Anda di halaman 1dari 18

31

Capítulo II – Concepções Teóricas da Ação Policial

1. Representações Sociais e Ação Policial

Qualquer concepção formada em torno da ação da polícia, qualquer que seja a


sociedade, passa necessariamente pela compreensão de sua gênese como organismo de
controle social, sempre a serviço de determinada classe dominante. Foi assim em todos
os momentos históricos. Na Europa dos antigos regimes, a função do organismo policial
sempre foi garantir a manutenção do poder dominante, através de estratégias
empreendidas como medidas policialescas, como forma de garantir aos soberanos a
competência privativa para julgar, no lugar da Justiça ordinária, os conflitos decorrentes
de comportamentos contrários às suas próprias leis.

Desta forma, os espaços sociais eram demarcados segundo critérios de uma


ordem social estabelecida. Inicialmente, a polícia, instituída com a finalidade de
garantia e controle da ordem dominante, detinha o poder de ação e o dever de
normatizar comportamentos sociais, segundo a vontade do rei, para controlar cada vez
mais a vida social. Por conta dessa atuação, na perspectiva de preservação ou
restauração da ordem pública, diversas leis de polícia surgiram em diferentes momentos
de períodos históricos. (SEELAENDER, 2009, pág. 76).

No Brasil Império, a criação da Polícia Militar baiana ocorreu por decreto


imperial de 17 de fevereiro de 1825 e, em vista dos graves conflitos sociais da época,
que se sucediam na cidade da Bahia, a PM da Bahia foi a primeira instituição policial de
ordem a surgir com a finalidade de restabelecer a tranquilidade e a segurança pública
daquele momento histórico, principalmente a partir da necessidade de controle dos
movimentos sociais. Neste sentido, o Governo Imperial então decide que,

“sendo muito necessário para a tranqüilidade e segurança pública na


Cidade da Bahia, a organização de um corpo, que sendo-lhe incumbido
aqueles deveres de responder imediatamente pela sua conservação e
estabilidade: Hei por bem: mandar organizar na Cidade da Bahia um
Corpo de Polícia, pelo piano que com este baixa, assinado por João
Vieira de Carvalho, do meu Conselho de Ministros e Secretário d’Estado
dos Negócios da Guerra. O Conselho Supremo Militar o tenha assim
entendido e o faça executar. Paço,17 de fevereiro de 1825. Com a rubrica
de Sua Majestade Imperial. (a) João Vieira de Carvalho”. (Aranha, 1997,
p.15)
32

O embate provocado na sociedade da época, pelas novas tendências


econômicas e comportamentais, fez com que o poder político optasse por combater as
insurgências de grupos sociais, em nome da conservação do Estado e da ordem social
tradicional vista como seu principal esteio. (SEELAENDER, 2009, pág. 76). Essas
medidas demarcavam definitivamente os limites entre os espaços sociais e o campo de
poder do Estado Imperial. Segundo Pierre Bourdieu (Teoria da Ação, 2007, págs.
48/49), em suas reflexões sobre espaço social e campo de poder, afirma que “a noção de
espaço social contém o princípio de uma apreensão relacional do mundo social”.

Este apoderamento relacional se afirma na realidade designada pela


exterioridade dos elementos que compõem cada espaço socialmente designado. Os
indivíduos ou grupos aparentes existem e subsistem na e pela diferença; ou seja,
enquanto ocupam posições relativas em espaços das relações sociais, se mostram como
a realidade mais autêntica e, consequentemente, como princípio mais real de
proximidade de comportamentos dos indivíduos e dos grupos sociais. Para Mônica
Carvalho Alves Cappelle (2006, pág. 187), o espaço social de convivência do indivíduo
é alterado e substituído pelos valores, princípios e códigos de conduta da organização,
onde os policiais estabelecem relações sociais, tecem amizades e vinculam seu habitus
dentro da organização policial.

Compendiando a concepção de classe social em Bourdieu (1996, pág. 49), é


possível compreender que a caracterização social pode gerar antagonismos
individualizados, porém, essa categorização também pode, às vezes, dar lugar a
enfrentamentos coletivos entre os agentes situados em posições diferentes no espaço
social. Na concepção teórica de Pierre Bourdieu,

Falar de espaço social é resolver, ao fazê-lo desaparecer, o problema da


existência e da não-existência das classes que, desde sua origem, divide os
sociólogos: podemos negar a existência das classes sem negar o essencial
do que os defensores da noção acreditam afirmar através dela, isto é, a
diferenciação social, que pode gerar antagonismos individuais e, às vezes,
enfrentamentos coletivos entre os agentes situados em posições diferentes
no espaço social. (BOURDIEU, 1996, pág. 49).

Contextualizando a citação bourdiana, é possível compreender os dilemas


decorrentes de conflitos gerados nas ações policiais a partir desta relação, vez que a
instituição policial, construída no decorrer dos séculos, sempre esteve em posição
dominante, reproduzindo simbolicamente categorias postas como representações
33

sociais, visto que, segundo a lógica de Bourdieu, a construção de classe é função de


uma articulação interdependente de diversos fatores constitutivos, com pesos diferentes
em momentos e espaços sociais diferentes.

Na lógica do autor, o espaço social de classes estaria composto de dimensões


fundamentais de volume, estrutura e trajetória de capital social. Estes espaços sociais
mantêm e estão enformados por um determinado habitus que desencadeia um conjunto
de práticas e representações sociais, projetadas na esfera educativa, profissional,
familiar, etc.

Mas aceitar a ideia de um espaço social unificado não é estabelecer uma


petição de principio; não seria preciso nos interrogarmos sobre as
condições sociais de possibilidade e os limites de tal espaço? De fato, a
gênese do Estado e inseparável de um processo de unificação dos
diferentes campos sociais, econômico, cultural (ou escolar), politico etc.,
que acompanha a constituição progressiva do monopólio estatal da
violência física e simbólica legítima. (BOURDIEU, 1996, pág. 51).

Pierre Bourdieu segue afirmando que o campo do poder, em contradição aos


espaços sociais, não se confunde com outros campos, por ser espaço de relações de
força em meio às diferentes tipologias de capital ou de seus agentes suficientemente
providos de deferentes formas para dominar seu campo correspondente, cujas lutas se
intensificam sempre que o valor relativo de seu capital social é posto em conflito. Daí
decorre a preponderância reforçada nas representações sociais dominantes. Cabe o
registro de que o autor define como capital social

o conjunto dos recursos reais ou potenciais que estão ligados à posse de


uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de
interconhecimento e de inter-reconhecimento mútuos, ou, em outros
termos, à vinculação a um grupo, como o conjunto de agentes que não
somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem
percebidas pelo observador, pelos outros e por eles mesmos), mas
também que são unidos por ligações permanentes e úteis. (BOURDIEU,
1998, pág. 67)

A dominação não decorre do efeito direto e simples da ação exercida por um


conjunto de agentes dominantes, “investidos de poderes de coerção física ou simbólica,
mas do efeito indireto de um conjunto complexo de ações que se produzem na rede
cruzada de limitações onde cada um dos dominantes, dominado pela estrutura do
campo, através do qual se exerce a dominação, também sofre de parte de todos os
outros”. (BOURDIEU, 1998, pág. 52)
34

Esta estruturação de pensamento possibilita amoldar a instituição policial na


condição de instrumento de poder do Estado direcionado à coerção física e ao controle
social sobre os indivíduos, através das representações sociais em movimento na
sociedade atual. As ações policiais, neste sentido, não estão afastadas das relações de
dominação estatal. Tampouco isentadas de uma ação envolvida em uma espécie de
categorização social definida por classificação de tipos, rotulados em modelos
previamente estabelecidos pelos atores policiais. É possível então se afirmar que os
agentes públicos das organizações policiais empreendam sempre nas suas ações o
capital estatal da violência legítima, perpetuada pela ideologia dominante.

Segundo Pierre Bourdieu (1996, pág. 107/108), o capital simbólico ou a


propriedade de qualquer dos tipos de capital, seja físico, econômico, cultural ou social,
mas que percebidos pelos agentes sociais, são entendidos e reconhecidos como valor em
forma de categorias. Neste padrão teórico, a ação policial vincula-se à própria
autoridade estatal como elemento de poder. O policial, neste sentido, atua como
instituição investida de suposta legitimidade para dominar e aplicar sanções
individualizadas. A ação policial então se torna uma manifestação de poder absolutista,
imunizada de pessoalidade, uma vez que as organizações policiais difundem a ideologia
da impessoalidade como caráter de resistência física e moral de seus agentes, levada a
efeito por jargões do tipo: soldado é superior ao tempo. Estes agentes públicos
disseminam o caráter de impessoalidade, investindo na representação social da
autoridade, um atributo do Estado.

O Estado então é o lugar essencial, por excelência, de concentração e de


constituição do poder simbólico, por que dispõe dos instrumentos para impor e incutir
princípios duráveis de visão e de divisão, de acordo com suas próprias estruturas. Em
todas as civilizações, as forças de segurança sempre abarcaram o seu caráter de fazer a
guerra e a manutenção da ordem interna. Para Pierre Bourdieu,

O Estado é resultado de um processo de concentração de diferentes tipos


de capital, capital de força física ou de instrumentos de coerção (exercito,
polícia), capital econômico, capital cultural, ou melhor, de informação,
capital simbólico, concentração que, enquanto tal, constitui o Estado
como detentor de uma espécie de metacapital, com poder sobre os outros
tipos de capital e sobre seus detentores. A concentração de diferentes
tipos de capital (que vai junto com a construção dos diversos campos
correspondentes) leva, de fato, a emergência de um capital especifico,
propriamente estatal, que permite ao Estado exercer um poder sobre os
35

diversos campos e sobre os diferentes tipos específicos de capital (...).


(BOURDIEU, 1996, pág. 99).

Cabe enfatizar, na afirmação do autor, que os modelos de Estado, na sua


maior parte, privilegiaram sempre a concentração do capital de força física em sua
gênese. Essa realidade ainda continua presente na forma como os Estados da atualidade
mantêm sua hegemonia de poder sobre os cidadãos. Não seria possível se imaginar uma
sociedade sem os instrumentos de controle social. Esse papel é desenvolvido e mantido
como controle social através das ações policiais, embora dentro de certa complexidade e
limites legais de atuação.

Assim como atualmente a ineficácia da atuação policial persiste nas favelas das
grandes metrópoles brasileira, que não decorre estritamente de desinteresse, porém de
certo preconceito em relação aos favelados, nas pequenas e médias cidades, a ação
policial se concentra nos bairros mais desfavorecidos, com maior concentração de
miséria. Ouve-se, inclusive, de policiais que “são os locais onde estão concentrados os
autores dos delitos mais frequentes.” Essa visão policial equivocada enseja uma
percepção estereotipada por uma lógica classificatória, levada a efeito por protótipos
previamente estabelecidos na visão da polícia, mas que está impregnada nas
representações sociais.

A concepção teórica de representações sociais tem início a partir do conceito


de representação coletiva em Emile Durkheim. O sociólogo defendeu a tese de que os
fenômenos coletivos não poderiam ser explicados numa relação intrínseca ao indivíduo
particularmente. Ele assegura que o sujeito, na sua individualidade, não estaria em
condições estruturais para inventar uma língua ou uma religião, por que tais fenômenos
são uma espécie de produto de uma comunidade ou de um povo. Segundo Durkheim,
existe uma sistemática separação entre o indivíduo, em sua individualidade, e o social,
no aspecto de sua complexidade coletiva. Socialmente, as representações coletivas
sintetizam o que os homens pensam sobre si mesmos e sobre a realidade que os cerca.
(DURKHEIM, 1970, p. 118). O autor propõe que essa divisão procura dar conta de um
todo coletivo, porém se fundamenta numa concepção de que as regras coletivas
comandam a vida dos sujeitos através de suas representações individuais, que não são as
mesmas estruturas regidas pela vida coletiva, por assim dizer as representações
coletivas.
36

Sobre a categorização, Erving Goffman (2008, pág. 11-12) sugere que os meios
de categorizar as pessoas são estabelecidos pela sociedade através dos atributos
considerados como comuns e naturais para os membros de cada dessas categorias. Neste
sentido, os ambientes sociais estabelecem as categorias de indivíduos que detêm a
probabilidade de guardarem as rotinas da relação social em ambientes estabelecidos,
que nos permita um relacionamento com outras pessoas. Conformando esta citação de
Goffman, é possível se afirmar que as ações policiais asseveram as práticas de
nominação do Estado por via da categorização das pessoas, por parâmetros de suas
representações sociais, a partir inclusive da classificação de seus habitus.

O psicólogo social romeno Serge Moscovici (1928 – 2014) foi pioneiro na


elaboração e defesa da teoria das representações sociais. Segundo este autor, as
representações sociais são entidades, quase tangíveis, que circulam, entrecruzam-se e se
cristalizam continuamente, manifestadas duma palavra, em um gesto ou em uma
reunião do cotidiano das pessoas.

As representações então se impregnam na maior parte de nossas relações


sociais, por via dos objetos produzidos ou consumidos e também pela integração das
comunicações estabelecidas internas e externamente ao convívio social. De um lado, as
relações sociais correspondem à natureza simbólica, por força de sua elaboração e, por
outro, correspondem à prática especifica de produção dessa substância, da mesma forma
como a ciência ou o mito correspondem a uma prática científica ou mítica.
(MOSCOVICI, 2007, pág. 10).

As praticas policiais, dentro desta lógica moscoviciana, são incrustadas pelo


poder da violência simbólica do Estado, com o sentido de controle social, mas também
revestidas pelas tradições institucionalizadas na gênese dos sistemas que as criou. Não
se pode esperar de uma organização policial, empenhada no uso da força física
coercitiva, qualquer predisposição de caráter intervencionista, ausentes dos excessos ou
abusos praticados por seus integrantes. Isso não significa, entretanto, aplicar a regra da
generalização, pois que uma nova mentalidade legalista já se impõe nas ações policiais
atualmente. Desde o advento da Constituição Federal de 1988, um rol de garantias e
direitos fundamentais foi taxativamente consignado na Carta Magna. Este foi um grande
avanço em matéria de direitos humanos, que vem iluminando, sobretudo, os caminhos
para atuação dos organismos estatais. Neste sentido, muitas representações sociais,
37

sedimentadas pelo capital simbólico de governos autoritários, estão se descontruindo


para uma nova edificação de representações fundadas em valores humanos.

As representações sociais, postas na perspectiva de Moscovici, estão


imbricadas na construção coletiva. Pautadas na exigência da autoridade de legitimação,
não há perder de vista que a modernidade se caracteriza por centros mais diversos de
poder onde a regulação do conhecimento e da crença não mais é exercida da mesma
forma anteriormente posta. (MOSCOVICI, 2007, pág. 17). Neste cenário, a garantia da
legitimação não está mais vincula a uma entidade divina, mas a uma dinâmica social
legada de complexidade e contestação, em que as representações dos diferentes grupos
na sociedade se movem para estabelecer sua própria hegemonia.

Na conceituação do autor, a representação social está provida de

um sistema de valores, ideias e práticas, com uma dupla função:


primeiro, estabelecer uma ordem que possibilitará as pessoas orientar-se
em seu mundo material e social e controlá-lo; e, em segundo lugar,
possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma
comunidade, fornecendo-lhes um código para nomear e classificar, sem
ambiguidade, os vários aspectos de seu mundo e da sua história
individual e social. (MOSCOVICI, 2007, pág. 21).

Assim como as Representações resultaram de estruturas que se estabilizaram


na poma das sociedades humanas, produto da transformação de uma estrutura anterior,
pode-se concluir, a partir dessa teoria, que as organizações policiais, assim como outros
organismos do Estado, também provieram de estruturas anteriormente confirmadas pelo
universo estatal. Neste caso, o agente público do organismo policial também está
submetido a essas mutabilidades institucionais, o que termina por alimentar ações
arbitrárias, despidas de legalidade, sacralizando a violência institucional e a violação de
direitos fundamentais assegurados por lei.

Para Serge Moscovici (2007, pág. 34), as Representações Sociais


convencionalizam os objetos, pessoas ou acontecimentos que encontram, dão a esses
aportes convencionais uma forma definitiva e os confinam a uma determinada categoria,
os colocando gradualmente num modelo determinado de tipo, distintos e partilhados por
grupos de pessoas. Essas particularidades das Representações limitam os indivíduos a
esses aportes convencionais, não os libertando das amarras dos preconceitos, mas
potencializando ainda mais a sua reprodução. A estratégia melhor para se tentar evitar
todas as convenções seria descobrir e explicitar as suas formas de representação. Então,
38

em vez de negar as convenções e preconceitos, esta estratégia nos possibilitará


reconhecer que as representações constituem, para nós, um tipo de realidade.
Procuraremos isolar quais representações são inerentes nas pessoas e objetos que nós
encontramos e descobrir o que representam exatamente. (MOSCOVICI, 2007, pág. 36).
As representações sociais se impõem sobre nós com uma força irresistível.

Representações, obviamente, não são criadas por um individuo


isoladamente. Uma vez criadas, contudo, elas adquirem uma vida
própria, circulam, se encontram, se atraem e se repelem e dão
oportunidade ao nascimento de novas representações, enquanto velhas
representações morrem. Como consequência disso, para se compreender e
explicar uma representação, é necessário começar com aquela, ou
aquelas, das quais ela nasceu. Não é suficiente começar diretamente de
tal ou tal aspecto, seja do comportamento, seja da estrutura social.
Longe de refletir, seja o comportamento ou a estrutura social, uma
representação muitas vezes condiciona ou até mesmo responde a elas.
Isso é assim, não porque ela possui uma origem coletiva, ou porque ela se
refere a um objeto coletivo, mas porque, como tal, sendo compartilhada
por todos e reforçada pela tradição, ela constitui uma realidade social sui
generis. (MOSCOVICI, 2007, pág. 41).

Para o autor, a violência legitimada pelo Estado é o sustentáculo do corpo


político, acatado pelas diversas formas de legitimidade como aporte de acatamento das
ações violentas. Sobre a compreensão da violência legítima, o Estado é o poder que
exerce o monopólio da coação física legítima, fundamentalmente através de suas
agências de representações sociais. Aqui cabe enfatizar o exercício coercitivo na
atividade da organização policial em maior efetividade, posto que esta coação sempre
esteja vinculada a uma autorização do Estado, na medida em que seus agentes
perpetuam ações fomentadas e institucionalizadas em nome da autoridade do Estado,
diluída em nome da lei. Esta é considerada a única fonte do "direito" de exercer coação.
(WEBER, 1999, pág. 525-526).

O Estado, do mesmo modo que as associações políticas


historicamente precedentes, é uma relação de dominação de homens
sobre homens, apoiada no meio da coação legítima (quer dizer,
considerada legítima). Para que ele subsista, as pessoas dominadas têm
que se submeter à autoridade invocada pelas que dominam no momento
dado. Quando e por que fazem isto, somente podemos compreender
conhecendo os fundamentos justificativos internos e os meios externos
nos quais se apóia a dominação. (WEBER, 1999, 526).

Mas, afinal, até que ponto a ação policial está vinculada às representações
sociais e, por consequência, legitimada na relação de dominação do Estado? Recorrendo
a Weber, é possível afirmar que os fundamentos da legitimidade da ação policial estão
embrenhados numa prática fomentada pela instituição policial desde ontem, sobretudo
39

herdados esses fundamentos de modelos de Estado imperial. Daí derivar esses


fundamentos dos costumes consagrados e da habitualidade de aceitá-los como
supostamente corretos institucionalmente, sobretudo legitimados pela dominação
tradicional do Estado sobre os indivíduos, que somente obedecem sem questioná-los.

Numa perspectiva epistemológica, a dominação legitimada segundo a


concepção de que o Estado é o promotor da segurança individual e do bem comum,
compreende o conjunto de estratégias ideologicamente elaboradas para manutenção de
poder nas relações sociais, quer dizer: o agente público policial impõe a violência
legítima sob a conjectura de garantia da inviolabilidade a todo coletivo. Esse tem sido
os fundamentos inclusive de política de segurança pública, através do desencadeamento
de operações policiais desenvolvida pela Polícia Militar da Bahia, quantificando em
milhões de pessoas abordadas numa justificativa de uma propensa segurança aos
indivíduos, o que se refuta como verdadeiro. Potencialmente, essas ações policiais
concorrem para a violação de princípios constitucionais e ofendem frontalmente a
intimidade das pessoas, as quais são cotidianamente submetidas à abordagem policial
sob esse fundamento, não comprovado cientificamente, de ser, de fato, eficaz na
supressão dos delitos.

Os pressupostos da ação policial, desenvolvida com o objetivo de suposta


proteção às pessoas, estão inteiramente baseados em experiências empíricas e não se
afirmam como eficaz na resolução da violência percebida na sociedade. Se a ação
policial busca a proteção dos indivíduos e a harmonia nas relações sociais destes, não se
poderá conceber o episódio de qualquer ato de violência perpetrada pela instituição
policial, muito menos por atitudes individualizadas de seus agentes.

Por fim, a ação policial está mais consolidada como afirmação de uma
estratégia de dominação do Estado do que uma política pública de proteção aos
indivíduos em sua coletividade. Na ação policial, na forma como se tem observado na
atual realidade social, a legalidade é utilizada como virtude para manutenção de poder
político e se fazer obedecer, sobretudo na crença de validade de estatutos e regramentos
sociais, quer dizer, em virtude da predisposição de obediência coletiva às formas de
dominação exercidas pelo "servidor público" ou a qualquer daqueles que exercem o
poder do Estado.
40

2. A Categorização, as Representações e as Ações Policiais

As representações sociais são construções providas das informações


destorcidas por representações superimpostas aos objetos e às pessoas, principalmente
quando estas lhes atribuem certa vaguidade que as tornam parcialmente inacessíveis à
sua compreensão. Quando se contempla esses indivíduos ou objetos, na percepção de
como eles são aprendidos pelas suas imagens e hábitos, as recordações preservadas e as
categorias culturais juntam-se às representações como as concebemos socialmente. Não
passam apenas por um elemento na cadeia de reação de nossas percepções, opiniões,
noções e até mesmo de nossas vidas, quando organizadas em dada sequência de nossas
ações em sociedade. (MOSCOVICI, 2007, pág. 33).

As representações sociais convencionalizam os objetos, as pessoas ou


acontecimentos, dando-lhes uma conformação definitiva. Por isso esses objetos, pessoas
ou acontecimentos terminam por serem postos em determinada categoria e se definem
gradualmente como modelos de classificação por tipos, distintos e partilhados por um
dado grupo de pessoas. Para Serge Moscovici (2007, pág. 34), “os novos elementos se
juntam a esse modelo e se sintetizam nele”. Quando isso ocorre, as pessoas passam a
definir os acontecimentos sociais por determinadas associações.

Visto por esse pensamento, é possível se perceber as ações policiais como


acontecimentos necessários, legitimadas socialmente por uma percepção de que a
polícia sempre atuará com a finalidade de promover a harmonia social. Assim,
passamos a afirmar, por associações, que a presença da polícia na rua tem sempre o
sinônimo de segurança pública, assim como a seleção brasileira de futebol, na nossa
percepção, estará sempre vinculada a vestes amarelas e, mesmo que inadmissível essa
associação, mas é fato, o policial está associado ao arvoro de ser autorizado a revistar
qualquer pessoa, ainda que esta não esteja na condição de fundada suspeita.

Ainda que uma pessoa ou objeto não se enquadre precisamente ao modelo,


nossa percepção força tais objetos ou pessoas a assumirem determinado estereótipo ou a
entrar em determinada categoria, tornando-se, na prática, iguais aos outros, deliberados
por categorias definidas a partir de um protótipo de cor, raça, condição econômica, tipo
de vestes, cabelo ou um determinado tipo de tatuagem no corpo. Essas categorias
passam a definir inclusive, dependendo do lugar, a condição de suspeita da pessoa
41

submetida à abordagem policial. O fato é que o agente público das organizações


policiais, em especial da Polícia Militar, por sua definição constitucional de polícia de
prevenção, desenvolve suas ações policiais sempre pautadas por categorias
representativas. Estas categorias são sistematizadas pela prática policial, fortalecidas por
esquemas e estereótipos arranjados empiricamente.

Para Serge Moscovici (2007, pág. 34), essas convenções nas representações
sociais nos possibilitam a conhecer o que representa o que nas relações sociais.
Transmutada esta afirmativa para ações policiais, poderíamos afirmar que as ações
policiais estariam convencionadas para a garantia da paz e proteção aos indivíduos em
sociedade. Entretanto, não se pode perder de vista a potencial ameaça inerente à
profissão policial, pois que o agente público está legitimado a utilizar a arma de fogo
não somente como instrumento de defesa, mas implicitamente também ecoa como
forma de ameaça aos indivíduos, em nome de uma suposta proteção à coletividade, o
que transforma a presença policial em temor considerável de ameaça, isto sentido por
parcela significativa das pessoas, potencializada essa ameaça muito mais pelas atitudes
equivocadas de policiais, que se arvoram na prática de agressão a direito ou de algum
ato de violência a pessoas inocentes.

Na realidade, a partir de uma concepção moderna sobre a ação policial, é


possível perceber o organismo policial sob três dimensões, no que diz respeito a sua
atuação: o seu caráter público, quando a organização policial decorre da gênese de
agência pública, com sua estrutura formada, custeada e controlada pelo poder
governamental; a especialização sob o suporte institucional, levada a efeito por critérios
de policiamento direcionado a uma atividade específica de polícia, principalmente pela
forma de aplicação da força física, em vista de ser um organismo estatal um ente
público autorizado a empregar a violência legítima contra aqueles que violem os
regramentos sociais e a ordem jurídica do Estado. E, por último, a dimensão
profissional de seus integrantes, quando se exige destes o pré-requisito fundamental de
preparação explícita para a realização das funções exclusivas da atividade policial.
(MONET, 2006, págs. 15-24). A profissionalização, neste sentido, envolve
recrutamento por mérito, o treinamento formal, a evolução em carreira estruturada, a
disciplina sistemática e trabalho em tempo integral. Para Bayley, na dimensão atual, o
termo Polícia está associado ao emprego de pessoas autorizadas por um grupo de
42

indivíduos para regular as relações interpessoais dentro deste grupo através da aplicação
de força física. (BAYLEY, 2001, pág. 20).

Então, a utilização da força física, o uso interno da força e autorização coletiva


reúnem os atributos da organização policial moderna, articulados esses atributos ao
formato de caráter público, especialização e profissionalização da polícia, alinhados à
constituição de fundamentos do Estado Nacional Brasileiro. Esses fundamentos de
estrutura organizacional, de função e de ação de polícia devem lastrear as bases de
qualquer sociedade democrática, de onde se pode compreender que o verdadeiro sentido
da ação policial na sua relação com as necessidades da sociedade e os legítimos anseios
de seus cidadãos é promover a harmonia nas relações sociais e a pacificação interna dos
agrupamentos sociais. Nesta nova ordem, o agente público policial terá o papel de
mediador dos conflitos sociais, sem qualquer ultraje à dignidade da pessoa humana,
fundamentalmente quando esta pessoa não esteja infringindo os regramentos da
sociedade.

Nesta perspectiva, poderíamos contemporaneamente definir a Polícia,


especialmente a Polícia Militar, nessa nova ordem social, ainda que esta definição se
aproxime das origens clássicas republicanas, como a instituição mediadora da paz
social, concebida para resguardar a polis, mas soa também como aparato da cidade e de
seus cidadãos.

Contrariamente a estes preceitos, estatisticamente falando, a Polícia brasileira é


uma das mais violentas, que mais mata no mundo. Se não vejamos as reportagens a
seguir:

Segundo Anistia Internacional, polícia brasileira é a que mais mata no


mundo
Um relatório da organização Anistia Internacional divulgado nesta
segunda-feira (7) apresenta a polícia brasileira como a que mais mata no
mundo, seguida dos Estados Unidos.
O documento sugere a criação de ferramentas para reduzir as mortes por
violência policial. Entre elas investigações independentes, punições em
caso de abuso, regras mais rígidas sobre a atuação dos agentes da lei e
estatutos que deixam claro quando o uso da força se justifica.
Brasil e Estados Unidos se destacam entre os demais países. O Brasil
aparece como o país que tem o maior número geral de homicídios no
mundo inteiro. Só em 2012, foram 56 mil homicídios. Em 2014, 15,6%
dos homicídios tinham um policial no gatilho. Segundo o relatório, eles
43

atiram em pessoas que já se renderam, que já estão feridas e sem uma


advertência que permitisse que o suspeito se entregue.
Já nos Estados Unidos, não existem números oficiais sobre a violência
policial no país inteiro. Mas estatísticas regionais sugerem que o perfil
das pessoas mortas pelos agentes da lei é muito parecido com o do Brasil.
A maioria é de homens negros e jovens. (Redação Rede TV, em
07/09/2015, às 21h59)

Polícia matou 6 pessoas por dia nos últimos 5 anos no Brasil


Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia são os estados com o maior número de
mortes. Os dados são da Fórum Brasileiro de Segurança. (Publicada:
11/11/2014, Leitura Dinâmica, Rede TV, Brasil)

Em 5 anos, polícia brasileira matou em média 6 pessoas por dia, diz estudo
Os policiais brasileiros mataram, entre 2009 e 2013, uma média de seis
pessoas por dia pelas ruas do país.
Foram ao menos 11.197 óbitos provocados pelos homens da lei nesses
cinco anos, mais do que a polícia norte-americana matou ao longo de 30
anos (11.090). De acordo com o IBGE, o Brasil tem mais de 200 milhões
de habitantes. Já nos Estados Unidos a estimativa é de 319 milhões.
Os dados fazem parte do mais recente levantamento do Fórum Brasileiro
de Segurança Pública e compõem o 8º anuário de segurança pública
produzido pela ONG. A divulgação ocorre nesta terça-feira (11).
Ainda de acordo com o levantamento, a tropa mais letal do país está no
Rio de Janeiro, seguido por São Paulo e pela Bahia. Embora continue
liderando o ranking de letalidade, o que ocorreu em quase todos os anos
pesquisados, a polícia fluminense reduziu para menos da metade a
quantidade desse tipo de homicídio.

Em 2009, os homicídios no Rio provocados por policiais em serviço


chegaram a 1.048 registros: 54% de todas as mortes praticadas pela
polícia do país naquele ano.
Já em 2013, esse número caiu para menos da metade, com 416 registros,
o que representa 20% das mortes em intervenção policial no país. Em
2012, o Rio chegou a ficar atrás de São Paulo. Os policiais fluminenses
mataram 419, enquanto os paulistas mataram 583.
Em 2012, a PM paulista enfrentou uma guerra não declarada com o
crime organizado (com baixas dos dois lados), o que elevou os índices de
homicídio de todos os tipos.
44

Para a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública,


Samira Bueno, a melhor notícia do anuário é a redução dos números no
Rio. "A única notícia boa desse cenário são os dados cariocas. Desde a
implantação das UPPs, o Rio tem tido uma redução expressiva de
letalidade. A única notícia boa desse cenário extremamente triste. Seis
pessoas mortas por dia é muita coisa", disse ela.
São Paulo até poderia receber elogios semelhantes, já que as mortes por
intervenção policial caíram de 566 para 364 em cinco anos (queda de
36%). Esse bom desempenho acaba eclipsado pelo aumento de quase
40% dos homicídios praticados por policiais no horário folga.
Não é possível saber a evolução do número de pessoas mortas por
policiais em horário de folga no Rio de Janeiro porque lá, assim como em
outros Estados, não existe um controle estatal.
A maioria dos Estados não tinha, até pouco tempo atrás, controle nem
mesmo das mortes praticadas por policiais em serviço. Apenas 11 das 27
unidades federativas conseguiram apresentar essa contabilidade
solicitada pelos pesquisadores do fórum –incluindo São Paulo. "A
maioria das polícias do país não tem a prática de fazer acompanhamento
na letalidade policial. Há uma subnotificação. Sabemos que é bem maior
do que está registrado."
Considerando-se a taxa de mortes (por 100 mil habitantes) provocadas
apenas por policiais em horário de serviço, São Paulo cai para a 10ª
posição no ranking do anuário –com 0,8 por 100 mil.

CUSTO DA VIOLÊNCIA

O custo da violência no Brasil no ano passado foi de R$ 258 bilhões, o


que equivale a 5,4% do PIB (Produto Interno Bruto). Com isso, o
investimento em segurança pública cresceu 8,65% em relação ao ano
anterior. Os dados também fazem parte do levantamento do fórum de
segurança pública. Esta é a primeira vez que o anuário inclui dados sobre
os custos da violência.

De acordo com os dados divulgados pelo jornal "O Globo", a maior parte
do valor gasto em 2013 refere-se à perda de capital humano: R$ 114
bilhões. Também entram na conta dos custos da violência os gastos com
contratação de serviços de segurança privada, com seguros contra roubos
e furtos, além de custos com o sistema público de saúde.

A soma destas despesas, que chegou a R$ 192 bilhões em 2013 é


classificada como "custo social da violência". O valor ainda pode ser
maior já que os gastos com pessoas que ficaram inválidas em razão da
violência, por exemplo, não entraram no cálculo.

Para completar os dados, ainda há o gasto de R$ 4,9 bilhões para manter


as prisões e unidades de cumprimento de medidas socioeducativas e os
investimentos governamentais de R$ 61,1 bilhões em segurança pública.

Outra noção teórica das representações, postulada por Serge Moscovici (2007),
é a sua natureza prescritiva, percebida a partir de determinada combinações de
estruturas presentes já postas socialmente, estas estruturas atuam antes mesmo de
pensarmos, movidas pela tradição das práticas sociais que decretam o que deve ser
45

pensado. O nosso pensamento segue de acordo as convenções adquiridas em espaços


escolares, nos discursos políticos, na imprensa, nas relações de grupos, na música etc.
para este autor, enquanto essas representações, que são partilhadas por tantos,
penetram e influenciam a mente de cada um, elas não são pensadas por eles; melhor,
para sermos mais precisos, elas são re-pensadas, re-citadas e re-apresentadas.
Moscovici ainda acrescenta:

Do mesmo modo, nossas coletividades hoje não poderiam funcionar se


não se criassem representações sociais baseadas no tronco das teorias e
ideologias que elas transformam em realidades compartilhadas,
relacionadas com as interações entre pessoas que, então, passam a
constituir uma categoria de fenômenos à parte. (MOSCOVICI, 2007, pág.
48).

As características fundamentais das representações estão corporificadas nas


ideias e nas experiências coletivas e também nas interações comportamentais,
semelhante à arte da linguagem ou as manifestações estéticas não mecanizadas. As
representações sociais são alimentadas pelas palavras, mas mantidas, entretanto, pela
força das ideias que se materializam em comportamentos. Num primeiro momento, as
ideias socialmente estranhas são ancoradas e reduzidas às categorias e a imagens
comuns compreendidas no contexto familiar. Neste sentido, poderíamos compreender a
lógica do policial, principalmente quando ele estabelece aleatoriamente uma escala de
valores, a partir dos quais passa a definir as ações policiais em relação aos indivíduos
enquadrados na condição de suspeito. Outro fundamento está também na objetivação de
estereótipos transmutados do abstrato para algo concreto, quando esses protótipos
guardados na mente são transferidos os para a existência dos objetos ou pessoas do
mundo físico.

A representação é parte de um sistema de classificação e de denotação, que


determina a alocação de categorias e nomes aos quais se definem como coisas ou
pessoas. É nesse processo de categorização que os estereótipos são sistematicamente
utilizados como estigmatizantes na produção de alvos preferenciais para as ações da
polícia. É nesta engrenagem sociológica que a ideia de suspeição se torna um campo de
produção de interpretações preconceituosas e discriminatórias, principalmente quando
expressam condição socioeconômica, racismo ou qualquer outra forma de discriminação
que enseje presunção de crime contra pessoas inocentes, sem que lhes possa ser
46

atribuído qualquer potencial de ameaça à coletividade por parte destes ou que se lhes
possa ser atribuído a autoria de crime, violando assim a presunção de inocência.

3. A Classificação como Representação na Ação da Polícia

Segundo Erving Goffman (1980, pág. 5), dotados de notável conhecimento, os


gregos se utilizavam de recursos visuais para decifrarem os sinais corporais que
denotassem a evidência de alguma extraordinariedade ou maldade sobre o status moral
de quem exibia esses sinais. Essas marcações eram feitas com fogo ou cortes no corpo
dos indivíduos com o objetivo de identificá-los publicamente. Era um sistema de
classificação que visava dar conhecimento a toda a sociedade de que o portador das
marcas era um escravo, um criminoso ou um traidor, classificada então essa pessoa
como a quem se devia evitar.

Atualmente, esse tipo de marcação não se tolera mais como forma legitimada
de estabelecer o status moral dos indivíduos transgressores, sobretudo pelos avanços
significativos no campo dos direitos humanos; entretanto, existem outras formas não
legitimadas socialmente, mas que utilizada pela polícia como referenciais de
classificação dos indivíduos suspeitos.

Como exemplo, a Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia, no ano


de 2012, adotou como Cartilha de Orientação Policial (Tatuagens: Desvendando
segredos), de autoria de Alden José Lázaro da Silva, instrutor da Academia de Polícia
Militar e Especialista em Prevenção da Violência, Promoção da Segurança e Cidadania.
Na apresentação do trabalho, o autor esclarece que 60% da população carcerária no
Brasil, na maioria o sexo masculino, tem algum tipo de desenho estampado no corpo.
Adverte, entretanto, que o seu objetivo não discriminar pessoas que possuam algum tipo
de tatuagem, mas apenas demonstrar que certas tatuagens encontradas em alguns
indivíduos podem indicar fortes indícios de envolvimento com a prática de crime.

No dia-a-dia das ruas, os agentes de segurança pública, especialmente os que


trabalham no policiamento ostensivo, são frequentemente chamados a verificarem a
condição de suspeição e eventual periculosidade de grupos pessoas e indivíduos, por
simplesmente reunirem algum estereótipo marcado na imaginação das pessoas. Por sua
vez, o policial também desenvolve a ação policial segundo critérios subjetivados na
classificação de protótipos imaginários de suspeitos, dessa avaliação depende sua
47

decisão de realizar ou não medidas de abordagem policial, seguida ou não de revista


pessoal.

Nestes termos, classificar uma pessoa ou objeto significa confiná-la em um


conjunto de comportamentos e regramentos definidores de tipo do que é permitido, ou
não é permitido, em relação aos demais indivíduos pertencentes a determinada classe.
Segundo Moscovici, quando uma pessoa é classificada por estereótipo, ficará confinada
a um conjunto de conceitos linguísticos limitados, a certos hábitos espaciais e
comportamentais. Ele ainda assevera que

A principal força de uma classe, o que a torna tão fácil de suportar, é o


fato de ela proporcionar um modelo ou protótipo apropriado para
representar a classe e uma espécie de amostra de fotos de todas as
pessoas que supostamente pertençam a ela. Esse conjunto de fotos
representa uma espécie de caso-teste, que sintetiza as características
comuns a um número de casos relacionados, isto é, o conjunto é, de um
lado, uma síntese idealizada de pontos salientes e, de outro lado, uma
matriz icônica de pontos facilmente identificáveis. MOSCOVICI, 2007,
pág. 63).

Obtida a classificação, geralmente ela será aceita, impondo uma relação entre a
categoria e o objeto ou à ideia concebida sobre algo ou alguém. Isso significa que
categorizar alguém ou algum objeto constitui-se em eleger um dos paradigmas
armazenados na memória e estabelecer uma relação positiva ou negativa com este
objeto ou pessoa. A experiência mostra que é muito mais fácil concordar com o que
constitui um paradigma, do que com o grau de semelhança de uma pessoa com esse
paradigma. MOSCOVICI, 2007, pág. 63).

Na lógica classificatória, as classificações são moduladas a partir da


comparação das pessoas a um protótipo. Esse protótipo geralmente é aceito como
representante de uma dada classe, definido através da aproximação, ou então da
coincidência com esta classe. Neste sentido, podemos afirmar que os protótipos são
representativos de uma nação, de uma classe de políticos e de cientistas e por isso
classificamos outras classes políticas ou cientistas em relação aos primeiros. Se
classificamos e julgamos os indivíduos e os objetos fazendo comparações com um
protótipo determinado, inevitavelmente, somos tendenciosos a perceber e a preferir as
características mais representativas do protótipo definido como modelo social.

De fato, a tendência para classificar, seja pela generalização, ou pela


particularização, não é, de nenhum modo, uma escolha puramente
48

intelectual, mas reflete uma atitude específica para com o objeto, um


desejo de defini-lo como normal ou aberrante. É isso que está em jogo em
todas as classificações de coisas não-familiares - a necessidade de defini-
las como conformes, ou divergentes, da norma. (MOSCOVICI, 2007, pág.
65)

O fato é que somos influenciados e, por consequência influenciamos, a maneira


como as manifestações convergentes e divergentes da existência social são rotuladas.
Contribuímos na maneira com a qual os indivíduos e grupos são estigmatizados,
discriminados, seja psicológica, politica ou culturalmente. Logo, também podemos
afirmar de que as ações policiais tendem a reproduzir o protótipo de dominação do
poder político. A tendência do policial será então exteriorizar o estigma da autoridade
estatal, inclinada para o exercício da violência legítima e, consequentemente, em algum
momento de sua relação com essa violência, ele transcende arbitrariamente os limites da
legitimidade e da legalidade, levado a efeito, por vezes, pela prática reiterada da
violência a que está submetido dentro e fora da instituição policial.

Abreviando, classificar e dar designações por categorias são, em verdade, dois


aspectos da ancoragem das representações sociais muito importantes na relação da
polícia com os indivíduos em sociedade. Não podemos poder de vista que as ações
policiais, embora acomodadas ao conceito de legalidade, precisam ser reformuladas e
adaptadas à nova ordem do Estado Democrático de Direto, onde as representações, a
categorização e o sistema de classificação estejam conformados a novos conceitos.

Desde antes, as ações policiais já necessitavam estar incluídas em novos


paradigmas das representações sociais, elencadas estas no respeito à dignidade da
pessoa humana e nos fundamentos da Carta Democrática. Ainda que movida por
estereótipos, classificados em categorias sociais, a prática policial não enseja a atuação
de seus agentes movidos por algum tipo de discriminação, preconceito ou qualquer
outro estereótipo que afronte a dignidade dos cidadãos, particularmente aqueles
desprovidos de informação e proteção do Estado.