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ENSAIO

Uma reflexão teórica sobre as relações entre natureza


e capitalismo

João Valente Aguiar Nádia Bastos


Universidade do Porto, Portugal Ministério da Educação e Ciência, Portugal

Este artigo mantém a ortografia vigente em Portugal.

Uma reflexão teórica sobre as relações entre natureza e capitalismo


Resumo: O objectivo deste artigo passa por dar conta da articulação que se estabelece entre a esfera natural e a esfera social global da
contemporaneidade, em termos genéricos, o modo de produção capitalista. Partindo de uma análise dos mecanismos de apropriação do
meio natural pela engrenagem social da acumulação de capital, procura identificar algumas das formas de mercadorização contemporâneas
da natureza. Com efeito, essas expressões mercadorizadas do meio natural revelam uma ligação com as dinâmicas de crise estrutural do
capitalismo. Em termos metodológicos, privilegia uma perspectiva de totalidade na abordagem ao objecto de estudo em causa, sem com
isso reduzir o substrato empírico do mesmo a uma entidade homogeneizante. Por conseguinte, a processualidade estabelecida entre
natureza e capitalismo encontra respaldo num conjunto de influências mútuas, de mediações desniveladas de causalidade e de contradições.
Palavras-chave: Natureza. Ecologia. Capitalismo. Mercadorização.

A Theoretical Reflection on the Relationship between Nature and Capitalism


Abstract: The purpose of this article is to recognize the articulation between the natural and contemporary global social sphere, in
generic terms, the capitalist mode of production. Based on an analysis of the mechanisms of appropriation of nature by the social
engendering of the accumulation of capital, it seeks to identify some of the forms of the contemporary commodification of nature. These
commodified expressions of nature are connected to the dynamics of the structural crisis of capitalism. In methodological terms, it
emphasizes a perspective of totality in the approach to the object of study, without reducing the empiric substrate to a homogenized
entity. Therefore, the interactive process between nature and capitalism finds support in a set of mutual influences, of unequaled
mediations of causality and contradictions.
Keywords: Nature. Ecology. Capitalism. Commodification.

Recebido em 18.07.2011. Aprovado em 31.12.2011.

R. Katál., Florianópolis, v. 15, n. 1, p. 84-94, jan./jun. 2012


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Introdução abreviadamente alguns dos pontos de vista proposi-


tivos em torno do eixo natureza/sociedade/capitalis-
Os esforços de conceptualização das relações en- mo.
tre natureza e sociedade têm esbarrado com duas
discursividades centrais que obstaculizam o estudo te-
órico e empírico da relação entre o modo de produção 1 O processo de incorporação da natureza na
capitalista e a natureza. Em primeiro lugar, a natureza esfera da acumulação capitalista: o tripé
tende a ser vista como uma entidade ultrapoderosa, expropriação-apropriação-mercadorização
vingativa para os desvarios ambientais do homem. No
fundo, estamos num discurso muito próximo de uma Com a Revolução Industrial de finais do século
visão de um Deus colérico e incisivo nas reacções. 18, deu-se a consagração do capitalismo como modo
Esta é uma modalidade discursiva muito presente nos de produção fundamental e dominante da contem-
meios de comunicação social, com especial presença poraneidade. Desde então, todo o tecido social pas-
nas reportagens sobre catástrofes naturais (AGUIAR, sou a ser alvo de um redimensionamento tendo em
2010). Em segundo lugar, a natureza é vista como uma vista a prossecução do sistema de extracção de mais-
tábua rasa da mão humana, onde a tecnologia a mode- valia dum modo mais ou menos estável, mais ou me-
la no sentido de torná-la mais sustentável ou de fazê- nos institucionalmente consolidado e enquadrado.
la perigar. Por outras palavras, é a tecnologia que Nesse sentido, por exemplo, o Estado moderno, li-
actuaria sobre a natureza – de um duplo modo, ou a berto da ganga feudal das ordens e estamentos, em
preservando ou a destruindo – e não as relações soci- sintonia com a criação da figura jurídica do cidadão –
ais que tanto produzem essa mesma tecnologia como indivíduo racional e portador de direitos formalmente
a própria modelação dos recursos e paisagens iguais aos demais concidadãos – rasgaram novos
ambientais. Esta discursividade encontra-se amplificada sulcos no envolvimento da máquina capitalista a toda
nas várias teorias sobre o desenvolvimento e o ambi- a vida social, neste caso, política. Paralelamente, uma
ente sustentável. Neste paradigma, simultaneamente grande parte das actividades humanas foi e tem vin-
teórico, académico e empresarial, as relações sociais do a ser, transformada em práticas sociais capitalis-
nunca são perspectivadas nos seus pilares estruturantes, tas, isto é, produtoras de valor.
mas, antes, nas formas tecnológicas que podem, de Ora, a natureza não fugiu a este mecanismo de
um lado, incrementar a produtividade económica e, de incorporação por parte do capitalismo. Bem pelo con-
outro lado, reduzir ao máximo a chamada relação cus- trário, o processo de expropriação-apropriação-
to/benefício ao nível do impacto ambiental. Por conse- mercadorização do meio natural foi uma grande
guinte, esta segunda discursividade está fortemente vantagem para o modo de produção capitalista, na
embrenhada num ideário neoliberal e tem tido uma forte medida em que
influência na obnubilação do papel das relações soci-
ais capitalistas sobre o meio ambiente e natural. [...] as forças naturais que não custaram nada po-
Do nosso ponto de vista, mais do que enveredar dem ser incorporadas efectivamente como agentes
esforços teóricos direccionados para compreender e no processo de produção. O seu grau de eficácia
desconstruir teoricamente estes discursos, ocupar- depende, portanto, dos métodos e avanços cientí-
nos-emos com um exercício analítico que procure ficos que não custaram nada ao capitalista (MARX,
lançar pistas sobre a relação da natureza com o ca- 1992, p. 431-432)1.
pitalismo na sua fase actual de “acumulação flexí-
vel” (HARVEY, 1991, p. 141-172; 189-197). Nesse âmbi- Aliás, a própria lógica concorrencial capitalista
to, o percurso do artigo contempla três secções. As interactua com a natureza de modo a cumprir o de-
duas primeiras abordam, respectivamente, o que cha- sígnio da obtenção do lucro fácil e imediato:
mamos de tripé expropriação-apropriação-
mercadorização e as formas possíveis de merca- Quando uma empresa se apropria dos recursos na-
dorização do meio natural no capitalismo neoliberal turais colectivos, que não são propriedade privada,
das últimas décadas. Importa ainda sublinhar que na imediatamente reduz os custos de produção, con-
secção primeira a ênfase é dada ao movimento de correndo vantajosamente com aqueles que paga-
aproximação do modo de produção capitalista à es- ram pelas matérias-primas similares (FOLADORI,
fera ambiental, enquanto que, em complemen- 2001, p. 114).
taridade, na secção seguinte, o ângulo privilegiado é
o dos efeitos do referido tripé no interior da própria Consequentemente, a natureza, apesar de ser pon-
natureza. A última secção avança com algumas pos- to de apoio e suporte das sociedades humanas, é re-
síveis pistas de reflexão em torno do que é específi- duzida a um patamar de subordinação no capitalis-
co e do que é transversal entre a crise ambiental e a mo. De facto, essa posição e papel da esfera natural
crise estrutural do capitalismo. No final, discutem-se defronte do modo de produção capitalista não é obra

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do acaso ou de um acto único e original. Na realida- cia é apenas uma possível manifestação, um método
de, há que ter em conta o processo através do qual o entre outros, que está ao serviço de algo bem mais
capitalismo “engole” e fagocita a natureza: o tripé substantivo: a retirada de uma actividade ou fenómeno
expropriação-apropriação-mercadorização. natural – as condições de produção mencionadas na
Em primeiro lugar, a expropriação é pilar essenci- primeira secção do trabalho – do seu estado de exis-
al do sistema de produção em pauta, sem a qual é tência anterior para o quadro do capitalismo.
impossível criar as bases mínimas para a exploração Todavia, a expropriação não é sinónimo de pro-
capitalista. dução do meio ambiente em valor de troca. É, an-
tes, o primeiro de três momentos que procedem à
A primeira e a mais fundamental base social para o incorporação da natureza na esfera da acumulação
capitalismo é a produção histórica de trabalhado- de capital. Assim, a apropriação surge como o mo-
res ‘livres’, a qual, simultânea e contraditoriamen- vimento de constituição da propriedade privada.
te, assegura a concentração da propriedade das Quer dizer, se a expropriação separa os trabalha-
condições de produção (FONTES, 2005, p.168, gri- dores (e outras classes não exploradoras de força
fo do autor). de trabalho alheia) das condições de produção, a
apropriação constitui a acção de transformar – por
Isto significa que a expropriação tem uma dupla via legal e por via da constituição de novas práticas
vertente ao actuar: a) como motor do desapossamento económicas, produtivas ou não – o que foi retirado
dos meios de produção (e seus saberes anexos) em da esfera não mercantil em propriedade de um ca-
prol da produção e realização de valor; b) como factor pitalista ou grupo económico. O carácter inerente
de resgate da terra, logo, da natureza, anteriormente da apropriação ao capitalismo é por demais eviden-
pertencente aos camponeses. Daqui assoma a ideia te. É sabido o papel fundamental da expropriação
que a expropriação dos instrumentos de trabalho (dos de agricultores (camponeses) ingleses do século 16
artesãos) e da terra (dos camponeses) no período ao século 18, seguido de um movimento de apropri-
pré-industrial constituiria uma singularidade histórica ação privada dos terrenos comunais em enclosures3
e apenas presente numa fase de génese e ascensão na transição do feudalismo para o capitalismo. Na
do capitalismo. Ora, do nosso ponto de vista, tal não Europa, e um pouco por todo o mundo ocidental, a
faz sentido. A expropriação, vista como fenómeno questão da delimitação das Zonas Económicas Ex-
de resgate da natureza e meios de produção2, não se clusivas – a colonização capitalista dos oceanos –
cingiu a um determinado período histórico mais ou ou a crescente e recente privatização dos serviços
menos longo – a acumulação primitiva. municipalizados das águas são duas exemplificações
Como afirma Fontes (2005, p. 172), “a expropriação de como a apropriação objectiva a transformação
[...], base das relações sociais capitalistas, incide, por- da natureza numa futura mercadoria.
tanto, desde as pré-condições para a realização de O elo final da cadeia de incorporação capitalista
qualquer produção sob o capitalismo até os elementos da natureza é a mercadorização. Basicamente,
de criatividade gerados no acto do trabalho e não se corresponde ao processo final de articulação entre
limita a um momento primitivo [...]”, mas antes deve a natureza e o processo de trabalho, em que este
ser entendida como um continuum permanente. introduz o trabalho assalariado como agente trans-
Ainda hoje, as “ondas sucessivas de expropria- formador da natureza numa matéria qualitativa di-
ção dos camponeses em proveito de formas concen- ferente, portadora de uma utilidade social e, sobre-
tradas de exploração da terra (desflorestamento, plan- tudo, de valor de troca. Ou seja, transforma-se em
tações, pecuária extensiva, etc.) para a exportação uma mercadoria. E isto tanto no que diz respeito à
aos países capitalistas centrais” contribuem decisi- passagem directa da natureza a uma mercadoria –
vamente para a ofensiva do capitalismo sobre o (imen- a sardinha pescada, armazenada e conservada até
so) campesinato da periferia do sistema capitalista chegar ao mercado – como no que concerne ao
internacional e sobre a pilhagem dos recursos natu- embutimento da natureza na produção de outras
rais. Daí que não possamos dissociar a questão soci- mercadorias – as frutas que serão adicionadas e
al (de classe) da questão ecológica, já que se está transformadas com outros ingredientes químicos na
perante “um processo em que as destruições produção de sumos, por exemplo.
ambientais e ecológicas cada vez mais irreversíveis Porém, o processo de mercadorização vai ainda
estão acompanhadas por agressões constantes mais longe. A própria valorização da mercadoria-na-
desferidas contra as condições de vida dos produto- tureza na parte final (D’) do ciclo de rotação do ca-
res e de suas famílias” (CHESNAIS, 2003, p. 52). pital é uma novidade histórica do capitalismo. Com a
Uma advertência. A expropriação não se resume hegemonia da burguesia financeira monopolista no
nunca ao uso da violência per si, embora tenha sido sistema capitalista internacional, toda e qualquer
esse o sinal mais visível da retirada forçada da terra mercadoria é cotada em bolsa, transformando-se num
dos camponeses na Inglaterra pré-industrial. A violên- título. Desse modo, a natureza não vale pelo que pode

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proporcionar ao desenvolvimento colectivo das ca- de capital são considerados como barreiras a ultra-
pacidades e necessidades humanas, mas pelo que é passar” (FOSTER, 2002, p. 96). Nesse domínio, para o
passível de rentabilizar nos mercados financeiros. modo de produção capitalista, tudo é passível de ser
Segundo Chesnais (2003, p. 57, grifos do autor): mercadorizado. Mas será que a dinâmica de desen-
volvimento do capitalismo assente no (máximo) lu-
As políticas neoliberais enfatizaram a criação de cro é eternamente compatível com os recursos natu-
mercados financeiros especializados cujo objectivo rais disponíveis e seu ritmo próprio de reprodução
é a imposição de direitos de propriedade sobre ele- (química, biológica ou fóssil)?
mentos vitais como o ar, mas também a biosfera en-
quanto tal, que devem deixar de ser ‘bens livres’ e
tornar-se ‘esferas de valorização’ fundadas pela ins- 2 Expressões contemporâneas da natureza
tauração de direitos de propriedade de um tipo novo mercadorizada
(os ‘direitos de poluir’) e de mercados ad hoc.
A identificação científica dos nexos que edificam
Estamos em crer que este aprofundamento da o complexo metabólico natureza/capitalismo implica
mercadorização dos recursos naturais induz um efei- um ponto de partida que “no que respeita ao meio
to de ilusão no tocante à natureza, pois esta é ambiente, o capitalismo considera-o não como algo
percepcionada nos mercados financeiros como um para ser fruído mas como um meio para a produção
recurso contábil e numérico que deambula pelos de lucro e para uma cada vez maior acumulação de
ecrãs dos correctores de Wall Street. Este fenó- capital” (SWEEZY, 2004, p. 92). Nesse domínio, na li-
meno, portanto, iguala o ar, a água, os solos, a uma nha do que se tem argumentado neste trabalho,
junk bond, a um fundo de pensão ou a uma taxa de Sweezy chama a atenção para o posicionamento de
câmbio. É o fetichismo da mercadoria levado ao subalternização da natureza face ao modo de produ-
extremo, onde a raiz social e material da incorpora- ção capitalista. Acerca disto parece-nos oportuno
ção da natureza no esquema de reprodução alargada acrescentar que
do capitalismo não só é esquecida, como a lógica
de intercâmbio homem/natureza é posta de pernas O ambiente natural – tal como todas as condições
para o ar. necessárias de produção – é dotado de um certo
Rematando esta secção, é de todo pertinente carácter social na medida em que serve como con-
apontar que o tripé expropriação-apropriação- dição do trabalho combinado da comunidade. Este
mercadorização não existe separadamente na re- carácter social é capitalista já que a natureza é apro-
alidade social. Só de um ponto de vista de inteligi- priada, redesenhada e espoliada pelo capital em li-
bilidade expositiva justifica-se a abordagem sepa- nha com os imperativos da acumulação monetária
rada dos três momentos. Na verdade, nenhum de- (BURKETT, 1999, p.178).
les existe isoladamente. Isso pode parecer bastante
óbvio para a mercadorização. O postulado básico Ou seja, para além da percepção da conexão ca-
do capitalismo para converter qualquer quantidade pitalismo/natureza – baseada na mercadorização desta
de matéria (bruta ou transformada por mediações – importa compreender como o circuito económico
produtivas sucessivas) em capital-mercadoria, atra- capitalista actua, no concreto, sobre o meio ambien-
vés do trabalho humano aí condensado, obriga ne- te. Entretanto, o investigador social que se dedica ao
cessariamente à prévia separação dos trabalhado- estudo das questões ambientais também deve ter em
res das condições de produção – a expropriação – mente que
e a constituição da propriedade privada legalmente
instituída – a apropriação. Ao reduzir a relação humana com a natureza pura-
Contudo, a expropriação não existe sem mente a termos de posse individual, o capitalismo,
mercadorização, pois esta é o alfa e ómega daquela. a prazo, representa não tanto um desenvolvimento
Quer dizer, a expropriação não ocorre por si mesma frutífero das necessidades humanas e poderes no
e para si mesma. Ao inverso, a expropriação (e a domínio da natureza, mas cada vez mais a alienação
subsequente apropriação) é sempre levada a cabo da natureza relativamente à sociedade em ordem a
porque existe um objectivo muito preciso a alcançar: fomentar uma relação unilateral com o mundo
a produção de mais-valia. (FOSTER, 2002, p. 31).
Por conseguinte, o movimento expropriação-
apropriação-mercadorização é recorrente no ca- Por outras palavras, a natureza do capitalismo é
pitalismo e é a sua lógica nuclear de transformação capitalizar a natureza. Capitalizar no sentido de a
do espaço externo à mecânica produtiva e, posteri- adequar aos intentos da produção de lucro.
ormente, em valor de troca. “Todos os aspectos hu- De facto, esta situação não se configura mera-
manos ou naturais que interfiram com a acumulação mente num plano discursivo, mas ocorre na realida-

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de concreta. Aliás, aqui se pode encontrar uma das Consubstanciado na actual fase de desenvolvi-
diferenças mais significativas entre o materialismo mento do capitalismo à escala mundial, conduz ao
dialéctico – enquanto método de investigação – e enfraquecimento da capacidade política de sobera-
as restantes correntes teóricas do mainstream nia por parte das nações periféricas, com evidentes
académico. Para o marxismo, o quadro teórico nun- consequências no seu meio ambiente. Assim, não é
ca se reduz a si mesmo. Quer dizer, o arsenal de todo crível que não se reconheçam os efeitos ne-
conceptual nunca vale por si mesmo e deve procu- gativos do capitalismo sobre os povos da periferia,
rar adequar-se e derivar ao máximo da realidade no que ao nível ecológico mais diz respeito. Com efei-
empírica. O objectivo da teoria marxista é, portan- to, um dos problemas ambientais que mais tem
to, construir um corpo teórico o mais aproximado afectado a periferia nas últimas três décadas é a re-
possível do real, extraindo-lhe as suas propriedades cepção de lixos e refugos provenientes do centro,
estruturais mais características e a riqueza das com- dos países capitalistas mais avançados. Os próprios
plexas contradições que animam a profusão de di- promotores e defensores das políticas neoliberais
nâmicas que determinam tendências propensas à neste campo são, sobre esta questão, muito claros.
mudança social. Por conseguinte, no marxismo, a Um economista do Banco Mundial, Summers (1992,
produção teórica não é um momento da investiga- p. 48), afirmava que
ção redigido a priori ao qual a realidade terá de
encaixar. Inversamente, a teoria deve partir do real A medida do custo necessário para enfrentar as
– sem se confundir com este – de modo a construir consequências da poluição sobre a saúde depen-
uma nova e renovada caixa de ferramentas de da amplitude da redução dos custos induzidos
categoriais e operativas, isto é, para se chegar a por uma mortalidade e uma morbidade aumenta-
uma teoria o mais apurada possível no sentido da das. Desse ponto de vista, a poluição danosa para
interpretação e transformação da sociedade. a saúde deveria estar nos países onde esses cus-
Este breve parêntesis epistemológico tem toda a tos são os menos elevados, que são os países com
pertinência face à necessidade que existe em interli- os custos salariais mais baixos.
gar os problemas ambientais mais concretos com a
arquitectura geral do modo de produção capitalista Ou seja, os países da periferia da economia-mun-
( HUGHES, 2000 ). Por exemplo, a configuração do capitalista.
económica e social das formações sociais do sistema A própria OCDE (apud CHESNAIS, 2003, p. 71)
capitalista internacional concorrem directamente para perspectivava que
a degradação do meio ambiente. Nesse domínio,
A preservação dos recursos da biodiversidade es-
A dívida constitui um tributo perpétuo que só po- taria mais bem assegurada se fosse privatizada, em
dem continuar a servir pagando o preço da destrui- vez de ser submetida a um regime de livre acesso,
ção das populações e da pilhagem dos recursos no qual os utilizadores praticariam uma exploração
naturais. A transferência das actividades industri- de curto prazo segundo o princípio ‘primeiro a che-
ais dos grupos multinacionais só diz respeito a uma gar, primeiro a ser servido’.
minoria de países, aqueles que combinam baixos
custos salariais e uma mão-de-obra frequentemen- Contudo, a poluição e a destruição do ambiente
te qualificada e, se possível, uma procura interna não se restringem ao Terceiro Mundo. Um parale-
de dimensão importante. Noutros países, a explo- lismo interessante de analisar é o fenómeno ocorrido
ração dos recursos naturais permanece como o dentre os países que receberam vultuosas deslo-
maior objectivo do capital acompanhado, hoje em calizações industriais e com isso um crescimento
dia, da apropriação dos processos do vivente pe- desmesurado da degradação ambiental. Esse é o caso
los grupos financeiros da química e da farmácia da Coreia da Sul – o principal “Tigre Asiático” dos
(CHESNAIS, 2003, p. 69). anos 1960 e 70 – e da China. A feroz industrialização
destes países resultou em enormes prejuízos ecoló-
Por conseguinte, o imperialismo total de que nos gicos, pondo a nu o carácter intrinsecamente des-
fala Florestan Fernandes (1975, p. 78) truidor do capitalismo. Segundo Foster (2002, p.
81),“Um estudo nos anos 80 concluiu que 67% das
[...] organiza a dominação externa a partir de dentro chuvas em Seul continham níveis elevados de peri-
e em todos os níveis da ordem social, desde o con- gosos ácidos para os humanos” e que, em 1989,
trolo da natalidade, a comunicação social, o consu-
mo de massas, até a educação, a transplantação de [...] o governo descobriu que a água nas estações
tecnologia ou de instituições sociais, a moderniza- de tratamento continha metais pesados como
ção da infra e da superestrutura, os expedientes cádmio, ferro, ou magnésio com mais do dobro dos
financeiros etc. valores máximos aceitáveis. O uso de pesticidas

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cresceu 26 vezes entre 1967 e 1985, fazendo da agri- poluição, pois práticas ambientais não-agressoras
cultura sul-coreana uma das mais sobrecarregadas do ambiente são incorporadas no estoque do capi-
de pesticidas por hectare do mundo. Os pesticidas, tal (LEADBEATER apud FOSTER, 2002, p. 22).
como se sabe, são uma das fontes principais de
poluição dos lençóis de água subterrânea. Na verdade, a consideração das externalidades
– o ambiente – como um mero custo monetário pelo
Destruição ecológica que inevitavelmente se es- mercado não resolve em nada os graves problemas
tende à saúde pública das populações: ecológicos que ferem o planeta de morte. A euforia
patenteada na década de 1990 de que a chamada
A Coreia do Sul tem uma das mais elevadas taxas “Nova Economia” constituiria um momento históri-
de doenças profissionais do mundo, a grande mai- co do capitalismo liberto de contradições, de desi-
oria delas derivadas de ambientes de trabalho insa- gualdades sociais e de desastres ecológicos revelou-
lubres, e onde 2,66 pessoas por 11 indivíduos so- se uma noção falaciosa. De facto, o capitalismo –
frem deste tipo de doenças (FOSTER, 2002, p. 82). mesmo na sua forma económica e tecnologicamente
mais desenvolvida – não produz nem selecciona as
No que toca à China, percebe-se que a introdu- tecnologias ou recursos energéticos com uma me-
ção e o desenvolvimento de dinâmicas capitalistas nor carga poluente. Recorrendo ao petróleo como
na sua formação social induziram fortes padrões de exemplificação, a sua dominância quase hegemónica
degradação ecológica. Ou seja, no panorama energético não se deve a qualquer tipo
de preocupação ambiental por parte dos grandes gru-
[...] tem havido um aumento dramático pela procura pos económicos, mas porque essas mesmas
de recursos naturais de todos os géneros, incluin- multinacionais oligopolísticas são hegemónicas na ins-
do água, terra e recursos energéticos. Ao mesmo tância económica. Isto significa que são as indústri-
tempo, os níveis de poluição da água e do ar dispa- as petrolífera e automóvel4 que mais se beneficiam
raram. Mais de 75% das águas dos rios que percor- com a persistência do uso deste recurso natural, ocul-
rem as zonas urbanas da China são impróprias para tando até, por vezes, o facto de se tratar de um re-
consumo ou para pescar. Cerca de 60 milhões de curso com uma existência finita.
pessoas têm dificuldade no acesso à água potável, Por conseguinte, a utilização de recursos
e quase três vezes esse número bebem água conta- energéticos de cariz alternativo e não poluentes (ener-
minada. A desertificação, que afecta um quarto da gia solar, eólica, marés etc.) está longe de ser uma
superfície da China, está a forçar dezenas de milha- questão estritamente técnica, na medida em que “no
res de pessoas a migrar todos os anos (HART- capitalismo, são os recursos energéticos que geram
LANDSBERG; BURKET, 2004, p. 6). lucros para o capital e não os que comportam maio-
res benefícios para a humanidade e para a Terra”
No fundo, sustenta-se a tese de que a super con- (FOSTER, 2002, p. 100).
centração de indústria capitalista em determinadas A temática da tecnologia no modo de produção
zonas do globo comporta fortes desfigurações do meio capitalista acalenta uma vasta discussão, nunca fi-
ambiente e da saúde pública. cando circunscrita à temática dos recursos
No centro do sistema capitalista internacional, é energéticos. Aliás, o capitalismo demonstrou ter uma
constantemente veiculada a virtualidade do modelo dupla face contraditória na relação que o homem foi
neoliberal inspirado na proporcionalidade directa en- estabelecendo com a natureza. Ou seja, por um lado,
tre aumento dos níveis de competitividade e correlativa é inegável que o desenvolvimento da tecnologia no
elevação dos padrões de desenvolvimento sustentá- capitalismo teve um alcance civilizacional espantoso
vel (social e ambiental). O paradigma neoliberal con- no plano do domínio das forças da natureza e mes-
sidera igualmente que a sociedade caminha no senti- mo do seu conhecimento. A explosão das Ciências
do da desmaterialização da produção económica, Naturais na modernidade é fruto do desenvolvimen-
coexistente com uma descolagem do crescimento to extraordinário das forças produtivas no capitalis-
económico relativamente ao uso de energia e mate- mo. Porém, por outro lado, o desenvolvimento cien-
riais poluentes para o meio ambiente. Nesta visão, tífico e tecnológico no capitalismo está adstrito e
nada deve ser levado a cabo para diminuir os efeitos estruturalmente dependente da mecânica evolutiva
da expansão económica sobre a natureza, na medida do processo de produção de valor. Quer dizer, com a
em que se argumenta que a constante inovação dominância societal da produção de mais-valia, a ci-
tecnológica capitalista e o mercado livre resolvem ência é fomentada, apoiada e estimulada quando per-
este problema por si mesmos. Assim, mite elevar o volume de extracção de valor proveni-
ente do trabalho humano. Noutros termos, a ciência
[...] numa economia desmaterializada, o crescimento é desenvolvida fundamentalmente nas áreas onde
económico tem sido ‘desconectado’ [delinked] da pode, de múltiplas formas – umas mais directas, ou-

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tras mais indirectas – elevar a produtividade do tra- no desenvolvimento das potencialidades intelectu-
balho e, consequentemente, a taxa de exploração. ais de “todos” os seres humanos. Por exemplo, na
Contudo, a ciência – instrumento essencial no co- agro-biotecnologia, o conhecimento tem sido adqui-
nhecimento e na mediação sociedade/natureza – é rido e aplicado no sentido de manter, quando não
separada dos produtores directos. Isto implica que a aprofundar, a monocultura em vários países da pe-
autonomização (do controlo do exercício) da ciência riferia. As sementes terminator5 são um produto
relativamente aos trabalhadores provoca a da ciência no capitalismo, pois apenas visam au-
desvinculação do trabalhador das funções de coor- mentar o controlo das grandes corporações do
denação, direcção e gestão do processo de trabalho agrobusiness sobre as terras dos camponeses do
e de concepção dos bens a produzir. Terceiro Mundo e, simultaneamente, reproduzir uma
Daí que configuração económica mundial assente na depen-
dência económica e no subdesenvolvimento de am-
A sujeição da ciência ao capital tenha um carácter plas faixas territoriais da periferia.
anti-ecológico enraizado no tratamento do capital De facto, na análise de todas estas questões uma
à natureza como veículo para a produção de valo- interrogação se levanta: que limites se impõem a este
res vendáveis. Com a produção capitalista, a natu- modo de intercâmbio com a natureza nas suas múlti-
reza transforma-se num mero objecto, numa mera plas vertentes acima abordadas? A partir deste pon-
utilidade; deixa de ser reconhecida como um poder to ganha importância a necessidade de se repensar a
em si mesmo; e a descoberta teórica das suas leis articulação entre o estado actual dos biossistemas
autónomas aparecem então como uma prática para terrestres e as balizas possíveis para o desenvolvi-
subjugar a natureza ao capital, seja como objecto mento do capitalismo enquanto forma de organiza-
de consumo, seja como meio de produção. Este ção social.
processamento instrumental da natureza, conduzi-
do pelo quantitativamente ilimitado e qualitativa-
mente homogéneo objectivo da acumulação mone- 3 Crise ecológica e crise estrutural do
tária, prossegue sem qualquer preocupação pelas capitalismo
diversidades, interconexões e capacidades que
governam a reprodução dos humanos com a natu- De que modo é que a crise estrutural do capitalis-
reza não humana. Como resultado, as denomina- mo (sobreprodução e dificuldades de realização da
das ‘vitórias humanas sobre a natureza’ conquista- mais-valia produzida; crescimento acentuado da ca-
das pelo capitalismo acabam por se tornar ilusórias pacidade produtiva inutilizada; queda das taxas de
(BURKETT, 1999, p. 161, grifos do autor). crescimento económico; hipertrofia financeira) se
relaciona com a actual crise ecológica? Ou seja, até
No fundo, a ciência – nomeadamente as Ciências onde é que a crise ecológica delimita as possibilida-
Naturais – como um código social de leitura do natu- des materiais de desenvolvimento do capitalismo?
ral, encontra-se submetida à lógica capitalista. O re- Partindo desta perspectiva, importa indagar a raiz
sultado acaba por ser a sua “tecnologização”, da crise ecológica que perpassa o nosso planeta. Para
exactamente o oposto do princípio da “cientifização Burkett (1999. p. 21-22),
da tecnologia”. Esta implicaria, em primeira instância,
o controlo dos meios e das condições de produção sob As crises ecológicas são geradas pelo desencontro
a alçada da classe trabalhadora. Consequentemente, temporal e espacial que existe entre a diferenciação
a ciência não seria mais dominada por uma força ex- social e a expansão da produção humana, e os limi-
terior aos produtores – o capital – logo, encontrar-se- tes quantitativos e as capacidades de absorção
ia livre dos constrangimentos da produção de valor de presentes na natureza. Mesmo neste nível geral, é
troca. Ora, com o fim da cisão produção de bens/co- claro que as relações sociais de produção, através
nhecimento científico, novas modalidades tecnológicas da moldagem das formas e planos de apropriação
poderiam derivar desta nova relação social de produ- humana da natureza, são um determinante primor-
ção. Assim, a tecnologia, num modo de produção que dial do grau e do padrão de desequilíbrios huma-
não assente mais na propriedade privada, será ten- no-ecológicos.
dente a corresponder a necessidades humanas desli-
gadas do lucro e a um crescimento do saber humano Desta perspectiva, ressalta a existência de uma
que permita um efectivo intercâmbio saudável, equili- descoincidência entre os ritmos de desenvolvimento
brado e não destruidor com a natureza. Por seu turno, da valorização do capital, por um lado, e dos proces-
a “tecnologização da ciência” corresponde, em traços sos de reprodução orgânica e inorgânica do mundo
gerais, à transformação da ciência em saber utilitário natural, por outro. Ora, as fricções e hiatos daí resul-
para posterior aplicação directa ou indirecta nas esfe- tantes, derivam do facto de o metabolismo natural se
ras da produção e circulação de capital e não centrada processar numa escala extraordinariamente extensa,

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Uma reflexão teórica sobre as relações entre natureza e capitalismo 91

claramente incompatível com o horizonte curto e res- O capitalismo tem um efeito duplo nos limites natu-
trito que a busca do máximo lucro imprime às socieda- rais da produção humana. Por um lado, através da
des contemporâneas e às relações que estabelecem apropriação de valores de uso produzidos pelo tra-
com a esfera natural. Geralmente, a natureza actua balho e pela natureza e da expansão da sua varie-
na produção de determinados recursos ao longo de dade e escopo da produção material, o capitalismo
dezenas (como o crescimento de árvores) ou milhares enfraquece os constrangimentos colocados à pro-
de anos (como a transformação de matéria orgânica dução em condições naturais particulares. Por ou-
em carvão e petróleo). O apetite voraz do capitalismo tro lado, com desenvolvimento explorador das for-
pela mercadorização de todo o social e natural exis- ças produtivas, a sua tendência para se reproduzir
tentes conduz ao desbaratar frenético do que a natu- numa escala constante e crescente, o capitalismo é
reza “oferece” à humanidade. Ao mesmo tempo, os a primeira sociedade capaz de uma verdadeira ca-
resíduos também são reabsorvidos pela natureza – tástrofe ambiental planetária, tal que pode mesmo
quando isso é possível – muito lentamente, isto é, a um colocar em risco os requisitos materiais para a sua
ritmo muitíssimo inferior à capacidade de exogénese existência (BURKETT, 1999, p. 68).
da produção capitalista.
Desta forma, a ausência Este é, em termos gerais,
de um planeamento societal
... apesar de o capitalismo o ponto de vista de Paul
global6 que regule a produção subalternizar a natureza, Burkett que se baseia no re-
de bens de acordo com crité- conhecimento da degradação
rios de efectivo controlo eco- importa referir que esse modo da natureza como um obstá-
nómico e político por parte de culo palpável à reprodução do
quem, de facto, produz a ri- de produção não é separável modo de produção capitalis-
queza social – os trabalhado- ta. Em resumo, esta seria a
res – e, concomitantemente, da natureza. Num caso contradição magna para o
tenha em conta e respeite a desenvolvimento histórico do
especificidade da reprodução absolutamente extremo, o capitalismo enquanto sistema
metabólica natural, é endé-
mico ao capitalismo. Daí que,
desaparecimento das condições social mónico.
dominante e hege-

recorrendo a uma terminolo- naturais de produção Num sentido moderada-


gia muito em voga nas instân- mente divergente encontra-
cias política e mediática, o de- promoveriam o fim do mos François Chesnais que
senvolvimento (realmente) rejeita a ideia de que “pelo viés
sustentável seja uma impos- capitalismo e a extinção da da destruição ou de danos gra-
sibilidade no modo de produ- ves ao ambiente natural, o
ção capitalista. espécie humana. capitalismo poria em perigo, e
As diferentes velocidades até destruiria, suas próprias
a que se desenrolam os pro- condições de reprodução e de
cessos metabólicos social e natural, e seu en- funcionamento enquanto capitalismo”. Para este autor,
trecruzamento, apontam, dando uma breve
exemplificação, para a exponencial criação de lixo [...] é no âmago dos mecanismos de criação e de
nas sociedades capitalistas. Para além do “predo- apropriação da mais-valia que jazem as contradi-
mínio crescente da produção de descartáveis” ções que fazem com que ‘a verdadeira barreira da
(TEIXEIRA, 2000, p. 88), a questão que se coloca é o produção capitalista seja o próprio capital’. Na es-
que fazer com os milhões de toneladas de resíduos, fera do ambiente natural, o capital representa uma
tomando em linha de conta a forma como a nature- barreira, ou, mais exactamente, uma ameaça premen-
za absorve o lixo. Pensa-se que “metade a três quar- te para a humanidade – e, no imediato, para certas
tos dos inputs físicos anuais das economias indus- parcelas específicas dela – mas não para o capital
triais retornam ao ambiente sob a forma de lixo e em si (CHESNAIS, 2003, p. 42).
desperdícios todos os anos” (FOSTER, 2002, p. 23),
demonstrativo do “entulhamento” de que a nature- O significado desta asserção reflecte-se na cons-
za tem sido alvo. tatação de que a crise ecológica é, sobretudo, um
Se o capitalismo coloca em causa a reprodu- efeito do capitalismo e que eventuais retroactivos
ção do meio natural, em última análise podendo sobre a máquina de sucção de trabalho operário não
levar à sua completa aniquilação, que limites natu- a emperraria, na medida em que esta parece depen-
rais se levantam ao prosseguimento da lógica ca- der de si mesma para continuar a operar.
pitalista de mercadorização incessante da vida so- A nossa posição procura articular as perspecti-
cial e natural? vas de ambos os economistas. Assim, considerare-

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92 João Valente Aguiar e Nádia Bastos

mos, a partir de duas ordens de razões, a natureza taxa de lucro, funcionando como o mais pujante “en-
como um “limite externo” ao desenvolvimento do trave material interno às relações de produção capita-
capitalismo. Em primeiro lugar, porque, como aponta listas”. Daí que Marx (1991, p. 358) tenha referido que
Burkett, na sequência da citação anterior, “o capita- “a verdadeira barreira da produção capitalista é o pró-
lismo é a primeira sociedade capaz de uma verdadei- prio capital”, ou seja, o vector estrutural que actua si-
ra catástrofe ambiental planetária, tal que pode mes- multânea e contraditoriamente como alavanca e en-
mo colocar em risco os requisitos materiais para a trave7 ao desenvolvimento do capitalismo é a própria
sua existência”. Quer dizer, apesar de o capitalismo produção capitalista, sendo este o eixo nuclear onde
subalternizar a natureza, importa referir que esse modo se decide a evolução deste modo de produção do vi-
de produção não é separável da natureza. Num caso ver social. Em resumo, não é a crise ecológica que
absolutamente extremo, o desaparecimento das con- dita a orientação fundamental das relações de produ-
dições naturais de produção promoveriam o fim do ção capitalistas, apesar de ter um importante e
capitalismo e a extinção da espécie humana. Em se- inescapável papel na definição das balizas exteriores
gundo lugar, no sentido em que a natureza é a última ao prosseguimento da acumulação de capital.
fronteira para o processo de expropriação-apropri-
ação-mercadorização. Por outras palavras, a
subjectividade humana, o genoma, a biotecnologia, Conclusão
as nanotecnologias ou as neurociências surgem como
elementos que só recentemente foram alvo de uma O apagamento da questão da propriedade priva-
completa mercadorização e, simultaneamente, cons- da pela grande maioria dos ambientalistas, para além
tituem-se como das últimas áreas possíveis de explo- de reflectir a natureza de classe das organizações
ração por parte do capitalismo. Quando o ciclo de políticas ou movimentos em que actuam – classe
expropriação-apropriação-mercadorização des- média –, demonstra o efeito da penetração da ideo-
tes elementos de base biológica, química e/ou física logia dominante sobre o pensamento e a acção dos
tiver atingido toda a sua extensão, todos os seus limi- ecologistas e dos cientistas sociais que estudam a
tes, existe a possibilidade (não confundir nunca com evolução do estado ambiental do planeta.
inevitabilidade) de o modo de produção capitalista fi- Com efeito, as apostas sucessivas:
car com uma margem de manobra muito reduzida a) na defesa acrítica, isto é, esquecendo as pro-
para a reprodução alargada dos mecanismos de pro- fundas limitações do Protocolo de Quioto;
dução de mais-valia. b) em meras campanhas de consciencialização
Todavia, a natureza não é mais do que um “limite esparsas e muitas das vezes meramente sim-
externo” para o capitalismo. Isso não é mais do que bólicas, como sessões públicas de esclareci-
atender ao facto de que a dinâmica D-M-D’ – o nú- mento a crianças e jovens, como se a raiz da
cleo central da economia capitalista – pode, na melhor crise ecológica estivesse nos comportamen-
das hipóteses, ser afectado, mas nunca absolutamente tos individuais de cada agente social e não em
alterado ou superado pela crise ecológica. Com efeito, instâncias materiais duradouras, estáveis e
as relações de produção capitalistas têm “limites in- estruturantes da vida social;
ternos” e, em última instância, determinantes ao seu c) em apelos ingénuos dirigidos a instituições naci-
funcionamento: a produção de mais-valia a partir da onais e internacionais como o Fórum de Davos,
exploração de força de trabalho desapossada dos meios a OMC ou o FMI – directamente ligados à cri-
e das condições de produção obriga a um crescimento ação e consolidação de políticas económicas
constante da produtividade do trabalho de modo a ele- reprodutoras da actual crise ecológica;
var o volume de valor apropriado por toda a classe Fazem com que a luta ecológica seja facilmente
capitalista. Logo, e tendo em atenção a fortíssima con- desarmada na prática, por muito impacto mediático
corrência entre capitais do mesmo e de diferentes ra- que possam ter certas acções e iniciativas de algu-
mos económicos, o incremento da massa total de ca- mas organizações ambientalistas internacionais.
pital constante investido no processo de produção ca- Ora, como se procurou demonstrar neste ensaio, a
pitalista é uma necessidade de modo a elevar a taxa actual crise ecológica tem uma causalidade assente na
de mais-valia. Numa primeira fase, este é um podero- complexa e intricada rede de mediações que compõem
so balão de oxigénio para o sistema capitalista: eleva o a estrutura económica do modo de produção capitalis-
volume de mais-valia produzida e vai retirando os ca- ta. O tripé expropriação-apropriação-mercado-
pitais tecnologicamente menos competitivos do mer- rização ocupa neste processo o lugar central do estado
cado. O obstáculo real e material surge a partir de de degradação acelerada dos ecossistemas terrestres.
determinada altura, quando o volume de maquinaria Daí que seja de todo inviável imaginar o fim da crise
aplicado e investido no processo produtivo global se ecológica global sem uma superação do modo de pro-
torna muito superior à própria taxa de (extracção de) dução capitalista. Por conseguinte, a luta da classe tra-
mais-valia. Daqui resulta a tendência para a queda da balhadora é sempre uma luta ecológica, mas uma luta

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Uma reflexão teórica sobre as relações entre natureza e capitalismo 93

ecológica não é necessariamente uma luta de classe. MARX, K. Capital, Book III: The Process of Capitalist
Explicitando, uma luta ecológica que pretenda pôr em Production as a Whole. London: Penguin Books, 1991.
xeque a abissal destruição da natureza e dos recursos
dela derivados terá de partir de um eixo simultanea- ______. Capital, Book II: The Process of Circulation of Capital.
mente de interpretação/explicação e transformação London: Penguin Books, 1992.
social vincadamente anti-capitalista, onde a classe tra-
balhadora actua como motor do movimento social mais SUMMERS, L. Let Them Eat Pollution. The Economist, London,
geral. Só a luta das classes exploradas (classe trabalha- Feb. 8, n. 66, 1992.
dora, campesinato da periferia e outras camadas
intermédias) e a instauração de relações de produção SWEEZY, P. Capitalism and the Environment. Monthly Review,
libertas de qualquer tipo de exploração, poderão alterar New York, v. 57, n. 5, p. 86-93, Oct. 2005.
profunda e radicalmente – isto é, até a raiz – o modo
como as sociedades humanas dominam a natureza e, TEIXEIRA, F. J. O capital e suas formas de produção de
dessa forma, estabelecer um relacionamento harmoni- mercadorias. Crítica Marxista, São Paulo, Boitempo, n. 10, p.
oso e realmente sustentável do homem com a natureza. 67-93, 2000.
É do movimento de transformação das estruturas e re-
lações sociais de recorte capitalista noutro tipo de orga-
nização societal que poderá derivar uma nova relação Notas
com a natureza.
1 Todas as traduções de língua estrangeira são da autoria dos autores
deste artigo.
Referências
2 A ligação “intrínseca da expropriação” tanto sobre o trabalho como
AGUIAR, J. V. A imagem na cultura do pós-modernismo. Tempo sobre a natureza é demonstrada da seguinte forma por Guillermo
Social, São Paulo: USP, v. 22, n. 1, p. 179-198, jun. 2010. Foladori: “[...] a despeito de em todas as formas de organização
económico-social pré-capitalista ter existido uma união – ainda que
BURKETT, P. Marx and Nature: A Red and Green Perspective. relativa e variável – entre o trabalhador e seus meios de vida, ou seja,
New York: St. Martin’s Press, 1999. o trabalhador e sua natureza externa, a organização capitalista separa
de forma absoluta o trabalhador de seus meios de vida. O trabalhador
CHESNAIS, F. Ecologia e condições físicas da reprodução social: assalariado cumpre com todos os requisitos de ruptura do metabolismo
alguns fios condutores marxistas. Crítica Marxista, São Paulo: com a natureza: está separado da terra como condição natural de
Boitempo, n. 16, p. 39-75, 2003. produção; está separado dos instrumentos como intermediários de
seu corpo em relação à natureza externa; está separado de um ‘fundo
FERNANDES, F. Capitalismo dependente e classes sociais na de consumo’ prévio ao trabalho – depende de vender sua força de
América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. trabalho para comer –; e está separado do próprio processo de
produção como actividade transformadora – à diferença, por exemplo,
FOLADORI, G. O metabolismo com a natureza: marxismo e do servo feudal. É livre, mas essa liberdade deve ser entendida como
ecologia. Crítica Marxista, Rio de Janeiro: Editora Revan, n.12, isolamento, alienação com respeito à natureza externa; é livre porque
p.105-117, 2001. foram esgarçados os laços do metabolismo com o meio ambiente. É
livre no sentido de isolado” (FOLADORI, 2001, p. 108).
FONTES, V. Interrogações sobre o capitalismo na actualidade:
trabalho e capital, economia e política. In: GALVÃO, A. (Org.). 3 Propriedades agrícolas que depois da expulsão e repressão do
Marxismo e socialismo no século XXI. São Paulo e Campinas: campesinato inglês das suas terras, passaram a ser utilizadas como
Xamã e Cemarx, 2005, p. 167-196. local de pastagem de carneiros. Daí que Thomas More tenha falado
no fenómeno de sheep devouring men, dando nota da sobreposição
FOSTER, J. B. Ecology Against Capitalism. New York: Monthly dos interesses do capital sobre a própria vida humana – neste caso,
Review Press, 2002. para a valorização dos solos de forma a elevar a extracção da renda
fundiária capitalista. Mais tarde, os enclosures, primeiro tipo de
HART-LANDSBERG, M.; BURKET, P. China and Socialism: propriedade privada nos campos da modernidade, vieram a ser o
Market Reforms and Class Struggle. Monthly Review, New York, local onde se plantou boa parte do algodão – matéria-prima vital no
v. 56, n. 3, p. 2-7, Jul./Oct. 2004. arranque da Revolução Industrial inglesa assente na indústria têxtil.

HARVEY, D. The Condition of Postmodernity. Oxford and 4 “É o complexo industrial automóvel que está no coração da nossa
Cambridge: Blackwell, 1991. dependência actual do petróleo [...]” (FOSTER, 2002, p. 99).

HUGHES, J. Ecology and Historical Materialism. Cambridge: 5 Sementes modificadas geneticamente, tornadas estéreis se usadas
Cambridge University Press, 2000. em mais do que um ciclo agrícola, de modo a retirar a possibilidade

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94 João Valente Aguiar e Nádia Bastos

de uso das sementes tradicionais dos camponeses. Assim, estes João Valente Aguiar
ficam, por um lado, desarmados dos conhecimentos centenários de joaovalenteaguiar@gmail.com
cultura das terras e, por outro, dependentes das intenções económicas Doutorando em Sociologia pela Universidade do Por-
das transnacionais do ramo, como a Monsanto ou a Syngenta. A to, Portugal
redução drástica da biodiversidade – condição essencial para uma Bolseiro de doutoramento pela Fundação para a Ci-
maior capacidade de adaptação de qualquer espécie vegetal (e animal) ência e a Tecnologia (FCT)
às mudanças ambientais e dos ecossistemas ocorridas ao longo do Pesquisador do Instituto de Sociologia da Faculdade
tempo – é outra consequência do uso desta tecnologia. de Letras da Universidade do Porto (ISFLUP)

6 Ou seja, de uma organização económica, política e social que supere


a anarquia da fragmentação da produção económica global em Nádia Bastos
unidades produtivas que actuam monadicamente. No capitalismo, nadiafbastos@gmail.com
o único planeamento existente refere-se à planificação que é Professora do Ministério da Educação e Ciência,
desenvolvida dentro de qualquer empresa. Contudo, ao contrário Portugal
de uma perspectiva socialista, os produtos criados nas unidades Licenciatura em Educação pela Escola Superior de
produtivas de diferentes empresas e, portanto, toda a actividade Educação do Porto, Portugal
económica, desenvolve-se a partir do lucro que “cada grupo
económico” capitalista pretende almejar com a venda de mercadorias
no mercado. Assim, não é possível visualizar uma optimização de Universidade do Porto, Portugal
recursos em função das “necessidades globais da sociedade”, em Praça Gomes Teixeira
detrimento dos interesses individualizados, particulares de cada 4099-002
empresa. Porto – Portugal

7 Portanto, é a conjunção de três mecanismos que poderão permitir Ministério da Educação e Ciência, Portugal
a superação do modo de produção capitalista: 1) a crise do sistema Av. 5 de Outubro, 107
de extracção de mais-valia, expressa na tendência para a queda da 1069-018
taxa de lucro; 2) uma crise da condensação entre as estruturas de Lisboa – Portugal
uma formação social capitalista, ou seja, quando ocorre uma
desarticulação entre as instâncias política, económica e ideológica;
3) o papel primordial das lutas entre as várias classes pela dominância
dos princípios de organização de uma sociedade.

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