Devon… Uma amostra das
pessoas que se hospedavam no H o t e l B e r t r a m ’ s . Formavam,
pensou, uma espécie de ordem preestabelecida…
E quando fechava o l i v r o , s a l t o u - l h e aos ol hos um nome
e s c r i t o numa página a n t e r i o r : S i r W i l l i a m Ludgrove.
O J u i z Ludgrove, que f o r a reconhecido por um o f i c i a l de
j u s t i ç a , próximo ao banco a s s a l t a d o . O J u i z Ludgrove… o Cônego
Pennyfather… ambos c l i e n t e s do H o t e l Bertram’s…
— Espero que o senhor tenha gostado do c h á . — Era H e n r y , de
pé a seu l a d o . Falava poli dam ent e, e com a l e v e ansiedade do
perfeito a nfitri ão.
— O melhor chá que tomei nestes ú l t i m o s anos — d i s s e o
I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
Lembrou-se então de que não pagara o c h á. Tr atou de f a z ê -
l o , mas Henry l eva n to u a mão, s ú p l i c e :
— Oh, não s en ho r. Disseram-me que o seu chá era por conta
da c as a. Ordens de M r . H u m f r i e s .
Henry a f a s t o u - s e . Papai f i c o u sem saber se de vi a ou não dar
uma g o r j e t a a H e n r y . Era m o r t i f i c a n t e pensar que Henry s abi a
muito melhor do que e l e a r es post a para esse problema s o c i a l !
Já i a andando pela rua quando, de r e p e n t e , p ar ou. T i r o u do
bols o a agenda e escreveu nela um nome e um endereço — não
havi a tempo a p e r d e r . E ntr ou numa cabina t e l e f ô n i c a : i a
a r r i s c a r - s e . Fosse como f o s s e , estava r e s o l v i d o a apostar tudo
num p a l p i t e .
DEZESSEIS

E que estava preocupando o Cônego P e n n yf a t h e r . Ainda


RA O GUARDA-ROUPA

não estava bem d e s p e r t o , e o guarda-roupa o preocupava. Mas a í


adormeceu de novo e esqueceu-se do guarda-roupa. Quando,
porém, os seus ol hos novamente se a b r i r a m , l á estava o guarda-
roupa no l u g a r e r r a d o , O Cônego estava deit ad o sobre o l ado
esquerdo, de f r e n t e para a j a n e l a , e o guarda-roupa d e v e r i a
e s t a r a l i , e n t r e e l e e a j a n e l a , encostado à parede da
esquerda. Mas não e s t a v a . Estava à d i r e i t a , e a q u i l o o
preocupava. Preocupavam t a n t o que o deixava e xa u s t o . E l e t i n h a
c ons c i ê nc i a de que a cabeça l h e doía m u i t o , e , além do m a i s ,
aquele guarda-roupa no l u g a r errado… Nesse p o n t o , seus olhos
mais uma vez se fecharam.
Da vez s eg u in t e em que acordou, havi a m uito mais l u z no
q u a r t o . Ainda não amanhecera. Só havi a a d é b i l l u z da
madrugada. “Oh? S e n h or ” , pensou consigo o Cônego P e n n yf a t h e r ,
resolvendo subitamente o problema do guarda-roupa. “Que
est úp id o que eu s o u ! É e v i d e n t e , não estou em c a s a ! ”
Mexeu-se com c u i dad o. Não, aquela não era a sua cama.
Estava em o u t r a c as a. Estava — onde é que e s t a r i a ? Oh, c l a r o .
Fora para Londres, não f o r a ? Estava no B o t e i B e r t r a m ’ s e… mas
não, não estava no H o t e l B e r t r a m ’ s . No B e r t r a m ’ s a cama f i c a v a
d e f r o n t e à j a n e l a . P o r t a n t o essa i d é i a de B e r t r a m ’ s também era
errada.
— Oh, meu Deus, onde é que estou? — indagava o Cônego
P e n n yf a t h e r .
Lembrou-se então que i a para Lucerna. “ C l a r o ” a d m i t i u e l e
“ e s t o u em L uc er n a. ” Começou a pensar na comunicação que i a
l e r ; mas não pensou n i s s o muito tempo. Pensar na c o n f er ê nc i a
f a z i a - l h e doer a cabeça; assim novamente t r a t o u de d o r m i r .
Quando o u t r a vez d esp ert ou, sua cabeça estava m u i t í s s i m o
mais c l a r a , e também havi a muito mais l u z no q u a r t o . Não
estava em c as a, não estava no H o t e l B e r t r a m ’ s e sabi a
p er f e i t a m e nt e que não estava em L u cer na ^- A q uil o não era um
quar to de h o t e l . Examinou mais detidamente o l o c a l : era um
quar to i n t e i r a m e n t e e s t r a n h o , com muito pouca m o b í l i a . Uma
espécie de ar mári o (que e l e tomara pelo guarda-roupa) e uma
j a n e l a com c o r t i n a s f l o r i d a s , a t r a vé s das quais passava a l u z .
Uma c a d e i r a , uma mesa, uma cômoda. E s ó .
— Oh, Senhor — d i s s e o Cônego P e n n yf a t h er . — Que c o i s a
e s t r a n h a ! Onde será que estou?
Estava pensando em se l e v a n t a r a f i m de i n v e s t i g a r ; mas
quando se sentou na cama, a cabeça recomeçou a d o e r , de forma
que e l e tor nou a d e i t a r - s e .
— Devo t e r adoecido — c o n c l u i u o Cônego. — S i m , devo t e r
adoecido, sem nenhuma d ú vi d a . — Pensou um ou d o i s m i n u t o s ,
depois d i s s e de s i para s i : “ A l i á s , c r e i o que ainda estou
doente. G r i p e , quem sabe? Dizem que a g r i p e chega às vezes de
r e p e n t e . Talvez… t a l v e z tenha me pegado no j a n t a r l á no
Athenaeum. S i m , é i s s o . ” Lembrava-se de que j a n t a r a no
Athenaeum.
Ouviram-se r u í d o s de movimento dentr o de c as a . T al vez o
tivess em levado para uma casa de saúde. Mas não, não l h e
p ar e c i a que a q u i l o a l i f os s e uma casa de saúde. Aumentando a
l u z do d i a , v i a - s e que se t r a t a v a de um q u a r t i n h o modesto e
mal m o b i l i a d o . Continuaram os sons de movimento. Lá embaixo,
uma voz g r i t o u : “ A d e us , meus a n j o s , E s t a n o i t e v a i t e r
salsicha e purê”.
O Cônego P ennyf ather f i c o u a pensar n a q u i l o . S a l s i c h a e
p u r ê . As p al a vr as tinham uma qualidade a gr a d á ve l .
— C r e i o — d i s s e consigo — que estou com fome. A b r i u - s e a
p o r t a . Uma mulher de meia-idade e n t r o u , caminhou at é às
c o r t i n a s , puxou-as um pouco e v i r o u - s e para a cama.
— A h , o senhor j á acordou. E que é que es t á sentindo?
— Na verdade — respondeu debilmente o Cônego Pennyfather —
nem s e i bem.
— A h , acho mesmo que não. O senhor esteve m uito m a l , sabe?
Levou uma pancada f e i a , não s e i com que… pelo menos f o i o que
o médico d i s s e . Esses m o t o r i s t a s ! Não param, nem depois de
a t r o p e l a r uma pessoa!
— S o f r i um acidente? — indagou o Cônego. — Um ac i dent e de
automóvel?
— I s s o mesmo — respondeu a m u l h er . — Nós o encontramos no
acostamento da e s t r a d a , quando vínhamos para c a s a. A p r i n c í p i o
pensamos que f os s e um bêbado. — R i u - s e ao r e c o r d a r a cena. —
Mas a í meu marido achou que era melhor dar uma e s pi ada.
“ T a l v e z tenha s i d o um a c i d e n t e ” , d i s s e e l e . Não se s e n t i a
nenhum c h e i r o de b e bid a; nem havi a sangue. Mas assim mesmo, l á
estava o s e nh or , f e i t o um d e f u n t o . Então meu marido d i s s e :
“Não podemos d e i x a r esse homem e s t i r a d o a í ” e carregou o
senhor para c á . Entendeu?
— Ah — d i s s e vagamente o Cônego P e n n yf a t h er , a t u r d i d o por
t a i s r e v e l a ç õ e s . — Um bm bom s a m ar i t a n o !
— Vimos que o senhor era um p a s t o r , e o meu marido d i s s e :
“ é um homem r e s p e i t á v e l ” . Achou que era melhor não chamar a
p o l í c i a , porque, sendo um e c l e s i á s t i c o , o senhor poderia não
gostar… se e s t i v e s s e bêbado, embora não c hei r as s e a b e bid a.
Assim resolvemos chamar o D r . Stokes para examinar o s enh or .
Nós ainda o chamamos de D r . S t o k e s , embora e l e e s t e j a p r o i b i d o
de c l i n i c a r . É um homem muito bom, amargurado, evidentemente,
pela p r o i b i ç ã o de c l i n i c a r . E tudo porque tem um coração m uito
bom; ajudou um bando de moças, boas b i s c a s , todas e l a s . De
qualquer modo, e l e como médico é ó t i m o , e nós o chamamos para
o l h a r o s en hor. D i s s e e l e que o senhor não s o f r e u nada g r a v e ,
só uma l i g e i r a concussão. Bastava que a gente o d e i t a s s e bem
e s t i r a d o , q u i e t o , num quarto e s c u r o . “Tenham c u i d a d o ” , d i s s e o
d o u t o r , ^não estou fazendo d i a g n ó s t i c o nenhum. O que digo é em
c a r á t e r e x t r a - o f i c i a l . Não tenho d i r e i t o de r e c e i t a r nem de
d i z e r nada. O c o r r e t o s e r i a vocês darem p a r t e à p o l í c i a , mas
se não o querem f a z e r , por que o far ão? Dêem uma oportunidade
ao p o b r e - d i a b o ” , f o i o que e l e d i s s e . O senhor de sc ulp e,
parece at é que estou l h e f a l t a n d o com o r e s p e i t o , mas o dout or
é assim mesmo, d i z tudo que l h e vem à boca. E agora que t a l
uma colherada de sopa ou um pão com l e i t e , bem quentinho?
— Qualquer c o i s a — bal buciou o Cônego Pennyfather — s e r i a
bem r e c e b i d a .
E o vel ho deixou-se c a i r novamente nos t r a v e s s e i r o s . Um
acidente? Então f o r a i s s o . Um a c i d e n t e , e e l e não conseguia
r e c o r d a r - s e de c o i s í s s i m a nenhuma! Poucos minutos mais t a r d e a
boa mulher v o l t o u , com uma bandeja onde carregava uma t i g e l a
fumegante.
— O senhor v a i se s e n t i r melhor depois de se a l i m e n t a r .
T i v e vontade de b o t a r dent ro uma got i nh a de uí s q u e , ou uma
g ot i nha de conhaque, mas o doutor d i s s e que o senhor não podia
tomar á l c o o l nenhum.
— C l a r o que não — d i s s e o Cônego Pennyfather — com uma
concussão não p o d e r i a . Não. Não s e r i a a c o ns e l h á ve l .
— Quer que eu l h e ponha mais um t r a v e s s e i r o às c o s t a s ,
benzinho? P r o n t o . E s t á bem assim?
O Cônego P ennyf ather espantou-se um pouco ao v e r - s e t r a t a d o
por “ b e n z i n h o ” . Mas d i s s e consigo que decerto a i nt enç ão era
boa.
— B onit i nh o, assim!
— S i m , mas onde é que estamos? — indagou o Cônego
P e n n yf a t h e r , — Quero d i z e r , onde é que eu estou? Que l u g a r é
este?
— M i l t o n S t . John — inform ou a m ul h e r . — Não sabia?
— M i l t o n S t . John? — d i s s e o Cônego, abanando a cabeça. — É
a p r i m e i r a vez que ouço esse nome.
— Oh, não é nenhum l u g a r i m p o r t a n t e . É só uma a l d e i a .
— A senhora tem s i d o , m u i t o bondosa — declarou o Cônego
P e n n yf a t h e r . — Posso saber o seu nome?
— M r s . W heeling.
— A senhora é extremamente bondosa — tornou a d i z e r o
Cônego P e n n y f a t h e r . — Mas o acidente? Não me lembro de nada…
— T i r e i s s o da cabeça, benzinho, e se s e n t i r á melhor e em
condições de se lem brar das c o i s a s .
— M i l t o n S t . John — d i s s e consigo o Cônego P e n n yf a t h e r ,
admirado. — Esse nome não tem para mim a menor s i g n i f i c a ç ã o !
Que c o i s a e x t r a o r d i n á r i a !
DEZESSETE

Sir R G
ONALD desenhou um gato no seu bl oco de n o t a s . Olhou
RAVES

para a volumosa f i g u r a do I n s p e t o r - C h e f e D a vy, sentado d i a n t e


d e l e , e desenhou um buldogue.
— L a d i s l a us M ali now sk i ? — d i s s e . —Pode s e r . Tem alguma
prova?
— Não. Mas e l e preenchia os r e q u i s i t o s , não?
— Um s u j e i t o t e m e r á r i o , sem n e r v o s . Conquistou o campeonato
m u n d i al . S ofr eu um grande desas t r e no ano passado. Péssima
reputação com as mulheres. Fontes de renda du vi d os as. Gasta à
vontad e, t a n t o aqui como no e x t e r i o r . Sempre vi a j a n d o daqui
para o C o n t i n e n t e . Acha que e l e é o homem que es t á por t r á s
desses roubos e a s s a l t o s ?
— Não c r e i o que s e j a e l e quem p l a n e j a . Mas acho que anda
metido n i s s o .
— Por quê?
— Em p r i m e i r o l u g a r , é dono de um M ercedes-Otto, modelo de
c o r r i d a s . Um c a r r o que corresponde àquele que f o i v i s t o p e r t o
de Bedhampton na manhã do a s s a l t o à mala do t r e m . Os números
da placa são d i f e r e n t e s , mas j á estamos acostumados com i s s o .
E o truque é o mesmo de sempre: d i f e r e n t e s , mas não t ã o
d i f e r e n t e s a s s i m . FAN 2299 em vez de 2266. A f i n a l , não há
t a n t o s Mercedes-Otto daquele t i p o . Lady Sedgwick tem um, e
Lorde M a r r i v a l e o u t r o .
— Não a c r e d i t a que M al i n o w s k i s e j a o c h ef ã o . Ou a c r e d i t a ?
— Não. Acho que há cabeças melhores que a dele na d i r e ç ã o .
Mas e l e f a z p a r t e do gr upo. Deu uma olhada no d o s s i ê . E s t á
lembrado do a s s a l t o ao Midland & West London? Três furgões…
v e j a quanta c oi nci dê ncia!… acertaram de bloquear a r u a . E uma
Mercedes-Otto que estava no l o c a l conseguiu e s c a p u l i r graças a
esse engarrafamento.
— Mas f o i d e t i d a um pouco mais t a r d e .
— S i m , e f o i l i b e r a d a . P r i n c i p a l m e n t e porque as pessoas que
deram p a r t e del a não estavam bem c e r t a s quanto ao número da
p l a c a . D i z i am que era FAN 3366… o número da plac a de
M al i n o w s k i é FAN 2266. É sempre o mesmo quadro.
— E você teima em l i g a r tudo i s s o ao H o t e l B e r t r a m ’ s . Devem
t e r desencavado algum m a t e r i a l sobre o B e r t r a m ’ s para você…
Papai bateu no b o l s o :
— E s t á comigo. Firma devidamente r e g i s t r a d a . Balanço…
c a p i t a l realizado… d i r e t o r e s , e t c , e t c , e t c Não s i g n i f i c a
nada! Esses grupos f i n a n c e i r o s são todos iguais… cobra
engolindo c o b r a ! F i r m a s , companhias administradoras… dão at é
v er t i g em na g e nt e .
— Ora vamos, P a p a i . Esse é o procedimento normal do pessoal
da C i t y . É um meio de e n f r e n t a r o fisco…
— O que eu quero são dados r e a i s . Se o senhor me der
a u t o r i z a ç ã o , t e r e i m uito p r az er em i r f a l a r com c e r t o s
c h ef õ e s .
O C omis s ári o A s s i s t e n t e encarou D a vy.
— E quais são esses chefões? Pode me d i z e r ? Papai mencionou
um nome.
O C omis s ári o pareceu p e r t u r b a r - s e . — Não s e i de nada. S e r i a
muita ousadia abordar esse homem.
— Mas i s s o poderia aj u dar- nos e m u i t o .
Houve uma pausa. Os d o i s homens se encararam. P a p a i ,
b o v i n o , p l á c i d o , p a c i e n t e . O C omi ss ári o cedeu.
— Você é um diabo vel ho e t e i m os o , Fred — d i s s e e l e .
— Faça como bem e nte nd er. Se q u i s e r , pode i r amolar os
mentores dos f i n a n c i s t a s i n t e r n a c i o n a i s da Europa.
— Garanto que e l e sabe — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e D a vy .
— E l e sabe. E se não s oub er, pode d e s c o b r i r l o g o , basta
t o c a r uma c i g a r r a , na mesa, ou dar um t e lef onem a.
— Não me parece que e l e vá f i c a r muito s a t i s f e i t o .
— Provavelmente não, mas não l h e tomará muito tempo. Só que
eu p r e c i s o do apoio de uma a u t o r i d a d e .
— Você es t á levando a s é r i o mesmo esse H o t e l B e r t r a m ’ s , não
está? A f i n a l , que f o i que você descobriu? É um h o t e l bem
d i r i g i d o , tem uma c l i e n t e l a r e s p e i t a b i l í s s i m a , nunca t e ve
problemas com as pos t ur as municipais…
— Eu s e i , eu s e i . Nada de be bi d as , de d r ogas , de j o g o , nem
de hospedagem a c r i m i n o s o s . Tudo a l v í s s i m o como a neve rec ém-
c aída. Nada de b e a t n i k s , de m a r g i n a i s , de deli nq üent es
j u v e n i s . Só matronas v i t o r i a n a s - e d u a r d i a n a s , f a m í l i a s da
nobreza r u r a l , v i a j a n t e s e s t r a n g e i r o s , de Boston ou dos l o c a i s
mais r e s p e i t á v e i s dos Estados U n i d o s . Apesar d i s s o , um
venerando Cônego da nossa I g r e j a é v i s t o saindo de l á às 3 da
manhã, de maneira um t a n t o s ub- r e p t í c i a…
— Quem l h e d i s s e i s s o ?
— Uma das matronas.
— Como e l a conseguiu v ê - l o ? Por que não estava e l a na cama
dormindo?
— Senhoras idosas são a s s i m , meu caro sen hor .
— Você es t á f al an do do… como se chama ele… Cônego
Pennyfather?
— E s t o u , sim s en hor. Comunicaram o desaparecimento d e l e , e
Campbell andou i n v e s t i g a n d o .
— C o i n c i d ê n c i a c u r i o s a . O nome desse Cônego f o i c i t a d o
também a p r o p ó s i t o do roubo das malas do c o r r e i o em
Bedhampton.
— F o i mesmo? E por quem?
— Por o u t r a senhora idosa… ou pelo menos de m eia- i da de.
Quando o trem f o i d e t i d o por aquele s i n a l f a l s o , m ui tas
pessoas se levantaram e olharam para o c o r r e d o r . Essa senhora,
que mora em Chadminster e conhece de v i s t a o Cônego
P e n n yf a t h e r , d i z que o v i u e n t r a r no t r e m , por uma das p o r t a s .
E l a pensou que e l e t i n h a saído para v e r o que ha vi a
a c o n t e c i d o , e e s t i v e s s e entrando de v o l t a . E nós íamos s e g u i r
essa p i s t a , j á que haviam comunicado o desaparecimento do
Cônego…
— Vejamos… o trem f o i d e t i d o às 5,30 da manhã. O Cônego
P ennyf ather s a i u do H o t e l B e r t r a m ’ s pouco depois das 3 da
madrugada. S i m , podia s e r . Se o levassem lá… digamos, num
c a r r o de corrida…
— E assim voltamos a L a di s l a u s M a l i n o w s k i !
O C omis s ári o contemplava as g a r a t u j a s que f i z e r a no b l o c o .
— Você é mesmo um buldogue, F r e d .
Meia hora depois o I n s p e t o r - C h e f e Davy e ntr a va num
e s c r i t ó r i o t r a n q ü i l o e bastante modesto. O homenzarrão por
t r á s da mesa l e v a n t o u - s e e estendeu-lhe a mão.
— I n s p e t o r - C h e f e Davy? S e n t e - s e , por f a v o r — d i s s e e l e . —
A c e i t a um charuto?
O I n s p e t o r - C h e f e Davy abanou a cabeça:
— Peço-lhe desculpas — d i s s e e l e na sua voz profunda de
camponês — em roubar o seu pr ec i o s o tempo.
M r . Robinson s o r r i u . Era um homem gordo e muito bem
v e s t i d o . Tinha a cara am arela, os ol hos escuros e t r i s t e s , a
boca l a r g a e generosa. S o r r i a freqüentemente, mostrando uns
dentes muito grandes. “São para comer você m el hor” pensou
incongruentemente o I n s p e t o r - C h e f e D a vy . Robinson f a l a v a um
i n g l ê s p e r f e i t o e sem sotaque, mas não era i n g l ê s . P a p a i , como
inúmeras pessoas antes d e l e , estava c u r i o s o por saber qual
s e r i a a nacionalida de de M r . Robinson.
— Bem, em que posso s e r v i - l o ?
— G os t a r i a de saber — d i s s e Davy — quem é o p r o p r i e t á r i o do
Hotel Bertram’s.
A expressão do r o s t o de M r . Robinson não se a l t e r o u . E l e
não mostrou surpres a ao o u v i r aquele nome, nem deu nenhum
s i n a l de c o n h ec ê- l o . D i s s e p e n s a t i v o :
— O senhor quer saber quem é o p r o p r i e t á r i o do H o t e l
B e r t r a m ’ s . I s s o , c r e i o e u, f i c a em Pond S t r e e t , na a l t u r a de
Piccadilly.
— Exatamente.
— Uma vez ou o u t r a me hospedo l á . Lugar sossegado, bem
administrado.
— É sim senhor — d i s s e P a p a i . — Muito bem a d m i n i s t r a d o .
— E o senhor quer saber quem é o dono? Certamente é f á c i l
verificar.
H avi a uma l e v e i r o n i a por t r á s do s o r r i s o .
— P el os canais c o s t u m e i r o s , é i s s o que o senhor quer d i z e r ?
— A h , s i m . — Papai t i r o u do bolso um pedacinho de papel e l e u
t r ê s ou quatr o nomes e endereços.
— Compreendo — d i s s e M r . Robinson. — Alguém deve t e r t i d o
um t r a b al h ã o com i s s o . I n t e r e s s a n t e . E o senhor v e i o me
procurar!
— O senhor é a pessoa mais i n d i c a d a .
— Realmente não s e i . Mas é verdade que tenho meios de o b t e r
i nf or m aç ões . Temos… — encolheu os ombros gordos , enormes —
temos os nossos c o n t a t o s .
— É , sim — d i s s e Papai com r o s t o i m p a s s í v e l .
M r . Robinson olhou para Davy e em seguida apanhou o
t e l e f o n e em cima da mesa:
— Sônia? Me chame o C a r l o s — Esperou um ou d o i s m i n u t o s , e
então f a l o u : — C ar l os ? — Pronunciou rapidamente meia dúzi a de
f r a s e s numa l í n g u a e s t r a n g e i r a . Não era sequer uma l í n g u a que
Papai pudesse i d e n t i f i c a r .
Papai podia d i a l o g a r em bom f r a n c ê s - d e - i n g l ê s . Tinha umas
t i n t u r a s de i t a l i a n o e entendia por a l t o o alemão s i mpl es dos
v i a j a n t e s . Conhecia os sons do es panhol, do r u s s o , do árabe,
embora não os entendesse. Mas aquele idioma não era nenhum
dess es. T al ve z se t r a t a s s e de t u r c o , ou p e r s a , ou armênio, mas
não t i n h a c e r t e z a . M r . Robinson recolocou o fone no gancho.
— Não c r e i o — d i s s e e l e bem humorado — que tenhamos de
esperar muito tempo. Sabe que f i q u e i int er essado ? M u i t í s s i m o
i n t e r e s s a d o . Eu mesmo tenho pensado, uma vez ou outra…
Papai o o l h a v a , com a r i n q u i s i t i v o .
— No H o t e l B e r t r a m ’ s — e x p l i c o u M r . Robinson. — Do ponto de
v i s t a f i n a n c e i r o , evidentemente. A gente se pergunta como é
que a q u i l o pode dar l u c r o . Mas i s s o não é da minha c o n t a . Faz
gosto saber… — deu de ombros — que e x i s t e um h o t e l
c o n f o r t á v e l , com uma gerência excepcionalmente capaz e
empregados… S i m , tenho pensado n i s s o . — Fixou o o l h a r em
P a p a i . — Sabe como e por quê?
— Ainda não. Mas quero s a b e r .
— Há v á r i a s p o s s i b i l i d a d e s — d i s s e M r . Robinson p e n s a t i v o .
— É , como a música. Apenas t a n t a s notas para cada o i t a v a , e no
entanto é p o s s í v e l combiná-las de… que s e i eu? de m i l maneiras
d i f e r e n t e s . Um músico c e r t a vez me d i s s e que não se pode o b t e r
a mesma melodia duas vez es . I n t e r e s s a n t í s s i m o .
Uma c i g a r r a , na mesa, tocou de l e v e e M r . Robinson pegou de
novo o t e l e f o n e .
— Sim? S i m , você f o i r á p i d o . Estou s a t i s f e i t o . Entendo. Oh!
Amsterdã, sim… Ah… Obrigado. S i m . Quer s o l e t r a r i s s o ? Muito
bem.
Anotou qualquer c o i s a num bl oc o que t i n h a à mão.
— Espero que i s s o l h e s i r v a — d i s s e e l e , arrancando a f o l h a
do bloco e passando-a por cima da mesa para D a vy, que l e u o
nome em voz a l t a : Wilhelm Hoffman.
— Nacionalidade s uí ç a — d i s s e M r . Robinson — Mas, a meu
v e r , não nasceu na S u í ç a . Tem grande i n f l u ê n c i a nos c í r c u l o s
bancários e embora se mantenha rigorosamente à d i r e i t a da l e i ,
tem estado por t r á s de inúmeros… negócios s u s p e i t o s . Opera
apenas no C o n t i n e n t e , nunca neste p a í s .
— Mas tem um irmão — e x p l i c o u M r . Robinson. — R ob er t
Hoffman: es t e mora em Londres, negocia com diamantes… f i r m a
r e s p e i t a b i l í s s i m a . É casado com uma holandesa e também tem
e s c r i t ó r i o s em Amsterdã. A S c otl and Yard deve t e r informações
sobre e l e . Como eu d i s s e , negocia p r i n c i p a l m e n t e com
diamantes, mas é um homem muito r i c o , possui m uitas
pr o p r i e d a des , que em g e r a l não estão no seu nome. S i m , e l e
es t á por t r á s de uma porção de empresas. E o irmão dele é o
v erda deir o p r o p r i e t á r i o do H o t e l B e r t r a m ’ s .
— Muito agr adecido. — O I n s p e t o r - C h e f e Davy l e v a n t o u - s e . —
Não p r e c i s o d i z e r quanto sou g r a t o ao s en hor . É f o r m i d á v e l —
acr e sc entou, p e r m i t i n d o - s e demonstrar mais entusiasmo do que o
n or m al .
— Formidável eu saber? — indagou M r . Robinson, dando um dos
seus mais amplos s o r r i s o s . — Mas essa é uma das minhas
e s p e c i a l i d a d e s . I nf orm ação. Gosto de s a b e r . F o i por i s s o que
me p r oc ur o u , não?
— Bem — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e Davy — nós temos informações
sobre o s en hor . O M i n i s t é r i o do I n t e r i o r . A D i v i s ã o
E s p e c i a l i z a d a e os o u t r o s departamentos. — Acr esc entou, quase
ingenuamente: — F o i p r e c i s o um pouco de audácia da minha
p a r t e , para v i r p r o c u r á - l o .
Novamente M r . Robinson s o r r i u .
— Considero o senhor uma personalidade muito i n t e r e s s a n t e ,
I n s p e t o r - C h e f e Davy — d i s s e e l e . — Desejo que tenha ê x i t o na
sua t a r e f a , qualquer que s e j a e l a .
— Muito o br i g a d o. Acho que p r e c i s o dos seus bons v o t o s . A
p r o p ó s i t o , esses d o i s i r m ã o s , o senhor d i r i a que são homens
violentos?
— Certamente não — d i s s e M r . Robinson. — I s s o s e r i a
c o n t r á r i o à p o l í t i c a d e l e s . Os irmãos Hoffman não usam de
v i o l ê n c i a em questões c o m e r c i a i s . Têm o u t r o s métodos, que l h e s
servem m el h or . Pode-se d i z e r que a cada ano que passa vão
f i c a n d o mais r i c o s , pelo menos é o que consta nos c í r c u l o s
bancários s u í ç o s .
— A Suíça é uma t e r r a m uito ú t i l , não? — d i s s e o I n s p e t o r -
C h e f e D a vy.
— Realmente. Nem s e i o que far íam os sem a S u í ç a ! Tanta
c o r r e ç ã o . Tanta s e n s i b i l i d a d e para os n e góc i os ! S i m , todos
n ós , homens de n e g óci os, devemos s e r g r a t o s à S u í ç a . Eu
p r ó p r i o — acrescentou e l e — também f aç o exc el en t e j u í z o sobre
Amsterdã. — F i t o u D a vy, depois tornou a s o r r i r , e o I n s p e t o r -
Chefe s a i u .
Quando chegou novamente à r e p a r t i ç ã o , Davy encontrou um
b i l h e t e à sua esper a:
“O Cônego P ennyf ather apareceu — s a l v o mas não i l e s o .
Parece que f o i atr opel ado por um c a r r o em M i l t o n S t . John e
s o f r e u uma concuss ão.”
DEZOITO

O C
ÔNEGO P
ENNYFATHER olhou para o I n s p e t o r - C h e f e Davy e para o
I n s p e t o r C am pbell, e o I n s p e t o r - C h e f e Davy e o I n s p e t o r
Campbell também o olharam. O Cônego Pennyfather estava
novamente em c as a, sentado na grande p o l t r o n a da sua
b i b l i o t e c a , um t r a v e s s e i r o sob a cabeça, os pés num banquinho,
com uma manta sobre os j o e l h o s para acentuar a sua condição de
enfermo.
— Lamento d i z e r — e x p l i c a v a e l e , polidamente — que não me
lembro de c o i s a alguma.
— Não se lembra do a c i d e n t e , quando o c a r r o o atr opel ou?
— Lamento d i z e r que não.
— Então como sabe que um c a r r o o atropel ou? — perguntou
vivamente o I n s p e t o r C am pbell.
— A t a l m ul h e r , Mrs…. Mrs…. como era o nome dela? Wheeling?
… f o i que me c o nt o u .
— E como é que e l a soube?
O Cônego P ennyf ather p ar ec i a i n t r i g a d o .
— Valha-me Deus, o senhor tem r a z ã o . E l a não podia s a b e r ,
não é mesmo? Suponho que pensou que i s s o é que deve t e r
acontecido.
— E o senhor não consegue realmente l em br ar - s e de nada?
Como é que v e i o dar em M i l t o n S t . John.
— Não tenho a menor i d é i a . A t é mesmo o nome do l u g a r me é
estranho.
A exasperação do I n s p e t o r Campbell c r e s c i a , mas o I n s p e t o r -
C h e f e Davy d i s s e no seu tom de voz s i n g e l o e apaziguador:
— Conte por f a v o r , Cônego P e n n yf a t h e r , a ú l t i m a c o i s a de
que o senhor se l e m br a.
O Cônego P ennyf ather v i r o u - s e a l i v i a d o para D a vy. O seco
c e t i c i s m o do i n s p e t o r d e i x a r a - o c o n s t r a n g i d o .
— Eu i a para um congresso em Lucerna. Tomei um t á x i para o
aeroporto… ou a n t e s , para a estação aérea de K e ns i n g t on.
— S i m . E depois?
— É s ó . Não me lembro de mais nada. A p r i m e i r a c o i s a de que
me lembro depois d i s s o é do guarda-roupa.
— Que guarda-roupa? — perguntou o I n s p e t o r Campbell.
— Estava no l u g a r e r r a d o .
O I n s p e t o r Campbell s e n t i u - s e tentado a esmiuçar essa
questão do guarda-roupa colocado no l u g a r e r r a d o . Mas o
I n s p e t o r - C h e f e Davy o i n t e r r o m pe u .
— O senhor se recorda de t e r chegado à estação aérea?
— Acho que sim — d i s s e o Cônego P e n n y f a t h e r , com o a r de
quem t i n h a enormes dúvidas a esse r e s p e i t o .
— E o senhor então voou para Lucerna.
— T e r e i voado? Não me lembro absolutamente se v o e i ou não.
— Lembra-se de t e r v o l t a d o ao H o t e l B e r t r a m ’ s naquela
noite?
— Não.
— Lembra-se do H o t e l B e r t r a m ’ s ?
— N at u r al m e nt e. Eu estava hospedado l á . É m uito
c o n f o r t á v e l . Mantive a r es er va do q u a r t o .
— Lembra-se de t e r v i a j a d o de trem?
— De trem? Não, não me lembro de trem nenhum.
— Houve um a s s a l t o . O trem f o i roubado. Não é p o s s í v e l ,
Cônego P e n n y f a t h e r , que o senhor não se lembre d i s s o .
— D e v i a , não devia? Mas a verdade é que… — f a l a v a como se
pedisse desculpas — não me l em br o . — F i t o u um p o l i c i a l e
depois o o u t r o , com um s o r r i s o a f á v e l .
— E n t ã o, tudo o que o senhor tem a d i z e r é que não se
recorda de nada desde o i n s t a n t e em que tomou um t á x i para a
estação aérea, at é acordar na casa dos Wheelings em M i l t o n S t .
John.
— Não há nada de estranho n i s s o , — af i r m o u o Cônego. —
Sucede muito freqüentemente nos casos de concussão.
— Que f o i que o senhor pensou que l h e havi a acontecido
quando acordou?
— Tinha uma t a l dor de cabeça que nem podia pensar. E nt ã o ,
é c l a r o , comecei a i m agin ar onde é que e s t a v a , e M r s . Wheeling
e x p l i c o u e me s e r v i u uma e xc el e nt e sopa. E l a me chamava de
q u er i di n h o e benzinho — contou o Cônego com l e v e desagrado —
mas era muito bondosa, Muito bondosa mesmo.
— E l a devi a t e r dado p a r t e do ac i dente à p o l í c i a . O senhor
então t e r i a s i d o t r a n s p o r t a d o para um h o s p i t a l e t r a t a d o
devidamente — d i s s e Campbell.
— E l a t r a t o u de mim muito bem, — p r o t e s t o u o Cônego com
energi a — e pelo que s e i , em casos de concussão, pouco se pode
f a z e r pelo p a c i e n t e , além de o manter em repouso.
— Se o senhor se r e c o r d a r de mais alguma c o i s a , Cônego
Pennyfather…
O Cônego i n t e r r o m p e u - o .
— Parece que p e r d i quatr o d i a s completos da minha v i d a . É
muito c u r i o s o . Realmente m uito c u r i o s o . Só q u er i a saber por
onde é que eu andava e o que estava fazend o. D i z o médico que
t a l v e z me v o l t e a lembrança de t u d o . Também é p o s s í v e l que não
v o l t e . Provavelmente j am ai s s a b er e i o que f o i que me aconteceu
durante esses d i a s . — Suas pálpebras se a g i t a r a m . — Desculpem-
me, senhores. Acho que estou muito f a t i g a d o .
— Agora chega, — d i s s e M r s . McCrae, que se mantivera j u n t o
à p o r t a , pr onta a i n t e r v i r se j u l g a s s e n e c e s s á r i o . E adi ant ou-
s e para os d o i s p o l i c i a i s : — O do ut or d i s s e que e l e não podia
t e r aborrecimentos — f a l o u com f i r m e z a .
Os p o l i c i a i s levantaram-se e caminharam para a p o r t a . M r s .
McCrae conduziu-os ao c o r r e d o r um pouco à maneira de um
c onsci encios o cão p a s t o r . O Cônego murmurou qualquer c o i s a e o
I n s p e t o r - C h e f e D a vy, que f o i o ú l t i m o a passar p ela p o r t a
imediatamente deu meia v o l t a .
— Que é que houve? — perguntou, mas os olhos do Cônego j á
estavam fechados.
— Que acha que e l e diss e? indagou Campbell quando os d o i s
saíam da c as a , após recusarem a f o r m a l o f e r t a de r e f r i g e r a n t e s
que l h e s f i z e r a M r s . McCrae. Papai respondeu, p e n s a t i v o :
— C r e i o que e l e d i s s e “ a s muralhas de J e r i c o ” .
— Que s i g n i f i c a r i a i s s o ?
— Parece c o i s a da B í b l i a — d i s s e P a p a i .
— A c r e d i t a que algum d i a a gente venha a saber — perguntou
Campbell — como é que esse v e l h o t e f o i de C r om w ell Road at é
M i l t o n S t . John?
— Parece que não receberemos grande ajuda da p a r t e dele —
concordou D a vy.
— Aquela mulher que conta que o v i u no t r e m , depois do
a s s a l t o , será que d i z a verdade? Será p o s s í v e l que e l e e s t e j a
e n v o l vi d o nos roubos? Parece i m p o s s í v e l . É um vel ho
r e s p e i t á v e l , sob todos os as p e c t o s . A f i n a l não se pode
s u s p e i t a r que um Cônego da C a t e d r a l de Chadminster e s t e j a
e n v o l vi d o num roubo de t r e m , pode-se?
— Não — respondeu Papai p e n s a t i v a . — Não. Assim como não se
pode i m agi n ar que o J u i z Ludgrove e s t e j a e n vo l vi d o num a s s a l t o
a um banco.
O I n s p e t o r Campbell olhou com c u r i o s i d a d e para o seu
superior.
A expedição a Chadminster terminou com uma i m p r o f í c u a
v i s i t a ao D r . S t o k e s .
O D r . Stokes mostrou-se a g r e s s i v o , pouco c o o p er a t i v o e
rude:
— Conheço os Wheelings há bastante tempo. C u l t i v a m de c e r t o
modo a boa v i z i n h a n ç a , em r el aç ã o a mim. Apanharam um vel ho
caído na e s t r a d a . Não sabiam se estava m o r t o , bêbedo ou
doente. Pediram-me para dar uma o l h a da. E x p l i q u e i que e l e não
estava bêbedo — que era um caso de concussão…
— E tratou dele.
— Absolutamente. Não t r a t e i , nem r e c e i t e i nem mediquei. Não
sou médico… j á f u i , mas não sou mais… D i s s e a e l e s que o que
deveriam f a z e r era t e l e f o n a r para a p o l í c i a . Se t el efonar am ou
não, não s e i . Não é da minha c o n t a . Os d o i s são meio burros…
mas gente boa.
— E o s enh or , não pensou em t e l e f o n a r à p o l í c i a ?
— Não, não p e n s e i . Não sou médico. O caso não t i n h a nada
que v e r comigo. Como s i m pl es s e r humano, ac onsel hei que não
l h e dessem uísque e que o mantivessem em repouso, e s t i r a d o ,
at é que a p o l í c i a chegasse.
O D r . Stokes olh ou-os f er ozm ente, e e l e s , embora a
c o n t r a g o s t o , t i v e r a m que d e i x a r tudo como e s t a v a .
DEZENOVE

MR. HOFFMAN era um homem a l t o , de s ó l i d a r o b u s t e z . P ar ec i a que


f o r a es c ul p i d o em madeira — em t e c a , de p r e f e r ê n c i a .
Tinha um r o s t o t ã o sem expressão que s u s c i t a v a a per gu n ta:
s e r i a esse homem capaz de pensar… de s e n t i r emoção? P a r ec i a
impossível.
Suas maneiras eram c o r r e t í s s i m a s .
E l e se ergueu, i n c l i n o u - s e e estendeu a mão c u n ei f o r m e:
— I n s p e t o r - C h e f e Davy? Há alguns anos t i v e o prazer… t a l v e z
o senhor nem se lembre…
— Bem que me l em br o , M r . Hoffman. O caso do diamante
Aaronberg. O senhor f o i testemunha do pr om ot or , ótima
testemunha, p er m i t a que l h e d i g a . A defesa não o conseguiu
abalar.
— Não me abalo com f a c i l i d a d e — d i s s e M r . Hoffman
gravemente.
A aparência era de quem realmente não se abalava com
facilidade.
— Em que posso s e r v i - l o ? — continuou H offman. — Nenhum
problema, espero… Faço questão de e s t a r sempre em boa paz com
a p o l í c i a . Tenho a maior admiração por sua e xc e le nt e f o r ç a
policial.
— Não, não há nenhum problema. Apenas gostaríamos que o
senhor confirmasse uma pequena i nf or m a ç ão.
— T e r e i o maior pr az er em a j u d á - l o no que pu der. Como digo
sempre, tenho no mais a l t o c o n c e i t o a Força P o l i c i a l de
Londres. Os seus homens são m a g n í f i c o s . í n t e g r o s , honestos e
justos.
— O senhor me dei xa embaraçado — d i s s e P a p a i .
— Estou às suas or d ens. Que é que deseja saber?
— I a l h e p e d i r que me desse algumas informações a r e s p e i t o
do H o t e l B e r t r a m ’ s ,
O r o s t o de M r . Hoffman não se a l t e r o u . T al vez se pudesse
d i z e r que a sua a t i t u d e t o d a , por um breve momento, se t o r n a r a
mais e s t á t i c a do que antes — nada m a i s .
— H o t e l B e r t r a m ’ s ? — d i s s e e l e . A voz era i n q u i r i d o r a ,
l i g e i r a m e n t e embaraçada. P ar ec i a a t é que e l e nunca o u v i r a
f a l a r do H o t e l B e r t r a m ’ s , ou que não conseguia r e c o r d a r se
conhecia ou não um H o t e l B e r t r a m ’ s .
— O senhor tem uma c e r t a l i g a ç ã o com o h o t e l , não t e m , M r .
Hoffman?
M r . Hoffman mexeu com os ombros.
— São t a n t a s c o i s a s ! — d i s s e e l e . — A gente não se lembra
de t u d o . Tantos negócios… tantos… que me mantêm ocupadíssimo.
— O senhor atua em muit os campos, s e i d i s s o .
— Sim — a d m i t i u M r . Hoffman com um s o r r i s o d e s a j e i t a d o , —
Faço boas c o l h e i t a s , é i s s o o que pensa? E por esse motivo
a c r e d i t a que tenho l i g a ç õ e s com esse… H o t e l B e r t r a m ’ s .
— Eu não devi a t e r f a l a d o em l i g a ç ã o . Na r e a l i d a d e , o
senhor é o dono, não é? — d i s s e Papai com bom humor. Desta vez
M r . Hoffman inegavelmente se em p ertigou.
— Quem l h e contou i s s o , posso saber? — perguntou em voz
baixa.
— Mas é verdade, não é? — f a l o u com animação o I n s p e t o r -
C h e f e D a vy. — Lugar es pl ê n di d o , v a l e a pena s e r dono d e l e , na
minha o p i n i ã o . C r e i o que o senhor se orgulha de p o s s u í - l o .
— A h , sim — respondeu Hoffman. — No momento… não me lembro
d i r e i t o … o senhor sabe… — s o r r i u como que pedindo desculpas —
tenho m uitos i m ó ve i s em Londres. Representam um bom
i n v e s t i m e n t o . Se aparece qualquer c o i s a no mercado, e eu acho
que o negócio é bom e há p o s s i b i l i d a d e de a d q u i r i - l o b a r a t o ,
compro.
— E o H o t e l B e r t r a m ’ s f o i vendido barato?
— Como empresa, estava quase f a l i d a , — d i s s e M r . Hoffman
abanando a cabeça.
— Bem, mas agora es t á próspero — observou P a p a i . — Andei l á
o u t r o d i a e f i q u e i impressionadíssimo com a atmosfera da c as a.
E xc e l ente c l i e n t e l a da vel ha guarda, ambiente c o n f o r t á v e l à
moda a n t i g a , tudo em p e r f e i t a ordem, muito l u x o mas sem
alarde.
— E u , pessoalmente, s e i muito pouco a r e s p e i t o desse h o t e l ,
— e x p l i c o u M r . Hoffman. — Para mim é apenas um emprego de
c a p i t a l , mas c r e i o que v a i indo bem.
— S i m , o senhor parece t e r l á um gerente de p r i m e i r a
q u a l i d a d e . Como se chama ele? H umfri es? S i m , H u m f r i e s .
— Um ótimo s u j e i t o , — d i s s e M r . Hoffman. — Entrego tudo a
e l e . Olho só o balanço uma vez por ano, a f i m de v e r i f i c a r se
tudo es t á d i r e i t o .
— Estava cheinho de a r i s t o c r a t a s — d i s s e P a p a i . — R i c o s
v i a j a n t e s americanos, também. — Balançou a cabeça, p e n s a t i v o .
— Maravilhosa combinação.
— D i z que esteve l á o u t r o dia? — indagou M r . Hoffman. — Mas
não… o f i c i a l m e n t e , esper o.
— Nada de m a i s . Apenas t e nt a v a pôr a l i m p o um pequeno
mistério.
— Um m i s t é r i o ? No H o t e l B e r t r a m ’ s ?
— É o que par ec e. O caso do E c l e s i á s t i c o Des aparecido.
Poderíamos chamá-lo a s s i m .
— I s s o é p i l h é r i a — d i s s e M r . Hoffman. — É o seu j e i t o de
f a l a r , à maneira de S h er l o c k Holmes.
— Esse e c l e s i á s t i c o s a i u do h o t e l uma bela t a r d e e nunca
mais f o i v i s t o .
— S i n g u l a r — comentou M r . Hoffman. — Mas essas c o i s a s
acontecem. Lembro-me que há m u i t o s , m ui tos anos a t r á s , houve
uma grande sensação. O Coronel… deixe-me r e c o r d a r o nome…
Coronel Fergusson, c r e i o , um dos escudeiros da Rainha Mary.
S aiu do c l u b e , c e r t a n o i t e , também, e nunca mais ninguém o
viu.
— Evidentemente, — d i s s e Papai com um s u s p i r o — muitos
desses desaparecimentos são v o l u n t á r i o s .
— O senhor sabe m uito mais a r e s p e i t o dessas c o i s a s do que
e u, meu caro I n s p e t o r - C h e f e — d i s s e M r . Hoffman. E
acr e sc entou: — Espero que l h e tenham dado toda a a s s i s t ê n c i a
no H o t e l B e r t r a m ’ s .
— Não podiam t e r s i d o mais amáveis, — g a r a n t i u P a p a i . —
Aquela Miss G o r r i n g e , c r e i o que e s t á com o senhor há bastante
tempo.
— P os s i v el m e n t e . Na verdade s e i muito pouco sobre i s s o . Não
tenho nenhum i n t e r e s s e p e s s o a l , o senhor compreende. Aliás… —
s o r r i u de modo apaziguador — f i q u e i at é surpreso ao v e r que o
senhor sabi a que er a eu o dono.
Não chegava a s e r uma per gunta ; mas novamente aparecia uma
l i g e i r a i n q u i et u d e no o l h a r de M r . Hoffman. Papai notou-a sem
dar a p er c e b e r .
— As r a m i f i c a ç õ e s que se estendem pela C i t y são como um
gigantesco quebra-cabeças — d i s s e e l e . — Se eu t i v e s s e que
l i d a r com essas c o i s a s , f i c a r i a maluco. Segundo e n t e n d i , uma
companhia… M a y f a i r H ol d i n g T r u s t ou que o u t r o nome tenha… é o
p r o p r i e t á r i o r e g i s t r a d o . Outra companhia é p r o p r i e t á r i a dessa
companhia, e assim por d i a n t e . No remate de t u d o , a verdade é
que o h o t e l pertenc e ao s e n hor. Muito s i m p l e s . E estou c e r t o ,
não estou?
— Eu e meus colegas d i r e t o r e s estamos, como d i r i a o s enhor ,
a t r á s d i s s o , é verdade — a d m i t i u M r . Hoffman com c e r t a
relutância.
— Seus colegas d i r e t o r e s . E quem seriam el es ? O senhor e ,
c r e i o e u, um irmão seu?
— Meu irmão Wilhelm é meu s ó c i o nesse ne g óci o. O senhor
deve compreender que o B e r t r a m ’ s é apenas p a r t e de uma cadeia
de v á r i o s h o t é i s , e s c r i t ó r i o s , cl ubes e o u t r o s bens que
possuímos em Londres.
— Há o u t r o s d i r e t o r e s ?
— Lord P o m f r e t , Abel I s a a c s t e i n . — A voz de Hoffman
a d q u i r i u s ú b i t a r i s p i d e z . — O senhor p r e c i s a realmente saber
d i s s o tudo? Só porque es t á i n v es t i g a n d o o Caso do E c l e s i á s t i c o
Desaparecido?
Papai abanou a cabeça e p a r ec i a p e d i r d es c ulpas .
— C r e i o que realmente é só c u r i o s i d a d e . A pr ocura do meu
desaparecido Cônego f o i que me l evou ao B e r t r a m ’ s , mas a í ,
fiquei… digamos, i n t e r e s s a d o , se o senhor me entende. Uma
c o i s a às vezes l e v a a o u t r a , não é?
— Imagino que s i m . E agora — s o r r i u — e s t á s a t i s f e i t a a
c ur i o s i da d e ?
— Quando a gente quer i nf or m aç õ es , nada como p r o c u r a r o b t ê -
l a s da boca do cava l o — respondeu P a p a i , bem humorado. Ergueu-
s e. — Resta apenas uma c o i s a que eu g o s t a r i a muito de s a b e r ,
mas não c r e i o que o senhor me c o n t e .
— O que é , I n s p e t o r - C h ef e ? — O tom da voz de Hoffman era
cauteloso.
— Onde é que o B e r t r a m ’ s r e c r u t a o seu pessoal? F o r m i d áve l !
Aquele s u j e i t o , como é que se chama?… H e n r y . Aquele que parece
um arquiduque ou um a r c e b i s p o , nem s e i bem. De qualquer modo,
é o que serve à gente chá e m u f f i n s , — uns m u f f i n s
m ar a vi l h os o s ! Uma e x p er i ê n c i a i n e s q u e c í v e l .
— O senhor gosta de m uffim com bastante manteiga, não? — Os
ol hos de M r . Hoffman pousaram por um momento com desaprovação,
nas rotundidades da s i l h u e t a de P a p a i .
— O senhor bem vê que eu gosto — d i s s e P a p a i . — Bom, não
devo mais tomar o seu tempo. O senhor certamente es t á
ocupadíssimo com operações de t r u s t e s e monopólios, ou c o i s a
parecida.
— A h , para o senhor é d i v e r t i d o f i n g i r que i g n o r a todas
essas c o i s a s . Não, não estou m uito ocupado. Não dei xo que os
negócios me absorvam demais. Meus gostos são s i n g e l o s , v i v o
simplesmente, tenho meus l a z e r e s , c u l t i v o r o s a s , e sou m uito
dedicado à minha f a m í l i a .
— É a v i d a i d e a l — comentou P a p a i . — Quisera eu v i v e r
assim.
M r . Hoffman s o r r i u e ergueu-se pesadamente para a p e r t a r a
mão do v i s i t a n t e .
— Espero que encontre logo o seu E c l e s i á s t i c o Desaparecido.
— A h , i s s o não me preocupa m a i s . I n f e l i z m e n t e não f u i
bastante c l a r o . O Cônego f o i encontrado… o que não dei xa de
s e r uma decepção. S ofreu um desas t r e de automóvel e t e v e
concussão… apenas isso.
Papai caminhou para a p o r t a , depois v o l t o u - s e e perguntou :
— A p r o p ó s i t o , Lady Sedgwick e s t á e n t r e os d i r e t o r e s da sua
companhia?
— Lady Sedgwick — Hoffman h e s i t o u um i n s t a n t e . — Não. Por
que d e ve r i a e s t a r ?
— Bem, boatos que a gente ouve… A c i o n i s t a ?
— Eu… s i m .
— Bom, adeus, M r . Hoffman. M u i t í s s i m o o br i g a d o . Papai
v o l t o u à S c ot lan d Yard e f o i d i r e t o ao e s c r i t ó r i o do
Comissário-Assistente.
— Os d o i s irmãos Hoffman é que estão por t r á s do H o t e l
Bertram’s… f i n a n c e i r a m e n t e .
— O quê? Aqueles canalhas? — perguntou S i r R onald.
— Sim.
— Então mantinham tudo no maior segredo.
— Sim… e R obert Hoffman não gostou da nossa desc ober t a.
Teve um choque.
— O que f o i que e l e diss e?
— A nossa conversa f o i m uito f o r m a l e p o l i d a . E l e t e n t o u ,
meio dis f arç adam e nt e, saber como eu t i n h a desvendado o
mistério.
— E você não l h e deu essa i nf o r m aç ã o, suponho.
— C l a r o que não.
— Que desculpa deu você para i r v ê - l o ?
— Não d e i desculpa nenhuma — respondeu P a p a i .
— E e l e não achou e s q u i s i t o ?
— Espero que s i m . No f i m de c o n t a s , c r e i o que a jogada f o i
boa, S i r R o nal d.
— Se os Hoffmans estão por t r á s d i s s o t u d o , muita c o i s a
es t á e x p l i c a d a . E l e s nunca se envolvem pessoalmente em nada
i r r e g u l a r … a h , não! Não organizam o crime… contentam-se em
financiá-lo!
— W i l h e l m , na S u í ç a , cui da do lado b a n c á r i o . Era e l e quem
comandava aquelas q u a d r i l h a s de moeda e s t r a n g e i r a , logo depois
da guerra… nós sabíamos de t u d o , mas não podíamos pr o v a r nada.
Os d o i s irmãos contr olam um monte de d i n h e i r o , e usam esse
c a p i t a l para f i n a n c i a r toda espécie de negócios… alguns
l í c i t o s , o u t r o s não. Mas são cuidadosos, conhecem todos os
pul os de gato do o f í c i o . A corretagem de diamantes de R obert é
bastante honesta… mas o quadro é s u g e s t i v o : diamantes,
i n t e r e s s e s em bancos e imóveis… c l u b e s , fundações c u l t u r a i s ,
e d i f í c i o s de e s c r i t ó r i o s , r e s t a u r a n t e s , hotéis… tudo
aparentemente de o u t r o s donos.
— Você acha que é Hoffman quem pl a n e j a esses a s s a l t o s
organizados?
— Não, acho que e l e s l i d am exclusivamente com f i n a n ç a s .
Temos que p r o c u r a r o nosso pl a n ej a d or em o u t r o l u g a r . Em
alguma p a r t e , um cérebro de p r i m e i r a c a t e g o r i a , t r a b a l h a sem
parar.
VINTE

R
EPENTINAMENTE, naquela n o i t e , o nevoeiro descera sobre Londres. O
I n s p e t o r - C h e f e Davy l e va nt ou a gola do casaco e dobrou a
esqu i na, seguindo por Pond S t r e e t . Andando devagarinho como
alguém que e s t i v e s s e pensando em o u t r a c o i s a , não p a r ec i a t e r
um o b j e t i v o d e f i n i d o , mas quem o conhecesse bem, compreenderia
que a mente dele estava a l e r t a . Avançava como um gato que es t á
à e s p r e i t a do momento de s a l t a r sobre a p r e s a .
Pond S t r e e t estava s i l e n c i o s a naquela n o i t e . Poucos
automóveis; o f o g , tênue a p r i n c í p i o , sumira quase por
completo e depois v o l t a r a mais espesso. O barulho do t r á f e g o
em P ark Lane r e d u z i r a - s e ao n í v e l de r u í d o de uma est r ada
suburbana. A m a i o r i a dos ônibus d e i x a r a de c i r c u l a r . Apenas de
vez em quando passava um ou o u t r o c a r r o com obstinado
o t i m i s m o . O I n s p e t o r - C h e f e Davy entr ou num beco, f o i at é ao
f i m d e l e , e v o l t o u . Tornou a dar v o l t a , p r i m e i r o para um l a d o ,
depois para o u t r o , aparentemente sem d e s t i n o , — mas t i n h a um
d e s t i n o c e r t o , s i m . Na verdade, a sua ronda f e l i n a le v a va - o a
descr ever um c í r c u l o em t o r n o de determinado e d i f í c i o : o H o t e l
B e r t r a m ’ s . V e r i f i c a v a cuidadosamente o que havi a a l e s t e , do
h o t e l , a o e s t e , ao s u l e ao n o r t e . Examinou os c a r r o s parados
à b e i r a da c a l ç a d a , examinou os c a r r o s que estavam no beco.
Dedicou e s p e c i a l atenção a um p á t i o de estacionamento: Um
c a r r o em p a r t i c u l a r o i n t e r e s s o u , e e l e par ou. F r a nz i u os
l á b i o s e d i s s e então à m ei a- voz : “Ent ão você es t á aqui de
novo, b e l e z i n h a ” . C e r t i f i c o u - s e do número e balançou a cabeça,
s a t i s f e i t o : “ E s t a n o i t e você é FAN 2266” c u r v o u - s e , c or r e u os
dedos de l e v e sobre a p l a c a , e de novo balançou a cabeça:
“Fizeram um belo t r a b a l h o ” , murmurou.
Continuou a and ar, s a i u no o u t r o extremo do p á t i o , dobrou à
d i r e i t a , o u t r a vez à d i r e i t a , e v i u - s e novamente em Pond
S t r e e t , a cinqüenta metros da entrada do H o t e l B e r t r a m ’ s .
Tornou a p a r a r , admirando as b o n i t a s l i n h a s de um o u t r o c a r r o
de c o r r i d a s .
— Você também é uma beleza — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e D a vy. —
Da ú l t i m a vez que o v i , você t i n h a na placa esse mesmo número.
Tenho a impressão de que o seu numero sempre é o mesmo. E i s s o
quer dizer…— interrompeu-se — ser á mesmo? — resmungou. Ergueu
os ol hos para onde devi a e s t a r o c é u. — O nevoeiro e s t á
f i c a n d o cada vez mais espesso — d i s s e de s i para s i .
Do lado de f o r a do B e r t r a m ’ s , o p o r t e i r o i r l a n d ê s , de p é ,
sacudia os braços para d i a n t e e para t r á s com c e r t a v i o l ê n c i a ,
a f i m de se aquecer. O I n s p e t o r - C h e f e Davy l h e deu boa n o i t e :
— Boa n o i t e para o senhor também. Que tempo h o r r í v e l .
— S i m . Acho que hoje uma pessoa só s a i por o b r i g aç ã o , A
p o r t a de vaivém a b r i u - s e : uma senhora de meia-idade s a i u e
parou i n c e r t a no degrau.
— Quer um t á x i , madame?
— Santo Deus! Eu pr et e n d i a i r a p é.
— E u , se f os s e a senhora, não f a z i a i s s o . O nevoeiro es t á
muito f e i o . Mesmo num t á x i não é f á c i l .
— Acha que pode me a r r a n j a r am t á x i ? — indagou a m ul h er , em
dúvida.
— F a r e i o p o s s í v e l . Agora vá l á pra dent ro e f i q u e p e r t o da
l a r e i r a , que eu i r e i a v i s á - l a quando conseguir um t á x i . — A
voz do p o r t e i r o mudara, assumindo um tom p e r s u a s i v o . — A l i á s ,
a menos que s e j a absolutamente n e c e s s á r i o , se eu f os s e a
senhora não s a i r i a à rua e s t a n o i t e .
— Valha-me Deus ! T al vez o senhor tenha r a z ã o . Alguns amigos
estão me esperando em C hel s ea. Não s e i . Pode s e r m ui to d i f í c i l
v o l t a r . Que é que o senhor acha?
Michael Gorman s u g e r i u , com f i r m e z a :
— Se eu f os s e a senhora, madame, t e l e f o n a v a para os amigos.
Não f i c a bem a uma senhora s a i r para a rua numa n o i t e de
nevoeiro como e s t a .
— Bem… na verdade… s i m , t a l v e z o senhor tenha r a z ã o .
A mulher t or nou a e n t r a r no h o t e l .
— Tenho que c u i d a r del as — e x p l i c o u Mic hael Gorman,
vi r a n d o - s e para P a p a i . — Uma dess as, a c o i s a mais f á c i l do
mundo é l h e tomarem a b o l s a . I m agi ne ! S a i r a es t a hora da
n o i t e , nesse n e v o e i r o , e andar a pé por Chelsea ou West
K e ns i n gt o n, ou por qualquer o u t r a p a r t e que l h e dê na t e l h a !
— Pelo que v e j o , você tem bastante e x p e r i ê n c i a em t r a t a r
com senhoras idos as — d i s s e D a vy.
— A h, tenho s i m . Esse h o t e l é para e l a s o l a r f o r a do l a r ,
benza-as Deus. E o senhor? Será que deseja um t á x i ?
— Mesmo que eu q u i s e s s e , não c r e i o que você pudesse me
a r r a n j a r um — d i s s e P a p a i . — Não há s i n a l del es por a q u i . E
não os censuro por i s s o .
— A h , t a l v e z eu possa l h e a r r a n j a r um. A l i na esquina há um
l u g a r onde em g e r a l os m o t o r i s t a s estacionam enquanto tomam um
t r a g u i n h o pára espantar o f r i o .
— Um t á x i não me serve — d i s s e Papai com um s u s p i r o , e
apontou com o poleg ar para o H o t e l B e r t r a m ’ s . — P r e c i s o i r l á
d e n t r o . Tenho de f a z e r um t r a b a l h o .
— É mesmo? Ainda o Cônego desaparecido?
— Não é bem i s s o . E l e j á f o i encontrado.
— Encontrado? — O p o r t e i r o olho u- o espantado. — Encontrado
onde?
— Por a í , em estado de choque em conseqüência de um
acidente.
— A h , não se podia esperar o u t r a c o i s a d e l e . Provavelmente
atravess ou a rua sem o l h a r .
— Essa é a conclusão que se t i r a — d i s s e P a p a i .
Fez um s i n a l com a cabeça, empurrou a p o r t a e entr ou no
h o t e l . Naquela n o i t e não havi a m uita gente no s a l ã o .
A v i s t o u Miss M a r pl e, sentada numa p o l t r o n a ao pé da
l a r e i r a , e Miss Marple o v i u . Mas não deu mostras de o
recon hec er. Papai caminhou at é à recepção. Miss G o r r i n g e , como
de costume, ocupava-se com os l i v r o s de r e g i s t r o . Mas pareceu
ao I n s p e t o r - C h e f e que e l a , ao v ê - l o , f i c a r a um pouco
p er t u r b a d a . Embora f os s e uma reação muito r á p i d a , não passou
despercebida a D a vy.
— Lembra-se de mim, Miss Gorringe? — d i s s e e l e . — Vim aqui
outro d i a .
— S i m , c l a r o que me l em br o , I n s p e t o r - C h e f e . Quer mais
alguma informação? Deseja v e r M r . Humfries?
— Não, o br i g a d o . Acho que não será n e c e s s á r i o . G o s t a r i a de
dar mais uma olhada no seu r e g i s t r o de hóspedes, se f os s e
possível.
— N at u r al m e nt e. — E Miss Gorringe empurrou para e l e o
livro.
Davy a b r i u - o e f o i olhando lentamente as pág i nas . Dava a
Miss Gorringe a impressão de um homem que procurava um
determinado r e g i s t r o . Na verdade, não era i s s o o que
a c o n t e c i a . Papai possuía uma h a b i l i d a d e aprendida desde cedo e
c o n v e r t i d a a essa a l t u r a numa ver dad ei r a a r t e . Era capaz de
r e c o r d a r nomes e endereços com memória quase f o t o g r á f i c a . Essa
lembrança permanecia com e l e durante v i n t e e qu atr o ou mesmo
quarenta e o i t o h o r a s . A f i n a l Davy sacudiu a cabeça, fechou o
l i v r o e devolveu-o a Miss G o r r i n g e .
— O Cônego Pennyfather não apareceu mais por aqui — d i s s e
e l e num tom despreocupado.
— O Cônego Pennyfather?
— Sabe que e l e f o i encontrado?
— Não. Ninguém me d i s s e nada. Onde?
— Numa a l d e i a . A ci de nt e de automóvel, p arece . Mas não nos
comunicaram. Algum bom samaritano o recolheu e cuidou d e l e .
— Oh, estim o muito saber d i s s o . M u i t o . Eu estava preocupada
com e l e .
— Os amigos dele também. Na verdade, eu estava procurando
v e r se um desses amigos e s t a r i a a qui ag ora. Arcediago…
Arcediago… não consigo r e c o r d a r o nome d e l e , mas se o v i s s e
e s c r i t o reconheceria.
— Tomlinson? — d i s s e Miss Gorringe tentando a j u d a r . — É
esperado aqui na próxima semana. Vem de S a l i s b u r y .
— Não, não é Tomli nson. Bem, não i m p o r t a . — Deu meia v o l t a .
O s i l ê n c i o era quase t o t a l na s a l a .
Um a s c é t i c o cinqüentão l i a uma t e s e muit o mal d a t i l o g r a f a d a
e de vez em quando e s c r e v i a um comentário na margem do p a p e l ,
numa l e t r a t ã o r ui m que era quase i l e g í v e l . E cada vez que
f a z i a i s s o , s o r r i a com avinagrada s a t i s f a ç ã o .
H avi a um ou d o i s c a s a i s a n t i g o s , que pouca necessidade
sentiam de c o n v e r s a r . De vez em quando, duas ou t r ê s pessoas
reuniam-se para f a l a r do tempo e d i s c u t i a m i n q u i e t a s como é
que e l a s ou suas f a m í l i a s conseguiriam chegar aonde pretendiam
ir.
— T e l e f o n e i e pe di a Susan que não vi e s s e de carro… a Ml é
t ão perigosa nos nevoeiros…
— Dizem que nas Midlands e s t á mais claro…
O I n s p e t o r - C h e f e Davy pr es tava atenção nas pessoas que
passavam. Sem pressa e sem nenhum p r o p ó s i t o apa re nte, alcançou
o seu o b j e t i v o .
Miss M ar pl e, sentada p e r t o da l a r e i r a , v i u - o a p r o x i m a r - s e .
— Então ainda e s t á a q u i , Miss M ar pl e. Estimo m u i t o .
— Vou embora amanhã — d i s s e e l a .
Esse f a t o , de c e r t o modo, estava i m p l í c i t o na sua a t i t u d e .
S ent ara-s e bem e r e t a , sem se r e c l i n a r , t a l como a gente se
senta numa s a l a de espera de aerop orto ou de es tr ada de f e r r o .
A bagagem — Davy t i n h a c e r t e z a — devi a e s t a r arrumada,
f a l t a n d o apenas os o b j e t o s de t o i l e t t e e a roupa de d o r m i r .
— É o f i m das minhas f é r i a s de quinze d i a s — e x p l i c o u e l a .
— A pr o ve i t o u bem, es per o.
Miss Marple não respondeu imediatamente.
— De c e r t o modo… sim… — Fez uma pausa.
— E de o u t r o modo não?
— É d i f í c i l e x p l i c a r o que quero dizer…
— Não es t á a senhora, t a l v e z , muito p e r t o do fogo? E s t á um
pouco quente a q u i . Não quer i r sentar-se… naquele c a n t o ,
talvez?
Miss Marple olhou para o canto i n d i c a d o , depois olhou para
o I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
— Acho que o senhor tem razão — d i s s e e l a .
E l e l h e ofereceu a mão, apanhou a bols a e o l i v r o d e l a , e a
i n s t a l o u no canto sossegado que e s c o l h e r a .
— E s t á bem assim?
—Perfeito.
— Sabe por que s u g e r i a mudança de l u g a r ?
— Achou… bondosamente… que a l i p e r t o do fogo estava quente
demais para mim. Além d i s s o , não há ninguém aqui para e s c u t a r
a nossa c on ve rs a.
— Terá a senhora alguma c o i s a que me q u ei r a c o n t a r , Miss
Marple?
— Mas por que pensou i s s o ?
— O seu j e i t o era de quem t i n h a qualquer c o i s a para me
contar.
— Lamento t ê - l o demonstrado assim t ã o claramente — d i s s e
Miss M ar pl e. — Não era es t a a minha i n t e n ç ã o .
— Bem, de que se t r a t a ?
— Não s e i se deva d i z e r . Quero que o senhor a c r e d i t e ,
I n s p e t o r , que não gosto de me i n t r o m e t e r . Sou c o n t r a
i n t r o m i s s õ e s . I n t r o m i s s õ e s , mesmo bem i n t e n c i o n a d a s , podem
causar grandes males.
— Então é i s s o ? Compreendo. S i m , é um problema s é r i o para a
senhora.
— Às vezes a gente vê pessoas fazendo c o i s a s que parecem
imprudentes… at é mesmo p e r i g o s a s . Mas será que se tem o
d i r e i t o de i n t e r f e r i r ? Em g e r a l , não, penso e u.
— A senhora e s t á se r e f e r i n d o ao Cônego Pennyfather?
— O Cônego Pennyfather? — Miss Marple pareceu muito
s ur p r e e ndi d a. — Não. Oh, Senhor meu, não, o assunto não tem
nada a v e r com e l e . É sobre… uma moça.
— Uma moça, é? E a senhora acha que eu posso aj udar?
— Não s e i — respondeu Miss M a r pl e. — Não s e i mesmo. Mas
estou preocupada, muito preocupada.
Papai não i n s i s t i u . Quedou-se a l i sentado, enorme,
c o n t e n t e , o a r um pouco e s t ú p i d o . Não havi a p r e s s a .
E l a se mostr ara d i s p o s t a a a j u d á - l o , e e l e estava pr ont o a
f a z e r o p o s s í v e l para a u x i l i á - l a . Não estava p a r t i c u l a r m e n t e
i n t e r e s s a d o , é c e r t o . Mas, por o u t r o l a d o , nunca se sabia…
— A gente l ê nos j o r n a i s — d i s s e Miss Marple em voz bai xa e
c l a r a — essas n o t í c i a s dos processos que passam pel os
t r i bu n ai s … j o v e n s , c r i a n ç a s ou moças “ n ec es s i t a d as de cuidado
e p r o t e ç ã o ” . É só uma f r a s e do j ar g ã o f o r e n s e , me p ar ece, mas
bem que pode s i g n i f i c a r uma c o i s a r e a l .
— Essa moça que a senhora mencionou… acha que e l a es t á
precisando de cuidado e proteção?
— Acho, s i m .
— Sozinha no mundo?
— Não. — d i s s e Miss M ar p l e . — Nada d i s s o , muito pel o
c o n t r á r i o , se posso f a l a r a s s i m . Segundo todas as apar ê n c i as ,
e l a é f or t eme nt e p r o t e g i d a , muito bem cui d ad a.
— Parece i n t e r e s s a n t e — d i s s e P a p a i .
— E l a estava hospedada aqui no h o t e l , com uma t a l de M r s .
C a r p e n t e r , c r e i o . O l h e i o r e g i s t r o para v e r o nome. A moça
chama-se E l v i r a B l a k e .
Papai ergueu os ol hos com v i v a expressão de i n t e r e s s e .
— Uma garot a a d o r á v e l . Bem novinha e , corno eu j á d i s s e ,
muito p r o t e g i d a . O t u t o r dela é um c e r t o Coronel Luscombe,
homem bem educado, encantador. I d o s o , é c l a r o , e r e c e i o que
terrivelmente inocente.
— O t u t o r ou a moça?
— O t u t o r — r e p l i c o u Miss M ar pl e. — A moça, não s e i . Mas
c r e i o que e l a es t á em p e r i g o . E n c o n t r e i - a por acaso em
B a t t e r s e a P a r k . Sentada com um rapaz numa casa de c h á.
— A h , então é i s s o , não é? — d i s s e P a p a i . — Um i n d e s e j á v e l ,
suponho. B e a t n i k . . . v i g a r i s t a … bandido…
— Um rapaz m uito b o n i t o — at al hou Miss M ar p l e. — Não muito
moço; t r i n t a e t a n t o s anos, o t i p o do homem que eu d i r i a que é
muito a t r a e n t e para as mulheres, mas a cara del e não me
engana. C r u e l , p r e d a t ó r i a , cara de g a v i ã o .
— Tal vez não s e j a t ã o r ui m quanto parece — d i s s e Papai num
tom apaziguador,
— Pelo c o n t r á r i o , é p i o r do que par ece. Estou convencida
d i s s o . D i r i g e um grande c a r r o de c o r r i d a s .
Papai l e vant o u os ol hos rapidamente.
— C ar r o de c o r r i d a s ?
— S i m . Uma vez ou duas, v i - o estacionado p e r t o deste h o t e l .
— A senhora não se recorda do número desse c a r r o , recorda-
se?
— Recordo s i m . FAN 2266. Eu t i n h a uma prima que gaguejava —
e x p l i c o u Miss Marple — por i s s o me lembro do número.
Davy p a r ec i a i n t r i g a d o .
— Sabe quem é? — perguntou Miss M ar pl e.
— Para f a l a r a verdade, s e i — respondeu o I n s p e t o r - C h e f e
l enta m ent e. — Meio f r a n c ê s , meio p o l a c o . C orr ed or muito
conhecido, f o i campeão mundial t r ê s anos a t r á s . Chama-se
L a d i s l a us M a l i n o w s k i . E a senhora tem toda razão em algumas de
suas o pi n i õ es a r e s p e i t o d e l e . É homem de má r e p ut aç ã o, no que
se r e f e r e a m ul heres. Quero d i z e r , não é companhia adequada
para uma mocinha. Mas não é f á c i l tomar alguma p r o vi d ê n c i a num
caso desses. Suponho que e l a o encontre às escondidas, não?
— Com toda a c e r t e z a .
— A senhora t e nt o u f a l a r com o t u t o r ?
— Não o conheço — respondeu Miss M ar p l e . — Só f a l e i com e l e
uma v e z , quando f u i apresentada por uma amiga comum. E não me
agrada a i d é i a de i r p r o c u r á - l o para c o n t a r m e x er i cos . Pensei
que t a l v e z o senhor pudesse f a z e r alguma c o i s a ,
— Posso t e n t a r , — d i s s e P a p a i . — A l i á s , c r e i o que a senhora
gostar á de saber que o seu amigo Cônego Pennyfather a f i n a l
apareceu.
— Não d i g a ! — Miss Marple mostrou-se animada. — Onde?
— Num l u g a r chamado M i l t o n S t . John.
— Que c o i s a e s t r a n h a ! Que é que e l e estava fazendo l á ? E l e
sabia?
— Aparentemente… — o I n s p e t o r - C h e f e acentuou a p al a vr a —
f o i v í t i m a de um a c i d e n t e .
— Que espécie de acidente?
— Atropel ado por um carro… s o f r e u concussão… ou e nt ã o,
naturalmente levou uma paulada na cabeça.
— A h , compreendo. — Miss Marple pensou um pouco na questão.
— E l e mesmo não sabe de nada?
— E l e d i z — novamente o I n s p e t o r - C h e f e acentuou a p a l a vr a —
que não sabe de nada.
— Muito c u r i o s o .
— Não é? A ú l t i m a c o i s a de que e l e se lembra é de t e r i d o
de t á x i para a Estação Aérea de K ens i ng t o n.
Miss Marple abanou a cabeça, p e r p l e x a .
— S e i que i s s o acontece, em casos de concussão — murmurou.
— E e l e não d i s s e nada… de ú t i l ?
— Resmungou qualquer c o i s a sobre as muralhas de J e r i c o .
— Josué? — a r r i s c o u Miss Marple — ou arqueologia…
escavações? ou… lembro-me de uma peça a n t i g a , da a u t o r i a de
M r . S u t r o , creio…
— E durante e s t a semana t o d a , ao n o r t e do Tâmisa, os
cinemas Gaumont passaram As Muralhas de J e r i c o , com Olga
Radbourne e B a r t Levine — d i s s e P a p a i .
Miss Marple olhou para e l e , d e s c onf i a d a.
— Poderia t e r i d o v e r esse f i l m e em C r o mw ell Road. P oderia
t e r saído do cinema às onze h o r a s , e v o l t a d o para cá… só que,
nesse c as o, alguém o t e r i a visto… s e r i a muito antes da meia-
noite…
— Tomou o ônibus errado — s u g e r i u Miss M ar p l e. — Qualquer
c o i s a assim…
— Digamos que e l e chegou aqui depois da m ei a - n o i t e — f a l o u
Papai — poderia t e r subido para o quarto sem que ninguém o
visse… Mas se f o i a s s i m , que é que aconteceu então… e por que
t e r i a saído novamente t r ê s horas depois?
Miss Marple não sabi a o que d i z e r .
— A única i d é i a que me oc o r r e é… o h !
Deu um s a l t o ao o u v i r um estampido vi ndo da r u a .
— O escape de algum c a r r o — d i s s e P a p a i , t r a n q ü i l i z a d o r .
— Lamento e s t a r t ã o sobressaltada… estou nervosa es t a
noite… esse press entimento que a gente tem…
— De que alguma c o i s a v a i acontecer? Acho que não p r e c i s a
se pr eocupar.
— Jamais g o s t e i do f o g .
— Eu q u er i a l h e d i z e r — f a l o u o I n s p e t o r - C h e f e Davy — que a
senhora me deu uma grande a j u d a . As c o i s a s que observou aqui…
c o i s a s pequeninas… somaram-se umas às o u t r a s .
— E n t ã o, havi a mesmo alguma c o i s a que não andava bem neste
hotel?
— Tudo andava e anda mal a q u i . Miss Marple s u s p i r o u .
— A p r i n c í p i o p ar ec i a maravilhoso… i n a l t e r a d o , compreende?…
como uma v o l t a ao passado… àquela p a r t e do passado que a gente
ama e recorda com a l e g r i a .
Fez uma pausa.
— Mas na verdade não era nada d i s s o . V e r i f i q u e i ( a c h o ,
a l i á s , que j á sabia d i s s o a n t e s ) , que a gente não pode nunca
v o l t a r a t r á s , que não deve t e n t a r v o l t a r atrás… Que a essência
da v i d a é andar para d i a n t e . A v i d a é na r e a l i d a d e uma rua de
mão ú n i c a , não é?
— Mais ou menos — concordou P a p a i .
— Lembro-me — d i s s e Miss Marple af astando-se do seu tema
p r i n c i p a l de maneira c a r a c t e r í s t i c a — lembro-me de uma viagem
que f i z a P a r i s , com minha mãe e minha a vó , e de que fomos
tomar chá no H o t e l E l y s é e . E minha a vó , olhando em v o l t a ,
d i s s e de r e p e n t e : “ C l a r a , c r e i o que sou a única mulher aqui
que es t á de t o u c a ! ” E era mesmo! Quando chegamos em c as a, e l a
embrulhou todas as suas toucas e suas capas e n f e i t a d a s de
c o n t a s , e mandou tudo…
— Para um bazar de caridade? — perguntou Papai com
simpatia.
— Não. Ninguém q u e r e r i a a q u i l o nem num bazar de c a r i d a d e .
Mandou tudo para uma companhia t e a t r a l , onde o presente f o i
a p r e c i a d í s s i m o . Mas deixe-me ver… — Miss Marple retomou o f i o
da conversa — Onde é que eu estava?
— Dando sua impressão sobre es t e h o t e l .
— A h , s i m . Parece normal… mas não é . Tudo misturado… gente
r e a l e gente que não é r e a l . Nem sempre se pode d i s t i n g u i r
quem é r e a l e quem não é .
— Gente que não é r e a l ? Como assim?
— Há aqui o f i c i a i s reform ados, e há também homens que
parecem o f i c i a i s reformados mas que nunca es t i v e r am no
e x é r c i t o . E c l e s i á s t i c o s ’ que não são e c l e s i á s t i c o s . E
a l m i r a n t e s e comandantes que nunca es t i v er am na marinha. Minha
amiga S e l i n a Hazy… a p r i n c í p i o eu me d i v e r t i a com a mania que
e l a tem de reconhecer pessoas ( o que é muito n a t u r a l ) , e que a
levav a a cometer f r eq üe nt e s enganos, j á que as pessoas não
eram quem e l a pensava que fossem. Mas i s s o aconteceu t a n t a s
v ez e s . , . que eu f i q u e i com a pulga a t r á s da o r e l h a . A t é mesmo
Rose, a camareira… t ã o boazinha… mas eu comecei a pensar que
t a l v e z e l a também não f os s e real…
— Se l h e i n t e r e s s a s a b e r , e l a é uma e x - a t r i z . Boa a t r i z .
Mas ganha aqui um s a l á r i o melhor do que j am ai s ganhou no
palco.
— Mas… por quê?
— P r i n c i p a l m e n t e para f a z e r p a r t e do c e n á r i o . Pode s e r
também que não s e j a só i s s o .
— Ainda bem que estou de saída — observou Miss Marple com
um l e v e a r r e p i o . — Antes que aconteça qualquer c o i s a .
O I n s p e t o r - C h e f e Davy olhou-a com c u r i o s i d a d e : — Que é que
a senhora espera que aconteça?
— Alguma desgraça — d i s s e Miss M ar pl e.
— Desgraça é uma p al a vr a m uito forte…
— Acha que é muito melodramática? Mas tenho c e r t a
experiência… Parece que estive… t a n t a s vezes… em c o nt at o com
c r i m e s de morte…
— Crimes de morte? — O I n s p e t o r - C h e f e Davy abanou a cabeça.
— Não estou suspeitando de cr i m es de m o r t e . V ejo apenas a
p o s s i b i l i d a d e de apanhar alguns c r i m i n o s o s e xt r a o r d i n a r i a m e n t e
inteligentes…
— Não é a mesma c o i s a . Matar… o desejo de matar… é bem
d i f e r e n t e . É… como direi?… é um d e s a f i o a Deus.
E l e f i t o u - a e balançou a cabeça suavemente,
tranqüilizadoramente.
— Não haverá nenhum c r i m e de m o r t e .
Um f o r t e estampido, mais a l t o que o p r i m e i r o , soou l á f o r a .
E f o i seguido por um g r i t o e o u t r o estampido.
O I n s p e t o r - C h e f e Davy j á estava de p é , movendo-se com
a g i l i d a d e surpreendente num homem t ã o c o r p u l e n t o . Em poucos
segundos at r a ves s ar a a p o r t a de entrada e estava na r u a .

II
Os g r i t o s — g r i t o s de mulher — varavam a névoa com uma nota
de t e r r o r . O I n s p e t o r - C h e f e Davy d e i t o u a c o r r e r por Pond
S t r e e t , na di r eç ã o dos g r i t o s . A v i s t o u vagamente um v u l t o
f e m i n i n o encostado a uma gr ade. Numa dúzia de passadas
alcançou a m ul h er . E l a usava um longo casaco c l a r o de p e l e s , e
seus b r i l h a n t e s cabelos l o u r o s pendiam de ambos os l ados do
r o s t o . Por um i n s t a n t e , Davy j u l g o u r e c o n h e c ê - l a , mas logo
depois v i u que era apenas uma mocinha. Estendido na c a l ç a d a ,
aos pés da j ovem, estava o corpo de um homem, f a r d a d o . O
I n s p e t o r - C h e f e Davy o reconheceu. Era Michael Gorman.
Quando Davy se aproximou, a moça agarrou-se a e l e , t r êm u l a
da cabeça aos p és , gaguejando r e t a l h o s de f r a s e s :
— Alguém t e nt o u me matar… alguém… a t i r a r a m em mim… se não
f os s e e l e . . . — e apontou para o v u l t o i m ó vel a seus p é s . — E l e
me empurrou para t r á s e postou-se na minha frente… a í v e i o o
segundo t i r o … e e l e caiu… Salvou minha v i d a . Acho que es t á
ferido… m uito f e r i d o . , .
O I n s p e t o r - C h e f e Davy dobrou um j o e l h o e sacou do bo ls o a
l a n t e r n a . O a l t o p o r t e i r o i r l a n d ê s tombara como um s ol da do. O
lado esquerdo da sua t ú n i c a mostrava ama mancha úmida que se
tor na va cada vez mais úmida à medida que o sangue se embebia
no pano. Davy soergueu-lhe uma p á l p e br a , apalpou-lhe o p u l s o .
A f i n a i levantou-se.
— Acertaram em c hei o — d i s s e e l e .
A moça s o l t o u um g r i t o agudo, — Quer d i z e r que e l e e s t á
morto? Oh, não, não! E l e não pode e s t a r m o r t o !
— Quem f o i que a t i r o u na senhora?
— Não sei… Eu t i n h a deixado o meu c a r r o na esquina e i a
t a t e a n d o , pegada às grades… i a para o H o t e l B e r t r a m ’ s . E nt ã o,
de repente o u v i um t i r o e uma bal a passou raspando pelo meu
r o s t o . A í . ele… o p o r t e i r o do Bertram’s… v e i o correndo peia
rua na minha d i r e ç ã o , e me empurrou para d e t r á s d e l e . Ouvi
então o u t r o t i r o , creio… c r e i o que quem a t i r o u de vi a e s t a r
escondido a l i naquela área…
O I n s p e t o r - C h e f e Davy olhou para onde e l a apontava. Naquele
lado do H o t e l B e r t r a m ’ s havi a uma área a n t i g a , abaixo do n í v e l
da r u a , com um portão ao qual se chegava descendo alguns
degraus. Como o port ão dava apenas para uns quartos de
d e p ó s i t o , era pouco usado. Mas um homem pod eria esconder-se
a l i com grande f a c i l i d a d e .
— A senhora não v i u o homem?
— Não v i d i r e i t o . Passou por mim como uma sombra. O f o g
estava m uit o espesso.
Davy balançou a cabeça e a moça começou a c h o r ar
histericamente.
— Mas quem h a ve r i a de querer me matar? Por que querem me
matar? Já é a segunda v e z . Não compreendo… por quê?
Com um braço em v o l t a da moça, o I n s p e t o r - C h e f e Davy
remexeu no bolso com a o u t r a mão.
As notas e s t r i d e n t e s de um a p i t o de p o l í c i a penetraram no
nevoeiro.

III
Na s a l a de entrada do H o t e l B e r t r a m ’ s , Miss Gorringe
l e v a n t a r a bruscamente os olhos do b a l c ã o .
Um ou d o i s hóspedes f i z e r a m a mesma c o i s a . Os mais vel hos e
mais surdos continuaram i m p a s s í v e i s .
H e n r y , que i a depositando numa mesa um copo de conhaque
v e l h o , parou no m eio, com o copo na mão.
Miss Marple e m p er t i go u - s e, segurando os braços da p o l t r o n a .
Um a l m i r a n t e reformado d i s s e em tom c a t e g ó r i c o :
— A c i d e n t e ! C o l i s ã o de c a r r o s no f o g com c e r t e z a .
As p o r t a s de vaivém escancararam-se, dando passagem a um
enorme p o l i c i a l , que p a r ec i a m uito mais volumoso do que se
podia i m a g i n a r .
Vinha amparando uma moça, metida num casaco de pel es de c o r
c l a r a . E l a p a r ec i a quase incapaz de andar. O p o l i c i a l , um
pouco embaraçado, olhou em t o r n o como se pedisse a j u d a .
Miss Gorringe s a i u de t r á s do balcão e aproxim ou-se,
preparada para e n f r e n t a r a s i t u a ç ã o . Mas nesse momento o
elevad or desceu. Dele s a i u uma mulher a l t a , e a moça,
l i b e r t a n d o - s e do apoio que l h e dava o p o l i c i a l , atravessou a
s a l a numa c a r r e i r a f r e n é t i c a .
— Mamãe! — g r i t o u e l a . — Oh mamãe, mamãe… — e a t i r o u - s e ,
soluç ando, nos braços de Bess S e dg wic k.
VINTE E UM

O D r e c l i n o u - s e na c a d ei r a e olhou para as duas


INSPETOR-CHEFE AVY

mulheres sentadas d i a n t e d e l e . Passava da m e i a - n o i t e .


F u nc i o nár i os da p o l í c i a tinham chegado e p a r t i d o . Haviam
aparecido médicos, t é c n i c o s em d a t i l o s c o p i a , uma ambulância
para remover o c ad á ver; e agora tudo se r e d u z i a àquela únic a
s a l e t a reservada aos t r a b a l h o s da l e i pelo H o t e l B e r t r a m ’ s .
O I n s p e t o r - C h e f e Davy ocupava um dos lados da mesa. Bess
Sedgwick e E l v i r a , o o u t r o l a d o . P e r t o da parede sentava-se
discr etam ent e um p o l i c i a l , escrevendo. O S a r g e n t o - d e t e t i v e
Wadell estava numa c a d ei r a j u n t o à p o r t a .
Papai f i t a v a pe nsat i v o as duas mulheres. Mãe e f i l h a .
Notava e n t r e ambas uma f o r t e semelhança s u p e r f i c i a l .
Compreendia por que, dentro do f o g , tomara por um momento
E l v i r a Blake por Bess S e dg wick . Mas agor a, olhando para as
duas, atentava mais para os pontos de d i f e r e n ç a do que para os
pontos de semelhança. E l a s não se pareciam senão no c o l o r i d o ;
e , c ontudo, p e r s i s t i a a impressão de que t i n h a a l i a versão
n eg ati va e a versão p o s i t i v a da mesma p er s o nal i d a d e. Tudo em
Bess Sedgwick era p o s i t i v o . Sua v i t a l i d a d e , sua e n e r g i a , sua
atraç ão magnética. Davy admirava Lady S ed gw ic k. Sempre a
a dm i r a r a . Admirara l h e a coragem e sempre se emocionara com as
suas façanh as; lendo os j o r n a i s de domingo muit as vezes
d i s s e r a : “ D e s t a vez e l a não consegue se s a f a r ” e
i n v a r i a v e l m e n t e e l a se s a f a v a ! J u l g a r a i m p o s s í v e l que e l a
chegasse ao f i m da j o r n a d a , e e l a chegara ao f i m da j o r n a d a .
Admirava sobretudo a i n d e s t r u t i b i l i d a d e daquela m ul h e r . E l a
s o f r e r á um ac i de nte aér eo, v á r i a s b a t i d a s de automóvel, por
duas vezes c a í r a desastrosamente do c a v a l o , — mas ao f i m de
t u d o , estava i l e s a . V i b r a n t e , v i v a z , uma personalidade que não
se po deria i g n o r a r . Algum d i a , é c l a r o , s e r i a v e n c i d a : toda
mágica t er m i n a tendo um f i m . E os olhos de Davy iam da f i l h a à
mãe. Davam-lhe que pe n sar , as duas. M uito l h e davam que
p ens ar .
Em E l v i r a Bl ake tudo era d i r i g i d o para d e n t r o . Bess
Sedgwick at r a ves s ar a a v i d a impondo-lhe a sua vo nt ade. E l v i r a ,
supunha e l e , t i n h a maneira d i v e r s a de e n f r e n t a r a v i d a .
S ubmeti a-s e. Obedecia. S o r r i a concordando, mas, por t r á s ,
es c ap ul i a por e n t r e os dedos de quem pensava p r e n d ê - l a .
“ S o n s a ” , d i z i a consigo D a vy, fazendo uma a va l i aç ã o g e r a l dos
f a t o s . “ I N ao sabe a g i r de o u t r o modo. É incapaz de e n f r e n t a r
as c o i s a s , de se i m p o r . E há de s e r por i s s o que as pessoas
que cuidam dela j am ai s t i v e r a m a mínima i d é i a do seu r e a l
pr oc edi m e nt o” .
E l e procurava a d i v i n h a r o que e s t a r i a E l v i r a fazendo ao
andar f u r t i v a m e n t e pela r u a , em d i r eç ã o ao H o t e l B e r t r a m ’ s t ã o
t a r d e numa n o i t e de n e v o e i r o . I r i a f a z e r - l h e essa pe rgu nt a,
sem r o d e i o s . Provavelmente a r es p os t a que i r i a r eceber não
s e r i a a v e r d a d e i r a . “ É a s s i m , pensou e l e , que a pobre menina
se d e fe n de.” V i e r a at é a l i para se e n c o nt r a r com a mãe, ou
para p r o c u r a r a mãe? Qualquer dessas hi pót es es era
p er f e i t a m e nt e p o s s í v e l , mas e l e não a c r e d i t a v a que f os s e essa
a e x p l i c aç ã o r e a l . Nem por um momento. Pensava, em vez d i s s o ,
no grande c a r r o es port e escondido na es qui na, o c a r r o com a
chapa FAN 2266. L a d i s l a u s M al i n o w s k i devi a andar pel os
a r r e d o r e s , j á que o c a r r o dele estava a l i .
— Bem — d i s s e Papai d i r i g i n d o - s e a E l v i r a , na sua maneira
mais bondosa e p a t e r n a l — como es t á se s enti ndo agora?
— Estou m uito bem — respondeu E l v i r a .
— Ó t i m o. G os t a r i a que me respondesse a algumas p er g un tas,
se l h e f os s e p o s s í v e l , porque comumente o tempo é i m p or t a n t e
nesses c as os . D o i s t i r o s l h e foram d i r i g i d o s e um homem f o i
m o r t o . Nós queremos o b t e r o máximo de p i s t a s p o s s í v e l que nos
levem à pessoa que o matou.
— Vou d i z e r ao senhor o que s e i , mas tudo aconteceu t ã o de
r e p e n t e ! E a gente não pode v e r nada dentro do n e v o e i r o . Não
tenho a mínima i d é i a de quem pode t e r sido… nem que aspecto
t i n h a . I s s o é que t o r n a tudo t ã o a s s u s t a d or .
— A s e n h o r i t a d i s s e que aquela era a segunda vez que
tentavam m a t á - l a . Quer d i z e r com i s s o que j á haviam atentado
antes c o n t r a a sua vi da?
— Eu d i s s e i s s o ? Não me l e m br o . — Os olhos de E l v i r a
mexiam-se, i n q u i e t o s . — Não c r e i o t e r d i t o i s s o .
— A h , mas d i s s e , sabe que d i s s e — i n s i s t i u P a p a i .
— C r e i o que era só… só h i s t e r i a minha.
— Não — r e p l i c o u D a vy. — Não c r e i o que f o s s e . C r e i o que a
s e n h o r i t a quer i a d i z e r a q u i l o mesmo que estava d i z endo.
— Com c e r t e z a eu estava imaginando c o i s a s — teimou E l v i r a ;
seus ol hos vagueavam, de novo.
Bess Sedgwick mexeu-se e f a l o u com calma:
— O melhor é você c o n t a r a e l e , E l v i r a .
E l v i r a a t i r o u à mãe um o l h a r r á p i d o , i n q u i e t o . Papai
tranqüilizou-a:
— Não p r e c i s a se pr eocupar. Nós da p o l í c i a sabemos
p er f e i t a m e nt e que as moças j am ai s contam tudo às mães ou aos
t u t o r e s . Não levamos essas c o i s a s muito a s é r i o , mas
precisamos c o n h ec ê - l as , porque, v e j a bem, ajudam.
Bess Sedgwick d i s s e :
— F o i na I t á l i a ?
— F o i — respondeu E l v i r a .
Papai i n t e r v e i o : — F o i onde a s e n h o r i t a estud ou, não?
escol a ou curso de aperfeiçoamento, ou que o u t r o nome dêem a
i s s o hoje em d i a .
— F o i . Eu e s t i v e i nt er n a d a na escol a da Contessa
M a r t i n e l l i . Éramos umas d e z o i t o ou v i n t e moças.
— E a s e n h o r i t a pensa que alguém t e nt o u m a t á - l a . Como f o i
isso?
— Bem, mandaram-me uma grande c a i x a de c hoco l at es e
bombons; com a c a i x a vi nha um c a r t ã o , e s c r i t o em i t a l i a n o ,
numa l e t r a muit o e n f e i t a d a . D i z i a , naquele j e i t o d e l e s : “ À
b e l í s s i m a S i g n o r i n a ” , ou c o i s a p a r e c i d a . E minhas amigas e eu…
bem… r i m os um pouco e ficamos imaginando quem t e r i a mandado o
presente.
— Veio pelo c o r r e i o ?
— Não. Não poderia t e r vi nd o pelo c o r r e i o . Simplesmente
apareceu no meu quarto… alguém deve t ê - l o posto l á .
— Compreendo. Provavelmente esse alguém subornou um dos
c r i a d o s . E naturalmente a s e n h o r i t a não contou nada à t a l
Contessa n ã o- s ei - d e - q u ê .
Um l e v e s o r r i s o apareceu no r o s t o de E l v i r a .
— Não, não. C l a r o que não contamos. De qualquer f o r m a ,
abrimos a c a i x a , e os c h oc olat es eram d e l i c i o s o s ; de d i v e r s a s
q u a l i d a d es , mas havi a alguns de creme de v i o l e t a s . É um t i p o
de c hocol at e que tem por cima uma v i o l e t a c r i s t a l i z a d a . Meus
p r e d i l e t o s . De forma que logo de saída comi um ou d o i s dos de
creme de v i o l e t a s . E mais t a r d e , à n o i t e , passei m uito m a l .
Não pensei que fossem os c h o c o l a t e s , pensei que t a l v e z f oss e
alguma c o i s a que eu houvesse comido no j a n t a r .
— Ninguém mais adoeceu?
— Não. Só e u . Bem, pass ei muito m a l , mas no f i m do d i a
s egu i nt e j á me s e n t i a m el h or . Uns d o i s d i a s depois comi o u t r o
dos mesmos c hocol at es e aconteceu a mesma c o i s a . Conversei com
B r i d g e t a respeito… B r i d g e t é a minha melhor amiga. Examinamos
os c hocol at es e descobrimos que os de creme de v i o l e t a s tinham
um buraquinho no f u n d o , por onde o haviam enchido novamente;
pensamos por i s s o que alguém pusera veneno d e n t r o , e só
estavam envenenados os de creme de v i o l e t a s para que eu f os s e
a únic a a tomar o veneno.
— Ninguém mais f i c o u doente?
— Não.
— E a s s i m , provavelmente ninguém mais comeu os que tinham
creme de v i o l e t a s ?
— S i m , c r e i o que ninguém comeu. O senhor compreende, o
presente era para mim, e e l a s sabendo que eu gostava dos
c hoc ol at es de v i o l e t a s , deixavam todos para mim.
— Mas esse camarada, f os s e e l e quem f o s s e , assumiu um r i s c o
s é r i o — d i s s e P a p a i . — O pessoal todo poderia t e r s i d o
envenenado.
— É absurdo — d i s s e asperamente Lady S e dg wic k. —
Completamente absurdo. Nunca soube de nada t ã o e s t ú p i d o .
O I n s p e t o r - C h e f e Davy f e z um l i g e i r o gesto com a mão. — Por
f a v o r — d i s s e e l e , vo l t a n d o- s e em seguida para E l v i r a . — I s s o
me parece muito i n t e r e s s a n t e , Miss B l a k e . E apesar de t u d o ,
não contou nada à Contessa?
— Não, não contamos. E l a t e r i a f e i t o um barulho danado.
— E que f o i que f i z e r a m com os chocolates?
— A t i r am os f o r a . Eram uns c hoc ol at es maravil hosos —
acrescentou com um ar z i n h o de pena.
— A s e n h o r i t a não procurou d e s c o b r i r quem os t i n h a enviado?
E l v i r a pareceu embaraçada.
— Bem, o senhor compreende, pensei em Guido.
— Sim? — d i s s e animado o I n s p e t o r - C h e f e D a vy. — E quem é
Guido?
— Oh, Guido… — E l v i r a d et e v e - s e , olhou para a mãe.
— Não s e j a t o l a — d i s s e Bess S ed gw ic k. — Fale ao I n s p e t o r -
C h e f e sobre Guido, s e j a e l e quem f o r . Na sua i d a d e , toda
mocinha tem um Guido em sua v i d a . Encontrou-o l á , não?
— S i m . Quando fomos à ópera. E l e f a l o u comigo no t e a t r o . É
muito s i m p á t i c o , a t r a e n t e . Costumava v ê - l o às vezes quando
íamos às a u l a s . E l e me passava uns b i l h e t i n h o s .
— E eu imagino — interrompeu Bess Sedgwick — que você
i nve n t ou uma porção de m e n t i r a s , entrou em combinação com
algumas amigas e conseguiu s a i r e e n c o n t r a r - s e com e l e , não
foi?
E l v i r a p ar e c i a a l i v i a d a por aquela abreviação da c o n f i s s ã o .
— F o i . B r i d g e t e eu às vezes saíamos j u n t a s . E às vezes
Guido conseguia…
— Qual é o sobrenome de Guido?
— Não s e i — respondeu E l v i r a . — E l e nunca me d i s s e . O
I n s p e t o r - C h e f e Davy s o r r i u para a moça,
— Quer d i z e r que a s e n h o r i t a não nos d i r á ? Não i m p o r t a .
Provavelmente poderemos d e s c o b r i r como é que e l e se chama,
mesmo sem o seu a u x í l i o , se a informação f o r n e c e s s á r i a . Mas
por que f o i que a s e n h o r i t a pensou que o r a p a z , que
presumivelmente l h e q u er i a bem, desejava envenená-la?
— Oh, porque e l e costumava f a z e r ameaças desse t i p o . I s t o
é , quando brigávamos, o que de vez em quando a c o n t e c i a . E l e
t r a z i a alguns amigos, e eu f i n g i a g o s t a r mais dos amigos do
que d e l e , e e l e f i c a v a f u r i o s o . D i z i a que era melhor eu t e r
cuidado com o que f a z i a . Não podia d e i x á - l o de l ado sem mais
a qu el a ! Que se eu não l h e f os s e f i e i , e l e me matava! Eu
pensava que e l e estava sendo apenas melodramático e t e a t r a l . —
E l v i r a s o r r i u s ú b i t a e inesperadamente. — Mas tudo era
engraçado. Não a c r e d i t a v a que f os s e r e a l ou a s é r i o .
— Bem — observou o I n s p e t o r - C h e f e Davy — não me parece
pr o v á ve l que um rapaz como esse f o s s e envenenar c hocolat es
para l h e mandar.
— Eu também não a c r e d i t o , realmente — d i s s e E l v i r a , — mas
deve t e r s i d o e l e , porque não podia s e r mais ninguém. F i q u e i
muito preocupada. D e p o i s , quando v o l t e i para c á , r e c e b i um
bilhete… — h e s i t o u .
— Que espécie de b i l h e t e ?
— Veio num envelope, e estava e s c r i t o em l e t r a de imprensa.
D i z i a : “Tenha andado. Alguém quer m a t á - l a . ”
As sobrancelhas do I n s p e t o r - C h e f e Davy ergueram-se.
— Verdade? É muito c u r i o s o , muito c u r i o s o mesmo. E i s s o
dei xou-a preocupada. Ficou com medo?
— F i q u e i . Comecei… comecei a pensar quem poderia querer me
t i r a r do caminho. F o i por i s s o que p r o c u r e i saber se na
verdade eu era mesmo muito r i c a .
— Continue.
— E o u t r o d i a , em Londres, aconteceu mais uma c o i s a . Eu
estava esperando o metrô e havi a uma porção de gente na
p l a t a f o r m a . T i v e a impressão de que alguém t e nt o u me empurrar
para o t r i l h o .
— Minha f i l h a ! — exclamou Bess S e dg wi ck. — Não exagere!
Mas Papai r e p e t i u o seu l e v e gesto de mão. E E l v i r a d i s s e ,
como se se desculpasse:
— S i m , espero que tenha imaginado i s s o tudo… mas não sei…
depois do que aconteceu es t a n o i t e , parece que tudo deve s e r
mesmo verdade, não parece? — V o l t o u - s e de repente para Bess
S ed g wi c k, u r g i n d o : — Minha mãe! A senhora deve s a b e r . Será que
alguém quer me matar? E x i s t i r á alguém? T e r e i algum i n i m i g o ?
— C l a r o que você não tem i n i m i g o nenhum — respondeu Bess
S ed g wi c k, i m p a c i e n t e . — Não s e j a t o l a . Ninguém quer matar
v oc ê . Por quê?
— Então quem a t i r o u em mim es t a n o i t e ?
— Naquele f o g — d i s s e Bess Sedgwick — podem t e r tomado você
por o u t r a pessoa. É p o s s í v e l , não acha o senhor? — continuou
e l a , vi r a n d o- s e para P a p a i .
— S i m , penso que é muito p o s s í v e l — a d m i t i u o I n s p e t o r -
C h e f e D a vy.
Bess Sedgwick olhava f i xam e nte o I n s p e t o r - C h e f e . E l e t e ve a
vaga impressão de que os l á b i o s de Bess a r t i c u l a v a m mudamente
as p a l a v r a s : “ M ai s t a r d e ” .
— Bem, — d i s s e e l e ent ão, animado — é melhor vol t ar m os aos
f a t o s . De onde é que a s e n h o r i t a vi nha es t a n o i t e ? Que é que
andava fazendo, a p é , em Pond S t r e e t , numa n o i t e de t a l
nevoeiro?
— Eu t i n h a i d o a uma aula de a r t e na G a l e r i a T a t e , hoje
pela manhã. Depois f u i almoçar com minha amiga B r i d g e t , que
mora em Onslow Square. Fomos a um cinema e quando saímos j á
havi a f o g . . . bem escuro e f i c a n d o cada vez p i o r . Então eu
pensei que era melhor não i r para casa de c a r r o .
— A s e n h o r i t a sabe d i r i g i r ?
— S e i . T i r e i c a r t e i r a de m o t o r i s t a no verão passado. Mas
ainda não d i r i j o muit o bem e d et e s t o g u i a r em n e v o e i r o .
Por i s s o , a mãe de B r i d g e t d i s s e que eu podia passar a
n o i t e l á ; então eu t e l e f o n e i à prima M i l d r e d , com quem moro,
em Kent…
Papai balançou a cabeça.
—… e d i s s e a e l a que eu i a passar a n o i t e a q u i . E l a achou
que era uma boa i d é i a .
— E que aconteceu em seguida? — indagou D a vy.
— De repente o f o g c l a r e o u . O senhor sabe como o f o g é
i r r e g u l a r . R e s o l v i então i r de c a r r o para K e n t . Despedi-me de
B r i d g e t , e s a í . Mas a í o nevoeiro recomeçou, e eu não g o s t e i .
E n t r e i num t r e c h o de f o g m uito espesso e me p e r d i , sem saber
onde e s t a v a . Passado algum tempo, d es c o br i que estava em Hyde
P ark Corner e d i s s e comigo: “Não posso mesmo i r para Kent
nessas c o n d i ç õ e s ” . No começo pensei em v o l t a r à casa de
B r i d g e t , mas a í me l e m b r e i de que me perdera a n t e s . N i s s o ,
compreendi que estava p e r t i n h o deste h o t e l t ã o s i m p á t i c o , para
onde o t i o Derek t i n h a me t r a z i d o , quando v o l t e i da I t á l i a , e
p e n s e i : “Vou para l á , tenho c e r t e z a de que me a r r a n j a r ã o um
q u a r t o ” . E realmente f o i muito f á c i l , d es c o br i um l u g a r para
e s t a c i o n a i : o c a r r o e vim a pé pela rua at é o h o t e l .
— Encontrou alguém, ou ouvi u passos de alguém por pert o?
— É engraçado o senhor d i z e r i s s o , porque j u l g u e i t e r
ouvido os passos a t r á s de mim. C l a r o que deve haver milhões de
pessoas andando em Londres. Só que num f o g como es s e, a gente
f i c a ner vos a. E s p e r e i e e s c u t e i , mas a í p a r e i de o u v i r os
passos e pensei que era imaginação minha. Já então estava bem
p e r t o do h o t e l .
— E aí ?
— A í , de r e p e n t e , dispararam um t i r o . Como j á d i s s e ao
s enh or , p ar ec i a que a bala t i n h a passado r e n t e à minha o r e l h a .
O p o r t e i r o que es t á sempre na calçada do h o t e l , v e i o correndo
na minha d i r e ç ã o , me empurrou para t r á s dele e então… então
v e i o o o u t r o t i r o … Ele… c a i u e eu g r i t e i . — E l v i r a t r e m i a . A
mãe l h e d i s s e em voz bai xa e f i r m e :
— Calma, menina. Fique cal ma. — Era a voz que Bess Sedgwick
usava com os seus c a v a l o s , e que se mostrou p er f e i t a m e nt e
e f i c a z com a f i l h a . E l v i r a p i s c o u , e n d i r e i t o u - s e e se acalmou.
— Muito bem — f a l o u B es s .
— E a í o senhor chegou — d i s s e E l v i r a para D a vy. — A p i t o u e
mandou que os p o l i c i a i s me trouxessem para o h o t e l . E assim
que e n t r e i vi… v i minha mãe. — V i r o u - s e e olhou para Bess
S ed g wi c k.
— E i s s o nos põe mais ou menos a t u a l i z a d o s — d i s s e P a p a i ,
a j e i t a n d o o c o r p a n z i l na c a d e i r a .
— Conhece um homem chamado L a d i s l a u s M al i no ws ki ?
— perguntou e l e num tom n o r m a l , despreocupado, sem nenhuma
i n f l e x ã o e s p e c i a l . Não olhava para a moça, mas percebeu, j á
que t i n h a os ouvidos a t e n t o s , que e l a subitamente e n g o l i r a em
s ec o . Os olho s de Papai não se fi xavam na f i l h a e sim na mãe.
— Não, — respondeu E l v i r a — demorando um t a n t i n h o para
f a l a r — não, não conheço.
— Oh, pensei que o c on hec ia. Pensei que e l e t a l v e z houvesse
estado aqui e s t a n o i t e .
— Oh, e por quê?
— Bem, o c a r r o dele es t á aqui — informou P a p a i . — Por i s s o
pensei que e l e também e s t i v e s s e .
— Eu não o conheço — r e p e t i u E l v i r a .
— Engano meu, e n t ã o . Mas a senhora o conhece, não?
— e l e vol veu a cabeça para Bess S e dg wi c k.
— Naturalmente — respondeu B es s . — Conheço-o há m uitos
anos. — E ac res c en t ou, s o r r i n d o de l e v e : — É um maluco. Guia
c a r r o como um anjo ou um diabo… qualquer d i a quebra o pescoço.
S ofreu um d esas tr e t e r r í v e l há um ano e meio.
— S i m , lembro-me de t e r l i d o a r e s p e i t o — d i s s e P a p a i .
— Ainda não v o l t o u a c o r r e r , ou j á ?
— Não, ainda não. T al vez não c o r r a nunca m a i s .
— Acha que eu j á posso i r para a cama? — perguntou E l v i r a ,
em tom qu ei xo so. — Estou… estou h o r r i v e l m e n t e f a t i g a d a .
— C l a r o . Deve e s t a r — f a l o u P a p a i . — Contou-nos tudo que
podia r ec or dar ?
— Oh, s i m .
— Vou com você — d i s s e B es s . Mãe e f i l h a saíram j u n t a s .
— E l a o conhece muito bem — observou P a p a i .
— O senhor acha? — perguntou o Sargento W ade l l .
— Eu s e i que conhece. Faz um d i a ou d o i s que tomou chá com
e l e em B a t t e r s e a P a r k .
— Como é que o senhor descobriu?
— Uma senhora idosa me contou… muito m o r t i f i c a d a . Não
achava que f o ss e um amigo para uma mocinha. E de f a t o não é .
— Especialmente se e l e e a mãe… — Wadell i n t e r r o m p e u - s e ,
delic adamente. — É o boato que corre…
— S i m . Tal vez s e j a verdade, t a l v e z não s e j a . Provavelmente
é.
— Nesse c as o, qu al das duas e l e quer? Papai ignorou a
pergunta e d i s s e :
— Quero que o apanhem. De qualquer j e i t o . O c a r r o dele es t á
aqui… logo ao dobrar a esq uin a.
— Acha que e l e t a l v e z e s t e j a hospedado neste h o t e l ? — Não
c r e i o . I s s o não se e n c a i x a r i a no quadro g e r a l .
Não é de se supor que e s t e j a a q u i . Se v e i o c á , f o i para
e nc o n t r ar a moça. E e l a , evidentemente, v e i o para o e n c o n t r a r .
A b r i u - s e a p o r t a e Bess Sedgwick reapareceu.
— V o l t e i — d i s s e e l a — porque q u e r i a f a l a r com o s enhor .
A s s i n a l o u com o o l h a r os o u t r o s d o i s homens.
— Poderia f a l a r com o senhor a sós? Já l h e d e i todas as
informações que t e n h o; mas q u e r i a agora uma p a l a vr i n h a com o
senhor em p a r t i c u l a r .
— Não v e j o nenhum impedimento — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e
D a vy. Fez um gesto com a cabeça e o jovem d e t e t i v e apanhou o
seu l i v r o de notas e s a i u ; Wadell acompanhou-o. — Então? —
indagou o I n s p e t o r - C h e f e .
Lady Sedgwick sentou-se de novo d e f r o n t e d e l e .
— Aquela h i s t ó r i a i d i o t a a r e s p e i t o dos c hoc ol at es
envenenados, é um d i s p a r a t e — d i s s e e l a . — Absolutamente
r i d í c u l a . Não a c r e d i t o que nada d a q u i l o tenha a c o n t e c i d o.
— Não a c r e d i t a , eh?
— O senhor a c r e d i t a ?
Papai abanou a cabeça, em d ú v i d a . — Acha que sua f i l h a
i nve n t ou tudo a q ui l o ?
— Acho. Mas por quê?
— Bem, se a senhora não sabe por que, como é que eu h e i de
saber? E l a é sua f i l h a . É de pr es umir que a senhora a conheça
melhor do que e u.
— Eu não a conheço, de modo nenhum — e x p l i c o u B es s , com
amargura. — Não a v e j o nem tenho o menor c o nt at o com e l a desde
o tempo em que e l a t i n h a d o i s anos de idade… quando f u g i de
meu m ar i d o .
— S i m , s e i de tudo i s s o e acho m uito c u r i o s o . A senhora
sabe, Lady S e dg wi ck, que em g e r a l os t r i b u n a i s dão à mãe a
c u s t ó d i a do f i l h o pequenino, quando e l a a s o l i c i t a … mesmo
quando é a p a r t e c ul pad a. Quer d i z e r que a senhora não
s o l i c i t o u a c u s t ó d i a da menina? Não a q u i s .
— Ac hei que… s e r i a melhor não p e d i r .
— Por quê?
— J u l g u e i que não s e r i a seguro… para a c r i a n ç a .
— Por m oti vos morais?
— Não. Por m oti vos morais não; a d u l t é r i o , at ua lm ent e , é
muito comum. As c r i a n ç a s têm de saber d i s s o , têm de c r e s c e r
com i s s o . Não. O caso é que eu não sou uma pessoa que of ereç a
segurança. A v i d a que eu l e v o não s e r i a uma v i d a segura para
e l a . A gente não pode es c o l h er como é que nasce, e eu n a s c i
para v i v e r perigosamente. Não gosto de r e s p e i t a r l e i s nem
gosto de convenções. E pensei que s e r i a melhor para E l v i r a ,
que e l a s e r i a mais f e l i z se recebesse uma educação i n g l e s a
c o n v e n c i o n al . P r o t e g i d a , cuidada…
— Mas sem o amor da mãe?
— Pensei que se e l a aprendesse a me amar, i s s o só l h e
t r a r i a t r i s t e z a s . Oh, o senhor t a l v e z não me a c r e d i t e , mas era
o que eu s e n t i a .
— Compreendo. Ainda pensa que t e ve razão?
— Não — respondeu B es s . — Não penso. Acho agora que t a l v e z
tenha me enganado redondamente.
— A f i n a l sua f i l h a conhece L a d i s l a us M ali now sk i ?
— Tenho c e r t e z a de que não o conhece. E l a mesma d i s s e ; o
senhor o u v i u .
— Sim, o u vi .
— E então?
— A senhora sabe que e l a estava assustada, sentada a q u i . Na
nossa p r o f i s s ã o aprendemos a reconhecer o medo quando nos
defrontamos com e l e . E e l a estava com medo… por quê?
C h o c o l a t e s , ou não, o f a t o é que atentaram c o n t r a a sua v i d a .
A h i s t ó r i a da estação do metrô pode s e r verdadeira…
— Era r i d í c u l a . Como um romance p o l i c i a l …
— T a l v e z , mas essas c o i s a s acontecem, Lady S e d gwi ck. E mais
freqüentemente do que a senhora i m a gi n a . Pode me dar alguma
i d é i a de quem poderia querer matar a sua f i l h a ?
— Ninguém! Absolutamente ninguém!
Bess f a l o u com veemência.
O I n s p e t o r - C h e f e Davy s u s p i r o u e abanou a cabeça.
VINTE E DOIS

OINSPETOR-CHEFE D esperou pacientemente que M r s . M el f or d acabasse


AVY

de f a l a r . Fora uma e n t r e v i s t a singularmente i m p r o d u t i v a . A


prima M i l d r e d m ostr ara-s e i n c o e r e n t e , i n c r é d u l a e , de modo
g e r a l , desmiolada. P elo menos era essa a o pi n i ã o p a r t i c u l a r de
P a p a i . Informações a r e s p e i t o das boas maneiras de E l v i r a , do
seu gênio meigo, dos problemas que t i n h a com os d e n t e s , das
desculpas e s q u i s i t a s que dava ao t e l e f o n e , faziam-na a l i m e n t a r
s é r i a s dúvidas quanto a B r i d g e t : s e r i a a amiga adequada para
E l v i r a ? E todos esses temas haviam s i d o apresentados ao
I n s p e t o r - C h e f e Davy num bolo apressado. M r s . M e l f or d não sabi a
de nada, não v i r a nada e , aparentemente, deduzir a muito pouco.
Um breve telefonema ao t u t o r de E l v i r a , o C oronel Luscombe,
f o r a ainda mais i m p r o d u t i v o , embora f e l i z m e n t e , menos verb oso.
— Mais macaquinhos chineses — murmurou Papai para o s a r g e n t o ,
ao l a r g a r o f o n e . — Não v e r maldade, não o u v i r maldade, não
d i z e r maldade.
— O problema é que todo mundo que tem qualquer c o i s a a v e r
com essa menina é gente boa demais… se você entende o que
quero d i z e r . Pessoas e xc el ent es que não sabem nada acerca do
m a l . D i f e r e n t e s da vel ha minha amiga.
— A senhora do H o t e l B e r t r a m ’ s ?
— E l a , s i m . Passou uma longa v i d a a observar o m a l ,
i m agin ar o m a l , s u s p e i t a r o mal e a c e i t a r o combate com o m a l .
Vejamos agora o que nos tem a d i z e r a amiguinha B r i d g e t .
As d i f i c u l d a d e s dessa e n t r e v i s t a foram representadas do
começo ao f i m pela mãe de B r i d g e t . E para conse guir conversar
com B r i d g e t sem a s s i s t ê n c i a da mãe, pr e c i s o u o I n s p e t o r - C h e f e
Davy empregar toda a sua e f i c i ê n c i a e capacidade de l i s o n j a .
Deve-se a d m i t i r , a l i á s , que e l e f o i m uito ajudado n i s s o pela
p r ó p r i a B r i d g e t . Depois de um c e r t o número de perguntas e
r espo st as e s t e r e o t i p a d a s , e expressões de h o r r o r da p a r t e da
mãe de B r i d g e t ao e s c u t a r como E l v i r a por um t r i z não m o r r e r a ,
Bridget disse:
— O l h e , mamãe, e s t á na hora da reunião do seu c o m i t ê . Você
d i s s e que era muito i m p o r t a n t e .
— Oh, Senhor meu — gemeu a mãe de B r i d g e t .
— Você sabe que sem a sua presença, e l a s fazem a maior
c onfusão.
— Com toda a c e r t e z a ! Mas t a l v e z s e j a minha obrigação…
— Absolutamente, minha senhora — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e
D a vy, carregando no j e i t o bondoso e p a t e r n a l . — A senhora não
p r e c i s a se pr eoc up ar. Pode s a i r . Já t e r m i n e i com as c o i s a s
i m p o r t a n t e s , a senhora me d i s s e tudo de que eu p r ec i s a va
s a b e r . Só tenho a f a z e r mais uma ou o u t r a pergunta de r o t i n a ,
a r e s p e i t o de pessoas da I t á l i a , a que t a l v e z sua f i l h a , Miss
B r i d g e t , possa r esp onder.
— Bem, se você acha que se a r r a n j a , Bridget…
— Oh, me a r r a n j o s i m , mamãe — tor nou B r i d g e t . A f i n a l , com
grande e s p a l h a f a t o , a mãe de B r i d g e t s a i u para a reunião do
comitê.
— Puxa v i d a ! — s us pi r o u B r i d g e t ao v o l t a r , depois de f e c h a r
a p o r t a da f r e n t e . — Como são d i f í c e i s as mães!
— É o que ouço d i z e r — comentou o I n s p e t o r - C h e f e Davy» —
Inúmeras mocinhas têm problemas com as mães.
— P o i s eu pensava que o senhor f os s e d i z e r o c o n t r á r i o —
observou B r i d g e t .
— Realmente — concordou D a vy. — Mas o meu ponto de v i s t a
não é o das moças. A gor a, pode me c o n t a r um pouco mais?
- Eu não podia f a l a r francamente d i a n t e de Mamãe — e x p l i c o u
B r i d g e t . — Mas s i n t o , é c l a r o , que é realmente i m p or t a n t e que
o senhor f i q u e o melhor informado p o s s í v e l a r e s p e i t o d i s s o
t u d o . S e i que E l v i r a andava preocupadíssima com alguma c o i s a ,
e com medo. Não q u e r i a a d m i t i r que estava em p e r i g o , mas
estava.
— F o i i s s o o que eu p e n s e i . Evidentemente não q u i s f a z e r
muitas perguntas na f r e n t e de sua mãe.
— Sim — d i s s e B r i d g e t — não queremos que mamãe ouça essas
c o i s a s . E l a se impr essiona com f a c i l i d a d e , e logo s a i por a í
contando tudo a todo o mundo. E se E l v i r a não deseja que essas
c o i s a s se espalhem…
— P r i m e i r o que tudo — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e Davy — quero
saber o que houve na I t á l i a com uma c a i x a de c h o c o l a t e s . Pelo
que e n t e n d i , mandaram para E l v i r a uma c a i x a de c hoc ol at es que
t a l v e z estivessem envenenados.
B r i d g e t ar r egal ou os o l h o s . — Envenenados! — d i s s e e l a . —
Não. C r e i o que não. P el o menos…
— Houve alguma c ois a?
— S i m . Mandaram uma c a i x a de c h o c o l a t e s , E l v i r a comeu uma
porção e passou mal a n o i t e . M uito m a l .
— Mas não s uspe it ou de veneno?
— Não. P elo menos… a h , s i m , e l a d i s s e que alguém estava
querendo envenená-la, e nós examinamos os c hoco l at es para v e r
se tinham i n j e t a d o alguma c o i s a n e l e s .
— E tinham?
— Não, não t i n h a m . Pelo menos não descobrimos nada.
— Mas t a l v e z a sua amiga, Miss E l v i r a , e s t i v e s s e convencida
de que os c ho col at e s estavam envenenados.
— Bem, talvez… mas e l a não f a l o u mais n i s s o .
— Mas a c r e d i t a que e l a estava com medo de alguém?
— Não pensei n i s s o no momento, nem n o t e i nada. F o i só a q u i ,
mais t a r d e .
— E que me d i z desse homem, desse t a l Guido? B r i d g e t
começou a r i r :
— E l e estava gamado por E l v i r a .
— E a s e n h o r i t a e E l v i r a costumavam e n c o n t r á - l o em alguns
lugares?
— Bem, não me i m p or t o de c o n t a r ao senhor — d i s s e B r i d g e t .
— A f i n a l de contas o senhor é a p o l í c i a . Para o senhor essas
c o i s a s não têm i m p o r t â n c i a , e espero que compreenda. A
Contessa M a r t i n e l l i era h o r r i v e l m e n t e r i g o r o s a , ou pensava que
e r a . E naturalmente nós também tínhamos os nossos macetes… Uma
por todas… o senhor sabe como é .
— E pregavam as m e nt i r as que cabiam, não?
— Bem, r e c e i o que sim — concedeu B r i d g e t . — Mas que é que a
gente pode f a z e r , quando os o u t r o s são t ã o desconfiados?
— E assim vocês se encontravam com Guido e tudo o m a i s . E
e l e costumava ameaçar E l v i r a ?
— Não c r e i o que f a l a s s e s é r i o .
— Então t a l v e z houvesse alguma o u t r a pessoa com quem e l a se
encontrava?
— A h, isso… bem, não s e i .
— C o nt e , por f a v o r , Miss B r i d g e t . Talvez… sabe? t a l v e z s e j a
vital.
— S i m , compreendo. Bem, ha vi a alguém. Não s e i quem e r a , mas
havi a mais alguém de quem e l a gostava m u i t o . Para e l a era
c o i s a muito s é r i a . Quero d i z e r , era uma c o i s a muito
importante.
— E l a costumava e n c o nt r á - l o ?
— Acho que s i m . Quero d i z e r , e l a d i z i a que i a e n c o n t r a r - s e
com Guido, mas nem sempre era com Guido. Era com esse o u t r o
homem.
— Não tem nenhuma i d é i a de quem fosse?
— Não. — B r i d g e t p ar e c i a um pouco i n s e g u r a .
— Não s e r i a um c o r r e d o r de automóvel, chamado L a d i s l a u s
M ali no ws ki ?
B r i d g e t f i c o u b o q u i a b er t a:
— Então o senhor sabe?
— F a l e i certo?
— Sim… acho que s i m . E l a t i n h a uma f o t o g r a f i a d e l e , t i r a d a
de um j o r n a l . Guardava-a debaixo das m eias.
— Mas i s s o não podia s e r apenas um entusiasmo de f ã ?
— Bem, podia s e r , mas não c r e i o que f o s s e .
— A s e n h o r i t a sabe se e l a se encontrou com e l e aqui na
Inglaterra?
— Não s e i . O l h e , não s e i mesmo o que e l a tem f e i t o desde
que chegou da I t á l i a .
— E l a v e i o a Londres para i r ao d e n t i s t a — le mbr ou-lhe
D a vy. — Ou é o que e l a d i z . Em vez de i r ao d e n t i s t a , v e i o
p r o c u r á - l a a q u i . E t e l e f o n o u a M r s . M el for d com uma h i s t ó r i a a
r e s p e i t o de uma a n t i g a governanta.
B r i d g e t deu uma r i s a d i n h a .
— I s s o era m e n t i r a , não era? — d i s s e s o r r i n d o o I n s p e t o r -
C h e f e . — Para onde e l a f o i mesmo?
B r i d g e t h e s i t o u , depois d i s s e : — F o i à I r l a n d a .
— F o i à I r l a n d a ? Por quê?
— Não q u i s me d i z e r . G ara nti u que pr ec i s a va d e s c o b r i r uma
coisa.
— E sabe para onde e l a f o i , na I r l a n d a ?
— Não s e i bem. Mencionou um nome. B a l l y não s e i o quê.
B a l l y g o w l a n , se não me engano.
— Compreendo. Então tem c e r t e z a de que e l a f o i à I r l a n d a ?
— F u i l e v á - l a ao aeroport o de K ensi ngt o n. E l a v i a j o u pela
Aer L i n g u s .
— E v o l t o u quando?
— No d i a s e g u i n t e .
— Por v i a aérea?
— Sim.
— Tem c e r t e z a ab sol ut a de que e l a v o l t o u por v i a aérea?
— Bem… suponho que f o i .
— Comprou passagem de i d a e v o l t a ?
— Não. Não comprou, lembro-me.
— Então poderia t e r v o l t a d o por o u t r o t r a n s p o r t e , não é
mesmo?
— S i m , c r e i o que s i m .
— P o d e r i a , por exemplo, t e r v o l t a d o pela I r i s h M ai l ?
— E l a não me d i s s e .
— Mas também não d i s s e que v o l t a r a de a v i ã o , diss e? _ Não —
concordou B r i d g e t . — Mas por que v o l t a r i a e l a de navi o ou de
t r e m , em vez de v o l t a r de avião?
— Bem, se e l a houvesse descoberto o que pr et e n d i a s a b e r , e
não t i n h a onde f i c a r , t a l v e z pensasse que s e r i a mais f á c i l
v o l t a r pelo trem n o t u r n o .
—É, talvez.
Davy f e z um a r de r i s o .
— Acho que vo c ê s , moças de h o j e , não imaginam que se possa
v i a j a r senão por v i a aér ea, não é?
— É , acho que s i m .
— De qualquer f o r m a , e l a v o l t o u para a I n g l a t e r r a . E e nt ã o ,
que aconteceu? Veio para c á , ou l h e t el e f o n o u?
— T el ef o n ou.
— A que horas?
— Oh, pela manhã. Deve t e r s i d o pelas onze h o r a s , c r e i o .
— E que f o i que e l a disse?
— Bem, e l a só f e z pergunt ar se tudo estava em ordem.
— E estava?
— Não, porque, i m a gi n e , M r s . M el f or d t i n h a tocado para cá e
mamãe atendeu ao t e l e f o n e . As c o i s a s se encrencaram e eu não
s abi a o que d i z e r . Então E l v i r a . d i s s e que não v i r i a a Onslow
Square, mas que t e l e f o n a r i a para a prima M i l d r e d e a r r a n j a r i a
uma h i s t ó r i a q u a l q u er .
— E é só i s s o que a s e n h o r i t a recorda?
— É só — r e t r u c o u B r i d g e t , fazendo c e r t a s r e s t r i ç õ e s
m e nt a i s . Pensava, por exemplo, em M r . B o l l a r d e na p u l s e i r a .
Estava a í uma c o i s a que e l a não c o n t a r i a ao I n s p e t o r - C h e f e
D a vy. Papai sabi a p e r f e i t a m e n t e que alguma c o i s a l h e estava
sendo o c u l t a d a ; r e s t a v a - l h e esper ar que t a l c o i s a não f os s e
i m p o r t a nt e para o i n q u é r i t o . Tornou a p e r g u n t a r :
— Acha que a sua amiga estava com medo de alguém ou de
alguma cois a?
— Acho, s i m .
— E l a l h e f a l o u n i s s o , ou a s e n h o r i t a f a l o u n i s s o a ela?
— A h , eu p er g u n t e i sem r o d e i o s . A p r i n c í p i o e l a d i s s e que
não, mas logo confessou que estava com medo. E eu s e i que e l a
estava mesmo — prosseguiu vi ol ent a m ent e B r i d g e t » — E l a estava
em p e r i g o . E sabi a d i s s o muito bem. Mas não s e i por que, nem
como, nem nada a r e s p e i t o .
— Sua c e r t e z a quanto à r e a l i d a d e do p e r i g o f i r m o u - s e
naquela manhã em que e l a v o l t o u da I r l a n d a ?
— S i m . F o i a í que t i v e c e r t e z a .
— Na manhã em que e l a poderia t e r v o l t a d o pelo trem da
I r i s h M ai l ?
— Não acho pr o v á ve l que e l a tenha v o l t a d o de t r e m . Por que
o senhor não pergunta a ela?
— Acabarei perguntando, provavelmente. Mas não quero chamar
atenção para esse t ó p i c o . Por enquanto. Só i r i a com c e r t e z a ,
aumentar o p e r i g o que e l a es t á c o r r e n d o .
B r i d g e t ar r eg al o u os o l h o s .
— Que é que o senhor quer d i z e r ?
— A s e n h o r i t a t a l v e z não se l e m br e, Miss B r i d g e t , mas f o i
naquela noite… ou a n t e s , naquela madrugada, que se deu o
a s s a l t o ao trem da I r i s h M a i l .
— O senhor quer d i z e r que E l v i r a estava metida n i s s o e
nunca me d i s s e uma p a l a vr a a r e s p e i t o ?
— Concordo que é pouco pr o vá v e l — d i s s e P a p a i . — Mas e s t i v e
pensando que e l a t a l v e z tenha v i s t o alguma c o i s a ou alguma
pessoa, ou algum i n c i d e n t e l i g a d o ao a s s a l t o da I r i s h M a i l .
Tal ve z tenha v i s t o um conhecido, por exemplo, c i r c u n s t â n c i a
que pod eria c o l o c á - l a em p e r i g o .
— Oh! — exclamou B r i d g e t . E f i c o u ruminando o que acabava
de o u v i r . — Quer dizer… alguém que e l a conhecia estava
e n v o l vi d o no roubo.
O I n s p e t o r - C h e f e Davy l e v a n t o u - s e .
— Acho que é t u d o . Tem c e r t e z a de que não tem mais nada
para me c ont a r? Algum l u g a r onde sua amiga f o i , naquele dia?
Ou na véspera?
Novamente assomaram aos ol hos de B r i d g e t vi s õ e s de M r .
B o l l a r d e da j o a l h e r i a de Bond S t r e e t .
— Tenho — d i s s e e l a .
— P o i s eu c r e i o que ainda há alguma c o i s a que a s e n h o r i t a
não me c o nt o u .
B r i d g e t descobriu uma s a í d a .
— Oh, eu i a esquecendo — d i s s e e l a . — S i m , E l v i r a f o i
p r o c u r a r uns advogados, os advogados que são curadores d e l a ,
para d e s c o b r i r c e r t a s c o i s a s .
— A h , Miss E l v i r a f o i p r o c u r a r uns advogados, que são
curadores d e l a . Será que sabe como se chamam?
— O nome del es é Egerton… Forbes Egerton e não s e i que
m a i s . Uma porção de nomes. Todavia é mais ou menos i s s o .
— Compreendo. E e l a então q u e r i a d e s c o b r i r alguma c oisa?
— Queria saber quanto d i n h e i r o possui — e x p l i c o u B r i d g e t .
O I n s p e t o r Davy f r a n z i u a sobr anc el ha.
— Realmente! — exclamou. — I n t e r e s s a n t e . E por que é que
e l a p r ó p r i a não sabi a diss o?
— Oh, porque nunca ninguém f a l o u a e l a a r e s p e i t o de
d i n h e i r o . Acho que e l e s pensam que não é bom a gente saber
quanto d i n h e i r o p o s s u i .
— E e l a estava l ouc a para s a b e r , não?
— E s t a v a , s i m . Penso que e l a achava que i s s o era muit o
importante.
— Bem, muito obrigado — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e D a vy. — A
s e n h o r i t a me ajudou m u i t í s s i m o .
VINTE E TRÊS

R
ICHA RD E a o l h a r para o c a r t ã o o f i c i a l que estava à sua
GERTON TORNOU

f r e n t e , depois l eva nt ou os ol hos para o r o s t o do I n s p e t o r -


Chefe e d i s s e :
— Caso c u r i o s o .
— Sim senhor — f a l o u o I n s p e t o r - C h e f e D a v y. — Caso m uit o
curioso.
— O H o t e l B e r t r a m ’ s — continuou Egerton — no n e v o e i r o . S i m ,
o f o g estava t e r r í v e l ontem à n o i t e . C r e i o que os senhores têm
que l i d a r com uma porção de casos como es t e em d i a s de
n e v o e i r o , não? Roubos, furtos… bols as arrebatadas… essa c o i s a
toda.
— Mas não f o i exatamente i s s o — observou P a p a i . — Ninguém
t e n t o u a r r e b a t a r nada a Miss B l a k e .
— De onde p a r t i u o t i r o ?
— Devido ao f o g , não podemos t e r c e r t e z a . E l a p r ó p r i a não
s abi a bem. Mas pensamos… parece a melhor idéia… que o homem
d e v e r i a e s t a r naquela á r e a ,
— D i z o senhor que e l e a t i r o u em E l v i r a duas vezes?
— S i m . O p r i m e i r o t i r o er r o u o a l v o . O p o r t e i r o c or r e u de
onde e s t a v a , do lado de f o r a da p o r t a do h o t e l , e pôs-se à
f r e n t e dela momentos antes do segundo t i r o .
— E por i s s o o t i r o pegou nele?
— Sim.
— Camarada v a l e n t e .
— S i m . Era v a l e n t e — concordou o I n s p e t o r - C h e f e . — Tinha
uma e xc el e nt e f é de o f í c i o m i l i t a r . Era i r l a n d ê s .
— Como se chamava?
— Gorman. Mic hael Gorman.
— Michael Gorman. — Egerton f r a n z i u a t e s t a .
— Conhecia esse homem?
— Não — d i s s e e l e ao cabo de um momento. — Por um i n s t a n t e
pensei que o nome s i g n i f i c a v a alguma c o i s a .
— C l a r o que é um nome muit o comum. Mas de qualquer f o r m a ,
e l e s alvou a v i d a da moça.
— E exatamente por que v e i o o senhor me pr oc ur ar?
— Esperava o b t e r alguma i nf or m aç ã o . O senhor sabe que nós
sempre procuramos f i c a r amplamente informados a r e s p e i t o da
v í t i m a de uma t e n t a t i v a de h o m i c í d i o .
— N at u r al m e nt e, n a t ur a l m e n t e. Mas na r e a l i d a d e eu só me
a v i s t e i com E l v i r a duas vezes desde o tempo em que e l a era
menina.
— O senhor a v i u quando e l a v e i o p r o c u r á - l o há uma semana,
não f o i ?
— S i m , i s s o mesmo. E que é precisamente que o senhor deseja
saber? Se é alguma c o i s a sobre a pessoa d e l a , quem são os seus
amigos, ou apaixonados, ou a r e s p e i t o das b r i g a s com os
namorados… c o i s a s dessa ordem… é melhor i r t e r com uma das
mulh eres, Há uma M r s . C a r p e n t e r , que a t r o u x e de v o l t a da
I t á l i a , c r e i o e u , e M r s . M e l f o r d , com quem e l a mora em Suss ex.
— Já f a l e i com M r s . M e l f o r d .
— E então?
— Não a d i a n t o u . Não adiantou absolutamente nada. E não são
dados pessoais que desejo conhecer… a f i n a l de contas e s t i v e eu
p r ó p r i o com e l a , o u v i o que e l a pôde me d i z e r . . , ou a n t e s , o
que e l a q u i s me dizer…
Ante um r á pi d o movimento do cenho de E g e r t o n , Davy
v e r i f i c o u que o advogado apanhara bem a i m p or t â n c i a da p al a vr a
“quis”.
— Disseram-me que e l a estava preocupada, a g i t a d a , assustada
com alguma c o i s a , e convencida de que sua v i d a c o r r i a p e r i g o .
F o i essa a impressão do s en hor, quando e l a o v e i o proc ur ar ?
— Não — respondeu E g e r t o n , l ent am ente. — Não, eu não d i r i a
i s s o . Contudo, e l a me d i s s e umas c o i s i n h a s que me pareceram
muito c u r i o s a s .
— T a i s como?
— Bem, e l a q u er i a saber quem s e r i a o seu h e r d e i r o , caso
morresse s ubitam en te.
— Ah — d i s s e Davy — então e l a pensava nessa p o s s i b i l i d a d e ,
não é? M orr er inesperadamente. I n t e r e s s a n t e .
— E l a t i n h a qualquer c o i s a na cabeça, mas não s e i o que
e r a . Queria também saber quanto d i n h e i r o possuía… — ou
p o s s u i r á , quando f i z e r v i n t e e um anos* I s s o , c r e i o , é mais
c om preensí vel .
— C a l c u l o que s e j a bastante d i n h e i r o .
— É uma grande f o r t u n a , I n s p e t o r - C h e f e .
— Por que acha que e l a q u e r i a saber?
— A r e s p e i t o do d i n h e i r o ?
— S i m , e a r e s p e i t o de quem o h e r d a r i a .
— Não s e i — respondeu E g e r t o n . — Não s e i mesmo. E l a também
a l u d i u ao assunto de casamento…
— O senhor t e ve a impressão de que havi a um homem nessa
história?
— Não tenho nenhuma prova… mas… s i m , pensei n i s s o mesmo.
Achei que devia haver um namorado nesse neg óci o . Em g e r a l h á !
Luscombe… i s t o é , o Coronel Luscombe, t u t o r de E l v i r a , parece
que não sabe da e x i s t ê n c i a de nenhum namorado. Mas o vel ho
Derek Luscombe j am a i s d e s c o b r i r i a uma c o i s a dess as. Fi cou
muito agi t ado quando i n s i n u e i que havi a um namoro encoberto e
provavelmente i n d e s e j á v e l .
— E é mesmo i n d e s e j á v e l — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
— Oh. Então o senhor sabe quem é o rapaz?
— Tenho um p a l p i t e muito bom. L a di s l a u s M a l i n o w s k i .
— O c orr edor ? Realmente? S i m p át i c o e t e m e r á r i o ! As mulheres
caem por e l e à t o a . Como será que conheceu E l v i r a ? Não
compreendo como é que as ó r b i t a s de ambos se encontraram a
menos… s i m , c r e i o que e l e esteve em Roma há uns d o i s meses
a t r á s . Possivelmente f o i l á que e l a o conheceu.
— P os s i v el m e n t e . Ou e l a o t e r i a conhecido por i n t e r m é d i o da
mãe?
— O quê? Por i n t e r m é d i o de Bess? Não c r e i o nessa h i p ó t e s e .
Davy t o s s i u .
— Dizem que Lady Sedgwick e M al i n o w s k i são amigos í n t i m o s .
— S i m , s i m , é o que todos dizem. Tal vez s e j a verdade,
t a l v e z não. São amigos íntimos… na v i d a que levam, estão
constantemente j u n t o s . Bess t e v e os seus amores, é c l a r o ,
embora, v e j a bem, não s e j a do t i p o ninfomaníaco. Não f a l t a
gente para d i z e r i s s o de uma m ul h e r , mas no caso de Bess não é
verdade. A f i n a l , que me c o n s t e , Bess e a f i l h a praticamente
não se conhecem.
— F o i o que Lady Sedgwick me d i s s e ; E o senhor concorda?
Egerton f e z que sim com a cabeça.
— Miss Blake tem o u t r o s parentes?
— Para todos os e f e i t o s , nenhum. Os d o i s irmãos da mãe dela
morreram na g u e r r a , e e l a p r ó p r i a era a únic a f i l h a do vel ho
C o n i s t o n . M r s . M e l f o r d , embora a menina a chame de “ p r i m a
M i l d r e d ” , na verdade é prima do C oronel Luscombe. Luscombe f a z
o que pode pela menina, à sua maneira consciencios a e
antiquada… mas i s s o é d i f í c i l … para um homem.
— O senhor d i s s e que Miss Blak e f a l o u em casamento? Suponho
que não há p o s s i b i l i d a d e de que e l a j á e s t e j a casada…
— E l a ainda é menor… p r e c i s a r i a do consentimento do t u t o r e
dos c u r a d o r e s - .
— J u r i d i c a m e n t e , s i m . Mas os moços nem sempre esperam por
i s s o — observou P a p a i .
— Eu s e i . E é l a m e n t á v e l . A gente tem que e n f r e n t a r o
mecanismo b u r o c r á t i c o e tudo o mais para o b t e r a t u t e l a l e g a l .
E mesmo i s s o tem suas d i f i c u l d a d e s .
— E uma vez que e l a s se casam, estão casadas — comentou
P a p a i . — Suponho que se e l a e s t i v e s s e casada e morresse de
r e p e n t e , o marido s e r i a o h e r d e i r o .
— Essa i d é i a de casamento é absolutamente i m p r o v á v e l . E l a
f o i educada com o maior cuidado e… — C a l o u - s e , vendo o s o r r i s o
c é t i c o do I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
Por mais cuidadosamente que houvesse s i d o educada, E l v i r a
conseguira t r a v a r conhecimento com um s u j e i t o altamente
i n d e s e j á v e l , como L a di s l a u s M a l i n o w s k i .
— É verdade que a mãe f u g i u com o u t r o homem — d i s s e
Egerton.
— S i m , fugiu… era de esperar… mas Miss Blake é um t i p o
d i f e r e n t e . T a l como a mãe, e l a se o b s t i n a em só f a z e r o que
q u e r , mas age de o u t r o modo.
— Não me diga que…
— Não digo nada… ainda — r e t r u c o u o I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
VINTE E QUATRO

L
ADISLAUSM olhou para um, depois para o o u t r o p o l i c i a l ,
ALINOWSKI

a t i r o u a cabeça para t r á s e deu uma gargalhada.


— É m uito engraçado! — d i s s e e l e . — Vocês parecem duas
c o r u j a s , assim s o l e n e s ! É r i d í c u l o me fazerem v i r a q u i , e
pretenderem me i n t e r r o g a r . Não têm nada c o n t r a mim, nada.
— Pensamos que t a l v e z o senhor nos pudesse a j u d a r no nosso
i n q u é r i t o , M r . M al i n o w s k i — d i s s e o I n s p e t o r - C h e f e Davy com
p o l i d e z o f i c i a l . — O senhor possui um c a r r o , um M ercedes-Otto,
número de pl aca FAN 2266.
— E x i s t e algum motivo que me impeça de p o s s u i r um c a r r o
como esse?
— Não, nenhum. Há apenas uma l i g e i r a dúvida quanto ao
número c o r r e t o . Seu c a r r o f o i v i s t o numa r o d o v i a , a M7, e a
pl ac a naquela ocasião era o u t r a .
— Bobagem. D e vi a s e r o u t r o c a r r o .
— Não há m uit os c a r r o s como o s e u. Nós v e r i f i c a m o s todos os
que e x i s t e m .
— Acho que vocês acreditam em tudo que os guardas de
t r â n s i t o contam! É de m orrer de r i r ! Onde f o i i s s o ?
— O l o c a l onde a p o l í c i a deteve o senhor e pediu para v e r
sua l i c e n ç a , não f i c a longe de Bedhampton. F o i na n o i t e do
a s s a l t o ao trem da I r i s h M a i l .
— Os senhores realmente me di v er t em — f o i a r es post a de
L a d i s l a us M a l i n o w s k i .
— O senhor poss ui um r e v ó l v e r ?
— C l a r o , tenho um r e v ó l v e r e uma p i s t o l a a u t o m á t i c a . Ambos
com a l i c e n ç a n e c e s s á r i a .
— Ó t i m o. Ainda estão em seu poder?
— Evidentemente.
— Já o a v i s e i , , M r . M a l i n o w s k i .
— O famoso a v i s o da p o l í c i a ! “Tudo o que d i s s e r será
r e g i s t r a d o e poderá s e r u t i l i z a d o c o n t r a o s en hor , no seu
julgamento.”
— A f ór m ul a não é bem essa — d i s s e Papai com brandura. —
U t i l i z a d o , s i m . Contra o s enhor, não. Não quer f a z e r uma
r e s s a l v a nessa declaração?
— Não, não quer o.
— E tem c e r t e z a de que não quer a presença do seu advogado?
— Não gosto de advogados.
— Há pessoas que não gostam. Onde estão as armas agora?
— C r e i o que o senhor sabe muito bem onde é que e s t ã o ,
I n s p e t o r - C h e f e . A p i s t o l a pequena es t á no p o r t a - l u v a s do meu
c a r r o , o Mercedes-Otto c u j o número de plac a é FAN 2266. O
r e v ó l v e r es t á numa g a ve t a , no meu apartamento.
— O senhor tem razão quanto à gaveta do apartamento — d i s s e
P a p a i . — Mas a o u t r a , a p i s t o l a , não es t á no seu c a r r o .
— E s t á s i m . No p o r t a - l u v a s ; do lado esquerdo. Papai abanou
a cabeça. — Pode s e r que tenha estado l á ; não es t á m a i s . Será
es t a a q u i , M r . M al i nows ki ?
Empurrou uma pequena p i s t o l a automática por cima da mesa.
L a d i s l a us M a l i n o w s k i , com um a r de imensa s u r p r e s a , apanhou-a.
— A h , a h, s i m , é e l a . Então f o i o senhor que a t i r o u do meu
c ar r o ?
— Não — respondeu P a p a i . — Não a t i r a m o s do seu c a r r o . E l a
não estava no seu c a r r o . F o i encontrada em o u t r o l o c a l .
— Onde f o i que a encontraram?
— Encontramo-la — f a l o u Davy — num t r e c h o de Pond S t r e e t ,
que, como o senhor deve s a b e r , é uma rua p e r t o de P ark Lane.
P oderia t e r s i d o largada por um homem que caminhasse por essa
rua… ou t a l v e z c o r r e s s e .
L a d i s l a us M a l i n ow s k i encolheu os ombros. — Não tenho nada
com i s s o . Não j o g u e i l á a p i s t o l a . Estava no meu c a r r o há
c o i s a de d o i s d i a s . Ninguém passa o tempo todo olhando para
v e r se um o b j e t o es t á no l u g a r em que f o i p o s t o . A gente
presume que deve e s t a r .
— Sabe, M r . M a l i n o w s k i , que es t a f o i a p i s t o l a usada para
a t i r a r c o n t r a Michael Gorman, na n o i t e de 26 de novembro?
— Michael Gorman? Não conheço nenhum Michael Gorman.
— O p o r t e i r o do H o t e l B e r t r a m ’ s .
— A h , s i m , o que morreu baleado. L i no j o r n a l . E o senhor
d i z que o t i r o f o i da minha p i s t o l a ? Conversa!
— Não é conversa não. Os p e r i t o s em b a l í s t i c a f i z e r a m o
exame. O senhor entende bastante de armas de fogo para saber
que a prova de b a l í s t i c a é i r r e f u t á v e l .
— Os senhores estão procurando me pegar. Eu s e i o que a
polícia faz !
— C r e i o que o senhor não f a z t a l j u í z o da nossa p o l í c i a ,
Mr. Malinowski.
— Então o senhor quer i n s i n u a r que eu a t i r e i em Michael
Gorman?
— No momento estamos apenas tomando o seu depoimento. Ainda
não f o i f e i t a nenhuma acusação.
— Mas é i s s o o que vocês pensam… que eu a t i r e i naquele
palhaço f a r d a d o . Por quê? Eu não devi a d i n h e i r o a e l e , não
t i n h a nada c o n t r a e l e .
— O t i r o f o i d i r i g i d o c o n t r a uma s e n h o r i t a . Gorman c or r e u
para p r o t e g ê - l a e recebeu no p e i t o a segunda b a l a .
— Uma s e n h or i t a ?
— Uma s e n h o r i t a que eu c r e i o que o senhor conhece. Miss
E l v i r a Blake.
— O senhor es t á dizendo que alguém t e nt o u a t i r a r em E l v i r a
com a minha p i s t o l a ?
P ar e c i a i n c r é d u l o .
— Tal vez tenha havido um desentendimento e n t r e ambos.
— I n s i n u a que eu b r i g u e i com E l v i r a e a t i r e i nela? Que
l o u c u r a ! Por que i r i a eu dar t i r o s na moça com quem vou me
casar?
— I s s o é p a r t e do seu depoimento? Que v a i se casar com Miss
E l v i r a Blake?
L a d i s l a us h e s i t o u por um i n s t a n t e . E logo d i s s e , encolhendo
os ombros:
— E l a ainda é muito moça. O assunto não es t á r e s o l v i d o .
— Tal vez e l a houvesse prometido casar com o senhor e
depois… mudou de i d é i a . E l a andava com medo de alguém. Era do
s enh or , M r . Mal i no ws ki ?
— Por que d e s e j a r i a eu a morte de E l v i r a ? Ou estou
apaixonado por e l a e quero casar com e l a , ou se não quero
c asar com e l a , não sou obrigado a c a s a r . É m uito s i m p l e s , como
v ê . P o r t a n t o , para que i r i a eu matá-la?
— Não há m uita gente aparentada com e l a o s u f i c i e n t e para
quer er m a t á - l a . — Davy esperou um momento e depois
acr e sc entou, quase com i n d i f e r e n ç a : — S al vo a mãe d e l a ,
n at u r al m e nt e .
— O quê? — M al i n o w s k i deu um s a l t o . — Bess? Bess matar a
p r ó p r i a f i l h a ? O senhor es t á l o u c o ! Por que i r i a Bess matar
Elvira?
— Possivelmente porque, sendo a parenta mais pr ó xi m a ,
h e r d a r i a uma enorme f o r t u n a .
— Bess? A c r e d i t a que Bess s e r i a capaz de matar por
d i n h e i r o ? E l a tem r i o s de d i n h e i r o , do marido americano. Ou,
pelo menos, o b a s t a n t e .
— Bastante d i n h e i r o não é a mesma c o i s a que uma grande
f o r t u n a — observou P a p a i . — As pessoas matam por uma grande
f o r t u n a , conhecem-se mães que mataram f i l h o s , e f i l h o s que
mataram mães.
— Torno a d i z e r que o senhor e s t á l o u c o .
— O senhor d i s s e que i a casar com Miss B l a k e . Será que j á
casou com ela? Se casou, então s e r i a o senhor o h e r d e i r o de
uma enorme f o r t u n a .
— Que c o i s a s louc as e es t úpi da s o senhor d i z ! Não, não me
c a s e i com E l v i r a ; é uma moça b o n i t a , gosto dela e e l a es t á
apaixonada por mim. S i m , confesso i s s o t u d o . Conhecia na
I t á l i a , d i v e r t i m o - n o s j u n t o s , mas f o i s ó . Não houve mais nada,
compreende?
— Realmente? Mas ainda agora, M r . M a l i n o w s k i , o senhor
d i s s e peremptoriamente que e l a er a a moça com quem i a c a s a r .
— Ah, i s s o .
— S i m , i s s o . É verdade?
— D i s s e i s s o porque… desse modo, a c o i s a tomava um a r mais
r e s p e i t á v e l . Vocês neste país… são t ã o puritanos…
— A sua e x pl i c aç ã o me parece i n v e r o s s í m i l .
— O senhor não compreende nada de nada. A mãe e eu… somos
amantes… eu não q u i s f a l a r assim… de modo que i n s i n u e i que a
f i l h a e eu… éramos n o i v o s . I s s o parece m uito i n g l ê s e d i g n o .
— P o i s a mim me parece ainda mais i n v e r o s s í m i l . O senhor
anda muito necessitado de d i n h e i r o , não anda, M r . M ali now sk i ?
— Meu caro I n s p e t o r - C h e f e , eu ando sempre necessit ado de
d i n h e i r o . É uma t r i s t e z a .
— Mas há alguns meses o senhor a t i r a v a d i n h e i r o f o r a , da
maneira mais despreocupada.
— A h , t i v e um momento de s o r t e . Sou j o g a d o r , c onf es s o.
— É f á c i l de a c r e d i t a r . Onde f o i que t e ve esse “momento de
sorte”?
— I s s o eu não d i g o . O senhor não pode esperar que eu d i g a .
— Não es per o.
— É tudo que tem a me perguntar?
— Por ora é . O senhor reconheceu que a p i s t o l a é s u a . I s s o
s erá muito ú t i l .
— Não compreendo… não posso conceber… — int err om peu-se e
estendeu a mão: — Me dê a p i s t o l a , por f a v o r .
— Lamento d i z e r que temos de g u ar d á- l a por enquanto. Vou
prep ar ar um r e c i b o .
Davy f e z o r e c i b o e passou-o a M a l i n o w s k i . O rapaz f o i
embora, batendo a p o r t a .
— S u j e i t o temperamental — comentou P a p a i .
— O senhor nem o apertou a p r o p ó s i t o do número f a l s o da
p l a c a , e de Bedhampton.
— Não. Queria que e l e f i c a s s e abalado. Mas não abalado
demais. Vou dando uma c o i s a de cada vez para e l e se preocupar…
e e l e es t á preocupado.
— O Velho quer f a l a r com o s en hor, assim que e s t i v e r
desocupado.
O I n s p e t o r - C h e f e Davy balançou a cabeça e encaminhou-se à
s a l a de S i r R o nal d.
— A h , P a p a i ! Fazendo progressos?
— Sim s en hor. Vamos indo bem… muito pei xe na r e d e . Na
m a i o r i a pei xe miúdo. Mas j á estamos nos aproximando dos
grandes. E s t á tudo andando…
— Ó t i m o, Fred — d i s s e o C o m iss ári o A s s i s t e n t e .
VINTE E CINCO

Miss M ARPLE desembarcou do trem na estação de Paddington e


logo a v i s t o u o v u l t o c or p u l e nt o do I n s p e t o r - C h e f e D a vy, de p é ,
na p l a t a f o r m a , a e s p e r á - l a .
Ele disse:
— Muito pr az e r em v ê - l a , Miss M ar p l e. — Segurando-a pelo
c o t o v e l o , f ê - l a passar pela grade e conduziu-a a t é onde os
esperava um c a r r o . O m o t o r i s t a a b r i u a p o r t a , Miss Marple
entr ou seguida pelo I n s p e t o r - C h e f e , e o c a r r o p a r t i u .
— Para onde e s t á me l evan d o, I n s p e t o r - C h e f e Davy?
— Para o H o t e l B e r t r a m ’ s .
— Ora es s a, H o t e l B e r t r a r m ’ s de novo! P or quê?
— A r espost a o f i c i a l é a s e g u i n t e : porque a p o l í c i a
a c r e d i t a que a senhora poderá a j u d á - l a nas i n v e s t i g a ç õ e s .
— A f r a s e é conhecida, mas não é também um t a n t o s i n i s t r a ?
Serve muit as vezes de p r e l ú d i o a uma ordem de p r i s ã o , não é?
— Não vou p r e n d ê - l a , Miss M ar pl e. — Papai s o r r i u . — A
senhora tem um á l i b i .
Miss Marple d i g e r i u a informação em s i l ê n c i o . Depois d i s s e :
— Compreendo.
Continuaram calados at é chegarem ao H o t e l B e r t r a m ’ s . Quando
e nt r a r am , Miss Gorri nge l eva nto u os ol hos de t r á s do b a l c ã o ,
mas o I n s p e t o r - C h e f e Davy encaminhou Miss Marple diretam ent e
ao e l e v a d o r .
— Segundo andar.
O elevador s u b i u , par ou, e Papai tomou a d i a n t e i r a ao
avançarem pelo c o r r e d o r . Quando e l e a b r i u a p o r t a do n . ° 1 8,
Miss Marple f a l o u :
— Era es t e o meu quarto quando eu estava hospedada a q u i .
— Sim — respondeu P a p a i .
Miss Marple sentou-se na p o l t r o n a e comentou, olhando em
r e d o r com um l e v e s u s p i r o :
— É um quarto muito c o n f o r t á v e l .
— Não se pode negar que e l e s aq ui entendem de c o n f o r t o —
admitiu Papai.
— O senhor parece cansado, I n s p e t o r - C h e f e — d i s s e
inesperadamente Miss M ar pl e.
— Tenho precisado me mexer um bocado. Para f a l a r a verdade,
acabo de chegar da I r l a n d a .
— Realmente? F o i a B al l yg o w l a n ?
— E como diabo a senhora sabe a r e s p e i t o de B al l y g ow l a n ?
Desculpe-me… peço-lhe perdão…
Miss Marple perdoou com um s o r r i s o .
— D ec erto Michael Gorman l h e d i s s e que vi nha de lá… não f o i
isso?
— Não f o i precisamente i s s o .
— Então como f o i , se me p e r m i t e p e r g u n t a r , que a senhora
soube?
— Deus meu! — d i s s e Miss Marple — é bastant e embaraçoso.
F o i uma conversa… uma conversa que e s c u t e i por acaso.
— A h , compreendo.
— Eu não estava escutando de p r o p ó s i t o . F o i numa s a l a
aber ta ao público… pel o menos, tecnicamente abert a ao p ú b l i c o .
Francamente, gosto de e s c u t a r o que as pessoas conversam.
Todos gostam. Especialmente quando se é vel ho e não se s a i
m u i t o . O que eu quero d i z e r é que, se há pessoas conversando
por p e r t o , a gente e s c u t a .
— Bem, i s s o me parece muit o n a t u r a l — d i s s e P a p a i .
— A t é c e r t o p o n t o , sim — concordou Miss M ar p l e. — Se as
pessoas que falam não se dão ao t r a b a l h o de b a i x a r a v o z ,
pode-se pr esumir que estão c i e n t e s de que serão o u v i d a s . Mas,
é c l a r o que também pode haver i m p r e v i s t o s . Pode acontecer que,
embora se sai ba que a s a l a em questão é franqueada ao p ú b l i c o ,
os que estão conversando não se dão conta da presença de
o u t r o s . Então a gente tem que d e c i d i r como é que f a z .
L e v a n t a r - s e , t o s s i r , ou f i c a r q u i e t a e esperar que e l e s não
descubram que a gente es t á a l i . Qualquer das hip ó t es es é
c onstr angedora.
O I n s p e t o r - C h e f e c o ns ul t ou o r e l ó g i o .
— Veja bem — d i s s e e l e — quero o u v i r o r e s t o dessa
h i s t ó r i a , mas estou aguardando o Cônego P e n n yf a t h e r , que deve
chegar a qualquer momento. P r e c i s o i r r e c e b ê - l o . Se a senhora
não se incomoda…
Miss Marple d i s s e que não se incomodava, e o I n s p e t o r - C h e f e
Davy deixou o q u a r t o .

II
O Cônego P ennyf ather atravessou a p o r t a de vaivém e entrou
na s a l a de espera do H o t e l B e r t r a m ’ s . F r a nz i u de l e v e o cenho,
procurando d e s c o b r i r o que é que estava d i f e r e n t e no B e r t r a m ’ s
h o j e . Será que f o r a p i n t a d o , ou re-decorado? O Cônego abanou a
cabeça. Não era i s s o , mas havi a qualquer c o i s a . Não l h e
ocorr eu que era a d i f e r e n ç a e n t r e um p o r t e i r o de 1,80 m de
a l t u r a , ol hos a z u i s e cabelos p r e t o s , e um o u t r o p o r t e i r o de
1,70 m, ombros c a í d o s , s a r d a s , e um t u f o de cabelos c o r de
a r e i a saindo de sob o boné da f a r d a . O Cônego s abia apenas que
algo estava d i f e r e n t e . Com seus c ostumeiros modos vagos,
d i r i g i u - s e à recepção. Miss Gorringe estava l á e o
cumprimentou:
— P r az e r em v ê - l o , Cônego P e n n yf a t h er . Veio buscar â
bagagem? E s t á às suas or d e ns . Se o senhor q u i s e r , nós
poderemos mandá-la para qualquer endereço que nos d e r .
— Obrigado — respondeu o Cônego — muito o br i g a d o , A senhora
é sempre m uito amável, Miss Gorringe..M as como eu pr ec i s a va de
qualquer modo v i r a Londres h o j e , pensei que o melhor era
apanhar pessoalmente a bagagem.
— Ficamos t ã o preocupados com o senhor — d i s s e Miss
G o r r i n g e . — R e f i r o - m e ao seu desaparecimento. Ninguém o
e nc on t r ava. S ofr eu um ac i de nte de automóvel, não f o i ?
— F o i — f a l o u o Cônego — f o i , s i m . Esses m o t o r i s t a s de hoje
guiam depressa demais. I s s o é m uito p e r i g o s o . A l i á s , não me
recordo quase nada do que aconteceu. Parece que me af et o u a
cabeça. Concussão, d i z o médico. O r a, o f a t o é que à medida
que a gente envelhece, a memória… — abanou a cabeça,
t r i s t e m e n t e . — E como v a i passando a senhora, Miss Gorringe?
— Eu vou m uit o bem.
Nesse momento o Cônego P ennyf ather subitamente descobriu
que Miss Gorringe também estava d i f e r e n t e . Mirou
a m ul h e r , procurando v e r onde estava a d i f e r e n ç a . No
cabelo? Era o de sempre. Talvez um pouco mais f r i s a d o . V e s t i d o
p r e t o , medalhão enorme, broche de camafeu. Tudo como de
costume. Mas havi a uma d i f e r e n ç a . E s t a r i a um pouco mais magra?
Ou… s i m , evidentemente. Miss Gorringe p ar ec i a preocupada. Não
era com f r e q ü ê nc i a que o Cônego Pennyfather se apercebia de
que alguém t i n h a o a r preocupado; e l e não era dessas pessoas
que notam a emoção no r o s t o das o u t r a s . Mas naquela n o i t e
n ot o u , t a l v e z porque Miss G o r r i n g e , durante t a n t o s anos,
apresentava aos hóspedes aquela f a c e i m u t á v e l .
— A senhora não esteve doente, esteve? — indagou o v e l h o ,
s o l í c i t o . — Parece mais magra.
— Bem, nós ti vem os aqui muitos a borr ec i me nt o s , Cônego
P e n n yf a t h e r .
— É verdade. É verdade. Lamento m u i t o . Espero que não
tenham s i d o provocados pelo meu desaparecimento.
— Não, não — d i s s e Miss G o r r i n g e . — Nós nos preocupamos, é
c l a r o , mas assim que soubemos que o senhor estava passando
bem… — Fez uma pausa e depois pr o s s e g u i u: — Não, não… é que…
bem, t a l v e z o senhor não tenha l i d o nos j o r n a i s . Gorman, o
nosso p o r t e i r o , f o i m o r t o .
— A h , sim — d i s s e o Cônego P e n n yf a t h e r . — Agora me l em br o.
L i nos j o r n a i s que t i n h a havido um as s assi nat o a q u i .
Miss Gorringe estremeceu ante a menção crua da p al a v r a
“ a s s a s s i n a t o ” . O estremecimento l h e p erc orr eu todo o v e s t i d o
preto.
— T e r r í v e l — d i s s e e l a — t e r r í v e l . Nunca aconteceu uma
c o i s a dessas no B e r t r a m ’ s . Quero d i z e r , o B e r t r a m ’ s não é
desses h o t é i s onde ocorrem a s s a s s i n a t o s .
— Não, não é — i n t e r p ô s rapidamente o Cônego. — Tenho
c e r t e z a de que não é . Quero d i z e r , j am a i s t e r - m e - i a passado
pela cabeça que um f a t o dessa natureza pudesse acontecer a q u i .
— Evidentemente não f o i dentro do h o t e l — observou Miss
G o r r i n g e , animando-se um pouco ao l em br ar - s e desse aspecto da
questão. — Aconteceu na r u a .
— P o r t a n t o , não t e ve propriamente nada que v e r com o h o t e l
— observou s o l í c i t o o Cônego.
E s t a , aparentemente, não era a observação c e r t a a f a z e r .
— Mas envolveu o B e r t r a m ’ s . Tivemos que a t u r a r os
i n t e r r o g a t ó r i o s da p o l í c i a , uma vez que f o r a o nosso p o r t e i r o
a v í t i m a do t i r o .
— Então vocês estão com p o r t e i r o novo l á f o r a . Eu bem que
v i que as c o i s a s pareciam um pouco e s t r a n h a s .
— S i m , não s e i se e l e es t á a a l t u r a do emprego. Quero
d i z e r , dentro do nosso e s t i l o . Mas tivem os que a r r a n j a r alguém
às c a r r e i r a s .
— Agora estou me lembrando de tudo — f a l o u o Cônego
P e n n yf a t h e r , reunindo algumas recordações vagas do que l e r a no
j o r n a l uma semana a n t e s . — Mas me pareceu que haviam dado um
t i r o numa moça.
— R ef e r e- s e à f i l h a de Lady Sedgwick? C r e i o que o senhor
deve l em br ar - s e de a t e r v i s t o a q u i , em companhia do t u t o r , o
Coronel Luscombe. Parece que e l a f o i atacada por um
desconhecido, no meio do f o g . Provavelmente alguém l h e q u er i a
roubar a b o l s a . De qualquer f o r m a , a t i r a r a m n e l a , e então
Gorman, que f o r a soldado e era homem de muita presença de
e s p í r i t o , c or r e u para a c u d i r e levou um t i r o , c o i t a d o .
O Cônego abanou a cabeça:
— T r i s t e , muito t r i s t e .
— I s s o d i f i c u l t a tudo — queixou-se Miss G o r r i n g e . —> A
p o l í c i a entrando e saindo a toda h o r a . C r e i o que é de e s p e r a r ,
mas não gostamos d i s s o , embora eu deva d i z e r que o I n s p e t o r -
C h e f e Davy e o Sargento Wadell têm uma aparência m ui to
d i s t i n t a . Roupa à p a i s an a, sem nada de e s p a l h a f a t o s o , como por
exemplo botas e impermeáveis como a gente vê nos f i l m e s .
Apresentam-se quase como qualquer um de n ós .
— É… sim… — d i s s e o Cônego P e n n yf a t h e r . Miss Gorringe
indagou;
— O senhor t e ve que i r para o h o s p i t a l ?
— Não. Um c a s a l muito bondoso, d o i s bons samaritanos… e l e é
h o r t e l ã o , creio… me apanhou, e a mulher t r a t o u de mim. F i q u e i
g r a t í s s i m o , g r a t í s s i m o . É um consolo d e s c o b r i r que ainda há
bondade no mundo. Não acha a senhora?
Miss Gorringe d i s s e achar que i s s o era muito c o n s ol a d or . —
A f i n a l de c o n t a s , a gente l ê a r e s p e i t o do aumento da
c r i m i n a l i d a d e — acrescentou e l a — todos esses rapazes e moças
que assaltam bancos, roubam t r e n s , atacam pessoas.
Depois l evantou a v i s t a e d i s s e :
— Lá vem o I n s p e t o r - C h e f e Davy descendo a escada. C r e i o que
e l e deseja f a l a r com o s en hor .
— Não s e i para que e l e há de querer f a l a r comigo — d i s s e ,
i n t r i g a d o , o Cônego. — E l e j á f o i me p r o c u r a r , sabe? em
C hadminst er. E acho que f i c o u m uito decepcionado porque não
l h e pude d i z e r nada de ú t i l .
— Não pôde?
O Cônego abanou t r i s t e m e n t e a cabeça.
— Não me lembrava de nada. O a ci dent e aconteceu p e r t o de
Bedhampton, e na verdade não s e i o que é que eu andava fazendo
por l á . O I n s p e t o r - C h e f e i n s i s t i a em me pergunt ar por que eu
estava a l i , e eu não sabi a respond er. E s q u i s i t o , não é? Parece
que e l e pensou que eu vi nh a de c a r r o da estr ada de f e r r o para
uma casa p a r o q u i a l .
— Parece p l a u s í v e l — observou Miss G o r r i n g e .
— Não parece p l a u s í v e l c o i s a nenhuma! P or que é que eu
e s t a r i a d i r i g i n d o um c a r r o num l u g a r que nem conheço?
O I n s p e t o r - C h e f e Davy aproximara-se dos d o i s .
— A h , es t á a q u i , Cônego P e n n y f a t h er ! — d i s s e e l e — j á se
restabeleceu?
— Sinto-me muito bem, mas com c e r t a tendênci a a dores de
cabeça. E me recomendaram que não f i z e s s e e s f o r ç o e x c e s s i v o .
Mas ainda não consigo me lem br ar do que d e ve r i a me lembrar> e
os médicos dizem que t a l v e z não me lembre nunca.
O I n s p e t o r - C h e f e Davy consolou o vel ho e o a f as t o u da mesa
de recepção.
— Bom, a gente não deve perder as esperanças. —
A cr e sc entou: — Queria que o senhor f i z e s s e uma pequena
e x p e r i ê n c i a . Não se recusará a me dar uma a j u d a , não é assim?

III
Quando o I n s p e t o r - C h e f e Davy a b r i u a p o r t a do n . ° 1 8, Miss
Marple ainda estava sentada na p o l t r o n a j u n t o à j a n e l a .
— Muita gente na r u a , hoje — observou e l a . — Mais que de
costume.
— Bem… es t e é o caminho mais c u r t o e n t r e B er k el e y Square e
Shepherd’s Market
— Não me r e f e r i a apenas aos passantes. Falo em gente
trabalhando… homens que consertam a e s t r a d a , um caminhão da
t e l e f ô n i c a , um caminhão de c a r n e , uns d o i s c a r r o s
p ar t i c u l a r e s …
— E… posso perguntar? Que é que a senhora deduz diss o?
— Eu não f a l e i que deduzia c o i s a alguma. Papai olhou bem
para Miss Marple e p e d i u :
— Quero que a senhora me a j u d e .
— C l a r o . Para i s s o estou a q u i . Que quer que eu faça?
— Quero que a senhora f aç a exatamente o que f e z na n o i t e de
19 de novembro. A senhora estava dormindo… acordou…
possivelmente despertada por algum r u í d o i n u s i t a d o . Acendeu a
l u z , olhou as h o r a s , l e va n t o u- s e da cama, a b r i u a p o r t a e
espiou para f o r a . Pode r e p e t i r esses mesmos atos?
— N at u r al m e nt e. — Miss Marple ergueu-se e caminhou a t é a
cama.
— Espere um momento. — O I n s p e t o r - C h e f e Davy f o i a t é à
parede d i v i s ó r i a dos d o i s q uart os e deu uma pancadinha.
— É p r e c i s o b a t e r com mais f o r ç a — observou Miss M arpl e. —
E s t e pr é d i o é muito bem c o n s t r u í d o .
O I n s p e t o r - C h e f e redobrou o v i g o r das b a t i d a s .
— Eu d i s s e ao Cônego Pennyfather que contasse at é dez —
e x p l i c o u e l e olhando o r e l ó g i o . — A gora, pode começar.
Miss Marple tocou na lâmpada de c a b e c e i r a , c onsul t ou um
r e l ó g i o i m a g i n á r i o , l e v a n t o u - s e , caminhou at é à p o r t a , a b r i u - a
e espiou para f o r a . À sua d i r e i t a , saindo do qu art o naquele
momento, e caminhando para a escada, v i u o Cônego P e n n yf a t h e r .
Ao chegar à escada, o Cônego começou a descer os degraus. Miss
Marple prendeu por um segunda a r e s p i r a ç ã o e v o l t o u - s e .
— E então? — indagou o I n s p e t o r - C h e f e .
— O homem que eu v i naquela n o i t e não pode t e r s i d o o
Cônego Pennyfather — d i s s e Miss M ar pl e . — Ou então e s t e a í não
é o Cônego.
— Acho que a senhora disse…
— Eu s e i . P ar ec i a o Cônego P e n n yf a t h e r . Os c a b e l o s , a
roup a, t u d o . Mas não t i n h a o mesmo a nd ar. Penso… penso que
deve t e r s i d o um homem mais moço. S i n t o m u i t o , m u i t í s s i m o , t e r
informado mal ao s en hor, mas não f o i o Cônego P e nnyf ather que
v i naquela n o i t e . — Tenho c e r t e z a d i s s o agor a.
— Tem plena c e r t e z a desta v e z , Miss Marple?
— Sim — d i s s e Miss M ar pl e . — S i n t o muito — t ornou a
ac r e s c ent ar — t e r - l h e dado uma informação e r r a d a .
— Por pouco a senhora não a c e r t o u . O Cônego P ennyf ather
v o l t o u de f a t o ao h o t e l naquela n o i t e . Ninguém o v i u entrar…
mas i s s o não é de a d m i r a r . Chegou depois da m e i a - n o i t e , s ubi u
a escada, a b r i u a p o r t a do quarto d e l e , que f i c a v a v i z i n h o ao
s e u, e e n t r o u . O que v i u ou o que l h e aconteceu e n t ã o, nós não
sabemos, porque e l e não sabe ou não quer c o n t a r . Se houvesse
um meio de l h e e s t i m u l a r a memória…
— Bem, há aquela p a l a vr a em alemão… — d i s s e Miss M ar p l e,
pensativa.
— Que p a l a vr a em alemão?
— A h , meu Deus, esqueci agor a, mas… Bateram na p o r t a .
— Posso e n t r a r ? — f a l o u o Cônego P e n n yf a t h er . E e n t r o u . —
Correu tudo bem?
— Muito bem — respondeu P a p a i . — Eu estava dizendo a Miss
Marple… o senhor conhece Miss Marple?
— Oh, sim — d i s s e o Cônego P e n n yf a t h e r , sem saber ao c e r t o
se a conhecia ou não.
— Eu estava contando a Miss Marple como tínhamos
r e c o n s t i t u í d o todos os movimentos do s en hor. O senhor v o l t o u
ao h o t e l , naquela n o i t e , logo depois da m e i a - n o i t e . Subiu ao
p r i m e i r o andar, a b r i u a p o r t a do seu q u a r t o , entrou… — Davy
f e z uma pausa.
Miss Marple s o l t o u uma exclamação:
— Lembrei-me! Lembrei-me da p a l a vr a em alemão.
Doppelganger!
O Cônego P ennyf ather também s o l t o u uma exclamação: — Mas
c l a r o ! C l a r o ! Como é que pude esquecer? A senhora tem toda a
r a z ã o . Depois daquele f i l m e , As Muralhas de J e r i c o , v o l t e i
para c á , s u b i a escada, a b r i a p o r t a do meu.quarto e vi…
i n a c r e d i t á v e l … vi - m e a mim mesmo, n i t i d a m e n t e , sentado numa
c a d e i r a , de f r e n t e para mim. É como d i z , minha c ara senhora,
doppelganger. N o t a b i l í s s i m o ! E então… deixe-me ver… — E o
Cônego l evant ou os o l h o s , tentando r e c o r d a r .
— E então — d i s s e Papai — assombrados com a sua presença, -
quando supunham que o senhor e s t i v e s s e t r a nq üi l a m e nt e em
Lucerna, alguém l h e deu uma pancada na cabeça.
VINTE E SEIS

O C ÔNEGO P
ENNYFATHER f o r a posto num t á x i , rumo ao Museu B r i t â n i c o .
Miss Marple f o r a i n s t a l a d a comodamente na s a l a de e s t a r pelo
I n s p e t o r - C h e f e . C oncordaria em e s p e r á - l o uns dez minutos? Miss
Marple concordou. Estimava muito a oportunidade de f i c a r
sentada a l i , olhando à sua v o l t a e pensando.
H o t e l B e r t r a m ’ s . Tantas recordações… O passado f u n d i a - s e
com o p r e s e n t e . A c u d i u - l h e à mente uma f r a s e em f r a n c ê s : P l u s
ça change, p l u s c ’ e s t I a même chose. I n v e r t e u a ordem: P l u s
c ’ e s t I a même chose, p l u s ça change. De ambos os modos é
verdade, pensou.
S e n t i a - s e t r i s t e — pelo H o t e l B e r t r a m ’ s e por s i p r ó p r i a .
Tinha c u r i o s i d a d e de saber o que o I n s p e t o r - C h e f e i r i a l h e
p e d i r , agora. Percebia nele a animação de quem tem um
p r o p ó s i t o d e f i n i d o . Era um homem c u j o s planos a f i n a l se
c onc r et i z a vam . Era o d i a D do I n s p e t o r - C h e f e D a vy.
A v i d a no B e r t r a m ’ s continuava como de costume. Não,
c o n c l u i u Miss M ar p l e , como de costume, não. H avi a uma
d i f e r e n ç a , embora e l a não pudesse d i z e r onde é que estava essa
d i f e r e n ç a . Uma i n q u i e t aç ã o s u b j a c e n t e , t a l v e z ?
A p o r t a se escancarou mais uma v e z , dando passagem ao
homenzarrão de a r campestre e b o v i n o , que v e i o d i r e t o para o
l o c a l onde estava Miss M ar pl e.
— Tudo pronto? — perguntou e l e , bem humorado. —Para onde
v a i me l e v a r agora?
— Vamos f a z e r uma v i s i t a a Lady S e dgw ic k.
— E l a es t á hospedada aqui?
— S i m . Com a f i l h a .
Miss Marple l e v a n t o u - s e . Lançou um o l h a r ao seu r e d o r e
murmurou:
— Pobre B e r t r a m ’ s .
— Por que “Pobre B er t r a m ’ s ?
— Acho que o senhor sabe p er f e i t a m e nt e o que eu quero
dizer.
— Bem — encarando os f a t o s sob o seu ponto de v i s t a — c r e i o
que s e i .
— É sempre t r i s t e quando se d e s t r ó i uma obra de a r t e .
— E a senhora chama i s t o aqui de uma obra de a r t e ?
— Chamo s i m . E o senhor também.
— Compreendo o que quer d i z e r — a d m i t i u P a p a i .
— É como quando a gente descobre um c a n t e i r o i n va d i d o pelo
sabugueiro b r a v o . O j e i t o que tem é a r r a n c a r t u d o .
— Não entendo muito de j ar dina g em. Mas troque a imagem
pel as r a í z e s mortas e eu concordo.
Subiram no el evador e atravessaram o c o r r e d o r que leva va ao
apartamento de esquina de Lady Sedgwick e f i l h a .
O I n s p e t o r - C h e f e Davy bateu na p o r t a , uma voz mandou
e n t r a r , e e l e e n t r o u , seguido por Miss M ar p l e.
Bess Sedgwick estava sentada numa c a d ei r a de espaldar a l t o ,
p e r t o da j a n e l a . Tinha sobre os j o e l h o s um l i v r o que não l i a .
— Então é novamente o s en hor , I n s p e t o r - C h e f e , — Os ol hos de
Bess f i t a r a m Miss Marple e mostraram-se levemente s u r p r e s o s .
O I n s p e t o r - C h e f e Davy f e z as apresentações.
— E s t a é Miss M ar pl e. Miss Marple… Lady S e dg wic k .
— Já e n c o n t r e i a senhora antes — d i s s e Bess S e dg wi ck. — Não
era a senhora que estava o u t r o d i a com S e l i n a Hazy? Sentem-se,
por f a v o r . — E v i r o u - s e para o I n s p e t o r - C h e f e D a vy: — Tem
alguma n o t í c i a do homem que a t i r o u em E l v i r a ?
— N o t í c i a propriamente não.
— Duvido que j am a i s venha a t e r . Num f o g como aq uel e, os
tar ad os saem por a í à proc ura de mulheres desacompanhadas.
— A t é c e r t o ponto é verdade — concordou P a p a i . — Como v a i
sua f i l h a ?
— Oh, E l v i r a j á es t á bem.
— A senhora e s t á com e l a aqui?
— S i m . T e l e f o n e i para o t u t o r dela… o Coronel Luscombe. E l e
f i c o u encantado com o meu desejo de tomar conta da menina. —
Deu uma r i s a d a . — C o i t a d i n h o . E s t á sempre i n s i s t i n d o num at o
de r e c o n c i l i a ç ã o e n t r e mãe e f i l h a .
— Tal vez e l e tenha razão n i s s o — comentou P a p a i .
— Não, não, não t em . Neste momento, s i m , acho que f o i a
melhor s o l u ç ã o . — V i r o u a cabeça para o l h a r pela j a n e l a aberta
e f a l o u noutro tom de v o z :
— Ouvi d i z e r que o senhor prendeu um amigo meu — L a di s l a u s
M a l i n o w s k i . De que o acusa?
— Não o pr e n d i — c o r r i g i u o I n s p e t o r - C h e f e D a vy. — E l e es t á
apenas a u x i l i a n d o as nossas i n v e s t i g a ç õ e s .
— Mandei meu advogado c u i d a r d e l e .
Papai aprovou: — Fez bem. Quem quer que tenha qualquer
probleminha com a p o l í c i a , é bom c o n t r a t a r um advogado. Do
c o n t r á r i o , pode f a c i l m e n t e d i z e r o que não deve.
— Mesmo que s e j a completamente inocente?
— Tal vez s e j a ainda mais necessário nesse c a s o.
— O senhor não a c r e d i t a em nada, não é? Posso saber com que
f i m o estão i nterrog ando? Ou não posso?
— Em p r i m e i r o l u g a r , gostaríamos de saber com exati dã o o
que f e z e l e na n o i t e em que Mic hael Gorman morreu.
Bess Sedgwick e n d i r e i t o u - s e bruscamente na c a d e i r a .
— Será que o senhor a l i m e n t a a r i d í c u l a i d é i a de que f o i
L a d i s l a us quem a t i r o u em E l v i r a ? E l e s nem se conheciam.
— Podia t e r s i d o e l e . O c a r r o dele estava na es qui n a.
— Bobagem — d i s s e energicamente Lady S e dg wic k.
— A t é que ponto os t i r o s daquela n o i t e perturbaram a
senhora, Lady Sedgwick?
Bess mostrou-se levemente s u r p r e s a .
— Naturalmente f i q u e i abalada, vendo minha f i l h a escapar
por um t r i z . Que é que o senhor esperava?
— Não q u i s d i z e r i s s o . O que desejo saber é a t é que ponto a
morte de Michael Gorman a ab al ou.
— T i v e muita pena. Era um homem v a l e n t e .
— Só i s s o ?
— Que mais o senhor espera que eu diga?
— A senhora o c o nh ec i a, não?
— C l a r o . Ele trabalhava a q ui .
— A senhora não o conhecia só d a q u i , não é mesmo?
— Que es t á insinuando?
— Vamos, Lady S edgwi c k . E l e era seu m ar i do, não era?
Durante um momento e l a não respondeu. Mas não deu
mostras de a g it a ç ão nem de s u r p r e s a .
— O senhor sabe de m uita c o i s a , não sabe, I ns p e t or - C h ef e ? —
Deu um s u s p i r o e r e c l i n o u - s e na c a d e i r a . — Eu não o v i a há…
deixe-me ver… muitos e m uitos anos. V i n t e anos… ou mais de
v i n t e . E e nt ã o, c e r t o d i a o l h e i por uma j a n e l a e de repente
recon heci M i c k y .
— E e l e a reconheceu?
— É de f a t o surpreendente que nos tenhamos reconhecido —
observou B es s . — Só estivemos j u n t o s cerc a de uma semana.
Minha f a m í l i a nos apanhou, deu d i n h e i r o a Micky e me levou de
v o l t a para c a s a. Deu o u t r o s u s p i r o .
— Eu era m uito c r i a n ç a quando f u g i com e l e . Não sabia de
nada. Uma gar ot a maluca, a cabeça chei a de i d é i a s r o m â n t i c a s .
E l e para mim era um h e r ó i , p r i n c i p a l m e n t e porque montava bem a
c a v a l o . Não sabi a o que era medo. Era b o n i t o , e a l e g r e , bem
f a l a n t e como só mesmo um i r l a n d ê s ! Acho que f u i eu que o
r a p t e i ! Não c r e i o que e l e t i v e s s e a i d é i a de me r a p t a r . Mas eu
era r e b e l d e , v o l u n t a r i o s a , e estava loucamente apaixonada! —
Balançou a cabeça. — Não durou muito… Bastaram as p r i m e i r a s
v i n t e e quatro horas para eu me d e s i l u d i r . E l e b e b i a , era
g r o s s e i r o e b r u t a l Quando minha f a m í l i a apareceu, e me levaram
de v o l t a , d e i graças a Deus. Nunca mais q u i s nada com e l e .
— Sua f a m í l i a sabi a que a senhora se casara com ele?
— Não.
— A senhora não contou?
— Não achava que e s t i v e s s e casada.
— Como f o i que se deu tudo?
— Nós nos casamos em B a l l y g o w l a n d , mas quando o meu pessoal
apareceu, Micky me d i s s e que o casamento t i n h a s i d o uma f a r s a .
E l e e os amigos tinham combinado a c o i s a t o d a ; f o i o que e l e
c o nt o u . A essa a l t u r a , j á me p ar e c i a que uma c o i s a dessas era
justamente o que se poderia esper ar d e l e . Se e l e q u e r i a o
d i n h e i r o que o meu pessoal o f e r e c e u , ou se receava t e r
i n f r i n g i d o a l e i ao casar comigo quando eu era ainda menor,
não s e i . De qualquer f o r m a , nem por um momento d u v i d e i de que
a q u i l o que e l e me d i z i a f o s s e verdade. Na ocasião não d u v i d e i .
— E mais tarde?
Bess p ar ec i a perdida nas rec or daç ões. — Só mesmo… o h ,
muitos anos d e p o i s , quando eu j á conhecia um pouco melhor a
v i d a , e as questões l e g a i s , f o i que subitamente me ocorreu que
provavelmente eu estava mesmo casada com Michael Gorman!
— Para d i z e r a verdade, quando a senhora se casou com Lord
C o n i s t o n , cometeu b i g a m i a .
— E quando c a s e i com S edg w ick, e ainda quando c a s e i com
aquele americano, Ridgeway B e c k e r . — Olhou para o I n s p e t o r -
C h e f e e r i u , parecendo sinceramente d i v e r t i d a .
— Quanta bi g a m i a ! Ê o cúmulo do r i d í c u l o .
— Nunca pensou em se d i v o r c i a r ?
E l a deu de ombros. — Tudo me p a r ec i a um sonho i d i o t a . Para
que mexer no que es t á enterrado? C o n t e i a J ohn ni e, é c l a r o . —
Sua voz se t ornou mais suave e t e r n a ao pron unc i ar esse nome.
— E o que f o i que e l e disse?
— Não se i m p o r t o u . Nem Johnnie nem eu éramos m uito
r e s p e i t a d or e s da l e i .
— Bigamia a c a r r e t a c e r t a s penali dades, Lady S e d gwi ck. E l a o
encarou e r i u - s e .
— Quem é que i r i a se preocupar com uma c o i s a que acontecera
na I r l a n d a , não s e i quantos anos a t r á s ? Tudo estava l i q u i d a d o .
Micky pegara o d i n h e i r o e s u m i r a . A h, o senhor não compreende?
P ar e c i a que se t r a t a v a apenas de um i n c i d e n t e bobo, Um
i n c i d e n t e que eu q u e r i a esquecer. Eu o pus de lado com as
coisas… o grande número de coisas… que não têm i m p o r t â nc i a na
vida.
— E então — d i s s e Papai numa voz t r a n q ü i l a — em c e r t o d i a
de novembro Michael Gorman apareceu e t e nt o u a chantagem.
— T o l i c e ! Quem d i s s e que e l e f e z i s s o ? Lentamente Papai se
v o l t o u para a senhora idosa que estava sentada em s i l ê n c i o ,
muito espigada, na sua c a d e i r a .
— A senhora — f a l o u Bess S e dg wic k, encarando Miss M ar pl e . —
Que é que a senhora sabe a esse r e s p e i t o ?
A voz de Bess era mais c u r i o s a do que acusadora.
— As p o l t r o n a s deste h o t e l têm encostos muito a l t o s — d i s s e
Miss M ar pl e. — São c o n f o r t a b i l í s s i m a s . Eu estava sentada numa
dessas p o l t r o n a s , d e f r o n t e da l a r e i r a , na s a l a de
c orres pondência. Descansando um pouco antes de s a i r , pel a
manhã, A senhora entr ou para es c r e ver uma c a r t a . Imagino que
não percebeu que ha vi a mais alguém na s a l a . E assim… e s c u t e i a
sua conversa com esse t a l Gorman.
— Escutou?
— Naturalmente — respondeu Miss M ar pl e, — Por que não?
Estávamos numa s a l a p ú b l i c a . Quando a senhora l e va nt ou a
j a n e l a e chamou o homem que estava l á f o r a , eu não f a z i a a
menor i d é i a de que f os s e t r a v a r uma conversa p a r t i c u l a r .
Bess f i t o u Miss Marple durante um momento, depois ·«« mm um
vagaroso movimento da cabeça.
— É c o r r e t o — d i s s e e l a . — S i m , compreendo. Mas ainda assim
a senhora i n t e r p r e t o u mal o que e s c ut o u . Micky não me f e z
chantagem. E l e podia t e r pensado nisso… mas eu o a v i s e i , antes
que e l e t e n t a s s e ! — Os l á b i o s de Bess novamente se encresparam
naquele s o r r i s o l a r g o e generoso que l h e t or na va o r o s t o t ã o
a t r a e n t e . — Eu o a s s u s t e i !
— Sim — concordou Miss M ar pl e . — C r e i o que provavelmente a
senhora o as s us t o u. Ameaçou dar um t i r o n e l e . A senhora
conduziu o c a s o, se não acha i m p e r t i n e n t e a minha observação,
realmente m uito bem.
Bess Sedgwick ergueu as s obr anc el has, meio d i v e r t i d a ,
— Mas eu não era a únic a pessoa que a escutava - c o nt i n u o u
Miss M ar pl e.
— Meu Deus! O h o t e l i n t e i r o estava escutando?
— A o u t r a p o l t r o n a estava ocupada.
— Por quem?
Miss Marple c er r o u os l á b i o s e f i x o u no I n s p e t o r - C h e f e um
o l h a r quase de s ú p l i c a . “Se a c o i s a tem que s e r f e i t a , o
senhor que a f a ç a ” , d i z i a o o l h a r . — “eu não posso”…
— Sua f i l h a estava na o u t r a p o l t r o n a — d i s s e o I n s p e t o r -
C h e f e D a vy.
— Oh, não! — O g r i t o irrompeu asperamente. — Oh, não!
E l v i r a não! S i m , entendo… E l a deve t e r pensado…
— Pensou t ã o seriamente no que o u v i r a que chegou a i r à
I r l a n d a para d e s c o b r i r a verdade. Não f o i d i f í c i l d e s c o b r i r .
Em voz b a i x a , Bess Sedgwick tornou a d i z e r : — Oh, não! — e
d e p o i s : — Pobre menina!… P o i s mesmo agora, não me perguntou
nada. Guardou tudo c o n s i g o . Se t i v e s s e me f a l a d o , eu
e x p l i c a r i a tudo… m o s t r a r i a que não t i n h a a menor importância…
— Tal vez e l a não concordasse com a senhora nesse ponto —
observou o I n s p e t o r - C h e f e . — É uma c o i s a engraçada, sabe —
continuou e l e num j e i t o r e m i n i s c e n t e , quase de conversa de
v i z i n h o , como vel ho f az e n d ei r o que d i s c u t i s s e problemas do
gado e da t e r r a : — A p r e n d i , depois de m uit os anos de
t e n t a t i v a s e e r r o s , aprendi a d e s c o n f i a r de um caso que se
apresenta m uito s i m p l e s . Casos s i m pl es são em g e r a l bons
demais para serem verdade. E o aspecto desse c r i m e , naquela
n o i t e , era a s s i m , s i m p l e s . A moça contou que alguém a t i r o u
nela e e r r o u . O p o r t e i r o c or r e u para v e r se a s al vava
e l evou a segunda b a l a . Podia p er f e i t a m e nt e s e r verdade.
Podia s e r a maneira por que a moça v i u o c as o. Mas na verdade,
por t r á s das a p a r ê n c i as , as c o i s a s poderiam s e r m uito
d i v e r s a s . — E c o n t i n u o u , mais s é r i o :
— A senhora d i s s e agora mesmo, com grande veemência, Lady
S ed g wi c k, que não podia haver m oti vo para L a d i s l a us M a l i n o w s k i
a t e n t a r c o n t r a a v i d a de sua f i l h a . Bem, eu concordo com a
senhora, não c r e i o que houvesse mesmo razão nenhuma. E l e é o
t i p o do homem que pode t e r uma b r i g a com uma m u l h e r , puxar de
uma f ac a e d a r - l h e uma f ac a d a. Mas não c r e i o que f os se se
esconder numa área v a z i a e esperar calmamente para l h e dar um
t i r o . Mas suponhamos que e l e quisesse dar um t i r o em o u t r a
pessoa. G r i t o s e t i r o s … mas o que na verdade aconteceu f o i que
Michael Gorman morr eu. Imaginemos que era i s s o mesmo que se
q u er i a que acontecesse. M a l i n o w s k i pl a n e j a tudo
cuidadosamente. Escolhe uma n o i t e de n e v o e i r o , esconde-se na
área e espera at é que sua f i l h a apareça na r u a . E l e sabe que
e l a v a i aparecer porque combinou tudo desse modo. Dá um t i r o .
Não apontou para a moça. Teve o maior cuidado em não p e r m i t i r
que a bal a passasse p e r t o d e l a , mas a moça pensa naturalmente
que é o a l v o dos t i r o s . G r i t a . O p o r t e i r o do h o t e l , escutando
o t i r o e o g r i t o , vem correndo pel a r u a , e então M al i n o w s k i
a t i r a na pessoa que pr et e n di a a t i n g i r : Michael Gorman.
— Não a c r e d i t o numa p al a vr a do que o senhor es t á diz e nd o !
Por que cargas d’água L a di s l a us q u e r e r i a matar Micky Gorman?
— Tal vez um pequeno caso de chantagem — s u g e r i u P a p a i .
— O senhor quer d i z e r que Micky estava fazendo chantagem
com Ladislaus? Por quê?
— Tal vez — lembrou Papai — por causa das c o i s a s que se
passam no H o t e l B e r t r a m ’ s . Michael Gorman t a l v e z houvesse
descoberto um monte de c o i s a s .
— C oisas que se passam no H o t e l B e r t r a m ’ s ? Que quer d i z e r ?
— F o i um golpe f o r m i d á v e l — d i s s e P a p a i . — Bem pl a n e j a d o ,
lindamente executado. Mas não há nada que dure para sempre.
Miss Marple o u t r o d i a me perguntou que é que ha vi a de errado
a q u i . Bem, agora posso responder
à p er g unta. O H o t e l B e r t r a m ’ s é , para todos os e f e i t o s , o
q u a r t e l - g e n e r a l de um dos maiores e mais bem organizados
s i n d i c a t o s do cr i m e destes ú l t i m o s anos.
VINTE E SETE

H por um m i n u t o , ou meio m i n u t o . E a í Miss Marple


OUVE SI LÊ NCIO

f a l o u num tom de c on ver s a:


— É m uito i n t e r e s s a n t e !
Bess Sedgwick v o l t o u - s e . — A senhora não parece s u r p r e s a ,
Miss M ar pl e.
— Não estou s u r p r e s a . Nem um pouco. H avia aq ui m uit as
c o i s a s c u r i o s a s que não combinavam com o r e s t o . Era tudo bom
demais para s e r verdade… se a senhora me entende. Era o que se
chama nos c í r c u l o s t e a t r a i s um l i n d o e s p e t á c u l o . Mas era um
espetáculo… não era r e a l . E uma porção de pequeninas coisas… —
gente que j u l g a v a reconhecer um amigo, um conhecido… e
desc obria que se enganava.
— Essas c o i s a s acontecem — comentou o I n s p e t o r - C h e f e Davy —
mas aconteciam com f r e q ü ê nc i a e x c e s s i v a . Não é verdade, Miss
Marple?
— Sim — concordou Miss M ar pl e . — Pessoas como S e l i n a Hazy
costumam cometer desses enganos. Mas muitas o u t r a s pessoas
também se enganavam. E a gente não pode d e i x a r de n o t a r .
— E l a nota tudo — e x p l i c o u o I n s p e t o r - C h e f e a Bess
S ed g wi c k, como se Miss Marple f os s e o seu c ac ho r r i nho
ensinado.
Bess Sedgwick v i r o u - s e r á pi d a para e l e .
— Que é que o senhor q u e r i a d i z e r quando f a l o u que e s t e
h o t e l era o q u a r t e l - g e n e r a l de um s i n d i c a t o do crime? P o i s eu
d i r i a que o H o t e l B e r t r a m ’ s era o l o c a l mais r e s p e i t á v e l do
mundo.
— Naturalmente — concordou P a p a i . — Tinha que s e r . Gastou-
se uma porção de d i n h e i r o , de tempo e de c ui da dos, fazendo
d i s t o aqui exatamente o que é . O a u t ê n t i c o e o f a l s i f i c a d o se
misturavam aqui com grande i n t e l i g ê n c i a . Em Henry vocês têm um
m agn íf ic o a t o r - g e r e n t e , d i r i g i n d o o e s p e t á c u l o . Arranjaram
esse camarada, H u m f r i e s , maravilhosamente p l a u s í v e l . Neste
p aí s e l e não tem f i c h a na p o l í c i a , mas no e s t r a n g e i r o andou
metido com c e r t a s a t i v i d a d e s h o t e l e i r a s muito c u r i o s a s . Há
v á r i o s exc el entes a t o r e s c a r a c t e r í s t i c o s desempenhando
d i v e r s o s papéis a q u i . Se a senhora q u i s e r , devo a d m i t i r que
não posso d e i x a r de s e n t i r uma enorme admiração por toda a
montagem. Custou a es t e p a í s uma f á b u l a de d i n h e i r o . Tem dado
dores de cabeça c o n s t a n t e s , t a n t o ao C . I . D . quanto às p o l í c i a s
de p r o v í n c i a . Toda vez que a gente pensava e s t a r chegando
p e r t o da meta, ou punha o dedo num i n c i d e n t e especial… acabava
acontecendo que o t a l i n c i d e n t e não t i n h a nada a v e r com c o i s a
nenhuma. Mas nós continuamos com o quebra-cabeças, um pedaço
a q u i , o u t r o a l i . Uma garagem onde se guardava um monte de
pl ac as de automóveis, e que se poderiam t r a n s f e r i r
instantaneamente para c e r t o s c a r r o s . Uma f i r m a de caminhões de
móveis, um caminhão de açougueir o, um caminhão de v e r d u r e i r o ,
e at é mesmo uns d o i s caminhões p o s t a i s f a l s i f i c a d o s . Um
a u t o m o b i l i s t a num c a r r o de c o r r i d a s , cobrindo d i s t â n c i a s
i n c r í v e i s num tempo i n c r i v e l m e n t e c u r t o e , no o u t r o extremo da
e s c a l a , um velho c l é r i g o sacolejando pela es tr ada no seu vel ho
M o r r i s - O x f o r d . Um c hal é onde mora um vendedor de h o r t a l i ç a s
que p r e s t a p r i m e i r o s s oc or r os quando n e c e s s á r i o , e que mantêm
c o nt a t os com um médico u t i l í s s i m o . Não p r e c i s o descrever t u d o .
As r a m i f i c a ç õ e s parecem não t e r f i m . E i s s o é só metade do
fenômeno. Os v i s i t a n t e s e s t r a n g e i r o s que freqüentam o
B e r t r a m ’ s são a o u t r a metade. A maior p a r t e vem da A m ér i c a, ou
dos Domínios B r i t â n i c o s , Gente r i c a , acima de qualquer
s u s p e i t a , desembarcando com um montão de bagagem de l u x o , que
parece sempre a mesma, mas não é . T u r i s t a s r i c o s , que chegam à
França e não se preocupam com a A l f â nd e ga, porque a Alfândega
não aborrece t u r i s t a s que trazem d i n h e i r o para c p a í s . E os
mesmos t u r i s t a s não se repetem excessivamente. Não é bom i r
com muita sede ao p o t e . Não será f á c i l pr o va r ou j u n t a r todos
esses elementos, mas no f i m tudo f i c a r á e s c l a r e c i d o . Estamos
começando bem. Os C a b ot s , por exemplo…
— Que há com os Cabots? — perguntou asperamente B es s .
— Lembra-se deles? Uns americanos muito s i m p á t i c o s ,
s i m p a t i c í s s i m o s . E s t i ver am aqui no ano passado e vol t ar am es t e
ano. Mas não v i r i a m uma t e r c e i r a v e z . Ninguém vem cá mais de
duas vez es , na mesma j o g ad a. S i m , conseguimos pr en d ê-l os
quando desembarcavam em C a l a i s . M u i t í s s i m o bem bolada aquela
mala-camarote que levavam. Continha t r ê s m i l l i b r a s muito bem
arrumadas. Produto do a s s a l t o ao trem de Bedhampton. C l a r o que
i s s o é apenas uma gota no oceano. — E c o n t i n u o u , i m p a s s í v e l :
— Deixe-me d i z e r - l h e de novo, o H o t e l B e r t r a m ’ s é o
q u a r t e l - g e n e r a l d i s s o t u d o . A metade dos empregados es t á
metida na t r a m ó i a . C e r t o s hóspedes também estão m e t i d o s .
Alguns são realmente quem dizem que são… o u t r o s não s ã o . Os
a u t ê n t i c o s C a b ot s , por exemplo, estão no momento no I u c a t a n . E
havi a também a q u a d r i l h a da i d e n t i f i c a ç ã o . Por exemplo, o S r .
J u i z Ludgrove. Um r o s t o f a m i l i a r , n a r i z de b at a t a e uma
v e r r u g a . F a c í l i m o de i m i t a r . O Cônego P e n n yf a t h e r . Um a f á v e l
c l é r i g o do i n t e r i o r , de grande c a b e l e i r a branca e
comportamento notoriamente d i s t r a í d o . Seus maneirismos, seu
j e i t o de e s p i a r por cima dos ó c u l o s , — tudo f a c í l i m o de i m i t a r
por um bom a t o r c a r a c t e r í s t i c o .
— Mas qual a u t i l i d a d e d i s s o tudo? — indagou B es s .
— A senhora e s t á realmente querendo saber? Não é ó b v i o . O
J u i z Ludgrove é v i s t o p e r t o do l o c a l onde se a s s a l t a um banco.
Alguém o reconhece e o menciona. Começamos a i n v e s t i g a r . É
tudo engano. E l e estava em l o c a l m uito d i v e r s o , na o c a s i ã o .
Mas só depois de algum tempo é que descobrimos que, n i s s o
t u d o , o que havi a era o que se costuma chamar de “enganos
d e l i b e r a d o s ” . Ninguém se preocupou em i d e n t i f i c a r o s u j e i t o
que se p ar ec i a t a n t o com o j u i z . E e l e não parece muito com o
j u i z , em verdade, quando t i r a a maquilagem e pára de
r e pr e s e n t a r o papel de j u i z . A c o i s a toda causa m uita
c onfusão. C e r t a vez ti vem os um J u i z do Supremo, um A r c e di a g o ,
um A l m i r a n t e , um General de D i v i s ã o , todos v i s t o s p e r t o da
cena do c r i m e .
— Depois do a s s a l t o ao trem de Bedhampton, pelo menos
quatro v e í c u l o s foram u t i l i z a d o s antes que a bolada chegasse a
Londres. Um c a r r o de c o r r i d a s d i r i g i d o por M al i n o w s k i tomou
p a r t e no t r a b a l h o , um f a l s o caminhão Metal B o x, um D a i m l e r
antiquado com um A l m i r a n t e na d i r e ç ã o , e um vel ho c l é r i g o de
c a b e l e i r a branca num M o r r i s O x f o r d . A c o i s a toda f o i uma
operação e s p e t a c u l a r , lindamente p r o j e t a d a .
— Mas a í , um belo d i a , a q u a d r i l h a t e ve um pouco de a z a r .
Aquele vel ho e c l e s i á s t i c o b i r u t a , o Cônego P e n n yf a t h er , f o i
pegar o avi ão no d i a e r r a d o ; na estação aérea não o deixaram
embarcar. E l e s a i u andando por C r om w el l Road, f o i v e r um
f i l m e , v o l t o u depois da m e i a - n o i t e , s ubi u para o quarto que
ocupava e do qual t i n h a a chave no b o l s o , a b r i u a p o r t a e v i u
o que l h e pareceu s e r e l e p r ó p r i o , sentado numa c a d e i r a de
f r e n t e para e l e ! A ú l t i m a c o i s a que a q u a d r i l h a esperava era
v e r o l e g í t i m o Cônego P e n n yf a t h e r , que d e ve r i a e s t a r a bom
recado em Lucerna, e n t r a r de repente no q u a r t o ! O s ó s i a estava
justamente se preparando para desempenhar o seu papel em
Bedhampton quando l á e n t r a o Cônego em pessoa. Não sabiam o
que f a z e r , mas houve um r á pi d o at o r e f l e x o da p a r t e de um
membro do gr upo. H u m f r i e s , suponho. Golpeou a cabeça do v e l h o ,
deixando-o i n c o n s c i e n t e . C r e i o que alguém se zangou com i s s o .
E m u i t o . Examinaram contudo o v e l h o t e e dec i dir a m que e l e
estava apenas desmaiado, que provavelmente d e s p e r t a r i a mais
t a r d e , e assim continuaram com o p l a n o . O f a l s o Cônego
P ennyf ather deixou o q u a r t o , s a i u do h o t e l e seguiu para o
c e n á r i o das a t i v i d a d e s , onde d e ve r i a desempenhar o seu papel
na c o r r i d a de revezamento. O que f i z e r a m com o a u t ê n t i c o
Cônego P e n n y f a t h e r , não s e i . Posso apenas a d i v i n h a r . C r e i o que
também e l e f o i t r a n s f e r i d o mais t a r d e , na mesma n o i t e , levado
num c a r r o at é ao chal é do vendedor de h o r t a l i ç a s , que era um
l o c a l não m uito d i s t a n t e do ponto onde o trem s e r i a a s s a l t a d o ,
e onde um médico po deria atender ao v e l h o . E , desse modo, se
aparecessem n o t í c i a s de que o Cônego Pennyfather f o r a v i s t o
nas v i z i n h a n ç a s , tudo se e n c a i x a r i a nos p l a n o s . Deve t e r s i d o
uma preocupação danada para t o d o s , a t é que o Cônego v o l t a s s e a
s i , e descobrissem que pelo menos t r ê s d i a s tinham s i d o
apagados da sua memória.
— De o u t r o modo, será que o matariam? — indagou Miss
M ar p l e.
— Não — respondeu P a p a i . — Não c r e i o que o matassem. Alguém
não p e r m i t i r i a que t a l acontecesse. Parece bastante c l a r o que
a pessoa que d i r i g e esse n e góc i o, s e j a e l a quem f o r , f a z
objeção a c r i m es de m o r t e .
— Que c o i s a f a n t á s t i c a ! — exclamou Bess S e dg wi c k. —
Completamente f a n t á s t i c a ! Não c r e i o que o senhor tenha
qualquer i n d í c i o de l i g a ç ã o de L a d i s l a u s M al i n o w s k i com toda
essa embrulhada.
— Tenho provas mais do que s u f i c i e n t e s c o n t r a L a d i s l a us
M al i n o w s k i — respondeu P a p a i . — A senhora sabe que e l e é
descuidado. F icou rondando por a q u i , quando d e v e r i a e s t a r
l o n g e . Da p r i m e i r a v e z , v e i o es t a b e l ec e r c o nt a t o com sua
f i l h a . E l e s tinham combinado uma espécie de c ó d i g o .
— T o l i c e . E l a p r ó p r i a d i s s e ao senhor que não o c on heci a.
— Pode t e r me d i t o , mas não é verdade. E es t á apaixonada
por e l e . Quer que o rapaz case com e l a .
— Não a c r e d i t o !
— A senhora não es t á em condições de saber — aduziu o
I n s p e t o r - C h e f e . — M al i n o w s k i não é desses que contam todos os
seus segredos, e a senhora não conhece a sua f i l h a , A senhora
mesma o confessou. E f i c o u zangadíssima, não f i c o u , quando
soube que M al i n o w s k i v i e r a ao H o t e l B er t r a m ’ s ?
— Por que me zang aria eu?
— Porque a senhora é o cérebro do bando — d i s s e P a p a i . — A
senhora e H e n r y . O lado f i n a n c e i r o era d i r i g i d o pel os irmãos
Hoffman. E l e s fazia m todos os a r r a n j o s com os bancos
c o n t i n e n t a i s , tratavam das contas e de c o i s a s desse gênero,
mas o chefe do s i n d i c a t o , a cabeça que d i r i g i a e planejava era
a s u a , Lady S e dg wic k.
Bess olhou para o p o l í c i a e r i u . — Nunca o u v i uma c o i s a t ã o
ridícula!
— Não, não tem nada de r i d í c u l o . A senhora tem
i n t e l i g ê n c i a , coragem e o u sadi a. Já experimentou quase t u d o ; e
achou que podia f a z e r uma e x p e r i ê n c i a com o c r i m e . Muito
emocionante, muito a r r i s c a d o . Não era o d i n h e i r o que a a t r a í a ,
quero c r e r , era o d i v e r t i m e n t o . Mas a senhora não t o l e r a v a
a s s a s s í n i o s nem v i o l ê n c i a des necessári a. Não ha vi a m o r t e s , nem
a s s a l t o s b r u t a i s , apenas pancadinhas c i e n t í f i c a s em algumas
cabeças, quando n e c e s s á r i o . Sabe, a senhora é uma mulher
i n t e r e s s a n t í s s i m a . Um dos poucos grandes c r i m i n o s o s realmente
interessantes.
Houve s i l ê n c i o por alguns m i n u t o s . Por f i m , Bess Sedgwick
se pôs de p é .
— Acho que o senhor es t á l o u c o . — E estendeu a mão para o
telefone.
— Quer chamar seu advogado? É o melhor que tem a f a z e r ,
antes que f a l e demais.
Com um gesto v i o l e n t o e l a recolocou o fone no gancho.
— Pensando bem, eu d et e s t o advogados… Muito bem. Seja como
q u e r . S i m , eu d i r i j o o e s p e t á c u l o . E o senhor es t á m uito c e r t o
quando d i z que era d i v e r t i d o . A d o r ei cada minuto da a v e n t u r a .
Era d i v e r t i d í s s i m o t i r a r d i n h e i r o de bancos, t r e n s e agências
do c o r r e i o , e dos chamados c a r r o s de segurança! Era d i v e r t i d o
p l a n e j a r e d e c i d i r ; extremamente d i v e r t i d o . V a i - s e com muita
sede ao pote? F o i i s s o o que o senhor d i s s e ainda agor a, não
f o i ? C r e i o que é verdade. Bem, val eu a pena o preço da
e n t r a d a ! Mas o senhor es t á enganado quando d i z que L a d i s l a us
M al i n o w s k i a t i r o u em Michael Gorman. Não f o i e l e . F u i e u. —
S o l t o u uma gargalhada r e p e n t i n a , e x c i t a d a . — Não i m p or t a o que
e l e f e z , o que ameaçou… Eu d i s s e a e l e que l h e d a r i a um t i r o …
Miss Marple ouviu… e d e i mesmo um t i r o n e l e . F i z exatamente o
que o senhor i ns i n u o u que L a di s l a u s f e z . Escondi-me na á r e a .
Quando E l v i r a passou, d e i um t i r o para o a l t o , e quando e l a
g r i t o u e Micky v e i o correndo pel a r u a , t i v e - o na minha m i r a e
a t i r e i ! C l a r o que possuo chaves de todas as entr adas do h o t e l .
Meti-me pela p o r t a da área e s u b i para meu q u a r t o . Não me
passou pela cabeça que vocês pudessem d e s c o b r i r que a p i s t o l a
era de L a d i s l a u s , ou que viessem a s u s p e i t a r d e l e . Eu t i n h a
f u r t a d o a p i s t o l a do c a r r o de L a d i s l a u s , escondida d e l e . Mas,
garanto ao s en hor , sem a menor i d é i a de a t i r a r as s u s p e i t a s
sobre e l e . E v i r o u - s e r á pi d a para Miss M ar pl e.
— A senhora é testemunha da minha c o n f i s s ã o , l e m br e - s e . Eu
matei Gorman.
— Ou t a l v e z a senhora e s t e j a dizendo i s s o porque es t á
apaixonada por M al i n o w s k i — s u g e r i u D a v y.
— Não e s t o u . — A r espost a v e i o r í s p i d a . — Sou amiga d e l e , e
s ó . Ah s i m , fomos amantes, quase por acaso, mas não estou
apaixonada por e l e . Em toda a minha v i d a amei apenas uma
pessoa: John S e dgw ic k. — Sua voz mudou, suavizando-se ao
pron unci ar esse nome.
— Mas La di s l a us é meu amigo. E não quero que e l e s e j a
i n c r i m i n a d o pelo que não f e z . Eu m atei Michael Gorman. Já o
c o nf e s s e i e Miss Marple me ouviu… E agor a, meu c aro I n s p e t o r -
C h e f e Davy… — Sua voz el evou-se e x c i t a d a , e sua gargalhada
v i b r o u no ar… — Venha me pegar, se é capaz.
Com um gesto do b r a ç o , rebentou a v i d r a ç a da j a n e l a com o
pesado t e l e f o n e e , antes que Papai se pusesse de p é, j á estava
do lado de f o r a da j a n e l a e d e s l i z a v a rapidamente ao longo da
e s t r e i t a c o r n i j a . Com surpreendente r a p i d e z , e
a d es p ei t o da sua c o r p u l ê n c i a , Davy c or r e u para a o u t r a
j a n e l a e l e va nto u o c a i x i l h o . Ao mesmo tempo soprava o a p i t o
que t i r a r a do b o l s o .
Miss M ar pl e, erguendo-se com um pouco mais de d i f i c u l d a d e ,
um momento depois estava ao lado de D a v y. J u n t o s , alongaram o
o l h a r pela fachada do H o t e l B e r t r a m ’ s .
— E l a v a i c a i r . E s t á subindo pelo cano de esgoto — exclamou
Miss M ar pl e. — Mas por que es t á subindo?
— V a i para o t e l h a d o . É a únic a chance que t e m , sabe d i s s o ,
Deus do c é u, o l h e ! Trepa como um g a t o . Parece uma mosca presa
à parede. Como es t á se a r r i s c a n d o !
Miss Marple murmurou, com os olhos s emi cerr ado s: — V a i
cair… Não conseguirá…
A mulher que e l e s observavam desapareceu. Papai recuou um
pouco para dentro do q u a r t o . Miss Marple perguntou :
—O senhor não quer i r e…
Papai abanou a cabeça:
— Que é que eu posso f a z e r , com esse c o r p a n z i l ? Tenho os
meus homens a p o s t o s , pron tos para es t a e ve nt u a l i d a d e. E l e s
sabem o que f a z e r . D entr o de poucos minutos saberemos o que
houve… Se bem que eu não me admire se e l a e s c a p u l i r no n a r i z
d e l e s ! É uma mulher como não e x i s t e o u t r a , Miss M ar p l e. —
S o l t o u um s u s p i r o . — Uma dessas mulheres indomá veis. Em cada
geração aparecem algumas a s s i m . Ninguém consegue d o m e s t i c á -
l a s , ninguém consegue t r a z ê - l a s para a comunidade, e f a z ê - l a s
obedecer à l e i e à ordem. Seguem seu p r ó p r i o caminho. Se são
s a n t a s , vão t r a t a r de l e pr os o s ou c o i s a semelhante, e acabam
m a r t i r i z a d a s nas s e l v a s . Se não pr estam , cometem at r o c i d a d e s
em que a gente não pode nem f a l a r . E às vezes… são apenas
indom áveis ! Acho que t e r i a m dado c e r t o se ti vess em nascido em
o u t r a época, num tempo em que cada um t i n h a que t r a t a r de s i ,
em que todos lutavam para se manterem v i v o s . R i s c o s a todo
momento, p er i g o em toda p a r t e , e e l a s p r ó p r i a s um p er i g o para
os demais. Um mundo assim l h e s s e r v i r i a ; s e n t i r - s e - i a m à
vontade n e l e . E s t e nosso não l h e s s e r v e .
— O senhor sabi a o que e l a i a f a z e r ?
— Na verdade, não. E essa é uma das qualidades d e l a :
r e a l i z a r o inesper ad o. T al vez tenha p r e v i s t o tudo i s s o . Sabia
o que estava por v i r . E f i c o u sentada, olhando para n ós ,
deixando a bola rolar… e pensando. Pensando e pl anej ando.
Espero… ah… — Interr ompeu-se ao o u v i r o s ú b i t o ronco do escape
de um c a r r o , o u i v o e s t r i d e n t e dos pneus, o som de um poderoso
motor de c o r r i d a s . — Debruçou-se no p e i t o r i l .
— E l a conseguiu. Pegou o c a r r o .
Houve mais um ranger agudo de pneus quando o c a r r o dobrou a
esquina só em duas r o d a s , um ronco p o t e n t e , e o belo monstro
branco apareceu como um b ó l i d o na r u a .
— E l a v a i matar alguém — d i s s e P a p a i . — Capaz de matar uma
porção de gente… mesmo que não consiga se m a t a r .
— Quem sabe se… — d i s s e Miss M ar pl e.
— E l a d i r i g e muito bem, é c l a r o . D i r i g e danadamente bem.
Puxa, por um t r i z !
Ouviram o barulho do c a r r o a a f a s t a r - s e , tocando a b u z i n a ,
e depois o r u í d o d i m i n u i u . Soaram g r i t o s , b e r r o s , ranger de
f r e i o s , c a r r o s buzinando e parando e , por f i m , um grande u i v o
de pneus e os di s p a r o s de um cano de escape.
— E l a bateu — observou P a p a i .
E f i c o u muito q u i e t o , esperando com a p ac i ê n c i a
c a r a c t e r í s t i c a da sua grande e pacata c o r p u l ê n c i a . Miss Marple
mantinha-se s i l e n c i o s a ao l ado d e l e . E nt ã o, como numa c o r r i d a
de revezamento, uma p al a vr a f o i t r a n s m i t i d a ao longo da r u a .
Um homem na calçada oposta l eva nt o u o r o s t o para o I n s p e t o r -
C h e f e Davy e f e z r áp i d o s s i n a i s com as mãos.
— Acabou-se — t r a d u z i u pesadamente P a p a i . — E s t á m o r t a . F o i
de encontro às grades do parque a noventa m i l has por h o r a . Não
houve ninguém ac i de nt a do, só algumas l i g e i r a s c o l i s õ e s .
D i r i g i a maravilhosamente. S i m , es t á m o r t a . — V o l t o u - s e para o
i n t e r i o r do q u a r t o , acrescentando pesadamente: — Bem, p r i m e i r o
contou a h i s t ó r i a t o d a . A senhora o u v i u .
— S i m , — d i s s e Miss M ar pl e . — O u v i . — Houve uma pausa. —
Evidentemente era m e n t i r a — c o n c l u i u e l a calmamente.
Papai encar ou-a. — A senhora então não a c r e d i t o u , não f o i ?
— E o senhor ac r e d i t o u ?
— Não — respondeu P a p a i . — Não, não era a versão c o r r e t a .
E l a i nve nt ou a q u i l o esperando que se encaixasse na h i s t ó r i a ,
mas não era verdade. Não f o i e l a que a t i r o u em Mic hael Gorman.
Por acaso a senhora sabe quem f o i ?
— C l a r o que s e i — tornou Miss M ar pl e. — A moça.
— A h ! E quando começou a pensar assim?
— Sempre s u s p e i t e i — assegurou Miss M ar p l e.
— Eu também. E l a estava c hei a de medo naquela n o i t e . E as
m ent i r as que contava não convenciam. Mas a p r i n c í p i o não
consegui d e s c o b r i r o m o t i v o .
— I s s o também me i n t r i g o u — d i s s e Miss M ar pl e. — E l a
d es c o b r i r a que a mãe cometera bi g a m i a , mas será que uma moça,
hoje em d i a , comete um c r im e por causa diss o? Não a c r e d i t o !
Suponho… que f o i a questão do d i n h e i r o , não?
— S i m , f o i o d i n h e i r o — concordou o I n s p e t o r - C h e f e D a vy. —
O p a i deixou uma f o r t u n a c o l o s s a l . Quando a menina descobriu
que a mãe era casada com Michael Gorman, compreendeu que o
casamento com C onis t on não era l e g a l . Pensou que i s s o
s i g n i f i c a r i a que o d i n h e i r o não s e r i a s e u, p o i s , embora sendo
f i l h a d e l e , não era f i l h a l e g í t i m a . Estava enganada, sabe? Já
lidamos com um caso parecido com es s e. Depende dos termos do
t es t a m e nt o. C onis t on deixou claramente o d i n h e i r o para a
f i l h a , c i t a n d o - a nominalmente. A pequena i r i a receber o
d i n h e i r o de qualquer f o r m a , mas não sabia d i s s o . E não q u er i a
perder toda aquela f o r t u n a .
— Por que f a r i a t a n t a questão do d i n h e i r o ?
O I n s p e t o r - C h e f e d i s s e , s om br i o: — Para comprar L a d i s l a u s
M a l i n o w s k i . E l e só c a s a r i a com e l a pelo d i n h e i r o . Sem o
d i n h e i r o , não c a s a r i a . E e l a sabi a d i s s o . Mas q u e r i a o
camarada em quaisquer c on diç ões . Estava perdidamente
apaixonada por e l e .
— Eu s e i — d i s s e Miss M ar pl e . E e x p l i c o u : — V i o r o s t o dela
naquele d i a em B a t t e r s e a Park…
— E l a s abi a que, com o d i n h e i r o , f i c a r i a com e l e , sem o
d i n h e i r o , p e r d i a - o — continuou P a p a i . — E por i s s o planejou um
ass a ssi nato a s a n g u e - f r i o . C l a r o que não se escondeu na á r e a .
Não havi a ninguém na á r e a . Ficou de p é, j u n t o à gr ade, deu um
t i r o e g r i t o u ; e quando Michael Gorman chegou correndo pela
r u a , a t i r o u nele à queima-roupa. Depois continuou a g r i t a r . Na
maior cal ma. Não t i n h a i nt enç ão alguma de i n c r i m i n a r
L a d i s l a u s . pegou a p i s t o l a dele porque era a únic a arma de que
podia d i s p o r f a c i l m e n t e ; j am ai s sonhou que e l e pudesse s e r
s u s p e i t o do c r i m e ou que andasse pel os ar r edor es daqui naquela
n o i t e . Pensou que o c r i m e s e r i a a t r i b u í d o a algum bandido que
se a p r o v e i t a r a do n e v o e i r o . S i m , que c alma ! Mas d e p o i s ,
naquela n o i t e , e l a t e ve medo! E a mãe t e ve medo por e l a .
— E agora… que é que o senhor v a i f a z e r ?
— S e i que f o i e l a a culpada — e x p l i c o u Papai — mas não
tenho p r o v a s . Tal ve z e l a se a p r o v e i t e da s o r t e dos
p r i n c i p i a n t e s … Parece at é que hoje a l e i a c e i t a o p r i n c í p i o de
p e r m i t i r ao cão a p r i m e i r a mordida… t r a d u z i d o em termos
humanos. Um advogado e xp e r i e nt e pode f a z e r d i s s o um dramalhão
de p r i m e i r a : uma mocinha, t ã o jovem, c r i a d a em c i r c u n s t â n c i a s
i n f e l i z e s … além d i s s o , e l a é b o n i t a , a senhora sabe.
— Sim — concordou Miss M ar pl e . — Os f i l h o s de L ú c i f e r quase
sempre são b e l o s . E , como sabemos, f l or es c em como o l o u r e i r o
v e r de j a n t e .
— Mas, conforme eu l h e d i z i a , t a l v e z nem tenhamos um
j ul g a m e nt o. Não há provas… pense na senhora mesma… será
chamada como testemunha, testemunha do que d i s s e a mãe… da
c o nf i s s ã o do c r i m e pela mãe.
— Eu s e i . E l a procurou me f a z e r gr a va r a c o n f i s s ã o , não
f o i ? Escolheu a morte para s i , ao preço da l i b e r d a d e da f i l h a .
— F o i como se me f i z e s s e um ú l t i m o pedido…
A p o r t a que dava para o quarto de d o r m i r a b r i u - s e , e E l v i r a
Bl ake e n t r o u . Usava um v e s t i d o l i s o , a z u l c l a r o . Os cabelos
l o u r o s l h e caíam pel as f a c e s . P ar ec i a um daqueles anjos da
p i n t u r a i t a l i a n a p r i m i t i v a . Olhou para Davy e Miss M ar pl e , e
disse:
— Ouvi barulho de c a r r o , de c o l i s ã o , e gente gritando…
Houve algum acident e?
— Lamento i n f o r m á - l a , Miss Bl ak e — d i s s e com f or m alida de o
I n s p e t o r - C h e f e Davy — que sua mãe e s t á m o r t a .
E l v i r a deu um pequeno s o l u ç o . — Não. — Era um d é b i l , um
inseguro p r o t e s t o .
— Antes de f u g i r — continuou o I n s p e t o r - C h e f e — porque e l a
morreu na fuga… sua mãe confessou t e r matado Michael Gorman.
— Então e l a disse… que f o i e l a . . .
— S i m . F o i o que e l a d i s s e . Tem alguma c o i s a a acres c entar ?
E l v i r a f i t o u o I n s p e t o r - C h e f e durante bastante tempo.
Depois abanou a cabeça, muito de l e v e .
— Não. Não tenho nada a a c r e s c e n t a r . Deu meia v o l t a e s a i u
da s a l a .
— E agora — d i s s e Miss Marple — o senhor v a i c o n s e n t i r que
e l a se s af e assim?
Houve uma pausa. Em s egui d a, o I n s p e t o r - C h e f e baixou o
punho, dando um murro em cima da mesa:
— Não — berrou e l e . — Não, j u r o por Deus que não vo u !
Miss Marple balançou a cabeça l e n t a e gravemente.
— Que Deus tenha piedade de sua alma — d i s s e e l a .

FIM

JÚLIO CESAR

https://www.facebook.com/juliocwmaciel

juliocwmaciel@gmail.com

(Quem gostou desta f or m atação , me a di c i o n e como amigo no


Facebook e v e j a todos os T í t u l o s que tenho d i s p ó n i v e l )

- Geralmente f aç o formatações de L i v r o s que ainda não estão no


mercado, nos f orm at os EPUB/MOBI -

Minat Terkait