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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

Transfeminismo no Regime Farmaco-

pornográfico
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Beatriz Preciado
Tradução de Thiago Coacci

Esto u aq ui nesse b elo dia e tenho m uitíssim a vo ntad e d e falar e escutar


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o q ue vo cês tem a m e d izer. D ig o vo so tras e vo so tro s : falarei co m vo cês,

aq ui na sala, no fem inino e no m asculino p o rq ue não p arto d o p ressup o sto

q ue to d as as p esso as aq ui se id entificam co m o m ulheres, ind ep end ente d o

fato d e q ue ap arentem co m o tal. Então , m e d irig irei a vo cês na sala no

m asculino e no fem inino . Sei q ue isso inq uieta m uitas p esso as q ue p articip am

nesse tip o d e enco ntro , m as p ara m im é ab so lutam ente fund am ental não

p ressup o r o g ênero e a sexualid ad e d e q uem freq uenta am b ientes fem inistas.

Verão q ue falarei d e m im m esm a e m im m esm o alternativam ente no fem inino e

no m asculino e esp ero q ue não o s inco m o d em . D ig o p o rq ue alg um as vezes

isso levanta d iscussõ es no início d o s enco ntro s nas co m unid ad es fem inistas.

O q ue d esejo fazer co m vo cês é, rever alg uns instrum ento s co nceituais

co m o s q uais o fem inism o já trab alho u no p assad o o u co m o s q uais o

1 O rig inalm ente p ub licad o no livro Le cinq ue g io rnate lesb iche in teo ria, o p resente texto é a
transcrição d e um a fala realizad a po r B eatriz P reciad o na co nferência q ue leva o m esm o
no m e d o livro , realizad a em R o m a d e 2 a 6 d e Junho d e 2010 . A p alestra fo i realizad a em
esp anho l, m as trad uzid a p ara o Italiano e p ub licad a juntam ente co m a transcrição d as
o utras falas no referid o livro . É d esse texto em italiano q ue fo i realizad a a trad ução .
2 N d o T: não há no po rtug uês p ro no m es q ue flexio nem em g ênero q ue p o ssam sub stituir
vo so tro s e vo so tras, além d isso , m esm o no o rig inal em Italiano o s term o s em esp anho l
estavam p resentes.

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fem inism o co ntem p o râneo trab alha, p ara ver em q ue m ed id a estes

instrum ento s p ro d uzem estratég ias eficazes o u ineficazes no co ntexto p o lítico

co ntem p o râneo . Esp ero q ue a p arte teó rica não seja um esto rvo , e em ap o io

ao q ue sustento d esejo citar Jud y C hicag o , a q ual d izia q ue p ara co m eçar a

ser fem inista d eve-se p arar d e ser estúp id a. N esse sentid o creio q ue há

necessid ad e d e teo ria, há necessid ad e d e no vo s co nceito s, d e ling uag ens a

fim d e intervir criticam ente no s co ntexto s so ciais e p o lítico s no s q uais no s

enco ntram o s. É ab so lutam ente fund am ental rever as ling uag ens, as

rep resentaçõ es, as teo rias, o s d iscurso s co m o s q uais trab alham o s, inclusive

no s m esm as e no s m esm o s.

O q ue q uero fazer aq ui co m vo cê é tentar elab o rar um a g ram atica

p o lítica q ue no s p o ssib ilite d iscutir as no vas fo rm as d e co ntro le d o co rp o e

d e p ro d ução d as id entid ad es sexuais q ue, co m o lhes co ntarei, ap arecem

d ep o is d a seg und a g uerra m und ial, p o rq ue não m e p arece q ue, até o

p resente m o m ento , tem o s refletid o p o liticam ente so b re elas. O q ue falarei faz

p arte d e um p eq ueno p ro jeto d e p esq uisa e exp erim entação co rp o ral so b re o

q ual trab alhei p ara o m eu livro Testo Yo nq ui.

A ind a q ue p o ssa p arecer estranho , em 2008, co m ecei a

auto ad m inistrar testo stero na. C o m o vo cês sab em , a testo stero na é um

ho rm ô nio trad icio nalm ente co nsid erad o p elo sistem a m éd ico co m o um

ho rm ô nio m asculino (é p ensad o no m asculino : não existem ho rm ô nio s

m asculino s!) e o q ual não se p o d e ter acesso se não p o r m eio d e um

p ro to co lo d e transexualização . Então , p ara p o d er te r acesso a testo stero na

d eve d eclarar-se d isfó rico d e g ênero , o u seja, d o ente m ental e transfo rm ar-se

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em o b jeto d o sistem a m éd ico e juríd ico estatal q ue p erm ite, então , àq ueles

o b jeto s o acesso as b io tecno lo g ias co rp o rais q ue p e rm itirão um co njunto d e

m ud anças.

Vo cês m e p erg untarão – e é a p erg unta q ue to d o s m e faziam q uand o

co m ecei a escrever so b re esse p ro cesso d e into xicação vo luntária – p o r q ue

to m ar a testo stero na. O q ue aco nteceu co m ig o , no início d o s ano s d o is m il, é

q ue a m aio r p arte d as m inhas am ig as – lésb icas, rad icais, fem inistas – q ue

tam b ém p assaram m uito tem p o no s am b ientes sep aratistas rad icais,

co m eçaram a to m ar a testo stero na e a m ud ar o g ênero . D e fem inistas rad icais

estavam se transfo rm and o em transexuais. Vivend o ne sse esp aço d e várias

co m unid ad es, lésb icas, transexuais, transg ênero s, e m q ue circula m uitas

sub stâncias e m uito s líq uid o s d iverso s co m o a co caína, hero ína, p ro zac, álco o l

– co isas q ue to d o s usam o s e q ue se infiltra no co rp o em m o d o d iverso – m e

p arecia estranho renunciar a um a d essas sub stâncias ap enas p o rq ue era

necessário p assar p o r um p ro to co lo estatal d e m ud ança d e sexo . D ecid i,

então , a não p assar p o r aq uele p ro to co lo , p o r ro m p e r co m o estatuto

m éd ico -juríd ico d a transexualid ad e e co m eçar to m ar testo stero na p o r co nta

p ró p ria.

A ssim , ao invés d e m e d eclarar d isfó rico o u d isfó rica d e g ênero , d ecid i

utilizar a no ção d e yo nq ui (em ing lês junkie; p o rtug uês viciad o ) q ue em

q ualq uer m o d o já p o ssuía um a trad ição seja na p esq uisa exp erim ental, seja na

p o lítica exp erim ental, a p artir d o final d o séc XIX. Po r este m o tivo o livro é

escrito co m o um p ro to co lo d e into xicação vo luntária. N ão é um a co isa

to talm ente no va: já existiram alg uns p ensad o res auto -co b aias q ue

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exp erim entaram co m seu p ró p rio co rp o , usand o -o co m o um a p latafo rm a

p o lítica. Po r exem p lo Freud co m a co caína, B enjam in co m o hashish, etc.

M uito s p ensad o res escreveram d iário s d e into xicação vo luntária no início d o

século XX.

Tenho a im p ressão d e q ue talvez estejam p ensand o : d e q ue co isa ela

está faland o ? Enq uanto co m unid ad e virtual lésb ica, im ag inam q ue eu esteja

aq ui p ara falar so b re fem inism o , um a co isa q ue já sab em o s o q ue é. M as eu

esto u d izend o q ue não sab em o s q ue co isa é! O fem inism o é um p ro jeto q ue

estam o s co nstruind o e não o q ue tem o s falad o sem p re e q ue vo cês esp eram

q ue eu aind a fale essa no ite.

Vo cês viram a fo to g rafia d e Leo nid Ivanivic Ro g o zo v p ro jetad a aq ui, um

m éd ico q ue exp lo ra a A ntártid a no ano d e 1961. A ting id o p o r um ataq ue d e

ap end icite, d eve ab rir , so zinho , sua p ró p ria b arrig a e o p erar a si m esm o co m

a ajud a d e um esp elho . O trab alho q ue fazem o s co m g ênero e sexualid ad e é

em p arte p arecid o co m o q ue Ro g o zo v faz co m sua ap e ndicite: um exercício

d e auto -o p eração . Po r isso p ro p o nho a vo cês a im ag e m d e um cib o rg ue q ue

ajusta a si m esm o (neutro /m asculino /fem inino ), p o rq ue um a d as id eias co m

q ue trab alharei aq ui é q ue as id entid ad es sexual e d e g ênero são co nstruíd as.

N ão se trata d e d izer sim p lesm ente q ue são co nstruíd as, já vim o s q ue são . A

q uestão não é se são co nstruíd as, m as se é p o ssível intervir nesse p ro cesso

d e co nstrução : é necessário ab rir a caixa p reta d o s p ro cesso s d e co nstrução

do g ênero e da sexualid ad e q ue, se são co nstruíd o s, p o d em ser

d esco nstruíd o s, reco nstruíd o s, m anip ulad o s, transfo rm ad o s, etc. C reio q ue

esse seja o trab alho d o fem inism o .

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Q uand o co m ecei a to m ar a testo stero na, o q ue m e interessava nesse

p ro ced im ento não era m ud ar o sexo , não era transfo rm ar-m e em ho m em .

N ão acred ito na m asculinid ad e e fem inilid ad e co m o id entid ad es naturais; as

co nsid ero funçõ es p o líticas e refuto tam b ém a inscrição , a assim ilação ao

g ênero fem inino . C o m o co nseq uência não p o sso to m ar a testo stero na p ara

m e to rnar um ho m em .

Então , q uand o co m ecei este p ro cesso , d ecid i em p reend er, ao m esm o

tem p o , um trab alho d e p esq uisa, elab o rand o um a g ene alo g ia p o lítica d o s

ho rm ô nio s, ind ag and o so b re a m aneira em q ue o s ho rm ô nio s eram

co nhecid o s e co nsid erad o s um o b jeto cultural e técnico d o final d o século XIX

em seg uinte. Enq uanto seg uia co m o p ro cesso d e exp e rim entação co rp ó rea,

co m ecei um a p esq uisa, se é q ue se p o d e d izer, teó rica, so b re a g enealo g ia

p o lítica d o s ho rm ô nio s, esp ecificam ente so b re o s p ro cesso s d e co nstrução

técnica e sem ió tica, d iscursiva e cultural d aq uilo q ue no rm alm ente cham am o s

d e ho rm ô nio s e q ue co nsid eram o s sim p les o b jeto s naturais, b io ló g ico s – e

não im ag inem q ue essa m inha exp eriência co m a testo stero na tenha sid o alg o

m aravilho so p o rq ue, enq uanto to m ava, p assava to d o s o s d ias na b ib lio teca.

A q uilo q ue d irei p o r m eio d essa g enealo g ia d o s ho rm ô nio s é, em

p arte, asso ciad o ao s ano s d e d eb ates fem inistas so b re o essencialism o e o

co nstrucio nism o , teo rias naturalistas e teo rias p erfo rm ativas – d eb ates não

reso lvíveis p o rq ue, em b o ra saib am o s q ue as id entid ad es são co nstruíd as, não

sab em o s exatam ente q uais são o s p ro cesso s b io tecno ló g ico s d e suas

co nstruçõ es. Q uand o dig o co nstrucio nistas e naturalistas, não d ig o d e m aneira

p ejo rativa, não em relação ao s co nstrucio nistas, ne m ao m eno s ao s

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essencialistas: são d uas p o siçõ es teó ricas no b res, interessantes p ara o

d iálo g o . A cred ito q ue co m o p assar d o s ano s, co m alg um as exceçõ es, e

d entre essas certam ente a m ais im p o rtante é D o nna H araw ay, ho uve um a

cisão entre ling uag em e d iscurso : p o r um a p arte p elo s co nstrucio nistas, q ue

exp licam p erfo rm ativam ente o g ênero p o r m eio d e um ap arato d iscursivo

b astante co m p lexo , e p o r o utra p arte o s essencialistas q ue se o cup am d e

tud o q ue se relacio na ao co rp o , a m aternid ad e, o afeto . O lhe q ue d ivisão ,

tam b ém p o lítica!

H o je no fem inism o b uscam o s ling uag ens e p ráticas p ara exp licar seja o s

p ro cesso s p erfo rm ativo s d a co nstrução , seja o asp ecto b io ló g ico d o sexo , na

tentativa d e recup erar aq uilo q ue p ensávam o s q ue estivesse estag nad o no s

estud o s essencialistas e q ue não se p o d ia to car. A b rim o s, então , o d iscurso

p erfo rm ativo a certo s elem ento s d o essencialism o , d o s q uais alg uns o

d iscurso co nstrucio nista tinha m ed o : o co rp o , o s fluid o s, a d o ença, a invalid ez

e etc.

D urante a p esq uisa, o s ho rm ô nio s m e ap areceram co m o um m o d elo

p o ssível p ara p ensar a ação p o lítica co ntem p o rânea. A través d e um a histó ria

crítica d o s ho rm ô nio s p o d em o s co m p reend er q ue, so b retud o a p artir d o s

ano s cinq uenta d o século p assad o , ap arece e se instaura um no vo reg im e d e

co ntro le e d e p ro d ução d o co rp o , q ue d esse p o nto d e vista não estava

analisad o na histó ria d a sexualid ad e co m q ue trab alha a teo ria q ueer,

fund am entalm ente d erivad a d e M ichel Fo ucault.

Se a q uestão d o s ho rm ô nio s no m o m ento p arece p ara vo cês, p eriférica

o u b anal, verão d aq ui a p o uco q ue não é. A no ção d e ho rm ô nio é

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extrem am ente m o d erne, ap arece no ano d e 1905, co nte m p o rânea a teo ria d o

inco nsciente d e Sig m und Freud , m as so b retud o co ntem p o rânea a invenção d o

rád io e d aq uilo q ue será a co nexão sem fio , a teleco m unicação . A lém d as

teo rias m o rfo ló g icas so b re o sexo e a rep ro d ução q ue d o m inam o d iscurso

d o século XX, surg e um a teo ria so b re o q ue, a ép o ca, é cham ad o sexo

(p o rq ue a no ção d e g ênero aind a não existia): so b re o sexo co m o m eio d e

co m unicação d e m assa, m íd ia d e m assa.

Peço , m ais um a vez, p aciência se p arece q ue traço um lo ng o cam inho

d e ficção científica. M as o q ue p arece ficção científica é, na realid ad e, um

terreno p o lítico . H o je o no sso terreno p o lítico não é m ais o s d eb ates so b re

id entid ad e, m as esse. A p erg unta so b re q uais são o s p ro cesso s d e co nstrução

d as id entid ad es sexuais e d e g ênero não p o d em o s resp o nd er ap enas

p erfo rm ativam ente, d evem o s interro g ar, tam b ém , o s p ro cesso s técnico s e

b io ló g ico s d e co nstrução p o lítica.

Q uand o falava d as teo rias d o s ho rm ô nio s d o inicio d o século XX co m o

um a teo ria d as teleco m unicaçõ es, eu b uscava ro m p er co m o m o d elo estético

e m o rfo ló g ico q ue d o m ina a d efinição d a m asculinid ad e e d a fem inilid ad e no

séc. XIX p ara p ro p o r um m o d elo d e co m unicação a d istância. Ernest Starling e

A rno ld B ertho ld são o s d o is m éd ico s q ue inventaram a no ção d e ho rm ô nio s

co m o transm isso res sexuais cap azes d e ag ir a d istância, d e carreg ar

m ensag ens, co m o um cartão p o stal.

M as reto rnarem o s, p o r ho ra, a q ue co isa p o d e sig nificar d esco b rir

co m o se co nstro em ho je as id entid ad es sexuais e d e g ênero .

Q uand o co m ecei a trab alhar so b re ho rm ô nio s, tive q ue levar em co nta

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a histó ria d a sexualid ad e co m a q ual as fem inistas q ueer d a m inha g eração e

trad ição trab alharam . C o m o teó rica, m e refiro p rincip alm ente a Jud ith B utler e

Teresa d e Lauretis. H á, tam b ém , a D o nna H araw ay, m as nela a q uestão é m uito

m ais co m p lexa e levaria m uito lo ng e.

C o m q ual histó ria d a sexualid ad e tem o s feito teo ria p o lítica até ag o ra?

A histó ria usad a p elo fem inism o se b aseia em p arte so b re a leitura e

interp retação d o s texto s d e Fo ucault, o q ual, co m o sab em o s, nunca utilizo u a

no ção d e g ênero e se m anteve relativam ente distante d o s d iscurso s e d a

p rática p o lítica d o fem inism o em seu tem p o . N o s ano s o itenta um g rup o d e

fem inistas am ericanas trad uz Fo ucault e tenta, d e q ualq uer fo rm a, d ar co nteúd o

fem inista a suas análises histó ricas e g enealó g icas. C o m o m encio nava antes,

um a d as interp retaçõ es q ue p o d em o s d ar a teo ria q ueer é q ue seja um a

leitura fem inista d e Fo ucault; a teo ria q ueer seria, na p rática, um d o s resultad o s

d essa leitura.

Fo ucault p ensava a sexualid ad e co m o um a p assag em d e um reg im e d e

p o d er e p ro d ução d o co rp o q ue ele d efine co m o so b erano a um reg im e q ue

cham a d e d iscip linário , p assag em essa q ue se p assa no séc. XV III. O reg im e

so b erano p re-m o d erno d e p ro d ução d a sexualid ad e e d o co rp o se exp rim ia

fund am entalm ente p o r m eio d e um p o d er vertical relacio nad o co m o co rp o

co m o um p o d er d e d ar a m o rte. Isso m e p arece q ue co rresp o nd e ao q ue

vem o s ho je na p o lítica, no s no sso s m o d o s m o d erno s d e p ensar a vio lência d e

g ênero , a cultura d a g uerra e etc. Para Fo ucault o s reg im es d e p o d er

anterio res ao séc. XV III eram reg im es em q ue o so b e rano p o ssuía o p o d er d e

d ar a m o rte a seus p ró p rio s súd ito s – um tip o d e re g im e em q ue o d iscurso , a

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sem io lo g ia q ue co nvalid a esse p o d er é teo crático e ab so luto , não o p inável.

M as a p artir d o séc. XV III há um a m ud ança nas fo rm as d e g o verno d o co rp o ,

q ue não se d arão m ais p o r m eio d o p o d er d e d ar a m o rte, m as p ela

ad m inistração e g estão d a vid a. A q uilo q ue m e interessa é q ue no ano d e

1975 Fo ucault utiliza a no ção d e b io p o lítica p ara falar d a arte d e g o vernar “o

co rp o livre”, co nceito chave d aq uela q ue será a id entid ad e sexual na

m o d ernid ad e. Significa um sujeito d o tad o de um a lo ucura p o lítica

suficientem ente g rand e q ue, esse sujeito , p erm ite a m im d izer q uand o esse

fala d e sua p ró p ria id entid ad e. É a q uestão d a lib e rd ad e!

N a verd ad e Fo ucault não inventa essa no ção , m as resg ata d o s

d iscurso s nazistas d o s ano s 30. São as p o líticas nazistas, d o fascism o alem ão

d o s ano s trinta q ue inventam essa no ção d e b io p o lítica p ara falar d a g estão d a

vid a d a p o p ulação , e em p articular p ara realizar um a m eto d o lo g ia d e

p urificação d a raça.

Isso no s ajud a a refletir so b re as co nexõ es p o líticas d e alg uns

elem ento s q ue atravessam até as p o líticas fem inistas. Penso eu q ue o

fem inism o é um d o s p rim eiro s d iscurso s co ntra a b io p o lítica, um a d as

p rim eiras p ráticas d e resistência ao s reg im es b io p o lítico s. C o m p reend end o

b em isso , p o d em o s no s co m p ro m eter – p o liticam ente, juntas, co letivam ente,

ho je, aq ui – a p ensar q uais são as estratég ias d e resistência a b io p o lítica

co ntem p o rânea.

D o p o nto d e vista d a histó ria d a sexualid ad e p o d em o s d izer q ue há três

características fund am entais, isto é, três eixo s d e relaçõ es entre co rp o e

p o d er, d e p ro d ução tecno p o lítica d o co rp o (q ue Fo ucault d efinia co m o

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so m ato p o lítico ) q ue d eterm inam o m o d o em q ue o século XIX p ensava a

id entid ad e sexual. A lg uns d esses são p resentes e válid o s aind a ho je, o utro s,

em vez, fo ram sub stituíd o s.

Para co m eçar, em 1868 se inventa a sexualid ad e co m o id entid ad e e no

final d o século se invento u, m ais p articularm ente, as no çõ es de

hetero ssexualid ad e e ho m o ssexualid ad e, q ue não existiam antes. Em um a

assem b leia p o lítica co m o a no ssa é necessária a m áxim a p recisão co nceitual,

então , d evem o s co nsid erar q ue um d o s co nceito s so b re o s q uais rep o usam

essas co nstruçõ es id entitárias nasce internam ente a um d eb ate m éd ico e

juríd ico so b re a g estão d a d issid ência sexual, o u seja, d iz resp eito a a co rp o s

d issid entes em um esp aço p úb lico fund am entalm ente b ranco , co lo nial,

centro euro p eu. C o m o se co nstró i a id entid ad e hetero ssexual e ho m o ssexual

no fim d o séc. XIX é ab so lutam ente claro : a no ção d e ho m o ssexualid ad e so b re

a q ual fund am o s a no ssa p o lítica a p artir d o fim d o s ano s 60 é um a técnica d e

g estão b io p o lítica. D evem o s estar co nscientes d isso .

A lg uns elem ento s caracterizam a fo rm ação d o reg im e sexual d iscip linar

d o séc XIX. A ap arição d as no çõ es d e hetero ssexualid ad e e ho m o ssexualid ad e

co m o id entid ad e sexual e d ep o is co m o “verd ad e anatô m ica” é o p rim eiro d o s

elem ento s q ue caracterizam a fo rm ação d iscursiva b io p o lítica d iscip linar

surg id a no séc. XIX. O seg und o é um a co nexão estreita entre sexo e

rep ro d ução . A q ual em erg e co m o p arte d e um p ro g ram a d e g estão p o lítica

d a rep ro d ução d as p o p ulaçõ es, um sistem a institucio nal e so cial d e assistência

m éd ica e juríd ica q ue p erm ite estab elecer um a co ntinuid ad e rad ical entre sexo

e rep ro d ução . Vale d izer q ue q ualq uer ato sexual d e ve p o d er d ar lug ar a um a

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rep ro d ução sexual. Isso exp lica a p ato lo g ização d e certas p ráticas sexuais: a

ho m o ssexualid ad e não é m ais co m p reend id a co m o um a verd ad e anatô m ica,

m as co m o um a p rática sexual q ue co lo ca em p erig o a co nexão entre sexo e

rep ro d ução , assim co m o a m asturb ação , e so b retud o a m ão q ue m asturb a. O

m esm o o co rre co m a sexualid ad e anal: o ânus é um o rifício q ue em q ualq uer

m o d o co lo ca em d iscussão o u faz exp lo d ir a p o ssib ilid ad e d e co nexão natural

entre sexo e rep ro d ução . O séc. XIX está co nstruind o um co rp o , está d and o

lim ite a um co rp o e está inventand o um a co reo g rafia sexual.

Q uand o co m ecei a estud ar a g enealo g ia p o lítica d o s ho rm ô nio s

sexuais m e d ei co nta q ue p ró xim o àq uele m o d elo d e reg im e d iscip linar – q ue

Fo ucault d escreveu e co m o q ual o fem inism o q ueer (Teresa D eLauretis, Jud ith

B utler e etc) co ntinuo u a trab alhar – há um o utro reg im e, ab so lutam ente

d iverso , d e g estão d o co rp o e d a sexualid ad e, d e p ro d ução d as id entid ad es,

q ue ap areceu d ep o is d a Seg und a G uerra M und ial. C ham ei esse reg im e d e

farm aco p o rno g ráfico – ho je p o d e so ar estranho , m as d aq ui alg uns d ias, talvez,

to d as falarão d e farm ap o rno g rafia. Esse reg im e se caracteriza tanto p o r um

ab and o no d a no ção d e ho m o ssexualid ad e em term o s m éd ico s, q uanto p o r

um a fissura técnica entre sexualid ad e e rep ro d ução .

N ão se trata d e um a extensão d o velho p ro g ram a, m as um p ro g ram a

no vo d e g estão b io p o lítica. Se d esejam o s p ensar em m o d alid ad es d e ação e

resistência co ntem p o râneas, é necessário sab er q uais são ho je as

m o d alid ad es d e p ro d ução d o sexo e d as id entid ad es, d e o utras fo rm a

trab alharem o s e lutarem o s co ntra m o d elo s d o séc. XIX q ue não são m ais

p resentes d o p o nto d e vista m éd ico e juríd ico .

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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

N ó s nessa sala p o d em o s no s to rnar, a p artir d e ho je , um a assem b leia

co nstituinte. So m o s tantas e tanto s e p o d em o s fazer d e m o d o q ue no ssas

g ram áticas co nceituais e d e ação intervenham no s p ro cesso s b io p o lítico s d e

co nstrução co ntem p o rânea d o g ênero . Em alternativa p o d em o s co ntinuar p o r

ano s a aind a falar d e fem inism o co m o fazíam o s no s ano s 70, e não

aco ntecerá nad a.

D ep o is d a Seg und a G uerra M und ial ho uve um a m ud ança no s regim es

d e co ntro le d o co rp o , em p arte relacio nad o as transfo rm açõ es d a tecno lo g ia

d a g uerra em tecno lo g ia d e co m unicação e entretenim ento . A s m ud anças

fund am entais q ue p ro d uziram um a rup tura naq uela q ue era a m o d alid ad e

d iscip linar d e p ro d uzir o co rp o e a sexualid ad e são d uas. A p rim eira é q ue no

ano d e 1947 fo i inventad o a no ção d e g ênero , a seg und a é q ue a

rep ro d ução e a sexualid ad e fo ram tecno lo g icam ente sep arad as p ela p rim eira

vez na histó ria.

O co rre, habitualm ente, d e m e d ep arar em d eb ates em q ue co leg as e

am ig as fem inistas p ensam q ue a no ção d e g ênero fo i inventad a p o r nó s

fem inistas, m as não , o g ênero é um a no ção m éd ica, inventad a em um ho sp ital

p siq uiátrico . Então , creio q ue d evem o s p o sicio narm o s criticam ente tam b ém

no s co nfro nto s d essa no ção e d o s d isp o sitivo s b io te cno ló g ico s q ue essa

im p lica. Po r ano s as fem inistas utilizaram a no ção d e g ênero co m o co nstrução

so cial e cultural d a d iferença sexual, m as fazend o assim , p erd em o s d e vista o s

p ro cesso s b io tecno ló g ico s q ue no s tro uxeram a sua invenção . C o ntarei a

vo cês ag o ra. A no ção d e g ênero nasce no s Estad o s U nid o s e sua criação se

d eve a Jo hn M o ney, um p siq uiatra d a infância q ue a cria p ara sup erar a id eia

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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

anatô m ica d e sexo d efinid o , d e um a vez p o r to d as, no nascim ento . Jo hn

M o ney p ro p õ e ao invés um a no ção d e g ênero flexível e co nstruíd o

tecnicam ente, q ue p erm ite d ecid ir se um b eb ê terá o g ênero m asculino o u

fem inino p o r m eio d e d iverso s p ro cesso s cirúrg ico s e ho rm o nais q ue

m o d ificam o co rp o d aq ueles q ue a m ed icina d e então cham ava neo nato s

intersexuais.

Em 1947 a instituição m éd ica g anha co nsciência d o fato d e q ue existem

m ais d e d o is sexo s o u, d ito d e o utro m o d o , q ue é im p o ssível visivelm ente e

m o rfo lo g icam ente d eterm inar a verd ad e d o sexo d e um co rp o . H avia, assim ,

um p ro cesso técnico p ara m asculinizar o u fem inilizar o co rp o d aq ueles

neo nato s cujo sexo não era p o ssível d e classificar nas d efiniçõ es trad icio nais

d e m asculinid ad e e fem inilid ad e. Isso sig nifica q ue a m ed icina d o s ano s 40

p ratico u um essencialism o d e tip o co nstrucio nista – e atenção : isso já g era

im p acto s nas d iscussõ es sucessivas no fem inism o .

A m ed icina d o s ano s 40 se d á co nta q ue nem cro m o sso m icam ente,

nem m o rfo lo g icam ente p o d e-se falar d e m asculinid ad e e fem inilid ad e. To d avia,

frente a essa am b ig uid ad e o u m ultip licid ad e rad ical p ro p õ e d o is único s

m o d elo s b io ló g ico s, p o d em o s d izer b io p o lítico s, q ue req uerem um co njunto

d e o p eraçõ es d e m utilaçõ es sexuais, d ad o q ue o s neo nato s intersexuais serão

m utilad o s em b enefício da fem inilid ad e. C reio q ue se o fem inism o

co ntem p o râneo se p o sicio nará d e m o d o rad ical no s co nfro nto s d esses

p ro cesso s d e co nstruçõ es b io tecno ló g icas, p rim eiram ente d evem o s refutar a

d esig nação sexual m asculina o u fem inina enq uanto p ro cesso d e no rm alização

b io p o lítica d o co rp o .

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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

N ão m e d elo ng o so b re a q uestão d o s neo nato s interse xuais e sei q ue

há p esso as na sala q ue não sab em o q ue é a intersexualid ad e, então ,

resp o nd erei às p erg untas. A q uilo q ue q uero d izer é: im ag inem a fo rça p o lítica

q ue p ro d uzirem o s se as p resentes – d e fo rm a ind ivid ual, co letiva e d e m assa –

fo ssem ao cartó rio o u q ualq uer o utra instituição co m p etente p ara req uerer a

anulação d a d esig nação sexual d e seu p ró p rio d o cum e nto d e id entid ad e. N ão

se trata d e m ud ar o sexo , m as d e refutar o sistem a b io p o lítico d e d esig nação

sexual. Po d eria ser um p ro g ram a p o lítico d e luta co letiva. Po d em o s dizer: a

p artir d e am anhã farem o s um a red e euro p eia, irem o s a B ruxelas e d irem o s

não , não aceitam o s o seu reg im e d e no rm alização d o co rp o . N ão so m o s

cúm p lices d as suas ficçõ es b io p o líticas, não as q uerem o s, não q uerem o s a

m asculinid ad e e a fem inilid ad e. Im ag inem a reviravo lta p o lítica q ue isso

p o d eria causar: co lap saria o sistem a institucio nal euro p eu! H o je a Euro p a está

intro d uzind o leis so b re o m atrim ô nio ho m o ssexual p ara acalm ar-no s, p ara no s

co nced er acesso ao s sup o sto s p rivilég io s d a so cied ad e hetero ssexual. O

m atrim ô nio , eu as lem b rarei, é tam b ém o único acesso ao s p ro g ram as d e

im ig ração : p ara um im ig rante a única via d e acesso a nacio nalid ad e euro p eia,

a p arte d e esp erar ano s p ara ser reg ularizad o , é o m atrim ô nio . A recusa à

no rm a d e d esig nação sexual m asculina e fem inina co m p o rtaria a falência d o

sistem a institucio nal euro p eu. A q uilo q ue d everia e star em crise não é o

sistem a eco nô m ico , m as o sistem a b io p o lítico d e p ro d uzir sub jetivid ad es. Essa

crise p o d em o s criá-la am anhã d eclarand o -no s neutro s, sem g ênero , rejeitand o

co letivam ente e em m assa o sistem a sexo -g ênero . A p artir d aq ui lanço um

ap elo , p o rq ue, d aq ui a p o uco , iniciarei um p ro ced im ento p ara req uerer a

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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

B ruxelas q ue sejam elim inad o s o m asculino e o fem inino d a m inha carteira d e

id entid ad e sem p assar p o r um p ro cesso d e m ud ança d e sexo , e p ed irei,

então , a d efinição d e neutro . Esse p ro ced im ento não terá rep ercussão p o lítica

se fo r m eram ente ind ivid ual, m as terá se fo r um a ação co letiva. D evem o s no s

vo ltar a B ruxelas em m assa p ara req uerer q ue se d ê fim a no ssa cum p licid ad e

co m aq uele sistem a b rutal d e d efinição , sistem a q ue eu cham arei d e vio lência

institucio nal d e g ênero , im p o sição d e um g ênero m asculino o u fem inino ao

nascer.

C o m o eu d izia, entre 1943 e 1953 a no ção d e g ênero e a g estão d o s

co rp o s intersexuais ap arece q uase co ntem p o raneam ente a no ção de

transexualid ad e, q ue p o r um a g estão institucio nal, vai sub stituir as categ o rias

p reced entes d e ho m o ssexualid ad e e hetero ssexualid ad e. Rep ensem o s o q ue

o co rre a p artir d a Seg und a G uerra M und ial: a invenção d a no ção d e g ênero ,

invenção d a intersexualid ad e, invenção , então , d aq uilo q ue cham arei d e no va

estética p o lítica d o co rp o . A m ed icina utiliza tanto d a cirurg ia estética, q ue

naturalm ente não é co nsid erad a cirurg ia estética, q uanto d o s ho rm ô nio s p ara

m asculinizar o u fem inilizar artificialm ente o co rp o d o s neo nato s.

Estam o s d e frente a um a no va g ram ática, estam o s d e frente a um no vo

co njunto d e estratég ias d e g estão b io p o lítica. N ão se trata m ais d a g estão

trad icio nal feita p o r m eio d a ho m o ssexualid ad e e d a hetero ssexualid ad e.

Verão q ue não estam o s nem ao m eno s na g estão d iscip linar q ue co nsistia na

co m b inação d o sexo e d a rep ro d ução co m o fato s naturais. A s técnicas

d iscip linares d e co ntro le d o co rp o e d a sexualid ad e d o século XIX eram

técnicas externas, o rto p éd icas. Vale d izer q ue p ara no rm alizar um co rp o era

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necessário inseri-lo em um a arq uitetura d iscip linar: na p risão , no ho sp ital

p siq uiátrico , no ho sp ital, na fáb rica, na fam ília, o u seja, no esp aço d o m éstico .

O p o d er se d irig ia a um co rp o , trab alhava co m um co rp o co ntro lad o

exterio rm ente, relacio nand o -se co m ele p o r um a esp é cie d e o rto p ed ia

externa. A s instituiçõ es são m aciças, d uras, arq uitetô nicas e exatam ente p o r

isso são d ificilm ente transfo rm áveis: p o ssuem g rand e fo rça e estab ilid ad e.

Essas são as instituiçõ es típ icas d o séc. XIX.

Esse no vo reg im e d e co ntro le e p ro d ução d a sub jetivid ad e, q ue cham ei

d e farm aco p o rno g ráfico , e d irei p o r q ue, não vai sub stituir co m p letam ente as

fo rm as d iscip linares d e co ntro le e p ro d ução d o co rp o , m as se so b rep õ em a

esse. Isso exp lica p o rq ue as no ssas id entid ad es sexuais e d e g ênero são ho je

resultad o d e um em b ate, d e um co nfro nto , tam b ém d e tensão e um a luta

entre três reg im es d e co ntro le e p ro d ução d o co rp o : o reg im e so b erano ,

co m o p arte d a g estão d a m o rte, d o p o d er d e d ar a m o rte; d o d iscip linário ,

g erid o através d e instituiçõ es ho sp italares, d a esco la, d a fam ília, d o esp aço

d o m éstico ; e p o r fim , o reg im e q ue utiliza um co njunto d e no vas técnicas q ue

não são m ais exterio res, m as b io ló g icas. Se trata d e m o léculas, d e fluid o s q ue

p ela p rim eira vez entram a fazer p arte d o co rp o e m o d ificam a estrutura d o

vivente. É alg o ab so lutam ente no vo , d iferencia-se co m p letam ente d aq uilo q ue

o co rria no séc. XIX e d eve, então , m o d ificar as no ssas fo rm as d e reação

p o lítica.

A técnica p o r excelência de co ntro le do co rp o do re g im e

farm aco p o rno g ráfico não é o utra q ue aq uela q ue fo i e ufo ricam ente receb id a

p elo fem inism o hetero ssexual d o s ano s 70: a p ílula. Perceb er isso fazend o

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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

p esq uisa fo i q uase um a surp resa. C o m o nunca fui hetero ssexual, nunca to m ei

a p ilula. Para m im era um o b jeto to talm ente entranho , tanto q ue nunca p ensei

em fazer um a p esq uisa so b re. M as o b viam ente, trab alhand o so b re a histó ria

p o lítica d o s ho rm ô nio s m e d ei co nta q ue um ho rm ô nio havia o cup ad o um a

p o sição ab so lutam ente chave tanto na g estão d a rep ro d ução q uanto na

invenção d e um m o d elo no vo d e fem inilid ad e. C o m ecei, então , a p esq uisar

so b re a p ilula e não sei se so u a única p esso a q ue d esco b riu aq uilo q ue

d esco b ri, nem sei se co m p reend o p o rq ue as fem inistas hetero ssexuais não

estão na rua a g ritar co ntra a p ilula. C o ntarei a vo cês b revem ente a histó ria

da p ilula p o rq ue não se co m p reend e q ue co isa é o re g im e

farm aco p o rno g ráfico sem se refletir so b re o q ue é a p ilula, e tam b ém p o rq ue

o ferecerá um m o d elo p ara p ensar a p o lítica.

N o m esm o p erío d o em q ue Jo hn M o ney inventa a no ção d e g ênero

no ho sp ital p siq uiátrico infantil usand o ho rm ô nio s p ara m o d ificar o sexo d o s

neo nato s intersexuais, no m esm o p erío d o em q ue H arry B enjam in está p ela

p rim eira vez inventand o o s p ro to co lo s d e transexualid ad e, d e m ud ança d e

sexo p o r m eio d o s ho rm ô nio s, exatam ente naq uele m o m ento , em 1947, inicia

um p ro g ram a d e p esq uisa p ara m elho rar a fertilid ad e d a fam ília cató lica d a

classe m éd ia am ericana. É um p ro g ram a q ue nasce em um lab o rató rio , co m

financiam ento cató lico , co m o esco p o d e aum entar a fertilid ad e d as fam ílias

b rancas am ericanas.

O co rre, então , q ue p o r um lad o W illiam S. Jo hnso n e p o r o utro

G reg o ry Pincus d esco b rem um a co m b inação d e p ro g este ro na e estro g ênio

q ue im p ed e o p ro cesso d e co ncep ção d o ó vulo . Po d em o s p ensar q ue se

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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

trata sim p lesm ente d e um m éto d o d e g estão d a rep ro d ução , m as se verifica

p ela p rim eira vez na histó ria um a sep aração técnica entre rep ro d ução e

sexualid ad e.

A p ilula é o efeito secund ário d e um p ro jeto q ue, no início , não há

nad a a ver co m a co ntenção o u a lim itação d a rep ro d ução . Esse p ro jeto , q ue

p arece o u se ap resenta o rientad o p ara g estão d a rep ro d ução , é na realid ad e

um p ro jeto eug enético , vale d izer um p ro jeto d e p urificação d a raça, e é

tam b ém um p ro jeto d e p ro d ução técnica d a fem inilid ad e. Verem o s p o r q uê.

Prim eiro elem ento : a p ilula fo i testad a e exp erim entad a em m ulheres

neg ras d a co m unid ad e d e Rio Pied ras em Po rto Rico co m o o b jetivo

fund am ental d e im p ed ir a exp ansão d a raça neg ra no s Estad o s U nid o s. Jo hn

Ro ck d efine Rio Pied ras co m o um a g aio la d e fêm eas o vulantes. É assim q ue a

m ed icina p ensa as d estinatárias d a p ilula no s ano s 40 e 50, e esses são o s

p ro jeto s d e exp erim entação técnica elab o rad a no s ano s antes q ue a p ílula

seja p o sta no m ercad o .

Po rtanto , p rim eiram ente a pílula fo i testad a em um a situação co lo nial

co m o o b jetivo d e im p ed ir a rep ro d ução e a exp ansão d a raça neg ra no s

Estad o s U nid o s. Se exp lica assim p o rq ue as fem inistas neg ras fo ram as únicas

a recusar to m ar a p ílula, e p o rq ue se crio u no s Estad o s U nid o s d o s ano s 60

um a fratura histó rica no fem inism o q ue p o r m uito te m p o ning uém

co m p reend eu: p arecia q ue as fem inistas neg ras p o ssuíam um a id eo lo g ia

p articular d a fam ília, to d avia eram as únicas suficientem ente atentas ao s

p ro cesso s técnico s d e p urificação d a raça p ara d izerem q ue não d esejavam o

exterm ínio , e então p ara recusar a to m ar a p ilula.

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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

Po r o utro lad o , a p ilula exp erim ental d o s ano s 40 e 50 fo i testad a

tam b ém no s ho sp itais p siq uiátrico s e nas p risõ es justam ente p ara co ntro lar a

ho m o ssexualid ad e seja m asculina o u fem inina: p ela p rim eira vez se utilizam o s

ho rm ô nio s p ara g estão d a ho m o ssexualid ad e. É alg o d e ab so lutam ente no vo .

N o co ntexto p siq uiátrico as lésb icas serão exp erim e ntalm ente tratad as co m a

p ílula, co m um a técnica q ue a m ed icina im ag inava q ue p o d eria

hetero ssexualizar as m ulheres.

A p ilula ap arece tam b ém co m o um a técnica d e g estão d o g ênero ,

d ad o q ue a p rim eira pilula, inventad a entre o 1947 e 1957, elim ina o ciclo

m enstrual e não será aceita p elo Instituto N acio nal d e Saúd e A m ericano p o r

ser co nsid erad a p erig o sa p ara a fem inilid ad e d as m ulheres am ericanas. Esse

m esm o instituto d ará início a um seg und o p ro cesso e xp erim ental q ue

p ro d uzirá a p ilula q ue co nhecem o s ho je, e q ue p ro d uz aq uilo q ue já no s ano s

50 a m ed icina d efinia co m o m im ese d o ciclo , im itação d o ciclo natural.

M e interessa nessa d efinição esp ecificam ente o fato q ue já no s ano s 50

a m ed icina fale d e um p ro cesso d e m im etização o u d e im itação d o s

p ro cesso s b io ló g ico s. Esse p ro cesso cham ei d e b io d rag , utilizand o um a

no ção am ericana q ue d efine d rag q ueen o u d rag king co m o co nstruçõ es

p erfo rm ativas d o g ênero . A té ag o ra utilizávam o s o term o “d rag ” ap enas p ara

ind icar estilo s co rp ó reo s e não p ro cesso s b io ló g ico s. M as o q ue está

aco ntecend o d e verd ad e nas fo rm as farm aco p o rno g ráficas d e co ntro le d o

co rp o e d a sexualid ad e é q ue as técnicas p erfo rm ativas são b io tecno ló g icas,

não são unicam ente estilo s co rp ó reo s, nem técnicas unicam ente d iscursivas.

Talvez p o ssa p arece estranho q ue to d o s esses p ro cesso s se realizem

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P reciad o Transfem inism o no Reg im e Farm aco -p o rno g ráfico

em cad a um d o s no sso s co rp o s. N ão creio q ue ning uém nessa sala p o ssa

d izer-se isento d o p ro cesso d e co nstrução b io tecno ló g ica d o g ênero . Em

q ualq uer m o m ento d e sua vid a vo cê p o d erá ser d iag no sticad a co m um a

excessiva p ro d ução d e testo stero na e então será reco m end ad a um a cura,

reco m end arão a pilula p ara evitar p elo s faciais, o u então d everão lutar co ntra

um câncer utilizand o técnicas d e sup ressão ho rm o nais. Talvez, estejam em um

p ro cesso d e m ud ança d e sexo ing erind o ho rm ô nio s, o u aind a to m am

ho rm ô nio s p ara fertilizar m ais rap id am ente o ó vulo , no caso d e d esejarem

eng ravid ar, e etc.

Essas tecno lo g ias não são nem estranhas, nem externas: são

co nstitutivas d o g ênero e d a sexualid ad e a p artir d o s ano s 50. Pense q ue a

p ilula co m eça a ser vend id a em 1957, e no ano d e 19 60 já existem d ez

m ilhõ es d e co nsum id o ras na A m érica. A p ilula é a sub stância m ais vend id a em

to d a a histó ria d a hum anid ad e. Isso ind ica tam b ém um a relação m uito estreita

entre a p ro d ução d a sub jetivid ad e e o cap italism o .

A s técnicas d e co ntro le d o co rp o q ue, co m o eu falava, d urante o séc.

XIX eram fund am entalm ente exterio res e ríg id as – co m o o p anó p tico , q ue é

co m o um a p risão o nd e o sujeito é co ntro lad o p o r um sistem a arq uitetô nico

o u p o r um sistem a d e visão circular – fo i transfo rm ad a ag o ra em um a técnica

m icro p ro stética q ue o co rp o p o d e ing erir transfo rm and o -se em um a p arte d e

seu sistem a b io ló g ico .

M e interessa essa analo g ia [m o stra na tela o d esenho d o p anó p tico ].

U m d ia enq uanto trab alhava so b re a p ilula e so b re o s ho rm ô nio s, tive um

insig ht, m e to q uei d a p ro xim id ad e, d a ap ro xim ação entre o m o d elo d e

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co ntro le q ue B entham d eno m ino u p anó p tico e q ue p ara Fo ucault

caracterizava a m o d alid ad e d e co ntro le no séc. XIX, e as no vas fo rm as d e

co ntro le b io m o leculares q ue ap arecem d ep o is d a seg und a g uerra m und ial.

N ão estam o s m ais no p anó p tico , ag o ra o eng o lim o s!

E p o rtanto , q uais são ho je as fo rm as d e ação p o lítica cap az d e fazer

frente a esse no vo reg im e d e co ntro le e d e p ro d ução d o co rp o ? Po rq ue, é

claro , não b asta co ntinuar a falar p o r ano s em term o s d e id entid ad e

ho m o ssexual d iscutind o se d izem o s ho m o ssexual, o u e ste o u aq uele o utro

term o , q uand o o s p ro cesso s d e p ro d ução co ntem p o râne a d o co rp o e d a

sexualid ad e já são o utro s. H á ho je d iscussõ es nas m icro -co m unid ad es

transexuais e transg êneras d as q uais d evem o s to m ar p arte, p o rq ue o d eb ate

q ue se tem lug ar na co m unid ad e transexual e transg ê nero co ntra o s

p ro cesso s d e p ato lo g ização d a transexualid ad e é tam b ém o no sso d eb ate.

O terceiro elem ento q ue caracteriza o q ue d eno m inei d e reg im e

farm aco p o rno g ráfico d e g estão d o co rp o e d a sub jetivid ad e é a ap arição d a

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p o rno g rafia co m o técnica d e m asturb ação o d e p enem asturb ação p lanetária.

Isso é ab so lutam ente d iverso d o q ue o co rria no séc. XIX, q uand o era

necessário m anter um a co ntinuid ad e entre sexualid ad e e rep ro d ução e p o r

isso p ato lo g izo u e p erseg uiu m ed icam ente e jurid icam ente to d as as p ráticas

não rep ro d utivas, em p articular a m asturb ação , d o ença sexual p o r excelência

d o séc. XV II ao final d o XIX. N o te a m ud ança ab so lutam ente rad ical q ue se

verifica no s ano s 50 q uand o se p assa d a rep ressão d a m asturb ação a um

incitam ento p ene-m asturb ató rio p lanetário co m o p arte d e um sistem a d e

co m unicação e p ro d ução d e cap ital.

D urante o séc. XIX a m asturb ação era vista co m o um a p erd a d e energ ia

q ue d everia ser utilizad a p ara trab alhar, enq uanto nas co nfig uraçõ es

farm aco p o rno g ráficas a m asturb ação é um p ro cesso d e p ro d ução de

sub jetivid ad e e d e cap ital im p rescind ível p ara o cap italism o co ntem p o râneo .

Esse fato é a fo rça q ue tem m o d ernizad o to d o o no sso sistem a

co ntem p o râneo d e co m unicação , d a televisão , ao s víd eo s, a internet. N esse

cap italism o farm aco p o rno g ráfico a p ro d ução d o p razer, a p ro d ução d a

sexualid ad e, a p ro d ução d o s afeto s é transfo rm ad a e m um a fo rça d e

p ro d ução d e cap ital. N ão é m ais unicam ente um elem e nto o u, se p refere, um

b raço d a g estão p o lítica; ag o ra é tam b ém um a d as b ases d o cap italism o

co ntem p o râneo . Po r isso d ig o q ue a g estão d a crise e a reflexão so b re a

crise d izem resp eito ao lim ite d a p ro d ução d a sub je tivid ad e co ntem p o rânea.

A té aq ui b usq uei fo rnecer um m ap a d as no vas g ram áticas d o s

d isp o sitivo s d e p ro d ução e d e co nstrução d o g ênero e d a id entid ad e

co ntem p o rânea. C o m o d izia, insisto , o fato de q ue as no çõ es d e

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intersexualid ad e, transexualid ad e, g ênero , q ue o ap arecim ento d a q uestão

farm aco ló g ica co m a p ilula, o u q ue surja a p o rno g rafia co m o cultura d e m assa,

não q uer d izer q ue estejam o s d e to d o livres d o s m o d elo s trad icio nais e

d iscip linário s d a ho m o ssexualid ad e e d a hetero ssexualid ad e o u d o s m o d elo s

so b erano s d e g estão d o co rp o . Q uer d izer q ue vário s sistem as se so b rep õ em

e entram em co nflito . Isso é d ificílim o e um terreno extrao rd inariam ente

co m p lexo d a ação fem inista ho je: o acavalar-se, a interseção , a fricção d essas

três fo rm as co m p letam ente d iversas. Estam o s já lo ng e d o anti-Ed ip o e d a

esq uizo frenia; é talvez um a q uestão d e p erso nalid ad es m últip las, d e p sico se

co letiva, no sentid o q ue acum ulam o s m o d elo s d e p ro d ução d a sexualid ad e e

d a sub jetivid ad e q ue são ab so lutam ente d iverg entes.

Q uand o alg uém p erg unta q ue co isa vo cê é, q ual é seu g ênero , o u q ual

é o seu sexo , vo cê d eve resp o nd er seg und o o m o d elo d e sub jetivação .

Seg und o o m o d elo d e sub jetivação so b erana so u m ulhe r, seg und o o m o d elo

d e sub jetivação d iscip linária so u ho m o ssexual o u fe tichista, m asturb ad o ra o u

viril..., seg und o o m o d elo d e g estão farm aco p o rno g ráfica so u transg ênera.

N enhum a d essas id entid ad es é o nto ló g ica, nenhum a d e ssas existe

realm ente: existem em um a tram a d e relaçõ es d e p o d e r e, então , o q ue

p o d em o s fazer co letivam ente é d efinir o nd e e co m o d e sejam o s situar-no s.

N ão se trata m ais d e essencialism o estratég ico , m as d e um p o sicio nam ento

estratég ico m últip lo q ue já é d ad o , no sentid o q ue é o p o d er q ue está a

p raticar o essencialism o estratég ico , não so m o s no s. D arei ap enas d o is

exem p lo s.

O p rim eiro é a q uestão d a vio lência d e g ênero , um p ro b lem a terrível,

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ab so lutam ente d ram ático no caso d a Esp anha, assim co m o creio no caso

Italiano . O q ue o co rre na vio lência d e g ênero ? O co rre q ue tam b ém intervêm

o s três m o d elo s d e p ro d ução e co ntro le d o co rp o . D e um a p arte o m o d elo

so b erano , d ad o q ue o s b io ho m ens, o u seja, aq ueles co rp o s q ue fo ram

d efinid o s ho m ens no reg im e d iscip linar, co ntinuam a exercitar o seu p o d er

so b re as m ulheres d e m aneira so b erana, isto é, co m o p o d er d e d ar a m o rte.

É assim q ue se leg itim a a m asculinid ad e, e essa fo rm a d e leg itim ação d a

m asculinid ad e não é nem m o d erna, é p rem o d erna, é te o ló g ica, é anterio r ao

séc. XV III, é anterio r a ap arição d o s reg im es d em o crático s. Esse é o m o d o d e

p ro d ução d a m asculinid ad e co m q ue funcio na p arte d a no ssa so cied ad e

co ntem p o rânea, co m um m o d o so b erano , p rem o d erno , p red em o crático . A o

m esm o tem p o , ho je – não sei exatam ente q ual é a leg islação na Itália, m as

p o sso d izer q ual é na França o u Esp anha – ap lica-se ao s ho m ens m achistas

vio lento s um a terap ia q ue co nsiste em um a and ro cura, o u seja, na ap licação

d e um a série d e ho rm ô nio s q ue im p ed em a ativação d a testo stero na. Então , o

tratam ento institucio nal, juríd ico q ue a so cied ad e co ntem p o rânea p ro p õ em

p ara a vio lência d e g ênero é farm aco p o rno g ráfico : fe m iniliza o co rp o d o s

ho m ens vio lento s q ue aceitam esses p ro cesso s d e terap ia bio q uím ica.

Estam o s o b servand o um a co nexão p erversa entre d uas m o d alid ad es d e

co ntro le d o co rp o , d e um a p arte so b erano e d a o utra farm aco p o rno g ráfico ,

d a q ual é o b tid a a id eia d e tratar co m um a técnica ho rm o nal o s excesso s

so b erano s d o d esejo , o u d as exp ressõ es d o p o d er co m o p o d er d e d ar a

m o rte.

Seg und o exem p lo , o b servem o s a d iferença entre d o is ó rg ão s q ue

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to d o s e to d as nessa sala p o ssuem : o nariz e o sexo . O q ue o co rre co m o

nariz? Se q ualq uer um a aq ui d esejar m ud ar a m o rfo lo g ia d e seu nariz p o d e

reco rrer as instituiçõ es m éd icas e p o d em co m p rar um a naso p lastia. O nariz, o

nariz d e vo cês, é um o b jeto d o m ercad o neo lib eral. M as e o sexo ? Pensem o s

q ue um d e vo cês d eseje m o d ificar a ap arência d e seu ó rg ão sexual. M o d ificar

a ap arência sig nifica q ue p o d e-se q uerer ter d o is p ê nis, o u fechar

co m p letam ente a p ró p ria vag ina, ab rir um a seg und a vag ina, o u utilizar o ânus

co m o vag ina, etc. To d o s esses tip o s d e o p eração são ileg ais. Para esco lher

aq uilo q ue se cham a m ud ança d e sexo é necessário p assar p o r um p ro to co lo

p siq uiátrico . D e q ue regim e se trata? D e um a p arte d aq uele d iscip linário , q ue

co ntro la o co rp o p o r m eio d as instituiçõ es p siq uiátricas e juríd icas, co nexo ,

entretanto , em p arte a um reg im e so b erano em q ue o últim o p ro p rietário d e

no sso s ó rg ão s sexuais é o Estad o , o u D eus.

Isso q uer d izer q ue se alg uém aq ui nessa sala ho je ating e um a

co nd ição d e felicid ad e o u d e harm o nia p sico p o lítica é b rava/o , p o rq ue d e

fato é im p o ssível. Perceb am q ue é b io p o liticam ente im p o ssível! Po r q ue?

Po rq ue o co nflito entre o s m o d elo s d e sub jetivação tem lug ar d entro d e

no sso p ró p rio co rp o . Vale d izer q ue há um a luta entre o nariz neo lib eral e o

sexo teo crático , a m ão m asturb ad o ra, o útero rep ro d uto r e o seio q ue aleita...

Esse é o co rp o co ntem p o râneo . E d e frente a esse co rp o o fem inism o

co ntem p o râneo p o d e inventar no vas estratég ias d e luta q ue são , co m o eu

d izia, a neg ação d o s p ro to co lo s d e d esig nação d o se xo ao nascim ento , a

neg ação d a p ato lo g ização d a transexualid ad e e as p o líticas p erfo rm ativas:

d rag q ueen, d rag king , d rag w hatever. Isto é, d rag everything , vend o aq uilo

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q ue a p o lítica está fazend o co no sco . Façam o s d e B erlusco ni um a d rag q ueen

e vam o s as ruas!

A s p o líticas p ó s-p o rno g ráficas. M uitas fem inistas não co m p reend em

p o rq ue as no vas g eraçõ es d e fem inistas p assam to d o o tem p o a fazer p o rnô

e a co ntar as suas aventuras sexuais na internet o u na rua co lo cand o d ild o s

em to d as as p artes. M as as p o líticas p ó s-p o rno g ráficas são um a reação crítica

ao m o no p ó lio d o s d iscurso s e d as rep resentaçõ es d o sexo e d a sexualid ad e

q ue p ro p õ e a p o rno g rafia d o m inante. N ão estam o s m ais no séc. XIX. A co rd a!

Estam o s no s 2000 e a sexualid ad e já está co nstantem ente co nstruíd a p o r m eio

d e rep resentaçõ es p o rno g ráficas e não é m ais p o ssíve l esco lher a não

rep resentação d a sexualid ad e p o rq ue sem rep resentaçõ es não há sexualid ad e.

A única co isa q ue p o d em o s esco lher é um a fo rm a d e p ro liferação crítica d as

rep resentaçõ es sexuais.

N essa situação co m p lexa d evem o s tratar d e, co letivam ente, estab elecer

alianças, talvez co m q uem p rim eiram ente era im p ensável, e criar técnicas d e

resistência ao s d iverso s reg im es d e co ntro le e p ro d ução d a sub jetivid ad e.

Talvez, seja claro , d e m aneira suficientem ente crítica e d istanciad a, p o rq ue

centrar-se em um a p o sição id entitária b eneficiará ap enas ao s p ro cesso s d e

no rm alização .

É necessário , então , realizar aq uilo q ue Teresa D e Lauretis e Ro sie

M uño z cham aram , há tem p o , d e p ro cesso d e d esid entificação crítica.

Pro cesso s q ue p erm item elab o rar estratég ias cap azes d e lutar co ntra o s

d iverso s regim es d e no rm alização d o co rp o e d a sexualid ad e.

N esse sentid o , as no ssas alianças m ais p ró xim as d evem ser

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transg ênicas, transexuais, antico lo niais. Essas são as no ssas alianças, esse é o

lug ar d o fem inism o ho je.

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